Crise

Recessões e soluções – Parte II

Depois de termos concluído na primeira parte deste texto que talvez a questão mais importante nem seja saber se estamos ou não muito próximo de mais uma recessão mas sim a de saber o que fazer quando ela surgir.

 

 

Depois de termos concluído na primeira parte deste texto que talvez a questão mais importante nem seja saber se estamos ou não muito próximo de mais uma recessão – há muito que as teorias dos ciclos económicos nos dizem que as crises são parte destes e características das economias de mercado – mas sim a de saber o que fazer quando ela surgir, será agora o momento de lembrar que para contrariar as crises tem-se recorrido principalmente à injecção de mais dinheiro no sistema financeiro com a esperança de assim manter os níveis de investimento das empresas e os gastos das famílias. O procedimento habitual tem sido o dos bancos centrais das principais economias cortarem as suas taxas de juro, induzindo assim a sua queda e reduzindo o custo dos empréstimos, mas a experiência da recente crise do subprime mostrou que isso não funcionou; o investimento permaneceu baixo em relação ao PIB, os salários estagnaram e o crescimento económico foi fraco.

Esta situação levou os bancos centrais a recorreram a uma forma de “política monetária não convencional”, na qual estes compraram milhares de milhões de títulos públicos e privados (até mesmo acções de empresas) aos bancos comerciais, num processo conhecido como flexibilização quantitativa (ou quantitative easing, na terminologia anglo-saxónica) que levou a um enorme aumento nas reservas bancárias, pois os bancos que deveriam emprestar esse dinheiro para as empresas investirem não o fizeram. Fosse por excessivo rigor na avaliação do risco desses créditos, fosse porque os bancos necessitavam dessa liquidez para cobrir as suas próprias fraquezas no que respeita a créditos em incumprimento ou porque as empresas não precisavam de recorrer ao crédito, o certo é que todo esse dinheiro acabou desviado para aplicações meramente especulativas, investido em acções e títulos, que levou os mercados financeiros a disparar enquanto a economia “real” continuava estagnada.

O fracasso da política monetária, seja a convencional ou a não convencional, está a deixar os bancos centrais sem ideias; os investidores sabem-no e será por isso que os rendimentos (yields)dos títulos são negativos e, em alguns países, a curva de rendimento se apresenta invertida.

Os mais perspicazes entre os economistas convencionais já reconhecem que a flexibilização quantitativa não tem funcionado e até alguns keynesianos que antes a defendiam já admitem o seu fracasso, dando novo alento aos grupos monetaristas mais radicais que defendem alguma subalternização do sistema bancário e a emissão de dinheiro para distribuição directa para as famílias gastarem.

A teoria e a evidência é de que a acumulação e a produção capitalistas avançam numa sucessão de booms e crashes, de magnitudes e durações variáveis culminando regularmente num colapso dos lucros, que destrói investimento, emprego, rendimentos e consumo.

Os keynesianos consideram que as economias capitalistas podem ser retiradas das recessões por governos que contraiam mais empréstimos do que recebem em receitas fiscais (aumentando os défices orçamentais), ou seja endividam-se quando as instituições financeiras compram os seus títulos, e os pós-keynesianos e os mais radicais defensores da moderna teoria monetária, concordam em que a “flexibilização fiscal” é a resposta para restaurar o crescimento, o investimento, o emprego e os rendimentos numa economia capitalista e acham que nem mesmo é necessário emitir títulos para esse fim, pois os governos podem simplesmente imprimir o dinheiro e depois gastá-lo em projectos úteis. Recuperado o crescimento e alcançado o pleno emprego e num período com rendimentos crescentes, qualquer serviço da dívida pode ser financiado e pode então reduzir-se a oferta de dinheiro pelo governo e moderar qualquer possível inflação se a economia estiver a sobreaquecer.

Contrariando um pouco toda esta lógica uma moderna corrente marxista defende que o que impulsiona as economias capitalistas e a acumulação de capital são os lucros; para eles o crescimento económico numa economia capitalista é impulsionado não pelo consumo, mas pelo investimento empresarial. Por outras palavras, este investimento é impulsionado sobretudo pelos lucros ou pela perspectiva de lucros e não pelas taxas de juros, pela confiança ou pela procura dos consumidores. É essa explicação simples, óbvia e empiricamente confirmada de booms e recessões regulares e recorrentes que é ignorada ou negada pela economia convencional (incluindo keynesiana) e heterodoxa pós-keynesiana, que esquecem que vivemos numa economia capitalista onde as decisões de investimento que impulsionam qualquer economia são feitas por empresas capitalistas, que só investem se estiverem confiantes em obter bons lucros, ou seja, se a rentabilidade do investimento for alta e crescente. Assim, se o investimento e o crescimento dependem das decisões das empresas capitalistas só conheceremos outra realidade se os governos tomarem as decisões de investimento por si próprios e substituírem o sector capitalista através de opções estatais, como sucede actualmente na China.

Esta argumentação sustenta ainda que são várias as evidências empíricas que justificam a ideia que os gastos públicos têm pouco ou nenhum efeito na promoção do crescimento económico ou do investimento, como o demonstra o exemplo do Japão, país que vem gerando défices há quase duas décadas sem fomentar taxas de crescimento relevantes.

A mesma lógica chama a atenção para a situação nos EUA onde os cortes nos impostos aplicados pela administração Trump aumentaram o défice orçamental dos EUA nos últimos anos e, no entanto, a economia está a desacelerar rapidamente, facto mais que confirmado pela variação anual dos lucros empresariais do que pela inversão na curva de rendimentos.

Será então de concluir que soluções monetárias e orçamentais para as recessões que preservem um sistema capitalista meramente produtor de lucro não funcionarão. A flexibilização monetária voltou a falhar, tal como aconteceu com a flexibilização orçamental, pois o sistema capitalista necessita das recessões para se revitalizar através da eliminação dos mais fracos e para conseguir uma redução dos custos de produção, o aumento dos lucros e o incentivo ao investimento. Este permanente ciclo de recessões deixa antever que outra estará a caminho… e que só uma clara inversão no paradigma organizacional do sistema capitalista baseado no lucro poderá interromper esse ciclo.

 
Primeira parte
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/recessoes-e-solucoes-parte-ii/

Recessões e soluções – Parte I

À medida que as bolsas de valores oscilam ao sabor dos movimentos especulativos, o grande foco da imprensa financeira é sobre a hipótese de uma nova recessão global estar a formar-se.

Os analistas financeiros procuram indicadores económicos ou financeiros que possam orientá-los e o favorito é a “curva invertida do rendimento de títulos” (“inverted bond yield curve“), que avalia a diferença entre a taxa de juro anual dos títulos de curto e de longo prazo.

Normalmente a curva das taxas de juros para títulos com maturidades crescentes é ascendente, o que traduz a expectativa de obter uma taxa de juro mais alta nos empréstimos de maior maturidade. Mas, por vezes, no mercado secundário o rendimento dos títulos a dez anos fica abaixo dos de dois anos ou mesmo de três meses, obtendo-se assim uma curva de juros invertida.

Esta situação ocorre quando os grandes investidores em activos financeiros (bancos, fundos de pensões, empresas e fundos de investimento) antecipando uma evolução desfavorável das economias não querem continuar a manter acções ou títulos de empresas nas suas carteiras (ou seja, investir ou emprestar dinheiro), preferindo no seu lugar activos mais seguros, como as obrigações de dívida pública. A maior procura por títulos de dívida pública vai fazer subir o seu preço no mercado e uma vez que estes são títulos de dívida fixa (o governo paga sempre o mesmo juro desde a emissão até à maturidade) à subida do preço corresponde uma redução no respectivo rendimento e ao fenómeno da inversão da curva de rendimento.

Evidências empíricas mostram que sempre que isso acontece por um período suficientemente longo, cerca de um ano, segue-se uma recessão económica.

A fiabilidade desta ligação directa entre uma inversão sustentada da curva de rendimentos e a aproximação de uma recessão é questionável pois tudo o que significará é que os investidores estão com medo da recessão, mas podem estar errados. Se olharmos, porém, para a experiência nos mercados de capitais, onde é bem conhecido o efeito de mimetismo que inúmeras vezes transforma os receios em realidades catastróficas, pode bem acontecer que o sentimento negativo se generalize facilitando a tão receada recessão, mesmo quando existem indicadores, como o diferencial entre os yields das obrigações empresariais norte-americanas, que apontam em sentido inverso.

Outra perspectiva é a apresentada por Myron Scholes (Nobel em 1997) e Ash Alankar num artigo publicado na Bloomberg onde referem que:

 
[e]mboraa forma anormal da curva das obrigações do Tesouro exija atenção, anos de flexibilização monetária criaram um conjunto único de circunstâncias, dificultando concluir com certeza que a inversão inevitavelmente significa recessão pendente» para concluírem que «umas vezes, a história diz-nos muito para nos ajudar a prever o futuro, outras vezes diz-nos pouco. Neste caso, pode não ser prudente dar muito peso às experiências recentes».
 
 
 

Deixando a esfera financeira e olhando para indicadores da economia real, como o da evolução do PIB, constata-se que entre os países do G7 o crescimento económico está a tender a rapidamente para zero; com excepção da Índia (7,4%), China (6%), Indonésia (5,1%), que embora desacelerando registam taxas de crescimento decentes e dos EUA, com um crescimento de 2,3%, os restantes apresentam: Canadá (1,3%), França (1,3%), Japão (1,2%) Reino Unido (1,2%), Rússia (0,9%), Brasil (0,5%), Alemanha (0,4%), Itália (0,0), México (-0,7%), Turquia (-2,6%) e Argentina (-5,8%). Dados que revelam que vivemos já uma recessão no sector industrial e que apenas sectores de serviços – como a saúde, a educação e o turismo, que em última análise dependem da vitalidade dos sectores produtivos da economia para manterem as suas vendas e os seus lucros – estão a sustentar a economia mundial.

Outro sinal positivo será o facto de muitas economias registarem situações de pleno emprego (pelo menos nas estatísticas oficiais), mas este resulta dos baixos salários e do aumento da precariedade dos postos de trabalho, com destaque para o trabalho a tempo parcial e por conta própria, factores que além de contribuírem para uma situação de empobrecimento generalizado e para a redução das taxas de poupança das famílias, tornam insustentável o recurso ao endividamento, por mais reduzidas que sejam as taxas de juro. E elas estão historicamente baixas, a ponto de já haver títulos de dívida pública com taxas de juro negativas (casos da Dinamarca e da Alemanha, país onde a dívida com maturidades entre os 2 e os 30 anos têm taxas de juros negativas), facto apenas explicável por os investidores recearem uma recessão global que provoque um colapso nos mercados de acções e de outros activos financeiros com maior risco.

Mas talvez a questão mais importante nem seja saber se estamos ou não muito próximo de mais uma recessão, há muito que as teorias dos ciclos económicos nos dizem que as crises são parte destes e características das economias de mercado, mas sim a de saber o que fazer quando ela surgir.

 

 

 

 

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/recessoes-e-solucoes-parte-i/

Notícias da guerra civil

(António Guerreiro, in Público, 27/09/2019)

 A falência da agência de viagens Thomas Cook é um acontecimento da ordem dos desastres económicos colossais, como aquele que se deu com o colapso do Lehman Brothers, em Setembro de 2008. E utilizo aqui a palavra “colossal”, acenando ao uso que dela faz Kant na sua analítica do sublime, para sugerir que no plano da economia aquilo que atinge uma grandeza suprema é visto como o resultado da racionalidade e do cálculo pragmático, mas quando desaba – o que acontece geralmente sem aviso prévio, para não criar pânico e para que se dê uma anestesia pelo choque – oferece-se a um espectáculo que tem uma dimensão sublime, se pensarmos que o conceito de sublime, nas suas elaborações modernas, do século XVIII, está ligado a uma ideia de “terror”.

 

Thomas Cook, que nasceu e viveu em Inglaterra entre 1808 e 1892, começou por ser jardineiro e carpinteiro. Mas sonhou bem alto e tornou-se naquilo a que hoje se chamaria um “empreendedor” e criador de uma startup que transformava em negócio os sonhos de progresso e socialização do conhecimento e do lazer. Em Julho de 1841, organizou uma viagem colectiva, para os membros de uma instituição, entre Loughborough e Leicester. Foi uma experiência inaugural (a palavra “turismo” surgiu mais ou menos pela mesma altura) que deu origem à agência de viagens que, nas suas várias metamorfoses, teve uma vida longa de 178 anos. Nasceu com a condição de pioneira absoluta, cresceu como um emblema universal e morreu quando as circunstâncias da indústria turística, aparentemente, pareciam assegurar-lhe uma posteridade sem fim à vista. Quando já estava bem implantada, no final do século XIX, a agência baptizada com o nome do seu fundador teve que lidar com uma singular contestação que importa hoje ser lembrada para dar uma perspectiva histórica a fenómenos actuais da mesma natureza, mas com novas motivações: a viagem turística que Thomas Cook promoveu, para uma burguesia endinheirada, foi objecto de um enorme desprezo aristocrático, era vista como o triunfo da vulgaridade.

O colapso que se deu agora teve como efeito imediato deixar umas centenas de milhares de pessoas (há notícias que falam de 600 mil, mas há outras que avançam números não tão elevados) “bloqueadas” nos sítios do mundo onde estavam a passar férias. A passagem do estado de turista ao estado de vítima de uma espécie de guerra civil planetária foi automática. Os turistas ficaram imediatamente sujeitos à condição de reféns e refugiados, obrigando a operações de repatriamento que puseram em acção uma logística marcial. Os lugares onde os turistas ficaram sitiados não sofreram nenhumas transformações, não foram atingidos por nenhuma catástrofe, mas passaram de um momento para o outro a ser lugares infernais: de tão fácil na ida, tão caros na volta. O que nos obriga a pensar: o que pagamos por uma viagem a qualquer parte do mundo não tem que ver com nada que seja da ordem de uma realidade, por exemplo o tempo de trabalho de terceiros e os gastos materiais necessários, mas com valores especulativos e de ordem simbólica. E, mais uma vez, ganha evidência esta verificação: o poder, hoje, é logístico. Basta que, nesse domínio, algo falhe ou seja voluntariamente bloqueado para que se instaure o caos, senão mesmo a situação de guerra.

 E, de repente, tudo o que era sólido dissolve-se no ar. E muito rápida é a passagem de turista a pária que só pode contar com os deveres do país de origem de proteger os seus cidadãos, onde quer que eles estejam em perigo, se não puder pagar por uma noite no hotel o que lhe custou a totalidade da viagem, e pelo regresso a casa a soma que daria para fazer férias no ano seguinte.

A economia dos bens simbólicos (como é, no seu modo de existência actual, a economia do turismo) funciona desta maneira: para que umas coisas sejam muito baratas, é preciso que outra sejam muito caras; e para que seja muito fácil ir é preciso que, em certas circunstâncias, seja muito difícil voltar. O que dantes fazíamos com toda a tranquilidade, quando viajávamos, começa a exigir gestos temerários. Um aeroporto é hoje o lugar de todos os perigos: ele fornece a imagem abreviada e condensada de uma guerra civil planetária em curso.


Livro de Recitações

“Estranho povo este, que não olha para as eleições como se de um circo se tratasse”
Luís Aguiar-Conraria, in PÚBLICO, 24/09/2019

Com esta frase irónica, o professor de economia da Universidade do Minho e colunista deste jornal terminava um artigo onde mostrava que há sinais claros de que o modo como a campanha eleitoral e os debates entre os partido são tratados pelos jornalistas, em que o pressuposto é que o povo fútil e ignaro quer é espectáculo de diversão, não corresponde à verdade e é afinal esse jornalismo que oferece o espectáculo pindérico da sua ignorância e irresponsabilidade. Uma pesquisa mais funda e alargada talvez mostrasse que este equívoco está generalizado e as elites responsáveis por um “editorialismo” que tudo faz para satisfazer o cliente afinal satisfaz menos clientes do que supõe e aliena grande parte da clientela que, à partida, estaria segura. Quando as “elites” já nem sequer estão ao nível das massas porque estão baixo, então algo está errado nisto tudo e precisa de ser repensado.


 

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Macron confessa-se ou as angústias da burguesia francesa ...e alemã

 
"O fascismo não é o contrário da democracia burguesa, é a sua evolução em tempos de crise",
B. Brecht
 
por Daniel Vaz de Carvalho

Macron, o banqueiro dos Rothschild. 1 - A burguesia no "fio da navalha" das crises

Em 27 de agosto o sr Macron proferiu um discurso perante os embaixadores franceses, em que fez praticamente o pleno sobre política internacional, economia, soberania, NATO, UE, interesses da França em África e no Médio Oriente, etc, afastando-se da habitual ortodoxia, porém praticamente ignorado pelos grandes media.

Macron, limita-se a ser porta-voz e um dos executantes dos interesses da burguesia francesa, em íntima ligação com as posições do governo alemão. Os últimos presidentes franceses limitaram-se a ser arautos de políticas decididas em Berlim. Por isso, é importante percebermos o que diz e por que o diz.

Em primeiro lugar, avaliemos os contextos deste discurso, que reflete as preocupações da burguesia francesa e por certo alemã. É significativo que Macron, que tem demonstrado ser uma nulidade intelectual e política, de repente se exprima de forma alheia à ortodoxia vigente, sobre política internacional, ordem mundial, globalização, soberania, economia de mercado.

A França está em estagnação desde a adoção do euro. Que surpresa! De 2000 a 2018 o crescimento médio anual foi inferior a 1,3%, mas de 2008 a 2018 apenas 0,86%. A BC de bens, positiva antes de 2000, atingiu em 2018 um défice de 76,7 mil milhões de euros! (dados AMECO) Acrescente-se o atraso tecnológico e industrial da França em muitas áreas face a parceiros/concorrentes e a perda de voz na cena internacional.

Na lista da Forbes entre os 50 primeiros ultraricos contam-se 25 dos EUA com a agravante de estarem nos primeiros lugares (8 entre os 10 primeiros), mas apenas dois franceses. A Alemanha conta com cinco. Esta classificação não agrada aos oligarcas.

A agitação social não cessou, o total descrédito dos políticos do sistema e da UE, a ascensão de uma direita mais radical, que em muitos aspetos coloca em causa os dogmas neoliberais e o federalismo da UE, conquistando largas camadas da "classe média", coloca a burguesia francesa e não só, no "fio da navalha", perante o avanço de nova crise económica e financeira.

Já antes das manifestações dos coletes amarelos as sondagens davam a Macron apenas uns 26% de apoio. Face a isto, não deixa de ser sintomático o esforço mediático desde então para promover Macron, "omnipresente em todas as suas facetas e em todos os canais" [1]

2 - Política internacional: "enfrentando o fim da hegemonia ocidental no mundo"

Diz Macron que a ordem internacional está a ser abalada de uma maneira sem precedentes: uma grande reviravolta em quase todos os campos, com uma magnitude profundamente histórica, que traduz uma recomposição geopolítica e estratégica. "Provavelmente, estamos enfrentando o fim da hegemonia ocidental no mundo".

"A posição ocidental no mundo profundamente abalada pelos erros dos ocidentais em certas crises, pelas escolhas, também americanas durante vários anos e que não começaram com esse governo, mas que levam a revisitar certas implicações dos conflitos no Médio Oriente e noutros lugares".

Desta forma, Macron diz ser necessário repensar profundamente uma estratégia diplomática e militar, mesmo "elementos de solidariedade que pensávamos serem intangíveis para a eternidade, mesmo que a tivéssemos formado juntos em momentos geopolíticos que hoje mudaram".

Por outras palavras, os EUA que façam o seu caminho que nós faremos o nosso. Mas quem? A França e a Alemanha? A UE? A zona euro? Com quem não é claro, mas o facto é que aqueles "nós" olham agora estarrecidos para Leste.

Reconhece-se "o surgimento de novos poderes, cujo impacto provavelmente subestimamos há muito tempo. A China na vanguarda, mas também a estratégia que a Rússia liderou, é preciso dizer, nos últimos anos com mais sucesso. A Índia emergente, essas novas economias que estão se tornando não apenas económicas, mas também políticas e que se pensam como verdadeiras civilizações estatais e que não apenas empurram a nossa ordem internacional, como chegam a pesar na ordem económica, a repensar a ordem política e o imaginário político que a acompanha. A Índia, Rússia e China, têm uma inspiração política muito mais forte do que os europeus de hoje. (...) uma lógica real, uma filosofia verdadeira, um imaginário que perdemos um pouco".

Eis como as burguesias dominantes na UE (alemã e francesa) verificam que se tornam cada vez mais irrelevantes, agarradas a teses falhadas, ao contrário da "estratégias de sucesso da Rússia".

3 - A "ordem internacional"

A intervenção de Macron reflete a desorientação que reina na "ordem internacional" que o ocidente (leia-se NATO e aliados) comandava: "Acostumámo-nos a uma ordem internacional que se baseava na hegemonia ocidental. As coisas estão mudando". Macron refere-se também ao insucesso relativo do G7, que exibiu divergências, incapacidade de consenso e liderança.

O receio de aventuras bélicas "num mundo onde os conflitos se multiplicam", e cujas consequências diretas, como no caso do fim do tratado INF (misseis de médio alcance) em que "os mísseis retornariam sobre o nosso território" ou indiretas lançando o caos nas economias e no comércio internacional: "uma ordem em que nossa segurança e organização se baseia e está desaparecendo".

O distanciamento em relação aos EUA é evidente, quer no fim dos tratados de controlo de armas, na questão do Irão ou das relações com a Rússia. "É indispensável estruturar a Europa para um novo relacionamento com a Rússia". Neste sentido é anunciada a visita dos ministros das Relações Exteriores e o ministro dos Exércitos, a Moscovo para retomar "um diálogo constante com o Presidente Putin, criando um grupo de trabalho para avançar nessa arquitetura comum".

Quanto ao Irão, é deixado claro, que todos (no G7) estão comprometidos com a estabilidade e a paz na região". Isso significa que todos também se absterão de comportamentos que possam ameaçar essa paz e estabilidade". Embora decididos a não permitir que o Irão obtenha a arma atómica.

O que é evidente, é que os EUA e aliados (incluindo a França) podem ter vencido batalhas mas não ganharam nenhuma guerra, pelo contrário criaram caos, fragilizaram a economia, degradaram a situação internacional, envolveram-se em atoleiros de que não sabem sair. Bem pode Macron lastimar a Líbia "cena inaceitável ao nível humanitário" que a França ajudou a criar, podia também falar da situação no Iémen criada pela Arábia Saudita (outra derrota "ocidental"), grande cliente de armas francesas.

Por seu lado, aparecendo como vencedora "a Rússia maximizou todos os seus interesses no contexto atual: voltou à Síria, voltou à Líbia, voltou à África, está em todos os assuntos de crise por nossas fraquezas ou erros".

As oligarquias francesa e alemã, parecem finalmente reconhecer que atreladas ao carro de guerra dos EUA caminham para o desastre. A falhada hegemonia dos EUA quer manter-se sobre os pés de barro do dólar, o poder militar, um estatuto imperial e uma ganância que desestabiliza e ameaça destruir o mundo inteiro, sem sequer ter em conta os interesses dos seus aliados mais próximos.

"A ordem em que nossas certezas e nossa organização repousam está desaparecendo isso deve-nos levar a questionar nossa própria estratégia, porque hoje os que têm cartas reais nas mãos são os EUA a China". Esta constatação leva-o a colocar a questão da fragilidade da UE e da incapacidade de ter uma política própria, limitando-se a decidir "ser aliados minoritários de um ou de outro ou um pouco de um e um pouco do outro ou decidir ter nossa parte no jogo e pesar".

4 - Economia de mercado, globalização

Seria divertido apreciarmos as piruetas políticas destes títeres da oligarquia, caso não nos envolvessem nelas. Afinal, após anos de propaganda de não haver alternativa, dizem-nos que "estamos passando por uma crise sem precedentes na economia de mercado.

Uma economia "profundamente financiarizada e o que era uma economia de mercado, que alguns poderiam até teorizar como uma economia social de mercado e que estava no centro do equilíbrio em que pensávamos, se tornou um capitalismo cumulativo, (...) levando a uma maior concentração de riqueza". Uma "economia de mercado produzindo desigualdades sem precedentes que, no final, abalam profundamente nossa ordem política".

Parece então que o problema já não é não se explicar devidamente as "reformas", como diziam, mas do seu descrédito. "Como explicar aos nossos concidadãos que é uma boa organização quando eles não encontram sua parte. Quando as classes médias, que são a base de nossas democracias, não têm mais a sua participação, duvidam e são legitimamente tentadas por regimes autoritários, democracias iliberais ou pondo em questão o sistema económico".

A globalização também é posta em causa: "portanto, devemos encontrar os meios para repensar a globalização, mas também para repensar essa ordem internacional".

E necessário "manter empregos em nosso país". Como? Fazer "concessões vacilantes a grupos nos quais não podemos fazer nada". Mas a estratégia adaptação também não serve. Consiste em dizer: é necessário correr mais rapidamente contra esse mundo em movimento", "fazer reformas para alcançar outros tentando nada mudar de verdade. Este é um cenário que rapidamente nos levará ao mesmo resultado". Ou seja, a requentada história das "reformas estruturais" não passa de uma falácia"...

Por fim – era o que estava a faltar (!) – queixa-se das privatizações: "a crise económica e financeira, levou vários Estados a privatizações forçadas sem opção europeia, decidindo reduzir sua soberania entregando muitas infraestruturas essenciais no sul da Europa aos chineses. Não culparemos os chineses por serem inteligentes, podemos nos culpar por sermos estúpidos". (!) Pois sim, mas nem agora nem antes as troikas foram questionadas, nem as austeridades para compensar a banca francesa e alemã, nem as imposições dos famigerados tratados orçamentais da UE – que a França não cumpre.

5 - UE e soberania

É necessário "trabalhar pela construção de uma soberania europeia (...) militar, estratégica, em todos os assuntos. Esta não é uma iniciativa para desafiar a NATO, mas é complementar a ela muito profundamente, porque também nos dá espaço para manobras e autonomia estratégica."

Em termos de soberania "devemos repensar em nossas fronteiras. Devemos ser mais capazes de proteger nossas fronteiras". Quanto aos migrantes o objetivo é que possam "retornar ao seu país de origem com o apoio da União Africana" e da UE.

Torna-se evidente que a burguesia francesa não está interessada na atual UE em que países do Leste estão mais alinhados com os EUA do que com a CE, arrastando os demais para confrontos contrários aos interesses da França e da Alemanha.

O interesse da burguesia francesa é pela zona euro, que obviamente tem intenções de controlar, servindo-se de reforçados mecanismo financeiros que deseja aprofundar para se salvar a ela própria. "Precisamos lutar por um reforço, uma maior integração da área do euro, uma maior integração dos mercados e atores financeiros da zona do euro e uma capacidade de construir tudo o que realmente constrói soberania financeira e monetária, é indispensável".

Os interesses dos países periféricos não contam. A questão é saber se a Alemanha vai nisso de favorecer a França à sua custa, embora, segundo os tratados a Alemanha, já devesse ter sido penalizada pela dimensão do excedente comercial

6 - Concluindo

A França e a Alemanha vêm a "sua" "Europa" e elas próprias entrarem em crise tendo apenas soluções que se mostraram inúteis ou contraproducentes. O que Macron afirma sobre a "adaptação" e o prosseguimento das medidas atuais entra em choque com a política decidida pelo BCE.

Os burocratas da CE, fixados nos dogmas que os suportam, não chegam a uma solução para o Brexit, aliás uma forma de mostrar às tendências centrífugas o que o futuro lhes reservaria. A Leste os vários países mostram que acima da UE a sua fidelidade é para com os EUA que ajudaram a colocar no poder e suportam cliques neofascistas e corruptas que os dominam, funcionando como agentes da agressividade contra a Rússia.

Apesar do silêncio dos media controlados pela oligarquia, um país com as ambições da Alemanha não pode ignorar o dinamismo da Organização de Cooperação de Shangai, da Nova Rota da Seda, nem mesmo da União Económica Eurasiática [2] , face ao descalabro da economia mundial liderada pelos EUA, FMI, BM, OMC, que já mostraram não ter controlo sobre o que se passa na economia.

A agressividade dos EUA, roça o desnorte de uma guerra total, ameaçando em primeiro lugar os países europeus sede de inúmeras de bases norte-americanas.

O comércio internacional não progride, preso às agendas imperialistas que têm conduzido a Estados caóticos e a sanções contra importantes clientes, como a Rússia cujas retaliações recaíram significativamente sobre as exportações da França e da Itália.

A França permanece envolvida em guerras e conspirações na África francófona, resultando em caos, miséria, corrupção. O capitalismo precisa de expandir os mercados, mas as políticas da sua ganância conduzem ao desastre global.

A "classe média" que a oligarquia considera o esteio do seu domínio pela democracia burguesa, foge-lhe pela indiferença, pelo desprezo a que vota os seus políticos, pelo descrédito de protagonistas dessa mesma burguesia atolada em escândalos, fraudes, crises nunca resolvidas e uma austeridade permanente que apenas beneficia os ultra-ricos.

Para tudo isto a solução habitual do capitalismo é a guerra e isso pretendem muitos nos EUA e os seus próceres da NATO. Porém, acordam das suas mentiras e verificam que o "ocidente" perdeu a superioridade tecnológica para a China, a superioridade militar para a Rússia, os domínios imperialistas e neocoloniais estão ou caóticos ou endividados, enfrentam crescente resistência popular, dificilmente a exploração pode ser levada mais longe.

A Rússia e a China tornam inúteis as arrogantes ameaças dos EUA ao Irão. A Rússia garante continuar a cooperar e apoiar o sistema bancário iraniano. A China investe 400 mil milhões de dólares no Irão: 280 para o sistema petrolífero e petroquímico, 120 em infraestruturas de transporte e produção.

A UE é o mais evidente falhanço do poder entregue à burocracia. Não é possível manter as mesmas políticas, suportadas pelas ameaças contidas nos seus Tratados e no poder de chantagem atribuído ao BCE.

Claro que os habituais "especialistas" e analistas" e outros "comentadores" devem estar a ser reciclados para ver qual a direção a tomar no seu discurso. Neste momento preferem o silêncio sobre estes temas. Lembremos o recente litígio – um entre vários – surgido na Alemanha com o embaixador dos EUA, acerca da compra de petróleo à Rússia, que seria substituído pelo "petróleo da liberdade" (!) dos EUA – bastante mais caro.

Torna-se evidente a recusa da unipolaridade dos EUA. Macron reflete as "angústias" da oligarquia francesa e alemã, pelos fracassos imperialistas e neocoloniais. O Ocidente não consegue ganhar nenhuma das guerras em que se envolveu: criou caos, endividou-se, liquidou comércio necessário para contrariar a tendencial queda da taxa de lucro.

O mais curioso de tudo isto é Macron, sem pudor, seguindo ordens dos seus mentores, copiar quase integralmente o programa do partido da sra. Marine le Pen (M le P), e do seu criptofascismo, tanto nos aspetos de política internacional, como nas relações de soberania, migrações, controlo de fronteiras, críticas à "economia de mercado" e à UE.

Até na tese de M le P querer um "Estado estratega", Macron alinha ao confessar que não tem mais controlo sobre as políticas "dos grupos". Que diferenças existem na posição sobre o movimento sindical? Sobre as migrações, sobre as relações com a Rússia e África ou Médio Oriente. Mesmo sobre a UE e euro as diferenças passam a mínimas dado que M le P já tinha deixado cair as propostas mais radicais. Até a "democracia musculada" de M le P, foi posta em prática de maneira mais que brutal contra os "coletes amarelos".

Tudo o que serviu para eleger Macron contra a "extrema-direita" de M le Pen foi deitado para o lixo, perante uma "esquerda ausente" [3] adotando o programa da sua principal oponente, aliás à frente do partido de Macron nas eleições para o PE.

Portanto não surpreende que a burguesia mande Macron roubar o programa da le Pen. É que Macron é um homem que a oligarquia escolheu e controla, coisa que não têm por garantido com M le Pen.

Assim vai a UE e em geral o mundo capitalista entre a guerra e os fascismos. Mas como disse Brecht: "o fascismo não é o contrário da democracia burguesa é a sua evolução em tempos de crise".

Aqui chegámos. Mas uma pergunta se impõe: o que é que os interesses nacionais têm a ver com este vespeiro?

[1] A desinformação dos media dominantes sobre a vida internacional: mentiras, manipulações, silêncios, resistir.info/varios/desinformacao_dos_media.html
[2] A União Eurasiática, visa a integração económica e política entre a Bielorrússia, Cazaquistão, Rússia, Quirguistão, Tajiquistão, Moldávia (observador), prevendo-se alargar à Mongólia, Síria, Tajiquistão, tendo já acordos de comércio com outros nove Estados, entre os quais Vietname, Índia, Irão, Tunísia, etc.
[3] A esquerda ausente, Domenico Losurdo, resistir.info/losurdo/esq_ausente.html

O discurso integral de Macron encontra-se em www.elysee.fr/...

Este artigo encontra-se em https://resistir.info/ .

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/v_carvalho/macron_confessa_se.html

Banco dinamarquês revela precursores de nova crise econômica global

Bolsa de valores de Nova York (foto de arquivo)
© AP Photo / Richard Drew

O declínio nos rendimentos de 30 anos dos títulos do governo dos EUA a mínimos históricos indica a aproximação de uma nova crise econômica, afirmou economista-chefe e diretor de Tecnologia da Informação do Saxo Bank, Steen Jakobsen, para Sputnik.

No fim de agosto, os rendimentos de 30 anos dos títulos do governo americano caíram em meio à volatilidade dos mercados globais e ao aumento dos riscos para a economia global. Ao mesmo tempo, em 28 de agosto, o índice caiu para 1,905%, um novo mínimo histórico.

Jakobsen observou que um declínio tão acentuado nos rendimentos dos títulos poderia ser um prenúncio de uma nova crise.

"Especialmente se falarmos de uma redução simultânea das taxas de juro e da curva a termo. Esses dois fatores são precursores do crescimento negativo, que, por sua vez, terá um impacto sobre os ativos", explicou a fonte da agência.

"Prestamos muita atenção na probabilidade de recessão, porque, quando isso acontece, os ativos perdem uns 25% do valor. Ou seja, se você tem uma carteira clássica e não faz nada, durante a recessão, você perde 25%, se não todos os 50% do valor básico", concluiu.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/economia/2019091714527142-banco-dinamarques-revela-precursores-de-nova-crise-economica-global/

ANATOMIA DA PRÓXIMA RECESSÃO GLOBAL

 
 
Aos desequilíbrios financeiros já conhecidos, somam-se três prováveis choques de abastecimento – todos gestados pelos EUA. Agora, de nada adiantará inundar de dinheiro os mercados. Das entranhas de uma crise, pode surgir outra maior
 
Noriel Roubini | Outras Palavras | Tradução: Antonio Martins | Imagem: Robert Cenedella, Pence on Earth (2017), detalhe
 
Há três choque negativos de abastecimento que poderiam desencadear uma recessão global em torno de 2020. Todos refletem fatores políticos que envolvem relações internacionais. Dois envolvem a China, e os Estados Unidos estão no centro de todos. Mais importante: nenhum deles pode ser aplacado pelas ferramentas tradicionais de política macroeconómica contracíclica.
 
O primeiro choque potencial deriva da guerra comercial e monetária entre Estados Unidos e China, que ampliou-se no mês passado, quando o presidente norte-americano, Donald Trump, ameaçou impor tarifas adicionais às exportações chinesas e rotulou formalmente a China como “manipuladora de moedas”. O segundo diz respeito à guerra fria de lenta maturação entre EUA e China sobre tecnologia. É uma rivalidade com todas as marcas de “Armadilha de Tucídides”. A China e os EUA disputam entre si o domínio sobre as indústrias do futuro: inteligência artificial (IA), robótica, 5G e outras. Os EUA incluíram a gigante chinesa Huawei em sua lista de companhias estrangeiras que representam, supostamente, uma ameaça à segurança nacional. Embora a Huawei tenha se beneficiado de exceções temporárias, que lhe permitem continuar usando componentes norte-americanos, o governo Trump anunciou, esta semana, que está acrescentando 46 parceiras da Huawei à lista.
 
O terceiro grande risco relaciona-se às fontes de abastecimento de petróleo. Embora os preços tenha caído nas últimas semanas, e uma recessão desencadeada por uma guerra comercial, monetária e tecnológica tenda a deprimir a demanda por energia a a reduzir os preços, um confronto dos EUA contra o Irão poderia ter efeito oposto. Se ele degenerasse em confronto militar, os preços globais do petróleo poderiam disparar e provocar uma recessão, como ocorreu nas conflagrações anteriores no Oriente Médio em 1973, 1979 e 1990.
 
 
Todos estes três choques potenciais teriam efeitos estagflacionários, elevando o preço de bens de consumo importados, componentes intermediários e tecnológicos, além da energia – reduzindo, ao mesmo tempo, a produção, ao cortar cadeias internacionais de abastecimento. Pior: o conflito movido pelos EUA contra a China já está impulsionando um processo mais amplo de desglobalização, porque os países e empresas já não podem contar com estabilidade de longo prazo nas cadeias integradas de valor. À medida que o comércio de bens, serviços, capital, trabalho, informação, dados e tecnologia tornar-se cada vez mais balcanizado, os custos de produção global crescerão em todos os setores.
 
Além disso, a guerra comercial e monetária e a competição tecnológica amplificarão umas às outras. Considere o caso do Huawei, hoje líder global em equipamentos 5G. Esta tecnologia será em breve a forma-padrão de conectividade para a infraestrutura civil e militar mais crítica – para não mencionar os bens de consumo que estão conectados por meio da emergente Internet das Coisas. A presença de um chip 5G implica que tudo (de uma torradeira a uma máquina de café) poderia se converter num aparelho de escuta. Significa que se a Huawei for amplamente vista como uma ameaça à segurança nacional, também o seriam milhares de exportações de bens de consumo chineses.
 
É fácil imaginar como a situação atual poderia levar a uma implosão em grande escala do sistema global de comércio. A questão, portanto, é se os formuladores de políticas monetárias e fiscais estão preparados para um choque prolongado – ou mesmo permanente – de abastecimento.
 
Na sequência dos choques de estagflação dos anos 1970, estes formuladores apertaram as políticas monetárias. Agora, porém os grandes bancos centrais, como o Fed norte-americano, já estão praticando o afrouxamento das políticas monetárias, porque a inflação e as expectativas de inflação permanecem baixas. Qualquer pressão inflacionária de um choque de petróleo será vista pelos bancos centrais como um mero efeito no nível de preços, mais que uma alta persistente da inflação.
 
Ao longo do tempo, os choque de abastecimento tendem a se converter em choque negativos de demanda, que reduzem tanto o crescimento quanto a inflação, ao deprimirem o consumo e os investimentos. Sob as condições atuais, os gastos das empresas nos EUA e em todo o mundo já estão severamente deprimidos, devido às incertezas sobre a probabilidade, severidade e persistência dos três choques potenciais.
 
Na verdade, à medida em que empresas dos EUA, Europa, China e outras partes da Ásia reduziram os gastos de capital o setor global de tecnologia, manufatura e indústria já está em recessão. A única razão para isso não ter se traduzido em recessão global é que o consumo privado permanece forte. Se os preços dos bens importados subir mais, como resultado de qualquer um destes três choques de abastecimento, o aumento da renda real (ajustada à inflação) disponível das famílias sofreria um choque, o mesmo ocorrendo com a confiança dos consumidores, o que conduziria a economia global a uma provável recessão.
 
Dado o potencial para um choque negativo de demanda no curto prazo, os bancos centrais estão corretos ao reduzir as taxas de juros. Mas os responsáveis pelas políticas fiscais deveriam também se preparar para uma resposta de curto prazo. Um declínio agudo no crescimento e na demanda agregada convidaria ao afrouxamento fiscal contracíclico, para evitar uma recessão muito severa.
 
A médio prazo, porém, a melhor resposta não seria uma acomodação aos choques de abastecimento, mas um ajuste a eles, sem novos afrouxamentos. Afinal de contas, os choques de abastecimento oriundos de uma guerra comercial e tecnológica seriam mais ou menos permanentes, assim como a redução do crescimento potencial. O mesmo aplica-se ao Brexit: deixar a União Europeia condenará o Reino Unido a um choque de abastecimento permanente e, portanto, a um potencial de crescimento menor, a longo prazo.
 
Tais choques não podem ser revertidos por meio de políticas monetárias ou fiscais. Embora eles possam ser geridos, no curto prazo, tentativas de mitigá-los permanentemente acabariam levando tanto a um aumento da inflação quanto das expectativas de inflação, que subiriam muito além das metas dos bancos centrais. Nos anos 1970, os bancos centrais mitigaram dois grandes choques de petróleo. Os resultados foram o crescimento, de forma duradoura, da inflação e das expectativas de inflação; déficits fiscais insustentáveis e rápido crescimento da dívida pública.
 
Por fim, há uma importante diferença entre a crise financeira global de 2008 e os choques de abastecimento que poderiam atingir a economia global hoje. Como naquele ano houve principalmente um grande choque de demanda, que deprimiu o crescimento e a inflação, foi possível enfrentá-lo, de forma adequada, com estímulos monetários e fiscais. Mas desta vez, o mundo estaria se deparando com choques prolongados de abastecimento, que requiririam um tipo muito distinto de resposta política a médio prazo. Tentar consertar o dano por meio de estímulos monetários e fiscais de duração indefinida não seria uma opção inteligente.
 
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Tirania das dívidas: a saída é cancelar

 
 
Ocidente vive nova crise de endividamento. Populações empobrecem e se devastam; muito poucos ganham. Anular os passivos e tornar sistema financeiro público – como fizeram os mesopotâmicos e chineses – pode ser alternativa
 
Ellen Brown | Outras Palavras | Tradução: Antonio MartinsI| Imagem: Mathew Kurian
 
Estamos novamente atingindo, no Ocidente, o ponto chamado, nos ciclos económicos, como “pico de endividamento”. Nele, as dívidas acumulam-se ao ponto de que seu total já não pode ser pago. Dívidas com cartões de crédito, empréstimos para compra de automóveis, débitos empresariais, de estudantes e a dívida do Estado são todas maiores do que nunca. Como escreve o economista Michael Hudson em seu provocativo livro de 2018, “…and forgive them their debts” [“e perdoai-lhes as dívidas”]1, as dívidas impagáveis não serão pagas. A questão, diz ele, é como elas não serão pagas.
 
Os modelos econômicos do mainstream abandonam este problema à “mão invisível do mercado”, assumindo que as distorções irão se autocorrigir ao longo do tempo. Mas embora o mercado possa de fato corrigir, ele o faz às custas dos endividados, que tornam-se cada vez mais pobres, enquanto os ricos enriquecem. Os bancos apossam-se das garantias dos devedores quebrados, privando-os de suas casas e de seu meio de vida. As casas são compradas pelos ricos a preços módicos e alugadas de novo, a preços inflados, a outros devedores – obrigados à servidão assalariada para sobreviver. Quando os próprios bancos quebram, os Estados os resgatam. Portanto, os mercados corrigem, mas não sem intervenção governamental. Esta intervenção vem ao final do ciclo para socorrer os credores, cuja capacidade de corromper políticos lhes dá a última palavra. Segundo os defensores do “livre” mercado, é um ciclo natural semelhante ao do clima, que remonta ao nascimento as economias modernas na Grécia e Roma antigas.
 
Hudson contraargumenta que a origem de nosso sistema financeiro não está nestas sociedades clássicas, e que o capitalismo não evoluiu a partir da troca, como os ideólogos afirmam. Ele, ao contrário, involuiu de um sistema de crédito mais funcional, sofisticado e igualitário, que se manteve por dois milênios na antiga Mesopotâmia (partes dos atuais Iraque, Turquia, Kuwait e Irã). O dinheiro, os bancos, a contabilidade e a empresa moderna não se originaram a partir do ouro e do comércio privado, mas no setor público dos palácios e templos da Suméria, no terceiro milênio a.C. Como tudo isso baseava-se em crédito emitido pelo governo local, e não em empréstimos privados de dinheiro, as más dívidas podiam ser periodicamente perdoadas, ao invés de se acumularem até levar o sistema ao colapso. Esta característica especial assegurou a notável longevidade do modelo.
 
 
As verdadeiras raízes da Moeda e Finanças
 
A civilização mesopotâmica foi a primeira de que temos registros escritos. Entre suas conquistas notáveis estão a roda, o calendário lunar, nosso sistema numérico, códigos de leis, uma hierarquia organizada de sacerdotes-reis, ferramentas e armas de cobre, irrigação, contabilidade e o dinheiro. Ela também produziu a primeira linguagem escrita, na forma de desenhos cuneiformes impressos no barro. Estes tijolos era, na maioria dos casos, ferramentas contábeis, que registravam o fluxo de comida em matérias-primas para os ateliês dos templos e palácios, assim como notas de débito (principalmente junto a grandes instituições públicas), que precisavam ser preservadas para que fossem exigidas. Este sistema de contabilidade templária permitia o fluxo coordenado de crédito para os agricultores, da semeadura à colheita, e os adiantamentos a mercadores envolvidos no comércio exterior.
 
Foi a necessidade de lidar com as contas de uma vasta força de trabalho sob controle que levou, provavelmente, ao desenvolvimento da escrita. As pessoas aceitaram de bom grado este controle burocrático porque o viam como um decreto dos deuses. Segundo sua escrita cuneiforme, os humanos foram criados pra trabalhar nos campos e minas depois que certos deuses menores, encarregados da tarefa, rebelaram-se.
 
A usura, ou cobrança de juros sobre empréstimos, era parte aceita do sistema de crédito mesopotâmico. As taxas de juros eram altas e permaneceram inalteradas por dois milênios. Mas os pensadores mesopotâmicos estavam atentos ao problema das “dívidas impagáveis”. Ao contrário dos currículos econômicos acadêmicos de hoje, escreve Hudson:
Os estudantes escribas babilônios eram treinados, já próximo ao ano 2000 a.C., na matemática dos juros compostos. Seus exercícios acadêmicos pediam-lhes calcular quanto levaria uma dívida com juros de 1/60 ao mês para dobrar. A resposta é 60 meses: cinco anos. Quanto para quadruplicar? Dez anos. E para multiplicar 64 vezes? Trinta anos. Deve ter parecido óbvio que nenhuma economia pode crescer conservando este ritmo de endividamento.
 
Os reis sumérios resolviam o problema do “pico de endividamento” declarando, de tempos em tempos, “tábula rasa”. As dívidas agrárias eram perdoadas e os devedores livrados da servidão, para trabalhar autonomamente em seus próprios lotes de terra. Esta pertencia aos deuses, sob a gerência do templo e do palácio, e não podia ser vendida. Mas os agricultores e suas famílias podiam arrendá-la oferecendo parte de suas colheitas, serviço militar e trabalho na construção de infraestrutura comum. Este arranjo, suas casas e meios de existência eram preservados – o que era mutuamente benéfico, já que os reis precisavam de seu trabalho.
 
Os escribas judeus, que permaneceram aprisionados na Babilônia, no século VI a.C., adaptaram estas leis ao ano do Jubileu, que, segundo Hudson, foi acrescentado ao Levítico2 após o cativeiro babilônico. Segundo o Levítico 25:8-13, um Jubileu era decretado a cada 49 anos. As dívidas eram perdoadas, os escravos e prisioneiros libertados e seus arrendamentos restaurados. Como na antiga Mesopotâmica, a propriedade permanecia a Yahweh e seus representantes na Terra. A lei do Jubileu bania a venda da terra, que podia apenas ser arrendada para até 50 anos (Levítico 25:14-17). O Jubileu levítico representava um avanço em relação à “tábula rasa” mesopotâmica, já que estava codificada em lei, ao invés de permanecer sob arbítrio do rei. Mas faltava, aos que o proclamaram, poder político, e não é seguro que a lei tenha sido aplicada. Serviu como preceito moral, mais que prescrição legal.
 
A Grécia e Roma antigas adotaram o sistema mesopotâmico de empréstimos a juros, mas sem a válvula de segurança das periódicas “tábulas rasas”. É que os credores já não eram o rei ou o templo, mas emprestadores privados. A usura sem controle resultou em escravidão por dívidas, confisco de propriedades e, em Roma, consolidação de enormes latifúndios, um crescente abismo entre ricos e pobres e, ao final, a destruição do Império Romano.
 
A respeito do festejado desenvolvimento dos direitos de propriedade e da democracia na Grécia e Roma antigas, Hudson argumenta que elas não serviram aos pobres – mas aos ricos, que controlavam as eleições exatamente como fazem hoje os financiadores de campanhas. O deslocamento do poder dos governos locais, por meio da privatização das terras antes comuns, permitiu aos credores privados aprovar leis por meio das quais poderiam confiscar propriedades, quando seus devedores tornavam-se insolventes. “Livres mercados” passou a significar a liberdade de acumular enorme riqueza, às custas dos pobres e do Estado.
 
Hudson sustenta que quando Cristo pregava o “perdão das pecados”, também se referia às dívidas econômicas, e não apenas às transgressões morais. Quando ele derrubou as tábuas dos mercadores, é por terem reduzido o templo de Jerusalém a um “antro de ladrões”. Mas os direitos dos credores haviam se tornado hegemônicos e os teólogos cristãos não tinham poder de enfrentá-los. Ao invés de ser uma promessa de redenção nesta vida, o perdão das dívidas tornou-se promessa de redenção espiritual, na próxima…
 
Como suscitar um Jubileu contemporâneo
 
Este foi o destino dos devedores nas modernas economias ocidentais. Mas em algumas economias modernas não-ocidentais, persistem vestígios da solução de anular as dívidas. Na China, por exemplo, empréstimos insolventes são frequentemente transferidos para os livros de bancos estatais, ou cancelados – ao invés de quebrar os devedores e bancos. Para compreender o mecanismo, vale ler o que Dinny McMahon escreveu em junho, num artigo intitulado “China’s Bad Data Can Be a Good Thing” [“Os dados ruins da China podem ser algo bom”]. Eis um trecho:
 
“Na China, o Estado respalda os bancos do país. Como as autoridades assegura que tais bancos têm liquidez suficiente para satisfazer suas obrigações, eles podem rolar níveis mais altos de inadimplência do que seria visto como seguro numa economia de mercado”.
O sistema bancário da China, como o da antiga Mesopotâmia, faz parte, majoritariamente, do setor público. Por isso, o Estado pode sustentar seus bancos com a liquidez necessária. É interessante notar que o Estado chinês também preserva a prática médio-oriental de deter a propriedade da terra, oferecendo aos agentes privados a possibilidade de arrendá-la temporariamente.
 
Nas economias ocidentais, a maior parte dos bancos é de propriedade privada, fortemente regulamentada, com exigências elevadas de reservas e capital. Créditos ruins significam que os devedores são confiscados, perdem-se empregos e infraestrutura, a “austeridade” prevalece. Nos EUA, o governo Trump promove agora uma guerra comercial contra a China, num esforço para forçar Pequim ao mesmo regime de “austeridade”. Uma ideia muito melhor e mais sustentável seria que Washington também aceitasse Jubileus periódicos das dívidas…
 
O problema para esta solução hoje é que a maior parte das dívidas, nas economias ocidentais, tem como credor não o Estado, mas agentes privados, que insistem no direito contratual ao pagamento. É preciso encontrar um meio de compensar os credores, enquanto se alivia os tomadores de empréstimo do peso de suas dívidas.
 
Uma possibilidade é nacionalizar os bancos insolventes e vender seus créditos ruins para o Banco Central – que pode comprá-los com dinheiro criado em seus livros. Os empréstimos podem ser, então, anulados ou esvaziados. Um precedente desta política foi estabelecido com a primeira rodada de “alívio quantitativo” [“quantitative easing”, ou “QE1”] adotada pelo Banco Central dos EUA, o Fed, na qual este comprou títulos de dívida podres de bancos com problemas de liquidez.
 
Outra possibilidade seria usar o dinheiro gerado pelo Banco Central para resgatar diretamente os devedores. Isso poderia ser feito de modo seletivo, comprando as dívidas que mais afligem os cidadãos e anulando-as. Outra alternativa seria cancelar as dívidas coletivamente, por meio de um dividendo nacional periódico ou uma renda básica de cidadania para todos, e retiradas dos bolsos fundos do Banco Central.
 
Os críticos objetarão que isso poderia inflar perigosamente a oferta de dinheiro e os preços ao consumidor, mas nada indica que tal desfecho seja necessário. Hoje, virtualmente todo o dinheiro é criado como dívida bancária, e é extinto quando esta dívida é paga. Significa que os recursos usados para pagar estas dívidas seriam extintos, junto com a própria dívida, sem elevar a oferta de dinheiro. Ainda nos EUA: para os 80% da população endividada, o repagamento das dívidas, por meio de um sistema nacional de distribuição de dividendos, poderia tornar-se obrigatório e automático. Os restantes 20% provavelmente poupariam ou investiriam em fundos – portanto, este dinheiro contribuiria pouco para a inflação de preços ao consumidor. E se fosse direcionado ao mercado de consumo, poderia ajudar a gerar a demanda necessária para estimular a produtividade e o emprego. (Para uma explicação mais completa, leia, de Ellen Brown, “Banking on the People,” 2019).
 
Na antiga Mesopotâmia, a anulação das dívidas funcionou de modo brilhante por dois milênios. Como Hudson conclui:
 
Insistir que todas as dívidas devem ser pagas é ignorar o contraste entre as milhares de anos de ‘tábulas rasas’ bem sucedidas no Oriente Médio e a escravidão por dívidas em que afundou a antiguidade greco-romana… Se esta política foi melhor sucedida, em muitos casos, que a de hoje, é porque os mesopotâmicos reconheceram que insistir no pagamento de todas as dívidas significava confiscos, desigualdade e empobrecimento geral da economia.

 

 
 
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Os despedimentos em massa estão de volta. O leitor está em risco? Por Adam Taggart

 

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Os despedimentos em massa estão de volta. O leitor está em risco?

Haverá milhões de pessoas que irão perder os seus empregos na próxima recessão. O leitor vai perder o seu emprego?

adam taggart Por Adam Taggart

Publicado por Peak Prosperity em 30 de Agosto de 2019 (ver aqui)

Imagine a seguinte cena a desenrolar-se no local de trabalho amanhã:

Você chega de manhã ao trabalho e encontra uma nota com a frase: “O gestor HR deseja vê-lo”. Sobre o quê? Questiona-se o leitor.

Vendo o seu diretor já na sala de conferências com a porta fechada, o leitor inquieta-se enquanto espera. Começa a formar-se um nó no seu estômago que fica mais apertado à medida que os minutos passam.

De repente, a porta abre-se. Um colega tropeça ao sair, olhando de forma esgazeada. Então vê a cabeça do gestor a aparecer, repara em si e diz “Ah, por favor entre”.

“Sinto muito em dizer-lhe que a empresa deixa que você se vá embora”, começa ela. “As vendas caíram e simplesmente não podemos empregar tantas pessoas. Não é nada pessoal”.

E assim, sem mais nem menos, o seu emprego esfumou-se, desapareceu.

Você receberá um mês de salário como indemnização, mais duas semanas se assinar uma cláusula de saída de comum acordo. E eles acabaram de lhe entregar uma pilha de formulários que supostamente o guiarão no processo de solicitação da cobertura de saúde e do seguro-desemprego COBRA, se necessário.

E é tudo.

Oh, eles já receberam a devolução do seu computador. Você tem 15 minutos para reunir qualquer item pessoal e dizer adeus. Mas, por favor, não se demore. Nós odiaríamos envolver a Segurança nisso….

Obrigado pelo seu serviço! E boa sorte no seu próximo emprego!

O que é que você faria se isso acontecesse consigo amanhã? Pense nisso por um minuto.

Sentir-se-ia surpreendido? Libertado? Petrificado?

Como seriam as suas perspetivas de emprego? Sentir-se-ia confiante de que poderia ser recontratado rapidamente? Ou você está a olhar para meses (ou mais tempo) de desemprego?

O que acontecerá às finanças do seu agregado familiar se ficar sem trabalho durante um longo período de tempo? Você é o principal sustento da família? Tem outros rendimentos ou poupanças substanciais que o possam sustentar? Se não, como é que pensaria fazer face às despesas?

A maioria das pessoas é apanhada desprevenida face a despedimentos. Há uma complacência que um pagamento regular de salário fixo permite e que é de repente fortemente sacudido desta situação de complacência quando se recebe uma carta de despedimento. Poucas pessoas estão prontas – emocional, profissional ou financeiramente – para o fim abrupto do status quo que um despedimento traz.

Mike Tyson disse uma vez de forma muito eloquente: “Todos têm um plano até serem esmurrados na boca”. Da mesma forma, todo mundo se pode dar ao luxo de ser otimista sobre o amanhã até ser despedido.

Tem “Ansiedade quanto ao despedimento”? Você não está sozinho.

Se o exercício de reflexão acima deu voltas ao seu estômago, você não está sozinho. Quase metade (48%) dos trabalhadores dos EUA relatam ter tido ‘ansiedade face à ideia de despedimento’.

E, isto é durante os “bons tempos”, pessoal. Oficialmente, ainda estamos na mais longa expansão económica da história dos EUA.

Como vai ser quando esta expansão de longo prazo terminar, como será inevitavelmente o caso para toda a gente?

E como temos estado furiosamente a descrever aqui no PeakProsperity.com, parece que o fim está a chegar rapidamente. A curva de rendimento invertida nos títulos do Tesouro dos EUA, a desaceleração do crescimento dos EUA e as taxas de crescimento negativas nas principais economias europeias, os volumes globais anémicos de transporte marítimo e uma série de outros indicadores confiáveis estão a significar avisos de que a economia mundial (incluindo os EUA) está a mergulhar na recessão.

Uma recessão para a qual a América empresarial está lamentavelmente não preparada, devido aos níveis recordes de endividamento.

 

9 milhões de milhões de razões para reduzir o número de funcionários

Em resposta à última década de crédito extremamente barato e abundante fornecido pelos bancos centrais mundiais através dos esforços da QE (quantitative easing), os executivos das empresas têm contraído empréstimos muito mais agressivamente do que no passado. Muitas vezes para recomprar as próprias ações da sua empresa na esperança de aumentar o preço das suas ações (e, portanto, aumentar os seus pacotes de remuneração baseados em ações).

E um número preocupante (centenas de milhares de milhões de dólares) desses empréstimos empresariais feitos nos últimos anos tem sido de baixa qualidade, alto risco e com menos restrições para os que solicitam empréstimos e menos proteções para os que emprestam (covenant-lite).

Como resultado, as empresas americanas de hoje estão tão ou mais perigosamente alavancadas do que nunca. Mais de $9 milhões de milhões de dólares de dívida sobrecarregam agora os balanços das grandes empresas americanas:

14 Os despedimentos em massa estão de volta 1

Como o crescimento continua a desacelerar e os lucros das empresas diminuem, o serviço da dívida ocupa uma percentagem cada vez maior dos fluxos de caixa. Em algum momento, os cortes de pessoal tornam-se inevitáveis.

 

O robô tirou-me o meu emprego

Além disso, como temos estado a avisar há muito tempo aqui na PeakProsperity.com, os empregadores têm atualmente um tremendo incentivo perverso para automatizar e substituir o trabalho humano pela tecnologia.

A verdade simples e dura é que é caro, e cada vez mais caro, empregar humanos. Salários, cuidados de saúde, benefícios de reforma, remunerações adicionais, regulamentos da OSHA, processos judiciais, formação, férias, dias de doença – tudo isso se soma. As máquinas libertam os empregadores de todos esses custos, de dores de cabeça e de potenciais responsabilidades.

Entretanto, os avanços tecnológicos em robótica e IA (inteligência artificial) estão numa evolução que se pode dizer exponencial. As capacidades estão a disparar e os custos estão a cair. Com a capacidade de contrair empréstimos a taxas de juros mínimas, será alguma surpresa que as empresas estejam a investir em automação o mais rápido possível?

A empresa de consultoria McKinsey prevê que 50% das atuais atividades de trabalho estão em risco de serem automatizadas até 2030 e que, nessa altura, 400-800 milhões de trabalhadores em todo o mundo serão deslocados pela tecnologia – criando-se assim “um desafio potencialmente maior do que as mudanças históricas passadas”.

Está em curso uma transição histórica do trabalho humano para o trabalho automatizado. Isso está a acontecer em todos os setores e afetará todas as funções do trabalho, em todos os níveis do organograma.

E ao contrário da terceirização ou externalização, uma vez que esses trabalhos são automatizados com sucesso, eles são “eliminados” no que diz respeito à necessidade desses trabalhadores. Estes empregos nunca deixarão depois de serem automatizados.

 

E isto já começou

Lembram-se dos despedimentos em massa de 2008 e 2009? Quando milhares de pessoas perderam imediatamente os seus empregos quando as empresas começaram a despedir trabalhadores?

Bem, isso está de volta.

Em 2019, até agora, vimos aplicar reduções de empregos em vários setores, como o HSBC (4.750 empregos), Nissan (12.500 empregos) e Deutsche Bank (18.000 empregos). Outras marcas bem conhecidas que deixam os funcionários ir embora incluem Siemens, Uber, US Steel, Kellogg’s, Ford, Disney e United Airlines.

Nesta fase, não é (ainda) como a carnificina vista durante a Grande Recessão. Lembram-se como isto foi assustador, pois centenas de milhares de pessoas foram despedidas todos os meses e durante dois anos?

14 Os despedimentos em massa estão de volta 2

8,8 milhões de postos de trabalho foram perdidos durante este período. Quando os despedimentos são tão generalizados, é apenas um jogo de números. Entre o leitor, a sua família e os seus amigos – pelo menos alguns de vocês vão ser vítimas.

Quão más podem ser as coisas da próxima vez? Suficientemente más para tomar medidas de proteção, pensamos nós.

E não é tão difícil para nós argumentar que a futura onda de despedimentos em massa pode ser substancialmente pior. Portanto, não descansem sobre os louros.

 

Sinais de problemas a serem observados

Que indicadores de alerta precoce poderá o leitor monitorizar para avaliar se a sua empresa, ou o seu trabalho específico, está em risco?

Fatores de risco da empresa

Primeiramente, ajuda olhar as indústrias que mais perderam trabalhadores durante a Grande Recessão. A história não se repete exatamente, mas muitas vezes rima:

14 Os despedimentos em massa estão de volta 3

Trabalha atualmente numa destas indústrias? Se assim for, o gráfico acima deve dar-lhe um sentido geral de como a sua empresa se vai comportar em relação aos outros, se nós realmente reentrarmos em recessão brevemente.

Mas nem todas as empresas dentro de uma indústria são iguais. Como é que o leitor pode saber se está atualmente empregado por uma das empresas mais vulneráveis?

Aqui estão os sinais clássicos de problemas a serem observados:

  • Declínio financeiro – A sua empresa tem uma relação Dívida/Capital Próprio mais elevada do que as suas congéneres da indústria? As receitas e/ou ganhos estão a estabilizar ou a diminuir? As Contas a Pagar estão a aumentar em percentagem do total do Passivo? Todos estes elementos são indicações potenciais de uma empresa em terreno instável.
  • Congelamentos – A sua empresa anunciou o congelamento de novas contratações, orçamentos e/ou bónus? Todos estes são sinais de restrição de empregos e restrição de perspetivas de crescimento futuro. É raro que os despedimentos consideráveis em escala sejam anunciadas antes que qualquer um, se não todos, destes seja tentado primeiro.
  • Adiamento de projetos chave – semelhante ao congelamento, grandes implantações são muitas vezes adiadas ou arquivadas completamente na tentativa de reduzir custos antes que os cortes de pessoal sejam considerados. É claro que, uma vez que se reduz os projetos planeados, então percebe-se que não se precisa de tantos trabalhadores.
  • Consolidação – esta dá-se quando as unidades económicas entram em colapso em conjunto para “maior eficiência” e “economia de custos”. Este é um sinal de que os centavos estão a começar a ser beliscados, e logo a “economia de custos” começa a parecer-se muito com “empregar menos pessoas”.
  • Ser adquirido – nos bons e maus momentos, os funcionários de uma empresa que está a ser adquirida estão em maior risco. As aquisições destinam-se a desbloquear “sinergias”, o que muitas vezes é uma forma elegante de dizer “se combinarmos as nossas empresas, podemos despedir todas as pessoas que têm empregos redundantes”. Como não têm relações com os decisores da empresa adquirente, aqueles que estão a ser adquiridos são normalmente os primeiros a quem é mostrada a porta de saída.
  • A sua empresa está “em mudança” – “em mudança” é o novo termo da cortina de fumaça para “O que estamos a fazer não está a funcionar, então vamos tentar outra coisa”. É verdade, é sábio abandonar um caminho condenado. Mas não é sábio se se está apenas a trocar uma ideia por outra ideia meio cozida meio esfarrapada. Embora existam exemplos de mudanças que transformaram uma empresa falida num sucesso de classe mundial (será que o leitor sabia que o YouTube começou inicialmente como um site de namoro?), essas são as exceções.
  • Más notícias / demasiados rumores – “Não há fumo sem fogo”. Quando a sua empresa está desfavoravelmente coberta pelos media comerciais por tempo mais que suficiente, geralmente é por uma boa razão. Basta perguntar às pessoas que trabalham (ou costumavam trabalhar) na Sears, Theranos, JC Penny, Toys “R” Us, ou Forever 21.
  • Mudança da direção – quando os ratos no topo começam a sair do navio ao mesmo tempo, é hora de se preocupar. Eles sabem muito mais do que o leitor sobre a condição da sua empresa. Neste momento, eu ficaria muito preocupado se trabalhasse num lugar como Tesla….
  • Queda repentina de ações– um preço forte das ações compensa muitas deficiências operacionais (como no exemplo da Netflix, Uber ou We Work, a perderem milhares de milhões em fluxo de caixa anualmente). Mas quando os investidores abandonam o sonho subjacente à sua empresa e as ações começam a cair fortemente, a vida pode rapidamente ficar muito pior. A rentabilidade e o fluxo de caixa positivo de repente tornam-se questões de vida e morte. Aqueles que trabalham numa empresa dita unicórnio de alto gabarito tecnológico ou empresa start-up assentes num otimismo exagerado precisam de estar atentos dada a rapidez com que as coisas se podem transformar se os investidores começam a ficar azedados.

 

Há algum alvo nas tuas costas?

Os despedimentos são como atirar sacos de areia para fora de um balão de ar quente que se está a afundar. O viajante atira uns poucos para o mar para ver se com isso consegue parar a queda. Se não parar, continua a atirar mais alguns fora.

Eles tendem a acontecer como uma sequência. Na primeira vaga, os maus desempenhos óbvios são soltos. Essa é a decisão fácil, e pode até ser positiva para a moral. Mas se a empresa ainda estiver com problemas, outra vaga – ou talvez mais – será necessária.

Então, como é que se pode saber se está em risco para a próxima vaga de despedimentos da série?

Aqui estão alguns sinais de alarme comuns:

  • A sua carga de trabalho está a diminuir – os trabalhadores nessa situação de reserva de trabalho disponível oferecem um ROI (retorno do investimento) mais baixo. Ou o rendimento da sua empresa está a diminuir (um mau sinal) ou o seu chefe está a redirecionar o seu trabalho para outras pessoas (um mau sinal).
  • Aumento nas exigências de relatórios de trabalho – se de repente lhe pedem para racionalizar e reportar todas as suas atividades, é normalmente um sinal de que alguém mais acima na cadeia está a tentar “justificar” os recursos no seu departamento. É um sinal de que o futuro do seu departamento – ou do empregado visado, especificamente – está a ser analisado.
  • “Demasiado” jovem – historicamente, os trabalhadores mais jovens são muitas vezes os primeiros a ser despedidos por terem a menor experiência de trabalho e a menor antiguidade dentro da organização. Durante a GFC, o desemprego entre os jovens trabalhadores quase dobrou de 5,4% em 2007 para 9,2% em 2010.
  • “Demasiado” velho – num número crescente de indústrias (em particular as Tecnológicas), é cada vez mais comum que os trabalhadores mais velhos sejam os primeiros a serem despedidos. Os trabalhadores mais jovens estão muitas vezes mais familiarizados e mais à vontade com o software e a tecnologia mais recentes e são, muitas vezes, substancialmente mais baratos de empregar. Eles estão dispostos a trabalhar mais horas por menos salário e não têm a estrutura de benefícios que os trabalhadores mais velhos com famílias têm. A ‘antiguidade’ está-se a tornar rapidamente uma queixa legal comum nos despedimentos de hoje.
  • O seu chefe é de repente demitido – embora isso possa ou não ser um sinal de que seu departamento está a perder estatuto dentro da empresa, muitas vezes significa que se está perder o elemento mais forte dentro da organização. Se o seu chefe sair abruptamente, certifique-se de se conectar com ele em particular para obter informações internas. Agora que ele não está a falar em termos da gestão geral da empresa, provavelmente será totalmente transparente consigo sobre a condição da empresa.
  • Fricção com o seu chefe – embora nunca seja um sinal promissor, se não se dá bem com o seu chefe, é provável que não esteja no topo de sua lista de empregados a querer defender durante um REF (redução em força). Na verdade, se você está de repente a sentir que há uma certa má vontade contra si quando antes não havia nenhuma, pode ser que ele esteja a tentar construir um caso para fazer do seu despedimento um “caso fácil”.
  • Ser “convidado” a aceitar um corte no pagamento – este é um sinal bastante claro de que você é menos essencial para a empresa do que era anteriormente e/ou que a sua empresa está *realmente* em dificuldades de fluxos de caixa. Se lhe for ‘perguntado’ sobre isso, tome este facto como um sinal do universo para começar a atualizar o seu currículo.
  • Ser convidado para treinar outra pessoa ou uma empresa externa sob as suas responsabilidades – esta é outra clara “chamada de despertar” de que o seu trabalho é provável esteja no bloco de corte. A menos que você tenha certeza de que está a ser promovido, leve isso como uma mensagem para esperar uma visita do RH em breve.
  • Os seus sentidos de aranha estão a formigar – as empresas são instituições sociais por concepção; são constituídas por pessoas (pelo menos, ainda o são por agora). Se você notar que os executivos e gerentes seniores parecem estressados ou passam muito tempo amontoados em salas de conferência, se a conversa do refrigerador de água gira em torno de problemas da empresa, se os benefícios começam a desaparecer rapidamente, se as pessoas começam a ignorá-lo – estes são sinais de aviso que você deve prestar atenção. Não ignore o seu instinto.

 

Como reduzir a sua vulnerabilidade

Depois de fazer uma avaliação honesta da sua situação profissional, será que tomar algumas medidas de precaução contra um despedimento faria sentido?

Alerta importante: se o leitor é um dos 132 milhões de empregados em tempo integral que trabalham atualmente nos EUA, a resposta certa é sempre “sim”. Não há simplesmente nenhuma boa razão para confiar na sua fonte de rendimento primária/única, de forma cega.

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O autor: Adam Taggart é o Presidente e Co-Fundador do Peak Prosperity. Ele usa muitos chapéus, mas seu trabalho básico é lidar com o lado comercial das coisas para que seu co-fundador, Chris Martenson, seja livre para pensar e escrever. É um executivo experiente de internet de Silicon Valley e MBA de Stanford. Antes da parceria com Chris (Adam foi Gerente Geral do nosso site anterior, ChrisMartenson.com), ele foi Vice-Presidente da Yahoo!, uma empresa que ele serviu por nove anos. Antes disso, ele fez a ‘coisa startup’ (mySimon.com, vendido para a CNET em 2001). Como recém-formado da Brown University no início da década de 1990, Adam teve uma visão em primeira mão de tudo o que foi quebrado com Wall Street como analista de banco de investimento para a Merrill Lynch.

 

 

 

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2019/09/08/os-despedimentos-em-massa-estao-de-volta-o-leitor-esta-em-risco-por-adam-taggart/

Nós te saudamos, crise vindoura!

(António Guerreiro, in Público, 06/09/2019)

António Guerreiro

Nos jornais e em todos os meios de comunicação e amplificação anuncia-se uma crise que aí vem, não se sabe quando, mas já está — como dizer? — em processo de iminência. Esta é uma expressão absurda, bem sei, porque iminente é o que está a atingir o ponto de catástrofe onde se dá a passagem para outro plano qualitativo, descontínuo.

 

Mas a verdade é que não há crise que, num actualizado dicionário das ideias feitas, não precise de ser definida com esta indicação: “Mal se começa a dar por ela, já ela é iminente.” Por enquanto, a crise por vir só se manifesta através de sintomas (não esqueçamos que na história semântica do conceito de crise há inicialmente um significado médico) que se oferecem à tarefa de decifração por gente com comprovadas competências semióticas: uma curva descendente subtil no gráfico das exportações, uma inflexão disfórica da linha das importações, uma desaceleração algures a indicar que já não se está a deslizar da mesma maneira no caminho do crescimento, isto é, do progresso, etc. São índices que não passam despercebidos aos historiadores indiciários do tempo por vir, que outrora eram chamados profetas. E eu acredito neles, sem que me ocorra sequer a ideia de formular reservas como as que os doutores da Igreja teoricamente formulavam (às vezes em exercícios teológicos requintadíssimos) sobre a existência e os poderes de Deus. E acredito por duas razões fundamentais: porque ao tempo vazio de crise sempre se sucedeu o tempo pleno de crise, sabemo-lo por experiência própria e porque hoje somos todos especialistas em crítica da economia política, o que significa que somos todos marxianos, mesmo — ou sobretudo — quando não somos marxistas; e porque a crise advém por uma lógica performativa, as palavras que descrevem a sua vinda iminente, se são pronunciadas por quem tem uma reconhecida autoridade (e quem tem mais voz e autoridade do que os media, na esfera pública alargada?), praticam um acto, realizam a crise que anunciam.

Só nos resta, portanto, esperar com paciência que ela se instale, até porque a vida sem crise económica é o tédio, a monotonia, o spleen. Seria mesmo o tempo homogéneo e vazio, para usar uma expressão com pergaminhos, se não houvesse crises suficientes, noutros planos da história universal, para nos entreter. Mas aquilo de que gosto menos é do lado perverso e enviesado destes adivinhos que nunca correm o risco de se enganar. Na verdade, para serem sinceros, eles deviam dizer que adoram as crises, que o tempo da não-crise deve ser gerido com uma voluntária severidade crítica para ficarmos treinados e imunizados contra a obrigatória severidade a que a crise por vir obriga. Em suma: a crise deve ser a regra em que vivemos sempre, sem interrupções. Bem vistas as coisas, a grande maioria da população nunca conheceu outro estado, de maneira que estas oscilações, para ela, não passam de um complexo que está para lá da sua experiência, digamos, superestrutural. Já agora: porque é que para certas classes a superestrutura coincide completamente com a infra-estrutura? Eis um questão pouco compatível com um marxismo ortodoxo e vulgar.

O conceito económico da crise anulou o seu conceito médico e o seu conceito teológico (quem se lembra hoje, a não ser um reputado filósofo arqueólogo, da sua relação com o Juízo Final?). A única crise que existe é a económica e nem convém que ela seja declinada noutros domínios. É por ela que clamam os semiólogos performativos quando ela se ausenta temporariamente. É que se não houver a crise como figura de invocação não é tão fácil impor a política que lhe corresponde, segundo um programa que todos conhecemos. Em suma: sem crise não é possível governar, de acordo com o sentido que as palavras “governo” e “governar” hoje têm. 

A crise tornou-se assim um instrumento salvífico que, embora esteja sempre presente, tem momentos em que a sua acção fica atenuada. E então o que é preciso é apelar à sua iminência, para que tudo continue a ser como sempre foi. Quem diria que a crise haveria de se tornar não a alteração abrupta ou mesmo catastrófica de uma ordem, mas o garante dessa ordem?


 

Livro de Recitações

“De regresso das férias? Temos dez  ideias para não deprimir. ”
In PÚBLICO, secção Culto, 2/09/2019.

Ao contrário do que reza um discurso muito voluntarista e também muito ideológico em que o trabalho é sempre digno dos maiores louvores, a verdade é que o trabalho, hoje, não é um valor nem um antivalor. Já nem sequer vale dizer que “o trabalho cansa”, porque, na verdade, nos modos como é hoje praticado, ele deprime, causa distúrbios psicológicos, paralisa, coloca grande parte da população trabalhadora a recitar uma interrogação: “Como é que eu saio disto?” Na história do trabalho, deu-se, num tempo ainda próximo de nós, uma transformação dos efeitos do trabalho como corveia: quando ele deixou de provocar, em geral, malefícios físicos selectivos, passou a provocar malefícios psicológicos generalizados. De maneira que actualmente até os directores das empresas e a alta burguesia assalariada estão ameaçados pelo burnout, que é o nome inglês de uma síndrome universal, ao mesmo tempo trágica e cómica, como se pode ver pelo título acima citado.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Para a maioria dos portugueses a crise não passou

 
 
Apesar da enorme descida do desemprego, o emprego, os salários baixos e o custo de vida são as principais preocupações dos portugueses.
 
Contrariando os números oficiaissobre o crescimento da economia e a queda do desemprego, menos de um terço por portugueses sentem que a crise económica foi ultrapassada e 53,5% estão mesmo convencidos que esta ainda não passou. A conclusão é de um estudo do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, encomendado pela Missão Continente. O trabalho revela ainda que o desemprego continua a ser o problema que mais portugueses (38,8%) consideram como o mais importante para o país, seguido, em segundo lugar, dos salários baixos e poder de compra (29,2%), da corrupção (26%) e das falhas do sistema de saúde (24,5%). A investigadora e coordenadora do estudo, Luísa Schmidt, defende que estes números e a perceção dos portugueses sobre a existência ou não, ainda, de uma crise, mostram que, no fundo, estamos de "ressaca" e que a crise económica de 2008 foi tão forte e afetou tantas pessoas que deixou marcas profundas. Um exemplo: quando se pergunta aos portugueses o que fariam se tivessem um aumento de rendimentos no topo das prioridades surge a saúde e a poupança, mesmo entre os mais novos, algo que não acontecia antes da crise.
 
"Ainda há um trauma da crise pois não houve praticamente nenhuma família que não tivesse sido afetada, mantendo-se um receio", acrescenta Luísa Schmidt, que sublinha que o desemprego até pode ter caído muito mas os salários não subiram e os custos de vida, nomeadamente da habitação, disparam.
 
Nuno Guedes | TSF
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/09/para-maioria-dos-portugueses-crise-nao.html

O Diabo não vem aí, o Diabo já cá está

 
 
 
Ana Alexandra Gonçalves* | opinião
 
Sob a ameaça de recessão, alguns comentadores decidiram ressuscitar a imagem do Diabo tão apregoada pelo malogrado (politicamente) Pedro Passos Coelho. Segundo o antigo primeiro-ministro o Diabo estava a caminho e seria a ruína da tão odiada geringonça. Note-se que este profecia do Diabo era mais um desejo do que propriamente mera futurologia.
 
Agora e perante uma Alemanha a roçar perigosamente a recessão, perante as restantes economias europeias com um crescimento económico perto do zero, face ao resto do mundo, com a China à cabeça, a crescer muito menos e com uma guerra económica entre EUA e China como pano de fundo, desenterra-se o Diabo.
 
Na verdade, o Diabo não precisa que as marionetas do costume o desenterrem. Na verdade, ele já anda aí e há muito tempo, chama-se capitalismo. Ele não vem, ele já cá está, entre os crescimentos e as crises, entre os crescimentos cada vez mais irrisórios e à custa do próprio planeta, mas com ares de verdadeira recuperação por se seguirem a crises profundas.
 
Vivemos sob a batuta do Diabo e pior: já nem sequer conseguimos sonhar uma vida sem ele, havendo sempre quem se mostre disposto a dançar alegremente sob essa batuta.
 
*Ana Alexandra Gonçalves | Triunfo da Razão
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/08/o-diabo-nao-vem-ai-o-diabo-ja-ca-esta.html

Argentina | O governo de Macri «trouxe a fome de volta»

Milhares de trabalhadores argentinos – mais de 100 mil, segundo os organizadores – participaram esta quarta-feira, em Buenos Aires, na 4.ª marcha por «Paz, Pão, Terra, Tecto e Trabalho».

De acordo com os organizadoresm, mais de 100 mil pessoas participaram na marcha desta quarta-feira entre o Bairro de Liniers e o Congresso, em Buenos AiresCréditosBernardino Avila / Página 12

O dia de São Caetano (7 de Agosto), patrono do trabalho, voltou a ser assinalado com uma grande mobilização na capital argentina em defesa do prolongamento da declaração de emergência social, da declaração de emergência alimentar, bem como de maiores apoios sociais, de apoios para a agricultura familiar e para as infra-estruturas nos bairros.

Promovida pela Confederação de Trabalhadores da Economia Popular (CTEP), a Bairros de Pé, a Corrente Classista e Combativa (CCC), a Frente Popular Darío Santillán, a edição deste ano da marcha ficou marcada pelo forte apoio sindical, pela proximidade das eleições (as primárias disputam-se este fim-de-semana) e pelo elevado nível de pobreza (35%, segundo dados do Observatório da Dívida Social da Universidade Católica Argentina).

«Este governo disse que vinha governar para todos os argentinos mas trouxe a fome de volta. Destruiu o emprego. Condenou metade dos nossos pibes [miúdos, jovens] a ser pobres», afirmaram representantes das organizações promotoras no encerramento, junto ao Congresso.

Além de denunciarem o modelo económico imposto pelo executivo de Mauricio Macri, que classificaram como «gerador de catástrofe social», os organismos solicitaram ao governo que for eleito em Outubro que assuma as reivindicações das organizações sociais, segundo informa a Página 12.

Esteban Castro, da CTEP – organização que esteve envolvida nesta marcha desde a sua primeira edição, em Agosto de 2016, com Macri no poder havia oito meses –, sublinhou que o «governo não pode andar mais para trás» e que as propostas em defesa das populações e dos bairros mais carenciados são claras, tendo sido já todas apresentadas ao Congresso.

«As propostas são claras. A questão é que não temos a capacidade mediática para as divulgar. Por isso, temos de aproveitar estes meses de debate político para apresentar a agenda das organizações sociais», disse.

Num comunicado, as organizações referidas exigiram ainda, entre outras coisas, a aplicação de um programa urgente de reforço nos refeitórios escolares e comunitários, e que as camadas populares tenham acesso a produtos alimentares básicos a preços mais em conta.

Também alertaram para a gravidade da situação que se vive nos bairros populares de Buenos Aires devido «à pressão de grupos criminosos de narcotráfico», que «impõem um regime de medo aos habitantes e um futuro de morte aos pibes». Neste sentido, solicitaram às autoridades «a declaração imediata de emergência relativa a dependências» e o «reforços de dispositivos» nesta área, indica o Resumen Latinoamericano.

«Mais quatro anos com eles não se aguentam»

Ao intervir, Juan Carlos Alderete, da Corrente Classista e Combativa, classificou o actual governo argentino como «infame», lembrando que enganou os trabalhadores no que respeita aos imposto, que «despediu milhares e encerrou empresas todos os dias». «Mais quatro anos com eles não se aguentam», declarou, citado pelo Página 12.

Outra militante da CCC, Ramona Cantero, do bairro de Berazategui, disse ao periódico que não consegue continuar a pagar a factura da luz e que lhe cortaram o serviço. «Nos refeitórios já não conseguimos pagar a garrafa de gás e passámos a cozinhar a lenha, com aquilo que encontramos», explicou.

Por seu lado, Beatriz Sosa, de Florencio Varela, na região Sul da Grande Buenos Aires, disse que esta é a sua primeira marcha de São Caetano, depois de ter perdido o emprego o ano passado. «Trabalhava na casa de uma família e deixaram de me poder pagar», relatou.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/o-governo-de-macri-trouxe-fome-de-volta

Nova crise econômica mundial será grave e pode mudar ordem global existente, diz analista

O mundo está à beira de uma iminente crise global provocada pelas ambições excessivas dos Estados: no início de 2019, a dívida mundial alcançou 244 trilhões de dólares e continua crescendo.

O principal problema atual é a perspectiva de uma recessão deflacionária prolongada e estagnação interminável da economia, como foi no caso do Japão nas últimas décadas, revelou Aleksandr Losev, diretor de uma empresa de gestão de ativos, ao diário Kommersant


O aumento da carga da dívida e o custo cada vez maior de sua manutenção afetam o crescimento econômico, aumentam os riscos de crédito e a possibilidade de incumprimento de pagamentos, o que no futuro criará dificuldades para refinanciar as dívidas e abrandará o "boom" de crédito que atualmente está estimulando o crescimento global, explicou Losev.

O financista sublinhou que esse processo afetará a situação econômica porque significa "menos novos empréstimos e investimentos, um crescimento econômico mais débil ou até sua cessação completa, mais moratórias, atrasos de pagamento […], crises locais em certas regiões e indústrias que podem causar efeito dominó e sacudir não apenas os mercados financeiros, mas também toda a economia global".

Segundo Losev, um estudo do Banco Mundial mostrou que, quando a relação dívida/PIB supera 77% durante um longo período de tempo, o crescimento econômico se desacelera e cada ponto percentual da dívida acima deste nível custa ao país 1,7% de crescimento econômico nos países desenvolvidos. Quanto aos países em desenvolvimento, a situação é ainda pior: cada ponto percentual adicional de dívida acima do nível de 64% reduzirá anualmente o crescimento econômico em 2%.


De acordo com previsões do Fundo Monetário Internacional (FMI), a economia mundial irá desacelerar neste ano em 70% dos países.

"Muitas economias não são suficientemente sustentáveis. A alta dívida pública e baixas taxas de juro limitam sua capacidade para superar uma nova recessão", disse a diretora-executiva do FMI, Christine Lagarde.

Ao mesmo tempo, o analista sublinha que uma nova crise poderia trazer mudanças na ordem global existente.

"Uma crise econômica de grande escala pode levar a mudanças geopolíticas e transformar a ordem mundial existente, que se baseia na desigualdade hierárquica dos Estados, associada com ciclos econômicos longos e padrões tecnológicos, bem como em uma acumulação infinita de capital. A Rússia, bem como a maioria dos países em desenvolvimento, está na periferia desse sistema", escreveu Losev.


O financista prevê que "a atual ordem mundial começará a mudar rapidamente não no momento da crise, mas quando os Estados não puderem coordenar seus esforços a nível global para manter o sistema econômico e financeiro atual, os princípios e regras do comércio internacional, quando o egoísmo prevalecer, mas a competição não for suficiente". 

Isso levará a uma época de conflitos, à revisão de prioridades, ao protecionismo, mobilização e reindustrialização, ou seja, às prioridade de produção nacional, projetos de grande escala e desenvolvimento da ciência. 

Losev aconselha a não esquecer que, em momentos de instabilidade, todas as grandes potências, em virtude de sua posição e interesses de suas elites, negócios e capital, tentam criar sua própria ordem e, até certo ponto, estão prontas para defender esta ordem de várias maneiras, de militares até políticas.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/economia/2019042213732096-nova-crise-economica-grave-mudar-ordem-existente/

A caminho de mais um desastre financeiro mundial? 2

Parece cada vez mais óbvio que um grande desastre financeiro mundial não é apenas provável, mas praticamente inevitável. Não apenas devido ao modo de funcionamento das principais economias mundiais, mas devido ao próprio sistema financeiro ocidental que elas integram.

Muito à semelhança da crise espoletada em 2007 pelo subprime norte-americano, a próxima será de natureza global, afectando todos os aspectos da vida e todas as pessoas que vivem no planeta.

Caminhamos assim para uma economia insustentável, que se por um lado é incrivelmente produtiva e geradora de ganhos para uma pequena minoria pelo outro aumenta a miséria da vasta maioria, e a culpa de semelhante assimetria é principalmente do sistema financeiro baseado na usura.

O que agravou a situação

Tudo piorou com o fim do sistema padrão-ouro – que vigorou até ao final da I Guerra Mundial e no qual o valor das moedas era suportado pelas reservas em ouro detidas pelos respectivos bancos centrais, ainda que na sua fase final apenas fosse aplicável à libra inglesa – e a sua substituição ao abrigo dos Acordos de Bretton Woods (conferência que em 1944 reuniu as potências vencedoras da II Guerra Mundial para definir as regras a aplicar às relações comerciais e financeiras entre os países mais industrializados da época) pelo padrão dólar-ouro – sistema segundo o qual o dólar americano seria convertível em ouro e funcionaria como moeda de pagamentos internacionais – para culminar no início da década de 1970 com a declaração unilateral do fim da sua convertibilidade pela administração Nixon. A partir desse momento toda a moeda passou a ser pura e simplesmente fiduciária.

Outra consequência desta situação é que o sistema financeiro passou a poder criar moeda quase sem limitações, processo que ficou ainda mais fácil com a progressiva implantação dos princípios da liberalização e da desregulamentação da actividade financeira que culminaria, nos EUA dos finais de 1999, com a abolição do Glass-Steagal Act (lei que datava da administração de Franklin Roosevelt e do seu New Deal e impedia a fusão entre bancos de investimentos e bancos comerciais) pela administração Clinton.

Todo isto decorre no último quartel do século XX, com a eleição de Ronald Reagan e a ascensão dos teóricos monetaristas e neoliberais, coincidindo com a aceleração do processo de deslocalização – com os empregos fabris a serem transferidos para o terceiro mundo – e de privatização de empresas públicas. Este movimento, que também ficou conhecido como “Reaganomics”, teve deste lado do Atlântico o seu expoente com o “Tatcherismo” (do nome da primeira-ministra britânica, Margaret Tatcher, e representava a sua visão do liberalismo clássico monetarista), e que chegou a ser ensaiado na Rússia após a queda do Muro de Berlim e a implosão da União Soviética.

Escancaradas as portas ao dinheiro fictício (fase em que a moeda não tem qualquer valor real), estabelecidas as condições para que os bancos pudessem criar moeda através da mera concessão de crédito e criadas as condições políticas para a generalização do processo de deslocalização da produção, estavam reunidas as condições para a ascensão dos grandes bancos de investimento e das empresas de private equity (de que são principal exemplo a Goldman Sachs e o Carlyle Group), que se especializaram na alavancagem de crédito usado para a compra integral de empresas, ao despedimento de trabalhadores, a venda de activos e a transferência do remanescente para o exterior; tudo sob a égide de dirigentes políticos caracterizados por serem incompetentes ou seus fiéis servidores.

Confrontados com o crescimento do desemprego e com a quebra na actividade económica (o desemprego e os baixos salários geram um poder de compra cada vez menor) os banqueiros mantiveram o sistema em funcionamento através de sucessivas bolhas especulativas e respectivos resgates públicos. Assim tivemos mais recentemente a bolha das “dot.com”, a bolha imobiliária (subprime) e o “Quantitative Easing”, que paradoxalmente é uma admissão tácita dos malefícios da usura, pois a distribuição de dinheiro a rodos entre os bancos equivale a um processo de perdão de dívidas, mas limitado como foi às transacções entre bancos centrais e bancos comerciais não beneficiou a população em geral e assim, os mutuários ordinários ainda se vêem obrigados a pagar juros sobre empréstimos enquanto pouco ou nada recebem pelos seus próprios depósitos bancários.

E não temos alternativa?

Nesta, como noutras questões, há sempre alternativa. Assim é que em diferentes momentos foram utilizadas outras vias para criar moeda e pô-la em circulação; desde o processo de pilhagem do ouro das civilizações centro-americanas (século XVI) à grande corrida ao ouro californiano (século XIX), ou à emissão artificial de moeda, de que são exemplo os “greenbacks” usados durante a Guerra Civil Americana, até à mais recente distribuição de dividendos através do Alaska Permanent Fund que desde 1982 distribui anualmente pelos habitantes daquele estado norte-americano o produto dos royaltiesderivados da exploração dos recursos naturais da região.

A estes exemplos pode ainda somar-se o movimento que defende a atribuição de uma renda garantida básica para todos os cidadãos, que consiste, no essencial, em implementar uma forma de remuneração distribuída pelo Estado a cada membro da sociedade, independentemente da sua situação financeira, familiar ou profissional, e suficiente para permitir a satisfação das necessidades básicas, no pressuposto que o direito a uma existência digna é idêntico a outros direitos básicos como a saúde, a educação e o trabalho; a favor deste conceito (também designado por Rendimento Cidadão) são enunciados factores como o de contribuir para o aumento da natalidade (por permitir maior dedicação aos filhos), combater o abandono escolar (tantas vezes ditado pela necessidade de complementar o rendimento familiar) e uma simplificação dos sistemas de segurança social eliminando regimes como o do Abono de Família e do Subsídio de Desemprego, a par de outras prestações sociais como o nosso, tantas vezes polémico, Rendimento Social de Inserção.

São naturalmente escassas as opiniões na comunicação social que denunciam a tragédia em que se converteu um sistema financeiro global suportado na mera criação de crédito; prefere-se manter o silêncio em torno de um processo de autodestruição ou até da destruição do planeta, através do apoio a intermináveis guerras justificadas em “mudanças de regime” ou de mudanças climáticas e poluição química provocadas pelo homem, do que confrontar os dirigentes do sistema financeiro que governa a sociedade.

Estes dirigentes estão no comando de todos os governos ocidentais, do complexo militar-industrial, da informação e dos meios de comunicação e manipulam acontecimentos para atemorizar toda agente, como fizeram com o 11 de Setembro, ou destruindo nações inteiras como sucedeu com a Jugoslávia, o Iraque, a Líbia e agora a Síria e a Venezuela; tudo para manter em funcionamento um sistema corrupto e autofágico que procura escamotear os malefícios derivados de uma grande depressão económica ou da degradaçã oambiental.

A cada um de nós compete ver (observando além da realidade artificial que os meios de comunicação normalmente nos servem como informação) o que está a acontecer, reconhecer e assumir a responsabilidade individual de preparar outro futuro… um que naturalmente não se parecerá com aquele que hoje nos prometem!


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/a-caminho-de-mais-um-desastre-financeiro-mundial-ii/

A meritocracia não consegue redistribuir a riqueza?

(Daniel Deusdado, in Diário de Notícias, 04/01/2019)

desigualdade

Quem não viu a edição deste fim-de-semana do DN perdeu um conjunto de artigos para guardar. Dois deles – páginas 72 e 73 – do Prémio Nobel, Joseph Stiglitz, e de Gordon Brown, antigo primeiro ministro britânico, deixam-nos no ponto certo para perceber, por um lado, a conta a pagar nas economias pelas loucuras de Trump; por outro, o enorme risco da globalização acabar em protecionismo exacerbado. Mas o fio condutor dos artigos tem na base, de forma implícita, a questão central do nosso tempo: como redistribuir a riqueza. Porque, no essencial, é sempre disto que estamos a falar.

Trump é o melhor produto da alucinação coletiva da América: diminui impostos aos rendimentos mais elevados e às grandes corporações, na ilusão de que isso gere mais investimento e emprego. O emprego, no entanto, é cada vez de pior qualidade e não resolve a equação dos que ficam de fora.

Aliás, uma sociedade onde os que têm rendimentos lutam pela diminuição da assistência à saúde (Medicare) dos outros está profundamente doente. É o expoente absoluto de como a meritocracia se transformou numa ideologia febril, que glorifica apenas a vitória individual e desdenha as causas que levam muitas dessas pessoas à exclusão.

O défice da América está já ao nível do trilião de dólares (bilião de euros) e agora, segundo Joseph Stiglitz, até os milionários se assustam sobre quanto vão custar todos os truques para garantir a reeleição de Trump. Porque, apesar do colossal défice dos Estados Unidos – na casa dos 5% -, a injustiça social continua a agravar-se.

Stiglitz assinala que o ataque à sinagoga judaica em Pittsburgh, onde morreram 11 pessoas em Outubro, lhe fez lembrar a “noite de cristal” de 1938, quando forças paramilitares atacaram judeus por toda a Alemanha com a conivência de Hitler. Apesar das diferenças, note-se o paradoxo: este atirador não é do Daesh nem um muçulmano a gritar “Allahu Akbar”. Robert Bowers, branco, de 46 anos, é pura e simplesmente antissemita e anti-imigração. Um entre milhões.

O que pretendem estes atiradores repletos de ódio na América de hoje? Um emprego? Mais riqueza? Outra vida? Esta sociedade dividida entre os que “conseguem” e os que “não conseguem” desemboca onde?

“Nenhum país sozinho pode resolver problemas como a desigualdade, a estagnação salarial, a instabilidade financeira, a evasão fiscal, as mudanças climáticas, as crises de refugiados e a imigração”, dizia Gordon Brown, no passado domingo, neste jornal. Isso significa que toda a globalização de mercadorias, de fluxos financeiros, a livre circulação de pessoas e, sobretudo, a partilha e transferência de conhecimento a uma velocidade estonteante pelas redes digitais, precisa de uma coerência entre países e classes sociais. Caso contrário, tudo isto é apenas “business”, sem humanidade por detrás de cada rentabilidade.

A já caricatural estatística de que 80% da riqueza mundial está com 1% da população, acabará em desgraça se continuar a agudizar-se este rácio.

A Revolução Francesa, a Revolução Russa ou a Segunda Guerra Mundial tiveram na base sempre a mesma necessidade extrema de milhões de pessoas em acederem a condições mínimas de vida. Quando não o conseguem, daí até à guerra nunca é muito longe

A perplexidade maior é, afinal, verificarmos que a extraordinária conquista civilizacional do Ocidente, a meritocracia, ligada ao sucesso dos mercados e à própria democracia, não pode – ou não consegue – interferir com o curso de um desequilíbrio imparável, onde os que não dispõem de capital ou de saber (sejam pessoas ou países) ficam cada vez mais subjugados ao poder dos mais fortes. Isto num contexto onde os recursos naturais escasseiam, as condições ambientais agravam-se fruto da avidez do crescimento e, por fim – cereja em cima do bolo – o número de seres humanos mais abundante de sempre (nove mil milhões em 2050) vai ter a forte concorrência laboral de infinitos exércitos de robôs rentáveis e obedientes.

Portanto, e finalmente a questão prática: quem pode assumir uma eficaz redistribuição da riqueza gerada por este novo processo? O Estado – onde os seus funcionários tendem a cair na autopreservação e se multiplica a burocracia para evitar a corrupção? Ou os modelos liberais, como o da “caridade privada” anglo-saxónica? Na verdade, ambos estão a falhar. Há demasiados excluídos para não precisarmos urgentemente de uma nova resposta. E já sabemos que não é o populismo, porque ele se traduz essencialmente em ódio. Mas a democracia tem de ser muito mais do que conseguimos até hoje.

 

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

QUANDO O EFÉMERO É JULGADO PERMANENTE

economic crisis

Nesta crónica de final de 2018, gostava de veicular aos meus leitores um pouco da minha estranheza, que se desenvolve a par de uma experiência de vida.

Há muito tempo que venho seguindo os mercados para eu próprio estar prevenido e saber como «tirar as castanhas do lume» a tempo. Embora não tenha uma instrução académica nas ciências económicas, tenho muita facilidade em compreender os seus mecanismos, pois estou preparado em termos conceptuais a pensar o funcionamento de sistemas complexos na biologia. Nesta, não apenas estudamos os mecanismos ao nível dos indivíduos, com as suas complexidades intrínsecas, como também as populações e os ecossistemas, sem a compreensão dos quais a vida dum qualquer organismo será  totalmente indecifrável. 

A analogia sistémica é particularmente apropriada aos sistemas sociais, construídos pela sociedade humana, desde que não se caia numa atitude redutora, ou seja, numa falsificação ideológica da biologia evolutiva, que aliás é comum nos comentaristas de meia-tigela. 

Não somos ingénuos, nem queremos convencer ninguém a adoptar as nossas teorias!

O sistema económico é eminentemente caótico, sendo isso uma característica independente do regime económico e político que vigore: 

- a Teoria do Caos estabelece que a complexidade de certos sistemas desencadeia respostas cujas determinações são imprevisíveis, pelo que estão sempre a surgir «cisnes negros» (na definição inteligente de Nassim Taleb). 

As pessoas têm o espírito feito de tal maneira que, seja por aprendizagem, seja por inclinação natural, procuram sempre «leis», «regularidades», daí que as suas visões sejam de continuidade a 100% (o preconceito da normalidade: O AMANHÃ SERÁ COMO HOJE, PORQUE HOJE FOI COMO ONTEM...).

Em situações de instabilidade maior, essa «certeza» efémera cai por terra; as pessoas entram em pânico, julgam chegado o fim do mundo, aquilo que afinal se resume à reestruturação dos capitais, uma nova distribuição das cartas e das fichas num jogo. 

Nem num caso, nem noutro, estão correctas: nem ao tomarem o efémero como medida segura das coisas, nem em vaticinar o fim do mundo, aquando dos grandes abalos, das grandes sacudidelas.

Hoje em dia, ao contrário de há vários anos atrás, os analistas de todas as tendências parecem estar de acordo em que 2019 vai ser um ano em que o potencial tectónico da dívida monstruosa vai finalmente exprimir-se através de uma crise, que se arrisca a ser maior e mais duradoira do que todas as outras que vivemos em nossas vidas. 

Isto significa que terá de ser - pelo menos - tão grande como a de 1929 (praticamente ninguém hoje ainda vivo, era adulto aquando daquela crise). 

De facto, existem muitos factos objectivos que apontam para tal. 

Muitas pessoas amigas gostariam que isso significasse o fim do capitalismo e o alvorecer de uma outra era, chame-se a tal novo modo de produção socialismo ou outro nome qualquer. 

Porém, uma previsão arrisco fazer: infelizmente para mim - e para os outros também, creio eu - o advento dum pós-capitalismo onde reinasse mais igualdade está completamente posto de lado, pois não existe uma força «subjectiva» que empurre as pessoas para formas igualitárias de organizar a produção e distribuição da mesma. 

Tal não era o caso nos inícios do século XX, em que existia esperança num mundo regido pelo lema «de cada um segundo suas capacidades, para cada um segundo as suas necessidades». 

As pessoas foram - no capitalismo globalizado -  transformadas em consumidoras ou produtoras passivas, intercambiáveis,  contabilizáveis: reduzidas a meras mercadorias (= o conceito de alienação na sua plenitude). 

No bicentenário de Marx, o único conceito teórico do marxismo que eu reconheço guardar actualidade, é o conceito de alienação. Todos os outros estão profundamente caducos, simplesmente porque a sociedade evoluiu e as suas visões eram adequadas e apropriadas a um determinado estádio de evolução do capitalismo. Quanto ao «materialismo dialéctico» e o «materialismo histórico», nem vale a pena falar, pois são completas fabricações ideológicas, muito ao gosto cientista do século XIX. 

Na minha forma de ver as relações entre os factos, a experiência e as teorias... aqueles vêm primeiro, as teorias vêm depois: estas devem ser construídas sobre um certo número de factos, pré-existentes à sua construção. 

Se determinada teoria não tem na devida conta TODOS os factos conhecidos, à data da sua elaboração, será irremediavelmente falsa à nascença. 

Mas, mesmo uma teoria que tenha em devida conta todos os factos relevantes pode - no futuro - revelar-se falsa ou caduca. Isso, aliás, acontece constantemente nas ciências ditas «duras» (a física, a química, a biologia...). 

Mas, por que razão é que  - nas ciências ditas «moles» (psicologia, sociologia, economia...) - existe tanta teoria defeituosa, que apenas reflecte a visão ideológica do autor e nada mais? 

A minha resposta é que...

(a) nós temos uma enorme atracção (intuitiva?) por «leis», por regularidades, por algo que nos permita tornar inteligível a realidade caótica que nos rodeia.  

(b) enquanto nas ciências duras é possível desenvolver dispositivos experimentais credíveis, ou seja, em que uma ou poucas variáveis sejam feitas variar, mantendo as restantes constantes...nos sistemas que têm como palco a sociedade humana, isso é impossível; apenas podemos fazer abstracções que servem mais ou menos a nossa ânsia da tal regularidade. 

A exemplificar isso, cabe aqui um parêntesis sobre o conceito de «mercado livre»: os fundadores da teoria económica liberal, Adam Smith, David Ricardo, e outros, viam neste conceito uma figura do espírito, uma propriedade da sociedade ideal, que eles sabiam perfeitamente não existir. 

Porém, os seus sucessores trataram de transformar esta vista do espírito, esta «experiência teórica», num «facto». Agora, são capazes de dissertar horas a fio sobre a «liberdade» do mercado. Fazem-no, creio,  mais como mantra, que os identifica com uma dada corrente. O mesmo se passa noutros sectores, só que com outros conceitos, incluindo obviamente sectores anti-capitalistas de várias conotações. 

Nesta época, paradoxalmente, é pouco apreciada a liberdade de espírito, a independência de juízo: Aquilo que permite reconhecer que um pensador, com o qual discordamos em muitos aspectos, acertou em cheio num dado ponto... Era esta atitude muito mais frequente, quando a difusão do pensamento era feita ao passo pachorrento dos cavalos atrelados a uma diligência e não à velocidade da luz, como agora! 

Estou convencido que as leituras de autores clássicos, em História, Filosofia ou na Literatura de ficção, no Romance, possam trazer imenso prazer a leitores do século XXI, caso estes se debrucem sobre as tais obras exactamente como sendo (e são, na verdade!) minas de ouro de sabedoria e de reflexão acumuladas.

O «capital de saber» é imaterial e não está dependente linearmente da disponibilidade económica de cada um. 

Saibamos usar os aspectos positivos da era da Internet, das comunicações globais instantâneas, o que implica também usar filtros que permitam descartar a «palha», sem perdermos os bons frutos.

BOM ANO DE 2019!

Leia original aqui

O país do giroflé, giroflá

Há algumas décadas, o grupo português A Banda do Casaco gravou um tema repleto de sarcasmo: “O enterro do tostão”. Foi antes do fim do escudo. É do tempo em que a televisão não era a cores, mas a preto e branco e simbolizava, já então, a descrença com os sonhos nascidos em 1974. Cantava-se: “Ai venham todos, ai venham já, que este jardim está ao deus-dará, ai venham todos, ver como isto é, que este jardim anda ao giroflé”. Estávamos em 1978 e caminhávamos alegremente para a primeira intervenção do FMI em Portugal. Desde então o jardim, exceto nalguns momentos de fotossíntese, nunca deixou de estar ao deus-dará. O enterro do tostão era, na realidade, o dobrar dos sinos por todas as esperanças. Passadas décadas, Portugal não aprendeu nada. Este é um país que dança o giroflé e contenta-se com o giroflá. Portugal é um melancólico ‘Jardim da Celeste’.
Enterrou-se o tostão e, agora, soterram-se as ideias. O maior défice português é o do pensamento. Olhe-se à volta. Os dois melhores exemplos do país do giroflé são essa expressão gloriosa da nação: o eterno bardo Jaime Marta Soares, e o salário mínimo de 600 euros, paradigma da nossa pobreza face à Europa. O modelo português é, há séculos, o dos salários baixos. Alguém o tentou mudar? Pertencemos à Europa? Vivemos como sempre no mundo da ilusão e da sopa dos pobres envergonhada. O maior truque deste Governo foi fazer-nos acreditar que os coelhos magricelas da era da troika se tinham transformado em roliças lebres. Todos se sufocaram com a original notícia: sindicatos da função pública e partidos da oposição ou do apoio envergonhado ao PS. Na prática, o país continua a apertar o cinto. A época anunciada das “vacas gordas” (e voadoras) contaminou toda a gente e funcionou como o nosso Ícaro ternurento. Só que a “vaca voadora” aproximou-se demasiado do Sol e as asas começaram a arder. O jogo do “pega monstro” em que se transformou o trágico acidente do helicóptero do INEM mostra como este país está preso por fios. Os cidadãos têm razão para deixar de confiar no Estado: são demasiadas falhas para serem tapadas por uma peneira. Em vez de discutir seriamente qual a razão estrutural da falha do Estado em sucessivos acontecimentos, a elite política antecipa o Carnaval: está mais interessada em dominar o Conselho Superior do Ministério Público, com Rui Rio e Jorge Lacão a dançarem um tango mortal. Face aos problemas reais, alguns iluminados reagem com a compostura de galinhas desorientadas: correm em todas as direções. Toda a matéria orgânica é corroída pelo tempo. É o que está a acontecer à política nacional. Mas, pior, os seus guardiões não o percebem. Ou fingem que não.
Parece uma telenovela. Os episódios sucedem-se e o enredo não muda. Os deputados, a fazerem provas de admissão ao populismo pimba, decidiram transformar-se em farmácias ambulantes, legislando sobre as vacinas que os portugueses devem inocular, enquanto, em momentos pontualíssimos, se transformam, pelo dom da ubiquidade, em fantasmas no Parlamento. Tancos é já um seriado, vai no “Rambo 10” e quem sabe mais além; a incúria estatal que permite tragédias como a de Borba ou os incêndios periódicos é a norma; a montanha russa das greves que vão moendo a sociedade e que, um dia, a revoltarão, tornaram-se um hábito tóxico; a ferrovia continua a tentativa, sem comboios, de regressarmos ao transporte em carroças (e isso possa ser vendido aos estrangeiros como very tipical); a corrupção floresce como uma necessidade. Alguém discute que modelo de país queremos? Cavaqueamos sobre coisas avulsas. Porque o país é frágil como cristal: faltam comboios, enfermeiros, fiscais de obras, dinheiro para o SNS. Discutem-se locais de portos, mas é-se incapaz de criar um corredor ferroviário a partir de Sines para a Europa, a grande vantagem competitiva nacional no sector.
Em Portugal vive-se, por completo, o espírito “Black Friday”: depois de se ter implementado uma sociedade económica low-cost, instalou-se agora a política low-cost, num clima de cultura low-cost. Não custa entender que esta sociedade de saldos está a destruir a democracia. Transformados em consumidores, os cidadãos sobrevivem, num país de impostos sem fim, enquanto os serviços se degradam. O contrato social é hoje uma ilusão. Entre um défice quase zero, o “sucesso” do turismo e o pagamento da dívida ao FMI (substituída por outra igual, a juros mais baixos), a sociedade portuguesa definha. Tem-se retirado aos cidadãos a capacidade de alargarem o seu conhecimento e a sua capacidade crítica. Esta “nova pobreza” assemelha-se a uma “iliteracia” cada vez mais visível e que nos atira para modelos pré-revolução fordiana. Charles Dickens poderia regressar, porque a sua sociedade vergada à dívida, que descreveu em “Little Dorrit”, está aqui. Com a diferença que agora há telemóveis que só não nos dão a comida à boca. Há umas semanas, Hélia Correia dizia-nos que “os animais estão a acordar” e que “estamos a perder completamente a palavra”. Só os políticos portugueses não entendem que caminham alegremente sobre campo minado. Não é muito diferente do que Guerra Junqueiro dizia em 1890, ano de todos os perigos. Para ele, os partidos de então correspondiam ao estado da nação: “Fazem-me lembrar um homem que, numa feira, vendia vinho e vinagre na mesma pipa. O vinho saía por um lado e o vinagre por outro. A droga era a mesma.” Os políticos portugueses estão exaustos de ideias. E não percebem este novo mundo de fantasmas que se está a organizar: numa época em que os maiores recursos comerciais (ou políticos, porque ambas as áreas estão agora ligadas) são as próprias pessoas, como prova o Facebook, tudo é mercadoria no mundo dos algoritmos. É nesse pântano que se alarga, que as tolices de alguma da nossa classe política são afrodisíacos para quem empunhe a bandeira da alternativa radical. A política, como se sabe, é a suprema arte da ficção. O teatro, no seu limite. Por isso, por trás dos Trumps e dos Salvinis, está aquilo que Steve Bannon já entendeu: estamos no meio de uma guerra, pela hegemonia cultural. Bannon segue, por vias transversais, as teses de Antonio Gramsci. Sabe que a política tem que ver com a definição de uma identidade. E com a arte de criar emoções que soem autênticas.
Nesse aspeto, Portugal é uma flor à beira do precipício. Acorrentado, como desde há séculos, a uma dívida (pública e privada) que nunca desaparece, incapaz de acumular capital para investir, tendo desaparecido grande parte das grandes empresas de capital nacional com capacidade de internacionalização, tendo já privatizado quase tudo o que era público, com um sector financeiro em mãos externas, o país está a caminhar para uma fragmentação política (foi à esquerda e em 2019 será à direita). Quem lograr apresentar uma estética alternativa poderá vir a reinar neste terreno de cinzas e desesperos. A política será sempre uma luta entre o conflito e o pacto, entre a razão e a vingança. Ao tornar-se, como em Portugal, um show de duvidosa utilidade, está aberto o caminho para os espectadores votarem no personagem mais vistoso. E é assim que desaparecem as democracias.
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OS QUE ESTÃO POR DENTRO JÁ SE PREPARAM PARA A CRISE

No imobiliário, tal como noutros mercados, há quem esteja discretamente a desfazer-se de activos[1], demasiado arriscados... 

Como para cada venda há um comprador, interessa saber quem são os compradores? 

- Estes são, em grande maioria, os actores institucionais... Ou seja, o grande público afinal, indirectamente, que pôs suas economias nos fundos de pensões, etc. e nem suspeita do que andam a fazer com o seu dinheiro. 

São pessoas pobres e da classe média, que contam com o dinheiro de suas pensões e de instrumentos de poupança. Esse dinheiro simplesmente não vai existir quando for mais necessário. São eles que vão levar pela medida grande, quando vier a crise. 

Todos os grandes actores sabem que a crise está aí, mas não vos dirão isso, nem mostrarão qualquer preocupação em público. 

Porém, os seus actos falam mais alto: eles estão a precaver-se[2], ao venderem os activos mais arriscados, a comprar metais preciosos e outros activos não financeiros sub-cotados.                            imageOs que embarcaram na bolha especulativa das cripto-moedas[3] estão encerrados numa espiral descendente. Muitos, desde 2017, acumularam perdas da ordem de 80%.                            image

A inflação (a hiper-inflação, no fim) é a «saída» para os Estados e as empresas sobre-endividados. É a ruína para as pessoas pobres e da classe média.

QUANDO OUVIR A EXPRESSÃO «THE GREAT RESET», PENSE QUE SE TRATA DA MAIOR TRANSFERÊNCIA DE RIQUEZA EM TODA A HISTÓRIA, DOS MAIS POBRES EM DIRECÇÃO AOS MAIS RICOS.

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Análise: Oriente acumula ouro enquanto Ocidente mantém 'otimismo sem sentido'

Barras de ouro
© Sputnik / Oleg Lastochkin

Nos últimos três meses, os bancos centrais de todo o mundo adquiriram mais de 148 toneladas métricas de ouro, 22% mais do que no mesmo período do ano passado, segundo os dados do Conselho Mundial do Ouro. A Rússia, Turquia, Cazaquistão, Índia. Polônia e Hungria foram os líderes entre os compradores do metal precioso.

Enquanto as razões que empurram a Rússia, Turquia e outros países que enfrentam sanções de Washington a comprar mais ouro parecem claras, o consultor em metais preciosos Claudio Grass explicou ao canal russo RT por que outros países estão acumulando suas reservas desse metal.


Em primeiro lugar, o especialista sublinha que a motivação principal que impulsiona alguém a se tornar proprietário de ouro físico é "recuperar a independência e a soberania" perante a dissociação de "um sistema financeiro que é insustentável". Neste sentido, o analista lembrou que muitos bancos entendem que o ouro oferece uma das garantias mais confiáveis "em tempos de turbulência econômica".

O analista russo Dmitry Lekukh, partilha a mesma opinião. Para ele, a imprevisibilidade da política atual de Washington é evidente e os países que podem enfrentar sanções estadunidenses querem cobrir seus riscos.

"E além disso, a realização de uma política de protecionismo e reindustrialização tão dura em meio a uma instabilidade política interna que não é menos evidente é sempre uma coisa muito perigosa", disse Lekukh à Sputnik, acrescentado que nesse caso os EUA poderiam enfrentar uma nova crise financeira e a desvalorização do dólar.

Quanto à Polônia e Hungria, Grass lembrou também sua tensão com a UE em relação às políticas migratórias que, segundo Grass acredita, só irão crescer no futuro.


Segundo Grass, depois de ter "vivido sob o comunismo até cerca de 25 anos atrás", agora esses países da Europa Oriental "se opõem ao poder centralizado, especialmente quando vem de Bruxelas". Seus bancos centrais "não são cegos perante as crescentes tensões com a UE e os sérios riscos de uma nova escalada", explicou o analista, que considera sua estratégia de comprar ouro como "razoável".

Perante essa visão sensata do Oriente, o especialista destacou "a complacência e o excesso de confiança" da abordagem do Ocidente, onde o realismo "perdeu perante um otimismo sem sentido, colocando o Oriente em uma vantagem considerável durante a próxima crise econômica".

O analista citou as palavras do jornalista britânico William Rees-Mogg: "Os governos mentem, os banqueiros mentem, até os auditores às vezes mentem: o ouro diz a verdade."

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/economia/2018110412597311-russia-compra-ouro-turquia-india/

Economista que previu crise de 2008 avisa sobre bolha em toda a economia dos EUA

Wall Street
© AP Photo / Jin Lee

Wall Street e a economia dos EUA estão à beira de uma recessão, disse o CEO da corretora de valores Euro Pacific Capital, Peter Schiff, comentando a forte queda das bolsas norte-americanas desta semana.

"Há uma bolha não apenas no mercado de ações, mas em toda a economia", disse o financista ao canal Fox News. Schiff prevê uma recessão, acompanhada pelo aumento dos preços ao consumidor, que seria "muito mais dolorosa" que a Grande Recessão de 2007-2008.

"Acho que os norte-americanos vão perder os seus empregos, assistirão ao aumento dramático do custo de vida, e isso vai ser particularmente doloroso", disse ele.


As bolsas norte-americanas fecharam em queda na quarta e quinta-feira. Os dois principais índices bolsistas dos EUA, Dow Jones Industrial Average e S&P 500, atingiram o menor nível desde fevereiro.

O presidente dos EUA, Donald Trump, disse que a Reserva Federal (Fed, banco central dos EUA) é o responsável pela queda nas bolsas devido à sua política de aumento de taxas de juro. Trump declarou que a Reserva Federal está “enlouquecendo”.

Schiff está de acordo que as ações da Reserva Federal são irracionais e que, aumentando as taxas de juro, o banco central está contribuindo para o crescimento da bolha financeira na economia dos EUA. Ele apontou também que a bolha atual é a maior desde a de 2008.

 

 

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na sequinte ligação::

https://br.sputniknews.com/economia/2018101412435152-eua-economia-bolha-crise-queda-wall-street-dow-jones/

O QUE ACONTECEU NA CRISE DE 2008 E NO «SALVAMENTO» DO SISTEMA

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Nomi Prins[1] é uma autora muito importante, cujos livros são «best sellers»[2] (merecidamente). 
Ela explica nesta entrevista com Chris Hedges, com imensa clareza, o que se passou e ainda passa,  aquando do «salvamento» em 2008, da banca pelos governos e bancos centrais: 
Como é que a criação de «dinheiro grátis» (o famoso «quantitative easing») para as grandes instituições bancárias, foi - na realidade - um gigantesco imposto sobre todos nós, o povo, os produtores. 
Esclarece também como isso está relacionado com as políticas de austeridade impostas, sobretudo nos países mais frágeis, como o Brasil e os membros da UE da Europa do Sul. 

A próxima depressão será muito mais séria que a de 2008 - segundo Nomi Prins - por causa dos muitos triliões criados a partir de nada e que se mantêm nos livros de contas dos bancos centrais. Estes ficaram com os activos podres que os bancos comerciais tinham acumulado e emprestaram-lhes triliões, a juro virtualmente zero. 
O efeito dessas operações foi uma transferência maciça e concentração brutal de riqueza nas mãos dos que já eram muito ricos . 

Leia original aqui

Como guerras comerciais podem afetar início da 'supercrise' prognosticada para 2020

Bolsa de valores de Nova York (foto de arquivo)
© AP Photo / Richard Drew

O banco de investimentos JPMorganChase afirma que em 2020 o mundo se confrontará com graves perturbações econômicas, chamando-as de "supercrise". Uma colunista da Sputnik analisa em que é que um prognóstico tão tenebroso se baseia e qual é a probabilidade de ele se vir a realizar.

Sabe-se que, dez anos atrás, o colapso do maior banco de investimentos no mundo, o Lehman Brothers, provocou uma crise financeira global que resultou em uma recessão prolongada, relembra Natalia Dembinskaya. A partir de então, os especialistas em finanças não param de formular diferentes modelos econômicos tentando prognosticar os prazos e avaliar a envergadura do colapso econômico seguinte, bem como definir o caráter cíclico destes eventos.


O JPMorgan Chase fez sua própria avaliação — segundo seus prognósticos, devemos esperar o colapso já em 2020. Na análise foram tomados em consideração tais índices como a duração do período de crescimento econômico e da queda ulterior, a correlação entre recursos próprios e emprestados nas grandes empresas, o preço dos ativos e os níveis de desregulação e inovações financeiras, explica a autora.

Espera-se que a queda prevista no mercado de ações não seja tão grande como nos anos 2007-2008, pois o preço dos ativos nos países em desenvolvimento hoje em dia é muito mais baixo do que na época.

Razões da provável crise

Em opinião de Marko Kolanovic, especialista em estratégia de investimentos do JPMorgan Chase, as perturbações no mercado de ações surgirão devido ao excesso de fundos de índice (ETF), de investimento e de outros fundos geridos de modo passivo, bem como devido às estratégias de comércio computorizadas. Assim, explica o analista, a falta de investidores ativos vai resultar em que ninguém comprará os ativos mesmo com preço reduzido.

Além disso, o banco chama a atenção ao fato de a liquidez no mercado de ações estadunidense estar a um nível cerca de dois terços mais baixo que antes da crise de 2008.

"Os eventos que começaram no mercado em 2008 levaram a uma perturbação grave na liquidez, o que pode ser uma particularidade-chave da próxima crise", dizem os analistas do banco.

Outro fator desestabilizador é a mudança na estrutura do mercado de créditos hipotecários, já que a cota-parte de empréstimos hipotecários não bancários cresceu até 80%, enquanto antes da crise de 2008 era só de 20%.

Influência das guerras comerciais

Em uma entrevista ao canal CNBC, o analista Marko Kolanovic assegurou que a probabilidade da crise estourar na segunda metade de 2019 é bastante baixa. A dinâmica do seu desenvolvimento vai depender, particularmente, da rapidez do aumento das taxas de juros estabelecidas pelo Sistema de Reserva Federal dos EUA. Quanto à discutida guerra comercial com a China, esta pode tanto aproximar quanto adiar a crise, acredita Kolanovic.

De acordo com os analistas, a situação de hoje se parece muito com a criada duas décadas atrás, quando os investidores saíam massivamente dos títulos de dívida emitidos pelas economias em desenvolvimento.

Enquanto isso, outro banco estadunidense, o Bank of America, considera a política cada vez mais protecionista de Washington como uma ameaça à estabilidade econômica internacional. As guerras comerciais causam danos colossais ao comércio internacional, afetando os preços e o acesso aos produtos das redes de fornecimento, o que desfere um "golpe duro" contra a economia global, assinala Natalia Dembinskaya.

Por exemplo, o famoso economista e banqueiro estadunidense James G. Rickards assinala que atual ascensão da economia norte-americana e europeia pode acarretar um enorme colapso nas bolsas, parecido com o de 1929. Neste caso, uma recessão prolongada em todo o mundo é inevitável.

Abalos sociais

O banco JPMorgan Chase adverte que, ao contrário da crise de 2008, o eventual colapso de 2020 acarretará distúrbios sociais de grande envergadura, particularmente no que se trata dos próprios EUA. Isso não acontece há meio século, desde o ano de 1968.

De acordo com Marko Kolanovic, essa probabilidade está diretamente relacionada com a web e as redes sociais, onde se formam diversos grupos de interesses, enquanto os eventos políticos, tais como as presidenciais estadunidenses de 2016 e o Brexit, ainda jogam lenha na fogueira.

Os analistas frisam que, caso os bancos centrais consigam evitar a brusca queda dos preços dos ativos, provavelmente a situação não terá um caráter tão dramático. Caso contrário, a humanidade enfrentará a depressão econômica, distúrbios sociais e "mudanças ainda mais devastadoras".

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na sequinte ligação::

https://br.sputniknews.com/economia/2018092412282757-crise-financeira-mercado-acoes-bolsa/

Desvendado o Mistério da Falência do Lehman, um “Too Big To Fail”

“Who let Lehman Brothers get so big, who let it fail, and why…” 

Dez anos depois, da queda de um “too big to fail”… O “mistério dentro de um enigma” da queda que mudou o mundo é aqui revelado e muito bem explicado por Shah Gilani. Com nomes, datas, locais e outros pormenores. Ou, “teaser”, como a Goldman arrumou a Lehman…

Afirma Gilani:

Ten years ago, on September 15, 2008, Lehman Brothers Holdings Inc. failed in spectacular fashion. The implosion of the $600 billion in assets investment bank immediately triggered the financial crisis, which led directly to the Great Recession. But none of that had to happen. Lehman could have been saved or, at least, slowly and systematically unwound. The financial crisis could have been averted, and the Great Recession should never have happened. Those events happened for good reasons in hindsight. Not good for you, me, the economy, or America, but good for the re-shaping of political and banking powers who benefited from what they let happen.”

Wall Street Insights & Indictments: Ten Years On: Who Let Lehman Brothers Fail?

Imperdível!

Exclusivo Tornado / IntelNomics

Ver artigo original em "O TORNADO"

Crise? Qual crise?

Os urubus já anunciaram nova crise. O que quer dizer que está a ser preparada, evidentemente.

Recordemos: a crise de 1929 foi devido – dizem – o excesso de produção, e a de 2008 – dizem, e é mentira que foi uma bolha imobiliária. A verdade foi a avalanche incontrolável de hipotecas sobre verdadeiras ruínas e barracões.

As 2 crises tiveram soluções idênticas: investimento público, o Estado abriu os cordões à bolsa e lá salvou os especuladores e os Bancos “que eram tão grandes que não podiam falir”. Ou seja, os que passaram sempre a vida amaldiçoar o Estado ladrão e incompetente, acabaram de mão estendida a pedir esmola do INIMIGO! que pouca vergonha!

E ainda: não deixa de ter piada que os motivos das crises tenham sido sempre as jogadas perversas do capital com as mui competentes fugas ao fisco em direcção a off-shores e Banca secreta…

Afinal, as crises não foram por causa de aumentos de salários ou de reformas, de investimentos na saúde, na educação, nos transportes, na Ciência, na Cultura… os alvos sistemáticos destas quadrilhas de ditos “empresários”.

O grave da situação é que continuamos a ser atacados por um menino rico vaidoso, inútil, arrogante e impune. Que dá pelo nome de Estados Unidos da América.

Melhor, para poupar os milhões de pessoas que sofrem nesse país… e que estão na mão da industria militar, da ideologia belicista, do racismo, das secretas CIA e FBI em conluio desde sempre com a Máfia.

Ver artigo original em "O TORNADO"

Nos 10 anos da crise financeira de 2018, analista americano prevê sua repetição

Wall Street
© AP Photo / Jin Lee

A crise financeira mundial de 2008, que no dia 15 de setembro completa 10 anos, pode vir a se repetir devido a uma dívida corporativa e soberana inflada, à perda de confiança dos investidores, bem como às empresas de nova vaga, que não conhecem os princípios de funcionamento do "mercado urso".

Foi isso que afirmou à Sputnik o economista sênior da agência analítica Smith’s Research & Gradings, Scott MacDonald.

Na madrugada do dia 15 de setembro de 2008, o banco Lehman Brothers, considerado na época o quarto maior banco de investimentos dos EUA, declarou sua falência e pediu a proteção aos credores. Este evento marcou a crise financeira mundial, que subsequentemente virou uma recessão global. Geralmente, seu surgimento é explicado por vários fatores, entre eles a ciclicidade do desenvolvimento econômico e a crise no mercado hipotecário dos EUA em 2007.

MacDonald acredita que a crise pode vir a se repetir. "É triste, mas é um fato: haverá sempre outra crise. Nós, provavelmente, não iremos ver uma sequência de falências de bancos hipotecários e aquilo que se seguiu. Contudo, nós acumulamos uma grande dívida externa, a dívida soberana está crescendo tanto nos EUA, como no Reino Unido, Japão e Itália, e não tem como frear este processo", assinalou o analista.

"Além disso, as corporações nos mercados emergentes acumularam grandes dívidas, e, quando as taxas sobem, estas ficam ainda mais pressionadas. O fator-chave para o crescimento do mercado é a confiança dos investidores. Agora mesmo esta confiança está baseada no crescimento rápido da economia norte-americana, em que acordos comerciais podem ser fechados e que os investidores continuarão financiando o déficit orçamental norte-americano", acrescentou Mcdonald.

Não obstante, segundo ele, esta confiança pode ser abalada caso as "guerra comerciais fiquem fora do controle e a política de austeridade quanto às taxas do Sistema de Reserva Federal dos EUA complique o acesso ao financiamento, neste caso pode surgir a grave ameaça de uma nova crise, similar à de 2008", apontou o analista.

"A próxima crise, provavelmente, será diferente, talvez seja relacionada às novas tecnologias e instituições financeiras não bancárias, muitas das quais são dirigidas por gerentes jovens ousados e corajosos, que nunca participaram de um verdadeiro mercado urso [mercado em baixa, com preços de ativos em queda e com o pessimismo onipresente se tornando autossustentável]", ressaltou.

Ver o original me 'Sputnik Brasil' na sequinte ligação::

https://br.sputniknews.com/economia/2018091512213788-crise-financeira-mundial-eua-previsao/

Crime sem culpados

Cumprem-se hoje dez anos sobre a data da falência do Lehmans Brothers, numa semana que se iniciara com a notícia da intervenção do Tesouro norte-americano nas duas principais instituições financiadoras do crédito hipotecário naquele país…

… o FANNIE MAE (Federal National Mortgage Association) e o FREDDIE MAC (Federal Home Loan Mortgage Corporation), as duas empresas privadas que operam, sob mandato público, como financiadores de bancos e outras empresas financeiras que concedem créditos hipotecários; classificadas entre as too big to fail (expressão utilizada na terminologia económica anglo-saxónica para designar as empresas que pela sua enorme dimensão e importância no mercado não poderão falir), que viram abertos os cofres públicos para as salvar, e aos seus accionistas, da falência. Esta intervenção e a posterior falência do Lehman Brothers foram a confirmação de que a crise financeira iniciada pelo rebentamento da bolha do subprime estava para durar, de que se desconheciam as ondas de choque e sem qualquer vislumbre que algo de semelhante não se pudesse repetir.

Quem na época pensou que após o apoio governamental às negociações que conduziram à entrada dos chineses do CITIC no capital do MORGAN STANLEY, à aquisição do BEAR STEARNS pelo JP MORGAN e a do MERRILL LYNCH pelo BANK of AMERICA a crise poderia estar minimizada, terá sofrido uma profunda desilusão quando o Tesouro americano anunciou a intervenção no FANNIE MAE e no FREDDIE MAC (no montante conjunto de 200 mil milhões de dólares) e se respirou com algum alívio à decisão da administração Bush de não contrariar a falência do LEHMAN BROTHERS, confiando nas virtualidades do mercado para resolver e absorver os efeitos da turbulência, que grande decepção terá sentido com a posterior necessidade de mais uma intervenção, agora na seguradora que liderava o mercado mundial de seguros e serviços financeiros, a AIG, e no montante de 85 mil milhões de dólares).

E este cenário não se limitou ao mercado norte-americano, pois também o sistema financeiro inglês, fortemente atingido pela excessiva especulação imobiliária, assistiu à nacionalização do NORTHERN ROCK e à compra apressada do HBOS (HALIFAX BANK OF SCOTLAND) pelo LLOYDS TSB.

É que se os primeiros sinais de fragilidade do sector bancário pareceram de fácil resolução (o FED e outros bancos centrais não pararam de injectar biliões de dólares nos mercados interbancários, enquanto iam ajustando as taxas na expectativa de atenuar a quebra de confiança que grassava naqueles mercados) o seu contágio para o sector segurador veio dar maior credibilidade aos cenários mais negativos e confirmar que se a origem da crise podia ser imputada à falência do mercado do subprime norte-americano, o seu desenvolvimento e aprofundamento deveu-se principalmente ao mercado de incomensurável risco que constituem a profusão dos sofisticados produtos derivados que as empresas financeiras criaram e com os quais inundaram um mercado alheio às respectivas características e incapaz de avaliar (e prevenir) os riscos associados.

A miscigenação entre activos com níveis de risco muito díspares, a falta de know how de muitos dos operadores que negoceiam estes produtos e uma quase total ausência de escrúpulos (em grande parte determinada pela absurda regra da sobrevalorização dos resultados de muito curto prazo e do pagamento de chorudos prémios aos quadros superiores) por parte dos responsáveis pelas principais entidades financeiras, facilitada pela ausência de regulamentação destes mercados, terá estado na origem do efeito de contágio e de expansão da crise iniciada no mercado do subprime.

A grande sofisticação deste tipo de produtos financeiros e a sua difusão como se de um produto de cobertura de risco se tratasse, originou uma rápida e vasta dispersão pelas contas de quase todos os bancos por esse mundo fora. Mesmo quando se ouviram ou leram declarações de políticos e de administradores de bancos que asseguravam a reduzida exposição das suas economias (e das entidades financeiras que nelas operam) àquele tipo de produtos deveriam ter sido recebidas com as devidas reservas, na medida em que continuavam por apurar os montantes envolvidos naquelas transacções e, inclusive, quais os instrumentos financeiros que integravam ou não os activos daquele tipo.

A regulamentação mais rigorosa, anunciada em Novembro de 2008 na 1ª Cimeira do G20, continua por implementar com a profundidade necessária para por cobro ao absoluto desmando que a crise revelou, em resultado da legislação aprovada em 1999 pela administração Clinton (o Financial Services Modernization Act) que em nome da necessidade de maior concorrência entre as empresas financeiras (bancos e sociedades de investimento) e na defesa dos interesses dos bancos americanos face aos rivais estrangeiros, tidos como menos sujeitos a regulação, revogou o Glass-Steagall Act de 1933 (lei da actividade bancária) que, no rescaldo da Grande Crise de 1929-1933, tinha imposto a separação entre a actividade bancária comercial e a banca de investimento, e para recuperar os valores de confiança e ética num sector de actividade que nunca deveria ter sobrevivido a expensas do sacrifício dos contribuintes, que a avaliar por uma estimativa da época da Reserva Federal norte-americana custou entre os 6 e os 14 biliões de dólares.

A recuperação daqueles valores não se deveria resumir à separação de actividades que garantam maior segurança aos depositantes, mas alargá-la ao conjunto do sistema financeiro e em especial aos sectores mais permissivos a tentações especulativas, tanto mais que até agora o pouco que mudou naquele sistema não passou de mera cosmética e em reacção à retórica política mais inflamada. Mais correcto seria realmente reconhecer que nada mudará enquanto se garantir ao sector financeiro a permanente disponibilidade de fundos públicos para as recapitalizações necessárias para cobrir os prejuízos resultantes da especulação, que continua a ser incentivada e premiada pela atribuição de grandes bónus aos principais intervenientes.

Tudo isto quando a generalidade da banca mundial sobrevive mediante uma quase caridade pública (os famigerados resgates sustentados num duvidoso conceito de risco sistémico, como sucedeu em Portugal com o BPN, o BPP, o BANIF e o BES) que foi a grande responsável pelo agravamento do endividamento público e pelas políticas de austeridade que se seguiram, apresentadas pelos políticos como indispensáveis, para agradar aos credores que são afinal os mesmos bancos ou os seus proprietários. Tudo isto quando ainda poucos abordam os problemas das economias debilitadas pela recessão económica sem trazer à primeira linha de argumentação as dificuldades de liquidez originadas pela retracção no crédito bancário, como se fosse lógico e natural que empresas e famílias vivam fortemente dependentes do crédito e não dos ganhos (lucros e salários) das respectivas actividades, continuando a insistir no absurdo princípio da superioridade de um modelo económico que, impondo um sistema de globalização dos mercados, conduziu a um enriquecimento desmedido dos capitais transaccionais enquanto condenou o trabalho e os capitais locais ao empobrecimento absoluto e direccionou o Mundo para uma situação de quase apocalipse.

Continua evidentemente a faltar um debate sobre o futuro modelo de regulação financeira e por maioria de razões um outro ainda mais importante: a definição de um novo papel para o sistema financeiro, forçando a separação entre as actividades bancárias clássicas (recolha de fundos e respectiva aplicação na actividade creditícia) e as novas vertentes puramente especulativas, modelo que deveria ter como principal garantia para que a futura actividade financeira se resuma ao financiamento da economia e para que a compulsão para a tomada de riscos seja minimizada, o indispensável regresso da capacidade de criação de moeda à esfera pública, limitando essa capacidade do sector financeiro ao mínimo indispensável aos níveis de liquidez saudável e nunca aos níveis de alavancagem que têm sido registados.

Mas as hesitações e tergiversações dos principais líderes mundiais não auguram para breve qualquer alteração radical no modelo de organização e funcionamento do sector financeiro, tornando cada vez mais seguros os proféticos avisos sobre a aproximação de novas crises, inevitáveis num dos mais iníquos sistemas de concentração da riqueza geral nas mãos de um reduzido grupo de grandes financeiros.

Ver artigo original em "O TORNADO"

O PÚBLICO ESTÁ A SER MACIÇAMENTE CONDICIONADO PARA UMA GUERRA

Authors: in Manuel Banet, ele próprio

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A loucura do império anglo-americano é mais aparente do que real: segundo George Galloway[1] ela obedece a uma lógica. Esta loucura será do tipo «frio», ou seja, dos sociopatas que os chefes têm demonstrado ser.

Entretanto, a criminalização da Rússia prossegue, tendo o coro da imprensa «mainstream», como prostituta de serviço, feito tudo para que o público esteja completamente informado sobre quão «mau» é Putin e o seu regime!

Mas nenhuma encenação é perfeita e a cadeia de televisão russa RT conseguiu desmascarar um pseudo ataque, que tinha sido preparado pelos «White helmets» (supostamente humanitários, na realidade, membros do ramo da Al Quaida síria). Preparavam-se para fabricar outro falso ataque químico, em coordenação com John Bolton, o neocon que fanfarronou que «um novo ataque da Síria com armas químicas iria receber outra resposta».

Pergunta-se, face à completa montagem, absurda e inverosímil, do envenenamento dos Skripal e da atribuição do mesmo a agentes russos[2], o que não poderão os anglo-americanos tramar numa situação realmente impossível de avaliar, pelo menos no curto prazo, como o cenário da guerra na Síria[3]

O verdadeiro motivo da reviravolta da administração Trump em relação à Síria tem a ver com a chantagem exercida pelos lobbies dos sionistas e do armamento em Washington.

Em troca de não concretizarem a ameaça de impeachment (um bluff, porque realmente não existe base legal, jurídica, para o fazer) querem obrigá-lo a inflectir a sua política externa, que inicialmente se caracterizava por uma retirada das tropas e conselheiros dos vários teatros de guerra em que os EUA se envolveram nos mandatos dos dois anteriores presidentes, tendo para isso que realizar um apaziguamento com os russos, para conseguir um grau mínimo de coordenação, aquando das retiradas da Síria e do Afeganistão. É este plano estratégico que os neocon (todos eles notórios pró-sionistas) que dominam desde há duas décadas, pelo menos, os meandros da política externa do Império, tinham de sabotar.

Não se pode saber agora - a 12 de Setembro 2018 - qual o resultado dos esforços de uns e de outros. Se houver um apaziguamento e a operação de limpeza de Idlib for coroada de sucesso, sabemos que em Washington prevaleceu a linha fiel ao desígnio inicial de Trump. Se houver uma escalada, com um crescendo de agressividade verbal de lado a lado, seguido eventualmente de um «incidente», seja ele uma acção de «falsa bandeira» ou não, e uma confrontação generalizada,então os neocon venceram.

Chamo a atenção para as análises de pessoas corajosas e lúcidas, como Paul Craig Roberts[4], sobre o funcionamento do poder em Washington: eu não estou especulando, estou a fazer uma síntese de informações sobre assuntos que acompanho. 

Com esta divulgação de dados e  o desmascarar das manobras espero contrariar a narrativa permanente que a media corporativa tem despejado.
 A perda completa de objectividade, a propaganda de tipo «Big Brother» (Orwell), é que me faz crer que a guerra esteja iminente. É que as guerras modernas são precedidas por salvas de propaganda mortífera, antes de haver salvas de artilharia.

Leia original aqui

Retrato dos EUA à espera do colapso

Dominação financeira. Desigualdade. Serviços públicos devastados. Assim se desfaz a “democracia” que inspirou as elites do Ocidente por cem anos. Trump — não se iluda — é só um sintoma


 

Por Chris Hedges, no Truthdig | Tradução: Inês Castilho| Imagem: Mr Fish

O governo Trump não emergiu, prima facie, como Vênus numa meia concha do mar. Donald Trump é o resultado de um longo processo de decadência política, cultural e social. É produto da falência da democracia norte-americana. Quando mais o país mantiver a ficção de que é uma democracia que funciona, de que Trump e as mutações políticas à sua volta são de alguma forma um desvio aberrante que pode ser vencido nas próximas eleições, mais nos se precipitará em direção à tirania. O problema não é Trump. É um sistema político dominado pelo poder corporativo e mandarins dos dois principais partidos políticos, para os quais a sociedade não conta. Só será possível recuperar o controle político desmantelando o estado corporativo, e isso significa desobediência civil maciça e contínua, como aquela demonstrada neste ano por professores de todo o país. Se não nos levantarmos, entraremos numa nova idade das trevas.

O Partido Democrata, que ajudou a construir nosso sistema de totalitarismo invertido, é uma vez mais tido como o salvador por muitos no campo da esquerda. Isso, apesar de o partido recusar-se firmemente a enfrentar a desigualdade social que levou à eleição de Trump e à insurgência de Bernie Sanders. Ele é surdo, mudo e cego ao sofrimento real que flagela metade do país. Não lutará para pagar aos trabalhadores um salário digno. Não derrotará a indústria farmacêutica e a de seguros para propiciar cuidados de saúde para todos. Não conterá o apetite voraz das forças armadas, que estão eviscerando o país e promovendo a instauração de guerras estrangeiras fúteis e caras. Não irá restaurar nossas liberdades civis perdidas, incluindo o direito à privacidade, à liberdade da vigilância governamental e ao devido processo legal. Ele não vai expulsar da política o dinheiro sujo e corporativo. Não vai desmilitarizar a polícia e reformar um sistema prisional que tem 25% dos prisioneiros do mundo, embora os Estados Unidos tenham somente 5% da população mundial. Ele atua para as margens, especialmente em épocas eleitorais, recusando-se a abordar problemas políticos e sociais substantivos, e focando, ao contrário, em questões culturais limitadas como direitos dos homossexuais, aborto e controle de armas, em nossa espécie peculiar de antipolítica.

Essa é uma tática condenada, mas compreensível. A liderança do partido, os Clinton, Nancy Pelosi, Chuck Schumer, Tom Perez são criações da América corporativa. Num processo político aberto e democrático, não dominado pelas elites partidárias e pelo dinheiro corporativo, essas pessoas não teriam poder político. Elas sabem disso. Iriam antes implodir o sistema inteiro que abrir mão de suas posições privilegiadas. E isso, temo, é o que irá acontecer. A ideia de que o Partido Democrata é de algum modo um baluarte contra o despotismo desafia suas atividades políticas nas últimas três décadas. Ele é a garantia do despotismo.

Trump explorou o ódio que enormes segmentos da população norte-americana têm de um sistema político e econômico que os traiu. Trump pode ser inepto, degenerado, desonesto e narcisista, mas ridiculariza habilmente o sistema que estes vastos segmentos desprezam. As provocações cruéis e humilhantes que dirige às agências governamentais, leis e elites do establishment ecoam junto às pessoas para quem essas agências, leis e elites tornaram-se forças hostis. E para muitos que não veem na paisagem política nenhuma mudança para aliviar seu sofrimento, a crueldade e os insultos de Trump são pelo menos catárticas.

Como todos os déspotas, Trump não tem fundamentos éticos. Escolhe seus aliados e nomeados com base na lealdade pessoal e bajulação obsequiosa que lhe fazem. Ele trai qualquer um. É corrupto, acumula dinheiro para si mesmo – no ano passado fez 40 milhões de dólares somente em seu hotel de Washington – e para seus aliados das corporações. Está desmantelando as instituições governamentais que proporcionaram, um dia, alguma regulação e supervisão. É um inimigo da sociedade aberta, o que o torna perigoso. Seu ataque turbinado aos últimos vestígios de instituições e normas democráticas significa que em breve não haverá nada, nem mesmo nominalmente, para nos proteger do totalitarismo corporativo.

Mas as advertências dos arquitetos de nossa democracia fracassada contra o fascismo rasteiro, entre elas a de Madeleine Albright, são de fazer rir Elas mostram o quão desconectadas do zeitgeist tornaram-se as elites. Nenhuma dessas elites tem credibilidade. Elas construíram o edifício de mentiras, enganações e pilhagem corporativa que tornou Trump possível. E quanto mais Trump ridiculariza essas elites, e quanto mais elas gritam como Cassandras, mais ele preserva sua presidência desastrosa e permite que os cleptocratas saqueiem o país, em rápida desagregação.

A imprensa é um dos principais pilares do despotismo de Trump. Ela tagarela infinitamente, como cortesãos do século 18 na corte de Versalhes, sobre as fraquezas do monarca, enquanto os camponeses não têm pão. Divaga sobre temas vazios, como a intromissão russa e um suborno a uma atriz pornô, que nada têm a ver com o inferno diário que, para muitos, define a vida nos EUA. Recusa-se a criticar ou investigar os abusos do poder corporativo, que destruiu nossa democracia e economia e orquestrou a maior transferência de riqueza, em favor dos mais ricos, da história do país. A imprensa corporativa é uma relíquia deteriorada que, em troca de dinheiro e acesso, cometeu suicídio cultural. E quando Trump a ataca com “fake news” ele expressa, uma vez mais, o ódio profundo de todos aqueles que ela ignora. A imprensa adora o ídolo de Mammon tão servilmente quanto Trump. Ela ama a presidência do reality show. A imprensa, especialmente o noticiário a cabo, mantém luzes acesas e câmeras rodando de modo que os espectadores fiquem colados a uma versão século 21 do “Gabinete do Dr. Caligari”. Isso é bom para os índices de audiência. É bom para os lucros. Mas acelera o declínio.

Tudo isso logo será agravado pelo colapso financeiro. Desde a crise financeira de 2008, os bancos de Wall Street receberam do Federal Reserve e do Congresso 16 trilhões de dólares em resgates e outros subsídios, com juros de quase zero por cento. Eles usaram esse dinheiro, assim como o dinheiro poupado pelos enormes cortes de impostos instituídos no ano passado, para recomprar suas próprias ações, aumentando a remuneração e os bônus de seus gerentes e empurrando a sociedade mais fundo para a servidão de uma dívida insustentável. Só as operações do cassino de Sheldon Adelson tiveram uma isenção fiscal de 670 milhões de dólares na legislação de 2017. A proporção média entre o que é pago a um presidente de empresa e a um trabalhador é agora de 339 para 1, com a maior diferença aproximando-se de 5.000 para 1. Esse uso circular de dinheiro para fazer e acumular dinheiro é o que Karl Marx denominava “capital fictício”. O aumento constante da dívida pública, da dívida corporativa, da dívida de cartão de crédito e da dívida de empréstimos estudantis acabará por levar, como escreve Nomi Prins, a um “ponto de inflexão – quando o dinheiro que entra para suprir essa dívida, ou disponível para empréstimo, simplesmente não cobrirá o pagamento dos juros. Então, as bolhas da dívida irão estourar, começando pelas ações de maior rendimento”.

Uma economia que depende da dívida para seu crescimento faz com que a taxa de juros salte para 28% quando alguém atrasa um pagamento do cartão de crédito. Essa a razão porque os salários estão estagnados ou foram reduzidos em termos reais – se a população tivesse um rendimento sustentável não seria obrigada a pedir dinheiro emprestado para sobreviver. É por isso que uma educação universitária, casas, contas médicas e serviços públicos custam tanto. O sistema é projetado para que nunca possamos nos libertar das dívidas.

Contudo, a nova crise financeira, como aponta Prins em seu livro “Collusion: How Central Bankers Rigged the World” (“Conluio: Como os banqueiros centrais controlaram o mundo”) [baixar livro aqui:  pdf Collusion How Central Bankers Rigged the World Nation Books, Hachette (2018) (3.23 MB) ], não será como a última. Isso porque, como ela diz, “não há Plano B”. As taxas de juros não podem ser mais rebaixadas. Não houve crescimento na economia real. Na próxima vez, não haverá saída. Quando a economia quebrar e a raiva explodir, em todo o país, numa tempestade de fogo, surgirão os políticos bizarros, aqueles que farão Trump parecer inteligente e benigno.

E então, para citar Vladimir Lenin, o que fazer?

Precisamos investir nossa energia na construção de instituições paralelas, populares, para proteger-nos e empregar poder contra poder. Essas instituições paralelas, inclusive sindicatos, organizações de desenvolvimento comunitário, de moeda local, partidos políticos alternativos e cooperativas de alimentos terão de ser construídas de cidade em cidade. As elites, num tempo de dificuldade, irão retirar-se para seus condomínios fechados e deixarão que nos viremos por nós mesmos. Os serviços básicos, da coleta de lixo ao transporte público, distribuição de alimentos e assistência médica, entrarão em colapso. O desemprego e subemprego massivo, desencadeando agitação social, serão tratados não através da criação de empregos pelo governo, mas com a brutalidade da polícia militarizada e a completa suspensão das liberdades civis.

Os críticos do sistema, já empurrados para as margens, serão silenciados e atacados como inimigos do Estado. Os últimos vestígios de sindicato de trabalhadores entrarão no alvo, um processo a ser acelerado em breve, com a esperada decisão na Suprema Corte de um caso que enfraquecerá a capacidade dos sindicatos do setor público de representar trabalhadores. O dólar deixará de ser moeda de reserva, causando acentuada desvalorização. Os bancos fecharão as portas. O aquecimento global resultará em custos cada vez mais pesados, especialmente para as populações costeiras, na agricultura e na infraestrutura — custos que o Estado exaurido não conseguirá enfrentar. A imprensa corporativa, como as elites dominantes, irá do burlesco ao absurdo, sua retórica tão patentemente fictícia que, como em todos os Estados totalitários, estará desvinculada da realidade. Os meios de comunicação soarão tão estúpidos quanto Trump. E, para citar W.H. Auden, “as criancinhas morrerão nas ruas”.

Como correspondente estrangeiro cobri sociedades arruinadas, inclusive a antiga Iugoslávia. É impossível para qualquer população atingida compreender, às vésperas da implosão, quão frágil tornou-se o sistema financeiro, social e político degradado. Todos os presságios do colapso são visíveis: infraestrutura em ruínas; subemprego e desemprego crônicos; uso indiscriminado de força letal pela polícia; paralisia política e estagnação; uma economia construída na forca da dívida; fuzilamentos niilistas maciços em escolas, universidades, locais de trabalho, shoppings, casas de shows e cinemas; overdoses de opióides que matam cerca de 64 mil pessoas por ano; epidemia de suicídios; expansão militar insustentável; o jogo como ferramenta desesperada de desenvolvimento econômico e receita do governo; a captura do poder por um grupo minúsculo e corrupto; censura; redução física de instituições públicas, de escolas e bibliotecas a tribunais e equipamentos de saúde; bombardeio incessante de alucinações eletrônicas para desviar-nos da visão deprimente em que se transformou a América e manter-nos capturados por ilusões. Nós sofremos as patologias habituais da morte iminente. Eu ficaria feliz em estar errado. Mas já vi isso antes. Conheço os sinais de aviso. Tudo o que posso dizer é: prepare-se.

Chris Hedges é jornalista vencedor do Prêmio Pulitzer, autor best selling do New York Times, professor do programa de nível universitário oferecido aos prisioneiros do estado de New Jersey pela Universidade Rutgers, e ordenado…

Ver o original em 'Outras Palavras' na seguinte ligação:

https://outraspalavras.net/capa/retrato-dos-eua-a-espera-do-colapso/

JAPÃO, CENÁRIO DA PRÓXIMA CRISE?

Banco de Japón transforma su política monetaria O Japão, essencialmente, leva a cabo uma política de impressão monetária desde os anos noventa, com zero de sucesso. A sua política monetária[1] consiste em tornar o yen muito barato, por forma a que os investidores internacionais procedam ao «carry trade» com o dólar ou outras divisas «fortes». Com isso, aumenta a competitividade dos seus produtos, sendo um dos maiores exportadores mundiais de  produtos industriais sofisticados. Mas, o modo como «embaratece» o yen é muito importante compreender, também: o banco central do Japão compra essencialmente toda a dívida em obrigações do tesouro, sendo um papel com um rendimento virtualmente zero (0,3%). Quando se está num ambiente em deflação, manter em carteira um activo com juro próximo de zero é aceitável, pois ainda assim o valor do activo não desce, mas quando a inflação começa da despontar, como agora, com 1% sendo previsto que atinja os 2% dentro de pouco tempo, qualquer investidor quer livrar-se das obrigações japonesas da dívida que apenas lhe trazem prejuízo. 

Ora, a situação presente é de que o serviço da dívida (pagamento do capital mais os juros) ascende a 24,1% das receitas de impostos, sendo que a inflação agora é somente de 1%. O BCJ (Banco Central do Japão) está a comprar todas as obrigações que aparecem no mercado, tendo para isso que imprimir triliões de yen. É certo que os juros pagos com o dinheiro do orçamento irão quase todos para detentores japoneses, o próprio Banco Central, fundos de pensões, investidores particulares... Porém, o  peso crescente da dívida no orçamento, torna o próprio funcionamento do Estado e da economia muito frágil: Bastaria a subida de 0,3% de juros para 1% de juros - provável, numa situação onde a inflação cresce -  para que praticamente a totalidade da receita de impostos seja devorada pelo serviço da dívida. Seria um cenário catastrófico. Caso a situação atinja esse ponto, a realidade do endividamento extremo das principais economias e Estados ao nível mundial será impossível de esconder do grande público. Pois, a realidade é que essa situação já existe e os governos e bancos centrais têm-se limitado a disfarçar o descalabro. Mas a ignorância do público, em geral, que se verifica mesmo nas economias mais afluentes, é o único facto que nos distancia de um colapso geral neste cenário, em que se acumularam triliões de dívida... essencialmente impagável! 

References

  1. ^ política monetária (www.eleconomista.com.mx)

Leia original aqui

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