Comunicação

Quando as bruxas andam à caça

 

(Comentário à seguinte notícia:
É certo que o prestígio, em geral,dos jornalistas anda hoje muito por baixo face àquilo que é a atual Comunicação Social.
Seguramente que a culpa não é de algum jornalista comunista ainda resistente, sendo estes, como se sabe, "aves raras" sem expressão visível nos (auto)censurados media.
Só nos faltava agora este macarthista corporativos numa caça às bruxas de inspiração 'cheguista' num Sindicato para o qual muitos comunistas deram notáveis e independentes contributos.)
 
 
Os membros em maioria no Código Deontológico (CD) do Sindicatos dos Jornalistas divulgaram – na página no Facebook do Sindicato dos Jornalistas - uma nota onde pedem que o jornalista do Jornal de NotíciasAlfredo Maia, comunista eleito para assembleia municipal da Maia, se demita dessas funções.
Dizem eles:
Há uma manifesta incompatibilidade entre o exercício de funções neste órgão e a prática partidária. Não é apenas uma questão - para nós importante - da promiscuidade entre jornalismo e política, mas sobretudo uma questão de separação clara de funções. (...) Alfredo Maia ter sido candidato em lugar elegível por uma lista partidária no seu círculo eleitoral. Se na altura entendíamos como importante que o camarada Alfredo Maia renunciasse ao seu mandato na Assembleia Municipal da Maia, caso fosse eleito para o Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas, agora reiteramos que consideramos incompatível o exercício desta função com a atividade partidária e com o desempenho de mandatos políticos de nomeação ou de eleição 
Os membros da lista B no CD poderão pensar o que quiserem, mas não há nada na Constituição, no Estatuto do Jornalista (EJ) ou na Lei de imprensa que o impeça. O EJ cria um conjunto de incompatibilidades, mas nenhuma inclui ser deputado ou membro de uma assembleia municipal. Veja-se o artigo 3º da lei 64/2007 que remete para as alíneas a), b), c), e) e g) do artigo 1º da Lei 64/93. E nessa lista, as questões comerciais surgem bem à frente da participação em cargos públicos! E sobre este último caso, o CD teria muito que fazer. Teriam de extirpar da comunicação social todas as estranhas funções indirectas "de angariação, concepção ou apresentação, através de texto, voz ou imagem, de mensagens publicitárias" ou "de marketing, relações públicas, assessoria de imprensa e consultoria em comunicação ou imagem, bem como de planificação, orientação e execução de estratégias comerciais" (artigo 3º), como são as de vendedores de carros, viagens, hotéis, restaurantes, telemóveis, computadores, aspiradores, clínicas privadas, etc., etc., dependentes de agendas comerciais, incentivadas por agências de comunicação, levadas a cabo por jornalistas num suposto apoio ao consumidor. Mas aí nada se diz.  Na verdade, muitos jornalistas acham que ser membro de um partido é o obstáculo à independência do jornalista. Mas e se o jornalista for um diligente seguidor de um partido, de uma ala política da sociedade,de um credo, um defensor férreo de uma ideologia, ou apenas daquilo que as autoridades sustentam, mas não for militante de um partido? É-se mais independente? Claro que não. "Mas no caso dos membros dos partidos pelo menos estão identificados", parecem dizer os empenhados membros do CD. É ridículo. Mas se é assim, de onde vem esta ideia de que basta ser militante comunista para deixar de ser independente? Apenas de um exacerbamento das funções de CD, pois nenhuma sua decisão ou parecer se sobrepõem à lei. A sua exigência é idiota, destrambolhada e inquinada de um maniquismo difícil de entender. Até custa a crer que os quatro membros da lista B tenham escrito o que foi escrito. Ou que a Direcção do Sindicato pense isso. Ser humano é ter ideias. Ter ideias é ser independente. Mas caso quisessem olhar para a falta de independência políticados jornalistas, aí também teriam muito a deliberar. E nada se fez porque se considerou que fazia parte do seu direito de opinião como jornalistas. Exemplos:

1) Entre 2010 e 2011, directores de vários jornais prepararam a entrada da troica em Portugal e elogiaram, vangloriaram, elegeram o governo PSD/CDS, marcado pela ideologia neoliberal, como um verdadeiro governo que era capaz de fazer as reformas estruturais necessárias ao país. Ao longo do seu mandato pressionaram o Governo a tomar medidas duras como cortes de salários nominais no sector privado, reduzir despesas sociais e de funcionamento do Estado. Pior: quando o governo começou a borregar – dada o aprofundamento da recessão que essas medidas criaram e a explosão de desemprego que chegou aos 25% da população activa (em termos latos) – esses mesmo directores fustigaram o Governo por não ter coragem de avançar mais determinado. E acabaram desiludidos com o Governo, mas não com as suas próprias ideias, que voltaram a defender anos mais tarde (sem aprender), já com o Governo PS apoiado à esquerda, dizendo que tudo iria correr mal e que era necessário voltar à linha neoliberal. Foi uma prática independente? Era opinião ou militância? 2) Casos como este e com outras causas, poderiam ser repescados ao passado sem que nunca o CD do Sindicato tivesse levantado um dedo; 3) Jornalistas que escrevem sobre a política têm bate-paposdiscretos com políticos e publicam o que estes lhes dizem, sem se perceber no texto onde questionam as suas ideias, ou enchendo páginas sem uma única fonte, em que o leitor desconhece a sua origem, embora muitas vezes pareça ser um exercício de contrainformação. É normal? É um exercício independente? A presidente do CD fá-lo amíude nas páginas do jornal Públicoonde escreve. Indo à hemeroteca, encontrar-se-á casos flagrantes das fragilidades da dita independência dos jornalistas. E ver-se-á os repetidos à independênciados jornalistas, sem que nada mude. O problema é que muitas vezes, a defesa da independência dos jornalistas é uma forma de condicionar opiniões diferentes daquela que são dominantes. Ou ainda – e pior – uma exigência dos advogados das empresas dos meios de comunicação (e dos seus proprietários), preocupados com acções judiciais contra os órgãos de comunicação social, contra a informação que possa ser – muitas vezes – prejudicial aos seus interesses. A nota de quatro membros do CD é um degradante e ilegal, desproporcionado e inviesado exercício de caça às bruxas. E nesse capítulo, os quatro elementos da lista B fizeram um péssimo serviço à verdadeira independência dos jornalistas portugueses e pluralismo da sua actividade. Será que os jornalistas comunistas deverão passar a uma militância clandestina para poderem ser aceites pelos seus pares? E caso não façam, o que deve acontecer-lhes?

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Critérios Por Gustavo Carneiro

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Critérios
Por Gustavo Carneiro
Há uns anos, o então director de informação da SIC, Emídio Rangel, garantiu que um canal de televisão com grande audiência seria capaz de vender um Presidente como quem vende sabonetes.
Em Portugal como em vários outros países, já se viu como essa afirmação tem razão de ser…
Os jornais e noticiários de segunda-feira acordaram sobressaltados com a eleição de um deputado do Chega. Portugal, dizem-nos, deixou de ser o que era até ao passado domingo: um dos poucos países europeus sem representação parlamentar da extrema-direita. Alguns, confrontados com a eleição de André Ventura, foram até procurar ao programa eleitoral do Chega e – pasme-se! – descobriram propostas de arrepiar.
Mas nenhum desses órgãos de informação perdeu nem um segundo a reflectir sobre as suas próprias responsabilidades (ou melhor, de quem em si manda) na produção da criatura. De facto, quem era André Ventura até passar a ter assento regular na televisão para falar de futebol? Um perfeito desconhecido. Daí à polémica candidatura à Câmara Municipal de Loures (pelo PSD, é bom não esquecer) foi um pulo. O percurso subsequente, conhecido, foi sempre acompanhado de câmaras, microfones e considerável tempo de antena.
Mas se as eleições são capazes de vender sabonetes – ou, no caso, deputados – também fazem o oposto.
O caso do Partido Ecologista «Os Verdes» é, a este título, paradigmático. A vontade de apagar os seus representantes, propostas e actividade é tal que o jornalista Carlos Vaz Marques (CVM), na madrugada de segunda-feira, celebrou na sua conta de Twitter a saída de cena – no caso, da Assembleia da República – da «ficção que sempre foram os Verdes». Não sabia, nem lhe interessou saber, que o PEV saiu das eleições de domingo com o seu grupo parlamentar intacto, fruto da eleição de dois deputados: Mariana Silva, por Lisboa, e José Luís Ferreira, por Setúbal.
Como outros, CVM também não soube que durante os últimos 37 anos existiu em Portugal um partido ecologista, nascido das lutas das populações em defesa da floresta, dos rios, da qualidade do ar, da paisagem, a quem se deve a colocação na agenda política de importantes questões ambientais.
Antes, muito antes, do «planeta» estar na moda. Aliás, foram exactamente os mesmos que durante décadas remeteram «Os Verdes» e a actividade dos seus deputados para a mais completa obscuridade que vieram agora lamentar a saída de Heloísa Apolónia da Assembleia da República .
Arrependimento? Não, hipocrisia, pois no Prós & Contras de segunda-feira apenas uma força política com assento parlamentar não esteve representada. Qual? O PEV.
São estes critérios jornalísticos que ajudam – e muito – a explicar os Chegas e os PAN’s desta vida.

Ver o original em As palavras são armas (clique aqui)

O jornalismo escumalha

 
“Morreu a primeira vaca clonada no mundo, aos 21 anos”
DN 10-10-2019
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MAS,
No Equador o Povo revolta-se e sai à rua contra um governo criminoso que prende e assassina, não respeitando os mais elementares direitos humanos.
Onde está o Relvas/PSD ou o Augusto S S ministro/PS sempre prontos a abocanhar a Venezuela e a apoiar os guaidós seus comparsas?
Onde estão os media sempre dispostos a denegrir os povos que se querem libertar do neoliberalismo/FMI e de outros algozes?
“Benditas redes sociais”, diz López Obrador, que nos permitem ver em direto os crimes do neoliberalismo.
Aos poucos, os tais meios de comunicação de referência, são abandonados na estrumeira da indignidade.
 
PROCUREMOS AS INFORMAÇÕES QUE NOS INTERESSAM E NÃO AS QUE NOS QUEREM IMPINGIR.  
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«Um minuto de silêncio pelos companheiros caídos, que com a sua força e convicção lutaram pela defesa dos direitos dos mais pobres iluminando este caminho de insurreição popular ante um governo opressor.»

Ver o original em As palavras são armas (clique aqui)

Os jornalistas como uma espécie de monges beneditinos

Uma "deontologia" absurda
e antidemocrática

Sem grande eco, sinal do estado de certas cabeças, já aqui abordei indirectamente esta questão.
Volto a ela por causa desta infame tomada de posição dos membros eleitos pela lista B para o Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas. Para, em curto, dizer que este comunicado, ao contrário do que afirma, não respeita em nada os direitos de cidadania de todos os jornalistas, antes os trata como cidadãos atingidos por uma grotesca capitis diminutio, ou seja como desprovidos de direitos que a todos a Constituição garante. Dava uma trabalheira dos demónios, mas o que estava mesmo a fazer falta era uma antologia de textos de frete partidário publicados por jornalistas que acham que os jornalistas não podem ser membros ou candidatos de um partido.

 

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

Edição de Outubro de 2019

Índice

Editorial

-Washington contra Pequim . SERGE HALIMI

Política

-Estabilidade para quem? . SANDRA MONTEIRO

Pensões

-De que (mais) depende o financiamento da Segurança Social? . JOSÉ CASTRO CALDAS

Ambiente

-Lítio: a nova miragem do petróleo verde . LUÍS FAZENDEIRO

Sociedade

-Mudar de vida: urge erradicar a pobreza . SÉRGIO AIRES

História

-A história silenciada do movimento negro em Portugal (1911-1933) . JOSÉ PEREIRA e PEDRO VARELA

Cinema

-Prazer, Camaradas!: uma revolução na alcova . RICARDO NORONHA

Europa

-Brexit: o jóquer dos eurófilos britânicos . RICHARD SEYMOUR

-Estes franceses que militam pelo «Frexit» . ALLAN POPELARD

-Os fantasmas de Peterloo . MARION LECLAIR

Política

-Pode a «zona a defender» (ZAD) salvar o mundo? . FRÉDÉRIC LORDON

Geopolítica

-Entre os Estados Unidos e a China, uma guerra menos comercial do que geopolítica . PHILIP S. GOLUB

-Turquia: aliado caprichoso, inimigo impossível . DIDIER BILLION

-O mundo visto de Moscovo . RICHARD SAKWA

Estados Unidos

-O que nos revela o caso Epstein . FRANCIS PRYER

Américas

-O controlo da Amazónia . RENAUD LAMBERT

-A Argentina mostra que a esquerda não está morta . JOSÉ NATANSON

-Justin Trudeau ou a ostentação da virtude . DAVID CARMENT e RICHARD NIMIJEAN

Ásia

-Na Caxemira, o hinduísmo avança às claras . VAIJU NARAVANE

África

-Na África do Sul, a terra não lava o sangue . CÉDRIC GOUVERNEUR

Recortes de imprensa

Ver o original em Le Monde Diplomatique PT (clique aqui)

Ainda é possível resgatar a internet?

 
 
Da anarquia à ditadura: corporações aproveitaram-se do “espírito livre” da rede para exercer seu poder econômico e impor “capitalismo de vigilância” e manipulação política. Diante do inferno, surge a ideia de regras democráticas
 
Ensaio de Paul Starr | Outras Palavras
 
Em apenas duas décadas, as tecnologias digitais e a internet passaram do sonho excitante de uma nova era revolucionária à encarnação do medo de um mundo que deu muito errado. A revolução digital agora ameaça minar valores que deveria ter feito avançar – liberdade pessoal, democracia, conhecimento confiável e mesmo livre competição. A tecnologia não fez isso para nós sozinha, nem que tropeçamos distraidamente em um universo distópico alternativo. O regime tecnológico atual surgiu de escolhas perigosas, por ignorar lições do passado e permitir que o poder privado agisse sem regulamentação.
 
Esses problemas — monopólio, vigilância e desinformação — resumem o que deu errado e o que precisamos enfrentar, rever e corrigir se quisermos ter alguma esperança de recuperação da promessa das novas tecnologias.
 
O crescimento explosivo da economia digital nos anos 1990 e início dos anos 2000 parecia validar a ideia de que era melhor deixar os mercados por sua própria conta. A internet dessa era foi o maior triunfo do neoliberalismo. Depois que o governo norte-americano financiou avanços chave, e em seguida abriu a rede para o desenvolvimento comercial, a inovação digital e o empreendedorismo criaram novos meios online de trocas, novas riquezas e novas comunidades. Mas essa economia digital agora parece completamente diferente, com o crescimento das plataformas monopolizadoras. Amazon, Facebook, Google, Apple e Microsoft controlam ecossistemas inteiros do mundo digital, dominando os principais pontos de convergência de comércio e notícias.
 
Assim como a internet dos primórdios alimentou a ilusão de que era inerentemente apoiadora da competição, também espalhou a ilusão de que era intrinsecamente protetora da autonomia pessoal. Afinal, ninguém obrigava você a revelar sua verdadeira identidade online. Contudo, o mundo digital de hoje fez com que fosse possível o sistema de vigilância mais abrangente que já existiu. Aparelhos em rede rastreiam cada movimento e comunicação que fazemos. Uma nova forma de empreendimento emergiu do que Shoshana Zuboff chama de “capitalismo da vigilância”, ao passo que o Google, Facebook e outras empresas varrem dados sobre nossas vidas, preferências, personalidades e emoções “para práticas comerciais ocultas de extração, predição e vendas”.
 
A realidade acabou sendo menos graciosa. A economia digital destruiu o modelo de negócios tradicional do jornalismo, e resultou em um declínio dramático dos jornais profissionais. E como Google e Facebook dominam a publicidade digital, não surgiu nenhum outro modelo alternativo capaz de financiar as mesmas capacidades de comunicação, particularmente a níveis regional e local. Enquanto isso, plataformas de redes sociais substituíram os velhos detentores da mídia de massa, moldando a exposição do público às notícias e ao debate a partir de seus algoritmos. Agora, esses algoritmos – que estão por exemplo na linha do tempo do Facebook, no sistema de buscas da Google, nos mecanismos de recomendação do YouTube e nos assuntos do momento do Twitter – influenciam quais conteúdos e pontos de vista ganham visibilidade entre os usuários. Ao invés de promover um debate público melhor informado, no entanto, as redes sociais tornaram-se poderosos vetores de desinformação, polarização e ódio.
 
Como chegamos na crise atual e o que podemos fazer com ela tornaram-se perguntas urgentemente políticas.
 
 
A virada neoliberal
 
O crescimento da internet e da economia digital é uma história paradigmática da tecnologia estadunidense a partir da Guerra Fria. A revolução digital começou sob a égide do Estado, moveu-se para o mercado, e agora tornou-se um emblema de tudo que pode dar errado, quando os atores dominantes do mercado não são limitados pela lei.
 
Dos anos 1940 ao início dos 1970, o governo norte-americano financiou e guiou grande parte do desenvolvimento de computadores e comunicação eletrônica, principalmente via Departamento de Defesa. Foi lá dentro que um escritório, chamado Agência de Projetos de Pesquisa Avançada, fundou e supervisionou a ARPANET, precurssora da internet.
 
Nos meados do século XX, os Estados Unidos também regularam extensivamente as telecomunicações. Embora a AT&T tivesse um monopólio efetivo, políticas regulatórias restringiam tarifas telefônicas, promoviam serviço universal e barravam a discriminação, exigindo que as empresas telecom agissem como veículos públicos. Devido ao tratamento dado aos investimento de capital, o sistema regulatório deu à AT&T um incentivo para que dedicasse amplos fundos à pesquisa. Seu braço para esta atividade, chamado Bell Labs, produziu uma extraordinária variedade de avanços, incluindo as redes de dados, o transístor, o laser e a telefonia celular. Os avanços da Bell estavam sujeitos ao licenciamento compulsório, o que significava que estavam disponíveis para que outros construíssem inovações a partir deles.
 
Graças a essa economia mista, as indústrias de computadores e telecomunicações nos EUA desenvolveram enorme liderança sobre seus equivalentes em outros países. Foi o motivo da dianteira e da vantagem comparativa do país em inovação digital. Mais tarde, criou-se o mito de que gênios individuais, que trabalhavam em suas garagens, nos trouxeram computadores e a internet. Mas seu trabalho não teria sido possível sem os investimentos e avanços técnicos que o governo e a indústria de telecomunicações regulada já haviam dado.
 
Não obstante, o regime regulatório das empresas de telecomunicação teve uma desvantagem grave. Deu à AT&T o poder de controlar cada aspecto da rede de telefones, incluindo quais aparelhos poderiam se conectar a ela. Como qualquer monopólio, a AT&T procurou proteger sua posição privilegiada. Depois que o Departamento de Defesa dos EUA recebeu, em 1964, uma proposta de uma rede de comunicação similar à internet, um executivo da AT&T disse “Até parece que vamos permitir a criação de um competidor contra nós mesmos”. A lei, até aquele ponto, estava do lado desta empresa.
 
O envolvimento do governo norte-americano nos computadores e telecomunicações começou a declinar no final da década de 1970 e 1980, coincidindo com a virada neoliberal geral na política. Aqui uso o termo “neoliberal” especificamente para referir-me às ideias e políticas que buscam criar mercados e depender das forças do mercado. O arsenal neoliberal inclui medidas como a privatização, acordos de livre-comércio, desregulamentação, cortes de impostos e redução do investimento social. O que distingue o neoliberalismo do laissez-faire do século XIX é que ele foi erguido após um período de construção liberal e social democrática do Estado. Em linhas gerais, neoliberalismo deve sua origem filosófica a Friedrich Hayek e seu círculo, nos anos 1940, e emergiu como força política após Margaret Thatcher e Ronald Reagan, no final da década de 1970 e 1980.
 
Politicamente falando, no entanto, a desregulamentação difere de outras medidas orientadas ao mercado. Algumas formas de desregulamentação atraem apoio de liberais e progressistas proeminentes — incluindo o senador Ted Kennedy e Ralph Nader — pelo motivo de que as agências regulatórias foram capturadas pelas indústrias que elas deveriam regular, e já não serviam mais ao público. Limitar o poder da AT&T teve o feliz apoio de todo o espectro ideológico.
 
Embora o grande passo viesse apenas em 1984, quando um tribunal quebrou a AT&T, o governo norte-americano já tinha começado a afrouxar o monopólio do telefone àquela época. Em dois casos, em 1956 e 1968, autoridades norte-americanas reduziram o controle da AT&T sobre aparelhos que ligavam-se à rede de telefones. Esses passos desreguladores iniciais, combinados com o desenvolvimento subsequente de microcomputadores, abriram caminho para que, entre os anos 1970 e 1980, consumidores e empresas adquirissem modems (que permitiam que computadores conversassem entre si) e acesso discado aos primeirosbulletin boards online [redes rudimentárias e fechadas, anteriores à internet].
 
Por algum tempo, parecia que essas redes proprietárias — as “três grandes” eram CompuServe, o líder original nos anos 1980; America Online (AOL), que cresceu rapidamente na década de 1990; e Prodigy — dominariam os “serviços de informática”. Cada empresa tinha sua própria fonte de notícias, grupos de discussão, serviços de email e regras. Por exemplo: a AOL restringia seus fóruns ao máximo de 23 pessoas, efetivamente limitando o alcance de qualquer usuário individual. Naquele momento, não era de maneira alguma óbvio de que a internet – originalmente limitada ao uso governamental, mais tarde estendida às universidades e institutos de pesquisa – emergiria como a estrutura da comunicação eletrônica.
 
Mas a internet tinha uma arquitetura mais aberta, incluindo um princípio chamado “end-to-end” [“ponta-a-ponta”], que a diferenciava de outras redes. Como Lawrence Lessig explicou, em 2001, “Esse modelo regula onde a ‘inteligência’ em uma rede é colocada. Aconselha que a inteligência seja colocada nas aplicações” — ou seja, entre os usuários de qualquer fim da rede, e não no centro, com o administrador. Como resultado, diferente das redes proprietárias, a internet não precisava de permissão: convidava à inovação e a decentralizava.
 
Abrir a internet ao acesso mais amplo, incluindo o desenvolvimento comercial, era, então, simultaneamente um movimento em direção ao mercado e em oposição ao controle proprietário da própria rede. Foi isso que aconteceu na primeira metade da década de 1990, quando regras contra o uso comercial da internet eram derrubadas, o “backbone” [espinha dorsal] da rede foi privatizado e uma série de novas aplicações foi criada, incluindo a World Wide Web. Muitos desses novos softwares foram inclusive desenvolvidos em uma base não-proprietária, de código aberto, apesar de isso não refletir nenhum requerimento legal ou técnico (de fato, uma nova arquitetura de controle poderia ser construída sobre a internet – é o que as plataformas online farão mais tarde).
 
A política da internet nos anos 1990 era menos ideológica. Em 1992, quando Bill Clinton e Al Gore defendiam o desenvolvimento da chamada “superrodovia informacional”, estavam sinalizando uma mudança geracional. Como senador, Gore fez mais do que qualquer outro na política nacional para expandir a internet.
 
A política nacional durante o governo de Clinton eliminou qualquer regulação da economia digital emergente. Provedores de internet eram inclusive subsidiados ao serem isentos de taxas de acesso à rede, e intermediários recebiam ampla imunidade de responsabilidade pelo conteúdo gerado pelo usuário. A melhor abordagem, de acordo com William Kennard, presidente da Comissão Federal de Comunicações (FCC na sigla em inglês) dos EUA, indicado por Clinton, era permitir que o “mercado encontrasse soluções de negócios … como alternativa à intervenção pelo governo”.
 
Essa atitude geral continuou a dominar a política em relação à internet sob os presidentes George W. Bush e Barack Obama. Enquanto o Partido Republicano opunham-se a um papel mais amplo do governo em geral, os democratas opunham-se à influência do governo na internet e na indústria da tecnologia em particular. A internet floresceu aparentemente sem governo: por que arriscar ameaçar isso? Essas crenças iniciais sobre a rede — alinhadas com as premissas neoliberais gerais daquela época — deixaram tanto os legisladores quanto o público despreparados para a ascensão dos monopólios de plataformas e do capitalismo de vigilância, da devastação do jornalismo profissional, e do uso de comunicações digitais para a desinformação.
 
Se a internet tivesse emergido em um período diferente, talvez tivesse se desenvolvido de outra maneira. Mas a economia digital avançou em uma era na qual os três principais meios de manter o poder corporativo em cheque – antitruste, regulamentação econômica e propriedade pública – estão todos em retração. O governo norte-americano aprovou uma petição importante antitruste, quando buscou fragmentar a Microsoft durante os anos 1990, um caso que, afinal de contas, terminou com um decreto de consentimento em 2002 e provavelmente evitou que a empresa esmagasse a Google em sua infância.
 
Desde então, no entanto, o governo não levantou qualquer obstáculo à expansão das plataformas online, à compra de potenciais concorrentes e constituição de um poder de monopólio. Nem construiu qualquer barreira à acumulação de dados pessoais pelas plataformas. Diferentemente da União Europeia, o congresso norte-americano não promulgou nenhuma legislação geral que protegesse a privacidade do cidadão na internet. E apesar do colapso do jornalismo, os Estados Unidos têm tido má vontade para considerar o apoio à mídia pública, largamente aceito em muitas outras democracias. Foi apenas nos últimos anos que passaram a dar atenção focada nas mudanças necessárias para lidar com as novas concentrações de poder sem controle.
 
Assumindo o monopólio
 
Não é a primeira vez que uma revolução das comunicações assiste a uma rápida transformação, de ampla competição em controle concentrado. O mesmo processo aconteceu com o telégrafo entre 1840 e 1860, quando a Western Union constituiu um monopólio. Aconteceu novamente com o telefone, entre meados de 1890 e a década de 1910, quando a AT&T assumiu o controle do setor. E aconteceu uma terceira vez com o rádio do começo ao fim da década de 1920, quando a NBC e a CBS tornaram-se redes de dominação nacional, nos EUA. Que monopólios surjam novamente, é algo que não deveria surpreender ninguém. Ainda que a internet tenha transformado muitas coisas, não mudou a tendência ao monopólio das redes de comunicação.
 
O efeito da internet na concentração econômica, contudo, pode ter sido ainda maior do que os efeitos dos meios de comunicação anteriores. Hoje, a Amazon sozinha concentra metade das vendas online, enquanto Google e Facebook estão levando virtualmente todo o crescimento da publicidade digital, e capitalistas de risco hesitam ao financiar novas startups porque as empresas da big tech conseguem facilmente atropelá-las. Ao invés de difundir riqueza, a revolução digital tem feito apenas concentrá-la em algumas poucas gigantes da tecnologia e seus acionistas.
 
Ações antitruste e políticas regulatórias poderiam ter limitado o crescimento de monopólios e abusos do poder de mercado. Mas desde os anos 1980, o governo norte-americano tem relaxado muito com relação à ação antitruste contra grandes corporações, graças à influência das teorias de que o domínio corporativo de um mercado não é um problema, caso ele melhore o “bem-estar do consumidor”, interpretado de modo geral como preços mais baixos. Esse critério dificultou processos antitruste contra empresas como o Facebook e a Google, que dependem de publicidade e de conteúdo gerado pelo consumidor e não cobram diretamente por seus serviços, ou contra a Amazon, que sacrificou lucros para obter dominação de mercado. Autoridades dos EUA acenaram favoravelmente a fusões como a aquisição do Instagram e do WhatsApp pelo Facebook, mesmo sabendo que essas uniões reduziriam o poder dos consumidores no mercado (por exemplo, com relação a políticas de privacidade), reforçando o poder de plataformas gigantes.
 
Nas lutas contra o poder de monopólio das ferrovias e outros setores, no final do século XIX e no começo do século XX, o Congresso norte-americano e o Judiciário deram passos não apenas contra fusões horizontais, mas também contra preços predatórios (abaixo dos custos, para eliminar competidores), discriminação de preços (variação de preços de acordo com compradores ou vendedores individuais, de acordo com suas características ou circunstâncias), e integração vertical (combinação de estágios da produção ou distribuição, normalmente operados como negócios separados).
 
Nas décadas recentes, contudo, os tribunais norte-americanos tendem a recusar essas questões, tornando-se incapazes de antecipar o novo potencial para o monopólio nas plataformas digitais, que se beneficiam de efeitos de rede. Quanto mais uma rede cresce, mais valiosa ela se torna para cada participante conectado por ela e, reciprocamente, maior fica o preço de estar excluído. Assim como o custo de exclusão aumenta, o mesmo acontece com o poder de mercado de uma plataforma. No mundo digital, a escala também carrega consigo a capacidade de extrair dados dos usuários para treinar sistemas de inteligência de máquina; e apenas as maiores empresas conseguem competir efetivamente.
 
Uma plataforma de vendas como a Amazon, segundo Lina Khan argumenta no Yale Law Journal, tem claros incentivos para buscar o crescimento ao invés do lucro em curto prazo, uma estratégia recompensada por investidores que fazem com que o preço predatório seja “altamente racional – mesmo que a doutrina existente o trate como irracional e, portanto, implausível”. A capitalização de mercado a grandes alturas da Amazon atesta essa lógica. (Aproveite a entrega grátis da Amazon Prime enquanto pode!) O tamanho da Amazon Marketplace torna essencial para que outros vendedores entreguem à plataforma dados essenciais, que ela vez ou outra usa para invadi-los e vendê-los com suas próprias versões de seus produtos mais lucrativos. Como resultado do alto custo de exclusão de seu mercado, a Amazon obriga os outros vendedores a ficarem à sua mercê e pode impor termos onerosos a eles.
 
Mas como limitar o poder de plataformas que dominam o mercado? A senadora norte-americana Elizabeth Warren propõe duas coisas. Se vencer as eleições para a presidência dos EUA, ela apontará “reguladores comprometidos com reverter fusões ilegais e anticompetitivas de tecnologia”, como a aquisição que o Facebook fez do WhatsApp e do Instagram, a compra do Waze e DoubleClick pela Google, e a incorporação da Whole Foods e da Zappos pela Amazon. Além disso, ela busca uma legislação que exija que as maiores empresas de tecnologia – aquelas com receitas globais de US$ 25 bilhões ou mais – sejam designadas “plataformas utilitárias”, e mantidas com “estruturas separadas” de negócios que participam do mercado. A Amazon Marketplace, por exemplo, teria de operar separadamente das vendas próprias da Amazon. Todas as plataformas, com receita acima ou abaixo dos US$ 25 bilhões, teriam de encontrar um padrão de “atendimento aos usuários justo, razoável e não discriminatório”.
 
As investigações antitruste de grandes empresas tecnológicas já estão acontecendo. A Divisão Antitruste do Departamento de Justiça dos EUA está investigando a Apple e o Google, enquanto a Comissão Federal de Comércio (FTC – Federal Trade Commission) lida com o Facebook e a Amazon. Procuradores-gerais do Estado investigam o Google e o Facebook. Mas, mesmo sob um governo de Elisabeth Warren, quebrar as grandes corporações tecnológicas poderia ser difícil. Na História, casos como este costumam se arrastar por anos, e, considerando a doutrina judicial prevalecente, as chances de sucesso hoje não são muito prováveis. As autoridades também relutam em quebrar as companhias norte americanas de tecnologia, pois, ao enfraquecê-las, indiretamente fortalecerão suas rivais chinesas.
 
Isso não significa que o tipo de mudança estrutural que Warren propõe esteja fora de questão. Reduzir o poder de mercado dos monopólios de plataforma pode ganhar o apoio de importantes segmentos de negócios, não apenas de grupos de consumidores. Um governo que busque limitar a precificação predatória e outros abusos do poder de mercado pode ter mais sucesso, no entanto, atacando diretamente tais abusos por meio de novas leis ou de uma autoridade reguladora já existente. Efetivamente, agora é possível que haja uma nova legislação federal numa área – direitos de privacidade – mas não por boas razões.
 
O desafio do Capitalismo de Vigilância
 
Os Estados Unidos têm sido retardatários na questão da privacidade de dados. A lei estadunidense trata da privacidade como um aspecto da liberdade individual, ameaçado pelo Estado, nunca pelo mercado. A pressão vinda dos interesses corporativos acabou por limitar a proteção legal de dados pessoais coletados de forma privada e negociados no mercado. Embora as leis regulem os dados de setores como relatórios de crédito e assistência médica, essas normas são anteriores à ascensão da internet. O resultado é que a privacidade do consumidor online vem dependendo amplamente da auto-regulação corporativa, e o Estado só tem sido capaz de agir sobre abusos de privacidade das empresas que violam suas próprias políticas de privacidade ou enganam os consumidores.
 
Em contraposição, as leis europeias compreendem a privacidade como um aspecto da dignidade humana ameaçado por todos os tipos de intromissões, tanto privadas como governamentais. Fiel à tradição, a União Europeia possui uma proteção muito mais forte dos dados do consumidor, num padrão que culminou em 2016, com a adoção do Regulamento Geral de Proteção de Dados (GDPR, na sigla em inglês). Pelo menos nesse quesito, o GDPR exige que as empresas concedam aos consumidores o direito de controlar os dados coletados sobre eles, prejudicando potencialmente o modelo de negócios que transformou o Google e o Facebook em gigantes.
 
Mas as políticas de privacidade de dados devem ter mudado nos Estados Unidos. O escândalo da Cambridge Analytica e um fluxo aparentemente sem fim de revelações sobre o Facebook ajudaram a aumentar a conscientização sobre os limites da autorregulação corporativa. No ano passado, a Califórnia adotou uma nova e importante legislação sobre a privacidade dos consumidores, e vários outros estados norte-americanos estão considerando projetos de lei desse tipo. Depois de muito resistir a uma lei de privacidade federal, os interesses corporativos agora pressionam para que isso ocorra, prevendo medidas estatais mais fortes.
 
Embora os escândalos tenham provocado uma forte indignação pública, os interesses financeiros em jogo nunca foram tão grandes. Os dados pessoais são, hoje, a força vital das grandes empresas de tecnologia. Google e Facebook agregam dados de seus próprios sites e de outras fontes sobre indivíduos, independentemente de eles terem contas com essas empresas. Com esse fluxo constante e contínuo de dados, eles conseguem atingir o público-alvo com propagandas de forma muito mais precisa e eficiente do que a mídia de massas.
 
Parte desta “publicidade comportamental” é inofensiva, e, sem dúvida, muitas pessoas talvez até prefiram receber propagandas que são mais “personalizadas”. Mas a personalização oferece ricas chances de exploração. Num guia para anunciantes da Austrália e da Nova Zelândia, o Facebook observa: “Ao monitorar postagens, fotos, interações e atividades da Internet, o Facebook pode ser útil quando os jovens se sentem ‘estressados’, ‘derrotados’, ‘sobrecarregados’, ‘ansiosos’, ‘nervosos’, ‘estúpidos’, ‘inúteis’ ou ‘um fracasso’” — em outras palavras, nos momentos em que eles se estão “mais vulneráveis a uma configuração específica de dicas e sugestões publicitárias”.
 
Uma pesquisa do Wall Street Journal, focada em aplicativos que enviam ao Facebook informação altamente pessoal, descobriu que um deles, com 25 milhões de downloads, fornecia à plataforma estimativas das datas de ovulação das mulheres. O rastreamento de usuários e o armazenamento de dados confidenciais sobre eles significa, inevitavelmente, um risco de abusos. (O Facebook negou sua responsabilidade tanto sobre o guia de anúncios como sobre o aplicativo, uma vez expostos.)
 
Uma das coisas que as companhias mais querem é saber o preço máximo que você está disposto a pagar pelo que elas vendem, seja uma viagem de Uber ou um produto da Amazon, como explica Phillip Longman no Washington Monthly. “Fica cada vez mais difícil evitar o contato e intercâmbio com comerciantes que conseguem estimar com uma precisão o quanto você, pessoalmente, está disposto a pagar, e que te cobrarão exatamente de acordo com isso”.
 
Mark Zuckerberg diz que sente muito por divulgar dados para a Cambridge Analytica. Não obstante essas desculpas, o vasto volume de escândalos do Facebook ajudou a esclarecer as limitações da autorregulação corporativa.
 
Em seu livro  pdf The Age of Surveillance Capitalism (“A era do capitalismo de vigilância”) (6.43 MB) , Zuboff demonstra que o negócio da vigilância busca, basicamente, criar “produtos de previsão”, os quais são valiosos não somente para quem faz as propagandas, mas para quem quer previsões melhores sobre o que você vai comprar e quanto vai pagar. Companhias de seguros, proprietários e empregadores também estão interessados em previsões mais personalizadas sobre possíveis segurados, inquilinos e trabalhadores.
 
Além disso, o capitalismo de vigilância passou do mundo virtual para o físico, à medida em que nossos telefones, aplicativos e dispositivos de rede na “internet das coisas” reportam às empresas de dados onde estamos e o que estamos fazendo. Zuboff escreve que as companhias querem “cutucar, ajustar, agrupar, manipular e modificar o comportamento em direções específicas, executando ações tão sutis quanto inserir uma frase específica no seu feed de notícias do Facebook, cronometrando o tempo certo para a aparição de um botão de “COMPRAR” no seu telefone, ou desligando o motor de seu carro quando uma parcela do seguro está em atraso”. Se não for regulamentada, a nova tecnologia tem um grande potencial de virar um novo regime social, operado pelos interesses das companhias dominantes.
 
Tanto o GDPR europeu (RGPD – Regulamento Geral de Proteção de Dados) como a nova legislação sobre privacidade da Califórnia buscam dar aos consumidores um maior controle de suas informações, mas fazem isto de maneiras diferentes. O RGPD requer um aceite, enquanto a lei da Califórnia exige que as empresas ofereçam aos consumidores uma opção de exclusão. Com o RGPD, as companhias precisam obter o consentimento dos indivíduos para suas práticas de dados por meio de um contrato “dado livremente; específico, claramente redigido e inequívoco”. Entre os direitos oferecidos aos consumidores está o de acesso à informação coletada sobre eles; o direito de “deletar” dados sob certas circunstâncias (o que já é melhor do que o antigo “direito a ser esquecido”); e um “direito a explicações” sobre as decisões algorítmicas tomadas a partir deles. Na prática, o significado desses direitos dependerá de decisões regulatórias e judiciais.
 
Os resultados mais recentes, desde que o RGPD passou a valer em 2018, não são alentadores. O cumprimento do RGPD exige um investimento significativo. Estes custos não são grande questão para companhias de big tech como Google, Facebook e Amazon, que conseguiram convencer os consumidores a clicar nos formulários de consentimento: os custos são um problema para as empresas pequenas e startups. O RGPD poderia, portanto, acabar fortalecendo os monopólios de plataforma.
 
Além disso, o RGPD delega a fiscalização regulatória ao país em que a empresa possui suas principais instalações e “controladores de dados”. Para a grande maioria das empresas norte americanas, esse país é a Irlanda, que há muito tempo atende à indústria de tecnologia que agora deve regular. As autoridades irlandesas estão encerrando alguns dos principais casos de aplicação da lei e os críticos são céticos sobre quão rigorosamente eles interpretarão o RGPD. A questão é se o Facebook pode ou não exigir que seus usuários aceitem suas práticas de dados como uma condição para usar a plataforma.
 
A Lei de Privacidade do Consumidor da Califórnia (California Consumer Privacy Act; CCPA, na sigla em inglês), que entrará em vigor em janeiro de 2020, não é tão ampla quanto o RGPD e não requer o consentimento do consumidor para que as companhias coletem seus dados pessoais. Em vez disso, a CCPA requer que as grandes empresas publiquem em um local “claro e notável” uma opção simples e específica: “Não vender minhas informações pessoais”.
 
Como a lei define que grandes empresas são aquelas que têm receita anual superior a 25 milhões de dólares ou dados pessoais acima de 50.000 indivíduos, é pouco provável que ela que cause os mesmos efeitos perversos que o RGPD teve no fortalecimento das grandes tecnologias. A CCPA também concede explicitamente aos consumidores o direito de receber os mesmos serviços e mesmos preços das empresas, independentemente delas exercerem ou não esse “direito de exclusão da venda de dados” ou outros. E define “vender” dados pessoais de forma ampla, de modo a incluir o “divulgar, disseminar, disponibilizar [ou] transferir” esses dados. A indústria da Internet tentou obstinadamente alterar a CCPA para obter uma exceção para a publicidade digital, mas fracassou na sessão legislativa que terminou em setembro.
 
As leis da Califórnia definitivamente se aplicam a todas as grandes empresas instaladas nos EUA, já que seria difícil negar ao resto da população os direitos que elas têm de dar aos californianos. No entanto, outros estados norte-americanos também vêm considerando uma legislação do tipo. Uma proposta de lei de Nova York, aplicável a empresas de qualquer tamanho, iria além daquela da Califórnia, criando um direito de ação privado, que permitiria aos consumidores processarem empresas, de forma individual, por violações à privacidade. Também trataria as empresas como “fiduciários de dados”, exigindo que agissem como outros tipos de fiduciários – tais como médicos e advogados, que devem manter as informações em sigilo — mantendo os interesses dos consumidores em primeiro lugar.
 
Porém, uma proliferação de leis estaduais poderia ser uma faca de dois gumes. Ao expor as empresas a requisitos conflitantes e ao risco de serem bombardeadas por processos, novas leis fortaleceriam o argumento para que a legislação federal substituísse regras as estaduais separadas por normas nacionais, possivelmente muito mais fracas.
 
Ainda assim, pelo menos há um movimento positivo no direito à privacidade. Bem como a lei antitruste, a lei da privacidade fornece agora uma estrutura para iniciar uma reforma que conta com considerável legitimidade pública. O terceiro desafio, a desinformação, é muito mais difícil, tanto conceitual como politicamente.
 
Desinformação e Degradação das Notícias
 
Dois efeitos da revolução digital degradaram a qualidade das notícias e da informação. O jornalismo vem em queda livre como resultado do colapso de seu modelo de negócios tradicional. Nos EUA, aproximadamente, um quinto dos jornais locais deixou de existir, e muitos sobreviventes não passam de sombras fantasmagóricas do que alguma vez foram. Áreas nacionais inteiras viraram desertos de informação, sem nenhum tipo de notícias locais, o que deixou milhares de pessoas dependentes e confiantes nas mídias sociais.
 
Mas as plataformas de mídias sociais, livres de qualquer responsabilidade por conteúdos gerados por usuários, não tinham até há pouco nenhum incentivo para investir recursos para distinguir verdades de falsidades – muito menos para bloquear desinformação pura. Os algorítmos das plataformas foram otimizados para constuir escala e tornar os sites tão lucrativos quanto possível.
 
Se teorias da conspiração e outros conteúdos sensacionalistas e extremos tiveram esse efeito, este não foi motivo de preocupação para as plataformas. O YouTube, que pertence ao Google, e que no final de 2016 passou a marca de um bilhão de horas de exibição por dia – próximo ao tempo total de exibição de toda a televisão – é um excelente exemplo desse padrão. Uma investigação de 2018, do The Wall Street Journal, descobriu que, depois de detectar os preconceitos políticos dos usuários, o YouTube passava a lhes transmitir vídeos ecoando “esses preconceitos, geralmente com pontos de vista mais extremos”.
 
Com todas as limitações das mídias pré-digitais, pelo menos as organizações jornalísticas tradicionais assumiam a responsabilidade pela veracidade das notícias que transmitiam. A revolução digital transferiu o poder às plataformas de mídias sociais, que renunciaram a qualquer responsabilidade. Se as reformas pretendem corrigir essa perda de um julgamento editorial responsável, elas terão de fazer duas coisas: primeiro, ajudar a reconstituir a base econômica do jornalismo profissional e, segundo, responsabilizar as plataformas de mídia social por seu papel na modelagem da exposição a diferentes conteúdos, fontes e pontos de vista. Governos democráticos podem e devem desempenhar um papel no primeiro ponto; não está claro como, se é que podem, desempenhar um papel no segundo, a não ser reduzindo os monopólios de plataforma e exigindo algum grau de transparência.
 
O apoio dos Estados ao jornalismo é amplamente considerado uma espécie de maldição, mas não deveria ser. Muitas democracias liberais fornecem apoio financeiro substancial ao jornalismo, por meio de mecanismos que protegem a integridade da imprensa. A BBC serve de modelo: financiada por impostos, como um serviço público de transmissão. Os países escandinavos subsidiaram jornais sem prejudicar a liberdade de imprensa. A democracia norte-americana antiga não teria tido tanta vitalidade sem os subsídios que o governo forneceu à imprensa por meio de tarifas postais abaixo do custo, bem como contratos de impressão e outros meios.
 
No entanto, desde o final do século XIX, o jornalismo norte-americano existe quase só baseado em termos comerciais. De fato, durante o século XX, os jornais e as redes de transmissão ganharam tanto dinheiro que os melhores deles ampliaram áreas de cobertura subsidiadas. Agora os lucros estão desaparecendo, mas a maioria da população não percebeu o significado da mudança. De acordo com uma pesquisa realizada pelo Pew Research Center em 2018, 71% das pessoas acha que a mídia local vai bem financeiramente.
 
Editores de jornais gostariam de obter parte da receita publicitária, agora nas plataformas. Eles apoiam um projeto de lei que lhes daria uma isenção de quatro anos das leis antitruste para permitir que negociassem coletivamente com o Google e o Facebook. Mas, mesmo assim, a mídia estaria em uma posição de barganha fraca: eles precisam do tráfego do Google e do Facebook mais do que as plataformas precisam deles. A isenção antitruste não resolveria a crise do jornalismo.
 
Trazer propostas interessantes para apoiar o jornalismo não é o problema. Uma maneira direta de fazê-lo seria por meio de um imposto vinculado às plataformas digitais para apoiar o jornalismo como um serviço público, com fundos a serem distribuídos no modelo que os Estados Unidos já desenvolveram com sucesso para transmissão pública. A rádio pública é uma das poucas histórias de sucesso na história recente da mídia; sua estrutura federativa — um sistema descentralizado, composto principalmente por estações privadas sem fins lucrativos, com uma combinação de fundos públicos e privados, e redes de rádio públicas concorrentes entre si — ajuda a minimizar o risco de controle por parte dos governantes.
 
Mas, ainda assim, é difícil imaginar um momento pior para pedir ajuda para o jornalismo. Quando o presidente chama a mídia de “inimigo do povo” e seu partido compartilha esse desdém, as propostas de apoio à imprensa serão inevitavelmente tomadas como partidárias. Os liberais devem continuar a pensar em tais ideias — infelizmente, haverá tempo de sobra para a reflexão. O máximo que podemos esperar nesse ínterim é o reconhecimento entre as fundações e outras fontes sem fins lucrativos da necessidade urgente de fortalecer o jornalismo, especialmente a nível local.
 
Esforços para mudar as políticas das mídias sociais também são difíceis, politicamente. Mantendo as esperanças na auto-regulação corporativa, várias organizações tentam promover a verificação dos fatos de forma independente, para uso pelas empresas de plataforma. Tanto o Facebook quanto o YouTube anunciaram alterações em seus algoritmos que, segundo eles, limitarão os “conteúdos incertos”. Nas palavras de Mark Zuckerberg, esse é um “conteúdo sensacionalista e provocador” que “pode prejudicar a qualidade do discurso público e levar à polarização”. O Facebook não está bloqueando essas postagens, mas está limitando a frequência com que elas aparecem nos feeds de notícias. Em uma explicação de como o Facebook estava se preparando para as eleições de 2018, Zuckerberg disse: “As postagens classificadas como falsas [com base em verificadores independentes] são rebaixadas e perdem em média 80% de suas visões futuras”.
 
Esse tipo de poder, junto com o aumento da “moderação de conteúdo”, é ao mesmo tempo necessário e preocupante. Necessário, porque falsidades virais, vídeos deepfake e outras formas de engano são uma ameaça genuína à democracia, e as mídias sociais podem servir como um ponto de controle. É preocupante, no entanto, porque a mídia social pode servir muito facilmente como um ponto de estrangulamento para a liberdade de expressão — e consegue fazê-lo de forma que os controladores não consigam detectar, muito menos contestar.
 
Depender de organizações independentes que verificam fatos não foge da política. Segundo uma pesquisa da Pew, 70% dos republicanos acredita que os verificadores de fatos são tendenciosos, enquanto apenas 29% dos democratas pensa assim. De fato, a direita tem motivos para se preocupar com a verificação de fatos de suas fontes de notícias. Num recente estudo de notícias online, a Network Propaganda, junto de Yochai Benkler, Robert Faris e Hal Roberts, descobriu que as normas jornalísticas continuam a restringir as organizações de notícias, desde a centro-direita (por exemplo, The Wall Street Journal), passando pelo centro até chegar à esquerda. Mas, na direita, eles encontraram um ecossistema de mídia insular, que tende ao extremo, onde nem mesmo as principais organizações de notícias (Fox e Breitbart) apresentam normas de “busca da verdade” e verificação de fatos.
 
É nesse contexto que surgem as acusações conservadoras de que o Facebook, o Google e o Twitter são tendenciosos contra eles. Ironicamente, depois de anos denunciando democratas por supostamente quererem trazer de volta a Doutrina da Justiça nas transmissões, alguns conservadores agora querem uma nova doutrina de justiça para as mídias sociais. O senador Josh Hawley, republicano do Missouri, propôs uma legislação que exigiria que os intermediários da Internet demonstrassem que são politicamente imparciais, para, assim, obter ampla isenção de responsabilidade pelo conteúdo dos usuários, conferido pela lei federal. A medida parece calculada para impedir que as plataformas de mídia social adotem critérios como a confiabilidade da fonte de notícias em seus feeds de notícias e outros algoritmos.
A proposta de Hawley serve como um sinal de advertência sobre qualquer tipo de regulamentação de conteúdo governamental das mídias sociais. Mas a transparência é uma ferramenta que o governo poderia ir adiantando de maneira útil. A legislação poderia exigir que as mídias sociais e outras plataformas digitais divulgassem regularmente como seus algoritmos funcionam, incluindo como eles afetam diferentes tipos de conteúdo e pontos de vista. Se o seu feed de notícias estiver sendo configurado por causa de alterações no algoritmo de uma plataforma, você deveria ter o direito de uma explicação em linguagem clara e acessível. Essa maior transparência seria um passo em direção ao que passou a ser conhecido como “prestação de contas algorítmica”.
 
Quando a Internet e a economia digital surgiram pela primeira vez, entre a década de 1990 e início da década de 2000, não era claro que formato elas tomariam. A velocidade da mudança e sua novidade eram deslumbrantes; uma análise sóbria e historicamente informada não poderia competir com os sonhos de um parque de diversões liberal. Mas ninguém deveria continuar a se iludir com as conseqüências benignas de confiar plenamente no mercado “como uma alternativa à intervenção do governo”. A era neoliberal da internet acabou.
 
Uma nova onda de intervenção está chegando. No entanto, as empresas de tecnologia se tornaram tão grandes e poderosas, e a ala de direita Trumpista tão avessa ao jornalismo e suas normas, que o formato do que está por vir, novamente, é pouco claro. A questão agora é: são os interesses e valores de quem que prevalecerão no mundo digital que a política moldará? Monopólio, vigilância e desinformação são nossas apostas imediatas; a questão final é em que tipo de sociedade queremos viver.
 
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Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/10/ainda-e-possivel-resgatar-internet.html

Caladinhos que nem ratos

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Para a comunicação dita social, os povos em luta, não são notícia:
Na Colômbia, braço armado dos EUA, os assassinatos são seletivos: dirigentes sindicais, jornalistas, ativistas sociais, políticos ou líderes indígenas. O Equadorencontra-se em estado de exceção, tanques do exército e a polícia assassinama sangue-frio. O Peru está em ebulição, o povo exige eleições e manifesta-se aos milhares. No Haiti, povo perseguido há séculos, pelos colonialistas que ainda não lhes perdoaram a afronta, a luta intensifica-se. Na Argentinaa sopa popular voltou à rua e as próximas eleições estão à porta. No Brasil,os pobres vivem enfavelados e são abatidos como caça. No Chile ainda não conseguiram destruir as metástases deixadas por Pinochet, e os indígenas, trabalhadores e estudantes são brutalmente reprimidos sempre que se manifestam, e fazem-no em grande escala.
Todo um Continente socialmente a arder com muitas mortes, estropiados e milhões de crianças abandonadas nas ruas, narcotraficantes, gangs de várias estirpes, fome e miséria estrema.
A imagem perfeita do neoliberalismo.
E ai de quem faça por sair do caos

Ver o original em As palavras são armas (clique aqui)

ELE DEVE HAVER UM CRITÉRIO...

Comparando estas duas notícias, e a colossal diferença na cobertura noticiosa, sobretudo televisiva, que tem estado a ser dada a ambos os protestos, permanece o mistério do critério que leva a dedicar muito mais atenção a um (o de cima) do que a outro.
Ao contrário do que é reputado canonicamente, não pode ser o carácter sangrento da repressão: «60 feridos e um manifestante baleado» não se comparam a «mais de 100 mortos e de 6.100 feridos». Nem poderá ser relevante a questão da importância por causa da proximidade geográfica, já que o Iraque é-nos muito mais próximo do que Hong-Kong.
Uma explicação maldosa remete para a hegemonia que, mau grado tudo, os americanos continuam a exercer sobre a informação internacional: enquanto os culpados da repressão no primeiro caso são convenientes, o regime de transição de Hong-Kong sob a tutela da China, no segundo caso são inconvenientes, pois o regime iraquiano é apenas a consequência da ocupação dos Estados Unidos daquele país entre 2003 e 2011.
Mas, se calhar, a explicação é mesmo maldosa. Ele deve haver um critério para que a repressão em Hong Kong seja noticiosamente tão mais importante do que a de Bagdade.

Veja o original em 'Herdeiro de Aécio' na seguinte ligação::

http://herdeirodeaecio.blogspot.com/2019/10/ele-deve-haver-um-criterio.html

Nova onda de audiolivros permite ler de tudo sem esforço

Nos últimos anos o consumo de audiolivros explodiu em popularidade ao redor do mundo. O formato pode ser facilmente consumido com o simples uso de um smartphone com headphones e o grande número de plataformas e títulos disponíveis permite ler de tudo sem esforço.

 

 

Onda mundial de audiolivros é impulsada pela facilidade do consumo

Um dos principais motivos para o crescimento desse novo formato tem a ver com o facto de que, ao contrário do que acontece com os e-books, que exigem a mesma atenção de um livro tradicional, é possível ouvir audiolivros enquanto se faz outra tarefa, como conduzir, esperar pelos transportes públicos, cozinhar ou executar qualquer outra tarefa mecânica do dia a dia.

De acordo com um relatório recente publicado pela Audio Publishers Association (APA), o consumo de audiolivros pode ser dividido em três grandes áreas geográficas. Os EUA ocupam a primeira posição, com um gasto estimado de 2,5 biliões de dólares, seguido pela Europa como um gasto de 500 milhões e pela China (US$ 470 milhões).


Foto por Carsonjp21/CC BY-SA 4.0 – “Ouvir audiolivros é muito fácil e prático, e para isso basta ter acesso a um smartphone com headphones.”

A pesquisa também mostra que os países nórdicos lideram o mercado europeu de audiolivros, sendo responsáveis por quase um terço das receitas geradas por este sector. Os maiores consumidores europeus são a Alemanha (cerca de 16 milhões de unidades vendidas num ano) e o Reino Unido (14 milhões de unidades vendidas num ano), mas o mercado europeu ainda tem muito espaço para crescer neste âmbito. No que diz respeito à expansão do consumo, a França e a Rússia estão actualmente entre os mercados que se desenvolvem mais rapidamente, e Portugal é um dos países com maior potencial.

Muitas aplicações disponíveis para o público

Actualmente existe uma grande variedade de aplicações ou plataformas, tanto pagas como gratuitas, à disposição dos utilizadores. As versões pagas costumam contar com um nível de produção mais especializado, contando com uma equipa completa para produzir o livro, narradores de carreira capazes de imitar várias vozes diferentes e até mesmo artistas famosos envolvidos, para que o resultado seja uma obra de alta qualidade.

Por outro lado, as versões gratuitas normalmente oferecem obras que já são de domínio público, e que foram produzidas por fãs ou profissionais de forma gratuita, o que pode diminuir um pouco a qualidade da obra final pela falta de equipamentos ou de revisão.

Independentemente da modalidade escolhida, uma boa parte do conteúdo disponível é de boa qualidade e, inclusivamente, é possível encontrar versões gratuitas de obras pagas. Além disso, diversas obras já estão disponíveis para o público em geral, pelo que podem ser adquiridas por um custo muito abaixo do esperado.

A Audible é a principal plataforma de audiolivros pagos ao redor do mundo e oferece um catálogo muito extenso, que conta com uma série de produções exclusivas, em diversas línguas. Nessa plataforma é possível encontrar audiolivros de qualidade profissional (alguns incluem até mesmo efeitos sonoros e música ambiente) em inglês, alemão, espanhol e português.

Já a Open Culture é uma das principais plataformas para audiolivros gratuitos, com um grande foco nos clássicos. Com uma extensa biblioteca organizada por género, esta página web oferece inúmeras obras que vão da não-ficção à poesia, e podem ser descarregadas em diversos formatos de áudio.

Outra plataforma gratuita especializada em obras clássicas é a Free Classic Audiobooks. O número de formatos de áudio que oferece é mais limitado que o da Open Culture, mas neste site também é possível encontrar uma variedade impressionante de audiolivros em inglês, que inclui grandes nomes da literatura internacional e pode ser muito útil para praticar a língua.


Foto por Max Pixel/CC0 Public Domain – “O número de audiolivros disponível é o mais alto de sempre e o formato não para de crescer”

Diversas opções para começar a ouvir

Um dos melhores audiolivros disponíveis actualmente, e uma boa opção para os que querem adentrar-se neste formato, é o audiobook de “Casino Royale”. Escrito pelo premiado escritor Ian Fleming e fonte de inspiração para o filme com o mesmo nome, o romance é tão emocionante como a famosa longa-metragem e mergulha de forma ainda profunda no fascinante mundo dos casinos. Para se ter uma ideia do impacto da obra nos fãs do agente, a história começa com Bond a jogar roleta, e teve tanto sucesso que alguns entusiastas até criaram um “sistema James Bond” baseado na estratégia utilizada pelo super espião.

Outra excelente opção é “We Are Legion (We Are Bob)”. Primeiro romance do autor e ex-programador Dennis E. Taylor, este bestseller internacional relata a missão de Robert “Bob” Johansson como uma inteligência artificial que precisa de salvar a Terra de diversas ameaças. A obra, que neste caso seguiu o caminho inverso e começou por ser um audiolivro antes de converter-se num livro no formato tradicional, foi completamente produzida para ser ouvida e mostra todo o potencial do formato.

O número de audiolivros disponíveis online nos nossos dias é quase comparável ao dos livros tradicionais, e os exemplos mencionados acima são apenas algumas das opções que podem ser encontradas nas diversas plataformas online. Outros romances que possuem óptimas versões narradas e que podem ser facilmente encontrados pelos entusiastas são “The Handmaid’s Tale”, escrito por Margaret Atwood e narrado pela famosa atriz Claire Danes, “Razão e Sentimento”, escrito por Jane Austen, e “O Estranho caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde”, escrito por Robert Louis Stevenson.


Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/nova-onda-de-audiolivros-permite-ler-de-tudo-sem-esforco/

A imprensa canalha da direita

Por Carlos Esperança - outubro 07, 2019

José Elias, militante e ex-autarca do CDS, na antiga junta de São José e pai do assessor do CDS na Assembleia Municipal, infiltrou-se na arruada do PS e acusou o PM, e líder do PS, de ignorar o País e de "ter gozado merecidas férias enquanto morriam pessoas na tragédia dos incêndios, em junho de 2017", mentira confirmada.

 

- "Isso é mentira (...) no dia 18 de junho eu estava lá. Mentiroso provocador", respondeu António Costa, irritado com a provada mentira, no último dia de campanha das eleições legislativas, que decorreram ontem, com os resultados conhecidos.

 

Rui Rio acusou o líder do PS de não gostar de ouvir o que não lhe agrada, enquanto ele também ouviu mentiras sobre a sua presidência da Câmara do Porto, sem reagir. Por sua vez, Paulo Rangel disse que Costa devia um pedido de desculpas ao homem, e o CDS condenou o PS e negou que a “discussão entre Costa e o seu antigo autarca tivesse qualquer articulação com o partido”.

 

O Jornal de Negócios, que certamente sabia da campanha da direita com os cartazes e a mentira que o ex-autarca do CDS foi ali repetir entre simpatizantes do PS, para provocar o líder, colocou, no dia de reflexão, o seguinte título:

 

«Homem que António Costa insultou durante a arruda tem ligações ao CDS»

 

A transformação do agressor em agredido lembra a anedota que se contava da ditadura:

 

Um leão evadiu-se do Jardim Zoológico de Lisboa e estava a cidade aterrada quando um mancebo cheio de força e audácia enfrentou o leão e, num abraço poderoso, o asfixiou.

 

Acorreram jornalistas e fotógrafos a entrevistar o herói que devolveu a calma à cidade. Perguntaram-lhe se tinha gostado da Mocidade Portuguesa, evitava-a quando podia, se pertencia à Legião Portuguesa, nunca, se estava inscrito na União Nacional, jamais.

 

Não houve fotografias do jovem, apenas do leão, e na manhã seguinte os jornais traziam em título de caixa alta:

 

«Jovem leão barbaramente assassinado por um comunista».

 

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2019/10/a-imprensa-canalha-da-direita.html

15 Dias contra a Corrente

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Os períodos eleitorais nas democracias representativas são um interregno controlado na desinformação continuada dos meios de comunicação social, mesmo os de serviço público, sobre a actividade política na sua generalidade e, em particular, na dos partidos políticos que se desenquadram do sistema prevalecente, lutando dentro dele contra ele.

Interregno que atenua mas não invalida a deformação comunicacional que, entre eleições para o poder central, poder local, europeias e presidenciais, e mesmo durante esse período, é produzida pelos celebrados critérios editoriais que beneficiam descaradamente uns em detrimento de outros. Vários estudos universitários demonstram, sem margem para quaisquer dúvidas, o enviesamento dos media, ainda que partam de princípios discutíveis como o de colocarem todos os comentadores do Partido Socialista do lado da esquerda – o que, ouvindo-os e lendo-os, é altamente questionável e é ainda mais superlativamente contestável com os supostamente independentes. A conclusão, por mais ginásticas que se pratiquem, é que a direita é francamente maioritária, que a representação parlamentar não se repercute nos tempos de antena concedidos.

Entricheiram-se na autonomia e liberdade editorial, uma verborreia eivada de doblez e desplante por uma comunicação social estipendiada aos interesses económicos dominantes, que usam hipocritamente o direito à informação, os princípios da liberdade, independência e imparcialidade, os princípios da não discriminação como balizas para impor um ambiente geral de propaganda, de terror ideológico totalitário, que substituiu os visíveis actos censórios, a violência autoritária da censura dos regimes ditatoriais por uma quase invisível mas omnipresente, fina e sofisticada rede que filtra toda a informação, instalando, tanto a nível nacional como mundial, uma colossal máquina de guerra, poderosíssima e eficaz, que controla e manipula a informação. Diariamente, o mundo é bombardeado por mentiras propaladas por essa gente que se apresenta, sem uma ruga de vergonha, como cruzados na defesa desse bem universal que é a informação e se enquadram no que Platão classifica como doxósofos, que hoje são os técnicos de opinião que se julgam cientistas, que analisam a política como um negócio na bolsa das votações, fazem cálculos eleitoralistas intermediados pelas sondagens e a economia enquanto vulgata dominada pelos mecanismos do mercado em roda livre.

Na verdade são a tropa de choque, os mercenários do poder da classe dominante. Produzem e propõem uma visão cínica do mundo político nas notícias, na selecção das notícias, nas perguntas das entrevistas, nos comentários políticos, que concorrem para produzir um efeito global de despolitização, de desencantamento com a política, um território de portas abertas para o populismo mais descarado, estrumado pela simplificação demagógica que está nos antípodas da democrática intenção de informar.

Esse mecanismo é complementado, sobretudo na televisão, pelos programas que se centram nas actualidades, com diagnósticos e prognósticos mais aparentados com os jogos de casino, os casos do dia em desenfreadas correrias de permanente descontinuidade, cuja sobreposição concorre para o esquecimento, os programas de diversão que preenchem os restantes espaços, por cá com grande ênfase no desporto, praticamente reduzido às futeboladas, em que concorrem entre si aterrorizados pelo pânico de aborrecer, para não degradarem audiências e as correlatas receitas publicitárias. Um circo jornalístico de rápida rotação que fomenta o conformismo e se agravou com um movimento de concentração da propriedade da imprensa, rádio, televisão e informação on-line. Movimento que ainda não acabou, é paralelo ao da globalização capitalista, com a destruição das bases económicas e sociais da produção cultural submetida ao reinado do comércio, do comercial.

As diferenças entre órgãos de comunicação mais circunspectos ou mais populares são variações de estilo do mesmo estado das coisas. Biombos que, quando retirados, mostram uma obscena uniformidade. Uniformidade que se estende das peças jornalísticas às de opinião, com comentadores escolhidos a dedo. Aqui, há que fazer uma nota às condições de trabalho dos jornalistas, que se degradaram e continuam a degradar brutalmente. Precariedade, despedimentos, utilização de trabalho dos estagiários gratuito ou quase, a porta da rua sempre aberta, imposição de critérios editoriais condicionados aos interesses dos patrões, dos partidos dos patrões, do absolutismo do pensamento dominante, retiraram e retiram progressivamente a autonomia jornalística. Autonomia e liberdade editorial que quanto mais se vende mais altissonantemente é proclamada, que foram, são e continuam a ser utilizadas para discriminar ostensivamente forças políticas e sociais que não se submetem aos seus diktats. Basta fazer o cômputo sem sequer ser preciso descer ao pormenor do conteúdo ou do relevo que tiveram, do número e dimensão das notícias, entre os diversos partidos políticos e forças sindicais. Uma radiografia devastadora da ausência de imparcialidade e independência dos meios de comunicação social.

Os truques são os mais diversos. O mais vulgar é o que dá ou não dá para ser notícia, sempre em favor da direita ou mesmo de alguma esquerda como o BE, acalentado desde a sua fundação pelo seu radicalismo de esquerda jovem que mais não era que uma movida social-democrata, como a sua coordenadora recentemente reconheceu. Se a menorização do PCP já vem de longe, com mais que fatelosos argumentários, actualmente o empolamento do PAN em detrimento do PEV é a evidência da anormalidade da normalidade na comunicação social – o que não tem nada de extraordinário no panorama predominante do marketing político, dos efeitos de anúncio em que se procuram obter ganhos directos e indirectos pela notoriedade mediática alcançada que cobre todo esse arco que vai da direita mais bronca e retrógrada aos oportunistas recém-convertidos ao ambientalismo pós-moderno. Marketing político em que a Iniciativa Liberal, um recém-chegado à política empurrado pelas urgências do neoliberalismo económico, é o alfa e o ómega de um discurso de manipulação sem tréguas envernizado por um certo vocabulário técnico do discurso fatalista que transforma tendências económicas em destino sem alternativa, numa regressão à barbárie da exploração capitalista mais brutal.

A comunicação social na sua generalidade dá-lhes guarida e apoio. Cumpre com denodado esforço a sua missão de impor o pensamento único para, no limite, calar os que apresentam outras alternativas políticas. O seu objectivo é que já não seja sequer possível pensar que é possível pensar outras soluções políticas. Procuram fechar num gueto os que lutam contra todas as opressões de geometrias variáveis que são o estado de sítio em que estamos mergulhados. Emudecer e expulsar todos os que, como Manuel Gusmão assinalou, se colocam «na “tradição dos oprimidos” (Walter Benjamin), aprenderam a não ceder aos desastres, aprenderam a trabalhar para estoirar o tempo contínuo das derrotas e a perscrutar os momentos em que algo de diferente foi possível, mesmo que por umas semanas ou meses ou décadas sejam silenciados.»

A contragosto obrigam-se, nos períodos eleitorais, a quinze dias de maior equidade que não disfarça o seu trabalho continuado em favor da pavimentação das estradas da financeirização, da globalização e da desregulamentação da economia, da apropriação dos recursos do planeta, do desemprego estrutural, da precarização por diversas vias da força de trabalho, da fascização tecnocrática travestida por uma democracia formal em que «hoje, os novos fascistas apresentam-se como democratas» como diz com implacável lucidez um personagem do filme de João César Monteiro, Le bassin de John Wayne. Vive-se um tempo em que a ofensiva capitalista se agrava tentando ultrapassar as suas crises estruturais, que transforma num instrumento útil para as forças burguesas, das mais sociais-democratas às mais ultraconservadoras, falsearem a sua imagem, criticando os aspectos marginais do sistema para que a espinha dorsal deste continue intocada.

Um tempo da globalização neoliberal, do mundo aldeia global «que supostamente apagaria as fronteiras quando jamais se viram tantas fronteiras de classes sociais, de renda, fronteiras físicas e políticas, de poderio militar, como hoje» (Domenico Losurdo)Um tempo em que se exige às esquerdas coerentes a reinvenção da política e a intensificação da luta de classes em que as lutas eleitorais são uma das suas frentes. . Um tempo em que a esquerda tem que estar sempre presente e empenhada em todas as frentes na defesa dos direitos económicos, sociais e políticos.

(publicado em AbrilAbril https://www.abrilabril.pt/ )

Ver o original em 'Praça do Bocage ' (clique aqui)

Tancos: Gente que não sabe onde está…

O IntelNomics / Jornal Tornado tinham alertado, aqui, no passado dia 10 Setembro, para a guerra de informação que ia explodir em plena campanha eleitoral.

 

 

É certo que o fez de forma subtil, embora tenha sido bem claro na denúncia da arrogância de uma elite política convencida de que tem o rei na barriga… Arrogância essa que, além de injustificável e desprovida de base de sustentação, lhe obnubila o olhar, impedindo-a de ver a realidade à sua volta. Dito de outro modo, esta classe política reinante não foi ainda (e, provavelmente, nunca o será…) capaz de gerar grelhas de leitura adequadas ao mundo deste século XXI.

Daí que muito mais do que “gente que não sabe estar” seja gente que não sabe onde está… Que nem sequer sabe para que serve um telemóvel.

A “Guerra de Informação” continua a ser um mistério para os políticos

Quase toda a classe política reinante continua a ignorar tudo da “guerra de informação”. E, claro, a não perceber a sua lógica. Nem o que….

 

 

 

 


Exclusivo Tornado / IntelNomics



 
 

O desesperado brado de um editorialista angustiado

Passaram vários anos sobre uma coisa sinistra chamada Compromisso Portugal, que reunia a azeda nata cavaquista com uma geração de tecnocratas saídos da Católica ou dos cursos de Economia da Nova, e tendo o Observador como pífio altifalante. José Manuel Fernandes saiu do «Público», porque este se afundava nas tiragens e nas receitas, e foi adiar a mais do que urgente passagem à reforma como seu responsável.

 

Após um introito assim ao jeito de nem carne, nem peixe, com Bárbara Reis como diretora, a Sonae decidiu dar o lugar a Manuel Carvalho. O resultado tem sido desastroso, porque vemo-lo a trilhar as sinuosas linhas daquele seu outro antecessor.

 

Durante o seu detestável consulado tem-se agarrado a todos os argumentos para pôr em causa o Partido Socialista e o governo de António Costa. Não se lhe adivinham os motivos para tão consistente raiva, mas ela revela-se em repetidas ocasiões. E pressentimos-lhe a angústia existencial por ter de suportar novo governo de esquerda por mais quatro anos. Se a tarefa imposta pelos Azevedos era a de manipular a desinformação de forma a dificultar a reedição dos resultados eleitorais de 2015 - que o deixaram tão inconformado! - a perspetiva de uma vitória mais robusta do PS só não lhe põe os cabelos em pé, porque poucos lhos sobram no alto da cabeça.

 

Agora o assunto Tancos fá-lo salivar, dando-lhe o que julga ser a oportunidade para travar uma dinâmica eleitoral desfavorável para os seus intentos. E põe-se a exigir em editorial, que António Costa alinhe na histeria das direitas em torno do assunto. O texto deste domingo é exemplar quanto ao desespero, que lhe vai na alma. Será porventura por pressentir que, insatisfeitos com os objetivos a que se predispusera, os patrões irão apontar-lhe a porta da saída restando-lhe uma anónima sinecura no Observador para compor o ordenado até à reforma?

 

Carvalho, e quem ainda o aguenta à frente do «Público», não compreende que os leitores de jornais afetos às direitas preferem o «Correio da Manhã», porque para mais não lhes chega a inteligência, nem a curiosidade. E que os afetos às esquerdas podem perder definitivamente a paciência e juntarem-se aos muitos que o deixam de comprar, porque não têm paciência para pagar um produto manifestamente infecto.

 

É claro que Carvalho não consegue impor o que o PS deve ou não dizer nos seus discursos de campanha. Porque todos reconhecem a coerência de quem, mesmo quando estava em causa um seu antigo secretário-geral e primeiro-ministro, nunca deixou de assumir o princípio de cingir à Justiça o que só a ela compete. Por muito que seja evidente o quanto ela própria se anda a desviar da transparência e da fiabilidade, que lhe deveremos exigir. Mas isso são contas de outro rosário para o qual Rui Rio estava a dar sinais de contribuir, mas a que lestamente virou costas tão só lhe deu jeito o oportunismo de se aproveitar de algo que até recentemente condenara. Mas dia seis, os Rios e os Carvalhos terão o devido troco...

Manipulação eleitoral - o intervencionismo da Iniciativa Liberal

Reparei que muitas pessoas estão a partilhar os resultados de um questionário eleitoral designado “bússola política”. À primeira vista, assemelha-se a projetos semelhantes já feitos no passado. O inquirido responde a um conjunto de questões e, no fim do questionário, o teste revela qual é o partido do qual o inquirido está mais próximo politicamente, tendo por base os valores e preferências reveladas pelo inquirido em áreas como a política económica, social, cultural ou migratória. Estes inquéritos costumam ser feitos por centros de investigação em ciência política, que se pautam por critérios de independência na sua construção. Ainda que os pressupostos utilizados tenham sempre um forte elemento subjetivo e devam ser escrutinados com sentido crítico, o facto de serem realizados por uma instituição que se pauta por critérios académicos de intervenção na sociedade garante um patamar mínimo de independência. Ora, não é isso que ocorre com esta bússola política (https://www.bussolapolitica.org/index.html) que se encontra agora a ser partilhada. Se olharem com atenção, no final do site pode verificar-se que a bússola foi criada pelo “Instituto Mises Portugal”, o representante nacional de uma instituição reconhecida internacionalmente por promover os valores da economia austríaca e do neoliberalismo. Houve dois elementos que me intrigaram de imediato, por serem demasiado imprecisos e indefensáveis. Em primeiro lugar, o PNR (partido de extrema-direita) está num eixo categorizado como “economia socialista”. Eu percebo a ideia subjacente: o que eles pretendem sinalizar é que se trata um partido que defende o intervencionismo do estado na economia. Mas nunca um projeto feito por uma instituição fiável poderia chamar a isso “economia socialista”. É um erro grosseiro que me levou de imediato a suspeitar. O outro exemplo refere-se ao posicionamento da Iniciativa Liberal: é o único partido que está no quadrante economia de mercado/libertário. Com efeito, qualquer cidadão nessa área será facilmente enquadrado nesse partido e não noutros possíveis nesse domínio ideológico, como o PSD ou mesmo o CDS. Trata-se de um enviesamento muito conveniente: a maioria dos elementos do instituto Mises está envolvido ou é apoiante da Iniciativa Liberal. Este inquérito, em resumo, não é mais do que um exercício de manipulação eleitoral conduzido por pessoas próximas da candidatura da Iniciativa Liberal. Não ajudem à sua divulgação.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

O capitalismo como imensa coleção de perguntas

 
 
Petulante, o capital me interroga: Você é cliente Mais? Já conhece nossa promoção? Deseja fazer as atualizações? Que nota dá para o Victor? Exige senhas: você é você mesmo? Nada lhe escapa: Priscila, no que está pensando?
 
Priscila Figueiredo | Outras Palavras
 
Marx escreveu que a riqueza da sociedade burguesa se apresentava como “uma imensa coleção de mercadorias” — pois a lista de perguntas que elas no fazem hoje 24 horas, todos os dias, deve dizer algo da riqueza burguesa ou do próprio capitalismo tal como este se apresenta hoje, ao menos no Brasil. Uma hora vou verificar a duração de todos os instantes em que ouço e respondo a seus apelos e fazer a soma final de um ano. A coleção de perguntas, algumas bastante petulantes, é interminável, mas, sendo eu procrastinadora, algo com que não contam, sempre digo ou escrevo não ou depois (equivalentes a um não enche!); mesmo assim, isso me toma muito mais tempo que arrancar a erva inútil que cresce todo dia no jardim. Eis algumas:
 
– Você já é nosso cliente? ou: Você é cliente prata? Diamante? Você é cliente Mais? Extra? Único? A senhora quer fazer o cartão X? (se você for a três lojas, p.ex., serão três interrogações, claro), às vezes sob a variação Já é cliente fidelizado?
 
– A senhora já conhece a nossa promoção? (se estiver diante de pessoa insistente, você terá de lhe responder duas ou mais vezes, e, mesmo que seja monossilábico como eu nessas horas, precisará de um tempinho a mais.
 
– Se não quiser receber nossa newsletter/nosso email, clique aqui. Então você segue a recomendação, e a cortina se fecha (primeiro ato); responda sim ou não! (segundo ato); mas, quando você supõe que eles estão saindo de cena, eis que… Ora, mas por que você não quer receber mais nossa newsletter? Sua resposta é muito importante para nós! Não vou dizer que seja mentira, mas não vou lhe tirar também o seu tanto de eufemismo (“passivo-agressivo”, como diz o novo jargão psicológico) para o fato de que sem ela não saímos da grade que imediatamente se fecha em torno de nós, indicando o círculo infernal em que continuaremos a receber o email. Então pressionamos uma das quatro ou cinco opções oferecidas, que não deixam de exibir da parte deles uma percepção decantada e matizada dos dilemas da alma humana. No entanto a única coisa que estou dizendo intimamente, com o maxilar travado desde o começo do primeiro ato é: calhordas, calhordas, calhordas.
 
 
– Deseja fazer as atualizações agora/deseja atualizar o aplicativo agora? Sim ou não? Às vezes oferecem as opções “daqui a 15 dias, 30 dias”, “lembre-me depois” etc. Nesses casos alternativos, o “Não” é só um adiamento de um encontro do qual jamais vou poder escapar.
 
– Qual a nota que você dá para o Victor? (se você pegar só um Uber por dia, claro). Agora essa curiosidade foi acrescida de algumas indiscrições: quanto você gostaria de dar para o Victor [de quem você, como disse, gostou tanto]: 1, 5 ou 10 reais? Não dou nada, mas isso já cavou um buraquinho no meu coração e lá foi se intrometer uma nova modalidade de culpa.
 
– Não vou contar as propagandas de Ômega 6 que se acumulam na secretária eletrônica do telefone fixo, gravadas por algum trabalhador precário em seu próprio apartamento e pagas por peça pela empresa distribuidora do produto. Eu as apago metodicamente a cada tantos dias, como uma trabalhadora também, e mais especificamente uma faxineira. Não fazem interpelações propriamente, mas me roubam uns segundos mesmo que eu só as ouça no início para logo deletá-las. Depois de uns dez dias, suponhamos, haverá umas cinco ou seis mensagens. Além disso, meus dedos estão com burn-out, especialmente meu indicador, que estremece de imaginar que pode trabalhar até 80 anos ou mais, com ou sem Reforma da Previdência.
 
– Não vou também contabilizar aqui os telefonemas de associações de caridade solicitando alguma contribuição, pois no meu entender não vendem mercadorias, e tampouco estas, mercadorias, estariam em seu “lugar de fala” (como quando o próprio jornal ou ômega 6 falam), mas se trata de uma situação, digamos, fenomenologicamente parecida, e sinto a mesma fadiga e angústia.
 
– Nesse item aqui contarei, sim, as inúmeras propostas de empresas de telefonia, às quais invariavelmente respondo — e, atenção, mesmo eu me sentindo por vezes atraída, como podemos ser por alguém de quem desconfiamos, no entanto, que seja um tanto complicado depois para nos desembaraçar…. PREFIRO NÃO é o que sempre digo. Já assumi ser um Bartleby do consumo (depois de sê-lo do trabalho).
 
– Já tem alguém te atendendo?, é o que ouço mal ponho o pé na loja ou mesmo nem ainda transpus a soleira, e já fico um pouco ansiosa. Às vezes, quando mais sensível ou “neurastênica”, como se dizia no século 19, chego a temer tanto pelo assédio que ponho binóculos para apreciar melhor as mercadorias do outro lado da rua. Não é algo, contudo, que possa fazer com a calma necessária, pois naturalmente levanto suspeitas.
 
– É só isso mesmo? Não quer ver mais nada? Pode ocorrer de a pessoa insistir tantas vezes quanto são os produtos que existem na loja: não quer ver uma bolsa… uma saia… (chego a ver as reticências se desenhando no ar)… um cinto… (e logo a oferta ganhar aceleração) uma meia uma écharpe uma tesoura um brinco um paralelepipedo? Não, não, não, já disse que não. Posso não levar nem isso que decidi levar, mas é o que você quer? É mesmo? Pense bem! Não ignoro, claro, que são tentativas de persuasão da parte de um vendedor cujo maior rendimento vem da comissão e que deve trabalhar, quando menos, 12 horas por dia, com folga num domingo a cada duas semanas, como já é o novo hábito. E é verdade que numa dessas enumerações é provável que me sinta inclinada a rever minha posição; no entanto o cansaço, que só aumenta, tem me tornado incoercível — e às vezes apenas balanço, sem maior expressividade, a cabeça para os lados, como duas pás de um ventilador já muito fraco.
 
– Não será o caso de lembrar certos convites ou homenagens que recebo de aniversário: Priscila, você é muito importante para nós, ou para mim, com a mercadoria mais personificada, às vezes até acompanhada de um presentinho, com a assinatura de pessoa física, na verdade aqui um mero alcoviteiro da sua relação amorosa com o CNPJ. Não é mentira minha que uma vez um namorado estrangeiro, já falando português, embora ainda longe de captar todas as suas astúcias e nuances e em cujo país de origem não lembro ter visto esses costumes comerciais, depois de abrir a meu pedido uma correspondência que pegou no chão, perguntou com um pouco de ciúmes: Ó, quem é esse Otávio [era o Frias Filho, com a assinatura digital copiada] que diz coisas assim carrrinhosas e te envia um CD de música clássica no seu aniversário? E ainda é o Brrrrahms, que você gosta tanto! Além de toda a explicação, o fiz ver o detalhe de que não tinha só Brahms, mas muitos outros, com “highlights”, o que não me agradava tanto, e o Otávio creio que não soubesse disso.
 
– Nem é bom mencionar as malas-diretas que, por morar em casa, jogo no lixo todo dia. Certo dia fiz a caixa do correio dizer: “Minha boca está abarrotada”, mas não lhe deram ouvido. A luta pela vida é insone e nela está engajada quase toda a humanidade… é só o que penso quando recebo tanta propaganda ou me dou conta da cada vez mais milimétrica divisão do trabalho na cosmética, com negócios inteiramente dedicados às sobrancelhas, ou às cutículas, ou aos dedões do pé, ou às celulites. Jamais pensei que se podia fazer tanta coisa e tanta arte nas sobrancelhas, mas a verdade é que estamos sendo testemunhas nas últimas décadas de um novo processo de racionalização e autonomização das esferas, esferas de todo tipo e consistência, e centenas de milhares de seres humanos, quiçá liliputhianos, penduram-se em cada uma das minúsculas partes do corpo mais aparente, como a medicina no corpo mais oculto, onde acham seu meio de vida e razão de existir. De todo modo, mala-direta não é pergunta, embora certo dia numa delas saltasse na minha cara, me intimando: Quanto tempo mais você vai precisar para me comer? Era uma pizza oferecida, com duas azeitonas pretas como olhos.
 
– Não é o momento agora para falar do você quer CPF da nota?. Ao que parece, não é exatamente uma relação mercantil. Ao que parece. Em todo caso, recuso a oferta com certa apatia.
 
– Por que você não quer mais assinar o jornal? E aí se segue um verdadeiro interrogatório, onde não fica claro se você é réu, vítima, advogado de defesa, defensoria.
 
– Eu ia me esquecendo dos bancos. Não vou lembrar direito das interpelações, mas, depois que você insere o cartão, elas começam a se multiplicar: você não quer fazer um empréstimo consignado? Já conhece nossa nova opção de….? Sem contar a operacionalidade do caixa que muda de banco para banco, e no interior de cada banco a própria operacionalidade também muda de tempos em tempos. Daí é preciso digitar a senha, as letras de acesso, fazer a biometria… meu dedo, já estressado, nem sempre se deita da melhor forma, sou pega no pulo e já muito afobada quando vejo a luzinha vermelha e logo depois o ferro de um cadeado brandido (tente de novo!). Meu desespero não tem limites, mas sempre haverá algo mais a acrescentar para a “nossa” segurança. De fato são códigos para responder a uma pergunta essencial e antiga: quem sois? ou ainda: você é você mesmo? E, uma vez apresentadas todas as provas, como o herói para a princesa exigente que concedia sua mão depois de um longo caminho em que ele provasse ser o melhor, a urna ou caverna abre-se como por mágica (do ponto de vista deles, não do seu, que deu um duro). E você se apossa não de dádiva ou tesouro alheio, menos ainda de uma princesa, mas de si mesmo — e isso às vezes é decepcionante. Imagino que não deva tardar o dia em que, depois de completar um percurso iniciático ainda mais longo, nada mais estará a sua espera.
 
Priscila, no que você está pensando?
 
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Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/09/o-capitalismo-como-imensa-colecao-de.html

INTERNET, LIBERDADE É CONTROLE

 
 
Como a crença numa noção iluminista de ordenação da esfera pública, junto a neoliberalismo avesso à regulação, produziram caos dominado pelo lucro, e transformaram a rede em instrumento de manipulação e vigilância
 
Rafael Evangelista | Outras Palavras
 
Duas palavras vêm permeando o debate sobre o futuro – em grande medida, o presente – da democracia frente ao domínio das grandes plataformas: desordem e desinformação. Grandes conglomerados como Google/Alphabet[1] e Facebook já extrapolaram, faz muito tempo, seu papel como simples empresas de tecnologia – ainda que isso nada tenha de simples. Tornaram-se gigantescos grupos de mídia, de informação e comunicação, responsáveis maiores pelo acesso filtrado do globo ao sistema de notícias e de conhecimento, ao contato que temos com a realidade do mundo para além de nossas experiências pessoais.
 
Começando pela primeira dessas palavras, o que significa dizer que vivemos um período de desordem informacional? Fica fácil enunciar o que nos incomoda, o que tomamos como produto do desordenamento: movimento antivacinas, a crença de que a Terra é plana, negacionismo climático. Ou então: novos nacionalismos xenofóbicos, homofobia, intolerância. Esses seriam alguns dos efeitos negativos que costumamos atribuir a essa chamada desordem informacional.
 
Mas o que seria, então, a ordem? O pressuposto é que, se tivéssemos uma boa organização do sistema informacional, os cidadãos estariam protegidos e imunes a essas ideias retrógradas, anticientíficas e, principalmente, antidemocráticas. A democracia, a civilização e talvez o planeta estariam protegidos por cidadãos conscientes, capazes de zelar por esses valores nobres, como o conhecimento científico racional, ainda que aberto a diferentes racionalidades, e a proteção da diversidade.
 
O que parece, na verdade, estar por trás disso é a expectativa de uma esfera pública funcional, organizada. Essa esfera pública seria o espaço discursivo em que diversos atores sociais, representantes de grupos de interesse, experts, intelectuais, grupos de defesa de direitos de minorias, debatem sobre os assuntos de interesse público. Desse confronto de ideias e argumentos livres emergiria um consenso racional. É uma ideia profundamente iluminista sobre um poder político que pode ser domado pela razão, que se desenvolve e se aperfeiçoa pela argumentação. São herdeiros dessa perspectiva a respeito da esfera pública todo o conjunto de regras sobre liberdade de opinião, direito à informação e de regulação para um funcionamento apropriado do sistema midiático. Não seria possível ter um bom funcionamento da democracia sem alguns pré-requisitos básicos.
 
 
As premissas sobre liberdades e direitos, quando não atendidas, já nos colocam um certo leque de problemas. Mas esses problemas são ainda mais graves no contexto de sociedades como a nossa, do Sul Global, em que as regras institucionais são frágeis. De uma maneira geral, são sociedades que viveram histórias coloniais e de instabilidades políticas relativamente recentes. Isso contribuiu decisivamente para uma implementação muito tênue das regras democráticas.
 
O sociólogo português Boaventura de Sousa Santos fez uma crítica importante à ideia geral de esfera pública e especificamente de sua aplicação no contexto do Sul Global (Boaventura, 2012). Ele cita o caráter eurocêntrico do conceito, um tribalismo da burguesia europeia datado do início do século XVIII. O capitalismo e o colonialismo teriam convertido tal localismo em aspiração global e conceito teórico universal. Ao mesmo tempo, uma divisão abissal entre colônia e metrópole tornaria a esfera pública impensável em sociedades coloniais. Impensável não porque teoricamente impossível e sim porque são sujeitas aos efeitos dessa diferença histórica e de poder entre metrópoles e colônias. Justamente pelo apagamento, pelo esquecimento de que essas diferenças estão em ação e são reais, se formaria uma ideia contrária ao próprio universalismo. Assim, seria como se houvesse algo de errado com o Sul em si mesmo, eximindo-se de culpa as condições históricas assimétricas e o caráter idealista e utópico do próprio projeto de esfera pública.
 
Não cabe aqui discutir à exaustão essas críticas de Boaventura. O que cabe identificar nela são dois elementos. O primeiro é o quanto essa funcionalidade “saudável” da esfera pública nunca será perfeita, é um projeto de busca constante e de ação política necessária, porque parte de premissas idealizadas e de condições de outros tempos e outras realidades. Assim sendo, a esfera pública é uma idealização que dá origem a um projeto em construção contínua. No Sul Global, esse é o segundo ponto, trata-se de projeto com características específicas. A principal delas é levar em conta, não esquecer, o passado colonial e as assimetrias de poder com o Norte Global e, principalmente, o caráter particular e precário das nossas institucionalidades. Toda a importação acrítica de projetos democráticos tende ao fracasso.
 
Boas regras no papel, bandalheira eleitoral e darwinismo social
Podemos pensar as últimas eleições brasileiras. Nelas, em geral um bom conjunto geral de novas regras foi incorporado, sendo o melhor exemplo a proibição do financiamento empresarial de campanhas, regra em sintonia com boa parte das boas democracias do mundo. Já antes das novas regras o sistema continua podendo ser considerado bastante transparente, com todas as doações identificadas. A falha, contudo, está na institucionalidade. As regras acabam sendo para “inglês ver”, haja vista o tradicional caixa 2 e, agora, o flagrante financiamento empresarial para a publicidade microdirecionada em aplicativos de mensagem. A lentidão, desinteresse e ineficiência na investigação dessas denúncias impactam a legitimidade do processo.
 
Na dificuldade de regulação da desordem informacional do Sul Global há ainda outros complicadores. São de ordem geral, ainda que experimentados e dosados localmente. Um deles é o neoliberalismo, que o sociólogo David Harvey (2008) define como sendo, em primeiro lugar, “uma teoria das práticas político-econômicas que propõe que o bem-estar humano pode ser melhor promovido liberando-se as liberdades e capacidades empreendedoras individuais no âmbito de uma estrutura institucional caracterizada por sólidos direitos à propriedade privada, livres mercados e livre comércio”. Mas, progressivamente, a ideia de neoliberalismo foi ganhando cores mais radicais. E com efeitos muito mais perversos em sociedades como a nossa, que nunca conseguiram implementar um Estado de bem-estar social. No Sul, o neoliberalismo virou um novo tipo de darwinismo social, em que indivíduos e empresas competem à exaustão, como se dali fosse emergir um novo ser mais forte e mais adaptado à realidade do mercado. Virou legitimação ou institucionalização de uma economia clandestina.
 
O neoliberalismo é uma teoria mas tornou-se também uma atitude com relação ao mundo. Diz Harvey que “nenhum modo de pensamento se torna dominante sem propor um aparato conceitual que mobilize nossas sensações e nossos instintos, nossos valores e nossos desejos, assim como as possibilidades inerentes ao mundo social que habitamos”. Nesse sentido, a ordem que o neoliberalismo almeja na verdade é uma utopia sobre uma espécie de organização automática surgida do caos. Automática é uma palavra importante aqui porque fala tanto de esperar que os conflitos se resolvam sozinhos, automaticamente, como de delegar o consequente ordenamento, a resolução do conflito, a sistemas autorregulados, de certa forma abdicando da intervenção externa e da medição direta. Um desfecho tecnológico de uma premissa neoliberal.
 
Mas a frase que cito de Harvey nos permite falar ainda sobre um outro obstáculo ao ordenamento, à regulação do sistema informacional, um impedimento agora mais específico à área de tecnologia. Richard Barbrook (2009) define o que ele chama de ideologia californiana como uma confluência de ideais hippies herdados da contracultura com certas condições privilegiadas de emprego na região do Vale do Silício, na Califórnia, que teriam dado origem a uma visão otimista do potencial emancipatório das novas tecnologias, fundindo ideais libertários com o empreendedorismo individualista dos anos 1990. Seria basicamente o neoliberalismo aplicado à internet, que formula uma posição sempre avessa às tentativas de regulação da rede, pois qualquer regulação tiraria a pujança inovadora das empresas e atentaria contra a liberdade. É um discurso simplista, mas com grande efeito nos debates públicos até muito recentemente.
 
Essas são questões que nos dão um quadro geral dos dilemas em torno do ordenamento de que hoje sentimos falta. Por um lado, o ordenamento é condição básica para criar as condições em que um debate político racional, uma participação política humanística poderia prosperar. Por outro, há a fraqueza regulatória de um Estado periférico de instituições frágeis. Um Estado que se fragiliza ainda mais a partir das pressões de atores sociais que acham que a liberalização é remédio para tudo.
 
Desinformação que vira lucro
 
No início do texto, apontei ainda uma segunda palavra como constantemente citada nos debates sobre democracia e plataformas: desinformação. Essa palavra está diretamente ligada à ideia de desordem, é a desordem informacional que leva à desinformação. É interessante o contraste com o seu falso cognato em inglês: disinformation[2]. Na verdade, desinformação, em português, estava muito mais ligada a um equívoco do que a uma perversidade. O desinformado é aquele que não tem informação. Já o mal informado é aquele que tem a informação errada. A palavra em inglês, disinformation, está ligada à produção de informação deliberadamente falsa, é a produção de informação de má qualidade. Em português, originalmente desinformação estava ligada a uma ausência, uma falta ou um equívoco por parte do receptor.
 
Os dois efeitos, a desinformação e a má informação, são um problema. Mas precisamos distingui-los porque para cada um precisamos de uma ação – e, nesse sentido, uma regulação, um ordenamento – diferente. Hoje, a má informação não é um acidente, ela é um subproduto que retroalimenta a força das plataformas numa sociedade interconectada. Pode não ter sido algo desejado a princípio, mas se tornou parte importante da economia das plataformas. A má informação é mais popular, mais sensacional, gera mais cliques, mais reações emocionais, entretenimento e engajamento do que a informação verdadeira. E a reação das plataformas, até mesmo por esses motivos, tem sido estruturalmente agnóstica, ou seja, de incorporação do desvio como se fosse parte da normalidade. A má informação se tornou um negócio, tanto do ponto de vista político quanto do ponto de vista financeiro, que se alimenta e possivelmente faz melhor uso de todos os estímulos à produção de conteúdo em vigência no momento. A frase “não é bug, é feature” [“não é falha, é planejado”, se formos aportuguesar] se aplica muito bem aqui, porque a má informação é incorporada e usufrui do sistema de recompensas hoje instituído.
 
Dois exemplos práticos, um internacional e outro brasileiro
 
O instituto Data & Society, dos Estados Unidos, publicou no final do ano passado um relatório com o título “Alternative influence: broadcasting the reactionary right on YouTube”. O estudo, de autoria de Rebecca Lewis (2018), mapeia o que chama de “rede de influência alternativa”, um sistema paralelo de mídia que adota as técnicas dos chamados influencers para ganhar audiência e repassar uma ideologia política. Essa rede envolve um espectro ampliado de comentaristas de mídia, acadêmicos e celebridades de internet, um leque que vai das versões mais tradicionais do conservadorismo até chegar ao neonazismo. O estudo mostra como esses agentes atuam em rede de forma a compartilhar popularidade entre eles. Por exemplo, um membro mais moderado do grupo convida um membro mais radical para uma participação em vídeo. Embora o mais moderado diga não concordar com as posições do extremista, a audiência do moderado se excita pelo conteúdo polêmico e os fãs do extremista contribuem com alguma visualização. O extremista se torna mais popular e os dois se beneficiam. O relatório aponta também para os incentivos financeiros recebidos. Diversos estudos já vinham apontando como o algoritmo do YouTube prioriza vídeos mais radicais nas suas indicações, um espanto e indignação que gera mais engajamento e na outra ponta recompensa as produções mais ultrajantes. Mas mesmo quando o benefício financeiro não vem da própria plataforma, em recompensa por visualizações, esses ideólogos da extrema direita lucram com contribuições diretas da audiência. Na verdade, em geral a plataforma bane aqueles que já se tornaram mais populares e visíveis ao grande público, os quais têm mais capacidade de conseguir fundos por canais alternativos e que conseguem passar para seu público a imagem de perseguidos pelo sistema.
 
No momento não há dados definitivos sobre isso, mas há várias indicações de que esquemas semelhantes de articulação de extremistas vêm ocorrendo no Brasil. No nosso caso, isso se torna mais grave dado o perfil mais concentrado em termos de propriedade e pouco plural politicamente da mídia tradicional. Uma hipótese é que há uma articulação mais forte entre comentaristas da mídia tradicional brasileira e a rede extremista nacional, o que ajuda a dar uma sensação de legitimidade para os radicalismos.
 
Um lugar interessante de observação sobre má informação são os grupos de política do WhatsApp. Há um bom material sobre eles que já foi apurado pela imprensa, por sociólogos e cientistas da computação interessados na dinâmica e no fluxo de informações falsas em grupos de mensagens, e a esses trabalhos adiciono aqui algumas observações de cunho etnográfico que venho acumulando desde meados do ano passado. Esse trânsito entre material da imprensa tradicional e os grupos de WhatsApp, por exemplo, é algo que venho notando. Em geral, o conteúdo da mídia tradicional, principalmente rádios e TVs, aparece para legitimar análises parciais ou informações evidentemente erradas.
 
Um dos melhores mapeamentos dos grupos sobre política no WhatsApp vem sendo feito pelo grupo de cientistas da computação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) liderado pelo professor Fabrício Benevenuto, que criou o Monitor de WhatsApp (Melo et al, 2019). No período eleitoral e durante a greve dos caminhoneiros, eles monitoraram o tráfego de mais de 300 grupos de discussão, procurando entender a disseminação do que chamam de (mis)information, ou seja, informação equivocada, que pode ou não ter sido produzida maliciosamente, e muitas vezes é transmitida inadvertidamente pelas pessoas. Eles analisaram as estruturas de rede que emergem das interações, dentro dos grupos e entre os grupos, buscando mais especificamente identificar o trânsito de conteúdos com informações comprovadamente falsas (Resende et al, 2019).
 
O que esses pesquisadores descobriram é que grupos aparentemente desconexos na verdade estão ligados. Alguns membros atuam em diversos grupos, alguns grupos formam aglomerados com muitos membros em comum. Esses membros formam entre si uma estrutura paralela, articulada. Essa estrutura é imperceptível, invisível para o membro isolado de algum desses grupos. Ou seja, dada essa invisibilidade, o que se tem são estruturas de vigilância de usuários atuando sobre os grupos. Uma das conclusões dos pesquisadores é que o WhatsApp, nesse contexto, passa a ter um funcionamento semelhante ao de uma rede social. Outro dado importante que identificaram é que as imagens contendo informação comprovadamente falsa circularam oito vezes mais do que as outras.
 
A essa análise acho importante adicionar as revelações trazidas principalmente pela Folha de S.Paulo sobre os disparos de WhatsApp feitos nas eleições. O jornal conseguiu apurar que empresários fizeram contratos de até US$ 3 milhões com agências especializadas no disparo automatizado de mensagens. O mais famoso desses empresários acusados atua no setor de varejo, o que indica a possibilidade de repetição de métodos de marketing de sua empresa para o âmbito político. Doações diretas por empresas foram vetadas nesse pleito. Os empresários teriam adquirido bases de usuários vendidas por agências, o que como prática de campanha é ilegal – e algo que reforça a ideia de que práticas de marketing comercial foram incorporadas ao marketing eleitoral. Diversas reportagens, além das da Folha, apontam um conjunto de empresas e um mercado que oscila entre o formal e o informal, dedicado ao envio de mensagens direcionadas usando o aplicativo.
 
A matéria da Folha denunciou ainda que as agências conseguem gerar números internacionais usados por funcionários para driblarem restrições contra spam e para administrarem ou participarem de grupos. Isso indica que, além do envio de mensagens individualizadas, a estratégia envolveu o gerenciamento anônimo de grupos. Esse gerenciamento, como já apontei, é invisível. O grupo de WhatsApp aparenta ser espontâneo, ter uma dinâmica natural, mas na verdade é administrado por funcionários envolvidos na campanha de um candidato.
 
Segundo o jornal apurou junto a ex-funcionários e clientes dessas agências, os administradores usam algoritmos que segmentam os membros dos grupos entre apoiadores, detratores e neutros, e assim definem o tipo de conteúdo que enviam. Os apoiadores mais ativos do candidato seriam ainda contatados para criarem mais grupos em favor do candidato. Em outro artigo, o jornal apontou como alguns desses grupos simulam uma organização militar, auto-identificando-se como um “exército virtual” em favor de um candidato. De acordo com o jornal, os grupos são divididos em “brigadas”, “comandos” e “batalhões”, reunindo principalmente jovens, alguns com menos de 18 anos de idade.
 
Adeus às ilusões
 
Pois bem, o que se tira desse exemplo brasileiro e que pontes podem ser feitas com o exemplo internacional, do YouTube? Que desordem informacional é essa que emerge e que estimula a circulação de informações falsas? Acredito que há aqui dois fatores.
 
O primeiro tem a ver com essa esfera pública idealizada, que segundo Boaventura foi transformada em aspiração global, mas que é cada vez mais difícil de ser instituída devido a pressões variadas em favor de um liberalismo irreal que desconsidera as assimetrias de poder entre os atores sociais. Em contextos como os do Sul Global, esse quadro se torna ainda mais difícil. Falando especificamente do Brasil, a desordem informacional é precedida por uma grande concentração dos meios de comunicação.
 
Imaginamos, não faz muito, que a internet poderia ser um atalho para se resolver esse problema da concentração sem se perturbar demais os poderes constituídos. Seria a democratização da comunicação por meio da tecnologia. Contudo, o mercado da internet evolui de forma a recompensar o fluxo indistinto de dados, o capitalismo de vigilância e a captura da atenção. Esse mercado vem criando estímulos ao engajamento contínuo, explorando as emoções extremadas e capazes de mobilizar ao máximo os sujeitos. A lógica desse processo fica muito longe da ideia de exposição de argumentos racionais para o entendimento mútuo. Os algoritmos vão progressivamente radicalizando suas sugestões, instigando e fascinando com conspirações e revanchismo. Abaixo das plataformas surge o empreendedorismo do ódio: youtubers radicais, influencers fascistas, comunicadores pró-intervenção militar. E junto com eles, pequenos negócios, como aqueles especializados em marketing via WhatsApp, que mistura o eleitoral com o comercial.
 
Em algum momento se sonhou com uma ágora digital democrática, capaz de conectar a humanidade, fazendo com que dela emergisse o que há de melhor. Apostou-se que bastava manter o que seria uma “natureza” original da internet, livre e aberta, que os benefícios positivos seriam uma consequência lógica. O que assistimos, no entanto, foi a construção de modelos de negócio predatórios da atenção, do escândalo e do menor denominador comum. Sem intervenção humana, racional, participativa e justa, corremos o risco de vê-los solaparem a própria democracia.
 
* Rafael de Almeida Evangelista é graduado em Ciências Sociais (1998), mestre em Linguística (2005) e doutor em Antropologia Social (2010), todos os títulos pela Unicamp. Também é especialista em Jornalismo Científico (2000). Como pesquisador tem trabalhado com os temas: história e ideologias das tecnologias da informação; utopias da cibernética e cultura do Vale do Silício; gameficação; redes sociais, internet e trabalho não remunerado; regulação da internet e vigilância em sistemas informacionais. E-mail: rae@unicamp.br
 
 
Referências
Santos, B. de S. “Public sphere and epistemologies of the South”. Africa Development, v. 37, n. 1, p. 43 – 67, 1 jan. 2012.
Harvey, D. Neoliberalismo (O) – História e implicações. [sem local] Loyola, 2008.
Barbrook, R. Futuros imaginários – Das máquinas pensantes à aldeia global. [s.l.] Editora Peirópolis Ltda, 2009.
Resende,  G.;  Melo,  P.;  Sousa,  H.;  Messias,  J.;  Vasconcelos,  M.; Almeida, J.; and Benevenuto, F.  2019.  “(Mis)Information dissemination in Whatsapp: Gathering, analyzing and countermeasures”. In: Proc. of  the web conference (WWW’19). 2019
Melo, P. et al. “WhatsApp monitor: A fact-checking system for WhatsApp”. Proceedings of the International AAAI Conference on Web and Social Media, v. 13, p. 676–7, 6 jul. 2019.
Lewis, R. “Alternative influence”. Data & Society, [s.d.]. Disponível em: https://datasociety.net/output/alternative-influence/. Acesso em: 7 ago. 2019
[1] holding controladora do Google e demais negócios do grupo, como YouTube
[2] false information deliberately and often covertly spread (as by the planting of rumors) in order to influence public opinion or obscure the truth [Merriam-Webster]
 
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https://paginaglobal.blogspot.com/2019/09/internet-liberdade-e-controle.html

China cobre todas as aldeias com serviço postal

Beijing, 18 set (Xinhua) -- A China realizou sua meta de cobrir todas as aldeias administrativas com serviços postais diretos no mês passado, antes do prazo, segundo o regulador de serviço postal do país.

O país também atingiu o objetivo de estabelecer pontos de serviço postal em cada vila através do país, revelou Ma Junsheng, chefe da Administração Estatal de Correios em uma coletiva de imprensa nesta terça-feira.

Em seguida, a China fortalecerá a sinergia entre a melhoria da rede postal e o desenvolvimento do comércio eletrônico rural para servir à redução da pobreza e revitalização rural, segundo Ma.

As áreas rurais da China têm se tornado pontos brilhantes no crescimento do comércio eletrônico do país. As vendas de varejo online rurais somaram 777,1 bilhões de yuans (US$ 109,9 bilhões) no primeiro semestre, aumentando 21% em termos anuais, segundo dados do Ministério do Comércio.

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http://portuguese.xinhuanet.com/2019-09/18/c_138400668.htm

Portugal | Para que servem os programas eleitorais?

 
Anselmo Crespo | TSF | opinião
 
 
A pergunta pode parecer retórica, mas não é. A resposta pode parecer óbvia, mas é tudo menos linear. Que utilidade têm os programas eleitorais dos partidos políticos? Que substância têm e o que dizem sobre a linha política e ideológica de cada um deles? O que os distingue? Quem cobra nas urnas, quatro anos depois, o que foi prometido quatro anos antes? Quem compara os programas? Quem os lê? E quem os leva a sério?
Confesso que esta é uma reflexão que só faço de quatro em quatro anos - sempre que, em véspera de eleições e por dever profissional, tenho de descarregar em PDF (antes era bem pior, tinha que imprimir) centenas de páginas que vou lendo nas horas vagas, para me preparar para a campanha que se avizinha. E esta é a primeira resposta a uma das perguntas anteriores: estou absolutamente convencido de que os programas eleitorais são lidos, sobretudo, por jornalistas - e nem todos -, pelos políticos - provavelmente, nem todos -, por algumas corporações e empresas que precisam de perceber o que aí vem e pouco mais. Admito que alguns eleitores com um sentimento de dever cívico mais apurado passem os olhos na diagonal pelos programas dos partidos, mas serão poucos.
 
E há bons motivos para isso. Distinguiria os programas eleitorais em quatro géneros diferentes: os que pretendem ser muito densos, cheios de números e contas para fazer passar a ideia de rigor e de que o partido sabe exatamente o que está a prometer; os meramente ideológicos, que não apresentam qualquer medida concreta e limitam-se a repetir de quatro em quatro anos a mesma coisa, como se o país e o mundo não estivessem em constante mudança; os que, tendo algumas medidas para apresentar, acham que o melhor é acrescentar alguma "palha", só porque pode parecer mal apresentar um programa eleitoral com poucas páginas; e os que prometem tudo, até ao infinito e mais além, apenas porque sabem que não há qualquer risco de terem de cumprir o que estão a prometer.
 
 
O que nos leva à questão da substância. De cada vez que leio um programa eleitoral de um partido, não consigo evitar lembrar-me dos discursos da Miss Mundo, quando o apresentador lhe pergunta por que causas vai lutar se ganhar o título: "Paz para o mundo, acabar com a fome e acabar com a guerra." É mais ou menos isto que dizem os programas eleitorais dos partidos políticos. Numa análise muito simplista, podemos dizer que todos - da direita à esquerda - estão de acordo no essencial: é preciso colocar a economia a crescer para podermos baixar impostos, subir salários, ter melhores serviços públicos, aumentar o nível de investimento público e abater a dívida. É preciso que a justiça seja mais justa, que a escola pública seja de qualidade e que o Serviço Nacional de Saúde responda de forma mais eficaz aos utentes. É, mais ou menos, o equivalente ao acabar com a fome, acabar com a guerra e alcançar a paz no mundo.
 
Eis-nos, então, chegados ao que verdadeiramente distingue os vários programas eleitorais: o caminho para alcançar um objetivo comum. É aí que reside verdadeiramente a substância dos programas dos partidos em véspera de eleições. É que se à esquerda se idealiza um Estado garantístico, na saúde, na educação e na economia, à direita sonha-se, normalmente, com um Estado "libertador", de "serviços mínimos", que cumpre um papel de regulador e que abre muito mais espaço ao setor privado.
 
Torna-se, por isso, importante, comparar os programas eleitorais dos vários partidos políticos - ou, pelo menos, dos que andam cá há mais anos -, entre eles e de uma eleição para a outra. E a grande conclusão a que é possível chegar é que, tirando um punhado de promessas casuísticas, pouco ou nada muda na substância com que os partidos políticos se apresentam a eleições de quatro em quatro anos. O que é estranho, tendo em conta que o país leva já 45 anos de democracia e, durante todo este tempo, ainda não foi possível colocar a economia portuguesa a crescer de forma sustentada, cobrar menos impostos, utilizá-los, de facto, para criar serviços públicos de qualidade, oferecer aos trabalhadores salários dignos, acabar com a precariedade no mercado de trabalho e reduzir a dívida pública.
 
Mas quem é que cobra nas urnas o prometido que não foi devido? A resposta está nos números da abstenção: cada vez menos gente. O que responde, simultaneamente, à pergunta: quem é que leva a sério os programas eleitorais dos partidos? Quase ninguém. É precisamente por isso que os programas eleitorais não podem continuar a ser um mero formalismo democrático que os partidos vão cumprindo, sabendo, de antemão, que pouco ou nenhum impacto tem na decisão de voto dos eleitores.
 
É óbvio que o papel da comunicação social - nesta como em tantas outras matérias - é muito importante. No escrutínio que tem a obrigação de fazer, a cada eleição, sobre o que os partidos escrevem nos seus programas. Na procura de explicações para as promessas que são feitas. Ou na forma como pode ajudar os eleitores a decidirem o seu voto. Mas o papel principal, neste caso, é mesmo dos partidos políticos, que têm de perceber, urgentemente, que o problema não está apenas na forma como transmitem a mensagem, mas na mensagem em si. Que não é por um programa eleitoral ter 250 páginas que os eleitores os vão levar mais a sério.
 
É o conteúdo - ou a falta dele -, mais do que a forma, que está a afastar os eleitores das urnas de voto. São os resultados - ou a falta deles - que estão a destruir lentamente a nossa democracia. Os programas eleitorais podem ser de uma enorme utilidade, assim os partidos políticos saibam comprometer-se com estratégias credíveis, responsáveis, que respondam aos anseios das populações e, mais importante ainda, que sejam cumpridas. Para que, quando compararmos os programas eleitorais quatro anos depois, tenhamos a sensação de que estamos a avançar, em vez de estarmos sempre no mesmo sítio. Ou, pior ainda, a andar para trás.

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A desinformação dos media dominantes acerca da vida internacional

 
 
– Mentiras, manipulações, silêncios
 
por Investig'action
 
Os media dominantes, sem complexos e muito para além da questão europeia, mentem, deformam, dissimulam com mais ou menos subtileza, alinham (quando não são dominados pelo recrutamento selectivo de seus editorialistas) com os interesses dos grupos que os financiam. O resultado é um desconhecimento grosseiro da opinião pública sobre a realidade das relações internacionais e um confinamento mental dos cidadãos no pré-estabelecido. Como pode alguém surpreender-se com o periódico reavivar do chauvinismo estreito e do nacionalismo arrogante, frequentemente acompanhado de racismo, pelas grandes potências? Os poderes "ensinam" de facto o desprezo pelos outros e um desejo de poder muito maior que a solidariedade internacional [1] O paradoxo é profundo num tempo de globalização desejada pelo mundo dos negócios e seus auxiliares estatais, o que significa que nenhuma economia nacional e nenhuma pessoa podem escapar à interferência estrangeira e ao impacto dos interesses transnacionais sempre presentes em todos os lugares: qualquer regime, qualquer que seja, passa por uma espécie de "mestiçagem". O Estado mais apegado à soberania nacional e o povo mais patriótico são vítimas de um ambiente internacional desfavorável e, apesar de tudo, são transformados pela penetração de interesses que não são os seus. Este é particularmente o caso dos poucos bastiões que se reivindicam do socialismo, muitas vezes degradado por sanções de todos os tipos (embargos, bloqueio de activos financeiros, discriminações comerciais, pressões políticas e ideológicas etc.), que podem chegar até à sabotagem e intervenção militar. Os grandes media ocidentais ocultam o que pode constituir suas culpas ou seus vexames, por causa dos equilíbrios de poder com os regimes de que não gostam: a forma como apresentam a Coreia do Norte desde há mais de meio século torna-se a caricatura mais básica. O mesmo acontece com o chavismo na Venezuela, com o Vietname e com Cuba! A desinformação é a regra: um simplismo doentio domina a luta que opõe um "campo" a outro, num nevoeiro mantido por uma conversa incessante sobre "valores" e "ideias"! A adesão à ideologia dos gestores capitalistas, associada a uma "cultura descuidada, atrevida, faladora e narcisística", como escreve A. Accardo, [2] caracteriza certos espécimes das escolas de jornalismo, produtoras mais de habilidade do que de saber. Esse não é o caso de todo os jornalistas, mas, na precariedade, quase todos concordam em sofrer a trela mantida pelos "patrões"! [3]
(...) Para todas as questões internacionais é feita quase que sistematicamente uma avaliação binária baseada nas noções (primárias e quase religiosas) do Bem e do Mal, regularmente confirmadas pelas correntes doutrinárias dos EUA. A transposição para a ordem interna é evidente: os media dominantes servem o Bem e aqueles que discordam situam-se no campo do Mal! Enfim, todas as informações macroeconómicas situam-se dentro do quadro exclusivo do capitalismo e da sua gestão: os problemas peculiares ao socialismo, considerado "contra-natura", são sempre objecto de uma rejeição global. As controvérsias admitidas nos media dominantes situam-se apenas dentro do único sistema permitido, ou seja, na economia de mercado e na sua lógica à qual ninguém pode escapar sob pena de desastre social. Não existe nenhuma alternativa e a história económica não tem lugar: está concluída. A prova deste fim da evolução foi trazida pelo fracasso das outras experiências que seria absurdo querer reproduzir "em casa": está fora de questão ter em conta as múltiplas agressões económicas e financeiras sofridas pela URSS, Cuba, Chile, Coreia do Norte, Venezuela, etc. Denunciar a penúria "noutros lugares" (ou, em alguns casos, o sucesso de tal ou tal medida que seria necessário tomar "em casa") é o caminho para descartar as propostas das oposições na própria economia do país! Inclusive se os contextos estrangeiros são muito diferentes e racionalmente não transponíveis. Assim, favorece-se nos espíritos o conceito de "modelo" e "modelo-a-rejeitar". Todos os "especialistas" (seleccionados) convocados pelos editores principais obviamente confirmam-no em todas as ocasiões!
 
As regras seguidas As notícias internacionais dos grandes media estão sujeitas a certas regras de "eficácia" propagandística, embora a equipe editorial se defenda declarando-se "ofendida" e vítima de populismo inaceitável quando questionada. Uma breve exposição dos métodos seguidos é, no entanto, dificilmente contestável com boa fé. O descritivo prevalece sistematicamente. Os eventos do dia não têm nem raiz nem história. O flash privilegiado, buscando a emoção, exclui a explicitação. Usa-se a imagem simbólica (por exemplo, uma criança ferida nas ruínas de um bombardeamento) ou um testemunho individual escolhido, como bastando para fazer sentido!
(...) Cada acontecimento mediático é martelado durante um ou mais dias seguidos, com uma forte intensidade para impregnar os espíritos, desaparece abruptamente para dar lugar a outro que desaparece por sua vez: não há acompanhamento. O objectivo não é fazer as pessoas compreenderem o que se passa, mas "impressionar" a mente para fabricar a opinião desejada pelos poderes. Pode-se imaginar o dano intelectual que esse método produziria no campo da pedagogia escolar! Todos os dias, existem vários acontecimentos nos ou entre os 200 estados que compartilham o planeta. Os media dominantes "vão às compras", à ordem do dia monopolizada pelas autoridades públicas e privadas, a fim de influenciar a opinião, seja para reforçar uma ideia geral recebida seja para agir sobre uma questão específica sobre a qual é necessário orientar. São escolhidos, por exemplo, eventos que reforcem a hostilidade à China ou à Rússia ou demonstrem que a polícia argelina sabe usar o bastão como a francesa e que não nos podemos deter nas condenações do governo francês pronunciadas pelas Nações Unidas ou o Parlamento Europeu por ocasião da repressão dos Coletes Amarelos em Paris! Os acontecimentos não são retidos diariamente pelo seu interesse intrínseco, novidade, o seu significado maior ou menor, mas por sua "utilidade" na batalha local do momento (social, ideológica, institucional, etc). Trata-se de ilustrar com imagens internacionais "significativas" o que é "apropriado" pensar na ordem interna: o exercício mediático, de perfeita má-fé, é antes de tudo "pedagógico". Na ordem internacional, as redacções dispõem de uma grande "liberdade": os cidadãos, na sua maior parte, não estão em condições de verificar o que é dito, ao contrário do que pode ser afirmado na ordem interna. Na massa de acontecimentos que ocorrem em todos os continentes, onde os cidadãos têm alguns meios de avaliação, sempre há alguns que basta referenciar e desenvolver para legitimar qualquer causa! Ninguém é imposto objectivamente em detrimento de todos os outros! Jornalistas "responsáveis" [4] por serem hábeis, capazes de escolher os factos, mais os "sabedores" que oferecerão um pouco de música de objectividade, para bem orientar os debates e eventualmente desestabilizar o convidado com maus pensamentos, por excepção convidado expressamente para tornar credíveis os "habituais" "bem pensantes" porque a posição destes é conhecida com antecedência! Está obviamente excluído que os dominantes sejam dominados, mesmo que acidentalmente (daí a raridade de uma passagem de TV ou rádio de um Bourdieu (no passado), um Onfray ou um Badie (actualmente), ou mais geralmente académicos em número capaz (desde que sejam solicitados) para fazerem frente a "avençados" do estilo Minc, Finkelkraut, BH Lévy e outros Zémour ou Ménard e de uma coorte de falsos especialistas mais ou menos economistas ou políticos, saídos de fundações e organizações fantasmas, sempre que sejam necessários! Repetição é outra regra quando o facto tratado é potencialmente "persuasivo". (...) Assim, a maior ou menor intensidade repetitiva e o domínio dos horários e da preparação criam as condições para um respeito fictício por uma pseudo-"objectividade", altamente reivindicada pelos profissionais dos media. No entanto, o pluralismo não é essa "objectividade" inacessível, mas uma honestidade básica tendo em conta o maior número possível de eventos internacionais, dando-lhes um conteúdo explicativo. O facto de, nos diversos canais de TV e rádio, a selecção das notícias internacionais estar estandardizada não seria a prova de uma vontade de formatar a opinião, mas, pelo contrário, o respeito por uma "Verdade" única face aos vendedores ambulantes de "notícias falsas", o que é uma triste farsa. Bastaria demonstrar a história das várias "verdades" falsas amplamente divulgadas e repetidas, por exemplo, sobre o exército iraquiano e "suas armas de destruição massiva" ou o "massacre" de Benghazi por mercenários do sr. Kadafi, origem da destruição da Líbia pela NATO. Eventos internacionais "preferidos" pelos grandes media não são os movimentos populares quando carregam reivindicações sociais, a menos que ocorram em países "inimigos". O que é apresentado não são as pessoas, mas seus líderes que seriam "bons" ou "maus"!
(...) Um facto nunca é "puro". Ele é sempre "tratado" pelo informante, que fabrica a impressão que o "informado" terá. O tom do comentarista, as palavras que ele usa, possivelmente a música de fundo que acompanha a imagem, a proximidade de outras informações que a contaminam, disfarçando segundo o critério dos media uma realidade crua que é dificilmente acessível. Uma escrita "boa" é por função manipuladora: os adjectivos de qualificação são usados com oportunidade (um líder odiado que não se deixará de chamar "ditador"), a ironia é bem-vinda (especialmente para os pequenos Estados do Sul em que alguns aspectos podem parecer folclóricos), uma prudência austera é necessária (seja para o Vaticano ou para Israel). O estilo deve ir até à indignação (por violações de direitos humanos num país não ocidental ou por guerras destrutivas quando não são "justas" por exemplo, as da Rússia, e não as de uma coligação pró-ocidental, como no Iémen, cujos "danos colaterais" devem ser admitidos.
(...) Para os media dominantes, um atirador de pedras contra a polícia de Paris ou contra a polícia da sra. Park (agora na prisão) em Seul [5] é um bandido, mas será um cidadão lúcido e corajoso. se for "gaseado" em Argel [6] ou em Caracas! Um manifestante morto ou ferido em Paris é apenas um "erro grave" de um comportamento individual no âmbito da manutenção da "ordem republicana", nos países menos apreciados como a Venezuela é o resultado da natureza repressiva do poder! Estas práticas significam que os media dominantes estão necessariamente cada vez mais desacreditados (só 10% dos franceses ainda confiam neles), seja o Pravda do fim da URSS ou a BFMTV (canal de notícias francês) sob a presidência de Macron. No entanto, eles têm o "dever" de superar, através de uma variedade de diversões a sua falta de princípios, a incoerência dos seus julgamentos de valor e o enfraquecimento da cultura democrática de muitos jornalistas, muitas vezes seleccionados pela sua adequação às "normas" e ao seu servilismo oportunista! [7] Algumas ilustrações Na ordem interna, é o social que é objecto de todas as censuras e autocensuras, mas reivindicações diferentes, mesmo com reflexos no orçamento, contradizem de facto a lógica de um capitalismo sem escrúpulos que nunca cede quando se trata de dinheiro! Na ordem internacional, da mesma forma, é neutralizado tudo o que diz respeito às transacções financeiras, imposto de "optimização", fenómenos de concentração, concorrência nunca livre e sempre distorcida! Convém tornar credível uma sociedade internacional "equilibrada", graças ao "livre jogo das leis do mercado" como sendo o melhor para o crescimento e o progresso. O coração do sistema é, portanto, cuidadosamente protegido pelos media dominantes. A ordem da UE é objecto de todas as "precauções" dos media sejam quais forem as críticas que alguns lhe fazem. A UE, a Comissão e o BCE beneficiam da condescendência mediática, isto foi constatado quando o Estado grego se lhe opôs, também por ocasião do Brexit e das disputas italianas. Na França, o episódio do "Não" ao Referendo de 2005, apesar do apoio total e quase unânime dos media ao "Sim" e depois a manipulação parlamentar, foram apresentados de forma caricatural. O tratamento dos paraísos fiscais e da evasão fiscal é extremamente complacente: há críticas dos media apenas contra algumas "ovelhas negras", mas nunca o julgamento feito ao sistema de fraude "legal" tolerado pelos Estados. Os casos "Paradise Papers" ou "Panama Papers" foram despolitizados ao máximo possível e as propostas de medidas para impedir estes movimentos financeiros não foram apoiadas. Os jornalistas sujeitos às classes decadentes e corruptas têm, como elas, medo da verdade, como disse Jaurès em 1904! Eles pertencem a esse "extremo centro", no coração da ideologia servil do sistema mediático, uma opção que permite sucessivamente todas as adesões (Sarkozy, Holland e Macron, este último omnipresente em todas as suas facetas e em todos os canais), expressão de um "novo" mundo, perfeitamente análogo ao antigo. Envergando as vestes da "moderação" sobre as questões financeiras mais "delicadas", os media dominantes salvaguardam o liberalismo financeiro e o seu lugar fora de qualquer controvérsia política! Para os observadores "honestos", como são os jornalistas dos grandes media, o mundo está dividido sem distinção entre dois tipos de Estado, dois tipos de sistemas socioeconómicos, liderados por dois tipos de líderes: os "bons" (EUA, mesmo com Trump, o capitalismo e os responsáveis alemães e britânicos...) e os "maus" (Rússia, China, Irão, além de Putin, os dirigentes do PC da China, etc). Os meios de comunicação não estabelecem diferenças: estes nunca conseguem nada, estão em permanente crise e ameaçam-nos perigosamente! Em suma, tudo ficaria bem no mundo se eles não existissem. O delírio às vezes atinge novos patamares: nas últimas décadas, somam-se os absurdos acumulados contra a Coreia do Norte ou a Líbia! Os media ocidentais não cessaram, por exemplo, de anunciar a morte do regime de Pyong Yang brandindo a ameaça que representava para a paz no mundo, encarnada pelo desfile militar, apresentado em todos os ecrãs, visivelmente a única actividade dos norte-coreanos fanatizados. A este espectáculo edificante, foram adicionados, até à reviravolta de Trump, comentários na televisão e na rádio pelos "especialistas" mais analfabetos sobre os horrores sem paralelo do regime norte-coreano. A evolução dos Estados Unidos sobre o assunto colocou em reverso a desinformação europeia que então, com pesar, mudou de tom e... de "especialistas", sem no entanto lembrarem os danos económicos, políticos e humanos de 70 anos de embargo! Kaddafi, comparado a um louco perigoso, e a Jamahiriya líbia, não foram melhor tratados até a guerra de Sarkozy e B-H. Levy destruindo todo o país que oito anos depois ainda vive no caos! Os media preferem ainda hoje manter um silêncio quase total sem o menor arrependimento. Por outro lado, o menor sobressalto positivo na Arábia Saudita, como a carta de condução para mulheres, é saudado como um grande avanço democrático! Dólares e petróleo assim obrigam! Na África(especialmente de língua francesa), onde se multiplicam eleições presidenciais fraudulentas, os media ocidentais dominantes fazem prova de discrição: a indignação por fraude eleitoral é orientada noutras direcções! É que os media devem ser prudentes com os Bolloré e outros grandes grupos como o Total com interesses nessas terras difíceis e, portanto, são complacentes com as autoridades locais mais corruptas. [9] Quando as tropas da NATO destruíram todo o Médio Oriente e continuam a fazê-lo com a Arábia Saudita no Iémen, é "explicado" que essas guerras são conduzidas de acordo com o direito humanitário, o que não é o caso dos russos na Síria, por exemplo, "aliado incondicional" do carrasco de Damasco! Os jornalistas não precisam se perguntar sobre o custo das"guerras justas", mas apenas sobre o das intervenções russas ou iranianas, cuja maleficência é óbvia! A nova ditadura brasileira não preocupa os jornalistas especialistas da América do Sul. Por outro lado, a Venezuela chavista merece todas as acusações, embora o regime bolivariano tenha tirado, antes de sofrer a crise actual em grande parte devido às políticas americanas, milhares de venezuelanos de miséria! Está claro para os media dominantes que nenhuma experiência de orientação socialista pode beneficiar do mínimo de crédito, porque, é desnecessário dizer, nenhuma "deve" ter sucesso! De Allende a Maduro, passando pelo regime cubano, foi mediaticamente proclamado que o fracasso estava programado. E são tantos os golpes na esquerda ocidental quando esta é solidária!
(...) Tendo necessidade de inimigos, o sistema mediático cultiva um espírito de "guerra fria" e um mundo unipolar cujo centro é o Ocidente, contra qualquer avanço de uma multipolaridade, no entanto favorável às trocas e à manutenção de uma paz justa. A NATO (ao contrário das Nações Unidas) nunca é questionada, apesar do protagonismo desempenhado pelos Estados Unidos e pelo seu unilateralismo agressivo (800 bases militares em todo o mundo). Pelo contrário, é apoiada pelos media, como vimos na crise ucraniana, na reintegração da Crimeia na Rússia e na agressividade polaca ou báltica em relação ao Kremlin. Quanto aos direitos humanos e humanitários, são tratados de maneira muito diferente, conforme os casos. Às vezes, ocupam o essencial ao ponto de subordinarem qualquer outro problema; são esquecidos quando os poderes que os violam estão associados ao Ocidente, como é o caso da Turquia de Erdogan, um pivô da Aliança Atlântica, inclusive quando massacrou o povo curdo. O mesmo vale para os direitos dos migrantes dos quais se esquece que são humanos, postos de parte perante uma política securitária cada vez mais invasiva. Estas orientações gerais não excluem expressões pontuais de posições críticas, fazendo acreditar que não há monolitismo, ilusão que tem o "mérito" de reforçar a credibilidade de um pensamento conformista, mas renovado, se o compararmos, por exemplo, com a época gaulista dos primórdios da V República Francesa. A falsa "elite" que exerce a sua hegemonia através dos media tem, é necessário reconhecê-lo, a capacidade de inovar e oferecer à opinião pública as variações que lhe permitem perdurar. [9] Assim, dia após dia, desenvolve-se em contínuo a desinformação que formata os cidadãos, utilizando o subterfúgio do internacional, para adoptarem uma posição "politicamente correcta" na ordem interna. É este o único objectivo do tempo e lugar limitados concedidos às relações internacionais. Essa propaganda intensa é na "sociedade democrática", como diz Noam Chomsky, o que a matraca é no Estado totalitário! Se a matraca é dolorosa, a prática dos media ocidentais tem a "virtude" de fabricar em cadeia imbecis e ignorantes que é difícil de curar. Parafraseando G. Bachelard que afirmava "não há ciência, apenas crítica", podemos concluir "não há informação autêntica, apenas crítica", ou seja, em ruptura com o Estado e o dinheiro. Mas como conseguir isso? No contexto do sistema, é óbvio que o realismo proíbe qualquer solução. Mas "realismo", responde Bernanos, "é o bom senso dos patifes". Aqui chegámos!
 
Notas
[1] Lembremos como os "boatpeoples" de vietnamitas anticomunistas foram "aplaudidos", ao contrário dos refugiados chilenos, por exemplo, expulsos por Pinochet, acolhidos por comunistas e progressistas europeus.
[2] A. Accardo. Pour une socio-analyse du journalisme, Agnone. 2017.
[3] Ver A. Lancelin. La pensée en otage. S'armer intellectuellement contre les médias dominants, Les liens qui libèrent, 2018.
[4] Essa categoria muito privilegiada e muito restrita, adquirida no sistema, deve ser distinguida da massa de jornalistas mais ou menos precários que não podem realmente exercer a sua profissão (metade dos jornalistas franceses ganha o salário mínimo, totalmente dependentes de seu empregador).
[5] O movimento popular na Coreia do Sul, que, de maneira massiva e pacífica, conseguiu impor a demissão de Mrs. Park em 2017, foi praticamente ignorado na Europa. O "exemplo" era "perigoso"!
[6] Como é tradição dos governos e dos media franceses, a posição em relação aos eventos na Argélia é a de pôr "dois espetos no mesmo lume": garantindo que qualquer que seja o seguimento poder optar claramente por uma força ou outra (veja-se a "cautela" usada na guerra civil entre os islamitas e o exército nos anos 90 ou nas eleições presidenciais de abril de 2019).
[7] Quando os jornalistas mais "eminentes" (os únicos responsáveis pelo discurso dominante) são postos em causa pelo seu seguidismo, seu espírito de cortesãos e a sua agressividade (inclusive no Serviço Público) contra os oponentes, eles tendem a fazer bloco, aproveitando o silêncio forçado dos seus colegas mais precários. Eles denunciam "conspirações" e "populismo", sem dar qualquer definição. Esse espírito de corpo é pré-fabricado nas escolas de jornalismo, onde um certo "know-how" é ensinado acima de tudo o resto, sem exigências da necessária cultura crítica.
[8] As críticas são muito mais firmes quando se trata de certos países mais distantes da Europa, como por exemplo Sudão ou Argélia. Existe, portanto, uma visão muito diferente das práticas internas idênticas dos Estados, de acordo com sua orientação externa. Ver R. Charvin. Nouvelle "guerre froide" ou nouveau type de belligérance? in Relations Internationales (Paris), n° 108. janeiro a março de 2017.
[9] Felizmente, "A história é um cemitério de elites", como escreve Thomas Bo Homore (Elites and Society, Londres, Watts, 1964).
A íntegra do original encontra-se em www.investigaction.net/... Este artigo encontra-se em http://resistir.info/

Em directo, um recurso contra uma decisão que introduz batota e apouca o processo democrático

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Logo, às 21h, estarei aqui em directo, neste espaço, tentando contrariar a batota que apouca o processo eleitoral, que distorce a requerida oferta de oportunidades em fazer passar a mensagem. As televisões, em peso, juntam-se para promover o regresso do "centrão".
Entretanto, três canais estarão, em simultãneo, a difundir um debate que até essa hora, não se cansarão de o promover, de o divulgar, de fazer apelos de audiência, que a figura ao lado aponta ir ser elevado. 
Logo, às 21h, estarei aqui. Esteja também!
 

Ver original em 'Conversa Avinagrada' (aqui)

Voltando aos critérios editoriais nos telejornais

Segundo post do dia sobre os critérios editoriais dos nossos telejornais, embora o anterior tenha levado alguns a olharem para o dedo em vez de seguiram o olhar para a direção para que apontava: a injustificada abertura de um telejornal com a notícia da morte de um cantor pimba.

 

Neste segundo caso mudamos de canal e, em vez da SIC, mudamo-nos para a RTP onde à mesma hora exibia-se José Rodrigues dos Santos com a sua habitual desfaçatez. O tema escolhido era o das sondagens com a possibilidade de maioria absoluta para o Partido Socialista e os comentadores por ele questionados eram Pedro Norton e Pedro Adão e Silva, qualquer deles atarantados com o que o interlocutor os queria forçar a dizer. Mais intimidado Pedro Norton lá ia anuindo com a possibilidade de as direitas não estarem a conseguir um discurso eleitoralmente atrativo perante as «contas certas» do Partido Socialista, o outro Pedro a conseguir libertar-se um pouco mais das peias, que o entrevistador lhe colocava e a desenvolver uma hipótese, que não conseguiria desenvolver: a de que, para além dessa evidência das «contas certas» ou da inabilidade de Rio ou Cristas, a probabilidade em causa poderia explicar-se pelo sucedido perante as lutas dos professores e dos motoristas de matérias perigosas.

 

Já que opivot do telejornal não queria ouvir senão as suas obnóxias teses deveria alguém narégie dar-lhe a ordem para que permitisse ao professor do ISCTE um desenvolvimento mais prolongado da sua pertinente tese. Mas se isso sucedeu ele fez orelhas moucas, porque interessava-lhe concluir a peça com a sua própria conclusão: se o Partido Socialista conquistar a maioria absoluta não a deverá à excelência das suas políticas e ao agrado por elas suscitado junto da maioria dos eleitores, mas porque terá implementado políticas de direita, espoliando o CDS, o PSD e os nados mortos de Santana Lopes ou do Arroja, do seu discurso natural.

 

De José Rodrigues dos Santos já ouvimos muitos disparates. Do que escreveu não posso dizer o mesmo, porque escusei-me a perder um cêntimo ou um segundo que fosse com as suas efabulações escrevinhadoras. Mas partir do princípio de que a boa gestão económico-financeira só incumbe às direitas, porque as esquerdas são, por natureza, despesistas, só lembra ao tal Godot por que Passos Coelho suspirou no início da legislatura e nunca aos seus prosélitos compareceu. Para opisca-piscada RTP não passa pela ideia de que os grandes ensaístas da Economia e das Finanças sempre foram e continuam a ser homens de esquerda. O que não admira: ele ainda deve ter ficado na fase de babar-se com as teses tolas de Milton Friedman e dos seus monetaristas de Chicago.
 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/09/voltando-aos-criterios-editoriais-nos.html

Citação da noite

Esta noite, no telejornal, o pivot José Rodrigues dos Santos deu largas às suas ideias - que ele julga serem as do liberalismo, do neo-liberalismo, da social-democracia ou do liberalismo capitalista - e atirou-se do precipício:
"Apesar das sondagens darem esta vitória clara à area socialista, nós vemos os partidos da área socialista a abraçarem algumas bandeiras tradicionais (...) da área liberal que é as contas certas. Vemos até o próprio Bloco de Esquerda a falar de social-democracia, abraçando a economia de mercado que é típica do liberalismo capitalista. Isto não constitui - por ironia - uma certa vitória do liberalismo?"
Agora, imagine-se a responder a esta pergunta.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

A DUPLA DE PENSADORES

Portugal tem o privilégio de possuir no seu panorama audiovisual esta dupla de pensadores acima, os quais, com excepção da ornamentação capilar, se assemelham em quase tudo o resto.
Observem-nos de mão no queixo, a amparar cabeças cansadas de tanto exercício... Ele é a mesma atitude sabichão-sabe-tudo-e-vai-nos-explicar e o mesmo estilo que esconde uma agenda política muito mal disfarçada sob uma capa - ténue - de tecnicidades.
Valha a franqueza de reconhecer que as agendas não são bem as mesmas: o lobismo de um não coincide com o botifarrismo* do outro, mas a incongruência de ambos acaba por os reunir a fazer a mesma figura, porque se um é o general que nem sequer assentou praça, o outro é o empresário que nunca dirigiu uma empresa digna desse nome.
Mas isso não impede que tenham ascendido ao estatuto de estrelas intelectuais do nosso panorama audiovisual onde até possuem o seu círculo de admiradores. Mas aí, torne a valer a franqueza,o problema não é deles: é dos admiradores.
Como não evoluem em círculos concorrentes, até pode acontecer que não se considerem como rivais, mas não é descabido qualificar Camilo Lourenço como o Nuno Rogeiro dos carcanhóis ou Nuno Rogeiro como o Camilo Lourenço da BB-Gun** (abaixo).
 
* De botifarra: bota da tropa.

Veja o original em 'Herdeiro de Aécio' na seguinte ligação::

http://herdeirodeaecio.blogspot.com/2019/09/a-dupla-de-pensadores.html

O negócio das televisões na Feira do Relógio

Notícia do Expresso de 14/09/19: Paulo Fernandes compra TVI com Abanca e Mário Ferreira.

O Paulo Fernandes é o dono do Correio da Manhã, grupo Cofina e Altri, pasta de papel, o Abanca é controlado por um empresário com dupla nacionalidade espanhola e venezuelana, fundou o banco Banesco e começou a investir em Espanha entre dezembro de 2012 e junho de 2014, passando a controlar o Abanca, que tem sede na Galiza, Mário Ferreira é o rosto da Douro Azul, com actividade nos cruzeiros fluviais e na hotelaria. A operação, assim designada, está a ser montada por José de Lemos, antigo presidente do Central Banco de Investimentos, através da empresa Clearwater International, do qual é sócio fundador. Águas limpas, um bom título.

Esta é a notícia em linguagem para crentes. Um vulgar negóciozinho de um produto inócuo. Tu vendes, eu compro, trocamos participações, passamos por água limpa e já está: uma televisaozinha, que é uma coisa como o detergente de enxaguar pratos, as conservas, os chouriços, os rolos de papel higiénico. Oferecem-se umas senhas de descontos e os papalvos vão todos contentes para casa. Os romances do Lobo Antunes, na fase já longínqua em que os deixei, relatavam com variações as tardes de domingo das famílias suburbanas nos centro comerciais, pastoreadas por estes empresários do retalho, o pai de calções e camisola de alças, a mãe com as gorduras do traseiro comprimidas nuns fatos de treino três números mais pequenos e o puto a berrar por um McDonald.

Os pastores destas novelas pós realistas de Lobo Antunes montam agora operações para colocarem uma TVI no carrinho de compras.

Num outro registo literário, e contrariando os defensores da língua, entrincheirados na ortografia, a notícia podia ser assim apresentada, independentemente dos símbolos ortográficos:

Negócio de máquinas de alimentar rebanhos e de os manter serenos para a ordenha e a tosquia. Compra da TVI por um trio de ordenhadores e tosquiadores constituído pelo accionista maioritário do Correio da Manhã e de uma empresa de papel, de um vendedor de viagens no Douro e de um banqueiro com balcão na Galiza, sob a supervisão técnica de uma empresa de consultoria com o atractivo nome de Águas Limpas, em inglês, que substitui as orações em latim.

Contudo, estas entidades, chamemos-lhe assim, não se reuniram para nos venderem mercearia, como nos querem fazer crer. Reuniram-se para explorarem o mais antigo negócio do mundo, que não é a prostituição, embora ninguém garanta que não seja um ramo a explorar por estes empreendedores, O primeiro negócio do mundo foi vender veneno a crentes, convencendo-os que era uma maçã. Ainda é e será. O primeiro negócio do mundo foi e é vender uma mentira com o sabor de doce do paraíso. Está descrito no episódio bíblico da maçã, da Eva, do Adão, do Deus e da Serpente. Quatro personagens, como na compra da TVI.

A maçã foi a mentira de Deus ao casal que ele próprio moldara em barro, de que viviam no paraíso sem necessidade de irem ao forno enrijarem, que permaneceriam inocentes e tenrinhos desde que acreditassem nele.. A serpente segredou ao casal que Deus mentia. Mas como, se estamos a ver o paraíso com os nossos olhos? Pura ilusão, explicou a serpente: Foi Deus que criou os vossos olhos para verem o que ele quer. Se tivesses uma televisão percebias a piada. Experimentem comer a maçã! Eles comeram e viram-se nus, na rua. A parte censurada da Bíblia, como a da história da compra da TVI, é o episódio em que a serpente surge, já no exterior do cenário do paraíso, de novo a explicar aos enganados que o Deus que lhes tinha prometido o paraíso é o mesmo que os mandou para o inferno e que o paraíso era apenas um programa, um reality showpara vender o inferno que o mesmo Deus construiu para quem duvidasse dos concursos e das notícias, dos anúncios e das Cristinas, das telenovelas e do Big Brother, dos repórteres de investigação. O paraíso foi apenas um momento de passagem para o inferno que Deus preparou para vocês. Perceberam, seus tansos?

O negócio das televisões assenta no principio da existência de um céu no ecrã dos que acreditam e compram os produtos anunciados, desde logo a ideologia que faz de cada ser humano um consumidor sem dúvidas quanto ao que o vendedor coloca no rótulo dos produtos, e de um inferno de silêncio e de esquecimento para os que duvidam das boas intenções civilizadoras do patrão do correio da manhã, do navegador do douro, do banqueiro galego e do agente que se encarregou da parte mágica de reunir os cabedais.

As televisões são hoje o sucedâneo do negócio de venda da salvação da alma a troco de uma crença. Um negócio entre os sumos-sacerdotes que vendem fé num Deus e os soberanos que compram obediência e resignação dos crentes. A glória e o lucro das grandes igrejas assenta na convicção induzida pelas TVs fé de que não há alternativa aos produtos que vendem. Se não acreditas és um herege. Enquanto não for alcançado o consenso da crucificação e da lapidação os hereges não terão a morte anunciada nos noticiários, nem direito a uma senha para o sorteio de uma viagem all inclusiveno Douro (na época baixa), nem a um empréstimo para o carrito no Abanca, não irão para a assistência dos programas da manhã, não serão entrevistados se lhes arder o quintal. Serão um Zé ou uma Maria ninguém!

Do que se trata neste negócio da comunicação de massas é de uma questão vital para a nossa vida em comum, ser informados sem ter de beber a água benta dos donos do supermercado.

Estes três sócios, como outros antes deles, estão a vender-nos droga viciante coberta com uma fina camada de caramelo artificial. O caramelo artificial é feito de cristinas e similares (boas pessoas que ganham honestamente a vida, é certo), de futeboladas e arbitragens, de videoárbitros e telenovelas, desastres de automóvel e incêndios, desgraças e engates à primeira vista. É feito especialmente de truques de manipulação para os vampiros adormecerem as vitimas a quem sugam o sangue. Goering, o ministro da propaganda de Hitler, sistematizou o modo de impingir estas papas para tolos em 10 princípios que ainda hoje são cartilha dos propagandistas. Temos em perspectiva mais um trio, ou quarteto a recozinhá-las e a servi-las nas motoretas das uber news.

Os governos da União Europeia têm apresentado aos seus eleitores programas de belo efeito para combater a comida carregada de gorduras, as mixórdias carregadas de conservantes e edulcorantes. Puro fogo-de-artifício, que o PAN se encarregará de promover. Entretanto os governos permanecem mudos e quedos perante os vendedores dos venenos mais insidiosos, os pechisbeques intelectuais como o Tavares, o Mendes, e outros. Na realidade, os governos acobardam-se em nome da liberdade e nós, os vigarizados, ouvimos as sentenças dos barbeiros e cocheiros que os tipos que compraram TVIs contratam para nos assobiar aos ouvidos. Pactuamos com os ventríloquos do povo!

Ao deixar fazer da informação de massas um negócio de enchidos e enlatados de supermercado, os Estados tornam-se cúmplices da “rebanhorização” dos seus cidadãos. Num primeiro tempo isso parece-lhes vantajoso, a curto prazo é degradante e, na última fase, é letal. O rebanho será conduzido ao matadouro ou à tosquia (na melhor das hipóteses) e nem o bobe ou o boi dominante escapam.

O mais recente negócio da TVI podia ser assinado na Feira do Relógio, em direto. Seria mais claro. Mas, como diria o poeta Aleixo, a mentira para ser segura e ter profundidade deve ter à mistura alguma verdade. O veneno da nova estação será apresentado numa bela embalagem, num casino, de fraque e com champanhe.


 
 

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/o-negocio-das-televisoes-na-feira-do-relogio/

As democracias e o poder dos brutos

RUI BEBIANO

12 de Setembro de 2019

As redes sociais servem, como toda a gente sabe, ou então deveria saber, tanto para coisas úteis ou mesmo magníficas, quanto para outras bem horríveis e sinistras.

Depende sempre de quem as usa, da forma como o faz, da linguagem que usa, dos interesses que representa ou dos princípios que segue. De entre as coisas boas, apesar de relacionada com outras detestáveis, tem servido para denunciar as decisões, escolhas e imposições de figuras tão insanas e perigosas como Bolsonaro, Trump, Salvini, Orbán e agora, ainda que numa outra escala, Boris Johnson.

O problema que se coloca é que, apesar das proclamações de espanto ou de indignação, quanto mais impensáveis e intoleráveis são as suas afirmações e iniciativas – ou as dos seus acólitos – maior apoio eles têm entre a larga maioria daqueles que os elegeram e apoiam.

As democracias parecem estar entregues ao poder dos brutos, dos ignorantes, dos trolls – em parte por intervenção das próprias redes e de uma comunicação social que esquece a sua dimensão cívica – e isso precisa ser rapidamente pensado e alterado.

Antes que as trevas nos submerjam a todos.

 
 

Ver original em 'A Terceira Noite' na seguinte ligação:

http://www.aterceiranoite.org/2019/09/12/as-democracias-e-o-poder-dos-brutos/

A “Guerra de Informação” continua a ser um mistério para os políticos

Pequenas conversas e alguns encontros casuais, nestes dias de regresso de férias e já de início de campanha eleitoral, mostram-nos que quase toda a classe política reinante continua a ignorar tudo da “guerra de informação”.

 

 

E, claro, a não perceber a sua lógica. Nem o que é ou não é importante na “guerra de informação”.

Para estes protagonistas e decisores políticos é “importante” aquilo que, na sua cabeça, eles considerarem importante. E só isso… Ora, num afrontamento de “guerra de informação”, acontece, frequentemente, que o “importante” (por vezes, mesmo, o decisivo) é algo em que os políticos não vêem qualquer importância. E quando a descobrem já é tarde para recuperar ou até já estão politicamente mortos…

Esta arrogância de “pensar” que são eles (e apenas eles) que definem a importância de algo torna-os mais vulneráveis e desprotegidos. Esta impensada arrogância reforça a assimetria de conhecimento e de manobra com que a “guerra de informação” joga e, portanto, facilita o trabalho dos “information warriors” (que nem sequer têm de lhes agradecer as facilidades concedidas). No fim, resta-lhes queixar-se da má sorte, das injustiças do mundo e (está na moda…) das ‘fake news’. Nem lhes passa pela cabeça queixar-se da sua patética arrogância…


Mr. Soriano, um ‘information warrior’ de que não existe, ao alcance dos media, nem uma única foto…


Exclusivo Tornado / IntelNomics


 
 

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/a-guerra-de-informacao-continua-a-ser-um-misterio-para-os-politicos/

Uma sociedade apenas é tão livre quanto o for o seu mais problemático dissidente político

 
 
As razões da perseguição, do exílio e da prisão de Julian Assange dizem muito sobre a real natureza da sociedade, e sobre o aparelho mediático dominante. Assange é perseguido porque revelou a verdade sobre crimes. Por isso também é atacado por poderosos meios de comunicação cuja especialidade é fazer o contrário.
 
 
Você não o saberia agora por nenhuma notícia publicada em qualquer meio de comunicação de massa ocidental, mas o músico Roger Waters vai interpretar a icónica música dos Pink Floyd “Wish You Were Here” em frente ao gabinete da secretária do Interior britânico Priti Patel, para chamar a atenção para a perseguição do fundador de WikiLeaks, Julian Assange.
No início deste ano, o bilionário Richard Branson realizou um concerto ao estilo “Live Aid” na Colômbia, perto da fronteira com a Venezuela, com o objectivo de “ajudar o povo venezuelano”. Na realidade, a encenação não passou de uma manobra para engendrar as inteiramente falsas narrativas de que o presidente Maduro estava a bloquear pontes e a recusar toda a ajuda estrangeira, e os fundos arrecadados acabaram por ser desviados pelo grupo - apoiado por Trump - de opositores pela “mudança de regime”, liderado pelo fantoche dos EUA Juan Guaidó. Os meios de comunicação britânicos, no entanto, ficaram absolutamente alucinados com a história. Só nos meios de comunicação de massa do Reino Unido, cada palavra nesta frase está hiper-linkada a uma história diferente sobre o concerto. E esse foi um concerto no outro lado do planeta, enquanto o evento de Assange acontece em Londres, em frente ao escritório de uma proeminente autoridade britânica, e tem em palco um dos maiores músicos de rock britânico de todos os tempos.
Essa discrepância diz-lhe tudo o que precisa saber sobre a chamada “imprensa livre” na sociedade ocidental e, de facto, sobre a própria sociedade ocidental.
 
Uma sociedade é tão livre quanto o for o seu dissidente político mais problemático, o que hoje significa que você é tão livre quanto Julian Assange o for. Enquanto você vive numa sociedade que pode dar origem a uma campanha multi-governamental coordenada para prender um jornalista pelo resto da vida com base em acusações falsas, porque ele expôs crimes de guerra dos EUA, você não é livre e não deve aceitar fingir que o é.
 
 
O velho ditado “as acções falam mais alto do que as palavras” tem eco entre as pessoas porque as palavras podem mentir mas as acções não o podem. E enquanto os comentadores milionários dos media bilionários nos asseguram continuamente por palavras que vivemos numa sociedade livre, as acções das pessoas que exercem sobre nós poder oficial e não oficial dizem-nos que vivemos efectivamente numa sociedade que tortura e aprisiona jornalistas dissidentes por dizerem verdades inconvenientes.
A perseguição de Julian Assange diz-nos muito mais sobre a nossa sociedade do que as narrativas autorizadas que nos vendem:
A perseguição de Julian Assange fala-nos sobre a função real dos media de massa. A discrepância entre a cobertura mediática do evento de apoio a Assange e a festarola propagandística de mudança de regime de Richard Branson é apenas um dos muitos, muitos exemplos que poderíamos discutir sobre como esses meios de comunicação distorcem deliberadamente a sua cobertura a favor de agendas que por acaso acontece alinharem-se com os interesses da CIA e do Departamento de Estado dos EUA. De todas as vezes que a situação de Assange surge nas manchetes, os media sociais enchem-se de aspirantes ambiciosos publicando piadas sarcásticas sobre ele, numa tentativa de mostrar aos operadores dos media bilionários quão longe estão dispostos a ir para defender o status quo. Dizem-nos por palavras que os media de massas estão cá para nos dizer a verdade sobre o que está a acontecer no mundo mas, através de acções, somos informados exactamente do oposto.
 
A perseguição de Julian Assange fala-nos sobre as engrenagens do império. Assange foi expulso da embaixada e preso por uma colaboração extremamente óbvia entre os EUA, Reino Unido, Suécia, Equador e Austrália, mas cada um deles fingiu estar a agir como nação soberana, separada, e completamente independente das outras. A Suécia fingiu estar profundamente preocupada com as acusações de violação, o Reino Unido fingiu estar profundamente preocupado com uma violação da fiança, o Equador fingiu estar profundamente preocupado com o skate e a higiene dos gatos das embaixadas, os EUA fingiram que estavam profundamente preocupados com os detalhes acerca da forma como Assange ajudou Chelsea Manning a encobrir o seu rasto, a Austrália fingiu estar demasiado preocupada em contemplar as questões soberanas desses outros países para intervir em defesa do seu cidadão, e todos convergiram de uma forma que parece exactamente igual em prender um jornalista por publicar factos. Vê-se constantemente essa mesma dinâmica, seja com intervenções militares, acordos comerciais ou campanhas de formatação de narrativas contra governos não alinhados.
 
A perseguição de Julian Assange diz-nos o tipo de sociedade em que realmente vivemos. Somos inundados desde a mais tenra infância com agradáveis slogans sobre liberdade e democracia, que nos dizem deverem ser difundidos a todos na terra com quanta força for necessária, mesmo que tenhamos que os matar a todos. Na realidade, vivemos numa sociedade feita de mentiras e liderada por mentirosos, que perseguem violentamente quem expõe a verdade. Essa gente são os seus opressores. Essa gente são os seus guardas prisionais. As suas faces zombeteiras dizem-lhe que está livre por detrás das grades da prisão, e que vão acabar consigo se você discordar.
Isto vai ter que mudar.
 
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/09/uma-sociedade-apenas-e-tao-livre-quanto.html

Mais de 5 bilhões usam aparelho celular

Jovem usando celular
© AP Photo / Andre Penner

No mundo todo, 5,1 bilhões de pessoas usam aparelho celular, segundo o relatório a Economia Móvel 2019, da empresa de análise GSMA.

A cifra é alta e representa 67% da população humana. Por outro lado, o crescimento está desacelerando e deve ficar na taxa de 1,9% pelos próximos anos.

Até 2025, segundo o estudo citado pela Agência Brasil, o número de pessoas com celular deve subir para 5,8 bilhões, ou 71% da população prevista para o mesmo ano.

O crescimento maior deverá ser observado na Ásia e na África subsaariana. No entanto, cerca de 30% das pessoas do planeta permanecerão sem acesso a esse tipo de produto.

A Europa lidera o percentual de uso de celulares com 85%, seguida pela Comunidade dos Estados Independentes (80%), América do Norte (83%), América Latina (67%), Ásia e Pacífico (66%), Oriente Médio e Norte da África (64%) e África Subsaariana (45%).

A conexão à Internet pelo celular foi acessível a 3,6 bilhões em 2018. O número corresponde a 4,7% dos habitantes do planeta e deve chegar a 5 bilhões em 2025, atendendo 60% da população mundial neste ano.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/ciencia_tecnologia/2019090814495058-mais-de-5-bilhoes-usam-aparelho-celular/

Brasil | Cada hora de telejornal da Globo rende cerca de 10 minutos de “notícias reais”

 
 
Em 2003 o pesquisador Martin Howard no seu livro “We Know What You Want” descobriu que em cada hora de notícias da CNN, o noticiário transmitia pouco menos de cinco minutos de “notícias reais” (fatos espontâneos, históricos, externos à existência da mídia) – o restante é ocupado por metalinguagem e autorreferências. Sem falar no chamado “Efeito Heisenberg”: a mídia não consegue mais reportar o real – transmite apenas os efeitos que ela produz ao cobrir os eventos e, também, o esforço que as pessoas fazem para obter a atenção da mídia. O “Cinegnose” aplicou essa mesma metodologia na análise de quatro edições do telejornal local “Bom Dia São Paulo” da Globo. E chegou a resultados próximos: duas horas de telejornal resultam em 27 minutos de “notícias reais” – ou média de 13 minutos de notícias por hora. No restante, o telejornal passa o tempo falando de si mesmo – metalinguagem, autorreferencialidade fática e efeito Heisenberg.  Resultando num híbrido de jornalismo e propaganda. Infotenimento.
 
Sabemos que há muito tempo a TV deixou de ser uma janela aberta para o mundo – uma testemunha ocular da História de eventos espontâneos que são apenas observados e reportados. Não importa se de forma parcial ou imparcial. Mas, pelos menos, os fatos estão ali, históricos, espontâneos, regidos por uma lógica própria e indiferentes à existência das mídias.
 
Mas isso foi deixado para trás, para os velhos tempos do “Repórter Esso” dos tempos do rádio e da TV Tupi, que se auto-intitulava “testemunha ocular da História”. 
 
 
Essa mudança radical da natureza da TV (ou dos fatos) não se deve apenas à mentira, omissão ou manipulação dos acontecimentos por interesses midiáticos políticos, ideológicos ou partidários. Mas também como um efeito intrínseco ao próprio crescimento das mídias, até se tornarem um horizonte de eventos análogo ao dos buracos negros da astrofísica: se não apareceu no horizonte midiático, logo jamais aconteceu.
 
O jornalística e crítico social norte-americano Neal Gabler deu um nome para esse fenômeno: “Efeito Heisenberg” em uma alusão ao princípio da mecânica quântica de Werner Heisenberg (1901-1976): quando se tenta estudar uma partícula atômica, o ato de medir a posição necessariamente perturba o momentum da partícula – você não pode observar uma coisa sem influenciá-la – Leia GABLER, Neal. “Vida, O Filme – Como o entretenimento conquistou a realidade”, Companhia das Letras, 1999.
 
Negócio tautológico
 
Para Gabler, o crescimento do complexo midiático ao ponto de transformá-lo no próprio horizonte de eventos da sociedade produziu um gigantesco Efeito Heisenberg: a mídia não consegue mais reportar o real, mas apenas cobre a si mesma – o efeitos que ela produz ao cobrir os eventos e, também, o esforço que as pessoas fazem para obter a atenção da mídia.
 
O problema é que, por má-fé, continua a vender isso como “informação” ou “jornalismo”, escondendo a natureza tautológica em que se transformou o negócio.
 
Por exemplo, Martin Howard em seu livro “We Know What You Want” (Desinformation Book, 2005) levantou alguns dados de como o telejornalismo da CNN, por hora, produz em média pouco menos de cinco minutos de notícias “reais” (isto é, relativas a fatos “espontâneos”, “históricos”, externos à mídia), em confronto a acontecimentos cuja motivação é atrair a atenção das mídias (estórias de tabloides e notícias regionais) ou metalinguagem e auto-referência – conteúdo de talk show e escaladas. Sem falar nos infomerciais e intervalos publicitários.
 
O caso do telejornal local Bom Dia São Paulo da TV Globo (apresentado pelos jornalistas Rodrigo Bocardi e Glória Vanique) é certamente um objeto exemplar para essa análise sobre o destino “Heisenberg” da grande mídia. 
 
 
Nota GGN | Em postagem anterior este humilde blogueiro já havia analisado que os diversos “Bom Dia” (SP, Rio, Minas etc.) de uns tempos para cá assumiram uma função motivacional, como primeiro telejornal da manhã para aqueles que vão à procura de trabalho ou para seus empregos – o predomínio de matérias “inspiradoras”, “motivacionais” onde até na previsão do tempo o viés é o de dar “boas notícias” para dar um “up” no astral tão em baixa dos brasileiros – clique aqui.

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/09/brasil-cada-hora-de-telejornal-da-globo.html

A INTOX VENEZUELANA

 
 
A imprensa internacional deu conta, em Agosto de 2018, de um êxodo maciço de Venezuelanos, fugindo à fome e à ditadura do chavista Nicolás Maduro. Eram 18.000 a atravessar a fronteira diariamente. À época a ONU previa que haveria 5,3 milhões de migrantes e refugiados venezuelanos em toda a América Latina até ao fim de 2019. Denunciava-se, assim, uma crise gigante.
 
Azar! Estes números eram, afinal, pura propaganda:
o Alto-Comissariado para os Refugiados acaba de publicar as suas estatísticas oficiais de 31 de Dezembro de 2018.
-- 57% dos refugiados do mundo provinham da Síria (6,7 milhões), Afeganistão (2,7 milhões) e Sudão do Sul (2,3 milhões).
-- Os refugiados venezuelanos representavam apenas 341.800 pessoas (das quais muitas retornaram ao seu país).
 
A campanha de intoxicação mediática (da mídia-br), difundida em todos os Estados aliados do Pentágono, foi iniciada em preparação da operação de desestabilização do Estado venezuelano, que começou em Dezembro de 2018. Ela visava convencer os nacionais que já não tinham mais qualquer futuro no país, e os estrangeiros que o Presidente Maduro era ilegítimo.
 
Trata-se de uma clara aplicação da Teoria das «migrações como arma de guerra» [1].
 
Voltaire.net.org | Tradução Alva
 
[1] “Strategic Engineered Migration as a Weapon of War”, Kelly M. Greenhill, Civil War Journal, Volume 10, Issue 1, July 2008. Understanding the Coercive Power of Mass Migrations,” in Weapons of Mass Migration : Forced Displacement, Coercion and Foreign Policy, Kelly M. Greenhill, Ithaca, 2010. “Migration as a Coercive Weapon : New Evidence from the Middle East”, in Coercion : The Power to Hurt in International Politics, Kelly M. Greenhill, Oxford University Press, 2018.
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/09/a-intox-venezuelana.html

Jornalista Carlos Fino defende ser preciso combater o “persistente estranhamento Portugal-Brasil”

Um dos mais experientes e respeitados jornalistas de Portugal, Carlos Fino é conhecido pelos seus trabalhos ao redor do mundo. Como correspondente internacional, passou por países em guerra e viu sociedades inteiras se transformarem. Uma das suas últimas passagens profissionais foi na Embaixada de Portugal no Brasil, como conselheiro de imprensa.

 

 

No currículo, Carlos Fino conta com livros publicados, com prémios e distinções recebidos. Mas, em abril, Carlos Fino aventurou-se no mundo académico. Concluiu, “com distinção”, o doutoramento em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho e pela Universidade de Brasília. Nessa nova vivência, defendeu a tese “Raízes do estranhamento: a (in)comunicação Portugal-Brasil”, trabalho que ocupa quase 500 páginas e que é fruto de pesquisas realizadas pelo jornalista ao longo de cinco anos.

Esse profissional acredita que as relações bilaterais, entre Brasil e Portugal, atravessam o que chama “estranhamento/ incompreensão” e defende que somente havendo “mais e melhor informação, o que infelizmente não acontece”, é que seria possível superar essa situação. Carlos Fino vai mais além e pontua que, “em geral, Portugal está ausente da comunicação brasileira” e que “o desconhecimento é tal que muitos brasileiros chegam a ignorar a origem da língua que falam”.

Em entrevista à e-Global, Carlos Fino criticou a ausência de uma presença maior da imprensa portuguesa no Brasil, falou sobre as atuais conexões entre os dois países, abordou a sua experiência no campo da diplomacia e no jornalismo, enfatizou momentos profissionais marcantes como quando acompanhou o fim do regime comunista, primeiro na ex-URSS e depois no conjunto da Europa de Leste, a cobertura de guerra e a passagem por Bruxelas, onde acompanhou o lançamento do Euro. Carlos Fino disse ser importante o ensino do jornalismo e a aposta na expansão da língua portuguesa no mundo, ressaltou o papel das redes sociais nos media e revelou o que espera do futuro.

Qual é o tema central da tese que defendeu?

O tema central da tese é a (in)comunicação Portugal-Brasil, vendo nessa realidade de escassez de contatos aprofundados uma das principais razões do sentimento de estranhamento/incompreensão que atravessa as relações bilaterais. Um estranhamento que vem pelo menos desde o século XVII, acentuou-se no momento da separação a ponto do antilusitanismo estar inscrito no ADN da nacionalidade brasileira e  se consolidou de então para cá devido à diferente inserção geoestratégica dos dois países e ao progressivo acentuar da diversidade cultural, de comportamentos, psicologia, modos de ser e de estar. Para superar essa situação seria necessária muito mais e melhor informação, o que infelizmente não acontece. Mesmo quando as relações avançam em termos de intensificação dos fluxos humanos, económico-comerciais e até mesmo culturais, quase sempre a comunicação falha ou deixa a desejar. Esse é o desafio que teremos de encarar se quisermos, já não digo eliminar, mas pelo menos atenuar o persistente estranhamento Portugal-Brasil.

Como jornalista, como esse título vai auxiliar nas suas funções?

A elaboração da tese correspondeu, antes de mais, a uma necessidade intrínseca que senti de encontrar explicação para as realidades contraditórias com que me defrontei no exercício das minhas funções como conselheiro de imprensa da embaixada de Portugal no Brasil entre 2004 e 2012: como explicar que – como observou Eduardo Lourenço – no Brasil Portugal esteja em todo o lado e em lado nenhum? Não se tratou apenas de obter um diploma – embora isso também tenha estado presente. No final dos anos 1960, os meus pais transferiram-se do Alentejo para a região de Lisboa a fim de poderem dar instrução superior aos filhos. Por vicissitudes várias, nenhum de nós tinha até agora conseguido doutorar-se. Finalmente, 50 anos volvidos, consegui concretizar o sonho deles e meu, havendo, portanto, na concretização da tese um forte elemento de realização pessoal. Obtido aos 70, o doutoramento não faz de mim um investigador nem é base para inaugurar uma nova atividade no meu percurso profissional, praticamente encerrado desde que me aposentei em 2013. Dá-me apenas mais conhecimento para poder reportar ou escrever sobre as relações Portugal-Brasil em diferentes domínios e eventualmente ter acesso a alguma posição no ensino universitário na qualidade de docente externo convidado – situação que, embora remota, não descarto.

Por que refere que Brasil e Portugal “têm um défice de comunicação”?

Porque até agora o conhecimento mútuo aprofundado das circunstâncias da separação e das razões do persistente estranhamento é escasso, mesmo entre os setores mais cultos e informados, circunstância que tende a perpetuar os desentendimentos. Por outro lado, há uma assimetria evidente nas trocas de informação e projeção mediática mútua. Enquanto o Brasil, através da sua excelente música popular, da sua literatura, das suas produções televisivas – sobretudo as telenovelas – e até, nos últimos anos, do seu cinema está diariamente presente no universo mental dos portugueses, a inversa está a anos-luz de acontecer. Apesar do relativo êxito de alguns autores contemporâneos portugueses no Brasil – de Miguel Sousa Tavares a José Luís Peixoto, passando por Valter Hugo Mãe (a par dos consagrados Fernando Pessoa e José Saramago) – em geral Portugal está ausente da comunicação brasileira. O desconhecimento é tal que muitos brasileiros chegam a ignorar a origem da língua que falam. E há, além disso, entre boa parte das elites, um sentimento de desdém em relação a Portugal. Se mais não houvesse, quase se poderia dizer que no Brasil as elites desprezam-nos e o povo ignora-nos. Neste pano de fundo, a ausência dos média portugueses no mercado brasileiro é gritante; dois exemplos bastam para o confirmar: a televisão pública portuguesa criou há muitos anos uma RTP-África, mas nunca ousou montar uma RTP-Brasil e a agência portuguesa de notícias Lusa depois de, em final dos anos 1990, ensaiar estabelecer-se no Brasil acabou por arriar bandeira e voltar as costas ao mercado brasileiro. Nesta situação, quem perde é sobretudo Portugal. Mas há também uma perda mútua já que fica por explorar todo um universo histórico conjunto que daria pano para mangas a possíveis cooperações bilaterais. Outro sinal evidente da falta de comunicação é a ausência de um prémio de jornalismo conjunto Portugal-Brasil. Sempre se fala que os dois países se conhecem mal ou se conhecem pouco, mas a comunicação nunca é tema prioritário nas relações e nas preocupações dos respectivos Estados quando tratam entre si, o que é profundamente lamentável.

Nas redes sociais afirma que “o afastamento entre Portugal e o Brasil tem raízes profundas”…

Trata-se, com efeito, de um processo histórico longo, que, em última instância, remonta ao próprio momento da chegada dos portugueses ao Brasil, mas que se acentuou sobretudo a partir dos séculos XVII/XVIII, com a crescente contraposição de interesses entre “reinóis” – os portugueses mais recém-chegados da metrópole, aos quais estavam reservados os cargos de maior prestígio e proveito na administração pública e militar – e a chamada “nobreza da terra”, os mazombos, filhos de portugueses já nascidos no Brasil, que não aceitavam essa situação de capitis diminutio, reivindicando para si mesmos privilégios especiais, já que eram eles os descendentes da antiga geração de conquistadores, colonizadores e defensores do território.

A que outras conclusões chegou durante os estudos?

Essa diferenciação e contraposição que referi acabou por conduzir à independência política, embora esta, num primeiro momento, tenha sido mais pretendida pelos portugueses de Portugal do que pelos portugueses do Brasil. E isso devido à situação que havia sido criada com a instalação da Corte no Rio de Janeiro, logo na sequência da primeira invasão napoleónica, relegando a metrópole a uma situação secundária. Na percepção da época (início do século XIX), paradoxalmente, Portugal – a antiga metrópole – havia-se tornado praticamente colónia de uma colónia. Não havia, entretanto, no momento da independência, um sentimento nacionalista no Brasil. Como assinalou o historiador Evaldo Cabal de Mello, “O nacionalismo brasileiro não precedeu, sucedeu, a criação do Estado nacional. O Brasil não se tornou independente porque fosse nacionalista, mas fez-se nacionalista por haver-se tornado independente”. Entretanto, a partir da independência, o Brasil tratou naturalmente de forjar um sentimento nacional próprio. E fê-lo a partir da contraposição com Portugal. Daí que o antilusitanismo esteja no DNA da nacionalidade brasileira, sendo, desde então, esse mito de origem repetido sem cessar, constantemente reforçado pelos média e pelo ensino. Até hoje, os estudantes do ensino médio no Brasil saem da escola com uma péssima imagem de Portugal dada a forma pouco ou nada contextualizada como a história lhes é relatada. Consolidou-se assim a ideia de que Portugal está na origem de todos os males do Brasil – do Estado burocrático, centralista e corrupto, à escravatura, passando pelo genocídio dos índios e pela destruição da mata atlântica. Pouco ou nada é valorizado do passado colonial português, numa contraposição contínua que faz com que os jovens não só fiquem a detestar Portugal como não queiram com ele ter em geral qualquer relação, preferindo ignorar ou esquecer um passado que lhes é descrito como tendo sido pouco menos que abominável. Não havendo contextualização, não há empatia, acentuando-se o estranhamento e o afastamento; a ponto de os brasileiros, na sua maioria com sangue português, quando olham para trás não se identificarem com Portugal, como se nada tivessem a ver com esse passado. É aqui que entra a questão da comunicação, que deveria merecer muito mais atenção por parte do Estado português, ao qual competiria preocupar-se com a memória histórica do país.Falta uma estratégia devidamente estudada e aplicada que tenha em conta esta situação já secular e se dê como objetivo, se não superá-la, pelo menos atenuá-la, a bem não só da preservação das realidades do passado, mas visando igualmente a uma melhor interação futura com o Brasil, com o que certamente beneficiariam os dois países e todos teríamos muito a ganhar.

Como vê hoje a aproximação entre Brasil e Portugal?

Tem havido avanços importantes no relacionamento bilateral, em particular os fluxos humanos permanentes – ora mais intensos num sentido ora no outro – possibilitados pelos voos da TAP ligando mais de uma dezena de capitais brasileiras às principais cidades portuguesas – Lisboa e Porto. Mas isso só vem mostrar como se podia e devia fazer muito mais, em particular no domínio da informação e da comunicação. Se isso não acontecer, o estranhamento Portugal-Brasil continuará a viajar incógnito a bordo dos aviões da TAP.

Ao olhar Portugal desde o Brasil, consegue apontar mudanças no seu País?

Tem havido muitas mudanças positivas em Portugal. A entrada na União Europeia transformou o País, embora tenda a limitá-lo nas suas dimensões africana, sul-atlântica e também asiática que são parte intrínseca da sua própria identidade. Por outro lado, ultimamente foi possível quebrar o velho “arco da governação”, abrindo espaço de participação a outras forças, o que me parece positivo, sobretudo se funcionar como antídoto à progressão entre nós do populismo reacionário que hoje está na moda numa série de outros países, incluindo, infelizmente, o Brasil.

Como profissional de comunicação e jornalismo atuou em Portugal, em outros locais da Europa, e, no Brasil, na área diplomática portuguesa. Como foi essa experiência?

De certa maneira fui um privilegiado. Graças à profissão (primeiro como jornalista e depois inserido na diplomacia), conheci meio mundo: da Europa à Ásia, da Rússia às Américas, tendo oportunidade – apesar de alguns perigos e muitos sacrifícios pessoais e familiares – de viver experiências riquíssimas, quer em termos culturais quer de experiência humana de uma forma geral. Constatei, entretanto, recentemente, que a idade já vai avançada e me falta ainda, em boa medida, como disse Pessoa na Mensagem, “cumprir Portugal”…

Qual é a diferença entre atuar no jornalismo “hard News” e na comunicação pública, política ou institucional?

São lados opostos do espelho: no jornalismo, procuramos a verdade, na diplomacia defende-se os interesses do Estado. Toda a arte está em tentar, quando se passa de um lado para o outro, em não se trair o essencial, que é o de dar a conhecer e servir acima de tudo o interesse público.

Você foi um dos profissionais de jornalismo de Portugal mais comentados nos anos 2000 por ter a sua imagem ligada à cobertura de guerra. Carrega esse “fardo” até hoje? Que visões tem daquela época e como esse percurso lhe ajudou profissionalmente?

Não considero que tenha sido ou seja um “fardo”. Foi antes um destino. Um destino que não procurei (nunca cultivei o sonho romântico de ser um “correspondente de guerra”), mas aceitei e tentei assumir da melhor forma possível – nele colocando, com a maior dedicação, toda a minha força anímica, toda a arte e engenho de que era capaz, guiando-me sempre pelos melhores padrões internacionalmente consagrados: o da equilíbrio dos ingleses com a velocidade e o “punch” dos norte-americanos.Talvez mais do que propriamente as coberturas de guerras, o que me ajudou profissionalmente foi o facto de estar em locais em que se viviam situações históricas, algumas de alcance mundial sobre as quais se centravam, por isso, as atenções do mundo: a ex-URSS e a Europa de Leste, primeiro; o Médio Oriente – com destaque para Afeganistão, Palestina e Iraque – depois.

Que momentos da sua carreira destaca?

O principal foi sem dúvida a cobertura, a partir de Moscovo, do fim do regime comunista – primeiro na ex-URSS e depois no conjunto da Europa de Leste.  Seguiram-se a cobertura da reocupação dos territórios palestinos por Israel, a situação no Afeganistão após o ataque às torres gémeas do World Trade Center em Nova Iorque e a última Guerra do Iraque. Mas houve também duas experiências sem as quais a minha carreira profissional teria ficado incompleta – correspondente em Bruxelas, onde acompanhei o lançamento do Euro, e correspondente em Washington.

Como vê o poder das redes sociais hoje no jornalismo e na comunicação diária? Consegue traçar um paralelo de como essa tecnologia entranhou-se no jornalismo nos últimos anos?

As redes mudaram quase tudo e o jornalismo atravessa hoje uma séria crise da qual não se sabe bem como irá sair. Os perigos para a profissão são tão grandes ou maiores do que as novas oportunidades criadas pelas novas tecnologias e pela mudança profunda na maneira como as pessoas se comunicam e mantêm informadas. No meu entender (mas pode ser só “wishful thinking”), tudo isso não elimina o papel dos jornalistas – pelo contrário, vem torná-lo ainda mais necessário, o que exige cada vez mais e melhor formação e consequentemente valorização do estatuto profissional. Não tem sido essa a tendência geral dos últimos anos, infelizmente, e, por isso, aquilo a que assistimos é à desvalorização de uma série de órgãos de média que procuram sair da crise pelas portas erradas da facilitação e do “mais Google e menos rua”, justamente o contrário do que – no meu entender – deveria ser feito.

Como seria a cobertura de guerra na sua época caso tivesse nas mãos um smartphone e acesso à Internet? O que mudaria na sua narrativa?

Ainda sou do tempo do filme, quando era necessário esperar horas pela revelação da película e depois os planos eram cortados e colados fisicamente um a um na moviola – a mesa de montagem. Também não havia telefones portáteis nem muitos menos internet. Mas, depois, o vídeo e, mais tarde, o videofone mudaram muita coisa, os telemóveis idem e, na última Guerra do Iraque, já houve uma viragem abissal – sendo possível entrar ao vivo via satélite de qualquer ponto do mundo a qualquer hora. Foi assim que uma pequena estação como a RTP conseguiu dar o furo do início dos bombardeamentos, desafiando a hegemonia das grandes redes de televisão como a BBC, a CNN e a SKY News. A internet e as redes possibilitam ter acesso mais rápido e constante a mais informação e, por isso, a narrativa dos correspondentes pode ser mais informada se os jornalistas fizerem, como devem, o trabalho de casa, não se limitando ao que já é veiculado pela grande média tradicional. Quanto mais fontes e mais diversificadas, mais completa pode ser a informação. A verdade é sempre poliédrica.

Como avalia o jornalismo atualmente? Como devem as universidades formar novos profissionais de comunicação? Quais deverão ser as competências privilegiadas e trabalhadas?

No meu tempo de estudante universitário não havia, em Portugal, cursos de jornalismo. Como acontecia desde finais do século XIX, iam para jornalista muitos dos que não tinham completado cursos noutras áreas. Foi esse, também, o meu caso. Tive por isso uma formação autodidata, com saber de experiência feito, com base na experimentação e no erro, acabando por ter uma carreira profissional invertida, ou seja, cuja formação académica culminou em vez de preceder a experiência profissional. É um caminho possível, mas que não aconselho. Continuo a achar preferível ter formação académica primeiro. Felizmente, depois do 25 de abril de 1974, surgiram faculdades de Jornalismo na Academia. O defeito que se apontava era, a certa altura, o inverso – ou seja, o de ministrarem um ensino formal e teórico distante da prática das redações. Não sei como é hoje, mas o ideal, de qualquer forma, seria conjugar as duas coisas – formação académica por um lado, experiência prática em redações, por outro. Em qualquer caso – seja ministrada nas faculdades, seja por iniciativa própria com base em leituras e consulta de textos – a formação teórica profissional é indispensável e parece-me ser cada vez mais necessária e o mais exigente possível para que as novas gerações possam estar em condições de responder aos novos desafios que a profissão enfrenta. Sem isso e sem valorização do estatuto profissional, o jornalismo corre o risco de continuar a ser – como vem sendo cada vez mais nos últimos anos – uma profissão subalterna, de mera transição – algo que se faz apenas durante uma certa etapa da vida, normalmente quando ainda se é jovem, antes de maior maturidade, para se ir depois fazer algo de muito diferente, eventualmente com mais prestígio e melhor remuneração.

O que faz hoje em dia? Como é a sua rotina?

Desde que passei à reforma, em 2013, os últimos anos foram ocupados essencialmente – a par de alguns artigos para jornais – com a preparação da tese. Sendo que ainda cursei algumas matérias para perfazer créditos académicos que me faltavam. Agora, depois da defesa da tese, em abril passado, na Universidade do Minho, em Braga, estou em vias de reorganizar o meu tempo que pretendo dividir entre leituras – história, filosofia, comunicação e literatura – e coleta de materiais para vir mais à frente a tentar escrever algumas memórias e – se o tempo e o engenho permitirem – também um livrinho sobre a terra da minha infância: Fronteira. Nos intervalos, cultivo algumas rosas no meu jardim e também pratico caminhada – caminhar é preciso!

Mora em Portugal ou no Brasil?

Vivo há 15 anos no Brasil, embora alternando com períodos regulares em Portugal. O meu objetivo, agora, é terminar os meus dias em Portugal – bom filho à casa torna. Mas terei de esperar ainda que a minha mulher brasileira se possa, primeiro, também ela, aposentar. Para já, vamos matando saudades ano a ano. Mas já sei que quando conseguir voltar em definitivo a Portugal também vou ter saudades do Brasil e assim vamos vivendo à portuguesa: com a alma pelo mundo em pedaços repartida.

Por fim, qual é o papel da língua portuguesa hoje no mundo? É possível que algum dia a língua portuguesa seja uma das línguas oficiais da ONU?

A nossa língua é um património riquíssimo que todos temos o dever de defender a cultura. Há todas as condições para que se torne língua oficial da ONU. Só depende da vontade dos Estados, que para isso terão de disponibilizar os meios financeiros que tal operação exige. Mas entre Portugal, Brasil e Angola – para começar – essa é uma tarefa que está ao nosso alcance, tudo dependendo apenas de uma forte vontade política – quando há vontade, os meios surgem. Em vez de nos queixarmos de que o mundo todo só fala inglês e que por isso as nossas culturas têm menos divulgação do que merecem, há que valorizar a nossa própria língua e fazer tudo para que ela se expanda em termos internacionais.


por Ígor Lopes, correspondente no Brasil

© e-Global Notícias em Português


 
 
 
 

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/jornalista-carlos-fino-defende-ser-preciso-combater-o-persistente-estranhamento-portugal-brasil/

A NATO COMO POLÍCIA DE OPINIÃO

É necessário desarticular a carga de conteúdos verdadeiramente perigosos para a democracia e para a liberdade de expressão que esconde a queixa da NATO de manipulação nas redes sociais.
 
José Goulão | AbrilAbril | opinião
 
Centro de Excelência de Comunicação Estratégica da NATO queixa-se de manipulação nas redes sociais. E quando o Centro de Excelência de Comunicação Estratégica da NATO se queixa só há que esperar uma intensificação das acções policiais de censura na internet, com o pretexto de que as redes sociais são incapazes de se regularem a si próprias. O cerco às opiniões divergentes da doutrina oficial atlantista e europeísta aperta-se e a NATO afina mecanismos policiais para que não haja desvios à opinião única.
 
A notícia passa quase despercebida, pelo que é necessário desarticular a sua carga de conteúdos verdadeiramente perigosos para a democracia e a liberdade de expressão.
Os especialistas de manipulação de informação aglutinados no Centro de Excelência de Comunicação Estratégica da NATO, ou NATO StratCom, garantem que detectaram «buracos» nas redes sociais que poderiam ter permitido influenciar e manipular eleitores antes das eleições europeias de Maio. O que vale por dizer que certamente encontrarão agora mais «buracos» para envenenar eleitores na perspectiva de novas eleições gerais britânicas que, de facto, serão um novo referendo do Brexit; quem sabe ainda se os mesmos «buracos» não serão extensivos às eleições portuguesas de Outubro e por aí sucessivamente.
 
O NATO StratCom desconhece, em boa verdade, se os «buracos» detectados foram aproveitados para as eleições europeias. Só o Twitter terá facultado o acesso a um deles, designado Vkontakte1  e de origem russa (obviamente), que por acaso «não foi usado extensivamente», segundo Janis Sarts, o chefe dos censores militares concentrados em Riga.
Um coro de lamentos
 
O trabalho sobre a NATO e a manipulação da informação, posto a circular pelo website EUObserver, é um coro de lamentos sobre a suposta incompreensão que os polícias do NATO StratCom encontram nas redes sociais e nos gigantes informáticos Facebook, Twitter, WhatsApp, YouTube, Google e por aí adiante; o que os torna ineficazes quando se trata de impedir a criação dos «buracos» por onde se infiltrem informações e opiniões que contrariem as doutrinas oficiais do atlantismo e do europeísmo, definidas dogmaticamente como «valores universais».
 
Rolf Fredheim, identificado como o «cientista principal» da associação censória policial, lamenta, por exemplo, o «conflito de interesses» que dita a suposta inactividade do Facebook em matéria de controlo de opiniões. Uma vez que as receitas financeiras da rede social são ditadas pelo número de membros activos, então não há que esperar que esta faça auto-regulação de frequentadores, constata Fredheim. O que leva facilmente à conclusão de que a NATO irá tomar medidas para que a «regulação» se execute por outras vias e os «buracos» se fechem2.
 
«Não conhecemos os dados sobre a actividade» desenvolvida através dos supostos «buracos», mas «sabemos que houve», assegura Janis Starts. Valendo isso como uma verdade absoluta que justificará qualquer acção para corrigir a situação.
 
Um patamar superior de censura
 
A corrida ao controlo das opiniões divergentes da doutrina oficial é vertiginosa e, percebe-se agora, filtrada através de uma rede hierárquica de organismos no topo da qual estão os militares da NATO.
 
Como é do conhecimento geral, a União Europeia tem a sua Task Force de Informação Estratégica em funcionamento, também com o objectivo declarado de conter a «desinformação», isto é, a informação que se desvie da que tem a chancela oficial.
 
Naturalmente, o que imediatamente atrás ficou escrito é um exemplo de prática desinformativa porque a União Europeia e a NATO, segundo os seus axiomas, respeitam a liberdade de expressão e apenas combatem a manipulação efectuada através da Rússia.
 
Para que conste, por exemplo, é um exercício de propaganda russa dizer que a NATO destruiu a Líbia e fomenta a guerra na Síria;
ou que o tráfico de droga explodiu no Afeganistão desde a invasão da NATO;
ou que o golpe de 2014, patrocinado pela NATO e a União Europeia, fomentou a ascensão do nazismo na Ucrânia.
 
O que, na prática, equivale ao maniqueísmo em que se instalaram a União Europeia e a NATO: quem discorda das suas práticas concorda automaticamente com os russos – um conceito restritivo da liberdade de opinião próprio de quem se orienta por tentações ditatoriais.
 
O que se observa agora através das queixas do NATO Stratcom veiculadas pelo EUObserver é que os militares puxam dos galões e chamam a própria União Europeia à ordem, por ser demasiado contemporizadora com as redes sociais. Nada mais natural: a União Europeia é apenas o braço político da NATO, sobretudo nestes tempos em que a política se faz cada vez mais através da guerra.
 
De facto, a Task Force de Comunicação Estratégica da União Europeia tem acordos com várias redes sociais em matéria de fact-checking, como se Bruxelas delegasse nestas entidades parte da acção censória. E é assim que temos o Facebook em Portugal fiscalizado, desde 25 de Abril deste ano, pelo aparelho de um website designado Observador, que supostamente assegura a doutrina oficial mesmo sendo alinhado com a extrema-direita. O caso funciona como uma bússola fiável sobre o sentido em que funcionam estes mecanismos.
 
O NATO StratCom, porém, não tem a mesma confiança nesta maneira de controlar opiniões e não considera, por outro lado, que «o sistema de alarme rápido» montado ao nível de Bruxelas proporcione os resultados necessários. Tão pouco valida os sistemas montados pelas próprias redes sociais para impedir a suposta manipulação de informação.
Os censores de Riga têm esta posição baseada em experiência própria – é também por isso que a NATO vive em manobras militares permanentes.
 
No ano passado, segundo o trabalho publicado por EUObserver, uma equipa de especialistas de manipulação do NATO StratCom conseguiu enganar soldados da Letónia em exercícios através da aplicação de encontros íntimos Tinderconvencendo-os a divulgar as suas posições no terreno e a criar um grupo falso no Facebook. Segundo os promotores da experiência, a rede social demorou duas semanas a detectar a situação, sendo mais do que tempo para perder uma guerra.
 
Dizem os militares da central censória de Riga que são obrigados a seguir os metadados para detectar as origens da desinformação e liquidá-la no ovo. Convenhamos que, em bom rigor, o NATO Stratcom não precisa da auto-regulação das redes sociais para nada. Dar-lhes-ia, provavelmente, menos trabalho terceirizar a fiscalização, mas com o controlo das informações privadas de entidades e cidadãos alcançado pelas agências de espionagem dos Estados Unidos não haverá segredo que lhes escape. A grande irmandade universal da espionagem da vida pública e privada, que nos faz ver um agente russo em cada esquina e um manipulador chinês em cada semáforo, tem todos os meios necessários ao seu dispôr para filtrar opiniões.
 
O coro de queixas emitido pelo NATO StartCom é uma espécie de exercício de vitimização abrindo passagem a um grau superior de policiamento de opiniões e consciências tendo em conta a envergadura do «inimigo» e as cumplicidades que este consegue.
 
A internet é ainda uma espécie de última fronteira da liberdade de expressão e opinião, praticamente já inexistente no circo mediático convencional. E fronteiras, como se sabe, não são obstáculos que travem a NATO e os seus mecanismos de excelência.
 
 
 
 
1.Trata-se, muito simplesmente, de uma rede social de contactos do tipo Facebook, mas em língua russa, muito popular na Rússia, Ucrânia e Bielorrússia.
 
2.Rolf Fredheim parece ser capaz de medidas suficientemente eficazes para garantir a ausência de contraditório na internet. Uma breve pesquisa no Google por “Rolf Fredheim, NATO” não devolve qualquer artigo com uma visão minimamente crítica das ideias de Fredheim. O máximo que se consegue obter – se calhar por constituir uma publicação da Cambridge University Press – é a referência a um artigo da investigadora Julie Hemment intitulado «Red Scares and Orange Mobilizations: A Critical Anthropological Perspective on the Russian Hacking Scandal» (2017). Daí até à piada do primeiro de Abril desse ano do ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, dada em nota no referido artigo, com a respectiva ligação, vai um curto mas saboroso passo, que exemplifica o cenário de histeria informativa vivido no meio atlantista dos mainstream media.
 
Imagem: La República, Perú

CGTP-IN exige a integração dos 46 trabalhadores que fazem falta à RTP

O secretário-geral da CGTP-IN participou numa concentração de trabalhadores da RTP em Vila Nova de Gaia e exigiu que o Governo se entenda quanto à integração dos 46 em regime de outsourcing.

CréditosEstela Silva / Agência Lusa

Arménio Carlos pediu esta manhã que os ministérios do Trabalho, Cultura e Finanças «se entendam» para integrar nos quadros da RTP os 46 trabalhadores que estão em regime de outsourcinge que foram chumbados pela Comissão de Avaliação Bipartida (CAB).

«É inadmissível que isto se passe numa empresa pública e o Governo não pode deixar de ter uma intervenção imediata junto do Conselho de Administração [da RTP]», sustentou Arménio Carlos durante a concentração que decorreu frente às instalações da televisão pública no Monte da Virgem, em Vila Nova de Gaia. Em primeiro lugar, afirmou, para reconhecer «uma ilegalidade» e a justiça que se deve aos trabalhadores e, por outro lado, «para tomar medidas para resolver isto de imediato».

Ainda existem quase 150 trabalhadores com vínculos precários na RTP, que se inscreveram no Programa de Regularização Extraordinária dos Vínculos Precários na Administração Pública (PREVPAP) – 46 processos de trabalhadores subcontratados foram chumbados e os restantes estão pendentes das assinaturas dos três ministérios.

Salientando que os trabalhadores em regime de outsourcing, 27 dos quais estão afectos à RTP na Invicta, «prestam um serviço permanente à RTP», o secretário-geral da CGTP-IN criticou quer a «dicotomia» no Governo, quer a actuação da central sindical UGT, que ditaram o chumbo da integração nos quadros destes funcionários, no âmbito do PREVPAP.

«Não se justifica o que se passou na CAB que esteve a discutir esta matéria, em que tivemos os representantes dos ministérios do Trabalho e das Finanças a votar contra a integração destes trabalhadores no quadro da RTP e tivemos o Ministério da Cultura, que é o ministério da tutela, a reconhecer que estes trabalhadores fazem falta à RTP», sustentou Arménio Carlos, frisando que «só pode haver uma solução: a integração destes trabalhadores no quadro de efectivos».

Para Arménio Carlos, «isto só demonstra que aquilo que está neste momento aqui em jogo para os ministérios do Trabalho e das Finanças não é o interesse do serviço público da RTP, mas o interesse dos encargos da RTP com a contratação de trabalhadores».

O dirigente frisa que, se o Ministério da Cultura, que é o ministério da tutela, diz que precisa destes trabalhadores no quadro de efectivos, «então que se respeite aquilo que é uma necessidade óbvia da empresa, até para poder prestar um melhor serviço público».

Quanto à UGT, e a propósito do seu representante ter votado ao lado dos ministérios das Finanças e do Trabalho, contra a integração destes trabalhadores, Arménio Carlos pergunta «se existe para defender trabalhadores ou para impedir que estes trabalhadores tenham estabilidade de vida e segurança no emprego».

Com agência Lusa

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/trabalho/cgtp-exige-integracao-dos-46-trabalhadores-que-fazem-falta-rtp

ESTARÃO OS ÁUGURES FADADOS A SER SUBSTITUÍDOS (TAMBÉM) PELA «INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL» OU ADAPTAR-SE-ÃO MAIS UMA VEZ?

Se os adivinhos da Antiguidade se assumiam em toda a sua esplendorosa aldrabice, como muito bem recordou Goscinny no seu álbum O Adivinho de 1972 (acima), os oráculos, profetas, ou arúspices da Modernidade, disfarçam-se. O que perdura e que faz a ligação entre os antigos e os modernos é o obrigatório aspecto respeitável do protagonista (a idade ajuda), a impenetrabilidade do processo que conduz às conclusões (às vezes essa impenetrabilidade esconde-se por detrás de uma multiplicação desnecessária de palavras) e a ambiguidade da mensagem. E claro, a complacência do auditório, que normalmente está mais propenso a lembrar-se dos sucessos do que dos insucessos. As tecnologias do século XXI podem estar a dar cabo deste último aspecto.
Tomemos a afirmação, peremptória, deste opinador do Observador e do seu artigo de hoje. Mário Pinto tem 88 anos e, se calhar, devia resguardar-se mais. Não sei se terá chegado a aperceber-se das potencialidades das novas tecnologias em facilitar a detecção das contradições das opiniões que dá com as que deu no passado. Neste caso concreto, em que o jornal até é o mesmo, a importância da economia que agora, Setembro de 2019, não "é obra" deste governo, em Maio de 2015 era objecto de um tratamento assaz distinto - e, não por acaso, naquela época o governo até era outro. Mais do que isso, a questão da economia, que nessa altura não se percebia ser obra de quem (talvez por não apresentar resultados particularmente concludentes), alegadamente funcionava "como uma voz da direita contra a política de esquerda". As pessoas aos 88 anos devem escrever coisas sábias e inócuas, não precisam de fazer figuras tendenciosas como estas, equiparando-se àqueles paineleiros dos serões futebolísticos da TV Cabo, em que adoptam critérios de julgamento completamente díspares, conforme a grande área onde a jogada decorreu.
 
 

Veja o original em 'Herdeiro de Aécio' na seguinte ligação::

http://herdeirodeaecio.blogspot.com/2019/09/estarao-os-augures-fadados-ser.html

A informação que temos ou não…

Opinião

Os governos deste país não podem continuar a alhear-se das condições em que operam os média em matéria de jornalismo…

A opinião e os burros

Ca burro1Publicadas em jornais, blogues ou redes sociais, as crónicas de opinião – tenham a forma de curtos artigos ou de breves notas – são sempre escritas de forma rápida e circunstancial, ao sabor dos acontecimentos ou dos acasos, bem como das impressões por estes causadas nos seus autores. Isto confere-lhes inevitavelmente uma forte margem de transitoriedade, incerteza e imprecisão. São também muitas vezes experimentais, sem tempo para amadurecimento e revisão. No entanto, quem as escreve sabe como são acusadas de tudo: de parcialidade, incompletude ou ligeireza, sendo ainda habitual que os seus autores vejam o que exprimem interpretado muitas vezes de forma abusiva, confundindo-se a parte com o todo e tomando-se como definitivo aquilo que jamais o pretendeu ser.

Os primeiros textos que publiquei impressos foram culpados disso tudo. Saídos no final de 1970, num jornal regional, tinham a forma de uma pequena caixa quinzenal contendo um parágrafo de dez linhas, onde tinha o dever de oferecer informação e opinião, debaixo do elucidativo título «Conta-Gotas». A prosa tinha ainda a particularidade de ser sempre «visada pela comissão de censura» antes de seguir para o prelo, e por vezes sujeita mesmo a cortes. Como se percebe, exercício de «equilibrismo» bem pesado para um teenager, só justificado pela vontade de escrever para um público. Um exercício necessariamente «parcial», «incompleto» e «ligeiro». Afinal, este é um género que apenas pretende dinamizar alguma consciência crítica, lançar uma ideia, sendo por isso obrigatoriamente fugaz e incerto.
 

É assim parte do que escrevo de forma pública há quase cinquenta anos. Sempre no confronto com essa espécie de crítica fácil, geralmente injusta, certas vezes desonesta. A diferença atual é que agora qualquer pessoa a pode efetuar com maior eco. Algumas fazem-no por ignorância ou pura maledicência. A maioria, todavia, fá-lo apenas por ingenuidade, pois é incapaz de diferenciar os géneros da escrita, as circunstâncias da sua produção e os lugares ou formatos em que são divulgados. Como milhões de pessoas na mesma situação, convivo sem problema com esta espécie de «crítica».

Admito, porém, que certas vezes me apetece ripostar como aquele boneco nascido e criado em Coimbra, com a forma de cão-que-fala, que se dá pelo nome de Bruno Aleixo e muitas vezes reage com a imprecação «mas ca’burro!».

 
RUI BEBIANO

Ver o original em 'A Terceira Noite' - clicar aqui

A opinião e os burros

Publicadas em jornais, blogues ou redes sociais, as crónicas de opinião – tenham a forma de curtos artigos ou de breves notas – são sempre escritas de forma rápida e circunstancial, ao sabor dos acontecimentos ou dos acasos, bem como das impressões por estes causadas nos seus autores. Isto confere-lhes inevitavelmente uma forte margem de transitoriedade, incerteza e imprecisão. São também muitas vezes experimentais, sem tempo para amadurecimento e revisão. No entanto, quem as escreve sabe como são acusadas de tudo: de parcialidade, incompletude ou ligeireza, sendo ainda habitual que os seus autores vejam o que exprimem interpretado muitas vezes de forma abusiva, confundindo-se a parte com o todo e tomando-se como definitivo aquilo que jamais o pretendeu ser.

Os primeiros textos que publiquei impressos foram culpados disso tudo. Saídos no final de 1970, num jornal regional, tinham a forma de uma pequena caixa quinzenal contendo um parágrafo de dez linhas, onde tinha o dever de oferecer informação e opinião, debaixo do elucidativo título «Conta-Gotas». A prosa tinha ainda a particularidade de ser sempre «visada pela comissão de censura» antes de seguir para o prelo, e por vezes sujeita mesmo a cortes. Como se percebe, exercício de «equilibrismo» bem pesado para um teenager, só justificado pela vontade de escrever para um público. Um exercício necessariamente «parcial», «incompleto» e «ligeiro». Afinal, este é um género que apenas pretende dinamizar alguma consciência crítica, lançar uma ideia, sendo por isso obrigatoriamente fugaz e incerto.

É assim parte do que escrevo de forma pública há quase cinquenta anos. Sempre no confronto com essa espécie de crítica fácil, geralmente injusta, certas vezes desonesta. A diferença atual é que agora qualquer pessoa a pode efetuar com maior eco. Algumas fazem-no por ignorância ou pura maledicência. A maioria, todavia, fá-lo apenas por ingenuidade, pois é incapaz de diferenciar os géneros da escrita, as circunstâncias da sua produção e os lugares ou formatos em que são divulgados. Como milhões de pessoas na mesma situação, convivo sem problema com esta espécie de «crítica». Admito, porém, que certas vezes me apetece ripostar como aquele boneco nascido e criado em Coimbra, com a forma de cão-que-fala, que se dá pelo nome de Bruno Aleixo e muitas vezes reage com a imprecação «mas ca’burro!».

 RUI BEBIANO
 

Ver original em 'A Terceira Noite' na seguinte ligação:

http://www.aterceiranoite.org/2019/08/30/a-opiniao-e-os-burros/

Estamos nisto

Crónica de uma ligeireza na 1ª páginaestampada
Dada a sofisticação do assunto (ai tanta!), três notas prévias para nos entendermos; a primeira é que eu nunca uso por opção própria o termo «geringonça»; a segundo é que não faz sentido desacreditar um westernpor nele não entrarem romanos; e a terceira é que uma coisa é o legitimo direito de cada um ter os seus palpites, previsões ou pressentimentos e outra é fazer deduções a partir de factos estranhos à coisa.

Dito isto, importa constatar que o «i» no seu destaque não se limitou a proclamar «Geringonça: a crónica de uma morte anunciada», antes logo acrescentou, em nexo de causalidade, que «Costa não quer um governo com ministros do PCP e do BE».

Ou seja, quem tivesse chegado hoje a Portugal vindo de Shangri-La e tivesse lido a capa do «i» teria ficado a pensar que actualmente aqui temos um governo de coligação PS+PCP+BE e que ministros do PCP e do BE também se sentam semanalmente numa mesa de uma sala na Gomes Teixeira. Quando toda a gente sabe que por cá não existe nem uma coisa nem outra.

Aliás se existisse, não se chamaria, como outros (que não eu) chamam, de «geringonça». E pronto, creio que isto até já é molho a mais para um tão flagrante ligeireza.
 

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

A comunicação, única aposta da cimeira do G-7 em Biarritz

O G7, que era originalmente um lugar de conversas entre dirigentes ocidentais para melhor compreender os pontos de vista respectivos, tornou-se uma questão de comunicação. Longe de expor à porta fechada os fundamentos do seu pensamento, os convidados tornaram-se actores de um show mediático onde cada um tenta fazer boa figura. O pior terá sido, desta vez, a surpresa inventada por Emmanuel Macron para os jornalistas e contra o seu convidado norte-americano.

Um clube, não uma organização decisória

Aquando da sua criação em 1976, por Valéry Giscard d’Estaing e Helmut Schmidt, o G-6 era um grupo de discussões informal, o Presidente francês e o Chanceler alemão pensavam trocar ideias com os seus homólogos para acertar as suas ideias no contexto da crise do dólar que resultou do fim da guerra contra o Vietname. Não se tratava de tomar decisões, mas de reflectir sobre o futuro da economia ocidental. Os convidados eram os mesmos que se reuniam com o Tesouro norte-americano, pela mesma razão, um pouco antes. No entanto, a reunião não juntava desta vez os Ministros das Finanças, mas os chefes de Estado ou de Governo e a Itália, que agora fora incorporada.

Com a dissolução da União Soviética e o fim da divisão do mundo em dois campos, o G-7 passou a abordar questões políticas, depois associou a Rússia às suas discussões informais. Mas assim que Moscovo se levantou, opôs-se à OTAN na Síria e recusou o Golpe de Estado na Ucrânia, a confiança foi quebrada e os Ocidentais decidiram reunir-se de novo só entre si, episódio que encerrou, também, qualquer veleidade de fazer participar a China.

Os últimos G-7 produziram inúmeras Declarações e Comunicados. Essa "literatura" não registou nenhuma decisão, antes elaborou um discurso comum, tanto mais prolixo quanto a política interna dos EUA era dominada pelo «politicamente correcto». Como sempre, quando não se tem consciência de ter contrapoderes, a separação entre a realidade e este discurso não parou de aumentar.

Deu-se em 2005 um desvio, no Reino Unido, onde o Primeiro-ministro britânico, Tony Blair, chamou a atenção de todos assegurando que o G8, que ele presidia, ia anular a dívida dos 18 países mais pobres de África. Na realidade, o anúncio era fútil : o G8 jamais tomou essa decisão. Posteriormente, 14 países aceitaram as condições leoninas da Grã-Bretanha, depois morderam os dedos. Outros 4 recusaram esta armadilha. Essa encenação deixou a impressão falaciosa de que o G7/8 era uma espécie de governo mundial.

É, na realidade, essencial que não tome qualquer decisão: isso seria constituir um cartel no seio da Assembleia Geral da ONU e violar o princípio de igualdade entre todos os Estados qualquer que seja o seu poderio. Existe já um privilégio, reconhecido aos principais vencedores da Segunda Guerra Mundial, que é o de ter assento permanente no Conselho de Segurança e, aí, ter poder de veto. Privilégio que decorre do realismo: nenhuma maioria de Estado pode impor a sua vontade a tão grandes potências.

A cimeira de 2019

Seja como for, a importância desta reunião mede-se pelo poderio somado dos seus convidados. Convêm, em primeiro lugar, observar que o G-7 junta 9 personalidades: para ele são convidados o Presidente da Comissão Europeia e o do Conselho Europeu. Acontece que por razões de saúde, Jean-Claude Juncker falhará a chamada. Em seguida, notemos que, desde 2015, o presidente rotativo do G7 convidou personalidades estrangeiras. Emmanuel Macron escolheu 8, dos quais 3 já o haviam sido no ano passado: dois dos BRICS (a Índia e a África do Sul), a Austrália (que para aí fora convidada, tal como Canadá, enquanto dominion Britânico, e deverá aderir nos próximos anos à OTAN e aí constituir uma força anti-Chinesa com o Japão) e «clientes« (o Egipto, o Burkina-Faso, o Chile, o Ruanda e o Senegal). Estes Estados irão participar em certas reuniões, mas não em todas.

O Presidente Macron lembrou a possibilidade de reintroduzir a Rússia neste círculo fechado... em 2020 (evocado pelo Presidente Trump, que presidirá então a este clube). Isso suporia primeiro que a Síria seja libertada e que a adesão da Crimeia à Federação Russa seja reconhecida. Além disso, para que a participação de Moscovo tenha sentido, seria preciso que a Rússia se ponha a falar como os Ocidentais. Serguei Lavrov respondeu já polidamente que iria examinar esta proposta (absurda) quando ela fosse apresentada.

Após o fiasco do G-7 de 2018, onde não se conseguiu elaborar um discurso comum, Emmanuel Macron optou por um discurso mais amplo e mais generalista que cai sempre bem e não ameaça ninguém, um assunto sociológico e acima de tudo não social: a «luta contra às desigualdades entre as mulheres e os homens». Cautelosamente, preveniu que desta vez não haveria comunicado final.

No plano económico, as consequências da guerra alfandegária desencadeada pelos Estados Unidos contra a China são a principal fonte de preocupação dos membros do G7. Não tendo a mínima intenção de ser de novo colocado na situação de acusado, como o foi no ano passado, o Presidente Trump escolheu o ataque denunciando, assim, os impostos franceses sobre o Google/Apple/Facebook/Amazon. Este é, com efeito, o ponto fraco do seu parceiro. A França optou por atacar os GAFA no plano fiscal, mas não reage às duas questões mais importantes: a sua posição monopolista e as suas violações de liberdades individuais. O que deverá ser resolvido, à margem da reunião de Biarritz, pelos Ministros das Finanças francês e norte-americano.

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O adolescente Emmanuel Macron e a sua professora de teatro, Brigitte Trogneuxa, sua futura esposa.

Uma peça de teatro de Emmanuel Macron

Emmanuel Macron e a sua antiga professora de teatro, sua esposa Brigitte Trogneux-Macron, tinham previsto uma encenação particular para esta cimeira (cúpula-br). Ninguém pode negar a qualidade cénica e as reviravoltas.

O Presidente fez preceder a cimeira por uma breve alocução televisiva [1] no decurso do qual anunciou diversas iniciativas espectaculares e comprometeu-se a apresentar um balanço, ao princípio da noite, em 26 de Agosto.

Nos dias que precederam esta cimeira, os média (mídia-br) europeus difundiram, sem descanso, uma campanha de intoxicação segundo a qual toda a floresta amazónica estaria em chamas. A sua destruição privaria a Terra de oxigénio e aceleraria o aquecimento global. Ora, não é a floresta que arde, mas as zonas desmatadas submetidas à técnica de limpeza por queima; e a Amazónia fornece apenas uma pequenina porção de oxigénio da atmosfera. Na realidade, certos membros do G7 esperam contornar a OTCA (Organização do Tratado de Cooperação Amazónica) a fim de poder explorar as fabulosas riquezas minerais, farmacêuticas e madeireiras desta região.

Emmanuel Macron autorizou já a exploração de várias minas auríferas na Guiana Francesa por um consórcio franco-canadiano, em total desprezo pela floresta e pelos seus habitantes. Com inteira razão, o Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, denunciou a natureza colonial do empreendimento do G7. As mentiras de Emmanuel Macron terão pesadas consequências.

Outro assunto e não dos menores : o Presidente sugeriu, ele próprio, que tinha recebido um «mandato» do G7 para negociar com o Irão. É evidentemente impossível não só porque o G7 não atribui mandatos, mas também porque jamais os Estados Unidos delegam esse poder a um país terceiro. Depois da imprensa internacional ter retomado de olhos fechados este absurdo e o Presidente Trump ter tido um ataque de nervos, Emmanuel Macron reconheceu o erro. Assim, ele convidou o Ministro dos Negócios Estrangeiros (Relações Exteriores-br) iraniano, Mohammad Javad Zarif, o qual chegou de imediato a Biarritz e com quem ele se encontrou. Era impossível fazer algo mais espetacular, mas, claro, às custas de um insulto público ao seu convidado, Donald Trump, e de um ambiente embaraçoso para os seus outros convidados.

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Os conselheiros do Eliseu garantem que o Presidente norte-americano tinha dado o seu acordo. Mas acordo a quê ? Mohammad Javad Zarif não foi autorizado a entrar no hotel do Palácio onde se realizava a cimeira. Ele foi acolhido durante três horas pelo seu homólogo Jean-Yves Le Drian e o Ministro das Finanças, Bruno Lemaire, na câmara municipal (prefeitura-br) de Biarritz. Emmanuel Macron abandonou os seus convidados para se juntar aos seus dois comparsas durante uma meia hora. A reunião deu-se na presença dos conselheiros britânico e alemão. Esta visita imprevista não fará evoluir o conflito Irano-EUA, mas virará os Estados Unidos, ao mesmo tempo, contra o Irão e contra a França. Este cenário é o primeiro grave erro internacional de um Presidente cuja inclinação sociopata é conhecida muito antes da sua eleição. Por sociopatia entendemos uma tendência geral à indiferença em relação a normas sociais e a direitos alheios associado a um comportamento impulsivo.

Conclusão

O Presidente Donald Trump considera o «discurso politicamente correcto » como sintoma do controlo da oligarquia mundialista sobre o seu país. Segundo o Washington Post, não teria o menor desejo de ir perder o seu tempo a Biarritz. Obviamente, a chegada à cidade de um hóspede que ele não desejava ver transformou o seu aborrecimento em raiva. Os conselheiros do Eliseu garantem que os seus encontros cara-a-cara com o seu homólogo francês decorreram agradavelmente, mas foram péssimos segundo os americanos — e isso desde o pequeno-almoço—. Segundo a sua Conselheira, Kelly Ann Shaw, o Presidente desejaria pois que a próxima reunião nos Estados Unidos, em 2020, fixe novos objectivos.

A Declaração final da cimeira de Biarritz [2] não passa de um curto enunciado de pontos de acordo entre os seus participantes. Todo o mundo constatará que, apesar da auto-satisfação do Presidente Macron e a veneração que lhe concede uma certa imprensa, ela teria podido ser escrita muito tempo antes : nenhum assunto avançou. Ninguém ganhou o braço de ferro a ninguém.

 
[1] « Adresse d’Emmanuel Macron avant le G7 », par Emmanuel Macron, Réseau Voltaire, 24 août 2019.

[2] « Déclaration des chefs d’État et de gouvernement du G7 », Réseau Voltaire, 26 août 2019.



Ver original na 'Rede Voltaire'



Hong Kong, a história que não irá ler

Pino Arlacchi    28.Ago.19  

Uma parte da opinião pública já aprendeu a ser céptica em relação aos fluxos de “notícias” transmitidas pelos media dominantes. Mas trata-se infelizmente de uma pequena parte. Tudo o que possa ser feito para contrapor factos concretos às campanhas mediáticas é necessário, sejam elas sobre ”armas de destruição massiva” no Iraque sejam sobre os “combatentes da liberdade” em Hong Kong.


 

Nunca referir a versão da outra parte no terreno e limitar-se a repetir a mesma história, sem o mínimo aprofundamento, tornaram-se as regras seguidas pelos media dominantes para abordar os factos internacionais. Quer se trate de China, Venezuela, guerras, massacres ou catástrofes, de cada vez que se tem de informar recorre-se a uma fórmula pré-confeccionada. Que coincide regularmente com os interesses dos proprietários dos media, dos governos ocidentais e dos 0,1% que tentam governar as coisas do mundo.

Para quebrar esta corrupção mediática, que retira sentido ao discurso democrático e nos coloca nas mãos de uma plutocracia cada vez mais restrita, precisamos de mergulhar no caos das fontes alternativas de informação ou fundar jornais independentes. Ou ser-se prémio Nobel como Paul Krugman. Que pode permitir-se, nas colunas do New York Times, elencar as formas através das quais os 0,1% distorcem a seu favor as prioridades públicas. E produzem, acrescentamos, a comunicação hiper-simplificada, falsa e omissa da qual somos vítimas.

Eis a lista de Krugman:

1) Corrupção hard: suborno em dinheiro de políticos e jornalistas.

2) corrupção soft. Isto é as “portas giratórias” entre governo e negócios, subsídios para périplos de conferências, integração em clubes exclusivos.

3) Contribuições eleitorais.

4) Definição da agenda política através da propriedade dos media e dos think tanks, de modo a fazer prevalecer prioridades que frequentemente são contrárias à razoabilidade e ao bem comum (P. Krugman, NYT 22.6.2019). Quando os 0,1% decidem que um país deve ser atacado - seja porque não tem armas nucleares e é rico em recursos naturais, ou porque está em condições de competir no plano económico e geopolítico, ou porque assume posições hostis à finança neoliberal, ou por um combinação destas razões - um ataque coordenado ao seu governo é desencadeado. As outras prioridades da política externa desaparecem e avança a cruzada mediática. Como vivemos uma época de aversão generalizada à guerra, o pretexto preferido para agredir um país tornou-se o “humanitário” e a “violação dos direitos humanos”.

A corrupção mediática tomou recentemente a China como alvo, através da desinformação sobre os protestos ocorridos em Hong Kong nestas semanas, apresentados como manifestações em defesa das liberdades políticas dos cidadãos face a um tratado de extradição que permitiria à China retirar dissidentes de Hong Kong para os aprisionar na mãe pátria.

Nenhuma palavra é desperdiçada para lembrar:

A) que Hong Kong faz parte da China, e é uma região com um estatuto especial que voltou a fazer parte da China desde 1997, depois de ter sido por mais de um século uma colónia britânica em resultado das guerras vitoriosas da Grã Bretanha no século XIX, em nome da liberdade de vender ópio aos milhões de toxicodependentes chineses.

B) que a China respeitou as instituições democráticas introduzidas em Hong Kong pelos britânicos no último minuto antes da sua partida.

C) que a maioria dos eleitores da cidade é pró-China e que os partidos anti-chineses continuam a perder apoio.

D) que o tratado diz respeito a crimes comuns com penas superiores a 7 anos de prisão (assassínios, roubos, violações, etc.) punidos em ambos os sistemas. E que exclui qualquer possibilidade de utilização política.

E) que a China lamenta o facto de Hong Kong ter assinado apenas 20 tratados de extradição com países estrangeiros e se ter assim tornado num receptáculo da delinquência chinesa e internacional de todos os tipos: de assassinos de alto perfil a contrabandistas, de políticos corruptos a mega-vigaristas financeiros que residem no local preservando os resultados dos seus saques (Hong Kong é ainda um dos maiores paraísos fiscais). A propósito deste último ponto, foi em Hong Kong que, como vice-presidente da Comissão Anti-Máfia, quem escreve estas linhas encontrou em 1995 traços de algum dinheiro depositado em nome de Bettino Craxi.

F) que o verdadeiro problema subjacente ao desconforto dos habitantes de Hong Kong é o seu declínio como centro financeiro em comparação com o crescimento impetuoso da mãe pátria e da área vizinha de Shenzhen desde de 1997. Crescimento devido ao desenvolvimento de uma vasta indústria manufactureira que está nos antípodas da finança semi-criminosa de Hong Kong. Largamente superada, entre outras coisas, na sua componente legal, pelas bolsas de valores de Xangai e Guangzhou.

Uma parte dos habitantes de Hong Kong, portanto, cultiva o sonho de um retorno ao passado que preserve um estatuto de nicho financeiro que perdeu relevância para a China. E isso não está de acordo com as políticas de Pequim viradas para favorecer a economia real em detrimento da finança privada. Mas não é uma história fácil de contar. Os 0,1% preferem fazer passar uma história mais expedita, com o tirano Xi Jinping de um lado e os heróis da democracia liberal do outro.

Fonte: http://www.marx21.it/index.php/internazionale/cina/29942-hong-kong-la-storia-che-non-leggerete[1]

Divulga o endereço[2] deste texto e o de odiario.info[3] entre os teus amigos e conhecidos

Ver o original em ODiario.info (clique aqui)

Novas da Rede Voltaire

 
 
Thierry Meyssan*
 
Depois da colecta de fundos em favor da Rede Voltaire ter sido desviada ilicitamente por um banco, e de muitos outros bancos terem fechado ou recusado abrir uma conta para uma colecta, Thierry Meyssan faz o balanço sobre a situação legal e financeira da associação.
 
Há um mês, nós solicitamos a vossa ajuda a fim de pagar uma dívida que punha em risco a continuação do nosso trabalho. A quantia devida foi reunida em poucos dias, mas o "site" Internet que efectuava esta colecta não no-la encaminhou e de forma ilegal devolveu-a aos doadores.
 
Entretanto, recolhemos depois 26.000 euros numa conta aberta por Alain Benajam e na conta relacionada do PayPal.
 
O banco que gere (gerencia-br) essa conta, enervou-se com o ruído em torno da nossa conta-colecta e bloqueou qualquer transação, já que a lei lhe permite isso. Por fim, recuperamos este dinheiro e essa conta foi encerrada.
 
Negociamos com nosso credor. Transferimos-lhe o dinheiro já recolhido e obtivemos um adiamento para o restante, sabendo que os nossos leitores estão prontos para contribuir e que o problema não é de tesouraria, mas de transferência.
 
Estes repetidos problemas confirmam-nos a existência de uma lista negra internacional que nos impede por motivos políticos de beneficiar de serviços bancários.
 
 
Na linha de Voltaire, nunca dissociamos a análise política da defesa das liberdades fundamentais. É muito importante para nós fazer triunfar o Direito. Em 2001-03, fomos processados por uma empresa multinacional que nos exigia 1 milhão de euros, em danos e juros, por ter utilizado o nome da sua marca e o seu logotipo durante uma campanha de boicote. Com efeito, realmente, nós tínhamos denunciado o encerramento de uma fábrica (usina-br) rentável e excedentária porque os acionistas da firma desejavam investir o seu valor numa operação ainda mais rendosa. Do nosso ponto de vista, o direito de propriedade, como todos os direitos, tem limites e os proprietários não podiam colocar no desemprego centenas de trabalhadores, não por necessidade económica, mas unicamente por engodo financeiro. Este caso aparecia como a Panela de ferro contra a Panela de barro. Nós defendemos, então, na Justiça que o direito de expressão é mais importante que o direito das marcas, e que tínhamos fundamento em identificar nominalmente, e visualmente, essa multinacional pelo seu logotipo no contexto de um debate democrático. 
 
O Tribunal de Apelo de Paris deu-nos razão [1], e também ganhamos parcialmente no plano político uma vez que foi aprovada em França uma lei enquadrando este tipo de despedimento.
 
De maneira a que os nossos problemas não se continuem a repetir, estamos a colocar em acção um sistema perene de colecta de fundos. Isso exigirá provavelmente mais de um mês e não poderá ser feito no lapso de tempo que nos é dispensado para reembolsar a nossa dívida.
 
Independentemente dessas démarches, desejamos apresentar queixa contra as duas empresas que gerem o sítio Internet de captação de fundos. A sua infracção não diz respeito unicamente à associação Réseau Voltaire, mas ao conjunto dos doadores, ou seja vós próprios : vocês remeteram dinheiro a este "site" Internet sob o compromisso de que ele nos seria transmitido.
 
Em vez disso, ele enviou-o de volta para vocês sob um falso pretexto. Nós consideramos que isso é um «abuso de confiança».
 
Um doador não foi reembolsado porque o cartão bancário que usou está agora fora de prazo. Precisou de reclamar esse dinheiro para o reaver. Um outro foi reembolsado sob a forma de crédito, mas não pode sacar dinheiro vivo, etc.
 
Para cobrir o resto da soma da nossa dívida, abrimos uma nova conta no PayPal, desta vez endossada à conta bancária do nosso advogado.
 
Pedimos-vos para aí depositar, com toda a urgência, a vossa contribuição a fim de que possamos continuar a manter vivo este sítio Internet e a apresentar-vos a nossa análise das relações internacionais.
 
Antecipadamente o nosso obrigado.
 
 
 
* Intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: Sous nos yeux. Du 11-Septembre à Donald Trump. Outra obras: L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación(Monte Ávila Editores, 2008).
 
Notas:
[1] Ver nomeadamente : «Je Boycottte Danone», Bernard Edelman, Recueil Dalloz (2001); «Affaire jeboycottedanone.com, 30 avril 2003», Francine Wagner, Encyclopedia Universalis (2004); L’affaire LU : autopsie d’une crise d’un nouveau type, Catherine Malaval et Robert Zareder, Observatoire international des crises; Dehors les p’tits Lus, Monique Laborde et Anne Gintzburger, Flammarion (2005); Copyright and Free Speech: Comparative and International Analyses, Jonathan Griffiths and Uma Suthersanen, Oxford University Press (2005); The General Exception Clauses of the TRIPS Agreement: Promoting Sustainable Development (Cambridge Intellectual Property and Information Law), Edson Beas Rodrigues, Cambridge University Press (2012); American Exceptionalism, the French Exception, and Digital Media Law, Lyombe Eko, Lexington (2013); Trademarks and Social Media: Towards Algorithmic Justice, Danny Friedmann, Edward Elgar Pub (2015).

Haja quem avise o homem!

Este agosto não tem sido grande coisa em termos de praia - ventos fortes, água do mar muito fria - o que poderia bastar para que Manuel Carvalho, diretor do «Público», se privasse de assinar sucessivos editoriais indiciadores de quem anda a apanhar demasiado sol na moleirinha.

 

É certo que, sendo careca, poderia imitar-me no uso do boné ou do chapéu, que evitaria um tal sobreaquecimento dos circuitos neuronais.  Manifestamente não deve ser esse o seu caso pelo que se vai detetando. Senão vejamos: num dia consegue encontrar razões para entusiásticos encómios relativamente ao finado merceeiro do Pingo Doce sobre quem não teve pejo de considerar «visionário, corajoso e arrojado». Nem mais!

 

Nesta terça-feira veio resgatar Passos Coelho como digno de admiração pela precocidade com que soube ver o tal Diabo, que Carvalho acredita mesmo vir aí, sobretudo por fiar-se num texto desse notável Mestre das Finanças, que se chama Marcelo Rebelo de Sousa.

 

A continuar assim e, se como a meteorologia prevê, as temperaturas voltarem a subir nos próximos dias, Carvalho ficará em riscos de sucumbir às alucinações tão frequentes nas vítimas de insolações. Haja quem avise o homem!
 
 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/08/haja-quem-avise-o-homem.html

Imodéstia à parte

Uma lição que poucos se lembrarão de tirar
Sim, há uma lição (outros se encarregarão certamente de outras) que eu quero tirar: é que em toda esta «crise» ficou patente na opinião pública e na publicada uma incomensurável falta de informação e conhecimento sobre a actividade e combates do movimento sindical unitário.
Basta dizer que, mesmo entre pessoas de esquerda, se devem contar pelos dedos as mãos e dos pés (isto é um exagero, claro) os que sabem que a FECTRANS andou 20 anos a lutar, ano após ano, por um Contrato Colectivo de Trabalho que só em 2018 viria a conseguir.
Não estou a culpar pessoas, estou sim a salientar a indiferença com que a generalidade dos órgãos de comunicação social manifestam face à vida e acção do movimento sindical e até, mais largamente às questões do trabalho.
A este respeito, remato apenas com o exemplo devastador de que, praticamente em quase todos os órgãos de comunicação, as questões de trabalho são incluídas ou na secção de «Economia» ou de «Sociedade».Dos principais, nenhum que eu saiba tem, no seu "deitado", uma secção honrosamente chamada «Trabalho».
 

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

Os jornalistas e os camionistas em Portugal

– Do outro lado do mundo

por João Ramos de Almeida

Posto REPA. Se há coisa que a greve dos camionistas revela é que os jornalistas, mais uma vez , não parecem entender o que está em causa.

A greve dos motoristas tem todos os contornos para ser considerada estranha:

1) um grupo profissional que esteve "parado" durante 20 anos, de repente "acorda" e é capaz de fazer greves por tempo indeterminado (como se não precisassem dos salários) e durante um período pré-eleitoral, em que está em julgamento um governo apoiado à esquerda;
2) uma greve que surge mesmo após outra greve por tempo indeterminado – a dos enfermeiros dos blocos operatórios – que afectou apenas hospitais públicos (nos privados não havia blocos operatórios?) e que foi financiada por um fundo de greve pouco transparente, em que, nalguns dias, entravam a cada hora centenas de euros ;
3) um sindicato dos motoristas que nasceu com um dirigente que é advogado, especialista em offshores e até há bem pouco tempo desconhecido do movimento sindical; e
4) em todas as lutas, numa e noutra, com um apoio maciço das suas centenas de profissionais, capaz de ter efeitos generalizados sobretudo sobre a população e capaz de desestabilizar um país, tudo cheirando a demasiada organização, com traços semelhantes a outras manobras que já se viram noutros países, como no Chile em 1973, visando derrubar o governo legítimo do socialista Salvador Allende.

Por isso, primeiro, sente-se o seu embaraço. Em geral, os jornalistas andaram ao colo com os novos "sindicatos independentes" – que eram genuínos e renovados –, desvalorizando o velho papel sindical, sobretudo dos sindicatos "afectos" (não são capazes de usar a palavra filiados ) a uma central sindical, a CGTP. Mas agora parecem assustar-se. Hoje de manhã, o pivot da SIC designou-os como os sindicatos "ditos independentes" e em crónicas várias quase que se pede o regresso dos "civilizados" sindicatos "afectos" ao PCP. E não foram precisos muitos meses.

Antes, sentia-se que estavam a favor das lutas desses sindicatos independentes – talvez porque atingiam o Governo socialista. Antes da greve, um outro pivot da SIC, noutra emissão, quase trucidou em entrevista o representante da ANTRAM. Agora, aceitam a requisição civil que, claramente, dá força a um dos lados do conflito e põe em causa o direito à greve, mesmo que respaldado num parecer do conselho consultivo da Procuradoria-Geral da República, favorável à ideia da requisição preventiva, coisa que não existe no ordenamento jurídico .

No programa Praça Públic a desta manhã, na SIC, os dois jornalistas em estúdio questionavam-se sobre a quem mais favorecia esta luta. E dizia um deles: "Ao Governo: já não se fala de mais nada senão na greve. Nem se fala dos hospitais, nem dos fogos...". Veja-se bem: eles a queixarem-se de que os jornalistas não se preocupam com mais nada senão com a luta dos motoristas, porque aquilo com que se deviam preocupar era apenas... com a ruptura dos hospitais e com os fogos!

Segundo , os jornalistas não conseguem entender uma luta por jornadas de trabalho de 8 horas ou uma greve a trabalho extraordinário porque, eles próprios jornalistas, acham que isso faz parte de uma reivindicação do tempo da Revolução Industrial. Todos recebem subsídios de isenção de horário e aceitam que o trabalho seja "o que for preciso fazer". Mesmo que isso corresponda ao trabalho de duas pessoas!

Nas entrevistas aos membros do Governo, raramente ou nunca os jornalistas lhes perguntam como é possível que a Autoridade das Condições de Trabalho (ACT) não tenha – durante 20 anos – fiscalizado e posto na ordem um sector com jornadas de trabalho como as dos motoristas! A jornada de trabalho é tão adulterada que a própria requisição civil fortalece a greve em curso, ao impor um horário de 7 horas – que é o dos funcionários públicos –, que fura os próprios "serviços mínimos", estimados – pelo Governo – com base em jornadas de trabalho mais alargadas, porque verificadas no período homólogo!! Numa entrevista recente no programa 360, Ana Lourenço fez essa pergunta ao ministro Vieira da Silva e sentiu-se o seu embaraço.

Terceiro, em geral os jornalistas não entendem que um sindicato use a sua vantagem negocial de fechar a torneira do único combustível que move esta sociedade, ou de conter as exportações ou de parar o fluxo turístico (como foi o caso nos anos 90 dos pilotos da TAP cuja greve levou um ministro socialista a criticá-la em conferência de imprensa...). Na verdade, os trabalhadores são isso mesmo: o sangue de um sistema que o pode fazer parar quando tomam consciência disso.

Conviria que, na luta, se prejudicasse antes o lado patronal – não a população – e, neste caso concreto, não servir para justificar uma subida artificial dos preços dos combustíveis. Mas se essa é a sua força, por que não parar por causa de um acordo a três anos? " Não, isso é incompreensível ".

Quarto, os jornalistas não entendem o papel do Estado numa sociedade. Acham que se trata de "um assunto entre privados". No entanto, desde 1976 que assistem – sem protestar – a um PS que adoptou como seus, progressiva e inexoravelmente, os mecanismos legais laborais que o FMI e a direita sustentam como eficazes, mas que degradaram as condições de vida desse sangue do sistema, atacaram o papel dos sindicatos, sem ter trazido ganhos relevantes na competitividade externa.

O patronato e o Governo queixam-se de que os sindicatos estão a forçar uma negociação com "uma espada sobre a cabeça". Mas nem o patronato nem o Governo nem o próprio ministro Vieira da Silva nem o ministro dos Negócios Estrangeiros (que surge agora a querer alargar a requisição civil a todo o país) se lembraram disso quando, desde 2006, o fizeram para o lado dos trabalhadores, ao terem aprofundado as condições impostas pelo Código de Trabalho de 2003, desestabilizando ainda mais a negociação colectiva, hoje ainda mal refeita desse trambolhão tão bem aproveitado pela troica e o Governo PSD/CDS (2011/2015).

Os dois jornalistas à conversa no estúdio da SIC apenas julgavam: "Para haver a paz, tem de haver um cessar-fogo" ; "E que achas de dizerem querer parar por três meses?", questionava o pivot, "Eu não posso!" ; "o Governo não pode interferir e obrigar os privados a sentar-se", mas ao mesmo tempo defendia-se: "É preciso encontrar outros protagonistas que estes já não se entendem ". Face aos telefonemas dos espectadores que falavam dos imans na caixa de velocidade para não registar a duração da jornada de trabalho (!) e se questionavam por que não actuava a ACT, os jornalistas continuaram a falar do mesmo, sem ater-se ao problema dos horários de trabalho: "Também há pequenas e médias empresas no sector que não podem pagar..." !

Veja-se o programa e questione-se sobre em que mundo vivem os jornalistas. E pense-se por que razão, de repente, o mundo lhes parece ter caído sobre a cabeça.

14/Agosto/2019

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

 

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/portugal/camionistas_14ago19.html

Tudo na economia política é público


Como se chegou a esta situação? O resumo é simples: privatizou-se uma empresa estratégica para o país, dando a uns poucos os lucros que deveriam ser de todos; externalizou-se parte da operação recorrendo-se ao outsourcing para as atividades que anteriormente eram desempenhadas pelos trabalhadores do quadro de pessoal, esperando que a selva do mercado trouxesse a desregulação laboral que ansiavam — o que aconteceu com os motoristas de matérias perigosas; os motoristas passaram de trabalhadores a empreendedores, incentivados a criarem a sua própria empresa — ou contratados por outros nessa situação — perdendo direitos pelo caminho. Ao longo deste processo os lucros aumentaram, a riqueza ficou ainda mais concentrada nos acionistas, e os salários caíram. É motivo para indignação? Claro que é. Esta introdução explica o contexto que nos trouxe às lutas de hoje. Para quem achava que esta história era apenas entre interesses privados, fica claro como o poder público está na sua origem e dela nunca esteve desligado.

Pedro Filipe Soares, A greve, Público, 16 de Agosto de 2019. Comparem este artigo, denunciando também os enviesamentos anti-laborais do governo, com as sonsices mais ou menos liberais, com separação entre público e privado e tudo, de Rui Tavares na última página. No meio de um pensamento que universaliza o que julga ser a situação social e a atitude política de um leitor típico do Público, salva-se o alerta para o precedente grave aberto pela acção deste governo. No entanto, há ali demasiados estados de alma genéricos, esvaziados de economia política, projectados no passado e no futuro. É nisto que dá um certo tipo de idealismo. Entretanto, acho justo que o Presidente do Grupo Parlamentar do BE escreva à sexta-feira neste jornal, sendo ainda assim menos que o fundador do Livre. Lembro-me que um dia este saltou para cima de um palanque e disse basicamente: eu sou um partido. Felizmente, não tem tido muitos seguidores. Acho é mesmo injusto, mas revelador, que os comunistas não tenham o mesmo espaço neste jornal. É princípio que vigora na comunicação social: comunista não entra.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

O ouro e a lata

«Não tenho esperança de ver a foto de Manuel Louzã Henriques, o velho leão da Liberdade, a ocupar toda a capa da revista do Expresso, a mesma que dá um contrastante destaque a uma extensa entrevista com José Miguel Júdice.»

Após épocas de libertação, há, nas sociedades saídas de regimes ditatoriais ou dos sacrifícios das guerras, aquilo que se pode designar por «injustiça histórica» na descrição do passado, numa avaliação emocional que relega para segundo plano a frieza dos interesses e novas relações de poder, que recriam enviesamentos construindo um mundo virado ao contrário.

Vem isso a propósito das figuras que em cada época «oficialmente» se homenageiam ou destacam, e do significado político e cultural que esse facto tantas vezes reflecte, passando, numa mensagem de aparente normalidade, as mais extremas manifestações de intolerância e facciosismo.

Talvez o tema deste texto tenha começado por ser uma expressão da vontade de falar do desaparecimento de mais um pilar da cultura humanista do nosso país, símbolo de ouro dos valores que devem reger o mundo mais justo que todos dizem querer construir: Manuel Louzã Henriques.

A notícia do seu falecimento surgiu em alguns órgãos de comunicação social, repercutindo-se também nas redes sociais sem, no entanto, ter tido a devida relevância alargada e oficial que o próprio – com o «obstinado receio de ser vedetizado ou de construir a própria estátua», na escrita de Manuela Cruzeiro e Teresa Carreiro, coordenadoras-autoras do livro Manuel Louzã Henriques – Algures com meu(s) imão(s) – seguramente não desejaria.

Infelizmente, o apagamento de figuras de excepção meramente por razões políticas é já um hábito. Nada que não tenha acontecido com outras personalidades marcantes da sociedade portuguesa, que se diz querer culta e democrática, mas onde se diminui ou abafa alguns símbolos maiores da cultura e da resistência à ditadura, como Mário Sacramento, intelectual de primeira água, figura tutelar dos Congressos da Oposição em Aveiro (cujo cinquentenário da morte passou quase despercebido), e se estende até ao nosso único Nobel da Literatura, a quem, em tempos, a coligação PSD-CDS liderada por Rui Rio, negou dar o nome a uma rua da Cidade Invicta.

Explicação? Verdadeiro sectarismo político de quem se diz democrata, explorando velhos preconceitos anticomunistas.

É com isso que a direita dos grandes interesses se alimenta, qualquer que seja o nome mais ou menos civilizado ou social em que se acoberta para lhe roubar o apoio e o voto, manipulando a consciência da maioria da população que trabalha.

Sem fazer um juízo de valor (muito menos elogioso) sobre a qualidade dos programas, gostaria de ter visto Manuel Louzã Henriques em debates na TV, como os da «Quadratura do Círculo», do «Eixo do Mal», do «Último Apaga a Luz», do «Governo Sombra», ou em outros onde a esquerda marxista mais coerente está sempre excluída e os seus argumentos arredados do grande público.
Teria sido certamente um privilégio ouvir, nesses debates, a visão aberta e tolerante do mundo de Louzã Henriques, o Manel ou o Louzã para os (imensos) amigos e admiradores, espraiando a sua enorme cultura e a alegria de transmitir as raízes, os interesses e as expressões do povo que tanto amou, com o dom da sua verve encantatória, sempre profunda e rigorosa, que convocava quem o ouvia a pensar.

«Afinal, num mundo tão agreste, soubeste passear-te por vidros partidos, aguentar os balanços, num roteiro ideológico e humanista de que nunca te desviaste, nem mesmo quando a vida te sujeitou a provações muito cruéis. Também por isso muitos são os que admiram a tua coragem, virtudes cívicas, coerência em todas as dimensões, não só a política (de que soubeste fazer um acto de amor ao Povo), mas de tantas outras que fazem de ti um guerreiro do inconformismo, das paixões, da generosidade, dos afectos, mas também da mágoa, da crítica, do desassossego».

Estes são apenas fragmentos soltos recolhidos das palavras das autoras do livro atrás citado, que não esgotam a densa personalidade de Manuel Louzã Henriques, espírito brilhante e animador do associativismo cultural e desportivo estudantil na transição dos anos 50-60 do século passado, preso e torturado pela PIDE ainda jovem, conhecedor dos cárceres do Aljube, de Caxias e de Peniche, médico proibido de integrar os hospitais públicos pela ditadura, candidato da Oposição em 62 e activo participante em muitas outras eleições e iniciativas ligadas ao progresso político e cultural do país.

Criterioso coleccionador de instrumentos musicais, de máquinas de escrever, de costura, de fotografia, de alfaias agrícolas e instrumentos de trabalho nos campos (os últimos expostos no Museu Etnográfico Dr. Louzã Henriques), da enorme perda dessa personalidade notável, fica-nos «a imagem de um leão benévolo, irónico, bem humorado», como escreveu Fernando Martinho, do «ilustre psiquiatra apaixonado pela Antropologia e Etnografia, formador de gerações de psiquiatras, senhor de uma cultura que se diria enciclopédica, melómano e músico, piloto-aviador, jogador de râguebi, generoso e solidário, militante clandestino do seu PCP de sempre. A ninguém, como a Louzã veste tão bem a consigna que Marx também fez sua: “nada do que é humano me é estranho”».

Foi esse saber enciclopédico e telúrico que permaneceu escondido do grande público pela comunicação social dominante que, em outras áreas, também exclui gente como Sérgio Ribeiro, Avelãs Nunes, Eugénio Rosa ou o saudoso Miguel Urbano Rodrigues (com obra internacionalmente firmada sobre a complexa realidade da América Latina ou do Afeganistão), prefigurando uma verdadeira estratégia de censura política.

Manuel Loff, conhecido historiador, refere, numa entrevista à Pública, agência brasileira de notícias: «Quando falamos de regimes fascistas e regimes democráticos, falamos de processos de construção permanente da democracia e do fascismo. (…) A transição autoritária começa quando se degrada a democracia. E quando termina? Termina quando não há democracia».

Como também afirma, «nunca, em momento algum, ele (o fascismo) nasceu ou se consolidou apenas com fascistas. Todas as soluções autoritárias se sustentam mais sobre o apoio, sobre a intimidação e o medo, ou a indiferença dos demais. (…) A indiferença é tão central na sustentação de um regime quanto é o nível de apoio».
É contando com essa indiferença que a revista do Expresso de 20 de Julho de 2019, dá um contrastante destaque a uma extensa entrevista com José Miguel Júdice, outro natural de Coimbra, a propósito de um acontecimento tão importante para os portugueses como o facto de o entrevistado ir abandonar a advocacia das empresas para se dedicar à lucrativa arbitragem de grandes negócios internacionais.

É sempre de evitar a «fulanização» na avaliação das sempre complexas expressões sociais e políticas da nossa sociedade, mas há situações que pela sua exemplaridade o merecem.

Na capa da revista do Expresso, a fotografia de José Miguel Júdice a corpo inteiro serve de fundo para a bombástica citação: «o que me preocupa é o combate entre a democracia e a liberdade». E a entrevista, que ocupa dez páginas interiores, arranca com nova fotografia e o subtítulo «a sua biografia atravessa e confunde-se com a democracia».

Poder-se-ia pensar que se estava a entrevistar um velho lutador pela liberdade, como Louzã Henriques.

Mas José Miguel Júdice, que agora insulta e dá lições de moral e de democracia na TV aos que mais se sacrificaram para que ela exista, foi um assumido dirigente da extrema-direita do antigo regime, vice-presidente, enquanto estudante, da detestada Comissão Administrativa nomeada por Salazar para tomar conta da Associação Académica de Coimbra, depois da prisão e expulsão, em 1965, dos seus dirigentes eleitos, alguns dos quais tiveram de fugir para o estrangeiro.
Activista e líder da minoritária e radical ultra-direita estudantil da altura, que se exprimia através de panfletos de ódio assinados com siglas como «ANSA - Acção Nacional Socialista Académica» ou «Comité de Caça aos Comunistas», Júdice (que conforme confessa, alegando «uma estupidez total» do regime, foi «metido na função pública como informador da PIDE») foi também um destacado traidor na greve de 69, posicionando-se sempre do lado dos que prendiam e torturavam os seus colegas de Universidade.

Com o 25 de Abril e a instauração das liberdades, Júdice, depois de transitoriamente preso pelo MFA, fugiu para Madrid para integrar a direcção (remunerada) do chamado «Movimento Democrático de Libertação de Portugal (MDLP)», organização terrorista de saudosistas da ditadura, financiada pela CIA e apoiada por organizações da ultra-direita internacional (como a «Gládio»1 e a «Aginter Press»2 ), que semeou o terror no Verão Quente de 75, ameaçando, agredindo e assassinando dirigentes e militantes de esquerda, incendiando e destruindo à bomba sedes de sindicatos, do PCP e de outras organizações antifascistas.

Foi dessa forma que a vida de Júdice «atravessou e confundiu-se com a democracia», nas palavras da entrevistadora Clara Ferreira Alves, uma das raras jornalistas lusas convidadas pelo mal-afamado Clube de Bildeberg, onde se traçam as grandes estratégias do império.

Com o restabelecimento das forças da direita depois do golpe de 25 de Novembro de 1975, Júdice regressou ao país e adaptou-se bem à reconstrução do domínio das grandes famílias que tinham constituído a base económico-financeira do «Estado Novo» (Mello, Espírito Santo, Ulrich, Champalimaud), nadando como um peixe no ambiente do novo business das devoluções e privatizações, continuando a defender o mesmo espírito de casta da alta finança e a constante agressão aos direitos dos trabalhadores.

E é com enorme lata que Júdice, na entrevista, relembra esse passado, afirmando ter sido «anarquista», «libertário», «resistente» (admirador de Álvaro Cunhal «por quem tive um fascínio»), dizendo que Salazar e Caetano «eram tudo aquilo de que discordava», que «odiava Franco», tendo feito uma biografia do líder fascista Primo de Rivera (fundador da criminosa Falange da estrema-direita espanhola) que considerava «antifranquista», referindo ainda ter tido «ideias radicais de esquerda e reputação de extrema-direita», e que «achava o colonialismo péssimo», como também «que devia haver uma reforma agrária».

Enfim, um festival delirante de afirmações falsas, contraditórias e confusas, que procuram baralhar o leitor mal informado ou que acredita em gambuzinos, criando uma cortina de fumo sobre o que foi, para facilitar uma melhor aceitação do que é.

Não tenho esperança de ver a foto de Manuel Louzã Henriques, o velho leão da Liberdade, a ocupar toda a capa da revista do Expresso, nem o seu busto na cidade de Coimbra (como o do bombista cónego Melo, em Braga), que, de resto, o próprio, com a modéstia dos grandes, seria o primeiro a não apreciar.

E não se trata, naturalmente, de pôr em competição gente de esquerda e de direita com as suas qualidades e defeitos, nem de analisar cada individuo sem olhar à complexidade do «eu e da sua circunstância», no dizer de Ortega e Gasset.

Mas a descarada adulteração do real, a troca de valores e a falta de pudor com que se lava um passado agressivo ligado à extrema-direita mais trauliteira, serve bem como amostra das opções ideológicas dos nossos media dominantes.

Na realidade, os falsos heróis que assim erigem e apregoam, enquanto apagam ou diminuem a vida e a memória dos que verdadeiramente o foram, abrem caminho às piores sombras do «populismo» reacionário que tanto dizem combater.

Como diz Manuel Loff, «a transição autoritária começa quando se degrada a democracia. E quando termina? Termina quando não há democracia».

Não podemos ficar indiferentes.

1.Trata-se de uma operação da CIA de contra-espionagem na Europa, preparada no contexto da Guerra Fria com a colaboração dos serviços secretos da NATO e dos aliados europeus dos EUA – incluindo Portugal. A entrada portuguesana Wikipédia é escassa e desconhece a participação portuguesa, pelo que será necessário, para compreender a dimensão e as ramificações desta poderosa operação, que acolheu no seu seio a extrema-direita e neofascismo europeu, consultar as entradas em inglês e italiano da mesma.
2.Vale a pena comparar a parca informação na Wikipédia portuguesa sobre a pseudo-agência – que afinal era um centro terrorista internacional fascista com base em Portugal – com a extensa entrada italiana ou a entrada francesa da Wikipedia, para se distinguir a tendência dos meios de comunicação lusos para branquear a extrema-direita e o fascismo sempre que estes vão de mão dada com a NATO e a CIA.

Fonte: https://www.abrilabril.pt/cultura/o-ouro-e-lata

Divulga o endereço[1] deste texto e o de odiario.info[2] entre os teus amigos e conhecidos

References

  1. ^ endereço (www.odiario.info)
  2. ^ odiario.info (odiario.info)

Ver o original em ODiario.info (clique aqui)

Do outro lado do mundo

Se há coisa que se retira da greve dos camionistas é que os jornalistas, mais uma vez, não parecem entender o que está em causa. A greve dos motoristas tem todos os contornos para ser considerada estranha:
1) um grupo profissional que esteve "parado" durante 20 anos, de repente "acorda" e é capaz de fazer greves por tempo indeterminado (como se não precisassem dos salários) e durante um período pré-eleitoral, em que está em julgamento um governo apoiado à esquerda;
2) uma greve que surge mesmo após outra greve por tempo indeterminado - a dos enfermeiros dos blocos operatórios - que afectou apenas hospitais públicos (nos privados não havia blocos operatórios?) e que foi financiada por um fundo de greve pouco transparente, em que, nalguns dias, entravam a cada hora centenas de euros;
3) um sindicato dos motoristas que nasceu com um dirigente que é advogado, especialista em offshores e até há bem pouco tempo desconhecido do movimento sindical;
4) e em todas as lutas, numa e noutra, com um apoio maciço das suas centenas de profissionais, capaz de ter efeitos generalizados sobretudo sobre a população e capaz de desestabilizar um país, tudo cheirando a demasiada organização,com traços semelhantes a outras manobras que já se viram noutros países, como no Chile em 1973, visando derrubar o governo legítimo do socialista Salvador Allende.  Por isso, primeiro, sente-se o seu embaraço. Os jornalistas andaram ao colo com os novos "sindicatos independentes" - que eram genuínos e renovados -, desvalorizando o velhopapel sindical, sobretudo dos sindicatos "afectos" (não são capazes de usar a palavra filiados) a uma central sindical, a CGTP. 
Mas agora assustam-se.
Já falam dos sindicatos "ditos independentes" e defendem a volta dos "civilizados" sindicatos "afectos" ao PCP. E não foram precisos muitos meses... Antes, sentia-se que estavam a favor das lutas desses sindicatos independentes - talvez porque atingiam o Governo socialista. Agora, começam a ver a dimensão das paragens e compreendem, aceitam a requisição civil que, claramente, dá força a um dos lados do conflito e põe em causa o direito à greve, mesmo que respaldado num parecer do conselho consultivo da Procuradoria-Geral da República, favorável à ideia da requisição preventiva, coisa que não existe no ordenamento jurídico.
 
No programa Praça Pública desta manhã, na SIC,os dois jornalistas em estúdio questionavam-se sobre a quem mais favorecia esta luta. E dizia um deles: "Ao Governo: já não se fala de mais nada senão na greve. Nem se fala dos hospitais, nem dos fogos...". Veja-se bem: eles a queixar-se de que os jornalistas não se preocupam com mais nada senão com a luta dos motoristas, porque aquilo com deviam preocupar-se era apenas... com a ruptura dos hospitais  e com os fogos!
Segundo, os jornalistas não conseguem entender uma luta por jornadas de trabalho de 8 horas ou uma greve a trabalho extraordinário porque, eles próprios jornalistas, acham que isso faz parte de uma reivindicação do tempo da Revolução Industrial. Todos recebem subsídios de isenção de horário e aceitam que o trabalho seja "o que for preciso fazer". Mesmo que isso corresponda ao trabalho de duas pessoas! Nas entrevistas aos membros do Governo, raramente ou nunca os jornalistas lhes perguntam como é possível que a Autoridade das Condições de Trabalho (ACT) não tenha -  durante 20 anos - fiscalizado e posto na ordem um sector com jornadas de trabalho como as dos motoristas! A jornada de trabalho é tão adulterada que a própria requisição civil fortalece a greve em curso, ao impor um horário de 7 horas - que é o dos funcionários públicos -, que fura os próprios "serviços mínimos", estimados - pelo Governo - com base em jornadas de trabalho mais alargadas, porque verificadas no período homólogo!! Terceiro, os jornalistas não entendem que um sindicato use a sua vantagem negocial de fechar a torneira do único combustível que move esta sociedade, ou de parar o fluxo turístico (como foi o caso nos anos 90 dos pilotos da TAP cuja greve levou um ministro socialista a criticá-la em conferência de imprensa...). Na verdade, os trabalhadores são isso mesmo: o sangue de um sistema que o pode fazer parar quando tomam consciência disso. Convinha é que prejudicassem o lado patronal e não a população, e não servir para justificar uma subida artificial dos preços dos combustíveis... Mas se essa é a sua força, por que não parar por causa de um acordo a 3 anos? "Não, isso é incompreensível..." Quarto, os jornalistas não entendem o papel do Estado numa sociedade. Acham que se trata de "um assunto entre privados". No entanto, desde 1976 que assistem - sem protestar - a um PS que adoptou como seus, progressiva e inexoravelmente, os mecanismos legais laborais que o FMI e a direita sustentam como eficazes, mas que degradaram as condições de vida desse sangue do sistema, sem ter trazido ganhos relevantes na competitividade externa. O patronato e o Governo queixam-se de que os sindicatos estão a forçar uma negociação com "uma espada sobre a cabeça". Mas nem o patronato nem o Governo nem o próprio ministro Vieira da Silva nem o ministro dos Negócios Estrangeiros (que surge agora a querer alargar a requisição civil a todo o país) se lembraram disso quando, desde 2006, o fizeram para o lado dos trabalhadores, ao terem aprofundado as condições impostas pelo Código de Trabalho de 2003, desestabilizando ainda mais a negociação colectiva, hoje ainda mal refeita desse trambolhão tão bem aproveitado pela troicae o Governo PSD/CDS (2011/2015).    Os dois jornalistas à conversa no estúdio da SIC apenas julgavam: "Para haver a paz, tem de haver um cessar-fogo"; "E que achas de dizerem querer parar por 3 meses?",questionava o pivot, "Eu não posso!"; "o Governo não pode interferir e obrigar os privados a sentar-se", mas ao mesmo tempo defendia-se: "É preciso encontrar outros protagonistas que estes já não se entendem..." Face aos telefonemas dos espectadores que falavam dos imans na caixa de velocidade para não registar a duração da jornada de trabalho (!) e se questionavam por que não actuava a ACT, os jornalistas continuaram a falar do mesmo, sem ater-se ao problema dos horários de trabalho: "Também há pequenas e médias empresas no sector que não podem pagar..."! Veja-se o programa e questione-se sobre em que mundo vivem os jornalistas.E pense-se por que razão, de repente, o mundo lhes parece ter caído sobre a cabeça.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Varrendo a testada

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Ana Sá Lopes deve saber ler mas não entende o que lê
 
Em editorial no Público de hoje, Ana Sá Lopes, insistindo (como é seu direito) num apoio total e sem nenhumas reservas à actual greve dos motoristas de matérias perigosas, proclama a dado passo que« o Partido Comunista Português aceita as greves desde que sejam dos seus sindicatos e quanto aos outros grevistas acusa-ossim, aos grevistas – de serem responsáveis pelo Governo limitar o direito à greve

Trata-se, nem mais nem menos de uma mentira e de uma deliberada falsificação. Para além de que o PCP não tem sindicatos, o que o PCP afirmou foi que«É neste contexto que é convocada uma greve por tempo indeterminado e com uma argumentação que, instrumentalizando reais problemas e descontentamento dos motoristas, é impulsionada por exercícios de protagonismo e por obscuros objectivos políticos e procura atingir mais a população que o patronato. Uma acção cujos promotores se dispõem para que seja instrumentalizada para a limitação do direito à greve».

Ou seja, não há nesta passagem qualquer acusação aos «grevistas» ou a sua genérica responsabilização. Se houvesse , não se teria usado o termo «instrumentalizando».

Tudo visto, Ana Sá Lopes é livre de não lhe fazer a mínima impressão a duração «indeterminada» desta greve, é livre de nada dizer sobre o porta-voz que diz que a greve pode durar 10 anos, é até livre de ignorar as críticas do PCP à dimensão dos serviços mínimos e à requisição civile até é livre de, numa matéria de enorme complexidade, ver tudo a preto e branco. O que não pode é pôr na boca de outros o que outros não pensaram nem disseram.
E, afinal, é a ela própria que se aplicam estas suas palavras no mesmo editorial :«acaptura da razão em favor da explosão de emoções, delineada por quem tinha responsabilidades especiais, foi demasiado grave e marcará com certeza, para o bem e para o mal, um “antes” e um “depois”

 

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

Um jornal com vínculos


Há vínculos que libertam. Nem todos o fazem e é raro libertarem completamente, mas podem ir nesse sentido. Foi o que aconteceu em Portugal na legislatura que está a terminar (...) Na próxima legislatura vai ser fundamental ter um Parlamento plural e vinculado à esquerda. Para avançar, sem dúvida, mas também para resistir.  Sandra Monteiro, Plural e vinculado à esquerda, Le Monde diplomatique - edição portuguesa, Agosto de 2019. Aproveito para deixar um resumo, feito pelo jornal, do artigo que Paulo Coimbra e eu escrevemos: Da proposta política aos textos jornalísticos, por toda a parte se depara com um discurso moralista sobre a poupança. Baseado numa teoria económica que ainda hegemoniza o espaço público, esse discurso distorce a realidade e estabelece relações causais falaciosas entre poupança e investimento. Na verdade, a poupança depende do investimento, e não ao contrário. Mas o discurso neoliberal, mil vezes repetido, serve para favorecer umas mudanças, como a da entrega da Segurança Social à predação financeira, e para bloquear outras, como a da consciência dos constrangimentos quase coloniais que criam estagnação e crises em países periféricos como Portugal.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Desbocada! Lili Caneças faz revelação sobre passado de Cuca Roseta

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Comentário à "notícia" seguinte:

Por que é que Cascais só é falado a pretexto das figuras degradantes da aristoburguesia ?

Julgam que Cascais vive dos protagonismos patéticos que a direita política tanto gosta de evidenciar?

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Cascais é antes de mais um concelho de gente que trabalha e vive honradamente e não se ilude com o pornorriquismo em que a querem confundir.

Há quatro anos a Rádio Renascença evidenciava a desigualdade que caracterizava o concelho e a pobreza que aqui existia. No essencial nada mudou.

Mas disso os órgãos de comunicação social não falam. Preferem usar Cascais como território em que os 'Donos Disto Tudo'(DDTs) se pavoneiam como suseranosde uma arraia miúda que pretendem estupidificada. E chegará o dia das surpresas.


 

Desbocada! Lili Caneças faz revelação sobre passado de Cuca Roseta

A socialite encontrou a fadista numa festa em Cascais e não resistiu em tornar público histórias antigas de um tempo doloroso para a fadista.
 
12 de agosto de 2019
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Lili Caneças marcou presença numa festa de verão em Vilamoura, no Algarve. Entre os diversos convidados estava a fadista Cuca Roseta. Para homenagear a fadista, a socialite publicou uma fotografia das duas nas redes sociais, com uma revelação do passado de Cuca Roseta.

 
"E a lindíssima fadista, Cuca Roseta que conheço desde que cantava no coro da nossa Paróquia de Cascais", revelou Lili Caneças referindo-se ao início de "carreira" da fadista. De facto muitos dos fãs não devem estar recordados mas Cuca Roseta começou a cantar no coro da Igreja dos Salesianos, em São João do Estoril.
 
 
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O percurso musical de Cuca Roseta nem sempre esteve ligado ao fado. Entre 1990 e o ano 2000, Cuca fez parte do coro onde connheceu Tiago Bettencourt com quem fundou os Toranja em 2001. Começou a cantar em São João do Estoril, no coro da igreja dos Salesianos, entre 1990 e 2000, onde teve por colega Tiago Bettencourt com quem fundaria, em 2001, os Toranja. E foi por causa do Fado que desistiu da banda.

Desse tempo, Cuca Roseta teve que enfrentar o preconceito. Não foi fácil ser aceite como fadista. Nas casa de fado ouviu muitas vezes: "Isto não é fado, não veste preto nem usa xaile." "Fui vítima de muitos preconceitos, mesmo. Sofri muito. Quando comecei senti tudo isso na pele. As pessoas do fado diziam-me sempre que não era fadista. (...) Chamavam-me a canta-boa, diziam que não cantava bem, só era boa. Sofri imenso com isso", recorda Cuca Roseta em entrevista ao jornal 'i'.

 

 

Veja esta notícia na seguinte ligação:

https://www.google.com/url?rct=j&sa=t&url=https://www.flash.pt/famosos/nacional/detalhe/desbocada-lili-canecas-faz-revelacao-sobre-passado-de-cuca-roseta%3Fref%3Dfamosos_destaque&ct=ga&cd=CAIyGjBjOTJhYzhiMzRiMjgxNzk6Y29tOnB0OlVT&usg=AFQjCNH7p7BToPFOwXw795z4JkiKnGc3hg

«Bicha! José Castelo Branco revela como se divertia na "casa de meninas" de Vítor Espadinha» ou o pornorriquismo em ação

Comentário à "notícia" seguinte:

Na compita pela estupidificação massiva as televisões e demais órgãos de "comunicação social" (OCS) excedem-se.

O pornorriquismo é um filão que exploram crescentemente nas suas várias nuances desde a"deslumbratória" à da mais sórdida decadência.

É ilustrativa esta "notícia" da revista Flash!/Correio da Manhã em referência a um programa da da TVI que parece constituir-se como um mostruário dos padrões doentios que "as elites" procuram incutir nas relações sociais: a agressividade, a grosseria, uma espécie de"humor" feito do achincalhamento das pessoas, o voyeurismo, a calhandrice, etc etc.

Logo de início o dito "espetáculo" começou com um exercício ilustrativo da estupidez classista que pretende promover:

Quem se atrasa = ignorantes = moradores da Pontinha = andam de autocarro = são pobres (que horror!!!) = gentinha que compra bilhetes mais baratos e portanto deve saber o tempo que demoram os autocarros.

 

 

Parece uma "gracinha" mas não é. Na verdade é apenas uma demonstração da má índole de quem se diverte com o porno-riquismo classista que procura naturalizar a humilhação da maioria que trabalha, que compra bilhetes baratos (quando pode), que anda de transportes públicos e que não mora (como os Donos Disto Tudo) na Quinta do Patiño.

Mas é disto que agora são feitos os OCS!

A TVI pretende maravilhar os portugueses com o a decadência grotesca da aristoburguesia lusa com os seus "bares de vacas" no Estoril onde os herdeiros do trono têm orgasmos pindéricos para lucro de uma qualquer patrão de alterne feito vedeta de Casino.

Ao que se chegou e para onde nos querem levar!


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Só faltava esta! José Castelo Branco revela como se divertia na "casa de meninas" de Vítor Espadinha

in Flash! (Cofina)
12 de agosto de 2019 às 11:45
 
 
No programa 'Roast', o socialite vingou-se ao seu melhor estilo e revelou que Espadinha tinha "um bar de vacas" no Estoril. E que adorava ir para lá com um membro da realeza. Nem imagina quem e o que lá faziam...
 
 
 
A vingança de Castelo Branco no 'Roast' da TVI foi terrível. Depois de ouvir os comentários dos convidados e da anfitriã, Ana Garcia Pereira, o antigo marchant decidiu fazer revelações. A mais quente - e logo a primeira - foi relativa a Vitor Espadinha. 
 
"Lembro-me muitissimo bem que tinhas um bar de vacas, umas do alterne, no Estoril, onde eu ia todas as noites depois de sair dos sítios civilizados", recordou Castelo Branco. E continuou revelando quem era o membro da realeza que o acompanhava nestas "aventuras": "Ia com sua alteza real, o senhor dom Henrique de Bagança. Ele adorava. Tinha uns orgasmos só de ver aquelas meninas. E eu dizia-lhe: senhor dom Henrique, contenha-se! Noblesse oblige! Nós somos da realeza, não podemos quebrar nunca."
 
No 'Roast' esteve também Fernando Madureira, o Macaco dos Super Dragões, que fez questão de beijar a mão do 'Conde'. Quanto a Vitor Espadinha, apanhado de surpresa com as revelações do socialite, sorria, acenando afirmativamente com a cabeça. "Olha a Espadinha! Como tu és antiga, filha", saudou ainda Castelo Branco.  Quanto a dom Henrique de Bragança, quarto duque de Coimbra e irmão mais novo de Dom Duarte Pio - o pretendente ao trono -, faleceu em 2007, com 67 anos. "Deus o tenha", rematou Castelo Branco ao comentar as noites no Estoril que passou com ele. 
...
 
José Castelo Branco com Dom Duarte de Bragança, irmão de Dom Henrique
 
 Confira a pinderiquice do pornorriquismo para gáudio de patetas deslumbrados:
 
 

Veja esta notícia na seguinte ligação:

https://www.google.com/url?rct=j&sa=t&url=https://www.flash.pt/atualidade/detalhe/bicha-jose-castelo-branco-revela-como-se-divertia-na-casa-de-meninas-de-vitor-espadinha&ct=ga&cd=CAIyGjBjOTJhYzhiMzRiMjgxNzk6Y29tOnB0OlVT&usg=AFQjCNGbX5-VZA6X1QVYcNRJB1Ez-CChcg

Economia Política em Portugal

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A Associação Portuguesa de Economia Política constituiu-se com o objetivo de promover a consolidação, em Portugal, do domínio científico da economia política. A economia política pressupõe uma abordagem ampla que não separa o económico do social ou do político. A economia é inevitavelmente uma relação social e política. Muitos equívocos teriam sido evitados se esta constatação simples não tivesse sido a dada altura abandonada. Em janeiro de 2018, realizou-se o 1º Encontro Anual de Economia Política promovido pela associação. O tema escolhido foi a economia enquanto realidade substantiva, convocando a tradição institucionalista nesta área, em especial o contributo de Karl Polanyi. O último número da Revista Crítica de Ciências Sociais dedica um dossier temático a este primeiro encontro, contando, entre outros contributos, com três artigos dos oradores convidados – Ben Fine, Helena Lopes e José Luís Garcia.
Boas leituras.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Os tudólogos

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MM/PP
 
Estas personagens são a imagem cabal da ideologia dominante.
Formados em tudolgia, têm o discurso e a postura do vendedor da banha-da-cobra, promovendo o mesmo produto embora com rótulos e embalagem ligeiramente diferentes.
 
Como qualquer impostor, são fluentes na linguagem e desinibidos na argumentação, de semblante afirmativo desdizem-se sem quaisquer escrúpulos.
 
Atenção! São-nos servidos ao jantar, zurrapa que provoca azia de efeitos perversos para a saúde.
 
 
 

Ver o original em As palavras são armas (clique aqui)

Edição de Agosto de 2019

Índice

Editorial

-Os talibãs de São Francisco . SERGE HALIMI

Política

-Plural e vinculado à esquerda . SANDRA MONTEIRO

Economia

-Uma teoria da poupança que não poupa o país . PAULO COIMBRA e JOÃO RODRIGUES

Sociedade

-Trabalhar mais para ganhar menos e ganhar menos para trabalhar mais? . JOÃO FRAGA DE OLIVEIRA

Energia

-Electricidade: entre transição sustentável e captura privada . JORGE COSTA

Ambiente

-O Plano Nacional de Energia e Clima 2030 . LUÍS FAZENDEIRO

-O fim do mundo não vai acontecer . JEAN-BAPTISTE MALET

-Fukushima: «O dia em que o Japão quase desapareceu» . NAOTO KAN

África

-Mulheres e herança na Tunísia: o fracasso de uma reforma . AKRAM BELKAÏD

-A difícil afirmação da homossexualidade na Argélia . ROSE SCHEMBRI

Estados Unidos

-A esquerda canibal, uma síndrome universitária . RICK FANTASIA

-Michelle Obama: Também podem ser como eu . MONA CHOLLET

«Fake News» (série)

-Se queres a guerra, prepara a guerra . SERGE HALIMI e PIERRE RIMBERT

Europa

-Nos Balcãs, as fronteiras mudam, as lógicas étnicas permanecem . JEAN-ARNAULT DÉRENS e LAURENT GESLIN (cartografia de CÉCILE MARIN)

História

-1939: revisitar os campos de refugiados espanhóis em França . ANNE MATHIEU

Tecnologia

-Ainda podemos viver sem a Internet? . JULIEN BRYGO

Sociedade

-Voltar a ver as estrelas: o nascimento de uma reivindicação . RAZMIG KEUCHEYEN

Outras palavras

-Understory: O cacueiro como o nunca o vimos no cinema . CARLA BAPTISTA

Ver o original em Le Monde Diplomatique PT (clique aqui)

Olhos que condenam: série sobre racismo nos EUA é a mais vista da Netfflix

Racismo, hipocrisia, perseguição a jovens negros, Justiça parcial, mídia sensacionalista e mentirosa, fraude processual… Calma, não é sobre a Lava Jato, nem sobre o Brasil. Esses são os ingredientes de Olhos que Condenam (When they see us), da Netflix, dirigida por Ava Duvernay (A 13ª Emenda e Selma – Uma Luta pela Igualdade).

 

 

A série, desde maio no catálogo, é a mais assistida da Netflix e conta a história dos “cinco do Central Park”, como foram denominados os jovens condenados por estupro, num dos mais conhecidos episódios da (in)justiça de Nova York, nos Estados Unidos, em 1989. Nesse caso, a arte realmente imita a vida ou ao menos tenta se aproximar o mais possível dos fatos que aterrorizaram a vida desses meninos de 14 a 16 anos. Em comum, eram todos negros e davam um “rolezinho” no Central Park, o Ibirapuera de Nova York.

 

Muito parecido com os “rolezinhos” de jovens pobres da periferia, em shoppings na capital paulista em 2014. Apavorou as pessoas habituadas a convívio nessas galerias comerciais. Não faltou segurança, muitas vezes negro também, agredindo jovens. Policiais e mídia trataram de aumentar a dose de tensão e o passeio de jovens pobres nos shoppings de elite cessou.

Ava consegue transmitir o sofrimento dos cinco garotos presos, torturados para confessarem o brutal estupro sofrido na mesma noite, no mesmo parque, por Trish Meili, de 28 anos na época. A brutalidade foi tamanha que Trish ficou com sequelas e não conseguiu se lembrar do fato. Ao saber do estupro, a promotora Linda Fairstein, responsável pela divisão de crimes sexuais da polícia de Nova York, mobilizou a sua equipe para incriminar os jovens. Queria uma resposta rápida para os sucessivos estupros que ocorriam na metrópole naquele ano.

Os cinco meninos são levados a julgamentos e a única prova que a polícia conseguiu foi a confissão deles arrancada sob tortura. Nenhum dado batia. Não havia nada que comprovasse a presença deles no local do crime no exato momento da violência. Mesmo assim os olhos da hipocrisia, do preconceito e da mentira condenaram os cinco. A injustiça foi desfeita apenas anos depois quando o verdadeiro criminoso confessou mais esse estupro para a sua lista de crimes hediondos.

A maioria deles já estava em liberdade, após anos na prisão e tentavam refazer suas vidas. Apenas Korey Wise ainda estava preso, porque era o único que tinha 16 anos em 1989 e foi para a prisão de adultos. A própria Ava afirmou em entrevista que fez a série pensando em como ajudar a mudar essa triste realidade de olhos racistas que condenam negros sem pestanejar, sem provas e montagem de indícios para forjarem a condenação. Parece que conseguiu.

A estratégia da diretora em sensibilizar pelo impacto funciona. Ninguém consegue assistir a essa série sem se incomodar com a injustiça cometida. Dividido em quatro longos episódios, Olhos que Condenam leva a profundas reflexões sobre os fatos. O racismo, o lugar dos brancos e o lugar dos negros na sociedade, o porquê dessa distinção e o papel da Justiça e da polícia numa sociedade capitalista.

Muitas injustiças foram cometidas na história do Judiciário norte-americano. Algumas delas foram para o cinema e esse episódio dos cinco meninos para a televisão do mundo inteiro. Força que tem a Netflix nesse caso.


Série de Ava Duvernay conta a história dos “cinco do Central Park” condenados injustamente por estupro

O elenco da série contou com Jhanel Jerome, Caleil Harris, Asante Black, Ethan Herisse, Marquis Rodirguez, Felicity Huffman, Kyllie Bunburry, Vera Farmiga, NiecyNash, entere mujitos outros talentos. A atuação brilhante de todos entrará para a história.

O cinema dos Estados Unidos retrata muito bem os “erros” judiciais quase sempre cometidos contra negros e pobres. O filme Hurricane – O Furacão (1999), dirigido por Norman Jewison, por exemplo, conta a história real do boxeador Rubin “Hurricane” Carter condenado a prisão perpétua pelo assassinato de três pessoas num bar de Nova Jersey, em 1966, com base no depoimento dos policiais que o prenderam. Sua inocência foi provada 20 anos depois.

História muito parecida com a do jovem carioca Rafael Braga Vieira, condenado por porte ilegal de artefato incendiário por sua suposta participação nas manifestações de junho de 2013, no Rio de Janeiro. E, em prisão domiciliar, é preso e condenado, novamente com base no testemunho dos policiais que o prenderam sob a acusação de tráfico de drogas, associação ao tráfico e colaboração com o tráfico. Ele é negro e favelado.

A série joga luz sobre a função da polícia em investigar e se ater aos fatos, assim como a promotoria e os juízes. Também joga os holofotes para a discussão sobre a maioridade penal ao mostrar a degradação de um menino de 16 anos preso com adultos, ainda mais condenado por estupro. Fica perceptível a iniquidade de se baixar a maioridade penal como grupos reacionários ainda pretendem no Brasil, com o impacto da emoção de crimes hediondos – tudo com o objetivo de privatizar presídios e faturar com a desgraça dos mais pobres.

A série Olhos que Condenam nos leva a empatia com os meninos condenados nos Estados Unidos e nos remetem às inúmeras injustiças que ocorrem no Brasil, principalmente contra a juventude negra, pobre e da periferia. Ao final, há uma entrevista com a diretora, o elenco e os verdadeiros presos injustamente com Oprah Winfrey. Vale conferir.


por Marcos Aurélio Ruy, Jornalista  | Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial Rádio Peão Brasil / Tornado


 

 

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/olhos-que-condenam-serie-sobre-racismo-nos-eua-e-a-mais-vista-da-netfflix/

Uma bomba caiu - sic

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Já muito raramente vejo telejornais - irrito-me! Acabo de ver o telejornal da SIC - desliguei a televisão.
Na história da humanidade apenas duas bombas atómicas, muitas, foram lançadas sobre populações. Assinalam-se anos. "Uma bomba atómica caiu sobre Hiroshima". Fala-se da data, do número de mortos, passam imagens.
Uma bomba caiu. Não foi lançada, não havia avião nem se referem autores. Simplesmente a bomba caiu.
Um ministro japonês discursa na circunstância do aniversário do inqualificável acontecimento e apela à erradicação das armas nucleares. A peça jornalística refere a Coreia do Norte e passa a Nagasaki.
Continuamos sem saber de onde choveu a segunda bomba, foi mais uma que simplesmente caiu. Completa-se a informação sobre o fim do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares e ilustra-se a peça com imagens do Reagan e em seguida do Putin.
Fica-se sem saber quem rasgou o tratado e sem compreender porque raio se juntam duas personagens de tempos históricos diferentes. Desliguei a televisão, desabafei este texto e agora vou à net para ver se consigo averiguar se alguma nação está por detrás do lançamento dessas duas bombas que, cá para mim, é a mesma que renunciou ao tratado assinado.

Ver o original em 'GPS & MEDIA' (clique aqui)

«A CENSURA DA UNIÃO EUROPEIA JÁ ESTÁ EM MARCHA»

Federica Mogherini com Mike Pence, Vice-presidente do EU.
Quem ler o “Relatório sobre a elaboração de um plano contra a desinformação” apresentado pela Comissão Europeia em 14 de Junho ficará chocado ao verificar que a criação de uma autoridade de censura à escala da União Europeia já está muito adiantada. 
Segundo o documento, ainda pouco divulgado, a difusão de informações consideradas por Bruxelas como falsas e perigosas passará a ser punida em breve através de sanções como o congelamento de contas e a proibição de viajar.
No documento da Comissão Europeia, pelo qual é igualmente responsável Federica Mogherini, ponta de lança da política externa, a palavra “desinformação” é definida como um processo tendo como objectivo “distrair e dividir, semeando a dúvida através da deformação e a falsificação de factos para criar a confusão e minar a confiança das pessoas nas instituições e nos processos políticos estabelecidos”. Neste caso, não se trata de por o acento nos grandes grupos mediáticos que, dia-após-dia, desviam a atenção dos factos reais e deformam a verdade com o objectivo de estabilizar as relações de poder existentes. Um desinformador a combater é, pelo contrário, alguém que os ponha em causa e revele como funcionam as instituições.

Nesta luta para estabilizar o domínio (do capital) investem-se milhões para criar, segundo a Comissão Europeia, “uma abordagem coordenada em total conformidade com os nossos valores europeus e os nossos direitos fundamentais”. A autoridade, conhecida sob a designação de “Task Force for Strategic Communication”, fiscaliza o respeito pelos verdadeiros valores europeus com a ajuda dos chamados verificadores de factos (executores de Fact Check), os novos censores.
Nas vésperas das recentes eleições europeias, a Comissão conseguiu arrancar aos gigantes da internet como Google, Facebook, Twitter e – um pouco depois – Microsoft um “código de conduta voluntário de luta contra a desinformação” no quadro de acordos de cooperação, mas não sem ameaçar com acções judiciais se os resultados não forem satisfatórios até ao fim de 2019.
Um sistema de alerta precoce da União Europeia para identificar as informações falsas reforça igualmente a sua cooperação com as organizações globalizadas da estrutura económica e militar ocidental, os “parceiros internacionais como o G7 e a NATO”. Teia censória e inimigo a Leste
Dentro da Task Force para a Comunicação Estratégica funciona a “East StratCom Task Force”, activa desde Março de 2015, quando foi preciso criar uma hegemonia ocidental sobre o discurso relacionado com a crise ucraniana.
As imagens inquietantes dos combatentes da direita radical na Praça Maidan, em Kiev, utilizando bombas incendiárias e (depois) armas de fogo contra as forças da ordem deveriam ser apresentadas como expressão de uma aspiração à democracia e à liberdade. A tarefa não foi fácil, uma vez que as reportagens dos meios de comunicação russos em inglês, alemão, francês e espanhol desmontavam essa narrativa.
O arranque da autoridade de censura na União Europeia tem, portanto, as suas raízes na crise ucraniana de 2014.
Desde então, quase todos os países da União Europeia formaram grupos de trabalho sobre os media cuja tarefa consiste em observar e combater principalmente os meios de comunicação russos.
No final de 2015, a União Europeia acelerou o seu ritmo, quando a maioria dos votos no Parlamento Europeu deram carta branca e importantes meios financeiros à Task Force. O comunicado de imprensa declarou:
“A pressão propagandística por parte da Rússia e dos terroristas islamitas sobre a União Europeia não deixa de aumentar. Esta pressão pretende torpedear a verdade, expandir o medo, provocar a dúvida e dividir a União Europeia”. Portanto, é necessário envolver com maior vigor a Task Force anteriormente criada para “investir nos domínios da vigilância e da educação”.
Menos de um ano depois, o presidente francês, Emmanuel Macron, lançou a ideia de transformar a difusão de notícias falsas numa infracção punível.
Esta ideia ainda não se concretizou, mas os observatórios à escala da União Europeia estão a postos desde Outubro de 2018; e um “sistema de alerta precoce” funciona desde Março de 2019.
Como pode ler-se na página 3 do relatório da Comissão, os dados recolhidos pelos membros da Task Force revelam “uma actividade sustentada e pronunciada de desinformação oriunda de fontes russas”. Os temas sobre os quais, segundo o relatório, a desinformação é difundida são, designadamente, “a colocação em causa da legitimidade democrática da União e os debates sobre migrações e soberania”, isto é, as grandes debilidades de Bruxelas.
Os verificadores de factos encarregam-se, portando, de dissimular essas fraquezas. De acordo com as suas próprias estatísticas, seguiram 998 “casos de desinformação” desde o início de 2019 (até meados de Junho), ou seja duas vezes mais que no mesmo período do ano anterior.
Além da procura da verdade, os censores da UE atribuíram-se como missão fiscalizar e, se necessário, suprimir as inserções publicitárias nas plataformas online. Isto aplica-se, por um lado, aos que utilizam meios astuciosos infectos para aumentar o número de clics; e, por outro lado, aos meios de comunicação indesejados. No relatório da Comissão pode ler-se o seguinte: “as três plataformas online (Facebook, Google, Twitter) intensificaram os esforços para aumentar a transparência da publicidade política”; além disso, “Facebook, ao contrário de Google e Twitter, estendeu a transparência à publicidade temática, mas a sua eficácia suscita dúvidas”. Os assuntos estudados incluem imigração, os valores políticos, os direitos civis e sociais, bem como a política externa e de segurança. As grandes empresas norte-americanas de internet decidiram banir os anunciantes que não lhes convêm (ou que não convêm à União Europeia) e fechar as respectivas contas. RT (Russia Today) e Sputnik já sentiram esses efeitos com o Twitter em fins de Outubro de 2017. A NATO está em missão de paz. Ponto final.
Sejamos então sérios e minuciosos. A Comissão Europeia documenta cada “caso de desinformação”. Expõe meticulosamente a pretensa inverdade, o meio de difusão e os resultados da “verificação dos factos” (Fact Check).
O exame da lista disponível no plano “UE contra Desinfo” mostra claramente o objectivo do “Plano de Acção da UE contra a desinformação”: impor a visão de Bruxelas nos domínios da política, da economia e da sociedade. Os verificadores concentram-se, entre outros aspectos, na “nação russa”. Quando, por exemplo, a publicação Sputnik Deutschland informou em 7 de Junho que:
 “O presidente russo, Vladimir Putin, rejeitou as especulações sobre uma eventual unificação entre a Rússia e a Bielorrússia. Segundo Putin, isso não pode acontecer. Não se coloca a questão da unificação destes dois países e ‘vou dizer porquê. Porque a história se desenvolve de uma maneira em que o nosso povo unido – e eu creio que os bielorrussos, os russos e os ucranianos são o mesmo povo, já o disse várias vezes – vive em diferentes países onde se formaram Estados diferentes’, declarou Putin no Fórum Económico Internacional de S. Petersburgo”.
Os verificadores de factos da União Europeia retiveram desta citação de Putin apenas a frase intercalar “eu creio que os bielorrussos, os russos e os ucranianos são o mesmo povo”. E gritam: Desinformação! Qualificam o ponto de vista do presidente russo como “narrativa pró-Kremlin”, reflectindo uma “ideologia imperial e irredentista”. Deste modo, tentam retirar legitimidade ao ponto de vista russo sobre questões culturais e geopolíticas e afirmam o seu próprio ponto de vista como o único legítimo. Um ponto de vista que corresponde ao avanço económico da União Europeia e à expansão militar da NATO para Leste e, portanto, às ideias de integração ocidental - que devem afirmar-se a par da desintegração a Leste.
Quando no dia anterior, 6 de Junho, a cadeia alemã RT.deutsch acusou Berlim de desacreditar sistematicamente os meios de comunicação russos, os censores da Task Force gritaram: Desinformação! Para o provar citaram Steffen Seibert, o porta-voz do governo, que respondeu assim ao reparo russo: “Quem faz tais acusações absurdas conhece mal a Alemanha e as suas ideias sobre a liberdade de imprensa”. Verdadeiramente. E por aqui se ficam as “informações” avançadas na luta contra a desinformação.
Eis ainda mais dois exemplos de “fact checking” bruxelense para supostamente denunciar desinformações russas, ilustrando assim em que direcções a liberdade de expressão se vai transformando. Os dois dizem respeito à NATO.
Em 5 de Junho, Sputniknews.org mencionou que “em Março de 1999 foi lançada uma guerra da NATO contra a República Federal da Jugoslávia, em violação do direito internacional”. O serviço da verdade da União Europeia reagiu de pronto: Desinformação!... Para explicar, ao-fim-e-ao-cabo, que “a principal razão da campanha da NATO foi acabar com a repressão e a violência e forçar Milosevic a retirar a sua polícia e as suas forças paramilitares”.
E quando uma semana mais tarde, a 10 de Junho, a edição italiana de Sputnik declarou que a NATO põe em perigo o sistema de segurança mundial com o seu reforço militar, os verificadores estavam mais uma vez presentes para gritar: Desinformação!
Hannes Hofbauer*, www.nachdenkseiten.de/O Lado Oculto *Jornalista e editor austríaco com vários livros publicados em alemão pelas Edições Promedia, designadamente “Guerra dos Balcãs: dez anos de destruição da Jugoslávia” e “A ditadura do capital. Perda de soberania na era post-democrática”.
 

Ver original em 'Conversa Avinagrada' (aqui)

Derrota? Dizem elas para se convencerem!

Alguma imprensa de hoje - pelo menos Ana Sá Lopes no «Público» e Inês Cardoso no «JN» -mostra indisfarçável gáudio por ter sido a búlgara Kristalina Georgieva a escolhida pela União Europeia para assumir funções à frente do FMI.

 

Derrota do governo, não enjeitam em anunciar! O que é bem revelador do tipo de comportamento das direitas, quer quando agem formalmente na Assembleia da República, quer por interpostos «jornalistas»: normalmente «patrioteiras», quando agitar a bandeira e cantar o hino dá jeito à sua agenda ideológica, mas comprazendo-se com resultados opostos pelos mesmíssimos motivos.

 

O facto de Mário Centeno manter-se no governo e, muito provavelmente no Eurogrupo, acaba por dar sossego aos socialistas, que temiam perder a sua competência na gestão das finanças públicas e contenção nas pulsões mais ultraliberais de muitos governos europeus. Pessoalmente continuo a considerar que, acaso mudasse para Nova Iorque, António Costa logo convidaria quem o substituísse com igual competência e poderíamos ter outra grande organização financeira supranacional a revelar-se menos paladina dos nefastos conceitos da Escola de Chicago.
 
 
 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/08/derrota-dizem-elas-para-se-convencerem.html

A decadência da imprensa decorre de quem a dirige

Esta semana recebi um mail da atual direção do «Jornal de Notícias» a vangloriar-se dos sucessivos artigos com que vinha fustigando o governo a propósito das golas, que eram inflamáveis - e deixaram de o ser! - ou dos negócios feitos por influência de políticos socialistas de Arouca.

 

Habitual leitor do diário nortenho já andava insatisfeito com a deriva direitista da sua linha editorial desde que a atual direção tomou posse. Agora esta vinha não só vangloriar-se de se ter colocado na primeira linha dos ataques ao governo, como sugeria-se merecedora de me ver incluído no número dos seus assinantes.

 

Olha a porta a que vieram bater! Se meses atrás era capaz de aludir ao título como coisa inodora, incolor e insípida, espécie de melhoral, que não faria bem nem mal, a recente predisposição editorial, tão do entusiasmo do autor do mail, ganhou uma virulência desagradável porque consistente com a sua integração numa agenda ideológica bem demarcada. E, como tal, passível de ser lida com luvas e máscara para que não se lhe reduza a nocividade.

 

Esta situação coincide com o texto do prof.J.-M. Nobre-Correia no «Público» de hoje, que é de leitura obrigatória, porque questiona a falta de qualidade da nossa imprensa e compreensível redução dos seus consumidores. O que nos faz falta, segundo o autor de «No Caminho para o Abismo», é um projeto societal bem definido, coincidente com a sensibilidade dos seus leitores. Algo que, pessoalmente, identifico com o saudoso projeto de «O Jornal», irrepreensível no cumprimento do código deontológico e inconfundível com qualquer orientação partidária.

 

Hoje em dia para um qualquer eleitor da atual maioria parlamentar, que jornal, rádio ou canal de televisão pode ser lido, ouvido ou visto, sem se sentir agredido pela forma ofensiva como contesta o governo? Digo que nem um!

 

Eu sei que há quem, entre os diretores dos jornais, aluda à necessidade de fazer da imprensa uma espécie de provedoria do interesse público, como se ele se confundisse com o dos partidos das direitas, mas nunca se lhes conheceu igual preocupação, quando era Passos Coelho ou Cavaco Silva a deterem as rédeas do poder. Esse argumento é mais um dos muitos exemplos de poeira para os olhos com que nos pretendem iludir.

 

Corroborando a análise do prof. J.-M. Nobre-Correia a atual imprensa caminha, de facto, para o abismo, porque os seus potenciais consumidores cansam-se e acabam por a abandonar à sua irreversível decadência.
 
 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/08/a-decadencia-da-imprensa-decorre-de.html

AMLO e a imprensa

image   «O que não toma partido, não se define e em aparência é progressista e até se pensa que é de esquerda. Engana! Há o jornal totalmente de direita, sem simulações, franco. Há outro com aparência de plural, de ser objetivo, de ser independente, esse é o que mais nos afeta, esse engana ainda mais porque a gente nele acredita.»
AMLOe a imprensa
 
image
 

Ver o original em 'GPS & MEDIA' (clique aqui)

O interesse jornalístico e outros interesses vários*

A comunicação social é, na sociedade actual, um negócio e assim deve ser observado e analisado. Mas não é um negócio qualquer, pois à dimensão económica junta-se a ideológica. A ligação entre os média dominantes e o capitalismo é estrutural: integrando-se em grandes grupos económicos com interesses diversificados, o seu “jornalismo” age estritamente para os promover, justificar e apoiar.

Estava-se em plena campanha para as eleições europeias, céu azul e limpo, do helicóptero a visão era boa. Paulo Rangel apreciava o panorama desolador da extensa área devastada pelos incêndios de há dois anos no centro do País. Distribuiu acusações – incompetência, descuido e incúria. Posteriormente, confrontado com a oportunidade e interesse jornalístico da visita descaradamente eleitoralista, respondeu, com algum cinismo, que bastava verificar a presença ali dos repórteres e ver o tempo ocupado nos noticiários para comprovar que sim. Os média estavam lá, portanto havia interesse…

Rangel tinha razão. O expediente encontrado para aparecer nos ecrãs e dizer umas coisas, resultara. A ideia do voo oportunista, certamente magicada por um assessor mais expedito, alcançara os objectivos, permitindo ao candidato considerar que o evento tinha valido a pena por ter atraído a presença dos profissionais da comunicação social e ele ter aparecido nos telejornais.

O interessante e o importante

O episódio, em si menosprezável, não mais do que um entre muitos exemplos do que é o oportunismo de certos políticos, em eleições ou fora delas, serve-nos apenas como pretexto para chamar a atenção de que neste caso, como em muitos outros semelhantes, estamos muito longe da definição do interesse jornalístico baseado nas boas regras da profissão, isto é, visto como sendo de interesse público. Que claramente se distingue de coisa bem diferente, que é aquilo que eventualmente poderá ser chamado interessante para o público.

O interesse público tem a ver com o que é importante para as pessoas saberem, na medida em que lhes traz informação nova e relevante para si e para os outros; tem também de ser acessível e criar interesse (no bom sentido) para o conhecimento da realidade, em toda a sua amplitude e complexidade, e para a capacidade de nela participar e intervir; tem de «explicar», no sentido de contribuir para a compreensão das causas e das consequências, dos porquês, combatendo o mero criticismo sem sentido de futuro.

O interesse do público é, no quadro em que aqui estamos a falar, o que geralmente se fica pela superficialidade, pela ligeireza, pela futilidade, muitas vezes, em termos de comunicação social, pelo sensacionalismo e ou a propaganda, dando corpo às grandes audiências e às grandes tiragens. E à alienação, no sentido em que Marx lhe deu, na relação entre o homem e o trabalho, mas também, mais genericamente, no sentido do afastamento e distanciação das realidades sociais, políticas e económicas, profundas e causais do mundo circundante.

O interesse dopúblico, no sentido em que dele aqui falamos, está subjacente à cultura mediática em Portugal (e não só) e alicerça-se em causas profundas de natureza sociopolítica, cultural e educativa, ligadas estruturalmente à natureza da sociedade capitalista. Remete-nos para a luta pelas audiências, o aumento das tiragens, a competição entre órgãos de comunicação e empresas – isto é, para o jornalismo como negócio.

A ideologia também interessa

Mas um negócio, nunca é demais sublinhar e recordar, que além de económico é simultaneamente ideológico, seguindo as boas e velhas – vêm do séc. XIX… – regras do capitalismo. Um negócio que ao mesmo tempo que dá lucro (e quando não faz vende-se a loja e está feito) continua a ser caracterizado –- pela existência de um elevado grau de concentração da propriedade nas mãos dos senhores do dinheiro. Ao arrepio flagrante e intolerável da Constituição, nomeadamente dos artigos 38.º e 39.º.

É sabido: em Portugal os cinco maiores grupos de comunicação social são donos de praticamente todos os órgãos de maior importância e influência na imprensa, na rádio, na televisão e nas plataformas digitais de informação, com excepção do que pertence à Igreja Católica (grupo Renascença e dezenas de órgãos de imprensa regional e local) e ao Estado (RTP e Lusa).

Sublinhe-se que a influência dos média sobre as formas de pensar e agir não se exerce apenas através da imprensa noticiosa ou dos conteúdos do entretenimento, tanto na TV como na imprensa, rádio e online. A verdade é que o número de títulos e as tiragens das revistas femininas, cor-de-rosa e de televisão (geralmente mais de fofocas do que outra coisa) ultrapassam muito largamente as dos diários e semanários.

Atente-se nos números. Os jornais diários de informação geral ditos de expansão nacional (e ditos porque alguns vendem-se praticamente só no norte e outros só no sul), entre Janeiro e Abril passados e tendo em conta as vendas em banca, o Correio da Manhã, cuja política editorial é a que é, registou uma média diária de 73.192 exemplares, quase tanto como os outros diários nacionais juntos, incluindo os desportivos – Jornal de Notícias 31.918, Record 28.051, Público 13.620, O Jogo 10.061 (A Bola não é auditada e o Diário de Notícias passou em Julho a semanário).

Outros interesses, outros negócios…

A ligação entre os media dominantes, em qualquer das suas plataformas, e o capitalismo é estrutural. Através da propriedade, naturalmente, mas também, desde logo, no alargamento da implantação destes grupos a outras áreas do sector, na sua proximidade com o capital financeiro e na sua dependência da grande publicidade.

Três dos grandes grupos – Impresa, Cofina e Global – são proprietários, em partes iguais, da VASP, a maior distribuidora nacional de jornais e revistas. Alguns deles possuem grandes empresas gráficas: é o caso da Global, dona da Naveprinter, que imprime todos os jornais do grupo e outros de âmbito regional. A Global e a Impresa são accionistas, respectivamente com 23,6 por cento e 22,35 por cento, da agência de notícias Lusa, onde o Estado, no entanto, mantém a maioria do capital – e seria um desastre, para não dizer coisa mais feia, que cedendo à pressão da direita deixasse de ter uma posição maioritária na única, e prestigiada, agência de notícias nacional e também do mundo lusófono (Brasil excluído).

A proximidade ao capital financeiro revela-se pela presença da banca, directa ou indirecta, no capital social dos grupos. A maior participação directa é no Global Media Group, através doMillennium BCP do Novo Banco(com 15% cada), mas na Impresa estão o BPI e o Santander, na Media Capital a Caixa de Aforros da Galiza e na Cofina o Crédit Suisse e o Santander.

Os interesses alargam-se também para fora dos média, numa estratégia exterior à comunicação social propriamente dita. Por exemplo, A Global Media criou o ano passado, «no quadro de expansão das áreas de negócio do grupo, com consequente organização funcional», uma nova estrutura denominada Direcção de Novos Negócios e Internacionalização. A dona do Diário do Notícias, O Jogo e TSF, adianta que a Comissão Executiva «decidiu criar uma nova estrutura directiva denominada Direção de Novos Negócios e Internacionalização», sob cuja tutela estarão as áreas de e.commerce, e.gaming, eventos e brindes.

… e aí temos o Hotel SIC!

Mas a Impresa surpreendeu com um passo inesperado. Francisco Pedro Balsemão, presidente executivo do grupo Impresa, propriedade de seu pai Francisco Pinto Balsemão, disse ao Expresso em Fevereiro: «Criar um hotel com o nome da SIC é uma ideia que estamos a pensar há mais de um ano, e surgiu da força que a marca [a marca, eis o termo agora utilizado no meio, importado donde importa, ou seja, a publicidade] está a ter junto do público, a par do apelo muito forte que o mundo da televisão, com todo o seu glamour, desperta nas pessoas.»

Acrescentou Francisco Pedro: «Somos líderes de mercado, e este bom momento que a SIC vive é a melhor altura para embarcarmos em projectos que valorizam a marca em outros domínios, como o turismo, que também está em grande crescimento.»

Continuando a citar o Expresso, «num momento de alta para o mercado da televisão, e em que a Impresa acabou de inaugurar oficialmente o seu novo edifício em Paço de Arcos, o CEO do grupo gostaria que o hotel SIC começasse a ser desenvolvido já em 2019, para poder abrir as portas em 2020».

De novo Francisco Pedro: «Quanto mais cedo melhor, mas o prazo ainda não está definido e terá de ser acordado com o investidor, a par das intervenções necessárias (…) não somos nem queremos ser peritos em hotelaria, a SIC não vai ser um hoteleiro nem avançar com investimentos imobiliários, não vamos investir capital nosso na construção, pois o nosso core é produzir conteúdos editoriais e audiovisuais». O hotel vai funcionar numa «parceria tripartida», em que a SIC fornece os conteúdos temáticos (o que inclui cedência de material para um novo estúdio) e a BlueShift assegura a gestão em franchise, estando o projeto agora na fase de procurar o «terceiro parceiro», o investidor que entrará com o ativo.

«Procuramos proprietários ou exploradores de hotéis em Lisboa que vejam neste projeto uma oportunidade de conversão das suas unidades para um conceito único, e que acreditamos terá níveis de rentabilidade muito acima da média do mercado», garante ao semanário Filipe Santiago, sócio-administrador da BlueShif, esclarecendo: «já identificámos cerca de 30 ativos em Lisboa que reúnem as características que consideramos necessárias para a implementação do conceito.» Segundo o que foi dito ao Expresso, «como requisitos necessários para o Hotel SIC, destacam-se o facto de ter no mínimo 100 quartos, e uma superfície grande de lobby e áreas comuns com vista a instalar aí o estúdio televisivo que é a âncora do projeto.»

Quem diria?

 

Divulga o endereço[1] deste texto e o de odiario.info[2] entre os teus amigos e conhecidos

References

  1. ^ endereço (www.odiario.info)
  2. ^ odiario.info (odiario.info)

Ver o original em ODiario.info (clique aqui)

O interesse jornalístico e outros interesses vários - Fernando Correia

COMUNICAÇÃO A comunicação social é, na sociedade actual, um negócio e assim deve ser observado e analisado. Mas não é um negócio qualquer, pois à dimensão económica junta-se a ideológica. LUSA image
 
Estava-se em plena campanha para as eleições europeias, céu azul e limpo, do helicóptero a visão era boa. Paulo Rangel apreciava o panorama desolador da extensa área devastada pelos incêndios de há dois anos no centro do País. Distribuiu acusações – incompetência, descuido e incúria. Posteriormente, confrontado com a oportunidade e interesse jornalístico da visita descaradamente eleitoralista, respondeu, com algum cinismo, que bastava verificar a presença ali dos repórteres e ver o tempo ocupado nos noticiários para comprovar que sim. Os média estavam lá, portanto havia interesse...
Rangel tinha razão. O expediente encontrado para aparecer nos ecrãs e dizer umas coisas, resultara. A ideia do voo oportunista, certamente magicada por um assessor mais expedito, alcançara os objectivos, permitindo ao candidato considerar que o evento tinha valido a pena por ter atraído a presença dos profissionais da comunicação social e ele ter aparecido nos telejornais.
O interessante e o importante
O episódio, em si menosprezável, não mais do que um entre muitos exemplos do que é o oportunismo de certos políticos, em eleições ou fora delas, serve-nos apenas como pretexto para chamar a atenção de que neste caso, como em muitos outros semelhantes, estamos muito longe da definição do interesse jornalístico baseado nas boas regras da profissão, isto é, visto como sendo de interesse público.
Que claramente se distingue de coisa bem diferente, que é aquilo que eventualmente poderá ser chamado interessante para o público.
O interesse público tem a ver com o que é importante para as pessoas saberem, na medida em que lhes traz informação nova e relevante para si e para os outros; tem também de ser acessível e criar interesse (no bom sentido) para o conhecimento da realidade, em toda a sua amplitude e complexidade, e para a capacidade de nela participar e intervir; tem de «explicar», no sentido de contribuir para a compreensão das causas e das consequências, dos porquês, combatendo o mero criticismo sem sentido de futuro.
O interesse do público é, no quadro em que aqui estamos a falar, o que geralmente se fica pela superficialidade, pela ligeireza, pela futilidade, muitas vezes, em termos de comunicação social, pelo sensacionalismo e ou a propaganda, dando corpo às grandes audiências e às grandes tiragens. E à alienação, no sentido em que Marx lhe deu, na relação entre o homem e o trabalho, mas também, mais genericamente, no sentido do afastamento e distanciação das realidades sociais, políticas e económicas, profundas e causais do mundo circundante. O interesse do público, no sentido em que dele aqui falamos, está subjacente à cultura mediática em Portugal (e não só) e alicerça-se em causas profundas de natureza sociopolítica, cultural e educativa, ligadas estruturalmente à natureza da sociedade capitalista. Remete-nos para a luta pelas audiências, o aumento das tiragens, a competição entre órgãos de comunicação e empresas – isto é, para o jornalismo como negócio.
A ideologia também interessa
Mas um negócio, nunca é demais sublinhar e recordar, que além de económico é simultaneamente ideológico, seguindo as boas e velhas – vêm do séc. XIX... – regras do capitalismo. Um negócio que ao mesmo tempo que dá lucro (e quando não faz vende-se a loja e está feito) continua a ser caracterizado –- pela existência de um elevado grau de concentração da propriedade nas mãos dos senhores do dinheiro.
Ao arrepio flagrante e intolerável da Constituição, nomeadamente dos artigos 38.º e 39.º.
É sabido: em Portugal os cincomaiores grupos de comunicação social são donos de praticamente todos os órgãos de maior importância e influência na imprensa, na rádio, na televisão e nas plataformas digitais de informação, com excepção do que pertence à Igreja Católica (grupo Renascença e dezenas de órgãos de imprensa regional e local) e ao Estado (RTP e Lusa). Sublinhe-se que a influência dos média sobre as formas de pensar e agir não se exerce apenas através da imprensa noticiosa ou dos conteúdos do entretenimento, tanto na TV como na imprensa, rádio e online. A verdade é que o número de títulos e as tiragens das revistas femininas, cor-de-rosa e de televisão (geralmente mais de fofocas do que outra coisa) ultrapassam muito largamente as dos diários e semanários. Atente-se nos números. Os jornais diários de informação geral ditos de expansão nacional (e ditos porque alguns vendem-se praticamente só no norte e outros só no sul), entre Janeiro e Abril passados e tendo em conta as vendas em banca, o Correio da Manhã, cuja política editorial é a que é, registou uma média diária de 73.192 exemplares, quase tanto como os outros diários nacionais juntos, incluindo os desportivos – Jornal de Notícias 31.918, Record 28.051, Público 13.620, O Jogo 10.061 (A Bola não é auditada e o Diário de Notícias passou em Julho a semanário).
Outros interesses, outros negócios…
Aligação entre os médiadominantes, em qualquer das suas plataformas, e o capitalismo é estrutural. Através da propriedade, naturalmente, mas também, desde logo, no alargamento da implantação destes grupos a outras áreas do sector, na sua proximidade com o capital financeiro e na sua dependência da grande publicidade. Três dos grandes grupos – Impresa, Cofina e Global – são proprietários, em partes iguais, da VASP, a maior distribuidora nacional de jornais e revistas. Alguns deles possuem grandes empresas gráficas: é o caso da Global, dona da Naveprinter, que imprime todos os jornais do grupo e outros de âmbito regional. A Global e a Impresa são accionistas, respectivamente com 23,6 por cento e 22,35 por cento, da agência de notícias Lusa, onde o Estado, no entanto, mantém a maioria do capital – e seria um desastre, para não dizer coisa mais feia, que cedendo à pressão da direita deixasse de ter uma posição maioritária na única, e prestigiada, agência de notícias nacional e também do mundo lusófono (Brasil excluído). A proximidade ao capital financeiro revela-se pela presença da banca, directa ou indirecta, no capital social dos grupos. A maior participação directa é no Global Media Group, através doMillennium BCP do Novo Banco(com 15% cada), mas na Impresa estão o BPI e o Santander, na Media Capital a Caixa de Aforros da Galiza e na Cofina o Crédit Suisse e o Santander. Os interesses alargam-se também para fora dos média, numa estratégia exterior à comunicação social propriamente dita. Por exemplo, A Global Media criou o ano passado, «no quadro de expansão das áreas de negócio do grupo, com consequente organização funcional», uma nova estrutura denominada Direcção de Novos Negócios e Internacionalização. A dona do Diário do Notícias, O Jogo e TSF, adianta que a Comissão Executiva «decidiu criar uma nova estrutura directiva denominada Direção de Novos Negócios e Internacionalização», sob cuja tutela estarão as áreas de e.commerce, e.gaming, eventos e brindes.
... e aí temos o Hotel SIC!
Mas a Impresa surpreendeu com um passo inesperado. Francisco Pedro Balsemão, presidente executivo do grupo Impresa, propriedade de seu pai Francisco Pinto Balsemão, disse ao Expresso em Fevereiro: «Criar um hotel com o nome da SIC é uma ideia que estamos a pensar há mais de um ano, e surgiu da força que a marca [a marca, eis o termo agora utilizado no meio, importado donde importa, ou seja, a publicidade] está a ter junto do público, a par do apelo muito forte que o mundo da televisão, com todo o seu glamour, desperta nas pessoas.» Acrescentou Francisco Pedro: «Somos líderes de mercado, e este bom momento que a SIC vive é a melhor altura para embarcarmos em projectos que valorizam a marca em outros domínios, como o turismo, que também está em grande crescimento.» Continuando a citar o Expresso, «num momento de alta para o mercado da televisão, e em que a Impresa acabou de inaugurar oficialmente o seu novo edifício em Paço de Arcos, o CEO do grupo gostaria que o hotel SIC começasse a ser desenvolvido já em 2019, para poder abrir as portas em 2020». De novo Francisco Pedro: «Quanto mais cedo melhor, mas o prazo ainda não está definido e terá de ser acordado com o investidor, a par das intervenções necessárias (...) não somos nem queremos ser peritos em hotelaria, a SIC não vai ser um hoteleiro nem avançar com investimentos imobiliários, não vamos investir capital nosso na construção, pois o nosso core é produzir conteúdos editoriais e audiovisuais». O hotel vai funcionar numa «parceria tripartida», em que a SIC fornece os conteúdos temáticos (o que inclui cedência de material para um novo estúdio) e a BlueShift assegura a gestão em franchise, estando o projeto agora na fase de procurar o «terceiro parceiro», o investidor que entrará com o ativo. «Procuramos proprietários ou exploradores de hotéis em Lisboa que vejam neste projeto uma oportunidade de conversão das suas unidades para um conceito único, e que acreditamos terá níveis de rentabilidade muito acima da média do mercado», garante ao semanário Filipe Santiago, sócio-administrador da BlueShif, esclarecendo: «já identificámos cerca de 30 ativos em Lisboa que reúnem as características que consideramos necessárias para a implementação do conceito.» Segundo o que foi dito ao Expresso, «como requisitos necessários para o Hotel SIC, destacam-se o facto de ter no mínimo 100 quartos, e uma superfície grande de lobby e áreas comuns com vista a instalar aí o estúdio televisivo que é a âncora do projeto.»
Quem diria?

Ver o original em 'GPS & MEDIA' (clique aqui)

Portugal | ERC dá razão ao PCP e acusa TVI de "sensacionalismo"

 
 
A Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) deu razão ao PCP, que acusou a TVI de falta de rigor informativo numa reportagem sobre a contratação de serviços ao genro do secretário-geral comunista, Jerónimo de Sousa.
 
Numa deliberação hoje (26/7) divulgada e assinada por cinco membros do Conselho Regulador, a ERC considera que o operador televisivo violou as suas obrigações de rigor informativo e sensibilizou a TVI para a necessidade de cumprir estes deveres e rejeitar "todas as formas de sensacionalismo".
 
Em causa está uma reportagem emitida em 17 de janeiro na rubrica 'Jornalismo de Investigação por Ana Leal' do Jornal das 8, com o título 'Contratação de prestação de serviços pela Câmara Municipal de Loures ao genro de Jerónimo de Sousa'.
 
A peça sugeria que o genro do líder comunista teria sido beneficiado pelo município de Loures, um executivo da CDU, liderado pelo comunista Bernardino Soares, através de contratos de ajuste direto para a manutenção de paragens de autocarro e outro mobiliário urbano, supostamente por quantias avultadas.
 
 
Após a análise do conteúdo da reportagem que originou a queixa do PCP, a ERC concluiu que a TVI "não cumpriu cabalmente com os deveres de precisão, clareza, completude, neutralidade e distanciamento" no tratamento do caso, optando por "uma reportagem marcadamente sensacionalista" que contribuiu para "uma apreensão desajustada dos acontecimentos por parte dos telespetadores".
 
Na altura, PS, PSD e BE pediram esclarecimentos adicionais à Assembleia Municipal de Loures e documentação sobre a polémica em causa. O município e o próprio Bernardino Soares negaram qualquer favorecimento, ressalvando que a contratação da empresa unipessoal do genro de Jerónimo de Sousa substituiu outras duas empresas, numa "poupança de cerca de 15%".
 
Na mesma deliberação, a ERC salienta que não cabe nas suas competências pronunciar-se sobre a atuação disciplinar dos jornalistas, mas apenas sobre os órgãos de comunicação social e remete os factos para a Comissão da Carteira Profissional de Jornalista.
 
Quanto à aplicação de uma sanção contra a TVI, que tinha sido solicitada pelo PCP, o regulador afirma que a sua atuação se limita à "salvaguarda do respeito pelo rigor, subjetividade e isenção" dos conteúdos e que o quadro legal não permite aplicar multas neste caso.
 
O diretor de informação da TVI não respondeu à ERC.
 
Numa reação à deliberação, o gabinete de imprensa do PCP salienta que a decisão confirma a "campanha persecutória que a TVI desenvolveu ao longo de dois meses" contra os comunistas. Refere ainda que o "órgão de comunicação social mentiu, deliberada e reiteradamente, para dar corpo a uma operação de difamação construída para desinformar, manipular e enganar".
 
A ERC exige, por outro lado, que a TVI noticie a deliberação adotada pela ERC com "expressão idêntica à que dedicou à ofensa ao PCP e ao seu secretário-geral" e um pedido de desculpas ao PCP e a Jerónimo de Sousa.
 
Notícias ao Minuto | Lusa | Foto: Reuters
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/07/portugal-erc-da-razao-ao-pcp-e-acusa.html

TVI: O protesto e a resposta dada agora...

A propósito de um muito badalado programa de Ana Leal, na TVI, escrevia-se aqui que
«A mentira leva sempre dianteira relativamente a quem desmente e é mais eficaz a mentira que o desmentido. Não só porque a mentira chega primeiro, como também foi preparada cuidadosamente para entrar na mente.
 
Gobbels sabia da poda e a sua cartilha não só está disponível como pode ser seguida e melhorada. A tecnologia o permite e permite-o também a segurança e impunidade a quem promove violações grosseiras de critérios e princípios deontológicos a que os jornalistas estão (deviam estar) obrigados.»
 
Vinha isto a propósito do protesto enviado pelo PCP à ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social) do qual surge agora a resposta, em termos de deliberação. O texto da ERC já foi referido por um jornal (AbrilAbril), do qual não perco pitada e quem me lê também não deve perder. O titulo é sugestivo:

ERC: «É notório o enviesamento e a falta de isenção da TVI»

 
Sobre a questão central - o procedimento por ajuste direto - teve a Assembleia Municipal de Loures que deliberar sobre um relatório que acabaria de ser votado por unanimidade. O vídeo tem também a virtude de tornar clara a posição das várias forças políticas. A do PSD, não espanta. A do Bloco, é chocante pois vai buscar... argumentos da tal Ana Leal.
 
 

Ver original em 'Conversa Avinagrada' (aqui)

Os media alternativos podem derrotar os media "de referência"

por Ron Unz [*]

Um par de anos atrás lancei minha Unz Review, proporcionando um amplo conjunto de diferentes perspectivas alternativas, a vasta maioria das quais totalmente excluídas dos media de referência (mainstream). Também publiquei um certo número de artigos nas minhas séries American Pravda , com foco em lapsos suspeitos e lacunas nas narrativas dos nossos media.

A estratégia política subjacente por trás destes esforços pode já ser aparente e por vezes sugeri isto aqui e ali. Mas finalmente decidi que posso explicitamente esboçar o raciocínio num memorando como o que se encontra abaixo.

Os media de referência são a força opositora crucial

Grupos que advogam políticas opostas ao establishment americano deveriam reconhecer que o maior obstáculo que enfrentam vem habitualmente dos media de referência.

Oponentes comuns e ideológicos certamente existem, mas estes são habitualmente inspirados, motivados, organizados e assistidos pelo poderoso apoio dos media, o qual também modela a estrutura percebida do conflito. Em termos de Clausewitz, os media frequentemente constituem o "centro de gravidade" estratégico das forças opositoras.

Os media deveriam ser tornados um alvo primário

Se os media são a força crucial para reforçar a oposição, então deveriam ser encarados como um alvo primário de qualquer estratégia política. Enquanto os media permanecerem fortes, o êxito pode ser difícil, mas se a influência e credibilidade dos media for substancialmente degradada, então as forças opositores comuns perderiam grande parte da sua eficácia. Sob muitos aspectos, os media criam realidade, assim talvez a rota mais eficaz para a mudança da realidade passe através dos media.

Desacreditar os media em qualquer parte enfraquece-o por toda a parte

Os media de referência existem como um todo contínuo. Assim, enfraquecer ou desacreditar os media em qualquer área particular automaticamente também reduz a sua influência geral.

Os elementos da narrativa dos media confrontados por um grupo anti-establishment particular podem ser demasiado fortes e bem defendidos para atacar com eficácia e tais ataques também podem ser ignorados como ideologicamente motivados. Portanto, a estratégia mais produtiva pode por vezes ser indirecta, atacar alhures a narrativa dos media, em pontos onde ela é muito mais fraca e menos bem defendida. Além disso, vencer estas batalhas mais fáceis pode gerar maior credibilidade e impulso, o qual pode então ser aplicado para ataques posteriores em frentes mais difíceis.

Uma aliança vasta pode apoiar o objectivo comum do enfraquecimento dos media

Uma vez que reconheçamos que o enfraquecimento dos media é um objectivo estratégico primário, um corolário óbvio é que outros grupos anti-establishment a enfrentarem os mesmos desafios tornam-se aliados naturais, ainda que talvez temporários.

Tais alianças tácticas inesperadas podem decorrer de uma ampla gama de diferentes perspectivas políticas e ideológica – Esquerda, Direita ou outras – apesar de os grupos componentes terem objectivos não relacionados ou mesmo conflituosos. Enquanto todos estes elementos na coligação reconhecerem que os media são o seu adversário imediato, eles podem cooperar no seu esforço comum, ganhando ao mesmo tempo credibilidade e atenção adicionais pelo próprio facto de discordarem sobre muitas outras matérias.

Os media são enormemente poderosos e exercem controle sobre um espaço vasto do território intelectual. Mas tal influência omnipresente também assegura que seus adversários locais sejam numerosos e difusos, sendo todos fortemente opostos aos media hostis que enfrentam nas suas próprias questões particulares. Por analogia, um império grande e poderoso é frequentemente deitado abaixo por uma vasta aliança de muitas facções rebeldes diferentes, cada uma delas com objectivos não relacionados, as quais em conjunto esmagam as defesas imperiais pelo ataque simultâneo a múltiplos diferentes locais.

Um aspecto crucial que permite uma tal aliança rebelde é o foco tipicamente estreito de cada membro constituinte em particular. A maior parte dos grupos ou indivíduos que se opõem a posições do establishment tende a ser ideologicamente ardente acerca de uma questão particular ou talvez um punhado delas, ao passo que muito menos interessado em outras. Dada a supressão total dos seus pontos de vista por parte dos media de referência, qualquer foro no qual as suas perspectivas não ortodoxas sejam apresentadas com tratamento razoavelmente justo e equânime ao invés de serem ridicularizadas e denegridas tende a inspirar considerável entusiasmo e lealdade da sua parte. Assim, embora possam ter visões bastante convencionais sobre a maioria dos outros assuntos, levando-os a encarar visões contrárias com o mesmo cepticismo ou desconforto como qualquer outra pessoa, eles geralmente estarão dispostos a suprimir suas críticas a uma heterodoxia mais vasta, desde que outros membros da sua aliança estejam dispostos a devolver esse favor nos seus próprios tópicos de interesse primário.

Atacar a narrativa dos media onde ela é fraca e não onde é forte

Aplicando uma metáfora diferente, os media do establishment podem ser encarados como uma grande muralha que exclui perspectivas alternativas da consciência do público e, assim, confina a opinião dentro de uma faixa estreita de visões aceitáveis.

Certas porções dessa muralha dos media podem ser sólidas e vigorosamente defendidas por poderosos interesses especiais (vested interests), tornando difícil o seu assalto. Mas outras porções, talvez mais velhas e mais obscuras, podem ter ficado decrépitas ao longo do tempo, com os seus defensores, com o afastamento dos seus defensores. Romper a muralha nestes locais mais fracos pode ser muito mais fácil e uma vez destruída a barreira em vários pontos, defende-la nos outros torna-se muito mais difícil.

Exemplo: considere-se as consequências de demonstrar que a narrativa dos media estabelecidos é completamente falsa quanto a algum evento individual importante. Uma vez que este resultado tenha sido amplamente reconhecido, a credibilidade dos media sobre todas as outras matérias, mesmo totalmente não relacionadas, seria algo atenuada. Pessoas comuns naturalmente concluiriam que se os media estiveram errados sobre um ponto importante, podem também estar errados sobre outros e a poderosa suspensão de descrença que proporciona influência aos media tornar-se-ia menos poderosa. Mesmo aqueles indivíduos que colectivamente constituem os media podem começar a ter sérias dúvidas quanto às suas certezas anteriores.

O ponto crucial é que tais progressos podem ser mais fáceis de alcançar em tópicos que parecem simplesmente de significado histórico e estão totalmente removidos de quaisquer consequências práticas nos dias de hoje.

Reenquadrar "teorias da conspiração" vulneráveis como uma eficaz "crítica aos media"

Ao longo das últimas décadas, o establishment político e os media seus aliados criaram uma poderosa defesa intelectual contra a crítica importante ao investirem recursos consideráveis na estigmatização do conceito das chamadas "teorias da conspiração" . Este duro termo pejorativo é aplicado a qualquer análise importante de acontecimentos que se desvie drasticamente da narrativa endossada oficialmente e sugere implicitamente que o seu proponente é um fanático infame, que sofre de ilusões, paranóia ou outras formas de doença mental. Tais ataques ideológicos muitas vezes destroem efectivamente a sua credibilidade, o que permite os seus argumentos reais serem ignorados. Uma frase outrora inócua passou a ser usada como uma "arma" política.

Entretanto, um meio eficaz de contornar este mecanismo de defesa intelectual poder ser a adopção de uma meta-estratégia de reformular tais "teorias da conspiração" como "crítica aos media".

Sob os parâmetro habituais do debate público, desafios à ortodoxia estabelecida são tratados como "afirmações extraordinárias" que devem ser justificadas por evidência extraordinária. Esta exigência pode ser injusta, mas ela constitui a realidade em muitos intercâmbios públicos, baseados no enquadramento fornecido pelos media alegadamente imparciais.

Uma vez que a maior parte destas controvérsias envolve um amplo conjunto de questões complexas e ambíguas ou de evidências contestadas, muitas vezes é extremamente difícil estabelecer conclusivamente qualquer teoria não ortodoxa, digamos que com um nível de confiança de 95% ou 98%. Portanto, o veredicto dos media é quase invariavelmente "Caso não provado" e os desafiantes são julgados derrotados e desacreditados, mesmo se parecerem ter realmente a superioridade das provas do seu lado. E se eles contestarem oralmente a injustiça da sua situação, essa resposta exacta é então citada a seguir pelos media como uma nova prova do seu fanatismo ou paranóia.

Contudo, suponha-se uma estratégia totalmente diferente fosse adoptada. Ao invés de tentar defender uma tese "para além de qualquer dúvida razoável", os proponentes simplesmente fornecessem provas e análises suficientes para sugerir que há uma probabilidade de 30% ou de 50% ou de 70% de que a teoria não ortodoxa é verdadeira. O próprio facto de nenhuma afirmação de quase certeza estar a ser avançada proporciona uma defesa poderosa contra quaisquer acusações plausíveis de fanatismo ou pensamento ilusório. Mas se a questão é de enorme importância e – como é habitualmente o caso – a teoria não ortodoxa tem sido quase totalmente ignorada pelos media, apesar de aparentemente ter pelo menos uma probabilidade razoável de ser verdadeira, então os media podem ser efectivamente atacados e ridicularizados pela sua preguiça e incompetência. Estas acusações são muito difíceis de refutar e uma vez que nenhuma afirmação está a ser feita de que a teoria não ortodoxa foi necessariamente provada como correcta, meramente que ela pode possivelmente ser correcta, quaisquer contra-acusações de tendências conspirativas cairiam no chão.

Na verdade, o único meio que os media podem ter para contradizer efectivamente aquelas considerações seria explorar todos os pormenores complexos da questão (ajudando dessa forma a atenção de uma audiência muito mais vasta para os vários factos controversos) e então argumentar que há apenas uma probabilidade desprezível de que a teoria possa ser correcta, talvez 10% ou menos. Portanto, o habitual fardo probatório é completamente revertido. E uma vez que a maior parte dos media é improvável que tenha alguma vez prestado atenção séria ao assunto, a sua apresentação ignorante pode ser bastante fraca e vulnerável a uma desconstrução inteligente. Na verdade, o cenário mais provável é que os media simplesmente continuarão a ignorar toda a disputa, reforçando dessa forma aquelas acusações plausíveis de preguiça e incompetência.

Indivíduos angustiados com as falhas dos media sobre tópicos controversos muitas vezes acusam-nos, bem como aos seus representantes individuais, de serem enviesados, corrompidos ou estarem tranquilamente sob o controle de forças poderosas aliadas às posições do establishment. Estas acusações podem por vezes serem correctos, e por vezes não, mas elas habitualmente são muito difíceis de provar, excepto nas mentes dos verdadeiros crentes já existentes e conduzem à mancha da "paranóia". Por outro lado, afirmar que as falhas dos media são devidas a pecados veniais tais como preguiça e incompetência têm a mesma probabilidade de serem correctas e é muito menos provável que tais acusações corram o risco de uma reacção adversa.

Finalmente, uma vez que os próprios media tornaram-se o alvo primário da crítica, eles automaticamente perdem o seu estatuto neutros de árbitro externo e já não tem mais credibilidade para proclamar qual o lado vencedor do debate.

A vantagem de inundar as zonas de defesa dos media

Indivíduos que desafiam a narrativa predominante dos media com afirmações não ortodoxas muitas vezes são relutantes em levantar demasiadas afirmações controversas em simultâneo receosos de serem ridicularizados como "loucos", com todos os seus pontos de vista sumariamente descartados.

Na maior parte dos casos isto pode ser a estratégia correcta a seguir, mas se manejada adequadamente uma abordagem exactamente oposta pode por vezes ser bastante eficaz.

Enquanto a apresentação geral for enquadrada como crítica aos media e não for atribuído um peso desmedido à validade de qualquer das afirmações particulares que estão a ser apresentadas, atacar ao longo de uma frente muito vasta, talvez incluindo dezenas de itens totalmente independentes, pode "inundar a zona" dos media, saturando e esmagando as defesas existentes. Ou, como sugerido numa citação atribuída a Estaline, "A quantidade tem uma qualidade por si própria".

Considere-se o exemplo do humorista Bill Cosby. Ao longo de anos, uma ou duas mulheres avançaram com afirmações de que ele as havia drogado e violado, mas as acusações foram em grande medida ignoradas como infundadas ou implausíveis. Contudo, durante o último par de anos, a barragem subitamente estourou e um total de aproximadamente sessenta mulheres avançou, todas fazendo acusações idênticas. Embora apareça pouca evidência concreta em qualquer dos casos particulares, virtualmente todo observador agora concorda em que as acusações provavelmente serão verdadeiras.

Suponha-se estar estabelecido que haja uma probabilidade razoável de que os media evitaram ou ignoraram completamente e ignorado um assunto importante que deveria ter sido investigado e informado. O impacto não é necessariamente significativo e muitos indivíduos teimosamente apegados à crença nas narrativas mediáticas estabelecidas podem mesmo resistir a admitir a possibilidade de que os media tenham errado gravemente naquela situação em particular.

Contudo, suponha-se ao invés que várias dezenas de tais exemplos separados pudessem ser estabelecidos, cada um deles a sugerir fortemente um grave erro ou omissão por parte dos media. Nesse ponto, as defesas ideológicas desmoronariam e quase toda gente reconheceria silenciosamente que muitas, talvez a maioria das acusações eram provavelmente verdadeiras, o que produz uma enorme lacuna de credibilidade para os media de referência. As defesas de credibilidade dos media teriam sido saturadas e superadas.

O ponto-chave é que todos os tópicos específicos deveriam ser apresentados como casos de probabilidade razoável e indicativos de deficiências dos media, ao invés de serem comprovados ou tratados necessariamente como questões importantes em si mesmas. Ao permanecer afastado e um tanto agnóstico em relação a qualquer item individual há pouco risco de ser marcado como fanático ou monomaníaco por levantar uma multidão de tópicos.

Minha série American Pravda e a webzine Unz Review como exemplos

A estratégia política/de media esboçada acima foi a motivação central por trás dos meus artigos American Pravda e no sítio web web Unz Review.

Exemplo: no artigo original American Pravda de 2013 levantei mais de meia dúzia de enormes lapsos dos media, todos eles agora reconhecidos universalmente: o colapso da Enron, as armas de destruição em massa da guerra do Iraque, a Trapaça Madoff, os espiões da Guerra Fria e vários outros. Tendo assim estabelecido o cenário ao apresentar este padrão admitido de grande fracasso, demonstrando que uma considerável suspensão de descrença se justificava, estendi a discussão a três ou quatro exemplos adicionais importantes, nenhum deles ainda reconhecido, mas todos perfeitamente plausíveis. Talvez em consequência, o artigo tenha recebido uma atenção razoavelmente boa , incluindo elementos dos próprios media de referência, que muitas vezes estão dispostos a reconhecer os erros de sua classe desde que sejam apresentados de forma persuasiva e responsável.

Na sequência daquele artigo, produzi esporadicamente elementos adicionais da série, alguns mais abrangentes do que outros, e agora estou a iniciar uma série regular .

Os exemplos de McCain/prisioneiro de guerra na série de artigos ilustram perfeitamente a estratégia que sugeri acima. A Guerra do Vietname acabou há mais de quarenta anos, os prisioneiros de guerra provavelmente já morreram há décadas e até John McCain está no crepúsculo da sua carreira. O significado prático de levantar o escândalo ou fornecer evidências que estabeleçam sua probabilidade é praticamente nulo. Mas se fosse amplamente reconhecido que toda os nossos media encobriram com êxito tal escândalo durante tantos anos, a credibilidade dos media sofreria um golpe devastador. Com vários golpes assim ela estaria em ruínas. Enquanto isso, os poderosos interesses escusos que outrora mantiveram tão vigorosamente a narrativa oficial naquela área desapareceram há muito, e a posição ortodoxa tem poucos defensores remanescentes nos media, o que aumenta muito a probabilidade de um grande avanço e vitória final.

Uma estratégia semelhante, de forma mais ampla, é aplicada no meu media alternativo Unz Review, o qual abriga numerosos diferentes escritores, colunistas e blogueiros, todos eles tendendo a desafiar fortemente a narrativa dos media do establishment de acordo com uma ampla variedade de diferentes eixos e questões, alguns deles conflituosos. Ao levantar sérias dúvidas acerca das omissões e erros dos nossos media de referência em tantas áreas diferentes, o objectivo é enfraquecer a credibilidade percebida quanto aos media, levando leitores a considerarem a possibilidade de que grandes elementos da narrativa convencional possam ser inteiramente incorrectos.

24/Outubro/2016
[*] Fundador e editor da Unz Review, sítio web conservador dos EUA, empresário. Candidatou-se uma vez a governador da Califórnia.

O original encontra-se em www.unz.com/runz/american-pravda-breaching-the-media-barrier/

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

 

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/crise/ron_unz_24out16.html

Abaixo o caviar, viva o kebab

Há muitos anos que o jornalismo está a ser cozinhado em lume brando. Quando deixou de questionar o poder e passou a servir de apêndice dos grandes grupos económicos e financeiros, os principais jornais, rádios e televisões entraram numa espiral decadente que preferem atribuir às recentes transformações tecnológicas. Em momento algum lhes ocorre questionar se por acaso não terá algo a ver com a crise do sistema político e económico.

Sejamos claros. Durante décadas, venderam-nos falsas verdades e agora que outros seguem o mesmo caminho apontam-lhes o dedo e defendem o monopólio da mentira. Foi a imprensa que serviu de comissária política na cruzada neoliberal pela precarização do trabalho e pela privatização dos serviços públicos. Agora espantam-se que as redes sociais se assumam como fonte prioritária de conhecimento para muitos. É certo que é um mar agitado de mentiras por onde sopram os perigosos ventos da extrema-direita mas é justamente por não haver uma imprensa livre de interesses privados que o discurso destravado do fascismo volta a estar em cima da mesa.

Há umas semanas, a filósofa belga Chantal Mouffe afirmava, em entrevista ao Público, que “a melhor forma de combater o populismo de extrema-direita é com o de esquerda”. Como qualquer pós-marxista, tem um perigoso gosto por transfigurar conceitos que o próprio Pacheco Pereira fez questão em desfazer. Não há populismo de esquerda. Mas, ainda assim, Chantal Mouffe tocou no sensível nervo do campo das armas do nosso tempo para combater o fascismo. Na verdade, de todos os tempos. Só a radicalização do discurso em defesa da ruptura com o capitalismo pode fazer com que os trabalhadores voltem a confiar na esquerda.

Não são poucos os países onde a esquerda descafeinada abandonou princípios e abraçou a política do possível. Sobretudo, deixou de ter a questão de classe como eixo central do seu discurso. Hoje, a extrema-direita é praça-forte em muitos lugares porque adoptou um discurso forte, apesar de pejado de mentiras, construindo uma imagem que aparece aos olhos dos trabalhadores e das populações como alternativa anti-sistema. Foi precisamente a comunicação social que promoveu a anti-política, o individualismo e a ideia de que são todos iguais para que se apoiem sempre os mesmos escondendo que há alternativas.

Há esgotos mais limpos que os corredores por onde as portas giratórias do poder conduzem o dinheiro. São muitos os jornalistas que apenas cumprem ordens e que como qualquer polícia se limitam a brandir o cassetete quando lhes mandam. Mas tanto a caneta como o bastão fazem as mesmas vítimas.

Na Alemanha, a população ficou ganha para o conceito de expropriação quando percebeu que era a única forma de ter direito a ter uma habitação digna. No País Basco, centenas de jovens ocuparam um bairro operário abandonado que estava destinado a servir de terreno para futuros apartamentos para ricos. Na Andaluzia, vários trabalhadores do campo entram em herdades improdutivas e põem-nas a produzir para proveito de todos. Acabou o tempo das palavras mansas e das soluções edulcorantes. Mas também da prática ruminante inconclusiva. Combater o fascismo é defender a justiça social por todos os meios possíveis.

Ver original em 'Manifesto 74' na seguinte ligação:

http://manifesto74.blogspot.com/2019/07/abaixo-o-caviar-viva-o-kebab.html

ERC: «É notório o enviesamento e a falta de isenção da TVI»

Sobre a peça emitida em Janeiro, a propósito da contratação de prestação de serviços pela Câmara de Loures, a ERC diz que «é notório o enviesamento e a falta de isenção da TVI».

Créditos / A Televisão

Em causa está a informação exibida na rúbrica da jornalista Ana Leal, sob o título «Contratação de prestação de serviços pela Câmara Municipal de Loures ao genro de Jerónimo de Sousa». 

A deliberação da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), a que o AbrilAbril teve acesso, conclui que a TVI «não cumpriu cabalmente com os deveres de precisão, clareza, completude, neutralidade e distanciamento no tratamento desta matéria, o que originou a construção de uma reportagem marcadamente sensacionalista».

A ERC lembra que todos estes factores contribuem para uma «apreensão desajustada dos acontecimentos por parte dos telespectadores». Simultaneamente, reconhece que a investigação jornalística foi construída através da «descontextualização de alegados factos e da emissão de conclusões sem identificação de fontes de informação», designadamente documentos ou declarações, que comprovem as acusações avançadas por Ana Leal. 

A ERC afirma tratar-se de um «registo sensacionalista», com «ausência de isenção», e que portanto resulta na «falta de rigor afirmativo». Conclusões patentes também no trabalho realizado pelo AbrilAbril poucos dias depois da transmissão da reportagem.

«Apesar da garantia de contraditório, sobressai uma construção sensacionalista», lê-se na deliberação. «Desde logo na formulação das perguntas aos dirigentes do PCP, é notório o enviesamento e a falta de isenção da TVI», afirma, sublinhando que «estas afirmações conduzem ao desrespeito pela presunção de inocência».

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/nacional/erc-e-notorio-o-enviesamento-e-falta-de-isencao-da-tvi

José Sócrates desmente Observador

Breve comentário a uma notícia publicada dia 22, no jornal online Observador.

 

 

 
  1. A reportagem do observador é exatamente o que parece- mais uma lamentável intriga oriunda da antiga casa civil do presidente Cavaco Silva.
  2. O objetivo é tentar ligar o meu nome – e a aprovação do decreto lei que criou o museu Berardo no CCB – aos empréstimos  que lhe foram concedidos pela Caixa Geral de Depósitos. Mais uma vez, nada há de verdade nessa insinuação.
  3. Como é falsa também a chamada “ coincidência de timing” entre a aprovação do decreto lei e a concessão de créditos da caixa ao senhor José Berardo para comprar ações no BCP. A primeira é de 2006, o contrato de crédito é de 2007.
  4. É igualmente falso que fosse “normal” – como é referido no texto – que os pareceres internos da casa civil fossem entregues no meu gabinete. Os pareceres internos da casa civil servem para aconselhar o Presidente, não o Governo. O que aconteceu neste caso foi que o governo aprovou um decreto-lei que permitiu expor a melhor coleção de arte moderna existente no Pais, aumentando a oferta cultural. O Presidente decidiu promulgar esse decreto, podendo não o fazer.
  5. Finalmente não resisto a citar um breve trecho da reportagem. Diz o jornalista : “ O desagrado de Cavaco Silva com o desequilíbrio do acordo negociado pelo Governo Sócrates era tal que, a propósito de uma capa que a  revista norte americana fez na mesma altura com o multimilionário Warren Buffet chegou a desabafar para a sua equipe: “ Este sim, é que é um verdadeiro benemérito” , disse o Presidente enquanto pegava na revista.”  Brevemente, porque o assunto não merece mais : o jornalista relata uma história que lhe foi contada por alguém, como se ele próprio a tivesse pessoalmente testemunhado, enganando maliciosamente os seus leitores. Enfim.

Ericeira, 23 de julho de 2019
José Sócrates

 



PS- envio também as respostas dadas a este propósito na Comissão de Inquérito da Caixa Geral de Depósitos. Eis o texto:

VI- Senhor José Berardo

1

Nunca reuni com o senhor José Berardo em 2007. A única reunião de trabalho – a única – que tive com ele decorreu no meu gabinete, a pedido da então Ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, para discutir a possibilidade de um acordo entre o Estado e a Fundação Berardo para que a sua coleção fosse exposta no Centro Cultural de Belém. Essa reunião aconteceu antes do acordo que foi assinado a 3 de Abril de 2006 e nunca mais tive qualquer outra reunião de trabalho nem acompanhei o desenrolar das negociações, que decorreram no respetivo Ministério da tutela. Quero reafirmar, como já fiz publicamente no dia da inquirição do Dr. Filipe Pinhal, que nunca discuti, conversei ou orientei o senhor José Berardo em qualquer investimento ( aliás, não tinha com ele qualquer relação que permitisse uma conversa desse tipo). Nunca tive conhecimento, fosse por quem fosse, do empréstimo que este negociou com a Caixa Geral de Depósitos para reforçar a sua posição acionista no Banco Comercial Português, assim como não tinha conhecimento que a Caixa ou o restante sector financeiro realizassem empréstimos tomando como garantias ações de bancos. Nunca sugeri a ninguém- acionista ou não acionista – que requeresse empréstimos na Caixa para tomar ou reforçar posições no banco comercial português. Tal assunto nunca foi discutido dentro do Governo nem o discuti com o Ministro da Finanças. Na verdade,  só tive conhecimento desse financiamento exatamente no mesmo momento em que todos os portugueses souberam – no inicio dos trabalhos dessa Comissão Parlamentar.

2

No entanto, a miséria moral chegou a tal ponto que nesta comissão o senhor Filipe Pinhal referiu uma pretensa conversa com o senhor Joe Berardo em que este lhe terá dito que “ ainda estou para saber como é que aquele homem me enfeitiçou, como é que aquele homem me deu a volta…”  Para, então, a partir daqui,  concluir que “aquele homem” só poderia o Dr. Teixeira Pinto ou eu próprio. E, acrescenta, só poderia ter sido eu já que a palavra daquele não teria peso suficiente para o influenciar. Este comportamento não tem outro objetivo que não seja senão procurar envolver o meu nome na história seja de que forma for, nem que seja preciso recorrer à forma mais abjeta de intriga e de insinuação. É uma tristeza.

 

 
 
 

Por opção do autor, este artigo respeita o AO90


 

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/jose-socrates-desmente-observador/

Queixas contra CTT disparam desde a sua privatização

A degradação do serviço público postal evidencia-se desde a preparação da sua privatização com milhares de despedimentos e centenas de estações encerradas. Em 2019, o cenário de agravamento prossegue.

O serviço público postal tem sido reivindicação dos seus trabalhadores e populações desde a privatização dos CTTCréditosANTONIO COTRIM / LUSA

Desde o início do ano foram feitas junto do Portal da Queixa 3778 reclamações (à hora e data em que se escreve o artigo), em razão de problemas com os serviços prestados.

A degradação do serviço público prestado e das condições de trabalho nos CTT, cinco anos após a primeira fase de privatização da empresa, são evidentes. Os Correios são assim a instituição que mais reclamações recebe no portal do consumidor.

 

Como hoje informa o Jornal de Notícias, só entre 17 de Junho e 17 de Julho deste ano «deram entrada 936 queixas, uma subida de 34% face às 699 registadas no mesmo período 2018».

Pese embora a empresa avançar com a justificação de que o período de férias traduz-se em alguns «constragimentos», desde 2015 – ano subsequente à privatização dos CTT – que se verifica um aumento exponencial de queixas, o que evidencia a falta de meios, em particular humanos, para dar resposta às necessidades.

É a própria DECO que diz que, «a partir de 2015, o total de reclamações começou a subir, e não mais parou. Entre aquele ano e o seguinte, o aumento foi de cerca de duas mil, mais concretamente de 6890 para 8934. Até 2018, chegou às 16 077 reclamações, soma que inclui as registadas no livro de reclamações físico e electrónico, e as recebidas directamente na Anacom sobre os CTT» –conforme consta no gráfico da Defesa do Consumidor.

Gráfico evolutivo das queixas apresentadas contra os CTT nos últimos anos. Créditos

Recorde-se que em 2011, PS, PSD e CDS-PP assinaram o acordo com a troika onde constava a privatização dos CTT, que viria a ser concretizada em duas fases, em 2013 e 2014, desferindo desse modo um golpe junto de uma das empresas públicas mais lucrativa. Só nos sete anos anteriores à privatização (entre 2007 e 2013) apresentou, em média, lucros superiores a 50 milhões de euros.

A degradação do serviço público postal evidencia-se desde a preparação da privatização, pela qual se impôs a saída de quase três mil trabalhadores, o encerramento de mais de 300 estações e 85 centros de distribuição postal e o fim de mais de 1500 giros – caminho que foi prosseguido pela administração nos anos subsequentes.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/nacional/queixas-contra-ctt-disparam-desde-sua-privatizacao

Governo PS impõe corte de 462 mil euros na Agência Lusa

O corte determinado pelo Governo no orçamento da Lusa para o ano corrente obrigará a agência a cortar 100 mil euros por mês até ao final do ano. Decisão «não é possível de cumprir» sem despedimentos.

Redacção da Agência LusaCréditosInácio Rosa / Agência LUSA

A decisão do Governo PS de proceder a um corte de 462 mil euros na rubrica dos Fornecimentos e Serviços Externos (FSE) foi repudiada pelos órgãos representativos dos trabalhadores (ORT) da Agência Lusa, os quais, em comunicado conjunto, consideraram «inaceitável» a decisão governamental de «cortar o orçamento da Lusa para 2019», que prevêm conduzirá «a uma brutal perda da qualidade do serviço da agência» e a «despedimentos de trabalhadores jornalistas».

Segundo os ORT, esta rubrica «paga muita da actividade diária jornalística da agência, incluindo salários de correspondentes e avençados, nacionais e internacionais, que agora poderão ver-se no desemprego».

A decisão foi anunciada pelos accionistas da Lusa, após a assembleia-geral realizada no passado dia 19 de Julho para aprovar o Plano de Actividades e Orçamento da Lusa para 2019, cuja votação vinha a ser adiada sucessivamente desde Março.

Os trabalhadores, conhecedores do protelamento da assembleia, «vinham desde há semanas denunciando a vontade do Governo em fazer um corte e alertando» para o previsível «impacto» negativo que este viria a ter.

As ORTs, que oportunamente alertaram para o risco de os cortes agora anunciados se virem a verificar, assinalaram a «concordância» manifestada pelos grupos parlamentares «com as preocupações dos trabalhadores da Lusa», exortam a administração da Lusa «a não aceitar o corte» e adiantam irem pedir reuniões ao primeiro-ministro e ao Presidente da República, «não excluindo outras acções de luta» venham a ser decididas pelos trabalhadores.

O presidente do Conselho de Administração da Lusa, Nicolau Santos, mostrou-se preocupado com o «corte de 462 mil euros» nos FSE no orçamento de 2019, o qual obrigaria a agência a reduzir até final do ano – nos cinco meses que ainda faltam – quase 100 mil euros por mês o que para o gestor «não é possível cumprir», a não ser com uma «redução brutal» de correspondentes.

Agência Lusa é serviço público

Recorde-se que o Estado Português é o accionista principal da Lusa, com 50,14% do capital social da empresa, seguindo-se-lhe o Global Media Group (23,36%) e a Impresa (22,35%), além de outros pequenos accionistas da agência que é considerada «a maior agência de notícias de língua portuguesa no mundo» e que tem por objectivo estatutário prestar «ao Estado Português» os «serviços da sua especialidade que assegurem o cumprimento das obrigações do Estado no âmbito do serviço de interesse público relativo à informação dos cidadãos».

No comunicado, os ORT denunciam «os constrangimentos financeiros que o Governo impõe à Lusa desde há anos, com cortes sucessivos e o não cumprimento integral do contrato-programa, desde logo por não transferir anualmente a compensação prevista pelo valor de inflação».

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/nacional/governo-ps-impoe-corte-de-462-mil-euros-na-agencia-lusa

Quando a política pensa com o penteado

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 19/07/2019)

Como faltam as ideias, vota-se no penteado…

 

Em 1995, a popular jornalista sueca Stina Dabrowski, que já entrevistou Nelson Mandela, Yasser Arafat, Hillary Clinton ou Madonna, fez uma entrevista de meia hora com Margaret Thatcher. No fim, a entrevistadora fez uma proposta à já então ex-primeira-ministra. Queria que ela desse um saltinho no estúdio. Sim, isso mesmo, um saltinho no estúdio. “Um saltinho? Nunca sonharia em fazer tal coisa. Porque o haveria de fazer? Eu dei grandes saltos para o futuro, não dou saltinhos em estúdios.” Mas Stina não desistiu. Queria que a senhora mostrasse o seu lado humano. Thatcher foi clara: “Isso apenas mostra que queremos ser vistos como pessoas normais e ser populares e eu não preciso disso. Não quero perder o respeito das pessoas que me respeitam há tantos anos fazendo uma coisa dessas”.

Insuspeito de gostar de Thatcher gostava deste seu lado: a secura distante que aqui só nos foi dada por Álvaro Cunhal. Os políticos até podem fazer algumas coisas descontraídas. As pessoas dançam e cantam em público, dizem piadas, não estão sempre a discursar. Não têm de ser uns cepos sem emoções. Podem mostrar outras partes de si, desde que se sintam confortáveis com isso. Mas não devem permitir que as coisas cheguem ao ponto em que se transformam em tontinhos. Parece-me evidente que Assunção Cristas está a ultrapassar essas fronteiras. Ao publicar quatro fotos com quatro penteados no Instagram, pedindo aos seus seguidores que escolham o que preferem, transforma-se numa figura de entretenimento. E ao fazê-lo diminui-se como política.

Ao publicar quatro fotos com quatro penteados no Instagram, pedindo aos seus seguidores que escolham o que preferem, Cristas transforma-se numa figura de entretenimento. As pessoas querem que quem está no poder seja como seu vizinho, amigo, primo. Mas esta proximidade é evidentemente falsa
Não tenho dúvidas de que as pessoas querem que quem está no poder seja como o seu vizinho, o seu amigo, o seu primo. E os políticos, que precisam de votos, e a comunicação social, que precisa de audiência, cedem. Até eu, sem ser político, posso já ter cedido. Mas isto está a destruir a democracia. Porque a dessacraliza, retirando-lhe autoridade sem por isso a aproximar das pessoas. Porque esta proximidade é evidentemente falsa. Cristas pergunta às pessoas que penteado deve usar, não faz grande questão em envolvê-las em orçamentos participativos. A proximidade dos cidadãos ao poder faz-se através de uma sociedade civil ativa e de um Estado aberto e com instrumentos de participação. Não se faz em conversa de cabeleireiro. Isto só esvazia a política de conteúdo. Fica a feira.

Mas há a segunda parte deste episódio: nunca os estrategas da comunicação sujeitariam Nuno Melo a uma coisa destas. Nunca fariam das escolhas sobre o seu penteado um tema de relação com os seus eleitores. Da mesma forma que nunca se pergunta a um homem como compatibiliza o papel de pai e de político.

Parece que as mulheres, para estarem na política, têm de carregar para elas o lado privado que as velhas sociedades lhes reservavam. Não era isto, se bem me lembro, que Cristas prometia à política portuguesa. Os políticos que deixam que sejam os marketeers a mandar acabam por perder o respeito de quem realmente os respeitava.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

O PCP, o Polígrafo e o Expresso

O Polígrafo pegou hoje numa publicação de uma página de desinformação para fazer uma verificação de factos em torno do centro de trabalho do Vitória, do PCP, que fica na Avenida da Liberdade, em Lisboa. Segundo a página de desinformação, o PCP tem uma sede "ao lado da Gucci, na rua da Versace, Louis Vuitton e Tom Ford". A avaliação, que o Polígrafo classifica como "verdadeiro, mas..." tem por base o facto de o PCP ter na Avenida da Liberdade não uma sede, como lhe chama o Polígrafo, mas um centro de trabalho há mais de 40 anos e, espante-se, nessa altura, ao seu lado não havia nem Gucci, nem Versace, nem Louis Vuitton. Aproveito ainda para informar o Polígrafo e a página de desinformação que o PCP tem um centro de trabalho no Porto, na Avenida da Boavista, pelo que estará também na mesma rua ao lado de hotéis, bancos, supermercados e, com um bocadinho de boa vontade, do Estádio do Bessa.


Para justificar esta "investigação", o Polígrafo refere o seguinte: "A imagem em causa é autêntica? Confirma-se que o PCP tem "sede ao lado da Gucci, na rua da Versace, Louis Vuitton e Tom Ford"? Verificação de factos, a pedido de leitores do Polígrafo".

Começa aqui a minha curiosidade. O Polígrafo terá sido confrontado por alguns leitores para aferir se uma informação dada pela página de desinformação é verdadeira. Curiosamente, até hoje, nenhum leitor do Polígrafo terá pedido ao site de verificação de factos que afira a veracidade do caso das palavras cruzadas do Expresso, uma vez que não há qualquer referência a isto no Polígrafo. Recordemos, então, o que se passou.

No passado sábado, a revista do Expresso trazia, nas suas palavras cruzadas, no número 1 horizontal, a seguinte descrição da palavra que deveria ocupar o quadriculado: "Ensinam quando não estão em greve". A resposta: Professores.

A imagem circulou nas redes e teve algum impacto quando a FENPROF exigiu um pedido de desculpas ao Expresso. Chegou à maioria dos órgãos de comunicação social. Ou, melhor, nem todos. Curiosamente, através de uma busca no Google, verificamos que nenhum órgão de informação do Grupo Impresa, noticiou sequer a questão das palavras cruzadas. Obviamente que o facto de o Grupo Impresa ser dono do Expresso e da SIC, com quem o Polígrafo tem uma parceria e um programa de televisão, nada tem a ver com este apagão informativo da relativamente a uma matéria que gerou milhares de comentários.

Mas há mais. Quem assina as palavras cruzadas do Expresso é Marcos Cruz. Ora, de acordo com este artigo de José Pedro Castanheira no Expresso, Marcos Cruz é, na verdade, a mulher de Pinto Balsemão: "Mercedes Balsemão, mulher do diretor, faz as palavras cruzadas, com o pseudónimo de Marcos Cruz". Portanto, como certamente o Polígrafo irá investigar para saciar a nossa curiosidade, Marcos Cruzainda é pseudónimo de "Tita" Balsemão, como é conhecida? Será que isso tem alguma coisa a ver com a inexistência, nos sites da Impresa, de algo que gerou tanto buzz nas redes socais?

 
 
Cá continuaremos à espera de respostas que o Polígrafo, com certeza, terá para dar, já que passou ao lado destas

Ver original em 'Manifesto 74' na seguinte ligação:

http://manifesto74.blogspot.com/2019/07/o-pcp-o-poligrafo-e-o-expresso.html

As previsões sempre falhadas de um suposto vate

Não sei se Centeno será ou não novo líder do Fundo Monetário Internacional. E não vejo que venha mal ao mundo que isso possa acontecer: não tivesse acontecido o inexplicável episódio num quarto de hotel de Nova Iorque e o socialista Dominique Strauss-Kahn poderia ser dado como o autor de uma viragem da organização, que pressupusesse a alteração do seu habitual carácter predatório. Nunca se esclarecerá se esse assunto de alcova terá mesmo acontecido como as autoridades federais norte-americanas descreveram se, pelo contrário, envolveu uma armadilha destinada a remover do caminho quem pretenderia garantir a continuidade da vertente mais selvagem do capitalismo.

 

Não vejo, por outro lado, que Centeno seja insubstituível. Como diria Clemenceau é nos cemitérios, que se encontram os que são dados como tendo tal condição. Seria confiarmos pouco em António Costa se o não soubéssemos capaz de garantir alternativa de igual competência.

 

Do que deveremos desconfiar é do sempre frustrado zandinga de Fafe: a confirmar-se a indigitação do ministro português para patrão de Vítor Gaspar, é mais uma das patéticas previsões de Marques Mendes que se arrisca a esboroar com fragor. Na volta nem Centeno será candidato a deputado, nem repetirá o lugar de ministro. Após tantos tiros fora do alvo como tem cara para continuar a aparecer, domingo após domingo, a atirar os seus bitaites a quem ainda tem paciência para o ouvir?
 
 

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/07/as-previsoes-sempre-falhadas-de-um.html

"ganda puta!"

 
 
 
Há uma dúzia de anos uma blogger da nossa praça contou que o filho de dois anos andava com a mania de chamar "ganda puta" às pessoas. Os pais tentaram tudo para lhe tirar o hábito, mas o miúdo insistia. Até que a mãe recorreu a métodos brutais. A maior parte dos comentários ao post onde isto era relatado foram de aprovação, variações de "quando for grande vai-te agradecer ter recebido essa boa educação".

Há dias comparei os valentes que "ousam assumir" um discurso politicamente incorrecto a uma criança de três anos que grita "cocó" no meio de uma sala cheia de visitas[1]. Mas ao ler o artigo mais recente do João Miguel Tavares[2] dei-me conta de que a imagem peca por defeito. Corrijo agora: o que esses valentões dizem não é "cocó", é: "ganda puta!"
E parece que não tiveram pais que os educassem, em criança.

Por algum motivo que gostava de entender, mas argumentando que estão a respeitar a liberdade de expressão, os jornais publicam a provocação. Dão palco a estes discursos que não fazem o menor esforço para esconder os tiques de supremacia branca, e até os exibem em letras grandes e gordas:

Ganda puta!

Desculpem que pergunte: em nome de quê publicam os jornais um "ganda puta!" (por exemplo: "Sim, há culturas que são superiores a outras[3]") em letras gordas?

A posição de que as ideias se debatem com ideias, e que a vantagem da publicação de textos infelizes é dar ensejo à publicação de textos felizes para contrapor, parece-me um bocadinho ingénua. Qual é o poder e o valor do contraditório nestes tempos de fake news, quando já é do conhecimento de todos que as pessoas ouvem apenas aquilo que querem ouvir e acreditam apenas naquilo em que querem acreditar, quando a terra ser redonda ou plana, a chegada do Homem à lua ou a importância das vacinas são meras questões de opinião? Hoje em dia, o que acontece no espaço público não é um debate esclarecedor, mas uma enorme chinfrineira. Para muitos, o debate esgota-se de forma satisfatória no momento em que lêem o "ganda puta!" da sua convicção escrito em letras grandes e gordas nas páginas do Público. Tudo o resto que se possa dizer sobre o assunto será ignorado: mera canzoada a ladrar.
São estas as novas regras do jogo, e não as podemos ignorar.
Fazer o quê, então? Não sei. Mas o facto de não ter solução para este problema não inviabiliza a crítica e não nos pode impedir de reconhecer que chegamos a uma situação de impasse.

Para tornar tudo ainda mais complexo, a gravidade desta questão não se esgota na improficuidade do debate. Se as ideias apresentadas e debatidas se limitassem a discutir o sexo dos anjos, menos mal. Mas muitas vezes esses "ganda puta!" atirados para o espaço público de debate ferem impiedosamente a dignidade humana. O infantiloide que se julga muito valente por não respeitar "a ditadura do politicamente correcto", e grita insultos para o meio da sala, está realmente a cometer tortura psicológica contra as pessoas de alguns grupos marginalizados. Dizer-se neste caso que "quem não deve não teme" será sinal de ignorância e falta de empatia. É exigir demasiada nonchalance a pessoas que ao longo de toda a sua vida são humilhadas por atitudes - muitas vezes inconscientes e involuntárias - de ódio étnico e racial. Estou a pensar, por exemplo, no que me contou há dias um empresário alemão: em miúdo, fartou-se de apanhar tareias na escola e na rua, sem saber o que é que os outros miúdos tinham contra ele. Até que um dia percebeu: o seu cabelo castanho dava-lhe um ar de turco. Isso mesmo: perseguiam-no e batiam-lhe apenas por acharem que ele era turco. Ele - filho, neto e bisneto de alemães - tinha como escapar a esta dinâmica de violência. Mas os outros, os filhos de turcos, não. 
E estou a pensar neste filme, que mostra bem o que é crescer num ambiente hostil:

O meu filho está há meses a trabalhar com grande entusiasmo e generosidade na organização do festival in*Vision. Um dos objectivos do festival é trazer para o centro da sociedade pessoas que se sentem marginalizadas. Fazê-las acreditar que são cidadãs de pleno direito, e que esta Polis também é delas - nem mais nem menos que dos outros.

De cada vez que um jornal publica um destes "ganda puta!" de supremacia branca em letras gordas, destrói o trabalho dos organizadores do in*Vision e de tantas iniciativas do género, e obriga-os a recomeçar, uma e outra vez. Pergunto-me se o João Miguel Tavares, a Fátima Bonifácio e outros comentadores do género se sentem contentes e orgulhosos do importante papel que escolheram ter na sabotagem dos esforços para criar uma sociedade igualitária. 

E fico à espera dos próximos capítulos no Púlico: será que teremos em breve mais um artigo da Bárbara Reis[4] a criticar os "snowflake" por afinarem logo mal lhes chamam "ganda puta!"? Será que na próxima semana João Miguel Tavares nos vai explicar porque é que os tipos que vivem nos guetos da "cultura inferior" não se devem revoltar contra os da "cultura superior" que os tratam com a rudeza de um miúdo de dois anos que quer provocar a autoridade dos adultos?

Ver o original em Dois Dedos de Conversa - clicar aqui

Nem de propósito

Na passada quarta-feira, o Jornal da Noite da SIC juntou Bernardo Ferrão e José Gomes Ferreira para comentar o debate do Estado da Nação, que teve lugar nesse dia à tarde na Assembleia da República. Quem tivesse saudades de assistir a uma análise político-económica na linha da «economia do pingo» e em versão Dupond et Dupont - que nos é tão familiar desde o início da crise - terá ficado satisfeito. José Gomes Ferreira afirmou, por exemplo, que «este Governo, e os partidos que o apoiam, são incapazes de reconhecer que quem cria emprego são as empresas» e que estas «têm que ter um bom ambiente e não têm», desde logo porque o «alto nível de fiscalidade» a que estão sujeitas está a «encher os cofres do Estado» e a «tirar rendabilidade a muitas» delas. Nada contra a defesa deste ponto de vista, mesmo que omitindo o desequilíbrio cada vez maior, desde 2004, entre os rendimentos do trabalho e os rendimentos do capital, que o Alexandre Abreu oportunamente aqui assinalou. O que inquieta é a persistente ausência de contraditório, mesmo quando se trata - como é o caso - de comentadores supostamente alheios ao plano de análise político-partidário. Isto é, uma ausência que acentua os enviesamentos existentes nesse plano, como há poucos dias se demonstrou aqui. É caso para dizer, nem de propósito.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

"na televisão, a direita vence a esquerda" e o PCP é fruto de um apagão...

 
« (...) Um estudo recente, aqui já escalpelizado por Nuno Serra, confirmou que o comentário político televisivo está enviesado para a política de direita no nosso país. Para lá disso, confirma-se o que já tínhamos aqui defendido: comunista praticamente não entra, não comenta. De facto, o PCP é o partido mais discriminado no comentário político televisivo. Eu já ouvi gente do meio dizer que é porque os comunistas são previsíveis, dizem sempre as mesmas coisas anacrónicas e tal. E eu digo que previsível é o preconceito anti-comunista. Os comunistas são a força onde é mais acentuada a discrepância entre o acerto de muitas posições, tantas vezes bem argumentadas, e a forma como essas posições são televisivamente desconsideradas. Para lá das eventuais questões de comunicação, há aqui um evidente preconceito ideológico, de classe. E nem vou falar desta vez das questões europeias, onde acertaram bem mais do que os europeísmos mais ou menos insanos que nos levaram aqui e que são absolutamente dominantes na televisão. Dou um exemplo mais circunscrito, mas igualmente importante para uma sociedade civilizada: a ferrovia. Se há partido que tem cabalmente denunciado os resultados da política de desinvestimento na, e de desmantelamento da, CP é o PCP, como se atesta lendo uma análise sobre este assunto. Por isso, o PCP está agora em boa posição para avaliar o significado de um primeiro gesto governamental que vai ao encontro do que sempre defendeu: a reintegração da EMEF na CP. É claro que no comentário político ninguém falará sobre isto a milhões na televisão. Afinal de contas, comunista não entra mesmo. Creio que nenhum leninista ficará surpreendido. A situação está tão má, dentro e fora da televisão, que esta grelha marxista tem hoje uma capacidade explicativa relativamente superior ao que passa por sabedoria convencional na televisão e até fora dela.»
João Rodrigues, in "Ladrão de Bicicletas"

Ver original em 'Conversa Avinagrada' (aqui)

Sobre o Estado e os placards de bordéis

O facto do Ministério Público continuar a usar um conhecido placard de bordéis de Lisboa para veicular posições suas, coloca o problema da responsabilidade do Estado na frustração do Direito à Informação.

 

O facto do Ministério Público continuar a usar um conhecido placard de bordéis de Lisboa para veicular posições suas e, no caso, contra a factualidade patente e produzida à vista de todos os presentes em sessão pública, coloca, aliás em vários planos, o problema da responsabilidade do Estado na frustração do Direito à Informação;

  • O Estado deve ser interpelado como responsável pela deterioração da dignidade da publicação noticiosa, ao permitir a imunidade material objectiva de pretensos jornais, que são meros pretextos para a publicação de placards pornográficos de bordéis,
  • O Estado deve ser processualmente interpelado como responsável pela facilitação desta modalidade de proxenetismo pornográfico, uma vez que, ao invés da promoção penal do MP, estes editores pornógrafos recebem notas para publicação do MP que devia promover contra eles,
  • O Estado deve ser processualmente interpelado como responsável pela deterioração da qualidade da informação política e judiciária, uma vez que o seu Serviço de Informações e de Segurança ousa remunerar (como agentes e informadores) pretendidos jornalistas desses universos de pornografia de indiciados lenocidas, usando-os em campanhas suas (que são as de funcionários com o freio nos dentes, insusceptíveis de controlo pelo governo, ou pelo parlamento),
  • O Estado é responsável pela inoperância da ERC e pela passividade da Comissão da Carteira, que asseguram a absoluta imunidade de quaisquer campanhas ad hominem, esmagadoras, irrespondíveis, maciças – envolvendo até as famílias das vítimas, compreendendo crianças – ao mesmo tempo que os tribunais perseguem com crua ferocidade o protesto de cidadãos comuns, ao abrigo da pretensa injúria e da pretensa difamação
  • Para se ter a noção da perversão radical da liberdade de palavra, note-se,
    • os cidadãos comuns são submetidos a perseguição menos que miserável, por pretensa injúria e difamação, a propósito do mais leve protesto, escondendo o Estado os números actuais do miserável assédio a que os cidadãos são por ele submetidos sob tais epigrafes
    • enquanto os funcionários do estado (designadamente das policias, MP, e até da organização judicial) se entregam ao estimulo de campanhas de imprensa ad hominem, em violação aberrantíssima de todos os direitos da personalidade das vítimas, mas no próprio e exclusivo interesse dos funcionários, no quadro de acordos plausivelmente delituais,
    • e o Estado esconde – também miseravelmente – os números do massacre a que os seus agentes do MP e demais estruturas judiciárias se têm entregado; assim,
    • foram proferidas no ano de 2013 (último ano de que há dados publicados, que os demais estão escondidos) 1190 condenações por injúria e difamação, simples ou agravadas (com apenas nove condenações de “crimes de imprensa”)
      Media Laws | Database
    • não há informação do tempo de pendência destes processos e não há dados quanto às absolvições e tempos de pendência, sendo certo que estes processos são mal em si próprios, doentio instrumento de controlo político, atentado contra a normal vida das pessoas que ali vivem sob constrangimento indecoroso, como eu próprio declarei ao parlamento sem desmentido ate hoje (não há aliás desmentido possível)
  • A liberdade de expressão está completamente anulada neste território, ou apenas subsiste graças à blogosfera e ao FB,
  • Transmutou-se numa liberdade de campanha infamatória arbitrariamente determinada por funcionários e seus cúmplices, nos organismos da insolvente imprensa e na indigência dos meios audio-visuais comerciais (ainda que não possam passar os meios públicos por isentos, porque o não são)
  • Sublinho – para se ter bem a noção do nível atingido de degenerescência – que tendo formulado há dias uma reclamação, em tribunal superior,
    • onde sublinhava a inépcia de pretendidas manobras de vigilância fora das fronteiras, feitas por pretensos policias portugueses (que fora das fronteiras não podem fazer vigilâncias) e onde notara que aqueles infelizes não tinham sequer conseguido descrever um percurso completo que houvessem feito, nem fixar o nome de estabelecimentos comerciais que queriam referir (aquilo era “um café” que ali havia, como se não houvesse vários, a caminho do qual seguiram o alvo “por várias ruas”, sendo que em algum lugar terá havido uma inversão de marcha, sem que se possa saber em qual das ruas de entre as diversas)
    • recebi para meu espanto a resposta da policia num jornal (o tribunal superior preferiu discutir outras coisas) e vinham dizer que tinham descrito um percurso, sim, repetindo o relatório com os mesmos problemas (que não conseguiram reproduzir nos depoimentos em audiência);
    • e, portanto, os funcionários seguem a evolução dos seus interesses em processo (com evidente colaboração do tribunal) e respondem ou retaliam pela imprensa onde haverá sempre um avençado que “escreve muito bem” a servir-lhes as versões a um público que felizmente já não há.
  • Depois dos indecorosos casos de José Sócrates, Frederico Carvalhão e Bruno de Carvalho, o Estado não pode deixar de ser interpelado na óptica dos interesses difusos do Direito à informação pelo facto dos cidadãos estarem sob assédio constante de uma lumpen-imprensa, materializada na propaganda de funcionários e bordeis, parecendo restringir-se a seriedade ao quase único jornal relevante em Língua Portuguesa: o El País (também há a edição em Língua Portuguesa do Pravda)
  • A conduta reiterada dos funcionários no abuso e manipulação das liberdades da imprensa, das quais também abusam proxenetas e pornógrafos sob a indesmentível protecção funcional daqueles, assume, objectiva e materialmente, o alcance de uma conspiração contra o núcleo fundamental dos valores e instrumentos da Democracia Parlamentar, conduzida por gente que tem do Estado uma concepção onde se assinalam todas as linhas do esboço de Hauriou: o Estado de Petain, Franco e Salazar.

Aos vossos postos, se não se importam.

Vamos tratar disto.

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/sobre-o-estado-e-os-placards-de-bordeis/

Comunista não comenta

Lenine dizia que a política deve dirigir-se a milhões de pessoas. E no tempo de Lenine ainda não havia televisão. Um estudo recente, aqui já escalpelizado por Nuno Serra, confirmou que o comentário político televisivo está enviesado para a política de direita no nosso país. Para lá disso, confirma-se o que já tínhamos aqui defendido: comunista praticamente não entra, não comenta. De facto, o PCP é o partido mais discriminado no comentário político televisivo. Eu já ouvi gente do meio dizer que é porque os comunistas são previsíveis, dizem sempre as mesmas coisas anacrónicas e tal. E eu digo que previsível é o preconceito anti-comunista. Os comunistas são a força onde é mais acentuada a discrepância entre o acerto de muitas posições, tantas vezes bem argumentadas, e a forma como essas posições são televisivamente desconsideradas. Para lá das eventuais questões de comunicação, há aqui um evidente preconceito ideológico, de classe. E nem vou falar desta vez das questões europeias, onde acertaram bem mais do que os europeísmos mais ou menos insanos que nos levaram aqui e que são absolutamente dominantes na televisão. Dou um exemplo mais circunscrito, mas igualmente importante para uma sociedade civilizada: a ferrovia. Se há partido que tem cabalmente denunciado os resultados da política de desinvestimento na, e de desmantelamento da, CP é o PCP, como se atesta lendo uma análise sobre este assunto. Por isso, o PCP está agora em boa posição para avaliar o significado de um primeiro gesto governamental que vai ao encontro do que sempre defendeu: a reintegração da EMEF na CP. É claro que no comentário político ninguém falará sobre isto a milhões na televisão. Afinal de contas, comunista não entra mesmo. Creio que nenhum leninista ficará surpreendido. A situação está tão má, dentro e fora da televisão, que esta grelha marxista tem hoje uma capacidade explicativa relativamente superior ao que passa por sabedoria convencional na televisão e até fora dela.
 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Televisão sardinhas e tubarões

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Sempre que vejo os noticiários televisivos, lembro-me daquela nauseabunda tasca-carvoaria na esquina da Rua das Flores com a rua de S. Paulo, que servia sardinha assada durante todo ano. O cheiro gordo e requentado das sardinhas misturado ao carrascão empestava quem por lá passasse.
Isto porque nas TVs, do primeiro ao último telejornal, servem-nos escroques durante todo o ano, tubarões-martelo, arrastados por advogados que, a peso de ouro, procuram ilibar os superpredadores do património público, que tresandam a corrupção e deixam um fedor repugnante misturado com Chanel e a arrogância própria a esta espécie, que tem como santuário o PS/PSD/CDS onde também se acoitam muitos cações e algumas piranhas.
Os que passavam pelos arredores da tasca, acabavam por se habituar, assim como, perigosamente, também pode acontecer aos que acabam por aceitar os tubarões que vêem na televisão com se fossem peixelim.

Ver o original em As palavras são armas (clique aqui)

Portugal | Racismo: entre o crime e a liberdade de expressão

Portugal está entre os países mais racistas da Europa
Pedro Carlos Bacelar de Vasconcelos* | Jornal de Notícias | opinião

É surpreendente que um órgão de Comunicação Social, seja ele qual for, se preste a ser veículo de mensagens xenófobas e racistas.

O jornal "Público" fê-lo quando consentiu servir de veículo à expressãoflagrante dos mais primitivos sentimentos de xenofobia e ódio racial confessados pela sua colaboradora prof. Fátima Bonifácio, em artigo de opinião publicado no último fim de semana. Tal como a TVI quando entrevistou Mário Machado. Não é razoável, no primeiro caso, que, tendo admitido publicar tal artigo de opinião, a Direção não o fizesse acompanhar, à margem, de uma explícita declaração de repúdio, incluindo o anúncio de que a colaboração da autora cessava a partir dessa data, por manifesta incompatibilidade com a linha editorial de que o jornal tanto se orgulha e que ainda sustenta o prestígio que alcançou junto dos seus leitores. No segundo caso, menos razoável ainda é invocar um alegado interesse jornalístico.

A própria liberdade de expressão, como todos os direitos, é limitada por outros valores e princípios constitucionais que, em situações muito graves, podem conduzir à sua qualificação como crime, conforme prevê o Código Penal em vigor: - "quem, publicamente, por qualquer meio destinado a divulgação, nomeadamente através da apologia, negação ou banalização grosseira de crime de genocídio, guerra ou contra a paz e a humanidade; (...) b) Difamar ou injuriar pessoa ou grupo de pessoas por causa da sua raça, cor, origem étnica ou nacional, ascendência, religião, (...) é punido com pena de prisão de 6 meses a 5 anos". (Art.ª 240, nº2, alínea b) do Código Penal). E a Lei de Imprensa determina que o "diretor, o diretor-adjunto, o subdiretor ou quem concretamente os substitua, (...) que não se oponha, através da ação adequada, à comissão de crime através da imprensa, podendo fazê-lo, é punido com as penas cominadas nos correspondentes tipos legais, reduzidas de um terço nos seus limites". (Art.º 31, n.º 3).

Diz George Orwell, num ensaio datado de 1945 que infelizmente preserva inteira atualidade, reeditado pela Penguin UK, em 2018 (Notes on Nationalism - Antisemitism in Britain): "O problema é que alguma coisa, alguma vitamina psicológica, falhou na civilização moderna e, em consequência disso, todos nós estamos mais ou menos sujeitos a esta loucura de acreditar que nações ou raças inteiras são misteriosamente bondosas ou misteriosamente más". Esta crença demencial foi exposta tragicamente pelos horrores da guerra e dos campos de concentração e extermínio. A confissão dos preconceitos racistas e xenófobos da prof.a Fátima Bonifácio, oferecida num registo pretensamente ingénuo e paroquial, é hoje indesculpável.

*Deputado e professor de Direito Constitucional

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/07/portugal-racismo-entre-o-crime-e.html

Brasil | O ESPAÇO DE LIBERDADE CONSENTIDO

Assistir ali aos debates sobre Reforma da Previdência nas duas estações de TV brasileira transmitidas em Portugal (Record e Globo) foi um exercício revelador. 

Pode-se dizer que na verdade não houve debate real:   todos os intervenientes neles apresentados eram a favor desta Reforma – não apareceu ninguém que falasse contra. Assim, os ditos "debates" circunscreviam-se sempre a questões acessórias da reforma e nunca sobre o mérito da mesma – era uma ilusão de debate. 

O principio jornalístico elementar de ouvir todos os lados quando se dá uma notícia ou se promove um debate foi totalmente ignorado. Isto confirma mais uma vez a tese de Noam Chomsky sobre "o espaço de liberdade consentido" (em A fabricação do consentimento ) nos media corporativos. A liberdade de imprensa é realmente a liberdade dos donos dos media.

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/07/brasil-o-espaco-de-liberdade-consentido.html

Quase tudo como dantes?

Um recente estudo do MediaLAB (ISCTE), publicado no European Journalism Observatory, dá conta do enviesamento do comentário político face ao espectro partidário português. Tomando como referência os espaços televisivos de diferentes estações, constata-se a prevalência de comentadores de direita, filiados ou não em partidos. De facto, a direita assegura em média cerca de 60% dos intervenientes em programas de comentário e debate político nos principais canais (generalistas ou de informação), somando os intervenientes à esquerda apenas cerca de 30% e os comentadores não alinhados 11%. Como referem os autores do estudo, que analisa 53 espaços semanais fixos de opinião, a maior presença da direita nas televisões portuguesas contrasta tanto «com a composição partidária da Assembleia da República» como com a «delegação portuguesa recém-eleita para o Parlamento Europeu».
De facto, uma distribuição de intervenientes congruente com a representação parlamentar da Assembleia da República, e que mantivesse uma «quota» de 11% para os comentadores não alinhados, obrigaria a que 47% dos intervenientes em programas de comentário e debate político se situassem à esquerda, devendo a representação da direita descer de 60 para 41%, perdendo portanto a posição dominante que atualmente ocupa. Como bem sabemos, o problema não é novo. O défice de pluralismo foi particularmente expressivo no início da crise financeira e essencial para que a mesma fosse convertida, em termos de narrativa político-económica (e dada a ausência de contraditório), em crise das dívidas soberanas, facilitando o abrir de portas à aceitação sem verdadeiro debate, nas televisões, do processo de «ajustamento» e da agenda da austeridade. É certo que desde então - e sobretudo depois de a própria realidade demonstrar a fraude intelectual associada à estratégia da «austeridade expansionista» e do «empobrecimento competitivo» - a direita opinativa (frequentemente apresentada como portadora de um discurso meramente «técnico») deixou de ter chão para poder continuar a insistir no linguajar da culpa e dos sacrifícios redentores. Mas a verdade também é que a sua presença hegemónica no debate televisivo não se alterou substancialmente, apesar do surgimento nas televisões de novos rostos à esquerda e de programas com maior equilíbrio e pluralismo em termos de representação de sensibilidades políticas e partidárias.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Fátima Bonifácio, o “Público” e os valores morais dos brancos

(Daniel Oliveira, in Expresso, 08/07/2019)

Daniel Oliveira

 

Fátima Bonifácio escreveu, no “Público”, um artigo que teve como ponto de partida a ideia de se criarem quotas para minorias étnicas semelhantes às que já existem para as mulheres. As quotas para mulheres conseguiram, apesar de todas as críticas, romper com o bloqueio que existia à sua representação política e visibilidade públicas. O resultado desta medida desmentiu a ideia de que pode existir uma progressão social meritocrática que ignora relações de poder pré-existentes. As quotas, por natureza transitórias, não são uma forma de ignorar o mérito, são uma forma de derrubar as barreiras do preconceito que se sobrepõem ao mérito.

No seu artigo, Fátima Bonifácio não nega nada disto. Pelo contrário, reconhece os bons resultados conseguidos pelas mulheres. Para depois dizer que isso não seria extensível às etnias. Porque não tenho uma opinião fechada sobre as quotas para minorias étnicas – assim como não tinha sobre as quotas para mulheres até recolher bons argumentos em sua defesa –, estava disponível para ler quem explicasse a diferença entre as duas. Por exemplo: umas e outras identidades serem mais ou menos difusas. Ou o peso destas minorias em comparação com metade da população, que é feminina. Havia muito por onde pegar para abrir um debate difícil. Aquilo com que me deparei é de tal forma abjeto que usá-lo como ponto de partida para qualquer debate corresponderia a um desprestígio intelectual para quem o fizesse. Não cumpre os mínimos. Sobre o artigo de Fátima Bonifácio, que poderia ser sobre um tema interessante e complexo, não há outro tema que não seja a própria existência do artigo.

As generalizações racistas com que somos brindados são precedidas por um postulado geral, escrito, sejamos justos, com uma clareza desconcertante: “As mulheres, que sem dúvida têm nos últimos anos adquirido uma visibilidade sem paralelo com o passado, partilham, de um modo geral, as mesmas crenças religiosas e os mesmos valores morais: fazem parte de uma entidade civilizacional e cultural milenária que dá pelo nome de Cristandade. Ora isto não se aplica a africanos nem a ciganos. Nem uns nem outros descendem dos Direitos Universais do Homem decretados pela Grande Revolução Francesa de 1789. Uns e outros possuem os seus códigos de honra, as suas crenças, cultos e liturgias próprios.”

Não vou perder tempo com os exemplos que Fátima Bonifácio utiliza, depois desta exuberante afirmação que atira grupos étnicos inteiros para o mesmo saco cultural, para explicar as diferenças entre negros e ciganos, por um lado, e “nós”, por outro. Têm mesmo de ler o texto. O grau de ignorância atrevida é de tal forma avassalador que seria tão difícil manter um diálogo com a senhora como com qualquer troglodita do PNR. Desde unificar os afrodescendentes com religiões e culturas totalmente diferentes num mesmo caldo cultural a parecer ignorar que os ciganos portugueses são maioritariamente cristãos (dantes maioritariamente católicos, agora seduzidos por igrejas evangélicas), ou nada saber sobre a relação do drama da mutilação genital feminina com o Islão ou sobre tradições ciganas, passando por uma sucessão impressionante erros factuais, imprecisões graves, generalizações absurdas e afirmações levianas, o artigo está ao nível da mais primária das conversas de café. É natural que assim seja, quando a colunista baseia alguns dos seus conhecimentos em relação às minorias étnicas na clássica conversa com a empregada doméstica.

Mas há momentos de deliciosa ironia. Depois de dedicar um parágrafo generalizador e racista aos ciganos, passa para os afrodescendentes e aponta-lhes o seu primeiro defeito coletivo: “Odeiam ciganos”. Aliás, “os africanos são abertamente racistas: detestam os brancos sem rodeios; e detestam-se uns aos outros quando são oriundos de tribos ou ‘nacionalidades’ rivais”. Para quem possa estar distraído, Fátima Bonifácio é branca. Parece que acontece, excecionalmente, haver brancos que são “abertamente racistas”. Mas não é como nos africanos. Esses são mesmo todos.

Não fosse publicado num jornal, o texto corresponderia às alarvidades que podemos ler nas caixas de comentários aos artigos. A mesma ignorância atrevida, a mesma generalização racista, a mesma imbecilidade doutorada. Na realidade, se lermos as regras que o “Público” aplica (“são intoleráveis comentários racistas, xenófobos, sexistas, obscenos, homofóbicos, assim como comentários de tom extremista, violento ou de qualquer forma ofensivo em questões de etnia, nacionalidade, identidade, religião, filiação política ou partidária, clube, idade, género, preferências sexuais, incapacidade ou doença”), percebemos que o jornal é mais criterioso na publicação de comentários aos artigos do que na publicação dos próprios artigos.

Como é natural, tendo em conta a natureza abertamente racista do artigo, houve muitas reações. Como seria de esperar, milhares de vítimas do politicamente correto rapidamente se atiraram para o chão. As regras deste tempo são estas: os alarves são livres de escreverem o que querem, de insultarem quem querem, de espalharem o ódio e o preconceito como querem. E quem se atreva a mostrar a sua indignação é um totalitário. E assim, o agressor vira vítima em poucos minutos.

O texto de Fátima Bonifácio não é semelhante a coisas ditas ou escritas por André Ventura. Nunca aquele oportunista se atreveu a dizer ou escrever metade do que lemos no “Público”. O texto de Fátima Bonifácio traça de forma explícita uma linha cultural divisória entre “nós”, os brancos, e “eles”, os outros. Como ela diz, africanos e ciganos não “fazem parte de uma entidade civilizacional e cultural milenária que dá pelo nome de Cristandade” e não “descendem dos Direitos Universais do Homem decretados pela Grande Revolução Francesa de 1789”, não tendo “os mesmos valores morais” dos brancos.

Nada do que escreveu Fátima Bonifácio sobre negros e ciganos se distingue do que escreveria um nazi sobre judeus nos anos 30. Nada. É que eles não começaram por defender o Holocausto. Apenas explicaram que entre “nós” e os judeus havia uma fronteira intransponível de valores morais. Sendo os nossos obviamente superiores. O resto veio por arrasto.

Antes que nasça uma nova associação de lesados do politicamente correto, quero deixar claro que não pretendo que Fátima Bonifácio se cale. Só não quero ajudar a financiar a sua palavra, comprando jornais onde ela escreva. Mas defendo o seu direito a escrever e dizer todo o lixo que tenha na cabeça.

Sei que a banalização do racismo tem o perigo de o tornar aceitável, mas prefiro que se perceba de uma vez por todas que o problema de Trump e Bolsonaro não é serem boçais. Que o problema dos seus eleitores não é passarem muito tempo no Facebook. Que eles representam uma rutura civilizacional em que participam sectores intelectuais com peso político.

Acredito na liberdade de cada um escrever e de ler tudo o que quiser. E acredito na existência de jornais que dependem dos leitores. Não sou assinante do “Observador”. Também não sou do “Diabo”. Porque acho que devem ser os que se reveem naqueles projeto políticos e editoriais a financiá-los. Sou assinante do “Público” porque espero que, num clima de pluralismo, cumpra os valores que constam dos princípios editoriais que publicita desde a sua fundação. Defender a liberdade de todos se expressarem não implica eu ajudar a pagar propaganda xenófoba. Um jornal que eu leia é plural, dentro dos tais valores que Fátima Bonifácio julga serem seus mas não de Nelson Mandela. Quem se coloca de fora desses valores deve ter a liberdade de escrever, insultar e no fim ainda se atirar para o chão porque há quem não goste. E eu tenho a liberdade de não lhes pagar por isso.

Se “The New York Times”, “The Guardian” ou “Le Monde” publicassem um texto deste calibre, a revolta ganharia dimensões que o tremendamente tímido e inconsequente editorial de Manuel Carvalho não chegaria seguramente para serenar. A credibilidade demora muito a construir mas destrói-se num dia. Se não houver consequências disto, por pressão dos leitores, é péssimo sinal para o “Público”. É sinal que está morto. E eu não quero isso.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Ser-se sério (em política)

(Joaquim Vassalo Abreu, 05/07/2019)

Vassalo Abreu

Até pode ser que não vivamos no melhor dos mundos, e não vivemos, muito embora eu pense que tudo quanto se ouve e lê não corresponde minimamente ao que se sente.

 

Isto é, o discurso do “caos” nos Serviços Públicos e o da “maior carga fiscal de sempre” tão propalado por toda a Direita e dito publicamente por tudo quanto é comentador arregimentado, não corresponde ao que na realidade se passa e não configura outra coisa que não uma mentira tão repetida que, sendo também repercutida por toda a comunicação social, pretende transformar-se em verdade.

É uma velha táctica de uma Direita que, não tendo qualquer plausível tese a contrapor, fazendo uso da sua também já histórica falta de escrúpulos, quer fazer crer aos incautos que aquilo que lhes dizem ser um bom Governo não passa de uma união familiar de incompetentes que não sabem investir, e só a Direita o sabe, dizem eles, e que, em nome de um défice zero, deixaram os Serviços Públicos destroçados e basta ver as greves…

Mas não vou aqui falar dessas greves cirúrgicas e de classe por ela (Direita) fomentadas, pois até o menos esclarecido politicamente o sabe ler, mas fazer um pequeno exercício acerca do que seria a realidade, a verdadeira realidade, se este Governo não tivesse seguido a política económica e financeira responsáveis que seguiu!

Vamos então supor que, segundo o douto raciocínio da Direita (Manuelas e outros eles…), o défice em vez de ser próximo do zero se situava nos 1,5%, por exemplo. O que teríamos então?

Desde logo uma situação de incumprimento das regras Europeias e as consequentes sanções; a perda de fundos comunitários e seu imediato reflexo na redução, aqui sim, do investimento; a desconfiança dos mercados e, sem contemplações, os juros mais altos; o inevitável selo de incumpridor e a decorrente perda de credibilidade e, mesmo, da capacidade conseguida de influenciar…

O conseguido por este Governo nestes quatro curtos anos é tão notável que até tendemos a esquecer o “mundo” da mentira com que o anterior governou e a tristeza franciscana em que o deixou. E não deixa de ser caricato que, quem nos deixou no pior dos mundos, o anterior Governo, exija que este Governo nos deixe no melhor dos mundos…Não vivemos naturalmente no melhor dos mundos mas vivemos num País incomensuravelmente melhor quatro anos passados…

Quem nos trouxe apenas a austeridade como promessa de uma redenção futura, tal qual uma duradoura penitência como  a via para se alcançar alguma etérea benção, nunca aceitou que este Governo, sem essa austeridade e antes pelo contrário, tenha obtido a recuperação da dignidade pátria e alcandorado o nosso País e o nosso Povo ao estatuto da admiração externa, em apenas quatro anos!

O Défice a tender para o zero; saldos primários positivos; superávites nas contas públicas; juros negativos a curto e médio prazo e já próximos do zero a longo prazo- dez ou mais anos (já equivalentes aos espanhóis e inferiores aos italianos) e outras coisas mais, para lá de tudo o já enunciado, trouxeram como resultado uma poupança gigantesca em juros que, com outra política, nomeadamente a da Direita, só poderia ser compensada, e novamente, por cortes nos salários e pensões ou aumento de impostos como sucedeu naqueles anos tenebrosos do seu governo, o de Passos Coelho…

Mas o que é, então, SER-SE SÉRIO? Em Política é, muito naturalmente, fazer o que se prometeu e não o seu contrário (como fez Passos Coelho); é prometer o exequível; é ser-se sensato e rigoroso e é dizer a verdade! Tão simples quanto isto!

António Costa chamou e anunciou uma equipa de Economistas que redigiriam um manifesto económico de suporte às políticas anunciadas ( relembro que baseadas no aumento do consumo como pedra basilar para o crescimento e consequente recuperação), equipa essa dirigida pelo futuro Ministro das Finanças- Mário Centeno, e tanto ele como essa equipa cumpriram o que prometeram e, ainda por cima e muito bem, com resultados que nem nós esperávamos…Foram Sérios!

Ora o que anuncia, para já, Rui Rio? Uma tremenda redução de impostos (três mil milhões, julgo ter lido…); um equivalente aumento do investimento público e, pasme-se, tudo isto com um excedente orçamental!!! A teorização da “quadratura do círculo” ou a descoberta de que a “terra é mesmo plana”, será?

A insuspeita Constança Cunha e Sá, com muita graça, escreveu no seu Twitter: “É isso que Rio quer, não é? Já eu, só quero ganhar o Euromilhões!”.

Eu direi de outro modo: Isto é NÃO SE SER SÉRIO…

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

O mundo em realidade paralela

por José Goulão [*]

A elite governante mundial, em aliança com o aparelho comunicacional global que trata da sua propaganda, querem forçar-nos a viver numa realidade paralela, aquela em que a versão ficcional e oficial dos factos se transforma em verdade única, indiscutível, sendo a discordância anatemizada como fake news.

Para ter a noção da envergadura da burla basta-nos pegar em alguns factos que fazem a actualidade, segundo a agenda ditada pelo aparelho de propaganda, e aprofundá-los um pouco. Não será necessário cavar muito fundo, porque a mistificação fica exposta a partir das primeiras incisões: não pode dizer-se que haja especial cuidado em preparar algumas das farsas.

No topo da actualidade está a guerra contra o Irão: haverá ou não haverá? Quando haverá? Como haverá? O problema resume-se a estas dúvidas.

Presume-se, pois, que existam razões justas, mecanismos legais para que a guerra se faça, talvez resoluções das Nações Unidas ou coisas do género.

Não, resoluções não há; tão pouco o Congresso dos Estados Unidos deu o consentimento constitucional ao presidente para atacar o Irão. E, já agora, alguém sabe dizer o que fez o Irão para que mereça ser alvejado? Parece que uns petroleiros danificados no Golfo de Omã sem que haja provas de quem cometeu o crime; e o derrube de um drone norte-americano que invadiu o espaço aéreo iraniano, facto de que existem sobejas provas embora sejam censuradas pela comunicação global.

Digamos, porém, que estas circunstâncias poderão ser pretextos circunstanciais, os casus belli, a ignição do conflito armado.

Porque a pergunta que conta é esta: por que razão está o Irão a ser vítima de uma guerra através de sanções económicas arbitrárias que pode estender-se à componente militar? Procurem a resposta no mainstream: encontrá-la é tão difícil como acertar no euromilhões. Isto é, parte-se do princípio de que o Irão tem de ser punido porque sim ou por alguma coisa que já se manipulou e dissolveu algures entre notícias empolgadas, comentários e análises de uma guerra, afinal, imprescindível – é isso que interessa.

De vez em quando cita-se o presidente dos Estados Unidos dizendo que, coitado, ele não quer a guerra, Teerão é que a força; por ele, preferia negociar…

Negociar o quê? Ao que parece que o Irão se comprometa a não ter armas nucleares. Mas isso já ficou estabelecido num acordo aprovado em 2015 entre Teerão, os cinco membros do Conselho de Segurança da ONU e a Alemanha. Um acordo que está a funcionar, como comprova a Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) nos relatórios das suas inspecções trimestrais.

Acontece que os Estados Unidos deram o dito por não dito e retiraram-se há tempos do texto que assinaram. O que não inviabiliza o acordo nem significa que o Irão o viola. Então a guerra de que se fala é uma acção unilateral dos Estados Unidos – em que quer arrastar o mundo inteiro – para supostamente negociar o que está negociado. Sendo que, por ironia da história, o único projecto nuclear militar que o Irão alguma vez teve foi criado pelos Estados Unidos quando sustentavam a ditadura criminosa do Xá Reza Pahlevi.

O mainstream, porém, não trata disto: dá muito trabalho às pessoas, ocupa-lhes a cabeça, faz pensar. Coisa que normalmente não é boa para as guerras. 

E as guerras são para fazer.

Onde entra a NATO

E quando se fala em guerra surge a NATO; como se sabe, sempre com a mais louvável e indiscutível postura "defensiva" – não é assim que assegura a comunicação/propaganda?

A NATO é sempre notícia, e mais ainda quando, como agora, se reuniram os ministros dos Estados membros.

Sempre no seu estilo contido, disseram os ministros, em redor do seu secretário-geral renomeado de fresco, que ou a Rússia suspende a produção de um determinado míssil de médio alcance com capacidades nucleares ou a NATO procederá em conformidade.

Ficou dado o recado, bem distribuído pela comunicação social. E basta! O resto é dispensável, toda a gente sabe muito bem quem são os russos.

Vamos então aprofundar um pouco a matéria.

Os russos dizem que o míssil em questão não viola o tratado de mísseis de médio alcance (INF), mas isso nada vale – é dito pelos russos. Poder-se-iam confrontar as duas versões, mas o que a NATO diz está dito, é um dogma.

Além disso, as várias formas de rearmamento visando a Rússia que a NATO tem adoptado, em terra e no mar, viola esse tratado porque transforma objectivos supostamente defensivos em vantagens ofensivas e com capacidades nucleares.

Bom, mas isto é dito igualmente pelos russos e também por pessoas informadas mas cujas opiniões e factos apresentados não cabem na versão oficial.

No entanto, seria importante sublinhar que o recado é enviado pela NATO aos russos precisamente na mesma altura em que a Junta de chefes do Estado-maior das forças armadas norte-americanas – isto é, da NATO – aprovou uma nova doutrina. E esse normativo prevê o recurso a armas nucleares como meios "decisivos" para resolver situações em que não haja "vitórias convincentes" das forças do bem, as que asseguram "o nosso civilizado modo de vida". Isto é, situações como as do Afeganistão, do Iraque, da Líbia, da Síria, quiçá do Irão, da Crimeia e o mais que ao bem aprouver. Trata-se, diz a Junta, de garantir a "estabilidade estratégica", ao que parece uma situação que apenas é alcançável com vitórias plenas e domínio absoluto dos Estados Unidos e da NATO, nem que seja, a partir de agora, com bombas nucleares.

O mainstream deveria ter dito alguma coisa sobre isto, pelo menos para os cidadãos ficarem a saber que as bombas nucleares poderão passar a decidir conflitos convencionais. Dizer para quê? Isso só iria agitar consciências tão postas em sossego com a informação fast food que lhes é servida.

O humanitário Guaidó

Estando o Irão no topo da agenda parece ter amainado, por ora, a sanha contra a Venezuela e as escolhas democráticas dos venezuelanos; até a RTP reduziu a intensidade dos esforços para transformar em grandes e legítimos democratas os fascistas enviados por Trump, Bolton & Cia.

Isto não significa que a guerra travada em várias frentes, designadamente as sanções contra o povo e o roubo de bens do Estado não prossigam. O assunto é que transitou das manchetes para páginas interiores e posições intermédias dos alinhamentos.

Por isso o grande público não foi informado do episódio mais actual da "operação liberdade", aquela tentativa de golpe em Fevereiro passado montada em torno do pretexto da entrada de "ajuda humanitária" na Venezuela, com o conquistador Juan Guaidó na frente.

Pois os bens angariadas por organizações tuteladas pela CIA e os milhões alcançados no concerto Live Aid ficaram na Colômbia e, segundo informações que são agora do conhecimento público, filtradas por agentes dos próprios serviços secretos colombianos, foram direitinhos para os bolsos e as contas pessoais das hostes de Guaidó, o presidente interino nomeado por Washington. Até o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos, Luís Almagro, um dos mentores de toda a "operação liberdade", surge agora a pedir um inquérito às circunstâncias, uma vez que, por outro lado, parte da "ajuda" alimentar ficou a apodrecer em armazéns em Cúcuta, comunidade colombiana a que poderia ser útil pois está muito carente de tudo o que não lhe chega de Bogotá.

Portanto, este desfecho da tão empolgante "operação liberdade" que iria "libertar" os venezuelanos do "jugo" do democraticamente eleito Maduro ficou por contar pela comunicação/propaganda. E trata-se, afinal, de um final feliz – e rentável – para aqueles que, embora não "libertassem" a Venezuela se viram livres de hipotéticas dificuldades financeiras pessoais.

Epílogo ecológico

Viria a talhe de foice destas situações recordar palavras recentes do secretário-geral da ONU, Eng. António Guterres, que tiveram apropriadas tonalidades autocríticas embora, mais uma vez, passassem ao lado do essencial – a mentira, o desprezo e o desrespeito em que vive mergulhada a esmagadora maioria dos seres humanos do planeta, perante a complacência das Nações Unidas.

Disse o Eng. Guterres que a geração dos dirigentes actuais não tem estado à altura das necessidades – mas fê-lo no contexto da degradação ambiental e das alterações climáticas.

Ora há muitas situações trágicas a montante e das quais a contaminação ambiental e os problemas climáticos são óbvias consequências. Há a guerra, as desigualdades cada vez mais profundas entre Estados e povos, as armadilhas financeiras, o desprezo ostensivo pelos direitos humanos, as antigas e mais recentes formas de colonialismo militar e económico, a desenfreada corrida às matérias-primas, o destruidor expansionismo agrícola transnacional, a impunidade da exploração de matérias-primas por métodos destruidores da água e dos solos, o comércio injusto dito "livre", o descarado desrespeito do capitalismo transacional por normas que poderiam preservar o ambiente mas, no seu entender, provocam restrições à ganância intrínseca.

O meio ambiente e a ecologia não existem por si, como bolhas que possam ser tratadas isoladamente sem mudar o mundo.

Imagine-se que agora até o mainstream é ecológico, fala contra as alterações climáticas, descobriu que o plástico é nocivo para o ambiente. Falta-lhe apurar e explicar, porém, como é que o desastre ambiental afecta drasticamente a esmagadora maioria dos pobres e poupa os ricos, os que o provocam, construindo-se assim mais um sistema de apartheid.

A comunicação global e o Eng. Guterres estão, afinal, no mesmo comprimento de onda, cumprindo-se a ordem natural das coisas. Uma, porque a sua missão neste mundo é impor a realidade paralela; o outro porque contribui para fabricá-la, embora pudesse não o fazer, ao menos para respeitar os direitos humanos.

26/Junho/2019

[*] Jornalista.

O original encontra-se em https://www.oladooculto.com/noticias.php?id=424

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/varios/realidade_paralela.html