Cultura

Seremos capazes de viver sem cultura?

Alexandra Vieira* - 01/07/2020
 

A produção e fruição da cultura como condição humana remonta aos primórdios da civilização. Resultou sempre de um determinado nível de desenvolvimento, supridas as necessidades básicas como a alimentação, abrigo e defesa, a possibilidade de, numa sociedade, um conjunto dos seus membros poder dedicar-se à produção de arte e de bens culturais. Resulta de uma abundância que permite que nem todos os membros se dediquem à produção de alimentos ou à defesa da comunidade. O que se produz já é suficiente para que outros se dediquem a outras atividades.

A arte e a cultura ocorrem em homenagem às dádivas da Mãe-Natureza, que presenteia as comunidades humana com alimentação abundante; em honra das entidades divinas, que assim favoreceriam as colheitas. Ocorrem também como expressão de poder, como homenagem aos mortos e como divertimento de multidões. As manifestações artísticas são também como formas de interpretar o mundo e de tornar visíveis outras maneiras de pensar, e são essenciais na construção de identidade individual e coletiva e no sentido de pertença.

Podem ser olhadas sob esta perspetiva as pinturas de Lascaux e de Altamira, as gravuras do Vale do Côa, a cultura megalítica, entre outros exemplos, para situar a atividade cultural como muito anterior à própria invenção da escrita.

Duas ideias emergem: uma que é a da resiliência artística, apesar da crise económica; a outra é da necessidade do usufruto da arte de cultura por parte das sociedades que acabam sempre por a procurar, mesmo nas alturas de sobrevivência mais difícil

Assim, a produção de bens artísticos resulta do facto de outros se dedicarem a outras atividades para que quem os produz, possa subsistir. É entendida como uma atividade, e excetuando momentos de servidão, de escravatura ou de mecenas, sejam elas príncipes ou reis, papas ou burgueses. Viver da arte é possível, embora esta esteja sempre sujeita a flutuações decorrentes do próprio dinamismo económico da comunidade.

Desde sempre, quando há dificuldades económicas, os primeiros reflexos fazem-se sentir na produção artística, sendo também a última a recuperar. Nesse sentido, duas ideias emergem: uma que é a da resiliência artística, apesar da crise económica; a outra é da necessidade do usufruto da arte de cultura por parte das sociedades que acabam sempre por a procurar, mesmo nas alturas de sobrevivência mais difícil.

As lógicas do apoio às artes, por sua vez, variam ao longo das épocas e dos regimes políticos. No caso de Portugal do pós-25 de Abril, o princípio, à medida que a normalidade democrática se instala, é a do subsídio, colocando sempre os agentes culturais numa longa fila de espera e de chapéu na mão, ou num burocrático processo concursal, ou na lógica da “perninha” na televisão ou na publicidade, ou no grau ou menor da popularidade de uma ator ou atriz ou grupo ou banda que, só por si, esgota bilheteiras. Em períodos mais neoliberais e de retrocesso do Estado social, a ideia de dependência do subsídio é fortemente criticada, colocando a produção artística ao nível da concorrência entre atividades industriais: dá lucro, sobrevive, não dá lucro, desaparece.

Afinal, a produção artística não terá mudado muito desde a Pré-História até aos dias de hoje: depende do bem‑estar económico e social de uma comunidade ou dos interesses políticos de um determinado regime, que torna viável que alguns dos seus membros, e respetivas famílias, daí retirem o seu sustento.

Nos últimos anos, e um pouco por todo o mundo dito civilizado, a produção artística e cultural tem dependido da sua capacidade de produzir valor para um mercado, na perspetiva de que tem de ser capaz de se autossustentar – afirma-se – , sendo por isso, frequentemente, acusada de ser subsídio-dependente, de modo linear, sem que haja a real compreensão dos contextos diversos da produção criativa, artística e cultural.

Ora, foi preciso uma pandemia como a causada pelo Covid 19 para se perceber e tornar evidente, sem margens para dúvidas, que, por um lado, as pessoas precisam de cultura para viver, sobretudo nas alturas em que a sua resiliência é posta à prova; por outro, a atividade cultural, na sua multiplicidade e diversidade ocupa largos milhares de pessoas e de famílias que dedicam a sua vida a tornar melhor a nossa existência, em múltiplas dimensões e formas de expressão artística.

O desconhecimento do como é composto o setor, no seu caráter caleidoscópio e de entrecruzamento com outras áreas de atividades, a noção de que há uma parte pública substancial na atividade cultural que tem de ser garantida, quer pela questão da preservação, registo e memória, que exige trabalho técnico especializado e espaços especialmente concebidos para o efeito, quer no financiamento de outras manifestações que só podem ser públicas, quer por serem projetos de vanguarda, quer por serem grandes estruturas, coloca o Estado como primeiro financiador, ou, melhor dizendo, primeiro investidor.

A pandemia tornou também visível que não é possível cumprir as obrigações do Estado com a cultura com orçamentos mínimos, quase residuais, ou assente no princípio da transversalidade, colocando a cultura submissa aos interesses do turismo, por exemplo

A consciencialização de que este setor ocupa milhares de trabalhadores, na sua maioria precários e a recibos verdes com “um único cliente”, intermitentes, sem direitos laborais. Outra mudança de perceção significativa é a de que a lógica concursal encerra perversidades e injustiças a grassar a irresponsabilidade pública e enferma sempre do mesmo mal: o subfinanciamento, o atraso crónico, o de colocar todo o tipo de estruturas no mesmo patamar, incluindo centros culturais municipais.

A pandemia tornou também visível que não é possível cumprir as obrigações do Estado com a cultura com orçamentos mínimos, quase residuais, ou assente no princípio da transversalidade, colocando a cultura submissa aos interesses do turismo, por exemplo. Convém lembrar que a atividade cultural também paga impostos e que as receita das bilheterias revertem 23%, só em IVA, e que emprega milhares de pessoas, que em situação laboral com direitos, estariam a fazer os seus descontos para a Segurança Social.

O próprio Estado não pode eximir-se da sua responsabilidade de apoio, financiamento, investimento na arte e na cultura, sobretudo das entidades independentes de criação e difusão artísticas, espalhadas pelo território, nas mais diversas áreas. É a Direção Geral das Artes o mecanismo principal público para assegurar o cumprimento do preceito inscrito na Constituição da República Portuguesa na qual a Cultura é um direito fundamental.

*Deputada do Bloco de Esquerda (BE), Portugal

Ver o original em 'Plataforma Media' na seguinte ligação:

https://www.plataformamedia.com/2020/07/01/seremos-capazes-de-viver-sem-cultura/

Viva Gilberto Gil

O gigante ao mesmo tempo tão imenso e tão gentil Gilberto Gil.

 

 

Tem uns discos que eu até evito um pouco ouvir toda hora porque são daqueles que ao mesmo tempo inspiram e intimidam, sabe? Você não sabe bem se dá vontade de tentar fazer igual ou de desistir logo porque não tem como.

O pior de todos é o Expresso 2222. Sério, vai ouvir aquele arranjo de O Canto da Ema e me fala se alguém fez coisa melhor de lá pra cá. Não tem. E esse disco tá pra fazer cinquenta anos. Aliás, só naquele mesmo ano mágico de 1972 tem mais uns quatro ou cinco discos, no mínimo, que são desses: numa tacada só te fazem músico e músico frustrado.

 

Porque fazendo música no Brasil você certamente está nos ombros de gigantes, mas ô dificuldade pra sair da sombra deles! Deve ser bem mais fácil ser compositor popular sei lá, na Lituânia. Mas deve ser menos divertido também. Afinal, até onde eu sei lá eles não têm um gigante ao mesmo tempo tão imenso e tão gentil quanto Gilberto Gil.

Àquela pergunta clássica, Chico ou Caetano, fui por muito tempo daqueles que respondiam Gil. Hoje respondo os três, e Tom Zé, e Jards, e Gal, e Milton, todos juntos, bem e vivos, sorte a nossa. Sorte a nossa ainda ter por aqui essa geração que às vezes a gente acha que “ah mas é muito romantizada e a gente precisa superar e não sei o que” mas aí você bota um Refazenda pra tocar e meu amigo, convenhamos, cá entre nós, tem motivo.

Viva a canção brasileira, essa imensa bruxaria, essa benção e maldição pra quem decide trilhar seus caminhos, e viva um de seus alquimistas maiores: Gilberto Gil!


por João Sampaio, Músico das bandas Amanticidas e Semiorquestra e fanático por futebol 365 dias por ano  |   Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado


 

 
 
 
 
 
 
 
 
 

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Ter fé na força de um povo que resiste como a água de um rio que corre

Impossível não pensar em prestar homenagem a Gilberto Gil pela passagem de seus 78 anos, nesta sexta-feira (26). Recebeu mensagens de felicitações de numerosos artistas em um vídeo que viralizou na internet.

 

 

E durante a noite, Gil celebrou com uma live de pouco mais de 1h30 cantando na maior parte músicas de forró. O aniversário foi dele, mas o presente foi de seus milhares de fãs.

Gilberto Gil

A música escolhida para homenageá-lo foi “Andar com Fé”, bem apropriada para o momento vivenciado no país em meio a uma crise sanitária sem precedentes aliada a uma crise política que não se sabe ainda onde vai dar. Por isso: “Andá com fé eu vou, que a fé não costuma faiá”.

Gil é um dos maiores nomes da música popular brasileira, foi o principal ministro da Cultura que o país teve, de 2003 a 2008. Por todo o seu trabalho, só é possível dizer muito obrigado Gilberto Gil pelo simples fato de existir e ser o que é. A vida seria mais difícil sem sua obra.

“Que a fé tá na mulher
A fé tá na cobra coral
Oh! Oh!
Num pedaço de pão

A fé tá na maré
Ta na lâmina de um punhal
Oh! Oh!
Na luz, na escuridão”

 

Andar com Fé (1982), de Gilberto Gil

 

 

 

Carlinhos Brown

Outro baiano grande personagem da cultura brasileira é Antônio Carlos Santos de Feitas, conhecido como Carlinhos Brown. O cantor e compositor se destaca como produtor, arranjador e agitador cultural.

Líder da timbalada, partiu para carreira solo e por vezes se junta com Marisa Monte e Arnaldo Antunes na formação dos tribalistas. O seu reconhecido talento levou uma repórter da TVE, da Bahia, a apresentar Chico Buarque como o “sogro de Carlinhos Brown”, numa semelhança ao que disse Sérgio Buarque de Holanda décadas passadas, que ele tinha virado o “pai do Chico Buarque”.

Na estrada há muitos anos, Brown tem composições de sucesso gravadas por ele ou por grandes intérpretes. Em “Segue o Seco” a sua veia poético-musical fala da vida que pode secar se não for regada o tempo todo.

“A boiada seca
Na enxurrada seca
A trovoada seca
Na enxada seca…

Sem sacar que algum espinho seco secará
E a água que sacar será um tiro seco
E secará o seu destino seca”

 

Segue o Seco (1994), de Carlinhos Brown

 

 

 

Mayra Andrade

Mayra Andrade nasceu em Havana, Cuba, mas se destaca como uma cantora e compositora caboverdiana por ter passado quase toda a sua vida no arquipélago africano que fala a língua portuguesa. Embora ela cante, quase sempre, em dialeto caboverdiano.

Participou de trabalhos com Cesária Évora, Chico Buarque, Caetano Veloso, Charles Aznavour, Mariza e Pedro Moutinho, entre outros grandes nomes da música. Atualmente vive em Lisboa, Portugal.

Cantada em dialeto, a canção Manga questiona o que cada um faz da sua vida e a influência do social na vida de todas as pessoas.

“Por que havemos de ser menos
Se podemos ser mais?
Tu podes comigo
Como eu posso contigo”

 

Manga (2018), de Mayra Andrade

 

 

 

Daniela Mercury

Mais uma presença baiana de destaque na música popular brasileira é Daniela Mercury. Cantora, compositora e bailarina assumidamente LGBT, Danieal transformou-se numa importante voz pela igualdade de direitos para essa parcela da população tão maltratada pelo preconceito e pela violência.

Com muitos anos de estrada, emplacou inúmeros sucessos e não há quem não conheça ao menos algumas suas músicas. “Música de Rua” é um desses grandes sucessos porque canta a alegria de uma “arte que arde” pela revolução.

“Essa alegria é minha fala
Que declara a revolução
Revolução
Dessa arte que arde
De um povo que invade
Essas ruas de clave e sol
E de multidão”

 

Música de Rua (1994), de Daniela Mercury e Pierre Onasis

 

 

 

Jorge Drexler

O cantor e compositor uruguaio, Jorge Drexler despontou para o mundo ao ser o primeiro artista em língua espanhola a ganhar, em 2005, o Oscar de Melhor Canção Original, com a bela “Al Otro Lado del Río”.

Em suas canções percebe-se influência da música popular brasileira, essencialmente bossa nova, mesclada com rock, gêneros de seu país e outros ritmos.

Sua canção “Tudo se Transforma” trata da presença do trabalho em tudo o que se faz, transformando a vida.

“O vinho que eu paguei
Com aquele euro italiano
Que estava em um vagão
Antes de estar na minha mão
E antes disso em Turim
E antes de Turim, em Prato
Onde fizeram meu sapato
Sobre o qual cairia o vinho”

 

Tudo se Transforma (2004) de Jorge Drexler

 

 

 

Nelson Sargento

Para encerrar em grande estilo (sem nenhuma pretensão) nada como chamar Nelson Mattos, com o nome artístico de Nelson Sargento, que em 25 de julho completa 96 anos, mais de 70 anos dedicados ao samba.

Além de compositor e cantor, Sargento é um importante pesquisador da música popular brasileira, artista plástico e escritor. Presidente de honra da sua escola do coração, a Mangueira, onde iniciou sua trajetória musical na ala dos compositores da escola de samba mais famosa do Brasil.

Melhor ouvir o “Samba do Operário” para compreender a força da música do sambista vivo mais idoso do país.

“Se o operário soubesse
Reconhecer o valor que tem seu dia
Por certo que valeria
Duas vezes mais o seu salário”

 

Samba do Operário (1955), de Nelson Sargento, Antônio Português e Cartola

 

Texto em português do Brasil


 

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

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Os 60 anos de «Primary»

Na véspera do arranque de mais uma campanha nos EUA, Primary desafia-nos para continuar a pensar, hoje, sobre os mecanismos de construção da celebridade pela televisão e pelo cinema.

Fotograma de «Primary» (1960), de Robert Drew (1924-2014), um marco na história do documentário e do chamado «cinema direto»Créditos / Letterboxd

Primary, realizado e produzido por Robert Drew, com a colaboração de D.A. Pennebaker, Richard Leacock e Albert Maysles, foi filmado há exatamente 60 anos. Um marco da história do documentário e do chamado «cinema direto», este filme acompanha uma votação no estado do Wisconsin para as primárias do Partido Democrata dos EUA. Os candidatos eram Hubert Humphrey e John F. Kennedy. O segundo ganharia a nomeação e depois a presidência.

O «cinema direto» distinguia-se por um estilo observacional, usando para esse fim novas câmaras e gravadores de som leves e portáteis e equipas técnicas pequenas, para tornar o ato de filmar o mais discreto possível. Era frequente a ausência de narração explicativa, de entrevistas ou de qualquer outra forma de interpelação pela câmara, assim como o uso exclusivo da iluminação disponível e a filmagem em exteriores. Interessando-se pelo que se passava nos «tempos mortos» e «atrás dos bastidores» dos grandes eventos e notícias, esta prática cinematográfica pretendia desmontar as representações sociais da realidade e a forma como as convenções televisivas construíam o mundo. Foi com este objetivo que Robert Drew, originalmente um fotojornalista da revista Life, recrutou vários realizadores que assinaram diversos filmes para as principais estações de televisão americanas, como por exemplo a série Living Camera para a ABC, entre 1961 e 1963, mas também para a Time, como foi o caso de Primary.

«O “cinema direto” distinguia-se por um estilo observacional, usando para esse fim novas câmaras e gravadores de som leves e portáteis e equipas técnicas pequenas, para tornar o ato de filmar o mais discreto possível»

Como muitos outros filmes desta tradição cinematográfica, Primary tem uma «estrutura de crise» que, neste caso, emerge da própria eleição, uma situação tensa com resultados imprevisíveis e o desfecho concentrado num período temporal curto. Filmado com acesso total aos candidatos e com várias equipas trabalhando em simultâneo, o filme constrói um «drama observacional» assente em dois pares de oposições: Humphrey e Kennedy, por um lado, claro, e o cinema e a televisão, por outro.

Estas oposições vão sendo criadas através da longa presença das equipas de filmagem junto dos candidatos, que muito frequentemente nos surgem como que insensibilizados à presença das câmaras durante os atos públicos, mas também os momentos privados. Primary regista tanto as ações de campanha como os trajetos entre elas, os bastidores ou as reuniões de preparação e estratégia, os momentos galvanizadores em comícios repletos de apoiantes e os tempos mortos das viagens ou da espera solitária dos resultados na noite eleitoral. A câmara é, com efeito, a «mosca na parede» da metáfora mais conhecida sobre o «cinema direto». Mas mais que revelações políticas explosivas, a câmara parece preocupada em oferecer-nos, isso sim, um acesso especial à intimidade dos candidatos, isto é, à pessoa por detrás da figura publica.

«Interessando-se pelo que se passava nos “tempos mortos” e “atrás dos bastidores” dos grandes eventos e notícias, esta prática cinematográfica pretendia desmontar as representações sociais da realidade e a forma como as convenções televisivas construíam o mundo»

Neste processo, o filme vai construindo uma diferença cada vez mais maior entre os dois homens. Humphrey é o político «tradicional» que vemos e, sobretudo, ouvimos falar, a explicar as suas ideias aos eleitores, acumulando comícios e reuniões, sobretudo nos meios rurais. Kennedy, por seu lado, é mostrado como uma celebridade, filmado sobretudo em grandes comícios nas cidades, muitas vezes em silêncio perante plateias de apoiantes em êxtase. No encontro com a comunidade católica-polaca de Milwaukee, a entrada em cena de Kennedy é duplamente programática. Em vez de filmar apenas o discurso do futuro presidente, Drew opta por montar, primeiro, vários planos mostrando o grande número de pessoas que esperavam no local, um salão de festas demasiado pequeno para tantos apoiantes. Em seguida, filma num plano-sequência único o longo percurso feito por Kennedy através do salão apinhado de gente até finalmente conseguir chegar ao palco. Ou seja, se a opção pelo plano-sequência prova como aquele comício foi concorrido, também demonstra a superioridade das técnicas cinematográficas do «cinema direto» para construir esse sentido de uma forma que a televisão não fazia habitualmente.

A sequência da presença de Humphrey num programa televisivo reforça esta ideia. Primeiro, Drew mostra-nos como o candidato se preocupa em encenar antecipadamente o «guião» daquele direto televisivo, combinando o que cada um diria, incluindo as piadas «espontâneas». Essa sequência é filmada com uma série de panorâmicas rápidas em que a câmara de Primary alterna entre Humphrey e os outros participantes já instalados no cenário e os bastidores do estúdio de televisão à sua frente. Mais uma vez, Drew recorre a técnicas emblemáticas do «cinema direto» como o som direto e os movimentos ágeis das câmaras de cinema carregadas ao ombro, para demonstrar a superioridade de “Primary” sobre a televisão e as suas câmaras de estúdio, fixas sobre os seus tripés pesados. O movimento de vaivém da câmara é, por isso, uma declaração da capacidade que o «cinema direto» tem de multiplicar pontos de vista, ao passo que as câmaras de televisão apenas parecem capazes de apontar numa direção e contar uma versão da história, ainda por cima encenada por Humphrey.

Apesar de todas as suas virtudes, Primary mostra-nos que o «cinema direto» não é sinónimo de ausência de um ponto de vista. Ao longo do tempo, o filme foi criticado por proporcionar apenas uma representação inócua dos assuntos e das pessoas filmadas — sem dúvida, o preço a pagar para poder continuar a filmar outros assuntos com «acesso total» —; ou ainda por construir uma clara preferência por Kennedy, o jovem candidato fotogénico, e, em suma, não fazer nenhum verdadeiro escrutínio daquelas eleições primárias. Já percebemos como a preferência por Kennedy era provavelmente tão política como cinematográfica no sentido em que este candidato se prestava com mais facilidade do que Humphrey a demonstrar a superioridade do «cinema direto» sobre o jornalismo televisivo tradicional. Seja como for, Primary desafia-nos para continuar a pensar, hoje, sobre os mecanismos de construção da celebridade pela televisão e pelo cinema, sobre as complexas relações entre política e mass media, ou ainda sobre a natureza das campanhas políticas como momentos em que estas relações se reforçam ou se reconfiguram, se revelam ou são profundamente camufladas. Serão certamente reflexões oportunas, 60 anos depois da estreia de Primary e na véspera do arranque de mais uma campanha política nos EUA.

O autor escreve ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1990 (AE90)

 

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/cultura/os-60-anos-de-primary

A cultura nos seus labirintos

A produção de produtos ditos culturais pelas indústrias culturais e criativas faz-se em linhas tayloristas que impõem um ritmo em que deixa de existir tempo para pensar a criação artística.

A crise provocada pelo coronavírus e o consequente confinamento social deu enorme visibilidade à crise da cultura, muito anterior mas agora catalisada pela pandemia, e à grave situação laboral da esmagadora maioria dos agentes culturais em que a precariedade da intermitência sem estatuto remuneratório é sistémica, agravada pela ausência de um sistema de segurança social e contributivo compatível com esse estatuto. Foi uma imagem brutal que marcou este interregno em que foram fechados todos os palcos, dos teatros às galerias de exposições, dos museus aos cinemas, etc., onde se exibiam os eventos selados como culturais. Por força da imagem simbólica da cultura, seja o que o que for que se acoberte sobre esse guarda-chuva adquiriu o desespero dos trabalhadores das áreas culturais, muitos deles reduzidos aos mínimos da sobrevivência, uma evidência superlativa em relação aos dos milhares de trabalhadores atirados para o desemprego efectivo ou relativizado pela lay-off, o que até deve fazer questionar o estatuto especial, a notoriedade e visibilidade mediática atribuída aos trabalhadores da cultura no contexto da crise e em relação à enorme mancha de precariedade que alastra no mundo do trabalho. Um tratamento diferenciado que explora a cultura enquanto chancela de diferenciações sociais e a má consciência desta sociedade em que a cultura é cada vez mais inculta, atirada para os circuitos do entretenimento para animar a malta, o que se intensificou com a pandemia em que os tempos vazios da vida em confinamento foram invadidos por uma oferta digitalizada com um volume insuspeitado, em que se despejaram em streaming conteúdos e formatos como se não houvesse amanhã. Uma hiper-oferta que se expandiu na nuvem internética em iniciativas solidárias merecedoras de aplauso mas que também devem ser interpeladas por, consciente ou inconscientemente, serem um sinal do expansionismo da mercantilização do sector cultural, submetido às práticas do capitalismo neoliberal em que a programação cultural é a dos supermercados da cultura, determinada pelo marketing e regida pela eficiência da gestão operacional.

São sucessos que merecem reflexão profunda que acabam por demonstrar que a exigência de 1% para a cultura, reivindicação de grande justeza para que o orçamento para a cultura no Orçamento de Estado (OE) deixe de ser uma sobra, o que resta no OE, não é por si só suficiente para a definição de políticas culturais num estado da arte em que o Estado progressivamente se tem demitido de as traçar por estar capturado pelas forças do mercado, submetido à lógica das indústrias culturais e criativas, em que a única hierarquia cultural, os únicos critérios de excelência são os do que é rentável e vendável, o norte dos gestores e produtores de eventos empenhados não na formação dos públicos mas na angariação de novos públicos, porque o que interessa são os números e não as pessoas, embora se apregoe o contrário, para plantar mais árvores na floresta de enganos em que a cultura se tornou, atacada por um vírus poderosamente invasivo que tudo contamina, esvaziando-a de conteúdo para a amortalhar numa gomosa nulidade.

Progressivamente, a partir de meados dos anos 60, esses agentes culturais passaram a ser os principais intermediários do sector cultural estando sempre entre duas actividades promocionais onde a arte é, sempre e só, mercadoria, e o público se alicia com mentiras ou melhor (pior) não verdades. A cultura que começou a estar, ainda que marginalmente, submetida às leis do mercado quando a burguesia adquiriu poder político, libertando-se das tutelas mecenáticas da nobreza e do clero, entrou, a partir desses anos, abertamente nos circuitos comerciais, tornando-se objecto de estudo para muitos economistas porque «as economias da arte constituem uma espécie de terreno de experimentação da pertinência dos conceitos económicos fundamentais»1. Uma perspectiva dominada pela importância económica da cultura, do seu valor económico, do dinheiro, muito dinheiro que pode gerar, em que se anula o seu valor de uso, enquanto factor de desenvolvimento intelectual da sociedade e dos indivíduos que a compõem, em favor do seu valor de troca enquanto mercadoria, em que os produtos e os serviços culturais são bens transaccionáveis nos mesmos termos que outros bens produzidos no sistema económico, sujeitando-se à racionalidade económica do capitalismo neoliberal.

No estado actual da cultura esse é o paradigma vigente em que uma suposta excepcionalidade da cultura desaguou num albergue espanhol em que são equivalentes uma ópera como Os Dias Levantados de Pinho Vargas, com libreto de Manuel Gusmão, ou o abre as perninhas para Deixar o Pimba em Paz de Bruno Nogueira e Manuela Azevedo, os romances de José Rodrigues dos Santos ou Margarida Pinto Coelho e os de Maria Velho da Costa ou Ana Margarida de Carvalho, os musicais de Filipe la Féria ou as peças de teatro dos Artistas Unidos ou do Teatro da Rainha, dos bilhetes postais que a chamada street art planta nas cidades às exposições das galerias de arte e nos museus, uma interminável lista aqui referida aleatoriamente para tornar mais manifesta essa realidade, em que os mais alarves divertimentos ligeiros ao vivo, transmitidos pela televisão, na rádio, em streaming, que ocupam os horários com maior visibilidade. Tudo é selado como cultura, aqui e na Europa Connosco, como se pode verificar na listagem das indústrias culturais e criativas contempladas pelos programas da Europa Criativa. Nesse contexto, em que tudo é cultura para nada ser cultura, em que a cultura é um conceito flutuante, um saco em que cabem todas as indiferenciações, o Ministério da Cultura demite-se refugiando-se numa política de apoio às artes que é um pobre assistencialismo de contestáveis critérios.

Este interregno, esta paragem forçada pela pandemia deve ser um momento para profunda reflexão dos intervenientes nas áreas culturais para se pensar como inverter o estado actual em que se acelera pelas auto-estradas de um bullying cultural do excesso, excesso de actividade editorial, excesso de exposições, excesso de ruído, excesso de imagens, excesso de informação, excesso de comunicação, excesso de oferta e de consumo, todo um excesso que se sobrepõe e se intercepta contaminado pelas inúmeras formas de idiotização desta época obrigada à vertigem da velocidade e da sucessão de modas que travam ou passam ao lado de qualquer análise sustentada, profunda, em favor da estupidez, tornando mais actual que nunca o que Musil escreveu no Homem sem Qualidades: «se de dentro a estupidez não se assemelhasse tanto à inteligência, se de fora não pudesse passar por progresso, génio, esperança, aperfeiçoamento ninguém quereria ser estúpido e a estupidez não existiria. Ou pelo menos seria mais fácil, combatê-la»2.

A normalidade da anormalidade dessa cultura inculta que promove a iliteracia cultural dominante é exposta com crueza por Byung-Chul Han; «hoje, a própria percepção assume a forma de Binge Watching, (assistir a algo compulsivamente, descontroladamente) de visionamento bulímico. Oferecem-se continuamente aos consumidores o que se adapta por completo ao seu gosto— quer dizer, do que eles gostam. São alimentados de consumo como gado com qualquer coisa que acaba sempre por se tornar qualquer coisa. O Binge Watching pode ser entendido como o modo actual de percepção generalizado»3. Há excepções, mas as excepções são a confirmação da regra e a regra é o triunfo imperial do espectáculo, do inconsequente entretenimento que bordelizou a cultura, com o mercado a extrair benefícios máximos do empobrecimento moral e intelectual da sociedade. A produção de produtos ditos culturais pelas indústrias culturais e criativas faz-se em linhas tayloristas que impõem um ritmo em que deixa de existir tempo para pensar a criação artística, o que acaba por ser uma forma de censura económica pauperizando a cultura até a reduzir a uma sucessão de entretenimentos não significantes, em que tudo é idêntico, por mais e melhores artefactos que se lhe colem para maquilhar o seu estado cadavérico em que a gestão cultural, a gestão das artes é um instrumento das estruturas de dominação neoliberal, tem o objectivo de impor uma submissão pacífica que pareça espontânea. É o fim da cultura na sua relação ideológica e política com a sociedade. Cultura amarrada à perda de futuro como dimensão ontológica humana, um dos traços fundamentais da sociedade burguesa contemporânea em que se procura que a alienação global seja voluntária. Em que a cultura deixou de ser uma presença viva e em que, no melhor dos casos, como diz Blanchot, «é secretamente dramático saber que a cultura não pode fazer mais do que desdobrar-se gloriosamente no vazio contra o qual nos protege dissimulando-o»4.

Há que repensar a cultura recuperando-a desse pântano de areias movediças onde se afunda e desclassifica recuperando o seu significado original em que, sendo uma das mais complexas palavras de qualquer língua, é, na sua raiz, uma actividade que também é uma entidade. Originalmente descrevia um concreto processo material de trabalho que o homem introduziu no crescimento espontâneo da natureza para a conformar às suas necessidades, alterando-a, dominando-a e inventando uma nova disciplina, a agricultura, que o foi agarrando à terra diversificando as culturas e desenhando novos habitats, desenvolvendo agregados populacionais e uma vida colectiva onde a cultura começou a ser metaforicamente transposta para os assuntos ditos do espírito.

As sementeiras passaram a ser materiais e imateriais tal como os seus frutos enquanto, paradoxalmente, os que adubam a terra para a tornar mais fértil, mais propícia a produzir culturas, começaram a ser considerados incultos por falta de tempo para se cultivarem, em contraponto com os citadinos progressivamente mais interessados na cultura e com mais tempo para produzirem cultura não só enquanto progresso da humanidade, mas também como instrumento que marca distancias e distinções.

O labirinto semântico da palavra cultura descreve sempre uma transição entre o que existe e o que se transforma, seja na natureza ou no espírito dos homens. Transição constante, variável, entre regulação e crescimento espontâneo, por força do trabalho que a diversifica e aprofunda. É esse poder transformador da cultura que tem de ser recuperado, não como instrumento de distinções sociais, não como mercadoria em que os objectos culturais se alienam aprofundando o divórcio entre o homem e a natureza, o homem e os seus semelhantes, entre o homem individual e a sua individualidade, mas enquanto prática dinâmica e activa das sabedorias da vida e dos conhecimentos do fazer, das práticas colectivas de grupos e indivíduos.

Vive-se um tempo de catástrofe global. Aprenda-se com Walter Benjamin que «o conceito de “progresso” tem de assentar na ideia de catástrofe. Que as coisas “continuarem como estão” é isso a catástrofe. Ela não é aquilo que a cada momento temos à nossa frente, mas aquilo que já foi» e para que a luta seja substantiva «ser dialéctico é ter nas velas o vento da história. A vela são os conceitos. Mas não basta dispor das velas. Decisiva é a arte de as saber içar»5.

Reflexões e aprendizagens a fazer durante esta suspensão do correr do tempo neste mundo que era estranho e mais estranho ficou.

  • 1. Blaug, Mark , The Economics of the Arts, Martin Robertson, 1976
  • 2. Musil, Robert Musil, O Homem sem Qualidades, Publicações Dom Quixote, 2008.
  • 3. Han, Byung-Chul, A Expulsão do Outro, Relógio d’Água, 2018.
  • 4. Blanchot. Maurice, O Livro por Vir, Relógio d’Água, 2008.
  • 5. Benjamin, Walter, As Passagens de Paris, Assírio&Alvim, 2019

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O padre António Vieira e a iconoclastia

O padre António Vieira, cuja vida percorreu quase todo o século XVII (1608/97), numa época em que a longevidade era rara, é um dos mais lídimos paladinos da língua portuguesa.

Os seus sermões constituem a apoteose do barroco na história da literatura portuguesa, o triunfo de um género a que o génio imprimiu a beleza, a coerência e a grandeza com que delicia os leitores, ainda hoje.

Vieira usou as palavras como Bernini o mármore e cinzelou-as com o fulgor da erudição e a força das convicções. Quem nunca leu Vieira não entenderá a grandeza do orador e o brilho do pensador que estendeu ao labor epistolar.

No campo das ideias, por mais difícil que seja entender como pensava um intelectual há quatro séculos, é consensual que foi defensor dos direitos humanos, na luta contra a exploração dos indígenas, e, mais tarde, contra a Inquisição, de que foi o alvo apetecido, salvo pela sorte e proteções pontifícia de que gozou.

Trouxe hoje à colação a figura ímpar do padre António Vieira pela vandalização da sua estátua, em Lisboa. Já em 2017 houve uma manifestação contra o ‘esclavagista seletivo’ junto à estátua que foi agora alvo da fúria mimética de quem possivelmente não leu um único sermão, uma só carta, e ignora a biografia do estatuído. Saberiam porventura tais imbecis que António Vieira defendeu os judeus, a abolição da distinção entre cristãos-novos e cristãos-velhos e a abolição da escravatura? Ou que foi um insigne diplomata?

Sou dos que aceito, no calor de uma Revolução, quando há vítimas do despotismo, as manifestações predatórias contra os símbolos da repressão. Entendo que, num contexto democrático, as estátuas dos ditadores e cúmplices deviam, por pudor, ser guardadas em vez de expostas, tal como os nomes dos facínoras exonerados da toponímia.

O que não pode, em período de normalidade democrática, é consentir-se a vandalização do património, o julgamento popular da iconografia, a delapidação dos símbolos de um passado, misérias e grandezas cuja história se procura reescrever em cada novo regime ou ao sabor de talibãs que se arvoram em defensores da virtude e dos bons costumes.
Não estão em causa opções políticas, são casos de polícia a exigir julgamento.

Claro que há estátuas afrontosas, como a do cónego Melo, em Braga, ou insólitas, como a do Papa João Paulo II, em Coimbra, mas não é na sua vandalização que se faz justiça, devendo a primeira ir para o arsenal da Câmara e a segunda trasladada para Fátima.

O que é válido para clérigos, a que me conduziu a figura do padre António Vieira, serve também para a iconografia de militares, políticos, escritores ou quaisquer outros onde o nosso país não é particularmente rico.

No caso em apreço senti repulsa e desprezo pelos energúmenos sem sensibilidade nem gabarito cultural ou ético para julgarem a escultura de que o padre António Vieira não precisava para ser um dos mais altos paladinos da língua portuguesa.

 

Ponte Europa / Sorumbático

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2020/06/o-padre-antonio-vieira-e-iconoclastia.html

ACT admite haver falsos recibos verdes na Casa da Música

 

 

A inspetora-geral da Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT), Luísa Guimarães, admitiu hoje, numa audição no parlamento, haver indícios de existirem trabalhadores a ‘falsos recibos verdes’ na Casa da Música.

 

“Após visita inspetiva de 16 de junho, foi possível concluir, pelo indício em alguns casos, a existência de trabalho dissimulado”, afirmou esta quarta-feira Luísa Guimarães, numa audição conjunta das comissões de Trabalho e Segurança Social e de Cultura e Comunicação, na sequência de um requerimento apresentado pelo grupo parlamentar do Bloco de Esquerda (BE) sobre a situação de trabalhadores da Casa da Música, no Porto,

De acordo com a inspetora-geral da ACT, a “existência de trabalho dissimulado” verificou-se no caso dos grupos de trabalhadores de técnicos extra e de assistentes de sala. A ACT, explicou, decidiu agrupar os trabalhadores em “quatro grupos: músicos, formadores e animadores musicais; técnicos extra; assistentes de sala; guias”.

A “ação inspetiva à Casa da Música, com foco de verificar se um conjunto de situações de prestador de serviços configurava situações de contrato dissimulado”, iniciou-se em maio e “não está concluída”.

Caso se verifique a existência de falsos recibos verdes na instituição, devem ser “levantados os correspondentes autos”. No entanto, estão “ainda a ser ouvidos trabalhadores e a situação pode alterar-se na sequência das audições”.

O Conselho de Administração da Casa da Música negou a semana passada que existisse uma situação “generalizada” de “falsos recibos verdes”, comprometendo-se a regularizar as que vierem a ser identificadas.

Entendemos que não existe uma situação de falsos recibos verdes, pelo menos, generalizada. Temos opiniões jurídicas que sustentam isso. No caso de existirem, evidentemente que a Casa da Música terá de corrigir e fá-lo-á sem qualquer problema”, disse o presidente da Casa da Música, José Pena do Amaral.

O presidente do Conselho de Administração falava na Assembleia da República, numa audição conjunta da Comissão de Trabalho e Segurança Social e da Comissão de Cultura e Comunicação, na sequência dos requerimentos apresentados pelos grupos parlamentares do Bloco de Esquerda e do PCP sobre a situação que se vive na instituição.

A audição parlamentar surgiu depois de um abaixo-assinado, com data de 28 de abril, subscrito por 92 trabalhadores da Casa da Música, denunciar a existência de dezenas de trabalhadores a recibos verdes que ficaram sem qualquer remuneração pelos trabalhos cancelados, na sequência das medidas de contingência devido à pandemia da covid-19.

No início do mês, 13 trabalhadores da Casa da Música foram dispensados por e-mail dos concertos que tinham marcados para junho, “meia hora depois” de uma vigília de protesto marcada para a reabertura da Casa da Música.

Segundo Hugo Veludo, assistente de sala da Casa da Música há mais de dois anos e meio, todos os trabalhadores dispensados subscreveram o abaixo-assinado de 28 de abril, sendo que, desses, oito marcaram presença na vigília silenciosa.

ZAP // Lusa

 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/act-admite-haver-falsos-recibos-verdes-na-casa-da-musica-331654

Universidade de Coimbra vence prémio europeu de património

Um projeto da Universidade de Coimbra (UC) venceu a competição internacional Copernicus Hackathon Cork, dedicada ao património natural e cultural, foi hoje anunciado.

“Uma solução de monitorização de eventos que podem colocar em risco o património baseada em dados de satélite gratuito foi o projeto vencedor da primeira competição internacional Copernicus Hackathon Cork”, dedicada ao património natural e cultural, revela a UC numa nota enviada hoje à agência Lusa.

O projeto foi desenvolvido por uma equipa de investigadores do Centro de Estudos de Arqueologia, Artes e Ciências do Património (CEAACP) da UC, em parceria com a ‘startup’ Theia, tecnológica incubada no Instituto Pedro Nunes (IPN), em Coimbra.

O evento, organizado em Cork (na Irlanda), decorreu de forma online, entre 09 e 13 de junho, e “o desafio lançado aos participantes, que tinham de se apresentar em equipas até quatro pessoas, consistia em desenvolver soluções para ajudar a gerir, salvaguardar e monitorizar o património natural e cultural com recurso a dados de satélite dos programas Copernicus e Galileo”, afirma a UC.

A equipa de Coimbra, que foi constituída por Ricardo Cabral, Martino Correia, Steffan Davies e Tiago Cordeiro, apresentou a plataforma ARCHER – Heritage Surveillance and Monitoring.

Trata-se de uma solução de monitorização de riscos múltiplos, que usa “dados de satélite, atualizados semanalmente, para deteção da ação de eventos que poderão pôr em risco o património, como por exemplo, o abatimento dos solos, deslizamentos, erosão eólica e hídrica, inundações costeiras e fluviais, bem como atividades de natureza antrópica”.

Os autores do projeto acreditam que, “tendo em conta as previsões atuais da evolução das alterações climáticas”, as ferramentas da plataforma ARCHER “serão indispensáveis para monitorizar e proteger o património com a maior eficácia possível”.

De momento, “a plataforma ARCHER está a completar o ciclo de testes de demonstração, tendo já sido desenvolvidos projetos-piloto com as direções regionais de Cultura do Alentejo e do Algarve”, adiantam, citados pela UC, os mentores do projeto.

A vitória alcançada nesta competição assume grande importância, sublinham, sustentando que ela “é o reconhecimento internacional do esforço investido pela equipa numa tecnologia inovadora que pretende contribuir para a proteção do património”.

O desenvolvimento de “projetos nesta área tecnológica por uma unidade de investigação em humanidades é verdadeiramente extraordinário na Universidade de Coimbra”, destacam ainda os investigadores.

O prémio inclui 12 meses de incubação no programa Copernicus Accelerator e um vale de subscrição no valor de 1.200 euros para acesso ao repositório OneAtlas da Airbus.

O Copernicus é o Programa Europeu para a Observação da Terra, coordenado e gerido pela Comissão Europeia e pela Agência Espacial Europeia.

Ver o original em 'Plataforma Media' na seguinte ligação:

https://www.plataformamedia.com/2020/06/21/universidade-de-coimbra-vence-premio-europeu-de-patrimonio/

60% dos trabalhadores da Cultura em Espanha tiveram propostas para trabalhar de borla

Um trabalho da Universidade de Valência revela que 35% dos inquiridos realizaram iniciativas culturais grátis durante o confinamento em Espanha; 64% afirmam ter recebido propostas nesse sentido.

Interior do Teatro Lope de Vega, em SevilhaCréditos / Wikipedia

O período de confinamento para evitar a propagação da pandemia de Covid-19 deixou à beira do precipício quem trabalha no sector da Cultura em Espanha, revela o portal El Salto numa peça ontem publicada. Sublinha, no entanto, que esse abismo estava no horizonte para quem se dedica à cultura muito antes de que a palavra «coronavírus» se tornasse moeda de troca legal em qualquer conversa.

A Econcult, Unidade de Investigação em Economia da Cultura da Universitat de València, levou a cabo um estudo sobre o impacto da Covid-19 no sector, tendo o objectivo triplo de medir esse efeito, analisar as estratégias de adaptação das organizações face à situação de confinamento num contexto de elevada incerteza e avaliar as ajudas públicas que foram destinadas ao sector em Espanha.

De acordo com o trabalho – um inquérito realizado por via telemática entre 16 de Abril e 17 de Maio, com 784 respostas válidas e abrangendo um universo estimado em 760 mil trabalhadores do sector cultural –, durante o confinamento ocorreu um «significativo e generalizado» desenvolvimento de conteúdos sem remuneração para exposição e consumo online, revela El Salto.

Mais de um terço dos inquiridos (35%) levou a cabo neste período iniciativas culturais grátis, e 64% afirmam ter recebido alguma proposta nesse sentido.

Devido ao cancelamento de eventos e à progressiva adaptação à chamada «nova normalidade», quase metade dos inquiridos estima perdas superiores a 75% nos seus rendimentos durante o segundo semestre deste ano.

«"A crise da Covid-19 mostrou que, sob o traje novo do imperador, esse discurso grandiloquente em torno das indústrias culturais, da classe criativa e do talento como motor da economia do conhecimento e da inovação, o rei ia nu

O estudo refere também o enorme agravamento da situação de fragilidade estrutural das organizações culturais, dificultando a sua sobrevivência e «a sustentabilidade do ecossistema cultural». Assim, El Salto nota que 92% dos questionados afirmam que se verão afectados a longo prazo pela «crise da Covid-19»; quatro em cada dez prevêem que o impacto os obrigará a reduzir o número de trabalhadores e 9% das empresas culturais provavelmente terão de fechar portas.

Raúl Abeledo, director de Projectos Europeus da Econcult, destaca que esta situação é anterior à pandemia: «A crise da Covid-19 mostrou que, sob o traje novo do imperador, esse discurso grandiloquente em torno das indústrias culturais, da classe criativa e do talento como motor da economia do conhecimento e da inovação, o rei ia nu. O impacto desta crise mostra às claras o predomínio de uma actividade artística e cultural marcada pela precariedade, a irregularidade e a temporalidade nas condições de trabalho, o impacto da austeridade nos cortes orçamentais do sector, as dificuldades de acesso ao financiamento ou as contradições na regulamentação dos direitos de propriedade intelectual», disse.

Em seu entender, esta realidade não só não vai desaparecer, como, pelo contrário, terá tendência a intensificar-se: «A crise da Covid-19 vai incidir na sua intensificação, é a consequência lógica de um pano de fundo marcado pelas tendências de digitalização, globalização e mercantilização neoliberal da economia em geral e da actividade cultural em particular», sublinhou.

A precariedade como tendência dominante no sector

O estudo «fotografa» a realidade muito diversa do sector da Cultura em Espanha, em que figuram trabalhadores por conta própria, a tempo parcial, empresas, associações ou fundações; artistas que a duras penas conseguem chegar ao fim do mês e directores de macrofestivais internacionais. Devido a esta mistura, Abeledo refere que é difícil avançar com uma perspectiva única do trabalho cultural, mas que se pode falar de tendências dominantes entre a maioria dos que se dedicam profissionalmente a ele. Por exemplo, se se tiver em conta o tamanho das empresas, verifica-se uma realidade que o investigador caracteriza como «bipolar»: muitas muito pequenas, poucas muito grandes e uma ausência notória de empresas de tamanho médio.

Na sua abordagem, a Econcult adoptou um conceito de «cultura» que inclui património, artes cénicas, artes visuais, artesanato, literatura, audiovisual e design, arquitectura e serviços criativos.

«Quando o inquérito foi realizado, apenas 11% das pessoas entrevistadas dispunham de ajudas públicas concretas, e 44% não tinham recebido nenhuma»

O facto de que, durante o confinamento, um em cada três trabalhadores da Cultura tenha realizado trabalhos de borla – algo impensável em qualquer outro sector de actividade – está relacionado com vários factores, segundo Abeledo, que se refere «às necessidades expressivas, ao carácter vocacional da actividade ou à importância da prática amateur».

Refere-se também ao facto de um dos traços característicos da visão e missão das organizações culturais se ligar a lógicas que vão para lá do ânimo de lucro, como «o desenvolvimento da identidade individual e colectiva, a liberdade criativa e de expressão, a conservação da memória e do património artístico, a transformação social ou o voluntariado cultural». Em qualquer caso, Raúl Abeledo considera imprescindível que «a defesa dos direitos dos trabalhadores culturais seja liderada e organizada a partir do próprio sector».

Metade dos inquiridos (48%) teve de implantar o trabalho à distância como resposta ao confinamento, com excepção das artes cénicas, em que o teletrabalho é muito difícil de levar a cabo. Esta forma de trabalho, juntamente com a aceleração em matéria de digitalização que representa esta crise, «vai gerar importantes transformações estruturais nos modos de produção e consumo cultural a médio e longo prazo», revela o estudo da Econcult.

Quando o inquérito foi realizado, apenas 11% das pessoas entrevistadas dispunham de ajudas públicas concretas, e 44% não tinham recebido nenhuma. Entre quem as recebeu, a avaliação foi negativa, tendo sido apontada a «clara insuficiência das mesmas para fazer frente à situação», informa El Salto.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

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“Nunca mais toco nesta Casa da Música.” Manel Cruz junta-se aos precários após demissão do maestro Borges Coelho

 

 

São cada vez mais as vozes críticas contra a administração da Casa da Música pela forma como está a conduzir o processo dos profissionais precários da instituição. Depois da demissão do maestro Borges Coelho do conselho de administração, o músico Manel Cruz da banda Ornatos Violeta anunciou que não volta a tocar “nesta Casa da Música”.

 

“Nunca mais toco nesta Casa da Música.” É desta forma taxativa que Manel Cruz se pronuncia, nas redes sociais, sobre a polémica em torno dos precários na Casa da Música.

O artista de 45 anos que é irmão de um dos trabalhadores da sala de espectáculos do Porto que está a liderar os protestos, salienta que não quer “um cubo torto, a quem nasceu a forma antes do conteúdo”.

“Não sei em que outra casa poderei tocar, um dia… mas sei de muita gente a quem confiaria a solução. Gente que vê na música uma forma de tornar os nossos filhos mais libertos e autónomos”, escreve também numa publicação no Instagram que foi partilhada pelo perfil @comunidadeculturaearte.

Manel Cruz pede que sejam colocadas na direcção pessoas capazes de “verdadeiro compromisso, amor e dedicação”. “Verdadeiros gestores, desses que apontam a longo prazo, e fazem o povo aprender e não ser ensinado”, constata.

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A última vez que Manel Cruz actuou na sala de espectáculos do Porto foi a 28 de Abril de 2019, no âmbito da apresentação do álbum a solo “Vida Nova”.

Maestro renuncia e critica ministra da Cultura

O maestro José Luís Borges Coelho, um dos representantes do Estado no Conselho de Administração da Casa da Música, anunciou esta quinta-feira à noite que renuncia ao cargo, na sequência da polémica relacionada com o trabalho precário neste equipamento cultural do Porto.

Num comunicado enviado à agência Lusa, um dos dois representantes do Estado no Conselho de Administração da Casa da Música fala em “desacordo solitário com o modo como tem vindo a ser conduzido o processo dos chamados ‘precários’ da Casa da Música”, e refere não ter recebido até hoje “o mais leve sinal da tutela”.

A agência Lusa contactou a Casa da Música, tendo fonte da instituição apontado que o Conselho de Administração “não tem conhecimento da noticiada renúncia do maestro José Luís Borges Coelho”.

Esta saída acontece depois de vários momentos polémicos recentes, nomeadamente um abaixo-assinado subscrito por 92 precários e dos quadros da Casa da Música, com data de 18 de Abril, que foi tornado público a 28 do mesmo mês, o qual relatava a existência de várias dezenas de trabalhadores a recibos verdes que ficaram sem qualquer remuneração pelos trabalhos cancelados, na sequência das medidas de contingência, devido à pandemia da covid-19.

A este abaixo-assinado, seguiu-se uma vigília silenciosa, a 01 de Junho, data que coincidiu com a reabertura da Casa da Música, tendo sido noticiado, no dia seguinte, com base no depoimento de uma das pessoas visadas, que cerca de 13 trabalhadores “precários” foram dispensados dos concertos que tinham sido alocados para o mês de Junho.

O mesmo trabalhador contou à Lusa, a 08 de Junho, que a Casa da Música tinha decidido recuar na decisão de dispensar assistentes de sala, mostrando-se “surpreendido” pela dispensa anunciada no início do mês, mas “mais surpreendido ainda” pelo ‘volte-face’ da instituição, atribuindo-o a “alguma pressão da comunicação social”.

Esta situação já motivou audições parlamentares das comissões de Trabalho e Segurança Social e da de Cultura e Comunicação, a pedido do Bloco de Esquerda e do PCP, nas quais estiveram já um conjunto de trabalhadores, bem como o presidente do Conselho de Administração da Casa da Música, José Pena do Amaral.

A agência Lusa também contactou o Ministério da Cultura, mas até ao momento não obteve resposta.

ZAP // Lusa

 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/nunca-toco-nesta-casa-da-musica-manel-cruz-dos-ornatos-violeta-junta-ao-protesto-dos-precarios-330869

Festival dá destaque a curtas-metragens de afrodescendentes

Welket Bungué festival

Welket Bungué, artista luso-guineense que se tem destacado a nível internacional, assina uma curadoria de curtas-metragens de realizadores afrodescendentes que fica disponível de 15 a 28 de junho nas redes sociais do Young South Film Festival.

A organização defende que é dever do evento, “enquanto festival que se define como plataforma de suporte a vozes que podem acrescentar à nossa percepção intelectual e sociológica“, acolher as obras destes realizadores. “O foco que a cultura afrodescendente tem tido nas últimas semanas, tornou ainda mais importante a sua valorização e promoção“, explica Diogo Simão, diretor do Festival.

A curadoria levada a cabo por Bungué pretende mostrar “Cinema, cinema de relevância, cinema de representatividade, cinema composto de uma pluralidade subjetiva que se revê num objetivo comum, global, naquele que é o desejo de contar histórias ímpares baseadas numa subjetividade libertadora“, explica o artista.

É fundamentalmente inspirado nessa ótica de expressão através do audiovisual – que é entoado qual antífona gloriosa – a partir da individualidade artística, que convidei Ana F. Cavalcanti, Julia Zakia, Katya Aragão, Vanessa Fernandes, Lolo Arziki, Daniel Santos e Yuri Costa, para que nos presenteassem com os seus filmes, impressivamente transversais às realidades do continente africano e do território brasileiro”, acrescenta.

A página de Instagram do Festival servirá para disponibilizar as seis curtas-metragens, mas também dará espaço para conversas em direto com os realizadores. Nesta curadoria de Welket Bungué são destacados os trabalhos de sete criadores cujas obras já foram reconhecidas em festivais como Berlin International Film Festival, Festival Internacional de Curtas do Rio de Janeiro, FESTin e Avanca Film Festival.

O artista lusoguineense explicou ainda que a “curadoria é feita em homenagem a Cláudia Simões, a cidadã de origem angolana que foi violentamente agredida por agentes da polícia no concelho da Amadora, em Lisboa“.

O post Festival dá destaque a curtas-metragens de afrodescendentes aparece primeiro no Espalha-Factos.

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Mário de Carvalho vence Grande Prémio de Crónica Literária

O escritor Mário de Carvalho é o vencedor do Grande Prémio de Crónica e Dispersos Literários, da Associação Portuguesa de Escritores (APE), com o livro O eu que ouvi na barrica de maçãs.

Mário de CarvalhoCréditosJoão Relvas / Agência LUSA

O Grande Prémio de Literatura Crónica e Dispersos Literários APE/Câmara Municipal de Loulé foi atribuído por unanimidade do júri, constituído por Cândido Oliveira Martins, Carlos Albino Guerreiro e Paula Mendes Coelho.

O júri justificou a escolha deste livro de Mário de Carvalho, O que eu ouvi na barrica das maçãs, editado pela Porto Editora, por estabelecer a «plena conjugação com a linha característica do género da crónica na tradição literária portuguesa», o que o fez destacar-se entre o «conjunto das obras apresentadas a concurso».

O prémio destina-se a galardoar anualmente uma obra em português, de autor português, publicada em livro e em primeira edição em Portugal. Em edições anteriores, este prémio já distinguiu os autores José Tolentino Mendonça, Rui Cardoso Martins, Mário Cláudio e Pedro Mexia.

O que eu ouvi na barrica das maçãs reúne algumas crónicas do escritor, escolhidas e agrupadas em quatro actos, que testemunham um largo campo de assuntos, abordagens, dimensões e estilos, através de eras e lugares.

O título é retirado de A Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson, e servira já para titular a rubrica quinzenal de crónicas do escritor, no jornal Público, uma das fontes de alguns dos textos que compõem o livro.

Sobre as crónicas incluídas nesta obra, o jornalista Francisco Belard, que assina o prefácio, realça que nelas coexistem «o erudito e o vernáculo com os plebeísmos, tal como os refúgios culturais não isolam [Mário de Carvalho] das conversas de táxi».

Nascido em Lisboa em 1944 e licenciado em Direito, Mário de Carvalho é um dos antifascistas que estiveram presos na cadeia política da Fortaleza de Peniche.

Com agência Lusa

 

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ÁLBUM DE CANÇÕES DO VINICIUS

DIVAS & CONTRABAIXOS: I. O Dia da Criação
 
                        
 
VINICIUS DE MORAES E SEUS AMIGOS
                                       LISTA DE CANÇÕES DE VINICIUS DE MORAIS
                                                           (clique no link acima!)
Eu sempre fui fã de Vinícius, como aliás uma grande parte das pessoas da minha geração. 
Era uma lufada de ar fresco numa ditadura que se exercia - interior e exteriormente - como disciplinadora das aparências, do que era ou não era «decente», etc. 
Realmente estávamos unidos na dor, com os nossos irmãos do Brasil, quer soubéssemos,  quer não! 
Pessoalmente, estas canções dizem-me quase tanto como se eu abrisse um diário da minha adolescência e juventude. Mas, ainda mais que isso, estas canções são pedaços de poesia verdadeira, são poesia pura, sofisticada, quer na música dos instrumentos quer nos cantos. 
A qualidade que podemos do que ouvir aqui, dá-nos uma nostalgia desse tempo. 
Creio que é impossível eu encontrar agora, no Brasil, ou noutro país qualquer, algo que seja herdeiro directo, em força e qualidade, da irrupção vulcânica da Música Popular Brasileira, principalmente nos anos 60 e 70. Talvez esteja a ser injusto...
Como atenuante, tenha o leitor em conta que este é um dos grandes referentes da minha própria vida.
Fica um mistério, que gostaria muito ver esclarecido: tendo, a minha pessoa e uma imensa geração de milhões de pessoas, sido adoradores desta poesia e desta música; tendo essa música e poesia uma filosofia de vida completamente diferente da de hoje... - Onde andam esses milhões que adoravam a poesia de Vinícius, que a cantavam em convívios, em casa ou em bares e com a maior naturalidade, como algo que sai no fundo na sua alma? Onde anda essa gente toda? 
Digam-me, se souberem!

Ver o original em 'Manuel Banet' (clique aqui)

Leitura de romance assinala «uma década de saudade» de Saramago

A Fundação José Saramago promove uma leitura do romance Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas nos dez anos da morte do escritor José Saramago, que se assinalam no dia 18 de Junho.

José Saramago abraça um amigo de infância durante a apresentação do livro «As Pequenas Memórias», na Azinhaga, terra natal do escritor, no concelho da Golegã, em 16 de Novembro de 2006CréditosPaulo Cunha / Agência Lusa

«Uma década de saudade, mas não de ausência», sublinha a Fundação José Saramago (FJS), recordando todas as iniciativas relacionadas com o autor português vencedor do Nobel da Literatura e com a sua obra, que têm sido desenvolvidas.

É o caso da reedição de vários livros, o lançamento de dois romances inéditos, Claraboia e Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas, um volume dos seus diários (Último Caderno de Lanzarote) e uma conferência para entender o conjunto da sua criação, intitulada «Da Estátua à Pedra», recorda a fundação em comunicado.

Em torno da obra literária e do pensamento de Saramago, surgiram ao longo da última década projectos musicais, obras de teatro, filmes, exposições, congressos de literatura, encontros e manifestações cívicas em todo o mundo, acrescenta a FJS.

Mais uma vez, o autor do Memorial do Convento será evocado, desta vez a propósito do aniversário da sua morte, que no dia 18 de Junho completa dez anos, com uma leitura de Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas, pela voz dos actores André Levy, Joana Manuel e Tiago Rodrigues, numa sessão que será transmitida por streaming, através da Maple Live, a partir das 18h30, e vai estar disponível aqui.  

 Os bilhetes têm um custo de três euros e a receita da bilheteira virtual reverte na totalidade para um Fundo de Apoio aos Profissionais da Cultura, que está a ser organizado.

Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas é o romance que José Saramago estava a escrever na altura em que «deixou de estar», expressão que o escritor gostava de usar para se referir à morte.

O livro foi publicado em 2014 tal como o escritor o havia deixado: além dos três primeiros capítulos, que começam a desvelar a história de Artur Paz Semedo, um homem em conflito moral por trabalhar numa fábrica de armamento, foram também publicadas as notas que José Saramago deixou como preparação prévia para a escrita do romance.

Com agência Lusa

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/cultura/leitura-de-romance-assinala-uma-decada-de-saudade-de-saramago

Haja senso

Padre António Vieira – 175 Anos Biblioteca Pública de Braga
Uma citação do
padre António Vieira
A primeira cousa que me desedifica,peixes, de vós,
é que vos comeis uns aos outros.
Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior.
Não só vos comeis uns aos outros,
senão que os grandes comem os pequenos.
Se fora pelo contrário, era menos mal.
Se os pequenos comeram os grandes,
Bastara um grande para muitos pequenos;
mas como os grandes comem os pequenos,
não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande.
 
Padre António Vieira, Sermão de S. António aos peixes,
(S. Luis do Maranhão, Brasil, Junho de 1654)
 

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

Festival de Cinema e Literatura de Olhão regressa em Julho

A segunda edição do Festival de Cinema e Literatura de Olhão (FICLO) vai realizar-se entre 15 e 21 de Julho com mais actividades ao ar livre, «fazendo da necessidade virtude».

«História da minha morte», de Albert SerraCréditos / Román Yñán

Depois do adiamento forçado devido ao surto de Covid-19, o FICLO volta «com mais relações inusitadas» entre cinema e literatura, e uma programação que «abarca desde documentários a ficções, passando inclusive pela animação», mantendo o essencial da programação de filmes a actividades paralelas anunciadas em Março, lê-se num comunicado da organização.

A selecção deste ano inclui nove obras de produção recente, «que exploram as formas diversas de relato fílmico». Garantida está também a retrospectiva sobre a obra do realizador espanhol Albert Serra, que incluirá todas as obras com ligação à literatura, incluindo o mais recente Libertè, estreado no primeiro trimestre deste ano. 

«O mesmo acontecerá com o ciclo italiano, que percorre a cinematografia, que, desde o pós-guerra, leva a narrativa contemporânea ao cinema através de uma proposta visual cinematográfica específica», com os grandes clássicos Rossellini, Visconti, Antonioni e Pasolini. 

O ciclo do Gótico Tropical, que pretendia explorar a inquietação e as sombras, será adiado. De acordo com a direcção do festival, «a relação dos géneros com a problematização do passado e presente perturbadores, resulta actual por excesso e, como tal, perde sentido de conveniência e relevância no actual cenário».

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/cultura/festival-de-cinema-e-literatura-de-olhao-regressa-em-julho

Obviamente demitam-se!

(José Soeiro, in Expresso Diário, 05/06/2020)

(Um Governo que mantém esta quadrilha em funções e permite estas práticas, quando jura o seu amor aos trabalhadores, só podemos considerar tal jura como algo do mesmo jaez que as declarações de Trump: fake news.

Comentário da Estátua)


Não vou repetir o que escrevi num outro lugar sobre o comportamento repugnante da Administração da Casa da Música. Os precários, a maioria a falso recibo verde, foram primeiro tratados como se não existissem e, quando começaram a ser mais visíveis por se terem organizado e terem começado a falar, foram pressionados, vítimas de assédio moral, filmados quando fizeram uma vigília (denúncia feita por escrito pelos trabalhadores e nunca desmetida) e dispensados – por retaliação – das atividades já agendadas com eles para junho. O que aconteceu é gravíssimo e envergonha a cidade, a cultura e o país.

Até hoje, ninguém da direção da Casa da Música deu a cara publicamente por estas decisões. A Casa da Música tem um Diretor-Geral, Paulo Sarmento e Cunha, que se recusa a comentar o que faz. E tem um Conselho de Administração, com sete membros (2 nomeados pelo Governo, um pelo município e área metropolitana e outros 4 por privados) que, segundo os Estatutos, reúne mensalmente, mas tem permanecido em silêncio, apesar de ter como competências, entre outras, “contratar e dirigir o pessoal da Fundação”.

Quem é esta gente? Como é possível que este Conselho continue em silêncio e não seja escrutinado? E o Governo e a Câmara, que nomeiam uma parte do órgão, também não dizem nada? A Casa da Música é financiada em dois terços pelo Orçamento do Estado (mais de 9 milhões de dinheiro dos contribuintes em cada ano), mas quem a dirige parece sentir-se impune perante a lei do trabalho, a Constituição que garante a liberdade de organização e de expressão, e sem responsabilidades perante a comunidade que os financia e que deveriam servir.

A gestão da Casa da Música é um espelho de como muitas destas instituições (Serralves é outro exemplo, e parece que fez o mesmo com 21 precários do Serviço Educativo) são dirigidas: por gente que vem maioritariamente do mundo dos negócios, que replica as piores práticas empresariais, que pouco tem a ver com a cultura, que faz uma rotação endogâmica nestes e noutros cargos de poder, que nem fala com os trabalhadores e que se está nas tintas para as suas condições de vida e de trabalho. De quem falamos, afinal?

O Diretor-Geral da Fundação Casa da Música chama-se Paulo Sarmento e Cunha. Executa as decisões do Conselho de Administração ou toma decisões sem dar conta ao Conselho? Aparentemente, não se sabe bem. Mas é quem, no quotidiano, exerce o poder na instituição. Já tinha estado na Porto 2001 e desde 2007 que tem funções na Casa da Música, primeiro como diretor administrativo, depois como Diretor-Geral. É um dos rostos principais desta vergonha. Recusa falar com os jornalistas sobre o que está a acontecer.

O presidente do Conselho de Administração chama-se José Pena de Amaral. Vem do mundo da banca: foi administrador do BPI e da Allianz, pertencia ao Conselho de Administração do Banco de Fomento Angola até rebentar o escândalo do Luanda Leaks. Mas esteve também na política, como chefe de gabinete do Ministro das Finanças do governo do Bloco Central (PS-PSD, em meados da década de 1980), chefiado por Mário Soares.

As duas pessoas nomeadas pelo Governo para o Conselho de Administração são Teresa Moura e José Luis Borges Coelho.

A primeira foi Secretária de Estado dos Assuntos Europeus no primeiro governo de António Guterres. O mais curioso é, no entanto, que esta pessoa, que atualmente representa o Estado no Conselho de Administração, estava antes no mesmo Conselho mas em representação da EDP. Como a empresa deixou de poder nomear um membro, o Ministério da Cultura nomeou-a pela sua quota, apesar de Teresa Moura continuar a ser chefe de gabinete do Conselho Geral e de Supervisão da EDP…

O outro representante do Estado, nomeado pelo Ministério da Cultura, é o conhecido e respeitado maestro portuense José Luis Borges Coelho, a única pessoa com ligação ao mundo da música que faz parte do órgão. Borges Coelho assume também as funções de vice-presidente do Conselho de Administração. É conhecido pelo seu longo e consistente envolvimento cívico e político (entre outras coisas, foi mandatário e depois eleito da CDU na Assembleia Municipal do Porto).Os trabalhadores dizem que, de todo o Conselho, foi o único que os contactou, a título individual, manifestando solidariedade.

Do Conselho de Administração fazem ainda parte Rita Mestre Mira Domingues, mais uma pessoa vinda do mundo empresarial, fazendo parte dos órgãos de gestão da BA Glass, holding que foi presidida por Carlos Moreira da Silva (Sonae Indústria), e que agora tem à frente o próprio Paulo Azevedo; e António Marquez Filipe, outroempresário, neste caso ligado ao negócio do vinho do Porto, sendo administrador da Symington Family Estates, a maior proprietária de vinhas no Douro, que vende 24 milhões de garrafas por ano.

Os restantes membros são Lobo Xavier e Luis Osório.

António Lobo Xavier é conhecido do público como comentador televisivo na “Circulatura do Quadrado” (com Pacheco Pereira e Jorge Coelho), foi deputado do CDS em vários mandatos (chegou a ser líder parlamentar do partido), faz parte do Conselho de Estado por indicação do Presidente da República, é gestor da Sonaecom e está, ainda e paralelamente, no Conselho de Administração de outras grandes empresas, como a Mota-Engil ou a NOS. É uma espécie de figura omnipresente deste tipo de órgãos. Esteve, por exemplo, nas direções da Associação Comercial do Porto (a associação que representa a burguesia industrial e comercial da cidade), do Futebol Clube do Porto ou da Fundação de Serralves (na segunda metade dos anos 2000), cujas práticas laborais têm sido, como se sabe, semelhantes às da Casa da Música.

Luís Osório é um triste caso de estudo. É deputado municipal do PSD e foi o escolhido de Rui Moreira para representar o município. A sua nomeação gerou um tumulto no próprio partido. O PSD veio dizer que não lhe reconhecia qualquer experiência, competência ou ligação ao sector da cultura, e que a escolha era uma “uma manobra de Rui Moreira de dividir para reinar”. A acusação foi aliás mais longe. Como Moreira não tem maioria na Assembleia Municipal, na concelhia do PSD houve quem dissesse aos jornais que a nomeação de Osório era “mais uma tentativa do presidente da Câmara comprar votos com convites, como já fez no passado”. A reação de Osório dá vergonha alheia: disse que aceitava o convite por considerar ser “importante que o PSD esteja representado nas mais marcantes entidades da cidade”. Só que não é suposto, obviamente, que o representante do município represente um partido nas decisões de gestão da Casa da Música! Tudo mau de mais…

São estas pessoas que tomam decisões na Casa da Música. São elas, quer se queira quer não, as responsáveis em última instância pelo que ali acontece – e já acontece há demasiado tempo. Quem tomou as decisões em concreto, quem dispensou as pessoas, quem contratou um operador de vídeo para andar a filmar os precários para depois a Administração retaliar contra eles? Sinceramente, não sei. Mas o que se passa é grave, muito grave. Quem tem responsabilidades e se opõe a isto, tem a obrigação de falar já publicamente e de se demitir de uma Administração com estes comportamentos miseráveis. Quem decidiu e apoia estas práticas, tem a obrigação de ser demitido por quem tem o poder de fazê-lo. E sim, se os próprios não o fizeram ainda (porque já mostraram do que são capazes), o Estado pode requerer a sua destituição. Na verdade, já devia tê-lo feito. É uma questão de decência.


Nós vamos ao Teatro! E você, fica a fazer o quê?

Lá atrás está tudo explicado no apelo "Vá ao Teatro!"
Depois dizemos o que pode acontecer, se lá não estiver o Garrett.
Agora, é só lá ir! Cumprimos a missão do público que ama a arte... e é solidário. Solidário? Solidário com quem?

«A pandemia do novo coronavírus (COVID-19) levou ao encerramento de todos os espaços culturais e de toda a atividade artística em todas as áreas da cultura, revelando um setor que sempre foi frágil, precário e indefeso. A situação é dramática tendo atingido o sector e em particular os seus trabalhadores. (...) “A total desproteção social dos assalariados a recibo verde. A lei dos intermitentes do espetáculo e da cultura é uma necessidade imperiosa e uma obrigação que o estado tem de resolver. O atual sistema não protege o artista, nem o técnico, nem o empresário liberal. Vive-se numa precariedade selvagem sem proteção do estado e que com isso leva a situações impensáveis como recorrer a atos de caridade. Esperemos que este grito de alarme tenha consequências claras. Esta condição de intermitente não nos pode retirar o que é de mais fundamental numa sociedade civilizada, ou seja, a igualdade de direitos e a uma vida condigna. Esperemos que seja desta que se venha a conquistar uma legislação que venha a trazer justiça a estes cidadãos.”»
(ler tudo aqui)
Quer-se inscrever, quer saber mais?
desenhando1974sonhos@gmail.com 
 

Ver original em 'Conversa Avinagrada' (aqui)

A morte dos estudantes

(António Guerreiro, in Público, 05/06/2020)

António Guerreiro

Giorgio Agamben, o filósofo italiano vivo mais traduzido, comentado e estudado no mundo inteiro, é, desde o final de Fevereiro, quando foi decretado em Itália o estado de emergência por causa da pandemia, a figura que concita as mais violentas polémicas e alguns ódios de estimação. Tornou-se um daqueles tios escandalosos que as boas famílias têm vergonha de exibir em sociedade.

Primeiro, publicou uma série de textos num blog da editora de que ele próprio foi fundador (a Quodlibet, de Macerata) defendendo a ideia de que as medidas governamentais eram uma forma de instituir o estado de excepção como paradigma normal de governo, criticando ao mesmo tempo a passividade com que eram aceites as limitações da liberdade impostas por decretos privados de toda a legalidade, em nome de uma “bio-segurança” que leva ao extremo a lógica biopolítica.

Ainda não se tinham extinguido os ecos, que atravessaram fronteiras, dessas intervenções em contra-corrente e já outra bomba Agamben estava a lançar, desta vez sobre a universidade: trata-se de um Requiem per gli studenti, publicado a 22 de Maio no site do Istituto Italiano per gli Studi Filosofici. Aí, tomando em consideração a medida que prolonga para o próximo ano as lições universitárias online, a didáctica à distância, vê na difusão cada vez mais alargada das tecnologias digitais a morte da ideia de universidade e afirma que é “barbárie tecnológica” a substituição da presença física por um ecrã espectral. O que o leva a declarar o fim do studentato como forma de vida e a lembrar que as universidades nasceram na Europa das associações livres de estudantes, chamadas universitates:

“A vida dos estudantes era, antes de mais, uma forma de vida, em que determinante era sem dúvida o estudo e a escuta das lições, mas não menos importante era o encontro e as trocas assíduas com os outros scholarii”, ou seja, a relação entre os estudantes e entre estudantes e professores. Entoando um “requiem” por aquilo que durou dez séculos e que desde há tempos se encontrava fortemente enfraquecido e ameaçado, Agamben passa a uma analogia que indignou muita gente e pôs outra tanta a pensar: “Os professores que aceitam — como estão fazendo em massa — submeter-se à nova ditadura telemática e manter os seus cursos unicamente online são o equivalente perfeito dos docentes universitários que em 1931 juraram fidelidade ao regime fascista”. E terminava exortando os estudantes a constituírem novas universitates, recusando inscrever-se nas universidades, de modo a fazer nascer “uma nova cultura”.

Recordemos que Agamben sempre usou o seu prestígio para declarar guerra à universidade italiana (dela se retirou, aliás, prematura e orgulhosamente); e que desde há muito tempo se tinha aplicado a diagnosticar a “miséria estudantil”. Do seu ponto de vista, um dos sinais evidentes da degradação universitária é este: a “investigação”, que tem sempre em vista uma utilidade concreta, substituiu o “estudo”, uma palavra que lhe é muito querida, a cuja etimologia e história ele se refere muitas vezes, tendo mesmo escrito uma “idea dello studio” que começa pela afirmação de que “Talmud significa estudo”.

As ideias de Agamben sobre a universidade e a vida estudantil são mais facilmente compreensíveis se soubermos que elas fazem referência e devem muito a alguns textos de juventude de Walter Benjamin, escritos antes e durante a Grande Guerra, quando este filósofo alemão teve uma importante actividade nos movimentos estudantis, em Berlim. Um desses textos, de 1915, chama-se precisamente A Vida dos Estudantes e trata da “posição histórica dos estudantes e da universidade”, no momento presente, aquele em que, para Benjamin e para os seus colegas das associações livres de estudantes, se impõe uma tarefa urgente e revolucionária, com um teor de utopia que os tempos admitiam: fundar uma comunidade de homens conhecedores, em lugar de funcionários e licenciados, que deviam lutar pela arte, ao lado de escritores e poetas. A essa comunidade atribuía Benjamin um “valor espiritual”, ao qual correspondia uma “metafísica da juventude” que serviria de antídoto ao filistinismo da experiência adulta e da vida profissional. Condição indispensável da vida “espiritual” dos estudantes: a “educação erótica” que seria ao mesmo tempo uma erótica da educação.


 “Quando um festival de música não se realiza, o impacto económico para a região é brutal”
Ministra da Cultura, no programa “Prós e Contras”, RTP 1, 1/6/2020

Ao fazer esta afirmação, uma evidência de que estamos todos conscientes, a ministra teve o cuidado de legitimar os acontecimentos culturais com razões não puramente económicas (ocorrendo-lhe no entanto as questões da “identidade” que parecem mais nobres, mas não passam de mitologias, isto é, tretas), mas a verdade é que se consumou há muito o que Nietzsche formulou nestes termos: “Se acreditarmos que a cultura tem uma utilidade, acabamos por confundir o que é útil com a cultura”. Se é ingénuo ou quase uma alucinação defender hoje que a cultura tem de resistir a toda a “recuperação” (uma palavra muito usada por um dos expoentes dos anos 60 da “crítica da cultura”), não devemos no entanto prescindir de uma consciência crítica da “utilidade”, a qual, sabemo-lo bem, é o não-dito — mas também o mais importante e o mais coercivo — da política cultural.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Corpo de Maria Velho da Costa ficou 11 dias na morgue. Filho critica MP e fala em “massacre psicológico”

Os restos mortais da escritora Maria Velho da Costa, que faleceu a 23 de Maio, ficaram no Instituto de Medicina Legal, em Lisboa, durante 11 dias, sem que a família tivesse conhecimento de que já os podia ir recolher. A queixa é apresentada pelo filho que só neste domingo vai fazer o funeral da mãe.

 

Foi João Sedas Nunes, filho da escritora Maria Velho da Costa, que denunciou a situação inusitada no seu perfil do Facebook, relatando que os restos mortais da mãe, que faleceu, em casa, a 23 de Maio passado, foram levados para o Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses (INMLCF), em Lisboa, no dia 24 de Maio, “para se proceder à autópsia que determinaria a causa de morte e despistaria a presença no organismo da covid-19“.

O professor de Sociologia da Universidade Nova de Lisboa refere que perguntou, “por duas vezes”, se era preciso contactar o INMLCF para saber quando poderia levantar o corpo para a realização do funeral. “Por duas vezes foi-me categoricamente dito que me deveria abster dessa iniciativa, aguardando comunicação do Instituto de Medicina Legal que seria realizada mal a autópsia fosse concluída”, assegura.

João Seda Nunes garante que não foi contactado pelo Instituto, nem pelo Ministério Público (MP). “Quase 11 dias transcorridos“, descobriu “por iniciativa privada” que “os procedimentos da autópsia haviam sido finalizados no dia 25 de Maio, estando dessa data em diante o corpo em depósito no IML a aguardar que a família o fosse buscar”.

Pensei que com a covid-19, o processo demorasse mais tempo. E só no início desta semana comecei a fazer diligências. Mas só à terceira tentativa tive feedback. Disseram-me que desde 26 de Maio o corpo estava pronto para a realização do funeral. Mas a 3 de Junho, a informação que me chegou foi outra, o que torna isto ainda mais escabroso. É que o MP terá dispensado a realização da autópsia. Se aconteceu é espantoso. O que têm de fazer é contactar de imediato a família assim que concluírem as diligências”, queixa-se o filho de Maria Velho da Costa no jornal Sol.

Em declarações a este semanário, uma fonte do INMLCF confirma que “a autópsia foi dispensada e que não recebeu qualquer contacto de familiares para o levantamento do corpo até ao dia 3 de Junho”.

Numa segunda publicação no Facebook, João Sedas Nunes esclarece que não tem nada a apontar “aos agentes do Estado” com os quais teve contacto na “noite fatídica” em que ocorreu a morte da sua mãe. “Médicos do INEM, polícias e bombeiros, todos eles, sem excepção, se portaram à altura, com profissionalismo e total respeito“, diz.

Contudo, o filho da escritora critica o que define como a “gestão fleumática da informação pelo Estado”, apontando críticas ao MP que é “a autoridade com a competência de conduzir legitimamente o processo de fio a pavio”.

O velório de Maria Velho da Costa realiza-se neste sábado, em Lisboa, às 17.30 horas, na Igreja do Santo Condestável. O funeral será no domingo à tarde, no cemitério dos Olivais.

ZAP //

 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/corpo-maria-velho-da-costa-11-dias-morgue-328724

Cultura organiza-se e exige fim da precariedade

Milhares de trabalhadores do sector da Cultura juntaram-se esta quinta-feira, em Lisboa, no Porto e em Faro, para contestar a «falta de apoios e de medidas» para o sector e a necessidade de se travar a «precariedade que dura há anos».

CréditosPaulo António

Uma manifestação unitária, com profissionais das várias áreas do sector e uma excelente mobilização, foi a forma como Rui Galveias, músico e dirigente do Sindicato dos Trabalhadores de Espectáculos, Audiovisual e dos Músicos (CENA-STE/CGTP-IN), caracterizou ao AbrilAbril a manifestação nacional dos trabalhadores da cultura que teve lugar esta quinta-feira.

Com a participação de quase 2000 pessoas em Lisboa, 800 no Porto e 100 em Faro, o dirigente afirma que o sector mostra que percebe o que quer para a Cultura e se revê nas exigências do sindicato. «Esta presença na rua veio trazer força a estas medidas e à luta do sector», referiu.

«Olha a Cultura, olha a Cultura que está na rua para lutar, porque não tem, porque lhe falta orçamento para a salvar» e «Esquecer a cultura é esquecer o País» foram alguns dos apelos feitos pelos manifestantes, em palavras de ordem e cartazes.

Exigindo «medidas de emergência», «medidas estruturais» e «medidas de apoio ao sector», vários foram as intervenções feitas por associações de profissionais para que a «Cultura não fique para trás e não morra».

Medidas «insuficientes» mas fruto da «pressão»

Ao mesmo tempo, António Costa anunciava no final da reunião do Conselho de Ministros, que os profissionais independentes do sector da Cultura vão receber, em Julho e em Setembro, um apoio social semelhante ao que é atribuído aos trabalhadores independentes, ao qual não conseguem aceder devido à intermitência da sua actividade.

Este apoio extra de 1 314 euros, em três prestações, para os trabalhadores da cultura, ainda é «insuficiente», considera Rui Galveias. «Os trabalhadores [com estes valores] continuam a ter a vida hipotecada e não estão a conseguir chegar ao fim do mês. As vidas não encolhem, a realidade não encolheu, portanto continua a ser insuficiente», afirmou o dirigente.

O sindicalista mostrou-se cauteloso, afirmando não se querer precipitar, e admitindo que é preciso saber se «chega a todos».  «Temos esperança que esta medida seja um caminho aberto, e fica provado que o caminho é aberto pela luta», referiu o dirigente, acrescentando que a pressão tem que aumentar e a discussão tem de ser tida «até ao fim».

O CENA-STE irá reunir, esta sexta-feira, com a ministra da Cultura, que o anunciou em directo no programa Prós-e-Contras da RTP, sem ter previamente contactado o sindicato. No encontro, Rui Galveias garante que se baterão por uma legislação para o sector, «que acabe com os recibos verdes e a precariedade» e garanta contratos de trabalho que «contabilizem o tempo real do trabalho e uma efectiva protecção social».

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/trabalho/cultura-organiza-se-e-exige-fim-da-precariedade

Trabalhadores despedidos da Casa da Música após protesto

Treze trabalhadores com vínculos precários foram «dispensados» dos concertos que tinham alocados para o mês de Junho, meia hora depois de participarem numa vigília de protesto contra a precariedade.

CréditosESTELA SILVA / LUSA

Mais de duas dezenas de trabalhadores com vínculos precários da Casa da Música organizaram, na segunda-feira, uma vigília silenciosa para protestar contra o «silêncio e a falta de resposta» da fundação que gere este equipamento cultural do Porto.

«Só fachada não faz casa» e «Precários da casa fazem milagres» eram alguns dos cartazes que o grupo segurava como forma de protesto, no dia em que a Orquestra Barroca marcava a reabertura do espaço e onde estiveram presentes mais de 170 espectadores.

Segundo informações a que o AbrilAbril teve acesso, a decisão de «dispensar» os 13 assistentes de sala foi comunicada na segunda-feira, via e-mail, depois de terminada a vigília. A estes trabalhadores, que já tinham os horários escalados para o mês de Junho, juntam-se vários técnicos também com vínculos precários há vários anos e que se encontram sem trabalho atribuído.

Além de assistentes de sala, no protesto estiveram também guias, técnicos e educadores da Casa da Música e da Fundação de Serralves.

No dia 28 de Abril, dezenas de trabalhadores da Casa da Música pediram à fundação que gere este equipamento cultural, através de um abaixo-assinado, que «cumpra compromissos» e «assuma» a sua «responsabilidade social», considerando que as «soluções» propostas são «indignas».

O abaixo-assinado surgiu dias depois de o PCP ter alertado para uma situação «inaceitável» vivida pelos trabalhadores da Casa da Música. Os comunistas consideraram que «a situação excepcional que se vive», devido ao surto epidémico da Covid-19, «não pode ser o pretexto para se atentar contra os direitos dos trabalhadores», salientando que «a actual situação tem evidenciado um conjunto de problemas, nomeadamente a precariedade, a que estão sujeitos muitos trabalhadores do sector da Cultura».

No total, foram 92 os signatários de uma carta enviada ao director-geral da Fundação Casa da Música, entre os quais 28 trabalhadores com contrato e 64 prestadores de serviços a recibos verde, nomeadamente assistentes de sala, guias, músicos, técnicos e formadores.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/trabalho/trabalhadores-despedidos-da-casa-da-musica-apos-protesto

Livro de Herberto Helder proibido no fascismo chega às livrarias

Apresentação do Rosto, um chamado «auto-retrato romanceado» de Herberto Helder, publicado em 1968 e de imediato apreendido pela PIDE, chega às livrarias na próxima quinta-feira, ao fim de 52 anos.

Herberto Helder é considerado o maior poeta português da segunda metade do século XXCréditos / Jornal Rascunho

«A presente edição, feita por iniciativa de Olga Lima, viúva de Herberto Helder [1930-2015], segue o texto da publicação original, corrigindo diversos lapsos e erros tipográficos assinalados pelo autor, num exemplar de trabalho», escreve a Porto Editora, no anúncio da data de publicação.

Para esta edição, no entanto, «não foram tomadas em conta restantes anotações, cortes e sinais, que constam desse exemplar, por não estabelecerem claramente uma nova organização do livro, indicando apenas hipóteses de alteração textual ou as referidas deslocações de fragmentos para outras obras do autor», acrescenta a editora.

A edição original de Apresentação do Rosto surgiu em 1968, na Editora Ulisseia, e foi rapidamente apreendida pela PIDE, que destruiu os quase 1500 exemplares impressos. A obra não voltou a ser editada.

O despacho de proibição, datado de 22 de Julho de 1968, descreve-a como «autobiografia do autor, que é de índole esquerdista, escrita em linguagem surreal e hermética, que como obra literária não mereceria qualquer reparo, se não apresentasse passagens de grande obscenidade».

Num artigo publicado na Página da Educação sobre a «Censura Fascista», em Agosto de 2008, o editor Serafim Ferreira (1940-2015), ex-director literário do Círculo de Leitores, recordou o processo e o modo como um dos agentes da PIDE, que entraram na Ulisseia, disse haver na obra «uma evidente carga de pornografia, o que não podia de forma nenhuma ser tolerado».

Em 1968, quando surgiu o seu livro, Herberto Helder era condenado no âmbito do processo relacionado com a publicação de Filosofia de Alcova, de Marquês de Sade, pelas Edições Afrodite, de Fernando Ribeiro de Mello.

O livro prefigura-se assim como o processo de fazer ver um rosto, à partida impessoal, mas que ganha vida, um rosto que se apresenta em permanente transformação, e que se define na improbabilidade de o fazer: «Eu sou um movimento», escreve Herberto Helder, em jeito de auto-retrato.

Com agência Lusa

 

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https://www.abrilabril.pt/cultura/livro-de-herberto-helder-proibido-no-fascismo-chega-livrarias

Queixas sobre apoios à Cultura são «às dezenas»

O CENA-STE já recebeu «dezenas de queixas» sobre os apoios da Câmara de Lisboa para o sector da Cultura. Autarquia só considerou as propostas recebidas nas primeiras semanas.

Créditos / Lendias d'Encantar

«Quando os profissionais que se candidataram perceberam que o prazo do concurso nem sequer chegou ao fim, porque se atingiu o limite do financiamento, ficaram desapontados e confusos. Não percebem quais são os critérios que levam a que o colega do lado tenha apoio e eles não», declarou ao AbrilAbril Rui Galveias, membro da direcção do Sindicato dos Trabalhadores de Espectáculos, do Audiovisual e dos Músicos (CENA-STE/CGTP-IN), defendendo que a atribuição de apoios «não é uma corrida», em que saem beneficiados os que chegam primeiro.

Em causa está o «regime extraordinário de atribuição de apoios financeiros urgentes e imediatos aos agentes e entidades» do sector da Cultura, aprovado no início de Abril pela Câmara de Lisboa, devido ao surto de Covid-19, em que ficou estabelecido que as candidaturas poderiam ser entregues a partir de 20 de Abril e seriam recebidas «até ao limite da dotação disponível ou até 30 de Junho de 2020».

Na terça-feira, a Câmara de Lisboa anunciou que as candidaturas à vertente Cultura do Fundo de Emergência Social do município, no âmbito da Covid-19, apresentadas após 5 de Maio já não serão consideradas, «por ter sido atingido o valor total da verba disponível». 

Registando «dezenas de queixas» de trabalhadores do sector da Cultura sobre os apoios do município da capital, o CENA-STE vai tentar perceber junto da autarquia «o que é pode ainda ser feito para corrigir algumas injustiças e alguns problemas».

Sublinha, no entanto, que os apoios das câmaras municipais, sendo «bem-vindos», não substituem o papel do Governo. «Apontar às câmaras municipais a culpa de os artistas não serem apoiados é que não pode ser», uma vez que esta situação não se resolve com «medidas avulsas» mas com «políticas centrais de fundo» para o sector.

«Um enorme desrespeito»

Numa comunicação enviada à Câmara de Lisboa, a que o AbrilAbrilteve acesso, o produtor de cinema Pedro Fernandes Duarte, responsável por filmes como A Metamorfose dos Pássaros, apresentado em Fevereiro no Festival de Cinema de Berlim, afirma que a decisão de considerar apenas as candidaturas entregues nos primeiros 15 dias, «é obviamente um enorme desrespeito pelo trabalho dos profissionais da Cultura de Lisboa».

Pedro Duarte Fernandes questiona o porquê de o Município ter mantido o concurso aberto além das duas primeiras semanas, «e o mantém aberto ainda hoje [terça-feira], se não iria atribuir verba a projectos apresentados nos quase dois meses seguintes». 

O produtor critica a adopção de um «critério cronológico» e indaga: «o que terão a ganhar os munícipes de Lisboa no usufruto não das melhores propostas culturais apresentadas à CML, mas das que foram apresentadas mais depressa?»

Pedro Duarte Fernandes vai mais longe e questiona o Município sobre a gestão da informação no anúncio de abertura de concurso, no que toca aos seus critérios de avaliação e elegibilidade. «Parece altamente improvável que tantos candidatos já tivessem candidaturas vencedoras prontas a entregar nos primeiros 15 dias», admite.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/cultura/queixas-sobre-apoios-cultura-sao-dezenas

“da cultura e da palavra” por António Oliveira

António Oliveira
 

Manuel Gama não é actor de televisão, nem da netflix, não é jogador de futebol nem discute futebolices nos ecrãs, não aparece em calções mais um carrinho de compras no supermercado, não tem as câmaras dos ‘manhas’ de todos os dias, à espera de ver a polícia aparecer à porta de casa, é apenas um professor da Universidade do Minho.

Mas é também um especialista em temas de cultura, o termo que parece ser, por cá, uma das palavras bastardas nos usos e costumes da maioria, coordenando ainda o estudo sobre o impacto do ‘corona’ na cultura no nosso país.

E uma das conclusões da primeira parte de tal trabalho, refere que apesar das muitas notícias, nunca se deu, aos temas culturais, a visibilidade das primeiras páginas.

Também demonstrou como o deficit dos temas a dizer da cultura nos debates e no portal da Assembleia da República, mostra como ‘a cultura continua a não ser uma prioridade na linha de acção governativa’.

Mas ali são também referidos os profissionais e as organizações do sector cultural, todos a evidenciar uma enorme preocupação pelo futuro, por uma redução de postos de trabalho a rondar os 50% até final do ano e, ‘apesar de apenas 6% dos profissionais assumir cancelamentos definitivos de partes da actividade este ano, as organizações vão mais longe e assumem que os despedimentos serão uma realidade’.

Para Manuel Gama, ainda pós-doutorado em Ciências Sociais em Espanha e Brasil, tudo vai ser diferente a partir daqui, ‘o tecido cultural português vai depender, no próximo ano, de três actores claros: Governo, municípios e agentes culturais’.

Será que vai? Será que vão?

Dúvidas que me apoquentam, por não ter nenhuma certeza sobre a acção dos ‘patrões’ e dos ‘donos’ da cultura, por atitudes que têm séculos de sobranceria neste e noutros países e regiões do ocidente.

Lembro-me de ter lido algures que Sócrates, o filósofo, gostava de se distrair percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando os vendedores o assediavam, respondia, ‘Só estou a ver a quantidade de coisas que existem e de que não preciso para ser Feliz’.

Não acredito, por também já ter caído nos apelos das músicas, cintilações e manobras atractivas dos sítios todos onde gastar dinheiro, mesmo os da cultura mastigada com pipocas, que possa haver gente a poder dar uma qualquer resposta ‘tipo Sócrates’!

Mas convém não esquecer que está em causa, acima de tudo, a importância da palavra, se calhar, a melhor e a única maneira de classificar, definir e distinguir as áreas do pensamento e da acção, pela explicação e pela justificação.

Aliás, salientou-o bem George Steiner, ‘No castelo do Barba Azul’, ‘se o papel da palavra, como organizadora das articulações do tempo e do sentido, for enfraquecido, se este privilégio for subvertido, teremos começado a demolir os valores de hierarquia e transcendência de uma civilização clássica. Até mesmo a morte pode tornar-se muda’.

Devemos esperar pelas respostas que ‘todos os poderes’ poderão e deverão dar, ao estudo coordenado pelo professor Manuel Gama. A cultura é um bem comum, precioso e único, que não pode ser deixado nas mãos dos ‘vendedores de spots e tweets’, por até já estarmos a ver o caminho por onde nos querem levar.

Estou convencido que, a usar agora uma explicação até perfeitamente actualizada para estes tempos tecnológicos e, como disse há pouco o realizador norte-americano, Spike Lee, ‘O mundo inteiro necessita de se reiniciar!’

E não precisará?

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/05/27/carta-de-braga-da-cultura-e-da-palavra-por-antonio-oliveira/

Medidas urgentes para o sector das artes

«Museus para a igualdade: diversidade e inclusão». Medidas urgentes para o sector das artes e da cultura em Portugal. Galeria Municipal do Porto e MUDAS.Museu de Arte Contemporânea da Madeira.

Exposição colectiva «Máscaras (Masks)» na Galeria Municipal do Porto, até 16 de AgostoCréditosDiogo Santos / Notícias do Porto

As normas que foram estabelecidas para a abertura dos museus e galerias e outros espaços de exposição no dia 18 de Maio, quanto à higienização dos espaços e das pessoas, recomendações de lotação reduzida e distanciamento físico e o uso de máscaras não constituiu qualquer problema na abertura desta nova fase de desconfinamento da pandemia. Convém assinalar que por norma os museus nunca são frequentados por multidões, à excepção de algumas inaugurações ou palestras, entre outros, que a partir de agora se vão realizar seguindo as recomendações estabelecidas. No que se refere à minha experiência da visita, que fiz no dia 18 de Maio, aos diversos museus em Setúbal, fiquei triste, ainda pensei que iria encontrar grandes filas de pessoas sedentas de cultura, a avaliar pela enorme adesão aos projectos culturais disponíveis na Internet, e eis que durante toda a tarde andámos sempre sozinhos. De referir ainda que fomos a uma esplanada, mesmo ao fim do dia das visitas, esta sim, sem grande surpresa, estava cheia.

Obra de Diogo Jesus, «O passeio», 2014. Exposição colectiva «Máscaras (Masks)» na Galeria Municipal do Porto, até 16 de Agosto CréditosDiogo Jesus /

O Dia Internacional dos Museus, que este ano assumiu como mote «Museus para a igualdade: diversidade e inclusão», como já foi divulgado no AbrilAbril, celebrando a diferença, a memória, o conhecimento, a identidade e a igualdade sem preconceitos, foi comemorado em diversos museus do nosso país, referindo apenas alguns, como a Fundação Calouste Gulbenkian, o Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, o Museu Colecção Berardo, o Museu Nacional de Machado de Castro em Coimbra, o Museu José Malhoa e Museu da Cerâmica nas Caldas da Rainha, o Museu Dr. Joaquim Manso em Nazaré, o Museu Municipal Carlos Reis em Torres Novas, a Galeria Municipal do Antigo Banco de Portugal em Setúbal (que integra parte do espólio do Museu de Setúbal/Convento de Jesus), o Quartel da Arte Contemporânea de Abrantes, a Casa-Estúdio Carlos Relvas na Golegã, o Museu Regional de Beja-Rainha D. Leonor, MU.SA-Museu das Artes de Sintra e Museu Municipal de Loures. No dia 19 de Maio foi também a vez de abrirem as Galerias Municipais de Lisboa, de início com um horário reduzido (entre as 14h30 e as 19h), a Culturgest reabriu as suas exposições em 23 de Maio e a Galeria Municipal do Porto abrirá em Junho. Os programas virtuais-online estiveram também presentes nas comemorações e vão continuar a estar em algumas das programações artísticas.

Atendendo à situação de enorme fragilidade em que já se encontravam os profissionais das artes e da cultura, diversas vezes denunciado e assumido nas acções da «Plataforma Cultura em Luta» e agora aos mais recentes protestos sobre a actual situação destes profissionais, onde a grande maioria está sem quaisquer receitas para satisfazer as necessidades mais básicas, motivado pela crise pandémica e falta de apoio do Estado, esperemos que este sector se mantenha unido para além dos recentes protestos, nos quais se tem vindo a exigir medidas urgentes para o sector, com especial referência para o manifesto «Unidos pelo presente e futuro da Cultura em Portugal» promovido por 14 estruturas formais e informais representativas do tecido cultural e artístico. As respostas a estas e outras situações que coloquem em fragilidade os trabalhadores das áreas artísticas, assim como a organização destas lutas, só serão eficazes se já existirem estruturas profissionais que procedam ao reconhecimento legal da actividade artística e à defesa dos direitos dos seus agentes e que se façam representar tanto a nível nacional, como internacional, com vista à utilização de todos os instrumentos legais necessários para melhorar as condições de trabalho e a dignidade no exercício da actividade em cada uma das áreas artísticas.

Quanto à agenda de eventos ou projectos artísticos para a próxima quinzena sugerimos a visita à Galeria Municipal do Porto ou ao Palácio das Artes-Fundação da Juventude no Porto e uma visita virtual ao MUDAS.Museu de Arte Contemporânea da Madeira.

Na Galeria Municipal do Porto1, a partir de 2 de Junho, irão reabrir duas exposições, que poderão ser visitadas até ao dia 16 de Agosto, dentro do horário de funcionamento normal da Galeria Municipal, uma exposição colectiva «Máscaras (Masks)», com curadoria de João Laia e Valentinas Klimasauskas, que nos propõe «um olhar sobre a radical reformulação em curso das nossas múltiplas identidades históricas, sociopolíticas, sexuais e transcendentais, questionando os actuais processos em que nos metamorfoseamos de uma em outra» e «Apesar de não estar, estou muito», de Diogo Jesus, com curadoria de João Ribas, que «reúne as obsessões autobiográficas do artista e a sua distinta perspectiva da cultura popular», apresentando os seus desenhos, objectos, vídeos e textos de projectos e publicações, a partir de 2007.

A exposição colectiva e retrospectiva «Anuário 19» será também retomada, podendo ser visitada até 19 de Julho no Palácio das Artes-Fundação da Juventude2 no Porto. A exposição consiste num projecto de análise reflexiva sobre as práticas curatoriais e artísticas, que integrará obras e performances de vários artistas que apresentaram as suas obras em diferentes espaços do Porto no último ano.

Na Madeira, o Museu de Arte Contemporânea foi criado em 1992 e instalado na Fortaleza de São Tiago no Funchal. Desde 1986 que uma selecção de uma colecção de obras de arte, criada nos anos de 1966 e 1967, esteve exposta na Quinta Magnólia no Funchal, sobr a designação de Núcleo de Arte Contemporânea. Em Outubro de 2015, a colecção de arte contemporânea foi transferida para o Centro das Artes-Casa das Mudas, um projecto do arquitecto Paulo David inaugurado em 2004, dando origem ao MUDAS.Museu de Arte Contemporânea da Madeira3, que dispõe de uma área de exposição, um espaço de reservas, um centro de documentação, um auditório, uma cafetaria e uma loja.

A colecção de obras de arte contemporânea, iniciada nos anos 60, foi enriquecida ao longo dos anos 90 do século XX, constituindo-se hoje como um importante conjunto de obras de referência sobre a produção artística portuguesa, estando «representados artistas como Joaquim Rodrigo, António Areal, Helena Almeida, José Escada, Manuel Baptista, Nuno de Siqueira e Artur Rosa, com obras dos anos 60, seguidos de um conjunto vasto de artistas com obras dos anos 80 e sobretudo 90, como Fernando Calhau, Rui Sanches, Rui Chafes, Pedro Calapez, Pedro Casqueiro, José Pedro Croft, Álvaro Lapa, Ana Hatherly, Daniel Blaufuks, Fernanda Fragateiro, Ângelo de Sousa, António Palolo, Eduardo Batarda, Miguel Branco, Jorge Molder, Graça Pereira Coutinho, Albuquerque Mendes, Pedro Cabrita Reis, entre muitos outros. Foi ainda incluída uma selecção de peças de Lourdes Castro, a mais consagrada artista portuguesa de origem madeirense...». De referir que nas diversas exposições realizadas no MUDAS.Museu têm-se vindo também a incluir muitos artistas residentes na Madeira e que aqui desenvolvem o seu trabalho, casos de Amândio de Sousa, Teresa Jardim, Alice de Sousa, Martinho Mendes, Pedro Clode, Eduardo de Freitas, Domingas Pita, Humberto Spínola, Ção Pestana, José Manuel Gomes, António Marques da Silva, António Nelos, Duarte Encarnação, Diogo Goes, João Pestana, Barbara Sousa, Carmo Ramos Silva entre outros, com especial referência à presença de obras de António Aragão, Rigo, Teresa Gonçalves Lobo e Martha Telles.

O MUDAS.Museu inaugurou em Abril, de forma virtual, a nova exposição do espaço museológico «O princípio do (in)visível», através da plataforma mudasmuseuvirtual.com, dando seguimento às mostras anteriores da colecção permanente do Museu ‒ «Experiência da Forma I e II» ‒, procurando apresentar uma nova leitura curatorial sobre uma estrutura narrativa que tem por base a colecção do MUDAS, com um especial foco na produção artística contemporânea dos últimos 70 anos em Portugal Continental e Ilhas. Esta exposição integra pintura, escultura, desenho, fotografia, objectos e instalação, com «peças de Edgar Martins, Hélder Folgado, Daniel Melim, António Barros, Ana Perez-Quiroga, Miguel Palma, Beatriz Horta Correia, Pedro Cabrita Reis e Hugo Brazão. Inclui também algumas das obras em depósito, como as peças de Jorge Pinheiro sem título de 1968 e Aquiles de 1981, pertença da colecção do Novo Banco, a obra WYSIWYG (What you see is what you get), 2009, de Duarte Encarnação, ou um conjunto de plexiglass recortados de autoria de Lourdes Castro», entre outras obras.

  • 1. Galeria Municipal do Porto. Rua D. Manuel II (Jardins do Palácio de Cristal), Porto. Horário: terça-feira a domingo, das 10h às 18h; encerrado à segunda-feira e feriados.
  • 2. Palácio das Artes, Largo de S. Domingos, 16-22, Porto. Horário: dias úteis, das 9h30 às 19h.
  • 3. MUDAS.Museu de Arte Contemporânea da Madeira. Estrada Simão Gonçalves da Câmara nº 37, Calheta; Tel:(351) 291 820 900. Horário: de terça-feira a domingo, das 10h às 17h.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/cultura/medidas-urgentes-para-o-sector-das-artes

“Há muita gente a passar fome” no sector das Artes (alguns artistas receberam 50 euros de apoio)

 

foto: sxc

Não vai haver condições para abrir muitas salas de espectáculos a 1 de Junho, como está permitido, alerta-se no sector das Artes, onde há “há muita gente a passar fome”. Alguns artistas só conseguiram receber 50 euros de apoio da Segurança Social.

 

Estes alertas são feitos por Paula de Carvalho, do Movimento pelos Profissionais de Artes Performativas, em declarações no programa “As Três da Manhã” da Rádio Renascença.

“Não vai ser fácil abrir. As pessoas não têm condições“, destaca Paula de Carvalho, notando que “estão paradas desde Março” e que “muitas pessoas tiveram de devolver todo o dinheiro que já tinham de bilhetes, tiveram de pagar lay-offs adiantados”.

“As condições não são as melhores para começar no dia 1 de Junho”, nota, frisando que “algumas empresas não têm já capacidade para abrir”.

 
 

Paula de Carvalho dá o exemplo de Filipe La Féria que fez notar que “o Politeama tem 700 e tal lugares e só pode abrir com 100”. “Com 100, não se consegue pagar um espectáculo”, aponta.

Por outro lado, não é certo que as pessoas apareçam para os espectáculos. “As pessoas estão a ir à praia, mas vão ao teatro? Vão ouvir fado? Como vai ser?”, questiona.

Paula de Carvalho nota que o sector precisa, “provavelmente, de 30 milhões na mão” e “a fundo perdido que foi o que fizeram outros países, nomeadamente Inglaterra, Itália, França, Alemanha”, diz.

“É uma situação complicada, há muita gente a passar fome, muitos dos mais novos, gente que começou há muito pouco tempo”, denuncia ainda, frisando que “há também pessoas que não o querem dizer”.

Paula de Carvalho destaca que os artistas têm, habitualmente, “contratos de três meses e depois estão quatro ou cinco sem trabalhar”. “Chama-se a isso intermitência e é exactamente a situação que já há muitos anos é falada pelos artistas e não é resolvida”, aponta.

Alguns dos artistas que descontam para a Segurança Social conseguiram receber algum apoio, mas muito pouco. Paula de Carvalho refere que, nestes casos, a Segurança Social fez “uma espécie de soma dos últimos meses, viu quanto dava e houve pessoas a receber 50 euros“.

Em cima da mesa, está uma proposta para que seja criado uma “espécie de seguro”, como existe “em França, também na Bélgica e no Luxemburgo”, para que quando os artistas “ficam sem trabalho, tenham sempre algo a que se agarrar”.

Na sexta-feira passada, António Costa anunciou um apoio de 30 milhões de euros para a Cultura, no âmbito da pandemia de covid-19, que foi recebido com “preocupação” pelo sector das Artes. Há dúvidas quanto à forma como será aplicado o dinheiro e de onde é que ele vem.

ZAP //

 
 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/ha-muita-gente-passar-fome-no-sector-das-artes-alguns-artistas-receberam-50-euros-apoio-326358

Maria Velho da Costa - Falecimento

 
 
Em 1972 foi publicada a obra “Novas Cartas Portuguesas” da autoria de três escritoras portuguesas, com sólida cultura, prestígio literário e forte participação cívica. Ficariam conhecidas internacionalmente pelas “Três Marias”.

Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa ousaram desafiar a primavera marcelista como percursoras da luta pela emancipação feminina, num país onde a mulher estava condenada à menoridade cívica, política e social.

É imperioso recordar que, então, estavam vedadas às mulheres a carreira diplomática, a magistratura, as forças armadas e policiais e, na prática, os lugares de poder. Nem a saída para o estrangeiro lhes era permitida sem autorização do marido.

A coragem cívica das três intelectuais, cuja luta continua um exemplo para os combates pela igualdade de sexos, deve ser exaltada agora, na morte de mais uma das autoras, e no futuro. Não há vitórias definitivas e a emancipação da mulher está longe de ser uma conquista irreversível, mesmo em países ditos civilizados.

A exaltação da condição feminina e a defesa da liberdade para as mulheres era mais do que a Igreja, as famílias e a sociedade podiam tolerar, mas a denúncia da repressão e da censura do regime fascista, que Marcelo, o Caetano, se esforçava por disfarçar, não era um direito, era uma afronta à moral e aos bons costumes definidos nas sacristias, no Movimento Nacional Feminino, na Legião e na Mocidade Portuguesa. A denúncia da guerra colonial, da discriminação, da falta de liberdade, da subordinação da mulher era uma heresia intolerável.

Não surpreenderam os insultos, a difamação e as calúnias da imprensa da ditadura. A coragem, inteligência e cultura eram valores intoleráveis em mulheres, e a dignidade a utopia de mulheres depreciativamente designadas ‘intelectuais’, quando o casamento era o principal papel que lhes era reservado, para adereço de maridos ricos, reprodução e escravatura da vontade masculina.

O Estado acusou as escritoras de terem escrito um livro “insanavelmente pornográfico e atentatório da moral pública”, e levou-as a julgamento como se a denúncia a guerra colonial, a discriminação, a falta de liberdade, a marginalização das minorias e a subordinação da mulher na sociedade não fosse a vergonha do Estado terrorista em que homens e mulheres vegetavam.

Em 25 de Abril de 1974 decorria ainda, num tribunal de Lisboa, o julgamento que já levava dois anos, mas não eram as autoras que ali eram julgadas e arriscavam a prisão, era a ditadura que se expunha ao ridículo e à censura internacional. A 7 de maio de 1974, dias após a Revolução do 25 de Abril, o juiz Lopes Cardoso leu a sentença:

“O livro ‘Novas Cartas Portuguesas’ não é pornográfico nem imoral. Pelo contrário: é obra de arte, de elevado nível, na sequência de outras obras de arte que as autoras já produziram”.

Quando se apagou mais uma estrela no firmamento das mulheres portuguesas que se bateram pela dignidade feminina, é obrigatório lembrar o seu inestimável contributo para a democracia.

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2020/05/maria-velho-da-costa-falecimento.html

Mulheres e Revolução – Maria Velho da Costa

 
 
Mulheres e Revolução
 
Maria Velho da Costa
 
Elas vão à parteira que lhes diz que já vai adiantado. Elas alargam o cós das saias. Elas choram a vomitar na pia. Elas limpam a pia. Elas talham cueiros. Elas passam fitilhos de seda no melhor babeiro. Elas andam descalças que os pés já não cabem no calçado. Elas urram. Elas untam o mamilo gretado com um dedal de manteiga. Elas cantam baixinho a meio da noite a niná-lo para que o homem não acorde. Elas raspam as fezes das fraldas com uma colher romba. Elas lavam. Elas carregam ao colo. Elas tiram o peito para fora debaixo de um sobreiro. Elas apuram o ouvido no escuro para ver se a gaiata na cama ao lado com os irmãos não dá por aquilo. Elas assoam. Elas lavam joelhos com água morna. Elas cortam calções e bibes de riscado. Elas mordem os beiços e torcem as mãos, a jorna perdida se o febrão não desce. Elas lavam os lençois com urina. Elas abrem a risca do cabelo, elas entrançam. Elas compram a lousa e o lápis e a pasta de cartão. Elas limpam rabos. Elas guardam uma madeixita entre dois trapos de gaze. Elas talham um vestido de fioco para uma boneca de papelão escondida debaixo da cama. Elas lavam as cuecas borradas do primeiro sémen, do primeiro salário, da recruta. Elas pedem fiado popeline da melhor para a camisa que hão-de levar para a França, para Lisboa. Elas vão à estação chorosas. Elas vêm trazer um borrego à primeira barraca e ao primeiro neto. Elas poupam no eléctrico para um carrinho de corda.
Coisas que elas dizem:
— Se mexes aí, corto-ta.
— Isso não são coisas de menina.
— O meu homem não quer.
— Estuda, que se tiveres um empregozinho sempre é uma ajuda.
— A mulher quer-se é em casa.
— Isto já vai do destino de cada um.
— Deus não quiz.
— Mas o senhor padre disse-me que assim não.
— Dá um beijinho à senhora que é tão boazinha para a gente.
— Você sabe que eu não sou dessas.
— Estás a dar cabo do teu futuro com uns e com outros.
— Deixa-te disso, o que é preciso é sossego e paz de espírito.
— Comprei uns jeans bestiais, pá.
— Sempre dá para uma televisão daquelas novas.
— Cada um no seu lugar.
— Julgas que ele depois casa contigo?
— Sempre há-de haver pobres e ricos.
— Se tu gostasses de mim não andavas com aquela cabra a gastar o nosso.
— Põe o comer ao teu irmão que está a fazer os trabalhos.
— Sempre é homem.
Elas olham para o espelho muito tempo. Elas choram. Elas suspiram por um rapaz aloirado, por duas travessas para o cabelo cravejadas de pedrinhas, um anel com pérola. Elam limpam com algodão húmido as dobras da vagina da menina pensando, coitadinha. Elas escondem os panos sujos de sangue carregadas de uma grande tristeza sem razão. Elas sonham três noites a fio com um homem que só viram de relance à porta do café. Elas trazem no saco das compras uma pequena caixa de plástico que serve para pintar a borda dos olhos de azul. Elas inventam histórias de comadres como quem aventura. Elas compram às escondidas cadernos de romances em fotografias. Elas namoram muito. Elas namoram pouco. Elas não dormem a pensar em pequenas cortinas com folhos. Elas arrancam os primeiros cabelos brancos com uma pinça comprada na drogaria. Elas gritam a despropósito e agarram-se aos filhos acabados de sovar. Elas andam na vida sem a mãe saber, por mais três vestidos e um par de botas. Elas pagam a letra da moto ao que lhes bate. Elas não falam dessas coisas. Elas chamam de noite nomes que não vêm. Elas ficam absortas com a mola da roupa entre os dentes a olhar o gato sentado no telhado entre as sardinheiras. Elas queriam outra coisa.
Elas fizeram greves de braços caídos. Elas brigaram em casa para ir ao sindicato e à junta. Elas gritaram à vizinha que era fascista. Elas souberam dizer salário igual e creches e cantinas. Elas vieram para a rua de encarnado. Elas foram pedir para ali uma estrada de alcatrão e canos de água. Elas gritaram muito. Elas encheram as ruas de cravos. Elas disseram à mãe e à sogra que isso era dantes. Elas trouxeram alento e sopa aos quartéis e à rua. Elas foram para as portas de armas com os filhos ao colo. Elas ouviram faltar de uma grande mudança que ia entrar pelas casas. Elas choraram no cais agarradas aos filhos que vinham da guerra. Elas choraram de ver o pai a guerrear com o filho. Elas tiveram medo e foram e não foram. Elas aprenderam a mexer nos livros de contas e nas alfaias das herdades abandonadas. Elas dobraram em quatro um papel que levava dentro urna cruzinha laboriosa. Elas sentaram-se a falar à roda de uma mesa a ver como podia ser sem os patrões. Elas levantaram o braço nas grandes assembleias. Elas costuraram bandeiras e bordaram a fio amarelo pequenas foices e martelos. Elas disseram à mãe, segure-me aqui os cachopos, senhora, que a gente vai de camioneta a Lisboa dizer-lhes como é. Elas vieram dos arrebaldes com o fogão à cabeça ocupar uma parte de casa fechada. Elas estenderam roupa a cantar, com as armas que temos na mão. Elas diziam tu às pessoas com estudos e aos outros homens. Elas iam e não sabiam para aonde, mas que iam. Elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café esfriado. São elas que acordam pela manhã as bestas, os homens e as crianças adormecidas.
in Cravo(1976).
 
 
 
 

Via: voar fora da asa https://bit.ly/2LWxhKN

Morreu a escritora Maria Velho da Costa

 

A escritora portuguesa Maria Velho da Costa, Prémio Camões em 2002, morreu este sábado, aos 81 anos, disse à agência Lusa a realizadora Margarida Gil, amiga da família.

 

Segundo Margarida Gil, a premiada romancista estava fisicamente debilitada, mas lúcida e morreu de forma súbita em casa, em Lisboa.

Considerada uma das vozes renovadoras da literatura portuguesa desde a década de 1960, Maria Velho da Costa é autora de conto, teatro, mas sobretudo do romance como obras como “Maina Mendes” (1969), “Casas Pardas” (1977) e “Myra” (2008).

Maria Velho da Costa foi ainda uma das coautoras, juntamente com Maria Teresa Horta e Mara Isabel Barreno, de “Novas Cartas Portuguesas” (1972), uma obra literária que denunciava a repressão e a censura do regime do Estado Novo, que exaltava a condição feminina e a liberdade de valores para as mulheres, e que valeu às três autoras um processo judicial, suspenso depois da revolução de 25 de abril de 1974.

Nascida em Lisboa, em 1938, Maria Velho da Costa faria 82 anos no próximo dia 26 de junho.

No percurso literário, Maria Velho da Costa foi amplamente premiada. Em 1997, recebeu o Prémio Vergílio Ferreira pelo conjunto da obra literária, com o romance “Lúcialima” (1983) recebeu o Prémio D. Diniz, e o romance “Missa in albis” (1988) foi Prémio PEN de Novelística.

Com a coletânea “Dores” (1994) recebeu o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco da Associação Portuguesa de Escritores (APE) e o Prémio da Associação Portuguesa de Críticos Literários.

Em 2000, a APE atribuiu-lhe o Grande Prémio de Teatro por “Madame”, e o Grande Prémio de Romance, por “Irene ou o contrato social”.

O último romance que publicou, “Myra” (2008), valeu-lhe o Prémio PEN Clube de Novelística, o Prémio Máxima de Literatura, o Prémio Literário Correntes d’Escritas e o Grande Prémio de Literatura dst.

Em 2002 foi galardoada com o Prémio Camões, em 2003, foi feita Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique e, em 2011, Grande-Oficial da Ordem da Liberdade.

Em 2013 recebeu o Prémio Vida Literária, da APE, afirmando, no discurso de aceitação, que a literatura não é só “uma arte, um ofício”, mas também “a palavra no tempo, na história, no apelo do entusiasmo do que pode ser lido ou ouvido, a busca da beleza ou da exatidão ou da graça do sentir”.

“Os regimes totalitários sabem que a palavra e o seu cume de fulgor, a literatura e a poesia, são um perigo. Por isso queimam, ignoram e analfabetizam, o que vem dar à mesma atrofia do espírito, mais pobreza na pobreza”, afirmou na altura.

A par da escrita, Maria Velho da Costa desempenhou várias funções oficiais na área da Cultura: Foi adjunta do secretário de Estado da Cultura em 1979 (o escritor Helder Macedo) e adida cultural em Cabo Verde (1988-1991), tendo também pertencido à Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses.

Licenciada em Filologia Germânica, pela Universidade de Lisboa, foi ainda leitora no King’s College, em Londres, e autora de argumentos ou diálogos para cinema, trabalhando com nomes como João César Monteiro, Margarida Gil e Alberto Seixas Santos.

No final de 2012, quando o romance “Casas Pardas” foi adaptado para teatro, numa versão de Luísa Costa Gomes com encenação de Nuno Carinhas, Maria Velho da Costa dizia, em entrevista à agência Lusa, que “a relação escritor-leitor é muito misteriosa e nem todos os escritores têm como objetivo mudar a vida ou mudar os outros”.

Para a escritora, “há um lado da escrita, como em toda a arte, que é um lado mais do que de resposta, é um lado de pergunta que não tem necessariamente um conteúdo social”.

// Lusa

 
 

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https://zap.aeiou.pt/morreu-escritora-maria-velho-da-costa-326214

Cultura, património cultural e a responsabilidade social dos intelectuais

Shintaro_Kago

«Mastigação ruidosa» (2018), do ilustrador japonês Shintaro Kago (1969) 

Cultura e Património Cultural, material e imaterial, são conceitos relativamente recentes na longa história da humanidade, bem como o reconhecimento da sua importância nuclear na identidade de um povo de uma nação, da sua soberania. Como T.S.Elliot escreveu, O tempo presente e o tempo passado / são, talvez, presente num tempo futuro / e o tempo futuro contido no tempo passado1, é essa relação dialéctica entre o passado, o presente e o futuro de um povo, de uma nação que a Cultura e o Património Cultural consubstanciam.

Durante séculos os patrimónios culturais foram objecto dos mais diversos vandalismos. É na Revolução Francesa que a Assembleia Constituinte cria uma Comissão dos Monumentos com a missão de proteger e conservar as obras de arte, o que estava em contraciclo com a fúria revolucionária que destruía tudo o que simbolizava o poder absolutista no exercício do controlo social e imposição de crenças políticas, sociais e religiosas. É essa mudança de mentalidades em relação ao património cultural e à cultura que inicia um processo de protecção, conservação e valorização do património e uma, ainda que tímida, democratização da cultura.

Tem o seu reverso que é o percepcionar-se que a supremacia política deve apoiar-se na afirmação da supremacia cultural. Uma estratégia que Napoleão Bonaparte colocou em prática.

Nas campanhas napoleónicas o imperador fazia-se acompanhar por uma corte de intelectuais que avaliavam e inventariavam as obras de arte a roubar. A pilhagem de igrejas, catedrais, conventos, museus, colecções privadas por toda a Europa e Norte de África foi sistemática e sem precedentes. Troféus de guerra para mostrar ao mundo o poder de Napoleão e a supremacia política e cultural da França. Derrotado Napoleão, o Segundo Tratado de Paris, de 20 Novembro de 1815, pela primeira vez na história determina a devolução das obras de arte aos seus países de origem.

O segundo grande roubo sistemático de património cultural foi realizado pelos nazis na Segunda Guerra Mundial. O projecto de Hitler é similar ao de Napoleão. Projectava construir um enorme complexo cultural em Linz, dedicado às obras que o führer considerava reflectirem a ideologia do partido nazi.

A campanha de devolução das obras pós-guerra foi muito publicitada e originou a jurisprudência da Convenção de Haia de 1954, que estabeleceu regras internacionais sobre o património cultural e está na origem do trabalho desenvolvido pela UNESCO, as classificações de Património Cultural Material e Imaterial da Humanidade, para salvaguardar universal e intemporalmente os patrimónios imóveis, os patrimónios intangíveis e os patrimónios naturais, representativos da diversidade cultural, natural e da expressão criativa em todo o mundo. Com essas e muitas outras iniciativas de organizações locais, nacionais e internacionais, vertida em abundante legislação, deveria a Cultura e o Património Cultural Material e Imaterial e o Natural estar protegido de qualquer atentado e a cultura, na multiplicidade das suas manifestações ser um dos grandes esteios das identidades nacionais.

Não está, e os atentados agora são outros de outro calibre. Nos centros decisores do capitalismo internacional, com destaque para as instituições financeiras sediadas nos EUA, prepara-se a intensificação de uma nova onda de privatizações de tipo novo e radical: vender o máximo possível de bens imobiliários estatais, incluindo os patrimónios histórico-culturais e naturais.

O editorial de 17 de Janeiro de 2014, da revista Economist, «The 9 trillion dolars sale», não deixa margem para dúvidas. Escrevem que Thatcher e Reagan usaram as privatizações como ferramenta para combater os sindicatos e transformar em receitas diversos serviços públicos, telecomunicações e transportes, e que os seus sucessores no século XXI, «necessitam fazer o mesmo com os edifícios, terrenos e recursos naturais, porque é um enorme valor que está à espera de ser desbloqueado». Reconhecem a dificuldade da avaliação de alguns desses activos, como o Louvre, o Pártenon ou Parque Nacional de Yellowstone. Dificuldade obviamente superável se recordarmos os inúmeros artigos na comunicação social corporativa que aconselhavam os gregos a venderem os seus monumentos para saldarem as dívidas.

A cultura do «casino cósmico»

Neste «casino cósmico», como o definiu Georges Steiner, o perigo é real, multiforme. Não se devem menorizar as suas formas directas ou indirectas de privatização do Património Cultural aparentemente mais tímidas como as do programa Revive, nem a formatação dos padrões culturais pelo imperialismo cultural, nem a crescente bordelização da cultura pelo turismo cultural, nem a perda de capacidade crítica em que os padrões estéticos, ainda que muito contestados, são progressivamente substituídos pelas ditames do mercado, ainda que mascarados em lenga-lengas fastidiosas e repetitivas salpicadas de considerações artísticas.

A normalidade da anormalidade do estado de sítio cultural que se vive é tudo se reger pelas leis do mercado, crescendo nos charcos do entretenimento agitados pelo furor bulímico em que normalizam os chamados eventos culturais – o conceito eventos tem uma forte carga ideológica indiciando a banalização destruidora de quaisquer hipóteses de projectos culturais de democratização da cultura explodidos nos lugares comum de criação de novos públicos, leiam-se os regulamentos da Europa Criativa –, coloridos pacotes de mercadorias que são açambarcados para serem consumidos sem deixarem rasto. O seu único objectivo é disfarçarem o vazio comatoso desta sociedade, o seu spleen para, na melhor das hipóteses, o ocultarem protegendo-nos. Laboriosamente as forças dominantes foram moldando o gosto para depois o alimentarem com qualquer coisa que é sempre a mesma coisa. Essa dita cultura, mau grado o intenso ruído em que se envolve para abafar as vozes dissonantes, é parte integrante do aparelho repressivo do totalitarismo democrático que impõe o pensamento único.

Desde os anos 60 que se tem alargado a superfície global onde se vai dissolvendo o território, o exercício de soberania, a língua e a identidade cultural, tornados conceitos móveis e transitivos. O objectivo é a conquista do mundo pelo mercado. Nessa guerra os arsenais são financeiros e o objectivo da guerra é governar o mundo a partir de centros de poder abstractos. Megas pólos do mercado que não estarão sujeitos a controlo algum excepto à lógica do investimento. A nova ordem é fanática e totalitária. A cultura é um dos alvos dessa guerra e o mercado, que não reconhece outra hierarquia cultural que não seja a do que é rentável, ocupa cada vez mais o espaço que antes era ocupado pelo Estado.

O meio intelectual, a partir dos anos 50, já se tinha apercebido dessa situação e se alguns consideram o advento da dominação do mercado sobre a cultura como uma expropriação outros, como Adorno e Horkheimer, percebem claramente que essa dominação intermediada pelas nascentes indústrias culturais e criativas é «um sistema político e económico que tem por finalidade produzir bens de cultura – filmes, livros, música popular, programas de televisão, etc. – como mercadorias e como estratégia de controlo social.»2

A produção de produtos ditos culturais faz-se em linhas tayloristas que impõem um ritmo em que deixa de existir tempo para pensar a criação artística, o que acaba por ser uma forma de censura económica, pauperizando a cultura até a reduzir a uma sucessão de entretenimentos não significantes, em que tudo é idêntico. O património cultural e os museus são o alimento substantivo do turismo cultural em que a relação, que deveria ser estrutural e estratégica, permanece numa nuvem de indefinições, confusão de conceitos e de áreas de actuação. O que interessa, o que conta é o que gera dinheiro, muito dinheiro. A introdução ao Programa-Quadro Europa Criativa 2021-2027 da União Europeia (UE) é elucidativa: «a cultura está no centro do rico património e da história da Europa e tem um importante papel no aumento da atractividade de lugares e no reforço da identidade única de espaços específicos. A cultura e a criatividade podem ser importantes motores e impulsionadores da inovação, bem como uma fonte significativa para o empreendedorismo. A cultura é um importante motor para o aumento das receitas de turismo, numa altura em que o turismo cultural é um dos segmentos do turismo com maior e mais rápido crescimento a nível mundial.» É um texto esclarecedor pela miscigenação de conceitos em que o que acaba sempre por vir à superfície é a gestão, o empreendedorismo, como adubos da inovação. A importância do «rico património e da história da Europa» é o «aumento da atractividade de lugares», leia-se turismo cultural para as multidões prontas a disparar o seu olhar distraído, registado em selfies, enquanto invadem museus e outro património edificado. O que conta é o dinheiro, muito dinheiro que o mercado cultural pode gerar, pelo que as iniciativas culturais desligam-se de qualquer projecto cultural para se subordinarem ao que é mais vendável.

Mais esclarecedor fica quando elencam as indústrias culturais e criativas e se olha para a distribuição de verbas por essas áreas. São integrados nos «Sectores culturais e criativos», todos os sectores cujas actividades se baseiam em valores culturais e/ou artísticos ou noutras expressões criativas, quer essas actividades tenham fins comerciais ou não, independentemente do tipo de estrutura que garante a sua execução e seja qual for o modo de financiamento dessa estrutura. Essas actividades incluem a concepção, a criação, a produção, a divulgação e a conservação dos bens e serviços que encarnam uma expressão cultural, artística ou qualquer outra expressão criativa, e funções conexas, como a educação ou a gestão. Os sectores culturais e criativos incluem, nomeadamente, a arquitectura, os arquivos, as bibliotecas e os museus, o artesanato, o audiovisual (em particular o cinema, a televisão, os jogos de vídeo e as actividades multimédia), o património cultural material e imaterial, o design, a publicidade, a moda, os festivais, a música, a edição de publicações, a literatura, as artes performativas, a rádio e as artes plásticas. Ao mesmo nível das Meninas de Velasquez ou da Ronda da Noite de Rembrandt está um anúncio à Coca-cola ou ao BurgerKing. O Saraband do Bergman ou a Regra do Jogo do Renoir fica submergido na quantidade brutal de videojogos que já é um volume de negócio superior ao do cinema ou das séries televisivas. Festivais de Música? Os de música sinfónica são residuais, em quantidade e em espectadores, se comparados com os de música pop, o que também se reflecte na indústria discográfica, basta olhar para os espaços que ocupam nas estantes de venda e também nos espaços de «crítica musical» na imprensa. A literatura nada com respiração assistida no plâncton das edições dos media da imprensa corporativa, das revistas de glamour, etc.

A moda invade tudo e é dominante em todos os outros géneros artísticos, para isso lá estão os gestores culturais, esse baixo clero pós-moderno com especiais aptidões para ocultar e tornar eficaz o vazio da cultura inculta instalada em todos os patamares do entretenimento da iliteracia cultural por esses intermediários culturais, gestores culturais, programadores, curadores, comissários, agentes do pensamento dominante que aceleram pelas auto-estradas do bullying cultural que se impuseram durante os anos 80, como Pierre Bourdieu bem os caracterizou e que é sempre de recordar: «são os encarregados de uma subtil actividade de manipulação nas empresas industriais e na gestão da produção cultural (…) a sua distinção é uma forma de capital incorporado, porte, aspecto, dicção e pronúncia, boas maneiras e bons hábitos que, por si, garante a detenção de um gosto infalível o que sanciona a investidura social de um decisor do gosto, de modo bem mais significativo do que o faz o capital escolar, de tipo académico (…) a ambiguidade essencial e a dupla lealdade que caracteriza o papel desses intermediários é serem os mercadores de necessidades que também se vendem continuamente a si próprios, como modelo e garantes do valor dos seus produtos, são óptimos actores, apenas porque sabem dar boa imagem de si acreditando ou não no valor daquilo que apresentam e representam»3. Intermediários culturais sempre entre duas actividades promocionais onde a arte e a cultura são sempre e só mercadoria e o público se alicia com mentiras ou melhor (pior) não verdades.

Esclarecedor é também o enquadramento financeiro para a execução do Programa durante o período 2021-2027, em linha com os anteriores. «O Programa continua a apostar em 3 vertentes: Subprograma MEDIA, Subprograma CULTURA e Vertente Intersectorial, sendo que esta última introduz uma novidade dirigindo-se a “Cultura e Meios de Comunicação”». Através da vertente intersectorial o Programa visará também «promover a cooperação política em matéria de cultura no seio da UE, promover um ambiente de liberdade, diversidade e pluralismo na comunicação social e apoiar o jornalismo de qualidade e a literacia mediática».
Em termos orçamentais a Comissão propõe a afectação de 1,85 mil milhões de Euros ao Programa global, divididos do seguinte modo: subprograma MEDIA, 1,08 mil milhões de Euros; subprograma CULTURA, 609 milhões de Euros; e 160 milhões de Euros para a vertente intersectorial. Tal proposta traduz-se num aumento de 450 milhões de Euros face ao actual Programa Europa Criativa 2014-2020 e a grande aposta é no incremento da comunicação social estipendiada.

A bitola é a do mercado, os apoios são ao empreendedorismo, As justificações na distribuição das verbas revelam os objectivos da UE e o que nos espera por detrás da cortina «de promover um ambiente de liberdade, diversidade e pluralismo na comunicação social e apoiar o jornalismo de qualidade e a literacia mediática» em que a verba para os media é reforçada pela do denominado subprograma intersectorial, pelo que 67% do orçamento Europa Criativa é dirigido para o controle de informação que se integra no sistema mundial de formação da opinião pública e da interpretação da realidade pela comunicação social corporativa, mercenária, ao serviço do pensamento totalitário dominante. Os sobrantes 33% são para o que selam como cultura, mas com a banda larga aplicada, estamos conversados. Há excepções, mas as excepções são a confirmação da regra e a regra é o triunfo imperial do espectáculo que bordeliza a cultura, o património cultural e os museus com o mercado a extrair benefícios máximos do empobrecimento moral e intelectual da sociedade. É o fim da cultura na sua relação ideológica e política com a sociedade. Cultura amarrada à perda de futuro como dimensão ontológica humana em que se procura que a alienação global seja voluntária.

A responsabilidade dos intelectuais

Todo este processo decorre por o capitalismo neoliberal ter percebido que a cultura, a produção teórica eram armas nucleares que eram necessário despoletar para perpetuar o imperialismo e impor um pensamento único. Puseram em marcha um processo de desagregação social dos intelectuais para os isolar e os atirar para as periferias do poder político. Os intelectuais, que nunca foram um grupo homogéneo mas que, como Régis Debray anotou, se «sentiam, pelos seus saberes e conhecimentos diferenciados, ser uma colectividade de pessoas, socialmente legitimadas para tornarem públicas as suas opiniões»4 detendo um poder, que embora de origens diferentes, influenciava ou ia contra o dos políticos eleitos, foram progressivamente marginalizados do tecido social.

Um processo que incidiu sobretudo nas áreas culturais distanciando o Estado das políticas culturais, retirando-lhes importância política e pública, entregando progressivamente ao mercado e à iniciativa privada os instrumentos da cultura, diligenciando para que o mercado e a iniciativa privada contaminassem as políticas culturais das instituições que tutelam, como se a cultura fosse um território que floresce numa terra de ninguém e para que a arte e a cultura perdessem o sentido de ser a utilidade que transforma a vida.

Para essa nova ordem é fundamental anular a cultura enquanto núcleo de práticas e actividades, enquanto instrumentos de produção material, recepção e circulação que dão sentido à vida e ao mundo com o fim último de que já não seja sequer possível pensar que é possível pensar uma sociedade alternativa onde os valores da civilização, da humanidade, da cultura, da política se plantam para florescer, ainda que com todas as contradições e dificuldades.

Para essa nova ordem é fundamental que os intelectuais, especialistas e profissionais qualificados sejam elementos passivos das suas competências, remetidos às suas áreas especializadas, tendo por interlocutores os seus pares e não a sociedade para perderem influência na construção da consciência colectiva.

Neste estado de sítio há que exigir aos intelectuais que façam novamente ouvir a voz que já tiveram no discurso público, com a consciência de que se ela não é decisiva é fundamental para se sobrepor à turbulência ruidosa do pensamento dominante, que procura tornar inaudível qualquer discurso crítico que o ponha em causa. Devem readquirir o sentimento do seu papel social, mesmo com a incertitude de não terem no imediato sucesso garantido.

Há que resistir, resistir sempre e sem vacilações para que a cultura e a arte se recentrem na vida e encontrem aquilo que podem e querem fazer com os seus materiais e instrumentos sem se entregarem nas mãos do mercado, recusando-se a responder às exigências de gerar lucro, normalizando-as pelas imposições do consumo imediato e padronizado onde se afoga o espírito crítico.

Há que continuar e lutar com a firme convicção de que «no entanto, ela (a Terra) move-se», como disse Galileu enfrentando o tribunal da Inquisição.

(publicado em AbrilAbril  https://www.abrilabril.pt/ )

  • 1.in Four Quartets: «Time present and time past / Are both perhaps present in time future /
    And time future contained in time past.»
  • 2.Adorno, Theodor/ Horkeimer, Max ; Dialéctica do esclarecimento, Jorge Zahar editor, 1985.
  • 3.Bourdieu, Pierre; A distinção, uma crítica social da faculdade do juízo, Edições 70, 2010.
  • 4.Debray, Régis; Le pouvoir intellectuel em France, Ramsay, 1979

Ver o original em 'Praça do Bocage ' (clique aqui)

Brasil | Trabalhadoras e trabalhadores da cultura gritam por socorro e apoiam Lei Emergencial da Cultura

Tramita na Câmara dos Deputados o projeto de Lei Emergencial da Cultura (Projeto de Lei 1075-2020), que tem como relatora a deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ).

 

 

Por isso, o Portal CTB inicia uma série de matérias sobre a situação de vida dos artistas em meio ao isolamento social contra a pandemia do coronavírus. A tramitação e votação desse projeto tem o acompanhamento da jornalista Railídia Carvalho. Esta é a primeira reportagem da série.

Aqui, os artistas falam das dificuldades enfrentadas neste momento de isolamento, mas também sobre o descaso com a cultura, principalmente dos governos neoliberais, após o golpe de Estado de 2016.

Nesta primeira reportagem toda feita via Whatsapp, artistas relatam suas dificuldades. Artistas independentes, assim como os profissionais que trabalham nos setores que não aparecem, mas sem eles não existiria espetáculo. E como não se pode esperar nada de positivo do desgoverno Bolsonaro, o Parlamento ameniza a situação.

A pandemia do coronavírus afetou a vida de todo mundo e, por causa da falta de ação do governo federal, o Congresso Nacional aprovou recentemente um auxílio emergencial para quem ficou sem renda devido ao isolamento social. Mas nem todas as categorias foram contempladas. Trabalhadoras e trabalhadores da cultura ficaram de fora.

Emergência cultural

O projeto de Lei Emergencial da Cultura rodou o Brasil com inúmeros debates virtuais e pode inclusive ser votado nesta quinta-feira (21), na Câmara dos Deputados.

Jandira explica que o projeto pretende destinar ao setor cultural cerca de R$ 1,2 bilhão durante o período do isolamento. A estimativa é dar ajuda financeira para os espaços culturais independentes com R$ 10 mil mensais e impedir o corte de fornecimento de água, energia elétrica e telecomunicações para as instituições comprovadamente culturais.

“O setor cultural brasileiro precisa de proteção urgente. São espaços culturais, artistas, gestores, pessoas que dão a vida pela arte. Vamos em frente construir um texto que garanta o respeito que merecem”, afirma a deputada comunista em seu Twitter.

Em um debate virtual, o historiador, escritor e secretário da Cidadania Cultural do Ministério da Cultura, entre 2004 e 2010, Célio Turino afirma a existência de 8.500 escolas de artes, 1.300 teatros, 4.000 pontos de cultura e cerca de 600 circos no país que necessitam desse apoio durante a quarentena. Ele assegura ainda que o Fundo Nacional de Cultura tem dinheiro suficiente para destinar o que está proposto pelo projeto a quem trabalha na cultura.

Logo no início da pandemia, teatros, cinemas, bares foram fechados e shows proibidos para não causarem aglomeração, como forma de impedir a disseminação da Covid-19. Em casa, muitos artistas ficaram sem trabalho e sem renda.

Tudo fechado

“Com tudo fechado, ficamos sem opções e precisamos criar maneiras de nos ajudar uns aos outros e batalhar por projetos que nos garantam manter nossos trabalhos, como o projeto de Lei Emergencial da Cultura”, afirma Zeca Magrão, vice-presidente do Sindicato dos Músicos Profissionais de Minas Gerais e diretor do Movimento Nos Bares da Vida.

Ele conta que o sindicato e o Bares da Vida distribuem cestas básicas para músicos e musicistas do estado. “Temos que levar as cestas nas casas de muitos que não têm nem o dinheiro para o transporte. Os que conseguem se locomover vêm buscar na minha casa”. ele agradece o empenho do vereador de Pelo Horizonte, Gilson Reis (PCdoB), que “sempre apoiou as iniciativas do Bares da Vida e do sindicato”.

Dorberto Carvalho, presidente do Sindicato dos Artistas e Técnicos de Espetáculos e Diversões do Estado de São Paulo, também apoia a Lei Emergencial da Cultura porque “o setor artístico, cultural e de entretenimento foi o primeiro a ser paralisado”. Mas, para ele, “o setor vem sendo sucateado há anos”.

Zeca Magrão, de MG, distribuindo cestas básicas para músicos

Há um “rebaixamento de cachês, que sequer permitem alguma reserva para suportar o trabalho intermitente característico dessa atividade, seja pelo ataque sistemático que o setor vem sofrendo desde 2016 no governo Temer e depois intensificado pelo governo Bolsonaro”.

O sindicalista conta que na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, tramita o Projeto de Lei (PL) 253-2020, em moldes próximos à Lei Emergencial da Cultura nacional. Mas ressalta as iniciativas “de muita gente contribuindo para os fundos de apoio e são muitas entidades distribuindo cestas básicas, mas só as cestas não darão conta da sobrevivência desses trabalhadores”.

Sem negociação

Como observa a atriz e contadora de histórias, Lilia Marcheti ao relatar as dificuldades em negociar o pagamento do aluguel e de energia elétrica, porque os responsáveis “preferem ver o imóvel fechado e você na rua, do que negociar alguma forma de pagamento sem onerar ainda mais os nossos bolsos”.

Ela conta que não está passando tanto aperto, “embora haja aperto”, porque trabalha como arte educadora na Fundação Casa. Diz ainda que é obrigada ao trabalho presencial “semana sim, semana não” e fica em salas com dezenas de meninos, com o seu próprio álcool gel e máscara. Afirma também que aos 54 anos de idade, pela “primeira vez ” tem um trabalho com “carteira assinada”. o da Fundação Casa.

“Além de assumirmos o nosso papel, estamos passando a aula do ensino formal”, garante. “A carga horária é a mesma, mas estamos trabalhando muito mais e com muita pressão porque somos os únicos profissionais com contato direto com os meninos. Muitas vezes ficamos com vinte e dois meninos numa sala fechada”.

Para Pedro Guima, ator, performer e prosador, “está tudo parado. Só não estou passando fome e morando na rua por ter um cargo de professor de História em escola estadual”. Ele assinala ainda que os:

 
artistas que estão respirando são os que têm grana de família, os que trabalharam bem nos últimos tempos e fizeram reservas ou os que possuem algum trabalho paralelo”.
Pedro Guima
 
 

Magrão acentua ainda os cortes sofridos na cultura em Minas Gerais, governado por Romeu Zema (Novo) da mesma forma como conta Dorberto em São Paulo, governado por João Doria (PSDB). O artista e sindicalisgta mineiro garante também que está em discussão um projeto de emergência em Minas Gerai para o setor cultural.

“O governo de São Paulo foi beneficiado pelo socorro de R$ 90 bilhões aos estados e munícipios, aprovado pelo Congresso, que além de ajuda financeira, garante uma moratória para dividas com o governo federal”, reforça o artista e sindicalista paulista.

E mesmo com a decretação de estado de calamidade pública pela Alesp, Doria anunciou “corte de 50% no Proac editais (Programa de Ação Cultural do Governo do Estado de São Paulo) que é o programa mais capilarizado da secretaria e atinge diretamente os territórios das periferias de São Paulo e interior e também o corte de 50% nos repasses para as Organizações Sociais, que sabemos, recairão diretamente sobre a atividade fim, aquela que beneficia a população e dá emprego aos trabalhadores da cultura e não sobre a atividade meio que é aquela que paga o salário de suas diretorias e funcionários”.

Somente em São Paulo, de acordo com a Fundação Seade, existem aproximadamente 640 mil trabalhadores da cultura “e seguramente 80% deles não têm reservas para se manterem sem trabalho”, alega Dorberto.

Qual futuro?

Como conta o ator Clayton Mariano, do grupo Tablado de Arruar. “Por sorte, este ano, eu tinha feito um filme para a Netflix e uma peça (no Sesc) antes do Carnaval, ou seja, antes da quarentena. Estou sobrevivendo com essa grana. Se fosse o ano passado, estaria desesperado”. Além disso, “negociei aluguel para diminuir gastos. Mas a questão está em como resistir daqui para frente, tendo em vista que o setor cultural e de eventos deve ser o que mais vai demorar para voltar”.

Na mesma situação está o diretor Luiz André Cherubini, do grupo Sobrevento de Teatro.

 
Estamos sem trabalho remunerado, como todos os artistas e técnicos em espetáculos de diversões que vivem exclusivamente de seu trabalho” e “estamos com poucas perspectivas de que possamos auferir, pelo menos até o fim do ano, alguma renda advinda do trabalho a que nos dedicamos e para o qual nos preparamos toda a vida”.
Luiz André Cherubini
 
 

Por todos os relatos apresentados e os das matérias posteriores vê-se a necessidade de aprovação da Lei Emergencial da Cultura como relatado pela deputada federal Jandira Feghali. Trabalhadoras e trabalhadores da cultura agradecem, assim como toda a sociedade brasileira tão necessitada de cultura com ou sem isolamento.


Texto em português do Brasil


 

 

 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/trabalhadoras-e-trabalhadores-da-cultura-gritam-por-socorro-e-apoiam-lei-emergencial-da-cultura/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=trabalhadoras-e-trabalhadores-da-cultura-gritam-por-socorro-e-apoiam-lei-emergencial-da-cultura

“Não somos coitadinhos”. Artistas fazem vigília pelo fim da precariedade na cultura

 

Vários artistas portugueses, espalhados por 15 cidades, estão esta quinta-feira a fazer uma vigília pelo fim da precariedade na cultura. Queixam-se de falta de apoios do Estado.

 

Esta quinta-feira, profissionais do setor da cultura e das artes vão realizar uma vigília em frente à Assembleia da República durante o dia inteiro. A falta de apoios do Estado é a principal reivindicação dos artistas portugueses, que durante esta pandemia de covid-19 ficam sem dinheiro para comer ou pagar as contas.

Ao todo, 15 cidades portuguesas já aderiram à iniciativa. Em Lisboa, a vigília começou às 9h e, no Porto, começa às 14h. Nos últimos dois meses, os trabalhadores deste setor ficaram sem qualquer fonte de rendimento e quase sem apoios do governo.

“A nossa situação já era muito complicada, com muitas falhas a nível laboral, muita coisa que não está legislada… Quando nos mandaram para casa no dia 10 de março, a nossa situação foi também de calamidade. É preciso dar voz, mostrar que não somos coitadinhos mas exigimos direitos! Somos contribuintes, pagamos como todos os trabalhadores e temos que ter os mesmos direitos!”, disse Anaísa Raquel, uma das organizadoras da vigília Cultura e Arte, citada pela TSF.

“Não somos artistas, somos profissionais, queremos que revejam o estatuto do profissional porque não existe, há profissões que nem estão legisladas! Temos que reformular a lei do trabalho, o nosso regime tem que funcionar a contratação, os recibos verdes têm que acabar. Contratação a curto, médio e longo prazo. Chega!”, acrescentou.

Face às preocupações de eventuais ajuntamentos excessivos de pessoas, Anaísa Raquel garante que a vigília vai cumprir todas as normas de segurança e saúde pública. Nunca estarão mais de dez pessoas, que vão trocando por turnos.

“Estaremos em silêncio, em turnos de meia hora e que nunca terão mais de 10 pessoas. Não é uma manifestação, mas estamos na rua com as devidas regras e normas de segurança”, explicou.

A fundadora da Ação pela Cultura 2020 diz que há a necessidade de mostrar ao Ministério da Cultura que é preciso encontrar soluções que se adaptem às formas de trabalhar destes profissionais.

ZAP //

 
 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/artistas-vigilia-fim-precariedade-325716

Zeca Afonso inspira novo álbum de Pedro Jóia 

O novo álbum do guitarrista Pedro Jóia, a sair no próximo dia 29, é dedicado a José Afonso (1929-1987), que o músico aponta como «uma referência».

Zeca AfonsoCréditos / Antena Miróbriga

«Zeca» trata-se de um projecto no qual o músico «pensava há muito», como afirmou em entrevista à Lusa. «O Zeca foi sempre uma referência para mim», disse Pedro Jóia, que contava «cerca de 16 anos» quando José Afonso morreu.

A decisão de gravar o álbum foi incentivada pelo músico Fausto, que tocou com José Afonso e que, na contracapa, se afirma «deslumbrado», referindo que José Afonso certamente iria «gostar de gravar um álbum acompanhado por Pedro Jóia».

Segundo Pedro Jóia, o «principal desafio foi manter a verdade da música do Zeca, mantendo a sua simplicidade, sem artifícios e não a ornamentar demasiado, guitarristicamente».

A viúva do músico e resistente antifascista, Zélia, «foi acompanhando o trabalho e uma das primeiras pessoas a ouvir o resultado». «Incentivou-me e apoiou-me muito, o que para mim foi importante», disse Pedro Jóia.

O álbum conta dez temas emblemáticos da carreira de José Afonso. «A Formiga no Carreiro», «A Morte Saiu à Rua», «Venham Mais Cinco» ou «Balada de Outono» são alguns dos escolhidos por Pedro Jóia, que reconheceu «haver algo de novo nos temas gravados, respeitando a sua estrutura e sem lhes ter alterado nada».

«A música de Zeca Afonso exige que seja tratada com pinças», declarou, referindo a importância do músico para a sua geração.

Pedro Jóia, na guitarra clássica, gravou os temas apenas acompanhado por José Salgueiro, na percussão. Este é o sétimo disco de Jóia, que no próximo dia 30 completa 50 anos.

Com agência Lusa

 

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/cultura/zeca-afonso-inspira-novo-album-de-pedro-joia

Comemorar o Dia Internacional dos Museus é «homenagear a Cultura»

A Associação de Defesa do Ambiente de Loures (ADAL) valoriza a reabertura dos museus municipais num dia que, comemorado pela primeira vez há 40 anos, é «também uma singela homenagem» ao sector da Cultura.

Museu Municipal de LouresCréditos / TripAdvisor

Numa comunicação enviada ao AbrilAbril esta segunda-feira, Dia Internacional dos Museus, a ADAL lembra que este é um sector que está a passar por «enormes dificuldades», apesar de a sua existência e actividade serem «imprescindíveis» para o desenvolvimento da democracia.

Este ano, o mote das celebrações da data instituída pelo Conselho Internacional de Museus (ICOM) é «Museus para a Igualdade: Diversidade e Inclusão», a fim de celebrar as múltiplas perspectivas que compõem os museus e suas comunidades, defendendo ferramentas capazes de identificar e superar preconceitos no que exibem e nas histórias que contam.

«Nos dias que correm, em que tantas desigualdades e injustiças se observam, de forma agravada, no mundo e no nosso país, estes espaços de preservação, valorização e divulgação das memórias colectivas não podem estar alheios às realidades sociais, promovendo o conhecimento e a compreensão das razões históricas, políticas e sociais que as contextualizam, tanto no passado como na actualidade», refere a ADAL no comunicado.

Como tal, e depois da comunicação enviada à Assembleia Municipal de Loures, no passado mês de Abril, «foi [...] com satisfação que tomámos conhecimento da reabertura dos museus municipais neste dia 18 de Maio», frisa.

A reabertura dos museus e núcleos museológicos de Loures acompanha a decisão tomada a nível nacional, a partir de hoje, tendo em conta as regras em vigor para a prevenção e mitigação dos riscos de contágio do novo coronavírus.

O Dia Internacional dos Museus, celebrado a cada 18 de Maio, tem o objectivo de alertar para o facto de os museus serem «um importante meio de intercâmbio cultural, enriquecimento de culturas e desenvolvimento de entendimento mútuo, cooperação e paz entre os povos».

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/cultura/comemorar-o-dia-internacional-dos-museus-e-homenagear-cultura

A pandemia da ignorância a propósito do “marxismo cultural”

(José Pacheco Pereira, in Público, 16/05/2020)

Pacheco Pereira

Às vezes nem vale a pena bater no ceguinho, porque para bater em ceguinhos em Portugal arranja-se sempre uma multidão. De preferência quando o ceguinho já está mesmo ceguinho, porque mesmo só com um olho, o estilo reverencial abunda e o país é muito pequeno para haver independência crítica. E então se for anónima a pancada, os praticantes são mais que muitos.

 

Mas a ignorância atrevida, essa, sim, merece azorrague, até porque nos dias de hoje, de pensamento mais do que exíguo, a coisa tende a pegar-se pelas “redes sociais”, o adubo ideal da ignorância. Temos de suportar duas pandemias, a da ignorância e a do vírus. Convenhamos que é demais. Nestas alturas, tenho um surto de pedantismo incontrolável. Bom, não sei bem se a classificação de pedantismo é a melhor, mas que por lá anda, tenho a certeza.

Vem isto a propósito do actual uso e abuso da expressão “marxismo cultural”, muito comum hoje à direita mas também usada muitas vezes erradamente à esquerda, que, na sua globalidade, é cada vez menos marxista, mas ainda não deu por ela. Porém, o uso à direita é uma espécie de vilipêndio e insulto e, em muitos comentadores de direita, é comum para caracterizar uma espécie de polvo omnipresente, que lhes rouba as artes, as letras, o jornalismo, algumas universidades, as ciências sociais, a comunicação social, a educação e o ensino, e os obriga a refugiar-se nos espaços “livres” dos colégios da Opus Dei, no Observador, nos blogues de direita, na Universidade Católica, nos lobbies ideológicos empresariais com acesso à comunicação, nalgumas fundações, nalguns articulistas, na imprensa económica, etc. Para bunker contra o “marxismo cultural” já parece muito espaçoso, mas eles acham-no apertadinho.

Nuno Melo escreveu recentemente um artigo com o título sugestivo de “A supremacia do marxismo cultural”, que é um bom exemplo de quem não percebe nada do que está a falar. Começa com uma citação de Marx, aquilo a que ele chama a “lição” que a esquerda aprendeu:

“As ideias da classe dominante são, em todas as épocas, as ideias dominantes, porque a classe que é a força material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, a sua força intelectual dominante.”

Muito bem. A frase quer dizer exactamente o contrário do que ele pretende. Quer ele dizer que é o proletariado a “classe dominante” nos dias de hoje e que é por isso que a “força intelectual dominante” é o marxismo? Interessante, ele vai certamente explicar-me quando é que houve mudança de “força material dominante”, ou seja, quando é que houve uma revolução. Na interpretação de Marx, são escritos como o de Melo que revelam a “força intelectual dominante”, ou seja, a da burguesia.

O que é essencial na interpretação do marxismo é que a seta do poder, que explica a sociedade, a cultura, a economia, a cultura, se faz a partir “de baixo”, das relações de produção, do modo de produção, das classes dominantes a cada momento da história, e que nesse terreno é a luta de classes que define essa outra seta que é o sentido da história. Como Lenine e Trotsky disseram de forma mais bruta, de um lado está o “caixote do lixo da história” e do outro o futuro, a base da teleologia marxista. E embora haja “acção recíproca” entre a superestrutura e a infra-estrutura, ela faz-se sempre a partir da “determinação” da infra-estrutura. Esta interpretação de Marx é a essência da sua teoria, e mesmo quando, nas escassas páginas que escreveu sobre a “cultura”, Shakespeare, em particular, admitiu uma “autonomia relativa da cultura”, nunca admitiu que essa autonomia fosse absoluta. Ou seja, na interpretação marxista, nunca o “marxismo cultural”, seja lá o que isso for, podia ser dominante numa sociedade capitalista, e isto é o bê-á-bá da coisa. Nem Lenine, nem Rosa Luxemburgo, nem Gramsci, nem Lukács, se afastaram deste ponto essencial.

E, mesmo aceitando-se a ambiguidade da expressão, seria um absurdo dizer que qualquer forma de “marxismo cultural” tem hoje “supremacia” na sociedade portuguesa. É verdade que há muita força da esquerda e do esquerdismo (que não é a mesma coisa) em determinados sectores da “superestrutura”, nas artes, nas letras, em certa comunicação social, mas acrescente-se duas coisas: primeiro, a maioria dessa esquerda e desse esquerdismo não é marxista; segundo, já teve mais força do que hoje tem e, mesmo a que subsiste, está cada vez mais acantonada. Por exemplo, nos anos da troika, muito do discurso público em matérias de sociedade e economia era “neoliberal” (não gosto desta designação, mas vai por facilidade), e uma das grandes vitórias ideológicas da direita foi conseguir interiorizá-lo de forma “dominante”. Devo dizer que eu troco todo o esquerdismo cultural no teatro pela reversão dessa invasão inconsciente de muitas cabeças pela TINA.

Eu não sou guardião da ortodoxia de Marx, mas sei o que ele disse e o que ele não disse e não participo neste abastardamento das ideias pelas palavras e pela propaganda. O problema é que gente como Nuno Melo, e muita direita, acha que bater no André Ventura é uma expressão do “marxismo cultural” e só não se apercebe de como está a dignificar o exercício, porque precisa de um papão com um nome ilustre para glorificar a vaidade própria.

Não é muito edificante ser vítima da sua ignorância, mas já é outra coisa ser vítima de uma universal conspiração marxista que, vinda das trevas do comunismo, os persegue pelas ruas de Bruxelas.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Nuno Lopes denuncia que há artistas a passar fome em Portugal

 

O actor Nuno Lopes considera-se “um privilegiado” nestes tempos de pandemia, numa altura em que se estreou na Netflix com a série “White Lines”, mas denuncia que há artistas em Portugal que “estão em situação de fome”.

Declarações numa entrevista à Rádio Renascença, onde Nuno Lopes lamenta o estado de precariedade permanente do sector artístico português que a pandemia de covid-19 veio agravar.

“A classe cultural em Portugal já é precária desde sempre, pior fica quando há uma crise e quando não temos sequer a condição de intermitentes, como há noutros países”, queixa-se Nuno Lopes, lamentando que os actores e outros artistas não têm “sequer direito a subsídio de desemprego“.

A situação de precariedade “significa, que quando não estão a trabalhar, como agora, porque não podem, não têm como ganhar a vida“, constata o actor.

“Há muitas pessoas da minha classe que estão neste momento em situação de fome, mesmo”, alerta ainda Nuno Lopes que fala de uma “situação horrível”.

O actor que participa na série “White Lines” da Netflix, que estreou nesta sexta-feira, considera-se um “privilegiado” nesta fase. Mas, ainda assim, lamenta que teve de “parar um filme que estava a fazer com o Marco Martins”.

“Voltamos para Portugal e como as condições monetárias que a cultura tem nunca são grandes, estamos neste momento a perceber como é que podemos continuar”, refere o actor, notando que “tinha um outro projecto em França” que também está dependente da reabertura das fronteiras e da “evolução do vírus no mundo”.

“Concursos patéticos do Ministério da Cultura”

A actriz Sandra Faleiro também se queixa da actual situação, referindo-se às “pessoas que já não têm comida no prato” e aos “trabalhadores independentes que trabalham há anos sem condições ou garantias nenhumas”.

As palavras de Sandra Faleiro surgem numa publicação no Instagram, onde critica ainda os “concursos patéticos do Ministério da Cultura nestes tempos de calamidade”.

“Se não se tomarem medidas a sério que tenham uma perspectiva de futuro e que sejam realistas e funcionais”, espera-nos “o vazio”, “sem música, cinema, teatro, dança, literatura, artes plásticas, televisão”, avisa a actriz.

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Uma publicação partilhada por Sandra Faleiro (@faleiro.sandra) a

 

 

 

ZAP //

 
 
 

É urgente um verdadeiro Serviço Público de Cultura

O Manifesto em Defesa da Cultura quer a mobilização imediata de fundos do OE para garantir «rendimento suficiente» a todos os trabalhadores da Cultura, «sem condições, excepções ou contrapartidas».

Créditos / Manifesto em Defesa da Cultura

A exigência, a par de outras, é dada a conhecer através de um comunicado divulgado este sábado pelo grupo nacional de coordenação do Manifesto em Defesa da Cultura.

Além de apoios financeiros imediatos aos trabalhadores, no documento pede-se a mobilização de fundos do Orçamento para garantir a sobrevivência das estruturas artísticas que viram recusados apoios nos últimos concursos quadrienais e bienais.

Lembrando a exigência antiga de se estabelecer desde já o patamar mínimo de 1% do Orçamento do Estado (OE) para a Cultura e o objectivo de alcançar, numa década, 1% do PIB, os activistas recusam «o regresso da austeridade sob nova retórica».

Um verdadeiro Serviço Público de Cultura é necessário para acudir à «emergência» que a Cultura já vivia «há décadas», fruto de uma política cultural de «destruição do interesse público», de favorecimento da «mercantilização e mercadorização da Cultura» e de «redução drástica do investimento do Estado».

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/trabalho/e-urgente-um-verdadeiro-servico-publico-de-cultura

Cada espectáculo cancelado são 18 artistas sem rendimento

Por cada espetáculo cancelado em Portugal, até 31 de março, devido à pandemia da covid-19, 18 artistas ficaram sem rendimento, de acordo com os resultados de um inquérito promovido pela Fundação GDA (Gestão dos Direitos dos Artistas).

“O inquérito lançado pela GDA indica que por cada espetáculo cancelado ficaram sem rendimento, em média, 18 artistas, 1,3 profissionais de produção e 2,5 técnicos”, refere aquela estrutura num comunicado enviado à agência Lusa.

A GDA criou o inquérito em março – depois de começarem a ser adiados ou cancelados espetáculos na sequência das medidas de contingência definidas pelas autoridades para tentar travar a propagação da covid-19 – com o “objetivo de recolher dados que contribuam para avaliar a situação real vivida no setor das artes do espetáculo”.

Ao inquérito responderam, até 31 de março, 992 profissionais, que deram conta do cancelamento de 4.287 espetáculos.

A maioria dos espetáculos cancelados é de Música (2.964), seguindo-se os de Teatro (1.048) e os de Dança (100). Na categoria “espetáculos de outra natureza” foram reportados 175 cancelamentos.

Dos quase mil profissionais que responderam ao inquérito, a maioria são músicos (67%), seguindo-se depois atores (23%) e bailarinos (4%). Os restantes (6%) “provêm de outras profissões do espetáculo”.

A GDA destaca que os resultados do inquérito “acabam por refletir muito as caraterísticas da relevância da amostra”, uma vez que o mesmo foi promovido por uma cooperativa constituída por atores, bailarinos e músicos.

Considera a Fundação GDA que, “somados aos dados da Associação dos Músicos de Portugal (AMP) e do Sindicato dos Trabalhadores de Espetáculos, do Audiovisual e dos Músicos (CENA-STE), os resultados [deste inquérito] poderão contribuir para a construção de um retrato da situação que seja fiel à realidade dramática que está a ser vivida por muitos artistas em Portugal”.

Segundo a GDA, “a informação recolhida já foi discutida com a ministra da Cultura e com o Presidente da República, assim como com partidos com assento parlamentar e com o presidente da Associação Nacional de Municípios”.

Os resultados do inquérito da GDA complementam outros cujos resultados foram divulgados anteriormente por outras estruturas.

Segundo um inquérito promovido pelo CENA-STE, e cujos resultados foram anunciados no início de abril, 98% dos trabalhadores de espetáculos viram trabalhos cancelados e, 33 por cento, por mais de 30 dias.

Em termos financeiros, para as 1.300 pessoas que responderam ao questionário, as perdas por trabalhos cancelados representam ainda dois milhões de euros, apenas para o período de março a maio deste ano, de acordo com o CENA-STE (o que indica a perda de um valor médio de receita, por trabalhador, de cerca de 1.500 euros).

O inquérito, realizado já na segunda quinzena de março, no contexto de confinamento, em resposta à pandemia de Covid-19, indica ainda que 85% dos trabalhadores questionados são independentes e não têm qualquer proteção laboral.

De acordo com um inquérito realizado pelo Movimento SOS Arte PT, a 300 pessoas entre 03 e 17 de abril, 65% dos profissionais das artes – três em cada quatro – registaram fortes quebras de rendimento devido à pandemia da covid-19.

Em março, devido à covid-19, 62% dos inquiridos tiveram o seu trabalho completamente ou quase completamente parado, 65% (dois em cada três) viram ser completamente afetada a sua vida profissional e 75% (três em cada quatro) a sua vida pessoal.

Cerca de metade dos inquiridos (54%) afirmaram que a covid-19 prejudicou completamente os seus rendimentos, enquanto apenas 6,6% disseram não ter os rendimentos afetados pela paralisação na resposta à pandemia.

Ao mesmo tempo, 65% dos inquiridos viram a vida profissional completamente afetada pela covid-19, contra 0,6% dos inquiridos que disseram que a pandemia do novo coronavírus não lhes afetou a vida profissional.

Os espaços culturais começaram a encerrar, e consequentemente a adiar ou cancelar espetáculos, no início de março, qual tal era ainda apenas uma recomendação do Governo.

De acordo com a Associação de Promotores de Espetáculos, Festivais e Eventos (APEFE), desde meados de março e até ao final de abril foram cancelados, suspensos ou adiados cerca de 27 mil espetáculos. A APEFE contabilizou apenas espetáculos com bilhetes pagos.

Entretanto, o Governo aprovou em 30 de abril, em Conselho de Ministros, o “Plano de Desconfinamento”, que previa a reabertura de livrarias, bibliotecas e arquivos (que aconteceu no dia 04 de maio), seguindo-se museus, palácios, galerias e monumentos, em 18 de maio, data que coincide com o Dia Internacional dos Museus.

Segundo este plano, cinemas, teatros, auditórios e salas de espetáculos podem abrir em 01 de junho, “com lugares marcados, lotação reduzida e distanciamento físico”.

Estas decisões serão “reavaliadas a cada 15 dias”.

Além disso, na semana passada deu entrada no parlamento uma proposta de lei, da autoria do governo, que proíbe a realização de “festivais e espetáculos de natureza análoga” até 30 de setembro, mas com exceções.

Segundo a proposta de lei, que será discutida em plenário na quinta-feira, “até 30 de setembro, os espetáculos podem acontecer em recinto coberto ou ao ar livre, com lugar marcado e no respeito pela lotação especificamente definida pela Direção-Geral da Saúde em função das regras de distanciamento físico que sejam adequadas face à evolução da pandemia da doença COVID-19”.

A proposta é aplicável ao reagendamento ou cancelamento de espetáculos não realizados entre os dias 28 de fevereiro de 2020 e 30 de setembro de 2020.

É ainda feito o alerta de que a proibição da realização de “festivais e espetáculos de natureza análoga” pode ser prolongada para depois de 30 de setembro, “com fundamento em recomendação da Direção-Geral da Saúde”.

Fonte: Lusa

 

Ver original em 'Portal CASCAIS' na seguinte ligação:

https://www.portalcascais.pt/cultura-2/cada-espectaculo-cancelado-sao-18-artistas-sem-rendimento/

Mais de 500 artistas assinam manifesto contra Regina Duarte: 'Não nos representa'

Atriz Regina Duarte fala com jornalistas após almoço com o presidente Jair Bolsonaro, em Brasília, em 3 de março de 2020
© Folhapress / Pedro Ladeira

Um grupo de 512 artistas, jornalistas, produtores culturais e intelectuais assinou carta de repúdio à atuação da atriz Regina Duarte à frente Secretaria da Cultura do governo Bolsonaro. 

"Como artistas, intelectuais e produtores culturais, formamos a maioria que repudia as palavras e as atitudes de Regina Duarte como Secretária de Cultura", diz o manifesto, segundo o portal G1. 

"Fazemos parte da maioria que não aceita os ataques reiterados à arte, à ciência e à imprensa, e que não admite a destruição do setor cultural ou qualquer ameaça à liberdade de expressão. Ela não nos representa", continua a carta. 

Regina foi criticada por muitos representantes da área cultural por ter aceito o cargo no governo do presidente Jair Bolsonaro. Além disso, ela vem sendo cobrada pelos artistas a promover políticas de proteção ao setor durante a epidemia do coronavírus. 

"Somos artistas brasileiros e fazemos parte da maioria de cidadãs e cidadãos que defende a democracia e apoia a independência das instituições para fazer valer a Constituição de 1988", afirma trecho da carta, assinada por artistas como Caetano Veloso, Lulu Santos, Adriana Esteves Chico Buarque e Marcelo Tas. 

'Pedidos respeito aos mortos'

A indignação do grupo aumentou após entrevista concedida pela secretária à Rede CNN Brasil na quinta-feira (7) na qual se esquivou de responder perguntas feitas pela também atriz Maitê Proença sobre a atuação de sua pasta. Ela também minimizou a repressão ocorrida no período da ditadura militar e criticou a cobertura da imprensa sobre o coronavírus. 

"Fazemos parte da maioria que entende a gravidade do momento que estamos vivendo e pedimos respeito aos mortos e àqueles que lutam pela própria sobrevivência no país devastado pela pandemia e pela nefasta ineficiência do poder público", diz o texto. 

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/brasil/2020050915561171-mais-de-500-artistas-assinam-manifesto-contra-regina-duarte-nao-nos-representa/

Abraçar com os olhos Eduardo Galeano

Nestes dias em que, contraditoriamente, os abraços poderiam fazer-nos dano; estamos nos lembrando daquele autor que lhes dedicou um livro e, se isso não bastasse, mostrou-nos com a firmeza de sua palavra, a necessidade de que esse gesto meigo se convertesse em arma solidária para banir do planeta o rosto de um capitalismo que asfixia e mata.

 

 

Nestes dias em que, contraditoriamente, os abraços poderiam fazer-nos dano; estamos nos lembrando daquele autor que lhes dedicou um livro e, se isso não bastasse, mostrou-nos com a firmeza de sua palavra, a necessidade de que esse gesto meigo se convertesse em arma solidária para banir do planeta o rosto de um capitalismo que asfixia e mata.

Se — como é bem sabido — lembrar é um convite a voltar passar pelo coração, retornemos hoje àquele que, a partir de sua caneta efusiva e profunda, nos ensinou simples formas de querer-nos; aquele que, embora ainda esteja vivendo entre nós, faz cinco anos empreendeu a viagem definitiva.

Não existe livro dele que, após ter sido lido, não haja ninguém que não tenha saído solidamente comprometido com o bando justo do mundo. Ler Eduardo Galeano nos junta com os «João-ninguém», provoca-nos batimentos que enaltecem a condição humana. Tanto faz se lermos Las venas abiertas de América Latina — escrito com apenas 30 anos — com verdades tão contundentes que, se bem contribuiu para abrir «espaços de liberdade», foi proibido pelos ditadores do sul do continente.

Tanto faz se o escutamos com sua voz testemunhal em Días y noches de amor y de guerra, onde as verdades descritas abalam a paz imperturbável daqueles que não se envolvem; ou se a aproximação é à obra Patas arriba, la escuela del mundo al revés, publicada por volta do ano 2000, onde se eternizam, a partir da escrita, realidades envergonhantes que fazem abalar os mais céticos e reforçam as consciências.

Se bem perante estas e outras não citadas obras de Galeano, o leitor não apenas sucumbe, mas se prontifica e define, seduzido pela narração histórica, a afluência de dados, a anedota que acaba em aparentes simplezas, ou as curiosidades que exaltam, o convite destas linhas hoje é para reencontrarmo-nos com Espejos, una historia casi universal, o livro de mais de 400 páginas que lançou em sua última visita à Casa das Américas, instituição que galardoou o dito livro com o Prêmio de narrativa José María Arguedas, em 2011.

Na Casa, Galeano leu na época, vários dos mais de 600 relatos que conformam este livro singular, onde desfilam atores principais e secundários desse grande «romance» que pinta a civilização humana, quase cronologicamente, desde sua gênese até os nossos dias.

A partir das primeiras páginas, umas perguntas nos pedem refletir: não teremos sido capazes de sobreviver, quando sobreviver era impossível, porque soubemos defender-nos juntos e partilhar a comida? Esta humanidade de agora, esta civilização do salve-se quem puder e do cada um no seu teria durado algo mais do que um tempinho no mundo. Como pudemos?

Muito avançada a leitura, quando já não é possível se afastar dos textos, o capítulo Humanitos, faz-nos envergonhar:

(…) Já não sabemos se somos obras perfeitas de Deus ou piadas péssimas do Diabo. Nós, os humanitos:
os exterminadores de todo,
os caçadores do próximo,
os criadores da bomba atômica, a bomba de hidrogênio e a bomba de nêutrons, que é a mais saudável de todas, porque liquida as pessoas, mas deixa intatas as coisas,
os únicos animais que inventam máquinas,
os únicos que vivem ao serviço das máquinas que inventam,
os únicos que engolem sua casa,
os únicos que poluem a água que lhes dá de beber e a terra que lhes dá de comer,
os únicos capazes de se alugar ou de se vender ou de vender seus semelhantes,
os únicos que matam por prazer,
os únicos que torturam,
os únicos que violam.
E também os únicos que riem,
os únicos que sonham acordados,
os que fazem seda da baba da lagarta,
os que convertem o lixo em beleza,
os que descobrem cores que o arco-íris não conhece,
os que dão novas músicas às vozes do mundo,
e criam palavras para que não sejam mudas,
a realidade nem sua memória.

Para revisitar o autor dos abraços, aquele que apostou na esperança e na perpétua batalha, nunca melhor do que agora, quando o medo coletivo e o desafio pela luz da vida nos exigem que os novos capítulos da história tenham, para a humanidade toda, um final menos aterrador.


por Madeleine Sautié, Granma


 

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/abracar-com-os-olhos-eduardo-galeano/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=abracar-com-os-olhos-eduardo-galeano

A Lâmpada Marinha de Pablo Neruda

 

A Lâmpada Marinha

Porto cor de céu
I
Quando desembarcas
em Lisboa,
céu celeste e rosa rosa,
estuque branco e ouro,
pétalas de ladrilho,
as casas,
as portas,
os tectos,
as janelas
salpicadas do ouro verde dos limões,
do azul ultramarino dos navios,
quando desembarcas,
não conheces,
não sabes que por detrás das janelas
escura,
ronda,
a polícia negra,
os carcereiros de luto
de Salazar, perfeitos
filhos de sacristia a calabouço,
despachando presos para as ilhas,
condenando ao silêncio
pululando
como esquadrões de sombra
sobre janelas verdes,
entre montes azuis,
a polícia,
sob outonais cornucópias,
a polícia,
procurando portugueses,
escarvando o solo,
destinando os homens à sombra. A cítara esquecida
II
Ó Portugal formoso,
cesta de frutas e flores ?
emerges na prateada margem do oceano,
na espuma da Europa,
com a cítara de ouro
que te deixou Camões,
cantando com doçura,
esparzindo nas bocas do Atlântico
teu tempestuoso odor de vinharia,
de flores cidreiras e marinhas,
tua luminosa lua entrecortada
de nuvens e tormentas. Os presídios
III
Mas,
português da rua, entre nós,
ninguém
nos escuta,
sabes
onde
está Álvaro Cunhal?
Sabes, ou alguém o sabe,
como morreu,
o valente,
Militão?
E sua mulher sabes tu
que enlouqueceu sob torturas?
Moça portuguesa,
passas como que bailando
pelas ruas
rosadas de Lisboa,
mas
sabes,
sabes onde morreu Bento Gonçalves,
o português mais puro,
honra de teu mar, de tua areia,
sabes
que ninguém volta jamais
da Ilha
da Ilha do Sal,
que Tarrafal se chama
o campo da morte? Sim, tu sabes, moça,
rapaz, sim to sabes,
em silêncio
a palavra anda com lentidão mas percorre
não só Portugal senão a Terra. Sim, sabemos,
em remotos países,
que há trinta anos
uma lápide
espessa como túmulo ou como túnica,
de clerical morcego,
afoga Portugal, teu triste trino,
salpica tua doçura,
com gotas de martírio
e mantém suas cúpulas de sombra. O mar e os jasmins
IV
Da tua pequena mão outrora
saíram criaturas
disseminadas
no assombro da geografia.
Assim, a ti volveu Camões
para deixar-te o ramo de jasmins
sempiterno a florescer.
A inteligência ardeu qual vinho
de transparentes uvas
em tua raça,
Guerra Junqueiro
entre as ondas
deixou cair o trovão
de liberdade bravia
transportando o Oceano a seu cantar,
e outros multiplicaram
teu esplendor de rosais e racimos
como se de teu estreito território
saíssem grandes mãos
derramando sementes
pela terra toda. Não obstante,
o tempo te soterrou,
o pó clerical
acumulado em Coimbra
caiu sobre teu rosto
de laranja oceânica
e cobriu o esplendor de tua cintura. A lâmpada marinha
V
Portugal,
volta ao mar, a teus navios
Portugal volta ao homem, ao marinheiro,
volve à terra tua, à tua fragrância,
à tua razão livre no vento,
de novo
à luz matutina
do cravo e da espuma.
Mostra-nos teu tesouro,
teus homens, tuas mulheres,
não escondas mais teu rosto
de embarcação valente
posta nas avançadas do Oceano.
Portugal, navegante,
descobridor de Ilhas,
inventor de pimentas,
descobre o novo homem,
as ilhas assombradas,
descobre o arquipélago no tempo.
A súbita
Aparição
do pão
sobre a mesa,
a aurora,
tu, descobre-a,
descobridor de auroras.
Como é isso?
Como podes negar-te
ao ciclo da luz tu que mostraste
caminhos aos cegos?
Tu, doce e férreo e velho,
estreito e amplo Pai
do horizonte, como
podes fechar a porta
aos novos racimos,
ao vento com estrelas do Oriente?
Proa da Europa, procura
na correnteza
as ondas ancestrais,
a marítima barba
de Camões.
Rompe
as teias de aranha que cobrem
tua fragrante copa de verdura
e então
a nós outros, filhos dos teus filhos,
aqueles para quem descobriste a areia
até então escura
da geografia deslumbrante,
mostra-nos que tu podes
atravessar de novo
o novo mar escuro
e descobrir o homem que nasceu
nas maiores ilhas da terra.
Navega, Portugal, a hora
chegou, levanta
tua estatura de proa
e entre as ilhas e os homens volve
a ser caminho.
A esta idade agrega
tua luz, volta a ser lâmpada
aprenderás de novo a ser estrela.


* Poema de Pablo Neruda inserido na campanha internacional para a libertação de Álvaro Cunhal,


No 70º aniversário do Julgamento de Álvaro Cunhal (Maio de 1950) para memória de que a Liberdade é um bem precioso que importa defender sempre.

alvaro cunhal comicio

[Intervenção de Álvaro Cunhal realizada perante o tribunal fascista em 2 de Maio de 1950] (*)

No princípio do julgamento, o juiz presidente pergunta a identidade aos réus. Depois, dirigindo-se a Álvaro Cunhal, diz:

Juiz - Sabe de que é acusado? Tem alguma coisa a dizer em sua defesa?

AC - Sim. Quero começar por referir neste tribunal que, desde a minha prisão em 25 de Março de 1949, há, portanto, mais de um ano, me encontro ilegalmente submetido a um regime de rigoroso isolamento.

Juiz - Sabe certamente que há peças no processo relativas a isto.

AC - Perfeitamente. Não há qualquer exagero em dizer que esse regime é uma nova forma de tortura. Uns resistem a ela, outros, como esse grande patriota que foi Militão Ribeiro, perdem nela a vida, conforme tomei conhecimento já depois de me encontrar neste tribunal. Da primeira vez que fui preso, como me negasse a prestar declarações, algemaram-me, meteram-me no meio de uma roda de agentes e espancaram-me a murro, pontapé, cavalo-marinho e com umas grossas tábuas com uns cabos apropriados. Depois de me terem assim espancado longo tempo, deixaram-me cair, imobilizaram-me no solo, descalçaram-me sapatos e meias e deram-me violentas pancadas nas plantas dos pés. Quando cansados, levantaram-me, obrigando-me a marchar sobre os pés feridos e inchados, ao mesmo tempo que voltavam a espancar-me pelo primitivo processo. Isto repetiu-se numerosas vezes, durante largo tempo, até que perdi os sentidos, estando 5 dias sem praticamente dar acordo de mim.

Desta vez não fui sujeito aos mesmos processos. Mas estou em condições de comparar, avaliar e aqui dizer que um ano de isolamento não é menos duro que os referidos maus tratos. Não há, pois, qualquer exagero ao dizer que o referido regime de isolamento é uma nova forma de tortura. Há, entretanto, que sublinhar que, no meu caso, se não trata dos célebres «safanões a tempo» para arrancar confissões (de que há anos falava o Sr. Presidente do Conselho), mas, antes, de medidas tomadas pela polícia pelo despeito de não ter podido obter tais confissões.

De facto, na PIDE foram-me feitas variadas perguntas relacionadas (umas directamente, outras indirectamente) com a minha actividade política. A todas elas me recusei a responder com o fundamento - que mantenho - de que um membro do Partido Comunista Português, força política de vanguarda na luta pela Democracia, a Independência Nacional e uma Paz Duradoura, não tem quaisquer declarações a fazer à polícia política, instrumento de repressão violenta exercida contra os trabalhadores e contra os portugueses democratas, patriotas e partidários da Paz. Com grande alegria verifiquei que os meus queridos camaradas, comigo presos e companheiros neste processo, o saudoso Militão e Sofia, tomaram igual atitude.

 

Nota:

(*) Existem várias versões desta primeira intervenção em tribunal. Publica-se a mais completa. Das últimas declarações em 9 de Maio de 1950 apenas chegou até nós um pequeno resumo, com alguns excertos textuais. Entre estes registe-se a conhecida declaração de Álvaro Cunhal de que «no que me diz respeito, também alguma coisa fica provado: que como membro do PCP, como filho adoptivo do proletariado, cumpri os meus deveres para com o meu partido e o meu povo. É isto que interessa fique provado, porque é só ante o meu partido e o meu povo que respondo pelos meus actos».

alvaro cunhal luta

CIPRIANO DOURADO - 1956

* CIPRIANO DOURADO *
 
PORTUGAL DEMOCRÁTICO || N.º 3 || 1 DE SETEMBRO DE 1956
 
[Portugal Democrático || N.º 3 || 01/98/1956 || ANTT || PT-TT-JPD-0001_m0029]

Ver original em 'Silêncios e Memórias' na seguinte ligação:

http://silenciosememorias.blogspot.com/2020/05/2379-cipriano-dourado-ix-portugal.html

Ministério da Cultura deve salvaguardar o presente e futuro do sector

A situação dramática que atravessa o sector da cultura exige um conjunto de medidas de «emergência», de «retoma» e de «reforma», defendeu ontem o CENA-STE, após reunião adiada no Ministério da Cultura.

CréditosBruno Ferreira / Manifesto em Defesa da Cultura

O compromisso com o Ministério da Cultura era o de, esta quinta-feira, o Sindicato dos Trabalhadores de Espectáculos, do Audiovisual e dos Músicos (CENA-STE/CGTP-IN)  apresentar propostas concretas com vista à solução dos problemas do sector, mas a reunião foi adiada. «Lamentamos profundamente que o Ministério da Cultura não considere prioritário discutir com os representantes dos trabalhadores do sector propostas tão urgentes quanto estruturantes para estabilizar as situações de urgência com que nos deparamos todos os dias», pode ler-se na nota divulgada.

Assim, cumprindo o compromisso, o CENA-STE decidiu divulgar ontem as propostas que teria apresentado à ministra na reunião, que considera serem medidas «de emergência, de retoma e de reforma para o sector», construídas em cima dos resultados do «Questionário aos Trabalhadores de Espectáculos, Audiovisual e Músicos», bem como do diálogo com estruturas culturais e grupos informais de defesa da cultura e com delegados e dirigentes sindicais dos muitos locais de trabalho onde tem intervenção.

O sindicato considera que as «consequências devastadoras» deste período em que foram aplicadas as medidas de contingência da Covid-19 que paralizaram o sector, assumiram estes contornos devido às «condições de precariedade, injustiça social, indefinição e arbitrariedade que carecem do devido enquadramento há muito tempo».

O CENA-STE propõe, assim, a criação de um fundo de emergência social que garanta «protecção imediata destes trabalhadores» até ao levantamento de todas as normas de condicionamento da sua actividade, que garanta um apoio mínimo de 635 euros – referente ao salário mínimo nacional –, e um máximo de 1097 euros – referente ao valor máximo de subsídio de desemprego, dependendo dos rendimentos declarados.

Propõe ainda a isenção de pagamento das contribuições à Segurança Social e um desagravamento fiscal. Por outro lado, exige a afectação de verbas a estruturas artísticas e culturais não abrangidas pelos apoios da DGArtes, mas consideradas elegíveis.

Para preparar a retoma com o fim do confinamento, o sindicato reclama medidas de protecção social e de saúde relacionadas com a Covid-19 e a promoção de medidas de higiene e segurança no trabalho, acompanhada de incentivos à produção, difusão e fruição cultural.

Entre elas a criação de um «Cartão-Cultura» para aquisição de produtos culturais nacionais, permitindo a cada cidadão acesso a um valor mensal para gastar em espectáculos, livros, filmes, museus ou similares, com duração a determinar, a ser pago às entidades culturais e artísticas mediante comprovativo de usufruto.

Como medidas de reforma, o CENA-STE reivindica a revisão da carreira contributiva, por forma a garantir uma maior estabilidade destes profissionais, a obrigatoriedade dos contratos, e um levantamento exaustivo do tecido cultural para diagnosticar necessidades específicas de regiões ou comunidades, particularmente no que toca à protecção laboral e social.

Finalmente, o sindicato afirma que a luta pela valorização da cultura e dos seus trabalhadores passa pela exigência de um maior financiamento para a cultura e a concretização, «sem subterfúgios ou cativações», do patamar mínimo de 1% do Orçamento do Estado para a Cultura.

Unidos pelo presente e futuro da Cultura em Portugal

Um colectivo de 14 estruturas formais e informais representativas do tecido cultural e artístico do País, entre as quais está o CENA-STE, lançou um apelo à criação efectiva de «uma estratégia a curto, médio e longo prazo» para o sector, que inclua medidas de protecção social dos trabalhadores intermitentes e a disponibilização de «um fundo de apoio de emergência com valores dignos e adequados à dimensão e ao impacto» da crise provocada pelo surto da Covid-19.

A reivindicação está expressa no manifesto «Unidos pelo presente e futuro da Cultura em Portugal», que foi enviado aos presidentes da República e da Assembleia da República, ao primeiro-ministro e à ministra da Cultura.

Convictos de que as soluções até agora anunciadas pelo Ministério da Cultura e as medidas transversais de emergência «deixam de fora um número substancial de profissionais desta área», dando origem a casos e situações dramáticas que revelam «a magnitude da calamidade», os subscritores apelam a uma acção que ultrapasse «a visão normalmente redutora deste sector, incluindo uma multiplicidade de profissões cujo mapeamento é gravemente insuficiente».

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/trabalho/ministerio-da-cultura-deve-salvaguardar-o-presente-e-futuro-do-sector

Precariedade na Casa da Música motiva abaixo-assinado

Dezenas de signatários pediram à fundação que gere a Casa da Música, no Porto, que «cumpra os compromissos» com todos os trabalhadores.

CréditosFilipe Fortes / wikipedia

No total, são 92 os signatários da carta enviada esta terça-feira ao director-geral da Fundação Casa da Música, entre os quais estão 28 trabalhadores com contrato e 64 prestadores de serviços a recibos verdes, nomeadamente assistentes de sala, guias, músicos, técnicos e formadores.

Na documento, os signatários apontam que, «nos últimos dias, se revelou muito preocupante a forma como estão a ser tratados os numerosos profissionais independentes que trabalham na Casa da Música».

«Falamos de formadores e músicos, técnicos e guias, assistentes de sala e porventura outros ainda que viram as suas vidas interrompidas neste período de encerramento da instituição. Falamos de profissionais que são, de facto, parte da equipa e colegas de trabalho», acrescentam.

Uma das situações descritas prende-se com a proposta feita a «mais de uma dezena de formadores do Serviço Educativo», conforme surge descrito no texto, do «adiantamento de valores próximos dos serviços cancelados, mas os formadores ficariam a dever essas quantias à Casa da Música, no formato de bolsa de horas», ou seja, teriam de trabalhar de graça em datas futuras.

 

«Sem outra alternativa, foram remetidos para os apoios da Segurança Social, para os quais apenas uma parte é elegível», lê-se no texto do abaixo-assinado, que fala, ainda, dos «músicos extra», ou seja, músicos de agrupamentos residentes que são convidados e que não pertencem às formações de base da instituição, ou a músicos e bandas que estavam programados para actuar no café, mas viram essas iniciativas canceladas ou alvo de reagendamento.

No que respeita aos projectos iniciados a partir de Abril, não haverá qualquer pagamento, mesmo que já estivessem contratados. «O reagendamento não é a manutenção de um compromisso com o ecossistema artístico», afirmam os trabalhadores.

Os signatários deste abaixo-assinado dizem «não compreender a violência destas medidas», uma vez que não têm «notícia de redução, pelo menos para este ano, de subsídios estatais ou do mecenato, nem mesmo uma redução significativa dos alugueres de sala para promotores externos».

Este abaixo-assinado surge dias depois de o PCP ter alertado para uma situação «inaceitável» vivida pelos trabalhadores da Casa da Música. Os comunistas consideram que «a situação excepcional que se vive», devido ao surto epidémico da Covid-19, «não pode ser o pretexto para se atentar contra os direitos dos trabalhadores», salientando que «a actual situação tem evidenciado um conjunto de problemas, nomeadamente a precariedade, a que estão sujeitos muitos trabalhadores do sector da Cultura».

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/trabalho/precariedade-na-casa-da-musica-motiva-abaixo-assinado

Está no coração do povo .

José Gomes Ferreira – Etc e Tal – Jornal

Está no coração do povo por mais que custe aos dominantes e a certos escribas .

REVOLUÇÃO
Conto de José Gomes Ferreira

 

Manhãzinha cedo, senti acordar-me o sopro da voz ciciada de minha mulher:
– O Fafe telefonou de Cascais, … Lisboa está cercada por tropas  – refilo, rabugento:
– Hã? (…)
Levanto-me preparado para o pesadelo de ouvir tombar pedras sobre cadáveres. Espreito através da janela. Pouca gente na rua. Apressada. Tento sintonizar a estação da Emissora Nacional. Nem um som. Em compensação o telefone vinga-se desesperadamente. Um polvo de pânico desdobra-se pelos fios. A campainha toca cada vez mais forte.
Agora é o Carlos de Oliveira.
– Está lá? Está lá? É você, Carlos? Que se passa?
Responde-me com uma pergunta qualquer do avesso.
Às oito da manhã o Rádio Clube emite um comunicado ainda pouco claro:
– Aqui, Posto de Comando das Forças Armadas. Não queremos derramar a mínima gota de sangue.
De novo o silêncio. Opressivo. De bocejo. Inútil. A olhar para o aparelho.
Custa-me a compreender que se trate de revolução. Falta-lhe o ruído, (onde acontecerá o espectáculo?), o drama, o grito. Que chatice!
A Rosália chama-me, nervosa:
– Outro comunicado na Rádio. Vem, depressa. Corro e ouço:
– Aqui o Movimento das Forças Armadas que resolveu libertar a Nação das forças que há muito a dominavam. Viva Portugal!
Também pede à policia que não resista. Mas Senhor dos Abismos!, trata-se de um golpe contra o fascismo (isto é: salazismo-caetanismo). São dez e meia e não acredito que os «ultras» não se mexam, não contra-ataquem! (…)
A poetisa Maria Amélia Neto telefona-me: «Não resisti e vim para o escritório».
Os revoltosos estão a conferenciar com o ministro do Exército. Na Rádio a canção do Zeca Afonso: Grândola, vila morena … Terra da fraternidade… O povo é quem mais ordena…
Sinto os olhos a desfazerem-se em lágrimas.
De súbito, aliás, a Rádio abre-se em notícias. O Marcelo está preso no Quartel do Carmo. A polícia e a Guarda Republicana renderam-se. O Tomás está cercado noutro quartel qualquer. E, pela primeira vez, aparece o nome do General Spínola. Novo comunicado das Forças Armadas. O Marcelo ter-se-á rendido ao ex-governador da Guiné. (Lembro-me do Salazar: «o poder não pode cair na rua»).
Abro a janela e apetece-me berrar: acabou-se! acabou-se finalmente este tenebroso e ridículo regime de sinistros Conselheiros Acácios de fumo que nos sufocou durante anos e anos de mordaças. Acabou-se. Vai recomeçar tudo.
A Maria Keil telefonou. O Chico está doente e sozinho em casa. Chora. (Nesta revolução as lágrimas são as nossas balas. Mas eu vi, eu vi, eu vi! (…)
Antes de morrer, a televisão mostrou-me um dos mais belos momentos humanos da História deste povo, onde os militares fazem revoluções para lhes restituir a liberdade: a saída dos prisioneiros políticos de Caxias.
Espectáculo de viril doçura cívica em que os presos… alguns torturados durante dias e noites sem fim…. não pronunciaram uma palavra de ódio ou de paixões de vingança.
E o telefone toca, toca, toca… Juntámos as vozes na mesma alegria. (…)
Saio de casa. E uma rapariga que não conheço, que nunca vi na vida, agarra-se a mim aos beijos.
Revolução.

 

in Poeta Militante III – Viagem do Século Vinte em mim, Lisboa, Moraes Editores, 1983
 

 

Via: FOICEBOOK https://bit.ly/2VZ23HC

 

 

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/04/27/esta-no-coracao-do-povo/

Vale do Côa revela nova descoberta

O painel, com mais de seis metros de comprimento, contém a maior figura de arte rupestre do Vale do Côa e de toda a Península Ibérica, sendo uma das maiores do mundo.

Créditos / Archéologia

«Sob os sedimentos escavados percebeu-se que o painel tem mais de seis metros de comprimento. Verificou-se ainda que o traço que se observava à superfície fazia parte da garupa de um grande auroque (boi selvagem), com mais de três metros e meio de comprimento. Trata-se da maior figura da arte do Vale do Côa e da toda a Península Ibérica, e uma das maiores do mundo, apenas comparável com os auroques da gruta de Lascaux [França]», lê-se num comunicado da Fundação Côa Parque enviado ao AbrilAbril

A descoberta de um novo painel gravado, com mais de 20 novas gravuras paleolíticas que se encontravam cobertas por camadas arqueológicas, acaba de ser publicada na revista de referência da actualidade.

«No seu interior identificaram-se outros animais gravados por picotagem e abrasão: uma fêmea de veado, uma cabra e uma fêmea de auroque, seguida pelo seu vitelo. No sector direito do painel identificou-se um outro conjunto de gravuras, contendo várias representações de auroques, veados e cavalos, todos sobrepostos, que se encontram ainda parcialmente sob sedimentos», refere-se na nota, sublinhando que as figuras parecem fazer parte da fase mais antiga da arte do Côa, datada de há mais de 23 mil anos.

A equipa de arqueologia revela que a descoberta foi motivada pela identificação de um traço gravado junto à rocha 9 do Fariseu, um dos principais núcleos de arte rupestre do Vale do Côa, classificados como Monumento Nacional e inscritos na Lista do Património Mundial da agência das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), «que prosseguia sob o solo actual, numa superfície então visível de menos de um metro de comprimento».

Para além da importância do achado em si, os arqueólogos afirmam que o facto de o painel ter sido encontrado sob camadas arqueológicas permite atribuir-lhe uma data mínima, sendo esta «a única forma de datar objectivamente a arte do Côa, uma vez que é impossível de datar directamente por Carbono 14».

A escavação surgiu no contexto do estudo do contexto arqueológico da arte paleolítica do Vale do Côa, que se vem desenvolvendo há 25 anos. Recorde-se que, já em 1999, se havia identificado a rocha 1 do mesmo sítio coberta por sedimentos arqueológicos, tendo então sido possível datar o início e o fim da arte paleolítica do Vale do Côa.

«A continuação dos trabalhos e as datações físico-químicas a realizar permitirão datar de forma científica estas camadas que cobrem as gravuras, mas a sua comparação com o registo da rocha 1 permite dizer que as mais antigas datarão das primeiras fases do Paleolítico Superior», afirma a equipa de arqueólogos.

Sublinham ainda que os dados preliminares agora publicados «reafirmam a importância» da continuação dos estudos arqueológicos, «demonstrando uma vez mais que grande parte da sua riqueza patrimonial se encontra no subsolo, onde se deverão ir buscar as respostas para as perguntas que subsistem, sobre porquê e quando foi feita a arte paleolítica do Vale do Côa». 

Os trabalhos de escavação arrancaram no início deste ano e deverão prosseguir assim que as actuais medidas de contenção devido à pandemia de Covid-19 o permitam.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/local/vale-do-coa-revela-nova-descoberta

O que a pandemia fez adiar...

 
Ele queria estar na nossa festa, pá, com a nossa gente. 
Nós queríamos que ele, pelo tanto que nos liga, estivesse na nossa festa, com a nossa gente.
Não deu, desta. 
Dará noutra.  
A que me refiro? Lembram-se de vos ter dito que um dia daria a notícia? Pois é! A noticia está dada. Não!, a entrega do Prémio Camões -2019 não vai acontecer. 
E não vai acontecer aquilo em nos empenhámos tanto... Falámos com Bandas Filarmónicas, com as suas direcções, com maestros, reunimos pautas, propusemos temas... mas "A Banda" seria tema obrigatório. 
Estava tudo apalavrado. A data? 25 de Abril, pois claro. Só pendente o local/hora.
Não deu, desta.
Dará noutra. 
Amanhã cantarei, à janela, a Grândola
Com o coração inundado de Tanto Mar
 

Ver original em 'Conversa Avinagrada' (aqui)

COVID-19: Isolamento social e oportunidades de leitura

A situação de isolamento social em que muitas pessoas estão neste momento não é a mais agradável. Uns continuam a trabalhar, outros a estudar. Muitos têm algum tempo livre.

 

 

A todos queremos deixar algumas sugestões de leitura.

O critério que presidiu a esta escolha é, naturalmente, subjectivo: dando a volta por uma livraria, consultando as algumas secções e várias temáticas, escolhemos 20 livros que gostaríamos de comprar e ler. Uma escolha muito pessoal, portanto.

Também é uma sugestão sem perigo de contágio e, como sempre, um bom livro pode ser uma companhia essencial. E, felizmente, para os comprar não precisa de sair de casa pois há várias livrarias online.

Boas Leituras!

Ficção

  • Manuel Vilas, Em Tudo Havia Beleza (Alfaguara, 21,90€)
  • Germano Almeida, O Último Mugido (Caminho, 18,90€)
  • João Tordo, A Noite em que o Verão Acabou (Companhia das Letras, 22€)
  • Albert Camus, A Peste (Livros do Brasil, 16,60€)
  • Fernando Pessoa/Bernardo Soares, O Livro do Desassossego (Relógio d’Água, 30€)

 

Não ficção

  • Eduardo Dâmaso, Corrupção (Objectiva, 17,70€)
  • Normand Baillargeon, À Mesa com os Filósofos (Temas e Debates, 18,80€)
  • Ana Milhazes, Vida Lixo Zero (Contraponto, 16,60€)
  • Daniel Susskind, Um Mundo Sem Trabalho (Iniciativas de Ler, 22€)
  • Jonathan Franzen, O Fim do Fim da Terra (D. Quixote, 16,60€)

 

Ensaios

  • Lesley Levene, Filosofia para Pessoas com Pressa (Presença, 14,90€)
  • Fredéric Lenoir, O Milagre Espinosa (Quetzal, 16,60€)
  • Mary Midgley, Para que Serve a Filosofia? (Temas e Debates, 17,70€)
  • Rolf Petri, Breve História da Ideologia Ocidental (Temas e Debates, 18,80€)
  • Alexandre del Valle, O Complexo Ocidental (Casa das Letras, 19,90€)

 

Poesia

  • Rui Caeiro, O Sangue a Ranger nas Curvas Apertadas do Coração-Obra Reunida (Maldoror, 22€)
  • Maria Teresa Horta, Eu Sou a Minha Poesia-Antologia Pessoal (Dom Quixote, 15,90€)
  • Alejandra Pizarnik, Antologia Poética (Tinta da China, 15,90€)
  • António Colinas, Harmonia (Assírio e Alvim, 16,60€)
  • David Mourão-Ferreira, Obra Poética-1948/1995 (Assírio e Alvim, 44€)

 

 

Onde comprar online?

ALMEDINA
BERTRAND
FLANEUR
WOOK


Exclusivo Tornado / Novos Livros


 

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/covid-19-isolamento-social-e-oportunidades-de-leitura/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=covid-19-isolamento-social-e-oportunidades-de-leitura

LÉNINE E AS ARTES (assinalando os 150 anos do nascimento de Lénine)

 

O trabalho político e revolucionário não lhe darão tempo para se ocupar das questões artísticas como poderia pretender, mas as questões artísticas nunca lhe foram estranhas nem indiferentes.

 

Tribuna para Lénine, El Lissitsky, 1920

 
 

Em 1905, durante a primeira revolução, ele (Lénine) teve de passar uma noite em casa de D. Lechtchenko, onde havia, entre outras, uma colecção das publicações de Knachfuss consagradas aos maiores pintores do mundo inteiro. Na manhã do dia seguinte, Vladimir Ilitch disse-me: «Que fascinante domínio o da história de arte. Quanto trabalho para um marxista. Não preguei olho durante a noite, percorrendo os livros um após outro. E lamentei não ter tempo – e não terei provavelmente nunca – para me ocupar das questões artísticas»
A. Lunatcharski, Lenine tel quel fut, Souvenirs de Contemporains, Editions du Progrès,  Moscovo, 1959 II volume, p. 422-426.

O trabalho político e revolucionário não lhe darão tempo para se ocupar das questões artísticas como poderia pretender, mas as questões artísticas nunca lhe foram estranhas nem indiferentes, muito pelo contrário, pelo que teve sempre um grande e directo envolvimento nas questões artísticas e literárias ligadas aos problemas políticos e filosóficos, antes da Revolução Bolchevique e no agitadíssimo período que se viveu depois da tomada do poder pelos sovietes, sempre intransigente em relação aos princípios e sempre politicamente flexível. Há um conceito que é nuclear em todo o pensamento e na acção de Lénine em relação à cultura: «a cultura revolucionária tem que ser o desenvolvimento lógico do acervo dos conhecimentos conquistados pela humanidade submetida ao jugo da exploração capitalista, de uma sociedade de latifundiários e burocratas. Esses são os caminhos e os atalhos que nos irão orientar e conduzir até alcançarmos uma cultura revolucionária»1 o que será mais explícito quando afirma «no capitalismo a cultura é de uma minoria. É com essa cultura que temos que construir o socialismo. Não dispomos de outro material. Queremos construir o socialismo imediatamente, na base do material que o capitalismo nos legou, ontem, hoje, agora mesmo e não com homens criados em estufas, se é que alguma vez podemos ter dado crédito a essas fábulas (…) se não somos capazes de construir a sociedade comunista com esses materiais, seremos uns charlatães».2. É a expressão do pensamento de um revolucionário marxista, conhecedor profundo do pensamento marxista, em consonância com a crítica sem complacências que Marx e Engels fazem do capitalismo sem deixarem de reconhecer, como Engels escreve no prefácio à edição italiana do Manifesto do Partido Comunista, que «o Manifesto presta inteira justiça ao papel revolucionário que o capitalismo representou em relação ao passado». É um tema de uma enorme dimensão e ainda actual que, obviamente, só poderá ser enunciado numa nota tão breve quanto esta.

Antes da Revolução de Outubro

Antes da Revolução, de 1893 a 1917, enquanto debatia as inúmeras questões políticas e filosóficas que se colocavam aos revolucionários marxistas, contra os erros ideológicos de todas as forças políticas que anulavam a intervenção e a acção revolucionária, Lénine refere frequentemente as questões literárias e artísticas, mais as primeiras que as segundas, intimamente ligadas aos problemas políticos revelando um considerável conhecimento sobre esse universo.

Os grandes debates políticos travavam-se entre os marxistas e os populistas, e os seguidores pós-Revolução destes, os socialistas-revolucionários. Os populistas tinham uma presença importante na literatura russa. Nos seus primeiros escritos Lénine polemiza violentamente contra a sua visão da sociedade russa, uma polémica que se irá prolongar durante vários anos. O que critica nos populistas, realçando como uma expressão estética revela uma ideologia política, é a negação que fazem de ser possível uma revolução na Rússia, contra a convicção de Lénine, que haveria de a tornar real, de que era possível uma revolução e que seria o proletariado a efectuar essa transformação. Lénine, no entanto, reconhece que os populistas fazem descrições exactas da realidade russa, cita-as com frequência, enquanto denuncia que na maior parte dessas obras, que expõem a evolução brutal da vida social, as novas formas de miséria ligadas ao aparecimento do capitalismo, se dissimula uma ideologia que prolonga a desgraça que denunciam e julgam combater.

Essas polémicas literárias em que Lénine se envolveu vão adquirir maior expressão com a criação da imprensa revolucionária, IskraVperiod, que considera nucleares para lutar contra os adversários ideológicos do marxismo, para a formação de um partido revolucionário, onde se permitisse a discussão dos diversos pontos de vista: « é impossível conduzir a luta política se todo o partido não puder pronunciar-se sobre todas as questões políticas e guiar as diversas manifestações de luta. Só se poderão organizar as forças revolucionárias, discipliná-las e desenvolver a técnica da acção revolucionária se todas estas questões forem discutidas num órgão central, se forem elaboradas colectivamente certas formas e regras de organização de trabalho, se a responsabilidade de cada membro do Partido perante todo o Partido for estabelecida por intermédio de um órgão central para debater as questões de teoria e de prática (…) devem dar amplo lugar aos problemas teóricos, isto é, tanto à teoria social-democrata em geral como à sua aplicação à realidade russa. A urgência da discussão pública destes problemas, actualmente, não é objecto de dúvida e dispensa comentários, depois do que acaba de ser dito (…) Devemos proceder de maneira a que cada social-democrata e cada operário consciente tenha uma opinião determinada sobre todos os problemas essenciais: é impossível, sem isto, organizar em grande escala uma propaganda e uma agitação metódicas»3. A história da Iskra é inseparável da luta de Lénine para criar um partido revolucionário, onde se retoma o combate às teorias populistas, onde se avolumam as divergências fundamentais entre Lénine, Plekhanov, Trotsky e Martov quanto à organização de um partido revolucionário, que seriam mais evidentes com a publicação de Que Fazer? (Editorial Avante!, 1984). O avolumar de divergências que culminariam na cisão, em 1903, do Partido Operário Social-Democrata da Rússia (POSDR) em Mencheviques e Bolcheviques e que também está na origem do Vperiod como órgão dos Bolcheviques, opondo-se ao Iskra que passou a reflectir as ideias mencheviques e, mais tarde todas as polémicas suscitadas pela plataforma organizada em torno do Vperiod, animada por Bogdanov, quando depois de terem sido reconhecidos pelo plenário do partido, em 1910, como «grupo de edição do partido», tendo recebido do Comité Central os fundos para o seu funcionamento, se recusaram a aplicar as directivas do mesmo Comité, juntando-se aos mencheviques e trotskistas para lutar contra as decisões nele tomadas. Um conflito que se arrastou durante anos, até à sua desagregação em 1913 e à sua oficial dissolução em Fevereiro de 1917, quase sempre em perpétua dissidência com o Partido Bolchevique, com uma ideologia flutuante sem unidade teórica mas, no plano cultural reivindicando-se de uma «filosofia e cultura proletária» que terá expressão depois da Revolução de Outubro.

Gorki e Tolstoi

Os debates sobre o trabalho literário e o papel dos escritores é largamente debatido tanto na Iskra como no Vperiod e se Lénine faz severas críticas aos intelectuais, seus desvios e erros, é porque reconhece a importância que têm na luta contra o czarismo. A sua correspondência com Gorki, que não era membro do Partido, é bem reveladora do interesse de Lénine pelo papel dos intelectuais na luta revolucionária. É também neste período na Novaia Jizn, em 13 de Dezembro de 1905, que Lénine escreve um célebre texto que dará origem a imensos debates e equívocos, pelo que merece atenção mais particular A Organização do Partido e a Literatura de Partido (ibidem, tomo. X, p. 37) que deve ser fundamente analisado até pela especulação que Estaline e Jdanov fizeram desse texto, ignorando propositadamente todos os esclarecimentos feitos por Lénine.

São muitas as polémicas literárias antes da Revolução de Outubro em que Lénine participou. Particularmente interessantes são os seis textos de Lénine sobre Tolstoi, compará-los com os escritos por Plekhanov e Trotsky. Quando Tolstoi fez 80 anos e na celebração da sua morte dois anos depois, coincidiram a direita mais reaccionária, esta com a suprema hipocrisia de continuar a proibir os textos em que o escritor condenava a sua prática política, e os mencheviques que elogiaram Tolstoi «anarquista conservador», para evidenciarem a sua teoria reaccionária da não resistência ao mal pela violência, a fusão mística com a natureza, o culto do trabalho manual. O que é de sublinhar é que Lénine, assinalando todas essas contradições de Tolstoi, manifesta a sua profunda admiração pelo escritor que considera um dos maiores escritores vivos, «um observador e um crítico profundo do regime burguês, apesar da ingenuidade reaccionária da sua teoria». Anota que «se não simpatiza com os nossos objectivos revolucionários, sabemos que é porque a história lhe recusou toda a compreensão dos seus caminhos. Não o condenaremos por isso. Admiraremos sempre nele o génio que viverá tanto tempo quanto a própria arte, e também a coragem moral indomável que não lhe permite ficar no seio da sua Igreja hipócrita, da sua Sociedade e do seu Estado, o que o condenou a ficar isolado entre os seus inúmeros admiradores». Os seis textos de Lénine sobre Tolstoi, são o trabalho teórico mais extenso desenvolvido por um dos fundadores do marxismo-leninismo sobre um escritor. São uma visão crítica da obra de Tolstoi e a apreciação da importância histórica da sua obra, da importância política da sua obra e o que ela significava para a história do movimento social russo. O agudo olhar crítico de Lénine sobre Tolstoi, condenando «o ataque sem cambiantes de certos elementos de esquerda, os quais confundindo Tolstoi e o tolstoísmo, recusam em bloco a obra e a sua ideologia» está claramente a apontar para Plekhanov e Trostsky, entre outros socialistas, que passam por cima de todas as contradições de Tolstoi para, sem negar a sua valia literária, verem nele apenas um reaccionário, um representante da aristocracia, um inimigo do movimento operário. São textos que revelam a atitude revolucionária de um revolucionário marxista intransigente nos princípios e acutilante e flexível nas apreciações políticas e estéticas, de uma sageza crítica rara, o que é particularmente importante para se entender a sua relação com as artes e as letras depois da Revolução de Outubro.

«Batam os brancos com a cunha vermelha» (1919), litografia de El Lissitzky no Museu de Belas Artes, em Boston, EUA. Por “brancos” eram designados os exércitos contra-revolucionários durante a Guerra Civil Russa. Lazar Markovich Lissitzky (1890-1941), arquitecto e artista plástico, foi uma das mais importantes figuras do construtivismo russo Créditos
 

A Cultura, a Educação, as Artes e a Revolução

As fotografias da revolução russa, não só a de 1917, mas também a de 1905, mostram uma curiosa literarização da rua. As cidades e mesmo as aldeias, estão consteladas de fórmulas, como símbolos. A classe que se apodera do poder inscreve em grandes pinceladas as suas opiniões e as suas palavras de ordem nos edifícios de que se apoderam.
Berthold Brecht, Les Arts et la Revolution, L’Arche, 1997

A Revolução modificou as ruas porque mudou as relações entre os homens. Na Rússia Soviética, nos anos da Revolução, em condições políticas e económicas duríssimas, uma guerra civil com a participação activa dos países ocidentais, a penúria imposta por um herdado aparelho produtivo esclerosado que era urgente transformar, a arte respondeu aos novos tempos históricos com um dinamismo sem precedentes nem paralelos. Um movimento que se expandiu em todas as direcções e por todas as disciplinas artísticas.

A arte de propaganda revolucionária, a agit-prop, não foi um género particular, é o principal traço de toda a arte soviética nesses tempos de Revolução. As vanguardas artísticas, com todo o seu potencial criativo inovador, colaboram e coincidem com a vanguarda política, mantendo a sua autonomia relativa, sem se deixarem colonizar pela política mas fazendo dela uma parte activa da sua criação. É uma síntese nunca antes vista nem nunca antes experimentada. A Revolução influencia decisivamente as artes porque é um material vivo impregnado de um espírito social inovador. Em simultâneo, as fronteiras tipológicas entre as artes foram abolidas e os mesmos artistas trabalham em várias áreas. A arte liga-se estreitamente à vida social nos seus múltiplos e complexos aspectos. Contribui activa e conscientemente para a construção de um novo modo de vida e para a educação e instrução artística e ideológica das massas populares, opondo-se à cultura de massas burguesa e às suas propostas de consumo, fachadas de uma falsa democratização da arte. São o caldo de cultura na Rússia Soviética em que se tempera a democratização da cultura e das artes que catalisam uma extraordinária efervescência artística. A literalização das ruas inscreve-se nessa metamorfose radical da vida quotidiana depois de Outubro. O estoirar das velhas estruturas coexiste com uma explosão da criatividade entre artistas, operários, soldados escrevendo música, poemas, peças de teatro, cinema, num enorme esforço de trabalho de agitação e propaganda para motivar as imensas massas iletradas, para as fazer aderir aos ideais revolucionários. Lado a lado trabalham os maiores artistas soviéticos, Meyerhold, Eisenstein, Maiakovski, Malevitch, Rodzchenko, Tatline, Dziga Vertov, El Lissitsky, que melhor compreendiam os objectivos da Revolução, mas também os que dela tinham imagens parcelares, algumas distorcidas como é o caso de Essenine, Chagall, de algum modo Pasternak, até por vezes místicas como em Blok, ao lado de operários, soldados, simples cidadãos, muitos deles iletrados.

Lénine, assoberbado com o trabalho imenso de transformação económica, social e política da Rússia, enfrentando uma situação de grande penúria, a contra-revolução e os revisionismos que minavam a Revolução, tem um papel central na área da cultura e das artes. Refira-se, quando da formação do Conselho dos Comissários do Povo, presidido por Lénine, a integração de um Comissariado do Povo para a Instrução Pública, para o qual indicou Anatoli Lunatcharski. A tarefa não era de somenos: organizar uma educação nova, socialista numa Rússia maioritariamente analfabeta, representar o poder soviético junto dos artistas e intelectuais, um caldeirão efervescente, em que muitos dos empenhados na Revolução se digladiavam violentamente entre si, por opções estético-artísticas inconciliáveis, e muitos outros opunham-se vigorosamente à Revolução. Uma tarefa de vulto dispondo de meios materiais escassos num tempo em que tudo era escasso e tinha que ser muitíssimo bem equacionado.

Lunatcharki definia-se como «um intelectual entre os bolcheviques e um bolchevique entre os intelectuais». As suas polémicas com Lénine são dos tempos de exílio na Suíça. Com formação filosófica, era um homem de imensa cultura, um orador apaixonado e apaixonante. A sua divergência de fundo com Lénine enraizava nas concepções empiriocriticistas que tinha estudado com Averenius e que perfilhava, ainda que com algumas reservas, mas muitíssimo distanciado da violenta e arrasadora crítica feita por Lénine em Materialismo e Empiriocriticismo (Editorial Avante!, 1978), que nunca lhe poupou críticas reconhecendo-lhe todas as suas qualidades, empenhamento na Revolução e dedicação ao Partido apesar das suas indecisões e oscilações. Esse é um dos traços da personalidade de Lénine. Recorde-se, a talhe de foice, que apesar de todas as discordâncias com Rosa Luxemburgo, foi ele que incentivou e apoiou a edição em russo de Reforma ou Revolução (Editorial Estampa, 1972).

Vladimir Tatlin e um assistente junto à maqueta do «Monumento à III Internacional», em Petrogrado (hoje São Petersburgo), então capital da Rússia Soviética, em Novembro de 1920. Vladimir Tatlin (1885-1953) é um dos fundadores e nomes maiores do construtivismo. O «Monumento à III Internacional», concebido por Tatlin em 1919-1920, que nunca chegou a ser construído na dimensão originalmente prevista (400 metros de altura) é um dos ícones da arte construtivista Créditos

O Comissariado do Povo para a Instrução Pública (Narkompros) defrontava-se com inúmeras dificuldades, de que as menores não eram a desorganização entre departamentos, iniciativas mal estruturadas, o recrutamento de recursos humanos com competências culturais e de ensino mas poucas ou nenhumas em matérias de administração, a recusa activa de muitos membros da anterior intelligentsia em colaborarem com os bolcheviques, as estruturas arcaicas que herdara e os militantes mais competentes dos Partido estarem absorvidos pelas tarefas de reconstrução de um país a enfrentar dificuldades desmesuradas. Reinava uma certa anarquia contra a qual N. Krupskaia, ardente defensora do Narkompros, era porta-voz, por diversos departamentos do Comissariado escaparem à sua autoridade. A outra questão central era a do orçamento. Os representantes do orçamento do Conselho de Comissários do Povo criticavam o Narkompros por pedirem o impossível. O apoio de Lénine ao Narkompros e a Lunatcharski, olhado com desconfiança por muitos membros do Partido que ironizavam o seu esteticismo, foi fulcral. O seu orçamento, se relativamente baixo em termos absolutos, era até exorbitante em comparação com outros Comissariados. Foi objecto de várias reorganizações até à ultima, que instituiu o Narkompros como Comissariado do Povo para a Educação e as Belas-Artes. Os primeiros decretos incidiram na reorganização da educação em todo o extenso território da Rússia, defrontando-se com o gigantesco problema de encontrar professores para o realizar. Apesar disso as primeiras realizações, com o apoio directo de Lénine, foram notáveis, como os projectos de jardins infantis, as escolas comunais, maternas e artísticas, os métodos de ensino pedagogicamente revolucionários, um universo rico de experiências, impossíveis de descrever aqui mas em que se deve referir o trabalho, avançadíssimo para a época de Makarenko pelas suas teorias pedagógicas com uma ideia central: «exigir o mais possível do homem e respeitá-lo o mais possível» (Les Problèmes de la Éducation Scolaire Soviétique, Editions du Progrès, Moscovo, 1962).

O programa de ensino afrontava outra questão muito particular que era as dos idiomas locais, das diversas nações que coexistiam no território da Rússia, que muitos queriam normalizar pela imposição de uma língua unificada. Uma questão que imbricava noutra mais vasta, a de uma cultura nacional. A participação de Lénine é decisiva. É contra a ideia de uma cultura nacional unificada que classifica de reaccionária. Sublinhava que «a Rússia é um país misto no aspecto nacional» e que «uma cultura nacional exerce-se em detrimento do povo, favorecendo o nacionalismo burguês» (…) «não se trata de construir uma cultura nacional mas uma cultura internacional para a qual cada cultura nacional contribui apenas com uma parte, a saber, unicamente o conteúdo democrático consequente e socialista de cada uma das culturas nacionais (…) nós somos contra a cultura nacional enquanto palavra de ordem do nacionalismo burguês. Somos pela cultura internacional do proletariado socialista e democrata até ao fim». (ibidem, tomo XIX) Serão as palavras de ordem do Partido Bolchevique: a igualdade em direitos culturais, o direito à identidade de todas as nações no seio do Estado, a recusa da imposição de uma «autonomia nacional cultural» que conduziria a progressivamente anular as culturas regionais pelo seu não reconhecimento enquanto parte activa da cultura de toda a Rússia. Registe-se que, em linha com esta posição de Lénine, no trabalho de alfabetização de toda a Rússia, as línguas das diversas nacionalidades foram protegidas, o seu uso incentivado. Algumas delas, que eram orais, não tinham expressão escrita e só começaram a tê-la pelo trabalho dos linguistas soviéticos. Pela mesma ordem de razões, Lénine opor-se-á à imposição de uma «cultura proletária», mesmo a reconhecer a existência de uma «cultura proletária», como os partidários do Proletkult pretendiam, como mais adiante se referirá.

Outras das grandes questões a resolver pelo Narkompros era a dos monumentos e da riqueza artística da Rússia. Os combates de rua e a guerra civil eram uma ameaça. Os bolcheviques tomaram medidas eficazes para os salvaguardar, empenhando os responsáveis do Partido, os militares e os operários. A palavra de ordem de Lénine era «o povo dos trabalhadores é agora senhor absoluto do país. Além das riquezas naturais, herdou enormes riquezas culturais, edifícios de grande beleza, museus, bibliotecas, colecções particulares. Tudo isso é agora propriedade do povo». A propaganda contra a Revolução de Outubro apresentava os revolucionários como uma horda de bárbaros e de iconoclastas saqueando a velha cultura secular. Há um episódio relatado por John Reed, em Dez Dias que Abalaram o Mundo (Editorial Avante!, 1997) bem expressivo em relação a essa propaganda contra-revolucionária. «A 15 de Novembro, na sessão do Conselho de Comissários do Povo, Lunatcharski rebentou bruscamente em lágrimas, precipitou-se para fora da sala, gritando: É mais forte que eu! Não posso suportar esta destruição monstruosa da beleza e da tradição. No mesmo dia, a sua carta de demissão aparecia em todos os jornais: “Acabo por saber por testemunhas oculares o que se passou em Moscovo. Estão a destruir a igreja de Basílio, o Bem-Aventurado e a catedral Uspenski. Bombardeiam o Kremlin, onde se encontram os tesouros artísticos de Petrogrado e Moscovo, há milhares de vitimas. A luta atinge o último grau de selvajaria. Até onde irá isto? Que pode acontecer mais? Não posso suportar isto. A medida está cheia e sou impotente para deter estes horrores. É-me impossível trabalhar, perseguido por pensamentos que me enlouquecem». Era tudo mentira, as noticias falsas, as fake news, ontem como hoje e no futuro serão sempre uma arma, uma poderosa arma dos reaccionários. Lunatcharski retirará o seu pedido demissão.

Sublinhe-se que poucos foram os antigos monumentos destruídos, mesmo os que eram símbolos do poder czarista, desde que apresentassem valor artístico. No assalto ao Palácio de Inverno os guardas vermelhos foram os primeiros a dar o exemplo, impedindo actos de pilhagem e recuperando os que os fiéis ao czar queriam roubar. Logo a seguir à tomada do Palácio de Inverno foi publicado um decreto a proteger o edifício e os tesouros artísticos aí albergados.

O Narkompros com o apoio do Conselho dos Comissários do Povo, presidido por Lénine, e de várias comissões ad hoc, nomeadas por esse Conselho, inicia o trabalho de inventariar todas as obras de arte, de nacionalizar castelos, galerias, bibliotecas e colecções particulares, de proibir a exportação de objectos antigos e de obras de arte, foi mesmo decidido restaurar alguns palácios e castelos, como o palácio Stroganoff ou o castelo Pavlovsk, o Kremlin que estava devastado antes da Revolução, iniciar escavações arqueológicas. Em Novembro de 1917, por iniciativa de Lénine e do Comissariado do Povo da Instrução Pública, foi criado um colégio para se ocupar dos assuntos dos museus, deram-se cursos de formação para os trabalhadores dos museus. A Narkompros, enfrentando uma penúria generalizada, contradições e polémicas fez, nos anos da Revolução, um trabalho notabilíssimo dirigida por Lunatcharski, a quem Lénine, nunca o poupando a críticas, também nunca deixou de activamente apoiar.

Colectivo artístico acaba a decoração de uma carruagem de um comboio de agitprop
 

As Vanguardas Artísticas e a Revolução

Alguns aspectos da relação das artes com a Revolução de Outubro já foram referidos. É, como todos os outros aqui mencionados e muito debatidos ao longo dos anos, um tema extenso que tem que ser necessariamente resumido num texto deste género. Uma primeira nota, que merece uma longa reflexão e um longo debate, é o referente às vanguardas artísticas, o que foram e a decadência e o descrédito de tal conceito na actualidade, a sua validade e a sua relação com as vanguardas históricas revolucionárias e políticas. Não é um acaso que na Rússia da Revolução de Outubro se assista à explosão das vanguardas artísticas com toda a sua radicalização, o que colocou problemas e questões novas ao poder político e deu lugar a grandes polémicas, entre as vanguardas artísticas entre si e com o poder dos sovietes. Uma única certeza – com tudo o que as certezas têm e que devem ser sempre questionadas com hipóteses provisórias que as fazem equacionar sempre enquanto certezas relativas do ponto de vista do materialismo dialéctico – estavam empenhadas por inteiro, ainda que muitas vezes não compreendendo a sua evolução, com a Revolução.

As vanguardas artísticas, futuristas, cubo-futuristas, suprematistas, expressionistas, construtivistas, imagistas, etc. reivindicavam uma arte radicalmente nova e mesmo a destruição das obras de arte anteriores consideradas inquinadas pelo gosto e pelas ideias da burguesia. Cite-se a título de exemplo a drástica proposta de Avraámov – um pioneiro da música concreta que pintava filmes virgens para reproduzir os sons assim obtidos e que escreveu uma sinfonia com sirenes e ruídos de rua – que exigia que o Narkompros destruísse todos os pianos para acabar de vez com a música tonal. Noutra trincheira o Proletkult, que queria assumir-se como representante de uma nova cultura proletária, combatia vigorosamente as vanguardas artísticas que não se faziam rogadas em o combater e combater-se entre si. Um ambiente efervescente que no entanto não impedia que todos se concentrassem, cada um a seu modo, a glorificar e propagandear a Revolução, fosse com os lendários comboios de propaganda, fosse com as depuradas linhas e formas de El Lissitsky, com poucas cores, negro, cinzento, vermelho, as legendas inscritas nas figuras geométricas de que o exemplo mais icónico é «Com a Cunha Vermelha derrota os Brancos», fosse com as celebradas «Rosta» de Maiakovski, que com ferocidade caricatural teatralizava os acontecimentos de forma facilmente perceptível. fosse mesmo com o «Quadrado Negro sobre fundo Branco» de Malevitch que decorou as ruas de Vitebsk e que, surpreendentemente, foi base usada extensivamente em toda a Rússia para muitos cartazes anunciando eventos culturais e políticos por muitos autores, a maioria anónimos. Tudo isto se sucedia enquanto os criadores artísticos se digladiavam, chegando muitas vezes a via de facto. Refiram-se as sucessivas humilhações a que Malevitch submeteu Chagall, quando viviam e tinham as suas academias em Vitebsk, que culminou numa carta que aquele dirigiu a Estaline, já no poder, denunciando Chagall como contra-revolucionário, isto depois de ele e os seus discípulos terem invadido e praticamente destruído a academia de Chagall, que se vê obrigado a emigrar. Presume-se a perplexidade de Estaline e Jdanov ao olharem para os quadros suprematistas do revolucionário Malevitch.

É esse ambiente que faz perceber porque é o teatro, onde concorrem diversas géneros de arte, salta para as ruas e a praças, celebrando a Revolução e os seus sucessos, que no 1º de Maio, em Petrogrado os operários tenham construído e exibido no desfile o monumento construtivista de Tatlin à III Internacional, enquanto o de Moscovo era antecedido por uma gigantesca marioneta simbolizando o capitalismo. Tudo isto enquanto o Narkompros desenvolve um projecto muito caro a Lénine, monumentos que celebrassem os revolucionários e personalidades públicas, escritores, poetas, filósofos e sábios, pintores, compositores, artistas, patrimónios da humanidade na luta por outra vida. Uma longa lista em que figuravam, entre muitos outros, Espártaco, Marx, Engels, Bakunine, Marat, Robespierre, Tolstoi, Dostoievski, Gogol, Mendeleev, Rublev, Mussorgski, Chopin, Scriabine. Era um projecto de propaganda monumental-heróica. Foram postos a concurso e o seu resultado decepcionou Lénine, como refere Lunatcharski, no livro já citado: «ora em Moscovo Vladimir Ilitch justamente teve a possibilidade de vê-los, os monumentos eram bastante maus (…) um dia disse-me enfadado, que a “propaganda monumental” dera em nada. Respondi-lhe, referindo-me à experiência de Petrogrado e ao testemunho de Zinoviev. Abanou a cabeça em ar de dúvida e replicou: “isso quer dizer que todos os talentos se reuniram em Petrogrado e que todos os falhados estão em Moscovo?”». Esta primeira vaga de monumentos, dedicados à propaganda, foi tão violentamente criticada pelo Prolekult como pelas vanguardas.

O entusiasmo acendido pela Revolução de Outubro transformou as vidas e teve fortes repercussões na poesia que invade os comícios políticos, as fábricas, as ruas, os cafés. Escreve-se nas paredes ao lado das palavras de ordem. Poetas como Maiakovski, Essenine, Pasternak deram-se a conhecer nesse fervilhar quotidiano, mesmo o simbolista Blok adquire um novo fôlego, surgem os poetas proletários sob a bandeira do Prolekult. Cometem as maiores extravagâncias e o poder soviético mostra para com eles uma rara indulgência, muito pela intervenção de Lénine que dava mais importância ao seu contributo para a Revolução do que as seus excessos públicos, ao seu contributo para os ideais da Revolução do que para as suas propostas estéticas. Benjamin Goriely relata muitos desses sucessos como o dos poetas imagistas que querem imediatamente a celebridade universal, consagrada na própria cidade.

Da esquerda para a direita: Shostakovitch, Mayakovski, Meyerhold e Rodchenko
 

«Substituem nomes ilustres das placas pelos seus próprios nomes (…) A rua Petrokva passou a ter o nome do imagista Marienhoff. O beco dos Camaristas, onde está o teatro Stanislavski, fui mudado para rua Essenine, O Beco da Gazeta passaria a chamar-se Kussikoff. (…) Os cocheiros foram os primeiros a aperceberem-se da coisa. Foi o próprio Essenine que lhes chamou a atenção. Chamou um trem, disse ao cocheiro:
– Leve-me à rua Essenine
– Como disse, perguntou o cocheiro.
– Rua Essenine.
– Essenine, não conheço
– Como? Não conheces os grandes homens da Revolução?
– Mas claro que conheço, responde o cocheiro a tremer, como foi que disse camarada? A rua Essenine, conheço-a mas pode-me dizer o antigo nome da rua.
– Beco dos Camaristas.
– Pois claro que conheço. Como podia eu não conhecer o grande revolucionário Essenine?

Essas brincadeiras valeram aos imagistas uma severa repreensão, mesmo uma ameaça de prisão por Kamenev, então presidente do Comité Central do Soviete, que a relatará a Lénine. Este riu-se a bandeiras despregadas, de modo algum pensou em punir os imagistas: melhor ainda, os seus poemas foram editados.4

Lénine compreendia que o processo em curso implicava as mais amplas massas na criatividade revolucionária e na construção de uma nova cultura num contexto em que iriam surgir projectos extraordinários e reivindicações radicais. Em conversa com Clara Zetkin, referiu-se a esse processo: «O despertar de novas forças, o trabalho com o objectivo de criar na Rússia Soviética uma arte e uma cultura novas, é uma coisa boa, muito boa. O ritmo tempestuoso do seu desenvolvimento é compreensível, mesmo útil. Devemos dar futuro ao que foi, durante séculos, descuidado, nós assim o queremos. A efervescência caótica, as novas consignas febris das aventuras artísticas, consignas que hoje cantam “hossanas” em relação a determinadas correntes da arte e amanhã as “crucificam”, são coisas inevitáveis. A revolução liberta todas as forças ontem amarradas, impulsionam-nas das profundidades para a superfície da vida» (Écrits sur l’Art et la Littérature. Éditions du Progrès, 1969).

No entanto, não estava desatento a esses movimentos que se tinham juntado à Revolução. Os de vanguarda intensificando a sua acção a favor de uma nova arte, criando células literárias e artísticas entre os operários, e o Prolekult criando estúdios, também entre os operários, para impor a «cultura proletária», enfrentando-se não só por palavras mas muitas vezes a murro. Entre todos os que alcançam maior notoriedade estão o futurista Maiakovski e o poeta proletário Demian Bedny. Um é o grande poeta da Revolução como hoje é reconhecido, o outro é um poeta medíocre que se limita à agitação e propaganda sem grande estro poético, hoje quase esquecido. O julgamento que na altura sofreram por parte de Trotsky (La Littérature et la Révolution, Le Monde em 10/18, 1972) e Lénine, apesar de ambos preferirem Bedny a Maiakovski, é bastante diferenciado. Lénine fá-lo em alguns telegramas a Lunatcharski: «não será uma vergonha votar a favor da publicação do poema 150 000 de Maiakovski em 5000 exemplares? Tolice, extravagância e pretensão, tudo isto. Na minha opinião, só um em cada dez desses escritos vale a pena ser publicado, e não mais do que em 1500 exemplares, para as bibliotecas e para os maníacos»

Em benefício de Lénine, refira-se a imensa escassez de papel que deveria ser direccionado prioritariamente para as escolas e para os jornais. Natália Kruspskaia confirma a admiração crítica de Lénine por Bedny. Gorki, conta nas suas recordações o paralelo que Lénine traçava entre os dois poetas. Sublinhava o alcance da propaganda na obra de Demian Bedny, embora dizendo «é um pouco grosseiro. Vai atrás do leitor, em vez de marchar à frente dele». Em relação a Maiakovski «grita, inventa não sei que palavras estapafúrdias. Não é assim, acho eu, não é assim, e é pouco compreensível. Tudo disperso, tudo difícil de ler. Dizem que é dotado? Até muito dotado? Hum, veremos».

Trotsky, brutal em relação a Maiakovski, que considera «um vadio anarquizante, sem qualquer valor poético», tem um imenso entusiasmo por Demian Bedny: «é curioso verificar que aqueles que fabricam as fórmulas abstractas da poesia proletária passam habitualmente ao lado de um poeta que, mais que ninguém, tem o direito ao poeta da Rússia revolucionária» (…) «tem a capacidade de fazer da poesia um mecanismo de transmissão incomparável das ideias bolcheviques» (…) «Demian Bedny não criou, nem criará uma escola: ele mesmo foi criado por uma escola que se chama P.C.R., para as necessidades de uma grande época que não terá igual» (Ibidem, obra citada). Uma formulação no mínimo inquietante por excluir a arte de encontrar aquilo que quer fazer com os seus materiais e instrumentos, para a entregar pura e simplesmente nas mãos da política e dar à política o comando, o que acabava por sancionar a «cultura proletária». Uma concepção diametralmente oposta à de Lénine, que sempre lutou contra as tentativas do Prolekult impor uma «cultura proletária» autonomizando-se do Narkompros. No primeiro Congresso sobre a Educação, em 6 de Maio de 1919, Lénine criticou o Proletkult e os intelectuais burgueses que desdobravam a sua fantasia no domínio da filosofia e da cultura ditas proletárias, «como se a cultura proletária surgisse de uma fonte desconhecida, brotasse do cérebro de alguns que se dizem especialistas na matéria, um total absurdo». A fracção comunista nesse Congresso, liderada por Lénine, votou a submissão do Prolekult ao Narkompros por 166 votos a favor, contra 36, e 26 abstenções. No discurso final, um discurso não previsto, Lénine atacou ainda mais violentamente os teóricos da «cultura proletária» considerando-a um desvario.

Sempre inflexível em relação aos princípios, Lénine foi também sempre um revolucionário flexível nas políticas que os não violassem, o que aplicou coerentemente em relação às artes, nunca aceitando que a política a colonizasse.
Bibliografia Resumida

Brecht, Berthold, Les Arts et la Révolution, L’Arche, 1997
Ehrenburg, Ilya, Un Écrivain dans la Révolution, Éditions Gallimard, 1962
Goriely,Benjamin, Les Poètes dans la R’evolution Russe, Éditions Gallimard, 1934
Gorki, Máximo, Lénine, Modo de Ler, 2009
Lénine, Oeuvres Complètes, em 45 volumes, Éditions du Progrès, 1958-1976
Lénine, Écrits sur l’Art et la Littérature, Éditions du Progrès, 1969
Lénine, Obras Escolhidas, em 3 volumes, Editorial Avante!, 1978
Lénine, Que Fazer?, Editorial Avante!, 1984
Lénine, Materialismo e Empiriocriticismo, Editorial Avante!,1979
Lunatcharski, Anatoli; Gorki, Maxim e outros, Lénine tel quel fut. Souvenirs de Contemporains, Editions du Progrès, 1959
Palmier, Jean Michel, Lénine, A Arte e a Revolução. Ensaio sobre Estética Marxista, Moraes Editores, 1976
Prévost, Claude, Literatura, Política, Ideologia, Moraes Editores, 1976
Reed, John, Dez Dias que Abalaram o Mundo, Editorial Avante!, 1997
Trotsky, Leon, La Littérature et la Révolution, Le Monde em 10/18, 1972

 

Ver o original em 'Praça do Bocage ' (clique aqui)

COMO OS TECELÕES DE TAPETES DE KUJAN-BULAK HONRARAM A MEMÓRIA DE LÉNINE – Bertolt Brecht

150 aniversário
150 aniversário – 22 de abril de 1870

 

 
COMO OS TECELÕES DE TAPETES DE KUJAN-BULAK HONRARAM A MEMÓRIA DE LÉNINE


1

Muitas vezes e à farta foi honrado
o Camarada Lénine. Há bustos dele e estátuas.
Puseram o nome dele a cidades e crianças.
Fazem-se discursos em muitas línguas
há assembleias e demonstrações
desde Xangai a Chicago em honra de Lénine.
Mas foi assim que o honraram os tecelões de tapetes
de Kujan-Bulak, pequena povoação no Sul do Turquestão:
Vinte tecelões de tapetes levantam-se ali ao anoitecer
do miserável tear, sacudidos pela febre.
Anda febre por lá: a estação de caminho-de-ferro
está cheia do zumbir dos mosquitos, nuvem espessa
que se ergue do pântano por detrás do velho cemitério dos camelos.
Mas o comboio
que de quinze em quinze dias traz água e fumo, traz
também um belo dia a notícia
que vem aí o dia da homenagem ao Camarada Lénine.
E as gentes de Kujan-Bulak, gente
pobre, tecelões de tapetes, decidem
que também na sua povoação
se erga o busto de gesso ao Camarada Lénine.
Mas quando se vai juntar o dinheiro para o busto
ei-los todos sacudidos de febre a pagar
os copeques penosamente ganhos com mãos a adejar.
E Stepa Gamalev, do Exército Vermelho, que vai contando
e vendo com cuidado e precisão.
vê a prontidão deles em honrar Lénine, e fica contente,
mas vê também as mãos vacilantes,
e faz de repente a proposta
de comprar, com o dinheiro para o busto, petróleo
para derramar no pântano atrás do cemitério dos camelos
donde vêm os mosquitos
que causam febres.
Para assim combater as febres em Kujan-Bulak, e em verdade
em honra do falecido, mas
não esquecido
Camarada Lénine.

Assim o resolveram. No dia da homenagem levaram
os seus baldes amolgados cheios de petróleo negro
um após outro, para lá,
e regaram o pântano com ele.
Assim tiraram proveito para si mesmos ao honrarem Lénine e
honraram-no, com proveito para si mesmos, e assim
o tinham entendido.

2

Ouvimos pois como as gentes de Kujan-Bulak
honraram Lénine. Mas à noitinha,
comprado e espalhado o petróleo sobre o pântano,
eis se levantou um homem na assembleia e exigiu
que se colocasse uma placa na estação do comboio
com o relato do acontecido, contendo
também exatamente a alteração do plano e a troca
do busto de Lénine pela tonelada de petróleo que acabou com as febres.
E tudo isto em honra de Lénine.
E assim fizeram também isto
e puseram a placa.

 


Bertolt Brecht

Via: voar fora da asa https://bit.ly/2Krg9w0

 

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/04/22/como-os-teceloes-de-tapetes-de-kujan-bulak-honraram-a-memoria-de-lenine-bertolt-brecht/

As canções da luta, da resistência e do futuro, por Manuel Pires da Rocha

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Mesmo quando surge na guerra, a partitura progressista e o canto passado de voz em voz são sempre Manifesto pela Paz. Como naquela Sinfonia n.º 7, “Leninegrado”, de Chostakovitch, apresentada em 9 de Agosto de 1942, um dos 900 dias do cerco nazi à cidade do Báltico (pelos músicos da Orquestra da Rádio de Leninegrado a que se juntaram músicos militares).

Como no Quarteto Para o Fim dos Tempos, composto por Olivier Messian, prisioneiro do Campo de Concentração nazi de Görlitz. Como em cada uma das Canções Heróicas de Fernando Lopes-Graça, cantadas primeiro pelo Coro da Academia de Amadores de Música e, logo a seguir, pelas muitas vozes que, também cantando, lutavam pela democracia.

Há quem diga que a Arte, por si só, é incapaz de mudar o mundo. Não é, porém, dos objetos – sejam pintura, poema, escultura, melodia – a qualidade de serem exteriores à intenção de quem os produz e à compreensão de quem os percebe. Na verdade, não se pode ser contorno à revelia de quem o talhe e de quem o olhe; nem se é melodia sem haver quem a invente e quem a escute; e verso não se pode ser independentemente de quem o escreva e de quem o compreenda. Seja como for, quase todos os humanos revelam idênticas compreensões perante o bem e o mal.

Via: Página Inicial – União de Resistentes Antifascistas Portugueses https://bit.ly/2zj3pFH

 

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/04/20/as-cancoes-da-luta-da-resistencia-e-do-futuro-por-manuel-pires-da-rocha/

Chile, o oásis seco

Com a morte de LUIS SEPÚLVEDA, a literatura perde um dos seus escritores mais capazes de entrelaçar a dureza da realidade com a urgência do sonho. A cidadania mundial perde um dos seus maiores militantes, sempre do lado da democracia e da justiça social. A sua família e amigos, o Le Monde diplomatique, os seus leitores (e eles são tantos em Portugal) perdem um homem singular nos afectos, na coragem e no talento, dotado de um sentido de humor e de uma capacidade de ler o mundo singulares. Neste artigo, que publicámos em Dezembro de 2019, Luis Sepúlveda, tantas vezes presente nas páginas deste jornal, trazia-nos a história do seu Chile martirizado pela ditadura, que o levou ao exílio, e depois pelo neoliberalismo, que «secou» o país. Para nos falar da esperança que nasce de «um povo que se levanta».

Era o início de Outubro, apenas algumas semanas antes da explosão social que sacode o Chile, abrangendo toda a sua estranha geografia. Uma explosão que, no final de Novembro, se traduziu por mais de vinte mortos, centenas de mutilados, milhares de feridos, um número indeterminado de detidos, de actos de tortura, de agressões sexuais e inúmeras atrocidades cometidas pela polícia e pelas forças armadas. Imediatamente antes destes acontecimentos, o presidente chileno Sebastián Piñera havia falado sobre as convulsões que abalavam o resto da região. Apresentou então o Chile como um «oásis» de paz e de tranquilidade no meio da tempestade.

Não era a presença de uma água particularmente doce, nem de palmeiras de folhagem exuberante, que caracterizava este «oásis», mas as barreiras aparentemente intransponíveis que o rodeavam. Os chilenos estavam do lado bom destas barreiras, forjadas numa liga singular: economia neoliberal, ausência de direitos civis e de repressão. Os três metais mais desprezíveis.

Até a multidão ter enegrecido as ruas chilenas nas últimas semanas, os economistas e os dirigentes políticos que se agarravam ao credo «menos Estado, mais liberdade de iniciativa» como a uma bóia explicavam que se tinha produzido um milagre no Chile. Quase por geração espontânea. A prova irrefutável deste milagre eram os números do crescimento e as estatísticas económicas aplaudidas pelo Fundo Monetário Internacional e pelo Banco Mundial.

Mas este pequeno paraíso austral não existia para o conjunto da população. Ele ignorava detalhes aparentemente tão subjectivos como o direito a um salário justo, a reformas decentes, a uma educação pública de qualidade, a um sistema de saúde digno desse nome. Quase não dava importância ao direito de os cidadãos decidirem a sua sorte, não lhes dando outra alternativa que não fosse a de engolirem os números macroeconómicos com que o poder os alimentava.

No dia 11 de Setembro de 1973, um golpe de Estado derrubava a democracia chilena [1]. Uma ditadura brutal instalava-se em Santiago, onde se manteria durante dezasseis anos. Não para restaurar a ordem ameaçada, ou para salvar a pátria da ameaça comunista: o projecto que motivou o golpe de Estado era pôr em prática os preceitos dos gurus neoliberais, encabeçados por Milton Friedman e pela escola de Chicago. Tratava-se de instaurar um modelo económico de um novo tipo, que originaria por seu lado um novo tipo de sociedade. Um mundo obrigado ao silêncio, onde a precariedade seria a norma e a ausência de direitos a regra. Um mundo onde as espingardas se encarregariam de assegurar a paz social.

A ditadura cívico-militar atingiu os seus objectivos. Ela inscreveu-os numa Constituição cujo texto consagra o modelo económico instaurado pela força e erigido em definição do país. Nenhuma outra nação latino-americana se dotou de uma bússola tão fielmente alinhada com o bem-estar de uma minoria, com desprezo pelo resto da população.

Com o «regresso da democracia», ou, melhor dizendo, com a «transição chilena para a democracia», a partir de 1990, as regras do jogo não se alteram. A Constituição da ditadura é retocada sem que se modifique o essencial. Todos os governos de centro-esquerda e de direita que se sucedem empenham-se em manter o sacrossanto modelo económico, enquanto que a precariedade gangrena sectores cada vez mais vastos da sociedade.

Se, durante uma refeição, tivermos duas pessoas e dois bolos, de um ponto de vista estatístico, o consumo é de um bolo por pessoa. Mesmo que um dos dois coma tudo, sem deixar nada para o outro. Eis o passe de mágica que permite ao Chile apresentar o seu modelo como um sucesso: não sendo verdadeiramente nem uma ditadura nem uma democracia, assegura a sua sobrevivência graças à repressão e ao medo.

Um dos homens mais ricos do mundo, Julio Ponce Lerou, antigo genro do ditador Augusto Pinochet e herdeiro, por ordem do general, de um império económico que foi construído roubando aos chilenos o que lhes pertencia, pagou imensas somas de dinheiro à maioria dos senadores, dos deputados e dos ministros para que prosseguissem servilmente as privatizações. Quando a sociedade o descobriu, o Estado respondeu em dois tempos: sugeriu que criticar estes factos fazia com que se pusesse fim ao «milagre chileno»; e organizou a repressão dos manifestantes.

No Chile, a água pertence a um punhado de multinacionais. Toda a água. A dos rios, a dos lagos, a dos glaciares. Quando as pessoas saíram à rua para protestar contra esta situação, o Estado empenhou-se no único diálogo que tolera: o que responde às reivindicação populares com golpes de matraca.

O mesmo aconteceu quando a sociedade se mobilizou para defender o património natural ameaçado pelas transnacionais da produção de electricidade; quando os estudantes do secundário exigiram uma educação pública de qualidade, liberta do monopólio do mercado; ou quando uma grande parte do país assumiu a defesa do povo mapuche, sistematicamente oprimido. O Estado deu sempre a mesma resposta: reprimir e afirmar que os contestatários ameaçavam o milagre económico chileno.

A paz do oásis chileno não se estilhaçou por causa de um simples aumento do preço dos bilhetes de metro em Santiago.

Ela foi corroída pelas injustiças cometidas em nome das estatísticas macroeconómicas. Pela insolência de ministros que aconselham as pessoas a levantarem-se mais cedo para economizarem no custo dos transportes colectivos [2]; que, face ao aumento do preço do pão, recomendam que se comprem flores porque elas, ao menos, não aumentaram; que convidam a organizar noites de bingo na esperança de recolher fundos para reparar o telhado das escolas que as primeiras chuvas inundam.

A paz do oásis chileno estilhaçou-se porque não há nada de justo no facto de os estudantes universitários terminarem os seus cursos afogados num mar de dívidas que demorarão quinze ou vinte anos a pagar.

A paz do oásis chileno estilhaçou-se porque o sistema de reformas está nas mãos de empresas-vampiro, que investem os fundos que recolhem em mercados especulativos e fazem pagar as perdas que registam aos reformados, estes pobres seres humanos aos quais pagam pensões de miséria, calculadas na base de uma avaliação mórbida do número de anos que lhes restam de vida.

A paz do oásis chileno estilhaçou-se porque, no momento de escolher a sociedade que gerirá a sua conta de capitalização para a reforma, o trabalhador, o operário, o pequeno patrão, tem de ter em conta este aviso das autoridades: «A maior parte da tua pensão de reforma dependerá da inteligência que mostrares ao colocar as tuas poupanças nos mercados financeiros».

A paz do oásis chileno estilhaçou-se porque uma maioria de pessoas começou a dizer «não» à precariedade e se lançou à reconquista dos direitos que perdera.

Não há revolta mais justa e mais democrática do que a que abala o Chile.

Os manifestantes exigem uma nova Constituição, que represente o conjunto da nação, em toda a sua diversidade.

Exigem que se reverta a privatização da água e do mar. Exigem o direito de existir, e de serem considerados como sujeitos activos do desenvolvimento do país.

Exigem ser tratados como cidadãos, não como a parte fraca de um modelo económico condenado ao fracasso pela sua desumanidade.

Não há revolta mais justa e mais democrática do que a que abala o Chile.

E não há repressão, por muito dura e criminosa que seja, que possa parar um povo que se levanta.

(Tradução de Agostinho Santos Silva)

* Escritor chileno. Última obra editada em Portugal: História de um Gato e de um Rato que se Tornaram Amigos, Porto Editora, Porto, Julho de 2019.

(Foto: By AmonSûl - Dal vivo, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/ind...)


[1] N.d.R. Ler «Santiago em Setembro», Le Monde diplomatique – edição portuguesa, Setembro de 2013.

[2] N.d.R. Os bilhetes de metro são mais baratos fora das horas de ponta.

Ver o original em Le Monde Diplomatique PT (clique aqui)

Museus promovem visitas virtuais durante pandemia

Conhecer museus, ver exposições sem sair de casa. Veja as sugestões

 

 

Para conhecer o Museu da Memória Republicana, instalado no Convento das Mercês, não é necessário viajar ao Maranhão. Considerado um dos Sete Tesouros de São Luís, está com o prédio fechado por causa da pandemia do novo coronavírus, mas abriu uma janela. No computador ou no celular é possível fazer uma visita virtual pelo museu. O passeio está disponível no site eravirtual.org.

Um passeio também pode ser feito por quadros dos pintores brasileiros Di Cavalcanti, Anita Malfatti e Cândido Portinari e de grandes nomes mundiais como Rafael, Mantegna, Botticceli, Monet, Picasso, Van Gogh. Eles estão expostos no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp).

O maior museu a céu aberto do mundo, o Inhotim, fica em Brumadinho, Minas Gerais. Suas instalações não foram atingidas pela lama da barragem do Córrego do Feijão. No tour virtual do Inhotim, é possível conhecer o Jardim Botânico e as várias obras de arte e esculturas expostas ao ar livre.

O Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) tem em seu acervo online dezenas de museus localizados em todas as regiões brasileiras.

Henrique Costa, funcionário público, achou a iniciativa fantástica. Com a crise do coronavírus, a advogada Karen Ramos por enquanto não vai poder viajar, que é o que gosta de fazer. Mas tem a internet como alternativa.

No site Metropolitan Museu de Arte de Nova York (MET) há diversos vídeos, textos e fotos das obras em exposição. Tem também um passeio de 360º pelo prédio.

A visita online ao Museu do Louvre, em Paris, possibilita ver em detalhes uma das obras mais famosas do mundo, a Mona Lisa, de Leonardo da Vinci. Quem fizer o tour virtual pode ver o quadro e se surpreender com o tamanho da obra.

Muitos outros museus podem ser vistos, como o Reina Sofia, em Madri, na Espanha, com o famoso Guernica, de Picasso, e várias obras do espanhol Salvador Dali.

Na Argentina, o Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires (Malba) também tem visita virtual. É lá que está o Abapuru, da brasileira Tarsila do Amaral, além de obras de Cândido Portinari e do casal mexicano Frida Kahlo e Diego Rivera.


Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial Rádio Peão Brasil / Tornado

 
 
 
 
 
 
 
 
 

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Vítima do Covid 19

In memoriam
de
Luís Sepúlveda
(1950-2020)

Morreu um escritor talentoso e um antigo e apaixonado combatente da Unidade Popular do Chile. «o tempo as cerejas» publicou em 2019, por ocasião do 11 de Setembro, extractos do seu belo artigo «Memorial de los Dias Felices»(de 2003)que agora se reproduzem de novo.

«(...) A treinta años del crimen, hay miserables que interpretan el suicidio de Allende como una derrota. No entienden las razones de un hombre leal, que en el fragor del combate entendió que su último sacrificio evitaría a su pueblo la máxima de las humillaciones; ver a su dirigente, a su líder, encadenado y a merced de los tiranos. Queridas compañeras, queridos Compañeros: no hay honor más grande que el haber sido compañeros de lucha y de sueños de un hombre como Salvador Allende. No hay orgullo mayor que esos mil días liderados por el Compañero Presidente. No somos víctimas ni del destino ni de la ira de un dios enloquecido. La historia oficial, la mentira como razón de Estado nos presenta como a responsables de un crimen que, cada vez que intentan explicar, las palabras huyen de sus bocas pues no quieren ser parte del vocabulario de la vergüenza. Si nuestro intento por hacer de Chile un país justo, feliz y digno nos hace culpables, entonces asumimos la culpa con orgullo. La cárcel, la tortura, las desapariciones, el robo, el exilio, el no tener un país al que volver, el dolor, si todo eso era el precio a pagar por nuestro esfuerzo justiciero, entonces sépase que lo hemos pagado con el orgullo de los que no renunciaron a su dignidad, de los que resistieron en los interrogatorios, de los que murieron en el exilio, de los que regresaron a luchar contra la dictadura, de los que todavía sueñan y se organizan, de los que no participan de la farsa pseudo democrática de los administradores del legado de la dictadura. Junto a Salvador Allende fuimos protagonistas de los mil días más plenos, bellos e intensos de la historia de Chile. Sobre nosotros dejaron caer todo el horror, pero no consiguieron ni conseguirán borrar de nuestros corazones el Memorial de los Años más Felices. Cuando en los momentos más duros de nuestros mil días, la provocación del fascismo, de la derecha, del imperialismo yanqui, hacía que la ira se instalara peligrosamente en nuestros ánimos, el Compañero Presidente nos aconsejaba: "Vayan a sus casas, besen a sus mujeres, acaricien a sus hijos". Ahora, a treinta años de la gran traición, que la cercanía de los nuestros, que el recuerdo de los que nos faltan, y el orgullo de todo lo que hicimos sean los grandes convocantes de lo que debemos recordar. Que las palabras Compañera y Compañero suenen como una caricia, y bebamos con orgullo el vino digno de las mujeres y los hombres que lo dieron todo, que lo dieron todo y pensaron que no era suficiente.» Agosto 2003
 

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

Adeus a Luis Sepúlveda, o romancista chileno que lutava contra o COVID-19 morreu aos 71 anos

 

Adeus Luis Sepúlveda. Seus pulmões não se sustentaram, sobrecarregados pelo coronavírus. O escritor, roteirista e diretor chileno morreu com coronavírus no Hospital da Universidade Central das Astúrias (HUCA), onde estava hospitalizado desde 29 de fevereiro em condições graves. Sua saúde se deteriorou nas últimas semanas, seu corpo não respondeu a tratamentos e antibióticos.

O último dos lutadores tinha 71 anos. Autor de muitos sucessos, incluindo “La gabbianella e il gatto”, nasceu em Ovalle em 1949, não apenas romancista: Sepulveda era um ativista dos direitos civis em seu país, que ele teve que deixar depois de ser preso por parte do regime de Augusto Pinochet. A favor da ecologia militante, dos povos indígenas da América do Sul, contra o racismo na Europa.

Luís Sepúlveda, que nasceu no Chile a 04 de outubro de 1949, estreou-se nas letras em 1969, com “Crónicas de Piedro Nadie” (“Crónicas de Pedro Ninguém”), dando início a uma bibliografia de mais de 20 títulos, que inclui obras como “O Velho que Lia Romances de Amor” e “História de Uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar”.

Condolências pela morte do excepcional romancista chileno chegaram de todo o mundo. As notícias se repercutiram nas mídias sociais nas últimas horas, entre negações e confirmações.

Sepulveda enriqueceu a literatura mundial. Continuaremos a gostar do seu trabalho, mas sentiremos sua falta.

Que a terra lhe seja leve. Obrigado por nos ensinar a defender o meio ambiente e os direitos de todos.

Voe alto, como “sua” Gabianella …

“Somente quem se atreve a voar”.

 

Ver original em 'Pensar Contemporâneo' na seguinte ligação::

https://www.pensarcontemporaneo.com/adeus-a-luis-sepulveda-o-romancista-chileno-que-lutava-contra-o-covid-19-morreu-aos-71-anos/

UM DIA TRISTE | NOTÍCIAS DO BLOQUEIO

«Assobiando à vontade», Mário Dionísio - O Professor tira dúvidas
 
Está um dia triste, fechado de frio e de chuva, sem nesga de sol, as árvores balançam ao vento, a primavera segue dentro de momentos. As cidades e as terras, agora sem gente nas ruas, sem o bulício dos cafés, sem a chilreada das crianças, parecem sombras espectrais. A noite começa a descer lentamente, molhada de vento gelado e de chuva, e, por detrás dos vidros, nas janelas das casas, alguém espreita:
-- Que tristeza, não se vê vivalma!

A cidade encolhe os seus dramas, não há como a noite para disfarçar as lágrimas. Neste tempo de mortes anunciadas, em que o medo já se ocupa de tudo, vêm à superfície clamores antigos e actuais de injustiças e dramas. Todos sabemos que o mundo está, como sempre esteve, cheio deles, tantas vezes praticados à sombra de leis iníquas das ordens estabelecidas.

Talvez agora, em que o perigo toca a todos, haja maior sensibilidade para o sofrimento humano. Talvez. A memória, todavia, vem sempre ao nosso encontro, com o auxílio da literatura, que a reelabora, para nos dar conta dessa inquietação intemporal, em páginas de fulgor universal.

Lembrei-me, por isso, daquelas magníficas páginas de Victor Hugo, em “Os Miseráveis” (1862), em que o grande escritor francês conta a história de Jean Valjean, condenado a cinco anos de prisão por ter roubado um pão, para matar a fome à irmã e aos sobrinhos. Era um adolescente e os outros ainda crianças. Sofreu dezanove anos de reclusão, cinco pelo roubo do pão e outros catorze por tentativas de fuga. A história real, transposta para a literatura, é um momento admirável de criação.

O romance, como os leitores sabem, é um denso painel sobre a condição humana. Mais perto de nós, há também o conto de Mário Dionísio publicado em “O Dia Cinzento” (1944), A Lata de Conserva, fantástico registo de um garoto descalço (“o rapaz das cautelas”) que rouba a lata de conservas na mercearia de bairro, em Lisboa, e é perseguido até ser preso pela polícia.

As boas almas, que não sofrem inquietações de consciência, com estes casos, poderão dizer que isso são coisas antigas sem reprodução no calendário da actualidade. Penso que não.

Não há tanto tempo como isso, lembro-me bem, um sem-abrigo foi a tribunal por ter roubado, num supermercado, uma embalagem de chocolates, no valor de 14,34 €, que nem chegou a mastigar, por ter sido interceptado por um funcionário.

Apesar disso, o Ministério Público decidiu avançar com a acusação. A lei é a lei. Sei que a polícia produziu uma informação dizendo que, dado o estilo de vida errante do sem-abrigo, era difícil notificá-lo. Não me lembro como acabou a história, mas decerto o juiz não o terá mandado para cadeia, talvez pelo alarido que o caso causou nos jornais e nas televisões.

Arrumo o livro de Mário Dionísio na estante e volto à lembrança do sem-abrigo. Os mesmos corpos de delito, a mesma questão essencial: uma palavra chamada fome. Um gelo de desumanidade continua a cercar os dias, como na história de “Os Miseráveis”.

As cidades encolhem os seus dramas e a noite disfarça as lágrimas. O cronista olha para dentro das coisas e murmura:

-- Está um dia triste!

Domingo, 12 de Abril

Ver o original em Notícias do Bloqueio (clique aqui)

Livros grátis na internet

Biblioteca da quarentena da Universidade do Estado do RJ

 

 

Na quinta-feira, 9 de abril, a Biblioteca da Quarentena da Editora da UERJ recebeu o reforço de cinco novos livros, incrementando o acervo de obras digitais disponibilizadas gratuitamente ao público para download. Os títulos, que foram selecionados do catálogo regular da EdUERJ, são os seguintes:

  • O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queiroz. O clássico da língua portuguesa tece uma crítica ao catolicismo e à moral da época. A edição da EdUERJ é baseada na última versão, de 1889, a última em vida de Eça de Queiroz, e inclui uma análise textual produzida pelos professores de Letras da UERJ, Eduardo da Cruz e Sérgio Nazar David.
  • Sereia de papel – visões de Ana Cristina Cesar, organizado por Viviana Bosi, Álvaro Faleiros e Roberto Zular. Mais do que a qualidade da obra de uma poeta, a publicação evidencia um olhar analítico sobre as investidas de Ana Cristina Cesar como crítica literária, ensaísta ou tradutora.
  • Aprendizados ao longo da vida: sujeitos, políticas e processos, organizado por Jane Paiva. O livro reúne artigos sobre Educação de Jovens e Adultos (EJA), propondo uma reflexão sobre a situação dos sujeitos por ela atingidos.
  • Copas do Mundo: comunicação e identidade cultural no país do futebol, organizado por Ronaldo Helal e Alvaro do Cabo. Reúne textos de 15 pesquisadores do meio acadêmico que abordam nove Copas do Mundo e uma Copa das Confederações, eventos selecionados principalmente pelo critério da dimensão simbólica que adquiriram na imprensa e na sociedade brasileira.
  • Entradas e Bandeiras: a conquista do Brasil pelo futebol, de Gilmar Mascarenhas. Observa o futebol sob o prisma da geografia histórica, delineando um panorama do desenvolvimento do esporte no país, da prática do esporte pelas elites, que o adotaram primeiro, até sua gradual aceitação pelas classes populares.

Semanalmente você encontra novos títulos na Biblioteca da Quarentena, da Editora da UERJ. Faça uma visita, baixe os livros que desejar, e boa leitura!

 

 

Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial Rádio Peão Brasil / Tornado

 
 
 
 
 
 
 
 
 

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Ao bárbaro a cultura amedronta

Mesmo quando em Lisboa, chineses só conhecia os vendedores de gravatas, já ouvia falar do perigo amarelo. Esse “perigo”, ressurge com mais intensidade no preciso momento em que o povo chinês vem em nosso socorro. É o natural receio dos bárbaros face a uma cultura com mais de cinco mil anos.
Para acalmar o temor de alguns, transcrevo uma das cartas que o comerciante e banqueiro José Ignacio de Andrade, (não me consta que fosse comunista) enviou há duzentos anos à esposa, cartas publicadas em dois volumes onde relata o que observou, e que eu deixo à vossa consideração.
 
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Cancelado festival televisivo que «promove desigualdade»

O Ministério da Cultura confirmou que o festival de música foi cancelado, no seguimento de uma petição que acusava a tutela de fomentar um «círculo fechado».

Graça Fonseca, minstra da Cultura, está a ser amplamente criticada pela iniciativa promovida pelo seu MinistérioCréditosMIGUEL A. LOPES / LUSA

Fonte da RTP confirmou ao Expresso o cancelamento do TV Fest após onda de críticas.

A medida anunciada esta quarta-feira pelo Governo foi imediatamente contestada nas redes sociais e outras plataformas. O festival televisivo TV Fest surgiu de uma parceria entre o Ministério da Cultura e a RTP, e pretendia apoiar a música portuguesa nesta fase de quebra de actividade decorrente da pandemia de Covid-19.

Em declarações ao AbrilAbril, Rui Galveias, músico e dirigente do Sindicato dos Trabalhadores dos Espectáculos, do Audiovisual e dos Músicos (CENA-STE/CGTP-IN), referiu que a ideia por detrás desta iniciativa «deve ser combatida em toda a linha», acrescentando que vem «promover a desunião do sector» e deixar de fora milhares de profissionais. «A medida que devia ser posta em prática foi ontem chumbada no Parlamento», disse o dirigente, referindo-se à proposta do PCP de criação de um Fundo de Apoio Social de Emergência ao tecido cultural e artístico, um apoio de natureza não concorrencial a ser atribuído a todos os trabalhadores do sector que viram a sua actividade cancelada.

Depois da criação de um apoio no valor de um milhão de euros, a ser gerido pela DGArtes, cujo valor foi considerado insuficiente pelos profissionais e pelo CENA-STE, soube-se ainda que esses subsídios seriam atribuídos na sequência de um concurso, o que obrigou os agentes culturais a desenvolver novas candidaturas, que irão ser avaliadas e, posteriormente, apoiadas ou não.

No texto da petição que exigia o cancelamento desta iniciativa, e que contou com mais de 17 mil assinaturas em menos de 24 horas, pode ler-se que «a realização do TV Fest, no presente estado de emergência, constitui uma ameaça ao ecossistema cultural português, que elimina curadores, directores artísticos, músicos, técnicos e os demais, operando através de um jogo em corrente exclusivo, e de círculo fechado, aos seus participantes artísticos, que desclassifica a participação, representatividade e diversidade de um sector, constituindo uma medida antidemocrática e não inclusiva».

Nesse sentido, os signatários pediam «o cancelamento de qualquer medida que fomente disparidades, competição e desigualdade no acesso». «A classe artística necessita de um reforço claro e objectivo à linha de apoio a artistas e entidades, de um mecanismo que reforce a sua protecção social perante o Estado e legisle a sua contribuição à sociedade através do reconhecimento do seu estatuto de intermitência», pode ler-se no texto.

A petição exigia ainda «imparcialidade, justiça e transparência absoluta sobre todos os critérios de atribuição e distribuição de oportunidades e fundos públicos», solicitando também «inclusão, atenção e cuidado e a procura de uma resposta comprometida com a realidade dos agentes culturais do País que trabalham diariamente pela cultura portuguesa».

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/cultura/cancelado-festival-televisivo-que-promove-desigualdade

Apoio às artes abaixo do limiar da pobreza

O sector das artes foi um dos primeiros a verificar uma redução, seguida de uma supressão total de actividade.

CréditosJosé Silva / Manifesto em defesa da Cultura

Continuando a aguardar resposta do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, o Sindicato dos Trabalhadores de Espectáculos, do Audiovisual e dos Músicos (CENA-STE/CGTP-IN) reuniu, na passada quarta-feira, com o Ministério da Cultura.

Segundo nota enviada à imprensa, na reunião foram apresentados e discutidos os resultados gerais do «Questionário aos Trabalhadores de Espectáculos, Audiovisual e Músicos» realizado entre 18 e 26 de Março, que atestam a «situação catastrófica» vivida no sector.

Entre outros resultados, o sindicato avançou que 98% dos trabalhadores questionados viram os seus trabalhos cancelados e 33% destes por mais de 30 dias, lembrando que 85% dos trabalhadores questionados são trabalhadores independentes, sem qualquer protecção laboral. 

Sublinhando que este foi um dos primeiros sectores a verificar uma redução seguida de uma supressão total de actividade, o CENA-STE alerta para a possibilidade de este vir a ser um dos últimos a retomar a actividade em pleno, «seja pela garantia das condições de higiene e segurança devidas aos trabalhadores, seja pelas devidas ao público».

Foi ainda manifestado o desacordo quanto ao valor e as «condicionantes» dos apoios anunciados pelo Governo para o sector. Entendendo que são necessárias «medidas de fundo», que não se alicercem apenas nos apoios à criação artística, o sindicato considera «inaceitável» a atribuição de um Indexante dos Apoios Sociais (IAS) no valor de 438,81 euros para os trabalhadores que laboram a recibos verdes. «Não é aceitável que os trabalhadores do sector sejam discriminados ao verem limitado, a um valor abaixo do limiar da pobreza, o apoio que podem receber», pode ler-se na nota.

O Ministério foi ainda alertado para a preocupação em relação às inúmeras queixas que têm chegado ao sindicato: desde lay-off ilegais, imposição de dias de folga e férias, à exclusão de muitos trabalhadores independentes no acesso ao apoio extraordinário em consequência de «lacunas lamentáveis» na legislação em vigor.

Para o CENA-STE, esta «situação dramática» terá de ser evitada no futuro através de mais financiamento, cumprindo-se o objectivo mínimo de 1% do Orçamento do Estado para a Cultura, para além de outras medidas específicas de fomento à retoma do sector.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/cultura/apoio-artes-abaixo-do-limiar-da-pobreza

A CULTURA E UMA VOZ QUE SE IMPÕE

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Os artistas no porão
 
(Original AQUI)
 
« Os artistas encontram-se em graves apuros. Estamos todos no mesmo barco? Até podemos estar, mas alguns vão no porão, que inunda mais depressa. E não haverá botes salva-vidas para todos. Onde é que já vimos esta história antes? Ainda por cima, sejamos honestos, trata-se de Portugal. 
 
Faço parte do clube que acha que a ficção não é um refúgio. O meu entendimento é precisamente o contrário: A realidade é que é o refúgio, porventura para aqueles que não possuem «nem um grão de imaginação», nas palavras do poeta. Infelizmente a tendência dos governos é para colocarem a cultura no final das suas prioridades, como se gerir um país fosse um alinhamento destes telejornais de agora. 
 
Em que tudo passa à frente da cultura: o futebol, os fait-divers, as parvoíces pegadas… E depois, lá na cauda do noticiário, aparece, um, não mais, um evento (medonha palavra) cultural. Acontecem coisas, às vezes, muito extraordinárias, em termos artísticos, no país e as pessoas não dão conta, nem reparam, porque o seu olhar já foi sequestrado por qualquer trivialidade ou escândalo. E andam elas em síndroma de privação, numa ressaca nebulosa, sem sequer saberem do que padecem. 
 
Porque o ser humano precisa desesperadamente do simbólico. Porque precisamos aflitivamente de atravessar a ponte para o outro lado, que é o da ficção. E não é porque a «humankind cannot bear very much reality», nesse verso de T S Elliot, frase abundantemente profanada, que o bom do senhor nunca disse. Quem o diz é um pássaro num desses longos, místicos e sombrios poemas de Elliot. Como quando comentamos que, segundo Pessoa, «o melhor do mundo são as crianças», suspeitando que o poeta apenas quis arranjar rima para «danças». Ou que a inveja é uma característica muito portuguesa porque vem no fim dos Lusíadas, quando ele explicitamente se refere à glória de Aquiles, da Ilíada. Aquilo que se diz, a realidade é a coisa mais imponderável do mundo, os factos são dissolúveis, liquefeitos, como os relógios de Dali. A realidade, ao contrário da ficção, não é de confiança. Quem imaginaria que a Europa poderia atravessar uma crise pandémica desta magnitude? Quem suporia estas cidades fantasmas, pessoas encurraladas em casa, ruas desertas? Cadáveres de velhos esquecidos em lares? Quem poderia prever que a expressão isolamento social entrasse no nosso léxico com tamanho à-vontade? Agora, instalado o pânico, é curioso que até ministros apelem à leitura. 
 
Fiquem em casa: Leiam, dizem eles. Enquanto durante tantos executivos, a literatura foi sendo desprezada, menorizada, relegada, ainda que tivéssemos um Camões (à altura de um Cervantes), um Pessoa (à altura de nenhum outro), um Eça (à altura de um Machado de Assis), um prémio Nobel… Nem um por cento do OE para a cultura no nosso país. Preferimos orientarmo-nos todos, de repente, para a monocultura do turismo, e seus derivados, que todos sabemos é actividade de enriquecimento rápido, mas volúvel, instável e transitória… Estando a arte na base da cadeia alimentar dos desígnios nacionais, sendo os artistas este fictoplânton em que os quiseram transformar, estão totalmente vulneráveis às menores oscilações das bolsas, mercados, terrorismos, e até vírus… Os artistas encontram-se em graves apuros. Estamos todos no mesmo barco? Até podemos estar, mas alguns vão no porão, que inunda mais depressa. E não haverá botes salva-vidas para todos. Onde é que já vimos esta história antes? Ainda por cima, sejamos honestos, trata-se de Portugal. Que, é sabido, nos dias de hoje, não tem uma preponderância política, nem na UE nem no mundo, nem militar nem geoestratégica. Já tivemos alguns momentos gloriosos na História. Já tivemos uma revolução exemplar. 
 
Agora, com toda a franqueza, o que o país tem de mais valioso para se orgulhar é a sua cultura. Dispomos de artistas, escritores, arquitectos de excepção. E em vez de termos solidificado a cultura, e investirmos em algo perene, sólido, e sustentado, que se ergue uns centímetros acima de todo estas conjunturas que vão e vêm, destas poeiras vãs, lanugens da história, que lhes passam por baixo com um enorme alarde, condenámo-la à indigência.
 
O pior é ir no naufrágio e não termos onde nos agarrar.» 
 
 
 

Ver o original em As palavras são armas (clique aqui)

Salários em atraso e falta de condições nas orquestras regionais

Os problemas existentes agravaram-se com a interrupção da actividade da Orquestra Clássica do Sul e da Orquestra Regional do Norte, devido a um modelo de financiamento que os músicos consideram inadequado.

Créditos / FIME

A Orquestra Clássica do Sul surgiu em 2013 através da Orquestra do Algarve, fundada em 2002, e é a única orquestra profissional a sul de Lisboa. De 2002 a 2010, os músicos foram mantidos a recibos verdes por via de contrato de prestação de serviços. Depois de recorrerem à Justiça, os trabalhadores passaram finalmente a contrato, apesar de se ter verificado uma perda de rendimento. Desde então, os músicos da orquestra nunca tiveram qualquer aumento salarial.

Em declarações ao AbrilAbril, um músico, que preferiu não ser identificado, explicou que está em causa «o rumo e a missão artística» seguidos pela direcção.

«Temos vindo a ter vários problemas, designadamente falta de condições de trabalho, que culminaram em ameaças de despedimento», referiu.

Desde logo, para cumprir a legislação referente às orquestras regionais, a orquestra deveria ter 31 músicos e tem apenas 26. O músico falou da falta de condições mínimas exigíveis nos vários locais onde se apresentam, por falta de espaço, falta de vestiários e lavabos, e más condições térmicas. A isto acresce a falta de condições acústicas e cadeiras ergonómicas na sala de ensaios. Esta situação tem levado a queixas pelo surgimento de doenças, desde perda auditiva definitiva a outras complicações musculares, frisou este trabalhador.

Na sequência do protesto relativo a três ocasiões em que, segundo os músicos, não se encontravam reunidas as condições para o exercício do seu trabalho, este trabalhador refere que foram confrontados por «um assédio moral sem precedentes» por parte da direcção, designadamente, ameaças de não pagamento de salários e de encerramento da actividade. «Acusaram-nos de querermos destruir a orquestra e puseram em causa os nossos postos de trabalho», afirmou, acrescentando que existe um sentimento de medo generalizado.

Esta semana, a pretexto do surto epidemiológico de Covid-19, a Orquestra Clássica do Sul decidiu que vai colocar os músicos em lay offa partir de Junho.

«Deram-nos duas opções: se antecipássemos as férias para Maio, a direcção pagava o remanescente do lay off, que entraria em vigor em Junho. Caso contrário, o lay off era accionado agora e não havia garantia da remuneração total», disse, lembrando que já foi retirado o subsídio de alimentação. Segundo o músico, estas medidas contrastam com o facto de a orquestra ter mais de 80% do financiamento garantido para este ano quer da Direcção-Geral das Artes, quer das entidades municipais.

Modelo de financiamento coloca orquestra na incerteza

Na Orquestra Regional do Norte, os salários em atraso são uma realidade recorrente. Com um empréstimo contraído para pagar dívidas à Segurança Social deixadas pela anterior administração, o modelo de financiamento cria sérios constrangimentos. Desde logo porque o pagamento acontece no fim do trimestre mas implica a entrega de uma declaração de não dívida à Segurança Social, quando a instituição não recebeu ainda o dinheiro para pagar esses meses de contribuições.

Os 36 músicos que compõem a Orquestra do Norte estão sem receber desde Janeiro, o que significa uma profunda incerteza e instabilidade nas suas vidas. «Já com a corda na garganta, tivemos de dar o nosso grito de revolta», lê-se num comunicado da comissão de trabalhadores.

A esta difícil situação junta-se a realidade de excepção devido ao surto epidémico, que, para estes trabalhadores, significa o cancelamento de todas as suas actividades (para já, os meses de Março e Abril) e uma profunda incerteza quando a actuações futuras, que constituíam uma importante fonte de receita. 

Em nota divulgada, o Ministério da Cultura confirma «ter tomado conhecimento da existência de atrasos no pagamento dos ordenados dos trabalhadores da Orquestra Regional do Norte» e que «tem estado, através da Direcção-Geral das Artes, a acompanhar a situação, de modo a que sejam encetadas todas as diligências com vista ao integral cumprimento das obrigações da entidade promotora perante os seus trabalhadores».

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/trabalho/salarios-em-atraso-e-falta-de-condicoes-nas-orquestras-regionais

Aprender, sempre!

O AbrilAbril fez uma recolha de sites onde se pode encontrar livros, filmes e outras experiências culturais para se aproveitar os próximos tempos a partir de casa.

CréditosFred Dufour / AFP / Getty Images

Nem todo o tempo do mundo chegaria para o que hoje se pode encontrar de conteúdos culturais na Internet. Mas, nestes dias de isolamento e para não nos ocuparmos exclusivamente com limpezas e arrumações, ficam aqui alguns pontos de partida.

Arquivos da Vienna State Opera 

A Ópera de Viena abriu os seus arquivos de transmissão ao vivo, para que os amantes da música em todo o mundo possam continuar a apreciar ópera e ballet. O site transmite gravações de várias apresentações, diariamente, através da sua plataforma de streaming. O programa seguirá a calendarização original, com algumas excepções, e os espectáculos permanecem disponíveis por 24 horas.

Filmes diferentes todas as semanas na Medeia

A terceira semana de «Quarentena cinéfila» da Medeia Filmes traz-nos Krzysztof Kieslowski, um dos maiores realizadores do século XX, com a oportunidade de (re)ver três obras incontornáveis da sua filmografia: a trilogia das cores.

Aprender Latim com Frederico Lourenço

É verdade que já vai na 14.ª aula... mas todas as outras estão ainda disponíveis para quem quiser começar esta aventura. Frederico Lourenço está a ensinar Latim através da página de Facebook Latim do zero, para quem não tiver nada melhor que fazer e decidir ir à raiz!

Centro de Documentação do Museu do Aljube

Todas as conversas e sessões realizadas no Museu do Aljube estão disponíveis no seu canal de Youtube, para conhecer elementos e figuras marcantes da história contemporânea portuguesa e da luta antifascista.

Ler e reler os clássicos da literatura

Postas as coisas assim, é difícil decidir por onde começar. Mas nada como fazer um plano e ir cumprindo um número de páginas diárias. Como dizia o Umberto Eco, quanto maior for o nosso conhecimento, mais livros por ler teremos nas nossas estantes. Agora, a escolha mais difícil... Começar por literatura portuguesa ou estrangeira?

Edições da Imprensa Nacional-Casa da Moeda

Também a INCM pretende dar «cumprimento à sua missão de serviço público», preservar e divulgar a memória e o património comuns, antecipando a disponibilização dos seus conteúdos digitais.

Filmes portugueses contemporâneos

Na sua página de Facebook, o projecto À Pala de Walsh divulgou uma lista de filmes portugueses com acesso livre. É uma oportunidade para ficar um especialista em cinema português contemporâneo.

Cinema soviético

A Mosfilm, um dos mais antigos estúdios de cinema da Europa (1920) e produtora dos principais filmes do período soviético, tem disponível dezenas de filmes em regime de acesso gratuito, alguns dos quais com legendas em português. O catálogo, cuja partilha foi iniciada há oito anos, está em actualização, sendo disponibilizados novos títulos todas as semanas.

Visitas virtuais a museus

E que tal um passeio às colecções que estarão fechadas nos próximos tempos? Vamos ao Museu Calouste Gulbenkian ou à Galeria de Arte Urbana? Ou damos um pulo à Cidade do México para visitar o Museu Frida Kahlo?

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/cultura/aprender-sempre

TEC comemora Dia Mundial do Teatro com peça online

Adaptando-se ao período de isolamento que o País atravessa o Teatro Experimental de Cascais comemora o Dia Mundial do Teatro com a peça “Auto da Índia” que transmitem via Youtube.

Com o objectivo de ajudar as pessoas que se encontram em isolamento o TEC recorreu à internet para mostrar os seu trabalhos, facilitando o acesso online a espectáculos, como o “Auto da Índia” de Gil Vicente, que pode ser visto hoje às 21h30 no Youtube.

A peça tem a encenação de Carlos Avilez e cenografia e figurinos de Mestre Júlio Resende.

Conforme informação do site do TEC “estes autos foram transmitidos e gravados pela Globo para divulgação do teatro português, aproveitando assim a temporada que o TEC realizou com êxito no Brasil”.

No elenco da peça podemos ver no papel da Ama, Ivone Silva e na Moça, Isabel de Castro ao lado dos actores António Marques, João Vasco e Ruy de Matos.

A apresentação pode ser vista na página de Youtube do TEC, através do link https://youtu.be/LmHt4vzpMl8 entre as 21h30 e as 23h.

A peça de teatro em questão foi gravada em 1980 pelo que não é possível garantir a qualidade de som pretendida, mas é uma boa oportunidade de vermos este documento histórico.

O TEC pretende manter estas iniciativas criando o projecto “NOITES DE TEATRO”, com  transmissões em live streaming, sempre às segundas feiras às 21h30, no canal TEC do YouTube.

Programa:

  • 30 Março – O COMBOIO DA MADRUGADA, de Tennessee Williams;
  • 6 Abril – AS YOU LIKE IT, de William Shakespeare;
  • 13 Abril – A COZINHA, de Arnold Wesker;
  • 20 Abril – AUTO DO SOLSTÍCIO DO INVERNO, de Natália Correia;
  • 27 Abril – DESERTO, DESERTO, de Jean-Pierre Renault;
  • 4 Maio – D. CARLOS, de Teixeira de Pascoaes;
  • 11 Maio – MACBETH, de William Shakespeare;
  • 18 Maio – WOYZECK, de Georg Büchner.
 

Ver original em 'Portal CASCAIS' na seguinte ligação:

https://www.portalcascais.pt/cultura-2/teatro/tec-comemora-dia-mundial-do-teatro-com-peca-online/

FILMES DE REALIZADORES PORTUGUESES ONLINE

Vetores de Desenhos Animados Do Cinema E Dos Filmes Em Preto E...

Filmes de Realizadores Portugueses.

Realizadores portugueses disponibilizam os seus filmes na internet para todos aqueles que estão de momento conscientemente em casa. Eis o cartaz:

(clique em CTRL para abrir os “links” se necessário)

 

🎥 O BARÃO de Edgar Pêra | 

 

🎥 O HOMEM-PYKANTE (FILME DE EDGAR PÊRA KOM ALBERTO PIMENTA)

 

🎥 FADE INTO NOTHING de Pedro Maia | https://vimeo.com/397756977

🎥 TRAGAM-ME A CABEÇA DE CARMEN M. de Catarina Wallenstein e Felipe Bragança

 

🎥 O PRIMEIRO VERÃO de Adriano Mendes | 

 

🎥 ARCA D’ÁGUA de André Gil Mata | 

 

🎥 FIRST LIGHT de Mariana Gaivão| 

 

🎥 ÁGUA FORTE de Mónica Baptista | 

 

🎥 PAS DE CONFETTIS de Bruno Ferreira | 

 

🎥 DEAR MOTHER de Paulo Carneiro | 

 

🎥 PLACENTA de Paulo Lima | 

 

🎥 MARIA DO MAR de João Rosas | https://vimeo.com/showcase/6870452/video/398041713

🎥 NORLEY AND NORLEN de Flávio Ferreira | 

https://vimeo.com/flaviosantosferreira/norleyandnorlen

 

🎥 O QUE ARDE CURA de João Rui Guerra da Mata | 

 

🎥 JOSÉ de João Monteiro | https://vimeo.com/312590366

🎥 OS OLHOS DO FAROL de Pedro Serrazina [e várias outras curtas] 

 

🎥 A GRUTA DE DARWIN de Joana Toste | https://vimeo.com/241534402

🎥 O SAPATEIRO de David Doutel e Vasco Sá | https://vimeo.com/43049670

🎥 MI VIDA EN TUS MANOS de Nuno Beato | 

 

🎥 A RAPOSA DA DESERTA de Pedro Neves | 

 

🎥 O PESO DOS DIAS de Júlio Costa | 

 

🎥 REGISTO DE NASCIMENTO de Matilde Calado | 

 

🎥 TU de Hugo Pinto | 

 

🎥 RIGOROSO REFUGIO de Paulo Pinto | 

 

🎥 CALIPSO de Paulo A. M. Oliveira e Pedro Martins | https://youtu.be/41yly-9Bv3c

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/03/27/filmes-de-realizadores-portugueses-online/

CTA – DIA MUNDIAL DO TEATRO 2020 – AMANHÃ, SEXTA-FEIRA, 27 de MARÇO – SITE da COMPANHIA

«Na cultura somos trabalhadores como os outros»

O AbrilAbril conversou com Paula Soares, Carla Maciel, Raul Atalaia e Fernando Vendrell sobre as consequências da paragem do sector e quais as soluções para salvaguardar a criação artística e os rendimentos.

Paula Soares, técnica de som, viu todo o seu trabalho até finais de Maio cancelado no espaço de uma semana. «Nós temos que viver na mesma mas estamos legalmente impedidos de trabalhar», disse em conversa com o AbrilAbril, acrescentando que as medidas anunciadas pelo Ministério da Cultura «não correspondem à situação da maior parte dos trabalhadores independentes do sector».

«No meu caso, por causa das crianças, com o RSI [Rendimento Social de Inserção] fico a ganhar mais» do que o apoio mínimo de assitência criado por causa do encerramento das escolas, afirma Paula Soares. «Eu e o meu companheiro somos os dois da área e, como grande parte dos técnicos, produtores, músicos, não sabemos como vamos pagar a renda nos próximos meses», referiu.

Paula Soares, técnica de som

Num sector onde muitos trabalhadores fecham actividade parte do ano e onde muitos trabalhos são feitos sem recibos, as medidas propostas vão deixar de fora um grande número de profissionais que não cumprirão os critérios para a atribuição dos apoios. «Os trabalhadores da cultura foram os primeiros a ver tudo cancelado e serão os últimos a retomar a actividade, porque é preciso, no fim disto tudo, convencer o público para voltar a juntar-se», lembrou Paula Soares.

Quanto à suspensão dos pagamentos à Segurança Social, a técnica de som vê-a como uma falsa solução: «Suspende-se e paga-se mais tarde, por isso vai acumular-se o que se deve depois de meses sem dinheiro a entrar», disse.

O carácter intermitente destas profissões já trazia este problema há muito tempo. «De todos os trabalhos apalavrados para os próximos meses, não existe nada escrito, não podemos pedir que não cancelem um contrato que não existe», frisou.

«Não se trabalha, não há dinheiro para viver»

«Não posso deixar de pensar que a minha situação é igual à de todas as outras profissões: vivo disto, pago as contas e alimento os meus filhos tal como os outros artistas e trabalhadores de outras áreas. Logo, estamos em pé de igualdade com outros trabalhadores independentes. Não se trabalha, não há dinheiro para viver», disse a actriz Carla Maciel, sobre a situação em que se encontram os actores. 

Carla Maciel, actriz

Como entretanto já se garantiu em algumas estruturas culturais públicas, Carla Maciel está de acordo que todos os cancelamentos decorrentes desta situação não ponham em causa os pagamentos aos trabalhadores envolvidos, visto que o dinheiro já havia sido alocado aos diversos projectos.

Sublinhando que a cultura é «fundamental» para a vida das pessoas, a actriz considera que «esta paragem tem de servir para reflectirmos e imaginarmos outros caminhos, para não voltarmos a repetir os mesmos erros», acrescentando que é tempo de as instituições bancárias apoiarem os trabalhadores, «uma vez que os portugueses já suaram muito para pagar as dívidas dos bancos».

A resposta é a mesma: lutar ao lado dos outros trabalhadores

A desenvolver ensaios através de vídeo-chamadas está Raul Atalaia, actor d’O Bando, que falou sobre o impacto que esta situação está a ter na companhia. Com os espectáculos e outras iniciativas presenciais canceladas, a estrutura tem mantido a comunicação com o público através do mundo virtual.

Raul Atalaia, actor

Apesar de a situação ser excepcional, Raul Atalaia acredita que a resposta dos artistas não tem de ser muito diferente: «Somos trabalhadores em Portugal e naturalmente lutaremos com os outros trabalhadores para que o Governo garanta as melhores condições possíveis para ultrapassarmos as dificuldades que agora enfrentamos», disse.

Segundo o actor d’OBando, «incentivar» e «assegurar» o acesso de todos os cidadãos à fruição e criação cultural «é uma obrigação constitucional» do Governo português, apesar de estarmos «longe de ver concretizada essa obrigação».

A cultura não pode ser condicionada pelos números

Para o realizador Fernando Vendrell, a mudança tecnológica da circulação do cinema já estava em curso antes desta pandemia. Mas uma vez que a produção de cinema e audiovisual nacional e internacional foi obrigada a parar, o realizador receia a precariedade com que estão confrontados estes profissionais. «A perspectiva é bastante negra para as empresas do sector, para os artistas, criadores e técnicos. Foi posto um travão a fundo e isso vai afectar profundamente a sustentabilidade do sector a nível económico, e colocar os seus trabalhadores, essencialmente trabalhadores independentes, a serem confrontados com a enorme precariedade», frisou.

Fernando Vendrell, realizador

Para o realizador, uma paragem de três a seis meses na produção pode corresponder a uma «sombra» de nove a 18 meses de «fluxo de trabalho irregular que vai afectar todos os agentes e trabalhadores do sector», para lá de uma «marca da ausência de expressão e de criatividade neste período que provoca uma perda de património cultural, social e recreativo».

O que se exige no plano político, segundo o realizador, é acabar com a «sintomatologia do efeito ou do resultado», que condiciona a produção cultural submetendo-a aos números e a uma «perspectiva utilitária». «O combate à precariedade, que tem sido usado como "bandeira política", excluiu totalmente o sector das artes e da cultura, que são os actuais escravos, lutando pelas suas convicções, procurando manter a expressão artística viva mas sobrevivendo com uma condição residual de resistência», afirmou.

«Há uma enorme responsabilidade dos governantes perante a necessidade cultural do País, como do Ensino e da Ciência. Infelizmente a sua opção tem sido sub-orçamentar e assim subvalorizar a necessidade de afirmação cultural de um País e do seu povo», referiu o realizador.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/cultura/na-cultura-somos-trabalhadores-como-os-outros

Ler e saber ajudam mais a atravessar esta pandemia

(José Pacheco Pereira, in Público, 21/03/2020)

Pacheco Pereira

As debilidades do nosso país face à crise da pandemia da covid-19 não se encontram apenas no Sistema Nacional de Saúde, ou no tecido económico, nem na falta de testes ou de ventiladores. Há uma mais invisível, que é a falta de preparação de muitos portugueses para poderem ter um olhar mais sabedor, ponderado, consciente, eficaz para o que se está a passar. Essa debilidade está a crescer à medida que há uma substituição de uma cultura de experiência indirecta (que se obtém nos livros, filmes, etc.), na curiosidade e no saber, por uma ignorância atrevida e agressiva com origem nas redes sociais. Uma protege-nos mais na crise, a outra agrava os factores de crise e não nos protege.

Bem sei do clamor que estas frases, que hoje são classificadas de “elitistas”, suscitam: “Com que então, os livros, em vez da vida?” Mas qual vida? A dos dependurados 24 horas no Facebook e noutras redes sociais? Sim, a vida protege-nos, se transportar consigo experiência, dificuldades, sentido das proporções, riqueza, enfim, “vida”. E se tiver em acrescento livros, filmes, músicas, arte e jornais, ainda mais nos protege. Não é remédio absoluto, mas ajuda.

Há um outro clamor, mais intelectual: mas o que é isso da “cultura”? Sim, são questões complexas e ambíguas, mas, para o caso, basta o senso corrente, mesmo que seja um lugar-comum. Em tempos de guerra, não se limpam armas e toda a gente sabe o que é ser “culto”, mesmo que saiba menos o que é ser ignorante. Culto, interessado pelo mundo, curioso, atento, respeitador do saber alheio, e não necessariamente apenas do saber académico. Não é remédio absoluto, mas ajuda.

Mas, resumindo e concluindo, três coisas contam nesta pandemia: vida, cultura e dinheiro. Infelizmente, estão todas muito mal distribuídas, em particular a última. Mas, pelo menos na cultura, sempre se pode combater a incultura que cresce perante a cobardia e a inércia de muitos que acham que esta é a “realidade” dos nossos tempos e não há nada a fazer. Há e muito. Não é remédio absoluto, mas ajuda.

Quem lê, seja por obrigação, por interesse ou por gosto, está mais preparado para olhar para a pandemia, aprendendo sobre ela mais e melhor. Por exemplo, saber o que é um crescimento exponencial, perceber os gráficos, ler um mapa, ter uma noção sobre os comportamentos humanos em situação de tensão, travar o pânico, entender as informações que recebe, saber distinguir o trigo do joio, conhecer minimamente os mecanismos sensacionalistas da comunicação social e deixar as fábricas de conspiração, intriga e falsidades nos esgotos sociais onde pululam. Como agora se diz, literacias. Não é remédio absoluto, mas ajuda.

E não se trata apenas de conhecimentos científicos sobre as epidemias, sobre as mutações, sobre os mecanismos de contágio, sobre o que é um vírus e como funciona, trata-se de muito mais. Trata-se daquilo em que ler é único, importar experiência indirecta, viver em si o que o mundo dos livros, ficção, poesia, história, transporta. E na literatura e nos filmes também não se trata de procurar apenas ficções que sejam directamente associadas ao tipo de situações que vivemos, como A Peste, de Camus, ou os contos de Edgar Allan Poe (em ambos os casos, livros que têm tido uma grande procura nestes dias), mas muitos outros, seja o 1984, de George Orwell, seja a Montanha Mágica, de Thomas Mann (onde o lugar da tuberculose, o sanatório, funciona como um microcosmos), sejam as memórias e os contos de Tchekov médico, seja, em bom rigor, tudo. A tese é, para usar um exemplo não-pandémico: quem leu Cesário Verde não vê Lisboa da mesma maneira que se não o tivesse lido. E, por muito vaga que seja essa experiência estética, é provável que defenda melhor a sua cidade pelo voto, pela actividade cívica, pela opinião. Como em tudo, não é regra absoluta, mas mais vale ter lido do que ter passado ao largo. Não é remédio absoluto, mas ajuda.

O problema é que estamos a andar para trás, e não se pense que isso é assim tão excepcional na história. Os progressistas acham que se anda sempre para a frente, que a humanidade caminha sempre para o melhor, e o pior é incidental. Não é assim, claro; há momentos da história em que tensões sociais, epidemias, guerras, destroem o saber e o modo de vida.

O problema com a ignorância arrogante dos nossos dias começa logo no bloqueio de toda a informação e a sua substituição pela desinformação. Os que vivem nas redes sociais acham que os jornais, os influentes, os políticos lhes sonegam a verdade, lhes ocultam os factos, numa conspiração vinda do Grupo de Bilderberg, da Internacional Sionista, do grupo de pedófilos que governa o país, de George Soros, da Nova Ordem Mundial Maçónica, dos sistemas 5G, de Deus para punir a homossexualidade e a generalizada dissolução dos costumes, seja lá do que for. Todos estes exemplos foram tirados das redes sociais. E o que fazem é disseminar falsas afirmações, teorias conspirativas, boatos e rumores, pseudociência, acusações caluniosas, ressentimentos e invejas sociais, que, por sua vez, são consumidas pelos seus semelhantes num eco especular, que, em tempos de crise, tende a criar um imenso ruído. E a reacção a esse ruído é frágil, porque muitos dos que se lhe deveriam opor nas instituições e individualmente têm soçobrado nessa obrigação.

Uma das grandes forças do livro de Edward Gibbon sobre a queda do império romano é descrever o desprezo pelas ruínas de muitos habitantes de Roma que, muitos séculos depois, viviam nos restos dos monumentos imperiais achando que eram empecilhos – os “romanos eram insensíveis às belezas da arte” – e a humilhação de homens como Petrarca pela “supina indiferença” com que eles eram tratados. Chegados a esta crise, confinados a casa, com os restos da ciência, da arte, da literatura, do saber atacados pelos atrevidos ignorantes, ao menos esta “guerra” tem mais sentido. E ajuda a sobreviver.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Na morte de Pedro Barroso

pedrobarrosoPedro Barroso, músico da resistência, morreu dia 17 de Março, em Lisboa, aos 69 anos vítima de cancro.

Cantor, compositor, declamador, escritor, actor, artista plástico e com actividade regular num blogue, António Pedro da Silva Chora Barroso estreou-se como cantor em 1969, no programa de televisão Zip-Zip, fez parte da geração de cantores que resistiu ao fascismo e lutou pelas liberdades democráticas, participando em sessões de baladas e de canto livre.

Participou activamente na construção da revolução de Abril, actuando em Portugal e nas comunidades portuguesas no estrangeiro. Colaborou nas campanhas de Dinamização Cultural do Movimento das Forças Armadas (MFA). Integrou a Cooperativa Era Nova, que acompanhava Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira e outros cantores da resistência. Foi muito influenciado pela canção francesa – Adamo, Barbara, Bécaud, Aznavour, Piaf, Ferré e Brassens.

Via: Página Inicial – União de Resistentes Antifascistas Portugueses https://bit.ly/2J4V6Pj

 

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/03/20/na-morte-de-pedro-barroso/

Pedro Barroso, adeus a um músico da resistência

Músico e pintor, Pedro Barroso integrou a geração dos que cantaram a resistência. Faleceu esta terça-feira, aos 69 anos.

Pedro Barrroso (1950-2020), músico, cantor, poeta, memorialista e artista plástico, fotografado em Coimbra, a 21 de Fevereiro de 2006CréditosPaulo Novais / LUSA

Se lhe chamassem homem dos sete instrumentos não ficaria ofendido. Compositor, músico, cantor, declamador, poeta, ficcionista, também actor e artista plástico amador, Pedro Barroso morreu na madrugada de terça-feira no hospital onde se encontrava internado desde o dia 3 de Março, informação confirmada à Lusa pelo seu filho Nuno Barroso – músico como o pai.

Estreou-se como cantor em 1969, no programa de televisão Zip-Zip, e em 1970 gravou o seu primeiro disco, o EP Trova-dor. Integrou a geração de cantores que resistiu ao fascismo e lutou pelas liberdades democráticas, participando em sessões de baladas e de canto livre.

Viveu apaixonada e activamente a Revolução de Abril, actuando em Portugal e nas comunidades portuguesas no estrangeiro. Colaborou activamente nas campanhas de Dinamização Cultural do Movimento das Forças Armadas (MFA). Integrou então a Cooperativa Era Nova, que acompanhava Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira e outros históricos cantores da resistência.

Prosseguiu uma carreira a solo actuando e editando com regularidade, na maior parte das vezes escrevendo, orquestrando e cantando os seus próprios trabalhos.

Publicou Lutas Velhas, Canto Novo, o seu primeiro LP, em 1976, ao qual se sucederam, com regularidade, cerca de 30 discos, o mais recente dos quais o CD Antes do Futuro (2017).

Comunicador de referência, cria em palco um estilo coloquial e intimista, associando a música e a palavra para transformar cada espectáculo num emotivo encontro de amigos, de que é exemplo a gravação do DVD Memória do Futuro, feita ao vivo no Rivoli (2013).

Escolheu Torres Novas para dar o concerto que assinalou 50 anos de carreira, sem saber ainda que seria o último. Por essa altura anunciou para Abril deste ano um novo disco, o CD Novembro – do mês do seu aniversário –, para o qual que preparou um dueto com o malogrado Patxi Andión.

Deixa publicados vários livros, desde Cantos Falados (poesia, 1976) a Diários da Brevidade (2017), a que chamou «uma espécie de desabafos íntimos».

Participou activamente na vida associativa da comunidade artística e musical. Integrou a direcção do Sindicato dos Músicos e foi autor de um polémico «Manifesto sobre o estado da Música Portuguesa». Em 2003 passou a integrar os corpos gerentes da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), instituição que viria a outorgar-lhe, em 2017, a Medalha de Honra de Carreira.

Convicto de que «em cada um de nós nasce um artista lá dentro», viveu «criando rebeldia» e lembrando, a quem o escuta, que «nunca é tarde demais para viver/nunca é tarde demais para exigir».

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/cultura/pedro-barroso-adeus-um-musico-da-resistencia

Pedro Barroso (1950-2020)

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Nos 10 anos sobre a sua morte

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Recordando Jean Ferrat
Pour ce rien cet impondérableQui fait qu'on croit à l'incroyableAu premier regard échangéPour cet instant de trouble étrangeOù l'on entend rire les angesAvant même de se toucher
Pour cette robe que l'on frôle
Ce châle quittant vos épaules
En haut des marches d'escalier Je vous aime
Je vous aime Pour la lampe déjà éteinte
Et la première de vos plaintes
La porte à peine refermée
Pour vos dessous qui s'éparpillent
Comme des grappes de jonquilles
Aux quatre coins du lit semés
Pour vos yeux de vague mourante
Et ce désir qui s'impatiente
Aux pointes de vos seins levés Je vous aime
Je vous aime Pour vos toisons de ronces douces
Qui me retiennent me repoussent
Quand mes lèvres vont s'y noyer
Pour vos paroles démesure
La source le chant la blessure
De votre corps écartelé
Pour vos reins de houle profonde
Pour ce plaisir qui vous inonde
En long sanglots inachevés Je vous aime
Je vous aime
Paroles et musique de Jean Ferrat, 1971
 

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

Associação de Museus quer perceber o que levou um gestor imobiliário à DGPC

A Associação Portuguesa de Museologia (APOM) vai pedir ao Ministério da Cultura acesso ao processo de escolha de Bernardo Alabaça para director-geral do Património Cultural.

Créditos / CC BY-SA 2.0

«Não está em causa a pessoa, mas sim compreender os critérios de avaliação por parte da Comissão de Recrutamento e Selecção para a Administração Pública (CReSAP) para ocupar o cargo», disse à agência Lusa o presidente da APOM, João Neto, esta quinta-feira. 

O gestor imobiliário Bernardo Alabaça foi anunciado como novo director-geral do Património Cultural, substituindo no cargo Paula Araújo da Silva, no passado dia 13 de Fevereiro, pelo Ministério da Cultura, tendo iniciado funções no dia 24 do mesmo mês.

A nomeação de Alabaça motivou várias críticas dos sectores do Património Cultural, como as do arqueólogo Luís Raposo, que preside ao Conselho Internacional de Museus (ICOM) da Europa, que afirmou: «Ainda estou em estado de choque e considero que é algo que jamais imaginaria poder acontecer, por qualquer Governo que fosse. É uma situação inqualificável».

Por seu lado, o Sindicato dos Trabalhadores em Arqueologia (STARQ/CGTP-IN)) disse, em comunicado, que esta escolha demonstrava «falta de visão e de consideração [do Governo] sobre o papel absolutamente central» da Arqueologia, e um «favorecimento da área da gestão financeira e do negócio imobiliário».

Em sede parlamentar, na terça-feira, o presidente do ICOM-Europa e o presidente da APOM reiteraram as suas preocupações sobre a nomeação de Bernardo Alabaça, a quem não reconhecem competências na área.

Para Luís Raposo, Bernardo Alabaça tem «um perfil curricular completamente desadequado» para o lugar para o qual foi nomeado. «O currículo deixa-nos perplexos», afirmou.

Luís Raposo sublinhou que «não se trata da pessoa». «Não sabemos as políticas que vêm pela frente e temos que ligar isso ao percurso curricular», referiu, dando como exemplo que seria como contratar alguém de uma «empresa especialista em contabilidade criativa para director-geral dos impostos».

O despacho de nomeação de Bernardo Alabaça foi publicado no começo do mês em Diário da República, segundo o qual o novo director-geral do Património Cultural é licenciado em Engenharia e Gestão Industrial, pós-graduado em Análise e Investimento Imobiliário e mestre em Finanças.

A mesma nota biográfica lembrava que Alabaça foi «director-geral de Infraestruturas do Ministério da Defesa Nacional [e] subdirector-geral do Tesouro e Finanças do Ministério das Finanças», entre outros cargos, sendo actualmente «assessor do conselho de administração da Lisboa Ocidental SRU e vice-presidente da mesa da assembleia geral da Parpública, presidente do Conselho Estratégico do Salão Imobiliário de Lisboa e vogal da comissão responsável pelo lançamento e condução do procedimento de negociação para a celebração de contrato de subcessão de direito de superfície sobre os módulos 4 e 5 do Centro Cultural de Belém».

 

Com agência Lusa

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/cultura/associacao-de-museus-quer-perceber-o-que-levou-um-gestor-imobiliario-dgpc

Brasil | Artistas divulgam manifesto pela liberdade de criação e pensamento

Na mesma semana na qual Regina Duarte assumiu a Secretaria Especial de Cultura do desgoverno de Jair Bolsonaro, 16 artistas lançam o vídeo manifesto Cultura Livre Já! Cultura Livre Sempre. A atriz famosa pelo medo de um governo voltado para os interesses nacionais e populares, afirmou em seu discurso de posse que “a liberdade de expressão tem que ter limites”.

 

 

Além de afirmar que as verbas de financiamento não estarão a serviço de “minorias”. É a cultura sem cultura do autoritarismo e dos amiguinhos, que não contestam o status quo.

Já no século 19, o pensador e revolucionário alemão Karl Marx (1818-1883) disse em seu livro Liberdade de Imprensa (1842) que “ninguém é contra a liberdade. No máximo se é contra a liberdade dos outros”. Precisa dizer mais?

Confira o vídeo manifesto

 

O manifesto divulgado nesta semana afirma que “o oxigênio da cultura é a liberdade”. Porque não se pode restringir o termo cultura ao pum do palhaço como fez a atriz medrosa. “A cultura é um conjunto de forma de ser, de existir do nosso povo, nossos conhecimentos, nossos costumes e nossas crenças”, diz trecho do importante manifesto em defesa da democracia e da diversidade.

Emprestam a sua voz em defesa da cultura, tão maltratada pelo desgoverno Bolsonaro, uma diversidade de artistas e intelectuais que se unem contra o obscurantismo bolsonarista, pela democracia e pela liberdade de pensar e criar.

Júlia Lemmertz, Juca Kfouri, Debora Bloch, Arnaldo Antunes, Zélia Duncan, Marco Ricca, Armando Babaiof, Roberto Estrela Dalva, Chico Buarque, Malu Mader, Simone Spoladore, Chico César, Dira Paes, Marcos Breda, Bárbara Paz, Zeca Baleiro, Fernando Morais, Paulo Betti e Lilia Schwarcz, leem o manifesto com muita ênfase contra o autoritarismo e a censura, que o atual governo impõe à nossa melhor produção artística.

O manifesto é uma iniciativa da Associação Paulista de Cineastas, Associação Brasileira de Roteiristas, Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro, Cooperativa Paulista de Teatro e Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de São Paulo.

“Sem a cultura não saberíamos quem somos, sequer nos identificaríamos uns com os outros”, argumentam os artistas em outro trecho do manifesto. A cultura mostra a alma de uma nação. Sem cultura não existe nem o conceito de nação e sem liberdade a cultura perde, o país perde, o mundo perde. Sem cultura nem existiríamos.

Em tempo de sucessivos ataques à liberdade e à diversidade, com o argumento de existir o “marxismo cultural” doutrinador e destruidor da família das pessoas de “bem” (bem-nascidos financeiramente), é importante o posicionamento de artistas e intelectuais que dão a cara a tapa para se contrapor à uniformização nazista da cultura com propósito de massificar a incultura e acabar com verdadeira expressão artística de toda a diversidade brasileira.


Texto em português do Brasil


 

 

 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/artistas-divulgam-manifesto-pela-liberdade-de-criacao-e-pensamento/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=artistas-divulgam-manifesto-pela-liberdade-de-criacao-e-pensamento

A INVENÇÃO DO AMOR – Daniel Filipe

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A INVENÇÃO DO AMOR
 
La nuit n’est jamais complète
il y a toujours puis que je le dis
Puisque je l’affirme
au bout du chagrin une fenêtre ouverte
une fenêtre éclairée
 
 
Em todas as esquinas da cidade
nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas janelas
dos autocarros
mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de aparelhos
de rádio e
detergentes
na vi trine da pequena loja onde não entra ninguém
no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da nossa
esperança de fuga
um cartaz denuncia o nosso amor
 
Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com carácter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia
quotidiana
 
Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração
e fome de ternura
e souberam entender-se sem palavras inúteis
Apenas o silêncio A descoberta A estranheza
de um sorriso natural e inesperado
 
Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
Embora subterraneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor subitamente imperativo
 
Um homem uma mulher um cartaz de denúncia
colado em todas as esquinas da cidade
A rádio já falou A TV anuncia
iminente a captura A polícia de costumes avisada
procura os dois amantes nos becos e avenidas
Onde houver uma flor rubra e essencial
é possível que se escondam tremendo a cada batida na porta
fechada para o mundo
É preciso encontrá-los antes que seja tarde
Antes que o exemplo frutifique
Antes que a invenção urgente do amor se processe em cadeia
 
Há pesadas sanções para os que auxiliarem os fugitivos
 
Chamem as tropas aquarteladas na província
convoquem os reservistas os bombeiros os elementos da defesa
passiva
Todos
Decrete-se a lei marcial com todas as suas consequências
O perigo justifica-o
Um homem e uma mulher
conheceram-se amaram-se perderam-se no labirinto da cidade
É indispensável encontrá-los dominá-los convencê-los
antes que seja demasiado tarde
e a memória da infância nos jardins escondidos
acorde a tolerância no coração das pessoas
 
Fechem as escolas
Sobretudo protejam as crianças da contaminação
Uma agência comunica que algures ao sul do rio
um menino pediu uma rosa vermelha
e chorou nervosamente porque lha recusaram
Segundo o director da sua escola é um pequeno triste
Inexplicavelmente dado aos longos silêncios e aos choros sem
Razão
Aplicado no entanto Respeitador da disciplina
Um caso típico de inadaptação congénita disseram os psicólogos
Ainda bem que se revelou a tempo
Vai ser internado
e submetido a um tratamento especial de recuperação
Mas é possível que haja outros. É absolutamente vital
que o diagnóstico se faça no período primário da doença
E também que se evite o contágio com o homem e a mulher
de que se fala no cartaz colado em todas as esquinas da cidade
 
Está em jogo o destino da civilização que construímos
o destino das máquinas das bombas de hidrogénio
das normas de discriminação racial
o futuro da estrutura industrial de que nos orgulhamos
a verdade incontroversa das declarações políticas
 
Procurem os guardas dos antigos universos concentracionários
precisamos da sua experiência onde quer que se escondam
ao temor do castigo
 
Que todos estejam a postos
Vigilância é a palavra de ordem
Atenção ao homem e à mulher de que se fala nos cartazes
À mais ligeira dúvida não hesitem denunciem
Telefonem à polícia ao comissariado ao Governo Civil
não precisam de dar o nome e a morada
e garante-se que nenhuma perseguição será movida
nos casos em que a denúncia venha a verificar-se falsa
 
Organizem em cada bairro em cada rua em cada prédio
comissões de vigilância. Está em jogo a cidade
o país a civilização do ocidente
esse homem e essa mulher têm de ser presos
mesmo que para isso tenhamos de utilizar as medidas mais
drásticas
 
Por decisão governamental estão suspensas as liberdades
individuais
a inviolabilidade do domicílio o habeas corpus o sigilo da
correspondência
Em qualquer parte da cidade um homem e uma mulher amam-se
ilegalmente
espreitam a rua pelo intervalo das persianas
beijam-se soluçam baixo e enfrentam a hostilidade nocturna
É preciso encontrá-los
É indispensável descobri-los
Escutem cuidadosamente a todas as portas antes de bater
É possível que cantem
Mas defendam-se de entender a sua voz
Alguém que os escutou
deixou cair as armas e mergulhou nas mãos o rosto banhado de
lágrimas
E quando foi interrogado no Tribunal de Guerra
respondeu que a voz e as palavras o faziam feliz
Lhe lembravam a infância
Campos verdes floridos Águas simples correndo A brisa nas montanhas
 
Foi condenado à morte é evidente
É preciso evitar um mal maior
Mas caminhou cantando para o muro de execução
foi necessário amordaçá-lo e mesmo assim desprendia-se dele
um misterioso halo de uma felicidade incorrupta
 
Impõe-se sistematizar as buscas Não vale a pena procurá-los
Nos campos de futebol no silêncio das igrejas nas boîtes com
orquestra privativa
Não estarão nunca aí
Procurem-nos isso sim nas ruas suburbanas onde nada acontece
A identificação é fácil
Onde estiverem estará também pousado sobre a porta
um pássaro desconhecido e admirável
ou florirá na soleira a mancha vegetal de uma flor luminosa
Será então aí
Engatilhem as armas invadam a casa disparem à queima roupa
Um tiro no coração de cada um
Vê-los-ão possivelmente dissolver-se no ar Mas estará completo o
esconjuro
e podereis voltar assobiando alegremente para junto dos filhos da mulher
 
Mas ai de vós se sentirdes de súbito o desejo de deixar correr o
pranto
Quer dizer que fostes contagiados Que estais também perdidos
Para nós
É preciso nesse caso ter coragem para desfechar na fronte
o tiro indispensável
Não há outra saída A cidade o exige
Se um homem de repente interromper as pesquisas
e perguntar quem é e o que faz aí de armas na mão
sabeis o que tendes afazer Matai-o Amigo irmão que seja
matai-o Mesmo que tenha frequentado a vossa escola
comido à vossa mesa e crescido a
vosso lado
matai-o Talvez que ao enquadrá-los na mira da espingarda
os seus olhos vos fitem com sobre-humana náusea
e deslizem depois numa tristeza líquida
até ao fim da noite Evitai as palavras o apelo a prece derradeira
um só golpe mortal misericordioso basta
para impor o silêncio secreto e inviolável
 
Procurem a mulher o homem que num bar
de hotel se encontraram numa tarde de chuva
Se tanto for preciso estabeleçam barricadas
senhas salvo-condutos horas de recolher
censura prévia à Imprensa tribunais de excepção
Para bem da cidade do país da cultura
é preciso encontrar o casal fugitivo
que inventou o amor com carácter de urgência
 
Os jornais da manhã publicam a notícia
de que os viram passar de mãos dadas sorrindo
numa rua serena debruada de acácias
Um velho sem família a testemunha diz
ter sentido de súbito uma estranha paz interior
uma voz desprendendo um cheiro a primavera
o doce bafo quente da adolescência longínqua
No inquérito oficial atónito afirmou
que o homem e a mulher tinham estrelas na fronte
e caminhavam envoltos numa cortina de música
com gestos naturais alheios Crê-se
que a situação vai atingir o clímax
e a polícia poderá cumprir o seu dever
 
Um homem uma mulher um cartaz de denúncia
A voz do locutor definitiva nítida
Manchetes cor de sangue no rosto dos jornais
 
É PRECISO ENCONTRÁ-LOS ANTES QUE SEJA TARDE
 
não basta o silêncio a espera conivente o medo inexplicado
a vida igual a sempre conversas de negócios
esperanças de emprego contrabandos de drogas aluguer de
automóveis
não basta ficar frente ao copo vazio no café povoado
ou marinheiro em terra a afogar a distância
no corpo sem mistério da prostituta anónima
Algures no labirinto da cidade um homem e uma mulher
amam-se espreitam a rua pelo intervalo das persianas
constroem com urgência um universo de amor
E é preciso encontrá-los E é preciso encontrá-los
 
 
Importa perguntar em que rua se escondem
em que lugar oculto permanecem resistem
sonham meses futuros continentes à espera
Em que sombra se apagam em que suave e cúmplice
abrigo fraternal deixam correr o tempo
de sentidos cerrados ao estrépito das armas
Que mãos desconhecidas apertaram as suas
no silêncio presago da cidade inimiga
 
Onde quer que desfraldem o cântico sereno
rasgam densos limites entre o dia e a noite
E é preciso ir mais longe
destruir para sempre o pecado da infância
erguer muros de prisão em círculos fechados
Impor a violência a tirania o ódio
 
Entanto das esquinas escorre em letras enormes
a denúncia total do homem e da mulher
que no bar em penumbra numa tarde de chuva
inventaram o amor com carácter de urgência
 
COMUNICADO GOVERNAMENTAL À IMPRENSA
 
Por diversas razões sabe-se que não deixaram a cidade
o nosso sistema policial é óptimo estão vigiadas todas as saídas
encerramos o aeroporto
patrulhamos os cais
há inspectores disfarçados em todas as gares de caminho de
ferro
 
É na cidade que é preciso procurá-los
incansavelmente sem desfalecimentos
Uma tarefa para um milhão de habitantes
todos são necessários
todos são necessários
Não se preocupem com os gastos a Assembleia votou um
crédito especial
e o ministro das Finanças
tem já prontas as bases de um novo imposto de Salvação Pública
 
Depois das seis da tarde é proibido circular
Avisa-se a população de que as forças da ordem
atirarão sem prevenir sobre quem quer que seja
depois daquela hora Esta madrugada por exemplo
uma patrulha da Guarda matou no Cais da Areia
um marinheiro grego que regressava ao seu navio
 
Quando chegaram junto dele acenou aos soldados
disse qualquer coisa em voz baixa fechou os olhos e morreu
Tinha trinta anos e um família à espera numa aldeia do
Peloponeso
O cônsul tomou conhecimento da ocorrência e aceitou as
desculpas
do Governo pelo engano cometido
Afinal tratava-se apenas de um marinheiro qualquer
Todos compreenderam que não era caso para um protesto
diplomático
e depois o homem e a mulher que a polícia procura
representam um perigo para nós e para a Grécia
para todos os países do hemisfério ocidental
Valem pois bem o pequeno sacrifício de um marinheiro anónimo
Que regressava ao seu navio depois da hora estabelecida
sujo insignificante e porventura bêbado
 
SEGUE-SE UM PROGRAMA DA MÚSICA DE DANÇA
 
Divirtam-se atordoem-se mas não esqueçam o homem e a mulher
Escondidos em qualquer parte da cidade
Repete-se é indispensável encontrá-los
Um grupo de cidadãos de relevo ofereceu uma importante
recompensa
destinada a quem prestar informações que levem à captura do
casal fugitivo
Apela-se para o civismo de todos os habitantes
A questão está posta É preciso resolvê-la
para que a vida reentre na normalidade habitual
Investigamosnos arquivos Nada consta
Era um homem como qualquer outro
com um emprego de trinta e oito horas semanais
cinema aos sábados à noite
domingos sem programa
e gosto pelos livros de ficção cientifica
Os vizinhos nunca notaram nada de especial
vinha cedo para casa
não tinha televisão
deitava-se sobre a cama logo após o jantar
e adormecia sem esforço
 
Não voltou ao emprego o quarto está fechado
deixou em meio as «Crónicas marcianas»
perdeu-se precipitadamente no labirinto da cidade
à saída do hotel numa tarde de chuva
O pouco que se sabe da mulher autoriza-nos a crer
que se trate de uma rapariga até aqui vulgar
Nenhum sinal característico nenhum hábito digno de nota
Gostava de gatos dizem Mas mesmo isso não é certo
Trabalhava numa fábrica de têxteis como secretária da gerência
era bem paga e tinha semana inglesa
passava as férias na Costa da Caparica.
 
Ninguém lhe conhecia uma aventura
Em quatro anos de emprego só faltou uma vez
quando o pai sofreu um colapso cardíaco
Não pedia empréstimos na Caixa Usava saia e blusa
e um impermeável vermelho no dia em que desapareceu
 
Esperam por ela em casa: duas cartas de amigas
o último número de uma revista de modas
a boneca espanhola que lhe deram os sete anos
Ficou provado que não se conheciam
Encontraram-se ocasionalmente num bar de hotel numa tarde de
chuva
sorriram inventaram o amor com carácter de urgência
mergulharam cantando no coração da cidade
 
Importa descobri-los onde quer que se escondam
antes que seja demasiado tarde
e o amor como um rio inunde as alamedas
praças becos calçadas quebrando nas esquinas
 
não podem escapar Foi tudo calculado
com rigores matemáticos Estabeleceu-se o cerco
A polícia e o exército estão a postos Prevê-se
para breve a captura do casal fugitivo
 
 
 
(Mas um grito de esperança inconsequente vem

 

do fundo da noite envolver a cidade

 

au bout du chagrin une fenêtre ouverte

 

une fenêtre éclairée)

 

Daniel Filipe
(1925-1964)
 
 
(Para os mais jovens: Daniel Filipe foi várias vezes preso pela PIDE. A opressão a Liberdade e a Esperança circulam neste poema)

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/03/10/a-invencao-do-amor-daniel-filipe/

Atividades no Hot Clube de 3 a 7 de Março 2020

Hot Clube – Praça da Alegria 48

Dia 3 de Março

JAM SESSION COM LUÍS CANDEIAS

As jam session de 3ª feira contam com um músico convidado que lidera a sessão.
Em Janeiro teremos como convidado o baterista Luís Candeias.

A sessão começa às 22h30, com um set do grupo residente, passando depois para jam aberta aos músicos que queiram participar.
Entrada livre.

Dia 4 de Março

CATARINA/JOW/PITOMBA – “MAIS CORES”

Concerto de apresentação do disco “Mais Cores” a partir das 22h30 (2º set às 00h). 10€ para não sócios, entrada gratuita para sócios.

Catarina Santos – voz; Jow Ferreira – guitarra; Rogério Pitomba – bateria.

O trio Catarina + Jow + Pitomba, formado em 2019 por Catarina Santos (voz), Jow Ferreira (guitarra acústica/elétrica) e Rogério Pitomba (bateria) nasce de um forte desejo de unir forças num trabalho artístico que tem como ponto de partida o diálogo entre a liberdade, espontaneidade e a improvisação características do Jazz, e o balanço e linguagem rítmica Afro-Brasileira.

Apostando na sintonia e comunicação entre os três, o trio acaba de gravar “Mais Cores”, um álbum em que mesclam temas originais e versões de temas de compositores que fazem parte do seu universo de influências, como os Brasileiros Toninho Horta, Guinga, André Mehmari, António Loureiro, além de temas tradicionais Portugueses inspirados em Brigada Victor Jara, e outros como Avishai Cohen e Guillermo Klein.

O álbum “Mais Cores” foi gravado entre os dias 23 e 26 de Julho de 2019, no Estúdio Ponto Zurca, aos cuidados de Sérgio Milhano, com uma linguagem de estúdio de gravação ao vivo, para preservar a química e traços únicos que caracterizam o som deste Trio.

CATARINA SANTOS

Cantora, compositora, educadora e sound artist. Suas raízes culturais combinam África, Portugal e Brasil, e sua vida em Nova Iorque como artista tornou-se a força motriz de sua arte como músico e compositora. Formada em Lisboa na Escola de Jazz Luís Villas-Boas, em Jazz Performance no City College of New York e Orchestration na Juilliard School, fez parte da Juilliard School Choral Union. Estuda com John Pattitucci, Sheila Jordan, Neil Clark, Paquito de Rivera, Ed Simmons, Ben Street, Jim Black, Cyro Baptista, Luciana Souza, Duduka da Fonseca. Tem aulas de percussão com Zé Maurício (Choro Ensemble), Café (Djavan). Como cantora e compositora da banda Nation Beat, grava “Maracatuniversal” (Recife, 2006), e toca em locais de renome como The Blue Note, Joes Pub, The Stone (John Zorn). Em 2013 participa no concerto em homenagem a Mary Lou Williams com solista e parte do coral, com alguns dos melhores cantores de jazz da cena Nova Iorquina, e em Abril desse ano fez a produção artística e foi cantora convidada de dois grandes espetáculos: Concerto em homenagem a Chiquinha Gonzaga, no Brazilian Endowment for the Arts, e “Viagem pelo Mundo de Língua Portuguesa” para a CPLP, 2 de Maio, na sede das Nações Unidas. Nova Iorque.

Com dois álbuns de originais, “No Balanço do Mar”, (Nova Iorque, 2009) e “Rádio Kriola” (ARC Music, Londres, 2017) elabora um novo som de raízes e sons urbanos, de África para o Brasil, da cena de Latin Jazz de Nova Iorque, e a paisagem multicultural de Lisboa como inspiração. A pesquisa de Catarina leva-a a ser convidada na Conferência ASWAD, na Universidade Rutgers (Pittsburgh, 2011).

Completou em 2017 o Mestrado em Composição na Goldsmiths University, em Londres, com incidência no Jazz e música electrónica. Créditos de composição em Londres incluem a peça “The Power Behind the Crone” (2017), de Alison Skilbeck e Tim Hardy, “Untitled”, uma coreografia de Gianna Burright, e „I am Orestes and I am Elektra too”, de To Be Creatives (estreia no Edinburgh Fringe Festival de 2018). Cria, co-produz com Marcy dePina, e é artista em “Spirits of Resistance – Women, Music and the Drum”, projecto de intercâmbio entre mulheres compositoras/percussionistas (Março de 2018), no Bronx Music and Heritage Center em Nova Iorque. Em 2019 toca no Stowe Jazz Festival (Vermont, USA) com o quinteto Catarina dos Santos e Ebinho Cardoso.

Catarina é a criadora de três mundos criativos que caminham lado a lado: dois projectos de música original que, sendo um em nome próprio, de som mais acústico e de ligação direta com a música de raiz Angolana, Cabo Verdiana, Portuguesa e Brasileira, e MadNomad, o seu irmão mais electrónico e ligado ao Jazz e Spoken Word. Em 2019 Catarina regressa a sua escola primeira, o Jazz, com o álbum em Trio “Mais Cores”, onde a sua vasta experiência com Brazilian Jazz ganha corpo e balanço.

JOW FERREIRA

Juliano Ferreira, também conhecido como “Jow Ferreira”, nasceu em Natal (Brasil) em 1982. Começou a aprender guitarra aos 14 anos como autodidata e, em 1999, teve as primeiras aulas de guitarra clássica na Escola de  Música da UFRN (EMUFRN-Brasil), onde cursou graduação em guitarra clássica e elétrica de 2001 a 2005. De 2007 a 2008, morou em Montreal (Canadá), onde fez mestrado em guitarra clássica na Universidade de  Montreal.  Foi professor de guitarra no Solar Bela Vista (SESI-Brasil) de 2010 até o início de 2014, quando se tornou professor permanente na Escola de Música da UFRN, dos cursos de guitarra elétrica e harmonia de jazz.  No que diz respeito à sua vida artística, começou a tocar profissionalmente em 2003, seja como solista (também em duo, trio etc.) ou acompanhando cantores(as) em sua cidade natal, como cantores como Liz Rosa, Bruna Hetzel, Lysia Condé, entre outros, o que fortaleceu sua paixão pela arte do acompanhamento. Na música instrumental, trabalhou com músicos de sua cidade natal, como Antonio de Pádua, Júnior Primata, Darlan Marley, Rogério Pitomba, Anderson Pessoa, Eduardo Taufic, Roberto Taufic, entre outros. Em 2013, gravou seu primeiro álbum a solo intitulado “Alma nos Dedos”, que inclui temas originais e arranjos para temas de Tom Jobim, Ivan Lins, Pat Metheny, Brahms, Roberto Taufic etc. Desde 2018, mora em Portugal para começar seu programa de Doutoramento em Jazz Performance na Universidade de Aveiro, onde desenvolve uma pesquisa sobre a guitarra de sete cordas com uma corda “Lá” mais aguda.

ROGÉRIO PITOMBA

Baterista, brasileiro nascido em Natal/RN, Rogério Pitomba é conhecido por sua versatilidade e estilo único de tocar misturando os diversos ritmos de uma forma jazzística.

Músico desde a adolescência já dividiu o palco com grandes artistas em sua trajetória musical, entre eles: Roberto Menescal, Michael Pipoquinha, Ná Ozzeti, Chico Pinheiro, Joyce Moreno, Chico César, Pepeu Gomez, Leila Pinheiro, Valéria Oliveira e Velha Guarda da Portela, Daúde, Mitchel Player, Mark Rapp, oão Ventura, Rosa de Pedra, Fábio Carneirinho, Jubileu Filho, Eduardo Taufic, Antônio de Pádua, Camila Masiso, Liz Rosa, Sami Tarik, Marco Antônio da Costa, Manoca Barreto, Sérgio Coelho, Ive Greice , Salomão Soares, Cláudio César Ribeiro, Ellis Zottesso, Ana Gomes, Mili Vizcaíno, Victor Zamora, João Mortágua e Orquestra Jazz Águeda, entre outros. Em sua carreira já partipou de festivais nacionais e internacionais como Montreuz Jazz (Suiça), o SXSW (Texas/EUA), Jurerê Jazz (SC/Brasil), Fest Bossa & Jazz (RN/Brasil), Brazilian Day (Estocolmo/ Suécia). Entre concursos de bateria que participou destaque para o Batuka Brasil!2013, o maior festival de bateria do Brasil, onde ganhou o 1º lugar. Já em 2016 participou 8º Festival de Bateria e Percussão de Lavra (PT) onde também ganhou em 1º lugar. Pitomba atualmente reside em Lisboa/PT e  traz também em sua bagagem musical seus dois CD’ s originais instrumentais: “Até o caroço”, lançado em 2014, e “Cacho maduro”, fruto do seu amadurecimento musical, gravado ao vivo e lançado em 2016.

Dias 5 a 7 de Março

ANTÓNIO LOUREIRO TRIO – “LIVRE”

Concerto a partir das 22h30 (2º set às 00h). 10€ para não sócios, entrada gratuita para sócios.

António Loureiro – piano; Frederico Heliodoro – baixo; Felipe Continentino – bateria.

António Loureiro está em tournée pela Europa, apresenta o seu novo trabalho intitulado “LIVRE”. Este concerto com o trio Frederico Heliodoro-baixo e Felipe Continentino -bateria, já foi apresentado em diversas cidades do Brasil e Japão e agora, pela primeira na Europa.

Além de apresentar seu trabalho, nos últimos 4 anos António Loureiro tem acompanhado os guitarristas Kurt Rosenwinkel e Pedro Martins em várias tournées pelo mundo.

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/03/02/atividades-no-hot-clube-de-3-a-7-de-marco-2020/

Portugal | Os caminhos ínvios da cultura

 
 
Enquanto esperam a chegada dos novos tempos, os empreendedores instalam-se no património cultural que decoram com obras de arte das colecções públicas. É a lógica agora enunciada pelo Ministério da Cultura.
 
Manuel Augusto Araújo* | opinião
 
De uma assentada Graça Fonseca, ministra da Cultura, e Ângela Ferreira, secretária de Estado da Cultura, assumem decisões esclarecedoras da sua perspectiva sobre cultura e património cultural.
 
Se ainda houvesse dúvidas – tendencialmente deve-se sempre conceder o benefício da dúvida – sobre se existiam políticas culturais, por mais controversas que fossem, em que a hierarquia dos valores culturais era a que se sobrepunha, ainda que com decisões questionáveis, aos interesses do mercado cultural, elas deixaram de existir.
 
A nomeação de Bernardo Alabaça para director-geral do Património Cultural pela ministra da Cultura e um despacho da secretária de Estado da Cultura que manda depositar em hotel privado obras de uma colecção adquirida pelo Estado – o que motivou um pedido de audição urgente do PCP à ministra – são a evidência de que o ministério da Cultura está capturado pelas forças do mercado. Para os actuais detentores desse pelouro é o mercado, que não reconhece qualquer outra hierarquia cultural que não seja a do que é rentável e vendável, o norte da sua acção.
 
As duas decisões, praticamente simultâneas, geraram imediatas perplexidades e indignações no universo intelectual e nos dirigentes da Associação Portuguesa de Museologia (APOM) e do Conselho Internacional de Museus da Europa, que Luís Raposo comenta num excelente texto.
 
Os caminhos iniciados e percorridos pelo programa Revive já eram altamente preocupantes pela via única de entregar à indústria imobiliária turística a recuperação do património cultural construído, em risco de ruína ou em adiantado estado de degradação, sem se preocupar, ou melhor (pior), demitindo-se de definir os programas de ocupação deixando-os ao critério dos promotores privados. Deviam saber, ou sabem até bem demais, que a filantropia não entra nos seus cálculos. O interesse nos valores icónicos, históricos e culturais é meramente instrumental. O Estado tem um papel fundamental no equilíbrio entre a exploração desse património por privados e o seu usufruto público, mesmo assumindo-se que os projectos de arquitectura respeitem o traçado original.
 
Os exemplos de desastradas gestões e intervenções privadas no património edificado a nível internacional são muitos e o que aconteceu em Itália nos governos Berlusconi – mas não só, olhe-se para França e para os Hotel de Ville – deve, deveria, ser um fortíssimo sinal de alerta.
 
 
A nomeação para director-geral do Património Cultural de um gestor especializado no ramo imobiliário, sem qualquer qualificação na área da cultura, e a cedência de artefactos que fazem parte das colecções de museus nacionais para enfeitar um empreendimento imobiliário turístico beneficiário do programa Revive são, como escreve Maria Isabel Roque, «Duas cajadadas no mesmo coelho». São a demonstração de que as políticas, durante dezenas de anos ziguezagueantes, dos ministérios e secretarias de Estado da Cultura, seguem agora em linha recta capturadas pelos interesses da rentabilização imobiliária que as ginásticas argumentativas da ministra da Cultura de «implementação de um novo ciclo de políticas públicas para o património cultural e para as artes» tornam ainda muitíssimo mais preocupantes.
 
A recuperação do património edificado é sempre complexa. Um dos meios de salvaguardar o património edificado é dar-lhe novas funções sem que a sua identidade seja posta em causa. O Centro Português de Fotografia está instalado na «Cadeia da Relação», um edifício que começou a ser construído em 1767; o Museu Nacional de Arte Antiga está instalado num palácio mandado construir, em finais do século XVII, pelo 1.º conde de Alvor; o Palácio de São Bento, onde está instalada a Assembleia da República, começou por ser um convento. Todos eles, ao longo dos tempos, albergaram as mais diversas instituições e nem todos os edifícios com valor patrimonial terão que obrigatoriamente seguir esse caminho.
 
O que não é aceitável, nem sequer admissível, é que esse caminho seja o da via única da exploração turística em que o único objectivo é a redução dos impactos das requalificações nos Orçamentos de Estado. Uma via que tem sido prática corrente continuada por outros atalhos, com a desclassificação de vários edifícios para entrarem no mercado imobiliário, a intromissão das Finanças impedindo a classificação de imóveis do Estado para facilitar a sua venda. A gestão privada tem um único objectivo, o lucro e a recuperação no prazo mais curto dos investimentos realizados. O Estado obriga-se ao serviço público, que tem que ser protegido e defendido. É essa a função do Estado, que o deve impor caso a caso. Deve ser do conhecimento público, para haver debate com contribuições culturais e técnicas válidas, que se plasmem nos cadernos de encargos das obras e nos das concessões. Até se deveria exigir que o Estado, pedagogicamente, obrigasse os concorrentes a abrirem concursos públicos de arquitectura em vez de deixar ao critérios dos promotores a escolha dos arquitectos.
 
O grande problema da imaginação para reinventar os monumentos, como proclamava o feérico ministro da Cultura francês Jack Lang quando, em 1984, lançou um vasto programa de privatização do património edificado, é se as operações imobiliárias, que necessariamente lhes estão associadas, garantem e como garantem as suas memórias originais ou se essas memórias serão e como serão sacrificadas à sua reabilitação. Com essa orientação política – de transferir a recuperação e a gestão de bens patrimoniais que são de todos para a sua apropriação privada – a fronteira entre serviço público e a actividade comercial, se já era porosa, torna-se inexistente. O empreendedorismo turístico promete restaurar o património edificado e mesmo dar-lhe acesso público, desde que, evidentemente, não incomode os utentes que pagam para dormir e vaguear por onde dormiu e vagueou a extinta nobreza, pelo que se deve preservar o sossego desses esplêndidos momentos de ócio, pagos e bem pagos aos empreendedores que em poucos anos amortizam os investimentos feitos à conta do valor histórico desses lugares.
 
Vamos ver como correrá essa coexistência. Nos processos em curso por essa Europa fora, nada está garantido e muito do que já foi feito só provoca as máximas apreensões.
 
Consonante com essa prática está a cedência de peças do Museu dos Coches para decorar uma instituição que não têm funções museológicas. É um precedente inaceitável – uma dúvida: será mesmo um precedente? – em que um membro do executivo, certamente avalizado pela sua superior hierárquica, se arroga da prerrogativa de dispor das colecções dos museus nacionais, surda aos pareceres dos organismos técnicos. Pode dizer que tudo está salvaguardado. Veremos se no fim da linha, com os sucessivos sobressaltos a que tem sido sujeito o ministério da Cultura e os organismos dele directamente dependentes, não se estará perante mais um caso de polícia. Além do que foi parar à Procuradoria-Geral da República há que lembrar as obras de arte da colecção da Secretaria de Estado da Cultura (SEC) de que não se conhece o paradeiro e das discrepâncias entre os registos. No livro de registos que havia sido aberto em Janeiro de 1986 e encerrado em 1992, inventariavam-se 1115 obras. Posteriormente há uma lista de 848 cedidas à Fundação de Serralves que, estranhamente, só reconhece 553 obras, uma discrepância de 295 obras. A Fundação de Serralves cedeu – autorizada por quem? – 93 obras a outras entidades. Para ampliar a baralhada 267 obras à sua guarda viajaram para outras paragens, tendo sido entretanto localizadas 165, 102 continuam em parte incerta. Um imbróglio que tem sido objecto de vários despachos ministeriais e que parece longe de solucionado. Poderá a secretária de Estado da Cultura argumentar que a sua decisão de cedência de obras das colecções do Estado a um privado está salvaguardada por um inventário rigoroso, o que não invalida a discricionariedade do procedimento mas, com a ligeireza com que tem sido feita a circulação de obras das colecções estatais, por maiores que sejam as garantias…
 
Na lógica da prática actual do ministério da Cultura, relembrando as controvérsias suscitadas por um jantar promovido pelo Web Summitt no Panteão Nacional, não será de admirar que em breve se acolham de braços abertos os führers da moda, da fashion life, que tomam de assalto o património cultural associando-os às suas marcas. O exemplo paradigmático é Itália, com um legado de grande dimensão em risco, a exigir intervenções urgentes e os governos, o de Berlusconi na linha da frente, a cortarem drasticamente os orçamentos da cultura. Solução? Vendem-se direitos de patrocínio na restauração de monumentos como a Fonte Trevi à Fendi, o Coliseu de Roma à Tod’s, Pompeia à Prada, a Torre de Pisa à Gucci, associando os logótipos das marcas aos monumentos que apadrinham.
 
Tudo isto se enquadra no estado actual da cultura e das artes. Está em linha com as exibições de arte contemporânea em que as marcas de artigos da moda e luxo se associam às vernissages, sublinhando o seu carácter mundano com desfiles de moda ou assinalando-as, como fez a Hermès na inauguração de Buren em Paris, com lenços de seda desenhados pelo artista, ou a Louis Vuitton com sacos monografados de Murakami na abertura de uma sua exposição em Los Angeles. Exemplos não faltam nessa lógica ostentatória em que se associa a moda à arte contemporânea, em que o mundo dos famosos desfila destilando fragrâncias, jóias e os últimos modelos de vestuário. São menos as notícias sobre as exposições e os sucessos culturais que as que registam as presenças do star-system, da política aos grandes empresários, das vedetas televisivas às do desporto, do cinema, da música e da arquitectura, dos artistas visuais e performativos ao baixo clero dos gestores culturais que os promove e aos chefs que prepararam as degustações daquele evento ou esperam ser convidados para o próximo. Na Europa esses processos cavalgam o tempo. Por cá seremos mais modestos, mas sempre com o objectivo e a finalidade de a cultura deixar de ser um «peso para o Estado», que parece ser o grande desígnio dos decisores culturais em exercício.
 
O património, cultural e natural, gera grandes apetites. O jornal Economist, num editorial intitulado «The $9 trillion sale», escreve que Thatcher e Reagan usaram as privatizações como ferramenta para combater os sindicatos e transformar em receitas diversos serviços públicos e que os seus sucessores no século XXI, «necessitam fazer o mesmo com os edifícios, terrenos e recursos naturais, porque é um enorme valor que está à espera de ser desbloqueado».Trocando por miúdos, nos centros decisores do capitalismo internacional, FMI, Banco Mundial, BCE etc., está a levedar uma nova onda de privatizações de tipo novo e radical: vender bens imobiliários estatais, incluindo patrimónios histórico-culturais; a dificuldade – dificuldade obviamente superável – é a da avaliação de muito desse património.
 
Enquanto esperam a chegada dos novos tempos, os empreendedores instalam-se no património cultural que decoram com obras de arte das colecções públicas.
É essa a lógica agora enunciada pelo ministério da Cultura.
 
* AbrilAbril
 
Imagem: «As Tentações de Santo Antão», no Museu Nacional de Arte AntigaCréditos/ CC-BY-SA-3.0

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/02/portugal-os-caminhos-invios-da-cultura.html

Fernando Namora é o autor do mês em Setúbal

A exposição Nave de Pedra – Andarilhagens por terras de vários matizesestá patente até ao fim do mês de Fevereiro, na Biblioteca Pública Municipal.

Fernando NamoraCréditosManuel Moura / Agência LUSA

A partir de uma das obras do médico e escritor, Nave de Pedra, editada em 1998, criou-se uma exposição no âmbito do projecto municipal do Autor do Mês, organizado pela autarquia setubalense.

O objectivo passa por conjugar imagens e palavras de Fernando Namora, expostas em 15 painéis, entre os quais Romance de uma Vida, Retratos de Família, Vivências, Estevas e Fragase A Mulher Afogada.

Nascido em Condeixa-a-Nova, Coimbra, em 1919, Fernando Namora licenciou-se em medicina em 1942 e estreou-se na literatura em 1937, com a obra de poesia Relevos, à qual se seguiram cerca de três dezenas de títulos.

Em 1948, escreveu Retalhos da Vida de um Médico, uma obra marcada pela sua vivência enquanto médico numa aldeia, a qual foi transposta para televisão.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/local/fernando-namora-e-o-autor-do-mes-em-setubal

Roteiro literário revela lugares de «Levantado do Chão»

O «Roteiro Literário Levantado do Chão», criado pela Câmara de Montemor-o-Novo, propõe uma viagem pelos lugares do primeiro grande romance do Nobel português José Saramago. A apresentação será esta tarde.

Créditos / www.m-x.com.mx

O «Roteiro Literário Levantado do Chão» interliga os concelhos de Lisboa, Montemor-o-Novo e Évora, através de três percursos temáticos subdivididos em percursos rodoviários e pedestres, que abrangem 26 pontos de interesse interpretativo sobre a obra publicada há 40 anos, lê-se no guia do roteiro. 

Criado pela Câmara de Montemor-o-Novo, no distrito de Évora, em parceria com outras entidades, como o Museu do Aljube e a Fundação José Saramago, propõe «dar a conhecer os lugares onde os episódios mais marcantes da obra se desenrolam, através de uma contextualização histórica e social» dos temas abordados e que inclui testemunhos sobre mulheres e homens que inspiraram as principais histórias e personagens do enredo.

O roteiro, com um total de 238 quilómetros rodoviários e oito pedestres, também «convida» a conhecer aspectos biográficos relacionados com a estadia de Saramago na localidade de Lavre, concelho de Montemor-o-Novo, em 1976, com o objectivo de se documentar para escrever a obra, que se tornou «o seu primeiro grande romance».

O primeiro percurso do roteiro, «Os levantados deste chão – A repressão da ditadura no Alentejo», foca-se entre 1933 e 1974, e «aborda os momentos mais violentos da obra, como as prisões, as torturas e os assassinatos» da ditadura de Salazar sobre o povo alentejano.

Este percurso passa por vários sítios de Lisboa, como o Museu do Aljube – Resistência e Liberdade, e de Montemor-o-Novo, como o Posto da GNR, para onde a personagem Germano Vidigal foi levada e acaba por morrer em 1945, «vítima de um cruel e bárbaro assassinato levado a cabo por dois agentes da PIDE», a polícia política da ditadura.

O segundo percurso, «A resistência: João Mau-Tempo e a luta do proletariado agrícola alentejano», vai desde o início do século XX até à década de 70, e convida a acompanhar algumas fases daquela luta contada por Saramago a partir da personagem João Mau-Tempo.

Este percurso passa por vários sítios dos concelhos de Évora, como a Praça de Touros desta cidade, onde João Mau-Tempo assistiu a um comício anticomunistra em 1937, e de Montemor-o-Novo, como São Geraldo, referida na obra a propósito de um encontro clandestino de trabalhadores rurais e militantes do PCP que decorreu nas proximidades desta aldeia.

O terceiro percurso, «José Saramago em Monte Lavre», convida o viajante a refazer os principais caminhos do escritor durante a sua estadia em Lavre e outras visitas que fez pelo concelho de Montemor-o-Novo, em 1976. 

Através dos três percursos, é possível «juntar os elementos necessários» para que o roteiro «cumpra a função de narrar a obra ao leitor-viajante», lê-se no guia.

A partir de «uma obra literária marcante para Montemor-o-Novo», o Município criou o roteiro para valorizar «algumas das partes mais relevantes» da história e da vida e garantir uma «maior atractividade turística» do concelho, explica a presidente do Município, Hortênsia Menino.

Simultaneamente, acrescenta, o roteiro visa «valorizar e difundir o património deixado» por Saramago na obra, e «dar expressão significativa à necessária preservação da memória da identidade do povo português e da sua história de resistência e luta».

A apresentação do roteiro e o lançamento do respectivo guia, iniciativas que marcam o arranque das comemorações dos 40 anos da publicação de Levantado do Chão e do 6.º Encontro de Leitores de Saramago, vão decorrer esta sexta-feira, a partir das 18h, na Biblioteca Municipal de Montemor-o-Novo.

Amanhã, dia em que se assinala exactamente o aniversário da publicação da obra (22 de Fevereiro de 1980), será inaugurado o roteiro, com a realização de um dos percursos, em Montemor-o-Novo, a partir das 9h. 

Até 23 de Fevereiro, na Biblioteca Municipal, haverá conferências, leituras encenadas e uma feira do livro, entre outras actividades. 

Com agência Lusa

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/cultura/roteiro-literario-revela-lugares-de-levantado-do-chao

Tozé Martinho foi a sepultar na Guia

Por Redação
18 fevereiro 2020
Dor e consternação marcaram as cerimónias fúnebres do ator e argumentista Tozé Martinho, 72 anos, que foi a sepultar esta terça-feira no cemitério da Guia, em Cascais.
O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, recordou Tozé Martinho como um "dos atores e guionistas portugueses mais ativos", enquanto a ministra da Cultura sublinhou o "papel nuclear que representou no mundo teatral e audiovisual nacional”.
Tozé Martinho faleceu este domingo no SO do Hospital de Cascais, onde estava internado há dois dias.
Vítima de paragem cardiorrespiratória, o antigo galã de telenovelas vivia há largos anos no concelho de Cascais.
Em 2014 foi vítima de um AVC, do qual recuperara com sucesso.
Já em novembro do ano passado sofrera uma queda e teve necessidade de ser operado a fratura ao colo do fémur.
Era natural de Salvaterra de Magos, no Ribatejo.
Antes de iniciar a sua carreira como ator e argumentista, António José Bastos de Oliveira Martinho, vulgo Tozé Martinho, estudou Medicina Veterinária e Economia e licenciou-se em Direito.
Já na política, foi militante do PSD e foi por este partido que, em 2009, concorreu à Assembleia Municipal de Benavente.
Martinho estreou-se em 1982 em Vila Faia, a primeira telenovela lusa. Foi o também saudoso Nicolau Breyner quem escolheu a sua personagem (agente da PJ Silveira).
Tozé Martinho continuou a carreira em Origens, Palavras Cruzadas e Passerelle. Em 1988 fez com Nicolau Breyner a dupla de protagonistas da série Os Homens da Segurança. No ano seguinte escreveu e realizou a série Caixa Alta.
Filho da atriz Maria Teresa Ramalho, (Tareka), que faleceu aos 90 anos, em 2018, Tozé Martinho e a mãe participaram em 1976 no concurso televisivo A Visita da Cornélia.
Posteriormente trabalharam juntos em várias novelas, como em Todo o Tempo do Mundo, que marcou o início da produção nacional de ficção na TVI, em 1999.
Tozé Martinho assinou sete novelas e um filme para a TVI até 2012, orgulhando-se de ter escrito três das quatro novelas portuguesas mais vistas (Dei-te quase tudo, Olhos de Água e A Outra).
Na última novela, Louco Amor, o protagonista foi Nicolau Breyner.
Em 2017 não escondia a mágoa por nenhuma produtora pedir os seus serviços. "Isto é tudo incompreensível, e quem perde é a ficção", disse, na altura, à TV7Dias.
Também Manuel Luís Goucha considerou, em declarações públicas, que Tozé Martinho “não foi valorizado” nos últimos anos.
Em 2003, em entrevista ao extinto jornal 24horas, o guionista enaltecia a qualidade das novelas portuguesas. "Eles [brasileiros] não são melhores do que nós. Nós é que desacelerámos. E em competição não se pode levantar o pé do acelerador."


 

Ver o original em "CASCAIS24" na seguinte ligação::

https://www.cascais24.pt/p/cultura-normal-0-21-false-false-false_30.html

A circulação do livro no espaço da lusofonia

No que diz respeito à língua, e porque em português nos entendemos, à partida não haveria grandes entraves. E, digo à partida porque eles existem. Em Portugal, por exemplo, somam-se nos leitores anticorpos em relação aos livros em Português de origem brasileira ou africana.

 

 

Por ocasião do Encontro de Escritores promovido pelo Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora na Biblioteca Camões a 13 de Fevereiro de 2020 e perante um público interessado e muito participante.

O debate decorreu entre a mesa e a assembleia, com a promessa de continuar.

O meu agradecimento ao Presidente do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora Dr. Delmar Maia Gonçalves e a todos os autores e intervenientes culturais presentes, pela oportunidade de debate de temas tão importantes.

Vivemos numa era global em que é simples fazer circular tudo, absolutamente tudo e, fazê-lo num espaço de tempo curto. Efectivamente, o nosso consumo global pauta-se pela circulação de bens sejam eles de primeira necessidade ou não. Todos comemos as mesmas frutas, vestimos as mesmas roupas, consumimos a mesma tecnologia independentemente do espaço geográfico que ocupemos. Tudo circula. Tudo, menos os livros. Os livros não circulam e quando o fazem, fazem-no penosamente.

Sabemos que existem alguns entraves à leitura que se prendem com as várias expressões da Língua Portuguesa no espaços da lusofonia e, que além disso, com os livros concorrem as novas tecnologias e os audiovisuais. Têm estado, por isso, a diminuir os leitores, mas será que são essas barreiras as únicas responsáveis pela fraca circulação do livro no espaço lusófono?

No que diz respeito à língua, e porque em português nos entendemos, à partida não haveria grandes entraves. E, digo à partida porque eles existem. Em Portugal, por exemplo, somam-se nos leitores anticorpos em relação aos livros em Português de origem brasileira ou africana. Anticorpos esses alimentados pelas editoras e, por vezes, pelos próprios autores. Que o diga Laurentino Gomes que optou por uma edição vertida para português de Portugal no seu livro “1808”. É verdade, escapou na altura à maioria mas saíram duas versões do mesmo livro numa única língua com adaptação para o público português. Tendo sido esse, apenas um caso, talvez dos primeiros.

Nem sequer imagino o que seria Jorge Amado vertido para português de Portugal…

Quando se fala na não circulação do livro, obviamente há excepções. Circulam os autores cabeça de cartaz das grandes editoras que acumulam prémios e participações em festivais literários nos países lusófonos e ao longo de décadas. Sem desprimor para a carreira de ninguém, será que nos últimos vinte anos a literatura Africana se resume a esta mesmíssima meia dúzia de nomes?!

Se falarmos de literatura brasileira o panorama é ainda mais difícil. Jorge Amado continua como figura de proa secundado por muito poucos. Como se um deserto editorial tivesse tomado conta da literatura brasileira das últimas décadas, quando na realidade, o que se passa é exactamente o oposto. A literatura brasileira dos nossos dias pauta-se por uma panóplia de novos autores de grande qualidade, a grande maioria dos quais totalmente desconhecidos em Portugal.

Há uns bons anos e tendo ainda muito pouca consciência das causas desta não circulação do livro, nomeadamente entre Portugal e o Brasil, tentei dar a conhecer alguns escritores portugueses no Brasil e fiz o caminho inverso, trazendo muitos livros e muitos autores que não eram e, continuam a não ser, conhecidos em Portugal.

As atitudes foram diferentes sendo os resultados práticos exactamente os mesmos.

Lá, a curiosidade e a abertura para tudo e todos que culminou em convites, em edições e participações para alguns nomes portugueses. Só não foi mais longe porque daqui, o desinteresse pesou mais.

Posso vos dar um exemplo concreto: As jornadas de Literatura de Passo Fundo. Passo Fundo é um espaço geográfico privilegiado, no sul do Brasil, fronteira com o Uruguai. Um espaço onde a escrita e a leitura têm um papel de relevo e os livros em Português e em Castelhano convivem. Trata-se da maior feira de literatura do continente americano a céu aberto.

A única abertura que eu tive para falar das Jornadas de Literatura de Passo Fundo em Portugal, foi com a editora de António Lobo Antunes, a Drª Piedade Ferreira.

Fui percebendo efectivamente e, a pouco e pouco que os nossos editores quase nada percebiam da nova literatura brasileira e, que na maioria dos casos os nomes de que eu lhes falava eram totalmente estranhos.

Foi no entanto muito frutificante todo esse esforço, pelos amigos que fiz e porque percebi que um pequeno circuito paralelo à margem das grandes editoras se esforçava como eu, para romper essa barreira. Conheci assim, a editora Tágide e a Celina Veiga Oliveira, editora essa já desaparecida que fez um trabalho notável no que diz respeito à divulgação da nova literatura brasileira em Portugal.

No Brasil nomes como Tania Rosing a mentora das Jornadas de Literatura de Passo Fundo, e Miguel Rettenmaier, editor, professor universitário e um eterno curioso de tudo o que por cá se fazia, abriram-me as portas a um mundo novo.

Conheci Ferreira Gullart, Mariana Ianelli, Maria carpi, Carlos Nejar, Aldyr Garcia Schlee e tantos outros.

Com a continuação dos meus esforços, percebi que era mais fácil a um autor brasileiro ser editado em Paris ou na Alemanha do que em Lisboa.

Efectivamente, nomes de que eu falava e ninguém conhecia em Portugal nem parecia ter interesse em conhecer, eram já acompanhados por exemplo, pela Petra Masky da Mertin e editados com sucesso na Alemanha.

Passaram alguns anos destes meus esforços mas não creio que o panorama tenha mudado muito.

Recentemente e talvez porque assim o exigem os leitores, sobretudo novos leitores brasileiros radicados à pouco em Portugal, uma livraria brasileira abriu as portas em Lisboa. Chama-se Livraria da Travessa e propõe-se trazer directamente do Brasil os novos nomes da literatura brasileira em edições brasileiras que importa directamente. Consegue assim, contornar em parte, o empedernido sector editorial. Tal como me explicaram, não é sempre um processo simples e esbarra com várias questões, como por exemplo o facto de alguns autores terem os direitos de autor barrados para Portugal na esperança de virem um dia a ser editados por uma grande editora portuguesa.

Foi com surpresa que a par da nova literatura brasileira vi igualmente nas estantes da Livraria da Travessa alguma literatura Africana. É mais fácil, explicaram-me, para os autores africanos, serem levados primeiro para o Brasil e depois chegarem a Portugal através da Livraria da Travessa.

É uma pequena livraria em Lisboa e simultaneamente uma luz num panorama editorial sufocado e sufocante.

Efectivamente, os livros não circulam no espaço da Lusofonia. Por detrás deste aparente desinteresse, ignorância ou inércia estarão certamente directivas muito concretas que atravessam décadas e se se impõe como absolutamente necessárias. Por quem e porquê são as perguntas que vos deixo.

O livro, quer-se efectivamente estanque, parado e sobretudo, desconhecido no espaço lusófono.

 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/a-circulacao-do-livro-no-espaco-da-lusofonia/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=a-circulacao-do-livro-no-espaco-da-lusofonia

Actividades no Hot Clube de 18 a 22 de Fevereiro 2020

Hot Clube – Praça da Alegria 48

Dia 18 de Fevereiro

BRUCE BARTH & ERI YAMAMOTO – “PIANO FOUR HANDS”

Concerto a partir das 22h30 (2º set às 00h). 10€ para não sócios, entrada gratuita para sócios.

Bruce Barth – piano; Eri Yamamoto – piano.

“About Bruce Barth & Eri Yamamoto

Two of New York’s finest jazz pianists share one piano, and chase each other around the keyboard, crossing hands, playing with lyricism and joy, and humor.  Bruce has been described by the Village Voice as “One of the best pianists in town, period.” Herbie Hancock said about Eri: “My hat’s off to her – already she’s found her own voice!”

Both Bruce and Eri are prolific composers, and have each realeased at least 12 CDs under their own names. Their four-hand performances feature a unique program of their own memorable compositions and some specially chosen jazz standards. The spontaneity and energy of their performances has been described by audiences as “unique,” “moving,” and unforgettable.”

Dia 19 de Fevereiro

“PLANETARIUM” (3)

Planetarium – A música de ” Interstellar space” de John Coltrane no Hot Clube!

Nas quartas feiras de Fevereiro celebramos a música explosiva e meditativa do disco “Interstellar Space”.

Um disco de John Coltrane,  um dos músicos de jazz mais influentes de sempre,  gravado a 22 de Fevereiro de 1967. “Interstellar Space” foi uma das suas últimas gravações, que viria a ser editada  7 anos após a sua morte. Trata-se de um conjunto de temas em duo com o baterista Rashied Ali. Música exigente mas muito profunda, resume um pouco todas as explorações musicais de Coltrane ao longo da sua vida. Plena de contrastes, com muita improvisação mas também com alguma música escrita, são peças que funcionam como pequenas sinfonias, tal o grau de sofisticação formal que Coltrane consegue atingir.

Para celebrar o espírito desta obra, o Hot Clube recebe todas as quartas feiras do mês de Fevereiro, duos constituídos por proeminentes músicos do Jazz português, sempre com a bateria em primeiro plano .

Esta noite no Hot Clube:

22h30:

João Mortágua – saxofone alto; Pedro Vasconcelos – bateria.

00h00:

Marcos Cavaleiro – bateria; José Pedro Coelho – saxofone tenor.

10€ para não sócios, entrada gratuita para sócios.

Dias 20 a 22 de Fevereiro

BICA/SANTOS/MORTÁGUA

Concerto a partir das 22h30 (2º set às 00h). 10€ para não sócios, entrada gratuita para sócios.

João Mortágua – saxofone alto; André Santos – guitarra; Carlos Bica – contrabaixo.

Carlos Bica é um dos poucos músicos portugueses que alcançou projecção internacional, tendo-se tornado uma referência no panorama do jazz europeu. Entre os vários projectos musicais que lidera e para além das suas colaborações com teatro, cinema e dança, o trio AZUL, com o guitarrista Frank Möbus e o baterista Jim Black, tornou-se na imagem de marca do contrabaixista e compositor. Desde há mais de vinte anos que o trio AZUL de Bica, com Frank Möbus e Jim Black, fascina os seus ouvintes. Para este projecto, Carlos Bica convidou o guitarrista André Santos e o saxofonista João Mortágua, dois dos mais talentosos e criativos músicos de uma nova geração de músicos portugueses, para em palco partilharem as suas canções.

“Quando se fala da música de Carlos Bica, a crítica costuma salientar a forma como nela se interpenetram referências de diferentes universos, da música erudita contemporânea à folk, ao rock, ao jazz, às músicas improvisadas. „A música de Carlos Bica é excitante, é moderna e contagiante. Bica é um ouvinte atento ao mundo exterior – donde a sua modernidade – e um escritor de canções inato. Nas suas composições encontramos fragmentos de coisas que apenas o nosso subconsciente reconhece, mas expostas de forma tal que elas nos surgem absolutamente naturais e óbvias. Nada que tenha a ver com alguma forma de pastiche ou resultado de copy/ paste; antes uma forma evidente de contar histórias feitas de pedaços de quotidiano que de uma forma estranha reconhecemos.“ – Leonel Santos „All Jazz“

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/02/17/actividades-no-hot-clube-de-18-a-22-de-fevereiro-2020/

O voo da Cotovia

Um dos mais emblemáticos espaços livreiros do Chiado vai fechar. Desaparece a Livraria Cotovia, propriedade da editora com o mesmo nome. Esta «voa para outras paragens».

A livraria Cotovia, um dos espaços culturais emblemáticos da Baixa lisboeta, vai encerrar as suas portas.Créditos

A editora Livros Cotovia vai deixar o espaço onde nasceu há «bem mais de 30 anos», na rua Nova da Trindade, no Chiado, «como tantos outros livreiros e alfarrabistas já deixaram também».

«A Cotovia vai mudar de casa» é o título do breve comunicado publicado no Facebook da editora, no qual, depois de se anunciar que «voa para outras paragens, mais tranquilas e não longe», se refere que «o Chiado, tal como está agora, não deixa saudades».

A editora promete continuar em actividade e adverte o público de que os seus livros «continuam disponíveis em praticamente todas as livrarias».

A editora, fundada em 1988 por André Fernandes Jorge e pelo seu irmão, o poeta João Miguel Fernandes Jorge – que mais tarde se afastaria do projecto –, construiu um catálogo exigente em torno do ensaio, da ficção, da poesia e do teatro, tendo-se feito notar pela qualidade das edições mas também pela sobriedade do grafismo, elaborado por João Botelho. No meio da profunda concentração editorial do sector editorial e livreiro, permaneceu como uma das mais significativas editoras portuguesas independentes. Após a morte de André Fernandes Jorge, em 2016, as rédeas da casa foram assumidas por Fernanda Mira Barros.

O que não muda e encerra definitivamente é a Livraria Cotovia, que funcionava no espaço da editora. Concebida pelo arquitecto Luís Borges da Gama (do atelier de Nuno Teotónio Pereira) era, descreve o comunicado, uma «livraria linda» num «edifício Raul Lino». A editora anuncia uma iniciativa de venda das existências, a preços muito especiais, entre 17 de Fevereiro e 13 de Março, de segunda a sexta-feira, das 10h às 14h.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/cultura/o-voo-da-cotovia

Carlos Paredes, uma saudade imensa

No dia em que faria
95 anos, a música de fundo
da nossa resistência


 
 

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

Artistas constroem frente contra a barbárie

247 - “O governo resolveu desmontar toda a área cultural”. É o que afirma Celso Curi, produtor, gestor cultural e presidente da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) ao Tutaméia. Ao lado dele, fala Regina Galdino, diretora teatral: “Tanto faz ser o Alvim, a Regina Duarte ou o Zé das Couves, porque o objetivo deles é o desmonte. Eles querem que o ministério não funcione, seja com quem for”.

Com esse diagnóstico, os dois integram um movimento inédito de artistas de várias áreas e de diferentes visões políticas para barrar a destruição da cultura, a censura e os ataques cotidianos do governo Bolsonaro à liberdade de expressão, à democracia e à Constituição. Organizam debates, intervenções culturais e, agora, de 11 a 18 de fevereiro, a Semana de Arte Contra a Barbárie, nas escadarias do Teatro Municipal em São Paulo.

 

Ver o original em 'Brasil24/7' na seguinte ligação:

https://www.brasil247.com/cultura/artistas-constroem-frente-contra-a-barbarie

Shortcutz Cascais promove sessão especial com música ao vivo

 

Por Redação 
11 fevereiro 2020
OShortcutz Cascais, movimento de divulgação de curtas-metragens nacionais, vai esta quinta-feira, dia 13, pelas 21h30, presentear o seu público com uma sessão especial de cinema com música ao vivo, na Murtalense Associação Desportiva Cultural e Recreativa, na Parede. “Tu” de Hugo Pinto, “Herói Invisível” de Cristèle Alves Meira e “A Fábrica” de Diogo Barbosa, constituem as três curtas-metragens selecionadas para esta sessão especial.   O movimento chama a particular atenção para a curta-metragem “A Fábrica” que, para além de contar com um elenco de peso, como Rui Mendes, Vítor Norte, Carla Andrino, Sofia Nicholson e Ricardo Carriço, entre outros, que marcarão presença na sessão, terá ainda a sua banda sonora tocada ao vivo pelo maestro Mário Rui Teixeira, e à curta-metragem “Tu” narrada por Afonso Pimentel e coreografada por Cifrão. O Shortcutz é um projeto que começou em Lisboa, em Janeiro de 2010, estando agora presentes em locais como: Aruba, Rio de Janeiro, Santa Catarina Porto, Caldas da Rainha, Covilhã, Faro, Figueira da Foz, Figueiró dos Vinhos, Funchal, Guimarães, Ovar, Vila Real, Viseu, Londres, Berlim e Amesterdão e, desde outubro último, no concelho de Cascais. O Shortcutz pretende ser uma autêntica revolução urbana de ideias, projetos e pessoas na área das curta-metragens, tornando-se uma parte indissociável e constante da vida criativa, cultural e artística das cidades nele envolvidas. Todas as curtas-metragens em competição deverão ter alguma ligação a Portugal (seja sobre Portugal ou ter algum membro da equipa que seja português), sendo por isso um projeto que visa promover o cinema de Portugal e sobre Portugal.
                                                                                                        
Em Cascais surgiu por uma equipa de quatro produtoras (Nádia Leal, Catarina Narciso, Marta Lopes e Sandrina Novo), que pretendem trazer dinamismo cultural ao concelho de Cascais e apoiar a produção de curtas metragens nacionais ou com ligação ao nosso País.  O Shortcutz Cascais é um movimento sem fins lucrativos e tanto as inscrições para competição como as sessões são totalmente gratuitas.
 
 

Ver o original em "CASCAIS24" na seguinte ligação::

https://www.cascais24.pt/p/blog-page_6430.html

A devolução do património saqueado pelos impérios coloniais

Manuel Augusto Araújo    11.Feb.20 

O saque do património cultural dos povos dominados atravessa toda a História. Acontece que a nossa época é a do esforço descolonizador e da reivindicação de igualdade entre Estados soberanos. As potências coloniais e neo-coloniais têm uma dívida – também cultural - a pagar, e um património a restituir.

A destruição e o saqueio do património cultural foi e é uma prática corrente, por motivos religiosos mas sobretudo políticos. Destruir o património cultural dos povos destrói a sua memória e identidade.

Os debates sobre a restituição dos bens culturais, objectos e documentos, às ex-colónias só muito recentemente acontecem em Portugal, ao contrário da Europa, em particular na França e Alemanha, onde decorrem há vários anos. Tiveram novo impulso em França quando Macron criou um grupo de estudo com base num documento em que se propõe a «restituição plena e incondicional de todos os bens que foram retirados sem consentimento dos territórios africanos». Tem sido intensa a discussão entre antropólogos, etnólogos, directores de museus e outros especialistas num debate que tem muito de cultural mas é sobretudo político. Naturalmente mais intensa nos países que tiveram impérios coloniais, em que uma grande parte dos intervenientes parte da premissa que o colonialismo foi um crime, embora também parte substancial desses litigantes se exima de considerar que a exploração colonial, a escravatura, o trabalho forçado são o núcleo duro da consolidação do regime capitalista até ao seu formato actual.

A destruição e os saques dos patrimónios culturais dos países tem uma longa história e está longe de se confinar a África. Durante séculos a destruição e a pilhagem do património cultural, sempre relacionado com grandes convulsões históricas, não provocava escândalo. O vandalismo das tribos bárbaras foi, durante séculos, uma normalidade. Só no Renascimento, quando Petrarca se indigna com a destruição de templos e palácios de Roma, perpetrada pelos próprios romanos, é que se começam a gerar movimentos em favor da sua preservação.

É na Revolução Francesa, no ano de 1790, que a Assembleia Constituinte cria uma Comissão dos Monumentos com a missão de proteger e conservar as obras de arte, em contra-ciclo com a fúria revolucionária que destruía tudo o que simbolizava o poder absolutista no exercício do controlo social e imposição de crenças políticas, sociais e religiosas. A Notre-Dame é um excelente exemplo. Era um forte símbolo da unidade entre a religião e monarquia que oprimia o povo de tudo o que contrariava os ideais do Iluminismo e da Revolução. As estátuas dos reis foram decapitadas, a arquitectura gótica brutalizada. Só transcorrido um século, com a Notre-Dame em estado deplorável, é que, depois de Victor Hugo escrever Notre-Dame de Paris, em que a catedral é o personagem principal e o corcunda o secundário, se iniciou o processo de restauração dirigido por Viollet-le-Duc. Isso também só foi possível pela mudança de mentalidades em relação ao património cultural iniciada pela Revolução Francesa, tivesse ou não conhecimento das iniciativas pioneiras de Petrarca no séc. XIV, iniciando um processo de protecção, conservação e valorização do património com os subsequentes desenvolvimentos a nível mundial.

Nada disso obstou a que a destruição do património cultural continuasse a ser uma prática corrente, com objectivos religiosos – como aconteceu com as gigantescas estátuas dos Budas de Bamyan, destruídas por ordem do governo fundamentalista dos talibãs, os quais, se deverá sempre recordar foram uma invenção da CIA e dos serviços secretos paquistaneses – mas sobretudo políticos. A estratégia política, destruindo ou danificando os patrimónios culturais dos povos, tinha e tem o objectivo de destruir as suas memórias e identidades, de afirmar a supremacia do ocupante. Não poucas vezes essa estratégia se associa ao roubo e tráfico ilegal com fins altamente lucrativos, de que são exemplo as estátuas e os baixos relevos do Partenón que Lord Elgin vendeu ao governo britânico e que repousam no British Museum, surdos às reivindicações gregas de sua devolução, apesar de serem apoiadas pela UNESCO. No quadro do tráfico ilegal, directa ou indirectamente suportado politicamente, é de referir os saques efectuados no Museu de Bagdade e sítios arqueológicos do Iraque depois da sua invasão – com um pretexto falso completamente fabricado – pelas tropas norte-americanas e aliados, que causaram estragos irreparáveis. Um saque de dezenas de milhares de antiguidades de que houve conhecimento público pelas reportagens do The Independent e do The Guardian. Um roubo efectuado por vulgares ladrõezecos ombro com ombro com um bando de larápios bem informados, cultos, traficantes especializados que o invadiram enquanto as tropas norte-americanas guardavam a ferro e fogo os poços de petróleo, como foi denunciado na altura, no Parlamento português, pelo PCP.

De Napoleão a Hitler

Essa estratégia política em relação ao património cultural tem em Napoleão um cume. Nas campanhas napoleónicas o imperador fazia-se acompanhar por uma corte de intelectuais que avaliavam e inventariavam as obras de arte a roubar. A pilhagem de igrejas, catedrais, conventos, museus, colecções privadas por toda a Europa e norte de África, Egipto e Alexandria foi sistemática e sem precedentes. Eram troféus de guerra que mostravam ao mundo o poder de Napoleão e a supremacia política e cultural da França. O objectivo do imperador era distribuir as obras de arte pelos museus franceses, construir um grande museu, o Museu Napoleão, em Paris. Derrotado Napoleão, o Segundo Tratado de Paris, de 20 Novembro de 1815, pela primeira vez na história mundial determina a devolução das obras de arte aos seus países de origem numa grande operação de retorno, embora parte desse espólio não tenha ou ainda não tenha sido restituído, já lá vão quase duzentos anos. O Casamento em Caná de Paolo Veronese, roubado de um convento de Veneza, continua em exposição no Museu do Louvre.

O segundo grande roubo sistemático de património cultural foi realizado pelos nazis na Segunda Guerra Mundial. O projecto de Hitler é similar ao de Napoleão. Projectava construir um enorme complexo cultural em Linz, a cidade onde tinha nascido, dedicado às obras que o führer considerava reflectirem a ideologia do partido nazi. Uma comissão dirigida por Hans Posse foi encarregada da selecção que se iniciou na Alemanha, separando as obras de arte que iriam ser deslocadas para Linz das obras de arte degeneradas – de Matisse, Picasso, Kandinsky, Chagall, Van Gogh e outros – que seriam destruídas ou vendidas a preços de saldo. Com o desenrolar da guerra todos os museus e casas de coleccionadores privados foram saqueadas pelo mesmo critério, as obras transportadas e armazenadas na Alemanha enquanto o museu estava em construção. De caminho muitos dignitários e generais nazis, também coleccionadores, aproveitaram para enriquecer as suas colecções. Os exércitos aliados, conhecedores dessa situação, à medida que avançavam recuperavam-nas. Mais de 8 000 obras foram encontradas no castelo de Neuschwanstein e quase 7 000 nas minas de sal de Altaussee. Ao todo os nazis roubaram mais de 20 000 obras de arte, praticamente 20% das obras de arte europeias. Muitas das obras de arte ainda não foram encontradas, provavelmente na posse de pessoas que as compraram durante a guerra a preços módicos.

A campanha de devolução das obras pós-guerra foi muito publicitada e originou a jurisprudência da Convenção de Haia em 1954, que estabeleceu regras internacionais sobre o património cultural que, de certo modo, está na origem dos actuais debates sobre a devolução dos artefactos de arte aos países colonizados pelos colonizadores.

Património, colonizados e colonizadores

Várias questões se colocam. Na comunidade científica teme-se o esvaziamento dos museus europeus de Etnologia e Antropologia. O mais paradigmático será o British Museum, uma venerável instituição, um dos mais antigos e visitados museus do mundo, fundado em 1753, com mais de oito milhões de antiguidades das mais diversas e remotas culturas. Antiguidades expropriadas e pilhadas em nome da ciência por ilustríssimos cientistas que durante mais de 150 anos pesquisaram sítios arqueológicos na Mesopotâmia, Egipto, Arábia, Palestina, Turquia ou as adquiriram por tráfico suspeito, como os já referidos «mármores de Elgin» ou como troféus de conquistas como a estátua da Ilha de Páscoa, oferecida à rainha Victoria pelos triunfantes marinheiros ingleses. O British Museum, uma referência entre os museus mundiais, com um espólio que é a excelência exemplar dos saques feitos em nome da exploração científica, poderá estar agora ameaçado por esta vaga devolutiva.

Muitos querem remeter o problema para a área científica, questionando inclusivamente a capacidade das instituições dos países de origem em preservar e criar espaços especializados para o seu conhecimento e divulgação, o que é um argumento com bastante razoabilidade. Só que a questão é sobretudo política. É reconhecer todo o passado colonial esclavagista em que não existem bons, maus ou assim-assim colonizadores. São todos maus e construiram muita da sua prosperidade na exploração desenfreada das colónias. É reconhecerem a destruição social, económica e cultural que realizaram. É reconhecerem um passado colonial bem sintetizado na frase «exterminem todas as bestas», do sinistro Kurtz no romance O Coração das Trevas de Joseph Conrad (Editorial Estampa, 1983), expressão do colonialismo justificado em nome do «progresso» e da «civilização». É reconhecerem que as antigas colónias são hoje países com direitos iguais.

Se receiam que as antigas colónias sejam carentes de meios técnicos e científicos, ou mesmo de capacidade económica para construirem ou requalificarem sítios para recepcionarem os artefactos artísticos que povoam os museus europeus podem, devem, associar à sua devolução a oferta, se solicitada, desses meios. Será um processo lento mas é um caminho a percorrer na descolonização das mentalidades e na reposição possível, ainda que insuficiente, de todo um brutal saque feito durante centenas de anos.

A discussão em Portugal, suscitada pelo O Programa para a Descolonização da Cultura apresentado na Assembleia da República, tem sido inquinada pelo conteúdo desse Programa que, bem lido, é superficial, para não referir as formulações pedantes que por lá abundam, em que se dá ênfase à devolução dos objectos sem sequer referir que essa devolução deve incidir nos objectos e colecções que tenham sido obtidos por pilhagens ou compras abusivas. Mais grave, como isso fosse ponto de partida de um processo que é muitíssimo mais multiforme, tem muitas outras componentes entre si correleccionadas em que a devolução dos objectos às suas origens é um dos pontos mas não o seu ponto de partida. Considerar que a descolonização dos museus praticamente se confina a uma «a produção de uma listagem nacional de todas as obras, objectos e património trazidos das antigas colónias portuguesas e que estão na posse de museus e arquivos nacionais» até é de uma linearidade confrangedora. O que está em causa, em Portugal e no mundo, é um processo de descolonização cultural liberto dos vícios de uma visão eurocêntrica e elitista que deve ser desconstruída. A devolução dos objectos é obviamente parte integrante desse processo longo, complexo e moroso de que não se pode excluir o diálogo intercultural que aconteceu, foi e é importante, apesar de todos os seus sobressaltos e episódios pouco dignificantes.

Há ainda a questão das colecções privadas. Em Portugal as de José Guimarães e de Berardo, muitíssimo relevantes em relação à África Subsaariana. Uma questão complicada, porque os processos de aquisição das peças que as integram não são postos em causa, foram adquiridas como o são qualquer obra de arte, mas deve ser encarada pelo governo na perspectiva de se devolverem as obras roubadas e de se organizar um Museu das Descobertas e da Colonização, com esta ou outra denominação. Tema mais complexo em que o nosso passado colonial deve figurar com o seu longo rol de iniquidades em que as populações indígenas, depois de abolida a escravatura foram submetidas ao trabalho forçado e outras leis que os excluíam socialmente. Se o passado colonial é vergonhoso as descobertas são um marco na história da humanidade.
Devolvam-se as obras, assuma-se o terrível passado colonial, construa-se um museu sobre esse período da história que se é bem negro também é notável na história do mundo e de Portugal, como bem o defende Borges Coelho : «Na verdade, foi um período fantástico na História da Humanidade, exactamente como ela é. Não podemos dizer que não houve bandidos – houve montanhas [deles]. O Albuquerque foi um homem terrível, mas foi também um homem de génio, que abriu uma rota efectiva na História da Humanidade, ele o [Vasco da] Gama e companhia» (…) «um museu com tudo lá e não só o retrato do herói com as flores em baixo, mas que refira os vários povos».

A talhe de foice outra questão obliquamente relacionada. Portugal também foi vítima de espoliações durante as Invasões Francesas, não só pelos franceses mas também pelos nossos aliados ingleses.1 Não estará na altura de serem recuperadas?

1.Para não falar da incursão de Francis Drake em Faro (1596), de onde o seu amigo Robert Devereux, Duque de Essex, saqueou a preciosa biblioteca do bispo D. Fernando Martins de Mascarenhas, uma importante figura da cultura portuguesa dos séculos XVI e XVII. Os livros ainda hoje permanecem na biblioteca Bodleian, em Oxford, e têm sido objecto de polémica. Ver The Portuguese American Journal (2014) e Algarve Daily News (2018).
(publicado em AbrilAbril https://www.abrilabril.pt )

Fonte: https://pracadobocage.wordpress.com/

 

Ver o original em ODiario.info (clique aqui)

Vencedor do Oscar 2020 é retrato do neoliberalismo

 

247 - "O filme Parasita, de Bong Joon Ho, indicado ao Oscar às categorias de Melhor Filme e Melhor Filme Internacional, foi um enorme sucesso entre os críticos e o público. Depois de sua estréia vencedora do Palme Ouro em Cannes, vendeu mais de dez milhões de ingressos somente na Coréia do Sul, tornando-se o quarto filme de maior bilheteria do país em 2019", escreve Max Balhorn na revista Jacobin Brasil.

"Com uma receita de mais de 120 milhões de dólares em todo o mundo, Parasita é o sétimo filme do diretor Bong Joon Ho e o mais bem-sucedido até hoje. Vindo de um diretor cujos filmes geralmente apresentam personagens marginalizados que lutam contra a opressão (veja Barking Dogs Never Bite, Gwoemul — O Hospedeiro e, mais recentemente, Expresso do Amanhã), Parasita foi aclamado como uma crítica clara e lúcida à desigualdade de riqueza na sociedade sul-coreana".

"O filme  é considerado uma alegoria da desigualdade de classe desenfreada e da frustração popular pela falta de mobilidade social em um dos países mais ricos da Ásia. Em um artigo para a Jacobin, Eileen Jones elogiou Parasita por ir além de simples propostas alegóricas, afirmando que o filme “cristaliza as experiências de uma família de classe marginalizada tentando se agarrar, desesperadamente, a uma chance para melhorar a vida, retratadas de uma forma que te machuca”.

 

Leia a íntegrado artigo, em tradução de Giuliana Almada

Ver o original em 'Brasil24/7' na seguinte ligação:

https://www.brasil247.com/cultura/vencedor-do-oscar-2020-e-retrato-do-neoliberalismo

Oscar vai para Parasita e Industria Americana, o horror econômico

Temas sociais e trabalhistas estão nas telas e suscitam reflexões sobre a crise econômica global e o mundo do trabalho.

 

 

No clima de temas sociais da cerimônia de premiação do Oscar de 2020, dois documentários pouco comentados chamam a atenção. The Social Dilemma tenta interpretar o papel das redes sociais e seus algoritmos na vida das pessoas. Coded Bias também fala desse tema; o documentário analisa os aplicativos com reconhecimento facial que costumam ser falhos e, em muitos casos, racistas.

Na disputa do Oscar, os documentários Democracia em vertigem, da brasileira Petra Costa — que escancarou ao mundo a vergonhosa trama do golpe do impeachment de 2016 contra a ex-presidenta Dilma Rousseff, iniciada pelo submundo da política representado pela Operação Lava Jato —, e o vencedor Indústria Americana — sobre o cotidiano dos operários da fábrica da General Motors em Ohio que passou para as mãos de um milionário chinês — mostram o conceito de luta de classes.

Os filmes O irlandês e Parasita — este, o vencedor do Oscar — também enveredam por esse tema. A luta de classes não é nominada, mas facilmente perceptível. Especialmente em Indústria Americana e Parasita, os problemas econômicos que demarcam os mundos de ricos e pobres aparecem como ponto central. Eles ficam mais nítidos quando vistos com os dados recentemente divulgados pela Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Divisões domésticas

Em seu relatório anual, publicado em 21 de janeiro de 2020, a organização questiona “se a taxa de desemprego é a medida mais confiável do mau funcionamento do mercado de trabalho”. O emprego não é mais garantia de segurança pessoal e familiar e de perspectiva de futuro, pois a remuneração e os direitos têm piorado, afirma o documento.

Enquanto isso, diz a OIT, a riqueza está cada vez mais concentrada nas mãos de bancos, empresários e ricos em geral. Em 2004, 54% do PIB global era distribuído para os trabalhadores. Em 2017, o montante diminuiu para 51%. A queda foi puxada pelas crises nas Américas, na Europa e na Ásia Central. Na América Latina e no Caribe a tendência é de piora, prevê a OIT. A situação é mais crítica para os jovens.

Já o Relatório Global de Riscos 2020 do Fórum Econômico Mundial prevê que este ano será de embates, divisões domésticas e internacionais e desaceleração econômica. Isso porque a turbulência geopolítica está levando a um mundo unilateral “instável”, de grandes rivalidades de poder.

Tigres asiáticos

O tema do filme Parasitas chama a atenção também para outro problema — a influência histórica da economia dos Estados Unidos na região asiática. Uma parte significativa dos problemas sociais da Coreia do Sul e de outros países asiáticos se deve a esse domínio. Mesmo o rico Japão enfrenta sérios problemas para se levantar, também por estar umbilicalmente ligado à economia norte-americana.

Os Estados Unidos exportam sua crise. A debacle de 1997-1998 foi o ponto mais crítico para os chamados tigres asiáticos, países que ostentavam um crédito monumental em títulos do Tesouro norte-americano — recursos que financiam os gigantescos déficits estadunidenses. Foi o repatriamento de uma parte dessas aplicações que provocou a “crise asiática”.

A região era tida como o paraíso de tigres que cresciam e afiavam as garras. Taiwan, Coréia do Sul, Cingapura e Hong Kong formavam as poderosas NIEs (Newly Industrialized Economies). Malásia, Tailândia, Indonésia e Filipinas eram as maiores economias do grupo Asean (Associacion of the South-East Nations).

Mas a crise abateu os tigres, um a um. O furacão começou a girar na Tailândia, com os especuladores do “mercado” apostando contra o baht — a moeda local. Era a jugular da presa. Com um tigre caído, a insegurança se alastrou pela floresta. A crise ganhou proporções amazônicas quando os especuladores resolveram estender sua ação para o centro financeiro da Ásia, cercando o tigre que dominava aquelas paragens: Hong Kong e o seu dólar.

Aquelas economias se ergueram por meio de um alto endividamento externo — em grande parte pelo setor privado, com o aval dos governos. Assim, acabaram criando para si um problema insolúvel: capacidade industrial ociosa e montanhas de dívidas. O fluxo de empréstimos e investimentos estimulou o crescimento inicial, centrado nas exportações, e criou a armadilha que capturou os tigres.

Produção de alimentos

Já Indústria Americana, que levou o Oscar de melhor documentário, remete às relações de trabalho. Tema muito debatido, sobretudo após a incorporação de novas tecnologias e de novos métodos de organização do trabalho, ele ganha mais relevância na crise que fez o desemprego mundial explodir, como revela o relatório da OIT.

De fato, há uma revolução tecnológica em andamento. As projeções são de um admirável mundo novo em que as fábricas serão dominadas por robôs supervisionados por especialistas digitais. Os softwares também substituirão os trabalhadores na agricultura. Empresas especializadas em softwares agrícolas já estão fornecendo tecnologia que permite ao agricultor monitorar o meio-ambiente, coletar dados sobre mudanças meteorológicas, condições do solo e outras variáveis.

A revolução tecnológica em desenvolvimento e a biotecnologia prenunciam uma nova era de produção de alimentos dissociada da terra e do clima. A agricultura tradicional, centrada em grandes extensões de terra ao ar livre, deverá dar lugar à manipulação de moléculas no laboratório.

Homem em massa

Essa torrente tecnológica está deixando para trás o modelo preponderante de produção do século XX: o fordismo, que ultrapassa o limite da organização do trabalho e se constitui num modelo de desenvolvimento. Ele assentou suas bases na fórmula de que o Estado deve intervir na economia para garantir rendimentos mínimos aos trabalhadores.

O fordismo nasceu associado à ideia do consumo de massa e da elevação da produtividade. Numa época em que o capitalismo era pressionado por suas crises e ao mesmo tempo pelo projeto socialista, seu surgimento foi saudado em muitos setores da economia como o modelo de desenvolvimento capaz de equilibrar o aumento da produtividade com o crescimento do poder aquisitivo dos trabalhadores.

O fordismo na prática ajudou a selar o fim do capitalismo concorrencial do final do século XIX e inaugurou uma nova etapa das relações de trabalho. O trabalhador que até então detinha os conhecimentos técnicos e culturais do processo de trabalho cedeu sua capacidade para o processo de produção.

Antônio Gramsci, o fundador do Partido Comunista Italiano, diz, no trabalho Americanismo e Fordismo, que ao implantar, em 1913, o seu sistema de produção e gestão na Ford Motor Company, em Highland Park, Detroit, Henry Ford deu início a um novo modo de vida. “Um novo tipo humano, em conformidade com o tipo de trabalho e de processo produtivo (…), uma mão-de-obra estável, um conjunto humano (o trabalho coletivo), (…) uma máquina que não deve desmontar nem avariar demasiadas vezes suas peças individuais”, diz ele. Ou seja, a produção em massa trazia também o “homem em massa”.

Relações públicas

A adulação com a qual o fordismo foi recebido passou a ser substituída por críticas ásperas. Até a imprensa liberal trocou os elogios efusivos com os quais saudava as ideias de Ford pela hostilidade. Em 1928, o jornal The New York Times descreveu Ford como “um industrial fascista — o Mussolini de Detroit”.

O homem milagroso começou a ser retratado como vilão. Charles Chaplin, no filme Tempos Modernos, mostrou o operário esmagado pela linha de montagem. O fazedor de milagre também foi condenado por Aldous Huxley no livro Admirável Mundo Novo, publicado em 1931. Huxley imaginou um futuro tecnocrático, desencantador, no qual os homens eram embargados pela coerção e desnorteados por uma nova religião — o fordismo.

O conceituado economista norte-americano John Kenneth Galbraith diz que Ford foi o primeiro personagem a fazer amplo uso das relações públicas. “Ele foi o primeiro embromador”, diz o economista. Em 1960, o especialista em marketing Theodore Levitt escreveu em seu livro A miopia do marketing: “Nós habitualmente celebramos Ford pela razão errada: sua genialidade em produção. Sua real genialidade era em marketing.”

Algo ainda indefinido

Sobre a linha de montagem de Ford, Peter Drucker, espécie de oráculo da administração empresarial norte-americana, disse nos anos 1950 que “se de fato analisarmos essa chamada nova tecnologia, descobriremos que não se trata de ‘tecnologia’ alguma”. “Não é uma combinação de forças físicas. É um princípio de ordem social”, afirmou.

O que se vê no lugar do fordismo é algo ainda indefinido — o ponto central de Indústria Americana. A impressão é de transição para uma situação social mais brutal. Mercados restritos e “modernos” convivem com a miséria absoluta e global. É, enfim, uma situação que evolui rapidamente para novos paradigmas.

Talvez seja o caso de concordar com Viviane Forrester, que em seu livro O Horror Econômico” afirma: “Vivemos em meio a um engodo magistral, um mundo desaparecido que teimamos em não reconhecer como tal e que certas políticas artificiais pretendem perpetuar. Milhões de destinos são destruídos, aniquilados por esse anacronismo causado por estratagemas renitentes, destinados a apresentar como imperecível nosso mais sagrado tabu: o trabalho.”


por Osvaldo Bertolino  |  Texto original em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado

 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/oscar-vai-para-parasita-e-industria-americana-o-horror-economico/

“Parasitas” limpa Óscares e faz história em Hollywood

 

O filme “Parasitas”, do realizador sul-coreano Bong Joon Ho, venceu o Óscar de melhor Filme, na 92.ª edição dos prémios da Academia das Artes e Ciências Cinematográficas, de Hollywood.

 

Os outros candidatos ao Óscar de melhor filme eram “Le Mans’66: O Duelo”, “O Irlandês”, “Jojo Rabbit”, “Joker”, “Mulherzinhas”, “Marriage Story”, “1917” e “Era Uma Vez em… Hollywood”.  O prémio foi entregue à equipa de produção, constituída por Kwak Sin Ae e Bong Joon Ho, pela atriz Jane Fonda, sob fortes aplausos do público.

“Parasitas”, que partiu com seis nomeações para os Óscares, conquistou os quatro mais importantes para os quais estava indicado: melhor filme, melhor realizador, melhor filme internacional e melhor argumento original.

Tal como recorda a Rádio Renascença, a última pessoa a arrecadar quatro Óscares na mesma noite foi Walt Disney, nos anos 50. Este é também o primeiro filme de língua estrangeira a vencer o principal prémio da indústria cinematográfica.

 
 

De fora ficaram melhor cenografia e melhor montagem, que cedeu a “Era Uma Vez… em Hollywood” e “Le Mans ’66: O Duelo”, respetivamente.

Foi também distinguido com os prémios de melhor filme em língua estrangeira e melhor argumento, pela academia britânica de cinema e televisão (BAFTA), de melhor filme estrangeiro, nos Globos de Ouro, e foi ainda a escolha do Sindicato dos Atores dos Estados Unidos, para melhor elenco, a principal categoria dos seus prémios, tendo sido a primeira produção estrangeira a conquistar a distinção.

“Parasitas” foi o vencedor da 92.ª edição dos Óscares, conquistando quatro estatuetas.

Melhor ator para Joaquin Phoenix

“Joker”, de Todd Phillips, partira com 11 nomeações, o maior número da noite, entre as quais melhor filme e melhor realizador, e obteve duas: melhor ator (Joaquin Phoenix) e melhor banda sonora (Hildur Guðnadóttir).

1917“, que integrava o grupo de filmes com dez nomeações, obteve três Óscares: melhor mistura de som (Mark Taylor e Stuart Wilson), melhores efeitos visuais (Guillaume Rocheron, Greg Butler e Dominic Tuohy) e melhor fotografia (Roger Deakins).

Nomeado para dez estava igualmente “Era Uma Vez… em Hollywood”, que obteve a melhor cenografia (Barbara Ling e Nancy Haigh), depois de ter aberto a cerimónia com a conquista do Óscar de melhor ator secundário (Brad Pitt).

Com dois Óscares, em quatro nomeações, ficou igualmente “Le Mans ’66: O Duelo”: melhor montagem (Michael McCusker e Andrew Buckland) e melhor montagem de som (Donald Sylvester).

Nomeados para seis Óscares e vencedores de apenas um, são “Marriage Story” (melhor atriz secundária, Laura Dern), “Jojo Rabbit” (melhor argumento adaptado, Taika Waititi), e “Mulherzinhas” (melhor guarda-roupa, Jacqueline Durran).

Nomeados para três Óscares estavam “Bombshell – O Escândalo” e “Dois Papas”. O primeiro conseguiu o Óscar de melhor caraterização (Kazu Hiro, Anne Morgan e Vivian Baker), “Dois Papas” acabou sem distinções.

A 92.ª edição dos prémios da Academia das Artes e Ciências Cinematográficas, dos Estados Unidos, decorreu no Dolby Theatre, em Los Angeles, no domingo à noite, na Califórnia, madrugada de segunda-feira em Portugal.

Lista completa dos vencedores:

Aqui segue a lista completa dos vencedores da 92.ª edição dos Óscares, os prémios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos:

Melhor filme:

“Parasitas” – Kwak Sin Ae e Bong Joon Ho

Melhor realização:

“Parasitas” – Bong Joon Ho

Melhor ator:

Joaquin Phoenix – “Joker”

Melhor ator secundário:

Brad Pitt – “Era Uma Vez em… Hollywood”

Melhor atriz:

Renée Zellweger – “Judy”

Melhor atriz secundária:

Laura Dern – “Marriage Story”

Melhor fotografia:

“1917” – Roger Deakins

Melhor argumento adaptado:

“Jojo Rabbit” – Taika Waititi

Melhor argumento original:

“Parasitas” – Bong Joon Ho & Han Jin Won

Melhor filme internacional:

“Parasitas” – Bong Joon Ho (Coreia do Sul)

Melhor filme de animação:

“Toy Story 4” – Josh Cooley, Mark Nielsen e Jonas Rivera

Melhor curta-metragem de animação:

“Hair Love” – Matthew A. Cherry e Karen Rupert Toliver

Melhor documentário:

“American Factory” – Steven Bognar, Julia Reichert e Jeff Reichert

Melhor documentário em curta-metragem:

“Learning to Skateboard in a Warzone (If You’re a Girl)” – Carol Dysinger e Elena Andreicheva

Melhor curta-metragem:

“The Neighbors’ Window” – Marshall Curry

Melhor cenografia:

“Era Uma Vez… em Hollywood” – Barbara Ling e Nancy Haigh

Melhor montagem:

“Le Mans ’66: O Duelo” – Michael McCusker e Andrew Buckland

Melhor caracterização:

“Bombshell – O Escândalo” – Kazu Hiro, Anne Morgan e Vivian Baker

Melhor guarda-roupa:

“Mulherzinhas” – Jacqueline Durran

Melhor banda sonora original:

“Joker” – Hildur Guðnadóttir

Melhor canção:

“(I’m Gonna) Love Me Again”, de “Rocketman”, Elton John e Bernie Taupin

Melhor montagem de som:

“Le Mans ’66: O Duelo” – Donald Sylvester

Melhor mistura de som:

“1917” – Mark Taylor e Stuart Wilson

Melhores efeitos visuais:

“1917” – Guillaume Rocheron, Greg Butler e Dominic Tuohy

ZAP // Lusa

 
 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/parasitas-limpa-oscares-historia-hollywood-307589

21º CORRENTES D’ESCRITAS IRÁ DECORRER DE 15 A 23 DE FEVEREIRO, NA PÓVOA DO VARZIM

 

O XXI Correntes d´Escritas terá lugar entre os dias 15 e 23 de Fevereiro de 2020 e no âmbito do grande evento serão atribuídos quatro Prémios Literários.

A grande novidade desta edição será a presença de escritores catalães participando em Mesas e em exposições.

O orador da Conferência de Abertura será o arquitecto Álvaro Siza Vieira que irá falar sobre a arquitectura, a arte e a literatura porque tudo se toca.

Outra figura de destaque nesta 21ª edição será Hélia Correia, a homenageada da Revista Correntes d’Escritas nº 19, que já ganhou um Prémio Literário Casino da Póvoa.

Estarão presentes 100 escritores de 14 nacionalidades diferentes, alguns deles a participar pela primeira vez no encontro.

Este ano, o Correntes d’Escritas irá a duas freguesias do concelho, numa acção designada Correntes itinerantes.

Serão atribuídos os seguintes Prémios:

Prémio Literário Correntes d’ Escritas Papelaria Locus irá premiar um conto inédito escrito em língua portuguesa, por jovens com idades compreendidas entre os 15 e os 18 anos, naturais de países de expressão portuguesa. O prémio para o vencedor do melhor conto será de 1.000 euros.

Prémio Conto Infantil Ilustrado Correntes d’ Escritas Porto Editora destina-se a trabalhos colectivos, inéditos, escritos por alunos do 4º ano do 1º ciclo do ensino básico. Estão aptas a concurso escolas de todos os países de língua portuguesa ou escolas portuguesas em países com uma língua materna diferente. Aos três primeiros classificados serão atribuídos 1.000 euros, 500 euros e 250 euros em prémio escolar, respectivamente.

Prémio Literário Fundação Dr. Luís Rainha Correntes d’ Escritas irá premiar uma obra inédita sobre a Póvoa de Varzim (romance, de contos ou poesia) escrita em português. O concurso está aberto a cidadãos portugueses ou de país de expressão portuguesa e espanhola, devendo os textos ser apresentados por escrito e sob pseudónimo. Ao vencedor será atribuída a verba de 2.000 euros e a edição do livro premiado.

Relativamente ao Prémio Literário Casino da Póvoa, que distingue uma obra literária de prosa, na categoria de novela/romance, já chegaram e foram catalogados mais de 120 livros. A Lista de Finalistas, de onde sairá o vencedor, será anunciada em Janeiro de 2020. Ao vencedor, que será conhecido em Fevereiro de 2020, na Cerimónia de Abertura do Encontro de Escritores, será atribuído um prémio monetário de 20 mil euros.

O anúncio das obras premiadas será feito na sessão de abertura do XXI Correntes d´Escritas, ficando a entrega dos prémios reservada para a sessão de encerramento, em cerimónia pública.

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/02/10/21o-correntes-descritas-ira-decorrer-de-15-a-23-de-fevereiro-na-povoa-do-varzim/

Actividades no Hot Clube de 11 a 15 de Fevereiro 2020

 

Hot Clube – Praça da Alegria 48

Dia 11 de Fevereiro

COMBO DE ALUNOS DA ESCOLA DE JAZZ LUIZ VILLAS-BOAS

Esta noite é destinada à Escola de Jazz Luiz Villas-Boas | HCP.

Combo Latino da Escola de Jazz Luiz Villas-Boas, dirigido pelo professor Joel Silva. Concerto a partir das 22h30, passando depois para jam aberta aos músicos que queiram participar. Entrada livre.

Bruno Grácio – saxofone tenor e clarinete; José Cavaco – piano; Ana Albino – guitarra; Artur Morais – baixo eléctrico; Pedro Gonçalves – bateria

Dia 12 de Fevereiro

“PLANETARIUM” (2)

A música de “Interstellar Space” de John Coltrane. Concerto a partir das 22h30. 10€ para não sócios, entrada gratuita para sócios.

22h30:

João Sousa – bateria; Pedro Branco – guitarra.

00h00:

Desidério Lázaro – saxofone tenor; Luís Candeias – bateria.

Dias 13 e 14 Fevereiro

ANDRÉ FERNANDES – “FUSHI”

Concerto a partir das 22h30 (2º set às 00h). 10€ para não sócios, entrada gratuita para sócios.

André Fernandes – guitarra, electrónica; Sara Badalo – voz, loops; Alexandre Frazão – bateria.

André Fernandes apresenta o seu novo projecto FUSHI.

Considerado um dos mais relevantes guitarristas de jazz da actualidade, André Fernandes junta-se à vocalista Sara Badalo e ao baterista Alexandre Frazão no seu novo projecto que junta toda a experiência do seu percurso, que deixa já oito álbuns em nome próprio e participações em mais de cinquenta outros, ao seu envolvimento com a utilização de sonoridades electrónicas contaminadas pelo jazz, musica electrónica e pelo rock.

FUSHI produzem música que nos transporta de um lugar de conforto para outros inesperados, aliando o som da guitarra à voz ora cristalina, ora processada até ao ponto de se assemelhar a novos instrumentos, envolvidos pela criatividade sobejamente conhecida da bateria de Alexandre Frazão.

De canções a paletas sonoras futuristas, FUSHI criam uma experiência que se assemelha a uma viagem que nos leva dos sons orgânicos do jazz, às sonoridades da pop, até à desconstrução de tudo isto, num só movimento criativo em cada actuação.

Dia 15 de Fevereiro

ANDRÉ FERNANDES – “CENTAURI”

Concerto de apresentação do disco “Maria Grancha”, a partir das 22h30 (2º set às 00h). 10€ para não sócios, entrada gratuita para sócios.

André Fernandes – guitarra, João Mortágua – saxofone alto e soprano; José Pedro Coelho – saxofone tenor; Nelson Cascais – contrabaixo; João Pereira – bateria.

ANDRÉ FERNANDES´ CENTAURI “DIANHO”

Desde miúdo que nutro um fascínio pelo misterioso. Acho que ainda o procuro na música que ouço, acho que saber demais sobre algo retira parte da sua magia, encanto e interesse.

Nessa infância/pré-adolescência encontrei regularmente esse mistério nas histórias que ouvia sobre eventos, personagens reais ou fictícias (mas que para mim podiam ser reais) que relatavam situações ou factos normalmente assustadores, e por isso falados em voz baixa, ou com tendência a serem considerados tabú, ou no mínimo não apropriado para miúdos da minha idade. Isso tornava tudo ainda mais apelativo. Lembro-me que a minha avó, natural da Beira Baixa, referia ocasionalmente esse tipo de contos ou lendas, e também tinha um fraquinho pelo sobrenatural, que aliado ao catolicismo da sua geração (para mim já por si suficientemente rico em histórias assustadoras) era fonte de grande curiosidade da minha parte.

Rapidamente percebi que podia encontrar muitas histórias em livros que devorei (Edgar Allan Poe, Stephen King, Clive Barker, etc) e que havia toda uma indústria de cinema dedicada a isto. Fiquei um fã até hoje.

Há uns tempos comprei um livro para as minhas filhas que junta as histórias das personagens que povoam os pesadelos dos portugueses que com elas cresceram. Chama-se Bestiário Tradicional Português ( Ed.Escafandro) e aconselho vivamente. Aí descobri imensas histórias portuguesas sobre monstros, demónios, bruxas e animais fantásticos que moram em Portugal, de norte a sul.

Este disco relaciona-se com algumas delas:

Dianho é o diabo, mafarrico ou galhardo. Por ser comum a todo o país, dá o nome a este disco.

Maria Gancha vive nos poços e é um perigo para crianças curiosas.

O Homem Das Sete Dentaduras vive no Algarve, e ataca ao meio dia nos dias mais quentes.

O Tardo anda nú a meio da noite e toma a forma de animais diversos até se tornar um lobisomem.

As Aventesmas são enormes, usam uma túnica branca e crescem com o nosso medo.

A Velha Da Égua Branca monta a sua égua nas noites de lua cheia e tem uma faca gigante com que solta animais enquanto faz um barulho assustador.

Os Trasgos são os nossos duendes, e divertem-se em casa a fazer travessuras durante a noite. A Bicha-Serpe come crianças mal-comportadas, tem cabeça de abóbora e às vezes anda disfarçada entre nós com um capuz.

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/02/10/actividades-no-hot-clube-de-11-a-15-de-fevereiro-2020/

A luta de classes e os sindicatos na disputa pelo Oscar

O debate estabelecido sobre os concorrentes ao Prêmio da Academia do cinema nos Estados Unidos tem fundo ideológico e histórico.

 

 

Ideologia e luta de classes. No clima do pré-Oscar, com o tema trabalhadores e sindicalismo, esses conceitos têm estado em grande evidência. Mesmo o documentário brasileiro Democracia em vertigem, de Petra Costa, tem essa conotação bem acentuada. O Irlandês, filme de Martin Scorsese, também trata do assunto, mas o mais marcante é o documentário Indústria Americana.

O caso é o da fábrica da General Motors, em Ohio, que fechou em 2008 e, em 2015, foi reaberta como Fuyao Glass America, com dinheiro, tecnologia e sistema de produção chineses. Os chineses que comandam o negócio chamam os norte-americanos de preguiçosos e ineficientes. Estes, reclamam da jornada extenuante e da insegurança no trabalho.

Os operários norte-americanos também querem a presença do sindicato dentro da fábrica, enquanto o empresário chinês presidente mundial da FGA abomina a ideia, argumentando que a organização sindical atrapalha a produtividade. Talvez nos Estados Unidos ele se sinta à vontade para defender essa tese – na China há um rigoroso Código do Trabalho. “O objetivo da vida é trabalho”, diz ele. Essa é uma meia verdade.

Hábitos de trabalho

O conceito de trabalho foi elucidado por Karl Marx, em O Capital, como um ato que se passa entre o homem e a natureza. Seu significado histórico foi brilhantemente analisado por Friedrich Engels no seu artigo O papel do trabalho na transformação do macaco em homem, de 1876. “A natureza proporciona os materiais que o trabalho transforma em riquezas”, escreveu. “Mas o trabalho é muito mais do que isso: é o fundamento da vida humana.”

Engels diz que a formação do homem e da comunidade primitiva aconteceu na medida em que se formava o próprio trabalho humano como processo que gasta uma quantidade de energia física, nervosa e mental para se criar os produtos necessários à sua existência.

Para satisfazer as necessidades vitais, o homem foi obrigado a aperfeiçoar constantemente os instrumentos e os hábitos de trabalho. “O próprio trabalho foi se diversificando, aperfeiçoando-se a cada geração e estendendo-se a novas atividades”, disse Engels. “A agricultura surgiu como alternativa à caça e à pesca, e mais tarde apareceram a fiação e a tecelagem, a manipulação de metais, a olaria e a navegação.”

Máquina a vapor

Com o desenvolvimento do trabalho, emergiram novas relações sociais, o comércio, as profissões, as artes e as ciências. Vieram depois o direito, a política e a religião. “Porém, se o homem levou milhares de anos para aprender, de certa forma, a prever as remotas consequências naturais relativas aos processos produtivos, mais tempo levou para aprender a calcular as longínquas consequências sociais desses mesmos atos”, disse Engels.

“Os árabes, quando descobriram a forma de destilar o álcool, não poderiam nem de longe imaginar que estavam forjando uma das principais armas de extermínio da população indígena no continente americano. Mal sabia Colombo, ao descobrir a América, que estava fazendo ressurgir a escravidão, extinta havia muito na Europa, além de estar estabelecendo novamente as bases para o tráfico de escravos”, analisou.

Chegaram também as alterações nas relações de produção. Antes o artesão produzia as mercadorias e o consumidor ia ao seu local de trabalho fazer a encomenda. Leo Huberman, na obra História da riqueza do homem, relata que Willian Petty, famoso economista do século XVII, pôs em palavras aquilo que já estava ocorrendo nas relações sociais. “A fabricação da roupa deve ficar mais barata quando um compõe as fibras, outro fia, outro tece, outro puxa, outro alinha, outro passa e empacota, do que quando todas as operações mencionadas são canhestramente executadas por uma só mão”, teria dito Petty.

Ao analisar esse fenômeno, com a invenção da máquina a vapor dos séculos XVII e XVIII, Marx afirmou que o homem não suspeitava de que estava criando um instrumento mais poderoso do que qualquer outro, que iria subverter as condições sociais em todo o mundo. “Quando James Watt anuncia em 1735 sua máquina de fiar, e com ela a Revolução Industrial do século XVIII, ele nada fala disso, mas simplesmente de uma máquina para ‘fiar sem dedos’”, disse ele.

Resposta neoliberal

Desse novo mundo surgiram os sistemas políticos modernos, as crises econômicas, as guerras geopolíticas. Com o projeto neoliberal, os Estados nacionais da geografia econômica e política do elo mais fraco foram reduzidos a meros figurantes ou a reles gerentes do entreguismo, sem condições sequer de estender a mão aos que foram para o olho da rua, formando um exército de desempregados superior ao da crise de 1929.

Na outra faixa, igualmente castigada pelo desemprego, muros e xenofobia foram erguidos contra aspirantes a trabalhador clandestino. Em toda parte, a propaganda ideológica passou a difundir a falsa tese de que que a oposição trabalho e capital ganhara novo sentido com o fim da dicotomia Washington-Moscou.

A resposta neoliberal à crise do fordismo keynesiano, considerado incapaz de levar o sistema adiante, na verdade representou uma regressão civilizatória em grande escala. O monstruoso desemprego talvez seja a face mais visível dessa constatação, um dilema dos saltos produtivos.

O mundo evoluiu socialmente desde a máquina de James Watt, como analisou Marx, basicamente pela organização política dos trabalhadores. Contribuíram para isso, em grande medida, as teses do próprio Marx, de Engels e de Vladimir Lênin.

Contribuíram também os ludistas, os socialistas utópicos — e mesmo Frederick Taylor, Jules Henri Fayol e Henry Ford. Estabeleceu-se a tríade “8 horas de trabalho, 8 horas de sono e 8 horas de lazer” como padrão para os trabalhadores do século XX.

Regressão civilizatória

Entre 1950 e 1970, diz o historiador Eric Hobsbawm, o mundo viveu seus anos de ouro: o desemprego manteve-se em níveis relativamente baixos, a expectativa de vida aumentou no mundo todo, a produção de alimentos e bens manufaturados quadruplicou.

Foi também o período em que os trabalhadores obtiveram suas maiores conquistas no mundo capitalista — em grande parte, embaladas pelos ventos que sopravam de Moscou —, inimagináveis pelo proletariado europeu descrito por Marx e Engels no século XIX.

No Brasil mesmo pode-se dizer que a brisa moscovita contribuiu para a moderna legislação trabalhista da Revolução de 1930, agora destruída pelo golpe de 2016 e pela ascensão do bolsonarismo.

Ao virar a moeda do modo de produção capitalista, contudo, compreende-se melhor as causas dessa regressão civilizatória. “Como legislador privado, o capitalista formula seu código de fábrica, caricatura da regulação social, um sistema de punições sobre os salários com o qual o contramestre faz o papel do antigo condutor de escravos”, escreveu Marx.

Quando o capital se apropriou da máquina, disse ele, sua conclamação foi: ao trabalho, mulheres e crianças. “O operário agora vende mulher e filhos; transformou-se em mercador de escravos”, escreveu. Na fábrica, nas palavras de Marx, “o esqueleto da produção é constituído pela cooperação das máquinas”.

Crash da Bolsa de Nova Iorque

A substituição das máquinas a vapor por outras movidas a eletricidade e à combustão interna fóssil, denominada Segunda Revolução Industrial, na virada do século XIX para o século XX, impulsionou outro salto espetacular da produtividade — a produção de mais valor com menor tempo de trabalho.

Associada a uma reestruturação fundamental dos processos de trabalho, seguindo uma avalanche de novas tecnologias de racionalização produtiva, promoveu alterações profundas no cenário econômico. O taylorismo na linha de montagem da Ford mudou radicalmente o modo como as empresas produziam bens e serviços. O transporte foi acelerado. A eletricidade forneceu energia barata e abundante para impulsionar o processo produtivo.

Segundo o escritor americano Jeremy Rifkin, no livro O fim dos empregos, a produtividade aumentou continuamente desde a virada do século. Em 1904, eram necessárias 1.300 horas/homem para construir um carro. Em 1932 era possível construí-lo com menos de 19 horas. Entre 1920 e 1927, a produtividade na indústria americana aumentou em 40%. Ao mesmo tempo, mais de 2,5 milhões de empregos desapareceram.

Em 1929, com a quebra do mercado de ações — o crash da Bolsa de Nova Iorque —, o mundo mergulhou na mais sinistra depressão da era moderna. Mesmo diante dos sinais da crise, contudo, os capitalistas preferiram embolsar o lucro extra total obtido com o aumento da produtividade a transferir uma parte na forma de aumentos salariais.

Henry Ford – que também dizia que o sindicato atrapalha a produtividade – sugeriu que os trabalhadores fossem melhores pagos para que pudessem comprar os produtos, mas seus pares preferiram ignorar o conselho. O sistema estava preso a uma contradição: sem saída para a crise que se agravava, muitas empresas continuaram reduzindo custos com a substituição de trabalhadores por máquinas.

Expansão dos mercados

Em plena depressão, o economista britânico John Maynard Keynes publicou o livro Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, que iria alterar o modo como os governos regulariam a política econômica.

Numa passagem, ele advertiu para um novo e perigoso fenômeno cujo impacto poderia ser aprofundado nos anos seguintes: “Estamos sendo acometidos de uma nova doença da qual alguns leitores talvez ainda não tenham ouvido falar, mas sobre a qual ouvirão falar muito nos próximos anos: o ‘desemprego tecnológico’. Isso significa desemprego como resultado da nossa descoberta de meios de economizar mão de obra, superando a velocidade com que podemos encontrar novos usos para ela.”.

Em O Capital, Marx também comentou o desenvolvimento industrial por esse viés. “Sob sua forma máquina (…), o meio de trabalho se torna imediatamente o concorrente do trabalhador. A máquina cria uma população supérflua, isto é, útil para as necessidades momentâneas da exploração capitalista”, escreveu.

Engels fez o mesmo na obra Do socialismo utópico ao socialismo científico. “É a força da anarquia social da produção que converte a capacidade infinita de aperfeiçoamento das máquinas num preceito imperativo, que obriga todo capitalista industrial a melhorar continuamente a sua maquinaria, sob pena de perecer. Mas melhorar a maquinaria equivale a tornar supérflua uma massa de trabalho humano (…). A expansão dos mercados não pode desenvolver-se ao mesmo ritmo que a produção. A colisão torna-se inevitável”, escreveu.

Entra, nesse diagnóstico, o sistema taylorista, complementado pelo fordismo, como grande impulsionador da produção, sistematizado pelo engenheiro americano Frederick Taylor em seu livro Princípios da administração científica. Usando um cronômetro, ele dividiu a tarefa de cada trabalhador nos menores componentes operacionais e mediu cada um para formular técnicas de economizar segundos preciosos no processo de trabalho. Herry Ford complementou a ideia com a linha de montagem movida a volante magnético.

Desenvolvimento industrial

Vladimir Lênin, o líder da Revolução Russa de 1917, considerou o taylorismo uma aquisição científica. “Deve ser colocado na ordem do dia o aproveitamento do muito que há de científico e progressista no sistema taylorista, observando a proporção entre o salário e o resultado geral da produção”, escreveu ele na obra As Tarefas Imediatas do Poder Soviético.

A proporcionalidade entre salário e lucro, na produção capitalista, a busca desregulada da produtividade, é o motivo central das críticas a esse sistema, mais conhecido como “fordismo”.

Charles Chaplin, no filme Tempos modernos, retratou o homenzinho esmagado pela linha de montagem. Aldous Huxley, no livro O Admirável Mundo Novo, imaginou um futuro no qual os homens seriam tolhidos pela coerção e desnorteados por uma nova religião. Assim como Antônio Gramsci, no seu conhecido trabalho O Americanismo e o Fordismo. “Será que o tipo Ford de indústria e a organização fordista do trabalho e da produção são ‘racionais’?”, indagou.

A dualidade do desenvolvimento industrial — o lucro e o salário — é o grande dilema da produtividade. Na inclinação natural do capitalismo, a tendência é a eliminação de empregos, a desregulação das relações de trabalho e a redução salarial. Não é um fenômeno cíclico. É estrutural.


por Osvaldo Bertolino | Texto original em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado

 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/a-luta-de-classes-e-os-sindicatos-na-disputa-pelo-oscar/

Actividades no Hot Clube de 4 a 8 de Fevereiro 2020

Hot Clube – Praça da Alegria 48

Dia 4 de Fevereiro

BIG BAND DE ALUNOS DA ESCOLA DE JAZZ LUIZ VILLAS-BOAS

Esta noite é destinada à Escola de Jazz Luiz Villas-Boas | HCP.

Big Band de Alunos da Escola de Jazz Luiz Villas-Boas, sob a direcção de César Cardoso. Concerto a partir das 22h30, passando depois para jam aberta aos músicos que queiram participar. Entrada livre.

Dia 5 de Fevereiro

“PLANETARIUM” (1)

A música de “Interstellar Space” de John Coltrane. Concerto a partir das 22h30. 10€ para não sócios, entrada gratuita para sócios.

22h30:

Ricardo Toscano – saxofone alto; João Pereira – bateria.

00h00:

João Lencastre – bateria; André Fernandes – guitarra.

Dias 6 a 8 de Fevereiro

SPIRAL TRIO

Concerto a partir das 22h30 (2º set às 00h). 10€ para não sócios, entrada gratuita para sócios.

Spiro Manesis – piano;Arionas Gyftakis – contrabaixo; Anastasis Gouliaris – bateria.

Estes três músicos gregos, com intensa atividade na Grécia e fora dela, conheceram-se pela em 2012, criando desde o início uma química única, desde vêm desenvolvendo as suas performances ao vivo em clubes de Atenas e festivais por toda a Grécia e Europa.

Hoje, o trio é considerado uma das mais importantes formações de jazz da Grécia. É um trio de piano moderno, com muitas influências das figuras dominantes da formação do trio de piano moderno, embora com referências claras à tradição do jazz. A interação constante, bem como o alto nível de suas habilidades musicais e de improvisação, trazem à música elementos de surpresa, variedade na criação de imagens musicais e imaginação na narração.

O repertório inclui composições originais dos membros do trio, bem como padrões de jazz que são usados ​​como ponto de partida para levar aos vários espaços da música. Em 2015, o Spiral Trio (então Manesis / Gyftakis / Gouliaris Trio) recebeu o primeiro prêmio no “Apollon”, o 1º concurso de jazz grego. Em 2018, eles lançaram seu álbum de estreia, pela ANKh Music Productions, seguido de uma turnê pela Europa.

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/02/03/actividades-no-hot-clube-de-4-a-8-de-fevereiro-2020/

Obras suspensas no Conservatório Nacional

Empreiteiro abandonou a obra a que está contratualmente obrigado. Depois de anos de protestos dos estudantes e professores, a Parque Escolar prometera terminar a requalificação até final de 2020.

Alunos e professores da Escola de Música do Conservatório Nacional, durante a accão «Aulas na Rua» em protesto contra a não realização pela tutela de obras estruturais e de requalificação no edifício, Lisboa, 05 de Março de 2015.CréditosANTONIO COTRIM / LUSA

Depois de mais de seis anos de luta de estudantes e professores, o edifício centenário das Escolas Artísticas de Música e Dança do Conservatório de Lisboa começou a ser requalificado em Maio de 2019, prevendo-se que as obras terminassem no final de 2020. De acordo com o contrato celebrado, as obras estavam orçadas em cerca de 10,5 milhões mais IVA e teriam a duração de 18 meses.

Agora, as obras do Conservatório Nacional estão suspensas. Segundo a Parque Escolar, o empreiteiro que venceu o concurso para requalificar o edifício, em Lisboa, «abandonou a obra e suspendeu unilateralmente os trabalhos a que contratualmente estava obrigado».

Para já, a Parque Escolar admite processar judicialmente a Tomás de Oliveira — Empreiteiros por quebra de contrato e pelo caminho garante estar a trabalhar na solução que «mais rapidamente permita a continuação das obras do Conservatório Nacional, na sequência do incumprimento e consequente cessação de contrato por parte do empreiteiro».

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/nacional/obras-suspensas-no-conservatorio-nacional

Bambolinices regressa com homenagem ao actor Carlos César

A segunda edição do Bambolinices – Festival Internacional de Teatro e Artes Performativas regressa a Setúbal entre os dias 15 e 23 de Fevereiro. Há espectáculos, workshops e uma homenagem ao actor Carlos César.

Créditos / Fórum Luís Todi

A bienal organizada pela cooperativa GATEM – Espelho Mágico, com apoio da Câmara Municipal de Setúbal, tem como objectivos promover o teatro e as artes performativas, cultivar o intercâmbio cultural e a formação de novos públicos.

Na apresentação pública do programa do Bambolinices, o director da GATEM, Ricardo Cardoso, revelou que o programa da segunda edição contempla 19 eventos «para todos os públicos e todos os gostos», distribuídos por diferentes espaços culturais e do movimento associativo da cidade e de Azeitão. 

O Fórum Municipal Luísa Todi, Cinema Charlot – Auditório Municipal, coreto da Avenida Luísa Todi, Núcleo dos Amigos do Bairro Santos Nicolau e Sociedade Filarmónica Perpétua Azeitonense são alguns dos locais que vão receber a segunda edição do evento. 

A organização destaca a descentralização cultural e o facto de ter recebido 48 candidaturas de grupos de teatro nacionais e estrangeiros, «número que comprova o prestígio e a singularidade do evento».

Após um tributo ao actor Fernando Guerreiro na primeira edição, em 2018, o Bambolinices homenageia este ano Carlos César, actor, encenador, fundador do Teatro Animação de Setúbal (TAS) e «figura cimeira do teatro para a descentralização cultural».

A homenagem realiza-se no espetáculo de abertura do festival, no dia 15 de Fevereiro, às 17h, no Fórum Luísa Todi, após a apresentação da peça O Corcunda de Notre-Dame, uma produção da GATEM, adaptada do clássico de Victor Hugo por Miguel Assis.

O programa completo da edição de 2020 do Bambolinices pode ser consultado na página da cooperativa GATEM no Facebook. 

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/cultura/bambolinices-regressa-com-homenagem-ao-actor-carlos-cesar

CTA – PAULO DE CARVALHO – SÁBADO, 1 de FEVEREIRO, às 21 horas, no TEATRO MUNICIPAL JOAQUIM BENITE, em ALMADA

 

 

Paulo de Carvalho dia 1 de Fevereiro no TMJB

 

Uma das melhores vozes portuguesas de sempre, Paulo de Carvalho, vai estar no Teatro Municipal Joaquim Benite para um concerto, dia 1 de Fevereiro, às 21h.

Eis um nome incontornável na música portuguesa das últimas cinco décadas – o nosso Frank Sinatra, podemos dizê-lo. Homenageado pela Casa da Imprensa na Grande Noite do Fado de 1992, foi condecorado com o grau de Oficial da Ordem da Liberdade em 2009, sendo nesse mesmo ano considerado uma das melhores vozes portuguesas de sempre pela revista Blitz. Com a sua voz, deu o mote de partida para a revolução que daria a Portugal uma democracia. Com as suas baquetas de baterista nos Sheiks, o rock português dos anos 60 sonhou com a internacionalização. E com o seu talento como músico e letrista compôs já mais de 300 canções. Paulo de Carvalho é um artista completo, que escreveu para outros grandes nomes da música portuguesa, caso de Carlos do Carmo, Simone de Oliveira, Sara Tavares, Martinho da Vila, Lena D’Água, Mariza, entre muitos outros. Como intérprete, ganhou dois festivais RTP da canção.

Um concerto de Paulo de Carvalho é sempre uma celebração que passa por Nini, Mãe Negra, Os meninos do Huambo, Lisboa Menina e Moça, Os putos e, claro, E depois do Adeus – a canção que serviu de primeira senha à revolução de 25 de Abril de 1974 (tendo a segunda sido a Grândola Vila Morena). Com a transmissão de E Depois do Adeus pelos Emissores Associados de Lisboa às 22h55m do dia 24 de Abril de 1974, era dada a ordem para as tropas se prepararem para depor o regime. Com letra de José Niza e música de José Calvário, a canção foi escrita para ser interpretada por Paulo de Carvalho na 12.ª edição do Festival RTP da Canção, do qual sairia vencedora.

TEATRO MUNICIPAL JOAQUIM BENITE | SALA PRINCIPAL | M/6

1 FEV | SAB | 21H

PREÇO: 9€ a 18€

 

 

 

 +351 21 273 93 60 | +351 91 540 70 94
imprensa@ctalmada.pt | www.ctalmada.pt

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/01/31/cta-paulo-de-carvalho-sabado-1-de-fevereiro-as-21-horas-no-teatro-municipal-joaquim-benite-em-almada/

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