Direita

Ainda o ato de contrição sem penitência de Durão Barroso

O ato de contrição de José Manuel Durão Barroso, em entrevista ao Atlantic Talks, a propósito da invasão do Iraque e do seu apoio incondicional na Cimeira dos Açores é um traço da sua personalidade, uma espécie de modus operandi.Ficou-lhe do tempo das autocríticas importadas dos jovens generais maoistas.

Durão Barroso ao longo destes últimos cinquenta anos soube fazer o que tinha de fazer para ser o que queria ser. Está-lhe no ADN a ambição e jogar no tabuleiro indicado para alcançar o objetivo seguinte.

Nos anos imediatamente antes do 25 de abril combateu com todas as suas forças o PCP para lhe roubar influência na juventude universitária. Era destemido a defender os camaradas Marx, Lenine, Stalin e Mao. Até no boné que usava. Um fogoso revolucionário que anunciava a chegada do vento Leste e o educador da classe operária, entretanto falecido.

Com a revolução de Abril o Zé Manuel levou o seu anticomunismo ao expoente de proclamar que a revolução não passava de um golpe de Estado do PCP com a camarilha militar. Era no tempo em que defendia que os pides morriam na rua e os professores da Faculdade de Direito, salvo raras exceções deviam ser saneados e alguns julgados pelos bandos do MRPP a funcionarem como tribunais populares.

O seu ímpeto anticomunismo em nome do verdadeiro comunismo tinha de o levar ao PPD, como era dos livros. Lá foi com Eurico de Melo que escolhia a dedo os que interessavam ao partido. E dali nunca mais parou.

Com o estatuto de imperador do PSD, o partido que mais cedo ou mais tarde leva o líder a São Bento, formou governo com Paulo Portas, um dueto que garantiu a pés firmes que Saddam Hussein tinha armas de destruição massiva e que o Departamento de Estado as tinha mostrado e eles tinham-nas visto.

Traindo o espírito europeu de rejeição da guerra receberam nos Açores George W. Bush com Aznar e Blair. Colocaram o país ao serviço da perfídia do monumental embuste que mudou o mundo para pior.

O Iraque foi destruído. Centenas de milhares de mortos. Recrudescimento do jiadismo em todo o Médio Oriente e no mundo muçulmano. O mundo ficou muito mais inseguro e mentiram dizendo que ia ficar mais seguro.

O Iraque graças a estes dirigentes caiu nas mãos do Irão. Fragmentou-se nas suas comunidades religiosas e o sectarismo tomou conta da vida iraquiana. Os cristãos perseguidos e os direitos humanos espezinhados de modo mais grave que no tempo de Saddam que Bush, o amigo de Zé Manel e de Paulo  Portas não descansou enquanto não o enforcaram e assim calá-lo per omnia seculae et seculorum.

Por ordem de George W. Bush centenas de milhares de pessoas morreram. Os que o apoiaram são cúmplices. É pena que só a História os julgue.

Durão Barroso sempre a pensar no passo seguinte e mais adiante, impetuoso quanto à ambição, mal viu as coisas mal paradas no país com fracos resultados eleitorais numas municipais, deu o salto para Bruxelas. Entre o seu patriotismo e o apego ao mais profundo sentimento de “grandeza europeia” à americana não se conteve. Os seus amigos não faltaram à chamada e foi parar a Bruxelas. Voilá…

Por lá andou a fazer de conta que mandava na Europa. De um canto do mundo para outro. À grande e à alemã. Até ao dia em que cumprido o mandato, um tremendo apelo vindo da mais fina estirpe de banqueiros impolutos e recheados de figuras respeitadíssimas o levou a um novo trono – chairman da Godman Sachs.

Ele que servira o combate à esquerda antes e depois do 25 de Abril, que criara a partir da figura esfíngica de Eurico o seu baronato no PPD e chegara a Primeiro-Ministro e que passara por Bruxelas como Presidente, ei-lo capaz de novo martírio e guindar-se a um dos mais altos cargos na Goldman Sachs. Glória ao grande camarada.

https://www.publico.pt/2020/07/03/opiniao/opiniao/ato-contricao-penitencia-durao-barroso-1922856

Ver original em ' O Chocalho' na seguinte ligação:

https://ochocalho.com/2020/07/03/ainda-o-ato-de-contricao-sem-penitencia-de-durao-barroso/

“Cancel” contra as “Destemidas”

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 29/06/2020)

Daniel Oliveira

A direita conservadora consegue ter, em simultâneo, dois discursos: o que ataca o “marxismo cultural”, uma mixórdia ignorante que tenta dar nome ao facto de a esquerda estar, como a direita, na disputa do espaço público e das instituições; e a revolta contra a “cancel culture”, adaptação de um termo juvenil para o processo pelo qual o “politicamente correto” combaterá, por via da sociedade civil e geralmente nas redes sociais, valores que lhe desagradam.

Note-se que esta franja da direita ultraconservadora, cada vez mais hegemónica no seu espaço político, considera como valores da esquerda ou mesmo marxistas (têm um olhar benigno da história do movimento marxista) os valores da tolerância com modos de vida e orientações sexuais diferentes dos maioritários. Aqueles que estão, aliás, inscritos na nossa Constituição. Em resumo: os mesmos que querem afastar de todo o espaço gerido pelo Estado valores constitucionais, revoltam-se por cidadãos se mobilizarem contra uma mensagem que os repugna. Censura de Estado, excelente; censura social, claustrofóbica.

Na semana passada assistimos, no entanto, à mais descarada campanha de “cancel culture”. Foi contra a série de animação “Destemidas”, dirigida ao público infanto-juvenil. A produção da France Télévision e apoiada pela União Europeia, muito premiada e transmitida em várias televisões (sem que nunca a sua transmissão tenha sido suspensa, que eu saiba), está a passar na RTP 2. Conta a vida de várias mulheres que desafiaram as convenções ao longo da História. O que levou à polémica foi o episódio sobre Thérèse Clerc, uma feminista francesa homossexual que lutou pela legalização do aborto. Os indignados não se limitaram a criticar a série, exigiriam censura. O que é curioso é esta pressão, em parte bem sucedida, ter sido veiculada pelas mesmas pessoas que passaram o último mês a dizer que havia quem quisesse apagar a História.

Admitindo a possibilidade de se ter perdido, na dobragem, a adequação da linguagem ao público mais jovem, é importante deixar já clara uma coisa: os programas infantis e juvenis, mesmo na televisão pública, não têm de agradar a todos os pais nem de veicular valores em que todos eles se reconheçam. Isso tornaria impossível qualquer série. A maioria dos desenhos animados, mesmo os que parece banais aos olhos de muitos, transmitem valores sobre o papel do homem e da mulher que me desagradam. Se respeitarem a lei, não ando a pedir que sejam retirados. Só espero uma televisão plural onde também caibam os valores que quis transmitir à minha filha e quererei transmitir aos meus netos. E é isso mesmo que me querem recusar. Que o meu mundo, aquele que desejo para a minha filha, e que ainda por cima está totalmente sintonizado com os valores constitucionais, não tenha lugar na televisão pública.

Já quem diz que não aceita que pessoas com determinados valores formem os seus filhos por via da televisão vive num equívoco: os programadores de televisão não substituem os pais. São os pais que decidem o que os seus filhos veem, com que idade veem e se precisam de acompanhamento para verem. Ninguém obriga os seus filhos a ver aquela série. O que eles querem é proibir os meus de a verem. Eles podem limitar o que os seus filhos veem, mas desejam limitar o que os meus veem. A razão porque querem proibir aquele episódio não é a necessidade de proteger os seus filhos – basta mudarem de canal –, é retirar do espaço público um ponto de vista de que discordam.

Resolvida a questão das crianças e adolescentes, que só é questão para quem quer que a televisão substitua os pais, o que quer dizer que se preocupa pouco com a educação dos filhos, resta o facto de aquilo passar na televisão pública. A televisão pública é um espaço plural, não transmite um olhar único sobre a sociedade. Transmitia os programas de José Hermano Saraiva, com olhar ultrapassado do ponto de vista científico e académico sobre a História. Transmite todas as semanas uma missa católica, apesar de o Estado ser laico. Transmite imensas coisas de que discordo. E devo recordar que, como eles, também pago impostos e financio a RTP. A fronteira é, para mim, a Constituição. Esta série respeita-a integralmente.

Não gosto do conceito de “cancel”, pelo menos como tem sido adaptado para o confronto político e cultural. Não gostar dele não o torna ilegítimo. As pessoas têm o direito à indignação organizada. Essa é a contrapartida de leis liberais no que toca à liberdade de expressão. O que não suporto é sonsos. E tenho memória. A “cancel culture” sempre existiu. Foi ela que se mobilizou para impedir a exibição de “Je Vou Salue, Marie”, de Godard, na Cinemateca; para censurar “A Última Ceia”, de Herman José; contra a transmissão do “Império dos Sentidos”, no canal 2; contra o cartoon de António em que o Papa aparecia com um preservativo no nariz; contra a aparição de Rui Tavares na telescola, por ser um historiador de esquerda; ou contra este episódio das “Destemidas”. Foi ela que tentou e continua a tentar impedir a chegada de outros mundos ao espaço público. E apesar do discurso instalado contra um “politicamente correto” irrelevante em Portugal, são os sectores ultraconservadores que têm revelado uma permanente vontade de calar aqueles de que discordam. Incluindo a sua História.

Dito isto, quero que fique claro: os valores não valem todos o mesmo. A tolerância não vale o mesmo que o ódio, a igualdade não vale o mesmo que a supremacia, a liberdade não vale o mesmo que a opressão, a misoginia, o racismo e a homofobia não valem o mesmo que os valores inscritos na nossa Constituição. Pelo menos para o Estado, para as suas escolas e para a sua televisão. Não se chama marxismo cultural. Chama-se democracia. Aquela que, ao contrário do que disse Bolsonaro, não permite que a maioria esmague as minorias.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Pessoas Muito Sérias

O economista Paul Krugman usa a expressão Very Serious People (Pessoas Muito Sérias) para se referir, com ironia corrosiva, a uma série de figuras que nos EUA debitam com ar muito sério um chorrilho de perniciosos e equivocados lugares comuns económico-políticos: da “fada da confiança” à insustentabilidade da segurança social, passando pela austeridade permanente.

Em Portugal, temos o nosso espaço público cheio de Pessoas Muito Sérias. A decadente SEDES é um dos seus centros. Agora é liderada por um “liberal de esquerda”, o que em Portugal é nome de código para Pessoa Muito Séria do Bloco Central, naturalmente anti-socialista e que milita no PS.

Há dias, ouvi então Álvaro Beleza por breves instantes num programa de e para Pessoas Muito Sérias chamado Negócios da Semana a dizer que o liberal de esquerda está sempre certo, porque reconhece que o Estado tem de intervir onde é necessário, o que me pareceu uma ideia de uma seriedade tão profunda que não aguentei e tive logo de mudar de canal.

Hoje repete, em entrevista ao Público, que costuma dar palco a estas Pessoas Muito Sérias, o novo mantra da “reindustrialização”, na linha marcelista.

Com que instrumentos? Aparentemente com instrumentos europeus, está-se mesmo a ver. Trancados numa moeda forte, com as seletivas regras do mercado interno, com a Alemanha a concentrar sozinha metade do total de apoios à economia na UE em tempos pandémicos, esta é uma ideia mesmo muito séria.

Dado que Beleza acaba na entrevista por tomar por referência séria o modelo low cost da irlandesa Ryanair, de resto como a actual Ministra do Trabalho já o tinha feito em visitas de cortesia à Irlanda, é caso para dizer que os pouco sérios trabalhadores portugueses é que terão de continuar a aguentar.

Seja como for, a reindustrialização é uma ideia que vem do centro e que agora pode fazer parte da sabedoria convencional para Pessoas Muito Sérias do extremo-centro pós-industrial numa periferia sem instrumentos de política, juntando-se ao Euro, à “partilha de soberania”, às privatizações, à austeridade expansionista ou às parcerias público-privadas, outras tantas ideias muito sérias.

Tudo é possível. Vá lá, façam força, as Pessoas Muito Sérias, naturalmente anti-populistas ou lá o que é, continuarão a gemer em organizações como a SEDES.

 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Falemos hoje de fantasmas e de moscas...

1. No mesmo dia em que umas centenas de pascácios desceram a Avenida da Liberdade para comprovarem quão poucos são, proclamando uma das muitas mentiras em que porfiam, conheceu-se o relatório do European Social Survey sobre o racismo em Portugal. Por ele corrobora-se o que já sabíamos: quase dois terços dos portugueses manifestam comportamentos ou opiniões racistas e apenas 11% se livram de um preconceito preponderante nos mais velhos, e em que nem a escolaridade, nem o rendimento serve de demarcação. Há gente que muito poliu os bancos das escolas e universidades e nada aprendeu para saber o que é a tolerância e confirma-se que tanto faz ter conta bancária recheada como não, porque tanto ricos como pobres são racistas de acordo com índoles cuja explicação residirá em tempos mais recuados.

 

Sobre a passeata de sábado à tarde pouco haverá a acrescentar: se, desde o 25 de abril, os fascistas mais descarados têm encontrado expressão em grupúsculos ultraminoritários, as expetativas futuras prometem não lhes serem mais animadoras. É que olhando para aquela gente nem dá para reconhecer-lhes a capacidade de nos assombrarem. Porque, sem disso se darem conta, são fantasmas de tempos idos a que jamais pretenderemos regressar.

 

2. Era expectável o que anda a acontecer: depois de semanas a remoerem o azedume de Portugal passar pela crise docovid 19 com alguma benignidade, basta as coisas parecerem um pouco menos dignas de elogio para saírem da sombra os que nela se acoitaram à espera de ganharem protagonismo no que julgam ser momento propício. O bastonário da Ordem dos Médicos é tipo D. Constança, presença inevitável em cada festança onde manda o protocolo dizer cobras e lagartos do governo. E Rui Rio volta-se a mostrar o homem sem qualidades, que tantas circunstâncias passadas já confirmaram.

 

Não cuide o PS de manter as pontes possíveis com os parceiros da dita geringonça e arrisca-se a vê-los darem a mão ao PSD para levarem o antigo autarca do Porto ao colo até São Bento. Com manifesto prejuízo para todos quantos viram minguados os direitos e os rendimentos entre 2011 e 2015. Porque Rui Rio confirma aquela regra debitada pelo personagem de Lampedusa que, afiançava a necessidade de, querendo-se os ricos mais ricos e os pobres mais depenados, mudar alguma coisa para que tudo ficasse na mesma. E, de facto, o PSD de Rui Rio em nada se diferencia do de Passos Coelho: as moscas que nele moram são exatamente as mesmas...
 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2020/06/falemos-hoje-de-fantasmas-e-de-moscas.html

Direita portuguesa: a fina flor do entulho

Rui Rio e Marques Mendes juntam-se à campanha da coligação PSD/CDS...

— Rui Rio (@RuiRioPSD) June 15, 2020

 

*_*

Teatro Marcelino

Peça:

“Auto do Conselho de Estado”

Protagonistas:

Rui Rui – Presidente do PSD e Conselheiro de Estado
Marques Mendes – Ex-presidente do PSD e Conselheiro de Estado
Marcelo Rebelo de Sousa – Ex-presidente do PSD e Presidente da República
Francisco Pinto Balsemão – Ex-presidente do PSD, Conselheiro de Estado e empresário da comunicação social

Enredo:

Francisco paga a Marques para dizer mal do Rui, Rui vai para o Twitter dizer mal do Marques, e depois vão todos para casa do Marcelo continuar a dizer mal deste e daquele e do outro. Os jornalistas e comentadeiros engajados abafam o escarcéu, e fingem que a direita portuguesa ainda guarda algum vestígio de decência e sentido de Estado. No final, há um número musical onde aparecem todos abraçados e a cantar que são muito felizes aqui na Parvónia a “fazer política” e “jornalismo de referência”.

 

Leia o original em "Aspirina B" (clique aqui)

As cruzadas da terra plana

O obscurantismo das direitas é tão ignaro e obsceno, de uma ignorância tão desaforada, que muitas das suas intervenções são um circo de dislates que se encastram nas mentiras vendidas em cima da hora.

Ainda não há muito tempo falava-se na excepção portuguesa em relação à Europa de por cá não ter aparecido uma direita radical, a açucarada designação dos novos fascismos conformados e confinados às normas formais democráticas, enquanto esperam melhores tempos.

Várias explicações eram tentadas. A mais elaborada era a de em Portugal nunca ter existido verdadeiramente um fascismo, o que não propiciaria o surgimento de um movimento nacionalista populista, ficando a direita mais à direita acomodada num partido dito democrata-cristão cada vez menos cristão e democrata e a direita envergonhada dispersa em partes desiguais pelos partidos que ocupam o centro e o centro-esquerda do espectro partidário, empurrados mais para a direita ou mais para a esquerda conforme as sortes eleitorais. Teorias que objectivamente lavavam e lavam o salazarismo-fascismo e sequente marcelismo-fascismo do estigma fascista apresentando-os como conservadores nacionalistas, autoritários, até tecnocráticos, como se o fascismo não se defina por ser a forma extrema de ditadura do capital exercendo a mais dura repressão sobre os trabalhadores e as massas populares. Os quarenta e oito anos de ditadura fascista com o seu partido único e um parlamento farsola, as suas organizações para-militares, Legião e Mocidade Portuguesa, a polícia política activíssima que durante esses anos prendeu e torturou quase 30 mil portugueses , mais de dois presos por dia – um número que peca por defeito já que as estatísticas policiais só começam em 1936, dez anos depois da ditadura militar que o instaurou e de, em 1933, o regime ter sido institucionalizado num plebiscito viciado – são menorizadas ou ocultadas por essa gente que se entretém a discutir o sexo dos demónios fascistas, como se as ideologias não fossem directamente dependentes das condições económicas de produção e ser essa a sua base, como Marx liminarmente evidenciou em Para a Crítica da Economia Política:

«Com a transformação do fundamento económico, revoluciona-se, mais devagar ou mais depressa, toda a imensa superestrutura. Na consideração de tais revolucionamentos tem se distinguir sempre entre o revolucionamento material nas condições económicas da produção, o que é constatável rigorosamente como nas ciências naturais e as formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas; em suma, ideológicas pelas quais os homens tomam consciência deste conflito e o resolvem»,

depois de já ter afirmado, em A Ideologia Alemã, que

«a produção das ideias, representações, da consciência, está a princípio directamente entrelaçada com a actividade material e o intercâmbio material dos homens, linguagem da vida real. O representar, o pensar, o intercâmbio espiritual dos homens aparecem aqui ainda como o efluxo directo do seu comportamento material. O mesmo se aplica à produção espiritual como ela se apresenta na linguagem da política, das leis, da moral, da religião, da metafísica, das artes, da ideologia, etc., de um determinado povo».

O fascismo nacional de facto foi diferente em muitos aspectos dos outros fascismos porque, tal como os outros fascismos, era moldado em função de contextos económicos e sociais particulares em que se impunha. Mesmo nos seus quarenta e oito anos de vigência alterou-se circunstancialmente sem perder nenhuma das suas características fundamentais, defendendo e privilegiando com violência o capital financeiro, industrial, agrário. Depois do 25 de Abril a sua lavagem foi imediata, embora algo tímida e com respiração assistida, obrigando à mudança de casacas, negócio florescente para alfaiates ou mesmo para o pronto a vestir. Passou das tímidas barrelas iniciais para as máquinas de lavar industriais assim que os grupos económicos do antigamente reentraram no Portugal de Abril pela mão dos governos socialistas do dr. Mário Soares, é bom que a memória aqui também não se apague.

Pouco a pouco as larvas contidas dentro dos casulos começaram a voar juntando-se às outras que sempre andaram por aí dando provas de vida1 mesmo recorrendo às bombas2. O espaço da direita levedou, tornou-se confortável e dominante na comunicação social onde os jornalistas e os comentadores de esquerda, depois de terem sido corridos em força no pós-25 de Novembro3, começaram a ser paulatinamente desbastados até à escassez actual, tanto na comunicação social propriedade das oligarquias financeiras como na do chamado serviço público.

Os lobbies empresariais dos grupos económicos ressuscitados e os novos grupos económicos que já tinham os seus corredores calcorreados por muitos políticos de direita, como são homens avisados e bem experimentados nas técnicas da rapina, estenderam os seus tentáculos angariando políticos, sobretudo das esquerdas vacilantes, de preferência reformados das suas anteriores funções ministeriais, auto-reformados da política activa ou semi-congelados nos seus partidos de origem. É vê-los em diversos cargos de administração ou de assessoria. É ouvi-los a perorar nos mais diversos fóruns das universidades, das fundações, da comunicação social, bolsando um arco-íris opinativo que, se a luz for revertida pelo prisma, mostra a uniformidade que os mais hábeis disfarçam com doce palrar pseudo-académico.

No entanto, tudo continuava a fluir dentro do quadro demo-liberal da badalada lusitana excepção, enquanto Europa fora os fascismos floriam e nas américas trumps e bolsonaros eram democraticamente entronizados das mais variegadas formas e feitios. Estava a chegar a hora de se verificar sem surpresas que a excepção era uma rábula pronta a implodir por a espoleta estar a ser afinada há algum tempo a vários níveis nas diversas plataformas internéticas, mas sobretudo na comunicação social privada e na de serviço público, com as esquerdas cosmopolitas a olharem para o lado para não perderem os acalantos que lhes são concedidos, enquanto as outras ziguezagueavam como sempre por há muito terem perdido o norte ideológico, mesmo qualquer norte em nome do pragmatismo do não há alternativa. Finalmente a direita trauliteira e caceteira saía do seu estado de viuvez, pronta a conviver mas também a roubar espaço às outras direitas mais acomodadas ao jogo democrático que já lhes tinham propiciado alguns triunfos, nos saudosos tempos da AD, do cavaquismo, da troika. Direitas cujo espaço prosperava nos espaços «livres» da Universidade Católica e dos colégios da Opus Dei, nas universidades privadas, enquanto ia metendo o pé nas universidades públicas, muitas vezes em alianças mais ou menos espúrias com os pós-marxistas, pós-estruturalistas e pós-modernistas, nos lobbies empresariais, nalgumas fundações, nas redes sociais, na multiplicação dos blogues de direita, na comunicação social, com destaque para o Correio da Manhã e o Observador e na imprensa económica, no acesso dos seus articulistas e comentadores a todos os outros media, jornais, revistas, televisões, rádios, mesmo os do dito serviço público, onde estão em franca maioria e têm como seus pares os mais à direita da esquerda socialista.

Um caldo de cultura em que a direita é dominante e ao qual uma parte das elites, com alguns laivos de progressismo, sacrifica os seus débeis ideais para proveitos pessoais nas universidades, nos media, no eclético mundo da cultura. Um caldo de cultura de onde os militantes de esquerda que insistem no carácter contingente da realidade histórica do capitalismo, são banidos. A sopa de pedra da pretensa excepção portuguesa, onde se cozinhavam o ultra-liberalismo, os populismos, as xenofobias, os nacionalismos patrioteiros, os fascismos ainda mascarados, acabou por eleger dois representantes para a Assembleia da República. Seguem duas vias que na foz, que não é em delta, confluem. Um é um finório que embrulha em papel de seda a retórica de um modelo económico que é, até por eles publicamente confessado, o do Chile de Pinochet e o que está em marcha no Brasil de Bolsonaro. O outro é o trauliteiro de serviço que fez limpar o pó às mocas que estavam escondidas nos armários. Embora pronto a com eles fazer alianças o CDS, é ouvir o que sobre o assunto vai dizendo o Chicão – os mimos mediáticos são sempre bem vindos, já a sua antecessora era a Boss AC, um modo de suprir a falta de capacidade pirotécnica das tagalerices feirantes do paulinho – não deixa de se inquietar ao ver a sua base de apoio mais tradicional a ser ratada. Sentem urgência de mostrar serviço, aparecerem nos media. Fazem correrias desatinadas em que a ignorância, vulgar por aquelas paragens, emerge com fulgor.

Numa das últimas incursões Nuno Melo, um fala barato habituado a tropeçar no seu argumentário, sai a terreno para denunciar a inserção de um vídeo do Rui Tavares sobre o Estado Novo numa aula de história da telescola. Como nenhum vício lógico trava esses parlapatões, denuncia isso como se fosse uma leitura marxista do fascismo nacional, uma demonstração de perigosa presença marxista no ensino o que, no caso até é uma impossibilidade por o Rui Tavares não ser nem nunca ter sido marxista, basta ler alguns dos textos que regularmente publica na comunicação social onde é um dos eleitos pelos critérios editoriais prevalecentes.

Dando isso de barato o Melo intitula o texto «A supremacia do marxismo cultural» e, para melhor exibir a sua crassa incultura, começa por citar Marx: «As ideias da classe dominante são, em todas as épocas, as ideias dominantes, porque a classe que é a força material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, a sua força intelectual dominante.» O filisteu nem percebe que a leitura da tese de Marx demonstra rigorosamente o contrário do que ele quer demonstrar. O proletariado, as classes trabalhadoras e os seus companheiros de luta estão muito distantes de serem a classe dominante pelo que o seu pensamento nunca poderia ser o dominante.. O escrito do Melo, os escritos dos melos mais ou menos broncos, são a demonstração da evidência da tese de Marx, são a mostra de que a força intelectual dominante é a da burguesia. A burrice do Melo, dos melos, é uma vulgaridade que se comprova a toda a hora mas também patenteia o obscurantismo que a direita, nos seus vários formatos, vai instilando na sociedade e tem o desejo de impor a Portugal com o mesmo afinco dos 48 anos de fascismo, embora de maneira diversa porque os tempos são outros, .

A preocupação que motivou o Melo a desembestar naquele texto estampa uma das marcas do fim do estado de excepção em Portugal. É trazer para o terreno de batalha da direita o que ainda existe de marxismo cultural, que existe e continuará a existir enquanto pólo de resistência da esquerda que considera que nenhuma realidade por mais hegemónica que seja, como há que reconhecer é o capitalismo actual, pode ser considerada definitiva pelo que não é eterno o seu princípio de dominação. Têm razão em se preocupar com o marxismo cultural ainda que hoje muitíssimo distanciado da hegemonia cultural teorizada por Gramsci, um espectro que os continua a assaltar por insistir em lutar no campo de batalha da luta de classes fora das fronteiras em que as guerras entre os cruzados da santíssima trindade Deus, Pátria e Família e os soldados da tríade Sexo, Género, Raça se travam e em que é mais fácil imaginar o fim do mundo do que imaginar o fim do capitalismo.

O Melo, os melos de aqui e além mar, têm a cultura das selecções readers’s diggest agora reformulada nos mergulhos google pelo que nada na espuma das trivialidades das citações, uma desqualificação normal na anormalidade dos tempos contemporâneos de extensa ignorância e da iliteracia da cultura inculta. Confinado, como grande parte do mundo, aos tweets, aos likes, aos posts das redes sociais deixou de saber ler, se que é que alguma vez soube ler, porque se soubesse ler perceberia que para Marx, para os marxistas numa sociedade burguesa, as ideias dominantes são as da burguesia, o que de maneira radical não permite que possa existir qualquer supremacia do marxismo cultural nessas sociedades. O Melo, os melos, assustam-se com os afloramentos esquerdistas que, sobretudo no campo das artes, surgem, mas como são incapazes de penetrar para lá da superfície não entendem que esquerda e esquerdismo são duas coisas diferentes e que esse esquerdismo há muito deixou de ser marxista, embora por vezes não o saiba. Que esses sucessos esquerdistas não fazem parte de projecto cultural algum, competem com a burguesia nos entretenimentos com mais ou menos condimentos culturais, o que também contamina alguma esquerda, fazendo-a sofrer desse vício intrínseco da cultura nos nossos tempos.

Essas direitas globalmente, com poder crescente, foram e são adubadas por uma cultura falsa que se apresenta como um pensamento mágico para assegurar a sobrevivência do capitalismo neoliberal simulando que a financeirização da economia é uma hipótese de crescimento num sistema que quer reduzir a humanidade a uma mercadoria hipotecária para que os homens deixem de afirmar a sua individualidade e o seu progresso pelo trabalho humano. À esquerda, às forças ditas progressistas, há que assacar a enorme responsabilidade de terem feito e persistirem em fazer enormes concessões à elite do poder de direita com um oportunismo desbragado que tem nos sociais democratas a sua forma mais emblemática na Terceira Via do trabalhismo thactcherista de Tony Blair, no campo comunista, no eurocomunismo de Berlinguer, Carrillo, Marchais, renunciando mesmo à sua função moral, emparceirando alegremente com as instituições do poder dominante, alinhando com as suas mais desabusadas arengas patrioteiras, criando um território vazio onde se plantaram as esquerdas cosmopolitas agitando as novas e esburacadas bandeiras das causas fracturantes e identitárias, uma deriva pós-marxista em que as políticas identitárias acabam por ocultar que as fontes dos conflitos são sempre sociais antes de serem identitárias. Objectivamente é alguma esquerda a ausentar-se de apontar ao que deveria ser o alvo da sua luta, transformar a sociedade e a vida, o que continua a ser o alvo da esquerda consequente, a que insiste na casualidade da realidade histórica do capitalismo. Toda esta situação dá espaço e lugar aos populismos de direita, à extrema-direita do Estado-empresa, às novas ditaduras, por mais fachadas democráticas com que se pintem.

O obscurantismo dessas direitas é tão ignaro e obsceno, de uma ignorância tão desaforada que muitas das suas intervenções são um circo de dislates que se encastram nas mentiras vendidas em cima da hora o que muito deve preocupar e alertar por não ser nada inocente, ter a mesma utilidade das fake news, a sua arma mais poderosa, que estercam os nóveis democratas ditadores, enxertam-se na geopolítica dos trumps, são a imagem de marca dos venturas e salvinis com a perigosíssima eficácia de mesmo sendo factualmente falsas, mesmo que se provem ser falsas, nunca deixam de ser emotivamente verdadeiras, com lógica evangélica que a terra é plana e o sol roda à sua volta.

É esse o armamento dos populismos mediáticos que não se podem combater com soluções fáceis por o campo de batalha estar minado e só poder ser ultrapassado com armaduras bem forjadas em princípios ideológicos resilientes aos cantos das sereias que acreditam que um anticiclone dispersará os ventos obscurantistas sem que o céu seja limpo do totalitarismo invertido em que o imperialismo neoliberal obtém os máximos lucros materiais e imateriais do empobrecimento moral, intelectual e económico dos indivíduos, iludindo os fogos reais das suas políticas.

  • 1. Cunhal, Álvaro; A Verdade e a Mentira na Revolução de Abril, Edições Avante!, 1999.
  • 2. Carvalho, Miguel; Quando Portugal Ardeu, Oficina do Livro, 2017.
  • 3. Cardoso, Ribeiro; O 25 de Novembro e os media estatizados – uma história por contar, Editorial Caminho, 2017.




Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/cultura/cruzadas-da-terra-plana

Não há alternativa ao "Triângulo de Ouro" , diz o Judíce

Câmara quer praia no Poço do Bispo - Portugal - Correio da Manhã
 
O homem, José Miguel Judíce, que veio da extrema direita para se assumir como gestor dos interesses do capital neoliberal está esfuziante.
Descobriu que os atuais programas económicos de PS e do PSD, são no essencial, iguais e que finalmente, com o dinheiro  que há-de vir da Europa, vai ser uma festança para o Bloco Central (de preferência em alternância faz-de-conta).
Vem aí o Triângulo de Ouro (Costa/Marcelo/Rio) para bem dos muito ricos e alegria de Judíce.
O pior é que ele sabe o que está a dizer!
 
 
 
 
 
 

A Política Politiqueira

Politique Politicienne, assim a chamam os franceses. Politiquice é expressão mais curta e verbalmente menos forte, mas é o que temos em português. Designa aquilo que os partidos de direita fizeram ontem depois de mais uma reunião no Infarmed em que todos os principais poderes políticos receberam a atualização sobre o estado da pandemia em Portugal.

 

Com a indigência própria de quem não possui sentido estratégico, nem muito menos o pudor de contenção perante a gravíssima situação social e económica suscitada pela crise, limitaram-se a cumprir a sua medíocre vocação: a da maledicência. Ricardo Leite (PSD) manifestou “preocupação”, António Carlos Monteiro falou de “sinais errados”, o Aldrabão só foi gestualmente mais enfático na mesma indigente falta de argumentação.

 

Se os números fossem melhores do que são tonitruariam sobre a demora em fazer a economia arrancar, criticando o facto de centros comerciais na Grande Lisboa, de discotecas e outros negócios não terem aberto entretanto, e há mais tempo. Como gostam de chafurdar na lógica do quanto pior melhor, aproveitam os que se revelam mais preocupantes para porem em causa a pressa com que quase se aliviou o desconfinamento, assustando as populações com a probabilidade de um recuo tal, que todos voltem a sentir a ameaça da prisão domiciliária. É o medo o que melhor lhes serve de ferramenta para manipularem as mentes e travarem a recuperação da imprescindível confiança coletiva, fator essencial na almejada recuperação.

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2020/06/a-politica-politiqueira.html

O PSD, o racismo e o antirracismo

Na sequência das manifestações portuguesas contra a violência e os crimes de morte do racismo, à semelhança do que aconteceu em muitas outras democracias, podia esperar-se a condenação por motivos estritamente sanitários, não por serem de esquerda, como se o combate ao racismo que corrói a convivência social não fosse obrigação de todos os quadrantes democráticos.

O “tweet” de Rui Rio não se insere no legítimo combate ao Governo, na prudência pela limitação dos danos da pandemia, na afirmação de um programa político, é uma afronta a quem é antirracista, um ultraje a quem pretende parar a violência assassina, uma ignomínia de quem é irresponsável ao ponto de considerar o humanismo monopólio da esquerda e a discriminação uma virtude partidária.   

 

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2020/06/o-psd-o-racismo-e-o-antirracismo.html

Rio critica critério do Governo que permite “comícios e manifestações de esquerda”

(Comentário:
A raiva da direita contra tudo o que 'cheire' a trabalhadores é cada vez mais visível. Não suporta que o povo tenha protagonismo.
Gostava que a política fosse uma 'arte' reservada à 'aristocracia' que serve a grande burguesia.
A direita fica fula por a esquerda ser a voz de quem trabalha.
E se Rui Rio está tão preocupado com o negócio do futebol porque é que não diz que os desportos deviam ter todos transmissão em canal aberto?
Na verdade eles 'trepam pelas paredes' porque a direita não consegue vir para a rua assim:)
 
Comicio PCP
 
 

 

O presidente do PSD criticou o Governo, esta segunda-feira, e questionou o critério para “permitir ajuntamentos” em tempos de pandemia, na sequência dos “comícios e manifestações de esquerda” do fim-de-semana.

 

Numa publicação na sua conta do Twitter, o líder do PSD, Rui Rio, faz a pergunta e, ao mesmo tempo, dá a resposta em tom irónico.

“Qual será o critério para o Governo permitir ajuntamentos? Funerais, futebol, missas, discotecas, desporto em geral, não! Comícios e manifestações de esquerda, sim! Esperemos que o vírus entenda aquilo que mais ninguém consegue entender”, lê-se.

Qual será o critério para o Governo permitir ajuntamentos? Funerais, futebol, missas, discotecas, desporto em geral, não! Comícios e manifestações de esquerda, sim! Esperemos que o vírus entenda aquilo que mais ninguém consegue entender.

— Rui Rio (@RuiRioPSD) June 8, 2020

 

No sábado, milhares de portugueses saíram às ruas em protestos contra o racismo nalgumas cidades portugueses, em solidariedade para com outras ações do género que evocam a morte de George Floyd, um afro-americano que morreu, em maio, nos Estados Unidos, depois de um polícia lhe ter pressionado o pescoço com um joelho durante cerca de oito minutos numa operação de detenção.

Nesta manifestação, muitos usaram máscara, mas o distanciamento social imposto pela prevenção da covid-19 esteve bastante longe de ser cumprido, como nota a agência Lusa.

No domingo, o PCP também organizou um comício, em Lisboa, com lugares marcados e distância entre os militantes, muitos deles de máscara, no jardim Amália Rodrigues, no alto do parque Eduardo VII, contra a perda de direitos em tempos de pandemia.

Neste comício, o líder dos comunistas, Jerónimo de Sousa, admitiu que não tem “ilusões” quanto à eficácia no “curto prazo” para o plano do Governo para responder à crise causada pela pandemia, embora tenha admitido algumas “aproximações” dos socialistas.

ZAP // Lusa

 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/rio-critica-criterio-ajuntamentos-328840

IRC a 17%, quatro Autoeuropas e aposta no turismo nacional. O plano de retoma económica do PSD

(Comentário:

Menos impostos para o patronato, fundos públicos para apoio aos negócios privados, vender ao estrangeiro e ter uns amigos a zelar pela aplicação da austeridade.

Sempre mais do mesmo...)

 

O PSD apresentou esta quarta-feira o seu plano de retoma económica no período de pós-pandemia, que inclui um alargamento da aplicação da taxa reduzida de 17% de IRC entre 2020 e 2023, uma reserva nacional de equipamentos médicos e uma ainda uma aposta no turismo em Portugal, para fomentar o setor.

 

O PSD quer atrair para Portugal, nos próximos três anos, investimento estrangeiros que permitam criar “quatro a cinco grandes projetos industriais tipo Autoeuropa” e constituir um verdadeiro banco de fomento com um capital de mil milhões de euros.

As medidas constam do “programa de recuperação económica” do PSD, documento esta quarta-feira apresentado pelo líder do partido, Rui Rio, e pelo presidente do Conselho Estratégico Nacional (CEN), Joaquim Miranda Sarmento, que é também o porta-voz social-democrata para a área das finanças públicas.

No capítulo de captação de grandes investimentos estrangeiros, o PSD aponta até as áreas preferenciais que o país deve atrair nos próximos tempos: farmacêutica, robótica, software, floresta e energias renováveis.

Além da captação de investimento estrangeiro, a capitalização das empresas portuguesa é outra das grandes linhas do programa, com o PSD a defender o reforço da capacidade da Instituição Financeira de Desenvolvimento, defendendo ser essencial “relançar e tornar definitivo o papel crítico do Banco de Fomento”, com um capital de mil milhões de euros.

O PSD propõe a criação de um fundo específico para apoio ao Comércio e Pequenos Negócios, que pode ir até 200 mil euros de investimento para criação de postos de trabalho, incentivos fiscais para a fusão de empresas e a obrigatoriedade de, no 2º semestre do ano, o pagamento a fornecedores da administração pública ser feito a 30 dias.

Alargamento da taxa reduzida de 17% de IRC

Os sociais-democratas defendem ainda o alargamento da aplicação da taxa reduzida de 17% de IRC entre 2020 e 2023, que passaria a abranger os lucros até 100 mil euros (em vez dos atuais 25 mil euros), e uma redução das rendas dos espaços comerciais enquanto a atividade económica não retomar, sendo os senhorios compensados por via fiscal.

O PSD propõe ainda que os contratos de arrendamento (de habitação e comerciais) que terminem este ano sejam estendidos por um ano, se for esse o desejo do inquilino.

Incentivos ao investimento no interior, alteração dos regimes dos vistos gold (que devem privilegiar essa zona do país), e a retoma do regime de residentes não habituais até 2023 e da isenção de IRS nas pensões dos não residentes são outras das medidas que constam do documento de 48 páginas do PSD para recuperar o país.

A proposta de recuperação económica do PSD inclui ainda um capítulo dedicado ao Serviço Nacional de Saúde, defendendo o seu reforço para “mitigar potenciais efeitos de uma 2ª vaga”, e o fomento da produção de ventiladores e outros equipamentos médicos, bem como ações de promoção do turismo, aumentando a dedução do IVA dos hotéis e similares em sede de IRS.

“Este programa visa um objetivo estratégico único: recuperar a economia e tornar Portugal um país muito mais competitivo e no médio/longo prazo um dos países mais competitivos no quadro da zona Euro”, pode ler-se no documento.

Aumentar as exportações em 50% até 2023

Para o atingir, os sociais-democratas pretendem aumentar as exportações para 50% do PIB até 2023 e para 60% do PIB até 2030, ter contas externas equilibradas a partir de 2022 e reduzir a dívida pública para valores em torno dos 70%-80% do PIB até ao final da década, com um aumento do investimento privado e público para um total de 20% do PIB até 2023 e 25% do PIB até 2030.

Segundo as contas do PSD, as medidas agora apresentadas têm um impacto no défice orçamental em torno de 0,5% do PIB e na dívida pública em torno de 1% PIB para o conjunto dos anos de 2020 e 2021. “As iniciativas apresentadas neste documento podem ter financiamento europeu oriundo essencialmente de fundos Regionais (FEDER, FSE) e de outros fundos Europeus para a competitividade”, dizem.

No entanto, “adicionalmente, para financiar este esforço o PSD não exclui algumasmedidas fiscais que possam corrigir algumas assimetrias e injustiças ou tributar ganhos excessivos em alguns setores provocados por esta crise”.

Nova estrutura, semelhante à do tempo da troika

Durante a mesma apresentação, o PSD defendeu a constituição de uma nova estrutura, semelhante à ESAME nos tempos da troika, para coordenar todo o programa de relançamento da economia na fase pós-covid.

Além deste programa de recuperação, o PSD promete apresentar um outro de estabilização da economia, quando for mais clara a resposta europeia à crise, e defende que ambos devam ser coordenados por uma entidade na dependência do “primeiro-ministro, à imagem da ESAME”, que teve como missão acompanhar as medidas do Memorando de Entendimento nos anos da `troika´ e que foi liderada pelo então secretário de Estado Carlos Moedas.

“O programa que temos pela frente será ainda mais exigente que o da troika. Daí que seja fundamental criar uma entidade como a ESAME, dirigida por um Secretário de Estado (adjunto do primeiro-ministro) apenas com esta competência e com assento no Conselho de Ministros”, defende o partido de Rui Rio.

“A criação desta entidade é também crítica para uma utilização eficiente dos fundos europeus ao abrigo do programa de reconstrução económica que vier a ser aprovado”.

ZAP // Lusa

 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/irc-17-captacao-investimento-estrangeiro-aposta-no-turismo-nacional-plano-retoma-economica-do-psd-328116

O eucalipto, Portas , Cristas e a Navigater pós pandemia

NOVA04

Tudo ligado, tudo boa gente que só querem um bom futuro para o país
NA Nova School of Business and Economics  ,Nova SBE em Carcavelos pode ler se no seu sitio :

“Um novo estilo de vida      O novo campus tira proveito do sol português e convida os alunos a estarem ao ar livre sempre que quiserem. O espaço aberto incentiva a aplicação de novas abordagens de ensino, mais focadas na colaboração entre os alunos.” 

 António Redondo o novo Presidente executivo da Navigater num seminário online organizado pela Nova SBE dedicado à internacionalização e exportação no pós-pandemia criticou as políticas que vieram determinar a redução da área de eucalipto no país e  disse  que “a complexidade do sistema fiscal não ajuda as empresas” e criticou ainda os custos da energia, frisando que em Portugal “a indústria paga um custo da energia superior aos concorrentes no estrangeiro”. Apontou ainda o dedo aos custos com pessoal, considerando que foi feito “um trabalho de flexibilização da mão de obra , interessante, mas nos últimos anos deixou-se cair esse trabalho”. “É necessário voltar a olhar para ele.

Frisou também que “sem seguros de crédito não vai haver exportação”, lamentando que “sempre que há uma crise as seguradoras procuram retirar coberturas, o que limita a exportação”.
Na conferência da Nova SBE participaram ainda Paulo Portas, Luís Castro Henriques, presidente da AICEP, e Carlos Moreira da Silva, antigo chairman da BA Glass.
Paulo Portas, professor da Nova SBE, defendeu que o país tem de “recuperar capacidade exportadora”, salientando que “alguém tem de por termo à paralisia dos seguros de crédito à exportação”. Por sua vez Carlos Moreira da Silva frisou a necessidade de as empresas terem balanços fortes, defendendo que haja incentivos para isso, mas também o fim do IRC.
                                                Lembrar:
 
A The Navigator Company (ex-Grupo Portucel Soporcel) dedica-se ao fabrico e comercialização de papel em Portugal. 
É dono de uma grande área florestal e é mundialmente conhecido pelo seu produto para impressoras Navigator. É um grupo empresarial que se dedica ao fabrico de papel, sendo totalmente autónomo (Madeira, pasta e papel). Tem a capacidade de produzir mais de um milhão de toneladas de matéria prima (pasta) e posteriormente papel por ano. 80,84% da empresa pertence ao conglomerado português Semapa1991, que opera essencialmente em três sectores: pasta e papel; cimento; e ambiente.
A empresa foi fundada em 1991 e tem três subsidiárias, a Portucel na área de papel e celulose, Secil, que produz cimentos e outros derivados e a Etsa que atua na gestão de produtos de origem animal.
                     O Bloco Central das Negociatas
 A Cimpor e a Secil,cuja privatização tinha sido iniciada por Cavaco Silva , foi continuada por Guterres.  A venda da Portucel à Semapa foi, feita por Durão Barroso, uma privatização confusa e questionada . Belmiro também esteve interessado Em 14 de Novembro de 2006 o Diário de Noticias noticiava . “A maior empresa ibérica de produção de pasta de papel e de papéis finos não revestidos é a primeira grande companhia nacionalizada a regressar totalmente às mãos de privados. O Estado, que noutras ocasiões tem preferido manter uma posição accionista mais ou menos relevante, saiu ontem da Portucel, num processo de privatização que demorou 11 anos a concretizar-se.”

 

Avivar memórias na informação

observador

O Observador
Dos meninos do dinheiro  & do J.Manuel Fernandes

“A publicação online é detida pela empresa Observador On Time,  tem no empresário português Luís Amaral o seu grande acionista. Através da Amaral e Hijas Holdings, o dono do grupo polaco Eurocash (uma das maiores empresas a atuar no país de leste  controla mais de 45,6% da dona do Observador que, de resto, conta com vários empresários portugueses no seu capital. É o caso de António Carrapatoso, ex-presidente da Vodafone Portugal, que através da Orientempo tem uma participação de 9,96%, e de António Alvim Champalimaud que controla 6,1% da Observador On Time (adquiridos pela Holdaco). A Ardma SGPS (de Pedro de Almeida, com 6,05%) e a Atrium Investimentos (de João Fonseca, com 5,44%) têm posições acima dos 5%. Entre os acionistas de referência da empresa destaque ainda para a Merino Investimentos (de Alexandre Relvas), a Lusofinança (de Filipe de Botton), António Viana Baptista, a Ribacapital (de João Talone) e Pedro Martinho.” CM
 Luís Amaral, ex-quadro da Jerónimo Martins. 
 António Pinto Leite, destacado advogado da MLGTS e presidente da Associação Cristã de Empresários e Gestores 
 António Viana Batista, membro da administração da Jerónimo Martins 
 Pedro de Almeida, dono da Ardma, holding do mercado de contentores, 
 João Fonseca, ex-diretor do Deutsch Bank e acionista de referência da Atrium, sociedade gestora de grandes fortunas. 
 António Champalimaud (filho), dono da Holdaco….E nesta lista  imcompleta não podiam faltar  meninos que lançaram o Compromisso Portugal no Beato : Alexandre Relvas, Filipe de Botton, António Carrapatoso e Rui Ramos, quatro militantes do PSD .
 
A 10 de fevereiro de 2004 o Publico noticiava com fanfarras a reunião de centenas de empresários e gestores  no Beato que inclusivamente queriam debater a importancia de os centros de decisão de empresas estratégicas a privatizar ou privatizadas ficarem em mãos nacionais…
Num saboroso artigo de opinião no semanário Sol – «Compromisso Portugal»: o nome diz-lhe alguma coisa? – de 27 de Maio de 2017, Filipe Pinhal, número dois de Jardim Gonçalves e sucessor, durante escassos meses, de Paulo Teixeira Pinto no BCP, lembra-nos esse movimento – a nova geração de gestores – lançado a 10 de Fevereiro de 2004, no Beato, que prometia tirar Portugal da cauda da Europa nos «próximos dez anos».
Contrariando as promessas, dez anos depois, em 2014, diz Filipe Pinhal «Portugal não tinha saído da cauda da Europa. Infelizmente estava ainda mais atrasado e a braços com o desmoronamento do BES e da PT, duas tragédias com a impressão digital da gente do Beato, que tinha jurado que o seu grande desígnio era a defesa dos interesses de Portugal e das empresas portuguesas». Azar dos azares, logo a seguir ao termo dos trabalhos, um dos mais activos organizadores vendeu a Somague a capitais espanhóis…A transferência dos centros de decisão para o estrangeiro apenas começava. E iria acelerar por obra e graça dos «comprometidos». 
A verdade estava à vista: a «nova geração de ouro» que proclamava «somos os melhores, dêem-nos os lugares no governo e nas empresas e nós salvaremos a Pátria», afinal estava ali para tratar da vidinha. Portugal teria de esperar outros salvadores… e tinham tanta pressa, tanta que, com a sua imparável dinâmica ajudavam a colocar no pipe-line das privatizações as empresas públicas mais valiosas, que acabaram vendidas a estrangeiros. Caía a máscara aos «patriotas» 
 
Será de estranhar o anti comunismo visceral desta gente ? será de estranhar  os dislates de José Manuel Fernandes sobre o PCP por celebrar Lenine ? O JMF ex- UDP… O dinheiro , o …manganão é tão bonito o Ladrão…
 
 
 

Via: FOICEBOOK https://bit.ly/2XfFGzL

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/05/28/avivar-memorias-na-informacao/

Puro desconchavo

Diogos Prates
O azar de um liberal

No «Observador» (é o melhor sítio para uma coisa destas) um tal Diogo Prates que é apresentado como tendo sido cabeça de lista da Iniciativa liberal por Setúbal sentencia que«Desde o 25 abril de 1974 que todas as Câmaras no distrito de Setúbal são governadas por socialistas ou comunistas e tudo oque conseguiram foi espalhar pobreza e agora a doença.»
Deixando de lado a magna estupidez desta responsabilização pela «pobreza» e até, imagine-se !, pela pandemia do covid 19, acontece que este sujeito teve um azar dos diabos.
É que dois parágrafos mais à frente já estava a opinar acertadamente que«A recente pandemia vem lembrar-nos o que nunca devíamos esquecer: foi osaneamento básicogeneralizado que permitiu reduzir substancialmente a taxa de mortalidade de muitas doenças, nomeadamente a tuberculose».
O ilustre articulista não se deu ao trabalho (talvez por razões de idade) de nos contar quem é que no distrito de Setúbal generalizou o saneamento básico. Mas eu explico-lhe que foram sobretudo autarcas comunistas que, começando desde logo nas Comissões Administrativas democráticas, dirigiram e concretizaram no distrito de Setúbal (e também no Alentejo) uma notável obra no dominio do saneamento básico, inicialmente até com uma grande contribuição de trabalho voluntário das populações. Na verdade, poucos anos depois do 25 de Abril, a população abrangida pelo saneamento básico nessas regiões já representava 90% da população enquanto no centro e norte do país andava à volta os 30%.
O escrevente no «Observador» perdeu pois uma bela oportunidade para estar calado.
 

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

Portugal | As Forças Armadas não eram apartidárias?

SIC Notícias | Marcelo elogia Rui Rio e sublinha colaboração...
 
 
Averdade é que, do longo processo de governamentalização das Forças Armadas, promovido por PS e PSD, resulta um claro esbatimento da exigência constitucional de apartidarismo da instituição militar.
 
Inesperadamente, ou talvez não, assistimos à «lavagem de cara» do líder do PSD, num almoço realizado numa unidade militar, a Base Aérea/Aeródromo de Manobra N.º 1 de Ovar, com a participação do Presidente da República, do presidente da Câmara Municipal de Ovar (vice-presidente do PSD), do presidente do PSD e do Chefe de Estado-Maior da Força Aérea. 

Foi neste quadro, com a Força Aérea como pano de fundo, que Marcelo Rebelo de Sousa fez um rasgado elogio a Rui Rio, promovendo-o inclusive a líder da oposição, esquecendo que o presidente dos social-democratas é, tão só, o líder do maior partido e que o PSD não representa toda a oposição.

É verdade que, do longo processo de governamentalização das Forças Armadas, promovido por PS e PSD, resulta um claro esbatimento da exigência constitucional de rigoroso apartidarismo da instituição militar, cada vez mais evidente no processo de nomeação das chefias militares e com reflexos na ascensão e na carreira de oficial general. Mas nada justifica este episódio inédito, pelo menos à porta aberta.

Entretanto, ficamos na expectativa de saber se se tratou de uma gafe ou se vamos ter novas surpresas e, quando menos se esperar, o Comandante Supremo das Forças Armadas vai levar Catarina Martins a almoçar à unidade da Marinha de Vale de Zebro ou sentar-se à mesa da messe de oficiais do regimento do Exército de Vendas Novas com Jerónimo de Sousa.

AbrilAbril | editorial
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/05/portugal-as-forcas-armadas-nao-eram.html

Sinais

Sabemos que um governante está a defender o interesse público quando é considerado perigoso por José Miguel Júdice, um dos principais facilitadores deste país. Pedro Nuno Santos foi considerado perigoso por Júdice. Um bom sinal.

Este conhecido fascista dos tempos de Coimbra tem um programa de televisão, em linha com o domínio das direitas.

Os grupos de comunicação social, que geram tanta poluição ideológica, são beneficiados pelo governo, através de apoios mal desenhados, sem contrapartidas aparentes. Um mau sinal.

 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Aníbal Silva – ideólogo, escritor e político

 

 
Depois das tragédias, em Portugal e no Mundo, já precisávamos de um pouco de humor, da notícia que hilariasse, do evento que pudéssemos aguardar sem medo, previsto para o fim do ano, antes da vacina do coronavírus.

O anúncio de um novo livro do escritor e pensador político, Aníbal Cavaco Silva, não é motivo de espanto. O autor já trouxe para a literatura a experiência das quintas-feiras e outros dias, registadas em gravador, sem a prevaricação oral de tempos verbais rebarbativos e pouco eufónicos dos verbos ‘fazer’ e ‘haver’ onde tropeça.

O Expresso anunciou ontem que Aníbal Siva tem novo livro, sobre uma “experiência de social-democracia moderna”. Não se estranha a vocação literária tardia, o que maravilha é o facto de ter pensamento político e, quem diria, sobre a ‘social-democracia moderna’.

O Professor Silva não é filosófico para fazer a síntese entre o pensamento de Ferdinand Lassalle e o de Kautsky e Eduard Bernstein, grandes teóricos da social-democracia, com reflexões sobre Kant e Darwin, e não se vê nele o ideólogo capaz de refutar o filósofo e pensador Walter Benjamin, que considerou a social-democracia duplamente culpada da ascensão do nazismo alemão, ao ter menosprezado o movimento fascista emergente na Europa e criticado o comunismo.

Só nos resta admitir que, quem viu o sorriso das vacas açorianas, seja capaz de se tornar o arauto da ‘social-democracia moderna’ pensada na Praia da Coelha.

Segundo o Expresso, será uma reflexão crítica e analítica sobre esta [social-democracia] corrente de pensamento político. Ora, tendo o autor sido cúmplice de Passos Coelho, “social-democracia, sempre”, teme-se um neoliberal a falar sobre uma “experiência de comunismo moderno”.

E eu, social-democrata empedernido, não vou ser capaz de acompanhar os avanços do pensamento moderno por tão qualificado intelectual. Prefiro esperar pela publicação da sua gramática moderna.

 

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2020/05/anibal-silva-ideologo-escritor-e.html

Portugal | A pandemia da ignorância a propósito do “marxismo cultural”

 
 
José Pacheco Pereira* | opinião
 
Às vezes nem vale a pena bater no ceguinho, porque para bater em ceguinhos em Portugal arranja-se sempre uma multidão. De preferência quando o ceguinho já está mesmo ceguinho, porque mesmo só com um olho, o estilo reverencial abunda e o país é muito pequeno para haver independência crítica. E então se for anónima a pancada, os praticantes são mais que muitos.
 
Mas a ignorância atrevida, essa, sim, merece azorrague, até porque nos dias de hoje, de pensamento mais do que exíguo, a coisa tende a pegar-se pelas “redes sociais”, o adubo ideal da ignorância. Temos de suportar duas pandemias, a da ignorância e a do vírus. Convenhamos que é demais. Nestas alturas, tenho um surto de pedantismo incontrolável. Bom, não sei bem se a classificação de pedantismo é a melhor, mas que por lá anda, tenho a certeza.

Vem isto a propósito do actual uso e abuso da expressão “marxismo cultural”, muito comum hoje à direita mas também usada muitas vezes erradamente à esquerda, que, na sua globalidade, é cada vez menos marxista, mas ainda não deu por ela. Porém, o uso à direita é uma espécie de vilipêndio e insulto e, em muitos comentadores de direita, é comum para caracterizar uma espécie de polvo omnipresente, que lhes rouba as artes, as letras, o jornalismo, algumas universidades, as ciências sociais, a comunicação social, a educação e o ensino, e os obriga a refugiar-se nos espaços “livres” dos colégios da Opus Dei, no Observador, nos blogues de direita, na Universidade Católica, nos lobbies ideológicos empresariais com acesso à comunicação, nalgumas fundações, nalguns articulistas, na imprensa económica, etc. Para bunker contra o “marxismo cultural” já parece muito espaçoso, mas eles acham-no apertadinho.

Nuno Melo escreveu recentemente um artigo com o título sugestivo de “A supremacia do marxismo cultural”, que é um bom exemplo de quem não percebe nada do que está a falar. Começa com uma citação de Marx, aquilo a que ele chama a “lição” que a esquerda aprendeu:

“As ideias da classe dominante são, em todas as épocas, as ideias dominantes, porque a classe que é a força material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, a sua força intelectual dominante.”

Muito bem. A frase quer dizer exactamente o contrário do que ele pretende. Quer ele dizer que é o proletariado a “classe dominante” nos dias de hoje e que é por isso que a “força intelectual dominante” é o marxismo? Interessante, ele vai certamente explicar-me quando é que houve mudança de “força material dominante”, ou seja, quando é que houve uma revolução. Na interpretação de Marx, são escritos como o de Melo que revelam a “força intelectual dominante”, ou seja, a da burguesia. O que é essencial na interpretação do marxismo é que a seta do poder, que explica a sociedade, a cultura, a economia, a cultura, se faz a partir “de baixo”, das relações de produção, do modo de produção, das classes dominantes a cada momento da história, e que nesse terreno é a luta de classes que define essa outra seta que é o sentido da história. Como Lenine e Trotsky disseram de forma mais bruta, de um lado está o “caixote do lixo da história” e do outro o futuro, a base da teleologia marxista. E embora haja “acção recíproca” entre a superestrutura e a infra-estrutura, ela faz-se sempre a partir da “determinação” da infra-estrutura. Esta interpretação de Marx é a essência da sua teoria, e mesmo quando, nas escassas páginas que escreveu sobre a “cultura”, Shakespeare, em particular, admitiu uma “autonomia relativa da cultura”, nunca admitiu que essa autonomia fosse absoluta. Ou seja, na interpretação marxista, nunca o “marxismo cultural”, seja lá o que isso for, podia ser dominante numa sociedade capitalista, e isto é o bê-á-bá da coisa. Nem Lenine, nem Rosa Luxemburgo, nem Gramsci, nem Lukács, se afastaram deste ponto essencial.

E, mesmo aceitando-se a ambiguidade da expressão, seria um absurdo dizer que qualquer forma de “marxismo cultural” tem hoje “supremacia” na sociedade portuguesa. É verdade que há muita força da esquerda e do esquerdismo (que não é a mesma coisa) em determinados sectores da “superestrutura”, nas artes, nas letras, em certa comunicação social, mas acrescente-se duas coisas: primeiro, a maioria dessa esquerda e desse esquerdismo não é marxista; segundo, já teve mais força do que hoje tem e, mesmo a que subsiste, está cada vez mais acantonada. Por exemplo, nos anos da troika, muito do discurso público em matérias de sociedade e economia era “neoliberal” (não gosto desta designação, mas vai por facilidade), e uma das grandes vitórias ideológicas da direita foi conseguir interiorizá-lo de forma “dominante”. Devo dizer que eu troco todo o esquerdismo cultural no teatro pela reversão dessa invasão inconsciente de muitas cabeças pela TINA.

Eu não sou guardião da ortodoxia de Marx, mas sei o que ele disse e o que ele não disse e não participo neste abastardamento das ideias pelas palavras e pela propaganda. O problema é que gente como Nuno Melo, e muita direita, acha que bater no André Ventura é uma expressão do “marxismo cultural” e só não se apercebe de como está a dignificar o exercício, porque precisa de um papão com um nome ilustre para glorificar a vaidade própria.

Não é muito edificante ser vítima da sua ignorância, mas já é outra coisa ser vítima de uma universal conspiração marxista que, vinda das trevas do comunismo, os persegue pelas ruas de Bruxelas.
 
José Pacheco Pereira, in Público, 16/05/2020
 
Também publicado em Estátua de Sal
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/05/a-pandemia-da-ignorancia-proposito-do.html

Portugal | Que tempo novo vem aí?

 
 
Vai-se desenhando um novo tempo carregado de velharias e armadilhas
 
Carvalho da Silva | Jornal de Notícias | opinião

Só uma forte politização da crise, um debate político que evidencie as contradições, injustiças e irracionalidades do regime socioeconómico em que vivemos pode descobrir formas de travar os descalabros e o sofrimento que se desenham no horizonte, e gerar lastro para mudanças positivas. O susto "simétrico" produzido pela pandemia no seu início já é passado. Muitas juras de solidariedade são esquecidas e apresentam-se de volta o egoísmo e o utilitarismo.

É preciso remar contra a maré que está a encher. A última semana confirma que não podemos ficar à espera de solidariedade da União Europeia (UE). Dali não se perspetiva mais que uma montanha de crédito (aumento da dívida), acompanhado de algumas subvenções para disfarçar, na certeza de que tudo pagaremos com língua de palmo. A hegemonia do euroliberalismo, assumida pelas maiores forças políticas e económicas nacionais, impõe-nos o seguidismo face aos poderes dominantes na UE e o perigoso adiamento da preparação do país para os desastres europeus que pairam no ar. Este fechamento favorece o avanço das forças ultraconservadoras e fascistas que agora procuram engordar cavalgando aspetos dolorosos da crise. Esta evidência, todavia, não afasta o velho vício de alcunhar de antieuropeísta quem afirma ser preciso pensar em novas soluções.

A profundidade dos bloqueios do país na sua matriz de desenvolvimento, no perfil da economia, nas insuficiências do Estado para assegurar os direitos fundamentais às pessoas, no desequilíbrio das relações laborais em desfavor dos trabalhadores, na falta de coesão territorial, na rutura de solidariedades e nas desigualdades, estão muito para além dos rombos provocados pela pandemia: são estruturais. Mas quando se ensaia a retoma da atividade ressurge em força a defesa de velhas políticas geradoras desses bloqueios.

Com a agressividade típica de quem se fecha por falta de razão, o velho centrão de interesses ressurge em força, e os seus porta-vozes tentam o espezinhamento intelectual e político de quem busca alternativas. Quem questiona a entrega de mais 850 milhões de euros ao Novo Banco antes de uma informação clara é chamado de irresponsável, de colocar o povo a odiar a Banca. O que o povo detesta é a corrupção, os roubos feitos a partir da gestão e de resoluções desastrosas, a sacralidade dos compromissos com a Banca em detrimento dos cidadãos. Ora, quando não há respostas claras fica exposto um enorme campo de manipulação para oportunistas.

Perspetiva-se o enfraquecimento dos compromissos para consolidar o SNS, o sistema de ensino, a proteção dos mais pobres e dos trabalhadores. A grande prioridade colocada ao Estado e ao Orçamento do Estado pelo centrão é salvaguardar os direitos de propriedade e consolidar a coletivização dos prejuízos. O Estado ter posições decisivas em setores estratégicos da economia, nem pensar. Até o primeiro-ministro é criticado se diz que meter dinheiro na TAP deve ter como contrapartida o Estado ficar com poder decisivo na empresa. A CIP reclama um fundo público para salvar empresas, mas acrescenta logo que o Estado não pode meter o nariz na gestão.

Dos defensores desta conceção de regime socioeconómico não se espera nada de novo.

* Investigador e professor universitário

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/05/portugal-que-tempo-novo-vem-ai.html

A pandemia da ignorância a propósito do “marxismo cultural”

(José Pacheco Pereira, in Público, 16/05/2020)

Pacheco Pereira

Às vezes nem vale a pena bater no ceguinho, porque para bater em ceguinhos em Portugal arranja-se sempre uma multidão. De preferência quando o ceguinho já está mesmo ceguinho, porque mesmo só com um olho, o estilo reverencial abunda e o país é muito pequeno para haver independência crítica. E então se for anónima a pancada, os praticantes são mais que muitos.

 

Mas a ignorância atrevida, essa, sim, merece azorrague, até porque nos dias de hoje, de pensamento mais do que exíguo, a coisa tende a pegar-se pelas “redes sociais”, o adubo ideal da ignorância. Temos de suportar duas pandemias, a da ignorância e a do vírus. Convenhamos que é demais. Nestas alturas, tenho um surto de pedantismo incontrolável. Bom, não sei bem se a classificação de pedantismo é a melhor, mas que por lá anda, tenho a certeza.

Vem isto a propósito do actual uso e abuso da expressão “marxismo cultural”, muito comum hoje à direita mas também usada muitas vezes erradamente à esquerda, que, na sua globalidade, é cada vez menos marxista, mas ainda não deu por ela. Porém, o uso à direita é uma espécie de vilipêndio e insulto e, em muitos comentadores de direita, é comum para caracterizar uma espécie de polvo omnipresente, que lhes rouba as artes, as letras, o jornalismo, algumas universidades, as ciências sociais, a comunicação social, a educação e o ensino, e os obriga a refugiar-se nos espaços “livres” dos colégios da Opus Dei, no Observador, nos blogues de direita, na Universidade Católica, nos lobbies ideológicos empresariais com acesso à comunicação, nalgumas fundações, nalguns articulistas, na imprensa económica, etc. Para bunker contra o “marxismo cultural” já parece muito espaçoso, mas eles acham-no apertadinho.

Nuno Melo escreveu recentemente um artigo com o título sugestivo de “A supremacia do marxismo cultural”, que é um bom exemplo de quem não percebe nada do que está a falar. Começa com uma citação de Marx, aquilo a que ele chama a “lição” que a esquerda aprendeu:

“As ideias da classe dominante são, em todas as épocas, as ideias dominantes, porque a classe que é a força material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, a sua força intelectual dominante.”

Muito bem. A frase quer dizer exactamente o contrário do que ele pretende. Quer ele dizer que é o proletariado a “classe dominante” nos dias de hoje e que é por isso que a “força intelectual dominante” é o marxismo? Interessante, ele vai certamente explicar-me quando é que houve mudança de “força material dominante”, ou seja, quando é que houve uma revolução. Na interpretação de Marx, são escritos como o de Melo que revelam a “força intelectual dominante”, ou seja, a da burguesia.

O que é essencial na interpretação do marxismo é que a seta do poder, que explica a sociedade, a cultura, a economia, a cultura, se faz a partir “de baixo”, das relações de produção, do modo de produção, das classes dominantes a cada momento da história, e que nesse terreno é a luta de classes que define essa outra seta que é o sentido da história. Como Lenine e Trotsky disseram de forma mais bruta, de um lado está o “caixote do lixo da história” e do outro o futuro, a base da teleologia marxista. E embora haja “acção recíproca” entre a superestrutura e a infra-estrutura, ela faz-se sempre a partir da “determinação” da infra-estrutura. Esta interpretação de Marx é a essência da sua teoria, e mesmo quando, nas escassas páginas que escreveu sobre a “cultura”, Shakespeare, em particular, admitiu uma “autonomia relativa da cultura”, nunca admitiu que essa autonomia fosse absoluta. Ou seja, na interpretação marxista, nunca o “marxismo cultural”, seja lá o que isso for, podia ser dominante numa sociedade capitalista, e isto é o bê-á-bá da coisa. Nem Lenine, nem Rosa Luxemburgo, nem Gramsci, nem Lukács, se afastaram deste ponto essencial.

E, mesmo aceitando-se a ambiguidade da expressão, seria um absurdo dizer que qualquer forma de “marxismo cultural” tem hoje “supremacia” na sociedade portuguesa. É verdade que há muita força da esquerda e do esquerdismo (que não é a mesma coisa) em determinados sectores da “superestrutura”, nas artes, nas letras, em certa comunicação social, mas acrescente-se duas coisas: primeiro, a maioria dessa esquerda e desse esquerdismo não é marxista; segundo, já teve mais força do que hoje tem e, mesmo a que subsiste, está cada vez mais acantonada. Por exemplo, nos anos da troika, muito do discurso público em matérias de sociedade e economia era “neoliberal” (não gosto desta designação, mas vai por facilidade), e uma das grandes vitórias ideológicas da direita foi conseguir interiorizá-lo de forma “dominante”. Devo dizer que eu troco todo o esquerdismo cultural no teatro pela reversão dessa invasão inconsciente de muitas cabeças pela TINA.

Eu não sou guardião da ortodoxia de Marx, mas sei o que ele disse e o que ele não disse e não participo neste abastardamento das ideias pelas palavras e pela propaganda. O problema é que gente como Nuno Melo, e muita direita, acha que bater no André Ventura é uma expressão do “marxismo cultural” e só não se apercebe de como está a dignificar o exercício, porque precisa de um papão com um nome ilustre para glorificar a vaidade própria.

Não é muito edificante ser vítima da sua ignorância, mas já é outra coisa ser vítima de uma universal conspiração marxista que, vinda das trevas do comunismo, os persegue pelas ruas de Bruxelas.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Há uma linha que separa

«Ninguém se lembraria de explicar a Nuno Melo a autonomia pedagógica, o atentado aos mais básicos direitos individuais se um académico ou qualquer docente fosse impedido de ter ação política ou o bom que seria se os miúdos da telescola tivessem a sorte de ter mais lições de académicos e divulgadores culturais da craveira do Rui Tavares (e não, não vou escrever nomes de historiadores de outras áreas ideológicas porque seria ofender a inteligência de quem me lê) e muito menos a brilhante e ideologicamente anódina lição do historiador sobre a Exposição do Mundo Português de 1940. O homem não perceberia e mesmo que percebesse não estaria interessado em nada disso. O CDS sempre conseguiu albergar Nunos Melos e pessoas de extrema-direita bem mais sinistras. Aliás, entre os vários agradecimentos que temos de fazer aos centristas (de Freitas do Amaral a Paulo Portas) é a capacidade de albergar uma direita não democrática sem nunca a ter deixado impor a sua agenda. O Nuno Melo, por exemplo, só não se transformou num Ventura por ser mais limitado, mas fundamentalmente porque Paulo Portas e outros controlavam-no. Mais, até seria menos plástico do que o líder do Chega, que já defendeu tudo e o seu contrário. (...) Assistir a um partido com importância para a construção da democracia como o CDS concorrer com oportunistas miseráveis como o Ventura não é nada agradável, vê-lo morrer às mãos de Nuno Melo e do seu compagnon de route Telmo Correia tão-pouco é.»

Pedro Marques Lopes, O cordão sanitário

«Quando uma mentira está a ser propalada, e uma suposta polémica não resiste à análise mais básica dos factos, não há “um dos seus”. As velhas categorias morais têm precedência sobre o tribalismo político. Não há mentirosos de direita ou de esquerda — há mentirosos. Não há corruptos de esquerda ou de direita — há corruptos. Não há demagogos de esquerda ou de direita — há demagogos. Há uma diferença radical entre cada um de nós ter um campo ideológico com o qual se identiÆca ou ter um clube ideológico com o qual tem de se identificar. O primeiro é para homens livres. O segundo é para serviçais ou para fanáticos. O que é verdade ou mentira, o que é justo ou injusto, o que é decente ou indecente, precede e prevalece sobre sermos de esquerda ou de direita — e quem não percebe isto não percebe coisa nenhuma. (...) Nuno Melo escolheu mal a época para fazer a apologia da teoria “um dos seus”, porque aquilo que mais existe à nossa volta são cavernícolas de direita a estamparem-se ao comprido. Todos os que desvalorizaram os Trumps, os Bolsonaros ou que acharam que André Ventura, o confinador de ciganos, é que dizia “grandes verdades”, estão a assistir agora da primeira fila aos resultados catastróficos de ceder nos princípios mais básicos em nome de estratégias políticas.»

João Miguel Tavares, Duas ou três coisas que a direita precisa de ouvir

Já agora, vale a pena assinalar que dias depois de o CDS-PP de Nuno Melo pretender calar um historiador, o Chega de Ventura quis calar um futebolista. Foi isso, não foi?

 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

O perigo é a direita, não a extrema-direita

A primeira foto é retirada da página online da TSF, a segunda é a newsletterdo jornal Correio da Manhã. Ambos os grupos económicos em que estes órgãos de comunicação social estão inseridos, dão espaço, promovem, alardam os temas que a extrema-direita em Portugal defende. E fazem-no numa prática continuada de violação da Constituição e, por isso, de violação da lei de imprensa, já não falando individualmente de cada jornalista que está na Direcção de Informação desses órgãos.

O caso do Correio da Manhã é mais claro quando se distorce claramente a realidade para promover eleitoralmente uma determinada força política cuja linha política é inconstitucional e antidemocrática. Quem assistiu ao debate quinzenal de ontem percebeu o que o primeiro-ministro disse: não há um problema com a comunidade cigana; há um problema com quem não cumpre as regras, independentemente da sua cor, raça, etnia, opinião. Como foi que o Correio da Manhã viu a coisa? Deu voz ao inconstitucional.

Tudo isto tem um propósito que não é o de criar uma nova República. É, sim, o de colocar a direita no centro do poder, puxando a direita para a extrema-direita e a esquerda mais moderada para a direita, de modo a que qualquer opção seja de direita. E que o voto útil seja o da direita moderada contra a extrema-direita. Não é novidade. Está em toda a Europa. 
 
A questão é saber como se impedem estas práticas inconstitucionais e ilegais que se albergam, precisamente, no direito de comunicar. A segunda, é como combater a direita, porque são as forças apoiantes da direita que estão por detrás desta deriva.

E isso apenas se pode fazer com um alargamento do entendimento político. Caso contrário, estaremos a votar em alguém de direita para evitar que um qualquer Bolsonaro apalhaçado chegue ao poder para ser substituído rapidamente, a mando de um status quo vigente. E nesse debate, o PS vai ter de fazer opções muito claras, como tem feito António Costa nos debates parlamentares.  

Até lá, eis a minha contribuição (o coro cigano na ópera O Trovador, de Verdi):

 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

CDS desafia Costa a cortar salários no Governo para comprar material médico

(Comentário:

Este Partido já teve dirigentes com estatura política e intelectual. Agora anda a competir com o Chega pelo último lugar no campeonato da extrema-direita populista)

 

O líder do CDS-PP deu uma entrevista ao semanário Expresso, que vai ser publicada na íntegra este sábado, na qual aborda a atuação do Governo no combate à pandemia de covid-19.

Numa entrevista ao semanário ExpressoFrancisco Rodrigues dos Santos entende que o primeiro-ministro e o resto do Governo deveriam ceder uma parte dos seus salários para, por exemplo, comprar material médico.

“António Costa podia seguir o exemplo da primeira-ministra da Nova Zelândia, que cortou em 20% os vencimentos do seu Governo, ou do chanceler austríaco, que doou um mês de salário de toda a sua equipa governamental para apoiar a que está na linha da frente do combate à covid-19. Os políticos têm de dar o exemplo ao país e solidarizar-se com os milhões de portugueses”, afirma o líder do CDS-PP.

“As verbas resultantes da redução de vencimentos e da doação, tal como aconteceu naqueles países, poderia ser consignada à compra de testes, equipamentos de proteção individual e ventiladores pelas respetivas entidades a serem disponibilizadas aos seus funcionários e à comunidade em geral, especialmente às Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) que apoiam idosos”, continua.

O líder dos centristas considera que esta é uma ideia “simbólica”, mas que seria “moralizadora” para os portugueses.

Relativamente à forma como o Governo de António Costa tem lidado com a pandemia, sobretudo na ajuda às empresas, Francisco Rodrigues dos Santos declara que o Executivo “atuou por reação” e só agora está a tomar medidas que deveriam ter sido tomadas desde o início como, por exemplo, o lay-off para todos os sócios-gerentes.

Para o centrista, o seu partido “esteve sempre um passo à frente, ao contrário do Governo que foi sendo atropelado pela realidade”.

O presidente do CDS-PP propõe ainda que seja criado um mecanismo de acerto de contas entre o Estado e os contribuintes, possibilitando que os valores em dívida possam ser descontados em impostos a pagar pelas empresas e famílias.

“O CDS propõe a criação de um mecanismo de acerto de contas, que permita a qualquer pessoa ou empresa a quem o Estado se atrasa a pagar, poder descontar o valor das faturas vencidas, para pagar os seus impostos e contribuições”, afirma.

Questionado sobre a situação da TAP, o líder do CDS considera que a solução não passa pela nacionalização da companhia aérea, mas sim por um acordo entre o Estado português e os acionistas privados.

“O ministro Pedro Nuno Santostem sido um zero à esquerda na gestão deste dossiê. Até agora, a TAP viu zero por parte do Estado. Mas o ministro ignora que houve uma redução drástica da operação”, atira, acrescentando que o CDS não concorda “com estas ideias megalómanas de um ministro fanfarrão que acha que o dinheiro dos contribuintes deve ser injetado de forma desregulada”.

ZAP //

 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/cds-desafia-costa-cortar-salarios-323321

"A TV mente" e serve de alplificador às exigências da direita.

 Jucide a luta da direita
 
A crise que se anuncia, na sequência da COVID-19, afigura-se aos 'donos disto tudo' (DDTs) como um bom momento para ampliarem o seu poder e ganharem posições contra os trabalhadores.
José Miguel Judíce, sempre um fiel porta voz dos interesses da direita económica mais violenta, apressa-se a apresentar o 'caderno reivindicativo' com que os DDTs querem retomar a ofensiva política e ideológica.
 
Os objetivos são claros:
Demitir, desde já, três ministros:
Ana Mendes Godinho,Ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social;
Marta Temido, Ministra da Saúde e
Pedro Nuno Santos, Ministro das Infraestruturas e da Habitação
Seguidamente o Governo "vai ter, inevitavelmente, de virar à direita" provavelmente com mais protagonismo do Ministro da Economia Siza Vieira.
A SIC (como outros media) prosseguindo como protetora da direita política e defensora dos interesses económicos dos DDTs cumpre empenhadamente o seu papel.
 
 

O direito ao contraditório e o ruído

Santana Lopes   Bolsonaro
 
Gosto de quem exerce o legítimo direito de discordar das minhas posições invocando o gosto de pensar pela própria cabeça, na insinuação subliminar de que eu penso com uma cabeça alheia.

Aprecio a alegação contra a denúncia dos crimes cometidos por Hitler, Franco, Pinochet ou Salazar com perguntas retóricas sobre os de Mao, Estaline, Enver Hoxha ou Pol Pot, como se alguma vez tivessem defesa uns ou outros.

Agrada-me o argumento irritado, quanto à denúncia de crimes cometidos por militantes de um qualquer partido, com o desfiar do rol de delinquentes de um partido concorrente, como se a bondade partidária se medisse pela conduta dos militantes.

Regozijo-me com a amnésia dos admiradores de Cavaco, Passos e Portas, que os julgam salvadores da Pátria e responsabilizam o governo anterior pelas suas malfeitorias, como se a crise financeira mundial de 2008 não tivesse existido, e ignorando que a falência de um Estado ou de uma empresa (bancarrota) não se confunde com a fissura numa banca da praça do peixe (banca rota), como há uma década vêm escrevendo.

Mas nada me extasia tanto como os ataques irritados a qualquer governo que não inclua o PSD e o seu apêndice de serviço, o CDS. Há quem, na sua crença, pense que Cavaco é um intelectual e Passos Coelho um académico. É mais um motivo para minha diversão.

Finalmente, resta-me recordar à direita truculenta a satisfação manifestada pela eleição de Bolsonaro, por Paulo Portas, Nuno Melo, Assunção Cristas, André Ventura e Luís Nobre Guedes, para não falar da carta de felicitações que Santana Lopes lhe enviou.

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2020/05/o-direito-ao-contraditorio-e-o-ruido.html

"A TV mente" e a direita quer os mais idosos fechados em casa (podem dar um passeiozinho)

Jose Miguel Judice Idosos
 
A SIC prossegue a manipulação a várias vozes ao serviço da direita económica e política.
Agora é o seu 'comentadeiro' habitual (José Miguel Judíce) que vem insurgir-se pelo facto de os cidadãos mais velhos não ficarem legalmente obrigados ao enclausuramento caseiro.
Para ele (sempre a ser o porta voz dos interesses do grande patronato) quem tem idade para trabalhar deve ir rapidamente fazê-lo. Os seus filhos devem ir para as escolas para os pais poderem ir trabalhar, os outros (reformados, pensionistas, cidadãos mais velhos, etc ) devem ficar fechados em casa para não perturbarem o 'mercado' e a 'produção nacional'.
Como José Miguel Judíce faz gala em usar mediaticamente a sua condição de católico não deixa de ostentar alguma comiseração pelos 'velhinhos' e deixa-os dar uma voltinha perto de casa.
A direita perdeu a vergonha...
 
 
 
 
 
 
 

Os cabelos de Marques Mendes

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 06/05/2020)

Estou preocupado com os cabelos de Marques Mendes, que ficou com eles em pé com a eleição de uma deputada do PS para a FPF. É que quando o ex-deputado Gilberto Madaíl acumulou funções na FPF o seu líder parlamentar era Marques Mendes. E quando o ex-deputado Hermínio Loureiro foi eleito presidente da Liga o líder do partido era Marques Mendes. É preciso ter pontaria e resistência capilar.


 

Corria o ano de 1996 quando o deputado do PSD Gilberto Madaíl foi eleito presidente da Federação Portuguesa de Futebol (FPF). E como deputado permaneceu mais um ano, conseguindo a proeza de acumular a presidência da FPF com a da Comissão Parlamentar para o Desporto. Em 2006, o também deputado do PSD Hermínio Loureiro foi eleito presidente da Liga e vice-presidente da FPF, por inerência de funções. E acumulou as funções políticas e de dirigente desportivo durante três anos. A promiscuidade entre política e futebol ainda só era tema de gente politicamente marginal. E assim continuou até há poucos dias. Os presidentes de clubes eram namorados pelos partidos do poder, muitos deputados ocupam funções associativas e os painéis de comentadores desportivos forneceram candidatos a autarcas. Como André Ventura, o moralista mais promíscuo da nossa praça.

Tudo continuava nesta pouca-vergonha até o comentador político Marques Mendes ter ficado “de cabelos em pé” com a eleição de uma deputada do PS, Cláudia Santos, para presidente do Conselho de Disciplina da FPF. Visivelmente indignado, o comentador explicou-nos: “Isto é um problema político e ético. Isto é um problema de promiscuidade, de confusão, de ligação perigosa entre o futebol e a política.” Confesso que senti um arrebatamento. Finalmente alguém punha o dedo na ferida, dizia as coisas como têm de ser ditas e tudo o mais que se costuma escrever nas redes sociais quando um demagogo fala para a plateia a fazer figas atrás das costas.

Só que o passado é uma sarna que não larga o hipócrita. E toda a gente tem o seu. Quando trago à baila Madaíl e Loureiro não é para entrar na rábula da troca de cromos ente PS e PSD. Seria um jogo interminável. Apenas estou preocupado com os cabelos de Marques Mendes. É que quando Gilberto Madaíl acumulou funções, o seu líder parlamentar era, nem mais nem menos, o cabeludo Marques Mendes. E quando Hermínio Loureiro foi eleito presidente da Liga, o presidente do partido era, nem mais nem menos, o mesmo Marques Mendes. É preciso ter pontaria e resistência capilar. E a sorte é tanta que os três – Marques Mendes, Gilberto Madaíl e Hermínio Loureiro – foram eleitos pelo mesmo círculo de Aveiro. Ninguém sabe se ele disse aos dois senhores, como aconselhou agora, que aquilo não era “politicamente recomendável”. Ou se propôs que se mudasse a lei. Sei que não agiu nem falou, apesar de ter poder para o fazer, nos dois casos.

Ao contrário de muitos, acho normal ex-políticos fazerem comentário. O comentário é assinado e é para ter posição. E, tenho de confessar, ver Marques Mendes ter sobressaltos éticos com as promiscuidades dos outros é o meu “guilty pleasure”. E, por isso, espero ansioso pelo esclarecimento deste domingo, quando o comentador for confrontado com o que mudou para se ter transformado no guardião da ética que lhe escapava quando tinha poder para a impor. Se o comentário lhe serve para criar factos políticos, que desta vez seja ele o facto político. É que não é Marcelo quem quer, é Marcelo quem sabe. E, como se viu na polémica do 1º de Maio, na arte da fuga e da dissimulação todos são aprendizes ao pé do Presidente.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

O crepúsculo dos entalados

 

O bom hábito de pedir desculpas públicas por espalhar falsidades existe na Coreia do Sul onde dois deputados, trânsfugas do vizinho norte, acabaram de o fazer, porque viram crescer as críticas em relação ao que haviam mentido a propósito da morte de Kim Jong Un.

 

Seria desejável que existisse, entre nós, o mesmo bom hábito, quer o da indignação perante asfake news, quer o da humildade de confessar o erro por parte dos que o terão espalhado.

 

Vem isto a propósito da inqualificável campanha do diário da Cofina a respeito das eventuais pressões do secretário de Estado da Juventude e Desportos, João Paulo Rebelo, sobre o presidente da Câmara de Viseu, para que se fizesse cliente dos testes comercializados pela empresa de um antigo sócio. O próprio Almeida Henriques logo cuidou de desmascarar a mentira, por não se sentir pressionado, nem sequer assim o entender.

 

O próprio João Paulo Rebelo confessou-se estupefacto com a deturpada interpretação das suas palavras porque limitara-se a reiterar aquilo que os seus interlocutores bem sabem: que a tal empresa de Tondela (a ALS Portugal) é a única do distrito de Viseu a ter capacidade para realizar tais testes.

 

O episódio só serve para demonstrar como a situação atual deixa muita gente entalada ao querer à viva força encontrar motivos para corroer a popularidade do governo atestada em todas as sondagens, agarrando-se ao absurdo para iludir os mais ingénuos.

 

Daí que tenham, igualmente, trazido á baila a história das adjudicações por ajuste direto de materiais de proteção contra o vírus, como se essas decisões carecessem de suporte legal e pudessem compadecer-se com a morosidade dos requisitos dos concursos públicos. A imprensa, que explora esta linha de contestação ao governo, passa um manifesto atestado de estupidez aos seus consumidores.

 

Entalados também os há no CDS com o inaudito episódio de Nuno Melo lançar uma campanha contra a suposta aula dada por Rui Tavares na telescola, o que não só foi falso na forma, como no conteúdo. O deputado europeu denunciou o desespero de saber-se destinado ao desemprego tão só as tais sondagens tenham expressão nos próximos atos eleitorais. O CDS, que logo se apressou a secundar tal alarido, parece irremediavelmente condenado à definhada grupusculização.

 

Bem mais sensato o vice-presidente do PSD, David Justino, comentou o assunto e pôs-se a milhas de lhe dar a importância que os habituais parceiros de coligação pretenderiam:"Basta rever a aula para perceber que o alarido é desonesto, manipulador e próprio de uma direita trauliteira sem escrúpulos. Eu não teria a paciência do Rui Tavares para responder a estes ataques. Por muito que discorde dele, neste caso tem toda a razão".

 

O PSD é, de facto, o objeto de sedução dos que se situam à sua direita e esperam juntar as parcas forças de todos para mostrarem alguma relevância. Mesmo julgando-se quem não são. Exemplo disso é o Aldrabão da extrema-direita, que enviou uma missiva amorosa a Rui Rio, propondo-lhe que se associe à sua inconstitucional iniciativa de organizar a guetização acelerada das comunidades ciganas. Se tal conteúdo é, em si, repugnante, tem outra caracterização a forma como inicia a adocicada carta: o remetente exulta por ele e Rio liderarem as direitas nacionais, pondo-se na tal posição da rã decidida a a imitar a corpulência do touro. Se o ridículo matasse, por esta hora já as notícias davam conta do merecido fim do biltre.

 

Entalados, mas com mais subtileza, estão os locutores dos telejornais da SIC, que insistem na exploração do tema da manifestação da CGTP no 1º de maio, apesar de não recolherem retorno visível da insidiosa campanha. No fundo dão razão ao provérbio sobre quanto enoja o que é demais! Mas, como Daniel Oliveira muito bem opinou, que topete o da portadora do microfone ao questionar Jerónimo de Sousa sobre o não acatamento do dever de confinamento devido à sua idade. Ora, sabemo-lo bem!, ela nunca se atreveria a pôr a mesma questão a Marcelo, quando anda a comprar livros no Chiado ou nas visitas com que procura justificar a quotidiana presença nas notícias! Como se um líder político tivesse de ficar em casa e oselfiemande tal devesse ficar isento.

 

E olhando lá para fora atentamos noutro entalado: já repararam na mudança de expressão facial e corporal de Donald Trump nas últimas semanas? Numa altura em que o número de mortos nos Estados Unidos já ultrapassa os verificados na guerra do Vietname e em que sondagens em três Estados fundamentais para a sua vitória de 2016, o situam muito atrás do candidato democrata, ele sabe que a crise económica e social cerceia-lhe as ambições para a vitória de novembro. E, cada vez mais, sentirá o chão a fugir-lhe debaixo dos pés...

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2020/05/o-crepusculo-dos-entalados.html

Testar «Bolsonaro» com a telescola?

a1. Como lembra a Maria João Pires, a extrema-direita nacionalista pôs há uns dias a circular a informação, falsa, de que Rui Tavares teria dado uma aula de História no «Estudo em Casa». Ontem, o eurodeputado Nuno Melo fez eco dessa informação, acusando o historiador de «destilar ideologia» e de transformar «os alunos em cobaias do socialismo».

2. O que na verdade aconteceu foi a utilização pedagógica, no contexto da referida aula, de um episódio da série «Memória Fotográfica», de Rui Tavares, dedicado à «Exposição do Mundo Português» (1940), que vale a pena ver na íntegra para tentar encontrar a tal «política travestida de educação», a que se refere Nuno Melo, ou a «análise deturpada» dos motivos que estiveram na origem da Exposição, denunciada pelo CDS-PP.

3. Como refere Pedro Marques Lopes, «que Nuno Melo diga umas boçalidades ninguém se espanta». Mas o facto de o CDS andar «a reboque das manifestações de ignorância do homem» é que «já é outro assunto». De facto, a direção do partido nem pestanejou e decidiu questionar o ministro da Educação sobre a «escolha» de Tavares para a telescola. Na Pergunta que lhe enviou (clicar na imagem aqui ao lado), o CDS insiste na ideia de que o referido «módulo de História e Geografia de Portugal (...) foi parcialmente dado pelo historiador e político Rui Tavares», perguntando a Brandão Rodrigues se «considera aceitável a escolha de um político (...) para ministrar aulas» no «Estudo em Casa» e se não acha que, «nomeadamente as aulas de história, devem ser dadas de forma politicamente isenta».

4. Os deputados do CDS-PP não desenvolvem, claro. E por isso ficamos com imensa pena de não assistir ao que seria um «módulo politicamente isento» sobre o tema «Da Expansão Marítima do século XV à manutenção do Império Colonial no século XX». O que sabemos, face à posição tomada, é que o CDS-PP não faria como se faz em democracia e trataria de impedir o acesso à docência de licenciados em História que não estivessem «aptos» para leccionar aulas «politicamente isentas» (o que obrigaria o CDS, por sua vez, a ter de definir, prévia e ideologicamente, essa dita «isenção», tão equívoca como qualquer outra que o pretenda ser).

5. Sobre tratar-se de um «político» a leccionar, História ou outra coisa qualquer (desiluda-se quem acha que a dita «isenção» depende da disciplina), o Zé Neves ajuda a refrescar a memória: «Passos Coelho, cujas qualificações académicas são tantas como as que autorizaram um porco a andar de bicicleta, é Professor Catedrático convidado no ISCSP, sendo que Paulo Portas afina pelo mesmo diapasão mas pondo a sua concertina a render na banda da Universidade Nova, onde se milita pela reabertura da "economia" enquanto se nutrem umas sinergias e se surfam as ondas que um qualquer submarino vai alavancando ali para as praias de Carcavelos». Casos que «a direita órfã da troika reputou uma e outra vez de tão naturais como a nossa sede», sendo que o «escândalo nacional de grande proporção» é mesmo «a telescola ter usado um excerto de um programa de História conduzido por um tipo doutorado numa das mais importantes instituições universitárias europeias, a EHESS, Paris, e que foi Investigador Visitante no Instituto Universitário Europeu de Florença e Professor Visitante na Brown. E que é historiador».

6. A gente bem tenta, mas é impossível que esta posição do CDS-PP não nos traga à memória a «escola sem partido» de Bolsonaro. Aliás, não é a primeira vez que esta direita ultramontana em que o CDS-PP se tornou (e pela qual o PSD de Passos também afinou), deixa escorregar o chinelo para as bandas do Chega. No caso do PSD, a ideia parecia ser, com Ventura, a de testar Trump em Loures. No caso do CDS-PP, fica a dúvida sobre se se trata de testar Bolsonaro na Educação, para tentar estancar a hemorragia de votos pelo flanco mais à direita.

Adenda: As coisas mudam, de facto. Quando Passos Coelho ensaiou «André Ventura» nas autárquicas em Loures, o CDS-PP de Assunção Cristas - e bem - distanciou-se das declarações xenófobas do candidato, rompendo com a coligação com o PSD. Ontem, quando o CDS de Francisco Rodrigues dos Santos ensaiou o episódio da telescola, David Justino tratou - e bem - de distanciar o PSD, assinalando que se trata de um «alarido desonesto, manipulador e próprio de uma direita trauliteira sem escrúpulos».

 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Não tenha medo de ter medo (?!)

04 ABRIL 2020
No município de Cascais sabe-se que não se deve criticar a Câmara Municipal. Sobretudo sabe-se e sente-se que não se pode criticar o presidente da Câmara. Quem se atreve já percebeu que, regra geral, será insultado e vilipendiado de diversas formas:
· *Um deputado da Assembleia da República foi apelidado de “asno”;
· *Um vereador do PCP foi ‘detido’ e objeto de sistemáticas campanhas difamatórias;
· *Um vereador do PS foi “calado” em reunião de Câmara;
· *Um movimento de cidadãos independente é catalogado como sendo de “extrema-direita”….
· *Etc, etc, etc…
Se mesmo antes das eleições autárquicas de 2017 já se apontava para um preocupante déficit democrático no município, parece que o reforço da maioria PSD-CDS na Câmara - de cinco vereadores de oposição que existiam antes (em 2013-17) sobram agora apenas três neste quadriénio (quando dois dos eleitos pela lista do PS se “passaram” para a governação da coligação) – contribuiu para agravar a tendência totalitarista que vem sendo construída.
Algumas das consequências desta concentração no poder “único” estão a ser: (i) a perda crescente de sentido crítico; (ii) a vulgarização de um discurso autoritário e (iii) a gradual naturalização de mecanismos de repressão cuja manifestação pública ocorre no facebook e em blogues ‘anónimos’ criados para esse fim. 
Neste contexto, há dias surgiu a epítome da doutrinação em curso – a definição de como a direita gostaria que fosse o novo modus vivendi: #NÃO TENHA MEDO DE TER MEDO. Ou, dito de outro modo: Aceite o medo; Viva com medo. 
De facto, em conformidade com o legado de António Ferro, há quem em Cascais insista em: apenas isto: martelar constantemente as suas ideias, despi-las da sua rigidez, dar-lhes vida e calor, comunicá-las à multidão” pretendendo, com isso, excitar e mobilizar falanges para consolidar uma autocracia municipal que simboliza um projecto político-ideológico bem mais vasto – um projecto de retrocesso nacional.
Verifica-se que é uma triste hipocrisia que depois do presidente da Câmara “proibir” as comemorações do 25 de Abril, tenha “permitido” concentrações de trabalhadores (alguns sem máscara!) e de voluntários para ações de propaganda da Câmara, para depois dar eco a manifestações reacionárias contra o exemplar assinalar do 1º de Maio.
Na verdade, o novo slogan de naturalização do medo – por partede quem afirma não rege[r] a sua atuação em função dos interesses político-partidários (…)  e tão-pouco tem disponibilidade para entrar na "chicana" política em que alguns são useiros e vezeiros, quantas vezes ridiculamente escondidos atrás de árvores” (?!?!) - tem os seus antecedentes no apelo popular proferido pelo general Millan-Astray: Abaixo a inteligência! (que, comprovadamente, alguns parecem estar a cumprir …).
Urge responder: # COMBATER O MEDO, SEMPRE!     # A LUTA CONTINUA!
Nota: distanciamento social cumprido na fotografia de topo (verificou-se pela tv que todos tinham máscara por recomendação da organização); na foto de baixo do lado esquerdo as camionetas deslocaram-se com menos de metade da lotação (como recomendado pela organização). Na foto de baixo do lado direito vêem-se pessoas a passear, alguns em casal ou família. E então?! (parece que o único problema é encontrarem-se nas imediações da comemoração do 1º de Maio… se fosse uma acção de propaganda da CMC o Presidente da Câmara já consideraria admissível como se poderá constatar pelas fotos seguintes).
Nota: envio uma especial saudação a todas as equipas de limpeza urbana que asseguram a manutenção da salubridade pública. Junto-me aos apelos de que vos sejam fornecidos equipamentos de protecção individual adequados e que a organização dos serviços vos proporcione a possibilidade de cumprir com as normas de distanciamento social em contexto de trabalho.
 
Nota: em claro contraste com as equipas de limpeza urbana, os voluntários exibem máscaras (!) e não cumprem com a norma do distanciamento social. Pelo que parece para o Presidente da Câmara é aceitável que um conjunto significativo de voluntários se desloque em grupo compacto para entregar 2 sacos a uma família, mas por outro lado, critica aqueles que comparecem – organizada ou espontaneamente - na acção de defesa dos direitos dos trabalhadores deste 1º de Maio.  Outros artigos de TERESA GAGO
+Eu Comemoro! A Mim Não Proibes! 
*Os artigos de opinião publicados são da inteira responsabilidade dos seus autores e não exprimem, necessariamente, o ponto de vista de Cascais24.
 
 

Ver o original em "CASCAIS24" na seguinte ligação::

https://www.cascais24.pt/p/normal-0-21-false-false-false-pt-x-none_178.html

Duas espinhas na garganta, ainda assim

 

Com argumentos de defesa da saúde pública, a direita (mas não só a direita) atirou-se às comemorações do 25 de Abril e do Primeiro de Maio, classificando os promotores de irresponsáveis e de “darem um sinal errado” à população quando se pede a todos que fiquem em casa.


Pouco interessou aos críticos que as regras de afastamento físico fossem respeitadas em qualquer dos casos. Tal como não lhes interessa o facto de, todos os dias, milhares de trabalhadores que permanecem em actividade se acumulem em transportes públicos escassos e em locais de trabalho sem condições de segurança sanitária.

Obviamente, o propósito não era defender a saúde de ninguém, mas aproveitar o estado de emergência para diminuir as duas datas: precisamente por serem evocações, na sua origem, populares e que demarcam a fronteira com o regime fascista. Por muito simbólicas que as comemorações sejam hoje, elas são ainda a marca de um período da nossa história recente que a burguesia de uma forma geral, e a direita especialmente, gostariam de ver apagada.

No caso do 25 de Abril, o ataque dirigiu-se à Assembleia da República, sobretudo na pessoa do seu presidente — alimentando, ironicamente, a campanha, de longa data, de bota-abaixo do parlamento, que noutras circunstâncias toda a burguesia jura defender.

O CDS lançou-se mesmo num abaixo assinado contra as comemorações (absolutamente formais e iguais às que a AR sempre tem promovido) sem outro propósito que não fosse obter publicidade fácil na sua disputa de votos com a extrema-direita. Impossibilitados os desfiles populares de todos os anos, a direita quis, não satisfeita, apagar por completo a evocação da revolta dos Capitães e, sobretudo, do movimento popular que se lhe seguiu.

Se neste caso a disputa se deu entre pares parlamentares, no que toca ao Primeiro de Maio os visados foram claramente os trabalhadores e o movimento sindical. E, tendo a UGT optado pelo “tele-trabalho”, restou como alvo a CGTP. Os argumentos, repartidos entre o cinismo e a imbecilidade, foram desde as estafadas “razões sanitárias” até à afirmação de que os actos promovidos pela CGTP “não serviram para nada”, passando pela crítica da “falta de flexibilidade” da central sindical.

Mas o argumento talvez mais definidor do estado de espírito, inquieto, da burguesia portuguesa foi este: os actos públicos da CGTP foram “um desafio à autoridade do Estado” (*). O patronato — que clama por menos Estado quando os negócios correm de feição — exige agora o máximo de Estado para o salvar da falência. E como isso só pode ser feito à custa dos trabalhadores, é preciso que a “autoridade” do Estado se afirme desde já e a cada momento.

Todo este nervosismo por uma razão só: mesmo simbolicamente, o Primeiro de Maio foi assinalado e a situação dramática que milhões de trabalhadores e de pobres vivem sob o estado de emergência foi, ainda assim, trazida a lume.

Não, a calamidade sanitária não toca a todos por igual — e essa realidade precisa de ser posta em primeiro plano, para que sejam os próprios trabalhadores a assumir o combate às violências patronais que estão em curso sob o manto do estado de emergência. Violências que serão multiplicadas amanhã quando estiver à vista em toda a sua extensão a crise económica do capitalismo, nacional e internacional, e a crise social que ele arrasta consigo.

———

(*) Pedro Norton (RTP3, 1 de Maio). Membro do conselho de administração da Fundação Calouste Gulbenkian, comentador e colunista em TVs e jornais. Esteve ligado à banca de investimento, foi administrador da Sojornal e Impresa (Expresso e SIC).

Ver o original em 'Mudar de Vida' (clique aqui)

Aos meninos Rui Rios dos preconceitos e bem instalados

Quem esteve no primeiro de Maio  na Alameda , na avenida dos Aliados  e em muitas praças do nosso País foram homens e mulheres de trabalho , aqueles que Soeiro Pereira Gomes chamou os filhos dos homens que nunca foram meninos , representando muitos milhares de diversas classes e camadas sociais que com eles se identificam , na sua intervenção , nas suas aspirações e na sua luta e que não puderam estar presentes
Para os que gostariam que o Primeiro de Maio fosse  celebrado virtualmente , no sofá , à frente de um computador , tablet , smart phone ,…e que com os seus preconceitos , distanciamento de classe e alergia à ferrugem criticaram as celebrações da CGTP , sem sequer se darem ao trabalho de se informarem ou até desconhecendo o que aprovaram aqui fica uma súmula de respostas já publicadas
:
https://otempodascerejas2.blogspot.com

 

E o rapaz do 10 de 
Junho volta a atacar
Sobre tudo isto mas também a pensar nas pessoas respeitáveis que alinharam no incómodo e oposição à iniciativa da CGTP, aqui ficam  8 pazadas de cal:
 
– as celebrações do 1º de Maio estavam expressamente referidas como excepção no decreto (que Rui Rio aprovou) do estado de emergência o que protege explicitamente as deslocações inter-concelhos que a iniciativa englobou ;
– as iniciativas da CGTP foram acertadas ao pormenor com as autoridades de saúde e ninguém consegue invocar a mais pequena violação das regras de protecção e segurança recomendadas;
– os autocarros transportaram apenas 16 pessoas cada um com distribuição de gel desinfectante;
– como as imagens documentam, as filas de activistas (com máscaras) estavam distanciadas 5 metros e dentro de cada fila a distância era de 3 metros;
– os críticos da CGTP  que a este respeito falaram da «ordem» para estar em casa (JMT proclama mesmo absurdamente que «todos os portugueses  necessitam de permanecer em estrito confinamento doméstico» ) esquecem-se de que todos os dias centenas de milhares de trabalhadores saem de casa para ir trabalhar e muitas vezes em transportes públicos onde não há 3 metros de distância;
– estes mesmo críticos, tal como eu, quando andam nos passeios das nossas ruas e se cruzam com outros cidadãos não conseguem, em regra, manter uma distância de 3 metros;
– anoto que jamais verei J.M. Tavares e Rui Rio referirem-se a qualquer iniciativa da UGT associando-a ao PS e ao PSD;
– registo que J.M. Tavares, ao acenar com a compra pelo governo da paz social de que precisaria, mostra que 50 anos de vida da CGTP não lhe ensinaram nada sobre esta central sindical.
 
João Oliveira
Em resposta às crescentes críticas das bancadas da direita à celebração do Dia do Trabalhador pela Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses (CGTP) na Alameda, em Lisboa, o líder parlamentar do PCP, João Oliveira, lembrou o PSD e CDS que a aprovação do segundo decreto do estado de emergência já previa a realização das celebrações do 1.º de Maio e as deslocações entre concelhos, em virtude da comemoração da data. E destaca que os dois partidos votaram a favor dessa medida.
Numa publicação feita no seu Facebook, João Oliveira partilha o decreto de renovação do estado de emergência a 18 de Abril (e que agora termina) e os respectivos resultados da votação dos partidos. João Oliveira acusa os sociais-democratas e os centristas de “permanente incoerência”. 
 
 
“Tudo o que o PSD e o CDS digam agora contra o 1.º de Maio depois de terem votado a favor é só mais um contributo para descabelarem a sua verdadeira despreocupação com os problemas dos trabalhadores”, acusa o deputado do PCP. 
Do Facebook de Octávio Augusto uma boa lembrança
TSF 
Ministra admite celebrações do 13 de Maio em Fátima com”regras sanitárias”
 
 
 
 

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/05/03/aos-meninos-rui-rios-dos-preconceitos-e-bem-instalados/

Ela sabe do que fala


Paulo Portas é Vice-Presidente da Confederação de Comércio e Indústria de Portugal, para além de Presidente do Conselho Estratégico da Mota Engil para a América Latina. Desempenha também cargos de administração no board internacional de Petroleos de Mexico (Pemex) e faz ainda consultoria estratégica internacional de negócios, sendo para efeito founding partner da Vinciamo Consulting. Dá aulas de mestrado Geo Economics and International Relations na Universidade Nova e na Emirates Diplomatic Academy; dirige seminários sobre internacionalização e risco político para quadros de companhias multinacionais e é ainda presença frequente na televisão em comentários de política internacional e speaker da Thinking Heads em conferências. Foi ministro da Defesa, ministro dos Negócios Estrangeiros e Vice-Primeiro Ministro de Portugal.

Apresentação do “experto” Paulo Portas no sítio da Llorente&Cuenca, “a consultora líder na Gestão de Reputação, Comunicação e Assuntos Públicos em Portugal, Espanha e na América Latina”.

O pluralismo é inexistente na opinião em canal aberto, para milhões, onde a direita da facilitação de negócios domina, de Paulo Portas a Marques Mendes. E é tão desavergonhado esse domínio nos canais ditos privados. Algum pluralismo sobrevive envergonhadamente, para milhares, no cabo. E ninguém faz nada.

Enfim, aí vale sempre a pena atentar na opinião de Ana Gomes, aos domingos na SIC-N. Naturalmente, nem sempre estou de acordo com ela, em particular com o seu voluntarismo europeísta paralisante, mas valorizo uma coragem e frontalidade democráticas notáveis e que vêm de longe.

Ontem, questionada pelo jornalista sobre os apoios à comunicação social, escolheu, sobretudo, valorizar o serviço público, dando o exemplo da nossa excelente telescola, e denunciar o que apodou de lavagem de Paulo Portas, feita todos os dias na máquina da TVI.

Ela sabe do que fala.

 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Cassete

Ferraz da Costa01
 
Sente-se que há algo de trágico quando o presente é uma reencarnação multiplicada de tantos passados idênticos.

Foi do que lembrei quando reparei nestas primeiras imagens com 40 anos de idade. Para lá da idade escandalosamente jovem daquele viria a ser um dos dirigentes mais conhecido dos empresários nacionais, se nota já a pressão para o desmantelamento do papel do Estado, em proveito de um papel mais vigoroso da iniciativa privada supostamente no desenvolvimento do país. 

E destas outras com 26 anos de idade. Em que o mesmo dirigente, um pouco mais velho mas com a mesma frontal e sincera convicção, exerce a naturalpressão da iniciativa privada para obter uns favores do Estado - flexibilidade na legislação laboral e participação nos impostos - que compensem os aumentos dos salários da sua mão-de-obra. De outra forma, que interesse teria a iniciativa privadaem partilhar os rendimentos gerados na actividade?

Por certo, conhecemos declarações mais recentes em que esta cassete tem sido proferida e até com bons resultados. Por isso tem sido repetida ao longo de 40 anos. Mas voltando à primeira gravação, podemos questionar-nos como foi que esta iniciativa privada contribuiu para o desenvolvimento do país quando as mesmas questões são suscitadas década após década e, afinal, nos encontramos - 40 anos depois - numa situação de grande melindre do ponto de vista da estratégia produtiva nacional, na qual reinam os baixos rendimentos salariais e que se arriscam a assim permanecerem quando se avizinha uma subida rápida do desemprego que essa estratégia nacional serve para a agravar.

Para que serviu todo este discurso feito desde há mais de 40 anos?

(Pode encontrar aqui muitas mais imagens de Pedro Ferraz da Costa)

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Vem aí um novo disco rachado

E, pronto, já cansados
da polémica sobre o
25 de Abril, agora
voltam-se para o 1º de Maio

 
Quem assim escreve fala do que não sabe e prefere a especulação à informação responsável e fidedigna. E sobretudo omite que a CGTP já declarou em 14 de Abril o seguinte : «Esta Jornada Nacional de Luta terá um vasto conjunto de componentes de informação, denúncia e reivindicação, nos locais de trabalho e nas ruas, com muito ampla divulgação digital.E, não sendo possível realizar as manifestações e concentrações que juntariam muitos milhares de trabalhadores em todo o País, iremos dar expressão à indignação, protesto e reivindicações dos trabalhadores nas mais diversas formas. Estaremos na rua, garantindo as necessárias medidas de protecção e distanciamento.»
E não é preciso ser muito criativo para imaginar que tipo de acções poderá a CGTP organizar que respeitem aquele seu compromisso solene e que certamente serão em concreto divulgadas até ao 1º de maio já que ainda faltam oito dias. Não se afobem nem enervem.

 

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

COVID – Portas. Por Carlos Matos Gomes

 85 Covid Portas

Obrigado a Carlos Matos Gomes e à Associação 25 de Abril na pessoa de Vasco Lourenço, por autorizarem a publicação deste texto

Carlos de Matos Gomes

 Por Carlos Matos Gomes

Publicado por Jornal Tornado em 18/04/2020 (ver aqui)

Divulgado por Associacao 25Abril em 21/04/2020

O COVID é um vírus múltiplo – em termos de saúde é um vírus que afeta os sistemas respiratórios das pessoas, mas ele é também um vírus político. É, principalmente, um vírus político! Os detentores do poder perceberam desde o início o potencial político do vírus enquanto instrumento de manipulação política. Não há inocentes nem gente de boa vontade atrás dos ecrãs das televisões!

 

O vírus é hoje a matéria-prima da manipulação política. Os doentes são simultaneamente as munições e a carne para canhão. É de uma guerra de manipulação que se trata quando surgem “peças” jornalísticas sobre a pandemia. Os números que nos despejam sobre infetados, testados, internados, ligados aos ventiladores, acamados, domicializados, curados, mortos e ressuscitados são idênticos aos das descrições da invasão do Iraque pelos “jornalistas” embed, introduzidos nas unidades americanas, para manipularem a realidade, ou do ministro da propaganda de Saddam. Somos submersos por nuvens de números, deliberadamente. Numa guerra a primeira vítima é a verdade. Paulo Portas comprova.

O vírus COVID 19 é um pretexto para fazer política, política dura, no coração da ideologia.

Ouvir o Paulo Portas na TVI, num programa a que os manipuladores (especialistas em condicionamento da opinião) deram o título dramático de «Estado da Emergência» é aceder a uma lição à distância retirada de um manual de alta vigarice e ministrada por um catedrático. Portas é um manipulador de alto bordo. Chapeau ao Paulo Portas e a quem o contratou, ou a quem conseguiu que ele fosse contratado. Presumo que tenha sido avençado através da organização do “alma negra” do Steve Bannon, porque tenho visto várias réplicas de Paulo Portas (embora nenhuma tão talentosa) até com quadros idênticos, no zapping que faço pelas TV estrangeiras.

Qual é o problema que uma pandemia coloca em termos políticos? A capacidade de um dado Estado, dos seus políticos, dos seus serviços responderem aos efeitos da pandemia, mortos, destruição de bens, de empresas, de modos de vida, de vidas em termos individuais, de laços de família, de economias, de prioridades políticas e sociais. Uma pandemia coloca em causa a ideologia de uma sociedade e de um Estado.

O que fazem Paulo Portas e os manipuladores da sua estirpe? Numa primeira fase deslocam o foco da análise da organização da sociedade para o descritivismo da situação e, numa segunda, a que agora começa, criam culpados exteriores, a velha figura do bode expiatório. O objetivo é manter o essencial das posições anteriores, as relações de dependência, o statu quo!

A ideologia dominante imposta pela potência dominante desde a parelha Reagan-Tatcher é a do neoliberalismo, do Estado mínimo para os cidadãos e máximo para os grandes empresários que vivem à custa do Estado. A ideologia dominante, dita liberal, é que tudo, mas tudo, da saúde à terra de cultivo, da paisagem à poesia, do ar à água, da ciência à paz, da morte às almas penadas, tudo é mercado, tudo é privado, tudo é negócio, tudo é mercadoria. A saúde, a doença, a velhice, a habitação, o ensino, a vida, os sentimentos, estão no mercado.

Ora, uma pandemia coloca em causa o mercado. O vírus faz o trabalho descrito no Novo Testamento da Bíblia do episódio de Cristo a expulsar os vendilhões do templo. O vírus é o azorre de Cristo jovem a zurzir os tendeiros, a virar mesas de cambistas e especuladores. Paulo Portas desempenha o papel do sacerdote da velha ordem que nos vem dizer diariamente que sem vendilhões não há templo e que os compradores gritam vivas e Hossanas aos descendentes do rei David que lhe trocam moedas gregas por romanas!

Paulo Portas é o deputado dos vendilhões para classes superiores (outros e outras dedicam-se às classe baixas), garante-lhes que pagando o dízimo e a dívida o vírus vai bater à porta dos infiéis. Mas ele é, e convém recordar, o vidente, juntamente com Durão Barroso, que viu as armas de destruição em massa de Saddam Hussein, que justificaram a invasão do Iraque. Ele é o amigo de Donald Rumsfeld, o ministro dos negócios estrangeiros do regime de Bush filho e de de Dick Cheney o Vice Presidente (vejam o filme Vice), dois dos maiores escroques mundiais, os longa manus, como os romanos referiam os homens de mão, os assassinos que cometiam crimes a soldo, neste caso a soldo dos grandes interesses do complexo militar industrial e dos comerciantes de petróleo americanos. Portas é um lobista, um mestre lobista, desses interesses em Portugal. Tudo o que diz nos ecrãs deve ser lido a esta luz: ele está a vender uma mensagem. Está no templo da manipulação a vender armas de destruição em massa como em 2003 ao serviço de Bush e de Blair.

Que areia nos atira Portas aos olhos? Números de infetados e, desde há dias, a narrativa americana da origem do vírus e dos culpados pela epidemia, exatamente pela mesma sequência de Trump: o vírus é chinês (origem do mal), os chineses donos do vírus atrasaram a comunicação da amplitude da pandemia (o inimigo é mau e insidioso) e a incapacidade da OMS de lidar coma situação (o bode expiatório). O fascinante das suas pregações evangélicas na TVI – de que sou atento espetador – é a capacidade de convencimento que ele consegue, sendo muito mais eficaz, em termos de difusão e mortalidade, do que o COVID 19.

As predicas de Paulo Portas sobre a pandemia assentam na falácia de que o problema de uma guerra é o inimigo. Na realidade o problema da guerra são as nossas tropas. São estas que têm de vencer a guerra. Um velho cabo de forcados – Manuel Faia, dos profissionais de Vila Nova da Barquinha, a terra onde nasci e de que tanto gosto – afirmava que os toiros se pegam como saem dos curros. O general Patton, herói americano da Segunda Guerra Mundial, afirmava não querer que os seus soldados morressem pela sua Pátria, mas que fizessem o inimigo morrer pela Pátria deles. Paulo Portas, como Donald Trump, entende que a América estava bem – por isso não se preparou para a guerra -, os inimigos é que são maus, very bad! Paulo Portas foi ministro da Defesa de Portugal!

Não é estúpido, nem ignorante, é apenas um eficaz e despudorado manipulador. Estúpidos são os que acreditam que ele lhes fala da epidemia de modo sério e para ajudar a ultrapassá-la. Ele está na TVI a aproveitá-la e a controlar os danos na imagem dos EUA enquanto potência imperial e das teorias do Estado mínimo! A pandemia do coronavírus revelou que o Estado mínimo, neoliberal, que substituiu o welfare state, não responde às necessidades de segurança e bem-estar dos seus cidadãos. É um Estado de oligarcas, corrupto, desigual, ineficiente, exceto para desenvolver negócios com saúde e armamento. Logo, há que vender a tese da maldade do inimigo (é da natureza do inimigo ser mau, ou não?) e do bode expiatório. É o que Paulo Portas, de fatinho e gráficos em Power Point faz e bem!

Jamais Paulo Portas referiu as fragilidades (morbilidades, para usar um termo da época) dos sistemas de saúde e segurança social americano para a maioria da população, os 40 milhões sem seguro de saúde e a trabalhar ao negro. Em termos de apoio social à maioria da população, os EUA estão ao nível de muitos países do Terceiro Mundo! Jamais Paulo Portas referiu a percentagem de afroamericanos mortos e infetados (nem de hispânicos), nem de sem abrigo enterrados em valas comuns! Mas todos vimos os seus magníficos gráficos (elaborados e fornecidos por quem, sendo do domínio público que Portas é um analfabeto informático?) sobre as datas de entrada em vigor de medidas de contenção, de confinamento, de resposta.

Através de Portas sabemos tudo sobre a pandemia, exceto a razão pela qual aqueles que ele defende diariamente (os que também estão em Estado de Emergência em Washington, ou Londres) não construíram uma sociedade minimamente eficaz (já não falamos em justiça) que tenha aplicado parte da sua imensa riqueza na defesa da saúde e do apoio social aos seus cidadãos, mas que construiu e paga a mais evoluída panóplia de armas do planeta e está em guerra em metade do mundo!

O Portas é um ilusionista e nós somos o seu iludido e anestesiado público!

 

____________________

O autor: Carlos Matos Gomes, Militar, investigador de história contemporânea, escritor com o pseudónimo Carlos Vale Ferraz.

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/04/22/covid-portas-por-carlos-matos-gomes/

Os sonhos de quem não se conforma com a sua condição minoritária

Nas redes sociais não faltam ingénuos elogios à carta enviada por Rui Rio aos militantes do PSD instando-os a portarem-se «patrioticamente» neste momento difícil na vida dos portugueses, escusando-se a criticarem as políticas governamentais.

 

Até lhe poderíamos dar o benefício da dúvida se não lhe recordássemos muitos comportamentos autocráticos e de lesa cultura enquanto foi presidente da câmara do Porto ou, sobretudo, se tivéssemos memória curta em relação ao ignóbil aproveitamento por ele feito há pouco mais de meio ano, quando utilizou oportunisticamente o caso Tancos depois de afiançar não o fazer, só por lhe parecer propícia a oportunidade de pôr em causa a integridade de quem governa. Daí que nos questionemos com fundamento quanto à sinceridade do seu propósito, a que aliás os autarcas e bastonários do seu partido fazem orelhas moucas. Porventura por saberem bem demais o que se esconde por trás da hipocrisia da sua pública solicitação. Questionemo-nos, aliás, quanto à razão de publicitar um documento destinado apenas aos seus militantes!

 

Numa altura em que uma expressiva maioria dos portugueses manifesta agrado com a resposta governamental à crise causada pelocovid 19, Rio segue o provérbio popular“se não podes com eles, junta-te a eles”.Porventura esperançado que uma luzinha ao fundo do túnel se abra para a esdrúxula ideia de Martim Silva debitada nas páginas do «Expresso», quanto à imediata tomada de posse de Rio como vice-primeiro-ministro de um governo de bloco central.

 

Azar de ambos: os sonhos molhados que possam alimentar esbarram com a vontade dos eleitores, que preferem convergências à esquerda do que alianças espúrias à direita.
 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2020/04/os-sonhos-de-quem-nao-se-conforma-com.html

Portugal | O RUÍDO EMITIDO POR MÉDICOS ALARANJADOS

 
 
Jorge Rocha* | opinião
 
O combate eficiente ao covid 19 em Portugal merece elogios da imprensa internacional pela forma como as autoridades de saúde portuguesas têm lidado com o problema, mas cria indisfarçável nervosismo nos setores das direitas ideológicas, que adivinham os riscos de deixarem o governo socialista colher os frutos da sua inequívoca competência. As sondagens confirmam-no e, sem alternativa, Rui Rio esforça-se por afixar uma máscara de moderação depressa abandonada tão só a oportunidade suscitada por alguns dos seus apaniguados lhe deem ensejo.
 
Nos últimos dias já vimos autarcas laranja a acusarem o governo de instituírem a lei da rolha a propósito de informações, que desejariam ter, mas só fazem sentido a quem delas fizer uso global ou científico. Quem é o general que, no meio de uma batalha, partilha com os sargentos e os cabos as informações dos seus serviços militares?
 
Ouvimos provedores das santas casas da misericórdia a exigirem apoios, que deveriam há muito estar previstos pelos seus planos de contingência, provavelmente inexistentes, por sempre se focalizarem nos lucros propiciados pela soma das contribuições das famílias dos que abrigam e dos apoios estatais.
 
Agora voltamos a ter alguns médicos, manifestamente capitaneados pelos militantes do PSD, que exigem ao governo aquilo que sabem-no incapaz de garantir nesta fase por ser manifesta a sua carência nos mercados internacionais: o uso universal de máscaras de proteção.
 
Não se estranha que ouçamos esta manhã o Marta Soares dos médicos - esse tal Roque da Cunha, candidato laranja à Câmara da Amadora, que se serve do Sindicato Independente dos Médicos como plataforma de permanente militantismo político antigoverno - a perorar a tal respeito.
 
Seria desejável que todos dispusessem desse equipamento de proteção? Provavelmente sim.
 
É exequível cumprir esse desejo, quando se conhecem as inqualificáveis tentativas norte-americanas em desviar para o seu território as encomendas feitas atempadamente por outros países, inflacionando os preços na origem? Não.
 
Têm bastado as medidas orientadoras da Direção Geral da Saúde, e cumpridas por quase todos os portugueses, para reduzir a progressão da doença a 3 ou 4% por dia e com limitado número de mortos comparativamente a quase todos os países ocidentais? Sim!
 
Pode-se constatar que o sentido de responsabilidade, decididamente neles inexistente, exigiria de Roque da Cunha e do seu comparsa bastonário, um recato, que os poupasse à demonstração pública da sua falta de escrúpulos. Sobretudo quando nesta circunstância difícil para a maioria da população, as suas provocações não passam de mero ruído.
 
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/04/portugal-o-ruido-emitido-por-medicos.html

A competência de Centeno face à mediocridade de uma assombração

Sabemos que o acordo no Eurogrupo, conseguido nesta quinta-feira, ainda não é aquele que as circunstâncias justificariam, nem o que se esperaria de uma União Europeia disposta a potenciar-se como projeto alternativo ao das grandes potências rivais, EUA ou China. Mas, na substância, significam apoios não despiciendos para responder à crise económica herdada da presente situação de emergência sanitária. E para que tal tenha sucedido importa valorizar o papel de Mário Centeno, uma vez mais providencial na conjugação de vontades de forma a que o objetivo prioritário se alcançasse. E com um esforço extraordinário como se comprova nas cavadas olheiras, que se reinstalaram no rosto, quando, finalmente, leu o comunicado final da reunião de ontem.

 

Esta constatação ocorre numa altura em que, por dias seguidos, vi as televisões apelarem a Durão Barroso para comentar os atuais acontecimentos. Manifestamente persiste nessesmediauma corrente direitista ansiosa em enaltecer o potencial presidenciável de tal figurão como se dele pudéssemos reter um argumentozinho, mesmo que mínimo, em que tivesse feito algo em prol dos portugueses.

 

Não esqueçamos que, tão só chegado a primeiro-ministro, graças ao sucesso das táticas demolidoras das direitas instaladas na comunicação social quando os socialistas estão no governo, assustou-se com a responsabilidade do cargo e cuidou de fugir para Bruxelas. Confortável no papel de mordomo de Bush e Blair na cimeira das Lajes, concluiu que a presidência da Comissão Europeia não lhe permitiria repetir essa função, mas também não lhe ficaria mal a de amanuense de quem nela mandava por lhe exigiram tão escassas competências. Não esqueçamos este facto relevante: Durão Barroso preencheu essas funções entre 2004 e 2014 com a mesma mediocridade e sem cumprir o que prometera na hora da partida: que em Bruxelas seria inestimável apoio aos portugueses, cujos interesses sempre defenderia. Veio a crise de 2008, que não soube contrariar por ser-lhe inacessível um pensamento estratégico digno desse nome, e os portugueses foram sujeitos ao violentíssimo programa da troika a partir de 2011 até cessar funções o governo, que queria ir além das correspondentes exigências. Sentiu-se algum benefício da «presidência» de Durão Barroso nesse período? Nem um, enquanto os malefícios foram mais do que muitos.

 

É por isso que vê-lo nas televisões, a perorar banalidades, justifica emotiva indignação. Porque o mínimo que Durão Barroso deveria fazer, demonstrada tão incurável mediocridade, era silenciar-se nousufruto das mordomias dadas por quem lhas faculta. Desde a sua substituição por Juncker ele tem recolhido os prémios de ter sido um verbo de encher enquanto, à pála da Comissão Europeia, os lucros dasgrandes financeiras subiram estratosfericamente. Por cá ele deverá sempre sentir o receio de repetirem-se as cenas vividas há meia dúzia de anos quando quis ir ao Teatro Municipal de Almada e teve de fugir a sete pés por haver quem tivesse vontade de lhe chegar a roupa ao pelo.

 

É perante tão lamentável exemplo, que a figura de Mário Centeno pode e deve ser enaltecida: genuinamente tem feito quanto está ao seu alcance para defender os interesses nacionais perante um grupo de ministros das Finanças, apostados em prejudicarem-nos. E se não tem conseguido o ótimo vai fazendo os possíveis para alcançar o que, a cada momento, se revela exequível.

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2020/04/a-competencia-de-centeno-face.html

Os reaças continuam ativos entre nós

Já o tenho aqui escrito, mas vale a pena reiterar o que se pode concluir do ouvido de algumas criaturas nestes últimos dias: as nossas direitas ideológicas têm uma tal falta de imaginação, que não veem outra alternativa senão a de reciclarem argumentos metralhados repetidamente noutras ocasiões. Agora foi o diretor do «Expresso» a dar o mote: para ele os funcionários públicos deveriam sofrer cortes nos salários, já que existem tantos trabalhadores emlay-off ou mesmo desempregados. E Daniel Bessa - aquela aventesma nortenha de quem a direita gosta tanto de repetir ter pertencido, mesmo que efemeramente, a um governo de António Guterres (o que só comprova as limitações do atual secretário-geral da ONU nos tempos em que foi primeiro-ministro!- vem relançar o tema da “peste grisalha” sugerindo que os países do Norte só acedam à facilitação do financiamento à economia portuguesa nos próximos tempos se os pensionistas levarem violento corte nos rendimentos.

 

Seria pelo menos interessante ver as direitas adornarem-se de argumentos e táticas novas, mas a sua mediocridade é tal, que se contentam em fomentar os ódiozinhos entre trabalhadores do setor privado versus setor público ou das gerações mais novas relativamente às mais maduras. Porque sabem os perigos que existem quando os trabalhadores se unem, independentemente de quem têm como patrões, ou quando novos e velhos se põem a desejar aquilo que o poeta Aleixo designou como um “mundo novo a sério”.

 

Nestas primeiras tentativas, nem o Vieira Pereira do «Expresso» nem o Bessa conseguiram grande eco das suas palavras. Pelo contrário logo se levantou um clamor dos que bradam contra o regresso das intenções espúrias de tão desafinados bardos. Mas deveremos estar atentos, porque eles não desistirão à primeira, logo voltarão quando julgarem mais propícia a ocasião para reiterarem o que agora só lhes terá servido de teste apara aferir a reação. Como se dizia nos tempos subsequentes à Revolução de Abril convirá estar atentos, porque osreaças continuam ativos entre nós.

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2020/04/os-reacas-continuam-ativos-entre-nos.html

Lay-off na função pública? Oportunismo e má economia

Com o emergir das crises, há sempre quem acorra ao espaço público para virar as principais vítimas da recessão económica contra si mesmas, explorando os preconceitos instalados na sociedade. Foi assim na anterior crise quando se tentou virar os velhos contra os novos, argumentando que tinham sido os privilégios dos primeiros a criar a crise que os segundos teriam de pagar. E foi assim também com a tentativa de estimular a hostilidade entre os trabalhadores do público e do privado, sugerindo que tinha sido a generosidade salarial dos funcionários públicos a causar a crise da dívida pública que lançou centenas de milhares de trabalhadores do setor privado para o desemprego. Ingrediente necessário ao exercício é sempre uma pinga de moralidade de algibeira, explicando que isto não é preconceito, mas sim justiça. O seu formulador tem sempre a melhor das intenções. Este artifício é guiado por dois fatores não mutuamente exclusivos. O preconceito do próprio autor, que apenas escolhe o ambiente mais favorável para o disseminar; e a tática política dos que sabem que enquanto as vítimas lutarem entre si não mobilizam esforços para detetar e combater a verdadeira raiz do problema. O mais recente protagonista da manobra é Pedro Pires Rosa, ex-Presidente da concelhia de Aveiro do Partido Socialista, em artigo de opinião no Público (aqui). Pires Rosa defende que os funcionários públicos sem atividade necessária neste período também deveriam ser colocados em lay-off, recebendo dois terços do seu salário. O verdadeiro artista precisa sempre de um bom número e Pires Rosa presenteia-nos com dois truques dignos de ilusionista: o primeiro (pouco original nestes exercícios) é que seria mais justo. Se os trabalhadores do privado considerados excedentários são colocados em lay-off e têm um corte no salário, os funcionários públicos deveriam fazer o mesmo, partilhando o sacrifício e poupando recursos ao Estado tão necessários neste momento. O segundo é a inevitabilidade. Pires Rosa é concludente ao afirmar que o corte no salário dos funcionários públicos será inevitável após a crise sanitária, porque o Estado terá de pagar os custos em que agora está a incorrer. Tudo neste raciocínio é errado. Vejamos porquê. Pires Rosa acha que seria importante os funcionários públicos participarem no esforço de combate à crise, fazendo o Estado poupar recursos não lhes pagando parte do seu salário. No raciocínio do autor trata-se de lógica elementar, porque poupar no pagamento de salários permite ao Estado guardar mais dinheiro no seu cofre (imagino que seja com esta imagem que Pires Rosa olhe as finanças públicas). É nesse momento que temos de repetir devagar e pedagogicamente aquilo que nunca nos devemos cansar de repetir: a economia de um Estado não funciona como a economia familiar. Porquê? Porque para uma família o seu rendimento é invariante em relação às decisões de poupança. Se um agregado familiar tiver um rendimento de 1000€ e decidir poupar 250€, conseguirá concretizar a sua decisão, consumindo 750€ e poupando 250€. Se decidir aumentar a sua poupança para 350€, também não verá a sua intenção frustrada. Consumirá 650€ e poupará os 350€ pretendidos. Com um Estado é diferente. Porquê? Porque o rendimento de um Estado (o seu PIB) não é invariante em relação às ações de consumo/poupança dos seus agentes. A diminuição do consumo por parte dos agentes económicos (porque ficam privados do seu salário, por exemplo) vai diminuir o rendimento da economia (assumindo que o investimento e as exportações não compensam essa diminuição, mas neste momento ninguém considera isso um mecanismo razoável). Menos salário significa mais redução do consumo, que significa menos rendimento e menos receita fiscal. Em resumo: em contexto de profunda recessão, qualquer dinheiro que o Estado poupe com os salários dos seus funcionários públicos, será mais do que compensado pela perda de receita fiscal em consequência do aprofundar da espiral recessiva causada pelos cortes salariais. É uma estratégia que vai contra o objetivo que diz perseguir. Para além da fundamental dimensão social, é por isso que os mecanismos que evitam a perda de empregos e rendimentos são tão importantes neste momento. Pode-se discutir se o lay-off é ou não o melhor instrumento, mas uma medida que salvaguarde o rendimento da maioria dos trabalhadores é essencial como básico mecanismo de gestão macroeconómica. O objetivo neste momento é evitar qualquer perda de salários que agrave a diminuição da procura privada. O que Pires Rosa defende é totalmente contraproducente. O argumento da inevitabilidade dos cortes salariais dos funcionários públicos é tão intelectualmente desonesto que é difícil de levar a sério. Mas continuemos a pedagogia. A recessão que enfrentamos a par da despesa necessária para fazer face à crise são de tal ordem que não será possível pagar a dívida pública no futuro com o aumento de excedentes orçamentais sem causar uma enorme crise de procura, com desemprego e cortes de rendimentos massivos. Economistas de diferentes proveniências ideológicas estão de acordo que esse não pode ser o caminho (ver, como exemplo, a discussão aqui, aqui e aqui). Só no contexto da zona euro, em função do seu deficiente desenho e dos impasses que se deixou encurralar, esta hipótese continua em cima da mesa. A zona euro teria todos os mecanismos para ultrapassar esta crise de forma indolor e sem sofrimento social, caso se mostrasse disponível a tomar as medidas necessárias no quadro do BCE (ver links acima). Talvez Pires Rosa não saiba disto. Ou talvez saiba e considere que o discurso da inevitabilidade da austeridade lhe é útil. Seja qual for a hipótese, o conteúdo do seu artigo é lamentável. Manobrar o ressentimento entre as vítimas em proveito próprio é sempre um exercício reles.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

A dialética entre a grandeza e a vilania

Não sei se foi no mesmo dia que a muito admirada entrevista com Ramalho Eanes coincidiu com a mais recente ímpeto de Isilda Pegado, mas a contradição é por demais obvia: de um lado a grandeza de quem sabe ter vivido dias plenos e não se importa de ceder a prioridade a quem ainda muitos tenha para viver. Do outro uma oportunista do mesmo cariz que o Ventura e que quer aproveitar as circunstâncias para fazer a Assembleia da República recuar na questão da eutanásia.

 

É caso para considerar que um país tem tais contrastes: de um lado a honradez e dignidade dos que se contam entre os seus melhores. Do outro a obscena sordidez de quem não mete parêntesis nos imorais preconceitos quando o país está a contas com uma crise de tal monta.

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2020/04/a-dialetica-entre-grandeza-e-vilania.html

Uns trabalham esforçadamente, outros apenas dizem mal

No dia em que a imprensa internacional, mormente a francesa, reconhece a capacidade do governo português em conter a crise de saúde pública numa dimensão, que outros Estados não conseguem, e em que começa a ação de testagem dos doentes dos lares de norte a sul do país para os acautelarem preventivamente da propagação do vírus, os suspeitos do costume encontraram outras táticas para porem em causa o bom trabalho executado.

 

Governo de Salvação Nacional, exigem uns, particularmente representados pela equipa de jornalistas da RTP, cujo subdiretor quase obrigou Rui Rio a associar-se à proposta de José Miguel Júdice proclamada na SIC nos dias anteriores. O presidente do PSD tentou chutar para canto, mas a seleção das suas palavras tornaram-no falaciosamente paladino dessa solução, ambicionada por alguns setores das direitas como forma de associar-se oportunisticamente ao que as sondagens aferem ser um apoio inquestionável dos portugueses à gestão da crise.
Igualmente da televisão estatal vem o ataque insidioso e continuado à diretora-geral da Saúde, drª Graça Freitas, não só através das perguntas diariamente feitas pelos «jornalistas» destacados para a ocasião, como também pelo tom geral das notícias em que há até umpivota querer dar-se ares de importância mandando calá-la. Se da TVI e da CMTV podemos esperar o que só pode explicar-se por quem manda nas suas direções de (des)informação, a televisão pública continua a ser altifalante apostado em criar ruído contra o governo.

 

Que Rui Moreira esteja na primeira linha do combate contra uma notável personalidade, que se tem revelado incansável no bem sucedido combate à crise, não causa surpresa: sem tanto folclore quanto o protagonizado por Alberto João Jardim na Madeira, o autarca do Porto não abdica de um populismo regionalista, que consegue iludir quem nele vota, porque mantém recalcados complexos de inferioridade em relação à capital, mas nenhum contributo positivo dá ao interesse nacional. Já menos se compreende que a ele se associem autarcas socialistas da área metropolitana do Porto, nomeadamente o de Gaia, que parece sempre eivado do despeito de em tempos ter sido derrotado no seu entusiástico apoio a António José Seguro, não perdendo a oportunidade para dar caneladas no governo sempre que o ensejo se lhe proporciona.

 

E há também a imprensa escrita. Deixei definitivamente de comprar o Expresso, quando passou a ter por diretor um fanático antissocialista, que prometia, e tanto quanto sei, cumpriu, uma deriva do jornal ainda mais para a direita. Mas ainda me chega o Expresso Curto, newsletter diária com o resumo do que se publica na versão paga. Hoje quem a assina é Elisabete Miranda, que impressiona quanto ao afã como seleciona da realidade tudo o que apresenta como negativo e nada equilibra com o reconhecimento do que de muito positivo se anda a implementar. Esta edição deveria servir de exemplo nas escolas de jornalismo quanto ao que corresponde a uma flagrante violação dos deveres deontológicos da classe quanto à objetividade e isenção do que publicam. Porque raramente deparamos com um texto aparentemente serio, que mascara uma tão grosseira intenção de criticar só pela vontade de depreciar quem muito anda a esforçar-se para que os portugueses vençam esta crise.

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2020/03/uns-trabalham-esforcadamente-outros.html

Os esquecimentos de Rui Rio e a Vichyssoise de Marcelo

Um Governo de salvação nacional após a crise?

Há quem passados estes anos de continua devoção aos constrangimentos do euro e da UE , só se pergunte  agora para que serve esta “Europa” que não consegue uma intervenção solidária digna desse nome . 


Só agora se interrogam mesmo depois de se verificar que desde  que aderimos ao euro o nosso crescimento médio anual é de estagnação , não chega a,1% ; mesmo depois de verificarem como a UE nos tratou na crise de 2008/2009 , e como tratou os pequenos países como a Grécia ; mesmo depois de verem como nos “impuseram ” soluções em relação ao Banif e ao  financiamento  da Caixa .
Rui Rio que gosta de exibir os seus conhecimentos de alemão (germanófilo ?) disse em entrevista recente que também temos de entender ( a recusa) os outros que no passado não se endividaram enquanto outros , como nós,  o fizeram.
Esquece que o Euro como foi talhado e com a sua cotação beneficiou sobretudo a Alemanha e os países da sua orbita . Esquece que entregámos a soberania monetária ao Directório das grandes potências , esquece que antes da crise de 2007/2009 Portugal tinha uma dívida pública e dívida pública externa em % do PIB praticamente igual á da Alemanha e da França e que se financiava a taxas de juro iguais a estes países. Esquece que só depois da crise, quando a UE  deu primeiro indicações para que se aumentasse a despesa e depois o BCE do inefável sr Trichet  ter  deixado cada país nas mãos da especulação e da agiotagem da banca  é que a dívida publica disparou. E isto independentemente dos erros e da política de mãos largas de Sócrates para com a banca , o capital financeiro e os grandes senhores do dinheiro. 
Esquece  também o autoritarismo das instituições da UE para com os pequenos países , mas devia lembrar -se pois reconheceu-o no seu artigo de 4 de abril de 2017 , “So nicht , meine herren ( Assim não meus senhores ) “.https://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/convidados/so-nicht-meine-herren-assim-nao-meus-senhores-5768462.html
Embora a emissão , nesta conjuntura , de dívida conjunta – Corona Bónus – não resolva os problemas , solução, muito menos eficaz  do que se houvesse a monetização da dívida , compra directa do BCE da divida emitida pelos Estados , a verdade é que seria uma boa ajuda designadamente para o pós crise .
A razão por que os países do Norte se opõem , não tem a ver, no essencial, com o passado dos países do Sul  mas apenas com o egoísmo nacional e com o facto de não querem alterar regras estúpidas , ditadas pelo capital financeiro e as elites do dinheiro nesses países .
No caso de emissão de dívida comum os mercados (bancos , seguros, fundos…) tinham muito mais dificuldade de especularem e de ganharem com essa especulação. Os juros da dívida seriam significativamente menores para a maioria dos países da UE e ligeiramente maiores para a Alemanha , Austria , Holanda e Finlândia .
Mas os ditos valores da solidariedade, da coesão económica e social, do nivelamento por cima doa salários e prestações sociais nunca passaram de meros floreados de  discursos de circunstância e de crenças de euro-devotos .
As elites do dinheiro , no seu egoísmo,estão assustadas , temem que mesmo com esta solução governativa não consigam passar a factura do pós crise para o povo como o fizeram com  o governo de Passos Coelho / Portas e que tenham de pagar uma parte desta.
Por isso a defesa de Rui Rio numa postura patriótica e de aparente desinteresse , de um governo de salvação nacional.
A CIP e o grande capital   manobram nesse sentido e têm no das selfies um aliado , que em todos os discursos nos fala da necessária unidade …
Não temos muitas dúvidas de que o artigo de 22 de Março no “Sol” com o título ” Marcelo já trabalha para formar governo de Salvação Nacional ”  foi soprado de Belém e a escolha do “Sol” onde estão os amigos do Presidente , do ex -Expresso terá sido para não tornar a origem da noticia tão evidente e o tema tão central ,  como seria se tivesse sido divulgado, nessa data , por Marques Mendes ou por um Expresso , ou Publico.https://sol.sapo.pt/artigo/690005/opiniao-presidente-marcelo-ja-trabalha-para-formar-um-governo-de-salvacao-nacional-com-costa-e-rio-
 Para já o barro foi atirado à parede, numa “fuga programada “..para que a ideia vá passando e vá fazendo caminho.
 De Belém não há ponto sem nó , nem que seja necessário servir uma Vichyssoise !



Via: FOICEBOOK https://bit.ly/3dLEav9

 

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/03/31/os-esquecimentos-de-rui-rio-e-a-vichyssoise-de-marcelo/

A propósito de "disgusting"...

... nunca se esqueçam dos seus embaixadores nacionais. De todos aqueles, que nos mais destacados lugares da nossa hierarquia política, pugnaram por ideias que - vá se lá saber como - acabaram por os beneficiar pessoal e individualmente. Hoje o grande embaixador é... Manuel Dias Loureiro:
Há um provérbio de que gosto muito, que diz: Quando o vento sopra forte, alguns abrigam-se, outros constroem moinhos. Não há dúvida de que o vento sopra forte. Sopra forte no mundo e sopra forte em Portugal. No caso do nosso país, para não falar de outros aspectos, sopra forte nas contas públicas, que só com enorme esforço estão a ser controladas; Sopra forte no sobreendividamento das famílias, das empresas e do Estado; Sopra forte na dimensão assustadora do nosso défice corrente que, na União Europeia, só encontra paralelo na Itália do Sul e no Leste da Alemanha e que está muito acima do défice de países que não têm, de momento, qualquer hipótese de sonhar com níveis de vida desenvolvidos. Com uma enorme diferença: enquanto o Norte de Itália e o Ocidente da Alemanha sempre hão-de pagar a factura dos seus concidadãos do Sul e do Oeste, respectivamente, connosco não vai passar-se nada de semelhante; Sopra forte, para abreviar, quando temos de reconhecer - por mim, com tristeza - que não fomos capazes de aproveitar conjunturas favoráveis que, servidas com esforço próprio, estratégias correctas, sentido de inovação e de risco, poderiam ter significado progresso consistente.(...)
O Orador: - Há, por isso, uma questão que nos interpela a todos, que interpela a nossa geração: vamos querer e ser capazes de, no mais curto espaço de tempo, atingir, pelo menos, os níveis médios de desenvolvimento da União Europeia, ou não? Claro que é difícil, claro que o vento sopra forte. E nós, a geração que nós somos, vamos abrigar-nos ou vamos construir moinhos? Vamos sucumbir ao medo, acomodar-nos no "deixa andar", ou vamos ousar fazer? Cada um dará a sua resposta.
O Sr. Luís Marques Guedes (PSD): - Muito bem!
(debate sobre a proposta de Código do Trabalho, da maioria PSD/CDS, a 16/1/2003)

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

As contas fazem-se agora e depois!

Não tem sido frequente, mas também sucedeu de quando em vez comigo aquilo de que o Miguel Guedes se queixa na sua crónica no Jornal de Notícias: aparecer-lhe quem ache ser este o tempo de unir forças não fazendo sentido um discurso marcado pelas diferenças entre as esquerdas e as direitas. Algo do tipo ontem aqui verberado a propósito de José Miguel Júdice, que quereria ver um governo de união nacional a responder a estas circunstâncias excecionais como se o de António Costa não esteja a fazer tudo quanto é possível e necessário com o agrado manifesto da maioria dos portugueses como o atestam as sondagens.

 

Esses que vêm com a falácia de não se justificarem divisões são os apoiantes dos que, entre 2011 e 2015 perpetraram tais cortes no setor, que quatro anos de recuperação não bastaram para pôr cobro a todos os danos suscitados pela sua herança de má memória. São os mesmos que, para evitarem essa chatice que continua a ser a existência de classes sociais com interesses contraditórios, gostariam de nos convencer sobre o fim das ideologias, porque as sabem capazes de lhes darem cabo deste estado de coisas em que se sentem confortáveis. São os mesmos que se incomodam com as evidências de nada de essencial ter faltado até aqui nos hospitais e serviços do SNS, mas não veem qualquer problema nas perguntas acintosas dos supostos jornalistas (na realidade ativistas das direitas) que, todas as manhãs procuram - em vão, reconheça-se! - pôr em causa a fiabilidade dos números apresentados pelo secretário de Estado, a ministra ou a diretora-geral de saúde.

 

Por isso mesmo concordo em absoluto com o cronista do Jornal de Notícias, quando ele diz que “as contas fazem-se agora. É nos momentos de crise que percebemos como tantas das nossas prioridades estão invertidas, como tantas das nossas (não) opções se arrastam para a irreversibilidade pela aceleração dos tempos. Este é um momento de emergência, exigência e urgência. É aqui, não depois de sairmos de um pesadelo, que devemos deitar contas à vida por muitas decisões políticas passadas que quase desmantelaram o SNS, sem dó nem piedade.”

 

Daí que reitere essa regra: as contas fazem-se agora e depois do fim do jogo como defendia um célebre capitão do clube do mesmo cronista. Porque no agora e no que se seguirá será sempre imperioso dividir as águas entre aqueles que sempre defenderam o Serviço Nacional de Saúde e o querem mais forte e os que contra ele votaram desde início e só se fazem seus paladinos quando lhes dá jeito. E aqui Marcelo está obviamente incluído.

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2020/03/as-contas-fazem-se-agora-e-depois.html

As direitas têm mais medo de António Costa do que do covid-19

Quão zangadas estão as direitas estrategicamente posicionadas nos jornais e nas televisões para defenderem posições, que sabem ameaçadas por esta pandemia mundial. Elas veem que, apesar da intensidade com que ela grassa em Itália, o governo liderado por Giuseppe Conte recuperou junto dos cidadãos uma legitimidade, que parecia escapar para as ávidas mãos do mussoliniano Salvini. Temem por isso que, a exemplo do sucedido com o Marquês do Pombal depois do terramoto, a determinação, mas também a confiança com que António Costa tem graduado as medidas de contenção na propagação do vírus lhes soneguem por muitos anos a esperança de voltarem ao poder.

 

Explica-se assim a inacreditável falta de educação ostentada por Rodrigo Guedes de Carvalho quando, ontem à noite, entrevistou o primeiro-ministro. Mais atento às orientações que ia recebendo darégie(onde quase por certo era José Gomes Ferreira a assoprar-lhe o que deveria perguntar, pois logo apareceria no ecrã a perorar as suas odiosas diatribes!) opivotda SIC nem sequer atentava no que o entrevistado lhe dizia, cortando-lhe as frases a meio, impedindo-o de desenvolver o discurso até ele ganhar a coerência só possível se expressa até ao fim.

 

A situação é grave, mas no canal de Balsemão (e, ao que se vai sabendo, nada se diferente se passa nos demais!) a intenção é convencer a opinião pública de que o governo fez de menos ou de mais consoante as contraditórias fundamentações em que se baseiam. Os factos, porém, vão-se encarregando de desmentir as deturpações, que deles querem extrair.

 

Outro exemplo do nervosismo evidenciado pelas direitas está no caluniador profissional da última página do «Público» que, desta feita, se atira às canelas de Marcelo, comprovando a evidência de ser como aqueles cães tinhosos, que não conhecem dono. Depois de o ter convidado a discursar no 10 de junho, o «enquarentenado» de Cascais é brindado com este naco de prosa: “O seu exílio voluntário é sintoma de várias coisas erradas em simultâneo. 1) Marcelo não percebeu o impacto que o coronavírus iria ter em Portugal. 2) Também não percebeu que, ao fechar-se em casa numa hora destas, com um teste negativo e sem vestígio de sintomas, iria deixar no ar um cheirinho a deserção. 3) Avaliou erradamente as consequências do amadorismo e da futilidade das suas intervenções caseiras. 4) A Presidência da República, e, por extensão, o país, não estava minimamente preparada para enfrentar esta crise, já que nem sequer existia um plano de contingência para o mais alto magistrado da nação.”

 

Quer isto dizer que para os mais atormentados prosélitos das direitas, nem São Marcelo se apressa a vir-lhes em socorro.

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2020/03/as-direitas-tem-mais-medo-de-antonio.html

A pandemia e as soluções de mercado

(Francisco Louçã, in Público, 14/03/2020)

E se, de repente, lhe perguntassem se quer Estado ou mercados, o que diria? Que pergunta mais disparatada, a resposta é uma evidência. Só que essa evidência tem dias.

SE O SOFÁ FOR DE VELUDO

Se a pergunta tivesse sido feita aos presentes na Culturgest nesta semana, a resposta seria simples. A promoção do evento invocava as questões fundamentais: “Estará Portugal condenado? As novas desigualdades são superáveis? Somos uma tragédia? O Estado de direito foi capturado pelos interesses? A ditadura do politicamente correto está a destruir-nos? Há saídas?” A convenção, organizada pelo Movimento Europa e Liberdade, não se limitou à queixa, lançou mesmo a inquietação tremenda: “E quem é que protagoniza a alternativa à extrema-esquerda e ao socialismo radical?”

Consta que Portas, Júdice, Ventura, Cotrim de Figueiredo, o novel líder do CDS, Morgado, Mota Pinto e Poiares Maduro abrilhantaram o evento, que o organizador chama de “primárias da direita”, vá-se lá saber porquê, e que Passos Coelho se sentou na primeira fila para receber as merecidas ovações. Mesmo que não conste que houvesse votos nestas “primárias”, perguntava-se com angústia se “somos uma tragédia”, claro que tudo por causa da “ditadura do politicamente correto”, com “Portugal condenado”, penando uma feroz “ditadura” sob um “socialismo radical”. A resposta é, evidentemente, que os mercados nos vão salvar.

Aliás, foi o mercado que organizou a efeméride e uma consultora, a Deloitte, até sugere que criou uma associação só para preparar estas propostas: “O Jorge Marrão [organizador da convenção], além dos segmentos tradicionais de Real Estate, tem ainda a responsabilidade de Mergers & Acquisitions em hotelaria. Ainda a seu cargo está a área de marketing, Communications and Business Development. Adicionalmente, representa a Deloitte Portugal na rede global pela área de Clients & Industries. É presidente da Associação Projeto Farol, uma iniciativa lançada pelo think tank Deloitte Circle, focada em apresentar um conjunto de propostas sobre a economia portuguesa na próxima década.” Pois as propostas foram apresentadas, são os mercados que nos devem guiar.

E PARA ONDE VAI SE ESTIVER DOENTE?

Mas se estiver preocupado com o coronavírus, talvez duvide deste entusiasmo liberal. Talvez note aquela notícia no telejornal sobre um doente que estava no Hospital Lusíadas e a quem foi diagnosticada a infeção e que foi por isso transferido para o Curry Cabral. Talvez note a polémica sobre os preços dos testes em laboratórios privados. E decerto pensará no que seria o sistema de saúde a responder a uma pandemia se, de acordo com as propostas entusiásticas de Ventura ou de outros liberais, estivesse privatizado. É sabido que o mercado tem uma solução para estes casos de grande fluxo de procura: aumentar o preço para restringir a procura à oferta disponível. Nos Estados Unidos, a solução de mercado funciona, paga-se 2900 euros por um teste do Covid-19 no hospital. No caso, a resposta dos profetas do mercado foi cortar o financiamento do Centro de Controlo de Doenças em 10% em 2018 e 19% em 2019. Para 2020 estava a ser apreciado um novo corte de 20% nos programas de combate a doenças infecciosas, cortesia de Trump.

Ora, o Estado democrático tem outra solução para uma crise de saúde: assegurar a proteção a toda a gente mobilizando o necessário, por ter o poder legal e a capacidade de coordenação de recursos profissionais que, sendo escassos, devem ser planeados, ou por poder requisitar os laboratórios, por exemplo.

Quando há uma urgência, só temos mesmo o Estado. De facto, o mesmo se aplica aos bens comuns da sociedade: só o Estado pode proteger todos na saúde, na educação ou na segurança. É por isso que nos viramos para o ministério, e ainda bem que, depois dos anos da troika, com cortes colossais no SNS, o recente compromisso orçamental assegura mais 8400 profissio­nais e mais financiamento.

Então, a solução de mercado funcionou? Sim, os hospitais privados cresceram. Mas os doentes da pandemia vão para os hospitais públicos. Sabem o que fazem.


O nosso escudo

Num artigo notável no “El País”, o seu ex-diretor Joaquín Estefanía lembra um episódio do fim da guerra civil espanhola, quando milhares de pessoas chegaram a França depois da vitória das tropas franquistas. Os refugiados foram aglomerados em campos de retenção, sob as baio­netas das tropas francesas, proibidos de circularem, e o primeiro-ministro, Edouard Daladier, fez aprovar legislação contra os “estrangeiros indesejáveis”. Os republicanos que buscavam asilo no país foram assim ameaçados de expulsão. Daladier, à frente de uma coligação de direita, ficaria famoso pelo infame Acordo de Munique, assinado com Hitler e Chamberlain.

Sugere Estefanía que o apelo de Ursula von der Leyen, a presidente da Comissão Europeia, para que a Grécia constitua o “nosso escudo” contra a entrada dos refugiados da guerra da Síria não é distinto do édito de Daladier contra os “estrangeiros indesejáveis”. Estes, como os espanhóis ameaçados por Franco, fogem de uma guerra e procuram asilo humanitário no nosso continente. Assim, com o fim do negócio com Erdogan, pago para manter os refugiados em campos na Turquia, fica esse “nosso escudo” grego para impedir essas pessoas de se acolherem à proteção europeia, mesmo que elas busquem o mesmo que as vítimas de Franco. O jornalista chama a isto “o naufrágio moral da Europa”, lembrando-se dos tormentos da geração dos seus pais, massacrada pelo fascismo ascendente, e das promessas de direitos humanos que ilustravam as lideranças europeias desde o fim da Segunda Guerra. Mas o arame farpado e os muros na fronteira grega são o sinal da superioridade europeia para a senhora Von der Leyen. É a isto que está reduzida a União.


Que é feito da “frente progressista”?

O Parlamento de Estrasburgo foi eleito em maio de 2019, ainda não há um ano, e decerto quem lê este jornal não se esqueceu da vigorosa campanha conduzida com a promessa de regeneração da Europa. A conduzir essa salvação estaria uma “frente progressista”, que incluía os socia­listas e social-democratas, o Presidente francês e os seus aliados liberais, que iria vencer ou pelo menos condicionar a escolha da presidência da Comissão e as suas linhas de atuação. Era uma boa razão para votar nos partidos da “frente”, que iriam arrebatar o cetro, destroçar a extrema-direita, empurrar a direita para o seu canto, fazer funcionar a alternância e reconstruir uma União que já suspirava por melhores dias.

Sabe-se o que se passou. A extrema-direita foi o partido mais votado no Reino Unido, França, Itália, Hungria, República Checa e Polónia. E, para o que mais interessava à “frente progressista”, que era a nomeação da presidência da Comissão, a solução acabou por ser deixar cair Timmermans e voltar a entregar o cargo ao PPE e à senhora Merkel, que para o efeito comissariou uma das suas ministras mais desprestigiadas, tudo isto num arranjo sugerido por um dos artífices da dita “frente progressista”, o inevitável Macron. A “frente” não durou o tempo de uma rosa e tudo ficou como dantes.

Seria somente triste este fado europeu se não houvesse mais um desenvolvimento da “frente progressista”. Ei-la de novo posta à prova quando, perdida a cadeira presidencial, se passa à discussão das políticas e dinheirinhos e aparece Mark Rutte, o primeiro-ministro holandês, à frente do grupo dos “forretas”, termo carinhoso aplicado pelos outros seus colegas da mesma “frente progressista”, como os socialistas portugueses. E os “forretas” dedicam-se a empatar o quadro orçamental para os próximos anos, exigindo a sua redução, uma Europa mais pequenina, com cortes nos fundos de coesão e de políticas agrícolas, mais o congelamento de outros programas. Programa verde, Europa campeã digital, aproximação dos povos, Erasmus viajantes, ciência em comum, tudo isso é um estorvo para os “forretas”, que há pouco moravam na “frente progressista” e que iam resolver os dramas europeus. Até chego, por isso, a desconfiar de que havia qualquer coisa errada nesta lenda que nos contaram nas eleições. Mas, é claro, eram só eleições.


 

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

A direita será devorada pelo bicho que julga domar

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 10/03/2020)

Daniel Oliveira

O Movimento Europa e Liberdade (MEL), fundado originalmente para dificultar a vida a Rui Rio (e não para fazer oposição a António Costa), inicia esta terça-feira, na Culturgest, em Lisboa, a sua segunda tentativa de replicar a “Aula Magna das esquerdas”, do tempo da troika, à direita. No cardápio estão várias figuras da direita portuguesa e os diretores do “Público”, “Observador” e “Eco”, numa saudável transparência quanto ao seu posicionamento político. Rui Rio voltou a declinar o convite (por razões de agenda, claro), enviando Paulo Mota Pinto para encerrar os trabalhos das tropas inimigas.

 

Mas o facto mais interessante, que corresponde a uma estreia e a uma declaração política, é o convite André Ventura, que falará amanhã, quarta-feira. Não vale a pena vir com conversas sobre o pluralismo político. Este é um encontro politicamente circunscrito, para o qual não foram convidadas personalidades do centro-esquerda e da esquerda. Assim sendo, o que os organizadores dizem é que no espaço político em que situam cabe André Ventura mas não cabem pessoas do PS, do BE ou do PCP. Que Ventura é um deles. Que a fronteira entre a esquerda e a direita é, para eles, mais relevante do que, por exemplo, a fronteira entre os xenófobos e os que os combatem. É uma clarificação relevante.

Alguns organizadores verão no Chega um aliado natural. É seguramente a linha dos que venceram a luta interna no CDS e de parte dos que a perderam no PSD, como Miguel Morgado, mais próximo de Ventura do que da matriz original do PSD. Outros acreditarão que integrar André Ventura é a melhor forma de o neutralizar. Tem sido essa a mensagem errada do Presidente da República. É tentador pô-lo ao lado de Daniel Proença de Carvalho e José Miguel Júdice, dois símbolos daquilo a que chamamos “sistema”. Mas este pequeno prazer não neutralizará ninguém.

Em França, a direita republicana manteve durante muitos anos um cordão sanitário com a extrema-direita xenófoba. Não os aceitava no governo, não os apoiava nas autarquias ou nas segundas voltas para a eleição de deputados, não tinha frentes políticas com ela. Esse cordão, a que estupidamente se juntou uma lei eleitoral que permitiu a permanente vitimização da Frente Nacional, não impediu a lenta progressão da família Le Pen, sobretudo depois de Marine ter socializado o seu discurso. Mas conteve-o. Enquanto durou, permitiu que muitos eleitores da direita tradicional olhassem para aquele partido como uma escolha que merecia censura social e política. Em Portugal, esse cordão sanitário não durou umas semanas. Na Europa, o único país que o mantém é a Alemanha. Por pouco tempo, suspeita-se. Do Brasil aos EUA, passando pela generalidade dos países europeus, os partidos da direita tradicional acreditaram no mesmo em que acreditam os promotores do MEL mais bem intencionados, que são provavelmente uma minoria.

A extrema-direita aproveitou o palco e a credibilização que lhe foi oferecida, não cedendo um milímetro na sua agenda e nos seus métodos (especialmente evidente desde que as redes sociais passaram a desempenhar um papel fundamental no debate público), e conseguiu dirigir-se com muito mais eficácia aos eleitores da direita tradicional. Graças à ação dos próprios dirigentes dos partidos em que costumavam votar.

Não preciso de explicar o que aconteceu depois. Por todo o lado, a extrema-direita já não está a receber votos da esquerda, como aconteceu nos anos 80 e 90. Está a dizimar a direita tradicional. Nos seus valores, a extrema-direita é inimiga de todos os democratas e defensores dos direitos humanos e do Estado de Direito. Mas do ponto de vista eleitoral os seus maiores adversários são os partidos da direita tradicional. André Ventura não vai à Culturgest para juntar forças contra António Costa. Vai receber o certificado de credibilidade que o ajudará a roubar votos à direita tradicional.

Claro que, como Miguel Sousa Tavares e Ricardo Sá Fernandes, o excesso de autoconfiança de alguns os faz acreditar que com bons argumentos vencerão Ventura. Talvez num debate civilizado sobre a castração química ou até física, a prisão perpétua e a pena de morte que não repugna o professor de Direito. Como descobriram os dois, Sá Fernandes e Sousa Tavares, em direto e na televisão, rapidamente descobrirão que só se debate com quem quer debater. O jogo de Ventura é outro e nesse terreno não o vencem seguramente.

Quando os ingénuos e os oportunistas que puseram Ventura no seu barco perceberem que estão a repetir os erros de outros derrotados será tarde demais. Ou serão, como a direita francesa e espanhola, reféns da agenda de ódio e intolerância da extrema-direita, ou acabarão por se submeter a ela, como aconteceu nos Estados Unidos, Brasil ou Itália. Também eles julgaram, quando romperam o cordão sanitário, que integrariam a extrema-direita. Foram integrados por ela. Ela é que passou a ser o novo normal. Com a prestimosa ajuda daqueles que dizimou.

Em Portugal, a legitimação de André Ventura começou por ser dada pelo próprio Passos Coelho, quando, ao contrário do CDS, manteve o apoio à sua candidatura à Câmara Municipal de Loures, depois de declarações públicas claramente racistas. Como viram, o resultado não foi a sua integração. Foi a sua legitimação para voos mais altos. Ventura usou o PSD para rampa de lançamento de um projeto a solo e usará esta nova legitimação para crescer mais um pouco, desdramatizando o voto no seu partido.

Afinal de contas, é uma escolha como qualquer outra. São os seus concorrentes mais próximos que o dizem. Julgam que metem o leão na jaula para o domar. Estarão trancados nessa jaula quando o bicho os fizer em postas. Como tem acontecido em todo o lado em que se achou que a convivência era possível. Não aprendem nada.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Direita reúne-se em busca do tal “chefe” (e o CDS promete ser a “Primavera”)

 

O segundo congresso do Movimento Europa e Liberdade (MEL) arrancou nesta terça-feira em Lisboa, contando com a presença de várias figuras do centro-direita português, entre as quais Paulo Portas. Na abertura da convenção, o líder do CDS, Francisco Rodrigues dos Santos, prometeu que o seu partido será a “Primavera” que vai permitir a “reinvenção” do centro-direita e encontrar um “líder agregador”.

 

Na abertura da convenção do MEL que se realiza nesta terça-feira e na quarta-feira, em Lisboa, o líder do CDS, Francisco Rodrigues dos Santos, voltou a vincar a necessidade de uma coligação com o PSD, não se esquecendo de incluir até André Ventura numa aliança de centro-direita.

Se não nos encarregarmos de fazer a história da direita em Portugal, outros, vindos das franjas, com voz de protesto, a farão por nós”, afirmou no discurso de abertura da convenção, conforme cita o Expresso.

“Mais do que federar, fundir ou coligar-se, o centro-direita tem de se reconhecer num líder agregador”, apontou ainda, garantindo que o CDS será a “Primavera que a direita tem de atravessar para se reinventar e renascer”, segundo citação do Observador.

Apontando que o caminho para derrotar o Governo de esquerda passa pela estratégia da “aliança dos partidos de direita“, Chicão, como é conhecido dos tempos em que foi líder da Juventude Popular, aponta aos próximos grandes desafios eleitorais.

Assim, nas presidenciais sublinha que é preciso procurar “unir em lugar de fragmentar”, o que deixa antever um apoio à candidatura de Marcelo Rebelo de Sousa. Nas autárquicas, Chicão defende “listas comuns, sempre que isso sirva o melhor interesse das populações e sempre que isso permita vencer a esquerda”, e nas legislativas, nota que é preciso chegar a “uma proposta de compromissos que ofereça aos portugueses uma solução de Governo”.

Numa farpa a Rui Rio, o líder do CDS aponta que “a responsabilidade é enorme” e todos devem “estar à sua altura, sob pena de, perdidos em agendas particulares e em jogos palacianos, sairmos do próximo ciclo eleitoral mais enfraquecidos do que entrámos”.

No seu discurso, Chicão deixou também patente que Mário Centeno só pode ser governador do Banco de Portugal na próxima legislatura. “Quem quer deixar de ser jogador para passar a ser árbitro, tem pelo menos de esperar pelo próximo campeonato, que é como quem diz, pela próxima legislatura”, reforçou.

Portas presente, Rio ausente e Passos convidado

A convenção do MEL vai contar com a participação de Paulo Portas que vai falar sobre os desafios da globalização.

Não se espera que Portas se meta nas discussões sobre o estado da direita em Portugal, numa altura em que se afastou da vida política e quando se espera que só volte para ser candidato à Presidência da República.

Quem não vai marcar presença é Rui Rio, conforme avança o Expresso que garante também que Pedro Passos Coelho foi convidado. O ex-primeiro-ministro não deve contudo voltar já à intervenção política, numa altura em que continua de luto depois da morte da mulher, vítima de cancro.

Presença certa é o presidente da Mesa do Congresso do PSD, Paulo Mota Pinto, além dos líderes do Iniciativa Liberal, do Chega e do Aliança, bem como outras figuras sociais-democratas como Joaquim Sarmento, o “Centeno de Rio”, e Miguel Poiares Maduro.

A ideia da convenção do MEL é “refundar a direita e influenciar os partidos numa alternativa ao “socialismo radical””, como destaca o Expresso com base no programa do movimento.

“A direita, quando tem chefe, sabe quem é. Quando não tem, é um desastre”, frisa ao semanário um dos participantes na convenção. Mas o fundador do MEL, Jorge Marrão, recusa a ideia de que o objectivo principal passe pela busca de um líder. “O que nos move é o projecto, não é tanto encontrar um líder“, diz ao Expresso.

O texto de apresentação da convenção deixa no ar várias perguntas que devem encontrar resposta durante os dois dias do evento. “Estará Portugal condenado? As novas desigualdades são superáveis? Somos uma tragédia? O Estado de Direito foi capturado pelos interesses? A ditadura do politicamente correcto está a destruir-nos? Há saídas? E quem é que protagoniza a alternativa à extrema-esquerda e ao socialismo radical?”, questiona-se.

Fica patente a ideia de que o centro-direita precisa de um líder agregador que possa fazer sombra ao “poder” de António Costa.

Jorge Marrão refere-se ao evento do MEL como “uma espécie de primárias da direita” para definir uma “identidade” que possa ameaçar o Governo do PS, acusando António Costa de estar apenas “focado no poder” e de não conseguir “explicar o seu projecto a ninguém”.

ZAP //

 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/direita-busca-um-chefe-312909

A política de direita é todo um negócio

A televisão está reduzida a um negócio, com um tipo de regulação complacente, e os grandes negócios têm grande ideologia, claro: por exemplo, anteontem no telejornal da TVI, o que começa às 19h56m, tivemos direito a comentários de António Lobo Xavier, advogado de grandes negócios, e de Paulo Portas, também facilitador de grandes negócios. Um comentou temas nacionais e, de seguida, o outro comentou temas internacionais.

O CDS pode estar em dificuldades, mas os intelectuais orgânicos das direitas têm grande procura em canal aberto. Esta procura gera uma oferta ideológica, que, por sua vez, molda mais tarde ou mais cedo a procura política. Aplica-se aqui o que o economista político John Kenneth Galbraith, um dos maiores da história do pensamento económico da segunda metade do século XX, já agora, designou por efeito de dependência, associado ao poder condicionador geral das grandes empresas.

Entretanto, Constança Cunha e Sá sai da TVI, agora controlada pelo grupo Cofina, que por sua vez anda a promover activamente Ventura, como sabemos. Ventura vai participar nos Estados gerais das direitas com Portas. Este encontro, por sua vez, é organizado por Jorge Marrão. Para lá da ajuda aos negócios no nexo finança-imobiliário-turismo, é um colunista do Negócios, jornal da Cofina.

É só seguir as ligações e vemos toda uma economia política.

No fundo, quem não quiser falar de capitalismo, de grupos económicos, incluindo os que, como o Grupo Cofina, fazem da intervenção política na comunicação social o seu negócio, e das ideologias assim geradas, não pode compreender a força interna das direitas e das suas políticas.

Essa força interna tem na UE a sua, em última instância decisiva, ancoragem externa, claro. Daí, o consequente europeísmo das direitas, o da Nossa Europa de Carlos Moedas, colunista do Correio da Manhã, por exemplo.

Está mesmo tudo desgraçadamente ligado.

 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Passos voltou com o vento suão, novos passos

Passos voltou em força. Acompanharam-no todos os pesos pesados dos seus quatro anos de empobrecimento dos portugueses. Faltou Portas. Cristas não.

Era suposto que apresentasse o livro de Carlos Moedas. O convite assim o dizia. Porém, chegado ao palco, Passos quis de modo claro e inequívoco afirmar-se como o líder da oposição. O “Vento suão” de Moedas parecia uma brisa doce, quietinha, serena face à tempestade desencadeada por Passos. Atacou Costa em toda a linha.

Ter-se-á esquecido que ia apresentar o livro do seu amigo Moedas ou, no seguimento do que já dissera sobre a eutanásia, veio marcar terreno e congregar as forças presentes do PSD e do CDS para os combates que se avizinham?

Passos trouxe consigo os passistas do PSD, mais alguns do CDS, a começar por Cristas, no momento em que no cenário político se agravam as contradições entre PS e os partidos da esquerda, nomeadamente PCP e BE.

O modo como os desenvolvimentos políticos acontecem vai trazendo para cima da mesa um deslizar do PS para o centro, onde Rui Rio proclama que é o seu lugar.

É evidente que PS e PSD podem guerrear pelo tal centro, mas bem vistas as coisas, sendo ao centro, o que contará é saber o peso de cada um para se entenderem ou não.

Por isso, Passos decidiu aparecer com toda a artilharia pesada dos quatro anos de austeridade e apresentar armas.

Não deve ser por acaso que dentro do grupo parlamentar do PSD um conjunto de deputados faça coro com Passos e Cavaco pelo referendo e contra a eutanásia.

Começa a ficar claro, mesmo sem detergente, que nas sombras as movimentações por um novo ciclo se desenham.

Claro que cada um dos atores principais irá em termos de retorica ater-se ao guião, mas é bem visível que se aproxima outra fase.

Entretanto o PS saudou a abertura do CDS ao diálogo, sendo certo que Paulo Portas não esteve no lançamento da tempestade de Passos Coelho. O novo líder  diz-se mais próximo de Paulo Portas.

E registe-se no Congresso do PSD a aproximação do CDS com o PSD, aparecendo os dois líderes sorridentes a prometerem entendimento. Ou seja, PSD e CDS remam em sentido contrário ao do vento suão.

Por outro lado Marcelo vai a votos e quer o apoio do PS, pois é uma grande faixa do seu eleitorado. Quer uma votação maior que a anterior para aquilo que se sabe, pois será o seu último mandato com ou sem beijos e selfies.

O jogo de cintura de Marcelo que é reconhecido obriga-o a moderar ímpetos, tanto mais quanto dirigentes e quadros do PS falam numa candidatura do PS, o que a ser alguém com força e carisma ameaçará o passeio triunfal e apoteótico do mais espalhafatoso Presidente de Portugal.

Passos Coelho após ser derrotado e passar à oposição, como todos se lembrarão, ameaçou de quinze em quinze dias a vinda do diabo para estrangular a economia portuguesa. Até hoje o diabo escondeu-se, mas sabe quem o chama. E gosta de pregar partidas, mesmo aos que vivem debaixo do mesmo teto partidário. Passos parece ter decidido convidar o diabo para infernizar a vida de Rui Rio. Que o diga a tempestade do vento suão.

https://www.publico.pt/2020/02/21/politica/opiniao/passos-voltou-vento-suao-passos-perfilam-1905023

Ver original em ' O Chocalho' na seguinte ligação:

https://ochocalho.com/2020/02/21/passos-voltou-com-o-vento-suao-novos-passos/

O Perigo Amarelo & académicos de grande honestidade intelectual

anticomunismo virus

Agostinho Lopes


O PERIGO AMARELO.
«A China está a enfrentar uma crise sem precedentes. Temos de reconhecer que o número relativamente baixo de casos detetados fora da China resulta dos esforços intensos que o Governo chinês está a realizar para conter a emergência e proteger outros países». «Há outros exemplos da determinação da China em responder, desde a partilha rápida da sequenciação do genoma do vírus com a OMS e o mundo ao convite para uma equipa de especialistas internacionais liderada pela OMS, ir até à China e apoiar parceiros locais». Declarações do porta-voz daOrganização Mundial de Saúde ao Expresso, Expresso Diário, 05FEV20.

 

Só lhes falta falarem do «perigo amarelo»! A propósito do coronavírus desencadeou-se nosmedia uma inacreditável campanha contrao Estado chinês e o Partido Comunista da China. A vesguice ideológica provocada pelas lentes grossas do anticomunismo tudo permite e tudo vale para levar a água ao moinho da pura propaganda anti-chinesa, quando não xenófoba. Vendo quem escreve, custa a acreditar no que se lê.     
Dois pontos de partida e de bom senso na abordagem do tema.
A opinião da OMS. Para lá do que acima se transcreve são inúmeras outras declarações dos seus responsáveis e especialistas, a começar pelo seu Director-geral. O que também se diz nos seus relatórios.
E as declarações do principal responsável do Estado chinês, reconhecendo problemas, falhas e fraquezas na resposta ao coronavírus, a necessidade de mudanças profundas no sistema de resposta a emergências de saúde pública e de revisão e mesmo nova legislação na prevenção de doenças infecciosas, na biosegurança, na protecção da vida selvagem. A tomada de medidas relativamente a responsáveis políticos e administrativos.
Mas nada satisfaz os «críticos» do vírus. Ou por porem em causa a credibilidade da própria OMS, assim a modos de substituir opiniões de órgãos especializados, de composição multinacional da ONU pelasfake news das redes sociais. Ou por pretensamente corresponderem a bodes expiatórios do regime chinês. Sabe-se o que pretendem indiciar e o que desejariam. 
Atente-se nesta breve amostra.
Um jornalista, sob o sugestivo título «O vírus e os malefícios do comunismo» (1), ao jeito da fábula «se não foste tu, foi o teu pai», resolve juntar ao coronavírus o historial de todas as desgraças sucedidas ao povo chinês, desde as pestes de 1588 e 1642, e vem por aí fora até à gripe espanhola de 1917!  No rol vem a invasão manchu em 1644 e o «Grande Salto em Frente», mas esqueceu-se das duas guerras do ópio do imperialismo inglês ou da invasão japonesa. Mas não esquece a SARS (2002/2003), o leite adulterado com melamina e calcule-se, a peste suína africana! Benza-o deus! A que acrescenta a falta de «vistoria sanitária» nas feiras camponesas e a «concentração e coabitação de comunidades humanas com explorações pecuárias».Coitado do Barradas que nunca saiu de Lisboa! 
Depois uma professora de economia na Nova SBE (2) que sob o título «Xi Jinping: era uma vez um autocrata que deu uma mãozinha ao vírus», resolveu teorizar, ou não fosse ela uma catedrática, sobre catástrofes e regimes políticos:tal regime, tal catástrofe. Assim mesmo! Cita mesmo um estudo para demonstrar que as catástrofes naturais «causam menos vítimas em democracias»! Notável. Foi pena que à semelhança do anterior plumitivo, não desse uma volta histórica e geográfica pelo mundo, para demonstrar a sua tese com as experiências vividas pelos povos. Estava certamente a lembrar-se de como os EUA reduziram os estragos com o Katrina. Ou de como o seu sistema de saúde (?) responde às 37 000 mortes que, em média e por ano, desde 2010, surgem associadas a surtos de gripe. Ou do desastre sem fim do Haiti! E também, em contraposição, de como Cuba tem de facto reduzido as consequências humanas de acidentes climatéricos, tufões, ciclones, face aos seus vizinhos da América Central. Ou dos recentes incêndios florestais na Califórnia e na Austrália ou, muito mais próximo, de como Portugal respondeu nos incêndios florestais de 2017.   
Segue-se mais um académico, docente no Mestrado de Estudos Chineses da Universidade de Aveiro «Li Wenliang, o Inimigo do Povo» (3), que se admite saber bem do que está a falar, em que depois da referência do apoio popular ao regime, pois «Num país de onde milhões de pessoas saíram da pobreza mais extrema, todo os argumentos críticos ao sistema chocam com estas estatísticas» e «a implacável luta contra a corrupção» e o reconhecimento de que «É importante que se diga que nenhum país no mundo teria uma capacidade de resposta nas mesmas condições»,quase que abençoa o coronavírus porque «pode conduzir a uma crise do sistema»! Mais um professor que também precisa de andar, desta vez muito pouco,  para constatar o estado da fiscalização sanitária nas feiras agrícolas da sua região!  
E a lista podia continuar, mas acaba com mais um professor universitário «O vírus da ditadura» (4), para quem as medidas tomadas pelo Governo Chinês «parecem exageradas: muito mais gente é infectada e morre com gripes comuns sem que ninguém se lembre de coisas do género». E de como não podemos confiar na «opaca e autoritária burocracia mundial de instituições como a Organização Mundial de Saúde», «Neste momento, simplesmente não sabemos se estamos perante uma ameaça séria mas no fundo, negligenciável ou à beira de uma pandemia global cuja grande expansão ainda está para vir, podendo afectar todos os países do mundo: algo como a gripe espanhola de há um século»! Notável síntese. Infelizmente, vamos ter que esperar por um daqueles painéis de especialistas da CMTV (a Joana Amaral Dias, o Rui Pereira, o André Ventura e o Moita Flores) para resolvermos a disjuntiva.
1.João Carlos Barradas, Jornal de Negócios, 28JAN20.
2.Suzana Peralta, Público, 14FEV20.
3.Jorge Tavares da Silva, Público, 14FEV20.
4.Luciano Amaral, Correio da Manhã, 17FEV20.   

 

 

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/02/20/o-perigo-amarelo-academicos-de-grande-honestidade-intelectual/

D. Aníbal e o infanção Passos Coelho

Numa pausa dos sais de fruto para a incontida azia que os corrói, os dois catedráticos, o do decreto e o do convite, fartos de desprezo e esquecimento, despertaram da letargia e surgiram nas televisões a azucrinar os ouvintes na defesa do referendo para a eutanásia.

O primeiro fez prova de vida, suspendendo algum Roteiro onde verte o ódio e convence os netos da sua utilidade para a literatura e a política, e o segundo desiludiu as fãs com a erosão provocada pelo esforço docente e a calvície.

Vieram os dois, com a habitual conivência, como nos tempos em que assustavam o país com a mudança de governo, para se vingarem de Rui Rio que lhes infligiu três derrotas e tem postura ética e sentido de Estado. Não os move a discussão de um assunto sério, une-os o ressentimento, o desespero de se verem desprezados e a vingança contra quem reconduziu o partido à matriz fundadora e enfrentou os serviçais em que apostaram.

Sofreram em silêncio a humilhação das sucessivas vitórias de Rui Rio no partido de que se julgaram donos e apareceram ruidosamente numa questão de consciência, ansiosos de causarem danos e cumprirem as piedosas instruções recebidas nas sacristias.

Os dois cúmplices de má memória continuam unidos, um no salazarismo que o moldou e o outro na nostalgia em que foi criado.

Nada acrescentaram à discussão em curso, apenas fizeram prova de vida substituindo o atestado médico por declarações públicas, para regressarem aos sítios de onde vieram e deixarem mais salubre o espaço mediático.

Já há poluição que baste.

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2020/02/d-anibal-e-o-infancao-passos-coelho.html

Portugal | SAÍDOS DO TÚMULO… ELES ANDAM AÍ!*

 
 
Passos Coelho reaparece e prefere falar do passado do que do futuro
 
Antigo primeiro-ministro elogiou coragem de Carlos Moedas mas evitou falar do futuro político do ex-comissário.
 
A apresentação do livro do ex-comissário europeu Carlos Moedas Vento Suão: Portugal e a Europa foi o pretexto para Pedro Passos Coelho revelar episódios de bastidores sobre a escolha, há seis anos, do seu então secretário de Estado-adjunto no Governo para o cargo em Bruxelas. Numa sala a transbordar – onde o passismo estava em peso – o antigo primeiro-ministro deixou apenas uma crítica ao actual Governo por ter escolhido a pasta dos fundos estruturais: “Não percebo porque é que o Governo a quis – somos grandes beneficiários dos fundos – a não ser para fazer propaganda no país, não serve para mais nada”.
 
Foi dos poucos recados directos que deixou ao actual Governo socialista. Mas, numa intervenção pontuada de ironia, Passos Coelho quis repor a sua perspectiva sobre o processo de escolha de Carlos Moedas para comissário europeu.
 
O antigo líder social-democrata recordou as reacções negativas do então líder do PS, António José Seguro, à indicação do ex-secretário de Estado, mas também a do actual primeiro-ministro António Costa, que acusou Moedas de ser “o mais ortoxodo” dentro do PSD. “Pareceram-me estas palavras um bocadinho exageradas. Não me parecia ser ortodoxo nem ter uma ideia tão tramontana sobre a Europa”, disse, lembrando depois que o actual Governo fez “uma avaliação muito positiva” do mandato do comissário e que até o “chamou para uma bonita cerimónia”. Foi um dos momentos em que se ouviram risos na sala, que esteve sempre em silêncio enquanto o antigo chefe de Governo interveio.
 
 
 
Na assistência estavam alguns dos vice-presidentes de Passos Coelho como Carlos Carreiras, Teresa Morais, Paula Teixeira da Cruz e Sofia Galvão, mas também os ex-ministros Miguel Relvas e Nuno Crato. Na primeira fila sentaram-se lado a lado Luís Montenegro (o ex-líder parlamentar durante o passismo) e Miguel Pinto Luz. Os dois candidatos à liderança do PSD estiveram perto da ex-líder do CDS Assunção Cristas. Mais discreto na lateral da sala ficou o militante número um do PSD, Francisco Pinto Balsemão, ao lado de Luís Marques Mendes, ex-líder social-democrata e comentador televisivo. Não faltaram alguns deputados como Emídio Guerreiro, Pedro Alves e Fernando Negrão.
 
Durante os quase 45 minutos de discurso, Passos Coelho revelou que há seis anos “não tinha a certeza” de que Carlos Moedas pudesse ser comissário europeu por estar a encerrar o programa de ajuda externa, embora tivesse sido o candidato em que sempre pensou para o cargo. “Pareceu-me sempre que tinha o perfil indicado. Porquê? Era um homem da Europa, do mundo, tinha estado nos EUA, em França, era o que se chamava um estrangeirado”, disse.
 
Falando em tom coloquial, o antigo primeiro-ministro divulgou ainda que foi o próprio nomeado que negociou a pasta que acabou por conseguir (Investigação, Ciência e Inovação) e que o aconselhou a escapar à dos Assuntos Sociais, que foi ponderada: “Ó Carlos, você fuja disso homem porque a Comissão Europeia não tem nenhum instrumento relevante para essa matéria – prepare-se para andar a levar pancada durante cinco anos”.
 
Recusando falar aos jornalistas no final da sessão num espaço comercial em Lisboa, Passos Coelho aproveitou ainda, na sua intervenção, para explicar por que razão a sua ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, não foi a escolhida por si para o cargo europeu, apesar de lhe ter sido sugerida pelo então presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker. “Era ministra das Finanças e a situação que estava a viver num dos bancos – o BES - inspirava-me a maior das preocupações”, disse, rebatendo notícias da época que davam conta da irrelevância da pasta conseguida ou de que o nome de Paulo Portas, o seu parceiro de coligação no Governo, era uma hipótese para o cargo.
 
Elogiando Moedas pela coragem de tomar posições políticas enquanto exerceu o mandato, Passos não falou directamente do futuro político no PSD do agora administrador da Gulbenkian. Mas deixou um conselho: “Não sei o que quer fazer na vida, faça bom uso do que foi recolhendo pelo caminho”. 
 
Depois de agradecer a Passos Coelho por ter acreditado em si “antes dos outros”, Carlos Moedas também evitou falar do seu futuro político e preferiu recordar alguns episódios do seu mandato como comissário, sobretudo, o seu esforço para que não se perca a identidade portuguesa. Ao olhar para a sala e ver “tantos ex-colegas” do executivo PSD/CDS, Moedas desabafou: “Naquele Governo, cada dia contava três dias, era como estar numa guerra, numa trincheira”.
 
Sofia Rodrigues | Público | Imagens: 1 – Passos e Moedas, em Notícias ao Minuto: 2 -
Na primeira fila sentaram-se alguns passistas / Nuno Ferreira Santos

*Título PG

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Portugal | A mediocridade e mesquinhez que nos ameaçam

 
Jorge Rocha* | opinião
 
Para mal dos nossos pecados a História portuguesa tem sido feita de uma sucessão de confrontos entre aqueles que os paladinos da dialética marxista, distinguem entre os velhos e os novos.
 
Se o espírito renascentista acompanhou o seu surgimento em Itália logo o clero e a aristocracia acautelaram o seu silenciamento através da Inquisição. Se um Marquês do Pombal consagrou na governação os valores dos Iluministas, logo uma viradeira deu plenos poderes a Pina Manique para lhes esmagar as aspirações progressistas. Se os republicanos derrubaram a monarquia e impuseram a separação entre a Igreja e o Estado ou a democratização do ensino, logo se alevantou a aventesma de Santa Comba a fazer-nos “pobrezinhos, mas honrados”. Se os capitães de Abril nos devolveram a Democracia e Mário Soares nos agregou ao que a Comunidade Europeia prometia ser, enquanto prenúncio de uma grande potência inovadora e continental, logo surgiu uma versão recauchutada do *lente de Coimbra” para comprovar que a mesquinhez preconceituosa germinada num posto de gasolina de Boliqueime encontrava no imaginário coletivo os apoiantes suficientes para nos imporem o horrível mostrengo por quase duas décadas.
 
E assim continua a suceder: a metade lusa, que execra a inteligência, e só se conforta com a promoção dos mais medíocres, não desiste de impor à outra metade alguns seres, que o mestre Almada Negreiros poderia reconhecer como aqueles compatriotas onde se identificariam todos os defeitos presentes em todas as grandes nações... só lhes faltando as  qualidades que os compensassem e superassem. Daí termos aguentado com um cábula contumaz como primeiro-ministro entre 2011 e 2015 e olhamos para o lado direito da Assembleia da República com a pavorosa constatação de quanto ali se congregam os piores exemplos de rasteirice e preconceito.
Se à esquerda da bancada do Partido Socialista podemos encontrar estratégias e intervenções com que não concordamos, mas entendemos como fruto de uma obstinação ideológica desfasada dos constrangimentos e circunstâncias atuais, à direita não existe um pensamento coerente quanto ao tipo de país pretendido. Sobretudo na bancada laranja que passou a discussão orçamental em jogos tacticistas incoerentes, que se contradiziam entre si. Nada de estranhar: quando a cabeça não tem juízo e o país é que, à sua conta, se arrisca a pagar.
 
Mas a mesma pequenez da direita par(a)lamentar, encontra-se em Carlos Alexandre, esse juiz de Mação, que poderia revelar a argúcia tantas vezes presente em quem tem rústicas origens, mas dessa condição só reteve o ignóbil fanatismo que dedica aos que sabe superiores e expresso no manifesto ódio ao primeiro-ministro. É tanta a vontade de o acusar do que quer que seja, que tal aversão manifesta-se nos exercícios catárticos (ainda) propiciados pelo seu cargo. A resposta de António Costa às tropelias por ele cometidas em nome do seu estranho conceito de Justiça - publicando o texto, que os prosélitos da criatura já andavam a deturpar! - é uma estocada, que desejaríamos letal para quem reiteradamente desprestigia a classe a que pertence.
 

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A mediocridade e mesquinhez que nos ameaçam

Para mal dos nossos pecados a História portuguesa tem sido feita de uma sucessão de confrontos entre aqueles que os paladinos da dialética marxista, distinguem entre os velhos e os novos.

 

Se o espírito renascentista acompanhou o seu surgimento em Itália logo o clero e a aristocracia acautelaram o seu silenciamento através da Inquisição. Se um Marquês do Pombal consagrou na governaçãoos valores dos Iluministas, logo uma viradeira deu plenos poderes a Pina Manique para lhes esmagar as aspirações progressistas. Se os republicanos derrubaram a monarquia e impuseram a separação entre a Igreja e o Estado ou a democratização do ensino, logo se alevantou a aventesma de Santa Comba a fazer-nos “pobrezinhos, mas honrados”. Se os capitães de Abril nos devolveram a Democracia e Mário Soares nos agregou ao que a Comunidade Europeia prometia ser, enquanto prenúncio de uma grande potência inovadora e continental, logo surgiu uma versão recauchutada do *lente de Coimbra” para comprovar que a mesquinhez preconceituosa germinada num posto de gasolina de Boliqueime encontrava no imaginário coletivo os apoiantes suficientes para nos imporem o horrível mostrengo por quase duas décadas.

 

E assim continua a suceder: a metade lusa, que execra a inteligência, e só se conforta com a promoção dos mais medíocres, não desiste de impor à outra metade alguns seres, que o mestre Almada Negreiros poderia reconhecer como aqueles compatriotas onde se identificariam todos os defeitos presentes em todas as grandes nações... só lhes faltando as qualidades que os compensassem e superassem. Daítermos aguentado com um cábula contumaz como primeiro-ministro entre 2011 e 2015 e olhamos para o lado direito da Assembleia da República com a pavorosa constatação de quanto ali se congregam os piores exemplos de rasteirice e preconceito.

 

Se à esquerda da bancada do Partido Socialista podemos encontrar estratégias e intervenções com que não concordamos, mas entendemos como fruto de uma obstinação ideológica desfasada dos constrangimentos e circunstâncias atuais, à direita não existe um pensamento coerente quanto ao tipo de país pretendido. Sobretudo na bancada laranja que passou a discussão orçamental em jogos tacticistas incoerentes, que se contradiziam entre si. Nada de estranhar: quando a cabeça não tem juízo e o país é que, à sua conta, se arrisca a pagar.

 

Mas a mesma pequenez da direita par(a)lamentar, encontra-se em Carlos Alexandre, esse juiz de Mação, que poderia revelar a argúcia tantas vezes presente em quem tem rústicas origens, mas dessa condição só reteve o ignóbil fanatismo que dedica aos que sabe superiores e expresso no manifesto ódio ao primeiro-ministro. É tanta a vontade de o acusar do que quer que seja, que tal aversão manifesta-se nos exercícioscatárticos (ainda) propiciados pelo seu cargo. A resposta de António Costa às tropelias por ele cometidas em nome do seu estranho conceito de Justiça - publicando o texto, que os prosélitos da criatura já andavam a deturpar! - é uma estocada , que desejaríamos letal para quem reiteradamente desprestigia a classe a que pertence.

Veja o original em 'Ventos Semeados':

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Portugal | OUTRA VEZ ARROZ?

 
 
Em aparição súbita, na tomada de posse da comissão política de Ponte da Barca, Passos Coelho exortou à união da direita (PSD e CDS-PP) para fazer as reformas de que o país precisa, dada a inexistência no presente, em seu entender, «de qualquer ação reformista importante», que previna «problemas maiores no futuro».
 
Para Passos, «quem está hoje no Governo prima pela ausência de um quadro reformista», não se vislumbrando «nenhum programa económico em que alguma reforma se esteja a fazer na dimensão da produtividade e competitividade da economia». Como é hábito, a alusão à palavra mágica não prossegue com a explicitação das políticas que a tal «ação reformista» traduziria.
Terá Passos em mente o regresso à «austeridade expansionista» e ao «empobrecimento competitivo», com a retração dos serviços públicos, desregulação do mercado de trabalho, aposta nas privatizações e em cortes permanentes nos salários e pensões?
 
Quererá Passos que a direita vá de novo «além da troika»? Não se sabe. O que se sabe é que Passos Coelho se escusou a responder a quaisquer perguntas dos jornalistas, no final da sua declaração.
 

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Recompensar a ilegalidade

marquesmendes.JPGAgradecer ao director escolar que agiu contra a Constituição e a lei, em vez de lhe instaurar o devido processo disciplinar: foi isto que defendeu ontem o senador dos pequenitos no seu espaço de comentário semanal na SIC.

Claro que a opinião do comentador-mirim vale o que vale, e para mim, que mudo de canal sempre que, na SIC, toma a palavra o recadeiro do regime,vale seguramente muito pouco.

Contudo, a afirmação teve alguma repercussão entre os professores – quem não se sente, diz-se com razão, não é filho de boa gente – pelo que o episódio merece alguma reflexão. Na verdade, sendo o homem jurista de formação, não poderá dizer-se que falou do que desconhece: sabe bem que a greve é um direito constitucionalmente protegido e que a substituição de grevistas só pode fazer-se nos estritos limites previstos na lei e, no caso concreto das greves às avaliações de 2017, da forma determinada pelo colégio arbitral.

Na prática, o que o pequeno senador fez foi um apelo ao incentivo ao incumprimento da lei por parte de um órgão de soberania. Uma espécie de desobediência civil a ser praticada, não como reacção de cidadãos a leis injustas, mas de puro desrespeito da legalidade democrática por parte do poder executivo.

Para Marques Mendes há, aparentemente,leis da República que podem e devem ser violadas, e a lei da greve é uma delas. Caso para os espectadores habituais do comentário dominical ficarem atentos e tentarem descobrir outros casos mediáticos em que Marques Mendes advogue, igualmente, o triunfo da ilegalidade, o desprezo pelos direitos dos cidadãos e o reconhecimento público dos prevaricadores.

Volta Natália com os teus “truca-truca” e o “coito do Morgado”

Adão e Eva imageimage
 
Por Fernando Botero1932 -- e Neuza Guerreiro de Carvalho 2015
Juventude do CDS quer educação nas escolas para a abstinência sexual, oTruca-Truca do gozado Morgado, que Natália Correia tão bem soube glosar, está de volta pela mão dos frustrados jovens conservadores.
A repressão aproxima-se com sapatinhos de lã, no tempo do Botas, o beijo na via pública estava sujeito a multa, a satisfação das nossas necessidades vitais, que abre a porta à felicidade e ao amor, incomodam o opressor, hipocrisia e moralismo coabitam no mesmo vão de escada. Uma governante bolsonarista diz que a inseminação humana não leva mais que trinta segundos, tudo o mais é vício.
A alma da Direita tem o odor do bafio
 

Ver o original em As palavras são armas (clique aqui)

 

 

Já que o coito - diz Morgado -
tem como fim cristalino,
preciso e imaculado
fazer menina ou menino;
e cada vez que o varão
sexual petisco manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca.
Sendo pai só de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou - parca ração! -
uma vez. E se a função
faz o órgão - diz o ditado -
consumada essa excepção,
ficou capado o Morgado.

(Natália Correia - 3 de Abril de 1982 )

Portugal | Passos quer aliança à Direita para as reformas que o país precisa

 
 
O RESSUSCITAR DE UM DOS GRANDES INIMIGOS PÚBLICOS*
 
O ex-primeiro-ministro e antigo líder do PSD Pedro Passos Coelho dirigiu este domingo um "voto público" ao PSD e ao CDS de "afirmação" e "união" para que os dois partidos possam fazer as "ações reformistas importantes" que o país precisa.
 
"Isso está perfeitamente ao nosso alcance e o país precisa disso, e nós precisamos disso. É o voto que aqui quero deixar. Que o exemplo da Barca possa ser inspirador para os nossos partidos, e em particular para o meu, que é o PSD", afirmou Passos Coelho.
 
O ex-governante, que falava durante a tomada de posse dos novos órgãos da concelhia de Ponte da Barca, no distrito de Viana do Castelo, terminou um discurso de quase 40 minutos, formulando um voto público aos dois partidos, em particular, ao seu.
 
"Que possa encontrar o seu caminho, certamente de afirmação e de união, porque as pessoas têm de se saber unir. Se andarem em desavenças é mais difícil chegar a algum lado. Não estou a dizer que é impossível, mas é mais difícil", referiu.
 
Passos Coelho lembrou que os dois partidos fecharam "ciclos políticos" e que novos se abriram.
 
"No PSD houve eleições há pouco tempo e haverá um congresso daqui a 15 dias para coroar essa eleição. O CDS fez hoje o seu congresso. Podemos dizer que aqueles que estiveram, no Governo, juntos no passado com essas responsabilidades fecharam um ciclo, em definitivo, e abriram outro. Ainda para mais com pessoas e dirigentes que não tiveram nada a ver nem com esse Governo, nem com outros passados, destes partido", especificou.
 
 
Passos Coelho apelou para que "as pessoas se unam, a pensar no serviço que podem prestar aos outros".
 
"Se puserem um bocadinho de lado as questões que foram acumulando, às tantas se elas não forem muitos importantes e, muitas vezes não são muitos importantes, as pessoas tendem a esquecê-las e tendem a unir-se em torno de coisas mais positivas", alertou.
 
Na intervenção, que contou com a presença dos deputados Eduardo Teixeira e Emília Cerqueira, do ex-deputado Carlos Abreu Amorim, dos presidentes da Câmara de Ponte da Barca, da concelhia e distrital do partido, Passos apelou ao "respeito e elevação".
 
"Temos de saber acomodar as nossas divergências e saber comportar-nos à altura daqueles que estão a ouvir, que não estão nada interessados em saber das nossas zangas. Isso não interessa para nada. As nossas zangas são connosco. Não temos de maçar as pessoas com elas, a não ser que sejam coisas importantes. Se são importantes vamos lá a debater. Uma vez que estão arrumadas, estão arrumadas. Andamos para a frente. Não podemos andar sempre a bater na mesma tecla, senão não saímos do sítio".
 
Convidado pelo PSD de Ponte da Barca para a tomada de posse da comissão política concelhia, Passos Coelho afirmou que a "união" daqueles dois partidos é "indispensável" perante a ausência, no presente, de "qualquer ação reformista importante" que possa "prevenir problemas maiores no futuro".
 
"Não se vislumbra nenhum programa económico em que alguma reforma se esteja a fazer na dimensão da produtividade e competitividade da economia", referiu, apontando o envelhecimento, a sustentabilidade dos apoios sociais e a saúde, "que está a rebentar pelas costuras", como os principais problemas do país, a par do "descrédito da ação governativa".
 
"Era indispensável que se começasse a intensificar esta forma de abordar os problemas. Quem está hoje no Governo prima pela ausência de um quadro reformista para um futuro melhor", reforçou.
 
No final da intervenção e questionado pelos jornalistas, Passos Coelho escusou-se a prestar mais declarações.
 
"Isto hoje foi uma exceção", disse.
 
Notícias ao Minuto | Lusa | Imagem: © PSD
 
*Subtítulo PG
 

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ANARCO-CAPITALISMO?

Para se abordar este assunto sem demagogia, num ou noutro sentido, temos de nos despir de todos os preconceitos. Isto é normalmente muito difícil, se não impossível, para o comum dos mortais. 
 
Porém, o conhecimento dos conceitos relativos ao anarquismo ou ao socialismo libertário são fundamentais e ajudam a esclarecer o fundo da questão. E este, resume-se à resposta simultânea às duas questões: «será o anarquismo viável?»; «será o anarquismo desejável?».
Para compreender as propostas dos que defendem um «anarco-capitalismo», temos de cavar um bocado na História e perceber como evoluiu este complexo de ideias, teorias, organizações e movimentos sociais.  Sobretudo, devemos compreender que na origem (pelo menos enquanto teoria política e social), o anarquismo é visto como uma modalidade do socialismo. E o socialismo, por sua vez, é a utopia que mobiliza os sectores despojados pelo desenvolvimento capitalista dos séculos XVIII-XIX. No início, não se distinguia, nem em termos de projeto, nem em termos de teoria​,​ do comunismo. A palavra comunismo vem de comuna, que é o equivalente à nossa «freguesia»​. O comunismo foi, inicialmente​, um projeto de auto-gestão e auto-apoderamento​,​ ​n​um​ espaço territorial definido, que se pode considerar gerível e controlável pelo povo da comuna.  Portanto, teria mais a ver com a gestão horizontal dos recursos, nos espaços geográficos ​duma área que ​podia ser atravessada de lés a lés, numa única jornada​,​ a cavalo.  Porém, a luta de classes, na primeira metade do século XIX, nos países europeus, esteve imiscuída ​n​a luta pela libertação nacional contra o domínio das​ diversas monarquias e impérios. 
Es​t​es impérios, para usar uma expressão​​ conhecida, eram «a prisão dos povos». A eclosão de um movimento insurrecional em 1848, foi a primeira «prova de fogo»​:​ não apenas dos que ainda estavam imbuídos do ideário liberal, na sua versão genuína e original de liberdade de opinião, de associação e não somente liberdade de comércio, mas também dos proletários​,​ que entravam, pela primeira vez com a sua agenda própria, contra as monarquias instaladas. Havia a ilusão de que a república, o sufrágio universal, a liberdade, o direito de organização de sindicatos e a consagração do direito à greve, seriam a etapa necessária para a «república social», no confronto geral com a burguesia e ​​restantes classes​ opressoras.​ Infelizmente, tal esperança não se concretizou​,​ pois os regimes republicanos burgueses ​- ​instalados entre a ​2ª​ metade do século XIX e início​s​ do século XX​ -​ logo se viraram contra a classe ​operária, ​que os pusera no poder, com repressão e com restrições de toda a ordem, p​ara «desarmar» o perigo de revolução. Quando se falava de revolução, era - naturalmente - a​ revolução​ que apregoavam os socialistas, comunistas e anarquistas​ ​e suas respectivas organizações e órgãos de propaganda. Porém, a vertente não insurrecional do movimento operário e socialista (no sentido lato do termo) esteve sempre presente, desde os grandes movimentos Cartistas para conseguir uma lei (Charter) consagrando a existência legal de  sindicatos,  ​«trade-unions» nas ilhas britânicas.  Outra vertente não insurrecional, era formada pelo nascente movimento​ ​de cooperativas operárias, implicados em produzir mercadorias e serviços de maneira autónoma​,​ gerindo​ ​suas empresas cooperativas de modo democrático e horizontal.  Um grande apologista desta​ ​abordagem evolucionista​,​ em direcção a um socialismo futuro, ​foi​ Pierre-Joseph Proudhon, ele próprio um operário. A sua crítica radical do capitalismo inspirou o jovem Marx e​ ​outros socialistas​ e ​comunistas​. Devido a uma polémica azeda entre Marx e Proudhon, eles divergiram e detestaram-se.  Porém​,​​​​ é um facto que, ​na Iª Internacional, ​a corrente proudhoniana era nitidamente mais importante que ​o marxismo ou que outras, como a corrente de Bakunin​. A corrente prouhoniana, apesar de derrotada e expulsa da IIª Internacional, juntamente com os que seguiam Bakunin, acabou por ser o esteio sobre o qual se ​re​construiu o movimento sindical ​no final do século XIX, princípio d​o século XX. Com o acordo entre socialistas marxistas e sindicalistas ​libertários, estabeleceu-se ​como regra, nas «organizações de classe» (os sindicatos), terem estas autonomia em relação a todos os partidos e correntes políticas, sendo então os sindicatos capazes​ de unir os trabalhadores​ com base nas suas reivindicações e não com base na​s​ suas ideologia​s​. No seu desenvolvimento histórico, o anarquismo é tudo menos uma teoria monolítica, pelo que excluir​ de antemão e sem análise o «anarco-capitalismo», ou todas as ideias​ análogas​ que se apresentam, é contraditório com o espírito aberto e tolerante, que também faz parte da herança multissecular das correntes libertárias. Ser intolerante, ser-se sectário,​ é a negação dos princípios anarquistas​; as pessoas que assim se comportam, em vez de revolucionárias, estão (sem o saberem?) a preparar a «cama» para uma aventura autoritária.
Vou, por isso, tentar esclarecer o que compreendi da leitura de autores anarco-acapitalistas contemporâneos.  O que noto​ -​ desde logo​ -​ é que o movimento dito «libertariano» ou «anarco-capitalista», es​tá ​ancorado na sociedade ​norte-​americana e é parte de uma franja descontente com os partidos do establishment. 
Mas​,​ ​n​a abordagem​ prática da ação política, têm decidido, ou formar uma ala no seio do partido republicano, ou intervir com candidatos próprios (apoiados pelo partido libertariano) nas eleições ao nível estadual (ou a níveis inferiores) para conquistar uma parte do eleitorado do partido republicano (​a origem de​ muitos deles). Compreende-se que isto tudo tenha pouco​ ou nada​ que ver com o verdadeiro anarquismo, como organização horizontal, com a rejeição d​e​ eleições, vistas como um logro​​ que permite perpetuar​ ​a opressão​ do Estado e da classe dominante​, sob o pretexto (falso) de uma igualdade política, etc.  A generalidade dos anarco-capitalistas aceita como ideal a constituição dos EUA, redigida e aprovada pelos revolucionários americanos: revolucionários... em relação à sede  da colónia (a Grã​-Bretanha), mas - eles próprios - grandes proprietários, muitos dos quais (​incluindo​ Washington ​e​ Jackson) proprietários de escravos negros. Os «libertarianos» pensam que o Estado deveria retornar à «pureza» da constituição aprovada pelos «pais fundadores»​ nos finais do século XVIII​. Neste ponto fundamental, divergem dos anarquistas, pois não preconizam (mesmo a longo prazo) a abolição do Estado, mas somente a sua reforma profunda. No p​lano​ económico​,​ defendem a desregulamentação total, o que se traduziria por uma extrema força de coação económica dos detentores dos meios de produção e do capital​,​ sobre os que não possuem outra escolha senão vender sua força de trabalho​,​ para seu sustento e da sua família.  A favor desta tese extremada​,​ argumentam que o Estado é essencialmente parasitário e que o mercado «libertado de entraves» será originador de tal multiplicação de riqueza, de tal multiplicação das oportunidades, que todos poderão construir o seu negócio, que todos beneficiarão. Esta projecção, n​o​ futuro, do «paraíso» capitalista faz-nos sorrir, porque ouvimos - no passado - o mesmo estribilho, mas ​aplicado ao​ «paraíso ​​comunista​»​. 
O anarco-capitalismo é a ideologia ​à qual se agarram algumas pessoas da pequena e média burguesia, ao verem suas vidas devastadas pelas sucessivas crises do capitalismo, mas ​sem terem​ (ainda?) equaciona​do​ que pudesse existir algo melhor do que este sistema.  Convenceram-se que o capitalismo presente é um capitalismo degenerado​ (crony capitalism)​, que a restauração da «pureza» do mercado - divinizado, como um «Deus ex machina» - iria repor a sociedade e as instituições do Estado n​o​ caminho d​o​ progresso, ​com ​um bem-estar generalizado e em plena ​liberdade. Eu caracterizaria as várias vertentes do movimento «libertariano» ou «anarco-capitalista», como um agregado de nostálgicos do capitalismo passado, porventura de um capitalismo que nunca existiu realmente. Só diferem concretamente uns dos outros, na forma como analisam alguns fenómenos e na ênfase que colocam nas suas críticas (parciais) ao Estado. No entanto, pode-se encontrar argumentos muito pertinentes nos autores desta corrente sobre o processo pelo qual o Estado passou a controlar cada vez mais as vidas das pessoas, a suprimir as liberdades fundamentais e a arregimentá-la​s​ para a guerra.  Pode-se encontrar ​neles ​uma crítica do «crony-capitalism», ou seja, da forma como ​o​ capitalismo de hoje, está dominado por monopólios, por grupos tão poderosos, que a concorrência ​real ​não existe. Não havendo mais mercado digno desse nome​, ​​em múltiplos sectores da economia​, caminha-se para um totalitarismo corporativo.  Também verberam contra o capitalismo financeiro e contra a gestão dos movimentos financeiros e monetários, pelos bancos centrais para benefício da finança e desastrosa​​ para os pequenos, sejam eles trabalhadores ou pequenos patrões.
Porém, nem as metas globais que apontam, nem as formas concretas adoptadas (partidos, eleições), para se organizarem e fazer valer as suas ideias... nos permitem reconhecer os princípios fundamentais dos libertários ou anarquistas. Estão longe de quaisquer das formas em que estas tradições se afirmaram, desde o século XIX e séculos seguintes, até hoje.  ​Penso que estão relacionados antes com uma vertente extremada do liberalismo. Na origem, o liberalismo lutou também pelas liberdades individuais e não apenas pela liberdade de comerciar, confrontando-se com os poderes estatais. O liberalismo foi a ideologia adoptada pela burguesia ascendente. ​ Quem conhece a história do movimento operário nos EUA, sabe que houve uma intervenção vigorosa dos sindicalistas de ideologia anarquista​,​ ou de inspiração libertária. Destacam-se os​ sindicatos da confederação​ Industrial Workers of the World (IWW ou wo​o​blies), que permanecem activos hoje, em certos sectores da sociedade dos EUA, apesar da repressão feroz​,​ tanto do Estado, como do patronato. 
Existem muitas organizações e pensadores, ao longo da História dos EUA,​ que se filiam na corrente libertária​. Muitas pessoas conhecem os nomes de Emma Goldman, ou de Noam Chomsky, mas existem muitos mais com contribuições práticas e teóricas notáveis.   Existe, no presente, um grande movimento de simpatia pelo socialismo, onde predominam correntes de socialismo anti-autoritário, não-hierárquico. Este, embora não sendo​ sempre​ explicitamente anarquista no seu enunciado​, fez suas várias teses​ e adoptou métodos de organização do movimento anarquista. Nesta situação de agudização da crise​,​ há um fosso crescente entre classes sócio-económicas, com o divórcio da classe trabalhadora em relação à ideologia dominante, apesar das catadupas de mentiras e deturpações que os media - vendidos aos poderes do dinheiro - despejam diariamente, sobre o soci​alismo

Creio que muitas pessoas vão compreender ​pela prática  social, ​que o movimento dito «libertariano» ou ​«​anarco-capitalista​»​ não oferece resposta​ para ultrapassar o sistema concreto em ​que ​nos encontramos. ​
Destas pessoas, algumas poderão vir a reforçar os movimentos anti-autoritários e anti-capitalistas, que se têm multiplicado nos últimos decénios.​

Ver o original em 'Manuel Banet' (clique aqui)

O avanço da direita e a causa oculta

Para impor “verdades” repetidamente desmentidas, as elites globais suprimiram o debate público e instalaram, em seu lugar, um mercado frenético e vazio de opiniões. Daí às “fake news” foi um passo.

 

 

A verdade de um sistema errado é o erro. Para ser politicamente eficaz, este erro tem de ser incessantemente repetido, amplamente difundido e aceito pela população como a única verdade possível e credível. Não se trata de uma qualquer repetição. É necessário que cada vez que o erro é posto em prática, o seja como um ato inaugural – a verdade finalmente encontrada para resolver os problemas da sociedade. Não se trata de uma qualquer difusão. É necessário que o que se difunde seja percebido como algo com que naturalmente temos de estar de acordo. Não se trata, enfim, de uma qualquer aceitação. É necessário que o que se aceita seja aceito para o bem de todose que, se envolver algum sacrifício, ele seja o preço a pagar por um bem maior no futuro.

O avanço das forças políticas de direita e extrema-direita um pouco por todo o mundo assenta nesses pressupostos. É difícil imaginar a sobrevivência da democracia numa sociedade em que tais pressupostos se concretizem plenamente, mas os sinais de que tal concretização pode estar mais próxima do que se pensa são muitos e merecem uma reflexão antes que seja demasiado tarde. Abordarei os seguintes sinais: a reiteração do erro e a crise permanente; a orgia da opinião e a fabricação massiva de ignorância; da sociedade internética à sociedade métrica.

A reiteração do erro é hoje patente

Desde há décadas, os países capitalistas centrais, mais desenvolvidos, têm assumido a responsabilidade de dedicar parte de seu orçamento à “ajuda ao desenvolvimento”. O objetivo é, como o nome indica, ajudar os países periféricos, subdesenvolvidos, a seguir a trilha do desenvolvimento e, idealmente, convergir com estes em níveis de bem-estar num futuro mais ou menos próximo. É hoje patente que o fosso que separa os países centrais dos países periféricos é cada vez maior. A chamada “crise dos refugiados” e o aumento alarmante do movimento de populações migrantes indesejadas são os sinais mais evidentes de que as condições de vida nos países periféricos são cada vez mais intoleráveis. O mesmo se diga das políticas de redução da pobreza levadas a cabo pelo Banco Mundial há décadas. O balanço é negativo se por redução da pobreza entendermos a diminuição do fosso entre ricos e pobres dentro de cada país e entre países. O fosso não tem cessado de aumentar. Do mesmo modo, as políticas de “austeridade” ou de ajustamento estrutural impostas aos países com dificuldades financeiras, têm falhado em seus objetivos e o próprio FMI tem-no reconhecido, de forma mais ou menos velada (“excesso de austeridade”, “deficiente calibração” etc).

Apesar disso, uma e outra vez as mesmas políticas vão sendo impostas como se no momento fossem a melhor ou a única solução. O mesmo se pode dizer da privatização da segurança social e, portanto, do sistema público de aposentadorias. O alvo mais recente é a Previdência Social do Brasil. Segundo os estudos disponíveis, em cerca de 70% dos casos em que a privatização foi realizada, o sistema falhou e o Estado teve de resgatar o sistema para evitar uma profunda crise social. Apesar disso, a receita continua a ser imposta e a ser vendida como a salvação do país. Por que se insiste no erro de impor medidas cujo fracasso é antecipadamente reconhecido? São muitas as razões, mas todas convergem no que considero ser a mais importante: o objetivo de criar uma situação de crise permanente, que force as decisões políticas a concentrarem-se em medidas de emergência e de curto prazo. Estas medidas, apesar de envolverem sempre a transferência de riqueza dos mais pobres para os mais ricos e imporem sacrifícios aos que menos podem suportá-los, são aceitas como necessárias e inviabilizam qualquer discussão sobre o futuro e as alternativas de médio e longo prazo.

A orgia da opinião

O erro reiterado e sua repetição não seriam possíveis sem uma mudança tectônica na opinião pública. Os últimos cem anos foram o século da expansão do direito a ter opinião. O que antes era um privilégio das classes burguesas transformou-se num direito exercido por vastas camadas da população, sobretudo nos países mais desenvolvidos. Essa expansão foi muito desigual, mas permitiu enriquecer o debate democrático com a discussão de alternativas políticas significativamente divergentes. O conceito da razão comunicativa, proposto por Jürgen Habermas, assentava na ideia de que a formulação da discussão livre de argumentos prós e contra em qualquer área de deliberação política transformava a democracia no regime político mais legítimo porque garantia a participação efetiva de todos. Acontece que nos últimos 30 anos a sociedade midiática, primeiro, e a sociedade internética, depois, produziram uma cisão insidiosa entre ter opinião e ser proprietário da opinião que se tem. Fomos expropriados da propriedade da nossa opinião e passamos a ser arrendatários ou inquilinos dela. Como não nos damos conta desta transformação, podemos continuar a pensar que tínhamos opinião e imaginar que ela era nossa. Empresários de opinião de todo tipo entraram em cena para simultaneamente reduzir o leque de opiniões possíveis e intensificar a divulgação de opiniões promovidas. Os agentes principais desta transformação foram os partidos políticos do “arco da governação”, os meios de comunicação oligopólicos e os sistemas de publicidade, inicialmente vocacionados para o consumo de massa de mercadorias, os quais foram sendo direcionados para o consumo de massa do mercado das ideias políticas. Assim surgiu a sociedade midiática e a política-espetáculo, onde as diferenças substantivas entre as posições em que se diverge são mínimas, mas apresentadas como se fossem máximas. Foi o primeiro passo.

O passo seguinte ocorreu quando da sociedade midiática passamos à sociedade internética. Nesse passo, o direito a ter opinião expandiu-se sem precedente e a expropriação da opinião de que somos usuários (mais que titulares) atingiu novos patamares. Surgiram os empresários, tanto legais quanto ilegais, da manipulação da opinião pública, de que são exemplos paradigmáticos as redes e as páginas de facebook e de whatsapp que produzem “táticas de desinformação” particularmente ativas em períodos eleitorais, como sucedeu nas eleições para o Parlamento Europeu. A conhecida organização Avaaz identificou 500 páginas suspeitas, seguidas por 32 milhões de pessoas, que geraram 67 milhões de interações (comentários, links, compartilhamentos). A empresa Facebook fechou 77 destas páginas, que eram responsáveis por 20% do fluxo de informações nas redes identificadas. Esta extraordinária manipulação da opinião teve três consequências que, apesar de passarem despercebidas, constituíram uma mudança de paradigma na comunicação social.

A primeira consequência é que este policiamento das redes legitimou-se apesar de ter controlado apenas a ponta do iceberg. O recurso cada vez mais intenso aos big data e aos algoritmos para tocar cada indivíduo nos seus gostos e preferências, e de o fazer simultaneamente para milhões de pessoas, tornou possível mostrar que os verdadeiros proprietários da nossa opinião são Bill Gates e Mark Zuckerberg. Como tudo é feito para não nos darmos conta disso, consideramo-nos devedores gratos do Eldorado de informações que nos proporcionaram e não credores de um desastre democrático de consequências imprevisíveis, pelas quais deviam ser eles responsabilizados.

A segunda é que a informação que passamos a usar, apesar de tão superficial, não pode ser contestada com argumentos. Ou é aceita, ou recusada, e os critérios para decidir são critérios de autoridade e não de verdade. Se servir os interesses do líder político de turno, o povo é exaltado como tendo finalmente opinião própria e capaz de contradizer a das elites tradicionais. Se não servir, o povo é facilmente considerado como “ignorante e incapaz de ser governado democraticamente”. Quando o povo segue a opinião do líder, é o líder que segue a opinião do povo. Quando o povo diverge da opinião do líder, deve, como povo ignorante, confiar na opinião do líder. Conforme lhe convenha, o líder “populista” pode aparecer ora como seguidor do povo, ora como seu tutor. Aqui reside a razão última de reemergência do “populismo”. Este capital de confiança cria-se facilmente na medida em que tudo se passa na intimidade do indivíduo e da sua família. Enquanto a sociedade midiática transformou a política num espetáculo, a sociedade cibernética transforma-a num show íntimo, um verdadeiro peep show em que toda a interação afetiva ocorre entre o líder e o cidadão, sem argumentos nem mediação.

A terceira consequência da sociedade internética é que as redes sociais criam dois ou mais fluxos de opinião unânime, que correm em paralelo e por isso nunca se encontram. Ou seja, em nenhum caso podem ser contraditados ou contra-argumentados numa discussão democrática. A política errada pode assim ser amplamente aceita se cavalgar um dos fluxos de unanimidade. Este é o caldo comunicacional da radicalização política, o ambiente ideal para o clima de polarização, de ódio ou de demonização do inimigo político, sem que seja necessário usar argumentos discutíveis e apenas recorrendo a frases apocalípticas.

Da sociedade internética à sociedade métrica

Vivemos uma outra orgia, a orgia da quantificação da vida individual e coletiva. Nunca as nossas vidas coletivas estiveram tão dependentes dos números dos seguidores do facebook, dos likes nas interações nas redes, dos scores nos concursos, dos rankings nas universidades, na quantificação da produção científica. Sabemos que a lógica da quantificação é extremamente seletiva e muito enviesada pelos critérios que usa e pelos campos que seleciona pra quantificar. Deixa de fora tudo o que é mais essencial à vida individual e coletiva. Deixa de fora setores sociais que, pela sua inserção social, não podem ser adequadamente contados. Os sem-teto são contados pelo fato de serem sem-teto e não pelo que fazem durante o dia; a agricultura familiar, informal, apesar de em muitos países alimentar ainda hoje a população, bem como o trabalho não pago da economia do cuidado em casa, não conta para o PIB. O que está dominantemente a cargo das mulheres não entra nas estatísticas do trabalho, apesar de crucial para reproduzir a força de trabalho. Se não for sufragada quantitativamente, a qualidade da produção científica não conta para a carreira dos pesquisadores. E o grande problema do nosso tempo é que o que não é contado não conta.

Estas são algumas das dinâmicas subterrâneas que vão minando a democracia e criando uma cultura pública e privada indefesa ante os erros, de que a direita e a extrema-direita se vão alimentando.


por Boaventura de Sousa Santos, Doutorado em Sociologia do Direito pela Universidade de Yale e Professor Catedrático Jubilado da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Diretor do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e Coordenador Científico do Observatório Permanente da Justiça Portuguesa  | Texto original em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado

 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/o-avanco-da-direita-e-a-causa-oculta/

Ministro estónio chamou “miúda das vendas” à nova PM finlandesa. Presidente do país pediu desculpa

arvamusfestival / Flickr

Ministro da Administração Interna estónio, Mart Helme

Mart Helme, ministro da Administração Interna estónio, criticou primeira-ministra finlandesa. O Presidente do país pediu desculpa ao homólogo finlandês.

 

O ministro da Administração Interna estónio, Mart Helme, comentou rceentemente a composição do novo Governo da Finlândia, que inclui a primeira-ministra mais jovem em funções, Sanna Marin, de 34 anos.

“Agora, uma miúda das vendas tornou-se primeira-ministra e outros ativistas de rua e pessoas sem educação também se tornaram membros do Governo [finlandês]”, disse o governante estónio à rádio TRE, segundo a edição em inglês da rádio-televisão finlandesa YLE.

A Presidente da Estónia, Kersti Kaljulaid, telefonou ao homólogo finlandês, Sauli Niinistö, para apresentar formalmente um pedido de desculpas pelos comentários feitos pelo ministro da Administração Interna, avança a Reuters.

 
 

Sanna Marin não respondeu ao comentário do ministro estónio, mas escreveu uma publicação no Twitter: “Tenho imenso orgulho na Finlândia. Aqui, o filho de uma família pobre pode ter educação e alcançar os seus objetivos na vida. Uma vendedora de caixa até se pode tornar primeira-ministra.”

https://twitter.com/MarinSanna/status/1206315232181784582?ref_src=twsrc%5Etfw

 

Jüri Ratas, primeiro-ministro estónio, sublinhou a necessidade de existir cooperação “respeitosa” entre os dois países, “independentemente da composição da coligação de Governo ou dos partidos que o lideram”.

De acordo com o Observador, este caso pode revelar-se complicado para o próprio Governo da Estónia, que resulta de uma coligação entre o Partido do Centro, o Ekre e os conservadores do Pro Patria.

Kaja Kallas, líder da oposição, disse esta segunda-feira que se Helme não se demitir na sequência das suas delarações irá apresentar uma moção de censura. “O ministro da Administração Interna ofendeu o Governo finlandês e atacou pessoalmente a recém-nomada primeira-ministra finlandesa.”

ZAP //

 
 
 

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https://zap.aeiou.pt/ministro-miuda-vendas-pm-finlandesa-297689

CDS. Abel Matos Santos apresenta moção e quer “grande casa da direita”

Abel Matos Santos, da Tendência Esperança em Movimento (TEM), fez hoje a primeira apresentação, no Facebook, da sua moção ao congresso do CDS, que quer tornar na “grande casa da direita”.

 

O dirigente centrista, crítico da direção de Assunção Cristas, falou durante um minuto e sete segundos cerca das 19:00, numa emissão que teve entre 21 e 51 pessoas a assistir para apresentar a moção “Portugal tem esperança”, ao 28.º congresso nacional, em 25 e 26 de janeiro de 2020.

Nos próximos dias, promete voltar ao Facebook para apresentar as ideias da sua moção e falar “dos caminhos” que o partido tem “pela frente”, no congresso.

 

 

 
 
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Assista aqui à repetição do video da apresentação da minha candidatura à Presidência do CDS-PP.Na próxima quinta-feira às 19h, aqui estarei de novo.Portugal TEM Esperança, o CDS conta consigo e nós também!

Publicado por Abel Matos Santos em Segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

No congresso de Aveiro, afirmou, o partido vai ter que “decidir coisas muito importantes” sobre o “futuro coletivo enquanto instituição” e a “principal, e aquela que é mesmo, mesmo, mesmo fundamental” para a sua existência, “é uma opção entre a continuidade ou o futuro”, afirmou.

Nós queremos que o partido se regenere, queremos que o partido cresça e seja a grande casa da direita em Portugal”, declarou Matos Santos, que falou num cenário em tons de branco, entre dois quadros, com imagens em vídeo de paisagens.

Abel Matos Santos foi o primeiro a anunciar que é candidato à presidência do CDS, logo na noite das eleições de 6 de outubro, uma hora depois de Assunção Cristas ter anunciado a saída da liderança devido aos resultados em que o partido passou de 18 a cinco deputados, com 4,2%.

Os outros quatro candidatos à liderança são João Almeida, deputado e porta-voz dos centristas, Filipe Lobo d’Ávila, do grupo Juntos pelo Futuro, e Carlos Meira, ex-lider da concelhia de Viana do Castelo.

Francisco Rodrigues dos Santos, líder da JP, deverá anunciar a sua candidatura na terça-feira, no Porto.

ZAP // Lusa

 
 
 

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https://zap.aeiou.pt/cds-abel-matos-santos-apresenta-mocao-quer-grande-casa-da-direita-297626

Pode ser o momento para “equacionar a adoção do voto obrigatório”

(Comentário:

Quem é este senhor com ideias tão "brilhantes" ?)

José Goulão / Wikimedia

D. Duarte Pio, Duque de Bragança e pretendente ao trono de Portugal.

D. Duarte Pio não a considera “a solução ideal”, mas justifica-a com a abstenção e distanciamento dos jovens face à política.

 

O pretendente ao trono português, Duarte Pio, defendeu este sábado que se deve equacionar a adoção do voto obrigatório em eleições para combater a “forte abstenção” e “a desilusão” dos portugueses em relação à política.

“Os mais recentes atos eleitorais mostram um elevado descontentamento do eleitorado relativamente às forças políticas tradicionais”, refere a mensagem do duque de Bragança, por ocasião do aniversário da restauração da independência de Portugal, lida esta noite no “jantar dos conjurados”, que decorre na véspera do feriado nacional.

Segundo Duarte Pio, a forte abstenção dos portugueses em todos os atos eleitorais mostra descontentamento e “desilusão por parte dos cidadãos”, sinais que considera “visíveis nas gerações jovens, que não se sentem representadas”.

 
 

Por isso, e porque a situação “poderá degenerar em consequências graves no futuro”, Duarte Pio admite que este poderá ser “o momento para, em Portugal, se equacionar o voto obrigatório ao mesmo tempo que as instituições do regime se reabilitam e moralizam”.

Embora considere que não é “a solução ideal”, o duque de Bragança defende que a medida “poderá contribuir para o aumento do interesse dos portugueses pela causa política”.

Na sua mensagem, o pretendente ao trono português diz estar preocupado com “uma debandada dos jovens para o estrangeiro por falta de condições de vida, considerando que o país está a “deixar escapar” um “ativo muito valioso”. No mesmo sentido, defende a adoção de políticas que defendam as famílias e promovam a natalidade, “através de medidas de apoio social, inteligentes”.

Além disso, Duarte Pio deixa também uma crítica velada ao facto de o debate sobre a eutanásia regressar ao parlamento no próximo ano, na sequência de projetos que os partidos Bloco de Esquerda, PAN e PS pretendem apresentar.

“Para além de se verificar uma dramática baixa de natalidade em Portugal, vemos agora uma perversa lógica de facilitar e antecipar a morte, ao invés de se promoverem os cuidados paliativos que permitem um fim de vida tranquilo e natural”, critica.

Duarte Pio lamenta que os portugueses assistam “por todo o lado às limitações do Estado”, seja através de “intermináveis listas de espera para consultas, cirurgias e outros atos médicos”, seja por “notícias de situações de negligência por parte de estruturas do Estado em Tancos, em Pedrógão ou no rio Tejo”, ou ainda por “situações de corrupção” das “chamadas elites” que não têm consequências, porque a justiça é “demasiado lenta”.

O duque de Bragança considera ainda “pouco explicável a situação de degradação das forças de segurança”. Apesar de sublinhar o “tanto [que estas forças] têm dignificado Portugal”, Duarte Pio lamentou o “desinteresse crescente” de que têm sido alvo.

Outro dos assuntos a que defende dever ser dada atenção é o das mudanças climáticas, referindo que “o pensamento monárquico dá prioridade aos valores permanentes da pátria, enquanto outros estão mais preocupados em manter o poder nas próximas eleições”.

Apesar das preocupações, Duarte Pio acredita que Portugal “continua a ser um país aberto ao mundo”, onde muitas empresas querem investir, e que tem “uma enorme capacidade de acolhimento de comunidades de imigrantes.

“Numa fase da Europa em que existe uma crise dos refugiados e em que poderes europeus pouco fazem para a resolver, quero saudar a figura do indefetível monárquico que foi Aristides Sousa Mendes que, contrariando instruções recebidas, salvou a vida a muitos milhares de refugiados que procuravam escapar ao holocausto”, conclui.

ZAP // Lusa

 
 

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https://zap.aeiou.pt/equacionar-voto-obrigatorio-294570

Financiadores norte-americanos deram milhões a grupos de direita no Reino Unido

ChiralJon / Wikimedia

 

Onze doadores norte-americanos deram mais de 3,7 milhões de dólares a grupos de direita no Reino Unido que se impuseram no debate sobre o Brexit e o futuro do comércio britânico com a União Europeia.

 

O The Guardian avança esta sexta-feira que onze doadores norte-americanos deram mais de 3,7 milhões de dólares, cerca de 3,36 milhões de euros, nos últimos cinco anos, a grupos de direita no Reino Unido que se impuseram no debate sobre o Brexit e o futuro do comércio britânico com a União Europeia.

Os financiadores, entretanto identificados, levantam grandes preocupações sobre a influência do financiamento estrangeiro na política britânica.

Estas doações foram concedidas a quatro think tanks (grupos de reflexão) e a uma organização que diz ser independente e representar os contribuintes britânicos comuns.

O jornal analisou documentos fiscais norte-americanos e outras declarações públicas e compilou uma lista parcial de doadores americanos a grupos britânicos desde 2014. Algumas doações foram tornadas públicas, mas estes grupos têm uma política de não divulgação dos seus doadores, por respeito à privacidade dos seus apoiantes. Só as tornam públicas quando assim é a vontade dos próprios doadores.

Os críticos defendem que os grupos britânicos não são totalmente transparentes sobre quem os financia. Entre eles, segundo o Expresso, estão incluídos o Institute of Economic Affairs (IEA), o Policy Exchange e o Instituto Adam Smith. Este último instituto incorpora um conjunto de think tanks que alavancaram algumas das privatizações mais controversas dos Governos conservadores de Margaret Thatcher e John Major.

Os doadores incluem fundações financiadas pelas fortunas de homens de negócios, incluindo a Chase Foundation do estado da Virgínia e a Rosenkranz Foundation.

Muitos deles doaram quantias avultadas a uma série de grupos americanos com a mesma orientação política e que, à semelhança dos grupos britânicos, promovem uma agenda de um mercado livre com impostos baixos, negócios pouco regulamentados e a privatização de serviços públicos, acrescenta o jornal britânico.

Em fevereiro deste ano, a reguladora Charity Commission fez um aviso formal ao IEA pela falta de equilíbrio e neutralidade num relatório que defendia uma saída do Reino Unido da União Europeia sem acordo.

A advertência acabou por ser retirada e o relatório republicado com edições. Na sua versão original, o documento era apoiado por proeminentes deputados conservadores como o antigo ministro para o Brexit David Davis e o atual líder da Câmara dos Comuns, Jacob Rees-Mogg.

ZAP //

 
 

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Marcelo e a reescrita da História

(Carlos Esperança, 26/11/2019)

Marcelo Nuno Duarte Rebelo de Sousa, Presidente da República Portuguesa, por força do voto popular, mais presidente do que republicano, está ansioso por voltar ao lugar de onde partiu, ao seio da direita portuguesa, sejam quais forem os caminhos a percorrer ou a Vichyssoise a servir à mesa dos sem-abrigo da política e dos esquecidos da História.

 

A propósito do 25 de novembro, Marcelo procurou aliciar Ramalho Eanes, o PR que o antecedeu no cargo disputado ao seu presumível preferido, gen. Soares Carneiro, para evocar a data que o próprio Eanes considerou dividir os portugueses, e que é uma velha tentativa do CDS, ora em pré-defunção, para a confiscar em seu proveito.

A tentativa de diminuir o 25 de Abril é uma velha aspiração da direita mais reacionária, como se Vasco Lourenço, Otelo e Vítor Alves não tivessem assumido a liderança de um movimento que se comprometeu a Descolonizar, Democratizar e Desenvolver o País.

Ignoram que Salgueiro Maia esteve no Carmo; que Gertrudes da Silva foi de Viseu e se lhe juntarem os camaradas de Aveiro e da Figueira da Foz, que neutralizaram a Pide em Peniche, e marcharam sobre Lisboa; que Delgado Fonseca foi de Lamego para o Porto; que José Fontão e os seus 4 capitães prenderam Silvino Silvério Marques e Pedro Serrano, no Governo Militar de Lisboa, e realizaram as tarefas distribuídas; que Teófilo Bento tomou a RTP e a colocou ao serviço do MFA; que Costa Martins tomou sozinho o aeroporto de Lisboa e encerrou o espaço aéreo nacional; que Monteiro Valente fechou a fronteira de Vilar Formoso; que Garcia dos Santos foi o responsável das Transmissões no 25 De Abril e em igual dia de novembro; que houve o Conselho da Revolução; que o Grupo dos 9 que esteve no 25 de Abril e no 25 de novembro, tendo no terreno Ramalho Eanes com Jaime Neves, sob o comando de Costa Gomes por intermédio do Governo Militar de Lisboa.

Perdoem-me os heroicos capitães de Abril que ora omito, e os 5 mil militares que foram os pais da democracia que nos legaram, como prometeram, e a que os deputados, saídos das eleições, se cencarregaram de lhe estabelecer os contornos.

Marcelo quer regressar ao sítio de onde partiu, ao ambiente do regime que lhe moldou a origem, à elite conservadora que não tolerou o ruído da Revolução e o medo que sentiu.

Entre o 28 de maio familiar e o 25 de Abril exógeno, quer ressuscitar o 25 de novembro, sem ouvir os militares que ainda estão vivos e o protagonizaram.

Depois de designar como irmão a Jair Bolsonaro e de outorgar o mais elevado grau da Ordem da Liberdade a Cavaco Silva, quer agora subverter a História e confiscar para os seus a data que os autores consideram um detalhe no papel heroico que assumiram no 25 de Abril.

Viva o 25 de Abril! Sempre!

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

25, o deles e o nosso

Sobre o 25 de Novembro, 44 anos depois, está tudo dito e (quase) tudo provado. Foi um golpe militar conduzido pela ala direitista do MFA, teve o apoio das secretas e dos governos europeus e norte-americano, Mário Soares foi o seu testa de ferro, pôs fim ao movimento popular mais radical da história portuguesa recente, criou condições para a reconstituição do grande capital, destruiu as organizações populares e fez retroceder as conquistas de 19 meses de acção directa de um povo farto de mordaças — festiva, solidária, empenhada, como todas as movimentações que constroem coisas novas.

Uma democracia cinzenta, engravatada, dita representativa, moderna, europeia, tomou o lugar do que fora um simples, tímido, esboço de democracia popular. Não foi preciso esperar 44 anos para ver os frutos: primazia absoluta aos negócios, corrupção, fortunas fulgurantes, diferenças colossais entre riqueza e pobreza, degradação dos serviços sociais, afastamento da massa do povo de qualquer decisão política (depois queixam-se da abstenção…), os pobres de novo empurrados para baixo. Eis o monopólio político da burguesia.

Mas a direita quer ir mais longe: tirar o golpe da sombra envergonhada em que o tem mantido e comemorar o 25 de Novembro com as mesmas honras do 25 de Abril. Foi este o sentido do voto que o CDS levou à Assembleia da República e que mereceu a aprovação de toda a direita (CDS, PSD, Iniciativa Liberal, Chega e sete deputados do PS sem complexos).

Há contudo uma contradição que o voto do CDS ainda não resolve. Se o 25 de Novembro representa, como diz a direita e disse Mário Soares, a “normalização democrática”, então Abril não pode estar para a direita no mesmo pé de Novembro. Abril foi a abertura da caixa de Pandora que a burguesia sempre temeu e que só conseguiu fechar em Novembro. Portanto: Abril, nunca mais! Foi o que a Iniciativa Liberal significou ao clamar “25 de Novembro, sempre!”.

Sejam então coerentes: comemorem, todos juntinhos, o vosso 25. Ficará a esquerda mais livre de confusões no que respeita ao nosso 25 — democrático porque popular, progressista porque anticapitalista.

Manuel Raposo - Segunda-feira, 25 Novembro, 2019

Ver o original em 'Mudar de Vida' (clique aqui)

No «Expresso» online: quando se sabe escrever mas não se sabe ler,

Quando se sabe escrever
mas não se sabe ler,
o resultado é este
O que, no final da reunião do Comité Central, Jerónimo de Sousa, declarou foi que :
 
«A sua concretização é inseparável da denúncia das limitações e opções da política do governo PS, bem como do confronto com a ofensiva reaccionária que procura encontrar espaço para os seus projectos antidemocráticos.»
 
Ou seja, uma coisa é uma coisa
e outra coisa é outra coisa !
 

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

25 de novembro. Marcelo, Eanes e Vasco Lourenço contra comemorações “fraturantes”

António Pedro Santos / Lusa

 

Escreve o semanário Expresso esta segunda-feira que o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e o antigo chefe de Estado Ramalho Eanes são contra comemorações no 25 de novembro, data que assinala o fim do PREC (Processo Revolucionário em Curso), em 1975.

 

O jornal fala das posições de ambos quanto ao tema, dando conta de um almoço privado entre os dois. Marcelo Rebelo de Sousa, escreve o jornal, quer evitar qualquer aproveitamento deste data que pode radicalizar querelas entre direita e esquerda.

Ramalho Eanes, um dos protagonistas da data em causa, acha um erro remexer em memórias que nunca foram consensuais, ao contrário do que acontece com o 25 de abril.

“Entendo que os momentos fraturantes não se comemoram, recordam-se. E recordam-se apenas para se refletir sobre eles”, disse, em 2005, citado pelo Expresso.

 
 

Posição semelhante tem o militar de Abril Vaso Lourenço: “Os acontecimentos e as datas que unem devem ser comemorados, caso do 25 de Abril, e os acontecimentos e as datas que dividem não o devem ser, mas apenas recordados para com eles aprendermos”, lê-se num texto divulgado por Vasco Lourenço sobre a data do movimento militar que ditou o princípio do fim da revolução, em 1975.

“Sou adepto da comemoração do 25 de Abril e sou contra a comemoração do 25 de Novembro”, pode ler-se no mesmo documento citado pela agência Lusa.

O partido Chega, que tem como deputado único André Ventura, anunciou este sábado que celebrará a tentativa de golpe militar de 25 de Novembro de 1975, numa cerimónia no Auditório Almeida Santos, na Assembleia da República.

Na proposta ao parlamento, o Chega defendeu que é necessário fazer justiça “à história de Portugal, aos portugueses, à democracia e ao Estado de Direito democrático”, solicitando que se fizesse também uma “homenagem ao Regimento de Comandos da Amadora, bem como a todos aqueles que a 25 de Novembro (…) contribuíram para que hoje possamos festejar o dia em que a liberdade (…) nos foi finalmente devolvida”.

Na mesma nota, a direção do partido lamenta que “outros partidos, bem como o sr. Presidente da República, nunca tenham dado qualquer importância ao 25 de Novembro”.

O CDS, por sua vez, defende que o o Parlamento promova anualmente uma sessão evocativa da data. A Iniciativa Liberal concorda que o dia seja assinalado, promovendo a este propósito uma Festa da Liberdade no concelho de Oeiras.

 

 

Ainda de acordo com o Expresso, a esquerda rejeita as celebrações, enquanto o PS se mostra hesitante. Com tudo, nota o semanário, a discussão sobre o tema voltou.

O 25 de Novembro de 1975 ditou o fim do chamado “período revolucionário em curso” ( PREC) um movimento militar contra um possível golpe militar de extrema-esquerda, tese ainda hoje contestada pela chamada “esquerda militar”, que saiu derrotada.

Um dispositivo militar, com base no regimento de comandos da Amadora, sob a direção do então tenente-coronel Ramalho Eanes, futuro Presidente da República, travou a tentativa de sublevação de unidades militares conotadas com setores da extrema-esquerda.

Ao fim da tarde, foi decretado o estado de sítio em Lisboa.

ZAP //

 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/marcelo-eanes-comemoracoes-do-25-novembro-293280

Portugal | 25 de Novembro: Mário Tomé contra "o disparate" da condecoração

 
 
Mário Tomé, militar de Abril e ex-deputado da UDP, é contra "o disparate" da distinção com a Ordem da Liberdade dos militares envolvidos no 25 de Novembro, o movimento que pôs fim ao processo revolucionário em 1975.
 
"A Ordem da Liberdade, que não foi dada a muitos dos que tiveram um papel fulcral no 25 em Abril, querem dá-la agora a quem fez o 25 de Novembro?É um disparate completo", afirmou à Lusa, num comentário à proposta do CDS para que os envolvidos neste movimento, civis e militares, sejam agraciados com a distinção.
 
E, apesar de usar outros argumentos, Vasco Lourenço duvida ser possível pôr em prática uma das ideias do CDS -- a distinção com a Ordem da Liberdade dos civis e militares envolvidos nos acontecimentos de há 44 anos.
 
"Além do facto de muitos capitães de Abril ainda não terem sido condecorados, apesar da sua ação relevante no 25 de Abril (conspiração e operação militar), pergunto: quem está em condições, isto é, tem competência para decidir sobre quem deve ser condecorado?", perguntou.
 
 
Mário Tomé é, igualmente, crítico de qualquer uma das propostas, do CDS, de direita, e do Chega, de extrema-direita, de propor uma sessão evocativa ou sessão solene para assinalar anualmente a data na Assembleia da República.
 
Para o militar, "quem anda a propor isso é porque não tem mais nada para propor" - o CDS "porque sofreu uma derrota nas eleições e o outro [Chega] quer mostrar que tem iniciativa política".
 
Olhando para o passado, há 44 anos, Mário Tomé, que esteve do lado dos derrotados do 25 de Novembro, acha, aliás, que "não há nada a comemorar" pelo que a data representou.
 
Desde esses acontecimentos, "todas as grandes conquistas do 25 de abril foram todas paulatinamente, com mais ou menos luta, claro, sendo liquidadas" e o que existe hoje, acrescentou, é "uma memória, uma nostalgia" dessas "grandes conquistas" que vão "existindo talvez no papel" e "já não são a mesma coisa".
 
Uma delas é o Serviço Nacional de Saúde (SNS) que o Governo minoritário do PS, nos últimos anos, "deixou que se degradasse".
 
O 25 de Novembro de 1975 ditou o fim do chamado "período revolucionário em curso", conhecido pela sigla PREC, um movimento militar contra um possível golpe militar de extrema-esquerda, tese ainda hoje contestada pela chamada "esquerda militar", que saiu derrotada.
 
Um dispositivo militar, com base no regimento de comandos da Amadora, sob a direção do então tenente-coronel Ramalho Eanes, futuro Presidente da República, travou a tentativa de sublevação de unidades militares conotadas com setores da extrema-esquerda. Ao fim da tarde, foi decretado o estado de sítio em Lisboa.
 
Notícias ao Minuto | Lusa | Imagem: © Global Imagens
 
 
Leia em Notícias ao Minuto: 
25 de Novembro: Vasco Lourenço contra comemorações de "datas que dividem"

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/11/portugal-25-de-novembro-mario-tome.html

Sebastianização de Passos Coelho

O tempo aceleradíssimo que vivemos faz esquecer muita coisa, mas não se podem apagar as palavras nem sobretudo as obras. Após a queda de Sócrates, Passos antes do ato eleitoral que o catapultou a Primeiro-Ministro, prometeu que melhoraria o nível de vida dos portugueses e mal chegou a São Bento desencadeou uma política de confessado empobrecimento.

Eis o fantástico mundo real contra o qual batem os que defendem que Passos enfrentou os DDT(Donos Disto Tudo)- ver artigo de João Miguel Tavares de 16/11/2019.

Passos capitaneou em Portugal o monumental embuste de que a crise resultava dos portugueses viverem acima das possibilidades, escondendo que tinha sido o sistema financeiro quem com a sua ganância desmedida tinha provocado a crise.

De cima do seu mando e de chicote na mão fustigou económica, social e moralmente a população trabalhadora de Portugal . Nunca se lhe ouviu uma única palavra de crítica aos DDT. Armou-se em seu capataz. Foi o que foi, sendo os DDT, em geral, os donos dos meios de comunicação social, onde está o enfrentamento? Só no fantástico mundo da imaginação para desculpabilizar Passos e sebastianizar o seu regresso privatizador e austeritário para se vingar dos desmandos da geringonça.

Passos e Paula T. da Cruz são ainda responsáveis por uma das medidas mais cruéis que atingiram a Justiça – o encerramento de vinte tribunais e de vinte e sete outros  que passaram a secções de proximidade contribuindo para um maior abandono das populações do interior. Ordenaram  a passagem das ações de família e menores e todas as ações de valor acima de 50.000 euros para as sedes das comarcas e a deslocalização das ações executivas para um tribunal de cada comarca.

Ainda hoje em certos distritos as sedes distam de alguns municípios dezenas e dezenas de quilómetros( setenta a cem quilómetros em muitos casos), o que impede a quem se deslocar de transportes públicos de o poder fazer no mesmo dia. A Justiça não chega aos que vivem afastados do litoral.

Com Passos Coelho os que eram pobres ficaram mais pobres. Muitos dos remediados ficaram pobres. A classe média encolheu. Uma minoria ínfima ficou mais rica.  Este povo desgraçado que acreditou nas promessas de Passos recebeu vergastadas a castigá-lo pelos desmandos dos DDT.

Passos sangrou o PSD de alguns restos de centrismo político tingidos de social-democracia para o lançar na direita neoliberal, rivalizando com o CDS nessa área. Empurrou o partido para a direita destemperada, abrindo espaço ao PS ao centro com o qual engordou.

Porventura o que faz alguns recordarem nostalgicamente Passos Coelho é a sua obstinação ideológica em querer destruir o Estado social e deixar meia dúzia de serviços públicos à míngua destinados aos “intocáveis” e entregar as riquezas ainda sobejantes aos DDT e fazer dos seus amigos novos ricos chegados ao tal clube dos DDT como o inenarrável Relvas e Cª…

Ressuscitá-lo como um político que enfrentou os DDT e a comunicação social ronda o cómico. O legado de Passos foi pobreza a rodos, servida com a veemência de alguém que se desumanizou. Foi o que foi, sem apelo e sem agravo. Quem o quer de volta não pode vender gato por lebre.

https://www.publico.pt/2019/11/22/politica/opiniao/sebastianizacao-passos-coelho-1894599

 

Ver original em ' O Chocalho' na seguinte ligação:

https://ochocalho.com/2019/11/22/sebastianizacao-de-passos-coelho/

Colectivização do comentariado direitola

SNS01

Rui Ramos, 19 de Novembro – A cubanização do SNS

José Diogo Quintela, 19 de Novembro – Servidão Nacional de Saúde

João Miguel Tavares, 19 de Novembro – A esquerda é a maior amiga da saúde privada

Henrique Raposo, 19 de Novembro – Viver em Portugal, ir ao médico na RDA

Ricardo Costa, 19 de Novembro – Faz sentido amarrar jovens médicos ao SNS?

 

Leia o original em "Aspirina B" (clique aqui)

CDS – Escaramuças no táxi

O nome de Manuel Monteiro terá sido esquecido da memória dos portugueses quando o ímpeto reacionário o levou a fundar um partido extremista, depois de falhar a tentativa de levar o CDS, de que fora presidente, para posições ainda mais à direita.

Sucedeu também, há pouco, ao menino guerreiro, Santana Lopes, pelas mesmas razões, para entrar na irrelevância política de que nunca devia ter saído. Pode ser que volte. O PSD e o CDS, ao contrário de Roma, pagam a traidores, desde que venham pela direita.

Manuel Monteiro suicidou-se politicamente, tal como Santana Lopes, e procurou a sua ressurreição ainda com a Dr.ª Assunção Cristas, antes desta entrar em defunção política nas últimas eleições legislativas.

O CDS aceitou o arrependimento do réprobo, havendo mais alegria no Caldas por um arrependido que volta do que por qualquer crente que nunca saiu.

O pior é o ambiente que se respira no exterior do táxi que conduz os cinco deputados à AR. Há quem se demita pelo regresso de quem queria entrar e ter direito, como antigo líder, a tratamento de exceção, como se não tivesse saído, e eventualmente integrar a direção a ser eleita no próximo congresso, em janeiro.

Sem representação própria no Conselho de Estado, onde ficou Lobo Xavier, por convite do PR, o CDS tem dificuldade em posicionar-se. Para ser o VOX português já tem o Chega, para ser neoliberal, puro e duro, deixou chegar a Iniciativa Liberal (IL), e para regressar à matriz conservadora e democrata-cristã, já não tem ninguém. Rui Rio, na sua ação de limpeza, despediu Adriano Moreira.

O CDS é um partido sem deputados, sem ideologia, ética ou passado, e sem vergonha, a única característica que o pode ainda manter à tona.

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2019/11/cds-escaramucas-no-taxi.html

Quando outro jovem responde ao jovem Bourbon

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 06/11/2019)

Daniel Oliveira

Uma carta aberta pueril, como é normal que seja quando é escrita por alguém de 17 anos que aparenta ter pouco mundo (posso estar a ser injusto), foi o sucesso das “redes”. Publicada pelo “Observador”, ganhou uma legitimidade política diferente daquela que teria se o autor, Manuel Bourbon Ribeiro, a tivesse escrito no seu Facebook.

 

Aquela redação, sem desprimor para o esforço meritório do jovem conservador, mereceu entrar, pela porta do jornal que hoje representa esse sector da política portuguesa, no debate público. E tendo atingido, a partir daí, notoriedade nas redes sociais, deveria merecer resposta. Preferencialmente de alguém que esteja próximo da faixa etária do Manuel, para que fique clara a falácia que o jovem autor e o “Observador” obviamente quiseram fazer passar: que há aqui um confronto geracional, o que seria extraordinário tendo em conta as velhíssimas ideias que o texto divulga. Haverá um debate político, é certo. E, provavelmente, um combate social.

Tropecei nessa resposta e pedi autorização ao autor, que não conheço, para a publicar aqui. O título é descritivo – “Carta aberta a Manuel Bourbon Ribeiro” – e o texto bastante claro. Ao publicá-lo, não subscrevo tudo o que nela está escrito, apesar de subscrever grande parte. Dou-lhe apenas o espaço que acho que merece. O autor é André Francisquinho (nome real), tem 20 anos e é aluno do 3.º ano da licenciatura de Economia na Nova SBE. Sei sobre ele quase tanto como sei sobre o autor da outra carta. Publicou-a originalmente no site da Comunidade Cultura e Arte.

“Caro Manuel,

Ao contrário de ti, não vou começar esta carta com deliberações de grandeza nacional que, ainda que tenha a certeza de que demonstrem o quanto aprendeste com a professora de História lá do colégio, estão por estes anos já um pouco ultrapassadas. Quando tiveres mais uns aninhos vais perceber que a grandeza de um país é de pouca substância e que criticar é tanto um direito como um dever que não é nem deve ser cingido àqueles que tu consideras que têm autoridade intelectual para o fazer. Se calhar não te apercebeste deste facto, uma vez que fazes dos teus 17 anos uma característica especial, mas a democracia que nos permite a cada um de nós criticar o estado das coisas já por cá anda há uns 44 anos.

Caso também não te tenhas apercebido, a universalidade da educação é um feito histórico e a sua gratuitidade um direito constitucional. Se achas que é chato que esta tal escola gratuita e para todos, sem olhar a classe ou origem, te “impinja coisas sem sentido” como a igualdade fundamental entre homens e mulheres ou a educação sexual, eu arriscava-me a dizer que, por muito que queiras ter liberdade de escolha para optares por outra escola, não vais conseguir é optar por estudar no século XIII.

Se afirmas que queres ter liberdade para escolher o que fazer com a tua saúde, ótimo, estamos de acordo, até porque a despenalização da eutanásia que criticas é isso mesmo que faz: dar a opção a cada um de escolher o seu destino final da forma que achar mais digna, sem preconceitos alguns. Quando também achas que deves poder ir ao hospital que queres, apenas te posso dizer que fico feliz por ti, por efetivamente teres essa possibilidade. E para os que não a têm? Há os impostos que os teus pais pagam que servem, em parte, para financiar hospitais públicos que garantam que ninguém morre por não poder pagar os privados onde tu vais. Sim, porque não acredito que quando te referes aos rendimentos que o nosso país te tira, queiras dizer que já sofreste o que é a precariedade laboral em que tantos jovens um pouco mais velhos que tu e eu vivem e, que eu saiba, as mesadas ainda não são tributadas.

Quanto à natureza dos nossos governantes, a história geralmente mostra que qualquer governante que não é questionado ou escrutinado tem um caminho muito mais fácil para a “grandeza”. Mas é mesmo essa grandeza desmerecida que tem de ser explicada nas escolas e desenterrada (por vezes literalmente) de um passado histórico entrincheirado. Se quiseres falar de corrupção, também o lamento em todas as suas dimensões, mas talvez tenhas mais a aprender sobre isso com aqueles com quem partilhas o teu nome do meio do que comigo.

Eu sei que tens 17 anos, eu tenho 20, a diferença talvez não seja assim tanta, mas porventura três anos sejam suficientes para tomar atenção às contradições dos outros: não deixa de ser engraçado que fales em falta de democracia no nosso país por teres um governo que, para todos os efeitos, governou durante quatro anos com um apoio da maioria dos deputados eleitos ou que questiones a legitimidade de uma decisão referendada democraticamente há já 12 anos.

Posso não ter muitos mais anos de vida do que tu, mas sei que a nossa geração, a outra parte com que tu não te cruzas no teu dia a dia, resultado de um Portugal ainda desigual e classista, está farta da demagogia e preconceito com que tu e outras vozes à tua direita propagam a sua mensagem.

André Francisquinho”

É isto.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

CARTA DE BRAGA – “friganismo” por António Oliveira

 

António Oliveira

Encontrei este palavrão num conhecido diário europeu. Procurei o significado por tudo o que era sítio consentâneo e só o encontrei numa coisa chamada ‘Wiki Culturama’ que o apresenta como ‘cruzada contra o desperdício’.

Noutro site encontrei uma explicação complementar ‘o frigano é uma adaptação do anglicismo freegan, referindo o adepto de um modo de vida anti-consumista, começando pela comida’.

Voltei à notícia do tal diário europeu e salienta que faz parte do que parece ser uma campanha onde se pretende dulcificar a pobreza, chegando mesmo a ser rotulada de ‘estupenda’ ou de muito pior gosto como ‘curtida’

A afirmação vinha vestida de uma banal mas terrível simplicidade, ‘devemos falar em “money anxiety” e não em “precaridade laboral’’, tanto mais que a ‘ansiedade por dinheiro’ já foi reconhecida como tal, pela Associação Americana de Psicólogos’.

Como se pode ter chegado a isto? Como se impôs uma narrativa mediática tão conservadora, para não dizer retrógrada, de que quase nenhum país se safa?

O jornalista e escritor Juan Antonio Molina, propõe algumas questões

Como é que a maioria dos cidadãos quererá viver numa sociedade que os faz mais pobres, que os impede de sobreviver com salários de fome, os abandona na velhice, os marginaliza, lhes vê os filhos mal alimentados e nega subsídios no desemprego, enquanto os Estados injectam milhares de milhões nos bancos?

O artigo teria fácil e talvez proveitoso acolhimento em Portugal porque, de acordo com o Retrato de Portugal na Europa, divulgado pela Pordata no princípio do mês, temos o ‘quarto maior consumo privado em percentagem do PIB’ e somos o ‘terceiro país com maior percentagem de trabalhadores com contracto de trabalho temporário’.

Mas há ainda alguém ‘agradecido’ por aquela informação! Uma trabalhadora escreve ao tal diário, para dizer

Grata por saber que sofro da ansiedade por dinheiro, em vez de precariedade laboral. Eu pensava que era pobre, mas afinal só estou ansiosa’.

E para aliviar tal ansiedade o mesmo jornal acrescentava mesmo alguns títulos apelativos ‘9 truques para aquecer a casa em vez de ligar a caldeira’ e ‘Friganismo: a última dieta hipster é apanhar comida no lixo

Atendendo ao ‘sítio’ da tal Associação Americana de Psicólogos, espero bem que o seu presidente não seja o patético loiro de Washington pois, como afirmou o filósofo e escritor Josep Ramoneda, ‘a palavra está hoje nas mãos de quem melhor se adapta a uma comunicação simples, efectiva e sem escrúpulos, capaz de hoje esquecer o que disse ontem, explorar os recursos da democracia emotiva, com a apelos a sentimentos eternos, para aliviar a fragilidade do presente’.

Estou convencido que a grande ansiedade por dinheiro existente neste país (não sei se também reconhecida pelos nossos psicólogos), se tenta resolver pelo aumento emocional das apostas na ‘raspadinha’ e no ‘milhões’.

São mais limpos que o tal ‘friganismo’, mas muito mais caros!

 

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2019/11/02/carta-de-braga-friganismo-por-antonio-oliveira/

Vemos, ouvimos e lemos

«Sou médica e regressei recentemente do Mediterrâneo Central onde me juntei aos esforços da sociedade civil nas missões de resgate e salvamento. Espero que as minhas perguntas vos sejam de resposta tão fácil como a facilidade com que votaram: Sabem quanto tempo demora um dinghy/bote de borracha a desinsuflar? Uma pessoa a afogar? Um coração a deixar de bater? Sabem quão assustador é assistir à voz a perder-se? O corpo a deixar de lutar? O mar a engolir o que resta? O silêncio a substituir os gritos, a morte a substituir a vida? (...) Sabem quão escuro pode ser o mar à noite? Quão solitário? Quão doloroso o abandono? Quão doloroso o silêncio do mundo que assiste inerte? Sabem qual é a sensação de tirar uma pessoa da água? Salvá-la como se estivesse salva para sempre? Sabem qual é a sensação de fazer isso e haver vozes que te tentam convencer que o que fizeste é um crime, errado, punível? Sabem o que é estar desesperado a tentar retirar da água o maior número de pessoas possível enquanto a milícia (também chamada por alguns de guarda-costeira) líbia aponta armas de fogo na tua direcção? Sabem quem pagou essas armas? Esses barcos? Essa “solução"?»

Ana Paula Cruz, Carta aos eurodeputados Nuno Melo, Álvaro Amaro e José Manuel Fernandes

«Quando se tranca a porta de um contentor frigorífico, as pessoas que lá estejam dentro correm o risco de morrer em poucas horas, de frio se a refrigeração estiver ligada, ou sufocadas se não estiver. Do mesmo modo, quando dezenas de pessoas embarcam num bote de borracha sobrelotado e com pouco combustível, correm sérios riscos de não chegar ao destino ou de acabar atiradas ao mar. (...) O que é incompreensível é a abordagem da Europa ao fenómeno. A UE não adere ao espírito dos protocolos da ONU e não separa claramente o tráfico de seres humanos da ajuda humanitária a pessoas traficadas. A Directiva 2002/90/CE do Conselho, de 28 de Novembro de 2002, usa um conceito que nos envergonha e permite criminalizar não apenas o crime organizado e o tráfico mas até a ação humanitária. (...) Para 24 países da União Europeia (até ao Brexit) salvar uma pessoa da morte no mar e entregá-la em terra por razões humanitárias é um crime equiparável a atirá-la para ganhar dinheiro para um camião ou um barco da morte. Há coisas em que a Europa nos envergonha.»

Paulo Pedroso, Os camiões e os barcos da morte. Há coisas em que a Europa nos envergonha

«Poucas votações me ficaram tão presas na pele como esta que hoje, quinta-feira, decorreu no plenário em Estrasburgo. Tratou-se do voto sobre a criação de mecanismos europeus de protecção de vidas no Mediterrâneo. Foi uma negociação longa que colmatou numa votação também ela longa e muito dividida. Quando todas as emendas ao texto proposto já tinham ido a votos e chegámos ao voto final, aconteceu o impensável na minha cabeça. A proposta de salvar vidas foi chumbada por dois votos, 290 contra 288. Um murro no estômago, um nó na garganta. Pensei para comigo: há mesmo uma maioria de representantes que quer que continuem a morrer pessoas no Mediterrâneo? Ainda não recomposta, a bancada da extrema-direita celebrou e gritou entusiasticamente o resultado final. Do outro lado do hemiciclo, silêncio e impotência. A maioria tinha mesmo decidido que quem se faz ao Mediterrâneo não deve ter acesso a salvamento ou resgate, que nenhuma das vidas perdidas contou.»

Marisa Matias, As vidas dos outros

«É uma atitude muito cristã, esta de deixar morrer pessoas no Mediterrâneo. Nuno Melo acha que se os refugiados fossem pessoas com boas intenções sabiam andar sobre a água. Só falta arranjar um barco do CDS para batizar as pessoas enquanto se afogam. Imagino que o Nuno Melo tenha um esgotamento se vir uma mulher grávida num bote. É contra a interrupção da gravidez, mas não ao ponto de salvar a senhora de morrer afogada. Provavelmente é deixá-la afogar-se e depois levá-la a tribunal. É gente que vai às manifestações pró-vida, mas só de fetos. O embrião é vida; o refugiado é demasiado grande para eles terem pena. Uma coisa é o que se vê numa ecografia; outra o que não vemos porque está lá em alto-mar.»

Bruno Nogueira, Melos aos refugiados

 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Fala-se de lobos, de gatos e até do mítico John Holmes

Iniciou-se a nova legislatura com as primeiras sessões, ainda protocolares, para reeleger Ferro Rodrigues e resolver outras minudências associadas à circunstância. Deu contudo para ouvir Rui Rio proferir um vaticínio, que as televisões trataram logo de empolar: o governo não durará quatro anos.

 

No fundo Rio repete, mesmo que com menos ênfase, o que Passos Coelho disse há quase quatro anos. Depois foi o que se viu! Razão bastante para os portugueses começarem a olhar para o PSD (independentemente de quem o lidera!) com o tal Pedro (não o outro!), que tanto dizia vir aí o lobo, que nele não acreditaram mesmo quando estava a falar verdade.

 

Se tivéssemos ficado por aí não viria grande mal ao mundo. O pior é ter ouvido entrevistas com alguns dos novos parlamentares, que vêm imbuídos de um anticomunismo tacanho. Num caso - o da Roseta Jr. - a perorar sobre quanto ficara traumatizada no longínquo dia em que os papás ficaram ali aprisionados durante umas horas devido a uma manifestação. No outro, com o ultraneoliberal a desejar desconhecer certos corredores do palácio de São Bento onde decerto teme encontrar vermelhos furiosos com a faca pronta a cortá-lo às postas. Do facho, mesmo facho, não tive paciência para ouvir as parvoíces, utilizando atempadamente ozapping antes que a sua inépcia crónica me chegasse aos ouvidos.

 

Houve ainda um aspeto em que o conjunto das direitas e os comentadores a elas afeiçoados convergem: para elas e para eles o tamanho conta! Olá se conta! Apanha-se um jornalista à mão e é vê-los repetir vezes sem conta a ladainha da dimensão do governo. Quase parecíamos estar perante uma cena de algum filme protagonizado pelo mítico John Holmes!

 

É claro que ninguém refere os desafios a superar com a iminência do semestre português a presidir à União Europeia e o quanto os ministros e os secretários de estado têm de se dividir entre a agenda interna e a dos 27. Mas, sobretudo, nenhum dos que manifestaram preocupação com a volumetria do governo quis lembrar o sábio conselho de Deng Xiaoping, quando afastou os maoístas mais intrépidos da Revolução Chinesa e referiu que, seja branco, ou seja preto, o que se pretende de um gato é que cace ratos. Da mesma maneira pode-se considerar que, seja qual for a sua dimensão, o que importa é ver o governo fazer ainda mais e melhor do que o anterior.

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/10/fala-se-de-lobos-de-gatos-e-ate-do.html

O ódio deles

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No Parlamento Europeu, que equiparou o nazismo ao comunismo, votaram favoravelmente os deputados do PSD, CDS, PS e PAN
 
 
Thomas Mann classifica-os deste modo:
O escritor alemão Thomas Mann, para quem comparar comunismo com fascismo, «na melhor das hipóteses, é uma superficialidade; na pior das hipóteses, é fascismo. Quem insiste nessa comparação pode ser considerado um democrata, mas na verdade, e no fundo do seu coração, ele é realmente um fascista e é claro que só combaterá o fascismo de maneira aparente e hipócrita, deixando todo o seu ódio para combater o comunismo».
Thomas Mann sabe do que fala:
Para Thomas Mann, PS/PSD/CDS/PAN são fascistas.
 

Ver o original em As palavras são armas (clique aqui)

Falsos sebastiões e novos profetas do tal Diabo

O outono ainda nem a meio chegou e, mesmo sem nevoeiros dignos de nota, já alguns falsos sebastiões aparecem a proclamar legitimidades como se acabados de desembarcar de Alcácer-Quibir. Quem antecipasse algum comedimento dos donos do Pingo Doce depois da morte do seu execrável patriarca, a resposta consubstanciou-se na convocação do beócio Crato para gastar vinte milhões de euros num confuso programa para a deseducação das nossas criancinhas. Derrotado no modelo antipedagógico, que procurou aplicar enquanto foi ministro de Passos Coelho, o Crato e os seus patrões não desistiram de o levar por diante, por ser aquele que melhor se adequaria aos seus objetivos ultraconservadores. Quando julgávamos o Crato já morto e enterrado qual menino de sua mãe (capitalista) ei-lo todo pimpão a dizer-se presente numa realidade para que o julgávamos definitivamente remetido para o mui conhecido caixote do lixo.

 

A CIP cuidou de convidar Durão Barroso, outro poltrão, armado em neoprofeta de um capitalismo aceitável, quiçá ainda alimentando a esperança de, depois de tanto ter contribuído para o crepúsculo da União Europeia, ao torná-la subserviente pajem dos oligopólios financeiros (um dos quais lhe paga agora o lauto ordenado!), ainda pretenda aspirar à sucessão de Marcelo. Não é hipótese fora do baralho: veremos os patrões da CIP e das demais confederações patronais a promoverem este seu convidado através dos seus jornais, rádios e televisões para que, depois da múmia de Boliqueime e doselfieman, tenhamos que gramar com o arrependido do maoísmo rapidamente reciclado no mais fanático dos neoliberais? Vade retro!

 

Igualmente convocado para essa farra patronal, travestida em forma de «Congresso», Marcelo deve ter-se visto às aranhas para dizer alguma coisa, que lhe valessem alguma atenção na comunicação social, já que a irrelevância da sua função tem-se avolumado nos meses mais recentes. Vai daí, e porque ouviu essa coisa bizarra de associar capitalismo e mudança de alguma coisa (para que tudo fique na mesma, acrescentaria o príncipe Salina de «O Leopardo»), resolveu resgatar das calendas o discurso do Diabo, mesmo dando-lhe aparência um bocadinho diferente. Mas as suas palavras foram as de atrás de tempos, tempos vêm, piores tempos hão-de-vir. E assim se vê que o inquilino de Belém só consegue ser igual a si mesmo: por muito que quisesse vestir outra capa é a do filho e afilhado de quem é, que acaba por vir inevitavelmente à superfície.

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/10/falsos-sebastioes-e-novos-profetas-do.html

Picuinhices e uma efémera casa das Barbies

Dedicar-se-á Rui Rio à peixeirada ou não? No texto de ontem levantei essa possibilidade enquanto única estratégia para aparentar voz grossa com António Costa e assim ganhar pontos junto dos que irão votar nas diretas daqui a algumas semanas. E logo um amigo reagiu contestando a hipótese por ser contrária à personalidade do visado. Mas será assim? Não tivemos uma boa amostra dessa postura nos últimos dias da campanha eleitoral, quando esqueceu tudo quanto dissera da judicialização da política e quis ganhar votos à conta do caso de Tancos?

 

Aposto em como depressa veremos confirmada a tese, porque tivemos outro elucidativo exemplo neste final de semana: o adiamento da tomada de posse do novo governo, por uma questão do que Augusto Santos Silva classificou muito justamente de «picuinhice»: nada alterando os resultados eleitorais, nem os mandatos atribuídos, o PSD decidiu impugnar as eleições a pretexto de terem sido considerados nulos os votos da emigração, que não se fizeram acompanhar da respetiva comprovação da identidade dos eleitores. Que diferença fará substituir-se a classificação de votos nulos por abstenções? Prendendo-se a tão ridículos pormenores o PSD de Rui Rio dá provas do que será o seu comportamento quando se iniciarem os trabalhos parlamentares.

 

Compreende-se o seu nervosismo dado sobrarem candidatos à sucessão no PSD em comparação com o vazio até agora constatado no CDS para a substituição de Assunção Cristas. Mas ele até pode congratular-se com o facto: dentro da crise que assola as direitas lusas, divididas entre os sintomas de decadência e os meramente anedóticos, o seu partido ainda demorará a conhecer o merecido ocaso. Quanto ao CDS as coisas fiam mais fino, porque nenhuma das alternativas parecem suficientes para inverterem o rumo a que a frustrada candidata a primeira-ministra o conduziu. A menos que, qual Sebastião em dia de nevoeiro, o Paulinho das feiras venha dar o corpo ao manifesto. Mas, entretido em proveitosos negócios, quem o convencerá de que o tempo possa voltar para trás? Ele sabe bem que não...

 

No entretanto, e porque não encontra melhor forma de aparecer nos telejornais, Marcelo arrisca o ridículo recebendo em Belém umas quantas moçoilas, que ganham a vida com a exposição das suas frivolidades. Muito apropriadamente, no «Público», Luciano Alvarez constatava que o palácio presidencial converteu-se, durante umas horas, na casa das barbies.

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/10/picuinhices-e-uma-efemera-casa-das.html

Obra de um direitoso

A história de pernas para o ar
Este ilustre colunista do «Expresso» está duplamente enganado: primeiro porque o PCPestá longe de estar morto; e segundo porque, bem ao contrário, foi o PCP quematou politicamente Passos Coelho ao declarar, na noite de 4 de Outubro de 2015, que o PS só não governava se não quisesse.
 

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

António Barreto (AB) – O masculino de Zita Seabra sem hóstias

(Carlos Esperança, 15/10/2019)

António Barreto, sociólogo, bom fotógrafo e medíocre pensador julga-se uma espécie de guru da direita civilizada.

Esteve na Suíça onde poderia ter-se tornado cosmopolita, mas o apelo provinciano não lhe permitiu afastar-se das origens dos proprietários de quintas do Douro.

 

Foi membro do PCP, no exílio, pois claro, de onde saiu por considerá-lo muito à direita, e foi no PS, depois de derrubada a ditadura, que viajou para a direita neoliberal, durante as tropelias no ministério que Soares utilizou para se reconciliar com os latifundiários. Ornamentou depois a experiência de Sá Carneiro para unificar a direita democrática na AD com o apodo de ‘dissidente do PS’.

Não o ouço na TV onde era, ignoro se é ainda, comentador encartado dos atos eleitorais, e não lhe faltam jornais para propaganda. O homem que mais escarneceu a Expo-98, os telemóveis e tudo o que é progresso, acabou como almocreve da direita, a rivalizar com Cavaco no ódio à esquerda.

Quando da formação do último governo, AB, confundiu o desejo e a realidade. Disse ao “Dinheiro Vivo” que António Costa pode perder o partido, ao estar a unir-se a partidos comunistas, porque “O PS é geneticamente anticomunista e deixar de ser anticomunista e passar a ser amigo ou aliado do comunismo, do Bloco de Esquerda ou do Livre põe problemas seríssimos”.

Problema seriíssimo seria ter-se aliado à direita. Enganou-se como sempre, apesar do ar doutoral com que se engalana, mas isso é assunto menor. O homem é assim, ou foi-o sempre, já quando foi do PCP e à esquerda do PCP, por dissimulação ou exibicionismo.

O que incomoda é a tentativa de reescrever a História.

A propósito da homenagem da AR ao ilustre parlamentar e político falecido, transcrevo da homilia dominical no Público, republicada no blogue Sorumbático, onde colaboro: “Se quiserem designar Freitas do Amaral como um dos quatro “pais da democracia”, com Mário Soares, Francisco Sá Carneiro e Ramalho Eanes, há razões para o fazer.”,

É preciso topete para substituir Álvaro Cunhal por Ramalho Eanes, ao gosto estalinista, nos líderes partidários que legaram a CRP que nos rege, legisladores da CRP que nos rege, mas é de uma ingratidão própria dos trânsfugas, a omissão de que a democracia foi oferecida ao povo português, numa madrugada de Abril, pelos capitães do MFA a quem deve o regresso à Pátria e a relevância que não lhe reconhecem para lá de Vilar Formoso ou do aeroporto Humberto Delgado.

Foram eles, os capitães de Abril, os pais da democracia. Prometeram, e cumpriram, as eleições livres e a entrega dos destinos de Portugal aos civis. Não mereciam a amnésia dos cobardes, oportunistas e aldrabões. Bastaram as retaliações de que foram alvo.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

CAVACO, SEMPRE

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 12/10/2019)

 

Nada une mais as esquerdas em Portugal do que a voz de Aníbal Cavaco Silva. Assim sendo, enquanto as esquerdas bem-comportadas e sorridentes se sentavam com o Presidente para saber como ajudar a governar Portugal, o ex-presidente, ex-primeiro-ministro e ex-líder do PSD resolveu entregar um comunicado à Lusa, a troco de uma pergunta, onde, revelando a sua tristeza com o partido, veladamente pede a destituição do atual chefe e chega ao cúmulo de apontar a “sua” lista de deputados, onde avultaria a patriótica figura de Maria Luís. Cavaco Silva não aprendeu nada e não esqueceu nada, como os Bourbons restaurados após a abdicação de Napoleão, na tal frase de Talleyrand.

Se Cavaco Silva tivesse a lucidez de olhar para o país que por aí prolifera, dominado pelo Estado e um funcionalismo público determinante dos resultados eleitorais, dominado por uma corrupção partidária de base e um clientelismo sem limites, angariador de caciques e de sedes, de subsídios e de promessas, de famílias políticas e de parentes de sangue, repararia que este monstro nasceu da chamada estabilidade do poder durante os longos anos do cavaquismo. Nasceu e ganhou raízes com a maioria absoluta e um total domínio do aparelho de Estado e das autarquias pelo PSD e quando os fundos europeus nos inundaram em nome do desenvolvimento e da convergência. A mistura do clientelismo e da burocracia do Estado com o dinheiro europeu desenhou um capitalismo indigente, encostado à influência política e dependente do acesso aos chefes e seus próceres.

É claro que o PS também afinou o diapasão por aqui, claríssimo, mas a maioria absoluta foi o projeto fundador e majestático do modelo político português a partir do final dos anos 80. Tudo com o Estado, nada sem o Estado. Depois de ter descoberto a política tarde, depois da revolução de 1974 e depois de ter sido ministro das Finanças de Sá Carneiro, Cavaco Silva tornou-se chefe do PSD de um modo único que é o espelho das idiossincrasias. Foi rodar o carro à Figueira da Foz — a desculpa reflete o desdém pela ortodoxia política e os políticos, os partidos — e saiu de lá líder porque, sinceramente, não havia ninguém com talento a disputar o lugar vago. Este desdém manteve-o e cultivou-o como uma flor preciosa e, tendo sido o primeiro economista da futura era dos economistas, vantagem num país dominado pela gente das faculdades de Direito e alguns engenheiros para a tecnocracia, salvaguardou a autoridade política e moral a coberto do jargão economicista, da desregulação e privatização e de uma presumível incorruptibilidade. O problema é que, em volta do incorrupto, grassava o tráfico de influências em benefício próprio e a mais feroz das corrupções morais e criminais num clube dos próximos e dos íntimos conselheiros.

O dinheiro afluía, o Governo privatizava como queria e para quem queria. O principal conselheiro político era Manuel Dias Loureiro, que saltou de ministro para empresário e que inaugurou com pompa a era das portas giratórias da política. Saltar de um lugar no Conselho de Ministros para um lugar numa empresa com a qual se negociou, ou numa empresa paralela, camuflada ou, melhor ainda, internacional. O clube fundou um banco, o BPN, que custou aos contribuintes portugueses com memória milhões e milhões de euros. E muitos destes aventureiros acabaram sentados no banco dos réus e atrás das grades. A era da alta corrupção não foi iniciada com Sócrates. Lembremo-nos de Duarte Lima e de Oliveira e Costa, para citar apenas dois. O conselheiro de Estado Loureiro foi absolvido em tribunal, mas a reputação pública estava desfeita, e o seu avatar é Miguel Relvas, que é o exemplo da decadência intelectual do regime. Que Relvas, um epígono que se julga guardião do PSD, seja uma personagem importante em Portugal em 2019 demonstra a queda coletiva. Dias Loureiro era muito mais inteligente e estratégico. Mais perigoso, também. Relvas precisa de poder e de acesso ao poder para a vida de homem de negócios, e Rui Rio não é nem seria o seu homem no estreito poleiro.

Dos anos do cavaquismo pouca gente nova se lembra. A par do crescimento da economia, imparável numa fase de esplendor da Europa e antes dos revezes do alargamento, o país vivia num clima de (falso) puritanismo, intriga, rancor e vingança permanentes. O famoso cavaquistão só funcionava para os obedientes habitantes e os amigos e discípulos. Todos os outros foram postos de lado ou ameaçados. O PS estava mais bem protegido como grande partido, e quando Soares foi para Belém não hesitou em declarar guerra. À impunidade dos dez anos de poder governamental, que só Salazar pôde igualar e ultrapassar, mais dez anos de poder presidencial juntavam-se o autoritarismo e a mania persecutória. Até o BPN desabar e até ao escândalo das escutas e das batalhas com Sócrates e até os fundos europeus começarem a escassear, Cavaco Silva continuava a imperar. Quando saiu de Belém, substituído por um Marcelo Rebelo de Sousa que nunca foi cavaquista, Cavaco estava destituído de autoridade. E deveria ter remetido a amargura pelas perdas para livros de memórias que traçassem a história do país e não resvalassem num ajuste de contas com tudo e todos. Que continua.

A esquerda maioritária em Portugal nasce muito da sua presença dominadora e dominante e da emulação ensaiada por Passos Coelho, que não acertou o discurso. Da incapacidade de Cavaco Silva para perceber a passagem do tempo e a mudança do mundo, da dificuldade em aceitar o lugar menor que a memória coletiva lhe reservou. Percebo que António Costa o enerve. O que não percebo é que Cavaco não perceba que depois da crispação que ele fez o favor de instalar em Portugal, tingida por vezes de uma maldade política inexplicável, as figuras de Marcelo e de Costa sejam acolhidas com simpatia e confiança. Com afeto. Costa é um discípulo de Jorge Sampaio, aprendeu com ele a ter maneiras e a negociar sem intimidar. Cavaco não aprendeu nada com ninguém, porque a si mesmo se vê como o centro de um parque jurássico e disciplinador moral de um partido em vias de extinção. Um dinossauro político que secou o PSD, com o desdém da Figueira, por querer reduzi-lo à sua imagem.

Nunca, na democracia portuguesa, um ex-presidente, ex-primeiro-ministro e ex-líder, a seguir às eleições, enviou para a Lusa um comunicado a interferir nas maquinações e manobras do próprio partido, desautorizando um sucessor eleito e interferindo na conspiração. Sugerindo nomes. Esta deselegância passaria dantes por sabedoria e franqueza. Hoje não passa de má educação e ressentimento.

A esquerda agradece.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

SINAIS DE FOGO – TRASTE – por Soares Novais

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2019/10/13/sinais-de-fogo-traste-por-soares-novais/

A direita atrasada para o século XXI

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 11/10/2019)

Daniel Oliveira

 

Dê as voltas que der, Rui Rio não conseguiu mobilizar o eleitorado de direita. Nem depois de Tancos. Nem perante uma monumental derrota do CDS. PSD e CDS conseguem menos 230 mil votos, menos 2,4 pontos percentuais e quase menos dez deputados do que Pedro Passos Coelho e Paulo Portas. E Pedro Passos Coelho foi responsável por um pacote de austeridade de dimensões nunca vistas na nossa democracia. Rio também não contrariou o aprofundamento da decadência do PSD nos meios urbanos, sobretudo em Lisboa, Porto e Setúbal. Se isto ditará a morte política de Rio só as guerras de barões e baronetes laranjas ditarão. Já começaram.

Quanto ao CDS, só podemos comparar os seus resultados com 2011, quando concorreu sozinho. E a comparação é avassaladora. O CDS perde 440 mil votos (fica com um terço da votação), 7,5 pontos percentuais (também um terço) e 19 deputados (fica com um quinto). Em relação a 2015, perde 13 deputados. Fica próximo, em votos, dos resultados das eleições europeias. E isto acontece sem pressão do voto útil: a direita tinha estas eleições perdidas. A pressão era tão pequena à direita que até deu para eleger dois deputados de dois novos partidos. Quando se anda pelo mapa eleitoral a coisa torna-se ainda mais deprimente. O CDS fica atrás do BE em todos os círculos, incluindo em Vila Real, Bragança, Viseu, Aveiro, Leiria ou Açores. A exceção é só a Madeira. E fica atrás do PAN em Lisboa, Porto, Setúbal e Algarve. Desaparece de quase todos os distritos.

As razões para esta hecatombe parecem-me óbvias. Enquanto o PSD é um partido sem identidade, o CDS é um partido com demasiadas identidades. Já foi quase tudo o que se pode ser à direita. Quando se trata de partilhar poder e a liderança é forte, este é um problema menor. Quando o projeto é ficar na oposição tudo se complica. A sociologia do eleitorado de direita mudou e os dois partidos não conseguiram acompanhar essa mudança.

O dinamismo partidário da esquerda, marcado pelo nascimento do BE há quase 20 anos, acompanhou e continua a acompanhar uma sociedade cada vez mais segmentada. A direita ficou paralisada, sem que nada mudasse nela em quase meio século. A clivagem entre liberais e conservadores, moderados e autoritários, não teve repercussões partidárias. O pragmatismo do poder encobriu mudanças e divergências que são centrais para a representação política.

O que o PSD trata através do silêncio que a miragem da chegada ao Governo permite (mesmo não escondendo que o problema existe, como se vê pela resiliência dos passistas), o CDS resolve pela esquizofrenia. Paulo Portas disfarçava-o com a sua arte de transformismo político. Assunção Cristas não tem essa capacidade. O último ano foi uma autêntica montanha russa. Promoveu Adolfo Mesquita Nunes, dando sinais de liberalização do partido; autoproclamou-se líder da oposição depois das autárquicas, passando a ideia de que ocuparia o espaço do PSD e criando expectativas impossíveis de acompanhar; escolheu o ultraconservador e trauliteiro Nuno Melo como cabeça de lista a umas europeias coladas às legislativas; e depois julgou que podia fazer a síntese de tudo isto. Não pode. Num partido da dimensão do CDS não cabem Adolfo Mesquita Nunes e Francisco Rodrigues dos Santos (o quase bolsonarista “Chicão”, líder da JP) sem que um se imponha ao outro.

O CDS acabou ensanduichado pelo ultraliberalismo da Iniciativa Liberal e o racismo e autoritarismo do Chega! – na realidade, no que interessa a cada um, estão os dois à direita do CDS. Tem de escolher com qual deles quer competir. Ou se até prefere ser um partido conservador católico, com preocupações sociais. Não pode, com 4%, ser tudo isto ao mesmo tempo.

O CDS deixou de ser uma barreira à extrema-direita. Ela entrou no Parlamento e terá de ser combatida por forças mais poderosas. Se for inteligente, o CDS clarificará a sua estratégia, irá buscar alguém como Adolfo Mesquita Nunes e tentará representar os liberais de direita, sobretudo os mais jovens que não se reveem no PSD. Se o fizer, não precisa de acompanhar o delírio libertário de direita da Iniciativa Liberal, que cresceu menos pelo seu programa radical e mais pelo descontentamento com a oferta disponível. E só precisa de ser relativamente moderado nos costumes. Não sei quantos votos vale este caminho, estou seguro de que é o que tem mais futuro numa direita democrática que não esteja próxima do centro.

Claro que antes das grandes opções há o curto prazo. Os incentivos eleitorais vão empurrar o CDS para uma coligação com o PSD. O mapa de distribuição de deputados favorece essa opção, porque a direita coligada ganha eleições com resultados medíocres. Mas Rui Rio não tem grande apetência para estes entendimentos e o CDS seria obrigado a ir negociar lugares em péssima situação. Parece não haver caminhos fáceis a partir daqui e dois pequenos partidos estarão a morder as canelas do CDS. Com uma diferença: a IL crescerá às suas custas, o Chega! tenderá a crescer à custa de quase todos, incluindo o PCP.

Alguns comentadores de direita têm escrito que o nosso sistema partidário está a implodir. Olham para a realidade a partir dos seus umbigos políticos. O que implodiu nestas eleições foi o espaço da direita. O da esquerda está a adaptar-se há pelo menos 20 anos e a entrada de novos atores faz-se por folga de votos, não por falhas graves de representação.

Falta à direita fazer o que a esquerda fez e continua a fazer: adaptar-se às novas clivagens, representando-as com projetos diferentes que se podem entender em soluções de poder ou até em frentes eleitorais. É nesta reorganização que o CDS tem de decidir qual é o seu futuro, sabendo-se parceiro do PSD no poder. Se não clarificar, outros, que franquearam as portas do Parlamento tomarão o seu lugar. Quem tudo quer representar tudo acaba por perder.

Nota: deixo para a edição em papel do Expresso o fim das negociações para um acordo de legislatura entre o PS e o BE e o que isso quer dizer quanto à sobrevivência de qualquer coisa que se assemelhe com a “geringonça”


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Chamem-lhes ultraliberais, é o que eles são

Os ultraliberais portugueses ficam incomodados quando os tratamos por esse nome. Dizem que são apenas liberais. Mas não são. Uns sabem disso, outros não

A julgar pelo que dizem e escrevem, a maioria deles nunca leu John Stuart Mill, nem outras referências maiores do liberalismo clássico. Não lhes passa pela cabeça que a doutrina liberal foi usada para justificar a educação pública, universal e gratuita. Para defender impostos progressivos, ou a reforma do direito sucessório (leia-se, impostos sobre as heranças), ou a reforma da propriedade fundiária (leia-se, reforma agrária), ou a protecção do ambiente

Também não sabem que Beveridge e Keynes foram apoiantes de sempre da causa liberal, defendendo por isso (e não apesar disso) a protecção social universal, a expansão do investimento e do emprego público, a repressão dos especuladores financeiros ou um Estado interventivo no combate aos ciclos económicos

O que eles conhecem do liberalismo baseia-se em leituras ocasionais dos divulgadores de Hayek, do que ouviram nos encontros do Instituto Von Mises (uma organização doutrinária internacional, activa em Portugal) e noutros círculos, onde também aprendem as técnicas de assédio nas redes sociais

Entre os ultraliberais portugueses há também quem conheça na perfeição a diferença entre uma coisa e outra. Mas preferem manter o equívoco, por razões óbvias: o que na verdade defendem não atrairia mais votos do que o PURP e faria corar de vergonha muitos dos que neles votaram

Tal como os racistas e xenófobos gostariam de ser chamados de populistas, os ultraliberais gostariam que os tratássemos por nomes mais civilizados. Não lhes façamos esse favor. Numa sociedade democrática têm direito a defender o que entendem, no respeito pela Constituição. Nada mais do que isso.

 
Ricardo Paes Mamede
 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

CARLOS REIS – O CAPITALISMO É TÃO ESTÚPIDO

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2019/10/11/carlos-reis-o-capitalismo-e-tao-estupido/

Cavaco ao lado de Relvas Contra o Curso de Rio

É o regresso da múmia ou um walking dead nova temporada…? Os zombies estão a sair da toca. Miguel Relvas atirou-se a Rui Rio para fazer “prova de vida” (uma coisa de dead man walking) e logo saltou o Cavaco (também numa  coisa de dead man walking) com um comunicado para a Lusa a desancar o pobre do Rio, tornado alvo favorito dos zombies desta nova temporada.

 

 

Cavaco, Passos e os Relvas da vida encostaram o PSD a uma direita neo-liberal radical, mudando totalmente o posicionamento e a imagem do partido e colocando-o à beira da fragmentação e, logo, do colapso como partido de governo (veja-se “o fado do desgraçadinho” Santana Lopes).

Quando Rio tomou conta do partido, era essa a situação, com Cavaco e Passos em fuga depois de terem levado uma valente e surpreendente (para eles…) coça política.

Num cenário destes, a tarefa central de Rio era impedir esse colapso e impedir o adversário socialista (o tal que dera já uma bela coça a Cavaco e Passos) de tornar absoluta a sua vitória.

Era, obviamente, uma estratégia defensiva, para impedir o adversário de desbaratar o que restava do PSD, reagrupar as tropas ainda vivas e em condições, fazer pelo caminho algumas limpezas de lixo e tralhas acumuladas por Cavaco e Passos e assim preparar a segunda parte do desafio.

Uma segunda parte, em que Rio conta passar de um modo puramente defensivo para uma estratégia de ataque e alcançar, então, sim, o poder.

Para um ser com alguma racionalidade tudo isto faz sentido e ninguém pode dizer que Rio não teve êxito na execução desta primeira parte da sua estratégia política.

Então de que é ele acusado pelos walking deads? De não ter ganho as eleições, coisa que estes mesmos walking deads tinham tornado impossível…

O PSD tem tido ao longo dos tempos uma forte costela suicida. Não é por isso de descartar a possibilidade de sucesso desta fronda dos zombies e consequente regresso de Rio ao Porto.

António Costa já foi, certamente, pôr uma velinha à Senhora de Fátima (ou a qualquer outra santinha da sua devoção) para que tal despedimento de Rio aconteça mesmo. Se não o fez ainda, deve ir rapidamente tratar disso…


 

 

 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/cavaco-ao-lado-de-relvas-contra-o-curso-de-rio/

Arrogância e desplante

O novo deputado da Iniciativa Liberal João Cotrim de Figueiredo, formado pela London School of Economics e com um MBA na Universidade Nova de Lisboa, ex-dirigente do Turismo de Portugal convidado pelo então secretário de Estado do CDS Adolfo Mesquita Nunes, foi ao programa da RTP Prós & Contras com a arrogância dos novos partidos.

E afirmou que Portugal tem estado a crescer a um nível medíocre e que ninguém explica porquê.

Disse ele:

- O mundo mudou nestes 45 anos não tem qualquer tipo de paralelo porque os partidos não mudaram nestes 45 anos. Portanto estão a deixar passar ao lado...

- E o que os novos partidos vão trazer de novo?

- Desde logo este desassombro de dizer "não há com certeza grandes sancionamentos e grandes vitórias da Geringonça nestas eleições". Depois, dentro da nossa dimensão (...) pôr as ideias liberais na agenda política e fazer com que, à nossa pequena escala, os portugueses tenham menos medo da mudança e vontade de segurar aquilo que têm hoje. Porque aquilo que têm hoje - podem não ter noção disso - mas é medíocre. Nos últimos 20 anos, Portugal cresceu menos de 1% em termos reais, foi ultrapassado por 8 ou 9 países no PIB per capita da zona euro, somos o antepenúltimo país mais pobre. Eu não percebo por que não se faz mais a pergunta e por que é que não é respondida: os outros são melhores em quê? (...) os portugueses são tão bons como os melhores, mas têm um sistema que os abafa e que os impede de ser tão bons como deviam e mereciam ser.

E ele nem percebe - ou não sabe - que desde a década de 80 se estão a aplicar as ideias que ele diz defender. E que foram essas ideias que, precisamente, nos fizeram estar onde estamos, a crescer de forma medíocre e sendo um dos países mais pobres. Em que país é que João Cotrim de Figueiredo viveu?
Foi por causa precisamente dessas ideias, por esse consenso ideológico neoliberal - que até contaminou um Partido Socialista - que Portugal liberalizou a sua economia, privatizou aqueles que eram instrumentos públicos poderosos para mudar um país, tudo supostamente para pagar a dívida externa e reconstruir os velhos grupos económicos nacionais que, supostamente, iriam tornar o país mais moderno e competitivo; venderam-se empresas poderosas a nível internacional à pala da ideia de que libertadas do Estado iriam conceder melhores serviços e a preços mais baixos preços para os consumidores, tendo acontecido precisamente o contrário (como era expectável e já existia essa experiência); amachucou-se os trabalhadores com políticas vendidas como eficazes por organizações multilaterais (como o FMI) que visam um mais liberto mercado de Trabalho e que, na realidade, aumentaram a precariedade desses trabalhadores, diminuindo a parte dos salários no rendimento; essas medidas pretenderam igualmente esvaziar os sindicatos tidos como formas de organização de interesses corporativos; bombardearam a contratação colectiva como forma de esmifrar os salários dos trabalhadores, indo à boleia da ideia de que criavam rigidezes no funcionamento do mercado do Trabalho, de que era preciso libertá-lo; atou-se a economia à mais dura e inflexível das soluções económicas que é uma moeda única forte, que na prática favorece os interesses das economias desenvolvidas e aumenta os défices das menos desenvolvidas, à pala da ideia de que o contacto com os melhores competidores - liberto do controlo público da desvalorização cambial - aumentava o espírito empreendedor dos nossos empresários, embora no final isso tivesse torpedeado os sectores nacionais e promovido a transferência do investimento sobretudo para ramos de serviços não competitivos internacionalmente, contribuindo para o agravamento do défice externo do país que o torna mais volátil a qualquer pressão de quem detém a nossa dívida, os tais mercados internacionais. Foi a liberdade promovida que favoreceu os mais fortes e deprimiu os mais fracos. E estes novos partidos apenas parecem defender velhas ideias dominantes em Portugal, que geraram este estado medíocre. Na realidade, João Cotrim de Figueiredo ou está iludido, cego pela sua ideologia, ou visa apenas reformatar uma velha direita, ferida por ter aplicado essas mesmas ideias, como forma de as poder voltar a aplicar, como sendo novas. Mas o resultado vai ser o mesmo: a pobreza geral que, anos mais tarde, ele vai negar existir. Como agora nega que essas velhas ideias tivessem sido realmente aplicadas.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

A direita presa entre Reagan e Trump

(Francisco Louçã, in Expresso, 28/09/2019)

O paradoxo da direita nas eleições é este: se fica no terreno Centeno, que foi o que escolheu para si própria desde há oito anos, está perdida; se terça armas pela “classe média alta”, fica isolada; se resvala para o populismo agressivo, é desprezada. Nada resulta.

 

Por isso, Assunção Cristas vai perdendo terreno e Rui Rio só recupera alguma coisa ao sair da equação, com uma pose de sinceridade que o deixa prometer apoio ao PS para se ver livre da esquerda, como o fez no último ano, ou que cairá de pé, na sua expressão mais recente. Há nisto tudo algum encanto pelo discurso direto, mas nenhuma alternativa. António Costa será primeiro-ministro, Centeno continuará a ser tão ou mais popular na direita do que os chefes da dita.

Este impasse resulta de uma impossibilidade: a direita que triunfou no passado sendo reaganiana, já não o pode ser; e a que agora triunfa lá fora sendo trumpista, ainda não pode ser imitada entre nós.

O DILEMA REAGAN-TRUMP

Este dilema Reagan-Trump exprime-se claramente no CDS. Nuno Melo foi o ensaio Trump, um discurso de raiva contra as esquerdas, uma alusão cultural tremendista (“querem destruir todos os nossos valores”, atroou esta semana) e a tentativa de polarização que radicalizasse a direita. Foi varrido nas europeias. Cristas percebeu o recado, virou-lhe as costas e regressou ao passado para o ensaio Reagan: queremos que a tal classe média alta pague menos impostos, tenha colégios e hospitais privados subsidiados e possa pagar a inscrição do menino na universidade, mesmo que não tenha estudado para o exame. Era a promessa reaganiana, os do meio e de cima hão de subir com a nossa mão. Chamava-se “meritocracia”, para criar alguma identidade autorreferencial.

Não resultou, dado que num país tão desigual este elevador do privilégio protegido cai mal. É muito Linha de Cascais. No seu tempo, Reagan teve a habilidade de fazer pensar aos jovens com curso universitário que poderiam ser CEO de multinacionais e viver no paraíso. Todos podem lá chegar, e ganhou eleições. Quarenta anos depois, esse discurso soa a despejos das casas dos idosos nos bairros históricos.

Obviamente, Rui Rio, que procura raízes eleitorais numa população mais vasta, evita esse nicho. Ele ganhou a Câmara do Porto com sobranceria anticultural, mas com votos populares e até com atrevimento anticlube de futebol. Mesmo que fique agora numa terra de ninguém, que o leva a uma única disputa, com a marca eleitoral de Santana Lopes. Portanto, nada resulta à direita nestas eleições.

A TENTAÇÃO TRUMP

Devido a esse vazio, a tentação Trump sobrevive em alguns aspirantes, mesmo depois da experiência falhada das europeias. Pode-se alegar que Miguel Morgado ou Bruno Vitorino, entre outros que arrastaram o grupo parlamentar do PSD para a indignação contra o respeito pelos jovens em transição de identidade de género e as suas famílias, são muito marginais e que só se tornam notícia pela extravagância. O problema da estratégia Trump é este, não tem ninguém, nem tem modo de criar uma fronteira tribal. Não há tribo sem ódio, não há ódio sem fronteira.

Quem leu o “Lamento de Uma América em Ruínas”, de J.D. Vance, sabe como isso foi surgindo nos Estados Unidos. Ele é licenciado em Direito em Yale, uma escola de elite, dirige uma agência financeira em Silicon Valley, mas vem de uma família pobre. E é essa história que conta no livro. A família tinha-se mudado de Kentucky para Middletown, uma pequena cidade siderúrgica no Ohio; são operários e brancos, com uma história de desespero, pobreza, fuga à escola, drogas e prisões; os filhos são criados pelos avós. Quase nenhum deles teve emprego certo, vivem da segurança social e do que aparecer.

Escreve Vance: “Na sociedade americana que tem consciência das questões de raça, o nosso vocabulário normalmente não vai além da cor da pele de alguém: ‘negro’, ‘asiático’, ‘brancos privilegiados’. Às vezes, essas categorias amplas são úteis, mas para compreender a minha história é preciso prestar atenção aos detalhes. Posso ser branco, mas não me identifico com os ‘brancos protestantes e anglo-saxões’ do Nordeste dos Estados Unidos. Pelo contrário, identifico-me com os milhões de americanos brancos da classe operária, descendentes de escoceses e irlandeses, que não possuem um diploma universitário. Para essa gente, a pobreza é uma tradição familiar (…). Os americanos chamam-lhes ‘saloios’, ‘labregos’, ou ‘escumalha branca’. Eu trato-os por ‘vizinhos’, ‘amigos’ e ‘família’”. São estes norte-americanos pobres nas pequenas cidades, tratados como “labregos” e invisíveis, que desequilibraram as eleições presidenciais onde Trump venceu.

PODE O ÓDIO VENCER?

Ou seja, a história de J.D. Vance sugere que terá sido a identidade humilhada e tribal que decidiu o voto destes eleitores, que simplesmente gritam contra a sua condição de margem. Por isso bebem o discurso contra os mexicanos ou contra as mulheres. O seu ressentimento contra a invisibilidade convida a um discurso apocalíptico, que Trump encarnou. A segunda característica é que estes discursos discriminatórios têm por função confirmar um conservadorismo profundo, quando o mundo em que estas pessoas são infelizes se está a desmoronar. Ao prometerem ao homem pobre um poder desmedido sobre a mulher, estão a confirmar-lhe a força mais rude. Esta ilusão do poder é um paliativo barato e eficaz.

O problema é que a direita portuguesa sabe que, para ser Trump, precisa de encontrar a sua tribo e o seu ódio. Assunção Cristas e Rio não contarão para esse campeonato. Virão os próximos e veremos a sua cor.


A City vai fugir de Londres?

Um dos mistérios que o imbróglio do ‘Brexit’ coloca à teoria política, se não também ao jornalismo, é a explicação da inoperância da City londrina, uma das praças financeiras mais poderosas, mais antigas e mais resistentes do mundo, no condicionamento das escolhas do Partido Conservador e dos governos de Cameron, May e Johnson. Se a sua teoria era que a elite financeira manobra os governantes com pouco subtis fios de marionetes, esqueça, nada disso. A autonomia da coisa política em relação ao poder económico talvez se afirme mais em tempos de viragem e de crise, mas é evidente que nada do que se está a passar apoia uma estratégia de globalização, que é a ecologia confortável para a finança. O que é certo e sabido é que, se a finança desejava estabilidade e abertura de mercados, mais desregulação e livre trânsito, então falhou no ‘Brexit’ e deixou que estas desventuras atingissem o seu reino.

A City é o maior centro financeiro do mundo. Por ela passam 37% das transações cambiais e 18% do crédito transfronteiriço do planeta, registando 20 biliões de dólares de ativos bancários. É ainda a sede de empresas e instituições financeiras, entre as quais as que fixam taxas de juro de referência para diversas operações. A sua atividade representa 6,5% do PIB e 11% do rendimento fiscal do Reino Unido, gerando tanto lucro declarado como toda a indústria automóvel alemã. É um colosso, que cresceu ao longo dos tempos: entre 1987 e a crise do subprime, quase dois terços do capital no Reino Unido estava aplicado na finança (mas nos EUA era 80%), e só o terço restante estava relacionado com a produção doméstica. A City dominava o país e geria o mundo.

Veio então o ‘Brexit’. Pelos registos mais recentes, 219 grandes empresas financeiras já deslocaram toda ou alguma atividade para o continente, temendo barreiras criadas pela saída desordenada. A própria Bolsa de Londres transferiu para Milão algumas das suas operações com dívidas soberanas. E muitas outras agências financeiras esperam para ver, sendo que as mais poderosas já têm sucursais em praças continentais ou asiáticas, ou também nos EUA. Aqui tem: a City não vai sair de Londres, mas as atividades externas dos principais grupos financeiros vão crescer. O que também indica que, se estão a virar as costas à política britânica, a recomposição desta direita descartará o velho partido tory, ou só recuperará parte dele. Era o partido de direita mais antigo da Europa, sempre fiel à City. Agora tresmalhado, para sua pesada desgraça, segue para abate.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Sobre as vitórias morais com que as direitas se iludem

Nas últimas semanas os meios de comunicação têm passado pelo seu momento «hamletiano» (ou omeletiano?) resumido na pergunta: ter ou não ter a maioria absoluta eis a questão! Ora, se a analisarmos remetendo-a para a tradição nacional - muito alimentada pelo salazarismo! -, das «vitórias morais», podemos compreender a estratégia que lhe está subjacente.

 

Voltemos atrás no tempo, àquela altura em que o fascismo procurava convencer-nos de que éramos pobrezinhos, mas honrados e, como dizia Alexandre O’Neill no Portugal do diminutivo juizinho é que era preciso. No futebol desse tempo levávamos cabazadas da Espanha, mas se contássemos as bolas na trave, os erros do árbitro e a sorte do adversário, convencíamo-nos de que éramos os melhores.

 

Começávamos a perder a Índia e ameaçava-se a independência dos demais «territórios ultramarinos», mas olhávamos para o mapa e, se os ajustássemos ao nosso cantinho à beira mar plantado, tínhamos a dimensão de quase todo o continente europeu de que nos sentíamos tão apartados.

 

Na mesma linha a nossa História estava pejada de episódios lamentáveis - e Aquilino bem os recenseara no seu imprescindível «Príncipes de Portugal»! - mas queriam que vibrássemos com as epopeicas aventuras dos nossos navegadores e com o desvelo dos nossos missionários. A Inquisição ou o tráfico de escravos só aos oposicionistas pareciam interessar.

 

Voltemos então ao tempo presente: as direitas e seus altifalantes mediáticos sabem que enfrentarão uma derrota humilhante a 6 de outubro. Todos os indícios - e não só os das sondagens! - para tal apontam. Mas andam ansiosas por argumentos para essas mesmas «vitórias morais». Na RTP José Rodrigues dos Santos esforça-se por fazer passar a teoria de que o sucesso de António Costa só acontece por ter-se apossado das ideias da direita. Quanto à tal questão sobre a maioria absoluta aposta-se outra hipótese: a de, havendo tão-só maioria relativa, virem a celebrar a «derrota» socialista por, afinal, não ter alcançado tal objetivo.

 

Essa «vitória moral» acarreta ainda outra secreta esperança: a de que, incapaz de chegar a acordo com a CDU ou o Bloco e não bastando o PAN para tal objetivo, depressa se reconfigure a aliança negativa de 2011 com novas eleições a curto prazo, devidamente apoiadas pelo amigo que têm em Belém.

 

Podemos reconhecer que os moribundos agarram-se, amiúde, às mais ilusórias soluções. Mas, confiemos, sobretudo, naquilo que, há muito se vem constatando: sobre estratégia política, António Costa sabe mais a dormir que todos os seus detratores por muito acordados que se sintam.

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/09/sobre-as-vitorias-morais-com-que-as.html

A semana da hipocrisia

(José Pacheco Pereira, in Público, 21/09/2019)

Pacheco Pereira

Estamos a chegar à semana da hipocrisia no PSD aquela em que os mais violentos críticos da direcção de Rio vão aparecer com grande publicidade na campanha eleitoral “para apoiar o partido” e… o seu líder. Infelizmente, é uma velha prática hipócrita no partido, com muitos precedentes como quando Passos Coelho, depois de organizar uma fracção contra Manuela Ferreira Leite, apareceu numa arruada singular, e Santana Lopes, especialista nestas coreografias, com Barroso e Passos.

 

Alguém acredita que alguns dos que anunciaram a sua aparição na campanha, por coincidência todos putativos candidatos ou apoiantes de uma liderança pós-Rio, desejam que o PSD tenha um bom resultado eleitoral, sabendo que isso legitimaria aquele que querem derrubar? Num partido em que a conflitualidade interna é muito agressiva, toda a gente sabe que este tipo de actos diz muito mais respeito às carreiras e expectativas dos que aparecem do que a qualquer genuína vontade de contribuir para um bom resultado. Estas afirmações podem parecer um exercício de cinismo, mas, insisto, não deve haver um único militante activo que não saiba que é o dia seguinte e o afiar das facas que conta nestas aparições. Nesse dia eles dirão que também estiveram a “lutar pelo partido”.

O problema deste tipo de “aparições” não se limita apenas a ambição, falta de carácter e maus hábitos políticos, mas à manipulação de um certo tipo de cultura partidária do PSD, que já foi real e genuína e hoje é ficcional e instrumental. O PSD tinha uma cultura de militância muito própria, a das “bases”, que muitas vezes era comparada ao PCP. Penetrava profundamente no “povo” do partido e dava uma identidade forte às suas iniciativas, como eram as festas do Pontal ou do Chão da Lagoa na Madeira e que, em momentos de lideranças como as de Sá Carneiro ou Cavaco Silva ou de Alberto João Jardim, ou de alguns autarcas, tinham uma genuinidade mobilizadora. Embora esse animus não tenha de todo desaparecido, é uma sombra do que era. O partido foi sendo cada vez mais dominado por personalidades sem capacidade de mobilização na sociedade, sem prestígio profissional ou pessoal e cujas carreiras dependem essencialmente do controlo das estruturas interiores do partido, de lóbis, fracções, sindicatos de voto, tornando-se profissionais da política.

Grupos de interesses e fidelidades maçónicas controlam muitas estruturas distritais, à revelia da história do PSD. Com excepção dos líderes nacionais, e dos dirigentes históricos, desafio a alguém minimamente interessado por política a dizer meia dúzia de nomes desta nova geração, apesar do seu enorme poder dentro do PSD.

Esta evolução negativa para o carreirismo facilitou a ruptura com a génese social-democrática durante os anos da troika, porque este tipo de dirigentes não é de esquerda, nem de direita, pensa apenas em termos do seu próprio poder e carreira e tem uma especial aptidão para “cheirar” as modas. A cultura das “bases” tornou-se instrumental para o carreirismo que a usava como mecanismo de legitimação e para abafar críticas e discussões políticas, mas nunca os impediu de organizarem fracções e grupos, cada um mais “patriótico” do partido do que o do lado.

Embora grupos dissidentes tenham sempre existido no PSD, o salto ocorrido com Passos Coelho–Relvas foi exactamente a criação de uma organização paralela com financiamentos próprios, contactos regulares com grupos económicos e embaixadas, agências de comunicação e operações de manipulação nas redes sociais. Deixou de ser uma questão de opinião para ser um partido dentro do partido, cujos restos ainda aí estão.

Sei por experiência como a hostilidade ao debate e às críticas políticas eram a face visível da complacência com os grupos paralelos, que acompanhava também com uma grande indiferença face à corrupção. Duarte Lima ganhou eleições no interior do PSD quando já se sabia praticamente tudo sobre o seu modus operandi. Talvez o melhor exemplo dessa cultura de clube e camisola tenha sido Santana Lopes e veja-se no que deu: na criação de um partido hostil ao PSD, pelo maior “patriota” do partido, do “PPD-PSD”.

A verdade é que foi também no PSD que ocorreram as únicas tentativas de combater este tipo de deriva, ambas na direcção de Marcelo Rebelo de Sousa. Uma foi resistência ao lóbi do futebol no totonegócio, outra foi a primeira tentativa de travar os negócios da PT e do BES e, por fim, o processo de refiliação conduzido por Rio para acabar com as manipulações nas inscrições e o pagamento de quotas por caciquismo. Todas falharam, graças a uma enorme resistência interna. Os nomes dos que sabotaram a “verdade” partidária são sempre os mesmos e Rio meteu-o simbolicamente nas listas, desautorizando-se a si próprio.

Por que é que isto é relevante e não é apenas a “cozinha” interior de um partido do poder? Porque a honra perdida dos partidos políticos é um factor da actual crise da representação democrática. E é assim que ela se perde.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

A irrelevância das direitas lusas

Os debates que tiveram Rui Rio e Assunção Cristas como protagonistas trouxeram-nos uma evidência: a de neles não encontrarmos uma ideia consistente do que deve ser o país no futuro a médio e longo prazo. Quem se interrogue para que tipo de sociedade tendemos a evoluir detetamos uma diferença de monta entre os partidos das esquerdas, que colocam a variável ambiental como condicionadora do tipo de desenvolvimento exequível, enquanto os situados no espectro direitista dela se alheiam como se não existisse.

 

Não é preciso ter grandes dotes de adivinhação para compreender que, entrando numa década decisiva para se travarem os fenómenos meteorológicos passíveis de virem a revelar-se incontroláveis, existe um fosso entre quem os leva em conta e quem os queira ignorar...

 

No Ípsilon da semana transata António Guerreiro abordava a crise dessas direitas. Só não concluiu o que se vai adivinhando: elas arriscam-se a ser totalmente irrelevantes nos anos vindouros. 
Intimamente vou fazendo votos para que assim seja.

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/09/a-irrelevancia-das-direitas-lusas.html

A crise da Direita

(António Guerreiro, in Público, 13/09/2019)

António Guerreiro

(A Estátua não usa chapéu mas, se usasse, tiraria o seu chapéu a este texto. Excelente e a merecer reflexão cuidada.

Comentário da Estátua, 13/09/2019)


As análises do presente momento político-partidário, em Portugal, convergem geralmente no diagnóstico de que há uma crise ou até mesmo uma decomposição da Direita. É uma situação estranha porque a crise é uma tradição da Esquerda, inscrita aliás nas suas elaborações teóricas sob a forma de uma afinidade semântica — etimologicamente certificada — entre “crise” e “crítica”.

 

Quando as noções de “Esquerda” e “Direita” desenhavam, com traços bem marcados, a paisagem política e proporcionavam uma visão totalizante, a Esquerda reivindicava legitimamente um lugar crítico (e, portanto, de crise), enquanto a Direita estava do lado das fundações mais perenes, voltada para uma cultura do enraizamento. Mas a Direita, entretanto, tornou-se “affairiste”, como dizem os franceses, isto é, integrou na sua doutrina o pragmatismo económico e o individualismo liberal, de maneira que ficou muito mais vulnerável às crises.

Esta recente crise da Direita, em Portugal, assim identificada pelos analistas, mostra uma situação muito mais complexa que não se deixa sintetizar na palavra “crise”; e mostra que é preciso politizar essa complexidade. Os nossos afectos políticos contemporâneos são marcados por tensões que já não são representáveis pelos partidos e pelos movimentos políticos que não tiveram a capacidade de interpretar a cartografia da paisagem política actual, de perceber que a polaridade única Esquerda-Direita recobre hoje uma multiplicidade de polaridades subjacentes que introduzem clivagens e nos fazem entrar em discussão no interior da nossa família política, mesmo a mais próxima. Falar da crise da Direita é continuar a conjugar a política no singular e insistir num confronto entre “governo” e “oposição” que já não é prioritário, como foi outrora. Mesmo um jornal como o Observador, que é talvez o lugar onde podemos observar com nitidez uma reconstrução ideológica da Direita, há tensões e polaridades visíveis, que têm que ver sobretudo com códigos e afinidades culturais e com políticas dos costumes. E um partido como o CDS (viu-se bem no episódio das “casas de banho”)  dissolve-se completamente nas suas contradições, ao querer rasurar as tensões internas que dilaceram o Partido: dele vêm simultaneamente as posições mais reaccionárias (no que diz respeito, por exemplo, a uma moral sexual e às questões do género) e os sinais envergonhados de que nada disso é a regra da vida interna e que até alguns dos seus dirigentes se envergonham com as declarações públicas de outros dirigentes e militantes.

Querendo rasurar as tensões e silenciar novas polaridades, os partidos afundam-se, ficam prisioneiros das palavras de sempre, que lhes moldaram o discurso desde a fundação. Enquanto o mundo tende para a crioulização, os partidos insistem em querer preservar uma “pureza” de fachada, como se permanecessem imunes a novas “correntes”, novas polaridades políticas, que implicam necessariamente um novo vocabulário que já não é o da política tradicional. Um vocabulário que não seja o da frustração e do rancor e que nos ajude a conceber de maneira diferente os problemas sempre diferentes de cada época. Crescimento, urgência das reformas, alívio fiscal, etc., etc.: tudo isto não é mais do que o consabido objecto de explorações demagógicas. Todas estas palavras que nos colonizaram, já só soam aos nossos ouvidos como estribilhos que ora nos fazem rir, ora nos suscitam a vontade de gritar: “Desaparece, deixa-me em paz!”.

Aquilo que os analistas hoje diagnosticam como uma crise da Direita não é senão a emergência de novas polaridades com as quais a Direita não está a conseguir lidar. O mesmo aconteceu, e continua a acontecer, à Esquerda, mas esta, como sabemos, já se pluralizou há muito tempo e tornou-se consubstancial à própria ideia de crise.

Uma cartografia actual das novas polaridades, das correntes e contra-correntes, mostrará que elas passam no interior dos partidos, que tentam anulá-las em vez de se adequarem a uma política das tensões. Agora, que as palavras “género” e “transgénero” designam uma das tensões vivas, talvez os partidos, que sempre foram instituições com um modelo homossexual clássico (não há nada mais clássico do que a homossexualidade) devessem tornar-se antes “transgénero”.


Livro de Recitações

“A classe média empobreceu e perdeu ‘o efeito amortecedor’ face a futuras crises” 
Título de uma entrevista ao sociólogo João Teixeira Lopes, in PÚBLICO8/9/2019

A classe média é um objecto-fetiche dos sociólogos, muito embora fiquemos sempre com a impressão de que nenhuma ciência consegue definir com rigor esse objecto. Ao excesso de presença sociológica da classe média, corresponde a sua falta de representação política. O que sabemos bem é que ninguém quer pertencer à classe média: aquilo a que todos os pobres aspiram é serem ricos sem terem de passar pelo grau intermédio, por um limbo desclassificado e desinteressante onde se situa a classe média. Esta, por sua vez, enquanto classe tardia, guarda ainda consigo a memória antiga da pobreza. Talvez por isso, um dos seus passatempos favoritos seja visitar os pobres na televisão, que é uma espécie de parque temático de pobres, para diversão e ilustração das classes medianas.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

OS «TAROLAS» DAS REDES SOCIAIS - 2

Ainda a propósito de tais tarolas (e, mais uma vez, não os confundamos com estarolas), não deixa de ser engraçado apreciar o número de vezes em que eles se concertam no formato e tópico daquilo que publicam nas redes sociais, que se distingue somente pelos retoques artísticos de mensagens que acabam por ser substantivamente iguais. «O Marcelo é uma besta, o Rio também, e eles próprios não se estão a sentir lá muito bem.» Mas o que importará será a informação que aparece em rodapé, primordial para qualquer disputa entre um Gilvaz e um Fuas, exibindo-se para comparação o número de likes e outras expressões emoji, mais os comentários suscitados e as partilhas concordantes.

Veja o original em 'Herdeiro de Aécio' na seguinte ligação::

http://herdeirodeaecio.blogspot.com/2019/09/os-tarolas-das-redes-sociais-2.html

Rio chega tarde

(Vítor Norinha, in O Jornal Económico, 06/09/2019)

O líder do PSD tem uma preocupação maior que não é ganhar estas eleições, mas limpar metade do partido e preparar-se para daqui a quatro anos. Só que o PSD é um partido de poder, não vai esperar.

A entrevista do líder do PSD, Rui Rio, na TVI teve um impacto altamente positivo nas redes sociais. Apareceu um Rio renovado e muito à vontade ao falar tanto de temas de cultura como de temas de economia, num discurso anti elites, algo que entra muito bem no eleitorado do centro, e com soluções viradas para as pessoas e problemas reais e não para aqueles que vivem à margem das crises.

 

Mas o curioso de tudo isto é que a entrevista de Rio não passou nos opinion makers, muito deles virados para alguns temas de propaganda do Governo – como seja a Lei de Bases da Habitação, quando se quer assemelhar a habitação ao tema da saúde e da educação que são obrigações públicas – ou para assuntos de grandes massas, como foi a substituição do treinador Keizer no Sporting.

Nos assuntos sérios Rio é menos citado do que Catarina Martins e Assunção Cristas, que fizeram um debate onde se anularam. Mas por que razão só agora aparece Rio? Muitos questionam o timing. Se Rio tivesse esta postura há uns meses, o PSD teria líder. Antecipamos que Rio está renovado e de regresso àquilo que sabe fazer, porque necessita de uma prova de vida para o pós-eleições.

O líder do PSD tem uma preocupação maior que não é ganhar estas eleições, mas limpar metade do partido e preparar-se para daqui a quatro anos. Só que o PSD é um partido de poder, não vai esperar quatro anos e Rio terá muita dificuldade em manter-se depois da esperada derrota e, a acreditar nas projeções, com votações que não irão além dos 22%.

Na Europa do sul, esperar quatro anos para ser primeiro-ministro é algo inédito. Rajoy fê-lo mas é caso único. Rio continua a limpeza das antigas elites do PSD e precisa de uma bancada parlamentar nova. Quer seriedade e ética na política, mas uma derrota expressiva pode significar uma implosão do centro-direita e a emergência de novos protagonistas. O futuro é daqui a quatro semanas.

E se Rio aparece renovado mas com dificuldade em passar a mensagem na comunicação social tradicional, Costa tem de trabalhar como se precisasse de parceiros para uma coligação. Por aquilo que tem sido o registo, irá tentar manter os mesmos acordos, com os mesmos parceiros, mesmo que não necessite deles ou necessite apenas de um deles. Costa sabe que o pior que lhe pode acontecer é o partido ficar com a noção de que tem rédea solta com uma maioria absoluta durante uma legislatura inteira. Sem uma oposição de centro-direita eficaz e com uma média menos incisiva, tudo de mau pode acontecer.

Ficam dois partidos cujas líderes se auto anularam no último debate televisivo. De um lado uma líder do CDS com um discurso mais popular e mais afastado do antigo CDS, mas que não ganha votos com isso. Do outro uma Catarina a assumir-se como social-democrata num partido cujo núcleo duro é uma amálgama de extremismos, desde o estalinismo ao trotskismo. Catarina lembrou-se de Soares, Guterres e Sócrates e sabe que para chegar ao poder precisa de transformar o âmago do Bloco. E a social-democracia tem votos.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Adriano Moreira – cúmplice fascista reabilitado – 97.º aniversário

adriano moreira 01
Comemora hoje 97 anos e desejo-lhe longa vida, mas quero pronunciar-me sobre este académico ilustre, de passado pouco recomendável, antes de ser adulado no futuro, e elevado aos altares quando o seu deus for servido de o chamar à divina presença, ao contrário dos ateus que se limitam a morrer quando a vida se extingue.

É preciso fazê-lo, não porque o homem, lúcido e inteligente, não continue a escrever bem e a pensar mal durante mais tempo. Não desejo a antecipação das cerimónias fúnebres, do cortejo das carpideiras e dos elogios generalizados, como tem sucedido, com outros vultos pouco recomendáveis.

Convém fazê-lo agora, por dois motivos, porque posso antecipar-me ao ministro fascista na defunção e porque, como senti no passamento de J. H. Saraiva, não se pode dizer mal de um morto que ainda mal fede. Mesmo depois, esquecidos os crimes, acabam por ser pessoas de bem, com missas sazonais a sufragar a alma, essa benzina que desencarde o passado do pior defunto.

Adriano Moreira foi também ministro de Salazar e não podia ignorar as torturas da Pide, as prisões sem culpa formada, as medidas de segurança, a violação da correspondência, os degredos, os Tribunais Plenários e as enxovias do regime. Era um homem inteligente e informado. Sabia que a Pide matava. Aliás, como subsecretário de Estado do Ultramar (59/61) e ministro da pasta (61/63) foi o responsável da polícia política nas colónias.

Hoje já poucos se lembram de que foi ele quem assinou a portaria que reabriu o Campo do Tarrafal, em Cabo Verde, dessa segunda vez destinado aos presos dos movimentos de libertação das colónias. Preferem lembrar que foi democrata na juventude e no pós-guerra, quando, após a derrota do nazi-fascismo, a Inglaterra prometia acabar com todas as ditaduras europeias e Salazar e Franco tremeram.

Quando a cadeira livrou Portugal do ditador de Santa Comba foi em Adriano Moreira, além de Marcelo, que os próceres da ditadura pensaram. Era um bom académico? – Sem dúvida, como Marcelo. Mas como ministro do Ultramar, para lá da reabertura do campo da morte lenta do Tarrafal, não teve conhecimento dos atos bárbaros com que as Forças Armadas Portuguesas responderam à crueldade da primeira sublevação em Angola? Ou defendia a pena de Talião? Foi no seu tempo que se cometeram algumas das mais cruéis punições militares. Não tinha força para as impedir? Mas foi determinado a demitir o general Venâncio Deslandes de cuja fidelidade desconfiou.

Depois do 25 de abril de 74 foi militante do CDS e seu presidente. Quando o CDS, por ser excessivamente reacionário e antieuropeísta foi expulso da Internacional Democrata-Cristã Europeia, o político Adriano Moreira demitiu-se ou ficou com Paulo Portas?

Não há a mais leve suspeita nem o menor indício de que seja democrata, e não faltarão Cavacos, Relvas, Coelhos e Marcelos, talvez vestidos de gatos-pingados no funeral, nem lugares-comuns a incensarem o «patriota», o académico e o «democrata», entre os que, à falta de melhor, se engalanaram com as penas da democracia.

Apostila – Texto adaptado do que escrevi há 7 anos, no 90.º aniversário.

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2019/09/adriano-moreira-cumplice-fascista.html

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