Crise 2020

O veto de Marcelo ou 4 meses de indignidade!

27 JUNHO 2020
Há mais de 4 meses (!) que a pandemia da covid-19 mandou para casa com enormes quebras de faturação e (como no meu caso) até com quebras de 100% (em virtude das muitas semanas de fecho da Restauração, sector para o qual tenho trabalhado), milhares e milhares de microempresários, sócios-gerentes muitos deles sem trabalhadores a cargo, donos do seu pequeno negócio (comércio de vinhos, uma mercearia, uma barbearia, um táxi, o que seja), sem ajuda alguma da Banca ou do Estado, completamente desprotegidos. Estas portuguesas e estes portugueses são a grande mola da economia no País, muitos atravessam dificuldades atrozes e o Governo e o Presidente da República têm-se esquecido, pura e simplesmente, de todas estas pessoas - como eu. Já ia avançado o mês de abril quando, pressionado por vários partidos (dentro e fora da Assembleia da República), o Governo finalmente percebeu que não devia deixar os sócios-gerentes microempresários morrerem à fome.
De lá para cá, ora o Primeiro-Ministro António Costa, ora o Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, trocam as voltas e continuam a ostracizar uma parte nevrálgica e substancial da população portuguesa - que quer continuar ativa, é eleitora e sobretudo pretende manter-se viva! Se não falta apoio, isto é, dinheiro (e ainda bem!) para alimentar os subsídio-dependentes, os reformados, os trabalhadores por conta de outrem, os trabalhadores independentes e os empresários em nome individual (ou por conta própria), pergunto se será por alguma espécie de preconceito social, ideológico ou de classe que se poderá achar que um sócio-gerente microempresário não deva também alimentar-se, pagar as suas contas, as suas dívidas, enfim, almejar a sobrevivência e a dignidade com uma ajuda excecional e conjuntural?... Já há mais de quatro meses (!) que Costa e Marcelo se esquecem de mim, de nós, das Pessoas que, tantas delas, os elegeram.

Nós havemos de sobreviver e dar a devida resposta a estes políticos que não nos tratam com a dignidade inerente a qualquer ser humano. Portugal também é nosso. Nós também somos Portugal.
 
*Nuno Sá é Consultor e Vice-Presidente da Concelhia de Cascais da Aliança
 
Outros artigos de NUNO SÁ
+Sócio-gerente: é para morrer à fome?

*Os artigos de opinião publicados são da inteira responsabilidade dos seus autores e não exprimem, necessariamente, o ponto de vista de Cascais24.
 

 
 
 

“Crise brutal.” Economistas duvidam de uma retoma rápida e apontam para crise estrutural

(Comentário:
Todos querem apresentar "A Crise" (seja na versão mais curta seja na mais prolongada) como consequência da Covid-19 omitindo que as fragilidades que a motivam vêm de trás e têm razões estruturais que nunca têm sido enfrentadas ou mesmo equacionadas pela 'elite' dominante.  É o faz-de-conta em que (com mais ou menos fundos vindos de fora) nos andam a embalar há muitas décadas.
Assim, a próxima "Crise" vai servir mais uma vez sobretudo para alguns ficaraem melhor e muitos ficarem pior. É o costume)
 

 

Um grupo de economistas consultados pelo Jornal de Negócios assume que dificilmente a economia portuguesa escapará de uma crise prolongada e com características estruturais.

 

No seu primeiro debate na Assembleia da República enquanto ministro das Finanças, João Leão assumiu estar convicto de que, “quando esta pandemia estiver ultrapassada, se seguirmos políticas adequadas, vamos mais rapidamente do que na anterior crise conduzir de novo o país para um caminho de confiança, crescimento e sustentabilidade”.

A declaração está em linha com a de Mário Centeno. “A recuperação, apesar de tudo, já se começa a visualizar”, tinha dito o ministro demissionário, na apresentação do Orçamento retificativo.

Ora, os economistas ouvidos pelo Jornal de Negócios não consideram que ambas as afirmações estejam erradas, mas consideram que criam uma expectativa que dificilmente terá resposta na realidade. Na prática, sugerem que Portugal vai sair depressa da crise e que assim que o problema da pandemia for ultrapassado, a economia volta a funcionar a todo o gás. Mas os economistas duvidam.

Miguel Ferreira, economista da Nova SBE, concorda que a recuperação será mais rápida do que a saída da crise anterior, “mas essa demorou cinco anos”. Para o especialista, uma recuperação rápida seria uma retoma em “V”, em que no próximo ano a economia estaria já no nível de onde partira e a crescer ao ritmo que se esperava antes da pandemia.

Ninguém acredita nesse cenário. “Dois a três anos será o tempo expectável“, considera.

Carlos Marinheiro, vogal não executivo do Conselho das Finanças Públicas, avisa que “ninguém sabe se vai ou não haver uma segunda vaga” e que essa incerteza faz com que seja muito difícil prever a recuperação que Portugal irá ter.

Luís Aguiar-Conraria, economista e professor na Universidade do Minho, considera que, mais do que a incerteza, há razões de fundo para acreditar que a crise demorará tempo a ser resolvida. “O facto de o choque inicial não ter sido estrutural, não significa que não venha a ser estrutural.”

O facto de o nosso país ter uma economia muito dependente de serviços – os mais afetados pela pandemia – prejudica as visões mais otimistas. “Um ou dois anos com o turismo muito incerto e colocam-se problemas de estrutura na economia”, assegurou ao Negócios um macroeconomista especialista em assuntos europeus, que pediu para não ser identificado.

Os economistas não têm dúvidas de que a quebra de atividade permanente terá consequências estruturais. Além disso, Aguiar-Conraria lembra que as economias ocidentais já tinham problemas estruturais e que a crise os vem agravar.

“A banca voltará a ter de lidar com problemas de malparado, a questão das empresas-zombies estava a ser resolvida mas agora regressa, tínhamos um enorme problema de dívida que agora se vai agravar”, disse ao matutino. No fundo, quanto mais endividados o Estado, as empresas e as famílias saírem desta recessão, mais difícil e lento vai ser o processo de voltar a crescer.

Fernando Alexandre, economista e professor na Universidade do Minho, considera que, “se não se estancar rapidamente a crise sanitária, e rapidamente é já, vai ser uma crise brutal”.

ZAP //

 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/economistas-duvidam-retoma-rapida-331963

Exportações podem cair 25% e consequências da crise são assimétricas

23/06/2020
 

As exportações poderão cair 25% face a 2019, sendo a variável macroeconómica mais afetada com o agudizar da crise económica desencadeada pela pandemia de covid-19, indica um estudo da consultora EY, que alerta para consequências assimétricas desta crise.

O estudo assinala que, apesar de o impacto imediato da pandemia por via do confinamento ter atingido todos os países, as consequências económicas não serão iguais para todos, devido ao peso do turismo e à margem orçamental dos governos para atuarem e atenuarem ou reverterem os efeitos desta crise.

“Tal como países mais dependentes de setores mais afetados, como o turismo, enfrentarão maiores desafios na retoma económica, também os países onde os governos dispõem de um espaço orçamental menor serão aqueles onde o impacto da pandemia será mais prolongado”, refere a terceira edição do Caderno de Notas sobre “A crise económica da covid-19”, da EY com supervisão de Augusto Mateus, strategic consultant da consultora.

Perante os principais componentes do Produto Interno do Bruto (PIB) no primeiro trimestre, o estudo assinala a existência de uma dinâmica diferente em Portugal face às principais economias europeia e norte-americana.

“Em Portugal o PIB registou uma quebra 1,3 pontos percentuais superior à procura interna, repercutindo o contributo negativo da procura externa, enquanto em Espanha, França e Itália a variação foi idêntica à da procura interna. Tendo em conta o contributo significativo da componente do turismo nas exportações portuguesas, perspetiva-se a manutenção desta dinâmica até ao levantamento das restrições do tráfego aéreo”, refere o estudo.

Esta nova edição do Caderno de Notas sublinha ainda que o reconhecimento da gravidade e extensão da crise económica e social em desenvolvimento “é importante para alcançar uma definição equilibrada e atempada das medidas de política económica necessárias”, nomeadamente na articulação entre a necessidade de mitigar a pandemia e os seus efeitos económicos e a conceção e execução”de um programa económico de recuperação suficientemente credível e eficaz” na transição para 2021.

O documento sublinha também que num contexto de elevada incerteza e de contração da economia, a perda de receitas e o aumento da despesa – nomeadamente com medidas de apoio ao emprego, como o ‘lay-off’ simplificado e com subsídios de desemprego – vai traduzir-se numa pressão adicional sobre as contas públicas dos países com maiores rácios de dívida pública.

“Em resultado, estes países terão uma menor capacidade em assegurar as medidas de apoio às empresas e trabalhadores por um período mais alargado, bem como introduzir medidas de relançamento da economia no pós-pandemia”, lê-se no documento.

Esta nova edição do Caderno de Notas aponta também os ritmos diferentes no consumo das diferentes categorias de produtos durante o confinamento e posteriormente no desconfinamento, com o comércio relacionado com os alojamentos turísticos, moda e acessórias, viagens, ou imprensa a manterem quebras homólogas bastante expressivas durante o mês de maio, quando o país entrou na segunda fase de desconfinamento.

Já o consumo de combustíveis ou transportes registou uma quebra acentuada em abril, tendo conseguido iniciar alguma recuperação em maio.

O impacto da crise económica e social evidencia também assimetrias ao nível territorial, com as despesas de consumo a recuarem mais nas regiões com maior especialização turística e de forma mais suave aquelas onde é maior a dependência do emprego público e das pensões de reforma

“Algumas comparações entre as quebras verificadas nos distritos, respetivamente, em abril e maio de 2020 face aos meses homólogos de 2019 ilustram bem esta diferenciação: Faro (-52% e -40%), Funchal (-44% e -26%), Lisboa (-47% e -39%), Porto (-40% e -26%), Coimbra (-35% e -20%), Setúbal (-28% e -16%), Braga (-29% e -13%), Bragança (-22% e -1%) e Portalegre (-18% e 0%)”, é referido.

Ver o original em 'Plataforma Media' na seguinte ligação:

https://www.plataformamedia.com/2020/06/23/exportacoes-podem-cair-25-e-consequencias-da-crise-sao-assimetricas/

Associação de restaurantes diz que veto do PR pode levar a 150 mil despedimentos

23/06/2020
 
Cafés e restaurantes começarão a trabalhar dia 18

A Associação Nacional de Restaurantes (PRO.VAR) considerou hoje que o veto do Presidente da República ao apoio social extraordinário aos sócios-gerentes levará ao encerramento de “40.000 empresas e ao despedimento de 150.000 trabalhadores”.

Dias depois de ter denunciando que os apoios aprovados pelo Governo eram “muito insuficientes” para fazer face à conjuntura atual, o veto hoje publicado de Marcelo Rebelo de Sousa torna a situação “ainda mais difícil, prevendo-se o encerramento ainda mais acelerado”, refere a nota de imprensa enviada à Lusa.

“A associação garante que muito em breve iremos assistir ao encerramento, de pelo menos 40.000 empresas e ao despedimento de 150.000 trabalhadores”, acrescenta a PRO.VAR.

Para sustentar a afirmação, a associação disse basear-se em “vários inquéritos e na análise das 812 empresas que responderam, em simultâneo aos vários inquéritos” feitos “entre os dias 13 de abril e 19 de junho.

Das conclusões obtidas, a PRO.VAR destaca que “mais de 50% das empresas não tiveram acesso às linhas de crédito de apoio à tesouraria”, que as que reuniram “condições de acesso às linhas de crédito e que têm pedidos de crédito aprovados, ainda se encontram cerca de 40% a aguardar por essas verbas”.

“Metade (50,1%) dos espaços de restauração estão com quebras superiores a 80%”, “dois em cada três restaurantes têm quebras superiores a 70%” e “um em cada três espaços de restauração, têm quebras menores, mas mesmo assim, a maioria das quebras situam-se entre os 30% e os 60%”, são outros dos resultados do inquérito apurados.

Portugal contabiliza pelo menos 1.540 mortos associados à covid-19 em 39.737 casos confirmados de infeção, segundo o último boletim da Direção-Geral da Saúde (DGS).

Ver o original em 'Plataforma Media' na seguinte ligação:

https://www.plataformamedia.com/2020/06/23/associacao-de-restaurantes-diz-que-veto-do-pr-pode-levar-a-150-mil-despedimentos/

O COLAPSO JÁ OCORREU...E O QUE VEM, DEPOIS?

«Come mothers and fathers throughout the land

And don't criticize what you can't understand

Your sons and your daughters are beyond your command

Your old road is rapidly aging

Please get out of the new one if you can't lend your hand

For the times, they are a-changin'»*

(*de «Times they are a changin'» de Bob Dylan)
 
O colapso já ocorreu. A modalidade concreta, daqui para a frente, pode ser vista como as quase infinitas trajectórias que podem tomar pedras e outras componentes da estrutura de um edifício que foi implodido. 
Sim, o edifício da economia mundial foi implodido, de forma perfeitamente deliberada pela oligarquia. O coronavírus foi o pretexto muito conveniente, com eu salientei repetidas vezes.  
Mas, esta experiência (em que quase todos nós fomos cobaias), tem um aspecto ainda mais sinistro: a oligarquia agora sabe como é fácil obter o controlo a 100% de todas as alavancas da sociedade. 
Ela deve ter ficado agradavelmente surpreendida com a facilidade com que a operação gigantesca de tomada de poder sob pretexto de pandemia, o que eu chamo «o golpe de estado planetário», foi levada a cabo. 
Foi posta em evidência a reacção do povo, a sua passividade, a sua incapacidade para ver que lhe estavam retirando todas as hipóteses de se defender, de reagir. 
Perante isto, nem compreendeu que tinha sido vítima do desfalque brutal da riqueza e património comuns, pela oligarquia; enquanto eram privatizados os benefícios, eram socializados os prejuízos.
A saída para esta crise, não é individual, como é fácil de compreender. 
Ela implica que uma grande massa da população em todos os países, acorde da sideração, da hipnose, em que foi mergulhada. 
A resistência vai ser difícil, mas ela irá contar com as pessoas mais inteligentes dentro de cada sociedade, independentemente do seu ideário político. 
Aquelas que não se deixarão jamais arregimentar pelas falácias do poder totalitário disfarçado. Pode, uma grande parte das pessoas, deixar-se enganar pelas «ONG humanitárias» (como a Fundação Soros, ou a Fundação Bill e Melinda Gates, etc...)...  Mas não é possível estas entidades enganarem todos, durante todo o tempo. 
Surgirão muitas resistências, que irão causar o colapso desta tomada de poder totalitário disfarçada. 
 
Depois, trata-se das jovens gerações construírem uma sociedade nova, não enfeudada a preconceitos e obsessões do passado. 
Não sei que forma concreta tomarão, mas atrevo-me a pensar que não serão monolíticas, que terão uma grande maleabilidade, que estarão realmente preocupadas com a salvaguarda dos recursos naturais que existem no planeta e a sua gestão sustentável.
Embora não tenha nenhum conselho específico a dar-lhes para essa transformação, creio que uma coisa sensata é que comecem a debater, com vista a posteriormente edificar, em qual sociedade(s) - a traços largos - desejam viver, quais os valores e os princípios que devem estar na sua base, que caminhos se poderão tomar para se alcançar este novo estádio.
  

Ver o original em 'Manuel Banet' (clique aqui)

[Manlio Dinucci] NÃO HÁ SOBERANIA ECONÓMICA SE NÃO EXISTIR SOBERANIA POLÍTICA

                             
                      Conte e Profumo com o novo Falco Xplorer, o maior drone que a empresa Leonardo construiu
 
 
Actualmente, discute-se quanto e que financiamento a Itália receberá da União Europeia e sob que condições. Chegam mensagens tranquilizadoras de Bruxelas. Mas como tais financiamentos serão concedidos em grande parte, sob a forma de empréstimos, vários economistas alertam que existe o perigo de forte endividamento e de uma perda posterior de soberania económica. Assim sendo, a atenção política-mediática concentra-se nas relações entre a Itália e a União Europeia. 
 
Tema importante, que não pode ser separado das relações entre a Itália e os Estados Unidos, que ninguém discute no Parlamento e nos meios de comunicação mediática. Assim, continuam a ignorar-se as implicações do plano de “assistência” à Itália, lançado pelo Presidente Trump em 10 de Abril (il manifesto, 14 de Abril de 2020). 
 
No entanto, o Embaixador dos EUA em Itália, Lewis Eisenberg, define-o como “a maior ajuda financeira que os Estados Unidos já deram a um país da Europa Ocidental desde 1948, desde a época do Plano Marshall”. Em apoio às actividades de saúde anti-Covid, “dezenas de milhões de dólares já foram e irão para a Cruz Vermelha e algumas organizações não-governamentais” (não perfeitamente identificadas). Além disso, o plano prevê uma série de intervenções para “apoiar a recuperação da economia italiana”.
 
Para este fim, o Presidente Trump ordenou aos Secretários do Tesouro e do Comércio, ao Presidente do Banco de Exportação e Importação, ao Administrador da Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional, ao Director da Corporação Internacional de Financiamento ao Desenvolvimento dos Estados Unidos (agência governamental que financia projectos de desenvolvimento privado) para usarem os seus instrumentos para “as empresas italianas”. Não está dito que empresas são e quais serão financiadas por este plano, nem a que condições estão vinculados estes empréstimos.
 
O Embaixador Eisenberg fala, em geral, das óptimas relações entre os Estados Unidos e Itália, demonstradas por “importantes indicadores económicos e estratégicos”, incluindo “um dos maiores acordos militares com a empresa Fincantieri”, que ganhou um contrato em Maio passado de cerca de 6 biliões de dólares para a construção de dez fragatas multifuncionais da Marinha dos EUA. O grupo italiano, 70% controlado pelo Ministério da Economia e Finanças, possui três estaleiros nos EUA, onde também estão em construção quatro navios de guerra semelhantes para a Arábia Saudita.
 
Outro indicador económico e estratégico importante é a integração crescente da Leonardo, a maior indústria militar italiana, no complexo industrial militar dos EUA, sobretudo através da Lockheed Martin, a maior indústria militar dos EUA. A Leonardo, da qual o Ministério da Economia e Finanças é o principal accionista, fornece aos EUA produtos e serviços para as forças armadas e para as agências de serviços secretos e administra em Itália, as instalações fabris de Cameri, dos caças F-35 da Lockheed Martin.
 
São estes e outros interesses poderosos - especialmente os dos grandes grupos financeiros - que ligam a Itália aos Estados Unidos. Não só a política externa e militar da Itália, mas também a política económica, subordinada à estratégia dos Estados Unidos, baseada num confronto político, económico e militar cada vez mais agudo com a Rússia e com a China. O plano de Washington é claro: explorar a crise e as fracturas na União Europeia para fortalecer a influência dos EUA em Itália.
 
As consequências são evidentes. Embora, por exemplo, seja do nosso interesse nacional suspender as sanções a Moscovo, a fim de relançar as exportações italianas para a Rússia para restaurar o oxigénio, especialmente às pequenas e médias empresas, tal alternativa foi impossibilitada pela dependência das escolhas de Washington e de Bruxelas.
 
Ao mesmo tempo, estão em perigo os acordos da Itália com a China no âmbito da Nova Rota da Seda, que não são bem aceites por Washington. A falta de soberania política real impede estas e outras escolhas económicas de importância vital para sair da crise. Mas, no ‘talk show’ político, não se fala de toda esta conjuntura.
 
Manlio Dinucci
 
 
il manifesto, 9 de Maio de 2020
 
 
 
Tradutora: Maria Luísa de Vasconcellos
Email: luisavasconcellos2012@gmail.com

Ver o original em 'Manuel Banet' (clique aqui)

Como Reserva Federal dos EUA poderia colapsar sistema financeiro mundial?

Sede do Federal Reserve (FED), o Banco Central dos Estados Unidos
© AP Photo / Andrew Harnik

Para apoiar a economia após a pandemia, a Reserva Federal dos EUA (FED, na sigla em inglês) anunciou uma compra de ativos sem precedentes no fim de março.

A medida ajudou durante a crise. Contudo, analistas advertem que o excesso de liquidez acabará inflamando outra bolha que poderia estourar e fazer com que todo os mercados entrem em colapso.

Para tranquilizar os investidores, a FED reduziu a taxa de juros duas vezes em março, até 0 - 0,25% anual. O regulador também lançou um programa para comprar títulos do Tesouro dos EUA por US$ 500 bilhões (R$ 2,47 trilhões) e ativos respaldados por hipotecas por US$ 200 bilhões (R$ 989 bilhões).

Estes métodos foram utilizados há dez anos, durante a crise financeira mundial, observa Natalia Dembinskaya, colunista da Sputnik.

No final de março, a FED anunciou que compraria tantos ativos do mercado quanto fossem necessários. O regulador também lançou vários novos programas de empréstimos.

As medidas estabilizaram a situação: o mercado de ações cresceu. Desde os valores mínimos de 23 de março, o índice S&P 500 subiu mais de 40%.

No entanto, economistas se mostram preocupados. Em meio à pandemia, a economia está em queda livre (no segundo trimestre, o PIB norte-americano teria caído 40% e o desemprego subido 25%), mas o mercado de ações está crescendo. Obviamente os investimentos da Reserva Federal estão dando aos investidores falsas esperanças, observa Dembinskaya.

"A relação de custo-benefício superaria os níveis da bolha tecnológica de 2000", advertiu Joseph Carson, ex-economista-chefe da empresa de investimentos AllianceBerstein.

"A brecha entre os mercados e as realidades econômicas nunca foi tão grande", salientou, por sua vez, Matt King, chefe de estratégia de crédito global da Citogroup.

O gasto total da FED para apoiar a economia e os mercados alcançou 30% do PIB.

Enquanto isso, no primeiro trimestre, as empresas norte-americanas informaram uma desvalorização recorde de seus lucros até os valores da crise de 2009. No segundo trimestre, a situação irá se deteriorar ainda mais devido ao colapso das vendas e os volumes de produção em meio à pandemia do coronavírus, avalia Dembinskaya.

Cadáver de paciente morto pelo coronavírus sendo levado para um caminhão em Nova York, nos EUA

© AP Photo / John Minchillo
Cadáver de paciente morto pelo coronavírus sendo levado para um caminhão em Nova York, nos EUA

As expectativas de que a política de estímulo da Reserva Federal e a excessiva liquidez no mercado melhorariam a solvência das empresas não foram confirmadas. Assim que os investidores se deem conta da escala do impacto nos ganhos corporativos, o mercado de valores cairá, analisa a colunista.

Além do mais, o regulador financeiro prometeu comprar obrigações de empresas de alto rendimento, ou seja, valores com alto risco de insolvência.

"As manipulações do regulador norte-americano podem custar muito para a economia mundial. Os fundos e os atores do mercado de valores perderam a oportunidade de apostar em baixa, o que ameaça com o colapso do mercado de ações dos EUA, e, portanto, todos os demais", conclui a colunista.

As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/opiniao/2020060815675955-como-reserva-federal-dos-eua-poderia-colapsar-sistema-financeiro-mundial/

Governo alemão anuncia pacote de estímulo de 130 bilhões de euros

 
 
Merkel afirma que resposta "corajosa" é necessária para impulsionar a economia do país, abalada pela pandemia de covid-19. Medidas anunciadas incluem auxílios à indústria e às famílias e incentivos ao consumo.
 
Os partidos que integram a coligação de governo da Alemanha chegaram a um acordo no fim da noite desta quarta-feira (04/05) um pacote de estímulo de 130 bilhões de euros para ajudar na recuperação económica do país, após os efeitos gerados pela pandemia de covid-19.

O anúncio foi feito pela chanceler federal alemã, Angela Merkel, após dois dias de intensas negociações entre representantes de seu partido, a União Democrata Cristã (CDU), de sua legenda-irmã na Baviera, a União Social Cristã (CSU), e do Partido Social-Democrata (SPD).

O governo alemão vinha pressionado há semanas para encaminhar medidas de estímulo após as graves consequências da paralisação das atividades económicas do país devido à pandemia.

 
O valor do pacote de estímulo, acordado após 21 horas de negociações, excedeu expectativas que haviam circulado na imprensa, de 80 biliões de euros. Os 130 biliões, que cobrem os anos de 2020 e 2021, incluem mais de 20 novas medidas, que se somarão ao expressivo orçamento aprovado em março para ajudar o sistema de saúde e as empresas a lidar com as consequências da pandemia.

As medidas incluem biliões de euros em resgates financeiros à indústria, fundos adicionais para municípios que lidam com um grande número de desempregados e um bónus de 300 euros por criança, a serem pagos junto com outros benefícios concedidos às famílias.

Novos e maiores incentivos serão concedidos para encorajar consumidores a adquirirem automóveis, de modo a apoiar o setor automobilístico, vital para a economia do país. O benefício, porém, será válido apenas para a aquisição de carros elétricos. 

Além disso, o Imposto sobre Valor Acrescentado (IVA) será temporariamente reduzido, de 19% para 16%. As medidas também reservam 50 biliões de euros para enfrentar as mudanças climáticas, a inovação e a digitalização.

Merkel afirmou que os membros da coligação de governo se comprometeram com um programa audacioso para impulsionar o consumo, investir em inovação e aliviar o peso económico da recessão sobre os cidadãos do país.

"Está claro que tudo isso requer uma resposta corajosa", disse a chanceler. "Trata-se de garantir empregos e manter a economia em funcionamento." Segundo Merkel, um aumento no consumo é essencial para "possibilitar um futuro às próximas gerações".

Indicadores económicos apontaram um declínio acentuado no setor industrial e no consumo, após o governo impor, em março, restrições rígidas em todo o país para conter a disseminação do novo coronavírus. Muitas dessas medidas vêm sendo removidas nas últimas semanas, com a reabertura do comércio e a retomada das atividades em vários setores, ainda que com limitações e regras de distanciamento e higiene.

Segundo um estudo do instituto de pesquisas económicas IFO, a economia alemã deverá sofrer uma contração de 6,6% em 2020. Outras estimativas apontam para um recuo de dois dígitos.

No primeiro trimestre deste ano, a economia alemã recuou 2,2% em relação ao período anterior – a maior contração trimestral registada desde a crise financeira de 2008/2009 e a segunda maior desde a Reunificação do país, em 1990. O governo alemão prevê que o país enfrente neste ano a pior recessão económica do pós-guerra, com uma queda no PIB de 6,3%.

O pacote de estímulo proposto pela coligação governamental ainda precisa de ser aprovado formalmente pelo gabinete de Merkel, além de passar pelas duas casas do Parlamento, o Bundestag (câmara baixa) e o Bundesrat (câmara alta).

Deutsche Welle | RC/dpa

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/06/governo-alemao-anuncia-pacote-de.html

Recibos verdes e sócios-gerentes já podem pedir apoio relativo a maio

 

O formulário para os trabalhadores independentes e sócios-gerentes pedirem o apoio criado no âmbito da pandemia covid-19, relativo a maio, fica hoje disponível na Segurança Social Direta, podendo ser entregue até 9 de junho.

 

O prazo de entrega, que decorria inicialmente entre 20 e 31 de maio, já tinha sido alargado na semana passada porque o formulário para pedir o apoio estava “em atualização” há vários dias devido às últimas alterações legislativas, como adiantou então à agência Lusa fonte do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social.

No site da Segurança Social Direta foi entretanto publicada a nova data, indicando que “o novo prazo de entrega é de 30 de maio a 09 de junho”.

Em causa está o apoio extraordinário à redução da atividade económica dos trabalhadores independentes criado em março e alterado várias vezes pelo Governo. A partir de maio, o apoio previsto tem como limite mínimo 50% do valor do IAS (219,41 euros) e como máximo 635 euros. Por sua vez, também os formulários referentes aos novos apoios, publicados em 7 de maio, para trabalhadores independentes sem contribuições e para os trabalhadores informais podem ser entregues entre este sábado e 9 de junho.

Em causa está, por um lado, um novo regime para trabalhadores independentes isentos do pagamento de contribuições ou que tenham iniciado atividade há menos de 12 meses, sendo-lhes atribuído um apoio até 219,4 euros.

Já para os trabalhadores que não se encontram enquadrados no sistema de Segurança Social está previsto um apoio de 219,4 euros durante dois meses, desde que se vinculem à Segurança Social durante um período de 24 meses.

As regras para os membros de órgãos estatutários (sócios-gerentes) também foram alteradas em maio, já que o apoio concedido, similar ao dos trabalhadores independentes, passa a ser atribuído aos que registem uma faturação anual de até 80 mil euros (contra anteriores 60 mil) e independentemente do número de trabalhadores a cargo.

O Parlamento aprovou entretanto alterações que alargam estes apoios aos sócios-gerentes das micro e pequenas empresas, sem limite de valor de faturação e que aumentam o valor mínimo do apoio para 438,81 euros, diploma que, quando assim que entrar em vigor, terá efeitos retroativos.

// Lusa

 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/recibos-verdes-ja-podem-pedir-apoio-relativo-maio-327404

Banqueiros portugueses alertam: o pior pode estar para vir

Os principais banqueiros portugueses acreditam que o mais difícil da crise provocada pela pandemia de covid-19 ainda está para vir.

 

Na SIC Notícias, no âmbito do CEO Banking Forum, uma parceria do canal televisivo com o Expresso e a consultora Accenture, os principais banqueiros portugueses adiantaram que os bancos estão em melhores condições para ajudar a economia, mas, para já, recusam que estejam a falhar na ajuda aos empresários.

Segundo o Expresso, às críticas de que os empréstimos garantidos pelo Estado ainda não foram disponibilizados às empresas, os responsáveis da CGD, BCP, BPI e Novo Banco avançaram com números para responder: os quatro bancos têm aprovados 3.850 milhões de euros no âmbito das linhas de crédito garantidas pelo Estado.

Paulo Macedo, da CGD, antecipou que o banco deverá acabar com cerca de 800 milhões de euros de créditos aprovados e o BCP 1.450 milhões de euros, segundo Miguel Maya. António Ramalho revelou que o Novo Banco tem 1.000 milhões de euros, dos quais 400 milhões já chegou às empresas, 160 milhões estão disponíveis e o resto está em trânsito. João Pedro Oliveira e Costa, do BPI, falou em 600 milhões de euros, dos quais 52% já contratados.

O dinheiro está a chegar, com uma banca que está a cumprir o seu papel, da mesma maneira que o Governo está a cumprir, com políticas anticíclicas”, disse o responsável da Caixa Geral de Depósitos. Oliveira e Costa adiantou, até, que já existe uma reanimação económica, ainda que tímida, após o confinamento.

António Ramalho disse que a pressão sobre a intervenção da banca tem sido elevada, mas que será ainda mais no futuro: “O papel da banca vai ser muito mais importante na segunda fase da reconstrução, que vai ser muito mais difícil”, constatou.

“A crise é pior, mas há um outro consenso, embora menos falado: é que os bancos estão muito mais bem preparados para esta crise”, sustentou Paulo Macedo, acrescentando há também incertezas, nomeadamente por tudo depender da saúde.

Para os banqueiros, a realidade futura é com o crescimento do crédito malparado, que vai depender dos prazos das moratórias de crédito, atualmente a permitirem que as empresas e os particulares não paguem as prestações até ao fim de setembro.

É óbvio que é preciso prolongar essas moratórias. O final do ano não é suficiente”, explicou Miguel Maya, acrescentando que “tudo o que seja menos do primeiro trimestre de 2020 é pouco”.

ZAP //

 

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Brasil | Rio: Pandemia, PM e milícias contra as favelas

 
 
Paramilitares pressionam por reabertura de comércio para manter extorsão. Aparelhadas, funerárias cobram preços abusivos às vítimas da covid-19. Em ano de eleição, aliados de Bolsonaro querem mais de poder. Só tráfico defende quarentena

José Cláudio Alves, em entrevista ao IHU Online | em Outras Palavras
 
Projetar como será a realidade nas periferias e favelas cariocas pós-pandemia “é um exercício de imaginação”, mas a tendência é que sejam reforçadas “as estruturas de poder da face ilegal do Estado, tanto no tráfico quanto nas milícias”, afirma José Cláudio Alves à IHU On-Line. Segundo ele, a atuação do tráfico para garantir as medidas de isolamento nas periferias e se autoproteger e, de outro lado, das milícias, para manter o funcionamento do comércio e benefícios a aliados para continuar arrecadando dinheiro, vai projetar tanto milicianos quanto candidatos apoiados pelo tráfico nas próximas eleições municipais no Rio de Janeiro. “Essa estrutura tende a se projetar porque vai lançar mão dos recursos do clientelismo para beneficiar aqueles que são seus aliados nesses espaços”, menciona.

Na entrevista a seguir, concedida por WhatsApp, o sociólogo relata como tem sido a atuação do tráfico, das milícias e de setores que detêm o monopólio de serviços em municípios do interior do Rio de Janeiro durante a pandemia. “Na cidade de Caxias existe uma única funerária, que tem o monopólio dos enterros e, agora com as mortes pelo coronavírus, essa funerária cobra valores altíssimos para a população: algo em torno de 2.500 reais pelo enterro, com caixão simples. É uma coisa estapafúrdia. Hoje, essa funerária faz um jogo de disputa de poder com a prefeitura, dizendo que o preço do enterro popular que a prefeitura quer pagar não corresponde à realidade. Então, a funerária não quer fazer esses enterros e a prefeitura diz que não pode pagar pelos enterros porque os valores cobrados são altos”, informa. 

Nas áreas onde o “Estado já opera matando”, ressalta, se observa uma sobreposição. “As áreas onde as pessoas morriam por conta do confronto com o aparato policial, com a milícia ou com as facções do tráfico, estão sendo recobertas também pelo maior número de mortos em decorrência da pandemia. Então, existe uma continuação da necropolítica em outra dimensão, que acaba sendo uma face da mesma moeda: a moeda da violência, que reprime e recai sobre esses conjuntos segregados, racialmente discriminados, que são mantidos à margem da pobreza, sem acesso a recursos, à escolaridade”, observa. 
 
José Cláudio Alves lembra ainda que as eleições municipais deste ano “são decisivas para deputados e senadores se perpetuarem em 2022, então, a Câmara de Deputados e o Senado não têm o menor interesse em tocar os processos de impeachment abertos contra o presidente. O interesse deles é outro: é distribuir renda desse governo para as suas bases eleitorais se protegerem contra a pandemia e, consequentemente, para as pessoas os verem como benfeitores e votarem nos seus aliados eleitorais nos locais onde eles estão”. 

Na entrevista a seguir, ele diz que o futuro pós-pandemia será ainda mais difícil para aqueles que vivem nas periferias. “Como será a realidade da saúde pública nessas áreas depois da pandemia? Vai ser melhor? Tudo indica que não, porque os recursos estão sendo destinados de uma forma inadequada e o SUS, se virou herói nacional, foi por mera contingência, porque não tinha outro sistema que pudesse dar conta desse sofrimento e dessa pandemia. O SUS apareceu num cenário de crescimento e expansão, mas isso não foi nada planejado e o pós-pandemia não garante que o SUS possa receber algum tipo de aporte para, nessas áreas de periferias e favelas, melhorar a condição de atendimento”, lamenta.

José Cláudio Alves é graduado em Estudos Sociaispela Fundação Educacional de Brusque. É mestre em Sociologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-Rio e doutor, na mesma área, pela Universidade de São Paulo – USP. É professor na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – UFRRJ.

 
Confira a entrevista

IHU On-Line – Como as milícias e o tráfico estão atuando no Rio de Janeiro neste período de pandemia?

José Cláudio Alves – Houve uma informação inicial de que tanto a milícia quanto o tráfico estariam atuando na manutenção do distanciamento social para impedir o avanço da pandemia nas periferias. No entanto, esse comportamento, se de fato ocorreu, foi substituído por relatos de que o tráfico de drogas estava determinando o isolamento social, inclusive, às vezes, de forma violenta, com discursos de que iriam punir as pessoas que não cumprissem o isolamento. De outro lado, documentários curtos mostram a atuação do tráfico neste período, com traficantes ajudando a comunidade, distribuindo álcool em gel, máscaras, tentando, de alguma forma, colaborar.

Os relatos relacionados à atuação da milícia neste momento começam a se modificar. Na Baixada Fluminense há relatos – alguns veiculados pela ONG local, chamada Iniciativa Direito e Memória à Justiça Racial – de que tanto na Zona Oeste do Rio de Janeiro, quanto na Baixada, os milicianos estariam obrigando o comércio a reabrir para obter ganhos pela extorsão e cobrança de taxas de segurança. A avaliação mais crítica que faço está relacionada à cidade de Duque de Caxias, região metropolitana do Rio de Janeiro que, neste cenário de pandemia, apresenta o quadro mais grave: é a região que, proporcionalmente, tem mais mortos do que a cidade do Rio de Janeiro, no cálculo por 100 mil habitantes. Duque de Caxias tem um histórico muito longo de relacionamento com grupos de extermínio que, por sua vez, estão na origem e na construção das atuais milícias. Esse vínculo político da cidade com as milícias é histórico, construído lá nos anos de 1980, 1990, nos antigos matadores. O atual prefeito vem de uma linhagem que já tinha vínculo com essa estrutura. Agora, neste segundo momento, ele se alia muito mais ao grupo que atua na venda de terrenos da União. Essa é a relação que se estabelece com a cidade e com esses milicianos que hoje são vereadores e personalidades públicas na cidade. Portanto, o comportamento do prefeito Washington Reis está muito vinculado a essa estrutura de poder. O Ministério Público Federal tem atuado, tentando coibir os negócios de venda de terrenos nessas áreas, e a prefeitura, pelo contrário, nunca atuou nisso. Ao contrário, faz de tudo para que esse esquema continue funcionando. Por mais que se diga que o prefeito baixou um decreto para fechar o comércio, na prática, isso nunca aconteceu porque o comércio sempre continuou na cidade de Caxias, porque os interesses escusos continuam.

Monopólio dos enterros

Na cidade de Caxias existe uma única funerária, que tem o monopólio dos enterros e, agora com as mortes pelo coronavírus, essa funerária cobra valores altíssimos para a população: algo em torno de 2.500 reais pelo enterro, com caixão simples. É uma coisa estapafúrdia. Hoje, essa funerária faz um jogo de disputa de poder com a prefeitura, dizendo que o preço do enterro popular que a prefeitura quer pagar não corresponde à realidade. Então, a funerária não quer fazer esses enterros e a prefeitura diz que não pode pagar pelos enterros porque os valores cobrados são altos. Na verdade, isso é um jogo de poder e interesse entre eles, porque essa funerária sempre teve o monopólio e sempre manteve uma estrutura de poder muito grande. Essa funerária poderia até ser chamada de uma milícia antes mesmo da presença da milícia na região, por ter surgido anteriormente.

Os milicianos, a partir de sua estrutura política junto à prefeitura, também controlam os acessos dos exames médicos e as consultas nos hospitais públicos da cidade. Até o hospital estadual acaba sendo influenciado por essa estrutura de poder. Além disso, toda a rede evangélica pentecostal que apoiou a eleição do prefeito e que, junto com ele, fez vários vídeos anunciando que as igrejas ficariam abertas, dá apoio e quer manter o seu serviço aberto. Alguns chegaram a dizer que as orações – e o próprio prefeito disse isso – das igrejas é o que iria curar o coronavírus. Mas quando o prefeito foi contaminado, ele foi para o hospital particular mais caro do Rio de Janeiro e lá ficou por 13 dias, até sair curado. Esse prefeito, que tem tanta fé e quer que as Igrejas curem o coronavírus, ao invés de ir para o Hospital Adão Pereira Nunes, de Saracuruna, foi para o melhor hospital da Zona Sul do Rio de Janeiro. No hospital público de Saracuruna, as pessoas estão morrendo em quantidade, porque não têm acesso a respiradores, à UTI, os leitos estão todos comprometidos e há uma fila de espera.

Então, durante a pandemia, este é o quadro que permanece na cidade: o comércio continua aberto, funcionando, porque há um interesse dos milicianos em manter essa situação política imediata entre o prefeito e o governo federal, que querem manter a economia funcionando. Mas essa economia local, especificamente, interessa principalmente aos grupos milicianos que dominam essa região. Se a população morre, para eles, isso têm pouca importância.

Qual o significado disso? Enquanto o traficante tenta proteger a comunidade porque está, ele próprio, confinado, estigmatizado, segregado naquela área e depende do tráfico para sobreviver – é ali que estão seus parentes, seus amigos e aqueles que com ele trabalham – e tenta preservar essa população do coronavírus com medidas de distanciamento social, a milícia não tem esse comprometimento. Ela usa dos espaços urbanos, extrai os seus ganhos através do monopólio dos serviços, dos negócios e dos bens que ela detém. A diferença é que os milicianos não moram nessas regiões e, se ficarem doentes, vão para os melhores hospitais do Rio de Janeiro, porque eles têm muito dinheiro. Esta é a diferença básica entre a milícia e o tráfico: o tráfico está confinado, é de outra classe social, são os lascados e pobres deste país arrebentado. A milícia é de uma classe social diferente, tem articulação política e pode se beneficiar disso. Claro que os milicianos vão se vender como heróis, salvadores, os que matam os bandidos, mas eles são os próprios bandidos. Mas nesta pandemia, o herói pode ser aquele que consegue um hospital melhor, aquele que consegue furar a fila do hospital público, que consegue um respirador para a população mais pobre, alimentando assim o clientelismo, já que este também é um ano eleitoral.

IHU On-Line – A pandemia pode reconfigurar as relações do Estado com os poderes paralelos, como o tráfico e a milícia?

José Cláudio Alves – Não trabalho com a ideia de que existe um poder paralelo. Tanto a milícia quanto o tráfico têm relações diretas com o poder do Estado. O tráfico é regulado pelas operações policiais, pelo suborno, pelo tráfico de armas e conta com a presença da polícia. É ela quem recebe o “arrego”, que regula as facções dentro dos territórios, que interfere no cenário de disputas, enfim, é ela quem exerce o papel decisivo do Estado no tráfico de drogas. É a partir da atuação dos agentes públicos de segurança que se dá a configuração do tráfico hoje no Brasil. Na milícia, a ação é direta e feita sob a administração e gerenciamento do próprio agente de segurança pública, que é o miliciano e é quem vai operar. Então, nos dois casos, não há poder paralelo. 

Com a pandemia, diminuiu o número de confrontos entre o tráfico e a polícia, mas eles não deixaram de existir. As milícias, como sempre, não enfrentam grandes dificuldades para atuar. O tráfico, como é confinado em áreas de favelas e periferias, é segregado e controlado pelas políticas de execuções sumárias, de confrontos e mortes permanentes. Nesse sentido, o tráfico está mais reduzido e tentando se proteger nessas áreas porque não tem para onde ir. Portanto, ao se proteger contra a covid-19, o tráfico protege também a comunidade. Já o comportamento da milícia é de retomada dos seus negócios, focando na abertura do comércio, do não distanciamento social, na volta dos seus empreendimentos a todo vapor, na taxação dos comerciantes, que precisam abrir seus negócios para serem taxados. Enfim, a volta da economia, para a milícia, é melhor e ela não sofre nenhum controle ou combate por parte do Estado porque os milicianos são os próprios agentes de segurança. Esse cenário tem se mantido e tem sido reforçado. 

Pandemia favorece as milícias

O coronavírus favorece a estrutura das milícias, que saem beneficiadas e acumulam uma quantidade razoável de dinheiro, que neste momento é importante por conta do processo eleitoral. Os traficantes não são candidatos, embora possam apoiar pessoas próximas a eles, enquanto os milicianos são candidatos e é por isso que defendem a reabertura do comércio e o funcionamento da economia, porque precisam lançar suas trajetórias políticas eleitorais, buscando a vitória e o fortalecimento do seu poder. A milícia tem interesse nesse projeto, porque se beneficia muito.

Neste momento, o coronavírus está trazendo sofrimento e redução de dinheiro para a população mais pobre, que não tem como trabalhar ou que perdeu o emprego e depende do auxílio emergencial. Muitas pessoas não conseguem nem acessá-lo e, mesmo as que conseguem, vão ter dificuldades para sobrevier. Essa situação favorece a lógica do clientelismo e da milícia, que neste momento quer dar algum tipo de benefício para essas comunidades e, com isso, angariar votos mais à frente. Então, o velho clientelismo vai voltar muito forte neste momento de crise. 

IHU On-Line – Que regiões periféricas do Rio de Janeiro estão sendo mais atingidas neste momento?

José Cláudio Alves – A pandemia está atingindo principalmente as áreas em que, normalmente, a face ilegal do Estado mais atua matando. Costumamos dizer que é a face do que Achille Mbembe chama de necropolítica, ou seja, a capacidade do Estado de determinar quem vai viver e quem vai morrer, uma bionecropolítica. A covid-19 tem atingido mais duramente as áreas mais pobres que não têm acesso à proteção social, à renda mínima para sobreviver, não têm acesso à rede de saúde adequada nem à água, recursos de higiene, limpeza e alimentação e, portanto, não possuem um estado imunológico fortalecido para enfrentar a pandemia. Essas são as áreas em que o Estado normalmente já opera matando e há, agora, uma sobreposição: as áreas onde as pessoas morriam por conta do confronto com o aparato policial, com a milícia ou com as facções do tráfico, estão sendo recobertas também pelo maior número de mortos em decorrência da pandemia.

Então, existe uma continuação da necropolítica em outra dimensão, que acaba sendo uma face da mesma moeda: a moeda da violência, que reprime e recai sobre esses conjuntos segregados, racialmente discriminados, que são mantidos à margem da pobreza, sem acesso a recursos, à escolaridade. Agora, essas populações estão vivendo outro drama: o da falta de acesso à saúde, que foi degradada nessas áreas.

IHU On-Line – Qual a sua avaliação das ações adotadas pelo Estado para enfrentar a pandemia nas favelas e periferias cariocas?

José Cláudio Alves – As ações em relação à pandemia feitas pelo Estado são absolutamente inapropriadas, sem capacidade de ajudar a população, com discursos e práticas contraditórios. No âmbito federal, por exemplo, há um discurso irresponsável, assassino, negacionista. O discurso de Bolsonaro é o discurso de que não existe uma pandemia, de que é uma gripezinha, e de que a morte de doentes e idosos é natural. Esse é um discurso que vários empreendedores do mundo capitalista gostam, porque significa dizer que morrem as pessoas e a economia segue funcionando. O presidente faz esse discurso a partir de uma concepção de que está protegendo a população pobre, que não pode deixar de trabalhar, porque tem que movimentar o país e sustentar suas famílias. Ele simplesmente ignora e não põe em prática nenhum plano de proteção dessa população – o auxílio emergencial aprovado, foi a contragosto dele e as pessoas encontram dificuldades para acessá-lo. Além disso, o sistema de distribuição do auxílio obriga as pessoas a se aglomerarem em filas nos bancos, aumentando ainda mais o risco de contaminação. O quadro é muito duro e o presidente trabalha com o deboche, o sarcasmo e o cinismo. Dizer “e daí?” que morreram tantas mil pessoas, simplesmente é um deboche e um escárnio na cara da população que vai morrer.

O mais duro de tudo isso é que essa mesma população vê no presidente alguém que vai ajudá-la. Essa população, sem acesso a informações que a proteja, acredita nessa liderança. O presidente foi eleito como uma liderança e empurra todos os seus seguidores para o abismo. Os que vão para o abismo, vão acreditando que estão sendo salvos, mas estão sendo vitimados e morrendo. É um comportamento muito humilhante, degradante, triste e sério por parte de um presidente da República que não vai ser atingido e não vai ser responsabilizado.

IHU On-Line – Como a pandemia pode influenciar o cenário eleitoral nos municípios e como a perspectiva das eleições tem influenciado a atuação do Congresso em relação ao enfrentamento desta crise?

José Cláudio Alves – Este é um ano eleitoral, de eleições municipais, e toda a base do Congresso está se movimentando para favorecer as suas bases eleitorais nos municípios. As eleições de 2020 são decisivas para deputados e senadores se perpetuarem em 2022, então, a Câmara de Deputados e o Senado não têm o menor interesse em tocar os processos de impeachment abertos contra o presidente. O interesse deles é outro: é distribuir renda desse governo para as suas bases eleitorais se protegerem contra a pandemia e, consequentemente, para as pessoas os verem como benfeitores e votarem nos seus aliados eleitorais nos locais onde eles estão. Os pedidos de impeachment não serão analisados porque este é um momento chave do processo eleitoral e abrir um impeachment neste momento seria acabar com o famoso clientelismo e a famosa barganha do “toma lá dá cá” dos currais que vão depender de emendas parlamentares e de distribuição de recursos para o SUS e para os hospitais públicos. Essa destinação de recursos vai acompanhar os vínculos desses deputados e senadores com o governo federal, com as políticas públicas que este governo ainda realiza, apesar de todas as contradições no discurso bolsonarista. Pelo menos o Ministério da Saúde ainda tenta fazer algo, especialmente os médicos e enfermeiros que estão na linha de frente.

Bolsonaro não é mito algum. Ele seria mito se contraísse o coronavírus e viesse para o Hospital Adão Pereira Nunes e tentasse se tratar numa enfermaria com mais de 50 pessoas, sem distanciamento de leitos e tentasse enfrentar uma fila para ter acesso a aparelhos respiratórios, à UTI. Se ele fizesse isso e sobrevivesse, de repente poderia ser mito. Mas como ele não vai fazer, aliás, nenhum dos políticos vai fazer, a exemplo do prefeito de Duque de Caxias, Washington Reis. Esses homens só têm interesse em propagar as suas estruturas de poder e, neste exato momento, eles não farão nada contra o governo federal porque seria atingir o seu próprio interesse, a sua forma de fazer política e a sua base eleitoral. 

Contradições

A contradição do governo federal leva a contradição para todos os estados. Os governadores que tentam fazer alguma coisa são tratados de forma desqualificada por Bolsonaro, que aprova normas que rompem com o distanciamento social. Os governadores são obrigados a entrar na Justiça para se protegerem de medidas provisórias do governo federal. Os governos aliados fazem o jogo do presidente porque não tiveram situações tão graves nos seus estados, mas os que estão sentindo duramente os efeitos da pandemia, estão lutando para tentar sobreviver. 

Nos governos municipais, a situação é mais contraditória ainda. Na Baixada Fluminense, a pandemia está em estado crescente e governos aliados ao governo federal estão adotando uma posição negacionista e um discurso religioso de que as igrejas evangélicas irão curar as pessoas através da fé. Esses discursos se propagam nas populações mais pobres e nos municípios da periferia da região metropolitana do Rio de Janeiro, e têm provocado mortes e sofrimentos. 

A meu ver, as atividades do Estado estão comprometidas pelo dissenso e confronto entre as várias instâncias, pelas ações nefastas, degradantes e cínicas. O Ministério da Saúde vive numa corda bamba e o ex-ministro [Luiz Henrique] Mandetta, que tentou fazer alguma coisa, foi defenestrado. O ex-ministro [Nelson] Teich não disse a que veio, não disse coisa com coisa e não assumiu atos. Não sei como chegamos a esse estado neste país. Ainda não temos luz no fim do túnel para avaliar tudo isso.

IHU On-Line – É possível projetar um cenário pós-pandemia nas favelas e periferias cariocas?

José Cláudio Alves – Projetar um cenário pós-pandemia nas áreas de favelas e periferias da Baixada Fluminense é um exercício de imaginação. Ainda não temos um quadro muito preciso de como será. Pelo que eu disse até agora, a tendência é reforçar as estruturas de sofrimento das pessoas e as estruturas de poder da face ilegal do Estado, tanto no tráfico quanto nas milícias, assim como a estrutura de poder político que se elege a partir do crime organizado. Essa estrutura tende a se projetar porque vai lançar mão dos recursos do clientelismo para beneficiar aqueles que são seus aliados nesses espaços. É claro que existe resistência e nem tudo está perdido. Ainda temos grupos de movimentos sociais e organizações comunitárias e espaços de discussão crítica e solidariedade que estão funcionando nessas áreas. Se eles não existissem, o quadro seria muito mais grave. Essas instituições também estão lançando mão das suas capacidades de apoiar essa população e conseguem fazer isso. Mas eu vejo que a estrutura maior do crime organizado tem mais condições de apoiar e proteger essa população e tem conseguido fazer isso em função dos recursos, do controle militarizado que eles têm, da violência que exercem, em função do apoio político que recebem dos que estão hoje no poder nos governos federal e estadual. Esses grupos têm como se projetar bastante. 

Pós-pandêmico será pior  

O pós-pandêmico para essas áreas será muito duro. Como será a realidade da saúde pública nessas áreas depois da pandemia? Vai ser melhor? Tudo indica que não, porque os recursos estão sendo destinados de uma forma inadequada e o SUS, se virou herói nacional, foi por mera contingência, porque não tinha outro sistema que pudesse dar conta desse sofrimento e dessa pandemia. O SUS apareceu num cenário de crescimento e expansão, mas isso não foi nada planejado e o pós-pandemia não garante que o SUS possa receber algum tipo de aporte para, nessas áreas de periferias e favelas, melhorar a condição de atendimento.

A área de educação também será bastante atingida e a discussão sobre o ensino a distância sequer tem sido significativa. Falam em como pôr em prática o ensino a distância em muitos municípios, mas as crianças que estão trabalhando dessa forma sofrem um estresse tremendo junto às suas famílias e não há um trabalho de qualidade sendo feito nesse sentido: não há plataforma nem acesso à internet para trabalho remoto. As pessoas não têm aparelhos e equipamentos que lhes possam garantir qualidade nesse acesso, ou seja, tudo é muito precário. É o precariado da educação que está sendo posto em prática para se dizer que se está fazendo alguma coisa e, no meio de tudo isso, os estudantes ainda farão o Exame Nacional do Ensino Médio – Enem. Quem vai ter condições de participar disso se as aulas a distância são de baixa qualidade e os serviços tão precários? Vai se beneficiar quem tiver mais recursos, mais acesso e quem tem condições. Os mais pobres e os moradores de periferias, como sempre, vão ser prejudicados.

O pós-pandêmico será muito pior do que o pré-pandêmico, porque vai reforçar e ampliar o fosso social e vai destruir mais ainda as políticas públicas já existentes. O futuro exige uma mudança absoluta na destinação de recursos pelas leis orçamentárias para destinar projetos no campo da educação e da saúde nessas comunidades. Mas não é isso que observamos no âmbito federal; se vê destinação de recursos para aqueles que são os credores do Estado, com os quais o Estado tem dívidas: empreiteiros, banqueiros e o agronegócio são os destinatários dos recursos públicos. Eles são os que continuam ganhando e o governo federal quer mantê-los ganhando porque são os que financiaram a campanha do próprio governo federal. Nesse sentido, não vejo uma mudança significativa da destinação de recursos públicos para políticas públicas que protejam a população mais vulnerável. Não vejo que esse é o sinal que está sendo dado. A tentativa de retomada do Plano de Aceleração do Crescimento – PAC da era petista é uma piada de mau gosto, porque não tem expressão efetiva e vai ser inexpressivo em termos de aporte. O programa vai depender de como a pandemia vai se desenvolver para ser implementado. Isso não é suficiente e precisaria de algo mais significativo em termos de políticaspúblicas. O cenário vai ser muito mais duro do que o que estamos vivendo agora.

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Horóscopo da Pandemia: O Capitalismo não Morrerá de Coronavírus - Por Fernando Buen Abad Domínguez

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Horóscopo da Pandemia: O Capitalismo não Morrerá de Coronavírus
Que fizemos para mudar? Não há futuro possível sem crítica e autocrítica, severas.
   Como será o mundo depois da pandemia? A mais audaciosa das imaginações dará a volta ao mundo e voltará a dar. Uns clamam por “voltar à normalidade”. Outros acalentam a ilusão de que “morto o vírus acabou-se a raiva” do capitalismo. Outros ainda dão o tom verde ecologista às suas lucubraçõese, é claro, não faltam predicadores que creem que todo mal surge graças a providências extraterrestres. Enquanto fazem contas à receita dos “dízimos”.
Mas há também os “think tanks”, os assessores intelectuais, os académicos ou os “gurus” de todas as ocasiões. Já despertam as manobras do oportunismo e o menu completo do reformismo para instalar os dispositivos da falsa consciência convertida em “senso comum”, atualizado com estatísticas e infografias. Apressam-se para nos entreter com a ilusão de um “novo capitalismo” humano e progressista, redimido dos seus horrores graças à pandemia.
Uma corrida louca para “adivinhar” o futuro que se desencadeia. Dispararam os alarmes nos quadros do controle ideológico dominante porque veem desmoronarem-se as emboscadas que o capital estendeu contra os seres humanos. Estão alarmados e soltaram as suas matilhas de intelectuais para nos sequestrar o futuro (novamente) e impregná-lo rapidamente com mais do mesmo. Para os opressores, é tão importante infestar o futuro com os seus “novos” – velhos – valores, como encontrar a vacina CODIV19. Ambos são, para eles, grandes negócios.
Estão tentando maquilhar o sistema económico dominante, as suas salas de tortura laboral, os seus refinamentos de usura bancária, as suas estratégias de desapropriação e privatização na educação, saúde, habitação, cultura... Estão tratando de camuflar as monstruosidades da indústria bélica capitalista, os seus subordinados financeiros e mediáticos... mais todas as canalhices ideadas com pertinácia para humilharem a humanidade com fome e pobreza. Durante séculos. Cirurgia ideológica importante, lifting apresentado como sem interesse. Preparam um arsenal de paliativos, analgésicos e entretenimentos ideados para anestesiar a rebeldia, para diluir o terror revelado pela pandemia e para nos convencer de que nada pode mudar, que “é assim” e que nos devemos resignar... que alguma migalha cairá da mesa do capitalismo “renovado”. Os rapazotes intelectuais subservientes, essa canalha, está trabalhando arduamente. Já têm reservado muitas páginas nos “principais” jornais e muitas horas na rádio e TV do circo monopólico-transnacional. E nas “redes sociais”, é claro.
Entre os promotores do novo embelezamento do capitalismo estão os mesmos velhos ideólogos que contribuíram para o horrendo desastre de que a humanidade padece. São os mesmos apelidos, as mesmas universidades, as mesmas escolas financeiro-rapaces... nada de novo nessa “renovação” que nos tentam impor para contestar, o que será o futuro da humanidade após a pandemia. Ou, noutras palavras, respondem: mais do mesmo, com algumas reformitas. Sem baixar os lucros, bem entendido.
Nas próprias tripas do capitalismo está a força que o destruirá. Não há necessidade de procurar essa força noutro lugar. É a força que liquidará e sepultará o capitalismo para criar uma sociedade nova. “A burguesia produz, além de tudo, os seus próprios coveiros” Karl Marx. Não é preciso muita ciência para os ver em ação, diariamente. Destrói-o a contradição Capital-Trabalho, elevada à sua máxima tensão, que é uma revolução em marcha. Embora se esforcem muito para a esconder. Desse antagonismo emerge a tensão que elucidará, com a maior amplitude, o papel histórico e os objetivos da luta de classes do proletariado. O capitalismo não só cria e recriará as crises, inventa ilusões para anunciar que encontrará a “recuperação” da economia mundial como renovará os cenários com estratagemas reformistas a longo prazo. Inoculará “novas” reformas e grandes enganos para manter o capital acima dos seres humanos.
É necessário também, um movimento internacionalista de Filosofia para a transformação da realidade. Não se resolverão os problemas que a acumulação de capital impõe à humanidade, apenas com reformas fiscais nem só com reformas do aparelho do Estado ajoelhado ante as oligarquias. Não se resolverá só com mais hospitais, nem só com mais escolas ou com mais do mesmo. Há que reformar integralmente os conteúdos de cada instituição. Ainda que venham brunidos com palavrório ao gosto de certas tribunas. O modo de produção e as relações de produção devem ser profundamente postos em causa. A posse da terra, as “concessões” mineiras, a soberania dos mares territoriais e, em geral, o direito dos povos a desfrutar das riquezas naturais e do produto do trabalho que a elas imprima e que delas provenha. Toda a democracia burguesa deve ser discutida. A sua história, as suas definições, as suas legislações e as milhares de emboscadas ideológicas e vazias. Há que filosofar no sentido de uma revolução humanista a sério.
É também o momento de descolonizar a Filosofia. Lutar nas entranhas das máfias que a sequestraram para esconder a luta de classes e ornar o capital. Há que interpelar a educação na sua totalidade e os seus servidores do mercado dos conhecimentos. Há que interpelar o modelo de saúde e os princípios porque se rege para o emancipar da lógica do mercantilismo messiânico. Devemos questionar, “até doer”, toda a estrutura de “valores” e “senso comum” inoculados pelos “meios de comunicação” sequestrados para nos submeter ao “síndrome de Estocolmo” que nos obriga a aceitá-los como se fossem nossos, os valores da classe opressora. Há que interpelar integralmente o aparelho jurídico e das sanções… o capitalismo integralmente. Incluindo todos nós. Também devemos questionar a nossa crise de liderança revolucionária e resolvê-la para acabar com o capital. Como será o mundo depois da pandemia?: O mesmo, só com o perigo de que nos sequestrem o futuro novamente... o mesmo, só que piorando velozmente se não nos organizarmos para o transformar. “O perigo está na demora”. Eloy Alfaro.

Ver o original em As palavras são armas (clique aqui)

AHRESP acusa banca de impor spreads acima do permitido

 

A secretária-geral da AHRESP, Ana Jacinto, afirma que a banca está a impor valores de ‘spread’ acima dos definidos pelo Governo nas linhas de crédito criadas para ajudar as empresas afetadas pela crise causada pela covid-19.

 

“O que a banca faz é exigir ‘spreads’ mais elevados que aqueles que os protocolos e os regulamentos exigem”, diz a líder da Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (AHRESP) em entrevista à Antena 1 e ao Jornal de Negócios.

De acordo com Ana Jacinto, “a banca exige garantias bancárias patrimoniais, pessoais, quando o Governo já disse sistematicamente que não podem ser exigidas garantias” e, além disso, “extravasa todos os prazos de resposta” que são fixados para que o crédito possa chegar a tempo às empresas.

A secretária-geral da AHRESP adianta que a associação escreveu a todos os bancos a queixar-se da situação e só obteve resposta de um, com a indicação de que estava a cumprir todas as regras.

 
 

Segundo Ana Jacinto, a situação já foi apresentada ao Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e ao primeiro-ministro, António Costa.

Quanto aos apoios dados pelo Governo no âmbito da pandemia, a responsável diz que são “curtos” e defende que a resposta tem de ser “mais robusta” e que o tempo para isso acontecer está a chegar ao fim porque, se até ao final do mês não houver novo pacote de medidas para apoiar o setor, muitos estabelecimentos terão de fechar.

A AHRESP apresentou um pacote de 11 medidas ao Governo e considera que, para a manutenção dos postos de trabalho, é fundamental uma injeção de capital a fundo perdido nas empresas. “Se não houver dinheiro a fundo perdido hoje, são subsídios de desemprego amanhã”, defende Ana Jacinto.

A líder da associação diz ainda que continuam a existir empresas que ainda não receberam os pagamentos do ‘lay-off’ simplificado e defende a continuidade da medida.

Quanto à descida do IVA para a restauração, Ana Jacinto realça que, no passado, a medida permitiu contratar mais pessoas e agora ajudará a manter quem está empregado.

Sobre o balanço da reabertura, a secretária-geral da AHRESP diz que foi tímido e adianta que se não houver mais medidas no final do mês, muitas empresas vão optar por voltar a fechar as portas.

// Lusa

 

 

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https://zap.aeiou.pt/ahresp-banca-spreads-permitido-326236

Quem paga é o dinheiro dos trabalhadores

lay off

O silêncio é a alma do negócio
Foi em março que o Governo abriu a porta ao lay-off simplificado, regime destinado aos empregadores mais afetados pelo surto de Covid-19 e que lhes permite suspender os contratos de trabalho ou reduzir os horários dos trabalhadores. Além disso, as empresas que recorram a este mecanismo passam a receber da Segurança Social um apoio para o pagamento dos salários dos trabalhadores, que também ficam reduzidos.
Os dados do Gabinete de Estratégia e Planeamento (GEP) mostram que mais de 500  empresas com mais de 200 trabalhadores recorreram à lei muitas delas tendo tido nos últimos anos elevados lucros , distribuido chorudos dividendos e prémios aos seus gestores… E fazem -no com todo o descaramento . Sobre isto o Patrão da CIP e da confederação do comércio nada dizem , nem Costa e o de Belém , nem  os moralistas do PSD (Rui Rio ) , CDS e toda a direita

Via: FOICEBOOK https://bit.ly/2WYUVg6

 

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/05/24/quem-paga-e-o-dinheiro-dos-trabalhadores/

Portugal | Da luz ao correio, (todos) os seus direitos durante a pandemia neste guia

 
 
Fique a par de todos os seus direitos, em setores como a eletricidade, água e até mesmo serviços postais.

Com a pandemia houve um conjunto de medidas 'novas' a chegar à vida dos portugueses, mas há direitos que se mantêm e os consumidores devem estar a par dos mesmos.

Nesta senda, a Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor (DECO) divulgou um guia do consumidor que reúne os seus principais direitos mesmo durante a pandemia, nos serviços públicos essenciais. 

A ferramenta, que pode ser útil em tempos como os que vivemos, é transversal a vários setores, começando pela eletricidade e gás natural, GPL canalizado, gás de botija, água, até às comunicações eletrónicas e serviços postais.

Além disso, o guia inclui ainda alguns conselhos deixados pela DECO. 

Notícias ao Minuto

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/05/portugal-da-luz-ao-correio-todos-os.html

ADMIRÁVEL NOVA NORMALIDADE

                      
                    Na foto, um recreio, com crianças sujeitas a distanciamento social
Uma admirável peça de lucidez e de coragem, escrita pelo escritor americano vivendo em Berlim, J.C. Hopkins ( Brave New Normal, part 1  e part 2), incentivou-me a escrever esta reflexão.
Claro, não irei repetir aqui os argumentos muito bem documentados pelo próprio autor. 
O que me tocou mais no seu artigo, é a proximidade destes casos relatados, sobretudo nos EUA, com a minha observação de comportamentos de pessoas - algumas delas minhas conhecidas - que se têm esmerado em negar a realidade do totalitarismo que se tem vindo a instaurar, sob coberto de «pandemia de coronavírus». 
Evidentemente, o vírus existe... evidentemente, tem efeitos funestos, apesar das políticas de alguns Estados (nomeadamente Reino Unido e EUA) em inflacionar os números de mortes por coronavírus, e evidentemente obriga a medidas sanitárias, apesar das estratégias de intimidação da media (controlada pelo poder económico-financeiro ou seja pelo verdadeiro poder) que nos inundam quotidianamente, 24h sobre 24h, com relatos assustadores, causando a maior psicose colectiva de que haja memória.
Mas, os cientistas que têm a honestidade e a coragem de falar verdade e dizer quais as medidas preventivas ou de tratamento que são adequadas a esta epidemia, têm a sua voz silenciada (na media mainstream): seja por «black-out», ou impunemente difamados, por umas nulidades, uns censores e «especialistas» auto-ungidos...
 
Aquilo que me preocupa mais, nisto tudo, é o mecanismo que se põe em marcha, «A Nova Normalidade», a pseudo-legitimidade da tomada de poder totalitária, em nome da nossa saúde, da nossa segurança... Mas, com reforço do arbítrio, do poder ilimitado de polícias e outros agentes do Estado. Têm carta branca para reprimir, para negar as nossas primeiras liberdades como a de circular livremente (mesmo que somente dentro do território do nosso próprio país), de dispormos do nosso próprio corpo (interditados, sob pretexto sanitário, de fazermos gestos como os de abraçar, apertar a mão e beijar... de nos relacionarmos do modo habitual). Nada disto tem sustentação científica, sanitária. Tudo isto é feito com o fim evidente de nos condicionar a uma nova «normalidade», uma normalidade que eu não desejo que se venha a instalar: 
- como câmaras de vigilância que escrutinam os nossos gestos e deslocações em espaços públicos; 
- dispositivos de rastreio (contact tracing) que permitem a qualquer política «sanitária» seguir um indivíduo em todas as circunstâncias;
- uma «lei» pela qual a tal «polícia sanitária» poderá entrar em casa de alguém e levar um membro da família, sob pretexto de que este esteja «infeccioso»;
- um sistema de notação social que permita «recompensar» «bons» comportamentos e «penalizar» «maus» comportamentos.
 
As vacinas produzidas pelas empresas de Mega-Farmacêuticas, sob a tutela da Fundação Melinda e Bill Gates, irão ser administradas pelos Estados. Quem não aceitar estas vacinas, ficará impedido de fazer quase tudo. 
Juntamente com essas vacinas, haverá um sistema de rastreio com os dados sanitários de cada indivíduo, pelo que este estará detectável e identificável até ao pormenor, segundo plano da Fundação Rockefeller (Ver conferência  organizada em 2010, e designada de «ID 2020». Suas conclusões podem ser vistas no site da referida Fundação).
 
O que temo é que a oligarquia tenha capacidade de comprar a corrupta «classe» política dos países ocidentais, nos quais serão progressivamente instalados os dispositivos de controlo, vigilância remota e repressão de qualquer dissidência... o que até agora foi apanágio de ditaduras. Na verdade, o totalitarismo não será consequência, apenas, da vontade da pequeníssima minoria que tem vantagem material em manter um mundo completamente desigual. Medidas liberticidas serão aplaudidas e mesmo incentivadas, por um público manipulado, instrumentalizado pelas campanhas de propaganda de medo. Já se viu isto em regimes totalitários do século XX. 
 
Haverá um participação de uma «elite» científica quer de especialistas em robótica, biologia molecular, «ID», etc. Mas também, psicólogos, sociólogos, antropólogos e outros especialistas das ciências humanas participarão em tecnologias completamente contrárias ao humanismo e direitos e dignidade humanas, como se viu também no passado... Ao fazê-lo, todos eles, seja qual for a sua formação e seu estatuto, estarão a vender-se ao poder. 
Estamos perante o ascenso do bio-poder completamente totalitário, em que os métodos implementados por ditaduras do passado serão considerados «primitivos». 
 
Quanto mais pessoas tomarem consciência e quanto mais cedo reagirem, melhor: não com violência, mas simplesmente recusando serem instrumentalizadas pela «Nova Normalidade». Vai ser uma verdadeira resistência, em que a criatividade e sobretudo a ética das mais diversas pessoas será posta à prova. 
Sou optimista: Acredito que haja suficientes energias e inteligências que saibam unir-se para encontrar para erradicar este totalitarismo, a maior «peste» à face da Terra.
 

Ver o original em 'Manuel Banet' (clique aqui)

Combater o medo, agindo com prudência e em nome dos mais fracos

A 18 de Maio mais de 500 estabelecimentos de ensino reabriram portas para receber os alunos do 11.º e 12.º anos, depois de dois meses com aulas à distânciaCréditosEPA/MANUEL DE ALMEIDA / LUSA

Por Mário Nogueira

Estamos confrontados com um tempo que nos é estranho, tão estranho que leva alguns a pensar tratar-se, apenas, de uma curta pausa numa normalidade que segue dentro de momentos.

Algo do género, parou-se em meados de março, fomos postos à prova, mas agora tudo voltará a ser como era antes, sem outras consequências. Não será assim e, pelo contrário, abriram-se brechas que poderão provocar graves ruturas económicas e sociais, com profundas implicações na descapitalização do Estado (de quem os inimigos, agora, exigem tudo), na sua capacidade para continuar a garantir as indispensáveis funções sociais que lhe estão acometidas e a promover os serviços públicos que lhes dão corpo, implicações, ainda, no trabalho e na vida de todos os trabalhadores, do setor público e do privado.

Este é um contexto favorável ao grande capital que espreita para se aproveitar das fragilidades criadas para surgir como salvador da Pátria, apoderando-se ainda de mais recursos, e também favorável a alguns afilhados políticos que operam e lucram no chamado setor social e nunca perdem uma oportunidade para ganhar influência junto de um poder que os alimenta. Isto para dizer que não criar condições para o regresso à normalidade, ainda que limitada, não seria bom para o futuro da nossa sociedade, mas, sem esquecer que de uma eventual imprudência nos passos a dar poderá resultar uma situação, que ninguém deseja, de ainda maior gravidade do que a atual. Dizia-me um amigo, proprietário de um pequeno restaurante de diárias, frequentado por trabalhadores das imediações, que «com dificuldade, mas deu para aguentar, uma segunda situação como esta e não se aguenta mais, será o estoiro!».

Encerrados em 13 de março, os estabelecimentos de educação e ensino irão reabrir, de forma faseada, como todos os serviços e empresas. As prioridades são (sempre) discutíveis, ainda mais quando não correspondem a um único critério, mas cruzarão quatro tipos de interesses: saúde, educação, economia e sociedade. Seguramente, na situação que vivemos, não poderia haver um único critério. A questão, neste momento, é encontrar um ponto de equilíbrio: é certo que quanto mais se arrastar o confinamento, mais se afundará a economia e o futuro da vida de todos nós; porém, quanto mais rapidamente se procurar estancar a quebra económica mais possibilidades há de surgir uma segunda onda infeciosa de dimensão elevada. É preciso encontrar o ponto de equilíbrio entre todos estes interesses e as escolas não poderão, obviamente, ficar de fora. Uma resposta que também não pode esquecer que, em menos de dois meses, dois milhões de portugueses perderam rendimento, ficando em lay-off ou no desemprego, aumentou em 50% a pobreza e foi atirada para os braços da caridade uma quantidade enorme de pessoas que têm direito a uma vida digna não tendo que viver de mão estendida.

Tal como aconteceu em outros momentos, mais uma vez os professores e a Escola Pública assumirão a sua responsabilidade social, contribuindo para que se deem os passos necessários no sentido da normalidade. Deram-nos no passado, saberão dá-los agora, num tempo em que deles se espera (e exige) um contributo que não se esgote no interior das paredes da escola, mas extravase para além delas, sendo suporte do tremendo desafio que se coloca a toda a sociedade e a cada pessoa em particular.

Porém, o regresso às escolas tem riscos que terão de ser minimizados através da realização de testes, de proteção dos mais frágeis, de equipamentos de proteção para todos, de desinfeção periódica, de normas de distanciamento físico, higiene sanitária e etiqueta respiratória, de avaliação periódica da situação… tudo isto sem nunca aliviar para que se minimizem os riscos.

O regresso acontece sem que se tivessem feito testes à comunidade escolar das secundárias do território continental; apenas nas regiões autónomas, em instituições de ensino superior, nas creches e em alguns municípios eles foram total ou parcialmente realizados. Esteve mal o Governo ao não aceitar a realização de testes, que seriam mais um fator de confiança e permitiria ter um retrato mais fiável da situação epidemiológica no país, mas também por violar o compromisso de só avançar com uma nova fase de desconfinamento após avaliar a anterior. Inicia-se a segunda fase em 18 de maio sem, contudo, ter sido avaliado o impacto da primeira que começou no passado dia 4.

Acresce que não existe consenso dentro da comunidade científica sobre a reabertura já, pelo facto de o valor de Rt (transmissibilidade) estar ainda perto de 1 e por não haver evidências de que já estamos numa fase consolidada de descida. E é por haver mais dúvidas do que certezas que acaba por ser imprudente a abertura de escolas e creches no dia 18 de maio, uma decisão que, assim, acaba por ser eminentemente de natureza política, com a assunção do risco por parte do governo.

Na preparação de condições de segurança sanitária apenas duas escolas foram desinfetadas pelos militares, ficando de fora, por exemplo, a escola de Idães que levou o Presidente da República a fazer testes e a respeitar os 14 dias de quarentena. Os militares deram formação ao pessoal auxiliar das escolas e foram estes que higienizaram as instalações escolares. Quanto a equipamentos de proteção individual, chegaram a todas as escolas, embora, nuns casos, em quantidade suficiente para o que falta do ano letivo e, em outros, apenas para uma semana de funcionamento.

Há ainda duas preocupações neste recomeço: as relacionadas com o respeito pelos direitos laborais, nomeadamente em relação a horários de trabalho, serviço distribuído, entre outros que terão de ser observados; também o aspeto pedagógico preocupa, com diversas medidas que estão a ser tomadas – permuta de turmas entre docentes a um mês do final do ano, redução para metade das aulas previstas para alunos inscritos em exames, ausência de qualquer resposta a alunos cujas famílias optem por se manterem em casa ou manutenção do regime habitual de acesso ao ensino superior – a deixarem transparecer a ideia de alguma irracionalidade.

Vamos, então, ver como tudo corre, contribuir para que corra com a normalidade possível e pensar, sobretudo isso, que as famílias trabalhadoras e os seus filhos são quem mais sofre com tudo o que se está a passar e, dentro das limitações que se impõem e com os cuidados que se exigem, tentar atenuar os fossos que a pandemia escavou e o poder político poucas vezes compensou adequadamente.

Professor; Secretário-geral da FENPROF.

O autor escreve ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1990 (AE90)

 

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/nacional/combater-o-medo-agindo-com-prudencia-e-em-nome-dos-mais-fracos

Malabarismos numéricos

Pormenor dos dados fornecidos pelo MTSSS
Quando o deputado Jerónimo de Sousa, sublinhou hoje no debate quinzenal com o primeiro-ministro que o lay-off está a beneficiar as grandes empresas e multinacionais, António Costa respondeu que, das empresas apoiadas pelo lay-off, apenas 0,5% das empresas apoiadas são grandes empresas e que a esmagadora maioria são micro e pequenas empresas.

De facto, assim é. Mas o problema não está aí. Está em diversos problemas:

Problema 1: Segundo os dados do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, os 0,5% das empresas apoiadas correspondem a 536 empresas num total de 110.847 empresas apoiadas. Ora, o problema é que, segundo o INE, essas 536 empresas representam 54% das 994 grandes empresas existentes em 2018. Ou seja, mais de metade das grandes empresas estão a ser apoiadas pelo Estado.

E o que acontece às microempresas? E às pequenas? O Estado está a apoiar 89.986 microempresas, quando existiam em 2018, segundo o INE, 334.383 empresas com pessoal ao serviço. Ou seja, apenas 27%. Da mesma forma, havia 40.963 pequenas empresas, tendo sido apoiadas 12.843 empresas. Ou seja, 32% das pequenas empresas.

 

Como se vê, houve uma disprepância e enviesamento nos apoiados concedidos pelo lay-off. 

Problema nº2: As microempresas detêm 45% do total do pessoal remunerado, as pequenas cerca de 19%, as médias empresas cerca de 15% e as grandes empresas cerca de 21%. E como as grandes empresas praticam remunerações médias mais elevadas do que as microempresas, esse enviesamento é ainda mais acentuado. 

Com efeito, feitas as contas aos montantes das remunerações praticadas em cada escalão de pessoal ao serviço e tendo em conta às isenções de contribuições sociais concedidas no apoio ao lay-off, verifica-se que dois terços do apoio financeiro irão para as grandes e médias empresas (38% e 28% respectivamente), enquanto as micro e as pequenas empresas recebem o outro terço (12% e 23%).

Portanto, era conveniente fazer as contas todas para se poder retirar uma conclusão mais real. 

   
   
   
   
   

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Luxemburgo dá vales de 50 euros a residentes para utilizarem em hotéis no país

 

O Governo luxemburguês vai dar vales de 50 euros aos mais de 600 mil residentes e trabalhadores fronteiriços, para serem usados em estadias em hotéis no país, anunciou na quarta-feira o ministro das Finanças, Pierre Gramegna.

“Queremos apoiar o turismo, atribuindo um vale de 50 euros a todas as pessoas com mais de 16 anos residentes no Luxemburgo, e também a todos os fronteiriços que trabalham aqui”, explicou o ministro, durante uma conferência de imprensa para apresentar um pacote de medidas destinado a relançar a economia luxemburguesa, após a pandemia da covid-19, segundo noticiou a agência Lusa.

O objetivo da medida é “apoiar os hotéis e estruturas de alojamento no Luxemburgo”, permitindo aos residentes e trabalhadores fronteiriços “conhecer melhor o país”, disse Gramegna, que lamentou os efeitos do fecho das fronteiras, instaurado durante várias semanas, no turismo e na economia nacional.

“Daqui a um ano, celebraremos o 25.º aniversário do acordo de Schengen, e é triste ver até que ponto as fronteiras foram fechadas na Europa. No Luxemburgo, vemos muito bem quais são as consequências para um país quando as fronteiras estão fechadas”, declarou.

O Governo do Luxemburgo anunciou na quarta-feira um pacote de medidas suplementares para fazer face aos efeitos económicos da pandemia do novo coronavírus no país.

Com um custo orçamental previsto de 700 a 800 milhões de euros, o pacote eleva para três mil milhões de euros as despesas diretas do Estado para apoiar a economia, o que corresponde a cerca de 5% do Produto Interno Bruto (PIB) daquele país, de acordo com o ministro das Finanças luxemburguês.

Entre as medidas está o congelamento do valor das rendas até final do ano, no caso do arrendamento habitacional, e a criação de estímulos fiscais ao arrendamento comercial, estimulando a redução do valor das rendas. O Governo também anunciou que vai duplicar o valor do “subsídio de vida cara”, destinado a pessoas com baixos rendimentos.

O Grão-Ducado, que faz fronteira com a França, Alemanha e Bélgica, tem cerca de 625 mil habitantes, mas todos os dias recebe 200 mil trabalhadores dos países vizinhos. Desde o início da pandemia, o Luxemburgo registou 109 mortos por covid-19 e 3.971 casos de infeção confirmados.

A nível global, segundo um balanço da agência AFP, a pandemia de covid-19 já provocou mais de 327 mil mortos e infetou quase cinco milhões de pessoas em 196 países e territórios. A doença é transmitida por um novo coronavírus detetado no final de dezembro, em Wuhan, uma cidade do centro da China.

Lusa //

 
 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/luxemburgo-vales-50-euros-residentes-hoteis-pais-325762

Protestos contra salários em atraso na hotelaria

Milhares de trabalhadores que deixaram de receber os salários, aquando da aplicação das medidas de contenção que obrigaram ao fecho de muitos estabelecimentos, reclamam agora o cumprimento dos seus direitos.

A Região do Algarve é a mais afectada pela subida do desemprego e o Sindicato da Hotelaria do Algarve (CGTP-IN) diz que a situação real é ainda mais dramática do que aquela que é evidenciada pelos números do desemprego.

No Grupo JJW Hotels & Resorts, uma parte dos cerca de 500 ainda não recebeu o salário de Março e ninguém recebeu o salário de Abril.

«Há rendas de casa e empréstimos bancários por pagar e trabalhadores a passar fome. Para minorar este problema os refeitórios foram reabertos para os trabalhadores poderem tomar uma refeição», refere em nota o sindicato.

Além disso, vários trabalhadores com vínculos precários, mas a ocupar postos de trabalho permanentes, alguns há vários anos, foram despedidos.

Para protestar e exigir o pagamento dos salários em atraso e o cumprimento dos direitos, os trabalhadores irão concentrar-se amanhã, dia 22, pelas 11h30, no empreendimento turístico Pinheiros Altos, na Quinta do Lago (Loulé).

Reabrir sem pagar salários em atraso

Também o Sindicato da Hotelaria do Norte (CGTP-IN) denuncia os salários em atraso de milhares de trabalhadores dos restaurantes e cafés que não reabriram.

Acusando o Governo de não ter aceitado as propostas sindicais nem ter criado quaisquer alternativas para acudir a esta situação social grave, o sindicato refere ainda que alguns estabelecimentos querem reabrir sem pagar os salários de Março e Abril.

Alguns trabalhadores estarão reunidos no Porto, amanhã, a fim de denunciar publicamente a situação.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/trabalho/protestos-contra-salarios-em-atraso-na-hotelaria

A grande solidariedade europeia…Nem este pequeno passo é aceite

Proposta franco-alemã sobre fundo de recuperação agita UE
 
Foi encontrado um compromisso franco-alemão e um tabu caiu do lado alemão. De acordo com o plano que será proposto aos 27 membros da União, a Comissão estará autorizada a emprestar 500 bilhões de euros e distribuí-los sob a forma de doações não reembolsáveis. Mas, para conhecer o final da história, temos que esperar o outro compromisso que terá que ser feito com as autoridades austríacas, suecas, dinamarquesas e holandesas.
 
Estes últimos não são a favor do princípio dos subsídios e preferem empréstimos que devem ser reembolsados.Uma fórmula que mistura os dois princípios não pode, portanto, ser excluída na chegada.Esta armadilha evitada, resta definir a maturidade do empréstimo contratado pela Comissão, bem como os métodos de distribuição dos fundos arrecadados.A alocação de 500 bilhões de euros deverá atender a muitos critérios, a queda do PIB e o nível de desemprego, por exemplo, mas também o financiamento de medidas para realocar setores produtivos prioritários e disposições de natureza ecológica.O suficiente para ocupar algumas longas noites de negociações em Bruxelas …
 
A concessão de subsídios financiados pelo orçamento comunitário é semelhante à emissão de títulos em euros, um passo a ser dado, porque não é garantido encontrar uma fórmula para acalmar o jogo com o Tribunal de Karlsruhe.Mas os 500 bilhões de euros em três anos representam pouco mais de 1% do PIB da União, o que deixará a maior parte do esforço financeiro atual a ser suportado pelos Estados, sem regulamentar o questão do que acontecerá com a dívida deles.
 
Se você olhar mais de perto, o presente pode ser menos generoso do que parece.Porque, mesmo que a Comissão esteja autorizada a aumentar os seus próprios recursos através da cobrança de impostos, com um resultado que está longe de ser tido em conta, retira do seu orçamento financiado pelos Estados-Membros o reembolso do seu empréstimo.A contribuição correspondente de cada um deles será, portanto, subtraída do subsídio que receberá, a menos que a Comissão esteja entretanto autorizada a rolar a sua dívida.Para preservar o futuro, cada governo esforçar-se-á por obter um montante de subsídios superior ao das suas contribuições adicionais para o futuro orçamento comunitário…
 
.Suécia, Áustria, Holanda e Dinamarca estão preparando uma contraproposta ao projeto franco-alemão que substitui empréstimos por subsídios no mesmo valor de 500 bilhões de euros.Uma mistura dos dois é esperada.
F. L . décodages
 

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/05/20/a-grande-solidariedade-europeia-nem-este-pequeno-passo-e-aceite/

CRISE DO COVID 19 E A INCAPACIDADE DAS SOCIEDADES NEOLIBERAIS EM LHE DAREM RESPOSTA – XLIII – AS MÁSCARAS: AS PROVAS DE UMA MENTIRA DE ESTADO, por YANN PHILIPPIN, ANTTON ROUGET e MARINE TURCHI – parte II

 

Masques: les preuves d’un mensonge d’Etat, por Antton Rouget, Yann Philippin et Marine Turchi

Mediapart, 2 de Abril de 2020

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

(conclusão)

 

♦ ATO  IV (março). A célula de Bercy e o escândalo Airbus

Este tem sido o credo do Governo desde o início da crise: “A distribuição de máscaras privilegia sempre os cuidadores e as pessoas mais frágeis”, repetiu, sábado, 28 de Março, o ministro Olivier Véran. É verdade, mas “privilégio” não significa “reserva”. Se foi drasticamente reduzido, o Governo nunca cortou o abastecimento às empresas, em nome da sua política de preservação da maior atividade económica possível (leia os nossos inquéritos aqui, 21 e além).

Quando o governo requisitou todas as máscaras do território por decreto, em 3 de Março, não ordenou a apreensão de todas as existências das empresas. Segundo Marianne, uma semana depois, o Ministério da Saúde quis recuperar as máscaras da indústria agro-alimentar, que consome mais de 1,5 milhões de máscaras por semana. Antes de desistir sob a pressão da indústria e do ministro da Agricultura.

Após um período de hesitação, o Governo clarificou as regras: as empresas que, por razões de segurança no trabalho, eram legalmente obrigadas a fornecer máscaras aos seus trabalhadores antes da crise podem continuar a fazê-lo, afirmou a Secretária de Estado da Economia, Agnès Pannier-Runacher, em 30 de Março, durante uma conferência de imprensa telefónica.

 

Agnès Pannier-Runacher, Secretária de Estado junto do Ministro da Economia, no Palácio do Eliseu, em 6 de Janeiro de 2020. Ludovic Marin/AFP

Em 20 de Março, ao liberalizar as importações – apenas as encomendas de mais de 5 milhões de máscaras têm de ser declaradas e são suscetíveis de ser requisitadas – as autoridades permitiram igualmente que as empresas francesas se abastecessem de máscaras, alimentando assim a concorrência num mercado já sob grande pressão.

Mais surpreendente ainda, a Bercy criou uma unidade na sua Direcção-Geral das Empresas (DGE) para ajudar as empresas a importar máscaras. Distinta da unidade interministerial encarregada de fornecer ao Estado e para o pessoal de saúde, coordena uma rede de 150 compradores privados repartidos pelos principais grupos franceses. O Secretário de Estado especificou que a “unidade empresarial” se abastece junto dos “menores” fabricantes chineses, sendo os “maiores volumes” “dirigidos” em prioridade à célula  que fornece ao  Estado.

Uma vez que o Estado “bloqueou” os seus abastecimentos através de encomendas gigantescas anunciadas a 21 de Março (ver infra), Agnès Pannier-Runacher considera “normal” que  Bercy esteja a trabalhar para “ajudar as empresas, uma vez que estas dão à França uma resiliência adicional”.

Interrogada na segunda-feira, 30 de Março, pela Mediapart durante a sua conferência de imprensa, ficou mais embaraçada com o número de máscaras consumidas pelas empresas. “Menos de alguns milhões por semana”, respondeu ela. Interrogada posteriormente sobre os volumes exatos, o seu gabinete  recusou-se a responder.

O secretário garantiu que o sector privado “não compete com os cuidados de saúde” e que seria “errado colocar um contra o outro”. Ela afirmou  que o Estado “desarmazena” todas as semanas máscaras suficientes para os hospitais e que a única “questão” que se colocaria seria a “logística” da sua distribuição aos prestadores de cuidados.

Esta afirmação é altamente questionável, dada a escassez de prestadores de cuidados (ver infra). Tanto mais que a liberalização da compra de máscaras há apenas dez dias levou a um aumento no consumo de máscaras pelas empresas. E que estas máscaras estão longe de ser utilizadas apenas por sectores essenciais ou expostos, como é o caso dos caixas de produtos alimentares e dos supermercados.

O caso mais emblemático é o do gigante Airbus.

Enquanto a crise do Covid-19 imobilizou 80% da frota aérea mundial, não há urgência em montar aviões. Contudo, a Airbus reabriu as suas fábricas francesas em 21 de Março, e com um consumo muito elevado de máscaras, de acordo com as nossas informações.

E o fabricante de aviões parece ter recebido um livre-trânsito. Em 20 de Março, o diretor comercial da zona mediterrânica ocidental do fabricante de máscaras 3M distribuiu aos seus funcionários  um documento confidencial intitulado “covid communication”, descrevendo os sectores a serem prioritariamente entregues. É, explicou  durante uma conferência telefónica, as instruções dadas pelo governo.

À primeira vista, tudo isto faz sentido. A “Prioridade 1” refere-se a encomendas de estabelecimentos de saúde, da indústria farmacêutica e do “governo”. Os sectores essenciais (alimentação, energia) são “prioridade 2”, enquanto todas as outras empresas são “prioridade 3”, ou seja, “não prioritárias”.

Todos os outros, exceto a Airbus, classificados no documento como “prioridade 2″. Porquê”? Baseia-se em prioridades estabelecidas pelo Governo. …] Nós não decidimos essas prioridades”, disse o diretor comercial  da 3M, o fabricante da máscara, durante uma conferência telefónica interna em 20 de Março. “Não vou julgar, não estamos aqui para julgar de todo, mas até agora, isto tem sido uma prioridade”, acrescentou. De acordo com outro documento confidencial 3M, a Airbus não foi retirada da “prioridade 2” até 25 de Março, tendo sido de facto reclassificada como “prioridade 3”,).

© Document Mediapart

O governo deu realmente instruções à 3M para favorecer a Airbus? O fabricante de máscaras não o negou, afirmando apenas que “tem plenamente em conta as recomendações do governo, incluindo a prioridade dada aos profissionais de saúde”. A Airbus afirma que “não tem conhecimento desta classificação de prioridades 1, 2 ou 3”.  Bercy e o Ministério da Saúde não nos responderam sobre este ponto.

“Estamos realmente a colocar-nos em perigo, em nome da economia”.

Em qualquer caso, após um encerramento de cinco dias devido à implementação do confinamento, as fábricas da Airbus francesa reabriram em 21 de Março. No dia seguinte, o Presidente executivo do fabricante de aviões, Guillaume Faury, anunciou no Twitter que um dos seus A330 tinha aterrado em Toulouse com 2 milhões de máscaras chinesas, “a maioria das quais será entregue aos governos”. “Estamos a trabalhar para apoiar as equipas médicas que salvam vidas no terreno”, afirmou.

Mas Guillaume Faury esqueceu-se de dizer que a carga também se destinava às suas fábricas. “Uma pequena parte foi mantida pela Airbus para garantir a segurança do pessoal que trabalha nas nossas instalações”, reconhece agora a empresa. O fabricante de aeronaves utilizou, por conseguinte, um comboio humanitário para se abastecer de forma discreta.

 

Extrato das instruções Covid-19 para os empregados das fábricas francesas da Airbus. Documento Mediapart

 

A Mediapart procurou as instruções distribuídas aos trabalhadores à entrada das fábricas: o uso de máscaras cirúrgicas é obrigatório “quando a atividade não permite respeitar a distância de 1 m”, com “as máscaras devem ser mudadas de 4 em 4 horas”. De acordo com as nossas informações, a maioria dos trabalhadores usa máscaras. Tendo em conta a mão-de-obra da Airbus, isto representa vários milhares de máscaras por dia. A empresa não negou este número.

O que é ainda mais chocante é que as mesmas instruções dizem que “usar uma máscara FFP3” é obrigatório “se exposto a poeira/neblina de óleo”. As máscaras FFP3 , que são ainda mais eficazes e dispendiosas do que as máscaras FFP2 , são na realidade essenciais para proteger os trabalhadores em determinados postos de trabalho. Mas a sua utilização no meio da crise da Covid suscita dúvidas. As máscaras FFP2 e 3 são as únicas que protegem os seus utilizadores contra a Covid, e mesmo os trabalhadores da linha da frente na luta contra o vírus têm dificuldade em obtê-las. Estou revoltado que os FFP3 estejam a ser utilizados quando não vale a pena montar aviões neste momento”, diz um empregado da Airbus. Estas máscaras devem ser entregues aos hospitais.

 

Reserva de máscaras FFP3 numa fábrica francesa da Airbus, tomadas após o regresso ao trabalho, em 21 de Março de 2020. Documento Mediapart

Quando questionada, a Airbus garante que “limita o seu consumo de máscaras cirúrgicas e de FFP3 ao estritamente necessário para garantir a segurança dos seus empregados”. O grupo justifica a continuação das suas atividades apesar da crise da Covid pela necessidade de “garantir a sobrevivência a longo prazo” da indústria aeronáutica, “um sector essencial e estratégico para a França”. Por último, a Airbus indica que “repatriou cerca de 6 milhões de máscaras, destinadas principalmente aos serviços de saúde europeus” (ler a resposta completa no separador “Extender”).

O caso da Airbus não coloca qualquer problema ao Governo: o Ministério da Saúde respondeu que, desde a liberalização das importações decidida em 20 de Março, todas as empresas “cuja actividade exige o uso de uma máscara cirúrgica ou tipo FFP2/FFP3”, mesmo as não essenciais, têm o direito de as comprar.

♦ ACT V [Março]. A atual escassez de máscaras

Hospital Bichat, Paris. Para fazer face à “vaga” de doentes que inundam a região parisiense, o estabelecimento forçou os seus  muros para aumentar a sua capacidade. A sua unidade de cuidados intensivos passou de 28 camas para 45 camas em apenas alguns dias na semana passada. Este esforço já é insuficiente: a bitola está 100% cheia, de acordo com as nossas informações.

Também nos outros departamentos, o pessoal de enfermagem está na linha da frente para cuidar de um fluxo de pacientes “mais ou menos degradados”. Mas há uma grave escassez de máscaras.

“No fim-de-semana passado, deram-me três máscaras, não máscaras FFP2 para nos proteger, mas simples máscaras cirúrgicas, durante uma noite inteira”, diz Sarah*, que estava a trabalhar com 24 doentes Covid, conhecidos por serem portadores do vírus, “a maioria deles em estado crítico”. A enfermeira de 28 anos, que normalmente trabalha em associações, tinha-se voluntariado para reforçar as equipas hospitalares. “Disseram-me que eu ia ser protegido. Mostraram-me vídeos de como me vestir corretamente numa cela Covid, etc. Disseram-me que ia ser protegida. ». Na realidade, a enfermeira sente-se “como se tivesse sido enviada para o sitio altamente perigoso e sem nenhuma proteção “. “É muito traumático, tenho a certeza que agora estou infetada”, diz ela.

No dia seguinte à sua noite, Sarah telefonou para o serviço de permanência para anunciar que não regressaria a Bichat. Como uma última palavra, o hospital deu-lhe o número da linha direta de um especialista em doenças infeciosas .

A razão para o racionamento do pessoal é porque a reserva de máscaras atingiu um nível crítico. A AP-HP, que emprega 100.000 profissionais em 39 hospitais, tinha menos de 2,4 milhões de máscaras em stock em 31 de março, de acordo com os seus resumos da “célula de máscaras”.

A existência em máscaras  é largamente dominada por uma reserva de 2 milhões de FFP2 , cuja reconstituição é atualmente muito incerta. A AP-HP apertou assim os parafusos em todas as instalações de saúde, dando prioridade ao pessoal de reanimação. Nos últimos três dias, de 29 a 31 de Março, apenas 20.000 FFP2 foram distribuídos, em média, por dia. E isto numa altura em que os hospitais da região de Île-de-France enfrentam um afluxo recorde de doentes (leia-se aqui).

Em consequência, as instruções emitidas pelas autoridades sanitárias no início da crise caíram em desuso. Em 20 de Fevereiro, numa nota dirigida aos estabelecimentos de saúde, o Ministério exigiu que qualquer prestador de cuidados em contacto com um caso “possível” de Covid-19 transportasse uma máscara  FFP2. Mas a doutrina oficial sobre o uso de máscaras evoluiu depois, recorda o Ministério da Saúde.

A fim de limitar o uso do FFP2, as autoridades apoiaram-se num parecer emitido em 4 de Março pela Sociedade Francesa de Higiene Hospitalar (SF2H), que considerou que estas máscaras podiam ser reservadas “ao pessoal de saúde que efetua procedimentos médicos invasivos ou manobras na esfera respiratória” em doentes do Covid-19. O próprio SF2H baseou-se numa recomendação da Organização Mundial de Saúde destinada a “racionalizar” a utilização de equipamentos médicos face ao risco de escassez global.

Também para as máscaras cirúrgicas, a distribuição é agora altamente controlada. E, por uma boa razão, na terça-feira, 31 de Março, só restavam 294.000 máscaras em stock. O rácio de entradas e saídas nos últimos dias mostra a gravidade da situação: em três dias, a APHP distribuiu 829.750 máscaras… e recebeu apenas 7.500 no mesmo tempo.

A urgência é tal que a AP-HP está a mobilizar-se com a Universidade de Paris, e o gigante de luxo Kering, para fabricar algumas centenas de máscaras adicionais por dia utilizando cerca de60 impressoras 3D

Ao mesmo tempo, de acordo com os números oficiais divulgados pelo seu ramo, o número de profissionais do HA-HP contaminados desde o início da epidemia subiu para 1.200 pessoas “com uma proporção significativa de médicos, perto de 40%”.

Escrito em 20 de Fevereiro, a nota  do ministério exige que qualquer prestador de cuidados em contacto com um “possível” caso Covid-19 utilize uma máscara FFP2. Documento Mediapart

O problema não diz apenas respeito à região de Île-de-France. Em muitas áreas e desde há várias semanas, o pessoal de saúde sente que já não dispõe dos meios para trabalhar em segurança.

Desde o dia 19 de Março, uma enfermeira nos cuidados intensivos do centro hospitalar de Perpignan, onde desde então o pessoal médico foi contaminado, explicou à Mediapart as consequências da falta de máscaras: “Normalmente, fora de Covid, para os pacientes isolados, é preciso usar uma blusa impermeável, luvas, uma charlotte, uma máscara FFP2, e ao sair da sala tudo é deitado fora. Hoje, é-nos pedido que mantenhamos as nossas máscaras FFP2 durante o período de validade das mesmas (três a quatro horas). Só que quando cuidamos de um doente, tiramos gotículas da máscara, depois vamos telefonar com ela, vamos e vimos para a enfermaria. É aí que se põe realmente em risco, em nome da economia. Eles dizem: “Não há máscara”. »

A escassez está a afetar toda a cadeia hospitalar. Como neste hospital psiquiátrico na Lorena, que teve de doar 25% do seu stock (10.000 máscaras cirúrgicas em 40.000) ao Hospital Universitário de Nancy. A razão? Mesmo “após as requisições governamentais”, a atribuição concedida ao ramo departamental do ARS “torna muito difícil satisfazer as necessidades expressas”, explicou a direção do hospital por correio eletrónico em 18 de Março.

Questionado pela Mediapart, o ARS Grand Est declarou que se tratava de um “pedido” e não de uma “requisição”: “Isto foi feito com o acordo desta última, e apoiado pela solidariedade entre instituições num período de crise. Ninguém foi lesado”, acrescentou o serviço de imprensa.

Contudo, as consequências não foram neutras: para libertar o equipamento, o pessoal de enfermagem do hospital psiquiátrico – vários dos quais sofrem de Covid-19, de acordo com uma nota interna – foi solicitado pela sua direção que não usasse máscaras para o tratamento daqueles sem sintomas. “Estamos expostos há quase 15 dias”, disse uma enfermeira, temendo que o vírus possa prosperar entre doentes assintomáticos e profissionais.

“Anunciam-nos  desde o início das entregas de máscaras às farmácias, mas onde é que elas estão? Nós não entendemos! “A Dra. Audrey Bidault, na Sarthe, está alarmada. Desde há várias semanas que esta geriatra conta as suas máscaras, que ela distribui em gotículas à sua volta.

Para seu consumo pessoal, a médica “reutiliza as máscaras cirúrgicas durante alguns dias, o que não é o ideal, é claro”. Mas as reservas estão a esfumar-se. Assim, pensa na possibilidade de reciclar as suas “últimas FFP2, descontaminando-os a uma temperatura de 70ºC durante um período de trinta minutos”.

Apesar de tudo, Audrey Bidault sabe agora que é privilegiada: é uma das raras profissionais a ter constituído o seu próprio stock através da compra de material na Internet no início de março. A razão? Uma viagem familiar ao Japão – onde quase toda a população está equipada com uma máscara – da qual regressou no final de fevereiro com a certeza de que a França tinha de se preparar para a propagação do vírus.

Quando aterrou em solo francês, a Dra. Bidault tinha alertado as mais altas autoridades, começando pelo Diretor-Geral da Saúde, Professor Jérôme Salomon. “Seria possível distribuir máscaras cirúrgicas à população em múltiplos locais? “Ela perguntou-lhe em 24 de Fevereiro no LinkedIn. As máscaras cirúrgicas são úteis na eventualidade de um surto e são distribuídas aos regressados  da China e às pessoas em contacto com pessoas doentes”, afirmou Salomon. “Audrey Bidault voltou á carga : “Na minha opinião, isto não será suficiente. Não estamos a fazer o suficiente em termos de prevenção. “Estamos de acordo e apoiamos todas as ações de prevenção”, responde Jérôme Salomon.

Quatro dias mais tarde, a França passa à “fase 2” da epidemia.

♦ ATO  VI (segunda quinzena de Março). Mega-encomendas comandos e mega-comandos”.

A França encontra-se ainda na “fase 2”, quando o Governo mantém a primeira volta das eleições autárquicas, em 15 de Março. O Estado não fornece máscaras aos presidentes e assessores das mesas de voto. Na noite seguinte, Emmanuel Macron anunciou o confinamento da população durante duas semanas.

O Covid-19 já tinha morto 148 pessoas.

Nos dias que se seguiram, o executivo martelou a sua linguagem sobre a futilidade do uso da máscara. “Os franceses não poderão comprar máscaras nas farmácias porque não é necessário quando não se está doente”, disse a porta-voz do Governo, Sibeth Ndiaye, em 19 de Março. “Não sei usar uma máscara… é um gesto técnico”, acrescentou ela no dia seguinte.

A mensagem está a ser transmitida em todos os tons, em todos os canais. Temos de sair desta fantasia das máscaras”, disse Agnès Pannier-Runacher à BFM Business no mesmo dia. Manter uma distância superior a um metro é muito mais eficaz do que uma máscara. Acima de tudo, tivemos casos de contaminação por pessoas que usam máscaras e as tocam ao longo de todo  o dia.

 

Emmanuel Macron durante a sua visita ao hospital de campanha Covid-19, em Mulhouse, em 25 de Março de 2020. AFP

O cume da situação foi atingido em 25 de Março quando Sibeth Ndiaye declarou que “o Presidente da República não está equipado com uma máscara, simplesmente porque não há necessidade de máscara quando se respeita a distância de proteção em relação aos outros”. Nessa mesma noite, Emmanuel Macron visitou o hospital de campo Mulhouse, criado pelo exército, com a preciosa máscara de  modelo  FFP2 no rosto.

Ao mesmo tempo, Olivier Véran reconhece finalmente a escassez, em 19 de Março, no Senado, e depois, dois dias depois, durante um discurso televisivo. Explica, com quase dois meses de atraso, que o Estado só tinha “150 milhões” de máscaras cirúrgicas e nenhuma FFP2 em stock no final do mês de Janeiro.

Olivier Véran também faz uma avaliação muito sombria. Admite que, desde o final de fevereiro, o Estado apenas conseguiu obter 40 milhões de máscaras, todos os circuitos combinados (produção francesa, doações, requisições e importações). Existem agora apenas alguns milhões de FFP2 em stock, e 80 milhões de máscaras cirúrgicas. O suficiente para durar apenas duas semanas. Embora nem todos os prestadores de cuidados possam ser  servidos, a França consome agora 40 milhões de máscaras por semana.

O ministro quer “equipar massivamente” a população

Mas estes números são ensombrados por outro anúncio do ministro, no mesmo dia 21 de março: quase um mês após a criação da célula interministerial, indicou que o Estado tinha finalmente conseguido encomendar “mais de 250 milhões de máscaras” aos fornecedores chineses. A ordem continuou a aumentar na semana seguinte através da imprensa: 600 milhões de máscaras no dia 27 de março, segundo o Le Monde [18], e mil milhões no dia seguinte, sábado 28 de Março, segundo a France Info [19].

Este  último número  foi oficialmente confirmado no mesmo dia por Olivier Véran numa conferência de imprensa com o Primeiro-Ministro Édouard Philippe. Mas com uma nuance de tamanho: “Mais de mil milhões de máscaras” foram  encomendadas à  China ” e  ao estrangeiro, para a estrangeiro, para as semanas e meses seguintes.”.

O Ministério da Saúde disse-nos que se tratava de ordens feitas pela França, mas contradizia-se quanto à sua origem. O gabinete de Olivier Véran respondeu-nos que estes mil milhões de máscaras iriam ser “importadas”, para acrescentar que este número “inclui [também] a produção nacional”. Se esta segunda versão for a correta, significa que a encomenda chinesa está muito abaixo dos mil milhões.

Não importa, no dia do anúncio, o número de mil milhões de máscaras encomendadas na China foi repetidamente divulgado nos meios de comunicação social. A operação de comunicação funcionou.

Porque a verdadeira questão não é o número de máscaras encomendadas, mas a data em que elas chegarão da China. E isso preocupa o Governo. Existem “incertezas quanto à possibilidade de validação das encomendas efetuadas, incerteza quanto à realidade da sua entrega”, confidenciou a Secretária de Estado da Economia, Agnès Pannier-Runacher, em 27 de Março, durante uma conferência telefónica com a indústria têxtil, de que a Mediapart obteve a gravação.

“Não tenho a certeza de que as importações são efetivamente sobre o nosso território… até ao minuto em que o avião que tem de trazer as máscaras aterre no alcatrão dos aeroportos franceses”, acrescentou Olivier Véran no dia seguinte.

Tendo em conta a concorrência pelas máscaras chinesas, temos primeiro de nos certificar de que as máscaras são efetivamente fabricadas, depois assegurar que são de boa qualidade e, acima de tudo, encontrar aviões para as entregar. Com 80% da frota mundial imobilizada, os preços do frete aéreo dispararam e tornou-se muito difícil encontrar aviões de  carga disponíveis.

Como informou Le Monde [20], a “ponte aérea” de que  se  orgulha o Executivo foi organizada com grande pressa. Foi lançado um concurso no fim-de-semana de 21 e 22 de Março, logo após Olivier Véran ter anunciado a primeira encomenda de 250 milhões de máscaras. O contrato foi ganho pela Geodis, uma filial privada da SNCF, que conseguiu fretar dois Antonov 124, o primeiro dos quais aterrou na segunda-feira no aeroporto de Paris-Vatry (Marne), com 8,5 milhões de máscaras a bordo.

O Governo e a Geodis não forneceram valores precisos sobre o volume e o calendário das entregas. O Ministério da Saúde recusou-se a fornecer-nos estes dados.

A Geodis anuncia 16 voos adicionais “nas próximas semanas”. Estão previstos para Abril, segundo a direcção do aeroporto citada pela Agence France-Presse (AFP). Ao ritmo de cerca de dez milhões de máscaras por voo, isto poderia corresponder, se tudo correr como planeado, a cerca de quarenta milhões de máscaras por semana. Apenas o suficiente para acompanhar a atual taxa de consumo, que inclui, portanto, restrições para o pessoal de saúde.

No entanto, o Governo poderá contar com uma rede de segurança adicional, graças aos donativos de empresas como o Crédit Agricole e, em especial, a LVMH. A empresa líder mundial de artigos de luxo diz à Mediapart que, em 20 de Março, encomendou 40 milhões de máscaras feitas na China oferecidas à França, incluindo 12 milhões das preciosas FFP2, estando a entrega prevista para Abril, a uma taxa de 10 milhões por semana.

“A grande dificuldade é encontrar aviões”, diz a sede do grupo. O primeiro lote de 2,5 milhões de máscaras chegou a França no domingo, a bordo de um avião da Air France fretado pelo grupo Bolloré. O avião transportava também 3 milhões de máscaras adicionais encomendadas por companhias francesas, incluindo 1 milhão para o grupo Casino equipar os seus empregados de caixa.

♦ ACT VII (final de Março). Mudança de doutrina

Numa tentativa de fazer esquecer a escassez e a lentidão da sua reação desde o final de Janeiro, o executivo aumentou as suas operações de comunicação. Na terça-feira, 31 de Março, Emmanuel Macron visitou a fábrica de máscaras Kolmi-Hopen, perto de Angers, para afirmar o seu novo objetivo: a França deve alcançar “total e completa independência” na produção de máscaras “até ao final do ano”.

O Chefe de Estado elogiou a mobilização das quatro fábricas francesas, cuja produção aumentou de 3,5 para 8 milhões de máscaras por semana, com o objectivo de subir para 10 milhões “até ao final de Abril”, e mesmo 15 milhões graças à ajuda de “novos actores”.

Isto é apenas um terço do consumo actual, o que, por si só, é insuficiente.

No dia anterior, a Secretária de Estado da Economia, Agnès Pannier-Runacher, tinha comunicado sobre a “iniciativa” governamental de produzir máscaras de tecido graças aos profissionais da indústria têxtil. Embora o projecto tenha sido também iniciado pelas  empresas do sector.

De facto, em 6 de Março, Bercy tinha escrito a um representante da indústria têxtil para lhe pedir que considerasse a possibilidade de produzir máscaras. Mas várias outras empresas começaram espontaneamente a produzir máscaras em resposta a pedidos de ajuda nas redes sociais por parte de prestadores de cuidados duramente atingidos pela escassez. O cenário surreal tem vindo a repetir-se nos últimos dias, apesar dos anúncios estrondosos do governo de encomendas de centenas de milhões de máscaras na China.

Foram criados informalmente verdadeiros canais de distribuição  para colmatar as lacunas do Estado. No Isère, o pessoal médico encontrou o apoio da marca 1083 jeans, com sede em Romans (Drôme). “Fomos chamados em 16 de Março por vários médicos que nos conhecem na região. Disseram-nos que estavam a ficar sem máscaras e que o Hospital Universitário de Grenoble lhes tinha enviado um tutorial para fazerem alguns”, diz o fundador da empresa, Thomas Huriez.

“Não havia tempo para fazer as máscaras, nem necessariamente a competência técnica  e as máquinas de costura”. Por isso, pediram-nos que o fizéssemos”, acrescenta. Começámos na segunda-feira à noite, e começávamos a distribuir as máscaras à hora do almoço na terça-feira. “Desde então, a marca distribuiu “milhares de máscaras” gratuitamente aos médicos em Ehpads. Outros fabricantes franceses fizeram o mesmo.

Só a 18 de Março é que Bercy pediu ao Comité Estratégico do Sector da Moda e Bens de Luxo que estruturasse o projeto e supervisionasse a mobilização do sector. O objetivo: fabricar dois tipos de produtos com características próximas das máscaras cirúrgicas e do FFP2, numa versão ligeiramente degradada. O Estado definiu normas e mobilizou um laboratório do exército para testar os protótipos. 179 empresas responderam; foram validados 81 protótipos.

O executivo espera que a indústria consiga produzir 500.000 máscaras por dia “nos próximos dias”, e 1 milhão até ao final do mês. O objetivo não é equipar o pessoal de saúde, mas sim os trabalhadores privados e os funcionários públicos que o Estado não tem atualmente capacidade para proteger. “Aqueles que estão expostos aos serviços domésticos, aos nossos transportadores, aos nossos bombeiros, às nossas forças policiais, às nossas caixas, aos nossos balcões, a todas as profissões que hoje estão expostas e que, eu sei, muitas vezes têm ansiedade e estão à espera de máscaras”, disse Emmanuel Macron.

 [Vídeo não reproduzido aqui].

Teleconferência da Agnès Pannier-Runacher com as empresas têxteis envolvidas no projecto de fabrico de máscaras, 27 de Março de 2020. Documento Mediapart

Por detrás desta forçar a produção nacional está uma mudança na doutrina sobre o uso da máscara, em oposição ao discurso oficial sobre a sua alegada inutilidade. Foi o que disse a Secretária de Estado da Economia, Agnès Pannier-Runacher, na sexta-feira, 27 de Março, durante uma conferência telefónica sobre máscaras com a indústria têxtil, que a Mediapart gravou.

Devemos “aumentar massivamente a nossa autonomia em termos de máscaras”, afirmou o Secretário de Estado. “A aposta para nós é finalmente preparar a saída do confinamento, onde sabemos que será necessário equipar massivamente” a população, acrescentou. Quando questionada pela Mediapart, o seu gabinete recusou-se a comentar com o fundamento de que “a doutrina do uso de máscara” é “exclusivamente da responsabilidade do Ministério da Saúde”. O ministério não respondeu sobre este ponto.

Contudo, os comentários do Secretário de Estado mostram que o Governo não acredita no seu discurso oficial sobre o primado exclusivo dos “gestos de barreira”. Uma vez concluído o confinamento, as pessoas serão novamente expostas ao vírus, com o risco de um ressurgimento da epidemia.

Neste contexto, a máscara é um meio de proteção eficaz. Quatro países da Europa Central (República Checa, Eslováquia, Áustria e Eslovénia) tornaram obrigatório o uso de máscaras em locais públicos nos últimos dias.

Já foram apresentadas pelo menos seis queixas penais no Tribunal de Justiça da República (CJR) contra o Primeiro-Ministro Edouard Philippe, a ex-Ministra da Saúde Agnès Buzyn e o seu sucessor Olivier Véran, acusados de terem gerido mal a crise, em especial no que respeita às máscaras (leia-se aqui [21] –

[Vídeo não reproduzido aqui].

Extracto do discurso de Emmanuel Macron na sequência da sua visita à fábrica de máscaras Kolmi-Hopen, perto de Angers, em 31 de Março de 2020. BFMTV

Durante a sua visita à fábrica de máscaras Kolmi-Hopen, Emmanuel Macron denunciou os “irresponsáveis” que “já estão no processo de julgar pessoas enquanto não ganhamos a guerra”. “Então chegará o momento da responsabilidade. E vamos todos olhar para o que poderíamos ter feito melhor, para o que poderíamos ter feito melhor”, prometeu ele.

O Chefe de Estado apelou a que esta análise fosse feito  “com um princípio de justiça, em relação a todas as escolhas do passado, independentemente dos líderes políticos”. Considerou que aqueles que “tomaram decisões há cinco ou dez anos” não podiam “antecipar-se ao que acabámos de viver”.

“Quando se experimenta algo novo, não se pode pedir às pessoas que o tenham previsto há 10 anos”, disse, acrescentando que quer que este “princípio de justiça” seja aplicado “a todos”.

Antton Rouget, Yann Philippin et Marine Turchi

Os empresários  que apresentaram propostas ao Estado para importar máscaras quiseram manter o anonimato. Forneceram-nos numerosos documentos que atestam as suas trocas com o Estado e as suas relações com os fornecedores chineses de máscaras (e-mails, fotografias, certificados de conformidade, etc.).

Todas as respostas que recebemos estão disponíveis na íntegra no separador :

https://www.mediapart.fr/journal/france/020420/masques-les-preuves-d-un-mensonge-d-etat/prolonger

Solicitado em 29 de Março, Matignon, o Ministério do Interior, a Agência Francesa de Saúde Pública (SPF) e a Direcção-Geral da Saúde (DGS) não responderam às nossas perguntas, remetendo-nos a todos para o gabinete do Ministro da Saúde para nos responderem. Após seis pedidos de prorrogação de prazos, a conselheira de comunicação da Ministra, Ségolène Redon, não respondeu às nossas 34 perguntas, tendo-nos simplesmente enviado, na quarta-feira, 1 de Abril, uma longa cronologia intitulada “O desenrolar  da gestão de crises”.

Interrogado em 29 de Março sobre a sua acção e a da SPF, Martial Mettendorff (Director-Geral Adjunto da SPF até ao final de Fevereiro, depois à frente da “célula de máscaras” no seio da célula interministerial até ao final de Março) não quis responder-nos e remeteu-nos para o seu sucessor, o Comissário Geral das Forças Armadas Bernard Chassac. Quando contactados, este último também não responderam às nossas perguntas.

Contactadas, Agnès Buzyn e Jérôme Salomon, o Director-Geral da Saúde (DGS), não responderam.

Contactada, a Secretária de Estado da Economia, Agnès Pannier-Runacher, recusou-se a responder às nossas perguntas, alegando que a sua “agenda” não “o permite”. Relativamente às suas declarações de 27 de Março à indústria têxtil sobre a necessidade de “equipar massivamente” a população com máscaras após o confinamento, o seu gabinete disse-nos que Agnès Pannier-Runacher não tem “comentários a fazer sobre as reuniões de trabalho” e que “a doutrina sobre a utilização de máscaras de protecção, bem como qualquer questão de saúde, são da exclusiva responsabilidade do Ministério da Saúde”.

A Comissão Europeia respondeu às nossas perguntas por correio eletrónico na segunda-feira, 30 de Março, tal como a Região de Île-de-France e a Agência Regional de Saúde de Île-de-France (ARS). A  ARS Grand-Est respondeu-nos por e-mail na quarta-feira, 1 de Abril.

A Airbus respondeu às nossas perguntas por e-mail. A 3M e a Geodis responderam por e-mail e SMS, respectivamente, sem responder às nossas perguntas específicas.

Atualização: o fabrico de máscaras por impressão 3D é um projeto da APHP com a Universidade de Paris, e não com a Universidade de Paris-Saclay, como indicámos numa primeira versão do artigo.

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Para ler a primeira parte deste texto, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas clique em:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/05/18/crise-do-covid-19-e-a-incapacidade-das-sociedades-neoliberais-em-lhe-darem-resposta-xlii-as-mascaras-as-provas-de-uma-mentira-de-estado-por-yann-philippin-antton-rouget-e-marine/

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/05/19/crise-do-covid-19-e-a-incapacidade-das-sociedades-neoliberais-em-lhe-darem-resposta-xliii-as-mascaras-as-provas-de-uma-mentira-de-estado-por-yann-philippin-antton-rouget-e-marin/

O Programa de Estabilidade 2020 e quem pagará as medidas de combate à «COVID 19»

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Neste estudo o economista Eugénio Rosaanalisa as diversas medidas aprovadas pelo governo de apoio às famílias e às empresas.

Os seus custos, os valores de despesa previstos pelo governo no Programa de Estabilidade 2020 que apresentou à Assembleia da República, e quem vai suportar os custos que são enormes – Orçamento do Estado ou Segurança Social.

Está prevista uma despesa que permite pagar o “lay-off” apenas a 792.000 trabalhadores quando no fim de Abril já estavam inscritos 1.328.000 trabalhadores.

Demonstra-se que se for o Orçamento do Estado só pode ser feito com receitas de impostos. Se for a Segurança Social poderá por em causa a própria sustentabilidade da mesma.

E conclui que, há mais vida para além do “coronavírus” e é preciso que o medo não paralise em casa os portugueses pois, caso contrário, as consequências da hecatombe económica, social, e a perda de direitos ultrapassarão certamente as do “COVID 19”:

(523.000 trabalhadores inscritos para “lay-off sem cobertura na despesa prevista no Programa de Estabilidade 2020 apresentado pelo governo, o desemprego, a falta de rendimentos, e a miséria estão a alastrar por todo o país perante o silencio e passividade causado pelo “coronavírus”).

Espero que este estudo possa ser útil para a reflexão e debate sereno e objectivo sobre situação actual que é grave também a nível económico, social e de perda de direitos dos trabalhadores, perante o silêncio da comunicação social que só fala de infectados e de mortes causada pelo «coronavírus».

Medidas resposta COVID-19_2020-05.gif

 

ParaLer:

 

Via: O CASTENDO https://bit.ly/2Tk9XLn

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/05/19/o-programa-de-estabilidade-2020-e-quem-pagara-as-medidas-de-combate-a-covid-19/

Quem pagará as medidas de combate à Covid 19?

O programa de estabilidade 2020 apresentado pelo Governo prevê uma despesa que permite pagar o “lay-off” apenas a 792.000 trabalhadores quando no fim de Abril já estavam inscritos 1.328.000 trabalhadores para “lay-off”, e que pagará as medidas de combate à “Covid 19”

 

 

Neste estudo analiso as diversas medidas aprovadas pelo governo de apoio às famílias e às empresas, os seus custos, os valores de despesa previstos pelo governo no Programa de Estabilidade 2020 que apresentou à Assembleia da República, e que vai suportar os seus custos que são enormes – Orçamento do Estado ou Segurança Social – mostrando que se for o Orçamento do Estado só pode ser feito com receitas de impostos, e se for a Segurança Social poderá por em causa a própria sustentabilidade da Segurança Social.

E concluo que, há mais vida para além do “coronavírus” e é preciso que o medo não paralise em casa os portugueses pois, caso contrário, as consequências da hecatombe económica, social, e a perda de direitos (523.000 trabalhadores inscritos para “lay-off sem cobertura na despesa prevista no Programa de Estabilidade 2020 apresentado pelo governo, o desemprego, a falta de rendimentos, e a miséria estão a alastrar por todo o país perante o silencio e passividade causado pelo “coronavírus”) ultrapassarão certamente as do “COVID 19.

António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa parece que já compreenderam FINALMENTE isso e começaram a apelar aos portugueses neste fim de semana nas ruas do Chiado em Lisboa e no mercado da Ericeira para saírem de casa.

Espero que este estudo possa ser útil para a reflexão e debate sereno e objetivo sobre situação atual que é grave também a nível económico, social e de perda de direitos dos trabalhadores perante o silencia da comunicação social que só fala de infetados e de mortes causada pelo “coronavírus”.

 

 
 
 
 

Estudo

O programa de estabilidade 2020 apresentado pelo Governo prevê uma despesa que permite pagar o “lay-off” apenas a 792.000 trabalhadores quando no fim de Abril já estavam inscritos 1.328.000 trabalhadores para “lay-off”, e que pagará as medidas de combate à “Covid 19”

No “Programa de Estabilidade-2020” apresentado pelo governo à Assembleia da República consta um quadro na pág. 55 onde o governo quantifica o custo das medidas adotadas em resposta ao “COVID 19”. É precisamente esse quadro que se transcreve e são os seus dados que vamos utilizar neste estudo.

 

Quadro III.1 Medidas discricionárias adotadas em resposta à Covid-19 (com impacto orçamental, valores mensais)

 

 

Previsão de despesa do programa de estabilidade não permite pagar o “lay-off” a 522.833 trabalhadores inscritos pelas entidade patronais até 30 de Abril

Segundo os dados do quadro (Ministério das Finanças), o “apoio extraordinário à retoma da atividade empresarial” custará 508 milhões € (mais um subsídio aos patrões, a juntar aos 850 milhões ao Novo Banco), enquanto o “Lay-off simplificado” custará, ao Orçamento do Estado, por mês, 373,3 milhões €/mês.

O “apoio extraordinário à retoma da atividade empresarial” é um subsídio concedido uma única vez às entidades patronais de valor igual ao salário mínimo nacional (635€) por trabalhador. Se dividirmos os 508 milhões € por 635€ obtém-se 800.000, o número de trabalhadores que o governo prevê que sejam abrangidos por esta medida. Um total que deve ser igual ao número de trabalhadores em “lay-off”.

Mário Centeno prevê gastar com o “lay-off”, como consta também do quadro, apenas 373,3 milhões € por mês. Segundo o Ministério do Trabalho, em 30 de abril, a remuneração média dos trabalhadores que as empresas pretendiam colocar em “lay-off” era de 1010€ por mês. Os trabalhadores colocados em “lay-off” recebem apenas 2/3 deste valor o que corresponde a 673€/mês. O Estado paga 70% deste valor, ou seja, 471€. Se dividirmos os 373,3 milhões € por 471€ concluiremos que aquela despesa só dá para pagar “lay-off” a 792.354 trabalhadores por mês,um total próximo do anterior.

Mas segundo o Ministério do Ministério do Trabalho (ver publicação“Monotorização do COVID 19”), em 30 de abril as empresas já tinham inscrito 1.315.187 de trabalhadores para “lay-off”. Portanto, naquela previsão do Ministério das Finanças não existe verba para pagar o “lay-off” dos restantes 522.833 trabalhadores.

A pergunta é esta: Quem garante a estes 522.833 trabalhadores, que as entidades patronais queriam colocar em lay-off mas cujo “lay-off não foi aceite pelo governo, as suas remunerações ou parte dos seus rendimentos? Serão despedidos? São futuros desempregados? Ou o governo obrigará os patrões a pagarem as suas remunerações porque sabe que eles têm condições para o fazer, e como vai obrigar? Não deixa de ser estranho que a Assembleia da República, aquando do debate do Programa de Estabilidade na Assembleia da República, não tenha detetado esta grave situação e obrigado o governo a esclarecer já que este mais de meio milhão de trabalhadores não conseguirá viver sem qualquer rendimento.

Mas as interrogações nas previsões de despesa não se resumem a esta. A isenção de pagamento de contribuições à Segurança Social pelas empresas causará uma perda de receita para a Segurança Social de 190 milhões €/mês, segundo Mário Centeno. Isto é verdade, se se considerar o salário de 1.010€/mês e não os 673€ que recebe o trabalhador em “lay-off”.E faz os cálculos desta forma certamente para empolar o valor e concluir que os patrões não podem pagar. Mas os trabalhadores em “lay-off” descontam os 11% sobre os 673€, o que representa para 800 mil trabalhadores receberam menos 58,6 milhões €/mês.

Quem pagará as medidas adotadas de combate ao “Covid 19”: O Orçamento do Estado ou a Segurança Social? – A resposta não é indiferente para os trabalhadores

Segundo os dados do governo do quadro, as medidas para compensar os trabalhadores e as famílias da quebra brutal de rendimentos causada pelo “coronavírus” (isolamento profilático, subsídio de doença, remuneração dos trabalhadores em “lay-off”, apoio excecional à família, apoio extraordinários aos trabalhadores independentes e sócios gerentes) representam 831 milhões € por mês. Cada mês são mais 831 milhões que todos temos depois de pagar. E mais de meio milhão de trabalhadores que os patrões pretendem colocar em “lay-off” não estão considerados.

Há ainda a perda de receita para a Segurança Social devido à isenção de contribuições às empresas que, segundo o governo, determina uma perda de receita de 190 milhões €/ mês (se for calculada com base no valor que o trabalhador recebe em lay-off – em média 673€/mês – representa uma perda de receita para a Segurança Social de 127 milhões € por mês). Há ainda considerar os pagamentos feitos uma única vez de 508 milhões € aos patrões aquando do reinício da atividade, e 8,9 milhões € com “outras medidas de apoio às famílias” e 8 milhões € de apoio à formação profissional.

Todas estas medidas são excecionais e resultam da crise causada pelo “coronavírus”. Quem suportará esta enorme despesa extraordinária: O Orçamento do Estado ou a Segurança Social? – eis a questão que interessa responder. A resposta não é indiferente para os trabalhadores, porque se for paga pelo Orçamento do Estado, isso significa que será paga com receitas de impostos, ou seja, por todos os portugueses; mas se for paga pela Segurança Social, isso significa que tal despesa apenas será suportadas pelos descontos dos trabalhadores por conta outrem e pelas contribuições das empresas para a Segurança Social, criando problemas de sustentabilidade a esta, e justificação para o congelamento ou aumentos de miséria das pensões, ou alteração da forma do cálculo da pensão para reduzir o valor da pensão.

Para se poder ter uma ideia da importância desta questão, interessa ter presente os seguintes dados divulgados pelo Ministério do Trabalho, da Solidariedade e da Segurança Social (“Monotorização do COVID 19”).

Número de trabalhadores, em 30 de Abril, em cada uma das situações causadas pela crise do “COVID 19”:

  1. Baixas por isolamento: 66.530;
  2. Apoio excecional à família: 171. 323;
  3. Pedidos para “lay-off”: 1.315.187;
  4. Apoios a trabalhadores independentes. 188.174;
  5. Apoios a membros de órgãos estatutários: 13.312.

Somando obtém-se 1.754526, é o numero de pedidos de apoios (subsídios) solicitados à Segurança Social devido à crise causada pelo “coronavírus”.

É evidente que tudo isto determina um enorme custo mensal, que se torna cada vez mais pesado, enquanto quase metade do país se encontra parado e sem produzir riqueza e, por isso, as receitas do Estado, que têm como base os impostos, e as da Segurança Social, que têm como fonte os descontos dos trabalhadores e as contribuições das empresas estão a sofrer uma forte quebra. É preciso ter presente que na economia não há milagres, não há criação espontânea de riqueza, a riqueza real tem como fonte apenas o trabalho dos trabalhadores, e se uma parte deles parte deles não produzir, a riqueza não aparece espontaneamente. É preciso lembrar, face ao medo que se alastrou na sociedade portuguesa, causada por uma comunicação social que, só fala de infetados e mortes, que há vida para além do “coronavírus”.

 

O Decreto-Lei 10-A/2020, criou apoios aos trabalhadores:

  1. Isolamento profilático (duração 14 dias) de trabalhadores por conta de outrem e independentes, que  têm direito ao subsidio de doença correspondente à remuneração de referência não estando a atribuição sujeita a período de espera (artº19);
  2. Subsidio de doença por doença causada pelo “COVID 19” não está sujeita a período de espera (artº 20);
  3. Subsidio de assistência a filho e neto durante 14 dias motivado por isolamento profilático de menor de 12 anos (arº 21);
  4. Apoio excecional à família por trabalhadores por conta de outrem com filhos menores de 12 anos, igual a 2/3 da remuneração recebida pelo trabalhador com um limite mínimo de 635€ e máximo de 1.905€ , pago 1/2 pela empresa e 1/2 pela Segurança Social e, no caso de trabalhadores do serviço doméstico, 1/3 é pago pela Segurança Social (artº 23);
  5. Apoio excecional à família para trabalhadores independentes com 3 meses de contribuições nos últimos 12 meses, o valor de apoio corresponde a 1/3 da base de incidência contributiva com um mínimo de 438,81€ e um máximo de 1.097€, e não pode ser superior a remuneração que serve para cálculo do desconto ( artº 24);
  6. Apoio aos trabalhadores independentes no caso de quebra abrupta e acentuada de, pelo menos, 40% de faturação nos 30 dias anteriores ao pedido, de 438,81€ no casos da remuneração de referencia ser inferior a 1,5 IAS, ou 2/3 no caso desta ser igual ou superior a 1,5 IAS;
  7. Apoio aos gerentes de sociedades por quotas e membros dos órgãos estatutários de fundações, associações e cooperativas, abrangidos pela Segurança Social que no ano anterior tenham tido uma faturação inferior a 80.000€, tendo como limite mínimo 50% do IAS e máximo 2/3 da remuneração (artº 26);
  8. Apoio aos trabalhadores independentes que tenham atividade há menos de 12 meses, e que estejam isentos de pagamentos de contribuições, têm direito a um apoio cujo limite máximo 219,40€ e o valor  mínimo o da base de incidência.

 

De acordo com o artº 33 deste Decreto-Lei, todas estas medidas, para efeitos de financiamento, são enquadradas no subsistema de proteção familiar da Segurança Social, ou seja, são financiadas pelo Orçamento do Estado como dispõe o artº 4º do Decreto-Lei 367/2007. O problema que se coloca é controlar o valor efetivo dos gastos e assegurar que as transferências do Orçamento do Estado se façam efetivamente pois, caso contrário, poderá ser posta em causa a sustentabilidade da Segurança Social. E a experiência já mostrou que o Estado não cumpre as suas obrigações perante a Segurança Social, acabando esta por pagar despesas que não são suas, mas sim do Estado.

 

O Decreto-Lei 10-G/2020, criou apoios às empresas que podem ter incidência na sustentabilidade da Segurança Social, pois é está a entidade pagadora

São eles:

  1. Apoio extraordinário à manutenção de contrato de trabalho em situação de crise empresarial, designado por “lay-off” (artº 5), o trabalhador colocado em “lay-off”  tem direito a 2/3 da sua remuneração ilíquida, sendo 70% paga pela Segurança Social e 30% pela empresa (segundo o governo esta medida custará ao Estado 373,3 milhões € por cada mês que vigorar);
  2. Redução ou suspensão em situação de crise empresarial (artº 6), durante o período de aplicação desta medida, a empresa tem direito a um apoio financeiro de forma a garantir ao trabalhador 2/3 da remuneração ilíquida (a parcela paga pela empresa é determinada pelo numero de horas de trabalho, relativamente ao resto a empresa recebe uma compensação retributiva prevista no número anterior, nos termos do n.º 4 do artigo 305.º do Código do Trabalho);
  3. Incentivo financeiro extraordinário para apoio à normalização da atividade da empresa(artº 10), a conceder pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional, pago de uma só vez às entidades patronais, com o valor de um salario miminho nacional por trabalhador (só este subsídio aos patrões custará, segundo o governo, 508 milhões €);
  4. Isenção temporária do pagamento de contribuições para a Segurança Social concedida às empresas(artº 11), só esta medida determinará a perda mensal de 190 milhões € de receita pela Segurança Social segundo o Ministério das Finanças.

As medidas de apoio extraordinário à manutenção de contrato de trabalho, em caso de redução temporária do período normal de trabalho ou da suspensão do contrato de trabalho(lay-off) e de isenção temporária do pagamento de contribuições para a Segurança Social, a cargo da entidade empregadora, têm a duração de um mês, sendo, excecionalmente, prorrogáveis mensalmente, até ao máximo de 3 meses (nº 3 do artº 4 do DL 10-G/2020).

De acordo com o artº 16 do Decreto-Lei 10-G/2020, apenas os valores da compensação retributiva da responsabilidade da Segurança Social pagos ao abrigo do presente decreto -lei são financiados pelo Orçamento do Estado. Portanto, nem os 508 milhões € de incentivo extraordinário para apoio da normalização da atividade das empresas (a pagar pelo IEFP; em 2019, 71% das suas receitas – 633,6 M€ – foram transferências da Segurança Social) nem a perda de 190 milhões € de receita pela Segurança Social, parte devido à isenção de contribuições às empresas, serão pagos pelo O.E..

 

Os riscos de sustentabilidade do Estado e da Segurança Social, e risco de uma parte substancial destas medidas serem suportadas pela Segurança Social

A Segurança Social está a perder cerca de 555 milhões € de receita por mês devido à colocação de 1,3 milhões de trabalhadores em “lay-off” e a 450.000 trabalhadores na situação de “isolamento profilático”, “apoio à família”, e “redução de horário de trabalho”. É um rombo enorme que põe em risco o seu equilíbrio financeiro indispensável para pagar pensões a dois milhões de reformados, subsídios de desemprego a 174.000 desempregados, e subsídios de doença a 160.000 de portugueses.

Com o agravamento da crise, o desemprego vai aumentar enormemente (só entre o início de março e 14 de maio o número de inscritos nos Centros de Emprego aumentou em 94,4 mil segundo o Ministério do Trabalho) e, consequentemente, a despesa com subsídios de desemprego vai disparar. A Segurança Social corre também o risco do custo das medidas anunciadas pelo governo para combater a COVID 19 acabarem por ser suportadas por ela. E isto porque a contabilização dessas despesas não está a ser individualizada numa rubrica própria por isso é muito provável, se não se tomarem medidas para impedir isso, que o não pagamento aconteça efetivamente.

Uma das medidas seria publicação mensal das despesas da Segurança Social com as medidas para combater o COVID 19 (nos dados mensais da execução orçamental divulgados todos os meses pela Direção Geral do Orçamento isso não está explicitado para conhecimento dos portugueses).E o risco é grande até porque o Estado está a enfrentar uma situação grave com cada menos receitas e com cada vez maiores despesas. E não são apenas as já referidas há ainda a juntar as “Linhas de credito de apoio à economia COVID 19”, que atingem já 6.660 milhões € com garantias de 90% dadas pelo Estado, e se esse credito não for depois pago pelas empresas será o Estado que terá de o fazer.

Há mais vida para além do “coronavírus”, é preciso que o medo não paralise em casa os portugueses pois, caso contrário, as consequências da hecatombe económica, social e a perda de direitos (o desemprego, a perda de rendimentos e a miséria está a alastrar pelo país) ultrapassarão certamente as do “COVID 19. António Costa e Marcelo Rebelo parece que já compreenderam FINALMENTE isso e começaram a apelar aos portugueses neste fim de semana nas ruas do Chiado em Lisboa e no mercado da Ericeira para saírem de casa.



 

 
 
 

 


 

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/quem-pagara-as-medidas-de-combate-a-covid-19/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=quem-pagara-as-medidas-de-combate-a-covid-19

(Multimídia) Chefe do Fed diz que recuperação econômica pode se estender até o final de 2021

Washington, 17 mai (Xinhua) -- A economia dos EUA se recuperará da pandemia COVID-19, mas o processo pode se estender até o final de 2021, disse o presidente do Federal Reserve (Fed), Jerome Powell.

"Supondo que não haja uma segunda onda do coronavírus, acho que você verá a economia se recuperar de forma constante até o segundo semestre deste ano", disse Powell em uma entrevista que foi ao ar na manhã de domingo no programa "Face the Nation", da CBS.

"Para que a economia se recupere totalmente, as pessoas terão que estar totalmente confiantes. E isso pode ter que esperar a chegada de uma vacina", disse.

O chefe do Fed observou que as pessoas não devem "apostar" contra a economia americana no longo prazo, mesmo no médio prazo.

"Essa economia vai se recuperar. Pode demorar um pouco. Pode levar um período de tempo. Pode se estender até o final do ano que vem. Nós realmente não sabemos", disse ele.

Em um evento online realizado na quarta-feira pelo think tank Peterson Institute for International Economics, com sede em Washington, Powell alertou que uma recessão prolongada e uma fraca recuperação da pandemia poderiam levar a um longo período de baixo crescimento da produtividade e renda estagnada.

Embora a resposta econômica tenha sido "oportuna e apropriada no geral", pode não ser o capítulo final, dado que o caminho à frente é "altamente incerto" e sujeito a "riscos descendentes significativos", disse ele.

"O escopo e a velocidade desta desaceleração não têm precedentes modernos, significativamente piores do que qualquer recessão desde a Segunda Guerra Mundial", disse o chefe do Fed.

Mais de 36,5 milhões de americanos solicitaram o seguro-desemprego desde que a pandemia COVID-19 forçou o fechamento generalizado de negócios em meados de março, de acordo com o Departamento do Trabalho.

Foto tirada em 29 de abril de 2020 mostra o prédio do Federal Reserve dos EUA em Washington D.C., nos Estados Unidos. (Xinhua/Liu Jie)

 

 

Ver original em "XINHUA Português" na ligação seguinte:

http://portuguese.xinhuanet.com/2020-05/18/c_139066060.htm

Retrato de uma tragédia anunciada

(Pedro Adão e Silva, in Expresso,16/05/2020)

Pedro Adão e Silva

Há semanas, o Governo reuniu-se com economistas para discutir medidas de relançamento da economia. Infelizmente, este é um momento em que o contributo dos economistas é próximo do zero. Mesmo que se desenhassem as políticas e os estímulos mais eficazes, persistiria um problema de fundo: falta de confiança.

 

É este o retrato que nos deixa a sondagem do ICS/ISCTE publicada pelo Expresso. Os portugueses continuam a confiar na resposta que políticos e instituições têm dado à pandemia e acreditam maioritariamente na nossa capacidade coletiva para limitar a difusão do vírus (62%), mas todos os outros sinais são aterradores.

Com razão, estamos preocupados em relação à situação económica e financeira do país (94%) e tememos que o pior ainda esteja para vir (57%). Só que, questionados em relação aos riscos associados ao desconfinamento, uma larga maioria julga arriscado regressar às rotinas quotidianas comuns. Os portugueses consideram mesmo que não se esperou o tempo suficiente para levantar as restrições.

A decisão de colocar o país em confinamento foi rápida e eficaz, mas a reabertura será bem mais exigente e não dependerá de soluções para a economia, de dados estatísticos, nem sequer da melhor informação médica. A perceção de risco é um processo social e alterá-la depende de mecanismos difusores de confiança coletiva que não se vislumbram.

A história das nossas civilizações é, em importante medida, a história da socialização dos riscos. O que nos distingue, hoje, é não sermos individualmente responsáveis pela nossa saúde e o nosso bem-estar económico depender de mecanismos coletivos (à cabeça a segurança social pública). A resposta comunitária dada à pandemia correspondeu a mais uma etapa deste longo e atribulado processo de gestão coletiva de riscos.

Mas há também duas outras ideias relevantes sobre gestão de riscos: a primeira é que há riscos que decidimos ignorar, enquanto privilegiamos a resposta a outros; a segunda é que a resposta que lhes damos pode ir da individualização radical (cada um é responsável por lidar com os riscos que enfrenta), passando pelo fatalismo (não há nada a fazer), até aquilo que foi feito face à covid-19: uma abordagem comunitária (todos procuramos proteger todos os outros, em particular os grupos de risco) combinada com mecanismos de decisão hierárquicos (de que o Estado de emergência é o pináculo).

O que os dados da sondagem demonstram é que chegou o momento de alterar o equilíbrio entre os riscos que privilegiamos e aqueles que igno­ramos (sob pena de termos de enfrentar uma pandemia económica e social aterradora), sem com isso comprometer o equilíbrio virtuoso entre comunitarismo e respostas hierárquicas que caracterizou a resposta à pandemia em Portugal. É o único caminho para recuperarmos um pouco de confiança.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

A pandemia abalou Portugal, mas os preços da habitação não desceram

 

A pandemia de covid-19 veio abalar Portugal. No entanto, apesar da crise, os preços de venda de habitação não sofreram uma queda abrupta. 

 

Dados no novo Índice de Preços, apurados pela consultora Confidencial Imobiliário e citados pelo Expresso, revelam que os valores mantiveram a tendência de estabilidade a curto prazo: em março, altura em que foi decretado o estado de emergência, registou-se uma varia­ção de 0,4% face a fevereiro, enquanto em abril os preços subiram 0,5%.

Ricardo Guimarães, diretor da Confidencial Imobiliário, confirmou ao semanário que estes dados confirmam a ideia de que “o mercado travou a trajetória de valorização, mas não derivou para um novo ciclo de desvalorização”.

“É uma reação de um mercado que está a fazer o expectável: traduzir esta fase de contingência mais numa redução da atividade do que a nível de preços“, acrescentou.

 
 

O Índice de Preços Residenciais, que relata a valorização do mercado de habitação em Portugal a partir dos preços efetivos de transação, baseados no Sistema de Informação Residencial, apresentou uma variação de 15,0% em abril, nivelada com os patamares de março (15,6%) e em abrandamento face ao ritmo de valorização com que o mercado iniciou o ano (17,0%).

Segundo Ricardo Guimarães, um dos dados que pode refletir a crise provocada pela pandemia é o preço de oferta pedido pelos promotores ou proprietários. “Já se verifica uma correção mais visível. Aquilo que era uma parte substancial do valor de oferta está associado à expectativa futura de valorização.”

Ainda assim, o responsável sublinha que Portugal tem emitido sinais positivos a nível internacional. “Ainda não temos dados dos investidores internacionais, mas, segundo as empresas, permanece a confiança no mercado português. Há um aspeto importante, que é a estabilidade política e a imagem de sucesso na gestão da pandemia.”

ZAP //

 
 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/precos-da-habitacao-nao-desceram-325048

A transformação das sociedades por ocasião do Covid-19 anuncia a militarização da Europa

 
 
Thierry Meyssan*

Reproduzimos uma conversa entre Thierry Meyssan e um grupo de estudantes. Aí, ele explica que as respostas políticas ao Covid-19 não são do foro médico. Um grupo transnacional, parcialmente identificável, aproveitou a ocasião fornecida pela epidemia para tentar impor uma transformação profunda das sociedades europeias, tal como utilizou os atentados do 11 de Setembro de 2001 para transformar os Estados Unidos. Ainda temos tempo para nos opormos à programada hierarquização do mundo.

Pergunta : Na sua opinião, quem fabricou o Covid-19?

Thierry Meyssan: A minha análise é exclusivamente política. Eu não me pronuncio sobre questões médicas, mas unicamente sobre decisões políticas.

Uma epidemia é em geral um fenómeno natural, mas pode também ser um acto de guerra. O Governo chinês pediu publicamente aos EUA para esclarecer, de forma cabal, o incidente acontecido no seu laboratório militar de Fort Detrick, enquanto o Governo dos Estados Unidos pediu a mesma transparência em relação ao laboratório de Wuhan. É claro, nenhum dos dois Estados aceitou abrir os seus laboratórios a verificações. Não é má vontade, mas uma medida militar. Ficaremos, portanto, por aqui.

No entanto, isso não tem importância porque, com o tempo decorrido, estas duas hipóteses parecem estar erradas: nenhuma destas duas potências controla esse vírus. Do ponto de vista militar, não é uma arma, mas, sim um flagelo.

Portanto, não excluí que este vírus possa ter escapado de forma desastrada de um desses laboratórios ?

Isso é uma hipótese, mas não nos conduz a nada. Devemos excluir a possibilidade de uma sabotagem porque isso não aproveitaria a ninguém. A outra possibilidade é que se trate de um acidente. Neste caso, há indivíduos que são culpados. Isso não significa descartar a responsabilidade dos Estados.

Como avalia as reacções políticas sobre a epidemia ?

O papel dos dirigentes políticos é o de proteger a sua população. Para isso, eles devem preparar os seus países em tempo normal de forma a poder reagir aquando de crises futuras. Ora, o Ocidente evoluiu de tal maneira que esta missão foi perdida de vista. Hoje em dia, os eleitores exigem que os Estados custem o menos possível e que o pessoal político os administre como às grandes empresas. Por conseguinte, já não há actualmente dirigentes políticos ocidentais que enxerguem mais longe do que a ponta do seu nariz. Homens como Vladimir Putin ou Xi Jinping são qualificados de «ditadores» unicamente porque têm uma visão estratégia da sua função, representando assim uma escola de pensamento que os Ocidentais julgam ultrapassada.

Perante uma crise, os dirigentes políticos devem agir. No caso dos Ocidentais, este momento é para eles um imprevisto. Nunca se prepararam para isto. Eles foram escolhidos pela sua capacidade de fazer sonhar com os amanhãs que cantam, não pelo sangue frio, pela sua adaptabilidade e a sua autoridade. Muitos de entre eles são simplesmente pessoas representativas dos seus eleitores não tendo, portanto, nenhuma dessas qualidades. Tomam, pois, as medidas mais drásticas de maneira a que não se possa acusá-los de não ter feito quase tudo.

Ora, neste caso, eles encontraram um perito, o Professor Neil Ferguson, do Imperial College London, que os persuadiu que a “Grande Ceifeira” chegava: meio milhão de mortos em França, mais ainda no Reino Unido, mais do dobro nos Estados Unidos. Sendo as suas profecias 2.500 vezes superiores às taxas de mortalidade na China. Ora, este estatístico têm o hábito de profetizar calamidades sem ter medo de exagerar. Por exemplo, previra que a gripe aviária mataria 65.000 Britânicos quando ela não provocou mais do que 457 mortes [1]. Felizmente, ele acaba de ser despedido do SAGE por Boris Johnson, mas, entretanto, o mal está feito [2].

Em pânico, o pessoal político ocidental enfileirou portanto atrás dos conselhos de uma autoridade de saúde internacional. Considerando a OMS, justamente, que esta epidemia não era a sua prioridade em comparação com outras doenças muito mais mortais, viraram-se para o CEPI, do qual todos eles conhecem o director, o Doutor Richard Hatchett. Encontraram-se com ele no Fórum Económico de Davos, ou na Conferência de Segurança de Munique. Num dia ou noutro, todos foram por ele abordados a fim de financiar a indústria de vacinas.

Acontece que este Senhor, quando trabalhava na Casa Branca, foi um dos dois autores da componente sanitária do projecto político de Donald Rumsfeld para o mundo [3]. Em 2001, este planificou (planejou-br) uma divisão geográfica da economia mundial. As matérias-primas seriam exploradas nas zonas instáveis, os produtos transformados fabricados nos Estados estáveis (entre os quais a Rússia e a China) e o armamento apenas nos EUA. Convinha, portanto, militarizar a sociedade dos EUA e transferir a maioria dos trabalhadores para as empresas de armamento. Em 2005, Rumsfeld encarregou o Dr. Hatchett de conceber um plano de confinamento obrigatório em casa para toda a população dos EUA. Este deveria ser activado durante um ataque bioterrorista comparável ao perpetrado no Congresso e contra os grandes média (mídia-br) com antraz (ou carbúnculo) em 2001.

Foi este plano que o Doutor Richard Hatchett tirou da sua gaveta e que ele apresentou aos dirigentes ocidentais que lhe pediam os seus conselhos. É preciso compreender bem que o confinamento obrigatório generalizado jamais existiu. Não tem qualquer relação com o isolamento de doentes. Não é, de forma alguma, uma medida médica, mas um meio de transformar as sociedades. A China nunca o usou, nem durante a epidemia de H1N1 [4], nem durante a do SRAS [5], nem durante a de Covid-19 [6]. O confinamento da cidade de Wuhan, no início de 2020, foi uma medida política do governo central a fim de retomar em mãos esta província mal dirigida pelo Poder local, não uma medida médica.

Nenhuma obra de epidemiologia no mundo jamais abordou o confinamento generalizado obrigatório e ainda menos o aconselhou.

 
Talvez, mas em França nós não fomos confinados para combater a doença, mas, antes para a diferir no tempo de modo a não sobrecarregar os hospitais, a fim de evitar ter de escolher entre os doentes que poderíamos tratar e aqueles que iríamos deixar morrer.

Nem por isso. Este argumento não surgiu antes, mas, sim após a decisão. É apenas uma desculpa dos políticos pela sua má administração. É certo que, em França, os serviços de reanimação dos hospitais públicos ficaram rapidamente saturados em duas regiões. Assim transferiram-se pacientes em curso de reanimação para outras regiões, até para a Alemanha. Mas havia uma quantidade de camas disponíveis nas clínicas privadas.

Era o que eu dizia no início desta conversa: os nossos dirigentes políticos são inaptos para gerir crises. A sua concepção do Estado inibe-os de agir. São incapazes de aplicar uma coordenação entre o sector público e o sector privado, à excepção de alguns presidentes regionais. Mas não se trata aqui da tradicional oposição entre Estado central e regiões. Por exemplo, no início da epidemia, os laboratórios particulares não tinham os meios de proceder a testes de despistagem em grande escala. O governo não foi capaz de requisitar os laboratórios dos Ministérios da Investigação, e sobretudo da Agricultura, para a emergência de saúde pública. No entanto, os investigadores e os veterinários não pararam de propor os seus serviços.

 
De acordo quanto aos hospitais e os testes, mas também contestou as máscaras

Sim, desde há um século, o pessoal de saúde atestou a utilidade das máscaras cirúrgicas nos blocos operatórios e durante os cuidados pós-operatórios. Mas estas situações nada têm a ver com o cidadão vulgar de hoje em dia.

Actualmente inúmeros sindicatos e academias preconizam o uso de máscara obrigatória para todos em locais públicos. Tranquiliza, mas isso não serve para nada face ao Covid-19. Além disso, à míngua de máscaras cirúrgicas, acaba-se por colocar qualquer pedaço de tecido a cobrir o nariz e a boca, mas desprovido de qualidades de filtragem das máscaras cirúrgicas. Contrariamente a uma ideia feita, a contaminação não ocorre pelas gotas de saliva por si mesmas, mas pelos vírus que elas disseminam no ar até 8 metrosde uma pessoa que chora ou espirra. É preciso ainda ser susceptível a este vírus para ficar contaminado, o que não é o caso de todos. E, ainda, é preciso estar imunologicamente frágil para desenvolver esta doença.

Como não sabem o que fazer, os nossos governantes recorrem ao confinamento generalizado e às máscaras para todos. Ninguém provou que estas medidas tenham impacto na epidemia, mas todos acreditam nisso. É o colapso da cultura ocidental: antigamente, raciocinávamos serenamente, hoje em dia trazemos amuletos, máscaras, afundámo-nos na magia.

Houve uma criança que morreu por Covid-19 em França.

Aquilo que é verdadeiro em termos individuais é absolutamente falso em termos colectivos. A idade média das pessoas falecidas em França é de 84 anos! Isso significa que metade delas tinha mais de 84 anos.

Mas então se o confinamento é absurdo e se as máscaras não servem para nada, o que é que devemos fazer ?

Eu não disse que o confinamento era um absurdo em si. Pronunciei-me sobre uma medida obrigatória e cega. Em todas as epidemias, convêm confinar as pessoas doentes, mas somente essas. E não reconheço nenhuma legitimidade a um Poder que lança multas, envia para a prisão ou até atira em cidadãos que se recusam a ficar em prisão domiciliar por tempo indeterminado.

A Saúde Pública não se assegura com ameaças, mas com confiança. E ninguém deve ser protegido de si mesmo. Parece-me indigno impedir pessoas idosas de receber a sua família se assim o desejarem. Talvez elas fiquem infectadas, talvez adoeçam e talvez morram, mas a escolha é delas. A única coisa de que temos a certeza ao nascer, é que vamos morrer. A vida é um longo percurso para nos podermos preparar para ela e os idosos têm o direito de preferir viver com seus entes queridos em vez de alguns anos mais.

As epidemias cuidam-se sempre da mesma maneira: medidas de higiene – lavar-se e arejar — e isolar os doentes em casa ou no hospital a fim de os tratar. Tudo o resto não passa de cinema. É preciso regressar ao fundamental e não andar a inventar restrições.

Como é possível que os nossos dirigentes nos tenham imposto um projecto fascista dos EUA ?

Compreendo bem o que quer dizer com fascista, mas isso não é aqui muito apropriado. O fascismo é uma ideologia que veio responder à crise do capitalismo de 1929. Rumsfeld tem, é certo, muitas características, mas ele pensa a partir de um outro mundo.

O Doutor Hatchett nunca teve que responder pelo seu projecto totalitário nos EUA. Mas Donald Rumsfeld ainda menos. E, no fim, ninguém jamais teve que responder pelo que se passou após os atentados de 11 de Setembro de 2001, porque decidimos colectivamente não lançar luz sobre os atentados em si mesmos. No entanto, este crime original não cessou de provocar sequelas. A Administração Obama continuou a aplicar fielmente o projecto Rumsfeld na Líbia, na Síria e no Iémene (doutrina Cebrowski). E uma vez que a Administração Trump se opôs fortemente a isso, vemos os antigos colaboradores de Rumsfeld prosseguir a sua obra através de outras estruturas que não as do Estado Federal dos EUA. Quer queiramos ou não, isto continuará até que se reabra este dossiê.

Desculpe-me voltar atrás, mas se o confinamento obrigatório e generalizado não passava de uma medida autoritária sem propósito médico, porque é que é tão difícil de desconfinar ?

Não, não é difícil. Basta voltarmos a ser livres. O problema é que não se conhece hoje muito melhor este vírus do que há dois meses e que, agora, estamos enredados em conhecimentos imaginários.

As curvas da epidemia são praticamente as mesmas em todos os países atingidos, quaisquer que sejam as medidas postas em prática. Sódois tipos de países se destacam do molho: por um lado, aqueles que por uma razão desconhecida não foram atingidos, como os da península da Indochina (Vietname-Laos-Cambodja-Tailândia); por outro, aqueles que reagiram muito mais rápido que os outros isolando imediatamente os doentes e tratando-os, como Taiwan. Portanto, seja qual for a maneira como se desconfina, haverá, é certo, um maior ou menor número de pessoas contaminadas, mas isso não deverá ter impacto.

Os governos continuarão o confinamento obrigatório até à descoberta de uma vacina ?

Ignoro se algum dia se conseguirá uma vacina. Já faz 35 anos que se busca uma contra a SIDA (AIDS-br). Além disso, não é muito provável que a epidemia do Covid-19 dure mais do que a dos outros coronavírus, o SARS ou o MERS.

A vacina tal como os novos medicamentos são consideráveis jogadas económicas. Certos laboratórios farmacêuticos estão prontos a tudo para impedir que os médicos tratem as pessoas com medicamentos baratos. Lembrem-se como Donald Rumsfeld, quando dirigia a Gilead Science, fez fechar a fábrica (usina-br) de Al-Shifa que fabricava medicamentos contra a Sida sem lhe pagar royalties: conseguiu fazê-la bombardear pelo democrata Bill Clinton alegando que ela pertencia à Alcaida, o que era absolutamente falso. E, precisamente, o Dr. Hatchett dirige agora a mais importante associação de vacinas, a CEPI.

O que é que se vai passar agora ?

Em poucas semanas, vemos uma ruptura considerável em certas sociedades ocidentais. Em França, as liberdades fundamentais foram suspensas, entre as quais o direito de realizar reuniões e de se manifestar. Foram colocados em desemprego parcial 13 milhões de trabalhadores. Ainda que temporariamente tornaram-se em simples assistidos. A escola vai recomeçar, mas não será obrigatória; os pais escolherão se enviam para lá os seus filhos ou não. Etc. Isto não é o resultado da epidemia, mas, tal como acabo de vos explicar, a consequência de reacções políticas ineptas à epidemia.

O confinamento generalizado obrigatório havia sido pensado pela equipe de Donald Rumsfeld para transformar a sociedade dos EUA. Este projecto não foi aplicado nos EUA, mas quinze anos mais tarde na Europa. A transferência de um continente para outro ilustra o caráter transnacional do capitalismo financeiro do qual Rumsfeld é um puro produto. Não há razão para que aqueles que financiaram a equipe Rumsfeld não prossigam o seu projecto político agora na Europa.

Neste caso, nos próximos anos, uma grande parte dos trabalhadores europeus seria transferida para a indústria de armamento. A OTAN, que o Presidente Macron considerava estar em estado de morte cerebral, e a sua componente civil, a União Europeia, cujos membros se digladiaram, nestas últimas semanas, para roubar uns aos outros cargas de máscaras, serão reorganizadas. Estas duas organizações prosseguirão a destruição sistemática de todas as estruturas estatais do Médio-Oriente Alargado, iniciada em 2001, depois na Bacia das Caraíbas.

No entanto, os homens de Rumsfeld cometeram um erro. Ao mascarar o seu projecto de 2006, deram a impressão de tomar como modelo a China quando impuseram o confinamento generalizado obrigatório. A China, e já não mais os Estados Unidos, tornou-se de facto o referente intelectual dos europeus. Vai, pois, tornar-se uma obsessão impedi-la de continuar a construção das Rotas da Seda. Vai ser preciso cercá-la.

As epidemias não provocam revoluções, mas suscitam-nas as guerras e os desastres económicos. Hoje, por culpa de nossos governantes, as economias da UE estão em ruínas e avançamos para a guerra. Vamos atravessar uma época charneira de onde pode surgir o melhor como o pior.

Esta evolução do mundo será a resposta ao desaparecimento das classes médias gerada pela globalização financeira e denunciada pelos Coletes Amarelos, como a Segunda Guerra Mundial foi uma resposta ao esgotamento dos impérios coloniais e à crise do capitalismo dos cartéis em 1929

A França já passou por tal drama. Foi em 1880-81, quando o capitalismo industrial de então já não conseguia explorar mais os trabalhadores face ao aparecimento dos sindicatos. Jules Ferry expulsou certas congregações religiosas e criou a escola laica obrigatória a fim de arrancar as crianças à influência da Igreja Católica. Fê-las instruir por partidários do militarismo, os «hussardos negros». Fez deles os soldados do seu projecto colonial. Durante 35 anos, a França escravizou muitos povos estrangeiros, depois entrou em rivalidade com a potência emergente da época, a Alemanha, e viu-se precipitada na Primeira Guerra Mundial.

Nós vamos passar na Europa pelos mesmos debates que os Estados Unidos viveram há vinte anos atrás. Nós devemos recusar de forma categórica ser levados a tais crimes. Será este o combate dos próximos anos. Será o vosso.
 
 


*Intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: Sous nos yeux. Du 11-Septembre à Donald Trump. Outra obras : L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación (Monte Ávila Editores, 2008).
 

Notas:

[1] “Covid-19 : Neil Ferguson, o Lyssenko liberal”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 20 de Abril de 2020.
[2] “Neil Ferguson demite-se do SAGE”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 9 de Maio de 2020.
[3] “O Covid-19 e a Alvorada Vermelha”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 28 de Abril de 2020.
[4] A Comprehensive Evaluation on Emergency Response in China: The Case of Pandemic Influenza (H1N1) 2009, Lan Xue & Guang Zeng, Springer (2018).
[5] SARS : how a global epidemic was stopped, WHO (2006). Sars. Reception and Interpretation in Three Chinese Cities, Routledge (2006). The SARS Epidemic. Challenges To China’s Crisis Management, John Wong & Zheng Yongnian, World Scientific Publishing Company (2004).
[6] « Covid-19 : L’Occident face à l’exemple chinois », par Thierry Meyssan, Réseau Voltaire, 9 mai 2020.

Portugal | Que tempo novo vem aí?

 
 
Vai-se desenhando um novo tempo carregado de velharias e armadilhas
 
Carvalho da Silva | Jornal de Notícias | opinião

Só uma forte politização da crise, um debate político que evidencie as contradições, injustiças e irracionalidades do regime socioeconómico em que vivemos pode descobrir formas de travar os descalabros e o sofrimento que se desenham no horizonte, e gerar lastro para mudanças positivas. O susto "simétrico" produzido pela pandemia no seu início já é passado. Muitas juras de solidariedade são esquecidas e apresentam-se de volta o egoísmo e o utilitarismo.

É preciso remar contra a maré que está a encher. A última semana confirma que não podemos ficar à espera de solidariedade da União Europeia (UE). Dali não se perspetiva mais que uma montanha de crédito (aumento da dívida), acompanhado de algumas subvenções para disfarçar, na certeza de que tudo pagaremos com língua de palmo. A hegemonia do euroliberalismo, assumida pelas maiores forças políticas e económicas nacionais, impõe-nos o seguidismo face aos poderes dominantes na UE e o perigoso adiamento da preparação do país para os desastres europeus que pairam no ar. Este fechamento favorece o avanço das forças ultraconservadoras e fascistas que agora procuram engordar cavalgando aspetos dolorosos da crise. Esta evidência, todavia, não afasta o velho vício de alcunhar de antieuropeísta quem afirma ser preciso pensar em novas soluções.

A profundidade dos bloqueios do país na sua matriz de desenvolvimento, no perfil da economia, nas insuficiências do Estado para assegurar os direitos fundamentais às pessoas, no desequilíbrio das relações laborais em desfavor dos trabalhadores, na falta de coesão territorial, na rutura de solidariedades e nas desigualdades, estão muito para além dos rombos provocados pela pandemia: são estruturais. Mas quando se ensaia a retoma da atividade ressurge em força a defesa de velhas políticas geradoras desses bloqueios.

Com a agressividade típica de quem se fecha por falta de razão, o velho centrão de interesses ressurge em força, e os seus porta-vozes tentam o espezinhamento intelectual e político de quem busca alternativas. Quem questiona a entrega de mais 850 milhões de euros ao Novo Banco antes de uma informação clara é chamado de irresponsável, de colocar o povo a odiar a Banca. O que o povo detesta é a corrupção, os roubos feitos a partir da gestão e de resoluções desastrosas, a sacralidade dos compromissos com a Banca em detrimento dos cidadãos. Ora, quando não há respostas claras fica exposto um enorme campo de manipulação para oportunistas.

Perspetiva-se o enfraquecimento dos compromissos para consolidar o SNS, o sistema de ensino, a proteção dos mais pobres e dos trabalhadores. A grande prioridade colocada ao Estado e ao Orçamento do Estado pelo centrão é salvaguardar os direitos de propriedade e consolidar a coletivização dos prejuízos. O Estado ter posições decisivas em setores estratégicos da economia, nem pensar. Até o primeiro-ministro é criticado se diz que meter dinheiro na TAP deve ter como contrapartida o Estado ficar com poder decisivo na empresa. A CIP reclama um fundo público para salvar empresas, mas acrescenta logo que o Estado não pode meter o nariz na gestão.

Dos defensores desta conceção de regime socioeconómico não se espera nada de novo.

* Investigador e professor universitário

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/05/portugal-que-tempo-novo-vem-ai.html

A PRESENTE EXPANSÃO MONETÁRIA E O SEU PREVISÍVEL RESULTADO

                            Final Currency Debasement to Zero Has Started | GoldBroker.com
 
Em consequência da crise artificialmente desencadeada com a paragem - por ordem dos governos do Ocidente - de metade da produção mundial, temos agora que enfrentar a crise económica mais profunda, desde a grande depressão de 1929-1934. 
O resultado da crise que agora apenas começou - que irá durar provavelmente uma década ou mais - não será fácil de antecipar, nos planos social e político. Embora seja, desde já, certa uma quebra dos padrões de bem-estar e de riqueza, nos países outrora afluentes do Ocidente, as inevitáveis agitações sociais e suas consequências, são imprevisíveis. 
Mas, o meu propósito - neste escrito - é o de enfatizar as consequências directas das políticas económicas dos governos, apoiados pelos bancos centrais.  
A expansão extraordinária da massa monetária, levada a cabo pela FED dos EUA e imitada pelos outros bancos centrais, tem consequências aparentes e ocultas. 
Nas consequências aparentes, pode-se constatar a obtenção de meios monetários pelos Estados, para fornecer apoios extra em muitas direcções:
- aos trabalhadores e às famílias que ficaram, de repente, sem recursos (o chamado «dinheiro de helicóptero») 
- às empresas de pequena e média dimensão, salvas da falência, graças ao crédito concedido pela banca. Mas este apenas o será porque está garantido pelo erário público.
-  aos próprios bancos, em situação real de falência, com os seus balanços cada vez mais negativos, à medida que a crise se vai avolumando e quando mais e mais devedores deixarem de pagar as suas prestações (crédito mal parado)...
- aos Estados, através da compra sistemática das suas emissões de dívida. Este financiamento dos Estados pelos bancos centrais, anátema para o credo neoliberal, é hoje praticado pelos mesmos neoliberais.
Esta aceleração do crédito e da emissão monetária, está a causar uma expansão brutal dos activos da  FED, emissora do dólar, principal moeda de reserva mundial e nas trocas comerciais.  Apenas no espaço de um ano, estima-se em 62% a expansão dos activos da FED.  
O mesmo se passa com os outros bancos centrais. Esta situação equivale a uma «nacionalização» de grande parte da economia, mas sem haver verdadeiro controlo e pilotagem por parte dos governos e Estados respectivos. Vão ser os bancos centrais, cada vez mais, que decidem, na prática, as políticas concretas dos Estados e dos governos. Note-se que escrevi «nacionalização» entre aspas, pois os bancos centrais da maior parte dos países ocidentais são - na realidade - privados: como é o caso da FED, do Bank of England, do ECB, etc., são conglomerados de entidades bancárias privadas que detêm o controlo, com supervisão dos Estados, mas sem a possibilidade destes pilotarem as políticas monetárias.  
 
O que descrevi acima pode deixar indiferente alguns, que não percebem o alcance destas mudanças, porém, as consequências serão muito amargas
De entre as consequências ocultas, a mais preocupante, é a inflação descontrolada. A inflação não poderá ser contida, como até agora, confinada aos mercados financeiros, às bolsas de acções e a produtos financeiros derivados. 
Outra consequência oculta, é a destruição do valor real das divisas, que se vai acelerar. 
Só poderá beneficiar, neste contexto, uma pequena minoria, que detém bens duradoiros com potencial para gerar rendimento como terra agrícola, imobiliário, ou empresas rentáveis, apesar da depressão que aí vem. Mesmo dentro de cada categoria de activos, será necessário diferenciar: o imobiliário comercial - por exemplo - não será rentável, ou somente num prazo médio-longo.
A destruição do valor das divisas obrigará à reestruturação da ordem monetária existente. Ninguém pode, hoje, saber quais os resultados de um futuro «Bretton Woods». Porém, penso que chegou ao fim o domínio mundial do Ocidente, com os EUA à cabeça. É um caso de «suicídio» civilizacional: estamos a presenciar o resultado conjugado da ilusão decorrente de «hubris», da arrogância e ganância da oligarquia, da sua miopia política, da demagogia...
Os povos destes países ocidentais não têm responsabilidade directa, embora tenham tido a ilusão de «decidirem pelo voto» as políticas dos seus Estados respectivos. 
Serão os «de baixo» a pagar o custo - pesado e amargo - dos desmandos da oligarquia estúpida e corrupta que os explorou. Esta, tudo fará para continuar como parasita que suga o sangue do hospedeiro, mesmo enfraquecendo-o ao ponto de o matar...

Ver o original em 'Manuel Banet' (clique aqui)

Portugal | PCP diz que queda do PIB revela necessidade de mais medidas do Governo

 
 
O PCP considerou hoje que a queda do PIB no primeiro trimestre devido à pandemia da covid-19 revela a necessidade de o Governo tomar medidas em defesa dos trabalhadores e das pequenas e médias empresas.

Numa curta declaração em vídeo, divulgada pelo PCP, o deputado Duarte Alves afirmou que estes são "dados do primeiro trimestre de 2020" e que a "redução do PIB ainda não revela a real dimensão dos problemas com que o país está confrontado".

"Mas revela já que o Governo precisa de tomar opções que ainda não tomou para a salvaguarda dos rendimentos dos trabalhadores, para o apoio às micro, pequenas e médias empresas, para o investimento público, que será essencial também para a dinamização da produção nacional", afirmou Duarte numa declaração de 22 segundos.

O Produto Interno Bruto (PIB) português caiu 2,4% no primeiro trimestre do ano face ao mesmo período de 2019, devido aos efeitos económicos da pandemia de covid-19, divulgou hoje o Instituto Nacional de Estatística (INE).

A nível global, segundo um balanço da agência de notícias AFP, a pandemia de covid-19 já provocou mais de 302 mil mortos e infetou mais de 4,4 milhões de pessoas em 196 países e territórios.

Em Portugal, morreram 1.190 pessoas das 28.583 confirmadas como infetadas, e há 3.328 casos recuperados, de acordo com a Direção-Geral da Saúde.

A doença é transmitida por um novo coronavírus detetado no final de dezembro, em Wuhan, uma cidade do centro da China.

Notícias ao Minuto | Lusa | Imagem: © iStock
 
Leia em Notícias ao Minuto: 

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Nuno Lopes denuncia que há artistas a passar fome em Portugal

 

O actor Nuno Lopes considera-se “um privilegiado” nestes tempos de pandemia, numa altura em que se estreou na Netflix com a série “White Lines”, mas denuncia que há artistas em Portugal que “estão em situação de fome”.

Declarações numa entrevista à Rádio Renascença, onde Nuno Lopes lamenta o estado de precariedade permanente do sector artístico português que a pandemia de covid-19 veio agravar.

“A classe cultural em Portugal já é precária desde sempre, pior fica quando há uma crise e quando não temos sequer a condição de intermitentes, como há noutros países”, queixa-se Nuno Lopes, lamentando que os actores e outros artistas não têm “sequer direito a subsídio de desemprego“.

A situação de precariedade “significa, que quando não estão a trabalhar, como agora, porque não podem, não têm como ganhar a vida“, constata o actor.

“Há muitas pessoas da minha classe que estão neste momento em situação de fome, mesmo”, alerta ainda Nuno Lopes que fala de uma “situação horrível”.

O actor que participa na série “White Lines” da Netflix, que estreou nesta sexta-feira, considera-se um “privilegiado” nesta fase. Mas, ainda assim, lamenta que teve de “parar um filme que estava a fazer com o Marco Martins”.

“Voltamos para Portugal e como as condições monetárias que a cultura tem nunca são grandes, estamos neste momento a perceber como é que podemos continuar”, refere o actor, notando que “tinha um outro projecto em França” que também está dependente da reabertura das fronteiras e da “evolução do vírus no mundo”.

“Concursos patéticos do Ministério da Cultura”

A actriz Sandra Faleiro também se queixa da actual situação, referindo-se às “pessoas que já não têm comida no prato” e aos “trabalhadores independentes que trabalham há anos sem condições ou garantias nenhumas”.

As palavras de Sandra Faleiro surgem numa publicação no Instagram, onde critica ainda os “concursos patéticos do Ministério da Cultura nestes tempos de calamidade”.

“Se não se tomarem medidas a sério que tenham uma perspectiva de futuro e que sejam realistas e funcionais”, espera-nos “o vazio”, “sem música, cinema, teatro, dança, literatura, artes plásticas, televisão”, avisa a actriz.

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ZAP //

 
 
 

Portugal | "Banca falhou completamente." Contabilistas culpam bancos por atrasos nos apoios

 
 
Paula Franco, bastonária da Ordem dos Contabilistas Certificados, revela que apoios que estão a chegar são da Segurança Social.
 
Abastonária da Ordem dos Contabilistas Certificados acusa a banca de não estar a apoiar as pequenas e médias empresas, sublinhando que apenas estão a chegar apoios da Segurança Social.

Numa comunicação, na noite desta quarta-feira, em direto, Paula Franco revela que os empresários estão com dificuldades na aprovação das linhas de crédito de apoio à economia, apesar de o Instituto de Apoio às Pequenas e Médias Empresas dizer que algumas parcelas destes apoios já estão esgotados.

"Quem falhou completamente aqui foi a banca. O Governo quando preparou este apoio às empresas, pequenas e microempresas, foi assente em dois pontos, o financiamento e o apoio da SS e tem sido o dinheiro da SS e dos contribuintes que está a ser utilizado para pagar os apoios às empresas", alerta a responsável.

Paula Franco espera que até segunda-feira todos os problemas com os processos de lay-off ainda pendentes estejam resolvidos, revelando que tem a informação de que estes "estão a ser reprocessados e que vão ser agendados pagamentos para dia 15 e dia 18".

"Vão ser agora despachados muitos processos de lay-off de situações que estavam emperradas e que foram libertadas", acrescenta.

Depois desta fase, Paula Franco espera que, depois de segunda-feira, passe a existir um número pequeno de situações de lay-off por resolver.
 
José Milheiro | TSF

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

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EUA | A economia capitalista e a política da morte

 
 
Desafiando a oposição popular esmagadora, o governo Trump e a maioria dos governos estaduais, corporações multibilionárias e os interesses financeiros de Wall Street estão dando andamento aos planos para uma rápida reabertura da economia dos EUA.

David North | WSWS

A indústria automobilística está liderando as exigências de um retorno ao trabalho prematuro e mortal. Sucumbindo à enorme pressão política e econômica, a governadora de Michigan, Gretchen Whitmer, sancionou a reabertura, a partir de hoje, das fornecedoras de autopeças e das indústrias de ferramentaria e usinagem. As grandes empresas automobilísticas pretendem retomar a produção no estado na próxima semana.

A Honda está retomando a produção hoje em todos os Estados Unidos e Canadá. Isso inclui fábricas em Ohio, Carolina do Sul, Carolina do Norte, Indiana, Geórgia e Alabama.

O governador da Califórnia, Gavin Newsom, permitiu que as fábricas, juntamente com os depósitos e instalações logísticas, reabrissem desde da última sexta-feira.

Na Flórida, Texas e em vários outros estados, os serviços e o comércio, incluindo salões e barbearias, foram – ou serão em poucos dias – reabertos. O Missouri está sancionando a abertura de todos os negócios e permitirá a realização de shows ao grande público.

Na prática, os esforços para conter a propagação da pandemia nos Estados Unidos caíram por terra. O governo Trump está implementando uma política de "imunidade de rebanho" que resultará nos próximos meses em dezenas de milhares – e, potencialmente, centenas de milhares – de mortes que poderiam ser evitadas se medidas apropriadas fossem tomadas para conter a propagação da pandemia.

Mas o governo Trump, que já havia retirado totalmente o apoio dos EUA às operações da Organização Mundial da Saúde, está sabotando ativamente os esforços dos Centros de Controle de Doenças (CDC) de restringir, mesmo que moderadamente, as demandas das corporações de um retorno imediato ao trabalho.

 
A reabertura de fábricas e outros locais de trabalho está ocorrendo enquanto a pandemia segue se propagando sem controle. No fim de semana, o número total de mortes por COVID-19 passou de 80.000 nos Estados Unidos. Durante os primeiros 10 dias de maio, o número de mortes aumentou em mais de 15 mil. Além disso, à medida que o vírus se espalha pela população, a doença está manifestando novos sintomas e ampliando o alcance de suas vítimas.

Os médicos, que se empenharam durante os meses de março e abril para combater o ataque da COVID-19 ao sistema respiratório humano, descobriram nas últimas semanas que o vírus também está atacando rins, cérebro, sistema circulatório e músculos.

A novidade mais assustadora é o surgimento de uma doença mortal entre as crianças pequenas, cujos sintomas se assemelham aos da Doença de Kawasaki, que foi definitivamente associada ao vírus da COVID-19. Epidemiologistas relatam que o período de incubação nas crianças parece ser de duas a quatro semanas. Isso significa que as crianças que foram infectadas em abril ficarão gravemente doentes nas próximas semanas.

Os pais, que haviam sido assegurados de que as crianças pequenas não estavam ameaçadas pela pandemia, ficarão profundamente abalados por este novo perigo. Os trabalhadores que estão sendo forçados a retornar aos seus empregos agora enfrentarão a possibilidade muito concreta de que, se infectados no trabalho, transmitam a doença a seus filhos, com consequências terríveis.

O grau de imprudência e indiferença criminosa da gestão Trump em relação ao destino da população é ressaltado pelo fato de que o vírus se espalha pela Ala Oeste da Casa Branca.
Um empregado pessoal de Trump testou positivo. Katie Miller – a secretária de imprensa do vice-presidente Mike Pence e esposa de um dos principais conselheiros de Trump, o fascista Stephen Miller – também deu positivo. Três altos funcionários da força-tarefa do coronavírus da Casa Branca – Dr. Anthony Fauci, Dr. Robert R. Redfield e Dr. Stephen Hahn – estão agora isolados em quarentena, em consequência da exposição a indivíduos infectados.

Foi relatado que Trump deu um chilique assim que descobriu que pode ter sido exposto ao vírus. De acordo com o Washington Post, Trump "ficou aborrecido ao saber que a Sra. Miller havia testado positivo e tem se irritado com pessoas que se aproximam demais dele...".

O Post ainda relata que "A descoberta dos dois funcionários infectados levou a Casa Branca a intensificar os procedimentos de combate ao vírus, exigindo que mais funcionários trabalhem a partir de casa, a intensificação do uso de máscaras e que se faça uma triagem mais rigorosa das pessoas que entram no complexo".

A situação na Casa Branca expõe a fraude e a hipocrisia, enraizadas em interesses e privilégios de classe, que caracterizam todos os aspectos da resposta do governo Trump à pandemia. Apesar de não ter sido capaz de impedir a disseminação do vírus na própria Casa Branca – o edifício com o maior nível de segurança do mundo – o governo exige que os trabalhadores comuns dos EUA retornem aos seus empregos onde existem poucos ou nenhum procedimento eficaz para evitar a transmissão de infecções. Aqueles que trabalham nas proximidades do presidente são aconselhados a trabalhar a partir casa, um privilégio que não pode ser desfrutado por dezenas de milhões de trabalhadores.

As declarações e ações de Trump são as de uma personalidade sociopata. Mas suas políticas são impulsionadas pelos interesses da elite corporativo-financeira. A demanda pela "reabertura da economia" – a frase que é usada para legitimar uma política criminosa – não significa outra coisa senão a retomada da exploração desenfreada da classe trabalhadora, independente de quantas vidas humanas irá custar.

O Washington Post, de propriedade do dono da Amazon, Jeff Bezos, reconhece abertamente que o governo Trump está "pedindo aos americanos que aceitem uma proposta devastadora: que um acúmulo constante e diário de mortes isoladas será o custo sombrio de reabrir a nação".

Na verdade, os americanos estão sendo mandados, não solicitados, a retornar ao trabalho em condições que resultarão em uma perda maciça de vidas. Na última pesquisa da Pew, divulgada no final da semana passada, dois terços dos entrevistados declararam serem contrários a uma reabertura prematura da economia.

Em um editorial tipicamente cínico, intitulado "A catástrofe do lockdown econômico", o Wall Street Journal questionou: "Bem, depois do horrível relatório sobre os empregos de sexta-feira, o que vocês acham do fechamento agora?" A premissa por trás dessa pergunta traiçoeira é que dezenas de milhões de americanos empobrecerão e passarão fome, a menos que voltem ao trabalho. Não há outra escolha.

Em resposta ao Wall Street Journal, o Partido Socialista pela Igualdade coloca outra questão: Diante da perda de vidas catastrófica e da devastação social que atinge milhões de vidas, o que vocês acham do resgate de Wall Street agora?

Desde os estágios iniciais da pandemia, a resposta da gestão Trump tem se determinado pelos interesses da oligarquia corporativo-financeira. A prioridade do governo tem sido salvar os investimentos de Wall Street e a riqueza dos capitalistas e não vidas humanas. Na verdade, os dois objetivos – proteger os rentistas e especuladores de Wall Street, ou combater a pandemia e proteger os trabalhadores ­– são totalmente incompatíveis.

Essa contradição socioeconômica fundamental – ou seja, o conflito irreconciliável entre a classe capitalista e a classe trabalhadora – encontra sua expressão mais obscena na correlação entre o número de mortos, desempregados e pobres e, no outro extremo, a explosão do valor das ações de Wall Street.

Desde que foi aprovado o resgate de trilhões e trilhões de dólares no final de março, o Índice Dow Jones subiu aproximadamente 35%. O índice Nasdaq está em seu pico de 2020. Ao longo dos primeiros 10 dias de maio, enquanto o número de mortos aumentou em aproximadamente 15.000, o Dow Jones ganhou mais de 600 pontos.

Quanto mais terríveis os relatos de mortes e sofrimento humano, mais extasiante é a resposta dos mercados capitalistas. O contraste entre Wall Street e a economia real é tão extremo que se tornou um assunto amplamente comentado na imprensa financeira.

A razão do aumento explosivo dos valores das ações está bem clara. O governo Trump, com o apoio unânime de deputados republicanos e democratas – incluindo, entre os últimos, o senador Bernie Sanders – alocou trilhões de dólares para salvar Wall Street.

Explicando a euforia em Wall Street, o rigoroso Economist escreve em sua edição mais recente:

A melhora no humor se deve, em boa parte, ao Fed, que agiu mais dramaticamente que outros bancos centrais, comprando ativos em uma escala inimaginável. Ele está empenhado em comprar ainda mais dívidas corporativas, incluindo títulos "podres" de alto rendimento. O mercado para novas emissões de títulos corporativos, que fora congelado em fevereiro, reabriu de maneira espetacular. As empresas emitiram $560 bilhões em títulos nas últimas seis semanas, o dobro do nível normal. Até mesmo as empresas de cruzeiros marítimos foram capazes de levantar capital, embora a um preço elevado. Uma cascata de falências de grandes empresas está sendo evitada. O banco central, na prática, segurou o fluxo de caixa da America Inc. O mercado entendeu rápido o recado e disparou.

Depois de ter gasto, e continuando a gastar, quantias ilimitadas de dinheiro para salvar a elite dominante – e, assim, tendo aumentado massivamente a dívida nacional – o governo Trump, o establishment político e a mídia capitalista exigem que as massas trabalhadoras voltem ao trabalho. Para combater a pandemia e para dar apoio aos desempregados não há dinheiro. O Wall Street Journal cita com aprovação as palavras do governador democrata de Nova York, Andrew Cuomo: "O governo fez tudo o que pode".

Na verdade, não fez nada. A demanda do governo Trump pelo retorno ao trabalho deixou claro que a luta contra a pandemia não pode ser travada meramente no front da medicina. A classe trabalhadora é confrontada, sobretudo, com a necessidade de uma luta política e social contra todo o sistema capitalista.

O combate à pandemia exige o avanço de um programa socialista, irreconciliavelmente oposto aos interesses econômicos da classe capitalista e do sistema capitalista como um todo.

Diante de uma crise nacional e global sem precedentes, com incontáveis milhões de vidas em jogo, os interesses da classe trabalhadora – a esmagadora maioria da população – só podem ser levados adiante com o fim da ditadura empresarial-financeira sobre a política social e com a redistribuição dos recursos econômicos baseada na reorganização socialista da vida econômica.

Nessa situação crítica, o Partido Socialista pela Igualdade levanta as seguintes reivindicações:

A rejeição a todas as demandas por um retorno ao trabalho até que a propagação da pandemia seja interrompida e condições seguras e saudáveis possam ser estabelecidas em todos os locais de trabalho.

A provisão de uma renda mensal a todas as famílias, em quantidade suficiente para garantir condições de vida dignas, até que seja possível o retorno ao trabalho. Essa renda deve ser complementada com a suspensão de hipotecas, aluguéis, pagamento de juros e contas de serviços públicos, juntamente com o cancelamento das dívidas estudantis.

A provisão de auxílio às pequenas empresas, em quantidade suficiente para manter a viabilidade econômica do empreendimento e os salários e remunerações de seus funcionários até que suas operações possam ser retomadas.

O repúdio imediato à Lei CARES (de resgate às corporações) e a devolução de todos os recursos que foram destinados a instituições privadas financeiras e corporativas.

A expropriação de todas as grandes instituições financeiras e corporativas e sua conversão em serviços públicos controlados democraticamente.

Um aumento substancial da taxa de impostos, para ao menos 90%, sobre os salários e todos os rendimentos derivados de investimentos especulativos responsáveis por manter indivíduos na faixa dos 5% mais ricos da sociedade.

O desmantelamento do complexo militar-corporativo, que é socialmente destrutivo, e o redirecionamento de seu gigantesco orçamento para propósitos socialmente progressistas.

Este programa não pode ser realizado através dos partidos políticos existentes e das instituições da classe capitalista. Só é possível lutar por ele através da mobilização política independente da classe trabalhadora. O objetivo deste programa não é a reforma do sistema capitalista, mas a sua substituição por um sistema econômico socialista, baseado em formas democráticas de governo criadas pela classe trabalhadora no curso da luta.

Acima de tudo, na luta por este programa, a classe trabalhadora americana deverá apelar ativamente para o apoio dos trabalhadores de todo o mundo, seus aliados naturais na luta contra o capitalismo global. A pandemia, que afeta os trabalhadores de todos os países, demonstra a necessidade da unificação da classe operária internacional na luta global pelo socialismo.

O Partido Socialista pela Igualdade está concorrendo às eleições federais de 2020. Seus candidatos a presidente e vice-presidente – Joseph Kishore e Norissa Santa Cruz – utilizarão a oportunidade oferecida por essa campanha para lutar por este programa socialista revolucionário.

Convocamos os trabalhadores e a juventude, os leitores do World Socialist Web Site e apoiadores do Partido Socialista pela Igualdade a envolverem ativamente nesta luta crucial, da qual depende o futuro da humanidade.

David North | WSWS
 
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https://paginaglobal.blogspot.com/2020/05/eua-economia-capitalista-e-politica-da.html

Como beneficiam as grandes empresas desta crise?

 
 
Uma conjuntura adversa, onde os canais de distribuição se encontram restritos pelos mesmos do costume e não existem alternativas para contrabalançar as contas, afecta sobretudo os trabalhadores.
 
António Ribeiro | AbrilAbril | opinião
 
Ao longo do surto de Covid-19, várias foram as empresas que se mobilizaram em verdadeiras campanhas filantrópicas para auxiliar os mais diversos países e sectores. É certo que, numa primeira análise, poderíamos facilmente concordar que este tipo de iniciativas são verdadeiras e genuínas acções sociais e que, de facto, nesta altura todos devemos ajudar a combater o dito inimigo comum.

Na Europa e nos EUA, multinacionais como a Unilever ou a Nestlé anunciaram importantes medidas de ajuda a sectores como a hotelaria, restauração e cafés, disponibilizando várias centenas de milhões de euros para este efeito. Dado o estado geral da pandemia, estas medidas parecem quase contraproducentes, tendo em conta que estes são os sectores que terão mais dificuldades em voltar à normalidade, com uma taxa de recuperação bastante lenta em consequência do forte impacto que sofreram. Se retirarmos o carácter solidário, não parece haver mais nenhum motivo para estas multinacionais lançarem este tipo de campanhas.

Todo esta aparente solidariedade até nos faz esquecer que no ano passado, a Nestlé, por exemplo, anunciou nos EUA o lay-off de 4000 pessoas a ser realizado até Outubro, tendo como pretexto a reestruturação da sua estrutura logística. Na altura, a Covid-19 não era uma opção argumentativa para o efeito. Já este ano, e apesar das adversidades, a empresa anunciou recentemente um crescimento de 4,3% nos primeiros três meses de 2020, salientando que se tratou do crescimento mais acentuado nos últimos cinco anos na Europa e nos EUA. Tudo isto manifestou-se recentemente numa subida importante das acções da empresa em bolsa de 1,4%.

 
Em Portugal, as parcas subidas da bolsa estão intimamente ligadas com a corrida aos supermercados e concentram-se, sobretudo, no sector da grande distribuição. Todos os dias somos recordados, pelas várias vias da comunicação social, que o seu contributo na situação actual é decisivo para o bom funcionamento do País. É, de facto, verdade que os trabalhadores do sector da distribuição alimentar têm desempenhado um papel de grande importância no decorrer da pandemia, e o agradecimento de que têm sido alvo é mais do que merecido.

A ironia e o desconforto apenas surgem quando comparamos o tratamento e as condições laborais de que esses trabalhadores têm sido alvo nos últimos anos e os confrontamos com os rasgados elogios que têm recebido. Há, presentemente, uma espécie de clarividência sobre a relevância do seu trabalho por parte de todos, que tanto jeito teria dado em lutas anteriores.

É certo que cadeias de distribuição, como a Jerónimo Martins, anunciam o pagamento de um prémio suplementar superior ao de anos anteriores. Contudo, é de lamentar que este benefício seja pontual e que seja preciso uma pandemia desta ordem de grandeza para enaltecer de forma mais significativa a força de trabalho.

Para além dos incentivos, outra das grandes bandeiras utilizadas pela grande distribuição contra a pandemia é a aposta na produção nacional. Basta fazermos uma pesquisa rápida nos sites das principais cadeias para encontrar percentagens elevadíssimas de fornecedores nacionais.

Algumas cadeias, como a Jerónimo Martins ou a Auchan, falam em números superiores a 80%. É importante salientar que esta bandeira não é nova. Desde meados do ano 2000 começámos a assistir a inúmeras campanhas e iniciativas de promoção de consumo de produtos de produção nacional, como é o caso do Movimento 560, criado em 2005 com o objectivo de promover marcas e produtos fabricados em Portugal.

Este movimento chegou a desenvolver uma campanha onde defendia que um cabaz de compras de 100 euros por mês de produtos portugueses teria efeitos muito positivos na economia, e que esta acção ajudaria mesmo a criar postos de trabalho!
 
Agora, com a Covid-19, esta manobra de marketing ganha um peso substancialmente maior, dado o estado actual da economia. Todos sabemos que quanto melhor for passada esta mensagem pela grande distribuição, maior é a probabilidade de atrair consumidores mais patrióticos.

É verdade que a produção nacional se encontra num estado de franca debilidade e que os efeitos nefastos desta pandemia não auguram nada de bom para os próximos tempos. Para além do estado actual da economia também a apreensão quanto aos desenvolvimentos futuros é um factor de preocupação. Contudo, as elevadas percentagens de fornecedores nacionais descritas pela grande distribuição e os seus mais recentes resultados financeiros levantam uma questão: se no meio desta pandemia os números para a grande distribuição são positivos, por que motivo não se verificam números semelhantes do lado dos produtores?

É estranho como o aumento do consumo devido à pandemia se traduz apenas nos números da grande distribuição e não numa melhoria significativa das empresas da indústria alimentar nacional que são, em grande medida, os seus principais fornecedores.

Todos sabemos das sentenças desde há muito impostas pela grande distribuição aos produtores e que os obrigam a absorver uma boa parte do risco do negócio. Factores como os elevados prazos médios de pagamento a fornecedores, taxas e penalizações de venda, restrições de políticas de preço e repartição de lucro penalizam o agente produtor.

Em muitos casos, estas situações agravam-se tanto mais quanto maior for a dependência do produto de uma ou mais cadeias de distribuição.
 
Para além disso, o produtor tem muitas vezes que acompanhar preços e promoções e assumir quase na sua totalidade o valor do produto. Porventura, são estes os motivos (entre outros) que não nos permitem identificar quais os sectores ou empresas da indústria alimentar que conseguiram acompanhar o crescimento da grande distribuição e tenham apresentado igualmente bons resultados.

Como vimos no início, a nível internacional é mais fácil encontrar exemplos de empresas, como a Nestlé, que apresentaram índices de crescimento por via do aumento da procura. Sabemos que grupos de grande dimensão tem maior capacidade financeira para suportar prazos médios de pagamento maiores e têm, igualmente, maior capacidade negocial, o que os coloca em melhor posição para forçar a grande distribuição a partilhar o risco.

Analisando, à luz disto tudo, as medidas propostas por estas empresas tendo como principal objectivo revitalizar canais de distribuição como hotéis, restaurantes e cafés, estas parecem agora fazer mais sentido.

Mais do que uma acção solidária, os grupos económicos têm significativo interesse em reabilitar tão cedo quanto possível estes canais de distribuição, uma vez que eles representam um parceiro de negócio bem mais acessível, por apresentarem uma capacidade negocial mais baixa e em que o conjunto de critérios de negócio é estabelecido pelo vendedor e não pelo comprador: prazos de entrega, quantidades mínimas de encomenda, políticas de preços, etc.

Assim, tal como para as grandes multinacionais do sector alimentar, também para a produção nacional é importante ter um conjunto de canais de distribuição diversificado e que apresente características diferentes para que, desta forma, não fique refém da grande distribuição para o escoamento dos seus produtos.

Já todos tínhamos percebido que, durante esta pandemia e nas empresas ligadas à grande distribuição, o esforço está a incidir fundamentalmente nos trabalhadores, em especial sobre os que têm vínculos laborais mais precários. Sabemos, igualmente, que teremos de lutar muito para impedir que os danos na vida das pessoas não sejam irreversíveis. Mas falta-nos perceber qual será, a longo prazo, o impacto de uma conjuntura adversa onde os canais de distribuição se encontram restritos pelos mesmos do costume e não existem alternativas para contrabalançar as contas nos trabalhadores das empresas de produção nacional.

No imediato, uma coisa já podemos constatar: fruto das exigências habituais das cadeias de distribuição e da ganância dos seus parceiros, assistimos com tristeza a casos como os da Avipronto, na Azambuja, ou o da Raporal, no Montijo, dois importantes fornecedores da grande distribuição, onde os trabalhadores se viram forçados a continuar a operar mesmo sem as condições mínimas de segurança e saúde no trabalho.

Imagem: Mário Caldeira // Lusa

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Governo lança linha de apoio de 50 milhões para microempresas

 

 

As microempresas vão poder aceder a apoios para retomar atividade depois da paragem imposta pela pandemia de covid-19. O concurso deverá arrancar “dentro de dias”. 

 

Em entrevista ao jornal Público e à Renascença, Nelson de Souza, ministro do Planeamento, disse que o concurso que estava prometido para esta semana vai arrancar com 50 milhões de euros, que irá conceder entre três a cinco mil euros a cada empresa.

Estes apoios, que estão “particularmente vocacionado para os setores do comércio, do comércio tradicional, da restauração e dos serviços de natureza pessoal”, são até 80% a fundo perdido.

Entre as despesas elegíveis, feitas desde a declaração do primeiro estado de emergência, estão os investimentos com equipamentos de proteção individual para trabalhadores e utentes, equipamentos de higienização, contratos e atividades de desinfestação, mas também a criação de serviços de entregas ao domicílio ou de facilitação de mecanismos de teletrabalho, sinalização nas empresas.

 
 

Além de alterar a percentagem habitual do apoio que é concedido a fundo perdido, explica o ECO, o Governo mudou algumas regras de modo a que o processo seja “simples e com fluxo escorreito”, disse Nelson Souza. Assim, a candidatura simplificada resume-se à entrega de um orçamento.

As empresas cuja candidatura for aprovada recebem 50% do montantesob a forma de adiantamento e o restante vai ser feito mediante declaração de despesa realizada por parte da empresa e confirmada por um contabilista certificado.

As empresas com até dez trabalhadores só podem recorrer a este apoio uma vez. Além disso, têm de ter situação regularizada junto do Fisco e da Segurança Social, mas não são obrigadas a ter uma situação líquida positiva.

Micro e pequenas empresas desesperam. Acesso a apoios é “muito estrangulador”

 

Segundo o ECO, as pequenas e médias empresas terão um outro outro regime de apoio do Portugal 2020 a entrar em vigor em simultâneo, que financiará investimentos mais elevados, mas com taxas de apoio menores.

ZAP //

 
 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/governo-apoio-50-milhoes-microempresas-324380

Coronavírus: prêmio Nobel de Economia recomenda novo Plano Marshall

Jovem usa máscara protetora em meio à propagação do novo coronavírus, em Joanesburgo, África do Sul, 27 de março de 2020
© AP Photo / Themba Hadebe

A economista francesa Esther Duflo assegura que os países mais ricos devem ajudar as nações mais pobres a superar as consequências econômicas da COVID-19.

Os países mais ricos devem elaborar um novo Plano Marshall para enfrentar os desafios da pandemia, segundo Esther Duflo, a segunda mulher na história a ganhar o Nobel de Economia. Em sua opinião, a massiva ajuda financeira deve ser destinada antes de tudo a países do hemisfério sul.

"Eu recomendaria aos países mais ricos que se esforcem e ajudem", disse Duflo em uma entrevista a jornalistas dos jornais Independent e The Telegragh. "Nós, como uma comunidade global, somos capazes de evitar que tudo isso se converta em uma catástrofe", explicou a economista que se especializa na prevenção da pobreza.

Duflo, a pessoa mais jovem a ganhar o prêmio, de 46 anos, compara as consequências da pandemia da COVID-19 com o período posterior à Segunda Guerra Mundial. "Poderia se tratar de um novo Plano Marshall com objetivo de ajudar os países do Sul a se recuperarem da crise, tal como a Europa pôde fazer depois da guerra", precisou a ex-assessora do ex-presidente norte-americano Barack Obama.

O controverso Plano Marshall foi a iniciativa de Washington para ajudar os países da Europa Ocidental, devastados pela Segunda Guerra Mundial, entre 1948 e 1951. Os críticos daquele ato consideram que, por trás do pretexto humanitário dos Estados Unidos, havia o objetivo de impor sua influência nas elites políticas do Velho Continente.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/economia/2020051315573504-coronavirus-premio-nobel-de-economia-recomenda-novo-plano-marshall/

Deco recebeu 3.600 pedidos de ajuda desde o estado de emergência

Deco recebeu 3.600 pedidos de ajuda desde o estado de emergência

 

A Deco recebeu 3.600 pedidos de ajuda, entre 18 de março e 11 de maio, por parte de famílias em dificuldades financeiras devido à redução de rendimentos causada por situações de desemprego, ‘lay-off’ ou não pagamento de salários.

A coordenadora do Gabinete de Proteção Financeira (GPF) da Deco, Natália Nunes, habituada a lidar com casos de famílias sobre-endividadas, registou uma mudança nos motivos e no tipo de pedido de ajuda que chegaram a este gabinete desde que o país entrou em estado de emergência e, posteriormente, em estado de calamidade, devido à pandemia de covid-19.

“São dados que em nada têm a ver com os de anos anteriores”, referiu Natália Nunes, assinalando que nestes quase dois meses as solicitações que chegaram ao GPF partiram de famílias que “vinham de uma situação mais ou menos normal, que estavam a trabalhar e que, de um momento para o outro, deixaram de ter rendimentos”.

Segundo Natália Nunes, trata-se de situações “muito diferentes daquelas a que já” se assistiu.

No topo das preocupações destas famílias não está a prestação do crédito da casa, mas a falta de dinheiro para comprar “coisas básicas”, como alimentação ou as contas da luz, água e gás, sublinhou à Lusa a coordenadora do GPF da Deco – Associação de Defesa do Consumidor.

A perda de rendimentos foi o motivo que levou 27,3% destas famílias a pedir ajuda, a que se somaram 23,5% que recorreram ao GPF por estarem no desemprego, 15,5% por se terem visto numa situação precária e 2,6% devido a negócio mal sucedido.

“Mais de 70% dos [3.600] pedidos de ajuda têm a ver com este aspeto da diminuição de rendimentos ou até da ausência total de rendimentos”, precisou Natália Nunes, especificando que nestes 70% há “uma grande parte” explicada pela perda de rendimentos informais, pela entrada em ‘lay-off’ (redução temporária dos períodos normais de trabalho ou suspensão dos contratos de trabalho), o não pagamento de salários e ausência total de rendimentos.

Com a moratória do crédito à habitação, a prestação da casa não é, pelo menos no imediato, a maior preocupação destas pessoas.

“A questão do pagamento do crédito à habitação neste momento não é uma das grandes preocupações das famílias. Com toda a certeza irá sê-lo a partir de setembro. Neste momento ainda não é”, afirmou a coordenadora do gabinete de Proteção Financeira da Deco.

De acordo com os dados do GPF, 42% dos pedidos de ajuda que chegaram ao gabinete foram para aconselhamento sobre as medidas tomadas pelo Governo no âmbito da covid-19, bastante acima dos 25,1% que procuraram aconselhamento sobre a forma de reestruturarem os créditos, sobretudo pessoais e de cartão de crédito.

Houve ainda 1,2% que pediram aconselhamento sobre a forma de aceder aos apoios sociais existentes.

A forma como a pandemia e as medidas tomadas para conter a sua propagação se foram prolongando no tempo alterou os causas para o recurso ao GPF da Deco, referiu Natália Nunes, precisando que, em março, as famílias, já “muito preocupadas”, procuravam essencialmente informação, enquanto que em abril ainda procuravam informação, mas queriam sobretudo ajuda. Já este mês procuram ajuda para serem encaminhadas para apoios sociais e para reestruturar os créditos.

Durante o mês de abril o GPF iniciou 234 processo de intervenção, através dos quais é dado apoio na renegociação de dívidas, entre outras medidas. Deste total, 41% dizem respeito a trabalhadores do setor privado e 17% a desempregados.

Fonte: LUSA

 

Ver original em 'Portal CASCAIS' na seguinte ligação:

https://www.portalcascais.pt/sociedade/deco-recebeu-3-600-pedidos-de-ajuda-desde-o-estado-de-emergencia/

Trabalhadores são decisivos na abertura da restauração

Com o aproximar da reabertura da restauração, a federação dos sindicatos do sector sublinha que os trabalhadores terão um papel central no cumprimento das orientações da DGS, pelo que devem ser valorizados.

Em comunicado à imprensa, a Federação dos Sindicatos de Agricultura, Alimentação, Bebidas, Hotelaria e Turismo de Portugal (Fesaht/CGTP-IN) critica o facto de a Direcção-Geral da Saúde (DGS) ter ouvido as associações patronais mas não ter falado com os sindicatos do sector, antes de ter publicado, no dia 8 de Maio, as orientações e procedimentos em estabelecimentos de restauração e similares.

Estando em geral de acordo com as medidas propostas, embora considere que algumas são de difícil concretização, a Fesaht lembra que os trabalhadores terão um «papel central» no seu cumprimento, pelo que as condições de protecção da sua saúde, a formação, as condições de trabalho, o respeito pelos seus direitos serão fundamentais.

Em primeiro lugar, a federação sublinha que é preciso implementar em todas as empresas de restauração a medicina no trabalho, pois tal não se verificava na sua grande maioria antes da Covid-19.

Por outro lado, e segundo um levantamento feito por esta estrutura, cerca de 30% dos trabalhadores do sector não estão declarados à Segurança Social ou, noutros casos, uma parte significativa do salário  não é declarada.«Estes problemas ficaram a descoberto neste tempo de pandemia, quando muitos milhares de trabalhadores ficaram sem qualquer protecção social e outros que ficaram em regime de lay-off foram muito penalizados, pois recebendo 900 a 1200 euros de salário líquido todos os meses viram a sua retribuição baixar brutalmente para o valor líquido de 565,15 euros», pode ler-se na nota.

A Feshat denuncia ainda que o patronato do sector «rompeu com as negociações que estavam a decorrer, mal se começou a sentir a pandemia». Agora que o sector vai reabrir, a estrutura sindical considera ser necessário actualizar os salários «de forma a compensá-los pelas perdas brutais que injustamente tiveram neste período», bem como reverter os despedimentos ilegis e pagar os salários em atraso.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/trabalho/trabalhadores-sao-decisivos-na-abertura-da-restauracao

Relatório aponta déficit recorde de US$ 738 bilhões nos EUA em meio à COVID-19

George Washington usando máscara médica na nota de um dólar
© REUTERS / DADO RUVIC

Os EUA registraram um déficit recorde de US$ 738 bilhões (R$ 4,3 trilhões) no mês de abril, segundo o Departamento do Tesouro.

De acordo com o relatório mensal do Tesouro, o déficit orçamentário norte-americano foi de US$ 738 bilhões (R$ 4,3 trilhões) em abril, quando o país teve de enfrentar o surto de COVID-19.

O relatório mostra que o governo norte-americano obteve uma receita de US$ 242 bilhões (R$ 1,4 trilhão), mas gastou US$ 980 bilhões (R$ 5,7 trilhões). Este défice é US$ 604 bilhões (R$ 3,5 trilhões) superior em relação ao mesmo mês do ano passado.

Até o momento, no ano fiscal de 2020, os EUA registraram um déficit de US$ 1,4 trilhão (R$ 8,2 trilhões).

Em meio à COVID-19, o governo norte-americano desembolsou até US$ 4 trilhões (R$ 23,5 trilhões), incluindo ajuda financeira a pessoas e famílias, apoios aos governos estaduais, territoriais, locais e indígenas, pagamentos a setores relacionados à saúde e subsídios de desemprego.

 

Cédulas de dólar norte-americano
© Sputnik / Aleksei Sukhorukov
Cédulas de dólar norte-americano

Caso as leis atualmente em vigor sobre despesas e receitas não sofram alterações e não haja nenhum financiamento emergencial, o país terá um déficit federal de aproximadamente US$ 3,7 trilhões (R$ 21,7 trilhões) no ano fiscal de 2020 e de US$ 2,1 trilhões (R$ 12,3 trilhões) em 2021, conforme estimativas do Escritório Central de Orçamento.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2020051315572667-relatorio-aponta-deficit-recorde-de-us-738-bilhoes-nos-eua-em-meio-a-covid-19/

Portugal | Teletrabalho ou perda de rendimentos, o dilema de muitos pais

 
 
Muitos trabalhadores que estão em casa a prestar assistência aos filhos, devido ao encerramento das instituições, foram confrontados com a obrigatoriedade de entrar em regime de teletrabalho.
 
A denúncia é feita pela CGTP-IN em comunicado, onde refere que estes trabalhadores se encontram «entre a espada e parede».

A central sindical afirma que alterações legislativas recentes levam a Segurança Social a deixar de dar qualquer apoio a quem tiver condições técnicas de entrar em regime de teletrabalho. A «alternativa» é continuar a apresentar a declaração para a assistência à família, e assumir a perda total de rendimento mensal.

Um dos casos apresentados é o da Randstad, que está a notificar os seus trabalhadores em situação justificada de assistência a filhos menores ou com deficiência, para passarem, de imediato, ao regime de teletrabalho.

Mas a Intersindical lembra que dispor dos meios técnicos para o teletrabalho, não significa dispor das condições para executar esse regime.

«Como pode, por exemplo, um pai ou uma mãe tomar conta de uma criança de dois anos (que necessita de uma atenção permanente) e de outra de seis anos (com a telescola a exigir apoio familiar) e simultaneamente estar a trabalhar em permanência? E se não cumprir os objectivos, o que lhe acontece a seguir?», pode ler-se na nota.

A situação agrava-se ainda mais nas famílias monoparentais, afirma a CGTP-IN, acrescentando que, para muitas mulheres, o que está a ser exigido, é serem em simultâneo trabalhadoras, mães e professoras.

A Intersindical reivindica, assim, que a protecção da parentalidade prevalça sobre a obrigatoriedade de passar ao regime de teletrabalho, alterando-se a lei por forma a que isso seja garantido.
 
AbrilAbril

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Índia: turnos de 12 horas e abolição da legislação laboral são receita contra o vírus

Para «salvar a economia» e «aumentar a produção», em diversos estados indianos a semana de trabalho passou a ser de 72 horas. Uttar Pradesh e Madhya Pradesh suspenderam as leis laborais por 3 anos.

Sindicatos classificam suspensão da legislação laboral em Uttar Pradesh e Madhya Pradesh como um ataque aos trabalhadoresCréditos / scroll.in

Desde que, a 11 de Abril, o governo do estado do Rajastão anunciou que iria aumentar temporiamente, por um período de três meses, a jornada laboral de oito para 12 horas diárias, vários outros estados indianos fizeram o mesmo, nomeadamente Gujarate, Punjabe, Himachal Pradesh, Odisha, Haryana, Bihar e Goa. A semana laboral passa das actuais 48 horas passa as 72, excepto no estado de Goa, onde, segundo a imprensa, a nova legislação contempla o aumento da duração até às 60 horas.

Em declarações a The Hindu, Janardan Pati, presidente do Centro de Sindicatos Indianos (CITU, na sigla em inglês), considerou que se trata de «uma tendência perigosa» e classificou o aumento da jornada laboral como «inconstitucional».

«Num momento em que os trabalhadores são fortemente atingidos pelo lockdown [quarentena], fazê-los trabalhar mais quatro horas por dia desafia a lógica», disse, sublinhando que «a semana de trabalho de 72 horas terá impactos negativos na sua saúde».

Por seu lado, o portal Newsclick afirma que tanto o aumento da jornada de trabalho, nuns estados, como a suspensão da legislação laboral, noutros, constitui um «ataque aos trabalhadores», para «deleite do patronato».

«Os trabalhadores na Índia enfrentam uma crise que promete fazer recuar as suas vidas um século, tornando-os escravos dos tempos modernos», denuncia o portal indiano, destacando que «este ataque selvagem aos trabalhadores», por via de alterações efectuadas na legislação que os protege, «tem o patrocínio e o apoio do governo central, liderado por Narendra Modi», e é implementado, na maior parte dos casos, em estados governados pelos Bharatiya Janata Party (BJP), o partido nacionalista hindu do primeiro-ministro.

Uttar Pradesh e Madhya Pradesh «congelam» legislação laboral

Argumentando que a «economia necessita de maior flexibilidade para lidar com o golpe desferido pelo conronavírus», os governos destes estados do Norte e Centro da Índia decidiram suspender a legislação laboral por um período de três anos.

Os casos de Uttar Pradesh (onde vivem mais de 200 milhões de pessoas) e Madhya Padresh (com cerca de 72 milhões de habitantes) são bastante semelhantes, visando conceder às empresas – sobretudo ao sector industrial – mais rédea solta para despedir e contratar, para determinar salários e «benefícios». Os direitos à negociação colectiva, ao protesto e à organização sindical «desaparecem».

O patronato deixa de ter de resolver os litígios em sede própria, como até aqui; as inspecções que garantem o cumprimento de normas sanitárias e de segurança também deixam se ser realizadas como até aqui (no caso de Madhya Pradesh, podem agora ser realizadas por agentes contratados pelas próprias empresas), revela o portal One India.

Tudo isto, num contexto em que os trabalhadores e os mais pobres são quem mais sofre as consequências da pandemia e dos efeitos para a conter, nos mais de 40 dias de quarentena.

Segundo as estimativas mais recentes do Centre of Monitoring Indian Economy, a taxa de desemprego subiu para 27%; além disso, centenas de milhares de trabalhadores não têm estado a receber salários, apesar de estarem a trabalhar, revela o Newsclick.

Aumentam os lucros e as desigualdades

Surajit Mazumdar, professor de Economia na Universidade Jawaharlal Nehru (Nova Déli), destaca que o efeito imediato destas medidas será aumentar o lucro do sector industrial e o fosso das desigualdades.

Em declarações ao Newsclick, defendeu que mexer na legislação laboral para, supostamente, salvar a economia não «adianta nada», porque «não há procura», uma vez que as pessoas perderam o poder de compra. «A única maneira de aumentar o emprego – e recuperar a economia – é aumentar a despesa pública».

Na verdade, explica, é possível que estas medidas conduzam a uma maior revolta entre os trabalhadores e que a produção – que se pretende aumentar – venha a sofrer. «Passar a jornada laborar para 12 horas significa tentar alcançar os mesmos níveis de produção com menos trabalhadores; portanto, a questão do aumento do emprego nem sequer se coloca», disse, sublinhando que «se está a tentar tapar o Sol com a peneira» e que o verdadeiro objectivo é «aumentar os lucros do patronato».

Entretanto, os maiores sindicatos do país asiático já avisaram que não vão aceitar estas medidas e que, se Madhya Pradesh e Uttar Pradesh não recuarem na suspensão da legislação laboral, partirão para a greve geral.

crise 2
 

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Para o futuro começar

“Para se não desperdiçarem as oportunidades que a pandemia criou seria necessário que o tal consenso político fosse sujeito à condição que a experiência recente nos ensinou: se a esquerda fizer a política da direita, os cidadãos concluirão que a direita a faz melhor”

 

 

Disfarçamos com gráficos e estatísticas todo o nosso desconhecimento sobre a dinâmica da pandemia do novo coronavírus, sobre as suas causas próximas e remotas, sobre a eficácia relativa das diferentes políticas de contenção e de mitigação. Confiamos na ciência e a ciência confia em que o nosso comportamento vá confirmando a estatística. Mas sabemos, nós e os cientistas, que os números estão forçosamente viciados. Não sabemos o número exacto dos infectados (por falta de testagem) ou dos mortos (por via da subnotificação). E mesmo dando crédito aos números, estes nada nos dizem sobre os insondáveis critérios com que o vírus seleciona as suas vítimas, quantas vezes apoiado pelas políticas actuais ou anteriores do Estado. Três perguntas bastarão. A que classe pertence e que cor da pele tem a maioria dos que estão a morrer no Brasil? Qual a percentagem de imigrantes e refugiados entre os mortos pelo vírus na Suécia? As ondas de calor dos anos anteriores não tinham avisado as autoridades de Portugal e de outros países da Europa que os lares, tal como existem, seriam uma perigosa zona de risco? Comparamo-nos aos países mais próximos que apresentam indicadores piores que os nossos. Não se nos ocorre compararmo-nos com o Vietname que, com 91 milhões de habitantes e com uma fronteira de 1.281 quilómetros com a China, não conta até hoje com nenhum morto. E aparentemente sem excessiva invasão da liberdade dos cidadãos.

Atuamos no escuro e no escuro há pouco espaço para a política, sobretudo para a política democrática. É por isso também que se torna mais fácil o consenso político, e ainda bem que assim é enquanto durar a emergência. Basta pensar nos casos trágicos e patéticos dos EUA e do Brasil onde a gestão da crise pandémica se transformou em gestão da crise política. Mas por quanto tempo vai durar a emergência? Para já, é claro que o que chamamos pós-pandemia é, de facto, o início de um longo período de pandemia intermitente. Um período que nem sequer termina com a distribuição generalizada da vacina, uma vez que, a continuar o actual modelo de desenvolvimento e de consumo, a actual matriz energética, em suma, o actual padrão civilizacional, outras pandemias virão, e certamente mais letais. E, se assim for, teremos de viver num Estado de emergência intermitente ou permanente? A protecção da vida será no futuro incompatível com a democracia? Sabemos de vários Estados asiáticos que obtiveram bons resultados confiando na disciplina dos cidadãos. Por que será que no Ocidente temos de aplicar multas para que as pessoas se protejam? Não estará aqui a condenação dos nossos sistemas educativos, uma educação centrada na falácia do empreendedorismo, que não educa para a solidariedade e para a cooperação, para os bens comuns e para tudo o mais que compõe o nosso destino comum?

Dizer que durante a pandemia as acções do Estado ocorrem no escuro, significa dizer que não se conhecem todas as consequências das acções. Mas obviamente conhecem-se algumas, e é na análise delas que podemos começar a suspeitar quais serão os cenários da pós-pandemia. Os países que decidiram cedo pelo confinamento, como Portugal, fizeram-no em geral por uma questão de princípio (defesa da vida) e por uma questão pragmática (evitar o colapso do sistema público de saúde). Qual delas dominou, saberemos no período seguinte. Durante a pandemia, o Estado revelou uma notável autonomia em relação aos mercados, que se eclipsaram, e aos interesses económicos, que, de repente, se converteram (interesseiramente?) à ideia da importância do Estado na regulação social. Foi sol de pouca dura? Vejamos os sinais.

O confinamento tem uma lógica de tal modo contra-corrente que a sua duração tem de ser limitada. Para os países que recorreram cedo a ele, a política começa com o abrandamento do confinamento e, com ela, o fim do consenso. Durante o confinamento, se os números aumentavam a culpa era do vírus e se os números diminuíam, o crédito era do Estado. A partir de agora, qualquer resultado negativo será atribuído à actuação do Estado, enquanto qualquer resultado positivo será atribuído à disciplina dos cidadãos. A dimensão do dissenso vai depender da exploração dos resultados negativos por parte de uma ultra-direita troikificada que existe em Portugal e a que a RTP pública intrigantemente continua a dar amplo espaço.

No que respeita à relativa autonomia do Estado português no próximo período, os sinais são desanimadores. Podemos vir mesmo a ter de concluir que o consenso entre o Presidente da República e o Governo, de saudar durante a pandemia, poderá vir a cobrar um preço alto no imediato pós-pandemia. A questão fundamental é a das mudanças no modelo social e económico cuja urgência foi exposta com particular veemência durante a pandemia. Haverá mudanças na medida em que o Estado tenha força para valorizar os novos ou renovados interesses revelados pela pandemia e para os impor aos velhos interesses de sempre. Alguns exemplos. Durante a pandemia gerou-se um consenso enorme sobre a valorização do serviço nacional de saúde. Esse consenso assentou não só no que o SNS fez, mas também no modo como o sistema privado se comportou. Não podendo beneficiar indevidamente com a crise, o sistema privado retirou-se para a posição parasitária à espera que a tormenta passasse e o sistema de saúde lhe voltasse a cair nas mãos. Por incrível que pareça, é isto o que vai suceder quando a Ministra da Saúde anuncia o recurso ao sistema privado para diminuir as listas de espera. Ou seja, voltamos ao passado, disfarçado de benefício a curto prazo para os cidadãos. Assim nos despreparamos activamente para a próxima pandemia.  O regresso do velho também pode estar presente no modo como se pretende lidar com a TAP, uma intervenção do Estado que foi feita (e bem) à beira do abismo, mas que agora se podia corrigir desde que a oportunidade não se desperdiçasse.

Um outro sinal perturbador é o da permanência da lógica dos subsídios e incentivos dados às indústrias e serviços que alimentam o actual modelo de consumo de massas assente no transporte individual, na energia fóssil, na agricultura industrial e nos imensos centros comerciais que não tardarão a ser considerados zonas de alto risco se, entretanto, não forem redimensionados. Este modelo está intimamente ligado às mudanças climáticas e à iminente catástrofe ecológica que, segundo o último relatório da Plataforma Intergovernamental de Política Científica sobre a Biodiversidade e os Serviços Ecológicos (IPBES, no acrónimo do nome em inglês), estão directamente relacionados com a recorrência das pandemias. Ou seja, subsidiar o actual modelo produtivo e de consumo significa subsidiar a ocorrência de novas pandemias. Para se não desperdiçarem as oportunidades que a pandemia criou seria necessário que o tal consenso político fosse sujeito à condição que a experiência recente nos ensinou: se a esquerda fizer a política da direita, os cidadãos concluirão que a direita a faz melhor.


por Boaventura de Sousa Santos, Sociólogo   |   Texto em português do Brasil

Fonte: Brasil247


 

 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/pandemia-para-o-futuro-comecar/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=pandemia-para-o-futuro-comecar

Resposta de Bolsonaro à pandemia favorece os 'muito ricos', diz economista

Fila para receber auxílio do governo em agência da Caixa Econômica Federal no Rio de Janeiro durante pandemia de coronavírus.
© REUTERS / Pilar Olivares

A resposta do governo de Jair Bolsonaro (sem partido) à pandemia de COVID-19 privilegia bancos em detrimento das pessoas e terá um impactos de grandes proporções, avalia economista ouvido pela Sputnik Brasil.

Em março, o Banco Central (BC) prometeu até R$ 1,2 trilhão em liquidez para lidar com a crise. Uma das medidas adotadas foi a redução da taxa de depósitos compulsórios (taxa mínima que os bancos devem manter em seus cofres para garantir a estabilidade do sistema financeiro). Com isso, em tese, os bancos poderão emprestar para empresas em dificuldades criadas pela desaceleração econômica de escala global causada pela pandemia. 

Contudo, o próprio ministro da Economia, Paulo Guedes, reconheceu que os recursos liberados para os bancos ficaram "empoçados no sistema financeiro" e não chegaram na população e nas empresas. 

Para o professor de Economia da Universidade Federal do Ceará (UFC) Fábio Sobral, as escolhas da equipe econômica de  Guedes mostram que há uma preferência pelos setores "muito ricos" da população. Sobral pontua como exemplo da preferência que o valor sugerido pelo Governo Federal para o auxílio emergencial, hoje em R$ 600 mensais, era inicialmente de R$ 200.

"Os bancos estão seguros para suportar as quebras das empresas, mas as empresas em si não foram protegidas, inclusive aquelas que são as menores empresas, os pequenos negócios, esses estão completamente desprotegidos e, mais ainda, as camadas trabalhadoras [estão desprotegidas] porque demorou muito para sair o auxílio emergencial", diz Sobral.

O professor da UFC avalia que as filas formadas pelo país para receber o auxílio emergencial mostraram "condições desumanas" e que as políticas adotadas por Bolsonaro vão, na verdade, prolongar os efeitos da pandemia no Brasil já que simplesmente reabrir a economia não funcionará. 

"O desespero pode provocar um recolhimento ainda mais intenso das pessoas. Segundo alguns economistas, boa parte do funcionamento do consumo depende de percepções e expectativas que as pessoas têm. Então se você acha que haverá uma segunda leva [de infecções], há uma séria restrição do consumo e isso tende a abalar a produção. Os efeitos são expansivos nesse caso", diz Sobral. 

Crítica estrangeira

O ex-economista-chefe do FMI Maurice Obstfeld também avalia de maneira negativa as políticas brasileiras de resposta à pandemia. Em entrevista ao jornal Valor Econômico, Obstfeld afirmou a economia brasileira deve cair ainda mais do que os 5,3% previstos pelo FMI. 

"A resposta desdenhosa do presidente Bolsonaro à doença vai custar caro ao Brasil, tanto em termos de vidas como de renda. Com uma liderança apropriada, o Brasil claramente teria a capacidade de salvaguardar a saúde das pessoas, mas agora é uma área de alta incidência na América Latina. Isso não protege a economia, pelo contrário", afirmou o ex-economista-chefe do FMI.

As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/opiniao/2020051115568130-resposta-de-bolsonaro-a-pandemia-favorece-os-muito-ricos-diz-economista/

Portugal | Estamos preparados?

 
 
Manuel Carvalho Da Silva* | Jornal de Notícias | opinião
 
Neste tempo estranho, o regresso à "vida normal" é ensaiado num entrelaçado mal distinto entre medos de se ser infetado e ilusões quanto à perspetiva de uma recuperação rápida dos estragos já manifestos. Olhamos em redor e vemos elevado desemprego, agravamento de desigualdades, carências gritantes e o espetro da fome para muitas pessoas; vemos atividades diversas em estado comatoso, falências a anunciar-se. Entretanto, da União Europeia (UE), que se diz ser ancoradouro de solidariedade, chegam-nos sinais inequívocos de bloqueio e de negação de apoios financeiros e outros.

Na passada terça-feira, o Tribunal Constitucional alemão pronunciou-se sobre políticas monetárias do Banco Central Europeu (BCE) para as condenar, invocando que o programa original do banco, de compra de ativos, viola os tratados europeus e a Constituição alemã, posição que à partida não bloqueia o Programa do BCE de resposta à pandemia, mas que o condicionará. Ora, se esse programa por si só está longe de resolver os problemas e se o Banco Central vai ficar ainda mais aprisionado, que instrumentos restam para socorrer os países depauperados com as respostas que deram e têm de continuar a dar no combate à pandemia?

A reunião do Conselho Europeu convocada para disparar a tal bazuca que nos permitiria encarar o futuro com confiança foi adiada para meados do mês. Tudo sugere que a UE entrou em pane, nem anda para trás, nem para a frente. As políticas dualistas e muitas vezes propositadamente obscuras seguidas pela UE - para execução dos mecanismos da moeda única, da concorrência fiscal e do mercado único - criaram nos cidadãos europeus fracionamentos perigosos, interpretações erradas sobre quem beneficia e quem perde no funcionamento da União. Na última crise, os povos do Sul, como o português, foram acusados de preguiçosos, sujeitos a políticas erradas e injustas que causaram grande sofrimento, parte da sua juventude mais qualificada foi "exportada" para os países do Centro em benefício destes, mas o rótulo acusador continua vivo e a transformar-se em inimizade. E nesse Centro/Norte proliferam governantes que instigam essa inimizade para dela se alimentarem politicamente.

Neste quadro é particularmente estranho que as autoridades nacionais - do Governo à Presidência da República, passando pelo partido do Governo e pelo que se arroga poder ser Governo em coligação ou alternativa - se mantenham seguidistas nesta UE e continuem a convidar o país a estar pendente de decisões salvíficas de terceiros. Elas não têm acontecido e, com grande probabilidade, não irão acontecer.

O cenário que vivemos prefigura a necessidade de cada país e cada povo terem como prioridade tomar em mãos, com os seus recursos e instituições, a resolução dos problemas. Não é cada um por si de forma fechada ou egoísta, mas sim o deitar mão de capacidades e instrumentos coletivos que continuam a situar-se fundamentalmente ao nível de cada Estado, enquanto se buscam revitalizações de compromissos e instituições mais solidárias, quer no plano europeu, quer no mundial.

O estado de bloqueio da UE e as iniciativas do único país (soberano) da mesma União, a Alemanha, em que o Tribunal Constitucional delibera sobre políticas europeias, parecem sugerir-nos isso Nós, portugueses, estamos preparados para responder?

*Investigador e Professor Universitário
 
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/05/portugal-estamos-preparados.html

EUA e Reino Unido falham juntos na resposta à COVID-19 e analista explica por quê

O dilema da dívida

O dilema da dívida

pormichaelroberts  

Mencionei muitas vezes nesteblog que o aumento da dívida global reduz a capacidade das economias capitalistas de evitar quedas e encontrar uma maneira rápida de se recuperar (e veja ‘Assuntos da Dívida’ no meu livro,  pdfLonga Depressão(11.82 MB) e também no  pdfMundo em Crise(7.58 MB)).     
Como Marx explicou, o crédito é um componente necessário para lubrificar as rodas da acumulação capitalista, permitindo que o investimento em projetos mais longos e maiores seja financiado quando os lucros reciclados não são suficientes;e na circulação mais eficiente de capital para investimento e produção.Mas o crédito se torna dívida e, embora possa ajudar a expandir a acumulação de capital, se os lucros não se materializarem o suficiente para atender a essa dívida (ou seja, pagá-lo com juros aos credores), a dívida se torna um fardo que consome os lucros e a capacidade do capital expandir.
Além disso, duas outras coisas acontecem.Para cumprir as obrigações da dívida existente, as empresas mais fracas são forçadas a tomar mais empréstimos para cobrir o serviço da dívida e, portanto, a espiral da dívida para cima.Além disso, o retorno sobre o risco dos empréstimos para os credores agora pode parecer mais alto do que investir em capital produtivo, especialmente se o mutuário for o governo, um devedor muito mais seguro.Assim, aumenta a especulação em ativos financeiros na forma de títulos e outros instrumentos de dívida.Mas se houver uma crise na produção e no investimento, talvez em parte causada por custos excessivos do serviço da dívida, a capacidade das empresas capitalistas de se recuperar e iniciar um novo boom será enfraquecida por causa do ônus da dívida.
Na atual crise coronariana, a queda é acompanhada por uma alta dívida global, pública, corporativa e doméstica.O Institute of International Finance, um organismo comercial, estima que a dívida global, pública e privada, superou US $ 255tn no final de 2019. Isso é US $ 87tn maior do que no início da crise de 2008 e, sem dúvida, será muito muito mais alto como resultado da pandemia.ComoafirmouRobert Armstrong, do FT :“a pandemia representa riscos especialmente grandes para as empresas com balanços altamente alavancados, um grupo que agora inclui grande parte do mundo corporativo.No entanto, a única solução viável de curto prazo é emprestar mais, sobreviver até que a crise passe.O resultado: as empresas enfrentarão a próxima crise com pilhas de dívidas ainda mais precárias. ”  

Como Armstrong ressalta,“nos EUA, a dívida corporativa não financeira era de cerca de US $ 10 bilhões no início da crise.Com 47% do produto interno bruto, nunca foi tão grande.Sob condições normais, isso não seria um problema, porque as taxas de juros baixas demais tornaram a dívida mais fácil.Os chefes corporativos, ao alavancar, seguiram apenas os incentivos apresentados a eles.A dívida é barata e dedutível, portanto, usar mais dela aumenta os ganhos.Mas em uma crise, qualquer que seja seu preço, a dívida se torna radioativa.À medida que as receitas despencam, os pagamentos de juros se aproximam.Os vencimentos da dívida tornam-se ameaças mortais.A chance de padrões contagiosos aumenta e o sistema range. ” 
Ele continua: “isso está acontecendo agora e, como sempre acontecem, as empresas estão buscando mais dívidas para se manter à tona.As empresas americanas venderam US $ 32 bilhões em dívidas classificadas como lixo em abril, o maior mês em três anos . ”Armstrong não sabe o que fazer.  “É improvável que conter a dívida corporativa regulando os credores.Após a crise financeira, os requisitos de capital dos bancos ficaram mais rígidos.A alavancagem simplesmente escorregou dos balanços bancários e ressurgiu no sistema bancário paralelo.Um passo mais promissor seria acabar com a dedutibilidade fiscal dos juros.Privilegiar um conjunto de provedores de capital (credores) em detrimento de outro (acionistas) nunca fez sentido e incentiva a dívida. ”
Martin Wolf, o guru da economia do Financial Times,acha que ele tem uma resposta .Veja bem, o problema é que há muita economia no mundo e não há gastos suficientes.E esse “excesso de poupança” significa que os devedores podem tomar empréstimos com taxas de juros muito baixas em uma espiral sem fim para cima.Wolf baseia sua análise no trabalho dos principais economistas, Atif Mian e Amir Sufi.Mian e Sufi escreveram um livro há alguns anos, intituladoCasa da Dívida, que revi na época.Foi considerado pelo guru keynesiano, Larry Summers, como“o melhor livro deste século”!      
Para os autores, a dívida é o principal problema das economias capitalistas, então tudo o que precisamos fazer é resolvê-la.O que é estranho sobre o argumento deles é que, embora reconheçam que a dívida do setor público não foi a causa da Grande Recessão, como os economistas neoliberais da austeridade tentam reivindicar, eles atribuem a Grande Recessão à dívida das empresas e ao pânico financeiro, mas no aumento da dívida das famílias.Eles afirmam que ”tanto a Grande Recessão quanto a Grande Depressão foram precedidas por um grande aumento da dívida das famílias … E essas depressões começaram com uma grande queda nos gastos das famílias”. Mian e Sufi mostram, com uma série de estudos empíricos, que quanto maior a dívida em uma economia, mais difícil é a queda nos gastos dos consumidores na crise.Mas eles não notam que é uma queda no investimento empresarial que pressagia crises na produção capitalista, não uma queda nos gastos das famílias. Eu e outros fornecemos muitas evidências empíricas sobre isso. 
Em seu livro original, Mian e Sufi não abordam a razão do aumento inexorável da dívida, corporativa e familiar, a partir do início dos anos 80.Agora, em novos estudos, citados por Martin Wolf, Mian e Sufi, oferecem uma razão. A espiral da dívida (doméstica) foi causada pelo enriquecimento dos ricos e da economia de mais, enquanto o fundo da escada de renda ficou menos e, portanto, economizou menos.Os ricos não investiram suas riquezas extras em investimentos produtivos, mas os acumularam, nem colocaram em especulações financeiras, nem os emprestaram de volta aos pobres por meio de hipotecas.Assim, a dívida das famílias cresceu porque um excesso de poupança dos ricos.  
Os ricos ficaram mais ricos e pouparam mais, enquanto o investimento em ativos produtivos diminuiu.
Portanto, o excesso de poupança dos ricos é a causa do baixo investimento e crescimento da produtividade das principais economias capitalistas.
Mian e Sufiargumentam em seu segundo artigo que, como as famílias mais pobres emprestaram mais, forçadas por baixos rendimentos e incentivadas por baixas taxas de juros possibilitadas pelo excesso de poupança dos ricos, a dívida das famílias subiu a ponto de reduzir a ‘demanda agregada’ e desacelerar reduzir o crescimento econômico em uma forma de‘estagnação secular’ .Essa teoria da ‘demanda endividada’ ocorre quando“a demanda é suficientemente endividada, a economia fica presa em uma armadilha de liquidez dirigida por dívida ou armadilha de dívida”. É quanto custaria o serviço da dívida se as taxas de juros não caíssem depois dos anos 80.     
Wolf cita outra versão do mesmo argumento de que muita dívida é causada por muita economia e é a causa de crises no capitalismo.Isso vem da escola pós-keynesiana de Minsky. David Levy, chefe do Jerome Levy Forecasting Center, argumenta em um artigo, Bubble or Nothing, que“a dívida agregada cresceu mais rapidamente do que a renda agregada”, para“tornar a atividade financeira cada vez mais perigosa e um comportamento mais arriscado”. Levy vê o risco não tanto no tamanho da dívida, mas em sua crescente fragilidade, como argumentou Minsky.      
Ao contrário de Mian e Sufi, no entanto, Levy aponta corretamente para a importância do aumento da dívida corporativa, não da dívida das famílias.A relação dívida / valor agregado bruto do setor corporativo não financeiro está perto de um novo recorde histórico.
Além disso, se excluirmos os 5% maiores das empresas listadas, o cenário de alavancagem corporativa é mais extremo e preocupante (gráfico 45).Uma indicação do risco associado a esse aumento da alavancagem corporativa é o profundo aumento na proporção de empresas com classificações acima dos níveis de lixo eletrônico nos últimos 10 anos. ”
Mais uma vez, Levy mostraque “desde meados da década de 1980, a economia dos Estados Unidos foi arrastada por uma série de ciclos cada vez mais dominados pelos balanços, cada ciclo envolvendo, até certo ponto, empréstimos imprudentes e especulação de ativos, levando a crises financeiras, pressões deflacionárias e fraqueza econômica prolongada ”. Em outras palavras, em vez de investir em ativos produtivos, as empresas mudaram para fusões e especulações financeiras, de modo que muitos de seus lucros vinham cada vez mais de ganhos de capital, e não de lucros da produção.  
A lucratividade em relação ao valor de mercado das empresas caiu acentuadamente – ou mais precisamente, o valor de mercado das empresas disparou em comparação com os ganhos anuais da produção.
Levy conclui que“sem a expansão do balanço (isto é, a compra de ativos financeiros), é extremamente difícil obter os lucros necessários para o funcionamento da economia.Além disso, uma vez alcançados esses lucros, também é extremamente difícil impedir que as famílias e as empresas respondam por empréstimos e investimentos, reativando assim a expansão do balanço e derrotando todo o objetivo.Bolha ou nada. 
O que realmente aprendemos com tudo isso?Mian e Sufi enfatizam o aumento da desigualdade a partir da década de 1980, uma mudança na renda dos mais pobres para os 1% mais altos, levando a um aumento da dívida das famílias e um excesso de poupança.Mas eles não explicam por que houve uma desigualdade crescente no início dos anos 80 e ignoram o aumento da dívida corporativa que é certamente mais relevante para a acumulação de capital e a economia capitalista.A dívida das famílias aumentou por causa dos empréstimos hipotecários a taxas mais baixas, mas, na minha opinião, isso foiresultado da mudança na natureza da acumulação capitalista dos anos 80, e não acausa.   
E, na verdade, Mian e Sufi sugerem isso.Eles observam que o aumento da desigualdade desde o início dos anos 80“refletiu mudanças na tecnologia e na globalização que começaram nos anos 80”.  Exatamente.O que aconteceu no início dos anos 80?A lucratividade do capital produtivo alcançou um novo nível mais baixo na maioria das principais economias capitalistas (a evidência para essa avassaladora – veja World in Crisis). 
A profunda queda de 1980-2 dizimou os setores manufatureiros do norte global e enfraqueceu os sindicatos por uma geração.A base foi estabelecida para as chamadas políticas neoliberais para tentar aumentar a lucratividade do capital através de um aumento na taxa de exploração.E foi a base para uma troca de capital dos setores produtivos do ‘norte global’ para o ‘sul global’ e para a capital fictícia do setor financeiro.A lavoura de lucros e o dinheiro emprestado em títulos e ações reduziram as taxas de juros e aumentaram os ganhos de capital e os preços das ações.As empresas lançaram um programa interminável de recompra de suas próprias ações para aumentar os preços das ações e tomar empréstimos para fazê-lo.
Mas isso não reduziu a ‘demanda agregada’;pelo contrário, o consumo das famílias subiu para novos patamares.O que acabou com esse boom especulativo de crédito foi a redução da lucratividade do capital a partir do final dos anos 90, levando à leve explosão de ‘alta tecnologia’ de 2001 e, eventualmente, ao colapso financeiro e à grande recessão de 2008. Poupança ‘ excesso “é realmente um lado de uma” falta de investimento “.A baixa rentabilidade em ativos produtivos tornou-se uma bolha especulativa alimentada por dívidas em ativos fictícios.As crises não são o resultado de um déficit de ‘demanda endividada’;mas são causados ​​por um déficit de rentabilidade.
Mas como o capitalismo sai dessa armadilha da dívida?Esse é o dilema da dívida.
Wolf, Mian e Sufi calculam que é através da redistribuição de renda.Wolf cita Marriner Eccles, chefe do Federal Reserve dos EUA na Grande Depressão da década de 1930.Em 1933, Eccles disse ao Congresso:“É do interesse do bem...que devemos extrair deles uma quantidade suficiente de seus excedentes para permitir que os consumidores consumam e os negócios operem com lucro. ”Como vê, é do interesse dos ricos deixar que o governo gaste parte de seu dinheiro para ajudar os pobres a aumentar o consumo.  
Mian e Sufi dizem:“Escapar de uma armadilha da dívida exige a consideração de políticas macroeconômicas menos padronizadas, como as focadas na redistribuição ou as que reduzem as fontes estruturais de alta desigualdade”. Portanto, precisamos reduzir a alta desigualdade abordando as“fontes estruturais” .Na minha opinião, isso significa abordar características estruturais, como a crescente concentração e centralização dos meios de produção e finanças, e não apenas uma crescente desigualdade de renda.   
De fato, Wolf parece ter uma visão mais radical:“agora temos uma enorme oportunidade de substituir empréstimos do governo a empresas na crise do Covid-19 por compras de ações.De fato, com taxas de juros ultra-baixas atuais, os governos poderiam criar fundos instantâneos de riqueza soberana muito baratos! ”Portanto, o Estado deve intervir e comprar as ações dessas empresas com grandes dívidas que não podem pagar.Mas, na verdade, isso significaria governos comprando empresas fracas que já são ‘zumbis’, enquanto as empresas poderosas e lucrativas permanecem intocadas.Este é o governo que visa salvar o capitalismo, não substituí-lo.Aqui Wolf segue de pertoa linha do próprio FT de que“o livre mercado deve ser protegido através da pandemia, com s     intervenção estatal sustentável e direcionada que pode ajudar o capitalismo a prosperar após a crise “.
Por outro lado, Levy é pessimista quanto à existência de uma solução que evite quedas:“não existe um conjunto realista de políticas federais para resolver sem problemas o dilema da economia do grande balanço, nem mesmo um plano de como devem ser as políticas ideais”.  Marx concordaria que a única saída dessa crise é através da crise.O ex-chefe do FMI, Dominic Strauss Kahn, acredita que os estrategistas do capital devem apenas permitir que a liquidação dos zumbis e do desemprego subam, porque então“a crise econômica, destruindo o capital, pode fornecer uma saída.As oportunidades de investimento criadas pelo colapso de parte do aparato de produção, como o efeito nos preços das medidas de apoio, podem reviver o processo de destruição criativa descrito por Schumpeter. ”    
Acabar com a espiral da dívida e do capital fictício exigirá muito mais do que tributar mais os ricos ou comprar empresas mais fracas com dívida do governo.Como diz Wolf:“Teremos que adotar alternativas mais radicais.Uma crise é um excelente momento para mudar de rumo.Vamos começar agora.  Obviamente, ele pretende salvar o capitalismo, não substituí-lo. Tradução google
 

https://bit.ly/2tWb6ea

 

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pdfThe Long Depression Marxism and the Global Crisis of Capitalism(11.82 MB)

pdfThe Great Recession(878 KB)

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Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/05/10/o-dilema-da-divida/

Todos crianças

Mais uma vez, o mundo deles cai por terra. E não fomos nós que o quebrámos. Ouvem-se referências ao programa económico e social do Conselho Nacional da Resistência, em França, bem como à conquista dos direitos sindicais e à grande obra do New Deal, nos Estados Unidos. Mas, nessa altura, os membros da resistência francesa haviam conservado as armas e, na rua, um povo esperava a bela escapatória «da Resistência até à revolução». Esta era, aliás, a divisa de um jornal diário da época que se chamava Combat. Quanto a Franklin Roosevelt, ele soube fazer com que uma parte dos patrões americanos compreendesse que as revoltas operárias e o caos social podiam varrer o seu adorado capitalismo. E eles tiveram então de condescender.

Hoje não há nada disto. As populações, confinadas, infantilizadas, tão estarrecidas quanto aterrorizadas pelos canais de informação em contínuo, tornaram-se espectadoras, passivas, abatidas. Pela força das coisas, as ruas esvaziaram-se. Já não há «coletes amarelos» em França, nem Hirak na Argélia, nem manifestações em Beirute ou Barcelona. Como crianças apavoradas pelo estrondo da tempestade, todos esperam para conhecer o destino que o poder lhes reserva. Porque os hospitais, é ele; as máscaras, os testes, são ele; os despedimentos que vão permitir aguentar mais uns dias, é ele [1]; o direito a sair ou não – quem?, como?, quando?, com quem? – continua a ser, mais uma vez, ele. O poder tem todos os poderes. Médico e empregador, ele é também o nosso juiz que aplica as penas e que decide a duração e a dureza do nosso confinamento. Como pode causar espanto, então, que trinta e sete milhões de franceses, um recorde, «duas vezes a audiência de um Campeonato do Mundo de Futebol», tenham escutado o presidente da República a 13 de Abril último, quando este se exprimiu em onze canais ao mesmo tempo? O que mais podiam eles fazer nessa noite?

A vertigem cresce porque este poder não sabe para onde vai. As suas decisões são ameaçadoras, mesmo quando se contradizem. As máscaras? Não serviam para nada, é certo, enquanto as não tínhamos. Mas tornaram-se úteis – isto é, susceptíveis de salvar a vida – desde que estão disponíveis. O «distanciamento social» impõe-se, compreende-se, mas a distância de segurança cresce 50% quando um francês se desloca para a Bélgica ou atravessa o Reno, e duplica se ele conseguir atravessar o Atlântico. Por fim, em breve dir-nos-ão que idade e que corpulência continuam a proibir que se saia de casa. Mais valia ser velho e gordo no passado do que «sénior» e «com excesso de peso» hoje: pelo menos os primeiros eram livres dos seus passos. Vamos também ser informados sobre os motivos para os alunos terem deixado de ser contagiosos para professores próximos da aposentação – a quem se continua, porém, a recomendar que conservem as distâncias em relação aos netos.

Um dia vamos tornar-nos adultos. Capazes de compreender e de impor outras escolhas, incluindo económicas e sociais. Por agora, assentamos golpes sem poder devolvê-los; falamos no vazio e sabemos que o fazemos. Daí este clima pegajoso, esta cólera inutilizada. Um barril de pólvora no meio da sala, à espera do fósforo. Depois da infância, a idade ingrata…


[1] Nos Estados Unidos, o nome de Donald Trump vai constar nos cheques de cerca de 1200 dólares por pessoa que o Tesouro americano vai enviar a dezenas de milhões de cidadãos.

Ver o original em Le Monde Diplomatique PT (clique aqui)

O ponto de não retorno será repentino

por Michael Hudson
entrevistado por The Saker
Cartoon de Pluma y Fusil. Sempre tive por Michael Hudson a maior estima. Não apenas o considero como o meu economista favorito nos EUA, mas também sei que ele é um ser humano generoso. Ele manifestou essa generosidade novamente quando concordou em responder a algumas perguntas muito básicas que um não-economista como eu faria. Estou profundamente grato a Michael por ter tempo para me responder!
The Saker

The Saker: Suponho que, como qualquer outro sistema, a economia e o sistema financeiro dos EUA e, em geral, do Ocidente venham a ser penalizados, mas deve haver um "ponto de não retorno", após o qual todo o sistema se desmorona como um castelo de cartas. Minha primeira pergunta é dupla: a) o que seria esse "ponto de não retorno" e se acha que já (ou em breve) o atingimos? b) Quais seriam os sinais de que esse "ponto de não retorno" foi alcançado (ou está prestes a ser alcançado)?

Michael Hudson: O "ponto de não retorno" chegaria quando a Reserva Federal e o governo deixassem de resgatar (bailing out) os banqueiros e os mercados de acções e títulos e deixassem o preço real dos activos entrar em colapso no "mercado livre", para reflectir a contracção da economia "real". Nessa altura haveria uma liquidação ao desbarato sem a promessa de a Reserva Federal ser o comprador de último recurso.

O problema é que a economia nunca conseguiu recuperar da Depressão de Obama (resultante da sua recusa em cancelar as dívidas das hipotecas-lixo para com as principais instituições financeiras), na medida em que elas mantêm nos registos os encargos das dívidas actuais. Mas o comentário de Sheila Bair ainda se aplica: "É tudo sobre os possuidores de títulos".

Assim, não espero para breve um "ponto de não retorno". Mas quando finalmente ocorrer ele será repentino – tal como em todas as bancarrotas. Isso pode ser desencadeado por um banco ou por um especulador que fez uma má aquisição e é incapaz de pagá-la, tal como aconteceu com a agência da AIG em Londres em 2008.

Dito isto, quem acreditaria que o mercado de acções continuaria a subir enquanto a economia "real" subjacente estava a contrair-se drasticamente? Obviamente, houve uma dissociação entre os dois sectores da economia: o sector financeiro, de seguros e imobiliário (FIRE) e o sector da economia da produção e do consumo.

Penso que a Reserva Federal permitirá que os grandes iniciados dentro do sistema vendam tudo (e até que façam uma fortuna com a venda de acções e títulos a descoberto) antes de fechar o negócio (pull the plug). O segredo está em que o colapso da economia deve ser gerido como uma oportunidade de ganhos para os grandes bancos e especuladores financeiros.

The Saker: Há por aí muita conversa sobre as grandes corporações, mas quero perguntar-lhe acerca dos "pequenos" (como eu e a maioria de nossos leitores): o que podemos fazer para nos prepararmos para um possível colapso económico e financeiro? Por exemplo, considera que o nosso dinheiro está seguro nos bancos de depósitos garantido pelo Federal Deposit Insurance Corporation (FDIC)? Ou teremos umas "férias bancárias" ou até uma "corrida aos bancos" em grande escala como aconteceu na Argentina? Deveríamos retirar as nossas poupanças e guardar o papel-moeda? Ou até obter ouro/prata? O que recomenda para os "pequenos"?

Michael Hudson: Depósitos garantidos pelo FDIC são seguros. Eles não os vão deixar cair, porque isso acabaria com o sistema bancário. Não haverá uma corrida ao estilo argentino, porque a dívida externa argentina é denominada em dólares, que eles não podem imprimir. Mas a dívida dos EUA é denominada na sua própria divisa, que a Reserva Federal e o Tesouro podem criar à vontade.

O mercado de acções irá ziguezagueando aproximadamente na faixa actual, até que o mergulho seja permitido. O investimento mais seguro é em títulos do Tesouro dos EUA. O ouro também é bom, mas o problema é como mantê-lo livre de roubo. Tal como a moeda, ele pode ser roubada.

Para os pequenos investidores, o melhor objectivo para se protegerem e ficarem (e permanecerem) sem dívidas, garantir a sua casa e o seu sustento daquilo que pode ser um plano de austeridade do tipo o Terceiro Mundo, estilo FMI, resultante de bancarrotas estatais e locais. (Evitar comprar títulos estatais e locais isentos de impostos.)

The Saker: Quão má é, na sua opinião, a actual crise em termos financeiros/económicos? Alguns dizem que será (ou já é) pior do que a de 2008, 11/Set ou mesmo a Grande Depressão. Concorda e, se não, por quê?

Michael Hudson: A depressão actual é a pior desde a década de 1930. Haverá uma nova onda de execuções de hipotecas, tanto em imóveis comerciais quanto residenciais. O problema não será meramente as hipotecas lixo sobre activos desvalorizados, mas a perda de rendimento de lojas, outros espaços comerciais e residências que pagam rendas.

Estamos no final da alta de 75 anos começada em 1945, quando a guerra terminou com poucas dívidas no sector privado e abundantes poupanças. Agora, a situação foi revertida: uma pesada sobrecarga de dívida, com poucas poupanças da maior parte da população. O crescimento do excedente económico agora é gasto quase inteiramente no serviço da dívida, em outros encargos financeiros e em pagamentos rentistas ao sector FIRE. O capitalismo rentista substituiu o capitalismo industrial.

The Saker: Muitas pessoas (e corporações) estão a perder milhões e até milhares de milhões. Mas outras estão a ter grande êxito (Amazon?). Na sua opinião, quem mais beneficia com esta crise e como?

Michael Hudson: Financeiros e políticos do sistema serão beneficiados pela crise, juntamente com os monopolistas. O resto da economia perderá – mas as fortunas mais rápidas muitas vezes são obtidas numa crise. Como observou Adam Smith, os lucros geralmente são mais altos nos países que se arruínam mais rapidamente. Mas desta vez não são os lucros que são a chave dessas riquezas, mas os "ganhos de capital" de activos financeiros inflacionados.

Em suma, o jogo financeiro tem sido manipulado pelos iniciados políticos do sistema e pelos seus financiadores. A sua escala de tempo é o curto prazo.

01/Maio/2020
Original encontra-se em thesaker.is/...

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/crise/hudson_01mai20.html

No cofre-forte do mundo

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A longa fila de espera para distribuição de alimentos, cerca de 2500, marcou a crise social e alimentar existente, e ilustra a atual crise social e alimentar em Genebra [Suiça] que se mantinha em silêncio.

Ver o original em As palavras são armas (clique aqui)

Portugal | O Estado que vamos herdar

 
 
Pedro Ivo Carvalho| Jornal de Notícias | opinião
 
O retrato publicado há dias neste jornal sobre o número de portugueses que dependem do Estado para viver é ao mesmo tempo assustador e reconfortante. Assustador porque, se a cifra já era expressiva antes da pandemia (cerca de 5,6 milhões de pessoas), evoluímos entretanto para patamares invulgares: sete milhões de cidadãos contam agora com algum apoio público para se manterem à tona. Mesmo considerando que possa haver duplicação de prestações sociais, falamos de dois terços da população. É esmagador. Mas estes números acabam também por nos trazer algum conforto, na medida em que, apesar da nossa pequenez geográfica e fragilidade económica (a que devemos somar a teia burocrática que agrilhoa tantos serviços públicos), ainda fomos capazes desta proeza. Na gigante Espanha, estima-se que durante a pandemia "só" 40% dos cidadãos estejam a ser apoiados.
 
Ora, escusado será dizer que nenhum Estado aguenta muito tempo um nível de esforço desta magnitude. Mas, chegados aqui, também é escusado dizer que esta crise maldita tornou evidente que não temos grande alternativa ao Estado quando tudo o resto falha. Não enquanto as famílias não recuperarem rendimentos que lhes permitam escapar à miséria. Não enquanto a atividade económica e as empresas não começarem a respirar um pouco melhor.
 
Sobre isto, vale a pena recordar o que disse o economista José Reis: "Tudo o que estava protegido pelo trabalho ficou desprotegido. E o único instrumento que temos hoje é o Estado. Não são as empresas, nem o capital, nem a Banca, nem os offshores. Andámos anos a tecer loas ao capitalismo e, afinal, quem não falhou foi o Estado". A claque dos liberais empedernidos dirá que é para isto que pagamos impostos. A claque dos socialistas efervescentes rejubilará com a imagem do "sonho bolivariano" tornado realidade.
 
A verdade, porém, é bem mais complexa do que qualquer dicotomia ideológica primária. Nem os recursos públicos são infinitos, nem a nossa capacidade de pagar impostos é inesgotável. Portanto, o que quer que seja o Estado depois disto, terá de ter ainda mais em conta o difícil equilíbrio entre estes fatores. Sairemos mais pobres desta borrasca e, porquanto, forçados a aprimorar não só os mecanismos de financiamento dos cofres públicos, como (e mais importante) os critérios que definirão os destinatários preferenciais do nosso esforço contributivo. Salvemos vidas e empregos no imediato, mas não nos esqueçamos de que haverá, no futuro, mais portugueses para salvar. Sobretudo os mais frágeis de entre nós, para quem o Estado é mesmo a única família.
 
*Diretor-adjunto

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/05/portugal-o-estado-que-vamos-herdar.html

Tribunal Constitucional alemão recusa que o BCE possa salvar a Europa – Poderá o BCE opôr-se ao ultimato do Tribunal Constitucional alemão? Por Jean Claude Werrebrouck

 

Seleção e tradução de Francisco Tavares

Poderá o BCE opôr-se ao ultimato do Tribunal Constitucional alemão?

Jean Claude Werrebrouck

Por Jean Claude Werrebrouck

Publicado por La crise des années 2010 em 05/05/2020 (“La BCE pourra-t-elle s’opposer à l’ultimatum de la Cour Constitutionnelle allemande?”, ver aqui)

 

A decisão acaba de ser tomada: o BCE tem três meses para justificar a sua política de compra de dívida pública. Os leitores deste blogue têm sido frequentemente informados das decisões do BCE, não havendo necessidade de voltar a falar sobre o assunto. Por outro lado, é bom conhecer o contexto em que nos encontramos hoje em dia em termos de volume de compras.

Os números de que dispomos são surpreendentes para qualquer pessoa interessada na atividade do BCE. Detendo em média 25% do stock da dívida pública da zona euro, detém 31% da dívida alemã e apenas 20% da dívida italiana. Se formos mais longe, sabemos que a dívida da Alemanha representava 60% do seu PIB em 2019, ou seja, a soma de 2100 mil milhões de euros. Ao mesmo tempo, em 2019, a dívida da Itália representava 132% do seu PIB, ou seja, 2244 mil milhões de euros. Para dívidas que são globalmente equivalentes em volume, o BCE detém, portanto, 651 mil milhões de euros de dívida alemã, e apenas 450 mil milhões de euros de dívida italiana.

Se tivermos estritamente em conta o peso dos dois países no capital do BCE (21,4% para a Alemanha e 13,8% para a Itália, ou seja, um rácio de 0,64), a regra justa para a ajuda do BCE seria de 0,64 euros comprados de dívida italiana por 1 euro comprado de dívida alemã. Isto é aproximadamente confirmado no comportamento concreto do BCE (450/651= 0,69) [1]. Isto significa que, até à data, o BCE respeita rigorosamente as regras que lhe são normalmente impostas e recordadas pelo Tribunal de Justiça Europeu em 14/12/2018, que insiste no princípio da proporcionalidade na QE. No entanto, isto aproxima-nos do limite de outra regra, aquela que proíbe o BCE de deter mais de 33% da dívida pública de um país. Os últimos números que acabámos de apresentar mostram que estamos nos limites e, para ajudar a Itália, não poderemos continuar a cumprir o limiar de 33% para a Alemanha. Sabemos que o BCE decidiu, há alguns dias, ultrapassar os limites. É mesmo provável que, no momento em que escrevemos, o limite de 33% da dívida alemã já tenha sido ultrapassado… para limitar o diferencial da taxa de juro da dívida italiana. Foi talvez esta informação adicional que fez pender o pensamento dos juízes constitucionais a favor do que pode parecer um ultimato.

Se voltarmos aos números anteriores à decisão, a Itália, tal como outros países, tinha sem dúvida motivos para se queixar, porque o princípio da proporcionalidade ajuda mais a Alemanha do que a Itália: aumenta artificialmente a taxa da dívida alemã e reduz a sua taxa. E o argumento de que isto coloca o aforrador alemão numa situação de desvantagem não é válido. Este último pode, de facto, recorrer a outros títulos, mais vantajosos. Por outro lado, o enorme défice alemão, que está a ser criado, poderá ser financiado a juros zero graças à Itália…

Se considerarmos que, em média, os apelos ao mercado da dívida pública serão multiplicados por 2 ou mesmo 3 ao longo de 2020, é evidente que as intervenções do BCE terão de ser muito mais massivas… sob pena de uma escalada dos spreads das taxas de juro e de uma explosão da zona euro. Tal deveria normalmente envolver um aumento espetacular do balanço do BCE, um aumento gerado na única rubrica contabilística dos seus ativos denominada “títulos detidos para fins de política monetária”. Acima de tudo, porém, exigiria o abandono de todas as regras de volume ou de proporcionalidade, já que é lógico supor que, mesmo que abandonássemos as compras de dívida pública a países fora da zona euro, a proporção da dívida pública detida pela zona euro no ativo do balanço do banco central saltaria de 25% para 35 ou mesmo 40%. O BCE não só teria de assegurar o financiamento da atual renovação da dívida, como também teria de assumir uma grande parte dos défices futuros, provavelmente cerca de 8 pontos do PIB da zona. Isto significa também que, nos próximos anos, teríamos de continuar a manter a ficção do reembolso da dívida numa base continuamente crescente… era, por isso, difícil imaginar que, depois de se ter desviado tanto do caminho, o BCE pudesse voltar aos limites das regras…

Voltando ao texto da decisão do tribunal de Karlsruhe, a ameaça é clara: sem justificação no prazo de três meses, o tribunal proibirá o Bundesbank de participar no programa de recompra da dívida pública, o que exporá o BCE a sanções pelo Tribunal Europeu, o que exige o cumprimento da regra da proporcionalidade. Ninguém sabe o que vai acontecer a seguir, mas é difícil ver um BCE comprar dívida italiana em grande escala, através do Banco Central de Itália, sem poder ordenar ao Bundesbank que compre dívida alemã. Para respeitar os juízes do tribunal alemão, as decisões do tribunal europeu terão de ser ignoradas.

É provável que os diferenciais das taxas de juro aumentem bastante rapidamente e, obviamente, a crise do euro terá ainda um futuro muito brilhante.

 

_______________________________

Jean Claude Werrebroucké economista, antigo professor na Universidade de Lille 2. Inicialmente especializado em questões de desenvolvimento e economia do petróleo, ele destacou-se no problema da natureza da renda petrolífera. Como Diretor do IUT foi integrado na equipa fundadora dos Institutos Universitários Profissionalizados (IUP).

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/05/07/tribunal-constitucional-alemao-recusa-que-o-bce-possa-salvar-a-europa-podera-o-bce-opor-se-ao-ultimato-do-tribunal-constitucional-alemao-por-jean-claude-werrebrouck/

Título da «Sábado»

O futuro é cada vez mais incerto

Parto de um truísmo banal para discorrer sobre os tempos que aí vêm, ameaçadores dos mais elementares direitos humanos e repletos de dúvidas, dívidas e medos.

Não estou certo de que o neoliberalismo tenha os dias contados e, muito menos, de que surja uma sociedade mais igualitária e solidária. Este período de confinamento, longe de estimular a solidariedade, tornou-nos mais rudes, agressivos e egoístas.

A promessa de que o Mundo, gravemente empobrecido e arruinado, poderá regressar ao padrão de consumo e bem-estar anterior, é a semente de uma ilusão que convém aos que procuram manter as desigualdades que a riqueza acentuou.

Não será difícil adivinhar uma regressão na esperança de vida, até há pouco inesperada, como se as árvores crescessem até ao céu e a imortalidade chegasse com a substituição de peças para o corpo humano e sucessivas plantações de novos neurónios no cérebro.

A esta pandemia, cujo fim se ignora, outra surgirá, e a inteligência artificial parece mais lenta do que a adquirida por agentes patogénicos, vírus e bactérias.

O único planeta de que dispomos já não aguentava os maus-tratos a que era submetido e o nosso futuro vai confrontar-se com a contaminação dos mares, o aquecimento global, a demografia, cuja implosão está longe de garantida, a falta de água, oxigénio, ozono e bens de primeira necessidade.

O trabalho será um bem cada vez mais escasso e a ansiedade e o desespero são motores de revolta e de aceitação de regimes totalitários.

A democracia liberal já hoje, através de eleições, se vê tomada por déspotas e narcisistas sem escrúpulos, dos EUA ao Brasil, da Hungria às Filipinas, da Polónia à Turquia. Que sucederá se os povos abdicarem dos seus direitos e liberdades e postergarem os direitos humanos?

Os ataques indiscriminados aos políticos e o ódio à democracia representativa, a única que garante um módico de racionalidade e liberdades, alimentam soluções messiânicas e autoritarismos que julgávamos erradicados.

Vai ser difícil conciliar a continuidade das sociedades livres com mínimos de bem-estar individual, no clima de depressão económica, aviltamento de valores e o indiferentismo perante as ditaduras, que ora se vive.

 

Ponte Europa / Sorumbático

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2020/05/o-futuro-e-cada-vez-mais-incerto.html

[Thierry Meyssan] O PROJECTO POLÍTICO GLOBAL IMPOSTO POR OCASIÃO DO COVID-19

      https://nowarnonato.blogspot.com/2020/05/thierry-meyssan-o-projecto-politico.html
 
 
  
REDE VOLTAIRE | 5 DE MAIO DE 2020
As reacções ineptas dos governos europeus ao Covid-19 foram ditadas por antigos conselheiros de Donald Rumsfeld e de George W. Bush. Contrariamente à retórica pública, não têm qualquer pretensão médica. Longe de responder à realidade da epidemia, elas visam transformar as sociedades europeias a fim de as integrar no seu projecto político-financeiro.
 
Para lá de se saber se a epidemia de Covid-19 é natural ou foi provocada, ela providencia a ocasião a um grupo transnacional de impor, subitamente, o seu projecto político sem que ele seja discutido, ou sequer exposto.
Em algumas semanas, vimos Estados pretensamente democráticos suspender as liberdades fundamentais: proibir a saída de casa, sob pena de multa ou prisão, de participar em comícios e manifestações. A escola obrigatória para os menores de 16 anos foi provisoriamente abolida. Milhões de trabalhadores foram privados de emprego e colocados, por declaração, no desemprego. Centenas de milhares de empresas foram autoritariamente forçadas a fechar e não mais poderão reabrir.
Sem preparação prévia, os governos incentivaram as empresas ao teletrabalho. Todas as comunicações via internet foram imediatamente gravadas (registradas-br) pelo sistema Echelon. O que significa que os «Cinco Olhos» (Austrália/Canadá/Nova Zelândia/Reino Unido/EUA) dispõem, em arquivo, dos meios de apanhar os segredos de quase todos os industriais europeus. Agora, já é tarde demais.
Nenhuma das transformações das sociedades tem justificação médica. Nenhum livro de epidemiologia no mundo abordou e ainda menos preconizou o «confinamento generalizado obrigatório» para lutar contra uma epidemia.
Os dirigentes políticos dos Estados membros da União Europeia foram petrificados por projecções matemáticas delirantes anunciando-lhes uma hecatombe doméstica [1]. Depois, foram consolados com soluções preparadas por um poderoso grupo de pressão, cujos membros haviam encontrado no Forum Económico de Davos e nas Conferências sobre Segurança de Munique [2].
O «confinamento generalizado obrigatório» foi concebido quinze anos antes, no seio da Administração Bush, não como uma ferramenta de saúde pública, mas para militarizar a sociedade norte-americana por ocasião de um ataque bioterrorista. E, é exactamente este projecto que ele aplica hoje na Europa.
O plano inicial, concebido há mais de vinte anos em torno do patrão do laboratório farmacêutico Gilead Science, Donald Rumsfeld, previa adaptar os Estados Unidos à financiarização global da economia. Tratava-se de reorganizar o planeta atribuindo para isso, geograficamente, as tarefas a cada um. As zonas ainda não-integradas na economia global deveriam ser privadas de Estado e tornar-se simples reservatórios de matérias-primas; as zonas desenvolvidas (entre as quais a União Europeia, a Rússia e a China) seriam responsáveis pela produção; e os Estados Unidos, por si sós, assegurariam a indústria de armamento e o policiamento do mundo.
Para isto, um grupo foi criado no seio de um «think-tank», o American Enterprise Institute, com o «Projecto para um Novo Século Americano». Este anunciou com toda a crueza uma parte do seu programa, e uma parte somente; a destinada a convencer grandes doadores a apoiar a campanha eleitoral de Gorge W. Bush. Tendo, no 11-de-Setembro, às 10 horas da manhã, dois aviões comerciais atingido o World Trade Center, em Nova Iorque, foi declarado o Programa de «Continuidade do Governo» (CoG), muito embora a situação não fosse de todo a prevista nas leis. O Presidente Bush foi levado para uma base militar. Os membros do Congresso e as suas equipas foram levadas para um imenso bunker, a 40 quilómetros de Washington. E, o muito secreto Governo de Continuidade, de que Rumsfeld fazia parte, assumiu o Poder até ao fim do dia.
Aproveitando-se do choque emocional causado nesse dia, este grupo fez adoptar um volumoso Código Anti-terrorista, escrito com bastante antecedência, o USA Patriot Act («Lei Patriota dos EUA»-ndT); criou um amplo sistema de vigilância interna, o Departamento de Segurança Interna (Homeland Security) ; reorientou a missão das Forças Armadas em função da divisão global do trabalho (Doutrina Cebrowski); e começou a «Guerra sem Fim». É neste mundo que eles moldaram que, desde há duas décadas, nós vamos vivendo como num pesadelo.
Se não nos precavermos a respeito, o grupo actual, do qual o Dr. Richard Hatchett é o elemento visível, transporá este programa dos Estados Unidos para a União Europeia. Ele irá impor ao longo do tempo uma aplicação (aplicativo-br) de rastreio de telemóvel (celular-br) a fim de vigiar os nossos contactos; arruinará certas economias para transferir a força de produção para as indústrias de armamento; e, por fim, irá convencer-nos de que a China é responsável pela epidemia e deve ser cercada (Containement).
Se não nos precavermos a respeito, a OTAN, que acreditávamos estar em estado de morte cerebral, irá reorganizar-se. Ela irá estender-se para o Pacífico com, para comerciar, a adesão da Austrália [3].
Se não nos precavermos a respeito, a escola será substituída por um ensino de saberes no domicílio. As nossas crianças irão tornar-se papagaios desprovidos de espírito crítico, ouvindo falar de tudo, mas não sabendo nada.
No mundo novo que se está a preparar para os Europeus da UE, os grande média (mídia-br) não mais serão financiados pela indústria do petróleo, mas pela Big Pharma. Eles irão convencer-nos que todas as medidas tomadas foram as melhores. Os motores de busca darão notas de credibilidade, aos média não-conformes, de acordo com os títulos dos signatários dos seus artigos e não pela qualidade do seu pensamento.
Ainda é tempo de reagir.
 
Thierry Meyssan
 
 
Tradução
Alva
 
 
 
[1] “Covid-19 : Neil Ferguson, o Lyssenko liberal”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 20 de Abril de 2020.
[2] “O Covid-19 e a Alvorada Vermelha”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 28 de Abril de 2020.
[3] “A OTAN deseja tornar-se a Aliança atlântico-pacífico”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 11 de Dezembro de 2019.
 

Ver o original em 'Manuel Banet' (clique aqui)

Sócios-gerentes de microempresas com até dez funcionários também vão ter apoio do Estado

 

Os sócios-gerentes de microempresas com até dez funcionários também vão passar a estar incluídos nos apoios do Governo durante a pandemia, revelou o secretário de Estado Adjunto do primeiro-ministro, Tiago Antunes.

 

O governante avançou esta informação numa entrevista à Rádio Renascença e ao jornal Público esta quarta-feira divulgada, adiantando ainda que os trabalhadores independentes – os chamados recibos verdes – também verão os seus apoios reforçados.

“Neste momento o que temos apenas é uma cobertura dos sócios-gerentes que não têm trabalhadores a cargo. Vamos passar a aplicar esse apoio aos sócios-gerentes de microempresas que tenham até dez trabalhadores”, disse o governante na entrevista.

Atualmente, o apoio a sócios-gerentes, recorda o jornal Eco, abrange apenas os sócios-gerentes que não tenham trabalhadores a cargo e nos casos em que a faturação não supere os 60 mil euros. O valor do apoio é calculado com base no referencial da “média da base de incidência contributiva dos meses em que tenha existido registo de remunerações no período dos 12 meses imediatamente anteriores” à data do requerimento.

 
 

O mesmo jornal detalha ainda que este apoio funciona em dois escalões, com um apoio máximo de 438,81 euros para quem tenha uma remuneração registada como base de incidência inferior a 658,22 euros (1,5 IAS) e um máximo de 635 euros para casos em que essa remuneração seja igual ou superior aos referidos 1,5 IAS.

Tiago Antunes revelou ainda apoios reforçados para os trabalhadores independentes, bem como a intenção de diminuir para metade o prazo de acesso ao subsídio social de desemprego inicial. O Governo quer fechar “buracos” deixados pelos mecanismos criados.

“Outra situação tem a ver com os trabalhadores independentes. Criámos um apoio específico para eles, mas nos primeiros 12 meses os trabalhadores independentes estão isentos de contribuições. E, por não terem contribuições, numa situação em que estavam isentos, depois também não tinham acesso a este apoio especial que criámos. Vamos também resolver isso e dar um apoio específicopara estes trabalhadores independentes, que no início da sua atividade nos primeiros 12 meses não contribuíram ainda”.

“O prazo de acesso ao subsídio social de desemprego inicial – existe um prazo de contribuições mínimas para poder aceder – vamos encurtar para metade. São apenas alguns exemplos de buracos que ficaram a descoberto dos mecanismos que criámos e queremos responder a essas situações, não queremos deixar ninguém desprotegido”, disse ainda na mesma entrevista conjunta o Governante.

ZAP //

 
 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/socios-gerentes-microempresas-ate-dez-funcionarios-tambem-vao-ter-apoio-do-estado-322856

Covid-19. Estados Unidos vão endividar-se a um nível recorde

 

O Departamento do Tesouro norte-americano revelou que vai necessitar de se endividar em 2,99 biliões de dólares por causa dos custos com o combate à pandemia de covid-19. 

 

O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos informou, esta terça-feira, que vai necessitar de se endividar a um nível recorde de 2,99 biliões de dólares (2,7 biliões de euros) durante o segundo trimestre para cobrir custos com a pandemia.

Estes 2,99 biliões vão ultrapassar em muito os 530 mil milhões registados no trimestre julho-setembro de 2008, no contexto da crise financeira da altura. Esta soma extraordinária de 2,99 biliões num único trimestre excede também os 1,28 biliões de dólares com que o Governo se endividou no mercado de obrigações em todo o ano de 2019.

Este valor é necessário para financiar os três biliões de dólares dos vários programas que o Governo aprovou destinados a trabalhadores e empresários. Além disso, o Executivo necessita de cobrir a escassez nas receitas provocada pelo adiamento decidido pelo Governo norte-americano do prazo de pagamento de impostos de abril para junho.

 
 

EUA devem ultrapassar 100 mil mortes em junho

Em junho, os Estados Unidos devem ultrapassar a marca de 100.000 mortes provocadas pelo novo coronavírus, de acordo com vários modelos epidemiológicos.

De acordo com documentos oficiais a que o The New York Times teve acesso, o Governo federal norte-americano estima que o número de novos casos de contaminação suba até 200.000 diariamente, no final de maio, cerca de 25.000 mais do que os atualmente registados, e que o número de mortes suba para 100.000 já em junho.

No domingo, Donald Trump disse que o número total de mortes com covid-19 nos Estados Unidos poderia subir até “75.000, 80.000 ou 100.000” no seu total, argumentando que as medidas de contenção evitaram que o número fosse superior a 1.5 milhões de pessoas.

No entanto, começam a surgir provas de que a Casa Branca tem estimativas que apontam para entre 100.000 e 240.000 mortes nos Estados Unidos, por causa do novo coronavírus.

De nove modelos citados pelo Centro de Prevenção e Controlo de Doenças (CDC), pelo menos três fazem uma previsão de 100.000 mortes em apenas quatro semanas, no pico da pandemia.

Alguns modelos, mais otimistas, como um instituto da Universidade de Washington, prevê 72.000 mortes até ao dia 1 de junho, mas os seus investigadores já disseram que poderão ter de rever esse número.

Neste momento, o país regista mais de um milhão de casos de contaminação e mais de 65.000 mortes.

ZAP // Lusa

 
 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/covid-19-eua-vao-endividar-recorde-322732

A pandemia agravará as desigualdades e a miséria

A capacidade dos países da União Europeia para enfrentar a crise do Covid 19 é muito desigual, contrariamente ao que se afirma a crise não afecta da mesma forma pobres e ricos, e agravará ainda mais as desigualdades e a miséria

 

 

Neste estudo analiso, utilizando dados do Eurostat, do INE e da DGO do Ministério das Finanças, o peso da divida publica, medida em percentagem do PIB, em Portugal e em outros países da União Europeia assim como as receitas já utilizadas pelos Estados para pagar os juros, mostrado que elas têm o peso muito diferente de pais para pais e que, em Portugal, a despesa com juros já é superior à despesa com a educação, e é muito superior ao investimento público, e pouco inferior à despesa com a saúde.

Tal facto tem determina que o que resta para suportar as outras funções do Estado tem sido manifestamente insuficiente. E que o aumento em mais de 15 pontos percentuais da divida publica em 2020, em percentagem do PIB, necessária para apoiar as famílias e a economia, vai determinar um aumento significativo dos encargos com a divida criando obstáculos e limites ao Estado para apoiar a recuperação da economia e dos rendimentos das famílias. Esta situação pode-se tornar ainda mais grave devido à falta de solidariedade que existe na União Europeia.

É urgente, se quisermos sobreviver como país independente e como condições de vida minimamente dignas, o regresso à normalidade da atividade económica embora cumprindo rigorosamente as recomendações das autoridades de saúde. E termino com uma conclusão que pode ser polémica mas que deixo para reflexão do leitor que é a seguinte:” Há riscos, é evidente que há riscos, mas temos de os enfrentar se quisermos viver (nós, os nossos filhos, os nossos netos) com um mínimo de dignidade. Mantermo-nos indefinidamente com medo em casa não é solução até porque cerca de 30% dos infectados tem como origem o ambiente familiar, permanecer em casa não ficamos imunes e apanhamos outras doenças”.

Espero que este estudo possa ser útil para a reflexão sobre um tema que é sensível e que, por isso, exige um debate sereno, fundamentado e objetivo.

 

 
 
 
 

Estudo

A capacidade dos países da União Europeia para enfrentar a crise do Covid 19 é muito desigual, contrariamente ao que se afirma a crise não afecta da mesma forma pobres e ricos, e agravará ainda mais as desigualdades e a miséria

A capacidade dos diferentes Estados dos países da União Europeia para enfrentar a grave crise atual é muito desigual, como consequência dos diferentes níveis de endividamento. Isto porque o peso da divida publica é diferente de país para pais, o que determina que os encargos atuais com divida consumam já nuns países uma parcela mais importante das receitas do Estado do que em outros, reduzindo a capacidade dos primeiros para investir quer na proteção dos rendimentos das famílias trabalhadoras e de outras classes desfavorecidas da população quer no apoio às empresas e na recuperação da economia.

O quadro 1, construído com dados divulgados pelo Eurostat, dá uma ideia clara da situação atual de endividamento do Estado nos diferentes países da União Europeia e do “egoísmo” dos mais ricos, que mais têm beneficiado com a União Europeia, em apoiar os países que enfrentam neste quadro de grave crise de saúde e económica maiores dificuldades.

 

Quadro 1 – Divida Pública em % do PIB (riqueza anual criada em cada país) – 2007/2019

 

Em 2019, por ex., a divida pública representava nos países da União Europeia em média 79,8% da riqueza ciada em cada ano (PIB), enquanto em Portugal correspondia a 117,7%, e na Alemanha apenas a 59,8% do seu PIB e na Holanda a 48,6% do respetivo PIB, ou seja, a menos de metade da portuguesa medida em percentagem da riqueza anual criada em cada país. A Grécia com 176,5% do PIB e a Itália com 134,8% do PIB eram os países mais endividados da União Europeia.

O presidente da CIP, quando apresentou ao governo o plano dos patrões para enfrentar a atual crise, exigindo do Estado 21.000 milhões € para as empresas, a maior parte a fundo perdido (subsídios) e utilizou como argumento que o apoio na Alemanha dado pelo Estado às empresas, medido em percentagem do PIB, era muito superior àquilo que a CIP pedia e Marques Mendes veio logo a correr na TV defender tal plano “esqueceram-se”, ou por ignorância ou por irresponsabilidade, da situação completamente diferente de Portugal e da Alemanha como os dados do Eurostat dos quadros 1 e 2 mostram

O peso diferente da divida publica determina encargos para os Estados com a divida muito diferentes restando para as outras funções do Estado disponibilidades financeiras também muito diferentes. O quadro 2, com os encargos com divida pública, medida em percentagem do seu PIB, já suportada pelos diferentes países da União Europeia mostra a realidade atual.

 

Quadro 2 – Encargos (juros) do Estado com a divida pública medidos em % do PIB – 2010/2019

 

Medida também em percentagem do PIB, a despesa do Estado com o pagamento de juros da divida pública era em 2019, em Portugal; superior em 87,5% à média dos países da União Europeia e em 275% (3,75 vezes mais) do que o gasto pelo Estado na Alemanha e na Holanda com o pagamento de juros (não inclui o capital) da divida pública. A desproporção é enorme e cria fortes limitações ao Estado português para apoiar as famílias e as empresas em Portugal.

Este facto resulta não só do peso da divida publica em % do PIB ser muito mais elevada do que na generalidade dos países, mas também da taxa de juro paga pelo Estado português ser mais elevada do que a paga por outros países, nomeadamente pela Alemanha e Holanda. Mas para que os efeitos da divida publica portuguesa se tornem mais claros para o leitor vamos transformar a percentagem em milhões € e comparar com a despesa com outras funções do Estado (saúde, educação, investimento público).

 

Quadro 3 – Despesa com juros da divida pública, com Educação, Saúde e FBCF publico em Portugal

 

No período 2015/2019, o Estado português gastou só com o pagamento de juros 36.597 milhões €, ou seja, mais do que despendeu com a Educação que foi 36.158 milhões €, e muito mais do que o investimento público (FBCF), que foi apenas de 21.080 milhões €, o que corresponde a 57,6% do gasto com juros da divida pública.

Este reduzido investimento público explica a extrema fragilidade da economia portuguesa e do SNS cujas consequências são visíveis na atual crise (extrema dependência do turismo, das exportações e importações, e uma clara desvalorização da produção nacional, falta de profissionais e equipamentos no SNS).Se adicionarmos aos juros os “Outros encargos com divida pública” , que não é amortização do capital, o valor despendido, no mesmo período, pelo Estado português já sobe para 41.389 milhões €, um valor muito próximo do gasto com a “Saúde”, que foi apenas 44.523 milhões €, o que explica as dificuldades extremas que teve o SNS em enfrentar a crise do “COVID 19”, o que obrigou a concentrar os escassos recursos disponíveis no combate ao “CORONAVIRUS”, reduzindo a assistência médica em outras áreas (doenças oncológicas, doenças cardiovasculares, etc.)  que causou um aumento significativo de mortes por outras patologias.

E atual governo parece que não aprendeu nada com a experiencia atual pois, no lugar, de investir no SNS, dotando-o dos profissionais de saúde e dos equipamentos que precisa (mesmo os 1800 profissionais que foram contratados durante a crise do “COVID 19” foram com contratos precários de 4 meses, que agora renovados apenas por mais 4 meses, o que é inaceitável), a ministra da Saúde veio dizer que o governo tenciona recuperar os enormes atrasos que se verificam em consultas, cirurgias, etc., recorrendo aos grandes grupos privados de saúde.

A política do governo parecer ser a de manter as graves insuficiências do SNS confirmado pelas declarações da ministra da Saúde a RTP em 2/5/2020 em que considera que a solução para os enormes atrasos que se verificam no SNS é apenas um maior empenhamento dos profissionais, por um lado, e, por outro lado, alimentar os grandes grupos privados contribuindo para a explosão do negócio privado de saúde financiado pelo SNS e pelos subsistemas públicos de saúde.

 

O aumento enorme da divida pública necessário para apoiar as famílias e a economia, face à falta de solidariedade da UE, agravará muito mais as consequências que já se verificam do nível de endividamento

A quebra brutal da atividade económica, causada pela grave crise de saúde pública, vai determinar uma redução importante das receitas do Estado e um enorme aumento da despesa publica, necessária para apoiar as famílias e as empresas, embora com limites sob pena de se criar uma situação insustentável o que agravará ainda mais as desigualdades e a miséria no nosso país.

Mas mesmo voltando à normalidade de uma forma gradual e minimamente segura, como defende o governo, e é urgente que isso aconteça, o FMI prevê que a economia portuguesa (PIB) sofra uma contração de 8% e que o défice orçamental atinja um valor correspondente a 7,1% do PIB. A Comissão Europeia já veio confirmar tais  previsões acrescentando que, se os Estados não tomarem as medidas necessárias para recuperar a economia, a recessão económica severa em 2020 poderá atingir o dobro (15%) o que, a acontecer, seria um desastre social.

Mesmo admitindo um recessão de 8%, a divida publica,  medida em percentagem do PIB, aumentaria em Portugal, devido à diminuição do PIB, que é o denominador deste rácio (o numerador é o montante de divida); repetindo, com um défice orçamental de 7,1% a divida publica portuguesa, na ótica de Maastricht (que não inclui a totalidade das dividas das Administrações Públicas) aumentaria dos 117,7% do PIB em Dez.2019 (e entre Dez.2019 e Fev.2020 aumentou de 249.980M€ para 255.369M€) para cerca de 133% do PIB, um aumento superior a 15 pontos percentuais que é enorme. E consequentemente a despesa com juros, cuja previsão no orçamento inicial de 2020 era já de 6.409 milhões €, aumentaria enormemente.

E isto até porque, devido à recessão severa em 2020, é previsível que as empresas de rating baixem a classificação atribuída à divida portuguesa o que, a acontecer, faria aumentar imediatamente a taxa de juro cobrada pelos prestadores, que são os grandes grupos financeiros, face à proibição do BCE financiar os Estados, fazendo aumentar enormemente os encargos do Estado com a divida, e limitando assim a capacidade do Estado para apoiar as famílias e a economia.

A falta de solidariedade revelada pelos  países mais ricos da U.E., que têm tirado maior beneficio da sua existência, ao recusarem a emissão de divida conjunta (os chamados “coronabonds” ou mutualização da divida), necessária para impedir a especulação dos fundos predadores que se  aproveitarão da situação difícil dos países para impor taxas de juro especulativas, deixando cada país entregue a si próprio na ida aos mercados, único meio que têm atualmente para financiar a divida (o Banco de Portugal não pode emitir moeda como acontece com os bancos centrais da Inglaterra e dos E.U.A), contribui para agravar a situação de países como Portugal, dificultando a capacidade do Estado para combater o aumento da miséria que a crise económica está a causar, devido ao desemprego maciço e à falência de milhares de micro e pequenas empresas, e para apoiar a recuperação económica.

 

Uma crise cujas consequências não serão iguais para todos e que agravará ainda mais as desigualdades e a miséria no país. O regresso à normalidade económica é tão importante como a defesa da saúde pública, pois sem uma e outra não conseguiremos viver. Há que encontrar o equilíbrio entre elas

Contrariamente ao que muita comunicação social tem veiculado (até chegam a dizer que é um “vírus democrático” pois ataca da mesma forma ricos e pobres), os efeitos da crise não serão iguais para todos. Um estudo feito na Inglaterra, concluiu que o número de mortes pelo COVID 19 de africanos e indianos é três vezes superior à dos chamados caucasianos (“raça branca”).

Em Portugal, 40% das mortes verificam-se em lares onde estão principalmente os mais velhos mas também os de mais baixos recursos. Portanto, dizer que o “COVID 19” atinge de igual ricos e pobres não é verdade. E embora a crise atinja toda a economia, está a atingir de uma forma muito mais violenta os trabalhadores, os chamados independentes de recibo verde, os micro e pequenos empresários (só as microempresas representam 96% do total de empresas e empregam mais de 1,8 milhões de pessoas).

Segundo dados divulgados pelo Ministério do Trabalho, até 30/4/2020, as 99.140 empresas (80% são microempresas) já solicitaram a colocação em “layoff” de 1.212.000 trabalhadores, mas a ministra informou que só tinham sido aprovados de 360.000, que receberiam, com atraso, os 70% da sua remuneração, ignorando se os restantes 850.000 trabalhadores receberiam o seu salário de Abril. Os 360.000 a quem foi aprovado o “layoff”, a sua remuneração mensal diminuirá de 1.011€, que é a média declarada, para apenas 696€. Para os 1.212.000 trabalhadores, isto representará uma perda de remunerações estimada em 361 milhões € por mês. Para quem ganha já muito pouco, esta redução é devastadora e levará muitas famílias à miséria.

A estes trabalhadores que as entidades patronais querem colocar  em layoff, há ainda a adicionar os 182.500 trabalhadores independentes de “recibo verde” que pediram ajuda, e cujo apoio máximo é de 635€ (em Março foi de 438,81€) sendo este este valor  multiplicado pela percentagem de quebra de faturação ( se a quebra na faturação foi de 40%, o apoio é apenas de 40% daquele valor). Os independentes que estavam no 1º ano, e que por lei estavam isentos de contribuições (e são milhares) não têm direito a qualquer apoio. Segundo o Ministério do Trabalho, os despedimentos coletivos só até 30/4/2020 (num mês apenas) atingiram 26.800 trabalhadores, e as inscrições nos Centros de Emprego aumentaram em 52.000.

E isto já para não falar das dezenas de milhares de trabalhadores que perderam o emprego e que não aparecem nas estatísticas oficiais de desemprego. Segundo um inquérito feito pela Universidade Católica a uma amostra representativa do total de empregados, 4% dos trabalhadores inquiridos perderam já o emprego. Projetando esta percentagem para toda a população trabalhadora isso dá um aumento do desemprego superior a 160.000 em apenas um mês, o que devastador em termos sociais e de saúde pública, pois esta agrava-se com o aumento da miséria.

A maioria dos trabalhadores e dos microempresários (96% dos empresários) já estão no limiar da pobreza ou próxima dela. A mancha da pobreza, mesmos com os apoios que o Estado possa dar, está-se a alastrar no país de uma forma rápida. Se a economia demorar em voltar à normalidade, embora gradualmente, as consequências sociais serão devastadoras, assim como de saúde pública. Aqui o fundamentalismo é destruidor e não menos que o COVID 19. O Estado, que é financiado com os nossos impostos, não tem recursos ilimitados. Este estudo mostra que o recurso ao endividamento publico tem limites que é preciso não ignorar, sob pena de depois da crise ser ainda maior.

 É preciso ter a coragem de dizer isso aos portugueses, e é fundamental que os portugueses compreendam que está em perigo a sua sobrevivência e as suas condições mínimas de vida. Sem elas não é possível também viver nem ter saúde. Há que encontrar um equilibro entre a defesa da saúde publica e a defesa da economia pois sem uma e outra não conseguiremos viver.

É necessário que os portugueses acatem rigorosamente as recomendações das autoridades de saúde, mas também é fundamental que encarem o regresso gradual à normalidade da atividade económica como uma necessidade vital, que todos nos devemos empenhar nisso, sem a qual também não conseguiremos sobreviver durante muito tempo. Há riscos, é evidente que há riscos, mas temos de os enfrentar se quisermos ter condições para viver com um mínimo de dignidade (nós, os nossos filhos, e os nossos netos). Mantermo-nos com medo em casa não é solução até porque cerca de 30% dos infetados tem como origem o ambiente familiar, permanecer em casa não ficamos imunes e apanhamos outras doenças não menos destruidoras. É preciso não esquecer, mesmo nestes momentos difíceis, que o trabalho é a única fonte de rendimento para os trabalhadores e a realização e fonte da sua dignidade.



 

 
 
 
 
 
 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/a-pandemia-agravara-as-desigualdades-e-a-miseria/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=a-pandemia-agravara-as-desigualdades-e-a-miseria

O NEOLIBERALISMO CAVALGA O VÍRUS

 
 
Ficamos avisados: ai dos povos cujos dirigentes resolverem combater o cataclismo económico gerado pelo novo coronavírus recorrendo às bem conhecidas «ajudas» do FMI e das suas extensões troikianas.
 
José Goulão | AbrilAbril | opinião
 
A directora-geral do Fundo Monetário Internacional, Kristalina Georgieva, pronunciou uma sentença em poucas palavras que vale mais que mil imagens: «A Organização Mundial da Saúde [OMS] existe para proteger a saúde das pessoas; o FMI existe para proteger a saúde da economia mundial.»
 
Ficamos avisados: ai dos povos cujos dirigentes resolverem combater o cataclismo económico gerado pelo novo coronavírus recorrendo às bem conhecidas «ajudas» do FMI e das suas extensões troikianas para consumo interno da União Europeia!
 
Quando o Fundo Monetário Internacional fala em «proteger a saúde da economia mundial» sabemos que isso não passa de uma metáfora, porque a directora-geral de turno, que sucedeu a Christine Lagarde, entretanto transferida para a chefia do Banco Central Europeu, está realmente a pensar na acumulação dos lucros das grandes empresas e na dinâmica especulativa do casino financeiro.
 
É o saber de experiência feito, potenciado pela dimensão da hecatombe porque, para os ogres do capitalismo, os tempos de grandes crises são também os das grandes oportunidades. Era precisamente isso que o banqueiro David Rockefeller queria transmitir quando afirmava que «tudo o que precisamos é da grande crise adequada e as nações aceitarão uma nova ordem mundial».
 
Ora uma «ordem mundial» como a pretendida pela família Rockefeller só pode ser a que garanta a actuação plena do capitalismo selvagem, isto é, o estabelecimento de mecanismos firmes que mantenham o neoliberalismo cada vez mais a salvo das preocupações com as pessoas.
 
Georgieva explicou muito bem que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Da economia trata o FMI; das pessoas que cuide a OMS, seja dos efeitos do coronavírus, da fome – que mata nove milhões anualmente – do ébola, da malária e de outras pragas decorrentes do crescimento da miséria mundial que tem no FMI um dos seus principais causadores.
 
 
A «nova ordem», o «novo normal»
 
Desenganem-se, portanto, os que vêem nestes tempos de peste uma ameaça para o capitalismo. O capitalismo não se suicida, não morre de morte natural nem de uma qualquer virose.
 
Desde 2008 que se vem debatendo com uma crise teimosa que dava sinais de explodir a todo o momento quando entrou em cena o SARS-CoV-2 e mudou radicalmente as regras do jogo. A partir daqui pode diluir-se a bolha de crise na tormenta generalizada com epicentro na saúde pública enquanto se vai talhando um «novo normal» – eventualmente uma «nova ordem» rockefelleriana – do qual sejam extirpados muitos dos obstáculos sociais que ainda tolhem a implantação da plena anarquia económica.
 
Qualquer de nós tem a noção de que se vêm agudizando, há mais de uma década, as contradições entre as necessidades do neoliberalismo económico e o funcionamento das chamadas «democracias liberais»; esta situação gerou até a cunhagem do curioso termo de «iliberalismo», isto é, a crescente inclinação da ditadura económica para a ditadura política sem disfarces.
 
A ordem mundial pré-vírus caracterizava-se cada vez mais pelo antagonismo entre o globalismo neoliberal, assente na democracia formal que emana, essencialmente, das forças que fazem mover o Partido Democrático dos Estados Unidos; e o «iliberalismo» ou «populismo» ou «nacionalismo», um «moderno» fascismo puramente neoliberal do ponto de vista económico que ganhou maior influência desde que as hordas de Trump tomaram conta do Partido Republicano dos Estados Unidos.
 
As «democracias liberais» ainda determinam as políticas oficiais de Bruxelas, mas o peso das correntes «iliberais» – sem rodeios, neofascistas – faz-se sentir sobretudo no Centro e Leste da Europa, com algumas metástases latinas.
 
Não será excessivo recordar que a ditadura política é o terreno preferido da ditadura económica como expressão plena do neoliberalismo. O pujante triunfo do neoliberalismo económico nos anos 80 do século passado arrastou e transfigurou correntes políticas que ainda mantinham referências sociais e acabaram por se converter aos mecanismos ditatoriais do mercado.
 
A geminação ideológica do Partido Trabalhista britânico de Tony Blair com o Partido Conservador de Margaret Thatcher – admiradora de Pinochet – foi a transformação mais emblemática deste processo. E deixou raízes tão profundas que ainda recentemente as correntes manobradas por Blair deram um golpe interno nos trabalhistas para acabar com a gestão de inspiração social-democrata de Jeremy Corbyn.
 
As excepções como regra
 
A pandemia de coronavírus desabou sobre a crise anunciada do neoliberalismo e a agudização do combate fratricida entre as suas correntes «democrática» globalista e neofascista.
 
E mudou muita coisa, a mais essencial das quais será a criação da oportunidade para que o neoliberalismo económico tire proveito da crise desbravando ainda mais o caminho para o autoritarismo político. É o que ressalta de muitas afirmações sobre a extensão das medidas sociais de excepção por tempo indeterminado e as elucubrações a propósito daquilo a que já chamam «o novo normal», acompanhado pelo seu cortejo de restrições sociais e cívicas – com efeitos políticos – e de intrusão na privacidade dos cidadãos.
 
«A vigilância intrusiva será um pequeno preço a pagar pela liberdade básica de estar com outras pessoas», escreveu Gideon Lichfield na edição de 17/20 de Março da Technology Review do Instituto de Tecnologia do Massachusetts (MIT).
 
«Milhões que fazem brilhar de gula os olhos de credores e especuladores e que não cairão dos céus sem pesadas contrapartidas que, como acontecia nos tempos pré-Covid-19, também no «novo normal» serão sustentadas pelos mesmos de sempre e às ordens de troikas que podem até assumir outras designações para desempenharem as mesmas missões.»
 
Regressando à sentença da directora-geral do FMI não será exagerado prever que o «novo normal» na economia, tendo como objectivo a sua «saúde», irá gerar uma concentração ainda maior de riqueza em cada vez menos empresas e pessoas; o desmoronamento do sector de pequenas e médias empresas que, uma vez falidas, cairão nas bocas insaciáveis dos tubarões; a extinção de mais direitos laborais, o aprofundamento da desregulação do mercado de trabalho e uma vaga de desemprego com dimensões trágicas; novas formas de produção, como o teletrabalho, com menos direitos; cortes salariais e dos custos de trabalho nos países desenvolvidos e o maior empobrecimento ainda dos países em vias de desenvolvimento; a escalada vertiginosa das dívidas soberanas; a imposição de mais privatizações.
 
Nos Estados Unidos e na União Europeia há promessas de milhões e milhões para fazer frente às consequências da crise económica; e o FMI, como vimos, está a postos. Milhões que fazem brilhar de gula os olhos de credores e especuladores e que não cairão dos céus sem pesadas contrapartidas que, como acontecia nos tempos pré-Covid-19, também no «novo normal» serão sustentadas pelos mesmos de sempre e às ordens de troikas que podem até assumir outras designações para desempenharem as mesmas missões.
 
A aliança entre a futurologia e a prática
 
Também nunca será excessivo recordar que a deflagração de uma pandemia está, há muitos anos, nos horizontes dos futuristas neoliberais – o que é válido tanto para os globalistas como para os «iliberais». Não surpreenderá, portanto, que as entidades competentes saibam como proceder quando se trata de cuidar da «saúde da economia», quiçá para fazer dela a «grande crise adequada» de que falava David Rockefeller.
 
No traumático ano de 2008, o Centro de Análises e Perspectivas da CIA publicou um relatório sobre as «tendências globais para 2025» no qual antecipou «a emergência de uma doença respiratória altamente transmissível e para a qual não existirá contramedida adequada e que poderá desencadear uma pandemia mundial».
 
Nove anos depois, na edição de 2017 da Conferência de Segurança de Munique, o inevitável profeta Bill Gates assegurou que «uma pandemia mundial fortemente mortal acontecerá durante as nossas vidas».
 
Entre as profecias e a realidade, entretanto, vão-se detectando misteriosas coincidências. Em 2015, a revista Nature Medicine publicou um trabalho sobre «os esforços bem-sucedidos para projectar um vírus com a proteína de base SHCO14 do coronavírus dos morcegos-ferradura da China para infectar células das vias respiratórias humanas sem necessidade de um hospedeiro intermediário».
 
A manipulação foi efectuada no principal laboratório de guerra biológica nos Estados Unidos, localizado em Forte Detrick, Maryland. O ex-vice-ministro da Defesa da Alemanha, Willy Wimer, revelou nesse mesmo ano que os Estados Unidos chegaram a patentear esta descoberta.
 
Ficaram por explicar, entretanto, muitos dos aspectos e motivações que envolveram o «exercício anti-epidémico» de divulgação «reservada» designado «Crimson Contagion», organizado já em 2019 pelo Departamento norte-americano da Saúde em 12 Estados norte-americanos, como a seu tempo noticiou o New York Times.
 
Em 22 de Março de 2020, o New York Times escreveu o seguinte: «Washington – O surto do vírus respiratório começou na China e rapidamente se espalhou pelo mundo através de passageiros aéreos com febres elevadas. Nos Estados Unidos, foi detectado pela primeira vez em Chicago e 47 dias depois a Organização Mundial da Saúde declarou uma pandemia. Mas então já era tarde demais: 110 milhões de americanos iriam ficar doentes, com 7,7 milhões de hospitalizados e 586 mil mortos. Esse cenário, com o nome de código de "Crimson Contagion" e imaginando uma pandemia de gripe, foi simulado pelo Departamento de Saúde e Serviços Humanitários do governo Trump numa série de exercícios que ocorreram de Janeiro a Agosto» (de 2019).
 
Todos estes factos nos conduzem à certeza de que em termos económicos – a saúde é um caso à parte – o sistema capitalista neoliberal não foi apanhado de surpresa perante as circunstâncias em desenvolvimento, pelo que muitas das medidas que correm mundo não terão sido preparadas sobre o joelho.
 
Até os métodos principais de enfrentamento da pandemia – confinamento com distanciamento social e «imunização colectiva» com «trabalho não pára» – traduzem, grosso modo, as linhas de fractura entre globalismo e «iliberalismo».
 
Um sinal de que, entretanto, os barões neoliberais não foram apanhados desprevenidos é revelado pelo Instituto de Estados Políticos dos Estados Unidos: em 23 dias da fase inicial do surto, as elites ricas dos Estados Unidos extraíram proveitos de 282 mil milhões de dólares – um bom bocado mais do que o PIB anual português.
 
As missões dos cidadãos
 
Não sabemos se esta é a «grande crise adequada» de que falou o banqueiro David Rockfeller. Que é uma crise longa parece não haver dúvidas, basta ouvir a frequência com que nos vão preparando para «a segunda vaga» ou «a terceira» ou mesmo «a quarta».
 
A revista Science acaba de publicar um artigo produzido pela Universidade de Harvard segundo o qual o confinamento social deverá prolongar-se até 2022, por insuficiência de imunização; e a pandemia assumirá a forma de uma gripe pandémica circulando sazonalmente após a grande vaga inicial.
 
Já percebemos, porém, o caminho que as coisas estão a tomar nos domínios do condicionalismo dos comportamentos, dos ataques à privacidade e das restrições às liberdades.
 
Não há alternativa, dizem-nos. Há um preço a pagar – são sempre os mesmos a arcar com os custos mais elevados e não existe nenhuma garantia de que agora seja diferente.
 
Nada impede, porém, os cidadãos de redobrarem a vigilância sobre as crescentes tendências autoritárias, sobre a normalização do excepcionalismo nas suas várias designações técnicas.
 
O capitalismo não será vítima do vírus; pelo contrário, está preparado para tirar proveito dele enquanto as pessoas continuam a morrer. Por outro lado, o neoliberalismo debate-se numa espécie de «guerra civil» entre as suas facções – ainda que ambas convirjam cada vez mais no sentido da imposição do autoritarismo.
 
Existe, neste quadro, um imenso espaço para a acção e a mobilização anticapitalista. É missão reforçada dos cidadãos estarem atentos a cada direito social, cívico e humano que tentem por entre parêntesis, a cada passo contra a privacidade, a cada prolongamento do excepcionalismo primeiro porque tem de ser e depois porque tem sido assim.
 
Há que denunciar cada investida deste tipo, mesmo quando embrulhada nas melhores intenções, cada golpe nos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos. O direito à luta não prescreve, a vigilância democrática tem de ser à prova de vírus, o distanciamento social não pode capturar o direito à mobilização cidadã como refém.
 
O neoliberalismo quer tirar partido de um vírus que há muito guardava na cartola? Então há que inverter-lhe o jogo, por muito que as forças sejam desiguais.
 
Exclusivo O Lado Oculto / AbrilAbril

Sobre o que podemos esperar

A crise económica e social (possivelmente também financeira) que a pandemia do Covid-19 está a produzir leva muita gente a colocar a seguinte questão: como financiar tudo o que é preciso para evitar a fome, a falência de milhares de empresas, o desemprego de massa e, num segundo momento, também investir para recuperar a economia e a sociedade, no quadro de uma estratégia de desenvolvimento verde?

O país não tem moeda própria, não tem um banco central para financiar directamente o Estado sem criar dívida. Contudo, é assim que as coisas estão a funcionar nos EUA, no RU, no Japão... porque têm soberania monetária. Dentro da união monetária que é o Euro, Portugal tem uma moeda que não controla, e tem de aceitar o que os países da ortodoxia financeira - com a Alemanha a liderar - entenderem o que é bom para a UE, quer dizer, o que é bom para eles.

O que quer que venham a decidir no próximo Conselho Europeu será pouco (a garantia do Orçamento da UE para obter empréstimos nos mercados é muito pequena) e implicará um aumento significativo da dívida pública dos Estados da periferia na hora de lhes entregar o dinheiro (algum fundo perdido também será atribuído, mas será certamente em pequena escala e sob condições).

O que vai fazer a UE quando, daqui a dois anos, a nossa dívida pública estiver bem acima do que já esteve no pico da anterior crise? Como é que a UE vai enquadrar esta situação no Tratado Orçamental? Vai manter o Tratado suspenso e tolerar uma política orçamental expansionista que faça reduzir a % da dívida através de um crescimento do PIB pela dinamização da procura interna (o contrário do que até agora obrigou a fazer)?

Quando retomar a aplicação das regras do Tratado (limites de défice e dívida), voltaremos às cativações orçamentais para reduzir aceleradamente a dívida (vulgo 'austeridade fofinha', em vigor desde que Centeno passou a presidente do Eurogrupo) para tranquilizar os mercados financeiros, degradando o Estado social e a vida da maioria da população? Continuará a aplicar uma teoria económica comprovadamente errada?

É o futuro das gerações mais jovens, é o futuro do nosso país, que se vai decidir nos próximos tempos. E as alternativas são estas:

(1) mudar alguma coisa na UE para que o essencial fique na mesma => austeridade 'fofinha' com grave sub-financiamento do Estado social (no nosso caso sem a ajuda das bolhas do turismo e do imobiliário que rebentaram com a pandemia), continuado empobrecimento do país, emigração dos que ainda têm condições para arriscar em países que ainda possam acolher;

(2) pôr em causa a união monetária entregando o poder aum governo de libertação nacional - sustentado na AR por uma frente política ampla - que, dentro do espartilho do euro, explore todas as margens de manobra possíveis em nome de uma estratégia de desenvolvimento para Portugal, e também em nome de uma Europa de paz e cooperação entre Estados soberanos.

Um governo bem ciente de que só quando nos libertarmos de uma moeda demasiado cara para a débil economia do país, e recuperarmos o banco central e as políticas orçamental, industrial e comercial (assumindo um proteccionismo inteligente) haverá condições mínimas e necessárias para o lançamento de uma estratégia de desenvolvimento.

Ou seja, precisamos de um governo que assuma o comportamento de "mau aluno" perante os professores de Bruxelas, enquanto esperamos que um país fundador da UE ponha em cima da mesa a dissolução organizada da UEM. Precisamos de um governo que prepare o país para um tempo pós-euro de recuperação de duas crises numa década, desejavelmente através de um divórcio amigável.

 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Cicatrizes. Por Michael Roberts

CRISE DO COVID 19 E A INCAPACIDADE DAS SOCIEDADES NEOLIBERAIS EM LHE DAREM RESPOSTA – XXXVII – CONDICIONAMENTO SOCIAL, por MICHAEL ROBERTS

 

Lockdown!, por Michael Roberts

Michael Roberts blog, 24 de Março de 2020

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

De acordo com estimativas da AFP, cerca de 1,7 mil milhões de pessoas em todo o mundo vivem agora sob alguma forma de  isolamento  como resultado do coronavírus. Isso é quase um quarto da população mundial.  A economia mundial nunca  viu nada  de parecido com isto.

Quase todas as previsões económicas para o PIB global em 2020 apontam  para uma contração de 1-3%, tão ruim se não pior do que na Grande Recessão de 2008-9.  E as previsões para as principais economias para este trimestre que termina esta semana e para o próximo trimestre estão a chegar  com uma queda anualizada de qualquer coisa entre 20-50%! Os indicadores de atividade económica (chamados PMIs), que são inquéritos de  de opinião das empresas sobre o que elas estão  a fazer, estão a registar  mínimos históricos de contração para março.

US composite PMI to March 2020

 

Tudo isto se deve ao encerramento de empresas a nível global e ao isolamento dos trabalhadores nas suas casas. Será que estes isolamentos sociais poderiam ser ter sido evitados para que este drástico “choque de oferta ” não fosse necessário para lidar com a pandemia?  Eu acho que provavelmente poderia.  Se os governos tivessem agido imediatamente com as medidas certas quando a COVID-19 apareceu pela primeira vez, os estes  isolamentos sociais  poderiam ter sido evitados.

Quais foram estas medidas certas?  O que sabemos agora é que todas as pessoas com mais de 70 anos de idade e/ou com condições médicas deveriam ter entrado no auto-isolamento.  Deveria ter havido testes em massa de todas as pessoas regularmente e qualquer pessoa infetada deveria ter ficado em quarentena por  um período de duas semanas.  Se isto tivesse sido feito desde o início, então teria havido menos mortes, hospitalizações e uma morte mais rápida do vírus.  Por isso, os bloqueios poderiam provavelmente ter sido evitados.

Mas testes e isolamento não foram feitos desde o início na China.  No início houve negação e encobrimento do risco do vírus.  Quando as autoridades chinesas agiram corretamente com os testes e o isolamento, Wuhan foi sujeita a forte controlo sanitário e o isolamento foi instalado.

Pelo menos os chineses tinham a desculpa de que este era um novo vírus desconhecido para os humanos e que o seu nível de infeção, propagação e mortalidade não era conhecido antes. Mas não há desculpa para os governos nas principais economias capitalistas. Eles tiveram tempo para se preparar e agir.  A Itália deixou isso para mais tarde e passou a aplicar os testes e o isolamento demasiado tarde de modo que passaram a aplicar o isolamento  quando o vírus já estava bem instalado.  O sistema de saúde deles agora está sobrecarregado e dificilmente pode lidar com isso.

Alguns países adotaram testes em massa e um isolamento eficaz.  A Coreia do Sul fez ambos; e o Japão, onde 90% da população usava máscaras e luvas e se lavava frequentemente, parece ter refreado o impacto da pandemia através de um auto-isolamento eficaz sem ter de impor um condicionamento.

Da mesma forma, numa pequena aldeia italiana a viver em  pandemia, Vo Euganeo, que na verdade teve a primeira morte do vírus na Itália, eles testaram todos os 3000 residentes e colocaram em quarentena os 3% afetados, mesmo que a maioria não tivesse sintomas.  Através do isolamento e da quarentena, o isolamento teve aí  apenas  a duração de duas semanas[1].

No outro extremo, o Reino Unido e os EUA demoraram muito tempo para acelerar os testes (que ainda são inadequados) e a colocar os vulneráveis em autoisolamento.  Nos EUA, o governo federal ainda não está a optar pelo condicionamento social em todo o país.

 

Porque é que os governos do G7 e outros falharam em agir?  Como Mike Davis explica, a primeira e principal razão era que os sistemas de saúde das grandes economias não estavam em posição de agir.  Nos últimos 30 anos, os sistemas de saúde pública na Europa foram dizimados e privatizados. Nos EUA, o sector privado dominante cortou os serviços para aumentar os lucros.  De acordo com a Associação Hospitalar Americana, o número de camas hospitalares internadas diminuiu extraordinariamente 39% entre 1981 e 1999. O objetivo era aumentar os lucros através do aumento do “censo” (o número de camas ocupadas). Mas a meta da gestão  de 90% de ocupação significava que os hospitais não tinham mais capacidade de absorver o fluxo de pacientes durante epidemias e emergências médicas.

Como resultado, há apenas 45.000 leitos de unidades de cuidados intensivos UTI disponíveis para lidar com a  vaga projetada de casos graves e críticos de coronavirus. (Em comparação, os sul-coreanos têm mais de três vezes mais leitos disponíveis por mil pessoas do que os americanos). Segundo uma investigação do USA Today “apenas oito estados teriam camas hospitalares suficientes para tratar o 1 milhão de americanos com mais de 60 anos que poderiam ficar doentes com a COVID-19”.

Os departamentos de saúde locais e estaduais têm hoje 25% menos pessoal do que tinham antes de Segunda-feira negra  de há 12 anos atrás. Além disso, na última década, o orçamento do CDC ( Center for Disease Control and Prevention ) diminuiu  10% em termos reais. Sob Trump, as carências fiscais só foram exacerbadas. O New York Times informou recentemente que “21% dos departamentos locais de saúde relataram reduções nos orçamentos para o ano fiscal de 2017”. Trump também fechou o gabinete da Casa Branca contra a pandemia, uma direção criada por Obama após o surto de Ébola de 2014 para assegurar uma resposta nacional rápida e bem coordenada às novas epidemias.

A indústria de lares de idosos com fins lucrativos, que cuida (armazena)  1,5 milhões de idosos americanos, é altamente competitiva e baseia-se em baixos salários, falta de pessoal e cortes ilegais de custos. Dezenas de milhares morrem todos os anos devido à negligência das instituições de cuidados de longo prazo em relação aos procedimentos básicos de controle de infeções e ao fracasso dos governos em responsabilizar a gerência pelo que só pode ser descrito como homicídio involuntário deliberado. Muitas destas casas acham mais barato pagar multas por violações sanitárias do que contratar pessoal adicional e dar-lhes formação adequada.

O Life Care Center, um lar de idosos no subúrbio de Seattle, em Kirkland, é “um dos piores do estado” e todo o sistema de lares de idosos do estado de Washington “o mais subfinanciado do país – um oásis absurdo de sofrimento austero num mar de dinheiro da tecnologia“. (sindicato dos trabalhadores).  As autoridades de saúde pública ignoraram o fator crucial que explica a rápida transmissão da doença do Life Care Center para outros nove lares próximos: “Trabalhadores de lares de idosos no mercado de prestação de cuidados mais caro da América trabalham universalmente em vários empregos, normalmente em vários lares de idosos.” As autoridades não conseguiram descobrir os nomes e a localização desses segundos empregos e, assim, perderam todo o controle sobre a disseminação da COVID-19.

Depois há a grande indústria farmacêutica, dita Big Pharma.  A BIG Pharma  faz pouca pesquisa e desenvolvimento de novos antibióticos e antivirais. Das 18 maiores empresas farmacêuticas dos EUA, 15 abandonaram totalmente o campo. Medicamentos para o coração, tranquilizantes viciantes e tratamentos para a impotência masculina são líderes de lucros, não as defesas contra infeções hospitalares, doenças emergentes e para as doenças infeciosas tropicais, tradicionais assassinos tropicais. Uma vacina universal contra a gripe – isto é, uma vacina que visa as partes imutáveis das proteínas de superfície do vírus – tem sido uma possibilidade durante décadas, mas nunca considerada lucrativa o suficiente para ser uma prioridade.

Pessoalmente, tenho argumentado  em textos  anteriores [2]que a COVID-19 não era uma doença surgida repentinamente e do nada.  Tais pandemias foram previstas com bastante antecedência pelos epidemiologistas, mas nada foi feito porque isso custa dinheiro.  Agora vai custar muito mais.

A queda global está aqui.  Mas por quanto tempo e quão profunda vai ser?  A maioria das previsões fala de uma queda curta e acentuada, seguida de uma rápida recuperação.  Isso vai acontecer?  Depende da rapidez com que a pandemia possa ser controlada e desaparecer – pelo menos para este ano.  A 8 de Abril, o encerramento em Wuhan será levantado, uma vez que não há novos casos.  Assim, a partir do surgimento do vírus que aí apareceu  em Janeiro, serão cerca de três meses, com um encerramento de mais de dois meses.  Também parece que o pico da pandemia pode ter sido atingido na Itália, que está em total isolamento há apenas duas semanas.  Assim, talvez dentro de mais um mês ou dois, a Itália seja libertada.  Mas outros países como o Reino Unido estão apenas a entrar numa fase de confinamento, com outros ainda a enfrentar um crescimento exponencial em casos que podem exigir confinamentos.

Portanto, parece que o fim do choque da oferta  global é improvável antes de junho, provavelmente muito mais tarde.  É claro que o colapso da produção pode ser revertido mais cedo se os governos decidirem não terem confinamentos ou acabar com eles mais cedo.  A administração Trump já está a sugerir   o levantamento de qualquer bloqueio nos próximos 15 dias “para pôr a economia a funcionar” (à custa de mais mortes, etc.); mas muitos governadores de estado podem não concordar com isso.

Mesmo que as economias se recuperem no segundo semestre de 2020 com o fim dos condicionamentos sociais, ainda haverá uma queda global.  E é uma esperança vã de que a recuperação seja rápida e firme  no segundo semestre deste ano.  Há duas razões para duvidar disso. Primeiro, a economia global já estava a entrar em recessão antes do impacto da pandemia.  O Japão estava em recessão; a zona euro estava perto disso e até mesmo o crescimento dos EUA havia desacelerado para menos de 2% ao ano.

E muitas grandes economias ditas emergentes como o México, Argentina e África do Sul já se estavam a contrair. Na verdade, o capital estava a deslocar-se  do sul global para o norte, um processo que agora se acelerou com a pandemia para níveis recordes.  Com o colapso dos preços da energia e dos metais industriais, muitas economias emergentes baseadas em commodities (Brasil, Rússia, Arábia Saudita, Indonésia, Equador, etc.) enfrentam uma enorme queda nas receitas de exportação.  E desta vez, ao contrário de 2008, a China não voltará rapidamente aos seus antigos níveis de investimento, produção e comércio (especialmente porque as tarifas da guerra comercial com os EUA continuam em vigor).  Durante todo o ano, o crescimento real do PIB da China poderá ser de 2%, em comparação com mais de 6% no ano passado.

Em segundo lugar, os mercados de ações estão a recuperar devido às recentes injeções de crédito do Fed e às enormes medidas orçamentais  esperadas pelo Congresso dos EUA.  Mas esta queda não será evitada pela grandeza do banco central ou pelos pacotes orçamentais  que estão a ser  planeados. Uma vez que uma queda se inicia, os rendimentos caem e o desemprego aumenta rapidamente. Isso tem um efeito cascata ou multiplicador através da economia, particularmente para as empresas não financeiras do setor capitalista.  Isto levará a uma sequência de falências e encerramentos.

E os balanços das empresas são perigosamente frágeis. Em todas as grandes economias, as preocupações têm vindo a aumentar com o aumento da dívida empresarial. Nos Estados Unidos, num contexto de acesso a dinheiro barato durante décadas, as empresas não financeiras viram os seus encargos de dívida passarem a mais do dobro, de 3,2 milhões de milhões de dólares em 2007 para 6,6 mil milhões de dólares em 2019.

Um artigo recente de Joseph Baines e Sandy Brian Hager revela tudo.   Durante décadas, o setor capitalista passou de  investir em ativos produtivos para passar a investir  em ativos financeiros – ou “capital fictício”, como Marx o chamou. A recompra de ações e o pagamento de dividendos aos acionistas tem estado na ordem do dia, em vez de reinvestir lucros em novas tecnologias para aumentar a produtividade do trabalho. Isto aplica-se particularmente às grandes empresas americanas.

Como um espelho, as grandes empresas reduziram as despesas de capital como partilha  das receitas desde os anos 80.  Curiosamente, as empresas mais pequenas dedicaram-se menos à “engenharia financeira” e continuaram a aumentar os seus investimentos.  Mas lembremo-nos  de que a maior parte do investimento vem das grandes empresas.

A vasta faixa de pequenas empresas americanas está em apuros.  Para elas, as margens de lucro têm vindo a cair.  Como resultado, a rentabilidade global do capital dos EUA tem caído, particularmente desde o final dos anos 90.  Baines e Hager argumentam que “a dinâmica do capitalismo acionista empurrou as empresas dos escalões inferiores da hierarquia empresarial norte-americana para um estado de aflição financeira”.  Como resultado, a dívida empresarial  aumentou, não só em termos absolutos, mas também em relação às receitas, especialmente para as empresas de menor porte.

Tudo foi mantido unido porque os juros da dívida corporativa caíram significativamente, mantendo-se, por isso mesmo,  os custos do serviço da dívida baixos.  Mesmo assim, as empresas menores estão a pagar   juros a um nível muito mais alto do que as grandes empresas. Desde os anos 90, os custos do serviço da dívida têm sido mais ou menos estáveis, mas são quase duas vezes mais elevados do que o custo do grupo das 10% das   empresas americanas mais importantes.

Mas os dias de crédito barato podem ter acabado, apesar da tentativa desesperada do Fed de manter baixos os custos dos empréstimos.  Os rendimentos da dívida empresarial  dispararam durante esta crise pandémica.  Uma onda de incumprimentos da dívida está agora na agenda.  Isso poderia “enviar ondas de choque através dos mercados financeiros já agitados, fornecendo um catalisador para um caos financeiro muito mais amplo”.

Mesmo que os condicionamentos sociais durem apenas alguns meses até ao verão, durante esse  período de contração poderemos ver centenas de pequenas empresas afundarem-se  e até mesmo alguns peixes grandes também.  A ideia de que as grandes economias podem ter uma recuperação em forma de V parece muito menos provável do que uma em forma de L.

24 de Mar;o de 2020

Michael Roberts, Lockdown!. Texto disponível em: https://thenextrecession.wordpress.com/

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[1] Nota de tradutor. Veja-se: https://www.livescience.com/small-italian-town-cuts-coronavirus-cases-testing.html
[2] O texto subjacente, Foi o vírus que fez  isto, foi anteriormente publicado nesta série de textos dedicada ao Covid 19. Clique em;

https://aviagemdosargonautas.net/2020/04/06/a-crise-do-covid-19-e-a-incapacidade-das-sociedades-neoliberais-em-lhe-darem-resposta-xvii-foi-o-virus-que-fez-isto-por-michael-roberts/

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/05/02/crise-do-covid-19-e-a-incapacidade-das-sociedades-neoliberais-em-lhe-darem-resposta-xxxvii-condicionamento-social-por-michael-roberts/

A Europa impotente face à perspetiva de uma tragédia global ? – Texto 35. Temos de concentrar a nossa atenção nos nossos próximos passos. Por Martin Wolf

 

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Martin Wolf mai2020 

Por Martin Wolf

Publicado por FTimes em 07/04/2020 (“We must focus attention on our next steps”, ver aqui)

Texto 35. Temos de concentrar a nossa atenção nos nossos próximos passos 1

© James Ferguson

 

Os confinamentos são necessários para controlar a doença – mas devem ser breves

 

Uma viagem de mil milhas começa com um único passo. A viagem através desta pandemia vai ser longa e difícil. Não podemos saber onde vai acabar, embora seja difícil não especular.

O que temos de fazer é concentrarmo-nos nos passos que temos pela frente, se quisermos evitar sair do nosso estreito caminho e depararmos, depois, ou com mortes em massa de um lado, ou com uma enorme devastação económica do outro. Se não evitarmos cair numa qualquer destas duas calamidades num futuro próximo, arriscamo-nos ao caos que se avizinha.

Mesmo que o consigamos fazer, não voltaremos à normalidade que tínhamos tido como um dado garantido até recentemente. Para isso, temos pelo menos de esperar por uma cura ou uma vacina. Os danos económicos e sociais vão permanecer ainda por mais tempo.

A análise da OCDE esclarece-nos sobre as perturbações económicas que se avizinham. Não se trata de uma recessão ou mesmo de uma depressão vulgar, causada por um colapso da procura. A atividade económica está a ser interrompida, em parte porque as pessoas receiam o contacto e em parte porque os governos lhes disseram para ficarem em casa. O impacto imediato destas ações poderá ser uma redução do produto interno bruto no grupo dos sete principais países de elevado rendimento, entre 20 e 30 por cento. Cada mês, quando grandes partes das nossas economias permanecem fechadas, o crescimento anual pode cair 2 pontos percentuais.

Texto 35. Temos de concentrar a nossa atenção nos nossos próximos passos 2

Além disso, os custos são repartidos de forma desigual. Os trabalhadores não qualificados são os que mais sofrem com a perda de empregos. As pessoas e as empresas capazes de trabalhar em teletrabalho, continuam a trabalhar. As que não o podem fazer, não o fazem.

Os custos também não são equitativamente partilhados a nível global. Muitos países emergentes e em desenvolvimento estão a ser atingidos pelo colapso da procura externa, pela queda dos preços das matérias-primas e por uma fuga de capitais sem precedentes, enquanto têm de gerir a pandemia com sistemas de saúde altamente inadequados.

Os confinamentos são especialmente brutais em países com Estados-Providência limitados ou inexistentes e com um grande número de pessoas que subsistem com os seus rendimentos diários de uma economia informal frágil.

Texto 35. Temos de concentrar a nossa atenção nos nossos próximos passos 3

É correto perguntar se essa carnificina económica pode ser justificada. Entre os países de elevado rendimento, a Suécia tem adotado a abordagem menos restritiva. Uma comparação com a Noruega torna claro o compromisso: o desemprego também aumentou na Suécia, mas muito menos do que no seu vizinho; no entanto, o número de mortes é também mais elevado na Suécia. Deveríamos estar gratos pela experiência sueca. Podemos aprender com ela, de uma forma ou de outra.

No entanto, a minha opinião, em consonância com a dos especialistas em saúde e dos principais economistas, é que os confinamentos  são necessários para salvar os sistemas de saúde do colapso e para controlar a doença. Mas têm de ser breves. É impossível manter as pessoas presas indefinidamente, sem grandes sofrimentos pessoais e prejuízos sociais e económicos. Isto é particularmente verdade quando os governos são incapazes de oferecer as dispendiosas medidas de proteção social viáveis nos países de elevado rendimento.

Texto 35. Temos de concentrar a nossa atenção nos nossos próximos passos 4

O confinamento deve ser um curto espaço de manobra antes de passarmos ao que um grupo de peritos alemães chama uma “estratégia adaptada ao risco”. Durante os confinamentos , os governos devem fazer o que for necessário para evitar ter de recorrer de novo a intervenções tão pesadas. Não têm muito tempo para o fazer: alguns meses, não mais. Caso contrário, podem não ter outra alternativa senão imitar a Suécia.

Fazer com que os confinamentos valham a pena, para nos permitir viver sem eles, é o primeiro passo essencial. O segundo passo é minimizar os prejuízos económicos. Aqui, a tónica deve ser colocada no hoje e não no elevado endividamento público e noutros encargos do futuro. O mal é suficiente para o dia de hoje. Tal como na guerra, é preciso sobreviver ao presente para que haja um futuro que valha a pena ter.

Texto 35. Temos de concentrar a nossa atenção nos nossos próximos passos 5

Ao considerar o que deve ser feito para gerir o devastador impacto económico, para além de reabrir as economias tão rapidamente quanto é razoavelmente seguro fazê-lo, há três considerações essenciais.

Em primeiro lugar, proteger os mais fracos, tanto no interior dos países como entre eles. Uma doença ameaça a todos. A forma como se reage é uma medida dos nossos padrões éticos. É essencial garantir a segurança económica básica para todos se não puderem trabalhar.

Um rendimento básico universal temporário é uma opção óbvia. Do mesmo modo e de forma crucial, há que encontrar formas de apoiar economias vulneráveis.

Há muitas possibilidades radicais. Uma delas é uma nova e enorme emissão dos Direitos de Saque Especiais do FMI, com a doação pelos países de elevado rendimento da sua quota-parte para um fundo em benefício dos países em desenvolvimento mais vulneráveis. Também será crucial uma paragem nos pagamentos do serviço da dívida durante toda a crise.

Texto 35. Temos de concentrar a nossa atenção nos nossos próximos passos 6

Em segundo lugar, não causar danos. A ferida mais profunda resultaria da destruição total do sistema de comércio internacional. Isso tornaria muito mais difícil restabelecer a prosperidade global depois da crise ter terminado.

Em terceiro lugar, abandonar as ideias já desacreditadas. Os governos já abandonaram as velhas regras orçamentais, e com razão. Os bancos centrais também têm de fazer o que for preciso.

Isto significa o financiamento monetário dos governos. Os bancos centrais fingem que o que estão a fazer é reversível e por isso mesmo não é financiamento monetário. Se isso os ajudar a agir, tudo bem, mesmo que provavelmente não seja verdade. Na zona euro, eles falam muito de euro-obrigações, também chamadas eurobonds.

Mas o apoio que importa terá de vir do Banco Central Europeu. Não há alternativa. Ninguém se deve preocupar com isso. Há formas de gerir as consequências. Mesmo o “dinheiro de helicóptero” pode muito bem ser plenamente justificável numa crise tão profunda.

Texto 35. Temos de concentrar a nossa atenção nos nossos próximos passos 7

Surgem escolhas mais dolorosas do que estas. Uma emergência como esta será utilizada pelos aspirantes a tiranos para reforçar o seu domínio. Ao mesmo tempo, algumas liberdades devem ser abandonadas, temporariamente.

A gestão de compromissos tão dolorosos depende de elevados níveis de confiança e fiabilidade, características pouco salientes das democracias de hoje. Mas o teste é agora.

Os governos que não conseguirem enfrentar estes desafios correm o risco de entrar em colapso. Os sistemas políticos que produzem tais governos correm o risco de perder a sua legitimidade.

Temos de dar estes  próximos passos de forma correta. Tudo depende de os darmos assim ou não.

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O autor:Martin Wolf (1946-) é um jornalista britânico que se concentra na economia. É o editor associado e comentarista-chefe de economia do Financial Times. Bibliografia: The Shifts and the Shocks: What We’ve Learned—and Have Still to Learn—from the Financial Crisis (Penguin Press 2014), Fixing Global Finance (The Johns Hopkins University Press 2008), Why Globalization Works (Yale University Press 2004), The Resistible Appeal of Fortress Europe (AEI Press 1994).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/05/02/a-europa-impotente-face-a-perspetiva-de-uma-tragedia-global-texto-35-temos-de-concentrar-a-nossa-atencao-nos-nossos-proximos-passos-por-martin-wolf/

CRISE DO COVID 19 E A INCAPACIDADE DAS SOCIEDADES NEOLIBERAIS EM LHE DAREM RESPOSTA – XXXVI – CORONAVÍRUS REVELA A EXTREMA FRAGILIDADE DA GLOBALIZAÇÃO NEOLIBERAL, por JEAN GADREY

 

 

Le coronavirus révèle l’extrême fragilité de la mondialisation néolibérale, por Jean Gadrey

Reporterre. le quotidien d’écologie, 13 de Março de 2020

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

 

Um colapso financeiro devido ao coronavírus é altamente provável. Em vez de se regozijar com uma recessão global imposta com efeitos humanos devastadores, “a crise atual pode estar a  agir como um alerta para as fragilidades extremas da globalização e contribuir para sua condenação”, escreve o autor desta op-ed.

Jean Gadrey, economista e professor honorário da Universidade de Lille I, é o autor de Adieu à la croissance – bien vivre dans un monde solidaire (Les Petits matins, 2015).

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De acordo com os principais editorialistas económicos, o grande perigo da potencial propagação global do coronavírus não é de natureza sanitária, como pensam as pessoas comuns que não foram formadas  ou estão distorcidas pela economia. Os doentes, os mortos aos milhares, certamente é uma grande infelicidade. Mas uma outra infelicidade não menos importante: o crescimento global é terrivelmente afetado, mesmo infetado. A economia está a tossir e o fenómeno também está a tornar-se, também este,  viral.

Primeiro, o crescimento chinês está a cair a pique. Algumas pessoas já tremem sobre uma próxima recessão (Le Monde de 4 de março de 2020) no Reino do Meio, que se tornou o símbolo do hipercrescimento: o crescimento da economia chinesa entre 1983 e 2013 foi de 10,2% por ano em média, o que deixa muito para trás os nossos modestos “Trinta Gloriosos”. É verdade que a China  tem estado a perder fôlego  nos últimos dez anos, com “apenas” 8,1% em média entre 2008 e 2018, um pequeno 6,6% em 2018 e 6,1% em 2019.

O vírus da recessão global está agora a ameaçar todos os chamados países industrializados, e depois provavelmente outros, com uma infeção que não pode ser detida lavando as mãos. Porquê estes países primeiros? Porque este “recessovírus” se espalha principalmente por via aérea e marítima (para bens e pessoas), e por meios eletrónicos (para a esfera financeira) entre áreas industriais, comerciais, financeiras e turísticas “desenvolvidas”.

 

Les Echos, no dia 10 de março de  2020.

 

Um mundo de capitalismo financeiro onde os bancos sistémicos e os fundos de investimento e de pensões dominam desde que isso lhes dê rendimentos  (e exigem  dinheiro público para resgatá-los se for necessário ), onde as bolsas de valores dominam a economia, onde as multinacionais têm jogado o jogo da concorrência contra  países que, sob sua influência, se envolvem em dumping social, ecológico e fiscal. Um mundo e países onde a desregulamentação se tornou a regra, seja nas finanças, nos chamados acordos de livre comércio e de livre investimento que dão cada vez mais poder às multinacionais, inclusive para estabelecer as regras do jogo contra os Estados.

Neste contexto, o da globalização financeira neoliberal, o coronavírus desempenha o papel de um simples fósforo capaz de incendiar um edifício inteiro, porque é construído com materiais altamente inflamáveis, porque os tubos de gás são perfurados, porque não há alarmes ou serviços de incêndio. Muitos outros jogos podem e ainda podem levar a uma possível recessão devido a um crash do mercado de ações [1].

 Para os opositores ao crescimento, incluindo eu próprio, é tentador ver na crise atual um argumento forte: as emissões globais de gases com efeito de estufa e toda a restante poluição estão a diminuir drasticamente em resultado deste acentuado declínio do crescimento global. Então, viva o vírus que “produziu” esta demonstração na vida real?

Um cenário de recessão global nas atuais estruturas económicas e sociais não é de todo desejável do ponto de vista humano e social.

No entanto, não é aconselhável tomar esta rota. Em primeiro lugar, nada diz por enquanto que o abrandamento do crescimento irá durar mais do que alguns meses, mesmo que a probabilidade de um colapso financeiro seja elevada. Em segundo lugar, um cenário de recessão global nas atuais estruturas económicas e sociais não é de todo desejável do ponto de vista humano e social – provocaria ainda mais exclusão, desemprego e angústia e certamente não um despertar ecológico – quer do ponto de vista  da  pandemia global que afetaria então sobretudo  as populações mais frágeis. Então, associar nas nossas mentes os benefícios da sobriedade escolhida e um vírus mortal em torno do qual os grandes media  jogam a “se for mais ansioso  do que eu você morre” não é a melhor maneira de convencer. Por último, mas não menos importante, seria confundir o fósforo  com o sistema inflamável do liberal-crescentismo financeiro. Passar diretamente do vírus para o crescimento ou declínio é um erro. Temos de questionar este sistema e a sua extrema fragilidade face a choques que regressarão regularmente. O coronavírus não é um bom aliado dos objetores de crescimento se eles fizerem dele uma utilização simplista.

Por  outras palavras, um coronavírus teria um impacto muito limitado na economia num  mundo onde as finanças estariam sob controle público, onde o dinheiro seria um bem comum, onde a maioria das produções essenciais (incluindo energia) seria realocado, onde a sobriedade material e energética suplantaria o consumismo e onde terminaria o domínio económico e político das multinacionais.

Por outro lado, a crise atual pode atuar como um revelador das fraquezas extremas da globalização do crescimento liberal e contribuir para a sua condenação. Outras crises anteriores não foram suficientes para se conseguir peso suficiente para a acusar. Não é certo que tenhamos sucesso desta vez, mas devemos tentar.

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[1Voir ce billet publié sur le blog de Jean Gadrey.

Ler também:Coronavirus, pas de panique !


Lire aussi : Coronavirus, pas de panique !

 

Fonte: Jean Gadrey, sitio Reporterre, Le coronavirus révèle l’extrême fragilité de la mondialisation néolibérale. Texto disponíel em:

https://reporterre.net/Le-coronavirus-revele-l-extreme-fragilite-de-la-mondialisation-neoliberale

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/05/01/crise-do-covid-19-e-a-incapacidade-das-sociedades-neoliberais-em-lhe-darem-resposta-xxxvi-coronavirus-revela-a-extrema-fragilidade-da-globalizacao-neoliberal-por-jean-gadrey/

Não, senhor ministro, nem toda a dívida é imposto futuro

(Francisco Louçã, in Expresso Diário, 28/04/2020)

A afirmação do ministro da Economia é taxativa e foi repetida, tanto por ele próprio como pelo primeiro-ministro, anunciando-se como uma espécie de doutrina do Governo: “despesas do Estado hoje são impostos amanhã.” Ao mesmo tempo, o Governo tem reafirmado que a austeridade foi uma má solução e que é impensável repetir o erro. As duas declarações são simplesmente contraditórias.

 

Como o Estado está a aumentar a despesa para responder à pandemia, nos termos da primeira frase o ministro anunciaria um aumento dos impostos para amanhã, e isso seria austeridade, a tal alternativa indesejável nos termos da segunda frase. Ou seja, esta doutrina sugere que ou temos despesa a mais agora e então era melhor cortá-la, ou que, sendo necessária, teremos de a pagar com mais impostos que nos penalizarão no futuro, o que tornaria incongruente a afirmação de que a austeridade vai ser evitada.

Portanto, ou se trata de uma contradição, dado que a não-austeridade e a austeridade não podem ocorrer ao mesmo tempo no mesmo país, ou se trataria de um subterfúgio, revelando e logo ocultando o que o Governo daria por certo, os “impostos amanhã”. Partindo do princípio de que não se trata uma sequência de matreirices e que o Governo, sabendo o custo social e eleitoral da austeridade, queira evitar o caminho da punição da economia e da vida social, vale a pena discutir o paradoxo do ministro Siza Vieira.

Seria desconsiderar o ministro, que é um homem cuidadoso na formulação das suas opiniões, se se resumisse esta frase a uma trivialidade, do tipo “cá se fazem e cá se pagam”. Suspeito que alguns dos seus colaboradores assim o entendam, mas a credibilidade da comparação entre as contas de um país e as de uma família já teve melhores dias e perdeu mercado depois da sua utilização austeritária. A questão, em resumo, deve ser colocada exatamente ao contrário do que sugere o aforismo do ministro: se não houver agora despesa pública é que de certeza teremos mais impostos.

João Ferreira do Amaral explicou pedagogicamente esta razão. Perante o imediato impacto do Covid19, só o aumento da despesa do Estado (em gastos no serviço de saúde, em apoios a salários ou evitando que empresas vão à falência, em proteção social aos recibos verdes e outros precários) é que permite evitar o agravamento da recessão. E, como só a recuperação da economia poderia garantir o aumento da receita fiscal sem aumentar as taxas dos impostos, a chave para a salvação é manter o emprego, preservar a procura agregada, restabelecer as cadeias produtivas, ou seja, investir mais para evitar a queda. Só nos salvamos da austeridade se a economia for relançada. Como não haverá investimento privado de monta, é o investimento público dirigido e seleccionado que nos protege do abuso dos impostos.

Em todo o mundo, o endividamento público gerado pela resposta à doença vai disparar. Os cálculos do FMI são que o défice dos países desenvolvidos será em média de 11% este ano, o triplo do que aconteceu com a crise do subprime em 2008, e, assim, a dívida total dos países desenvolvidos aumentará no conjunto em seis biliões de dólares, mais 10%, alcançando 122% do PIB dessas economias. O pior que poderia acontecer seria mesmo que todos os ministros da Economia pensassem e agissem como se todas estas despesas tivessem que ser traduzidas em aumento de impostos. Nesse caso, teríamos uma espiral depressiva à nossa porta, com medidas aplicadas nos vários países para garantir mais redução do PIB para solucionar uma redução do PIB, com cada economia a impor às vizinhas uma redução das suas exportações e mais sacrifícios. O que seria um erro num país transformar-se-ia num vírus generalizado no mundo. Já lhe conhecemos o nome, chama-se austeridade.

O que se aplica a Portugal aplica-se a todos. Os governos precisam de ajudar a cuidar das vidas. Isso tem um preço (mas o custo de não o fazer era maior), é défice e dívida. Mas, se a taxa de crescimento futuro (mais a inflação, mesmo que pequena) for maior do que a taxa de juro, o peso da dívida vai sendo absorvido e tende a diminuir, sobretudo se for dívida a longo prazo, como deveria ser. Combinadas com medidas de monetarização da dívida, que os EUA e o Reino Unido adoptarão, porventura mais do que a zona euro, as políticas de crescimento serão decisivas.

Se Siza Vieira me permite uma sugestão, diga aos seus colegas europeus que tirem da ideia essa bizarria de fazer pagar em impostos o esforço para salvar vidas e empregos e se esforcem em criar mecanismos de cooperação para absorver o choque e para relançar as economias. Por isso, preferia, senhor ministro, ouvi-lo dizer que despesas do Estado de hoje são vidas e que têm que ser orientadas para relançar o crescimento, para evitar a guilhotina dos impostos.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

O medo que se instalou na sociedade portuguesa causa mais mortes que o Covid-19

– Falta de assistência médica ao que não seja coronavírus
– Riqueza não produzida
– Perda de remunerações pelos trabalhadores
– Encargos do Estado e das empresas
– Perda de receita pela Segurança Social e perda fiscal pelo Estado

por Eugénio Rosa [*]

Neste estudo analiso a dimensão do layoff, suas consequências económicas e sociais e também os efeitos do medo profundo que se instalou na sociedade portuguesa causado por uma comunicação social pouco objetiva (incompleta). Esta, para ganhar audiências, só fala de mortes do COVID 19, e como considera que as do país não são suficientes junta as do mundo, num massacre constante e diário desde manhã à noite repetindo o mesmo até à exaustão. No entanto, o aumento de mortes causado por falta de assistência médica (milhares de cancros ficaram por detetar, e 300 mil consultas de médicos de família , 180 mil consultas hospitalares, 8000 cirurgias, 30 mil mamografias, etc, deixaram de ser realizadas em Março – Expresso de 25/Abril/2020) são certamente superiores às mortes causadas pelo “coronavírus ”. Mas, pelo facto de os media as ignorarem, é como não existissem. Além disso, há a tentativa de isolar e destruir os mais velhos com a justificação de os proteger.

1,1 MILHÕES DE TRABALHADORES EM LAYOFF E, NUM MÊS, €393,2 MILHÕES DE REMUNERAÇÃO PERDIDAS, €997,8 MILHÕES DE CUSTOS PARA O ESTADO E €235,9 MILHÕES PARA AS EMPRESAS SEM PRODUZIR RIQUEZA

O quadro 1, construído com os dados do Ministério do Trabalho sobre a monitorização do COVID 19 em 24/4/2020, permite obter uma informação sobre a dimensão do lay-off e sobre as suas consequências para os trabalhadores (perda de remunerações), para o Estado (aumento de encargos e perda de receitas) e para as entidades patronais (encargos). E tudo isto sem produção de qualquer riqueza.

 

Quadro 1.

A remuneração média bruta declarada, que serve para calcular a remuneração recebida pelo trabalhador em layoff, era de 1015€/mês segundo o Ministério do Trabalho. Como o trabalhador em layoff recebe apenas 2/3 deste valor, a sua remuneração ilíquida mensal reduz-se para 677€/mês, o que significa que cada trabalhador perde 338€/mês. Se multiplicarmos este valor pelo número de trabalhadores em layoff em 20/4/2020 – 1.162.158 trabalhadores – então estes 1,1 milhões de trabalhadores perdem €339,1 milhões de remunerações por mês, o que é enorme para quem ganha já muito pouco.

Como 70% da importância recebida pelo trabalhador é paga através da Segurança Social, que é transferido do Orçamento do Estado, isto significa que o Estado tem mensal e diretamente uma despesa de €550,47 milhões com os trabalhadores que estão em layoff suportando as entidades patronais €235,9 milhões por mês o que corresponde a 30% da remuneração recebida pelos 1,16 milhões de trabalhadores. Para além da despesa de €550,47 milhões por mês, o Estado ainda perde 115,6 milhões €/mês de IRS, devido a redução das remunerações recebidas pelos 1,162 milhões € de trabalhadores e, a Segurança Social, perde 311,6 milhões € de receitas por mês (os trabalhadores descontam 11% do que recebem, mas as empresas estão isentas do pagamento de qualquer contribuição para a Segurança Social). Somando tudo isto, o layoff representa um custo para o Estado que estimamos em €977,7 milhões por mês.

A REMUNERAÇÃO LÍQUIDA DOS TRABALHADORES DE MICROEMPRESAS E MÉDIAS EM LAYOFF É INFERIOR AO SALÁRIO MINIMO NACIONAL

O quadro 2 mostra o número de empresas repartidas pela sua dimensão em 24/4/2020 com layoff

 

Quadro 2.

Segundo o Ministério do Trabalho, os 1.162.159 trabalhadores que estavam em " layoff " em 24/4/2020 são de 93.993 empresas sendo 80,5% (75.624) microempresas. As remunerações dos trabalhadores variam muito com a dimensão das empresas, por isso fazer uma análise mais fina. O quadro 3, mostra os efeitos nas remunerações dos trabalhadores do layoff de acordo com a dimensão das empresas.

 

Quadro 3.

Os trabalhadores das 75.624 microempresas (80,5% do total) que estão em layoff viram as suas remunerações liquidas reduzirem-se para entre 453,6€ e 493,1€ por mês; os das pequenas empresas (15,9% do total das empresas em layoff) ficaram com uma remuneração liquida média entre 550,6€/mês e 609,1€/mês; os trabalhadores em layoff das médias empresas viram as suas remunerações liquidas reduzirem-se apenas para 628,4€; e os trabalhadores das grandes empresas em layoff estão a receber remunerações liquidas entre 652€/mês e 661,8€/mês. Em 2018, segundo o INE, 1.777.000 portugueses estavam no limiar da pobreza, e isto após as transferências sociais (antes das transferências eram 2.223.000) sendo 318.000 trabalhadores empregados devido aos baixos salários que recebiam. É evidente que, com estes baixos rendimentos disponíveis, centenas de milhares de trabalhadores colocados em layoff juntar-se-ão aos 318.000 que já estavam na pobreza, aumentando, de uma forma dramática, a mancha de miséria no nosso país mesmo entre os empregados ou que tinham trabalho mas que agora estão em layoff, pois sofreram um corte nas suas remunerações em 33%.

CERCA DE €13.100 MILHÕES DE RIQUEZA PERDIDA (4% a 5% do PIB por mês) DEVIDO À PARALIZAÇÃO DA ECONOMIA – E O PAÍS ESTÁ JÁ PRATICAMENTE PARALIZADO HÁ UM MÊS E MEIO

Para se poder avaliar a perda de riqueza criada no país (PIB) devido a 1.162.158 de trabalhadores estarem em lay-off, 172.274 estão em apoio à família, e de 74.584 que perderam o emprego e que pediram subsidio de desemprego no período 16/3/2020 a 24/3/2020 (há muitos mais que perderam o emprego mas que não tem direito nem a subsidio de desemprego nem a qualquer apoio como, por ex. os de "recibo verde" que estavam ainda no período de isenção e que, por isso, não estão contabilizados), o que significa mais de 1,4 milhões de trabalhadores deixaram de produzir devido à crise do coronavírus. Interessa conhecer a previsão inicial do INE para o valor do PIB em 2020 – 219.384 milhões € – e a previsão do emprego para 2020 (4.910.000). E isto para se poder estimar a riqueza anual que se previa que cada trabalhador produziria em média em 2020 que é, fazendo os cálculos, de 44.681€ de riqueza produzida, ou seja, uma média de 3.723 € por mês. Se multiplicarmos este valor – 3.723 € de riqueza que não é produzida por mês e por trabalhador devido à paralisação da economia ?– pelo total de trabalhadores em layoff – 1.162.158 – obtém-se uma a perda de €4.327 milhões de riqueza (PIB) por cada mês, o que corresponde a 1,97% do PIB anual perdido por cada mês de paralisação. Será preciso adicionar a estes os trabalhadores que já perderam o emprego mas com direito a subsidio de desemprego (74.584), o que não inclui a totalidade dos despedidos, aqueles com baixa por isolamento (37.084), os que estão a apoiar à família (172.274) e os trabalhadores independentes que deixaram de exercer atividade (173.268). Somados, dão mais 457.210 os quais produziriam, se estivessem a trabalhar, €1.702,8 milhões de riqueza (PIB) por mês. Isto corresponde a 0,78% do PIB, que somado à perda anterior – 1,97% do PIB – dá já 2,75% do PIB.

No entanto, este valor ainda não inclui a totalidade da riqueza perdida em cada mês, pois existem mais 1.300.000 de trabalhadores que estão em teletrabalho em que 46% (598.000) reconhecem que têm uma produtividade inferior ou muito inferior à que tinham anteriormente o que determina que produzam por mês menos riqueza que a prevista, sendo esse valor estimado em +1,25% do PIB. Somando todas as perdas de PIB calcula-se que, por cada mês de paralisação da economia na dimensão que está a suceder, Portugal perca entre 4% a 5% do PIB anual previsto para 2020, um valor inferior ao de Mário Centeno (6,5% do PIB anual por cada mês de paralisação), mas mesmo assim enorme. E o país está praticamente paralisado há quase 1,5 meses, o que determina que ele já tenha perdido pelo menos 6% do seu PIB previsto para 2020 (13.163 milhões € de riqueza não produzida e perdida). Uma perda enorme de riqueza não produzida que o país não aguenta com esta dimensão por mais tempo. E apesar desta situação difícil a retoma da economia vai ser sempre muito difícil, gradual e longa.

UMA ENORME PERDA DE RECEITAS PARA A SEGURANÇA SOCIAL E DE RECEITAS FISCAIS PARA O ESTADO

Devido à paralisação de uma parte importante de toda a atividade económica verifica-se uma quebra significativa nas receitas do Estado, o que o impedirá de cumprir cabalmente a sua função mesmo em relação à responsabilidade de investir mais no SNS e de recuperar a economia, e também de contribuições da Segurança Social o que certamente gerará défice em 2020, situação que não acontecia há vários anos.

Em cada mês de paralisação da economia, com a dimensão que está a suceder, estima-se uma perda de receita para o Orçamento do Estado, por mês, de €917 milhões só de IVA e €250 milhões de IRS. Portanto, um valor superior a €1.160 milhões de receitas perdidas em cada mês de paralisação. Isto já para não falar de outros impostos onde se verificam também perdas importantes de receitas devido à paralisação da economia.

Em relação à Segurança Social sucede o mesmo, onde se prevê que, por cada mês de paralisação com a atual dimensão, ela tenha uma perda de cerca de €570 milhões de receitas de contribuições por mês. Em contrapartida, por via dos chamados "estabilizadores automáticos" (subsídio de desemprego, RSI, e outros apoios sociais, etc) a despesa da Segurança Social é inevitável que aumente significativamente. Como consequência da conjugação destes dois fatores é de prever que a Segurança Social apresente em 2020 um défice importante, o que vai contribuir para agravar ainda mais a divida publica e o défice orçamental, já que a redução deste estava a ser feito fundamentalmente à custa do elevado saldo positivo apresentado pela Segurança Social todos os anos (em 2019, um saldo positivo de €2.435,6 milhões e, para 2020, estava também previsto um saldo positivo de €2.730,5 milhões segundo o OE para 2020).

AS MORTES DEVIDO À FALTA DE ASSISTÊNCIA MÉDICA, QUE OS MEDIA TÊM IGNORADO, CERTAMENTE TEM SIDO MUITO SUPERIORES ÀS CAUSADAS PELO COVID-19 E A TENTATIVA DE ISOLAR E DESTRUIR OS MAIS VELHOS COM A JUSTIFICAÇÃO DE OS PROTEGER

Devido à falta de recursos (equipamentos e profissionais) que enfrenta o SNS resultante do subfinanciamento crónico e da falta de investimento que caraterizou a politica dos sucessivos governos, incluindo o atual, o aparecimento de uma pandemia altamente contagiosa causou o alarme da opinião pública. Isto foi agravado por uma comunicação social sem equilíbrio e sem objetividade que divulgava só mortes de COVID 19 (o massacre com estas mortes, n vezes repetidas de manhã à noite e, como se as do país não fossem suficientes, juntava as dos outros países), pois estava mais interessada em captar audiências. Isto instalou e generalizou o medo na sociedade e fez uma enorme pressão sobre o poder politico, o que levou ao desvio dos escassos meios do SNS apenas para o combate ao coronavírus. A tudo isto ainda se associava a atuação do Ministério da Saúde que se caracterizava por ausência de planeamento eficaz e também por um comportamento por vezes errático da DGS, transformada numa simples porta-voz da Organização Mundial de Saúde sem vontade e política própria.

Os escassos meios do SNS foram concentrados quase exclusivamente no combate ao coronavírus, em prejuízo das restantes doenças (cardiovasculares, oncológicas, etc) que matam mais portugueses de que o COVID-19. Centenas de milhares de consultas, milhares de exames e cirurgias foram canceladas e adiadas juntando-se aos enormes atrasos já existentes, o que associado a uma comunicação social que gerou o medo entre a população em ir aos hospitais, previsivelmente causou um crescimento rápido de mortes por outras doenças, certamente superior ao causado pelo COVID-19 (de 15 Março até 15 de Abril mortes acima do esperado 1255 segundo ENSP; de COVID 600). Mas os portugueses não ficaram a saber disso porque a comunicação social decidiu ignorar. Vários médicos já vieram alertar a opinião pública para a gravidade da situação, nomeadamente para mortes causadas por AVC e doenças oncológicas, mas que mereceu pouco atenção dos media. Infelizmente na Assembleia da República não houve ninguém que se lembrasse de defender estes portugueses que necessitam de cuidados de saúde urgentes e que já esperavam por eles há muitos meses. Só agora é que a ministra da Saúde veio dizer que o SNS iria iniciar, embora de forma lenta e gradual, a recuperação de milhares de consultas e cirurgias que foram adiadas, pelas quais os portugueses já esperavam há muitos meses ou anos. Até lá morrerão muitos mais portugueses do que com COVID-19.

Assiste-se presentemente a uma campanha promovida pelo poder político e pela Comissão Europeia de isolamento e mesmo de destruição dos mais velhos (a presidente da Comissão Europeia, em 12/4/2020 afirmou que os idosos podem ter de manter o isolamento social até o fim do ano) a pretexto de os defender da COVID-19. Isto reflete-se na própria lei – "os com mais de 70 anos estão sujeitos a um dever especial de proteção", artº 4º nº1 do DL 2-C/2020), o que muitas vezes é interpretado abusivamente como a obrigação de não poder sair de casa.

Assim, não se distingue entre aqueles que estão ativos, até profissionalmente, e os debilitados. Basta ter 70 anos para ser ostracizado (será que a Assembleia da República aprovou isso?). É uma imposição absurda e discriminatória, sendo por isso inconstitucional: utiliza a idade para atribuir um certificado de incapacidade a todos com mais de 70 anos, considerados incapazes de pensar e decidirem por si próprios, sendo uma forma de os levar a uma morte mais rápida. Será isso o que os jornalistas fundamentalistas – numa praia da linha a TV mostrava em 26/4 alguns portugueses distanciados e logo o locutor fez o discurso fundamentalista contra eles – e os políticos dominados pelo medo e pela falta de humanidade realmente pretendem (libertar-se dos mais velhos para assim reduzir o défice orçamental)? Deixo isto para reflexão dos portugueses até porque todos poderão mais tarde ser assim tratados. A geração que lutou por Abril não pode nem aceitará ser assim enjaulada. No fascismo era por ter ideias subversivas agora utiliza-se a idade.

26/Abril/2020
[*] edr2@netcabo.pt

Este artigo encontra-se em https://resistir.info/ .

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/e_rosa/layoff_26abr20.html

A próxima maior depressão da década de 2020

 
Nouriel Roubini alerta: a depressão de 2020 pode ser maior do que...
 
Por Nouriel Roubini
Embora nunca haja um bom momento para uma pandemia, a crise do COVID-19 chegou a um momento particularmente má para a economia global.O mundo está há muito tempo à deriva  numa tempestade perfeita de riscos financeiros, políticos, socio económicos e ambientais, todos os quais agora estão ficando ainda mais agudos.
29 de abril de 2020 ”Information Clearing House ” – NOVA IORQUE – Após a crise financeira de 2007-09, os desequilíbrios e riscos que permeiam a economia global foram exacerbados por erros de política.Portanto, em vez de abordar os problemas estruturais que o colapso financeiro e a recessão subsequente revelaram, os governos foram criando grandes  que tornaram inevitável outra crise.E agora que chegou, os riscos estão aumentando ainda mais.Infelizmente, mesmo que a Grande Recessão leve a uma recuperação sem brilho em forma de U este ano, uma “” em forma de Lseguirá no final desta década, devido a dez tendências ameaçadoras e arriscadas.

A primeira tendência diz respeito a déficits e seus riscos corolários: dívidas e crédito mal parado.A resposta política à crise do COVID-19 implica um aumento maciço dos déficits fiscais – da ordem de 10% do PIB ou mais – num momento em que os níveis da dívida pública em muitos países já eram altos, se não insustentáveis.
Pior ainda, a perda de renda para muitas famílias e empresas significa que os níveis de dívida do setor privado também se tornarão insustentáveis, potencialmente levando a cessações  de pagamento em massa e falências.Juntamente com níveis crescentes de dívida pública, tudo isso garante uma recuperação mais anémica do que a que se seguiu à Grande Recessão há uma década.
Um segundo fator é a bomba-relógio demográfica nas economias avançadas.A crise do COVID-19 mostra que muito mais gastos públicos devem ser alocados aos sistemas de saúde e que a assistência médica universal e outros bens públicos relevantes são necessidades, não luxos.No entanto, como a maioria dos países desenvolvidos tem sociedades envelhecidas, o financiamento de tais despesas no futuro aumentará ainda mais as dívidas implícitas dos atuais sistemas de assistência médica e previdência social.
Uma terceira questão é o crescente risco de deflação.Além de causar uma profunda recessão, a crise também está criando uma grande folga nos bens (máquinas e capacidade não utilizadas) e mercados de trabalho (desemprego em massa), além de provocar um colapso dos preços de matérias primas, como petróleo e metais industriais.Isso torna provável a deflação da dívida, aumentando o risco de insolvência.
Um quarto fator (relacionado) será a degradação da moeda.À medida que os bancos centrais tentam combater a deflação e evitar o risco de aumento das taxas de juros (após o aumento maciço da dívida), as políticas monetárias se tornarão ainda mais não convencionais e de longo alcance.No curto prazo, os governos precisarão executar  para evitar depressão e deflação.No entanto, com o tempo, os da des globalização acelerada e do protecionismo renovado tornarão a estagflação praticamente inevitável.
Uma quinta questão é a perturbação digital mais ampla da economia.Com milhões de pessoas perdendo seus empregos ou trabalhando e ganhando menos, as disparidades de renda e riqueza da economia do século XXI se ampliarão ainda mais.Para se proteger contra futuros choques na cadeia de suprimentos, as empresas de economias avançadas repassarão a produção de regiões de baixo custo para mercados domésticos de alto custo.Mas, em vez de ajudar os trabalhadores em casa, essa tendência acelerará o ritmo da automação, pressionando os salários para baixo e abanando ainda mais as chamas do populismo, nacionalismo e xenofobia.
Isso aponta para o sexto fator principal: a des globalização.A pandemia está acelerando as tendências de balcanização e fragmentação que já estavam em andamento.Os Estados Unidos e a China se dissociarão mais rapidamente, e a maioria dos países responderá adotando políticas ainda mais protecionistas para proteger empresas e trabalhadores domésticos de interrupções globais.O mundo pós-pandemia será marcado por restrições mais rígidas ao movimento de bens, serviços, capital, trabalho, tecnologia, dados e informações.Isso já está acontecendo nos setores farmacêutico, de equipamentos médicos e de alimentos, onde os governos impõem restrições à exportação e outras medidas protecionistas em resposta à crise.
A reação contra a democracia reforçará essa tendência.Os líderes populistas geralmente  beneficiam das dificuldades económicas, desemprego em massa e crescente desigualdade.Sob condições de maior insegurança económica, haverá um forte impulso de  fazer  dos estrangeiros bodes expiatórios para a crise.Trabalhadores de colarinho azul e amplas camadas da classe média se tornarão mais suscetíveis à retórica populista, particularmente a propostas para restringir a migração e comércio externo.
Isso aponta para um oitavo fator: o impasse geoestratégico entre os EUA e a China.Com o governo Trump fazendo todos os esforços para culpar a China pela pandemia, o regime do presidente chinês Xi Jinping reforçará a sua argumentação de que os EUA estão conspirando para impedir a ascensão pacífica da China.A sino-americana de comércio, tecnologia, investimento, dados e acordos monetários se intensificará.
 
Pior, esse rompimento diplomático preparará o terreno para uma nova guerra fria entre os EUA e seus rivais – não apenas a China, mas também a Rússia, o Irã e a Coréia do Norte.Com a eleição presidencial dos EUA a aproximar se, há todos os motivos para esperar um aumento na , levando potencialmente até a confrontos militares convencionais.E como a tecnologia é a arma principal na luta pelo controle das indústrias do futuro e no combate às pandemias, o setor de tecnologia privada dos EUA se tornará cada vez mais integrado no complexo industrial nacional  e de segurança.
Um risco final que não pode ser ignorado é a perturbação ambiental, que, como mostrou a crise do COVID-19, pode causar muito mais estragos económicos do que uma crise financeira.As epidemias recorrentes (HIV desde os anos 80, SARS em 2003, H1N1 em 2009, MERS em 2011, Ebola em 2014-16) são, como as mudanças climáticas, essencialmente desastres causados ​​pelo homem, nascidos de maus padrões sanitários e de saúde, o abuso de recursos naturais e a crescente interconectividade de um mundo globalizado.As pandemias e os muitos sintomas mórbidos das mudanças climáticas se tornarão mais frequentes, severos e onerosos nos próximos anos.
Esses dez riscos, já iminentes antes do COVID-19, ameaçam agora alimentar uma tempestade perfeita que varre toda a economia global  numa década de desespero.Na década de 2030, a tecnologia e a liderança política mais competente poderão reduzir, resolver ou minimizar muitos desses problemas, dando origem a uma ordem internacional mais inclusiva, cooperativa e estável.Mas qualquer final feliz pressupõe que encontraremos uma maneira de sobreviver à Grande Depressão que se aproxima.
 

Nouriel Roubini, professor de economia na Stern School of Business da Universidade de Nova York e presidente da  Roubini Macro Associates, foi economista sénior de assuntos internacionais no Conselho de Assessores Económicos da Casa Branca durante o governo Clinton. Trabalhou para o Fundo Monetário Internacional, o Federal Reserve dos EUA e o Banco Mundial. Seu site é  NourielRoubini.com. –  

Via: FOICEBOOK https://bit.ly/3f2GGhu

 

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/04/29/a-proxima-maior-depressao-da-decada-de-2020/

Onda de despedimentos nas companhias aéreas

Milhares de trabalhadores de várias companhias aéreas ficarão sem emprego ou sofrerão cortes salariais, «descartados» em plena crise de saúde pública causada pelo novo coronavírus que afecta a actividade do sector.

A companhia aérea British Airways prevê suprimir até 12 mil postos de trabalho devido à paralisação da actividade do sector causada pelo surto epidémico, anunciou ontem o grupo IAG.

Este grupo, que detém também as companhias aéreas Iberia e Vueling, explicou em comunicado ter tomado esta decisão tendo em conta que serão necessários vários anos para um «regresso à normalidade» do tráfego aéreo.

O IAG já tinha avisado que as reduções de pessoal eram «inevitáveis» devido à crise que paralisa o transporte aéreo. Recorde-se que no ano passado a empresa declarou um lucro somente no primeiro trimestre de 135 milhões de euros. Actualmente, a British Airways (BA) tem 42 mil trabalhadores.

Medidas «dolorosas» para os trabalhadores e «necessárias» para os accionistas

Também companhia aérea islandesa Icelandair anunciou ontem que vai prescindir de 2000 funcionários devido às «graves repercussões» do surto epidémico nos sectores da aviação e viagens.

«Para enfrentar a situação, o grupo Icelandair está a adoptar medidas importantes (...) incluindo uma redução considerável do número de funcionários e mudanças na sua organização», anunciou a companhia.

Os despedimentos anunciados atingem membros de tripulações, serviços de manutenção e operações em terra. O grupo, que empregava 4600 trabalhadores, informou ainda que a maioria dos que não forem despedidos ficará a tempo parcial e que mesmo os que continuam a tempo inteiro sofrerão reduções salariais.

O presidente executivo da companhia, Boris Nils Bogason, citado em comunicado, afirma que as medidas «são muito dolorosas, mas necessárias».

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/trabalho/onda-de-despedimentos-nas-companhias-aereas

Economia dos EUA apresenta pior queda desde crise financeira de 2008

Máscara respiratória N95, da marca 3M, pendurada em retrovisor de carro durante pandemia do coronavírus, Louisiana, EUA, 4 de abril de 2020
© REUTERS / Carlos Barria

O PIB norte-americano caiu em comparação ao ano anterior pela primeira vez em seis anos. Trata-se de uma queda de 4.8%.

A economia dos EUA se contraiu em 4,8% durante o primeiro trimestre deste ano em relação ao mesmo período de 2019 e sofreu uma recessão técnica devido ao fechamento da maior parte do país como consequência da pandemia mundial da COVID-19, informa a agência AP.

O Departamento de Comércio dos EUA afirmou que o PIB norte-americano registrou sua primeira queda trimestral em seis anos e experimentou sua maior queda desde que perdeu 8,4% no quarto trimestre de 2008, quando ocorreu a última grande recessão econômica mundial.

Este resultado negativo será o prelúdio de uma devastação econômica muito maior no segundo trimestre, uma vez que, segundo estimativas do Escritório de Orçamentos do Congresso dos EUA (CBO, na sigla em inglês), o PIB norte-americano sofrerá uma queda de 40% como consequência da falência de empresas e demissões massivas.

Se este cenário se cumprir, o resultado superaria de maneira ampla o pior trimestre do PIB de 1947, quando os EUA começaram a registrar estatísticas sobre o crescimento econômico do país, e será quatro vezes pior que a maior contração trimestral registrada até o momento, um desastre que ocorreu em 1958.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/economia/2020042915517690-economia-dos-eua-apresenta-pior-queda-desde-crise-financeira-de-2008/

A Europa impotente face à perspetiva de uma tragédia global ? – Texto 34. Coronabonds e a divisão entre Norte e Sul na Europa. Por Adam Tooze

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Texto 34. Coronabonds e a divisão entre Norte e Sul na Europa.

Adam Tooze I

Por  Adam Tooze 

Publicado por social europe em 13/04/2020 (‘Corona bonds’ and Europe’s north-south divide, ver aqui)

 

A decisão do Eurogrupo de rejeitar as obrigações corona vai deixar cicatrizes políticas desestabilizadoras.

 

É uma cruel reviravolta do destino o facto de a crise do Covid-19 ter exposto a linha de fratura de base na zona euro entre o Norte e o Sul. O debate resultante sobre a forma de dar uma resposta conjunta tem sido amargo.

O compromisso acordado provisoriamente pela reunião dos Ministros das Finanças do Eurogrupo, em 9 de Abril, foi um alívio. O facto de o Eurogrupo ter terminado uma segunda vez numa semana sem um acordo teria sido um desastre. Provavelmente não teria resultado em intervenções de pânico no mercado obrigacionista por parte do Banco Central Europeu, que neutralizaria essa possibilidade, por enquanto. Mas, em termos políticos, teria enviado um terrível sinal de desunião.

O pacote em três vertentes – com financiamento das despesas de saúde através do Mecanismo de Estabilidade Europeu, empréstimos às empresas feitos Banco Europeu de Investimento e 100 mil milhões de euros para o Fundo de Desemprego da Comissão Europeia – tem um alcance modesto. É dececionante para aqueles de entre nós que apoiam a posição das “obrigações coronabonds”. Mas é pelo menos um alívio o facto de ter sido um compromisso, em vez de uma capitulação humilhante infligida à coligação dos nove defensores das obrigações corona pelo egoísmo teimoso e míope dos holandeses e dos alemães.

Com efeito, em termos políticos, os holandeses podem ter feito mais mal do que bem com a sua exigência de que os empréstimos MEE sejam condicionados a um ajustamento estrutural. Em vez de serem aliados dos holandeses, os alemães preferem agora ser vistos como mediadores.

 

Admissão de incapacidade

Em relação à crise atual, mesmo que tomemos como valor facial o generoso valor de 540 mil milhões de euros para o pacote de apoio, o acordo é uma admissão de incapacidade europeia. Tendo em conta o golpe de milhão de milhões de dólares à economia global, as suas modestas dimensões equivalem a admitir que a prioridade na luta contra a crise continua a pertencer aos Estados-nação.

O melhor que se pode dizer é que proporciona um quadro para novas negociações. Existe o compromisso de criar um fundo de reconstrução temporário, a ser financiado com “instrumentos inovadores” – o que isso significa ainda não se sabe. Infelizmente, tendo em conta a nossa experiência nas últimas semanas, com a ausência de uma mudança de governo nos Países Baixos, há poucos motivos para estarmos otimistas.

Quando a crise sanitária imediata tiver passado, quando “tudo” que estiver em jogo for a miséria do desemprego em massa em Espanha ou um novo choque nas perspetivas de crescimento da Itália, por que razão havemos de esperar que os Estados do Norte atuem de forma mais cooperativa do que têm agido desde 2010? Os rácios da dívida pública em relação ao produto interno bruto serão piores. Só é de esperar que o discurso da sustentabilidade da dívida e da responsabilidade orçamental seja tão implacável como sempre.

Evidentemente, nunca se deve dizer nunca. Uma sondagem sofisticada revela uma abertura do público alemão aos títulos corona, que poderiam ser explorados por uma liderança política criativa e corajosa. A opinião dos especialistas mudou de forma bastante acentuada; os amplos apelos dos economistas alemães a uma ação conjunta são novos e extremamente bem-vindos. Tanto na Alemanha como nos Países Baixos, uma grande parte do público está francamente embaraçada com as posições do seu governo.

A discussão política ainda não terminou. Será retomada na próxima reunião dos Chefes de Governo. Mas uma coisa já é clara: as propostas de combate à crise baseadas no MEE são, na prática, letra morta. O caminho para um acordo em 9 de Abril só foi aberto quando os holandeses abandonaram finalmente a sua exigência de que a principal forma de apoio fosse a concessão de empréstimos MEE com condicionalidade. Mesmo na forma atenuada em que é incluída no pacote atual, a mera menção do MEE é suficiente para desencadear a indignação em Itália.

 

Intenção mesquinha

Para sermos justos para com os holandeses, a sua posição sobre o MEE não era anómala. O que eles pediam estava conforme não só com a letra mas também com a intenção mesquinha que deu origem ao MEE. Pretendia-se sempre que se tratasse de uma exigência financeira dura se obrigasse o país a um ajustamento estrutural tão grande quanto possível por um crédito tão reduzido quanto possível.

Mas, pelo menos, o MEE existia. E, até à semana passada, podíamos fingir que isso era importante. Foram elaborados muitos projetos complexos e nada mesquinhos para uma resposta coronabonds conjunta, que propunham que o financiamento fosse obtido através do MEE. O MEE foi apresentado como a âncora pela razão muito boa de ser a única facilidade imediatamente disponível.

O MEE tem um papel estabelecido como o de desencadear a utilização de outro dos supostos dispositivos de estabilidade da zona euro, o mecanismo de transacções monetárias definitivas do BCE (TMD) . AS TMD  surgiram em Agosto de 2012 depois de o então presidente do banco, Mario Draghi, ter feito a sua ousada afirmação  de fazer  “o que for preciso”. Uma das condições que tornou as TMD aceitáveis – se não para o Bundesbank alemão, pelo menos para o governo de Angela Merkel – foi a disposição segundo a qual a aquisição de obrigações pelo BCE deveria estar condicionada à aprovação de um programa de ajustamento para o país aceite pelo MEE, completado por um memorando de entendimento.

Mesmo na altura, era claro para quem quisesse ir além das palavras de Draghi que estas condições tornavam muito pouco provável que o programa das TMD alguma vez fosse ativado. No entanto, era conveniente fingir que TMD-MEE era a substância por detrás do “custe o que custar”. Nunca foi testada porque o BCE, desde 2015, comprou obrigações com o pretexto de “flexibilização quantitativa”.

Foi o que o BCE fez em 2019 e, mais uma vez, em resposta à crise do coronavírus em Março. Foram intervenções de política económica geral que incidiram sobre a questão da partilha de riscos e o impacto assimétrico nos membros mais fortes e mais fracos da zona euro. Em segundo plano, havia sempre a ideia de que, se a Itália entrasse realmente em apuros, haveria as TMD às quais recorrer.

 

Camuflagem retirada

O que o impasse das últimas semanas no Eurogrupo fez foi eliminar essa camuflagem. O que agora ficou claro é que o recurso ao MEE é muito pouco provável que seja aceite .

Fundamentalmente, isto deve-se ao facto de o MEE não ter escapado às suas origens na tumultuosa e conturbada história da crise da zona euro de 2010-12. Continua a ser visto como um dispositivo disciplinar humilhante, através do qual os membros da zona euro do Norte da Europa impõem a sua agenda política no caminho a seguir pelos países do Sul.

É fácil ser impaciente com tais invocações da história. Evidentemente, é conveniente para os políticos dos países endividados do Sul da Europa culparem Bruxelas e Frankfurt pelos seus problemas. Mas nenhum dos atuais governos de Roma ou Madrid pode ser acusado de populismo desta variedade. Ambos apelam a mais Europa, a uma integração mais profunda. Mas não são menos claros quanto ao facto de o MEE, enquanto instituição legada da crise da zona euro, ser um veneno político.

Isso deveria dar à Europa uma pausa para reflexão.

 

Cicatrizes duradouras

É um dos grandes truísmos da União Europeia que ela é “forjada em crise”. O que esta posição tem subjacente é que a crise também pode deixar cicatrizes duradouras. Com efeito, as crises podem criar não só marcas desfigurantes, mas também pontos nevrálgicos que provocam dores agudas mesmo anos mais tarde. A crise da zona euro ficou na memória quase como uma guerra civil europeia – um momento da história que gera narrativas não reconciliadas e que dividem, cuja intensidade não diminui previsivelmente com o tempo.

O que aprendemos nas últimas semanas é que o MEE, o mecanismo designado de combate a crises da zona euro, é apanhado por essa guerra de narrativas. E isso tem efeitos reais.

Aqueles que argumentaram contra as obrigações corona com base no facto de este não ser o momento para uma inovação tão gratuita e, em vez disso, preferiam soluções baseadas no MEE, porque o mecanismo já estava disponível, apanharam o comboio em sentido contrário. Era a via MEE que era irrealista, precisamente porque era uma herança institucional da era da crise da zona euro. Uma das coisas que torna os títulos corona atraentes para os seus proponentes é que eles seriam novos e não carregariam, portanto, o ódio da história amarga da zona euro.

Infelizmente, a história está constantemente a repetir-se e os debates agitados das últimas semanas terão, eles próprios, tido um legado. Com os holandeses e os italianos apegados obstinadamente às suas crenças, será ainda mais difícil, no futuro, para quem quer que seja, recorrer ao apoio do MEE. Que tipo de choque seria necessário para qualquer potencial candidato se virar para ele agora? Aquilo que ainda há poucas semanas era visto como o quadro institucional básico de uma verdadeira capacidade de combate a crises foi desviado para o papel marginal de pagar as despesas de saúde, especificamente excluídas de qualquer função de estabilização macroeconómica.

 

Prejuízos causados

É claro que existe o novo fundo de reconstrução, com pormenores e financiamento ainda por elaborar. Talvez surja algo de inovador. Mas ninguém deve ter ilusões sobre os danos causados desde o lançamento da ideia das obrigações corona, em março.

Merkel e o seu Ministro das Finanças, Olaf Scholz, desejariam sem dúvida que os nove Chefes de Governo nunca tivessem colocado a questão de forma tão clara e tão urgente. Será que não compreenderam que Berlim era obrigada a dizer não? Não teria sido melhor passar por cima da confusão ?

Talvez. Mas na história não há repetições. A proposta não pode ser desfeita. A questão foi colocada, foi dada uma resposta. Vai lançar uma sombra. Poderá colher a Europa no futuro – da mesma forma que as memórias de 2010-12 colheram o MEE nesta Primavera.

 

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O autor: Adam Tooze é professor de História e diretor do Instituto Europeu na Universidade de Columbia e autor de Crashed: How a Decade of Financial Crises Changed the World.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/04/29/a-europa-impotente-face-a-perspetiva-de-uma-tragedia-global-texto-34-coronabonds-e-a-divisao-entre-norte-e-sul-na-europa-por-adam-tooze/

A tripla crise do capitalismo. Por Mariana Mazzucato

 

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

 

Mariana Mazzucato 

Por Mariana Mazzucato

Publicado por Project Syndicate em 30/03/2020 (Capitalism’s triple crisis, ver aqui)

 

Após a crise financeira de 2008, aprendemos da forma mais difícil o que acontece quando os governos inundam a economia com liquidez incondicional, em vez de lançar as bases para uma recuperação sustentável e inclusiva. Agora que está em curso uma crise ainda mais grave, não devemos repetir o mesmo erro.

92 Mazzucato A tripla crise do capitalismo

Project Syndicate

LONDRES – O capitalismo enfrenta pelo menos três grandes crises. Uma crise sanitária provocada por uma pandemia desencadeou rapidamente uma crise económica com consequências ainda desconhecidas para a estabilidade financeira, e tudo isto se insere no contexto de uma crise climática que não pode ser resolvida “como de costume”. Até há apenas dois meses, os meios de comunicação social estavam cheios de imagens assustadoras de bombeiros esmagados, e não de prestadores de cuidados de saúde esmagados.

Esta tripla crise revelou vários problemas com a forma como fazemos no capitalismo, os quais têm de ser resolvidos ao mesmo tempo que abordamos a emergência sanitária imediata. Caso contrário, estaremos simplesmente a resolver problemas num lugar e a criar novos problemas noutro. Foi o que aconteceu com a crise financeira de 2008. Os decisores políticos inundaram o mundo de liquidez sem a direcionarem para boas oportunidades de investimento. Como resultado, o dinheiro acabou por regressar a um setor financeiro que era (e continua a ser) impróprio para o efeito.

A crise do COVID-19 está a expor ainda mais falhas nas nossas estruturas económicas, nomeadamente a crescente precariedade do trabalho, devido à ascensão da economia gig e a uma deterioração de décadas do poder negocial dos trabalhadores. O teletrabalho não é simplesmente uma opção para a maioria dos trabalhadores e, embora os governos estejam a alargar alguma assistência aos trabalhadores com contratos regulares, os trabalhadores por conta própria podem vir a ver-se abandonados a si próprios em situação de grande pobreza.

Pior ainda, os governos estão agora a conceder empréstimos às empresas numa altura em que a dívida privada já é historicamente elevada. Nos Estados Unidos, a dívida total das famílias pouco antes da atual crise era de 14,15 milhões de milhões de dólares, ou seja, mais 1,5 milhão de milhões de dólares do que era em 2008 (em termos nominais). E, para não nos esquecermos, foi a elevada dívida privada que provocou a crise financeira global.

Infelizmente, ao longo da última década, muitos países têm procurado a austeridade, como se a dívida pública fosse o problema. O resultado tem sido a erosão das próprias instituições do setor público de que precisamos para superar crises como a pandemia do coronavírus. Desde 2015, o Reino Unido reduziu os orçamentos da saúde pública em mil milhões de libras (1,2 mil milhões de dólares), aumentando os encargos dos médicos em formação (muitos dos quais abandonaram completamente o Serviço Nacional de Saúde) e reduzindo os investimentos a longo prazo necessários para garantir que os pacientes sejam tratados em instalações seguras, renovadas e totalmente equipadas com pessoal.

E nos EUA – que nunca tiveram um sistema de saúde pública devidamente financiado – a administração Trump tem tentado persistentemente reduzir o financiamento e a capacidade dos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças, entre outras instituições críticas.

Para além destas feridas auto-infligidas, um setor empresarial excessivamente “financeirizado” tem vindo a sonegar o valor da economia, recompensando os accionistas através de esquemas de recompra de ações, em vez de apoiar o crescimento a longo prazo, investindo em investigação e desenvolvimento, salários e formação de trabalhadores. Em consequência, as famílias têm-se  desfeito das suas almofadas financeiras, o que dificulta o acesso a bens básicos como a habitação e a educação.

A má notícia é que a crise do COVID-19 está a agravar todos estes problemas. A boa notícia é que podemos utilizar o atual estado de emergência para começar a construir uma economia mais inclusiva e sustentável.

A questão não é atrasar ou bloquear o apoio governamental, mas sim estruturá-lo adequadamente. Temos de evitar os erros da era pós-2008, quando os resgates permitiram que as empresas obtivessem lucros ainda maiores quando a crise terminou, mas não conseguiram lançar as bases para uma recuperação robusta e inclusiva.

Desta vez, as medidas de resgate têm absolutamente de vir acompanhadas de condições. Agora que o Estado está de novo a desempenhar um papel de liderança, deve ser lançado como o herói e não como um bode expiatório ingénuo. Isso significa apresentar soluções imediatas, mas concebê-las de forma a servir o interesse público no longo prazo.

Por exemplo, podem ser estabelecidas condicionalidades para o apoio governamental às empresas. As empresas beneficiárias de ajudas devem ser convidadas a manter os trabalhadores e a garantir que, quando a crise terminar, investirão na formação dos trabalhadores e na melhoria das condições de trabalho.

Melhor ainda, como na Dinamarca, o governo deveria apoiar as empresas a continuarem a pagar salários mesmo quando os trabalhadores não estão a trabalhar – ajudando simultaneamente as famílias a manter os seus rendimentos, impedindo a propagação do vírus e facilitando a retoma da produção pelas empresas quando a crise tiver terminado.

Além disso, os resgates deveriam ser concebidos para orientar as empresas de maior dimensão no sentido de recompensarem a sociedade com a criação de valor em vez da extracção de valor, impedindo a recompra de ações e incentivando o investimento no crescimento sustentável e na redução da pegada de carbono. Tendo declarado no ano passado que irá adotar um modelo de valor das partes interessadas, esta é a oportunidade da Mesa Redonda Empresarial para apoiar as suas palavras com ações. Se a América empresarial ainda está a arrastar os pés agora, devemos chamar-lhe bluff.

No que diz respeito às famílias, os governos deveriam olhar para além dos empréstimos para a possibilidade de alívio da dívida, especialmente tendo em conta os atuais níveis elevados da dívida privada. No mínimo, os pagamentos aos credores devem ser congelados até que a crise económica imediata seja resolvida e as injeções diretas de dinheiro devem ser utilizadas para as famílias mais carenciadas.

E os EUA deveriam oferecer garantias governamentais para pagar 80-100% dos salários das empresas em dificuldades, como o fizeram o Reino Unido e muitos países da União Europeia e da Ásia.

É também tempo de repensar as parcerias entre os setores público e privado. Com demasiada frequência, estes acordos são menos simbióticos do que parasitas. O esforço para desenvolver uma vacina COVID-19 poderá tornar-se mais uma relação de sentido único em que as empresas obtenham lucros massivos através da venda ao público de um produto que tenha nascido da investigação financiada pelos contribuintes.

Com efeito, apesar do investimento público significativo dos contribuintes americanos no desenvolvimento de vacinas, o Secretário da Saúde e dos Serviços Humanos dos EUA, Alex Azar, admitiu recentemente que os tratamentos ou vacinas recentemente desenvolvidos no âmbito do COVID-19 poderão não ser acessíveis a todos os americanos.

Precisamos desesperadamente de Estados empreendedores que invistam mais na inovação – desde a inteligência artificial à saúde pública, passando pelas energias renováveis. Mas, como esta crise nos recorda, precisamos também de Estados que saibam negociar, para que os benefícios do investimento público beneficiem as pessoas em geral.

Um vírus mortal expôs grandes fraquezas nas economias capitalistas ocidentais. Agora que os governos estão em pé de guerra, temos uma oportunidade de corrigir o sistema. Se não o fizermos, não teremos qualquer hipótese contra a terceira grande crise – um planeta cada vez mais inabitável – e todas as crises de menor dimensão que a acompanharão nos próximos anos e décadas.

 

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A autora: Mariana Mazzucato é Professora de Economia da Inovação e Valor Público e Diretora do UCL Institute for Innovation and Public Purpose (IIPP). É autora de The Value of Everything: Making and Taking in the Global Economy, que foi seleccionada para o prémio Financial Times-McKinsey Business Book of the Year. Escreve para Project Syndicate desde 2015.

 

 

 

 

 

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/04/29/a-tripla-crise-do-capitalismo-por-mariana-mazzucato/

Efeitos a curto e médio prazo do Covid 19 na economia

O medo que se instalou na sociedade portuguesa está a causar mais mortes que o “Covid-19” devido à falta de assistência médica ao que não seja “coronavírus”. A riqueza que não é produzida no país e é portanto perdida. A perda de remunerações pelos trabalhadores, os encargos do estado e das empresas, e a perda da receita de contribuições pela Segurança Social e de receita fiscal pelo Estado.

 

 

Neste estudo analiso a dimensão atual dos trabalhadores em “layoff” e suas consequências económicas e sociais, e também os efeitos do medo profundo que se instalou na sociedade portuguesa causado por uma comunicação social pouco objetiva (incompleta e desequilibrada) que, para ganhar audiências, só fala de mortes do COVID 19, e como considera que as do país não são suficientes para tal propósito junta as de todos os outros países do mundo, num massacre constante e diário desde manhã à noite repetindo até à exaustão o mesmo, quando o aumento de mortes causado por falta de assistência médica (milhares de cancros ficaram por detetar, e 300.000 consultas de médicos de família, 180.000 consultas hospitalares, 8.000 cirurgias, 30.000 mamografias, etc, deixaram de ser realizadas em Março e foram adiadas – EXPRESSO de 25 de Abril /2020) são certamente superiores às mortes causadas pelo “coronavírus” (segundo a Escola Nacional de Saúde Pública, ENSP, de 15 Março até 15 de Abril mortes acima do esperado atingiram 1255, enquanto as causadas pelo COVID foram 600), mas que, pelo facto da comunicação social as ignorarem, é como não existissem, bem como a tentativa de isolar e destruir os mais velhos com a justificação de os proteger.

Espero que este estudo possa ser útil para a reflexão e debate sobre situação atual pois é fundamental preparar o pais não só para enfrentar a atual crise de saúde publica, mas também para aquelas que certamente se verificarão no futuro, nomeadamente económicas e, consequentemente, também de saúde pública e para um tratamento mais correto e respeitar os portugueses mais velhos a quem não se pode nem se deve passar um certificado de incapacidade pelo facto de terem mais de 70 anos, como faz o Decreto 2-C/2020,  até porque muitos continuam a ser profissionalmente ativos. Somos todos iguais mas também somos todos diferentes, é preciso não esquecer essa verdade elementar nestes momentos difíceis para todos.

 

 
 
 
 

Estudo

O medo que se instalou na sociedade portuguesa está a causar mais mortes que o “Covid-19” devido à falta de assistência médica ao que não seja “coronavírus”. A riqueza que não é produzida no país e é portanto perdida. A perda de remunerações pelos trabalhadores, os encargos do estado e das empresas, e a perda da receita de contribuições pela Segurança Social e de receita fiscal pelo Estado.

Neste estudo analiso a dimensão do “layoff” e suas consequências económicas e sociais, e também os efeitos do medo profundo que se instalou na sociedade portuguesa causado por uma comunicação social pouco objetiva (incompleta) que, para ganhar audiências, só fala de mortes do COVID 19, e como considera que as do país não são suficientes junta as do mundo, num massacre constante e diário desde manhã à noite repetindo até à exaustão o mesmo, quando o aumento de mortes causado por falta de assistência médica (milhares de cancros ficaram por detetar, e 300.000 consultas de médicos de família , 180.000 consultas hospitalares, 8000 cirurgias, 30.000 mamografias, etc, deixaram de ser realizadas em Março – EXPRESSO de 25 de Abril /2020) são certamente superiores às mortes causadas pelo “coronavírus” mas que, pelo facto dos media as ignorarem, é como não existissem, bem como a tentativa de isolar e destruir os mais velhos com a justificação de os proteger.

 

1,1 Milhões de trabalhadores em “layoff”, e num mês 393,2 milhões € de remuneração perdidas, 997,8 milhões € de custos para o Estado e 235,9 milhões € para as empresas sem produzir sem produzir riqueza

O quadro 1, construído com os dados do Ministério do Trabalho sobre a monitorização do COVID 19 em 24/4/2020 permite obter uma informação sobre a dimensão do “lay-off”, e sobre as suas consequências para os trabalhadores (perda de remunerações), para o Estado (aumento de encargos e perda de receitas) e para as entidades patronais (encargos). E tudo isto sem produção de qualquer riqueza.

 

Quadro 1- Remunerações perdidas pelos trabalhadores e encargos e perda de receita
pelo Estado e despesa suportada pelas entidades patronais apenas num mês

DESIGNAÇÃORemuneração Bruta mensal declarada à Segurança Social em 24/4/2020 e recebida antes do layoffRemuneração recebida pelo trabalhador em Lay-off (2/3)/mêsPerda mensal de remuneração pelo trabalhadorEncargo suportado pela Segurança Social mas pagos pelo OE (70%)/mês Encargo suportado pela empresa (30%)/mêsNº de trabalhadores
Remuneração iliquida média por trabalhador e encargos para o Estado e entidade patronal1 015 €677 €338 €474 €203 €1
Remuneração mensal iliquida recebida por 1.162.159 trabalhadores em “layoff” em 24-4-2020 e encargos suportados pelo Estado e pelas entidades patronais1 179 591 385 €786 394 257 €393 197 128 €550 475 980 €235 918 277 € 11 162 159
RECEITA DA SEGURANÇA SOCIAL/MÊS398 112 092 €86 503 368 €    
RECEITA DE IRS MENSAL115 599 956 €0€ (677€ está isento de IRS)    
FONTE : Monotorização -COVD-19 -24-Abril-2020-Ministério do Trabalho da Solidariedade e da Segurança Social

 

A remuneração média bruta declarada, que serve para calcular a remuneração recebida pelo trabalhador em “layoff”, era de 1015€/mês segundo o Ministério do Trabalho. Como o trabalhador em “layoff” recebe apenas 2/3 deste valor, a sua remuneração ilíquida mensal reduz-se para 677€/mês, o que significa que cada trabalhador perde 338€/mês. Se multiplicarmos este valor pelo número de trabalhadores em “layoff” em 20/4/2020 – 1.162.158 trabalhadores – então estes 1,1 milhões de trabalhadores perdem 339,1 milhões € de remunerações por mês, o que é enorme para quem ganha já muito pouco.

Como 70% da importância recebida pelo trabalhador é paga através da Segurança Social, que é transferido do Orçamento do Estado, isto significa que o Estado tem mensal e diretamente uma despesa de 550,47 milhões € com os trabalhadores que estão em “layoff” suportando as entidades patronais 235,9 milhões € por mês o que corresponde a 30% da remuneração recebida pelos 1,162 milhões de trabalhadores. Para além da despesa de 550,47 milhões € por mês, o Estado ainda perde 115,6 milhões €/mês de IRS, devido a redução das remunerações recebidas pelos 1,162 milhões € de trabalhadores e, a Segurança Social, perde 311,6 milhões € de receitas por mês (os trabalhadores descontam 11% do que recebem, mas as empresas estão isentas do pagamento de qualquer contribuição para a Segurança Social).Somando tudo isto, o “layoff” representa um custo para o Estado que estimamos em 977,7 milhões € por mês.

 

A remuneração líquida dos trabalhadores de microempresas e médias em “layoff” é inferior ao salário mínimo nacional

O quadro 2 mostra o número de empresas repartidas pela sua dimensão em 24/4/2020 com layoff

Quadro 2 – Nº de empresas que estão em “layoff” e sua repartição segundo a dimensão-MTSSS

DIMENSÃO DAS EMPRESASNº EMPRESAS% do total
até 10 trabalhadores – micro empresas75 62480,5%
11 a 25 trabalhadores – pequenas empresas11 26912,0%
26 a 49 trabalhadores – pequenas empresas3 7063,9%
50 a 249 trabalhadores – médias empresas2 9153,1%
>= 250 trabalhadores – grandes empresas4790,5%
TOTAL93 993100%

 

Segundo o Ministério do Trabalho, os 1.162.159 trabalhadores que estavam em “layoff” em 24/4/2020 são de 93.993 empresas sendo 80,5% (75.624) microempresas. As remunerações dos trabalhadores variam muito com a dimensão das empresas, por isso fazer uma análise mais fina. O quadro 3, mostra os efeitos nas remunerações dos trabalhadores do “layoff” de acordo com a dimensão das empresas.

 

Quadro 3-A redução na remuneração dos trabalhadores em “layoff” segundo a dimensão da empresa

DIMENSÃO DA EMPRESA Micro empresas 1 – 4 pessoasMicro empresas 5 – 9 pessoasPequenas empresas 10 – 49 pessoasPequenas empresas 50 – 99 pessoasMédias empresas 100 – 249 pessoasGrandes empresas 250 – 499 pessoasGrandes empresas 500 e + pessoas
Remuneração base mensaliliquida-2018 (Q. Pessoal)735,7 €799,9 €893,1 €988,0 €1 083,9 €1 141,6 €1 124,6 €
Remuneração base mensal iliquida -2019 (estimativa)764,4 €831,1 €928,0 €1 026,5 €1 126,2 €1 186,1 €1 168,5 €
REMUNERAÇÃO ILIQUIDA EM LAYOFF (2/3 da que recebia)509,6 €554,1 €618,6 €684,4 €750,8 €790,7 €779,0 €
Desconto para a Segurança Social56,1 €60,9 €68,0 €75,3 €82,6 €87,0 €85,7 €
IRS0,0 €0,0 €0,0 €0,0 €39,8 €41,9 €41,3 €
REMUNERAÇÃO LIQUIDA RECEBIDA EM LAYOFF453,6 €493,1 €550,6 €609,1 €628,4 €661,8 €652,0 €
FONTE: Remunerações base mensais de 2018: Quadros de pessoal de 2018, MTSSS; Aumento e valor 2019: estimativa com base dados do INE

 

Os trabalhadores das 75.624  microempresas (80,5% do total) que estão em “layoff” viram as suas remunerações liquidas reduzirem-se para entre 453,6€ e 493,1€ por mês; os das pequenas empresas (15,9% do total das empresas em layoff) ficaram com uma remuneração liquida média entre 550,6€/mês e 609,1€/mês; os trabalhadores em “layoff” das médias empresas viram as suas remunerações liquidas reduzirem-se apenas para 628,4€; e os trabalhadores das grandes empresas em “layoff” estão a receber remunerações liquidas entre 652€/mês e 661,8€/mês. Em 2018, segundo o INE, 1.777.000 portugueses estavam no limiar da pobreza, e isto após as transferências sociais (antes das transferências eram 2.223.000) sendo 318.000 trabalhadores empregados devido aos baixos salários que recebiam.

É evidente que, com estes baixos rendimentos disponíveis, centenas de milhares de trabalhadores colocados em “layoff” juntar-se-ão aos 318.000 que já estavam na pobreza, aumentando, de uma forma dramática, a mancha de miséria no nosso país mesmo entre os empregados ou que tinham trabalho mas que agora estão em “layoff”, pois sofreram um corte nas suas remunerações em 33%.

 

Cerca de 13.100 milhões € de riqueza perdida (4% a 5% do PIB por mês) devido à paralização da economia, e o país está já praticamente paralizado há um mês e meio

Para se poder avaliar a perda de riqueza criada no país (PIB) devido a 1.162.158 de trabalhadores estarem em “lay-off”,  172.274 estão em apoio à família, e de 74.584 que perderam o emprego e que pediram subsidio de desemprego no período 16/3/2020 a 24/3/2020 (há muitos mais que perderam o emprego mas que não tem direito nem a subsidio de desemprego nem a qualquer apoio como, por ex. os de “recibo verde” que estavam ainda no período de isenção e que, por isso, não estão contabilizados), o que significa  mais de 1,4 milhões de trabalhadores deixaram de produzir devido à crise do “coronavírus”,  interessa conhecer a previsão inicial do INE para o valor do PIB em 2020 – 219.384 milhões € – e a previsão do emprego para 2020 (4.910.000).

E isto para se poder estimar a riqueza anual que se previa que cada trabalhador produziria em média em 2020 que é, fazendo os cálculos, de 44.681€ de riqueza produzida, ou seja, uma média de 3.723 € por mês. Se multiplicarmos este valor – 3.723 € de riqueza que não é produzida por mês e por trabalhador devido à paralisação da economia – pelo total de trabalhadores em “layoff” – 1.162.158 – obtém-se uma a perda de 4.327 milhões € de riqueza (PIB) por cada mês, o que corresponde a 1,97% do PIB anual perdido por cada mês de paralisação. Se adicionarmos a estes os trabalhadores que já perderam o emprego mas com direito a subsidio de desemprego (74.584), que não inclui a totalidade dos despedidos, os com baixa por isolamento (37.084) , os que estão a apoiar à família (172.274), e os trabalhadores independentes que deixaram de exercer atividade (173.268) que, somados, dão mais 457.210 os quais produziram, se estivessem a trabalhar, 1.702,8 milhões € de riqueza (PIB) por mês, o que corresponde a 0,78% do PIB, que somado à perda anterior – 1,97% do PIB – dá já 2,75% do PIB.

No entanto, este valor ainda não inclui a totalidade da riqueza perdida em cada mês, pois existem mais 1.300.000 de trabalhadores que estão em teletrabalho em que 46% (598.000) reconhecem que têm uma produtividade inferior ou muito inferior à que tinham anteriormente o que determina que produzam por mês menos riqueza que a prevista, sendo esse valor estimado em +1,25% do PIB. Somando todas as perdas de PIB calcula-se que, por cada mês de paralisação da economia na dimensão que está a suceder, Portugal perca entre 4% a 5% do PIB anual previsto para 2020, um valor inferior ao de Mário Centeno (6,5% do PIB anual por cada mês de paralisação), mas mesmo assim enorme.

E o país está praticamente paralisado há quase 1,5 meses, o que determina que ele já tenha perdido pelo menos 6% do seu PIB previsto para 2020 (13.163 milhões € de riqueza não produzida e perdida). Uma perda enorme de riqueza não produzida que o país não aguenta com esta dimensão por mais tempo. E apesar desta situação difícil a retoma da economia vai ser sempre muito difícil, gradual e longa.

 

Uma enorme perda de receitas para a Segurança Social e de receitas fiscais para o Estado

Devido à paralisação de uma parte importante de toda a atividade económica verifica-se uma quebra significativa nas receitas do Estado, o que impedirá este de cumprir cabalmente a sua função mesmo em relação à responsabilidade de investir mais no SNS e de recuperar a economia, e também de contribuições da Segurança Social o que certamente gerará défice em 2020, situação que não acontecia há vários anos.

Em cada mês de paralisação da economia, com a dimensão que está a suceder, estima-se uma perda de receita para o Orçamento do Estado, por mês, de 917 milhões € de receitas só de IVA e 250 milhões € de receitas de IRS, portanto, um valor superior a 1.160 milhões € de receitas perdidas em cada mês de paralisação. Isto já para não falar de outros impostos onde se verificam também perdas importantes de receitas devido à paralisação da economia. Em relação à Segurança Social sucede o mesmo, onde se prevê que, por cada mês de paralisação com a atual dimensão, ela tenha uma perda de cerca de 570 milhões € de receitas de contribuições por mês.

Em contrapartida, por via dos chamados “estabilizadores automáticos” (subsídio de desemprego, RSI, e outros apoios sociais, etc.) a despesa da Segurança Social é inevitável que aumente significativamente. Como consequência da conjugação destes dois fatores é de prever que a Segurança Social apresente em 2020 um défice importante, o que vai contribuir para agravar ainda mais a divida publica e o défice orçamental , já que a redução deste estava a ser feito fundamentalmente à custa do elevado saldo positivo apresentado pela Segurança Social todos os anos (em 2019, um saldo positivo de 2.435,6 milhões € e, para 2020, estava também previsto um saldo positivo de 2.730,5 milhões € segundo o OE para 2020).

 

As mortes devido à falta de assistência médica, que os media têm ignorado, certamente tem sido muito superior às causadas pelo “Covid-19” e a tentativa de isolar e destruir os mais velhos com a justificação de os proteger

Devido à falta de recursos (equipamentos e profissionais) que enfrenta o SNS resultante do subfinanciamento crónico e da falta de investimento que caraterizou a politica dos sucessivos governos, incluindo o atual, e perante o aparecimento de uma pandemia altamente contagiosa, o que causou o alarme da opinião pública, agravado por uma comunicação social sem equilibro e sem objetividade que divulgava só mortes de COVID 19, (o massacre com estas mortes, n vezes repetidas de manhã à noite e, como as do país não fossem suficientes, juntava as dos outros países), pois estava mais interessada em captar audiências, instalou e generalizou o medo na sociedade e fez uma enorme pressão sobre o poder politico, o que levou ao desvio dos escassos meios do SNS apenas para o combate ao “coronavírus. A tudo isto ainda se associava a atuação do Ministério da Saúde que se caraterizava por ausência de planeamento eficaz e também por um comportamento por vezes errático da DGS, transformada numa simples porta-voz da Organização Mundial de Saúde sem vontade e política própria.

Os escassos meios do SNS foram concentrados quase exclusivamente no combate ao “coronavírus”, em prejuízo das restantes doenças (cardiovasculares, oncológicas, etc.) que matam mais portugueses de que o “COVID 19”. Centenas de milhares de consultas, milhares de exames e cirurgias foram canceladas e adiadas juntando-se aos enormes atrasos já existentes, o que associado a uma comunicação social que gerou o medo entre a população em ir aos hospitais, previsivelmente causou um crescimento rápido de mortes por outras doenças, certamente superior ao causado pelo COVID 19 (de 15 Março até 15 de Abril mortes acima do esperado 1255 segundo ENSP; de COVID 600) que os portugueses não conhecem, apenas porque a comunicação social decidiu ignorar.

Vários médicos já vieram alertar a opinião publica para a gravidade da situação, nomeadamente para mortes causadas por AVC e doenças oncológicas, mas que mereceu pouco atenção dos media. Infelizmente na Assembleia da República não houve ninguém que se lembrasse de defender estes portugueses que necessitam de cuidados de saúde urgentes e que já esperavam por eles há muitos meses. Só agora é que a ministra da Saúde veio dizer que o SNS iria iniciar, embora de forma lenta e gradual, a recuperação de milhares de consultas e cirurgias que foram adiadas, pelas quais os portugueses já esperavam há muitos meses ou anos. Até lá morrerão muitos mais portugueses do que com COVID 19.

Assiste-se atualmente a uma campanha promovida pelo poder politico e pela comissão europeia  de medidas de isolamento e mesmo de destruição dos mais velhos (a presidente da Comissão Europeia, em 12/4/2020 afirmou que os idosos podem ter de manter o isolamento social até o fim do ano)a pretexto de os defender da COVD 19 que tem já expressão  na própria lei – “os com mais de 70 anos estão sujeitos a um dever especial de proteção”,artº 4º nº1 do DL 2-C/2020) muitas vezes  interpretado, abusivamente, como a obrigação de não poder sair de casa, não distinguindo entre aqueles que estão ativos, até profissionalmente, e os debilitados. Basta ter 70 anos para ser ostracizado (será que a Assembleia da República aprovou isso?).

É uma imposição absurda e discriminatória, sendo por isso inconstitucional, pois utiliza a idade para atribuir um certificado de incapacidade a todos com mais de 70 anos, considerados incapazes de pensar e decidir por si próprios, sendo uma forma de os levar a uma morte mais rápida. Será isso o que os jornalistas fundamentalistas (>numa praia da linha a TV mostra em 26/4 alguns portugueses distanciados e logo o locutor faz o discurso fundamentalista contra eles) e os políticos dominados pelo medo e pela falta de humanidade realmente pretendem (libertar-se dos mais velhos para assim reduzir o défice orçamental)? Deixo isto para reflexão dos portugueses até porque todos poderão mais tarde ser assim tratados. A geração que lutou por Abril não pode nem aceitará ser assim enjaulada. No fascismo era por ter ideias subversivas agora utiliza-se a idade.



 

 
 
 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/efeitos-a-curto-e-medio-prazo-do-covid-19-na-economia/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=efeitos-a-curto-e-medio-prazo-do-covid-19-na-economia

Sinais contraditórios sobre o que será o novo normal

O que será a nova normalidade? Não faltam especialistas a pronunciarem-se sobre o que virá a ser a realidade pós-covid 19. Basta ler a imprensa de hoje para encontrar quem aventa a possibilidade de crescerem os sentimentos humanistas, o Estado passar a predominar sobre os lucrativos interesses privados ou até chegar-se ao ponto dos cinco paraísos fiscais dentro da União Europeia - Países Baixos, Irlanda, Luxemburgo, Malta e Chipre - verem-se por isso sancionados. Há quem analise os tempos atuais e me lembre aquele professor da Escola Náutica em 1974 - um capitão de mar e guerra cujo nome esqueci! - que predizia aos seus alunos (entre os quais me encontrava!) o quão «encantador» seria o futuro próximo por se reconhecer enfim valor a quem mostraria mérito para tal. Nunca mais o voltei a ver depois disso, mas a permanência do sr. Cunha e do nepotismo nunca foi posta em causa na nossa realidade democrática.

 

Em contraponto encontramos exemplos da persistência de odiosa malvadez nos que sempre pensarão em si próprios em detrimento do bem coletivo. No «Público» lê-se sobre a indizível tristeza daquela funcionária de um lar da terceira idade em Santo Tirso, que chegou a casa e viu vedada a entrada pelo marido e pela filha, mais preocupados com a possibilidade de ser foco de contaminação do vírus do que em acarinha-la pelas horas difíceis vividas no emprego de cuidar quem mais precisa. Em lágrimas terá voltado ao lar em causa, seu único ponto de abrigo numa emergência, que também é de sentimentos humanos dentro da família.

 

E há o aproveitamento repulsivo dos defensores do aldrabão, que se acoita na extrema.direita da Assembleia da República: chegou-me um mail de quem considera inaceitável que as autoridades sanitárias tenham-se preocupado em testar os migrantes acolhidos em diversas pensões lisboetas enquanto aguardam decisão sobre a aceitação ou não do seu pedido de asilo. E contrapõem com o facto de se tratar de algo sem sentido quando ainda sobram tantos utentes de lares oficiais e clandestinos por analisar. Como se mais adequado fosse deixar esses migrantes contraírem o vírus e, preferencialmente, a ele sucumbirem. Ou seja o racismo xenófobo em todo o seu esplendor! Com a adenda de bem imaginarmos o que diriam se não se tivesse avançado com essa medida: em vez de criticarem o “desperdício” de testes, criticariam o não serem feitos para salvaguardarem a generalidade da população. Em suma, a desonestidade própria de inescrupulosos impostores...
 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2020/04/sinais-contraditorios-sobre-o-que-sera.html

CRISE DO COVID 19 E A INCAPACIDADE DAS SOCIEDADES NEOLIBERAIS EM LHE DAREM RESPOSTA – XXXIII – A ITÁLIA VAI PRECISAR DE UM RESGATE PREVENTIVO – UMA “PROTEÇÃO FINANCEIRA” – ENQUANTO O CORONAVÍRUS O EMPURRA PARA A BEIRA DO ABISMO. por ASHOKA MODI

 

 

Italy will need a precautionary bailout — a ‘financial firewall’ — as coronavirus pushes it to the brink, por Ashoka Modi

Marketwatch, 10 de Março de 2020

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota 

 

A crise da Itália pode em breve tornar-se incontrolável, provocando uma potencial  desordem nos mercados financeiros mundiais

Veneza estava quase vazia na segunda-feira  no meio das restrições de viagem na região do Veneto

 

A Itália precisa de um pacote de resgate preventivo de 500 a 700 mil milhões de euros   para ajudar a garantir aos mercados financeiros que o governo e os bancos italianos podem  cumprir as suas obrigações de pagamento da dívida à medida que a crise económica e financeira do país se torna mais temível.

Assim como os custos humanos do coronavírus estão a crescer de forma alarmante, a crise da Itália pode em breve tornar-se incontrolável, provocando uma potencial  desordem nos mercados financeiros mundiais

A solução deste grave problema  não pode ser deixado apenas a cargo das nações da zona euro. Não só o Fundo Monetário Internacional, mas até os EUA precisarão de se envolverem na solução do problema, talvez, com uma linha de crédito, caso as necessidades de resgate aumentem e em escalada.

O tempo é curto. A Alemanha e a França, as duas maiores economias da zona do euro com 19 membros, estão prestes a experimentar uma rápida disseminação do vírus, e seus sistemas económico e financeiro já estão sob uma situação de aguda  dificuldade. Se pressionados a suportar inteiramente os riscos italianos, podem enfrentar desagradáveis descidas   na sua notação de crédito.

A Itália, a terceira maior economia do bloco, tem sido há muito tempo a linha de fratura da zona do euro. E, como escreveu o físico Per Bak, quando uma linha de fratura se rompe, outras rachas  enfraquecem, causando uma cascata de terramotos.

Praticamente todas as forças económicas internacionais e internas  estão contra o país.

A economia italiana praticamente não cresceu desde que entrou para a zona euro em 1999. O rendimento per capita, ajustado pela paridade de poder de compra, permaneceu fixo no valor de 35.000 dólares. A economia tem permanecido em recessão quase perpétua na última década e já se estava a contrair em paralelo  com a evolução do  comércio mundial antes do ataque do coronavírus. O peso da dívida do governo aumentou para uns espantosos 2,3 milhões de milhões  de euros, o que equivale a 134% do PIB do país.

No final do ano passado, a queda do comércio mundial tinha levado  a Europa para uma quase recessão.

O coronavírus irá quase certamente fazer com que a economia italiana se contraia em cerca de 3% no primeiro semestre de 2020, embora os danos possam ser muito maiores do que isso.

Como a economia chinesa desacelera ainda mais – e muito provavelmente ela própria se contrai – nos próximos meses, a falta de fornecimento chinês de peças e ingredientes críticos causará danos contínuos à produção e ao comércio mundial. Esse efeito negativo está  a espalhar-se  para a Alemanha, que, mesmo com as suas dificuldades atuais, continua  a ser  a economia mais forte da Europa e um mercado importante para os fabricantes italianos.

Na Itália, o vírus forçou não apenas o isolamento  das regiões mais dinâmicas do  país – a Lombardia e o seu centro de moda e finanças em Milão, bem como grandes partes das regiões do Veneto e Emilia-Romagna – mas agora o país inteiro a partir de terça-feira, 10 de março. À medida que as pessoas ficam em casa e a procura por serviços diminui, os economicamente vulneráveis – especialmente os jovens italianos com empregos temporários precários – perderão rendimentos  e a procura diminuirá ainda mais. E com uma das populações mais idosas  do mundo (cerca de 23% das pessoas estão acima dos 65 anos), a doença e a mortalidade induzidas pelo coronavírus – e as dificuldades  económicas e financeiras  que lhes estão associadas- podem persistir por mais tempo do que em qualquer outro lugar.

De facto, mesmo que o número de novos casos comece a diminuir, a perturbação da atividade económica continuará. Os mercados bolsistas tomaram nota. Entre as principais economias do mundo, o índice I945 0.468% da bolsa italiana, caiu a um  ritmo mais acentuado.

Comparativamente e até 9 de março

Sinais de alerta  também estão a ser sentidos nos mercados da dívida. Embora os rendimentos dos títulos do governo estejam a diminuir em grande parte do mundo económico avançado, os rendimentos dos títulos do governo italiano TMBMKIT-10Y, 1,648% estão a subir. É verdade que estes rendimentos nominais ainda são baixos. Mas a taxa real, ou ajustada pela inflação, é quase 1%, o que é muito alto para uma economia que não estava a crescer  e agora está prestes a entrar em contração.  A taxa de juro  real elevada e persistente da Itália fez com que o rácio da dívida do governo em relação ao PIB esteja a subir.

E agora, as taxas nominais crescentes estão a ameaçar levar a  Itália para um ciclo de efeitos de repercussão  negativos. A contração económica forçará o rácio da dívida em relação ao PIB a subir, o que poderá causar um novo aumento das taxas de juro nominais. Com a procura tão fraca, a inflação provavelmente cairá, empurrando a taxa de juro real para cima e criando uma quebra no crescimento – e aumentando as  preocupações sobre a capacidade do governo para comprimir as suas obrigações em termos de serviço da  dívida.

Entretanto, um crescimento mais lento causará mais dificuldades  nos bancos frágeis da Itália, que juntos detêm ativos financeiros de cerca de 5 milhões de milhões  de euros. Embora muitos bancos tenham vendido grandes parcelas dos empréstimos que os mutuários não pagavam a tempo, os mercados financeiros têm uma visão sombria do sistema bancário italiano. Os rácios de valor de mercado em relação ao  de registo contabilístico (market to book ratios) mesmo dos bancos mais fortes, Intesa Sanpaolo (ISP, -2.962%), e UniCredit UCG, -6.252%,  estavam bem abaixo de 1 antes do início da desaceleração induzida pelo vírus, e caíram drasticamente desde então. Essencialmente, os mercados estão a dizer  que uma grande parcela dos ativos nos livros dos bancos pode eventualmente não valer nada

A piorar  a situação, o euro EURUSD, -0.178% tem-se  fortalecido com a Reserva Federal Americana a baixar a  política de   taxa de juros política, e o Banco Central Europeu, tendo ficado sem munições há muito tempo, só pode fazer mudanças cosméticas sem valor real. À medida que a Reserva Federal flexibiliza ainda mais, o euro vai-se tornando  mais forte, tornando a recuperação italiana ainda mais difícil. A perene questão permanece se os europeus, que há muito tempo são viciados em austeridade orçamental, podem agora concordar com um estímulo orçamental  grande e coordenado. Mesmo que o façam, esse estímulo pouco fará para colocar dinheiro nos bolsos dos italianos, que, de qualquer forma, permanecerão incapazes de aumentar seus gastos em condições de isolamento.

Assim, a Itália está no limiar de uma crise financeira e não pode esperar qualquer ajuda das políticas monetárias ou orçamentais convencionais. A tarefa política, portanto, é construir uma proteção  financeira que possa acalmar os temores dos mercados financeiros enquanto a Itália atravessa os próximos seis meses.

A experiência do FMI mostra que os resgates financeiros são mais eficazes se forem feitos quando um país está vulnerável, mas ainda não em uma crise total. Um golpe a  tempo, como diz o ditado, poupa nove.

A proteção financeira italiana  deve começar com um pacote de resgate financeiro preventivo de pelo menos 500 mil milhões de euros, que forneceria fundos para injetar capital nos bancos conforme necessário e garantir a continuidade do financiamento do governo se os mercados optarem por deixar de renovar  a dívida.

As nações europeias não podem fazer isto sozinhas. Não estamos em 2010-2011 quando os líderes europeus, liderados pela chanceler alemã Angela Merkel, se reuniram para resgatar a Grécia, Irlanda e Portugal. Mesmo combinados, esses países eram pequenos em relação à Itália.

Além disso, a Alemanha é uma potência económica muito diminuída e a liderança política da Alemanha está em desordem. A economia alemã estava em estado quase-recessivo antes da propagação do vírus e agora enfrenta um grave défice de procura da China, o seu mercado mais importante. E à medida que o vírus se espalhar dentro da Alemanha, a procura interna também diminuirá. O governo alemão precisará de reter o seu poder de fogo caso os dois maiores bancos do país, Deutsche Bank DBK, 0.851%   e Commerzbank CBK, CBK, -0.979%, com índices chocantemente baixos de valor de mercado em relação ao registo contabilístico, de cerca de um quinto, venham a precisar de  apoio financeiro.

A economia francesa também está em apuros, e o seu afetado  presidente Emmanuel Macron é ao mesmo tempo volátil e divisor de águas em assuntos europeus.

Isso deixa a possibilidade da impressora mágica sob a  autoridade do BCE, o chamado programa de Transacções Monetárias Directo (OMT), estar a ser  ativado para a compra de obrigações. Mas a magia também pode ser uma ilusão. Para desencadear as OMT, a Itália necessitará de um primeiro acordo sobre as condições e a dimensão de um resgate do Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE).). A razão para fazer um resgate de precaução agora, em vez de esperar que o problema ganha uma muito maior dimensão, é simples. Sob o calor de uma crise contínua e com os limites dos seus recursos, o MEE  e as autoridades italianas terão dificuldades em  conseguir um pacote de resgate aceitável para ambos. Os atrasos irão alimentar o pânico do mercado, tornando a negociação mais difícil.

Nessa fase, mesmo que o MEE e os italianos acordem num programa, o Conselho do BCE terá de autorizar as OMT. Os membros alemães e outros membros “do Norte ” da zona euro  preocupar-se-ão com que, se o BCE imprimir dinheiro para comprar maiores quantidades de títulos italianos, o governo italiano poderá eventualmente entrar em incumprimento depois na liquidação destes títulos.  Tal incumprimento exigiria que os líderes alemães e outros líderes do norte da zona euro apelassem aos contribuintes irritados para preencher o buraco assim criado no capital do BCE.

Para colocar isto em perspectiva, os líderes europeus estão a disputar cêntimos ao decidir sobre o próximo orçamento da União Europeia. Isto é assim   e  numa altura em que as nações europeias mais fortes são fracas, seria um erro esperar que elas resgatassem atempadamente uma Itália financeiramente falhada. E se a linha de falha financeira italiana se romper, o incumprimento  da Itália desenvolver-se-á em cascata através do sistema financeiro global, causando danos que serão difíceis de conter.

Podemos correr o risco de não agir agora. Ou, tal como os italianos se esforçam para lidar com o enorme desafio médico e humano que enfrentam, a comunidade global pode-se  também unir para evitar uma espiral de crise financeira global centrada na Itália.

 

Fonte,Ashoka Mody, no sítio MarketWatch, 10 de Março de 2020, Italy will need a precautionary bailout — a ‘financial firewall’ — as coronavirus pushes it to the brink.Texto disponível em:

https://www.marketwatch.com/story/italy-will-need-a-precautionary-bailout-a-financial-firewall-as-coronavirus-pushes-it-to-the-brink-2020-03-10

 

Publicado em 10 de Março de 2020 at 7:47 a.m. ET

 

Ashoka Mody is the Charles and Marie Robertson Visiting Professor in International Economic Policy at Princeton University and previously was a deputy director of the International Monetary Fund’s European Department. He is the author of “EuroTragedy: A Drama in Nine Acts,” recently updated with a new afterforward.

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/04/27/crise-do-covid-19-e-a-incapacidade-das-sociedades-neoliberais-em-lhe-darem-resposta-xxxiii-a-italia-vai-precisar-de-um-resgate-preventivo-uma-protecao-financeira/

Remendos no quadro do sistema

The Greek Crisis: KAL's cartoon

Com a actual crise  é uma evidência que se vão agravar  e acentuar as desigualdades sociais e que do ponto de vista do Estado vão aumentar as despesas , diminuir as receitas e aumentar o endividamento .


No quadro actual da UE ,  apenas  com o que já foi decidido , suspensão de regras,  como as Orçamentais e de  acréscimos de injecções de liquidez  por parte  do BCE esta crise  vai agudizar contradições , aumentar as forças centrifugas ,  as desigualdades entre Estados e vai impor, de facto , novas regras e medidas . Dependerá da sua extensão e da resposta efectiva aos problemas , mas também   da aceitação e da  capacidade de resposta das massas populares o  saber, se  serão suficientes para conter “a ordem vigente “.

Até agora o que na prática tem dado oxigénio à UE tem sido o B.C.E .
 Investidores fazem pressão para que este  ultrapasse o quadro da sua actuação e que siga os exemplos da Fed e do Japão , comprando nomeadamente obrigações de empresas seja qual for a notação. Há cada vez mais cepticismo sobre o plano de relançamento da Comissão. 
As dívidas designadamente da Itália , Portugal   Grécia … vão aumentar  e não são pagáveis . Irão rolando com a bengala do BCE.
O crescimento vai ser fraco e o arranque não será simultâneo . Sem crescimento e com tendências deflacionistas a dívida vai ser um garrote insuportável.  O arranque vai ser alicerçado em empréstimos e défices Orçamentais . As regras do pacto orçamental que estão suspensas  terão de ser revistas dizem uns… outros que “deverão ser esquecidas pura e simplesmente.

” No rolamento da dívida a sua maturidade terá que ser também  alongada o mais possível , já que quem manda -Alemanha e satélites- não aceita as obrigações perpétuas , a dívida perpétua . Pela pressão dos acontecimentos o BCE  poderá ver- se obrigado a ultrapassar a interdição de comprar obrigações cuja maturidade ultrapasse os 30 anos . O Banco Central poderá ser um elemento essencial nesta estratégia .
Com o objectivo de reduzir os custos os governos poderão também recorrer aos empréstimos internos desde que ponham na ordem a banca..

Mas tudo isto serão remendos e tentativas de colmatar uma efectiva política de solidariedade e de resposta à crise assente no investimento , na justiça fiscal e social e no alargamento do mercado interno , no aumento da produção e re -industrialização , com o corte na dívida externa (hair cut) e o retomar da soberania monetária e Orçamental e no controlo do sistema financeiro e do movimento de capitais… 

 

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/04/27/remendos-no-quadro-do-sistema/

Pedalada jacobina

Uma vez mais, se Nuno Teles não vem ao blogue, o blogue vai até ao Professor da Universidade Federal da Bahia, desta vez em co-autoria com Catarina Príncipe na indispensável Jacobin(e houve um jornal nacional dito de referência que não publicou uma versão portuguesa de parte deste artigo...): se os neoliberais nunca desperdiçaram uma crise, saibamos nós também fazê-lo, contestando as ideias zumbi com alternativas.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)


 
 

We’re Still Picking up the Pieces of the Last Crisis

After the bank bailouts in 2008, the next stage in the government’s response was to cut spending on public services and lump even greater responsibilities onto private households. The end result was a huge rise in informal and unpaid labor carried out by women — and faced with the current shutdown, the losers from the last crisis are being punished even further.

At this point there can be only one priority: to overcome the public health crisis caused by the COVID-19 pandemic. As economist James Meadway has described, in the short term we need the opposite of a war economy — not the public mobilization of resources against a common enemy, but a demobilization in order to avoid spreading the virus. This means multiple crises in the entire circuit of capital. Global production and logistics networks are breaking down, with workers staying at home and goods (except food and basic items) not finding buyers. Without doubt, the depth of the crisis depends on how long it takes to overcome the pandemic. But we need to remember that as the circuit of capital stops, payments and debts will not. There is no way to “pause” the economy in order to press “play” again later. Yet even as capital faces several simultaneous crises, and states come to the rescue with taboo-breaking measures, this does not automatically produce better conditions for the political left.

With financial markets panicking and historically unprecedented increases in unemployment (almost twenty-two million new jobless claims in the United States since mid-March), it is natural to look back to the last crisis in 2008 for a guide on how we can think about the present moment. We can, indeed, learn a lot from it — but we also have to identify the huge differences between then and now. The 2008 crisis started in a particular sector, the financial/real estate sector, and in one country, the United States. Today, we face a crisis that affects all sectors and geographical contexts simultaneously, exposing their interdependencies and the pace of the international economy. If the Left is to present a political alternative, we need to understand the depth and asymmetric impacts of the economic and social crises, to critically appreciate the myriad measures announced around the world, and to present a road map for the political tasks ahead of us.

Not the Same Everywhere

It is almost impossible to predict a decline in GDP in these circumstances, but this crisis has hit an already stagnant international economy, whose mediocre growth has been fueled by record levels of indebtedness among companies, households, and governments — debt exceeds300 percent of world GDP, having increased by 50 percent over the past ten years. The sudden drop of cash flows in this financialized economy threatens a brutal spiral of bankruptcies, deflation, and unemployment. Just accounting for the immediate effects of containment measures, each month will cost up to 2 percent of GDP for most countries, according to the Organisation for Economic Co-operation and Development (OECD). Investment bank Morgan Stanley projected a 12 percent drop in Eurozone GDP, while Goldman Sachs predicts a 9.9 percent hit to US GDP during this quarter. The cumulative impacts of this contraction will, nonetheless, preclude any quick return to “normal” in the coming months.

While the global scale of the economic crisis is jaw-dropping, the asymmetric and “variegated” impacts between and within countries cannot be forgotten. Peripheral countries particularly need resources to fight the pandemic: this owes to their generally weak public health infrastructure (and often large populations living in crowded and poor housing conditions) and the economic effects of the crisis (as vulnerable informal workers face immediate disappearance of their income sources). However, they are already suffering from capital flight, which comes on top of the crisis they have been enduring since the collapse of commodity prices in 2014. Chasing the “safe haven” status of the dollar as a quasi-global currency, short-term capital outflows from emerging countries have been estimated at more than $92.3 billion since January, which compares with an outflow of $23.2 billion for the same period in 2008.

Being on a different scale, the first countercyclical measures taken by governments look like a copy of the “Keynesian” moment of 2008–9. Lines of credit and public guarantees were advanced (this time extended to sectors other than finance), along with a partial payment of wages, a temporary debt moratorium, and the extension of benefits as well as a suspension of legal fiscal limits that have constrained economic policy around the world. The only original measure goes to proposals for modest direct transfers to households that are being advanced in order to sustain demand (e.g., $1,200 in the United States, $120 in Brazil).

Here, again, states have uneven capacities to react. Announcing its $2 trillion “stimulus” package, 10 percent of GDP (5.5 percent in immediate fiscal expenditure), the United States is able to promise $260 billion in transfers directly to households and credit lines of $367 billion to small and medium-sized businesses, which will not have to be paid back if they commit not to fire workers. Emerging countries in fear of depleting their monetary reserves are, at least, shy in reacting with similar effective spending increases. Large emerging countries’ immediate boost to public spending is modest — around 2 percent of GDP for Brazil, 1 percent in India.

Meanwhile, in the Eurozone, the Eurogroup decision to make available around €540 billion (a meager 2 percent of EU GDP), or the ongoing debate about the possibility of creating “coronabonds,” again show the deadlock of a political project that even in times of extreme difficulty still opts for measures that will force countries into deeper indebtedness. Locked in the straitjacket of the European treaties and rules, this clearly means a renewed form of political conditionality that we can immediately recognize from the crisis of 2008–9: the incapacity of governments to decide on their economic policy and the imposition of austerity as a disciplinary political program that comes in return for the “aid” given by European institutions. Fearful of renewed austerity measures in the future, it is not surprising that hard-stricken countries, such as Spain and Italy, have announced immediate fiscal expenditure increases of 0.7 percent and 0.9 percent, respectively, compared to 6.9 percent in Germany.

Depleted by Austerity

While the impacts of the current crisis will definitely be harder for developing countries, the Eurozone and its southern periphery represent a case in point of the political challenges we now face around the world — not least because some of these countries (Italy and Spain) are the hardest hit by the pandemic. These are some of the most indebted countries in the world, which lack any sovereign economic instruments to deal with the crisis. Here, austerity was applied in its full force after 2008 as a political program to liberalize the labor market, destroy public services, and shape economies into more vulnerable and dependent ones.

The different capacities that northern countries like Germany have to deal with the public health and economic crises, as compared with countries like Italy or Spain, have become very apparent. The years of austerity policies pursued in Southern European countries since the last crisis have opened up major fissures. Local hospital privatizations in Italy applied as a mandate of the European Central Bank during the years of austerity, or the well-documented destruction of the health sector in Greece (which led to a desperate lack of medicine for chronic patients), are the result of years of low public investment in health. If we look at the numbers, we can identify a clear tendency: the percentage of the GDP invested in the health sector in Southern Europe declined from 2011 to 2018, while Germany and France actually increased spending (6.5 to 5 percent in Greece, 6.5 to 6 percent in Spain, 7.1 to 6.8 percent in Italy, 7.0 to 6.3 percent in Portugal, 6.8 to 7.2 percent in Germany, and 7.9 to 8.1 percent in France).

In this sense, the current inefficiencies of national health services in providing an assertive response to the crisis stem from the continual divestment to which they have been subjected. Chronic underfunding is reflected in the dismantling of primary care networks, the lack of material absolutely necessary to stop this pandemic, and in personnel capable of responding to needs. In England, the National Health Service (NHS) — one of the flagship achievements of the British left — today faces extreme strain. Hopes that this crisis will assert the legitimacy of public health care cannot rely on sheer rhetoric: we need policies (and budgets) completely different from those that have been put in place up till now. During the economic crisis that follows, the legitimation of public services will therefore be an absolutely central issue of struggle — and if we do not win this struggle, the answer will be, once again, endless austerity that will permanently erode the basis of the public services we know to be indispensable.

But the fissures of austerity don’t just concern states’ (in)capacities in providing effective crisis responses. The financial crisis of 2008 had, as its social cushion, the so-called welfare society typical of the Southern European periphery. It was households — through intergenerational solidarity and a generalized increase in indebtedness — that were able to mitigate the most harmful effects of unemployment, underemployment, and poverty. This even had side effects in reinforcing more conservative interpersonal behavior, since one’s level of independence and capacity to make one’s own life decisions depend on the material conditions to do so. Once again, more vulnerable workers, such as women or LGBT people, will be affected differently by the crisis (the rise in domestic violence is already being felt). Social distancing policies, vulnerabilities in state systems for provision, and the consequences of the mounting economic crisis will add to the burden on working-class households.

But this “welfare society” has not yet recovered from the immense effort that it was forced to endure by austerity policies. The capacity of families, and especially women, to respond to this fresh crisis — when they have not yet overcome the effects of the previous one — will clearly be insufficient. And that translates into increasing vulnerability, namely for workers who face the pandemic without access to quality health care and in conditions that promote contagion, in poor housing with high population density. These are also the workers — and above all the female workers, the precarious workers, the informal workers, the ones with no emergency savings, and the ones denied access to social protection — who will now be deprived of any source of income.

Tentative Responses

In any case, even for the most spending-ambitious countries, none of the announced measures are up to the challenge posed by the paralysis that we face. If certain sectors of activity are already facing threats to their survival, for instance transport, we can easily imagine this danger spreading to others and — given the current levels of indebtedness — to the heart of contemporary capitalism: the financial sector. While liquidity does not seem to be a problem, it is unlikely that a generalized crisis will leave bank solvency unaffected. If there is one thing to be learned from 2008, it is the destructive potential of finance. A different framework for state intervention is thus urgently needed.

We will live, as we have recently seen, in a scenario in which, in the absence of a well-defined strategy, the state serves as a firefighter, saving companies and whole sectors as they start to fail, thereby increasing the public deficit and debts. That cannot be. The economic crisis will require planning, implying the nationalization of strategic sectors: energy, telecommunications, transport, infrastructure, and, above all, the banking sector. This is not an ideological wish list. In an increasingly monopolized international economy, where the bulk of aggregate investment is in the hands of a few companies, their spending decisions will have to obey to criteria quite different from private profit. These are essential sectors that may leverage the entire economy and whose investment will be essential for employment recovery. We cannot run the risk of having these companies act as “zombies,” surviving on the account of public support, but dragging spending decisions in their attempt to preserve their balance sheets. The example of banks in the post-2008 crisis is a cautionary tale. Only with political direction and socialized banks, such as new directed credit, can we respond with the necessary resources and in a systemic way to the crisis. Let us learn from the historical and present experiences of the centrality of socialized control of credit for effective industrial policy.

If the expansion of central banks’ balance sheets aimed at direct and indirect state funding makes the “how are we going to pay” argument vanish, we cannot rely on money creation for an indefinite future. Notwithstanding the constraints on access to foreign currencies that almost all countries face, the necessary national economic planning effort must take into account the informational needs and value creation constraints of any economy, which the monetary creation of a Central Bank, even if supported by a Treasury, by itself cannot solve. In the necessary endeavor to centralize investment decisions, banks have an immense privilege in mobilizing and managing information from the most diverse economic agents, without which any policy that seeks to reallocate, in an aggregate way, present and future resources will not succeed.

Moreover, the efficient resource mobilization needed will have to imply a new highly progressive fiscal design that captures income and, above all, wealth from those who accumulate it in an idle manner. Recovery of monetary sovereignty, capital controls, and tailor-made trade policies must all be mobilized in order to gain “development space” compatible with each national project. In fact, we know, despite the legitimate calls for international solidarity, that the responses to this crisis will occur at the national level because it is at this level that the structures of politics and democracy are (still) implemented.

The post–COVID-19 economic planning program may thus remind us of a war economy, but again, this parallel has its limits. A war effort obeys a political purpose, which, in facing a common enemy, manages to discipline an entire society by centralizing power and overriding liberties and guarantees. In societies such as ours, dominated by powerful private economic interests, such a collective resource mobilization program will only be successful if it is the result of a strong popular mobilization that imposes full employment, the expansion of public services, and the fight against inequality and climate change as its aims. These are objectives that go well beyond the restoration of the capital circuit. They intend to restructure the entire economy, placing it at the service of the collective, forcing a struggle against international and domestic powers. We cannot leave the elaboration of such a program to any technocracy. This implies old and new mechanisms for the democratic participation of workers in economic life.

There is also a gender dimension to this crisis that should not be overlooked. If, on the one hand, we know that it was women who suffered austerity most (they are more precarious, unemployed, and at risk of poverty), we also know that they are today at the forefront of the struggle against the pandemic. It is mostly women (and particularly immigrant women) who provide care work — nurses, operational assistants, nursing home staff, cleaners, educators, informal caregivers — jobs that tend to be poorly paid and with little contractual security, many of which take place in informal settings. This also often means they lack access to the promised credit lines or monetary support for formally employed workers. We know today that these jobs, so often invisible (of which domestic work and long-term care work that take place in the home are also examples of) and so often relegated to a second level of importance, are those that ensure that a society can reproduce itself and survive in testing times such as these. Gaining legitimacy for these jobs and these female workers will have to mean a strengthening of working conditions and the states’ systems of provision (health, education, housing, etc.) with more money and more support, decommodifying new parts of the economy. This must also mean the creation of mechanisms of participation and decision-making in what concerns the public policies that mostly target these (female) workers and of which they are the backbone.

The 2008 crisis exposed the dynamics of unchecked neoliberalism, choosing to save banks over people. It showed the submission of political power to finance, causing brutal impoverishment to the people who dared to reject these new-old forms of subjugation, such as in Greece. However, in 2008, a part of the organized political infrastructures that exists today in the countries of the capitalist center was still underdeveloped, and the answer was, to a large extent, given by oppositional movements like Occupy and squares protests, outside of the game of party politics and not aimed at challenging for state power. The political-organizational landscape has changed, but negative postcrisis experiences (such as Syriza’s capitulation to European rule) and the Left’s inability to win social majorities for a program of transformation throw up further obstacles in the fight that lies ahead.

Yet despite the weaknesses apparent in recent years, we also have new experiences and new lessons — also preparing the terrain for new organizations. From the social movement that sustained Bernie Sanders’s electoral campaign in the United States to many other collective mobilizations around the globe, this is the basis to move forward with a strong grassroots movement, from the shop floor to communities. In particular, they need to assert the demand for popular participation and control in economic decision-making, as instruments to guarantee democracy, the decommodification of life, and a profound shift in the balance of forces between labor and capital.

If we do not succeed in this mobilization, we will be condemned to a new painful and prolonged crisis. Without this positive element of organization, this crisis risks producing yet another “non-death” of neoliberalism. A neoliberalism now reinforced in its authoritarian traits, as the result of the “states of exception” that have been decreed, and in its parasitism of public resources — something on which its success has always depended.

A vacina é um mau negócio?

(Francisco Louçã, in Expresso, 25/04/2020)

Uma reportagem do “Financial Times” desta semana apresenta declarações surpreendentes de alguns dos responsáveis das maiores empresas da indústria farmacêutica. Em resumo, põem em cima da mesa uma chantagem: precisamos de milhares de milhões de dólares nas nossas contas antes de começarmos a produzir qualquer vacina. E acrescentam um apelo, que os governos se entendam para tomar conta da distribuição mundial da vacina, quando ela existir. Esta curiosa combinação de capitalismo ganancioso e de socialismo planificador é o retrato da pandemia.

ELES QUEREM LUCROS

 

Começo pela ganância, afinal ela vem sempre primeiro. David Loew, vice-presidente da Sanofi Pasteur, quer rios de dinheiro antes mesmo da certeza de que uma vacina resulte: “Se a indústria não souber como vai estar o mercado daqui a 18 meses, não pode pagar todos os custos.” A preocupação com o mercado, explica Loew, é que se poderia repetir o que se passou com o ébola ou com a gripe de 2009, passado o susto a procura decresce. Ou seja, se os curamos, os doentes passam a ser um problema, não compram mais medicamentos. Christophe Weber, executivo da japonesa Takeda, explica que “o meu medo é que, depois da epidemia, toda a gente se desinteresse”. Yusuf Hamied, diretor da Cipla, grande produtor farmacêutico na Índia, reforça que “não podemos assumir todos os custos”, lembrando que, em 2009, estava a produzir um antiviral cuja procura caiu depois do susto da gripe. David Ricks, presidente da Eli Lilly, e também da Federação Internacional de Produtores Farmacêuticos, apela ao apoio dos governos, explicando com candura que “não deve haver quem obtenha vantagens, concordo a 100%. Mas os investidores dão-nos capital e esperam um lucro”.

O coro de dirigentes da Big Pharma descreve o seu receio. De facto, eles demonstram que a indústria privada é incompetente para conduzir a investigação científica de base. Sem o aguilhão do lucro fácil, os seus laboratórios resumem-se ao mercado imediato e não investem no que demora e mobiliza recursos para medicamentos cuja rentabilidade futura é desconhecida. E o mercado exclui: quando o Brasil e a África do Sul lutaram contra as multinacionais farmacêuticas para disporem de tratamentos para o VIH a preço comportável, foi só quando ameaçaram produzir genéricos sem autorização que as empresas aceitaram negociar. Considerando estas estratégias de lucro, percebe-se porque é que, apesar de a classe dos coronavírus ser conhecida há décadas, estamos ainda desprotegidos perante os seus riscos. O mesmo critério se aplicou a outras doenças: como o ébola ficou no Sul do planeta e não ameaçou os países do Norte, as pesquisas para o tratamento foram desvalorizadas. Assim, se não são laboratórios universitários e públicos a assumir a linha da frente da investigação científica, o mundo fica mais vulnerável.

O PÚBLICO É A NOSSA SALVAÇÃO

E é aqui que entra a versão socialista e planificadora das grandes farmacêuticas, pedem que os governos se entendam e dirijam a distribuição da futura vacina. Têm razão. No mesmo sentido, Seth Berkley, presidente da Gavi, um fundo internacional para as vacinas, diz que “precisamos de um acordo sobre o acesso e produção dado o risco, para comprar grandes quantidades a preços baratos para distribuir nos países com baixo rendimento”. Ou que, “se não houver solidariedade mundial, a pandemia afetará mais algumas regiões e levará a migração”. Severin Schwan, presidente da Roche, suíça, pede um acordo entre os governos para gerir a distribuição de medicamentos.

Considerando o que a Casa Branca já tentou fazer, apropriando-se de carregamentos em aeroportos internacionais e tentando adquirir o exclusivo de remédios preparados em empresas estrangeiras, a disputa pelo stock da futura vacina é um perigo. Só o evitamos se umas Nações Unidas dirigirem a sua distribuição. Não é fácil, mas se não for assim já sabemos quem serão os sacrificados. A ordem mundial do caos é a maior ameaça contra os pobres do Norte do planeta e contra todo o seu Sul.

O Chico afinal não vem

Era hoje que se entregava o Prémio Camões a Chico Buarque. Já nem sei se pela sua obra literária, que revelou o grande romancista, se pela poesia e pela música, que nos ensinam a viver desde há tanto tempo. Mas a pandemia fechou o Atlântico e a hora não está para a festa que seria esse reconhecimento da grande cultura popular; até fica adiada a bofetada de luva branca em Jair Bolsonaro e no seu discurso de ódio. Será depois. E se esta tarde ouviremos a ‘Grândola’ nas janelas, sugiro-lhe que também nos lembremos desse ‘Tanto Mar’ que nos juntou, bem como da curiosa história das duas versões, a de 1975, que foi proibida no Brasil da ditadura e divulgada em Portugal, a da festa, e a de 1978, a da desilusão depois da festa. Repare no essencial, o que o tempo não altera: há sempre um cheiro de alecrim e uma primavera em algum canto do nosso jardim. Navegar, navegar.

Sei que estás em festa, pá,
Fico contente,
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim.

Eu queria estar na festa, pá,
Com a tua gente,
E colher pessoalmente
Uma flor do teu jardim.

Sei que há léguas a nos separar,
Tanto mar, tanto mar.
Sei também quanto é preciso, pá,
Navegar, navegar.
(…)
(1975)

Foi bonita a festa, pá,
Fiquei contente,
Ainda guardo renitente
Um velho cravo para mim.

Já murcharam tua festa, pá,
Mas certamente
Esqueceram uma semente
Em algum canto de jardim.

Sei que há léguas a nos separar,
Tanto mar, tanto mar.
Sei também quanto é preciso, pá,
Navegar, navegar.
(…)
(1978)

2021 começa a desenhar-se, e é feio

Ainda nos vamos arrepender de ter tolerado, alguns com bonomia, a alegoria da ‘guerra’ para descrever a resposta à covid-19. Estava-se a ver que a imagética guerreira se iria espalhar sem amanhã, os governantes adoram imaginar-se como Churchill de charuto ou como Eisenhower na sala dos mapas, com tanques miniatura à voz dos chefes (Schwarzkopf na “Tempestade do Deserto” é um mito mais infeliz, melhor ficar com Eisenhower). O problema é que uma guerra que não é guerra conforta governantes que se pensam como um comando militar, permitindo a ideia de que viveremos em exceção permanente. Não faltarão ministros inebriados pelo silêncio no espaço público ou pela vontade de calar oposições. Há um Orbán escondido em cada esquina do poder.

No entanto, o pior dos efeitos do simulacro guerreiro é que banaliza as ameaças. A maior de todas é Donald Trump, sobretudo se for reeleito no outono, o que parece possível, e o seu foco é o Pacífico. Já se notou, ao longo dos últimos quatro anos, que a grande mutação geoestratégica foi a vertiginosa aceleração da disputa entre os EUA e a China, mas 2021 será pior do que já vimos, e por duas razões.

A primeira é que a pandemia pode estar a ser o Momento Chernobyl dos Estados Unidos. A força de Washington como poder hegemónico baseia-se no seu poder económico e tecnológico (a maior concentração de capital), monetário (80% das transferências nas cadeias produtivas e dois terços das emissões de títulos são em dólares), militar (800 bases no estrangeiro) e até cultural (a língua e a comunicação). Este poder estabelece uma rede de alianças. Manda, mas tem-se desgastado militarmente (o fracasso no Afeganistão, no Iraque, na Somália), tecnologicamente (a derrota no 5G) e economicamente (o crescimento da China), mas sobretudo politicamente. O isolacionismo de Trump assusta os seus subordinados e o seu negacionismo, primeiro, e a irresponsabilidade perante a covid, depois, demonstram que não é um líder. Mais fraco é mais ameaçador.

A segunda mudança é a emergência da China como potência mundial, usando o tempo contra o rival. Estabelece redes (cem países têm dívidas à China, mais do que ao FMI). Exibe a sua capacidade (4 mil milhões de máscaras produzidas em cinco semanas) e oferece cooperação onde a Casa Branca mostra desprezo. Não tem uma moeda dominante, mas tem poder financeiro. E tem Trump do outro lado, a certeza da incerteza. Em 2021, estes colossos estão a acelerar um contra o outro, e isso é uma ameaça belicosa. Se há risco de guerra, para já económica, é aí que desponta.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

O Insustentável Peso do Capital Financeiro

A nova fase da crise económica e financeira do capitalismo, ampliada pelos efeitos das medidas tomadas um pouco por todo o mundo em função do surto pandémico do novo coronavírus, vem expor elementos fundamentais para a história do capitalismo, para a função dos estados e das suas configurações, para a compreensão da acumulação capitalista e deixar pistas para as soluções que podem ser encontradas nos períodos que vivemos e nos que se seguirão.

É verdade que só o trabalho produz riqueza, essa lei incontornável do marxismo não carecia de prova a não ser para contrariar a retórica da classe dominante no plano das ideias. Apesar dessa constante ofensiva ideológica da burguesia, na sua constante exaltação do capital, a realidade nunca deixou de demonstrar com a necessária dureza de que o capital, sendo “trabalho morto”, só pode existir, existindo trabalho e que a “mais-valia”, fonte do rendimento do capitalista, só pode ser extraída da realização de trabalho. E nem a substituição do escravo assalariado por máquinas pode resolver essa questão fundamental e definidora do capitalismo.

Todavia, no momento presente, em que a produção e a prestação de trabalho desaceleram, os centros capitalistas, os centros financeiros e os monopólios não estão ameaçados do ponto de vista económico. Podem estar ameaçados politicamente, pois que se torna cada vez mais injustificável o seu privilégio de classe, pois que é cada vez mais insustentável justificar o peso político de um capital predatório e avassalador, mas não estão financeira nem economicamente constrangidos. Se é facto que a produção de riqueza resulta única e exclusivamente da realização de trabalho e que capital não produz capital a não ser especulativo – que é como quem diz, de extracção indirecta de mais-valias – não é menos verdade que um período de menor produção e de ampliação do exército industrial de reserva pode coincidir com um período de maior concentração e acumulação de riqueza.

O stock e o capital mantêm fluxos, a economia funciona com a produção de alguns bens em queda mas mantém as regras de funcionamento. O que significa que a crise e as medidas de combate ao coronavírus não implicaram alterações no modo de produção nem na interacção do Estado com os grupos económicos. Enquanto que um conjunto vasto de liberdades e direitos foi simplesmente cilindrado pelo confinamento social e pelo encerramento compulsivo de pequenos negócios e produções, nenhum privilégio dos grandes accionistas foi sequer tocado. Mantém-se o privilégio de especular com preços de bens essenciais, mantém-se o privilégio de ter propriedade improdutiva, o privilégio de despedir, o privilégio de explorar e extrair mais-valias do trabalho alheio. Da mesma forma, nas esferas mais elevadas do capital, o capital financeiro mantém o seu papel de agiota, cobrando pelo dinheiro mais do que a economia actualmente produz, assim provocando uma concentração de riqueza ainda mais acelerada que a já habitual.

Apesar de haver menos produção, os circuitos comerciais activos estão mais concentrados e apenas os grupos monopolistas terão condições para ressurgir com o necessário vigor após um confinamento prolongado. Ainda que exista mitigação económica por parte do Estado, essa mitigação deixa sempre uma percentagem nas mãos da banca e não será suficiente para resolver todas as perdas dos trabalhadores e da pequena-burguesia esfarrapada. Além disso, essa mitigação representa a abertura dos cordões das bolsas públicas, criando um fluxo que alimenta a economia – eminentemente privada – através de recursos públicos. Os trabalhadores, ainda que em menor escala e volume, mantêm o consumo dos bens e mercadorias produzidas no modo capitalista, mas com financiamento público. O resultado dessa estratégia, de capturar apenas os recursos públicos para fazer frente às adversidades provocadas pelo surto, também será o do esvaziamento dos orçamentos e capitais públicos e a sua ulterior concentração nas mãos dos proprietários capitalistas e, especialmente, nas mãos da banca.

Isto não significa que os apoios públicos à economia sejam um retrocesso. Apenas que não pode manter-se a estrutura de propriedade e de exploração enquanto se altera o papel e a despesa do Estado de forma tão significativa. Se o Estado passa a financiar o consumo e a economia, então uma fatia maior dos seus recursos deveria provir da taxação do capital e dos dividendos. Ou então, se estão suspensos direitos absolutamente fundamentais para os trabalhadores, que se suspendam todos os privilégios do grande capital.

No longo prazo, mantendo o modo de produção e a submissão dos estados burgueses aos grandes grupos económicos, a economia ficará inteiramente concentrada nas mãos dos monopólios. A fusão do capital bancário com o capital industrial será inteira e atingirá as camadas intermédias e da pequena-burguesia como nunca. O capital financeiro será ainda mais dominante e estará ainda mais concentrado. De acordo com Lenine, isso também terá repercussões na forma de poder, no autoritarismo, no belicismo e na expansão do neo-colonialismo. O imperialismo, fase superior do capitalismo não deixa de ser a fase do “capitalismo de transição”, a fase da passagem do capitalismo ao socialismo.

O que é urgente é que o proletariado, o activo e o colocado à força na reserva, reclame o poder e faça frente ao mais letal dos vírus que a Humanidade já conheceu, o capitalismo. Só superaremos o estado de sítio burguês – mesmo depois da pandemia – se a essa classe forem retirados os privilégios para que possam ser redistribuídos como direitos a todos os condenados da terra.

Ver original em 'Manifesto 74' na seguinte ligação:

http://manifesto74.blogspot.com/2020/04/o-insustentavel-peso-do-capital.html

O combate ao coronavírus fará mudanças duradouras nas economias. Por Michael Mackenzie

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

O combate ao coronavírus fará mudanças duradouras nas economias

Os investidores que tentam saber até onde vai o mercado na sua descida têm pela frente uma tarefa assustadora

Michael Mackenzie 

Por Michael Mackenzie

Publicado por FTimes em 20/03/2020 (“The coronavirus fightback will make lasting changes to economies”, ver aqui)

89 O combate ao coronavírus fará mudanças duradouras nas economias FT M Mackenzie 1

Uma máscara cirúrgica é colocada sobre a Rapariga sem Medo-‘Fearless Girl’ – em frente à bolsa de Nova Iorque. © AP

Na luta para travar o surto de coronavírus que desestabilizou a economia mundial, os bancos centrais fizeram todo o possível, com intervenção após intervenção, para acalmar os mercados de capitais.

Os governos estão a seguir de perto, anunciando iniciativas de despesa massiva para proteger as suas economias de recessões profundas. Quando a pandemia acabar por recuar, os efeitos destas ações continuarão a fazer-se sentir. Isto introduz outro elemento de incerteza para aqueles que tentam traçar o rumo de uma eventual recuperação das ações e de outras classes de ativos.

Num mundo em que os países estão a tornar-se ilhas e as cidades estão a tornar-se agregados familiares, os investidores temerosos estão a acumular dinheiro, em particular dólares americanos. Após uma década de dívida excessiva, está a ter lugar um balanço doloroso nos mercados globais. Nenhuma classe de ativos é segura, à exceção dos títulos do Tesouro dos EUA de curto prazo. À medida que os seus preços subiram, os rendimentos implícitos destes títulos – vistos como equivalentes de caixa – ficaram abaixo de zero durante a frenética negociação desta semana entre ações, crédito, moedas, dívida pública e petróleo.

O método geralmente fiável de seguro de carteira, através da compra de ouro ou de obrigações do Tesouro de longa maturidade que se saem bem quando os ativos mais arriscados sofrem, não foi poupado.

Alguns investidores precisam de dinheiro para fazer face aos resgates dos fundos que gerem ou para reembolsar garantias sobre posições que continuam a afundar-se abaixo da linha de flutuação. Outros optaram claramente por acumular dinheiro enquanto esperam que a extrema volatilidade do mercado diminua.

Um fortalecimento do dólar americano realça a magnitude desta desalavancagem global. Em todas as classes de ativos, as transações de fuga aos ativos é voraz e a fuga dos mercados emergentes é fortemente ilustrada pelo Institute of International Finance. De acordo com os seus números, as saídas dos mercados emergentes desde finais de Janeiro já são duas vezes superiores às de um período semelhante durante a crise financeira global de 2008 e muito maiores do que em outros episódios como a reação dos mercados em pânico em 2014, dita o “taper taantrum”

Os investidores habituados aos fortes picos na  subida e na descida do valor dos ativos podem muito bem olhar para o ambiente atual e ver sinais de uma boa oportunidade de compra a longo prazo. As grandes quedas são seguidas por grandes recuperações. Mas os eventos deste ano são diferentes.

Uma pandemia de duração indeterminada está a causar uma profunda recessão económica – que fecha a porta das empresas e aos seus trabalhadores, em particular aos da economia gig, criando dificuldades para muitos que dependem inteiramente dos seus cheques de salário semanais ou mensais.

O espectro de uma crise de solvência para a economia em geral fez com que os bancos centrais e os governos entrassem em ação.

Os investidores terão de atacar nos próximos meses, mas “quando a pandemia começar a diminuir”, o momento terá passado

Rob Arnott, Research Affiliates

Os esforços dos decisores políticos são cruciais para travar os prejuízos económicos, mas este é um ambiente em que – em vez de esperar por boas notícias nos dados económicos – a única estatística que conta é a evidência do pico do Covid-19. Só então os investidores poderão realmente começar a avaliar que tipo de recuperação poderá ser encarada e o que representa o justo valor para os preços dos ativos.

Alan Ruskin do Deutsche Bank argumenta que o otimismo numa eventual recuperação em forma de V é “quase impossível quando a economia real só está a começar a caminhar pelo lado negativo do V e a um ritmo que é verdadeiramente histórico. Ainda é muitíssimo cedo para começar a ver o seu fim, que é a métrica fundamental para a recuperação do risco”.

Procurar determinar o ponto mínimo e máximo no valor dos ativos é uma tarefa assustadora. Mas para os investidores com um longo horizonte temporal, há uma oportunidade de comprar ativos que sofreram um forte rebaixamento, talvez por pequenos passos.

Rob Arnott, fundador da Research Affiliates, diz que esses investidores terão de atacar nos próximos meses – uma vez que “quando a pandemia começar a diminuir”, argumenta, o momento terá passado. “A janela de oportunidade será curta, mas altamente gratificante a longo prazo”.

Outro desafio a longo prazo consiste em avaliar o terreno pós-pandémico para as empresas e as economias.

As recessões profundas eliminam frequentemente os galhos secos do ciclo económico anterior, o que facilita uma recuperação rápida. As empresas que sobreviverem à próxima vaga de incumprimentos tornar-se-ão mais fortes à medida que a concorrência se for intensificando, enquanto as prováveis mudanças na forma como as pessoas trabalham e interagem entre si apresentam oportunidades para as empresas para além da atual crise. Isso pode muito bem revigorar o próximo ciclo económico.

Há também a possibilidade de os governos e os bancos centrais não reduzirem a sua pronunciada presença nos mercados e na economia quando a crise passar. Há muita margem para os bancos centrais monetizarem um grande aumento das despesas públicas, dada a dimensão dos potenciais prejuízos económicos que se avizinham.

A injeção  de dinheiro diretamente para as mãos das pessoas e empresas, em vez dos bancos, como foi feito na sequência da crise financeira de 2008, irá sem dúvida revelar-se popular – especialmente na medida em que se trata de estimular a recuperação económica. Mas também é provável que venha a criar uma inflação muito mais elevada no futuro.

Os investidores irão ajustar-se e encontrar os motores do próximo mercado em alta, mas terão também de navegar por profundas mudanças em todo o sistema económico e financeiro. Nesse sentido, as consequências do surto de coronavírus continuarão a pairar sobre o panorama dos investimentos nos próximos anos.

 

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O autor: Michael Mackenzie é comentador senior de investimentos do FT. Foi editor de mercados globais em Londres e, antes de 2015, foi o editor dos EUA. Juntou-se ao escritório do FT em Nova Iorque em 2006, depois de cobrir os mercados de obrigações e derivados americanos para o Dow Jones a partir de 2000. Antes da sua carreira jornalística, Michael foi corretor de derivados para a Tullett & Tokyo em Hong Kong, Londres, Toronto, Nova Iorque e Tóquio.

 

 

 

 

 

 

 

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/04/27/o-combate-ao-coronavirus-fara-mudancas-duradouras-nas-economias-por-michael-mackenzie/

Solucionismo, nova aposta das elites globais

 
 
Tabu que proibia Estados de gastar caiu. Para evitar, a todo custo, que se examinem as causas da tragédia, os ultrarricos e corporações buscam saídas “tecnológicas”. Vale tudo – exceto contestar a supremacia dos mercados sobre as sociedades…
 
Evgeny Morozov | Outras Palavras | Tradução de Simone Paz
 
Em questão de semanas, o coronavírus deu um apagão na economia mundial e mandou o capitalismo para a unidade de cuidados intensivos. Muitos pensadores têm manifestado sua esperança de que isso nos leve a um sistema económico mais humano; outros alertam que a pandemia anuncia um futuro sombrio de vigilância estatal tecno-totalitária.
 
Os clichés datados, tirados das páginas do romance 1984, deixaram de ser guias confiáveis do que está por vir. O capitalismo de hoje é mais forte — e mais estranho — do que seus detratores imaginam. Seus inúmeros problemas não só apresentam novos caminhos para o lucro, como também aumentam sua legitimidade — já que, nas condições atuais, a única solução dependerá de pessoas como Bill Gates e Elon Musk. Quanto piores as crises, mais fortes são seus anticorpos: não é desse jeito que o capitalismo não acaba.
 
Entretanto, os críticos do sistema estão corretos em ver o covid-19 como uma confirmação de suas advertências. O vírus revelou a falência dos dogmas neoliberais de privatização e desregulamentação — mostrando o que acontece quando os hospitais são administrados com fins lucrativos e a austeridade reduz os serviços públicos. Mas o capitalismo não sobrevive apenas pelo neoliberalismo: este último só desempenha o papel do policial malvado, insistindo, com as palavras do mantra de Margaret Thatcher, em que “não há alternativa”.
 
Nesta novela, o policial bonzinho é a ideologia do “solucionismo”, que transcendeu suas origens no Vale do Silício e agora faz a cabeça das elites dominantes. Em sua versão mais simples, sustenta que como não há alternativas (ou tempo, ou dinheiro), o melhor que podemos fazer é colocar curativos digitais sobre os danos. Os solucionistas implantam tecnologia para evitar a política; defendem medidas “pós-ideológicas” que mantêm girando as engrenagens do capitalismo global.
 
 
Após décadas de políticas neoliberais, o solucionismo virou a resposta padrão para muitos problemas políticos. Por exemplo, por que um governo investiria na reconstrução dos arruinados sistemas de transporte público, tendo a opção de simplesmente usar Big Data para criar incentivos personalizados para cada passageiro, a fim de desencorajá-los a fazer viagens em horários de pico? Como o arquiteto de um desses programas em Chicago disse, há alguns anos: “soluções desde o ponto de vista da oferta, como a construção de mais linhas de transporte público… são muito caras”. Em vez disso, “o que estamos fazendo é procurar formas da tecnologia de dados administrar a demanda… ajudando os cidadãos a compreender qual o melhor horário para se deslocar”.
 
As duas ideologias têm uma relação bastante íntima. O neoliberalismo aspira a reformular o mundo de acordo com os manuais elaborados durante a Guerra Fria: mais concorrência e menos solidariedade, mais destruição criativa e menos planeamento estatal, mais dependência dos mercados e menos bem-estar social. O fim do comunismo facilitou essa tarefa — mas a ascensão da tecnologia digital acabou virando um novo obstáculo.
 
Mas como? Embora a tecnologia de dados e a inteligência artificial não favoreçam atividades para além do mercado, elas tornam mais fácil imaginar um mundo pós-neoliberal — onde a produção seria automatizada e a tecnologia serviria de base para sistemas de Saúde e Educação universais, para todos: um mundo em que a abundância seria compartilhada, e não apropriada.
 
É exatamente neste ponto que o solucionismo aparece. Se o neoliberalismo é uma ideologia proativa, o solucionismo é reativo: ele desarma, desativa e descarta toda alternativa política. O neoliberalismo encolhe os orçamentos públicos; o solucionismo encolhe a imaginação coletiva. O maior objetivo do solucionismo é convencer o público de que a forma legítima de uso das tecnologias digitais é perturbar e revolucionar tudo — com exceção da instituição central da vida moderna: o mercado.
 
Atualmente, o mundo está fascinado pela tecnologia solucionista — desde um aplicativo polaco, que exige que os pacientes com coronavírus tirem selfies regularmente para provar que estão dentro de casa, até o app chinês de avaliação da saúde em cores e códigos, que rastreia quem pode sair de casa. Governos têm procurado companhias como a Amazon e a Palantir para obter infraestrutura e modelagem de dados, enquanto Google e Apple unem suas forças para habilitar soluções de “preservação da privacidade” no rastreamento de dados. Assim que os países entrarem na fase de recuperação, o setor de tecnologia emprestará com alegria seus conhecimentos tecnocráticos para a faxina. A Itália já colocou Vittorio Colao, ex-CEO da Vodafone, como o responsável para liderar sua força-tarefa pós-crise.
 
De fato, podemos observar duas vertentes diferentes do solucionismo, nas respostas dos governos à pandemia: os “solucionistas progressistas” acreditam que a exposição oportuna às informações corretas, por meio de aplicativos, fará as pessoas se comportarem em favor do interesse público. Essa é a lógica do nudging (“cotovelada”), que moldou a desastrosa resposta inicial do Reino Unido frente à crise. Os “solucionistas punitivistas”, pelo contrário, querem usar a vasta infraestrutura de vigilância do capitalismo digital para restringir nossas atividades diárias e punir quaisquer transgressões.
 
No momento, já estamos há um mês debatendo como essas tecnologias podem ameaçar nossa privacidade — mas esse não é o pior perigo para nossas democracias. O verdadeiro risco é que essa crise consagre o kit de ferramentas solucionista como a opção padrão de abordagem de todos os outros problemas existenciais — desde a desigualdade até as mudanças climáticas. Afinal de contas, é muito mais fácil utilizar a tecnologia solucionista para influenciar o comportamento humano individualmente do que fazer perguntas políticas complexas sobre a raiz dos problemas que geraram tais crises.
 
Mas as respostas solucionistas para esta situação de catástrofe só farão com que diminua nossa imaginação pública — tornando ainda mais difícil imaginar um mundo sem os gigantes da tecnologia no domínio de nossa infraestrutura política e social.
 
No momento, somos todos solucionistas. Quando nossas vidas estão em risco, promessas abstratas de emancipação política são bem menos tranquilizadoras do que a promessa de um aplicativo que informa quando é seguro sair de casa. A verdadeira questão é se ainda seremos solucionistas no pós-pandemia.
 
A resiliência do solucionismo e neoliberalismo não se baseia em suas ideias subjacentes sejam supostamente boas, mas sim no fato tais ideias terem reformulado profundamente as instituições, incluindo os governos. O pior ainda está por vir: a pandemia vai fortalecer o Estado solucionista, assim como os atentados do 11 de setembro fortaleceram o estado de vigilância, criando uma desculpa para preencher o vácuo político com práticas antidemocráticas, desta vez, em nome da inovação — e não apenas da segurança.
 
Uma das funções do estado solucionista é desencorajar programadores, hackers e aspirantes a empreendedores a experimentar formas alternativas de organização social. Que o futuro seja das startups não é um fato natural, mas um resultado político. Nessa perspectiva, empreendimentos baseados em tecnologia mais subversivos, que poderiam impulsionar economias solidárias, não baseadas no mercado, morrem no estágio de protótipo. Há uma razão por trás do fato de não termos visto surgir nenhuma outra Wikipedia nos últimos vinte anos.
 
Uma política “pós-solucionista” deveria começar acabando com o binário artificial entre a ágil startup e o ineficiente governo que limita nossos horizontes políticos. A questão não deveria ser qual ideologia — social-democracia ou neoliberalismo — consegue aproveitar e domesticar melhor as forças da concorrência, mas sim: de que instituições precisamos para aproveitar as novas formas de coordenação social e inovação oferecidas pelas tecnologias digitais.
 
O debate atual sobre qual a resposta tecnológica correta para o covid-19 parece sufocado precisamente porque não temos nenhuma política pós-solucionista à vista. Ele gira em torno das compensações entre privacidade e saúde pública, por um lado, e em torno da necessidade de promover a inovação por startups, por outro. Por que não existem outras opções? Será que não é porque nós mesmos deixamos que as plataformas digitais e operadoras de telecomunicações tratassem todo o nosso universo digital como se fosse seu feudo.
 
Eles o executam com apenas um objetivo em mente: manter a micro-segmentação da publicidade e o fluxo dos micro-pagamentos. Como resultado, pouco se pensou na construção de tecnologias digitais que produzissem insights em nível macro sobre o comportamento coletivo de não-consumidores. As plataformas digitais atuais são locais de consumo individualizado, não de assistência nem de solidariedade mútuas.
 
Embora possam ser usadas com fins não-comerciais, as plataformas digitais de hoje são péssima base para uma ordem política aberta a outros atores que não sejam consumidores, startups ou empreendedores. Se não reivindicarmos plataformas digitais para uma vida democrática mais vibrante, seremos condenados por décadas a chegar à infeliz escolha entre solucionistas “progressistas” e “punitivistas”.
 
E, como resultado, é nossa democracia que vai sofrer. A festa do solucionismo desencadeada pelo covid-19 revelou a extrema dependência que as democracias reais têm no exercício do poder privado, não democrático, das plataformas tecnológicas. Nossa primeira meta deve ser a de traçar um caminho pós-solucionista, que nos dê soberania pública sobre as plataformas digitais.
 
Caso contrário, nos queixarmos sobre a resposta autoritária, porém eficaz, da China ao Covid-19 não será só patético, como também hipócrita: existem muitas formas de tecno-autoritarismo para o futuro — e a versão neoliberal não parece tão mais atraente do que a alternativa.
 
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Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/04/solucionismo-nova-aposta-das-elites.html

VALÉRIE BUGAULT: PARA COMPREENDER A NOVA (DES)ORDEM MUNDIAL

Desemprego nos EUA pode atingir níveis da crise de 1929, diz funcionário da Casa Branca

Presidente dos EUA, Donald Trump, durante briefing diário da força-tarefa contra o coronavírus na Casa Branca, em Washington, EUA, 23 de abril de 2020
© REUTERS / Jonathan Ernst

O desemprego nos Estados Unidos pode atingir níveis nunca vistos desde a Grande Depressão, afirmou, neste domingo (26), Kevin Hassett, consultor econômico do presidente norte-americano Donald Trump.

"Vamos ver uma taxa de desemprego que se aproxima das taxas que acho que vimos durante a Grande Depressão", disse Hassett em entrevista à emissora ABC.

A taxa de desemprego durante a Grande Depressão atingiu o pico em 1933, quando chegou a 25%. Entre 1931 e 1940, o desemprego permaneceu acima de 14% nos EUA. Desde então, o desemprego ultrapassou o limite de 10% em duas ocasiões - em 1982 e 2009.

Enquanto isso, 26 milhões de norte-americanos entraram com pedidos de auxílio-desemprego em fevereiro e março deste ano.

O Escritório de Orçamento do Congresso prevê que o desemprego aumentará em 3,8% no primeiro trimestre de 2020, chegará a 14% no segundo trimestre, 16% no terceiro trimestre e cairá para 10,1% até o final de 2021.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2020042615505008-desemprego-nos-eua-pode-atingir-niveis-da-crise-de-1929-diz-funcionario-da-casa-branca/

Costa tem de agradar a gregos e troianos para aprovar orçamento suplementar

 

As prioridades da direita e da esquerda para o orçamento suplementar diferem. António Costa tentará agradar a gregos e troianos naquilo que deverá ser o foco do orçamento.

 

Até julho, o Governo deverá apresentar o orçamento suplementar para enfrentar a pandemia de covid-19. No entanto, começam-se a jogar as primeiras cartas no delineamento do orçamento, com a direita e a esquerda a fazerem saber as suas reivindicações.

O presidente do PSD, Rui Rio, já lançou o mote, sugerindo que as empresas devem ser o motor da recuperação económica e que, para tal, o Governo deve criar todas as condições necessárias em sede fiscal para que isto possa acontecer. A solução pode passar por aumentar a “receita de determinados impostos para poder reduzir outros”.

A ideologia é partilhada por Francisco Rodrigues dos Santos. De acordo com o Expresso, o líder do CDS defende que é urgente injetar liquidez nas empresas, pagar as dívidas do Estado aos fornecedores, eliminar Pagamento por Conta, o Pagamento Especial por Conta e o Pagamento Adicional por Conta de IRC e IRS, bem como as contribuições das PME para a Segurança Social, ajustar as tabelas de retenção do IRS e passar um cheque de emergência até 15 mil euros para as PME.

 
 

À esquerda, as preocupações para o orçamento suplementar são outras. O Bloco de Esquerda argumenta que “o emprego é a primeira condição para a recuperação da economia”. Nesse mesmo sentido, o PCP rejeita o congelamento dos aumentos previstos para a Função Pública.

“O reforço de verbas tendo em conta esta realidade tem de ser feito em áreas cruciais, […] a primeira das quais o SNS“, reiterou Jerónimo de Sousa em entrevista ao Expresso. Os partidos de esquerda exigem também um maior investimento público.

ZAP //

 
 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/costa-agradar-gregos-troianos-321244

Disney suspende salários a 100 mil trabalhadores 

Os parques temáticos da Disneyland e Disney World suspenderam contratos a 100 mil trabalhadores, mais de metade da sua força de trabalho.

Créditos / NiT

A Walt Disney Company, a maior empresa de entretenimento do mundo, mantém encerrados os parques temáticos, com centenas de hotéis, lojas e restaurantes, à excepção de Xangai, que admite um pequeno número de visitantes sob rigorosas medidas sanitárias.

Depois de anunciar a decisão, seguindo as ordens de confinamento de cada país, a empresa garantiu que pagaria os salários aos seus funcionários, afastando a hipótese de despedimentos.

Mas, segundo uma investigação do britânico Financial Times, desde o passado dia 18 de Abril foram suspensos os salários a 100 mil dos 177 mil trabalhadores dos parques em todo o mundo, estimando-se uma poupança para a empresa de 500 milhões de dólares por mês.

Em 2019, a Walt Disney arrecadou 69 mil milhões de dólares com os parques (38% da sua facturação) e obteve um lucro de sete mil milhões de dólares.

Fundada há quase cem anos, a Walt Disney Company detém uma participação a 100% em três dos seus parques (dois nos EUA e um em França), uma participação substancial em outros dois na China continental e Hong Kong e opera num sexto no Japão.

Com agência Lusa

 

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/disney-suspende-salarios-100-mil-trabalhadores

De Espanha pelo menos vem um plano

 
Já passaram quatro dias desde que se tornou pública a proposta de Espanha para financiar o chamado Fundo de Recuperação Europeu, proposta apresentada na cimeira do Conselho Europeu de ontem, 23 de abril.
Em traços muito gerais, o referido fundo, num montante entre 1 e 1,5 biliões de euros (entre 6 e 9% do PIB da União Europeia em 2019), seria financiado através da emissão de dívida perpétua, cujos juros seriam pagos por novos impostos europeus e/ou por lucros do BCE. 
 
Adicionalmente, este fundo seria assumido diretamente pela União Europeia que o utilizaria para subsidiar os estados membros, não com crédito, mas com subvenções a fundo perdido.

 

Esta proposta de financiamento, assumindo a forma de subsídios e não de empréstimos, vai no sentido do que tem sido defendido um pouco por todo lado e também neste blogue - financiamento que não implique dívida – e acerca dela deixo um par, ou assim, de notas.
 
Primeiro, loas para a coligação que governa Espanha que, embora tarde, lá decidiu deixar de ignorar o enorme paquiderme que se passeava na sala.

Segundo, embora a proposta tenha um sentido correto, financiar sem sobrecarregar com nova dívida, é ainda assim uma proposta que mantém o tabu. Não há qualquer razão económica para não ser o banco central a financiar este fundo. Também porque não faz qualquer sentido usar crédito perpétuo de financiadores privados oferecendo-lhes assim uma renda em juros igualmente perpétua. O financiamento deve ser monetarizado pelo banco central.

Terceiro, a União Europeia demorou, mais uma vez, uma eternidade a iniciar a discussão acerca de um assunto que não podia deixar de discutir. Não é ainda totalmente claro qual será o destino da proposta espanhola. O meu palpite é que, na melhor das hipóteses, os países do centro/norte da UE acabem a impor um modelo de financiamento assente sobretudo no crédito, mas incluindo umas migalhas de subvenção. Se o palpite se concretizar, teremos a repetição da tragédia de há uma década: atraso, insuficiência e orientação errada, à luz de certos valores e interesses, da política económica. Com os custos que isto significou, e voltará a significar, para a periferia.

Quarto, de nada nos valeu ter o Ronaldo das finanças a “liderar” o chamado eurogrupo. Enquanto este se mantinha diligentemente no quadro imposto pela Holanda e pela Alemanha, os nossos interesses estavam a ser defendidos pelos espanhóis. Está a valer-nos o facto de, neste assunto, termos interesses convergentes. Contudo, se ao governo faltou coragem política, não lhe falta instinto de sobrevivência.

Quinto, tentar lucrar politicamente com a proposta do governo espanhol, como está a fazer o Bloco, reivindicando para si a paternidade da ideia, pode até trazer dividendos eleitorais, mas a verdade é que a sua proposta incluía mais endividamento. Com juros irrisórios e capital a pagar a oitenta anos, é certo, mas dívida. Um erro que podia ter sido evitado. Custa-me muito porque tenho a minha militância aqui empenhada.

Sexto, se parte da esquerda portuguesa está assim resignada ao que é permitido pelo ordenamento europeu e a direita está ainda e sempre inebriada com a austeridade e alheada do interesse do país, o que esperar?

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Portugal | Recibos verdes pagam mais à segurança social do que ganham em apoios

Ana Godinho, ministra do trabalho e segurança social, ri de quê?  (pg)
 
Mesmo com adiamentos, pouco fica para sobreviver, queixam-se os independentes. Só quem declara mais de 2820 euros mensais recebe ajuda máxima de 438,81 euros.
 
 
Os trabalhadores independentes estão a ser surpreendidos com valores de apoio à perda total de atividade durante o mês de março muito inferiores ao que esperavam. Além de ser preciso faturar acima de 2820 euros para conseguir receber o correspondente a um indexante de apoios sociais (IAS, 438,81€), ainda há que contar que só estão a ser pagos 20 dos 31 dias de março. Quem não pedir diferimento do pagamento das contribuições obrigatórias pode, na prática, nem ter ajudas suficientes para pagar a taxa de 21,4% dos recibos verdes.
 
"Tenho a receber 110€ de apoio. Tenho a pagar 151,03€ de contribuições. Fico com menos 41,03€", queixou-se um trabalhador independente, que pediu redução de 25% na contribuição a pagar no primeiro trimestre e não pediu diferimento do pagamento mensal. O apoio acaba por ser calculado sobre a base de incidência mensal reduzida em 25%. E não recebe 100%.
 
"Os valores são muito inferiores ao esperado. Deviam ser iguais à base de incidência contributiva, com um valor máximo de um IAS. Mesmo quem ganha o suficiente para atingir esse valor [cerca de 2820€] só está a ter indicação de pagamento de 292,54€ e ninguém percebe o motivo", denunciou Daniel Carapau, do movimento Precários Inflexíveis. O grupo que representa trabalhadores independentes recebeu "dezenas de pedidos de esclarecimento" nos últimos dias, sem resposta segura para dar. "O decreto já mudou três vezes. E em abril já vai haver outras regras. Ninguém se entende", resumiu Carapau.
 
As regras foram publicadas a 13 de março, mas só agora o Governo explicou os cálculos. "Em março, o apoio é atribuído aos trabalhadores independentes com paragem total de atividade ou paragem da atividade do respetivo setor, e corresponde ao período de 20 dias, desde 12 de março a 31 de março [o Decreto-Lei n.o 10-A/2020, de 13 de março, produziu efeito à data da sua aprovação, dia 12]", explicou ao JN fonte do Instituto da Segurança Social.
 
 
 
Regras e diferimentos
 
O primeiro anúncio do Governo relativo aos apoios para trabalhadores independentes obrigados a ficar em casa com os filhos devido ao encerramento das escolas, em março, assegurou que receberiam, no mínimo, 438,81€ (1 IAS). Nem isso aconteceu, porque a base de incidência da maioria dos salários está muito abaixo de um IAS, por isso só vão receber 1/3 da base. Para um salário de 1000€, no caso de dois "recibos verdes" que tenham pedido apoio em março, um por apoio a filhos e outro por paragem de atividade, o primeiro vai receber 77,77€ e o segundo 155,55€.
 
O apoio é curto e ainda há que pagar a contribuição mensal, de 21,4% sobre a base de incidência, o que pode tornar-se impossível. Nestes casos, esclareceu a mesma fonte da Segurança Social, quem está a receber apoio tem "direito ao diferimento da totalidade das contribuições dos meses em que recebe o apoio, tendo de as regularizar a partir do 2.º mês seguinte à cessação do apoio". O acesso é automático, "bastando que o trabalhador não efetue o pagamento da contribuição nos meses em que está a receber o apoio". Todos os recibos verdes, recordou, têm a opção de pagar apenas 1/3 das contribuições adiando o restante para pagamento em prestações sem juros a partir de julho.
 
Erika Nunes | Jornal de Notícias

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/04/recibos-verdes-pagam-mais-seguranca.html

A Europa impotente face à perspetiva de uma tragédia global ? Texto 31. Banco de Inglaterra quebra o tabu do não-financiamento governamental. Por Martine Orange

 

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Texto 31. Banco de Inglaterra quebra o tabu do não-financiamento governamental.

Martine Orange 

Por Martine Orange

Publicado por Mediapart(La banque d’Angleterre brise le tabou du non-financement des Etats) em 09/04/2020 (ver aqui)

 

O banco central britânico financiará diretamente o Tesouro para o ajudar a fazer face à devastação sanitária e económica provocada pela epidemia do Covid-19. Um dos pilares do neoliberalismo desmorona-se.

 

No dia 9 de Abril caiu um tabu. E não um tabu qualquer. Um dos pilares do neoliberalismo: a independência dos bancos centrais e a proibição financiarem diretamente os Estados. O Banco de Inglaterra anunciou, de manhã cedo, que iria financiar diretamente “numa base temporária e de curto prazo” as despesas adicionais do Governo britânico relacionadas com as consequências da pandemia do Covid-19.

A partir de agora, todas as novas emissões do Tesouro serão subscritas diretamente pelo banco central. Isto significa que o governo deixará de ter de passar pelos mercados obrigacionistas e poderá escapar às restrições e exigências dos mercados financeiros, pelo menos momentaneamente.

Embora o Banco de Inglaterra já tivesse utilizado este mecanismo muito brevemente e de forma muito limitada (apenas 20 mil milhões de libras esterlinas na época) na altura da crise de 2008, esta decisão marca uma reviravolta dramática, tanto intelectual como prática. Porque desta vez, o Banco de Inglaterra diz estar disposto a conceder um financiamento ilimitado, dada a gravidade da crise provocada pelo coronavírus.

Texto 31. Banco de Inglaterra quebra o tabu do nãofinanciamento governamental 1

Andrew Bailey, governador do Banco de Inglaterra © Tolga Aklen / AFP

O novo governador do Banco de Inglaterra, Andrew Bailey, tinha excluído o recurso a um tal dispositivo. Em meados de Março, considerava que tal medida não era adequada para lidar com a epidemia do coronavírus. Em 6 de Abril, continuava a utilizar uma coluna do Financial Times para se opor a todas as propostas de monetização da dívida pública britânica.

A ideia é avançada pelos apoiantes da Política Monetária Moderna, que argumentam que os Estados podem financiar-se a si próprios tanto quanto querem através da criação de dinheiro, especialmente para iniciar a transição ecológica. Foi recentemente retomada por Adair Turner, antigo presidente da Autoridade dos Serviços Financeiros do Reino Unido durante a crise de 2008. Na sua opinião, dadas as circunstâncias excecionais, os bancos centrais devem alinhar-se atrás dos governos para os ajudar a fazer face a este cataclismo económico.

A monetização da dívida “prejudicaria a credibilidade [do banco central] no controlo da inflação ao minar a sua independência operacional. A prazo isto iria conduzir a um balanço insustentável do banco central e é incompatível com a prossecução de um objetivo de inflação por um banco central independente“, escreveu Andrew Bailey no domingo. Em apoio à sua afirmação, citava os exemplos inevitáveis da República de Weimar, na década de 1920, ou do Zimbabué, que tanto fez a rotativa trabalhar a imprimir notas de banco para se financiar a si própria, que levou a uma hiperinflação de vários milhares de por cento e à destruição da economia.

A conversão brutal do Governador do Banco de Inglaterra ilustra a enorme convulsão que a pandemia do coronavírus está a causar em todo o mundo. Entretanto, os primeiros números da devastação provocada por esta crise sanitária, os confinamentos impostos, o encerramento da economia em quase todos os países começaram a aparecer. São espantosos, sem precedentes nos países em tempo de paz. De um país para outro, entre um quarto e um terço da economia está parada. Milhões estão desempregados ou desempregados a tempo parcial. E, contrariamente às esperanças alimentadas pelos governos e pelos financeiros, esta crise promete ser longa, imprevisível, marcada por uma recessão que deverá ser muito forte e muito longa.

Confrontados com esta situação extraordinária, todos os economistas, mesmo os mais liberais, só veem os Estados como os únicos capazes de segurarem com firmeza as economias em colapso. Porque também neste domínio os dogmas estão a ser postos de lado: o Estado, que é suposto ser a fonte de todos os problemas, está a tornar-se a solução. “Os governos devem continuar a apoiar o setor privado, incluindo a tomada de participações de capital, e o emprego. Tal exigirá um aumento acentuado das despesas e dos investimentos públicos, enquanto as receitas diminuem. Uma política monetária ultracomodativa continuará a ajudar a aumentar as dívidas…. As fortes exigências das finanças públicas não devem conduzir a uma dívida insustentável que assuste os mercados: isto exige uma reflexão nova e criativa sobre as questões de política macroeconómica“, argumentou Laurence Boone, economista-chefe da OCDE, nos últimos dias. Uma instituição que há mais de vinte anos tem denunciado sistematicamente a dívida pública.

Desde que a epidemia atingiu a Europa, os governos já anunciaram planos no valor de dezenas de milhares de milhões para apoiar as suas economias e empresas. Mas tudo está a sair a um ritmo acelerado.

Após o início do confinamento, o Reino Unido necessita de mais 2,5 mil milhões de libras (2,8 mil milhões de euros) por dia para satisfazer as necessidades imediatas (hospitais, seguro de desemprego, assistência às empresas).

Para abril, o Governo já planeou triplicar as suas idas ao mercado de capitais em relação às suas previsões: em vez de 15 mil milhões de libras esterlinas, prevê angariar 45 mil milhões de libras esterlinas dentro de um mês. Mas isto é apenas a ponta do icebergue, receiam alguns economistas, pois esperam que o governo enfrente gigantescas necessidades de financiamento. As estimativas iniciais sugerem que a dívida adicional da Grã-Bretanha poderá exceder 200 mil milhões de libras esterlinas este ano.

O aumento da procura nos mercados, em concorrência com todos os outros Estados, poderá levar a um aumento das tensões, fazer subir as taxas com o risco de criar uma dívida insustentável e provocar novas crises de dívida soberana.

Neste contexto, a decisão do Banco de Inglaterra de adquirir diretamente as novas emissões de dívida constitui um auxílio incomensurável ao Tesouro do Reino Unido. Sabe que tem segurança ilimitada neste momento de provação, mesmo que seja “temporário e de curto prazo“. “Este mecanismo facilitará temporariamente os fluxos de tesouraria do governo e apoiará o funcionamento do mercado, minimizando o impacto imediato da captação de fundos adicionais nos mercados obrigacionistas e monetários“, afirmou o Tesouro num comunicado.

O Banco de Inglaterra pode fazer escola com este exemplo? Certamente nos Estados Unidos. A Reserva Federal já afetou recursos ilimitados para apoiar o mundo financeiro e certas empresas. Diz que está pronto para ir para além disso, se houver necessidade. Na realidade, existem precedentes. Em 1941, a Reserva Federal abdicou totalmente da sua independência e forneceu financiamento ilimitado ao Governo dos Estados Unidos em nome do “esforço de guerra“.

Na Europa, a dúvida é mais do que permitida. Embora o Banco Central e o Governo britânico não hesitem em contornar todas as regras e costumes para fazer face a uma crise sem precedentes, os Ministros das Finanças europeus continuam a discutir em intermináveis reuniões do Eurogrupo se é ou não possível contornar certas condições nestes tempos inéditos. Assim, imaginar que eles poderiam tocar na independência do BCE e financiar diretamente os Estados, princípios que estão consagrados nos Tratados europeus, é um mito. A União Europeia prefere ver as suas economias afundarem-se, como tem feito com a austeridade imposta ao longo desta década, ou mesmo a estilhaçarem-se todos, do que tocar nos seus dogmas. Para ela, um tabu não pode ser quebrado.

 

___________________

A autora: Martine Orange[1958 -], jornalista da área economia social em Mediapart desde 2008, ex-jornalista do Usine Nouvelle, Le Monde, e La Tribune. Vários livros: Vivendi: A French Affair; Ces messieurs de chez Lazard, Rothschild, um banco no poder. Participação em obras colectivas: a história secreta da V República, a história secreta da associação patronal, Les jours heureux, informer n’est pas un délit. Recebeu o prémio de ética Anticor em 2019.

 

 

 

 

 

 

 

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/04/22/a-europa-impotente-face-a-perspetiva-de-uma-tragedia-global-texto-31-banco-de-inglaterra-quebra-o-tabu-do-nao-financiamento-governamental-por-martine-orange/

PREÇOS NEGATIVOS DO PETRÓLEO!

 
 
Em 20 de Abril a crise do capitalismo apresentou novos e espantosos desenvolvimentos. Os preços do petróleo atingiram níveis negativos nos mercados do continente americano. 
 
No momento em que se escreve esta nota o preço do barril WTI estava a US$36,15 negativos.  A queda na procura e o esgotamento da capacidade de armazenagem foram os factores imediatos que levaram a esta crise.  Os efeitos deste crash dos preços serão profundos em toda a indústria do petróleo.
No imediato irá certamente liquidar a indústria do óleo de xisto (shale) e levará à cessação do investimento em qualquer nova exploração de petróleo.
 
Resistir.info

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/04/precos-negativos-do-petroleo.html

A dívida federal dos EUA cresce ao ritmo de cerca de 2,7 milhões de dólares por minuto!!!

Relógio Dívida EUA_2.jpg

Clicar na imagem para ver o relógio a funcionar

 

Em 19 de Fevereiro de 2016 os dados eram estes…

 

Objectivo do site:

Relógio Dívida EUA_1.jpg

Clicar na imagem para ampliar

 

Via: O CASTENDO https://bit.ly/2KrLO0t

Classifique isto:

 

Preços do petróleo negativos? Analista explica valores baixíssimos e sistema bancário quebrado

Bolsa de valores de Nova York (foto de arquivo)
© AP Photo / Richard Drew

A queda drástica do preço do petróleo, passando para níveis negativos, é apenas um dos "membros amputados" de um "monstro bancário moribundo", diz especialista, alertando que as consequências no longo prazo da crise de 2008 tornaram inúteis os sinais apresentados pelos preços.

O preço dos contratos do petróleo WTI, usado como a principal referência no mercado petrolífero dos Estados Unidos, registou nesta segunda-feira (20) uma queda sem precedentes, estabelecendo um mínimo histórico de US$ -37,63 por barril e passando pela primeira vez para níveis negativos desde a abertura da bolsa New York Mercantile Exchange em 1983.

A queda-livre dos preços foi impulsionada pelo declínio da demanda em meio à pandemia de coronavírus e as consequências da guerra de preços entre Rússia e Arábia Saudita, disse Max Keiser, especialista e comentador da mídia RT, advertindo que os problemas vão muito mais longe e apontando para as falhas estruturais profundas enraizadas na economia mundial.

Refinaria nos EUA

© REUTERS / Robert Galbraith
Refinaria nos EUA
"Pessoas exteriores ao assunto ficam totalmente perplexas quando ouvem que o preço do petróleo se tornou negativo, e eles têm toda a razão para pensar que algo está fundamentalmente errado com este mercado. Preços negativos dos futuros do petróleo significam que você está pagando para alguém comprar seu petróleo", disse Keiser.

Também poderia ser uma tarefa difícil para pessoas exteriores ao assunto entender o conceito de taxas de juros negativas, quando os títulos do Tesouro no curto prazo baixaram por pouco tempo no fim do mês passado, disse Keiser, observando que os preços baixíssimos representam mais uma prova de que o sistema financeiro global ficou "destruído irreparavelmente" durante a crise de 2008, quando os bancos foram "esmagados até a morte" sob o peso de dívida não colateralizada avaliada em US$ 200 trilhões.

"Devemos considerar os preços negativos do petróleo e taxas de juros negativas como partes cortadas do corpo de um monstro bancário desmembrado, espalhados pelo açougue de financeirização que criamos com dinheiro barato e desregulamentação infinita", opina especialista.

Esperando apoiar bancos insolventes com US$ 500 trilhões de dinheiro sem lastro, as soluções oferecidas pelos governos mundiais desde a crise de 2008 em grande medida falharam completamente. "Agora em 2020 o cadáver em decomposição dos bancos globais, mortos desde 2008, está se desintegrando diante de nossos olhos e todos os sinais de preços de todos os mercados se tornaram sem sentido", concluiu.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/economia/2020042115485422-precos-do-petroleo-negativos-analista-explica-valores-baixissimos-e-sistema-bancario-quebrado/

Petróleo: o dia em que os vendedores pagaram aos compradores

Para complicar ainda mais o quadro, os bancos já começam a recusar crédito para operadores dos mercados de petróleo.

 

 

A segunda-feira, 20 de abril de 2020, já entrou para a história dos grandes e inéditos eventos financeiros. Nesse dia, os contratos futuros de óleo cru caíram para abaixo de US $ 0 nos Estados Unidos. Menos 40,32 dólares foi o nível alcançado pelo preço dos contratos futuros para o segmento de mercado conhecido como West Texas Intermediate, e que serve de baliza para todo o setor de petróleo nos EUA. Pagavam-se 40 dólares para se livrar da commoditie. Essa é uma queda inédita, já que o outro segundo maior recuo do preço do barril de petróleo ocorreu em 1946, em Nova York, mas ainda com valores positivos, diferentemente do que houve agora.

 

O que é esse colapso de preços do petróleo, a mais importante commoditie do mundo?

É mais do que as típicas volatilidades de mercado, a partir de movimentos especulativos em que dealers forçam a queda de preços de futuros, projetando superlucros com a compra na baixa e a venda na alta. É mais que uma tradicional política de preço predatório para deslocar competidores, como se poderia imaginar em uma disputa entre Arábia Saudita e Rússia, até o início do mês de abril. É mais que uma resposta a pressões decorrentes de técnicas substitutivas, para inviabilizar a produção de custos elevados do óleo em rochas de xisto, como vinha ocorrendo, com muito sucesso, nos Estados Unidos. É mais que um ajuste do setor de petróleo ao futuro de energia renováveis, em face da crise ambiental.

Na verdade, antes do surto do coronavírus, o setor de petróleo já enfrentava dificuldades. Há alguns meses, abriu-se uma guerra de preços, envolvendo sobretudo Rússia e Arábia Saudita, com sérios efeitos colaterais sobre os Estados Unidos. A OPEP e outros grandes produtores não conseguiram chegar a um acordo para regular a oferta da commoditie. Antes do coronavírus, as condições de relativa fraqueza da atividade econômica global, que alguns chamaram de estagnação secular, com poucas exceções como a China, já comprimiam os preços do petróleo. Os estoques de petróleo não paravam de aumentar. As tensões políticas entre Estados Unidos, Irã, Arábia Saudita e Rússia sobre os destinos do Oriente Médio, a exemplo da expansão da influência iraniana e do começo de um novo governo saudita, aumentaram sob novas formas, além da guerra, sob o governo Trump. Essas tensões políticas minaram as possibilidades de acordo sobre a oferta de petróleo, a partir da OPEP, desde janeiro e até há pouco, início de abril.

E agora com a pandemia do Covid-19, os problemas haviam de recrudescer. Nesse sentido, não há surpresa. A crise econômica associada ao Covid-19, ao evidenciar as contradições e falhas do capitalismo, acentua os desajustes que vão surgindo, por toda parte, nos diversos mercados. No caso do petróleo, a demanda global por petróleo já se contraiu em um terço.

Em apenas 20 dias, entre o dia 02 e o dia 22 de abril, algumas comemorações transformaram-se em lamento. A vez das comemorações: no dia 02/04/2020, o presidente Donald Trump festejou os resultados de telefonemas para Vladimir Putin, presidente da Rússia, e para o novo governante da Arábia Saudita, o príncipe Mohammed bin Salman. Ele anunciou um acordo a ser firmado para corte do volume de produção de petróleo. Trump despejou alguns twiters, proclamando que (o acordo) ia ser “ótimo para o setor de petróleo e gás”. Esse setor, nos EUA, emprega cerca de 10 milhões de pessoas, direta e indiretamente[1]. Nesse instante, os preços dos contratos futuros no mercado ‘West Texas Intermediate crude’ subiram 24,67%, a maior alta percentual da história, colocando o preço em US$ 25.32 por barril. No dia    12/04/2020, a OPEP e outros divulgaram a concretização do acordo: corte de 10% da produção no mundo, ou seja, 9,7 milhões de barris por dia. Tratou-se do maior corte de produção da história, mais um ineditismo. Trump festejou seu suposto papel de mediador para um acordo envolvendo mais de 20 países. E a vez dos lamentos: no prazo exíguo de 8 dias, a inédita restrição produtiva da OPEP e outros provou-se um castelo de cartas, o preço do petróleo caiu em queda livre. Se a demanda sofreu, com a pandemia do Coronavírus, uma queda entre 25 a 35 milhões de barris, era evidente que os 9,7 milhões do acordo não sustentariam os preços.

No rastro da queda do preço do petróleo, massas de trabalhadores serão demitidas, os chamados pequenos produtores entrarão em falência. Diante do colapso dos preços no dia 20, o presidente Trump correu a anunciar o imediato socorro da mão visível do Estado para o setor de petróleo. Assim, nesse dia 20, ele anunciou o gigantesco aumento da chamada reserva estratégica nacional de petróleo em 75 milhões de barris. Ele, também, cogitou bloquear a importação de petróleo da Arábia Saudita. Cadê aquele fanfarrão de uma semana atrás, bancando o xerife ou o mediador do petróleo no mundo? Os republicanos pedem bloqueio geral de importações para viabilizar a indústria de petróleo das rochas de xisto.

 

Como avaliar a dime