Direita

Passos voltou com o vento suão, novos passos

Passos voltou em força. Acompanharam-no todos os pesos pesados dos seus quatro anos de empobrecimento dos portugueses. Faltou Portas. Cristas não.

Era suposto que apresentasse o livro de Carlos Moedas. O convite assim o dizia. Porém, chegado ao palco, Passos quis de modo claro e inequívoco afirmar-se como o líder da oposição. O “Vento suão” de Moedas parecia uma brisa doce, quietinha, serena face à tempestade desencadeada por Passos. Atacou Costa em toda a linha.

Ter-se-á esquecido que ia apresentar o livro do seu amigo Moedas ou, no seguimento do que já dissera sobre a eutanásia, veio marcar terreno e congregar as forças presentes do PSD e do CDS para os combates que se avizinham?

Passos trouxe consigo os passistas do PSD, mais alguns do CDS, a começar por Cristas, no momento em que no cenário político se agravam as contradições entre PS e os partidos da esquerda, nomeadamente PCP e BE.

O modo como os desenvolvimentos políticos acontecem vai trazendo para cima da mesa um deslizar do PS para o centro, onde Rui Rio proclama que é o seu lugar.

É evidente que PS e PSD podem guerrear pelo tal centro, mas bem vistas as coisas, sendo ao centro, o que contará é saber o peso de cada um para se entenderem ou não.

Por isso, Passos decidiu aparecer com toda a artilharia pesada dos quatro anos de austeridade e apresentar armas.

Não deve ser por acaso que dentro do grupo parlamentar do PSD um conjunto de deputados faça coro com Passos e Cavaco pelo referendo e contra a eutanásia.

Começa a ficar claro, mesmo sem detergente, que nas sombras as movimentações por um novo ciclo se desenham.

Claro que cada um dos atores principais irá em termos de retorica ater-se ao guião, mas é bem visível que se aproxima outra fase.

Entretanto o PS saudou a abertura do CDS ao diálogo, sendo certo que Paulo Portas não esteve no lançamento da tempestade de Passos Coelho. O novo líder  diz-se mais próximo de Paulo Portas.

E registe-se no Congresso do PSD a aproximação do CDS com o PSD, aparecendo os dois líderes sorridentes a prometerem entendimento. Ou seja, PSD e CDS remam em sentido contrário ao do vento suão.

Por outro lado Marcelo vai a votos e quer o apoio do PS, pois é uma grande faixa do seu eleitorado. Quer uma votação maior que a anterior para aquilo que se sabe, pois será o seu último mandato com ou sem beijos e selfies.

O jogo de cintura de Marcelo que é reconhecido obriga-o a moderar ímpetos, tanto mais quanto dirigentes e quadros do PS falam numa candidatura do PS, o que a ser alguém com força e carisma ameaçará o passeio triunfal e apoteótico do mais espalhafatoso Presidente de Portugal.

Passos Coelho após ser derrotado e passar à oposição, como todos se lembrarão, ameaçou de quinze em quinze dias a vinda do diabo para estrangular a economia portuguesa. Até hoje o diabo escondeu-se, mas sabe quem o chama. E gosta de pregar partidas, mesmo aos que vivem debaixo do mesmo teto partidário. Passos parece ter decidido convidar o diabo para infernizar a vida de Rui Rio. Que o diga a tempestade do vento suão.

https://www.publico.pt/2020/02/21/politica/opiniao/passos-voltou-vento-suao-passos-perfilam-1905023

Ver original em ' O Chocalho' na seguinte ligação:

https://ochocalho.com/2020/02/21/passos-voltou-com-o-vento-suao-novos-passos/

O Perigo Amarelo & académicos de grande honestidade intelectual

anticomunismo virus

Agostinho Lopes


O PERIGO AMARELO.
«A China está a enfrentar uma crise sem precedentes. Temos de reconhecer que o número relativamente baixo de casos detetados fora da China resulta dos esforços intensos que o Governo chinês está a realizar para conter a emergência e proteger outros países». «Há outros exemplos da determinação da China em responder, desde a partilha rápida da sequenciação do genoma do vírus com a OMS e o mundo ao convite para uma equipa de especialistas internacionais liderada pela OMS, ir até à China e apoiar parceiros locais». Declarações do porta-voz daOrganização Mundial de Saúde ao Expresso, Expresso Diário, 05FEV20.

 

Só lhes falta falarem do «perigo amarelo»! A propósito do coronavírus desencadeou-se nosmedia uma inacreditável campanha contrao Estado chinês e o Partido Comunista da China. A vesguice ideológica provocada pelas lentes grossas do anticomunismo tudo permite e tudo vale para levar a água ao moinho da pura propaganda anti-chinesa, quando não xenófoba. Vendo quem escreve, custa a acreditar no que se lê.     
Dois pontos de partida e de bom senso na abordagem do tema.
A opinião da OMS. Para lá do que acima se transcreve são inúmeras outras declarações dos seus responsáveis e especialistas, a começar pelo seu Director-geral. O que também se diz nos seus relatórios.
E as declarações do principal responsável do Estado chinês, reconhecendo problemas, falhas e fraquezas na resposta ao coronavírus, a necessidade de mudanças profundas no sistema de resposta a emergências de saúde pública e de revisão e mesmo nova legislação na prevenção de doenças infecciosas, na biosegurança, na protecção da vida selvagem. A tomada de medidas relativamente a responsáveis políticos e administrativos.
Mas nada satisfaz os «críticos» do vírus. Ou por porem em causa a credibilidade da própria OMS, assim a modos de substituir opiniões de órgãos especializados, de composição multinacional da ONU pelasfake news das redes sociais. Ou por pretensamente corresponderem a bodes expiatórios do regime chinês. Sabe-se o que pretendem indiciar e o que desejariam. 
Atente-se nesta breve amostra.
Um jornalista, sob o sugestivo título «O vírus e os malefícios do comunismo» (1), ao jeito da fábula «se não foste tu, foi o teu pai», resolve juntar ao coronavírus o historial de todas as desgraças sucedidas ao povo chinês, desde as pestes de 1588 e 1642, e vem por aí fora até à gripe espanhola de 1917!  No rol vem a invasão manchu em 1644 e o «Grande Salto em Frente», mas esqueceu-se das duas guerras do ópio do imperialismo inglês ou da invasão japonesa. Mas não esquece a SARS (2002/2003), o leite adulterado com melamina e calcule-se, a peste suína africana! Benza-o deus! A que acrescenta a falta de «vistoria sanitária» nas feiras camponesas e a «concentração e coabitação de comunidades humanas com explorações pecuárias».Coitado do Barradas que nunca saiu de Lisboa! 
Depois uma professora de economia na Nova SBE (2) que sob o título «Xi Jinping: era uma vez um autocrata que deu uma mãozinha ao vírus», resolveu teorizar, ou não fosse ela uma catedrática, sobre catástrofes e regimes políticos:tal regime, tal catástrofe. Assim mesmo! Cita mesmo um estudo para demonstrar que as catástrofes naturais «causam menos vítimas em democracias»! Notável. Foi pena que à semelhança do anterior plumitivo, não desse uma volta histórica e geográfica pelo mundo, para demonstrar a sua tese com as experiências vividas pelos povos. Estava certamente a lembrar-se de como os EUA reduziram os estragos com o Katrina. Ou de como o seu sistema de saúde (?) responde às 37 000 mortes que, em média e por ano, desde 2010, surgem associadas a surtos de gripe. Ou do desastre sem fim do Haiti! E também, em contraposição, de como Cuba tem de facto reduzido as consequências humanas de acidentes climatéricos, tufões, ciclones, face aos seus vizinhos da América Central. Ou dos recentes incêndios florestais na Califórnia e na Austrália ou, muito mais próximo, de como Portugal respondeu nos incêndios florestais de 2017.   
Segue-se mais um académico, docente no Mestrado de Estudos Chineses da Universidade de Aveiro «Li Wenliang, o Inimigo do Povo» (3), que se admite saber bem do que está a falar, em que depois da referência do apoio popular ao regime, pois «Num país de onde milhões de pessoas saíram da pobreza mais extrema, todo os argumentos críticos ao sistema chocam com estas estatísticas» e «a implacável luta contra a corrupção» e o reconhecimento de que «É importante que se diga que nenhum país no mundo teria uma capacidade de resposta nas mesmas condições»,quase que abençoa o coronavírus porque «pode conduzir a uma crise do sistema»! Mais um professor que também precisa de andar, desta vez muito pouco,  para constatar o estado da fiscalização sanitária nas feiras agrícolas da sua região!  
E a lista podia continuar, mas acaba com mais um professor universitário «O vírus da ditadura» (4), para quem as medidas tomadas pelo Governo Chinês «parecem exageradas: muito mais gente é infectada e morre com gripes comuns sem que ninguém se lembre de coisas do género». E de como não podemos confiar na «opaca e autoritária burocracia mundial de instituições como a Organização Mundial de Saúde», «Neste momento, simplesmente não sabemos se estamos perante uma ameaça séria mas no fundo, negligenciável ou à beira de uma pandemia global cuja grande expansão ainda está para vir, podendo afectar todos os países do mundo: algo como a gripe espanhola de há um século»! Notável síntese. Infelizmente, vamos ter que esperar por um daqueles painéis de especialistas da CMTV (a Joana Amaral Dias, o Rui Pereira, o André Ventura e o Moita Flores) para resolvermos a disjuntiva.
1.João Carlos Barradas, Jornal de Negócios, 28JAN20.
2.Suzana Peralta, Público, 14FEV20.
3.Jorge Tavares da Silva, Público, 14FEV20.
4.Luciano Amaral, Correio da Manhã, 17FEV20.   

 

 

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D. Aníbal e o infanção Passos Coelho

Numa pausa dos sais de fruto para a incontida azia que os corrói, os dois catedráticos, o do decreto e o do convite, fartos de desprezo e esquecimento, despertaram da letargia e surgiram nas televisões a azucrinar os ouvintes na defesa do referendo para a eutanásia.

O primeiro fez prova de vida, suspendendo algum Roteiro onde verte o ódio e convence os netos da sua utilidade para a literatura e a política, e o segundo desiludiu as fãs com a erosão provocada pelo esforço docente e a calvície.

Vieram os dois, com a habitual conivência, como nos tempos em que assustavam o país com a mudança de governo, para se vingarem de Rui Rio que lhes infligiu três derrotas e tem postura ética e sentido de Estado. Não os move a discussão de um assunto sério, une-os o ressentimento, o desespero de se verem desprezados e a vingança contra quem reconduziu o partido à matriz fundadora e enfrentou os serviçais em que apostaram.

Sofreram em silêncio a humilhação das sucessivas vitórias de Rui Rio no partido de que se julgaram donos e apareceram ruidosamente numa questão de consciência, ansiosos de causarem danos e cumprirem as piedosas instruções recebidas nas sacristias.

Os dois cúmplices de má memória continuam unidos, um no salazarismo que o moldou e o outro na nostalgia em que foi criado.

Nada acrescentaram à discussão em curso, apenas fizeram prova de vida substituindo o atestado médico por declarações públicas, para regressarem aos sítios de onde vieram e deixarem mais salubre o espaço mediático.

Já há poluição que baste.

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https://ponteeuropa.blogspot.com/2020/02/d-anibal-e-o-infancao-passos-coelho.html

Portugal | SAÍDOS DO TÚMULO… ELES ANDAM AÍ!*

 
 
Passos Coelho reaparece e prefere falar do passado do que do futuro
 
Antigo primeiro-ministro elogiou coragem de Carlos Moedas mas evitou falar do futuro político do ex-comissário.
 
A apresentação do livro do ex-comissário europeu Carlos Moedas Vento Suão: Portugal e a Europa foi o pretexto para Pedro Passos Coelho revelar episódios de bastidores sobre a escolha, há seis anos, do seu então secretário de Estado-adjunto no Governo para o cargo em Bruxelas. Numa sala a transbordar – onde o passismo estava em peso – o antigo primeiro-ministro deixou apenas uma crítica ao actual Governo por ter escolhido a pasta dos fundos estruturais: “Não percebo porque é que o Governo a quis – somos grandes beneficiários dos fundos – a não ser para fazer propaganda no país, não serve para mais nada”.
 
Foi dos poucos recados directos que deixou ao actual Governo socialista. Mas, numa intervenção pontuada de ironia, Passos Coelho quis repor a sua perspectiva sobre o processo de escolha de Carlos Moedas para comissário europeu.
 
O antigo líder social-democrata recordou as reacções negativas do então líder do PS, António José Seguro, à indicação do ex-secretário de Estado, mas também a do actual primeiro-ministro António Costa, que acusou Moedas de ser “o mais ortoxodo” dentro do PSD. “Pareceram-me estas palavras um bocadinho exageradas. Não me parecia ser ortodoxo nem ter uma ideia tão tramontana sobre a Europa”, disse, lembrando depois que o actual Governo fez “uma avaliação muito positiva” do mandato do comissário e que até o “chamou para uma bonita cerimónia”. Foi um dos momentos em que se ouviram risos na sala, que esteve sempre em silêncio enquanto o antigo chefe de Governo interveio.
 
 
 
Na assistência estavam alguns dos vice-presidentes de Passos Coelho como Carlos Carreiras, Teresa Morais, Paula Teixeira da Cruz e Sofia Galvão, mas também os ex-ministros Miguel Relvas e Nuno Crato. Na primeira fila sentaram-se lado a lado Luís Montenegro (o ex-líder parlamentar durante o passismo) e Miguel Pinto Luz. Os dois candidatos à liderança do PSD estiveram perto da ex-líder do CDS Assunção Cristas. Mais discreto na lateral da sala ficou o militante número um do PSD, Francisco Pinto Balsemão, ao lado de Luís Marques Mendes, ex-líder social-democrata e comentador televisivo. Não faltaram alguns deputados como Emídio Guerreiro, Pedro Alves e Fernando Negrão.
 
Durante os quase 45 minutos de discurso, Passos Coelho revelou que há seis anos “não tinha a certeza” de que Carlos Moedas pudesse ser comissário europeu por estar a encerrar o programa de ajuda externa, embora tivesse sido o candidato em que sempre pensou para o cargo. “Pareceu-me sempre que tinha o perfil indicado. Porquê? Era um homem da Europa, do mundo, tinha estado nos EUA, em França, era o que se chamava um estrangeirado”, disse.
 
Falando em tom coloquial, o antigo primeiro-ministro divulgou ainda que foi o próprio nomeado que negociou a pasta que acabou por conseguir (Investigação, Ciência e Inovação) e que o aconselhou a escapar à dos Assuntos Sociais, que foi ponderada: “Ó Carlos, você fuja disso homem porque a Comissão Europeia não tem nenhum instrumento relevante para essa matéria – prepare-se para andar a levar pancada durante cinco anos”.
 
Recusando falar aos jornalistas no final da sessão num espaço comercial em Lisboa, Passos Coelho aproveitou ainda, na sua intervenção, para explicar por que razão a sua ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, não foi a escolhida por si para o cargo europeu, apesar de lhe ter sido sugerida pelo então presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker. “Era ministra das Finanças e a situação que estava a viver num dos bancos – o BES - inspirava-me a maior das preocupações”, disse, rebatendo notícias da época que davam conta da irrelevância da pasta conseguida ou de que o nome de Paulo Portas, o seu parceiro de coligação no Governo, era uma hipótese para o cargo.
 
Elogiando Moedas pela coragem de tomar posições políticas enquanto exerceu o mandato, Passos não falou directamente do futuro político no PSD do agora administrador da Gulbenkian. Mas deixou um conselho: “Não sei o que quer fazer na vida, faça bom uso do que foi recolhendo pelo caminho”. 
 
Depois de agradecer a Passos Coelho por ter acreditado em si “antes dos outros”, Carlos Moedas também evitou falar do seu futuro político e preferiu recordar alguns episódios do seu mandato como comissário, sobretudo, o seu esforço para que não se perca a identidade portuguesa. Ao olhar para a sala e ver “tantos ex-colegas” do executivo PSD/CDS, Moedas desabafou: “Naquele Governo, cada dia contava três dias, era como estar numa guerra, numa trincheira”.
 
Sofia Rodrigues | Público | Imagens: 1 – Passos e Moedas, em Notícias ao Minuto: 2 -
Na primeira fila sentaram-se alguns passistas / Nuno Ferreira Santos

*Título PG

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Portugal | A mediocridade e mesquinhez que nos ameaçam

 
Jorge Rocha* | opinião
 
Para mal dos nossos pecados a História portuguesa tem sido feita de uma sucessão de confrontos entre aqueles que os paladinos da dialética marxista, distinguem entre os velhos e os novos.
 
Se o espírito renascentista acompanhou o seu surgimento em Itália logo o clero e a aristocracia acautelaram o seu silenciamento através da Inquisição. Se um Marquês do Pombal consagrou na governação os valores dos Iluministas, logo uma viradeira deu plenos poderes a Pina Manique para lhes esmagar as aspirações progressistas. Se os republicanos derrubaram a monarquia e impuseram a separação entre a Igreja e o Estado ou a democratização do ensino, logo se alevantou a aventesma de Santa Comba a fazer-nos “pobrezinhos, mas honrados”. Se os capitães de Abril nos devolveram a Democracia e Mário Soares nos agregou ao que a Comunidade Europeia prometia ser, enquanto prenúncio de uma grande potência inovadora e continental, logo surgiu uma versão recauchutada do *lente de Coimbra” para comprovar que a mesquinhez preconceituosa germinada num posto de gasolina de Boliqueime encontrava no imaginário coletivo os apoiantes suficientes para nos imporem o horrível mostrengo por quase duas décadas.
 
E assim continua a suceder: a metade lusa, que execra a inteligência, e só se conforta com a promoção dos mais medíocres, não desiste de impor à outra metade alguns seres, que o mestre Almada Negreiros poderia reconhecer como aqueles compatriotas onde se identificariam todos os defeitos presentes em todas as grandes nações... só lhes faltando as  qualidades que os compensassem e superassem. Daí termos aguentado com um cábula contumaz como primeiro-ministro entre 2011 e 2015 e olhamos para o lado direito da Assembleia da República com a pavorosa constatação de quanto ali se congregam os piores exemplos de rasteirice e preconceito.
Se à esquerda da bancada do Partido Socialista podemos encontrar estratégias e intervenções com que não concordamos, mas entendemos como fruto de uma obstinação ideológica desfasada dos constrangimentos e circunstâncias atuais, à direita não existe um pensamento coerente quanto ao tipo de país pretendido. Sobretudo na bancada laranja que passou a discussão orçamental em jogos tacticistas incoerentes, que se contradiziam entre si. Nada de estranhar: quando a cabeça não tem juízo e o país é que, à sua conta, se arrisca a pagar.
 
Mas a mesma pequenez da direita par(a)lamentar, encontra-se em Carlos Alexandre, esse juiz de Mação, que poderia revelar a argúcia tantas vezes presente em quem tem rústicas origens, mas dessa condição só reteve o ignóbil fanatismo que dedica aos que sabe superiores e expresso no manifesto ódio ao primeiro-ministro. É tanta a vontade de o acusar do que quer que seja, que tal aversão manifesta-se nos exercícios catárticos (ainda) propiciados pelo seu cargo. A resposta de António Costa às tropelias por ele cometidas em nome do seu estranho conceito de Justiça - publicando o texto, que os prosélitos da criatura já andavam a deturpar! - é uma estocada, que desejaríamos letal para quem reiteradamente desprestigia a classe a que pertence.
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/02/portugal-mediocridade-e-mesquinhez-que.html

A mediocridade e mesquinhez que nos ameaçam

Para mal dos nossos pecados a História portuguesa tem sido feita de uma sucessão de confrontos entre aqueles que os paladinos da dialética marxista, distinguem entre os velhos e os novos.

 

Se o espírito renascentista acompanhou o seu surgimento em Itália logo o clero e a aristocracia acautelaram o seu silenciamento através da Inquisição. Se um Marquês do Pombal consagrou na governaçãoos valores dos Iluministas, logo uma viradeira deu plenos poderes a Pina Manique para lhes esmagar as aspirações progressistas. Se os republicanos derrubaram a monarquia e impuseram a separação entre a Igreja e o Estado ou a democratização do ensino, logo se alevantou a aventesma de Santa Comba a fazer-nos “pobrezinhos, mas honrados”. Se os capitães de Abril nos devolveram a Democracia e Mário Soares nos agregou ao que a Comunidade Europeia prometia ser, enquanto prenúncio de uma grande potência inovadora e continental, logo surgiu uma versão recauchutada do *lente de Coimbra” para comprovar que a mesquinhez preconceituosa germinada num posto de gasolina de Boliqueime encontrava no imaginário coletivo os apoiantes suficientes para nos imporem o horrível mostrengo por quase duas décadas.

 

E assim continua a suceder: a metade lusa, que execra a inteligência, e só se conforta com a promoção dos mais medíocres, não desiste de impor à outra metade alguns seres, que o mestre Almada Negreiros poderia reconhecer como aqueles compatriotas onde se identificariam todos os defeitos presentes em todas as grandes nações... só lhes faltando as qualidades que os compensassem e superassem. Daítermos aguentado com um cábula contumaz como primeiro-ministro entre 2011 e 2015 e olhamos para o lado direito da Assembleia da República com a pavorosa constatação de quanto ali se congregam os piores exemplos de rasteirice e preconceito.

 

Se à esquerda da bancada do Partido Socialista podemos encontrar estratégias e intervenções com que não concordamos, mas entendemos como fruto de uma obstinação ideológica desfasada dos constrangimentos e circunstâncias atuais, à direita não existe um pensamento coerente quanto ao tipo de país pretendido. Sobretudo na bancada laranja que passou a discussão orçamental em jogos tacticistas incoerentes, que se contradiziam entre si. Nada de estranhar: quando a cabeça não tem juízo e o país é que, à sua conta, se arrisca a pagar.

 

Mas a mesma pequenez da direita par(a)lamentar, encontra-se em Carlos Alexandre, esse juiz de Mação, que poderia revelar a argúcia tantas vezes presente em quem tem rústicas origens, mas dessa condição só reteve o ignóbil fanatismo que dedica aos que sabe superiores e expresso no manifesto ódio ao primeiro-ministro. É tanta a vontade de o acusar do que quer que seja, que tal aversão manifesta-se nos exercícioscatárticos (ainda) propiciados pelo seu cargo. A resposta de António Costa às tropelias por ele cometidas em nome do seu estranho conceito de Justiça - publicando o texto, que os prosélitos da criatura já andavam a deturpar! - é uma estocada , que desejaríamos letal para quem reiteradamente desprestigia a classe a que pertence.

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2020/02/a-mediocridade-e-mesquinhez-que-nos.html

Portugal | OUTRA VEZ ARROZ?

 
 
Em aparição súbita, na tomada de posse da comissão política de Ponte da Barca, Passos Coelho exortou à união da direita (PSD e CDS-PP) para fazer as reformas de que o país precisa, dada a inexistência no presente, em seu entender, «de qualquer ação reformista importante», que previna «problemas maiores no futuro».
 
Para Passos, «quem está hoje no Governo prima pela ausência de um quadro reformista», não se vislumbrando «nenhum programa económico em que alguma reforma se esteja a fazer na dimensão da produtividade e competitividade da economia». Como é hábito, a alusão à palavra mágica não prossegue com a explicitação das políticas que a tal «ação reformista» traduziria.
Terá Passos em mente o regresso à «austeridade expansionista» e ao «empobrecimento competitivo», com a retração dos serviços públicos, desregulação do mercado de trabalho, aposta nas privatizações e em cortes permanentes nos salários e pensões?
 
Quererá Passos que a direita vá de novo «além da troika»? Não se sabe. O que se sabe é que Passos Coelho se escusou a responder a quaisquer perguntas dos jornalistas, no final da sua declaração.
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/02/portugal-outra-vez-arroz.html

Recompensar a ilegalidade

marquesmendes.JPGAgradecer ao director escolar que agiu contra a Constituição e a lei, em vez de lhe instaurar o devido processo disciplinar: foi isto que defendeu ontem o senador dos pequenitos no seu espaço de comentário semanal na SIC.

Claro que a opinião do comentador-mirim vale o que vale, e para mim, que mudo de canal sempre que, na SIC, toma a palavra o recadeiro do regime,vale seguramente muito pouco.

Contudo, a afirmação teve alguma repercussão entre os professores – quem não se sente, diz-se com razão, não é filho de boa gente – pelo que o episódio merece alguma reflexão. Na verdade, sendo o homem jurista de formação, não poderá dizer-se que falou do que desconhece: sabe bem que a greve é um direito constitucionalmente protegido e que a substituição de grevistas só pode fazer-se nos estritos limites previstos na lei e, no caso concreto das greves às avaliações de 2017, da forma determinada pelo colégio arbitral.

Na prática, o que o pequeno senador fez foi um apelo ao incentivo ao incumprimento da lei por parte de um órgão de soberania. Uma espécie de desobediência civil a ser praticada, não como reacção de cidadãos a leis injustas, mas de puro desrespeito da legalidade democrática por parte do poder executivo.

Para Marques Mendes há, aparentemente,leis da República que podem e devem ser violadas, e a lei da greve é uma delas. Caso para os espectadores habituais do comentário dominical ficarem atentos e tentarem descobrir outros casos mediáticos em que Marques Mendes advogue, igualmente, o triunfo da ilegalidade, o desprezo pelos direitos dos cidadãos e o reconhecimento público dos prevaricadores.

Volta Natália com os teus “truca-truca” e o “coito do Morgado”

Adão e Eva imageimage
 
Por Fernando Botero1932 -- e Neuza Guerreiro de Carvalho 2015
Juventude do CDS quer educação nas escolas para a abstinência sexual, oTruca-Truca do gozado Morgado, que Natália Correia tão bem soube glosar, está de volta pela mão dos frustrados jovens conservadores.
A repressão aproxima-se com sapatinhos de lã, no tempo do Botas, o beijo na via pública estava sujeito a multa, a satisfação das nossas necessidades vitais, que abre a porta à felicidade e ao amor, incomodam o opressor, hipocrisia e moralismo coabitam no mesmo vão de escada. Uma governante bolsonarista diz que a inseminação humana não leva mais que trinta segundos, tudo o mais é vício.
A alma da Direita tem o odor do bafio
 

Ver o original em As palavras são armas (clique aqui)

 

 

Já que o coito - diz Morgado -
tem como fim cristalino,
preciso e imaculado
fazer menina ou menino;
e cada vez que o varão
sexual petisco manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca.
Sendo pai só de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou - parca ração! -
uma vez. E se a função
faz o órgão - diz o ditado -
consumada essa excepção,
ficou capado o Morgado.

(Natália Correia - 3 de Abril de 1982 )

Portugal | Passos quer aliança à Direita para as reformas que o país precisa

 
 
O RESSUSCITAR DE UM DOS GRANDES INIMIGOS PÚBLICOS*
 
O ex-primeiro-ministro e antigo líder do PSD Pedro Passos Coelho dirigiu este domingo um "voto público" ao PSD e ao CDS de "afirmação" e "união" para que os dois partidos possam fazer as "ações reformistas importantes" que o país precisa.
 
"Isso está perfeitamente ao nosso alcance e o país precisa disso, e nós precisamos disso. É o voto que aqui quero deixar. Que o exemplo da Barca possa ser inspirador para os nossos partidos, e em particular para o meu, que é o PSD", afirmou Passos Coelho.
 
O ex-governante, que falava durante a tomada de posse dos novos órgãos da concelhia de Ponte da Barca, no distrito de Viana do Castelo, terminou um discurso de quase 40 minutos, formulando um voto público aos dois partidos, em particular, ao seu.
 
"Que possa encontrar o seu caminho, certamente de afirmação e de união, porque as pessoas têm de se saber unir. Se andarem em desavenças é mais difícil chegar a algum lado. Não estou a dizer que é impossível, mas é mais difícil", referiu.
 
Passos Coelho lembrou que os dois partidos fecharam "ciclos políticos" e que novos se abriram.
 
"No PSD houve eleições há pouco tempo e haverá um congresso daqui a 15 dias para coroar essa eleição. O CDS fez hoje o seu congresso. Podemos dizer que aqueles que estiveram, no Governo, juntos no passado com essas responsabilidades fecharam um ciclo, em definitivo, e abriram outro. Ainda para mais com pessoas e dirigentes que não tiveram nada a ver nem com esse Governo, nem com outros passados, destes partido", especificou.
 
 
Passos Coelho apelou para que "as pessoas se unam, a pensar no serviço que podem prestar aos outros".
 
"Se puserem um bocadinho de lado as questões que foram acumulando, às tantas se elas não forem muitos importantes e, muitas vezes não são muitos importantes, as pessoas tendem a esquecê-las e tendem a unir-se em torno de coisas mais positivas", alertou.
 
Na intervenção, que contou com a presença dos deputados Eduardo Teixeira e Emília Cerqueira, do ex-deputado Carlos Abreu Amorim, dos presidentes da Câmara de Ponte da Barca, da concelhia e distrital do partido, Passos apelou ao "respeito e elevação".
 
"Temos de saber acomodar as nossas divergências e saber comportar-nos à altura daqueles que estão a ouvir, que não estão nada interessados em saber das nossas zangas. Isso não interessa para nada. As nossas zangas são connosco. Não temos de maçar as pessoas com elas, a não ser que sejam coisas importantes. Se são importantes vamos lá a debater. Uma vez que estão arrumadas, estão arrumadas. Andamos para a frente. Não podemos andar sempre a bater na mesma tecla, senão não saímos do sítio".
 
Convidado pelo PSD de Ponte da Barca para a tomada de posse da comissão política concelhia, Passos Coelho afirmou que a "união" daqueles dois partidos é "indispensável" perante a ausência, no presente, de "qualquer ação reformista importante" que possa "prevenir problemas maiores no futuro".
 
"Não se vislumbra nenhum programa económico em que alguma reforma se esteja a fazer na dimensão da produtividade e competitividade da economia", referiu, apontando o envelhecimento, a sustentabilidade dos apoios sociais e a saúde, "que está a rebentar pelas costuras", como os principais problemas do país, a par do "descrédito da ação governativa".
 
"Era indispensável que se começasse a intensificar esta forma de abordar os problemas. Quem está hoje no Governo prima pela ausência de um quadro reformista para um futuro melhor", reforçou.
 
No final da intervenção e questionado pelos jornalistas, Passos Coelho escusou-se a prestar mais declarações.
 
"Isto hoje foi uma exceção", disse.
 
Notícias ao Minuto | Lusa | Imagem: © PSD
 
*Subtítulo PG
 

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https://paginaglobal.blogspot.com/2020/01/portugal-passos-quer-alianca-direita.html

ANARCO-CAPITALISMO?

Para se abordar este assunto sem demagogia, num ou noutro sentido, temos de nos despir de todos os preconceitos. Isto é normalmente muito difícil, se não impossível, para o comum dos mortais. 
 
Porém, o conhecimento dos conceitos relativos ao anarquismo ou ao socialismo libertário são fundamentais e ajudam a esclarecer o fundo da questão. E este, resume-se à resposta simultânea às duas questões: «será o anarquismo viável?»; «será o anarquismo desejável?».
Para compreender as propostas dos que defendem um «anarco-capitalismo», temos de cavar um bocado na História e perceber como evoluiu este complexo de ideias, teorias, organizações e movimentos sociais.  Sobretudo, devemos compreender que na origem (pelo menos enquanto teoria política e social), o anarquismo é visto como uma modalidade do socialismo. E o socialismo, por sua vez, é a utopia que mobiliza os sectores despojados pelo desenvolvimento capitalista dos séculos XVIII-XIX. No início, não se distinguia, nem em termos de projeto, nem em termos de teoria​,​ do comunismo. A palavra comunismo vem de comuna, que é o equivalente à nossa «freguesia»​. O comunismo foi, inicialmente​, um projeto de auto-gestão e auto-apoderamento​,​ ​n​um​ espaço territorial definido, que se pode considerar gerível e controlável pelo povo da comuna.  Portanto, teria mais a ver com a gestão horizontal dos recursos, nos espaços geográficos ​duma área que ​podia ser atravessada de lés a lés, numa única jornada​,​ a cavalo.  Porém, a luta de classes, na primeira metade do século XIX, nos países europeus, esteve imiscuída ​n​a luta pela libertação nacional contra o domínio das​ diversas monarquias e impérios. 
Es​t​es impérios, para usar uma expressão​​ conhecida, eram «a prisão dos povos». A eclosão de um movimento insurrecional em 1848, foi a primeira «prova de fogo»​:​ não apenas dos que ainda estavam imbuídos do ideário liberal, na sua versão genuína e original de liberdade de opinião, de associação e não somente liberdade de comércio, mas também dos proletários​,​ que entravam, pela primeira vez com a sua agenda própria, contra as monarquias instaladas. Havia a ilusão de que a república, o sufrágio universal, a liberdade, o direito de organização de sindicatos e a consagração do direito à greve, seriam a etapa necessária para a «república social», no confronto geral com a burguesia e ​​restantes classes​ opressoras.​ Infelizmente, tal esperança não se concretizou​,​ pois os regimes republicanos burgueses ​- ​instalados entre a ​2ª​ metade do século XIX e início​s​ do século XX​ -​ logo se viraram contra a classe ​operária, ​que os pusera no poder, com repressão e com restrições de toda a ordem, p​ara «desarmar» o perigo de revolução. Quando se falava de revolução, era - naturalmente - a​ revolução​ que apregoavam os socialistas, comunistas e anarquistas​ ​e suas respectivas organizações e órgãos de propaganda. Porém, a vertente não insurrecional do movimento operário e socialista (no sentido lato do termo) esteve sempre presente, desde os grandes movimentos Cartistas para conseguir uma lei (Charter) consagrando a existência legal de  sindicatos,  ​«trade-unions» nas ilhas britânicas.  Outra vertente não insurrecional, era formada pelo nascente movimento​ ​de cooperativas operárias, implicados em produzir mercadorias e serviços de maneira autónoma​,​ gerindo​ ​suas empresas cooperativas de modo democrático e horizontal.  Um grande apologista desta​ ​abordagem evolucionista​,​ em direcção a um socialismo futuro, ​foi​ Pierre-Joseph Proudhon, ele próprio um operário. A sua crítica radical do capitalismo inspirou o jovem Marx e​ ​outros socialistas​ e ​comunistas​. Devido a uma polémica azeda entre Marx e Proudhon, eles divergiram e detestaram-se.  Porém​,​​​​ é um facto que, ​na Iª Internacional, ​a corrente proudhoniana era nitidamente mais importante que ​o marxismo ou que outras, como a corrente de Bakunin​. A corrente prouhoniana, apesar de derrotada e expulsa da IIª Internacional, juntamente com os que seguiam Bakunin, acabou por ser o esteio sobre o qual se ​re​construiu o movimento sindical ​no final do século XIX, princípio d​o século XX. Com o acordo entre socialistas marxistas e sindicalistas ​libertários, estabeleceu-se ​como regra, nas «organizações de classe» (os sindicatos), terem estas autonomia em relação a todos os partidos e correntes políticas, sendo então os sindicatos capazes​ de unir os trabalhadores​ com base nas suas reivindicações e não com base na​s​ suas ideologia​s​. No seu desenvolvimento histórico, o anarquismo é tudo menos uma teoria monolítica, pelo que excluir​ de antemão e sem análise o «anarco-capitalismo», ou todas as ideias​ análogas​ que se apresentam, é contraditório com o espírito aberto e tolerante, que também faz parte da herança multissecular das correntes libertárias. Ser intolerante, ser-se sectário,​ é a negação dos princípios anarquistas​; as pessoas que assim se comportam, em vez de revolucionárias, estão (sem o saberem?) a preparar a «cama» para uma aventura autoritária.
Vou, por isso, tentar esclarecer o que compreendi da leitura de autores anarco-acapitalistas contemporâneos.  O que noto​ -​ desde logo​ -​ é que o movimento dito «libertariano» ou «anarco-capitalista», es​tá ​ancorado na sociedade ​norte-​americana e é parte de uma franja descontente com os partidos do establishment. 
Mas​,​ ​n​a abordagem​ prática da ação política, têm decidido, ou formar uma ala no seio do partido republicano, ou intervir com candidatos próprios (apoiados pelo partido libertariano) nas eleições ao nível estadual (ou a níveis inferiores) para conquistar uma parte do eleitorado do partido republicano (​a origem de​ muitos deles). Compreende-se que isto tudo tenha pouco​ ou nada​ que ver com o verdadeiro anarquismo, como organização horizontal, com a rejeição d​e​ eleições, vistas como um logro​​ que permite perpetuar​ ​a opressão​ do Estado e da classe dominante​, sob o pretexto (falso) de uma igualdade política, etc.  A generalidade dos anarco-capitalistas aceita como ideal a constituição dos EUA, redigida e aprovada pelos revolucionários americanos: revolucionários... em relação à sede  da colónia (a Grã​-Bretanha), mas - eles próprios - grandes proprietários, muitos dos quais (​incluindo​ Washington ​e​ Jackson) proprietários de escravos negros. Os «libertarianos» pensam que o Estado deveria retornar à «pureza» da constituição aprovada pelos «pais fundadores»​ nos finais do século XVIII​. Neste ponto fundamental, divergem dos anarquistas, pois não preconizam (mesmo a longo prazo) a abolição do Estado, mas somente a sua reforma profunda. No p​lano​ económico​,​ defendem a desregulamentação total, o que se traduziria por uma extrema força de coação económica dos detentores dos meios de produção e do capital​,​ sobre os que não possuem outra escolha senão vender sua força de trabalho​,​ para seu sustento e da sua família.  A favor desta tese extremada​,​ argumentam que o Estado é essencialmente parasitário e que o mercado «libertado de entraves» será originador de tal multiplicação de riqueza, de tal multiplicação das oportunidades, que todos poderão construir o seu negócio, que todos beneficiarão. Esta projecção, n​o​ futuro, do «paraíso» capitalista faz-nos sorrir, porque ouvimos - no passado - o mesmo estribilho, mas ​aplicado ao​ «paraíso ​​comunista​»​. 
O anarco-capitalismo é a ideologia ​à qual se agarram algumas pessoas da pequena e média burguesia, ao verem suas vidas devastadas pelas sucessivas crises do capitalismo, mas ​sem terem​ (ainda?) equaciona​do​ que pudesse existir algo melhor do que este sistema.  Convenceram-se que o capitalismo presente é um capitalismo degenerado​ (crony capitalism)​, que a restauração da «pureza» do mercado - divinizado, como um «Deus ex machina» - iria repor a sociedade e as instituições do Estado n​o​ caminho d​o​ progresso, ​com ​um bem-estar generalizado e em plena ​liberdade. Eu caracterizaria as várias vertentes do movimento «libertariano» ou «anarco-capitalista», como um agregado de nostálgicos do capitalismo passado, porventura de um capitalismo que nunca existiu realmente. Só diferem concretamente uns dos outros, na forma como analisam alguns fenómenos e na ênfase que colocam nas suas críticas (parciais) ao Estado. No entanto, pode-se encontrar argumentos muito pertinentes nos autores desta corrente sobre o processo pelo qual o Estado passou a controlar cada vez mais as vidas das pessoas, a suprimir as liberdades fundamentais e a arregimentá-la​s​ para a guerra.  Pode-se encontrar ​neles ​uma crítica do «crony-capitalism», ou seja, da forma como ​o​ capitalismo de hoje, está dominado por monopólios, por grupos tão poderosos, que a concorrência ​real ​não existe. Não havendo mais mercado digno desse nome​, ​​em múltiplos sectores da economia​, caminha-se para um totalitarismo corporativo.  Também verberam contra o capitalismo financeiro e contra a gestão dos movimentos financeiros e monetários, pelos bancos centrais para benefício da finança e desastrosa​​ para os pequenos, sejam eles trabalhadores ou pequenos patrões.
Porém, nem as metas globais que apontam, nem as formas concretas adoptadas (partidos, eleições), para se organizarem e fazer valer as suas ideias... nos permitem reconhecer os princípios fundamentais dos libertários ou anarquistas. Estão longe de quaisquer das formas em que estas tradições se afirmaram, desde o século XIX e séculos seguintes, até hoje.  ​Penso que estão relacionados antes com uma vertente extremada do liberalismo. Na origem, o liberalismo lutou também pelas liberdades individuais e não apenas pela liberdade de comerciar, confrontando-se com os poderes estatais. O liberalismo foi a ideologia adoptada pela burguesia ascendente. ​ Quem conhece a história do movimento operário nos EUA, sabe que houve uma intervenção vigorosa dos sindicalistas de ideologia anarquista​,​ ou de inspiração libertária. Destacam-se os​ sindicatos da confederação​ Industrial Workers of the World (IWW ou wo​o​blies), que permanecem activos hoje, em certos sectores da sociedade dos EUA, apesar da repressão feroz​,​ tanto do Estado, como do patronato. 
Existem muitas organizações e pensadores, ao longo da História dos EUA,​ que se filiam na corrente libertária​. Muitas pessoas conhecem os nomes de Emma Goldman, ou de Noam Chomsky, mas existem muitos mais com contribuições práticas e teóricas notáveis.   Existe, no presente, um grande movimento de simpatia pelo socialismo, onde predominam correntes de socialismo anti-autoritário, não-hierárquico. Este, embora não sendo​ sempre​ explicitamente anarquista no seu enunciado​, fez suas várias teses​ e adoptou métodos de organização do movimento anarquista. Nesta situação de agudização da crise​,​ há um fosso crescente entre classes sócio-económicas, com o divórcio da classe trabalhadora em relação à ideologia dominante, apesar das catadupas de mentiras e deturpações que os media - vendidos aos poderes do dinheiro - despejam diariamente, sobre o soci​alismo

Creio que muitas pessoas vão compreender ​pela prática  social, ​que o movimento dito «libertariano» ou ​«​anarco-capitalista​»​ não oferece resposta​ para ultrapassar o sistema concreto em ​que ​nos encontramos. ​
Destas pessoas, algumas poderão vir a reforçar os movimentos anti-autoritários e anti-capitalistas, que se têm multiplicado nos últimos decénios.​

Ver o original em 'Manuel Banet' (clique aqui)

O avanço da direita e a causa oculta

Para impor “verdades” repetidamente desmentidas, as elites globais suprimiram o debate público e instalaram, em seu lugar, um mercado frenético e vazio de opiniões. Daí às “fake news” foi um passo.

 

 

A verdade de um sistema errado é o erro. Para ser politicamente eficaz, este erro tem de ser incessantemente repetido, amplamente difundido e aceito pela população como a única verdade possível e credível. Não se trata de uma qualquer repetição. É necessário que cada vez que o erro é posto em prática, o seja como um ato inaugural – a verdade finalmente encontrada para resolver os problemas da sociedade. Não se trata de uma qualquer difusão. É necessário que o que se difunde seja percebido como algo com que naturalmente temos de estar de acordo. Não se trata, enfim, de uma qualquer aceitação. É necessário que o que se aceita seja aceito para o bem de todose que, se envolver algum sacrifício, ele seja o preço a pagar por um bem maior no futuro.

O avanço das forças políticas de direita e extrema-direita um pouco por todo o mundo assenta nesses pressupostos. É difícil imaginar a sobrevivência da democracia numa sociedade em que tais pressupostos se concretizem plenamente, mas os sinais de que tal concretização pode estar mais próxima do que se pensa são muitos e merecem uma reflexão antes que seja demasiado tarde. Abordarei os seguintes sinais: a reiteração do erro e a crise permanente; a orgia da opinião e a fabricação massiva de ignorância; da sociedade internética à sociedade métrica.

A reiteração do erro é hoje patente

Desde há décadas, os países capitalistas centrais, mais desenvolvidos, têm assumido a responsabilidade de dedicar parte de seu orçamento à “ajuda ao desenvolvimento”. O objetivo é, como o nome indica, ajudar os países periféricos, subdesenvolvidos, a seguir a trilha do desenvolvimento e, idealmente, convergir com estes em níveis de bem-estar num futuro mais ou menos próximo. É hoje patente que o fosso que separa os países centrais dos países periféricos é cada vez maior. A chamada “crise dos refugiados” e o aumento alarmante do movimento de populações migrantes indesejadas são os sinais mais evidentes de que as condições de vida nos países periféricos são cada vez mais intoleráveis. O mesmo se diga das políticas de redução da pobreza levadas a cabo pelo Banco Mundial há décadas. O balanço é negativo se por redução da pobreza entendermos a diminuição do fosso entre ricos e pobres dentro de cada país e entre países. O fosso não tem cessado de aumentar. Do mesmo modo, as políticas de “austeridade” ou de ajustamento estrutural impostas aos países com dificuldades financeiras, têm falhado em seus objetivos e o próprio FMI tem-no reconhecido, de forma mais ou menos velada (“excesso de austeridade”, “deficiente calibração” etc).

Apesar disso, uma e outra vez as mesmas políticas vão sendo impostas como se no momento fossem a melhor ou a única solução. O mesmo se pode dizer da privatização da segurança social e, portanto, do sistema público de aposentadorias. O alvo mais recente é a Previdência Social do Brasil. Segundo os estudos disponíveis, em cerca de 70% dos casos em que a privatização foi realizada, o sistema falhou e o Estado teve de resgatar o sistema para evitar uma profunda crise social. Apesar disso, a receita continua a ser imposta e a ser vendida como a salvação do país. Por que se insiste no erro de impor medidas cujo fracasso é antecipadamente reconhecido? São muitas as razões, mas todas convergem no que considero ser a mais importante: o objetivo de criar uma situação de crise permanente, que force as decisões políticas a concentrarem-se em medidas de emergência e de curto prazo. Estas medidas, apesar de envolverem sempre a transferência de riqueza dos mais pobres para os mais ricos e imporem sacrifícios aos que menos podem suportá-los, são aceitas como necessárias e inviabilizam qualquer discussão sobre o futuro e as alternativas de médio e longo prazo.

A orgia da opinião

O erro reiterado e sua repetição não seriam possíveis sem uma mudança tectônica na opinião pública. Os últimos cem anos foram o século da expansão do direito a ter opinião. O que antes era um privilégio das classes burguesas transformou-se num direito exercido por vastas camadas da população, sobretudo nos países mais desenvolvidos. Essa expansão foi muito desigual, mas permitiu enriquecer o debate democrático com a discussão de alternativas políticas significativamente divergentes. O conceito da razão comunicativa, proposto por Jürgen Habermas, assentava na ideia de que a formulação da discussão livre de argumentos prós e contra em qualquer área de deliberação política transformava a democracia no regime político mais legítimo porque garantia a participação efetiva de todos. Acontece que nos últimos 30 anos a sociedade midiática, primeiro, e a sociedade internética, depois, produziram uma cisão insidiosa entre ter opinião e ser proprietário da opinião que se tem. Fomos expropriados da propriedade da nossa opinião e passamos a ser arrendatários ou inquilinos dela. Como não nos damos conta desta transformação, podemos continuar a pensar que tínhamos opinião e imaginar que ela era nossa. Empresários de opinião de todo tipo entraram em cena para simultaneamente reduzir o leque de opiniões possíveis e intensificar a divulgação de opiniões promovidas. Os agentes principais desta transformação foram os partidos políticos do “arco da governação”, os meios de comunicação oligopólicos e os sistemas de publicidade, inicialmente vocacionados para o consumo de massa de mercadorias, os quais foram sendo direcionados para o consumo de massa do mercado das ideias políticas. Assim surgiu a sociedade midiática e a política-espetáculo, onde as diferenças substantivas entre as posições em que se diverge são mínimas, mas apresentadas como se fossem máximas. Foi o primeiro passo.

O passo seguinte ocorreu quando da sociedade midiática passamos à sociedade internética. Nesse passo, o direito a ter opinião expandiu-se sem precedente e a expropriação da opinião de que somos usuários (mais que titulares) atingiu novos patamares. Surgiram os empresários, tanto legais quanto ilegais, da manipulação da opinião pública, de que são exemplos paradigmáticos as redes e as páginas de facebook e de whatsapp que produzem “táticas de desinformação” particularmente ativas em períodos eleitorais, como sucedeu nas eleições para o Parlamento Europeu. A conhecida organização Avaaz identificou 500 páginas suspeitas, seguidas por 32 milhões de pessoas, que geraram 67 milhões de interações (comentários, links, compartilhamentos). A empresa Facebook fechou 77 destas páginas, que eram responsáveis por 20% do fluxo de informações nas redes identificadas. Esta extraordinária manipulação da opinião teve três consequências que, apesar de passarem despercebidas, constituíram uma mudança de paradigma na comunicação social.

A primeira consequência é que este policiamento das redes legitimou-se apesar de ter controlado apenas a ponta do iceberg. O recurso cada vez mais intenso aos big data e aos algoritmos para tocar cada indivíduo nos seus gostos e preferências, e de o fazer simultaneamente para milhões de pessoas, tornou possível mostrar que os verdadeiros proprietários da nossa opinião são Bill Gates e Mark Zuckerberg. Como tudo é feito para não nos darmos conta disso, consideramo-nos devedores gratos do Eldorado de informações que nos proporcionaram e não credores de um desastre democrático de consequências imprevisíveis, pelas quais deviam ser eles responsabilizados.

A segunda é que a informação que passamos a usar, apesar de tão superficial, não pode ser contestada com argumentos. Ou é aceita, ou recusada, e os critérios para decidir são critérios de autoridade e não de verdade. Se servir os interesses do líder político de turno, o povo é exaltado como tendo finalmente opinião própria e capaz de contradizer a das elites tradicionais. Se não servir, o povo é facilmente considerado como “ignorante e incapaz de ser governado democraticamente”. Quando o povo segue a opinião do líder, é o líder que segue a opinião do povo. Quando o povo diverge da opinião do líder, deve, como povo ignorante, confiar na opinião do líder. Conforme lhe convenha, o líder “populista” pode aparecer ora como seguidor do povo, ora como seu tutor. Aqui reside a razão última de reemergência do “populismo”. Este capital de confiança cria-se facilmente na medida em que tudo se passa na intimidade do indivíduo e da sua família. Enquanto a sociedade midiática transformou a política num espetáculo, a sociedade cibernética transforma-a num show íntimo, um verdadeiro peep show em que toda a interação afetiva ocorre entre o líder e o cidadão, sem argumentos nem mediação.

A terceira consequência da sociedade internética é que as redes sociais criam dois ou mais fluxos de opinião unânime, que correm em paralelo e por isso nunca se encontram. Ou seja, em nenhum caso podem ser contraditados ou contra-argumentados numa discussão democrática. A política errada pode assim ser amplamente aceita se cavalgar um dos fluxos de unanimidade. Este é o caldo comunicacional da radicalização política, o ambiente ideal para o clima de polarização, de ódio ou de demonização do inimigo político, sem que seja necessário usar argumentos discutíveis e apenas recorrendo a frases apocalípticas.

Da sociedade internética à sociedade métrica

Vivemos uma outra orgia, a orgia da quantificação da vida individual e coletiva. Nunca as nossas vidas coletivas estiveram tão dependentes dos números dos seguidores do facebook, dos likes nas interações nas redes, dos scores nos concursos, dos rankings nas universidades, na quantificação da produção científica. Sabemos que a lógica da quantificação é extremamente seletiva e muito enviesada pelos critérios que usa e pelos campos que seleciona pra quantificar. Deixa de fora tudo o que é mais essencial à vida individual e coletiva. Deixa de fora setores sociais que, pela sua inserção social, não podem ser adequadamente contados. Os sem-teto são contados pelo fato de serem sem-teto e não pelo que fazem durante o dia; a agricultura familiar, informal, apesar de em muitos países alimentar ainda hoje a população, bem como o trabalho não pago da economia do cuidado em casa, não conta para o PIB. O que está dominantemente a cargo das mulheres não entra nas estatísticas do trabalho, apesar de crucial para reproduzir a força de trabalho. Se não for sufragada quantitativamente, a qualidade da produção científica não conta para a carreira dos pesquisadores. E o grande problema do nosso tempo é que o que não é contado não conta.

Estas são algumas das dinâmicas subterrâneas que vão minando a democracia e criando uma cultura pública e privada indefesa ante os erros, de que a direita e a extrema-direita se vão alimentando.


por Boaventura de Sousa Santos, Doutorado em Sociologia do Direito pela Universidade de Yale e Professor Catedrático Jubilado da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Diretor do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e Coordenador Científico do Observatório Permanente da Justiça Portuguesa  | Texto original em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado

 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/o-avanco-da-direita-e-a-causa-oculta/

Ministro estónio chamou “miúda das vendas” à nova PM finlandesa. Presidente do país pediu desculpa

arvamusfestival / Flickr

Ministro da Administração Interna estónio, Mart Helme

Mart Helme, ministro da Administração Interna estónio, criticou primeira-ministra finlandesa. O Presidente do país pediu desculpa ao homólogo finlandês.

 

O ministro da Administração Interna estónio, Mart Helme, comentou rceentemente a composição do novo Governo da Finlândia, que inclui a primeira-ministra mais jovem em funções, Sanna Marin, de 34 anos.

“Agora, uma miúda das vendas tornou-se primeira-ministra e outros ativistas de rua e pessoas sem educação também se tornaram membros do Governo [finlandês]”, disse o governante estónio à rádio TRE, segundo a edição em inglês da rádio-televisão finlandesa YLE.

A Presidente da Estónia, Kersti Kaljulaid, telefonou ao homólogo finlandês, Sauli Niinistö, para apresentar formalmente um pedido de desculpas pelos comentários feitos pelo ministro da Administração Interna, avança a Reuters.

 
 

Sanna Marin não respondeu ao comentário do ministro estónio, mas escreveu uma publicação no Twitter: “Tenho imenso orgulho na Finlândia. Aqui, o filho de uma família pobre pode ter educação e alcançar os seus objetivos na vida. Uma vendedora de caixa até se pode tornar primeira-ministra.”

https://twitter.com/MarinSanna/status/1206315232181784582?ref_src=twsrc%5Etfw

 

Jüri Ratas, primeiro-ministro estónio, sublinhou a necessidade de existir cooperação “respeitosa” entre os dois países, “independentemente da composição da coligação de Governo ou dos partidos que o lideram”.

De acordo com o Observador, este caso pode revelar-se complicado para o próprio Governo da Estónia, que resulta de uma coligação entre o Partido do Centro, o Ekre e os conservadores do Pro Patria.

Kaja Kallas, líder da oposição, disse esta segunda-feira que se Helme não se demitir na sequência das suas delarações irá apresentar uma moção de censura. “O ministro da Administração Interna ofendeu o Governo finlandês e atacou pessoalmente a recém-nomada primeira-ministra finlandesa.”

ZAP //

 
 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/ministro-miuda-vendas-pm-finlandesa-297689

CDS. Abel Matos Santos apresenta moção e quer “grande casa da direita”

Abel Matos Santos, da Tendência Esperança em Movimento (TEM), fez hoje a primeira apresentação, no Facebook, da sua moção ao congresso do CDS, que quer tornar na “grande casa da direita”.

 

O dirigente centrista, crítico da direção de Assunção Cristas, falou durante um minuto e sete segundos cerca das 19:00, numa emissão que teve entre 21 e 51 pessoas a assistir para apresentar a moção “Portugal tem esperança”, ao 28.º congresso nacional, em 25 e 26 de janeiro de 2020.

Nos próximos dias, promete voltar ao Facebook para apresentar as ideias da sua moção e falar “dos caminhos” que o partido tem “pela frente”, no congresso.

 

 

 
 
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Assista aqui à repetição do video da apresentação da minha candidatura à Presidência do CDS-PP.Na próxima quinta-feira às 19h, aqui estarei de novo.Portugal TEM Esperança, o CDS conta consigo e nós também!

Publicado por Abel Matos Santos em Segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

No congresso de Aveiro, afirmou, o partido vai ter que “decidir coisas muito importantes” sobre o “futuro coletivo enquanto instituição” e a “principal, e aquela que é mesmo, mesmo, mesmo fundamental” para a sua existência, “é uma opção entre a continuidade ou o futuro”, afirmou.

Nós queremos que o partido se regenere, queremos que o partido cresça e seja a grande casa da direita em Portugal”, declarou Matos Santos, que falou num cenário em tons de branco, entre dois quadros, com imagens em vídeo de paisagens.

Abel Matos Santos foi o primeiro a anunciar que é candidato à presidência do CDS, logo na noite das eleições de 6 de outubro, uma hora depois de Assunção Cristas ter anunciado a saída da liderança devido aos resultados em que o partido passou de 18 a cinco deputados, com 4,2%.

Os outros quatro candidatos à liderança são João Almeida, deputado e porta-voz dos centristas, Filipe Lobo d’Ávila, do grupo Juntos pelo Futuro, e Carlos Meira, ex-lider da concelhia de Viana do Castelo.

Francisco Rodrigues dos Santos, líder da JP, deverá anunciar a sua candidatura na terça-feira, no Porto.

ZAP // Lusa

 
 
 

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https://zap.aeiou.pt/cds-abel-matos-santos-apresenta-mocao-quer-grande-casa-da-direita-297626

Pode ser o momento para “equacionar a adoção do voto obrigatório”

(Comentário:

Quem é este senhor com ideias tão "brilhantes" ?)

José Goulão / Wikimedia

D. Duarte Pio, Duque de Bragança e pretendente ao trono de Portugal.

D. Duarte Pio não a considera “a solução ideal”, mas justifica-a com a abstenção e distanciamento dos jovens face à política.

 

O pretendente ao trono português, Duarte Pio, defendeu este sábado que se deve equacionar a adoção do voto obrigatório em eleições para combater a “forte abstenção” e “a desilusão” dos portugueses em relação à política.

“Os mais recentes atos eleitorais mostram um elevado descontentamento do eleitorado relativamente às forças políticas tradicionais”, refere a mensagem do duque de Bragança, por ocasião do aniversário da restauração da independência de Portugal, lida esta noite no “jantar dos conjurados”, que decorre na véspera do feriado nacional.

Segundo Duarte Pio, a forte abstenção dos portugueses em todos os atos eleitorais mostra descontentamento e “desilusão por parte dos cidadãos”, sinais que considera “visíveis nas gerações jovens, que não se sentem representadas”.

 
 

Por isso, e porque a situação “poderá degenerar em consequências graves no futuro”, Duarte Pio admite que este poderá ser “o momento para, em Portugal, se equacionar o voto obrigatório ao mesmo tempo que as instituições do regime se reabilitam e moralizam”.

Embora considere que não é “a solução ideal”, o duque de Bragança defende que a medida “poderá contribuir para o aumento do interesse dos portugueses pela causa política”.

Na sua mensagem, o pretendente ao trono português diz estar preocupado com “uma debandada dos jovens para o estrangeiro por falta de condições de vida, considerando que o país está a “deixar escapar” um “ativo muito valioso”. No mesmo sentido, defende a adoção de políticas que defendam as famílias e promovam a natalidade, “através de medidas de apoio social, inteligentes”.

Além disso, Duarte Pio deixa também uma crítica velada ao facto de o debate sobre a eutanásia regressar ao parlamento no próximo ano, na sequência de projetos que os partidos Bloco de Esquerda, PAN e PS pretendem apresentar.

“Para além de se verificar uma dramática baixa de natalidade em Portugal, vemos agora uma perversa lógica de facilitar e antecipar a morte, ao invés de se promoverem os cuidados paliativos que permitem um fim de vida tranquilo e natural”, critica.

Duarte Pio lamenta que os portugueses assistam “por todo o lado às limitações do Estado”, seja através de “intermináveis listas de espera para consultas, cirurgias e outros atos médicos”, seja por “notícias de situações de negligência por parte de estruturas do Estado em Tancos, em Pedrógão ou no rio Tejo”, ou ainda por “situações de corrupção” das “chamadas elites” que não têm consequências, porque a justiça é “demasiado lenta”.

O duque de Bragança considera ainda “pouco explicável a situação de degradação das forças de segurança”. Apesar de sublinhar o “tanto [que estas forças] têm dignificado Portugal”, Duarte Pio lamentou o “desinteresse crescente” de que têm sido alvo.

Outro dos assuntos a que defende dever ser dada atenção é o das mudanças climáticas, referindo que “o pensamento monárquico dá prioridade aos valores permanentes da pátria, enquanto outros estão mais preocupados em manter o poder nas próximas eleições”.

Apesar das preocupações, Duarte Pio acredita que Portugal “continua a ser um país aberto ao mundo”, onde muitas empresas querem investir, e que tem “uma enorme capacidade de acolhimento de comunidades de imigrantes.

“Numa fase da Europa em que existe uma crise dos refugiados e em que poderes europeus pouco fazem para a resolver, quero saudar a figura do indefetível monárquico que foi Aristides Sousa Mendes que, contrariando instruções recebidas, salvou a vida a muitos milhares de refugiados que procuravam escapar ao holocausto”, conclui.

ZAP // Lusa

 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/equacionar-voto-obrigatorio-294570

Financiadores norte-americanos deram milhões a grupos de direita no Reino Unido

Onze doadores norte-americanos deram mais de 3,7 milhões de dólares a grupos de direita no Reino Unido que se impuseram no debate sobre o Brexit e o futuro do comércio britânico com a União Europeia.

 

O The Guardian avança esta sexta-feira que onze doadores norte-americanos deram mais de 3,7 milhões de dólares, cerca de 3,36 milhões de euros, nos últimos cinco anos, a grupos de direita no Reino Unido que se impuseram no debate sobre o Brexit e o futuro do comércio britânico com a União Europeia.

Os financiadores, entretanto identificados, levantam grandes preocupações sobre a influência do financiamento estrangeiro na política britânica.

Estas doações foram concedidas a quatro think tanks (grupos de reflexão) e a uma organização que diz ser independente e representar os contribuintes britânicos comuns.

O jornal analisou documentos fiscais norte-americanos e outras declarações públicas e compilou uma lista parcial de doadores americanos a grupos britânicos desde 2014. Algumas doações foram tornadas públicas, mas estes grupos têm uma política de não divulgação dos seus doadores, por respeito à privacidade dos seus apoiantes. Só as tornam públicas quando assim é a vontade dos próprios doadores.

Os críticos defendem que os grupos britânicos não são totalmente transparentes sobre quem os financia. Entre eles, segundo o Expresso, estão incluídos o Institute of Economic Affairs (IEA), o Policy Exchange e o Instituto Adam Smith. Este último instituto incorpora um conjunto de think tanks que alavancaram algumas das privatizações mais controversas dos Governos conservadores de Margaret Thatcher e John Major.

Os doadores incluem fundações financiadas pelas fortunas de homens de negócios, incluindo a Chase Foundation do estado da Virgínia e a Rosenkranz Foundation.

Muitos deles doaram quantias avultadas a uma série de grupos americanos com a mesma orientação política e que, à semelhança dos grupos britânicos, promovem uma agenda de um mercado livre com impostos baixos, negócios pouco regulamentados e a privatização de serviços públicos, acrescenta o jornal britânico.

Em fevereiro deste ano, a reguladora Charity Commission fez um aviso formal ao IEA pela falta de equilíbrio e neutralidade num relatório que defendia uma saída do Reino Unido da União Europeia sem acordo.

A advertência acabou por ser retirada e o relatório republicado com edições. Na sua versão original, o documento era apoiado por proeminentes deputados conservadores como o antigo ministro para o Brexit David Davis e o atual líder da Câmara dos Comuns, Jacob Rees-Mogg.

ZAP //

 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/financiadores-milhoes-direita-reino-unido-294302

Marcelo e a reescrita da História

(Carlos Esperança, 26/11/2019)

Marcelo Nuno Duarte Rebelo de Sousa, Presidente da República Portuguesa, por força do voto popular, mais presidente do que republicano, está ansioso por voltar ao lugar de onde partiu, ao seio da direita portuguesa, sejam quais forem os caminhos a percorrer ou a Vichyssoise a servir à mesa dos sem-abrigo da política e dos esquecidos da História.

 

A propósito do 25 de novembro, Marcelo procurou aliciar Ramalho Eanes, o PR que o antecedeu no cargo disputado ao seu presumível preferido, gen. Soares Carneiro, para evocar a data que o próprio Eanes considerou dividir os portugueses, e que é uma velha tentativa do CDS, ora em pré-defunção, para a confiscar em seu proveito.

A tentativa de diminuir o 25 de Abril é uma velha aspiração da direita mais reacionária, como se Vasco Lourenço, Otelo e Vítor Alves não tivessem assumido a liderança de um movimento que se comprometeu a Descolonizar, Democratizar e Desenvolver o País.

Ignoram que Salgueiro Maia esteve no Carmo; que Gertrudes da Silva foi de Viseu e se lhe juntarem os camaradas de Aveiro e da Figueira da Foz, que neutralizaram a Pide em Peniche, e marcharam sobre Lisboa; que Delgado Fonseca foi de Lamego para o Porto; que José Fontão e os seus 4 capitães prenderam Silvino Silvério Marques e Pedro Serrano, no Governo Militar de Lisboa, e realizaram as tarefas distribuídas; que Teófilo Bento tomou a RTP e a colocou ao serviço do MFA; que Costa Martins tomou sozinho o aeroporto de Lisboa e encerrou o espaço aéreo nacional; que Monteiro Valente fechou a fronteira de Vilar Formoso; que Garcia dos Santos foi o responsável das Transmissões no 25 De Abril e em igual dia de novembro; que houve o Conselho da Revolução; que o Grupo dos 9 que esteve no 25 de Abril e no 25 de novembro, tendo no terreno Ramalho Eanes com Jaime Neves, sob o comando de Costa Gomes por intermédio do Governo Militar de Lisboa.

Perdoem-me os heroicos capitães de Abril que ora omito, e os 5 mil militares que foram os pais da democracia que nos legaram, como prometeram, e a que os deputados, saídos das eleições, se cencarregaram de lhe estabelecer os contornos.

Marcelo quer regressar ao sítio de onde partiu, ao ambiente do regime que lhe moldou a origem, à elite conservadora que não tolerou o ruído da Revolução e o medo que sentiu.

Entre o 28 de maio familiar e o 25 de Abril exógeno, quer ressuscitar o 25 de novembro, sem ouvir os militares que ainda estão vivos e o protagonizaram.

Depois de designar como irmão a Jair Bolsonaro e de outorgar o mais elevado grau da Ordem da Liberdade a Cavaco Silva, quer agora subverter a História e confiscar para os seus a data que os autores consideram um detalhe no papel heroico que assumiram no 25 de Abril.

Viva o 25 de Abril! Sempre!

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

25, o deles e o nosso

Sobre o 25 de Novembro, 44 anos depois, está tudo dito e (quase) tudo provado. Foi um golpe militar conduzido pela ala direitista do MFA, teve o apoio das secretas e dos governos europeus e norte-americano, Mário Soares foi o seu testa de ferro, pôs fim ao movimento popular mais radical da história portuguesa recente, criou condições para a reconstituição do grande capital, destruiu as organizações populares e fez retroceder as conquistas de 19 meses de acção directa de um povo farto de mordaças — festiva, solidária, empenhada, como todas as movimentações que constroem coisas novas.

Uma democracia cinzenta, engravatada, dita representativa, moderna, europeia, tomou o lugar do que fora um simples, tímido, esboço de democracia popular. Não foi preciso esperar 44 anos para ver os frutos: primazia absoluta aos negócios, corrupção, fortunas fulgurantes, diferenças colossais entre riqueza e pobreza, degradação dos serviços sociais, afastamento da massa do povo de qualquer decisão política (depois queixam-se da abstenção…), os pobres de novo empurrados para baixo. Eis o monopólio político da burguesia.

Mas a direita quer ir mais longe: tirar o golpe da sombra envergonhada em que o tem mantido e comemorar o 25 de Novembro com as mesmas honras do 25 de Abril. Foi este o sentido do voto que o CDS levou à Assembleia da República e que mereceu a aprovação de toda a direita (CDS, PSD, Iniciativa Liberal, Chega e sete deputados do PS sem complexos).

Há contudo uma contradição que o voto do CDS ainda não resolve. Se o 25 de Novembro representa, como diz a direita e disse Mário Soares, a “normalização democrática”, então Abril não pode estar para a direita no mesmo pé de Novembro. Abril foi a abertura da caixa de Pandora que a burguesia sempre temeu e que só conseguiu fechar em Novembro. Portanto: Abril, nunca mais! Foi o que a Iniciativa Liberal significou ao clamar “25 de Novembro, sempre!”.

Sejam então coerentes: comemorem, todos juntinhos, o vosso 25. Ficará a esquerda mais livre de confusões no que respeita ao nosso 25 — democrático porque popular, progressista porque anticapitalista.

Manuel Raposo - Segunda-feira, 25 Novembro, 2019

Ver o original em 'Mudar de Vida' (clique aqui)

No «Expresso» online: quando se sabe escrever mas não se sabe ler,

Quando se sabe escrever
mas não se sabe ler,
o resultado é este
O que, no final da reunião do Comité Central, Jerónimo de Sousa, declarou foi que :
 
«A sua concretização é inseparável da denúncia das limitações e opções da política do governo PS, bem como do confronto com a ofensiva reaccionária que procura encontrar espaço para os seus projectos antidemocráticos.»
 
Ou seja, uma coisa é uma coisa
e outra coisa é outra coisa !
 

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

25 de novembro. Marcelo, Eanes e Vasco Lourenço contra comemorações “fraturantes”

António Pedro Santos / Lusa

 

Escreve o semanário Expresso esta segunda-feira que o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e o antigo chefe de Estado Ramalho Eanes são contra comemorações no 25 de novembro, data que assinala o fim do PREC (Processo Revolucionário em Curso), em 1975.

 

O jornal fala das posições de ambos quanto ao tema, dando conta de um almoço privado entre os dois. Marcelo Rebelo de Sousa, escreve o jornal, quer evitar qualquer aproveitamento deste data que pode radicalizar querelas entre direita e esquerda.

Ramalho Eanes, um dos protagonistas da data em causa, acha um erro remexer em memórias que nunca foram consensuais, ao contrário do que acontece com o 25 de abril.

“Entendo que os momentos fraturantes não se comemoram, recordam-se. E recordam-se apenas para se refletir sobre eles”, disse, em 2005, citado pelo Expresso.

 
 

Posição semelhante tem o militar de Abril Vaso Lourenço: “Os acontecimentos e as datas que unem devem ser comemorados, caso do 25 de Abril, e os acontecimentos e as datas que dividem não o devem ser, mas apenas recordados para com eles aprendermos”, lê-se num texto divulgado por Vasco Lourenço sobre a data do movimento militar que ditou o princípio do fim da revolução, em 1975.

“Sou adepto da comemoração do 25 de Abril e sou contra a comemoração do 25 de Novembro”, pode ler-se no mesmo documento citado pela agência Lusa.

O partido Chega, que tem como deputado único André Ventura, anunciou este sábado que celebrará a tentativa de golpe militar de 25 de Novembro de 1975, numa cerimónia no Auditório Almeida Santos, na Assembleia da República.

Na proposta ao parlamento, o Chega defendeu que é necessário fazer justiça “à história de Portugal, aos portugueses, à democracia e ao Estado de Direito democrático”, solicitando que se fizesse também uma “homenagem ao Regimento de Comandos da Amadora, bem como a todos aqueles que a 25 de Novembro (…) contribuíram para que hoje possamos festejar o dia em que a liberdade (…) nos foi finalmente devolvida”.

Na mesma nota, a direção do partido lamenta que “outros partidos, bem como o sr. Presidente da República, nunca tenham dado qualquer importância ao 25 de Novembro”.

O CDS, por sua vez, defende que o o Parlamento promova anualmente uma sessão evocativa da data. A Iniciativa Liberal concorda que o dia seja assinalado, promovendo a este propósito uma Festa da Liberdade no concelho de Oeiras.

 

 

Ainda de acordo com o Expresso, a esquerda rejeita as celebrações, enquanto o PS se mostra hesitante. Com tudo, nota o semanário, a discussão sobre o tema voltou.

O 25 de Novembro de 1975 ditou o fim do chamado “período revolucionário em curso” ( PREC) um movimento militar contra um possível golpe militar de extrema-esquerda, tese ainda hoje contestada pela chamada “esquerda militar”, que saiu derrotada.

Um dispositivo militar, com base no regimento de comandos da Amadora, sob a direção do então tenente-coronel Ramalho Eanes, futuro Presidente da República, travou a tentativa de sublevação de unidades militares conotadas com setores da extrema-esquerda.

Ao fim da tarde, foi decretado o estado de sítio em Lisboa.

ZAP //

 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/marcelo-eanes-comemoracoes-do-25-novembro-293280

Portugal | 25 de Novembro: Mário Tomé contra "o disparate" da condecoração

 
 
Mário Tomé, militar de Abril e ex-deputado da UDP, é contra "o disparate" da distinção com a Ordem da Liberdade dos militares envolvidos no 25 de Novembro, o movimento que pôs fim ao processo revolucionário em 1975.
 
"A Ordem da Liberdade, que não foi dada a muitos dos que tiveram um papel fulcral no 25 em Abril, querem dá-la agora a quem fez o 25 de Novembro?É um disparate completo", afirmou à Lusa, num comentário à proposta do CDS para que os envolvidos neste movimento, civis e militares, sejam agraciados com a distinção.
 
E, apesar de usar outros argumentos, Vasco Lourenço duvida ser possível pôr em prática uma das ideias do CDS -- a distinção com a Ordem da Liberdade dos civis e militares envolvidos nos acontecimentos de há 44 anos.
 
"Além do facto de muitos capitães de Abril ainda não terem sido condecorados, apesar da sua ação relevante no 25 de Abril (conspiração e operação militar), pergunto: quem está em condições, isto é, tem competência para decidir sobre quem deve ser condecorado?", perguntou.
 
 
Mário Tomé é, igualmente, crítico de qualquer uma das propostas, do CDS, de direita, e do Chega, de extrema-direita, de propor uma sessão evocativa ou sessão solene para assinalar anualmente a data na Assembleia da República.
 
Para o militar, "quem anda a propor isso é porque não tem mais nada para propor" - o CDS "porque sofreu uma derrota nas eleições e o outro [Chega] quer mostrar que tem iniciativa política".
 
Olhando para o passado, há 44 anos, Mário Tomé, que esteve do lado dos derrotados do 25 de Novembro, acha, aliás, que "não há nada a comemorar" pelo que a data representou.
 
Desde esses acontecimentos, "todas as grandes conquistas do 25 de abril foram todas paulatinamente, com mais ou menos luta, claro, sendo liquidadas" e o que existe hoje, acrescentou, é "uma memória, uma nostalgia" dessas "grandes conquistas" que vão "existindo talvez no papel" e "já não são a mesma coisa".
 
Uma delas é o Serviço Nacional de Saúde (SNS) que o Governo minoritário do PS, nos últimos anos, "deixou que se degradasse".
 
O 25 de Novembro de 1975 ditou o fim do chamado "período revolucionário em curso", conhecido pela sigla PREC, um movimento militar contra um possível golpe militar de extrema-esquerda, tese ainda hoje contestada pela chamada "esquerda militar", que saiu derrotada.
 
Um dispositivo militar, com base no regimento de comandos da Amadora, sob a direção do então tenente-coronel Ramalho Eanes, futuro Presidente da República, travou a tentativa de sublevação de unidades militares conotadas com setores da extrema-esquerda. Ao fim da tarde, foi decretado o estado de sítio em Lisboa.
 
Notícias ao Minuto | Lusa | Imagem: © Global Imagens
 
 
Leia em Notícias ao Minuto: 

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Sebastianização de Passos Coelho

O tempo aceleradíssimo que vivemos faz esquecer muita coisa, mas não se podem apagar as palavras nem sobretudo as obras. Após a queda de Sócrates, Passos antes do ato eleitoral que o catapultou a Primeiro-Ministro, prometeu que melhoraria o nível de vida dos portugueses e mal chegou a São Bento desencadeou uma política de confessado empobrecimento.

Eis o fantástico mundo real contra o qual batem os que defendem que Passos enfrentou os DDT(Donos Disto Tudo)- ver artigo de João Miguel Tavares de 16/11/2019.

Passos capitaneou em Portugal o monumental embuste de que a crise resultava dos portugueses viverem acima das possibilidades, escondendo que tinha sido o sistema financeiro quem com a sua ganância desmedida tinha provocado a crise.

De cima do seu mando e de chicote na mão fustigou económica, social e moralmente a população trabalhadora de Portugal . Nunca se lhe ouviu uma única palavra de crítica aos DDT. Armou-se em seu capataz. Foi o que foi, sendo os DDT, em geral, os donos dos meios de comunicação social, onde está o enfrentamento? Só no fantástico mundo da imaginação para desculpabilizar Passos e sebastianizar o seu regresso privatizador e austeritário para se vingar dos desmandos da geringonça.

Passos e Paula T. da Cruz são ainda responsáveis por uma das medidas mais cruéis que atingiram a Justiça – o encerramento de vinte tribunais e de vinte e sete outros  que passaram a secções de proximidade contribuindo para um maior abandono das populações do interior. Ordenaram  a passagem das ações de família e menores e todas as ações de valor acima de 50.000 euros para as sedes das comarcas e a deslocalização das ações executivas para um tribunal de cada comarca.

Ainda hoje em certos distritos as sedes distam de alguns municípios dezenas e dezenas de quilómetros( setenta a cem quilómetros em muitos casos), o que impede a quem se deslocar de transportes públicos de o poder fazer no mesmo dia. A Justiça não chega aos que vivem afastados do litoral.

Com Passos Coelho os que eram pobres ficaram mais pobres. Muitos dos remediados ficaram pobres. A classe média encolheu. Uma minoria ínfima ficou mais rica.  Este povo desgraçado que acreditou nas promessas de Passos recebeu vergastadas a castigá-lo pelos desmandos dos DDT.

Passos sangrou o PSD de alguns restos de centrismo político tingidos de social-democracia para o lançar na direita neoliberal, rivalizando com o CDS nessa área. Empurrou o partido para a direita destemperada, abrindo espaço ao PS ao centro com o qual engordou.

Porventura o que faz alguns recordarem nostalgicamente Passos Coelho é a sua obstinação ideológica em querer destruir o Estado social e deixar meia dúzia de serviços públicos à míngua destinados aos “intocáveis” e entregar as riquezas ainda sobejantes aos DDT e fazer dos seus amigos novos ricos chegados ao tal clube dos DDT como o inenarrável Relvas e Cª…

Ressuscitá-lo como um político que enfrentou os DDT e a comunicação social ronda o cómico. O legado de Passos foi pobreza a rodos, servida com a veemência de alguém que se desumanizou. Foi o que foi, sem apelo e sem agravo. Quem o quer de volta não pode vender gato por lebre.

https://www.publico.pt/2019/11/22/politica/opiniao/sebastianizacao-passos-coelho-1894599

 

Ver original em ' O Chocalho' na seguinte ligação:

https://ochocalho.com/2019/11/22/sebastianizacao-de-passos-coelho/

CDS – Escaramuças no táxi

O nome de Manuel Monteiro terá sido esquecido da memória dos portugueses quando o ímpeto reacionário o levou a fundar um partido extremista, depois de falhar a tentativa de levar o CDS, de que fora presidente, para posições ainda mais à direita.

Sucedeu também, há pouco, ao menino guerreiro, Santana Lopes, pelas mesmas razões, para entrar na irrelevância política de que nunca devia ter saído. Pode ser que volte. O PSD e o CDS, ao contrário de Roma, pagam a traidores, desde que venham pela direita.

Manuel Monteiro suicidou-se politicamente, tal como Santana Lopes, e procurou a sua ressurreição ainda com a Dr.ª Assunção Cristas, antes desta entrar em defunção política nas últimas eleições legislativas.

O CDS aceitou o arrependimento do réprobo, havendo mais alegria no Caldas por um arrependido que volta do que por qualquer crente que nunca saiu.

O pior é o ambiente que se respira no exterior do táxi que conduz os cinco deputados à AR. Há quem se demita pelo regresso de quem queria entrar e ter direito, como antigo líder, a tratamento de exceção, como se não tivesse saído, e eventualmente integrar a direção a ser eleita no próximo congresso, em janeiro.

Sem representação própria no Conselho de Estado, onde ficou Lobo Xavier, por convite do PR, o CDS tem dificuldade em posicionar-se. Para ser o VOX português já tem o Chega, para ser neoliberal, puro e duro, deixou chegar a Iniciativa Liberal (IL), e para regressar à matriz conservadora e democrata-cristã, já não tem ninguém. Rui Rio, na sua ação de limpeza, despediu Adriano Moreira.

O CDS é um partido sem deputados, sem ideologia, ética ou passado, e sem vergonha, a única característica que o pode ainda manter à tona.

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2019/11/cds-escaramucas-no-taxi.html

Quando outro jovem responde ao jovem Bourbon

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 06/11/2019)

Daniel Oliveira

Uma carta aberta pueril, como é normal que seja quando é escrita por alguém de 17 anos que aparenta ter pouco mundo (posso estar a ser injusto), foi o sucesso das “redes”. Publicada pelo “Observador”, ganhou uma legitimidade política diferente daquela que teria se o autor, Manuel Bourbon Ribeiro, a tivesse escrito no seu Facebook.

 

Aquela redação, sem desprimor para o esforço meritório do jovem conservador, mereceu entrar, pela porta do jornal que hoje representa esse sector da política portuguesa, no debate público. E tendo atingido, a partir daí, notoriedade nas redes sociais, deveria merecer resposta. Preferencialmente de alguém que esteja próximo da faixa etária do Manuel, para que fique clara a falácia que o jovem autor e o “Observador” obviamente quiseram fazer passar: que há aqui um confronto geracional, o que seria extraordinário tendo em conta as velhíssimas ideias que o texto divulga. Haverá um debate político, é certo. E, provavelmente, um combate social.

Tropecei nessa resposta e pedi autorização ao autor, que não conheço, para a publicar aqui. O título é descritivo – “Carta aberta a Manuel Bourbon Ribeiro” – e o texto bastante claro. Ao publicá-lo, não subscrevo tudo o que nela está escrito, apesar de subscrever grande parte. Dou-lhe apenas o espaço que acho que merece. O autor é André Francisquinho (nome real), tem 20 anos e é aluno do 3.º ano da licenciatura de Economia na Nova SBE. Sei sobre ele quase tanto como sei sobre o autor da outra carta. Publicou-a originalmente no site da Comunidade Cultura e Arte.

“Caro Manuel,

Ao contrário de ti, não vou começar esta carta com deliberações de grandeza nacional que, ainda que tenha a certeza de que demonstrem o quanto aprendeste com a professora de História lá do colégio, estão por estes anos já um pouco ultrapassadas. Quando tiveres mais uns aninhos vais perceber que a grandeza de um país é de pouca substância e que criticar é tanto um direito como um dever que não é nem deve ser cingido àqueles que tu consideras que têm autoridade intelectual para o fazer. Se calhar não te apercebeste deste facto, uma vez que fazes dos teus 17 anos uma característica especial, mas a democracia que nos permite a cada um de nós criticar o estado das coisas já por cá anda há uns 44 anos.

Caso também não te tenhas apercebido, a universalidade da educação é um feito histórico e a sua gratuitidade um direito constitucional. Se achas que é chato que esta tal escola gratuita e para todos, sem olhar a classe ou origem, te “impinja coisas sem sentido” como a igualdade fundamental entre homens e mulheres ou a educação sexual, eu arriscava-me a dizer que, por muito que queiras ter liberdade de escolha para optares por outra escola, não vais conseguir é optar por estudar no século XIII.

Se afirmas que queres ter liberdade para escolher o que fazer com a tua saúde, ótimo, estamos de acordo, até porque a despenalização da eutanásia que criticas é isso mesmo que faz: dar a opção a cada um de escolher o seu destino final da forma que achar mais digna, sem preconceitos alguns. Quando também achas que deves poder ir ao hospital que queres, apenas te posso dizer que fico feliz por ti, por efetivamente teres essa possibilidade. E para os que não a têm? Há os impostos que os teus pais pagam que servem, em parte, para financiar hospitais públicos que garantam que ninguém morre por não poder pagar os privados onde tu vais. Sim, porque não acredito que quando te referes aos rendimentos que o nosso país te tira, queiras dizer que já sofreste o que é a precariedade laboral em que tantos jovens um pouco mais velhos que tu e eu vivem e, que eu saiba, as mesadas ainda não são tributadas.

Quanto à natureza dos nossos governantes, a história geralmente mostra que qualquer governante que não é questionado ou escrutinado tem um caminho muito mais fácil para a “grandeza”. Mas é mesmo essa grandeza desmerecida que tem de ser explicada nas escolas e desenterrada (por vezes literalmente) de um passado histórico entrincheirado. Se quiseres falar de corrupção, também o lamento em todas as suas dimensões, mas talvez tenhas mais a aprender sobre isso com aqueles com quem partilhas o teu nome do meio do que comigo.

Eu sei que tens 17 anos, eu tenho 20, a diferença talvez não seja assim tanta, mas porventura três anos sejam suficientes para tomar atenção às contradições dos outros: não deixa de ser engraçado que fales em falta de democracia no nosso país por teres um governo que, para todos os efeitos, governou durante quatro anos com um apoio da maioria dos deputados eleitos ou que questiones a legitimidade de uma decisão referendada democraticamente há já 12 anos.

Posso não ter muitos mais anos de vida do que tu, mas sei que a nossa geração, a outra parte com que tu não te cruzas no teu dia a dia, resultado de um Portugal ainda desigual e classista, está farta da demagogia e preconceito com que tu e outras vozes à tua direita propagam a sua mensagem.

André Francisquinho”

É isto.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

CARTA DE BRAGA – “friganismo” por António Oliveira

 

António Oliveira

Encontrei este palavrão num conhecido diário europeu. Procurei o significado por tudo o que era sítio consentâneo e só o encontrei numa coisa chamada ‘Wiki Culturama’ que o apresenta como ‘cruzada contra o desperdício’.

Noutro site encontrei uma explicação complementar ‘o frigano é uma adaptação do anglicismo freegan, referindo o adepto de um modo de vida anti-consumista, começando pela comida’.

Voltei à notícia do tal diário europeu e salienta que faz parte do que parece ser uma campanha onde se pretende dulcificar a pobreza, chegando mesmo a ser rotulada de ‘estupenda’ ou de muito pior gosto como ‘curtida’

A afirmação vinha vestida de uma banal mas terrível simplicidade, ‘devemos falar em “money anxiety” e não em “precaridade laboral’’, tanto mais que a ‘ansiedade por dinheiro’ já foi reconhecida como tal, pela Associação Americana de Psicólogos’.

Como se pode ter chegado a isto? Como se impôs uma narrativa mediática tão conservadora, para não dizer retrógrada, de que quase nenhum país se safa?

O jornalista e escritor Juan Antonio Molina, propõe algumas questões

Como é que a maioria dos cidadãos quererá viver numa sociedade que os faz mais pobres, que os impede de sobreviver com salários de fome, os abandona na velhice, os marginaliza, lhes vê os filhos mal alimentados e nega subsídios no desemprego, enquanto os Estados injectam milhares de milhões nos bancos?

O artigo teria fácil e talvez proveitoso acolhimento em Portugal porque, de acordo com o Retrato de Portugal na Europa, divulgado pela Pordata no princípio do mês, temos o ‘quarto maior consumo privado em percentagem do PIB’ e somos o ‘terceiro país com maior percentagem de trabalhadores com contracto de trabalho temporário’.

Mas há ainda alguém ‘agradecido’ por aquela informação! Uma trabalhadora escreve ao tal diário, para dizer

Grata por saber que sofro da ansiedade por dinheiro, em vez de precariedade laboral. Eu pensava que era pobre, mas afinal só estou ansiosa’.

E para aliviar tal ansiedade o mesmo jornal acrescentava mesmo alguns títulos apelativos ‘9 truques para aquecer a casa em vez de ligar a caldeira’ e ‘Friganismo: a última dieta hipster é apanhar comida no lixo

Atendendo ao ‘sítio’ da tal Associação Americana de Psicólogos, espero bem que o seu presidente não seja o patético loiro de Washington pois, como afirmou o filósofo e escritor Josep Ramoneda, ‘a palavra está hoje nas mãos de quem melhor se adapta a uma comunicação simples, efectiva e sem escrúpulos, capaz de hoje esquecer o que disse ontem, explorar os recursos da democracia emotiva, com a apelos a sentimentos eternos, para aliviar a fragilidade do presente’.

Estou convencido que a grande ansiedade por dinheiro existente neste país (não sei se também reconhecida pelos nossos psicólogos), se tenta resolver pelo aumento emocional das apostas na ‘raspadinha’ e no ‘milhões’.

São mais limpos que o tal ‘friganismo’, mas muito mais caros!

 

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2019/11/02/carta-de-braga-friganismo-por-antonio-oliveira/

Vemos, ouvimos e lemos

«Sou médica e regressei recentemente do Mediterrâneo Central onde me juntei aos esforços da sociedade civil nas missões de resgate e salvamento. Espero que as minhas perguntas vos sejam de resposta tão fácil como a facilidade com que votaram: Sabem quanto tempo demora um dinghy/bote de borracha a desinsuflar? Uma pessoa a afogar? Um coração a deixar de bater? Sabem quão assustador é assistir à voz a perder-se? O corpo a deixar de lutar? O mar a engolir o que resta? O silêncio a substituir os gritos, a morte a substituir a vida? (...) Sabem quão escuro pode ser o mar à noite? Quão solitário? Quão doloroso o abandono? Quão doloroso o silêncio do mundo que assiste inerte? Sabem qual é a sensação de tirar uma pessoa da água? Salvá-la como se estivesse salva para sempre? Sabem qual é a sensação de fazer isso e haver vozes que te tentam convencer que o que fizeste é um crime, errado, punível? Sabem o que é estar desesperado a tentar retirar da água o maior número de pessoas possível enquanto a milícia (também chamada por alguns de guarda-costeira) líbia aponta armas de fogo na tua direcção? Sabem quem pagou essas armas? Esses barcos? Essa “solução"?»

Ana Paula Cruz, Carta aos eurodeputados Nuno Melo, Álvaro Amaro e José Manuel Fernandes

«Quando se tranca a porta de um contentor frigorífico, as pessoas que lá estejam dentro correm o risco de morrer em poucas horas, de frio se a refrigeração estiver ligada, ou sufocadas se não estiver. Do mesmo modo, quando dezenas de pessoas embarcam num bote de borracha sobrelotado e com pouco combustível, correm sérios riscos de não chegar ao destino ou de acabar atiradas ao mar. (...) O que é incompreensível é a abordagem da Europa ao fenómeno. A UE não adere ao espírito dos protocolos da ONU e não separa claramente o tráfico de seres humanos da ajuda humanitária a pessoas traficadas. A Directiva 2002/90/CE do Conselho, de 28 de Novembro de 2002, usa um conceito que nos envergonha e permite criminalizar não apenas o crime organizado e o tráfico mas até a ação humanitária. (...) Para 24 países da União Europeia (até ao Brexit) salvar uma pessoa da morte no mar e entregá-la em terra por razões humanitárias é um crime equiparável a atirá-la para ganhar dinheiro para um camião ou um barco da morte. Há coisas em que a Europa nos envergonha.»

Paulo Pedroso, Os camiões e os barcos da morte. Há coisas em que a Europa nos envergonha

«Poucas votações me ficaram tão presas na pele como esta que hoje, quinta-feira, decorreu no plenário em Estrasburgo. Tratou-se do voto sobre a criação de mecanismos europeus de protecção de vidas no Mediterrâneo. Foi uma negociação longa que colmatou numa votação também ela longa e muito dividida. Quando todas as emendas ao texto proposto já tinham ido a votos e chegámos ao voto final, aconteceu o impensável na minha cabeça. A proposta de salvar vidas foi chumbada por dois votos, 290 contra 288. Um murro no estômago, um nó na garganta. Pensei para comigo: há mesmo uma maioria de representantes que quer que continuem a morrer pessoas no Mediterrâneo? Ainda não recomposta, a bancada da extrema-direita celebrou e gritou entusiasticamente o resultado final. Do outro lado do hemiciclo, silêncio e impotência. A maioria tinha mesmo decidido que quem se faz ao Mediterrâneo não deve ter acesso a salvamento ou resgate, que nenhuma das vidas perdidas contou.»

Marisa Matias, As vidas dos outros

«É uma atitude muito cristã, esta de deixar morrer pessoas no Mediterrâneo. Nuno Melo acha que se os refugiados fossem pessoas com boas intenções sabiam andar sobre a água. Só falta arranjar um barco do CDS para batizar as pessoas enquanto se afogam. Imagino que o Nuno Melo tenha um esgotamento se vir uma mulher grávida num bote. É contra a interrupção da gravidez, mas não ao ponto de salvar a senhora de morrer afogada. Provavelmente é deixá-la afogar-se e depois levá-la a tribunal. É gente que vai às manifestações pró-vida, mas só de fetos. O embrião é vida; o refugiado é demasiado grande para eles terem pena. Uma coisa é o que se vê numa ecografia; outra o que não vemos porque está lá em alto-mar.»

Bruno Nogueira, Melos aos refugiados

 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Fala-se de lobos, de gatos e até do mítico John Holmes

Iniciou-se a nova legislatura com as primeiras sessões, ainda protocolares, para reeleger Ferro Rodrigues e resolver outras minudências associadas à circunstância. Deu contudo para ouvir Rui Rio proferir um vaticínio, que as televisões trataram logo de empolar: o governo não durará quatro anos.

 

No fundo Rio repete, mesmo que com menos ênfase, o que Passos Coelho disse há quase quatro anos. Depois foi o que se viu! Razão bastante para os portugueses começarem a olhar para o PSD (independentemente de quem o lidera!) com o tal Pedro (não o outro!), que tanto dizia vir aí o lobo, que nele não acreditaram mesmo quando estava a falar verdade.

 

Se tivéssemos ficado por aí não viria grande mal ao mundo. O pior é ter ouvido entrevistas com alguns dos novos parlamentares, que vêm imbuídos de um anticomunismo tacanho. Num caso - o da Roseta Jr. - a perorar sobre quanto ficara traumatizada no longínquo dia em que os papás ficaram ali aprisionados durante umas horas devido a uma manifestação. No outro, com o ultraneoliberal a desejar desconhecer certos corredores do palácio de São Bento onde decerto teme encontrar vermelhos furiosos com a faca pronta a cortá-lo às postas. Do facho, mesmo facho, não tive paciência para ouvir as parvoíces, utilizando atempadamente ozapping antes que a sua inépcia crónica me chegasse aos ouvidos.

 

Houve ainda um aspeto em que o conjunto das direitas e os comentadores a elas afeiçoados convergem: para elas e para eles o tamanho conta! Olá se conta! Apanha-se um jornalista à mão e é vê-los repetir vezes sem conta a ladainha da dimensão do governo. Quase parecíamos estar perante uma cena de algum filme protagonizado pelo mítico John Holmes!

 

É claro que ninguém refere os desafios a superar com a iminência do semestre português a presidir à União Europeia e o quanto os ministros e os secretários de estado têm de se dividir entre a agenda interna e a dos 27. Mas, sobretudo, nenhum dos que manifestaram preocupação com a volumetria do governo quis lembrar o sábio conselho de Deng Xiaoping, quando afastou os maoístas mais intrépidos da Revolução Chinesa e referiu que, seja branco, ou seja preto, o que se pretende de um gato é que cace ratos. Da mesma maneira pode-se considerar que, seja qual for a sua dimensão, o que importa é ver o governo fazer ainda mais e melhor do que o anterior.

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/10/fala-se-de-lobos-de-gatos-e-ate-do.html

O ódio deles

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No Parlamento Europeu, que equiparou o nazismo ao comunismo, votaram favoravelmente os deputados do PSD, CDS, PS e PAN
 
 
Thomas Mann classifica-os deste modo:
O escritor alemão Thomas Mann, para quem comparar comunismo com fascismo, «na melhor das hipóteses, é uma superficialidade; na pior das hipóteses, é fascismo. Quem insiste nessa comparação pode ser considerado um democrata, mas na verdade, e no fundo do seu coração, ele é realmente um fascista e é claro que só combaterá o fascismo de maneira aparente e hipócrita, deixando todo o seu ódio para combater o comunismo».
Thomas Mann sabe do que fala:
Para Thomas Mann, PS/PSD/CDS/PAN são fascistas.
 

Ver o original em As palavras são armas (clique aqui)

Falsos sebastiões e novos profetas do tal Diabo

O outono ainda nem a meio chegou e, mesmo sem nevoeiros dignos de nota, já alguns falsos sebastiões aparecem a proclamar legitimidades como se acabados de desembarcar de Alcácer-Quibir. Quem antecipasse algum comedimento dos donos do Pingo Doce depois da morte do seu execrável patriarca, a resposta consubstanciou-se na convocação do beócio Crato para gastar vinte milhões de euros num confuso programa para a deseducação das nossas criancinhas. Derrotado no modelo antipedagógico, que procurou aplicar enquanto foi ministro de Passos Coelho, o Crato e os seus patrões não desistiram de o levar por diante, por ser aquele que melhor se adequaria aos seus objetivos ultraconservadores. Quando julgávamos o Crato já morto e enterrado qual menino de sua mãe (capitalista) ei-lo todo pimpão a dizer-se presente numa realidade para que o julgávamos definitivamente remetido para o mui conhecido caixote do lixo.

 

A CIP cuidou de convidar Durão Barroso, outro poltrão, armado em neoprofeta de um capitalismo aceitável, quiçá ainda alimentando a esperança de, depois de tanto ter contribuído para o crepúsculo da União Europeia, ao torná-la subserviente pajem dos oligopólios financeiros (um dos quais lhe paga agora o lauto ordenado!), ainda pretenda aspirar à sucessão de Marcelo. Não é hipótese fora do baralho: veremos os patrões da CIP e das demais confederações patronais a promoverem este seu convidado através dos seus jornais, rádios e televisões para que, depois da múmia de Boliqueime e doselfieman, tenhamos que gramar com o arrependido do maoísmo rapidamente reciclado no mais fanático dos neoliberais? Vade retro!

 

Igualmente convocado para essa farra patronal, travestida em forma de «Congresso», Marcelo deve ter-se visto às aranhas para dizer alguma coisa, que lhe valessem alguma atenção na comunicação social, já que a irrelevância da sua função tem-se avolumado nos meses mais recentes. Vai daí, e porque ouviu essa coisa bizarra de associar capitalismo e mudança de alguma coisa (para que tudo fique na mesma, acrescentaria o príncipe Salina de «O Leopardo»), resolveu resgatar das calendas o discurso do Diabo, mesmo dando-lhe aparência um bocadinho diferente. Mas as suas palavras foram as de atrás de tempos, tempos vêm, piores tempos hão-de-vir. E assim se vê que o inquilino de Belém só consegue ser igual a si mesmo: por muito que quisesse vestir outra capa é a do filho e afilhado de quem é, que acaba por vir inevitavelmente à superfície.

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/10/falsos-sebastioes-e-novos-profetas-do.html

Picuinhices e uma efémera casa das Barbies

Dedicar-se-á Rui Rio à peixeirada ou não? No texto de ontem levantei essa possibilidade enquanto única estratégia para aparentar voz grossa com António Costa e assim ganhar pontos junto dos que irão votar nas diretas daqui a algumas semanas. E logo um amigo reagiu contestando a hipótese por ser contrária à personalidade do visado. Mas será assim? Não tivemos uma boa amostra dessa postura nos últimos dias da campanha eleitoral, quando esqueceu tudo quanto dissera da judicialização da política e quis ganhar votos à conta do caso de Tancos?

 

Aposto em como depressa veremos confirmada a tese, porque tivemos outro elucidativo exemplo neste final de semana: o adiamento da tomada de posse do novo governo, por uma questão do que Augusto Santos Silva classificou muito justamente de «picuinhice»: nada alterando os resultados eleitorais, nem os mandatos atribuídos, o PSD decidiu impugnar as eleições a pretexto de terem sido considerados nulos os votos da emigração, que não se fizeram acompanhar da respetiva comprovação da identidade dos eleitores. Que diferença fará substituir-se a classificação de votos nulos por abstenções? Prendendo-se a tão ridículos pormenores o PSD de Rui Rio dá provas do que será o seu comportamento quando se iniciarem os trabalhos parlamentares.

 

Compreende-se o seu nervosismo dado sobrarem candidatos à sucessão no PSD em comparação com o vazio até agora constatado no CDS para a substituição de Assunção Cristas. Mas ele até pode congratular-se com o facto: dentro da crise que assola as direitas lusas, divididas entre os sintomas de decadência e os meramente anedóticos, o seu partido ainda demorará a conhecer o merecido ocaso. Quanto ao CDS as coisas fiam mais fino, porque nenhuma das alternativas parecem suficientes para inverterem o rumo a que a frustrada candidata a primeira-ministra o conduziu. A menos que, qual Sebastião em dia de nevoeiro, o Paulinho das feiras venha dar o corpo ao manifesto. Mas, entretido em proveitosos negócios, quem o convencerá de que o tempo possa voltar para trás? Ele sabe bem que não...

 

No entretanto, e porque não encontra melhor forma de aparecer nos telejornais, Marcelo arrisca o ridículo recebendo em Belém umas quantas moçoilas, que ganham a vida com a exposição das suas frivolidades. Muito apropriadamente, no «Público», Luciano Alvarez constatava que o palácio presidencial converteu-se, durante umas horas, na casa das barbies.

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/10/picuinhices-e-uma-efemera-casa-das.html

Obra de um direitoso

A história de pernas para o ar
Este ilustre colunista do «Expresso» está duplamente enganado: primeiro porque o PCPestá longe de estar morto; e segundo porque, bem ao contrário, foi o PCP quematou politicamente Passos Coelho ao declarar, na noite de 4 de Outubro de 2015, que o PS só não governava se não quisesse.
 

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

António Barreto (AB) – O masculino de Zita Seabra sem hóstias

(Carlos Esperança, 15/10/2019)

António Barreto, sociólogo, bom fotógrafo e medíocre pensador julga-se uma espécie de guru da direita civilizada.

Esteve na Suíça onde poderia ter-se tornado cosmopolita, mas o apelo provinciano não lhe permitiu afastar-se das origens dos proprietários de quintas do Douro.

 

Foi membro do PCP, no exílio, pois claro, de onde saiu por considerá-lo muito à direita, e foi no PS, depois de derrubada a ditadura, que viajou para a direita neoliberal, durante as tropelias no ministério que Soares utilizou para se reconciliar com os latifundiários. Ornamentou depois a experiência de Sá Carneiro para unificar a direita democrática na AD com o apodo de ‘dissidente do PS’.

Não o ouço na TV onde era, ignoro se é ainda, comentador encartado dos atos eleitorais, e não lhe faltam jornais para propaganda. O homem que mais escarneceu a Expo-98, os telemóveis e tudo o que é progresso, acabou como almocreve da direita, a rivalizar com Cavaco no ódio à esquerda.

Quando da formação do último governo, AB, confundiu o desejo e a realidade. Disse ao “Dinheiro Vivo” que António Costa pode perder o partido, ao estar a unir-se a partidos comunistas, porque “O PS é geneticamente anticomunista e deixar de ser anticomunista e passar a ser amigo ou aliado do comunismo, do Bloco de Esquerda ou do Livre põe problemas seríssimos”.

Problema seriíssimo seria ter-se aliado à direita. Enganou-se como sempre, apesar do ar doutoral com que se engalana, mas isso é assunto menor. O homem é assim, ou foi-o sempre, já quando foi do PCP e à esquerda do PCP, por dissimulação ou exibicionismo.

O que incomoda é a tentativa de reescrever a História.

A propósito da homenagem da AR ao ilustre parlamentar e político falecido, transcrevo da homilia dominical no Público, republicada no blogue Sorumbático, onde colaboro: “Se quiserem designar Freitas do Amaral como um dos quatro “pais da democracia”, com Mário Soares, Francisco Sá Carneiro e Ramalho Eanes, há razões para o fazer.”,

É preciso topete para substituir Álvaro Cunhal por Ramalho Eanes, ao gosto estalinista, nos líderes partidários que legaram a CRP que nos rege, legisladores da CRP que nos rege, mas é de uma ingratidão própria dos trânsfugas, a omissão de que a democracia foi oferecida ao povo português, numa madrugada de Abril, pelos capitães do MFA a quem deve o regresso à Pátria e a relevância que não lhe reconhecem para lá de Vilar Formoso ou do aeroporto Humberto Delgado.

Foram eles, os capitães de Abril, os pais da democracia. Prometeram, e cumpriram, as eleições livres e a entrega dos destinos de Portugal aos civis. Não mereciam a amnésia dos cobardes, oportunistas e aldrabões. Bastaram as retaliações de que foram alvo.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

CAVACO, SEMPRE

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 12/10/2019)

 

Nada une mais as esquerdas em Portugal do que a voz de Aníbal Cavaco Silva. Assim sendo, enquanto as esquerdas bem-comportadas e sorridentes se sentavam com o Presidente para saber como ajudar a governar Portugal, o ex-presidente, ex-primeiro-ministro e ex-líder do PSD resolveu entregar um comunicado à Lusa, a troco de uma pergunta, onde, revelando a sua tristeza com o partido, veladamente pede a destituição do atual chefe e chega ao cúmulo de apontar a “sua” lista de deputados, onde avultaria a patriótica figura de Maria Luís. Cavaco Silva não aprendeu nada e não esqueceu nada, como os Bourbons restaurados após a abdicação de Napoleão, na tal frase de Talleyrand.

Se Cavaco Silva tivesse a lucidez de olhar para o país que por aí prolifera, dominado pelo Estado e um funcionalismo público determinante dos resultados eleitorais, dominado por uma corrupção partidária de base e um clientelismo sem limites, angariador de caciques e de sedes, de subsídios e de promessas, de famílias políticas e de parentes de sangue, repararia que este monstro nasceu da chamada estabilidade do poder durante os longos anos do cavaquismo. Nasceu e ganhou raízes com a maioria absoluta e um total domínio do aparelho de Estado e das autarquias pelo PSD e quando os fundos europeus nos inundaram em nome do desenvolvimento e da convergência. A mistura do clientelismo e da burocracia do Estado com o dinheiro europeu desenhou um capitalismo indigente, encostado à influência política e dependente do acesso aos chefes e seus próceres.

É claro que o PS também afinou o diapasão por aqui, claríssimo, mas a maioria absoluta foi o projeto fundador e majestático do modelo político português a partir do final dos anos 80. Tudo com o Estado, nada sem o Estado. Depois de ter descoberto a política tarde, depois da revolução de 1974 e depois de ter sido ministro das Finanças de Sá Carneiro, Cavaco Silva tornou-se chefe do PSD de um modo único que é o espelho das idiossincrasias. Foi rodar o carro à Figueira da Foz — a desculpa reflete o desdém pela ortodoxia política e os políticos, os partidos — e saiu de lá líder porque, sinceramente, não havia ninguém com talento a disputar o lugar vago. Este desdém manteve-o e cultivou-o como uma flor preciosa e, tendo sido o primeiro economista da futura era dos economistas, vantagem num país dominado pela gente das faculdades de Direito e alguns engenheiros para a tecnocracia, salvaguardou a autoridade política e moral a coberto do jargão economicista, da desregulação e privatização e de uma presumível incorruptibilidade. O problema é que, em volta do incorrupto, grassava o tráfico de influências em benefício próprio e a mais feroz das corrupções morais e criminais num clube dos próximos e dos íntimos conselheiros.

O dinheiro afluía, o Governo privatizava como queria e para quem queria. O principal conselheiro político era Manuel Dias Loureiro, que saltou de ministro para empresário e que inaugurou com pompa a era das portas giratórias da política. Saltar de um lugar no Conselho de Ministros para um lugar numa empresa com a qual se negociou, ou numa empresa paralela, camuflada ou, melhor ainda, internacional. O clube fundou um banco, o BPN, que custou aos contribuintes portugueses com memória milhões e milhões de euros. E muitos destes aventureiros acabaram sentados no banco dos réus e atrás das grades. A era da alta corrupção não foi iniciada com Sócrates. Lembremo-nos de Duarte Lima e de Oliveira e Costa, para citar apenas dois. O conselheiro de Estado Loureiro foi absolvido em tribunal, mas a reputação pública estava desfeita, e o seu avatar é Miguel Relvas, que é o exemplo da decadência intelectual do regime. Que Relvas, um epígono que se julga guardião do PSD, seja uma personagem importante em Portugal em 2019 demonstra a queda coletiva. Dias Loureiro era muito mais inteligente e estratégico. Mais perigoso, também. Relvas precisa de poder e de acesso ao poder para a vida de homem de negócios, e Rui Rio não é nem seria o seu homem no estreito poleiro.

Dos anos do cavaquismo pouca gente nova se lembra. A par do crescimento da economia, imparável numa fase de esplendor da Europa e antes dos revezes do alargamento, o país vivia num clima de (falso) puritanismo, intriga, rancor e vingança permanentes. O famoso cavaquistão só funcionava para os obedientes habitantes e os amigos e discípulos. Todos os outros foram postos de lado ou ameaçados. O PS estava mais bem protegido como grande partido, e quando Soares foi para Belém não hesitou em declarar guerra. À impunidade dos dez anos de poder governamental, que só Salazar pôde igualar e ultrapassar, mais dez anos de poder presidencial juntavam-se o autoritarismo e a mania persecutória. Até o BPN desabar e até ao escândalo das escutas e das batalhas com Sócrates e até os fundos europeus começarem a escassear, Cavaco Silva continuava a imperar. Quando saiu de Belém, substituído por um Marcelo Rebelo de Sousa que nunca foi cavaquista, Cavaco estava destituído de autoridade. E deveria ter remetido a amargura pelas perdas para livros de memórias que traçassem a história do país e não resvalassem num ajuste de contas com tudo e todos. Que continua.

A esquerda maioritária em Portugal nasce muito da sua presença dominadora e dominante e da emulação ensaiada por Passos Coelho, que não acertou o discurso. Da incapacidade de Cavaco Silva para perceber a passagem do tempo e a mudança do mundo, da dificuldade em aceitar o lugar menor que a memória coletiva lhe reservou. Percebo que António Costa o enerve. O que não percebo é que Cavaco não perceba que depois da crispação que ele fez o favor de instalar em Portugal, tingida por vezes de uma maldade política inexplicável, as figuras de Marcelo e de Costa sejam acolhidas com simpatia e confiança. Com afeto. Costa é um discípulo de Jorge Sampaio, aprendeu com ele a ter maneiras e a negociar sem intimidar. Cavaco não aprendeu nada com ninguém, porque a si mesmo se vê como o centro de um parque jurássico e disciplinador moral de um partido em vias de extinção. Um dinossauro político que secou o PSD, com o desdém da Figueira, por querer reduzi-lo à sua imagem.

Nunca, na democracia portuguesa, um ex-presidente, ex-primeiro-ministro e ex-líder, a seguir às eleições, enviou para a Lusa um comunicado a interferir nas maquinações e manobras do próprio partido, desautorizando um sucessor eleito e interferindo na conspiração. Sugerindo nomes. Esta deselegância passaria dantes por sabedoria e franqueza. Hoje não passa de má educação e ressentimento.

A esquerda agradece.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

A direita atrasada para o século XXI

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 11/10/2019)

Daniel Oliveira

 

Dê as voltas que der, Rui Rio não conseguiu mobilizar o eleitorado de direita. Nem depois de Tancos. Nem perante uma monumental derrota do CDS. PSD e CDS conseguem menos 230 mil votos, menos 2,4 pontos percentuais e quase menos dez deputados do que Pedro Passos Coelho e Paulo Portas. E Pedro Passos Coelho foi responsável por um pacote de austeridade de dimensões nunca vistas na nossa democracia. Rio também não contrariou o aprofundamento da decadência do PSD nos meios urbanos, sobretudo em Lisboa, Porto e Setúbal. Se isto ditará a morte política de Rio só as guerras de barões e baronetes laranjas ditarão. Já começaram.

Quanto ao CDS, só podemos comparar os seus resultados com 2011, quando concorreu sozinho. E a comparação é avassaladora. O CDS perde 440 mil votos (fica com um terço da votação), 7,5 pontos percentuais (também um terço) e 19 deputados (fica com um quinto). Em relação a 2015, perde 13 deputados. Fica próximo, em votos, dos resultados das eleições europeias. E isto acontece sem pressão do voto útil: a direita tinha estas eleições perdidas. A pressão era tão pequena à direita que até deu para eleger dois deputados de dois novos partidos. Quando se anda pelo mapa eleitoral a coisa torna-se ainda mais deprimente. O CDS fica atrás do BE em todos os círculos, incluindo em Vila Real, Bragança, Viseu, Aveiro, Leiria ou Açores. A exceção é só a Madeira. E fica atrás do PAN em Lisboa, Porto, Setúbal e Algarve. Desaparece de quase todos os distritos.

As razões para esta hecatombe parecem-me óbvias. Enquanto o PSD é um partido sem identidade, o CDS é um partido com demasiadas identidades. Já foi quase tudo o que se pode ser à direita. Quando se trata de partilhar poder e a liderança é forte, este é um problema menor. Quando o projeto é ficar na oposição tudo se complica. A sociologia do eleitorado de direita mudou e os dois partidos não conseguiram acompanhar essa mudança.

O dinamismo partidário da esquerda, marcado pelo nascimento do BE há quase 20 anos, acompanhou e continua a acompanhar uma sociedade cada vez mais segmentada. A direita ficou paralisada, sem que nada mudasse nela em quase meio século. A clivagem entre liberais e conservadores, moderados e autoritários, não teve repercussões partidárias. O pragmatismo do poder encobriu mudanças e divergências que são centrais para a representação política.

O que o PSD trata através do silêncio que a miragem da chegada ao Governo permite (mesmo não escondendo que o problema existe, como se vê pela resiliência dos passistas), o CDS resolve pela esquizofrenia. Paulo Portas disfarçava-o com a sua arte de transformismo político. Assunção Cristas não tem essa capacidade. O último ano foi uma autêntica montanha russa. Promoveu Adolfo Mesquita Nunes, dando sinais de liberalização do partido; autoproclamou-se líder da oposição depois das autárquicas, passando a ideia de que ocuparia o espaço do PSD e criando expectativas impossíveis de acompanhar; escolheu o ultraconservador e trauliteiro Nuno Melo como cabeça de lista a umas europeias coladas às legislativas; e depois julgou que podia fazer a síntese de tudo isto. Não pode. Num partido da dimensão do CDS não cabem Adolfo Mesquita Nunes e Francisco Rodrigues dos Santos (o quase bolsonarista “Chicão”, líder da JP) sem que um se imponha ao outro.

O CDS acabou ensanduichado pelo ultraliberalismo da Iniciativa Liberal e o racismo e autoritarismo do Chega! – na realidade, no que interessa a cada um, estão os dois à direita do CDS. Tem de escolher com qual deles quer competir. Ou se até prefere ser um partido conservador católico, com preocupações sociais. Não pode, com 4%, ser tudo isto ao mesmo tempo.

O CDS deixou de ser uma barreira à extrema-direita. Ela entrou no Parlamento e terá de ser combatida por forças mais poderosas. Se for inteligente, o CDS clarificará a sua estratégia, irá buscar alguém como Adolfo Mesquita Nunes e tentará representar os liberais de direita, sobretudo os mais jovens que não se reveem no PSD. Se o fizer, não precisa de acompanhar o delírio libertário de direita da Iniciativa Liberal, que cresceu menos pelo seu programa radical e mais pelo descontentamento com a oferta disponível. E só precisa de ser relativamente moderado nos costumes. Não sei quantos votos vale este caminho, estou seguro de que é o que tem mais futuro numa direita democrática que não esteja próxima do centro.

Claro que antes das grandes opções há o curto prazo. Os incentivos eleitorais vão empurrar o CDS para uma coligação com o PSD. O mapa de distribuição de deputados favorece essa opção, porque a direita coligada ganha eleições com resultados medíocres. Mas Rui Rio não tem grande apetência para estes entendimentos e o CDS seria obrigado a ir negociar lugares em péssima situação. Parece não haver caminhos fáceis a partir daqui e dois pequenos partidos estarão a morder as canelas do CDS. Com uma diferença: a IL crescerá às suas custas, o Chega! tenderá a crescer à custa de quase todos, incluindo o PCP.

Alguns comentadores de direita têm escrito que o nosso sistema partidário está a implodir. Olham para a realidade a partir dos seus umbigos políticos. O que implodiu nestas eleições foi o espaço da direita. O da esquerda está a adaptar-se há pelo menos 20 anos e a entrada de novos atores faz-se por folga de votos, não por falhas graves de representação.

Falta à direita fazer o que a esquerda fez e continua a fazer: adaptar-se às novas clivagens, representando-as com projetos diferentes que se podem entender em soluções de poder ou até em frentes eleitorais. É nesta reorganização que o CDS tem de decidir qual é o seu futuro, sabendo-se parceiro do PSD no poder. Se não clarificar, outros, que franquearam as portas do Parlamento tomarão o seu lugar. Quem tudo quer representar tudo acaba por perder.

Nota: deixo para a edição em papel do Expresso o fim das negociações para um acordo de legislatura entre o PS e o BE e o que isso quer dizer quanto à sobrevivência de qualquer coisa que se assemelhe com a “geringonça”


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Chamem-lhes ultraliberais, é o que eles são

Os ultraliberais portugueses ficam incomodados quando os tratamos por esse nome. Dizem que são apenas liberais. Mas não são. Uns sabem disso, outros não

A julgar pelo que dizem e escrevem, a maioria deles nunca leu John Stuart Mill, nem outras referências maiores do liberalismo clássico. Não lhes passa pela cabeça que a doutrina liberal foi usada para justificar a educação pública, universal e gratuita. Para defender impostos progressivos, ou a reforma do direito sucessório (leia-se, impostos sobre as heranças), ou a reforma da propriedade fundiária (leia-se, reforma agrária), ou a protecção do ambiente

Também não sabem que Beveridge e Keynes foram apoiantes de sempre da causa liberal, defendendo por isso (e não apesar disso) a protecção social universal, a expansão do investimento e do emprego público, a repressão dos especuladores financeiros ou um Estado interventivo no combate aos ciclos económicos

O que eles conhecem do liberalismo baseia-se em leituras ocasionais dos divulgadores de Hayek, do que ouviram nos encontros do Instituto Von Mises (uma organização doutrinária internacional, activa em Portugal) e noutros círculos, onde também aprendem as técnicas de assédio nas redes sociais

Entre os ultraliberais portugueses há também quem conheça na perfeição a diferença entre uma coisa e outra. Mas preferem manter o equívoco, por razões óbvias: o que na verdade defendem não atrairia mais votos do que o PURP e faria corar de vergonha muitos dos que neles votaram

Tal como os racistas e xenófobos gostariam de ser chamados de populistas, os ultraliberais gostariam que os tratássemos por nomes mais civilizados. Não lhes façamos esse favor. Numa sociedade democrática têm direito a defender o que entendem, no respeito pela Constituição. Nada mais do que isso.

 
Ricardo Paes Mamede
 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Cavaco ao lado de Relvas Contra o Curso de Rio

É o regresso da múmia ou um walking dead nova temporada…? Os zombies estão a sair da toca. Miguel Relvas atirou-se a Rui Rio para fazer “prova de vida” (uma coisa de dead man walking) e logo saltou o Cavaco (também numa  coisa de dead man walking) com um comunicado para a Lusa a desancar o pobre do Rio, tornado alvo favorito dos zombies desta nova temporada.

 

 

Cavaco, Passos e os Relvas da vida encostaram o PSD a uma direita neo-liberal radical, mudando totalmente o posicionamento e a imagem do partido e colocando-o à beira da fragmentação e, logo, do colapso como partido de governo (veja-se “o fado do desgraçadinho” Santana Lopes).

Quando Rio tomou conta do partido, era essa a situação, com Cavaco e Passos em fuga depois de terem levado uma valente e surpreendente (para eles…) coça política.

Num cenário destes, a tarefa central de Rio era impedir esse colapso e impedir o adversário socialista (o tal que dera já uma bela coça a Cavaco e Passos) de tornar absoluta a sua vitória.

Era, obviamente, uma estratégia defensiva, para impedir o adversário de desbaratar o que restava do PSD, reagrupar as tropas ainda vivas e em condições, fazer pelo caminho algumas limpezas de lixo e tralhas acumuladas por Cavaco e Passos e assim preparar a segunda parte do desafio.

Uma segunda parte, em que Rio conta passar de um modo puramente defensivo para uma estratégia de ataque e alcançar, então, sim, o poder.

Para um ser com alguma racionalidade tudo isto faz sentido e ninguém pode dizer que Rio não teve êxito na execução desta primeira parte da sua estratégia política.

Então de que é ele acusado pelos walking deads? De não ter ganho as eleições, coisa que estes mesmos walking deads tinham tornado impossível…

O PSD tem tido ao longo dos tempos uma forte costela suicida. Não é por isso de descartar a possibilidade de sucesso desta fronda dos zombies e consequente regresso de Rio ao Porto.

António Costa já foi, certamente, pôr uma velinha à Senhora de Fátima (ou a qualquer outra santinha da sua devoção) para que tal despedimento de Rio aconteça mesmo. Se não o fez ainda, deve ir rapidamente tratar disso…


 

 

 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/cavaco-ao-lado-de-relvas-contra-o-curso-de-rio/

Arrogância e desplante

O novo deputado da Iniciativa Liberal João Cotrim de Figueiredo, formado pela London School of Economics e com um MBA na Universidade Nova de Lisboa, ex-dirigente do Turismo de Portugal convidado pelo então secretário de Estado do CDS Adolfo Mesquita Nunes, foi ao programa da RTP Prós & Contras com a arrogância dos novos partidos.

E afirmou que Portugal tem estado a crescer a um nível medíocre e que ninguém explica porquê.

Disse ele:

- O mundo mudou nestes 45 anos não tem qualquer tipo de paralelo porque os partidos não mudaram nestes 45 anos. Portanto estão a deixar passar ao lado...

- E o que os novos partidos vão trazer de novo?

- Desde logo este desassombro de dizer "não há com certeza grandes sancionamentos e grandes vitórias da Geringonça nestas eleições". Depois, dentro da nossa dimensão (...) pôr as ideias liberais na agenda política e fazer com que, à nossa pequena escala, os portugueses tenham menos medo da mudança e vontade de segurar aquilo que têm hoje. Porque aquilo que têm hoje - podem não ter noção disso - mas é medíocre. Nos últimos 20 anos, Portugal cresceu menos de 1% em termos reais, foi ultrapassado por 8 ou 9 países no PIB per capita da zona euro, somos o antepenúltimo país mais pobre. Eu não percebo por que não se faz mais a pergunta e por que é que não é respondida: os outros são melhores em quê? (...) os portugueses são tão bons como os melhores, mas têm um sistema que os abafa e que os impede de ser tão bons como deviam e mereciam ser.

E ele nem percebe - ou não sabe - que desde a década de 80 se estão a aplicar as ideias que ele diz defender. E que foram essas ideias que, precisamente, nos fizeram estar onde estamos, a crescer de forma medíocre e sendo um dos países mais pobres. Em que país é que João Cotrim de Figueiredo viveu?
Foi por causa precisamente dessas ideias, por esse consenso ideológico neoliberal - que até contaminou um Partido Socialista - que Portugal liberalizou a sua economia, privatizou aqueles que eram instrumentos públicos poderosos para mudar um país, tudo supostamente para pagar a dívida externa e reconstruir os velhos grupos económicos nacionais que, supostamente, iriam tornar o país mais moderno e competitivo; venderam-se empresas poderosas a nível internacional à pala da ideia de que libertadas do Estado iriam conceder melhores serviços e a preços mais baixos preços para os consumidores, tendo acontecido precisamente o contrário (como era expectável e já existia essa experiência); amachucou-se os trabalhadores com políticas vendidas como eficazes por organizações multilaterais (como o FMI) que visam um mais liberto mercado de Trabalho e que, na realidade, aumentaram a precariedade desses trabalhadores, diminuindo a parte dos salários no rendimento; essas medidas pretenderam igualmente esvaziar os sindicatos tidos como formas de organização de interesses corporativos; bombardearam a contratação colectiva como forma de esmifrar os salários dos trabalhadores, indo à boleia da ideia de que criavam rigidezes no funcionamento do mercado do Trabalho, de que era preciso libertá-lo; atou-se a economia à mais dura e inflexível das soluções económicas que é uma moeda única forte, que na prática favorece os interesses das economias desenvolvidas e aumenta os défices das menos desenvolvidas, à pala da ideia de que o contacto com os melhores competidores - liberto do controlo público da desvalorização cambial - aumentava o espírito empreendedor dos nossos empresários, embora no final isso tivesse torpedeado os sectores nacionais e promovido a transferência do investimento sobretudo para ramos de serviços não competitivos internacionalmente, contribuindo para o agravamento do défice externo do país que o torna mais volátil a qualquer pressão de quem detém a nossa dívida, os tais mercados internacionais. Foi a liberdade promovida que favoreceu os mais fortes e deprimiu os mais fracos. E estes novos partidos apenas parecem defender velhas ideias dominantes em Portugal, que geraram este estado medíocre. Na realidade, João Cotrim de Figueiredo ou está iludido, cego pela sua ideologia, ou visa apenas reformatar uma velha direita, ferida por ter aplicado essas mesmas ideias, como forma de as poder voltar a aplicar, como sendo novas. Mas o resultado vai ser o mesmo: a pobreza geral que, anos mais tarde, ele vai negar existir. Como agora nega que essas velhas ideias tivessem sido realmente aplicadas.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

A direita presa entre Reagan e Trump

(Francisco Louçã, in Expresso, 28/09/2019)

O paradoxo da direita nas eleições é este: se fica no terreno Centeno, que foi o que escolheu para si própria desde há oito anos, está perdida; se terça armas pela “classe média alta”, fica isolada; se resvala para o populismo agressivo, é desprezada. Nada resulta.

 

Por isso, Assunção Cristas vai perdendo terreno e Rui Rio só recupera alguma coisa ao sair da equação, com uma pose de sinceridade que o deixa prometer apoio ao PS para se ver livre da esquerda, como o fez no último ano, ou que cairá de pé, na sua expressão mais recente. Há nisto tudo algum encanto pelo discurso direto, mas nenhuma alternativa. António Costa será primeiro-ministro, Centeno continuará a ser tão ou mais popular na direita do que os chefes da dita.

Este impasse resulta de uma impossibilidade: a direita que triunfou no passado sendo reaganiana, já não o pode ser; e a que agora triunfa lá fora sendo trumpista, ainda não pode ser imitada entre nós.

O DILEMA REAGAN-TRUMP

Este dilema Reagan-Trump exprime-se claramente no CDS. Nuno Melo foi o ensaio Trump, um discurso de raiva contra as esquerdas, uma alusão cultural tremendista (“querem destruir todos os nossos valores”, atroou esta semana) e a tentativa de polarização que radicalizasse a direita. Foi varrido nas europeias. Cristas percebeu o recado, virou-lhe as costas e regressou ao passado para o ensaio Reagan: queremos que a tal classe média alta pague menos impostos, tenha colégios e hospitais privados subsidiados e possa pagar a inscrição do menino na universidade, mesmo que não tenha estudado para o exame. Era a promessa reaganiana, os do meio e de cima hão de subir com a nossa mão. Chamava-se “meritocracia”, para criar alguma identidade autorreferencial.

Não resultou, dado que num país tão desigual este elevador do privilégio protegido cai mal. É muito Linha de Cascais. No seu tempo, Reagan teve a habilidade de fazer pensar aos jovens com curso universitário que poderiam ser CEO de multinacionais e viver no paraíso. Todos podem lá chegar, e ganhou eleições. Quarenta anos depois, esse discurso soa a despejos das casas dos idosos nos bairros históricos.

Obviamente, Rui Rio, que procura raízes eleitorais numa população mais vasta, evita esse nicho. Ele ganhou a Câmara do Porto com sobranceria anticultural, mas com votos populares e até com atrevimento anticlube de futebol. Mesmo que fique agora numa terra de ninguém, que o leva a uma única disputa, com a marca eleitoral de Santana Lopes. Portanto, nada resulta à direita nestas eleições.

A TENTAÇÃO TRUMP

Devido a esse vazio, a tentação Trump sobrevive em alguns aspirantes, mesmo depois da experiência falhada das europeias. Pode-se alegar que Miguel Morgado ou Bruno Vitorino, entre outros que arrastaram o grupo parlamentar do PSD para a indignação contra o respeito pelos jovens em transição de identidade de género e as suas famílias, são muito marginais e que só se tornam notícia pela extravagância. O problema da estratégia Trump é este, não tem ninguém, nem tem modo de criar uma fronteira tribal. Não há tribo sem ódio, não há ódio sem fronteira.

Quem leu o “Lamento de Uma América em Ruínas”, de J.D. Vance, sabe como isso foi surgindo nos Estados Unidos. Ele é licenciado em Direito em Yale, uma escola de elite, dirige uma agência financeira em Silicon Valley, mas vem de uma família pobre. E é essa história que conta no livro. A família tinha-se mudado de Kentucky para Middletown, uma pequena cidade siderúrgica no Ohio; são operários e brancos, com uma história de desespero, pobreza, fuga à escola, drogas e prisões; os filhos são criados pelos avós. Quase nenhum deles teve emprego certo, vivem da segurança social e do que aparecer.

Escreve Vance: “Na sociedade americana que tem consciência das questões de raça, o nosso vocabulário normalmente não vai além da cor da pele de alguém: ‘negro’, ‘asiático’, ‘brancos privilegiados’. Às vezes, essas categorias amplas são úteis, mas para compreender a minha história é preciso prestar atenção aos detalhes. Posso ser branco, mas não me identifico com os ‘brancos protestantes e anglo-saxões’ do Nordeste dos Estados Unidos. Pelo contrário, identifico-me com os milhões de americanos brancos da classe operária, descendentes de escoceses e irlandeses, que não possuem um diploma universitário. Para essa gente, a pobreza é uma tradição familiar (…). Os americanos chamam-lhes ‘saloios’, ‘labregos’, ou ‘escumalha branca’. Eu trato-os por ‘vizinhos’, ‘amigos’ e ‘família’”. São estes norte-americanos pobres nas pequenas cidades, tratados como “labregos” e invisíveis, que desequilibraram as eleições presidenciais onde Trump venceu.

PODE O ÓDIO VENCER?

Ou seja, a história de J.D. Vance sugere que terá sido a identidade humilhada e tribal que decidiu o voto destes eleitores, que simplesmente gritam contra a sua condição de margem. Por isso bebem o discurso contra os mexicanos ou contra as mulheres. O seu ressentimento contra a invisibilidade convida a um discurso apocalíptico, que Trump encarnou. A segunda característica é que estes discursos discriminatórios têm por função confirmar um conservadorismo profundo, quando o mundo em que estas pessoas são infelizes se está a desmoronar. Ao prometerem ao homem pobre um poder desmedido sobre a mulher, estão a confirmar-lhe a força mais rude. Esta ilusão do poder é um paliativo barato e eficaz.

O problema é que a direita portuguesa sabe que, para ser Trump, precisa de encontrar a sua tribo e o seu ódio. Assunção Cristas e Rio não contarão para esse campeonato. Virão os próximos e veremos a sua cor.


A City vai fugir de Londres?

Um dos mistérios que o imbróglio do ‘Brexit’ coloca à teoria política, se não também ao jornalismo, é a explicação da inoperância da City londrina, uma das praças financeiras mais poderosas, mais antigas e mais resistentes do mundo, no condicionamento das escolhas do Partido Conservador e dos governos de Cameron, May e Johnson. Se a sua teoria era que a elite financeira manobra os governantes com pouco subtis fios de marionetes, esqueça, nada disso. A autonomia da coisa política em relação ao poder económico talvez se afirme mais em tempos de viragem e de crise, mas é evidente que nada do que se está a passar apoia uma estratégia de globalização, que é a ecologia confortável para a finança. O que é certo e sabido é que, se a finança desejava estabilidade e abertura de mercados, mais desregulação e livre trânsito, então falhou no ‘Brexit’ e deixou que estas desventuras atingissem o seu reino.

A City é o maior centro financeiro do mundo. Por ela passam 37% das transações cambiais e 18% do crédito transfronteiriço do planeta, registando 20 biliões de dólares de ativos bancários. É ainda a sede de empresas e instituições financeiras, entre as quais as que fixam taxas de juro de referência para diversas operações. A sua atividade representa 6,5% do PIB e 11% do rendimento fiscal do Reino Unido, gerando tanto lucro declarado como toda a indústria automóvel alemã. É um colosso, que cresceu ao longo dos tempos: entre 1987 e a crise do subprime, quase dois terços do capital no Reino Unido estava aplicado na finança (mas nos EUA era 80%), e só o terço restante estava relacionado com a produção doméstica. A City dominava o país e geria o mundo.

Veio então o ‘Brexit’. Pelos registos mais recentes, 219 grandes empresas financeiras já deslocaram toda ou alguma atividade para o continente, temendo barreiras criadas pela saída desordenada. A própria Bolsa de Londres transferiu para Milão algumas das suas operações com dívidas soberanas. E muitas outras agências financeiras esperam para ver, sendo que as mais poderosas já têm sucursais em praças continentais ou asiáticas, ou também nos EUA. Aqui tem: a City não vai sair de Londres, mas as atividades externas dos principais grupos financeiros vão crescer. O que também indica que, se estão a virar as costas à política britânica, a recomposição desta direita descartará o velho partido tory, ou só recuperará parte dele. Era o partido de direita mais antigo da Europa, sempre fiel à City. Agora tresmalhado, para sua pesada desgraça, segue para abate.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Sobre as vitórias morais com que as direitas se iludem

Nas últimas semanas os meios de comunicação têm passado pelo seu momento «hamletiano» (ou omeletiano?) resumido na pergunta: ter ou não ter a maioria absoluta eis a questão! Ora, se a analisarmos remetendo-a para a tradição nacional - muito alimentada pelo salazarismo! -, das «vitórias morais», podemos compreender a estratégia que lhe está subjacente.

 

Voltemos atrás no tempo, àquela altura em que o fascismo procurava convencer-nos de que éramos pobrezinhos, mas honrados e, como dizia Alexandre O’Neill no Portugal do diminutivo juizinho é que era preciso. No futebol desse tempo levávamos cabazadas da Espanha, mas se contássemos as bolas na trave, os erros do árbitro e a sorte do adversário, convencíamo-nos de que éramos os melhores.

 

Começávamos a perder a Índia e ameaçava-se a independência dos demais «territórios ultramarinos», mas olhávamos para o mapa e, se os ajustássemos ao nosso cantinho à beira mar plantado, tínhamos a dimensão de quase todo o continente europeu de que nos sentíamos tão apartados.

 

Na mesma linha a nossa História estava pejada de episódios lamentáveis - e Aquilino bem os recenseara no seu imprescindível «Príncipes de Portugal»! - mas queriam que vibrássemos com as epopeicas aventuras dos nossos navegadores e com o desvelo dos nossos missionários. A Inquisição ou o tráfico de escravos só aos oposicionistas pareciam interessar.

 

Voltemos então ao tempo presente: as direitas e seus altifalantes mediáticos sabem que enfrentarão uma derrota humilhante a 6 de outubro. Todos os indícios - e não só os das sondagens! - para tal apontam. Mas andam ansiosas por argumentos para essas mesmas «vitórias morais». Na RTP José Rodrigues dos Santos esforça-se por fazer passar a teoria de que o sucesso de António Costa só acontece por ter-se apossado das ideias da direita. Quanto à tal questão sobre a maioria absoluta aposta-se outra hipótese: a de, havendo tão-só maioria relativa, virem a celebrar a «derrota» socialista por, afinal, não ter alcançado tal objetivo.

 

Essa «vitória moral» acarreta ainda outra secreta esperança: a de que, incapaz de chegar a acordo com a CDU ou o Bloco e não bastando o PAN para tal objetivo, depressa se reconfigure a aliança negativa de 2011 com novas eleições a curto prazo, devidamente apoiadas pelo amigo que têm em Belém.

 

Podemos reconhecer que os moribundos agarram-se, amiúde, às mais ilusórias soluções. Mas, confiemos, sobretudo, naquilo que, há muito se vem constatando: sobre estratégia política, António Costa sabe mais a dormir que todos os seus detratores por muito acordados que se sintam.

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/09/sobre-as-vitorias-morais-com-que-as.html

A semana da hipocrisia

(José Pacheco Pereira, in Público, 21/09/2019)

Pacheco Pereira

Estamos a chegar à semana da hipocrisia no PSD aquela em que os mais violentos críticos da direcção de Rio vão aparecer com grande publicidade na campanha eleitoral “para apoiar o partido” e… o seu líder. Infelizmente, é uma velha prática hipócrita no partido, com muitos precedentes como quando Passos Coelho, depois de organizar uma fracção contra Manuela Ferreira Leite, apareceu numa arruada singular, e Santana Lopes, especialista nestas coreografias, com Barroso e Passos.

 

Alguém acredita que alguns dos que anunciaram a sua aparição na campanha, por coincidência todos putativos candidatos ou apoiantes de uma liderança pós-Rio, desejam que o PSD tenha um bom resultado eleitoral, sabendo que isso legitimaria aquele que querem derrubar? Num partido em que a conflitualidade interna é muito agressiva, toda a gente sabe que este tipo de actos diz muito mais respeito às carreiras e expectativas dos que aparecem do que a qualquer genuína vontade de contribuir para um bom resultado. Estas afirmações podem parecer um exercício de cinismo, mas, insisto, não deve haver um único militante activo que não saiba que é o dia seguinte e o afiar das facas que conta nestas aparições. Nesse dia eles dirão que também estiveram a “lutar pelo partido”.

O problema deste tipo de “aparições” não se limita apenas a ambição, falta de carácter e maus hábitos políticos, mas à manipulação de um certo tipo de cultura partidária do PSD, que já foi real e genuína e hoje é ficcional e instrumental. O PSD tinha uma cultura de militância muito própria, a das “bases”, que muitas vezes era comparada ao PCP. Penetrava profundamente no “povo” do partido e dava uma identidade forte às suas iniciativas, como eram as festas do Pontal ou do Chão da Lagoa na Madeira e que, em momentos de lideranças como as de Sá Carneiro ou Cavaco Silva ou de Alberto João Jardim, ou de alguns autarcas, tinham uma genuinidade mobilizadora. Embora esse animus não tenha de todo desaparecido, é uma sombra do que era. O partido foi sendo cada vez mais dominado por personalidades sem capacidade de mobilização na sociedade, sem prestígio profissional ou pessoal e cujas carreiras dependem essencialmente do controlo das estruturas interiores do partido, de lóbis, fracções, sindicatos de voto, tornando-se profissionais da política.

Grupos de interesses e fidelidades maçónicas controlam muitas estruturas distritais, à revelia da história do PSD. Com excepção dos líderes nacionais, e dos dirigentes históricos, desafio a alguém minimamente interessado por política a dizer meia dúzia de nomes desta nova geração, apesar do seu enorme poder dentro do PSD.

Esta evolução negativa para o carreirismo facilitou a ruptura com a génese social-democrática durante os anos da troika, porque este tipo de dirigentes não é de esquerda, nem de direita, pensa apenas em termos do seu próprio poder e carreira e tem uma especial aptidão para “cheirar” as modas. A cultura das “bases” tornou-se instrumental para o carreirismo que a usava como mecanismo de legitimação e para abafar críticas e discussões políticas, mas nunca os impediu de organizarem fracções e grupos, cada um mais “patriótico” do partido do que o do lado.

Embora grupos dissidentes tenham sempre existido no PSD, o salto ocorrido com Passos Coelho–Relvas foi exactamente a criação de uma organização paralela com financiamentos próprios, contactos regulares com grupos económicos e embaixadas, agências de comunicação e operações de manipulação nas redes sociais. Deixou de ser uma questão de opinião para ser um partido dentro do partido, cujos restos ainda aí estão.

Sei por experiência como a hostilidade ao debate e às críticas políticas eram a face visível da complacência com os grupos paralelos, que acompanhava também com uma grande indiferença face à corrupção. Duarte Lima ganhou eleições no interior do PSD quando já se sabia praticamente tudo sobre o seu modus operandi. Talvez o melhor exemplo dessa cultura de clube e camisola tenha sido Santana Lopes e veja-se no que deu: na criação de um partido hostil ao PSD, pelo maior “patriota” do partido, do “PPD-PSD”.

A verdade é que foi também no PSD que ocorreram as únicas tentativas de combater este tipo de deriva, ambas na direcção de Marcelo Rebelo de Sousa. Uma foi resistência ao lóbi do futebol no totonegócio, outra foi a primeira tentativa de travar os negócios da PT e do BES e, por fim, o processo de refiliação conduzido por Rio para acabar com as manipulações nas inscrições e o pagamento de quotas por caciquismo. Todas falharam, graças a uma enorme resistência interna. Os nomes dos que sabotaram a “verdade” partidária são sempre os mesmos e Rio meteu-o simbolicamente nas listas, desautorizando-se a si próprio.

Por que é que isto é relevante e não é apenas a “cozinha” interior de um partido do poder? Porque a honra perdida dos partidos políticos é um factor da actual crise da representação democrática. E é assim que ela se perde.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

A irrelevância das direitas lusas

Os debates que tiveram Rui Rio e Assunção Cristas como protagonistas trouxeram-nos uma evidência: a de neles não encontrarmos uma ideia consistente do que deve ser o país no futuro a médio e longo prazo. Quem se interrogue para que tipo de sociedade tendemos a evoluir detetamos uma diferença de monta entre os partidos das esquerdas, que colocam a variável ambiental como condicionadora do tipo de desenvolvimento exequível, enquanto os situados no espectro direitista dela se alheiam como se não existisse.

 

Não é preciso ter grandes dotes de adivinhação para compreender que, entrando numa década decisiva para se travarem os fenómenos meteorológicos passíveis de virem a revelar-se incontroláveis, existe um fosso entre quem os leva em conta e quem os queira ignorar...

 

No Ípsilon da semana transata António Guerreiro abordava a crise dessas direitas. Só não concluiu o que se vai adivinhando: elas arriscam-se a ser totalmente irrelevantes nos anos vindouros. 
Intimamente vou fazendo votos para que assim seja.

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/09/a-irrelevancia-das-direitas-lusas.html

A crise da Direita

(António Guerreiro, in Público, 13/09/2019)

António Guerreiro

(A Estátua não usa chapéu mas, se usasse, tiraria o seu chapéu a este texto. Excelente e a merecer reflexão cuidada.

Comentário da Estátua, 13/09/2019)


As análises do presente momento político-partidário, em Portugal, convergem geralmente no diagnóstico de que há uma crise ou até mesmo uma decomposição da Direita. É uma situação estranha porque a crise é uma tradição da Esquerda, inscrita aliás nas suas elaborações teóricas sob a forma de uma afinidade semântica — etimologicamente certificada — entre “crise” e “crítica”.

 

Quando as noções de “Esquerda” e “Direita” desenhavam, com traços bem marcados, a paisagem política e proporcionavam uma visão totalizante, a Esquerda reivindicava legitimamente um lugar crítico (e, portanto, de crise), enquanto a Direita estava do lado das fundações mais perenes, voltada para uma cultura do enraizamento. Mas a Direita, entretanto, tornou-se “affairiste”, como dizem os franceses, isto é, integrou na sua doutrina o pragmatismo económico e o individualismo liberal, de maneira que ficou muito mais vulnerável às crises.

Esta recente crise da Direita, em Portugal, assim identificada pelos analistas, mostra uma situação muito mais complexa que não se deixa sintetizar na palavra “crise”; e mostra que é preciso politizar essa complexidade. Os nossos afectos políticos contemporâneos são marcados por tensões que já não são representáveis pelos partidos e pelos movimentos políticos que não tiveram a capacidade de interpretar a cartografia da paisagem política actual, de perceber que a polaridade única Esquerda-Direita recobre hoje uma multiplicidade de polaridades subjacentes que introduzem clivagens e nos fazem entrar em discussão no interior da nossa família política, mesmo a mais próxima. Falar da crise da Direita é continuar a conjugar a política no singular e insistir num confronto entre “governo” e “oposição” que já não é prioritário, como foi outrora. Mesmo um jornal como o Observador, que é talvez o lugar onde podemos observar com nitidez uma reconstrução ideológica da Direita, há tensões e polaridades visíveis, que têm que ver sobretudo com códigos e afinidades culturais e com políticas dos costumes. E um partido como o CDS (viu-se bem no episódio das “casas de banho”)  dissolve-se completamente nas suas contradições, ao querer rasurar as tensões internas que dilaceram o Partido: dele vêm simultaneamente as posições mais reaccionárias (no que diz respeito, por exemplo, a uma moral sexual e às questões do género) e os sinais envergonhados de que nada disso é a regra da vida interna e que até alguns dos seus dirigentes se envergonham com as declarações públicas de outros dirigentes e militantes.

Querendo rasurar as tensões e silenciar novas polaridades, os partidos afundam-se, ficam prisioneiros das palavras de sempre, que lhes moldaram o discurso desde a fundação. Enquanto o mundo tende para a crioulização, os partidos insistem em querer preservar uma “pureza” de fachada, como se permanecessem imunes a novas “correntes”, novas polaridades políticas, que implicam necessariamente um novo vocabulário que já não é o da política tradicional. Um vocabulário que não seja o da frustração e do rancor e que nos ajude a conceber de maneira diferente os problemas sempre diferentes de cada época. Crescimento, urgência das reformas, alívio fiscal, etc., etc.: tudo isto não é mais do que o consabido objecto de explorações demagógicas. Todas estas palavras que nos colonizaram, já só soam aos nossos ouvidos como estribilhos que ora nos fazem rir, ora nos suscitam a vontade de gritar: “Desaparece, deixa-me em paz!”.

Aquilo que os analistas hoje diagnosticam como uma crise da Direita não é senão a emergência de novas polaridades com as quais a Direita não está a conseguir lidar. O mesmo aconteceu, e continua a acontecer, à Esquerda, mas esta, como sabemos, já se pluralizou há muito tempo e tornou-se consubstancial à própria ideia de crise.

Uma cartografia actual das novas polaridades, das correntes e contra-correntes, mostrará que elas passam no interior dos partidos, que tentam anulá-las em vez de se adequarem a uma política das tensões. Agora, que as palavras “género” e “transgénero” designam uma das tensões vivas, talvez os partidos, que sempre foram instituições com um modelo homossexual clássico (não há nada mais clássico do que a homossexualidade) devessem tornar-se antes “transgénero”.


Livro de Recitações

“A classe média empobreceu e perdeu ‘o efeito amortecedor’ face a futuras crises” 
Título de uma entrevista ao sociólogo João Teixeira Lopes, in PÚBLICO8/9/2019

A classe média é um objecto-fetiche dos sociólogos, muito embora fiquemos sempre com a impressão de que nenhuma ciência consegue definir com rigor esse objecto. Ao excesso de presença sociológica da classe média, corresponde a sua falta de representação política. O que sabemos bem é que ninguém quer pertencer à classe média: aquilo a que todos os pobres aspiram é serem ricos sem terem de passar pelo grau intermédio, por um limbo desclassificado e desinteressante onde se situa a classe média. Esta, por sua vez, enquanto classe tardia, guarda ainda consigo a memória antiga da pobreza. Talvez por isso, um dos seus passatempos favoritos seja visitar os pobres na televisão, que é uma espécie de parque temático de pobres, para diversão e ilustração das classes medianas.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

OS «TAROLAS» DAS REDES SOCIAIS - 2

Ainda a propósito de tais tarolas (e, mais uma vez, não os confundamos com estarolas), não deixa de ser engraçado apreciar o número de vezes em que eles se concertam no formato e tópico daquilo que publicam nas redes sociais, que se distingue somente pelos retoques artísticos de mensagens que acabam por ser substantivamente iguais. «O Marcelo é uma besta, o Rio também, e eles próprios não se estão a sentir lá muito bem.» Mas o que importará será a informação que aparece em rodapé, primordial para qualquer disputa entre um Gilvaz e um Fuas, exibindo-se para comparação o número de likes e outras expressões emoji, mais os comentários suscitados e as partilhas concordantes.

Veja o original em 'Herdeiro de Aécio' na seguinte ligação::

http://herdeirodeaecio.blogspot.com/2019/09/os-tarolas-das-redes-sociais-2.html

Rio chega tarde

(Vítor Norinha, in O Jornal Económico, 06/09/2019)

O líder do PSD tem uma preocupação maior que não é ganhar estas eleições, mas limpar metade do partido e preparar-se para daqui a quatro anos. Só que o PSD é um partido de poder, não vai esperar.

A entrevista do líder do PSD, Rui Rio, na TVI teve um impacto altamente positivo nas redes sociais. Apareceu um Rio renovado e muito à vontade ao falar tanto de temas de cultura como de temas de economia, num discurso anti elites, algo que entra muito bem no eleitorado do centro, e com soluções viradas para as pessoas e problemas reais e não para aqueles que vivem à margem das crises.

 

Mas o curioso de tudo isto é que a entrevista de Rio não passou nos opinion makers, muito deles virados para alguns temas de propaganda do Governo – como seja a Lei de Bases da Habitação, quando se quer assemelhar a habitação ao tema da saúde e da educação que são obrigações públicas – ou para assuntos de grandes massas, como foi a substituição do treinador Keizer no Sporting.

Nos assuntos sérios Rio é menos citado do que Catarina Martins e Assunção Cristas, que fizeram um debate onde se anularam. Mas por que razão só agora aparece Rio? Muitos questionam o timing. Se Rio tivesse esta postura há uns meses, o PSD teria líder. Antecipamos que Rio está renovado e de regresso àquilo que sabe fazer, porque necessita de uma prova de vida para o pós-eleições.

O líder do PSD tem uma preocupação maior que não é ganhar estas eleições, mas limpar metade do partido e preparar-se para daqui a quatro anos. Só que o PSD é um partido de poder, não vai esperar quatro anos e Rio terá muita dificuldade em manter-se depois da esperada derrota e, a acreditar nas projeções, com votações que não irão além dos 22%.

Na Europa do sul, esperar quatro anos para ser primeiro-ministro é algo inédito. Rajoy fê-lo mas é caso único. Rio continua a limpeza das antigas elites do PSD e precisa de uma bancada parlamentar nova. Quer seriedade e ética na política, mas uma derrota expressiva pode significar uma implosão do centro-direita e a emergência de novos protagonistas. O futuro é daqui a quatro semanas.

E se Rio aparece renovado mas com dificuldade em passar a mensagem na comunicação social tradicional, Costa tem de trabalhar como se precisasse de parceiros para uma coligação. Por aquilo que tem sido o registo, irá tentar manter os mesmos acordos, com os mesmos parceiros, mesmo que não necessite deles ou necessite apenas de um deles. Costa sabe que o pior que lhe pode acontecer é o partido ficar com a noção de que tem rédea solta com uma maioria absoluta durante uma legislatura inteira. Sem uma oposição de centro-direita eficaz e com uma média menos incisiva, tudo de mau pode acontecer.

Ficam dois partidos cujas líderes se auto anularam no último debate televisivo. De um lado uma líder do CDS com um discurso mais popular e mais afastado do antigo CDS, mas que não ganha votos com isso. Do outro uma Catarina a assumir-se como social-democrata num partido cujo núcleo duro é uma amálgama de extremismos, desde o estalinismo ao trotskismo. Catarina lembrou-se de Soares, Guterres e Sócrates e sabe que para chegar ao poder precisa de transformar o âmago do Bloco. E a social-democracia tem votos.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Adriano Moreira – cúmplice fascista reabilitado – 97.º aniversário

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Comemora hoje 97 anos e desejo-lhe longa vida, mas quero pronunciar-me sobre este académico ilustre, de passado pouco recomendável, antes de ser adulado no futuro, e elevado aos altares quando o seu deus for servido de o chamar à divina presença, ao contrário dos ateus que se limitam a morrer quando a vida se extingue.

É preciso fazê-lo, não porque o homem, lúcido e inteligente, não continue a escrever bem e a pensar mal durante mais tempo. Não desejo a antecipação das cerimónias fúnebres, do cortejo das carpideiras e dos elogios generalizados, como tem sucedido, com outros vultos pouco recomendáveis.

Convém fazê-lo agora, por dois motivos, porque posso antecipar-me ao ministro fascista na defunção e porque, como senti no passamento de J. H. Saraiva, não se pode dizer mal de um morto que ainda mal fede. Mesmo depois, esquecidos os crimes, acabam por ser pessoas de bem, com missas sazonais a sufragar a alma, essa benzina que desencarde o passado do pior defunto.

Adriano Moreira foi também ministro de Salazar e não podia ignorar as torturas da Pide, as prisões sem culpa formada, as medidas de segurança, a violação da correspondência, os degredos, os Tribunais Plenários e as enxovias do regime. Era um homem inteligente e informado. Sabia que a Pide matava. Aliás, como subsecretário de Estado do Ultramar (59/61) e ministro da pasta (61/63) foi o responsável da polícia política nas colónias.

Hoje já poucos se lembram de que foi ele quem assinou a portaria que reabriu o Campo do Tarrafal, em Cabo Verde, dessa segunda vez destinado aos presos dos movimentos de libertação das colónias. Preferem lembrar que foi democrata na juventude e no pós-guerra, quando, após a derrota do nazi-fascismo, a Inglaterra prometia acabar com todas as ditaduras europeias e Salazar e Franco tremeram.

Quando a cadeira livrou Portugal do ditador de Santa Comba foi em Adriano Moreira, além de Marcelo, que os próceres da ditadura pensaram. Era um bom académico? – Sem dúvida, como Marcelo. Mas como ministro do Ultramar, para lá da reabertura do campo da morte lenta do Tarrafal, não teve conhecimento dos atos bárbaros com que as Forças Armadas Portuguesas responderam à crueldade da primeira sublevação em Angola? Ou defendia a pena de Talião? Foi no seu tempo que se cometeram algumas das mais cruéis punições militares. Não tinha força para as impedir? Mas foi determinado a demitir o general Venâncio Deslandes de cuja fidelidade desconfiou.

Depois do 25 de abril de 74 foi militante do CDS e seu presidente. Quando o CDS, por ser excessivamente reacionário e antieuropeísta foi expulso da Internacional Democrata-Cristã Europeia, o político Adriano Moreira demitiu-se ou ficou com Paulo Portas?

Não há a mais leve suspeita nem o menor indício de que seja democrata, e não faltarão Cavacos, Relvas, Coelhos e Marcelos, talvez vestidos de gatos-pingados no funeral, nem lugares-comuns a incensarem o «patriota», o académico e o «democrata», entre os que, à falta de melhor, se engalanaram com as penas da democracia.

Apostila – Texto adaptado do que escrevi há 7 anos, no 90.º aniversário.

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2019/09/adriano-moreira-cumplice-fascista.html

Filhos da “outra”!

(Joaquim Vassalo Abreu, 31/0872019)

O Estio é a estação do ano mais apreciada pelos admiradores da Dona Preguiça e eu, um inveterado seguidor de tão distinta figura, nela simplesmente não funciono e toda a minha carteira de compromissos, de todos qual o mais inadiável, é mandada para as calendas!

Pelo que nem das “travessuras” dos “memes” do costume eu sei e apesar de ir sabendo uma coisa aqui outra ali eu vou, é claro, observando os cartazes que vão sendo colocados nas rotundas e onde os mais criativos, eu diria mesmo da “Ordem do Fantástico” são, sem dúvida, os do CDS!

Que deve ter contratado a peso de ouro um verdadeiro mago (não é nabo não…) em publicidade e marketing pois quem, a seguir ao “ Portugal ponto a Europa é aqui”, aparece com um enigmático “A Preparar o Futuro” e conclui a trilogia com um “Trabalhar ponto Faz Sentido?”, só pode ser um mestre na arte!

A minha tola começou logo a tecer cenários, fios de pensamento e coisas complicadas mais que me surgiram para tentar dissecar tão difícil “teorema” mas, de imediato, apelando à tal inveterada preguiça, logo concluí: não vale a pena ó patrão, é só mais um que se quer armar em diferente…

De modo que até aqui não estive nem aí e quem queria mesmo ver-me só mesmo em Paredes de Coura e no seu ultra maravilhoso Festival onde estive a semana inteira, isto é, dez dias consumidinhos em tertúlias, cervejas e concertos, mas onde ia seguindo aquele autêntico seriado das TV’s querendo provar que havia o caos nos postos de gasolina quando eles, ainda por cima e porque as pessoas inteligentemente se organizaram, tinham até menos gente que o costume! Aquilo foi degradante mas eu estava em modo festivaleiro e no meu querido “COURAÍSO” e isso tinha já passado a pormenor! E, mesmo no fim, a PATTI SMITH ainda mais me veio apaziguar….

Mas, continuando no Estio e sabendo um pouco do que se vai passando e antevendo o que aí vem, eu pergunto: ó Costa, e tu nem 15 dias de férias tiras? Tens medo que um Riacho diga que te ausentaste e não cuidaste dessa corrente que destrói as margens de tão comprimidas estarem? Sim, esse Riacho que afirmou que tu estavas de férias quando o País estava a arder e tu mais o Presi em reuniões, velórios e coisas mais? Vai de férias mas é, ó meu…Esse “Riachozinho” perante os elogios que o Finantial Times te tece ainda tem o desplante de dizer que eles não conhecem este País, esses burros iletrados e dados à mania…Vai é morenar esse cabelo, pá!

É que eu há dias vi-te na TVI e aquele baixinho, magrinho e de cabelo lambidinho, mais o apresentador e demais, que não são flores que cheirar possamos, quiseram mesmo rasteirar-te, pá! E a coisa até nem foi tão grave, apesar da questão vergonhosa dos “twitters”, que eu por exemplo não possuo e muito pouca gente usa pois aquilo é uma séca, porque tu sabes sempre sair por cima mas, não digo o Partido, mas as tuas lanças dianteiras deviam denunciar o que se passou e o que a seguir, muito provavelmente, se passará.

É que o que se passou com aquela tresloucada Professora, não só pelas alarvidades que disse mas principalmente pela passividade, condescendência e cumplicidade do apresentador, perante as contínuas faltas de respeito e interrupções da dita, dá que pensar e merece séria reflexão.

Mas também pelas escolhas da TVI onde, a par de uma tresloucada e ressabiada Professora, apareceu também uma sorridente mas capciosa Enfermeira e um Fiscalista que teve o desplante de afirmar que um trabalhador que recebe limpos 2.750 Euros custa a uma Empresa 7.000 Euros quando o que supletivamente onera a Empresa são os 23,75 para a Segurança Social!

Eu só me admirei de não terem convidado também a Cavaca e o Pardal! Juntando a estes o Ventinhas, mas pensando bem este não porque a “dignidade” dos Magistrados do Ministério Público foi entretanto reposta, mais o Presidente da Ordem dos Médicos…o quadro dos “cavaleiros do apocalipse” estaria completo!

Vou aguardar pacientemente as cenas dos próximos capítulos desses guardiões da Democracia que são as TV’s, nomeadamente as generalistas e deixando de lado os patéticos outdoors do PPD, que mais não fazem do que apregoar a herança que deixaram, vou-me debruçar, salvo seja, sobre este novel e futurista cartaz do CDS que já aqui referi: “PORTUGAL ponto TRABALHAR FAZ SENTIDO?”.

Eu não vou falar sequer em ousadia ou criatividade: eu falo em desfaçatez! Em ignomínia, em reaccionarice, em esperteza saloia e todos os adjectivos que Dicionário contenha. É que só isto nos faltava!

A tese pela Direita repetida à exaustão é que com este Governo se atingiu a maior carga fiscal de sempre ( a mesma que a deles!) e os Portugueses, coitados, estão a sofrer horrores e a serem de tal maneira espoliados, agredidos e massacrados que, em vez de irem em filhinha votar Costa, deviam era deixar de trabalhar! Não recebiam salário, e para quê o salário se depois, cheios de fome, terão um rico que os protege, mas o Estado também não arrecadava Impostos…

E estiveram eles tanto tempo a meditar, em sagrado retiro, um retiro regenerador do futuro do passado! “Trabalhar é Preciso”? Para quê se terão sempre, sem impostos é claro, trabalhadores a soldo, um soldo que até uma tigela de sopa poderá ser…?

E progredimos nós tanto! E progrediu a Ciência, as Novas Tecnologias e o Saber tanto e estes vermes ainda a reivindicarem velhos direitos. Direitos de classe, dirão…

Classe de “Filhos da “outra”, como bem escreveu Alberto Pimenta.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

OS «TAROLAS» DAS REDES SOCIAIS

Tarolaé um pequeno tambor que soa claro mas cujo rufar não se ouve muito longe. Não confundir com estarola.
Os tarolas das redes sociais são uns indivíduos que se atribuíram para si o papel de defensores do legado de Pedro Passos Coelho, confiantes que ele, como um dom Sebastião do século XXI, há de regressar um dia. Os tarolas despendem ⅓ do seu tempo (e atenções) em arriar em António Costa, o malabarista que engendrou a espúria geringonça, mas os mais substantivos ⅔ da sua verve crítica concentram-se em Rui Rio, o usurpador, que não sabe fazer a oposição rábica ao primeiro como eles acham que devia ser feita. Portanto, não se percebe muito bem o que é que eles querem. Mas percebe-se muito bem de quem não gostam. Ontem, por exemplo, ficaram furibundos (acima) porque Carlos Moedas, que criara a reputação de ter sido um indefectível da confraria de Passos Coelho (abaixo), se deixou fotografar abraçado feliz a António Costa, como se se tratasse de uma cena final de um filme de Hollywood.
Há coisas que têm mais piada por acontecerem a quem acontecem. Os tarolas, considerando-se príncipes da lucidez e do maquiavelismo político em tudo o que publicam, que nunca são apanhados a dormir nas suas análises políticas e julgamentos de carácter, aparentemente não tinham dado até aqui por um daqueles mariolas que, tendo sido de outras senhoras (abaixo, vêmo-lo a apoiar Paulo Rangel contra Passos Coelho nas eleições internas do PSD em 2010), passou desde 2016 a ser desta, e há de querer ser da próxima- ele é (considera-se, pelo menos...) polifacetado! Por uma vez, tenho pena que aquela parelha ali de cima mais as suas publicações de facebook, e outros parecidos com eles, sejam uns tarolas, e que o seu rufar encornado e moralista não se ouça para lá das redes sociais.
 
 

Veja o original em 'Herdeiro de Aécio' na seguinte ligação::

http://herdeirodeaecio.blogspot.com/2019/08/os-tarolas-das-redes-sociais.html

Haja quem avise o homem!

Este agosto não tem sido grande coisa em termos de praia - ventos fortes, água do mar muito fria - o que poderia bastar para que Manuel Carvalho, diretor do «Público», se privasse de assinar sucessivos editoriais indiciadores de quem anda a apanhar demasiado sol na moleirinha.

 

É certo que, sendo careca, poderia imitar-me no uso do boné ou do chapéu, que evitaria um tal sobreaquecimento dos circuitos neuronais.  Manifestamente não deve ser esse o seu caso pelo que se vai detetando. Senão vejamos: num dia consegue encontrar razões para entusiásticos encómios relativamente ao finado merceeiro do Pingo Doce sobre quem não teve pejo de considerar «visionário, corajoso e arrojado». Nem mais!

 

Nesta terça-feira veio resgatar Passos Coelho como digno de admiração pela precocidade com que soube ver o tal Diabo, que Carvalho acredita mesmo vir aí, sobretudo por fiar-se num texto desse notável Mestre das Finanças, que se chama Marcelo Rebelo de Sousa.

 

A continuar assim e, se como a meteorologia prevê, as temperaturas voltarem a subir nos próximos dias, Carvalho ficará em riscos de sucumbir às alucinações tão frequentes nas vítimas de insolações. Haja quem avise o homem!
 
 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/08/haja-quem-avise-o-homem.html

Portugal | Gente ridícula

 
 
Rui Sá | Jornal de Notícias | opinião
 
Tratava Lino Lima, grande antifascista, advogado e deputado do PCP por "tio", apesar de, de facto, não o ser. Mas foi assim que nos habituámos a tratar os amigos dos meus pais com quem tínhamos mais familiaridade. Foi, para mim, na altura um adolescente, uma fonte de aprendizagem e um exemplo de coerência, guardando com respeito e alegria as memórias de conversas que tivemos e onde as gargalhadas (porque o seu sentido de humor era ímpar!) assentavam, sempre, arraial - leia-se o seu livro de memórias, "Romanceiro do Povo Miúdo", escrito sob o pseudónimo de José Ricardo, para apreender o quanto lutou contra a ditadura e o quanto sofreu na pele a coragem dessa luta. Mas há uma frase dele, já do final da sua vida, que recordo com particular emoção. Dizia ele (talvez não por estas exatas palavras): se por qualquer acaso, começar a dizer asneiras e a fazer coisas que ponham em causa o percurso da minha vida, metam-me vidro moído na sopa para não passar por essa vergonha!
 
É sempre esta frase de Lino Lima que me vem à cabeça quando assisto, até com alguma compaixão, ao percurso de algumas pessoas. Que terão, como todas as pessoas, os seus méritos e virtudes. Mas que não têm a mínima vergonha por tanta incoerência, por defenderem hoje com a mesma certeza absoluta que é amarelo aquilo que antes diziam que era azul.
 
 
Refiro-me, em particular, a Zita Seabra, que foi mais uma vez notícia por se ter passado, com armas e bagagens, do PSD para a Iniciativa Liberal. A questão não está em mais uma mudança de partido. A questão é que Zita Seabra, pelo seu percurso, já não é levada a sério e falta saber se acrescenta ou retira alguma coisa a quem se junta. Porque defende agora aquilo que antes negava, ou vice-versa. Sempre como se tivesse a maior das razões e como se os parvos fossemos nós, por não termos capacidade de acompanhar a sua perspicácia de estar a ver coisas novas em factos ancestrais...
 
De igual modo, Vital Moreira, que foi o ideólogo de José Sócrates (que, premiando esse papel, o escolheu como cabeça de lista ao Parlamento Europeu, onde pouco fez) e que tem um percurso, embora mais intelectualizado, parecido com a incoerência de Zita Seabra (aparentemente não mudou tanto de sítio, mas a verdade é que hoje já está na extrema-direita do PS...). Depois de anos a fio a aconselhar Sócrates a tomar as medidas mais nocivas da sua governação, aproveitou agora, a propósito da greve dos motoristas de matérias perigosas, para lançar o mote das alterações à lei da greve (para a limitar, claro).
 
Não lhes aconselho, naturalmente, a terapia preconizada por Lino Lima... Mas custa-me que não tenham amigos que, em nome dessa amizade, lhes digam que mais vale saírem de cena.
 
* Engenheiro
 
 
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/08/portugal-gente-ridicula.html

QUE É QUE TERIA O BARNABÉ DE DIFERENTE DOS OUTROS*?

Nada.
Longe vão os tempos em que as manobras de propaganda política permitiam jogar com o apagamento esquecidodaquilo que se dissera no passado, sobretudo quando se referia à projecção a uma longa distância no futuro da avaliação dos resultados de uma actuação política. Agora já não é assim, os arquivos da internet existem para quem lhes queira aceder e se alguma coisa me irrita nas críticas que se lêem por aí, oriundas do próprio lado da trincheira, à actual direcção do PSD, é a presunção (fantasma) que a falta de resultados na captação das simpatias da opinião pública radica na forma como se exerce oposição. Que com mais barulho e com mais agressividade seria melhor. Para corroborar, estas duas notícias, publicadas no insuspeitoObservador e separadas por quarenta meses, relembram que a mitologia de um outro PSD caso ainda lá estivesse Passos Coelho é isso mesmo: um mito. Quem apostou tudo na previsão que a geringonça ia correr mal, como ele, é um alvo fácil e andaria por estes dias a desdobrar-se em explicações por que se enganara. O resto, por muito que se antipatize pessoalmente com Rui Rio e com o seu estilo, é conversa.
 
*  "O que é que tem o Barnabé que é diferente dos outros '" barnabé
 
 
 
 
 
 
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Mais três notas sobre Cristas e o acesso ao ensino superior

«Não faz qualquer sentido que uma família portuguesa, cujo filho não se classificou para entrada no curso ou na escola da sua preferência, dado o "numerus clausus", não possa escolher aceder a essa vaga, pagando o seu custo real, tal como pode escolher uma universidade privada ou uma universidade estrangeira» (Assunção Cristas) 1. Ao contrário do que o CDS-PP e Cristas sugerem - para justificar que os alunos portugueses sem média de acesso devem poder ingressar, mediante pagamento, no ensino superior público - os alunos estrangeiros não se limitam a «pagar para entrar», estando igualmente sujeitos a numerus clausus, como já se procurou demonstrar aqui. Mais: não só nem todos os candidatos estrangeiros ingressam no ensino superior público português, como são muito poucos os que efetivamente pagam a sua frequência a preços de mercado. De facto, se considerarmos que os alunos de países membros da UE estão sujeitos às mesmas regras que se aplicam aos estudantes nacionais, e se admitirmos que os alunos da CPLP beneficiam, em muitos casos, de acordos bilaterais entre Estados, o universo de «estrangeiros pagantes» é muito mais reduzido (apenas 153, dos cerca de 180 candidatos, no ano de 2018), do que Cristas e o seu partido nos querem fazer crer . 2. Vale a pena assinalar devidamente, em segundo lugar, um aspeto com especial significado ideológico, nesta proposta. Ao contrário do que tem defendido noutros domínios (nomeadamente na educação, na saúde e na ação e segurança social), o CDS-PP não propõe, neste caso, a existência de um «sistema» único, constituído pelo público e pelo privado e que cabe ao Estado financiar (como chegou a sugerir Passos Coelho, em 2011). O que Cristas defende, para o ensino superior, é que o Estado permita a inscrição de alunos sem média suficiente no subsistema público (e não, como seria expectável, o financiamento da sua inscrição em universidades privadas). Ou seja, mesmo não sabendo o que leva Cristas a este desalinhamento ideológico (talvez o descrédito em que mergulhou, com algumas exceções, o ensino superior privado em Portugal), o certo é que não é só a conversa da «meritocracia» que vai pelo cano. É também a congruência e consistência programática de um partido que proclama que o Estado deve financiar, nos diferentes domínios (através de PPP ou de vouchers), o setor privado. 3. Por último, a ideia de que o pagamento do «custo real» da formação deve ser suficiente para possibilitar a entrada, no ensino superior público, a um aluno que não obteve média de ingresso, é bem reveladora do «espírito de classe» que subjaz à proposta do CDS-PP. Isto é, Cristas e o seu partido estão nitidamente a pensar apenas em famílias cujos níveis de rendimentos permitem, para lá do pagamento da formação a preços de mercado, assegurar todas as despesas inerentes à frequência do ensino superior (alimentação, alojamento, livros, etc.). Podem portanto chamar-lhe muita coisa, mas esta não é, por várias razões, uma proposta preocupada com a democratização do acesso ao ensino superior.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Costa e a competência!

(Joaquim Vassalo Abreu, 03/08/2019)

Aquilo que eu converso com os meus Amigos de Direita é tudo menos a menorização das suas fidelidades porque, muito embora eu ao fim destes anos todos insista em não as compreender, nem elas nem os seus propósitos que eu entendo como os mais contraditórios que em relação a eles há mas, isso sim, os méritos de quem eu apoio! E porque entendo que assim é que deve ser!

 

Porque sei, e todos deveríamos saber, que a Direita tem muitos recursos e até demasiados recursos para o meu gosto! E quando acusa de “nepotismo” este Governo liderado pelo PS, ela nada mais está a fazer do que manifestar o seu desagrado por outrém, o PS, neste caso, pisar, nem que por uma simples unha, aquilo que lhes comete, que é propriedade sua, sempre foi, e só neste momento não rege porque o Povo é estúpido, ingrato até, e até esquece essa coisa tão comezinha que é quem lhe dá o emprego…

São inúmeros e palpáveis os recursos da Direita, não só porque, pese esta ínfima e desinteressante intromissão de alguns indiciados nomes de familiares de membros do Governo como Fornecedores do Estado, e era bom saber quem são a parte preponderante, aquela fornada dos anos de ouro do inteligente Portas, que não dava fio sem nó, todos sabemos e o Álvaro Santos Pereira, “former” Ministro da Economia de Passos, em livro contou, que nada assinava sem contrapartidas palpáveis…mostram um pouco do que a Direita é capaz!

No caso citado em sua defesa própria, isto é dos seus privilégios, mas em não sendo Governo, por simples ingratidão das pessoas, pelos meios de que dispõe, utilizando sempre pessoas e serviços da sua laia e dependência, para afrontarem o Estado e, à falta de outros meios, legais e escrutináveis, exercerem sobre ele um autêntico terrorismo!

Tudo isso se vai manifestando alegremente nestes dias por entre a confusão de pré guerra civil no PPD, por falta de rumo ideológico e no retiro espiritual da D. Cristas, para reflexão sobre o futuro e preparação do mesmo (mas o futuro não é daqui a dois meses?) onde, para já, conseguiu ser iluminada por uma enorme graça e que logo veio anunciar: por causa deste Governo a Democracia em Portugal corre sérios riscos! Era para ficarmos todos de cabelos em pé mas…ninguém ligou!

Também parece que essa coisa tão difusa como “as falhas do Estado nos incêndios”, é que pelos vistos os Estados vão todos falhando e já nem falo nos recorrentes casos dos EUA e da Austrália, agora até a insuspeita França, também já não colhe e a questão das golas ou gravatas ou lá o que são dos Bombeiros de tão surreal também não.

As TV’s, os Comentadores e todos os representantes da oposição de direita com cadeiras em tudo o que é meio de comunicação social bem que se esforçam mas não param de enfrentar a fria realidade, cada vez mais firme e impiedosa: a falta de audiência! A grande maioria já não os ouve nem lê…e vão pregando no deserto…

As sondagens vão sugerindo a questão essencial: a falta de votos e a sua incompetência versus a competência de Costa, de Centeno e do seu Governo! Desta vez Marques Mendes já não disse que era brincadeira do 1 de Abril a hipótese de Centeno poder rumar a chefe do FMI, coisa que agora declinou. Não, já não ousou fazê-lo e não o ousou porque já não quis enfrentar o ridículo!

Porque, como se diz, o ridículo “mata” e ninguém quer “morrer” pelo ridículo, a não ser que se chamem Rio ou Cristas e as cenas da composição das listas, não pela competência que lhes assiste e pela liberdade de escolha de que dispõem e nenhuma destas está em causa, mas pela degenerescência de comportamentos vindos a público que nada abonam sobre as suas capacidades de serem oposições responsáveis.

De nada disso Costa tem culpa e se alguma culpa lhe posso assacar é um certo temor em denunciar o autêntico “terrorismo” que são estas greves selvagens que ousam afrontar a estabilidade da sociedade e da nossa economia, apesar das medidas já tomadas, deixando que o silêncio da direita seja para isso uma condicionante.

O Povo já não aceita titubeações, está mais que visto, e por isso a Direita cobardemente se cala ( também acho ensurdecedor o silêncio da CGTP,  já agora) e exige medidas concretas e adequadas. Medidas que deixem essa gente sem brio e sentido pátrios presos à sua irresponsabilidade e a Direita refém do seu silêncio!

A competência também se vê aqui e é proibido ser-se timorato, não é COSTA?

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Derrota? Dizem elas para se convencerem!

Alguma imprensa de hoje - pelo menos Ana Sá Lopes no «Público» e Inês Cardoso no «JN» -mostra indisfarçável gáudio por ter sido a búlgara Kristalina Georgieva a escolhida pela União Europeia para assumir funções à frente do FMI.

 

Derrota do governo, não enjeitam em anunciar! O que é bem revelador do tipo de comportamento das direitas, quer quando agem formalmente na Assembleia da República, quer por interpostos «jornalistas»: normalmente «patrioteiras», quando agitar a bandeira e cantar o hino dá jeito à sua agenda ideológica, mas comprazendo-se com resultados opostos pelos mesmíssimos motivos.

 

O facto de Mário Centeno manter-se no governo e, muito provavelmente no Eurogrupo, acaba por dar sossego aos socialistas, que temiam perder a sua competência na gestão das finanças públicas e contenção nas pulsões mais ultraliberais de muitos governos europeus. Pessoalmente continuo a considerar que, acaso mudasse para Nova Iorque, António Costa logo convidaria quem o substituísse com igual competência e poderíamos ter outra grande organização financeira supranacional a revelar-se menos paladina dos nefastos conceitos da Escola de Chicago.
 
 
 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/08/derrota-dizem-elas-para-se-convencerem.html

A imagem do VPV e o seu controleiro

Os tipos espertos seguem um princípio: como vencer na vida sem fazer força. A receita é a imagem. Ter uma imagem. Vasco Pulido Valente criou uma imagem com várias máscaras: um rebelde, um intelectual não orgânico, um oposicionista independente, em resumo: um tipo inteligentíssimo! Um tipo esperto, na realidade.

 

 

Na coluna de VPV no Público, na sua apreciação semanal, ele escreve um apontamento contra a regionalização, a propósito de uma entrevista de João Cravinho, e faz uma confissão demolidora para a respectiva imagem: João Cravinho foi seu controleiro! VPV tinha um controleiro!

O rebelde, afinal andava pela mão e ia recolher ensinamentos de um controlador. Um padrinho a quem antigamente os meninos pediam a bênção. A bênção padrinho. A quem os padrinhos ofereciam os sapatos nos dias de aniversário, para terem boas bases!

Mas o falso rebelde VPV também afirma que a esquerda (leia-se, quem lutou contra a ditadura) não consegue conviver com a democracia.

Ele sim. Com o devido controlo, claro. Pressupõe a afirmação. Na realidade não há registo de VPV na luta contra a ditadura, a não ser a pertença a uns grupos que publicavam umas revistas de jovens universitários de bom nascimento, de reduzida difusão e menor intervenção. Inócuas. Quanto à rebeldia limitou-se a ser castigado no liceu por mau comportamento e a família colocou-o no Colégio Nun´Alvares, de Tomar (onde eu também estudei). Passou pela Universidade Portuguesa, teve bolsa de estudos em Inglaterra, concedida pela Gulbenkian. Não cumpriu o serviço militar, nem, menos ainda, passou pelas guerras coloniais, não integrou nenhuma das lutas académicas do final dos anos 60 e início dos 70. Vivenciou-se, como hoje se diz, em Oxford.

Após o 25 de Abril, finda a guerra e derrubada a ditadura, VPV apresenta-se em Portugal com as credenciais de inteligente, culto e intrépido lutador pela liberdade para dar o seu contributo à democracia, num lugar de professor/investigador nas novas escolas de estudos humanos, com a imagem de intelectual livre-pensador. Independente, ainda mais. Tanto que colocou a sua inteligência ao serviço de Sá Carneiro, necessitado de uns pós de rebeldia e de cultura na imagem cinzenta e paroquial da AD que reunia a direita que sobrevivera da ANP.

VPV foi secretário da cultura sem história a não ser a informalidade snob com que despachava no gabinete. Ainda foi deputado pela direita. Sem registo de esforço, nem caroço. O país não o merecia. Continuava a estrumeira de que se queixara o rei Carlos de Bragança. VPV entendia-se o Eça de Queiroz do novo regime, mas dava trabalho… ficou-se pela intenção e pela pose de desdenho.

Registo um bom, um excelente romance – Glória – e uma tese inovadora sobre as campanhas de Mouzinho de Albuquerque em Moçambique e a prisão de Gungunhana no argumento do magnífico filme/série  Aqui-del-Rei, de António-Pedro de Vasconcelos. Que a direita colonialista não entendeu, ou nem sequer leu, ou viu. Tratavam ambos do colonialismo.

Mas VPV sempre projectou de si a imagem de um rebelde a quem ninguém colocava coleiras. Incompreendido sempre que foi necessário justificar a sua inaptidão para o trabalho continuado e estruturado ao serviço de uma ideia. Na realidade nunca se rebelou. Foi sempre de uma azeda mansidão. Um maldizente que por vezes tinha graça.

Através desta confissão no Público, ficamos a saber que, afinal, VPV tinha um controleiro, que era afinal membro de um rebanho, provavelmente reduzido, mas que aceitava o pastoreio. Embora também saiba do humor de João Cravinho, creio que as sessões de controlo deste sobre VPV não deveriam ser muito penosas para este, pouco dado a incomodidades e secas. Também de humor cáustico, mas sempre sem espelho.

Se VPV era mesmo dotado de uma excepcional inteligência (de que em Tomar, num ambiente de grande exigência para os alunos do Colégio, a todos os níveis, do intelectual ao da personalidade, ninguém deu nota) esta confissão revela a sua decadência. VPV, com a confissão da sujeição ao controleiro Cravinho, destrói a imagem com que viveu e bem durante toda a vida, sem fazer grande força: a do pensador livre.

Afinal o Vasco ia à catequese e cumpria os mandamentos. É uma desilusão para os crentes. De facto, ele, no CNA portou-se sempre benzinho. Não havia ali pão para malucos, nem paciência para meninos mimados.

Que ele, que tão comodamente conviveu com a ditadura, afirme que a esquerda convive mal com a democracia é apenas o reflexo de um carácter muito moldável e dado às comodidades, digamos assim. O carácter de um videirinho, como tantos. Lá se foi a imagem do rebelde.

Que a direita defensora da ditadura, do colonialismo, da guerra colonial, da Pátria e da Família tenha adoptado o VPV como seu intelectual orgânico também é sintomático da congénita pobreza de carácter da direita portuguesa, de quem o VPV se diverte a expor os podres e as baixezas.

Estão, o VPV e a direita, muito bem uns para os outros. Com controleiros e tudo.

Um apontamento final: sou um opositor decidido de qualquer programa de regionalização de Portugal. Mas nunca tive controleiro.

 

 

Portugal | Cristas e Rio poderiam "combater, todos nus, um qualquer incêndio"

 
 
Alfredo Barroso ironiza a polémica das golas inflamáveis, sugerindo que os líderes dos principais partidos da oposição deveriam combater incêndios sem roupa para darem o exemplo, já que o vestuário também é inflamável.
 
Rui Rio visitou, na segunda-feira, Vila de Rei (Castelo Branco) para se inteirar das consequências dos incêndios que afetaram a região na semana passada. Alfredo Barroso recorreu à sua página oficial de Facebook para criticar o líder social-democrata: "Pobre Rui Rio! Afinal também ele já está a culpar o Governo por todo e qualquer incêndio que ocorra em Portugal".
 
Defende o ex-secretário de Estado que "o grande líder do PPD-PSD juntou-se muito mais tarde do que a líder do CDS-PP, Assunção Cristas, ao coro dos que fustigam o Governo por causa de todo e qualquer incêndio florestal que ocorra em Portugal - seja ele pequeno, médio ou grande". Mas, ironiza, "Rui Rio ainda não saberá lá muito bem se essa é (como diria Vladimir Ilitch Ulianov) a "linha justa" para combater o "esquerdalho" e o Governo que este sustenta, há já quatro anos, na Assembleia da República".
 
"Sinceramente", acrescenta, "acho que o próximo passo espetacular destes dois grandes líderes das Direitas portuguesas poderia ser irem ambos - porventura com vários jornalistas de Direita à ilharga - combater, todos nus, um qualquer incêndio (até podia ser no 'Jardim da Celeste'!) para darem o exemplo da prevenção".
 
Na crítica que dirige à Direita, Alfredo Barroso recorda ainda a polémica das golas inflamáveis, explicando que os Rio e Cristas deveriam combater incêndios "nus" devido às referidas golas inflamáveis "mas também contra toda a roupa que um cidadão traz vestida habitualmente, e que também é, infelizmente, 'inflamável' (a roupa, não o cidadão, entenda-se, que este demora muito mais tempo a inflamar-se)..."
 
Recorde-se que no âmbito da polémica relativa às golas inflamáveis, o adjunto do secretário de Estado da Proteção Civil demitiu-se depois de ter assumido que sugeriu a empresa que comercializou os kits distribuídos no âmbito dos programas 'Aldeia Segura' e 'Pessoas Seguras'.
 
Filipa Matias Pereira | Notícias ao Minuto | Foto: Facebook/Alfredo Barroso
 

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A primeira cimeira da RIOGONÇA

(In Blog 77 Colinas, 20/07/2019)

Imagem in Blog 77 Colinas

 

River:  Meus senhores, a minha proposta de Riogonça inclui PSD, CDS, PAN e Aliança.
Flopes: Ó River, segundo as sondagens, isso tudo junto dá à volta de 34%, o que é curto. 
River: Ó Flopes, eu é que sei. Tu, até levaste uma abada nas eleições do PSD.
Cristas: Eu ainda não perdi a esperança de ser primeira ministra
River: E eu o Trump II
André:Nós, no PAN, aceitamos coligar-nos com quem der mais. A Riogonça ou o Costa.
River: E quais são as tuas exigências?
André: Escolher quatro ministros.
River: Quais?
André:Um camelo para primeiro ministro, uma galinha para vice-primeira ministra, um burro para a Educação e eu as Finanças.
Cristas: Isso seria quase o Triunfo dos Porcos (Orwell).
André:Porcos verdes.
Flopes: Desculpa, mas Finanças é comigo. Até sei umas larachas de economês.
River: Deves ter aprendido na discoteca Kapital.
Cristas: Continuamos com apenas 34%. Onde vamos buscar os restantes votos?
André: Não há problema, os camelos votam todos em nós.
Cristas: Mas também há muitos camelos a absterem-se.
River:Continua a não chegar. Temos que pensar nuns incêndios.
Cristas:Mas, o raio do verão não está a ajudar nada.
River: Podemos organizar umas greves dos médicos e dos enfermeiros.
Cristas: Que não sejam só à sexta-feira.
Flopes: Os bastonários dos médicos e dos enfermeiros teriam de ser ainda mais ativos.
River: A SIC teria de dar-lhes ainda mais tempo de antena.
Cristas: Temos de arranjar um caso qualquer para lixar o Costa.
Flopes: Prometemos baixar o IRS em 50%.
André: Já ouvi tudo e acho que vou escolher o Costa
River: Traidor.

Neste momento aparece o segurança do manicómio.
Segurança: Vamos lá colocar os coletes de segurança e voltar para os vossos quartos.

Faz-se silêncio no Ninho de Cucos.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Direita sem norte

(São José Almeida, in Público, 27/07/2019)

(O comentariado da direita – ou seja, quase tudo quanto é gato que opina no espaço público -, anda em pânico. Ele é o Júdice, o Marques Lopes, o outro Lopes – o Pedro -, a Ferreira Alves, o Xavier, e tudo quanto é tarólogo e escriba de serviço.

Parece que o Passos tinha razão: vem mesmo aí o diabo. Só que vem vestido de cor de rosa, num coche também cor de rosa conduzido a toda a brida pelo mafarrico do Costa.

Eu, por mim, ando divertido à brava a saborear estes achaques de quedas na tensão arterial de tão insignes personagens. E se os eleitores se comportarem, como se está a antever, em Outubro, ainda me vou divertir mais.

Afinal quem é que dizia que o verão era a silly season onde que não se passa nada? Este verão, pelo menos, parece-me que vai ser uma ópera bufa pautada pelas cenas pícaras de uns e o ranger de dentes de outros.

Comentário da Estátua, 27/07/2019)


 

O que se passa com a direita em Portugal? Está em transformação ou apenas em descalabro? A mutação no universo partidário à direita é uma realidade em vários países da Europa, mas a aceleração da crise no PSD e no CDS ameaça levar estes partidos para um patamar de irrelevância eleitoral que pode ter consequências sobre o próprio sistema partidário português.

O resultado das europeias, depois do das autárquicas, foi um sinal claro de que pode estar a caminho uma espécie de mexicanização do regime centrado no PS, como Poiares Maduro defendia em entrevista ao PÚBLICO na sexta-feira. Mas, em vez de arrepiarem caminho e reagirem, os líderes do PSD e do CDS aparentam estar desorientados, perdidos, sem norte. Rui Rio surge errático e enrolado numa série de episódios entre o dramático e o cómico, que transmitem instabilidade e desnorte.

Assunção Cristas desapareceu em combate. O CDS limita-se a ir debitando propostas eleitorais a conta-gotas. Depois de uma estratégia comunicacional frenética, Cristas esconde-se. Aparece nas redes sociais disfarçada com cabeleiras – terá a líder do CDS consciência do machismo que encerra aquela pergunta sobre preferência de penteados?

Segundo as últimas sondagens, PSD e CDS juntos ficam pelos 28%. Recorde-se que, em 2005, Pedro Santana Lopes conseguiu 28,77% para o PSD, o CDS de Paulo Portas teve 7,24%, e mesmo assim o PS de José Sócrates conquistou a maioria absoluta com 45,03%. Estão Rio e Cristas a contribuir para que o PS de António Costa atinja a maioria absoluta?

Rio decidiu esta semana dizer ao país que não acredita em sondagens – curiosamente acreditava nelas quando foi pela primeira vez candidato à Câmara do Porto. No momento em que devia estar a conquistar espaço público e visibilidade para divulgar o seu projecto de governação, decidiu criar ruído na comunicação política do PSD, desvalorizando as sondagens.

Fê-lo atacando jornalistas de forma vaga, não personalizada e estigmatizante (terá falta de coragem ou estava a inventar?) com uma frase colocada no Twitter: “Tenho, na minha ingenuidade, reparado que nestes cirúrgicos dias que antecedem o conselho nacional para a escolha dos deputados, alguns cirúrgicos jornalistas tidos como ligados à maçonaria dão mais cirúrgica importância às cirúrgicas sondagens da Pitagórica do que às outras.” Não ficámos a saber de quem falava, mas deu para entender que para o líder do PSD alguém ser da maçonaria é algo parecido com ter peçonha. Resultado: uma vez mais, Rio foi notícia por más razões e ninguém ouviu a mensagem política do PSD.

A semana ficou marcada também por mais um conflito interno em torno de personalidades do PSD. Depois do seu vice-presidente Manuel Castro Almeida se ter demitido, o que foi uma importante perda de massa crítica da direcção, Rio recusou a proposta do PSD de Setúbal de inclusão de Maria Luís Albuquerque na lista do distrito, que encabeçou há quatro anos. É certo que já esta legislatura Maria Luís Albuquerque teve um problema de incompatibilidade ao aceitar um cargo numa empresa que opera na área que tutelou como ministra. Mas Rio não alegou ser essa a razão do afastamento.

E a verdade é que, primeiro como secretária de Estado, a partir de 2013 como ministra das Finanças que sucedeu a Vítor Gaspar, Maria Luís Albuquerque foi responsável por ajudar a descer o défice orçamental de mais de 11% para 2,9%, o que permitiu a saída de Portugal do procedimento por défice excessivo. Goste-se ou não da personalidade, concorde-se ou não com a sua gestão das contas públicas, Maria Luís Albuquerque é uma figura que marcou a história do PSD e faz parte do património político do partido.

É verdade que após o Governo de Passos Coelho e Paulo Portas e da actuação brutal que adoptaram para cumprir os compromissos com a Comissão Europeia, de forma a fazer o ajustamento orçamental que reduziu o défice para o limite de 3% imposto pelo tratado orçamental, era imenso o caminho das pedras que PSD e CDS tinham de fazer para recuperar a confiança do eleitorado.

Evidente é também que, ao contrário de Portas, que percebeu a situação e saiu imediatamente de cena, Passos não compreendeu o que significava a formação de uma maioria de esquerda no Parlamento, nascida dos acordos do PS com o BE e o PCP. Continuou a acreditar que não havia alternativa à sua política. Preferiu visionar a chegada do diabo e acabou por se queimar no inferno das autárquicas, depois de se arrastar no Parlamento com o estatuto de primeiro-ministro defenestrado por António Costa.

Mas Rio é líder desde Janeiro de 2018. E o PSD continua sem norte. Pior: parece cada vez mais afogado no seu próprio tumulto interno. O que quer de facto Rio? Para onde está o presidente do PSD a levar um partido que até hoje foi estruturante da democracia portuguesa?

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

UE | Duas mulheres, muita mistificação

 
 
O neoliberalismo não tem género. Não será certamente por estar uma mulher à frente da Comissão Europeia que os salários e direitos das mulheres nas fábricas, nos serviços, na sociedade em geral vão registar os avanços que estão registados nas leis.
 
José Goulão | AbrilAbril | opinião
 
Duas mulheres foram escolhidas para cargos de grande destaque no gigantesco aparelho burocrático neoliberal que é a União Europeia. Ao cabo de um opaco processo de tráfico de influências, a alemã Ursula von der Leyen emergiu como escolha final para a presidência da Comissão Europeia; e a directora-geral do FMI, Christine Lagarde, foi designada presidente do Banco Central Europeu.
 
Duas mulheres politicamente de extrema-direita deixando atrás de si, em lugares que ocuparam recentemente, rastos de incompetência, clientelismo e corrupção.
 
Tais nomeações, contudo, foram enaltecidas como grandes passos para a igualdade de género. Uma mistificação no meio da nuvem cerrada de mistificações em que se move a União Europeia.
 
O manuseamento propagandístico das chamadas «causas fracturantes» funciona hoje como um método cada vez mais apurado para salvaguardar a estagnação social, tentando vedar o combate às questões de fundo da austeridade, da injustiça e da supressão de direitos; um artifício que encoraja a realização de acções sectoriais com efeitos inócuos e limitados, quando muito registando pequenas vitórias que salpicam um caminho tortuoso e sem fim à vista. Como se as lutas contra a discriminação de género e a degradação ambiental, por exemplo, se esgotem em si próprias, de maneira autónoma, e possam ser resolvidas com êxito à margem do funcionamento global da sociedade que alimenta tais problemas.
 
 
O cenário assim instaurado é o sétimo céu da autocracia neoliberal global – o regime em que vivemos. Os «grandes avanços» traduzidos pelo facto de haver agora mulheres à frente de aparelhos de decisão da União Europeia fomentam uma poderosa ilusão de que as coisas estão a mudar num sentido «progressista» e de superação de velhas desigualdades. Para que tudo continue na mesma.
 
Isto é, para que a União Europeia e outros aparelhos do globalismo que aprofunda as desigualdades e as injustiças humanas continuem a funcionar como trituradores de direitos e princípios. Com homens ou mulheres à cabeça, tanto faz.
 
Neoliberalismo tem género?
 
Ursula von der Leyen, política alemã da ala direita do partido da chanceler Angela Merkel, transitou de ministra da Defesa da Alemanha para presidente da Comissão Europeia. Mantém a submissão executiva à NATO, que tutela de facto a União Europeia; e, entretanto, estão por confirmar as informações segundo as quais a sua nomeação foi recomendada pela administração Trump, como segunda escolha em relação ao favorito original, Manfred Weber.
 
A veracidade destas informações não tardará a ser posta à prova. A pedra de toque será a atitude de von der Leyen em relação à exigência norte-americana de cancelamento da construção do gasoduto North Stream 2.
 
Sabendo-se que este assunto é motivo de antagonismo forte entre Trump e a chanceler Merkel, que se bate pela construção do gasoduto entre a Rússia e a Alemanha, rapidamente se verá de que lado estará a presidente da Comissão, isto é, se a exemplo de Manfred Weber, funcionará como uma agente dos interesses norte-americanos ou, pelo contrário, contribuirá para que os europeus tenham gás natural mais barato e menos nocivo para o ambiente.
 
Seria de supor que a nomeação de Ursula von der Leyen resultasse de algo mais do que baixa barganha política eurocrática e tivesse, no mínimo, uma base de competência executiva a sustentá-la. Parece que também não é o caso.
 
Todos os partidos alemães no Parlamento Europeu, com excepção dos cristãos democratas, se manifestaram contra a escolha de von der Leyen, ao que parece pelo nada dignificante papel desempenhado à frente do Ministério da Defesa.
 
No consulado desta mulher de extrema-direita o Estado gastou mais do que nunca, em tempos recentes, com as forças armadas do país; e nunca estas, segundo os peritos, estiveram em nível tão baixo de qualidade e prontidão.
 
Enquanto os inquéritos em curso não fizerem luz sobre suspeitas de clientelismo ou outras formas de corrupção, fica, para já, uma nota medíocre em termos de competência e desempenho da ministra da Defesa, qualidades que parecem não ser imprescindíveis para o cargo de chefe da Comissão Europeia, como já se sabia pelas prestações dos antecessores de von der Leyen.
 
Extrema-direita, militarismo, federalismo, ortodoxia neoliberal são, portanto, os atributos que a ministra alemã da Defesa leva para a presidência da Comissão Europeia. Há quem prefira enaltecer o facto de ser mulher, colocando a questão de género acima das convicções e aptidões políticas, como se mulheres como Margareth Thatcher, Angela Merkel ou Hillary Clinton, por sê-lo, fossem mais recomendáveis e mais «progressistas» que os homens cumprindo os mesmos preceitos da direita política, do militarismo e da autocracia neoliberal.
 
O neoliberalismo não tem género. Não será certamente por estar uma mulher à frente da Comissão Europeia que os salários e direitos das mulheres nas fábricas, nos empregos, nos serviços, na sociedade em geral vão registar os avanços que estão registados nas leis, em tantos casos só para mistificar e fazer de conta. E também não será por isso que a austeridade deixará de fustigar as famílias.
 
Mulher certa no lugar certo
 
À lista de mulheres atrás citadas pode e deve acrescentar-se Christine Lagarde, chefe do FMI e agora do Banco Central Europeu. A sua condição feminina não promete, nem garante, qualquer alteração da gestão opaca e antidemocrática deste órgão que, além de gerir o euro ao estilo do marco alemão representa o nível de topo da decisão eurocrática – logo autocrática.
 
As compatibilidades entre Christine Lagarde e gestão transparente formam um conjunto vazio. Quando saltou de ministra das Finanças do corrupto presidente Sarkozy para a cabeça do templo do neoliberalismo que é o Fundo Monetário Internacional, Lagarde estava, também ela, envolvida num escândalo que lesou o Estado francês em pelo menos 400 milhões de dólares em proveito do empresário mafioso Bernard Tapie.
 
A Justiça francesa chegou a atingir a própria Lagarde mas terá, entretanto, mudado de caminho, provavelmente porque a estes níveis político-financeiros passa a gerir-se por outros códigos.
 
É uma mulher assim que se senta no trono do euro, ao serviço do casino financeiro onde giram as roletas do Goldman Sachs e afins. Para o caso, o género de Lagarde interessa tanto como o do seu antecessor, Mario Draghi. Não será através dela que uma sociedade que discrimina as mulheres passará a ser menos segregacionista nessa matéria.
 
Com Lagarde ou outro nome – independentemente do género – que tivesse resultado do tráfico clandestino de influências que determinou os chefes dos órgãos da União Europeia, o Banco Central Europeu continuará a ser o que sempre foi e aquilo para que nasceu: um instrumento de ditadura económico-financeira.
 
A peregrinação de Ursula
 
Quando Ursula von de Leyen peregrinou pelos vários grupos do Parlamento Europeu, tentando vender a cada um deles o que era suposto estes gostarem de ouvir para depois responderem com votos, a presidente da Comissão Europeia prometeu medidas a eito, e também as suas contrárias quando isso foi conveniente, liberdades permitidas por quem não precisou de programa porque na União Europeia bastam o nome e as recomendações que o impõem.
 
Apesar do carácter absurdo do périplo, do qual não se houve nada bem porque acabou por ser salva pelas boas vontades das extremas-direitas polaca e húngara, von der Leyen contribui para dar exemplos de como funcionam os processos de mistificação nos areópagos eurocratas.
 
Numa sessão de propaganda, a presidente da Comissão chegou a prometer a instituição de um salário mínimo europeu – evidentemente uma ofensa ao catecismo neoliberal e a todos os argumentos austeritários que vigoram na União; e garantiu que irá tomar medidas para combater a degradação ambiental.
Não a levaram a sério – nem era isso que estava em causa – mas as promessas ambientais ficam como exemplo de que o tratamento «autónomo» das chamadas «causas fracturantes» se tornou, afinal, um instrumento transpartidário no especto político.
 
 
Querer resolver os problemas ambientais do planeta através de promessas e medidas avulsas é a melhor maneira de garantir que se cumpram as piores projecções de quem sabe verdadeiramente do assunto.
 
As desigualdades de género, como a discriminação de minorias, as várias segregações, a poluição ambiental não se resolvem por compartimentos. Tal como o desemprego, as gritantes desigualdades de desenvolvimento, a perseguição aos direitos laborais e cívicos, a crescente injustiça na distribuição de rendimentos não se combatem sem promover mudanças profundas nas estruturas, organizações e mentalidades vigentes na sociedade.
 
Ter a ilusão de que os grandes poluidores e predadores do planeta são parte da luta por um meio ambiente mais saudável é o mesmo que acreditar na possibilidade de os que lucram com a «liberalização do mercado de trabalho» se empenharem no combate ao desemprego. Da mesma maneira que uma mulher à frente do aparelho autocrático da Comissão Europeia em nada contribuirá para promover a igualdade de género.
 
A propaganda global engendrou estas mistificações para que, afinal, nada mude no funcionamento e organização da sociedade global neoliberal exploradora, destruidora e assente na mentira.
 
Aceitá-las é um perigo para a humanidade.
 
Foto: Exame / abril.com
 
 

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/07/ue-duas-mulheres-muita-mistificacao.html

Portugal | A direita aperta o cerco

 
 
Alfredo Barroso | Jornal i | opinião
Quando as coisas não correm mal, aparece sempre uma novidade a preencher o vazio. Desta vez é a promessa do caos em meados de agosto, graças a uma greve anunciada pelo inquietante Pedro Pardal Henriques.
 
Até agora, a carência de incêndios espectaculares e devastadores não é de molde a satisfazer a ansiedade dos atiça-fogos sempre prontos a culpar o Governo - este Governo, sustentado pelo “esquerdalho” - por tudo quanto corre mal neste país. O Verão nunca mais chega, o calor e o vento nunca mais se aliam para proporcionar à direita que temos os argumentos que ela não encontra para fazer oposição. Mas há sempre uma novidade a preencher o vazio. Desta vez é a promessa do caos em meados de Agosto, graças a uma greve anunciada pelo inquietante sindicalista da “pesada” Pedro Pardal Henriques, o já famoso e ambíguo “advogado do Maserati”, vice-presidente dum recém-nascido sindicato de camionistas que transportam nos seus veículos matérias inflamáveis, essenciais para abastecer postos de gasolina, aeroportos, hospitais, fábricas e outros estabelecimentos públicos e privados, por este país adentro. O dr. Pardal, esperto como um melro, nunca conduziu camião algum (prefere o seu Maserati) mas sabe como paralisar um país e lançar o caos. É bem mais perigoso do que a doutora Maria de Fátima Bonifácio, cristã, racista e xenófoba que, felizmente, tem o carisma duma torrada sem manteiga!
 
 
Ciosa dos 5 % que as sondagens atribuem ao CDS-PP, a doutora Assunção Cristas, sempre subtil como um tijolo, já veio acusar o primeiro-ministro António Costa de não ter sabido “antecipar” a ameaça de greve do tal sindicato dos camionistas de matérias inflamáveis, peça fundamental da ofensiva sindical da direita disposta a “inflamar” e desestabilizar o país, a esmagar o “esquerdalho” e a derrotar o actual Governo. Declarou a doutora Cristas que, se fosse ela a chefe do Governo (ambição desmedida!), teria certamente “antecipado” a ameaça. Estará ela no segredo, não dos deuses, mas do dr. Pardal? Terá ela o dom da presciência, sentadinha na sede do seu partido no Largo do Caldas ou na respectiva bancada parlamentar, da qual costuma lançar insultos ao primeiro-ministro? Mistério! Se porventura conseguiu “antecipar” tão grave ameaça, bem podia ter avisado o primeiro-ministro e o país, num gesto largo, generoso e patriótico, que “cairia” muito bem. Mas o caso é que, presciente ou não, a doutora Cristas tem uma visão brutalista da política.
 
Já o dr. Rui Rio - chefe instável e contestável da outra direita parlamentar, o PPD-PSD - também anda muito espevitado a prometer mundos e fundos se conseguir chegar ao poder. É normal em período pré-eleitoral. O que não é normal é que um líder político caia no ridículo com propostas estultas e mirabolantes. Mas foi o que ele fez, a propósito do Serviço Nacional de Saúde, ao dizer que o Ministério actual não tem sido o da Saúde mas sim o da Doença! Por isso - disse Rui Rio - é mister mudar-lhe o nome: ou para Ministério Promotor da Saúde, ou para Ministério da Saúde e do Bem-Estar (risos). Dado que não parece estar no seu perfeito juízo, irá ele parar ao Ministério da Doença, para que lhe “promova o bem-estar”?!
 
Infelizmente para a direita, nem Rui Rio é um Asterix, nem Assunção Cristas é um Obelix. A “poção mágica” a que os dois recorrem consiste, fundamentalmente, em ambos dizerem mal de tudo, isto é, dizerem que, com este Governo apoiado pelo “esquerdalho”, o país está muito pior desde que se foram embora a zelosa troika e o diligente Governo Passos-Portas-Albuquerque-Cristas apoiado pela sobrepujante aliança quadripartida PPD-PSD-CDS-PP. Parece não ser essa a percepção que têm os portugueses da actual situação do país. Mas bem se sabe como é habitual que, quando as suas opiniões divergem da realidade, a maioria dos membros da “elite” reaccionária considera que é a própria realidade que está equivocada.
 
Para “inflamar” este país, restam, então, para além do dr. Pedro Pardal Henriques e dos seus camionistas, o esculápio Miguel Guimarães, bastonário da Ordem dos Médicos, e a enfermeira politicamente cor-de-laranja Ana Rita Cavaco, um e outra sempre ao ataque contra o Serviço Nacional de Saúde, que consideram ir de mal a pior, mesmo pior do que no tempo da troika - como afirmou o esculápio Miguel Guimarães em 2017, esquecendo-se de que o seu antecessor, José Manuel Silva, acusou o Governo de direita ao serviço da troika de ter “esvaziado” o SNS.
 
Bem a propósito, numa recente e interessante entrevista ao Público, o médico Henrique Barros, que é presidente do Conselho Nacional de Saúde e do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto, afirmou, com toda a clareza, que o SNS, “avaliado pelos resultados, está objectivamente melhor”. Mais ainda, que, “hoje, o SNS transformou” os hospitais, que antes “eram um lugar de morrer”, “num lugar de esperança, de continuar a viver”. Também avisou que “o SNS vai continuar a ser atacado porque representa um negócio brutal em termos do volume financeiro que move”. E salientou que, “agora, há um ataque ao SNS, nomeadamente pelas forças que nunca o quiseram. Porque não nos podemos esquecer que houve gente que votou a favor e gente que votou contra o SNS no passado”. Na mouche!
 
A verdade é que as direitas parlamentares que temos, possessas por não estarem na posse das indispensáveis competências políticas, olham com muita esperança e indisfarçável gáudio para o apertar do cerco contra o Governo e o “esquerdalho” prometido pelos camionistas do dr. Pardal, pelos médicos representados pelo dr. Miguel Guimarães e pelos enfermeiros enfeitiçados pela sua bastonária Ana Rita Cavaco. Com uma pequena ajuda, se me permitem o acrescento, dos professores liderados pelo dr. Mário Nogueira, sindicalista e militante do PCP que não perderá nenhuma oportunidade para acusar o Governo de todas as malfeitorias.
 
Não é nada fácil ser de esquerda, numa Europa dominada maioritariamente pela direita e cada vez mais ameaçada pela extrema-direita xenófoba e racista!
 
*Escreve sem adopção das regras do acordo ortográfico de 1990
 
 

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/07/portugal-direita-aperta-o-cerco.html

Um asno de modéstia

José Miguel Júdice aposentou-se. Da advocacia. Sobra-lhe agora mais tempo para a plítica (tem agora uma cátedra de comentadeiro na SIC). E para dar entrevistas, claro. Deu uma recentemente ao Espessodo Balsemão. Na qual diz que ah e tal “eu devia ser um cavalo de orgulho”. Assim- nem mais. Clara Ferreira Alves, a “jornalista” que fez, enfim, o servicinho, rendida ao charme discreto do velho oportunista, soltou umas pérolas envernizadas e embevecidas a propósito da admirável biografia do estafermo.

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Já uma vez me debrucei sobre a triste figura deste fascista lambe-cus – a quem dediquei todo um verbete, a 13 de Agostro de 2011, no meu álbum dos rostos da classe dirigente, aqui

Sobre a Ferreirinha alves é que ainda não. Nunca calhou. Mas fica prometido. Na rubrica “jornalismo de merda”.

 

Ver original em 'O sítio dos desenhos' na seguinte ligação::

http://ositiodosdesenhos.blogspot.com/2019/07/um-asno-de-modestia.html

A tecnologia e a decadência do liberalismo

por B. Arjun

Rob O liberalismo está em declínio. O monstro da direita ressurgiu. A resposta global à crise dos migrantes e a velocidade com que o racismo e o comunalismo estão a ganhar legitimidade são sintomas claros da decadência do liberalismo.

A verdade é que a ditadura dos oligarcas está de volta com uma vingança, legitimando o racismo, o comunalismo, a censura e o estado de vigilância. Tudo o que os liberais consideravam errado com o comunismo voltou para assombrá-los.

O conservadorismo é a principal ideologia da maioria dos estados. Na recém concluída cimeira do G-20, a maioria, quase todos, dos líderes globais pertencia à variedade conservadora de direita. Esta realidade foi posta em evidência no cenário global pelo presidente Putin, que proclamou numa entrevista ao Financial Times: "A ideia liberal tornou-se obsoleta. … (Liberais) não podem simplesmente ditar o que quer que seja a alguém como têm tentado fazer nas últimas décadas".

Além disso, reforçando a posição internacional russa, Putin certamente estava a afastar-se da Europa do pós-guerra que promovia a democracia e os valores liberais. Estava a distanciar-se do atlantismo (ou seja, reorientar a Rússia para o Ocidente) pedido muitos de seus oponentes liberais dentro da Rússia. A política de Putin está enraizada no eurasianismo que "defende a modernização técnica e social sem o abandono das raízes culturais".

Putin talvez esteja desejoso de declarar a morte da ideia do famoso comentarista americano Francis Fukuyama que, no início dos anos 90, proclamou audaciosamente a morte da ideologia de esquerda e a vitória final do liberalismo e dos mercados livres.

As celebrações de Fukuyama justificavam-se então porque um dos principais objectivos do liberalismo, durante a Guerra Fria, era enfraquecer e finalmente derrotar o comunismo. Os anúncios prematuros de Fukuyama sobre o "fim da história" ignoraram convenientemente o cavalo de Tróia de direita que residia em meio aos liberais. Ele provavelmente assumiu que a colaboração dos direitistas e liberais, criada para derrotar o comunismo, seria eterna. Fukuyama foi ingénuo. Ele não percebeu que o conservadorismo não poderia coexistir com o liberalismo. Não viu que os liberais não passavam de tolos no jogo planeado pelos capitalistas para repelir a ameaça comunista. Depois de devorar os comunistas, o capitalismo está agora a atacar os liberais, os social-democratas.

A mudança pós-guerra fria dos liberais e conservadores rumo a uma ordem socio-económica neoliberal ampliou a distância entre ricos e pobres. As horríveis desigualdades só geraram ódio para com a ordem mundial centrada no liberalismo.

Este ódio tem sido inteligentemente aproveitado pelos conservadores. Eles habilmente mudaram a cólera pública contra os liberais, salvando assim o capitalismo de ser objecto de crítica e condenação. E isto tem sido conseguido pelo fomento de uma crise de identidade e pelo desencadeando uma onda de populismo.

Não se pode esquecer da história. O liberalismo nunca foi a primeira opção do capitalismo. A ascensão do fabianismo britânico e do New Deal americano foi meramente um estratagema táctico para salvar o capitalismo no rastro da grande depressão e do avanço do comunismo no início da década de 1930.

A TECNOLOGIA E A DECADÊNCIA DO LIBERALISMO

Analisar a declaração de Putin em termos puramente liberais dá uma sensação estranha acerca do futuro da democracia no mundo. No entanto, interpretar a morte do liberalismo em termos marxistas indica claramente que o capitalismo já não precisa mais de liberalismo.

A pergunta que precisamos fazer é: O que os encoraja a abandonar os liberais? Por que o multiculturalismo é anátema para conservadores? Por que estão eles a esmagar as classes médias?

Para responder a estas perguntas é preciso entender as mudanças e rupturas que a robótica está a provocar.

No princípio da década de 1980 capitalistas ocidentais à procura de mão-de-obra barata transferiram suas fábricas para a China e países do sudeste asiático. Eles basicamente mudaram a poluição e suas preocupações para longe das leis impostas pela ordem liberal a fim de manter a tranquilidade dentro da metrópole.

Depois de deslocalizar as fábricas, a classe capitalista ocidental concentrou-se em ganhar dinheiro liberalizando o sector financeiro. A introdução de computadores ajudou os ricos a movimentarem dinheiro por todo o mundo a uma velocidade vertiginosa. Tudo isto foi caracterizado como a fase inicial da globalização. País após país foi persuadido ou coagido a aderir ao movimento de liberalização impulsionado pelo "consenso de Washington".

O império americano atingiu seu auge após a guerra-fria. No entanto, isto perdurou até 2008, quando a crise financeira atacou as estruturas capitalistas. Contudo, apesar da ascensão da China e das contradições inerentes ao capitalismo, os Estados Unidos estão confiantes no salvamento do seu império principalmente porque pensam que tecnologias posteriores os colocam numa posição vantajosa.

Em primeiro lugar, a tecnologia está a alterar o relacionamento entre capital e trabalho. O capital sempre considerou o trabalho como um fardo pesado e incómodo. Sempre considerou o trabalhador numa fábrica como um mal necessário. A introdução de robôs e impressoras 3D que podem manufacturar produtos que vão desde um sapato até um motor de avião com a ajuda da inteligência artificial (IA), agora dá esperança ao clube de bilionários de que é possível fabricar bens sem mão-de-obra local ou estrangeira. A gestão e monitoramento do chão de fábrica podem agora ser alcançados com o clique de um botão.

Não só o trabalhador está a tornar-se redundante, como o operário de colarinho azul e o gerente estão também a desaparecer rapidamente da equação da produção. Num futuro próximo, o capitalista não exigirá ao empregado educado para actuar como um amortecedor entre o trabalhador e o proprietário. Anteriormente um empregado tinha de trabalhar arduamente para lutar por licenças e horários de trabalho regulamentados. Agora, as empresas estão a pedir aos seus empregados para trabalharem em casa. E a demanda por três dias de trabalho está a ser popularizada por aqueles que outrora propagavam "o culto do trabalho".

Esta tendência é visível na maneira condescendente com que Trump e Modi tratam a imprensa. Ambos sentem que jornalistas e repórteres podem ser dispensados, porque a tecnologia dos media sociais lhes permite que se comuniquem directamente com seu público.

O desprezo dos conservadores pela burocracia também se deve ao facto de que nos próximos anos já não será requerido a um burocrata que implemente os esquemas do governo, porque o dinheiro será enviado directamente para as contas dos pobres. As classes médias já estão a sentir o aperto e a cresce a sensação de que estão a ser empurradas para baixo.

O capitalismo entende que a nova tecnologia está a levar ao desemprego. A classe capitalista pretende reduzir o número daqueles que terá de satisfazer na era do desemprego em massa. Portanto, tanto razões sectárias como racistas ou de casta estão a ser inventadas para dividir as sociedades e manter o máximo de pessoas possível fora da rede da segurança social. Por esta razão os conservadores de direita se opõem à imigração e ao multiculturalismo.

Finalmente, por que o capitalismo conservador se refugia na retórica do populismo? A resposta está no facto de que a classe capitalista tem sempre a paranóia de uma revolta. Ela quer a paz interna para proteger a sua propriedade.

Com os novos meios de produção firmemente nas mãos das classes proprietárias, o mundo caminha rapidamente para o mais alto estágio do capitalismo – que provavelmente será mais implacável do que o actual autoritarismo que estamos a experimentar.

14/Julho/2019

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/crise/tecnologia_decadencia.html

Os asfixiados

(Pedro Marques Lopes, in Diário de Notícias, 20/07/2019)

Pedro Marques Lopes

Num comício na Carolina do Norte, uma enorme multidão gritou em coro “send her back“. Referia-se a Ilhan Omar, uma cidadã norte-americana, congressista, de origem somaliana, e respondia ao incentivo do presidente dos Estados Unidos da América.

Não há como negar um certo avanço civilizacional, fosse há uns anos – não muitos – e aquela gente, em vez de pedir o envio da senhora para a Somália, estaria a incendiar uma cruz e a pedir ao grande feiticeiro Donald Trump que liderasse o linchamento.

 

Aquela rapaziada que não prescinde da sua sagrada liberdade de expressar o seu ódio em público, de gritar o seu desprezo por direitos fundamentais, de berrar o seu inalienável direito de ser racista e xenófobo vive nos EUA. Nada daquilo podia acontecer em Portugal. Cá não há colunistas a escrever autênticos manifestos racistas, não se ouve ninguém a dizer “preto, vai para a tua terra”, não se trata pessoas de “qué frô”, como também não há gente a insultar homossexuais na rua e muito menos juízes a fazer comentários sexistas em sentenças.

O verdadeiro problema em Portugal é existir um ataque à liberdade de expressão por parte de uma frente organizada sob a égide do politicamente correto. Esse diabólico conceito que deu cabo dos direitos de livre expressão nos Estados Unidos. Aliás, o que faz com que as pessoas decidam tentar expulsar pessoas do seu próprio país é a revolta contra o politicamente correto. Ou seja, aqueles cidadãos não são racistas nem xenófobos, estão é a sentir-se tão asfixiadas com essa nova ditadura que não têm outra maneira de lutar que não seja gritar frases racistas e xenófobas.

O mesmo se passa em Itália. Os asfixiados, também para que fique claro que com a sua liberdade de expressão não se brinca, querem correr com os ciganos – não especificam para onde.

Aliás, em Portugal não é só o combate à liberdade de expressão que está em curso. Há um verdadeiro ataque às mais amplas liberdades. Agora um qualquer louco fundamentalista lembrou-se de querer multar quem deita as beatas de cigarro para o chão (fumador e atirador de beatas para o chão, me confesso). É o verdadeiro terrorismo estatal. Imagine-se que querem cercear a liberdade do cidadão de fazer lixo no espaço público. Um dia destes há multas para quem despeja o lixo no meio da Avenida da Liberdade ou para quem decida dar uma festa com música alta, às quatro da manhã, à porta de um qualquer prédio de apartamentos.

Um gigantesco enfim.

Convenhamos, era preciso não viver cá para ficar surpreendido com a quantidade de pessoas que preferiram dar mais importância aos imaginários ataques à liberdade de expressão e de imprensa do que ao manifesto racista da doutora Bonifácio – tenho de dizer, porém, que as reações à proposta de multas por atirar beatas ao chão me espantou. E que fique claro, não confundo muitas destas pessoas com quem utilizou o dito texto para enquadrar os racistas em movimentos políticos.

Há uma corrente que insiste em tentar convencer-nos de que os problemas de racismo, misoginia, homofobia, sexismo estão extintos ou a caminho disso e que o grande drama é um suposto ataque às liberdades, nomeadamente, a de expressão.

Não faço ideia onde essas pessoas vivem, mas não é em Portugal. Talvez seja num país distante onde as pessoas vivem em restaurantes da moda, casas em Cascais e fins de semana na costa alentejana.

No país onde vivo não vejo barreira de espécie nenhuma à divulgação de ideias, por mais absurdas, odiosas e atentatórias a valores fundamentais e constitucionais que sejam. Vejo, sim, uma enorme incapacidade da gente que é injuriada, ofendida, ameaçada em defender os seus direitos. Vejo que alguém que recorre aos tribunais para os proteger é vista como alguém que não lida bem com a liberdade e que se contam por os dedos de uma mão os casos de alguém que tenha sido condenado por esse tipo de crimes.

Neste meu país comparar as imaginárias limitações à liberdade de expressão à continuação de problemas de discriminação racial e social é, só e apenas, um insulto. Mais que não seja porque, simplesmente, não há nada que se assemelhe sequer a uma pulsão censória na nossa comunidade. Dava mesmo um doce a quem me explicasse que raio é o discurso politicamente correto em Portugal. Não devemos lutar contra a normalização de discursos discriminatórios e a promoção de linguagem ofensiva? Não devemos defender quem se quer defender de ofensas racistas ou homofóbicas?

Em Portugal, estamos longe de ter um tipo como Trump em cargos políticos importantes. Mas que aquele tipo de discurso está presente no espaço público, que tem apoiantes e gente que acaba por o legitimar através de conversetas sem sentido sobre o politicamente correto, não há dúvida. Muito mais próximos de um Trump e de tudo o que tipos como ele trazem para a comunidade do que de qualquer limitação à liberdade de expressão ou outras liberdades. Bem mais próximos.

Explicar sentenças

Leio que o ex-presidente da Câmara de Braga foi condenado por ter tido “intenção direta”, como explica a sentença, de favorecer patrimonialmente a filha e o genro em detrimento do erário público. Por este crime foi condenado a três anos, mas com pena suspensa. Não conheço o processo, não tenho assim opinião sobre o mérito da sentença. Desconheço, por exemplo, as atenuantes que eventualmente possam ter levado a uma pena tão baixa, num crime em que um delegado do povo trocou os interesses que jurou cuidar pelos da sua família. O que julgo saber é que pessoas condenadas pelos mesmos crimes e por valores patrimoniais menores não tiveram esta, digamos, leveza. Ninguém quer pôr em causa a legitimidade de um juiz ser completamente independente no julgamento dos factos e, muito menos, pôr em causa a justeza da sentença, pelo contrário. Existirão boas razões para as decisões serem as que foram nos mais diversos casos similares. Simplesmente, nestes casos, e dado o presente estado de coisas, era conveniente explicar estas situações de forma muito clara. Nem toda a gente domina a linguagem jurídica e é muito fácil fazer demagogia e discursos incendiários com este tipo de casos.

Assunção Cristas e as flautas do Observador

Assunção Cristas estava a fazer um bom mandato como líder do CDS e depois cometeu dois erros crassos: o primeiro foi ter-se deslumbrado com o resultado que teve em Lisboa e o segundo foi ter designado Nuno Melo como cabeça-de-lista às europeias. A combinação dos dois pode ter gerado uma tragédia para o partido. Se a má leitura do que se passou em Lisboa é compreensível, a escolha de um trauliteiro com um discurso radicalmente diferente do que estava a ser o do CDS não tem explicação lógica. Extraordinário é que, depois de ter ficado evidente que o discurso de Melo resume o CDS a um eleitorado de nicho, haja gente que defenda que Assunção Cristas o deve manter. Ou melhor, não é assim tão estapafúrdio, faz parte mesmo de uma estratégia: a de destruir os partidos de centro-direita para construir uma direita radical.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Portugal – País disfuncional

(Carlos Esperança, 19/07/2019)

A Cavaca

Enquanto os cavalos da GNR servirem mais para abrilhantar procissões pias do que para transportar militares, os lugares de capelão forem mais fáceis de preencher do que os de médico e as Ordens profissionais, Fundações e IPSSs tão difíceis de escrutinar, não se espere um módico de sensatez nos pequenos e grandes feudos enquistados no País.

 

 

Desde um sindicato de motoristas de camiões de matérias inflamáveis, que recorre a um advogado de percurso sinuoso e sem carta de ‘pesados’, para líder sindical, até à Ordem de uma bastonária que inventa e dirige um sindicato e se opõe ao exercício das funções de inspeção que cabem ao Governo, tudo é possível.

Tendo da ética a noção de que falsificar a assinatura da folha de ponto não é crime por – segundo ela – ser prática comum; conhecida a leveza com que lida com os dinheiros da OE para benefício próprio; verificadas a leviandade e a mentira com que afirmou que no SNS a eutanásia “já é de alguma forma praticada, com médicos que sugerem essa solução para alguns doentes”, mesmo sem exibir provas, não surpreende que a proteção partidária lhe garanta a impunidade em tantos e tais despautérios.

Podemos esperar do primata José António Saraiva, que se julgava fadado para o Nobel e debita inanidades no luminoso Sol, o coice da criatura contra quem for de esquerda, não se lembrando do pai, antes de perder as faculdades mentais e de ficar igual ao filho. Mas ler dessa irrelevância intelectual e ética que o legítimo direito exercido pela excelente deputada Mariana Mortágua, filha de Camilo Mortágua, torturado pela criminosa polícia do regime que Saraiva branqueia, que as suas inquirições, inteligentes e televisionadas, parecem o regresso aos tempos da PIDE, é mais do que um democrata pode suportar.

É também a atitude da azougada amiga do ora catedrático Passos Coelho, cujo exemplo a inspira, que, depois da obstrução à legítima sindicância à Ordem dos Enfermeiros e da desobediência ao cumprimento de uma ordem do Tribunal, sem ser presa, se permite o despautério de comparar uma sindicância ordenada por um governo com legitimidade democrática, às práticas do “Estado fascista italiano ou do Estado Novo português”, ao qual, certamente, respeitaria.

Fará ideia a criatura do que eram as torturas da Pide, os simulacros de julgamentos dos Tribunais Plenários, os presídios salazaristas, a fome, o analfabetismo, a emigração, a violação da correspondência ou o que foi a guerra colonial?

Terá esta analfabeta funcional noção da ofensa que faz a quem sofreu na pele a guerra, a emigração ou a prisão, do que era a demissão da função pública por razões políticas, da recusa de emprego a filhos de presos políticos nas empresas ou a vida das famílias dos exilados, presos e assassinados por um regime que o PSD de Passos Coelho e Cavaco se esforçou por branquear?

Se não fosse a minha educação chamava-lhe ‘filha de uma nota de 5 euros’. Desabafava.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Nem de propósito

Na passada quarta-feira, o Jornal da Noite da SIC juntou Bernardo Ferrão e José Gomes Ferreira para comentar o debate do Estado da Nação, que teve lugar nesse dia à tarde na Assembleia da República. Quem tivesse saudades de assistir a uma análise político-económica na linha da «economia do pingo» e em versão Dupond et Dupont - que nos é tão familiar desde o início da crise - terá ficado satisfeito. José Gomes Ferreira afirmou, por exemplo, que «este Governo, e os partidos que o apoiam, são incapazes de reconhecer que quem cria emprego são as empresas» e que estas «têm que ter um bom ambiente e não têm», desde logo porque o «alto nível de fiscalidade» a que estão sujeitas está a «encher os cofres do Estado» e a «tirar rendabilidade a muitas» delas. Nada contra a defesa deste ponto de vista, mesmo que omitindo o desequilíbrio cada vez maior, desde 2004, entre os rendimentos do trabalho e os rendimentos do capital, que o Alexandre Abreu oportunamente aqui assinalou. O que inquieta é a persistente ausência de contraditório, mesmo quando se trata - como é o caso - de comentadores supostamente alheios ao plano de análise político-partidário. Isto é, uma ausência que acentua os enviesamentos existentes nesse plano, como há poucos dias se demonstrou aqui. É caso para dizer, nem de propósito.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

O ESTÚPIDO QUE ESCREVE, OS ESTÚPIDOS QUE O PUBLICAM E AINDA NÓS TODOS QUE O LEMOS

Aqui há uns cinco anos, quase contadinhos dia por dia, João Marques de Almeida prevera O fim do Bloco de Esquerda. E explicava: havia uma «incapacidade da coexistência entre a ala radical e marxista e a ala socialista e moderada». Dentro do próprio Bloco (deduzir-se-ia), «as duas grandes famílias da esquerda portuguesa nunca se entenderão». Consequência: «para todos os efeitos, o projecto político do Bloco de Esquerda, acab(ara)».
Esqueçamos quatro anos de geringonça. No seu artigo de hoje, o "fantasma" desse tal Bloco de Esquerda aparece como um dos parceiros de uma «combinação» para Tratar os portugueses como estúpidos. E prossegue: «Muitos políticos portugueses gostam de tratar os portugueses como se fossem estúpidos». De facto, João, a palavra chave aqui é mesmo estúpido.
Você, os gajos que lhe dão cobertura publicado-o, e nós, que ainda nos indignamos com a sua estupidez! 

Veja o original em 'Herdeiro de Aécio' na seguinte ligação::

http://herdeirodeaecio.blogspot.com/2019/07/o-estupido-que-escreve-os-estupidos-que.html

A ingratidão da direita portuguesa

Depois de uma década a ocupar o Palácio de S. Bento e mais outra o Palácio de Belém, o homem que hoje comemora oito décadas de vida é ignorado pela comunicação social.
A criança que veio ao mundo no Poço de Boliqueime, há 80 anos, passa incógnito, sem fotos dos netos nas marquises da Travessa do Possolo ou na missa de ação de graças que o devoto casal, com 56 anos de ininterrupto matrimónio, não deixaria de mandar celebrar pelo que recebeu, sem precisar de dar vivas à democracia.
Os devotos do homem que nunca tinha dúvidas e raramente se enganava, do salazarista de maior destaque da democracia, enviam-lhe flores na clandestinidade e desejam-lhe felicidades em privado, enquanto em público dizem o que ele disse de Ricardo Salgado, «nunca fui amigo dele».
Nem Passos Coelho e Paulo Portas cuja permanência no governo, sem apoio da AR, se esforçou por impor, nem essa dupla sombria publicitou a sua gratidão a quem tinha pela Constituição e pelos adversários o mesmo acendrado respeito que nutria por Saramago.
Há pessoas assim, capazes de serem tão dedicadas à família e aos negócios como aos correligionários e, uma vez desacreditados, são abandonados pelos que mais lhe devem.

Dos Açores não vieram sorrisos de vaquinhas que o enlevavam, ou das Ilhas Selvagens o ruído festivo das cagarras a cantarem os “Parabéns a Você”. Talvez, algures, na praia da Coelha, o genro agradecido lhe faça um discurso e os netos dirigidos pela D. Maria se esforcem a cantar-lhe os parabéns, depois de lida a mensagem vinda de Londres, do banco Goldman Sachs, onde um seu discípula da ética, imensamente mais culto, não se esquece de quem o lançou na carreira internacional.

 

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2019/07/a-ingratidao-da-direita-portuguesa.html

Marcelo, consensos e maiorias

(José Gabriel, 12/07/2019)

O manobrador

Já se desenhava há muito, mas o recente discurso do Presidente da República na Fundação Gulbenkian avança por terrenos que, contenhamo-nos na adjectivação, são, no mínimo, duvidosos. O que se questiona, assuma-o o orador ou não, é a própria concepção de democracia. 

 

A democracia pode ser concebida em várias configurações, mas estas têm em comum alguns traços fundamentais. Todos os cidadãos têm o direito de participar em plano de igualdade, de modo directo ou por representantes, na produção de leis, na governação. Idealmente, o sufrágio universal que lhe está na base deve ser tão extenso quanto possível. A autonomia política dos cidadãos implica condições culturais, sociais, económicas e exerce-se em liberdade e igualdade e sob o domínio da Lei. A deliberação em democracia assenta no apuramento das maiorias determinadas – que podem ser, de vários modos, qualificadas -, e no escrupuloso respeito pelas minorias.

Se o que se diz atrás é aceitável, todos os devaneios mais ou menos obscuros de Marcelo Rebelo de Sousa sobre os méritos e vantagens dos consensos – termo a que nunca se faz corresponder um conceito claramente definido – sobre as maiorias – chamadas, pelo orador, conjunturais – perdem todo o sentido.

Parece ao senso comum que a noção de consenso é bondosa, pelo atávico receio da clareza da oposição de convicções, opiniões, propostas políticas. No “consenso” tudo parece diluir-se num caldo morno de indefinição, num lago de águas turvas onde se pesca com facilidade. E note-se: os campeões de consenso nunca ou raramente dão conteúdo objectivo e concreto a tais fantasmas propositivos.

Não que o consenso não possa ser uma ocorrência simpática no dia a dia, em matérias onde não nos vale a pena o confronto por ser estéril o motivo. Mas em política, opor os alegados méritos do consenso aos alegados deméritos das maiorias é um gesto fundamentalmente anti-democrático. No caso de Marcelo nem há o esforço de uma formulação muito sofisticada. Consensos são as maiorias de que ele gosta; maiorias conjunturais – como se todas, em princípio, não o fossem – são as que o desgostam. Toda a retórica da necessidade de leis estruturantes é uma treta, a não ser numa formulação tão básica e abstracta que, por ausência de matéria, mereça a concordância de todos pela via do não-ser que, como ensina o mestre, não nos leva a lado nenhum.

Marcelo sabe que qualquer maioria, mesmo que qualificada, pode ser, tarde ou cedo, contrariada por uma outra. E pode tal nunca acontecer. É isto a democracia representativa. Mas criar “consensos”, reais ou imaginários, que sejam obstáculos à livre expressão dos representantes dos cidadãos, é uma manobra pouco clara – para dizer o mínimo. No limite, esses tais consensos teriam, para ser efectivos, de se traduzir em maiorias. 

Dir-me-ão que há leis consensuais, como a Constituição da República. Não é verdade. Só a determinação de haver uma Constituição foi um momento de consenso. Logo que ela se começou a escrever, emergiram a naturais diferenças e o resultado esteve longe de ser consensual e unânime. A aprovação fez-se por significativa maioria, não por um qualquer difuso consenso. E as suas revisões por maiorias se fizeram.

Sei o que quem teve paciência para me ler até aqui pode estar a pensar: que sou ingénuo, que os consensos de Marcelo não são mais que um apelo à formação de um bloco central que, além de lhe fazer as vontades, o viesse a reeleger. Talvez tenham razão, mas isso torna tudo mais grave e nebuloso.

Vem aí a votação da Lei de Bases da Saúde. Marcelo, a quem nunca incomodou o facto de a lei vigente ter sido aprovada pela direita e ter sido – lamentavelmente – duradoura, parece agora abespinhado por a nova lei poder vir a ser aprovada pela esquerda – que, aliás, foi quem criou o SNS – a ponto de ameaçar um veto político.

Já vimos que as razões do presidente são fracas e vãs. Mas não desinteressadas. A Lei, penso eu, será votada e aprovada por significativa maioria. E Marcelo, se tiver o atrevimento de a vetar terá, desejo eu, a derrota que merece. E se, mais tarde, outra maioria alterar de novo a lei – para melhor, espero -, olhem, é a vida….

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Avisem o Dr. Rui Rio e a Dra. Assunção Cristas

Avisem por favor o Dr. Rui Rio, a Dra. Assunção Cristas e os comentadores com eles alinhados, que estão a dar informações incorrectas. Nem Portugal tem um nível muito elevado de impostos sobre o rendimento e a riqueza (é mais baixo que a média da UE), nem o peso desses impostos no PIB tem vindo aumentar (pelo contrário, caiu entre 2015 e 2018, ao contrário do que aconteceu na média da UE), como mostra o gráfico (fonte: Eurostat).

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

História? Não! Antes pequenas estórias do nosso quotidiano!

«Podemos? Não, não podemos.» foi o nome da crónica com que Fátima Bonifácio pretendeu dar uma caução académica ao discurso xenófobo e racista, que vemos exposto sem eufemismos pelo Basta ou pelo PNR. Confiante em que a levavam a sério apenas pelo facto de Ricardo Costa e os diretores de informação dos demais canais televisivos lhe darem tempo de antena nalguns debates, a autora do texto viu caírem-lhe em cima milhares de indignados opositores, que a forçaram ao silêncio quando dela quiseram obter algum comentário sobre tal reação pública.

 

O próprio diretor do «Público», que acedera a inserir tão nefandas opiniões nas colunas do seu jornal, teve de dar a mão à palmatória reconhecendo que a liberdade de expressão tem limites manifestamente ultrapassados pelo discurso de ódio da sua putativa colaboradora.

 

Nos próximos tempos poderemos ver-nos poupados a que ela ou Rui Ramos, que se filia na mesma linha ideológica, venham prosseguir o esforço pela banalização do mal inerente às suas conhecidas posições extremistas. É que, nas últimas décadas, as faculdades dedicadas aos saberes humanísticos viram-se atulhadas de gente decidida a ocupar-se da História já não tanto na perspetiva dos vencedores - porque a Revolução do 25 de abril os derrotou! - mas nela buscando uma persistente desforra. Conciliando essa promoção de ultradireitistas, a quem por exemplo o «Expresso» confiou a responsabilidade por alguns livros de História seccionados em várias semanas, com a repetida emissão pela RTP (agora no canal Memória) dos repulsivos programas de José Hermano Saraiva, quem tem estado por trás desse esforço procura dar aos portugueses uma leitura pervertida de quem foram, quem são e, sobretudo, serão, manipulando-lhes a identidade coletiva de forma a desviá-los das tentações esquerdistas de há quarenta e cinco anos e que se vêm mantendo, eleição após eleição, através da quase contínua constatação de votarem em mais de 50% pelos partidos dessa área.

 

Enquanto as esquerdas se dividiram, permitindo o facilitado acesso das direitas ao poder, esses setores andaram mais descansados. O problema foi o do acordo histórico de há quase quatro anos, que possibilitou a pacificada governação desta legislatura quase terminada. Daí o recurso a todos os argumentos populistas, que julgam recetíveis pelas camadas mais correiodamanhãzadas camadas do eleitorado. Até ver o tiro de Fátima Bonifácio saiu-lhe pela culatra e deve-a ter deixado merecidamente combalida.

 

A ela ou a Rui Ramos, como sucedeu com José Hermano Saraiva torna-se absurda a sua designação como «historiadores». Não é a História com h grande o que eles praticam ou praticaram. Na realidade eles são meras personagens de episódicas estórias da nossa vida coletiva.

 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/07/historia-nao-antes-pequenas-estorias-do.html

Fátima Bonifácio e o soufflé

08-07-2019 por Hugo Van Der Dingin "Sábado"
Vou saltar por cima dos clichés estafados sobre os ciganos, que já não há pachorra para essa conversa, de tão pouco original. E qualquer taxista expõe melhor os seus argumentos do que a Maria de Fátima.

Cara Maria de Fátima,

Permita-me que a trate assim, que estou sem pachorra para ir ao Google procurar o seu grau académico, que, li não sei onde, é de licenciada para cima. Pois que já deve adivinhar o que me traz aqui: o seu artigo de opinião «Podemos? Não, não podemos», publicado no jornal Público, que li, eu e o resto do país. E resolvi então escrever-lhe uma carta aberta, para juntar às muitas outras que lhe têm escrito por estes dias a propósito do mesmo tema. Olhe, sempre é mais uma para pôr em cima da lareira ou do piano no Natal, que, com esse feitio não deve receber muitos postais de Boas Festas. Digo eu.

Por ignorância minha ou por não frequentarmos os mesmo círculos (nunca a vi, por exemplo, num after, ou, pelo menos, não tenho ideia disso), confesso que nunca tinha ouvido falar da Maria de Fátima. Mas soube agora, a propósito do frisson que causou o seu artigo, que ando a perder bastante, pois garantem-me que a Maria de Fátima é uma respeitadíssima e publicadíssima académica. Faz muito bem, que o saber não ocupa lugar. E, como diz o povo, um burro carregado de livros é um doutor. O povo é mesmo torto, credo.

Não conto que me responda, mas adorava que esclarecesse uma dúvida que me ficou da leitura do seu texto: a Maria de Fátima, no direito à duplicidade de que todos gozamos, escreveu-o na sua qualidade de Maria-de-Fátima-Académica ou na sua condição de Maria-de-Fátima-Calhandreira? Isto parece-me fundamental para compreender o que a Maria de Fátima escreveu. Se foi na sua condição de académica, a Maria de Fátima há-de dizer-me onde é que dá aulas, para eu escrever aqui num papel para não me esquecer de nunca lá pôr os meus filhos. Se foi na sua condição de calhandreira, estão os meus parabéns, o texto está ótimo!

Mas quero acreditar que a pessoa cuja crónica saiu no Público foi a Maria-de-Fátima-Calhandreira. É que a Maria-de-Fátima-Académica não faria generalizações como «os ciganos», «os africanos», e muito menos usaria como amostragem académica uma conversa que teve no elevador com a mulher-a-dias da sua vizinha de cima.

Dirijo-me, portanto, à Maria-de-Fátima-Calhandreira, com um intuito pedagógico. Não vou comentar a sua posição em relação ao sistema de quotas que tanto a incomoda. Discuti-la-ia com gosto com a Maria-de-Fátima-Académica, se ela assim quisesse. Mas, como já vimos, não é dela a prosa do artigo.

Abeiro-me assim da janela de onde a Maria-de-Fátima-Calhandreira, de óculos na ponta do nariz, casaco de malha coçado, e naperon de crochet crescendo numas agulhas, tece as suas considerações para quem a quiser ouvir.

Vou saltar por cima dos clichés estafados sobre os ciganos, que já não há pachorra para essa conversa, de tão pouco original. E qualquer taxista expõe melhor os seus argumentos do que a Maria de Fátima. Mas, Maria de Fátima, os africanos? A Maria de Fátima escreveu mesmo «os africanos»?

O que me parece faltar à Maria-de-Fátima-Calhandreira, como sói acontecer às calhandreiras, é mundo. É viajar, é ler, é ir ao cinema, que são três boas soluções para a falta de mundo. Uma mais cara, outra média e outra barata, para não haver desculpas.

África, Maria de Fátima, é um continente. Que vai do deserto à selva, da savana às montanhas. Tem o norte e tem o sul, tem o interior e o litoral, tem a costa atlântica e a costa oriental. E cada uma destas partes tem tanto a ver com as outras como têm a ver o olho do rabo com a Feira de Montemor, como também diz o povo.

África tem 30 milhões de quilómetros quadrados, 20% do total da área terreste. Tem 54 países. Tem cerca de 2000 línguas, com 140 delas faladas por vários milhões de pessoas. E, por falar em milhões de pessoas, sabia, Maria de Fátima, que «os africanos» são (números de 2018) 1.287.920.518 de pessoas? Vou dizer por extenso, pois creio ter lido que a Maria de Fátima é de Letras: mil duzentos e oitenta e sete milhões novecentas e vinte mil quinhentas e dezoito pessoas. Ou seja, há mais 1.287.920.517 de africanos, para além da mulher-a-dias da sua vizinha de cima, que a Maria de Fátima usou para resumir «os africanos». Já agora, estima-se que haja em África 380 milhões de cristãos, ao contrário do que a Maria de Fátima parece pensar, quando escreve que os africanos não «fazem parte de uma entidade civilizacional e cultural milenária que dá pelo nome de Cristandade». É bom de ver que a Maria de Fátima nunca leu, nem sequer nas revistas das Selecções do Reader’s Digest, na privacidade da sua casa de banho, que algumas das comunidades cristãs mais antigas do mundo (dos séculos I e II) são em África.

Mesmo dando de barato que a Maria de Fátima se referia à África que fala português, ficamos com cinco países, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe, que ficam geograficamente em regiões tão distintas culturalmente como o noroeste, o sul, o oriente ou o meio do mar. E são cerca de 52.000.000 de pessoas. Cinquenta e dois milhões de pessoas.

Penso que foi a ignorância destes números que fez com que generalizasse que todos os africanos (e afrodescendentes) se «autoexcluem, possivelmente de modo menos agressivo [que os ciganos], da comunidade nacional»,  que «odeiam ciganos», que «constituem etnias irreconciliáveis», que «são abertamente racistas: detestam os brancos sem rodeios», que «detestam-se uns aos outros quando são oriundos de tribos ou "nacionalidades" rivais». E é aqui que usa o seu vasto conhecimento dos africanos, através do exemplo da mulher-a-dias da sua vizinha de cima, que, conta a Maria de Fátima, lhe disse: «Senhora, eu não sou preta, sou atlântica, cabo-verdiana». Desta história que a Maria de Fátima parece usar como exemplo académico, fica uma dúvida: a Maria de Fátima chamou preta à mulher-a-dias da sua vizinha de cima? É que, pun not intended, fica pouco claro.

Mais à frente no seu texto, e a propósito da criação de um observatório do racismo e da discriminação, escreve a Maria de Fátima: «Mas como é que se observa o racismo e a discriminação a partir dos gabinetes almofadados onde se sentariam os observadores? A única maneira de observar uma matéria tão fugidia e evanescente é frequentar feiras e supermercados baratos, é entrar nos bairros em que nem a polícia se atreve a pôr os pés». Isto escrito pela mulher que, umas linhas antes, usa o exemplo da mulher-a-dias da vizinha de cima para concluir que todos os africanos são racistas. Ai, Maria de Fátima, Maria de Fátima...

África e os africanos têm bastantes problemas, sabemos todos, e um deles, que não é de somenos, são os brancos como a Maria de Fátima que, por ignorância, mas também por maldade, usam o seu estatuto «académico» para despejar o seu ódio racista. Um discurso racista disfarçado por vezes de humanitário, trazendo para a conversa temas de facto sérios e graves como a excisão feminina, oferecendo, como contributo, a exclusão.

É curioso que a académica Maria de Fátima se queixe depois das portas escancaradas das Universidades, da entrada de analfabetos que resultaria do acesso irrestrito e incondicional ao ensino superior, quando a própria Maria de Fátima trata este tema — pelo menos neste artigo, a única coisa sua que li até hoje — como uma analfabeta.

A propósito do por vezes complicado choque de culturas, lembrei-me de uma história de Kofi Annan — pedindo-lhe desde já, Maria de Fátima, desculpa por usar o exemplo de um africano cuja craveira intelectual faz de si, Maria de Fátima, por comparação, uma analfabeta, cuja imensa pinta e classe fazem de si, Maria de Fátima, por comparação, uma frequentadora de supermercados baratos, e cujo prestígio internacional faz de si, Maria de Fátima, por comparação, tenho de dizer-lhe, a mulher-a-dias da sua vizinha de cima.

Kofi Annan casou, como sua segunda mulher, com uma condessa sueca. Vinda de um país, nas palavras da própria, onde «quando combinamos um jantar para as oito da noite, chegamos às sete e meia e ficamos a dar voltas de carro pelo bairro até chegar a hora marcada de bater à porta». Para o primeiro jantar que deu aos seus novos parentes africanos, fez a condessa um soufflé. Ora os seus novos parentes não chegaram às oito, nem chegaram às nove, chegaram às dez da noite. Já há muito que tinha ido o soufflé (que, penso que sabe, é um prato que tem de ser servido assim que sai do forno) para o caraças. A condessa ficou pior que estragada, claro. Depois de os parentes se irem embora, Annan, sempre um diplomata, lá acalmou a condessa. E acabaram por concordar que, no futuro, os parentes chegariam atrasados só uma hora e não duas, e que a condessa não voltaria a fazer soufflé.

São duas maneiras de encarar o «outro»: tratá-lo genericamente como um bárbaro selvagem, ou abdicar, de vez em quando, de um soufflé.

E esta escolha dirá sempre mais sobre «nós» do que sobre o «outro».

2 Dedos de Conversa: algumas perguntas ao jornal Público

Por falta de tempo, não escrevo um post com frases do Hitler, do Goebbels, dos teóricos racistas do regime nazi e da Fátima Bonifácio (no seu texto de opinião "Podemos? Não, não podemos", publicado no Público[1]), e a sugestão para os leitores tentarem adivinhar quais são as frases dos líderes nazis, e quais são as da Fátima Bonifácio.
Seria um exercício extremamente difícil, porque não há diferenças.
O ódio étnico e racial que Fátima Bonifácio revela abertamente no seu texto de opinião é o mesmo ódio que vivia em muitos cidadãos das sociedades alemã e europeias, o ódio que alimentou a máquina nazi e que lhe permitiu levar a cabo o Porajmos: o genocídio dos ciganos.

Em caso de dúvidas, a visibilidade maior que tem sido dada à Shoah no âmbito dos crimes nazis oferece-nos um instrumento simples para aferir o teor de ódio étnico e racial de um texto: basta trocar o grupo alvo do ataque por "judeus", e avaliar o resultado. No caso do texto "Podemos? Não, não podemos" de Fátima Bonifácio[2], ficaria assim:

A comparação com a igualdade ou paridade de género é inteiramente falaciosa. As mulheres, que sem dúvida têm nos últimos anos adquirido uma visibilidade sem paralelo com o passado, partilham, de um modo geral, as mesmas crenças religiosas e os mesmos valores morais: fazem parte de uma entidade civilizacional e cultural milenária que dá pelo nome de Cristandade. Ora isto não se aplica a judeus. Os judeus  possuem os seus códigos de honra, as suas crenças, cultos e liturgias próprios. Os judeus (e já se sabe isto desde o Mein Kampf) são inassimiláveis: organizados em famílias e parceiros de negócio, conservam os mesmos hábitos de vida e os mesmos valores de quando viviam na terra deles. E mais: eles mesmos recusam terminantemente a integração. Além disso, os judeus são abertamente racistas: detestam os brancos sem rodeios; e detestam-se uns aos outros quando são oriundos de grupos rivais. O que temos nós a ver com este mundo? Nada. O que tem o deles a ver com o nosso? Nada.

Seria imaginável que algum órgão de comunicação social que se leve a sério publicasse um texto de opinião nestes termos? Não, de modo algum.

A publicação daquele texto de opinião de Fátima Bonifácio  suscita as seguintes perguntas, que dirijo aos responsáveis do jornal Público:

1. Se publicou o "Podemos? Não, não podemos" da Fátima Bonifácio[3], que motivos apresentaria para não publicar um texto com as mesmas frases, mas sendo sobre judeus em vez de ser sobre ciganos e negros? Onde traça a linha vermelha, e segundo que critérios?
Será por respeito às vítimas da Shoah? Argumento estranho, porque os ciganos foram igualmente vítimas das mesmas políticas nazis de genocídio, e os negros foram durante séculos vítimas de um racismo que justificou o negócio da escravatura (e vice-versa).   

2. Como foi possível não se terem apercebido do ódio étnico e racial (para além da ignorância e do preconceito) subjacente ao texto que publicaram no jornal? Repito a pergunta, porque ainda não consegui recuperar da perplexidade: como foi possível?
Exijo agora do jornal Público um exercício de transparência paralelo ao que a revista Spiegel fez quando se descobriu que um dos seus jornalistas inventava as reportagens que entregava para publicar.

3. Apesar da tomada de posição de Manuel Carvalho[4] - e, pior ainda, por causa dos termos em que esta foi feita - os mal-entendidos sobre o alcance e significado da liberdade de expressão em Portugal ganharam renovada força. Para muitos, Fátima Bonifácio é a mártir mais recente do "maldito politicamente correcto que nos oprime e não deixa dizer as coisas como elas são". Um jornal não pode publicar textos de ódio étnico e racial. Pura e simplesmente: não pode. Ao publicar, e ao tentar emendar depois dizendo que cometeu um erro de análise, coloca o discurso de ódio étnico e racial no âmbito da opinião. "Começou por nos parecer que não tinha mal"...
De que modo vai o jornal Público  assumir a sua responsabilidade por, com o exemplo que deu, ter contribuído para baixar ainda mais o nível do debate sobre liberdade de expressão e a fronteira da decência do discurso no espaço público?

4. A publicação deste texto não vai ter consequências no jornal Público? Estamos perante uma das crises mais graves da sua existência? Ou não se levam a sério e portanto partem do princípio que o texto do Manuel Carvalho vai resolver o problema?

Ver o original em "Dois Dedos de Conversa" (Clicar aqui)

Rui Rio virou o druida de Asterix

A «silly season» vai ter
de esperar :
chegou a «season»
do bacalhau a pataco


No outro dia ouvi na televisão o dr. Rui Rio a prometer simultaneamente a descida dos impostos em 3,7 mil milhões de euros, o aumento do investimento público e a redução da dívida do país.
É certo que não sou economista mas a coisa fez-me espécie e a primeira pergunta que fiz foi : «se ele reduz tanto os impostos (EM BOA VERDADE, ELES ESTÃO A PENSAR É NO IRC DAS EMPRESAS !) onde é que ele vai buscar tanto dinheiro para aumentar o investimento e reduzir a dívida ?.
Depois percebi que havia a explicação de isto ser com um grande aumento do crescimento ECONÓMICO e portanto da receita fiscal daí adveniente. Mas então perguntei : « mas com isso, ele não vai elevar a «carga fiscal» nos termos em que erradamente o PSD tem andado a clamar ?.
Depois também ouvi a desculpa de que vão cortar na despesa corrente primária do Estado e aí poupam para o resto das suas promessas milagrosas. Mas acontece que a despesa corrente primária é constituida sobretudo por salários da administração pública,pelo que isto parece o anúncio de outra troika.
Tudo visto, com tanto bacalhau a pataco, o mais certo para quem acreditasse nas promessas do druida Rui Rio era ter de comer só batatas com batatas, sem lasca sequer de bacalhau.

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

A FUNDAÇÃO DA ALIANÇA DEMOCRÁTICA E A AFUNDAÇÃO BRUSCA DAQUELES QUE, RECENTEMENTE, QUISERAM APROPRIAR-SE DA DATA

5 de Julho de 1979. Fundação da Aliança Democrática. Na notícia que o Diário de Lisboa (que, recorde-se, era um jornal politicamente hostil às formações que a constituíam) podia ler-se:
«A Frente Eleitoral, constituída pelo bloco PSD/CDS/PPM, quer um presidente de direita - concluí-se do texto do acordo assinado esta manhã na sede dos centristas, subscritos por Freitas do Amaral, Sá Carneiro e Gonçalo Ribeiro Teles.
Com efeito, as forças que subscrevem o documento reafirmam a sua disposição de exigir ao candidato comum que apoiarão nas eleições presidenciais de 1981, «um contrato político inequívoco, rigoroso e público.»
Mostrando-se convictos de que o entendimento a que finalmente chegaram «será a base para a derrota política da actual maioria socialista-comunista da Assembleia da República», os partidos signatários convergem na ideia de conferir «uma nova autoridade» ao Estado, acordando em defender «a dissolução da Assembleia da República e a convocação de eleições legislativas no Outono próximo; a recusa de investidura parlamentar, pelo PSD e pelo CDS, de novos Governos de natureza apartidária antes de eleições gerais; a apresentação conjunta de um mesmo programa eleitoral de Governo e de uma mesma política económica de salvação nacional; a formação de um Governo de coligação formado com base na nova maioria e a corresponde recusa de participação em governos minoritários; e a legitimidade do referendo como inerente à soberania popular e compatível com a Constituição».
Segundo o acordo hoje assinado, os três partidos apresentar-se-ão, em princípio, ao eleitorado em listas separadas, admitindo contudo que, em certas áreas e circunstâncias, possam decidir-se pela apresentação em listas comuns.
O acordo será válido até ao termo da primeira legislatura que detiver poderes de revisão constitucional e não é extensivo aos Açores e à Madeira nem à administração do território de Macau.
A «clarificação política» que os três partidos desejam «não é compatível com a celebração por qualquer deles, de acordos de Governo com o PS e exclui, a partir da nova maioria, a participação deste último no Governo».
A notícia não é muito extensa, mas é informativamente muito rica. Ainda hoje está de parabéns quem a escreveu. Esta data da formação da AD perdeu-se durante décadas, até ter sido recuperada muito recentemente para uma formação de órfãosdo PàF que a quiseram usar para que o seu projecto tivesse uma patine que não lhe pertencia: afinal, dois dos três signatários da fotografia acima estão vivos e nenhum deles quis ter nada a ver com Miguel Morgado e a rapaziada saudosa pelo regresso de Passos Coelho. Como na altura assinalei, nem mesmo Vasco Pulido Valente, que sempre adorou dizer coisas e recordar tempos em que se achou importante, meteu a sua colher no assunto. Três meses depois já não se ouve falar do assunto. O Observador bem tenta meter gás nestas iniciativas mas a mim bastou-me ver o nome do João Marques de Almeida associado à iniciativa para encomendar logo ao padre o funeral e a missa de sétimo dia da salada russa do Miguel Morgado.

 

Veja o original em 'Herdeiro de Aécio' na seguinte ligação::

http://herdeirodeaecio.blogspot.com/2019/07/a-fundacao-da-alianca-democratica-e.html

25 anos depois, o Parlamento condena a repressão dos protestos na Ponte 25 de Abril

A repressão levada a cabo pelo governo do PSD de Cavaco Silva sobre os manifestantes que lutavam contra o aumento das portagens foi esta sexta-feira condenada.

Créditos / Sapo24

O voto de condenação proposto pelo PCP visava condenar a «repressão de manifestantes na Ponte 25 de Abril ordenada pelo Governo autoritário do PSD», assim como prestar «solidariedade com as suas vítimas».

No voto são recordados os «protestos populares contra o aumento em 50% do valor das portagens» os quais tiveram como resposta pelo então governo uma forte repressão policial no dia 24 de Junho de 1994 a qual visou limitar, pela força, o exercício de direitos cívicos.

No voto refere-se que a violência levou o País ao «sobressalto, dezenas de detenções e feridos, entre os quais um jovem que viria a ficar paraplégico após ser atingido por uma bala». Esta última vítima, 25 anos depois, ainda «aguarda o desfecho do calvário judicial que foi obrigado a percorrer pela recusa do governo do PSD em assumir responsabilidades».

Recorde-se que na sequência desta luta, o governo PSD foi «obrigado a recuar na decisão que havia tomado e a tomar medidas de resposta às exigências das populações».

Esta luta duramente reprimida, a par de muitas outras levaram ao isolamento político e social do governo do PSD que conduziu ao fim do cavaquismo.

Ao PCP juntaram-se PS, BE, PEV e PAN para aprovação do voto, à excepção de dois deputados socialistas que votaram contra ao lado de PSD e CDS-PP, Ascenso Simões e Fernando Rocha Andrade.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/nacional/25-anos-depois-o-parlamento-condena-repressao-dos-protestos-na-ponte-25-de-abril

O que custa remediar o que estragado ficara

Não é preciso fazer estudos de engenharia para retirar da observação da realidade uma conclusão de senso comum: destruir algo é fácil, recuperá-lo ou restaura-lo custa muito mais. Sendo assim os quase quatro anos e meio de que Passos Coelho e Paulo Portas dispuseram para, com a conivência de Cavaco Silva, destruírem o país, não se compadecem com os três e meio já assumidos pelo atual governo para recompor os cacos em que deixaram muitos setores da economia, mormente os que decorriam do setor público por eles entendido como inimigo a abater.

 

Não se podem aceitar as alegações dos defensores desse tenebroso passado quanto a já ter havido tempo para remediar o que quase ficou irrecuperável. Na Saúde só agora foi possível devolver a dimensão orçamental praticada quando era Sócrates o primeiro-ministro. E nos transportes andam-se agora a reabrir as oficinas da CP em Guifões para aumentar a capacidade de manutenção e reparação das carruagens necessárias para melhorar o serviço prestado por uma empresa pública que, por vontade de Passos & Portas, estaria entregue atualmente ao setor privado. Com sentido estratégico o governo acaba, igualmente, de anunciar a intenção de fazer nessas recuperadas oficinas a montagem dos 22 novos comboios, entretanto encomendados. Não será difícil crer que, depois de terem sabotado o transporte ferroviário para melhorarem as condições em que os privados os pudessem adquirir, Passos & Portas tenham o desgosto de o ver valorizado nos próximos anos retirando-lhes razões para continuarem a bater-se pela sua privatização.

 

Noutra área da governação, a da Segurança Social, também se anda a recuperar o descalabro em que o governo anterior a deixou, com a redução drástica do seu número de trabalhadores. Agora são tratados diariamente 850 pedidos de pensões e o número dos que estão à espera de decisão diminuiu para 42 mil.

 

Não é só no que depende do Estado, que a situação tende a melhorar. Do sector privado veio a notícia da rendição da Corticeira Fernando Couto ao reintegrar Cristina Tavares, a operária que despedira depois de odioso assédio moral. É por sentirem que os tempos não lhes correm de feição, que os patrões das empresas privadas andam a mostrar-se menos execráveis, porventura pensando que lá virão (para eles) melhores dias.

 

Esperemos que aguardem sentados por muito tempo porque é tempo de recuperar o Humanismo como valor fundamental a ser respeitado a nível global, seja com os refugiados salvos do Mediterrâneo, e que o horrendo Salvini desejaria ver afogados em vez de lhe baterem à porta, seja contra Trump a quem a candidata democrata Kamala Harris inculpou pela morte de Martinez Ramirez e da sua filha Valeria bem como de todos quantos estão a sucumbir às nefandas restrições para alcançarem os Estados Unidos. A recuperação da importância da dignidade, das aspirações e capacidades humanas em detrimento dos interesses dos monopólios e outros titereiros do capitalismo selvagem, constitui a maior prioridade dos tempos atuais.

 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/06/o-que-custa-remediar-o-que-estragado.html

A celebração de uma nova «escritora»

Poupar-se-iam alguns eucaliptos, com efeitos benéficos para o ambiente, se os editores evitassem a edição de alguns livros cujo desiderato próximo será o de acabarem numa unidade de reciclagem de papel ou, pior, nalgum aterro sanitário. É o que sucederá ao livro agora lançado por Assunção Cristas com pompa e circunstância, mas a cujo publicitado evento compareceram apenas alguns indefetíveis fiéis, entre os quais o inevitável Pedro Mexia.

 

Houve também quem se juntasse à festa por acreditar na possibilidade de o tempo voltar para trás. Sabe-se que não, mas Passos Coelho e Maria Luís Albuquerque prendem-se a tal ilusão, que implicaria recauchutarem pretéritas coligações com a novel «escritora».

 

Parece que o otimismo foi a tónica do discurso da festejada. Compreende-se! A tão breves semanas das legislativas, e com as sondagens a preverem reiterado desastre, só a patética imitação do montypythoniano cavaleiro, que prometia chacinas dos inimigos enquanto ia perdendo os braços ou as pernas, pode valer a Cristas antes da inevitável demissão. Calou-se quanto a ver-se primeira-ministra, mas valem-lhe as esperanças alimentadas pelo seu pensamento mágico. Ou as mentiras descaradas, porque não é que afiançou jamais ter posto em causa o otimismo de António Costa? Como disse?

 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/06/a-celebracao-de-uma-nova-escritora.html

O problema da direita face ao PS: Tweedledee e Tweedledum

(José Pacheco Pereira, in Público, 22/06/2019)

Pacheco Pereira

(Excelente metáfora e excelente texto do Pacheco Pereira. A verdadeira causa das coisas é que, ao centro, o PS e a direita são iguais, no essencial. Portugal, provavelmente, atrasou-se uma década no processo de “pasokização” dos socialistas, devido ao efeito da Geringonça que se está a esgotar, como se vê agora com a Lei de Bases da Saúde. Os eleitores vão começar a perceber que, no essencial, Mr. Dee e Mr. Dum não se distinguem. As próximas eleições podem ser já uma verdadeira caixinha de surpresas.

Comentário da Estátua, 22/06/2019)


 

No quarto capítulo do Alice Através do Espelho, de Lewis Carrol, Alice está perdida num bosque e a noite aproxima-se. Encontra o par Tweedledee e Tweedledum, a quem pede ajuda. Mas estes não são capazes de a ajudar porque estão envolvidos num conflito qualquer. A querela é sobre uma ninharia e, quando estão preparados para se batalhar por essa ninharia, aparece um corvo negro e fogem cada um para o seu lado. Vamos admitir que Alice representa os portugueses, comparação que é um elogio aos portugueses. E que Dee é o PS, e Dum o PSD e o CDS, ou vice-versa, comparação que não é um elogio para ninguém. E que o “corvo negro” é a “crise” ou o Diabo. Olhemos pois, a esta luz sombria, a célebre “crise da direita”.

Há “crise da direita”? Há e faz parte da “crise de regime”. Por que razão a direita é ineficaz, quer na versão moderada de Rio, quer na versão agressiva de Cristas, quer nos micro-partidos da Aliança, da Iniciativa Liberal, ou do Chega!? Porque são como os dois Tweedle: iguais. Alice distingue-os só porque um tem escrito Dee e outro Dum no colarinho. O facto de se guerrearem também é irrelevante, porque percebe-se que são tão iguais que estão sempre a pegar-se um com o outro. Iguais no fundamental, peguilhentos no acessório. Tweedledee e Tweedledum.

Veja-se em detalhe essa igualdade. Quais são os dois aspectos mais estruturantes da política nacional? O “rigor orçamental” e o “cumprimento das regras europeias”. Na verdade, são uma e a mesma coisa, só que as “regras europeias” não são europeias, mas apenas as dos países que assinaram o Tratado Orçamental. O descalabro dos serviços públicos, o caos na saúde, o mau funcionamento da administração pública, a gestão dos restos orçamentais, a quebra do investimento público, a alta carga fiscal, tudo isto depende do principal, mas não é o principal, é o acessório.

Como é que, no contexto do poder e da oposição, alguma vez a oposição, apenas criticando a performance da situação e não as suas opções de fundo, pode alguma vez ser alternativa? E como é que a direita pode fortalecer-se quando do outro lado há um partido, um primeiro-ministro e um ministro das finanças que fazem de forma mais consequente a mesma política que eles fariam? Sim, porque a política do “rigor orçamental” e do “cumprimento das regras europeias”, é não só de direita, como representa o núcleo duro da política de direita por essa Europa fora, que teve e tem o beneplácito dos socialistas. Tweedledee e Tweedledum.

A haver alteridade de política, ela devia manifestar-se no principal, nas causas, e não no acessório ou na gestão dos efeitos do principal. Porém, muito significativamente, estes aspectos centrais e causais são os menos discutidos no debate político entre o PSD, o CDS e o PS. Por uma razão muito simples, todos estão de acordo com os pilares da política que é seguida por Costa-Centeno e participam do “consenso europeu” sobre o qual o Presidente zela. Tweedledee e Tweedledum.

A partir desta igualdade essencial, o discurso da diferença procurado pela direita manifesta-se em mil temas que, desdobrados em mil questões, são a agenda comunicacional e política, mas nenhum permite uma crítica de fundo, que comece na raiz e depois passe para o resto da árvore. E, acima de tudo, há também um problema de legitimidade: o Tweedle sem poder não está inocente das principais opções que decorrem do “rigor orçamental” e das “regras europeias”. As políticas que agora revelam os seus efeitos perversos começaram quando o Tweedle que agora protesta tinha poder, e o que agora tem poder não o tinha à altura. A saúde está mal com Costa-Centeno? Paga-se o preço dos cortes de Passos. Os serviços públicos não funcionam com Costa-Centeno? Começou tudo nos anos da troika com o PSD e o CDS a governarem. Os impostos são altos? Pergunte-se a Passos, Portas e Cristas? Tweedledee e Tweedledum.

Acresce que um dos dois gémeos, não sei de Dee ou Dum, é mais simpático do que o outro, tira o dinheiro aos portugueses com impostos agressivos, mantém a desigualdade no mundo laboral, deixa o estado cair aos bocados, mas não insulta aqueles a que faz pagar por “viverem acima das suas posses”, distribui mais alguma coisa, e não quer fazer engenharia social como no tempo da troika-Passos-Portas. O outro Tweedle resmunga, “estragaste-me” o brinquedo, temos pois que batalhar. E batalham, batalham, fazem muito barulho, mas é uma fúria inconsequente. Tweedledee e Tweedledum.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

CDS-PP não arreda pé da ideia de esvaziar o SNS

Os centristas defendem o alargamento gradual da ADSE a todos os trabalhadores e que os seguros de saúde beneficiem do tratamento fiscal dado ao sistema de saúde dos funcionários da administração pública.

Assunção CristasCréditosTiago Petinga / Agência Lusa

Esta é a terceira proposta do programa eleitoral dos centristas às legislativas de Outubro, e a segunda referente ao sector da Saúde. Recorde-se que, no início do mês, o partido liderado por Assunção Cristas propôs que os privados e o sector social ajudassem a reduzir as listas de espera para a primeira consulta de especialidade. 

Neste caso, o CDS-PP propõe a manutenção da Assistência na Doença aos Servidores do Estado (ADSE) como «subsistema complementar» ao Serviço Nacional de Saúde (SNS), de forma a «eliminar discriminações flagrantes» entre os trabalhadores da Administração Pública e os trabalhadores do sector privado.

Desta forma esvazia o serviço público, que padece há largos anos de subfinanciamento, encaminhando os utentes para os prestadores privados de saúde, ao mesmo que acicata incompreensões entre trabalhadores. 

Outra proposta avançada pelos centristas para alavancar o negócio da Saúde passa por dar «o mesmo tratamento fiscal aos seguros privados» que é dado à ADSE no IRS, «permitindo a sua integral dedução».

Tal como vem ficando claro, tanto em intervenções na Assembleia da República, como na proposta de Lei de Bases da Saúde que apresentaram, os centristas defendem um sistema a duas velocidades. O primeiro alicerçado nos seguros privados de saúde e nos subsistemas, com intervenção do sector privado, e o serviço público, com garantias mínimas, ao contrário do que a Constituição consagra.  

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/nacional/cds-pp-nao-arreda-pe-da-ideia-de-esvaziar-o-sns

O 11 de junho, o PR e o Dr. João Miguel Tavares no 10 de Junho

Arredado dos noticiários televisivos, por razões de higiene, li depois os discursos do PR e do seu alter ego, nomeado para presidir às comemorações do 10 de Junho, em Portalegre.

Soube que o 10 de junho é quando o presidente quiser. No dia 10 foi em Portalegre e, depois de atribuir 4 medalhas de ouro a outros tantos estandartes, na Cidade da Praia; e, no dia seguinte, em Mindelo, Cabo Verde, país que tem 21 mil emigrantes portugueses, onde apenas se julgava que, além de turistas, só havia 1, Dias Loureiro, o paradigma de empresário-modelo, assim designado pelo académico-padrão Passos Coelho.

No seu discurso, o PR nomeou portugueses ilustres espalhados pelo mundo. Dado que todos eram ex-governantes do PS, deixou, para compensar, ao presidente da comissão organizadora das comemorações, um truculento jornalista da área do PSD, a leitura de uma redação com a narrativa política de Passos Coelho.

Não se esperava do Dr. João Miguel Tavares a grandeza, a eloquência e a elegância de Sampaio da Nóvoa, num dia igual, nas mesmas funções, noutra cidade, e podia poupar-nos à biografia narcisista do lugar onde nasceu, viveu e cresceu, à árvore genealógica, ao número e nome dos filhos, às suas habilitações literárias, à vida e à vinda dos sogros, de Moçambique, distraído de Camões e das Comunidades Portuguesas.

Regressou aos incêndios de Pedrógão e usou o púlpito como extensão do seu espaço no jornal Público, onde, no dia seguinte, foi reproduzido em duas páginas, 10 e 11, para vazar o azedume, onde concluiu que «…quando se trata de refletir sobre o nosso papel enquanto cidadãos, parte de uma nação e de um tecido social e político comum, colocamos uma mola no nariz e dizemos que pouco temos a ver com isso porque os políticos não se recomendam.». O jornalista, na sua indigência, afrontou quem lhe fez o convite, um político com meio século de legítima militância, o PR.

Não foi um discurso comemorativo, foi um extenso arroto da flatulência fermentada na nostalgia salazarista, na memória do “nosso Ultramar infelizmente perdido” e na moral de que só a direita é portadora.

No dia 10 de Junho, o PR fez uma escolha infeliz, confiou o discurso do dia a quem só podia dar o que deu, da forma que sabia, transformando o feriado nacional no medíocre comício populista. Camões merecia melhor.

 

Ponte Europa / Sorumbático

 

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2019/06/o-11-de-junho-o-pr-e-o-dr-joao-miguel.html

A promoção da mediocridade

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«Os medíocres quando em rebanho são perigosos» José Ingenieros
Embora carregado de combustível, o facho está apagado, os ventos internos não estão de feição a lhe pegar fogo, manter o morrão e aguardar o momento que pretendem construir para o atiçar, manda a prudência.
Insidiosamente e, com aparente naturalidade, sempre que oportuno, é dada visibilidade à extrema-direita, conferindo-lhe a importância e as condições que lhe permita progredir, e ser aceite, sem que levante a curiosidade de se saber quem são os promotores do seu protagonismo.
O Presidente da República convidou o jornalista João Miguel Tavares para presidir às Comemorações do 10 de Junho.
Este cronista, político sombra, analista poucochinho, intelectual enfezado foi chamado à ribalta, sendo-lhe concedido o estatuto de algo e puxando-lhe lustro a um currículo embaçado.
A promoção da mediocridade é a fresta por onde se infiltram trumps, bolsonaros e seus irmãos, e, estas famílias, se não usarmos o raticida adequado, infestam a sociedade.
«O meu otimismo reside na certeza de que esta civilização se vai desmoronar. O meu pessimismo teme aquilo que ela ainda possa fazer para nos arrastar na sua queda… Que época terrível esta em que idiotas dirigem multidões de cegos…» William Shakespeare – século XVI

Ver o original em As palavras são armas (clique aqui)

O regresso ao Dia da Raça?

«O Portugal da Mini – um discurso salazarista em Portalegre»

Não resisto, e cito:
«... a arenga de JMT explorou os sentimentos mais baixos das turbas: a resignação, o servilismo hipócrita e a recusa de cada português assumir as suas responsabilidades. Populismo do mais reles. A demagogia do discurso assentou em dois pilares clássicos, já utilizados por Salazar na definição da sua família na capa do livro da 3ª Classe da Escola Primária: os portugueses querem uma vidazinha, uma casinha, os filhos educados, pão e vinho sobre a mesa, um emprego no Estado, uma semana no Algarve, referiu o tribuno, numa concessão pós-moderna. Mais, os portugueses devem abster-se de assumir responsabilidades políticas – a política é uma porca e os políticos uns malandros da pior espécie, disse ele por outras palavras. Só não esclareceu que somos nós, os portugueses, a escolhê-los e a elegê-los, porque isso nos responsabiliza e o discurso da JMT é o da irresponsabilidade. Se os portugueses soubessem o que custa mandar preferiam obedecer, já Salazar sentenciou. (...) O discurso deste 10 de Junho foi um discurso salazarista, com meio século de atraso, que podia ter sido proferido por um antigo graduado da Mocidade Portuguesa. Felizmente Portugal tem muito melhor que este JMT. Infelizmente são estes demagogos sem história que sobem às tribunas da opinião pública. Não é por acaso… e é perigoso…»
Carlos Matos Gomes, Militar de Abril, aqui
Sim, é perigoso e Marcelo sabe quem convida.

Ver original em 'Conversa Avinagrada' (aqui)

As crises existenciais do centro-direita

(Anselmo Crespo, in Diário de Notícias, 06/06/2019)

Anselmo Crespo

A crise do centro direita não é nem um mito nem um prognóstico. É uma realidade que nasceu muito lá atrás e que, não tendo ainda atingido o seu epílogo, pode estar muito próximo dele. Há quatro anos, António Costa não se limitou a “roubar” o poder ao PSD e o CDS. Roubou-lhes também a agenda e desatou a correr em direção à esquerda, enquanto o centro direita ficou a esvair-se em sangue. Até hoje.

 

Passos Coelho, que resistiu até às autárquicas com o discurso do diabo, acabou mesmo por chocar de frente com ele. Não foi para o inferno, mas acabou por ser atirado para uma espécie de purgatório político, de onde muitos – incluindo, quem sabe, o próprio – ainda esperam que, um dia, consiga sair.

Se Santana Lopes representava uma espécie de evolução na continuidade, Rui Rio era uma velha novidade que acabou por tornar-se na única esperança do PSD para recuperar um eleitorado que Passos Coelho e a troika tinham deitado borda fora, mas que o Partido Socialista, apesar de tudo, não tinha conseguido aproveitar até às legislativas de 2015. Mão de ferro, limpezas profundas, recentramento do partido, uma política para a classe média, sem nunca perder o foco no rigor das contas públicas, Rui Rio prometia ser tudo isto e, ao mesmo tempo, um político de carne e osso, que diz o que pensa e pensa tudo o que diz.

Há quatro anos, António Costa não se limitou a “roubar” o poder ao PSD e o CDS. Roubou-lhes também a agenda

Um ano e meio depois, o que sobra deste PSD? Para quem fala o partido? Que alternativa tem para o país? Quem é o eleitorado deste PSD? Entre crises internas, discussões estéreis e uma estratégia de oposição ziguezagueante e permanentemente equívoca, Rui Rio perdeu-se na tradução dos objetivos que delineou para o partido e para si próprio. Para lá de dois acordos que assinou com o governo – sobre fundos comunitários e descentralização -, todos os temas que tentou impor na agenda política nacional acabaram por implodir nas contradições internas, nos protagonistas que lhe deram voz ou no amadorismo da comunicação. Não sendo o único responsável pela situação do partido – longe disso – é, neste momento o principal. Por ser o presidente do PSD em funções, mas, sobretudo, porque Rio insiste em seguir em contramão achando que todos os que estão a vir contra ele é que estão errados e ele é que está certo.

O teste não será muito difícil de fazer. Basta encomendar um estudo de opinião e perguntar às pessoas: qual é a principal mensagem do PSD hoje em dia? O que distingue, neste momento, o PSD do PS? As conclusões, estou em crer, não serão muito animadoras para a liderança de Rui Rio.

Não por acaso, esta semana, na TSF, Manuela Ferreira Leite sentiu necessidade de sugerir ao centro direita uma nova abordagem de oposição ao Governo: o défice das contas públicas, que antes nos afetava por excesso e que agora, segundo a ex-ministra das finanças, nos afeta por defeito.

Um ano e meio depois, o que sobra deste PSD? Para quem fala o partido? Que alternativa tem para o país? Quem é o eleitorado deste PSD?

Do lado do CDS, a crise é proporcional à dimensão e às características do partido. Menos óbvia e sempre com o efeito de arrastamento do PSD, que é historicamente o motor do centro de direita em Portugal. Assunção Cristas confundiu ambição com realismo. Oposição com guerrilha. No processo, esqueceu-se que o eleitorado, apreciando um bom soundbyte de vez em quando, não é estúpido. E que a política também se faz de propostas concretas – prova disso é a mudança óbvia de estratégia depois do desaire das Europeias -, de bandeiras que as pessoas compreendam e, sobretudo, de coerência.

E este é outro dos fatores que ajuda a explicar a crise do centro direita. Aos olhos do eleitorado, o PSD e o CDS perderam legitimidade para criticar a elevada carga fiscal, a falta de investimento público, as cativações ou a obsessão pelo défice. Porque fizeram igual ou pior. Porque, enquanto houver um Novo Banco para pagar, dificilmente alguém se esquecerá de quem tomou a decisão. Não que esta leitura seja totalmente justa, porque não o é. Com todos os erros que foram cometidos – muitos deles assentes em preconceitos ideológicos -, PSD e CDS governaram num período de crise e de assistência financeira. Dito de outra forma, governaram um país falido. O problema é que a memória humana, às vezes, é curta. Outras vezes, é muito seletiva.

Quatro anos depois, o centro direita em Portugal não só continua amarrado a um dos períodos mais negros da vida do país – mesmo havendo outros responsáveis -, como não teve a capacidade de se reinventar, no conteúdo e na forma. É por isso que Marcelo Rebelo de Sousa tem razão quando antecipa uma crise, ainda que o tenha feito com uma ligeireza pouco própria de um Presidente da República.

O eleitorado do centro direita não desapareceu, só decidiu não comparecer. Está distante, confuso e, claramente, à espera que o PSD, o CDS ou outro partido qualquer lhe ofereçam uma visão para o país. Para já, o PS continua virado para a esquerda. Mas, um dia, talvez mais cedo que tarde, António Costa regressará para tentar reconquistar o centro de que abdicou nos últimos quatro anos. Porque é aí que pode estar a chave para a maioria absoluta.


 

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

O Portugal da Mini – um discurso salazarista em Portalegre

Tinha curiosidade no discurso de João Miguel Tavares, presidente das comemorações do 10 de Junho de 2019. Tinha vontade, mais do que esperança, de ser surpreendido. Em várias ocasiões da minha já longa vida vi pessoas vulgares superarem-se quando colocadas em situações difíceis. Serem mais do que eles.

Na minha geração e como símbolo do que quero expor, o Fernando Salgueiro Maia, que se transformou diante dos nossos olhos no Terreiro do Paço e no Largo Carmo no “homem do leme” do poema de um génio, Fernando Pessoa, que enfrentou o Mostrengo. O 10 de Junho tem como patrono um génio que escreveu uma epopeia dos portugueses.

O discurso de João Miguel Tavares correspondeu ao que esperava dele, em vez de génio e grandeza, ele exaltou o português da mini do snack bar da cidade, aquele português que sucedeu sem percalços ao português de Salazar do copo de três na tasca da aldeia. O mesmo português do respeitinho, servil, de chapéu na mão, um tanto alarve.

O Portugal e o portugueses do discurso de JMT foram os glosados por Alexandre O’Nill no poema «Portugal», os da:

desancada varina,
(d)o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
(d)a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!  

 

João Miguel Tavares proferiu uma arenga retirada da letra do fado Uma Casa Portuguesa:

Numa casa portuguesa fica bem pão e vinho sobre a mesa.

A alegria da pobreza está nesta grande riqueza de dar, e ficar contente. Quatro paredes caiadas, um cheirinho a alecrim, um cacho de uvas doiradas, duas rosas num jardim, um São José de azulejo…

 

A Amália Rodrigues tinha muito melhor voz do que João Miguel Tavares na saga familiar, respeitável é claro, que entoou com voz fúnebre na descrição feita na sua terra natal do seu percurso. A do jovem filho de funcionários numa cidade do interior que chega onde ele chegou. Só deve existir vergonha na pobreza de espírito, digo eu. Que foi a que ele exibiu, para contrapor ao Camões.

Acontece que a arenga de JMT explorou os sentimentos mais baixos das turbas: a resignação, o servilismo hipócrita e a recusa de cada português assumir as suas responsabilidades. Populismo do mais reles. A demagogia do discurso assentou em dois pilares clássicos, já utilizados por Salazar na definição da sua família na capa do livro da 3ª Classe da Escola Primária: os portugueses querem uma vidazinha, uma casinha,  os filhos educados, pão e vinho sobre a mesa, um emprego no Estado, uma semana no Algarve, referiu o tribuno, numa concessão pós-moderna. Mais, os portugueses devem abster-se de assumir responsabilidades políticas – a política é uma porca e os políticos uns malandros da pior espécie, disse ele por outras palavras. Só não esclareceu que somos nós, os portugueses, a escolhê-los e a elegê-los, porque isso nos responsabiliza e o discurso da JMT é o da irresponsabilidade. Se os portugueses soubessem o que custa mandar preferiam obedecer, já Salazar sentenciou.

João Miguel Tavares lembrou que é o primeiro presidente das comemorações do 10 de Junho nascido na liberdade do pós-25 de Abril. Referiu que frequentou a escola primária pública, o liceu público e a universidade pública. Pelo seu discurso se conclui que o ensino, de qualquer natureza, não altera a natureza. Não fornece nem carácter, nem coragem. O ensino não dá grandeza a quem a não tem.

No Portugal de Salazar o vinho dava de comer a um milhão de Portugueses. No Portugal apresentado por João Miguel Tavares, são as mini que alimentam os seus portugueses e umas maledicências com tremoços.

Quer isto dizer que alguns temas da letra do fado que João Miguel Tavares proferiu em Portalegre, da corrupção à irresponsabilidade, não são candentes e não devem ser enfrentadas e punidas? Não, em absoluto. Quer apenas dizer que neste dia, ainda mais do que nos outros, devemos apelar ao que melhor temos, aos nossos melhores, que devemos ser individualmente mais exigentes em vez de nos lamuriarmos e de clamarmos por salvadores que nos conduzam como um rebanho. Nem uma palavra sobre o que julgo ser grande problema da democracia portuguesa: o sistema judicial em roda livre e coberto de privilégios.

O discurso deste 10 de Junho foi um discurso salazarista, com meio século de atraso, que podia ter sido proferido por um antigo graduado da Mocidade Portuguesa. Felizmente Portugal tem muito melhor que este JMT. Infelizmente são estes demagogos sem história que sobem às tribunas da opinião pública. Não é por acaso… e é perigoso…


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/o-portugal-da-mini-um-discurso-salazarista-em-portalegre/

Como se fala com esta gente?

Acabei de ver o sr. Rio, de meticulosa educação na Escola Alemã, a dizer que o PS é uma abertura para a extrema-esquerda!!! O quê? o sr. não sabe que tem sido através dos séculos com guerras, opressões, escravaturas e humilhações sem fim, que surgem revoltas e Revoluções?

 

E começaram a ladrar contra o marxismo. O Marx só fez uma explicação científica da secular exploração do homem pelo homem. Nenhum explorado precisa de ler o Marx… a propósito, o Samora até dizia que tinha nascido com o Marx.

E Bolsonaro, Trump e a cáfila de lacaios Europeus desatam a atacar o conhecimento, a Ciência (excepto armas e venenos para matar, claro!)… era bom ser tudo analfabetos, não era? chicote, bairro da lata, drogas para acalmar, puxar à desgraça, ao suicídio… Miseráveis cobardolas.

E atacam a corrupção! A sério? porque é que nunca ouvimos essa gente a atacar os banqueiros corruptos? É gente fina, até parece mal dizer que são ladrões. Ouvi a palavra roubar com muita insistência dirigida a este Governo, mas nunca para quem fez o mal e a caramunha com o nosso país.

E matar jornalistas virou moda, urbi et orbe… começaram pelo desemprego, pela “prateleira”, desemprego, e quem insiste tem a bala à espera.

Estamos em eleições para a Europa.

O que me incomoda é não se querer ver o “inimigo principal”.

Alguém tem alguma dúvida que o grande plano do Imperialismo Americano é destruir a Europa? que o grande ódio é ter aparecido o Euro com mais força que o dólar? que o plano sistemático é criar divisões entre todos nós?

Agora, até já começaram a atacar o Papa Francisco! Pois, estão com saudades do Pio XII e do João Paulo II que encheu o Sollidarnosc com sacos de dólares dados pela Mafia italiana!

Talvez um dia se façam estas contas.


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/como-se-fala-com-esta-gente/

Silêncios interesseiros

Filme: "Este país não é para velhos", Cohen
Se há uma coisa boa que teve a anunciada "crise" governamental foi ter gerado o silêncio de Marcelo. Marcelo diz que esteve mais de uma semana calado porque "tudo o que dissesse limitava a liberdade". A sua liberdade de decisão quanto ao eventual diploma sobre o tempo de serviço dos professores. Na verdade, Marcelo esteve fortemente envolvido no tema da "crise" quando - fruto do seu destempero e hiper-actividade inconstitucional, que o faz sentir-se invulnerável - pressionou o governo a negociar mais com os sindicatos. E quando a "crise" rebentou, atingiu-o em cheio no peito. Por isso, Marcelo quis ficar quieto, fingindo-se morto, antes que tudo lhe caísse em cima, como caiu em cima de Rui Rio e de Assunção Cristas. Cristas falou e perdeu. Rui Rio tentou o silêncio, mas não conseguiu. Marcelo hibernou e a coisa passou. Agora, com o tema do SIRESP e sobre a possibilidade de nacionalização ou de aquisição por parte do Estado de posição majoritária no seu capital, Marcelo mantém-se igualmente calado. E diz que não fala por ser... um processo em curso e sensível. Na verdade, trata-se de um tema que lhe é caro - os incêndios - e sobre o qual Marcelo interveio tanto e tão repetidamente... Mas há bem pouco tempo, Marcelo fartou-se de intervir - e mal! - sobre a Lei de Bases da Saúde e, esse também, era "um processo em curso e sensível". Noutro tema - sobre a contratação pública de familiares - até interveio raiando a inconstitucionalidade, quando quis propor leis ao governo sobre o seu gabinete! Qual é o critério?  Eis a resposta dada por Marcelo Rebelo de Sousa:
“Quem intervém muitas vezes, não intervém por uma mania, por um estilo, por uma obsessão. Intervém por uma necessidade, e quando entende que a necessidade impõe estar calado uma semana, duas semanas, três semanas, tão depressa está calado como fala todos os dias”,explicou o chefe de Estado. E num ano marcado por três eleições Marcelo Rebelo de Sousa avisa: “Os portugueses têm de se habituar”porque o silêncio “pode repetir-se”.
Pois claro que pode! Agora só falta esclarecer qual foi a "necessidade" de intervir tantas vezes sobre a Lei de Bases da Saúde e a "necessidade"de nada dizer sobre SIRESP ou sobre os múltiplos casos laborais que lhe batem à porta e aos quais Marcelo se esquiva a dizer uma palavra. E qual a "necessidade"de, ao mesmo tempo, lhe ser tão fácil telefonar às apresentadoras Cristina Ferreira e Fátima Lopes, se não será mais esta faceta populista de um Presidente que condena os populismos... Resta a esperança de que Marcelo tenha retirado a ilação "necessária": a sua intervenção não deve entroncar na estratégia política de certas formações e interesses. E muito menos ter um papel inconstitucional de intervir no sentido de alterar os "processos em curso" de elaboração das leis. Nem que seja porque há momentos em que o podem matar politicamente.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

És populista e não sabias?



Os novos liberais gostam de frases ousadas, que dêem visibilidade. Depois de já ter afirmado, num rasgo de notável perspicácia, que "somos todos privados", Carlos Guimarães Pinto e a recentemente formada Iniciativa Liberal continuam a surpreender e a apresentar conclusões inovadoras. A estratégia de partido pequeno apostado na afirmação pela irreverência é facilmente percetível e dificilmente digna de nota, mas o último "argumento" apresentado pela IL merece a nossa atenção por uns minutos.


Desta vez, a conclusão é a seguinte: quanto mais liberal um país, maior o aumento salarial. Na sua conta do Twitter, os liberais começam por notar que "Portugal foi um dos países da União Europeia em que os salários aumentaram menos nos últimos 20 anos." Certo. A novidade está no diagnóstico. O peso de fatores estruturais como a capacidade produtiva, o perfil das indústrias e serviços dos países, a capacidade negocial dos trabalhadores, os governos e as políticas de cada país, e até mesmo os diferentes pontos de partida de há 20 anos são meros pormenores. Na sua análise, com a confiança de quem passou 5 minutos a ler a página da Wikipedia sobre economia, os liberais usam um indicador opaco de liberdade económica e concluem que “o socialismo limita a qualidade de vida dos trabalhadores”, é que “os dados comprovam-no”, e contra dados não há argumentos, não é assim?

Pois bem, a estratégia é engraçada mas tem perna curta - desde logo porque somos levados a perguntar de quem é a culpa afinal. Do "socialismo", claro, mas não houve "socialismo" em Portugal nos últimos 20 anos. Houve, sim, um aprofundar da integração europeia sob princípios de liberais de desregulação laboral e redução do peso do Estado na economia. O caso fica confuso - o que "comprovam" afinal "os dados"?


Mas há um segundo problema. É que dados há muitos, e alguém, certamente mal intencionado, pode ser levado a tentar o truque com outros. Em jeito de exemplo, aqui fica um dado inovador à atenção dos nossos liberais, capaz de mudar a forma como pensamos o combate às alterações climáticas: quanto menos piratas, mais aquecimento global. Pode parecer estranho, mas como contrariar, se os dados o “comprovam”? Será preciso recuperar a pilhagem de navios para cumprir o Acordo de Paris?

A polémica pode ser divertida mas tem um senão, é que convém estar minimamente preparado.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Paulo Mota Pinto (PMP) – sindicalista e revolucionário

Se há um paradigma de oportunismo político, Paulo Mota Pinto é um exemplo quase perfeito.

Após a promiscuidade dos serviços secretos com a Ongoing, protagonizada por Silva Carvalho, a AR, impedida de averiguar, ao abrigo do segredo de Estado, no dia 20 de junho de 2014, o plenário votou, de manhã, a lei que coíbe fortemente o trânsito direto de agentes dos serviços de informação para o sector privado, com o voto do deputado do PSD, Paulo Mota Pinto. 

Na tarde desse dia, o ex-conselheiro do TC e deputado do PSD, aceitou tornar-se CEO do BES, sendo presidente do Conselho de Fiscalização do Sistema de Informações da República Portuguesa (CFSIRP). A queda em desgraça de Ricardo Salgado impediu-o de disfrutar a avença e iniciar-se na banca. Perdeu uma «pipa de massa», na pitoresca expressão de outra referência ética, especialista em armas químicas, Durão Barroso.

Como se nada tivesse acontecido, o homem de confiança de Proença de Carvalho e de Ricardo Salgado, voltou às funções que, em boa verdade, não abandonou. Ao presidente do CFSIRP bastou-lhe «cancelar o cancelamento das atividades». O aspirante a banqueiro, «cancelando todas as atividades no âmbito destas funções», considerava-se sem problemas de consciência. Confrontado pela Lusa, PMP tinha afirmado que, «nesse caso [e só nesse], renunciará aos cargos de deputado e de fiscalizador das secretas».
Fui repescar estes factos, ao ver o político destacado do PSD a defender, de forma calorosa, os sindicatos de geração espontânea.

PMP, sob o título “O medo das greves livres”, no artigo semanal no JN de 25 de abril deste ano, surpreendeu com a calorosa defesa dos sindicatos alheios à influência partidária, e a satisfação pela maior capacidade reivindicativa, numa alusão clara à greve cirúrgica dos enfermeiros e à do Sindicato Nacional de Motoristas de Matérias Perigosas.

Quem diria que os trabalhadores têm no académico e político o paladino dos seus interesses de classe!?

É eloquente esta frase de PMP: «O medo da greve e do movimento sindical livre não é, na realidade, mais do que o medo de perda do poder sobre os interesses dos trabalhadores, e da possibilidade de os instrumentalizar para os seus próprios fins políticos e partidários».

Com oito arrobas de ética e fervor revolucionário, o passado do apoiante não garante o futuro da coerência solidária com a classe operária. Parece mais um colete amarelo XXXL.

No dia de ontem, PMP foi a melhor metáfora da Direita.

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2019/05/paulo-mota-pinto-pmp-sindicalista-e.html

Pela VOX do CDS

Miguel Guedes | Jornal de Notícia | opinião

O episódio folclórico da passadeira arco-íris na Avenida Almirante Reis, em Lisboa, é sintomático. O que os representantes do CDS de Arroios conseguiram fazer aprovar por unanimidade na Assembleia de Freguesia foi unanimemente destruído por esta nova versão espanholada "à lá VOX" do CDS.

Para homenagear a comunidade LGBTI no dia 17 de Maio (foi este o dia, em 1990, que a Organização Mundial de Saúde retirou a homossexualidade da Classificação Internacional de Doenças), nada melhor então do que retirar os esqueletos do armário. A doença do extremismo populista está à solta e o CDS procura arrumar-se à Direita, deixando o conservadorismo na gaveta, para soltar o Nuno Melo que tem em si. Cai assim por terra o pequeno percurso progressista de Assunção Cristas, caminho tão mal-amado no partido que nem precisou de perder eleições internas para perder terreno na liderança.

À medida que esbranquiça passadeiras para todos, recusando o simbolismo folclórico de uma passadeira colorida mas ilegal face às regras do trânsito interno do partido, os barões assinalados do CDS juntam-se aos sectores VOX para reclamar aquilo a que têm direito: o direito à convivência e à mudança de rumo. O partido que permite que a "Tendência Esperança em Movimento" evolua internamente com um líder, Abel Matos Santos, que defende que o 25 de Abril comemora "a liberdade de abortar, de mudar de sexo de manhã e à tarde", saudoso do tempo de Salazar em que "Portugal era um país a sério e governado por gente a sério", psicólogo clínico que considera que os homossexuais "têm mais doenças e sofrem mais", não pode queixar-se, um dia que não virá longínquo, de que a tendência vire poder ou cresça o suficiente para cindir com o partido para se autonomizar. Criar um monstro. Foi assim que o VOX espanhol surgiu, pela mão das pessoas às quais o PP espanhol deu guarida em nome da "velha" Espanha de cinzas. Nuno Melo, ao recusar o rótulo de extrema-direita ao VOX, sabe bem no que o CDS se está a tornar ou está a permitir criar. Estranho é que o CDS de Cristas vá atrás.


Como uma VOX colorida entre as mãos de uma criança, este CDS lava mais branco. Quando o próprio PP espanhol acusa o VOX de extremismo à Direita, é quase cândido ver como Nuno Melo defende a família, secundado por todo o partido (mesmo as correntes mais liberais do CDS...), ao não considerar de extrema-direita um partido racista e xenófobo, ultranacionalista, que pretende acabar com a lei de violência de género, liberalizar o porte e uso de armas, implodir as autonomias, perseguir imigrantes, construir muros "intransponíveis", ilegalizar partidos e organizações independentistas e fazer tábua rasa da Constituição espanhola. Este é o "novo" CDS, o carro-vassoura da democracia-cristã que deixa os "bastas e chegas" partirem primeiro para varrer o caminho.

*Músico e jurista

O autor escreve segundo a antiga ortografia

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/05/pela-vox-do-cds.html

Tricas menores, mas a que convém estar atento!

Esta comemoração da Revolução de Abril trouxe duas tricas, que não valem mais do que isso! , embora denunciem a persistente tentativa de retrocesso por quem a rejeitam.

 

A primeira teve a ver com o convite endereçado pelos organizadores do Fórum Jurídico de Lisboa a um ministro brasileiro, tristemente mediatizado pelo inequívoco comportamento fascista. Em vésperas da data mais querida dos portugueses por lhes constituir sinonimo de Democracia, de Liberdade, essa presença só pode ser lida como indesculpável provocação. E o biltre comportou-se como decerto pretendiam quem o trouxe à festança.

 

Foi lamentável que só José Sócrates tenha reagido, demonstrando ser filho de boa gente, e pior ainda, que Augusto Santos Silva se tenha sentado e deixado fotografar ao lado do biltre. Por muitas razões diplomáticas, que possa alegar em defesa do gesto, não pode ignorar o quanto ele indignou uma significativa maioria de portugueses para quem essa imagem constitui inesquecível agravo. Após ter secundado uma parte da União Europeia no reconhecimento da marioneta de Trump como presidente de um país, que tem um outro legitimado pelo voto do seu povo, pode-se considerar que o ministro dos Negócios Estrangeiros já conheceu melhores dias.

 

Os noticiários não contemplam apenas esse motivo de sobressalto. Também contam que os fascistoides lusos, mascarados com coletes amarelos - porque não lhes sobra esperteza para criarem outras simbologias, que não as imitadas além-Pirenéus -, irão «manifestar-se» esta tarde no Terreiro do Paço, voltando a agitar o papão dos cem mil aderentes que dizem ter nas redes sociais. É claro que repetirão o flop de semanas atrás, quando arregimentaram à sua volta mais jornalistas do que quantos latiam. Mas essa gente repelente continua a fazer trabalho de sapa para vir a ser reconhecida como incómoda, garantindo o tal quarto de hora de notoriedade a que se julgam com direito.

 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/04/tricas-menores-mas-que-convem-estar.html

Se o ridículo matasse...

Perante a reportagem fotográfica de Paulo Cunha para a Lusa podem-se colocar duas questões, para além da reação imediata que nos suscita: se o ridículo matasse, Assunção Cristas, Nuno Melo, e quantos se lhes associaram na apanha das couves, já estariam em câmara ardente à espera das devidas pompas públicas.

 

O ridículo não comporta, porém, essa potencialidade letal, que nos pouparia a novas demonstrações de tão primário populismo. Dediquemo-nos, por isso, às perguntas óbvias: será que os dirigentes do CDS acreditam que haja muitos eleitores a deixarem-se embalar por essa súbita conversão às competências campesinas? Ou será que nós, sofisticados citadinos, olhamos para a bizarra reportagem e não a imaginamos quanto possa, efetivamente, embalar uns quantos ingénuos dispostos a afiançarem a sinceridade de quem não se coíbe de utilizar as mais desonestas manobras de marketing político?

 

Otimista na vontade, espero que a grande maioria dos que irão votar daqui a um mês olhem para essas fotografias e se indignem com o oportunismo de Cristas & Cª. Mas, algumas vezes tenho de me reconhecer pessimista na razão, e constatar que não falta quem acredite no que julgaríamos totalmente estapafúrdio...

 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/04/se-o-ridiculo-matasse.html

Quem quer casar com o agricultor?

(Por Estátua de Sal, 23/04/2019)

Melo, Cristas e Soares

Em tempos idos os fenómenos mais marcantes e inéditos no país estavam, por estranha tradição, associados ao Entroncamento. Agora parece que passaram para a Golegã.

O CDS, comandado pela azougada Dra. Cristas, foi apanhar couves à Golegã. Assim, acompanhada por Nuno Melo e Pedro Mota Soares, também conhecido pelo “ministro lambreta”, decidiram participar no projeto “Restolho“, da Associação de Agricultores AGROMAIS, que consiste na apanha de couves para o Banco Alimentar de Abrantes.

 

As razões de tão insólita acção de rua prendem-se necessariamente com as eleições europeias que, segundo a última sondagem da Aximage, não irão ser nada auspiciosas para o CDS e para a Dra. Assunção ainda que, segundo ela, irá lutar nas eleições de Outubro para ser Primeira-Ministra.

De facto, os votos que Marinho Pinto angariou nas europeias de 2015 (7%) vão ser avidamente disputados pelo PSD e pelo CDS, e nada melhor do que recorrer à apanha da couve, para tentar captar esses votos do MPT, o partido da Terra. Ora, como se tratam de eleições europeias, a Dra. Assunção só falhou o alvo quanto ao tipo de couve porque, em vez da colheita de couve lombarda, deveria ter optado pela apanha de couves de Bruxelas. Sempre era mais condizente.

Há que dizer que os políticos em campanha eleitoral resvalam muitas vezes para situações de extremo ridículo. Mas esta direita do CDS bate todos os outros aos pontos e cada vez nos surpreende mais com estas acções dignas de figurar no anedotário nacional. Acham eles que os portugueses são tão estúpidos e atrasados mentais que consideram que apanhar meia dúzia de couves em frente às televisões, transforma qualquer mortal num agricultor encartado e merecedor de empatia profissional, e quiçá, de ser merecedor de escolha nas urnas.

A Dra. Assunção sempre teve queda para as “causas agrícolas”, queda que herdou do seu patrono e mentor Paulo Portas. Ainda a haveremos de ver com o boné e com o capote alentejano que o dito patrono costumava usar para se passear em campanha eleitoral por feiras, mercados e romarias.

Mas mais ainda. Como o CDS está, para já, divorciado do PSD de Rui Rio e vai a votos sozinho para mostrar o que vale, a Dra. Assunção está livre e prendada para casar com quem se chegue à frente e a queira levar ao altar.

Com este tirocínio da apanha da couve, a Dra. Assunção mostrou os seus predicados de mulher da lavoura e alertou todos os jovens agricultores casadouros para o facto de não se assustar com as duras exigências dos trabalhos do campo.

Por isso, ó jovens agricultores, quando forem ao programa da SIC, não escolham qualquer uma e protestem, junto da produção, por só vos confrontar com candidatas de fraco curriculum.Mandem vir a Dra. Assunção que já tem provas dadas em todas as artes agrícolas, desde a apanha da couve até à pasta ministerial da actividade. É garantido que melhor esposa não podem ambicionar. 🙂


 

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Até amanhã de manhã à hora do pequeno-almoço

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A evolução da vida política está ir de mãos dadas com a indústria de entretenimento. Mede-se pelo impacte mediático. O que se passa é o que acontece nos media. O resto é o interior; só existe em tempo de incêndios.
Os cidadãos habituaram-se à preguiça cívica. Não procuram o presente, nem o futuro. Assistem ao que lhes é apresentado. A escolha é entre o canal que “dá” as notícias. E absorvem até à cegueira.
De repente surge uma greve caída do céu ou à medida pascal. Implantam-se os piquetes das televisões em tudo quanto cheire a combustível.
Sai do altar do CDS a santa Cristas. “Pesarosa” e dotada de uma autoridade resultante dos quatro anos a empobrecer a esmagadora maioria dos portugueses e a tornar ainda mais rica a minoria bem minoritária a quem ela, e o governo de que fez parte, deu milhares de milhões.
Apareceu vestida de negro nas palavras aladas no vento do veneno – dou até amanhã de manhã ao senhor Primeiro-Ministro para resolver o caos criado.
Amanhã de manhã, provavelmente antes do pequeno-almoço. Houve um período que era tudo “já”, há quarenta e cinco anos.
O CDS é isto: dar-se ares de mandar. As televisões aproveitam, precisam de oxigénio e Cristas segue a fazer de conta. Só que por vezes a diferença entre a mensagem e o mensageiro é tão gritante que a mensagem cai no ridículo.
Os camionistas pertencem ao setor privado que a direita arenga que não faz greves, ou melhor, só as faz quando sabem que amanhã de manhã tem de estar resolvida.
Outro fenómeno extraordinário de sucesso em matéria de celebridade mora em Belém, no palácio. Vogou em todos os canais ao longo de anos a dar notas e o luso reino lorpa a assistir às reprovações. Sempre sabe bem saborear o mal dos outros. Além do mais eram coisas do Celito.
Ele é como é. É o que ele diz. Mas não é. É consoante as nuvens. Se vê que uma selfie vem a calhar tira-a, nem que seja com alguém que deixa muito a desejar em termos de inserção social. Ele não pergunta pelo registo criminal… diz.
Se dá jeito uma viagem de camião embarca. Se quer ser apanhado a dar mergulhos ele arranja a surpresa e os basbaques embasbacam.
Se o seu amigo João Lourenço lhe organiza um programa de arromba, ele apanha as canas e faz de Celito. É o que se queira.
Se acha que o governo tem de resolver o conflito dos camionistas, mesmo que o conflito seja entre privados, ele faz um escarcéu que se ouve em todo o lado. É a solidariedade institucional; se o governo está mal, deixa que ele ajuda a ficar pior; se estivesse bem, ele é que sabia do otimismo do Costa…
O que nos vale é que o de Belém é mais largo em prazos que a santinha da rua da Madalena. Viva a Páscoa

Ver original em ' O Chocalho' na seguinte ligação:

https://ochocalho.com/2019/04/22/ate-amanha-de-manha-a-hora-do-pequeno-almoco/

Sindicalismo

Os motoristas de matérias perigosas criaram um sindicato que fez uma greve com um presidente alheio à profissão e o vice-presidente advogado e patrão.

Não usaram um direito, juntaram exigências legítimas, chantagem e terrorismo de extrema-direita.

Não há nada melhor para criar inimigos aos trabalhadores do que a violência que os patrões aplaudem e incitam, com um sombrio “sindicalista” a dirigir a greve.

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2019/04/sindicalismo.html

Trabalhar até aos 80 anos, ou o conto do vigário

(Francisco Louçã, in Expresso, 19/04/2019)

Mais uma “cavacada”

 

Houve quem notasse que o recente estudo sobre a Segurança Social, patrocinado pela Fundação Manuel dos Santos, tem um mensageiro que é o retrato do problema: a Jerónimo Martins é campeã de salários baixos (exceto ao seu presidente, que em cada mês ganha dez anos de salário médio da empresa), mas o relatório regista o risco de falta de receitas contributivas no futuro. Notar essa contradição não basta, no entanto, para tratar do problema, pois há mesmo um problema. Como todos os estudos verificam, há um risco demográfico: se as migrações não compensarem a redução da natalidade, e era necessário que o fizessem, o aumento da esperança média de vida vai alterando o equilíbrio geracional que ainda permite superavit na Segurança Social portuguesa.

Há um problema, mas as soluções podem ir por caminhos diferentes. Assim, os autores do estudo não podem ficar ofendidos por ser notado que as suas soluções, aumentar a idade da reforma para os 69 anos, baixar o valor das pensões ou entregar parte do pecúlio aos fundos privados, segundo o modelo sueco, seguem a cartilha liberal: ou se trabalha mais, ou se recebe menos, ou se joga a pensão no casino. E isto só tem dado maus resultados. Entretanto, Cavaco Silva veio radicalizar uma destas ideias, sugerindo que se poderia chegar no futuro a trabalhar até aos 80 anos. O curioso é que este gosto pelo abismo está a ser apresentado como uma “reforma da segurança social”, excluindo aliás a alternativa óbvia que seria determinar novas formas de financiamento.

ATÉ AOS 80 ANOS, DISSE?

Depois da revolução industrial do início do século XIX trabalhava-se nos países europeus desde os seis ou oito anos, durante dez a 14 horas por dia e até morrer. Em 1870 continuava-se a trabalhar até morrer mas com limite de horário: em França um trabalhador faria 3430 horas por ano, na Bélgica 3754, em Itália 3290. No início do nosso século, no ano 2000, em França já só se trabalhava 1644 horas, em Itália 1840 e na Bélgica 1770. No nosso tempo o horário de trabalho reduziu-se para metade, não se começa a trabalhar antes dos 16 anos e há direito à pensão de velhice. Ou seja, acompanhamos o aumento da esperança de vida reduzindo o tempo de trabalho, mesmo que haja desigualdades nesse processo: trabalhamos hoje em Portugal em média 1722 horas por ano mas na Alemanha ficam-se pelos 1356. Em todo o caso, por toda a Europa reduzimos o peso do trabalho, entrando mais tarde e reformando-nos antes de morrermos, e diminuindo o horário enquanto somos ativos.

A introdução da idade da reforma foi também uma das formas de limitar o tempo total de trabalho. É verdade que, quando foi estabelecida a regra dos 65 anos, era na presunção cínica de que pouca gente viveria depois dessa idade. Mas criou-se um direito que foi ampliado pelo sucesso do prolongamento da esperança média de vida.

A ideia espantosa de aumentar a idade da reforma para os 69 ou para os 80 anos procura reverter essa conquista civilizacional e impor o reconhecimento de que devemos trabalhar mais para viver menos tempo com uma pensão menor.

A BOLSA OU A VIDA

Ora, para empreender esta cruzada contra o progresso civilizacional é preciso algo mais do que topete, é necessário um interesse forte. Aumentar o tempo de trabalho e reduzir os salários reais, usando uma mistura de medidas de congelamento salarial (dez anos na função pública em Portugal), de redução do pagamento por horas extraordinárias e férias, de aumento dos ritmos de trabalho e de uberização e precarização, tornaram-se o mantra da gestão moderna. Esse é o interesse das empresas na gestão da produção. Mas há ainda outro interesse nesta luta civilizacional e é maior.

Esqueçam então a idade da reforma, aumentará em doses discretas para não perturbar as eleições, partindo aliás de normas diferenciadas: é de 60 anos na Coreia do Sul, 61 na Suécia, 65 no Reino Unido, 65 anos e 7 meses na Alemanha, 67 anos na Itália, a caminho dos 67 em Portugal. No entanto, nenhum aumento da idade da reforma resolve o que está em causa na Segurança Social.

O facto é que os 69 ou os 80 anos são espantalhos para assustar. Aqui é que bate o ponto: os sistemas serão adaptados a bem (com novos financiamentos) ou a mal (aumento da idade da reforma e redução das pensões). Mas ao sistema financeiro só interessa mesmo o dinheirinho: como a garantia das suas rendas elevadas exige sempre a ampliação da acumulação, precisa de captar os descontos dos trabalhadores, que são o maior ativo financeiro do mundo que ainda lhe escapa parcialmente. Entregar esses valores aos fundos financeiros é um objetivo que fará girar o mundo e, para tanto, é preciso criar o pânico. A única proposta que nos põem em cima da mesa é então esta: a bolsa ou a vida.


A sinistra ideologia de género

Intrigado com essa sinistra conspiração que corre por aí como “ideologia de género” e não tendo à mão os livros de Dan Brown ou outra literatura sobre maçonaria, carbonária, Opus Dei e o Clube de Bilderberg, que certamente me industriariam sobre o caso, não tive outro remédio que não consultar a imprensa acerca do mistério. Ora, a semana passada invadiu-me a pacatez com duas provas fulgurantes sobre o que seria tal conspiração, que não hesito em partilhar com os leitores, que sei que são gente desconfiada e mesmo cética, mas que cederão pela certa perante a força da evidência.

A primeira veio por via de um causídico afamado, Pedro Proença, que já teve lugar de destaque na Ordem e na candidatura autárquica do PSD nas Avenidas Novas, em Lisboa, tendo sido depois alcandorado a comentador num programa desportivo, “Prolongamento”, e a frequentador de uma “A Tarde é Sua”, numa televisão. Pois o dito advogado terá vertido em requerimento a doutrina da tal “ideologia de género”, explicando que se devia evitar juíza mulher dado o seu género ser dado a erros e perturbações. Casos raros, explicou, “muitíssimo” raros e excecionais, mas casos existem em que só homem pode julgar: “Os autos incluem-se na percentagem muitíssimo marginal e excecional dos processos em que é humanamente impossível a uma juíza mulher e mãe ser tão imparcial quanto um juiz homem”. Venha homem, que mulher não serve, peticionou ao digníssimo tribunal. Foi um pandemónio, houve mulheres e até homens que acharam que essa ideia de o sexo poder perturbar a capacidade de aplicar a lei era algo esdrúxula, a TVI acabou com a participação do cavalheiro nos dois programas e ele sentiu-se ofendido. Explicou mesmo que “pautei a minha participação semanal na antena daquela estação pela defesa intransigente dos direitos de cidadania, igualdade de géneros, tendo, com risco próprio e de forma frontal, denunciado centenas de situações em que os direitos dos cidadãos foram colocados em causa, sendo dos comentadores que mais casos de violência doméstica denunciaram”. Ele, “com risco próprio e de forma frontal”, denunciando centenas de casos, mostrou que se preocupava com as mulheres vítimas, mas que há os tais casos em que tem de ser juiz homem, lá isso há. “Ideologia de género” em estado puro, só homem pode ter determinadas responsabilidades, a elas falta-lhes o discernimento para serem “imparciais”.

O segundo acesso de “ideologite de género” veio de esfera mais elevada. Foi pela mão de Ratzinger, ou Bento XVI, Papa-emérito, que foi publicado um artigo sobre “A Igreja e os abusos sexuais”. Diz o prelado que nos anos 1960, e no tempo do Concílio do Vaticano II, os “padrões vinculados à sexualidade colapsaram completamente” na sociedade, tendo como consequência que “grupos homossexuais” se instalaram em “vários seminários”. A tese é que a pedofilia estaria a ser incentivada por este caos sexual, vá-se lá saber porquê, dado que a Igreja Católica impõe o celibato e a assexualidade aos seus dignitários. Mas há aqui uma conspirativa “ideologia de género”, bem se nota, pois estes insinuantes “grupos de homossexuais” estavam destinados a trazer o mal-estar à sua instituição. Ratzinger, que raramente tem quebrado o silêncio, achou que a causa merecia lembrar que a sua Congregação para a Doutrina da Fé, que um dia foi pelo nome de Inquisição, é que devia julgar estes casos, sempre no recato da Igreja.

Aqui têm. Como se vê, a “ideologia de género” instalou-se, seja para explicar que há solenidades que só cabem aos homens seja para lembrar que o pecado está por todo o lado.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Os desígnios que as nossas direitas porfiam em cumprir

Privatizar a Segurança Social. Privatizar o que resta do sistema bancário (CGD). Mesmo escondendo tanto quanto possível essas intenções as nossas direitas não parecem ter imaginação para mais. Mas seria possível orientarem-se noutras direções? Este texto mostra porque a resposta a essa pergunta é um rotundo não!
Se há elogio, que se deva fazer às direitas é a de não perderem coerência. Pode-as liderar um radical adepto do neoliberalismo mais selvagem como o era, e é!, Passos Coelho, um conservador meio saloio como Rui Rio, ou uma oportunista como Cristas capaz de dizer uma coisa e o seu contrário conforme sinta a direção dos ventos. Os objetivos são e serão sempre os mesmos: obsequiarem os grandes interesses privados de quem são meras marionetas.

 

O debate parlamentar de ontem - onde António Costa prosseguiu o seu habitualveni, vidi, vici! - demonstrou, a quem ainda pudesse ter alguma dúvida, como se mantém constante a agenda relativa à Segurança Social. O estudo pago pela Fundação do Pingo Doce assim o prenunciou. Recorrendo a falaciosas elucubrações, destinadas a suscitar o medo, senão mesmo o pânico em quem, sendo mais jovens, ainda há pouco começou a descontar para o nosso sistema previdencial, essas direitas apostam na criação das condições favoráveis a que percentagem crescente de eleitores se disponha a votar em propostas, que retirem ao sistema público as receitas para as transferir para quem, tendo perdido nos bancos e nos seguros os lautos retornos aos seus investimentos, encaram as falsas promessas dos PPR’s a forma de se financiarem e prosseguirem na financeirização das economias. 

 

Veem nessas estratégias dois objetivos: se as economias das nações agirem em função dos interesses dos fundos de investimentos, as direitas têm garantida a sua sobrevivência por muitos mais anos, porque facilmente controlarão os poderes executivo, legislativo e judicial, a par dos meios de comunicação social, que lhes servirão de altifalantes junto dos iludidos eleitores. Estes facilmente serão convidados a acreditarem ser essa a genuína tradução do que se entende como Democracia. Por outro lado prosseguirão um «internacionalismo financeiro», que, complementado com a disseminação dos populismos xenófobos, melhor enleiem os condenados à irreversível pauperização.

 

O que leva Steve Bannon - e sobretudo quem dele faz a cabeça-de-cartaz dessa estratégia - a apostar nessa estratégia é precisamente a convicção de não ser possível perdurar por muito tempo a situação de acumulação de capital por uma minoria cada vez mais exígua, enquanto os 99% restantes se frustrarão, ano após ano, por verem reduzidas as capacidades de usufruto de tudo quanto a sociedade de consumo «oferece», mas a custos cada vez mais inacessíveis.

 

É que o tio Marx continua pleno de razão: é a luta de classes, e a dominante sabe-o e tenta precaver-se dos sobressaltos futuros. É por isso mesmo, que formiguinhas de termiteiras para cujas rainhas diligentemente trabalham, as nossas direitas - sejam elas quem as comande! - não podem deixar de fazer as tarefas que lhes estão distribuídas. E a privatização da Segurança Social será osso que nunca abdicarão de abocanhar.

 

Razões de sobra para que não nos poupemos a esforços para lhes sabotarmos os planos e impormos uma alternativa socialista, que reduza significativamente as desigualdades e crie uma sociedade mais livre e justa.

 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/04/os-designios-que-as-nossas-direitas.html

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