Crise

Matem os filósofos primeiro

Crise e descontinuidade À falta de melhor, em tempos de aperto, volta sempre a frase encantatória “a crise é oportunidade”. Sim, há sempre quem pense que um grande abalo vai fornecer o impulso que tem faltado para mudar o mundo: se nós não somos capazes da grande viragem, se a grande viragem não se faz sozinha, então, que ela seja forçada pela terra que treme, pelo mar invasor… enfim, por uma pandemia. Infelizmente, o mote “a crise é oportunidade” denota uma vaga esperança de que o cataclismo oriente a mudança na direção por nós desejada. Como se a natureza pudesse dar respostas aos problemas das sociedades humanas tecidas de instituições. Ora, se a crise pode agudizar a compreensão de que há mudanças por fazer, ela não esclarece o que fazer, nem como fazer. Ainda por cima, a crise desperta muitas conversões ideológicas oportunistas (por exemplo, do individualismo extremo à defesa dos serviços públicos), mas, como mostram as crises passadas, essas iluminações desvanecem-se com o tempo. Pouco tempo. A ideia da crise como oportunidade é a face visível de uma aspiração a que sucumbimos frequentemente: acreditamos em promessas de absoluta descontinuidade no mundo social. Ainda pode acontecer que esta pandemia marque uma poderosa descontinuidade, mas é mais provável que isso aconteça se tivermos uma segunda fase muito pior do que a primeira e daí resultar um grau muito mais profundo de destruição social. Nesse caso, a descontinuidade não nos levará para um grau superior de civilização. Antes pelo contrário. Já quanto à possibilidade de passarmos da injustiça e da desigualdade à justiça e à igualdade, de um salto, parece-me improvável. Nem é nesse projeto que vale a pena investir: a justiça e a igualdade não são naturais, são construções humanas muito frágeis, que precisam de ser tecidas continuamente. Não resultam de uma lança de Zeus. Parece-me mais útil trilhar caminhos de mudança gradual e sustentada. Para isso, em vez de impulso, precisamos de determinação e laços sociais suficientemente fortes para fazermos um caminho longo, incerto e espinhoso, para a mudança social. Receio, contudo, que tenhamos, coletivamente, reflexão insuficiente para fazer esse caminho. Mais uma vez desta vez. Se calhar começaram por matar os filósofos logo no início da pandemia… Filosóficos dislates Em Portugal, a reflexão filosófica sobre a pandemia e a sociedade não tem chegado de forma audível ao espaço público. Alguns pronunciamentos têm aparecido, por vezes com teses assustadoras. Por exemplo, aproveitando o carácter global da pandemia para insistir na crítica à globalização, como se fosse uma saída insistir no fechamento – ou como se fosse possível responder humanamente a esta crise de outra forma que não com uma resposta global. Como é possível, quando estamos todos a sofrer os efeitos do fechamento (em casa, ou, em casos específicos, numa localidade) sonhar com o fechamento dos países, ou das regiões do mundo, como curativo para a sociedade mundial? O facto de ter sido um dos primeiros palcos da pandemia no mundo ocidental deu a Itália o insondável privilégio de ter acolhido algum debate filosófico público especificamente focado no significado da situação sanitária e das formas de lidar com ela. Nesse quadro, a par de contribuições interessantes, surgiram dislates de primeira ordem. Giorgio Agamben, logo a 26 de fevereiro, publicou um texto intitulado “a invenção de uma pandemia”, onde apresentava a tese de que as medidas de emergência tomadas pelas autoridades eram “frenéticas, irracionais e completamente injustificadas” face a uma “alegada pandemia de coronavírus”. Repetia a tese de que se tratava de uma doença similar à normal gripe. O texto (que se pode encontrar aqui: L’invenzione di un’epidemia), concluía com mais uma instância da teoria da conspiração: “Assim, num círculo vicioso perverso, a restrição da liberdade imposta pelos governos é aceite em nome de um desejo de segurança que foi induzido pelos mesmos governos que agora intervêm para a satisfazer.” O filósofo Jen-Luc Nancy respondeu a esse texto num tom jocoso (Eccezione virale), mas lembrando um episódio capaz de alertar para o perigo de levar as nossas teorias demasiado a sério contra a dura realidade. Uns 30 anos antes, Nancy foi aconselhado pelos médicos a fazer um transplante de coração e Agamben (são amigos) disse-lhe que ele não devia dar ouvidos aos médicos. Nancy comenta assim: “Se eu tivesse seguido o seu conselho, provavelmente teria morrido em pouco tempo.” Giorgio Agamben, naquele texto infeliz, estava a seguir uma velha prática: procurava mostrar que as suas teorias sobre o estado de exceção permanente estavam certas e explicavam o que se estava a passar. Veja-se esta sua frase: “Primeiro que tudo, há uma tendência crescente para utilizar o estado de exceção como paradigma normal do governo.” Ou esta: “Dir-se-ia que, uma vez esgotado o terrorismo como causa de medidas de exceção, a invenção de uma epidemia pode oferecer o pretexto ideal para as alargar para além de todos os limites.” Quase um mês depois, Agamben publicou um “esclarecimento” da sua posição, sem, verdadeiramente, perceber nada do que estava errado com o seu pronunciamento inicial, tentando reduzir tudo à distorção e falsificação de outrem… Compreender um mundo multinível Creio que esta crise renovou as oportunidades para nos confrontarmos com o fraco entendimento que temos das sociedades humanas. Por exemplo, há milhões e milhões de pessoas que vivem em países governados por personagens completamente incapazes de raciocinar sobre o impacto da pandemia na vida e no futuro dos seus concidadãos. E, em muitos casos, esses personagens foram escolhidos no seio de sistemas classificados como democráticos. Como é isso possível? Ainda por exemplo, a esmagadora maioria das pessoas que enfrentam esta pandemia continuam assustadas com um facto básico: aquilo que era “verdade” nos primeiros dias da crise deixou de ser verdade – e deixou de ser verdade várias vezes, porque a revisão do “melhor conhecimento disponível” continua. E continuará. Convivemos mal, a esmagadora maioria de nós, com a incerteza acerca do que realmente se passa no mundo que nos afeta. Entretanto, as receitas para responder à situação continuam confusas. Há uma razão para isso: temos ideias simplistas acerca do funcionamento de sociedades complexas, como a nossa. Há os individualistas, que acreditam que a autodeterminação do indivíduo, a sua liberdade como absoluto, é o que conta. Entre esses contam-se os que pretendem que todas as medidas de combate à pandemia são inadmissíveis por limitarem as liberdades individuais. Só não explicam que liberdade tem um morto – ou mesmo um internado numa unidade de cuidados intensivos. Há os coletivistas, ou centralistas, que ainda acreditam que podemos funcionar eficazmente como rebanho, desde que exista um bom pastor. Entre esses contam-se os que desejam regras gerais obrigatórias para regular todas as circunstâncias da nossa vida em tempo de pandemia, sem margem de interpretação local ou pessoal, porque entendem que só isso garante a boa ordem da resposta. E há as diversas espécies de grupalistas, que entendem que nos desembaraçamos melhor se cada grupo fizer o seu caminho sem interferir com os outros. Entre esses contam-se os que sonharam com regimes específicos de resposta à pandemia aplicáveis por decisão local ao seu município ou região. Creio que estão errados: os individualistas, os coletivistas, os grupalistas. Creio que precisamos de respostas multinível, onde combinamos diferentes níveis de responsabilidade partilhada. Precisamos de coordenação a nível mundial para certas metas, como descobrir medicamentos e vacinas. E precisamos, a nível nacional, de aplicar respostas multinível. Demos um pequeno exemplo, mas muito prático, dessas respostas multinível. Como organizar os restaurantes em tempos de pandemia? Não podemos ter uma resposta puramente individualista, cada um faz como entender na sua ida ao restaurante. Como em geral é o caso, não faz sentido que cada um possa simplesmente ter o comportamento que bem entender… quando o seu comportamento afeta os demais. Um individualista na pandemia tem de ter um restaurante só para si. Tão-pouco podemos ter uma resposta puramente centralista, porque é impossível especificar completamente (por exemplo, em legislação) todos os aspetos de funcionamento de um restaurante. O responsável pela operação do restaurante vai sempre ter uma larga margem de apreciação na aplicação das regras: como é que vai estar certo de que as pessoas a uma mesa são todas da mesma família? E se coabitarem, mesmo sem serem da mesma família? E como se justifica essa coabitação? Vai exigir cartões de cidadão ou declarações da junta de freguesia para atestar tudo o que precisaria de saber para conhecer exaustivamente a situação? Gerir a convivência num restaurante aberto ao público nos dias de hoje é um exercício multinível: as autoridades estabelecem algumas regras, mas têm de cuidar que elas sejam aplicáveis e verificáveis sem excessiva burocracia; os indivíduos que vão ao restaurante serão responsáveis por grande parte da aplicação das regras, no sentido em que podem contrariá-las ou respeitá-las com base numa compreensão própria do objetivo sanitário; os gestores de cada espaço têm responsabilidades próprias, designadamente na higienização e na segurança da operação, e fazem a intermediação entre as regras gerais de comportamento e a prática efetiva dos clientes. Por outro lado, as respostas grupalistas (por exemplo, regras diferenciadas de autarquia para autarquia) seriam incapazes de manter o país como um território aberto onde todos podemos circular e fruir dos serviços na convicção de disporem basicamente do mesmo grau de segurança. Este exemplo, nos seus traços gerais, poderia aplicar-se a muitas situações relevantes nos tempos que correm. Uma partilha de poderes e responsabilidades, articulados entre si, cientes da respetiva interdependência, atuando a diferentes níveis de generalidade e concretude, terá de fazer parte da resposta de uma sociedade de pessoas livres a um desafio que não se vencerá sem um grau elevado de coesão. E não se enganem: a demanda por "mais autoridade" não faz milagres face a situações de gestão multinível. Talvez na China, não aqui. Porfírio Silva, 21 de Junho de 2020

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O culto à morte na religião capitalista

O capitalismo, travestindo de ordem a morte e o sofrimento de milhões, tem servido como farsa de civilização aos bem-aventurados desde seu surgimento. Aos que, por sorte ou crimes históricos, não se encontram à base da pirâmide, cabe viver até certo ponto como homem civilizado, livre das leis e dos riscos presentes na natureza. Mas para a esmagada maioria que sustenta o mundo com seus corpos, “é a luta darwiniana pela existência individual transposta da natureza para a sociedade com fúria potenciada. A posição natural do animal aparece, assim, como ponto culminante do desenvolvimento humano.”

O que Engels denunciara há mais de cem anos permanece atual, apesar das inúmeras transformações pelas quais passou a sociedade. As classes dominantes, ainda ocupando tronos que usurparam de deuses assassinados, tecem o fio da vida de cada ser humano, gerindo sóbria e racionalmente, comprecisão matemática, o fluxo de almas ao Hades. Sua ordem, como dizia Galeano, “é a diuturna humilhação das maiorias, mas sempre é uma ordem – a tranquilidade de que a injustiça siga sendo injusta e a fome faminta.” 

Em tempos de crise, no entanto, a farsa tende a perder suas cores, tornando-se transparente. Oscada vez mais inócuos apelos à normalidade institucional pouco ressoam entre os que conhecem de perto a morte severina – de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte, de fome um pouco por dia – e estes buscam em outras figuras a legitimidade e confiança que perderam. Mas nada é tão ruim que não possa piorar. A morte, praticamente desmascarada, ganha novos e fiéis adoradores; estes, cansados da passividade no tear capitalista, pensam recuperar sua soberania tornando-se braços armados do Capital. Veem no caos e na matança a chance de serem os heróis que nunca foram em suas curtas e medíocres vidas como servos de Mamon.

Todos os mortos levam a Roma

Tem sido fácil reconhecer os arautos brasileiros de Hades nas últimas semanas. A indiferença presidencial frente ao número crescente de vítimas do coronavírus tem feito ecoar o “E daí?” bolsonarista em nossos pesadelos, e a histeria dos poucos militantes governistas contra profissionais da saúde projetou sombras agourentas no concreto de Brasília. Mas à nova palavra da moda – “ucranizar” – não se tem dado a devida atenção. O significado do termo já está claro o suficiente para leitores de longa data da Revista, mas cabe refrescar-lhes a memória: ucranizar significa, em última instância,armar milícias neonazistas para a perseguição de minorias e adversários políticos, em meio a um desmantelamento cada vez mais violento do Estado nacional. O uso deste termo no Brasil assume cores ainda mais sinistras com o estabelecimento de umacampamento paramilitar nos arredores de Brasília. Exaltar o exemplo ucraniano implica exaltar o massacre de Odessa, no qual pelo menos cinquenta pessoas, incluindo mulheres e menores de idade, morreram dentro de um sindicato incendiado por militantes de extrema-direita. Os  que promovem o exemplo ucraniano, assim como seus ídolos, não se contentam em assistir à morte inexorável de todos sob a matemática liberal, mas desejam levar os machados e tochas que selarão seus destinos.

Como de praxe, basta seguir a trilha de corpos para chegarmos a Roma. As milícias neonazistas ucranianas, hoje incorporadas ao Ministério do Interior e à Guarda Nacional de seu país, foram treinadas e financiadas por militares norte-americanos, e ironicamenteretornam ao ninho para treinar supremacistas brancos na pátria da democracia e da liberdade. Os Estados Unidos da América, grande inspiração e amor não-correspondido de Jair Bolsonaro, têm testemunhado o crescimento irrefreável de organizações de extrema-direita, que atuam de forma cada vez mais agressiva efantasiam com uma possível guerra civil iminente – preparando-se inclusive para iniciá-la se for necessário. Parece que até a nossos adversários apocalípticos falta originalidade, bastando-lhes importar mais uma vez o que receita o irmão do Norte.

“Como uns porcos famintos, anseiam pelo ouro”

Mas engana-se quem pensa que este é um ponto fora da curva civilizatória capitalista, principalmente no que tange nossa hemorrágica América Latina. O processo histórico que nos levou ao que convém chamar civilização construiu-se em cima de incontáveis pilhas de cadáveres: calcula-se que não menos de 70 milhões de indígenas viviam nas Américas quando estas foram invadidas pelos conquistadores europeus, restando apenas 3,5 milhões após 1 século e meio. Tamanho massacre teve como único fim o enriquecimento de assassinos; como vampiros, tornaram nosso sangue e riquezas maldição, sugando tudo a seus portos e legando-nos o eterno papel de subalternos.

A dita civilização europeia, reivindicando-se emissária de Cristo e do progresso, foi na verdade negação do que havia, desintegrando sociedades bastante desenvolvidas em ruínas irrecuperáveis. Tenochtitlán, magnífica cidade asteca construída sobre ilhas artificiais, com suas grandiosas pirâmides e aquedutos, foi arruinada pelos espanhóis, que legaram um grande lago ressecado e um país que levaria quatro séculos para alcançar o tamanho populacional de outrora. Os intelectuais nativos que não foram destroçados pela pólvora ou apodrecidos pela varíola foram levados para morrer nos altares pagãos que se erguiam para a colheita do ouro; os espanhóis, que diziam-se seguidores de Jesus, na verdade adoravam Mamon, e tornavam-se como animais a seus pés. “Como se fossem macacos, sentavam-se com gestos de prazer e levantavam o ouro, como se aquilo lhes renovasse e iluminasse o coração. É certo que desejam aquilo com grande sede. Os corpos deles se incham de uma fome furiosa por aquilo. Como uns porcos famintos, anseiam pelo ouro”, diz um textonáhuatl preservado no Códice Florentino. Ironicamente, eram estes mesmos porcos famintos que debatiam elegantemente a metafísica da alma indígena enquanto chafurdavam em suas tripas.

Os espanhóis não foram os únicos suínos, e tampouco foi sua fome somente pelo ouro: ansiavam por qualquer ídolo que pudessem adorar a troco de riqueza. O mesmo se repetiu com portugueses, ingleses, franceses e holandeses; o mesmo se repetiu em Ouro Preto, Ilhéus, Potosí e Havana; e o mesmo se repetiu com a prata, o açúcar, o cacau e o algodão. Tampouco nos falta exemplos na modernidade: são conhecidos os crimes cometidos pela nossa ditadura militar contra os indígenas brasileiros, que vão debioterrorismo àcriação de campos de concentração, e mesmo em nossos governos mais progressistas não deixou de avançar as cifras de mortos entre a população negra e periférica do país. A divisão internacional do trabalho nos tornou eternamente capatazes, gerenciando o sofrimento de nosso próprio povo a serviço de nossos senhores – antes europeus, hoje norte-americanos – e a morte nunca deixou de fazer parte do pacote.

As encarnações de Mamon

Entre os inúmeros dizeres eternizados de Jesus, encontra-se este: “ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamon.” (Mateus 6:24) Mamon não era uma divindade existente, mas a personificação e deificação do Dinheiro; Cristo já denunciava o fetichismo que faz do dinheiro um ídolo, com insondável e soberana vontade própria. Ao cristão não deveriam surpreender os mantras neoliberais, que proclamam a transcendência do deus-mercado e denunciam a blasfêmia que é colocá-lo sob rédeas, pois são expressão pura da idolatria capitalista.

Há, porém, uma expressão ainda mais pura do serviço a Mamon. Nas últimas semanas, Alex Jones, grande guru da extrema-direita conspiracionista americana,declarou estar pronto para “devorar seus próximos/vizinhos” no caso de uma guerra civil. Apesar de ter dito que era uma ironia, o argumento lidava com a possibilidade de faltar comida para sua família: Jones estaria pronto para enforcar, estripar e esfolar o seu próximo em busca de recursos. Não é impossível agradar a dois senhores por mera questão de prioridades; é impossível porque os dois senhores são fundamentalmente antagônicos. O reino de Deus é cooperação e altruísmo, pulsão de vida eternizada na máxima de Cristo: “ame a teu próximo como a ti mesmo”. Já o reino de Mamon é a barbárie sob o mármore, a competição cruel da lei da selva disfarçada em letra morta, eternizada na máxima de Jones: “devore o seu próximo”.

Conforme caem as cortinas, e o reino de Mamon se mostra como é, podemos rejeitar o domínio da morte que este representa, ou abraçá-lo e tornar-nos seus lacaios. Cristo virá, e dirá aos primeiros: 

“Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo; porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e foste me ver. (…) E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.” (Mateus 25:34-36, 40)

São lançados no fogo os que, embotados por sua idolatria, não veem a imagem de Deus sofrendo ao seu redor, e deixam de alimentar os famintos, vestir os nus e hospedar os estrangeiros (Mt 25:41-46). Mas o que resta aos emissários demoníacos que, frente à Verdade, preferem degolar os famintos, roubar aos nus e exterminar os estrangeiros? Mateus não nos diz. Talvez até Cristo se surpreenda com tamanha decadência.

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Esquecimento da dívida e nacionalização são as respostas para a crise económica

por Paul Craig Roberts

Cartaz da Câmara de Comércio dos EUA, 1939. 

As companhias de aviação dos EUA conduziram-se à bancarrota ao recomprarem as suas próprias acções num esquema de enriquecimento para os seus presidentes e membros dos seus conselhos de administração ( www.lewrockwell.com/... ). Com o impacto do vírus nas suas receitas, o Congresso está entregar-lhes um salvamento (bailout) de US$50 mil milhões. Ao invés de serem salvas elas deveriam ser nacionalizadas.

Na crise económica e de saúde em que nos encontramos, o governo vai precisar de toda a confiança pública que possa obter. Salvamentos daqueles que causaram os seus próprios problemas e os nossos não cumprem o teste de decência.

Como escrevi anteriormente, nacionalização é uma palavra de quatro letras para muita gente, mas ela realmente apresenta uma probabilidade de corrigir décadas de desregulamentação e concentração e dessa forma restaurar a competição na economia. Bancos nacionalizados demasiado grandes para falirem, por exemplo, podem posteriormente serem partidos aos bocados e estes serem revendidos a privados. Bancos comerciais podem ser separados outra vez dos bancos de investimento e o poder financeiro concentrado pode ser rompido.

Agora que já sabemos que mercados não são auto-regulados, podemos restaurar uma regulamentação financeira sensata e exigir aos bancos que emprestem para finalidades produtivas, não para financiarizar e alavancar activos existentes. O sistema financeiro dos EUA não tem servido o lado produtivo da economia estado-unidense de há muito tempo.

Enquanto americanos comuns fortemente endividados estão a perder seus empregos por toda a parte quando fecham negócios, lobistas de centros comerciais estão a pedir garantias de US$1 milhão de milhões. A indústria hoteleira quer US$150 mil milhões. A indústria da restauração quer US$145 mil milhões. A National Association of Manufacturers quer US$1,4 milhão de milhões. ( www.cnbc.com/... ) Distribuidores de serviços alimentares estão em perturbação. A Boeing quer US$60 mil milhões financiados em parte por empréstimos garantidos. Governos locais e estaduais necessitam apoio. A conferência estado-unidense de presidentes de municipalidades quer US$250 mil milhões. A lista é infindável.

O que é tem de ser feito para os 40% de americanos que, segundo um estudo do Federal Reserve, não podem obter US$400 em cash sem vender propriedade pessoal? Como é que o grande número dos que não tem seguro vai ser cuidados durante esta crise de saúde? Onde hospitais e médicos obterão o dinheiro?

A única solução é nacionalizar cuidados de saúde de modo a que as contas possam ser pagas. Não podemos sobreviver com grande número de pessoas infectadas e desempregadas a perambular pelas ruas a vasculhar por comida e o que quer que possam tomar.

A única solução para a economia é esquecimento de dívida para as pessoas comuns e nacionalização das companhias. Trump indicou que pode ser dada ajuda na forma de uma participação accionista e posteriormente vender a parte do governo com lucro numa privatização quando as coisas retornassem ao normal. Isto seria uma nacionalização parcial. Muito melhor é ir à totalidade pois isto permite um saneamento por concentração e desregulamentação.

A pandemia tornou claro que uma sociedade de indivíduos egoístas não é uma sociedade. Uma sociedade é um sistema social. Um sistema social com êxito é aquele que pode apoiar seus membros. Uma vez que exista um sistema social auto-sustentado, então há uma base para que as pessoas desenvolvam-se por si próprias. Mas sem um sistema social sustentável, não pode haver nada.

Criar uma sociedade sustentável nos Estados Unidos exige o abandono de modos dogmáticos de pensamento. As velhas ideologias atravessam-se no caminho. Nós e nossos líderes devemos pensar com criatividade se quisermos tratar com êxito a crise económica e de saúde.

23/Março/2020
O original encontra-se em www.paulcraigroberts.org/...

Este artigo encontra-se em https://resistir.info/ .

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/crise/roberts_23mar20.html

Há coisas que não se compreendem...

Confesso que não compreendo os economistas de esquerda que andam por aí a apelar à instituição de eurobonds, sobretudo porque têm obrigação de conhecer a economia política da integração: qualquer mecanismo de mutualização do risco deste tipo será acompanhado pelo reforço da condicionalidade política supranacional e logo pós-democrática. Teríamos ainda mais comissários no Ministério das Finanças a meter o bedelho em tudo. Em relações internacionais neste espaço, nem um snack é grátis.  Entretanto, enquanto o constrangimento do euro não vai para um dos caixotes do lixo, fazendo companhia às regras orçamentais e das ajudas de Estado, os eurobonds não oferecem vantagem em relação ao programa mínimo de um Banco Central, mesmo que seja o BCE: intervir no mercado secundário, comprando títulos, garantindo taxas de juro duradouramente baixas para os títulos de tesouro nacionais, sendo que o Banco que não é de Portugal devolve ao Estado português, sob a forma de dividendos, o que este paga em juros. Obviamente, ainda ficamos sob a chantagem do BCE, mas pelo menos não temos reforço do mando supranacional. Para lá deste programa mínimo, os Estados poderiam ter acesso ao mercado primário, comprando o BCE diretamente aos Estados, complementando ou substituindo-se aos bancos como fazedor de mercado, assumindo que as condições de financiamento são determinados politicamente. Isto é o equivalente a um unicórnio na Zona Euro. Finalmente, o Banco Central poderia fazer o que a Reserva Federal está prestes a fazer e optar pelo financiamento monetário, neste caso creditando as contas das famílias. E quem diz as famílias, poderia dizer também os Tesouros nacionais. É tão simples que a mente bloqueia, como dizia o grande James Kenneth Galbraith. E o financiamento monetário tem a vantagem de não deixar lastro de dívida. Seria uma operação excepcional para tempos excepcionais. É claro que a elite alemã preferiria acabar com o Euro, antes de dar almoços, lanches e jantares grátis aos povos. E por isso os povos terão de colocar fim a esta distopia económica e monetária mais cedo do que tarde...

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Guia para o atual debate económico e político

 
Vivemos tempos de convulsão. No espaço de poucas semanas, algumas das nossas maiores certezas foram desfeitas. A minha geração, que vivia com a expetativa de só ter a temer os acidentes ou as traições do próprio corpo, que para a maioria chegariam lá pelos 80 anos, sob a forma de uma doença coronária ou de uma qualquer forma de cancro, está hoje em isolamento por causa de um vírus. O mundo ocidental, que tinha a soberba de achar que o patamar de condições sanitárias que atingira o colocava a salvo destas crises, está hoje paralisado por causa de uma doença infeciosa. Aquilo que pensávamos só poder conhecer por relato histórico ou ficcional acontece hoje à nossa porta.

No debate económico associado à crise, reina também a maior confusão. Os termos da discussão dos últimos anos esfumaram-se em escassos dias. Conceitos como a emissão monetária em mercado primário ou o helicóptero monetário são atirados para o debate público, sem que a maioria da população tenha capacidade de os entender. Como naquelas comédias de sábado à tarde, em que um rapaz acorda e constata que é uma rapariga ou uma jovem de 16 acorda com 40 anos, economistas conservadores vêm apelar a propostas de ação do BCE que só se ouviriam nos círculos da esquerda à esquerda do centro até há duas semanas. Académicos respeitados, que fizeram uma parte importante do seu percurso a declarar a virtude da independência dos bancos centrais como antídoto para os impulsos destruidores do Estado para a economia, vêm agora a terreiro propor o fim da independência dos bancos centrais como única solução para enfrentar aquela que se prevê ser uma das mais violentas recessões do último século.

O texto que se segue é uma modesta tentativa de mapear os atuais termos do debate e contribuir para o esclarecimento de conceitos que hoje se encontram no espaço público mas que não se encontram ao alcance da maioria da população sem formação em economia. Formar juízo crítico e não estar à mercê da opinião dos “especialistas” é um importante exercício democrático em tempos como o que atravessamos.  


O que é um banco central e o que significa o seu controlo público?Os bancos centrais são aqueles que têm capacidade de criar a moeda reconhecida num determinado território sem qualquer limite legal. É o facto de não terem um limite legal, e não a capacidade de criação monetária, que os distingue dos bancos comerciais comuns. Um banco comercial cria moeda quando concede um empréstimo, por exemplo. Mas está sujeito a uma restrição na sua criação monetária, imposto por limites como rácios de capital ou de reservas. Com efeito, apenas os bancos centrais têm a capacidade de injetar liquidez ilimitada na economia. Essa liquidez pode ser injetada em mercado primário ou secundário, por meio de agentes privados ou de agentes públicos. Ser em mercado primário significa ser por empréstimo direto ao Estado ou aos agentes privados. A intervenção em mercado secundário caracteriza-se habitualmente pela aquisição de títulos de dívida de agentes públicos ou privados, depois de estes já terem sido primariamente adquiridos por agentes privados num primeiro momento. Esta compra não financia diretamente os agentes, mas pode ajudar à sua liquidez, uma vez que cria uma pressão negativa sobre as taxas de juro exigidas em novas emissões. 
 
O controlo público do Banco Central significa que o seu governador responde perante o governo. Isto é, no limite o governo tem a capacidade de decidir sobre a condução da política monetária. 
 
O que justifica a tendência internacional para a independência dos bancos centrais ao longo das últimas três décadas? Essa tendência deve-se a uma mudança da visão do papel dos Estados na condução da política económica. A ascensão intelectual do neoliberalismo favoreceu a emergência de desenhos institucionais que afastam o Estado da gestão do ciclo económico. O enunciado geral para afastar o Estado da emissão monetária defendia que era uma tentação irresistível para o poder político, com impactos negativos na economia a médio e a longo-prazo. Com o objetivo de maximizarem a probabilidade de serem eleitos, os agentes políticos sofreriam da tendência reiterada para emitir moeda para além da capacidade da estrutura produtiva. Sobretudo em períodos antes de eleições, poderiam recorrer a emissões monetárias para aumentar os salários dos funcionários públicos ou para financiarem programas públicos do agrado do eleitorado. Com a capacidade produtiva interna incapaz de responder à procura gerada pela emissão, a resposta das empresas seria subir os preços para moderar a procura e conservar as suas margens de lucro. Adicionalmente, a inflação pode também aumentar pelo canal de aquisição de importações. O aumento de oferta de moeda nacional causa uma tendência para a sua desvalorização, o que causa o aumento do nível geral de preços por ação dos bens que têm de ser adquiridos por moeda estrangeira. Por seu turno, essa pressão inflacionária pode ser propagada no tempo por meio das expetativas de aumento real de salários. Os sucessivos choques inflacionários são vistos como muito nocivos para as decisões dos agentes económicos. Por vários motivos, mas em particular porque dificulta a aferição da expetativa dos preços relativos dos diversos bens. Num quadro conceptual em que a maximização do lucro/utilidade dos agentes é a referência, a inflação é um elemento distorcedor, que confunde os agentes entre o nível geral de preços e o preço relativo do bem que pretende produzir ou consumir. 
 
Com este pensamento económico como pano de fundo, vários países tornaram os seus bancos centrais independentes. Isto é, bancos centrais em que a administração do Banco Central não está sob a alçada do governo, respondendo a um corpo de administradores nomeados de forma independente. Conforme a doutrina económica prevalecente, essa ação deveria ser guiada por objetivos diferentes de política monetária. Na década de 80, com a hegemonia do Monetarismo, o seu mandato passaria sobretudo por manter a criação de uma massa monetária com taxa de crescimento constante e assim estabilizar os preços. Num momento seguinte, com a ascensão do anúncio de uma taxa de juro diretora como instrumento central, o objetivo do banco central passaria por estimar uma taxa de juro que fosse consistente com os seus objetivos de inflação, emprego e estabilidade macroeconómica (nem todos os bancos centrais têm objetivos comuns, tema que será analisado no parágrafo abaixo).
 
Esta condução independente da política monetária seria vantajosa para a atividade económica, promovendo inflação baixa e estável e pouca volatilidade nas taxas de câmbio, favorecendo a previsibilidade e o investimento.
 
A independência dos bancos centrais é toda igual?Não. Apesar de terem em comum o critério de não terem subordinação governamental, os bancos centrais podem ter características muito diferentes. Essa diferença pode ser caracterizada, grosso modo, em dois planos. Em primeiro lugar, o plano dos objetivos. Há bancos centrais, como a reserva federal-norte americana, que incluem nos seus critérios variáveis como o nível de emprego e a estabilidade do nível de preços. Outros, como o Banco Central Europeu, têm apenas como mandato primário a estabilidade de preços. Embora sejam ambos independentes, a sua capacidade de agir em função do pulsar das movimentações sociais é muito distinto. Mesmo que a Reserva Federal norte-americana não tenha controlo governamental, o seu mandato para estabilizar os níveis de emprego funciona como uma garantia indireta de que o seu mandato tem de ser sensível à pressão social. Pelo contrário, os bancos centrais como o BCE, que se orientam apenas pela estabilidade de preços, podem compaginar o cumprimento do seu mandato (controlando a inflação), enquanto ignoram tudo o que ocorre no plano do emprego e, por extensão, nos indicadores sociais (sobre a relação emprego/inflação falarei adiante). 
 
Mas existem outros dois critérios ainda mais determinantes, cuja ação articulada é necessária entender a extensão da discussão que está a ter lugar. O primeiro é a capacidade de adquirir títulos de dívida pública em mercado primário, o segundo é a correspondência entre a ação de um banco central e o número de Estados soberanos sobre o qual a sua legitimidade assenta. Estas diferenças são facilmente compreensíveis através de um exemplo concreto, explorando as diferenças entre o Banco de Inglaterra (o Banco Central inglês) e o BCE. Ambos os bancos centrais adquiriram independência no final da década de 90. O Banco de Inglaterra porque essa independência lhe foi atribuída, o BCE porque foi constituído nessa época. Mas correspondem a realidades práticas muito distintas. Em primeiro lugar, o Banco de Inglaterra não está estatutariamente proibido de adquirir títulos de dívida pública em mercado primário. Essa diferença tem reflexo na discussão presente, com o Banco de Inglaterra a admitir esse cenário numa das suas últimas comunicações. Esta característica é fundamental porque é um poderoso antídoto contra os ataques especulativos. Como o Banco de Inglaterra a ter a possibilidade de, no limite, financiar diretamente o Estado inglês e emitir moeda para saldar as obrigações de dívida assumida no passado, isso gera um efeito tranquilizador nos agentes financeiros que detêm títulos de dívida inglesa ou o pretendem adquirir no futuro. Esta característica distintiva do Banco de Inglaterra foi celebremente assinalada por Paul de Grawe como um importante fator de isolamento de Inglaterra em relação ao à crise das dívidas soberanas (ver aqui). Embora nunca tenha tido necessidade de emitir moeda para financiar diretamente o estado em mercado primário ou para saldar compromissos assumidos, a possibilidade de o fazer foi um importante fator para serenar a ambiência especulativa dos mercados financeiros. Por outro lado, a independência do Banco de Inglaterra é mais facilmente revertível. Isto é, ainda que os bancos centrais tenham feito a sua transição para entidades independentes sob a narrativa da irreversibilidade do processo, é sabido que esse não é uma premissa inamovível. No limite, o Banco Central funciona no contexto de uma unidade soberana e essa unidade soberana pode resgatá-lo para a sua esfera de ação se assim o deliberar. No caso do Banco de Inglaterra, será suficiente a vontade determinada do parlamento e do governo para que tal suceda. Esta perceção de capacidade de retirada da independência numa situação extrema também contribui para a diminuição da perceção de risco de o Banco Central não funcionar como prestamista de último recurso, porque, mesmo que o governador seja obstinadamente contra essa ação, a vontade democrática pode celeremente sobrevir num momento de excecionalidade. 
 
O BCE, pelo contrário, tem um desenho institucional muito distinto. Em primeiro lugar, porque está estatutariamente impedido de financiar diretamente os Estados. Isto é, está proibido de comprar títulos de dívida pública dos Estados em mercado primário. Na verdade, até à crise, a interpretação desta cláusula era ainda mais extrema. Parte dos membros do BCE, em especial o Bundesbank, tinham a interpretação – e, na verdade, mantêm-na – de que a compra de títulos em mercado secundário, fundamental para diminuir as taxas de juro dos países periféricos a partir de 2012, constituía uma violação dos tratados. Foi isso que explicou a tardia reação do BCE, com o enorme custo económico e social desses anos (sobre a ligação entre a crise de 2010 e a crise presente falarei adiante). Essa impossibilidade faz com que os mercados saibam que, no limite, nenhum Estado da zona euro tem a capacidade de emitir moeda, por sua decisão, para responder a uma situação de escassez de liquidez. A inexistência dessa possibilidade impendeu, e continua a impender, como uma guilhotina sobre a capacidade de financiamento dos estados soberanos da zona euro, em particular os da periferia. Embora consigam taxas de juro reduzidas em período de acalmia financeira e de compromisso de injeção de liquidez do BCE, os estados periféricos são sujeitos à crua realidade em períodos de abalo económico grave: a sua emissão de dívida equivale, na prática, a emissão de dívida em moeda estrangeira, uma vez que não detêm o controlo de emissão dessa moeda. E, portanto, a especulação sobre os juros da sua dívida escala rapidamente. Além do problema estatutário, o BCE tem um problema ainda maior: a dificuldade de alterar esses estatutos. No caso do Banco de Inglaterra, basta uma grande pressão política interna dentro do Estado britânico para que tal suceda. Mas, no caso da zona euro, é totalmente diferente. A alteração dos estatutos do BCE teria de ser tomada por uma ampla maioria (unanimidade, na verdade) dos estados soberanos que compõem a zona euro, o que muito, muito dificilmente sucederá, fruto dos interesses conflituantes desses Estados. No fundo, a escolha é entre a manutenção do desenho institucional do euro como ele existe ou a sua implosão. A reforçada independência do BCE é, neste momento, uma das suas maiores fragilidades. 
 
O balanço da independência dos bancos centrais é positivo?Em resumo, a resposta é negativa. A dimensão mais visível do atual ceticismo em relação à atuação dos bancos centrais independentes, em particular o BCE, prende-se com o excesso de zelo com que prosseguiram o seu mandato da estabilidade de preços. Isso conduziu-os amiúde a sobrestimarem as taxas de desemprego compatíveis com os seus objetivos de inflação. No período antes da crise, isso traduziu-se em fixação de taxas de juro acima do necessário; no período pós-crise, com as taxas de juro diretoras próximas de zero, traduziu-se numa contenção orçamental desnecessária, por meio dos objetivos em termos de saldo estrutural. Ambos os movimentos causaram desacelerações económicas artificialmente criadas pelo contexto institucional. Isto é hoje amplamente reconhecido. Veja-se o artigo de Antonio Fatas, curiosamente publicado na IMF Economic Review em 2019 (aqui), onde este ciclo recessivo alimentado pela articulação entre o BCE e as regras orçamentais europeias é reconhecido. Por outro lado, foi na época dos bancos centrais independentes, na sua maioria também com missões de supervisão financeira, que aconteceu uma das maiores crises financeiras do século XX. Finalmente, mesmo naquilo em que se sugere e que foram bem sucedidos – manter a estabilidade de preços – existe um aceso debate sobre o seu papel. Outros fatores – como o aumento dos bens de consumo e industriais importados da Ásia ou a fragilização dos instrumentos de reivindicação salarial coletiva – podem ter desempenhado um papel igualmente importante. Neste sentido, a independência dos bancos centrais não tem a solidez de resultados que alguns quadrantes lhe gostam de atribuir. 
 
A emissão de moeda pelo banco central é uma medida eficaz no combate às crises económicas?A resposta a esta questão necessita de ter em conta a resposta às duas sub-questões que se encontram abaixo. 
 
i)              De que crises económicas falamos?Em economia, podemos distinguir, de modo geral, dois tipos de crises. As que provêm do lado da procura e as que provêm do lado da oferta. As crises de procura caracterizam-se por uma economia não conseguir empregar plenamente os seus recursos. Isto é, a economia tem capacidade instalada de trabalho, capital e progresso técnico para produzir uma determinada quantidade de bens e serviços, mas produz menos, porque os agentes económicos não estão a utilizar plenamente os seus recursos. Isso gera a existência de capital excedentário e de desemprego. Estas crises são habitualmente geradas por um desalinhamento de expetativas. Como as flutuações nas economias capitalistas são primariamente movidas pela decisão descentralizada de investimento de múltiplos agentes económicos, um período de maior incerteza em relação ao futuro pode inspirar uma inibição no investimento que, por um efeito de composição, acaba por fazer diminuir a atividade económica. Nestes casos, o principal problema é o facto de os capitalistas considerarem que, se investirem, não vão conseguir vender a sua produção. Nesse sentido, o problema é que os agentes privados não têm a expetativa de realizar a taxa de lucro esperada. Face à incapacidade do sistema de preços e taxas de juro resolver o problema de modo automático, é fundamental que uma entidade injete exogenamente procura por bens e serviços. Essa entidade com capacidade de planeamento é, por excelência, o Estado. Essa injeção, além de elevar de imediato o nível económico, tem efeitos de cadeia positivos, que podem reanimar o ritmo de investimento e reconduzir a economia ao pleno emprego. Por outro lado, uma economia pode enfrentar uma crise do lado da oferta. Estas crises afetam diretamente o potencial produtivo da economia. Os exemplos mais destacados são o aumento substancial do preço de uma matéria-prima relevante importada do exterior, uma crise da taxa de lucro ou uma súbita destruição/inutilização dos fatores de produção. No primeiro caso, o exemplo mais destacado é o petróleo e pode olhar-se como exemplo os choques petrolíferos da década de 70. Com um preço de uma matéria-prima importada a um nível superior, a produção potencial é forçada a cair. Quanto à crise da taxa de lucro, trata-se do caso em que os capitalistas não estão dispostos a investir com a margem de lucro vigente. Não é um problema de realização da taxa de lucro (como no caso das crises de procura) mas um conflito entre a distribuição funcional do rendimento que inibe a expansão da economia quando os níveis salariais estão além do que que a classe capitalista está disposta a aceitar. É, tradicionalmente, uma das principais explicações marxistas para as crises de acumulação de curto-prazo. Finalmente, o caso mais inusitado de crises de oferta que estão associadas à inutilização/destruição de capacidade produtiva. A ilustração mais clara deste tipo de crises são os cenários de guerra, em que unidades de produção são destruídas e a força de trabalho é retirada da produção e mobilizada para o campo de batalha. Outros exemplos são desastres naturais, como os terramotos. Estas últimas crises, contudo, tendem a ser limitadas ao período de excecionalidade do evento que as suscita.
 
Como veremos adiante, contudo, a diferença entre crises do lado da procura e da oferta não é estanque, podendo estar interrelacionadas. Essa compreensão será adiante central para caracterizar a crise que estamos a atravessar.
 
Para já, importa sublinhar que a intervenção dos bancos centrais é eficaz, essencialmente, nas crises do lado da procura. Para um Estado que vê a economia a paralisar e o desemprego a subir, é essencial ter meios de financiamento para introduzir o choque exógeno que criará a procura por bens e serviços que coloque fim à espiral deflacionária. No caso em que os agentes privados se mostram indisponíveis para financiar a dívida pública a taxas de juro comportáveis, a solução pode passar pelo financiamento junto do Banco Central. No entanto, esta é uma solução que não é facilmente aplicável a todas as economias.
 
ii)            De que economias falamos?Para avaliar a eficácia do financiamento do Estado junto do seu Banco Central para combater uma crise de procura, temos de distinguir o perfil de economia que estamos a analisar. Por imperativo de brevidade, distingamos dois tipos de economia: uma pequena economia em desenvolvimento, sem uma moeda internacional de referência, e uma economia madura com uma moeda internacional de referência. Por economia em desenvolvimento entende-se uma economia com baixo grau de sofisticação produtiva e com um stock de capital limitado. Ou seja, um tipo de economia em que as restrições de oferta são mais rapidamente atingidas. Por uma economia madura entende-se uma economia com reservas habituais de capital excedentário e um maior nível de sofisticação na capacidade produtiva. O meu argumento é que, no primeiro caso, o financiamento direto pelo Banco Central é, na maioria dos casos, ineficaz. No segundo caso, pelo contrário, o financiamento pelo Banco Central é um importante instrumento de política económica, capaz de pôr fim a um ciclo recessivo sem riscos assinaláveis. 
 
Comecemos pelo primeiro caso. Podemos imaginar que se trata do caso extremo, e tantas vezes citado, da economia do Zimbabué. Considere-se que o caso em que o governo no Zimbabué se financia massivamente junto do seu Banco Central. Provavelmente, aquilo que povoa a mente de muitos economistas sempre que ouve falar deste recurso irá concretizar-se: hiperinflação. Mas é importante perceber porquê e não apenas vaticinar este desfecho como prova de sabedoria de algibeira. Numa economia pouco desenvolvida e diversificada, os limites da capacidade produtiva interna são rapidamente atingidos. Uma vez atingida a capacidade de produção interna, dois mecanismos favorecem o surgimento de inflações elevadas: em primeiro lugar, uma subida contínua dos preços internos, como resposta de um tecido produtivo que não consegue responder em quantidade de produção. Mas, principalmente, o facto de este tipo de economias ter de importar uma maioria de bens que é incapaz de produzir. Esses bens têm de ser adquiridos nos mercados internacionais denominados em moedas de referência (o dólar ou o euro). O país terá de ter reservas dessas moedas para adquirir esses bens. No entanto, se o empréstimo do Banco Central for massivo, essas reservas serão esgotadas rapidamente. As paridades (se algum tipo de câmbios fixos existir) terão de ser abandonadas. No caso de câmbios flexíveis, a moeda desvalorizará rapidamente até um valor muito abaixo do inicial. O câmbio com essas moedas cairá a pique e a moeda nacional perderá rapidamente o seu valor. Se este expediente for usado com frequência, este processo pode tornar-se cumulativo. É assim que se atinge o caso anedótico da nota de um bilião de dólares do Zimbabué. Este é o motivo pelo qual a compra de dívida em mercado primário tem de ser usada com muita precaução como processo de desenvolvimento.
 
Mas o caso é dramaticamente distinto se pensarmos numa economia desenvolvida com uma moeda de reserva internacional em contexto de crise de procura. Relembre-se que essa economia está em espiral deflacionária, com muito capital e força de trabalho por utilizar. Por outro lado, a estrutura económica mais diversificada permite-lhe produzir um conjunto mais alargado de bens e serviços. Assim, consideremos o caso em que esta economia se financia diretamente junto do seu Banco Central e lança um programa de gastos sociais e investimento público. Em primeiro lugar, isto cria uma injeção direta de procura que permite deter a espiral recessiva. Mesmo que esse financiamento seja massivo, como a depressão é profunda e a capacidade produtiva se encontra inutilizada, a economia terá oportunidade de responder. Por isso, a inflação por pressão da capacidade produtiva interna é um cenário muito implausível. Na verdade, no momento em que tal suceder é o momento em que o estímulo deixa de ser necessário. E a poupança? A poupança não é um obstáculo neste caso. O problema de uma economia com excesso de capacidade é, na verdade, o excesso de poupança dos agentes privados: não há despesa suficiente para manter a economia no pleno emprego. É neste momento que vale a pena termos bem presente o mais básico dos ensinamentos keynesianos: a poupança não gera nem tem de preceder o investimento. Sim, exposteles têm de ser iguais, mas esse ajustamento pode se feito pelo aumento da produção que não existiria na ausência do choque procura. O que tem de preceder o investimento é o financiamento. E esse pode ser exogenamente fornecido, como neste caso. A questão final relaciona-se com saber o impacto nas reservas do país e na taxa de câmbio. Neste caso, ao contrário do exemplo anterior, pouco existe a temer. A moeda que está a ser emitida é uma moeda de referência internacional, como o dólar ou o euro. Seria preciso emitir um valor absurdo dessa moeda para pôr em causa a sua utilização como reserva de valor à escala internacional. Relembremos que, desde o fim do padrão-ouro, acumular estas divisas é a única possibilidade de um país acumular reservas com aceitação universal. Face ao ceticismo, é importante notar que a prova evidente deste facto são os gigantescos programas de QE promovidos pela FED e pelo BCE. Esses programas massivos causaram quebras residuais na taxa de câmbio dessas moedas (quebras essas que foram até benéficas para alguns países que constituem a zona euro, como Portugal). Com efeito, não se vislumbra o motivo pelo qual um país com estas características deva esperar hiperinflação. Voltaremos mais adiante a esta discussão, com o caso mais concreto de Portugal no contexto da zona euro.
 
Até agora, procurou-se apenas fixar o quadro de conceitos e casos gerais que permitem perceber a situação particular em que nos encontramos. O seguinte conjunto de respostas já procurará, pelo contrário, aplicar esses conceitos à crise particular esta pandemia.
 
O que caracteriza a crise económica causada por esta pandemia?Numa frase, esta crise pode ser caracterizada com como um choque de oferta temporário de inaudita dimensão em tempo de paz, seguido de uma profunda e prolongada crise de procura causada pela existência de agentes económicos severamente constrangidos financeiramente e por um colapso das expetativas. 
 
O brutal choque de oferta é criado pela necessidade de inutilizar a maior parte da força de trabalho, colocando-a em recolhimento a fim de impedir a propagação do vírus. O choque de procura segue-se pelo canal direto do colapso de rendimentos, pela existência de um Estado soberano com níveis absurdos de endividamento e pelo congelamento de qualquer investimento privado perante este cenário. 
 
Qual será o cenário se nada for feito? 
 
Para avaliar o desenvolvimento da crise que foi sumariamente descrita atrás, é útil pensar num cenário base em que nenhuma reação de política económica seria acionada. 
 
O recolhimento da população em casa e o fecho de múltiplas unidades produtivas causa uma diminuição sem precedente da produção. Mesmo que as empresas tenham margem de tesouraria e o usem, mais tarde ou mais cedo a quebra de produção estender-se-á à queda de rendimentos. Importa não subestimar o impacto do choque de oferta no imediato: somos uma economia que está resumida à prestação de serviços básicos e à manutenção das cadeias de consumo. Mesmo que alguma atividade possa ser feita em teletrabalho, o impacto é residual. Adicionalmente, importa notar que o investimento, vital à dinâmica de qualquer economia capitalista, sumiu da noite para o dia. Ninguém investe neste cenário. O incumprimento privado dispara e, por conseguinte, as imparidades dos bancos. 
 
A par da desesperante queda de produção e rendimentos no setor privado, o Estado tem de aumentar a sua despesa para fazer face à crise de saúde pública que está a vivenciar. A despesa aumenta e, com o efeito, o défice. Ao mesmo tempo, o PIB cai a pique, lançando o défice em percentagem do PIB e os valores da dívida pública para níveis estratosféricos. 
 
Enquanto tudo isto acontece, o Estado é ameaçado pelo corte de financiamento nos mercados internacionais. As taxas de juro começam a subir. O financiamento da economia portuguesa fica condicionado a curto prazo. 
 
Mesmo que a crise de saúde pública termine em alguns meses, a economia estará devastada. Pessoas com situações sociais dramáticas, com rendimentos reduzidos ou no desemprego. Investidores privados demasiado temerosos ou sem capacidade financeira para investir. Um Estado sem capacidade de acudir à ruína económica, com níveis de desequilíbrios orçamentais nunca vistos e o financiamento internacional à beira de ser cortado. 
 
O que está a ser feito é suficiente? E como afeta o cenário de base?
Avaliemos as medidas que estão a ser tomadas e como afetam o cenário de base. No momento em que escrevo, é possível dividir as medidas que estão a ser tomadas em três grandes grupos. i) As medidas propostas pelo governo para resposta imediata à crise, ii) o programa de aquisições em mercado secundário anunciado pelo BCE e iii) O anúncio da suspensão das regras orçamentais europeus constantes no tratado orçamental. 
 
Quanto às medidas propostas pelo governo, como as linhas de financiamento para as empresas ou o co-pagamento de salários em caso de ser declarado o lay-off, tratam-se sobretudo de medidas que pretendem conter no imediato o aumento do desemprego e a queda de rendimentos. Comparando com o cenário base, tem a vantagem de aplacar parte dos efeitos sociais imediatos da crise e suavizar a quebra de rendimento e de procura no imediato e no futuro. O governo tentará levar estas medidas até ao fim do momento pandémico, esperando que seja o suficiente para as empresas não encerrarem e os trabalhadores não serem despedidos. Contudo, embora seja uma medida acertada no estreito espaço de reação do governo, não se deve sobreavaliar a sua capacidade de contenção. Portugal tem números elevados de trabalhadores precários, muitos deles em atividades económicas que dependem direta ou indiretamente do turismo. No caso dos trabalhadores precários, o mais provável é que as empresas acabem por recorrer ao despedimento. Até porque, no caso do turismo, já se tornou evidente que o choque não será apenas temporário. Mesmo que os trabalhadores por tempo indeterminado conservem na sua maioria os postos de trabalho, só o impacto nos trabalhadores precários já será colossal. Adicionalmente, esta medida também modifica o cenário base do lado da despesa. Pagar uma parte substancial do salário a uma parte substancial da população empregada em Portugal, a que se adiciona os aumentos no subsídio de desemprego, fará disparar a despesa. Com o PIB a cair a pique (a estimativa do Expresso aponta para uma contração acima dos 8%) o impacto no saldo orçamental e no stock de dívida será avassalador. 
 
A segunda medida é o pacote de aquisição de ativos do BCE em mercado secundário. Este programa foi anunciado tardiamente, apenas dias após a crise já estar a devastar Itália e após o ataque especulativo evidente de que as obrigações soberanas dos países do Sul estavam a ser objeto. Deposita-se grande esperança neste pacote, porque a compra massiva de ativos em mercado secundário foi capaz de inverter, em 2012, a crise das dívidas soberanas na periferia da zona euro, baixando a perspetiva de risco e, por consequência, as taxas de juro da dívida pública. Mas desta vez não bastará. Porquê? Porque a solução de 2012 surgia, apesar de tudo, num momento em que o essencial era tentar retomar a aparência de que contrair dívida em euros por um país como Portugal era sensivelmente o mesmo do que uma dívida em euros contraída por um país como a Alemanha. Mas desta vez esta medida não bastará. Desde logo, porque ela assenta numa aparência: o risco de um euro emitido por um país da periferia não é, de facto, um euro emitido por um país como a Alemanha. De 2012 em diante o instrumento resultou por uma combinação de fatores que não são repetem. Por um lado, a inversão de expetativas. Numa crise que tinha até então sido caracterizada pela inação do BCE, este instrumento foi considerado um arrojo de política económica inesperado. Esse choque de expetativas foi o suficiente para suscitar de novo o interesse nos mercados financeiros na compra de dívida dos países periféricos no mercado primário, sabendo que o BCE serviria como fonte de procura futura em mercado secundário. A diminuição das taxas de juro da dívida pública foi também um importante choque de expetativas interno. Com um cenário de partida de eminência de dissolução da zona euro e espiral deflacionária, o retorno à perspetiva de normalidade no financiamento dos Estados surgiu como um importante golpe de face as expetativas dos agentes privados. Mas, recordemos, o cenário nunca voltou à normalidade que foi proclamada: o Quantitative Easing (QE) foi mantido a par de uma muito rígida disciplina orçamental e de um ciclo económico favorável, sem choques adicionais. Tudo isto, recordemos, sem que o BCE tenha alguma vez aumentado as taxas de juro ou tenha ousado cessar em definitivo o programa de compras. 
 
Agora, o cenário será bem diferente. Em primeiro lugar, será muito mais difícil convencer os agentes privados a querer deter títulos de dívida da periferia, mesmo com a promessa do BCE: o que os espera não são países em recuperação, mas países com stocks de dívida em valores inimagináveis e estruturas produtivas de rastos. Por outro lado – e este é um ponto a sublinhar – mesmo taxas de juro relativamente baixas em tempos normais (1,5%-2%) são intoleráveis para países cujo stock de dívida explode para valores que se podem aproximar dos 150% ou dos 200%. O serviço de dívida gerado é imenso e isso é algo que afastará ainda mais os investidores privados. Finalmente, em 2012, o QE foi visto como a prova derradeira de que a zona euro iria resistir à crise. Isso pôs fim à especulação sobre o fim da moeda única e do BCE. Neste momento, as apostas neste sentido são muito menos certas. E isso deixa os agentes privados muito mais inquietos: de que vale a garantia de um banco central se esse banco central deixar de existir, pelo menos como o conhecemos? 
 
Finalmente, a suspensão dos limites orçamentais europeus. Esta é provavelmente a mais insidiosa das medidas anunciadas. Insidiosa porque o seu anúncio parece muito promissor, mas o seu efeito prático, sem qualquer complemento, é próximo de nulo. O que a Comissão Europeia anunciou é que nenhum país será sancionado por violar as regras orçamentais. Mas isto é parco consolo: porque o que há a temer neste momento é tudo menos as comparativamente irrisórias sanções da Comissão. Mesmo que as sanções não existam, os países terão forçosamente de gastar mais, o seu défice explodirá, o seu serviço e o stock de dívida também. E, no final do dia, tudo isto existirá, mesmo que a Comissão levante as suas amadas sanções. A questão fundamental é como financiamos esta calamidade e como temos os meios financeiros para enfrentar uma depressão futura. Colocar os países a endividarem-se individualmente – acenando com a possibilidade de o fazer porque não existem sanções – é irresponsável, porque o corte de financiamento virá dos mercados financeiros, que a Comissão Europeia não controla. O que se exige das autoridades europeias é que enfrentem este problema, ao invés de tentarem salvar a face junto da opinião pública e empurrarem o problema para o futuro. 
 
Com efeito, qual a resposta à pergunta: “são estas medidas suficientes?” A resposta é não! Não porque os países periféricos da zona euro ver-se-ão, ainda durante o momento de resposta à crise, com um défice e uma dívida crescente que precisa de ser financiada e nem a flexibilização das regras orçamentais europeias nem a compra de dívida em mercado secundário trará essa solução. Por outro lado, e mesmo admitindo o cenário otimista de que não existe pressão de financiamento a curto-prazo, chegar ao fim da crise com agentes públicos e privados altamente endividados, a par de enorme desemprego e incerteza, é a garantia de que esta crise perdurará como crise de procura durante muito tempo. Isto é, mesmo que a economia resolva o seu problema de oferta, com a reativação da força de trabalho, será necessária capacidade de financiamento e expetativas de procura. Sem essa fonte de procura, a espiral recessiva agudiza-se e, através dela, os problemas de financiamento. 
 
O choque, por fim, será assimétrico e nenhum destes instrumentos consegue lidar com esse problema. A exposição relativa dos países do Sul será superior. Em primeiro lugar, porque partem de uma atmosfera macroeconómica mais frágil, ainda com os desequilíbrios orçamentais e externos herdados das últimas décadas – importa recordar que, para lá a narrativa gloriosa, Portugal enfrentará este cenário com uma dívida pública e externa superiores a 100%. Por outro lado, economias da periferia como a portuguesa assentaram a sua recuperação económica na exposição ao mercado externo, quer através da exportação de bens quer da exportação de serviços, com particular enfoque no turismo. Com a economia global em contração, o multiplicador à escala global determinará que a diminuição da exportação de bens será inevitável. O turismo, pilar das contas externas da economia portuguesa e grande gerador de emprego direto e indireto, diminuirá acentuada e secularmente durante os próximos anos. Com efeito, a maior exposição externa das economias periféricas, a par dos maiores desequilíbrios macroeconómicos de partida, determinará que, uma vez mais, sejam estas as economias mais afetadas. 
 
O que está a ser proposto?A consciência de que as medidas que estão a ser tomadas são insuficientes tem levado economistas de diferentes quadrantes de pensamento a pedir medidas mais arrojadas com urgência. Essas medidas estão tradicionalmente associadas aos setores progressistas do pensamento económico e do espectro político e implicam, sem exceção, uma maior presença do Estado na condução da crise e da economia. Uma boa medida da singularidade do momento que atravessamos, no entanto, é que estas propostas têm cruzado vários setores políticos e do pensamento económico, formando consensos entre grupos de pessoas que até há escassas semanas não se vislumbravam possíveis. 
 
Como medidas de combate macroeconómico à crise temos assistido a três grandes propostas: a compra de dívida do BCE diretamente aos Estados, a emissão de eurobonds e a aplicação do chamado “helicóptero monetário”. O apelo a estas medidas proveio de setores diversificados. Da opinião internacional e nacional. Paul DeGrawe, influente economista belga e um coerente defensor de reformas na zona euro há muitos anos, escreveu um artigo no Project Syndicate(aqui) onde apela ao financiamento direto do BCE aos estados-membros. Um conjunto alargado de economistas, associados com a ala progressista do pensamento económico, fizeram um apelo público à emissão de eurobonds. Subscrevem esse apelo nomes como Pikkety, Mark Blyth ou Giovanni Dosi. Francisco Louçã é também um dos assinantes do apelo. Wolfgang Munchau apela a um misto de financiamento do BCE aos estados com helicóptero monetário para pessoas e empresas nas páginas do Financial Times (aqui). De forma mais surpreendente, um conjunto de economistas que inclui alguns nomes da frente avançada da direita económica portuguesa, na sua maioria sediada no Minho, como Fernando Alexandre, Miguel Portela, João Cerejeira e Luís Aguiar-Conraria, bem como nomes associados à Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa, fez um manifesto em que apelava à intervenção do BCE em mercado primário (aqui). Vejamos, então, no que se concretizam exatamente estas medidas. 
 
A compra de dívida em mercado primário.Num momento anterior do texto, já se expôs aquilo que se entende por compra de dívida em mercado primário: significa que o Banco Central (neste caso o BCE) emite euros para adquirir diretamente dívida aos países membros da zona euro. No caso da resposta acima, Portugal enquadrar-se-á no caso de um pequeno país com elevada capacidade excedentária e uma moeda de referência internacional. Pelos motivos enunciados atrás, não é expectável que este financiamento cause uma inflação desmedida: Portugal estará numa situação de grande excedente de capacidade e elevado desemprego, sendo o financiamento da despesa do Estado essencial para suster a espiral deflacionária. Por outro lado, ao contrário de um país com uma outra moeda, não corre o risco deste movimento colocar em causa a sua capacidade de comprar bens internacionalmente nem de sofrer importação de inflação. 
 
Qual a grande vantagem desta iniciativa sobre aquelas que estão a ser tomadas? Em primeiro lugar, esta é a única medida que não nos coloca reféns dos mercados financeiros. Num momento de grande instabilidade nos mercados financeiros internacionais, este é o aspeto chave. Com este mecanismo, os países da zona euro poderão fazer face à crise imediata e à necessidade de gasto e investimento público futuros. Não é de mais notar que é fundamental que a resposta à crise seja feita por meio do Estado. Porque ele precisa de meios financeiros para suportar a despesa social, porque ele precisa de meios para robustecer um sistema de saúde exaurido e porque ele precisa de meios para manter níveis de procura que contenham a recessão. Pode perguntar-se: “E é fundamental que seja o Estado?”. Há um argumento muito keynesiano que nos explica a razão: o Estado é o único agente que não está sujeito a flutuações comportamentais de preferência pela liquidez em tempos de crise. O que significa isto? Um dos maiores problemas das economias capitalistas em tempo de depressão é que os agentes privados tendem a aumentar a procura de moeda em períodos em que enfrentam uma incerteza fundamental. Como a procura por moeda não causa aumento de procura por bens e serviços (uma vez que a moeda não se produz) e, por conseguinte, não aumenta o emprego, esta ação dos agentes privados tem um impacto recessivo. Só a ação do Estado – enquanto entidade sujeita a planeamento cuja ação tem impacto global na economia – pode utilizar esse financiamento para aumentar diretamente a procura de bens e serviços. Pelo contrário, injetar liquidez noutras partes do sistema pode não causar procura por bens e serviços. Veja-se o que aconteceu com o QE: o BCE injetou massivas quantidades de liquidez nos bancos, que, na sua maioria, não se converteu em crédito para atividades produtivas, porque os bancos e os investidores estão sujeitos a preferência por liquidez, pelo que possuírem liquidez à sua disposição não tem, necessariamente, um impacto expansionista, se não existir quem procura esse crédito para investir. É, pois, por garantir a independência dos mercados financeiros e garantir meios de ação a um agente público sem preferência pela liquidez que a compra de obrigações dos estados soberanos pelo BCE é importante para fazer frente à crise de procura que se seguirá.  
 
Os Eurobonds. Os Eurobonds são uma proposta antiga, que vem fazendo parte da vaga de fundo na discussão da zona euro desde a última crise. Neste contexto, os Estados continuam a financiar-se junto dos mercados financeiros. Mas com uma diferença essencial: no lugar de ser cada país financiar-se individualmente, estes títulos de dívida são suportados por todos os Estados-membros. Este é um instrumento importante para combater a dimensão assimétrica da crise, porque permite que os países do centro partilhem o risco com os países da periferia, o que garante que estes últimos não se vejam sujeitos a aumentos súbitos no seu custo de financiamento. Os Eurobonds seriam uma medida menos ousada do que a intervenção do BCE em mercado primário, mas seriam um passo importante. Ainda que seja uma opção que continua a depender dos agentes privados, a partilha de risco reduz expressivamente a probabilidade de ataques especulativos. A grande questão dos Eurobonds, contudo, reside nos detalhes. Até que valor deve ser a dívida mutualizada? Deve mutualizar-se toda a dívida nos próximos anos ou isso é um convite ao risco moral? Será apenas mutualizada a dívida diretamente relacionada com os gastos durante a pandemia? Será isso suficiente para países que têm de sustentar a sua economia no período posterior? Estas são questões que surgem de imediato. Com efeito, o debate sobre os Eurobonds só pode ser tido tendo presente estes detalhes.
 
O helicóptero monetário.O helicóptero monetário é uma antiga proposta de Milton Friedman, redigida na década de 60, que consiste em o Banco Central emitir massa monetária e distribuí-la pela população em momentos em que os outros instrumentos de intervenção do Banco Central não têm resultado. Esta proposta tem sido discutida ao longo dos anos, com particular enfoque no caso japonês, como possível solução para a longa estagnação que o país enfrentou. Economistas renomados como Ben Bernanke ou Adair Turner já apoiaram, em algum momento, a medida. Embora muito debatida teoricamente, a solução nunca foi implementada. Em parte, uma vez mais, pelo receio das suas consequências para a inflação, sobretudo no caso de uma entidade governamental não colaborante, ou seja, que conduzisse um estímulo sincrónico que sobreaquecesse a economia. Mas também pelo receio dos incentivos perversos criados no contexto de uma economia de mercado, nomeadamente na poupança e na participação no mercado de trabalho. Esta proposta emergiu com renovado vigor nos últimos dias, com a administração Trump a considerá-la publicamente, além de vários artigos (um deles no Financial Times) fazerem um apelo semelhante. 
 
Devo confessar que esta não se trata de uma medida que perspetivo como a mais eficaz, pelo menos se for tomada isoladamente como resposta à crise. Em primeiro lugar, porque, ao contrário do equívoco em que muitas análises assentam, não há nada de keynesiano nesta medida. Na verdade, os seus fundamentos teóricos são extraídos do mais basilar raciocínio monetarista: esperar que uma expansão puramente exógena da moeda tenha uma relação de causalidade com a expansão do produto. Ora, eu tenho um enorme ceticismo em relação a esta causalidade por um motivo já explicado atrás: a preferência pela liquidez. Em tempos de grande incerteza, não há a certeza de que a população gaste uma proporção significativa do valor recebido para estimular devidamente a procura. Por outro lado, esta proposta tem o objetivo nem sempre revelado de afastar o Estado da resposta à crise. O próprio Milton Friedman faz esta proposta como prova da capacidade última de ação da política monetária, vista sempre como preferencial face à gestão da política orçamental como medida de política. Ora, tentar apenas dotar as pessoas mas não o Estado de liquidez num momento como este é desadequado: é o Estado que está a incorrer em enormes gastos no presente no domínio dos serviços públicos de saúde e da assistência social. Mesmo que esta medida tivesse um impacto positivo pela diminuição menos acentuada do emprego e do produto, o Estado continuaria a braços com um défice e uma dívida de enormes proporções. Qualquer medida que não resolva o problema do financiamento do Estado é insuficiente. Finalmente, ter-se-ia de considerar as questões de equidade da medida, que não são simplesmente previstas na proposta original. Aliás, a metáfora do helicóptero que lança notas é mesmo essa: não interessa quem o apanha, o importante é que a massa monetária se expanda. 
 
Apesar de todas estas reticências, não creio que seja uma opção a excluir, sobretudo porque a sua adoção poderia constituir um momento de alívio da restrição orçamental das famílias num momento de grande dificuldade. Mas sempre sublinhando que é essencial ser tomada a par de medidas que garantam o financiamento do Estado e garantam a sua condução do processo de recuperação, assegurando o fortalecimento dos serviços públicos e das respostas sociais adequadas. 
 
Mas afinal o euro é uma coisa boa?Parte do meu argumento anterior sobre a ausência de risco de inflação em caso de intervenção do Banco central residia no facto de o euro ser uma moeda de referência internacional. Esta premissa do argumento pode conduzir a alguns equívocos. Em particular, o leitor mais atento poderá tentar assinalar uma contradição entre um autor (e um blogue) que no passado criticou o papel do euro no desenvolvimento da economia portuguesa, venha agora colocar a pertença à moeda única como uma grande vantagem neste momento de crise. Para afastar o fantasma da incoerência, é importante esclarecer que nunca considerei que a moeda única fosse um projeto intrinsecamente mau. Na verdade, considero que não se pode ignorar a vantagem que uma moeda comum com outros países com um maior nível de desenvolvimento e a consequente menor exposição a risco cambial pode ter, sob determinadas condições, para o processo de convergência de uma pequena economia como a portuguesa. Um dos exemplos é, em tese, a maior capacidade de financiamento a mais baixo custo para expandir o stock de capital ou a menor exposição à instabilidade causada pelas crises na balança de pagamentos. O problema não é a moeda comum: são as características particulares do euro – uma moeda sobre apreciada para a economia portuguesa que conduziu, num primeiro momento, a incentivos perversos na proporção do investimento, dirigindo-o para a esfera não transacionável, o que amplificou os nossos desequilíbrios externos e orçamentais, na ausência de mecanismos federais de compensação orçamental; e, num segundo momento, uma moeda que nos deixou mais expostos à crise das dívidas soberanas, com uma resposta que preferiu destruir as economias periféricas com austeridade desnecessária no lugar de desencadear as reformas necessárias no seu desenho. Com efeito, o problema nunca foi a moeda única, mas o seu desenho institucional. Aceitar em resposta a esta crise a ação do BCE em mercado primário é a garantia de que, pela primeira vez, a economia portuguesa beneficia de se encontrar neste enquadramento. 
 
É provável que alguma mudança nesse sentido ocorra? A importância da moral e das narrativas para a economia políticaNa discussão sobre as possíveis reformas da zona euro, ontem como hoje, a análise deve ser sempre distinguir o leque de possibilidades teóricos do bem mais exíguo espaço da sua concretização política. O que escrevi a este propósito num texto sobre este tema na revista Manifesto continua válido: “(…) demonstrar a possibilidade teórica não basta: é preciso também saber como se alcança a correlação de forças necessárias à sua concretização. É aqui que a surge política, enquanto campo revelador das preferências sociais e das estruturas de poder. E aí tudo se torna mais difícil: a maioria das propostas de reforma implica um reforço da integração política, uma maior partilha de risco e uma renúncia às ideias económicas estruturantes da zona euro. Condições que não parecem poder vir a ser alcançadas na atual conjuntura ou num futuro próximo”.
A moeda única não é um desenho económico abstrato sujeito a fáceis reconfigurações em função da evolução dos acontecimentos. É um projeto político rígido que foi construído sobre pilares muito claros: independência reforçada do banco central, estabilidade de preços como objetivo primeiro, submissão do financiamento dos estados aos mercados financeiros e ajustamentos macroeconómicos assentes no ajustamento interno, por oposição a qualquer medida de coordenação entre os seus membros. Podemos e devemos fazer exercícios teóricos que extravasem o espartilho destas condições: mas não podemos ter a ingenuidade de pensar que um projeto político da envergadura do euro se move com rapidez perante a exposição à razão. 
 
Na verdade, como já vimos atrás, o BCE foi construído sobre um desenho institucional que torna particularmente difícil qualquer alteração aos seus estatutos. Seria necessária uma coordenação nunca vista entre Estados para permitir alterar os Estatutos do BCE e permitir que adquirisse dívida em mercado primário. Não se percebe como tal coordenação vai ocorrer. Basta relembrar alguns factos políticos recentes que apontam em sentido diametralmente oposto. O Bundesbank ainda hoje contesta o programa de compras do BCE em mercado secundário, embora seja evidente que foi essa ação que impediu o colapso do euro em 2012; por outro lado, antes do início desta crise, a União Europeia encaminhava-se para diminuir o orçamento comunitário, com uma posição inflexível por parte de muitos países do Norte. É difícil perceber como se poderá transformar esse movimento de restrição dos recursos comuns e da partilha do risco num passo totalmente oposto. 
 
Se estas mudanças serão possíveis ou não é algo que, no imediato, ninguém pode prever. A meu ver só existe um ténue elemento de esperança que pode alterar este quadro: a singularidade do discurso moral que se fará desta crise. No contexto de uma pandemia, é difícil construir uma narrativa sobre a culpa individual dos estados-membros para os impactos assimétricos que a crise terá. Essa ideia de singularidade de um choque exógeno que não é da responsabilidade política de nenhum Estado, articulada com algum instinto de auto-preservação, pode conduzir a uma inesperada mudança de curso dos eventos. A história ensina-nos que mesmo as construções políticas mais monolíticas podem gerar soluções políticas inesperadas se pressentirem que a sua sobrevivência enquanto sistema depende disso. A história também nos ensina, contudo, que estes movimentos, mesmo quando vão no sentido certo, podem ser tardios e precipitarem em vez de deterem os processos de desagregação. A eleição de Gorbachev como Secretário-Geral do PCUS e a Perestroikasão exemplos deste processo. Mas, na zona euro, um movimento com este perfil é ainda mais improvável: não se trata apenas de uma configuração institucional monolítica, está também sujeita a uma armadilha de coordenação entre os seus membros que torna qualquer resposta num acontecimento longínquo, mesmo quando pressente que disso depende a sua sobrevivência. 
 
Desta vez é diferente?No parágrafo anterior, argumentou-se que a característica distintiva da economia política desta crise é a narrativa moral. A pandemia é perspetivada como um choque exógeno puro, independente das responsabilidades passadas de qualquer governo. Esta característica tem uma vantagem evidente, mas também uma desvantagem velada que importa discutir neste momento. 
 
A grande vantagem reside no caráter de excecionalidade permitir equacionar medidas que, noutro contexto, seriam afastadas com argumentos associados ao risco moral. “Porquê partilhar risco ou financiar diretamente Estados que cometeram erros no passado?” é uma questão que tem dificuldade em surgir no contexto desta crise. Isso permite colocar um conjunto de comentadores, economistas e políticos do lado do campo progressista, com o argumento de que “desta vez é diferente”. Esta oportunidade de aumentar a proporção de vozes do lado certo do debate não deve ser desperdiçada, devendo ser explorada até à exaustão com total sentido pragmático. Neste momento, cada elemento que nos permita engrossar as fileiras de uma solução racional para esta crise deve ser tomado em consideração sem pruridos de desavenças passadas. 
 
Mas esta circunstância também cria uma atmosfera perigosa, perante a qual nos devemos manter vigilantes. O perigo advém da tese da excecionalidade. Aqueles que, vindos do campo conservador, vêm agora propor medidas progressistas de combate à crise serão firmes em manter a tese da excecionalidade para defender a sua coerência por não terem defendido soluções semelhantes no combate à crise anterior. Vão insistir que desta vez é diferente.
 
Mas será que desta vez é mesmo diferente? A reposta tem de ser dada de forma clara: no que é relevante, ou seja, o leque de respostas à crise, não, não é diferente: as medidas que hoje estão a ser propostas para lidar com esta crise poderiam ter sido aplicadas no contexto da crise das dívidas soberanas, poupando assim muito do sofrimento social que sucedeu. A crise que vivemos hoje é, como já foi referido, uma violenta crise da oferta no presente, com uma grande probabilidade de alastrar para o futuro sob a forma de uma crise de procura. O motivo pelo qual a resposta do BCE neste momento é essencial já foi explicada. Teria sido diferente em 2010? A resposta é não. O que as economias da periferia da zona euro atravessaram em 2010 foi uma crise de liquidez, causada pelos efeitos de choque de um setor financeiro nos EUA, que se alastrou à Europa pela exposição dos bancos do nosso continente, e expôs a fragilidade de uma união monetária incompleta e incapaz de reagir a choques. A crise que se seguiu no financiamento dos países europeus poderia ter sido resolvido, no imediato, com a partilha de risco em eurobounds ou com a intervenção do BCE em mercado primário. Os desequilíbrios externos poderiam ter sido resolvidos com medidas de reforma do sistema de articulação macroeconómica no seio da zona euro. Poderiam ter sido resolvidos sem dor, sem austeridade. As pessoas hoje não têm culpa da pandemia. Mas também não tiveram culpa dos desvarios do setor financeiro e de um projeto político e económico falhado. As centenas de milhares de desempregados, as centenas de milhares de emigrantes e o sem número de pessoas que se viram privadas de acesso a cuidados médicos pela pressão orçamental do sistema ou aqueles que deixaram de estudar não foram os autores morais da crise anterior. 
 
A tese de que a crise anterior foi gerada por cidadãos e governos em espiral despesista foi uma fantasia. Uma fantasia que favoreceu um programa político com graves custos sociais, que teriam sido evitáveis. Devemos saudar todos quantos hoje estão do lado certo. Mas não podemos de deixar de lembrar o inevitável: que muito deles serviram de suporte intelectual e político a uma resposta falhada à crise anterior, que poderia ter sido enfrentada com os mesmos instrumentos que defendem agora.  
 
A ação política perante a crise
 
As páginas anteriores foram reservadas a uma tentativa de clarificar conceitos, cadeias lógicas e termos da discussão económica que agora tem lugar. Mas também se deve dedicar algumas linhas a pensar, de forma breve, a ação política que se exige. 
 
Essa ação é dividida em dois grandes momentos que têm, no entanto, períodos de sobreposição. 
 
Num primeiro momento, que corresponde àquele em que nos encontramos ainda hoje, o papel da esquerda deverá ser apoiar de forma robusta a resposta que as autoridades públicas estão a dar a este problema. Todos temos o nosso papel em credibilizar a ação do Estado e valorizar a capacidade com que as instituições democráticas estão a ter a lidar com esta crise. Este é um daqueles raros momentos em que incutir o respeito pela autoridade não deve ser algo estranho à esquerda. É a capacidade da democracia e do Estado que estamos a defender, não a autoridade em si mesma. Por outro lado, a esquerda deve prosseguir vigilante e assegurar que toda a despesa nos cuidados de saúde e nos apoios sociais está a ser feita, sem olhar a contenções orçamentais, bem como pressionar para que o governo, apesar das múltiplas solicitações a que está sujeito, seja firme no controlo dos despedimentos abusivos por parte das empresas. Felizmente, esta é a estratégia que tem seguida pela esquerda até agora. 
 
No entanto, há uma bolsa minoritária de pessoas no nosso campo político que entende que esta ação é um erro. Defendem que a esquerda deveria estar a pugnar para que mais unidades produtivas fechassem para proteger os trabalhadores e “pôr o sistema capitalista a pagar a crise”. No fundo, aproveitar o momento de convulsão para precipitar a transformação política. Isto seria um erro político de dimensões históricas. Primeiro, porque em qualquer sistema político, capitalista ou não, para manter o consumo é necessário que exista quem produza. E só o facto de a produção se manter em muitos setores assegura um fator chave na condução desta crise: a manutenção intacta das cadeias de abastecimento. Este é o aspeto crucial para manter a paz social neste momento e combater de modo eficaz o problema de saúde pública. Aqueles que acham que beneficiariam do caos – para além do inenarrável maquiavelismo do seu cálculo – subestimam as respostas que uma situação de pânico neste momento causaria. O medo inspira o apelo à vinda de um chefe que tudo coloque na ordem. E seria o fascismo, não o socialismo, a dar a resposta. 
 
Mas a par do apoio à solução das autoridades e ao apelo à proteção social neste momento, há uma outra luta que já começou e se vai intensificar nas próximas semanas e meses. Essa luta, mais surda e larvar, começa já nestes dias, nos sombrios espaços do comentário económico português. Ainda que hoje o que aí se passa não esteja no centro das prioridades da opinião pública, quem ganhar esse debate definirá boa parte do nosso futuro coletivo. É um tempo atribulado e, por isso, vemos muitos dos comentadores habituais com discursos muito arrojados e a falarem de mudança. Mas a crise de 2008 recomenda-nos prudência. Recordemos que também então se fizeram apelos à reforma do mercado financeiro e se apelou às medidas keynesianas de resposta à crise. Recorde-se também como isso se concretizou nos Estados terem de fazer estímulos orçamentais isolados e como, perante o desastre, esses mesmos comentadores e economistas mudaram de modo oportunista a sua narrativa em direção à austeridade. Por isso, este é o momento de estarmos atentos. Valorizar e aproveitar o ensejo de ter mais gente ao lado das nossas propostas do que o normal, mas ser prudente porque tudo pode mudar rapidamente. E, sobretudo, ter presente que a zona euro, pelas suas características, se pode mostrar intrépida perante qualquer pressão. Com efeito, nada neste combate será fácil. 
 
Ao contrário de 2011, não podemos deixar que nos convençam que a culpa é nossa. Ao contrário de 2011, temos de ser capazes de implementar medidas que evitem o sofrimento social e o retrocesso económico desnecessários.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

A crise já está a mudar as regras do jogo

 
Nos últimos dias têm-se multiplicado os pacotes financeiros apresentados pelos governos para fazer face à crise que atravessamos, que ameaça tornar-se uma profunda recessão. Um dos aspetos comuns é o estabelecimento de linhas de crédito e diferimentos fiscais para as empresas afetadas pelo surto, uma medida que tem importância por garantir liquidez imediata a setores que de outra forma ficariam estrangulados. O problema é que o endividamento no setor empresarial já era grande antes da crise e este apoio não compensa os custos que se prevêem dado que o período de distanciamento social (e consequente redução das encomendas e da procura) ainda agora começou e pode ser longo.

Gabriel Zucman e Emmanuel Saez, dois economistas que se têm destacado no trabalho com Thomas Piketty para estudar a evolução das desigualdades de rendimento e riqueza, propõem outro caminho: que os governos atuem como “pagadores de último recurso” e cubram os custos reportados pelas empresas que têm de interromper a atividade, permitindo que mantenham os trabalhadores. A ideia é acertada, mas tem o problema de parecer sugerir que a segurança social se substitua às empresas e garanta o rendimento dos trabalhadores, o que pode ser incomportável se for feito com base em endividamento.

Na revista Project Syndicate, Pavlina Tcherneva pergunta-se “O que faria Roosevelt?” nesta situação. Face à ameaça de despedimentos em massa, aumento do desemprego – a OIT estima que se possam perder 25 milhões de empregos em todo o mundo – e consequente espiral recessiva, a resposta é clara: os governos devem intervir e mobilizar os recursos necessários para combater a pandemia, garantir que a maioria das pessoas possa trabalhar a partir de casa e que os restantes têm condições de saúde no trabalho reforçadas, assegurar os rendimentos de todos (incluindo trabalhadores independentes e precários), assegurar o acesso à habitação e diminuir custos domésticos para as famílias (água, luz, gás, internet, etc.).

É também preciso saber qual a dimensão dos estímulos orçamentais necessários. Hoje em dia, até entre economistas do FMI se reconhece o efeito multiplicador da despesa pública em tempos de crise: isto significa que, por cada euro investido pelo Estado, o PIB aumenta mais do que um euro. J.W. Mason, professor de economia da City University of New York (CUNY), estima que, para os Estados Unidos e face à contração prevista do produto, este valor ande à volta de 3 biliões de dólares (cerca de 14% do PIB), bastante mais do que o anunciado até agora por Trump. Josh Bivens, do Economic Policy Institute, defende que o estímulo tem de ser de pelo menos 2,1 biliões. Os números impressionam e revelam a dimensão da crise.

Isto dá-nos uma ideia do montante do estímulo orçamental necessário para responder à pandemia. Na Alemanha, Espanha, Itália e França os governos têm adotado medidas musculadas. Por cá, as medidas anunciadas pelo governo até agora são tímidas – os apoios às empresas representam pouco mais de 4% do PIB – e a ausência de resposta aos despedimentos e violações do código do trabalho que já estão a ocorrer é preocupante. Exigir como contrapartida dos apoios públicos às empresas que não despeçam trabalhadores é o mínimo nesta fase. Mas noutros países, como Itália, já se proibiram todos os despedimentos.

Outro aspeto importante a ter em conta é que muitas grandes empresas que agora requerem resgates do Estado passaram os últimos anos a gastar boa parte dos lucros em “buybacks” de ações para remunerar os acionistas e os gestores (que dependem do desempenho da empresa), em vez de os reinvestirem ou aumentarem os salários. Na American Airlines, por exemplo, o enriquecimento foi de tal ordem que o diretor-executivo, Doug Parker, chegou a afirmar: “Acho que nunca mais vamos perder dinheiro”. Três anos depois, face à hipótese de falência, a empresa pode vir a estender a mão ao Estado. Outras empresas, como a EasyJet, planeiam manter a distribuição de dividendos mesmo recorrendo ao dinheiro público. Há quem defenda que uma das condições do resgate seja travar estas práticas.

E como é que se financiam os estímulos orçamentais? A questão costuma ser levantada sempre que se fala em aumentar a despesa, e a resposta vai-se tornando evidente: os governos podem financiar a despesa pública através do banco central, algo a que se tem chamado “dinheiro de helicóptero”. No caso de Portugal e da zona euro, isto teria de passar pela atuação coordenada dos países com envolvimento do BCE; a Reserva Federal (nos EUA) ou o Banco de Inglaterra podem fazê-lo diretamente. A ideia é que os bancos centrais podem recorrer à impressão de moeda para financiar o investimento dos países ou mesmo a transferência de dinheiro para as pessoas (já foi aprovada em Hong Kong e Singapura e está a ser considerada nos EUA). O receio de que faria disparar a inflação parece ter diminuído após a experiência da última década, na qual os bancos centrais injetaram vários milhares de milhões no sistema financeiro sem que a inflação tenha aumentado significativamente.

O recente anúncio da Comissão Europeia, que suspendeu pela primeira vez as regras orçamentais que impõem limites à despesa pública, é um passo na direção certa. No entanto, o pacote financeiro da UE continua a ser manifestamente insuficiente (37 mil milhões, ou 0,26% do PIB da EU-27, vindos de fundos que já existiam), o Eurogrupo não foi capaz de um único contributo que se veja e ainda não se admite a única hipótese sensata: que o BCE financie a despesa e investimento dos Estados através da impressão de moeda. Além disso, o problema da redução da dívida mantém-se devido às metas do Tratado Orçamental – quando o vírus for considerado contido, os países que aumentaram a despesa terão acumulado ainda mais dívida pública e estarão sujeitos à pressão da Comissão. A crise que se afigura na zona euro pode tornar-se pior do que a de 2010-12. Se a resposta se ficar pela concessão de crédito às empresas e aos países em dificuldades, os problemas do endividamento voltarão para os perseguir depois da pandemia - no Financial Times, Wolfgang Munchau escreve que a Europa precisa de liquidez, não de dívida.

O que parece certo é que a crise que enfrentamos é inédita e as respostas também terão de o ser. A discussão na última semana tem sido reveladora disso mesmo – aos discursos marcantes juntam-se planos de proporções históricas e, de repente, tudo o que nos garantiam ser impossível ou demasiado radical começa a tornar-se aceitável. Depois de contida a pandemia, talvez seja bom não esquecermos essa lição.

 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

O Coronavírus e a crise económica

http://www.cadtm.org/La-pandemia-del-capitalismo-el-coronavirus-y-la-crisis-economica

Eric Toussaint

Una crisis de salud pública

La pandemia del coronavirus constituye un gravísimo problema de salud pública y los sufrimientos que la difusión del virus provocará serán enormes. Si alcanza masivamente a los países del Sur global cuyos sistemas de salud pública, que ya eran muy frágiles, fueron terriblemente maltratados por 40 años de neoliberalismo y, por lo tanto, habrá una grandísima cantidad de muertos. Sin olvidar la situación dramática de la población iraní víctima del bloqueo decretado por Washington, bloqueo que incluye la importación de medicamentos y equipamiento sanitario.
Los grandes medios de comunicación y los gobiernos insisten sobre las diferencias en el porcentaje de letalidad debido a la edad. Sin embargo no quieren atraer la atención sobre las diferencias de clase y como la mortalidad debida a esta pandemia afectará a la gente según sus ingresos y patrimonio
Utilizando el pretexto de la necesaria austeridad presupuestaria para poder pagar la deuda pública, los gobiernos y las grandes instituciones multilaterales como el Banco Mundial , el FMI y los bancos regionales, por ejemplo, el Banco africano de desarrollo, generalizaron las políticas que deterioraron los sistemas de salud pública: supresión de puestos de trabajo y precarización de los contratos de trabajo, supresión de camas hospitalarias, cierre de centros médicos de proximidad, aumento del coste de la atención médica y de los medicamentos, reducción en las inversiones en infraestructuras y equipamientos, privatización de diferentes sectores de la sanidad, reducción de inversión pública en la investigación y el desarrollo de tratamientos en beneficio de los intereses de los grandes grupos farmacéuticos, etc.

La crisis bursátil y la crisis financiera

Aunque los grandes medios de comunicación y los gobiernos afirman constantemente que la crisis bursátil es debida a la pandemia de coronavirus, insisto sobre el hecho de que todos los elementos de una nueva crisis financiera ya estaban reunidos desde hace varios años, y que el coronavirus fue la chispa o el detonador de la crisis bursátil y no la causa. Para consultar: https://www.cadtm.org/No-el-coronavirus-no-es-responsable-de-las-caidas-en-las-bolsas. A pesar de que algunas personas hayan visto en esta afirmación una tentativa de negar la importancia de la pandemia, mantengo mi afirmación. La cantidad de inflamables en el ámbito de las finanzas alcanzó la saturación desde hace varios años y se sabía que una chispa podía e iba a provocar una explosión: no se sabía cuándo se produciría y cuál sería el detonante, pero se sabía que ocurriría. Por lo tanto, era necesario actuar para evitarla y no se hizo nada. Numerosos autores de la izquierda radical, como Michael Roberts, Robert Brenner o François Chesnais, anunciaron esta crisis. Desde 2017, publique artículos regularmente sobre esta cuestión, consultad: https://www.cadtm.org/Economia-internacional-Todo-va-muy que data de diciembre de 2017. Con el CADTM y otras organizaciones, hemos afirmado que es necesario romper radicalmente con el capitalismo.
El coronavirus fue la chispa o del detonador de la crisis bursátil y no su causa
Un primer gran crash bursátil tuvo lugar en diciembre de 2018 en Wall Street. Bajo la presión de un puñado de grandes bancos privados y de la Administración de Donald Trump, la Reserva Federal de Estados Unidos había vuelto a bajar los tipos de interés y eso fue aplaudido por algunas grandes compañías privadas que dominan los mercados financieros. Volvió el frenesí por el aumento de los valores bursátiles, y las grandes empresas continuaron recomprando sus propias acciones en la bolsa para amplificar el fenómeno. Aprovechándose de la reducción de los tipos de interés, las grandes compañías privadas aumentaron su endeudamiento y los grandes fondos de inversión aumentaron la compra de empresas de todo tipo, incluidas las industriales, recurriendo al endeudamiento (https://www.cadtm.org/La-montana-de-deudas-privadas-de-las-empresas-estara-en-el-corazon-de-la, publicado en abril de 2019).
Ese mismo año, y de nuevo en Wall Street, a partir de septiembre, hubo un grandísima crisis de penuria de liquidez en un mercado financiero que, sin embargo, rebosaba liquidez. ¿Una crisis de liquidez mientras hay una profusión de liquidez? Es una paradoja aparente como lo expliqué en https://www.cadtm.org/Panico-en-la-Reserva-Federal-y-retorno-del-Credit-Crunch-sobre-un-mar-de-deudas, publicado el 25 de septiembre de 2919 y en https://www.cadtm.org/Hablemos-de-nuevo-del-panico-que-sufrio-la-Reserva-Federal-de-los-EEUU-FED-en, publicado el 1 de noviembre de 2019. Se trataba de una grave crisis y la Reserva Federal intervino masivamente inyectando unos cientos de miles de millones de dólares para tratar de evitar el hundimiento de los mercados. La Reserva Federal también guardó en su balance más de 1,3 billones de dólares de productos estructurados tóxicos que había comprado en los bancos en 2008 y 2009, ya que estaba persuadida, con toda la razón, que si se pusieran en venta en el mercado secundario de deuda, el precio se desplomaría y eso arrastraría una gran crisis financiera y quiebras de bancos. Si la Fed hizo eso, no fue para defender el interés general sino para defender el interés del gran capital, o sea, del 1 % más rico de la sociedad.
Asistimos a una enorme creación de capital ficticio, y en cada crisis financiera una parte importante de ese capital ficticio debe «desaparecer» ya que eso forma parte del funcionamiento normal del sistema capitalista. El capital ficticio es una forma de capital que se desarrolla exclusivamente en la esfera financiera sin ninguna relación verdadera con la producción. Es ficticio en el sentido en que no se basa directamente sobre una producción material, ni sobre la explotación directa del trabajo humano ni de la naturaleza. Como lo dice el economista francés miembro de ATTAC, Jean Marie Harribey: «Las burbujas estallan cuando la diferencia entre el valor realizado y el valor prometido se vuelve demasiado grande y algunos especuladores entienden que las promesas de liquidación rentable no podrán ser honradas por todos, en otras palabras, cuando las plusvalías financieras no podrán nunca generarse si no hay una plusvalía suficiente de producción. », Jean-Marie Harribey, «La baudruche du capital fictif, lecture du Capital fictif de Cédric Duran », Les Possibles, N° 6 – Printemps 2015 : https://france.attac.org/nos-publications/les-possibles/numero-6-printemps-2015/debats/article/la-baudruche-du-capital-fictif.
Asistimos a una enorme creación de capital ficticio, y en cada crisis financiera una parte importante de ese capital debe desaparecer: eso forma parte del funcionamiento normal del sistema capitalista
Me reafirmo en que la pandemia del coronavirus no constituye la causa real y profunda de la crisis bursátil que se desencadenó en la última semana de febrero de 2020 y que sigue. Esta pandemia constituye el detonador, la chispa. No obstante, existen otros acontecimientos graves que podrían haber sido detonadores o chispas. Por ejemplo, una guerra declarada y caliente entre Washington e Irán o una intervención directa de Estados Unidos en Venezuela. La crisis bursátil que hubiera seguido, habría sido atribuida a la guerra y sus consecuencias. Y también, yo habría afirmado que esa guerra, cuyas consecuencias serían gravísimas, sin controversia posible, habría sido la chispa pero no la causa profunda. Así que, aunque haya una relación innegable entre los dos fenómenos (la crisis bursátil y la pandemia del coronavirus), eso no significa que no es necesario denunciar las explicaciones simplistas y manipuladoras que declaran que la causa es el coronavirus. Esa explicación mistificadora es una trampa destinada a desviar la atención de la opinión pública, del 99 %, del rol que tuvieron las políticas llevadas a cabo a favor del Gran Capital a escala planetaria y de la complicidad de los gobiernos actuales.

La crisis del sector de la producción precedió la pandemia del coronavirus

En la última semana de febrero de 2020 las principales bolsas de valores del mundo sufrieron una caída muy importante: entre el 9,5 % y el 12 %. Fue la peor semana desde octubre de 2008
Y eso no es todo. No solo la crisis financiera estaba latente desde hacía varios años y la prosecución del aumento de precio de los activos financieros constituían un indicador muy claro, sino que, además, una crisis del sector de la producción había comenzado mucho antes de la difusión del covid19, en diciembre de 2019. Antes del cierre de fábricas en China, en enero de 2020 y antes de la crisis bursátil de fines de febrero de 2020.
Vimos durante el año 2019 el comienzo de una crisis de superproducción de mercaderías, sobre todo en el sector del automóvil con una caída masiva de ventas de automóviles en China, India, Alemania, Reino Unido y muchos otros países. Eso produjo una reducción de la producción de automóviles. También hubo superproducción en el sector de la fabricación de equipamientos y de herramientas mecánicas en Alemania, uno de los tres productores mundiales en este sector. Al mismo tiempo, se produjo una muy fuerte reducción del crecimiento industrial en China, lo que tuvo graves consecuencias en los países que exportan a China equipamientos, automóviles y materias primas. Durante el segundo semestre de 2019, la recesión se declaró en el sector de la producción industrial en Alemania, Italia, Japón, África del Sur, Argentina… y en varios sectores industriales en Estados Unidos.

La evolución de la crisis financiera y económica desde el 3 de marzo de 2010

Recordemos que, durante la última semana de febrero de 2020, las principales bolsas de valores del mundo (en toda América, en Europa y en Asia) sufrieron una caída muy importante que osciló entre un 9,5 % y un 12 %, y fue la peor semana desde octubre de 2008.
Ahora, retomo el hilo de los acontecimientos donde los dejé: el 3 de marzo de 2020, al día siguiente de la decisión de la Reserva Federal de Estados Unidos, la Fed, de bajar un 0,5 % su tipo de interés director.

Los bancos centrales actúan como bomberos pirómanos

El 3 de marzo de 2020, la Fed decidió fijar su tipo director en una horquilla del 1 % al 1,25 %, o sea fue una reducción del 0,5 %, la más fuerte de estos últimos años, ya que hasta ese momento la Fed bajaba su tipo de interés en escalones de 0,25 %. Frente a la continua caída de las bolsas y, especialmente, de los bancos que están al borde de la quiebra, la Fed decide una nueva reducción el 15 de marzo de 2020, que golpea incluso más fuerte que la del 3 de marzo. Esta vez, bajó su tipo director un 1 %. Por lo tanto, desde el 15 de marzo, el nuevo tipo de interés director de la Fed se sitúa en una horquilla que va del 0 % al 0,25 %. Los bancos son, por consiguiente, animados a que aumenten su endeudamiento.
La Fed no se contentó con bajar el tipo de interés, también recomenzó con la inyección en el mercado interbancario de una enorme masa de dólares, ya que los bancos una vez más, no confían entre ellos y se niegan a prestarse dinero. El presidente de la Fed declaró que su institución había programado inyectar en las próximas semanas más de 1 billón de dólares de liquidez en los mercados a corto plazo, especialmente, en el mercado de repos, sobre el que ya había intervenido masivamente entre septiembre y diciembre de 2019. El mercado de repo [1]designa el mecanismo por el cual los bancos se financian por un corto tiempo: éstos venden títulos que poseen con el compromiso de comprarlos de nuevo rápidamente. Por ejemplo, depositan por 24 horas (como garantía o como colateral del préstamo que aceptan) títulos del Tesoro de Estados Unidos o de obligaciones de empresas que tienen una nota AAA. A cambio de esos títulos, obtienen dinero en efectivo, a un interés próximo o igual al tipo director fijado por la Fed, próximo, como hemos visto, al 1 %, desde el 3 de marzo de 2020 y del 0 %, desde el 15 de marzo de 2020.

Los mercados bursátiles continuaron con sus caídas

Se produjeron varias jornadas negras, es decir varios crash bursátiles, en la segunda quincena de febrero y durante la primera quincena de marzo. Y eso a pesar de las intervenciones masivas de los bancos centrales ya sea en el Norte o en el Sur del mundo, en el Oeste como en el Este.
Se sucedieron varias jornadas negras, es decir varios crash bursátiles, en la segunda quincena de febrero y durante la primera quincena de marzo de 2020
Las sesiones bursátiles fueron literalmente caóticas. Muchas veces, en estas últimas semanas, se debieron interrumpir durante 15 a 30 minutos con el fin de frenar las ventas cada vez más masivas y evitar la catástrofe. Esas interrupciones en las que las autoridades bursátiles accionaron un cortocircuito (según su jerga) ocurrieron varias veces en Wall Street, en Brasil, en la India y en Europa, tanto que algunos comentaristas se preguntan por qué las autoridades no cerraron, simple y llanamente, las bolsas.
El jueves 12 de marzo de 2020, una de las recientes jornadas más negras, la caída fue impresionante: -12,28 % en París, -10,87 % en Londres, -11,43 % en Fráncfort, -14,21 % en Bruselas y el récord de Milán -16,92 %. En Nueva York, el Dow Jones perdió el 9,99 %, el Nasdaq el 9,43 % y el S&P500 el 9,51 %. En Madrid, el Ibex 35 cayó un 14,06 %. Las bolsas de Asia, América Latina y África también se desplomaron.
El lunes 16 de marzo, a pesar de la decisión de la Fed de llevar su tipo de interés al 0 % para contentar al Gran Capital y de poner fin a la caída al vacío, continuaron las ventas masivas de acciones. En Nueva York. S&P500 cayó un 12 %, la bolsa brasileña, un 13 %. Las bolsas europeas de nuevo perdieron; Londres, un 4 %; París y Fráncfort más del 5 %; Milán un 6 %; Bruselas un 7 %; Madrid un 8 %. En Asia-Pacífico, el Nikkei de Tokio bajó un 2,5 %, las bolsas chinas cayeron entre el 3 y el 4 %, la bolsa india un 8 %, la bolsa australiana un 9 %. Y la debacle continúa.
Entre el 17 de febrero y el 17 de marzo de 2020, incluido, las bolsas de valores sufrieron una verdadera purga
En un mes, entre el 17 de febrero y el 17 de marzo, las bolsas de valores sufrieron una verdadera purga: en Nueva York, el Dow Jones industrial perdió el 32 %, el S&P500 de las 500 principales empresas perdió el 24 % de su valor. En Londres, Footsie bajó un 31 %, en Fráncfort, el DAX bajó ¡el 37 %! En Bruselas, el Bel20 se hundió un 41 %. El CAC40 (Francia) perdió el 36,5 %. La bolsa de Madrid (IBEX 35) perdió el 38 %, la de Lisboa (PSI20) perdió el 31,5 %. La bolsa brasileña perdió el 28 %, la de Buenos Aires más del 30 %. La bolsa india perdió el 25,5 %. La bolsa sudafricana (JSE) perdió el 35 %. RTS, la bolsa de Moscú, perdió el 40 %. El BIST 100 de Turquía se hundió un 28 %. A Tokio, el Nikkei perdió el 28 %. A Hong Kong, el Hang Seng perdió el 21 %, En Sídney, la bolsa australiana ASX, perdió el 26 %. Solamente la bolsa de Shanghái limita sus pérdidas, un 7,7 %. Si a ésta le va mejor que a todas las otras bolsas del mundo, es gracias al apoyo aportado, bajo orden gubernamental, por las empresas chinas y los fondos públicos. Recibieron la orden de comprar de forma sistemática acciones de la bolsa en plena crisis del coronavirus mientras los otros vendían.
En resumen, entre el 17 de febrero y el 17 de marzo, todas las bolsas del planeta sufrieron importantes pérdidas comparables o superiores a lo que había pasado durante las grandes crisis bursátiles de 1929, 1987 y 2008.

Evolución en % de las principales bolsas de valores del mundo entre el 17 de febrero y el 17 de marzo de 2020
Fuente: Cálculo del autor, a partir de datos del CNN y de Boursorama

¿Quién se deshace en masa de esas acciones?

Los grandes mercados bursátiles están dominados por un centenar de grandes grupos privados cuyos accionistas forman parte del 1 %, incluso del 0,1 %. Esos grandes grupos privados tienen un papel importante en el desencadenamiento de la crisis bursátil y en su extensión
Los grandes mercados bursátiles está dominados por un centenar de grandes grupos privados, sus accionistas forman parte del 1 %, incluso del 0,1 %. Esos grandes grupos privados tienen un papel importante en el detonante de la crisis bursátil y en su extensión.
Entre ellos, se encuentran una treintena de grandes bancos, una decena de grandes fondos de inversión —entre éstos BlackRock, Vanguard, State Street y Pimco que tienen un papel clavé—, y hay que agregar las GAAF —Google. Apple, Amazon, Facebook—, además de grandes conglomerados industriales, casi una decena de grandes sociedades petroleras, algunos grandes fondos de pensión.
Este grupo de grandes capitalistas y los Estado-mayor de sus empresas están fuertemente interconectados ya que hay, sistemáticamente, participaciones cruzadas (o sea, un banco puede ser accionista de empresas industriales y a la inversa, y es evidente que los grandes fondos de inversiones como BlackRock tienen participaciones en todas las sociedades privadas. Véase el recuadro). Pero se dieron cuenta que la fiesta se estaba acabando, y que todavía estaban a tiempo, a fines de febrero de 2020, para recoger ganancias: la diferencia entre lo que habían pagado durante los dos o tres últimos años en la compra de acciones y el apogeo de la fiesta bursátil del comienzo de 2020. Así que decidieron vender, obteniendo al principio un buen precio. Luego, por un efecto contagio, todos los grandes accionistas y todos los actores de los mercados financieros también comenzaron a vender, acumulando una buena parte de la plusvalía, antes de que la caída de precios diese como resultado que el precio de venta de las acciones esté a un nivel más bajo que el de antes de la burbuja. Mientras tanto, los más grandes y los más rápidos consiguieron ganancias considerables.
Lo importante para un gran accionista es vender cuando el precio todavía no bajó demasiado, lo que significa vender lo máximo posible muy rápidamente, y para eso se utilizan programas específicos de venta de acciones, que se activan desde que un movimiento de venta alcanza un nivel determinado. Por eso hubo jornadas con caídas considerables seguidas a la mañana siguiente por subidas, ya que los que habían vendido la víspera antes de la caída, ven ganancias si recompran unas acciones que perdieron un 5 % o un 10 %, incluso un 20 %, del precio de venta del día anterior.
El valor bursátil de los tres fondos de inversión más importantes, BlackRock, Vanguard y State Street, habría bajado en 2,8 billones de dólares en un poco menos de un mes
Eso explica la sucesión de jornadas negras, seguidas de jornadas de remontada. Sin embargo, a pesar de esas remontadas momentáneas, la tendencia general es una verdadera purga. La burbuja bursátil estalla ante nosotros.
El hundimiento de las bolsas tiene tal amplitud que, en fin de cuentas, los grandes grupos que lanzaron procesos de ventas masivas, ven disminuir sus activos. Puede ser que hayan ganado especulando a la baja y luego al alza, pero en este estadio de la crisis el valor total de sus activos disminuyeron fuertemente. El Financial Times da una estimación con respecto a los tres fondos de inversión más importantes: BlackRock, Vanguard y State Street, cuyo valor de activos habría bajado en 2,8 billones de dólares en un poco menos de un mes. (Financial Times, «World’s three biggest fund houses shed $2.8tn of assets», https://www.ft.com/content/438854a8-63b0-11ea-a6cd-df28cc3c6a68, publicado el 15 de marzo de 2020). 2,8 billones de dólares es un 10 % más que el PIB de Francia. Según ese diario financiero, mientras que a comienzos de año, los activos que poseía BlackRock habían alcanzado la astronómica cifra de 7,4 billones de dólares, la caída de las bolsas los recortó en 1,4 billones. Además, el valor bursátil de BlackRock bajó un 28 % en un mes, hasta el 15 de marzo de 2020. Los activos de Vanguard habían alcanzado 6,2 billones y también sufrieron una reducción de 800.000 millones entre febrero y el 15 de marzo de 2020.
Fondo de inversión BlackRock BlackRock es a nivel mundial el mayor fondo mutuo de inversión que opera a nivel mundial con 70 oficinas en 30 países y clientes en 100 países. En enero de 2020, BlackRock gestionaba activos por un valor total de 7,4 billones de dólares. Sin embargo, al 17 de marzo de 2020, el valor de los activos de BlackRock habría disminuido en 1,4 billones de dólares. A comienzos de enero de este año, sus activos se repartían en dos grandes categorías: un 55 % en forma de acciones, un 34 % en forma de obligaciones, y un resto marginal. Con respecto a su extensión en el mundo, Estados Unidos representa el 61 % de sus activos, Europa un 31 % y Asia un 8 %. En 2012, este fondo ejerció su derecho a voto en 14.872 asambleas generales de accionistas, de las cuales, 3.800 en Estados Unidos.  BlackRock recompró durante la crisis bancaria de 2008 un departamento importante del banco británico Barclays (antes de eso, había comprado una parte de Merrill Lynch). En 2014, BlackRock era el principal accionista del principal banco estadounidense JPMorgan (con el 6,1 % del capital), el primer accionista de Apple (con el 5,1 %), de Microsoft (con el 5,5 %), de Exxon Mobil (con el 5,4 %), de Chevron (con el 6,2 %), de Royal Dutch Shell (con el 4,9 %), de Procter &Gamble (con el 5,4 %), de General Electric (con el 5,5 %) y de Nestlé (con el 3,7 %). Era el segundo accionista en orden de importancia en la sociedad de Warren Buffet, Berkshire Hathaway (en la que BlackRock tiene el 6,8 % de su capital)). Era también el segundo accionista de Google (5,8 %), de Johnson & Johnson (5,6 %), del cuarto banco más grande de Estados Unidos, el Wells Fargo (5,4 %), de Petrochina (6,8 %). También, era el tercer accionista de Walmart (2,6 %) y de Roche (2,0 %) y el cuarto accionista de Novartis (3,0 %). Las 17 empresas que se han nombrado tienen una posición dominante en sus respectivos sectores de actividad. Estos 17 mastodontes son las mayores sociedades en el mundo en términos de capitalización bursátil. Hay que agregar que BlackRock posee una sociedad de gestión de riesgos llamada Aladdin que asesora a sociedades financieras que poseen activos por un monto total de 11 billones, y que además tiene acciones de Moody’s y de McGraw Hill, la propietaria de Standard & Poor’s, dos de las agencias de calificación más importantes a nivel internacional.  Como indicación suplementaria de la influencia de BlackRock, se puede tener en cuenta el número de comunicaciones telefónicas que Tim Geithner, secretario de Estado de Finanzas de Estados Unidos después de la crisis de 2008, durante el gobierno de Obama, tuvo con Larry Fink, patrón de este fondo de inversión. Tim Geithner mantuvo 49 conversaciones con Larry Fink entre el 1 de enero de 2011 y el 30 de junio de 2012, Durante ese mismo período, mantuvo 17 con Jamie Dimon, patrón de JPMorgan; 13 con Lloyd Blankfein, patrón de Goldman Sachs, 5 con Brian Moynihan, patrón del Bank of America así como con James Gorman, patrón de Morgan Stanley. Es interesante mencionar que la Troika (Comisión Europea, Banco Central Europeo y FMI) le encargó a BlackRock la auditoría de los bancos griegos en 2014.  En 2016, BlackRock era accionista de 18 sociedades del CAC 40 (Atos, BNP Paribas, Vinci, Saint-Gobain, Société Générale, Sanofi, Michelin, Safran, Teleperfomance, Total, etc.). Posee también el 5 % del grupo bancario Santander, el principal banco español.  En 2019, BlackRock poseía el 4,81 % del principal banco de Alemania, el Deutsche Bank. Y, por ende, era el primer accionista. A pesar de las tentativas de BlackRock de presentarse como un inversor sostenible, es el mayor accionista en el mundo de las centrales eléctricas que utilizan carbón, de hecho, tiene acciones en 56 sociedades de este tipo. Por medio de estas sociedades de las cuales es el principal accionista, posee más reservas de petróleo, de gas y de carbón que cualquier otro inversor. Sus reservas totales ascienden a 9,5 gigatoneladas de emisiones de CO2, o sea, el 30 % de las emisiones totales ligadas a la energía a partir de 2017. El 10 de enero de 2020, un grupo de activistas por el clima entró en las oficinas de BlackRock Francia, para pintar los muros y los suelos con advertencias y acusaciones sobre la responsabilidad de la empresa en las crisis climáticas y sociales actuales. El 14 de enero de 2020, el CEO de BlackRock, Laurence Fink, declaró que la sostenibilidad ambiental sería un objetivo claro para las decisiones sobre inversiones. BlackRock anunció que vendería por 500 millones de dólares los activos ligados al carbón y crearía unos fondos que evitarían los stocks de combustibles fósiles, dos medidas que modificarían radicalmente la política de inversiones de la empresa. Por otra parte, BlackRock es partícipe de las principales sociedades de fabricación de armas en Estados Unidos.

Notas

[1] Repo es la abreviatura utilizada en Estados Unidos para la expresión Sale and Repurchase Agreement, o sea, un acuerdo de compromiso de recompra de un activo financiero a muy corto plazo, y es un importante instrumento financiero del mercado monetario.

Via: FOICEBOOK https://bit.ly/2wnqfeb

COVID-19: 'Vai ser a crise mais séria da história econômica do capitalismo', diz especialista

Analistas observam gráficos na bolsa de valores de São Paulo Bovespa
© AP Photo / Andre Penner

O Boletim Focus desta segunda-feira dá a mais recente percepção da economia brasileira. Um estudo da FGV estima que o PIB brasileiro pode cair até 4,4% em 2020. Diversos bancos também já preveem contração do PIB no Brasil neste ano.

O professor da Faculdade de Economia da UFF – Universidade Federal Fluminense, André Nassif, em entrevista à Sputnik Brasil, disse que, mesmo que o governo brasileiro implemente um pacote robusto de resposta à crise, 2020 já pode ser considerado um ano perdido do ponto de vista econômico.

"2020 vai ser um ano mais que perdido. Eu não sei em que planeta vivem o mercado financeiro e o Banco Central do Brasil ao rever as previsões, ainda sim estimulando um crescimento da ordem de 1,48% em 2020. Isso só seria possível se o governo brasileiro [...] conseguisse ter uma resposta à crise sanitária mais efeciente do que países como China, Alemanha e França, que aparentemente parecem dar respostas mais rápidas a tempo de conseguirem reverter os impactos econômicos e sociais devastadores dessa crise", argumentou.

De acordo com o economista, a pandemia do coronavírus vai causar a "crise econômica e social mais séria, e talvez sem precedentes, da história econômica do capitalismo".

"Ou seja, porque eu estimo otimisticamente que a gente vai ter uma queda de 3,9% no mínimo do PIB, portanto uma variação negativa de algo próximo a 4% na melhor das hipóteses, mas é muito provável que essa contração seja ainda maior", disse.

"Vai ser necessária uma quarentena de cerca de três meses no Brasil, e mais cedo ou mais tarde, seguindo o que todos os países que optaram pela forma de mitigação da epidemia, as empresas vão ter que paralisar, a maioria do aparato produtivo vai ter que paralisar a produção. Então vai ser uma cotnração e paralisação brutais de demanda agregada. Então não há como escapar de uma catástrofe", completou o professor de economia da UFF.

As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/opiniao/2020032315366457-covid-19-vai-ser-a-crise-mais-seria-da-historia-economica-do-capitalista-diz-especialista/

A crise do coronavírus é, sim, política

Em 2008 nos disseram para não “politizar” a crise. E tivemos uma década de austeridade.

 

 

por Grace Blakeley, na Jacobin | Tradução de José Carlos Ruy

A última vez que enfrentamos uma crise econômica tão grave como esta foi em 2008, quando o sistema bancário global começou a entrar em colapso sob o peso de seus próprios desatinos. Quando a decisão do governo dos EUA de permitir a falência do Lehman Brothers levou os mercados financeiros à queda livre, os líderes mundiais perceberam que era hora de agir.

A princípio, eles forneceram trilhões de dólares em liquidez a curto prazo (efetivamente empréstimos de curto prazo) aos maiores bancos do mundo, mas logo perceberam que o problema dos bancos não era apenas a falta de liquidez (falta de dinheiro), mas a insolvência (incapacidade de pagar suas dívidas). Nesse ponto, puseram o peso de seus governos atrás dos sistemas financeiros, com resgates que viram os estados se tornarem acionistas significativos em muitas das maiores instituições financeiras.

Nos anos seguintes, muitos países adotaram medidas de estímulo fiscal para limitar o impacto da crise financeira na economia real. Inicialmente, EUA e Reino Unido implantaram grandes programas de estímulo para absorver a perda de empregos e impedir o tipo de espiral descendente keynesiana na demanda que causou a Grande Depressão décadas atrás.

Mas, em 2008, foi a China que salvou a economia global da depressão, com um pacote de estímulos no valor de quase 20% do PIB. Um enorme investimento estatal protegeu a economia chinesa e as economias de seus principais parceiros comerciais.

Logo, porém, governos de todo o mundo mudaram de posição. Na Europa, a crise da dívida soberana – que foi uma resposta tardia ao colapso financeiro de 2008 entre países cuja política monetária era restrita pela adesão ao euro – atingiu o PIIGS (Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha). A Troika – a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional – impôs duras medidas de austeridade a países como a Grécia. O Reino Unido seguiu o exemplo e impôs um programa de austeridade profundo, apesar de não haver absolutamente nenhum sinal de crise da dívida soberana para o governo britânico.

Por que a reviravolta repentina? Desde o início, direita e esquerda se envolveram numa luta pela interpretação de 2008. Muitos da esquerda acreditavam complacentemente que a crise financeira justificaria suas advertências sobre a insustentabilidade inerente ao capitalismo financeiro. A direita, inicialmente intimidada pela natureza da crise financeira global, rapidamente apresentou sua própria história: o que aconteceu em 2008 não foi simplesmente uma crise do sistema financeiro internacional – mas resultou de governos desonestos que gastaram muito dinheiro em serviços públicos.

No Reino Unido, acostumado ao senso comum thatcheriano de que um governo só pode gastar o que arrecada em impostos, a narrativa de austeridade deu a vitória aos conservadores na eleição de 2010. Desde então, 120 mil pessoas morreram como resultado direto ou indireto das políticas de austeridade implantadas por esse governo. A economia estagnou por quase uma década, da mesma forma que os salários e a produtividade. Como resultado, a austeridade fracassou em seus próprios termos – no Reino Unido, a dívida nacional é maior como porcentagem do PIB do que em 2010.

Após a crise financeira, os conservadores espalharam uma narrativa deliberadamente falsa, para lucrar eleitoralmente com uma das piores crises já vistas na economia global. O Partido Trabalhista não foi muito melhor, prometendo uma vida de austeridade e controles sobre a migração em resposta ao sucesso da mensagem conservadora. A resposta hegemônica à crise havia sido estabelecida.

À medida que a crise do coronavírus se desenrola, a direita está no poder exigindo que jornalistas, cidadãos e até funcionários da saúde fiquem alinhados com a narrativa do governo. Questionar sua política – seja em política monetária, auxílio estatutário ou auxílio social – é visto como “politizar” uma crise de saúde pública.

A ideia de que a crise do coronavírus pode ser “politizada” é sugerir que não é um evento inerentemente político. Obviamente, o surto do vírus foi um evento natural – e, a julgar pelas pesquisas da Fundação Gates, previsível. Mas seu impacto econômico – em particular, a distribuição de custos – não pode ser mais político. Se quisermos evitar outra lição sobre o capitalismo de desastre da direita, é preciso entender o provável impacto que essa crise terá na economia e nos prepararmos adequadamente.

O pânico com o coronavírus já começou a impactar os mercados financeiros: o S&P, o Dow Jones, o FTSE e muitos outros índices tiveram quedas maiores do que as de 2008. Os preços das ações em queda refletem a percepção dos investidores de que, com os trabalhadores forçados a ficar em casa, com as fronteiras fechadas, o consumo e o investimento em colapso, a economia global está entrando em profunda recessão.

Após uma década de aumento do endividamento das empresas, a grande preocupação é que a queda da renda empresarial cause uma cascata de falências que podem ameaçar algumas das principais instituições financeiras.

Até agora, parece uma recessão genérica. Mas há grandes diferenças entre a crise atual e a que se seguiu à crise financeira de 2008, quando muitas pessoas perderam casas e empregos. O sofrimento foi enorme e não se limitou aos menos favorecidos. Mas, com a recessão do coronavírus, os riscos econômicos são muito mais individualizados e muito mais graves, especialmente no Reino Unido.

Muitas pessoas, sobretudo em Londres – onde a situação é mais grave –, não poderão pagar o aluguer ou as contas com apenas as 94,25 libras esterlinas (cerca de R$ 556) por semana, que o Estatuto Social do Doente dispõe para quem é forçado a se autoisolar. Os trabalhadores por conta própria, com “contrato de zero hora” e os que estão na economia informal podem não receber nem esse pagamento por doença.

Além disso, o número crescente de pessoas sem emprego estável enfrenta uma perda dramática de trabalho, pois as empresas param de contratar, as pessoas param de consumir e os espaços públicos são fechados lentamente. Mesmo que não sejam forçados ao autoisolamento, aqueles sem renda estável – todas as categorias acima, além de trabalhadores avulsos, pequenos empresários e aqueles recebem comissão – enfrentam uma perda imediata e duradoura de renda.

Após uma década de austeridade, as economias das famílias são perigosamente frágeis. O ano de 2017 foi o primeiro desde 1987 em que as famílias gastaram mais do que ganharam, cobrindo a diferença com novas dívidas e gastando suas economias. Existem mais de 8 milhões de famílias no Reino Unido que já enfrentam algum tipo de dívida problemática.

Com aluguéis e custos de transporte altos, além de salários estagnados, o Reino Unido já enfrentava uma crise de custo de vida antes do coronavírus. Como as famílias lidarão com uma perda adicional de salários, quando os bancos continuarem a exigir o pagamento de dívidas, os proprietários, a exigir aluguer, e as empresas de serviços públicos continuarem suas cobranças?

Os bancos centrais também estão muito mais restritos do que no início de 2008. A política monetária já está extremamente frouxa – as taxas de juros foram reduzidas para o nível mais baixo possível sem entrar no perigoso território dos juros negativas. A flexibilização quantitativa poderia ser continuada, mas há evidências de que, mesmo antes da crise, mais criação de dinheiro mostrava retornos decrescentes. O Federal Reserve (EUA) já ofereceu US$ 1,5 trilhão em empréstimos de curto prazo para o setor financeiro – e mesmo isso não impediu o pânico.

Cada um desses problemas é político. Cada uma dessas questões – baixos salários, altas dívidas e ausência de poder de fogo monetário – resulta das ações de governos anteriores, e só podem ser tratadas por este governo. Um estímulo fiscal generalizado combinado com uma flexibilização quantitativa adicional, não será suficiente.

O governo precisa do apoio direcionado às famílias que enfrentam perda de renda como resultado da crise do coronavírus. A alternativa é observar como as pessoas ignoram os conselhos do governo para se autoisolarem, espalham o vírus ainda mais – ou são contaminados – e se veem forçados a sair de suas casas ou ir à falência em poucos meses. Não é por acaso que aqueles que lamentam a “política” não enfrentam essa escolha.


por Grace Blakeley, Pesquisadora do Instituto de Pesquisa de Políticas Públicas (IPPR)  |   Texto em português do Brasil, com tradução de José Carlos Ruy

Exclusivo Editorial PV (Fonte: Jacobin)/ Tornado


 
 
 
 
 
 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/a-crise-do-coronavirus-e-sim-politica/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=a-crise-do-coronavirus-e-sim-politica

FMI: velhos hábitos que parecem não morrer

O FMI publicou hoje um relatório sobre o cenário económico em Itália. Os relatores começam por expressar solidariedade com a população e as autoridades italianas e apoiar a intervenção do governo, que avançou com um pacote financeiro de 25 mil milhões de euros para ajudar famílias e empresas e responder à crise que o país atravessa.

É por isso que é ainda mais difícil compreender as recomendações que se seguem: "Assim que a crise de saúde passar, os diretores sublinham a necessidade de implementar um pacote abrangente de medidas [...] Este deve incluir reformas estruturais para aumentar a produtividade e o investimento, e um compromisso credível de consolidação orçamental de médio-prazo para colocar a dívida pública numa trajetória descendente."

Traduzindo: o governo italiano tem de compensar os gastos no presente com austeridade e reformas estruturais (leia-se, flexibilização do mercado de trabalho e enfraquecimento da posição do trabalho) no futuro.

O FMI insiste nas medidas de austeridade que agravaram a última crise na Europa, como foi reconhecido por economistas do próprio organismo. Defender que os Estados apertem o cinto depois de conterem o vírus é a garantia de que a crise de saúde pública se transforma numa profunda recessão económica e que serão os mais fracos a pagá-la.

Esperemos que os governos tenham a lucidez que falta ao FMI e rejeitem este caminho.

 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Salvar o euro, outra vez (ou: de onde vem todo este dinheiro?)

(Pedro Santos Guerreiro, in Expresso Diário, 20/03/2020)

Pedro Santos Guerreiro

Não está nas primeiras páginas nem nas primeiras preocupações, mas este dinheiro todo tem de vir de algum lado. Lembra-se das dívidas soberanas? Dessa imensa abstração a que chamamos “os mercados”? Então lembre-se de outra coisa: é preciso salvar o euro. Outra vez. E isso já começou. Até porque desta vez não são só os “países periféricos”, são todos. Até porque desta vez inclui a Alemanha.

 

São tantos os anúncios de milhares de milhões daqui e dali que ninguém percebe nada — o desenho concreto torna-se pintura abstrata. Mas veja este número de ontem: 750 mil milhões de euros do BCE. Não pense em quantos aeroportos do Montijo daria para construir (daria para 580, mas também escusa de pensar no novo aeroporto, não vai acontecer agora), pense antes no que isso significa. Significa que as bazucas, os obuses e os canhões estão a sair do paiol não apenas para salvar a economia, mas para salvar o euro. Sim, esse mesmo, o tal que esteve por um fio até ao verão de 2012, durante as intervenções externas.

A crise de 2008 durou dois a três anos a chegar às dívidas soberanas, porque começou no sistema financeiro. Mas esta crise nasce na economia e é diferente, porque é simultaneamente de procura (compra-se menos, por quebra de rendimento e por medo) e de oferta (produz-se menos por paragem das fábricas, distribui-se menos porque as cadeias de abastecimento estão quebradas). Desta vez, o contágio não espera dois ou três anos, como em 2008: está a ser num ápice. Os mercados parecem loucos, os de ações, de obrigações, de matérias-primas e todos os seus derivados.

DE ONDE VEM O DINHEIRO?

De dívida, claro. Mas quem empresta?

Ninguém se atreve a fazer contas ou dizer as contas que faz, porque ninguém sabe quanto tempo durará e ninguém quer assustar outros com a sua própria escandalização. É como atirar uma pedra para um poço de que não se vê o fundo e ficar à espera de ouvi-la esmurrar a água. Mas as recessões mensais são uma escavação inédita. Mas as despesas do Estado com saúde, com segurança social e com a economia (incluindo a quebra de impostos e de contribuições) são uma gazua terra adentro.

É um exercício destravado sem fecho para balanço, com um jorro de défices mensais crescentes sobre um PIB minguante. Os défices de março e abril sobre o PIB hão de ficar para a História como o maior bungee jumping orçamental das nossas vidas. A corda é a dívida, que hoje nos salva e amanhã não nos pode enforcar. É por isso que as autoridades monetárias, europeias e governamentais, têm de perder hoje as regras de controlo sem perderem o controlo das regras. Amanhã pagaremos: a dívida de hoje são os impostos de amanhã. Estes são meses de mandar o défice à vida, mas não de rasgar as folhas seguintes do calendário.

Sim, mas quem empresta? Quem empresta ao Estado que “empresta” às empresas e às pessoas?

Os bancos centrais, que injetam liquidez direta e indiretamente — por exemplo comprando ativos e dando garantias de liquidez.

A União Europeia, que ou age em função do todo ou não é União Europeia. Não tanto através do seu próprio orçamento, que é relativamente pequeno, mas dando garantias e servindo de intermediário, o que implica criar finalmente instrumentos de dívida poderosos como os eurobonds, obrigações europeias para dar potência às impotências nacionais.

Os próprios mercados, pela deslocação das massas de dinheiro que estão a sair de títulos de risco como ações e procuram refúgios. Sim, há perdas gigantes, mas o dinheiro não desaparece todo, circula pelo mundo, quem vende ações investe noutros sítios, como obrigações do tesouro, ouro ou divisas, mesmo se sabemos que há sempre garimpagem por oportunidades de enriquecimento súbito que despontam em alturas de pânico.

SALVAR O EURO

Glossário: comprar ativos, comprar carteiras de crédito, é na prática emprestar dinheiro; flexibilização quantitativa é na prática emitir moeda (coisa que os bancos centrais nunca admitirão); emitir eurobonds é na prática mutualizar o risco, apondo o menor risco coletivo ao maior risco individual.

Os mercados estiveram quase “fechados”. Nos últimos dias houve crise de liquidez nas obrigações, depois das declarações desastrosas de Christine Lagarde, pelas quais pediu depois desculpa, que prejudicaram os países com mais risco, como Itália, Espanha, Grécia e Portugal. Os juros das dívidas públicas começaram a subir e, sobretudo, a diferença entre os juros destes países e os da Alemanha (os “spreads” das dívidas) aumentaram muito.

As taxas continuam historicamente baixas, mas por exemplo o IGCP (que tem feito um excelente trabalho) quis colocar (pedir emprestado) 1,5 mil milhões de euros há dias e só conseguiu mil milhões. Não é preocupante, é um sinal. Se a zona euro não der cobertura por exemplo a Itália, o país entra em colapso financeiro.

Foi assim que surgiram os 750 mil milhões do BCE, que significam que o banco central quer “aguentar” o mercado, está disposto a comprar dívida para compensar a fuga ou paralisia de investidores. Assim, há uma compensação da quebra de procura, o preço não despenca e continua a haver financiamento. As medidas são extraordinárias, como devem ser: o BCE compra dívida pública (empresta a Estados) mas também de empresas (empresta-lhes dinheiro) e baixa as exigências de garantias colaterais aos bancos (empresta-lhes mais facilmente).

Estas medidas são boas, tanto que “os mercados” desataram a subir desde esta quinta-feira, mesmo se esta arritmia diária segue e continuará a seguir como carrinhos numa montanha russa. E significa que, financiados pelo banco central (na Europa como em todo o mundo ocidental), os Estados têm financiamento para o que precisam: as políticas orçamentais, através da baixa de impostos e do aumento dos seus gastos. E que os bancos não terão falta de liquidez nem serão obrigados a automaticamente aumentar o capital quando perderem ou suspenderem cobranças de créditos a clientes que não podem agora pagá-los.

O BCE já corrigiu o tiro. Falta ainda assumir dívida europeia. Virá o tempo de um “plano Marshall”. E, sobretudo, fazer com que os Estados da UE coordenem as políticas orçamentais e económicas, ou será cada um por si. Os défices de França, de Espanha, de Itália já dispararam, o da Alemanha também subirá. E sim, a Alemanha é uma peça-chave em tudo isto. Pela força económica e pela força política. E porque, como desta vez também a atinge com força, pode tomar decisões coletivas que antes rejeitou.

Estamos ainda no princípio, a pedra atirada ao poço está ainda longe de socar a água. Serão necessárias mais medidas e sobretudo mais coordenação. Se assim não for, podem voltar a mudar o nome à UE, não para voltar a CEE, mas para assumir ser apenas CE: uma Comissão Europeia, mas não uma União. Pior que um Brexit seria ruir por dentro. Seria a ruína.

União Europeia, precisamos de ser mesmo União Europeia. Europa, não precisamos de ti como se fosses outra que não nós. Precisamos que nós sejamos tu e que tu sejas nós.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

A LÓGICA NEOLIBERAL E O DIREITO À INDIGNAÇÃO, por JÚLIO MARQUES MOTA

Quatro exemplos que espelham a forma de pensar de  diversas instituições da sociedade civil e que muito me indignaram.

1º exemplo

No dia 3 de Março, o  jornal inglês The Telegraphescreve, pela mão de Jeremy Warner o seguinte:

Usando a  pandemia chamada de gripe espanhola de 1918 como medida, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças calculam que as mortes nos Estados Unidos de um surto semelhante hoje podem chegar a 207.000, com o custo inicial para a economia de aproximadamente 1,5% do PIB.

No entanto, existem algumas diferenças fundamentais, entre elas o facto de que a gripe espanhola afetou de forma desproporcional as pessoas em idade de trabalho, enquanto que o coronavírus mata principalmente os idosos. Na Primeira Guerra Mundial houve, portanto, um impacto duradouro na oferta, com muitas famílias a sofrerem a perda do principal ganha-pão.

Isto é bastante improvável que ocorra desta vez. Para não insistir demasiado sobre isto,  de uma perspetiva económica totalmente desinteressada, a crise de COVID-19 pode até revelar-se ligeiramente benéfica a longo prazo, ao eliminar  de forma  desproporcional  os idosos dependentes

2º Exemplo. Um amigo meu ao ter conhecimento deste excerto de texto escreveu-me o seguinte:

“Este gajo é uma besta. Costumo contar aos meus alunos uma história (verdadeira) que é paralela a esta para mostrar o absurdo desta abordagem.

Kip Viscusi publicou um artigo no Journal of Economic Perspectives mostrando que a campanha de prevenção do tabagismo era ineficiente porque a incidência do cancro do pulmão ocorre sobretudo após a reforma do trabalhador. Acresce que a eficiência até aumenta porque se poupa no subsídio. Gostas?”

Ora acontece que Kip Viscousi é um especialista em matéria de risco e da indústria do tabaco, professor de direito em Harvard. Vejamos um naco da sua  prosa:

Os fumadores prejudicam-nos financeiramente?

 (…)

“Como é que muitos dos cálculos publicados indicaram  que há um custo substancial associado ao fumo, enquanto as minhas estimativas indicam uma economia de custos? Grande parte da resposta decorre do facto de que as outras estimativas muitas vezes não dão conta da trajetória dos custos ao longo da vida dos fumadores, em comparação com os não-fumadores.  Os fumadores têm uma esperança de  vida mais curta, portanto qualquer cálculo do custo realmente imposto deve levar em conta esta diferença. Que os fumadores  morram mais cedo do que os não-fumadores não é uma coisa boa. Mas se estamos a avaliar  as implicações de custo dos riscos de fumar, também temos de reconhecer os efeitos da mortalidade relacionada com o fumar  no fluxo de custos que os fumadores  geram

Na sua obra “Smoke-Filled Rooms- A Postmortem on the Tobacco Deal“ Kip Viscousi explica porque é que os fumadores enquanto tal não geram  um  custo líquido os cofres do   governo. Os fumadores têm  custos de saúde mais altos enquanto estão vivos, mas porque morrem mais cedo geram custos mais baixos para a Segurança Social e em termos de cuidados de saúde do que se não fossem fumadores pelo que essa redução  dos custos mais do que compensa o aumento dos gastos havidos enquanto vivos. O custo líquido é negativo, mesmo  tendo em conta os impostos sobre o consumo. Somando esses impostos, os fumadores  contribuem com $0,88 líquidos por maço de cigarros para o tesouro público.

Um discurso que é só anedota pode ser “supostamente científico”  e bem representativo das análises neoliberais  das análises neoliberais e que se enquadro na mesma lógica do texto do The Telegraph.

3º exemplo.

Da revista L’Observateur de 10 de Março de 2020:

Em cada crise, há uma oportunidade: a secretária de Estado da Economia, Agnès Pannier-Runacher, não se afastou  desta visão  macronista [da economia e da sociedade], esta terça-feira, 10 de Março, onde foi questionada sobre as preocupações económicas e bolsistas após a epidemia do coronavírus.

“Acho que nos estamos a antecipar. Agora temos um sistema financeiro muito mais sólido do que durante a crise de 2008, porque os bancos são mais sólidos, a monitorização dos bancos foi reforçada”, garante ela  que, antes de sua chegada ao governo, era vice-presidente executiva da Compagnie des Alpes e membro de vários conselhos de administração.

Mesmo assim, as bolsas mundiais não terão elas vivido o seu pior dia de caos desde o crash de 2008 (-8,39% em Paris), na segunda-feira? A falha está na negociação de alta frequência, minimiza a secretária de Estado em  Bercy: “Sabemos que o mercado de ações às vezes reage rapidamente, especialmente com os robôs que automaticamente colocam ordens de compra e venda”, analisa ela.

« Fundamentais sólidos na economia  »

Não, decididamente Agnès Pannier-Runacher recusa-se a qualquer alarmismo:

“Estou a olhar para a situação com alguma circunspeção. É um bom momento para fazer bons negócios no mercado de ações hoje e os fundamentais  das empresas continuam fortes. »

Pela boca da Secretária de Estado para a Economia  do Governo francês, nesta hora de crise está tudo bem, é a hora de fazer bons negócios!

4. Exemplo. Da imprensa portuguesa

Para o presidente da associação nacional de proprietários  não há dúvidas: se o inquilino tiver dificuldades em pagar a renda,   a resposta deve ser dada pelo Governo  e não pelos senhorios.

“Apenas 10% da população vive em casas arrendadas  e a maioria dos senhorios são pessoas remediadas, com reformas pequenas, e que estão à espera do valor da renda para pagar as suas despesas” diz ao jornal i  António Frias Marques.

Uma  das hipóteses sugeridas pelo Presidente da Associação de Proprietários  é o Estado seguir o exemplo do que fez em  1975, quando se viu a braços com a situação dos portugueses  que regressaram a Portugal na sequência  do processo de descolonização, após a revolução de 1974. Essas 500.000 ou 600.000  pessoas foram instaladas em hotéis. Hoje, pode fazer-se o mesmo.  O que não falta agora são hotéis e alojamentos locais vazios

Fica-se com a ideia de que os hotéis vazios não têm proprietários com direitos sobre eles e o mesmo se  teria então de pressupor  quanto aos arrendamentos locais, supostamente vazios. E com uma forte dose de humanismo  acrescenta: “Não se pode é deixar essas pessoas viver debaixo da ponte”. Inferimos que se podem  é expulsar das casas que habitam para que estas possam ser alugadas a novos e bem mais altos valores ou então vendidas num mercado fortemente especulativo. A crise gera sempre “boas” oportunidades de negócio, lembra a Secretária de Estado da economia de França.

Estes quatro exemplos dão-nos uma ideia da forma como pensam muitas instituições  face aos interesses de classe em jogo. Ora vivemos numa situação de crise profunda, mesmo que de contornos ainda  mal definidos, mas tudo aponta que pode não ser menos grave do que a crise que começou em 2008 e que ainda não acabou. Uma crise que ainda  não acabou mas em que já acabou a eficácia de instrumentos da política que foram utilizados na crise que rebentou em 2008.  Esta perda de eficácia leva o economista Michael Roberts a afirmar:

“A principal mitigação económica terá de vir da política  orçamental. As agências internacionais, como o FMI e o Banco Mundial, ofereceram 50 mil milhões de dólares. Os governos nacionais estão agora a lançar vários programas de estímulo fiscal.  O governo do Reino Unido anunciou um grande aumento da despesa no seu último orçamento e o Congresso dos EUA concordou com uma despesa  de emergência.

Mas será isso suficiente para aplanar a curva se dois meses de bloqueio fizerem recuar a maioria das economias para uma espantosa queda em 10%?  Nenhum dos pacotes fiscais atuais se aproxima dos 10% do PIB.  Na verdade, na Grande Recessão, apenas a China assumiu  tal quantia.  As propostas do governo do Reino Unido ascendem a apenas 1,5% do PIB no máximo, enquanto a da Itália é de 1,4% e a dos EUA é inferior a 1%.

Há uma possibilidade de que até ao final de abril tenhamos  visto o número total global de casos atingir o auge e começar a diminuir.  É isso que os governos estão a esperar  e a  planear.   Se esse cenário otimista acontecer, o coronavírus não vai desaparecer.  Ele  tornar-se-á  mais um patógeno parecido com a gripe (do qual pouco sabemos) que nos atingirá anos após ano,  como os seus predecessores.  Mas mesmo dois meses de bloqueio causarão enormes prejuízos económicos. E os pacotes de estímulo monetário e fiscal planeados não vão evitar um colapso profundo, mesmo que reduzam a “curva” até certo ponto.  O pior ainda está para vir.”

Depois de elencar quatro pontos sobre as últimas coisas que li, que me revoltaram e que me dizem que face  à situação presente não podemos deixar de estar atentos à hipótese mais que provável de que mais uma vez serão os mesmos de sempre depois a pagar a grande factura da crise que a todos já está assustar, resta-me afirmar que tenho a esperança de que o governo português não embarque na lógica neoliberal que se irá impor a partir de Bruxelas e a partir de agora.

As medidas  a tomar  pelo Governo no espaço de uma semana dar-nos-ão indicações do que é que se pode esperar da Administração Costa  como resposta à crise medonha que aí  está  e que está ainda para se agravar muito mais.

Um exemplo de preocupação e de espectativa quanto a essas futuras medidas, sabemos agora que ao nível da restauração os despedimentos já começaram. Silenciosamente, é certo e com um argumento imparável: não há trabalho. Aqui sim e para esta questão que só  agora começou a desenrolar  é que iremos ver que visão tem a atual Administração quanto ao mercado de trabalho a entrar em forte disfuncionamento. A partir daqui, será fácil colocá-la no espectro político à esquerda ou à direita, conforme o que sair. Um socialista não convencional dir-me-á que  hoje  esquerda e direita são conceitos que se sobrepõem.  E a realidade é capaz de lhe vir a dar toda a razão! Aguardemos, então.

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/03/20/a-logica-neoliberal-e-o-direito-a-indignacao-por-julio-marques-mota/

Europa já considera estatizar empresas para evitar falências

247 - O governo da Itália anunciou nesta terça-feira (17) que prevê a nacionalização da companhia aérea Alitalia, que enfrenta grandes dificuldades financeiras há vários anos. Seria parte de um pacote de medidas contra a pandemia do coronavírus. De acordo com a imprensa italiana, Roma, capital do país, prevê um fundo de 600 milhões de euros para o conjunto do setor aéreo nacional, no qual a Alitalia é predominante

O conselho de ministros "prevê a constituição de uma nova empresa totalmente controlada pelo ministério da Economia e das Finanças, ou controlada por uma empresa com participação pública majoritária, inclusive indireta", afirma um comunicado. As informações foram publicadas pela Agência AFP.

O ministro francês das Finanças, Bruno Le Maire, também afirmou que o governo está disposto implementar nacionalizações, para "proteger" as empresas ameaçadas pela pandemia de coronavírus por causas das paralisações de voos.

 

"Não hesitarei em utilizar todos os meios a meu alcance para proteger as grandes empresas francesas", disse em coletiva de imprensa. "Isto pode ser feito por meio da capitalização ou compra de participações. Inclusive posso usar o termo nacionalização se for necessário", acrescentou.

Tudo como dantes?

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A crise sanitária está a ser o detonador de uma crise anunciada e esperada. Aqui e ali já vemos governos a nacionalizar grandes empresas como o fez o governo italiano nacionalizando a Alitália e mandando às urtigas a Comissão.

Tudo bem . Mas vamos continuar a nacionalizar prejuízos para depois quando as empresas estiverem equilibradas financeiramente com o dinheiro dos contribuintes serem privatizadas com as tretas de que os governos não tem vocação para gerir empresas ou inventando se um qualquer regulamento na UE para os governos se escudarem dizendo que é uma imposição de Bruxelas ?
Esperando que as coisas acalmem os ditos mercados continuam a cair e  pouco a pouco, uma coisa fica clara :
O sistema imunitário da economia há muito que estava de rastos , com as brutais injecções de liquidez , especulação desenfreada , estagnação do poder de compra dos trabalhadores e sua manutenção artificial pelo crédito , capital ficticio e divida privada e publica em valores em relação ao PIB , nuca vistos . 
Agora o Corona vírus vem mascarar tudo e dar pretextos para , como na crise se 2007, 2009 , passarem factura para os mesmos de sempre.

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/03/17/tudo-como-dantes/

O coronavírus desencadeará uma nova Grande Depressão?

Historicamente, as maiores depressões econômicas começaram com eventos inesperados na periferia dos principais mercados financeiros. Foi assim em maio de 1931, com o inesperado colapso do banco austríaco Creditanstalt de Viena, que derrubou todo o frágil sistema bancário alemão do pós-Guerra, contribuindo para a Grande Depressão nos EUA, já que sacudiu as estruturas dos principais bancos americanos. Será outra vez um evento imprevisto fora dos mercados financeiros – o novo coronavírus e seus efeitos no comércio mundial e, especialmente, no comércio EUA-China – que desencadeará uma nova depressão econômica?

Até 20 de janeiro, quando foram divulgadas as notícias sobre o coronavírus explodir em na região chinesa de Wuhan e nas cidades vizinhas, os mercados financeiros globais e, principalmente, nos EUA estavam otimistas de que as ações combinadas do Federal Reserve – injetar mais liquidez – e do governo Trump – fazer tudo possível em um ano eleitoral – manteriam a economia positiva. Em janeiro, as ações continuaram sua subida artificial enquanto a liquidez do FED incendiava o mercado acionário mais supervalorizado da história dos EUA.

Todavia, desde então, à medida que aumentavam diariamente os números oficiais de infecções na China e as mortes atribuídas ao coronavírus, começou a ficar claro o fato de que o principal centro manufatureiro do mundo e fonte de grande parte das cadeias industriais globais poderia enfrentar consequências econômicas catastróficas decorrentes da emergência sanitária e do subsequente cordão sanitário de cidades com mais de 77 milhões de cidadãos e das indústrias a elas associadas. Isso, por sua vez, arrastaria o mundo inteiro, principalmente os EUA, para uma grave crise econômica em um momento não planejado.

Economia dos EUA já é frágil

Em geral, o que é subestimado na grande mídia é o fato de que a maior economia do mundo – os EUA – já demonstrava sinais alarmantes de declínio econômico antes do choque do vírus na China.

Um dos declínios mais alarmantes nos meses anteriores a janeiro foi o setor que muitos acreditavam ter sido o líder de um renascimento da energia americana, ou seja, o setor em expansão do petróleo e gás de xisto. Na última década, para surpresa de grande parte do mundo, os EUA emergiram como o maior produtor mundial de petróleo, passando tanto a Rússia como a Arábia Saudita. No início de janeiro, a produção de óleo americano era de 13 milhões de barris por dia. Boa parte desse aumento se deveu a poços de petróleo de xisto não convencional, a maioria deles no Texas.

A indústria americana de xisto depositou suas esperanças no recente acordo comercial EUA-China, no qual os chineses concordaram em comprar US$ 18,5 bilhões extras em produtos de energia em 2020. Isso é o dobro dos US$ 9,1 bilhões em importações dos EUA em 2017, mais um extra US$ 33,9 bilhões em 2021. Essas cotas representariam neste ano uma duplicação do recorde anterior de importações mensais de petróleo bruto, gás natural liquefeito (GNL) e carvão americano pela China, e uma triplicação dessa quantidade virá no ano que vem.

Tudo isso foi antes da erupção do coronavírus e das proibições de viagens à China pelas principais companhias aéreas, além do fechamento de um grande número de fábricas chinesas. Agora, os preços do petróleo seguem caindo acentuadamente, na expectativa de que a China – a maior importadora de óleo do mundo – diminua suas importações significativamente nos próximos meses, à medida que a economia é atingida pelas consequências da epidemia de vírus. Até o final de janeiro, a demanda chinesa de petróleo caiu cerca de três milhões de barris por dia, ou 20% do consumo total, e o preço do Petróleo Intermediário do Texas (West Texas intermediate – WTI) é inferior a US$ 50. Esse é o maior choque de demanda petrolífera desde a crise financeira de 2008.

Em janeiro, os preços do Petróleo Intermediário do Texas caíram 15%, a pior queda de janeiro desde 1991. As reportagens diárias sobre o aumento de baixas do vírus da China pareciam piorar esse quadro ainda mais. Os preços continuaram caindo, apesar do corte em janeiro na produção diária de 1 milhão de barris devido à Guerra Civil da Líbia. Enquanto os danos da epidemia na China crescerem, a demanda global por petróleo continuará a cair. Isso representa uma catástrofe para a frágil indústria de petróleo de xisto dos EUA, apesar de uma decisão emergencial da OPEP de cortar a produção.

Já em dezembro de 2019, antes das notícias sobre o vírus chinês, o número de pedidos de falências de empresas de petróleo de xisto nos EUA aumentava significativamente, e os preços continuavam abaixo da rentabilidade. De acordo com o monitoramento da indústria pela Baker Hughes, o número de plataformas de perfuração de petróleo e gás ativas nos EUA caiu para 790 – isto é, 265 plataformas a menos desde janeiro de 2019. Muitas empresas americanas de petróleo e gás estão desesperadamente aguardando um novo boom de exportações para a China. Embora isso pareça otimista, os últimos acontecimentos podem se tornar um pesadelo para os produtores de xisto americanos, que enfrentam custos crescentes e queda na produtividade.

Transporte americano em crise

Ao contrário do mercado acionário que pode subir à medida que as empresas usam a liquidez do FED para simplesmente recomprar suas próprias ações, em vez de investir em novas instalações e equipamentos, a economia real depende da circulação de mercadorias. Nos EUA, o transporte de caminhões é importante. Os indicadores americanos não eram positivos muito antes dos eventos do coronavírus na China. Em dezembro passado, um dos maiores grupos de caminhoneiros, o Celadon of Indiana, entrou com pedido de proteção contra falência com mais de três mil motoristas – a maior falência da história dos caminhoneiros dos EUA. Nos três primeiros trimestres de 2019, quase 800 transportadoras de caminhões faliram, mais que o dobro das falências de 2018, segundo a Broughton Capital, empresa de dados do setor de transportes.

E a diminuição dos embarques de mercadorias dos EUA não foi apenas no transporte rodoviário. Foi do outro lado da linha. De acordo com o grupo comercial, o Cass Index for Freight Shipments, em uma comparação ano a ano, o volume total de mercadorias transportadas por trem, barco, ar e terra nos EUA caiu 7,9% em janeiro. Esse foi o 13º declínio mensal e a queda mais acentuada desde a crise financeira de novembro de 2009. A conta não inclui mercadorias a granel como grãos, mas abarca itens como automóveis e autopeças.

O frete ferroviário caiu 9,2%. Uma das principais razões para essas quedas é a fraqueza na indústria americana. Apesar das recentes alegações, os empregos não estão voltando da China para os EUA – pelo menos, em números significativos. Em vez disso, o Índice de Atividade dos Gerentes de Compras (PMI) Industrial de dezembro caiu para 47,2% – 0,9% em relação a novembro. Foi o quinto mês consecutivo de contração e a mais rápida desde junho de 2009. Os empregos, novos pedidos de exportação, a produção, a reserva de pedidos e os estoques estavam todos em contração.

Além disso, está a frágil situação dos agricultores norte-americanos, após severos danos climáticos em 2019 e o corte das exportações para a China como resultado da guerra comercial. A tão negociada Fase 1 do acordo comercial EUA-China em dezembro pede que a China importe cerca de US$ 50 bilhões em produtos agrícolas dos EUA, o que, se for verdade, resultaria em um grande impulso aos agricultores americanos. Em 2017, os EUA exportaram US$ 19 bilhões em produtos agrícolas, incluindo soja e milho para os chineses. Agora, da forma como o coronavírus se espalhou pela China, a probabilidade de efetuar um aumento das exportações agrícolas diminui a cada dia. Pequim já deu a entender que solicitará uma reconsideração do novo acordo comercial em decorrência dos impactos do vírus. Em 2019, as falências agrícolas dos EUA foram 24% maiores que em 2018 em meio a uma das piores crises desde os anos 1980. A perda do imenso mercado de exportação da China em 2020 será um golpe devastador para milhares de agricultores que mal conseguem sobreviver.

Tudo isso por si só não cria uma catástrofe econômica. Contudo, o choque inesperado da maior crise da história recente, interrompendo as cadeias de suprimentos do centro da indústria global – a China –, terá consequências incalculáveis ​​para empresas americanas como Boeing, GM, Apple e inúmeras outras, caso a crise continuar crescendo, o que, infelizmente, todos os sinais indicam acontecer.

Para milhões de americanos comuns, o crescimento do mercado de ações nos últimos dez anos, com taxas de juros baixíssimas, tem sido a principal fonte de suas economias para aposentadoria. Agora, com as bolsas de valores em todo o mundo vendendo muito por causa do medo do impacto do coronavírus na economia mundial, a liquidação pode se transformar rapidamente em pânico, fazendo desaparecer a economia de milhões de americanos. Com apenas 41% das famílias americanas com até US$ 1.000 em caixa em caso de emergência, o impacto pode ser grave.

Ao contrário das crises de 20 anos atrás, a diferença é o impacto dramático da globalização da economia mundial, com a China recebendo a maior parte da terceirização da indústria do Ocidente, especialmente dos EUA. As principais montadoras sul-coreanas, Hyundai e Kia, anunciaram a suspensão da produção na Coreia, pois sua cadeia vital de fornecimento de componentes na China permanece fechada por conta do coronavírus. A indústria alemã se tornou fortemente dependente das exportações chinesas de autopeças para máquinas-ferramentas, agora no limbo. França, Itália e outras economias da União Europeia também serão duramente atingidas.

Stephen Innes, da AxiCorp, alerta que “qualquer choque econômico nos colossais motores industriais e de consumo da China se espalhará rapidamente para outros países graças ao aumento das interligações comerciais e financeiras associadas à globalização”. E poucos países são mais vulneráveis a esses choques do que os EUA. Mesmo com a crise do SARS de 2003 na China e Hong Kong, o nível da globalização chinesa era de magnitude menor.

Com a dívida total da economia mundial e também americana em níveis recordes, a inesperada catástrofe da saúde na China pode ter um impacto econômico que poucos poderiam ter imaginado há apenas algumas semanas. Não temos um relatório preciso de quanto a indústria chinesa se encontra fechada até o momento ou por quanto tempo, e a interrupção das cadeias de suprimentos globais está só começando. Isso tem potencial para abalar o mundo, mas os mercados financeiros alegremente ignoraram tudo.

*Frederick William Engdahl é consultor de risco estratégico e conferencista, é formado em Política pela Universidade de Princeton e é um autor best-seller de petróleo e geopolítica.

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Um bom momento para NÃO vivermos abaixo das nossas possibilidades

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Já grande parte da população entendeu o que pode fazer para conter a propagação do COVID19. Também há algumas coisas que podemos fazer a nível individual para diminuir os impactos da crise económica associada.

Tal como no combate ao vírus, uma boa parte do combate à crise económica que se está a desenvolver depende das autoridades nacionais e europeias. Sobre isso voltarei noutra ocasião. Vale a pena, ainda assim, ter presente algumas coisas que podemos fazer para combater a dimensão económica desta crise.

Uma regra básica é lembrarmo-nos que os gastos de uns são os rendimentos de outros. O isolamento social a que aderimos para conter a propagação do vírus significa que reduzimos drasticamente os nossos consumos. Os gastos ainda diminuem mais para aqueles cujo rendimento é imediatamente atingido pela crise. Proteger os rendimentos (através de transferências do Estado, por exemplo) é importante, mas não chega. Se, nesta fase, as pessoas gastarem menos do que podem, cria-se um círculo vicioso: menos gastos –> menos rendimentos –> menos gastos… . Este é um bom momento para NÃO vivermos abaixo das nossas possibilidades.

A responsabilidade é maior para quem tem rendimentos fixos. Para estes, especialmente, não há necessidade de cortar em gastos como: explicações, aulas de música, terapias várias (psicológica, da fala, etc.), etc. Muitas destas actividades estão já a procurar soluções para prosseguir a sua actividade online e seria bom que quem delas usufrui, caso possa, continue a fazê-lo. Até os ginásios (cujo crescimento foi notório nos últimos anos em Portugal) poderão orientar actividades físicas à distância, podendo e devendo ser remunerados por isso.

A situação é mais delicada para cabeleireiros, dentistas, lojas de rua, cafés, etc. Não só estas actividades exigem mais a presença física, como têm mais dificuldades em encontrar soluções tecnológicas alternativas. Aqui, os apoios públicos serão mais importantes, para que não haja uma quantidade catastrófica de falências caso a situação se prolongue (tratarei disto noutra altura).

Um caso especial é o das empregadas domésticas. A continuação da actividade destas profissionais é um risco para as próprias e para as famílias para quem trabalham. Deveriam, por isso, ser das primeiras profissões a suspender a actividade. A maioria destas profissionais, no entanto, não tem acesso a segurança social (apesar de ser obrigatório por lei). Aqueles que as empregam têm aqui uma responsabilidade acrescida.

Lembremo-nos, também, que muitos órgãos de comunicação social vivem da publicidade e das assinaturas dos leitores. A publicidade tende a cair a pique nestas alturas - precisamente quando precisamos mais de informação rigorosa (aquela mais sensacionalista, dispensa-se). As assinaturas dependem de nós.

Também na economia o comportamento de cada um de nós não resolverá o problema. Mas pode ajudar.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Estrategista financeiro: 'Isto é o início da maior crise financeira da história dos EUA'

Funcionário da Bolsa de Nova York (NYSE) na cidade de Nova York, nos EUA, em 11 de março de 2020
© REUTERS / Andrew Kelly

A Reserva Federal dos EUA (Fed) anunciou uma injeção de US$ 1,5 bilhão (R$ 7 bilhões) para aliviar as tensões nos mercados de capitais.

A medida, considerada a maior desde a crise financeira de 2008, foi tomada depois que as bolsas americanas sofreram o pior crash desde 1987.

"Isto é o início da maior crise financeira da história dos EUA […] O 'bull market' está claramente acabado, basta olhar para os números", disse ao canal russo RT o especialista Peter Schiff.

Segundo o corretor de ações veterano, a diferença é que esta crise vai realmente ter inflação e o país terá "preços ao consumidor em alta e um dólar em queda, o que vai torná-lo muito pior do que o que experimentamos há 10-12 anos", complementou o CEO da Euro Pacific Capital.

"A crise financeira dos EUA de 2008 vai empalidecer em comparação com a gravidade desta recessão. Vamos ter uma recessão muito maior do que a que tivemos em 2008."Temperatura corporal sendo medida dentro do edifício da Bolsa de Xangai, quando o país é atingido por um novo surto de coronavírus, em Xangai, China, 28 de fevereiro de 2020

© REUTERS / Aly Song
Temperatura corporal sendo medida dentro do edifício da Bolsa de Xangai, quando o país é atingido por um novo surto de coronavírus, em Xangai, China, 28 de fevereiro de 2020

Para Schiff, o coronavírus é apenas uma agulha que espetou não só na bolha do mercado de ações e das criptomoedas, mas também na do mercado de títulos.

"Os EUA estão falidos, não há dinheiro para estimular a economia, e tudo o que podemos fazer é imprimir dinheiro [...] O mercado obrigacionista está implodindo porque há dívida demais […] Infelizmente a cura do Fed para o coronavírus vai ser fatal para a economia", prevê o estrategista.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/economia/2020031315327244-estrategista-financeiro-isto-e-o-inicio-da-maior-crise-financeira-da-historia-dos-eua/

As faiscas , coronavírus e petroleo

As faíscas  coronavírus e petróleo estão a encontrar matéria inflamável em abundancia e a avançar apesar das injecções de liquidez dos Bancos Centrais , das declarações tranquilizadoras e do corte da taxa de juro da FED
A banca começa de novo a abanar …
Isto num quadro em que em muitos países se aprofundavam as tendencias recessivas 
A finança procura passar a mensagem que isto é temporario , que a recuperação chegará em breve…
O Euro Stoxx Banks – Índice dos bancos cotados na zona euro perdeu mais de17%   nas ultimas cinco sessões bolsistas . O refugio no ouro é um indicador , a substituição de acções por obrigações outro e o disparo do custo do risco (CDS)outro.
 Mas a baixa das taxas do mercado obrigacionista atinge ao mesmo tempo os seguros e a banca e abanca sombra.
Em Wall Street os corta circuitos foram accionados durante 15 minutos para evitar maiores descidas. Com a situação económica que se conhece e , com a brutal divida privada e publica se o pânico se instala não há manipulação que aguente a pressão nas bolsas e teremos a crise instalada

 O que eles nos dizem Hoje : ” O agregador das 600 maiores cotadas europeias, o Stoxx600, afundou 7,44%para os 339,5 pontos, registando volumes de negociação que superam em três vezes a média dos últimos 100 dias. Esta é a maior queda do índice desde outubro de 2008.
A maioria das grandes praças estão a precipitar-se em direção a um mercado urso (bear market), apresentando quebras maiores que 20% desde o último pico. As bolsas de Amesterdão, Espanha, Alemanha e Inglaterra perdem mais de 7%, a francesa desceu acima de 8% e a grega recuou mesmo mais de 11%.
Do outro lado do Atlântico o cenário é equivalente, com o índice generalista de referência nos Estados Unidos, o S&P500, a deslizar cerca de 18% desde o máximo histórico atingido a 19 de fevereiro. Este “mergulho” no vermelho pode ditar o fim do mercado touro (bull market) que reinava em Wall Street nos últimos 11 anos, que foram essencialmente de expansão.”
 

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/03/09/as-faiscas-coronavirus-e-petroleo/

Coronavírus, nacionalismo, especulação: a tempestade perfeita

Yanis-Varoufakis,-LUma epidemia global que reergue fronteiras e limita a liberdade de movimentos dos cidadãos, ao mesmo tempo que mantém a rédea solta aos fluxos especulativos do capitalismo financeiro: eis, segundo Yanis Varoufakis, a tempestade perfeita, levantada pelas forças conjugadas do nacionalismo e da especulação financeira.

«O nacionalismo e a especulação raramente tiveram uma melhor oportunidade de combinar forças do que aquela que hoje se abriga sob o manto do Covid-19, conhecido como o coronavírus.

Quando o Covid-19 saltou da China para a Itália, mesmo os europeístas fervorosos que normalmente apreciam as fronteiras abertas juntaram-se aos apelos ensurdecedores para acabar com a liberdade de circulação através das fronteiras nacionais da Europa – uma exigência de longa data dos nacionalistas. Enquanto isso, os homens do dinheiro que especulam sobre a dívida pública estão a executar uma clássica fuga de títulos do governo italiano para títulos do governo alemão, procurando a segurança financeira que só a economia hegemónica do continente pode oferecer durante qualquer crise. Como uma tentativa de nos lembrar da grande contradição dos nossos tempos, o Covid-19 está a iluminar gloriosamente a liberdade do dinheiro para transcender um universo financeiro sem fronteiras, enquanto os seres humanos permanecem tão encurralados como sempre».(in The Guardian)

Que o Covid-19 já está a ter um forte impacto, tanto nos países mais atingidos como na economia global, é mais do que evidente, com sectores como os transportes aéreos e o turismo entre os mais afectados. Despedimentos, dispensas e não renovação de contratos são uma realidade que os trabalhadores começam a enfrentar e que se pode em breve traduzir também em falências e encerramentos de empresas. Contudo, entre a elite financeira que não gosta de perder dinheiro, sabemos que as crises funcionam muitas vezes como oportunidades, e não é raro que, do meio da desgraça generalizada, saiam ainda melhor do que já estavam.

Escrevendo no The Guardian, Varoufakis traça algum paralelismo entre a crise de 2008, que levou os mais poderosos governos e bancos centrais a conjugar esforços para safar os especuladores e os banqueiros à custa dos estados e dos cidadãos. Tal como sucedeu na altura, também agora o perigo vindo do estrangeiro tenderá a reforçar os sentimentos racistas e xenófobos entre a classe média empobrecida. E enquanto os especuladores financeiros continuam a engordar as contas bancárias, serão cada vez maisos excluídos da globalização que clamam o regresso dos muros e das fronteiras.

[28-29 /02/2020] A MAIOR CRISE MONETÁRIA/SISTÉMICA DA HISTÓRIA

                     (As fotos abaixo são relativas à grande depressão dos anos 1929-33)
                                 Image result for 1929 depression
Sim, estamos perante o início de uma crise cujas dimensões são tais, que ninguém ou quase, se apercebe do abismo que se está a desenhar em frente «dos olhos financeiros» do mundo inteiro.
Explicação: perante a descida vertiginosa dos mercados de acções e obrigações, maiores do que as descidas da grande crise de 2007/2008 e das outras, de que o sistema guarda memória, qual será a reacção dos bancos centrais? Aposto, com toda a confiança, que estão agora (28-29 Fev. 2020) reunidos, sob a batuta do BIS (Bank of International Settlements) para decidir de uma coordenada política de impressão monetária, com vista a «salvar» a economia da catástrofe.
Evidentemente, não vão salvar nada, pois mesmo que os mercados por magia (falsa) subam vertiginosamente do mesmo modo que desceram, vão fazê-lo com dinheiro impresso e cedido pelos bancos centrais, «resgatando» assim a economia financeirizada em que temos vivido. 
Mas, muitos actores do mundo económico real vão receber os dólares, ou yens, ou euros, etc. suplementares, não com entusiasmo, mas com apreensão, pois todo e qualquer activo que detenham, vai sofrer diluição equivalente do valor. 
 
                                                      Image result for 1929 depression
 
O público em geral vai também ver a aceleração da inflação, inevitável numa situação de inundação dos mercados com divisas que não correspondem a nada, a nenhum valor/trabalho. Como noutras situações históricas conhecidas, desde a Alemanha da República de Weimar (1920-23), à Rússia de Ieltsin (finais dos anos 90), à Argentina (de 2000) ou ainda outros episódios de hiperinflação, como aos contemporâneos Venezuela e Zimbabwe, o início parece ser uma inflação apenas um pouco mais intensa, depois haverá uma descida enorme dos salários reais e aí as pessoas começam a entrar em pânico, sendo depois questão de pouco tempo (meses) até o dinheiro deixar de ter qualquer valor.  
Escusado será dizer que as pessoas mais afectadas são as que ficam impossibilitadas de sobreviver neste contexto: em geral, os assalariados, os pensionistas, as pessoas de posses modestas, ficam na miséria. 
O sistema global não poderá continuar neste estado por muito tempo. Daí que as «elites» já tenham preparado um «reset» ou seja, uma forma de mudar o que tem de ser mudado para que tudo (o que é essencial) fique na mesma
É muito provável o lançamento dum sistema monetário baseado em cripto-moedas, mas com emissão estatal ou por bancos centrais. Esta «solução» não será uma verdadeira solução, porque o conteúdo do valor das criptomoedas ou moedas digitais será sempre sujeito a manobra dos governos e bancos centrais, tal como têm sido - até agora - as moedas em papel, as «divisas fiat», que apenas existem porque os Estados obrigam os cidadãos a fazerem todos os seus pagamentos nestas e só nestas divisas, para que as transacções sejam consideradas válidas, para todos os efeitos legais.
 
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Ora, os Estados, estão sempre a desvalorizar as suas moedas para conseguirem fazer despesa, que não teriam hipótese de fazer somente com dinheiro dos impostos. Mas fazem-nas, no entanto, devido ao seu endividamento, junto de entidades financeiras, como bancos, fundos especulativos, etc. (os compradores de dívidas estatais ditas «dívida soberana»). 
Uma grande parte do colapso a que começamos a assistir agora, deveu-se a essa arquitectura defeituosa do sistema monetário e do poder político, aproveitando e abusando dessa possibilidade  de endividamento, para se auto-perpetuar à custa do futuro dos seus próprios países e povos. 
Mas, como as populações respectivas não compreendem patavina do esquema de Ponzi que tem sido mantido mundialmente pelos governos e finança, eles têm feito ao longo de décadas esses crimes de forma continuada, descarada e impunemente.
Só haverá uma mudança real do sistema monetário se e quando o mesmo não permitir os golpes ou esquemas de Ponzi que têm sido o apanágio destas castas financeira e governante. 
Quando o trabalhador tiver a garantia da conservação do valor do fruto do seu trabalho, qualquer que seja a unidade em que é pago, ao contrário de hoje, em que o poder de compra dos salários se deteriora mais ou menos rapidamente. 
Hoje em dia, o assalariado não consegue manter o seu poder de compra, simplesmente porque o dinheiro está «desenhado» para ir perdendo valor ao longo do tempo, mas isso ninguém (ou quase) lhe explica! 
Só uma transformação profunda, não violenta, que aborde as questões sem demagogia e no interesse da imensa maioria, poderá resolver as questões... 

Ver o original em 'Manuel Banet' (clique aqui)

ESTRANHO, TUDO PARECE FUNCIONAR COMO SE NADA FOSSE...


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...E, no entanto, as coisas não poderiam ser mais dramáticas.  Poderia ser um erro de perspectiva da minha parte. Mas não, isso não se verifica, pois encontro fortes correlações e confirmações dos meus receios em notícias o mais pragmáticas, objectivas que se possam imaginar.
A pandemia do Covid-19 está a começar a espalhar-se por muitos sítios, diferentes da China. O vírus não encontra dificuldades de maior para se difundir, pois a sua própria biologia favorece a disseminação através de portadores assintomáticos.  Num mundo globalizado, é impossível determinar - à partida - quem é ou não portador do vírus, a não ser que seja sujeito a quarentena.  Isto significa que as trocas humanas e mesmo de mercadorias estão condenadas, no curto prazo, a sofrer uma quase paralisia. Este vírus é o factor desencadeante duma recessão, que já estava em marcha, basta ver os números de vendas a retalho na Europa e nos EUA em Dezembro passado, portanto antes da epidemia se ter declarado. 
Mas, muitas pessoas, influenciadas pela media, estão apenas centradas nos resultados das bolsas, que já não têm nada que ver com as realidades económicas. Elas estão em estado de denegação.  Neste estado, as pessoas insistem em ler as informações como se tudo fosse dentro da normalidade, não reconhecendo a realidade, ou seja, que entrámos num período de profunda recessão mundial, do qual não se vê a saída, de momento. 
As situações de ruptura de abastecimento vão se sucedendo, vai se agravando o colapso, mas isto tudo é mascarado pela barragem mediática, que não ajuda a esclarecer as questões, antes aprofunda a confusão de todos os agentes económicos, ao dar uma nota de trivialidade, de banalidade mesmo, ao que se está a passar. 
Portanto, enquanto as pessoas não encararem os desafios desta pandemia com objectividade, as questões vão continuar a ser eludidas. Muitas, irão sofrer perdas drásticas nos seus activos.  A oligarquia estará, como de costume, bem precavida, tendo  começado (até mesmo, antes desta pandemia) a acumular bens não financeiros, imobiliários, metais preciosos, obras de arte... consciente de que as condições estão substancialmente mudadas. A grande maioria, iludida pelos valores altíssimos dos mercados de acções e de obrigações, continuará, até demasiado tarde, a apostar no crescimento nominal destes activos, não percebendo que isso já não tem correspondência com o mundo da economia real, tangível.

Ver o original em 'Manuel Banet' (clique aqui)

Portugueses continuam sobre-endividados. 29 mil pediram ajuda à Deco

 

Mais de 29.000 sobre-endividados voltaram a pedir ajuda à Deco em 2019, tal como em 2018, sendo a principal causa de endividamento a deterioração das condições laborais, em vez do desemprego.

 

O balanço do ano avançado pela associação não é positivo, na opinião da coordenadora do Gabinete de Proteção Financeira da Deco, Natália Nunes: “O número de pedidos de ajuda [à associação de defesa do consumidor Deco] não diminuiu em 2019, mantendo-se com o mesmo número desde 2017″, e totalizando 29.154 no ano passado, quando em 2018 foi 29.350 e em 2017 tinha sido 29.000.

O que mudou, analisando dados daquele gabinete de 2019 face a 2018, foram as razões desse sobre-endividamento, deixando o desemprego de ser a principal causa das dificuldades financeiras das famílias, sendo substituído pela deterioração das condições laborais, como atrasos de pagamento de salários, perdas de rendimentos (nomeadamente devido a baixa médica) e redução de horas extraordinárias ou comissões.

A associação da defesa do consumidor lembra que os desempregados que regressaram no ano passado ao mercado de trabalho têm sido confrontados com contratos temporários e/ou parciais e que, do ponto de vista financeiro, esta situação conduz a insegurança e instabilidade e está aliada a baixos salários.

“Relativamente aos créditos, verificamos que as famílias continuam a ter cinco créditos (um à habitação, dois cartões pessoais e dois cartões de crédito), tal como em 2018, mas verificamos que há um aumento dos montantes do crédito pessoal e dos cartões de crédito”, apontou Natália Nunes.

Os montantes médios do crédito, que em 2018 eram de 16.111 euros para o crédito pessoal e 7.580 euros para os cartões de crédito, subiram no ano passado para,, 22 mil euros, 8.300 euros. Em termos percentuais, o crédito à habitação tinha um peso de 73% no total de créditos, o crédito pessoal 20% e os cartões de crédito 7%.

Os dados revelam ainda outro grande motivo de preocupação para a associação de defesa dos consumidores, a taxa de esforço suportada pelos consumidores sobre-endividados, ou a percentagem do rendimento total do agregado familiar destinada ao pagamento das prestações de créditos, que no ano passado foi de 76%, contra 80% em 2018.

ZAP // Lusa

 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/portugueses-continuam-endividados-305567

Acontecimento nacional da década: a troika

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 27/12/2019)

 

Quando a crise de 2008 rebentou a nossa divida pública estava em linha com a média europeia. Era a dívida externa, que junta a pública e a privada, que estava bem acima. As razões têm a ver com o euro e o que ele fez à já pouco saudável balança comercial, com a falta de capital nacional, com o processo de privatizações que obrigou a recorrer a capital externo, com a ausência de um mercado de arrendamento que leva ao endividamento das famílias, com dezenas de outras razões, algumas bem antigas. Seja como for, isso expunha-nos (e expõe-nos) especialmente a qualquer crise externa.

Entre 2009 e 2011, a fragilidade da nossa economia e a inação da União Europeia (ou mesmo a sua indecisão, que disse aos Estados para injetarem dinheiro na economia para depois os mandar recuar) teve um efeito brutal nos juros da dívida pública. Não foi apenas em Portugal. Por todo o lado, foi isto e o resgate aos bancos que transformou a crise do subprime em crise das dívidas soberanas. Depois, como sabemos, os Estados foram obrigados a minguar, mas o despautério da banca continuou. Convencer os povos que o problema estava nos serviços que os Estados lhes prestam foi fundamental para que o poder financeiro não tivesse de mudar nada.

Voltando a Portugal, ache-se o que se achar de José Sócrates, e é difícil achar alguma coisa de bom, não havia Sócrates na Grécia, na Irlanda, em Espanha ou em Itália.

Desde que entrámos no euro, as crises e recuperações da nossa economia devem-se muito mais ao que se passa na Europa do que ao que tenha feito Sócrates, Passos ou Costa. E a troika em Portugal foi uma escolha política de Bruxelas e Berlim. Assim como não ter existido uma intervenção direta em Espanha e Itália o foi.

A intervenção da troika foi uma catástrofe cujas dimensões ainda não podem ser medidas em toda a sua extensão. Foram 29,4 mil milhões, que corresponderam a 17% PIB, que a austeridade arrancou ao país. A dívida passou dos 108% do PIB, em 2011, para mais 130% no fim do período da troika. Foram destruídos 450 mil empregos, o desemprego ultrapassou os 20% (35% nos jovens). 120 mil a 150 mil pessoas emigraram por ano. Um quarto dos portugueses (eram 20% em 2009) passou a viver abaixo do limiar de pobreza, ao mesmo tempo que as grandes fortunas aumentavam 13% e surgiram mais 350 milionários em Portugal. No resgate à banca, fizeram de Portugal uma cobaia com efeitos desastrosos.

Não foi feita qualquer reforma estrutural da economia e do Estado. Todos os problemas estruturais do país estão intactos, porque resolver nunca foi o objetivo da intervenção externa. O objetivo era garantir o pagamento da dívida através da sua transferência da banca para as instituições com capacidade de cobrança. De resto, apenas mais umas privatizações, mais umas mudanças nas leis laborais, cortes no rendimento e um emagrecimento cego e irresponsável do Estado cujos efeitos se sentirão por muito tempo, porque é mais difícil reconstruir do que destruir. O único ganho foi a descida das taxas de juro, com acesso facilitado ao crédito. O que poderia ter sido conseguido com uma intervenção atempada da UE e do BCE, logo no início da crise grega, que desse confiança aos credores.

Só fomos poupados às repercussões políticas mais graves a que assistimos noutros países. Ao contrário de outros, tivemos a sorte de terem sido dois partidos de esquerda, que algumas pessoas gostam de comparar à extrema-direita, a absorver o descontentamento e, com esses votos, contribuírem para uma solução governativa. O efeito político mais duradouro foi mesmo à direita, especialmente no PSD, que perdeu o voto dos reformados, vítimas de uma austeridade que lhes cortou rendimento num período da sua vida em que a adaptação é mais difícil. Um preço que os social-democratas ainda estão a pagar. Veremos com que efeitos para o regime.

Mas houve uma coisa em que aqueles três anos tiveram efeitos profundos: animaram, com a ajuda do discurso autopunitivo contra um povo que tinha vivido acima das suas possibilidades e a aceitação rastejante de uma intervenção estrangeira, o pior da nossa identidade coletiva. Uma identidade desenhada por meio século de ditadura e marcada pelo medo e a subserviência. Ela está muito viva. E ainda serve ao poder político e económico.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Infelizmente deverá rebentar muito antes

O fundador do maior ‘hedge fund’ do mundo, o Bridgewater Associates, prevê que o contexto económico atual resulte numa “situação assustadora” nos próximos dez anos. (Eles lá sabem porquê)
 
O bilionário, fundador e co-presidente do Bridgewater Associates, Ray Dalio (na foto), falou num fórum de investimento que está a decorrer na Arábia Saudita, esta terça-feira. De acordo com Dalio, a política monetária, o aumento da desigualdade e as mudanças climáticas, combinados, representam uma ameaça relevante para a economia mundial.
“A tecnologia e a utilização crescente de inteligência artificial, assim como o aumento da produtividade, vão alargar substancialmente a desigualdade em termos de riqueza, empregabilidade e os conflitos ideológicos dentro dos países”, explicou o investidor.
De acordo com as conclusões do evento, onde estão reunidos vários líderes financeiros, os bancos centrais já não possuem armas suficientes para combater a próxima recessão económica.NEG.

Via: FOICEBOOK http://bit.ly/35D6mf6

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2019/11/26/infelizmente-devera-rebentar-muito-antes/

Portugal | Deterioração de condições de trabalho é a maior causa de endividamento

 
 
O Gabinete de Proteção Financeira da Deco já recebeu este ano 26.200 pedidos de ajuda de famílias sobreendividadas e a principal causa já não é o desemprego, mas a deterioração das condições de trabalho, com 21% dos casos.
 
A mudança no principal motivo para as pessoas recorrerem ao Gabinete de Proteção Financeira (GPF) da Deco está a ser acompanhada por um aumento do número de pedidos o que leva a coordenadora deste Gabinete, Natália Nunes, a sublinhar a necessidade de se “voltar a repensar os comportamentos adotados na época mais complicada da crise”, em termos de recurso ao crédito.
 
A pretexto do Dia Mundial da Poupança, que se assinala na quinta-feira, o Gabinete de Proteção Financeira fez um balanço dos pedidos que lhe chegaram desde o início do ano e o resultado mostra que os 26.200 entrados até outubro ultrapassam os contabilizados em igual período de 2017 e 2018 e que foram 26.080 e 26.180, respetivamente.
 
Os dados revelaram ainda que, em 2018, a deterioração das condições de trabalho esteve na origem de 19% das situações de rutura, mas o seu peso aumentou este ano para os 21%, ultrapassando pela primeira vez o desemprego (20%).
 
“Há 19 anos que prestamos apoio aos consumidores em situação de sobreendividamento e, ao longo destes anos, a principal causa tem sido sempre o desemprego. Este continua a ser uma causa importante, mas ocupa agora o segundo lugar porque o primeiro tem a ver com a deterioração das condições laborais”, referiu à Lusa Natália Nunes.
 
 
Em causa estão, sublinhou a coordenadora do GPF, pessoas que têm emprego, mas com rendimentos relativamente baixos e muitas vezes com contratos a prazo, o que acaba por criar “instabilidade” nos orçamentos familiares.
 
Em média, cada uma das pessoas que pediu apoio ao GPF tinha cinco créditos, número que se tem mantido estável desde 2015, mas que tem por trás uma subida do valor médio em dívida e dos encargos mensais com prestações.
 
Segundo o GPF, o valor médio do crédito pessoal dos que pediram ajuda aumentou de 16 mil euros em 2018 para 20.100 euros este ano. Por sua vez, o valor médio do crédito à habitação subiu, no mesmo período, de 79 mil para 83.300 euros, e o montante em dívida médio dos cartões de crédito avançou dos 7.500 para os 8.500 euros.
 
Tudo somado, o valor total das prestações de crédito aumentou de 798 euros em 2018 para 870 euros em 2019, enquanto no mesmo período o valor médio do rendimento líquido mensal avançou de 1.150 euros para 1.200 euros.
 
Ressalvando que “as famílias continuam com taxas de esforço muito elevadas”, acima dos 70% e excedendo largamente os 35% aconselhados pela Deco, Natália Nunes acrescenta que, entre os que recorrem à ajuda do GPF para renegociarem créditos, há situações de créditos contratados recentemente.
 
“Temos situações de pedidos de ajuda para renegociar créditos à habitação contratados já este ano ou em 2018”, precisou aquela responsável.
 
Todo este contexto leva Natália Nunes a considerar que as medidas que foram tomadas no ano passado pelo Banco de Portugal para limitar a concessão de crédito para compra de casa não são suficientes.
 
“Na habitação existe algum rigor na concessão do crédito, no que concerne nomeadamente em relação à avaliação da solvabilidade, mas a situação dos consumidores não passa única e exclusivamente pelo crédito à habitação”, precisou Natália Nunes para ressalvar que “se poder prevenir situações de endividamento excessivo” deveriam ter-se em conta todos os créditos, nomeadamente os pessoais e os cartões de crédito.
 
Acentuando que o atual contexto de baixas taxas de juro tem evitado uma maior subida dos casos de sobreendividamento, a coordenadora do GPF sublinha, contudo, a necessidade de as pessoas voltarem a adotar alguns dos cuidados na gestão do dinheiro que adotaram durante a crise.
 
“Temos de voltar a repensar os comportamentos que adotámos na época mais complicada da crise em que os consumidores eram muito mais responsáveis na forma como lidavam com as questões do dinheiro e tomavam as suas decisões de crédito precisamente para acautelar possíveis complicações que possam surgir”, precisou, defendendo ao mesmo tempo um reforço da poupança.
 
Notícias ao Minuto | Lusa | Imagem: © iStock

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/10/portugal-deterioracao-de-condicoes-de.html

DE MUITO GORDA, A PORCA JÁ NÃO ANDA

 
 
O fantasma da próxima crise penetra os salões do FMI. Ex-governador do Banco da Inglaterra avisa à seleta plateia: agora, será bem pior — porque a ganância e a soberba dos mercados bloquearam as alternativas políticas
 
Larry Elliott | Outras Palavras | Imagens: Marcos Guardiola Martin, Maguma, Deus do Dinheiro
 
A economia global caminha, como um sonâmbulo, rumo a uma crise financeira e económica que terá consequências devastadoras para o sistema de mercado, segundo Mervyn King, um ex-governador do Banco da Inglaterra (2003-13), hoje membro da Câmara dos Lordes do Reino Unido. King, ocupante do posto durante a grande crise global de 2008, que quase levou o sistema bancário à morte, afirmou que a resistência a um novo pensamento económico leva à conjuração de uma nova situação caótica, semelhante à daquele período.
Numa palestra em Washington, durante o encontro anual do FMI (14 a 20/10), ele afirmou que não houve nenhum questionamento essencial às ideias que levaram à crise, há uma década.
“Outro abalo económico e financeiro seria devastador para a legitimidade de um sistema de mercado”, afirmou. “Quando nos aferramos à nova ortodoxia da política monetária e fingimos que tornamos o sistema bancário seguro, estamos caminhando, adormecidos, rumo àquela crise”.
King acrescentou que os EUA sofrerão um “armagedon financeiro”, se seu banco central – o Federal Reserve – não tiver o necessário poder de fogo para combater um episódio similar à liquidação do mercado de títulos podres relacionados a hipotecas.
Ao contrário do que acontece agora, argumentou ele, após a Grande Depressão dos anos 1930 surgiu um novo pensamento e deu-se uma mudança intelectual.
“Ninguém duvida que estamos vivendo um período de turbulências políticas. Mas não há questionamento comparável das políticas económicas subjacentes. Isso precisa mudar”, disse ele.
 
O ex-governador do Banco da Inglaterra afirmou que raras vezes houve um clima económico e político tão pesado, citando a guerra económica entre EUA e China, os motins em Hong Kong, os problemas em países-chave como Argentina e Turquia, as tensões crescentes entre a França e a Alemanha a respeito do futuro do euro e o conflito político interno, cada vez mais ácido, nos EUA.
 
“As marolas na superfície de nossa política tornaram-se ondas ameaçadoras, à medida em que os ventos ganharam força” ele disse. Explicou que a economia mundial acostumou-se a uma armadilha de baixo crescimento e que a retomada, a partir da queda de 2008-09, é mais fraca que após a Grande Depressão dos anos 1930. “Depois da Grande Inflação [anos 1970], da Grande Estabilidade [1980-2000] e da Grande Recessão [pós-2009], entramos numa Grande Estagnação”, King afirmou que em 2013 o ex-secretário do Tesouro dos EUA. Larry Summers, reintroduziu o conceito de “estagnação secular”, um período duradouro de baixo crescimento, em que taxas de juros extremamente baixas são ineficazes. “Certamente, está na hora de admitir que estamos vivendo esta fase”, disse. Os modelos convencionais foram inúteis para contribuir com dois objetivos políticos importantes : tirar a economia mundial da armadilha de baixo crescimento e prepará-la para a próxima crise financeira.
“O pensamento convencional atribui a estagnação principalmente a fatores de produção, à medida em que a taxa de crescimento da produtividade parece ter caído. Mas os dados só podem ser interpretados a partir de um teoria ou modelo. E é surpreendente haver tanta resistência à hipótese segundo a qual não apenas os Estados Unidos, mas o mundo todo, está sofrendo de uma estagnação secular provocada por baixo consumo [“demanda”, no jargão economês].
Segundo King, o mundo entrou e saiu da crise financeira global com um padrão distorcido de produção e consumo [oferta e demanda]. Escapar permanentemente de uma armadilha de baixo consumo exigiria uma realocação de recursos de um componente de demanda para o outro; de um setor para outro; de algumas empresas para outras.
“Houve investimento excessivo em alguns setores da economia (o setor exportador da China e da Alemanha, e imóveis comerciais em outras economias avançadas, por exemplo) – e insuficiente em outros (a infraestrutura, em muitos países do Ocidente, por exemplo). Seria preciso produzir uma realocação maciça de recursos, tanto capital quanto trabalho. Mas isso exigiria um conjunto de políticas muito mais abrangente e refinado que apenas estímulos monetários”.
Ele, porém, advertiu: “Foi a incapacidade de agir em múltiplas frentes da política económica que levou à estagnação da demanda na última década. E a falta de iniciativas para lidar com a fraqueza estrutural da economia planetária gera um risco de outra crise financeira. Ela poderá não emanar, agora, do sistema bancário norte-americano, mas de sistemas financeiros fragilizados, em vastas partes do mundo”.
 
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https://paginaglobal.blogspot.com/2019/10/de-muito-gorda-porca-ja-nao-anda.html

Apertem os cintos, outra vez

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 19/10/2019)

Clara Ferreira Alves

Vamos atravessar uma zona de turbulência. Apertem os cintos. Aprecio os pilotos que, em vez de aterrorizarem os passageiros, se limitam a mandar apertar os cintos quando já andamos aos encontrões nos corredores e as hospedeiras balançam os tabuleiros. Ou seja, em plena turbulência. Melhor saber no momento do que a seguir à descolagem, poupando na ansiedade. Se os ventos vão soprar nos cúmulos polares e nas montanhas de gelo celestiais, prefiro não saber.

 

Nada existe que não se preveja ou profetize. Abolimos o inesperado e o espontâneo e trocámo-lo pelo planeamento rigoroso das nossas vidas protegidas das intempéries. As linhas aéreas dão o exemplo, cobrando uma fortuna por viagens de improviso e oferecendo lugares a seis meses por seis cêntimos. A viagem, como acontecimento romântico, acabou. Foi exterminada. Na economia, ou na turbulenta vida económica das nações, igual. O Fundo Monetário Internacional (FMI), uma dessa entidades nebulosas onde não se vislumbra quem manda o quê ou quando, quem desenha os gráficos ou quem mata as aves para ler as entranhas, veio avisar que vamos atravessar uma zona de turbulência. Em Portugal, em toda a vida da democracia, foi sempre assim. Tão depressa cruzamos os céus da prosperidade, com o avião a tremer e o motor ronco, como entramos na tempestade e temos de mandar recolher as vitualhas, agarrar o copo de plástico meio vazio ou meio cheio, conforme as disposições, e tomar o calmante.

Podemos começar a tirar a benzodiazepina do bolso. As previsões do FMI dizem que somos dos que menos acompanham a Europa nos próximos anos, e a Europa vai crescer pouco porque, adivinhem, a política americana voltou a tramar os europeus. A guerra comercial dos americanos e as indecisões erráticas de Trump, mais as fissuras internas da Europa e a falência democrática, obrigam-nos a encolher a prodigalidade. Para os portugueses, tornou-se um hábito porque nunca chegamos a sair da crise, e o nosso tecido social e económico nunca chega a ganhar resistência. O Estado nunca se chega a reformar. A pobreza também não. O nosso capitalismo sai de uma crise para entrar noutra, de braço dado com os “estímulos”. Centeno tem “menos margem de manobra”, mas quem tem menos margem de manobra é a democracia liberal.

Em 2008, estava em Nova Iorque. No dia de setembro em que o Dow Jones desceu às profundezas e o resgate se tornou inevitável para evitar a falência do sistema financeiro mundial, assisti a cenas épicas. Banqueiros que fugiam escondidos atrás de pastas e caixotes, manifestantes com cartazes onde se lia “Morte aos Bancos”. Num parque junto a Wall Street, o Occupy montou acampamento, antes de ser corrido e de morrer de tédio, perante a indiferença das massas. Nesse dia de setembro, profetizei que íamos pagar na Europa um preço elevado pela catástrofe. Ia ser pago com atraso e a prestações, mas ia ser pago. E agora, vê-se nos gráficos do FMI que a economia americana é a única que cresce nos anos vindouros. Timidamente, mas cresce. Os Estados Unidos, por ciclos, dão cabo de nós e do mundo e saem da crise quando estamos a entrar.

A crise do subprime, a crise que ninguém previu, teve como consequência última e não menos grave, consequência da austeridade imposta de repente e à bruta, antecedida por uma breve solução de expansionismo, a crise das democracias europeias. Da França do ‘coletes amarelos’ aos independentistas catalães, das populações brexitianas do norte da Inglaterra aos votantes do fascismo italiano, para não falar das subidas dos partidos de extrema-direita, antieuropeus e nacionalistas, ou pseudo-soberanistas, ou populistas, o que temos é ainda uma consequência remota das austeridades. Não da imigração, apesar do crescimento desta devido às guerras do Médio Oriente, não do terrorismo, debelado na fonte síria e iraquiana até ontem, quando a Turquia e a Rússia resolveram partilhar a terra de ninguém do norte da Síria e exterminar os curdos que nos salvaram do Daesh, mas sim das austeridades desenfreadas. Pensar que os povos iam pagar os resgates e sofrer o desemprego e a destituição sem um sobressalto, depois de terem sofrido pelos desvios da globalização, foi um erro. As redes sociais, e a sua mobilização radical, fizeram o resto.

Sobrepôs-se à crise de autoridade da democracia a crise da imigração, que serviu de bode expiatório. O imigrante como inimigo principal, quando o verdadeiro inimigo foi outro. A decisão de mandar apertar o cinto, e de sobrepor-lhe a decisão de voar sem direito a bebida, comida ou uso da casa de banho. De Barcelona a Hull, das vilas da “França profunda” aos subúrbios da Itália periférica, assistimos à confusão entre furor e culpa. Entre o ódio ao outro e o ódio ao político, vagamente diluído nos erros de gestão das sublevações sociais, avançamos de crise em crise. Nos terrenos do ‘Brexit’, o ódio ao polaco europeu é superior ao ódio ao afegão asiático, mas os conservadores não podem admitir ser este o fundamento identitário, seria um sinal de primitivismo, e resolveram transferir a culpa para Bruxelas.

A Alemanha, que tudo fez para evitar a inflação, o demónio de Weimar, lançou-se na recessão, com a indústria automóvel afetada pela guerra comercial e a emergência climática. Angela Merkel, que tudo fez para dotar a Grécia de uma crise humanitária em pleno território europeu, e que sancionou a punição dos gregos, tentou a redenção com a política de imigração, o tal milhão que ia alimentar a máquina industrial germânica. Os imigrantes não se integraram como previa, e a extrema-direita foi ganhando território, passo a passo. A chefia de Merkel entrou em declínio. A França parecia em melhor estado, mas a república, pesada e burocraticamente irreformável, tem dificuldades em entender ou converter o extremismo lepenista, que acabou a conquistar funcionários públicos e classes baixas. Os socialistas desapareceram. E na Catalunha, se o anseio independentista é antiquíssimo, a ira é nova e deve muito à dose excessiva de austeridade e à ideia de que a região estaria melhor, mais rica, sem fazer parte de Espanha. Políticas económicas e fiscais erradas, um turismo predador e descontrolado para compensar e o esmagamento da revolta pela força, ideia do PP e de Rajoy, conduziram a este falhanço político da democracia, que o PSOE terá de resolver.

Ninguém em parte alguma aceitou a austeridade com benevolência, apesar de assim ter parecido. Ninguém aceitou os resgates ou as privações impostas com magnanimidade. E mal saímos do imbróglio, mal salvámos o euro e a unidade europeia, já estamos a entrar noutro imbróglio. Apertem os cintos.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Recessões e soluções – Parte II

Depois de termos concluído na primeira parte deste texto que talvez a questão mais importante nem seja saber se estamos ou não muito próximo de mais uma recessão mas sim a de saber o que fazer quando ela surgir.

 

 

Depois de termos concluído na primeira parte deste texto que talvez a questão mais importante nem seja saber se estamos ou não muito próximo de mais uma recessão – há muito que as teorias dos ciclos económicos nos dizem que as crises são parte destes e características das economias de mercado – mas sim a de saber o que fazer quando ela surgir, será agora o momento de lembrar que para contrariar as crises tem-se recorrido principalmente à injecção de mais dinheiro no sistema financeiro com a esperança de assim manter os níveis de investimento das empresas e os gastos das famílias. O procedimento habitual tem sido o dos bancos centrais das principais economias cortarem as suas taxas de juro, induzindo assim a sua queda e reduzindo o custo dos empréstimos, mas a experiência da recente crise do subprime mostrou que isso não funcionou; o investimento permaneceu baixo em relação ao PIB, os salários estagnaram e o crescimento económico foi fraco.

Esta situação levou os bancos centrais a recorreram a uma forma de “política monetária não convencional”, na qual estes compraram milhares de milhões de títulos públicos e privados (até mesmo acções de empresas) aos bancos comerciais, num processo conhecido como flexibilização quantitativa (ou quantitative easing, na terminologia anglo-saxónica) que levou a um enorme aumento nas reservas bancárias, pois os bancos que deveriam emprestar esse dinheiro para as empresas investirem não o fizeram. Fosse por excessivo rigor na avaliação do risco desses créditos, fosse porque os bancos necessitavam dessa liquidez para cobrir as suas próprias fraquezas no que respeita a créditos em incumprimento ou porque as empresas não precisavam de recorrer ao crédito, o certo é que todo esse dinheiro acabou desviado para aplicações meramente especulativas, investido em acções e títulos, que levou os mercados financeiros a disparar enquanto a economia “real” continuava estagnada.

O fracasso da política monetária, seja a convencional ou a não convencional, está a deixar os bancos centrais sem ideias; os investidores sabem-no e será por isso que os rendimentos (yields)dos títulos são negativos e, em alguns países, a curva de rendimento se apresenta invertida.

Os mais perspicazes entre os economistas convencionais já reconhecem que a flexibilização quantitativa não tem funcionado e até alguns keynesianos que antes a defendiam já admitem o seu fracasso, dando novo alento aos grupos monetaristas mais radicais que defendem alguma subalternização do sistema bancário e a emissão de dinheiro para distribuição directa para as famílias gastarem.

A teoria e a evidência é de que a acumulação e a produção capitalistas avançam numa sucessão de booms e crashes, de magnitudes e durações variáveis culminando regularmente num colapso dos lucros, que destrói investimento, emprego, rendimentos e consumo.

Os keynesianos consideram que as economias capitalistas podem ser retiradas das recessões por governos que contraiam mais empréstimos do que recebem em receitas fiscais (aumentando os défices orçamentais), ou seja endividam-se quando as instituições financeiras compram os seus títulos, e os pós-keynesianos e os mais radicais defensores da moderna teoria monetária, concordam em que a “flexibilização fiscal” é a resposta para restaurar o crescimento, o investimento, o emprego e os rendimentos numa economia capitalista e acham que nem mesmo é necessário emitir títulos para esse fim, pois os governos podem simplesmente imprimir o dinheiro e depois gastá-lo em projectos úteis. Recuperado o crescimento e alcançado o pleno emprego e num período com rendimentos crescentes, qualquer serviço da dívida pode ser financiado e pode então reduzir-se a oferta de dinheiro pelo governo e moderar qualquer possível inflação se a economia estiver a sobreaquecer.

Contrariando um pouco toda esta lógica uma moderna corrente marxista defende que o que impulsiona as economias capitalistas e a acumulação de capital são os lucros; para eles o crescimento económico numa economia capitalista é impulsionado não pelo consumo, mas pelo investimento empresarial. Por outras palavras, este investimento é impulsionado sobretudo pelos lucros ou pela perspectiva de lucros e não pelas taxas de juros, pela confiança ou pela procura dos consumidores. É essa explicação simples, óbvia e empiricamente confirmada de booms e recessões regulares e recorrentes que é ignorada ou negada pela economia convencional (incluindo keynesiana) e heterodoxa pós-keynesiana, que esquecem que vivemos numa economia capitalista onde as decisões de investimento que impulsionam qualquer economia são feitas por empresas capitalistas, que só investem se estiverem confiantes em obter bons lucros, ou seja, se a rentabilidade do investimento for alta e crescente. Assim, se o investimento e o crescimento dependem das decisões das empresas capitalistas só conheceremos outra realidade se os governos tomarem as decisões de investimento por si próprios e substituírem o sector capitalista através de opções estatais, como sucede actualmente na China.

Esta argumentação sustenta ainda que são várias as evidências empíricas que justificam a ideia que os gastos públicos têm pouco ou nenhum efeito na promoção do crescimento económico ou do investimento, como o demonstra o exemplo do Japão, país que vem gerando défices há quase duas décadas sem fomentar taxas de crescimento relevantes.

A mesma lógica chama a atenção para a situação nos EUA onde os cortes nos impostos aplicados pela administração Trump aumentaram o défice orçamental dos EUA nos últimos anos e, no entanto, a economia está a desacelerar rapidamente, facto mais que confirmado pela variação anual dos lucros empresariais do que pela inversão na curva de rendimentos.

Será então de concluir que soluções monetárias e orçamentais para as recessões que preservem um sistema capitalista meramente produtor de lucro não funcionarão. A flexibilização monetária voltou a falhar, tal como aconteceu com a flexibilização orçamental, pois o sistema capitalista necessita das recessões para se revitalizar através da eliminação dos mais fracos e para conseguir uma redução dos custos de produção, o aumento dos lucros e o incentivo ao investimento. Este permanente ciclo de recessões deixa antever que outra estará a caminho… e que só uma clara inversão no paradigma organizacional do sistema capitalista baseado no lucro poderá interromper esse ciclo.

 
Primeira parte
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/recessoes-e-solucoes-parte-ii/

Recessões e soluções – Parte I

À medida que as bolsas de valores oscilam ao sabor dos movimentos especulativos, o grande foco da imprensa financeira é sobre a hipótese de uma nova recessão global estar a formar-se.

Os analistas financeiros procuram indicadores económicos ou financeiros que possam orientá-los e o favorito é a “curva invertida do rendimento de títulos” (“inverted bond yield curve“), que avalia a diferença entre a taxa de juro anual dos títulos de curto e de longo prazo.

Normalmente a curva das taxas de juros para títulos com maturidades crescentes é ascendente, o que traduz a expectativa de obter uma taxa de juro mais alta nos empréstimos de maior maturidade. Mas, por vezes, no mercado secundário o rendimento dos títulos a dez anos fica abaixo dos de dois anos ou mesmo de três meses, obtendo-se assim uma curva de juros invertida.

Esta situação ocorre quando os grandes investidores em activos financeiros (bancos, fundos de pensões, empresas e fundos de investimento) antecipando uma evolução desfavorável das economias não querem continuar a manter acções ou títulos de empresas nas suas carteiras (ou seja, investir ou emprestar dinheiro), preferindo no seu lugar activos mais seguros, como as obrigações de dívida pública. A maior procura por títulos de dívida pública vai fazer subir o seu preço no mercado e uma vez que estes são títulos de dívida fixa (o governo paga sempre o mesmo juro desde a emissão até à maturidade) à subida do preço corresponde uma redução no respectivo rendimento e ao fenómeno da inversão da curva de rendimento.

Evidências empíricas mostram que sempre que isso acontece por um período suficientemente longo, cerca de um ano, segue-se uma recessão económica.

A fiabilidade desta ligação directa entre uma inversão sustentada da curva de rendimentos e a aproximação de uma recessão é questionável pois tudo o que significará é que os investidores estão com medo da recessão, mas podem estar errados. Se olharmos, porém, para a experiência nos mercados de capitais, onde é bem conhecido o efeito de mimetismo que inúmeras vezes transforma os receios em realidades catastróficas, pode bem acontecer que o sentimento negativo se generalize facilitando a tão receada recessão, mesmo quando existem indicadores, como o diferencial entre os yields das obrigações empresariais norte-americanas, que apontam em sentido inverso.

Outra perspectiva é a apresentada por Myron Scholes (Nobel em 1997) e Ash Alankar num artigo publicado na Bloomberg onde referem que:

 
[e]mboraa forma anormal da curva das obrigações do Tesouro exija atenção, anos de flexibilização monetária criaram um conjunto único de circunstâncias, dificultando concluir com certeza que a inversão inevitavelmente significa recessão pendente» para concluírem que «umas vezes, a história diz-nos muito para nos ajudar a prever o futuro, outras vezes diz-nos pouco. Neste caso, pode não ser prudente dar muito peso às experiências recentes».
 
 
 

Deixando a esfera financeira e olhando para indicadores da economia real, como o da evolução do PIB, constata-se que entre os países do G7 o crescimento económico está a tender a rapidamente para zero; com excepção da Índia (7,4%), China (6%), Indonésia (5,1%), que embora desacelerando registam taxas de crescimento decentes e dos EUA, com um crescimento de 2,3%, os restantes apresentam: Canadá (1,3%), França (1,3%), Japão (1,2%) Reino Unido (1,2%), Rússia (0,9%), Brasil (0,5%), Alemanha (0,4%), Itália (0,0), México (-0,7%), Turquia (-2,6%) e Argentina (-5,8%). Dados que revelam que vivemos já uma recessão no sector industrial e que apenas sectores de serviços – como a saúde, a educação e o turismo, que em última análise dependem da vitalidade dos sectores produtivos da economia para manterem as suas vendas e os seus lucros – estão a sustentar a economia mundial.

Outro sinal positivo será o facto de muitas economias registarem situações de pleno emprego (pelo menos nas estatísticas oficiais), mas este resulta dos baixos salários e do aumento da precariedade dos postos de trabalho, com destaque para o trabalho a tempo parcial e por conta própria, factores que além de contribuírem para uma situação de empobrecimento generalizado e para a redução das taxas de poupança das famílias, tornam insustentável o recurso ao endividamento, por mais reduzidas que sejam as taxas de juro. E elas estão historicamente baixas, a ponto de já haver títulos de dívida pública com taxas de juro negativas (casos da Dinamarca e da Alemanha, país onde a dívida com maturidades entre os 2 e os 30 anos têm taxas de juros negativas), facto apenas explicável por os investidores recearem uma recessão global que provoque um colapso nos mercados de acções e de outros activos financeiros com maior risco.

Mas talvez a questão mais importante nem seja saber se estamos ou não muito próximo de mais uma recessão, há muito que as teorias dos ciclos económicos nos dizem que as crises são parte destes e características das economias de mercado, mas sim a de saber o que fazer quando ela surgir.

 

 

 

 

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/recessoes-e-solucoes-parte-i/

Notícias da guerra civil

(António Guerreiro, in Público, 27/09/2019)

 A falência da agência de viagens Thomas Cook é um acontecimento da ordem dos desastres económicos colossais, como aquele que se deu com o colapso do Lehman Brothers, em Setembro de 2008. E utilizo aqui a palavra “colossal”, acenando ao uso que dela faz Kant na sua analítica do sublime, para sugerir que no plano da economia aquilo que atinge uma grandeza suprema é visto como o resultado da racionalidade e do cálculo pragmático, mas quando desaba – o que acontece geralmente sem aviso prévio, para não criar pânico e para que se dê uma anestesia pelo choque – oferece-se a um espectáculo que tem uma dimensão sublime, se pensarmos que o conceito de sublime, nas suas elaborações modernas, do século XVIII, está ligado a uma ideia de “terror”.

 

Thomas Cook, que nasceu e viveu em Inglaterra entre 1808 e 1892, começou por ser jardineiro e carpinteiro. Mas sonhou bem alto e tornou-se naquilo a que hoje se chamaria um “empreendedor” e criador de uma startup que transformava em negócio os sonhos de progresso e socialização do conhecimento e do lazer. Em Julho de 1841, organizou uma viagem colectiva, para os membros de uma instituição, entre Loughborough e Leicester. Foi uma experiência inaugural (a palavra “turismo” surgiu mais ou menos pela mesma altura) que deu origem à agência de viagens que, nas suas várias metamorfoses, teve uma vida longa de 178 anos. Nasceu com a condição de pioneira absoluta, cresceu como um emblema universal e morreu quando as circunstâncias da indústria turística, aparentemente, pareciam assegurar-lhe uma posteridade sem fim à vista. Quando já estava bem implantada, no final do século XIX, a agência baptizada com o nome do seu fundador teve que lidar com uma singular contestação que importa hoje ser lembrada para dar uma perspectiva histórica a fenómenos actuais da mesma natureza, mas com novas motivações: a viagem turística que Thomas Cook promoveu, para uma burguesia endinheirada, foi objecto de um enorme desprezo aristocrático, era vista como o triunfo da vulgaridade.

O colapso que se deu agora teve como efeito imediato deixar umas centenas de milhares de pessoas (há notícias que falam de 600 mil, mas há outras que avançam números não tão elevados) “bloqueadas” nos sítios do mundo onde estavam a passar férias. A passagem do estado de turista ao estado de vítima de uma espécie de guerra civil planetária foi automática. Os turistas ficaram imediatamente sujeitos à condição de reféns e refugiados, obrigando a operações de repatriamento que puseram em acção uma logística marcial. Os lugares onde os turistas ficaram sitiados não sofreram nenhumas transformações, não foram atingidos por nenhuma catástrofe, mas passaram de um momento para o outro a ser lugares infernais: de tão fácil na ida, tão caros na volta. O que nos obriga a pensar: o que pagamos por uma viagem a qualquer parte do mundo não tem que ver com nada que seja da ordem de uma realidade, por exemplo o tempo de trabalho de terceiros e os gastos materiais necessários, mas com valores especulativos e de ordem simbólica. E, mais uma vez, ganha evidência esta verificação: o poder, hoje, é logístico. Basta que, nesse domínio, algo falhe ou seja voluntariamente bloqueado para que se instaure o caos, senão mesmo a situação de guerra.

 E, de repente, tudo o que era sólido dissolve-se no ar. E muito rápida é a passagem de turista a pária que só pode contar com os deveres do país de origem de proteger os seus cidadãos, onde quer que eles estejam em perigo, se não puder pagar por uma noite no hotel o que lhe custou a totalidade da viagem, e pelo regresso a casa a soma que daria para fazer férias no ano seguinte.

A economia dos bens simbólicos (como é, no seu modo de existência actual, a economia do turismo) funciona desta maneira: para que umas coisas sejam muito baratas, é preciso que outra sejam muito caras; e para que seja muito fácil ir é preciso que, em certas circunstâncias, seja muito difícil voltar. O que dantes fazíamos com toda a tranquilidade, quando viajávamos, começa a exigir gestos temerários. Um aeroporto é hoje o lugar de todos os perigos: ele fornece a imagem abreviada e condensada de uma guerra civil planetária em curso.


Livro de Recitações

“Estranho povo este, que não olha para as eleições como se de um circo se tratasse”
Luís Aguiar-Conraria, in PÚBLICO, 24/09/2019

Com esta frase irónica, o professor de economia da Universidade do Minho e colunista deste jornal terminava um artigo onde mostrava que há sinais claros de que o modo como a campanha eleitoral e os debates entre os partido são tratados pelos jornalistas, em que o pressuposto é que o povo fútil e ignaro quer é espectáculo de diversão, não corresponde à verdade e é afinal esse jornalismo que oferece o espectáculo pindérico da sua ignorância e irresponsabilidade. Uma pesquisa mais funda e alargada talvez mostrasse que este equívoco está generalizado e as elites responsáveis por um “editorialismo” que tudo faz para satisfazer o cliente afinal satisfaz menos clientes do que supõe e aliena grande parte da clientela que, à partida, estaria segura. Quando as “elites” já nem sequer estão ao nível das massas porque estão baixo, então algo está errado nisto tudo e precisa de ser repensado.


 

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Macron confessa-se ou as angústias da burguesia francesa ...e alemã

 
"O fascismo não é o contrário da democracia burguesa, é a sua evolução em tempos de crise",
B. Brecht
 
por Daniel Vaz de Carvalho

Macron, o banqueiro dos Rothschild. 1 - A burguesia no "fio da navalha" das crises

Em 27 de agosto o sr Macron proferiu um discurso perante os embaixadores franceses, em que fez praticamente o pleno sobre política internacional, economia, soberania, NATO, UE, interesses da França em África e no Médio Oriente, etc, afastando-se da habitual ortodoxia, porém praticamente ignorado pelos grandes media.

Macron, limita-se a ser porta-voz e um dos executantes dos interesses da burguesia francesa, em íntima ligação com as posições do governo alemão. Os últimos presidentes franceses limitaram-se a ser arautos de políticas decididas em Berlim. Por isso, é importante percebermos o que diz e por que o diz.

Em primeiro lugar, avaliemos os contextos deste discurso, que reflete as preocupações da burguesia francesa e por certo alemã. É significativo que Macron, que tem demonstrado ser uma nulidade intelectual e política, de repente se exprima de forma alheia à ortodoxia vigente, sobre política internacional, ordem mundial, globalização, soberania, economia de mercado.

A França está em estagnação desde a adoção do euro. Que surpresa! De 2000 a 2018 o crescimento médio anual foi inferior a 1,3%, mas de 2008 a 2018 apenas 0,86%. A BC de bens, positiva antes de 2000, atingiu em 2018 um défice de 76,7 mil milhões de euros! (dados AMECO) Acrescente-se o atraso tecnológico e industrial da França em muitas áreas face a parceiros/concorrentes e a perda de voz na cena internacional.

Na lista da Forbes entre os 50 primeiros ultraricos contam-se 25 dos EUA com a agravante de estarem nos primeiros lugares (8 entre os 10 primeiros), mas apenas dois franceses. A Alemanha conta com cinco. Esta classificação não agrada aos oligarcas.

A agitação social não cessou, o total descrédito dos políticos do sistema e da UE, a ascensão de uma direita mais radical, que em muitos aspetos coloca em causa os dogmas neoliberais e o federalismo da UE, conquistando largas camadas da "classe média", coloca a burguesia francesa e não só, no "fio da navalha", perante o avanço de nova crise económica e financeira.

Já antes das manifestações dos coletes amarelos as sondagens davam a Macron apenas uns 26% de apoio. Face a isto, não deixa de ser sintomático o esforço mediático desde então para promover Macron, "omnipresente em todas as suas facetas e em todos os canais" [1]

2 - Política internacional: "enfrentando o fim da hegemonia ocidental no mundo"

Diz Macron que a ordem internacional está a ser abalada de uma maneira sem precedentes: uma grande reviravolta em quase todos os campos, com uma magnitude profundamente histórica, que traduz uma recomposição geopolítica e estratégica. "Provavelmente, estamos enfrentando o fim da hegemonia ocidental no mundo".

"A posição ocidental no mundo profundamente abalada pelos erros dos ocidentais em certas crises, pelas escolhas, também americanas durante vários anos e que não começaram com esse governo, mas que levam a revisitar certas implicações dos conflitos no Médio Oriente e noutros lugares".

Desta forma, Macron diz ser necessário repensar profundamente uma estratégia diplomática e militar, mesmo "elementos de solidariedade que pensávamos serem intangíveis para a eternidade, mesmo que a tivéssemos formado juntos em momentos geopolíticos que hoje mudaram".

Por outras palavras, os EUA que façam o seu caminho que nós faremos o nosso. Mas quem? A França e a Alemanha? A UE? A zona euro? Com quem não é claro, mas o facto é que aqueles "nós" olham agora estarrecidos para Leste.

Reconhece-se "o surgimento de novos poderes, cujo impacto provavelmente subestimamos há muito tempo. A China na vanguarda, mas também a estratégia que a Rússia liderou, é preciso dizer, nos últimos anos com mais sucesso. A Índia emergente, essas novas economias que estão se tornando não apenas económicas, mas também políticas e que se pensam como verdadeiras civilizações estatais e que não apenas empurram a nossa ordem internacional, como chegam a pesar na ordem económica, a repensar a ordem política e o imaginário político que a acompanha. A Índia, Rússia e China, têm uma inspiração política muito mais forte do que os europeus de hoje. (...) uma lógica real, uma filosofia verdadeira, um imaginário que perdemos um pouco".

Eis como as burguesias dominantes na UE (alemã e francesa) verificam que se tornam cada vez mais irrelevantes, agarradas a teses falhadas, ao contrário da "estratégias de sucesso da Rússia".

3 - A "ordem internacional"

A intervenção de Macron reflete a desorientação que reina na "ordem internacional" que o ocidente (leia-se NATO e aliados) comandava: "Acostumámo-nos a uma ordem internacional que se baseava na hegemonia ocidental. As coisas estão mudando". Macron refere-se também ao insucesso relativo do G7, que exibiu divergências, incapacidade de consenso e liderança.

O receio de aventuras bélicas "num mundo onde os conflitos se multiplicam", e cujas consequências diretas, como no caso do fim do tratado INF (misseis de médio alcance) em que "os mísseis retornariam sobre o nosso território" ou indiretas lançando o caos nas economias e no comércio internacional: "uma ordem em que nossa segurança e organização se baseia e está desaparecendo".

O distanciamento em relação aos EUA é evidente, quer no fim dos tratados de controlo de armas, na questão do Irão ou das relações com a Rússia. "É indispensável estruturar a Europa para um novo relacionamento com a Rússia". Neste sentido é anunciada a visita dos ministros das Relações Exteriores e o ministro dos Exércitos, a Moscovo para retomar "um diálogo constante com o Presidente Putin, criando um grupo de trabalho para avançar nessa arquitetura comum".

Quanto ao Irão, é deixado claro, que todos (no G7) estão comprometidos com a estabilidade e a paz na região". Isso significa que todos também se absterão de comportamentos que possam ameaçar essa paz e estabilidade". Embora decididos a não permitir que o Irão obtenha a arma atómica.

O que é evidente, é que os EUA e aliados (incluindo a França) podem ter vencido batalhas mas não ganharam nenhuma guerra, pelo contrário criaram caos, fragilizaram a economia, degradaram a situação internacional, envolveram-se em atoleiros de que não sabem sair. Bem pode Macron lastimar a Líbia "cena inaceitável ao nível humanitário" que a França ajudou a criar, podia também falar da situação no Iémen criada pela Arábia Saudita (outra derrota "ocidental"), grande cliente de armas francesas.

Por seu lado, aparecendo como vencedora "a Rússia maximizou todos os seus interesses no contexto atual: voltou à Síria, voltou à Líbia, voltou à África, está em todos os assuntos de crise por nossas fraquezas ou erros".

As oligarquias francesa e alemã, parecem finalmente reconhecer que atreladas ao carro de guerra dos EUA caminham para o desastre. A falhada hegemonia dos EUA quer manter-se sobre os pés de barro do dólar, o poder militar, um estatuto imperial e uma ganância que desestabiliza e ameaça destruir o mundo inteiro, sem sequer ter em conta os interesses dos seus aliados mais próximos.

"A ordem em que nossas certezas e nossa organização repousam está desaparecendo isso deve-nos levar a questionar nossa própria estratégia, porque hoje os que têm cartas reais nas mãos são os EUA a China". Esta constatação leva-o a colocar a questão da fragilidade da UE e da incapacidade de ter uma política própria, limitando-se a decidir "ser aliados minoritários de um ou de outro ou um pouco de um e um pouco do outro ou decidir ter nossa parte no jogo e pesar".

4 - Economia de mercado, globalização

Seria divertido apreciarmos as piruetas políticas destes títeres da oligarquia, caso não nos envolvessem nelas. Afinal, após anos de propaganda de não haver alternativa, dizem-nos que "estamos passando por uma crise sem precedentes na economia de mercado.

Uma economia "profundamente financiarizada e o que era uma economia de mercado, que alguns poderiam até teorizar como uma economia social de mercado e que estava no centro do equilíbrio em que pensávamos, se tornou um capitalismo cumulativo, (...) levando a uma maior concentração de riqueza". Uma "economia de mercado produzindo desigualdades sem precedentes que, no final, abalam profundamente nossa ordem política".

Parece então que o problema já não é não se explicar devidamente as "reformas", como diziam, mas do seu descrédito. "Como explicar aos nossos concidadãos que é uma boa organização quando eles não encontram sua parte. Quando as classes médias, que são a base de nossas democracias, não têm mais a sua participação, duvidam e são legitimamente tentadas por regimes autoritários, democracias iliberais ou pondo em questão o sistema económico".

A globalização também é posta em causa: "portanto, devemos encontrar os meios para repensar a globalização, mas também para repensar essa ordem internacional".

E necessário "manter empregos em nosso país". Como? Fazer "concessões vacilantes a grupos nos quais não podemos fazer nada". Mas a estratégia adaptação também não serve. Consiste em dizer: é necessário correr mais rapidamente contra esse mundo em movimento", "fazer reformas para alcançar outros tentando nada mudar de verdade. Este é um cenário que rapidamente nos levará ao mesmo resultado". Ou seja, a requentada história das "reformas estruturais" não passa de uma falácia"...

Por fim – era o que estava a faltar (!) – queixa-se das privatizações: "a crise económica e financeira, levou vários Estados a privatizações forçadas sem opção europeia, decidindo reduzir sua soberania entregando muitas infraestruturas essenciais no sul da Europa aos chineses. Não culparemos os chineses por serem inteligentes, podemos nos culpar por sermos estúpidos". (!) Pois sim, mas nem agora nem antes as troikas foram questionadas, nem as austeridades para compensar a banca francesa e alemã, nem as imposições dos famigerados tratados orçamentais da UE – que a França não cumpre.

5 - UE e soberania

É necessário "trabalhar pela construção de uma soberania europeia (...) militar, estratégica, em todos os assuntos. Esta não é uma iniciativa para desafiar a NATO, mas é complementar a ela muito profundamente, porque também nos dá espaço para manobras e autonomia estratégica."

Em termos de soberania "devemos repensar em nossas fronteiras. Devemos ser mais capazes de proteger nossas fronteiras". Quanto aos migrantes o objetivo é que possam "retornar ao seu país de origem com o apoio da União Africana" e da UE.

Torna-se evidente que a burguesia francesa não está interessada na atual UE em que países do Leste estão mais alinhados com os EUA do que com a CE, arrastando os demais para confrontos contrários aos interesses da França e da Alemanha.

O interesse da burguesia francesa é pela zona euro, que obviamente tem intenções de controlar, servindo-se de reforçados mecanismo financeiros que deseja aprofundar para se salvar a ela própria. "Precisamos lutar por um reforço, uma maior integração da área do euro, uma maior integração dos mercados e atores financeiros da zona do euro e uma capacidade de construir tudo o que realmente constrói soberania financeira e monetária, é indispensável".

Os interesses dos países periféricos não contam. A questão é saber se a Alemanha vai nisso de favorecer a França à sua custa, embora, segundo os tratados a Alemanha, já devesse ter sido penalizada pela dimensão do excedente comercial

6 - Concluindo

A França e a Alemanha vêm a "sua" "Europa" e elas próprias entrarem em crise tendo apenas soluções que se mostraram inúteis ou contraproducentes. O que Macron afirma sobre a "adaptação" e o prosseguimento das medidas atuais entra em choque com a política decidida pelo BCE.

Os burocratas da CE, fixados nos dogmas que os suportam, não chegam a uma solução para o Brexit, aliás uma forma de mostrar às tendências centrífugas o que o futuro lhes reservaria. A Leste os vários países mostram que acima da UE a sua fidelidade é para com os EUA que ajudaram a colocar no poder e suportam cliques neofascistas e corruptas que os dominam, funcionando como agentes da agressividade contra a Rússia.

Apesar do silêncio dos media controlados pela oligarquia, um país com as ambições da Alemanha não pode ignorar o dinamismo da Organização de Cooperação de Shangai, da Nova Rota da Seda, nem mesmo da União Económica Eurasiática [2] , face ao descalabro da economia mundial liderada pelos EUA, FMI, BM, OMC, que já mostraram não ter controlo sobre o que se passa na economia.

A agressividade dos EUA, roça o desnorte de uma guerra total, ameaçando em primeiro lugar os países europeus sede de inúmeras de bases norte-americanas.

O comércio internacional não progride, preso às agendas imperialistas que têm conduzido a Estados caóticos e a sanções contra importantes clientes, como a Rússia cujas retaliações recaíram significativamente sobre as exportações da França e da Itália.

A França permanece envolvida em guerras e conspirações na África francófona, resultando em caos, miséria, corrupção. O capitalismo precisa de expandir os mercados, mas as políticas da sua ganância conduzem ao desastre global.

A "classe média" que a oligarquia considera o esteio do seu domínio pela democracia burguesa, foge-lhe pela indiferença, pelo desprezo a que vota os seus políticos, pelo descrédito de protagonistas dessa mesma burguesia atolada em escândalos, fraudes, crises nunca resolvidas e uma austeridade permanente que apenas beneficia os ultra-ricos.

Para tudo isto a solução habitual do capitalismo é a guerra e isso pretendem muitos nos EUA e os seus próceres da NATO. Porém, acordam das suas mentiras e verificam que o "ocidente" perdeu a superioridade tecnológica para a China, a superioridade militar para a Rússia, os domínios imperialistas e neocoloniais estão ou caóticos ou endividados, enfrentam crescente resistência popular, dificilmente a exploração pode ser levada mais longe.

A Rússia e a China tornam inúteis as arrogantes ameaças dos EUA ao Irão. A Rússia garante continuar a cooperar e apoiar o sistema bancário iraniano. A China investe 400 mil milhões de dólares no Irão: 280 para o sistema petrolífero e petroquímico, 120 em infraestruturas de transporte e produção.

A UE é o mais evidente falhanço do poder entregue à burocracia. Não é possível manter as mesmas políticas, suportadas pelas ameaças contidas nos seus Tratados e no poder de chantagem atribuído ao BCE.

Claro que os habituais "especialistas" e analistas" e outros "comentadores" devem estar a ser reciclados para ver qual a direção a tomar no seu discurso. Neste momento preferem o silêncio sobre estes temas. Lembremos o recente litígio – um entre vários – surgido na Alemanha com o embaixador dos EUA, acerca da compra de petróleo à Rússia, que seria substituído pelo "petróleo da liberdade" (!) dos EUA – bastante mais caro.

Torna-se evidente a recusa da unipolaridade dos EUA. Macron reflete as "angústias" da oligarquia francesa e alemã, pelos fracassos imperialistas e neocoloniais. O Ocidente não consegue ganhar nenhuma das guerras em que se envolveu: criou caos, endividou-se, liquidou comércio necessário para contrariar a tendencial queda da taxa de lucro.

O mais curioso de tudo isto é Macron, sem pudor, seguindo ordens dos seus mentores, copiar quase integralmente o programa do partido da sra. Marine le Pen (M le P), e do seu criptofascismo, tanto nos aspetos de política internacional, como nas relações de soberania, migrações, controlo de fronteiras, críticas à "economia de mercado" e à UE.

Até na tese de M le P querer um "Estado estratega", Macron alinha ao confessar que não tem mais controlo sobre as políticas "dos grupos". Que diferenças existem na posição sobre o movimento sindical? Sobre as migrações, sobre as relações com a Rússia e África ou Médio Oriente. Mesmo sobre a UE e euro as diferenças passam a mínimas dado que M le P já tinha deixado cair as propostas mais radicais. Até a "democracia musculada" de M le P, foi posta em prática de maneira mais que brutal contra os "coletes amarelos".

Tudo o que serviu para eleger Macron contra a "extrema-direita" de M le Pen foi deitado para o lixo, perante uma "esquerda ausente" [3] adotando o programa da sua principal oponente, aliás à frente do partido de Macron nas eleições para o PE.

Portanto não surpreende que a burguesia mande Macron roubar o programa da le Pen. É que Macron é um homem que a oligarquia escolheu e controla, coisa que não têm por garantido com M le Pen.

Assim vai a UE e em geral o mundo capitalista entre a guerra e os fascismos. Mas como disse Brecht: "o fascismo não é o contrário da democracia burguesa é a sua evolução em tempos de crise".

Aqui chegámos. Mas uma pergunta se impõe: o que é que os interesses nacionais têm a ver com este vespeiro?

[1] A desinformação dos media dominantes sobre a vida internacional: mentiras, manipulações, silêncios, resistir.info/varios/desinformacao_dos_media.html
[2] A União Eurasiática, visa a integração económica e política entre a Bielorrússia, Cazaquistão, Rússia, Quirguistão, Tajiquistão, Moldávia (observador), prevendo-se alargar à Mongólia, Síria, Tajiquistão, tendo já acordos de comércio com outros nove Estados, entre os quais Vietname, Índia, Irão, Tunísia, etc.
[3] A esquerda ausente, Domenico Losurdo, resistir.info/losurdo/esq_ausente.html

O discurso integral de Macron encontra-se em www.elysee.fr/...

Este artigo encontra-se em https://resistir.info/ .

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/v_carvalho/macron_confessa_se.html

Banco dinamarquês revela precursores de nova crise econômica global

Bolsa de valores de Nova York (foto de arquivo)
© AP Photo / Richard Drew

O declínio nos rendimentos de 30 anos dos títulos do governo dos EUA a mínimos históricos indica a aproximação de uma nova crise econômica, afirmou economista-chefe e diretor de Tecnologia da Informação do Saxo Bank, Steen Jakobsen, para Sputnik.

No fim de agosto, os rendimentos de 30 anos dos títulos do governo americano caíram em meio à volatilidade dos mercados globais e ao aumento dos riscos para a economia global. Ao mesmo tempo, em 28 de agosto, o índice caiu para 1,905%, um novo mínimo histórico.

Jakobsen observou que um declínio tão acentuado nos rendimentos dos títulos poderia ser um prenúncio de uma nova crise.

"Especialmente se falarmos de uma redução simultânea das taxas de juro e da curva a termo. Esses dois fatores são precursores do crescimento negativo, que, por sua vez, terá um impacto sobre os ativos", explicou a fonte da agência.

"Prestamos muita atenção na probabilidade de recessão, porque, quando isso acontece, os ativos perdem uns 25% do valor. Ou seja, se você tem uma carteira clássica e não faz nada, durante a recessão, você perde 25%, se não todos os 50% do valor básico", concluiu.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/economia/2019091714527142-banco-dinamarques-revela-precursores-de-nova-crise-economica-global/

ANATOMIA DA PRÓXIMA RECESSÃO GLOBAL

 
 
Aos desequilíbrios financeiros já conhecidos, somam-se três prováveis choques de abastecimento – todos gestados pelos EUA. Agora, de nada adiantará inundar de dinheiro os mercados. Das entranhas de uma crise, pode surgir outra maior
 
Noriel Roubini | Outras Palavras | Tradução: Antonio Martins | Imagem: Robert Cenedella, Pence on Earth (2017), detalhe
 
Há três choque negativos de abastecimento que poderiam desencadear uma recessão global em torno de 2020. Todos refletem fatores políticos que envolvem relações internacionais. Dois envolvem a China, e os Estados Unidos estão no centro de todos. Mais importante: nenhum deles pode ser aplacado pelas ferramentas tradicionais de política macroeconómica contracíclica.
 
O primeiro choque potencial deriva da guerra comercial e monetária entre Estados Unidos e China, que ampliou-se no mês passado, quando o presidente norte-americano, Donald Trump, ameaçou impor tarifas adicionais às exportações chinesas e rotulou formalmente a China como “manipuladora de moedas”. O segundo diz respeito à guerra fria de lenta maturação entre EUA e China sobre tecnologia. É uma rivalidade com todas as marcas de “Armadilha de Tucídides”. A China e os EUA disputam entre si o domínio sobre as indústrias do futuro: inteligência artificial (IA), robótica, 5G e outras. Os EUA incluíram a gigante chinesa Huawei em sua lista de companhias estrangeiras que representam, supostamente, uma ameaça à segurança nacional. Embora a Huawei tenha se beneficiado de exceções temporárias, que lhe permitem continuar usando componentes norte-americanos, o governo Trump anunciou, esta semana, que está acrescentando 46 parceiras da Huawei à lista.
 
O terceiro grande risco relaciona-se às fontes de abastecimento de petróleo. Embora os preços tenha caído nas últimas semanas, e uma recessão desencadeada por uma guerra comercial, monetária e tecnológica tenda a deprimir a demanda por energia a a reduzir os preços, um confronto dos EUA contra o Irão poderia ter efeito oposto. Se ele degenerasse em confronto militar, os preços globais do petróleo poderiam disparar e provocar uma recessão, como ocorreu nas conflagrações anteriores no Oriente Médio em 1973, 1979 e 1990.
 
 
Todos estes três choques potenciais teriam efeitos estagflacionários, elevando o preço de bens de consumo importados, componentes intermediários e tecnológicos, além da energia – reduzindo, ao mesmo tempo, a produção, ao cortar cadeias internacionais de abastecimento. Pior: o conflito movido pelos EUA contra a China já está impulsionando um processo mais amplo de desglobalização, porque os países e empresas já não podem contar com estabilidade de longo prazo nas cadeias integradas de valor. À medida que o comércio de bens, serviços, capital, trabalho, informação, dados e tecnologia tornar-se cada vez mais balcanizado, os custos de produção global crescerão em todos os setores.
 
Além disso, a guerra comercial e monetária e a competição tecnológica amplificarão umas às outras. Considere o caso do Huawei, hoje líder global em equipamentos 5G. Esta tecnologia será em breve a forma-padrão de conectividade para a infraestrutura civil e militar mais crítica – para não mencionar os bens de consumo que estão conectados por meio da emergente Internet das Coisas. A presença de um chip 5G implica que tudo (de uma torradeira a uma máquina de café) poderia se converter num aparelho de escuta. Significa que se a Huawei for amplamente vista como uma ameaça à segurança nacional, também o seriam milhares de exportações de bens de consumo chineses.
 
É fácil imaginar como a situação atual poderia levar a uma implosão em grande escala do sistema global de comércio. A questão, portanto, é se os formuladores de políticas monetárias e fiscais estão preparados para um choque prolongado – ou mesmo permanente – de abastecimento.
 
Na sequência dos choques de estagflação dos anos 1970, estes formuladores apertaram as políticas monetárias. Agora, porém os grandes bancos centrais, como o Fed norte-americano, já estão praticando o afrouxamento das políticas monetárias, porque a inflação e as expectativas de inflação permanecem baixas. Qualquer pressão inflacionária de um choque de petróleo será vista pelos bancos centrais como um mero efeito no nível de preços, mais que uma alta persistente da inflação.
 
Ao longo do tempo, os choque de abastecimento tendem a se converter em choque negativos de demanda, que reduzem tanto o crescimento quanto a inflação, ao deprimirem o consumo e os investimentos. Sob as condições atuais, os gastos das empresas nos EUA e em todo o mundo já estão severamente deprimidos, devido às incertezas sobre a probabilidade, severidade e persistência dos três choques potenciais.
 
Na verdade, à medida em que empresas dos EUA, Europa, China e outras partes da Ásia reduziram os gastos de capital o setor global de tecnologia, manufatura e indústria já está em recessão. A única razão para isso não ter se traduzido em recessão global é que o consumo privado permanece forte. Se os preços dos bens importados subir mais, como resultado de qualquer um destes três choques de abastecimento, o aumento da renda real (ajustada à inflação) disponível das famílias sofreria um choque, o mesmo ocorrendo com a confiança dos consumidores, o que conduziria a economia global a uma provável recessão.
 
Dado o potencial para um choque negativo de demanda no curto prazo, os bancos centrais estão corretos ao reduzir as taxas de juros. Mas os responsáveis pelas políticas fiscais deveriam também se preparar para uma resposta de curto prazo. Um declínio agudo no crescimento e na demanda agregada convidaria ao afrouxamento fiscal contracíclico, para evitar uma recessão muito severa.
 
A médio prazo, porém, a melhor resposta não seria uma acomodação aos choques de abastecimento, mas um ajuste a eles, sem novos afrouxamentos. Afinal de contas, os choques de abastecimento oriundos de uma guerra comercial e tecnológica seriam mais ou menos permanentes, assim como a redução do crescimento potencial. O mesmo aplica-se ao Brexit: deixar a União Europeia condenará o Reino Unido a um choque de abastecimento permanente e, portanto, a um potencial de crescimento menor, a longo prazo.
 
Tais choques não podem ser revertidos por meio de políticas monetárias ou fiscais. Embora eles possam ser geridos, no curto prazo, tentativas de mitigá-los permanentemente acabariam levando tanto a um aumento da inflação quanto das expectativas de inflação, que subiriam muito além das metas dos bancos centrais. Nos anos 1970, os bancos centrais mitigaram dois grandes choques de petróleo. Os resultados foram o crescimento, de forma duradoura, da inflação e das expectativas de inflação; déficits fiscais insustentáveis e rápido crescimento da dívida pública.
 
Por fim, há uma importante diferença entre a crise financeira global de 2008 e os choques de abastecimento que poderiam atingir a economia global hoje. Como naquele ano houve principalmente um grande choque de demanda, que deprimiu o crescimento e a inflação, foi possível enfrentá-lo, de forma adequada, com estímulos monetários e fiscais. Mas desta vez, o mundo estaria se deparando com choques prolongados de abastecimento, que requiririam um tipo muito distinto de resposta política a médio prazo. Tentar consertar o dano por meio de estímulos monetários e fiscais de duração indefinida não seria uma opção inteligente.
 
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Tirania das dívidas: a saída é cancelar

 
 
Ocidente vive nova crise de endividamento. Populações empobrecem e se devastam; muito poucos ganham. Anular os passivos e tornar sistema financeiro público – como fizeram os mesopotâmicos e chineses – pode ser alternativa
 
Ellen Brown | Outras Palavras | Tradução: Antonio MartinsI| Imagem: Mathew Kurian
 
Estamos novamente atingindo, no Ocidente, o ponto chamado, nos ciclos económicos, como “pico de endividamento”. Nele, as dívidas acumulam-se ao ponto de que seu total já não pode ser pago. Dívidas com cartões de crédito, empréstimos para compra de automóveis, débitos empresariais, de estudantes e a dívida do Estado são todas maiores do que nunca. Como escreve o economista Michael Hudson em seu provocativo livro de 2018, “…and forgive them their debts” [“e perdoai-lhes as dívidas”]1, as dívidas impagáveis não serão pagas. A questão, diz ele, é como elas não serão pagas.
 
Os modelos econômicos do mainstream abandonam este problema à “mão invisível do mercado”, assumindo que as distorções irão se autocorrigir ao longo do tempo. Mas embora o mercado possa de fato corrigir, ele o faz às custas dos endividados, que tornam-se cada vez mais pobres, enquanto os ricos enriquecem. Os bancos apossam-se das garantias dos devedores quebrados, privando-os de suas casas e de seu meio de vida. As casas são compradas pelos ricos a preços módicos e alugadas de novo, a preços inflados, a outros devedores – obrigados à servidão assalariada para sobreviver. Quando os próprios bancos quebram, os Estados os resgatam. Portanto, os mercados corrigem, mas não sem intervenção governamental. Esta intervenção vem ao final do ciclo para socorrer os credores, cuja capacidade de corromper políticos lhes dá a última palavra. Segundo os defensores do “livre” mercado, é um ciclo natural semelhante ao do clima, que remonta ao nascimento as economias modernas na Grécia e Roma antigas.
 
Hudson contraargumenta que a origem de nosso sistema financeiro não está nestas sociedades clássicas, e que o capitalismo não evoluiu a partir da troca, como os ideólogos afirmam. Ele, ao contrário, involuiu de um sistema de crédito mais funcional, sofisticado e igualitário, que se manteve por dois milênios na antiga Mesopotâmia (partes dos atuais Iraque, Turquia, Kuwait e Irã). O dinheiro, os bancos, a contabilidade e a empresa moderna não se originaram a partir do ouro e do comércio privado, mas no setor público dos palácios e templos da Suméria, no terceiro milênio a.C. Como tudo isso baseava-se em crédito emitido pelo governo local, e não em empréstimos privados de dinheiro, as más dívidas podiam ser periodicamente perdoadas, ao invés de se acumularem até levar o sistema ao colapso. Esta característica especial assegurou a notável longevidade do modelo.
 
 
As verdadeiras raízes da Moeda e Finanças
 
A civilização mesopotâmica foi a primeira de que temos registros escritos. Entre suas conquistas notáveis estão a roda, o calendário lunar, nosso sistema numérico, códigos de leis, uma hierarquia organizada de sacerdotes-reis, ferramentas e armas de cobre, irrigação, contabilidade e o dinheiro. Ela também produziu a primeira linguagem escrita, na forma de desenhos cuneiformes impressos no barro. Estes tijolos era, na maioria dos casos, ferramentas contábeis, que registravam o fluxo de comida em matérias-primas para os ateliês dos templos e palácios, assim como notas de débito (principalmente junto a grandes instituições públicas), que precisavam ser preservadas para que fossem exigidas. Este sistema de contabilidade templária permitia o fluxo coordenado de crédito para os agricultores, da semeadura à colheita, e os adiantamentos a mercadores envolvidos no comércio exterior.
 
Foi a necessidade de lidar com as contas de uma vasta força de trabalho sob controle que levou, provavelmente, ao desenvolvimento da escrita. As pessoas aceitaram de bom grado este controle burocrático porque o viam como um decreto dos deuses. Segundo sua escrita cuneiforme, os humanos foram criados pra trabalhar nos campos e minas depois que certos deuses menores, encarregados da tarefa, rebelaram-se.
 
A usura, ou cobrança de juros sobre empréstimos, era parte aceita do sistema de crédito mesopotâmico. As taxas de juros eram altas e permaneceram inalteradas por dois milênios. Mas os pensadores mesopotâmicos estavam atentos ao problema das “dívidas impagáveis”. Ao contrário dos currículos econômicos acadêmicos de hoje, escreve Hudson:
Os estudantes escribas babilônios eram treinados, já próximo ao ano 2000 a.C., na matemática dos juros compostos. Seus exercícios acadêmicos pediam-lhes calcular quanto levaria uma dívida com juros de 1/60 ao mês para dobrar. A resposta é 60 meses: cinco anos. Quanto para quadruplicar? Dez anos. E para multiplicar 64 vezes? Trinta anos. Deve ter parecido óbvio que nenhuma economia pode crescer conservando este ritmo de endividamento.
 
Os reis sumérios resolviam o problema do “pico de endividamento” declarando, de tempos em tempos, “tábula rasa”. As dívidas agrárias eram perdoadas e os devedores livrados da servidão, para trabalhar autonomamente em seus próprios lotes de terra. Esta pertencia aos deuses, sob a gerência do templo e do palácio, e não podia ser vendida. Mas os agricultores e suas famílias podiam arrendá-la oferecendo parte de suas colheitas, serviço militar e trabalho na construção de infraestrutura comum. Este arranjo, suas casas e meios de existência eram preservados – o que era mutuamente benéfico, já que os reis precisavam de seu trabalho.
 
Os escribas judeus, que permaneceram aprisionados na Babilônia, no século VI a.C., adaptaram estas leis ao ano do Jubileu, que, segundo Hudson, foi acrescentado ao Levítico2 após o cativeiro babilônico. Segundo o Levítico 25:8-13, um Jubileu era decretado a cada 49 anos. As dívidas eram perdoadas, os escravos e prisioneiros libertados e seus arrendamentos restaurados. Como na antiga Mesopotâmica, a propriedade permanecia a Yahweh e seus representantes na Terra. A lei do Jubileu bania a venda da terra, que podia apenas ser arrendada para até 50 anos (Levítico 25:14-17). O Jubileu levítico representava um avanço em relação à “tábula rasa” mesopotâmica, já que estava codificada em lei, ao invés de permanecer sob arbítrio do rei. Mas faltava, aos que o proclamaram, poder político, e não é seguro que a lei tenha sido aplicada. Serviu como preceito moral, mais que prescrição legal.
 
A Grécia e Roma antigas adotaram o sistema mesopotâmico de empréstimos a juros, mas sem a válvula de segurança das periódicas “tábulas rasas”. É que os credores já não eram o rei ou o templo, mas emprestadores privados. A usura sem controle resultou em escravidão por dívidas, confisco de propriedades e, em Roma, consolidação de enormes latifúndios, um crescente abismo entre ricos e pobres e, ao final, a destruição do Império Romano.
 
A respeito do festejado desenvolvimento dos direitos de propriedade e da democracia na Grécia e Roma antigas, Hudson argumenta que elas não serviram aos pobres – mas aos ricos, que controlavam as eleições exatamente como fazem hoje os financiadores de campanhas. O deslocamento do poder dos governos locais, por meio da privatização das terras antes comuns, permitiu aos credores privados aprovar leis por meio das quais poderiam confiscar propriedades, quando seus devedores tornavam-se insolventes. “Livres mercados” passou a significar a liberdade de acumular enorme riqueza, às custas dos pobres e do Estado.
 
Hudson sustenta que quando Cristo pregava o “perdão das pecados”, também se referia às dívidas econômicas, e não apenas às transgressões morais. Quando ele derrubou as tábuas dos mercadores, é por terem reduzido o templo de Jerusalém a um “antro de ladrões”. Mas os direitos dos credores haviam se tornado hegemônicos e os teólogos cristãos não tinham poder de enfrentá-los. Ao invés de ser uma promessa de redenção nesta vida, o perdão das dívidas tornou-se promessa de redenção espiritual, na próxima…
 
Como suscitar um Jubileu contemporâneo
 
Este foi o destino dos devedores nas modernas economias ocidentais. Mas em algumas economias modernas não-ocidentais, persistem vestígios da solução de anular as dívidas. Na China, por exemplo, empréstimos insolventes são frequentemente transferidos para os livros de bancos estatais, ou cancelados – ao invés de quebrar os devedores e bancos. Para compreender o mecanismo, vale ler o que Dinny McMahon escreveu em junho, num artigo intitulado “China’s Bad Data Can Be a Good Thing” [“Os dados ruins da China podem ser algo bom”]. Eis um trecho:
 
“Na China, o Estado respalda os bancos do país. Como as autoridades assegura que tais bancos têm liquidez suficiente para satisfazer suas obrigações, eles podem rolar níveis mais altos de inadimplência do que seria visto como seguro numa economia de mercado”.
O sistema bancário da China, como o da antiga Mesopotâmia, faz parte, majoritariamente, do setor público. Por isso, o Estado pode sustentar seus bancos com a liquidez necessária. É interessante notar que o Estado chinês também preserva a prática médio-oriental de deter a propriedade da terra, oferecendo aos agentes privados a possibilidade de arrendá-la temporariamente.
 
Nas economias ocidentais, a maior parte dos bancos é de propriedade privada, fortemente regulamentada, com exigências elevadas de reservas e capital. Créditos ruins significam que os devedores são confiscados, perdem-se empregos e infraestrutura, a “austeridade” prevalece. Nos EUA, o governo Trump promove agora uma guerra comercial contra a China, num esforço para forçar Pequim ao mesmo regime de “austeridade”. Uma ideia muito melhor e mais sustentável seria que Washington também aceitasse Jubileus periódicos das dívidas…
 
O problema para esta solução hoje é que a maior parte das dívidas, nas economias ocidentais, tem como credor não o Estado, mas agentes privados, que insistem no direito contratual ao pagamento. É preciso encontrar um meio de compensar os credores, enquanto se alivia os tomadores de empréstimo do peso de suas dívidas.
 
Uma possibilidade é nacionalizar os bancos insolventes e vender seus créditos ruins para o Banco Central – que pode comprá-los com dinheiro criado em seus livros. Os empréstimos podem ser, então, anulados ou esvaziados. Um precedente desta política foi estabelecido com a primeira rodada de “alívio quantitativo” [“quantitative easing”, ou “QE1”] adotada pelo Banco Central dos EUA, o Fed, na qual este comprou títulos de dívida podres de bancos com problemas de liquidez.
 
Outra possibilidade seria usar o dinheiro gerado pelo Banco Central para resgatar diretamente os devedores. Isso poderia ser feito de modo seletivo, comprando as dívidas que mais afligem os cidadãos e anulando-as. Outra alternativa seria cancelar as dívidas coletivamente, por meio de um dividendo nacional periódico ou uma renda básica de cidadania para todos, e retiradas dos bolsos fundos do Banco Central.
 
Os críticos objetarão que isso poderia inflar perigosamente a oferta de dinheiro e os preços ao consumidor, mas nada indica que tal desfecho seja necessário. Hoje, virtualmente todo o dinheiro é criado como dívida bancária, e é extinto quando esta dívida é paga. Significa que os recursos usados para pagar estas dívidas seriam extintos, junto com a própria dívida, sem elevar a oferta de dinheiro. Ainda nos EUA: para os 80% da população endividada, o repagamento das dívidas, por meio de um sistema nacional de distribuição de dividendos, poderia tornar-se obrigatório e automático. Os restantes 20% provavelmente poupariam ou investiriam em fundos – portanto, este dinheiro contribuiria pouco para a inflação de preços ao consumidor. E se fosse direcionado ao mercado de consumo, poderia ajudar a gerar a demanda necessária para estimular a produtividade e o emprego. (Para uma explicação mais completa, leia, de Ellen Brown, “Banking on the People,” 2019).
 
Na antiga Mesopotâmia, a anulação das dívidas funcionou de modo brilhante por dois milênios. Como Hudson conclui:
 
Insistir que todas as dívidas devem ser pagas é ignorar o contraste entre as milhares de anos de ‘tábulas rasas’ bem sucedidas no Oriente Médio e a escravidão por dívidas em que afundou a antiguidade greco-romana… Se esta política foi melhor sucedida, em muitos casos, que a de hoje, é porque os mesopotâmicos reconheceram que insistir no pagamento de todas as dívidas significava confiscos, desigualdade e empobrecimento geral da economia.

 

 
 
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Os despedimentos em massa estão de volta. O leitor está em risco? Por Adam Taggart

 

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Os despedimentos em massa estão de volta. O leitor está em risco?

Haverá milhões de pessoas que irão perder os seus empregos na próxima recessão. O leitor vai perder o seu emprego?

adam taggart Por Adam Taggart

Publicado por Peak Prosperity em 30 de Agosto de 2019 (ver aqui)

Imagine a seguinte cena a desenrolar-se no local de trabalho amanhã:

Você chega de manhã ao trabalho e encontra uma nota com a frase: “O gestor HR deseja vê-lo”. Sobre o quê? Questiona-se o leitor.

Vendo o seu diretor já na sala de conferências com a porta fechada, o leitor inquieta-se enquanto espera. Começa a formar-se um nó no seu estômago que fica mais apertado à medida que os minutos passam.

De repente, a porta abre-se. Um colega tropeça ao sair, olhando de forma esgazeada. Então vê a cabeça do gestor a aparecer, repara em si e diz “Ah, por favor entre”.

“Sinto muito em dizer-lhe que a empresa deixa que você se vá embora”, começa ela. “As vendas caíram e simplesmente não podemos empregar tantas pessoas. Não é nada pessoal”.

E assim, sem mais nem menos, o seu emprego esfumou-se, desapareceu.

Você receberá um mês de salário como indemnização, mais duas semanas se assinar uma cláusula de saída de comum acordo. E eles acabaram de lhe entregar uma pilha de formulários que supostamente o guiarão no processo de solicitação da cobertura de saúde e do seguro-desemprego COBRA, se necessário.

E é tudo.

Oh, eles já receberam a devolução do seu computador. Você tem 15 minutos para reunir qualquer item pessoal e dizer adeus. Mas, por favor, não se demore. Nós odiaríamos envolver a Segurança nisso….

Obrigado pelo seu serviço! E boa sorte no seu próximo emprego!

O que é que você faria se isso acontecesse consigo amanhã? Pense nisso por um minuto.

Sentir-se-ia surpreendido? Libertado? Petrificado?

Como seriam as suas perspetivas de emprego? Sentir-se-ia confiante de que poderia ser recontratado rapidamente? Ou você está a olhar para meses (ou mais tempo) de desemprego?

O que acontecerá às finanças do seu agregado familiar se ficar sem trabalho durante um longo período de tempo? Você é o principal sustento da família? Tem outros rendimentos ou poupanças substanciais que o possam sustentar? Se não, como é que pensaria fazer face às despesas?

A maioria das pessoas é apanhada desprevenida face a despedimentos. Há uma complacência que um pagamento regular de salário fixo permite e que é de repente fortemente sacudido desta situação de complacência quando se recebe uma carta de despedimento. Poucas pessoas estão prontas – emocional, profissional ou financeiramente – para o fim abrupto do status quo que um despedimento traz.

Mike Tyson disse uma vez de forma muito eloquente: “Todos têm um plano até serem esmurrados na boca”. Da mesma forma, todo mundo se pode dar ao luxo de ser otimista sobre o amanhã até ser despedido.

Tem “Ansiedade quanto ao despedimento”? Você não está sozinho.

Se o exercício de reflexão acima deu voltas ao seu estômago, você não está sozinho. Quase metade (48%) dos trabalhadores dos EUA relatam ter tido ‘ansiedade face à ideia de despedimento’.

E, isto é durante os “bons tempos”, pessoal. Oficialmente, ainda estamos na mais longa expansão económica da história dos EUA.

Como vai ser quando esta expansão de longo prazo terminar, como será inevitavelmente o caso para toda a gente?

E como temos estado furiosamente a descrever aqui no PeakProsperity.com, parece que o fim está a chegar rapidamente. A curva de rendimento invertida nos títulos do Tesouro dos EUA, a desaceleração do crescimento dos EUA e as taxas de crescimento negativas nas principais economias europeias, os volumes globais anémicos de transporte marítimo e uma série de outros indicadores confiáveis estão a significar avisos de que a economia mundial (incluindo os EUA) está a mergulhar na recessão.

Uma recessão para a qual a América empresarial está lamentavelmente não preparada, devido aos níveis recordes de endividamento.

 

9 milhões de milhões de razões para reduzir o número de funcionários

Em resposta à última década de crédito extremamente barato e abundante fornecido pelos bancos centrais mundiais através dos esforços da QE (quantitative easing), os executivos das empresas têm contraído empréstimos muito mais agressivamente do que no passado. Muitas vezes para recomprar as próprias ações da sua empresa na esperança de aumentar o preço das suas ações (e, portanto, aumentar os seus pacotes de remuneração baseados em ações).

E um número preocupante (centenas de milhares de milhões de dólares) desses empréstimos empresariais feitos nos últimos anos tem sido de baixa qualidade, alto risco e com menos restrições para os que solicitam empréstimos e menos proteções para os que emprestam (covenant-lite).

Como resultado, as empresas americanas de hoje estão tão ou mais perigosamente alavancadas do que nunca. Mais de $9 milhões de milhões de dólares de dívida sobrecarregam agora os balanços das grandes empresas americanas:

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Como o crescimento continua a desacelerar e os lucros das empresas diminuem, o serviço da dívida ocupa uma percentagem cada vez maior dos fluxos de caixa. Em algum momento, os cortes de pessoal tornam-se inevitáveis.

 

O robô tirou-me o meu emprego

Além disso, como temos estado a avisar há muito tempo aqui na PeakProsperity.com, os empregadores têm atualmente um tremendo incentivo perverso para automatizar e substituir o trabalho humano pela tecnologia.

A verdade simples e dura é que é caro, e cada vez mais caro, empregar humanos. Salários, cuidados de saúde, benefícios de reforma, remunerações adicionais, regulamentos da OSHA, processos judiciais, formação, férias, dias de doença – tudo isso se soma. As máquinas libertam os empregadores de todos esses custos, de dores de cabeça e de potenciais responsabilidades.

Entretanto, os avanços tecnológicos em robótica e IA (inteligência artificial) estão numa evolução que se pode dizer exponencial. As capacidades estão a disparar e os custos estão a cair. Com a capacidade de contrair empréstimos a taxas de juros mínimas, será alguma surpresa que as empresas estejam a investir em automação o mais rápido possível?

A empresa de consultoria McKinsey prevê que 50% das atuais atividades de trabalho estão em risco de serem automatizadas até 2030 e que, nessa altura, 400-800 milhões de trabalhadores em todo o mundo serão deslocados pela tecnologia – criando-se assim “um desafio potencialmente maior do que as mudanças históricas passadas”.

Está em curso uma transição histórica do trabalho humano para o trabalho automatizado. Isso está a acontecer em todos os setores e afetará todas as funções do trabalho, em todos os níveis do organograma.

E ao contrário da terceirização ou externalização, uma vez que esses trabalhos são automatizados com sucesso, eles são “eliminados” no que diz respeito à necessidade desses trabalhadores. Estes empregos nunca deixarão depois de serem automatizados.

 

E isto já começou

Lembram-se dos despedimentos em massa de 2008 e 2009? Quando milhares de pessoas perderam imediatamente os seus empregos quando as empresas começaram a despedir trabalhadores?

Bem, isso está de volta.

Em 2019, até agora, vimos aplicar reduções de empregos em vários setores, como o HSBC (4.750 empregos), Nissan (12.500 empregos) e Deutsche Bank (18.000 empregos). Outras marcas bem conhecidas que deixam os funcionários ir embora incluem Siemens, Uber, US Steel, Kellogg’s, Ford, Disney e United Airlines.

Nesta fase, não é (ainda) como a carnificina vista durante a Grande Recessão. Lembram-se como isto foi assustador, pois centenas de milhares de pessoas foram despedidas todos os meses e durante dois anos?

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8,8 milhões de postos de trabalho foram perdidos durante este período. Quando os despedimentos são tão generalizados, é apenas um jogo de números. Entre o leitor, a sua família e os seus amigos – pelo menos alguns de vocês vão ser vítimas.

Quão más podem ser as coisas da próxima vez? Suficientemente más para tomar medidas de proteção, pensamos nós.

E não é tão difícil para nós argumentar que a futura onda de despedimentos em massa pode ser substancialmente pior. Portanto, não descansem sobre os louros.

 

Sinais de problemas a serem observados

Que indicadores de alerta precoce poderá o leitor monitorizar para avaliar se a sua empresa, ou o seu trabalho específico, está em risco?

Fatores de risco da empresa

Primeiramente, ajuda olhar as indústrias que mais perderam trabalhadores durante a Grande Recessão. A história não se repete exatamente, mas muitas vezes rima:

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Trabalha atualmente numa destas indústrias? Se assim for, o gráfico acima deve dar-lhe um sentido geral de como a sua empresa se vai comportar em relação aos outros, se nós realmente reentrarmos em recessão brevemente.

Mas nem todas as empresas dentro de uma indústria são iguais. Como é que o leitor pode saber se está atualmente empregado por uma das empresas mais vulneráveis?

Aqui estão os sinais clássicos de problemas a serem observados:

  • Declínio financeiro – A sua empresa tem uma relação Dívida/Capital Próprio mais elevada do que as suas congéneres da indústria? As receitas e/ou ganhos estão a estabilizar ou a diminuir? As Contas a Pagar estão a aumentar em percentagem do total do Passivo? Todos estes elementos são indicações potenciais de uma empresa em terreno instável.
  • Congelamentos – A sua empresa anunciou o congelamento de novas contratações, orçamentos e/ou bónus? Todos estes são sinais de restrição de empregos e restrição de perspetivas de crescimento futuro. É raro que os despedimentos consideráveis em escala sejam anunciadas antes que qualquer um, se não todos, destes seja tentado primeiro.
  • Adiamento de projetos chave – semelhante ao congelamento, grandes implantações são muitas vezes adiadas ou arquivadas completamente na tentativa de reduzir custos antes que os cortes de pessoal sejam considerados. É claro que, uma vez que se reduz os projetos planeados, então percebe-se que não se precisa de tantos trabalhadores.
  • Consolidação – esta dá-se quando as unidades económicas entram em colapso em conjunto para “maior eficiência” e “economia de custos”. Este é um sinal de que os centavos estão a começar a ser beliscados, e logo a “economia de custos” começa a parecer-se muito com “empregar menos pessoas”.
  • Ser adquirido – nos bons e maus momentos, os funcionários de uma empresa que está a ser adquirida estão em maior risco. As aquisições destinam-se a desbloquear “sinergias”, o que muitas vezes é uma forma elegante de dizer “se combinarmos as nossas empresas, podemos despedir todas as pessoas que têm empregos redundantes”. Como não têm relações com os decisores da empresa adquirente, aqueles que estão a ser adquiridos são normalmente os primeiros a quem é mostrada a porta de saída.
  • A sua empresa está “em mudança” – “em mudança” é o novo termo da cortina de fumaça para “O que estamos a fazer não está a funcionar, então vamos tentar outra coisa”. É verdade, é sábio abandonar um caminho condenado. Mas não é sábio se se está apenas a trocar uma ideia por outra ideia meio cozida meio esfarrapada. Embora existam exemplos de mudanças que transformaram uma empresa falida num sucesso de classe mundial (será que o leitor sabia que o YouTube começou inicialmente como um site de namoro?), essas são as exceções.
  • Más notícias / demasiados rumores – “Não há fumo sem fogo”. Quando a sua empresa está desfavoravelmente coberta pelos media comerciais por tempo mais que suficiente, geralmente é por uma boa razão. Basta perguntar às pessoas que trabalham (ou costumavam trabalhar) na Sears, Theranos, JC Penny, Toys “R” Us, ou Forever 21.
  • Mudança da direção – quando os ratos no topo começam a sair do navio ao mesmo tempo, é hora de se preocupar. Eles sabem muito mais do que o leitor sobre a condição da sua empresa. Neste momento, eu ficaria muito preocupado se trabalhasse num lugar como Tesla….
  • Queda repentina de ações– um preço forte das ações compensa muitas deficiências operacionais (como no exemplo da Netflix, Uber ou We Work, a perderem milhares de milhões em fluxo de caixa anualmente). Mas quando os investidores abandonam o sonho subjacente à sua empresa e as ações começam a cair fortemente, a vida pode rapidamente ficar muito pior. A rentabilidade e o fluxo de caixa positivo de repente tornam-se questões de vida e morte. Aqueles que trabalham numa empresa dita unicórnio de alto gabarito tecnológico ou empresa start-up assentes num otimismo exagerado precisam de estar atentos dada a rapidez com que as coisas se podem transformar se os investidores começam a ficar azedados.

 

Há algum alvo nas tuas costas?

Os despedimentos são como atirar sacos de areia para fora de um balão de ar quente que se está a afundar. O viajante atira uns poucos para o mar para ver se com isso consegue parar a queda. Se não parar, continua a atirar mais alguns fora.

Eles tendem a acontecer como uma sequência. Na primeira vaga, os maus desempenhos óbvios são soltos. Essa é a decisão fácil, e pode até ser positiva para a moral. Mas se a empresa ainda estiver com problemas, outra vaga – ou talvez mais – será necessária.

Então, como é que se pode saber se está em risco para a próxima vaga de despedimentos da série?

Aqui estão alguns sinais de alarme comuns:

  • A sua carga de trabalho está a diminuir – os trabalhadores nessa situação de reserva de trabalho disponível oferecem um ROI (retorno do investimento) mais baixo. Ou o rendimento da sua empresa está a diminuir (um mau sinal) ou o seu chefe está a redirecionar o seu trabalho para outras pessoas (um mau sinal).
  • Aumento nas exigências de relatórios de trabalho – se de repente lhe pedem para racionalizar e reportar todas as suas atividades, é normalmente um sinal de que alguém mais acima na cadeia está a tentar “justificar” os recursos no seu departamento. É um sinal de que o futuro do seu departamento – ou do empregado visado, especificamente – está a ser analisado.
  • “Demasiado” jovem – historicamente, os trabalhadores mais jovens são muitas vezes os primeiros a ser despedidos por terem a menor experiência de trabalho e a menor antiguidade dentro da organização. Durante a GFC, o desemprego entre os jovens trabalhadores quase dobrou de 5,4% em 2007 para 9,2% em 2010.
  • “Demasiado” velho – num número crescente de indústrias (em particular as Tecnológicas), é cada vez mais comum que os trabalhadores mais velhos sejam os primeiros a serem despedidos. Os trabalhadores mais jovens estão muitas vezes mais familiarizados e mais à vontade com o software e a tecnologia mais recentes e são, muitas vezes, substancialmente mais baratos de empregar. Eles estão dispostos a trabalhar mais horas por menos salário e não têm a estrutura de benefícios que os trabalhadores mais velhos com famílias têm. A ‘antiguidade’ está-se a tornar rapidamente uma queixa legal comum nos despedimentos de hoje.
  • O seu chefe é de repente demitido – embora isso possa ou não ser um sinal de que seu departamento está a perder estatuto dentro da empresa, muitas vezes significa que se está perder o elemento mais forte dentro da organização. Se o seu chefe sair abruptamente, certifique-se de se conectar com ele em particular para obter informações internas. Agora que ele não está a falar em termos da gestão geral da empresa, provavelmente será totalmente transparente consigo sobre a condição da empresa.
  • Fricção com o seu chefe – embora nunca seja um sinal promissor, se não se dá bem com o seu chefe, é provável que não esteja no topo de sua lista de empregados a querer defender durante um REF (redução em força). Na verdade, se você está de repente a sentir que há uma certa má vontade contra si quando antes não havia nenhuma, pode ser que ele esteja a tentar construir um caso para fazer do seu despedimento um “caso fácil”.
  • Ser “convidado” a aceitar um corte no pagamento – este é um sinal bastante claro de que você é menos essencial para a empresa do que era anteriormente e/ou que a sua empresa está *realmente* em dificuldades de fluxos de caixa. Se lhe for ‘perguntado’ sobre isso, tome este facto como um sinal do universo para começar a atualizar o seu currículo.
  • Ser convidado para treinar outra pessoa ou uma empresa externa sob as suas responsabilidades – esta é outra clara “chamada de despertar” de que o seu trabalho é provável esteja no bloco de corte. A menos que você tenha certeza de que está a ser promovido, leve isso como uma mensagem para esperar uma visita do RH em breve.
  • Os seus sentidos de aranha estão a formigar – as empresas são instituições sociais por concepção; são constituídas por pessoas (pelo menos, ainda o são por agora). Se você notar que os executivos e gerentes seniores parecem estressados ou passam muito tempo amontoados em salas de conferência, se a conversa do refrigerador de água gira em torno de problemas da empresa, se os benefícios começam a desaparecer rapidamente, se as pessoas começam a ignorá-lo – estes são sinais de aviso que você deve prestar atenção. Não ignore o seu instinto.

 

Como reduzir a sua vulnerabilidade

Depois de fazer uma avaliação honesta da sua situação profissional, será que tomar algumas medidas de precaução contra um despedimento faria sentido?

Alerta importante: se o leitor é um dos 132 milhões de empregados em tempo integral que trabalham atualmente nos EUA, a resposta certa é sempre “sim”. Não há simplesmente nenhuma boa razão para confiar na sua fonte de rendimento primária/única, de forma cega.

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O autor: Adam Taggart é o Presidente e Co-Fundador do Peak Prosperity. Ele usa muitos chapéus, mas seu trabalho básico é lidar com o lado comercial das coisas para que seu co-fundador, Chris Martenson, seja livre para pensar e escrever. É um executivo experiente de internet de Silicon Valley e MBA de Stanford. Antes da parceria com Chris (Adam foi Gerente Geral do nosso site anterior, ChrisMartenson.com), ele foi Vice-Presidente da Yahoo!, uma empresa que ele serviu por nove anos. Antes disso, ele fez a ‘coisa startup’ (mySimon.com, vendido para a CNET em 2001). Como recém-formado da Brown University no início da década de 1990, Adam teve uma visão em primeira mão de tudo o que foi quebrado com Wall Street como analista de banco de investimento para a Merrill Lynch.

 

 

 

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2019/09/08/os-despedimentos-em-massa-estao-de-volta-o-leitor-esta-em-risco-por-adam-taggart/

Nós te saudamos, crise vindoura!

(António Guerreiro, in Público, 06/09/2019)

António Guerreiro

Nos jornais e em todos os meios de comunicação e amplificação anuncia-se uma crise que aí vem, não se sabe quando, mas já está — como dizer? — em processo de iminência. Esta é uma expressão absurda, bem sei, porque iminente é o que está a atingir o ponto de catástrofe onde se dá a passagem para outro plano qualitativo, descontínuo.

 

Mas a verdade é que não há crise que, num actualizado dicionário das ideias feitas, não precise de ser definida com esta indicação: “Mal se começa a dar por ela, já ela é iminente.” Por enquanto, a crise por vir só se manifesta através de sintomas (não esqueçamos que na história semântica do conceito de crise há inicialmente um significado médico) que se oferecem à tarefa de decifração por gente com comprovadas competências semióticas: uma curva descendente subtil no gráfico das exportações, uma inflexão disfórica da linha das importações, uma desaceleração algures a indicar que já não se está a deslizar da mesma maneira no caminho do crescimento, isto é, do progresso, etc. São índices que não passam despercebidos aos historiadores indiciários do tempo por vir, que outrora eram chamados profetas. E eu acredito neles, sem que me ocorra sequer a ideia de formular reservas como as que os doutores da Igreja teoricamente formulavam (às vezes em exercícios teológicos requintadíssimos) sobre a existência e os poderes de Deus. E acredito por duas razões fundamentais: porque ao tempo vazio de crise sempre se sucedeu o tempo pleno de crise, sabemo-lo por experiência própria e porque hoje somos todos especialistas em crítica da economia política, o que significa que somos todos marxianos, mesmo — ou sobretudo — quando não somos marxistas; e porque a crise advém por uma lógica performativa, as palavras que descrevem a sua vinda iminente, se são pronunciadas por quem tem uma reconhecida autoridade (e quem tem mais voz e autoridade do que os media, na esfera pública alargada?), praticam um acto, realizam a crise que anunciam.

Só nos resta, portanto, esperar com paciência que ela se instale, até porque a vida sem crise económica é o tédio, a monotonia, o spleen. Seria mesmo o tempo homogéneo e vazio, para usar uma expressão com pergaminhos, se não houvesse crises suficientes, noutros planos da história universal, para nos entreter. Mas aquilo de que gosto menos é do lado perverso e enviesado destes adivinhos que nunca correm o risco de se enganar. Na verdade, para serem sinceros, eles deviam dizer que adoram as crises, que o tempo da não-crise deve ser gerido com uma voluntária severidade crítica para ficarmos treinados e imunizados contra a obrigatória severidade a que a crise por vir obriga. Em suma: a crise deve ser a regra em que vivemos sempre, sem interrupções. Bem vistas as coisas, a grande maioria da população nunca conheceu outro estado, de maneira que estas oscilações, para ela, não passam de um complexo que está para lá da sua experiência, digamos, superestrutural. Já agora: porque é que para certas classes a superestrutura coincide completamente com a infra-estrutura? Eis um questão pouco compatível com um marxismo ortodoxo e vulgar.

O conceito económico da crise anulou o seu conceito médico e o seu conceito teológico (quem se lembra hoje, a não ser um reputado filósofo arqueólogo, da sua relação com o Juízo Final?). A única crise que existe é a económica e nem convém que ela seja declinada noutros domínios. É por ela que clamam os semiólogos performativos quando ela se ausenta temporariamente. É que se não houver a crise como figura de invocação não é tão fácil impor a política que lhe corresponde, segundo um programa que todos conhecemos. Em suma: sem crise não é possível governar, de acordo com o sentido que as palavras “governo” e “governar” hoje têm. 

A crise tornou-se assim um instrumento salvífico que, embora esteja sempre presente, tem momentos em que a sua acção fica atenuada. E então o que é preciso é apelar à sua iminência, para que tudo continue a ser como sempre foi. Quem diria que a crise haveria de se tornar não a alteração abrupta ou mesmo catastrófica de uma ordem, mas o garante dessa ordem?


 

Livro de Recitações

“De regresso das férias? Temos dez  ideias para não deprimir. ”
In PÚBLICO, secção Culto, 2/09/2019.

Ao contrário do que reza um discurso muito voluntarista e também muito ideológico em que o trabalho é sempre digno dos maiores louvores, a verdade é que o trabalho, hoje, não é um valor nem um antivalor. Já nem sequer vale dizer que “o trabalho cansa”, porque, na verdade, nos modos como é hoje praticado, ele deprime, causa distúrbios psicológicos, paralisa, coloca grande parte da população trabalhadora a recitar uma interrogação: “Como é que eu saio disto?” Na história do trabalho, deu-se, num tempo ainda próximo de nós, uma transformação dos efeitos do trabalho como corveia: quando ele deixou de provocar, em geral, malefícios físicos selectivos, passou a provocar malefícios psicológicos generalizados. De maneira que actualmente até os directores das empresas e a alta burguesia assalariada estão ameaçados pelo burnout, que é o nome inglês de uma síndrome universal, ao mesmo tempo trágica e cómica, como se pode ver pelo título acima citado.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Para a maioria dos portugueses a crise não passou

 
 
Apesar da enorme descida do desemprego, o emprego, os salários baixos e o custo de vida são as principais preocupações dos portugueses.
 
Contrariando os números oficiaissobre o crescimento da economia e a queda do desemprego, menos de um terço por portugueses sentem que a crise económica foi ultrapassada e 53,5% estão mesmo convencidos que esta ainda não passou. A conclusão é de um estudo do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, encomendado pela Missão Continente. O trabalho revela ainda que o desemprego continua a ser o problema que mais portugueses (38,8%) consideram como o mais importante para o país, seguido, em segundo lugar, dos salários baixos e poder de compra (29,2%), da corrupção (26%) e das falhas do sistema de saúde (24,5%). A investigadora e coordenadora do estudo, Luísa Schmidt, defende que estes números e a perceção dos portugueses sobre a existência ou não, ainda, de uma crise, mostram que, no fundo, estamos de "ressaca" e que a crise económica de 2008 foi tão forte e afetou tantas pessoas que deixou marcas profundas. Um exemplo: quando se pergunta aos portugueses o que fariam se tivessem um aumento de rendimentos no topo das prioridades surge a saúde e a poupança, mesmo entre os mais novos, algo que não acontecia antes da crise.
 
"Ainda há um trauma da crise pois não houve praticamente nenhuma família que não tivesse sido afetada, mantendo-se um receio", acrescenta Luísa Schmidt, que sublinha que o desemprego até pode ter caído muito mas os salários não subiram e os custos de vida, nomeadamente da habitação, disparam.
 
Nuno Guedes | TSF
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/09/para-maioria-dos-portugueses-crise-nao.html

O Diabo não vem aí, o Diabo já cá está

 
 
 
Ana Alexandra Gonçalves* | opinião
 
Sob a ameaça de recessão, alguns comentadores decidiram ressuscitar a imagem do Diabo tão apregoada pelo malogrado (politicamente) Pedro Passos Coelho. Segundo o antigo primeiro-ministro o Diabo estava a caminho e seria a ruína da tão odiada geringonça. Note-se que este profecia do Diabo era mais um desejo do que propriamente mera futurologia.
 
Agora e perante uma Alemanha a roçar perigosamente a recessão, perante as restantes economias europeias com um crescimento económico perto do zero, face ao resto do mundo, com a China à cabeça, a crescer muito menos e com uma guerra económica entre EUA e China como pano de fundo, desenterra-se o Diabo.
 
Na verdade, o Diabo não precisa que as marionetas do costume o desenterrem. Na verdade, ele já anda aí e há muito tempo, chama-se capitalismo. Ele não vem, ele já cá está, entre os crescimentos e as crises, entre os crescimentos cada vez mais irrisórios e à custa do próprio planeta, mas com ares de verdadeira recuperação por se seguirem a crises profundas.
 
Vivemos sob a batuta do Diabo e pior: já nem sequer conseguimos sonhar uma vida sem ele, havendo sempre quem se mostre disposto a dançar alegremente sob essa batuta.
 
*Ana Alexandra Gonçalves | Triunfo da Razão
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/08/o-diabo-nao-vem-ai-o-diabo-ja-ca-esta.html

Argentina | O governo de Macri «trouxe a fome de volta»

Milhares de trabalhadores argentinos – mais de 100 mil, segundo os organizadores – participaram esta quarta-feira, em Buenos Aires, na 4.ª marcha por «Paz, Pão, Terra, Tecto e Trabalho».

De acordo com os organizadoresm, mais de 100 mil pessoas participaram na marcha desta quarta-feira entre o Bairro de Liniers e o Congresso, em Buenos AiresCréditosBernardino Avila / Página 12

O dia de São Caetano (7 de Agosto), patrono do trabalho, voltou a ser assinalado com uma grande mobilização na capital argentina em defesa do prolongamento da declaração de emergência social, da declaração de emergência alimentar, bem como de maiores apoios sociais, de apoios para a agricultura familiar e para as infra-estruturas nos bairros.

Promovida pela Confederação de Trabalhadores da Economia Popular (CTEP), a Bairros de Pé, a Corrente Classista e Combativa (CCC), a Frente Popular Darío Santillán, a edição deste ano da marcha ficou marcada pelo forte apoio sindical, pela proximidade das eleições (as primárias disputam-se este fim-de-semana) e pelo elevado nível de pobreza (35%, segundo dados do Observatório da Dívida Social da Universidade Católica Argentina).

«Este governo disse que vinha governar para todos os argentinos mas trouxe a fome de volta. Destruiu o emprego. Condenou metade dos nossos pibes [miúdos, jovens] a ser pobres», afirmaram representantes das organizações promotoras no encerramento, junto ao Congresso.

Além de denunciarem o modelo económico imposto pelo executivo de Mauricio Macri, que classificaram como «gerador de catástrofe social», os organismos solicitaram ao governo que for eleito em Outubro que assuma as reivindicações das organizações sociais, segundo informa a Página 12.

Esteban Castro, da CTEP – organização que esteve envolvida nesta marcha desde a sua primeira edição, em Agosto de 2016, com Macri no poder havia oito meses –, sublinhou que o «governo não pode andar mais para trás» e que as propostas em defesa das populações e dos bairros mais carenciados são claras, tendo sido já todas apresentadas ao Congresso.

«As propostas são claras. A questão é que não temos a capacidade mediática para as divulgar. Por isso, temos de aproveitar estes meses de debate político para apresentar a agenda das organizações sociais», disse.

Num comunicado, as organizações referidas exigiram ainda, entre outras coisas, a aplicação de um programa urgente de reforço nos refeitórios escolares e comunitários, e que as camadas populares tenham acesso a produtos alimentares básicos a preços mais em conta.

Também alertaram para a gravidade da situação que se vive nos bairros populares de Buenos Aires devido «à pressão de grupos criminosos de narcotráfico», que «impõem um regime de medo aos habitantes e um futuro de morte aos pibes». Neste sentido, solicitaram às autoridades «a declaração imediata de emergência relativa a dependências» e o «reforços de dispositivos» nesta área, indica o Resumen Latinoamericano.

«Mais quatro anos com eles não se aguentam»

Ao intervir, Juan Carlos Alderete, da Corrente Classista e Combativa, classificou o actual governo argentino como «infame», lembrando que enganou os trabalhadores no que respeita aos imposto, que «despediu milhares e encerrou empresas todos os dias». «Mais quatro anos com eles não se aguentam», declarou, citado pelo Página 12.

Outra militante da CCC, Ramona Cantero, do bairro de Berazategui, disse ao periódico que não consegue continuar a pagar a factura da luz e que lhe cortaram o serviço. «Nos refeitórios já não conseguimos pagar a garrafa de gás e passámos a cozinhar a lenha, com aquilo que encontramos», explicou.

Por seu lado, Beatriz Sosa, de Florencio Varela, na região Sul da Grande Buenos Aires, disse que esta é a sua primeira marcha de São Caetano, depois de ter perdido o emprego o ano passado. «Trabalhava na casa de uma família e deixaram de me poder pagar», relatou.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/o-governo-de-macri-trouxe-fome-de-volta

Nova crise econômica mundial será grave e pode mudar ordem global existente, diz analista

O mundo está à beira de uma iminente crise global provocada pelas ambições excessivas dos Estados: no início de 2019, a dívida mundial alcançou 244 trilhões de dólares e continua crescendo.

O principal problema atual é a perspectiva de uma recessão deflacionária prolongada e estagnação interminável da economia, como foi no caso do Japão nas últimas décadas, revelou Aleksandr Losev, diretor de uma empresa de gestão de ativos, ao diário Kommersant


O aumento da carga da dívida e o custo cada vez maior de sua manutenção afetam o crescimento econômico, aumentam os riscos de crédito e a possibilidade de incumprimento de pagamentos, o que no futuro criará dificuldades para refinanciar as dívidas e abrandará o "boom" de crédito que atualmente está estimulando o crescimento global, explicou Losev.

O financista sublinhou que esse processo afetará a situação econômica porque significa "menos novos empréstimos e investimentos, um crescimento econômico mais débil ou até sua cessação completa, mais moratórias, atrasos de pagamento […], crises locais em certas regiões e indústrias que podem causar efeito dominó e sacudir não apenas os mercados financeiros, mas também toda a economia global".

Segundo Losev, um estudo do Banco Mundial mostrou que, quando a relação dívida/PIB supera 77% durante um longo período de tempo, o crescimento econômico se desacelera e cada ponto percentual da dívida acima deste nível custa ao país 1,7% de crescimento econômico nos países desenvolvidos. Quanto aos países em desenvolvimento, a situação é ainda pior: cada ponto percentual adicional de dívida acima do nível de 64% reduzirá anualmente o crescimento econômico em 2%.


De acordo com previsões do Fundo Monetário Internacional (FMI), a economia mundial irá desacelerar neste ano em 70% dos países.

"Muitas economias não são suficientemente sustentáveis. A alta dívida pública e baixas taxas de juro limitam sua capacidade para superar uma nova recessão", disse a diretora-executiva do FMI, Christine Lagarde.

Ao mesmo tempo, o analista sublinha que uma nova crise poderia trazer mudanças na ordem global existente.

"Uma crise econômica de grande escala pode levar a mudanças geopolíticas e transformar a ordem mundial existente, que se baseia na desigualdade hierárquica dos Estados, associada com ciclos econômicos longos e padrões tecnológicos, bem como em uma acumulação infinita de capital. A Rússia, bem como a maioria dos países em desenvolvimento, está na periferia desse sistema", escreveu Losev.


O financista prevê que "a atual ordem mundial começará a mudar rapidamente não no momento da crise, mas quando os Estados não puderem coordenar seus esforços a nível global para manter o sistema econômico e financeiro atual, os princípios e regras do comércio internacional, quando o egoísmo prevalecer, mas a competição não for suficiente". 

Isso levará a uma época de conflitos, à revisão de prioridades, ao protecionismo, mobilização e reindustrialização, ou seja, às prioridade de produção nacional, projetos de grande escala e desenvolvimento da ciência. 

Losev aconselha a não esquecer que, em momentos de instabilidade, todas as grandes potências, em virtude de sua posição e interesses de suas elites, negócios e capital, tentam criar sua própria ordem e, até certo ponto, estão prontas para defender esta ordem de várias maneiras, de militares até políticas.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/economia/2019042213732096-nova-crise-economica-grave-mudar-ordem-existente/

A caminho de mais um desastre financeiro mundial? 2

Parece cada vez mais óbvio que um grande desastre financeiro mundial não é apenas provável, mas praticamente inevitável. Não apenas devido ao modo de funcionamento das principais economias mundiais, mas devido ao próprio sistema financeiro ocidental que elas integram.

Muito à semelhança da crise espoletada em 2007 pelo subprime norte-americano, a próxima será de natureza global, afectando todos os aspectos da vida e todas as pessoas que vivem no planeta.

Caminhamos assim para uma economia insustentável, que se por um lado é incrivelmente produtiva e geradora de ganhos para uma pequena minoria pelo outro aumenta a miséria da vasta maioria, e a culpa de semelhante assimetria é principalmente do sistema financeiro baseado na usura.

O que agravou a situação

Tudo piorou com o fim do sistema padrão-ouro – que vigorou até ao final da I Guerra Mundial e no qual o valor das moedas era suportado pelas reservas em ouro detidas pelos respectivos bancos centrais, ainda que na sua fase final apenas fosse aplicável à libra inglesa – e a sua substituição ao abrigo dos Acordos de Bretton Woods (conferência que em 1944 reuniu as potências vencedoras da II Guerra Mundial para definir as regras a aplicar às relações comerciais e financeiras entre os países mais industrializados da época) pelo padrão dólar-ouro – sistema segundo o qual o dólar americano seria convertível em ouro e funcionaria como moeda de pagamentos internacionais – para culminar no início da década de 1970 com a declaração unilateral do fim da sua convertibilidade pela administração Nixon. A partir desse momento toda a moeda passou a ser pura e simplesmente fiduciária.

Outra consequência desta situação é que o sistema financeiro passou a poder criar moeda quase sem limitações, processo que ficou ainda mais fácil com a progressiva implantação dos princípios da liberalização e da desregulamentação da actividade financeira que culminaria, nos EUA dos finais de 1999, com a abolição do Glass-Steagal Act (lei que datava da administração de Franklin Roosevelt e do seu New Deal e impedia a fusão entre bancos de investimentos e bancos comerciais) pela administração Clinton.

Todo isto decorre no último quartel do século XX, com a eleição de Ronald Reagan e a ascensão dos teóricos monetaristas e neoliberais, coincidindo com a aceleração do processo de deslocalização – com os empregos fabris a serem transferidos para o terceiro mundo – e de privatização de empresas públicas. Este movimento, que também ficou conhecido como “Reaganomics”, teve deste lado do Atlântico o seu expoente com o “Tatcherismo” (do nome da primeira-ministra britânica, Margaret Tatcher, e representava a sua visão do liberalismo clássico monetarista), e que chegou a ser ensaiado na Rússia após a queda do Muro de Berlim e a implosão da União Soviética.

Escancaradas as portas ao dinheiro fictício (fase em que a moeda não tem qualquer valor real), estabelecidas as condições para que os bancos pudessem criar moeda através da mera concessão de crédito e criadas as condições políticas para a generalização do processo de deslocalização da produção, estavam reunidas as condições para a ascensão dos grandes bancos de investimento e das empresas de private equity (de que são principal exemplo a Goldman Sachs e o Carlyle Group), que se especializaram na alavancagem de crédito usado para a compra integral de empresas, ao despedimento de trabalhadores, a venda de activos e a transferência do remanescente para o exterior; tudo sob a égide de dirigentes políticos caracterizados por serem incompetentes ou seus fiéis servidores.

Confrontados com o crescimento do desemprego e com a quebra na actividade económica (o desemprego e os baixos salários geram um poder de compra cada vez menor) os banqueiros mantiveram o sistema em funcionamento através de sucessivas bolhas especulativas e respectivos resgates públicos. Assim tivemos mais recentemente a bolha das “dot.com”, a bolha imobiliária (subprime) e o “Quantitative Easing”, que paradoxalmente é uma admissão tácita dos malefícios da usura, pois a distribuição de dinheiro a rodos entre os bancos equivale a um processo de perdão de dívidas, mas limitado como foi às transacções entre bancos centrais e bancos comerciais não beneficiou a população em geral e assim, os mutuários ordinários ainda se vêem obrigados a pagar juros sobre empréstimos enquanto pouco ou nada recebem pelos seus próprios depósitos bancários.

E não temos alternativa?

Nesta, como noutras questões, há sempre alternativa. Assim é que em diferentes momentos foram utilizadas outras vias para criar moeda e pô-la em circulação; desde o processo de pilhagem do ouro das civilizações centro-americanas (século XVI) à grande corrida ao ouro californiano (século XIX), ou à emissão artificial de moeda, de que são exemplo os “greenbacks” usados durante a Guerra Civil Americana, até à mais recente distribuição de dividendos através do Alaska Permanent Fund que desde 1982 distribui anualmente pelos habitantes daquele estado norte-americano o produto dos royaltiesderivados da exploração dos recursos naturais da região.

A estes exemplos pode ainda somar-se o movimento que defende a atribuição de uma renda garantida básica para todos os cidadãos, que consiste, no essencial, em implementar uma forma de remuneração distribuída pelo Estado a cada membro da sociedade, independentemente da sua situação financeira, familiar ou profissional, e suficiente para permitir a satisfação das necessidades básicas, no pressuposto que o direito a uma existência digna é idêntico a outros direitos básicos como a saúde, a educação e o trabalho; a favor deste conceito (também designado por Rendimento Cidadão) são enunciados factores como o de contribuir para o aumento da natalidade (por permitir maior dedicação aos filhos), combater o abandono escolar (tantas vezes ditado pela necessidade de complementar o rendimento familiar) e uma simplificação dos sistemas de segurança social eliminando regimes como o do Abono de Família e do Subsídio de Desemprego, a par de outras prestações sociais como o nosso, tantas vezes polémico, Rendimento Social de Inserção.

São naturalmente escassas as opiniões na comunicação social que denunciam a tragédia em que se converteu um sistema financeiro global suportado na mera criação de crédito; prefere-se manter o silêncio em torno de um processo de autodestruição ou até da destruição do planeta, através do apoio a intermináveis guerras justificadas em “mudanças de regime” ou de mudanças climáticas e poluição química provocadas pelo homem, do que confrontar os dirigentes do sistema financeiro que governa a sociedade.

Estes dirigentes estão no comando de todos os governos ocidentais, do complexo militar-industrial, da informação e dos meios de comunicação e manipulam acontecimentos para atemorizar toda agente, como fizeram com o 11 de Setembro, ou destruindo nações inteiras como sucedeu com a Jugoslávia, o Iraque, a Líbia e agora a Síria e a Venezuela; tudo para manter em funcionamento um sistema corrupto e autofágico que procura escamotear os malefícios derivados de uma grande depressão económica ou da degradaçã oambiental.

A cada um de nós compete ver (observando além da realidade artificial que os meios de comunicação normalmente nos servem como informação) o que está a acontecer, reconhecer e assumir a responsabilidade individual de preparar outro futuro… um que naturalmente não se parecerá com aquele que hoje nos prometem!


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/a-caminho-de-mais-um-desastre-financeiro-mundial-ii/

A meritocracia não consegue redistribuir a riqueza?

(Daniel Deusdado, in Diário de Notícias, 04/01/2019)

desigualdade

Quem não viu a edição deste fim-de-semana do DN perdeu um conjunto de artigos para guardar. Dois deles – páginas 72 e 73 – do Prémio Nobel, Joseph Stiglitz, e de Gordon Brown, antigo primeiro ministro britânico, deixam-nos no ponto certo para perceber, por um lado, a conta a pagar nas economias pelas loucuras de Trump; por outro, o enorme risco da globalização acabar em protecionismo exacerbado. Mas o fio condutor dos artigos tem na base, de forma implícita, a questão central do nosso tempo: como redistribuir a riqueza. Porque, no essencial, é sempre disto que estamos a falar.

Trump é o melhor produto da alucinação coletiva da América: diminui impostos aos rendimentos mais elevados e às grandes corporações, na ilusão de que isso gere mais investimento e emprego. O emprego, no entanto, é cada vez de pior qualidade e não resolve a equação dos que ficam de fora.

Aliás, uma sociedade onde os que têm rendimentos lutam pela diminuição da assistência à saúde (Medicare) dos outros está profundamente doente. É o expoente absoluto de como a meritocracia se transformou numa ideologia febril, que glorifica apenas a vitória individual e desdenha as causas que levam muitas dessas pessoas à exclusão.

O défice da América está já ao nível do trilião de dólares (bilião de euros) e agora, segundo Joseph Stiglitz, até os milionários se assustam sobre quanto vão custar todos os truques para garantir a reeleição de Trump. Porque, apesar do colossal défice dos Estados Unidos – na casa dos 5% -, a injustiça social continua a agravar-se.

Stiglitz assinala que o ataque à sinagoga judaica em Pittsburgh, onde morreram 11 pessoas em Outubro, lhe fez lembrar a “noite de cristal” de 1938, quando forças paramilitares atacaram judeus por toda a Alemanha com a conivência de Hitler. Apesar das diferenças, note-se o paradoxo: este atirador não é do Daesh nem um muçulmano a gritar “Allahu Akbar”. Robert Bowers, branco, de 46 anos, é pura e simplesmente antissemita e anti-imigração. Um entre milhões.

O que pretendem estes atiradores repletos de ódio na América de hoje? Um emprego? Mais riqueza? Outra vida? Esta sociedade dividida entre os que “conseguem” e os que “não conseguem” desemboca onde?

“Nenhum país sozinho pode resolver problemas como a desigualdade, a estagnação salarial, a instabilidade financeira, a evasão fiscal, as mudanças climáticas, as crises de refugiados e a imigração”, dizia Gordon Brown, no passado domingo, neste jornal. Isso significa que toda a globalização de mercadorias, de fluxos financeiros, a livre circulação de pessoas e, sobretudo, a partilha e transferência de conhecimento a uma velocidade estonteante pelas redes digitais, precisa de uma coerência entre países e classes sociais. Caso contrário, tudo isto é apenas “business”, sem humanidade por detrás de cada rentabilidade.

A já caricatural estatística de que 80% da riqueza mundial está com 1% da população, acabará em desgraça se continuar a agudizar-se este rácio.

A Revolução Francesa, a Revolução Russa ou a Segunda Guerra Mundial tiveram na base sempre a mesma necessidade extrema de milhões de pessoas em acederem a condições mínimas de vida. Quando não o conseguem, daí até à guerra nunca é muito longe

A perplexidade maior é, afinal, verificarmos que a extraordinária conquista civilizacional do Ocidente, a meritocracia, ligada ao sucesso dos mercados e à própria democracia, não pode – ou não consegue – interferir com o curso de um desequilíbrio imparável, onde os que não dispõem de capital ou de saber (sejam pessoas ou países) ficam cada vez mais subjugados ao poder dos mais fortes. Isto num contexto onde os recursos naturais escasseiam, as condições ambientais agravam-se fruto da avidez do crescimento e, por fim – cereja em cima do bolo – o número de seres humanos mais abundante de sempre (nove mil milhões em 2050) vai ter a forte concorrência laboral de infinitos exércitos de robôs rentáveis e obedientes.

Portanto, e finalmente a questão prática: quem pode assumir uma eficaz redistribuição da riqueza gerada por este novo processo? O Estado – onde os seus funcionários tendem a cair na autopreservação e se multiplica a burocracia para evitar a corrupção? Ou os modelos liberais, como o da “caridade privada” anglo-saxónica? Na verdade, ambos estão a falhar. Há demasiados excluídos para não precisarmos urgentemente de uma nova resposta. E já sabemos que não é o populismo, porque ele se traduz essencialmente em ódio. Mas a democracia tem de ser muito mais do que conseguimos até hoje.

 

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

QUANDO O EFÉMERO É JULGADO PERMANENTE

economic crisis

Nesta crónica de final de 2018, gostava de veicular aos meus leitores um pouco da minha estranheza, que se desenvolve a par de uma experiência de vida.

Há muito tempo que venho seguindo os mercados para eu próprio estar prevenido e saber como «tirar as castanhas do lume» a tempo. Embora não tenha uma instrução académica nas ciências económicas, tenho muita facilidade em compreender os seus mecanismos, pois estou preparado em termos conceptuais a pensar o funcionamento de sistemas complexos na biologia. Nesta, não apenas estudamos os mecanismos ao nível dos indivíduos, com as suas complexidades intrínsecas, como também as populações e os ecossistemas, sem a compreensão dos quais a vida dum qualquer organismo será  totalmente indecifrável. 

A analogia sistémica é particularmente apropriada aos sistemas sociais, construídos pela sociedade humana, desde que não se caia numa atitude redutora, ou seja, numa falsificação ideológica da biologia evolutiva, que aliás é comum nos comentaristas de meia-tigela. 

Não somos ingénuos, nem queremos convencer ninguém a adoptar as nossas teorias!

O sistema económico é eminentemente caótico, sendo isso uma característica independente do regime económico e político que vigore: 

- a Teoria do Caos estabelece que a complexidade de certos sistemas desencadeia respostas cujas determinações são imprevisíveis, pelo que estão sempre a surgir «cisnes negros» (na definição inteligente de Nassim Taleb). 

As pessoas têm o espírito feito de tal maneira que, seja por aprendizagem, seja por inclinação natural, procuram sempre «leis», «regularidades», daí que as suas visões sejam de continuidade a 100% (o preconceito da normalidade: O AMANHÃ SERÁ COMO HOJE, PORQUE HOJE FOI COMO ONTEM...).

Em situações de instabilidade maior, essa «certeza» efémera cai por terra; as pessoas entram em pânico, julgam chegado o fim do mundo, aquilo que afinal se resume à reestruturação dos capitais, uma nova distribuição das cartas e das fichas num jogo. 

Nem num caso, nem noutro, estão correctas: nem ao tomarem o efémero como medida segura das coisas, nem em vaticinar o fim do mundo, aquando dos grandes abalos, das grandes sacudidelas.

Hoje em dia, ao contrário de há vários anos atrás, os analistas de todas as tendências parecem estar de acordo em que 2019 vai ser um ano em que o potencial tectónico da dívida monstruosa vai finalmente exprimir-se através de uma crise, que se arrisca a ser maior e mais duradoira do que todas as outras que vivemos em nossas vidas. 

Isto significa que terá de ser - pelo menos - tão grande como a de 1929 (praticamente ninguém hoje ainda vivo, era adulto aquando daquela crise). 

De facto, existem muitos factos objectivos que apontam para tal. 

Muitas pessoas amigas gostariam que isso significasse o fim do capitalismo e o alvorecer de uma outra era, chame-se a tal novo modo de produção socialismo ou outro nome qualquer. 

Porém, uma previsão arrisco fazer: infelizmente para mim - e para os outros também, creio eu - o advento dum pós-capitalismo onde reinasse mais igualdade está completamente posto de lado, pois não existe uma força «subjectiva» que empurre as pessoas para formas igualitárias de organizar a produção e distribuição da mesma. 

Tal não era o caso nos inícios do século XX, em que existia esperança num mundo regido pelo lema «de cada um segundo suas capacidades, para cada um segundo as suas necessidades». 

As pessoas foram - no capitalismo globalizado -  transformadas em consumidoras ou produtoras passivas, intercambiáveis,  contabilizáveis: reduzidas a meras mercadorias (= o conceito de alienação na sua plenitude). 

No bicentenário de Marx, o único conceito teórico do marxismo que eu reconheço guardar actualidade, é o conceito de alienação. Todos os outros estão profundamente caducos, simplesmente porque a sociedade evoluiu e as suas visões eram adequadas e apropriadas a um determinado estádio de evolução do capitalismo. Quanto ao «materialismo dialéctico» e o «materialismo histórico», nem vale a pena falar, pois são completas fabricações ideológicas, muito ao gosto cientista do século XIX. 

Na minha forma de ver as relações entre os factos, a experiência e as teorias... aqueles vêm primeiro, as teorias vêm depois: estas devem ser construídas sobre um certo número de factos, pré-existentes à sua construção. 

Se determinada teoria não tem na devida conta TODOS os factos conhecidos, à data da sua elaboração, será irremediavelmente falsa à nascença. 

Mas, mesmo uma teoria que tenha em devida conta todos os factos relevantes pode - no futuro - revelar-se falsa ou caduca. Isso, aliás, acontece constantemente nas ciências ditas «duras» (a física, a química, a biologia...). 

Mas, por que razão é que  - nas ciências ditas «moles» (psicologia, sociologia, economia...) - existe tanta teoria defeituosa, que apenas reflecte a visão ideológica do autor e nada mais? 

A minha resposta é que...

(a) nós temos uma enorme atracção (intuitiva?) por «leis», por regularidades, por algo que nos permita tornar inteligível a realidade caótica que nos rodeia.  

(b) enquanto nas ciências duras é possível desenvolver dispositivos experimentais credíveis, ou seja, em que uma ou poucas variáveis sejam feitas variar, mantendo as restantes constantes...nos sistemas que têm como palco a sociedade humana, isso é impossível; apenas podemos fazer abstracções que servem mais ou menos a nossa ânsia da tal regularidade. 

A exemplificar isso, cabe aqui um parêntesis sobre o conceito de «mercado livre»: os fundadores da teoria económica liberal, Adam Smith, David Ricardo, e outros, viam neste conceito uma figura do espírito, uma propriedade da sociedade ideal, que eles sabiam perfeitamente não existir. 

Porém, os seus sucessores trataram de transformar esta vista do espírito, esta «experiência teórica», num «facto». Agora, são capazes de dissertar horas a fio sobre a «liberdade» do mercado. Fazem-no, creio,  mais como mantra, que os identifica com uma dada corrente. O mesmo se passa noutros sectores, só que com outros conceitos, incluindo obviamente sectores anti-capitalistas de várias conotações. 

Nesta época, paradoxalmente, é pouco apreciada a liberdade de espírito, a independência de juízo: Aquilo que permite reconhecer que um pensador, com o qual discordamos em muitos aspectos, acertou em cheio num dado ponto... Era esta atitude muito mais frequente, quando a difusão do pensamento era feita ao passo pachorrento dos cavalos atrelados a uma diligência e não à velocidade da luz, como agora! 

Estou convencido que as leituras de autores clássicos, em História, Filosofia ou na Literatura de ficção, no Romance, possam trazer imenso prazer a leitores do século XXI, caso estes se debrucem sobre as tais obras exactamente como sendo (e são, na verdade!) minas de ouro de sabedoria e de reflexão acumuladas.

O «capital de saber» é imaterial e não está dependente linearmente da disponibilidade económica de cada um. 

Saibamos usar os aspectos positivos da era da Internet, das comunicações globais instantâneas, o que implica também usar filtros que permitam descartar a «palha», sem perdermos os bons frutos.

BOM ANO DE 2019!

Leia original aqui

O país do giroflé, giroflá

Há algumas décadas, o grupo português A Banda do Casaco gravou um tema repleto de sarcasmo: “O enterro do tostão”. Foi antes do fim do escudo. É do tempo em que a televisão não era a cores, mas a preto e branco e simbolizava, já então, a descrença com os sonhos nascidos em 1974. Cantava-se: “Ai venham todos, ai venham já, que este jardim está ao deus-dará, ai venham todos, ver como isto é, que este jardim anda ao giroflé”. Estávamos em 1978 e caminhávamos alegremente para a primeira intervenção do FMI em Portugal. Desde então o jardim, exceto nalguns momentos de fotossíntese, nunca deixou de estar ao deus-dará. O enterro do tostão era, na realidade, o dobrar dos sinos por todas as esperanças. Passadas décadas, Portugal não aprendeu nada. Este é um país que dança o giroflé e contenta-se com o giroflá. Portugal é um melancólico ‘Jardim da Celeste’.
Enterrou-se o tostão e, agora, soterram-se as ideias. O maior défice português é o do pensamento. Olhe-se à volta. Os dois melhores exemplos do país do giroflé são essa expressão gloriosa da nação: o eterno bardo Jaime Marta Soares, e o salário mínimo de 600 euros, paradigma da nossa pobreza face à Europa. O modelo português é, há séculos, o dos salários baixos. Alguém o tentou mudar? Pertencemos à Europa? Vivemos como sempre no mundo da ilusão e da sopa dos pobres envergonhada. O maior truque deste Governo foi fazer-nos acreditar que os coelhos magricelas da era da troika se tinham transformado em roliças lebres. Todos se sufocaram com a original notícia: sindicatos da função pública e partidos da oposição ou do apoio envergonhado ao PS. Na prática, o país continua a apertar o cinto. A época anunciada das “vacas gordas” (e voadoras) contaminou toda a gente e funcionou como o nosso Ícaro ternurento. Só que a “vaca voadora” aproximou-se demasiado do Sol e as asas começaram a arder. O jogo do “pega monstro” em que se transformou o trágico acidente do helicóptero do INEM mostra como este país está preso por fios. Os cidadãos têm razão para deixar de confiar no Estado: são demasiadas falhas para serem tapadas por uma peneira. Em vez de discutir seriamente qual a razão estrutural da falha do Estado em sucessivos acontecimentos, a elite política antecipa o Carnaval: está mais interessada em dominar o Conselho Superior do Ministério Público, com Rui Rio e Jorge Lacão a dançarem um tango mortal. Face aos problemas reais, alguns iluminados reagem com a compostura de galinhas desorientadas: correm em todas as direções. Toda a matéria orgânica é corroída pelo tempo. É o que está a acontecer à política nacional. Mas, pior, os seus guardiões não o percebem. Ou fingem que não.
Parece uma telenovela. Os episódios sucedem-se e o enredo não muda. Os deputados, a fazerem provas de admissão ao populismo pimba, decidiram transformar-se em farmácias ambulantes, legislando sobre as vacinas que os portugueses devem inocular, enquanto, em momentos pontualíssimos, se transformam, pelo dom da ubiquidade, em fantasmas no Parlamento. Tancos é já um seriado, vai no “Rambo 10” e quem sabe mais além; a incúria estatal que permite tragédias como a de Borba ou os incêndios periódicos é a norma; a montanha russa das greves que vão moendo a sociedade e que, um dia, a revoltarão, tornaram-se um hábito tóxico; a ferrovia continua a tentativa, sem comboios, de regressarmos ao transporte em carroças (e isso possa ser vendido aos estrangeiros como very tipical); a corrupção floresce como uma necessidade. Alguém discute que modelo de país queremos? Cavaqueamos sobre coisas avulsas. Porque o país é frágil como cristal: faltam comboios, enfermeiros, fiscais de obras, dinheiro para o SNS. Discutem-se locais de portos, mas é-se incapaz de criar um corredor ferroviário a partir de Sines para a Europa, a grande vantagem competitiva nacional no sector.
Em Portugal vive-se, por completo, o espírito “Black Friday”: depois de se ter implementado uma sociedade económica low-cost, instalou-se agora a política low-cost, num clima de cultura low-cost. Não custa entender que esta sociedade de saldos está a destruir a democracia. Transformados em consumidores, os cidadãos sobrevivem, num país de impostos sem fim, enquanto os serviços se degradam. O contrato social é hoje uma ilusão. Entre um défice quase zero, o “sucesso” do turismo e o pagamento da dívida ao FMI (substituída por outra igual, a juros mais baixos), a sociedade portuguesa definha. Tem-se retirado aos cidadãos a capacidade de alargarem o seu conhecimento e a sua capacidade crítica. Esta “nova pobreza” assemelha-se a uma “iliteracia” cada vez mais visível e que nos atira para modelos pré-revolução fordiana. Charles Dickens poderia regressar, porque a sua sociedade vergada à dívida, que descreveu em “Little Dorrit”, está aqui. Com a diferença que agora há telemóveis que só não nos dão a comida à boca. Há umas semanas, Hélia Correia dizia-nos que “os animais estão a acordar” e que “estamos a perder completamente a palavra”. Só os políticos portugueses não entendem que caminham alegremente sobre campo minado. Não é muito diferente do que Guerra Junqueiro dizia em 1890, ano de todos os perigos. Para ele, os partidos de então correspondiam ao estado da nação: “Fazem-me lembrar um homem que, numa feira, vendia vinho e vinagre na mesma pipa. O vinho saía por um lado e o vinagre por outro. A droga era a mesma.” Os políticos portugueses estão exaustos de ideias. E não percebem este novo mundo de fantasmas que se está a organizar: numa época em que os maiores recursos comerciais (ou políticos, porque ambas as áreas estão agora ligadas) são as próprias pessoas, como prova o Facebook, tudo é mercadoria no mundo dos algoritmos. É nesse pântano que se alarga, que as tolices de alguma da nossa classe política são afrodisíacos para quem empunhe a bandeira da alternativa radical. A política, como se sabe, é a suprema arte da ficção. O teatro, no seu limite. Por isso, por trás dos Trumps e dos Salvinis, está aquilo que Steve Bannon já entendeu: estamos no meio de uma guerra, pela hegemonia cultural. Bannon segue, por vias transversais, as teses de Antonio Gramsci. Sabe que a política tem que ver com a definição de uma identidade. E com a arte de criar emoções que soem autênticas.
Nesse aspeto, Portugal é uma flor à beira do precipício. Acorrentado, como desde há séculos, a uma dívida (pública e privada) que nunca desaparece, incapaz de acumular capital para investir, tendo desaparecido grande parte das grandes empresas de capital nacional com capacidade de internacionalização, tendo já privatizado quase tudo o que era público, com um sector financeiro em mãos externas, o país está a caminhar para uma fragmentação política (foi à esquerda e em 2019 será à direita). Quem lograr apresentar uma estética alternativa poderá vir a reinar neste terreno de cinzas e desesperos. A política será sempre uma luta entre o conflito e o pacto, entre a razão e a vingança. Ao tornar-se, como em Portugal, um show de duvidosa utilidade, está aberto o caminho para os espectadores votarem no personagem mais vistoso. E é assim que desaparecem as democracias.
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OS QUE ESTÃO POR DENTRO JÁ SE PREPARAM PARA A CRISE

No imobiliário, tal como noutros mercados, há quem esteja discretamente a desfazer-se de activos[1], demasiado arriscados... 

Como para cada venda há um comprador, interessa saber quem são os compradores? 

- Estes são, em grande maioria, os actores institucionais... Ou seja, o grande público afinal, indirectamente, que pôs suas economias nos fundos de pensões, etc. e nem suspeita do que andam a fazer com o seu dinheiro. 

São pessoas pobres e da classe média, que contam com o dinheiro de suas pensões e de instrumentos de poupança. Esse dinheiro simplesmente não vai existir quando for mais necessário. São eles que vão levar pela medida grande, quando vier a crise. 

Todos os grandes actores sabem que a crise está aí, mas não vos dirão isso, nem mostrarão qualquer preocupação em público. 

Porém, os seus actos falam mais alto: eles estão a precaver-se[2], ao venderem os activos mais arriscados, a comprar metais preciosos e outros activos não financeiros sub-cotados.                            imageOs que embarcaram na bolha especulativa das cripto-moedas[3] estão encerrados numa espiral descendente. Muitos, desde 2017, acumularam perdas da ordem de 80%.                            image

A inflação (a hiper-inflação, no fim) é a «saída» para os Estados e as empresas sobre-endividados. É a ruína para as pessoas pobres e da classe média.

QUANDO OUVIR A EXPRESSÃO «THE GREAT RESET», PENSE QUE SE TRATA DA MAIOR TRANSFERÊNCIA DE RIQUEZA EM TODA A HISTÓRIA, DOS MAIS POBRES EM DIRECÇÃO AOS MAIS RICOS.

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Análise: Oriente acumula ouro enquanto Ocidente mantém 'otimismo sem sentido'

Barras de ouro
© Sputnik / Oleg Lastochkin

Nos últimos três meses, os bancos centrais de todo o mundo adquiriram mais de 148 toneladas métricas de ouro, 22% mais do que no mesmo período do ano passado, segundo os dados do Conselho Mundial do Ouro. A Rússia, Turquia, Cazaquistão, Índia. Polônia e Hungria foram os líderes entre os compradores do metal precioso.

Enquanto as razões que empurram a Rússia, Turquia e outros países que enfrentam sanções de Washington a comprar mais ouro parecem claras, o consultor em metais preciosos Claudio Grass explicou ao canal russo RT por que outros países estão acumulando suas reservas desse metal.


Em primeiro lugar, o especialista sublinha que a motivação principal que impulsiona alguém a se tornar proprietário de ouro físico é "recuperar a independência e a soberania" perante a dissociação de "um sistema financeiro que é insustentável". Neste sentido, o analista lembrou que muitos bancos entendem que o ouro oferece uma das garantias mais confiáveis "em tempos de turbulência econômica".

O analista russo Dmitry Lekukh, partilha a mesma opinião. Para ele, a imprevisibilidade da política atual de Washington é evidente e os países que podem enfrentar sanções estadunidenses querem cobrir seus riscos.

"E além disso, a realização de uma política de protecionismo e reindustrialização tão dura em meio a uma instabilidade política interna que não é menos evidente é sempre uma coisa muito perigosa", disse Lekukh à Sputnik, acrescentado que nesse caso os EUA poderiam enfrentar uma nova crise financeira e a desvalorização do dólar.

Quanto à Polônia e Hungria, Grass lembrou também sua tensão com a UE em relação às políticas migratórias que, segundo Grass acredita, só irão crescer no futuro.


Segundo Grass, depois de ter "vivido sob o comunismo até cerca de 25 anos atrás", agora esses países da Europa Oriental "se opõem ao poder centralizado, especialmente quando vem de Bruxelas". Seus bancos centrais "não são cegos perante as crescentes tensões com a UE e os sérios riscos de uma nova escalada", explicou o analista, que considera sua estratégia de comprar ouro como "razoável".

Perante essa visão sensata do Oriente, o especialista destacou "a complacência e o excesso de confiança" da abordagem do Ocidente, onde o realismo "perdeu perante um otimismo sem sentido, colocando o Oriente em uma vantagem considerável durante a próxima crise econômica".

O analista citou as palavras do jornalista britânico William Rees-Mogg: "Os governos mentem, os banqueiros mentem, até os auditores às vezes mentem: o ouro diz a verdade."

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/economia/2018110412597311-russia-compra-ouro-turquia-india/

Economista que previu crise de 2008 avisa sobre bolha em toda a economia dos EUA

Wall Street
© AP Photo / Jin Lee

Wall Street e a economia dos EUA estão à beira de uma recessão, disse o CEO da corretora de valores Euro Pacific Capital, Peter Schiff, comentando a forte queda das bolsas norte-americanas desta semana.

"Há uma bolha não apenas no mercado de ações, mas em toda a economia", disse o financista ao canal Fox News. Schiff prevê uma recessão, acompanhada pelo aumento dos preços ao consumidor, que seria "muito mais dolorosa" que a Grande Recessão de 2007-2008.

"Acho que os norte-americanos vão perder os seus empregos, assistirão ao aumento dramático do custo de vida, e isso vai ser particularmente doloroso", disse ele.


As bolsas norte-americanas fecharam em queda na quarta e quinta-feira. Os dois principais índices bolsistas dos EUA, Dow Jones Industrial Average e S&P 500, atingiram o menor nível desde fevereiro.

O presidente dos EUA, Donald Trump, disse que a Reserva Federal (Fed, banco central dos EUA) é o responsável pela queda nas bolsas devido à sua política de aumento de taxas de juro. Trump declarou que a Reserva Federal está “enlouquecendo”.

Schiff está de acordo que as ações da Reserva Federal são irracionais e que, aumentando as taxas de juro, o banco central está contribuindo para o crescimento da bolha financeira na economia dos EUA. Ele apontou também que a bolha atual é a maior desde a de 2008.

 

 

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na sequinte ligação::

https://br.sputniknews.com/economia/2018101412435152-eua-economia-bolha-crise-queda-wall-street-dow-jones/

O QUE ACONTECEU NA CRISE DE 2008 E NO «SALVAMENTO» DO SISTEMA

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Nomi Prins[1] é uma autora muito importante, cujos livros são «best sellers»[2] (merecidamente). 
Ela explica nesta entrevista com Chris Hedges, com imensa clareza, o que se passou e ainda passa,  aquando do «salvamento» em 2008, da banca pelos governos e bancos centrais: 
Como é que a criação de «dinheiro grátis» (o famoso «quantitative easing») para as grandes instituições bancárias, foi - na realidade - um gigantesco imposto sobre todos nós, o povo, os produtores. 
Esclarece também como isso está relacionado com as políticas de austeridade impostas, sobretudo nos países mais frágeis, como o Brasil e os membros da UE da Europa do Sul. 

A próxima depressão será muito mais séria que a de 2008 - segundo Nomi Prins - por causa dos muitos triliões criados a partir de nada e que se mantêm nos livros de contas dos bancos centrais. Estes ficaram com os activos podres que os bancos comerciais tinham acumulado e emprestaram-lhes triliões, a juro virtualmente zero. 
O efeito dessas operações foi uma transferência maciça e concentração brutal de riqueza nas mãos dos que já eram muito ricos . 

Leia original aqui

Como guerras comerciais podem afetar início da 'supercrise' prognosticada para 2020

Bolsa de valores de Nova York (foto de arquivo)
© AP Photo / Richard Drew

O banco de investimentos JPMorganChase afirma que em 2020 o mundo se confrontará com graves perturbações econômicas, chamando-as de "supercrise". Uma colunista da Sputnik analisa em que é que um prognóstico tão tenebroso se baseia e qual é a probabilidade de ele se vir a realizar.

Sabe-se que, dez anos atrás, o colapso do maior banco de investimentos no mundo, o Lehman Brothers, provocou uma crise financeira global que resultou em uma recessão prolongada, relembra Natalia Dembinskaya. A partir de então, os especialistas em finanças não param de formular diferentes modelos econômicos tentando prognosticar os prazos e avaliar a envergadura do colapso econômico seguinte, bem como definir o caráter cíclico destes eventos.


O JPMorgan Chase fez sua própria avaliação — segundo seus prognósticos, devemos esperar o colapso já em 2020. Na análise foram tomados em consideração tais índices como a duração do período de crescimento econômico e da queda ulterior, a correlação entre recursos próprios e emprestados nas grandes empresas, o preço dos ativos e os níveis de desregulação e inovações financeiras, explica a autora.

Espera-se que a queda prevista no mercado de ações não seja tão grande como nos anos 2007-2008, pois o preço dos ativos nos países em desenvolvimento hoje em dia é muito mais baixo do que na época.

Razões da provável crise

Em opinião de Marko Kolanovic, especialista em estratégia de investimentos do JPMorgan Chase, as perturbações no mercado de ações surgirão devido ao excesso de fundos de índice (ETF), de investimento e de outros fundos geridos de modo passivo, bem como devido às estratégias de comércio computorizadas. Assim, explica o analista, a falta de investidores ativos vai resultar em que ninguém comprará os ativos mesmo com preço reduzido.

Além disso, o banco chama a atenção ao fato de a liquidez no mercado de ações estadunidense estar a um nível cerca de dois terços mais baixo que antes da crise de 2008.

"Os eventos que começaram no mercado em 2008 levaram a uma perturbação grave na liquidez, o que pode ser uma particularidade-chave da próxima crise", dizem os analistas do banco.

Outro fator desestabilizador é a mudança na estrutura do mercado de créditos hipotecários, já que a cota-parte de empréstimos hipotecários não bancários cresceu até 80%, enquanto antes da crise de 2008 era só de 20%.

Influência das guerras comerciais

Em uma entrevista ao canal CNBC, o analista Marko Kolanovic assegurou que a probabilidade da crise estourar na segunda metade de 2019 é bastante baixa. A dinâmica do seu desenvolvimento vai depender, particularmente, da rapidez do aumento das taxas de juros estabelecidas pelo Sistema de Reserva Federal dos EUA. Quanto à discutida guerra comercial com a China, esta pode tanto aproximar quanto adiar a crise, acredita Kolanovic.

De acordo com os analistas, a situação de hoje se parece muito com a criada duas décadas atrás, quando os investidores saíam massivamente dos títulos de dívida emitidos pelas economias em desenvolvimento.

Enquanto isso, outro banco estadunidense, o Bank of America, considera a política cada vez mais protecionista de Washington como uma ameaça à estabilidade econômica internacional. As guerras comerciais causam danos colossais ao comércio internacional, afetando os preços e o acesso aos produtos das redes de fornecimento, o que desfere um "golpe duro" contra a economia global, assinala Natalia Dembinskaya.

Por exemplo, o famoso economista e banqueiro estadunidense James G. Rickards assinala que atual ascensão da economia norte-americana e europeia pode acarretar um enorme colapso nas bolsas, parecido com o de 1929. Neste caso, uma recessão prolongada em todo o mundo é inevitável.

Abalos sociais

O banco JPMorgan Chase adverte que, ao contrário da crise de 2008, o eventual colapso de 2020 acarretará distúrbios sociais de grande envergadura, particularmente no que se trata dos próprios EUA. Isso não acontece há meio século, desde o ano de 1968.

De acordo com Marko Kolanovic, essa probabilidade está diretamente relacionada com a web e as redes sociais, onde se formam diversos grupos de interesses, enquanto os eventos políticos, tais como as presidenciais estadunidenses de 2016 e o Brexit, ainda jogam lenha na fogueira.

Os analistas frisam que, caso os bancos centrais consigam evitar a brusca queda dos preços dos ativos, provavelmente a situação não terá um caráter tão dramático. Caso contrário, a humanidade enfrentará a depressão econômica, distúrbios sociais e "mudanças ainda mais devastadoras".

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na sequinte ligação::

https://br.sputniknews.com/economia/2018092412282757-crise-financeira-mercado-acoes-bolsa/

Desvendado o Mistério da Falência do Lehman, um “Too Big To Fail”

“Who let Lehman Brothers get so big, who let it fail, and why…” 

Dez anos depois, da queda de um “too big to fail”… O “mistério dentro de um enigma” da queda que mudou o mundo é aqui revelado e muito bem explicado por Shah Gilani. Com nomes, datas, locais e outros pormenores. Ou, “teaser”, como a Goldman arrumou a Lehman…

Afirma Gilani:

Ten years ago, on September 15, 2008, Lehman Brothers Holdings Inc. failed in spectacular fashion. The implosion of the $600 billion in assets investment bank immediately triggered the financial crisis, which led directly to the Great Recession. But none of that had to happen. Lehman could have been saved or, at least, slowly and systematically unwound. The financial crisis could have been averted, and the Great Recession should never have happened. Those events happened for good reasons in hindsight. Not good for you, me, the economy, or America, but good for the re-shaping of political and banking powers who benefited from what they let happen.”

Wall Street Insights & Indictments: Ten Years On: Who Let Lehman Brothers Fail?

Imperdível!

Exclusivo Tornado / IntelNomics

Ver artigo original em "O TORNADO"

Crise? Qual crise?

Os urubus já anunciaram nova crise. O que quer dizer que está a ser preparada, evidentemente.

Recordemos: a crise de 1929 foi devido – dizem – o excesso de produção, e a de 2008 – dizem, e é mentira que foi uma bolha imobiliária. A verdade foi a avalanche incontrolável de hipotecas sobre verdadeiras ruínas e barracões.

As 2 crises tiveram soluções idênticas: investimento público, o Estado abriu os cordões à bolsa e lá salvou os especuladores e os Bancos “que eram tão grandes que não podiam falir”. Ou seja, os que passaram sempre a vida amaldiçoar o Estado ladrão e incompetente, acabaram de mão estendida a pedir esmola do INIMIGO! que pouca vergonha!

E ainda: não deixa de ter piada que os motivos das crises tenham sido sempre as jogadas perversas do capital com as mui competentes fugas ao fisco em direcção a off-shores e Banca secreta…

Afinal, as crises não foram por causa de aumentos de salários ou de reformas, de investimentos na saúde, na educação, nos transportes, na Ciência, na Cultura… os alvos sistemáticos destas quadrilhas de ditos “empresários”.

O grave da situação é que continuamos a ser atacados por um menino rico vaidoso, inútil, arrogante e impune. Que dá pelo nome de Estados Unidos da América.

Melhor, para poupar os milhões de pessoas que sofrem nesse país… e que estão na mão da industria militar, da ideologia belicista, do racismo, das secretas CIA e FBI em conluio desde sempre com a Máfia.

Ver artigo original em "O TORNADO"

Nos 10 anos da crise financeira de 2018, analista americano prevê sua repetição

Wall Street
© AP Photo / Jin Lee

A crise financeira mundial de 2008, que no dia 15 de setembro completa 10 anos, pode vir a se repetir devido a uma dívida corporativa e soberana inflada, à perda de confiança dos investidores, bem como às empresas de nova vaga, que não conhecem os princípios de funcionamento do "mercado urso".

Foi isso que afirmou à Sputnik o economista sênior da agência analítica Smith’s Research & Gradings, Scott MacDonald.

Na madrugada do dia 15 de setembro de 2008, o banco Lehman Brothers, considerado na época o quarto maior banco de investimentos dos EUA, declarou sua falência e pediu a proteção aos credores. Este evento marcou a crise financeira mundial, que subsequentemente virou uma recessão global. Geralmente, seu surgimento é explicado por vários fatores, entre eles a ciclicidade do desenvolvimento econômico e a crise no mercado hipotecário dos EUA em 2007.

MacDonald acredita que a crise pode vir a se repetir. "É triste, mas é um fato: haverá sempre outra crise. Nós, provavelmente, não iremos ver uma sequência de falências de bancos hipotecários e aquilo que se seguiu. Contudo, nós acumulamos uma grande dívida externa, a dívida soberana está crescendo tanto nos EUA, como no Reino Unido, Japão e Itália, e não tem como frear este processo", assinalou o analista.

"Além disso, as corporações nos mercados emergentes acumularam grandes dívidas, e, quando as taxas sobem, estas ficam ainda mais pressionadas. O fator-chave para o crescimento do mercado é a confiança dos investidores. Agora mesmo esta confiança está baseada no crescimento rápido da economia norte-americana, em que acordos comerciais podem ser fechados e que os investidores continuarão financiando o déficit orçamental norte-americano", acrescentou Mcdonald.

Não obstante, segundo ele, esta confiança pode ser abalada caso as "guerra comerciais fiquem fora do controle e a política de austeridade quanto às taxas do Sistema de Reserva Federal dos EUA complique o acesso ao financiamento, neste caso pode surgir a grave ameaça de uma nova crise, similar à de 2008", apontou o analista.

"A próxima crise, provavelmente, será diferente, talvez seja relacionada às novas tecnologias e instituições financeiras não bancárias, muitas das quais são dirigidas por gerentes jovens ousados e corajosos, que nunca participaram de um verdadeiro mercado urso [mercado em baixa, com preços de ativos em queda e com o pessimismo onipresente se tornando autossustentável]", ressaltou.

Ver o original me 'Sputnik Brasil' na sequinte ligação::

https://br.sputniknews.com/economia/2018091512213788-crise-financeira-mundial-eua-previsao/

Crime sem culpados

Cumprem-se hoje dez anos sobre a data da falência do Lehmans Brothers, numa semana que se iniciara com a notícia da intervenção do Tesouro norte-americano nas duas principais instituições financiadoras do crédito hipotecário naquele país…

… o FANNIE MAE (Federal National Mortgage Association) e o FREDDIE MAC (Federal Home Loan Mortgage Corporation), as duas empresas privadas que operam, sob mandato público, como financiadores de bancos e outras empresas financeiras que concedem créditos hipotecários; classificadas entre as too big to fail (expressão utilizada na terminologia económica anglo-saxónica para designar as empresas que pela sua enorme dimensão e importância no mercado não poderão falir), que viram abertos os cofres públicos para as salvar, e aos seus accionistas, da falência. Esta intervenção e a posterior falência do Lehman Brothers foram a confirmação de que a crise financeira iniciada pelo rebentamento da bolha do subprime estava para durar, de que se desconheciam as ondas de choque e sem qualquer vislumbre que algo de semelhante não se pudesse repetir.

Quem na época pensou que após o apoio governamental às negociações que conduziram à entrada dos chineses do CITIC no capital do MORGAN STANLEY, à aquisição do BEAR STEARNS pelo JP MORGAN e a do MERRILL LYNCH pelo BANK of AMERICA a crise poderia estar minimizada, terá sofrido uma profunda desilusão quando o Tesouro americano anunciou a intervenção no FANNIE MAE e no FREDDIE MAC (no montante conjunto de 200 mil milhões de dólares) e se respirou com algum alívio à decisão da administração Bush de não contrariar a falência do LEHMAN BROTHERS, confiando nas virtualidades do mercado para resolver e absorver os efeitos da turbulência, que grande decepção terá sentido com a posterior necessidade de mais uma intervenção, agora na seguradora que liderava o mercado mundial de seguros e serviços financeiros, a AIG, e no montante de 85 mil milhões de dólares).

E este cenário não se limitou ao mercado norte-americano, pois também o sistema financeiro inglês, fortemente atingido pela excessiva especulação imobiliária, assistiu à nacionalização do NORTHERN ROCK e à compra apressada do HBOS (HALIFAX BANK OF SCOTLAND) pelo LLOYDS TSB.

É que se os primeiros sinais de fragilidade do sector bancário pareceram de fácil resolução (o FED e outros bancos centrais não pararam de injectar biliões de dólares nos mercados interbancários, enquanto iam ajustando as taxas na expectativa de atenuar a quebra de confiança que grassava naqueles mercados) o seu contágio para o sector segurador veio dar maior credibilidade aos cenários mais negativos e confirmar que se a origem da crise podia ser imputada à falência do mercado do subprime norte-americano, o seu desenvolvimento e aprofundamento deveu-se principalmente ao mercado de incomensurável risco que constituem a profusão dos sofisticados produtos derivados que as empresas financeiras criaram e com os quais inundaram um mercado alheio às respectivas características e incapaz de avaliar (e prevenir) os riscos associados.

A miscigenação entre activos com níveis de risco muito díspares, a falta de know how de muitos dos operadores que negoceiam estes produtos e uma quase total ausência de escrúpulos (em grande parte determinada pela absurda regra da sobrevalorização dos resultados de muito curto prazo e do pagamento de chorudos prémios aos quadros superiores) por parte dos responsáveis pelas principais entidades financeiras, facilitada pela ausência de regulamentação destes mercados, terá estado na origem do efeito de contágio e de expansão da crise iniciada no mercado do subprime.

A grande sofisticação deste tipo de produtos financeiros e a sua difusão como se de um produto de cobertura de risco se tratasse, originou uma rápida e vasta dispersão pelas contas de quase todos os bancos por esse mundo fora. Mesmo quando se ouviram ou leram declarações de políticos e de administradores de bancos que asseguravam a reduzida exposição das suas economias (e das entidades financeiras que nelas operam) àquele tipo de produtos deveriam ter sido recebidas com as devidas reservas, na medida em que continuavam por apurar os montantes envolvidos naquelas transacções e, inclusive, quais os instrumentos financeiros que integravam ou não os activos daquele tipo.

A regulamentação mais rigorosa, anunciada em Novembro de 2008 na 1ª Cimeira do G20, continua por implementar com a profundidade necessária para por cobro ao absoluto desmando que a crise revelou, em resultado da legislação aprovada em 1999 pela administração Clinton (o Financial Services Modernization Act) que em nome da necessidade de maior concorrência entre as empresas financeiras (bancos e sociedades de investimento) e na defesa dos interesses dos bancos americanos face aos rivais estrangeiros, tidos como menos sujeitos a regulação, revogou o Glass-Steagall Act de 1933 (lei da actividade bancária) que, no rescaldo da Grande Crise de 1929-1933, tinha imposto a separação entre a actividade bancária comercial e a banca de investimento, e para recuperar os valores de confiança e ética num sector de actividade que nunca deveria ter sobrevivido a expensas do sacrifício dos contribuintes, que a avaliar por uma estimativa da época da Reserva Federal norte-americana custou entre os 6 e os 14 biliões de dólares.

A recuperação daqueles valores não se deveria resumir à separação de actividades que garantam maior segurança aos depositantes, mas alargá-la ao conjunto do sistema financeiro e em especial aos sectores mais permissivos a tentações especulativas, tanto mais que até agora o pouco que mudou naquele sistema não passou de mera cosmética e em reacção à retórica política mais inflamada. Mais correcto seria realmente reconhecer que nada mudará enquanto se garantir ao sector financeiro a permanente disponibilidade de fundos públicos para as recapitalizações necessárias para cobrir os prejuízos resultantes da especulação, que continua a ser incentivada e premiada pela atribuição de grandes bónus aos principais intervenientes.

Tudo isto quando a generalidade da banca mundial sobrevive mediante uma quase caridade pública (os famigerados resgates sustentados num duvidoso conceito de risco sistémico, como sucedeu em Portugal com o BPN, o BPP, o BANIF e o BES) que foi a grande responsável pelo agravamento do endividamento público e pelas políticas de austeridade que se seguiram, apresentadas pelos políticos como indispensáveis, para agradar aos credores que são afinal os mesmos bancos ou os seus proprietários. Tudo isto quando ainda poucos abordam os problemas das economias debilitadas pela recessão económica sem trazer à primeira linha de argumentação as dificuldades de liquidez originadas pela retracção no crédito bancário, como se fosse lógico e natural que empresas e famílias vivam fortemente dependentes do crédito e não dos ganhos (lucros e salários) das respectivas actividades, continuando a insistir no absurdo princípio da superioridade de um modelo económico que, impondo um sistema de globalização dos mercados, conduziu a um enriquecimento desmedido dos capitais transaccionais enquanto condenou o trabalho e os capitais locais ao empobrecimento absoluto e direccionou o Mundo para uma situação de quase apocalipse.

Continua evidentemente a faltar um debate sobre o futuro modelo de regulação financeira e por maioria de razões um outro ainda mais importante: a definição de um novo papel para o sistema financeiro, forçando a separação entre as actividades bancárias clássicas (recolha de fundos e respectiva aplicação na actividade creditícia) e as novas vertentes puramente especulativas, modelo que deveria ter como principal garantia para que a futura actividade financeira se resuma ao financiamento da economia e para que a compulsão para a tomada de riscos seja minimizada, o indispensável regresso da capacidade de criação de moeda à esfera pública, limitando essa capacidade do sector financeiro ao mínimo indispensável aos níveis de liquidez saudável e nunca aos níveis de alavancagem que têm sido registados.

Mas as hesitações e tergiversações dos principais líderes mundiais não auguram para breve qualquer alteração radical no modelo de organização e funcionamento do sector financeiro, tornando cada vez mais seguros os proféticos avisos sobre a aproximação de novas crises, inevitáveis num dos mais iníquos sistemas de concentração da riqueza geral nas mãos de um reduzido grupo de grandes financeiros.

Ver artigo original em "O TORNADO"

O PÚBLICO ESTÁ A SER MACIÇAMENTE CONDICIONADO PARA UMA GUERRA

Authors: in Manuel Banet, ele próprio

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A loucura do império anglo-americano é mais aparente do que real: segundo George Galloway[1] ela obedece a uma lógica. Esta loucura será do tipo «frio», ou seja, dos sociopatas que os chefes têm demonstrado ser.

Entretanto, a criminalização da Rússia prossegue, tendo o coro da imprensa «mainstream», como prostituta de serviço, feito tudo para que o público esteja completamente informado sobre quão «mau» é Putin e o seu regime!

Mas nenhuma encenação é perfeita e a cadeia de televisão russa RT conseguiu desmascarar um pseudo ataque, que tinha sido preparado pelos «White helmets» (supostamente humanitários, na realidade, membros do ramo da Al Quaida síria). Preparavam-se para fabricar outro falso ataque químico, em coordenação com John Bolton, o neocon que fanfarronou que «um novo ataque da Síria com armas químicas iria receber outra resposta».

Pergunta-se, face à completa montagem, absurda e inverosímil, do envenenamento dos Skripal e da atribuição do mesmo a agentes russos[2], o que não poderão os anglo-americanos tramar numa situação realmente impossível de avaliar, pelo menos no curto prazo, como o cenário da guerra na Síria[3]

O verdadeiro motivo da reviravolta da administração Trump em relação à Síria tem a ver com a chantagem exercida pelos lobbies dos sionistas e do armamento em Washington.

Em troca de não concretizarem a ameaça de impeachment (um bluff, porque realmente não existe base legal, jurídica, para o fazer) querem obrigá-lo a inflectir a sua política externa, que inicialmente se caracterizava por uma retirada das tropas e conselheiros dos vários teatros de guerra em que os EUA se envolveram nos mandatos dos dois anteriores presidentes, tendo para isso que realizar um apaziguamento com os russos, para conseguir um grau mínimo de coordenação, aquando das retiradas da Síria e do Afeganistão. É este plano estratégico que os neocon (todos eles notórios pró-sionistas) que dominam desde há duas décadas, pelo menos, os meandros da política externa do Império, tinham de sabotar.

Não se pode saber agora - a 12 de Setembro 2018 - qual o resultado dos esforços de uns e de outros. Se houver um apaziguamento e a operação de limpeza de Idlib for coroada de sucesso, sabemos que em Washington prevaleceu a linha fiel ao desígnio inicial de Trump. Se houver uma escalada, com um crescendo de agressividade verbal de lado a lado, seguido eventualmente de um «incidente», seja ele uma acção de «falsa bandeira» ou não, e uma confrontação generalizada,então os neocon venceram.

Chamo a atenção para as análises de pessoas corajosas e lúcidas, como Paul Craig Roberts[4], sobre o funcionamento do poder em Washington: eu não estou especulando, estou a fazer uma síntese de informações sobre assuntos que acompanho. 

Com esta divulgação de dados e  o desmascarar das manobras espero contrariar a narrativa permanente que a media corporativa tem despejado.
 A perda completa de objectividade, a propaganda de tipo «Big Brother» (Orwell), é que me faz crer que a guerra esteja iminente. É que as guerras modernas são precedidas por salvas de propaganda mortífera, antes de haver salvas de artilharia.

Leia original aqui

Retrato dos EUA à espera do colapso

Dominação financeira. Desigualdade. Serviços públicos devastados. Assim se desfaz a “democracia” que inspirou as elites do Ocidente por cem anos. Trump — não se iluda — é só um sintoma


 

Por Chris Hedges, no Truthdig | Tradução: Inês Castilho| Imagem: Mr Fish

O governo Trump não emergiu, prima facie, como Vênus numa meia concha do mar. Donald Trump é o resultado de um longo processo de decadência política, cultural e social. É produto da falência da democracia norte-americana. Quando mais o país mantiver a ficção de que é uma democracia que funciona, de que Trump e as mutações políticas à sua volta são de alguma forma um desvio aberrante que pode ser vencido nas próximas eleições, mais nos se precipitará em direção à tirania. O problema não é Trump. É um sistema político dominado pelo poder corporativo e mandarins dos dois principais partidos políticos, para os quais a sociedade não conta. Só será possível recuperar o controle político desmantelando o estado corporativo, e isso significa desobediência civil maciça e contínua, como aquela demonstrada neste ano por professores de todo o país. Se não nos levantarmos, entraremos numa nova idade das trevas.

O Partido Democrata, que ajudou a construir nosso sistema de totalitarismo invertido, é uma vez mais tido como o salvador por muitos no campo da esquerda. Isso, apesar de o partido recusar-se firmemente a enfrentar a desigualdade social que levou à eleição de Trump e à insurgência de Bernie Sanders. Ele é surdo, mudo e cego ao sofrimento real que flagela metade do país. Não lutará para pagar aos trabalhadores um salário digno. Não derrotará a indústria farmacêutica e a de seguros para propiciar cuidados de saúde para todos. Não conterá o apetite voraz das forças armadas, que estão eviscerando o país e promovendo a instauração de guerras estrangeiras fúteis e caras. Não irá restaurar nossas liberdades civis perdidas, incluindo o direito à privacidade, à liberdade da vigilância governamental e ao devido processo legal. Ele não vai expulsar da política o dinheiro sujo e corporativo. Não vai desmilitarizar a polícia e reformar um sistema prisional que tem 25% dos prisioneiros do mundo, embora os Estados Unidos tenham somente 5% da população mundial. Ele atua para as margens, especialmente em épocas eleitorais, recusando-se a abordar problemas políticos e sociais substantivos, e focando, ao contrário, em questões culturais limitadas como direitos dos homossexuais, aborto e controle de armas, em nossa espécie peculiar de antipolítica.

Essa é uma tática condenada, mas compreensível. A liderança do partido, os Clinton, Nancy Pelosi, Chuck Schumer, Tom Perez são criações da América corporativa. Num processo político aberto e democrático, não dominado pelas elites partidárias e pelo dinheiro corporativo, essas pessoas não teriam poder político. Elas sabem disso. Iriam antes implodir o sistema inteiro que abrir mão de suas posições privilegiadas. E isso, temo, é o que irá acontecer. A ideia de que o Partido Democrata é de algum modo um baluarte contra o despotismo desafia suas atividades políticas nas últimas três décadas. Ele é a garantia do despotismo.

Trump explorou o ódio que enormes segmentos da população norte-americana têm de um sistema político e econômico que os traiu. Trump pode ser inepto, degenerado, desonesto e narcisista, mas ridiculariza habilmente o sistema que estes vastos segmentos desprezam. As provocações cruéis e humilhantes que dirige às agências governamentais, leis e elites do establishment ecoam junto às pessoas para quem essas agências, leis e elites tornaram-se forças hostis. E para muitos que não veem na paisagem política nenhuma mudança para aliviar seu sofrimento, a crueldade e os insultos de Trump são pelo menos catárticas.

Como todos os déspotas, Trump não tem fundamentos éticos. Escolhe seus aliados e nomeados com base na lealdade pessoal e bajulação obsequiosa que lhe fazem. Ele trai qualquer um. É corrupto, acumula dinheiro para si mesmo – no ano passado fez 40 milhões de dólares somente em seu hotel de Washington – e para seus aliados das corporações. Está desmantelando as instituições governamentais que proporcionaram, um dia, alguma regulação e supervisão. É um inimigo da sociedade aberta, o que o torna perigoso. Seu ataque turbinado aos últimos vestígios de instituições e normas democráticas significa que em breve não haverá nada, nem mesmo nominalmente, para nos proteger do totalitarismo corporativo.

Mas as advertências dos arquitetos de nossa democracia fracassada contra o fascismo rasteiro, entre elas a de Madeleine Albright, são de fazer rir Elas mostram o quão desconectadas do zeitgeist tornaram-se as elites. Nenhuma dessas elites tem credibilidade. Elas construíram o edifício de mentiras, enganações e pilhagem corporativa que tornou Trump possível. E quanto mais Trump ridiculariza essas elites, e quanto mais elas gritam como Cassandras, mais ele preserva sua presidência desastrosa e permite que os cleptocratas saqueiem o país, em rápida desagregação.

A imprensa é um dos principais pilares do despotismo de Trump. Ela tagarela infinitamente, como cortesãos do século 18 na corte de Versalhes, sobre as fraquezas do monarca, enquanto os camponeses não têm pão. Divaga sobre temas vazios, como a intromissão russa e um suborno a uma atriz pornô, que nada têm a ver com o inferno diário que, para muitos, define a vida nos EUA. Recusa-se a criticar ou investigar os abusos do poder corporativo, que destruiu nossa democracia e economia e orquestrou a maior transferência de riqueza, em favor dos mais ricos, da história do país. A imprensa corporativa é uma relíquia deteriorada que, em troca de dinheiro e acesso, cometeu suicídio cultural. E quando Trump a ataca com “fake news” ele expressa, uma vez mais, o ódio profundo de todos aqueles que ela ignora. A imprensa adora o ídolo de Mammon tão servilmente quanto Trump. Ela ama a presidência do reality show. A imprensa, especialmente o noticiário a cabo, mantém luzes acesas e câmeras rodando de modo que os espectadores fiquem colados a uma versão século 21 do “Gabinete do Dr. Caligari”. Isso é bom para os índices de audiência. É bom para os lucros. Mas acelera o declínio.

Tudo isso logo será agravado pelo colapso financeiro. Desde a crise financeira de 2008, os bancos de Wall Street receberam do Federal Reserve e do Congresso 16 trilhões de dólares em resgates e outros subsídios, com juros de quase zero por cento. Eles usaram esse dinheiro, assim como o dinheiro poupado pelos enormes cortes de impostos instituídos no ano passado, para recomprar suas próprias ações, aumentando a remuneração e os bônus de seus gerentes e empurrando a sociedade mais fundo para a servidão de uma dívida insustentável. Só as operações do cassino de Sheldon Adelson tiveram uma isenção fiscal de 670 milhões de dólares na legislação de 2017. A proporção média entre o que é pago a um presidente de empresa e a um trabalhador é agora de 339 para 1, com a maior diferença aproximando-se de 5.000 para 1. Esse uso circular de dinheiro para fazer e acumular dinheiro é o que Karl Marx denominava “capital fictício”. O aumento constante da dívida pública, da dívida corporativa, da dívida de cartão de crédito e da dívida de empréstimos estudantis acabará por levar, como escreve Nomi Prins, a um “ponto de inflexão – quando o dinheiro que entra para suprir essa dívida, ou disponível para empréstimo, simplesmente não cobrirá o pagamento dos juros. Então, as bolhas da dívida irão estourar, começando pelas ações de maior rendimento”.

Uma economia que depende da dívida para seu crescimento faz com que a taxa de juros salte para 28% quando alguém atrasa um pagamento do cartão de crédito. Essa a razão porque os salários estão estagnados ou foram reduzidos em termos reais – se a população tivesse um rendimento sustentável não seria obrigada a pedir dinheiro emprestado para sobreviver. É por isso que uma educação universitária, casas, contas médicas e serviços públicos custam tanto. O sistema é projetado para que nunca possamos nos libertar das dívidas.

Contudo, a nova crise financeira, como aponta Prins em seu livro “Collusion: How Central Bankers Rigged the World” (“Conluio: Como os banqueiros centrais controlaram o mundo”) [baixar livro aqui:  pdfCollusion How Central Bankers Rigged the World Nation Books, Hachette (2018)(3.23 MB)], não será como a última. Isso porque, como ela diz, “não há Plano B”. As taxas de juros não podem ser mais rebaixadas. Não houve crescimento na economia real. Na próxima vez, não haverá saída. Quando a economia quebrar e a raiva explodir, em todo o país, numa tempestade de fogo, surgirão os políticos bizarros, aqueles que farão Trump parecer inteligente e benigno.

E então, para citar Vladimir Lenin, o que fazer?

Precisamos investir nossa energia na construção de instituições paralelas, populares, para proteger-nos e empregar poder contra poder. Essas instituições paralelas, inclusive sindicatos, organizações de desenvolvimento comunitário, de moeda local, partidos políticos alternativos e cooperativas de alimentos terão de ser construídas de cidade em cidade. As elites, num tempo de dificuldade, irão retirar-se para seus condomínios fechados e deixarão que nos viremos por nós mesmos. Os serviços básicos, da coleta de lixo ao transporte público, distribuição de alimentos e assistência médica, entrarão em colapso. O desemprego e subemprego massivo, desencadeando agitação social, serão tratados não através da criação de empregos pelo governo, mas com a brutalidade da polícia militarizada e a completa suspensão das liberdades civis.

Os críticos do sistema, já empurrados para as margens, serão silenciados e atacados como inimigos do Estado. Os últimos vestígios de sindicato de trabalhadores entrarão no alvo, um processo a ser acelerado em breve, com a esperada decisão na Suprema Corte de um caso que enfraquecerá a capacidade dos sindicatos do setor público de representar trabalhadores. O dólar deixará de ser moeda de reserva, causando acentuada desvalorização. Os bancos fecharão as portas. O aquecimento global resultará em custos cada vez mais pesados, especialmente para as populações costeiras, na agricultura e na infraestrutura — custos que o Estado exaurido não conseguirá enfrentar. A imprensa corporativa, como as elites dominantes, irá do burlesco ao absurdo, sua retórica tão patentemente fictícia que, como em todos os Estados totalitários, estará desvinculada da realidade. Os meios de comunicação soarão tão estúpidos quanto Trump. E, para citar W.H. Auden, “as criancinhas morrerão nas ruas”.

Como correspondente estrangeiro cobri sociedades arruinadas, inclusive a antiga Iugoslávia. É impossível para qualquer população atingida compreender, às vésperas da implosão, quão frágil tornou-se o sistema financeiro, social e político degradado. Todos os presságios do colapso são visíveis: infraestrutura em ruínas; subemprego e desemprego crônicos; uso indiscriminado de força letal pela polícia; paralisia política e estagnação; uma economia construída na forca da dívida; fuzilamentos niilistas maciços em escolas, universidades, locais de trabalho, shoppings, casas de shows e cinemas; overdoses de opióides que matam cerca de 64 mil pessoas por ano; epidemia de suicídios; expansão militar insustentável; o jogo como ferramenta desesperada de desenvolvimento econômico e receita do governo; a captura do poder por um grupo minúsculo e corrupto; censura; redução física de instituições públicas, de escolas e bibliotecas a tribunais e equipamentos de saúde; bombardeio incessante de alucinações eletrônicas para desviar-nos da visão deprimente em que se transformou a América e manter-nos capturados por ilusões. Nós sofremos as patologias habituais da morte iminente. Eu ficaria feliz em estar errado. Mas já vi isso antes. Conheço os sinais de aviso. Tudo o que posso dizer é: prepare-se.

Chris Hedges é jornalista vencedor do Prêmio Pulitzer, autor best selling do New York Times, professor do programa de nível universitário oferecido aos prisioneiros do estado de New Jersey pela Universidade Rutgers, e ordenado…

Ver o original em 'Outras Palavras' na seguinte ligação:

https://outraspalavras.net/capa/retrato-dos-eua-a-espera-do-colapso/

JAPÃO, CENÁRIO DA PRÓXIMA CRISE?

Banco de Japón transforma su política monetaria O Japão, essencialmente, leva a cabo uma política de impressão monetária desde os anos noventa, com zero de sucesso. A sua política monetária[1] consiste em tornar o yen muito barato, por forma a que os investidores internacionais procedam ao «carry trade» com o dólar ou outras divisas «fortes». Com isso, aumenta a competitividade dos seus produtos, sendo um dos maiores exportadores mundiais de  produtos industriais sofisticados. Mas, o modo como «embaratece» o yen é muito importante compreender, também: o banco central do Japão compra essencialmente toda a dívida em obrigações do tesouro, sendo um papel com um rendimento virtualmente zero (0,3%). Quando se está num ambiente em deflação, manter em carteira um activo com juro próximo de zero é aceitável, pois ainda assim o valor do activo não desce, mas quando a inflação começa da despontar, como agora, com 1% sendo previsto que atinja os 2% dentro de pouco tempo, qualquer investidor quer livrar-se das obrigações japonesas da dívida que apenas lhe trazem prejuízo. 

Ora, a situação presente é de que o serviço da dívida (pagamento do capital mais os juros) ascende a 24,1% das receitas de impostos, sendo que a inflação agora é somente de 1%. O BCJ (Banco Central do Japão) está a comprar todas as obrigações que aparecem no mercado, tendo para isso que imprimir triliões de yen. É certo que os juros pagos com o dinheiro do orçamento irão quase todos para detentores japoneses, o próprio Banco Central, fundos de pensões, investidores particulares... Porém, o  peso crescente da dívida no orçamento, torna o próprio funcionamento do Estado e da economia muito frágil: Bastaria a subida de 0,3% de juros para 1% de juros - provável, numa situação onde a inflação cresce -  para que praticamente a totalidade da receita de impostos seja devorada pelo serviço da dívida. Seria um cenário catastrófico. Caso a situação atinja esse ponto, a realidade do endividamento extremo das principais economias e Estados ao nível mundial será impossível de esconder do grande público. Pois, a realidade é que essa situação já existe e os governos e bancos centrais têm-se limitado a disfarçar o descalabro. Mas a ignorância do público, em geral, que se verifica mesmo nas economias mais afluentes, é o único facto que nos distancia de um colapso geral neste cenário, em que se acumularam triliões de dívida... essencialmente impagável! 

References

  1. ^ política monetária (www.eleconomista.com.mx)

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