Cultura

“Há muita gente a passar fome” no sector das Artes (alguns artistas receberam 50 euros de apoio)

 

foto: sxc

Não vai haver condições para abrir muitas salas de espectáculos a 1 de Junho, como está permitido, alerta-se no sector das Artes, onde há “há muita gente a passar fome”. Alguns artistas só conseguiram receber 50 euros de apoio da Segurança Social.

 

Estes alertas são feitos por Paula de Carvalho, do Movimento pelos Profissionais de Artes Performativas, em declarações no programa “As Três da Manhã” da Rádio Renascença.

“Não vai ser fácil abrir. As pessoas não têm condições“, destaca Paula de Carvalho, notando que “estão paradas desde Março” e que “muitas pessoas tiveram de devolver todo o dinheiro que já tinham de bilhetes, tiveram de pagar lay-offs adiantados”.

“As condições não são as melhores para começar no dia 1 de Junho”, nota, frisando que “algumas empresas não têm já capacidade para abrir”.

 
 

Paula de Carvalho dá o exemplo de Filipe La Féria que fez notar que “o Politeama tem 700 e tal lugares e só pode abrir com 100”. “Com 100, não se consegue pagar um espectáculo”, aponta.

Por outro lado, não é certo que as pessoas apareçam para os espectáculos. “As pessoas estão a ir à praia, mas vão ao teatro? Vão ouvir fado? Como vai ser?”, questiona.

Paula de Carvalho nota que o sector precisa, “provavelmente, de 30 milhões na mão” e “a fundo perdido que foi o que fizeram outros países, nomeadamente Inglaterra, Itália, França, Alemanha”, diz.

“É uma situação complicada, há muita gente a passar fome, muitos dos mais novos, gente que começou há muito pouco tempo”, denuncia ainda, frisando que “há também pessoas que não o querem dizer”.

Paula de Carvalho destaca que os artistas têm, habitualmente, “contratos de três meses e depois estão quatro ou cinco sem trabalhar”. “Chama-se a isso intermitência e é exactamente a situação que já há muitos anos é falada pelos artistas e não é resolvida”, aponta.

Alguns dos artistas que descontam para a Segurança Social conseguiram receber algum apoio, mas muito pouco. Paula de Carvalho refere que, nestes casos, a Segurança Social fez “uma espécie de soma dos últimos meses, viu quanto dava e houve pessoas a receber 50 euros“.

Em cima da mesa, está uma proposta para que seja criado uma “espécie de seguro”, como existe “em França, também na Bélgica e no Luxemburgo”, para que quando os artistas “ficam sem trabalho, tenham sempre algo a que se agarrar”.

Na sexta-feira passada, António Costa anunciou um apoio de 30 milhões de euros para a Cultura, no âmbito da pandemia de covid-19, que foi recebido com “preocupação” pelo sector das Artes. Há dúvidas quanto à forma como será aplicado o dinheiro e de onde é que ele vem.

ZAP //

 
 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/ha-muita-gente-passar-fome-no-sector-das-artes-alguns-artistas-receberam-50-euros-apoio-326358

Maria Velho da Costa - Falecimento

 
 
Em 1972 foi publicada a obra “Novas Cartas Portuguesas” da autoria de três escritoras portuguesas, com sólida cultura, prestígio literário e forte participação cívica. Ficariam conhecidas internacionalmente pelas “Três Marias”.

Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa ousaram desafiar a primavera marcelista como percursoras da luta pela emancipação feminina, num país onde a mulher estava condenada à menoridade cívica, política e social.

É imperioso recordar que, então, estavam vedadas às mulheres a carreira diplomática, a magistratura, as forças armadas e policiais e, na prática, os lugares de poder. Nem a saída para o estrangeiro lhes era permitida sem autorização do marido.

A coragem cívica das três intelectuais, cuja luta continua um exemplo para os combates pela igualdade de sexos, deve ser exaltada agora, na morte de mais uma das autoras, e no futuro. Não há vitórias definitivas e a emancipação da mulher está longe de ser uma conquista irreversível, mesmo em países ditos civilizados.

A exaltação da condição feminina e a defesa da liberdade para as mulheres era mais do que a Igreja, as famílias e a sociedade podiam tolerar, mas a denúncia da repressão e da censura do regime fascista, que Marcelo, o Caetano, se esforçava por disfarçar, não era um direito, era uma afronta à moral e aos bons costumes definidos nas sacristias, no Movimento Nacional Feminino, na Legião e na Mocidade Portuguesa. A denúncia da guerra colonial, da discriminação, da falta de liberdade, da subordinação da mulher era uma heresia intolerável.

Não surpreenderam os insultos, a difamação e as calúnias da imprensa da ditadura. A coragem, inteligência e cultura eram valores intoleráveis em mulheres, e a dignidade a utopia de mulheres depreciativamente designadas ‘intelectuais’, quando o casamento era o principal papel que lhes era reservado, para adereço de maridos ricos, reprodução e escravatura da vontade masculina.

O Estado acusou as escritoras de terem escrito um livro “insanavelmente pornográfico e atentatório da moral pública”, e levou-as a julgamento como se a denúncia a guerra colonial, a discriminação, a falta de liberdade, a marginalização das minorias e a subordinação da mulher na sociedade não fosse a vergonha do Estado terrorista em que homens e mulheres vegetavam.

Em 25 de Abril de 1974 decorria ainda, num tribunal de Lisboa, o julgamento que já levava dois anos, mas não eram as autoras que ali eram julgadas e arriscavam a prisão, era a ditadura que se expunha ao ridículo e à censura internacional. A 7 de maio de 1974, dias após a Revolução do 25 de Abril, o juiz Lopes Cardoso leu a sentença:

“O livro ‘Novas Cartas Portuguesas’ não é pornográfico nem imoral. Pelo contrário: é obra de arte, de elevado nível, na sequência de outras obras de arte que as autoras já produziram”.

Quando se apagou mais uma estrela no firmamento das mulheres portuguesas que se bateram pela dignidade feminina, é obrigatório lembrar o seu inestimável contributo para a democracia.

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2020/05/maria-velho-da-costa-falecimento.html

Mulheres e Revolução – Maria Velho da Costa

 
 
Mulheres e Revolução
 
Maria Velho da Costa
 
Elas vão à parteira que lhes diz que já vai adiantado. Elas alargam o cós das saias. Elas choram a vomitar na pia. Elas limpam a pia. Elas talham cueiros. Elas passam fitilhos de seda no melhor babeiro. Elas andam descalças que os pés já não cabem no calçado. Elas urram. Elas untam o mamilo gretado com um dedal de manteiga. Elas cantam baixinho a meio da noite a niná-lo para que o homem não acorde. Elas raspam as fezes das fraldas com uma colher romba. Elas lavam. Elas carregam ao colo. Elas tiram o peito para fora debaixo de um sobreiro. Elas apuram o ouvido no escuro para ver se a gaiata na cama ao lado com os irmãos não dá por aquilo. Elas assoam. Elas lavam joelhos com água morna. Elas cortam calções e bibes de riscado. Elas mordem os beiços e torcem as mãos, a jorna perdida se o febrão não desce. Elas lavam os lençois com urina. Elas abrem a risca do cabelo, elas entrançam. Elas compram a lousa e o lápis e a pasta de cartão. Elas limpam rabos. Elas guardam uma madeixita entre dois trapos de gaze. Elas talham um vestido de fioco para uma boneca de papelão escondida debaixo da cama. Elas lavam as cuecas borradas do primeiro sémen, do primeiro salário, da recruta. Elas pedem fiado popeline da melhor para a camisa que hão-de levar para a França, para Lisboa. Elas vão à estação chorosas. Elas vêm trazer um borrego à primeira barraca e ao primeiro neto. Elas poupam no eléctrico para um carrinho de corda.
Coisas que elas dizem:
— Se mexes aí, corto-ta.
— Isso não são coisas de menina.
— O meu homem não quer.
— Estuda, que se tiveres um empregozinho sempre é uma ajuda.
— A mulher quer-se é em casa.
— Isto já vai do destino de cada um.
— Deus não quiz.
— Mas o senhor padre disse-me que assim não.
— Dá um beijinho à senhora que é tão boazinha para a gente.
— Você sabe que eu não sou dessas.
— Estás a dar cabo do teu futuro com uns e com outros.
— Deixa-te disso, o que é preciso é sossego e paz de espírito.
— Comprei uns jeans bestiais, pá.
— Sempre dá para uma televisão daquelas novas.
— Cada um no seu lugar.
— Julgas que ele depois casa contigo?
— Sempre há-de haver pobres e ricos.
— Se tu gostasses de mim não andavas com aquela cabra a gastar o nosso.
— Põe o comer ao teu irmão que está a fazer os trabalhos.
— Sempre é homem.
Elas olham para o espelho muito tempo. Elas choram. Elas suspiram por um rapaz aloirado, por duas travessas para o cabelo cravejadas de pedrinhas, um anel com pérola. Elam limpam com algodão húmido as dobras da vagina da menina pensando, coitadinha. Elas escondem os panos sujos de sangue carregadas de uma grande tristeza sem razão. Elas sonham três noites a fio com um homem que só viram de relance à porta do café. Elas trazem no saco das compras uma pequena caixa de plástico que serve para pintar a borda dos olhos de azul. Elas inventam histórias de comadres como quem aventura. Elas compram às escondidas cadernos de romances em fotografias. Elas namoram muito. Elas namoram pouco. Elas não dormem a pensar em pequenas cortinas com folhos. Elas arrancam os primeiros cabelos brancos com uma pinça comprada na drogaria. Elas gritam a despropósito e agarram-se aos filhos acabados de sovar. Elas andam na vida sem a mãe saber, por mais três vestidos e um par de botas. Elas pagam a letra da moto ao que lhes bate. Elas não falam dessas coisas. Elas chamam de noite nomes que não vêm. Elas ficam absortas com a mola da roupa entre os dentes a olhar o gato sentado no telhado entre as sardinheiras. Elas queriam outra coisa.
Elas fizeram greves de braços caídos. Elas brigaram em casa para ir ao sindicato e à junta. Elas gritaram à vizinha que era fascista. Elas souberam dizer salário igual e creches e cantinas. Elas vieram para a rua de encarnado. Elas foram pedir para ali uma estrada de alcatrão e canos de água. Elas gritaram muito. Elas encheram as ruas de cravos. Elas disseram à mãe e à sogra que isso era dantes. Elas trouxeram alento e sopa aos quartéis e à rua. Elas foram para as portas de armas com os filhos ao colo. Elas ouviram faltar de uma grande mudança que ia entrar pelas casas. Elas choraram no cais agarradas aos filhos que vinham da guerra. Elas choraram de ver o pai a guerrear com o filho. Elas tiveram medo e foram e não foram. Elas aprenderam a mexer nos livros de contas e nas alfaias das herdades abandonadas. Elas dobraram em quatro um papel que levava dentro urna cruzinha laboriosa. Elas sentaram-se a falar à roda de uma mesa a ver como podia ser sem os patrões. Elas levantaram o braço nas grandes assembleias. Elas costuraram bandeiras e bordaram a fio amarelo pequenas foices e martelos. Elas disseram à mãe, segure-me aqui os cachopos, senhora, que a gente vai de camioneta a Lisboa dizer-lhes como é. Elas vieram dos arrebaldes com o fogão à cabeça ocupar uma parte de casa fechada. Elas estenderam roupa a cantar, com as armas que temos na mão. Elas diziam tu às pessoas com estudos e aos outros homens. Elas iam e não sabiam para aonde, mas que iam. Elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café esfriado. São elas que acordam pela manhã as bestas, os homens e as crianças adormecidas.
in Cravo(1976).
 
 
 
 

Via: voar fora da asa https://bit.ly/2LWxhKN

Morreu a escritora Maria Velho da Costa

 

A escritora portuguesa Maria Velho da Costa, Prémio Camões em 2002, morreu este sábado, aos 81 anos, disse à agência Lusa a realizadora Margarida Gil, amiga da família.

 

Segundo Margarida Gil, a premiada romancista estava fisicamente debilitada, mas lúcida e morreu de forma súbita em casa, em Lisboa.

Considerada uma das vozes renovadoras da literatura portuguesa desde a década de 1960, Maria Velho da Costa é autora de conto, teatro, mas sobretudo do romance como obras como “Maina Mendes” (1969), “Casas Pardas” (1977) e “Myra” (2008).

Maria Velho da Costa foi ainda uma das coautoras, juntamente com Maria Teresa Horta e Mara Isabel Barreno, de “Novas Cartas Portuguesas” (1972), uma obra literária que denunciava a repressão e a censura do regime do Estado Novo, que exaltava a condição feminina e a liberdade de valores para as mulheres, e que valeu às três autoras um processo judicial, suspenso depois da revolução de 25 de abril de 1974.

Nascida em Lisboa, em 1938, Maria Velho da Costa faria 82 anos no próximo dia 26 de junho.

No percurso literário, Maria Velho da Costa foi amplamente premiada. Em 1997, recebeu o Prémio Vergílio Ferreira pelo conjunto da obra literária, com o romance “Lúcialima” (1983) recebeu o Prémio D. Diniz, e o romance “Missa in albis” (1988) foi Prémio PEN de Novelística.

Com a coletânea “Dores” (1994) recebeu o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco da Associação Portuguesa de Escritores (APE) e o Prémio da Associação Portuguesa de Críticos Literários.

Em 2000, a APE atribuiu-lhe o Grande Prémio de Teatro por “Madame”, e o Grande Prémio de Romance, por “Irene ou o contrato social”.

O último romance que publicou, “Myra” (2008), valeu-lhe o Prémio PEN Clube de Novelística, o Prémio Máxima de Literatura, o Prémio Literário Correntes d’Escritas e o Grande Prémio de Literatura dst.

Em 2002 foi galardoada com o Prémio Camões, em 2003, foi feita Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique e, em 2011, Grande-Oficial da Ordem da Liberdade.

Em 2013 recebeu o Prémio Vida Literária, da APE, afirmando, no discurso de aceitação, que a literatura não é só “uma arte, um ofício”, mas também “a palavra no tempo, na história, no apelo do entusiasmo do que pode ser lido ou ouvido, a busca da beleza ou da exatidão ou da graça do sentir”.

“Os regimes totalitários sabem que a palavra e o seu cume de fulgor, a literatura e a poesia, são um perigo. Por isso queimam, ignoram e analfabetizam, o que vem dar à mesma atrofia do espírito, mais pobreza na pobreza”, afirmou na altura.

A par da escrita, Maria Velho da Costa desempenhou várias funções oficiais na área da Cultura: Foi adjunta do secretário de Estado da Cultura em 1979 (o escritor Helder Macedo) e adida cultural em Cabo Verde (1988-1991), tendo também pertencido à Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses.

Licenciada em Filologia Germânica, pela Universidade de Lisboa, foi ainda leitora no King’s College, em Londres, e autora de argumentos ou diálogos para cinema, trabalhando com nomes como João César Monteiro, Margarida Gil e Alberto Seixas Santos.

No final de 2012, quando o romance “Casas Pardas” foi adaptado para teatro, numa versão de Luísa Costa Gomes com encenação de Nuno Carinhas, Maria Velho da Costa dizia, em entrevista à agência Lusa, que “a relação escritor-leitor é muito misteriosa e nem todos os escritores têm como objetivo mudar a vida ou mudar os outros”.

Para a escritora, “há um lado da escrita, como em toda a arte, que é um lado mais do que de resposta, é um lado de pergunta que não tem necessariamente um conteúdo social”.

// Lusa

 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/morreu-escritora-maria-velho-da-costa-326214

Cultura, património cultural e a responsabilidade social dos intelectuais

Shintaro_Kago

«Mastigação ruidosa» (2018), do ilustrador japonês Shintaro Kago (1969) 

Cultura e Património Cultural, material e imaterial, são conceitos relativamente recentes na longa história da humanidade, bem como o reconhecimento da sua importância nuclear na identidade de um povo de uma nação, da sua soberania. Como T.S.Elliot escreveu, O tempo presente e o tempo passado / são, talvez, presente num tempo futuro / e o tempo futuro contido no tempo passado1, é essa relação dialéctica entre o passado, o presente e o futuro de um povo, de uma nação que a Cultura e o Património Cultural consubstanciam.

Durante séculos os patrimónios culturais foram objecto dos mais diversos vandalismos. É na Revolução Francesa que a Assembleia Constituinte cria uma Comissão dos Monumentos com a missão de proteger e conservar as obras de arte, o que estava em contraciclo com a fúria revolucionária que destruía tudo o que simbolizava o poder absolutista no exercício do controlo social e imposição de crenças políticas, sociais e religiosas. É essa mudança de mentalidades em relação ao património cultural e à cultura que inicia um processo de protecção, conservação e valorização do património e uma, ainda que tímida, democratização da cultura.

Tem o seu reverso que é o percepcionar-se que a supremacia política deve apoiar-se na afirmação da supremacia cultural. Uma estratégia que Napoleão Bonaparte colocou em prática.

Nas campanhas napoleónicas o imperador fazia-se acompanhar por uma corte de intelectuais que avaliavam e inventariavam as obras de arte a roubar. A pilhagem de igrejas, catedrais, conventos, museus, colecções privadas por toda a Europa e Norte de África foi sistemática e sem precedentes. Troféus de guerra para mostrar ao mundo o poder de Napoleão e a supremacia política e cultural da França. Derrotado Napoleão, o Segundo Tratado de Paris, de 20 Novembro de 1815, pela primeira vez na história determina a devolução das obras de arte aos seus países de origem.

O segundo grande roubo sistemático de património cultural foi realizado pelos nazis na Segunda Guerra Mundial. O projecto de Hitler é similar ao de Napoleão. Projectava construir um enorme complexo cultural em Linz, dedicado às obras que o führer considerava reflectirem a ideologia do partido nazi.

A campanha de devolução das obras pós-guerra foi muito publicitada e originou a jurisprudência da Convenção de Haia de 1954, que estabeleceu regras internacionais sobre o património cultural e está na origem do trabalho desenvolvido pela UNESCO, as classificações de Património Cultural Material e Imaterial da Humanidade, para salvaguardar universal e intemporalmente os patrimónios imóveis, os patrimónios intangíveis e os patrimónios naturais, representativos da diversidade cultural, natural e da expressão criativa em todo o mundo. Com essas e muitas outras iniciativas de organizações locais, nacionais e internacionais, vertida em abundante legislação, deveria a Cultura e o Património Cultural Material e Imaterial e o Natural estar protegido de qualquer atentado e a cultura, na multiplicidade das suas manifestações ser um dos grandes esteios das identidades nacionais.

Não está, e os atentados agora são outros de outro calibre. Nos centros decisores do capitalismo internacional, com destaque para as instituições financeiras sediadas nos EUA, prepara-se a intensificação de uma nova onda de privatizações de tipo novo e radical: vender o máximo possível de bens imobiliários estatais, incluindo os patrimónios histórico-culturais e naturais.

O editorial de 17 de Janeiro de 2014, da revista Economist, «The 9 trillion dolars sale», não deixa margem para dúvidas. Escrevem que Thatcher e Reagan usaram as privatizações como ferramenta para combater os sindicatos e transformar em receitas diversos serviços públicos, telecomunicações e transportes, e que os seus sucessores no século XXI, «necessitam fazer o mesmo com os edifícios, terrenos e recursos naturais, porque é um enorme valor que está à espera de ser desbloqueado». Reconhecem a dificuldade da avaliação de alguns desses activos, como o Louvre, o Pártenon ou Parque Nacional de Yellowstone. Dificuldade obviamente superável se recordarmos os inúmeros artigos na comunicação social corporativa que aconselhavam os gregos a venderem os seus monumentos para saldarem as dívidas.

A cultura do «casino cósmico»

Neste «casino cósmico», como o definiu Georges Steiner, o perigo é real, multiforme. Não se devem menorizar as suas formas directas ou indirectas de privatização do Património Cultural aparentemente mais tímidas como as do programa Revive, nem a formatação dos padrões culturais pelo imperialismo cultural, nem a crescente bordelização da cultura pelo turismo cultural, nem a perda de capacidade crítica em que os padrões estéticos, ainda que muito contestados, são progressivamente substituídos pelas ditames do mercado, ainda que mascarados em lenga-lengas fastidiosas e repetitivas salpicadas de considerações artísticas.

A normalidade da anormalidade do estado de sítio cultural que se vive é tudo se reger pelas leis do mercado, crescendo nos charcos do entretenimento agitados pelo furor bulímico em que normalizam os chamados eventos culturais – o conceito eventos tem uma forte carga ideológica indiciando a banalização destruidora de quaisquer hipóteses de projectos culturais de democratização da cultura explodidos nos lugares comum de criação de novos públicos, leiam-se os regulamentos da Europa Criativa –, coloridos pacotes de mercadorias que são açambarcados para serem consumidos sem deixarem rasto. O seu único objectivo é disfarçarem o vazio comatoso desta sociedade, o seu spleen para, na melhor das hipóteses, o ocultarem protegendo-nos. Laboriosamente as forças dominantes foram moldando o gosto para depois o alimentarem com qualquer coisa que é sempre a mesma coisa. Essa dita cultura, mau grado o intenso ruído em que se envolve para abafar as vozes dissonantes, é parte integrante do aparelho repressivo do totalitarismo democrático que impõe o pensamento único.

Desde os anos 60 que se tem alargado a superfície global onde se vai dissolvendo o território, o exercício de soberania, a língua e a identidade cultural, tornados conceitos móveis e transitivos. O objectivo é a conquista do mundo pelo mercado. Nessa guerra os arsenais são financeiros e o objectivo da guerra é governar o mundo a partir de centros de poder abstractos. Megas pólos do mercado que não estarão sujeitos a controlo algum excepto à lógica do investimento. A nova ordem é fanática e totalitária. A cultura é um dos alvos dessa guerra e o mercado, que não reconhece outra hierarquia cultural que não seja a do que é rentável, ocupa cada vez mais o espaço que antes era ocupado pelo Estado.

O meio intelectual, a partir dos anos 50, já se tinha apercebido dessa situação e se alguns consideram o advento da dominação do mercado sobre a cultura como uma expropriação outros, como Adorno e Horkheimer, percebem claramente que essa dominação intermediada pelas nascentes indústrias culturais e criativas é «um sistema político e económico que tem por finalidade produzir bens de cultura – filmes, livros, música popular, programas de televisão, etc. – como mercadorias e como estratégia de controlo social.»2

A produção de produtos ditos culturais faz-se em linhas tayloristas que impõem um ritmo em que deixa de existir tempo para pensar a criação artística, o que acaba por ser uma forma de censura económica, pauperizando a cultura até a reduzir a uma sucessão de entretenimentos não significantes, em que tudo é idêntico. O património cultural e os museus são o alimento substantivo do turismo cultural em que a relação, que deveria ser estrutural e estratégica, permanece numa nuvem de indefinições, confusão de conceitos e de áreas de actuação. O que interessa, o que conta é o que gera dinheiro, muito dinheiro. A introdução ao Programa-Quadro Europa Criativa 2021-2027 da União Europeia (UE) é elucidativa: «a cultura está no centro do rico património e da história da Europa e tem um importante papel no aumento da atractividade de lugares e no reforço da identidade única de espaços específicos. A cultura e a criatividade podem ser importantes motores e impulsionadores da inovação, bem como uma fonte significativa para o empreendedorismo. A cultura é um importante motor para o aumento das receitas de turismo, numa altura em que o turismo cultural é um dos segmentos do turismo com maior e mais rápido crescimento a nível mundial.» É um texto esclarecedor pela miscigenação de conceitos em que o que acaba sempre por vir à superfície é a gestão, o empreendedorismo, como adubos da inovação. A importância do «rico património e da história da Europa» é o «aumento da atractividade de lugares», leia-se turismo cultural para as multidões prontas a disparar o seu olhar distraído, registado em selfies, enquanto invadem museus e outro património edificado. O que conta é o dinheiro, muito dinheiro que o mercado cultural pode gerar, pelo que as iniciativas culturais desligam-se de qualquer projecto cultural para se subordinarem ao que é mais vendável.

Mais esclarecedor fica quando elencam as indústrias culturais e criativas e se olha para a distribuição de verbas por essas áreas. São integrados nos «Sectores culturais e criativos», todos os sectores cujas actividades se baseiam em valores culturais e/ou artísticos ou noutras expressões criativas, quer essas actividades tenham fins comerciais ou não, independentemente do tipo de estrutura que garante a sua execução e seja qual for o modo de financiamento dessa estrutura. Essas actividades incluem a concepção, a criação, a produção, a divulgação e a conservação dos bens e serviços que encarnam uma expressão cultural, artística ou qualquer outra expressão criativa, e funções conexas, como a educação ou a gestão. Os sectores culturais e criativos incluem, nomeadamente, a arquitectura, os arquivos, as bibliotecas e os museus, o artesanato, o audiovisual (em particular o cinema, a televisão, os jogos de vídeo e as actividades multimédia), o património cultural material e imaterial, o design, a publicidade, a moda, os festivais, a música, a edição de publicações, a literatura, as artes performativas, a rádio e as artes plásticas. Ao mesmo nível das Meninas de Velasquez ou da Ronda da Noite de Rembrandt está um anúncio à Coca-cola ou ao BurgerKing. O Saraband do Bergman ou a Regra do Jogo do Renoir fica submergido na quantidade brutal de videojogos que já é um volume de negócio superior ao do cinema ou das séries televisivas. Festivais de Música? Os de música sinfónica são residuais, em quantidade e em espectadores, se comparados com os de música pop, o que também se reflecte na indústria discográfica, basta olhar para os espaços que ocupam nas estantes de venda e também nos espaços de «crítica musical» na imprensa. A literatura nada com respiração assistida no plâncton das edições dos media da imprensa corporativa, das revistas de glamour, etc.

A moda invade tudo e é dominante em todos os outros géneros artísticos, para isso lá estão os gestores culturais, esse baixo clero pós-moderno com especiais aptidões para ocultar e tornar eficaz o vazio da cultura inculta instalada em todos os patamares do entretenimento da iliteracia cultural por esses intermediários culturais, gestores culturais, programadores, curadores, comissários, agentes do pensamento dominante que aceleram pelas auto-estradas do bullying cultural que se impuseram durante os anos 80, como Pierre Bourdieu bem os caracterizou e que é sempre de recordar: «são os encarregados de uma subtil actividade de manipulação nas empresas industriais e na gestão da produção cultural (…) a sua distinção é uma forma de capital incorporado, porte, aspecto, dicção e pronúncia, boas maneiras e bons hábitos que, por si, garante a detenção de um gosto infalível o que sanciona a investidura social de um decisor do gosto, de modo bem mais significativo do que o faz o capital escolar, de tipo académico (…) a ambiguidade essencial e a dupla lealdade que caracteriza o papel desses intermediários é serem os mercadores de necessidades que também se vendem continuamente a si próprios, como modelo e garantes do valor dos seus produtos, são óptimos actores, apenas porque sabem dar boa imagem de si acreditando ou não no valor daquilo que apresentam e representam»3. Intermediários culturais sempre entre duas actividades promocionais onde a arte e a cultura são sempre e só mercadoria e o público se alicia com mentiras ou melhor (pior) não verdades.

Esclarecedor é também o enquadramento financeiro para a execução do Programa durante o período 2021-2027, em linha com os anteriores. «O Programa continua a apostar em 3 vertentes: Subprograma MEDIA, Subprograma CULTURA e Vertente Intersectorial, sendo que esta última introduz uma novidade dirigindo-se a “Cultura e Meios de Comunicação”». Através da vertente intersectorial o Programa visará também «promover a cooperação política em matéria de cultura no seio da UE, promover um ambiente de liberdade, diversidade e pluralismo na comunicação social e apoiar o jornalismo de qualidade e a literacia mediática».
Em termos orçamentais a Comissão propõe a afectação de 1,85 mil milhões de Euros ao Programa global, divididos do seguinte modo: subprograma MEDIA, 1,08 mil milhões de Euros; subprograma CULTURA, 609 milhões de Euros; e 160 milhões de Euros para a vertente intersectorial. Tal proposta traduz-se num aumento de 450 milhões de Euros face ao actual Programa Europa Criativa 2014-2020 e a grande aposta é no incremento da comunicação social estipendiada.

A bitola é a do mercado, os apoios são ao empreendedorismo, As justificações na distribuição das verbas revelam os objectivos da UE e o que nos espera por detrás da cortina «de promover um ambiente de liberdade, diversidade e pluralismo na comunicação social e apoiar o jornalismo de qualidade e a literacia mediática» em que a verba para os media é reforçada pela do denominado subprograma intersectorial, pelo que 67% do orçamento Europa Criativa é dirigido para o controle de informação que se integra no sistema mundial de formação da opinião pública e da interpretação da realidade pela comunicação social corporativa, mercenária, ao serviço do pensamento totalitário dominante. Os sobrantes 33% são para o que selam como cultura, mas com a banda larga aplicada, estamos conversados. Há excepções, mas as excepções são a confirmação da regra e a regra é o triunfo imperial do espectáculo que bordeliza a cultura, o património cultural e os museus com o mercado a extrair benefícios máximos do empobrecimento moral e intelectual da sociedade. É o fim da cultura na sua relação ideológica e política com a sociedade. Cultura amarrada à perda de futuro como dimensão ontológica humana em que se procura que a alienação global seja voluntária.

A responsabilidade dos intelectuais

Todo este processo decorre por o capitalismo neoliberal ter percebido que a cultura, a produção teórica eram armas nucleares que eram necessário despoletar para perpetuar o imperialismo e impor um pensamento único. Puseram em marcha um processo de desagregação social dos intelectuais para os isolar e os atirar para as periferias do poder político. Os intelectuais, que nunca foram um grupo homogéneo mas que, como Régis Debray anotou, se «sentiam, pelos seus saberes e conhecimentos diferenciados, ser uma colectividade de pessoas, socialmente legitimadas para tornarem públicas as suas opiniões»4 detendo um poder, que embora de origens diferentes, influenciava ou ia contra o dos políticos eleitos, foram progressivamente marginalizados do tecido social.

Um processo que incidiu sobretudo nas áreas culturais distanciando o Estado das políticas culturais, retirando-lhes importância política e pública, entregando progressivamente ao mercado e à iniciativa privada os instrumentos da cultura, diligenciando para que o mercado e a iniciativa privada contaminassem as políticas culturais das instituições que tutelam, como se a cultura fosse um território que floresce numa terra de ninguém e para que a arte e a cultura perdessem o sentido de ser a utilidade que transforma a vida.

Para essa nova ordem é fundamental anular a cultura enquanto núcleo de práticas e actividades, enquanto instrumentos de produção material, recepção e circulação que dão sentido à vida e ao mundo com o fim último de que já não seja sequer possível pensar que é possível pensar uma sociedade alternativa onde os valores da civilização, da humanidade, da cultura, da política se plantam para florescer, ainda que com todas as contradições e dificuldades.

Para essa nova ordem é fundamental que os intelectuais, especialistas e profissionais qualificados sejam elementos passivos das suas competências, remetidos às suas áreas especializadas, tendo por interlocutores os seus pares e não a sociedade para perderem influência na construção da consciência colectiva.

Neste estado de sítio há que exigir aos intelectuais que façam novamente ouvir a voz que já tiveram no discurso público, com a consciência de que se ela não é decisiva é fundamental para se sobrepor à turbulência ruidosa do pensamento dominante, que procura tornar inaudível qualquer discurso crítico que o ponha em causa. Devem readquirir o sentimento do seu papel social, mesmo com a incertitude de não terem no imediato sucesso garantido.

Há que resistir, resistir sempre e sem vacilações para que a cultura e a arte se recentrem na vida e encontrem aquilo que podem e querem fazer com os seus materiais e instrumentos sem se entregarem nas mãos do mercado, recusando-se a responder às exigências de gerar lucro, normalizando-as pelas imposições do consumo imediato e padronizado onde se afoga o espírito crítico.

Há que continuar e lutar com a firme convicção de que «no entanto, ela (a Terra) move-se», como disse Galileu enfrentando o tribunal da Inquisição.

(publicado em AbrilAbril  https://www.abrilabril.pt/ )

  • 1.in Four Quartets: «Time present and time past / Are both perhaps present in time future /
    And time future contained in time past.»
  • 2.Adorno, Theodor/ Horkeimer, Max ; Dialéctica do esclarecimento, Jorge Zahar editor, 1985.
  • 3.Bourdieu, Pierre; A distinção, uma crítica social da faculdade do juízo, Edições 70, 2010.
  • 4.Debray, Régis; Le pouvoir intellectuel em France, Ramsay, 1979

Ver o original em 'Praça do Bocage ' (clique aqui)

Brasil | Trabalhadoras e trabalhadores da cultura gritam por socorro e apoiam Lei Emergencial da Cultura

Tramita na Câmara dos Deputados o projeto de Lei Emergencial da Cultura (Projeto de Lei 1075-2020), que tem como relatora a deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ).

 

 

Por isso, o Portal CTB inicia uma série de matérias sobre a situação de vida dos artistas em meio ao isolamento social contra a pandemia do coronavírus. A tramitação e votação desse projeto tem o acompanhamento da jornalista Railídia Carvalho. Esta é a primeira reportagem da série.

Aqui, os artistas falam das dificuldades enfrentadas neste momento de isolamento, mas também sobre o descaso com a cultura, principalmente dos governos neoliberais, após o golpe de Estado de 2016.

Nesta primeira reportagem toda feita via Whatsapp, artistas relatam suas dificuldades. Artistas independentes, assim como os profissionais que trabalham nos setores que não aparecem, mas sem eles não existiria espetáculo. E como não se pode esperar nada de positivo do desgoverno Bolsonaro, o Parlamento ameniza a situação.

A pandemia do coronavírus afetou a vida de todo mundo e, por causa da falta de ação do governo federal, o Congresso Nacional aprovou recentemente um auxílio emergencial para quem ficou sem renda devido ao isolamento social. Mas nem todas as categorias foram contempladas. Trabalhadoras e trabalhadores da cultura ficaram de fora.

Emergência cultural

O projeto de Lei Emergencial da Cultura rodou o Brasil com inúmeros debates virtuais e pode inclusive ser votado nesta quinta-feira (21), na Câmara dos Deputados.

Jandira explica que o projeto pretende destinar ao setor cultural cerca de R$ 1,2 bilhão durante o período do isolamento. A estimativa é dar ajuda financeira para os espaços culturais independentes com R$ 10 mil mensais e impedir o corte de fornecimento de água, energia elétrica e telecomunicações para as instituições comprovadamente culturais.

“O setor cultural brasileiro precisa de proteção urgente. São espaços culturais, artistas, gestores, pessoas que dão a vida pela arte. Vamos em frente construir um texto que garanta o respeito que merecem”, afirma a deputada comunista em seu Twitter.

Em um debate virtual, o historiador, escritor e secretário da Cidadania Cultural do Ministério da Cultura, entre 2004 e 2010, Célio Turino afirma a existência de 8.500 escolas de artes, 1.300 teatros, 4.000 pontos de cultura e cerca de 600 circos no país que necessitam desse apoio durante a quarentena. Ele assegura ainda que o Fundo Nacional de Cultura tem dinheiro suficiente para destinar o que está proposto pelo projeto a quem trabalha na cultura.

Logo no início da pandemia, teatros, cinemas, bares foram fechados e shows proibidos para não causarem aglomeração, como forma de impedir a disseminação da Covid-19. Em casa, muitos artistas ficaram sem trabalho e sem renda.

Tudo fechado

“Com tudo fechado, ficamos sem opções e precisamos criar maneiras de nos ajudar uns aos outros e batalhar por projetos que nos garantam manter nossos trabalhos, como o projeto de Lei Emergencial da Cultura”, afirma Zeca Magrão, vice-presidente do Sindicato dos Músicos Profissionais de Minas Gerais e diretor do Movimento Nos Bares da Vida.

Ele conta que o sindicato e o Bares da Vida distribuem cestas básicas para músicos e musicistas do estado. “Temos que levar as cestas nas casas de muitos que não têm nem o dinheiro para o transporte. Os que conseguem se locomover vêm buscar na minha casa”. ele agradece o empenho do vereador de Pelo Horizonte, Gilson Reis (PCdoB), que “sempre apoiou as iniciativas do Bares da Vida e do sindicato”.

Dorberto Carvalho, presidente do Sindicato dos Artistas e Técnicos de Espetáculos e Diversões do Estado de São Paulo, também apoia a Lei Emergencial da Cultura porque “o setor artístico, cultural e de entretenimento foi o primeiro a ser paralisado”. Mas, para ele, “o setor vem sendo sucateado há anos”.

Zeca Magrão, de MG, distribuindo cestas básicas para músicos

Há um “rebaixamento de cachês, que sequer permitem alguma reserva para suportar o trabalho intermitente característico dessa atividade, seja pelo ataque sistemático que o setor vem sofrendo desde 2016 no governo Temer e depois intensificado pelo governo Bolsonaro”.

O sindicalista conta que na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, tramita o Projeto de Lei (PL) 253-2020, em moldes próximos à Lei Emergencial da Cultura nacional. Mas ressalta as iniciativas “de muita gente contribuindo para os fundos de apoio e são muitas entidades distribuindo cestas básicas, mas só as cestas não darão conta da sobrevivência desses trabalhadores”.

Sem negociação

Como observa a atriz e contadora de histórias, Lilia Marcheti ao relatar as dificuldades em negociar o pagamento do aluguel e de energia elétrica, porque os responsáveis “preferem ver o imóvel fechado e você na rua, do que negociar alguma forma de pagamento sem onerar ainda mais os nossos bolsos”.

Ela conta que não está passando tanto aperto, “embora haja aperto”, porque trabalha como arte educadora na Fundação Casa. Diz ainda que é obrigada ao trabalho presencial “semana sim, semana não” e fica em salas com dezenas de meninos, com o seu próprio álcool gel e máscara. Afirma também que aos 54 anos de idade, pela “primeira vez ” tem um trabalho com “carteira assinada”. o da Fundação Casa.

“Além de assumirmos o nosso papel, estamos passando a aula do ensino formal”, garante. “A carga horária é a mesma, mas estamos trabalhando muito mais e com muita pressão porque somos os únicos profissionais com contato direto com os meninos. Muitas vezes ficamos com vinte e dois meninos numa sala fechada”.

Para Pedro Guima, ator, performer e prosador, “está tudo parado. Só não estou passando fome e morando na rua por ter um cargo de professor de História em escola estadual”. Ele assinala ainda que os:

 
artistas que estão respirando são os que têm grana de família, os que trabalharam bem nos últimos tempos e fizeram reservas ou os que possuem algum trabalho paralelo”.
Pedro Guima
 
 

Magrão acentua ainda os cortes sofridos na cultura em Minas Gerais, governado por Romeu Zema (Novo) da mesma forma como conta Dorberto em São Paulo, governado por João Doria (PSDB). O artista e sindicalisgta mineiro garante também que está em discussão um projeto de emergência em Minas Gerai para o setor cultural.

“O governo de São Paulo foi beneficiado pelo socorro de R$ 90 bilhões aos estados e munícipios, aprovado pelo Congresso, que além de ajuda financeira, garante uma moratória para dividas com o governo federal”, reforça o artista e sindicalista paulista.

E mesmo com a decretação de estado de calamidade pública pela Alesp, Doria anunciou “corte de 50% no Proac editais (Programa de Ação Cultural do Governo do Estado de São Paulo) que é o programa mais capilarizado da secretaria e atinge diretamente os territórios das periferias de São Paulo e interior e também o corte de 50% nos repasses para as Organizações Sociais, que sabemos, recairão diretamente sobre a atividade fim, aquela que beneficia a população e dá emprego aos trabalhadores da cultura e não sobre a atividade meio que é aquela que paga o salário de suas diretorias e funcionários”.

Somente em São Paulo, de acordo com a Fundação Seade, existem aproximadamente 640 mil trabalhadores da cultura “e seguramente 80% deles não têm reservas para se manterem sem trabalho”, alega Dorberto.

Qual futuro?

Como conta o ator Clayton Mariano, do grupo Tablado de Arruar. “Por sorte, este ano, eu tinha feito um filme para a Netflix e uma peça (no Sesc) antes do Carnaval, ou seja, antes da quarentena. Estou sobrevivendo com essa grana. Se fosse o ano passado, estaria desesperado”. Além disso, “negociei aluguel para diminuir gastos. Mas a questão está em como resistir daqui para frente, tendo em vista que o setor cultural e de eventos deve ser o que mais vai demorar para voltar”.

Na mesma situação está o diretor Luiz André Cherubini, do grupo Sobrevento de Teatro.

 
Estamos sem trabalho remunerado, como todos os artistas e técnicos em espetáculos de diversões que vivem exclusivamente de seu trabalho” e “estamos com poucas perspectivas de que possamos auferir, pelo menos até o fim do ano, alguma renda advinda do trabalho a que nos dedicamos e para o qual nos preparamos toda a vida”.
Luiz André Cherubini
 
 

Por todos os relatos apresentados e os das matérias posteriores vê-se a necessidade de aprovação da Lei Emergencial da Cultura como relatado pela deputada federal Jandira Feghali. Trabalhadoras e trabalhadores da cultura agradecem, assim como toda a sociedade brasileira tão necessitada de cultura com ou sem isolamento.


Texto em português do Brasil


 

 

 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/trabalhadoras-e-trabalhadores-da-cultura-gritam-por-socorro-e-apoiam-lei-emergencial-da-cultura/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=trabalhadoras-e-trabalhadores-da-cultura-gritam-por-socorro-e-apoiam-lei-emergencial-da-cultura

“Não somos coitadinhos”. Artistas fazem vigília pelo fim da precariedade na cultura

 

Vários artistas portugueses, espalhados por 15 cidades, estão esta quinta-feira a fazer uma vigília pelo fim da precariedade na cultura. Queixam-se de falta de apoios do Estado.

 

Esta quinta-feira, profissionais do setor da cultura e das artes vão realizar uma vigília em frente à Assembleia da República durante o dia inteiro. A falta de apoios do Estado é a principal reivindicação dos artistas portugueses, que durante esta pandemia de covid-19 ficam sem dinheiro para comer ou pagar as contas.

Ao todo, 15 cidades portuguesas já aderiram à iniciativa. Em Lisboa, a vigília começou às 9h e, no Porto, começa às 14h. Nos últimos dois meses, os trabalhadores deste setor ficaram sem qualquer fonte de rendimento e quase sem apoios do governo.

“A nossa situação já era muito complicada, com muitas falhas a nível laboral, muita coisa que não está legislada… Quando nos mandaram para casa no dia 10 de março, a nossa situação foi também de calamidade. É preciso dar voz, mostrar que não somos coitadinhos mas exigimos direitos! Somos contribuintes, pagamos como todos os trabalhadores e temos que ter os mesmos direitos!”, disse Anaísa Raquel, uma das organizadoras da vigília Cultura e Arte, citada pela TSF.

“Não somos artistas, somos profissionais, queremos que revejam o estatuto do profissional porque não existe, há profissões que nem estão legisladas! Temos que reformular a lei do trabalho, o nosso regime tem que funcionar a contratação, os recibos verdes têm que acabar. Contratação a curto, médio e longo prazo. Chega!”, acrescentou.

Face às preocupações de eventuais ajuntamentos excessivos de pessoas, Anaísa Raquel garante que a vigília vai cumprir todas as normas de segurança e saúde pública. Nunca estarão mais de dez pessoas, que vão trocando por turnos.

“Estaremos em silêncio, em turnos de meia hora e que nunca terão mais de 10 pessoas. Não é uma manifestação, mas estamos na rua com as devidas regras e normas de segurança”, explicou.

A fundadora da Ação pela Cultura 2020 diz que há a necessidade de mostrar ao Ministério da Cultura que é preciso encontrar soluções que se adaptem às formas de trabalhar destes profissionais.

ZAP //

 
 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/artistas-vigilia-fim-precariedade-325716

Zeca Afonso inspira novo álbum de Pedro Jóia 

O novo álbum do guitarrista Pedro Jóia, a sair no próximo dia 29, é dedicado a José Afonso (1929-1987), que o músico aponta como «uma referência».

Zeca AfonsoCréditos / Antena Miróbriga

«Zeca» trata-se de um projecto no qual o músico «pensava há muito», como afirmou em entrevista à Lusa. «O Zeca foi sempre uma referência para mim», disse Pedro Jóia, que contava «cerca de 16 anos» quando José Afonso morreu.

A decisão de gravar o álbum foi incentivada pelo músico Fausto, que tocou com José Afonso e que, na contracapa, se afirma «deslumbrado», referindo que José Afonso certamente iria «gostar de gravar um álbum acompanhado por Pedro Jóia».

Segundo Pedro Jóia, o «principal desafio foi manter a verdade da música do Zeca, mantendo a sua simplicidade, sem artifícios e não a ornamentar demasiado, guitarristicamente».

A viúva do músico e resistente antifascista, Zélia, «foi acompanhando o trabalho e uma das primeiras pessoas a ouvir o resultado». «Incentivou-me e apoiou-me muito, o que para mim foi importante», disse Pedro Jóia.

O álbum conta dez temas emblemáticos da carreira de José Afonso. «A Formiga no Carreiro», «A Morte Saiu à Rua», «Venham Mais Cinco» ou «Balada de Outono» são alguns dos escolhidos por Pedro Jóia, que reconheceu «haver algo de novo nos temas gravados, respeitando a sua estrutura e sem lhes ter alterado nada».

«A música de Zeca Afonso exige que seja tratada com pinças», declarou, referindo a importância do músico para a sua geração.

Pedro Jóia, na guitarra clássica, gravou os temas apenas acompanhado por José Salgueiro, na percussão. Este é o sétimo disco de Jóia, que no próximo dia 30 completa 50 anos.

Com agência Lusa

 

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/cultura/zeca-afonso-inspira-novo-album-de-pedro-joia

Comemorar o Dia Internacional dos Museus é «homenagear a Cultura»

A Associação de Defesa do Ambiente de Loures (ADAL) valoriza a reabertura dos museus municipais num dia que, comemorado pela primeira vez há 40 anos, é «também uma singela homenagem» ao sector da Cultura.

Museu Municipal de LouresCréditos / TripAdvisor

Numa comunicação enviada ao AbrilAbril esta segunda-feira, Dia Internacional dos Museus, a ADAL lembra que este é um sector que está a passar por «enormes dificuldades», apesar de a sua existência e actividade serem «imprescindíveis» para o desenvolvimento da democracia.

Este ano, o mote das celebrações da data instituída pelo Conselho Internacional de Museus (ICOM) é «Museus para a Igualdade: Diversidade e Inclusão», a fim de celebrar as múltiplas perspectivas que compõem os museus e suas comunidades, defendendo ferramentas capazes de identificar e superar preconceitos no que exibem e nas histórias que contam.

«Nos dias que correm, em que tantas desigualdades e injustiças se observam, de forma agravada, no mundo e no nosso país, estes espaços de preservação, valorização e divulgação das memórias colectivas não podem estar alheios às realidades sociais, promovendo o conhecimento e a compreensão das razões históricas, políticas e sociais que as contextualizam, tanto no passado como na actualidade», refere a ADAL no comunicado.

Como tal, e depois da comunicação enviada à Assembleia Municipal de Loures, no passado mês de Abril, «foi [...] com satisfação que tomámos conhecimento da reabertura dos museus municipais neste dia 18 de Maio», frisa.

A reabertura dos museus e núcleos museológicos de Loures acompanha a decisão tomada a nível nacional, a partir de hoje, tendo em conta as regras em vigor para a prevenção e mitigação dos riscos de contágio do novo coronavírus.

O Dia Internacional dos Museus, celebrado a cada 18 de Maio, tem o objectivo de alertar para o facto de os museus serem «um importante meio de intercâmbio cultural, enriquecimento de culturas e desenvolvimento de entendimento mútuo, cooperação e paz entre os povos».

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/cultura/comemorar-o-dia-internacional-dos-museus-e-homenagear-cultura

A pandemia da ignorância a propósito do “marxismo cultural”

(José Pacheco Pereira, in Público, 16/05/2020)

Pacheco Pereira

Às vezes nem vale a pena bater no ceguinho, porque para bater em ceguinhos em Portugal arranja-se sempre uma multidão. De preferência quando o ceguinho já está mesmo ceguinho, porque mesmo só com um olho, o estilo reverencial abunda e o país é muito pequeno para haver independência crítica. E então se for anónima a pancada, os praticantes são mais que muitos.

 

Mas a ignorância atrevida, essa, sim, merece azorrague, até porque nos dias de hoje, de pensamento mais do que exíguo, a coisa tende a pegar-se pelas “redes sociais”, o adubo ideal da ignorância. Temos de suportar duas pandemias, a da ignorância e a do vírus. Convenhamos que é demais. Nestas alturas, tenho um surto de pedantismo incontrolável. Bom, não sei bem se a classificação de pedantismo é a melhor, mas que por lá anda, tenho a certeza.

Vem isto a propósito do actual uso e abuso da expressão “marxismo cultural”, muito comum hoje à direita mas também usada muitas vezes erradamente à esquerda, que, na sua globalidade, é cada vez menos marxista, mas ainda não deu por ela. Porém, o uso à direita é uma espécie de vilipêndio e insulto e, em muitos comentadores de direita, é comum para caracterizar uma espécie de polvo omnipresente, que lhes rouba as artes, as letras, o jornalismo, algumas universidades, as ciências sociais, a comunicação social, a educação e o ensino, e os obriga a refugiar-se nos espaços “livres” dos colégios da Opus Dei, no Observador, nos blogues de direita, na Universidade Católica, nos lobbies ideológicos empresariais com acesso à comunicação, nalgumas fundações, nalguns articulistas, na imprensa económica, etc. Para bunker contra o “marxismo cultural” já parece muito espaçoso, mas eles acham-no apertadinho.

Nuno Melo escreveu recentemente um artigo com o título sugestivo de “A supremacia do marxismo cultural”, que é um bom exemplo de quem não percebe nada do que está a falar. Começa com uma citação de Marx, aquilo a que ele chama a “lição” que a esquerda aprendeu:

“As ideias da classe dominante são, em todas as épocas, as ideias dominantes, porque a classe que é a força material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, a sua força intelectual dominante.”

Muito bem. A frase quer dizer exactamente o contrário do que ele pretende. Quer ele dizer que é o proletariado a “classe dominante” nos dias de hoje e que é por isso que a “força intelectual dominante” é o marxismo? Interessante, ele vai certamente explicar-me quando é que houve mudança de “força material dominante”, ou seja, quando é que houve uma revolução. Na interpretação de Marx, são escritos como o de Melo que revelam a “força intelectual dominante”, ou seja, a da burguesia.

O que é essencial na interpretação do marxismo é que a seta do poder, que explica a sociedade, a cultura, a economia, a cultura, se faz a partir “de baixo”, das relações de produção, do modo de produção, das classes dominantes a cada momento da história, e que nesse terreno é a luta de classes que define essa outra seta que é o sentido da história. Como Lenine e Trotsky disseram de forma mais bruta, de um lado está o “caixote do lixo da história” e do outro o futuro, a base da teleologia marxista. E embora haja “acção recíproca” entre a superestrutura e a infra-estrutura, ela faz-se sempre a partir da “determinação” da infra-estrutura. Esta interpretação de Marx é a essência da sua teoria, e mesmo quando, nas escassas páginas que escreveu sobre a “cultura”, Shakespeare, em particular, admitiu uma “autonomia relativa da cultura”, nunca admitiu que essa autonomia fosse absoluta. Ou seja, na interpretação marxista, nunca o “marxismo cultural”, seja lá o que isso for, podia ser dominante numa sociedade capitalista, e isto é o bê-á-bá da coisa. Nem Lenine, nem Rosa Luxemburgo, nem Gramsci, nem Lukács, se afastaram deste ponto essencial.

E, mesmo aceitando-se a ambiguidade da expressão, seria um absurdo dizer que qualquer forma de “marxismo cultural” tem hoje “supremacia” na sociedade portuguesa. É verdade que há muita força da esquerda e do esquerdismo (que não é a mesma coisa) em determinados sectores da “superestrutura”, nas artes, nas letras, em certa comunicação social, mas acrescente-se duas coisas: primeiro, a maioria dessa esquerda e desse esquerdismo não é marxista; segundo, já teve mais força do que hoje tem e, mesmo a que subsiste, está cada vez mais acantonada. Por exemplo, nos anos da troika, muito do discurso público em matérias de sociedade e economia era “neoliberal” (não gosto desta designação, mas vai por facilidade), e uma das grandes vitórias ideológicas da direita foi conseguir interiorizá-lo de forma “dominante”. Devo dizer que eu troco todo o esquerdismo cultural no teatro pela reversão dessa invasão inconsciente de muitas cabeças pela TINA.

Eu não sou guardião da ortodoxia de Marx, mas sei o que ele disse e o que ele não disse e não participo neste abastardamento das ideias pelas palavras e pela propaganda. O problema é que gente como Nuno Melo, e muita direita, acha que bater no André Ventura é uma expressão do “marxismo cultural” e só não se apercebe de como está a dignificar o exercício, porque precisa de um papão com um nome ilustre para glorificar a vaidade própria.

Não é muito edificante ser vítima da sua ignorância, mas já é outra coisa ser vítima de uma universal conspiração marxista que, vinda das trevas do comunismo, os persegue pelas ruas de Bruxelas.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Nuno Lopes denuncia que há artistas a passar fome em Portugal

 

O actor Nuno Lopes considera-se “um privilegiado” nestes tempos de pandemia, numa altura em que se estreou na Netflix com a série “White Lines”, mas denuncia que há artistas em Portugal que “estão em situação de fome”.

Declarações numa entrevista à Rádio Renascença, onde Nuno Lopes lamenta o estado de precariedade permanente do sector artístico português que a pandemia de covid-19 veio agravar.

“A classe cultural em Portugal já é precária desde sempre, pior fica quando há uma crise e quando não temos sequer a condição de intermitentes, como há noutros países”, queixa-se Nuno Lopes, lamentando que os actores e outros artistas não têm “sequer direito a subsídio de desemprego“.

A situação de precariedade “significa, que quando não estão a trabalhar, como agora, porque não podem, não têm como ganhar a vida“, constata o actor.

“Há muitas pessoas da minha classe que estão neste momento em situação de fome, mesmo”, alerta ainda Nuno Lopes que fala de uma “situação horrível”.

O actor que participa na série “White Lines” da Netflix, que estreou nesta sexta-feira, considera-se um “privilegiado” nesta fase. Mas, ainda assim, lamenta que teve de “parar um filme que estava a fazer com o Marco Martins”.

“Voltamos para Portugal e como as condições monetárias que a cultura tem nunca são grandes, estamos neste momento a perceber como é que podemos continuar”, refere o actor, notando que “tinha um outro projecto em França” que também está dependente da reabertura das fronteiras e da “evolução do vírus no mundo”.

“Concursos patéticos do Ministério da Cultura”

A actriz Sandra Faleiro também se queixa da actual situação, referindo-se às “pessoas que já não têm comida no prato” e aos “trabalhadores independentes que trabalham há anos sem condições ou garantias nenhumas”.

As palavras de Sandra Faleiro surgem numa publicação no Instagram, onde critica ainda os “concursos patéticos do Ministério da Cultura nestes tempos de calamidade”.

“Se não se tomarem medidas a sério que tenham uma perspectiva de futuro e que sejam realistas e funcionais”, espera-nos “o vazio”, “sem música, cinema, teatro, dança, literatura, artes plásticas, televisão”, avisa a actriz.

" data-instgrm-version="12"> " data-instgrm-version="12">

 

 

 

ZAP //

 
 
 

É urgente um verdadeiro Serviço Público de Cultura

O Manifesto em Defesa da Cultura quer a mobilização imediata de fundos do OE para garantir «rendimento suficiente» a todos os trabalhadores da Cultura, «sem condições, excepções ou contrapartidas».

Créditos / Manifesto em Defesa da Cultura

A exigência, a par de outras, é dada a conhecer através de um comunicado divulgado este sábado pelo grupo nacional de coordenação do Manifesto em Defesa da Cultura.

Além de apoios financeiros imediatos aos trabalhadores, no documento pede-se a mobilização de fundos do Orçamento para garantir a sobrevivência das estruturas artísticas que viram recusados apoios nos últimos concursos quadrienais e bienais.

Lembrando a exigência antiga de se estabelecer desde já o patamar mínimo de 1% do Orçamento do Estado (OE) para a Cultura e o objectivo de alcançar, numa década, 1% do PIB, os activistas recusam «o regresso da austeridade sob nova retórica».

Um verdadeiro Serviço Público de Cultura é necessário para acudir à «emergência» que a Cultura já vivia «há décadas», fruto de uma política cultural de «destruição do interesse público», de favorecimento da «mercantilização e mercadorização da Cultura» e de «redução drástica do investimento do Estado».

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/trabalho/e-urgente-um-verdadeiro-servico-publico-de-cultura

Cada espectáculo cancelado são 18 artistas sem rendimento

Por cada espetáculo cancelado em Portugal, até 31 de março, devido à pandemia da covid-19, 18 artistas ficaram sem rendimento, de acordo com os resultados de um inquérito promovido pela Fundação GDA (Gestão dos Direitos dos Artistas).

“O inquérito lançado pela GDA indica que por cada espetáculo cancelado ficaram sem rendimento, em média, 18 artistas, 1,3 profissionais de produção e 2,5 técnicos”, refere aquela estrutura num comunicado enviado à agência Lusa.

A GDA criou o inquérito em março – depois de começarem a ser adiados ou cancelados espetáculos na sequência das medidas de contingência definidas pelas autoridades para tentar travar a propagação da covid-19 – com o “objetivo de recolher dados que contribuam para avaliar a situação real vivida no setor das artes do espetáculo”.

Ao inquérito responderam, até 31 de março, 992 profissionais, que deram conta do cancelamento de 4.287 espetáculos.

A maioria dos espetáculos cancelados é de Música (2.964), seguindo-se os de Teatro (1.048) e os de Dança (100). Na categoria “espetáculos de outra natureza” foram reportados 175 cancelamentos.

Dos quase mil profissionais que responderam ao inquérito, a maioria são músicos (67%), seguindo-se depois atores (23%) e bailarinos (4%). Os restantes (6%) “provêm de outras profissões do espetáculo”.

A GDA destaca que os resultados do inquérito “acabam por refletir muito as caraterísticas da relevância da amostra”, uma vez que o mesmo foi promovido por uma cooperativa constituída por atores, bailarinos e músicos.

Considera a Fundação GDA que, “somados aos dados da Associação dos Músicos de Portugal (AMP) e do Sindicato dos Trabalhadores de Espetáculos, do Audiovisual e dos Músicos (CENA-STE), os resultados [deste inquérito] poderão contribuir para a construção de um retrato da situação que seja fiel à realidade dramática que está a ser vivida por muitos artistas em Portugal”.

Segundo a GDA, “a informação recolhida já foi discutida com a ministra da Cultura e com o Presidente da República, assim como com partidos com assento parlamentar e com o presidente da Associação Nacional de Municípios”.

Os resultados do inquérito da GDA complementam outros cujos resultados foram divulgados anteriormente por outras estruturas.

Segundo um inquérito promovido pelo CENA-STE, e cujos resultados foram anunciados no início de abril, 98% dos trabalhadores de espetáculos viram trabalhos cancelados e, 33 por cento, por mais de 30 dias.

Em termos financeiros, para as 1.300 pessoas que responderam ao questionário, as perdas por trabalhos cancelados representam ainda dois milhões de euros, apenas para o período de março a maio deste ano, de acordo com o CENA-STE (o que indica a perda de um valor médio de receita, por trabalhador, de cerca de 1.500 euros).

O inquérito, realizado já na segunda quinzena de março, no contexto de confinamento, em resposta à pandemia de Covid-19, indica ainda que 85% dos trabalhadores questionados são independentes e não têm qualquer proteção laboral.

De acordo com um inquérito realizado pelo Movimento SOS Arte PT, a 300 pessoas entre 03 e 17 de abril, 65% dos profissionais das artes – três em cada quatro – registaram fortes quebras de rendimento devido à pandemia da covid-19.

Em março, devido à covid-19, 62% dos inquiridos tiveram o seu trabalho completamente ou quase completamente parado, 65% (dois em cada três) viram ser completamente afetada a sua vida profissional e 75% (três em cada quatro) a sua vida pessoal.

Cerca de metade dos inquiridos (54%) afirmaram que a covid-19 prejudicou completamente os seus rendimentos, enquanto apenas 6,6% disseram não ter os rendimentos afetados pela paralisação na resposta à pandemia.

Ao mesmo tempo, 65% dos inquiridos viram a vida profissional completamente afetada pela covid-19, contra 0,6% dos inquiridos que disseram que a pandemia do novo coronavírus não lhes afetou a vida profissional.

Os espaços culturais começaram a encerrar, e consequentemente a adiar ou cancelar espetáculos, no início de março, qual tal era ainda apenas uma recomendação do Governo.

De acordo com a Associação de Promotores de Espetáculos, Festivais e Eventos (APEFE), desde meados de março e até ao final de abril foram cancelados, suspensos ou adiados cerca de 27 mil espetáculos. A APEFE contabilizou apenas espetáculos com bilhetes pagos.

Entretanto, o Governo aprovou em 30 de abril, em Conselho de Ministros, o “Plano de Desconfinamento”, que previa a reabertura de livrarias, bibliotecas e arquivos (que aconteceu no dia 04 de maio), seguindo-se museus, palácios, galerias e monumentos, em 18 de maio, data que coincide com o Dia Internacional dos Museus.

Segundo este plano, cinemas, teatros, auditórios e salas de espetáculos podem abrir em 01 de junho, “com lugares marcados, lotação reduzida e distanciamento físico”.

Estas decisões serão “reavaliadas a cada 15 dias”.

Além disso, na semana passada deu entrada no parlamento uma proposta de lei, da autoria do governo, que proíbe a realização de “festivais e espetáculos de natureza análoga” até 30 de setembro, mas com exceções.

Segundo a proposta de lei, que será discutida em plenário na quinta-feira, “até 30 de setembro, os espetáculos podem acontecer em recinto coberto ou ao ar livre, com lugar marcado e no respeito pela lotação especificamente definida pela Direção-Geral da Saúde em função das regras de distanciamento físico que sejam adequadas face à evolução da pandemia da doença COVID-19”.

A proposta é aplicável ao reagendamento ou cancelamento de espetáculos não realizados entre os dias 28 de fevereiro de 2020 e 30 de setembro de 2020.

É ainda feito o alerta de que a proibição da realização de “festivais e espetáculos de natureza análoga” pode ser prolongada para depois de 30 de setembro, “com fundamento em recomendação da Direção-Geral da Saúde”.

Fonte: Lusa

 

Ver original em 'Portal CASCAIS' na seguinte ligação:

https://www.portalcascais.pt/cultura-2/cada-espectaculo-cancelado-sao-18-artistas-sem-rendimento/

Mais de 500 artistas assinam manifesto contra Regina Duarte: 'Não nos representa'

Atriz Regina Duarte fala com jornalistas após almoço com o presidente Jair Bolsonaro, em Brasília, em 3 de março de 2020
© Folhapress / Pedro Ladeira

Um grupo de 512 artistas, jornalistas, produtores culturais e intelectuais assinou carta de repúdio à atuação da atriz Regina Duarte à frente Secretaria da Cultura do governo Bolsonaro. 

"Como artistas, intelectuais e produtores culturais, formamos a maioria que repudia as palavras e as atitudes de Regina Duarte como Secretária de Cultura", diz o manifesto, segundo o portal G1. 

"Fazemos parte da maioria que não aceita os ataques reiterados à arte, à ciência e à imprensa, e que não admite a destruição do setor cultural ou qualquer ameaça à liberdade de expressão. Ela não nos representa", continua a carta. 

Regina foi criticada por muitos representantes da área cultural por ter aceito o cargo no governo do presidente Jair Bolsonaro. Além disso, ela vem sendo cobrada pelos artistas a promover políticas de proteção ao setor durante a epidemia do coronavírus. 

"Somos artistas brasileiros e fazemos parte da maioria de cidadãs e cidadãos que defende a democracia e apoia a independência das instituições para fazer valer a Constituição de 1988", afirma trecho da carta, assinada por artistas como Caetano Veloso, Lulu Santos, Adriana Esteves Chico Buarque e Marcelo Tas. 

'Pedidos respeito aos mortos'

A indignação do grupo aumentou após entrevista concedida pela secretária à Rede CNN Brasil na quinta-feira (7) na qual se esquivou de responder perguntas feitas pela também atriz Maitê Proença sobre a atuação de sua pasta. Ela também minimizou a repressão ocorrida no período da ditadura militar e criticou a cobertura da imprensa sobre o coronavírus. 

"Fazemos parte da maioria que entende a gravidade do momento que estamos vivendo e pedimos respeito aos mortos e àqueles que lutam pela própria sobrevivência no país devastado pela pandemia e pela nefasta ineficiência do poder público", diz o texto. 

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/brasil/2020050915561171-mais-de-500-artistas-assinam-manifesto-contra-regina-duarte-nao-nos-representa/

Abraçar com os olhos Eduardo Galeano

Nestes dias em que, contraditoriamente, os abraços poderiam fazer-nos dano; estamos nos lembrando daquele autor que lhes dedicou um livro e, se isso não bastasse, mostrou-nos com a firmeza de sua palavra, a necessidade de que esse gesto meigo se convertesse em arma solidária para banir do planeta o rosto de um capitalismo que asfixia e mata.

 

 

Nestes dias em que, contraditoriamente, os abraços poderiam fazer-nos dano; estamos nos lembrando daquele autor que lhes dedicou um livro e, se isso não bastasse, mostrou-nos com a firmeza de sua palavra, a necessidade de que esse gesto meigo se convertesse em arma solidária para banir do planeta o rosto de um capitalismo que asfixia e mata.

Se — como é bem sabido — lembrar é um convite a voltar passar pelo coração, retornemos hoje àquele que, a partir de sua caneta efusiva e profunda, nos ensinou simples formas de querer-nos; aquele que, embora ainda esteja vivendo entre nós, faz cinco anos empreendeu a viagem definitiva.

Não existe livro dele que, após ter sido lido, não haja ninguém que não tenha saído solidamente comprometido com o bando justo do mundo. Ler Eduardo Galeano nos junta com os «João-ninguém», provoca-nos batimentos que enaltecem a condição humana. Tanto faz se lermos Las venas abiertas de América Latina — escrito com apenas 30 anos — com verdades tão contundentes que, se bem contribuiu para abrir «espaços de liberdade», foi proibido pelos ditadores do sul do continente.

Tanto faz se o escutamos com sua voz testemunhal em Días y noches de amor y de guerra, onde as verdades descritas abalam a paz imperturbável daqueles que não se envolvem; ou se a aproximação é à obra Patas arriba, la escuela del mundo al revés, publicada por volta do ano 2000, onde se eternizam, a partir da escrita, realidades envergonhantes que fazem abalar os mais céticos e reforçam as consciências.

Se bem perante estas e outras não citadas obras de Galeano, o leitor não apenas sucumbe, mas se prontifica e define, seduzido pela narração histórica, a afluência de dados, a anedota que acaba em aparentes simplezas, ou as curiosidades que exaltam, o convite destas linhas hoje é para reencontrarmo-nos com Espejos, una historia casi universal, o livro de mais de 400 páginas que lançou em sua última visita à Casa das Américas, instituição que galardoou o dito livro com o Prêmio de narrativa José María Arguedas, em 2011.

Na Casa, Galeano leu na época, vários dos mais de 600 relatos que conformam este livro singular, onde desfilam atores principais e secundários desse grande «romance» que pinta a civilização humana, quase cronologicamente, desde sua gênese até os nossos dias.

A partir das primeiras páginas, umas perguntas nos pedem refletir: não teremos sido capazes de sobreviver, quando sobreviver era impossível, porque soubemos defender-nos juntos e partilhar a comida? Esta humanidade de agora, esta civilização do salve-se quem puder e do cada um no seu teria durado algo mais do que um tempinho no mundo. Como pudemos?

Muito avançada a leitura, quando já não é possível se afastar dos textos, o capítulo Humanitos, faz-nos envergonhar:

(…) Já não sabemos se somos obras perfeitas de Deus ou piadas péssimas do Diabo. Nós, os humanitos:
os exterminadores de todo,
os caçadores do próximo,
os criadores da bomba atômica, a bomba de hidrogênio e a bomba de nêutrons, que é a mais saudável de todas, porque liquida as pessoas, mas deixa intatas as coisas,
os únicos animais que inventam máquinas,
os únicos que vivem ao serviço das máquinas que inventam,
os únicos que engolem sua casa,
os únicos que poluem a água que lhes dá de beber e a terra que lhes dá de comer,
os únicos capazes de se alugar ou de se vender ou de vender seus semelhantes,
os únicos que matam por prazer,
os únicos que torturam,
os únicos que violam.
E também os únicos que riem,
os únicos que sonham acordados,
os que fazem seda da baba da lagarta,
os que convertem o lixo em beleza,
os que descobrem cores que o arco-íris não conhece,
os que dão novas músicas às vozes do mundo,
e criam palavras para que não sejam mudas,
a realidade nem sua memória.

Para revisitar o autor dos abraços, aquele que apostou na esperança e na perpétua batalha, nunca melhor do que agora, quando o medo coletivo e o desafio pela luz da vida nos exigem que os novos capítulos da história tenham, para a humanidade toda, um final menos aterrador.


por Madeleine Sautié, Granma


 

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/abracar-com-os-olhos-eduardo-galeano/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=abracar-com-os-olhos-eduardo-galeano

A Lâmpada Marinha de Pablo Neruda

 

A Lâmpada Marinha

Porto cor de céu
I
Quando desembarcas
em Lisboa,
céu celeste e rosa rosa,
estuque branco e ouro,
pétalas de ladrilho,
as casas,
as portas,
os tectos,
as janelas
salpicadas do ouro verde dos limões,
do azul ultramarino dos navios,
quando desembarcas,
não conheces,
não sabes que por detrás das janelas
escura,
ronda,
a polícia negra,
os carcereiros de luto
de Salazar, perfeitos
filhos de sacristia a calabouço,
despachando presos para as ilhas,
condenando ao silêncio
pululando
como esquadrões de sombra
sobre janelas verdes,
entre montes azuis,
a polícia,
sob outonais cornucópias,
a polícia,
procurando portugueses,
escarvando o solo,
destinando os homens à sombra. A cítara esquecida
II
Ó Portugal formoso,
cesta de frutas e flores ?
emerges na prateada margem do oceano,
na espuma da Europa,
com a cítara de ouro
que te deixou Camões,
cantando com doçura,
esparzindo nas bocas do Atlântico
teu tempestuoso odor de vinharia,
de flores cidreiras e marinhas,
tua luminosa lua entrecortada
de nuvens e tormentas. Os presídios
III
Mas,
português da rua, entre nós,
ninguém
nos escuta,
sabes
onde
está Álvaro Cunhal?
Sabes, ou alguém o sabe,
como morreu,
o valente,
Militão?
E sua mulher sabes tu
que enlouqueceu sob torturas?
Moça portuguesa,
passas como que bailando
pelas ruas
rosadas de Lisboa,
mas
sabes,
sabes onde morreu Bento Gonçalves,
o português mais puro,
honra de teu mar, de tua areia,
sabes
que ninguém volta jamais
da Ilha
da Ilha do Sal,
que Tarrafal se chama
o campo da morte? Sim, tu sabes, moça,
rapaz, sim to sabes,
em silêncio
a palavra anda com lentidão mas percorre
não só Portugal senão a Terra. Sim, sabemos,
em remotos países,
que há trinta anos
uma lápide
espessa como túmulo ou como túnica,
de clerical morcego,
afoga Portugal, teu triste trino,
salpica tua doçura,
com gotas de martírio
e mantém suas cúpulas de sombra. O mar e os jasmins
IV
Da tua pequena mão outrora
saíram criaturas
disseminadas
no assombro da geografia.
Assim, a ti volveu Camões
para deixar-te o ramo de jasmins
sempiterno a florescer.
A inteligência ardeu qual vinho
de transparentes uvas
em tua raça,
Guerra Junqueiro
entre as ondas
deixou cair o trovão
de liberdade bravia
transportando o Oceano a seu cantar,
e outros multiplicaram
teu esplendor de rosais e racimos
como se de teu estreito território
saíssem grandes mãos
derramando sementes
pela terra toda. Não obstante,
o tempo te soterrou,
o pó clerical
acumulado em Coimbra
caiu sobre teu rosto
de laranja oceânica
e cobriu o esplendor de tua cintura. A lâmpada marinha
V
Portugal,
volta ao mar, a teus navios
Portugal volta ao homem, ao marinheiro,
volve à terra tua, à tua fragrância,
à tua razão livre no vento,
de novo
à luz matutina
do cravo e da espuma.
Mostra-nos teu tesouro,
teus homens, tuas mulheres,
não escondas mais teu rosto
de embarcação valente
posta nas avançadas do Oceano.
Portugal, navegante,
descobridor de Ilhas,
inventor de pimentas,
descobre o novo homem,
as ilhas assombradas,
descobre o arquipélago no tempo.
A súbita
Aparição
do pão
sobre a mesa,
a aurora,
tu, descobre-a,
descobridor de auroras.
Como é isso?
Como podes negar-te
ao ciclo da luz tu que mostraste
caminhos aos cegos?
Tu, doce e férreo e velho,
estreito e amplo Pai
do horizonte, como
podes fechar a porta
aos novos racimos,
ao vento com estrelas do Oriente?
Proa da Europa, procura
na correnteza
as ondas ancestrais,
a marítima barba
de Camões.
Rompe
as teias de aranha que cobrem
tua fragrante copa de verdura
e então
a nós outros, filhos dos teus filhos,
aqueles para quem descobriste a areia
até então escura
da geografia deslumbrante,
mostra-nos que tu podes
atravessar de novo
o novo mar escuro
e descobrir o homem que nasceu
nas maiores ilhas da terra.
Navega, Portugal, a hora
chegou, levanta
tua estatura de proa
e entre as ilhas e os homens volve
a ser caminho.
A esta idade agrega
tua luz, volta a ser lâmpada
aprenderás de novo a ser estrela.


* Poema de Pablo Neruda inserido na campanha internacional para a libertação de Álvaro Cunhal,


No 70º aniversário do Julgamento de Álvaro Cunhal (Maio de 1950) para memória de que a Liberdade é um bem precioso que importa defender sempre.

alvaro cunhal comicio

[Intervenção de Álvaro Cunhal realizada perante o tribunal fascista em 2 de Maio de 1950] (*)

No princípio do julgamento, o juiz presidente pergunta a identidade aos réus. Depois, dirigindo-se a Álvaro Cunhal, diz:

Juiz - Sabe de que é acusado? Tem alguma coisa a dizer em sua defesa?

AC - Sim. Quero começar por referir neste tribunal que, desde a minha prisão em 25 de Março de 1949, há, portanto, mais de um ano, me encontro ilegalmente submetido a um regime de rigoroso isolamento.

Juiz - Sabe certamente que há peças no processo relativas a isto.

AC - Perfeitamente. Não há qualquer exagero em dizer que esse regime é uma nova forma de tortura. Uns resistem a ela, outros, como esse grande patriota que foi Militão Ribeiro, perdem nela a vida, conforme tomei conhecimento já depois de me encontrar neste tribunal. Da primeira vez que fui preso, como me negasse a prestar declarações, algemaram-me, meteram-me no meio de uma roda de agentes e espancaram-me a murro, pontapé, cavalo-marinho e com umas grossas tábuas com uns cabos apropriados. Depois de me terem assim espancado longo tempo, deixaram-me cair, imobilizaram-me no solo, descalçaram-me sapatos e meias e deram-me violentas pancadas nas plantas dos pés. Quando cansados, levantaram-me, obrigando-me a marchar sobre os pés feridos e inchados, ao mesmo tempo que voltavam a espancar-me pelo primitivo processo. Isto repetiu-se numerosas vezes, durante largo tempo, até que perdi os sentidos, estando 5 dias sem praticamente dar acordo de mim.

Desta vez não fui sujeito aos mesmos processos. Mas estou em condições de comparar, avaliar e aqui dizer que um ano de isolamento não é menos duro que os referidos maus tratos. Não há, pois, qualquer exagero ao dizer que o referido regime de isolamento é uma nova forma de tortura. Há, entretanto, que sublinhar que, no meu caso, se não trata dos célebres «safanões a tempo» para arrancar confissões (de que há anos falava o Sr. Presidente do Conselho), mas, antes, de medidas tomadas pela polícia pelo despeito de não ter podido obter tais confissões.

De facto, na PIDE foram-me feitas variadas perguntas relacionadas (umas directamente, outras indirectamente) com a minha actividade política. A todas elas me recusei a responder com o fundamento - que mantenho - de que um membro do Partido Comunista Português, força política de vanguarda na luta pela Democracia, a Independência Nacional e uma Paz Duradoura, não tem quaisquer declarações a fazer à polícia política, instrumento de repressão violenta exercida contra os trabalhadores e contra os portugueses democratas, patriotas e partidários da Paz. Com grande alegria verifiquei que os meus queridos camaradas, comigo presos e companheiros neste processo, o saudoso Militão e Sofia, tomaram igual atitude.

 

Nota:

(*) Existem várias versões desta primeira intervenção em tribunal. Publica-se a mais completa. Das últimas declarações em 9 de Maio de 1950 apenas chegou até nós um pequeno resumo, com alguns excertos textuais. Entre estes registe-se a conhecida declaração de Álvaro Cunhal de que «no que me diz respeito, também alguma coisa fica provado: que como membro do PCP, como filho adoptivo do proletariado, cumpri os meus deveres para com o meu partido e o meu povo. É isto que interessa fique provado, porque é só ante o meu partido e o meu povo que respondo pelos meus actos».

alvaro cunhal luta

CIPRIANO DOURADO - 1956

* CIPRIANO DOURADO *
 
PORTUGAL DEMOCRÁTICO || N.º 3 || 1 DE SETEMBRO DE 1956
 
[Portugal Democrático || N.º 3 || 01/98/1956 || ANTT || PT-TT-JPD-0001_m0029]

Ver original em 'Silêncios e Memórias' na seguinte ligação:

http://silenciosememorias.blogspot.com/2020/05/2379-cipriano-dourado-ix-portugal.html

Ministério da Cultura deve salvaguardar o presente e futuro do sector

A situação dramática que atravessa o sector da cultura exige um conjunto de medidas de «emergência», de «retoma» e de «reforma», defendeu ontem o CENA-STE, após reunião adiada no Ministério da Cultura.

CréditosBruno Ferreira / Manifesto em Defesa da Cultura

O compromisso com o Ministério da Cultura era o de, esta quinta-feira, o Sindicato dos Trabalhadores de Espectáculos, do Audiovisual e dos Músicos (CENA-STE/CGTP-IN)  apresentar propostas concretas com vista à solução dos problemas do sector, mas a reunião foi adiada. «Lamentamos profundamente que o Ministério da Cultura não considere prioritário discutir com os representantes dos trabalhadores do sector propostas tão urgentes quanto estruturantes para estabilizar as situações de urgência com que nos deparamos todos os dias», pode ler-se na nota divulgada.

Assim, cumprindo o compromisso, o CENA-STE decidiu divulgar ontem as propostas que teria apresentado à ministra na reunião, que considera serem medidas «de emergência, de retoma e de reforma para o sector», construídas em cima dos resultados do «Questionário aos Trabalhadores de Espectáculos, Audiovisual e Músicos», bem como do diálogo com estruturas culturais e grupos informais de defesa da cultura e com delegados e dirigentes sindicais dos muitos locais de trabalho onde tem intervenção.

O sindicato considera que as «consequências devastadoras» deste período em que foram aplicadas as medidas de contingência da Covid-19 que paralizaram o sector, assumiram estes contornos devido às «condições de precariedade, injustiça social, indefinição e arbitrariedade que carecem do devido enquadramento há muito tempo».

O CENA-STE propõe, assim, a criação de um fundo de emergência social que garanta «protecção imediata destes trabalhadores» até ao levantamento de todas as normas de condicionamento da sua actividade, que garanta um apoio mínimo de 635 euros – referente ao salário mínimo nacional –, e um máximo de 1097 euros – referente ao valor máximo de subsídio de desemprego, dependendo dos rendimentos declarados.

Propõe ainda a isenção de pagamento das contribuições à Segurança Social e um desagravamento fiscal. Por outro lado, exige a afectação de verbas a estruturas artísticas e culturais não abrangidas pelos apoios da DGArtes, mas consideradas elegíveis.

Para preparar a retoma com o fim do confinamento, o sindicato reclama medidas de protecção social e de saúde relacionadas com a Covid-19 e a promoção de medidas de higiene e segurança no trabalho, acompanhada de incentivos à produção, difusão e fruição cultural.

Entre elas a criação de um «Cartão-Cultura» para aquisição de produtos culturais nacionais, permitindo a cada cidadão acesso a um valor mensal para gastar em espectáculos, livros, filmes, museus ou similares, com duração a determinar, a ser pago às entidades culturais e artísticas mediante comprovativo de usufruto.

Como medidas de reforma, o CENA-STE reivindica a revisão da carreira contributiva, por forma a garantir uma maior estabilidade destes profissionais, a obrigatoriedade dos contratos, e um levantamento exaustivo do tecido cultural para diagnosticar necessidades específicas de regiões ou comunidades, particularmente no que toca à protecção laboral e social.

Finalmente, o sindicato afirma que a luta pela valorização da cultura e dos seus trabalhadores passa pela exigência de um maior financiamento para a cultura e a concretização, «sem subterfúgios ou cativações», do patamar mínimo de 1% do Orçamento do Estado para a Cultura.

Unidos pelo presente e futuro da Cultura em Portugal

Um colectivo de 14 estruturas formais e informais representativas do tecido cultural e artístico do País, entre as quais está o CENA-STE, lançou um apelo à criação efectiva de «uma estratégia a curto, médio e longo prazo» para o sector, que inclua medidas de protecção social dos trabalhadores intermitentes e a disponibilização de «um fundo de apoio de emergência com valores dignos e adequados à dimensão e ao impacto» da crise provocada pelo surto da Covid-19.

A reivindicação está expressa no manifesto «Unidos pelo presente e futuro da Cultura em Portugal», que foi enviado aos presidentes da República e da Assembleia da República, ao primeiro-ministro e à ministra da Cultura.

Convictos de que as soluções até agora anunciadas pelo Ministério da Cultura e as medidas transversais de emergência «deixam de fora um número substancial de profissionais desta área», dando origem a casos e situações dramáticas que revelam «a magnitude da calamidade», os subscritores apelam a uma acção que ultrapasse «a visão normalmente redutora deste sector, incluindo uma multiplicidade de profissões cujo mapeamento é gravemente insuficiente».

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/trabalho/ministerio-da-cultura-deve-salvaguardar-o-presente-e-futuro-do-sector

Precariedade na Casa da Música motiva abaixo-assinado

Dezenas de signatários pediram à fundação que gere a Casa da Música, no Porto, que «cumpra os compromissos» com todos os trabalhadores.

CréditosFilipe Fortes / wikipedia

No total, são 92 os signatários da carta enviada esta terça-feira ao director-geral da Fundação Casa da Música, entre os quais estão 28 trabalhadores com contrato e 64 prestadores de serviços a recibos verdes, nomeadamente assistentes de sala, guias, músicos, técnicos e formadores.

Na documento, os signatários apontam que, «nos últimos dias, se revelou muito preocupante a forma como estão a ser tratados os numerosos profissionais independentes que trabalham na Casa da Música».

«Falamos de formadores e músicos, técnicos e guias, assistentes de sala e porventura outros ainda que viram as suas vidas interrompidas neste período de encerramento da instituição. Falamos de profissionais que são, de facto, parte da equipa e colegas de trabalho», acrescentam.

Uma das situações descritas prende-se com a proposta feita a «mais de uma dezena de formadores do Serviço Educativo», conforme surge descrito no texto, do «adiantamento de valores próximos dos serviços cancelados, mas os formadores ficariam a dever essas quantias à Casa da Música, no formato de bolsa de horas», ou seja, teriam de trabalhar de graça em datas futuras.

 

«Sem outra alternativa, foram remetidos para os apoios da Segurança Social, para os quais apenas uma parte é elegível», lê-se no texto do abaixo-assinado, que fala, ainda, dos «músicos extra», ou seja, músicos de agrupamentos residentes que são convidados e que não pertencem às formações de base da instituição, ou a músicos e bandas que estavam programados para actuar no café, mas viram essas iniciativas canceladas ou alvo de reagendamento.

No que respeita aos projectos iniciados a partir de Abril, não haverá qualquer pagamento, mesmo que já estivessem contratados. «O reagendamento não é a manutenção de um compromisso com o ecossistema artístico», afirmam os trabalhadores.

Os signatários deste abaixo-assinado dizem «não compreender a violência destas medidas», uma vez que não têm «notícia de redução, pelo menos para este ano, de subsídios estatais ou do mecenato, nem mesmo uma redução significativa dos alugueres de sala para promotores externos».

Este abaixo-assinado surge dias depois de o PCP ter alertado para uma situação «inaceitável» vivida pelos trabalhadores da Casa da Música. Os comunistas consideram que «a situação excepcional que se vive», devido ao surto epidémico da Covid-19, «não pode ser o pretexto para se atentar contra os direitos dos trabalhadores», salientando que «a actual situação tem evidenciado um conjunto de problemas, nomeadamente a precariedade, a que estão sujeitos muitos trabalhadores do sector da Cultura».

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/trabalho/precariedade-na-casa-da-musica-motiva-abaixo-assinado

Está no coração do povo .

José Gomes Ferreira – Etc e Tal – Jornal

Está no coração do povo por mais que custe aos dominantes e a certos escribas .

REVOLUÇÃO
Conto de José Gomes Ferreira

 

Manhãzinha cedo, senti acordar-me o sopro da voz ciciada de minha mulher:
– O Fafe telefonou de Cascais, … Lisboa está cercada por tropas  – refilo, rabugento:
– Hã? (…)
Levanto-me preparado para o pesadelo de ouvir tombar pedras sobre cadáveres. Espreito através da janela. Pouca gente na rua. Apressada. Tento sintonizar a estação da Emissora Nacional. Nem um som. Em compensação o telefone vinga-se desesperadamente. Um polvo de pânico desdobra-se pelos fios. A campainha toca cada vez mais forte.
Agora é o Carlos de Oliveira.
– Está lá? Está lá? É você, Carlos? Que se passa?
Responde-me com uma pergunta qualquer do avesso.
Às oito da manhã o Rádio Clube emite um comunicado ainda pouco claro:
– Aqui, Posto de Comando das Forças Armadas. Não queremos derramar a mínima gota de sangue.
De novo o silêncio. Opressivo. De bocejo. Inútil. A olhar para o aparelho.
Custa-me a compreender que se trate de revolução. Falta-lhe o ruído, (onde acontecerá o espectáculo?), o drama, o grito. Que chatice!
A Rosália chama-me, nervosa:
– Outro comunicado na Rádio. Vem, depressa. Corro e ouço:
– Aqui o Movimento das Forças Armadas que resolveu libertar a Nação das forças que há muito a dominavam. Viva Portugal!
Também pede à policia que não resista. Mas Senhor dos Abismos!, trata-se de um golpe contra o fascismo (isto é: salazismo-caetanismo). São dez e meia e não acredito que os «ultras» não se mexam, não contra-ataquem! (…)
A poetisa Maria Amélia Neto telefona-me: «Não resisti e vim para o escritório».
Os revoltosos estão a conferenciar com o ministro do Exército. Na Rádio a canção do Zeca Afonso: Grândola, vila morena … Terra da fraternidade… O povo é quem mais ordena…
Sinto os olhos a desfazerem-se em lágrimas.
De súbito, aliás, a Rádio abre-se em notícias. O Marcelo está preso no Quartel do Carmo. A polícia e a Guarda Republicana renderam-se. O Tomás está cercado noutro quartel qualquer. E, pela primeira vez, aparece o nome do General Spínola. Novo comunicado das Forças Armadas. O Marcelo ter-se-á rendido ao ex-governador da Guiné. (Lembro-me do Salazar: «o poder não pode cair na rua»).
Abro a janela e apetece-me berrar: acabou-se! acabou-se finalmente este tenebroso e ridículo regime de sinistros Conselheiros Acácios de fumo que nos sufocou durante anos e anos de mordaças. Acabou-se. Vai recomeçar tudo.
A Maria Keil telefonou. O Chico está doente e sozinho em casa. Chora. (Nesta revolução as lágrimas são as nossas balas. Mas eu vi, eu vi, eu vi! (…)
Antes de morrer, a televisão mostrou-me um dos mais belos momentos humanos da História deste povo, onde os militares fazem revoluções para lhes restituir a liberdade: a saída dos prisioneiros políticos de Caxias.
Espectáculo de viril doçura cívica em que os presos… alguns torturados durante dias e noites sem fim…. não pronunciaram uma palavra de ódio ou de paixões de vingança.
E o telefone toca, toca, toca… Juntámos as vozes na mesma alegria. (…)
Saio de casa. E uma rapariga que não conheço, que nunca vi na vida, agarra-se a mim aos beijos.
Revolução.

 

in Poeta Militante III – Viagem do Século Vinte em mim, Lisboa, Moraes Editores, 1983
 

 

Via: FOICEBOOK https://bit.ly/2VZ23HC

 

 

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/04/27/esta-no-coracao-do-povo/

Vale do Côa revela nova descoberta

O painel, com mais de seis metros de comprimento, contém a maior figura de arte rupestre do Vale do Côa e de toda a Península Ibérica, sendo uma das maiores do mundo.

Créditos / Archéologia

«Sob os sedimentos escavados percebeu-se que o painel tem mais de seis metros de comprimento. Verificou-se ainda que o traço que se observava à superfície fazia parte da garupa de um grande auroque (boi selvagem), com mais de três metros e meio de comprimento. Trata-se da maior figura da arte do Vale do Côa e da toda a Península Ibérica, e uma das maiores do mundo, apenas comparável com os auroques da gruta de Lascaux [França]», lê-se num comunicado da Fundação Côa Parque enviado ao AbrilAbril

A descoberta de um novo painel gravado, com mais de 20 novas gravuras paleolíticas que se encontravam cobertas por camadas arqueológicas, acaba de ser publicada na revista de referência da actualidade.

«No seu interior identificaram-se outros animais gravados por picotagem e abrasão: uma fêmea de veado, uma cabra e uma fêmea de auroque, seguida pelo seu vitelo. No sector direito do painel identificou-se um outro conjunto de gravuras, contendo várias representações de auroques, veados e cavalos, todos sobrepostos, que se encontram ainda parcialmente sob sedimentos», refere-se na nota, sublinhando que as figuras parecem fazer parte da fase mais antiga da arte do Côa, datada de há mais de 23 mil anos.

A equipa de arqueologia revela que a descoberta foi motivada pela identificação de um traço gravado junto à rocha 9 do Fariseu, um dos principais núcleos de arte rupestre do Vale do Côa, classificados como Monumento Nacional e inscritos na Lista do Património Mundial da agência das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), «que prosseguia sob o solo actual, numa superfície então visível de menos de um metro de comprimento».

Para além da importância do achado em si, os arqueólogos afirmam que o facto de o painel ter sido encontrado sob camadas arqueológicas permite atribuir-lhe uma data mínima, sendo esta «a única forma de datar objectivamente a arte do Côa, uma vez que é impossível de datar directamente por Carbono 14».

A escavação surgiu no contexto do estudo do contexto arqueológico da arte paleolítica do Vale do Côa, que se vem desenvolvendo há 25 anos. Recorde-se que, já em 1999, se havia identificado a rocha 1 do mesmo sítio coberta por sedimentos arqueológicos, tendo então sido possível datar o início e o fim da arte paleolítica do Vale do Côa.

«A continuação dos trabalhos e as datações físico-químicas a realizar permitirão datar de forma científica estas camadas que cobrem as gravuras, mas a sua comparação com o registo da rocha 1 permite dizer que as mais antigas datarão das primeiras fases do Paleolítico Superior», afirma a equipa de arqueólogos.

Sublinham ainda que os dados preliminares agora publicados «reafirmam a importância» da continuação dos estudos arqueológicos, «demonstrando uma vez mais que grande parte da sua riqueza patrimonial se encontra no subsolo, onde se deverão ir buscar as respostas para as perguntas que subsistem, sobre porquê e quando foi feita a arte paleolítica do Vale do Côa». 

Os trabalhos de escavação arrancaram no início deste ano e deverão prosseguir assim que as actuais medidas de contenção devido à pandemia de Covid-19 o permitam.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/local/vale-do-coa-revela-nova-descoberta

O que a pandemia fez adiar...

 
Ele queria estar na nossa festa, pá, com a nossa gente. 
Nós queríamos que ele, pelo tanto que nos liga, estivesse na nossa festa, com a nossa gente.
Não deu, desta. 
Dará noutra.  
A que me refiro? Lembram-se de vos ter dito que um dia daria a notícia? Pois é! A noticia está dada. Não!, a entrega do Prémio Camões -2019 não vai acontecer. 
E não vai acontecer aquilo em nos empenhámos tanto... Falámos com Bandas Filarmónicas, com as suas direcções, com maestros, reunimos pautas, propusemos temas... mas "A Banda" seria tema obrigatório. 
Estava tudo apalavrado. A data? 25 de Abril, pois claro. Só pendente o local/hora.
Não deu, desta.
Dará noutra. 
Amanhã cantarei, à janela, a Grândola
Com o coração inundado de Tanto Mar
 

Ver original em 'Conversa Avinagrada' (aqui)

COVID-19: Isolamento social e oportunidades de leitura

A situação de isolamento social em que muitas pessoas estão neste momento não é a mais agradável. Uns continuam a trabalhar, outros a estudar. Muitos têm algum tempo livre.

 

 

A todos queremos deixar algumas sugestões de leitura.

O critério que presidiu a esta escolha é, naturalmente, subjectivo: dando a volta por uma livraria, consultando as algumas secções e várias temáticas, escolhemos 20 livros que gostaríamos de comprar e ler. Uma escolha muito pessoal, portanto.

Também é uma sugestão sem perigo de contágio e, como sempre, um bom livro pode ser uma companhia essencial. E, felizmente, para os comprar não precisa de sair de casa pois há várias livrarias online.

Boas Leituras!

Ficção

  • Manuel Vilas, Em Tudo Havia Beleza (Alfaguara, 21,90€)
  • Germano Almeida, O Último Mugido (Caminho, 18,90€)
  • João Tordo, A Noite em que o Verão Acabou (Companhia das Letras, 22€)
  • Albert Camus, A Peste (Livros do Brasil, 16,60€)
  • Fernando Pessoa/Bernardo Soares, O Livro do Desassossego (Relógio d’Água, 30€)

 

Não ficção

  • Eduardo Dâmaso, Corrupção (Objectiva, 17,70€)
  • Normand Baillargeon, À Mesa com os Filósofos (Temas e Debates, 18,80€)
  • Ana Milhazes, Vida Lixo Zero (Contraponto, 16,60€)
  • Daniel Susskind, Um Mundo Sem Trabalho (Iniciativas de Ler, 22€)
  • Jonathan Franzen, O Fim do Fim da Terra (D. Quixote, 16,60€)

 

Ensaios

  • Lesley Levene, Filosofia para Pessoas com Pressa (Presença, 14,90€)
  • Fredéric Lenoir, O Milagre Espinosa (Quetzal, 16,60€)
  • Mary Midgley, Para que Serve a Filosofia? (Temas e Debates, 17,70€)
  • Rolf Petri, Breve História da Ideologia Ocidental (Temas e Debates, 18,80€)
  • Alexandre del Valle, O Complexo Ocidental (Casa das Letras, 19,90€)

 

Poesia

  • Rui Caeiro, O Sangue a Ranger nas Curvas Apertadas do Coração-Obra Reunida (Maldoror, 22€)
  • Maria Teresa Horta, Eu Sou a Minha Poesia-Antologia Pessoal (Dom Quixote, 15,90€)
  • Alejandra Pizarnik, Antologia Poética (Tinta da China, 15,90€)
  • António Colinas, Harmonia (Assírio e Alvim, 16,60€)
  • David Mourão-Ferreira, Obra Poética-1948/1995 (Assírio e Alvim, 44€)

 

 

Onde comprar online?

ALMEDINA
BERTRAND
FLANEUR
WOOK


Exclusivo Tornado / Novos Livros


 

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/covid-19-isolamento-social-e-oportunidades-de-leitura/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=covid-19-isolamento-social-e-oportunidades-de-leitura

LÉNINE E AS ARTES (assinalando os 150 anos do nascimento de Lénine)

 

O trabalho político e revolucionário não lhe darão tempo para se ocupar das questões artísticas como poderia pretender, mas as questões artísticas nunca lhe foram estranhas nem indiferentes.

 

Tribuna para Lénine, El Lissitsky, 1920

 
 

Em 1905, durante a primeira revolução, ele (Lénine) teve de passar uma noite em casa de D. Lechtchenko, onde havia, entre outras, uma colecção das publicações de Knachfuss consagradas aos maiores pintores do mundo inteiro. Na manhã do dia seguinte, Vladimir Ilitch disse-me: «Que fascinante domínio o da história de arte. Quanto trabalho para um marxista. Não preguei olho durante a noite, percorrendo os livros um após outro. E lamentei não ter tempo – e não terei provavelmente nunca – para me ocupar das questões artísticas»
A. Lunatcharski, Lenine tel quel fut, Souvenirs de Contemporains, Editions du Progrès,  Moscovo, 1959 II volume, p. 422-426.

O trabalho político e revolucionário não lhe darão tempo para se ocupar das questões artísticas como poderia pretender, mas as questões artísticas nunca lhe foram estranhas nem indiferentes, muito pelo contrário, pelo que teve sempre um grande e directo envolvimento nas questões artísticas e literárias ligadas aos problemas políticos e filosóficos, antes da Revolução Bolchevique e no agitadíssimo período que se viveu depois da tomada do poder pelos sovietes, sempre intransigente em relação aos princípios e sempre politicamente flexível. Há um conceito que é nuclear em todo o pensamento e na acção de Lénine em relação à cultura: «a cultura revolucionária tem que ser o desenvolvimento lógico do acervo dos conhecimentos conquistados pela humanidade submetida ao jugo da exploração capitalista, de uma sociedade de latifundiários e burocratas. Esses são os caminhos e os atalhos que nos irão orientar e conduzir até alcançarmos uma cultura revolucionária»1 o que será mais explícito quando afirma «no capitalismo a cultura é de uma minoria. É com essa cultura que temos que construir o socialismo. Não dispomos de outro material. Queremos construir o socialismo imediatamente, na base do material que o capitalismo nos legou, ontem, hoje, agora mesmo e não com homens criados em estufas, se é que alguma vez podemos ter dado crédito a essas fábulas (…) se não somos capazes de construir a sociedade comunista com esses materiais, seremos uns charlatães».2. É a expressão do pensamento de um revolucionário marxista, conhecedor profundo do pensamento marxista, em consonância com a crítica sem complacências que Marx e Engels fazem do capitalismo sem deixarem de reconhecer, como Engels escreve no prefácio à edição italiana do Manifesto do Partido Comunista, que «o Manifesto presta inteira justiça ao papel revolucionário que o capitalismo representou em relação ao passado». É um tema de uma enorme dimensão e ainda actual que, obviamente, só poderá ser enunciado numa nota tão breve quanto esta.

Antes da Revolução de Outubro

Antes da Revolução, de 1893 a 1917, enquanto debatia as inúmeras questões políticas e filosóficas que se colocavam aos revolucionários marxistas, contra os erros ideológicos de todas as forças políticas que anulavam a intervenção e a acção revolucionária, Lénine refere frequentemente as questões literárias e artísticas, mais as primeiras que as segundas, intimamente ligadas aos problemas políticos revelando um considerável conhecimento sobre esse universo.

Os grandes debates políticos travavam-se entre os marxistas e os populistas, e os seguidores pós-Revolução destes, os socialistas-revolucionários. Os populistas tinham uma presença importante na literatura russa. Nos seus primeiros escritos Lénine polemiza violentamente contra a sua visão da sociedade russa, uma polémica que se irá prolongar durante vários anos. O que critica nos populistas, realçando como uma expressão estética revela uma ideologia política, é a negação que fazem de ser possível uma revolução na Rússia, contra a convicção de Lénine, que haveria de a tornar real, de que era possível uma revolução e que seria o proletariado a efectuar essa transformação. Lénine, no entanto, reconhece que os populistas fazem descrições exactas da realidade russa, cita-as com frequência, enquanto denuncia que na maior parte dessas obras, que expõem a evolução brutal da vida social, as novas formas de miséria ligadas ao aparecimento do capitalismo, se dissimula uma ideologia que prolonga a desgraça que denunciam e julgam combater.

Essas polémicas literárias em que Lénine se envolveu vão adquirir maior expressão com a criação da imprensa revolucionária, IskraVperiod, que considera nucleares para lutar contra os adversários ideológicos do marxismo, para a formação de um partido revolucionário, onde se permitisse a discussão dos diversos pontos de vista: « é impossível conduzir a luta política se todo o partido não puder pronunciar-se sobre todas as questões políticas e guiar as diversas manifestações de luta. Só se poderão organizar as forças revolucionárias, discipliná-las e desenvolver a técnica da acção revolucionária se todas estas questões forem discutidas num órgão central, se forem elaboradas colectivamente certas formas e regras de organização de trabalho, se a responsabilidade de cada membro do Partido perante todo o Partido for estabelecida por intermédio de um órgão central para debater as questões de teoria e de prática (…) devem dar amplo lugar aos problemas teóricos, isto é, tanto à teoria social-democrata em geral como à sua aplicação à realidade russa. A urgência da discussão pública destes problemas, actualmente, não é objecto de dúvida e dispensa comentários, depois do que acaba de ser dito (…) Devemos proceder de maneira a que cada social-democrata e cada operário consciente tenha uma opinião determinada sobre todos os problemas essenciais: é impossível, sem isto, organizar em grande escala uma propaganda e uma agitação metódicas»3. A história da Iskra é inseparável da luta de Lénine para criar um partido revolucionário, onde se retoma o combate às teorias populistas, onde se avolumam as divergências fundamentais entre Lénine, Plekhanov, Trotsky e Martov quanto à organização de um partido revolucionário, que seriam mais evidentes com a publicação de Que Fazer? (Editorial Avante!, 1984). O avolumar de divergências que culminariam na cisão, em 1903, do Partido Operário Social-Democrata da Rússia (POSDR) em Mencheviques e Bolcheviques e que também está na origem do Vperiod como órgão dos Bolcheviques, opondo-se ao Iskra que passou a reflectir as ideias mencheviques e, mais tarde todas as polémicas suscitadas pela plataforma organizada em torno do Vperiod, animada por Bogdanov, quando depois de terem sido reconhecidos pelo plenário do partido, em 1910, como «grupo de edição do partido», tendo recebido do Comité Central os fundos para o seu funcionamento, se recusaram a aplicar as directivas do mesmo Comité, juntando-se aos mencheviques e trotskistas para lutar contra as decisões nele tomadas. Um conflito que se arrastou durante anos, até à sua desagregação em 1913 e à sua oficial dissolução em Fevereiro de 1917, quase sempre em perpétua dissidência com o Partido Bolchevique, com uma ideologia flutuante sem unidade teórica mas, no plano cultural reivindicando-se de uma «filosofia e cultura proletária» que terá expressão depois da Revolução de Outubro.

Gorki e Tolstoi

Os debates sobre o trabalho literário e o papel dos escritores é largamente debatido tanto na Iskra como no Vperiod e se Lénine faz severas críticas aos intelectuais, seus desvios e erros, é porque reconhece a importância que têm na luta contra o czarismo. A sua correspondência com Gorki, que não era membro do Partido, é bem reveladora do interesse de Lénine pelo papel dos intelectuais na luta revolucionária. É também neste período na Novaia Jizn, em 13 de Dezembro de 1905, que Lénine escreve um célebre texto que dará origem a imensos debates e equívocos, pelo que merece atenção mais particular A Organização do Partido e a Literatura de Partido (ibidem, tomo. X, p. 37) que deve ser fundamente analisado até pela especulação que Estaline e Jdanov fizeram desse texto, ignorando propositadamente todos os esclarecimentos feitos por Lénine.

São muitas as polémicas literárias antes da Revolução de Outubro em que Lénine participou. Particularmente interessantes são os seis textos de Lénine sobre Tolstoi, compará-los com os escritos por Plekhanov e Trotsky. Quando Tolstoi fez 80 anos e na celebração da sua morte dois anos depois, coincidiram a direita mais reaccionária, esta com a suprema hipocrisia de continuar a proibir os textos em que o escritor condenava a sua prática política, e os mencheviques que elogiaram Tolstoi «anarquista conservador», para evidenciarem a sua teoria reaccionária da não resistência ao mal pela violência, a fusão mística com a natureza, o culto do trabalho manual. O que é de sublinhar é que Lénine, assinalando todas essas contradições de Tolstoi, manifesta a sua profunda admiração pelo escritor que considera um dos maiores escritores vivos, «um observador e um crítico profundo do regime burguês, apesar da ingenuidade reaccionária da sua teoria». Anota que «se não simpatiza com os nossos objectivos revolucionários, sabemos que é porque a história lhe recusou toda a compreensão dos seus caminhos. Não o condenaremos por isso. Admiraremos sempre nele o génio que viverá tanto tempo quanto a própria arte, e também a coragem moral indomável que não lhe permite ficar no seio da sua Igreja hipócrita, da sua Sociedade e do seu Estado, o que o condenou a ficar isolado entre os seus inúmeros admiradores». Os seis textos de Lénine sobre Tolstoi, são o trabalho teórico mais extenso desenvolvido por um dos fundadores do marxismo-leninismo sobre um escritor. São uma visão crítica da obra de Tolstoi e a apreciação da importância histórica da sua obra, da importância política da sua obra e o que ela significava para a história do movimento social russo. O agudo olhar crítico de Lénine sobre Tolstoi, condenando «o ataque sem cambiantes de certos elementos de esquerda, os quais confundindo Tolstoi e o tolstoísmo, recusam em bloco a obra e a sua ideologia» está claramente a apontar para Plekhanov e Trostsky, entre outros socialistas, que passam por cima de todas as contradições de Tolstoi para, sem negar a sua valia literária, verem nele apenas um reaccionário, um representante da aristocracia, um inimigo do movimento operário. São textos que revelam a atitude revolucionária de um revolucionário marxista intransigente nos princípios e acutilante e flexível nas apreciações políticas e estéticas, de uma sageza crítica rara, o que é particularmente importante para se entender a sua relação com as artes e as letras depois da Revolução de Outubro.

«Batam os brancos com a cunha vermelha» (1919), litografia de El Lissitzky no Museu de Belas Artes, em Boston, EUA. Por “brancos” eram designados os exércitos contra-revolucionários durante a Guerra Civil Russa. Lazar Markovich Lissitzky (1890-1941), arquitecto e artista plástico, foi uma das mais importantes figuras do construtivismo russo Créditos
 

A Cultura, a Educação, as Artes e a Revolução

As fotografias da revolução russa, não só a de 1917, mas também a de 1905, mostram uma curiosa literarização da rua. As cidades e mesmo as aldeias, estão consteladas de fórmulas, como símbolos. A classe que se apodera do poder inscreve em grandes pinceladas as suas opiniões e as suas palavras de ordem nos edifícios de que se apoderam.
Berthold Brecht, Les Arts et la Revolution, L’Arche, 1997

A Revolução modificou as ruas porque mudou as relações entre os homens. Na Rússia Soviética, nos anos da Revolução, em condições políticas e económicas duríssimas, uma guerra civil com a participação activa dos países ocidentais, a penúria imposta por um herdado aparelho produtivo esclerosado que era urgente transformar, a arte respondeu aos novos tempos históricos com um dinamismo sem precedentes nem paralelos. Um movimento que se expandiu em todas as direcções e por todas as disciplinas artísticas.

A arte de propaganda revolucionária, a agit-prop, não foi um género particular, é o principal traço de toda a arte soviética nesses tempos de Revolução. As vanguardas artísticas, com todo o seu potencial criativo inovador, colaboram e coincidem com a vanguarda política, mantendo a sua autonomia relativa, sem se deixarem colonizar pela política mas fazendo dela uma parte activa da sua criação. É uma síntese nunca antes vista nem nunca antes experimentada. A Revolução influencia decisivamente as artes porque é um material vivo impregnado de um espírito social inovador. Em simultâneo, as fronteiras tipológicas entre as artes foram abolidas e os mesmos artistas trabalham em várias áreas. A arte liga-se estreitamente à vida social nos seus múltiplos e complexos aspectos. Contribui activa e conscientemente para a construção de um novo modo de vida e para a educação e instrução artística e ideológica das massas populares, opondo-se à cultura de massas burguesa e às suas propostas de consumo, fachadas de uma falsa democratização da arte. São o caldo de cultura na Rússia Soviética em que se tempera a democratização da cultura e das artes que catalisam uma extraordinária efervescência artística. A literalização das ruas inscreve-se nessa metamorfose radical da vida quotidiana depois de Outubro. O estoirar das velhas estruturas coexiste com uma explosão da criatividade entre artistas, operários, soldados escrevendo música, poemas, peças de teatro, cinema, num enorme esforço de trabalho de agitação e propaganda para motivar as imensas massas iletradas, para as fazer aderir aos ideais revolucionários. Lado a lado trabalham os maiores artistas soviéticos, Meyerhold, Eisenstein, Maiakovski, Malevitch, Rodzchenko, Tatline, Dziga Vertov, El Lissitsky, que melhor compreendiam os objectivos da Revolução, mas também os que dela tinham imagens parcelares, algumas distorcidas como é o caso de Essenine, Chagall, de algum modo Pasternak, até por vezes místicas como em Blok, ao lado de operários, soldados, simples cidadãos, muitos deles iletrados.

Lénine, assoberbado com o trabalho imenso de transformação económica, social e política da Rússia, enfrentando uma situação de grande penúria, a contra-revolução e os revisionismos que minavam a Revolução, tem um papel central na área da cultura e das artes. Refira-se, quando da formação do Conselho dos Comissários do Povo, presidido por Lénine, a integração de um Comissariado do Povo para a Instrução Pública, para o qual indicou Anatoli Lunatcharski. A tarefa não era de somenos: organizar uma educação nova, socialista numa Rússia maioritariamente analfabeta, representar o poder soviético junto dos artistas e intelectuais, um caldeirão efervescente, em que muitos dos empenhados na Revolução se digladiavam violentamente entre si, por opções estético-artísticas inconciliáveis, e muitos outros opunham-se vigorosamente à Revolução. Uma tarefa de vulto dispondo de meios materiais escassos num tempo em que tudo era escasso e tinha que ser muitíssimo bem equacionado.

Lunatcharki definia-se como «um intelectual entre os bolcheviques e um bolchevique entre os intelectuais». As suas polémicas com Lénine são dos tempos de exílio na Suíça. Com formação filosófica, era um homem de imensa cultura, um orador apaixonado e apaixonante. A sua divergência de fundo com Lénine enraizava nas concepções empiriocriticistas que tinha estudado com Averenius e que perfilhava, ainda que com algumas reservas, mas muitíssimo distanciado da violenta e arrasadora crítica feita por Lénine em Materialismo e Empiriocriticismo (Editorial Avante!, 1978), que nunca lhe poupou críticas reconhecendo-lhe todas as suas qualidades, empenhamento na Revolução e dedicação ao Partido apesar das suas indecisões e oscilações. Esse é um dos traços da personalidade de Lénine. Recorde-se, a talhe de foice, que apesar de todas as discordâncias com Rosa Luxemburgo, foi ele que incentivou e apoiou a edição em russo de Reforma ou Revolução (Editorial Estampa, 1972).

Vladimir Tatlin e um assistente junto à maqueta do «Monumento à III Internacional», em Petrogrado (hoje São Petersburgo), então capital da Rússia Soviética, em Novembro de 1920. Vladimir Tatlin (1885-1953) é um dos fundadores e nomes maiores do construtivismo. O «Monumento à III Internacional», concebido por Tatlin em 1919-1920, que nunca chegou a ser construído na dimensão originalmente prevista (400 metros de altura) é um dos ícones da arte construtivista Créditos

O Comissariado do Povo para a Instrução Pública (Narkompros) defrontava-se com inúmeras dificuldades, de que as menores não eram a desorganização entre departamentos, iniciativas mal estruturadas, o recrutamento de recursos humanos com competências culturais e de ensino mas poucas ou nenhumas em matérias de administração, a recusa activa de muitos membros da anterior intelligentsia em colaborarem com os bolcheviques, as estruturas arcaicas que herdara e os militantes mais competentes dos Partido estarem absorvidos pelas tarefas de reconstrução de um país a enfrentar dificuldades desmesuradas. Reinava uma certa anarquia contra a qual N. Krupskaia, ardente defensora do Narkompros, era porta-voz, por diversos departamentos do Comissariado escaparem à sua autoridade. A outra questão central era a do orçamento. Os representantes do orçamento do Conselho de Comissários do Povo criticavam o Narkompros por pedirem o impossível. O apoio de Lénine ao Narkompros e a Lunatcharski, olhado com desconfiança por muitos membros do Partido que ironizavam o seu esteticismo, foi fulcral. O seu orçamento, se relativamente baixo em termos absolutos, era até exorbitante em comparação com outros Comissariados. Foi objecto de várias reorganizações até à ultima, que instituiu o Narkompros como Comissariado do Povo para a Educação e as Belas-Artes. Os primeiros decretos incidiram na reorganização da educação em todo o extenso território da Rússia, defrontando-se com o gigantesco problema de encontrar professores para o realizar. Apesar disso as primeiras realizações, com o apoio directo de Lénine, foram notáveis, como os projectos de jardins infantis, as escolas comunais, maternas e artísticas, os métodos de ensino pedagogicamente revolucionários, um universo rico de experiências, impossíveis de descrever aqui mas em que se deve referir o trabalho, avançadíssimo para a época de Makarenko pelas suas teorias pedagógicas com uma ideia central: «exigir o mais possível do homem e respeitá-lo o mais possível» (Les Problèmes de la Éducation Scolaire Soviétique, Editions du Progrès, Moscovo, 1962).

O programa de ensino afrontava outra questão muito particular que era as dos idiomas locais, das diversas nações que coexistiam no território da Rússia, que muitos queriam normalizar pela imposição de uma língua unificada. Uma questão que imbricava noutra mais vasta, a de uma cultura nacional. A participação de Lénine é decisiva. É contra a ideia de uma cultura nacional unificada que classifica de reaccionária. Sublinhava que «a Rússia é um país misto no aspecto nacional» e que «uma cultura nacional exerce-se em detrimento do povo, favorecendo o nacionalismo burguês» (…) «não se trata de construir uma cultura nacional mas uma cultura internacional para a qual cada cultura nacional contribui apenas com uma parte, a saber, unicamente o conteúdo democrático consequente e socialista de cada uma das culturas nacionais (…) nós somos contra a cultura nacional enquanto palavra de ordem do nacionalismo burguês. Somos pela cultura internacional do proletariado socialista e democrata até ao fim». (ibidem, tomo XIX) Serão as palavras de ordem do Partido Bolchevique: a igualdade em direitos culturais, o direito à identidade de todas as nações no seio do Estado, a recusa da imposição de uma «autonomia nacional cultural» que conduziria a progressivamente anular as culturas regionais pelo seu não reconhecimento enquanto parte activa da cultura de toda a Rússia. Registe-se que, em linha com esta posição de Lénine, no trabalho de alfabetização de toda a Rússia, as línguas das diversas nacionalidades foram protegidas, o seu uso incentivado. Algumas delas, que eram orais, não tinham expressão escrita e só começaram a tê-la pelo trabalho dos linguistas soviéticos. Pela mesma ordem de razões, Lénine opor-se-á à imposição de uma «cultura proletária», mesmo a reconhecer a existência de uma «cultura proletária», como os partidários do Proletkult pretendiam, como mais adiante se referirá.

Outras das grandes questões a resolver pelo Narkompros era a dos monumentos e da riqueza artística da Rússia. Os combates de rua e a guerra civil eram uma ameaça. Os bolcheviques tomaram medidas eficazes para os salvaguardar, empenhando os responsáveis do Partido, os militares e os operários. A palavra de ordem de Lénine era «o povo dos trabalhadores é agora senhor absoluto do país. Além das riquezas naturais, herdou enormes riquezas culturais, edifícios de grande beleza, museus, bibliotecas, colecções particulares. Tudo isso é agora propriedade do povo». A propaganda contra a Revolução de Outubro apresentava os revolucionários como uma horda de bárbaros e de iconoclastas saqueando a velha cultura secular. Há um episódio relatado por John Reed, em Dez Dias que Abalaram o Mundo (Editorial Avante!, 1997) bem expressivo em relação a essa propaganda contra-revolucionária. «A 15 de Novembro, na sessão do Conselho de Comissários do Povo, Lunatcharski rebentou bruscamente em lágrimas, precipitou-se para fora da sala, gritando: É mais forte que eu! Não posso suportar esta destruição monstruosa da beleza e da tradição. No mesmo dia, a sua carta de demissão aparecia em todos os jornais: “Acabo por saber por testemunhas oculares o que se passou em Moscovo. Estão a destruir a igreja de Basílio, o Bem-Aventurado e a catedral Uspenski. Bombardeiam o Kremlin, onde se encontram os tesouros artísticos de Petrogrado e Moscovo, há milhares de vitimas. A luta atinge o último grau de selvajaria. Até onde irá isto? Que pode acontecer mais? Não posso suportar isto. A medida está cheia e sou impotente para deter estes horrores. É-me impossível trabalhar, perseguido por pensamentos que me enlouquecem». Era tudo mentira, as noticias falsas, as fake news, ontem como hoje e no futuro serão sempre uma arma, uma poderosa arma dos reaccionários. Lunatcharski retirará o seu pedido demissão.

Sublinhe-se que poucos foram os antigos monumentos destruídos, mesmo os que eram símbolos do poder czarista, desde que apresentassem valor artístico. No assalto ao Palácio de Inverno os guardas vermelhos foram os primeiros a dar o exemplo, impedindo actos de pilhagem e recuperando os que os fiéis ao czar queriam roubar. Logo a seguir à tomada do Palácio de Inverno foi publicado um decreto a proteger o edifício e os tesouros artísticos aí albergados.

O Narkompros com o apoio do Conselho dos Comissários do Povo, presidido por Lénine, e de várias comissões ad hoc, nomeadas por esse Conselho, inicia o trabalho de inventariar todas as obras de arte, de nacionalizar castelos, galerias, bibliotecas e colecções particulares, de proibir a exportação de objectos antigos e de obras de arte, foi mesmo decidido restaurar alguns palácios e castelos, como o palácio Stroganoff ou o castelo Pavlovsk, o Kremlin que estava devastado antes da Revolução, iniciar escavações arqueológicas. Em Novembro de 1917, por iniciativa de Lénine e do Comissariado do Povo da Instrução Pública, foi criado um colégio para se ocupar dos assuntos dos museus, deram-se cursos de formação para os trabalhadores dos museus. A Narkompros, enfrentando uma penúria generalizada, contradições e polémicas fez, nos anos da Revolução, um trabalho notabilíssimo dirigida por Lunatcharski, a quem Lénine, nunca o poupando a críticas, também nunca deixou de activamente apoiar.

Colectivo artístico acaba a decoração de uma carruagem de um comboio de agitprop
 

As Vanguardas Artísticas e a Revolução

Alguns aspectos da relação das artes com a Revolução de Outubro já foram referidos. É, como todos os outros aqui mencionados e muito debatidos ao longo dos anos, um tema extenso que tem que ser necessariamente resumido num texto deste género. Uma primeira nota, que merece uma longa reflexão e um longo debate, é o referente às vanguardas artísticas, o que foram e a decadência e o descrédito de tal conceito na actualidade, a sua validade e a sua relação com as vanguardas históricas revolucionárias e políticas. Não é um acaso que na Rússia da Revolução de Outubro se assista à explosão das vanguardas artísticas com toda a sua radicalização, o que colocou problemas e questões novas ao poder político e deu lugar a grandes polémicas, entre as vanguardas artísticas entre si e com o poder dos sovietes. Uma única certeza – com tudo o que as certezas têm e que devem ser sempre questionadas com hipóteses provisórias que as fazem equacionar sempre enquanto certezas relativas do ponto de vista do materialismo dialéctico – estavam empenhadas por inteiro, ainda que muitas vezes não compreendendo a sua evolução, com a Revolução.

As vanguardas artísticas, futuristas, cubo-futuristas, suprematistas, expressionistas, construtivistas, imagistas, etc. reivindicavam uma arte radicalmente nova e mesmo a destruição das obras de arte anteriores consideradas inquinadas pelo gosto e pelas ideias da burguesia. Cite-se a título de exemplo a drástica proposta de Avraámov – um pioneiro da música concreta que pintava filmes virgens para reproduzir os sons assim obtidos e que escreveu uma sinfonia com sirenes e ruídos de rua – que exigia que o Narkompros destruísse todos os pianos para acabar de vez com a música tonal. Noutra trincheira o Proletkult, que queria assumir-se como representante de uma nova cultura proletária, combatia vigorosamente as vanguardas artísticas que não se faziam rogadas em o combater e combater-se entre si. Um ambiente efervescente que no entanto não impedia que todos se concentrassem, cada um a seu modo, a glorificar e propagandear a Revolução, fosse com os lendários comboios de propaganda, fosse com as depuradas linhas e formas de El Lissitsky, com poucas cores, negro, cinzento, vermelho, as legendas inscritas nas figuras geométricas de que o exemplo mais icónico é «Com a Cunha Vermelha derrota os Brancos», fosse com as celebradas «Rosta» de Maiakovski, que com ferocidade caricatural teatralizava os acontecimentos de forma facilmente perceptível. fosse mesmo com o «Quadrado Negro sobre fundo Branco» de Malevitch que decorou as ruas de Vitebsk e que, surpreendentemente, foi base usada extensivamente em toda a Rússia para muitos cartazes anunciando eventos culturais e políticos por muitos autores, a maioria anónimos. Tudo isto se sucedia enquanto os criadores artísticos se digladiavam, chegando muitas vezes a via de facto. Refiram-se as sucessivas humilhações a que Malevitch submeteu Chagall, quando viviam e tinham as suas academias em Vitebsk, que culminou numa carta que aquele dirigiu a Estaline, já no poder, denunciando Chagall como contra-revolucionário, isto depois de ele e os seus discípulos terem invadido e praticamente destruído a academia de Chagall, que se vê obrigado a emigrar. Presume-se a perplexidade de Estaline e Jdanov ao olharem para os quadros suprematistas do revolucionário Malevitch.

É esse ambiente que faz perceber porque é o teatro, onde concorrem diversas géneros de arte, salta para as ruas e a praças, celebrando a Revolução e os seus sucessos, que no 1º de Maio, em Petrogrado os operários tenham construído e exibido no desfile o monumento construtivista de Tatlin à III Internacional, enquanto o de Moscovo era antecedido por uma gigantesca marioneta simbolizando o capitalismo. Tudo isto enquanto o Narkompros desenvolve um projecto muito caro a Lénine, monumentos que celebrassem os revolucionários e personalidades públicas, escritores, poetas, filósofos e sábios, pintores, compositores, artistas, patrimónios da humanidade na luta por outra vida. Uma longa lista em que figuravam, entre muitos outros, Espártaco, Marx, Engels, Bakunine, Marat, Robespierre, Tolstoi, Dostoievski, Gogol, Mendeleev, Rublev, Mussorgski, Chopin, Scriabine. Era um projecto de propaganda monumental-heróica. Foram postos a concurso e o seu resultado decepcionou Lénine, como refere Lunatcharski, no livro já citado: «ora em Moscovo Vladimir Ilitch justamente teve a possibilidade de vê-los, os monumentos eram bastante maus (…) um dia disse-me enfadado, que a “propaganda monumental” dera em nada. Respondi-lhe, referindo-me à experiência de Petrogrado e ao testemunho de Zinoviev. Abanou a cabeça em ar de dúvida e replicou: “isso quer dizer que todos os talentos se reuniram em Petrogrado e que todos os falhados estão em Moscovo?”». Esta primeira vaga de monumentos, dedicados à propaganda, foi tão violentamente criticada pelo Prolekult como pelas vanguardas.

O entusiasmo acendido pela Revolução de Outubro transformou as vidas e teve fortes repercussões na poesia que invade os comícios políticos, as fábricas, as ruas, os cafés. Escreve-se nas paredes ao lado das palavras de ordem. Poetas como Maiakovski, Essenine, Pasternak deram-se a conhecer nesse fervilhar quotidiano, mesmo o simbolista Blok adquire um novo fôlego, surgem os poetas proletários sob a bandeira do Prolekult. Cometem as maiores extravagâncias e o poder soviético mostra para com eles uma rara indulgência, muito pela intervenção de Lénine que dava mais importância ao seu contributo para a Revolução do que as seus excessos públicos, ao seu contributo para os ideais da Revolução do que para as suas propostas estéticas. Benjamin Goriely relata muitos desses sucessos como o dos poetas imagistas que querem imediatamente a celebridade universal, consagrada na própria cidade.

Da esquerda para a direita: Shostakovitch, Mayakovski, Meyerhold e Rodchenko
 

«Substituem nomes ilustres das placas pelos seus próprios nomes (…) A rua Petrokva passou a ter o nome do imagista Marienhoff. O beco dos Camaristas, onde está o teatro Stanislavski, fui mudado para rua Essenine, O Beco da Gazeta passaria a chamar-se Kussikoff. (…) Os cocheiros foram os primeiros a aperceberem-se da coisa. Foi o próprio Essenine que lhes chamou a atenção. Chamou um trem, disse ao cocheiro:
– Leve-me à rua Essenine
– Como disse, perguntou o cocheiro.
– Rua Essenine.
– Essenine, não conheço
– Como? Não conheces os grandes homens da Revolução?
– Mas claro que conheço, responde o cocheiro a tremer, como foi que disse camarada? A rua Essenine, conheço-a mas pode-me dizer o antigo nome da rua.
– Beco dos Camaristas.
– Pois claro que conheço. Como podia eu não conhecer o grande revolucionário Essenine?

Essas brincadeiras valeram aos imagistas uma severa repreensão, mesmo uma ameaça de prisão por Kamenev, então presidente do Comité Central do Soviete, que a relatará a Lénine. Este riu-se a bandeiras despregadas, de modo algum pensou em punir os imagistas: melhor ainda, os seus poemas foram editados.4

Lénine compreendia que o processo em curso implicava as mais amplas massas na criatividade revolucionária e na construção de uma nova cultura num contexto em que iriam surgir projectos extraordinários e reivindicações radicais. Em conversa com Clara Zetkin, referiu-se a esse processo: «O despertar de novas forças, o trabalho com o objectivo de criar na Rússia Soviética uma arte e uma cultura novas, é uma coisa boa, muito boa. O ritmo tempestuoso do seu desenvolvimento é compreensível, mesmo útil. Devemos dar futuro ao que foi, durante séculos, descuidado, nós assim o queremos. A efervescência caótica, as novas consignas febris das aventuras artísticas, consignas que hoje cantam “hossanas” em relação a determinadas correntes da arte e amanhã as “crucificam”, são coisas inevitáveis. A revolução liberta todas as forças ontem amarradas, impulsionam-nas das profundidades para a superfície da vida» (Écrits sur l’Art et la Littérature. Éditions du Progrès, 1969).

No entanto, não estava desatento a esses movimentos que se tinham juntado à Revolução. Os de vanguarda intensificando a sua acção a favor de uma nova arte, criando células literárias e artísticas entre os operários, e o Prolekult criando estúdios, também entre os operários, para impor a «cultura proletária», enfrentando-se não só por palavras mas muitas vezes a murro. Entre todos os que alcançam maior notoriedade estão o futurista Maiakovski e o poeta proletário Demian Bedny. Um é o grande poeta da Revolução como hoje é reconhecido, o outro é um poeta medíocre que se limita à agitação e propaganda sem grande estro poético, hoje quase esquecido. O julgamento que na altura sofreram por parte de Trotsky (La Littérature et la Révolution, Le Monde em 10/18, 1972) e Lénine, apesar de ambos preferirem Bedny a Maiakovski, é bastante diferenciado. Lénine fá-lo em alguns telegramas a Lunatcharski: «não será uma vergonha votar a favor da publicação do poema 150 000 de Maiakovski em 5000 exemplares? Tolice, extravagância e pretensão, tudo isto. Na minha opinião, só um em cada dez desses escritos vale a pena ser publicado, e não mais do que em 1500 exemplares, para as bibliotecas e para os maníacos»

Em benefício de Lénine, refira-se a imensa escassez de papel que deveria ser direccionado prioritariamente para as escolas e para os jornais. Natália Kruspskaia confirma a admiração crítica de Lénine por Bedny. Gorki, conta nas suas recordações o paralelo que Lénine traçava entre os dois poetas. Sublinhava o alcance da propaganda na obra de Demian Bedny, embora dizendo «é um pouco grosseiro. Vai atrás do leitor, em vez de marchar à frente dele». Em relação a Maiakovski «grita, inventa não sei que palavras estapafúrdias. Não é assim, acho eu, não é assim, e é pouco compreensível. Tudo disperso, tudo difícil de ler. Dizem que é dotado? Até muito dotado? Hum, veremos».

Trotsky, brutal em relação a Maiakovski, que considera «um vadio anarquizante, sem qualquer valor poético», tem um imenso entusiasmo por Demian Bedny: «é curioso verificar que aqueles que fabricam as fórmulas abstractas da poesia proletária passam habitualmente ao lado de um poeta que, mais que ninguém, tem o direito ao poeta da Rússia revolucionária» (…) «tem a capacidade de fazer da poesia um mecanismo de transmissão incomparável das ideias bolcheviques» (…) «Demian Bedny não criou, nem criará uma escola: ele mesmo foi criado por uma escola que se chama P.C.R., para as necessidades de uma grande época que não terá igual» (Ibidem, obra citada). Uma formulação no mínimo inquietante por excluir a arte de encontrar aquilo que quer fazer com os seus materiais e instrumentos, para a entregar pura e simplesmente nas mãos da política e dar à política o comando, o que acabava por sancionar a «cultura proletária». Uma concepção diametralmente oposta à de Lénine, que sempre lutou contra as tentativas do Prolekult impor uma «cultura proletária» autonomizando-se do Narkompros. No primeiro Congresso sobre a Educação, em 6 de Maio de 1919, Lénine criticou o Proletkult e os intelectuais burgueses que desdobravam a sua fantasia no domínio da filosofia e da cultura ditas proletárias, «como se a cultura proletária surgisse de uma fonte desconhecida, brotasse do cérebro de alguns que se dizem especialistas na matéria, um total absurdo». A fracção comunista nesse Congresso, liderada por Lénine, votou a submissão do Prolekult ao Narkompros por 166 votos a favor, contra 36, e 26 abstenções. No discurso final, um discurso não previsto, Lénine atacou ainda mais violentamente os teóricos da «cultura proletária» considerando-a um desvario.

Sempre inflexível em relação aos princípios, Lénine foi também sempre um revolucionário flexível nas políticas que os não violassem, o que aplicou coerentemente em relação às artes, nunca aceitando que a política a colonizasse.
Bibliografia Resumida

Brecht, Berthold, Les Arts et la Révolution, L’Arche, 1997
Ehrenburg, Ilya, Un Écrivain dans la Révolution, Éditions Gallimard, 1962
Goriely,Benjamin, Les Poètes dans la R’evolution Russe, Éditions Gallimard, 1934
Gorki, Máximo, Lénine, Modo de Ler, 2009
Lénine, Oeuvres Complètes, em 45 volumes, Éditions du Progrès, 1958-1976
Lénine, Écrits sur l’Art et la Littérature, Éditions du Progrès, 1969
Lénine, Obras Escolhidas, em 3 volumes, Editorial Avante!, 1978
Lénine, Que Fazer?, Editorial Avante!, 1984
Lénine, Materialismo e Empiriocriticismo, Editorial Avante!,1979
Lunatcharski, Anatoli; Gorki, Maxim e outros, Lénine tel quel fut. Souvenirs de Contemporains, Editions du Progrès, 1959
Palmier, Jean Michel, Lénine, A Arte e a Revolução. Ensaio sobre Estética Marxista, Moraes Editores, 1976
Prévost, Claude, Literatura, Política, Ideologia, Moraes Editores, 1976
Reed, John, Dez Dias que Abalaram o Mundo, Editorial Avante!, 1997
Trotsky, Leon, La Littérature et la Révolution, Le Monde em 10/18, 1972

 

Ver o original em 'Praça do Bocage ' (clique aqui)

COMO OS TECELÕES DE TAPETES DE KUJAN-BULAK HONRARAM A MEMÓRIA DE LÉNINE – Bertolt Brecht

150 aniversário
150 aniversário – 22 de abril de 1870

 

 
COMO OS TECELÕES DE TAPETES DE KUJAN-BULAK HONRARAM A MEMÓRIA DE LÉNINE


1

Muitas vezes e à farta foi honrado
o Camarada Lénine. Há bustos dele e estátuas.
Puseram o nome dele a cidades e crianças.
Fazem-se discursos em muitas línguas
há assembleias e demonstrações
desde Xangai a Chicago em honra de Lénine.
Mas foi assim que o honraram os tecelões de tapetes
de Kujan-Bulak, pequena povoação no Sul do Turquestão:
Vinte tecelões de tapetes levantam-se ali ao anoitecer
do miserável tear, sacudidos pela febre.
Anda febre por lá: a estação de caminho-de-ferro
está cheia do zumbir dos mosquitos, nuvem espessa
que se ergue do pântano por detrás do velho cemitério dos camelos.
Mas o comboio
que de quinze em quinze dias traz água e fumo, traz
também um belo dia a notícia
que vem aí o dia da homenagem ao Camarada Lénine.
E as gentes de Kujan-Bulak, gente
pobre, tecelões de tapetes, decidem
que também na sua povoação
se erga o busto de gesso ao Camarada Lénine.
Mas quando se vai juntar o dinheiro para o busto
ei-los todos sacudidos de febre a pagar
os copeques penosamente ganhos com mãos a adejar.
E Stepa Gamalev, do Exército Vermelho, que vai contando
e vendo com cuidado e precisão.
vê a prontidão deles em honrar Lénine, e fica contente,
mas vê também as mãos vacilantes,
e faz de repente a proposta
de comprar, com o dinheiro para o busto, petróleo
para derramar no pântano atrás do cemitério dos camelos
donde vêm os mosquitos
que causam febres.
Para assim combater as febres em Kujan-Bulak, e em verdade
em honra do falecido, mas
não esquecido
Camarada Lénine.

Assim o resolveram. No dia da homenagem levaram
os seus baldes amolgados cheios de petróleo negro
um após outro, para lá,
e regaram o pântano com ele.
Assim tiraram proveito para si mesmos ao honrarem Lénine e
honraram-no, com proveito para si mesmos, e assim
o tinham entendido.

2

Ouvimos pois como as gentes de Kujan-Bulak
honraram Lénine. Mas à noitinha,
comprado e espalhado o petróleo sobre o pântano,
eis se levantou um homem na assembleia e exigiu
que se colocasse uma placa na estação do comboio
com o relato do acontecido, contendo
também exatamente a alteração do plano e a troca
do busto de Lénine pela tonelada de petróleo que acabou com as febres.
E tudo isto em honra de Lénine.
E assim fizeram também isto
e puseram a placa.

 

Via: voar fora da asa https://bit.ly/2Krg9w0

 

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/04/22/como-os-teceloes-de-tapetes-de-kujan-bulak-honraram-a-memoria-de-lenine-bertolt-brecht/

As canções da luta, da resistência e do futuro, por Manuel Pires da Rocha

thismachinekillsfascists guthrie portrait s

Mesmo quando surge na guerra, a partitura progressista e o canto passado de voz em voz são sempre Manifesto pela Paz. Como naquela Sinfonia n.º 7, “Leninegrado”, de Chostakovitch, apresentada em 9 de Agosto de 1942, um dos 900 dias do cerco nazi à cidade do Báltico (pelos músicos da Orquestra da Rádio de Leninegrado a que se juntaram músicos militares).

Como no Quarteto Para o Fim dos Tempos, composto por Olivier Messian, prisioneiro do Campo de Concentração nazi de Görlitz. Como em cada uma das Canções Heróicas de Fernando Lopes-Graça, cantadas primeiro pelo Coro da Academia de Amadores de Música e, logo a seguir, pelas muitas vozes que, também cantando, lutavam pela democracia.

Há quem diga que a Arte, por si só, é incapaz de mudar o mundo. Não é, porém, dos objetos – sejam pintura, poema, escultura, melodia – a qualidade de serem exteriores à intenção de quem os produz e à compreensão de quem os percebe. Na verdade, não se pode ser contorno à revelia de quem o talhe e de quem o olhe; nem se é melodia sem haver quem a invente e quem a escute; e verso não se pode ser independentemente de quem o escreva e de quem o compreenda. Seja como for, quase todos os humanos revelam idênticas compreensões perante o bem e o mal.

Via: Página Inicial – União de Resistentes Antifascistas Portugueses https://bit.ly/2zj3pFH

 

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/04/20/as-cancoes-da-luta-da-resistencia-e-do-futuro-por-manuel-pires-da-rocha/

Chile, o oásis seco

Com a morte de LUIS SEPÚLVEDA, a literatura perde um dos seus escritores mais capazes de entrelaçar a dureza da realidade com a urgência do sonho. A cidadania mundial perde um dos seus maiores militantes, sempre do lado da democracia e da justiça social. A sua família e amigos, o Le Monde diplomatique, os seus leitores (e eles são tantos em Portugal) perdem um homem singular nos afectos, na coragem e no talento, dotado de um sentido de humor e de uma capacidade de ler o mundo singulares. Neste artigo, que publicámos em Dezembro de 2019, Luis Sepúlveda, tantas vezes presente nas páginas deste jornal, trazia-nos a história do seu Chile martirizado pela ditadura, que o levou ao exílio, e depois pelo neoliberalismo, que «secou» o país. Para nos falar da esperança que nasce de «um povo que se levanta».

Era o início de Outubro, apenas algumas semanas antes da explosão social que sacode o Chile, abrangendo toda a sua estranha geografia. Uma explosão que, no final de Novembro, se traduziu por mais de vinte mortos, centenas de mutilados, milhares de feridos, um número indeterminado de detidos, de actos de tortura, de agressões sexuais e inúmeras atrocidades cometidas pela polícia e pelas forças armadas. Imediatamente antes destes acontecimentos, o presidente chileno Sebastián Piñera havia falado sobre as convulsões que abalavam o resto da região. Apresentou então o Chile como um «oásis» de paz e de tranquilidade no meio da tempestade.

Não era a presença de uma água particularmente doce, nem de palmeiras de folhagem exuberante, que caracterizava este «oásis», mas as barreiras aparentemente intransponíveis que o rodeavam. Os chilenos estavam do lado bom destas barreiras, forjadas numa liga singular: economia neoliberal, ausência de direitos civis e de repressão. Os três metais mais desprezíveis.

Até a multidão ter enegrecido as ruas chilenas nas últimas semanas, os economistas e os dirigentes políticos que se agarravam ao credo «menos Estado, mais liberdade de iniciativa» como a uma bóia explicavam que se tinha produzido um milagre no Chile. Quase por geração espontânea. A prova irrefutável deste milagre eram os números do crescimento e as estatísticas económicas aplaudidas pelo Fundo Monetário Internacional e pelo Banco Mundial.

Mas este pequeno paraíso austral não existia para o conjunto da população. Ele ignorava detalhes aparentemente tão subjectivos como o direito a um salário justo, a reformas decentes, a uma educação pública de qualidade, a um sistema de saúde digno desse nome. Quase não dava importância ao direito de os cidadãos decidirem a sua sorte, não lhes dando outra alternativa que não fosse a de engolirem os números macroeconómicos com que o poder os alimentava.

No dia 11 de Setembro de 1973, um golpe de Estado derrubava a democracia chilena [1]. Uma ditadura brutal instalava-se em Santiago, onde se manteria durante dezasseis anos. Não para restaurar a ordem ameaçada, ou para salvar a pátria da ameaça comunista: o projecto que motivou o golpe de Estado era pôr em prática os preceitos dos gurus neoliberais, encabeçados por Milton Friedman e pela escola de Chicago. Tratava-se de instaurar um modelo económico de um novo tipo, que originaria por seu lado um novo tipo de sociedade. Um mundo obrigado ao silêncio, onde a precariedade seria a norma e a ausência de direitos a regra. Um mundo onde as espingardas se encarregariam de assegurar a paz social.

A ditadura cívico-militar atingiu os seus objectivos. Ela inscreveu-os numa Constituição cujo texto consagra o modelo económico instaurado pela força e erigido em definição do país. Nenhuma outra nação latino-americana se dotou de uma bússola tão fielmente alinhada com o bem-estar de uma minoria, com desprezo pelo resto da população.

Com o «regresso da democracia», ou, melhor dizendo, com a «transição chilena para a democracia», a partir de 1990, as regras do jogo não se alteram. A Constituição da ditadura é retocada sem que se modifique o essencial. Todos os governos de centro-esquerda e de direita que se sucedem empenham-se em manter o sacrossanto modelo económico, enquanto que a precariedade gangrena sectores cada vez mais vastos da sociedade.

Se, durante uma refeição, tivermos duas pessoas e dois bolos, de um ponto de vista estatístico, o consumo é de um bolo por pessoa. Mesmo que um dos dois coma tudo, sem deixar nada para o outro. Eis o passe de mágica que permite ao Chile apresentar o seu modelo como um sucesso: não sendo verdadeiramente nem uma ditadura nem uma democracia, assegura a sua sobrevivência graças à repressão e ao medo.

Um dos homens mais ricos do mundo, Julio Ponce Lerou, antigo genro do ditador Augusto Pinochet e herdeiro, por ordem do general, de um império económico que foi construído roubando aos chilenos o que lhes pertencia, pagou imensas somas de dinheiro à maioria dos senadores, dos deputados e dos ministros para que prosseguissem servilmente as privatizações. Quando a sociedade o descobriu, o Estado respondeu em dois tempos: sugeriu que criticar estes factos fazia com que se pusesse fim ao «milagre chileno»; e organizou a repressão dos manifestantes.

No Chile, a água pertence a um punhado de multinacionais. Toda a água. A dos rios, a dos lagos, a dos glaciares. Quando as pessoas saíram à rua para protestar contra esta situação, o Estado empenhou-se no único diálogo que tolera: o que responde às reivindicação populares com golpes de matraca.

O mesmo aconteceu quando a sociedade se mobilizou para defender o património natural ameaçado pelas transnacionais da produção de electricidade; quando os estudantes do secundário exigiram uma educação pública de qualidade, liberta do monopólio do mercado; ou quando uma grande parte do país assumiu a defesa do povo mapuche, sistematicamente oprimido. O Estado deu sempre a mesma resposta: reprimir e afirmar que os contestatários ameaçavam o milagre económico chileno.

A paz do oásis chileno não se estilhaçou por causa de um simples aumento do preço dos bilhetes de metro em Santiago.

Ela foi corroída pelas injustiças cometidas em nome das estatísticas macroeconómicas. Pela insolência de ministros que aconselham as pessoas a levantarem-se mais cedo para economizarem no custo dos transportes colectivos [2]; que, face ao aumento do preço do pão, recomendam que se comprem flores porque elas, ao menos, não aumentaram; que convidam a organizar noites de bingo na esperança de recolher fundos para reparar o telhado das escolas que as primeiras chuvas inundam.

A paz do oásis chileno estilhaçou-se porque não há nada de justo no facto de os estudantes universitários terminarem os seus cursos afogados num mar de dívidas que demorarão quinze ou vinte anos a pagar.

A paz do oásis chileno estilhaçou-se porque o sistema de reformas está nas mãos de empresas-vampiro, que investem os fundos que recolhem em mercados especulativos e fazem pagar as perdas que registam aos reformados, estes pobres seres humanos aos quais pagam pensões de miséria, calculadas na base de uma avaliação mórbida do número de anos que lhes restam de vida.

A paz do oásis chileno estilhaçou-se porque, no momento de escolher a sociedade que gerirá a sua conta de capitalização para a reforma, o trabalhador, o operário, o pequeno patrão, tem de ter em conta este aviso das autoridades: «A maior parte da tua pensão de reforma dependerá da inteligência que mostrares ao colocar as tuas poupanças nos mercados financeiros».

A paz do oásis chileno estilhaçou-se porque uma maioria de pessoas começou a dizer «não» à precariedade e se lançou à reconquista dos direitos que perdera.

Não há revolta mais justa e mais democrática do que a que abala o Chile.

Os manifestantes exigem uma nova Constituição, que represente o conjunto da nação, em toda a sua diversidade.

Exigem que se reverta a privatização da água e do mar. Exigem o direito de existir, e de serem considerados como sujeitos activos do desenvolvimento do país.

Exigem ser tratados como cidadãos, não como a parte fraca de um modelo económico condenado ao fracasso pela sua desumanidade.

Não há revolta mais justa e mais democrática do que a que abala o Chile.

E não há repressão, por muito dura e criminosa que seja, que possa parar um povo que se levanta.

(Tradução de Agostinho Santos Silva)

* Escritor chileno. Última obra editada em Portugal: História de um Gato e de um Rato que se Tornaram Amigos, Porto Editora, Porto, Julho de 2019.

(Foto: By AmonSûl - Dal vivo, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/ind...)


[1] N.d.R. Ler «Santiago em Setembro», Le Monde diplomatique – edição portuguesa, Setembro de 2013.

[2] N.d.R. Os bilhetes de metro são mais baratos fora das horas de ponta.

Ver o original em Le Monde Diplomatique PT (clique aqui)

Museus promovem visitas virtuais durante pandemia

Conhecer museus, ver exposições sem sair de casa. Veja as sugestões

 

 

Para conhecer o Museu da Memória Republicana, instalado no Convento das Mercês, não é necessário viajar ao Maranhão. Considerado um dos Sete Tesouros de São Luís, está com o prédio fechado por causa da pandemia do novo coronavírus, mas abriu uma janela. No computador ou no celular é possível fazer uma visita virtual pelo museu. O passeio está disponível no site eravirtual.org.

Um passeio também pode ser feito por quadros dos pintores brasileiros Di Cavalcanti, Anita Malfatti e Cândido Portinari e de grandes nomes mundiais como Rafael, Mantegna, Botticceli, Monet, Picasso, Van Gogh. Eles estão expostos no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp).

O maior museu a céu aberto do mundo, o Inhotim, fica em Brumadinho, Minas Gerais. Suas instalações não foram atingidas pela lama da barragem do Córrego do Feijão. No tour virtual do Inhotim, é possível conhecer o Jardim Botânico e as várias obras de arte e esculturas expostas ao ar livre.

O Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) tem em seu acervo online dezenas de museus localizados em todas as regiões brasileiras.

Henrique Costa, funcionário público, achou a iniciativa fantástica. Com a crise do coronavírus, a advogada Karen Ramos por enquanto não vai poder viajar, que é o que gosta de fazer. Mas tem a internet como alternativa.

No site Metropolitan Museu de Arte de Nova York (MET) há diversos vídeos, textos e fotos das obras em exposição. Tem também um passeio de 360º pelo prédio.

A visita online ao Museu do Louvre, em Paris, possibilita ver em detalhes uma das obras mais famosas do mundo, a Mona Lisa, de Leonardo da Vinci. Quem fizer o tour virtual pode ver o quadro e se surpreender com o tamanho da obra.

Muitos outros museus podem ser vistos, como o Reina Sofia, em Madri, na Espanha, com o famoso Guernica, de Picasso, e várias obras do espanhol Salvador Dali.

Na Argentina, o Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires (Malba) também tem visita virtual. É lá que está o Abapuru, da brasileira Tarsila do Amaral, além de obras de Cândido Portinari e do casal mexicano Frida Kahlo e Diego Rivera.


Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial Rádio Peão Brasil / Tornado

 
 
 
 
 
 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/museus-promovem-visitas-virtuais-durante-pandemia/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=museus-promovem-visitas-virtuais-durante-pandemia

Vítima do Covid 19

In memoriam
de
Luís Sepúlveda
(1950-2020)

Morreu um escritor talentoso e um antigo e apaixonado combatente da Unidade Popular do Chile. «o tempo as cerejas» publicou em 2019, por ocasião do 11 de Setembro, extractos do seu belo artigo «Memorial de los Dias Felices»(de 2003)que agora se reproduzem de novo.

«(...) A treinta años del crimen, hay miserables que interpretan el suicidio de Allende como una derrota. No entienden las razones de un hombre leal, que en el fragor del combate entendió que su último sacrificio evitaría a su pueblo la máxima de las humillaciones; ver a su dirigente, a su líder, encadenado y a merced de los tiranos. Queridas compañeras, queridos Compañeros: no hay honor más grande que el haber sido compañeros de lucha y de sueños de un hombre como Salvador Allende. No hay orgullo mayor que esos mil días liderados por el Compañero Presidente. No somos víctimas ni del destino ni de la ira de un dios enloquecido. La historia oficial, la mentira como razón de Estado nos presenta como a responsables de un crimen que, cada vez que intentan explicar, las palabras huyen de sus bocas pues no quieren ser parte del vocabulario de la vergüenza. Si nuestro intento por hacer de Chile un país justo, feliz y digno nos hace culpables, entonces asumimos la culpa con orgullo. La cárcel, la tortura, las desapariciones, el robo, el exilio, el no tener un país al que volver, el dolor, si todo eso era el precio a pagar por nuestro esfuerzo justiciero, entonces sépase que lo hemos pagado con el orgullo de los que no renunciaron a su dignidad, de los que resistieron en los interrogatorios, de los que murieron en el exilio, de los que regresaron a luchar contra la dictadura, de los que todavía sueñan y se organizan, de los que no participan de la farsa pseudo democrática de los administradores del legado de la dictadura. Junto a Salvador Allende fuimos protagonistas de los mil días más plenos, bellos e intensos de la historia de Chile. Sobre nosotros dejaron caer todo el horror, pero no consiguieron ni conseguirán borrar de nuestros corazones el Memorial de los Años más Felices. Cuando en los momentos más duros de nuestros mil días, la provocación del fascismo, de la derecha, del imperialismo yanqui, hacía que la ira se instalara peligrosamente en nuestros ánimos, el Compañero Presidente nos aconsejaba: "Vayan a sus casas, besen a sus mujeres, acaricien a sus hijos". Ahora, a treinta años de la gran traición, que la cercanía de los nuestros, que el recuerdo de los que nos faltan, y el orgullo de todo lo que hicimos sean los grandes convocantes de lo que debemos recordar. Que las palabras Compañera y Compañero suenen como una caricia, y bebamos con orgullo el vino digno de las mujeres y los hombres que lo dieron todo, que lo dieron todo y pensaron que no era suficiente.» Agosto 2003
 

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

Adeus a Luis Sepúlveda, o romancista chileno que lutava contra o COVID-19 morreu aos 71 anos

 

Adeus Luis Sepúlveda. Seus pulmões não se sustentaram, sobrecarregados pelo coronavírus. O escritor, roteirista e diretor chileno morreu com coronavírus no Hospital da Universidade Central das Astúrias (HUCA), onde estava hospitalizado desde 29 de fevereiro em condições graves. Sua saúde se deteriorou nas últimas semanas, seu corpo não respondeu a tratamentos e antibióticos.

O último dos lutadores tinha 71 anos. Autor de muitos sucessos, incluindo “La gabbianella e il gatto”, nasceu em Ovalle em 1949, não apenas romancista: Sepulveda era um ativista dos direitos civis em seu país, que ele teve que deixar depois de ser preso por parte do regime de Augusto Pinochet. A favor da ecologia militante, dos povos indígenas da América do Sul, contra o racismo na Europa.

Luís Sepúlveda, que nasceu no Chile a 04 de outubro de 1949, estreou-se nas letras em 1969, com “Crónicas de Piedro Nadie” (“Crónicas de Pedro Ninguém”), dando início a uma bibliografia de mais de 20 títulos, que inclui obras como “O Velho que Lia Romances de Amor” e “História de Uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar”.

Condolências pela morte do excepcional romancista chileno chegaram de todo o mundo. As notícias se repercutiram nas mídias sociais nas últimas horas, entre negações e confirmações.

Sepulveda enriqueceu a literatura mundial. Continuaremos a gostar do seu trabalho, mas sentiremos sua falta.

Que a terra lhe seja leve. Obrigado por nos ensinar a defender o meio ambiente e os direitos de todos.

Voe alto, como “sua” Gabianella …

“Somente quem se atreve a voar”.

 

Ver original em 'Pensar Contemporâneo' na seguinte ligação::

https://www.pensarcontemporaneo.com/adeus-a-luis-sepulveda-o-romancista-chileno-que-lutava-contra-o-covid-19-morreu-aos-71-anos/

UM DIA TRISTE | NOTÍCIAS DO BLOQUEIO

«Assobiando à vontade», Mário Dionísio - O Professor tira dúvidas
 
Está um dia triste, fechado de frio e de chuva, sem nesga de sol, as árvores balançam ao vento, a primavera segue dentro de momentos. As cidades e as terras, agora sem gente nas ruas, sem o bulício dos cafés, sem a chilreada das crianças, parecem sombras espectrais. A noite começa a descer lentamente, molhada de vento gelado e de chuva, e, por detrás dos vidros, nas janelas das casas, alguém espreita:
-- Que tristeza, não se vê vivalma!

A cidade encolhe os seus dramas, não há como a noite para disfarçar as lágrimas. Neste tempo de mortes anunciadas, em que o medo já se ocupa de tudo, vêm à superfície clamores antigos e actuais de injustiças e dramas. Todos sabemos que o mundo está, como sempre esteve, cheio deles, tantas vezes praticados à sombra de leis iníquas das ordens estabelecidas.

Talvez agora, em que o perigo toca a todos, haja maior sensibilidade para o sofrimento humano. Talvez. A memória, todavia, vem sempre ao nosso encontro, com o auxílio da literatura, que a reelabora, para nos dar conta dessa inquietação intemporal, em páginas de fulgor universal.

Lembrei-me, por isso, daquelas magníficas páginas de Victor Hugo, em “Os Miseráveis” (1862), em que o grande escritor francês conta a história de Jean Valjean, condenado a cinco anos de prisão por ter roubado um pão, para matar a fome à irmã e aos sobrinhos. Era um adolescente e os outros ainda crianças. Sofreu dezanove anos de reclusão, cinco pelo roubo do pão e outros catorze por tentativas de fuga. A história real, transposta para a literatura, é um momento admirável de criação.

O romance, como os leitores sabem, é um denso painel sobre a condição humana. Mais perto de nós, há também o conto de Mário Dionísio publicado em “O Dia Cinzento” (1944), A Lata de Conserva, fantástico registo de um garoto descalço (“o rapaz das cautelas”) que rouba a lata de conservas na mercearia de bairro, em Lisboa, e é perseguido até ser preso pela polícia.

As boas almas, que não sofrem inquietações de consciência, com estes casos, poderão dizer que isso são coisas antigas sem reprodução no calendário da actualidade. Penso que não.

Não há tanto tempo como isso, lembro-me bem, um sem-abrigo foi a tribunal por ter roubado, num supermercado, uma embalagem de chocolates, no valor de 14,34 €, que nem chegou a mastigar, por ter sido interceptado por um funcionário.

Apesar disso, o Ministério Público decidiu avançar com a acusação. A lei é a lei. Sei que a polícia produziu uma informação dizendo que, dado o estilo de vida errante do sem-abrigo, era difícil notificá-lo. Não me lembro como acabou a história, mas decerto o juiz não o terá mandado para cadeia, talvez pelo alarido que o caso causou nos jornais e nas televisões.

Arrumo o livro de Mário Dionísio na estante e volto à lembrança do sem-abrigo. Os mesmos corpos de delito, a mesma questão essencial: uma palavra chamada fome. Um gelo de desumanidade continua a cercar os dias, como na história de “Os Miseráveis”.

As cidades encolhem os seus dramas e a noite disfarça as lágrimas. O cronista olha para dentro das coisas e murmura:

-- Está um dia triste!

Domingo, 12 de Abril

Ver o original em Notícias do Bloqueio (clique aqui)

Livros grátis na internet

Biblioteca da quarentena da Universidade do Estado do RJ

 

 

Na quinta-feira, 9 de abril, a Biblioteca da Quarentena da Editora da UERJ recebeu o reforço de cinco novos livros, incrementando o acervo de obras digitais disponibilizadas gratuitamente ao público para download. Os títulos, que foram selecionados do catálogo regular da EdUERJ, são os seguintes:

  • O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queiroz. O clássico da língua portuguesa tece uma crítica ao catolicismo e à moral da época. A edição da EdUERJ é baseada na última versão, de 1889, a última em vida de Eça de Queiroz, e inclui uma análise textual produzida pelos professores de Letras da UERJ, Eduardo da Cruz e Sérgio Nazar David.
  • Sereia de papel – visões de Ana Cristina Cesar, organizado por Viviana Bosi, Álvaro Faleiros e Roberto Zular. Mais do que a qualidade da obra de uma poeta, a publicação evidencia um olhar analítico sobre as investidas de Ana Cristina Cesar como crítica literária, ensaísta ou tradutora.
  • Aprendizados ao longo da vida: sujeitos, políticas e processos, organizado por Jane Paiva. O livro reúne artigos sobre Educação de Jovens e Adultos (EJA), propondo uma reflexão sobre a situação dos sujeitos por ela atingidos.
  • Copas do Mundo: comunicação e identidade cultural no país do futebol, organizado por Ronaldo Helal e Alvaro do Cabo. Reúne textos de 15 pesquisadores do meio acadêmico que abordam nove Copas do Mundo e uma Copa das Confederações, eventos selecionados principalmente pelo critério da dimensão simbólica que adquiriram na imprensa e na sociedade brasileira.
  • Entradas e Bandeiras: a conquista do Brasil pelo futebol, de Gilmar Mascarenhas. Observa o futebol sob o prisma da geografia histórica, delineando um panorama do desenvolvimento do esporte no país, da prática do esporte pelas elites, que o adotaram primeiro, até sua gradual aceitação pelas classes populares.

Semanalmente você encontra novos títulos na Biblioteca da Quarentena, da Editora da UERJ. Faça uma visita, baixe os livros que desejar, e boa leitura!

 

 

Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial Rádio Peão Brasil / Tornado

 
 
 
 
 
 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/livros-gratis-na-internet/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=livros-gratis-na-internet

Ao bárbaro a cultura amedronta

Mesmo quando em Lisboa, chineses só conhecia os vendedores de gravatas, já ouvia falar do perigo amarelo. Esse “perigo”, ressurge com mais intensidade no preciso momento em que o povo chinês vem em nosso socorro. É o natural receio dos bárbaros face a uma cultura com mais de cinco mil anos.
Para acalmar o temor de alguns, transcrevo uma das cartas que o comerciante e banqueiro José Ignacio de Andrade, (não me consta que fosse comunista) enviou há duzentos anos à esposa, cartas publicadas em dois volumes onde relata o que observou, e que eu deixo à vossa consideração.
 
image  José Ignacio de Andrade
imageimage image image
 
*          *          *
 
image
 
 
 

Ver o original em As palavras são armas (clique aqui)

Cancelado festival televisivo que «promove desigualdade»

O Ministério da Cultura confirmou que o festival de música foi cancelado, no seguimento de uma petição que acusava a tutela de fomentar um «círculo fechado».

Graça Fonseca, minstra da Cultura, está a ser amplamente criticada pela iniciativa promovida pelo seu MinistérioCréditosMIGUEL A. LOPES / LUSA

Fonte da RTP confirmou ao Expresso o cancelamento do TV Fest após onda de críticas.

A medida anunciada esta quarta-feira pelo Governo foi imediatamente contestada nas redes sociais e outras plataformas. O festival televisivo TV Fest surgiu de uma parceria entre o Ministério da Cultura e a RTP, e pretendia apoiar a música portuguesa nesta fase de quebra de actividade decorrente da pandemia de Covid-19.

Em declarações ao AbrilAbril, Rui Galveias, músico e dirigente do Sindicato dos Trabalhadores dos Espectáculos, do Audiovisual e dos Músicos (CENA-STE/CGTP-IN), referiu que a ideia por detrás desta iniciativa «deve ser combatida em toda a linha», acrescentando que vem «promover a desunião do sector» e deixar de fora milhares de profissionais. «A medida que devia ser posta em prática foi ontem chumbada no Parlamento», disse o dirigente, referindo-se à proposta do PCP de criação de um Fundo de Apoio Social de Emergência ao tecido cultural e artístico, um apoio de natureza não concorrencial a ser atribuído a todos os trabalhadores do sector que viram a sua actividade cancelada.

Depois da criação de um apoio no valor de um milhão de euros, a ser gerido pela DGArtes, cujo valor foi considerado insuficiente pelos profissionais e pelo CENA-STE, soube-se ainda que esses subsídios seriam atribuídos na sequência de um concurso, o que obrigou os agentes culturais a desenvolver novas candidaturas, que irão ser avaliadas e, posteriormente, apoiadas ou não.

No texto da petição que exigia o cancelamento desta iniciativa, e que contou com mais de 17 mil assinaturas em menos de 24 horas, pode ler-se que «a realização do TV Fest, no presente estado de emergência, constitui uma ameaça ao ecossistema cultural português, que elimina curadores, directores artísticos, músicos, técnicos e os demais, operando através de um jogo em corrente exclusivo, e de círculo fechado, aos seus participantes artísticos, que desclassifica a participação, representatividade e diversidade de um sector, constituindo uma medida antidemocrática e não inclusiva».

Nesse sentido, os signatários pediam «o cancelamento de qualquer medida que fomente disparidades, competição e desigualdade no acesso». «A classe artística necessita de um reforço claro e objectivo à linha de apoio a artistas e entidades, de um mecanismo que reforce a sua protecção social perante o Estado e legisle a sua contribuição à sociedade através do reconhecimento do seu estatuto de intermitência», pode ler-se no texto.

A petição exigia ainda «imparcialidade, justiça e transparência absoluta sobre todos os critérios de atribuição e distribuição de oportunidades e fundos públicos», solicitando também «inclusão, atenção e cuidado e a procura de uma resposta comprometida com a realidade dos agentes culturais do País que trabalham diariamente pela cultura portuguesa».

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/cultura/cancelado-festival-televisivo-que-promove-desigualdade

Apoio às artes abaixo do limiar da pobreza

O sector das artes foi um dos primeiros a verificar uma redução, seguida de uma supressão total de actividade.

CréditosJosé Silva / Manifesto em defesa da Cultura

Continuando a aguardar resposta do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, o Sindicato dos Trabalhadores de Espectáculos, do Audiovisual e dos Músicos (CENA-STE/CGTP-IN) reuniu, na passada quarta-feira, com o Ministério da Cultura.

Segundo nota enviada à imprensa, na reunião foram apresentados e discutidos os resultados gerais do «Questionário aos Trabalhadores de Espectáculos, Audiovisual e Músicos» realizado entre 18 e 26 de Março, que atestam a «situação catastrófica» vivida no sector.

Entre outros resultados, o sindicato avançou que 98% dos trabalhadores questionados viram os seus trabalhos cancelados e 33% destes por mais de 30 dias, lembrando que 85% dos trabalhadores questionados são trabalhadores independentes, sem qualquer protecção laboral. 

Sublinhando que este foi um dos primeiros sectores a verificar uma redução seguida de uma supressão total de actividade, o CENA-STE alerta para a possibilidade de este vir a ser um dos últimos a retomar a actividade em pleno, «seja pela garantia das condições de higiene e segurança devidas aos trabalhadores, seja pelas devidas ao público».

Foi ainda manifestado o desacordo quanto ao valor e as «condicionantes» dos apoios anunciados pelo Governo para o sector. Entendendo que são necessárias «medidas de fundo», que não se alicercem apenas nos apoios à criação artística, o sindicato considera «inaceitável» a atribuição de um Indexante dos Apoios Sociais (IAS) no valor de 438,81 euros para os trabalhadores que laboram a recibos verdes. «Não é aceitável que os trabalhadores do sector sejam discriminados ao verem limitado, a um valor abaixo do limiar da pobreza, o apoio que podem receber», pode ler-se na nota.

O Ministério foi ainda alertado para a preocupação em relação às inúmeras queixas que têm chegado ao sindicato: desde lay-off ilegais, imposição de dias de folga e férias, à exclusão de muitos trabalhadores independentes no acesso ao apoio extraordinário em consequência de «lacunas lamentáveis» na legislação em vigor.

Para o CENA-STE, esta «situação dramática» terá de ser evitada no futuro através de mais financiamento, cumprindo-se o objectivo mínimo de 1% do Orçamento do Estado para a Cultura, para além de outras medidas específicas de fomento à retoma do sector.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/cultura/apoio-artes-abaixo-do-limiar-da-pobreza

A CULTURA E UMA VOZ QUE SE IMPÕE

image
Os artistas no porão
 
(Original AQUI)
 
« Os artistas encontram-se em graves apuros. Estamos todos no mesmo barco? Até podemos estar, mas alguns vão no porão, que inunda mais depressa. E não haverá botes salva-vidas para todos. Onde é que já vimos esta história antes? Ainda por cima, sejamos honestos, trata-se de Portugal. 
 
Faço parte do clube que acha que a ficção não é um refúgio. O meu entendimento é precisamente o contrário: A realidade é que é o refúgio, porventura para aqueles que não possuem «nem um grão de imaginação», nas palavras do poeta. Infelizmente a tendência dos governos é para colocarem a cultura no final das suas prioridades, como se gerir um país fosse um alinhamento destes telejornais de agora. 
 
Em que tudo passa à frente da cultura: o futebol, os fait-divers, as parvoíces pegadas… E depois, lá na cauda do noticiário, aparece, um, não mais, um evento (medonha palavra) cultural. Acontecem coisas, às vezes, muito extraordinárias, em termos artísticos, no país e as pessoas não dão conta, nem reparam, porque o seu olhar já foi sequestrado por qualquer trivialidade ou escândalo. E andam elas em síndroma de privação, numa ressaca nebulosa, sem sequer saberem do que padecem. 
 
Porque o ser humano precisa desesperadamente do simbólico. Porque precisamos aflitivamente de atravessar a ponte para o outro lado, que é o da ficção. E não é porque a «humankind cannot bear very much reality», nesse verso de T S Elliot, frase abundantemente profanada, que o bom do senhor nunca disse. Quem o diz é um pássaro num desses longos, místicos e sombrios poemas de Elliot. Como quando comentamos que, segundo Pessoa, «o melhor do mundo são as crianças», suspeitando que o poeta apenas quis arranjar rima para «danças». Ou que a inveja é uma característica muito portuguesa porque vem no fim dos Lusíadas, quando ele explicitamente se refere à glória de Aquiles, da Ilíada. Aquilo que se diz, a realidade é a coisa mais imponderável do mundo, os factos são dissolúveis, liquefeitos, como os relógios de Dali. A realidade, ao contrário da ficção, não é de confiança. Quem imaginaria que a Europa poderia atravessar uma crise pandémica desta magnitude? Quem suporia estas cidades fantasmas, pessoas encurraladas em casa, ruas desertas? Cadáveres de velhos esquecidos em lares? Quem poderia prever que a expressão isolamento social entrasse no nosso léxico com tamanho à-vontade? Agora, instalado o pânico, é curioso que até ministros apelem à leitura. 
 
Fiquem em casa: Leiam, dizem eles. Enquanto durante tantos executivos, a literatura foi sendo desprezada, menorizada, relegada, ainda que tivéssemos um Camões (à altura de um Cervantes), um Pessoa (à altura de nenhum outro), um Eça (à altura de um Machado de Assis), um prémio Nobel… Nem um por cento do OE para a cultura no nosso país. Preferimos orientarmo-nos todos, de repente, para a monocultura do turismo, e seus derivados, que todos sabemos é actividade de enriquecimento rápido, mas volúvel, instável e transitória… Estando a arte na base da cadeia alimentar dos desígnios nacionais, sendo os artistas este fictoplânton em que os quiseram transformar, estão totalmente vulneráveis às menores oscilações das bolsas, mercados, terrorismos, e até vírus… Os artistas encontram-se em graves apuros. Estamos todos no mesmo barco? Até podemos estar, mas alguns vão no porão, que inunda mais depressa. E não haverá botes salva-vidas para todos. Onde é que já vimos esta história antes? Ainda por cima, sejamos honestos, trata-se de Portugal. Que, é sabido, nos dias de hoje, não tem uma preponderância política, nem na UE nem no mundo, nem militar nem geoestratégica. Já tivemos alguns momentos gloriosos na História. Já tivemos uma revolução exemplar. 
 
Agora, com toda a franqueza, o que o país tem de mais valioso para se orgulhar é a sua cultura. Dispomos de artistas, escritores, arquitectos de excepção. E em vez de termos solidificado a cultura, e investirmos em algo perene, sólido, e sustentado, que se ergue uns centímetros acima de todo estas conjunturas que vão e vêm, destas poeiras vãs, lanugens da história, que lhes passam por baixo com um enorme alarde, condenámo-la à indigência.
 
O pior é ir no naufrágio e não termos onde nos agarrar.» 
 
 
 

Ver o original em As palavras são armas (clique aqui)

Salários em atraso e falta de condições nas orquestras regionais

Os problemas existentes agravaram-se com a interrupção da actividade da Orquestra Clássica do Sul e da Orquestra Regional do Norte, devido a um modelo de financiamento que os músicos consideram inadequado.

Créditos / FIME

A Orquestra Clássica do Sul surgiu em 2013 através da Orquestra do Algarve, fundada em 2002, e é a única orquestra profissional a sul de Lisboa. De 2002 a 2010, os músicos foram mantidos a recibos verdes por via de contrato de prestação de serviços. Depois de recorrerem à Justiça, os trabalhadores passaram finalmente a contrato, apesar de se ter verificado uma perda de rendimento. Desde então, os músicos da orquestra nunca tiveram qualquer aumento salarial.

Em declarações ao AbrilAbril, um músico, que preferiu não ser identificado, explicou que está em causa «o rumo e a missão artística» seguidos pela direcção.

«Temos vindo a ter vários problemas, designadamente falta de condições de trabalho, que culminaram em ameaças de despedimento», referiu.

Desde logo, para cumprir a legislação referente às orquestras regionais, a orquestra deveria ter 31 músicos e tem apenas 26. O músico falou da falta de condições mínimas exigíveis nos vários locais onde se apresentam, por falta de espaço, falta de vestiários e lavabos, e más condições térmicas. A isto acresce a falta de condições acústicas e cadeiras ergonómicas na sala de ensaios. Esta situação tem levado a queixas pelo surgimento de doenças, desde perda auditiva definitiva a outras complicações musculares, frisou este trabalhador.

Na sequência do protesto relativo a três ocasiões em que, segundo os músicos, não se encontravam reunidas as condições para o exercício do seu trabalho, este trabalhador refere que foram confrontados por «um assédio moral sem precedentes» por parte da direcção, designadamente, ameaças de não pagamento de salários e de encerramento da actividade. «Acusaram-nos de querermos destruir a orquestra e puseram em causa os nossos postos de trabalho», afirmou, acrescentando que existe um sentimento de medo generalizado.

Esta semana, a pretexto do surto epidemiológico de Covid-19, a Orquestra Clássica do Sul decidiu que vai colocar os músicos em lay offa partir de Junho.

«Deram-nos duas opções: se antecipássemos as férias para Maio, a direcção pagava o remanescente do lay off, que entraria em vigor em Junho. Caso contrário, o lay off era accionado agora e não havia garantia da remuneração total», disse, lembrando que já foi retirado o subsídio de alimentação. Segundo o músico, estas medidas contrastam com o facto de a orquestra ter mais de 80% do financiamento garantido para este ano quer da Direcção-Geral das Artes, quer das entidades municipais.

Modelo de financiamento coloca orquestra na incerteza

Na Orquestra Regional do Norte, os salários em atraso são uma realidade recorrente. Com um empréstimo contraído para pagar dívidas à Segurança Social deixadas pela anterior administração, o modelo de financiamento cria sérios constrangimentos. Desde logo porque o pagamento acontece no fim do trimestre mas implica a entrega de uma declaração de não dívida à Segurança Social, quando a instituição não recebeu ainda o dinheiro para pagar esses meses de contribuições.

Os 36 músicos que compõem a Orquestra do Norte estão sem receber desde Janeiro, o que significa uma profunda incerteza e instabilidade nas suas vidas. «Já com a corda na garganta, tivemos de dar o nosso grito de revolta», lê-se num comunicado da comissão de trabalhadores.

A esta difícil situação junta-se a realidade de excepção devido ao surto epidémico, que, para estes trabalhadores, significa o cancelamento de todas as suas actividades (para já, os meses de Março e Abril) e uma profunda incerteza quando a actuações futuras, que constituíam uma importante fonte de receita. 

Em nota divulgada, o Ministério da Cultura confirma «ter tomado conhecimento da existência de atrasos no pagamento dos ordenados dos trabalhadores da Orquestra Regional do Norte» e que «tem estado, através da Direcção-Geral das Artes, a acompanhar a situação, de modo a que sejam encetadas todas as diligências com vista ao integral cumprimento das obrigações da entidade promotora perante os seus trabalhadores».

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/trabalho/salarios-em-atraso-e-falta-de-condicoes-nas-orquestras-regionais

Aprender, sempre!

O AbrilAbril fez uma recolha de sites onde se pode encontrar livros, filmes e outras experiências culturais para se aproveitar os próximos tempos a partir de casa.

CréditosFred Dufour / AFP / Getty Images

Nem todo o tempo do mundo chegaria para o que hoje se pode encontrar de conteúdos culturais na Internet. Mas, nestes dias de isolamento e para não nos ocuparmos exclusivamente com limpezas e arrumações, ficam aqui alguns pontos de partida.

Arquivos da Vienna State Opera 

A Ópera de Viena abriu os seus arquivos de transmissão ao vivo, para que os amantes da música em todo o mundo possam continuar a apreciar ópera e ballet. O site transmite gravações de várias apresentações, diariamente, através da sua plataforma de streaming. O programa seguirá a calendarização original, com algumas excepções, e os espectáculos permanecem disponíveis por 24 horas.

Filmes diferentes todas as semanas na Medeia

A terceira semana de «Quarentena cinéfila» da Medeia Filmes traz-nos Krzysztof Kieslowski, um dos maiores realizadores do século XX, com a oportunidade de (re)ver três obras incontornáveis da sua filmografia: a trilogia das cores.

Aprender Latim com Frederico Lourenço

É verdade que já vai na 14.ª aula... mas todas as outras estão ainda disponíveis para quem quiser começar esta aventura. Frederico Lourenço está a ensinar Latim através da página de Facebook Latim do zero, para quem não tiver nada melhor que fazer e decidir ir à raiz!

Centro de Documentação do Museu do Aljube

Todas as conversas e sessões realizadas no Museu do Aljube estão disponíveis no seu canal de Youtube, para conhecer elementos e figuras marcantes da história contemporânea portuguesa e da luta antifascista.

Ler e reler os clássicos da literatura

Postas as coisas assim, é difícil decidir por onde começar. Mas nada como fazer um plano e ir cumprindo um número de páginas diárias. Como dizia o Umberto Eco, quanto maior for o nosso conhecimento, mais livros por ler teremos nas nossas estantes. Agora, a escolha mais difícil... Começar por literatura portuguesa ou estrangeira?

Edições da Imprensa Nacional-Casa da Moeda

Também a INCM pretende dar «cumprimento à sua missão de serviço público», preservar e divulgar a memória e o património comuns, antecipando a disponibilização dos seus conteúdos digitais.

Filmes portugueses contemporâneos

Na sua página de Facebook, o projecto À Pala de Walsh divulgou uma lista de filmes portugueses com acesso livre. É uma oportunidade para ficar um especialista em cinema português contemporâneo.

Cinema soviético

A Mosfilm, um dos mais antigos estúdios de cinema da Europa (1920) e produtora dos principais filmes do período soviético, tem disponível dezenas de filmes em regime de acesso gratuito, alguns dos quais com legendas em português. O catálogo, cuja partilha foi iniciada há oito anos, está em actualização, sendo disponibilizados novos títulos todas as semanas.

Visitas virtuais a museus

E que tal um passeio às colecções que estarão fechadas nos próximos tempos? Vamos ao Museu Calouste Gulbenkian ou à Galeria de Arte Urbana? Ou damos um pulo à Cidade do México para visitar o Museu Frida Kahlo?

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/cultura/aprender-sempre

TEC comemora Dia Mundial do Teatro com peça online

Adaptando-se ao período de isolamento que o País atravessa o Teatro Experimental de Cascais comemora o Dia Mundial do Teatro com a peça “Auto da Índia” que transmitem via Youtube.

Com o objectivo de ajudar as pessoas que se encontram em isolamento o TEC recorreu à internet para mostrar os seu trabalhos, facilitando o acesso online a espectáculos, como o “Auto da Índia” de Gil Vicente, que pode ser visto hoje às 21h30 no Youtube.

A peça tem a encenação de Carlos Avilez e cenografia e figurinos de Mestre Júlio Resende.

Conforme informação do site do TEC “estes autos foram transmitidos e gravados pela Globo para divulgação do teatro português, aproveitando assim a temporada que o TEC realizou com êxito no Brasil”.

No elenco da peça podemos ver no papel da Ama, Ivone Silva e na Moça, Isabel de Castro ao lado dos actores António Marques, João Vasco e Ruy de Matos.

A apresentação pode ser vista na página de Youtube do TEC, através do link https://youtu.be/LmHt4vzpMl8 entre as 21h30 e as 23h.

A peça de teatro em questão foi gravada em 1980 pelo que não é possível garantir a qualidade de som pretendida, mas é uma boa oportunidade de vermos este documento histórico.

O TEC pretende manter estas iniciativas criando o projecto “NOITES DE TEATRO”, com  transmissões em live streaming, sempre às segundas feiras às 21h30, no canal TEC do YouTube.

Programa:

  • 30 Março – O COMBOIO DA MADRUGADA, de Tennessee Williams;
  • 6 Abril – AS YOU LIKE IT, de William Shakespeare;
  • 13 Abril – A COZINHA, de Arnold Wesker;
  • 20 Abril – AUTO DO SOLSTÍCIO DO INVERNO, de Natália Correia;
  • 27 Abril – DESERTO, DESERTO, de Jean-Pierre Renault;
  • 4 Maio – D. CARLOS, de Teixeira de Pascoaes;
  • 11 Maio – MACBETH, de William Shakespeare;
  • 18 Maio – WOYZECK, de Georg Büchner.
 

Ver original em 'Portal CASCAIS' na seguinte ligação:

https://www.portalcascais.pt/cultura-2/teatro/tec-comemora-dia-mundial-do-teatro-com-peca-online/

FILMES DE REALIZADORES PORTUGUESES ONLINE

Vetores de Desenhos Animados Do Cinema E Dos Filmes Em Preto E...

Filmes de Realizadores Portugueses.

Realizadores portugueses disponibilizam os seus filmes na internet para todos aqueles que estão de momento conscientemente em casa. Eis o cartaz:

(clique em CTRL para abrir os “links” se necessário)

 

🎥 O BARÃO de Edgar Pêra | 

 

🎥 O HOMEM-PYKANTE (FILME DE EDGAR PÊRA KOM ALBERTO PIMENTA)

 

🎥 FADE INTO NOTHING de Pedro Maia | https://vimeo.com/397756977

🎥 TRAGAM-ME A CABEÇA DE CARMEN M. de Catarina Wallenstein e Felipe Bragança

 

🎥 O PRIMEIRO VERÃO de Adriano Mendes | 

 

🎥 ARCA D’ÁGUA de André Gil Mata | 

 

🎥 FIRST LIGHT de Mariana Gaivão| 

 

🎥 ÁGUA FORTE de Mónica Baptista | 

 

🎥 PAS DE CONFETTIS de Bruno Ferreira | 

 

🎥 DEAR MOTHER de Paulo Carneiro | 

 

🎥 PLACENTA de Paulo Lima | 

 

🎥 MARIA DO MAR de João Rosas | https://vimeo.com/showcase/6870452/video/398041713

🎥 NORLEY AND NORLEN de Flávio Ferreira | 

https://vimeo.com/flaviosantosferreira/norleyandnorlen

 

🎥 O QUE ARDE CURA de João Rui Guerra da Mata | 

 

🎥 JOSÉ de João Monteiro | https://vimeo.com/312590366

🎥 OS OLHOS DO FAROL de Pedro Serrazina [e várias outras curtas] 

 

🎥 A GRUTA DE DARWIN de Joana Toste | https://vimeo.com/241534402

🎥 O SAPATEIRO de David Doutel e Vasco Sá | https://vimeo.com/43049670

🎥 MI VIDA EN TUS MANOS de Nuno Beato | 

 

🎥 A RAPOSA DA DESERTA de Pedro Neves | 

 

🎥 O PESO DOS DIAS de Júlio Costa | 

 

🎥 REGISTO DE NASCIMENTO de Matilde Calado | 

 

🎥 TU de Hugo Pinto | 

 

🎥 RIGOROSO REFUGIO de Paulo Pinto | 

 

🎥 CALIPSO de Paulo A. M. Oliveira e Pedro Martins | https://youtu.be/41yly-9Bv3c

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/03/27/filmes-de-realizadores-portugueses-online/

CTA – DIA MUNDIAL DO TEATRO 2020 – AMANHÃ, SEXTA-FEIRA, 27 de MARÇO – SITE da COMPANHIA

«Na cultura somos trabalhadores como os outros»

O AbrilAbril conversou com Paula Soares, Carla Maciel, Raul Atalaia e Fernando Vendrell sobre as consequências da paragem do sector e quais as soluções para salvaguardar a criação artística e os rendimentos.

Paula Soares, técnica de som, viu todo o seu trabalho até finais de Maio cancelado no espaço de uma semana. «Nós temos que viver na mesma mas estamos legalmente impedidos de trabalhar», disse em conversa com o AbrilAbril, acrescentando que as medidas anunciadas pelo Ministério da Cultura «não correspondem à situação da maior parte dos trabalhadores independentes do sector».

«No meu caso, por causa das crianças, com o RSI [Rendimento Social de Inserção] fico a ganhar mais» do que o apoio mínimo de assitência criado por causa do encerramento das escolas, afirma Paula Soares. «Eu e o meu companheiro somos os dois da área e, como grande parte dos técnicos, produtores, músicos, não sabemos como vamos pagar a renda nos próximos meses», referiu.

Paula Soares, técnica de som

Num sector onde muitos trabalhadores fecham actividade parte do ano e onde muitos trabalhos são feitos sem recibos, as medidas propostas vão deixar de fora um grande número de profissionais que não cumprirão os critérios para a atribuição dos apoios. «Os trabalhadores da cultura foram os primeiros a ver tudo cancelado e serão os últimos a retomar a actividade, porque é preciso, no fim disto tudo, convencer o público para voltar a juntar-se», lembrou Paula Soares.

Quanto à suspensão dos pagamentos à Segurança Social, a técnica de som vê-a como uma falsa solução: «Suspende-se e paga-se mais tarde, por isso vai acumular-se o que se deve depois de meses sem dinheiro a entrar», disse.

O carácter intermitente destas profissões já trazia este problema há muito tempo. «De todos os trabalhos apalavrados para os próximos meses, não existe nada escrito, não podemos pedir que não cancelem um contrato que não existe», frisou.

«Não se trabalha, não há dinheiro para viver»

«Não posso deixar de pensar que a minha situação é igual à de todas as outras profissões: vivo disto, pago as contas e alimento os meus filhos tal como os outros artistas e trabalhadores de outras áreas. Logo, estamos em pé de igualdade com outros trabalhadores independentes. Não se trabalha, não há dinheiro para viver», disse a actriz Carla Maciel, sobre a situação em que se encontram os actores. 

Carla Maciel, actriz

Como entretanto já se garantiu em algumas estruturas culturais públicas, Carla Maciel está de acordo que todos os cancelamentos decorrentes desta situação não ponham em causa os pagamentos aos trabalhadores envolvidos, visto que o dinheiro já havia sido alocado aos diversos projectos.

Sublinhando que a cultura é «fundamental» para a vida das pessoas, a actriz considera que «esta paragem tem de servir para reflectirmos e imaginarmos outros caminhos, para não voltarmos a repetir os mesmos erros», acrescentando que é tempo de as instituições bancárias apoiarem os trabalhadores, «uma vez que os portugueses já suaram muito para pagar as dívidas dos bancos».

A resposta é a mesma: lutar ao lado dos outros trabalhadores

A desenvolver ensaios através de vídeo-chamadas está Raul Atalaia, actor d’O Bando, que falou sobre o impacto que esta situação está a ter na companhia. Com os espectáculos e outras iniciativas presenciais canceladas, a estrutura tem mantido a comunicação com o público através do mundo virtual.

Raul Atalaia, actor

Apesar de a situação ser excepcional, Raul Atalaia acredita que a resposta dos artistas não tem de ser muito diferente: «Somos trabalhadores em Portugal e naturalmente lutaremos com os outros trabalhadores para que o Governo garanta as melhores condições possíveis para ultrapassarmos as dificuldades que agora enfrentamos», disse.

Segundo o actor d’OBando, «incentivar» e «assegurar» o acesso de todos os cidadãos à fruição e criação cultural «é uma obrigação constitucional» do Governo português, apesar de estarmos «longe de ver concretizada essa obrigação».

A cultura não pode ser condicionada pelos números

Para o realizador Fernando Vendrell, a mudança tecnológica da circulação do cinema já estava em curso antes desta pandemia. Mas uma vez que a produção de cinema e audiovisual nacional e internacional foi obrigada a parar, o realizador receia a precariedade com que estão confrontados estes profissionais. «A perspectiva é bastante negra para as empresas do sector, para os artistas, criadores e técnicos. Foi posto um travão a fundo e isso vai afectar profundamente a sustentabilidade do sector a nível económico, e colocar os seus trabalhadores, essencialmente trabalhadores independentes, a serem confrontados com a enorme precariedade», frisou.

Fernando Vendrell, realizador

Para o realizador, uma paragem de três a seis meses na produção pode corresponder a uma «sombra» de nove a 18 meses de «fluxo de trabalho irregular que vai afectar todos os agentes e trabalhadores do sector», para lá de uma «marca da ausência de expressão e de criatividade neste período que provoca uma perda de património cultural, social e recreativo».

O que se exige no plano político, segundo o realizador, é acabar com a «sintomatologia do efeito ou do resultado», que condiciona a produção cultural submetendo-a aos números e a uma «perspectiva utilitária». «O combate à precariedade, que tem sido usado como "bandeira política", excluiu totalmente o sector das artes e da cultura, que são os actuais escravos, lutando pelas suas convicções, procurando manter a expressão artística viva mas sobrevivendo com uma condição residual de resistência», afirmou.

«Há uma enorme responsabilidade dos governantes perante a necessidade cultural do País, como do Ensino e da Ciência. Infelizmente a sua opção tem sido sub-orçamentar e assim subvalorizar a necessidade de afirmação cultural de um País e do seu povo», referiu o realizador.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/cultura/na-cultura-somos-trabalhadores-como-os-outros

Ler e saber ajudam mais a atravessar esta pandemia

(José Pacheco Pereira, in Público, 21/03/2020)

Pacheco Pereira

As debilidades do nosso país face à crise da pandemia da covid-19 não se encontram apenas no Sistema Nacional de Saúde, ou no tecido económico, nem na falta de testes ou de ventiladores. Há uma mais invisível, que é a falta de preparação de muitos portugueses para poderem ter um olhar mais sabedor, ponderado, consciente, eficaz para o que se está a passar. Essa debilidade está a crescer à medida que há uma substituição de uma cultura de experiência indirecta (que se obtém nos livros, filmes, etc.), na curiosidade e no saber, por uma ignorância atrevida e agressiva com origem nas redes sociais. Uma protege-nos mais na crise, a outra agrava os factores de crise e não nos protege.

Bem sei do clamor que estas frases, que hoje são classificadas de “elitistas”, suscitam: “Com que então, os livros, em vez da vida?” Mas qual vida? A dos dependurados 24 horas no Facebook e noutras redes sociais? Sim, a vida protege-nos, se transportar consigo experiência, dificuldades, sentido das proporções, riqueza, enfim, “vida”. E se tiver em acrescento livros, filmes, músicas, arte e jornais, ainda mais nos protege. Não é remédio absoluto, mas ajuda.

Há um outro clamor, mais intelectual: mas o que é isso da “cultura”? Sim, são questões complexas e ambíguas, mas, para o caso, basta o senso corrente, mesmo que seja um lugar-comum. Em tempos de guerra, não se limpam armas e toda a gente sabe o que é ser “culto”, mesmo que saiba menos o que é ser ignorante. Culto, interessado pelo mundo, curioso, atento, respeitador do saber alheio, e não necessariamente apenas do saber académico. Não é remédio absoluto, mas ajuda.

Mas, resumindo e concluindo, três coisas contam nesta pandemia: vida, cultura e dinheiro. Infelizmente, estão todas muito mal distribuídas, em particular a última. Mas, pelo menos na cultura, sempre se pode combater a incultura que cresce perante a cobardia e a inércia de muitos que acham que esta é a “realidade” dos nossos tempos e não há nada a fazer. Há e muito. Não é remédio absoluto, mas ajuda.

Quem lê, seja por obrigação, por interesse ou por gosto, está mais preparado para olhar para a pandemia, aprendendo sobre ela mais e melhor. Por exemplo, saber o que é um crescimento exponencial, perceber os gráficos, ler um mapa, ter uma noção sobre os comportamentos humanos em situação de tensão, travar o pânico, entender as informações que recebe, saber distinguir o trigo do joio, conhecer minimamente os mecanismos sensacionalistas da comunicação social e deixar as fábricas de conspiração, intriga e falsidades nos esgotos sociais onde pululam. Como agora se diz, literacias. Não é remédio absoluto, mas ajuda.

E não se trata apenas de conhecimentos científicos sobre as epidemias, sobre as mutações, sobre os mecanismos de contágio, sobre o que é um vírus e como funciona, trata-se de muito mais. Trata-se daquilo em que ler é único, importar experiência indirecta, viver em si o que o mundo dos livros, ficção, poesia, história, transporta. E na literatura e nos filmes também não se trata de procurar apenas ficções que sejam directamente associadas ao tipo de situações que vivemos, como A Peste, de Camus, ou os contos de Edgar Allan Poe (em ambos os casos, livros que têm tido uma grande procura nestes dias), mas muitos outros, seja o 1984, de George Orwell, seja a Montanha Mágica, de Thomas Mann (onde o lugar da tuberculose, o sanatório, funciona como um microcosmos), sejam as memórias e os contos de Tchekov médico, seja, em bom rigor, tudo. A tese é, para usar um exemplo não-pandémico: quem leu Cesário Verde não vê Lisboa da mesma maneira que se não o tivesse lido. E, por muito vaga que seja essa experiência estética, é provável que defenda melhor a sua cidade pelo voto, pela actividade cívica, pela opinião. Como em tudo, não é regra absoluta, mas mais vale ter lido do que ter passado ao largo. Não é remédio absoluto, mas ajuda.

O problema é que estamos a andar para trás, e não se pense que isso é assim tão excepcional na história. Os progressistas acham que se anda sempre para a frente, que a humanidade caminha sempre para o melhor, e o pior é incidental. Não é assim, claro; há momentos da história em que tensões sociais, epidemias, guerras, destroem o saber e o modo de vida.

O problema com a ignorância arrogante dos nossos dias começa logo no bloqueio de toda a informação e a sua substituição pela desinformação. Os que vivem nas redes sociais acham que os jornais, os influentes, os políticos lhes sonegam a verdade, lhes ocultam os factos, numa conspiração vinda do Grupo de Bilderberg, da Internacional Sionista, do grupo de pedófilos que governa o país, de George Soros, da Nova Ordem Mundial Maçónica, dos sistemas 5G, de Deus para punir a homossexualidade e a generalizada dissolução dos costumes, seja lá do que for. Todos estes exemplos foram tirados das redes sociais. E o que fazem é disseminar falsas afirmações, teorias conspirativas, boatos e rumores, pseudociência, acusações caluniosas, ressentimentos e invejas sociais, que, por sua vez, são consumidas pelos seus semelhantes num eco especular, que, em tempos de crise, tende a criar um imenso ruído. E a reacção a esse ruído é frágil, porque muitos dos que se lhe deveriam opor nas instituições e individualmente têm soçobrado nessa obrigação.

Uma das grandes forças do livro de Edward Gibbon sobre a queda do império romano é descrever o desprezo pelas ruínas de muitos habitantes de Roma que, muitos séculos depois, viviam nos restos dos monumentos imperiais achando que eram empecilhos – os “romanos eram insensíveis às belezas da arte” – e a humilhação de homens como Petrarca pela “supina indiferença” com que eles eram tratados. Chegados a esta crise, confinados a casa, com os restos da ciência, da arte, da literatura, do saber atacados pelos atrevidos ignorantes, ao menos esta “guerra” tem mais sentido. E ajuda a sobreviver.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Na morte de Pedro Barroso

pedrobarrosoPedro Barroso, músico da resistência, morreu dia 17 de Março, em Lisboa, aos 69 anos vítima de cancro.

Cantor, compositor, declamador, escritor, actor, artista plástico e com actividade regular num blogue, António Pedro da Silva Chora Barroso estreou-se como cantor em 1969, no programa de televisão Zip-Zip, fez parte da geração de cantores que resistiu ao fascismo e lutou pelas liberdades democráticas, participando em sessões de baladas e de canto livre.

Participou activamente na construção da revolução de Abril, actuando em Portugal e nas comunidades portuguesas no estrangeiro. Colaborou nas campanhas de Dinamização Cultural do Movimento das Forças Armadas (MFA). Integrou a Cooperativa Era Nova, que acompanhava Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira e outros cantores da resistência. Foi muito influenciado pela canção francesa – Adamo, Barbara, Bécaud, Aznavour, Piaf, Ferré e Brassens.

Via: Página Inicial – União de Resistentes Antifascistas Portugueses https://bit.ly/2J4V6Pj

 

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/03/20/na-morte-de-pedro-barroso/

Pedro Barroso, adeus a um músico da resistência

Músico e pintor, Pedro Barroso integrou a geração dos que cantaram a resistência. Faleceu esta terça-feira, aos 69 anos.

Pedro Barrroso (1950-2020), músico, cantor, poeta, memorialista e artista plástico, fotografado em Coimbra, a 21 de Fevereiro de 2006CréditosPaulo Novais / LUSA

Se lhe chamassem homem dos sete instrumentos não ficaria ofendido. Compositor, músico, cantor, declamador, poeta, ficcionista, também actor e artista plástico amador, Pedro Barroso morreu na madrugada de terça-feira no hospital onde se encontrava internado desde o dia 3 de Março, informação confirmada à Lusa pelo seu filho Nuno Barroso – músico como o pai.

Estreou-se como cantor em 1969, no programa de televisão Zip-Zip, e em 1970 gravou o seu primeiro disco, o EP Trova-dor. Integrou a geração de cantores que resistiu ao fascismo e lutou pelas liberdades democráticas, participando em sessões de baladas e de canto livre.

Viveu apaixonada e activamente a Revolução de Abril, actuando em Portugal e nas comunidades portuguesas no estrangeiro. Colaborou activamente nas campanhas de Dinamização Cultural do Movimento das Forças Armadas (MFA). Integrou então a Cooperativa Era Nova, que acompanhava Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira e outros históricos cantores da resistência.

Prosseguiu uma carreira a solo actuando e editando com regularidade, na maior parte das vezes escrevendo, orquestrando e cantando os seus próprios trabalhos.

Publicou Lutas Velhas, Canto Novo, o seu primeiro LP, em 1976, ao qual se sucederam, com regularidade, cerca de 30 discos, o mais recente dos quais o CD Antes do Futuro (2017).

Comunicador de referência, cria em palco um estilo coloquial e intimista, associando a música e a palavra para transformar cada espectáculo num emotivo encontro de amigos, de que é exemplo a gravação do DVD Memória do Futuro, feita ao vivo no Rivoli (2013).

Escolheu Torres Novas para dar o concerto que assinalou 50 anos de carreira, sem saber ainda que seria o último. Por essa altura anunciou para Abril deste ano um novo disco, o CD Novembro – do mês do seu aniversário –, para o qual que preparou um dueto com o malogrado Patxi Andión.

Deixa publicados vários livros, desde Cantos Falados (poesia, 1976) a Diários da Brevidade (2017), a que chamou «uma espécie de desabafos íntimos».

Participou activamente na vida associativa da comunidade artística e musical. Integrou a direcção do Sindicato dos Músicos e foi autor de um polémico «Manifesto sobre o estado da Música Portuguesa». Em 2003 passou a integrar os corpos gerentes da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), instituição que viria a outorgar-lhe, em 2017, a Medalha de Honra de Carreira.

Convicto de que «em cada um de nós nasce um artista lá dentro», viveu «criando rebeldia» e lembrando, a quem o escuta, que «nunca é tarde demais para viver/nunca é tarde demais para exigir».

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/cultura/pedro-barroso-adeus-um-musico-da-resistencia

Pedro Barroso (1950-2020)

Nos 10 anos sobre a sua morte

Resultado de imagem para Jean Ferrat
Recordando Jean Ferrat
Pour ce rien cet impondérableQui fait qu'on croit à l'incroyableAu premier regard échangéPour cet instant de trouble étrangeOù l'on entend rire les angesAvant même de se toucher
Pour cette robe que l'on frôle
Ce châle quittant vos épaules
En haut des marches d'escalier Je vous aime
Je vous aime Pour la lampe déjà éteinte
Et la première de vos plaintes
La porte à peine refermée
Pour vos dessous qui s'éparpillent
Comme des grappes de jonquilles
Aux quatre coins du lit semés
Pour vos yeux de vague mourante
Et ce désir qui s'impatiente
Aux pointes de vos seins levés Je vous aime
Je vous aime Pour vos toisons de ronces douces
Qui me retiennent me repoussent
Quand mes lèvres vont s'y noyer
Pour vos paroles démesure
La source le chant la blessure
De votre corps écartelé
Pour vos reins de houle profonde
Pour ce plaisir qui vous inonde
En long sanglots inachevés Je vous aime
Je vous aime
Paroles et musique de Jean Ferrat, 1971
 

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

Associação de Museus quer perceber o que levou um gestor imobiliário à DGPC

A Associação Portuguesa de Museologia (APOM) vai pedir ao Ministério da Cultura acesso ao processo de escolha de Bernardo Alabaça para director-geral do Património Cultural.

Créditos / CC BY-SA 2.0

«Não está em causa a pessoa, mas sim compreender os critérios de avaliação por parte da Comissão de Recrutamento e Selecção para a Administração Pública (CReSAP) para ocupar o cargo», disse à agência Lusa o presidente da APOM, João Neto, esta quinta-feira. 

O gestor imobiliário Bernardo Alabaça foi anunciado como novo director-geral do Património Cultural, substituindo no cargo Paula Araújo da Silva, no passado dia 13 de Fevereiro, pelo Ministério da Cultura, tendo iniciado funções no dia 24 do mesmo mês.

A nomeação de Alabaça motivou várias críticas dos sectores do Património Cultural, como as do arqueólogo Luís Raposo, que preside ao Conselho Internacional de Museus (ICOM) da Europa, que afirmou: «Ainda estou em estado de choque e considero que é algo que jamais imaginaria poder acontecer, por qualquer Governo que fosse. É uma situação inqualificável».

Por seu lado, o Sindicato dos Trabalhadores em Arqueologia (STARQ/CGTP-IN)) disse, em comunicado, que esta escolha demonstrava «falta de visão e de consideração [do Governo] sobre o papel absolutamente central» da Arqueologia, e um «favorecimento da área da gestão financeira e do negócio imobiliário».

Em sede parlamentar, na terça-feira, o presidente do ICOM-Europa e o presidente da APOM reiteraram as suas preocupações sobre a nomeação de Bernardo Alabaça, a quem não reconhecem competências na área.

Para Luís Raposo, Bernardo Alabaça tem «um perfil curricular completamente desadequado» para o lugar para o qual foi nomeado. «O currículo deixa-nos perplexos», afirmou.

Luís Raposo sublinhou que «não se trata da pessoa». «Não sabemos as políticas que vêm pela frente e temos que ligar isso ao percurso curricular», referiu, dando como exemplo que seria como contratar alguém de uma «empresa especialista em contabilidade criativa para director-geral dos impostos».

O despacho de nomeação de Bernardo Alabaça foi publicado no começo do mês em Diário da República, segundo o qual o novo director-geral do Património Cultural é licenciado em Engenharia e Gestão Industrial, pós-graduado em Análise e Investimento Imobiliário e mestre em Finanças.

A mesma nota biográfica lembrava que Alabaça foi «director-geral de Infraestruturas do Ministério da Defesa Nacional [e] subdirector-geral do Tesouro e Finanças do Ministério das Finanças», entre outros cargos, sendo actualmente «assessor do conselho de administração da Lisboa Ocidental SRU e vice-presidente da mesa da assembleia geral da Parpública, presidente do Conselho Estratégico do Salão Imobiliário de Lisboa e vogal da comissão responsável pelo lançamento e condução do procedimento de negociação para a celebração de contrato de subcessão de direito de superfície sobre os módulos 4 e 5 do Centro Cultural de Belém».

 

Com agência Lusa

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/cultura/associacao-de-museus-quer-perceber-o-que-levou-um-gestor-imobiliario-dgpc

Brasil | Artistas divulgam manifesto pela liberdade de criação e pensamento

Na mesma semana na qual Regina Duarte assumiu a Secretaria Especial de Cultura do desgoverno de Jair Bolsonaro, 16 artistas lançam o vídeo manifesto Cultura Livre Já! Cultura Livre Sempre. A atriz famosa pelo medo de um governo voltado para os interesses nacionais e populares, afirmou em seu discurso de posse que “a liberdade de expressão tem que ter limites”.

 

 

Além de afirmar que as verbas de financiamento não estarão a serviço de “minorias”. É a cultura sem cultura do autoritarismo e dos amiguinhos, que não contestam o status quo.

Já no século 19, o pensador e revolucionário alemão Karl Marx (1818-1883) disse em seu livro Liberdade de Imprensa (1842) que “ninguém é contra a liberdade. No máximo se é contra a liberdade dos outros”. Precisa dizer mais?

Confira o vídeo manifesto

 

O manifesto divulgado nesta semana afirma que “o oxigênio da cultura é a liberdade”. Porque não se pode restringir o termo cultura ao pum do palhaço como fez a atriz medrosa. “A cultura é um conjunto de forma de ser, de existir do nosso povo, nossos conhecimentos, nossos costumes e nossas crenças”, diz trecho do importante manifesto em defesa da democracia e da diversidade.

Emprestam a sua voz em defesa da cultura, tão maltratada pelo desgoverno Bolsonaro, uma diversidade de artistas e intelectuais que se unem contra o obscurantismo bolsonarista, pela democracia e pela liberdade de pensar e criar.

Júlia Lemmertz, Juca Kfouri, Debora Bloch, Arnaldo Antunes, Zélia Duncan, Marco Ricca, Armando Babaiof, Roberto Estrela Dalva, Chico Buarque, Malu Mader, Simone Spoladore, Chico César, Dira Paes, Marcos Breda, Bárbara Paz, Zeca Baleiro, Fernando Morais, Paulo Betti e Lilia Schwarcz, leem o manifesto com muita ênfase contra o autoritarismo e a censura, que o atual governo impõe à nossa melhor produção artística.

O manifesto é uma iniciativa da Associação Paulista de Cineastas, Associação Brasileira de Roteiristas, Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro, Cooperativa Paulista de Teatro e Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de São Paulo.

“Sem a cultura não saberíamos quem somos, sequer nos identificaríamos uns com os outros”, argumentam os artistas em outro trecho do manifesto. A cultura mostra a alma de uma nação. Sem cultura não existe nem o conceito de nação e sem liberdade a cultura perde, o país perde, o mundo perde. Sem cultura nem existiríamos.

Em tempo de sucessivos ataques à liberdade e à diversidade, com o argumento de existir o “marxismo cultural” doutrinador e destruidor da família das pessoas de “bem” (bem-nascidos financeiramente), é importante o posicionamento de artistas e intelectuais que dão a cara a tapa para se contrapor à uniformização nazista da cultura com propósito de massificar a incultura e acabar com verdadeira expressão artística de toda a diversidade brasileira.


Texto em português do Brasil


 

 

 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/artistas-divulgam-manifesto-pela-liberdade-de-criacao-e-pensamento/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=artistas-divulgam-manifesto-pela-liberdade-de-criacao-e-pensamento

A INVENÇÃO DO AMOR – Daniel Filipe

Resultado de imagem para A INVENÇÃO DO AMOR daniel filipe

 
 
A INVENÇÃO DO AMOR
 
La nuit n’est jamais complète
il y a toujours puis que je le dis
Puisque je l’affirme
au bout du chagrin une fenêtre ouverte
une fenêtre éclairée
 
 
Em todas as esquinas da cidade
nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas janelas
dos autocarros
mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de aparelhos
de rádio e
detergentes
na vi trine da pequena loja onde não entra ninguém
no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da nossa
esperança de fuga
um cartaz denuncia o nosso amor
 
Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com carácter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia
quotidiana
 
Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração
e fome de ternura
e souberam entender-se sem palavras inúteis
Apenas o silêncio A descoberta A estranheza
de um sorriso natural e inesperado
 
Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
Embora subterraneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor subitamente imperativo
 
Um homem uma mulher um cartaz de denúncia
colado em todas as esquinas da cidade
A rádio já falou A TV anuncia
iminente a captura A polícia de costumes avisada
procura os dois amantes nos becos e avenidas
Onde houver uma flor rubra e essencial
é possível que se escondam tremendo a cada batida na porta
fechada para o mundo
É preciso encontrá-los antes que seja tarde
Antes que o exemplo frutifique
Antes que a invenção urgente do amor se processe em cadeia
 
Há pesadas sanções para os que auxiliarem os fugitivos
 
Chamem as tropas aquarteladas na província
convoquem os reservistas os bombeiros os elementos da defesa
passiva
Todos
Decrete-se a lei marcial com todas as suas consequências
O perigo justifica-o
Um homem e uma mulher
conheceram-se amaram-se perderam-se no labirinto da cidade
É indispensável encontrá-los dominá-los convencê-los
antes que seja demasiado tarde
e a memória da infância nos jardins escondidos
acorde a tolerância no coração das pessoas
 
Fechem as escolas
Sobretudo protejam as crianças da contaminação
Uma agência comunica que algures ao sul do rio
um menino pediu uma rosa vermelha
e chorou nervosamente porque lha recusaram
Segundo o director da sua escola é um pequeno triste
Inexplicavelmente dado aos longos silêncios e aos choros sem
Razão
Aplicado no entanto Respeitador da disciplina
Um caso típico de inadaptação congénita disseram os psicólogos
Ainda bem que se revelou a tempo
Vai ser internado
e submetido a um tratamento especial de recuperação
Mas é possível que haja outros. É absolutamente vital
que o diagnóstico se faça no período primário da doença
E também que se evite o contágio com o homem e a mulher
de que se fala no cartaz colado em todas as esquinas da cidade
 
Está em jogo o destino da civilização que construímos
o destino das máquinas das bombas de hidrogénio
das normas de discriminação racial
o futuro da estrutura industrial de que nos orgulhamos
a verdade incontroversa das declarações políticas
 
Procurem os guardas dos antigos universos concentracionários
precisamos da sua experiência onde quer que se escondam
ao temor do castigo
 
Que todos estejam a postos
Vigilância é a palavra de ordem
Atenção ao homem e à mulher de que se fala nos cartazes
À mais ligeira dúvida não hesitem denunciem
Telefonem à polícia ao comissariado ao Governo Civil
não precisam de dar o nome e a morada
e garante-se que nenhuma perseguição será movida
nos casos em que a denúncia venha a verificar-se falsa
 
Organizem em cada bairro em cada rua em cada prédio
comissões de vigilância. Está em jogo a cidade
o país a civilização do ocidente
esse homem e essa mulher têm de ser presos
mesmo que para isso tenhamos de utilizar as medidas mais
drásticas
 
Por decisão governamental estão suspensas as liberdades
individuais
a inviolabilidade do domicílio o habeas corpus o sigilo da
correspondência
Em qualquer parte da cidade um homem e uma mulher amam-se
ilegalmente
espreitam a rua pelo intervalo das persianas
beijam-se soluçam baixo e enfrentam a hostilidade nocturna
É preciso encontrá-los
É indispensável descobri-los
Escutem cuidadosamente a todas as portas antes de bater
É possível que cantem
Mas defendam-se de entender a sua voz
Alguém que os escutou
deixou cair as armas e mergulhou nas mãos o rosto banhado de
lágrimas
E quando foi interrogado no Tribunal de Guerra
respondeu que a voz e as palavras o faziam feliz
Lhe lembravam a infância
Campos verdes floridos Águas simples correndo A brisa nas montanhas
 
Foi condenado à morte é evidente
É preciso evitar um mal maior
Mas caminhou cantando para o muro de execução
foi necessário amordaçá-lo e mesmo assim desprendia-se dele
um misterioso halo de uma felicidade incorrupta
 
Impõe-se sistematizar as buscas Não vale a pena procurá-los
Nos campos de futebol no silêncio das igrejas nas boîtes com
orquestra privativa
Não estarão nunca aí
Procurem-nos isso sim nas ruas suburbanas onde nada acontece
A identificação é fácil
Onde estiverem estará também pousado sobre a porta
um pássaro desconhecido e admirável
ou florirá na soleira a mancha vegetal de uma flor luminosa
Será então aí
Engatilhem as armas invadam a casa disparem à queima roupa
Um tiro no coração de cada um
Vê-los-ão possivelmente dissolver-se no ar Mas estará completo o
esconjuro
e podereis voltar assobiando alegremente para junto dos filhos da mulher
 
Mas ai de vós se sentirdes de súbito o desejo de deixar correr o
pranto
Quer dizer que fostes contagiados Que estais também perdidos
Para nós
É preciso nesse caso ter coragem para desfechar na fronte
o tiro indispensável
Não há outra saída A cidade o exige
Se um homem de repente interromper as pesquisas
e perguntar quem é e o que faz aí de armas na mão
sabeis o que tendes afazer Matai-o Amigo irmão que seja
matai-o Mesmo que tenha frequentado a vossa escola
comido à vossa mesa e crescido a
vosso lado
matai-o Talvez que ao enquadrá-los na mira da espingarda
os seus olhos vos fitem com sobre-humana náusea
e deslizem depois numa tristeza líquida
até ao fim da noite Evitai as palavras o apelo a prece derradeira
um só golpe mortal misericordioso basta
para impor o silêncio secreto e inviolável
 
Procurem a mulher o homem que num bar
de hotel se encontraram numa tarde de chuva
Se tanto for preciso estabeleçam barricadas
senhas salvo-condutos horas de recolher
censura prévia à Imprensa tribunais de excepção
Para bem da cidade do país da cultura
é preciso encontrar o casal fugitivo
que inventou o amor com carácter de urgência
 
Os jornais da manhã publicam a notícia
de que os viram passar de mãos dadas sorrindo
numa rua serena debruada de acácias
Um velho sem família a testemunha diz
ter sentido de súbito uma estranha paz interior
uma voz desprendendo um cheiro a primavera
o doce bafo quente da adolescência longínqua
No inquérito oficial atónito afirmou
que o homem e a mulher tinham estrelas na fronte
e caminhavam envoltos numa cortina de música
com gestos naturais alheios Crê-se
que a situação vai atingir o clímax
e a polícia poderá cumprir o seu dever
 
Um homem uma mulher um cartaz de denúncia
A voz do locutor definitiva nítida
Manchetes cor de sangue no rosto dos jornais
 
É PRECISO ENCONTRÁ-LOS ANTES QUE SEJA TARDE
 
não basta o silêncio a espera conivente o medo inexplicado
a vida igual a sempre conversas de negócios
esperanças de emprego contrabandos de drogas aluguer de
automóveis
não basta ficar frente ao copo vazio no café povoado
ou marinheiro em terra a afogar a distância
no corpo sem mistério da prostituta anónima
Algures no labirinto da cidade um homem e uma mulher
amam-se espreitam a rua pelo intervalo das persianas
constroem com urgência um universo de amor
E é preciso encontrá-los E é preciso encontrá-los
 
 
Importa perguntar em que rua se escondem
em que lugar oculto permanecem resistem
sonham meses futuros continentes à espera
Em que sombra se apagam em que suave e cúmplice
abrigo fraternal deixam correr o tempo
de sentidos cerrados ao estrépito das armas
Que mãos desconhecidas apertaram as suas
no silêncio presago da cidade inimiga
 
Onde quer que desfraldem o cântico sereno
rasgam densos limites entre o dia e a noite
E é preciso ir mais longe
destruir para sempre o pecado da infância
erguer muros de prisão em círculos fechados
Impor a violência a tirania o ódio
 
Entanto das esquinas escorre em letras enormes
a denúncia total do homem e da mulher
que no bar em penumbra numa tarde de chuva
inventaram o amor com carácter de urgência
 
COMUNICADO GOVERNAMENTAL À IMPRENSA
 
Por diversas razões sabe-se que não deixaram a cidade
o nosso sistema policial é óptimo estão vigiadas todas as saídas
encerramos o aeroporto
patrulhamos os cais
há inspectores disfarçados em todas as gares de caminho de
ferro
 
É na cidade que é preciso procurá-los
incansavelmente sem desfalecimentos
Uma tarefa para um milhão de habitantes
todos são necessários
todos são necessários
Não se preocupem com os gastos a Assembleia votou um
crédito especial
e o ministro das Finanças
tem já prontas as bases de um novo imposto de Salvação Pública
 
Depois das seis da tarde é proibido circular
Avisa-se a população de que as forças da ordem
atirarão sem prevenir sobre quem quer que seja
depois daquela hora Esta madrugada por exemplo
uma patrulha da Guarda matou no Cais da Areia
um marinheiro grego que regressava ao seu navio
 
Quando chegaram junto dele acenou aos soldados
disse qualquer coisa em voz baixa fechou os olhos e morreu
Tinha trinta anos e um família à espera numa aldeia do
Peloponeso
O cônsul tomou conhecimento da ocorrência e aceitou as
desculpas
do Governo pelo engano cometido
Afinal tratava-se apenas de um marinheiro qualquer
Todos compreenderam que não era caso para um protesto
diplomático
e depois o homem e a mulher que a polícia procura
representam um perigo para nós e para a Grécia
para todos os países do hemisfério ocidental
Valem pois bem o pequeno sacrifício de um marinheiro anónimo
Que regressava ao seu navio depois da hora estabelecida
sujo insignificante e porventura bêbado
 
SEGUE-SE UM PROGRAMA DA MÚSICA DE DANÇA
 
Divirtam-se atordoem-se mas não esqueçam o homem e a mulher
Escondidos em qualquer parte da cidade
Repete-se é indispensável encontrá-los
Um grupo de cidadãos de relevo ofereceu uma importante
recompensa
destinada a quem prestar informações que levem à captura do
casal fugitivo
Apela-se para o civismo de todos os habitantes
A questão está posta É preciso resolvê-la
para que a vida reentre na normalidade habitual
Investigamosnos arquivos Nada consta
Era um homem como qualquer outro
com um emprego de trinta e oito horas semanais
cinema aos sábados à noite
domingos sem programa
e gosto pelos livros de ficção cientifica
Os vizinhos nunca notaram nada de especial
vinha cedo para casa
não tinha televisão
deitava-se sobre a cama logo após o jantar
e adormecia sem esforço
 
Não voltou ao emprego o quarto está fechado
deixou em meio as «Crónicas marcianas»
perdeu-se precipitadamente no labirinto da cidade
à saída do hotel numa tarde de chuva
O pouco que se sabe da mulher autoriza-nos a crer
que se trate de uma rapariga até aqui vulgar
Nenhum sinal característico nenhum hábito digno de nota
Gostava de gatos dizem Mas mesmo isso não é certo
Trabalhava numa fábrica de têxteis como secretária da gerência
era bem paga e tinha semana inglesa
passava as férias na Costa da Caparica.
 
Ninguém lhe conhecia uma aventura
Em quatro anos de emprego só faltou uma vez
quando o pai sofreu um colapso cardíaco
Não pedia empréstimos na Caixa Usava saia e blusa
e um impermeável vermelho no dia em que desapareceu
 
Esperam por ela em casa: duas cartas de amigas
o último número de uma revista de modas
a boneca espanhola que lhe deram os sete anos
Ficou provado que não se conheciam
Encontraram-se ocasionalmente num bar de hotel numa tarde de
chuva
sorriram inventaram o amor com carácter de urgência
mergulharam cantando no coração da cidade
 
Importa descobri-los onde quer que se escondam
antes que seja demasiado tarde
e o amor como um rio inunde as alamedas
praças becos calçadas quebrando nas esquinas
 
não podem escapar Foi tudo calculado
com rigores matemáticos Estabeleceu-se o cerco
A polícia e o exército estão a postos Prevê-se
para breve a captura do casal fugitivo
 
 
 
(Mas um grito de esperança inconsequente vem

 

do fundo da noite envolver a cidade

 

au bout du chagrin une fenêtre ouverte

 

une fenêtre éclairée)

 

Daniel Filipe
(1925-1964)
 
 
(Para os mais jovens: Daniel Filipe foi várias vezes preso pela PIDE. A opressão a Liberdade e a Esperança circulam neste poema)

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/03/10/a-invencao-do-amor-daniel-filipe/

Atividades no Hot Clube de 3 a 7 de Março 2020

Hot Clube – Praça da Alegria 48

Dia 3 de Março

JAM SESSION COM LUÍS CANDEIAS

As jam session de 3ª feira contam com um músico convidado que lidera a sessão.
Em Janeiro teremos como convidado o baterista Luís Candeias.

A sessão começa às 22h30, com um set do grupo residente, passando depois para jam aberta aos músicos que queiram participar.
Entrada livre.

Dia 4 de Março

CATARINA/JOW/PITOMBA – “MAIS CORES”

Concerto de apresentação do disco “Mais Cores” a partir das 22h30 (2º set às 00h). 10€ para não sócios, entrada gratuita para sócios.

Catarina Santos – voz; Jow Ferreira – guitarra; Rogério Pitomba – bateria.

O trio Catarina + Jow + Pitomba, formado em 2019 por Catarina Santos (voz), Jow Ferreira (guitarra acústica/elétrica) e Rogério Pitomba (bateria) nasce de um forte desejo de unir forças num trabalho artístico que tem como ponto de partida o diálogo entre a liberdade, espontaneidade e a improvisação características do Jazz, e o balanço e linguagem rítmica Afro-Brasileira.

Apostando na sintonia e comunicação entre os três, o trio acaba de gravar “Mais Cores”, um álbum em que mesclam temas originais e versões de temas de compositores que fazem parte do seu universo de influências, como os Brasileiros Toninho Horta, Guinga, André Mehmari, António Loureiro, além de temas tradicionais Portugueses inspirados em Brigada Victor Jara, e outros como Avishai Cohen e Guillermo Klein.

O álbum “Mais Cores” foi gravado entre os dias 23 e 26 de Julho de 2019, no Estúdio Ponto Zurca, aos cuidados de Sérgio Milhano, com uma linguagem de estúdio de gravação ao vivo, para preservar a química e traços únicos que caracterizam o som deste Trio.

CATARINA SANTOS

Cantora, compositora, educadora e sound artist. Suas raízes culturais combinam África, Portugal e Brasil, e sua vida em Nova Iorque como artista tornou-se a força motriz de sua arte como músico e compositora. Formada em Lisboa na Escola de Jazz Luís Villas-Boas, em Jazz Performance no City College of New York e Orchestration na Juilliard School, fez parte da Juilliard School Choral Union. Estuda com John Pattitucci, Sheila Jordan, Neil Clark, Paquito de Rivera, Ed Simmons, Ben Street, Jim Black, Cyro Baptista, Luciana Souza, Duduka da Fonseca. Tem aulas de percussão com Zé Maurício (Choro Ensemble), Café (Djavan). Como cantora e compositora da banda Nation Beat, grava “Maracatuniversal” (Recife, 2006), e toca em locais de renome como The Blue Note, Joes Pub, The Stone (John Zorn). Em 2013 participa no concerto em homenagem a Mary Lou Williams com solista e parte do coral, com alguns dos melhores cantores de jazz da cena Nova Iorquina, e em Abril desse ano fez a produção artística e foi cantora convidada de dois grandes espetáculos: Concerto em homenagem a Chiquinha Gonzaga, no Brazilian Endowment for the Arts, e “Viagem pelo Mundo de Língua Portuguesa” para a CPLP, 2 de Maio, na sede das Nações Unidas. Nova Iorque.

Com dois álbuns de originais, “No Balanço do Mar”, (Nova Iorque, 2009) e “Rádio Kriola” (ARC Music, Londres, 2017) elabora um novo som de raízes e sons urbanos, de África para o Brasil, da cena de Latin Jazz de Nova Iorque, e a paisagem multicultural de Lisboa como inspiração. A pesquisa de Catarina leva-a a ser convidada na Conferência ASWAD, na Universidade Rutgers (Pittsburgh, 2011).

Completou em 2017 o Mestrado em Composição na Goldsmiths University, em Londres, com incidência no Jazz e música electrónica. Créditos de composição em Londres incluem a peça “The Power Behind the Crone” (2017), de Alison Skilbeck e Tim Hardy, “Untitled”, uma coreografia de Gianna Burright, e „I am Orestes and I am Elektra too”, de To Be Creatives (estreia no Edinburgh Fringe Festival de 2018). Cria, co-produz com Marcy dePina, e é artista em “Spirits of Resistance – Women, Music and the Drum”, projecto de intercâmbio entre mulheres compositoras/percussionistas (Março de 2018), no Bronx Music and Heritage Center em Nova Iorque. Em 2019 toca no Stowe Jazz Festival (Vermont, USA) com o quinteto Catarina dos Santos e Ebinho Cardoso.

Catarina é a criadora de três mundos criativos que caminham lado a lado: dois projectos de música original que, sendo um em nome próprio, de som mais acústico e de ligação direta com a música de raiz Angolana, Cabo Verdiana, Portuguesa e Brasileira, e MadNomad, o seu irmão mais electrónico e ligado ao Jazz e Spoken Word. Em 2019 Catarina regressa a sua escola primeira, o Jazz, com o álbum em Trio “Mais Cores”, onde a sua vasta experiência com Brazilian Jazz ganha corpo e balanço.

JOW FERREIRA

Juliano Ferreira, também conhecido como “Jow Ferreira”, nasceu em Natal (Brasil) em 1982. Começou a aprender guitarra aos 14 anos como autodidata e, em 1999, teve as primeiras aulas de guitarra clássica na Escola de  Música da UFRN (EMUFRN-Brasil), onde cursou graduação em guitarra clássica e elétrica de 2001 a 2005. De 2007 a 2008, morou em Montreal (Canadá), onde fez mestrado em guitarra clássica na Universidade de  Montreal.  Foi professor de guitarra no Solar Bela Vista (SESI-Brasil) de 2010 até o início de 2014, quando se tornou professor permanente na Escola de Música da UFRN, dos cursos de guitarra elétrica e harmonia de jazz.  No que diz respeito à sua vida artística, começou a tocar profissionalmente em 2003, seja como solista (também em duo, trio etc.) ou acompanhando cantores(as) em sua cidade natal, como cantores como Liz Rosa, Bruna Hetzel, Lysia Condé, entre outros, o que fortaleceu sua paixão pela arte do acompanhamento. Na música instrumental, trabalhou com músicos de sua cidade natal, como Antonio de Pádua, Júnior Primata, Darlan Marley, Rogério Pitomba, Anderson Pessoa, Eduardo Taufic, Roberto Taufic, entre outros. Em 2013, gravou seu primeiro álbum a solo intitulado “Alma nos Dedos”, que inclui temas originais e arranjos para temas de Tom Jobim, Ivan Lins, Pat Metheny, Brahms, Roberto Taufic etc. Desde 2018, mora em Portugal para começar seu programa de Doutoramento em Jazz Performance na Universidade de Aveiro, onde desenvolve uma pesquisa sobre a guitarra de sete cordas com uma corda “Lá” mais aguda.

ROGÉRIO PITOMBA

Baterista, brasileiro nascido em Natal/RN, Rogério Pitomba é conhecido por sua versatilidade e estilo único de tocar misturando os diversos ritmos de uma forma jazzística.

Músico desde a adolescência já dividiu o palco com grandes artistas em sua trajetória musical, entre eles: Roberto Menescal, Michael Pipoquinha, Ná Ozzeti, Chico Pinheiro, Joyce Moreno, Chico César, Pepeu Gomez, Leila Pinheiro, Valéria Oliveira e Velha Guarda da Portela, Daúde, Mitchel Player, Mark Rapp, oão Ventura, Rosa de Pedra, Fábio Carneirinho, Jubileu Filho, Eduardo Taufic, Antônio de Pádua, Camila Masiso, Liz Rosa, Sami Tarik, Marco Antônio da Costa, Manoca Barreto, Sérgio Coelho, Ive Greice , Salomão Soares, Cláudio César Ribeiro, Ellis Zottesso, Ana Gomes, Mili Vizcaíno, Victor Zamora, João Mortágua e Orquestra Jazz Águeda, entre outros. Em sua carreira já partipou de festivais nacionais e internacionais como Montreuz Jazz (Suiça), o SXSW (Texas/EUA), Jurerê Jazz (SC/Brasil), Fest Bossa & Jazz (RN/Brasil), Brazilian Day (Estocolmo/ Suécia). Entre concursos de bateria que participou destaque para o Batuka Brasil!2013, o maior festival de bateria do Brasil, onde ganhou o 1º lugar. Já em 2016 participou 8º Festival de Bateria e Percussão de Lavra (PT) onde também ganhou em 1º lugar. Pitomba atualmente reside em Lisboa/PT e  traz também em sua bagagem musical seus dois CD’ s originais instrumentais: “Até o caroço”, lançado em 2014, e “Cacho maduro”, fruto do seu amadurecimento musical, gravado ao vivo e lançado em 2016.

Dias 5 a 7 de Março

ANTÓNIO LOUREIRO TRIO – “LIVRE”

Concerto a partir das 22h30 (2º set às 00h). 10€ para não sócios, entrada gratuita para sócios.

António Loureiro – piano; Frederico Heliodoro – baixo; Felipe Continentino – bateria.

António Loureiro está em tournée pela Europa, apresenta o seu novo trabalho intitulado “LIVRE”. Este concerto com o trio Frederico Heliodoro-baixo e Felipe Continentino -bateria, já foi apresentado em diversas cidades do Brasil e Japão e agora, pela primeira na Europa.

Além de apresentar seu trabalho, nos últimos 4 anos António Loureiro tem acompanhado os guitarristas Kurt Rosenwinkel e Pedro Martins em várias tournées pelo mundo.

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/03/02/atividades-no-hot-clube-de-3-a-7-de-marco-2020/

Portugal | Os caminhos ínvios da cultura

 
 
Enquanto esperam a chegada dos novos tempos, os empreendedores instalam-se no património cultural que decoram com obras de arte das colecções públicas. É a lógica agora enunciada pelo Ministério da Cultura.
 
Manuel Augusto Araújo* | opinião
 
De uma assentada Graça Fonseca, ministra da Cultura, e Ângela Ferreira, secretária de Estado da Cultura, assumem decisões esclarecedoras da sua perspectiva sobre cultura e património cultural.
 
Se ainda houvesse dúvidas – tendencialmente deve-se sempre conceder o benefício da dúvida – sobre se existiam políticas culturais, por mais controversas que fossem, em que a hierarquia dos valores culturais era a que se sobrepunha, ainda que com decisões questionáveis, aos interesses do mercado cultural, elas deixaram de existir.
 
A nomeação de Bernardo Alabaça para director-geral do Património Cultural pela ministra da Cultura e um despacho da secretária de Estado da Cultura que manda depositar em hotel privado obras de uma colecção adquirida pelo Estado – o que motivou um pedido de audição urgente do PCP à ministra – são a evidência de que o ministério da Cultura está capturado pelas forças do mercado. Para os actuais detentores desse pelouro é o mercado, que não reconhece qualquer outra hierarquia cultural que não seja a do que é rentável e vendável, o norte da sua acção.
 
As duas decisões, praticamente simultâneas, geraram imediatas perplexidades e indignações no universo intelectual e nos dirigentes da Associação Portuguesa de Museologia (APOM) e do Conselho Internacional de Museus da Europa, que Luís Raposo comenta num excelente texto.
 
Os caminhos iniciados e percorridos pelo programa Revive já eram altamente preocupantes pela via única de entregar à indústria imobiliária turística a recuperação do património cultural construído, em risco de ruína ou em adiantado estado de degradação, sem se preocupar, ou melhor (pior), demitindo-se de definir os programas de ocupação deixando-os ao critério dos promotores privados. Deviam saber, ou sabem até bem demais, que a filantropia não entra nos seus cálculos. O interesse nos valores icónicos, históricos e culturais é meramente instrumental. O Estado tem um papel fundamental no equilíbrio entre a exploração desse património por privados e o seu usufruto público, mesmo assumindo-se que os projectos de arquitectura respeitem o traçado original.
 
Os exemplos de desastradas gestões e intervenções privadas no património edificado a nível internacional são muitos e o que aconteceu em Itália nos governos Berlusconi – mas não só, olhe-se para França e para os Hotel de Ville – deve, deveria, ser um fortíssimo sinal de alerta.
 
 
A nomeação para director-geral do Património Cultural de um gestor especializado no ramo imobiliário, sem qualquer qualificação na área da cultura, e a cedência de artefactos que fazem parte das colecções de museus nacionais para enfeitar um empreendimento imobiliário turístico beneficiário do programa Revive são, como escreve Maria Isabel Roque, «Duas cajadadas no mesmo coelho». São a demonstração de que as políticas, durante dezenas de anos ziguezagueantes, dos ministérios e secretarias de Estado da Cultura, seguem agora em linha recta capturadas pelos interesses da rentabilização imobiliária que as ginásticas argumentativas da ministra da Cultura de «implementação de um novo ciclo de políticas públicas para o património cultural e para as artes» tornam ainda muitíssimo mais preocupantes.
 
A recuperação do património edificado é sempre complexa. Um dos meios de salvaguardar o património edificado é dar-lhe novas funções sem que a sua identidade seja posta em causa. O Centro Português de Fotografia está instalado na «Cadeia da Relação», um edifício que começou a ser construído em 1767; o Museu Nacional de Arte Antiga está instalado num palácio mandado construir, em finais do século XVII, pelo 1.º conde de Alvor; o Palácio de São Bento, onde está instalada a Assembleia da República, começou por ser um convento. Todos eles, ao longo dos tempos, albergaram as mais diversas instituições e nem todos os edifícios com valor patrimonial terão que obrigatoriamente seguir esse caminho.
 
O que não é aceitável, nem sequer admissível, é que esse caminho seja o da via única da exploração turística em que o único objectivo é a redução dos impactos das requalificações nos Orçamentos de Estado. Uma via que tem sido prática corrente continuada por outros atalhos, com a desclassificação de vários edifícios para entrarem no mercado imobiliário, a intromissão das Finanças impedindo a classificação de imóveis do Estado para facilitar a sua venda. A gestão privada tem um único objectivo, o lucro e a recuperação no prazo mais curto dos investimentos realizados. O Estado obriga-se ao serviço público, que tem que ser protegido e defendido. É essa a função do Estado, que o deve impor caso a caso. Deve ser do conhecimento público, para haver debate com contribuições culturais e técnicas válidas, que se plasmem nos cadernos de encargos das obras e nos das concessões. Até se deveria exigir que o Estado, pedagogicamente, obrigasse os concorrentes a abrirem concursos públicos de arquitectura em vez de deixar ao critérios dos promotores a escolha dos arquitectos.
 
O grande problema da imaginação para reinventar os monumentos, como proclamava o feérico ministro da Cultura francês Jack Lang quando, em 1984, lançou um vasto programa de privatização do património edificado, é se as operações imobiliárias, que necessariamente lhes estão associadas, garantem e como garantem as suas memórias originais ou se essas memórias serão e como serão sacrificadas à sua reabilitação. Com essa orientação política – de transferir a recuperação e a gestão de bens patrimoniais que são de todos para a sua apropriação privada – a fronteira entre serviço público e a actividade comercial, se já era porosa, torna-se inexistente. O empreendedorismo turístico promete restaurar o património edificado e mesmo dar-lhe acesso público, desde que, evidentemente, não incomode os utentes que pagam para dormir e vaguear por onde dormiu e vagueou a extinta nobreza, pelo que se deve preservar o sossego desses esplêndidos momentos de ócio, pagos e bem pagos aos empreendedores que em poucos anos amortizam os investimentos feitos à conta do valor histórico desses lugares.
 
Vamos ver como correrá essa coexistência. Nos processos em curso por essa Europa fora, nada está garantido e muito do que já foi feito só provoca as máximas apreensões.
 
Consonante com essa prática está a cedência de peças do Museu dos Coches para decorar uma instituição que não têm funções museológicas. É um precedente inaceitável – uma dúvida: será mesmo um precedente? – em que um membro do executivo, certamente avalizado pela sua superior hierárquica, se arroga da prerrogativa de dispor das colecções dos museus nacionais, surda aos pareceres dos organismos técnicos. Pode dizer que tudo está salvaguardado. Veremos se no fim da linha, com os sucessivos sobressaltos a que tem sido sujeito o ministério da Cultura e os organismos dele directamente dependentes, não se estará perante mais um caso de polícia. Além do que foi parar à Procuradoria-Geral da República há que lembrar as obras de arte da colecção da Secretaria de Estado da Cultura (SEC) de que não se conhece o paradeiro e das discrepâncias entre os registos. No livro de registos que havia sido aberto em Janeiro de 1986 e encerrado em 1992, inventariavam-se 1115 obras. Posteriormente há uma lista de 848 cedidas à Fundação de Serralves que, estranhamente, só reconhece 553 obras, uma discrepância de 295 obras. A Fundação de Serralves cedeu – autorizada por quem? – 93 obras a outras entidades. Para ampliar a baralhada 267 obras à sua guarda viajaram para outras paragens, tendo sido entretanto localizadas 165, 102 continuam em parte incerta. Um imbróglio que tem sido objecto de vários despachos ministeriais e que parece longe de solucionado. Poderá a secretária de Estado da Cultura argumentar que a sua decisão de cedência de obras das colecções do Estado a um privado está salvaguardada por um inventário rigoroso, o que não invalida a discricionariedade do procedimento mas, com a ligeireza com que tem sido feita a circulação de obras das colecções estatais, por maiores que sejam as garantias…
 
Na lógica da prática actual do ministério da Cultura, relembrando as controvérsias suscitadas por um jantar promovido pelo Web Summitt no Panteão Nacional, não será de admirar que em breve se acolham de braços abertos os führers da moda, da fashion life, que tomam de assalto o património cultural associando-os às suas marcas. O exemplo paradigmático é Itália, com um legado de grande dimensão em risco, a exigir intervenções urgentes e os governos, o de Berlusconi na linha da frente, a cortarem drasticamente os orçamentos da cultura. Solução? Vendem-se direitos de patrocínio na restauração de monumentos como a Fonte Trevi à Fendi, o Coliseu de Roma à Tod’s, Pompeia à Prada, a Torre de Pisa à Gucci, associando os logótipos das marcas aos monumentos que apadrinham.
 
Tudo isto se enquadra no estado actual da cultura e das artes. Está em linha com as exibições de arte contemporânea em que as marcas de artigos da moda e luxo se associam às vernissages, sublinhando o seu carácter mundano com desfiles de moda ou assinalando-as, como fez a Hermès na inauguração de Buren em Paris, com lenços de seda desenhados pelo artista, ou a Louis Vuitton com sacos monografados de Murakami na abertura de uma sua exposição em Los Angeles. Exemplos não faltam nessa lógica ostentatória em que se associa a moda à arte contemporânea, em que o mundo dos famosos desfila destilando fragrâncias, jóias e os últimos modelos de vestuário. São menos as notícias sobre as exposições e os sucessos culturais que as que registam as presenças do star-system, da política aos grandes empresários, das vedetas televisivas às do desporto, do cinema, da música e da arquitectura, dos artistas visuais e performativos ao baixo clero dos gestores culturais que os promove e aos chefs que prepararam as degustações daquele evento ou esperam ser convidados para o próximo. Na Europa esses processos cavalgam o tempo. Por cá seremos mais modestos, mas sempre com o objectivo e a finalidade de a cultura deixar de ser um «peso para o Estado», que parece ser o grande desígnio dos decisores culturais em exercício.
 
O património, cultural e natural, gera grandes apetites. O jornal Economist, num editorial intitulado «The $9 trillion sale», escreve que Thatcher e Reagan usaram as privatizações como ferramenta para combater os sindicatos e transformar em receitas diversos serviços públicos e que os seus sucessores no século XXI, «necessitam fazer o mesmo com os edifícios, terrenos e recursos naturais, porque é um enorme valor que está à espera de ser desbloqueado».Trocando por miúdos, nos centros decisores do capitalismo internacional, FMI, Banco Mundial, BCE etc., está a levedar uma nova onda de privatizações de tipo novo e radical: vender bens imobiliários estatais, incluindo patrimónios histórico-culturais; a dificuldade – dificuldade obviamente superável – é a da avaliação de muito desse património.
 
Enquanto esperam a chegada dos novos tempos, os empreendedores instalam-se no património cultural que decoram com obras de arte das colecções públicas.
É essa a lógica agora enunciada pelo ministério da Cultura.
 
* AbrilAbril
 
Imagem: «As Tentações de Santo Antão», no Museu Nacional de Arte AntigaCréditos/ CC-BY-SA-3.0

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/02/portugal-os-caminhos-invios-da-cultura.html

Fernando Namora é o autor do mês em Setúbal

A exposição Nave de Pedra – Andarilhagens por terras de vários matizesestá patente até ao fim do mês de Fevereiro, na Biblioteca Pública Municipal.

Fernando NamoraCréditosManuel Moura / Agência LUSA

A partir de uma das obras do médico e escritor, Nave de Pedra, editada em 1998, criou-se uma exposição no âmbito do projecto municipal do Autor do Mês, organizado pela autarquia setubalense.

O objectivo passa por conjugar imagens e palavras de Fernando Namora, expostas em 15 painéis, entre os quais Romance de uma Vida, Retratos de Família, Vivências, Estevas e Fragase A Mulher Afogada.

Nascido em Condeixa-a-Nova, Coimbra, em 1919, Fernando Namora licenciou-se em medicina em 1942 e estreou-se na literatura em 1937, com a obra de poesia Relevos, à qual se seguiram cerca de três dezenas de títulos.

Em 1948, escreveu Retalhos da Vida de um Médico, uma obra marcada pela sua vivência enquanto médico numa aldeia, a qual foi transposta para televisão.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/local/fernando-namora-e-o-autor-do-mes-em-setubal

Roteiro literário revela lugares de «Levantado do Chão»

O «Roteiro Literário Levantado do Chão», criado pela Câmara de Montemor-o-Novo, propõe uma viagem pelos lugares do primeiro grande romance do Nobel português José Saramago. A apresentação será esta tarde.

Créditos / www.m-x.com.mx

O «Roteiro Literário Levantado do Chão» interliga os concelhos de Lisboa, Montemor-o-Novo e Évora, através de três percursos temáticos subdivididos em percursos rodoviários e pedestres, que abrangem 26 pontos de interesse interpretativo sobre a obra publicada há 40 anos, lê-se no guia do roteiro. 

Criado pela Câmara de Montemor-o-Novo, no distrito de Évora, em parceria com outras entidades, como o Museu do Aljube e a Fundação José Saramago, propõe «dar a conhecer os lugares onde os episódios mais marcantes da obra se desenrolam, através de uma contextualização histórica e social» dos temas abordados e que inclui testemunhos sobre mulheres e homens que inspiraram as principais histórias e personagens do enredo.

O roteiro, com um total de 238 quilómetros rodoviários e oito pedestres, também «convida» a conhecer aspectos biográficos relacionados com a estadia de Saramago na localidade de Lavre, concelho de Montemor-o-Novo, em 1976, com o objectivo de se documentar para escrever a obra, que se tornou «o seu primeiro grande romance».

O primeiro percurso do roteiro, «Os levantados deste chão – A repressão da ditadura no Alentejo», foca-se entre 1933 e 1974, e «aborda os momentos mais violentos da obra, como as prisões, as torturas e os assassinatos» da ditadura de Salazar sobre o povo alentejano.

Este percurso passa por vários sítios de Lisboa, como o Museu do Aljube – Resistência e Liberdade, e de Montemor-o-Novo, como o Posto da GNR, para onde a personagem Germano Vidigal foi levada e acaba por morrer em 1945, «vítima de um cruel e bárbaro assassinato levado a cabo por dois agentes da PIDE», a polícia política da ditadura.

O segundo percurso, «A resistência: João Mau-Tempo e a luta do proletariado agrícola alentejano», vai desde o início do século XX até à década de 70, e convida a acompanhar algumas fases daquela luta contada por Saramago a partir da personagem João Mau-Tempo.

Este percurso passa por vários sítios dos concelhos de Évora, como a Praça de Touros desta cidade, onde João Mau-Tempo assistiu a um comício anticomunistra em 1937, e de Montemor-o-Novo, como São Geraldo, referida na obra a propósito de um encontro clandestino de trabalhadores rurais e militantes do PCP que decorreu nas proximidades desta aldeia.

O terceiro percurso, «José Saramago em Monte Lavre», convida o viajante a refazer os principais caminhos do escritor durante a sua estadia em Lavre e outras visitas que fez pelo concelho de Montemor-o-Novo, em 1976. 

Através dos três percursos, é possível «juntar os elementos necessários» para que o roteiro «cumpra a função de narrar a obra ao leitor-viajante», lê-se no guia.

A partir de «uma obra literária marcante para Montemor-o-Novo», o Município criou o roteiro para valorizar «algumas das partes mais relevantes» da história e da vida e garantir uma «maior atractividade turística» do concelho, explica a presidente do Município, Hortênsia Menino.

Simultaneamente, acrescenta, o roteiro visa «valorizar e difundir o património deixado» por Saramago na obra, e «dar expressão significativa à necessária preservação da memória da identidade do povo português e da sua história de resistência e luta».

A apresentação do roteiro e o lançamento do respectivo guia, iniciativas que marcam o arranque das comemorações dos 40 anos da publicação de Levantado do Chão e do 6.º Encontro de Leitores de Saramago, vão decorrer esta sexta-feira, a partir das 18h, na Biblioteca Municipal de Montemor-o-Novo.

Amanhã, dia em que se assinala exactamente o aniversário da publicação da obra (22 de Fevereiro de 1980), será inaugurado o roteiro, com a realização de um dos percursos, em Montemor-o-Novo, a partir das 9h. 

Até 23 de Fevereiro, na Biblioteca Municipal, haverá conferências, leituras encenadas e uma feira do livro, entre outras actividades. 

Com agência Lusa

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/cultura/roteiro-literario-revela-lugares-de-levantado-do-chao

Tozé Martinho foi a sepultar na Guia

Por Redação
18 fevereiro 2020
Dor e consternação marcaram as cerimónias fúnebres do ator e argumentista Tozé Martinho, 72 anos, que foi a sepultar esta terça-feira no cemitério da Guia, em Cascais.
O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, recordou Tozé Martinho como um "dos atores e guionistas portugueses mais ativos", enquanto a ministra da Cultura sublinhou o "papel nuclear que representou no mundo teatral e audiovisual nacional”.
Tozé Martinho faleceu este domingo no SO do Hospital de Cascais, onde estava internado há dois dias.
Vítima de paragem cardiorrespiratória, o antigo galã de telenovelas vivia há largos anos no concelho de Cascais.
Em 2014 foi vítima de um AVC, do qual recuperara com sucesso.
Já em novembro do ano passado sofrera uma queda e teve necessidade de ser operado a fratura ao colo do fémur.
Era natural de Salvaterra de Magos, no Ribatejo.
Antes de iniciar a sua carreira como ator e argumentista, António José Bastos de Oliveira Martinho, vulgo Tozé Martinho, estudou Medicina Veterinária e Economia e licenciou-se em Direito.
Já na política, foi militante do PSD e foi por este partido que, em 2009, concorreu à Assembleia Municipal de Benavente.
Martinho estreou-se em 1982 em Vila Faia, a primeira telenovela lusa. Foi o também saudoso Nicolau Breyner quem escolheu a sua personagem (agente da PJ Silveira).
Tozé Martinho continuou a carreira em Origens, Palavras Cruzadas e Passerelle. Em 1988 fez com Nicolau Breyner a dupla de protagonistas da série Os Homens da Segurança. No ano seguinte escreveu e realizou a série Caixa Alta.
Filho da atriz Maria Teresa Ramalho, (Tareka), que faleceu aos 90 anos, em 2018, Tozé Martinho e a mãe participaram em 1976 no concurso televisivo A Visita da Cornélia.
Posteriormente trabalharam juntos em várias novelas, como em Todo o Tempo do Mundo, que marcou o início da produção nacional de ficção na TVI, em 1999.
Tozé Martinho assinou sete novelas e um filme para a TVI até 2012, orgulhando-se de ter escrito três das quatro novelas portuguesas mais vistas (Dei-te quase tudo, Olhos de Água e A Outra).
Na última novela, Louco Amor, o protagonista foi Nicolau Breyner.
Em 2017 não escondia a mágoa por nenhuma produtora pedir os seus serviços. "Isto é tudo incompreensível, e quem perde é a ficção", disse, na altura, à TV7Dias.
Também Manuel Luís Goucha considerou, em declarações públicas, que Tozé Martinho “não foi valorizado” nos últimos anos.
Em 2003, em entrevista ao extinto jornal 24horas, o guionista enaltecia a qualidade das novelas portuguesas. "Eles [brasileiros] não são melhores do que nós. Nós é que desacelerámos. E em competição não se pode levantar o pé do acelerador."


 

Ver o original em "CASCAIS24" na seguinte ligação::

https://www.cascais24.pt/p/cultura-normal-0-21-false-false-false_30.html

A circulação do livro no espaço da lusofonia

No que diz respeito à língua, e porque em português nos entendemos, à partida não haveria grandes entraves. E, digo à partida porque eles existem. Em Portugal, por exemplo, somam-se nos leitores anticorpos em relação aos livros em Português de origem brasileira ou africana.

 

 

Por ocasião do Encontro de Escritores promovido pelo Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora na Biblioteca Camões a 13 de Fevereiro de 2020 e perante um público interessado e muito participante.

O debate decorreu entre a mesa e a assembleia, com a promessa de continuar.

O meu agradecimento ao Presidente do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora Dr. Delmar Maia Gonçalves e a todos os autores e intervenientes culturais presentes, pela oportunidade de debate de temas tão importantes.

Vivemos numa era global em que é simples fazer circular tudo, absolutamente tudo e, fazê-lo num espaço de tempo curto. Efectivamente, o nosso consumo global pauta-se pela circulação de bens sejam eles de primeira necessidade ou não. Todos comemos as mesmas frutas, vestimos as mesmas roupas, consumimos a mesma tecnologia independentemente do espaço geográfico que ocupemos. Tudo circula. Tudo, menos os livros. Os livros não circulam e quando o fazem, fazem-no penosamente.

Sabemos que existem alguns entraves à leitura que se prendem com as várias expressões da Língua Portuguesa no espaços da lusofonia e, que além disso, com os livros concorrem as novas tecnologias e os audiovisuais. Têm estado, por isso, a diminuir os leitores, mas será que são essas barreiras as únicas responsáveis pela fraca circulação do livro no espaço lusófono?

No que diz respeito à língua, e porque em português nos entendemos, à partida não haveria grandes entraves. E, digo à partida porque eles existem. Em Portugal, por exemplo, somam-se nos leitores anticorpos em relação aos livros em Português de origem brasileira ou africana. Anticorpos esses alimentados pelas editoras e, por vezes, pelos próprios autores. Que o diga Laurentino Gomes que optou por uma edição vertida para português de Portugal no seu livro “1808”. É verdade, escapou na altura à maioria mas saíram duas versões do mesmo livro numa única língua com adaptação para o público português. Tendo sido esse, apenas um caso, talvez dos primeiros.

Nem sequer imagino o que seria Jorge Amado vertido para português de Portugal…

Quando se fala na não circulação do livro, obviamente há excepções. Circulam os autores cabeça de cartaz das grandes editoras que acumulam prémios e participações em festivais literários nos países lusófonos e ao longo de décadas. Sem desprimor para a carreira de ninguém, será que nos últimos vinte anos a literatura Africana se resume a esta mesmíssima meia dúzia de nomes?!

Se falarmos de literatura brasileira o panorama é ainda mais difícil. Jorge Amado continua como figura de proa secundado por muito poucos. Como se um deserto editorial tivesse tomado conta da literatura brasileira das últimas décadas, quando na realidade, o que se passa é exactamente o oposto. A literatura brasileira dos nossos dias pauta-se por uma panóplia de novos autores de grande qualidade, a grande maioria dos quais totalmente desconhecidos em Portugal.

Há uns bons anos e tendo ainda muito pouca consciência das causas desta não circulação do livro, nomeadamente entre Portugal e o Brasil, tentei dar a conhecer alguns escritores portugueses no Brasil e fiz o caminho inverso, trazendo muitos livros e muitos autores que não eram e, continuam a não ser, conhecidos em Portugal.

As atitudes foram diferentes sendo os resultados práticos exactamente os mesmos.

Lá, a curiosidade e a abertura para tudo e todos que culminou em convites, em edições e participações para alguns nomes portugueses. Só não foi mais longe porque daqui, o desinteresse pesou mais.

Posso vos dar um exemplo concreto: As jornadas de Literatura de Passo Fundo. Passo Fundo é um espaço geográfico privilegiado, no sul do Brasil, fronteira com o Uruguai. Um espaço onde a escrita e a leitura têm um papel de relevo e os livros em Português e em Castelhano convivem. Trata-se da maior feira de literatura do continente americano a céu aberto.

A única abertura que eu tive para falar das Jornadas de Literatura de Passo Fundo em Portugal, foi com a editora de António Lobo Antunes, a Drª Piedade Ferreira.

Fui percebendo efectivamente e, a pouco e pouco que os nossos editores quase nada percebiam da nova literatura brasileira e, que na maioria dos casos os nomes de que eu lhes falava eram totalmente estranhos.

Foi no entanto muito frutificante todo esse esforço, pelos amigos que fiz e porque percebi que um pequeno circuito paralelo à margem das grandes editoras se esforçava como eu, para romper essa barreira. Conheci assim, a editora Tágide e a Celina Veiga Oliveira, editora essa já desaparecida que fez um trabalho notável no que diz respeito à divulgação da nova literatura brasileira em Portugal.

No Brasil nomes como Tania Rosing a mentora das Jornadas de Literatura de Passo Fundo, e Miguel Rettenmaier, editor, professor universitário e um eterno curioso de tudo o que por cá se fazia, abriram-me as portas a um mundo novo.

Conheci Ferreira Gullart, Mariana Ianelli, Maria carpi, Carlos Nejar, Aldyr Garcia Schlee e tantos outros.

Com a continuação dos meus esforços, percebi que era mais fácil a um autor brasileiro ser editado em Paris ou na Alemanha do que em Lisboa.

Efectivamente, nomes de que eu falava e ninguém conhecia em Portugal nem parecia ter interesse em conhecer, eram já acompanhados por exemplo, pela Petra Masky da Mertin e editados com sucesso na Alemanha.

Passaram alguns anos destes meus esforços mas não creio que o panorama tenha mudado muito.

Recentemente e talvez porque assim o exigem os leitores, sobretudo novos leitores brasileiros radicados à pouco em Portugal, uma livraria brasileira abriu as portas em Lisboa. Chama-se Livraria da Travessa e propõe-se trazer directamente do Brasil os novos nomes da literatura brasileira em edições brasileiras que importa directamente. Consegue assim, contornar em parte, o empedernido sector editorial. Tal como me explicaram, não é sempre um processo simples e esbarra com várias questões, como por exemplo o facto de alguns autores terem os direitos de autor barrados para Portugal na esperança de virem um dia a ser editados por uma grande editora portuguesa.

Foi com surpresa que a par da nova literatura brasileira vi igualmente nas estantes da Livraria da Travessa alguma literatura Africana. É mais fácil, explicaram-me, para os autores africanos, serem levados primeiro para o Brasil e depois chegarem a Portugal através da Livraria da Travessa.

É uma pequena livraria em Lisboa e simultaneamente uma luz num panorama editorial sufocado e sufocante.

Efectivamente, os livros não circulam no espaço da Lusofonia. Por detrás deste aparente desinteresse, ignorância ou inércia estarão certamente directivas muito concretas que atravessam décadas e se se impõe como absolutamente necessárias. Por quem e porquê são as perguntas que vos deixo.

O livro, quer-se efectivamente estanque, parado e sobretudo, desconhecido no espaço lusófono.

 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/a-circulacao-do-livro-no-espaco-da-lusofonia/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=a-circulacao-do-livro-no-espaco-da-lusofonia

Actividades no Hot Clube de 18 a 22 de Fevereiro 2020

Hot Clube – Praça da Alegria 48

Dia 18 de Fevereiro

BRUCE BARTH & ERI YAMAMOTO – “PIANO FOUR HANDS”

Concerto a partir das 22h30 (2º set às 00h). 10€ para não sócios, entrada gratuita para sócios.

Bruce Barth – piano; Eri Yamamoto – piano.

“About Bruce Barth & Eri Yamamoto

Two of New York’s finest jazz pianists share one piano, and chase each other around the keyboard, crossing hands, playing with lyricism and joy, and humor.  Bruce has been described by the Village Voice as “One of the best pianists in town, period.” Herbie Hancock said about Eri: “My hat’s off to her – already she’s found her own voice!”

Both Bruce and Eri are prolific composers, and have each realeased at least 12 CDs under their own names. Their four-hand performances feature a unique program of their own memorable compositions and some specially chosen jazz standards. The spontaneity and energy of their performances has been described by audiences as “unique,” “moving,” and unforgettable.”

Dia 19 de Fevereiro

“PLANETARIUM” (3)

Planetarium – A música de ” Interstellar space” de John Coltrane no Hot Clube!

Nas quartas feiras de Fevereiro celebramos a música explosiva e meditativa do disco “Interstellar Space”.

Um disco de John Coltrane,  um dos músicos de jazz mais influentes de sempre,  gravado a 22 de Fevereiro de 1967. “Interstellar Space” foi uma das suas últimas gravações, que viria a ser editada  7 anos após a sua morte. Trata-se de um conjunto de temas em duo com o baterista Rashied Ali. Música exigente mas muito profunda, resume um pouco todas as explorações musicais de Coltrane ao longo da sua vida. Plena de contrastes, com muita improvisação mas também com alguma música escrita, são peças que funcionam como pequenas sinfonias, tal o grau de sofisticação formal que Coltrane consegue atingir.

Para celebrar o espírito desta obra, o Hot Clube recebe todas as quartas feiras do mês de Fevereiro, duos constituídos por proeminentes músicos do Jazz português, sempre com a bateria em primeiro plano .

Esta noite no Hot Clube:

22h30:

João Mortágua – saxofone alto; Pedro Vasconcelos – bateria.

00h00:

Marcos Cavaleiro – bateria; José Pedro Coelho – saxofone tenor.

10€ para não sócios, entrada gratuita para sócios.

Dias 20 a 22 de Fevereiro

BICA/SANTOS/MORTÁGUA

Concerto a partir das 22h30 (2º set às 00h). 10€ para não sócios, entrada gratuita para sócios.

João Mortágua – saxofone alto; André Santos – guitarra; Carlos Bica – contrabaixo.

Carlos Bica é um dos poucos músicos portugueses que alcançou projecção internacional, tendo-se tornado uma referência no panorama do jazz europeu. Entre os vários projectos musicais que lidera e para além das suas colaborações com teatro, cinema e dança, o trio AZUL, com o guitarrista Frank Möbus e o baterista Jim Black, tornou-se na imagem de marca do contrabaixista e compositor. Desde há mais de vinte anos que o trio AZUL de Bica, com Frank Möbus e Jim Black, fascina os seus ouvintes. Para este projecto, Carlos Bica convidou o guitarrista André Santos e o saxofonista João Mortágua, dois dos mais talentosos e criativos músicos de uma nova geração de músicos portugueses, para em palco partilharem as suas canções.

“Quando se fala da música de Carlos Bica, a crítica costuma salientar a forma como nela se interpenetram referências de diferentes universos, da música erudita contemporânea à folk, ao rock, ao jazz, às músicas improvisadas. „A música de Carlos Bica é excitante, é moderna e contagiante. Bica é um ouvinte atento ao mundo exterior – donde a sua modernidade – e um escritor de canções inato. Nas suas composições encontramos fragmentos de coisas que apenas o nosso subconsciente reconhece, mas expostas de forma tal que elas nos surgem absolutamente naturais e óbvias. Nada que tenha a ver com alguma forma de pastiche ou resultado de copy/ paste; antes uma forma evidente de contar histórias feitas de pedaços de quotidiano que de uma forma estranha reconhecemos.“ – Leonel Santos „All Jazz“

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/02/17/actividades-no-hot-clube-de-18-a-22-de-fevereiro-2020/

O voo da Cotovia

Um dos mais emblemáticos espaços livreiros do Chiado vai fechar. Desaparece a Livraria Cotovia, propriedade da editora com o mesmo nome. Esta «voa para outras paragens».

A livraria Cotovia, um dos espaços culturais emblemáticos da Baixa lisboeta, vai encerrar as suas portas.Créditos

A editora Livros Cotovia vai deixar o espaço onde nasceu há «bem mais de 30 anos», na rua Nova da Trindade, no Chiado, «como tantos outros livreiros e alfarrabistas já deixaram também».

«A Cotovia vai mudar de casa» é o título do breve comunicado publicado no Facebook da editora, no qual, depois de se anunciar que «voa para outras paragens, mais tranquilas e não longe», se refere que «o Chiado, tal como está agora, não deixa saudades».

A editora promete continuar em actividade e adverte o público de que os seus livros «continuam disponíveis em praticamente todas as livrarias».

A editora, fundada em 1988 por André Fernandes Jorge e pelo seu irmão, o poeta João Miguel Fernandes Jorge – que mais tarde se afastaria do projecto –, construiu um catálogo exigente em torno do ensaio, da ficção, da poesia e do teatro, tendo-se feito notar pela qualidade das edições mas também pela sobriedade do grafismo, elaborado por João Botelho. No meio da profunda concentração editorial do sector editorial e livreiro, permaneceu como uma das mais significativas editoras portuguesas independentes. Após a morte de André Fernandes Jorge, em 2016, as rédeas da casa foram assumidas por Fernanda Mira Barros.

O que não muda e encerra definitivamente é a Livraria Cotovia, que funcionava no espaço da editora. Concebida pelo arquitecto Luís Borges da Gama (do atelier de Nuno Teotónio Pereira) era, descreve o comunicado, uma «livraria linda» num «edifício Raul Lino». A editora anuncia uma iniciativa de venda das existências, a preços muito especiais, entre 17 de Fevereiro e 13 de Março, de segunda a sexta-feira, das 10h às 14h.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/cultura/o-voo-da-cotovia

Carlos Paredes, uma saudade imensa

No dia em que faria
95 anos, a música de fundo
da nossa resistência


 
 

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

Artistas constroem frente contra a barbárie

247 - “O governo resolveu desmontar toda a área cultural”. É o que afirma Celso Curi, produtor, gestor cultural e presidente da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) ao Tutaméia. Ao lado dele, fala Regina Galdino, diretora teatral: “Tanto faz ser o Alvim, a Regina Duarte ou o Zé das Couves, porque o objetivo deles é o desmonte. Eles querem que o ministério não funcione, seja com quem for”.

Com esse diagnóstico, os dois integram um movimento inédito de artistas de várias áreas e de diferentes visões políticas para barrar a destruição da cultura, a censura e os ataques cotidianos do governo Bolsonaro à liberdade de expressão, à democracia e à Constituição. Organizam debates, intervenções culturais e, agora, de 11 a 18 de fevereiro, a Semana de Arte Contra a Barbárie, nas escadarias do Teatro Municipal em São Paulo.

 

Ver o original em 'Brasil24/7' na seguinte ligação:

https://www.brasil247.com/cultura/artistas-constroem-frente-contra-a-barbarie

Shortcutz Cascais promove sessão especial com música ao vivo

 

Por Redação 
11 fevereiro 2020
OShortcutz Cascais, movimento de divulgação de curtas-metragens nacionais, vai esta quinta-feira, dia 13, pelas 21h30, presentear o seu público com uma sessão especial de cinema com música ao vivo, na Murtalense Associação Desportiva Cultural e Recreativa, na Parede. “Tu” de Hugo Pinto, “Herói Invisível” de Cristèle Alves Meira e “A Fábrica” de Diogo Barbosa, constituem as três curtas-metragens selecionadas para esta sessão especial.   O movimento chama a particular atenção para a curta-metragem “A Fábrica” que, para além de contar com um elenco de peso, como Rui Mendes, Vítor Norte, Carla Andrino, Sofia Nicholson e Ricardo Carriço, entre outros, que marcarão presença na sessão, terá ainda a sua banda sonora tocada ao vivo pelo maestro Mário Rui Teixeira, e à curta-metragem “Tu” narrada por Afonso Pimentel e coreografada por Cifrão. O Shortcutz é um projeto que começou em Lisboa, em Janeiro de 2010, estando agora presentes em locais como: Aruba, Rio de Janeiro, Santa Catarina Porto, Caldas da Rainha, Covilhã, Faro, Figueira da Foz, Figueiró dos Vinhos, Funchal, Guimarães, Ovar, Vila Real, Viseu, Londres, Berlim e Amesterdão e, desde outubro último, no concelho de Cascais. O Shortcutz pretende ser uma autêntica revolução urbana de ideias, projetos e pessoas na área das curta-metragens, tornando-se uma parte indissociável e constante da vida criativa, cultural e artística das cidades nele envolvidas. Todas as curtas-metragens em competição deverão ter alguma ligação a Portugal (seja sobre Portugal ou ter algum membro da equipa que seja português), sendo por isso um projeto que visa promover o cinema de Portugal e sobre Portugal.
                                                                                                        
Em Cascais surgiu por uma equipa de quatro produtoras (Nádia Leal, Catarina Narciso, Marta Lopes e Sandrina Novo), que pretendem trazer dinamismo cultural ao concelho de Cascais e apoiar a produção de curtas metragens nacionais ou com ligação ao nosso País.  O Shortcutz Cascais é um movimento sem fins lucrativos e tanto as inscrições para competição como as sessões são totalmente gratuitas.
 
 

Ver o original em "CASCAIS24" na seguinte ligação::

https://www.cascais24.pt/p/blog-page_6430.html

A devolução do património saqueado pelos impérios coloniais

Manuel Augusto Araújo    11.Feb.20 

O saque do património cultural dos povos dominados atravessa toda a História. Acontece que a nossa época é a do esforço descolonizador e da reivindicação de igualdade entre Estados soberanos. As potências coloniais e neo-coloniais têm uma dívida – também cultural - a pagar, e um património a restituir.

A destruição e o saqueio do património cultural foi e é uma prática corrente, por motivos religiosos mas sobretudo políticos. Destruir o património cultural dos povos destrói a sua memória e identidade.

Os debates sobre a restituição dos bens culturais, objectos e documentos, às ex-colónias só muito recentemente acontecem em Portugal, ao contrário da Europa, em particular na França e Alemanha, onde decorrem há vários anos. Tiveram novo impulso em França quando Macron criou um grupo de estudo com base num documento em que se propõe a «restituição plena e incondicional de todos os bens que foram retirados sem consentimento dos territórios africanos». Tem sido intensa a discussão entre antropólogos, etnólogos, directores de museus e outros especialistas num debate que tem muito de cultural mas é sobretudo político. Naturalmente mais intensa nos países que tiveram impérios coloniais, em que uma grande parte dos intervenientes parte da premissa que o colonialismo foi um crime, embora também parte substancial desses litigantes se exima de considerar que a exploração colonial, a escravatura, o trabalho forçado são o núcleo duro da consolidação do regime capitalista até ao seu formato actual.

A destruição e os saques dos patrimónios culturais dos países tem uma longa história e está longe de se confinar a África. Durante séculos a destruição e a pilhagem do património cultural, sempre relacionado com grandes convulsões históricas, não provocava escândalo. O vandalismo das tribos bárbaras foi, durante séculos, uma normalidade. Só no Renascimento, quando Petrarca se indigna com a destruição de templos e palácios de Roma, perpetrada pelos próprios romanos, é que se começam a gerar movimentos em favor da sua preservação.

É na Revolução Francesa, no ano de 1790, que a Assembleia Constituinte cria uma Comissão dos Monumentos com a missão de proteger e conservar as obras de arte, em contra-ciclo com a fúria revolucionária que destruía tudo o que simbolizava o poder absolutista no exercício do controlo social e imposição de crenças políticas, sociais e religiosas. A Notre-Dame é um excelente exemplo. Era um forte símbolo da unidade entre a religião e monarquia que oprimia o povo de tudo o que contrariava os ideais do Iluminismo e da Revolução. As estátuas dos reis foram decapitadas, a arquitectura gótica brutalizada. Só transcorrido um século, com a Notre-Dame em estado deplorável, é que, depois de Victor Hugo escrever Notre-Dame de Paris, em que a catedral é o personagem principal e o corcunda o secundário, se iniciou o processo de restauração dirigido por Viollet-le-Duc. Isso também só foi possível pela mudança de mentalidades em relação ao património cultural iniciada pela Revolução Francesa, tivesse ou não conhecimento das iniciativas pioneiras de Petrarca no séc. XIV, iniciando um processo de protecção, conservação e valorização do património com os subsequentes desenvolvimentos a nível mundial.

Nada disso obstou a que a destruição do património cultural continuasse a ser uma prática corrente, com objectivos religiosos – como aconteceu com as gigantescas estátuas dos Budas de Bamyan, destruídas por ordem do governo fundamentalista dos talibãs, os quais, se deverá sempre recordar foram uma invenção da CIA e dos serviços secretos paquistaneses – mas sobretudo políticos. A estratégia política, destruindo ou danificando os patrimónios culturais dos povos, tinha e tem o objectivo de destruir as suas memórias e identidades, de afirmar a supremacia do ocupante. Não poucas vezes essa estratégia se associa ao roubo e tráfico ilegal com fins altamente lucrativos, de que são exemplo as estátuas e os baixos relevos do Partenón que Lord Elgin vendeu ao governo britânico e que repousam no British Museum, surdos às reivindicações gregas de sua devolução, apesar de serem apoiadas pela UNESCO. No quadro do tráfico ilegal, directa ou indirectamente suportado politicamente, é de referir os saques efectuados no Museu de Bagdade e sítios arqueológicos do Iraque depois da sua invasão – com um pretexto falso completamente fabricado – pelas tropas norte-americanas e aliados, que causaram estragos irreparáveis. Um saque de dezenas de milhares de antiguidades de que houve conhecimento público pelas reportagens do The Independent e do The Guardian. Um roubo efectuado por vulgares ladrõezecos ombro com ombro com um bando de larápios bem informados, cultos, traficantes especializados que o invadiram enquanto as tropas norte-americanas guardavam a ferro e fogo os poços de petróleo, como foi denunciado na altura, no Parlamento português, pelo PCP.

De Napoleão a Hitler

Essa estratégia política em relação ao património cultural tem em Napoleão um cume. Nas campanhas napoleónicas o imperador fazia-se acompanhar por uma corte de intelectuais que avaliavam e inventariavam as obras de arte a roubar. A pilhagem de igrejas, catedrais, conventos, museus, colecções privadas por toda a Europa e norte de África, Egipto e Alexandria foi sistemática e sem precedentes. Eram troféus de guerra que mostravam ao mundo o poder de Napoleão e a supremacia política e cultural da França. O objectivo do imperador era distribuir as obras de arte pelos museus franceses, construir um grande museu, o Museu Napoleão, em Paris. Derrotado Napoleão, o Segundo Tratado de Paris, de 20 Novembro de 1815, pela primeira vez na história mundial determina a devolução das obras de arte aos seus países de origem numa grande operação de retorno, embora parte desse espólio não tenha ou ainda não tenha sido restituído, já lá vão quase duzentos anos. O Casamento em Caná de Paolo Veronese, roubado de um convento de Veneza, continua em exposição no Museu do Louvre.

O segundo grande roubo sistemático de património cultural foi realizado pelos nazis na Segunda Guerra Mundial. O projecto de Hitler é similar ao de Napoleão. Projectava construir um enorme complexo cultural em Linz, a cidade onde tinha nascido, dedicado às obras que o führer considerava reflectirem a ideologia do partido nazi. Uma comissão dirigida por Hans Posse foi encarregada da selecção que se iniciou na Alemanha, separando as obras de arte que iriam ser deslocadas para Linz das obras de arte degeneradas – de Matisse, Picasso, Kandinsky, Chagall, Van Gogh e outros – que seriam destruídas ou vendidas a preços de saldo. Com o desenrolar da guerra todos os museus e casas de coleccionadores privados foram saqueadas pelo mesmo critério, as obras transportadas e armazenadas na Alemanha enquanto o museu estava em construção. De caminho muitos dignitários e generais nazis, também coleccionadores, aproveitaram para enriquecer as suas colecções. Os exércitos aliados, conhecedores dessa situação, à medida que avançavam recuperavam-nas. Mais de 8 000 obras foram encontradas no castelo de Neuschwanstein e quase 7 000 nas minas de sal de Altaussee. Ao todo os nazis roubaram mais de 20 000 obras de arte, praticamente 20% das obras de arte europeias. Muitas das obras de arte ainda não foram encontradas, provavelmente na posse de pessoas que as compraram durante a guerra a preços módicos.

A campanha de devolução das obras pós-guerra foi muito publicitada e originou a jurisprudência da Convenção de Haia em 1954, que estabeleceu regras internacionais sobre o património cultural que, de certo modo, está na origem dos actuais debates sobre a devolução dos artefactos de arte aos países colonizados pelos colonizadores.

Património, colonizados e colonizadores

Várias questões se colocam. Na comunidade científica teme-se o esvaziamento dos museus europeus de Etnologia e Antropologia. O mais paradigmático será o British Museum, uma venerável instituição, um dos mais antigos e visitados museus do mundo, fundado em 1753, com mais de oito milhões de antiguidades das mais diversas e remotas culturas. Antiguidades expropriadas e pilhadas em nome da ciência por ilustríssimos cientistas que durante mais de 150 anos pesquisaram sítios arqueológicos na Mesopotâmia, Egipto, Arábia, Palestina, Turquia ou as adquiriram por tráfico suspeito, como os já referidos «mármores de Elgin» ou como troféus de conquistas como a estátua da Ilha de Páscoa, oferecida à rainha Victoria pelos triunfantes marinheiros ingleses. O British Museum, uma referência entre os museus mundiais, com um espólio que é a excelência exemplar dos saques feitos em nome da exploração científica, poderá estar agora ameaçado por esta vaga devolutiva.

Muitos querem remeter o problema para a área científica, questionando inclusivamente a capacidade das instituições dos países de origem em preservar e criar espaços especializados para o seu conhecimento e divulgação, o que é um argumento com bastante razoabilidade. Só que a questão é sobretudo política. É reconhecer todo o passado colonial esclavagista em que não existem bons, maus ou assim-assim colonizadores. São todos maus e construiram muita da sua prosperidade na exploração desenfreada das colónias. É reconhecerem a destruição social, económica e cultural que realizaram. É reconhecerem um passado colonial bem sintetizado na frase «exterminem todas as bestas», do sinistro Kurtz no romance O Coração das Trevas de Joseph Conrad (Editorial Estampa, 1983), expressão do colonialismo justificado em nome do «progresso» e da «civilização». É reconhecerem que as antigas colónias são hoje países com direitos iguais.

Se receiam que as antigas colónias sejam carentes de meios técnicos e científicos, ou mesmo de capacidade económica para construirem ou requalificarem sítios para recepcionarem os artefactos artísticos que povoam os museus europeus podem, devem, associar à sua devolução a oferta, se solicitada, desses meios. Será um processo lento mas é um caminho a percorrer na descolonização das mentalidades e na reposição possível, ainda que insuficiente, de todo um brutal saque feito durante centenas de anos.

A discussão em Portugal, suscitada pelo O Programa para a Descolonização da Cultura apresentado na Assembleia da República, tem sido inquinada pelo conteúdo desse Programa que, bem lido, é superficial, para não referir as formulações pedantes que por lá abundam, em que se dá ênfase à devolução dos objectos sem sequer referir que essa devolução deve incidir nos objectos e colecções que tenham sido obtidos por pilhagens ou compras abusivas. Mais grave, como isso fosse ponto de partida de um processo que é muitíssimo mais multiforme, tem muitas outras componentes entre si correleccionadas em que a devolução dos objectos às suas origens é um dos pontos mas não o seu ponto de partida. Considerar que a descolonização dos museus praticamente se confina a uma «a produção de uma listagem nacional de todas as obras, objectos e património trazidos das antigas colónias portuguesas e que estão na posse de museus e arquivos nacionais» até é de uma linearidade confrangedora. O que está em causa, em Portugal e no mundo, é um processo de descolonização cultural liberto dos vícios de uma visão eurocêntrica e elitista que deve ser desconstruída. A devolução dos objectos é obviamente parte integrante desse processo longo, complexo e moroso de que não se pode excluir o diálogo intercultural que aconteceu, foi e é importante, apesar de todos os seus sobressaltos e episódios pouco dignificantes.

Há ainda a questão das colecções privadas. Em Portugal as de José Guimarães e de Berardo, muitíssimo relevantes em relação à África Subsaariana. Uma questão complicada, porque os processos de aquisição das peças que as integram não são postos em causa, foram adquiridas como o são qualquer obra de arte, mas deve ser encarada pelo governo na perspectiva de se devolverem as obras roubadas e de se organizar um Museu das Descobertas e da Colonização, com esta ou outra denominação. Tema mais complexo em que o nosso passado colonial deve figurar com o seu longo rol de iniquidades em que as populações indígenas, depois de abolida a escravatura foram submetidas ao trabalho forçado e outras leis que os excluíam socialmente. Se o passado colonial é vergonhoso as descobertas são um marco na história da humanidade.
Devolvam-se as obras, assuma-se o terrível passado colonial, construa-se um museu sobre esse período da história que se é bem negro também é notável na história do mundo e de Portugal, como bem o defende Borges Coelho : «Na verdade, foi um período fantástico na História da Humanidade, exactamente como ela é. Não podemos dizer que não houve bandidos – houve montanhas [deles]. O Albuquerque foi um homem terrível, mas foi também um homem de génio, que abriu uma rota efectiva na História da Humanidade, ele o [Vasco da] Gama e companhia» (…) «um museu com tudo lá e não só o retrato do herói com as flores em baixo, mas que refira os vários povos».

A talhe de foice outra questão obliquamente relacionada. Portugal também foi vítima de espoliações durante as Invasões Francesas, não só pelos franceses mas também pelos nossos aliados ingleses.1 Não estará na altura de serem recuperadas?

1.Para não falar da incursão de Francis Drake em Faro (1596), de onde o seu amigo Robert Devereux, Duque de Essex, saqueou a preciosa biblioteca do bispo D. Fernando Martins de Mascarenhas, uma importante figura da cultura portuguesa dos séculos XVI e XVII. Os livros ainda hoje permanecem na biblioteca Bodleian, em Oxford, e têm sido objecto de polémica. Ver The Portuguese American Journal (2014) e Algarve Daily News (2018).
(publicado em AbrilAbril https://www.abrilabril.pt )

Fonte: https://pracadobocage.wordpress.com/

 

Ver o original em ODiario.info (clique aqui)

Vencedor do Oscar 2020 é retrato do neoliberalismo

 

247 - "O filme Parasita, de Bong Joon Ho, indicado ao Oscar às categorias de Melhor Filme e Melhor Filme Internacional, foi um enorme sucesso entre os críticos e o público. Depois de sua estréia vencedora do Palme Ouro em Cannes, vendeu mais de dez milhões de ingressos somente na Coréia do Sul, tornando-se o quarto filme de maior bilheteria do país em 2019", escreve Max Balhorn na revista Jacobin Brasil.

"Com uma receita de mais de 120 milhões de dólares em todo o mundo, Parasita é o sétimo filme do diretor Bong Joon Ho e o mais bem-sucedido até hoje. Vindo de um diretor cujos filmes geralmente apresentam personagens marginalizados que lutam contra a opressão (veja Barking Dogs Never Bite, Gwoemul — O Hospedeiro e, mais recentemente, Expresso do Amanhã), Parasita foi aclamado como uma crítica clara e lúcida à desigualdade de riqueza na sociedade sul-coreana".

"O filme  é considerado uma alegoria da desigualdade de classe desenfreada e da frustração popular pela falta de mobilidade social em um dos países mais ricos da Ásia. Em um artigo para a Jacobin, Eileen Jones elogiou Parasita por ir além de simples propostas alegóricas, afirmando que o filme “cristaliza as experiências de uma família de classe marginalizada tentando se agarrar, desesperadamente, a uma chance para melhorar a vida, retratadas de uma forma que te machuca”.

 

Leia a íntegrado artigo, em tradução de Giuliana Almada

Ver o original em 'Brasil24/7' na seguinte ligação:

https://www.brasil247.com/cultura/vencedor-do-oscar-2020-e-retrato-do-neoliberalismo

Oscar vai para Parasita e Industria Americana, o horror econômico

Temas sociais e trabalhistas estão nas telas e suscitam reflexões sobre a crise econômica global e o mundo do trabalho.

 

 

No clima de temas sociais da cerimônia de premiação do Oscar de 2020, dois documentários pouco comentados chamam a atenção. The Social Dilemma tenta interpretar o papel das redes sociais e seus algoritmos na vida das pessoas. Coded Bias também fala desse tema; o documentário analisa os aplicativos com reconhecimento facial que costumam ser falhos e, em muitos casos, racistas.

Na disputa do Oscar, os documentários Democracia em vertigem, da brasileira Petra Costa — que escancarou ao mundo a vergonhosa trama do golpe do impeachment de 2016 contra a ex-presidenta Dilma Rousseff, iniciada pelo submundo da política representado pela Operação Lava Jato —, e o vencedor Indústria Americana — sobre o cotidiano dos operários da fábrica da General Motors em Ohio que passou para as mãos de um milionário chinês — mostram o conceito de luta de classes.

Os filmes O irlandês e Parasita — este, o vencedor do Oscar — também enveredam por esse tema. A luta de classes não é nominada, mas facilmente perceptível. Especialmente em Indústria Americana e Parasita, os problemas econômicos que demarcam os mundos de ricos e pobres aparecem como ponto central. Eles ficam mais nítidos quando vistos com os dados recentemente divulgados pela Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Divisões domésticas

Em seu relatório anual, publicado em 21 de janeiro de 2020, a organização questiona “se a taxa de desemprego é a medida mais confiável do mau funcionamento do mercado de trabalho”. O emprego não é mais garantia de segurança pessoal e familiar e de perspectiva de futuro, pois a remuneração e os direitos têm piorado, afirma o documento.

Enquanto isso, diz a OIT, a riqueza está cada vez mais concentrada nas mãos de bancos, empresários e ricos em geral. Em 2004, 54% do PIB global era distribuído para os trabalhadores. Em 2017, o montante diminuiu para 51%. A queda foi puxada pelas crises nas Américas, na Europa e na Ásia Central. Na América Latina e no Caribe a tendência é de piora, prevê a OIT. A situação é mais crítica para os jovens.

Já o Relatório Global de Riscos 2020 do Fórum Econômico Mundial prevê que este ano será de embates, divisões domésticas e internacionais e desaceleração econômica. Isso porque a turbulência geopolítica está levando a um mundo unilateral “instável”, de grandes rivalidades de poder.

Tigres asiáticos

O tema do filme Parasitas chama a atenção também para outro problema — a influência histórica da economia dos Estados Unidos na região asiática. Uma parte significativa dos problemas sociais da Coreia do Sul e de outros países asiáticos se deve a esse domínio. Mesmo o rico Japão enfrenta sérios problemas para se levantar, também por estar umbilicalmente ligado à economia norte-americana.

Os Estados Unidos exportam sua crise. A debacle de 1997-1998 foi o ponto mais crítico para os chamados tigres asiáticos, países que ostentavam um crédito monumental em títulos do Tesouro norte-americano — recursos que financiam os gigantescos déficits estadunidenses. Foi o repatriamento de uma parte dessas aplicações que provocou a “crise asiática”.

A região era tida como o paraíso de tigres que cresciam e afiavam as garras. Taiwan, Coréia do Sul, Cingapura e Hong Kong formavam as poderosas NIEs (Newly Industrialized Economies). Malásia, Tailândia, Indonésia e Filipinas eram as maiores economias do grupo Asean (Associacion of the South-East Nations).

Mas a crise abateu os tigres, um a um. O furacão começou a girar na Tailândia, com os especuladores do “mercado” apostando contra o baht — a moeda local. Era a jugular da presa. Com um tigre caído, a insegurança se alastrou pela floresta. A crise ganhou proporções amazônicas quando os especuladores resolveram estender sua ação para o centro financeiro da Ásia, cercando o tigre que dominava aquelas paragens: Hong Kong e o seu dólar.

Aquelas economias se ergueram por meio de um alto endividamento externo — em grande parte pelo setor privado, com o aval dos governos. Assim, acabaram criando para si um problema insolúvel: capacidade industrial ociosa e montanhas de dívidas. O fluxo de empréstimos e investimentos estimulou o crescimento inicial, centrado nas exportações, e criou a armadilha que capturou os tigres.

Produção de alimentos

Já Indústria Americana, que levou o Oscar de melhor documentário, remete às relações de trabalho. Tema muito debatido, sobretudo após a incorporação de novas tecnologias e de novos métodos de organização do trabalho, ele ganha mais relevância na crise que fez o desemprego mundial explodir, como revela o relatório da OIT.

De fato, há uma revolução tecnológica em andamento. As projeções são de um admirável mundo novo em que as fábricas serão dominadas por robôs supervisionados por especialistas digitais. Os softwares também substituirão os trabalhadores na agricultura. Empresas especializadas em softwares agrícolas já estão fornecendo tecnologia que permite ao agricultor monitorar o meio-ambiente, coletar dados sobre mudanças meteorológicas, condições do solo e outras variáveis.

A revolução tecnológica em desenvolvimento e a biotecnologia prenunciam uma nova era de produção de alimentos dissociada da terra e do clima. A agricultura tradicional, centrada em grandes extensões de terra ao ar livre, deverá dar lugar à manipulação de moléculas no laboratório.

Homem em massa

Essa torrente tecnológica está deixando para trás o modelo preponderante de produção do século XX: o fordismo, que ultrapassa o limite da organização do trabalho e se constitui num modelo de desenvolvimento. Ele assentou suas bases na fórmula de que o Estado deve intervir na economia para garantir rendimentos mínimos aos trabalhadores.

O fordismo nasceu associado à ideia do consumo de massa e da elevação da produtividade. Numa época em que o capitalismo era pressionado por suas crises e ao mesmo tempo pelo projeto socialista, seu surgimento foi saudado em muitos setores da economia como o modelo de desenvolvimento capaz de equilibrar o aumento da produtividade com o crescimento do poder aquisitivo dos trabalhadores.

O fordismo na prática ajudou a selar o fim do capitalismo concorrencial do final do século XIX e inaugurou uma nova etapa das relações de trabalho. O trabalhador que até então detinha os conhecimentos técnicos e culturais do processo de trabalho cedeu sua capacidade para o processo de produção.

Antônio Gramsci, o fundador do Partido Comunista Italiano, diz, no trabalho Americanismo e Fordismo, que ao implantar, em 1913, o seu sistema de produção e gestão na Ford Motor Company, em Highland Park, Detroit, Henry Ford deu início a um novo modo de vida. “Um novo tipo humano, em conformidade com o tipo de trabalho e de processo produtivo (…), uma mão-de-obra estável, um conjunto humano (o trabalho coletivo), (…) uma máquina que não deve desmontar nem avariar demasiadas vezes suas peças individuais”, diz ele. Ou seja, a produção em massa trazia também o “homem em massa”.

Relações públicas

A adulação com a qual o fordismo foi recebido passou a ser substituída por críticas ásperas. Até a imprensa liberal trocou os elogios efusivos com os quais saudava as ideias de Ford pela hostilidade. Em 1928, o jornal The New York Times descreveu Ford como “um industrial fascista — o Mussolini de Detroit”.

O homem milagroso começou a ser retratado como vilão. Charles Chaplin, no filme Tempos Modernos, mostrou o operário esmagado pela linha de montagem. O fazedor de milagre também foi condenado por Aldous Huxley no livro Admirável Mundo Novo, publicado em 1931. Huxley imaginou um futuro tecnocrático, desencantador, no qual os homens eram embargados pela coerção e desnorteados por uma nova religião — o fordismo.

O conceituado economista norte-americano John Kenneth Galbraith diz que Ford foi o primeiro personagem a fazer amplo uso das relações públicas. “Ele foi o primeiro embromador”, diz o economista. Em 1960, o especialista em marketing Theodore Levitt escreveu em seu livro A miopia do marketing: “Nós habitualmente celebramos Ford pela razão errada: sua genialidade em produção. Sua real genialidade era em marketing.”

Algo ainda indefinido

Sobre a linha de montagem de Ford, Peter Drucker, espécie de oráculo da administração empresarial norte-americana, disse nos anos 1950 que “se de fato analisarmos essa chamada nova tecnologia, descobriremos que não se trata de ‘tecnologia’ alguma”. “Não é uma combinação de forças físicas. É um princípio de ordem social”, afirmou.

O que se vê no lugar do fordismo é algo ainda indefinido — o ponto central de Indústria Americana. A impressão é de transição para uma situação social mais brutal. Mercados restritos e “modernos” convivem com a miséria absoluta e global. É, enfim, uma situação que evolui rapidamente para novos paradigmas.

Talvez seja o caso de concordar com Viviane Forrester, que em seu livro O Horror Econômico” afirma: “Vivemos em meio a um engodo magistral, um mundo desaparecido que teimamos em não reconhecer como tal e que certas políticas artificiais pretendem perpetuar. Milhões de destinos são destruídos, aniquilados por esse anacronismo causado por estratagemas renitentes, destinados a apresentar como imperecível nosso mais sagrado tabu: o trabalho.”


por Osvaldo Bertolino  |  Texto original em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado

 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/oscar-vai-para-parasita-e-industria-americana-o-horror-economico/

“Parasitas” limpa Óscares e faz história em Hollywood

 

O filme “Parasitas”, do realizador sul-coreano Bong Joon Ho, venceu o Óscar de melhor Filme, na 92.ª edição dos prémios da Academia das Artes e Ciências Cinematográficas, de Hollywood.

 

Os outros candidatos ao Óscar de melhor filme eram “Le Mans’66: O Duelo”, “O Irlandês”, “Jojo Rabbit”, “Joker”, “Mulherzinhas”, “Marriage Story”, “1917” e “Era Uma Vez em… Hollywood”.  O prémio foi entregue à equipa de produção, constituída por Kwak Sin Ae e Bong Joon Ho, pela atriz Jane Fonda, sob fortes aplausos do público.

“Parasitas”, que partiu com seis nomeações para os Óscares, conquistou os quatro mais importantes para os quais estava indicado: melhor filme, melhor realizador, melhor filme internacional e melhor argumento original.

Tal como recorda a Rádio Renascença, a última pessoa a arrecadar quatro Óscares na mesma noite foi Walt Disney, nos anos 50. Este é também o primeiro filme de língua estrangeira a vencer o principal prémio da indústria cinematográfica.

 
 

De fora ficaram melhor cenografia e melhor montagem, que cedeu a “Era Uma Vez… em Hollywood” e “Le Mans ’66: O Duelo”, respetivamente.

Foi também distinguido com os prémios de melhor filme em língua estrangeira e melhor argumento, pela academia britânica de cinema e televisão (BAFTA), de melhor filme estrangeiro, nos Globos de Ouro, e foi ainda a escolha do Sindicato dos Atores dos Estados Unidos, para melhor elenco, a principal categoria dos seus prémios, tendo sido a primeira produção estrangeira a conquistar a distinção.

“Parasitas” foi o vencedor da 92.ª edição dos Óscares, conquistando quatro estatuetas.

Melhor ator para Joaquin Phoenix

“Joker”, de Todd Phillips, partira com 11 nomeações, o maior número da noite, entre as quais melhor filme e melhor realizador, e obteve duas: melhor ator (Joaquin Phoenix) e melhor banda sonora (Hildur Guðnadóttir).

1917“, que integrava o grupo de filmes com dez nomeações, obteve três Óscares: melhor mistura de som (Mark Taylor e Stuart Wilson), melhores efeitos visuais (Guillaume Rocheron, Greg Butler e Dominic Tuohy) e melhor fotografia (Roger Deakins).

Nomeado para dez estava igualmente “Era Uma Vez… em Hollywood”, que obteve a melhor cenografia (Barbara Ling e Nancy Haigh), depois de ter aberto a cerimónia com a conquista do Óscar de melhor ator secundário (Brad Pitt).

Com dois Óscares, em quatro nomeações, ficou igualmente “Le Mans ’66: O Duelo”: melhor montagem (Michael McCusker e Andrew Buckland) e melhor montagem de som (Donald Sylvester).

Nomeados para seis Óscares e vencedores de apenas um, são “Marriage Story” (melhor atriz secundária, Laura Dern), “Jojo Rabbit” (melhor argumento adaptado, Taika Waititi), e “Mulherzinhas” (melhor guarda-roupa, Jacqueline Durran).

Nomeados para três Óscares estavam “Bombshell – O Escândalo” e “Dois Papas”. O primeiro conseguiu o Óscar de melhor caraterização (Kazu Hiro, Anne Morgan e Vivian Baker), “Dois Papas” acabou sem distinções.

A 92.ª edição dos prémios da Academia das Artes e Ciências Cinematográficas, dos Estados Unidos, decorreu no Dolby Theatre, em Los Angeles, no domingo à noite, na Califórnia, madrugada de segunda-feira em Portugal.

Lista completa dos vencedores:

Aqui segue a lista completa dos vencedores da 92.ª edição dos Óscares, os prémios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos:

Melhor filme:

“Parasitas” – Kwak Sin Ae e Bong Joon Ho

Melhor realização:

“Parasitas” – Bong Joon Ho

Melhor ator:

Joaquin Phoenix – “Joker”

Melhor ator secundário:

Brad Pitt – “Era Uma Vez em… Hollywood”

Melhor atriz:

Renée Zellweger – “Judy”

Melhor atriz secundária:

Laura Dern – “Marriage Story”

Melhor fotografia:

“1917” – Roger Deakins

Melhor argumento adaptado:

“Jojo Rabbit” – Taika Waititi

Melhor argumento original:

“Parasitas” – Bong Joon Ho & Han Jin Won

Melhor filme internacional:

“Parasitas” – Bong Joon Ho (Coreia do Sul)

Melhor filme de animação:

“Toy Story 4” – Josh Cooley, Mark Nielsen e Jonas Rivera

Melhor curta-metragem de animação:

“Hair Love” – Matthew A. Cherry e Karen Rupert Toliver

Melhor documentário:

“American Factory” – Steven Bognar, Julia Reichert e Jeff Reichert

Melhor documentário em curta-metragem:

“Learning to Skateboard in a Warzone (If You’re a Girl)” – Carol Dysinger e Elena Andreicheva

Melhor curta-metragem:

“The Neighbors’ Window” – Marshall Curry

Melhor cenografia:

“Era Uma Vez… em Hollywood” – Barbara Ling e Nancy Haigh

Melhor montagem:

“Le Mans ’66: O Duelo” – Michael McCusker e Andrew Buckland

Melhor caracterização:

“Bombshell – O Escândalo” – Kazu Hiro, Anne Morgan e Vivian Baker

Melhor guarda-roupa:

“Mulherzinhas” – Jacqueline Durran

Melhor banda sonora original:

“Joker” – Hildur Guðnadóttir

Melhor canção:

“(I’m Gonna) Love Me Again”, de “Rocketman”, Elton John e Bernie Taupin

Melhor montagem de som:

“Le Mans ’66: O Duelo” – Donald Sylvester

Melhor mistura de som:

“1917” – Mark Taylor e Stuart Wilson

Melhores efeitos visuais:

“1917” – Guillaume Rocheron, Greg Butler e Dominic Tuohy

ZAP // Lusa

 
 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/parasitas-limpa-oscares-historia-hollywood-307589

21º CORRENTES D’ESCRITAS IRÁ DECORRER DE 15 A 23 DE FEVEREIRO, NA PÓVOA DO VARZIM

 

O XXI Correntes d´Escritas terá lugar entre os dias 15 e 23 de Fevereiro de 2020 e no âmbito do grande evento serão atribuídos quatro Prémios Literários.

A grande novidade desta edição será a presença de escritores catalães participando em Mesas e em exposições.

O orador da Conferência de Abertura será o arquitecto Álvaro Siza Vieira que irá falar sobre a arquitectura, a arte e a literatura porque tudo se toca.

Outra figura de destaque nesta 21ª edição será Hélia Correia, a homenageada da Revista Correntes d’Escritas nº 19, que já ganhou um Prémio Literário Casino da Póvoa.

Estarão presentes 100 escritores de 14 nacionalidades diferentes, alguns deles a participar pela primeira vez no encontro.

Este ano, o Correntes d’Escritas irá a duas freguesias do concelho, numa acção designada Correntes itinerantes.

Serão atribuídos os seguintes Prémios:

Prémio Literário Correntes d’ Escritas Papelaria Locus irá premiar um conto inédito escrito em língua portuguesa, por jovens com idades compreendidas entre os 15 e os 18 anos, naturais de países de expressão portuguesa. O prémio para o vencedor do melhor conto será de 1.000 euros.

Prémio Conto Infantil Ilustrado Correntes d’ Escritas Porto Editora destina-se a trabalhos colectivos, inéditos, escritos por alunos do 4º ano do 1º ciclo do ensino básico. Estão aptas a concurso escolas de todos os países de língua portuguesa ou escolas portuguesas em países com uma língua materna diferente. Aos três primeiros classificados serão atribuídos 1.000 euros, 500 euros e 250 euros em prémio escolar, respectivamente.

Prémio Literário Fundação Dr. Luís Rainha Correntes d’ Escritas irá premiar uma obra inédita sobre a Póvoa de Varzim (romance, de contos ou poesia) escrita em português. O concurso está aberto a cidadãos portugueses ou de país de expressão portuguesa e espanhola, devendo os textos ser apresentados por escrito e sob pseudónimo. Ao vencedor será atribuída a verba de 2.000 euros e a edição do livro premiado.

Relativamente ao Prémio Literário Casino da Póvoa, que distingue uma obra literária de prosa, na categoria de novela/romance, já chegaram e foram catalogados mais de 120 livros. A Lista de Finalistas, de onde sairá o vencedor, será anunciada em Janeiro de 2020. Ao vencedor, que será conhecido em Fevereiro de 2020, na Cerimónia de Abertura do Encontro de Escritores, será atribuído um prémio monetário de 20 mil euros.

O anúncio das obras premiadas será feito na sessão de abertura do XXI Correntes d´Escritas, ficando a entrega dos prémios reservada para a sessão de encerramento, em cerimónia pública.

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/02/10/21o-correntes-descritas-ira-decorrer-de-15-a-23-de-fevereiro-na-povoa-do-varzim/

Actividades no Hot Clube de 11 a 15 de Fevereiro 2020

 

Hot Clube – Praça da Alegria 48

Dia 11 de Fevereiro

COMBO DE ALUNOS DA ESCOLA DE JAZZ LUIZ VILLAS-BOAS

Esta noite é destinada à Escola de Jazz Luiz Villas-Boas | HCP.

Combo Latino da Escola de Jazz Luiz Villas-Boas, dirigido pelo professor Joel Silva. Concerto a partir das 22h30, passando depois para jam aberta aos músicos que queiram participar. Entrada livre.

Bruno Grácio – saxofone tenor e clarinete; José Cavaco – piano; Ana Albino – guitarra; Artur Morais – baixo eléctrico; Pedro Gonçalves – bateria

Dia 12 de Fevereiro

“PLANETARIUM” (2)

A música de “Interstellar Space” de John Coltrane. Concerto a partir das 22h30. 10€ para não sócios, entrada gratuita para sócios.

22h30:

João Sousa – bateria; Pedro Branco – guitarra.

00h00:

Desidério Lázaro – saxofone tenor; Luís Candeias – bateria.

Dias 13 e 14 Fevereiro

ANDRÉ FERNANDES – “FUSHI”

Concerto a partir das 22h30 (2º set às 00h). 10€ para não sócios, entrada gratuita para sócios.

André Fernandes – guitarra, electrónica; Sara Badalo – voz, loops; Alexandre Frazão – bateria.

André Fernandes apresenta o seu novo projecto FUSHI.

Considerado um dos mais relevantes guitarristas de jazz da actualidade, André Fernandes junta-se à vocalista Sara Badalo e ao baterista Alexandre Frazão no seu novo projecto que junta toda a experiência do seu percurso, que deixa já oito álbuns em nome próprio e participações em mais de cinquenta outros, ao seu envolvimento com a utilização de sonoridades electrónicas contaminadas pelo jazz, musica electrónica e pelo rock.

FUSHI produzem música que nos transporta de um lugar de conforto para outros inesperados, aliando o som da guitarra à voz ora cristalina, ora processada até ao ponto de se assemelhar a novos instrumentos, envolvidos pela criatividade sobejamente conhecida da bateria de Alexandre Frazão.

De canções a paletas sonoras futuristas, FUSHI criam uma experiência que se assemelha a uma viagem que nos leva dos sons orgânicos do jazz, às sonoridades da pop, até à desconstrução de tudo isto, num só movimento criativo em cada actuação.

Dia 15 de Fevereiro

ANDRÉ FERNANDES – “CENTAURI”

Concerto de apresentação do disco “Maria Grancha”, a partir das 22h30 (2º set às 00h). 10€ para não sócios, entrada gratuita para sócios.

André Fernandes – guitarra, João Mortágua – saxofone alto e soprano; José Pedro Coelho – saxofone tenor; Nelson Cascais – contrabaixo; João Pereira – bateria.

ANDRÉ FERNANDES´ CENTAURI “DIANHO”

Desde miúdo que nutro um fascínio pelo misterioso. Acho que ainda o procuro na música que ouço, acho que saber demais sobre algo retira parte da sua magia, encanto e interesse.

Nessa infância/pré-adolescência encontrei regularmente esse mistério nas histórias que ouvia sobre eventos, personagens reais ou fictícias (mas que para mim podiam ser reais) que relatavam situações ou factos normalmente assustadores, e por isso falados em voz baixa, ou com tendência a serem considerados tabú, ou no mínimo não apropriado para miúdos da minha idade. Isso tornava tudo ainda mais apelativo. Lembro-me que a minha avó, natural da Beira Baixa, referia ocasionalmente esse tipo de contos ou lendas, e também tinha um fraquinho pelo sobrenatural, que aliado ao catolicismo da sua geração (para mim já por si suficientemente rico em histórias assustadoras) era fonte de grande curiosidade da minha parte.

Rapidamente percebi que podia encontrar muitas histórias em livros que devorei (Edgar Allan Poe, Stephen King, Clive Barker, etc) e que havia toda uma indústria de cinema dedicada a isto. Fiquei um fã até hoje.

Há uns tempos comprei um livro para as minhas filhas que junta as histórias das personagens que povoam os pesadelos dos portugueses que com elas cresceram. Chama-se Bestiário Tradicional Português ( Ed.Escafandro) e aconselho vivamente. Aí descobri imensas histórias portuguesas sobre monstros, demónios, bruxas e animais fantásticos que moram em Portugal, de norte a sul.

Este disco relaciona-se com algumas delas:

Dianho é o diabo, mafarrico ou galhardo. Por ser comum a todo o país, dá o nome a este disco.

Maria Gancha vive nos poços e é um perigo para crianças curiosas.

O Homem Das Sete Dentaduras vive no Algarve, e ataca ao meio dia nos dias mais quentes.

O Tardo anda nú a meio da noite e toma a forma de animais diversos até se tornar um lobisomem.

As Aventesmas são enormes, usam uma túnica branca e crescem com o nosso medo.

A Velha Da Égua Branca monta a sua égua nas noites de lua cheia e tem uma faca gigante com que solta animais enquanto faz um barulho assustador.

Os Trasgos são os nossos duendes, e divertem-se em casa a fazer travessuras durante a noite. A Bicha-Serpe come crianças mal-comportadas, tem cabeça de abóbora e às vezes anda disfarçada entre nós com um capuz.

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/02/10/actividades-no-hot-clube-de-11-a-15-de-fevereiro-2020/

A luta de classes e os sindicatos na disputa pelo Oscar

O debate estabelecido sobre os concorrentes ao Prêmio da Academia do cinema nos Estados Unidos tem fundo ideológico e histórico.

 

 

Ideologia e luta de classes. No clima do pré-Oscar, com o tema trabalhadores e sindicalismo, esses conceitos têm estado em grande evidência. Mesmo o documentário brasileiro Democracia em vertigem, de Petra Costa, tem essa conotação bem acentuada. O Irlandês, filme de Martin Scorsese, também trata do assunto, mas o mais marcante é o documentário Indústria Americana.

O caso é o da fábrica da General Motors, em Ohio, que fechou em 2008 e, em 2015, foi reaberta como Fuyao Glass America, com dinheiro, tecnologia e sistema de produção chineses. Os chineses que comandam o negócio chamam os norte-americanos de preguiçosos e ineficientes. Estes, reclamam da jornada extenuante e da insegurança no trabalho.

Os operários norte-americanos também querem a presença do sindicato dentro da fábrica, enquanto o empresário chinês presidente mundial da FGA abomina a ideia, argumentando que a organização sindical atrapalha a produtividade. Talvez nos Estados Unidos ele se sinta à vontade para defender essa tese – na China há um rigoroso Código do Trabalho. “O objetivo da vida é trabalho”, diz ele. Essa é uma meia verdade.

Hábitos de trabalho

O conceito de trabalho foi elucidado por Karl Marx, em O Capital, como um ato que se passa entre o homem e a natureza. Seu significado histórico foi brilhantemente analisado por Friedrich Engels no seu artigo O papel do trabalho na transformação do macaco em homem, de 1876. “A natureza proporciona os materiais que o trabalho transforma em riquezas”, escreveu. “Mas o trabalho é muito mais do que isso: é o fundamento da vida humana.”

Engels diz que a formação do homem e da comunidade primitiva aconteceu na medida em que se formava o próprio trabalho humano como processo que gasta uma quantidade de energia física, nervosa e mental para se criar os produtos necessários à sua existência.

Para satisfazer as necessidades vitais, o homem foi obrigado a aperfeiçoar constantemente os instrumentos e os hábitos de trabalho. “O próprio trabalho foi se diversificando, aperfeiçoando-se a cada geração e estendendo-se a novas atividades”, disse Engels. “A agricultura surgiu como alternativa à caça e à pesca, e mais tarde apareceram a fiação e a tecelagem, a manipulação de metais, a olaria e a navegação.”

Máquina a vapor

Com o desenvolvimento do trabalho, emergiram novas relações sociais, o comércio, as profissões, as artes e as ciências. Vieram depois o direito, a política e a religião. “Porém, se o homem levou milhares de anos para aprender, de certa forma, a prever as remotas consequências naturais relativas aos processos produtivos, mais tempo levou para aprender a calcular as longínquas consequências sociais desses mesmos atos”, disse Engels.

“Os árabes, quando descobriram a forma de destilar o álcool, não poderiam nem de longe imaginar que estavam forjando uma das principais armas de extermínio da população indígena no continente americano. Mal sabia Colombo, ao descobrir a América, que estava fazendo ressurgir a escravidão, extinta havia muito na Europa, além de estar estabelecendo novamente as bases para o tráfico de escravos”, analisou.

Chegaram também as alterações nas relações de produção. Antes o artesão produzia as mercadorias e o consumidor ia ao seu local de trabalho fazer a encomenda. Leo Huberman, na obra História da riqueza do homem, relata que Willian Petty, famoso economista do século XVII, pôs em palavras aquilo que já estava ocorrendo nas relações sociais. “A fabricação da roupa deve ficar mais barata quando um compõe as fibras, outro fia, outro tece, outro puxa, outro alinha, outro passa e empacota, do que quando todas as operações mencionadas são canhestramente executadas por uma só mão”, teria dito Petty.

Ao analisar esse fenômeno, com a invenção da máquina a vapor dos séculos XVII e XVIII, Marx afirmou que o homem não suspeitava de que estava criando um instrumento mais poderoso do que qualquer outro, que iria subverter as condições sociais em todo o mundo. “Quando James Watt anuncia em 1735 sua máquina de fiar, e com ela a Revolução Industrial do século XVIII, ele nada fala disso, mas simplesmente de uma máquina para ‘fiar sem dedos’”, disse ele.

Resposta neoliberal

Desse novo mundo surgiram os sistemas políticos modernos, as crises econômicas, as guerras geopolíticas. Com o projeto neoliberal, os Estados nacionais da geografia econômica e política do elo mais fraco foram reduzidos a meros figurantes ou a reles gerentes do entreguismo, sem condições sequer de estender a mão aos que foram para o olho da rua, formando um exército de desempregados superior ao da crise de 1929.

Na outra faixa, igualmente castigada pelo desemprego, muros e xenofobia foram erguidos contra aspirantes a trabalhador clandestino. Em toda parte, a propaganda ideológica passou a difundir a falsa tese de que que a oposição trabalho e capital ganhara novo sentido com o fim da dicotomia Washington-Moscou.

A resposta neoliberal à crise do fordismo keynesiano, considerado incapaz de levar o sistema adiante, na verdade representou uma regressão civilizatória em grande escala. O monstruoso desemprego talvez seja a face mais visível dessa constatação, um dilema dos saltos produtivos.

O mundo evoluiu socialmente desde a máquina de James Watt, como analisou Marx, basicamente pela organização política dos trabalhadores. Contribuíram para isso, em grande medida, as teses do próprio Marx, de Engels e de Vladimir Lênin.

Contribuíram também os ludistas, os socialistas utópicos — e mesmo Frederick Taylor, Jules Henri Fayol e Henry Ford. Estabeleceu-se a tríade “8 horas de trabalho, 8 horas de sono e 8 horas de lazer” como padrão para os trabalhadores do século XX.

Regressão civilizatória

Entre 1950 e 1970, diz o historiador Eric Hobsbawm, o mundo viveu seus anos de ouro: o desemprego manteve-se em níveis relativamente baixos, a expectativa de vida aumentou no mundo todo, a produção de alimentos e bens manufaturados quadruplicou.

Foi também o período em que os trabalhadores obtiveram suas maiores conquistas no mundo capitalista — em grande parte, embaladas pelos ventos que sopravam de Moscou —, inimagináveis pelo proletariado europeu descrito por Marx e Engels no século XIX.

No Brasil mesmo pode-se dizer que a brisa moscovita contribuiu para a moderna legislação trabalhista da Revolução de 1930, agora destruída pelo golpe de 2016 e pela ascensão do bolsonarismo.

Ao virar a moeda do modo de produção capitalista, contudo, compreende-se melhor as causas dessa regressão civilizatória. “Como legislador privado, o capitalista formula seu código de fábrica, caricatura da regulação social, um sistema de punições sobre os salários com o qual o contramestre faz o papel do antigo condutor de escravos”, escreveu Marx.

Quando o capital se apropriou da máquina, disse ele, sua conclamação foi: ao trabalho, mulheres e crianças. “O operário agora vende mulher e filhos; transformou-se em mercador de escravos”, escreveu. Na fábrica, nas palavras de Marx, “o esqueleto da produção é constituído pela cooperação das máquinas”.

Crash da Bolsa de Nova Iorque

A substituição das máquinas a vapor por outras movidas a eletricidade e à combustão interna fóssil, denominada Segunda Revolução Industrial, na virada do século XIX para o século XX, impulsionou outro salto espetacular da produtividade — a produção de mais valor com menor tempo de trabalho.

Associada a uma reestruturação fundamental dos processos de trabalho, seguindo uma avalanche de novas tecnologias de racionalização produtiva, promoveu alterações profundas no cenário econômico. O taylorismo na linha de montagem da Ford mudou radicalmente o modo como as empresas produziam bens e serviços. O transporte foi acelerado. A eletricidade forneceu energia barata e abundante para impulsionar o processo produtivo.

Segundo o escritor americano Jeremy Rifkin, no livro O fim dos empregos, a produtividade aumentou continuamente desde a virada do século. Em 1904, eram necessárias 1.300 horas/homem para construir um carro. Em 1932 era possível construí-lo com menos de 19 horas. Entre 1920 e 1927, a produtividade na indústria americana aumentou em 40%. Ao mesmo tempo, mais de 2,5 milhões de empregos desapareceram.

Em 1929, com a quebra do mercado de ações — o crash da Bolsa de Nova Iorque —, o mundo mergulhou na mais sinistra depressão da era moderna. Mesmo diante dos sinais da crise, contudo, os capitalistas preferiram embolsar o lucro extra total obtido com o aumento da produtividade a transferir uma parte na forma de aumentos salariais.

Henry Ford – que também dizia que o sindicato atrapalha a produtividade – sugeriu que os trabalhadores fossem melhores pagos para que pudessem comprar os produtos, mas seus pares preferiram ignorar o conselho. O sistema estava preso a uma contradição: sem saída para a crise que se agravava, muitas empresas continuaram reduzindo custos com a substituição de trabalhadores por máquinas.

Expansão dos mercados

Em plena depressão, o economista britânico John Maynard Keynes publicou o livro Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, que iria alterar o modo como os governos regulariam a política econômica.

Numa passagem, ele advertiu para um novo e perigoso fenômeno cujo impacto poderia ser aprofundado nos anos seguintes: “Estamos sendo acometidos de uma nova doença da qual alguns leitores talvez ainda não tenham ouvido falar, mas sobre a qual ouvirão falar muito nos próximos anos: o ‘desemprego tecnológico’. Isso significa desemprego como resultado da nossa descoberta de meios de economizar mão de obra, superando a velocidade com que podemos encontrar novos usos para ela.”.

Em O Capital, Marx também comentou o desenvolvimento industrial por esse viés. “Sob sua forma máquina (…), o meio de trabalho se torna imediatamente o concorrente do trabalhador. A máquina cria uma população supérflua, isto é, útil para as necessidades momentâneas da exploração capitalista”, escreveu.

Engels fez o mesmo na obra Do socialismo utópico ao socialismo científico. “É a força da anarquia social da produção que converte a capacidade infinita de aperfeiçoamento das máquinas num preceito imperativo, que obriga todo capitalista industrial a melhorar continuamente a sua maquinaria, sob pena de perecer. Mas melhorar a maquinaria equivale a tornar supérflua uma massa de trabalho humano (…). A expansão dos mercados não pode desenvolver-se ao mesmo ritmo que a produção. A colisão torna-se inevitável”, escreveu.

Entra, nesse diagnóstico, o sistema taylorista, complementado pelo fordismo, como grande impulsionador da produção, sistematizado pelo engenheiro americano Frederick Taylor em seu livro Princípios da administração científica. Usando um cronômetro, ele dividiu a tarefa de cada trabalhador nos menores componentes operacionais e mediu cada um para formular técnicas de economizar segundos preciosos no processo de trabalho. Herry Ford complementou a ideia com a linha de montagem movida a volante magnético.

Desenvolvimento industrial

Vladimir Lênin, o líder da Revolução Russa de 1917, considerou o taylorismo uma aquisição científica. “Deve ser colocado na ordem do dia o aproveitamento do muito que há de científico e progressista no sistema taylorista, observando a proporção entre o salário e o resultado geral da produção”, escreveu ele na obra As Tarefas Imediatas do Poder Soviético.

A proporcionalidade entre salário e lucro, na produção capitalista, a busca desregulada da produtividade, é o motivo central das críticas a esse sistema, mais conhecido como “fordismo”.

Charles Chaplin, no filme Tempos modernos, retratou o homenzinho esmagado pela linha de montagem. Aldous Huxley, no livro O Admirável Mundo Novo, imaginou um futuro no qual os homens seriam tolhidos pela coerção e desnorteados por uma nova religião. Assim como Antônio Gramsci, no seu conhecido trabalho O Americanismo e o Fordismo. “Será que o tipo Ford de indústria e a organização fordista do trabalho e da produção são ‘racionais’?”, indagou.

A dualidade do desenvolvimento industrial — o lucro e o salário — é o grande dilema da produtividade. Na inclinação natural do capitalismo, a tendência é a eliminação de empregos, a desregulação das relações de trabalho e a redução salarial. Não é um fenômeno cíclico. É estrutural.


por Osvaldo Bertolino | Texto original em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado

 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/a-luta-de-classes-e-os-sindicatos-na-disputa-pelo-oscar/

Actividades no Hot Clube de 4 a 8 de Fevereiro 2020

Hot Clube – Praça da Alegria 48

Dia 4 de Fevereiro

BIG BAND DE ALUNOS DA ESCOLA DE JAZZ LUIZ VILLAS-BOAS

Esta noite é destinada à Escola de Jazz Luiz Villas-Boas | HCP.

Big Band de Alunos da Escola de Jazz Luiz Villas-Boas, sob a direcção de César Cardoso. Concerto a partir das 22h30, passando depois para jam aberta aos músicos que queiram participar. Entrada livre.

Dia 5 de Fevereiro

“PLANETARIUM” (1)

A música de “Interstellar Space” de John Coltrane. Concerto a partir das 22h30. 10€ para não sócios, entrada gratuita para sócios.

22h30:

Ricardo Toscano – saxofone alto; João Pereira – bateria.

00h00:

João Lencastre – bateria; André Fernandes – guitarra.

Dias 6 a 8 de Fevereiro

SPIRAL TRIO

Concerto a partir das 22h30 (2º set às 00h). 10€ para não sócios, entrada gratuita para sócios.

Spiro Manesis – piano;Arionas Gyftakis – contrabaixo; Anastasis Gouliaris – bateria.

Estes três músicos gregos, com intensa atividade na Grécia e fora dela, conheceram-se pela em 2012, criando desde o início uma química única, desde vêm desenvolvendo as suas performances ao vivo em clubes de Atenas e festivais por toda a Grécia e Europa.

Hoje, o trio é considerado uma das mais importantes formações de jazz da Grécia. É um trio de piano moderno, com muitas influências das figuras dominantes da formação do trio de piano moderno, embora com referências claras à tradição do jazz. A interação constante, bem como o alto nível de suas habilidades musicais e de improvisação, trazem à música elementos de surpresa, variedade na criação de imagens musicais e imaginação na narração.

O repertório inclui composições originais dos membros do trio, bem como padrões de jazz que são usados ​​como ponto de partida para levar aos vários espaços da música. Em 2015, o Spiral Trio (então Manesis / Gyftakis / Gouliaris Trio) recebeu o primeiro prêmio no “Apollon”, o 1º concurso de jazz grego. Em 2018, eles lançaram seu álbum de estreia, pela ANKh Music Productions, seguido de uma turnê pela Europa.

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/02/03/actividades-no-hot-clube-de-4-a-8-de-fevereiro-2020/

Obras suspensas no Conservatório Nacional

Empreiteiro abandonou a obra a que está contratualmente obrigado. Depois de anos de protestos dos estudantes e professores, a Parque Escolar prometera terminar a requalificação até final de 2020.

Alunos e professores da Escola de Música do Conservatório Nacional, durante a accão «Aulas na Rua» em protesto contra a não realização pela tutela de obras estruturais e de requalificação no edifício, Lisboa, 05 de Março de 2015.CréditosANTONIO COTRIM / LUSA

Depois de mais de seis anos de luta de estudantes e professores, o edifício centenário das Escolas Artísticas de Música e Dança do Conservatório de Lisboa começou a ser requalificado em Maio de 2019, prevendo-se que as obras terminassem no final de 2020. De acordo com o contrato celebrado, as obras estavam orçadas em cerca de 10,5 milhões mais IVA e teriam a duração de 18 meses.

Agora, as obras do Conservatório Nacional estão suspensas. Segundo a Parque Escolar, o empreiteiro que venceu o concurso para requalificar o edifício, em Lisboa, «abandonou a obra e suspendeu unilateralmente os trabalhos a que contratualmente estava obrigado».

Para já, a Parque Escolar admite processar judicialmente a Tomás de Oliveira — Empreiteiros por quebra de contrato e pelo caminho garante estar a trabalhar na solução que «mais rapidamente permita a continuação das obras do Conservatório Nacional, na sequência do incumprimento e consequente cessação de contrato por parte do empreiteiro».

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/nacional/obras-suspensas-no-conservatorio-nacional

Bambolinices regressa com homenagem ao actor Carlos César

A segunda edição do Bambolinices – Festival Internacional de Teatro e Artes Performativas regressa a Setúbal entre os dias 15 e 23 de Fevereiro. Há espectáculos, workshops e uma homenagem ao actor Carlos César.

Créditos / Fórum Luís Todi

A bienal organizada pela cooperativa GATEM – Espelho Mágico, com apoio da Câmara Municipal de Setúbal, tem como objectivos promover o teatro e as artes performativas, cultivar o intercâmbio cultural e a formação de novos públicos.

Na apresentação pública do programa do Bambolinices, o director da GATEM, Ricardo Cardoso, revelou que o programa da segunda edição contempla 19 eventos «para todos os públicos e todos os gostos», distribuídos por diferentes espaços culturais e do movimento associativo da cidade e de Azeitão. 

O Fórum Municipal Luísa Todi, Cinema Charlot – Auditório Municipal, coreto da Avenida Luísa Todi, Núcleo dos Amigos do Bairro Santos Nicolau e Sociedade Filarmónica Perpétua Azeitonense são alguns dos locais que vão receber a segunda edição do evento. 

A organização destaca a descentralização cultural e o facto de ter recebido 48 candidaturas de grupos de teatro nacionais e estrangeiros, «número que comprova o prestígio e a singularidade do evento».

Após um tributo ao actor Fernando Guerreiro na primeira edição, em 2018, o Bambolinices homenageia este ano Carlos César, actor, encenador, fundador do Teatro Animação de Setúbal (TAS) e «figura cimeira do teatro para a descentralização cultural».

A homenagem realiza-se no espetáculo de abertura do festival, no dia 15 de Fevereiro, às 17h, no Fórum Luísa Todi, após a apresentação da peça O Corcunda de Notre-Dame, uma produção da GATEM, adaptada do clássico de Victor Hugo por Miguel Assis.

O programa completo da edição de 2020 do Bambolinices pode ser consultado na página da cooperativa GATEM no Facebook. 

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/cultura/bambolinices-regressa-com-homenagem-ao-actor-carlos-cesar

CTA – PAULO DE CARVALHO – SÁBADO, 1 de FEVEREIRO, às 21 horas, no TEATRO MUNICIPAL JOAQUIM BENITE, em ALMADA

 

 

Paulo de Carvalho dia 1 de Fevereiro no TMJB

 

Uma das melhores vozes portuguesas de sempre, Paulo de Carvalho, vai estar no Teatro Municipal Joaquim Benite para um concerto, dia 1 de Fevereiro, às 21h.

Eis um nome incontornável na música portuguesa das últimas cinco décadas – o nosso Frank Sinatra, podemos dizê-lo. Homenageado pela Casa da Imprensa na Grande Noite do Fado de 1992, foi condecorado com o grau de Oficial da Ordem da Liberdade em 2009, sendo nesse mesmo ano considerado uma das melhores vozes portuguesas de sempre pela revista Blitz. Com a sua voz, deu o mote de partida para a revolução que daria a Portugal uma democracia. Com as suas baquetas de baterista nos Sheiks, o rock português dos anos 60 sonhou com a internacionalização. E com o seu talento como músico e letrista compôs já mais de 300 canções. Paulo de Carvalho é um artista completo, que escreveu para outros grandes nomes da música portuguesa, caso de Carlos do Carmo, Simone de Oliveira, Sara Tavares, Martinho da Vila, Lena D’Água, Mariza, entre muitos outros. Como intérprete, ganhou dois festivais RTP da canção.

Um concerto de Paulo de Carvalho é sempre uma celebração que passa por Nini, Mãe Negra, Os meninos do Huambo, Lisboa Menina e Moça, Os putos e, claro, E depois do Adeus – a canção que serviu de primeira senha à revolução de 25 de Abril de 1974 (tendo a segunda sido a Grândola Vila Morena). Com a transmissão de E Depois do Adeus pelos Emissores Associados de Lisboa às 22h55m do dia 24 de Abril de 1974, era dada a ordem para as tropas se prepararem para depor o regime. Com letra de José Niza e música de José Calvário, a canção foi escrita para ser interpretada por Paulo de Carvalho na 12.ª edição do Festival RTP da Canção, do qual sairia vencedora.

TEATRO MUNICIPAL JOAQUIM BENITE | SALA PRINCIPAL | M/6

1 FEV | SAB | 21H

PREÇO: 9€ a 18€

 

 

 

 +351 21 273 93 60 | +351 91 540 70 94
imprensa@ctalmada.pt | www.ctalmada.pt

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/01/31/cta-paulo-de-carvalho-sabado-1-de-fevereiro-as-21-horas-no-teatro-municipal-joaquim-benite-em-almada/

Portugueses distinguidos no cinema de animação

O filme Tio Tomás, A Contabilidade dos Dias, de Regina Pessoa, venceu nos prémios Annie a categoria de Melhor Curta-Metragem e Sérgio Martins venceu a Melhor Direcção de Animação em Longa-Metragem, pelo filme Klaus.

 

Créditos / quinto-canal.com

Considerados os Óscares do cinema de animação, os Annie distinguem produções de animação em curta e longa-metragem e são atribuídos anualmente pela Sociedade Internacional de Cinema de Animação.

Na 47.ª cerimónia de entrega dos prémios Annie, que ocorreu este sábado, em Los Angeles, nos Estados Unidos, Tio Tomás, A Contabilidade dos Dias, de Regina Pessoa, co-produção de França, Portugal e Canadá, venceu a corrida para o galardão de melhor «curta», onde estava ainda nomeado Purpleboy, de Alexandre Siqueira.

Desde a estreia, em Março de 2019 no Festival de Animação de Lisboa, Tio Tomás, A Contabilidade dos Dias foi já distinguido no festival de cinema de Annecy, em França, no festival Animamundi, no Brasil, nos Caminhos do Cinema Português, em Coimbra, e em Chicago, nos Estados Unidos.

Por sua vez, Sérgio Martins venceu na categoria de Melhor Direcção de Animação em Longa Metragem, pelo filme Klaus. Nesta produção espanhola trabalhou ainda Edgar Martins, irmão de Sérgio Martins, no argumento.

Klaus foi o grande vencedor da noite, alcançando sete distinções, entre a quais a de Melhor Filme, categoria onde estavam nomeados Frozen 2, da Walt Disney Animation Studios, Como Treinar o seu Dragão: O Mundo Secreto, da DreamWorks Animation, Missing Link, da Laika e LLC, e ainda Toy Story 4, da Pixar Animation Studios.

com agência Lusa

 

 

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/cultura/portugueses-distinguidos-no-cinema-de-animacao

Poema de 28 de Maio ao contrário – Jorge de Sena

 
Poema de 28 de Maio ao contrário
 
 
Gigante foi a luz que acesa se estendeu por sobre as
trevas de um povo prisioneiro.
Ninguém esperava que no primeiro impulso
de um movimento militar se abrissem todas as janelas
e todas as portas. Mas abriram-se e por elas a luz e
as vozes foram restituídas.
Todos agora, exército e povo, os militares e os políticos, e
quantos nunca pensaram que a política é coisa
de todos os dias ter de aprender-se a ver, a falar
e a ouvir, lá onde na caverna
só sombras de fantasmas existiam.
Todos têm de aprender a governar e a governar-se n’alma
e a fazer governo a liberdade e as vozes e o
direito de existir-se à luz do dia
como gente viva num país que é ela.
Todos têm de aprender que a liberdade não existe
apenas porque é dada, pois pode ser tirada, ou
apenas porque é conquistada, pois pode ser
licença em que não reste senão ela perder-se. Têm de
aprender que não pode ter-se num só dia
o que se perdeu em décadas. E que a Justiça
é a Liberdade que pensa mais nos outros que em si mesma.
 
 
 Jorge de Sena
Santa Bárbara, 28/5/1974

Via: voar fora da asa http://bit.ly/30IxY18

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/01/20/poema-de-28-de-maio-ao-contrario-jorge-de-sena/

Morreu o cineasta e resistente antifascista Henrique Espírito Santo

Foi nos cineclubes, «grande movimento cultural de massas que muito incomodou a PIDE e o fascismo», que Henrique Espírito Santo se formou e descobriu o seu amor pelo cinema. Morreu este domingo, aos 87 anos.

Créditos / Cinemateca

Nascido em 18 de Novembro de 1931, em Queluz, concelho de Sintra, Henrique Espírito Santo foi um apaixonado pelo cinema. Tal como recordava ontem a Cinemateca Portuguesa, esta figura incontornável do Cinema Novo português foi «cineclubista de formação, antifascista militante por convicção, director de produção e [...] formador de toda uma geração de profissionais de cinema na área da produção».

Crítico de cinema em várias publicações, Henrique Espírito Santo foi professor na Escola de Cinema do Conservatório Nacional e director de produção do Centro Português de Cinema, que marcou o movimento renovador das décadas de 1960 e 1970. Trabalhou com cineastas como Luís Filipe Rocha, José Álvaro Morais, José de Sá Caetano, Solveig Nordlund, Jorge Silva Melo, João Mário Grilo e Alberto Seixas Santos.

Nos anos 50 e 60, dirigiu o Cineclube Imagem com José Fonseca e Costa, tendo sido ambos presos pela PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado) e acusados de «actividades subversivas». Do Aljube seguiram para Caxias, onde Henrique Espírito Santo, que aí fica um ano e meio, encontra Vasco Granja, outro cineclubista. 

Os cárceres do fascismo não os atemorizam e Henrique Espírito Santo participa como director de produção nos primeiros projectos de Fonseca e Costa no cinema, nomeadamente na curta-metragem Regresso à Terra do Sol, realizada em Angola (1967), e da longa-metragem O Recado (1971).

Balada da Praia dos Cães(adaptação do romance de José Cardoso Pires) e Cinco Dias Cinco Noites(adaptação da novela de Manuel Tiago, pseudónimo de Álvaro Cunhal) foram outros filmes de José Fonseca e Costa que contaram com a colaboração de Henrique Espírito Santo.

O seu nome está associado também à produção de A Promessa, de António de Macedo, que entrou na selecção oficial do Festival de Cannes, em 1973; Jaime, de António Reis, pioneiro do documentarismo em Portugal; Benilde ou a Virgem Mãe e Amor de Perdição, de Manoel de Oliveira; e A Fuga, de Luís Filipe Rocha, inspirado na fuga de Dias Lourenço da prisão de Peniche, entre mais de duas dezenas de filmes, que remontam ao final dos anos de 1960.

Em 2014, Henrique Espírito Santo, militante do PCP, foi homenageado pela Academia Portuguesa de Cinema nos Prémio Sophia, onde recordou que os cineclubes «foram o grande movimento cultural de massas que muito incomodou a PIDE e o fascismo». 

O funeral realiza-se esta terça-feira, a partir das 11h, no crematório do Cemitério dos Olivais, em Lisboa.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/cultura/morreu-o-cineasta-e-resistente-antifascista-henrique-espirito-santo

Plataforma Cultura em Luta não desiste de 1% já neste Orçamento

A Plataforma Cultura em Luta apresentou esta quarta-feira à ministra Graça Fonseca o programa «para um País de Cultura», tendo concluído que há «boas intenções» mas «poucas medidas concretas».

Estruturas ligadas às artes defendem mais financiamento para a culturaCréditos / José Manuel Teixeira

Durante a audiência, no Palácio da Ajuda, em Lisboa, uma delegação da Plataforma Cultura em Luta apresentou a Graça Fonseca o programa reivindicativo para uma nova política cultural, que foi lançado nas acções de luta de 10 de Dezembro

No documento «Para um País de Cultura. 1% para a Cultura», que desde então continua a ser objecto de subscrição pública, os agentes do sector reivindicam, entre outras exigências, «um serviço público de cultura», «todo o apoio às artes» e «1% para a Cultura, por todos e para todos».

Ao AbrilAbril, Inês Maia, representante do Manifesto em Defesa da Cultura, uma das estruturas que integram a plataforma (ver caixa), revela que na reunião de ontem houve receptividade às reivindicações apresentadas. Clarifica, no entanto, que, apesar de existirem «boas intenções», «há poucas medidas concretas».

Inês Maia adianta que é no plano dos apoios às artes que o projecto de acção do Governo parece estar «mais estruturado». Denuncia, porém, que a ministra Graça Fonseca continua sem explicar como é que se vai chegar à meta anunciada de 2% do Orçamento do Estado (OE) para a Cultura ao longo dos próximos quatro anos. 

Por outro lado, frisa que o valor avançado pelo Governo colide com a exigência central da acção da plataforma, que é de 1% para a Cultura já no OE para 2020 e de 1% do PIB até ao final da legislatura, conforme reconhecido pela sociedade e pelos trabalhadores do sector.  

«Continuamos nos muito anémicos 0,26% para toda a cultura», critica Inês Maia. Há, no entanto, um aspecto positivo a salientar e que se enquadra nas reivindicações da plataforma. «A ministra garantiu-nos que, nestas contas para os 2%, não incluem o orçamento da RTP e da comunicação social pública, nem as actividades com fins lucrativos ou as indústrias do turismo», salienta. 

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/cultura/plataforma-cultura-em-luta-nao-desiste-de-1-ja-neste-orcamento

Bloco quer subir taxa que financia cinema até 3,5 euros (e alargá-la à Netflix)

Kilyan Sockalingum / unsplash

 

O Bloco de Esquerda quer que os operadores de telecomunicações paguem o dobro do que têm pago até agora para financiar o desenvolvimento da produção cinematográfica e do setor audiovisual.

 

Desde 2014, as empresas pagam uma taxa anual de 1,75 euros por cada cliente que subscreve os seus serviços de televisão ao Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA). A lei prevê que o valor suba este ano para dois euros por cliente.

No entanto, de acordo com o jornal Público, os bloquistas pretendem, com a proposta de aditamento à proposta de Orçamento do Estado (OE) que entregaram na quarta-feira na Assembleia da República, é que suba para 3,5 euros.

O Bloco pretende recuperar aquele que foi o montante inicialmente previsto para ser cobrado às empresas quando o Governo de Passos Coelho avançou com a medida em 2012, visando obter nessa época uma receita em torno de 10,7 milhões de euros.

 
 

O valor de 3,5 euros e o modelo de atualização estabelecido então – um aumento de 10% sobre o valor aplicável no ano anterior, até ao máximo de cinco euros – foram contestados pelos operadores de telecomunicações que se recusaram a pagá-lo. O braço de ferro e a ameaça de uma guerra jurídica acabou por levar o secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier, a reformular a medida.

Além disto, o Bloco quer ver estendida esta taxa a plataformas de streaming de conteúdos, como a Netflix e a HBO. Esta é uma medida defendida pelos operadores de telecomunicações, que se queixam que estão em desigualdades de circunstâncias face a estas empresas, que geram receitas em Portugal, mas não estão sujeitas aos mesmos encargos.

De acordo com a Anacom, no final de junho, existiam quatro milhões de clientes do serviço de TV paga, repartidos pela Nos (40,5% do mercado), Meo (39,6%), Vodafone (15,8) e Nowo (4%).

ZAP //

 
 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/bloco-taxa-cinema-35-euros-netflix-302746

Abertura do Museu de Arte Urbana e Contemporânea de Cascais adiada 'sine die'

A Câmara Municipal de Cascais está a procurar nova localização para o futuro Museu de Arte Urbana e Contemporânea de Cascais, anunciado em 2017, e cuja abertura fica agora sem data prevista, disse à Lusa o presidente da autarquia.

 

“A decisão foi não avançar com o projeto [no espaço com cerca de 1.700 quadrados localizado por baixo da praça D. Diogo de Menezes, perto da marina]. Iremos receber as obras na mesma, mas será noutro local”, afirmou Carlos Carreiras (PSD) em declarações à Lusa, à margem da apresentação dos maiores eventos do concelho para este ano.

De acordo com o autarca, estão a ser estudadas novas localizações para o Museu de Arte Urbana e Contemporânea de Cascais (MARCC), que resulta de uma parceria entre a Câmara Municipal de Cascais e o artista Alexandre Farto (Vhils), nomeadamente “num lote de terreno no centro da Abóboda [povoação na freguesia de São Domingos de Rana], na Quinta da Alagoa [em Carcavelos] e no Mosteiro de Santa Maria do Mar [em Sassoeiros, localidade na união de freguesias de Carcavelos e Parede].

Carlos Carreiras referiu ainda que não há previsão para abertura do museu.

O Museu de Arte Urbana e Contemporânea de Cascais (MARCC), que resulta de uma parceria entre a Câmara Municipal de Cascais e o artista Alexandre Farto, que assina Vhils, foi inicialmente anunciado em janeiro de 2017, como uma das 50 iniciativas previstas para Cascais, nesse ano. No final de 2017, foi feita uma apresentação, no espaço que deveria acolher o museu, no qual foi anunciado que o MARCC abriria ao público na primavera de 2018.

Na altura, ficou a saber-se que o museu iria acolher uma exposição permanente, para a qual Vhils doou cerca de 300 obras da sua coleção pessoal -- algumas de sua autoria e outras de artistas como os portugueses Abel Manta e Nomen, o britânico Banksy ou o norte-americano Shepard Fairey (Obey) --, e quatro exposições temporárias por ano, havendo já programação para o primeiro ano.

No final de 2018, fonte do município disse à Lusa que o museu já só abriria um ano depois (na primavera de 2019), na sequência de “problemas burocráticos”.

A fonte explicou à Lusa que “houve problemas burocráticos na cedência do espaço da marina ao município, e isso fez atrasar o início das obras [de construção do MARCC]”.

No final de 2017, à margem da apresentação, Alexandre Farto disse à Lusa que a criação de um museu “que tentasse criar um espaço ao lado efémero de todo o movimento e todas as coisas que acontecem de expressão na rua” era uma ideia que “já tinha há muito tempo”.

Além de um espaço de “mostra de artistas”, Vhils queria também que “fosse feita uma investigação e levantamento de artistas e do movimento, que vai de 1974 até hoje, e com isso tentar abarcar todas estas expressões artísticas legais e ilegais do espaço público e dar-lhes [um lugar] para ter exposições e dias abertos com eventos”, como disse então à Lusa, à margem da apresentação do MARCC.

No fundo, “ter um espaço de união e discussão e reflexão sobre o movimento e sobre as práticas no espaço público”.

 
 Ver original aqui
 
 

Morreu Eugénio Barreiros dos Jafumega

O músico português Eugénio Barreiros, fundador dos Mini-Pop e dos Jafumega, morreu na segunda-feira aos 60 anos, no Porto.

Créditos / Arte Sonora

Eugénio Barreiros, nascido na Invicta, a 5 de Fevereiro de 1959, começou por fazer parte dos Mini-Pop, grupo que formou ainda na pré-adolescência, em finais dos anos 1960, com os irmãos Pedro e Mário, e com o amigo Abílio Queirós.

A banda, que chegou a tocar na pioneira edição do festival Vilar de Mouros, em 1971, participou no Festival da Canção de 1973, com o tema «Menina de Luto», e terminou no final dos anos 70.

Na década seguinte, os irmãos Barreiros juntaram-se a José Nogueira, Álvaro Marques e Luís Portugal e criaram os Jafumega, onde Eugénio Barreiros foi cantor, teclista, mas sobretudo compositor das canções. 

Na biografia oficial lê-se que «numa década de grande efervescência para a música feita em Portugal, a banda do Porto conseguiu, no decurso de apenas três álbuns, inscrever o seu nome no cancioneiro nacional, adoptando e fazendo suas influências muito diversas, que iam do jazz-rock à pop, ao funk e ao reggae».

Depois de uma pausa em 1984, numa «passagem breve mas intensa pelo pop-rock português», os Jafumega retomaram a actividade quase 30 anos depois, em 2013, com concertos nos coliseus do Porto e de Lisboa.

Em 2016, a histórica banda do rock português nacional regressa à Festa do Avante!, cuja recordação consta da página oficial do grupo no Facebook. Da discografia dos Jafumega constam três álbuns de originais e êxitos como «Nó Cego», «Kasbah», «Latin America» ou «Ribeira».

Com agência Lusa

 

 

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/cultura/morreu-eugenio-barreiros-dos-jafumega

Petra Costa diz que 'a democracia está em vertigem em todo o mundo, sob a pressão da direita'

247 -A cineasta Petra Costa estava em Belo Horizonte na manhã desta segunda-feira (13) quando recebeu a notícia da indicação do seu filme Democracia em Vertigem para concorrer ao prêmio de melhor documentário. A cineasta comemorou com a família.

“O trágico e o gratificante”, ela diz, “é que, ao mostrar o filme em campanha para o Oscar, em Los Angeles, Nova York e Londres, encontrei-me com hosts como Wim Wenders e Spike Lee e todos me diziam a mesma coisa: o público que se manifestou sobre o filme em todo o mundo. Essa história brasileira ganhou ressonância universal", declara ao Estado de S.Paulo .

A cineasta afrma que "a democracia está em vertigem em todo o mundo, sob a pressão da direita. Sem estado de direito, sem o reconhecimento do direito do outro, a democracia está ameaçada".

 

Ela conta que o cineasta Wim Wenders lhe agradeceu "por ter iluminado não só um momento da história do Brasil, mas da situação planetária.”

Ver o original em 'Brasil24/7' na seguinte ligação:

https://www.brasil247.com/cultura/petra-costa-diz-que-a-democracia-esta-em-vertigem-em-todo-o-mundo-sob-a-pressao-da-direita

“Democracia em Vertigem” no Oscar: a História começa a prestar contas a Dilma

Cynara Menezes, para oJornalistas pela Democracia

“Neste momento, me inspiro em Darcy Ribeiro para dizer: não gostaria de estar no lugar dos que se julgam vencedores. A História será implacável com eles”, disse a presidenta Dilma Rousseff em 31 de agosto de 2016, ao ser consumado o golpe do qual foi vítima. A direita, liderada pelo PSDB e seus parceiros na mídia, conquistara o objetivo: fragilizar as instituições democráticas brasileiras e arrancar do cargo uma presidenta honesta, que havia sido legitimamente eleita dois anos antes.

O golpe se consumaria com a prisão injusta do ex-presidente Lula em abril de 2018. Mídia e tucanos acreditavam que, tirando o PT do páreo, conseguiriam enfim voltar ao poder, derrotados que foram por quatro vezes consecutivas, em 2002, 2006, 2010 e 2014. Ledo engano: o candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, amealharia parcos 4,76% na eleição em que Jair Bolsonaro foi eleito. O que o golpe contra Dilma fez de fato foi pavimentar o caminho para a chegada do fascismo ao poder.

Democracia em Vertigem consagra diante do mundo a narrativa da esquerda brasileira sobre os eventos de 2016. Não foi por crime de responsabilidade, não foi por corrupção, não foi por incompetência. Dilma caiu porque foi vítima de um golpe

Quase quatro anos depois daquela tarde triste para o país em que a presidenta deixava o Alvorada e o Planalto de forma definitiva, a História começa a lhe prestar contas. O documentário Democracia em Vertigem, de Petra Costa, que relata como se forjou a conspiração jurídico-político-midiática que derrubou Dilma, foi indicado ao Oscar, contrariando todas as expectativas e gerando muito choro e ranger de dentes no antipetismo furibundo, dos “liberais” à extrema direita. Chiavam porque o filme demonstra de cabo a rabo o que a esquerda brasileira bradou desde o princípio: o que houve contra Dilma em 2016 foi um golpe, não impeachment.

A reação da ex-presidenta à indicação veio num tom de “eu avisei”. “A verdade não está enterrada. A História segue implacável contra os golpistas”, disse, em nota oficial, repetindo a si mesma no discurso de despedida do cargo. Para Dilma, o filme de Petra Costa tem o poder de elucidar para o mundo como o bolsonarismo nasce do golpe contra seu governo. “A mídia venal, a elite política e econômica brasileira atentaram contra a democracia no país, resultando na ascensão de um candidato da extrema direita em 2018”, apontou.

Narrado pela própria Petra, o documentário mescla o relato sensível sobre o envolvimento dos pais da diretora na luta contra a ditadura com o desenrolar do “impeachment”, passando pela trajetória de Lula, do PT e de nossa jovem democracia. O roteiro deixa claro que o golpe começa quando o tucano Aécio Neves, o oponente de Dilma em 2014, se recusa a aceitar a derrota e dá início ao processo de fragilização das instituições, ao pedir recontagem de votos e lançar suspeitas de fraude sobre a urna eletrônica –discurso que Bolsonaro não se cansa de repetir, sem qualquer evidência disso.

Não é à toa que o PSDB, o partido de Aécio, patrocinador inclusive financeiro do golpe contra Dilma (pagaram os honorários dos advogados do “impeachment”, Janaina Paschoal e Miguel Reale Júnior), passou recibo nas redes sociais sobre sua participação ativa na trama que levou o país à situação em que se encontra –não que os tucanos lamentem, já que votaram com o governo Bolsonaro em todos os projetos aprovados até agora, como a reforma da Previdência.

 
https://twitter.com/PSDBoficial/status/1216736950159380480?ref_src=twsrc%5Etfw

O partido acabou ganhando destaque nos assuntos mais comentados no twitter pelo evidente recalque e pela falta de compromisso com o cinema brasileiro, ainda mais num momento em que ele está sob ataque da extrema direita. Dilma, ao contrário, foi saudada pelas redes sociais com simpatia. As apostas eram sobre que roupa ela irá usar no tapete vermelho (ops!) do Oscar e se será Leonardo DiCaprio, o arqui-inimigo de Bolsonaro, quem entregará a estatueta à diretora.

https://twitter.com/diImabr/status/1216723207148974080?ref_src=twsrc%5Etfw
https://twitter.com/petracostal/status/1216808809177534468?ref_src=twsrc%5Etfw
https://twitter.com/yanmends/status/1216745206743207938?ref_src=twsrc%5Etfw
https://twitter.com/pedrotrl/status/1216727249141059584?ref_src=twsrc%5Etfw
https://twitter.com/ANTI0800/status/1216722270825209856?ref_src=twsrc%5Etfw

Memes à parte, a indicação de Democracia em Vertigem ao Oscar de melhor documentário mostra que, aos poucos, a História começa a prestar contas a Dilma Rousseff. Um complô entre a mídia –sobretudo a rede Globo–, o presidente da Câmara (o atual presidiário Eduardo Cunha), e a Lava-Jato do juiz Sergio Moro, alçado pela emissora e a revista Veja ao status de “herói nacional”, é que causou a queda de Dilma. As revelações da “Vaza-Jato” pelo Intercept em 2019 deixaram claro a existência de uma conspiração que contou com a imprensa comercial como a mais fiel escudeira.

As palavras da ex-presidenta durante o processo de cassação começam a ter o peso da profecia. “O golpe é contra o povo e contra a Nação. O golpe é misógino. O golpe é homofóbico. O golpe é racista. É a imposição da cultura da intolerância, do preconceito, da violência”, ela denunciou, no discurso de despedida, prevendo que quem semeava ventos, colhia Bolsonaro. Dois dias antes, diante do Senado Federal, Dilma também havia se referido ao julgamento implacável da História sobre todos que estavam ali.

 
“Receio que, mais uma vez, a democracia seja condenada junto comigo. E não tenho dúvida que, também desta vez, todos nós seremos julgados pela História”, disse Dilma em 2016. A História começa a lhe fazer Justiça

“Este é o segundo julgamento a que sou submetida em que a democracia tem assento, junto comigo, no banco dos réus. Na primeira vez, fui condenada por um tribunal de exceção. Daquela época, além das marcas dolorosas da tortura, ficou o registro, em uma foto, da minha presença diante de meus algozes, num momento em que eu os olhava de cabeça erguida enquanto eles escondiam os rostos, com medo de serem reconhecidos e julgados pela História. Quatro décadas depois, não há prisão ilegal, não há tortura, meus julgadores chegaram aqui pelo mesmo voto popular que me conduziu à Presidência. Tenho por todos o maior respeito, mas continuo de cabeça erguida, olhando nos olhos dos meus julgadores. Apesar das diferenças, sofro de novo com o sentimento de injustiça e o receio de que, mais uma vez, a democracia seja condenada junto comigo. E não tenho dúvida que, também desta vez, todos nós seremos julgados pela História.”

A História já começou a fazer Justiça a Dilma. Ganhe ou não o Oscar, Democracia em Vertigem consagra diante do mundo a narrativa da esquerda brasileira sobre os eventos de 2016. Não foi por crime de responsabilidade, não foi por corrupção, não foi por incompetência. Dilma caiu porque foi vítima de um golpe.

Ver o original em 'Brasil24/7' na seguinte ligação:

https://www.brasil247.com/blog/democracia-em-vertigem-no-oscar-a-historia-comeca-a-prestar-contas-a-dilma

Documentário sobre o golpe de 2016, Democracia em Vertigem disputará o Oscar

 

247 - Democracia em Vertigem, documentário dirigido por Petra Costa e distribuído pela Netflix, foi indicado nesta segunda-feira (13) oficialmente ao Oscar 2020 no quesito "melhor documentário".

Em Democracia em Vertigem, a cineasta faz um retrato do processo de impeachment que derrubou a ex-presidente Dilma da presidência do Brasil, em 2016, apontando os esquemas escusos que culminaram na ascensão de Michel Temer no poder, além da crise social que o país enfrentou desde 2013 com a intensificação da polarização política.

A história começa a ser contada a partir do primeiro mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2003, analisando a crise política no Brasil.

 

Ver o original em 'Brasil24/7' na seguinte ligação:

https://www.brasil247.com/cultura/documentario-sobre-o-golpe-de-2016-democracia-em-vertigem-disputara-o-oscar

"DOIS PAPAS": O ENCONTRO PESSOAL DERRUBA MUROS IDEOLÓGICOS E REDESCOBRE O HUMANO, por LEONARDO BOFF

 

 

leonardoboff.com, 9 de Janeiro de 2020

 

 

Assim como o Brasil não é para iniciantes, da mesma forma, o filme Dois Papas não é para iniciantes. Ele demanda conhecimentos de teologia e do debate existente já há mais de 50 anos sobre qual modelo de Igreja seria o mais adequado, considerando o destino comum Terra e Humanidade e as perversas desigualdades sociais a nível mundial.

 

O filme está sendo amplamente discutido. Há razões pró outras contra e, várias delas, supõem interesses escusos de seu produtor Fernando Meirelles, o que acho preconceituoso. Muitas críticas feitas ao filme (a maioria o vê com óculos ideológicos sem limpá-los antes) e mostram o que em filosofia se chama de “ignoratio elenchi”(ignorância do assunto), o que dificulta um julgamento sério e mais justo do filme em tela. Não obstante ter já escrito sobre o filme, retomo o discurso para aprofundar algumas questões subjacentes ao Dois Papas e assim apreciá-lo melhor.

 

Um lugar privilegiado de observação

 

Devo, sem qualquer pretensão, confessar que me encontro num lugar de observação privilegiado pois pude conhecer a ambos os personagens, Joseph Razinger e Jorge Mario Bergoglio. Isso me permite ajuizar com outros critérios o filme Dois Papas.

 

Com referência ao Papa Bento XVI pela amizade que tínhamos e pelo fato de que, como Cardeal, Presidente da Congregação para a Doutrina da Fé (ex-Inquisição) teve a ingrata missão institucional de me interrogar num processo doutrinário, pelo qual passaram notáveis como Galileu Galilei, Giordano Bruno e outros, acerca de meu livro “Igreja: carisma e poder”. Ele agiu conforme o rito prescrito para o Grande Interrogador (outrora se dizia o Grande Inquisidor) com seriedade e competência exigidas. E eu como interrogado devia responder às acusações feitas ao livro (não a mim como pessoa), da forma mais convincente possível. Cada um estava em sua posição institucional mas isso não significava romper os laços de mútuo apreço e amizade. Não rompemos. Tanto ele quanto eu soubemos distinguir as distintas esferas. Minha defesa, após o interrogatório, pareceu aos 13 cardeais votantes, não o bastante convincente. Assim que recebi várias penalidades, a maior delas, o “silêncio obsequioso”.

 

Penso que Bento XVI, à frente da Igreja, se comportou mais como um teólogo acadêmico alemão (escreveu vários livros enquanto Papa) do que um Guia de uma comunidade de mais de um bilhão de fiéis. Essa missão era, a meu ver, alheia ao seu caráter. Ele queria mesmo era ser teólogo e não um Chefe do Estado do Vaticano.

 

Com referência ao Papa Francisco nos conhecemos como teólogos nos idos de 1972 num encontro organizado pela Confederação Latino-americana de Religiosos (CLAR) no Colegio Maximo dos jesuítas em San Miguel, nos arredores de Buenos Aires. Ele guardou a foto do encontro e teve a gentileza, como Papa, de mandar-me tal foto e recordar-me que havíamos discutido sobre hermenêutica moderna francesa, coisa que eu havia totalmente esquecido.

 

Ao elaborar a encíclica ecológica Laudato Si:sobre o cuidado da Cada Comum (2015) ofereci-lhe subsídios, prontamente aceitos, pois ele sabia que já há anos escrevia sobre o tema, alargando o horizonte da Teologia da Libertação. O eixo deste tipo de teologia é “a opção não excludente pelos pobres contra sua pobreza, em favor da justiça social e de sua libertação”.Dentro dos vários tipos de pobres deveríamos, pensava e penso eu, incluir o Grande Pobre, o mais explorado de todos, a Terra viva, sem cuja preservação invalidaria qualquer outro projeto. Daí nasceu uma vigorosa eco-teologia da libertação. O Papa Francisco conscientizou-se desta centralidade e atendeu ao pedido de muitos teólogos que junto comigo lhe fazemos este apelo.

 

Desconhecer esse núcleo central da Teologia da Libertação, a opção preferiencial pelos pobres, e tributá-lo ao marxismo é incorrer em “ignoratio elenchi”, e reproduzir a narrativa dos ditadores militares do Chile, da Argentina, do Brasil e de El Salvador. Isso é repetido ainda hoje em dia nos grupos conservadores e até reacionários mesmo ocupando altos cargos do atual governo.

 

Bergoglio sem ser profético, salvou a muitos perseguidos

 

Não vou abordar o tema da relação do Papa Francisco com a ditadura militar argentina. O prêmio Nobel da Paz, Adolfo Pérez Esquivel, também ele vítima de torturas, deu seu testemunho cabal aos mais duros críticos, apresentando até a longa lista de salvos pela ação do então superior jesuíta, padre Jorge Mario Bergoglio e depois Cardeal de Buenos Aires. No máximo que podemos conceder é que não se mostrou uma figura profética, como foram os bispos Novak, Angelleli, Esaine e outros. Mas nunca colaborou nem foi conivente com o sistema de opressão e liquidação dos opositores do regime, dos mais cruéis da América Latina. Seu estilo era outro, agir no silêncio, mas corajosamente.

 

Como Papa Francisco, recebi algumas cartas dele agradecendo os materiais que lhe havia enviado. E continuo lhe enviando outros através de um de seus secretários (não via Cúria, pois há o risco de nunca lhe ser entregue). Quase sempre responde. A última me encheu de satisfação, pois lhe havia escrito que no texto final do Sínodo Panamazônico de 2019 se incorria no Cristomonismo (só Cristo) esquecendo, em grande parte, a figura do Espírito Santo. Este, argumentava eu, chega sempre antes do missionário, pois encontra nos povos a evangelizar, o amor, a solidariedade, o perdão e outros valores humanos que constituem o núcleo da mensagem de Jesus. Agradeceu-me a observação e disse que iria usá-la. Por minha surpresa, na fala aos Cardeais pelo Natal de 2019 afirma que alguém lhe disse que o missionário é aguardado pelo Espírito Santo ao chegar ao país de missão, pois Ele já estava lá presente pelo amor e pelos demais valores humanos.

 

Fato curioso: um Papa não vive só pregando; precisa de certa distensão, tomar chimarrão pela manhã (mate) e também cultivar o humor. Assim que acompanha e torce pelo seu time de futebol San Lorenzo e adora música popular argentina que considero excelente, especialmente Mercedes Sosa com a qual juntos trabalhamos na confecção da Carta da Terra. Eu mandei ao Papa, para distraí-lo um pouco, um texto de São Francisco no qual este aconselhava os frades que em suas hortas deixassem um cantinho para as ervas selvagens (daninhas) crescerem porque, elas, do seu modo, também louvam a Deus. O Papa Francisco colocou este tópico de humor na encíclica no número 12.

 

A questão magna subjacente ao filme

 

Qual é a questão magna que subjaz ao filme Dois Papas? Não entendê-la, significa não entender o filme em sua profundidade. Trata-se de apresentar dois modelos de Igreja: um bem retratado pelo Papa Bento XVI e e o outro pelo Cardeal Bergoglio. depois Papa Francisco. Além disso, traçar o perfil de duas formas diferentes de ser humano, de realizar cada um a sua humanidade.

 

Cabe enfatizar que os diálogos não são meramente inventados. Quem conhece a teologia de ambos logo identifica o que escreveram ou publicamente disseram. Eles correspondem à sua respectiva visão de Igreja. É seu ponto de verdade.

 

O modelo de Igreja de Bento XVI: Volta à Grande Disciplina

 

O modelo de Igreja de Bento XVI é o da Igreja tradicional, cuja época áurea foi a Idade Media e que culminou com o Concílio de Trento (1545-1563) e com o Concílio Vaticano I (1869-1870). Esse modelo tem como eixo articulador o poder sagrado (sacra potestas), piramidal e desigualmente distribuído (os leigos, em baixo não participam desse poder), em cuja cabeça está o Papa, infalível em questões de doutrina e moral, com um poder “ordinário, supremo, pleno, imediato e universal”(cânon 331). Se riscarmos a palavra Papa e pusermos Deus, cabe ad litteram.Pode um ser humano, sempre limitado, apresentar-se com um poder ilimitado, não sendo Deus?

 

Esse modelo foi essencial na formação da Europa, o que resulta em responsabilidade às mais altas autoridades da Igreja de mantê-lo para preservar a identidade da Europa e a cultura europeia que se globalizou. Esse modelo criou os instrumentos de sua reprodução, a teologia manualística, o estilo apologético, especialmente, o estatuto dos seminários que não existia antes. Aí se formaram os candidatos ao sacerdócio, numa perspectiva agressiva e defensiva contra as Igrejas saídas da Reforma e contra os novos inimigos: os dois iluminismos. O primeiro iluminiamo, mais teórico, com seu espírito crítico, contra todo o autoritarismo, do contrato social e da introdução das liberdades civis e dos direitos do cidadão. E o segundo iluminismo, mais prático e transformador: o socialismo e o marxismo. Face à essa realidade mudada, a reação vinha sob o motto: “Volta à Grande Disciplina”. Vale dizer, tentar restaurar a síntese medieval sob a égide do fator religioso e orientada moralmente pela Igreja.

 

João Paulo II viu que na Polônia (semper fidelis)ocupada pelos marxistas ateus, a Igreja era a grande força de oposição, de resistência e de reafirmação da identidade polonesa, profundamente católica. Ao ser eleito Papa, levou essa missão para toda a Igreja. Enquadrou todas as tendências diferentes para ter uma Igreja unida contra dois fortes inimigos: o marxismo ateu que ele conheceu por experiência pessoal e contra a modernidade que deslocou Deus do centro da sociedade e em seu lugar colocou a sacralidade da pessoa e de seus direitos. A modernidade e pós-modernidade se apresenta como secular (não secularista), defensora das liberdades de consciência, de religião, das culturas e dos direitos de todos.

 

Inegavelmente carismático, a ponto de galvanizar multidões, a visão de Igreja de Papa João Paulo II, entretanto, era muito conservadora. As inovações do Concílio Vaticano II (1962-1965) que acertou o passo da Igreja com o mundo moderno, são relativizadas e reinterpretadas a partir do poder sagrado, concentrado nele, o Papa e na hierarquia eclesiástica. Gerou uma mentalidade temerosa e até negativa face aos avanços do mundo moderno, uma Igreja qual castelo, sitiado por inimigos que pretensamente a querem destruir.

 

Seus seguidores (vários movimentos conservadores como Opus Dei, Cavaleiros de Cristo, Comunhão e Libertação entre outros) constituem a base eclesial e social que sustentaram seu projeto de Igreja. Encontrou no Cardeal Joseph Ratzinger (na Alemanha mostrava-se progressista), um teólogo que se converteu à linha de João Paulo II  e num fervoroso guardião da ortodoxia. Apesar de sua finura, mostrou posições severas contra os críticos desse modelo conservador de Igreja.

 

Especialmente foi visada a Teologia da Libertação, interpretada como uma espécie de cavalo de Troia, mediante o qual o marxismo penetraria na América Latina. Há que defender o povo, mantendo essa corrente teológica sob estrita vigilância, argumentava-se no Vaticano, atingindo a muitos de seus seguidores, cardeais, bispos, teólogos, padres, religiosos e religiosas e até leigos. Esta estratégia foi mantida e até reforçada quando se tornou Papa.

 

No filme o Papa Bento XVI representa este tipo de Igreja que possui sua lógica e coerência, mas na contramão do curso global do mundo. Não tinha chance de prosperar pois a Igreja se mostrava antes uma cisterna de águas mortas que uma fonte de águas vivas. Decepcionava muitos fiéis a ponto de muitos abandonarem a Igreja. Quando o Papa Bento XVI se deu conta de que a atmosfera interna da Igreja em geral e do Vaticano em particular fora envenenada pelos crimes de pedofilia, falcatruas financeiras dentro do Banco Vaticano e mesmo de prostituição de altos prelados da Cúria, sentiu suas forças se esmorecerem. “Precisa-se mudar tudo isso”, diz claramente no filme. Reafirmou que não merecia permanecer sentado na Cátedra de Pedro, sem a energia suficiente para as mudanças necessárias. Num gesto nobre e desprendido renunciou.

 

Fecha-se com ele, o ciclo do cristianismo central, enfraquecido pelos escândalos, para dar lugar a outro modelo de Igreja com outros propósitos e outra leitura do mundo.

 

Papa Francisco: a Teologia da Libertação chega ao centro da igreja

 

Com o Papa Francisco começa um novo estilo de exercer o pontificado e se projeta um modelo de Igreja muito diverso do tradicional. A Igreja na América Latina foi sempre uma Igreja-espelho daquela europeia. Lentamente, porém foi se libertando até tornar-se uma Igreja-fonte: com um estilo diferente de viver a fé, encarnado-se nas culturas locais, indígenas, afro-descendentes e populares. Criou seu perfil de uma Igreja pobre e despojada com sua própria teologia, sob o nome de Teologia da Libertação. Logicamente, subsiste ainda porções da Igreja-espelho, ligadas ao estilo tradicional de ser padre e de organizar as dioceses e as paróquia. Mas não é por ela que o Cristianismo latino-americano atraiu a atenção do mundo, graças ao seu compromisso com os pobres, contra os regimes ditatoriais e contra as torturas sistemáticas a presos políticos e a presos comuns.

 

O Concílio Vaticano II tratou da Igreja dentro do mundo moderno, do mundo desenvolvido e se reconciliou com ele. Na América Latina os bispos nas várias assembléias continentais (Medellin, Puebla, Aparecida) deram-se conta de que esse mundo desenvolvido constitui a causa principal da opressão das grandes maiorias da América Latina, indígenas humilhados, massas abandonadas, classes oprimidas e mulheres submetidas.

 

A questão na América Latina é outra: qual o lugar da Igreja dentro do submundo, do mundo subdesenvolvido? Chegaram à conclusão de que sua missão é de uma evangelização libertadora. Libertar o pobre que grita é um gesto evangélico e ao mesmo tempo político. Libertar importa fazer do pobre o protagonista de sua própia libertação a partir do capital simbólico de sua  fé. Isso exige um processo de conscientização e de organização para o qual Paulo Freire que sempre se tendeu como um dos fundadores da Teologia da Libertação, ajudou enormemente a pastoral das Igrejas.Desta forma surgia um cristão consciente e simultaneamente um cidadão crítico e participante.

 

A libertação demanda um método mediante o qual o oprimido extrojeta o opressor que carrega dentro de si, para ser livre e tentar um outro tipo de sociedade  libertada, onde o amor e a convivência fraterna não sejam tão difícies. Não há opção pelos pobres e por sua libertação sem primeiramente amar esses pobres, seu modo de ser, sua cultura e, finalmente, se associar, como aliados secundários, às suas lutas. Essa opção custou a vida de muitos padres, religiosas, agentes leigos de pastoral e até de dois bispos, Angelleli da Argentin e Oscar Arnulfo Romeno de El Salvador, hoje santificado. É uma Igreja que tem muitos mártires.

 

O Papa Francisco foi educado quando era estudante de Teologia no Colegio Maximo em San Miguelo nesse conjunto de visões. Incorporou-as. Como cardeal, renunciou ao palácio cardinalício, ao carro oficial, aos privilégios da função. Usava o ônibus e o metrô e andava muito a pé pelas “villas miseria” de Buenos Aires. Vivia num pequeno apartamento e cozinhava sua própria refeição.

 

Ao chegar a Roma e eleito já Papa, introduziu esta revolução dos hábitos nos vetustos edifícios luxuosos e renascentistas da cidade do Vaticano. Decidiu viver numa casa de hóspedes e toma a refeição, entrando na fila, como todos.

 

Seu modelo de Igreja é aquela, como ele mesmo o define: “uma Igreja em permanentemente saída” de si mesma em direção do mundo, dos pobres, dos refugiados e das periferias existenciais. Ela equivale a um hospital de campanha, aberta a atender a todos. Como ninguém antes dos Papas anteriores, denuncia os produtores das desigualdades e injustiças no mundo: os adoradores do dinheiro, os especuladores, os inimigos da vida e da Mãe Terra que a devastam em função de sua acumulação. Não usa a palavra capitalismo mas todos entendem ao que se refere.

 

Em sua mensagem enfatiza: Jesus não veio fundar uma nova religião, pois havia muitas no Império Romano. Veio criar o homem novo e a mulher nova. Veio nos ensinar a viver o amor incondicional, a misericórdia sem limites e a solidariedade a partir dos últimos. No lugar de dogmas e doutrinas que respeita, privilegia o encontro vivo com o Cristo, com as pessoas, especialmente com aquelas feitas invisíveis. Escandaliza não poucos bispos ao pregar, até exigir, uma pastoral da ternura e não do medo das penas eternas. A misericórdia e seu tonus retus sempre de nova pregada que vem acolitada pela empatia e pela fome e sede de justiça. Sente-se um homem entre outros homens.

 

Suspeito que criará uma nova genealogia de papas, vindos do fim do mundo, onde vive a maioria dos católicos. Só 25% encontram-se na Europa, 52% nas Américas e os restantes na África e na Oceania. Hoje por hoje, o cristianismo é uma “religião” do outrora chamado “Terceiro Mundo”, que um dia, teve sua origem no Primeiro Mundo. Pelo “Terceiro Mundo” passa o futuro da Igreja Católica até em termos numéricos. É aqui que o cristianismo mostra suas virtualidades latentes, na defesa dos pobres e no cuidado da Casa Comum. Um argumento a mais para postularmos um Papa que venha de onde a Igreja se incarna nas culturas locais e suscita esperança nos condenados e ofendidos, desesperados pela fome e pela miséria.

 

Estes dois modelos de Igreja subjazem aos diálogos do filme Dois Papas. Eles se confrontam. Mas lentamente vão se alinhando.

 

Cada um dos Papas carrega um peso na consciência: Bergoglio poderia  ter encontrado outra forma, para além daquela institucional que tomou, de salvar os dois jesuítas trabalhando nas favelas e liberá-los do sequestro anunciado. Ambos sofreram pesadas torturas. Um deles, o padre Yorio, a quem conheci em Quilmes, nos arredores de Buenos Aires, não conseguia livrar-se do sentimento de que tinha sido abandonado pelo seu superior religioso. Mas procurava sinceramente entender os impasses pelos quais seu superior passou, mas que, com criatividade, poderia ter agido diferentemente. Esse era o peso que o Papa Francisco carregava em sua biografia.

 

Ao Papa Ratzinger lhe pesou na consciência o fato de ter enviado uma carta a todos os bispos, sob sigilo pontifício, para que não entregassem os padres pedófilos à justiça civil para não macular o bom nome da instituição-Igreja. Deviam confessar seu pecado e ser transferidos para outro lugar. E as vítimas, as crianças inocentes e as famílias, como ficariam? Isso não foi suficientemente levado em conta pelo Papa Bento XVI.

 

Momento alto do filme é quando ambos revelam o peso que carregam. Abrem-se mutuamente e se dão reciprocamente a absolvição. Ambos se sentem aliviados e reconciliados consigo mesmos.

 

A ideologia divide, o diálogo aproxima

 

Estimo que um dos propósitos principais do filme, foi revelar a real condição humana de ambos os Papas: sua dimensão de sombra e sua dimensão de luz. Essa é a real condition humaine de cada ser humano: somos sapientes e dementes sim-bólicos e dia-bólicos, gentis e rudes. E isso simultaneamente. Ai de nós se recalcamos a dimensão sombria. Ela voltará furiosa. Temos que integrá-la humildemente na medida em que damos primazia à dimensão de luz. Caso contrário, impedimos o desabrochar de nossa plena humanidade que inclui luz e sombra.

 

Mas há momentos em que o horizonte desaparece: é a “noche oscura y terrible” da qual fala o místico São Jão da Cruz não poupa sequer os papas. A sutileza do filme mostra também esta sua angustiante dimensão. Eles não têm certezas totais. Estão no caminho de busca de mais luz para poder caminhar.

 

O filme revela, de forma maravilhosa, como passo a passo, vai surgindo a humanidade de um de outro. Aprenderam a escutar, a dialogar, e a procurar entender as diferenças. Lentamente as discussões vão desaparecendo, pois a ideologia separa e o encontro une. É então que irrompe a verdadeira humanidade em cada um deles. Um toca piano, o outro cantarola uma cação dos Beatles. Por fim ambos não agem mais como Papas. São humanos, o homem Joseph Ratzinger e o homem Jorge Mario Bergoglio. Ensaiam uns passos de tango, possível a dois idosos. É inimaginável um acadêmico alemão como o professor Ratzinger entregar-se à liberdade do corpo e dar uns passos de dança argentina.

 

O que une as pessoas não são acordos doutrinários. Estes ficam nos documentos mas não chegam ao coração. O encontro das pessoas, cara a cara, olho a olho, coração a coração transforma a realidade conflitiva, numa realidade, apesar das diferenças, realmente reconcilia.

 

Esta seja talvez a grande lição que derivamos do filme Dois Papas. Num mundo de ódio, de dilaceração das ideologias, o que nos levará para a direção certa e para a superação das fragilidades da humana existência é e será sempre o resgate de nossa inteira, complexa e ambigua humanidade, um ajudando ao outro a desentranhar o que está escondido nele e que, sozinho, talvez nunca irá poder liberar. Mas vale a filosofia africana do Ubuntu: “eu sou eu somente através de você”.

 

O cristianismo como religião e caminho de Jesus

 

Por fim,  cabe uma reflexão para aqueles que sentem dificuldades de viver a fé cristã nos dias de hoje. O cristianismo não nasceu como Igreja constituída, mas como “o movimento de Jesus” ou “o caminho de Jesus” pois assim  nos relatam as fontes originárias do Novo Testamento. Curiosamente nos Atos dos Apóstolos se chama o cristianismo em grego de: “hairesis tou Christou”: a “heresia de Cristo”, vale dizer “o grupelho de Cristo”. Só mais tarde, em Antioquia, passou a ser chamado de cristianismo.

 

Metaforicamente diria: o cristianismo é semelhante a uma bicicleta. A roda da frenterepresenta o Cristianismo como religião, com ritos, celebrações, missas, sacramentos e devoção a santos e santas. Nem todos hoje se identificam com este modo de expressar a fé; felizes os que o conseguem pois o contacto com o sagrado alimenta as dimensões profundas e ignotas de nossa psiqué tão bem estudas pela escola de C. G. Jung e discípulos.

 

Mas o cristianismo pode se expressar também pela roda de trás. É o cristianismo como ética, como modo de ser que se orienta pelo sonho e a proposta humanitária de Jesus: a centralidade do amor, a empatia face aos que sofrem, a fidelidade à verdade, o desapego à acumulação obsessiva de bens materiais e a capacidade de perdoar. Esse caminho é o mais originário e significa uma proposta de vida, seguida por muitos mesmo sem se filiar a uma confissão cristã ou seguir um caminho religioso. Vivem o sonho do Nazareno no meio da mundanidade do mundo. São cristãos, não pela prática religiosa, mas pela prática da ética da transparência, do amor, da solidariedade a partir dos últimos e da alegria de viver neste belo e radiante planeta.

 

Creio que o filme aponta mais nesta direção humanitária: a escuta atenta do outro, a abertura ao diálogo e a disposição de aceitar a crítica e a vontade de mudar.

 

Saimos mais humanizados e espiritualizados após termos visto o filme Dois Papas. Só por este efeito benéfico, valeu a pena o esforço de seus produtores e atores de concebe-lo e de produzi-lo. Bem que mereceria um Oscar, pela mensagem tão atual e esperançadora que irradia e não em último lugar pela beleza deslumbrante de suas imagens e pela música sempre adequada às cenas. Vale ver o filme Dois Papas para deixar-se questionar por ele e enriquecer a maneira própria de viver humanamente.

 

 

Leonardo Boff é teólogo, filósofo e escreveu Francisco de Assis e Francisco de Roma, Mar de Ideias, Rio 2014,

 

Nota de A Viagem dos Argonautas

O filme Dois Papas, de Fernando Meirelles e Anthony McCarten, ao que conseguimos apurar, está na Netflix. 

 

Leia este texto no original clicando em:

https://leonardoboff.wordpress.com/2020/01/09/dois-papas-o-encontro-pessoal-derruba-muros-ideologicos-e-redescobre-o-humano/

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/01/10/dois-papas-o-encontro-pessoal-derruba-muros-ideologicos-e-redescobre-o-humano/

De novo os tiranos – Pablo Neruda


 

XLII
 
De novo os tiranos
 
Hoje de novo a caçada
se estende por todo o Brasil,
procura-o a fria cobiça
dos mercadores de escravos:
em Wall Street decretaram
a seus satélites porcinos
que enterrassem os seus caninos
nas feridas do povo,
e começou a caçada
no Chile, no Brasil, em todas
as nossas Américas arrasadas
por mercadores e verdugos.
Meu povo escondeu meu caminho,
cobriu meus versos com as mãos,
da morte me preservou,
e no Brasil a porta infinita
do povo fecha os caminhos
onde Prestes outra vez
rechaça de novo o malvado.
Brasil, que te seja salvo
o teu capitão doloroso,
Brasil, que não tenhas amanhã
De recolher de sua lembrança
fibra por fibra a sua efígie
para erguê-la em pedra austera,
sem tê-lo deixado no meio
de teu coração desfrutar
a liberdade que ainda, ainda
pode conquistar-te, Brasil.
 

Pablo Neruda

Via: voar fora da asa http://bit.ly/35Dx9ax

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/01/10/de-novo-os-tiranos-pablo-neruda/

Concerto: SEMEADORES DE UTOPIA

semeadoes

CONCERTO SEMEADORES DE UTOPIA

AUDITÓRIO DO LICEU CAMÕES | 10janeiro2020| 19H
CUSTO DOS BILHETES 10.00€
Venda de bilhetes:
1. ONLINE |TRANSFERÊNCIA BANCÁRIA | IBAN - PT50 0036 0052 99100329631 47 |LIMITE: 24:00H 08jan2020
2. Sede do Núcleo de Lisboa da AJA |Rua de S. Bento | 170 | LIMITE: 19:00H 09jan2020
3. Auditório do Liceu Camões |Rua Almirante Barroso |25 A |A PARTIR DAS 17:00H 10jan2020 Notas:
1. Na compra online deve ser indicado o nome completo de quem faz a transferência e de quem levanta os bilhetes, e o comprovativo enviado por email para ajalisboa.comunicacao@gmail.com, com assunto –COMPRA DE BILHETES CONCERTO 10jan2020.
2. As transferências efetuadas após as 24:00H do dia 08jan2020 não serão consideradas.

3. Os bilhetes comprados online podem ser levantados no auditório, no dia do concerto, a partir das 18:00H.

 
 

Hoje tive notícias do Chico

Sempre, ao longo da vida, fui tendo notícias do Chico. Recentemente, como é do conhecimento público, Chico Buarque foi anunciado vencedor do Prémio Camões 2019 no passado dia 21 de maio de 2019, lá, no Rio. Depois de ter sabido que Chico mandou ao Diabo o Bolsonaro, foi igualmente tornado público que, por decisão do nosso Ministro da Cultura, o Prémio Camões será entregue ao Chico no dia 25 de Abril deste ano. 
Soube agora, à poucochinho, onde vai ser isso. 
Quando  tiver mais notícias do Chico, eu digo.
 
 

Ver original em 'Conversa Avinagrada' (aqui)

Daniela Mercury protesta contra a estupidez bolsonarista

247 – A cantora Daniela Mercury explicou, em entrevista à jornalista Maria Fortuna, publicada no Globo, por que tem adotado um tom mais político. O motivo é a necessidade de reagir à estupidez representada pelo bolsonarismo. "Depois dos ataques à educação, do desmantelamento da cultura, do olhar agressivo de ministros, da tentativa de emplacar a Escola Sem Partido, eu não poderia deixar de frisar esse discurso. Minha mãe foi vice-reitora da PUC de Salvador, sou apaixonada por conhecimento. Como podemos aceitar essas tentativas de mordaça e controle? Precisamos reagir. Minha forma de falar é a musica. 'Balbúrdia' traz a ancestralidade dos blocos afro na forma de protestar, afirmativamente, falando do orgulho de ser o que é. A ideia é confrontar cinismo, censura, LGBTfobia, racismo, ataques à natureza... ", diz ela.

 

"Sem alegria e esperança a gente não se mobiliza. A arte aproxima, conecta. De que adianta o dinheiro e o materialismo da sociedade? É preciso justiça social, respeito à ancestralidade. Quando a gente desrespeita o indígena, o negro, ferimos nossa origem. A sociedade capitalista desumaniza, a arte está aí para humanizar. Quando vestimos roupa de São João, de caipira, celebramos a nós mesmos. Quando ocupamos a rua no carnaval, somos cidadãos. Cultura é uma ocupação de nós mesmos, é quando a gente lembra o nosso sentido de pertencimento. Por isso, sempre fui uma 'artivista”. Nosso canto é a nossa dignidade mantida", afirma ainda a artista.

Ver o original em 'Brasil24/7' na seguinte ligação:

https://www.brasil247.com/cultura/daniela-mercury-protesta-contra-a-estupidez-bolsonarista

Arqueólogos ficam 'aterrorizados' com nova descoberta no Egito (FOTOS)

Djoser (ou Geser), uma pirâmide de degraus na necrópole de Sacará, cerca de 35 quilômetros a sul da capital do Egito, Cairo
© AFP 2019 / Mohamed el-Shahed

Os arquitetos que projetaram a pirâmide de Meidum abandonaram a estrutura antiga em forma de degraus e usaram um conceito revolucionário que tornou suaves os lados da pirâmide, conseguindo assim uma construção perfeita.

Arqueólogos envolvidos no estudo da pirâmide de Meidum revelaram em um documentário intitulado "Secrets of Archaeology" (Segredos da Arqueologia) ter ficado muito assustados ao descobrirem estátuas do faraó Rahotep e de sua esposa. Os pesquisadores disseram que tiveram medo porque as estátuas tinham expressões faciais intensas e muito "realistas".

 

Os olhos assombrosamente realistas deste Escriba Sentado de 4.500 anos são feitos de magnesite branca (até se veem pequenas veias vermelhas!) e pupilas de cristal de rocha (Necrópole de Sacará, Louvre)

A história da pirâmide de Meidum não é menos bizarra. Pensa-se que tenha sido construída para o faraó Sneferu, o fundador da Quarta Dinastia, que foi estabelecida em 2613 a.C., sendo a primeira pirâmide egípcia de lados retos, segundo relata o portal Express.

 

Aqui está outro; a esposa de Rahotep com olhos de ametista. Ela me faz lembrar a Elizabeth Taylor.

Foi originalmente concebida como uma pirâmide de degraus, como a construída para o faraó Djoser. A pirâmide de Djoser foi a primeira construção de pedra de grandes dimensões no Egito.

 

Antigo Egito: complexo de degraus da pirâmide de Djoser

O complexo de pirâmides de degraus de Djoser marca uma grande evolução nas técnicas de construção egípcias antigas. A melhoria dos materiais e a habilidade arquitetônica é muitas vezes atribuída ao seu arquiteto, Imhotep.

Arquitetos posteriores abandonaram esta abordagem e escolheram um conceito revolucionário que tornou as linhas da estrutura "suaves e inclinadas". No entanto, aparentemente cometeram um erro de cálculo, e a estrutura entrou em colapso. "As bases das quatro paredes externas de suporte caíram, e os blocos de calcário escorregaram para baixo, revelando a parte interna que vemos hoje", revelou o documentário.

Depois que a pirâmide entrou em colapso, o faraó Sneferu mandou construir outra.

Pirâmide Curvada do rei Sneferu, o primeiro faraó da 4ª dinastia do Egito, na antiga necrópole real de Dachur, na margem oeste do rio Nilo, ao sul do Cairo. A forma da pirâmide foi uma nova tentativa de construção, depois que ela entrou em colapso
© AFP 2019 / Mohamed el-Shahedv
Pirâmide Curvada do rei Sneferu, o primeiro faraó da 4ª dinastia do Egito, na antiga necrópole real de Dachur, na margem oeste do rio Nilo, ao sul do Cairo. A forma da pirâmide foi uma nova tentativa de construção, depois que ela entrou em colapso

Ela também tinha um desenho incomum, pois sua seção superior foi construída em um ângulo menor, 43 graus, em vez de 54, o que veio a dar o nome à estrutura, a Pirâmide Curvada. Foi a coisa mais alta durante 5 anos.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/ciencia_tecnologia/2019122614937098-arqueologos-ficam-aterrorizados-com-nova-descoberta-no-egito-fotos/

A Revolução Cubana vista em O Irlandês

 
 
De passagem, filme de Martin Scorsese aborda estratégia da máfia, ao apoiar invasão na Baía dos Porcos. Para recuperar seus lucrativos cassinos e prostíbulos, criminosos e governo Kennedy armaram anticastristas. Fracasso foi retumbante
 
Gustavo Barbosa | Outras Palavras
 
O fim do ano chegou com uma estreia de peso na Netflix: O Irlandês, megaprodução que subverteu a lógica dos lançamentos comerciais ao estrear em uma plataforma de streaming ao invés das salas de cinema.
 
Dirigido por Martin Scorsese, o filme, que tem Robert De Niro, Joe Pesci e Al Pacino em seu elenco, conta a história de um motorista de caminhão que se envolve com a máfia. Durante suas três horas e meia, Frank Sheeran, o irlandês do título interpretado por De Niro, vive os dramas de quem não consegue se ver além de uma mera bucha de canhão do gangsterismo norte-americano da segunda metade do século passado.
 
O filme é excelente. Este artigo, porém, pretende abordar não o núcleo da trama, mas um de seus apêndices: as cenas que mostram a revolta da máfia com a Revolução Cubana por ter sido enxotada de Havana junto com seus cassinos (convém lembrar que a relação entre a máfia e a ilha caribenha dos tempos de Fulgêncio Batista foi mostrada também em O Poderoso Chefão).
 
Sem rodeios, uma de suas passagens mostra como a máfia contribuiu com apoio logístico e armamento pesado para a invasão da Baía dos Porcos, em 1961, ocasião em que a própria população cubana pegou em armas e pôs os invasores para correr. O episódio foi responsável por alavancar a fama e o prestígio internacional da revolução liderada pelos irmãos Castro e por Ernesto Che Guevara.
 
 
Mas do que se tratou tal invasão?
 
Em 17 de março de 1960, Dwight Eisenhower, então presidente dos EUA, ordenou a criação de um exército de cubanos exilados. A partir daí, deu-se início ao treinamento que culminou no primeiro confronto direto entre os dois países após 1959.
 
Com barcos, armas e equipamentos de comunicação fornecidos pela CIA, a invasão foi liderada por Howard Hunt, veterano que participou do golpe na Guatemala que derrubou o presidente Jacobo Arbénz, em 1954. O desembarque ocorreu em uma praia pantanosa conhecida como Playa Girón. Mesmo com uma formidável rede de espiões e com armamento de ponta, em menos de três dias a invasão foi derrotada.
 
Uma cena do filme traz um noticiário televisivo abordando o assunto. O apresentador informa como Fidel Castro humilhou os EUA – a conclusão é do próprio âncora -, que ainda teve que lidar com críticas da comunidade internacional por ter enviado grupos paramilitares armados à ilha. Russell Bufalino, mafioso interpretado por Joe Pesci, não esconde sua frustração ao perceber que nada adiantou dar bazucas às milícias anticastristas.
 
Bufalino é quem organiza o engajamento da máfia na campanha presidencial de John Kennedy, chegando a fraudar votos em troca da retomada de seus negócios na ilha “para nosso pessoal recuperar cassinos, autódromos, barcos de camarão e tudo o mais que tinham em Havana”, explica Sheeran enquanto expõe as verdadeiras razões do entusiasmo de seu chefe. Foi sob a gestão de Kennedy que a invasão ocorreu.
 
Bufalino sonhava com o retorno à época em que Cuba era um grande prostíbulo a serviço dos EUA. Um escoadouro do dinheiro sujo da máfia. Para isso, contou com o compromisso de Kennedy, que até a batalha de Playa Girón procurou esconder as intenções de um confronto bélico com Fidel Castro. Em sua primeira tentativa, no entanto, percebeu a dificuldade que seu país teria em fazer a recém-criada pátria cubana voltar a ser colônia.
 
Mas isso é só uma nota de rodapé. Alguns poucos minutos no latifúndio de tempo que é a obra de Scorsese – mas também um bom motivo para assistir a ela.
 
Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OUTROS QUINHENTOS

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/12/a-revolucao-cubana-vista-em-o-irlandes.html

O Irlandês, de Martin Scorsese

O fim do ano chegou com uma estreia de peso na Netflix: O Irlandês, megaprodução que subverteu a lógica dos lançamentos comerciais ao estrear em uma plataforma de streaming ao invés das salas de cinema.

 

 

De passagem, filme de Martin Scorsese aborda estratégia da máfia, ao apoiar invasão na Baía dos Porcos. Para recuperar seus lucrativos casinos e prostíbulos, criminosos e governo Kennedy armaram anticastristas. Mas o fracasso foi retumbante.

 

O Irlandês

Dirigido por Martin Scorsese, o filme, que tem Robert De Niro, Joe Pesci e Al Pacino em seu elenco, conta a história de um motorista de caminhão que se envolve com a máfia. Durante suas três horas e meia, Frank Sheeran, o irlandês do título interpretado por De Niro, vive os dramas de quem não consegue se ver além de uma mera bucha de canhão do gangsterismo norte-americano da segunda metade do século passado.

O filme é excelente. Este artigo, porém, pretende abordar não o núcleo da trama, mas um de seus apêndices: as cenas que mostram a revolta da máfia com a Revolução Cubana por ter sido enxotada de Havana junto com seus casinos (convém lembrar que a relação entre a máfia e a ilha caribenha dos tempos de Fulgêncio Batista foi mostrada também em O Poderoso Chefão).

Sem rodeios, uma de suas passagens mostra como a máfia contribuiu com apoio logístico e armamento pesado para a invasão da Baía dos Porcos, em 1961, ocasião em que a própria população cubana pegou em armas e pôs os invasores para correr. O episódio foi responsável por alavancar a fama e o prestígio internacional da revolução liderada pelos irmãos Castro e por Ernesto Che Guevara.

Mas do que se tratou tal invasão?

Em 17 de março de 1960, Dwight Eisenhower, então presidente dos EUA, ordenou a criação de um exército de cubanos exilados. A partir daí, deu-se início ao treinamento que culminou no primeiro confronto direto entre os dois países após 1959.

Com barcos, armas e equipamentos de comunicação fornecidos pela CIA, a invasão foi liderada por Howard Hunt, veterano que participou do golpe na Guatemala que derrubou o presidente Jacobo Arbénz, em 1954. O desembarque ocorreu em uma praia pantanosa conhecida como Playa Girón. Mesmo com uma formidável rede de espiões e com armamento de ponta, em menos de três dias a invasão foi derrotada.

Uma cena do filme traz um noticiário televisivo abordando o assunto. O apresentador informa como Fidel Castro humilhou os EUA – a conclusão é do próprio âncora –, que ainda teve que lidar com críticas da comunidade internacional por ter enviado grupos paramilitares armados à ilha. Russell Bufalino, mafioso interpretado por Joe Pesci, não esconde sua frustração ao perceber que nada adiantou dar bazucas às milícias anticastristas.

Bufalino é quem organiza o engajamento da máfia na campanha presidencial de John Kennedy, chegando a fraudar votos em troca da retomada de seus negócios na ilha “para nosso pessoal recuperar casinos, autódromos, barcos de camarão e tudo o mais que tinham em Havana”, explica Sheeran enquanto expõe as verdadeiras razões do entusiasmo de seu chefe. Foi sob a gestão de Kennedy que a invasão ocorreu.

Bufalino sonhava com o retorno à época em que Cuba era um grande prostíbulo a serviço dos EUA. Um escoadouro do dinheiro sujo da máfia. Para isso, contou com o compromisso de Kennedy, que até a batalha de Playa Girón procurou esconder as intenções de um confronto bélico com Fidel Castro. Em sua primeira tentativa, no entanto, percebeu a dificuldade que seu país teria em fazer a recém-criada pátria cubana voltar a ser colónia.

Mas isso é só uma nota de rodapé. Alguns poucos minutos no latifúndio de tempo que é a obra de Scorsese – mas também um bom motivo para assistir a ela.


por Gustavo Barbosa | Texto original em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado

Publicado originalmente no Outras Palavras

 
 
 
 
 
 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/o-irlandes-de-martin-scorsese/

A literatura ou a vida

(António Guerreiro, in Público, 20/12/2019)

António Guerreiro

 

 

Num texto sobre a lista de livros do ano que escrevi para esta edição do Ípsilon, falo da existência quase clandestina de alguns livros, por determinações das regras do mercado e das contingências da recepção crítica. Mas falo também de uma clandestinidade auto-infligida (algo que se passa quase exclusivamente no campo da poesia), que foi praticada, por exemplo, durante alguns anos, por Joaquim Manuel Magalhães.

Podemos entrever nalguns gestos deste tipo um desencantamento com aquilo a que chamamos “a vida literária”; mas pode ser também, noutros casos, um jogo com a coisa literária, com os leitores e o “meio”, ou uma reivindicação exacerbada da autonomia da obra. O “caso” que me suscitou algumas considerações foi o de Jorge Gomes Miranda, sobre o qual já me tinha muitas vezes perguntado: “O que é feito deste poeta, que deixou de publicar?” (pergunta que faço também relativamente a outro poeta: “O que é feito de Paulo Teixeira?”). Evidentemente, esta pergunta supõe um hábito muito do nosso tempo, toma como modelo o escritor que publica todos, ou quase todos os anos, acompanhando a aceleração do nosso tempo. Ficar hoje meia dúzia de anos sem publicar, mesmo que já seja autor de uma obra volumosa, é ficar condenado ao desaparecimento público. Um escritor com a publicação escassa de um Flaubert é, no nosso tempo, uma singularidade que raramente ajuda o reconhecimento. É verdade que existem casos como os de Salinger, que com o seu romance, Catcher in the Rye, se tornou um escritor de culto e passou ele próprio à clandestinidade, como quem não quer ter nada a ver com a vida literária nem com a função-escritor, como um criador que se ausenta da sua criação. Porque é que nos fascinam estas figuras como Salinger ou como Maurice Blanchot? Este último neutralizou-se completamente na vida civil, depois do Maio de 68, em nome da literatura. É difícil imaginar outra actividade, artística ou não, em que a “impessoalidade” seja vista como a mais alta exigência, em que a obra, no fundo, aniquila o seu autor.

O escritor francês Romain Gary, que se suicidou em 1980 com 66 anos, publicou livros com diferentes pseudónimos, sem nunca revelar a identidade que lhes correspondia. Assim acabou por ser o único escritor da literatura francesa que conseguiu a proeza de ganhar dois prémios Goncourt: um, atribuído a um romance assinado pelo seu próprio nome, e outro por outro romance assinado por um tal Émile Ajar, que durante muitos anos não se soube quem era. Neste tipo de mistificações, Romain Gary não foi o único génio.

Em Itália, encontramos ainda na primeira metade do século XX um outro modelo de escritor: o escritor que nunca escreveu, mas que é considerado pelos outros um seu par e que alcança um prestígio e uma autoridade extraordinárias. É o caso de Roberto Bazlen, que nasceu em 1902 em Trieste e morreu em 1965 em Milão. Foi ele que serviu de matéria a um romance de Daniele del Giudice, O Estádio de Wimbledon, que saiu com um prefácio de Italo Calvino. Sobre Roberto Bazlen, ou Bobi Bazlen, como era mais conhecido, escreveu Roberto Calasso no prefácio ao livro onde foram reunidos postumamente os escritos de Bazlen (afinal, ele tinha escrito alguma coisa; e uma das coisas que escreveu intitula-se Notas sem Texto) : “Na antiga querele entre o homem do livro e o homem da vida, Bazlen representava o homem do livro que está todo na vida e o homem da vida que está todo no livro”. Estas palavras muito lúcidas ajudam-nos a perceber certas atitudes dos escritores que parecem não conformar-se às exigências e aos protocolos da sua arte:

Há uma antiga e inextinguível inimizade entre a literatura e a vida, e ora se dá a primazia a uma, ora se dá a primazia a outra, ora se sacrifica uma, ora se sacrifica a outra. Quando as duas vivem em perfeita harmonia e são feitas uma para a outra, devemos suspeitar que nem a vida nem a obra são muito interessantes.

Este conflito não tem fim, existe em todos os tempos, e não são as regras actuais da edição e de legitimação dos livros que alteram significativamente as coisas. E é em função dele que temos de compreender os gestos enfáticos ou discretos de quem passa ao silêncio ou ao quase-silêncio. 


Livro de Recitações

“Com medidas como esta, o PS faz um favor à extrema-direita”
Manuel Alegre, sobre a prevista subida do IVA das touradas para a taxa de 23%, in Expresso, 16/12/2019.

Faz parte do argumentário em curso, agora utilizado nas mais variadas circunstâncias: fazer algo que vai contra a vontade e as aspirações do adversário político, não um adversário político qualquer, mas aquele que é visto como um perigoso intruso no território democrático, é cooperar com ele. Assim, o feminismo pode tornar-se o maior cúmplice do machismo, tal como a homossexualidade pode tornar-se uma promotora da homofobia e o anti-racismo uma atitude que só desencadeia o racismo. Manuel Alegre acrescenta a esta longa lista de incitamentos à imobilidade para não acordar o inimigo uma adenda cómica: do seu ponto de vista, aumentar o IVA das touradas é contribuir para a emergência da extrema-direita. O que é que este raciocínio supõe? Que as touradas são um espectáculo que tem um lugar de pertença na extrema-direita (o que é manifestamente exagerado).

Sendo um público defensor das touradas, em que lugar se situa então Manuel Alegre? Resposta óbvia: no mesmo lugar onde se situa a sua poesia, num flirt amoroso com as ideologias que ele diz combater.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Novo álbum de Pedro Barroso celebra 50 anos de carreira

Novembroé o título escolhido da obra que é a «despedida das canções» do cantor, e que inclui a última gravação de Patxi Andión, Rumos.

Créditos / Pedro Barroso

O nome do álbum é «o mês de aniversário do Pedro» e foi neste período que «terminaram as gravações deste projecto», explicou à Lusa, Fernando Matias, da discográfica Ovação, que considera o cantor um «homem de música e palavras, que gravou mais de 30 discos, tendo actuado em todas as salas de espectáculo em Portugal».

Pedro Barroso classifica de «histórico» este álbum, e entende que «merece o colo cuidadoso de uma produção sofrida, cuidada e importante».

Este sábado, o cantor celebra o 50.º aniversário da sua carreira, no Teatro Virgínia, em Torres Novas. «A condição física, após mais um ano de tratamentos médicos, impede-me de tocar, e, mesmo na parte de canto, canso-me ao fim de minutos e, portanto... as coisas são como são», explica o músico.

A canção Rumos, da autoria de Patxi Andión – cantautor de renome falecido, esta quarta-feira, num acidente de viação em Espanha –, começa com os versos «Que lutas nos sobram, que ninhos/ Que gaivotas esvoaçam pelo mar?/ Que sustos, e dores e caminhos/ Que causas inda’ há para lutar?» e termina com a afirmação «Aqui vos deixo esse aviso/ Por tudo o que quis urgente/ Viver é sempre improviso/ Por isso mesmo é preciso/ Crescer nas bermas do vento».

O cantor diz que ter uma canção «cantada a meias com o Patxi Andión é obviamente uma valorização imensa e o tema é lindíssimo» e explica que «a escolha tímbrica e o simbolismo desta geração ibérica de cantores de luta e da sensibilidade diz tudo. Ambos nos estreámos no [programa televisivo] Zip Zip, em 1969».

Com agência Lusa

 

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/cultura/novo-album-de-pedro-barroso-celebra-50-anos-de-carreira

Deixou-nos

CARTA DE BRAGA – “do rigor nas palavras e na linguagem” por António Oliveira

 

As línguas não fizeram mal a ninguém. Quem fez o mal foram os animais que têm atrás!

Esta frase, esta dureza crua e límpida, pertence a Joan Margarit, o poeta laureado em 2019 com o Prémio Cervantes e o Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-americana, proferida há pouco tempo numa entrevista à comunicação social de todo o mundo.

Frase explicada por si mesma, agora mais do que nunca, pois ‘as pessoas têm de saber que a cultura é uma coisa que toda a gente tem, e o povo que ainda não foi dissolvido pela sociedade moderna de consumo, tem a sua cultura própria mesmo que seja analfabeto e, às vezes, essa cultura pode ser mais profunda e mais inteligente do que a das pessoas que vão «pregar» para ele’.

Uma afirmação já com quarenta e dois anos (1977) e pertence a Jorge de Sena, outro poeta maior, obrigado a sair do país por causa dos ‘animais que havia então atrás da língua’.

Agora e não só, pelas eventuais pressões de toda a qualidade sobre quem as pronuncia, temos as que são exercidas sobre quem as pensa ou escreve, até pela abundância de lixo nos canais de tv, mais os ‘emojis’, sons substitutivos, siglas e sinais, todos já com uso normal, para maximizar a simplificação da linguagem.

E não aponto apenas aos usuários constantes das teclas dos telemóveis, praticantes do seu lento descaminho, mas também por estarem a acabar com a musicalidade própria das palavras, aquele som que permite reconhecer, pessoas, origens, tempos e lugares.

Aí se situam os poetas, os escritores, os artistas da fala e da representação, os políticos (os que ainda se atrevem e usam ver o mundo e a vida mais de perto) mas, acima de tudo, os professores.

Aliás no ‘Emílio’, Jean Jacques Rousseau afirma ‘A educação vem da natureza, do homem ou das coisas. O desenvolvimento interno das nossas faculdades e órgãos é a educação da natureza; o uso que nos ensinam a fazer desse desenvolvimento é a educação do homem; e o ganho da nossa própria experiência sobre os objectos que nos afectam é a educação das coisas’.

Não consigo pensar assim, se me confrontar, em qualquer conversação, com as palavras maiormente substituídas por eufemismos, onomatopeias ou ‘caretazinhas’ de nome japonês!

A educação, a ver pelo que se vai praticando agora, não parece ser mais do que um instrumento de domínio, por estar sempre acompanhada da simulação mediática, favorecida por algoritmos e pelas poderosas redes sociais, alertando-nos para uma outra realidade que nem vivemos, abrindo espaço para legislações bem longe dos nossos interesses, onde não será difícil lobrigar coacções e demais repressões, apesar de nelas todas até poderem não estar expressas.

Por isso, usar de rigor na linguagem oral e escrita é essencial para todos, (por isso o deixo aqui em castelhano) pois ‘Hasta Dios nos necessita, a cada una de sus criaturas y sus singulares puntos de vista, para tener experiencia de la vida, o sea, del tiempo encarnado’, referiu Ortega y Gasset em ‘El tema de nuestro tiempo’.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2019/12/18/carta-de-braga-do-rigor-nas-palavras-e-na-linguagem-por-antonio-oliveira/

Patxi Andión (1947-2019)

“Para um criador que tem uma preocupação social como eu, é hoje mais complicado. Quando comecei a fazer canções o mundo era muito mais simples, mais esquemático. Mas agora, na aparente riqueza da sociedade de consumo, onde temos mais coisas mas sobretudo coisas materiais, coisas com um valor limitado, temos menos tempo e menos liberdade. Pagamos caro, para ter esses bens materiais. Por isso há hoje menos gente com preocupações sociais.”

E já agora, revisite-se El Maestro, a comovente homenagem do grande cantautor a todos os professores…

Patxi Andión

 

“A primeira vez que vim a Portugal foi para fazer a primeira parte de um espetáculo de Manolo Díaz. Ele foi expulso antes do concerto e a mim deram-me 12 horas para deixar o país. Na segunda vez que vim foi para cantar no programa Zip Zip. Quando saí do canal a PIDE estava à minha espera. Meteram-me num carro tal como eu estava vestido, sem documentação e deixaram-me na fronteira de Badajoz. Dessa vez eu tive mesmo muito medo. Foi uma viagem feita de noite e todas as vezes que eles paravam, eu pensava que iam dar-me um tiro.” – Patxi Andión

Morreu hoje um dos maiores cantautores que conheci. Jamais esquecerei o concerto no Coliseu, em Março de 1973.

Via: O Cheiro da Ilha http://bit.ly/2r9TYVg

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2019/12/18/patxi-andion/

Publicação do manuscrito original mostra que Peter Pan tinha um “lado negro”

Conhecemos o Peter Pan como o rapaz que nunca cresceu e que convenceu várias gerações de crianças que “os sonhos realizam-se, se os desejarmos o suficiente”. Mas agora o lado negro foi revelado.

 

Na semana passada, o manuscrito original de James Mathew Barrie foi publicado. E, de acordo com o jornal britânico The Guardian, a versão inédita da história – com a própria letra de Barrie – mostra as modificações que o escritor fez no seu manuscrito enquanto escreviam num texto em que o romancista “não tinha medo de ir a lugares escuros”. Também tentou mostrar que as crianças podem ser ferozes ”, contou a sua editora, Jessica Nelson.

A nova edição, segundo o The Guardian, demonstra que Barrie atenua o personagem de Peter Pan para se adequar ao público em 1911. Assim, podemos observar como o escritor suaviza o personagem de Peter Pan, por exemplo, quando elimina a parte em que fala “desafiador” com Wendy e tenta ser “mais desdenhoso do que nunca”, uma “menino elfo” que também foi eliminada pelo romancista.

A editora disse ao jornal que a versão desta edição do personagem tinha uma personalidade diferente da figura mais heróica e familiar do Peter Pan que conhecemos.

 
 

SP Books

 

Para Jessica Nelson, esta versão lembra o Frankenstein, de Mary Shelley: “A criatura no manuscrito era mais escura, com menos qualidades humanas”. Também o pequeno Peter é mais “egoísta” em comparação com a versão final publicada. A editora “diria que é mau”.

A versão original do manuscrito original de Barrie está guardada na coleção da Biblioteca Pública de Nova Iorque. A nova edição do trabalho de Barrie oferece um vislumbre do seu processo criativo e oferece aos interessados a forma como as histórias evoluem ao longo do tempo.

A SP Books imprimiu apenas mil cópias numeradas à mão do manuscrito de 282 páginas. Cada um custa quase 170 euros. Parte dos lucros das vendas irá para o Hospital Great Ormond Street, que ainda detém os direitos autorais que Barrie lhe concedeu antes de morrer.

ZAP //

 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/publicacao-do-manuscrito-original-mostra-que-peter-pan-tinha-um-lado-negro-d-297795

Reviver Cascais dos anos 60 com agente secreto em perseguição a chefe do crime

16 DEZEMBRO 2019
ABaía de Cascais, ainda com os barcos de pescadores no areal, a praça de táxi junto ao hotel, o palácio Condes de Guimarães, a Casa de Santa Maria e a enseada da praia de Santa Marta, foram os principais locais onde em 1967 foi rodado o filme de ação de David Miller “Cabeça de Martelo”, atualmente em exibição no canal AXN Black.
 
Hammerhead, em inglês, colocado então no mercado em 1968, conta as aventuras do agente norte-americano Charles Hodd, que é enviado pelos serviços secretos britânicos a Cascais para travar os planos do maléfico chefe do crime internacional “Cabeça de Martelo”, que planeia roubar um relatório sobre um sistema de defesa nuclear antes de ser apresentado numa conferência da Otan, em Lisboa.
 
Cena de perseguição no então palácio Condes de Guimarães
Baseado no romance de James Mayo e escrito por Herbert Baker, que fez os filmes de Matt Helm para a Columbia Pictures, “Cabeça de Martelo” foi rodado em 90% das cenas na Cascais que vale agora a pena rever no AXN Black, sobretudo para os mais saudosistas, quer da Cascais de outros tempos, quer para os cinéfilos amantes de filmes de ação e suspense. O agente secreto Charles Hood chega a Lisboa, fazendo-se passar por mensageiro de uma valiosa coleção de artigos eróticos. No antigo Cais das Colunas, em Lisboa, embarca até ao iate de Hammerhead, que é coleccionador daquele tipo de artigos, então estacionado ao largo do rio Tejo, tendo como pano de fundo a Ponte Salazar.
 
Agente contrata serviço de taxista junto ao hotel Baía
Depois de algumas peripécias a bordo, o agente secreto consegue escapulir-se, usando uma pequena embarcação com motor e ruma em direção à Baía de Cascais, à então praia dos Pescadores. Aqui deixa o barco e corre pelo areal, por entre as chatas, até junto ao hotel Baía, onde contrata os serviços de um taxista, que o conduz à fortificação do Guincho.
 
Festival psicadélico na praia de Santa Marta
É, principalmente na Cascais dos anos 60 que decorre toda a grande ação, não faltando, sequer, um festival psicadélico na praia de Santa Marta.
 
É aqui que termina - com a morte do mau da fita e o agente Charles Hood a abandonar o mar de Cascais, com todo o seu esplendor, a bordo de um iate e em agradável companhia feminina - todo o trama de “Cabeça de Martelo”, protagonizado por Vince Edwards, Peter Vaughan, Judy Geeson e Diana Dors.
"Cabeça de Martelo" em fuga pela Casa de Santa Maria antes da sua "morte"

 

Ver o original em "CASCAIS24" na seguinte ligação::

https://www.cascais24.pt/p/blog-page_547.html

Encontro imaginário com Sophia de Mello Breyner Andresen e Jorge Cândido de Sena, com moderação de Hélder Costa

Amanhã, em novo Encontro Imaginário, no Teatro A Barraca, em Lisboa, estarão em debate novas personagens marcantes da História Universal.

 

 

Com participação da sociedade civil

Fique a conhecer melhor as personagens: Sophia de Mello Breyner Andresen interpretado pela da actriz e encenadora Maria do Céu Guerra, Jorge Cândido de Sena pelo do actor e professor José Manuel Mendes com moderação de Hélder Costa.

Saiba quem são:

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

Porto, 6 de Novembro de 1919 — Lisboa, 2 de Julho de 2004

Foi uma das mais importantes poetisas portuguesas do século XX.~Foi a primeira mulher portuguesa a receber o mais importante galardão literário da língua portuguesa, o Prémio Camões, em 1999.

Ficou célebre como canção de intervenção dos Católicos Progressistas a sua “Cantata da Paz”, também conhecida e chamada pelo seu refrão: “Vemos, Ouvimos e Lemos. Não podemos ignorar!”

Já depois da Revolução de 25 de Abril, foi eleita para a Assembleia Constituinte, em 1975, pelo círculo do Porto numa lista do Partido Socialista.

O seu corpo está no Panteão Nacional desde 2014 e tem uma biblioteca com o seu nome em Loulé.

Interpretação da actriz e encenadora Maria do Céu Guerra.

Jorge Cândido de Sena

Lisboa, 2 de Novembro de 1919 — Santa Barbara, Califórnia, 4 de Junho de 1978

Foi poeta, crítico, ensaísta, ficcionista, dramaturgo, tradutor e professor universitário português.

Depois da sua participação numa tentativa revolucionária abortada em 12 de Março de 1959, viajou até ao Brasil, convidado pela Universidade da Bahia e pelo Governo Brasileiro a participar no IV Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros, iniciando assim o seu longo exílio, que continuou nos Estados Unidos depois do golpe militar fascista de 1964 no Brasil.

Quando se deu o 25 de Abril Jorge de Sena ficou entusiasmado e queria regressar definitivamente a Portugal, ansioso de dar a sua colaboração para a construção da democracia. Sem convites institucionais, e sem o respeito intelectual que merecia, continuou a viver nos Estados Unidos, onde tinha a sua carreira estabelecida.

Interpretação do actor e professor José Manuel Mendes.

Hélder Costa

Estudos de Direito em Lisboa e Coimbra. Participou no CITAC (Coimbra), e foi presidente do Cénico de Direito (duas menções honrosas no Festival Mundial de Teatro Universitário de Nancy – 1966/67). Licenciatura da Faculdade de Letras/ Institut d’Études Théatrales – Sorbonne, Paris.

Fundador do Teatro Operário de Paris (1970). Director e encenador do grupo de teatro A BARRACA ( Lisboa, PORTUGAL), dirigiu vários espectáculos em Espanha, Brasil, Dinamarca e Moçambique.

2011 – criador de “ Encontros Imaginários”, espectáculos que ficcionam encontros e tertúlias com personalidades da História Universal.

Medalha de Honra da Sociedade Portuguesa de Autores 2011

Moderador.

 

Encontros imaginários 2019

16 de Dezembro

21h30

 

213 965 360 | 913 341 683

 

Largo de Santos, 2
1200 – 808 Lisboa

Website do Teatro A Barraca


 
 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/encontro-imaginario-com-sophia-de-mello-breyner-andresen-e-jorge-candido-de-sena-com-moderacao-de-helder-costa/

Leituras: Revista Manifesto (nº 4)

Chega amanhã às livrarias e quiosques o quarto número (IIª série) da Manifesto. Pensado com as legislativas no horizonte, e antevendo um cenário de reforço da maioria de esquerda, esta edição dedica o seu dossier à questão do Estado, discutindo a natureza diferenciadora da sua ação e advogando, através das análises que constituem esta secção, um aprofundamento do seu papel e a importância de assegurar, no decurso da próxima legislatura, políticas públicas robustas e relevantes para o desenvolvimento do país.
 
Para além da entrevista a José Pacheco Pereira, destaque para a análise política das eleições legislativas (artigos de Daniel Oliveira e Manuel Loff), o texto de Matthew Richmond sobre os resultados das eleições na Argentina e o significado que podem assumir para a situação política no Brasil, ou o Ensaio de Diogo Martins sobre os mitos do discurso neoliberal.
 
No Contraditório esgrimem-se argumentos a favor e contra a inclusão de um critério étnico nos Censos de 2021 (Marta Araújo e Rui Pena Pires) e na secção Memória presta-se homenagem a Ruben de Carvalho (João Fernandes) e a António Hespanha, com a republicação do seu texto «O meu trabalho é a política» e os artigos de André Belo e Cristina Nogueira da Silva. Nas Estórias, um poema de Ana Luísa Guimarães e uma reflexão de Manuela Barreto Nunes e Maria José Vitorino sobre bibliotecas e democracia. Os cartoons de Cristina Sampaio e Luís Afonso ilustram este número, que integra ainda um portfólio da autoria de Egídio Santos.
 
A primeira sessão de apresentação da revista realiza-se na próxima quarta-feira, dia 18, a partir das 18h00, na Livraria Ferin (Rua Nova do Almada, 72), em Lisboa, contando com a presença de Isabel do Carmo e Nuno Teles.
 
 

(Para além das livrarias e quiosques, a revista pode igualmente ser adquirida na página da Fórum Manifesto).

Lista de Artigos:

ALEXANDRA LEITÃO, A Educação enquanto direito fundamental e obrigação de serviço público .... ANA LUÍSA AMARAL, Prece no Mediterrâneo .... ANDRÉ BELO, Por terras do Hespanha .... ANTÓNIO FILIPE, O Estado e a Constituição .... ANTÓNIO HESPANHA, O meu trabalho é a política .... Recordando ANTÓNIO MATOS GOMES .... CÉSAR MADUREIRA, Administração Pública e Recursos Humanos .... CRISTINA NOGUEIRA DA SILVA, Estado e antiestadualismo em António Hespanha .... DANIEL OLIVEIRA, Para além do fim da geringonça .... DIOGO MARTINS, Os mitos do discurso neoliberal .... EGÍDIO SANTOS, Portefólio .... FREDERICO PINHEIRO, O Estado sem asas: um balanço da política de privatizações .... JOÃO FERNANDES, Ruben de Carvalho: testemunho a juntar a muitos... .... JOÃO FERRÃO, Estado e administração do território: desembaraçar o novelo racionalista a favor de uma agenda transformadora .... JOSÉ PACHECO PEREIRA (entrevista, por Ana Drago e Nuno Serra) .... JOSÉ REIS, Estado e economia num país vulnerável: como reconstituir o que ficou mais frágil? .... LUÍS FERNANDES, Sobre essa entidade a que chamamos «classes médias» .... LUÍSA SCHMIDT, Políticas ambientais .... MANUEL LOFF, De volta a (um certo) passado .... MANUELA BARRETO NUNES e MARIA JOSÉ VITORINO, Acesso a todos: algumas notas sobre bibliotecas e democracia .... MARTA ARAÚJO, Censos 2021 – «Raça», enterrada viva .... MARTA TEMIDO, O Estado entre o público e o privado na Saúde .... MATTHEW AARON RICHMOND, A opção argentina: o que a esquerda brasileira pode aprender com os seus vizinhos .... NUNO RAMOS DE ALMEIDA, A invisível luta de classes .... RICARDO PAES MAMEDE, O Estado para além das falhas de mercado .... RODRIGO TRANCOSO, As eleições na Madeira e a questão da autonomia .... RUI PENA PIRES, Racismo e estatísticas: nem toda a informação é virtuosa .... TERESA BARATA SALGUEIRO, Mobilidades e transformação urbana. Processos e políticas .... Ilustrações de CRISTINA SAMPAIO e LUÍS AFONSO

 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Publicações mais recentes

Últimos posts (Cascais)

Itens com Pin
Atividades Recentes
Aqui ainda não existem atividades

Últimos posts (País e Mundo)

Itens com Pin
Atividades Recentes