Comunicação

Beatriz, Pedro: o que andamos a fazer?

(Fernanda Câncio, in Diário de Notícias, 27/06/2020)

Não me lembro de ter trocado sequer um sorriso com o ator Pedro Lima, e decerto nunca conheci a estudante Beatriz Lebre, assassinada aos 22 anos. Existiram, porém, e houve quem os amasse e sofresse o pavor da sua perda. Bastava-me isso para ter receio, caso me calhasse como jornalista pegar no assunto, de fazer mal, errado, de agravar a dor.

Não sei aliás se em casos semelhantes não fui culpada disso – já escrevi sobre crimes, sobre desaparecimentos, sobre mortes inesperadas. Já me sentei na cama de filhos assassinados a falar com as mães, já devassei no quarto dela o diário de uma menina morta pelo rapaz que amava. Já ouvi um pai de lágrimas nos olhos enquanto procuravam no rio próximo o corpo da filha e na casa onde não tive coragem de entrar a mãe esperava a notícia fatal. Já liguei, depois de discutir aos berros com um editor a quem dizia que não fazia sentido – e só acedi porque me declarou que se não fosse eu a fazê-lo pediria a outra pessoa – para a família de um estudante Erasmus que desaparecera num rio numa noite de diversão, começando logo por pedir desculpa e esperando que, muito justamente, me desligassem o telefone na cara.

Mas também já recusei fazer coisas que considerava atentarem de modo intolerável contra a minha consciência e sentido ético por de jornalismo, no meu entender, nada terem. Como quando me pediram para seguir os McCann para o Reino Unido ao finalmente abandonarem Portugal – parecia-me que tal mais não seria que voyeurismo e perseguição, e que os leitores do jornal não tinham qualquer direito de saber “o que é que os pais da Maddie andavam a fazer”. Não fui e não tenho dúvidas de que fiz bem.

Não é sempre tão claro, porém. Há um código deontológico e há os preceitos da lei do Estatuto de Jornalista, que o emulam, mas não há lá resposta para cada questão que o real e a prática (e as chefias) nos colocam: temos de avaliar por nós e connosco, de cada vez, o que está certo e errado, o que podemos e não devemos fazer, a que dizer sim ou não. Acresce que, sei bem, nem todos, diria aliás muito poucos jornalistas têm hoje em dia a possibilidade e a capacidade (o poder, demos-lhe o nome certo) de dizer não.

Isto dito, e ressalvada a zona de cinzentos em que toda a gente se encontra tantas vezes, há o intolerável. Há aquilo que todos – aqueles que de nós se dedicam, sempre sabendo que vamos falhar muitas vezes, a um esforço de ética e verticalidade – sabemos estar muito para lá da fronteira do erro ou do deslize ou da inconsciência ocasional. Há o nojo puro, a total falta de respeito, a ânsia de devassar, a indiferença e mesmo a deliberação de ferir e destruir. Isso está para lá de tudo aquilo a que se possa chamar jornalismo, é coisa outra: comércio puro, venda de produtos roubados – a vida e a dor dos outros.

Vi com estupor como foi nestes dois casos, o de Beatriz e Pedro, possível fazer descrições atrozes e impossivelmente dolorosas, aventar hipóteses sem qualquer sentido e decerto sem qualquer interesse público, publicar imagens privadas sem um módico de sensibilidade e, a seguir, elencar números de contacto para quem esteja em situação de sofrimento, de perigo ou de necessidade de ajuda – estranho sentido de humor têm os responsáveis destas publicações.

Quem publica tais coisas não consegue, nem por um milionésimo de segundo, colocar-se no lugar da mãe, do pai, dos filhos, da mulher, marido, namorados, amigos? Não consegue imaginar o que será ter de se haver com o incomensurável da perda e ainda com a ofensiva infrene das capas, das peças de TV, das descrições malvadas? Não conseguirá pensar o que sentiria ao saber, ao mesmo tempo que o país todo, o que alegadamente diz a autópsia, se o ente querido morreu logo ou agonizou longamente, se tinha estes ou aqueles ferimentos, se estava vestido ou nu, se deixou cartas ou mensagens e o que diziam?

Que direito se arroga quem isto publica de agravar assim, por dinheiro, lucro, domínio de mercado e até vontade de vingança – como frisa João Pedro Vala numnoObservador em que acusa o diretor executivo da Cofina, Octávio Ribeiro, de instrumentalizar a morte de Pedro Lima contra a TVI – o sofrimento dos outros, chafurdando sem piedade no sangue de mortos e vivos?

E que direito temos nós, que assistimos a tal degradação, de nada fazer, de deixar passar, de encolher os ombros e até de arranjar justificações ou álibis do tipo “as pessoas querem saber” ou “a culpa é da polícia e dos agentes judiciários, que lhes contam estas coisas, e eles claro está aproveitam porque vende”? Que direito temos de assistir a este massacre e virar a cara? Que direito temos de achar que isto não é connosco porque desta vez (ainda) não foi connosco? Que direito temos, têm, os que de nós são contribuintes líquidos e cúmplices ativos destes crimes, ao consumi-los, ao validar o seu cometimento, ao encorajar e premiar quem os perpetra, ao não votar ao opróbrio os seus fautores, de ignorar que o sangue mancha também as nossas mãos?

Que direito têm os tribunais e os reguladores de caucionar isto com a sua inação?

Se nada mais nos interpela, se nada nos comove, leiamos, oiçamos o “grito sufocado de dor” de Paula Lebre, a mãe de Beatriz, que no Público, num de lucidez e cidadania nos adverte para que “o serviço social de informar, a pretexto da liberdade de expressão a qualquer preço, passa a ser, ele próprio, um veículo perverso de disseminação da violência e do crime.”

E nos pergunta: “O que andamos a fazer? Queremos ou não um mundo melhor?”

Tão generosa, Paula, a dar-nos assim, no meio do seu impossível desgosto, o crédito de sermos capazes de distinguir bem e mal e de querermos mesmo um mundo melhor para todos e não apenas para cada um nós. Tão alta e grande, Paula, por no meio do seu martírio olhar para nós e acreditar que a vemos, que queremos saber, que Beatriz não é só uma história que nos é vendida hoje e esqueceremos amanhã, que não a deixaremos ser, como Pedro, mais um produto usado e deitado fora por quem fez dela cifrões, cliques, espaços publicitários e “damos primeiro”, “veja aqui”, “saiba por nós”.

Perdoe-me Paula por não acreditar. Perdoe-me por pensar que a maioria nem sabe do que está a falar e continuará a sintonizar alegremente o canal da Cofina, a comprar as revistas que se deleitam com as desgraças e as devassas, e a fazer campeão de vendas do diário que faz do nojo a sua vitória. Mas muito obrigada por tentar.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Governo vai monitorizar discurso de ódio na Internet

(Comentário:

"De boas intenções está o inferno cheio", diz o Povo. Estas 'monitorizações' sabe-se como começam mas não se sabe como e quando acabam. Ainda que haja diferenças substantivas importa não esquecer que o salazarismo também se preocupava muito com a 'monitorização' da informação e que durante muitos anos o poder conviveu alegremente e até promoveu muita mentira a que agora chama 'fake news')

(CC0/PD) MoteOo/ Pixabay

 

O Governo vai monitorizar o discurso de ódio nas plataformas online, estando “em vias” de dar início à contratação pública de um projeto que deverá traduzir-se num barómetro mensal de acompanhamento e identificação de sites.

 

Segundo a ministra de Estado e da Presidência, o objetivo é perceber aspetos como a forma de propagação deste discurso nas plataformas online, as mensagens que contém, identificar autores, monitorizar processos de queixas, entre outros aspetos.

A informação foi esta quarta-feira avançada no Parlamento, onde a Maria Vieira da Silva e a sua equipa governativa estiveram a ser ouvidos pela comissão parlamentar de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias, numa audição regimental.

A governante respondia no Parlamento à deputada Joacine Katar Moreira, que colocou a questão sobre o que estava o Governo a fazer em relação ao crescimento do discurso de ódio, tendo Mariana Vieira da Silva referido ainda que o que se pretende retirar do projeto são dados que fundamentem linhas de ação política e formação a todos os atores que tenham que lidar com a matéria.

Sobre discriminação e racismo, disse que a Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial (CICDR) tem registado “um aumento muito significativo de queixas, dos mais variados tipos, de atores políticos também”, havendo casos reencaminhados para o Ministério Público.

Programa Bairros Saudáveis

Abordou ainda o programa Bairros Saudáveis, recentemente lançado, que visa ajudar a resolver problemas sociais em bairros com piores condições socioeconómicas numa perspetiva de integração, incluindo moradores, associações, autarquias e forças policiais.

A propósito desse programa, mas referindo-se ao contexto da pandemia de covid-19, que deixou várias freguesias da grande Lisboa em situação de calamidade num altura em que o restante país já evoluiu para uma situação de alerta, a deputada do BE Beatriz Gomes Dias questionou a ministra sobre notícias que dão conta de “atitudesintimidatórias e repressivas” por parte das forças policiais em bairros da periferia, questionando como está a ser implementado o policiamento nesses locais e pedindo regras para a intervenção policial. Na resposta a ministra disse que as perguntas sobre a dimensão policial devem ser respondidas pelo ministro da Administração Interna.

O Governo foi ainda questionado sobre o inquérito à origem étnico-racial dos portugueses que o Instituto Nacional de Estatística (INE) pretende desenvolver, um tema polémico depois de ter sido recusada a inclusão de uma pergunta nesse sentido nos censos de 2021, tendo a ministra referido que o INE está agora a trabalhar na identificação dos recursos necessários para que o inquérito possa avançar em 2021 ou 2022.

A secretária de Estado para a Integração e as Migrações, Cláudia Pereira, respondeu ainda a questões da deputada socialista Catarina Marcelino sobre a comunidade cigana, adiantando que o Alto Comissariado para as Migrações irá “em breve” celebrar um protocolo com o Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana com o objetivo de pôr fim a situações de “habitação indigna” e que está a ser revista a lei dos mediadores culturais, estando prevista a abertura de um concurso para breve para a contratação de mediadores pelos municípios, para permitir uma maior aproximação às populações.

Isabel Moreira, também do PS, quis saber o que fez o Governo na área LGBTI durante este período de pandemia, tendo a secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade, Rosa Monteiro, referido que foi mantido todo o financiamento e fluxo financeiro para as associações desta área de intervenção, evitando com isso quebras de tesouraria.

ZAP // Lusa

 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/governo-vai-monitorizar-discurso-odio-na-internet-332917

Exame à Exame

Fernando Freire de Sousa (presidente da CCDRN), Cláudia Azevedo (CEO da Sonae), Pedro Siza Vieira (Ministro do Estado, da Economia e da Transição Digital), Pedro Penalva (CEO da Aon Portugal), Carlos Leal (Diretor-geral da United Investments Portugal), José Gomes (CEO Ageas Seguros), Adolfo Mesquita Nunes (Advogado, Partner na Gama Glória), João Bento (CEO dos CTT), Pedro Norton (CEO da Finerge), Fernando da Cunha Guedes (Presidente da Sogrape), Salvador Malheiro (Presidente da Câmara de Ovar), Ljubomir Stanisic (Chef), António Saraiva (Presidente da CIP), Pedro Nuno Santos (Ministro das Infraestruturas e da Habitação), Paolo Fagnoni (Diretor-geral da Nestlé em Portugal), Luís Mesquita Dias (Diretor-geral da Vitacress Portugal), Daniel Traça (Dean da Nova SBE), António Portela (CEO da BIAL), Isabel Camarinha (Secretária-geral da CGTP), Margarida Almeida (CEO da Amazing Evolution), Ricardo Sousa (CEO da Century 21 Portugal), Rui Leão Martinho (Bastonário da Ordem dos Economistas), Jorge Rebelo de Almeida (Presidente da Vila Galé), Alberto Ramos (CEO do Bankinter Portugal), Nuno Garoupa (Professor na George Mason University), Pedro Magalhães (Investigador principal no Instituto de Ciências Sociais – Universidade de Lisboa), Marques Mendes (Advogado, consultor da Abreu Advogados), António Rios Amorim (Presidente da Corticeira Amorim), Carlos Silva (Secretário-geral da UGT), Paulo Pereira da Silva (CEO da Renova), Luís Onofre (Presidente da Confederação Europeia da Indústria de Calçado), Pedro Pita Barros (Professor de Economia da Saúde na Nova SBE), Álvaro Santos Pereira (Diretor no Departamento de Economia da OCDE e ex-ministro da Economia e do Emprego), João Paulo Teófilo (CEO da Pinhais e Companhia).

Na sua edição de julho, a revista Exame pediu a 34 personalidades um testemunho sobre o que aprenderam com a pandemia. Dos 34 (trinta e quatro) nomes escolhidos, apenas 3 (três) são mulheres (ou seja, 8,8%). Mesmo atendendo a que a maioria das chefias das grandes empresas são do sexo masculino (importando considerar, contudo, que a lista de nomes nem sequer se restringe a esse universo), talvez seja uma desproporção um bocadinho excessiva, não?

 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Já eles estão preparados para falar sobre tudo

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«Seja pela idade avançada, seja pela falta de preparação técnica, os professores não estão preparados para ensinar à distância. Esta é uma das conclusões de um estudo realizado pela Universidade Nova de Lisboa. O digital pode trazer muitas oportunidades ao ensino, mas apenas como complemento, e escolas precisam de preparação para que a igualdade entre alunos seja uma realidade.»

Estou curioso para saber como correu a experiência do ensino online nas universidades – também haverá “estudos” a respeito?… – onde, como sabemos, a generalidade dos professores são jovens e estão preparados para tudo. E quanto a pedagogia, métodos de ensino e de avaliação inovadores, ui, ui!…

O resto é mais do mesmo, um friso de comentadores a falar do que não sabe, gente que nunca deu aulas, ou fugiu cedo do desconforto da sala de aula, a opinar sobre o trabalho dos professores e dos alunos. Claro que o resultado se resume a um debitar de lugares-comuns, entremeado com a desconfiança e o preconceito contra os professores do ensino “inferior”.

Assinale-se ainda como o espesso semanário do regime, que resguarda quase todos os seus conteúdos por detrás da paywall, vai deixando estas iniciativas, com evidente cunho doutrinário e ideológico, em acesso livre.

E dizer mais do que isto é fazer publicidade a iniciativas que a desmerecem.

Jornalismozinho paz e amor

 

 

O ministério da Saúde anunciou a parceria com a Universidade de Oxford para a produção de 100 milhões de vacinas contra a covid-19. Trata-se de uma “promessa de campanha”. A imprensa brasileira tratou como uma “verdade” e estampou em suas primeiras páginas com comovente indulgência.

O jornalismo brasileiro é pior que Bolsonaro. Como é que um veículo de imprensa tem a coragem de acreditar em um anúncio desses? Como dar crédito a um governo mentiroso compulsivo, que ataca todos os veículos que o criticam, que faz apologia do ódio, das armas, do golpe, do fechamento de Congresso?

A manchete do jornal Folha de S. Paulo beira o escárnio: “governo anuncia parceria com Oxford para desenvolver 100 milhões de vacinas”. O texto da matéria, assinado pelo jornalista Thiago Resende, é tão propagandista como o título. QUem está pagando por isso?

Trata-se de pura publicidade, pura "conciliação", pura "nova fase de domesticação da besta".

Detalhe: a notícia está estampada nos três grandes jornais, Folha, Globo e Estadão, com destaque glorioso, positivado e redentor.

Como levar a sério o nosso jornalismo?

 

Uma promessa de parceria divulgada por um ministério sem ministro, por um governo atolado até o pescoço por denúncias de corrupção, negligência e omissão, ser estampada nas mídias como uma verdade? Como uma notícia?

É muito atrevimento.

Entramos na fase "jornalismozinho paz e amor".

 

É de retorcer os neurônios que nos restam.

‘Destemidas’. RTP2 retira episódio que aborda aborto e homossexualidade

Destemidas

A RTP decidiu retirar da RTP Playo episódio da série infantil Destemidas dedicado à vida de Thérèse Clerc, e que aborda temas como o aborto, homossexualidade, feminismo, divórcio e religião. A ordem terá partido da direção da RTP2, por recomendação do provedor do telespectador, após várias queixas terem chegado à estação pública.

Também a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) recebeu várias queixas relativas à série da RTP2, uma produção francesa que conta a história de mulheres pioneiras que venceram preconceitos e barreiras e se destacaram em diferentes áreas de atividade. Destemidas, dobrada pela atriz Joana Ribeiro, é uma adaptação da obra literária Culottées(“Atrevidas”, em português), assinada por Pénélope Bagieu.

A série é transmitida no espaço Zig Zag e estreou no canal público em março, por ocasião do Dia Internacional da Mulher, estando a ser repetida nas últimas semanas. A ERC confirmou ao Correio da Manhã que recebeu queixas sobre a série e adiantou que as participações se “encontram em apreciação pelos serviços da Entidade”.

Cada episódio da série de animação conta, em três a cinco minutos, a história de uma mulher, e o episódio em questão é dedicado à feminista francesa Thérèse Clerc (1927 – 2016), ativista pelos direitos das mulheres galardoada com a Legião de Honra francesa em 2008. O episódio, o 19.º da série, foi reexibido na manhã da passada sexta-feira (19) e, entre críticas e elogios, tornou-se tema de discussão nas redes sociais.

Um fragmento do episódio em que Thérèse Clerc descobre o marxismo junto dos padres operários foi partilhado nas redes por várias páginas, que nele viram uma tentativa de doutrinação do público infantil. O episódio aborda também a luta de Clerc pela legalização da interrupção voluntária da gravidez e a sua prática de abortos clandestinos, além da sua relação homossexual, que é retratada com um beijo. As reações mais negativas vieram de movimentos ultraconservadores e de extrema-direita, tendo o Partido Nacional Renovador (PNR) anunciado mesmo uma queixa-crime contra a televisão pública.

Num primeiro momento, a RTP2 reagiu à polémica partilhando na sua conta no Twitter um elogio à série. Ao tweet, que agradecia ao canal por “Contar a história de mulheres que ultrapassaram preconceitos e foram mais além. Valentes, corajosas, fortes, DESTEMIDAS.”, a estação respondia“É para isso que cá estamos!”.

É para isso que cá estamos! ☺https://t.co/hjnjjW6AjK

— RTP2 (@RTP2) 23 de junho de 2020

Em declarações ao Observador, a diretora da RTP2 Teresa Paixão admite que, “dada a a delicadeza do tema”, a série podia ter “suavizado e enquadrado melhor estes direitos, que são mais complexos”. No entanto, defende que não é intenção do canal “fazer apologia a nada, tanto ao catolicismo como a qualquer outra religião”. “Compete sim à televisão pública falar de todos os assuntos e de todas as formas de vida”, ressalva, lembrando que “nada do que a senhora defendeu é ilegal em Portugal”.

O episódio sobre Thérèse Clerc abordava também a sua homossexualidade. (Foto: Reprodução RTP2)Provedor não acompanha críticas, mas recomenda retirada do episódio

Na sequência de várias queixas, o provedor do telespectador da RTP Jorge Wemans recomendou aos responsáveis pela programação infantojuvenil que o episódio em causa fosse retirado da RTP Play e futuras exibições da série fossem feitas em “horário mais apropriado para adolescentes”e sem a exibição do referido episódio, segundo se pode ler na resposta que foi enviada aos vários queixosos. Uma orientação que foi acatada pela RTP2.

No entanto, o provedor não acompanha a maior parte das críticas, argumentando que “difundir a história de uma mulher que alterou radicalmente a sua vida por ter tido contacto com os escritos de Karl Marx não torna um canal marxista. Nem em abortista por divulgar a história de quem lutou pela legalização do aborto”. Da mesma forma, Wemans defende que a RTP “não deve esconder ao seu público adolescente estas realidades”, pelo que deve tratar “de acordo com a Lei e as melhores práticas” as questões da educação sexual, do aborto ou da religião, mas não da forma como o episódio de Destemidas o fez.

Já em março, aquando da primeira exibição, o provedor tinha recebido queixas. Na altura, em resposta a um protesto relativo a um outro episódio, o provedor reconheceu que “a intenção do programa era a de tornar tranquila essa relação com o facto de muitos adolescentes se interrogarem sobre a sua identidade de género”, mas, mesmo assim, assume que “não se tenha munido do melhor percurso para lá chegar”, pode ler-se na página da Associação Família Conservadora.

À hora de edição desta notícia, 20 dos primeiros 23 episódios permaneciam disponíveis na área da RTP Play dedicada ao Zig Zag. Exceptuavam-se o polémico episódio 19, e os episódios 4 e 14, que não foram exibidos nos dias em que estavam previstos por razões de programação. Com trinta episódios, Destemidas mantém-se ainda na programação para os próximos dias disponível no site da RTP2, com o resto da série a ser exibido na próxima semana às 11h50 e às 19h15.

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https://espalhafactos.com/2020/06/25/destemidas-rtp2-retira-episodio-aborda-aborto-homossexualidade/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=destemidas-rtp2-retira-episodio-aborda-aborto-homossexualidade

CADA QUAL VÊ A TELEVISÃO QUE QUER (?!)

(Comentário:

Comentar para quê? É tão óbvio!)

Technology is NOT 'Neutral' | Intellectual Takeout

Pedro Pezarat Correia
 

Total de presenças nas três estações: PSD 11;  PS 9;  CDS 4;  BE 3;  Livre 2;  PCP 1;  IL 1.

Liberdade de informação?  O telespectador, tem razões para se sentir manipulado.

A informação na comunicação social é hoje dominada pelos telejornais, isto é. a informação televisiva (aparte as redes sociais mas esse é outro universo). A que acresce, com tempo de antena alargado, a chamada grande informação na RTP 3, SIC N e TYI 24, em horário nobre posterior ao noticiário das 20h00. Aí pontificam os comentadores, os opinion makers, em painel, frente-a-frente ou com tribuna pessoal, em geral convidados por critério partidário. Têm estatuto de residentes com lugar cativo no programa e, quando não podem comparecer, o substituto é alguém do mesmo partido. Penso que a ninguém escapará a tendenciosa seleção dos convidados, longe de refletir o mosaico partidário nacional e que, dado o seu peso na formação da opinião pública, viola um valor essencial da democracia, o direito a uma informação isenta.
Fiz um apanhado semanal, não exaustivo mas que penso revelador, do horário nobre daqueles três canais e distingo três tipos de programas: debate em painel (DP) normalmente três convidados além do moderador: frente-a-frente (FF) com dois participantes; comentador de cátedra (CC) com presença individual e sem contraditório.
Nesta análise não entram programas cujos analistas sejam jornalistas da estação ainda que alguns se comportem como opinion makers partidários, convidados ad hoc especialistas em temas específicos, ou experts do futebol que aí adquirem a notoriedade que depois os lança na política, apesar de ter a convicção de que, se entrassem, acentuariam o desequilíbrio partidário das presenças. Excluo ainda três programas do tipo DP, na RTP 3 "O Último Apaga a Luz" á 6a feira, na SIC N “O Eixo do Mal" à 5.a feira e “O Governo Sombra” ao sábado. Passam já fora de horário nobre, são um misto de comentário e humor sarcástico e não julgo que os participantes, quase todos jornalistas, sejam convidados por identificação partidária.
Eis o que verifiquei, indicando a área partidária em que o participante se posiciona (alguns não tenho a certeza mas não andarei muito longe, assinalo com ?):
1. Na RTP 3 predominam os FF em benefício do bloco central:
 
2ª feira - Honório Novo (PCP) e Diogo Feio (CDS)
- Ricardo Paes Mamede (BE?) e Fernando Alexandre (PSD)
3. a feira - Inês Medeiros(PS) e Taborda da Gama (PSD)
4. a feira - Teixeira Lopes (BE) e Pedro Duarte (PSD)
5. a feira - Marcai Grilo (PS) e Nobre Guedes (CDS)
6. a feira - Vale de Almeida (PS) e Pedro Norton (PSD?)
Sábado - Rui Tavares (Livre) e Ricardo Arroja (IL)
Domin - Pedro Adão e Silva (PS) e Pedro Norton (PSD?)
- João Soares (PS) e Poiares Maduro (PSD)
 
Tem ainda à 3.a feira um DP, “O Outro lado”, com Ana Drago (Livre?). Pedro Adào e Silva (PS) e José Eduardo Martins (PSD)
 
Total de presenças PSD 7, PS 6, BE 2, Livre 2, CDS 2, PCP 1 e IL 1.
2. A SIC N dá preferência a CC também com opção pelo bloco central:
 
3.a feira - José Miguel Júdice (PSD)
6.a feira - Francisco Louçã (BE)
Domin - Marques Mendes (PSD)
- Ana Gomes (PS)
 
Total de presenças PSD 2, PS 1, BE 1.
A TVI 24 prefere também a CC mas com exclusividade ao arco da governação:
2,a feira - Fernando Medina (PS)
5.a feira - Manuela Ferreira Leite (PSD)
Domin - Paulo Portas (CDS)
Tem ainda um DP à 3.a feira, “Circulatura do Quadrado”, com Jorge Coelho (PS), Pacheco Pereira (PSD) e Lobo Xavier (CDS)
 
Total de presenças PS 2, PSD 2, CDS 2.
Total de presenças nas três estações: PSD 11; PS 9; CDS 4; BE 3; Livre 2; PCP 1; IL 1.
 
Sem comentários, apenas uma nota chocante: à exceção de Louçã não há qualquer voz à esquerda do PS na SIC e na TVI! O arco da governação deixou raízes.

Liberdade de informação? Para quem escreve nos jornais ou pontifica nas rádios e televisões não há censura, é certo. Mas a comunicação tem dois pólos, o emissor e o recetor. Pode o emissor não ser condicionado mas o panorama acima mostra que o recetor, o telespectador, tem razões para se sentir manipulado.

Em tempo de ditadura discutia-se, num fim de tarde e em conversa de café, a liberdade de imprensa. Um fiel salazarista, contra a opinião da maioria, protestava: "Não há liberdade de imprensa? Essa é boa, cada um compra o jornal que quer!”
Pois é. Hoje também cada um vê a televisão que quer.
22 de Junho de 2020
 
 
 
 
 

Processo contra RTP e Maria Flor Pedroso arquivado por falta de provas

 

O Conselho Regulador da ERC arquivou o processo contra a RTP e a ex-diretora de informação Maria Flor Pedroso sobre o programa “Sexta às 9” por falta de provas que demonstrem existência de pressão política ou irregularidades daquela direção.

 

Em causa estavam as participações contra a RTP e Maria Flor Pedroso, ex-diretora de informação de televisão, a propósito da data do reinício do “Sexta às 9” e a reportagem sobre a concessão da exploração de lítio, bem como a investigação do programa ao ISCEM – Instituto Superior de Comunicação Empresarial.

“Apreciadas as participações contra a RTP1, por alegada violação da liberdade de imprensa, do direito à informação e por intervenção do poder político na linha editorial do programa Sexta às 9, e apreciado o relato da intervenção da diretora de Informação da RTP1 na investigação da equipa do Sexta às 9 ao ISCEM, o Conselho Regulador da ERC deliberou arquivar o processo”.

Isto “por não terem sido reunidos elementos de prova que evidenciem a existência de interferência ou pressão política na decisão editorial de fixar a data de reinício do programa para depois das eleições legislativas nem terem ficado demonstradas irregularidades por parte da direção de informação no acompanhamento e controlo do programa ‘Sexta às 9′”, refere a deliberação da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), datada de 27 de maio, a que a Lusa teve hoje acesso.

Na deliberação, o Conselho Regulador recomenda à RTP, “na qualidade de concessionária do Serviço Público de Rádio e Televisão, que adote procedimentos de comunicação e mecanismos internos de resolução de conflitos, de modo a acautelar situações como as que foram analisadas e a preservar a sua credibilidade institucional”,

Recomenda ainda que a estação “promova a clarificação interna da linha hierárquica dos programas de jornalismo de investigação da RTP, por forma a preservar as competências de orientação, superintendência e determinação da difusão dos conteúdos informativos por parte da direção de Informação e a garantir a independência dos jornalistas”.

A Conselho Regulador dos media solicita também que a “RTP comunique à ERC, no prazo de 180 dias, os procedimentos e mecanismos adotados para dar sequência às recomendações antecedentes”.

Em 16 de dezembro, Maria Flor Pedroso colocou o seu lugar à disposição na sequência do conflito com a equipa do “Sexta às 9”.

Em causa estava um relato feito pela coordenadora do programa, em 11 de dezembro, numa reunião com o Conselho de Redação (CR) a propósito do programa sobre o lítio, em que adiantou que o “Sexta às 9” estava a investigar suspeitas de corrupção no âmbito do processo de encerramento do ISCEM, que passava pelo alegado recebimento indevido de “dinheiro vivo”.

Nesse âmbito, Sandra Felgueiras acusou Maria Flor Pedroso de ter transmitido informação privilegiada à visada na reportagem, a diretora do ISCEM, Regina Moreira, o que a diretora de informação da RTP da altura “rejeitou liminarmente”, de acordo com as atas do CR e com a posição enviada à redação pela então diretora da RTP.

Na posição escrita sobre a “verdade dos factos”, Maria Flor Pedroso garantia que “nunca” tinha informado a diretora do ISCEM sobre a investigação.

Em 30 de dezembro, o Conselho de Redação da RTP-TV tinha concluído que não tinha sido “apurada nenhuma evidência” sobre interferência política no “Sexta às 9” durante a campanha eleitoral e considerava “imperativo” que “alegações” sobre o tema “sejam comprovadas pelos seus autores”.

// Lusa

 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/processo-rtp-maria-flor-pedroso-arquivado-falta-provas-331691

A Grande Cavalgada

A imagem acima, retirada hoje do Telejornal onde é acompanhada por outras, em amplas salas, pejadas de causídicos, juízes e funcionários judiciais. O que se diz, como se rebate o que foi dito e o mais que se vai dizendo, soa à "Grande Cavalgada" onde, página a página, se lê:
catapum, catapum, catapum, catapum, catapum, catapum, catapum, catapum, catapum,catapum, catapum, catapum, catapum, catapum, catapum, catapum, catapum, sem se almejar chegar a um triunfante "Aí, ó!" Há quem diga "É o que temos, pá", mas há quem vá mais longe e dê conta de como se escreve esta grande cavalgada, que nunca mais acaba...
 
 

Ver original em 'Conversa Avinagrada' (aqui)

Abdicar dos dividendos «extra» não faz justiça

O presidente do conselho de administração e o presidente executivo do grupo Impresa tomaram a decisão de «abdicar» de cerca de 70 mil euros, na sequência da crise resultante do surto epidémico.

Créditos / msn

O presidente do conselho de administração do grupo Impresa (dono da SIC e do Expresso), bem como o presidente executivo, decidiram renunciar à sua remuneração variável, na sequência da crise provocada pelo surto epidémico de Covid-19. Em causa estão, respectivamente, 11,4 mil euros e 60 mil euros que Francisco Pinto Balsemão e Francisco Pedro Balsemão não irão receber.

Sem a remuneração variável, Francisco Pinto Balsemão recebe assim em dividendos 106 400 mil euros e o filho, Francisco Pedro, 280 mil euros – os valores correspondentes à remuneração fixa para o período de 1 de Janeiro a 31 de Dezembro de 2019.

Em Maio, o Governo anunciou um apoio aos meios de comunicação social, cuja maior fatia calhou justamente a este grupo. A compra antecipada de publicidade institucional traduziu-se numa injecção de 3,5 milhões sem qualquer contrapartida.

Apoios públicos para meios de comunicação que continuam a distribuir dividendos, sem condicionamentos no que toca ao ataque aos direitos laborais e na aplicacão do regime de lay-off, no qual os trabalhadores se vêem privados de um terço dos seus rendimentos. São também livres de despedir aqueles que, com vínculos precários, sustentam os lucros, numa lógica informativa que favorece os grandes interesses.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/nacional/abdicar-dos-dividendos-extra-nao-faz-justica

EUA fiscalizam meios de comunicação social chineses

A administração Trump afirmou hoje que Washington vai considerar como “missões externas” quatro meios de comunicação social chineses nos Estados Unidos, ação que pode forçar alguns jornalistas a abandonar o país e piorar as relações diplomáticas bilaterais.

Fontes do Departamento de Estado norte-americano, citadas pela agência noticiosa Associated Press (AP), adiantaram que os quatro meios de comunicação são “essencialmente megafones” do Partido Comunista Chinês (PCC) e que não devem ser tratados como os ‘media’ estrangeiros ordinários.

Segundo as fontes, às quatro instituições, entre elas a cadeia de televisão estatal chinesa CCTV, vai ser pedido que entreguem uma lista com os nomes de todos os que trabalham para os meios de comunicação social chineses nos Estados Unidos, bem como dos edifícios que compraram.

A ninguém está a ser dada a ordem para abandonar os Estados Unidos, realçaram as fontes, mas uma ação semelhante realizada em fevereiro contra cinco outros meios de comunicação social chineses precedeu um limite para o número de pessoas que poderiam trabalhar para esses grupos editoriais nos Estados Unidos.

Além da CCTV, as empresas de comunicação social são a China News (agência noticiosa), o diário People’s Daily e o Global Times.

“O Partido Comunista [chinês] não só detém o controlo operacional das entidades de propaganda como tem, também, o controlo editorial de todos os conteúdos”, disse o secretário de Estado adjunto para o Sudeste Asiático e Assuntos do Pacífico, David Stilwell.

“Esta designação de ‘missão externa’ é um passo óbvio para aumentar a transparência desta e de outras atividades de propaganda do Governo do PCC nos Estados Unidos”, acrescentou.

Em fevereiro, a administração Trump tomou idênticas ações contra a agência noticiosa Xinhua, a China Global Television Network, a China Radio International, a China Daily Distribution Corporations, que distribui o jornal com o mesmo nome, e a Hai Tian Development USA, que distribui o diário People’s Daily.

Depois, em março, a administração norte-americana limitou o número de jornalistas chineses no país de 160 para 100, depois de acusar Pequim de estar a “aumentar e a endurecer a vigilância, assédio e intimidações de jornalistas norte-americanos e de outros países na China.

A AP afirma estar ainda por conhecer o total de jornalistas que trabalha para as organizações que foram hoje citadas pela administração Trump.

No final do primeiro trimestre deste ano, segundo a AP, cerca de 75 jornalistas norte-americanos estavam autorizados a trabalhar no interior da China para os meios de comunicação social dos Estados Unidos.

Ver o original em 'Plataforma Media' na seguinte ligação:

https://www.plataformamedia.com/2020/06/23/eua-fiscalizam-meios-de-comunicacao-social-chineses-no-pais/

Sempre por cima

Público confirma que Relvas tentou condicionar notícia sobre as...
Os jogos de cintura
de um editorialista


»A Assembleia da República regressou ontem aos tradicionais jogos de cintura que fizeram fama na legislatura anterior. Ouvindo o que os representantes das bancadas disseram ao longo da sessão, só mesmo os crentes poderiam acreditar que o Orçamento Suplementar iria sobreviver. Mas, apesar das críticas generalizadas à sua insuficiência, à sua falta de ambição, às vistas curtas, aos supostos erros das previsões, aos riscos que abre ao futuro, à opacidade e demais censuras e vilipêndios, o diploma foi aprovado na generalidade. Porquê? Porque, apesar de tantos defeitos, só os partidos mais à direita (CDS, Chega e Iniciativa Liberal) foram capazes de passar das palavras aos actos e transformar as críticas num voto contra.»-Manuel Carvalho em editorial no «Público»
Lida esta magnifica e ácida prosa, o que se impõe a qualquer leitor é uma coisa muito simples. Nem mais nem menos do que imaginar o que Manuel Carvalho teria escrito caso o Orçamento suplementar tivesse sido ontem chumbado logo na generalidade. Por mim estou absolutamente certo que teríamosum editorial igualmente magnifico e ácido a vituperar a terrível irresponsabilidade de quem chumbou um Orçamento em plena situação de pandemia. Em síntese são os «jogos de cintura» dos editorialistas, gente especialmente dotada para criticar tanto uma coisa como o seu contrário dependendo do dia.
 

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

Portugal é dos países onde mais se confia nas notícias, mas um dos onde menos se paga por notícias online

(Comentário:
Não é preocupante?!)
 

 

Portugal, a par da Finlândia, é dos países onde mais se confia em notícias, entre 40 países, revela o Digital News Report 2020, numa altura em que a confiança média em notícias caiu de 2019 para 2020.

 

“Portugal continua a destacar-se em termos de confiança em notícias, sendo, a par da Finlândia, o país onde mais se confia em notícias entre os 40 analisados no âmbito do Reuters Digital News Report 2020“, refere o relatório.

Em 40 países Portugal ocupa o primeiro lugar, a par da Finlândia, com 56% dos portugueses a afirmarem que confiam em notícias.

“A confiança média em notícias caiu, entre 2019 e 2020, cinco pontos percentuais, dos 42% para os 37%, sendo que no caso do nosso país se registou também uma quebra, ainda que francamente menor, na ordem dos 1,4 pontos percentuais”, adiantam.

Ou seja, “a confiança geral nos media continua a cair nos 40 mercados, menos de quatro em cada dez (38%) disseram que confiam ‘na maioria das notícias na maioria das vezes’ – uma queda de quatro pontos percentuais em relação a 2019. Um pouco menos que metade (46%) disse que confia nas notícias que usa, enquanto a confiança nas pesquisas (32%) e nas redes sociais (22%) é ainda menor”, aponta o estudo.

“Os portugueses são unânimes no reconhecimento da centralidade do jornalismo na sociedade, com sete em cada 10 portugueses a considerarem que este desempenha um papel importante no bom funcionamento das estruturas sociais contemporâneas”.

Os inquiridos “que se posicionam politicamente à esquerda e ao centro tendem a atribuir aos jornalistas um papel de maior responsabilidade na filtragem dos factos e sua veracidade”, enquanto que os que se situam no quadrante direito do espectro político “tendem a achar que não cabe aos media o papel de fazer este tipo de triagem”.

Hábitos informativos

Relativamente aos hábitos informativos, um quarto dos inquiridos acede a notícias pelo menos seis vezes por dia, independentemente do formato. “São, também, unânimes na preferência de notícias com posicionamento neutro, isto é, que não defendem nenhum ponto de vista específico (57,4%). Não obstante, cerca de um quarto dos inquiridos dizem preferir conteúdos noticiosos que corroboram as suas opiniões pessoais (27,6%)”, refere o relatório.

A televisão continua a ser a principal fonte de notícias para pouco mais de metade (55,8%) dos portugueses, sendo que o aumento do peso da Internet e das redes sociais é feito, “sobretudo, através da perda de importância da rádio e da imprensa”.

Por marcas, no quadro em que todas se posicionam na confiança acima dos 60%, “apenas o Correio da Manhã se situa abaixo desta linha, com 50,3% dos portugueses a dizer confiar na marca do grupo Cofina”.

A marca que “reúne maior confiança por parte dos portugueses é a RTP 1 (80,4%) seguida pela SIC (79,7%), pelo Expresso (76,5%) e pelo Jornal de Notícias (75,9%)”, lê-se no documento.

“As marcas nativas digitais Observador, Notícias ao Minuto e Sapo, apesar de serem projetos informativos muito diferentes entre si, reúnem a confiança dos consumidores em proporções semelhantes, mais no fim da tabela”, prossegue o relatório.

Pela primeira vez, “em 2020, o Reuters DNR abordou de forma aprofundada a questão dos media locais e regionais”, concluindo que “cerca de metade dos portugueses (47,9%) dizem-se interessados por conteúdos informativos deste tipo, face a 65,3% que dizem interessar-se por notícias em geral”.

Por faixas etárias, “o interesse por notícias em geral tende a aumentar com a idade, entre os 18 e 35 anos de idade, estabilizando na casa dos 60% para os portugueses em idade ativa e mais velhos (35 e mais anos)”.

Os conteúdos noticiosos locais e regionais “seguem um perfil semelhante, mas observa-se um pico entre os que têm idades compreendidas entre os 35 e 44 anos”, sendo que “os mais jovens (18-24) e os mais velhos (65 e mais) são, em proporção, os que menos interesse têm por conteúdos noticiosos desta escala geográfica, em percentagens respetivas de 32,6% e 41%”.

Os jornais locais, em formato impresso ou digital, “foram utilizados por 43,3% dos portugueses na semana anterior, seguidos pelas páginas de grupos locais nas redes sociais ou em fóruns/grupos de discussão – 33,5% dos portugueses”, acrescenta.

“O contacto pessoal com outros moradores, vizinhos, amigos e/ou família tem também um papel preponderante na obtenção de informação sobre o que se passa a nível local (30,1%)”, salienta.

Por sua vez, as rádios e televisões locais “atingem proporções menores, mas ainda assim relevantes para esta análise (19,7% e 16,2%, respetivamente), sendo as instituições oficiais relegadas para um plano inferior, tendo sido utilizadas por 13,9% dos inquiridos”.

O smartphone “tornou-se, definitivamente, o dispositivo mais utilizado pelos portugueses, em termos de uso geral e para consumo de notícias, quando comparado com computador e tablet”, com 70,4% a utilizar este dispositivo.

Um dos países onde “menos se paga por notícias online”

“Não obstante o aumento de três pontos percentuais entre 2019 e 2020, em termos de pagamento de notícias online, Portugal continua a destacar-se como um dos países do mundo onde menos se paga” por essas notícias, o que representa “uma forte ameaça à sobrevivência ao ecossistema noticioso em que os portugueses tanto dizem confiar e que tanto utilizam de forma tão frequente ao longo do dia”, lê-se no relatório.

“Os dados de 2020 surgem no seguimento de uma tendência perdulária observada entre 2017 e 2019, onde a proporção de portugueses que afirma pagar por notícias em formato digital caiu dos 9,5% para os 7,1%“, adianta, apontando que “2020 foi o ano em que se ultrapassou a barreira simbólica de haver mais de um português por cada 10 a pagar por conteúdos noticiosos ‘online'”.

Trata-se de uma “tendência que esperamos ser de crescimento, face ao forte investimento feito pelas marcas em termos de digitalização dos seus modelos de negócio”, adianta o relatório.

Entre as diferentes formas de pagamento, refere o DNR PT 2020, “continuam a destacar-se a subscrição de um serviço noticioso ongoing, independentemente da periodicidade do pagamento (36,5%), e o pagamento por notícias por intermédio da subscrição de um outro serviço (34,5%)”.

Destaca-se ainda que “72,9% dos que pagam por notícias em formato digital o fazerem de forma continuada, ou seja, estão financeiramente comprometidos no tempo com os conteúdos que estão a consumir”.

Um outro dado relevante “para compreender melhor a pequena amostra de portugueses que paga por notícias online, é de que são, potencialmente, consumidores muito mais ativos de notícias do que os portugueses em geral, em termos de frequência de consulta das diversas marcas”.

No que respeita às áreas de desporto e economia/finanças, “a audiência entre os inquiridos que pagam por notícias online (independentemente da marca a que pagam) é praticamente o dobro da observada entre os portugueses em geral”.

Preferências de redes sociais

Relativamente às redes sociais, o Facebooké a plataforma preferida dos portugueses, com três quartos dos inquiridos a afirmar que a usam para fins gerais e metade para consumo de notícias.

“A plataforma de streaming YouTube surge num destacado segundo lugar, a menos de 10 pontos percentuais de distância, tendo sido utilizada por 68% dos portugueses”, salienta.

“É de destacar também o papel preponderante que as apps de mensagens instantâneas têm no quotidiano digital dos portugueses. Ambas propriedade do universo Facebook, WhatsApp e Facebook Messenger consolidam o seu papel na paisagem social portuguesa online, surgindo a rede Instagram num quinto plano”, acrescenta.

Este ano, “a proporção de portugueses que utiliza WhatsApp aumentou em 11,8 pontos percentuais, dos 47,4% para os 59,2%”, enquanto no caso do Instagram, esta subida foi de sete pontos percentuais, dos 39,6% em 2019 para os 46,6% em 2020.

No caso da rede social Twitter, “observou-se um aumento de 3,7 pontos percentuais no mesmo período, dos 11,7% para os 15,4%”.

Estas três redes registam “ganhos em termos de utilizadores para fins de consumo de notícias, de 2,8 pontos percentuais no caso do WhatsApp, de 2,3 pontos percentuais no caso do Instagram e de 3,1 pontos percentuais no do Twitter”.

Preocupação com as alterações climáticas

No que respeita ao ambiente, “os portugueses são unânimes na consideração de que as alterações climáticas são um assunto sério, com 85% a considerar os graus de seriedade mais elevados na escala disponibilizada pela YouGov”.

Com valores “semelhantes aos das Filipinas, Portugal é ultrapassado em termos de preocupação com alterações climáticas apenas pelo Chile, Quénia, África do Sul e Turquia. Num quadro comparativo em que a média de inquiridos muito preocupados com as alterações climáticas se situa nos 70%, surge no extremo oposto um conjunto de países situados no Norte e Centro-Norte da Europa: Holanda (41%), Noruega (42%), Suécia (50%) e Dinamarca (53%)”.

A fonte privilegiada pelos portugueses para obter informação sobre alterações climáticas é a televisão.

“Enquanto a crise da covid-19 reforçou a necessidade de notícias confiáveis, o relatório argumenta que os próximos 12 meses provavelmente trarão mudanças significativas no ambiente dos media à medida que pressões económicas se combinam com a incerteza política e mudanças dos consumidores para o digital, redes sociais e dispositivos móveis”.

O Reuters Digital News Report 2020 (Reuters DNR 2020) é o nono relatório anual do Reuters Institute for the Study of Journalism (RISJ) e o sexto relatório a contar com informação sobre Portugal.

A pesquisa foi levada a cabo em 40 países, o tamanho total da amostra foi de mais de 80 mil adultos, cerca de dois mil por país, tendo o trabalho de campo sido realizado entre janeiro e fevereiro deste ano.

ZAP // Lusa

 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/portugal-paises-mais-confia-noticias-330295

Julian Assange no limbo

– Os bons jornalistas defendem-no, os jornalistas medíocres insultam-no

por Patrick Cockburn [*]

. Julian Assange dirigia a WikiLeaks em 2010 quando divulgou um vasto conjunto de documentos do governo estado-unidense que revelavam pormenores de operações políticas, militares e diplomáticas americanas. Com extractos publicados pelo New York Times, The Guardian, Der Spiegel, Le Monde e El País, o arquivo permitia uma visão mais profunda das actuações internacionais do Estado dos EUA do que qualquer coisa já vista desde que Daniel Ellsberg deu ao media os Pentagon Papers, em 1971.

Mas hoje Ellsberg é celebrado como o santo patrono dos denunciantes ao passo que Assange está trancafiado numa cela na prisão de máxima segurança de Belmarsh , de Londres, durante 23 horas e meia por dia. Nesta fase mais recente dos dez anos de perseguição de Assange pelas autoridades americanas, ele está a combater a extradição para os EUA. Audiências em tribunal para determinar se o pedido de extradição será concedido foram adiadas até Setembro pela pandemia do Covid-19. Nos EUA ele enfrenta uma acusação de hacking em computadores e 17 alegações sob Lei de Espionagem de 1917 . Se for condenado, o resultado poderia ser uma sentença de prisão de 175 anos.

Eu estava em Cabul quando pela primeira vez ouvi falar acerca das revelações da WikiLeaks, as quais confirmava muito do que eu e outros repórteres suspeitavam, ou sabiam mas não podiam provar, acerca das actividades dos EUA no Afeganistão e no Iraque. O tesouro era imenso: cerca de 251.287 telegramas diplomáticos, mais de 400 mil relatórios classificados do exército da Guerra do Iraque e 90 mil da guerra no Afeganistão. Ao reler estes documentos agora fico mais uma vez impressionado pela tortuosa prosa militar-burocrática, com seus acrónimos sinistros e desumanizantes. Matar pessoas é mencionado como um EOF (Escalation of Force), algo que acontecia frequentemente em postos de controle quando soldados nervosos dos EUA ordenavam a parar condutores iraquianos ou faziam complexos sinais de mão que ninguém entendia. O que isto podia significar para iraquianos é ilustrado por breves relatórios militares tais como um intitulado "Escalation of Force by 3/8 NE Fallujah: I CIV KIA, 4 CIV WIA". Descodificado, ele descreve o momento em que uma mulher num carro foi morta e o seu marido e três filhas feridos num posto de controle nos arrabaldes de Faluja, 64 quilómetros a oeste de Bagdad. O soldado em serviço dos EUA abriu fogo porque ele foi "incapaz de determinar os ocupantes do veículo devido à reflexão do sol vinda do para-brisas". Um outro relatório assinala o momento que soldados dos EUA dispararam mortalmente sobre um homem que estava "a rastejar por trás da sua posição de franco-atirador (sniper) ", só para descobrir depois que ele era o intérprete da sua própria unidade.

Estes relatórios são as minudências da guerra. Mas colectivamente eles transmitem a sua realidade muito melhor do que a maior parte dos bem informados relatos jornalísticos. Aqueles dois disparos foram repetidos um milhar de vezes, embora raros fossem relatórios a admitir que as vítimas eram civis. Mais habitualmente, os mortos eram automaticamente identificados como "terroristas" apanhados no acto, pouco importando a evidência em contrário. A mais famosa das descobertas da WikiLeaks referia-se a um evento em Bagdad em 12 de Julho de 2007 durante o qual os militares dos EUA afirmaram ter matado uma dúzia de terroristas. Mas o incidente foi filmado pela câmara do helicóptero Apache que havia executado os disparos – e as pessoas alvejadas eram todas civis. Estas matanças ficaram bem conhecidas porque entre os mortos estavam dois jornalistas locais a trabalhar para a Reuters. Também era sabido que tal vídeo existia, mas o Pentágono recusou-se a divulgá-lo apesar do pedido ao abrigo da Lei de Liberdade de Informação (Freedom of Information Act). Estarrecido pelo que o vídeo revelava acerca do modo como os EUA conduziam a sua guerra ao terror e estarrecido pelos conteúdo dos milhares de relatórios e telegramas que armazenava, um analista júnior da inteligência dos EUA chamado Bradley Manning, que posteriormente mudou o seu género legal e tornou-se Chelsea Manning, divulgou todo o arquivo para a WikiLeaks.

O vídeo ainda tem o poder de chocar. Os dois pilotos do helicóptero caçoaram da carnificina na rua abaixo. "Ah, Ah, eu os atingi", disse um. "Oh sim, olhe para aqueles bastardos mortos", disse o outro. Eles confundiram a câmara empunhada por um dos jornalistas com um lançador de granadas, apesar de ser improvável que insurgentes armados as ostentassem abertamente em Bagdad com um helicóptero dos EUA a pairar sobre as suas cabeças. Eles dispararam outra vez para o ferido quando um deles, provavelmente o assistente da Reuters Saeed Chmagh, rastejou em direcção a um furgão que parou para resgatá-los. Quando os pilotos são informados pela rádio que haviam morto um certo número de civis iraquianos e ferido duas crianças, um deles disse: "Bem, a culpa é deles por trazerem suas crianças para a batalha".

Os documentos da WikiLeaks revelaram o modo como os EUA, como a super-potência única, realmente conduzia suas guerras – algo que os establishments militares e políticos viram como uma bofetada para a sua credibilidade e legitimidade. Houve algumas revelações devastadoras, o vídeo do helicóptero dentre elas, mas muitos dos segredos descobertos não eram particularmente significativos ou na verdade muito secretos. E si mesmos eles não explicam ou grau de raiva que a WikiLeaks provocou no governo estado-unidense e nos seus aliados. Isto foi uma resposta ao assalto de Assange ao seu controle monopolista de informação sensível do Estado, o qual eles encaravam como uma escora essencial da sua autoridade. Ao tornar pública tal informação, como fizeram Assange e a WikiLeaks, usaram como arma a liberdade de expressão: se revelações desta espécie ficassem impunes e se tornassem norma, isto mudaria radicalmente o equilíbrio de poder entre governo e sociedade – e especialmente os media – em favor desta última. Foi a determinação do governo dos EUA de defender o seu monopólio permanente, ao invés do suposto dano feito pela divulgação do próprios segredos, que o motivou a perseguir Assange e a procurar desacreditar tanto a ele como à WikiLeaks.

Esta campanha tem sido implacável e tem tido um razoável grau de êxito, apesar do facto de que a maior parte das acusações feitas contra Assange serem comprovadamente falsas. A respeito da divulgação de documentos, havia duas linhas de ataque. Primeiro, Assange e a WikiLeaks eram acusados de revelar informação que punha em perigo ou levava a mortes de americanos ou seus aliados no Iraque e Afeganistão. Segundo, eram acusados de terem prejudicado o Estado dos EUA em geral através de actividades que equivaliam a espionagem, as quais deveriam ser punidas como tais. Muito mais danoso para Assange, contudo, e para todo o projecto da WikiLeaks, foram as alegações de violação feitas contra ele na Suécia, também em 2010. Isto levou a uma investigação do Ministério Público que perdurou aproximadamente dez anos, a qual foi descartada três vezes e três vezes recomeçada antes de finalmente ser abandonada em Novembro último quando o estatuto da prescrição se aproximava, para além do qual nenhumas acusações podiam ser formuladas.

O resultado é que Assange se tornou um pária. Perdido está o facto de que ele a WikiLeaks fizeram o que todos os jornalistas deveriam fazer, que é fazer com que informação importante fique disponível para o público, permitindo às pessoas fazerem julgamentos acerca do mundo em torno delas com base em evidências, em particular acerca das acções dos seus governos. Dado o constante martelar de ataques a Assange vindos de muitas direcções pode ser difícil recordar que em 2010 a WikiLeaks obteve uma grande vitória para a liberdade de expressão e contra o segredo de estado e que o governo dos EUA e seus aliados têm feito todos os esforços para revertê-la.

As primeiras tentativa de desacreditar Assange focaram-se em tentar provar que as revelações da WikiLeaks levaram directamente a mortes de agentes dos EUA e informantes. O Pentágono fez um grande esforço para dar substância a esta alegação: estabeleceu um Information Review Task Force dirigido pelo responsável sénior de contra-inteligência, brigadeiro-general Robert Carr, o qual estudou o impacto das revelações e procurou produzir uma lista de pessoas que podiam ter sido mortas por causa da informação contida nos telegramas. Carr posteriormente descreveu a extensão do fracasso da sua task force, em testemunho dado na audição de sentenciamento de Manning em Julho de 2013. Após longa investigação, a sua equipe de 120 oficiais de contra-inteligência não foi capaz de encontrar uma única pessoa, entre os milhares de fontes secretas e agentes americanos no Afeganistão e Iraque, que pudesse ser mostrada como tendo morrido devido às revelações. Carr disse ao tribunal que em certo ponto sua força tarefa parecia estar a obter algo: o Taliban afirmou ter morto um informante dos EUA identificado nos telegramas da WikiLeaks. Era um sinal de desespero por parte dos oficiais da contra-inteligência que ao procurar evidências contra a WikiLeaks eles ficassem reduzidos a citar o Taliban como fonte. E, como admitiu Carr durante o interrogatório da defesa, revelou-se que o Taliban estava a mentir. "O nome do indivíduo morte não estava nas revelações [da WikiLeaks]". Apesar de tudo isto, o advogado que representa o governo dos EUA nas audiências de extradição de Assange em Londres no princípio deste ano ainda argumentou que Assange havia colocado em risco as vidas de fontes dos EUS no Iraque e no Afeganistão.

Em Cabul, em 2010, pouco após o meu primeiro olhar aos telegramas diplomáticos que a WikiLeaks havia revelado, aconteceu reunir-me com um oficial americano para uma conversa off the record acerca da situação no Afeganistão. Perguntei-lhe o que pensava dos telegramas; ele respondeu perguntando que código de classificação aparecia no topo das páginas que eu via. Quando eu lhe disse, ele foi desdenhoso acerca do grau em que os documentos contivessem realmente segredos mantidos profundamente, apesar da classificação que pudessem ter. Ele explicou que o governo dos EUA não era tão ingénuo para acreditar que informação armazenada numa base dados à qual até meio milhão de pessoas tinha acesso – uma das quais revelou-se ser o soldado Manning – pudesse permanecer confidencial por muito tempo. Conhecida como Siprnet (Secret Internet Protocol Router Network), a base de dados originalmente fora propriedade única do Pentágono mas foi utilizada mais amplamente após o 11/Set, quando ficou claro que partes da burocracia dos EUA tinham informação valiosa que outras partes não sabiam. O Siprnet foi a resposta para o problema da partilha insuficiente: um arquivo electrónico a que muitas pessoas em vários ramos do governo podiam ter acesso, desde diplomatas em embaixadas dos EUA por todo o mundo até pessoal militar de baixa patente como Manning. Em teoria, pelo menos três milhões de pessoas tinha autorização de segurança (security clearance) para utilizar o Siprnet: tudo que era preciso era uma palavra-passe. As medidas de segurança eram limitadas e podiam ser facilmente penetradas. Para a transmissão de dados realmente secretos, tais como comunicações entre adidos militares dos EUA, pelo menos quatro outros sistemas mais refinados estavam disponíveis. O facto de a força tarefa do general Carr, a qual foi capaz de apelar a todos os recursos do Pentágono, ter sido incapaz de descobrir, em todos os oceanos de facto divulgados pela WikiLeaks, o nome de um único indivíduo que tivesse realmente sido morto em consequência pelo Taliban, al-Qaida ou algum outro inimigo dos EUA, mostra que a exclusão de informação pormenorizada do Siprnet foi eficaz.

As acusações que Assange enfrentará nos EUA se for extraditado têm tudo a ver com colocar os EUA e seus informantes em perigo. Mas as percepções públicas sobre ele são amplamente moldadas, de uma maneira ou de outra, por seu status de suspeito de violação. Alguns rejeitam as acusações, que consideram inventadas ou injustas. Outros acreditam que ele deveria ter sido julgado por agressão sexual e que não se pode fazer uma excepção só porque Assange é um avatar da liberdade de imprensa. Entre aqueles que o tem apoiado estão Katrin Axelsson e Lisa Longstaff, duas porta-vozes da Women against Rape, a qual em 2012 publicaram um artigo opondo-se à sua extradição para a Suécia alegando que o processo judicial fora "corrompido" e a justiça "negada tanto aos acusadores como ao acusado": as mulheres envolvidas foram "destruídas" na internet porque os promotores suecos não conseguiram proteger seu anonimato; Assange estava sendo "tratado por grande parte dos media como se fosse culpado, embora nem tivesse sido acusado".

Em 12 de Setembro do ano passado, Nils Melzer, o relator especial da ONU sobre tortura e outros tratamentos crueis, desumanos e degradantes, enviou uma carta de 16 páginas ao governo sueco. Tendo empreendido uma revisão pormenorizada dos procedimentos contra Assange, ele concluiu que "desde 2010, o processo sueco parece [ter feito] tudo para manter a não qualificada narrativa de "suspeito de violação" sem que tenha sido feito progresso ou emitidas quaisquer acusações: isto foi "procrastinação processual". Assange recusou-se a viajar para a Suécia para interrogatório – ele argumentou através dos seus advogados que se deixasse a protecção da embaixada equatoriana inevitavelmente seria extraditado para os EUA – mas os promotores, por sua vez, passaram seis anos a recusar-se viajar para Londres a fim de entrevistá-lo ou efectuar interrogatório por ligação vídeo. A carta também revela trocas de emails entre promotores suecos e o British Crown Prosecution Service, o qual parecia determinado a que o processo sueco continuasse. Em 31 de Agosto, por exemplo, a seguir a informações nos media de que a Suécia estava a considerar abandonar a investigação pela segunda vez, o CPS escreveu ao promotor chefe sueco: "Não ouse pois podia ficar com os pés frios!!"

Melzer descreve uma investigação que foi politizada desde o momento em que, em 20 de Agosto de 2010, duas mulheres, então conhecidas apenas como AA e SW, foram a uma esquadra de polícia em Estocolmo "para perguntar se o Sr. Assange poderia ser obrigado a fazer um teste HIV". Dentro de horas, "o promotor sueco ordenou a prisão do Sr. Assange e informou o tablóide Expressen que ele suspeito de ter violado duas mulheres". Ao longo dos nove anos seguintes, quando a investigação foi repetidamente fechada por um promotor só para ser reaberta por outro, a Suécia regularmente indicava que queria interrogar Assange, mas na prática mostrava pouco desejo de fazer isso ou de levar a investigação a uma conclusão. O efeito principal do para-arranca do processo judicial foi manter a ferver a controvérsia sobre o que fez Assange em Estocolmo em 2010. O governo sueco finalmente respondeu à carta de Melzer só para dizer que "não tinha nova observação fazer"; no dia seguinte a investigação foi formalmente encerrada.

Nada disto provavelmente mudará o modo como Assange é encarado. De acordo com a experiência passada, quase nenhum media de referência prestou qualquer atenção às questões de Melzer acerca da condução do caso. Os maiores jornais do mundo, que em 2010 publicaram revelações do WikiLeaks nas suas primeiras páginas, distanciaram-se de Assange logo depois, muitas vezes declarando que ele era uma pessoa difícil de lidar ou que era descuidado no manuseio dos telegramas e relatórios do governo dos EUA. Ele foi acusado de ser "narcisista", como se isso fosse algo mais do que um viés de carácter, ou como se viéses de carácter – fossem quais fossem – tivessem qualquer influência nas informações que foram reveladas.

Dada a gravidade das questões em causa, o silêncio de jornalistas acerca da detenção de Assange em Belmarsh a seguir à revogação pelo Equador do seu status de asilado é gritante. Havia evidências de uma mudança radical na política de segurança dos EUA, em direcção à posição adoptada por países como Turquia e Egipto, os quais procuraram criminalizar críticas ao Estado e confundir a publicação de notícias que não querem que o público ouça com terrorismo ou espionagem. A crescente supressão da liberdade de imprensa na Hungria e na Índia é frequentemente criticada pelos comentaristas ocidentais. Mas, como destacou Glenn Greenwald no Intercept, os media ocidentais "ignoraram amplamente o que é, de longe, o maior ataque à liberdade de imprensa pelo governo dos EUA pelo menos na última década: a acusação e tentativa de extradição de Julian Assange por alegados crimes decorrentes da publicação do WikiLeaks – em conjunto com os maiores jornais do mundo – dos registos da guerra do Iraque e do Afeganistão e dos telegramas diplomáticos dos EUA". Eles não podiam encarcerar o editor do New York Times, de modo que ao invés disso perseguem Assange.

Assange e a WikiLeaks mais do que cumpriram plenamente o objectivo principal da colecta de notícias. "O primeiro dever da imprensa", escreveu Robert Lowe no Times em 1852, "é obter a inteligência mais precoce e mais correcta dos eventos da época e instantaneamente, revelando-os, para torná-los propriedade comum da nação. O homem de Estado colecta suas informações secretamente e por meios secretos; ele retém até a inteligência actual do dia com precauções ridículas". A imprensa, em contraste, "vive de revelações". As revelações de Assange em 2010 seguiram exactamente esta prescrição e é por isso que ele corre o perigo de passar o resto da vida na prisão.

15/Junho/2020
[*] Jornalista.

O original encontra-se www.lrb.co.uk/the-paper/v42/n12/patrick-cockburn/julian-assange-in-limbo

 

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/varios/assange_cockburn_18jun20.html

De jornalistas comprados a cientistas comprados

por Stephen Karganovic

. Ambos vão em parceria, é claro. Quando, há vários anos, o falecido Udo Ulfkotte publicou suas revelações sobre o funcionamento interno dos corrupto media ocidentais (impressa em inglês por uma editora menor em 2017, mas "indisponível" desde então [NR] , seguida logo após pela morte conveniente por ataque cardíaco do aparentemente saudável autor alemão de 57 anos) quem suspeitaria que no fabuloso Ocidente processos idênticos estavam a corroer outras áreas importantes da vida pública?

. Apenas como um lembrete, como a editora aponta no seu anúncio: "O Dr. Udo Ulfkotte, antigo editor do principal jornal diário alemão, Frankfurter Allgemeine Zeitung (FAZ), tem conhecimento em primeira mão de como a CIA e a inteligência alemã (BND) subornam jornalistas para escreverem artigos livres da verdade e com um viés decididamente pró-ocidental, a favor da NATO ou, por outras palavras, propaganda. No seu livro best-seller Jornalistas comprados ("Gekaufte Journalisten"), o Dr. Ulfkotte explica em pormenor o funcionamento da campanha de propaganda dos EUA e da NATO e como a falta de conformidade com ela por parte de um jornalista pode custar-lhe a carreira".

A pandemia em curso do Coronavírus, seja lá o que for que se pense dela, expôs uma situação na ciência ocidental que é sinistramente análoga à que Ulfkotte descreveu naquilo que passa como "jornalismo".

Um dos poucos cientistas nos EUA com integridade para resistir àa intensaa pressões – que podem custar uma carreira – para distorcer dados científicos e adaptá-los aos requisitos de marketing de enormes empresas farmacêuticas é a renomada microbiologista Dra. Judy Mikovits. A Dra. Mikovits desempenhou um papel de liderança na pesquisa de HIV nos anos 80 e foi muito elogiada na época pela sua contribuição para suprimir aquela epidemia. Mas, apesar das suas notáveis credenciais científicas, ela rapidamente se tornou persona non grata para o establishment científico comprado (gekaufte) quando começou a questionar algumas das verdades sagradas da actual comoção de Corona. "O martelo começou a cair", ela explica, "e disseram-me para negar os dados, deturpá-los, jogá-los fora e, quando me recusei, fui demitida. Meu laboratório foi fechado em 29 de Setembro [2019] e meus dois gabinetes e toda a minha carreira de 30 anos e tudo, meus cadernos de notas, foram confiscados" .

A simbiose da "Big Science"–"Big Pharma" e seu comité executivo (infelizmente a expressão leninista funciona melhor aqui), também conhecido como "governo", manifestou-se vividamente no fiasco de Neil Ferguson do Oxford College, usando um modelo matemático manipulado e desconsiderando dados concretos para fazer aparecer um cenário de desastre fantasmagórico de pandemia que posteriormente resultou em um genuíno desastre económico, social e, para infelizes milhões de pessoas, de magnitude incalculável. Numa peça desavergonhada dedicada ao charlatão Ferguson, ele foi elogiado pelo Business Insider por ter "modelado a disseminação de todos aqueles surtos, aconselhando cinco primeiros-ministros do Reino Unido no processo. Mas tudo isso parece como um ensaio para 2020". Na verdade, foi isso mesmo, como estamos a descobrir. Ficando por mencionar, é claro, o registo assustador das consultas infelizes de Ferguson, todas as suas previsões em epidemias anteriores (assim como a actual) que se mostraram sempre totalmente erradas. No fim, cercado por factos irrefutáveis, Ferguson foi obrigado a admitir , com o "maior respeito" pelos cientistas suecos, que a Suécia havia conseguido suprimir o vírus Corona sem recorrer a restrições severas, e ele até teve o descaramento de acrescentar – depois de os danos causados pelas suas recomendações se terem tornado irreversíveis – que a Suécia havia usado "a mesma ciência que o Reino Unido" para alcançar um resultado bem-sucedido de saúde pública a um custo social muito menor. Mas, como disse recentemente o amigo de Ferguson, George Soros, inequivocamente e com incrível franqueza , "mesmo antes da pandemia, percebi que estávamos num momento revolucionário em que aquilo que seria impossível ou mesmo inconcebível em tempos normais não só se tornara possível como provavelmente absolutamente necessário". A agenda na verdade deve ser avançada a qualquer custo e, como observou não há muito tempo outra pessoa do mesmo círculo desagradável: "ninguém quer que uma crise séria seja desperdiçada" .

E agora chegamos a uma das fontes do sistema científico comprado (gekaufte Wisterenschaft) da actual histeria global, revelada inesperadamente pela mais improvável autoridade jornalística, The Guardian : "Uma investigação do Guardian pode revelar que a companhia Surgisphere, com sede nos EUA, cujos poucos funcionários parecem incluir um escritor de ficção científica e um modelo de conteúdos para adultos, forneceu dados para múltiplos estudos sobre o Covid-19, em co-autoria com o seu director executivo, mas até agora não conseguiu explicar adequadamente seus dados ou metodologia".

Verifica-se que o impacto desta empresa obscura sobre as políticas e práticas de governos e organizações internacionais foi nada menos que espectacular:   "Os dados que ela afirma ter obtido legitimamente de mais de um milhar de hospitais em todo o mundo constituíram a base de artigos científicos que levaram a mudanças nas políticas de tratamento do Covid-19 em países latino-americanos. Ela também esteve por trás de uma decisão da OMS e institutos de investigação de todo o mundo de suspender os ensaios do controverso medicamento hidroxicloroquina. Na quarta-feira, a OMS anunciou que estes ensaios seriam agora retomados". Por outras palavras, o que The Guardian descobriu dentro do nexo científico e governamental ocidental foi um enorme e absolutamente vergonhoso caso de fraude.

Mas não foi fraude apenas no sentido abstracto da palavra. Ela teve consequências tangíveis no mundo real, afectando directamente a vida e a saúde de incontáveis seres humanos.

Como quando, em 22 de Maio de 2020, e inteiramente baseado nas descobertas "científicas" apresentadas pela Surgisphere Corporation, a prestigiada revista médica britânica The Lancet publicou "Hidroxicloroquina ou cloroquina com ou sem um macrolídeo para tratamento do COVID-19: uma análise de registos multinacionais" . Isto foi descrito (e mais tarde o artigo foi desmentido misericordiosamente) como sendo um estudo observacional envolvendo alegadamente mais de 96 mil pacientes Covid-19 hospitalizados em 671 hospitais em seis continentes. O que não foi divulgado é o facto de que os dois principais co-autores têm significativos e relevantes conflitos de interesse financeiros que podem ter influenciado o que foi relatado.

Como se fosse o momento oportuno, poucos dias após a publicação pela Lancet desses dados falsos, o Dr. Anthony Fauci, chefe do National Institute of Allergy and Infectious Diseases (NIAID), referindo-se à hidroxicloroquina, declarou na CNN:   "Agora os dados científicos são realmente bastante evidentes sobre a falta de eficácia". Uma campanha dos media contra a hidroxicloroquina (HCQ) criou pânico:   ensaios clínicos destinados a testar a hidroxicloroquina para o COVID-19 foram suspensos por instituições internacionais de saúde pública, incluindo a Organização Mundial da Saúde, a agência reguladora do Reino Unido e o governo francês. Como destacou Stephen Smith, médico dos EUA com integridade profissional: "pacientes com COVID-19 morreram por causa do estudo falso da Lancet que desacreditou a hidroxicloroquina" .

Tudo isto tem um sólido sentido financeiro, é claro. A hidroxicloroquina é um remédio extremamente barato e amplamente disponível, cujas receitas de vendas não encheriam os cofres de ninguém e que não se presta a nenhuma das outras agendas de "exploração de crises" que os srs. Soros, Gates, Ferguson et al. podem ter em mente. A vacina injectada em processamento com que ameaçam globalmente, no entanto, atende a todos os seus requisitos sinistros e oferece a perspectiva de lucros sumarentos praticamente ilimitados. Caso encerrado.

Mas isso é só uma das coisas que acontecem quando nações e seus governos comprados permitem que patifes e charlatães os trapaceiem.

10/Junho/2020

 

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/pandemia/cientistas_comprados_10jun20.html

'A TV mente': os sistemáticos silenciamentos.

Discriminação
 
A pior manipulação e discriminação política é aquela que é feita pelo silenciamento.Há muito que está comprovada a eficácia que tem a omissão das posições que se pretendem combater.
O silenciamento de algumas forças políticas é a opção e a prática quotidiana da generalidade dos 'media' portugueses.
 
Por exemplo, no dia 11 de junho a RTP deu conta das reações dos Partidos com representação parlamentar ao discurso proferido, na véspera, pelo Presidente da República. Mas só ouviu alguns! O PCP, o PEV, a IL e o Chega foram omitidos como se não tivessem sido, todos eles, eleitos pelos portugueses para expressarem as suas posições.
Não se percebe qual foi o critério deste saneamento. Se a RTP pretende 'justificar-se' com a dispensabilidade dos "extremos" trata-se de uma idiotice grave sem qualquer base séria, constitucional ou legal.
É especialmente preocupante o tratamento informativo que a RTP (tal como as restantes televisões privadas) dispensa ao PCP, partido que, simpatize-se ou não com ele, tem uma evidente representatividade eleitoral e social além de uma história inalienável que o constituiu como um dos Partidos fundadores do atual regime democrático português.
É inegável que há um sistemático silenciamento desta força política nas análise e nos comentários habituais e que o tempo que lhe é atribuído no noticiário é consabidamente discriminado. O silenciamento das posições e iniciativas do PCP não é um incidente antes é uma prática constante e assumida pela RTP e pelos demais órgãos de comunicação.
Não se trata de concordar ou defender as posições do PCP. O importante é defender a liberdade de opinião e de expressão.
Obviamente conhecem-se as causas do anticomunismo e as raízes que há mais de dois séculos alimentam a luta contra o 'espectro' oriundo dos trabalhadores. Mas a História tem, também, demonstrado que a ostracização dos comunistas é sempre o primeiro passo para destruir a democracia e que quando os democratas se calam perante a marginalização (discreta ou violenta) dos comunistas é a liberdade e a democracia que acabam por perecer.
Nos tempos que correm é bom não olhar para o lado ou fingir que não se percebem os silenciamentos e discriminações imperantes nos órgãos de comunicação.
 
 
 
 
 
 

Regabofes

Manuel Carvalho deve achar que os leitores do jornal que dirige não têm memória: “Depois de 20 anos de regabofe orçamental, Centeno foi o homem que vergou o défice e nos provou que, sim, o país pode e deve ser governado com contas certas.”

Duas décadas de estagnação, indissociáveis do Euro, não existiram. A maior crise desde a Grande Depressão, a iniciada em 2007-2008, não existiu. E o saldo orçamental não é uma variável fundamentalmente endógena, mais dependente do andamento da economia do que das habilidades dos Ministros das Finanças, como se confirma outra vez com uma previsão de um défice de 6,3% para este ano.

Além disso, a austeridade relativamente suave do primeiro governo Sócrates e a mais intensa dos PEC do segundo governo não existiu. E, claro, também não existiu a versão muito mais violenta do governo da troika. A desmemória está aí.

Mais à frente, virá exigir novas doses de austeridade, que nunca terá existido, a somar à desvalorização salarial já em curso.

Para lá do moralismo, dada a lógica dos saldos financeiros num país com instrumentos decentes de política económica, contas certas só querem dizer o saldo do sector público necessário para criar o maior volume de emprego possível e assegurar a solvabilidade do sector privado, sem descurar o único equilíbrio que conta, o do saldo externo, para não se cair em dependências externas.

Entretanto, o argumento da melhoria das condições de financiamento, putativa contrapartida da política económica dos credores, já engana menos gente, dado que ficou mais claro que as taxas de juro são um “preço” político, sendo determinadas pelo Banco Central e não pelos mercados.

Mas, como sabemos, a austeridade é um meio para transferir recursos para os mesmos de sempre. Carvalho deu a linha hoje: “os custos deste orçamento vão andar muitos anos a atormentar-nos.” O que nos atormenta é a crise e falta de instrumentos para a debelar na nossa escala.

Entretanto, Centeno não deixa saudades. Como bem se resume em título do Público: “o homem que sai quando o excedente acaba”. Para lá de um nível de investimento público que atrofiou as capacidades do país, legou um princípio que corre o risco de ser aplicado para lá da banca: pagam e não mandam. Isto, sim, é um regabofe.

 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Algo tem de mudar na economia

Quem conheça a história da britânica The Economist, brilhantemente esmiuçada pelo historiador Alexander Zevin, sabe que é difícil encontrar melhor repositório das convenções liberais ao longo do tempo. De facto, desde a sua fundação, em 1843, foi do anti-democrático imperialismo de comércio livre, dominante no longo século XIX, até ao pós-democrático neoliberalismo desde o final do breve século XX, passando por um certo consenso keynesiano no centro, dado o medo de alternativas mais radicais.

Esta pandemia tem perturbado algumas certezas desta sofisticada voz da City com um pé em Wall Streete outro em Hong-Kong, o que de resto já aconteceu noutras alturas, da Grande Depressão ao Brexit.

Desde Março, já não é a primeira vez que leio na The Economist elogios ao Estado indiano de Kerala e ao Vietname, justamente considerados exemplos na área da saúde pública no mundo em vias de desenvolvimento. Esta revista sempre foi visceralmente anti-comunista, favorável a todas as bombas lançadas pelos EUA na Indochina, ao “método de Jakarta” por estes patrocinado. Zevin documenta este padrão com grande rigor.

Já não é a primeira vez que leio apelos a todos os estímulos monetários e orçamentais possíveis e imaginários, num contexto em que se reconhece que a dívida pôde ser gerida no passado, por exemplo através do que estes liberais chamam de “repressão financeira”, vigente a seguir à Segunda Guerra Mundial, um período que até à liberalização financeira dos anos oitenta foi de reconhecida tranquilidade financeira, um padrão inaudito na história do capitalismo. Esta revista deu sempre para todos os peditórios anti-keynesianos desde os anos oitenta, embora tenha chegado um pouco tarde a eles, como é sublinhado por Zevin.

É verdade que é por vezes pragmática, em modo bombeiro, quando as crises, de novo cada vez mais frequentes, atingem o centro. Foi sempre selvagem na periferia, favorável a todo o liberalismo armado, como aconteceu recentemente na Bolívia.

Mas esta semana, que me recorde, foi a primeira vez que este baluarte anti-sindical, sempre muito favorável ao aumento de direitos patronais, reconhece de passagem uma das consequências desta transformação institucional, abandonando um certo esforço de naturalização do aumento das desigualdades:

“Em alguns países a desigualdade estava a aumentar antes da pandemia, em parte por causa da liberalização das regras laborais. Na Alemanha, a percentagem do rendimento dos 10% mais bem remunerados era igual à dos 50% que ganhavam menos quando as reformas laborais de 2004 foram aprovadas [pelo governo SPD]; em 2017, os 10% mais bem remunerados ganhavam mais.”

Se falo desta revista semanal no singular é porque os artigos não são assinados, salvo um ou outro caso, quando a rainha faz anos, o que, reconheça-se, é uma afirmação de um projeto colectivo, neste caso ao serviço do individualismo possessivo, agora a atravessar um daqueles momentos excepcionais.

E, já agora, aposto que não há uma publicação tão influente entre os nossos editorialistas, do Expresso ao Público, passando pelo Negócios, embora na periferia haja muito menos flexibilidade ideológica, também aí imitando a lógica do centro liberal para os países subalternos.

 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

O castigo de Deus

castigo-obs«Será então que Deus nos está a castigar com esta pestilência que estamos a sofrer em Portugal? Um sr. ministro alemão, ao contrário de um sr. bispo, responderá que sim. O sr. ministro dirá que é um castigo divino porque acredita na causalidade. E acreditando que Deus existe, e é a causa última de todas as causas, parecer-lhe-á evidente que terá sido Ele que, na sua sabedoria, terá estabelecido desde toda a eternidade as coisas para que o PS perdesse as eleições em 2015 sem que a coligação Portugal à Frente obtivesse a maioria absoluta. Para isso bastou-Lhe ordenar, através de outras causas secundárias, os afazeres e preferências de 44% dos eleitores para que não fossem votar, bem como infetar 32% dos votantes com o vírus socialista e outros 18% com uma bactéria marxista resistente a toda a evidência histórica. Embora esta calamidade nacional, que são os governos do sr. eng. Costa, tenha tido como causa próxima estas doenças ideológicas, de caracter endémico no nosso país, um crente estará consciente que a sua causa última é Deus Nosso Senhor, que opera por causas quer aparentes quer misteriosas.»

 

Não sei se o economista que assim escreve, tomando-se a sério, no Observador, se enganou na profissão. Ou se, simplesmente, nasceu no século errado.

A pandemia do novo coronavírus é o castigo divino no século XXI: não sei o que andaram a comprar e a distribuir lá pela redacção com o dinheiro dos novos apoiantes e subscritores. Mas a mocada parece ser forte…

Perante prosas delirantes como esta, já há muita gente a querer experimentar o produto…

A novilíngua neoliberal no seu esplendor

por João Rodrigues [*]

'Colaboradores'.

  • Não se diz patrão, diz-se empreendedor.

     

  • Não se diz direito do patrão, diz-se flexibilidade laboral.

     

  • Não se diz direito do trabalhador, diz-se rigidez laboral.

     

  • Não se diz capitalismo, diz-se economia de mercado.

     

  • Não se diz regra ambiental, diz-se barreira ao investimento.

     

  • Não se diz especulação, diz-se arbitragem.

     

  • Não se diz predação financeira das empresas, diz-se criação de valor para o accionista.

     

  • Não se diz soberania, diz-se fechamento.

     

  • Não se diz perda de soberania devido à UE, diz-se partilha de soberania na Europa.

     

  • Não se diz perda de controlo democrático, diz-se abertura.

     

  • Não se diz controlo de capitais, diz-se repressão financeira.

     

  • Não se diz redistribuição de baixo para cima, diz-se mercado livre.

     

  • Não se diz socialização dos prejuízos da banca, diz-se resgate ou resolução.

     

  • Não se diz controlo da política monetária pelo capital financeiro, diz-se banco central independente.

     

  • Não se diz justiça social, diz-se inveja.

     

  • Não se diz regressividade fiscal, diz-se incentivo.

     

  • Não se diz progressividade fiscal, diz-se confisco.

     

  • Não se diz construção política de instituições económicas, diz-se ordem espontânea.
 
Há muitas mais coisas que devem ser ditas quando se pretende ofuscar ideologicamente a realidade.
 
  • Não se diz opinião paga por grandes interesses económicos, diz-se opinião independente.

     

  • Não se diz panfleto europeísta, diz-se jornal de referência Público.

     

  • Não se diz destruição e crime económico (aquilo que a Troika fez aos do sul, especialmente à Grécia), diz-se solidariedade europeia.

     

  • Não se diz propagandista, diz-se Camilo Lourenço; Helena Garrido; Manuel Carvalho; João Vieira Pereira.

     

  • Não se diz zona monetária que não funciona, diz-se mais Europa.

     

  • Não se diz crime de guerra, diz-se libertação dos povos oprimidos.

     

  • Não se diz roubo de petróleo e outros recursos naturais, diz-se odioso ditador Maduro.

     

  • Não se diz odioso regime Saudita, diz-se grande aliado do Ocidente.

     

  • Não se diz organização belicista, diz-se NATO.

     

  • Não se diz organização anacrónica, diz-se FMI.

     

  • Não se diz organizações sem legitimidade democrática e sem escrutínio da população, diz-se Comissão Europeia e Banco Central Europeu.

     

  • Não se diz mais de uma década perdida, empobrecimento, precarização, regressão e transferência da riqueza da base para o topo, diz-se reestruturação da economia.

     

  • Não se diz exploração laboral, diz-se moderação salarial.
02/Junho/2020
[*] Economista.

O original encontra-se em ladroesdebicicletas.blogspot.com/2020/06/da-sabedoria-convencional.html

 

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/crise/novilingua_02jun20.html

Apoios públicos à comunicação social?

 

Marcelo Rebelo de Sousa vem, nos anos mais recentes do mandato que está a terminar, alertando para a necessidade de políticas públicas de apoio à comunicação social, em consonância com os imperativos decorrentes da Constituição da República Portuguesa[i].

 

Visto até o protagonismo que ao longo da sua vida profissional e política foi tendo junto da comunicação social, não se lhe pode negar algum conhecimento de causa, muito embora a sua intervenção não pareça ter suscitado um entusiasmo excessivo.

Com a COVID-19 o assunto voltou a ser falado, e, num contexto de generosidade para com as empresas em geral, o Governo logo anunciou que iria disponibilizar 15 milhões de euros sob a forma de pagamento antecipado de publicidade institucional, o que não deixou de suscitar reacções, sobretudo quando se percebeu que essa ajuda iria redundar em benefício de grupos económicos solidamente instalados no mercado. Muito embora na Presidência da República se tenham chegado a receber os líderes das principais empresas de comunicação[ii] não terão surgido propostas alternativas consensuais e assim o Governo avançou com a sua proposta de compra de publicidade, ficcionando que a publicidade a adquirir diria respeito à pandemia, e conseguindo a proeza de se enganar no primeiro mapa de repartição de verbas e ter de aprovar um segundo.

De algum modo, um debate inquinado, poderíamos até dizer “infectado”, deste o início.

 

Liberdade de Imprensa na Constituição da República Portuguesa (CRP)

O texto actualmente vigente, que já não é o de 1976, por ter sido profundamente revisto, sobretudo em 1982 e em 1989, dispõe o seguinte:

 

Artigo 38.º

(Liberdade de imprensa e meios de comunicação social)

  1. É garantida a liberdade de imprensa.
  2. A liberdade de imprensa implica:
    1. A liberdade de expressão e criação dos jornalistas e colaboradores, bem como a intervenção dos primeiros na orientação editorial dos respectivos órgãos de comunicação social, salvo quando tiverem natureza doutrinária ou confessional;
    2. O direito dos jornalistas, nos termos da lei, ao acesso às fontes de informação e à protecção da independência e do sigilo profissionais, bem como o direito de elegerem conselhos de redacção;
    3. O direito de fundação de jornais e de quaisquer outras publicações, independentemente de autorização administrativa, caução ou habilitação prévias.
  3. A lei assegura, com carácter genérico, a divulgação da titularidade e dos meios de financiamento dos órgãos de comunicação social.
  4. O Estado assegura a liberdade e a independência dos órgãos de comunicação social perante o poder político e o poder económico, impondo o princípio da especialidade das empresas titulares de órgãos de informação geral, tratando-as e apoiando-as de forma não discriminatória e impedindo a sua concentração, designadamente através de participações múltiplas ou cruzadas.
  5. O Estado assegura a existência e o funcionamento de um serviço público de rádio e de televisão.
  6. A estrutura e o funcionamento dos meios de comunicação social do sector público devem salvaguardar a sua independência perante o Governo, a Administração e os demais poderes públicos, bem como assegurar a possibilidade de expressão e confronto das diversas correntes de opinião.
  7. As estações emissoras de radiodifusão e de radiotelevisão só podem funcionar mediante licença, a conferir por concurso público, nos termos da lei.”

 

 
 
 

 

Não foi só o texto constitucional que sofreu alterações, mas as próprias realidades:

  • a quase totalidade dos jornais publicados em 1974 deixou de existir, por razões basicamente económicas, tendo ou não atravessado processos de nacionalização, e surgiram alguns outros títulos que nem sempre vingaram;
  • muitos estudantes se entusiasmaram com cursos superiores de jornalismo ou, em termos mais amplos, de comunicação social que entretanto abriram;

contudo,

  • a precariedade entranhou-se na comunicação social e as sucessivas crises vieram a traduzir-se em downsizingsdas redacções.

Note-se que desta forma um dos pilares da liberdade de imprensa e da qualidade dos seus conteúdos – o papel dos jornalistas – ficou fortemente comprometido. Quanto à criação e sustentação dos títulos, a Constituição parece criar restrições ao seu controlo pelo poder económico mas o facto é que a generalidade das empresas, ainda que se observe o princípio da especialidade, assenta na lógica pura e dura de poder económico, não havendo incentivos especiais para a criação de sociedades de redactores[iii] e não tendo vingado projectos assentes na iniciativa de grupos de jornalistas.

O Sindicato dos Jornalistas tem-se mantido como sindicato único, para o que terá contribuído a sua decisão inicial de se desfiliar da Confederação em que estava inscrito, mas perdeu a gestão da carteira profissional, e parece ter-se afundado na irrelevância. Cedendo à moda da regulação a Alta Autoridade para a Comunicação Social deu lugar, após mais uma revisão constitucional, a uma Entidade Reguladora, cujo primeiro presidente, um Professor Doutor qualquer, haveria de prosseguir uma notável carreira que o levou sucessivamente a chefe do gabinete de um presidente de câmara municipal e a ministro da defesa.

 

Economia da Comunicação Social

A Economia da Comunicação Social parece ser coisa simples. Logo que ouviu falar de eventuais apoios públicos à comunicação social o economista Rui Rio equiparou a actividade ao fabrico de sapatos. Sem afirmar que o colega está a meter os pés pelas mãos, registo no entanto que em Microeconomia a produção de comunicação social insere-se naquilo que se costuma designar por Produção Conjunta.

O exemplo académico clássico é o da criação de rebanhos de ovelhas, que proporcionam vários produtos – lã, leite, carne – todos eles susceptíveis de consumo individual, cujas procuras se manifestam em mercados diferentes, mas se adicionam e influenciam as decisões do produtor quanto a escala de produção / preços. Um exemplo que também se pode dar é o da refinação de petróleo, que gera vários produtos, todos eles susceptíveis de venda nos mercados, mas se adicionam e influenciam as decisões do produtor quanto a escala de produção / preços.

Na comunicação social, seja escrita, seja radiofónica, seja televisiva, gera-se simultâneamente

  • um bem / serviço de consumo individual, que é usufruído pelo leitor, ouvinte, telespectador, com a diferença de que para satisfazer todos os interessados na aquisição de jornais impressos é preciso aumentar a escala de produção e para a emissão radiofónica ou televisiva a escala de produção não depende da audiência;
  • um bem de consumo individual que é o espaço / tempo de publicidade, que é vendido aos anunciantes, em condições de mercado.

Com a particularidade de que o valor do espaço / tempo de publicidade tende a ser tanto maior quanto o número / qualidade dos leitores / ouvintes / telespectadores.

Por alguma coisa em tempos antigos alguns jornais diziam ser os de “maior circulação”, de “maior expansão”, os mais lidos, etc. Mesmo hoje em que as empresas concorrentes aceitam controlos de tiragem ou de audiência, há refinamentos no sentido de distinguir a circulação, da “circulação paga”, etc.

No limite está a experiência dos jornais gratuitos e de algumas rádios / televisões que vivem exclusivamente da publicidade.

Seja-me perdoada esta demora nos fundamentos microeconómicos na comunicação social, mas como o mercado não gera sapatos de forma gratuita, achei melhor não a dispensar.

Repare-se entretanto que pode haver tentativas, mais ou menos bem sucedidas, de “comprar” a comunicação social através de publicidade ou da retirada de publicidade que seria normal angariar se o anunciante estivesse unicamente virado para publicitar directamente os seus produtos ou a vender a sua própria imagem. E essa compra de publicidade, ou a retirada de publicidade em represália, pode afectar a isenção do órgão de comunicação social e a qualidade da sua informação.

Trata-se de um problema que não deixa de afectar o Estado, sobretudo quando mobiliza verbas de publicidade institucional. Para evitar que a distribuição desta possa ser vista como um condicionamento do Governo, ou como uma manifestação de favoritismo, foi aprovada em 2015 uma Lei que regula exaustivamente a matéria e cuja preocupação de rigor não pode ser negada[iv].

Em contraponto, num comunicado de imprensa de 27 de Maio ultimo, o Sindicato dos Jornalistas “alerta para conteúdos que ameaçam independência da imprensa regional”[v].

 

Políticas públicas de correcção de falhas de mercado

O mercado da comunicação social também pode ser regulado tal como outros mercados em que se registam falhas, e com remédios semelhantes:

  • não em matéria de estabelecimento, ao qual, como vimos, a Constituição quis que não existissem entraves, mas em matéria de organização empresarial e impedimento de eventual monopolização, como o texto aliás já exige;
  • possivelmente em matéria de garantia efectiva de direitos de propriedade intelectual, numa altura em que, por razões de ordem tecnológica – a revolução digital – se tem tornado mais difícil a exclusão de quem não esteja disposto a pagar um preço;
  • permitindo ao sector ser compensado pelas externalidades positivas que a sua actividade gera;
  • e, embora aqui tenhamos uma intervenção muito mais controversa, que repugna seja feito com tutela das preferências do consumidor, induzindo um consumo de informação geral com um maior grau de qualidade.

Acresce que nos últimos anos, com diferente incidência de país para país , surgiu o fenómeno avassalador das fake news, muito mais baratas de produzir e de partilhar, que coloca em cheque a comunicação social tradicional e dificulta o acesso à informação geral que a Constituição quis garantir.

Voltando aos sapatos, possivelmente Rui Rio não se lembrará que no tempo de Salazar foi a certa altura decretado ser obrigatório o uso, na via pública, de sapatos, e aplicadas multas a quem andasse por aí descalço, embora com uma salvaguarda típica na colocação de bens sob tutela: que o Estado daria sapatos a quem provasse não ter meios de os adquirir.

Será que o Estado, apesar do melindre das questões envolvidas, pode contribuir para que o cidadão ande, do ponto de vista da informação geral “melhor calçado”, ainda que não o deseje?

Derramar 15 milhões de euros sobre o sector sob a forma de pagamento antecipado de uma publicidade institucional que não será efectivamente contratada não foi certamente uma boa opção, teria sido preferível oferecer claramente um subsídio de apoio aos órgãos de comunicação social contra o compromisso de inserir informação geral sobre o coronavírus e as medidas das entidades públicas, o que de qualquer forma alguns dos órgãos tiveram a vontade e mostraram capacidade de fazer[vi].

Em termos de futuro, julgo que poderia o Estado apoiar a comunicação social num aspecto que é crucial para qualidade da informação geral e para a liberdade de imprensa no seu conjunto, sem que os poderes públicos tenham de formular juízos de valor sobre a orientação editorial dos  seus órgãos e a qualidade dos conteúdos publicados: as condições de exercício profissional dos jornalistas, como elemento de garantia de qualidade.

Ou seja, julgo que durante um período de 3 ou 4 anos o Estado deveria pagar às empresas de comunicação social um subsídio per capita em função do número de jornalistas, com carteira profissional e com contrato por tempo indeterminado (parcial ou integral) que nestas exercessem funções, com uma eventual indexação do montante do subsídio pago ao número de anos de carteira profissional: a estabilidade das redacções tem também de ser vista, no actual contexto, como elemento de garantia de qualidade.

Passado este período, veríamos se se justificava ainda um apoio ao sector, mas, a justificar-se, a modalidade teria de ser diferente da acima sugerida.

 

 

 
 

[i] Ver no site da Presidência: “Presidente da República assinala Dia Mundial da Liberdade de Imprensa”, 3 de Maio de 2020.

[ii] Em audiências separadas, com não deixou de ser enfatizado.

[iii] Como foi o do “Le Monde”, que sucedeu ao colaboracionista “Le Temps” após a libertação de França na II Guerra Mundial.

[iv] Lei nº 95/2015, de 17 de Agosto (Estabelece as regras e os deveres de transparência a que fica sujeita a realização de campanhas de publicidade institucional do Estado, bem como as regras aplicáveis à sua distribuição em território nacional, através dos órgãos de comunicação social locais e regionais, revogando o Decreto-Lei n.º 231/2004, de 13 de dezembro)

[v] SJ alerta para conteúdos que ameaçam independência da imprensa regional

[vi] Assino a edição digital do Público, por isso não tenho interesse material neste ponto, mas vejo com surpresa que se publica actualmente material sobre coronavírus em “conteúdos exclusivos…”

 

 
 
 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/apoios-publicos-a-comunicacao-social/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=apoios-publicos-a-comunicacao-social

ARRISCAR PENSAR... OU FICAR PARALISADO DE MEDO?

Digital Matrix Agency - Home | Facebook
A estratégia de «choque e pavor» funciona a muitos níveis. Ela inclusive adapta-se perfeitamente a ser exercida sobre pessoas inteligentes, cultas, com uma vida relativamente desafogada. 
Não se trata de uma questão de racionalidade. O problema é mais vasto, porque se trata de encerrar as pessoas numa narrativa e mantê-las encerradas nessa narrativa. 
A matrix, como eu tenho explicado, é inteiramente imaginária. Mas pode bem ser um factor mais eficaz no confinamento, do que as paredes de uma prisão. 
As paredes da prisão são físicas, enquanto a matrix é mental. Transporta-se a matrix para todo o lado. É o espírito que está prisioneiro. 
Neste contexto, a libertação desta escravidão do século XXI, passa pela paciente desmontagem, pelo reconhecimento das técnicas psicológicas, tornando possível o desmascarar da teia de meias-verdades, de fabricações, de desinformação,  de manipulação através do medo, mas também de outros instintos básicos (o instinto sexual, a ganância, o fascínio pelo poder, etc...), que são conjuntamente postos em jogo no que passa por «informação» mas na realidade, faz parte do aparato de domínio mental, de reforço dos laços que nos mantêm dentro da matrix. 
Este domínio é muito mais vasto que a media «mainstream», pois ele se estende a uma grande parte do que se auto-intitula de «alternativo». 
O «alternativo», é sobretudo um instrumento mais para desviar as pessoas bem intencionadas e desejosas de saber, para além da propaganda disfarçada de informação, que é o «mainstream». Toda esta abundância de canais de «informação», são como que uma enorme cacofonia, tornando fútil que uma voz que tenha algo de significativo a dizer tente fazer-se ouvir. Porque nos casos em que isso tem acontecido, as mais das vezes, essa voz é afundada no meio da algazarra, não ficando praticamente nada da mesma: é como falar para o vento, à beira de um promontório... Uma vez pronunciadas, as palavras deixam de existir. 
Por esse motivo, estamos realmente inseridos numa estrutura totalitária, em que quaisquer discursos autenticamente dissidentes são suprimidos do modo perfeito, sem parecer que o são. É o crime perfeito, pois nem sequer é reconhecido como tal. 
Algumas das suas vítimas nem se apercebem dele. Pior, elas são cúmplices inconscientes desse crime. O Estado totalitário precisa do medo, quer ele seja desencadeado pela visão duma «pavorosa» epidemia - que causa menos mortes a nível mundial que as gripes sazonais - quer de «hooligans» que partem, incendeiam, saqueiam, destroem, confrontam a polícia... 
 
Mas, já antes de 2020 havia o medo das «alterações climáticas», o medo do «terrorismo islâmico», etc, etc... Todos estes medos não o seriam, sem a «ajudinha» duma media que se especializou em transformar algo banal em fenómeno inédito, em amplificar a histeria das massas, alimentadas constantemente com imagens de pôr os cabelos em pé.  
 
O Estado totalitário suprime os críticos, os verdadeiros dissidentes, da maneira mais cómoda, pois eles «não interessam» às massas ignorantes, intoxicadas com lixo informativo, odiando tudo que seja afinal contrário à sua narrativa interior. 
São as próprias massas que «lincham» literal, ou metaforicamente esses lançadores de alerta, esses críticos do sistema totalitário. 
A perpetuação do sistema precisa que a grande maioria das pessoas esteja convencida, quando faz ou pensa qualquer coisa, que o faz de seu «livre arbítrio», quando na realidade, está sendo manipulada, pela imensa teia de mensagens sub-liminais que povoam o seu ambiente. 
As pessoas vêm nos ecrãs dos seus smart-phones, não apenas imagens coloridas em movimento; elas são imediatamente interpretadas no cérebro e encaminhadas para secções, que permitem fazer sentido das mesmas. Este processo é inconsciente e não está portanto sujeito a decisão racional do indivíduo. O cérebro de ninguém decide: vou armazenar isto, vou deitar isto para o lixo, etc... 
O nosso hardware está construído desde os primórdios, mesmo antes do início do processo de humanação, que começou há 7 milhões de anos. Está inscrito na estrutura e fisiologia neuro-cerebral dos mamíferos, dos vertebrados...
 
É a esse nível que trabalham psicólogos comportamentais, os especialistas de condicionamento: 
- Desde os que estão directamente ao serviço dos governos, como nos serviços de informação (espionagem), até aos que trabalham nas empresas de media e de publicidade. Eles sabem, pela teoria e pela prática, como «vender», não apenas um produto, como também uma ideia a um grupo-alvo, a desencadear um fenómeno de moda, a focalizar a atenção das pessoas, em exclusivo, em tal ou tal indivíduo, que pode ser um ídolo do desporto ou do cinema,  mas também pode polarizar-se em torno de um político (incitando a adoração ou o ódio, conforme...).
Depois, a continuação dessa «indução» é relativamente fácil, pois basta «alimentar» constantemente os sujeitos com narrativas que reforcem a narrativa já interiorizada. Há um efeito de reforço. É mais fácil incutir ódio do que amor, por isso os manipuladores escolhem sempre alguém concreto, para as massas  odiarem. Assim, serão mais facilmente manipuláveis, tanto mais que o medo será correlativo desse ódio, na realidade misturam-se. 
O «terror islamista» da campanha terrorista mediática para as pessoas aceitarem a «inevitabilidade» da invasão do Afeganistão precisou de um alvo/símbolo/espantalho concreto: Osama Bin Laden. O mesmo, com Saddam Husein, na preparação psicológica da invasão do Iraque, apenas dois anos depois.  
Quando a guerra ao terror se transformou numa guerra sem fim, os exércitos USA e seus acólitos mercenários estavam completamente afundados em termos militares: o pior para os exércitos convencionais, pois não conseguem alcançar nenhum dos objectivos, enquanto vão esgotando os recursos humanos, materiais e financeiros. 
Para desviar a atenção duma cidadania «esquerdista» e ecologista dos monstruosos crimes que estavam sendo cometidos, em nome do «da liberdade, da democracia», accionaram o «armageddão climático» erguendo os modelos catastrofistas do GIEC e doutras fantasias computorizadas, a verdades absolutas: Assim, tivemos uma outra lavagem ao cérebro, em como havia «prova irrefutável» da existência de um aquecimento global causado pelos humanos, sendo portando necessário uma «Green New Deal» ou seja um capitalismo «verde», um sistema produtivo dito mais «amigo do ambiente». 
Mas, o próprio «aquecimento global» revelou-se na enorme «fake news», que fora desde o princípio, sobretudo porque a partir de 2015 entrou-se num novo ciclo de menor actividade solar e, portanto, de arrefecimento, o que era já impossível de ocultar e falsificar. 
Mas, era preciso continuar a distrair as massas dos roubos colossais que a super-elite (oligarquia) financeira, a grande banca, em conluio com os Estados, ia fazendo às finanças públicas, desde a grande recessão de 2008. 
Há alguns meses  (em Setembro de 2019) começou-se a ver sinais anunciadores desta grande crise estrutural do presente, resultante da não resolução dos problemas que originaram a crise de 2008. 
A constante manipulação dos mercados financeiros pelos bancos centrais e governos, em proveito dos seus verdadeiros donos (os Rothschilds, os Gates, os Soros, os Rockefeller...) estava a chegar ao fim. 
Era tempo de fazer o «grande reset». Mas este pode tanto ser algo que permita uma maior justiça e oportunidades para os povos e para os indivíduos, como algo que favorece a oligarquia e do poder dos Estados. 
Para por em prática o que estava de longo prazo planeado, surgiu ou foi fabricada a oportunidade, pela «epidemia do coronavírus». Caiu às mil maravilhas para os Estados, incluindo as «democracias» do Ocidente, para poderem limitar as liberdades, as garantias dos cidadãos, os seus direitos, a sua autonomia. 
Que melhor ambiente para efectuar o tal «reset», na tranquilidade de salas de conferência discretas, entre os grandes deste mundo, do que ter a turba fechada em confinamento/prisão domiciliária, com regras draconianas que lhes permitem controlar quaisquer movimentos, impedir agrupamentos, colocando também esses insectos/humanos sob dependência absoluta da caridade do próprio Estado e apêndices ONGs??? 
 
Mas a turba está a reagir nos EUA e, também de outro modo (muito mais cívico...), na Alemanha e em muitos outros pontos e, inclusive, com o risco de se alastrar a outros países. 
As autoridades de Hong Kong já ensaiaram uma resposta aos sinais de reactivar de contestações face à nova lei de segurança promulgada pela Assembleia Nacional do Povo. Eles detectaram «novos focos de infecção do coronavírus», que justificam o prolongamento do «distanciamento social» (logo, a proibição do agrupamento de pessoas em manifs, sit-ins, comícios, etc...). 
Este modelo de contenção, pelas medidas de «distanciamento social», pode ser copiado noutras ocasiões e noutras latitudes.
Porém, a capacidade de controlo destas situações, eles sabem-no, é muito ténue. 
Porque, lá para Outubro, Novembro deste ano de 2020, é provável que haja uma severa escassez de alimentos. Isto significará fome, em países mais pobres e a brusca subida dos preços dos alimentos, no mundo mais afluente. 
As pessoas que já tinham muito pouco a perder antes disto, vão ter ainda menos. Se estiverem famintos, tanto lhes faz morrer duma bala da polícia ou exército, ou de inanição. 
O grau do medo, em relação à morte violenta, vai diminuir: é menos doloroso - ao fim e ao cabo - morrer subitamente pelas balas das «forças da ordem», do que arrastar uma agonia por semanas a fio... 
De qualquer maneira, as pessoas deviam acordar, perder o medo, analisar como têm sido enganadas, manipuladas, e revoltarem-se pacificamente, para reconstruir o que os senhores feudais deste mundo têm destruído: as relações inter-pessoais, comerciais ou outras, de troca ou de partilha, de construção do dia-a-dia, aquilo que faz o tecido SOCIAL. 
O distanciamento social é uma ideia realmente perversa e não sustentada pela CIÊNCIA EPIDEMIOLÓGICA real!
   

Ver o original em 'Manuel Banet' (clique aqui)

Onde está a liberdade de imprensa nos EUA?

 
 
Em Minneapolis, uma equipe da CNN foi presa ao noticiar sobre os protestos populares. Uma prática autoritária inaceitável, sobretudo num país que tanto ostenta sua preocupação com a liberdade, opina Carla Bleiker.
 
É pouco antes das 5h desta sexta-feira (29/05). Omar Jimenez e sua equipe noticiam para o canal de TV CNN sobre os protestos contra a violência policial em Minneapolis. Atrásdos repórteres, veem-se agentes da State Patrol, portando equipamento de proteção, capacetes e cassetetes; fumaça negra paira no ar. Durante a noite houvera distúrbios em que os cidadãos manifestaram sua cólera e luto por George Floyd, mais um afro-americano morto por um policial branco.

Portanto o clima é tenso quando Jimenez, cuja mãe também é afro-americana, filma num cruzamento da cidade no centro-norte dos Estados Unidos. Contudo ele certamente não contara ser preso diante das câmeras. Seus colegas no estúdio também se mostram chocados.
 
O que os espectadores veem é um jornalista perguntando respeitosamente onde sua equipe poderia se postar para não atrapalhar os policiais, ao que estes respondem colocando-lhe algemas. Não há reação quando ele repetidamente indaga a razão da detenção. Jimenez porta sua credencial de jornalista, que claramente o identifica como membro da imprensa, e ele e seus colegas explicam insistentemente que só estão fazendo seu trabalho. A prisão ao vivo evoca cenas de um regime autoritário.

No entanto o repórter foi preso num país que em seu hino nacional se gaba de ser "land of the free". O presidente dessa nação tão preocupada com a liberdade, Donald Trump, não esconde que considera a maioria dos jornalistas, e em especial a CNN, inimigos de Estado. Com suas tiradas contra a imprensa, ele acirra os ânimos no país e cuida para que o livre noticiário se torne cada vez mais difícil. Isso é inaceitável.

Num país que, para fora, tanto valor dá aos direitos individuais e à livre opinião, repórteres têm que poder trabalhar livremente. Em protestos e operações policiais, a situação é tensa e pode virar de um momento para o outro. No entanto isso não é desculpa para se prenderem jornalistas que de repente se encontram do lado errado de uma tropa policial.

Desde que existem jornalistas, tem havido diferenças de opinião entre imprensa e polícia. Afinal de contas, o trabalho dos repórteres é levar a público imagens e histórias, mesmo que os agentes da lei nem sempre façam boa figura. Mas se os EUA querem ser reconhecidos como um brilhante exemplo de liberdade de imprensa sob um governo democrático, a polícia não pode levar algemados os profissionais que estejam em seu caminho.
 
Carla Bleiker | Deutsche Welle | opinião
 
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/05/onde-esta-liberdade-de-imprensa-nos-eua.html

A "exemplaridade" televisiva

As televisões podiam ser um bom contributo cultural e educativo. Infelizmente são o contrário.
A lógica mercantilista que as orienta conduziu a que as televisões funcionem sobretudo como um elemento de 'mediocratização' social: abastardam o uso da língua portuguesa, promovem o populismo e o obscurantismo, manipulam a opinião pública, apostam no entretenimento sem qualidade e fazem da 'pimbalheira' a matriz de referência.
CMTV praia copy
 
Com um potencial de influência enorme, mesmo em situações do mais elementar bom senso claudicam.
Quando, em tempo de pandemia, o distanciamento social e a etiqueta respiratória e higiénica são procedimentos essenciais  não será um péssimo contributo que um entrevistador esteja (mesmo que ao ar livre) sem máscara e a respirar em cima do entrevistado? É apenas um exemplo entre os muitos da péssima pedagogia televisiva.
 
 

Repórter negro da CNN é preso ao vivo, ao cobrir protestos em Minneapolis (Vídeo)

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247 –O repórter negro Omar Jimenez estava cobrindo uma transmissão ao vivo no local onde aconteceram os protestos de Minneapolis, cidade grande no Minnesota, quando foi detido pela polícia dos Estados Unidos, mesmo após se identificar claramente com os oficiais. A informação é da CNN.

Os integrantes da equipe de reportagem de Jimenez, incluindo um produtor e um operador de câmera, também foram algemados.

A câmera da CNN também foi presa, mas continuou gravando enquanto Omar Jimenez e sua equipe estavam sendo algemados. A polícia aparentemente não percebeu que a câmera ainda estava ligada no momento da ação.

 

Confira o vídeo:

https://twitter.com/EddieZipperer/status/1266313801407873026?ref_src=twsrc%5Etfw

Ver o original em 'Brasil24/7' na seguinte ligação:

https://www.brasil247.com/mundo/reporter-negro-da-cnn-e-preso-ao-vivo-ao-cobrir-protestos-em-minneapolis-video

 

https://twitter.com/CNN/status/1266368979003564032/photo/1

Avivar memórias na informação

observador

O Observador
Dos meninos do dinheiro  & do J.Manuel Fernandes

“A publicação online é detida pela empresa Observador On Time,  tem no empresário português Luís Amaral o seu grande acionista. Através da Amaral e Hijas Holdings, o dono do grupo polaco Eurocash (uma das maiores empresas a atuar no país de leste  controla mais de 45,6% da dona do Observador que, de resto, conta com vários empresários portugueses no seu capital. É o caso de António Carrapatoso, ex-presidente da Vodafone Portugal, que através da Orientempo tem uma participação de 9,96%, e de António Alvim Champalimaud que controla 6,1% da Observador On Time (adquiridos pela Holdaco). A Ardma SGPS (de Pedro de Almeida, com 6,05%) e a Atrium Investimentos (de João Fonseca, com 5,44%) têm posições acima dos 5%. Entre os acionistas de referência da empresa destaque ainda para a Merino Investimentos (de Alexandre Relvas), a Lusofinança (de Filipe de Botton), António Viana Baptista, a Ribacapital (de João Talone) e Pedro Martinho.” CM
 Luís Amaral, ex-quadro da Jerónimo Martins. 
 António Pinto Leite, destacado advogado da MLGTS e presidente da Associação Cristã de Empresários e Gestores 
 António Viana Batista, membro da administração da Jerónimo Martins 
 Pedro de Almeida, dono da Ardma, holding do mercado de contentores, 
 João Fonseca, ex-diretor do Deutsch Bank e acionista de referência da Atrium, sociedade gestora de grandes fortunas. 
 António Champalimaud (filho), dono da Holdaco….E nesta lista  imcompleta não podiam faltar  meninos que lançaram o Compromisso Portugal no Beato : Alexandre Relvas, Filipe de Botton, António Carrapatoso e Rui Ramos, quatro militantes do PSD .
 
A 10 de fevereiro de 2004 o Publico noticiava com fanfarras a reunião de centenas de empresários e gestores  no Beato que inclusivamente queriam debater a importancia de os centros de decisão de empresas estratégicas a privatizar ou privatizadas ficarem em mãos nacionais…
Num saboroso artigo de opinião no semanário Sol – «Compromisso Portugal»: o nome diz-lhe alguma coisa? – de 27 de Maio de 2017, Filipe Pinhal, número dois de Jardim Gonçalves e sucessor, durante escassos meses, de Paulo Teixeira Pinto no BCP, lembra-nos esse movimento – a nova geração de gestores – lançado a 10 de Fevereiro de 2004, no Beato, que prometia tirar Portugal da cauda da Europa nos «próximos dez anos».
Contrariando as promessas, dez anos depois, em 2014, diz Filipe Pinhal «Portugal não tinha saído da cauda da Europa. Infelizmente estava ainda mais atrasado e a braços com o desmoronamento do BES e da PT, duas tragédias com a impressão digital da gente do Beato, que tinha jurado que o seu grande desígnio era a defesa dos interesses de Portugal e das empresas portuguesas». Azar dos azares, logo a seguir ao termo dos trabalhos, um dos mais activos organizadores vendeu a Somague a capitais espanhóis…A transferência dos centros de decisão para o estrangeiro apenas começava. E iria acelerar por obra e graça dos «comprometidos». 
A verdade estava à vista: a «nova geração de ouro» que proclamava «somos os melhores, dêem-nos os lugares no governo e nas empresas e nós salvaremos a Pátria», afinal estava ali para tratar da vidinha. Portugal teria de esperar outros salvadores… e tinham tanta pressa, tanta que, com a sua imparável dinâmica ajudavam a colocar no pipe-line das privatizações as empresas públicas mais valiosas, que acabaram vendidas a estrangeiros. Caía a máscara aos «patriotas» 
 
Será de estranhar o anti comunismo visceral desta gente ? será de estranhar  os dislates de José Manuel Fernandes sobre o PCP por celebrar Lenine ? O JMF ex- UDP… O dinheiro , o …manganão é tão bonito o Ladrão…
 
 
 

Via: FOICEBOOK https://bit.ly/2XfFGzL

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/05/28/avivar-memorias-na-informacao/

As Abstinências dos Corruptos - Por Fernando Buen Abad Domínguez

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As Abstinências dos Corruptos
Por Fernando Buen Abad Domínguez
Maio 24, 2020
 
“Imprensa sem subornos? Uma experiência nova na Indústria da Comunicação? “Luvas”, “subornos”, “prendas” ”recompensas” e “envelopes”... Acabou-se”.
“Acabou-se a papa doce” diz o povo, e assim foi para os “jornalistas”, “comunicadores” e outras camuflagens ideológicas direitistas, na Guerra Mediática no México.
O governo de Andrés Manuel López Obrador decidiu, no âmbito do movimento pela Quarta Transformação, acabar com a “tradição” corrupta de injetar dinheiro, na língua de alguns “comunicadores”, para engordar elogios, alimentar cegueiras e manter um bailado de corrupção ébria de impudência e impunidade. E começaram os estertores das abstinências. Salvo as exceções.
Alguns viram desabar os seus “castelos de cartas” mediáticos. Esfumou-se o “rating”, desapareceu o glamour da petulância “jornalística” bailadora, e viram-se na necessidade de “se reconverterem”, ou seja, trabalhar de verdade. Outros apegados aos seus engodos, compadrios e finanças, não deixam de acreditar, enquanto fervem em birras, aqui e ali, em recuperar o altar do ego que fabricaram para se auto adorar. Em público. São eles, evidentemente, os mais perversos que receberam fortunas a rodos e agora intentam “organizar-se” para derrotar e derrubar López Obrador. Custe o que custar.
O que é novo, não é que guinchem, que vociferem, que bracejem. O novo é que, pela primeira vez desde há muito, um governo decidiu cortar pela raiz com um dos vícios mais terríveis na relação Estado-Comunicação, infetado por interesses mercantis e máfias sequestradoras do poder. A novidade é que se destapou uma fossa criminosa que desviou, durante décadas, os recursos do Estado (dinheiro do povo) para manter chulos disfarçados de “jornalistas”, para traficar falsidades e vendê-las como “informação”, para endeusar fantoches amestrados nas “malas-artes” de fabricar “opinião pública”. A novidade é que fica aberto um campo de investigação científica, jurídica, comunicacional e ética para extirpar de raiz um cancro ideológico que fez amplas metástases, convencendo a “audiência” de que nos “informavam” com o melhor, a tempo, com verdade e credibilidade irrepreensíveis. A novidade é que foi derrotado um bastião da ideologia dominante. Agora há que transformá-lo.
No ponto em que se encontra esta batalha, é inconveniente (por enquanto) citar nomes e apelidos, embora todos saibam) quem são, onde “trabalham” ou onde “trabalharam”. (https://www.forbes.com.mx/revelan-lista-de-36-periodistas-con-contratos-con-gobierno-de-epn/). Foi tornada pública uma lista oficial e está (ou deveria estar) em andamento um procedimento legal, económico e político para esclarecer, até ao último centavo, onde estão as fortunas investidas pelos governos da plutocracia cacique mexicana. Mas, principalmente, deve estar em marcha um movimento da Quarta Transformação Comunicacional para extirpar, desde a medula, os milhares de truques e jogatanas que faziam parte da “paisagem” e que se repete diariamente como fazendo parte do “senso comum” do comunicador. Isso implica uma revisão crítica e exaustiva sobre o que se ensina nas salas de aula, que autores e tendências teórico-metodológicas se privilegiam e quais as que se escondem, se perseguem ou simplesmente se lincham na praça pública da tão propalada “liberdade de cátedra”.
Uma “Quarta Transformação” comunicacional implica extirpar os vetores ideológicos do mercantilismo, baseados no estilo de escrever, na maneira de falar, nas poses e nos estereótipos jornalísticos que campeiam impunemente, incluso na cabeça dos mais “progressistas”. Implica uma revisão crítica e autocrítica, até à medula, que retire dos nossos métodos de trabalho as manias semânticas e sintáticas dos “chefes de redação”, a verborreia de quem presume saber o que é que “mais se vende”, o que é que “o público gosta”, o que é que “se consome”. Necessitamos de uma revolução dos vocabulários, uma profilaxia da semântica, da sintática e da dialógica num sistema de produção informativa desconectado da realidade dos povos. Uma revolução da comunicação.
Estamos na fase do birrento exibicionista. Alguns incitam “golpes de Estado”, publicamente!. Agitam todo o tipo de adjetivos e todo género de exageros, para dar força e “importância” aos seus lamentos pelo suborno perdido. Agem como se lhes preocupasse a democracia, agem como se estivéssemos à beira do abismo, agem como se sem eles o Apocalipse estivesse eminente. Reúnem-se, declaram, agitam, insultam e choramingam (em público e em privado) ante um povo que não acredita neles, que os considera inimigos da verdade e da ética e que não dá por eles “um centavo” de solidariedade. Simplesmente porque nem o merecem.
O México tem uma oportunidade extraordinária de fazer uma autópsia minuciosa dessa forma de corrupção incubada nos “meios de comunicação”. Desentranhar as suas origens, os seus propósitos, as suas consequências e os seus beneficiários. Tornar visíveis e compreensíveis os fios do poder comunicacional que sequestraram a informação durante décadas, com negócios de falácias informativas e ideologia de plástico, suplantando o nosso direito de sermos informados verdadeiramente.
Agora o que nos resta é converter o “vale de lágrimas” dos enlutados pela síndrome de abstinência, numa amostra geral do que não deve voltar a acontecer... do que nunca deveria ter ocorrido à humanidade no meio de uma “infodemia” global infestada por “fake news”, operações de linchamento mediático e desfigurações da realidade impostas pelos laboratórios de guerra psicológica financiada pelo império. Como bem o sabem Vargas Llosa, Krausse, Aznar, Felipe Gonzales... e uma longa lista de servos intelectuais. De momento, no México “acabou-se a papa doce”. Acabar com a corrupção numa batalha económica, cultural, política e semiótica. Há que colocar à sua disposição toda a ciência, toda a arte, todo o talento. Trata-se de resgatar um direito Humano, o direito a estar informado criticamente, com verdade, com qualidade e sem chantagens. Sem subornos.

Ver o original em As palavras são armas (clique aqui)

A comunicação dita social, continua o asco que nos repugna e entristece.

 
A Venezuela tem um território cerca de dez vezes maior que o de Portugal e nós temos um terço da sua população. A Venezuela sofre um embargo apoiado pelo PS, na pessoa(?) de Augusto Santos Silva, que a impede de receber medicamentos e material sanitário.
 
Na Venezuela registaram-se até agora dez óbitos associados à Covid-19.

 

Mas nas manchetes a “covid-19 na Venezuela aumenta de forma brutal” BRUTAL!
 
SUBIU 239%

 
Os venezuelanos que foram repatriados recentemente, de outros países, entre eles da Colômbia, Peru, Brasil e Chile, “620 entraram no país contagiados”.
 
 A Venezuela está no centro de um vespeiro político e sanitário!
 
E somos nós que por proposta do Bloco estamos a pagar este estilo de “informação”.
 

Via: as palavras são armas https://bit.ly/3cb5FMZ

 
 

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/05/26/a-comunicacao-dita-social-continua-o-asco-que-nos-repugna-e-entristece/

Sábias palavras

propaganda02
 
António Guerreiro ontem no «Ipsilon» do «Público»
«(...) Para esta propaganda total contribui também a publicidade. Todos reparámos certamente que os spotspublicitários não desapareceram, mas foram atacados pelo vírus do pudor e do didactismo moralista, paternalista e geralmente piegas. Deixaram de dizer «compre», «pague um e leve dois»,«X lava mais branco», para passarem a dizer « seja responsável», «fique feliz em casa: carpe diem», «o nosso automóvel é experiente em curvas, saiba como achatar esta com que estamos confrontados», «tudo vai ficar bem com a nossa ajuda».
De maneira mais ou menios directa, a publicidade passou a só falar do vírus. Tornou-se tão insuportável como as afectações «poéticas» de alguns apresentadores de jornais televisivos, ilustrando na perfeição a verdade enfática dos propagandistas.
E foi assim que ficámos não apenas reféns do medo, mas também dos bons sentimentos, das afecções da alma. Distanciamento social ? Não, o que houve foi a «partilha» em modo superlativo. Fechados em casa, mas a receber de todos os lados - da publicidade, do jornalismo, do discurso público dominante - mensagens de medo e de bons sentimentos.
E o medo como o melhor dos sentimentos. O que fazer agora com todo o medo que sobra ? (...)»,
 

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

Sinais

Sabemos que um governante está a defender o interesse público quando é considerado perigoso por José Miguel Júdice, um dos principais facilitadores deste país. Pedro Nuno Santos foi considerado perigoso por Júdice. Um bom sinal.

Este conhecido fascista dos tempos de Coimbra tem um programa de televisão, em linha com o domínio das direitas.

Os grupos de comunicação social, que geram tanta poluição ideológica, são beneficiados pelo governo, através de apoios mal desenhados, sem contrapartidas aparentes. Um mau sinal.

 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Como se fazem as cabeças

Support Our Troops Sticker - Civil War Stuff - Online Store

A questão é que slogans como “apoie nossos soldados” não fazem sentido …

E esse é o objetivo de uma boa propaganda.Você precisa criar um slogan ao qual ninguém se oponha, e que todos possam aderir a ele. Ninguém sabe o que ele quer dizer, porque ele não significa nada.

Sua importância reside no fato de desviar a atenção de uma pergunta que deveria ter sido feita: você apoia  a nossa política? Mas essa é uma pergunta que eles não querem fazer.

Noam Chomsky
Support Our Soldiers, Say A Prayer Pictures, Photos, and Images...  
 
  Posters (Projeto Paralelo) on Behance

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/05/19/como-se-fazem-as-cabecas/

Donas da SIC e TVI recebem metade dos apoios do Estado aos média

 

Os grupos Impresa e Media Capital, que detêm a SIC e a TVI, respetivamente, vão receber metade dos apoios disponibilizados pelo Governo através da compra antecipada de publicidade para apoiar o setor durante a pandemia.

 

Ao todo, as donas da SIC e da TVI vão receber 6,8 milhões de euros dos 11,5 milhões de euros que o Governo comprará em publicidade.

Segundo a resolução do Conselho de Ministros publicada esta terça-feira em Diário da República, o grupo Impresa vai receber a maior “fatia” dos apoios (3,49 milhões de euros), seguindo-se depois a Media Capital (3,34 milhões de euros).

Os valores incluem o IVA à taxa legal em vigor, de 23%, frisa o Jornal de Negócios.

Segue-se depois o grupo Cofina, detentor do Correio da Manhã e do Jornal Negócios (1,6 milhões de euros), o Global Media Group (1,06 milhões de euros), a Rádio Renascença (480 mil euros) e o grupo Trust in News, dono da revista Visão (406 mil euros).

A Sociedade Vicra Desportiva, detentora do desportivo A Bola, irá receber 329 mil euros e o jornal Público 314 mil. Ao todo, o Estado vai comprar publicidade a 13 empresas detentoras de órgãos de comunicação social de âmbito nacional.

(c) Diário da República

 

O Negócios escreve ainda que Estado vai ainda comprar 2.019.000 euros em publicidade a publicações periódicas de âmbito regional, mas aqui não estão identificadas as publicações.

Serão nove as entidades públicas a quem caberá a realização das campanhas.

Ao todo, recorda o jornal Eco, o Estado vai alocar 15 milhões na aquisição antecipada de espaço para difusão de publicidade institucional através dos serviços de programas de televisão e de rádio e nas publicações periódicas: 75% vão ser destinados aos órgãos de comunicação de âmbito nacional e 25% aos órgãos de âmbito regional e local.

ZAP //

 
 
 

A Palavra É de Oiro

Hoje saí de casa armado de máscara até aos óculos a inspirar anidrido carbónico, ora pela boca, ora pelas narinas.

Tomei a bica do excelente lote de café que serve o Bossa Nova. Lá estava o Américo, o amável patrão e um empregado. Na amplidão dos espaços de fumadores, não fumadores e esplanada, apenas duas meses estavam ocupadas.

A minha mesa habitual estava livre. Não me sentei, faltava ali o amigo falecido durante a pandemia, vazio definitivo e amargo, e os outros ainda se resguardam, como devem. Não é cómodo dissertar sobre política, religião, história ou literatura com a boca tapada, refazer a tertúlia e salvarmos a Humanidade à conversa.

Parti imediatamente para o passeio que, em tempos remotos, a.C. (antes da Covid-19) e do confinamento, era hábito diário. E lá fui, no passo de quem tem uma tarefa a cumprir ou um recado a dar, a caminho da Av. Dias da Silva, caminhando pelo lado da sombra.

A ARTE DA COMUNICAÇÃO | Jovens.com Jesus!

Nos passeios, as pessoas com máscara viravam a cara umas às outras e contornavam as árvores para se cruzarem ou saíam para a estrada. O temor do vírus acaba por afastar as pessoas.

O que me surpreendeu foi o encontro de pessoas que me habituei a cumprimentar com o tradicional bom-dia e a trocar palavras de circunstância ou mesmo a parar para um beijo ou aperto mão, conforme o género e os usos, reduzido agora a gestos de quem perdeu o hábito de falar. Só parei para comprar o jornal.

No percurso de 4,5 km, ida e volta, com palavras substituídas por gestos vim a refletir sobre a comédia em dois atos e um prólogo, de Augusto Abelaira, com o título que usei para este despretensioso texto.

Não senti o peso do contador das palavras, quando estas eram preciosas e um perigo que a ditadura punia, sendo de graça algumas, como ‘desilusão’, cito de memória, por ser o argumento burguês dos que desistiam de as usar contra o regime.

A rua pareceu-me o espaço concentracionário onde era ofegante a respiração e poluído o ar que respirava. Senti o ar puro, à chegada, ao entrar em casa já com a máscara na mão e a caminho do lixo.

Se perdermos as palavras, acabamos em silêncio, a abrir caminho para sermos silenciados.

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2020/05/a-palavra-e-de-oiro.html

A Fátima cometeu um erro de casting?...

Ao longo dos episódios de um programa que podia ser outra coisa se não fosse aquilo que é, a Fátima tem tido rigoroso cuidado na escolha de quem vem convidando. De quando em quando acontece haver reais prós e contras e aparecer alguém a pensar e a intervir fora do quadrado delimitado pelos parâmetros do discurso oficial e a lançar luz ou alerta quanto à matéria do tema. 
Fátima, quando isso acontece, treme e ultimamente tem sido mais selectiva pois ela não gosta de tremores. Ontem deve ter cometido um grave erro de casting pois por lá foi dito qualquer coisa como isto:
A pandemia fará com que se venha a rever a globalização, atendendo aos efeitos produzidos sobre as economias. Teremos que rever todas as cadeias de valor e dar mais atenção à produção nacional
Fabricar máscaras e passar a exportá-las é positivo, mas passar a produzir as máquinas para as fabricar teria efeitos mais positivos, até porque o país quem capacidades e competências para fabricar esses e outros equipamentos...
Onde e a quem eu já ouvi dizer mais ou menos o mesmo ?
 

Ver original em 'Conversa Avinagrada' (aqui)

Mário Centeno

 
Quem não tenha a criatividade de Marques Mendes, o sectarismo de Paulo Rangel ou a mitomania de Nuno Melo e André Ventura, tem de censurar a falha de comunicação ao PM da transferência de 850 milhões de euros para o Novo Banco, fosse ou não inevitável e obrigatória.

Lamentável é a falta de espírito crítico dos média nacionais, alguns a babarem-se de gozo, com as acusações do Frankfurter Allgemeine Zeitung, “Mal preparado e incapaz de liderar discussões”, sem procurarem esclarecer o interesse do PPE na presidência do Eurogrupo nem informarem que o referido jornal é o órgão oficioso da direita alemã, alinhado com o seu Banco Central.

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2020/05/mario-centeno.html

Um mundo cão?

Recuso-me a ouvir o Aldrabão, pelo que dele vou sabendo o que a imprensa ou as redes sociais me vão dando conta a propósito do seu sinistro pensamento. Agora soube da tentativa de cavalgar a onda emocional suscitada pelo crime na Atouguia da Baleia para vir com propostas insanas sobre as penas a aplicar em tais casos, procurando remeter para o esquecimento a campanha contra a etnia cigana, que tão mal lhe correu, sobretudo graças à trivela de Quaresma.

 

Advogado de formação, o Aldrabão teria aqui motivos para ser expulso da respetiva Ordem, porque supostamente desaprovaria um dos seus pares que viola o princípio de presunção de inocência dos suspeitos, ou mesmo arguidos, até transitar em julgado o veredito sobre eles decidido por um tribunal competente para o emitir. Mas, tendo em conta que as Ordens há muito se converteram em organizações apostadas na intervenção política contra as esquerdas em geral e os socialistas em particular, será improvável que a do Aldrabão venha a pronunciar-se sobre a sua recorrente demonstração de violação de qualquer ética deontológica.

 

O caso veio coincidir com a leitura de uma antologia de crónicas de Mário de Carvalho («O que eu ouvi na barrica das maçãs») publicadas em jornais e revistas há cerca de duas dúzias de anos.

 

São textos deliciosos e um deles veio ao encontro do que o Aldrabão anda a propalar.

 

Conta o escritor que, logo a seguir à Revolução de Abril, num comício do PCP a multidão começou a gritar a palavra de ordem “Morte à Pide”ou“Morte à CIA”.Pedagógico, Álvaro Cunhal pegou no microfone e desaprovou tais ditos, porque, se algo há de que os portugueses se podem sentir muito orgulhosos é o de terem sido os primeiros a acabar com a pena de morte.

 

Essa evocação é elucidativa sobre as diferenças entre as práticas políticas de há quase meio século com as atuais. Na altura valorizavam-se os princípios, os valores e enaltecia-se a educação para a cidadania, que nos tornaria melhores e mais informados. Hoje, à conta da comunicação social, que aliena, desinforma, manipula e mente sem qualquer pudor, surgem os Aldrabões, que procuram promover-se à conta dos piores instintos dos que, acriticamente, os ouvem.

 

Noutro texto da mesma época Mário de Carvalho previa o que se teme para o futuro próximo:“o jornalismo cão há-de merecer um mundo cão”.
 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2020/05/um-mundo-cao.html

O dr. Ventura e o CM

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A simbiose entre o Dr. Ventura e o CM que o criou é cada vez maior. Populiza um populiza o outro na compita por audiências lucrativas.
Agora foi o indecoroso aproveitamento partidário de um lamentável crime.
 
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Aguarda-se para breve que o CM passe a promover diariamente o Dr. nas suas páginas mais rentáveis e 'populares' em que faz a promoção da prostituição.
 
 
 

O apoio da Santa Casa ao neoliberalismo

O 'Observador' é um "jornal" online criado pela direita económica com o objetivo de promover o neoliberalismo e as forças que o corporizam.
É um sítio militante do pensamento e dos valores que orientam essa deriva que nos últimos 40 anos tem absorvido toda a direita assim como alguns setores que foram de esquerda e se tem constituído como o 'pensamento único' da modernidade. O 'Observador' tem pouco de órgão de informação mas muito de instrumento de propaganda.
Por exemplo, durante o recente debate sobre a nova Lei de Bases da Saúde foi o 'Observador' que se constituiu como o polo agregador das perspetivas da direita neste domínio e como a frente de batalha para a defesa dos interesses do sector privado da doença.
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Não deixa de ser curioso verificar que a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa financia o 'Observador'. Não faz isso com a meia dúzia de órgãos de comunicação online, nacional e regional, que procuram assegurar pluralismo e diversidade de abordagens.
Num tempo em que se ouve amiúde as instituições do 'mundo caritativo' (IPSS, Misericórdias, associações, etc) queixarem-se de falta de verbas para responderem adequadamente aos seus objetivos (lares, assistência a carenciados, apoio a terceira idade, creches, etc) e a exigirem mais substanciais financiamentos do Estado não deixa de ser revelador constatar como uma Misericórdia se dedica a financiar um órgão da propaganda neoliberal.
Toda a sociedade ganharia se houvesse mais clareza e menos hipocrisia na vida pública.
 
 
 
 
 
 
 

CORRUPÇÃO DA IMPRENSA

(Comentário:

Lá como cá os DDTs sabem quanto lhes convém dominarem a 'comunicação social'. E fazem-no...)


 

 
 
Todos os países experimentaram em sua história escândalos de compra secreta da mídia (média-pt) por agentes econômicos. É este agora o caso a nível europeu.
 
Por exemplo, a Fundação Bill e Melinda Gates pagou em 2019:

-  Der Spiegel : $ 2.537.294
-  Die Zeit : $ 297.124
-  Le Monde : $ 2.126.790
-  The Atlantic : $ 500.222
- The Bureau of Investigative Journalism: $ 1.068.169
- The Guardian : US $ 175.000 -
-  The Project Syndicate (tribuna livres): US $ 1.619.861
 
Notem bem que, financiando pesquisas (Bureau of Investigative Journalism) ou pagando autores de tribunas livres de opinião, traduzidas e divulgadas em vários idiomas (Project Syndicate), o «doador» «apoia» todos os jornais que as reproduzam sem precisar lhes atirar com dinheiro diretamente.
 
Voltairenet.org | Tradução Alva
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/05/corrupcao-da-imprensa.html

Hoje, na minha página do Faceboock

carlos esperanca
Até aqui cheguei…

Os leitores desta página sabem que não bloqueio pessoas nem apago comentários, e tenho mantido algum asseio neste mural.

Não alterarei a conduta neste espaço, que desejo bem frequentado e lugar de encontro de democratas de vários matizes, sem prescindir da afirmação dos ideais republicanos, laicos e democráticos por que me pauto.

Acontece que a atração de extremistas, alguns constam como amigos, trouxe até aqui as mais nauseantes posições ideológicas, que levei a vida a combater, e, por isso, agradeço aos que as perfilham, que me retirem a ‘amizade’.

Sinto nojo de quem defende a pena de morte e o racismo, e são vários os que vêm aqui bolçar essa peçonha. Não me queixei perante ameaças sofridas de fascistas islâmicos e não deixarei de defender o seu direito à livre expressão, por mais repulsivas que sejam as ideologias. Mesmo aqui.

Quem tem no seu mural a apologia do Chega, incitamentos ao ódio, ao racismo e apelos à restauração da pena de morte, há de compreender o desprezo que merece, o nojo que provoca e a animosidade que suscita.

Pelo menos, retire-me a qualidade de ‘amigo, porque o desprezo e me envergonha. Não é pedir muito.

 

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2020/05/hoje-na-minha-pagina-do-faceboock.html

Na Primeira Linha: as verdades do jornalista Robert Fisk

O filme chamava-seCorrespondente de Guerra, Hitchcock realizara-o em Hollywood logo após despachar a encomenda deRebeca e valeu ao jovem Robert a decisão sobre o que pretenderia fazer na vida: seria jornalista.

 

Meu dito, meu feito, não passaram muitos anos até ser enviado para Belfast em nome doTimes para cobrir a guerra civil entre o IRA e o exército britânico. O pai, que andara nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial, e pusera na gaveta as medalhas aí recebidas por ter-se tornado imediatamente pacifista, ficou satisfeito com a notícia: trabalhar para um dos principais jornais ingleses significava, que o herdeiro teria futuro numa profissão, que encarara com particular desconfiança quanto à probabilidade de lhe garantir a sobrevivência.

 

A estadia na Irlanda do Norte valeu a Robert Fisk a primeira lição fundamental, que nortearia o seu percurso na imprensa: desconfiar das verdades oficiais, porque, naquele momento em concreto, revelavam-se muito diferentes, se não mesmo opostas do que o aprofundamento da realidade apurava.

 

Anos depois não seria a Revolução dos Cravos - que esteve a acompanhar nos primeiros meses - a dar-lhe outra viragem significativa na sua vida: de Londres mandavam-no para o Médio Oriente para prestar testemunho sobre o que aí se assemelhava a turbulento caldeirão sempre a extravasar. Quarenta e quatro anos depois ainda por lá anda até por ter fixado residência em Beirute. E tão longa observação dos acontecimentos motivam-lhe a escusa à suposta objetividade de quem olha a realidade a partir de cima dado contactar com quem sofre as piores consequências das sucessivas guerras aí lavradas.

 

Ao mostrar-se irredutível no relato verdadeiro dos factos suscitou a ira dos israelitas ao denunciar o genocídio perpetrado nos campos palestinianos de Sabra e de Shatila como muito semelhante aos praticados pelos nazis nos campos de extermínio. Não faltaram acusações de antissemitismo apesar de nenhum contrafacto desmentir aquilo que as suas reportagens e outras peças jornalísticas revelavam como a face odiosa do regime de Telavive, hoje ainda a merecer o foco da sua atenção através dos roubos constantes de terras ocupadas atribuídas a novos colonatos.

 

Outra acusação, que lhe é assacada, é a de apoiar o regime de Bashar al Assad na Síria. Mas a forma como desmascarou o suposto gaseamento da população de Douma como forma de nele encontrar pretexto para uma invasão da NATO também não foi desmentido com factos: as comissões internacionais enviadas à cidade não encontraram qualquer vestígio desarin e os bidões com outro produto químico letal ali colocados haviam-no sido de forma tão amadora, que facilmente ficaram expostas as responsabilidades de quantos procuravam criarfake newsignóbeis, destinadas a mobilizar as opiniões públicas ocidentais para uma perspetiva falseada do que estava a acontecer naquele cenário de guerra civil.

 

Contribuiu, igualmente, para essa má fama junto dos governos ocidentais a reportagem em que, na Bósnia, encontrou provas indesmentíveis da venda de armamento de guerra aos sauditas para estes rapidamente o transferirem para o Daesh. Isto num país da NATO obrigado a rastrear devidamente os clientes com quem negoceia. Com tal reportagem Fisk mostrou, preto no branco, que existiu cumplicidade ocidental com o Estado Islâmico, quando este prometia fazer no Médio Oriente o mesmo papel dos talibãs no Afeganistão, aquando do objetivo de dali erradicar a influência soviética.

 

Não admira que Robert Fisk seja um jornalista odiado por quem olha para o Médio Oriente segundo o prisma geoestratégico do Pentágono. O documentário de Yung Chang tem a virtude de expor a metodologia deontologicamente irrepreensível, que continua a motivar Fisk para combater as mentiras e revelar todo o sofrimento que milhões de pessoas tem padecido à conta dos interesses do tal eixo atlântico, que tantos crimes contra a Humanidade contabiliza.

Mais um “amigo dos professores”…

escola-covid

«O plano do Ministério da Educação para o regresso às aulas presenciais para os alunos do 11.ª e os 12.ª anos de escolaridade não será perfeito. Mas classificá-lo como irresponsável e absurdo, como fez o líder do maior sindicato dos professores, é passar um atestado de incompetência aos diretores de escolas, aos professores e também aos alunos.

É certo que o cumprimento das regras anunciadas vai depender em grande parte da capacidade das escolas e dos recursos técnicos e humanos disponíveis. Todos os estabelecimentos de ensino têm as suas particularidades, quer em dimensão quer em contexto social e económico. Todos são diferentes, como o são professores e alunos.

O que é importante é minimizar as desigualdades no ensino. É bom não esquecer que a presença dos alunos não será obrigatória e, portanto, adivinha-se que os estudantes com melhores condições económicas vão socorrer-se de mais explicações, recurso que já seria frequente nesta fase do calendário escolar, independentemente das circunstâncias atuais. Portanto, é necessário garantir aos outros alguma justiça nas condições em que serão avaliados.

Duvidar ainda que os alunos serão capazes de se comportarem dignamente durante os intervalos que terão de permanecer dentro das salas de aulas é tratar, por exemplo, os mesmos jovens que estão na vanguarda da consciencialização ambiental como irresponsáveis» (in Jornal de Notícias).

O texto de opinião do director-adjunto do JN ainda prossegue, mas o essencial está dito. O primeiro parágrafo da prosa é especialmente revelador: quando um articulista pretende enaltecer os professores começando por atacar os seus representantes, é certo e sabido que o elogio é venenoso e interesseiro. Tentar desacreditar os sindicatos que defendem os direitos e interesses de uma classe é uma velha estratégia para atacar a classe no seu todo. Claro que é mais fácil dobrar os professores quebrando a sua consciência colectiva e deixando cada um isolado no seu “contexto”. “Todos diferentes”, para que seja cada um por si e se tornem mais difíceis a união e a luta colectiva. Este Molinos sabe muito…

Na verdade, a posição sindical não chama incompetentes aos professores. Pelo contrário, enaltece a sua competência profissional. Pois os profissionais da Educação são isso mesmo, professores e educadores, não médicos, epidemiologistas, enfermeiros ou técnicos de saúde pública. Os professores já são, involuntariamente ou por dever de ofício, muitas coisas. Não nos obriguem também a ser especialistas em confinamentos, desinfecções e contaminações. E se mesmo em hospitais, laboratórios e centros de saúde, onde é suposto trabalharem especialistas que sabem o que andam a fazer, os contágios acontecem, não é difícil perceber que as oportunidades de propagação da doença aumentam exponencialmente no meio escolar, caso não se tomem os devidos cuidados. A abertura apressada das escolas pode despoletar um grave problema de saúde pública, se o assunto não for entregue a quem saiba o que anda a fazer.

Vem depois a deriva em torno das desigualdades no sistema, um velho problema que se teima em manter desligado da questão de fundo que o origina, que é a desigualdade na própria sociedade. E a incapacidade de pôr em causa uma das vacas sagradas do regime, os exames para entrar na faculdade. Como se fosse impossível conceber outra forma, mais lógica, coerente e justa para organizar o acesso ao ensino superior, do que usar para o efeito os exames do secundário. Enquanto os mais ricos pagam as explicações e os colégios que garantem as notas de acesso, outros vão-se contentando em exigir “alguma justiça” para os pobres e os remediados. Só que a justiça não é algo que deva ser servido às meias doses. Não será já tempo de exigir simplesmente justiça – um sistema de acesso ao ensino superior justo para todos?…

Finalmente, os jovens. E a velha tentação de tratar a juventude como uma categoria homogénea, quando entre os jovens, como no resto da sociedade, existe de tudo. Há-os social e ambientalmente responsáveis, há-os respeitosos e cumpridores. Mas também os há irresponsáveis, impulsivos, egocêntricos, inconscientes. E há quem possa ser um pouco disto tudo. Afinal de contas, estamos a falar de personalidades em processo de formação e amadurecimento, no qual as componentes afectivas e emocionais assumem um papel muito importante. Quem lida com gente jovem sabe como os humores variam e que a mesma pessoa, em diferentes contextos, pode reagir de formas muito distintas. E quão poderosa pode ser a dinâmica de grupo na modelação de atitudes, comportamentos e formas de estar e de agir dos nossos alunos.

Sim, a juventude pode ser egocêntrica e irresponsável, até mesmo aquela que se mobiliza em torno de causas nobres como a da defesa do nosso planeta. Um reconhecimento que não deve servir para acusar os mais jovens de não terem a maturidade, o conhecimento e a experiência que são atributo dos mais velhos. O activismo corajoso e determinado de Greta Thunberg não pode servir de desculpa para a inacção dos decisores políticos e económicos. Da mesma forma, não é admissível que o sentido de responsabilidade de alunos e professores sirva de pretexto para que os responsáveis da Educação e da Saúde se eximam às suas responsabilidades.

O perigo é a direita, não a extrema-direita

A primeira foto é retirada da página online da TSF, a segunda é a newsletterdo jornal Correio da Manhã. Ambos os grupos económicos em que estes órgãos de comunicação social estão inseridos, dão espaço, promovem, alardam os temas que a extrema-direita em Portugal defende. E fazem-no numa prática continuada de violação da Constituição e, por isso, de violação da lei de imprensa, já não falando individualmente de cada jornalista que está na Direcção de Informação desses órgãos.

O caso do Correio da Manhã é mais claro quando se distorce claramente a realidade para promover eleitoralmente uma determinada força política cuja linha política é inconstitucional e antidemocrática. Quem assistiu ao debate quinzenal de ontem percebeu o que o primeiro-ministro disse: não há um problema com a comunidade cigana; há um problema com quem não cumpre as regras, independentemente da sua cor, raça, etnia, opinião. Como foi que o Correio da Manhã viu a coisa? Deu voz ao inconstitucional.

Tudo isto tem um propósito que não é o de criar uma nova República. É, sim, o de colocar a direita no centro do poder, puxando a direita para a extrema-direita e a esquerda mais moderada para a direita, de modo a que qualquer opção seja de direita. E que o voto útil seja o da direita moderada contra a extrema-direita. Não é novidade. Está em toda a Europa. 
 
A questão é saber como se impedem estas práticas inconstitucionais e ilegais que se albergam, precisamente, no direito de comunicar. A segunda, é como combater a direita, porque são as forças apoiantes da direita que estão por detrás desta deriva.

E isso apenas se pode fazer com um alargamento do entendimento político. Caso contrário, estaremos a votar em alguém de direita para evitar que um qualquer Bolsonaro apalhaçado chegue ao poder para ser substituído rapidamente, a mando de um status quo vigente. E nesse debate, o PS vai ter de fazer opções muito claras, como tem feito António Costa nos debates parlamentares.  

Até lá, eis a minha contribuição (o coro cigano na ópera O Trovador, de Verdi):

 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Pinto Luz contraria posição de Rio sobre media e lamenta demissões no Instituto Sá Carneiro

(Comentário:
Independentemente das suas boas, ou más, características pessoais (que, por princípio, merecem, relativamente a qualquer um, respeito e reserva) o político Miguel Pinto Luz é um exemplo típico dos dirigentes partidários produzidos 'em aviário'. Nasceu para a vida social numa qualquer J onde aprendeu os 'truques' todos da politiquice (não confundir com Política), cresceu no exercício de cargos e conspirações partidárias, especializou-se no uso da politiquice para singrar na vida. O culto do mediatismo faz parte da sua existência e por isso não perde qualquer pretexto para ter exibição pública.
Malhar "construtivamente" no Rio é uma aposta com futuro que deve ser gerida em 'lume brando'. Neste caso, é-lhe especialmente útil porque contribui para reforçar a aliança com a influente família Balsemão de que a cooptação de uma filha para a vereação da Câmara de Cascais constituiu um passo significativo.
O facto de Rui Rio ter, nesta matéria, alguma razão pouco interessa para as ambições de Pinto Luz)
 
 
Miguel Pinto Luz contrariou a posição de Rui Rio sobre as empresas de comunicação social, dizendo que "não são iguais" às de sapatos, e lamentou recentes demissões no Instituto Sá Carneiro.
 
 
 
 O ex-candidato à liderança do PSD Miguel Pinto Luz contrariou esta sexta-feira a posição de Rui Rio sobre as empresas de comunicação social, dizendo que estas “não são iguais” às de sapatos, e lamentou recentes demissões no Instituto Sá Carneiro.
 

Numa publicação na sua conta da rede social Facebook — à qual não quis acrescentar mais nada, contactado pela Lusa -, o vice-presidente da Câmara de Cascais nunca menciona o presidente do PSD, mas manifesta, de forma implícita, a sua discordância em relação à posição afirmada publicamente por Rui Rio sobre as empresas de comunicação social.

São fundamentais numa sociedade que se quer livre e democrática. Não, não são iguais a empresas de sapatos, com todo o respeito que esse setor me merece. São fulcrais para o equilíbrio de poder, para o escrutínio permanente e para a transparência que se quer de todas as decisões tomadas pelos diferentes órgãos de poder”, refere Miguel Pinto Luz.

Na quarta-feira, em entrevista à CMTV, Rui Rio voltou a criticar os apoios previstos pelo Governo à comunicação social, que passam pela compra antecipada de publicidade paga para compensar a perda de receitas publicitárias devido à pandemia de Covid-19, dizendo discordar de uma subsidiação especial para o setor.

As empresas de comunicação social são empresas iguais às que fabricam móveis, sapatos, têxteis. Se têm uma dificuldade, devem ter todos os apoios que existem para todas as empresas”, afirmou então o líder do PSD.

Rio acrescentaria mais tarde uma publicação na rede social Twitter sobre o assunto: “E equiparo também às de camisas, às de fraldas e às de máquinas de embalar. As empresas de comunicação social devem ter os mesmos apoios que todas as demais. Não devem ter nenhum privilégio especial. Com toda a frontalidade, é o que eu penso”.

Esta sexta-feira, no Facebook, Miguel Pinto Luz lamentou ainda as recentes demissões do presidente do Instituto Sá Carneiro, Luís Alves Monteiro, e do vice-presidente Mira Amaral, noticiadas pelo Observador, que refere que as saídas se deveram à falta de “suporte financeiro” para esta organização – vocacionada para a formação de quadros sociais-democratas – prosseguir a sua atividade.

“Não posso deixar, nesta fase, de dar uma palavra de solidariedade e agradecimento ao Luís Alves Monteiro e ao Luís Mira Amaral pelo trabalho que desenvolveram no Instituto Sá Carneiro. Este Instituto deveria ter um papel ativo na sociedade civil ao lançar temas, novas caras e forte debate no panorama português. Infelizmente, não é aproveitado, sendo agora alvo de forte desinvestimento”, critica Pinto Luz.

O vice-presidente da Câmara de Cascais deixa ainda uma palavra de elogio aos autarcas que têm estado na “linha da frente” no combate à Covid-19.

“O papel do autarca merece ser realçado, mas também aproveitado e potenciado. O PSD tem um conjunto de autarcas, em que destaco naturalmente Carlos Carreiras [Cascais], Salvador Malheiro [Ovar] e Ricardo Rio [Braga}, entre tantos outros, mas também o trabalho fantástico de Miguel Albuquerque, na ilha da Madeira. É património do PSD, esta qualidade de respostas. Um trabalho que merecia ser feito em rede”, aponta.

Em janeiro, Miguel Pinto Luz obteve 9,55% dos votos (3.030 votos) na primeira volta das eleições diretas do PSD, naquela que foi a primeira vez que concorreu à presidência do partido.

O vice-presidente da Câmara de Cascais ficou de fora da segunda volta, que Rui Rio venceu com 53,2% dos votos, contra 46,8% de Luís Montenegro.

Veja aqui a notícia

Edição de Maio de 2020

Índice

Editorial
-Todos crianças . SERGE HALIMI

Política
-Defender os trabalhadores . SANDRA MONTEIRO

A crise no Trabalho
-Enfrentar a «tempestade perfeita» nas relações laborais . MARIA DA PAZ CAMPOS LIMA
-O lay-off simplificado já é austeridade . JOÃO RAMOS DE ALMEIDA

A crise na Cidade
-As «ilhas» do Porto e a construção social da desigualdade na pandemia . AITOR VAREA ORO e JOÃO PAULO MAGALHÃES

A crise nos Lares
-Quando fica exposta a fragilidade das estruturas residenciais para idosos . AMÉLIA MARTINS e RAFAEL EFRAIM ALVES

A crise na Saúde
-A certeza da incerteza: o impacto psicológico da pandemia . EDITE QUEIROZ

A crise na Educação
-Retrospectiva de um amor profundo: a proximidade necessária no ensino à distância . SÉRGIO GAITAS

Filosofia política
-Controvérsia sobre o populismo de esquerda . CHANTAL MOUFFE

DOSSIÊ . COVID-19: Após a crise… as crises
-A hora da planificação ecológica . CÉDRIC DURAND e RAZMIG KEUCHEYAN
-Urgência sanitária, resposta securitária . FÉLIX TRÉGUER
-Virar a página do comércio livre . LORI M. WALLACH
-Em França, o governo decidiu confinar as liberdades . RAPHAËL KEMPF
-Uma antevisão do choque climático . PHILIPPE DESCAMPS e THIERRY LEBEL
-Quem vai pagar a dívida pública? . LAURENT CORDONNIER
-Na Suécia, uma resposta sem estado de emergência . VIOLETTE GOARANT

Europa
-Na Irlanda, os nacionalistas crescem com a crise social . JULIEN MERCILLE

Refugiados
-Os refugiados sírios, indesejáveis na Turquia . ARIANE BONZON

Trabalho
-Não há empregos não qualificados . LIZZIE O'SHEA

Cultura
-Museu Nacional de Arte Antiga: projectos num tempo de incertezas . JOAQUIM OLIVEIRA CAETANO

Outras palavras Banda desenhada . TIAGO DA BERNARDA

Ver o original em Le Monde Diplomatique PT (clique aqui)

"A TV mente" e serve de alplificador às exigências da direita.

 Jucide a luta da direita
 
A crise que se anuncia, na sequência da COVID-19, afigura-se aos 'donos disto tudo' (DDTs) como um bom momento para ampliarem o seu poder e ganharem posições contra os trabalhadores.
José Miguel Judíce, sempre um fiel porta voz dos interesses da direita económica mais violenta, apressa-se a apresentar o 'caderno reivindicativo' com que os DDTs querem retomar a ofensiva política e ideológica.
 
Os objetivos são claros:
Demitir, desde já, três ministros:
Ana Mendes Godinho,Ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social;
Marta Temido, Ministra da Saúde e
Pedro Nuno Santos, Ministro das Infraestruturas e da Habitação
Seguidamente o Governo "vai ter, inevitavelmente, de virar à direita" provavelmente com mais protagonismo do Ministro da Economia Siza Vieira.
A SIC (como outros media) prosseguindo como protetora da direita política e defensora dos interesses económicos dos DDTs cumpre empenhadamente o seu papel.
 
 

“Supremo Tribunal” do Facebook já tem dirigentes

(Comentário:
Até parece ser uma coisa normal...MAS NÃO É.
Uma censura mundial, escolhida pelo patrão de uma empresa para dizer o que pode ou não ser expresso pelos cidadãos. Assim, "com pézinhos de lã" se avança para uma governação global, não democrática, limitadora da liberdade e diretamente controlada pelos 'donos disto tudo'.
Algo está "podre no reino da Dinamarca"!)
 
 

 

Já são conhecidos os nomes dos integrantes do “Supremo Tribunal” que vai moderar os conteúdos nas redes sociais Facebook e Instagram.

 

A ex-primeira-ministra dinamarquesa, Helle Thorning-Schmidt, e a ex-relatora para a liberdade de expressão da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), Catalina Botero Marino, integram o “Supremo Tribunal” que vai moderar os conteúdos nas redes sociais Facebook e Instagram.

De acordo com o anúncio, feito esta quarta-feira, Thorning-Schmidt e Botero vão liderar, juntamente com os professores de Direito norte-americanos Michael McConnell e Jamal Greene, uma equipa que inicialmente vai ser constituída por 20 pessoas e que vai ser uma espécie de tribunal de última instância para decidir que conteúdos se podem publicar ou não nas redes sociais.

Esta espécie de “Supremo Tribunal”, a que qualquer utilizador pode recorrer depois de ter passado por todas as instâncias dentro da Facebook, vai começar a julgar casos “nos próximos meses”, vai agir de forma independente e as suas decisões são vinculativas.

Thorning-Schmidt foi primeira-ministra entre 2011 e 2015, pelo Partido Social-Democrata, e é a conselheira delegada da organização sem fins lucrativos Save The Children, dedicada à luta contra a pobreza infantil. Botero Marino é a decana da Faculdade de Direito da Universidade de Los Andes, e entre 2008 e 2014 foi a relatora especial para a Liberdade de Expressão da CIDH, um organismo autónomo da Organização de Estados Americanos.

Thorning-Schmidt e Botero Marino deram, esta quarta-feira, uma conferência de imprensa telefónica, juntamente com McConnell e Greene, uma vez que os quatro vão liderar a equipa, na qual garantiram que a “junta de supervisão”, como foi batizado este “Supremo Tribunal, vai ser totalmente independente da Facebook.

“A Facebook comprometeu-se com o cumprimento das decisões que tomarmos e, no caso em que não o faça, como são públicas, iria ter um custo reputacional muito elevado”, apontou Botero Marino.

A criação de uma junta de supervisão independente foi anunciada em 2018 pelo fundador da empresa e seu conselheiro-delegado, Mark Zuckerberg, para procurar responder às críticas de abuso de poder por parte da maior rede social do mundo e de arbitrariedade na moderação de conteúdos.

A Facebook e a Instagram, que é sua propriedade, têm orientações de uso que limitam os conteúdos que se podem partilhar nas plataformas (como as proibições de mensagens que incitem a violência ou imagens explicitamente sexuais, entre outras) e quando a empresa considera que estas normas foram violadas retira os conteúdos.

Porém, a natureza inevitavelmente subjetiva de muitas destas decisões leva vários utilizadores a considerarem que a empresa toma decisões sem critério.

Para garantir a diversidade cultural e de experiência da junta, os 20 membros atuais, que podem vir a ser 40, são provenientes dos Estados Unidos e Canadá (25%), América Latina e Caraíbas (10%), Europa (20%), Ásia e Oceânia (25%) e África (20%). A Facebook afetou 30 milhões de dólares para o funcionamento desta estrutura, cujos membros não podem ser demitidos.

ZAP // Lusa

 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/supremo-tribunal-do-facebook-ja-dirigentes-323272

"A TV mente" e a direita quer os mais idosos fechados em casa (podem dar um passeiozinho)

Jose Miguel Judice Idosos
 
A SIC prossegue a manipulação a várias vozes ao serviço da direita económica e política.
Agora é o seu 'comentadeiro' habitual (José Miguel Judíce) que vem insurgir-se pelo facto de os cidadãos mais velhos não ficarem legalmente obrigados ao enclausuramento caseiro.
Para ele (sempre a ser o porta voz dos interesses do grande patronato) quem tem idade para trabalhar deve ir rapidamente fazê-lo. Os seus filhos devem ir para as escolas para os pais poderem ir trabalhar, os outros (reformados, pensionistas, cidadãos mais velhos, etc ) devem ficar fechados em casa para não perturbarem o 'mercado' e a 'produção nacional'.
Como José Miguel Judíce faz gala em usar mediaticamente a sua condição de católico não deixa de ostentar alguma comiseração pelos 'velhinhos' e deixa-os dar uma voltinha perto de casa.
A direita perdeu a vergonha...
 
 
 
 
 
 
 

Subsídios a quem os não merece?

Não me iludo ao ponto de considerar que constitua sondagem fiável a implícita no universo dos meus 3692 amigos do facebook pela qual facilmente concluiria haver uma percentagem significativa de portugueses incomodados com a ideia de um apoio estatal aos meios de comunicação social. O governo já espalhou umas migalhas por uns quantos jornais, Marcelo atua como lobista desses e doutros candidatosaos reivindicados subsídios, que dizem indispensáveis para garantir a sustentabilidade de quem não tem revelado mérito bastante para evitar o desiderato expectável,

 

Admito que haja quem, fora do universo da referida “sondagem”, considere a esmola necessária em nome de uma imprensa plural e objetiva. O problema é que os candidatos ao óbolo não apresentam credenciais merecedoras de se vir a colher tão desejável resultado. Na edição de hoje do «Público», o prof, J-M. Nobre-Correia publica um artigo de leitura obrigatória sobre o assunto em que explica as razões de recusa desse tipo de apoio à imprensa desportiva e aos jornais regionais. A sua prosa elegante e inteligente deixa implícitas as razões que, de forma mais truculenta, podemos sintetizar no seguinte: a imprensa desportiva não justifica essa mercê pelo muito que tem contribuído para a criação de uma (in)cultura de seita clubística, que, aqui e noutros países, constituem o ninho de víboras onde germinam os ovos do pós-fascismo atual. E sobre os jornais regionais quantos deles escapam à condição de porta-vozes de caciques locais pouco recomendáveis?

 

Há uns anos numa Universidade de Verão organizada na pousada da Juventude do Pragal o excelente jornalista que é Paulo Pena considerava possível o relançamento de um projeto do tipo do saudoso «O Jornal», liberto da tutela dos grandes grupos económicos e capaz de sobreviver à custa dos leitores e do engenho dos seus cooperantes. A dificuldade estaria em garantir o milhão de euros, que então estimava necessário para o seu lançamento. Daí que, se é exigido ao governo um apoio substantivo à imprensa ele deverá passar pela aprovação de uma linha de crédito a uma publicação semanal dotada de umarigorosa e ativa provedoria, que assegure o cumprimento da tal pluralidade e objetividade inerente ao código deontológico dos jornalistas e tão atropelado pela maioria dos que vemos atuarem desabridamente nas televisões, nas rádios e nos jornais. Só que pode bem imaginar-se o alarido que tal medida suscitaria por parte de quem se constitui como porta-vozes da parcela passista-cavaquista do PSD como o são o «Expresso » ou «O Observador»! Porque o medo de perderem influência perante um concorrente capaz de produzir melhor e mais fiável informação é plenamente justificado!

 

A crise por que passa a imprensa enfeudada aos grandes grupos económicos e financeiros (ou aos que pretendem vir a sê-lo) nunca deverá justificar que recebam dinheiro de quem, pelo voto maioritário nas esquerdas, se sabem zangados ou meramente cansados com os conteúdos criados dentro da lógica de se tornarem verdades à conta de se verem tantas vezes repetidos. E muito menos se poderá facilitar a vida aos agentes da Cofina que as nossas secretas devem ter debaixo de olho para corresponderem aquilo que o Conselho de Fiscalização do Sistema de Informação da República Portuguesa acaba de denunciar como um dos perigos mais sérios, que nos espera no futuro próximo: o crescimento da extrema-direita e das suas ações criminosas. Se assim é - e não duvidamos que o seja! - para quê atribuir dinheiro que descontamos nos nossos impostos para que os Venturas, os Cotrins, e outros que tais, ameacem a nossa Democracia através dos altifalantes generosos, que essa «imprensa» tanto gosta de propagandear...

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2020/05/subsidios-quem-os-nao-merece.html

Rodrigo Guedes de Carvalho e o confinamento

Guedes de carvalho   ministra
 
Pior do que o medo é a falta de discernimento que começa a afetar os profissionais dos vários ofícios, sem exceções, e os crentes das mais desvairadas fés, com as atividades desportivas e religiosas exoneradas do quotidiano, por razões sanitárias.

A lapidação dos políticos é um desporto criado na ditadura. Salazar não era político, os ministros diziam no discurso de posse que não o eram, o senhor Presidente do Conselho mandava e eles só obedeciam, a política é uma atividade suja, não te metas em políticas, não dá bom resultado, quem te avisa teu amigo é. Que o digam as vítimas do fascismo!

Há defeitos da ditadura que se agravam com o desamor à democracia. Os jornalistas e os políticos estão na primeira linha dos alvos a abater, julgados mais pelas lentes das nossas convicções do que pelo mérito próprio.

Quando, há dias, um jornalista que, na minha opinião e de acordo com os meus valores, se pautava pela moderação e civilidade para com os entrevistados, foi indelicado para a ministra da Saúde, não estranhei. Limitei-me a ver encómios dos meus amigos do PSD e a censura dos que não esqueceram o consulado de Cavaco, Passos Coelho e Portas.

Não fazia ideia de me pronunciar sobre a conduta de Rodrigo Guedes de Carvalho na entrevista à ministra Marta Temido. Já toda a gente o tinha feito e não fora a falta de autocrítica que ontem revelou ao assumi-la como boa e a responder a uma leitora que o criticava que faria tudo para que ela tivesse a liberdade de o criticar.

Ora, o jornalista não está no mesmo patamar do leitor ou ouvinte, está num campo onde a objetividade e a decência são exigências da função. Não se espera dele a opinião, só a informação.

Disse acima que não estranhei a entrevista de RGC porque, ao contrário da generalidade dos comentadores, também não gostei da forma como entrevistou António Costa cujo agradecimento à isenção da SIC me pareceu mais uma bofetada de luva branca do que o sincero reconhecimento pela própria entrevista.

E não estranhei ainda porque, uns dias antes, liguei a SIC quando RGC terminava uma citação: “disse a Marta Temido”. Deduzi, pelo nome, que se referia à ministra da Saúde.
Se antipatiza com a ministra, não devia manifestá-lo. A indelicadeza foi flagrante. Não é preciso ser jornalista para perceber que a forma correta seria dizer «a ministra»,
 quando muito, “Marta Temido” e nunca «‘a’ Marta Temido».

O artigo definido a preceder o nome de um governante ou de uma personalidade revela falta de profissionalismo ou de educação, ou de ambas. Um jornalista nunca deve dizer “o” Jerónimo de Sousa, “o” Rui Rio, “a” Maria Cavaco, “a” Assunção Cristas, “a” Isabel Jonet, “a” Leonor Beleza, “o” Marcelo ou “o” Portas.

Há, pois, um desequilíbrio emocional de RGC que deve corrigir, sob pena de delapidar o capital de prestígio que amealhou.

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2020/05/rodrigo-guedes-de-carvalho-e-o.html

Combater a poluição ideológica

Luís Marques Mendes é consultor da Abreu Advogados desde 2012, exercendo também o cargo de Presidente do Conselho Estratégico da sociedade e integrando o Grupo Angolan Desk. Antes de integrar a Abreu Advogados, exerceu advocacia durante os anos oitenta, atividade profissional que veio a interromper para exercer, durante duas décadas consecutivas, cargos de natureza política, parlamentar e governativa (...) Já depois de abandonar a vida política, e antes de integrar a Abreu Advogados, foi administrador em várias empresas ligadas ao setor da energia. Atualmente, fora da vida política ativa, é membro do Conselho de Estado designado pelo Presidente da República e comentador de política nacional e internacional num grande canal de televisão português.

É assim que Marques Mendes é apresentado na Abreu Advogados; um facilitador, para usar o termo de um livro importante sobre o grande negócio político da advocacia de negócios.

Este negócio não é defeito, mas sim feitio estrutural de uma certa forma de capitalismo, aquela que emergiu a golpes de engenharias neoliberais e que deixou o país tão vulnerável.

Reparem como a descrição de Marques Mendes é semelhante à de Paulo Portas, outro facilitador lavado pela máquina televisiva em canal aberto. Na Abreu Advogados dizem que Marques Mendes não está activo politicamente, pensando que nascemos ontem. O palco televisivo e a agenda telefónica são dois dos seus activos políticos estratégicos.

Entretanto, os grupos de comunicação social privados querem subsídios do Estado. Usando os termos da economia convencional, dadas as externalidades negativas que geram tantas vezes, sob a forma de poluição ideológica e de lixo editorial, de tantos maus exemplos para juventude, até deveriam mas é ser especialmente taxados: internalizar as externalidades, diz-se.

Saindo da economia convencional para a economia política: às vezes até dá vontade de ver estes grupos experimentar a pura lógica capitalista que advogam para os de baixo.

O Estado deve reforçar o serviço público, da televisão à rádio, resgatando para a esfera pública um jornal de referência, como o Diário de Notícias, garantindo o pluralismo e a informação de qualidade. Deve apoiar a imprensa, reforçando o poder das redações, onde labutam tantos e tão bons jornalistas, e privilegiando projectos cooperativos, controlados por quem sabe do assunto e quer informar.

Também aqui, não pode haver apoio sem alteração das relações sociais de produção.

 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Tempo para nada

"Altura para a entrevista com a ministra da Saúde, Marta Temido. Boa noite e bem-vinda a este jornal. Espero ter tempo porque são muitos assuntos que estes dois meses nos trouxeram..." 
Foi assim que o pivot Rodrigo Guedes de Carvalho (RGC), da cadeia SIC, inicou a entrevista no Jornal da Noite de sábado.

Mas depois, RGC ocupou onze (11!) minutos num interrogatório desnorteado e sem chá, cheio de si e na 1ª pessoa, enervado - "eu estou a falar de saúde pública", "estou-lhe a perguntar se...", "não foi isso que eu perguntei..", "Isto não é uma questão de concordar ou de deixar de concordar", "mas a celebração da UGT interessa pouco para uma ministra da Saúde"- marcado por preconceitos sobre o 1º de Maio da CGTP e os 73 anos de Jerónimo de Sousa, semelhantes aos do seu ex-patrão (e corroborado por Marques Guedes na edição de domingo na SIC). A ponto de ouvir a ministra dizer: "O estado de calamidade não é uma emergência totalitária. É uma emergência sanitária". RGC fugiu de um tabuleiroondecaíra para procurar outro onde engasgasse a ministra (ver em anexo), perdeu o controlo das emoções e perdeu até notícias - como aquela em que a ministra deu a entender que, se não há 13 de Maio em Fátima, é porque a igreja católica não quer, o que, aliás, veio a confirmar-se ontem, e ainda mais no acordo entre o governo e a igreja católicacomo se soube hoje. 

Enfim, depois de um mau serviço jornalístico durante onze (11!) penosos minutos e de vergonha alheia, RGC rematou...:

"Muito bem, avancemos, senão não vamos ter tempo para nada"!! 

RGC pode não entender o papel constitucional que as organizações sindicais têm. Pode não perceber a teoria geral do papel das organizações na sociedade, a ponto de as comparar às pessoas que querem visitar a família. Pode não entender a necessidade que certas pessoas sentem desde o século XIX de celebrar o 1º de Maio, dê por onde der. Pode não perceber a densidade histórica da data, destilada por décadas de lutas, sacrifícios, vidas perdidas, dádivas humanas, contra a desigualdade, pelo direito a uma vida. Pode nem se lembrar do objectivo dessa luta lançada nos Estados Unidos no 1º de Maio de 1886, a que nem dá importância alguma - oito horas diárias de trabalho. E pode nem se lembrar que, por acaso, após 135 anos, a reividicação continua a ser actual em Portugal, quando o trabalho extraordinário já é, em certos casos, mais barato do que em período normal de trabalho

Mas por tudo isso, deixo-lhe a circular oficial da Federação dos Sindicatos, de Novembro de 1885. Pode ser que ecoando estas frases com 135 anos, com a força que têm, pelo tempo e pelo tom, pela actualidade das suas palavras (apesar dos anacronismos) se aperceba das ridículas perguntas que fez sobre se era legal terem sido trazidos camionetas do Seixal para a Alameda... 

Camaradas trabalhadores,
Chegámos à época mais importante da história do trabalho. A questão é esta: entregamo-nos a um qualquer azar providencial para fixar a jornada de trabalho de oito horas ou contamos com as nossas forças, preparamo-nos para a luta e arrancaremos a jornada de oito horas àqueles que, por ignorância ou egoísmo, se opõem à sua adopção a 1 de Maio de 1886?
Se os assalariados estiverem unidos neste ponto e se se prepararem com fundos suficientes para aguentar a tempestade durante pelo menos um mês, eles trarão a vitória consigo. O trabalho agindo em unidade, tal como o capital, é todo poderoso. Ele pode impor reivindicações justas por meios pacifícos e legais. Unidade na acção e poupanças suficientes para manter o lobo em respeito durante um período curto, é tudo o que precisamos.
O movimento, para vencer, deverá abraçar todas as classes assalariados, de modo que os produtores não produzam senão quando as reivindicações forem aceites e os seus objectivos conseguidos. 
Trabalhadores:
O vosso dever junto de vós próprios, da vossa família, da prosperidade está claramente definido. Poupem uma determinada soma, metam dois dólares por semana, comprem mantimentos até 1 de Maio de 1886 e estarão em posição de ultrapassar a derrota. Eis o dever de cada um.
Mas qual é o dever das corporações e das sociedades? Que cada organização escolha um comité, para preparar os homens no seu ofício especial, envolvendo os sindicalizados e os não sindicalizados, no maior número possível para exigir as 8 horas em Maio de 1886.
Conseguir as vantagens de uma redução de trabalho quer dizer um trabalho mais regular e melhor remunerado, uma mais longa existência para os trabalhadores, façamos alguns sacrifícios. É tempo de agir.
Vinte anos de paz num país como o nosso, sem epidemias, sem exército permanente considerável, sem uma marinha dispendiosa, e sem que o pesado fardo do trabalho tenha sido aligeirado, mesmo quando por todo o lado a máquina poupa-trabalho é introduzida e que as ruas estejam pejadas de trabalhadores sem trabalho.
É aos trabalhadores e às sociedades que incumbe a tarefa de reduzir as horas de trabalho e de equilibrar o fardo da produção social.
Com a unidade na acção e 35 dólares de economia por cada trabalhador, poderemos levantarmo-nos e e vencer o capital. Tentemos a luta. Preparemo-nos!


ANEXO
Entrevista à ministra Marta Temido, na SIC:  

RGC: O que achou da forma da celebração da CGTP em Lisboa?
MT: Estava em linha com a excepcionalidade prevista no decreto presidencial que se referia ao estado de emergência e que contenmplava uma excepção para a celebração do Dia do Trabalhador. E que referia que deveriam ser respeitadas regras de distanciamento, sanitárias.
RGC: Na verdade, o decreto coloca nas suas mãos e na directora-geral da Saíde definir as regras. Diz apenas que essa comemoração deve ter em conta os limites de saúde pública, No limite, foi a senhora e a directora-geral da Saúde que acharam que aquela celebração se podia fazer assim. Mas são cerca de mil pessoas.
MT: Quem estabeleceu os limites, as condições em que a celebração foi efectuada foi a estrutura sindical que optou por esta forma de celebração. (...) Outras estruturas sindicais optaram por outra forma de celebração. Aquilo que o decreto presidencial referia era a possibilidade de, mesmo em estado de emergência, era assinalar o dia...
RGC: Violou  as regras.. .
MT:... dentro das regras definidas pelas autoridades  de saúde competentes. E portanrto, as autoridades de saúde competentes avaliaram a situação e imposeram determinadas restrições que são conhecidas de todos: o distanciamento, a protecção, o evitar de multidões, de aglomerações de pessoas...
RGC: E acha que aquilo que se viu ali não foi uma multidão, uma aglomeração de pessoas?
MT: Foi um número significativo de pessoas, superior ao número regra, mas um número enquadrado naquilo que era uma sinalização de uma data. Sei que há quem gostasse que tivesse sido de outra maneira, sei que outras estruturas sindicais optaram  por fazer a celebração de uma outra maneira e provavelmente...
RGC: [interrompendo] Então porque é que não deixou as pessoas virem para  a rua no 25 de Abril?
MT:... há muitas opiniões contraditórias...
RGC : [interrompendo] Porque é que não deixou as pessoas virem para  a rua no 25 de Abnril?
MT: O que me parece relevante é que a forma como foi assinalado do dia foi ordeira, foi pacifica, e o que eu gostaria de sinalizar é que não tivemos, por exemplo, eventos com distúrbios como aconteceu noutros paises europeus... 
RGC: [interrompendo] Sim, mas uma coisa não tem nada a ver com outra: eu estou a falar de saúde pública, não estou a falar de intervenções policiais. Falou-me do decreto de estado de emergência onde nada se refere a excepções de cidadãos nestes três dias passarem de concelhos para concelhos. E no entanto, à frente de toda a gente, vieram camionetas pelo menos do Seixal e outros locais. Não era possível a CGTP ter feito uma manifestação só com pessoas do concelho de Lisboa que é bastante grande?
MT: Isso é algo que tem de perguntar à CGTP. O Ministério da Saúde, as autoridades de saúde têm é de definir regras para a realização de determinadas iniciativas, nos termos em que os poderes democráticos as aprovem. O senhor Presidente da República [PR], o Governo, a Assembleia da República  entenderam que o Dia do Trabalhador devia ser sinalizado. Houve uma estrutura que entendeu ter pessoas na rua, dentro de determinadas regras que são as regras sanitárias que temos estabelecidas. Pode-se concordar mais, pode-se concordar menos, pode-se achar que poderia ter sido feita de outra maneira...
RGC: [interrompendo] Isto não é uma questão de concordar ou de deixar de concordar. Estou-lhe a perguntar se nestes três dias 1, 2 e 3 foi ou não proibido pelo PR que as pessoas se desloquem para fora dos seus concelhos.
MT: Não, foi pelo Governo.
RGC: Ou pelo Governo.
MT: Foi estabelecido que nestes 3 dias...
RGC: [interrompendo] E no entanto...
MT: que são dias que, num contexto normal, aproveitaríamos parta visitar amigos, para visitar a familia, para passarmos à beira-mar...
RGC: [iomterrompendo] E aquelas pessoas que não poderam fazer...
MT: Bom, o que estamos a falar é de indivíduos e dos seus gostos pessoais ou de uma entidade que para todos os efeitos é uma entidade representativa dos trabalhadores e que entende fazer uma sinalização do Dia do Trabalhador...
RGC: [interrompendo] Mas porque é que têm mais direitos que todos os portugueses?
MT: As instituições têm sempre uma forma de representação social que os indivíduos não têm. Poder-se-á dizer : "Por que é o Natal é mais importrante do que o aniversário de qualquer um de nós individualmente considerado? Porque são momentos sociais...
RGC: [Interrompendo] E acha que a Igreja Católica é uma instrituição?
MT: Naturalmente.
RGC: Por que é que a Fátima, que é um lugar muito maior do que a Alamada de Lisboa, não se pode aplicar estas regras das filas bem separadas e as pessoas ficarem bem separas umas das outras?
MT: Mas É possível que se possam aplicar essas regras se...
RGC: [interrompendo] Ai é possível?
MT: Se essa for a opção das celebrações que - tanto quanto é do conhecimentro daquilo que foi conversado - a opção este ano seria outra... 
RGC Mas vimos aqui o bispo de Leiria dar a coisa como perdida, dizer que infelizmente este ano não vai poder ser assim...
MT: Repare, a propósito do Dia do Trabalhador, para a mesma forma de expressão que o decreto presidencial tinha que era a celebração do Dia do Trabalhador, duas estruturas sindicais, optaram por fazer uma celebração de uma forma distinta. Portanto...
RGC: Mas a celebração da UGT interessa pouco para uma ministra da Saúde, estamos a falar de saúde pública. Estamos a falar de exemplos que vão sendo dados aos portugueses. E estamos a reparar que há algumas excepções. Mas não quero insistir neste ponto, mas num outro ponto que também tem a ver com o mesmo dia. Jerónimo de Sousa esteve presente, tem 73 anos e ele respondeu que "a idade não é critério absoluto para determionar o risco. A senhora ministra da Saúde concorda?
MT: Concordo, a idade não... 
RGC [interrompendo] Ai não?
MT:é um criteério absoluto para determinar  o risco. A idade é um critério de risco por si só. Mas não é absoluto. Nós sabemos...
RGC: [Interrompendo] Aqui estamos no campo da retórica, não é?
MT: Não é retórica: é uma realidade que está por detrás do factor 70 anos e do facto 70 anos com melhor saúde ou pior saúde.
RGC: A realidade é que, por causa do decreto do estado de emergência e do facto de factor de risco dos 70 anos... [lê] "ficam sujeitos a dever especiao de protecção, alinea a) os maiores de 70 anos". Isto foi o primeiro decreto do estado de emergência. E nós temos, eu já vi, agentes de segurança falarem com pessoas que eles percebem que eles têm mais de 70 anos e dizerem-lhes que eles têm o dever de regressar à sua casa.
MT: Vamos lá ver. As pessoas acima de uma certa faixa etária têm um risco por si só acrescido. A opção do nosso Estado foi semprte a sugerir às pessoas tinham um dever especial de se salvaguardarem. Mas não de as impedir de sair à rua. Parece-me que isso seria, por si só, desproporcional e eventualmente até ferido de outros problemas. Aquilo que temos de ter em presença é quem, ainda hoje a OMS tem um documento especifico a propósito das pessoas de maior idade neste contexto de doença que sabemos que é potencialmente mais agressiva para elas. Mas nós temos de perceber que não é o único critério.
RGC: Muito bem. 
MT: E não podemos confinar as pessoas só porque têm mais...
RGC: [Interrompendo] Certo...
MT:... de 70 anos, ficaram reclusas...
RGC: [Interrompendo] Então...
MT:... ao seu domicílio
RGC: [Interompendo] Então podemos ter agora os portugueses com mais de 70 anos a dar a mesma resposta, que será aceite pelas autoridades e compreendida pela ministra da Saúde.
MT: No contexto actual, sabemos que o dever que impende sobre todos os portugueses é o dever civico...
RGC: [Interrompendo] Não foi isso que eu perguntei..
MT: de recolhimento. Mas esta é a resposta.
RGC: Pronto, pronto...
MT: Esta é a resposta.
RGC: Então avancemos. Falamos aqui de Fátima. A senhora ministra abriu aqui a porta, afinal, de uma peregrinação a Fátima...
MT: Não abri.
RGC: Não abriu?
MT. Nâo.
RGC: Então formulo-lhe a pergunta: Por que é que em Fátima as pessoas, os peregrinos não podem estar lá presentes a ouvir a missa?
MT: Vamos lá ver: Se essa for a opção de quem organiza as celebrações - de celebração do 13 de Maio - onde possam estar várias pessoas desde que sejam respeitadas as regras santárias - isso é uma possibilidade. Agora cada organização de uma iniciativa tem de fazer um juízo de valor sobre aquilo que entende que são os riscos que vai correr. E pode haver entidades que entendam que aquilo que está em causa é compatível com determinadas regras e outras que não...
RGC: [Interrompendo] O mesmo que se aplica aos estádios de futebol?
MT: O estado de emergência, o estado de calamidade não é - como já disse - uma emergência totalitária. É uma emergência sanitária.E portanto as regras são sempre utilizadas com a proporcionalidade necessária à protecçãos anitária. Mas não mais do que isso. 
RGC: Muito bem. Campos de futebol, são também terrenos abertos. Podem também ter público?
MT: Não.
RGC: Porquê?
MT: Porque a opção neste momento será eventualmente a de não ter público. Mais uma vez, vamos fazer uma construção de medidas ao longo do tempo, que garantam a maior normalidade possível, mas num contexto que não é o regular, o normal, aquele que desejaríamos. E também porque avaliamos, os peritos, os organizadores avaliam aquilo que são...
RGC: [interrompendo] Eu quando estou a falar de público no futebol não estou a falar obviamente do estádio cheio. Mas aquela proporção que não se sabe qual será - um terço, dois terços - e pessoas separadas. Por que não é possível?
MT: São aspectos que estão eventualmente a ser ponderados num contexto, não daquilo que está em cima da mesa, porque aquilo que está em cima da mesa eventualmente serão jogos à porta fechada.
RGC: Muito bem, avancemos, senão temos tempo para nada.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Entrevista completa:

 

Um «Polígrafo» com palas nos olhos

(Comentário:
A SIC continua a militar na campanha contra os mais velhos para que estes sejam OBRIGADOS a ficar fechados em clausura. A Constituição não consente tal discriminação e, consequentemente, nenhuma legislação o prevê mas a SIC na sua deriva anti "peste grisalha" (nas palavras do deputado do PSD) insiste em promover a confusão entre um conselho de especial proteção dos mais velhos e doentes (previsto pelo Governo) com uma obrigatoriedade de confinamento (que NÃO existe). São coisas muito diferentes e a SIC sabe-o mas tudo vale para quem a única preocupação é garantir que os mais novos vão trabalhar para bem dos negócios alheios.
São estes mesmo 'órgãos de comunicação', como a SIC, sempre mais preocupados com os interesses do 'mercado' do que com o Povo que vêm agora exigir que o Estado (todos nós) lhes ofereça alguns Milhões de euros para 'compensar' as dificuldades que têm com a crise... Haja paciência!
 
 
O «Polígrafo» só se
esqueceu que o Presidente
da República tem 71 anos,
não está sempre em casa
e não usava máscara !

O «Polígrafo» concluiu evidentemente que era falsa a afirmação de Jerónimo de Sousa, Mas não foi capaz de contestar o adjectivo «absoluto» usado por Jerónimo de Sousa nem de mostrar qual é regra que obriga os maiores de 70 anos a ficarem sempre em casa.
 

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

O dilema

A ministra da Saúde não podia ter sido mais clara, isenta e consistente. Questionada na SIC sobre «porque é que em Fátima, que é um espaço muito maior que a Alameda, em Lisboa, não se podem aplicar estas regras das filas bem separadas e as pessoas afastadas umas das outras», Marta Temido respondeu: «É possível aplicar essas regras (...), se essa for a opção de quem organiza as celebrações, de organizar uma celebração do 13 de maio onde possam estar várias pessoas, desde que sejam respeitadas as regras sanitárias. (...) Agora, cada organizador tem que fazer um juízo de valor sobre aquilo que entende que são os riscos que vai correr. (...) O estado de emergência, o estado de calamidade não é uma emergência totalitária».

Aparentemente, a Igreja Católica, que já tinha decidido não manter a peregrinação de 13 de maio, ficou surpreendida com estas declarações, estando agora a «reunir todos os elementos para tomar uma posição» sobre as celebrações de 12 e 13 de maio em Fátima. Como a decisão está evidentemente nas suas mãos (tal como o a decisão do 1º de maio esteve nas mãos da CGTP), coloca-se um dilema: mantendo a sua posição inicial, corre o risco de defraudar a expetativa de muitos crentes (que se apercebem agora que não é o Governo a impedir, sob determinadas condições, a realização do 13 de maio); revertendo a sua posição inicial, esvazia de sentido as críticas de discricionariedade e de imprudência e irresponsabilidade que têm sido feitas, mesmo no seu seio, à celebração do 1º de Maio na Alameda.

Adenda: A forma como Rodrigo Guedes de Carvalho conduziu a parte inicial da entrevista a Marta Temido converte-a num recurso interessante de «pedagogia pela negativa» para cursos de jornalismo e comunicação social. Não pelas questões colocadas, de indiscutível pertinência e acuidade, mas sim pelo tom agressivo e inaceitavelmente acintoso com que se dirigiu à entrevistada.

 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

O tosquiador tosquiado

Dirão que assim se demonstra a minha costela perversa, mas apressei-me a ir ver em diferido a entrevista de Rodrigo Guedes de Carvalho à ministra Marta Temido, quando a soube exemplar daquele género divertido de ver o tosquiador ir à tosquia e sair de lá tosquiado.

 

Convenhamos que essa malévola propensão tem muito de humano e, por isso mesmo, os Lumière, quando se lançaram na aventura do cinematógrafo, logo exploraram a ideia do sujeito, que estava a regar o jardim e se viu alvo da partida de um mal intencionado, acabando ele próprio regado. As gargalhadas entoadas pelos espectadores de há cento e vinte cinco anos na pequena sala do Boulevard des Capucins poderiam equiparar-se às que concluíram a apreciação da entrevista com a fera amansada pela quase irrepreensível conduta da ministra.

 

Questionarão aqui: «quase?» E eu digo que sim, porque, logo de início, quando quis partir para o ataque à interlocutora, o Rodrigo começou com uma frase, que me irrita supinamente: «os portugueses querem saber blá-blá-blá...»

 

E eu teria gostado que Marta Temido devolvesse a pergunta com outra: «são os portugueses que querem saber ou é o Rodrigo?» Porque irrita esta tendência para os nossos telelocutores (que não jornalistas!) encherem os peitos de facúndia, todos inchados nos seus egos e julgarem-se os eleitos para servirem de transmissores das questões que gostariam ver assumidas por toda essa abstrata coletividadenacional.

 

No caso em apreço a questão até nem tinha nada a ver com o que eu queria saber: se achava bem que a CGTP tivesse organizado o 1º de maio na Alameda e a igreja continuasse tolhida na possibilidade depromover os seus prosélitos eventos. Em definitivo achei bem que a manifestação de anteontem se cumprisse, porque o 1º de maio tem o simbolismo de representar todos os trabalhadores enquanto as cerimónias religiosas apenas dizem respeito aos que acreditam nos deuses nelas celebrados. Entre os muitos milhões de trabalhadores que, a nível mundial, se identificam com os valores do 1º maio e a minoria dos humanos, que se dizem católicos, a comparação nem sequer se põe.

 

Mas outro motivo justifica que uns possam organizar uma manifestação e os outros sejam dissuadidos de fazerem as suas: é que ninguém contesta a capacidade de disciplina e de organização que os comunistas - para o bem e para o mal! - conseguem demonstrar em tudo quanto deles depende. Agora esperar algo de semelhante das ovelhas do rebanho de Deus não passa pela cabeça dos mais sensatos. E, estando em causa, uma questão de saúde pública, não houve razão para apontar ao evento de sábado passado os reparos que, facilmente, se justificariam aos que, de vela na mão ou de lenço a acenar a uma boneca num andor, sempre tendem a acotovelar-se...
 
 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2020/05/o-tosquiador-tosquiado.html

Dia Mundial da Liberdade de Imprensa - SJ

 
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Ataques à liberdade de imprensa na Europa ameaçam ser o novo normal

 

3 de Maio, 2020 Notícias/Nacional
Os ataques à liberdade de imprensa na Europa correm o sério risco de se transformarem no novo normal, alertam 14 grupos internacionais de liberdade de imprensa e organizações de jornalistas, incluindo a Federação Europeia de Jornalistas (FEJ), na qual o Sindicato dos Jornalistas (SJ) está filiado.

O relatório anual de 2020 da Plataforma do Conselho da Europa para promover a Proteção do Jornalismo denuncia que os ataques à liberdade de imprensa no contexto da pandemia de covid-19 pioraram um cenário já sombrio.

O relatório analisa alertas enviados à Plataforma em 2019 e mostra um padrão crescente de intimidação para silenciar jornalistas no continente europeu.

As últimas semanas aceleraram essa tendência, com a pandemia a produzir uma nova onda de sérias ameaças e ataques à liberdade de imprensa em vários Estados-membros do Conselho da Europa.

Em resposta à crise sanitária, os governos detiveram jornalistas por reportagens críticas, ampliaram a vigilância e aprovaram novas leis para punir alegadas “notícias falsas”, decidindo o que é permitido publicar, sem a supervisão de órgãos independentes apropriados.

Essas ameaças representam um ponto de inflexão na luta para preservar um jornalismo livre na Europa e as organizações da Plataforma instam os Estados-membros do Conselho da Europa a agirem rápida e resolutamente para acabar com os ataques à liberdade de imprensa, para que os jornalistas possam reportar sem medo.

Os parceiros da Plataforma – à qual o Sindicato dos Jornalistas se associa, neste Dia Mundial da Liberdade de Imprensa – pedem uma análise urgente às restrições e limitações impostas pelos governos à liberdade de expressão e de imprensa no contexto do estado de emergência, nomeadamente para aferir se são estritamente necessárias e proporcionais

As leis de estado de emergência descontroladas e ilimitadas têm resultado em abusos e impedido os media de relatarem e escrutinarem as ações das autoridades estatais.

Em Portugal, o Sindicato dos Jornalistas teve indicação, no início do estado de emergência, de tentativas de controlo dos media por algumas autarquias e de outras que optaram pela comunicação direta, através das redes sociais, sem lugar a perguntas. Por isso, o SJ escreveu a todos os municípios portugueses em defesa da importância do jornalismo, que se faz com escrutínio, mais ainda em tempo de crise.

Simultaneamente, o SJ recebeu denúncias da imprensa regional sobre a exclusão das suas perguntas nas conferências de imprensa sobre a covid-19.

O SJ reuniu-se com o Ministério da Saúde, há quase duas semanas, no sentido de encontrar uma solução que garanta a igualdade no acesso da imprensa regional e local. O Ministério da Saúde prometeu apresentar uma proposta dentro em breve.

A Plataforma considera que a crise em curso exige respostas mais urgentes e rigorosas para proteger a liberdade de imprensa e a liberdade de expressão e informação, além do apoio, com recursos financeiros, à sustentabilidade do jornalismo profissional independente.

Em tempos de emergência, proteger o jornalismo como vigilante da democracia tem de ser uma prioridade

 

Ver o original em 'GPS & MEDIA' (clique aqui)

Carta de um cidadão comum preocupado com as queixas do senhor Bastonário da Ordem dos Médicos

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Exmº Senhor Bastonário da Ordem dos Médicos,

Espero que esta carta o encontre bem de saúde e que não leve a mal estas humildes e despretensiosas linhas que lhe escrevo. Tomo a liberdade de me dirigir a Vª Exª para lhe pedir que, na medida do possível, evite nos tempos mais próximos fazer declarações públicas, as quais, não resolvendo nenhum dos problemas que denuncia, agravam o estado de ansiedade e de insegurança de boa parte dos cidadãos.

É capaz de não acreditar, mas saiba Vº Exª senhor Bastonário que as últimas vezes que o vi a falar nas televisões o meu ritmo cardíaco disparou perigosamente. A primeira vez não levei a sério, pensei que fosse coincidência. Mas não: os sintomas agravaram-se nas ocasiões seguintes. Se eu fosse mal intencionado diria que o senhor me faz mal à saúde. Em rigor talvez devesse dizer as suas declarações, embora, convenhamos, no seu caso, ator e atuação fundem-se na mesma entidade e performance.

Perdoe-me a ousadia de cidadão comum, mas não imagina como eu e várias pessoas das minhas relações andamos ultimamente tão temerosos. Não é caso para menos: à preocupação inicial com o vírus — que ainda por cima dizem-nos que é inteligente —, junta-se agora o medo provocado pelas suas palavras, que em doses regulares, como nos antibióticos, nos são ministradas através dos media.

Se calhar não dá conta, mas de cada vez que fala só lhe ouvimos queixas e denúncias de que está tudo mal — e se calhar está. Quem sabe, até, se o senhor Bastonário está certo nas previsões que leio nas entrelinhas das suas declarações e rosto pesado, de que se tivermos o azar de sermos infetados e cairmos numa cama hospitalar o melhor é encomendar logo a extrema unção. Bem sei que é um exagero, isto que digo, palavreado de homem comum, descomprometido e leigo na matéria. O senhor Bastonário jamais diria uma coisa nestes termos. Mas se deixarmos os punhos de renda das palavras à porta, tudo aquilo que anda a dizer — mesmo quando os números, sempre provisórios, mas apesar de tudo ainda longe da gravidade que recentemente se projetava — está longe de prestar um serviço à sociedade. Como seria seu dever ético e profissional. Tem de haver uma diferença entre o humor desgovernado das redes sociais e a atitude de responsabilidade institucional que o momento atual exige.

Em tempos complexos, difíceis e imprevisíveis como o que vivemos, concordará comigo se eu disser que precisamos de lideranças clarividentes e menos politiquice em campo.

Se o que espera cada um dos muitos cidadãos que, fatalmente, terão de ser tratados nos hospitais é o cenário apocalíptico que Vª Exª vai transmitindo em cada intervenção pública que faz, já imaginou o desassossego e ansiedade que lhes está antecipadamente a causar?... Não, não vale aqui o argumento de que importa denunciar e criticar o que está mal ou é insuficiente. No atual contexto, essas denúncias devem ser feitas para dentro, para que os efeitos se sintam cá fora. E não o inverso. Provavelmente nem se dá conta. Repare nesta recente troca de palavras num dos jornais da RTP:

— Diz o jornalista: “Os números atuais são positivos”. Ao que o senhor responde: “Os números são preocupantes”. Pergunta o jornalista: “Porquê?”. Eis a sua argumentação: “Estamos no 27º ou 28º dia da pandemia. Por esta altura não havia tantos casos em Itália nem em Espanha”. O jornalista volta à carga: “Mas em Portugal as medidas de prevenção foram tomadas mais cedo do que noutros países”. Na impossibilidade de contrariar o óbvio, o senhor Bastonário responde: “Mas poderiam ter ido mais longe”. O diálogo prosseguiu e o sentido das suas palavras azedas também, repisando “as milhares de chamadas” que recebe sobre a escassez de meios e equipamentos. E depois vemos os diretores de serviço ou clínicos do Curry Cabral e do S. João garantir que os meios existem.

Em última instância, os cidadãos querem ver e perceber que quando se diz que “estamos todos no mesmo barco” (por muito discutível que seja a metáfora) isso é verdade e autêntico. Quando milhares de potenciais infetados escutam as queixas e desconfianças permanentes do senhor Bastonário para com as instâncias que os hão de tratar, como pensa que todos nós nos sentimos? Que impacto imagina que tais palavras e comportamento têm em nós? Já pensou nisso, nos intervalos do combate político que vem travando? Há dias dei comigo a pensar onde é que Vª Exª aceitará ser tratado, se por um infeliz acaso também for infetado...

Como cidadão, não considero prioritário neste momento discutir o que poderia ou deveria ter sido feito antes. Não é este o tempo para confirmar se as balas estão dentro do prazo de validade. Também não é tempo para ressentimentos — aprendamos com Cuba, que enfrenta um embargo há 60 anos e mesmo assim enviou médicos para Itália.

Estamos de acordo que muito poderia e deveria ter sido feito antes, pois claro. Não deixa de ser irónico, aliás, observar que algumas vozes que hoje tanto se afadigam, escandalosas, a denunciar as fragilidades do SNS nunca tenham mexido um dedo na sua defesa. Reconheço, é claro, que muitos colegas seus — e o senhor episodicamente — vêm defendendo, sem êxito, a necessidade de se dotar o SNS de meios e condições. Não o tendo sido, incentivo-o, após esta crise pandémica, a estar na primeira linha da defesa de um SNS consistente, universal e que seja, de facto, como o atual Governo prometeu algures, uma séria prioridade nacional.

Nessa altura sim, como cidadão ficar-lhe-ei muito grato que defenda até às últimas consequências a aplicação de uma política de saúde pública que nos dignifique como povo e nação e me faça sentir orgulho no Bastonário que sabe distinguir o momento da crise do momento do combate político. E, sobretudo, que é capaz de estar do lado certo da História.

Na expectativa do melhor acolhimento, creia-me com toda a estima e consideração.

 
 

A motosserra do Sr. Rodrigo G. Carvalho

Guedes de carvalho   ministra

É hoje forte o sentimento na nossa comunidade que o SN de Saúde foi até à data o serviço público que tratou e salvou os doentes COVID-19, apesar de descapitalizado, atacado e desprezado pelos vários governos. Sem o SNS a pandemia teria dizimado muitos milhares de portugueses.

Aliás os países com um forte SNS responderam muito melhor à crise que os países onde os cidadãos que queiram ter acesso à saúde têm de a pagar.

Na verdade, serviços públicos fortes, modernos, desburocratizados e ao serviço das populações são elementos chave de um Estado moderno, democrático e vocacionado para proteger.

Ora esta conclusão óbvia não se encaixa nas ideias dominantes de sobrevalorização do papel do indivíduo prevalecente sobre o da comunidade que está em sintonia com a elevação da empresa a um novo paradigma de proteção estatal fundado num quase direito natural.

O que parece contar é a sorte das empresas, sobretudo as grandes. O Estado, a entidade “despesista e gastadora”, de repente tem de ir socorrê-las para a sua salvação. O tal Estado malfadado faz-lhes falta quando a iniciativa privada não está capaz de responder aos seus desafios próprio das sacrossantas leis do mercado. Vejamos de outro ângulo – quando há lucros fabulosos a ordem é arrecadar, quando há prejuízos a ordem é para lançar impostos e os cidadãos pagarem.

Há até quem candidamente defenda que o Estado garanta um empréstimo à TAP de 300 milhões de euros para salvá-la e entrega-la a reluzir à sociedade Barraqueiro/Neelman…que grandes capitalistas…

Parece ser uma nova religião que preconiza que o Estado subvencione os mais poderosos e sobrecarregue os que vivem da força do seu trabalho, como se o salário fosse um peso e sempre imerecido. Felizmente que muitos são os patrões que não têm esta visão, mas esses não têm voz nos media.

A iniciativa privada é essencial numa sociedade moderna, mas de acordo com as regras do mercado e não baseada no critério de que na sua atividade o risco é do Estado e o lucro do capital.

Aliás os lucros de algumas dessas empresas vão direitinhos para os “repugnantes” holandeses enchendo-lhes ao cofres e deixando o maldito Estado português à míngua, mas obrigado a socorrer os mesmos de sempre.

Quando chegar a hora de fazer contas vira o disco e toca o mesmo – austeridade. Não se pode tocar nos lucros, só nos rendimentos dos que trabalham e nesses pode ser à bruta porque aguentam, aguentam, como afirmou o célebre banqueiro…

Dinheiro já (não pode ser amanhã de manhã) a fundo perdido. E a vida das famílias, dos trabalhadores com menos um terço do vencimento?…Alguém deu conta da necessidade de remunerar mais dignamente os enfermeiros, os médicos, os cientistas das várias áreas sem os quais as mortes eram aos milhares…Já foi feito o ato de contrição sobre o sair da zona de conforto que levou milhares de enfermeiros e médicos portugueses a sair do país? Um dos rostos desse período negro aparece confortavelmente e todo pimpão, com ares de cientista, pianinho, pianinho, a botar postas de pescada sobre o coronavírus. Refiro-me a Sua Excelência o Paulino das Feiras, dos retornados, dos ex-combatentes, do irrevogável, do Vice-Primeiro-Ministro que ultrapassou na corrida Maria Luís e todo lampeiro perora na TVI. Ele é que sabe e por isso estendem-lhe a passadeira…Depois de tudo o que foi agora é virologista formado na Rua do Caldas.

Na SIC, em entrevista à Ministra da Saúde, o Sr. Rodrigo atirou-se como uma fera a propósito da comemoração do 1º de maio da CGTP e instou-a a esclarecer o que lá fazia Jerónimo de Sousa de cima dos seus setenta e três anos. Veja bem Sra. Ministra aquele velho desconfinado, um dirigente do PCP nas comemorações do 1º de maio…

O Sr. Rodrigo estabeleceu uma linha fortificada que ia da Alameda até à Cova da Iria. Queria a todo o custo saber porque não autorizara a peregrinação e a missa no santuário, em contraste com o que se passara na Alameda.

Marta Temido explicou o conteúdo da decisão presidencial contida no Estado de Emergência sobre aquela data e referiu as conversações com a Igreja que não passaram pelo modelo da Alameda.

Porém, como o Sr. Rodrigo se achava portador do inconfessável propósito da Ministra, a entrevista tornou-se num interrogatório. Com toda a simplicidade do mundo, um sorriso e um olhar firme teve de responder ao Sr. Rodrigo que estava ali para esclarecer e para tanto esclareceria. Foi então que ele deu conta que se acabara a gasolina da motoserra. Ficou a imagem de Marta Temido feliz com a resposta do SNS.

https://www.publico.pt/2020/05/04/opiniao/opiniao/sns-motoserra-senhor-rodrigo-g-carvalho-1914955

 
 

Ver original em ' O Chocalho' na seguinte ligação:

https://ochocalho.com/2020/05/04/a-motosserra-do-sr-rodrigo-g-carvalho/

“Prémio nobre” para jornalistas? Trump continua a confundir o Prémio Nobel com o Pulitzer

 

O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem confundido o Prémio Pulitzer e o Prémio Nobel. Além disso, parece não saber quem deu o nome ao Nobel.

 

De acordo com o Raw Story, Donald Trump, no seu Twitter, parece ter confundido o Prémio Pulitzer e o Prémio Nobel.

“Alguém percebe o significado do que é chamado Prémio Noble (não Nobel), especialmente no que diz respeito a repórteres e jornalistas? Nobre é definido como ‘ter ou mostrar boas qualidades pessoais ou altos princípios e ideais morais’. O sarcasmo funciona?”, escreveu Donald Trump no seu Twitter.

https://twitter.com/realDonaldTrump/status/1254544354603143168?ref_src=twsrc%5Etfw
 
 

 

O Prémio Nobel foi assim chamado em honra de Alfred B. Nobel, químico, engenheiro, inventor, empresário e filantropo da Suécia, que entregou a maior parte da sua fortuna para estabelecer o Prémio Nobel.

Além disso, não existe um Prémio Nobel de Jornalismo ou “Prémio Nobre”.

Segundo o Raw Story, Donald Trump parece estar a pensar no Prémio Pulitzer, que é um “prémio por conquistas em jornais, revistas e jornalismoonline, literatura e composição musical nos Estados Unidos”, segundo o site. O prémio foi batizado assim em honra de Joseph Pulitzer – e nada tem a ver com Alfred Nobel.

O Presidente Barack Obama recebeu prematuramente um Prémio Nobel da Paz ao entrar para a presidência dos Estados Unidos em 2009.

Donald Trump pediu a muitos aliados internacionais para indicá-lo para o Prémio Nobel, mas nunca conseguir ganhar. Este ano, o Prémio Novel da Paz foi atribuído ao primeiro ministro da Etiópia, Abiy Ahmed Ali. A ambientalista Greta Thunberg, o Papa Francisco, Donald Trump, e o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados eram os principais candidatos ao galardão.

ZAP //

 

 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/premio-nobre-jornalistas-trump-nobel-pulitzer-322105

Ela sabe do que fala


Paulo Portas é Vice-Presidente da Confederação de Comércio e Indústria de Portugal, para além de Presidente do Conselho Estratégico da Mota Engil para a América Latina. Desempenha também cargos de administração no board internacional de Petroleos de Mexico (Pemex) e faz ainda consultoria estratégica internacional de negócios, sendo para efeito founding partner da Vinciamo Consulting. Dá aulas de mestrado Geo Economics and International Relations na Universidade Nova e na Emirates Diplomatic Academy; dirige seminários sobre internacionalização e risco político para quadros de companhias multinacionais e é ainda presença frequente na televisão em comentários de política internacional e speaker da Thinking Heads em conferências. Foi ministro da Defesa, ministro dos Negócios Estrangeiros e Vice-Primeiro Ministro de Portugal.

Apresentação do “experto” Paulo Portas no sítio da Llorente&Cuenca, “a consultora líder na Gestão de Reputação, Comunicação e Assuntos Públicos em Portugal, Espanha e na América Latina”.

O pluralismo é inexistente na opinião em canal aberto, para milhões, onde a direita da facilitação de negócios domina, de Paulo Portas a Marques Mendes. E é tão desavergonhado esse domínio nos canais ditos privados. Algum pluralismo sobrevive envergonhadamente, para milhares, no cabo. E ninguém faz nada.

Enfim, aí vale sempre a pena atentar na opinião de Ana Gomes, aos domingos na SIC-N. Naturalmente, nem sempre estou de acordo com ela, em particular com o seu voluntarismo europeísta paralisante, mas valorizo uma coragem e frontalidade democráticas notáveis e que vêm de longe.

Ontem, questionada pelo jornalista sobre os apoios à comunicação social, escolheu, sobretudo, valorizar o serviço público, dando o exemplo da nossa excelente telescola, e denunciar o que apodou de lavagem de Paulo Portas, feita todos os dias na máquina da TVI.

Ela sabe do que fala.

 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Portugal | Os jornalistas no saco azul do GES e a teoria geral do funil

 
António Galamba | jornal i | opinião
 
 
Se as avenças existiram e, em quatro anos, nada foi feito, isso significa que, no atual quadro de indigência de vendas, de publicidade, de recursos e de estabilidade laboral, tudo é possível.
 
1. O funil é um acessório marginal dos nossos quotidianos; no entanto, em sentido figurado ou funcional, está presente em muitas das dinâmicas da sociedade portuguesa. Talvez já quase ninguém se lembre, mas perfizeram-se, no passado dia 23 de abril, quatro anos sobre a publicitação, com alarido, pelo Expresso de que havia um saco azul do Grupo Espírito Santo, assente no offshore ES Enterprises, que servia, entre outras coisas, para pagar avenças a políticos e jornalistas.
 
Quatro anos depois, o funil continua invertido, com a parte estreita a proteger a publicação dos nomes dos supostos, alegados ou reais jornalistas que, enquanto exercitavam o direito a informar, recebiam quantias de um dos maiores grupos financeiros de Portugal.
 
São quatro anos de um silêncio ensurdecedor, de uma complacência da classe e de uma vivência na penumbra de leitores, telespetadores e ouvintes, sujeitos a serem assaltados pela dúvida sobre se aquela notícia, aquele comentário ou aquela reportagem está enformada pelo rigor ou terá tido alguma distorção perturbadora da credibilidade, do tipo avença do saco azul do GES.
 
São quatro anos de vergonha alheia, porque há questões que não podem ser de geometria variável em função dos interesses particulares ou de grupo. São o que faz a diferença entre as principais linhas de separação em qualquer sociedade democrática, de direito e organizada segundo os padrões civilizacionais do Ocidente. Entre o sim e o não, numa matéria de credibilidade, de seriedade do exercício e de respeito por quem é o recetor das mensagens, a opção de quatro anos é um inacreditável silêncio. Um silêncio que acomoda e legitima a prática que desqualifica o exercício de escrutínio jornalístico quando dirigido a outros protagonistas do espaço público.
 
O drama é o do Pedro e o Lobo. É que, se as avenças existiram no tempo em que os órgãos de comunicação social estavam num patamar de saúde financeira muito superior ao panorama atual, se o princípio foi quebrado, ainda que por um dos seus membros, e nada foi feito, isso significa que, no atual quadro de indigência de vendas, de publicidade, de recursos e de estabilidade laboral, tudo é possível.
 
Não compreender, fingir que não existem ou dar cobertura corporativa a este tipo de práticas, ao fim de quatro anos, é colocar em causa a credibilidade do exercício, pela presença de uma ou várias maçãs podres que prosseguem em funções jornalísticas ou no universo do comentário, provavelmente sobre temas económicos. É que os próprios não assumiram, as estruturas representativas não se incomodam, e tudo vai cantando e rindo. E de vez em quando, nos temas mais díspares, quando estão em conflito direitos individuais com o direito a informar, o interesse público, lá invertem o funil e colocam a parte mais larga para fora, ampliando a informação ou os factos a projetar. O problema pode ser mesmo da idoneidade do titular do uso do funil. Quem o usa pode ter sido um dos avençados, e isso faz toda a diferença. Quatro anos de silêncio é muito tempo. Perante tamanha suspeita, um dia já era tarde, pelo mesmo critério jornalístico que aplicam a outros.
 
 
2. O funil dos bancos: isto anda tudo ligado. Também na banca há um funil que se posiciona em função de se saber se é para capitalizar o sistema bancário com dinheiro dos contribuintes, por causa do sacrossanto risco sistémico, ou se o que está em causa é socorrer as empresas e os empregos perante o tsunâmi económico pandémico, com soluções de empréstimos garantidos pelo Estado. Esta é uma daquelas áreas em que não há dúvida – ou, pelo menos, não deveria haver. Se correr mal, no final, o posicionamento do funil é o de maior abertura do lado dos contribuintes a carrear dinheiro para o estreito dos bancos. Infelizmente, depois do que foi feito pelos bancos e do que fizeram com perdões imorais a devedores, o funil permanece com a parte estreita virada para as empresas e para a manutenção do emprego, sendo fortes as probabilidades de o dinheiro não chegar onde devia durante esta semana e aumentar o caudal de desempregados em direção à Segurança Social. O problema é que a reincidência de desespero individual e comunitário tenderá a não ser tão pacífica como foi na crise pós-2008.
 
3.O exercício político do afunilamento: é desqualificante para a instituição parlamentar algumas das coisas que foram ditas em torno da cerimónia do 25 de Abril por alguns dos seus principais representantes. Num tempo cada vez mais digitalizado e com sustentados problemas de proximidade, por via da pandemia, é bom que existam mínimos de senso para não apoucar impulsos de participação cívica, por mais adversas que possam ser as considerações subjacentes a uma petição online. Aliás, dá que pensar que o confinamento e a polémica da sessão parlamentar tenham feito mais pela consciencialização dos mais jovens sobre o que foi o 25 de Abril do que dezenas de cerimónias em São Bento. Em casa ou nas janelas, confinados, há muito que não se falava e comemorava tanto Abril.
 
O problema do uso do funil para abafar os nomes de jornalistas que receberam avenças do saco azul do GES ao longo de 20 anos, como para obstaculizar o acesso a apoios de mitigação dos impactos económicos da pandemia nas empresas e no emprego, é que já ninguém é surdo a interpretar os silêncios, as atitudes e os truques.
 
Portugal enfrenta desafios tão grandes que exigem verdade, transparência e a máxima linearidade. A perceção da realidade é cada vez maior e, ao invés da cena do funil da Canção de Lisboa, não precisamos do funil no ouvido para compreender o que nos é pedido e o que é exigido.
 
NOTAS FINAIS
 
AFUNILAMENTO IDEOLÓGICO. Não foi o inebriar dos 150 anos do nascimento de Lenine que levou o PCP a defender o controlo digital dos cidadãos na China, para conter a pandemia, e estar contra o estado de emergência por limitações de direitos muito menos intrusivas. Não é defeito, é feitio.
 
AFUNILAMENTO PRAGMÁTICO. Agora que temos cada vez menos “Donos Disto Tudo”, o país está a ficar cheio de “Donos de Parcelas Disto Tudo”. Vinte e Cinco de Abril, idosos, soluções para a pandemia, certezas sobre o incerto. Está a ficar esquisito e pouco recomendável.
 
*Escreve à segunda-feira

Portugal | O nosso lay off

 
 
O DN está em lay off. Ao contrário do que no jornalismo se costuma dizer - que os jornalistas nunca são notícia - isso é obviamente notícia. E deve, creio, ser falado aqui mesmo, onde o lay off acontece, pelas pessoas que o vivem. Porque não está tudo bem, e talvez nunca mais fique.
 
Fernanda Câncio | Diário de Notícias | opinião
 
“Toda a vida ouvi a palavra lay off e nunca soube bem o que quer dizer."
 
A frase é de um colega do DN, mas podia ser minha. Como eu, ele é jornalista há décadas e viu muitas vezes este termo aplicado a outros. Como eu nunca teve a curiosidade de tentar perceber - perceber mesmo, de maneira a saber explicar - o que é um lay off. Até que chegou a nossa vez.
 
É irónico, muito. E diz muito sobre a forma como vemos o mundo, sobre o que consideramos importante saber e transmitir, o lugar onde nos colocamos, como entendemos as relações laborais e a importância que lhes damos. Diz muito sobre a forma como o jornalismo aborda isso a que se dá o nome de luta dos trabalhadores, de como provavelmente a maioria dos jornalistas desconhece noções básicas sobre o funcionamento do mercado de trabalho, da economia, do Estado social. Como nos afastámos, na cobertura noticiosa habitual, dessas matérias, a ponto de termos passado uma longa crise económica, entre 2008 e 2016, sem ter uma ideia clara sobre um mecanismo previsto no Código de Trabalho e criado pelo Estado para auxiliar empresas em situação difícil e tentar manter postos de trabalho, pondo a Segurança Social a pagar parte dos salários.
 
Acho que isto diz muito sobre a nossa falta de consciência social. A minha falta de consciência social. A minha falta de interesse pela realidade dos outros - o que é sempre muito mau em seja quem for mas muito pior num jornalista. Talvez a pior coisa que posso dizer de um jornalista seja isto, e estou a dizê-lo. Sobre mim.
 
 
Serve-me de pouco saber que não sou única, que eu e o meu colega não somos únicos; que a generalidade dos jornalistas, dentro e fora da redação do DN, e inclusive nos jornais económicos, não faz ideia do que seja o lay off, mesmo se muitos já terão até escrito sobre empresas e trabalhadores nessa situação.
 
Aliás, nas notícias que agora saem sobre nós, os trabalhadores da empresa Global Media - que detém o DN - em lay off, também não se explica em que consiste exatamente este mecanismo e sobretudo o que significa para aqueles a quem é aplicado. Como vi esta sexta-feira alguém dizer no Twitter, muita gente acha que lay off é despedimento. O facto de se tratar de uma expressão inglesa ajuda à confusão: afinal, lay off significa, à letra, "pousar fora" - como se nos pusessem à porta.
 
E é mesmo disso que se trata: os trabalhadores são postos fora das empresas, dos seus postos de trabalho durante um determinado período. Os seus contratos de trabalho são suspensos total ou parcialmente, consoante o lay off seja total ou parcial, e os seus salários diminuídos para dois terços (não podendo ser inferiores ao ordenado mínimo), sendo pagos em parte pela Segurança Social, que perdoa também à empresa o pagamento da taxa social única durante o período de lay off.
 
Esse perdão da TSU só se aplica, porém, à empresa; o trabalhador, apesar de ver o seu salário bruto diminuído, continua a pagar 11% de TSU e IRS (na taxa correspondente ao seu "novo" salário). Esta notícia - de que os trabalhadores nestas circunstâncias, ao contrário do que passa por exemplo quando se está de baixa ou a receber subsídio de desemprego, continuam a manter as suas obrigações contributivas - dei-a a duas colegas da Global Media, que tinham usado o simulador on line criado pela Segurança Social para perceber quanto iam receber e pensavam que o valor ali constante era líquido.
 
Partilhei com elas também outra descoberta desagradável: a de que até um determinado nível salarial - acima dos três mil e tal euros de remuneração ilíquida não é assim - o trabalhador em lay off recebe exatamente o mesmo quer esteja em regime parcial ou total. A diferença está na percentagem que a Segurança Social paga: é maior no salário do trabalhador em suspensão total. O que quer dizer, como comentou indignada uma colega da TSF, que se não estivesse a trabalhar (ela está com 25% de lay off, ou seja, terá de efetuar o trabalho correspondente a 75% do horário normal) receberia o mesmo. O que é realmente injusto, até porque ainda não percebi se as empresas são sequer obrigadas a pagar, na proporção dos dias que trabalhem, o subsídio de refeição aos que foram colocados em lay off parcial.
 
Tudo isto, note-se, descobri nos últimos dias, durante um processo muito rápido e durante o qual não existiu qualquer diálogo da administração com os trabalhadores do DN (nem, que eu saiba, com os dos outros títulos do grupo, nomeadamente TSF e Jornal de Notícias). Neste jornal soubemos na quarta-feira 15 de abril que íamos entrar em lay off porque a direção de Ferreira Fernandes e Catarina Carvalho se demitiu e indicou esse motivo. Os nossos delegados sindicais e o Conselho de Redação procuraram obter informação junto da administração, mas sem sucesso; cinco dias depois, na tarde de segunda-feira 20, recebemos um comunicado da administração a informar formalmente da intenção de nos colocar em lay off; cerca de três horas depois cada trabalhador recebeu uma comunicação informando que o lay off se iniciava nesse dia, especificando o regime que se lhe aplicava (suspensão total ou parcial), e qual o valor do salário durante o mês de duração da medida.
 
Apesar de a lei, mesmo no regime hiper-simplificado do decreto invocado (que faz parte das medidas de estado de emergência e restringe a aplicação à duração máxima de três meses, proibindo o despedimento nos 60 dias subsequentes), prever que os representantes dos trabalhadores sejam ouvidos -- naturalmente implicando que sejam informados dos motivos, extensão do lay off e respetivos critérios -- antes da comunicação definitiva, a administração da Global Media optou por não o fazer. O Sindicato de Jornalistas fez protesto público em relação a esta atuação da empresa e comunicou que vai participar dela por esse facto.
 
Também os trabalhadores do DN protestaram, em carta dirigida à administração e subscrita por todos, na qual solicitamos que nos forneça a informação que nos é devida e nos deveria ter sido prestada antes de a empresa declarar o lay off.
 
A situação laboral nas empresas é normalmente um assunto de interesse público e as empresas de comunicação social não são exceção; pelo contrário. É costume os jornalistas dizerem, para evitar falar destes assuntos, que não devem ser notícia. Mas isso não é verdade: quando recebemos prémios, quando o jornal sobe nas vendas ou nas visualizações ou cliques no site ou há qualquer outra coisa positiva para reportar noticiamo-la. A alegada regra só é invocada quando se trata de coisas negativas: despedimentos, demissões, conflitos editoriais, faltas deontológicas, condenações judiciais, lay off. Nesses casos, os outros meios reportam, enquanto aquele que está em causa se cala. Não concordo com isso e nunca concordei.
 
Entendo que aquilo que se passa num jornal, nomeadamente as condições em que é feito e a situação dos seus trabalhadores, deve ser do conhecimento dos seus leitores. Sendo o lay off um mecanismo de auxílio do Estado, ou seja dos contribuintes, esse dever de informação é acrescido.
 
"É o meu primeiro dia de lay off. Trabalho desde os 16 anos. Nunca tinha sido dispensada. Grande sorte só ser aos 51", escreveu Valentina Marcelino, jornalista do DN, esta quarta-feira no Twitter. Dois dias antes partilhara ali um artigo assinado por ela, comentando: "A preparar-me para o lay off de 50%." Estes dois tuites comoveram-me por várias razões - decerto porque estou na mesma situação, também eu com 50% de lay off e também eu, tendo 56 anos e começado a escrever em jornais aos 22, pela primeira vez; mas sobretudo por causa daquele "grande sorte".
 
É amargo, claro. E sarcástico. Mas é também o reconhecimento de que até agora víamos isto como algo que acontecia aos outros, algo que não nos dizia respeito. Escrevíamos sobre a luta de outros trabalhadores pela manutenção dos seus postos de trabalho e pela viabilidade das suas empresas, mas de fora. Sem nunca sabermos realmente o que lay off queria dizer. Agora sabemos. Alguma coisa boa se retire disto.
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/04/portugal-o-nosso-lay-off.html

O pesado verbo da ignorância

O homem que vende antídotos e milagres me assusta, decerto. Mas o que assusta mais é a turba cega, surda, sedenta. Nero, Mussolini e Hitler sem essa multidão guiada, não seriam nada mais que homens. Homens bem frágeis até.

 

 

Um homem louco dita regras na televisão. E uma turba obediente e insana grita palavras de ordem. Me faz lembrar Bauhaus tomada, me faz lembrar Roma sob as chamas ou a República de Salò, onde morei por alguns meses, com seus jardins assustadoramente simétricos e suas organizadíssimas construções. A turba furiosa me lembra os anos sessenta, os cassetetes dos soldados na cabeça dos estudantes, os ratos invadindo o corpo das mulheres, a tortura constitucionalizada, aquele delegado do DOPS fumando um cigarro e decidindo o destino de rapazes imberbes, escolhendo qual mãe iria chorar de desespero aquela noite.

Me pergunto que filme é esse que não param de rebobinar. Se somos mesmo essa reedição grotesca onde fanáticos por sangue e ordem fundam clubes. Clubes disfarçados de igrejas. A Igreja Universal, o Reino de… É tudo tão grandioso. O homem louco quer ir longe. O homem na tv, com sua cabeça de leão vaidoso, esbraveja e diz absurdos, e a turba ri. Ri, aplaude. Nem sabe que morre a cada aplauso, nem sabe que mata em si o amor próprio e mata no outro qualquer possibilidade de democracia, mas ri e aplaude. Nossos heróis foram mortos e tantos outros suicidaram-se de corrupção. Não há ninguém além do homem na tv, que enterra corpos na surdina, que leva sua voz até os microfones das igrejas, que faz do seu plenário um templo, que vende fé aos miseráveis, coisa pouca e mínima, mas essencial a sanidade da alma.

O homem que vende antídotos e milagres me assusta, decerto. Mas o que assusta mais é a turba cega, surda, sedenta. Nero, Mussolini e Hitler sem essa multidão guiada, não seriam nada mais que homens. Homens bem frágeis até. Com seus problemas de auto estima, com seus traumas de infância, seus Complexos de Édipo, suas dificuldades de ereção. Esses homens, com suas genitálias sutis carregando enormes fuzis para disfarçarem o medo do ridículo seriam personagens mambembes, caricaturas. Riríamos deles, lhes atiraríamos tomates não fosse a turba que projeta e vê com tanta definição nessas criaturas, a sua própria loucura.

Seria fácil cuidar do homem na tv. Encontrar-lhe um hospício decente ou um circo para que ele se apresentasse e fosse feliz. Mas uma turba não se gerência assim tão fácil. Ela se esconde atrás do rosto plácido do leiteiro, do olhar paciente do taxista, do ar gentil do banqueiro, da bondosa senhora que alimenta os pássaros na praça, mas que sangraria um ser humano pela garganta caso esse ameaçasse a gorda pensão de seu falecido marido militar. A turba enlouquecida está nas retinas do pastor milionário, mora entre os lábios do senador vendido, se aloja nas pastas dos jovens deputados que ainda titubeiam o passo.

A turba insana está dentro de casa, no discurso católico-purista da mãe, nos comentários machistas do pai, na mão do rapaz que se levanta contra a namorada e que a mata se for preciso, caso seja contrariado. A turba enlouquecida está por toda parte, tão disponível e de fácil acesso quanto o sonho da padaria, quanto o pão que sai do forno todos os dias.

A turba enlouquecida, essa que elege ditadores e que para eles levantam estátuas, que os chamam de messias e mito, e que diz em alto e bom som que os fins justificam os meios ao ouvir do homem na tv que ladrão bom é ladrão morto, somos nós…


 

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/homem-na-tv-o-pesado-verbo-da-ignorancia/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=homem-na-tv-o-pesado-verbo-da-ignorancia

Não puxem o coelho pelas orelhas

Caros camaradas jornalistas do Correio da Manhã, O título da notícia que foi publicada na vossa newsletternão é verdadeiro. Se consultarem o diploma que regula lay-off simplificado, no seu artigo sobre o financiamento, verificarão que as despesas com esse dispositivo é coberto pelo Orçamento de Estado - e não pelo Orçamento da Segurança Social. O lay-offpode ser criticado por muitas coisas - desvalorizar o trabalho, repartir desigualmente o esforço da crise (cortando nos rendimenros do trabalho e criando poupançasnas empresas), dar dinheiro público a donos de empresas que não precisam, pode ser ineficaz em manter o emprego - mas nunca por fazer perigar as pensões (reformas). Por outro lado, a dimensão do desemprego não é - ainda - de dimensão para afetar perigosamente as pensões. Em terceiro lugar, a Segurança Social dispõe de um muito apetecível fundo de estabilização financeira, dotado de várias milhares de milhões de euros para fazer face a emergências. Portanto, a que se deve esta manchete? Se o argumento é ter sido o director de fecho a fazê-la para puxar as vendas do jornal, pois têm muito bom remédio. Protestem. Porque é o vosso nome de autores da notícia - que aliás está lá bem visível no topo da notícia colocada às 1h - que vai estar em causa.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Há um problema com a representação jornalística da violência doméstica

A APAV está preocupada com o aumento dos mulheres vítimas de...

Portugal tem um problema de violência doméstica grave e persistente. A forma como o tema é tratado nos blocos informativos das televisões de sinal aberto não está a contribuir como devia para a erradicação das desigualdades de género e para a compreensão das estruturas sociais discriminatórias que cobrem este atentado aos direitos humanos.

Chamam-lhe violência doméstica mas é exercida de forma selvagem. Os crimes contra mulheres ocorridos no contexto das relações de intimidade ou familiares são um problema transversal na sociedade portuguesa e colocam desafios sobre a melhor forma de os relatar. Em 2018, por exemplo, foram cometidos 24 femicídios e 16 mulheres sobreviveram a atentados contra a sua vida.

Um estudo da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) intitulado «Representações da Violência Doméstica nos Telejornais de Horário Nobre» [1], apresentado em Novembro de 2018 na NOVA/ FCSH, revela pouca reflexão dos jornalistas relativamente às questões sensíveis colocadas pelo tema. As notícias dos telejornais não contribuem para eliminar os estereótipos de género e dificilmente permitem olhar para as televisões como úteis na criação de percepções socialmente mais positivas e politicamente mais comprometidas na luta contra a violência doméstica.

Este é um crime público bem identificado em Portugal. Vários planos e estratégias nacionais de prevenção e combate incluem a comunicação social nos parceiros fundamentais para promover uma cultura livre de estereótipos sexistas e promotora da igualdade de género. Mas a informação disponível, tanto estatística como teórica, não parece ter impacto positivo na forma como os casos são noticiados nos telejornais de horário nobre dos canais generalistas. O estudo, conduzido pelo Departamento de Análise de Media da ERC, mostra como a mediatização televisiva continua a ser parcial, sensacionalista e fragmentada.

As televisões (RTP1, RTP2, SIC e TVI) reduzem o problema da violência doméstica aos homicídios. Organizações feministas, como a UMAR – União de Mulheres Alternativa e Resposta, que mantém desde 2004 um Observatório das Mulheres Assassinadas, preferem o termo femicídio, originalmente introduzido em 1976 por Diana Russell, para enquadrar o crime numa estrutura social sexista e patriarcal. Ao contrário do que ainda ouvimos nas notícias, os crimes não acontecem por «ciúmes», «alcoolismo», «adultério», «fim da relação» ou outros motivos que surgem associados. Acontecem porque as vítimas são mulheres e reproduzem de forma extrema assimetrias de poder e situações prevalecentes de desigualdade de género. São o resultado de uma cultura patriarcal que transfere para as relações afectivas modelos de dominação enraizados na estrutura de valores e comportamentos.

A ERC mostra preocupação com a classificação genérica da maioria dos crimes noticiados, sem elementos de sensibilização que os enquadrem na situação específica da violência doméstica. Referir a morte das mulheres atingidas por companheiros ou familiares como «assassinatos» ou «homicídios» dilui o agravo de agressões que acontecem em relações de intimidade entre parceiros ou ex-parceiros. Existe um risco de banalização da violência doméstica, já perceptível no facto de a maioria das peças jornalísticas sobre este tema não merecerem qualquer destaque nos alinhamentos dos telejornais.

Usar a expressão «crime passional» indica falta de rigor (não existe tal formulação plasmada na lei) e tem o efeito perverso de poder atenuar a responsabilidade do agressor. O estudo da ERC é taxativo: «o crime pode ser confundido com amor (…) é conveniente que fique claro que não se mata por amor».

As notícias televisivas estão saturadas de detalhes sem valor informativo e tendem para o sensacionalismo. Essa abordagem é visível quando os pormenores sórdidos do crime são enfatizados, explorando a carga dramática. Manifesta-se no uso de efeitos expressivos (como música ou sons que pontuam emocionalmente a narrativa) ou através de reconstituições que, pela sua natureza «fabricada», ficcionalizam a partir de situações reais. São formas de contar a história que espectacularizam os factos e visam fascinar ou entreter o espectador, mais do que informar com rigor sobre a dimensão real do problema. Um exemplo é a preferência pelo relato de homicídios, que não são os crimes mais cometidos contra as mulheres. Essa escolha contribui para uma visão deformada e omite as formas de violência mais comuns, as agressões físicas e psicológicas, contribuindo para o apagamento e invisibilidade destes actos.

Efeitos negativos dos testemunhos privilegiados

Outra opção jornalística problemática é a preferência pelos depoimentos de populares, normalmente vizinhos ou transeuntes sem relação directa com a vítima ou conhecimento particular das circunstâncias do crime. É um recurso expedito para uma co- bertura «em cima do acontecimento» mas com pretensões a encontrar uma explicação ou móbil para o crime. Estes depoimentos não verificados transmitem detalhes da conduta da vítima e da sua vida privada que podem imputar-lhe responsabilidades pela violência de que foi alvo. Ou, pelo contrário, mas com idênticos efeitos de naturalização do crime, atenuam a responsabilidade do agressor, ao atribuir-lhe qualidades positivas. O femicídio é representado como um gesto fortuito ou imprevisto, praticado por «boas pessoas», quando os estudos indicam que, em regra, corresponde ao culminar trágico de um padrão nefasto de relação amorosa ou familiar.

A ERC constatou que as peças jornalísticas orientadas para o acontecimento (os crimes) tendem a favorecer a presença de vox populi e, por consequência, a gerar estes efeitos. Já nas peças orientadas para a problemática (a violência doméstica), a selecção das fontes de informação é mais diversa e cuidada, surgem os especialistas, académicos e membros de associações não-governamentais de apoio às vítimas e não são utilizados tantos descritores individuais indutores de percepções descontextualizadas.

Os défices de diversidade prolongam-se a vários níveis, já que as fontes mais utilizadas, depois dos populares, são os agentes policiais ou de socorro (bombeiros), normalmente homens, agravando as assimetrias da representação de género. Em vez de serem contadas como episódios com um enorme lastro social, correspondendo a situações de vitimação prolongada e consequências devastadoras para as famílias envolvidas, a narrativa noticiosa foca-se na trama policial e criminal, valorizando mais os actos dos agressores do que os efeitos sobre as vítimas. As peças são ainda pouco diversas do ponto de vista dos géneros jornalísticos. O registo dominante é o informativo (notícias e entrevistas), sendo reduzidos os comentários e a opinião, que ajudariam a enquadrar os casos singulares. Existem reportagens mas desligadas de elementos investigativos.

As notícias são omissas em relação a descritores significativos, como a idade e, sobretudo, a profissão das vítimas, não ajudando a caracterizar a violência doméstica como um problema que afecta mulheres de todas as idades, classes sociais, estratos económicos e níveis de literacia. A profissão das vítimas tende a ser referida apenas quando se trata de trabalhos qualificados, sugerindo que esses casos são excepcionais. Basta consultar qualquer uma das organizações (APAV – Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, CIG – Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género, UMAR) que trabalham esta problemática para verificar a transversalidade da violência doméstica.

Outra tendência verificada na mediatização das peças é a ausência de remissão para linhas de apoio às vítimas ou formas de ajuda institucionalizadas [2]. Esse é um elemento que ajudaria a reduzir a sensação de impotência que atinge quem está envolvido em situações de violência doméstica. Os especialistas presentes no debate que se seguiu à apresentação do estudo foram unânimes no reconhecimento de que a disseminação de «histórias de superação» tem um efeito benéfico sobre outras mulheres experienciando vivências similares. Também consideraram útil referir as punições elevadas ou medidas de coacção aplicadas aos agressores, embora estes elementos nem sempre estejam presentes nas notícias.

Os enquadramentos noticiosos dominantes desvelados pela equipa da ERC dificilmente sustentam a tese de que os media contribuem para a erradicação da desigualdade de género e a compreensão de estruturas sociais discriminatórias e atentatórias dos direitos humanos que «envelopam» a violência doméstica. As televisões não recorrem aos elementos de contextualização que ajudariam a quebrar a lógica episódica e fragmentada das notícias, não valorizam os testemunhos de mulheres que conseguiram libertar-se da situação de submissão e vivem vidas independentes, e não divulgam as soluções existentes na sociedade nem o trabalho que é feito no terreno pelas organizações do sector. Com frequência, fazem exactamente o contrário, relatando casos isolados em que houve falha das autoridades na aplicação de medidas de coacção ao agressor e na protecção da vítima ou menor acompanhamento institucional, desencorajando as denúncias e promovendo uma narrativa resignada e de factos consumados.

O estudo da ERC termina com uma série de recomendações para jornalistas. Investir na contextualização das histórias e na diversidade das fontes de informação e das formas de violência doméstica lidera a lista de boas práticas. Evitar relações de causalidade entre o crime e as características dos envolvidos, bem como as referências a possíveis causas que possam justificar a agressão e simplificar o fenómeno social também são procedimentos recomendados. No fundo, trata-se de exigir dos jornalistas uma literacia sobre o tema que des-automatize as narrativas habituais e reforce a responsabilidade social dos media na construção de percepções públicas que tornem intoleráveis as práticas violentas e a cultura que as geram.

CARLA BAPTISTA *

* Docente na NOVA/FCSH.


[1] O estudo analisa a informação noticiosa sobre violência doméstica apresentada entre 2013 e 2015 nos blocos informativos dos operadores de sinal aberto (RTP1, RTP2, SIC e TVI). Disponível em www.erc.pt/pt/estudos-e-publ....

[2] Telefone gratuito do Serviço de Informação às Vítimas de Violência Doméstica: 800 202 148.

Ver o original em Le Monde Diplomatique PT (clique aqui)

Medidas excepcionais de apoio à comunicação social

O PCP apresentou um projecto de lei de apoio à comunicação social, nomeadamente às rádios locais, imprensa local e regional, LUSA, RTP, e de salvaguarda dos direitos dos trabalhadores do sector.

Créditos / Photo by Filip Mishevski on Unsplash

No preâmbulo do projecto, os comunistas justificam esta iniciativa com a necessidade de defender os «direitos laborais dos profissionais da comunicação social, bem como para garantir que a RTP, a Lusa e a comunicação social local e regional» tenham condições para o «cumprimento das suas funções». Chamam também a atenção para o facto de a realidade sentida no sector da comunicação social, em tempos de epidemia, não estar desligada dos problemas estruturais que afectam o sector, nomeadamente a concentração da propriedade de órgãos de comunicação social, de plataformas de media e diferentes formas de produção e divulgação de conteúdos, «num punhado de grupos económicos».

Concentração essa que, segundo o PCP, por um lado, agrava os problemas dos trabalhadores do sector, «sujeitos a constantes processos de “reestruturação”» e, por outro, «faz crescer, para os maiores destes grupos, o volume de negócios, os lucros acumulados e as novas concentrações de propriedade», permitindo que estes usem «o poder económico de que dispõem e os meios dos quais são proprietários para produzirem os conteúdos mais convenientes à sua lógica de mercado». Um poder que lhes permite divulgar ou não a informação, conforme os «seus interesses económicos, políticos e ideológicos».

Por fim, os comunistas consideram que a «defesa do pluralismo, das liberdades de imprensa, de expressão e de informação, é inseparável da valorização dos jornalistas e de todos os profissionais do sector e do combate à concentração da propriedade dos meios de comunicação social».

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/nacional/medidas-excepcionais-de-apoio-comunicacao-social

Covid-19: Como a mídia agitou o público em um frenesi anti-China

 

Uma nova pesquisa da Harris descobriu que, em meio à crise, a atitude do público estadunidense em relação à China se transformou de indiferente para hostil. 77% do país culpa a China pelo surto, com 54% afirmando que os chineses devem reparações aos EUA por serem o epicentro do surto. O público também acredita que a China agiu de maneira irresponsável: apenas 23% consideram o presidente Xi Jinping uma fonte confiável de informações sobre o vírus e, se comprovado que subnotificou seus casos, mais de 80% exigem uma guerra econômica total contra a nação chinesa.

Praticamente todos os países do mundo estão subnotificando seus números, incluindo os Estados Unidos. Por exemplo, oito vezes mais nova-iorquinos morreram em suas casas em comparação com o ano passado. Muitos sob forte suspeita de terem morrido de COVID-19, mas como não morreram em um hospital, eles não são adicionados à contagem oficial. Os resultados da pesquisa são relativamente bipartidários, com 88% dos republicanos e 78% dos democratas favorecendo a imposição de sanções econômicas em larga escala; a diferença é que os republicanos querem que Trump faça isso unilateralmente, os democratas exigem aprovação do Congresso. Como tal, as duas posições representam um microcosmo perfeito de décadas da política externa dos EUA.

Apesar do tratamento incompetente da pandemia por parte do governo Trump (durante semanas, Trump alegou que se tratava de um “embuste” liberal e que não era grande coisa) 58% do público culpou a China pela disseminação do coronavírus nos Estados Unidos; apenas 42% culparam seu próprio governo. 50% dos americanos queriam que Trump fosse “duro” com a China, em comparação com apenas 17% que defendiam uma abordagem mais diplomática.

A condenação da China por parte do público estadunidense contrasta fortemente com a reação de organismos internacionais de saúde como a Organização Mundial da Saúde (OMS), que tem equipes em campo há meses. A OMS elogiou o “compromisso com a transparência” da China, exaltando a rapidez com que identificou o vírus e compartilhou informações com o mundo. “Eu nunca vi o comprometimento e a proporção de uma resposta epidêmica nesse nível em termos de todo o envolvimento governamental”, disse o Dr. Michael Ryan, diretor executivo da OMS para emergências de saúde, elogiando a organização do Estado chinês. “O desafio é grande, mas a resposta tem sido massiva e o governo chinês merece imenso crédito por esse retorno e pela transparência com que lidou com a situação”.

De onde, então, vem o fomento de tal atitude do público norte-americano? Uma fonte tem sido de políticos como o senador do Arkansas, Tom Cotton, que sugeriu, sem evidências, de que o novo coronavírus realmente começou sua vida em um “superlaboratório” chinês, e então, presumivelmente, liberado ou acidentalmente descarregado sobre a população. Três em cada dez americanos concordam com a teoria de Cotton, de acordo com pesquisa publicada pelo Pew Research Center. Apenas quatro em cada dez acreditam que o vírus surgiu de forma natural.

Outro impulsionador do sentimento anti-chinês tem sido a mídia. Mesmo quando a China faz algo inquestionavelmente positivo, como doar cargas de equipamentos médicos para países europeus, a CNN mostra Pequim como ardilosa, a qual tenta apenas “desviar a culpa” e busca “ganhar favores”.

Enquanto isso, o Washington Post escreve que “trabalhar juntos para enfrentar o mau comportamento da China não é apenas um imperativo de segurança nacional. É também uma política inteligente”, alegando que apenas a “extrema esquerda” poderia desejar um relacionamento mais amigável com a China, até mesmo fazendo acusações* contra Joe Biden por não ser suficientemente incriminador de Pequim.

Como resultado da cobertura da mídia, uma epidemia de xenofobia anti-chinesa também se espalhou pelos EUA, afetando negativamente muitas comunidades asiáticas não chinesas. Uma mulher tailandesa foi vítima de ataques racistas no metrô de Los Angeles, os hotéis de Indiana se recusaram a servir dois homens Hmong, alegando que provavelmente tinham coronavírus, e estudantes vietnamitas na Califórnia foram intimidados e abusados ​​na escola por turmas gritando “coronavírus”. Racistas não são conhecidos por possuir conhecimentos precisos de cultura e geografia.

A culpabilização da China não é apenas um meio de desviar a atenção da resposta sem brilho de Washington à pandemia. Como o MintPress relatou em fevereiro, a solicitação de orçamento do Pentágono para 2021 exigiu 705 bilhões de dólares para “mudar o foco das guerras no Iraque e no Afeganistão e dar uma ênfase maior aos tipos de armamentos que poderiam ser usados para enfrentar gigantes nucleares como Rússia e China”.

A equipe de política externa de Joe Biden também é favorável à intensificação do “pivô para a Ásia” de Obama – uma tentativa de cercar militarmente e asfixiar a nação asiática emergente. Sua “prioridade principal” caso chegue ao poder, de acordo com um artigo recente, é combater o “desafio chinês”, decidindo “qual nível de sanções os Estados Unidos devem impor” sobre Pequim e “o quão longe os EUA devem ir”. Se assume como inquestionável que Washington tem o direito legal ou moral de realizar esse tipo de ação.

Embora o novo ataque à China, tanto de políticos quanto da imprensa, possa ser visto como uma tentativa de afastar a culpa do governo Trump e evitar a auto-reflexão, ele também pode ser visto como uma tentativa cínica de fabricar o consentimento para uma guerra com Pequim que vem sendo construída há anos. E, de acordo com a pesquisa da Harris, está funcionando. “Culpar a China” pode se transformar em pedidos para “bombardear a China” mais cedo do que pensamos.

Notas:

*Red-baiting: isca vermelha em tradução livre. Tentar minimizar ou difamar seu oponente político acusando-o de comunista. (Nota do Tradutor)

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Ver original em 'Revista Opera' (aqui)

UNIVERSIDADE POPULAR DO PORTO – VÍDEO CONFERÊNCIA SEGUIDA DE DEBATE -“AMEAÇAS À LIBERDADE DE EXPRESSÃO. AS NOVAS CENSURAS”, COM A PARTICIPAÇÃO DE JOSÉ GOULÃO – AMANHÃ, QUINTA-FEIRA, 23 DE ABRIL, ÀS 18H.


VÍDEO CONFERÊNCIA SEGUIDA DE DEBATE

AMEAÇAS À LIBERDADE DE EXPRESSÃO. 

AS NOVAS CENSURAS.

COM A PARTICIPAÇÃO DE JOSÉ GOULÃO

AMANHÃ, QUINTA-FEIRA, 23 DE ABRIL, ÀS 18H.

Entrada livre, sujeita a inscrição prévia

(enviar para geral@upp.pt ou upp.secretaria@gmail.com, indicando nome, email e telemóvel, para remessa de senha de acesso)

Lotação limitada

 

JOSÉ GOULÃO é jornalista há 46 anos, tendo dedicado grande parte da carreira à política internacional, sendo um reconhecido conhecedor das questões do médio oriente. É autor de obra literária sobre informação e temas de política internacional. Desde 2018 dirige o jornal digital de informação internacional O Lado Oculto-Antídoto para a propaganda global.

José Goulão na conferência que vai proferir afirma que uma comunicação social livre, no atual quadro nacional e mundial, é pura ilusão.

Não existe uma comissão de censura institucionalizada, mas o grau de controlo, seleção, manipulação e confeção da informação fazem com que sejamos vítimas de um processo de adulteração de factos e realidades muito mais nocivo que uma censura de lápis azul e coronéis.

O jornalismo e a comunicação social não são o quarto poder; são antes pilares essenciais de um edifício de controlo financeiro, económico, político e social projectado com dimensões globais e servindo um pensamento único – imposto através da cultura da opinião única.

O sistema é gerido por uma máquina monstruosa que não só impõe o domínio da verdade única como combate e tenta trucidar todas as tentativas de confronto de ideias e de investigação séria de factos e realidades – condenando à morte o jornalismo independente.

Como identificar os mecanismos da manipulação informativa, como resistir às campanhas da censura, como aceder a fontes de informação verdadeira e credível, estas são questões de atualidade que estarão em debate nesta conferência.

 

INFORMAÇÕES E INSCRIÇÕES

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Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/04/22/universidade-popular-do-porto-video-conferencia-seguida-de-debate-ameacas-a-liberdade-de-expressao-as-novas-censuras-com-a-participacao-de-jose-goulao-amanha-quinta-feira-23-de-abril-as/

“Será justo o Governo dar 15 milhões?”. Rui Rio questiona apoios à comunicação social

 

 

O líder do Partido Social Democrata (PSD), Rui Rio, considera injusto os apoios na ordem dos 15 milhões de euros destinados à comunicação social atendendo ao facto de o Governo não estar a apoiar outros sectores de atividade essenciais e de não pagar às empresas a “tempo e horas”.

 

“Será justo o Governo dar 15 milhões às empresas de comunicação social quando não o faz às outras e quando a muitas delas (designadamente às da Saúde) nem sequer paga o que deve a tempo e horas? E será correto que o faça por compra de publicidade ao Estado que ele próprio gere?”, escreveu no Twitter, citado pelo Expresso.

https://twitter.com/RuiRioPSD/status/1252691789611483137?ref_src=twsrc%5Etfw

 

A 17 de abril, o Governo aprovou a compra antecipada de publicidade institucional no valor de 15 milhões de euros, para apoiar os órgãos de comunicação social e compensar a forte quebra de receitas publicitárias.

 
 

Segundo a ministra da Cultura, Graça Fonseca, o valor será distribuído “face ao que cada um representa no sector da comunicação social em Portugal”.

ZAP //

 
 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/justo-governo-15-milhoes-rio-apoio-media-320643

Vem aí um novo disco rachado

E, pronto, já cansados
da polémica sobre o
25 de Abril, agora
voltam-se para o 1º de Maio

 
Quem assim escreve fala do que não sabe e prefere a especulação à informação responsável e fidedigna. E sobretudo omite que a CGTP já declarou em 14 de Abril o seguinte : «Esta Jornada Nacional de Luta terá um vasto conjunto de componentes de informação, denúncia e reivindicação, nos locais de trabalho e nas ruas, com muito ampla divulgação digital.E, não sendo possível realizar as manifestações e concentrações que juntariam muitos milhares de trabalhadores em todo o País, iremos dar expressão à indignação, protesto e reivindicações dos trabalhadores nas mais diversas formas. Estaremos na rua, garantindo as necessárias medidas de protecção e distanciamento.»
E não é preciso ser muito criativo para imaginar que tipo de acções poderá a CGTP organizar que respeitem aquele seu compromisso solene e que certamente serão em concreto divulgadas até ao 1º de maio já que ainda faltam oito dias. Não se afobem nem enervem.

 

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

O apagão mediático português no Brasil

Em 2000, ao fazer o balanço das comemorações dos 500 anos da descoberta do Brasil, Eduardo Prado Coelho escrevia que Portugal, se quisesse assegurar uma presença relevante além Atlântico, teria de “actuar em termos muito intensos de indústria cultural e ocupação mediática”. De então para cá, nada disso aconteceu, bem pelo contrário – globalmente, a presença mediática portuguesa no Brasil, nestes últimos vinte anos, recuou.

 

 

Há duas décadas atrás, no dia 22 de abril de 2000, a cerimónia final das comemorações dos 500 anos da descoberta do Brasil terminava em tons sombrios.

Concebida para culminar em apoteose, celebrando ao mesmo tempo a nacionalidade e as boas relações com Portugal, a festa em Porto Seguro, com a presença de Fernando Henrique Cardoso e Jorge Sampaio, ficou marcada pelo descontentamento dos índios e o melancólico episódio da réplica de uma caravela quinhentista que era suposto singrar triunfalmente até Salvador, mas meteu água e acabou por naufragar…

Enquanto isso, apoiados pelo Movimento dos Sem Terra e pela Igreja Católica – Conselho Indigenista Missionário, órgão da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil –, largo número de índios pataxós, xavantes e outros irrompia no recinto do evento contestando as celebrações, acabando por envolver-se em violentos confrontos com as forças policiais que garantiam a segurança do local.

Era o eclodir, uma vez mais, da(s) nunca inteiramente superada(s) fissura(s) da nacionalidade brasileira, na qual se confrontam até hoje – entre índios, negros, brancos luso-descendentes e outros – diferentes e por vezes contraditórias narrativas sobre a própria identidade. Da independência para cá, o “todo homogéneo e compacto” de cuja necessidade já falava José Bonifácio avançou muito; primeiro, logo na segunda metade do século XIX, quando da guerra do Paraguai (1864-1870), em que participaram milhares de escravos, e depois, na segunda metade do século XX, com o avanço das comunicações e graças, em particular, à difusão nacional da rede Globo garantida pelos militares. Mas hoje ainda persistem discrepâncias e clivagens internas, como ficou patente então em Porto Seguro.

Resultado dessas diferentes correntes que percorrem a ideia nacional, a visão do Governo brasileiro nas comemorações dos 500 anos já não era à partida – apesar das aparências – coincidente com a visão portuguesa. Enquanto Portugal tendia a celebrar a grandeza do seu passado histórico, o Brasil assinalava 500 anos de existência, uma vez que – de acordo com a sua auto-imagem – esta não se conta apenas a partir da independência. Depois, com as manifestações e confrontos de Porto Seguro, a própria ideia que Portugal até hoje alimenta de um passado colonial mais ou menos benigno, de que o Brasil seria o melhor exemplo, também foi questionada.

Em 2000, ao fazer o balanço das comemorações dos 500 anos da descoberta do Brasil, Eduardo Prado Coelho escrevia que Portugal, se quisesse assegurar uma presença relevante além Atlântico, teria de “actuar em termos muito intensos de indústria cultural e ocupação mediática” (Coelho, PÚBLICO, 2000). De então para cá, nada disso aconteceu, bem pelo contrário – globalmente, a presença mediática portuguesa no Brasil, nestes últimos vinte anos, recuou. Em termos televisivos, por exemplo, os media portugueses no Brasil estão reduzidos à presença da SIC na rede de distribuição por cabo e da RTP na difusão por satélite. A RTP estava antes também no cabo, mas a Globo retirou-a em 2004 e nem os esforços da televisão pública nem a ação da diplomacia portuguesa conseguiram até hoje reverter a situação. Entretanto, nem a SIC nem a RTP têm programação própria para o Brasil, limitando-se basicamente a compor as suas grelhas com base nos programas que já têm em Portugal, sem qualquer esforço específico de adaptação, apresentação ou marketing para o mercado brasileiro, não dialogando, portanto, verdadeiramente com a população do país e sendo por isso vistas essencialmente pelos diferentes núcleos das comunidades portuguesas. Por outro lado, inexplicavelmente, a televisão pública tem há muito um canal RTP-África, mas nunca teve nem tem uma RTP-Brasil.

Nestas circunstâncias, não espanta que os progressos conseguidos em meados da década se tenham perdido e hoje as notícias de/sobre Portugal acabem por ser difundidas no Brasil por outras agências, em particular a espanhola EFE.

Por seu turno, a Lusa, depois de uma aposta forte no final dos anos 90, quando – acompanhando o começo da internacionalização da economia portuguesa pelo Brasil – chegou a ter um escritório em Brasília e um correspondente em São Paulo, acabou, ao cabo de poucos anos, por desistir do plano estratégico de se transformar na grande agência de comunicação do mundo lusófono. Depois, entre 2004 e 2010, ainda tentou uma nova estratégia, apostando na “tropicalização” das suas notícias através de um desk local em São Paulo com jornalistas brasileiros em regime de outsourcing. Apesar do sucesso dessa aproximação, traduzido em crescente utilização das suas matérias pelos media locais e avanços na definição de novas alianças criando nichos em órgãos de imprensa de grande prestígio – incluindo projetos de uma ligação à China via Macau –, a partir de 2010, a Lusa voltou bruscamente costas ao mercado brasileiro, não dando explicações a ninguém e deixando assim, nos meios mediáticos locais, uma memória amarga difícil de superar. Na prática, a agência portuguesa arriou bandeira no Brasil, voltando ao que era no começo dos anos 90 e até antes – mais virada para dentro e para África, em prejuízo do maior país da lusofonia.

Por outro lado, o site da agência portuguesa é ainda hoje um dos mais fechados, quando no mercado brasileiro outras agências internacionais e sites oficiais ou oficiosos de outros países (Reuters, BBC, DW, RFI, El País…) oferecem acesso amplo às suas matérias em língua portuguesa, muitas delas elaboradas especificamente para o mercado brasileiro. Nestas circunstâncias, não espanta que os progressos conseguidos em meados da década se tenham perdido e hoje as notícias de/sobre Portugal acabem por ser difundidas no Brasil por outras agências, em particular a espanhola EFE.

Também os privados não tiveram até hoje maior êxito. A tentativa de penetração no mercado brasileiro levada a cabo em 2009 pela Ongoing – jornais O Dia, Meia Hora e Brasil Económico – acabou por se gorar na sequência da falência do BES e do colapso da PT e da própria Ongoing (2014/2016).

O Brasil tem garantida presença muito forte no mercado mediático português: para além da grande cobertura pro bono – em geral benévola – de que desfrutam os seus assuntos de toda a ordem nos grandes órgãos de media portugueses, está diariamente em todos os canais de distribuição de televisão por cabo através de duas grandes estações privadas e uma pública. Não é pouca coisa.

Reciprocidade assimétrica

O contraste não podia ser maior no que respeita aos media brasileiros em Portugal. A partir de 2006/2007, aparentemente estimuladas pelo crescimento da comunidade brasileira no nosso país, duas grandes redes de televisão – Record e Globo – começaram a abordar o mercado mediático português, colocando ambas, um pouco mais tarde (2009), correspondentes em Lisboa e abrindo também na capital portuguesa sedes próprias como base das suas atividades para o conjunto da Europa. Tratou-se de um marco, quer para uma quer para outra estação, uma vez que até aí a Record não tinha correspondentes na Europa e a Globo tradicionalmente cobria o velho continente a partir de Londres e/ou Paris/Genebra. Desde aí, ambas as estações têm visto a sua atividade crescer em Portugal, tendo a Record inaugurado nova sede em Lisboa (2014) e a Globo alargado a sua presença para todos os canais de distribuição da TV por cabo, onde os seus programas lideram, muitas vezes, as audiências.

Também a televisão pública brasileira está presente na TV por cabo em Portugal através da TV Brasil Internacional (inaugurada em 2010), da Empresa Brasil de Comunicação/EBC. O Brasil tem assim garantida presença muito forte no mercado mediático português: para além da grande cobertura pro bono – em geral benévola – de que desfrutam os seus assuntos de toda a ordem nos grandes órgãos de media portugueses, está diariamente em todos os canais de distribuição de televisão por cabo através de duas grandes estações privadas e uma pública. Não é pouca coisa.

É esta situação, a que se junta a fraca ou nula projeção dos meios de comunicação social portugueses no Brasil (o jornal PÚBLICO tem site específico para o Brasil, bastante visto, mas é a exceção que confirma a regra e não altera o quadro geral), que permite qualificar a situação como apagão mediático português no Brasil.

Impõe-se da parte portuguesa um repensar da sua estratégia de comunicação, a começar pelos Tratados com o Brasil, nos quais a questão dos media está ausente.

A reciprocidade assimétrica não deixa, é certo, de reflectir a enorme diferença de dimensões, recursos e capacidades entre os dois países. De alguma forma é natural que assim aconteça – como sucede também, por exemplo, no caso das antigas colónias britânicas, onde a produção televisiva é dominada não pela ex-potência colonial, mas pela maior e mais antiga colónia, os EUA.

No caso de Portugal e Brasil, dada a desproporção existente entre os dois países, haverá sempre uma diferença de impacto assinalável. Para já não falarmos do exemplo clássico das telenovelas, é garantido que qualquer ação cultural do Brasil em Portugal, ainda que pouco relevante, terá sempre assegurada ampla repercussão, enquanto a inversa não é verdadeira. Mas justamente por isso é que se impõe da parte portuguesa um repensar da sua estratégia de comunicação, a começar pelos Tratados com o Brasil, nos quais a questão dos media está ausente.


Por opção do autor, este artigo respeita o AO90


 

 

 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/o-apagao-mediatico-portugues-no-brasil/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=o-apagao-mediatico-portugues-no-brasil

Abrindo o caminho às políticas ditas de austeridade ,mas de acumulação do capital

A Europa da austeridade não funciona | Escola Portuguesa
A austeridade já chegou?
Enquanto esperamos pelas decisões do Conselho Europeu de amanhã, quero partilhar convosco a minha inquietação depois de ouvir uma conversa entre jornalistas do Público (18 de Abril ,Helena Pereira , Leone Botelho ,Luciano Alvarez e S.José Almeida
 
1) É consensual entre estes jornalistas que esta crise irá exigir, mais adiante, uma política orçamental de redução da enorme dívida a contrair. Teremos novamente importantes cortes na despesa e/ou aumento dos impostos. Este ridículo aumento dos funcionários públicos (os da Saúde ainda vão ter de esperar um mês), devia ter sido suspenso, dizem eles. Não lhes ocorre que isto é rendimento que acabará por ser gasto e, mesmo sendo pouco, também amortece a crise e gera receita fiscal. Ou seja, para estes jornalistas – a “nata” do jornalismo português, segundo dizem – a austeridade selvagem é inevitável. Não aprenderam nada com a crise anterior.
Mesmo depois de a anterior crise ter tornado evidente, até para o mais iletrado cidadão, que a austeridade não melhora o défice e a dívida, antes agrava as contas públicas e destrói a vida das pessoas, voltamos a ouvir o mesmo discurso da austeridade pela boca de São José Almeida, Leonete Botelho e Luciano Alvarez. Parece mesmo que estão a convidar os economistas da ortodoxia, a teoria da “austeridade expansionista” desmascarada na anterior crise, a regressarem ao palco dos media para voltarem a desempenhar o seu papel de anestesistas da população. Para que ela aceite, resignada, a pouca sorte que teve. Mais, deturpando o conceito de austeridade (política orçamental recessiva) para a tornar mais aceitável, até já designam as perdas de rendimento produzidas pela paralisação da economia como sendo a “austeridade”. Ela até já está aí! 
 
2) Estes jornalistas nem sequer se dão conta de que alguns economistas portugueses da direita já defendem o financiamento directo dos Estados-membros pelo BCE, porque entendem, e bem, que a escala desta crise está a exigir uma intervenção pública de tal magnitude que levará a dívida para níveis que nenhum país poderá gerir politicamente. É isso que começaram a fazer a Reserva Federal dos EUA e o Banco de Inglaterra; aliás, algo que já faziam, discretamente e em pequena escala.
Evidentemente, eu não acredito que a UE vá por esse caminho, tendo em conta a ideologia do ordoliberalismo que domina a mente de políticos, elites e cidadãos da Alemanha, Áustria e mais alguns países do centro. Mas o ponto aqui não é esse.
O que é extraordinário é esta escandalosa falta de trabalho jornalístico, já que nem sequer falam destas alternativas envolvendo o BCE, ou de outras que Ricardo Paes Mamede também apresenta e que, sendo menos controversas, também encontrariam resistência no ordoliberalismo. Informar e debater alternativas é coisa que não interessa a esta gente que se diz jornalista.
 
3) Vejam também o programa ‘O Outro Lado’, na RTP3, onde Ana Drago teve de aguentar com enorme paciência o “vamos ter de pagar toda esta dívida”, a inevitabilidade da austeridade defendida pelos seus interlocutores. Neste programa foram exibidos comentários dos telespectadores que invariavelmente assumiam a austeridade como o caminho para pagar a dívida. Mais uma vez, o senso comum a funcionar sem contraditório. Aquilo que é um assunto eminentemente político – matéria de debate racional e escolha quanto à sociedade que queremos – está a ser transformado, diante dos nossos olhos, num dado da natureza, num ‘vírus da austeridade’ a que teremos de nos entregar, aceitando o seu custo em vidas humanas, deslaçamento social e, é preciso dizê-lo, criação da base social do descontentamento que fará crescer o neo-fascista Chega.
 
Se a esquerda do meu país não for capaz de enfrentar e vencer esta anestesia da opinião pública que os media começam a injectar, então estaremos muito mal. E precisaremos de criar uma alternativa.Retirado ,com a devida vénia , fo facebook de Jorge Bateira

Via: FOICEBOOK https://bit.ly/3cExWfj

 

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/04/22/abrindo-o-caminho-as-politicas-ditas-de-austeridade-mas-de-acumulacao-do-capital/

Mau serviço jornalístico

Alguém me explique esta entrevista.

Por que foi que o jornal pediu uma entrevista numa altura em que o presidente do Eurogrupo não pode dizer nada antes do Conselho Europeu de 5ªf? Como é que o jornal escolhe, numa altura destas, uma entrevista com uma jornalista como a Teresa de Sousa - uma eterna defensora do projecto europeu, dê ele as cambalhotas que der - que rapidamente se deixa enredar no bruxelense do presidente do Eurogrupo?

Exemplo: um SURE de 100 mil milhõespara financiar um lay-offna Europa - "o nosso lay-off simplificado, o Kurzarbeit alemão, o chomage partiel francês, entre outros, têm todos os mesmos objectivos: proteger o emprego"? Primeiro: tal como está, o lay-off,não será um dispositivo de dádiva de dinheiro às empresas, com uma vaga promessa de não despedimento imediato? Há garantia de que terminado o lay-off o desemprego não suba? Os dados de Março não parecem  mostrá-lo. E se não há garantia, este era o melhor mecanismo para o assegurar? Quanto custa? Mil milhões mês. E desses quanto vai para as grandes empresas? E que garantias há que não se transformem em dividendos? E depois, no final, esses montantes transformam-se em dívida dos Estados. E o que vai acontecer caso se tenha de aplicar o Tratado Orçamental? E como se financiarão os Estado do Sul, com a degradação das notações? E os efeitos do desemprego? E como fazer com uma recessão que se aproxima de todos os lados?

Bastava perguntas como estas para permitir discutir mais aprofundadamente o plano de recuperação. Mas não. Ficou-se por coisas redondas. Por que não foi a esta entrevista alguém da secção de economia do jornal? O jornalista Sérgio Aníbal - que tem escrito a maioria dos artigos do jornal sobre este assunto - não foi convidado para o encontro. Se tivesse ido, sempre era capaz de falar mais de política económica. E ser jornalista.

Desperdiçou-se uma oportunidade de falar com o presidente do Eurogrupo e prestou-se a um exercício político de contaminação de ideias - ainda por cima mau, porque mal se percebe alguma coisa. Além do título, claro.

 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Professores, líderes de audiências

estudo-em-casa-rtp.jpg«A RTP Memória foi “líder de mercado” na segunda-feira entre as 09:00 e as 11:20, com 16,3% de ‘share’, no dia do arranque do #EstudoEmCasa, destinado aos alunos do ensino básico, divulgou hoje a RTP.

Ao SAPO Mag, a RTP avançou que a RTP Memória foi o quarto canal mais visto na segunda-feira, quadruplicando a sua audiência média.

Em comunicado, a RTP refere que no dia em que arrancou o projeto de ensino à distância, “a RTP Memória foi o canal mais visto junto do ‘target’ 04-14 anos, registando 42,3 mil espetadores e uma quota de 14,3%”.

Mais detalhadamente, no ‘target’ 04-14 anos, a faixa horária entre as 08:00 e as 12:00, a RTP Memória registou 37,6% de ‘share’ [quota de mercado], entre as 12:00 e as 15:00 teve 21,8% de ‘share’ e no período das 15:00 e 18:00, a quota de mercado foi de 15,4%» (in Sapo)

Produzidas em tempo recorde, as aulas da nova telescola estão a dar nova vida à televisão, um meio de comunicação que as novas gerações já quase tinham abandonado. E basta dar uma volta pelos comentários nas redes sociais para ver como são admirados e elogiados os professores que, de um dia para o outro, aceitaram o enorme desafio de reinventar a profissão e enfrentar as câmaras, para poderem chegar a uma enorme plateia de alunos virtuais.

A verdade é que o seu trabalho, quase sempre invisível ou olhado com preconceito pela opinião que se publica, está agora a merecer uma apreciação muito positiva por parte de quem, por mera curiosidade ou assumindo responsabilidades parentais, espreita as aulas da RTP.

Claro que um olhar clínico – ou cínico! -, sobre as aulas televisivas, não demorará a encontrar defeitos. Uma hesitação aqui, uma frase imprecisa acolá, uma quantidade enorme de matéria despejada a mata-cavalos nalgumas aulas, o natural e perfeitamente justificado nervosismo de quem se vê pela primeira vez metido nestes apertos. Mas é evidente que muito disto também está presente nas aulas reais, feitas por pessoas de carne e osso, que não são nem têm de ser actores, entertainers ou conferencistas. Os professores, mais do que quaisquer outros, deveriam sabê-lo. Curiosamente, são eles os que, aparentemente, se têm mostrado mais críticos da prestação dos colegas. O que, no momento em que a profissão é justamente valorizada e enaltecida, põe em evidência que há uma velha especialidade docente em que continuamos mestres: a de dar tiros nos pés.

DN, JN e TSF entram em lay-off na próxima semana

 

Os jornais e a rádio vão aderir ao regime de lay-off, com redução do horário de trabalho, a partir da próxima semana.

 

De acordo com o jornal online Observador, os trabalhadores do Diário de Notícias, jornal detido pelo grupo Global Media, vão entrar em lay-off a partir de segunda-feira, mas na modalidade de redução do horário de trabalho.

A redução no horário de trabalho será diferente consoante os escalões de rendimento ou a função. Os trabalhadores que ganham mais trabalharão menos horas, adianta o jornal digital, que falou com fontes da redação.

A rádio TSF e o Jornal de Notícias, outros órgãos de comunicação do grupo, também vão entrar no mesmo regime de lay-off simplificado na próxima semana, mas com adaptações distintas.

No caso da rádio, o Observador apurou que todos os trabalhadores terão um corte de 25% nas horas trabalhadas, independentemente do salário e da função, com a consequente redução no vencimento.

O jornal Público também já tinha avançado que o desportivo O Jogo entraria em lay-off. O jornal vai continuar a ser publicado, mas os trabalhadores sofrerão um corte salarial de cerca de 33% nos próximos três meses.

Esta informação surge numa semana em que se soube que o diretor e a diretora executiva do DN, Ferreira Fernandes e Catarina Carvalho, se demitiram dos cargos. A administração nomeou o atual subdiretor, Leonídio Paulo Ferreira, para diretor interino.

Esta sexta-feira, a ministra da Cultura, Graça Fonseca, anunciou que o Governo vai comprar antecipadamente publicidade institucional, alocando 15 milhões de euros, para ajudar o setor dos media face ao impacto da pandemia de covid-19.

ZAP //

 
 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/dn-jn-tsf-entram-lay-off-319905

Aos jornalistas que não são cães-polícia

 
Bruno Carvalho
 
Gosto de escrever histórias de piratas, ladrões, bêbedos e revolucionários. Como as canções de Fabrizio de André. A minha primeira reportagem foi um fiasco. Queria fazer um trabalho sobre o jardineiro senegalês que matou o presidente da Junta de Freguesia da Pena com uma maceta. Falei com ele uma vez ao telefone e tentei que mo deixassem entrevistar na prisão. Não deixaram. Para todos os efeitos, a primeira reportagem que escrevi na vida, ainda estudante, foi sobre uma operação policial espanhola contra vários jovens independentistas galegos acusados de terrorismo. Quando estagiei na Agência Lusa, a primeira notícia foi sobre um ataque do Movimento para a Emancipação do Delta do Níger. 

Fazer jornalismo devia ser como aquela anedota de que ao contrário dos cães nunca se ouviu falar de gatos-polícia. A falta que fazem professores como o Oscar Mascarenhas que nos obrigava a tratá-lo por tu e que perguntava a cada um de nós por que tínhamos escolhido aquele curso. No fim, respondia: "Nada disso. O primeiro objectivo de um jornalista deve ser querer mudar o mundo e questionar o poder". O facto é que quem trabalha em jornais, televisões e rádios tem muito poder. Somos explorados mas temos o poder de apontar. Dependendo da dimensão do órgão de comunicação social, claro. O capital manda, o jornalista aponta e a polícia dispara. A não ser que apontes para o lado errado da barricada de quem te paga o salário. Aí, fodes-te e vais para a prateleira.

Mas a maior forma de censura não é exercida sobre aquilo que se escreve. Censura-se, sobretudo, através daquilo que não se escreve. As histórias de piratas, ladrões, bêbedos e revolucionários não cabem nas páginas dos nossos jornais. E quando cabem é através da caricaturização para nos mostrar que não é daquele lado que devemos estar. É o grevista que não quer trabalhar, o imigrante que rouba, a mulher que estava bêbeda e estava a pedi-las, o comunista que quer subverter a nossa forma de existência.
 
O jornalismo afastou-se tanto da realidade e dedicou-se tanto a defender quem nos lixa a vida que as pessoas acreditam mais nas redes sociais do que nas notícias. Desde que a maioria dos jornalistas passou a ser um mero editor de comunicados de imprensa das agências de comunicação que o sector se afunda. O problema é que não se combate a mentira e as fake news com este jornalismo. Combate-se levando às pessoas a realidade que elas vivem e sentem.
Eu cresci a admirar jornalistas de outras latitudes que faziam o que eu gostava de fazer. John Reed que estudou na melhor das universidades norte-americanas, apanhou um transatlântico e quando atracou na Europa já estava preso, suspeito de uma assassinato que não cometeu, depois detido por ter entrado nu com uma mulher numa fonte em Itália e preso mais tarde com operários no seu país. “O maior passatempo do Jack é ser preso”, diziam os amigos. Conviveu com Pancho Villa e escreveu a mais incrível história sobre a revolução de Outubro.

Na Checoslováquia, Julius Fucík fez da sua morte a última reportagem. Como esquecer os exercícios no pátio da prisão em que um grupo de prisioneiras fingia ceifar e depois martelar para que todos os presidiários políticos pudessem saber que nem dentro do cárcere deixariam de celebrar o 1º de Maio. Foi condenado à execução através da forca.
Já o Ryszard Kapuściński deu-nos a conhecer as mulheres e os homens que resistiram em Angola à invasão sul-africana. Podia ter apanhado o último avião para sair de Luanda. Mas não. Era mais forte a obsessão de chegar à frente sul onde as tropas angolanas eram lideradas por um português que se juntou ao MPLA. Os comandantes Carlota e Farrusco são algumas das personagens inesquecíveis do seu livro Mais um dia de vida.

E a história do jornalista português José João Louro que deu voz à mais bonita das revoluções na Europa Ocidental desde a Comuna de Paris? Dentro da prisão de Peniche quando ainda se discutia que destino dar aos presos políticos, ofereceu-se para ficar na cela de um comunista acusado de crimes de sangue por ter pertencido à Acção Revolucionária Armada, creio que o Carlos Coutinho. Diz-se que quando o Carlos Coutinho saiu da prisão ainda antes dos outros presos, um dirigente do PCP no local obrigou-o a bater no portão e a voltar ao cárcere. Só sairia quando todos saíssem.
Os irmãos Miguel e Urbano Tavares Rodrigues foram os verdadeiros piratas. O primeiro assaltou o paquete Santa Maria, baptizado Santa Liberdade pelos operacionais do Directório Revolucionário Ibérico de Libertação, e aos 80 anos ainda subia às montanhas da Colômbia para entrevistar guerrilheiros das FARC. Foi o director d’O Diário, o jornal que tanta falta nos faz. O segundo abriu caminho ao murro contra um agente da PIDE em plena rua e escondeu foragidos no porta-bagagens do seu Fiat. Também foi forçado a escolher o caminho do exílio.

Mas se hoje os tempos são outros e o jornalismo está mais amestrado do que nunca, ainda subsistem heróis debaixo das pedras cinzentas das ruas podres por onde caminhamos. Há jornalistas como Dick Emanuelsson que dispara agora desde as Honduras mas que trocou a Suécia pela Colômbia há muitos anos. Trocou a pátria de Stieg Larsson, que tinha a obsessão de perseguir nazis e descobrir o assassino de Olof Palme, por um dos mais violentos países do mundo. Há também repórteres como o basco Unai Aranzadi que acaba de chegar precisamente de um acampamento guerrilheiro colombiano depois de ter visitado outro nas Filipinas. 

Como na vida em geral, precisamos de mais gatos do que cães-polícia. Precisamos de quem escarafunche a dura capa de merda seca que cresce todos os dias para que não vejamos o que outros já quiseram mostrar. Porque o primeiro objectivo de um jornalista deve ser mudar o mundo e questionar o poder.

Ver original em 'Manifesto 74' na seguinte ligação:

http://manifesto74.blogspot.com/2020/04/aos-jornalistas-que-nao-sao-caes-policia.html

A imprensa no turbilhão da pandemia

No dia 2 deste mês, directores de jornais e revistas lançaram um apelo público contra a difusão electrónica, que se tornou geral e aumentou com as medidas de confinamento, das edições desses mesmos jornais e revistas. Chamam eles “pirataria” e “crime” a essa difusão, que acusam de pôr em causa a “sustentabilidade da imprensa em Portugal”. Juram bater-se por “informação credível” e pela difusão dos “melhores conteúdos”. E explicam aos leitores que “Para conseguirmos manter a qualidade precisamos da sua colaboração no combate à pirataria”. A colaboração que pedem aos leitores resume-se a isto: se querem ler, paguem.

O texto do apelo assenta nos mitos de que se revestem a imprensa e os meios de comunicação em geral: liberdade, qualidade informativa, credibilidade, independência do poder e dos poderes, serviço público… Mas estas supostas qualidades são precisamente as que é raro ver nos meios de comunicação empresariais. Expliquemo-nos.

1. Pirataria? Chamar pirataria e crime à difusão livre de informação, e culpá-la da falência da imprensa, é uma chantagem e uma ameaça. O facto é que o jornal-mercadoria de outrora perdeu peso pela própria evolução tecnológica, e essa é a razão da falta de receitas — não a “pirataria”.

2. Informação livre e independente? Quase todos os jornais e revistas, seguramente todos os de larga difusão, são propriedade de grandes grupos económicos que juntam nas suas mãos títulos diversos em papel (e ainda rádios, televisões e redes electrónicas), dirigidos a públicos diferenciados. Tirando um ou dois casos, os vinte e tal órgãos subscritores do apelo pertencem a 5 grupos empresariais que dominam a comunicação no país.

O propósito destes grupos está à vista: forjar uma elite de opinadores omnipresentes, fabricar no público uma opinião dominante moldada pelos seus próprios critérios políticos e ideológicos. Se assim não fosse, que razão teria um cavaleiro da indústria e do comércio como Belmiro de Azevedo, por exemplo, para fundar um jornal como o Público? Ou Balsemão, para lançar o Expresso e a Sic? Ou, noutro plano, os patrões do Pingo Doce para promover a Pordata e a colecção de ensaios da Fundação Francisco Manuel dos Santos?

A importância de assegurar este ascendente sobre a chamada “opinião pública” — utilíssimo para manter a estabilidade do poder e condicionar as escolhas em momentos eleitorais — explica os negócios de milhões que se fazem para monopolizar a informação. Exemplo recente: a tentativa de compra da Média Capital (TVI) pela Cofina (CM, CMTV). 

3. Sustentabilidade? O apelo destina-se a convencer os leitores de que têm de pagar o “serviço público” que lhes é impingido, sem que eles o possam controlar. Na verdade, não há serviço público nenhum. Os leitores são, simplesmente, convidados a suportar parte dos prejuízos de uma mercadoria que, pela ordem natural da concorrência e da lógica capitalista, perdeu valor. É isto que a invocação dos direitos de autor, no caso, esconde.

Ora, na lógica empresarial desta imprensa, das duas uma: ou o negócio rende, e segue o seu curso; ou o negócio não rende, e fecha portas. Fora desta lógica só há uma alternativa: uma imprensa (meios de comunicação em geral) de serviço popular, sob escrutínio e controlo popular. (*)

4. Manter a qualidade? Fica-se sem saber de que qualidade se fala quando se coloca lado a lado o Jornal de Letras e o Correio da Manhã, para citar dois dos signatários. O traço comum, no entanto, existe: ele está na pertença de cada um dos títulos a um grande grupo empresarial: o grupo Trust In News (uma dúzia de títulos) e o grupo Cofina (uma dúzia de títulos, incluindo um canal TV). Daí a causa comum.

5. Informação credível? A maioria dos directores e editorialistas são escolhidos, não pela sua independência ou originalidade de ideias, mas pela sua fidelidade aos propósitos de formação da dita “opinião pública”. Muitos são simples serventuários dos grandes senhores, dos donos do país, alinham com as vozes dos poderosos (nacionais ou estrangeiros), são a sua expressão, ou servem nas guerras de poder entre eles.

A liberdade editorial de que juram gozar diante dos seus patrões resume-se, as mais das vezes, à habilidade de adivinharem antecipadamente a linha geral a que devem obedecer, sem terem de receber ordens expressas.

É pelo diapasão desta linha geral que a maioria dos jornalistas — reduzidos quase todos à condição de simples redactores — afina, muitas vezes coagidos pelo espectro do despedimento.

A variedade de comentadores que as páginas dos jornais exibe, longe de influenciar aquela linha geral, é uma capa de “pluralidade” para fazer passar o essencial das vozes dominantes.

6. Apelar aos leitores para pararem a partilha nas redes sociais e pagarem os défices empresariais da imprensa escrita, como se se tratasse da defesa de um bem comum — é não só inútil como imoral. Inútil, porque as ferramentas de comunicação disponíveis (as verdadeiras concorrentes da imprensa escrita) não vão deixar de ser usadas em todas as suas vertentes. Imoral, porque o apelo é feito em defesa dos grandes grupos e dos grandes títulos.

De lado, por exemplo, fica toda a imprensa regional. Esta sim, boa e má, já está a sofrer uma verdadeira hecatombe no momento que passa. Mas por ela nenhum dos signatários do apelo levanta a voz — o que só por si mostra o interesse que os move.

———

(*) Indiferente a tais miudezas, o BE propôs (9 de Abril) a atribuição à comunicação social, por junto, de um pacote de 15 milhões de euros, nos meses de Maio, Junho e Julho, justificando a medida com “a necessidade de órgãos de comunicação social robustos e capazes de prestarem serviço informativo”.

Ver o original em 'Mudar de Vida' (clique aqui)

Diretor e diretora executiva do Diário de Notícias apresentam demissão

detengase / Flickr

 

A administração da Global Media informou, esta quarta-feira, que o diretor do Diário de Notícias e a sua diretora executiva apresentaram a demissão, tendo sido nomeado o atual subdiretor Leonídio Paulo Ferreira para a direção.

 

Numa comunicação interna, a que a agência Lusa teve acesso, a administração da Global Media Group refere que “aceitou o pedido de demissão dos jornalistas Ferreira Fernandes e Catarina Carvalho, de diretor e diretora executiva do Diário de Notícias”, sem adiantar os motivos da mesma.

Foi nomeado “interinamente o atual subdiretor Leonídio Paulo Ferreira, em quem confiamos para dar continuidade a uma informação plural, de rigor e isenção como é timbre deste jornal centenário”, adianta o Conselho de Administração.

A administração “aproveita esta oportunidade para endereçar um profundo agradecimento a Ferreira Fernandes e a Catarina Carvalho, pelo enorme esforço que têm dado à empresa e ao DN, e pelo profissionalismo na liderança deste projeto editorial, que exerceram nos últimos dois anos, num contexto especialmente difícil para a generalidade da imprensa em Portugal”.

Na nota interna lê-se ainda que “Ferreira Fernandes, um dos cronistas mais reconhecidos e talentosos do país, com créditos firmados no jornalismo de língua portuguesa, e Catarina Carvalho manter-se-ão no Global Media Group, ligados ao Diário de Notícias, uma marca comprometida há mais de 155 anos com a informação de qualidade e que sempre soube antecipar as grandes mudanças da história”.

Leonídio Paulo Ferreira, “que agora assume a responsabilidade de diretor interino, é jornalista do Diário de Notícias desde 1992, numa carreira em que por várias vezes assumiu funções de chefia e direção, tendo-se especializado em jornalismo de política internacional”.

Licenciado em Comunicação Social pela Universidade de Lisboa, Leonídio Paulo Ferreira é mestre em Estudos Americanos e doutorando em História Contemporânea na Universidade de Évora.

// Lusa

 
 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/diretores-diario-noticias-demissao-319377

Errar é humano; insistir no erro pode ser jornalismo

"Criámos 5 M de empregos!" "Só eu tenho 3 e não consigo pagar a renda"   
Há dez anos, em recessão,  jornalistas económicos deram a cara pelo cortede salários, como forma de dar competitividade às empresas. E disseram que não havia alternativa.

Não entenderam, na altura, o básico da economia. Invididualmente, se eu poupar,terei mais rendimento disponível. Mas em sociedade, se todos pouparmos, retiramos rendimento uns aos outros. Porque o meu consumo (a minha menor poupança) é o rendimento de alguém. E uma simples recessão, transforma-se em desemprego, fome, depressão. E tudo irá pelo cano abaixo.

E foi isso que acontece face ao seu espanto!

Esses jornalistas económicos foram igualmente responsáveis por um desastre económico e social que levou à maior recessão de sempre, a uma emigração história e a um desemprego de 25% da população activa (quase 1,5 milhões de pessoas). E ainda hoje se vive o rescaldo dessa recessão em que, mesmo com uma subida do emprego, os salários são ainda muito baixos. E apesar disso, pouco se aprendeu.

Passados dez anos e face ao confinamento económico, os empresários - e os jornalistas logo a seguir - fazem renascer a visão tacanha da mercearia de que é preciso cortar salários. E voltam a dizer não há alternativa. Face à paragem da economia, os trabalhadores são colocados perante um corte salarial, a suspensão dos contratos, o trabalho parcial (ou seja, menos ordenado), ou ao próprio despedimento. Os empresários, esses, conhecem a aritmética: quando forçados, poupam por inteiro: despedem. E o risco é que, quando voltarem a contratar mais adiante, fazem-no por salários mais baixos. E entretanto, todos os custos passam para o Estado.
 
Nesta crise que a pandemia cria, haveria de se encontrar um financiamento colectivo dos seus custos. Mas o despedimento e o corte salarial não são soluções - são problemas e geram problemas ainda maiores. Porque é idiota esperar - só porque a causa da crise é diferente - que a mesma política seguida há dez anos tenha resultados diferentes. A solução terá de ser encontrada noutras medidas, a discutir. 

E porque tudo está a acontecer de novo, deixem-me trazer para a luz do dia essas afirmações irresponsáveis, produzidas há pouco mais de alguns anos. Antes que seja demasiado tarde, antes que os jornalistas voltem a esquecer-se - de novo - do básico em economia.

Esta parte é apenas para os mais curiosos e os mais resistentes.

Trata-se de uma compilação de afirmações e de citações. Sobre o seu tratamento académico, é possível ler aqui. 

O coro em defesa da baixa dos custos salariaisjá veio de 2010, quando o Governo Sócrates estava sob fogo comunitário para aplicar medidas de austeridade, precisamente depois de lhe ter sido dado luz verdepara gastar. Onde foi que já vimos isto?

Na sua maioria, os jornalistas abraçaram o Memorando de Entendimento com a troicacomo um programa para mudar tudo de pernas para o ar,festejaram o Governo PSD/CDS como aquele que iria mudar o país, até se decepcionarem - em 2013 - por não levar a cabo as reformas que eram necessárias fazer. Neste capítulo, ficamos apenas com os seus comentários à necessidade da descida salarial. É nessa altura que surgem as propostas de descida das contribuições sociais, como forma de redução de custos empresariais com os salários:  

O Governo Sócrates “podia ter feito outra coisa? Podia. Podia, por exemplo, ter lido a muito estimulante proposta de Ricardo Reis, professor de economia na Universidade de Columbia, em Nova Iorque. E essa proposta passa por descer a TSU de 23,75% para 17% e subir o IVA do regime geral de 20% para 25%, com aumentos semelhantes nos regimes especiais do IVA, no IMT e num imposto sobre rendas. Isto corresponde, segundo Ricardo Reis, a uma desvalorização da moeda por via fiscal, relançando a competitividade das empresas, sem colocar todo o fardo do ajustamento sobre os trabalhadores. Ricardo Reis fala ainda numa opção mais radical: acabar completamente com os 23,75% da TSU e com o IMT e fazer com que o IVA incida sobre todos os bens, sem excepções, incluindo a habitação, à mesma taxa de 20% (...) Não há ninguém que queira agarrar nesta proposta?” (Nicolau Santos, então director adjunto do Expresso,22/5/2010).

Outro seu colega do Expresso, o João Vieira Pereira, então também director adjunto, defendia:

“A procura interna vai cair a pique e a externa vai estar sob enorme pressão. A única solução é baixar preços baixando custos para relançar a competitividade das exportações. Silva Lopes tem uma pequena sugestão que pode ser determinante. Utilizar parte da receita do aumento do IVA para baixar os descontos das empresas para a Segurança Social, diminuindo custos do trabalho” (JVP, 9/10/2010).

O mesmo Silva Lopes viria, dois anos depois, criticar a eficácia da medida do Governo Passos Coelho (de descer a TSU das empresas e aumentar a dos trabalhadores) por não haver forma de obrigar as empresas a reduzir os preços na proporção da redução da TSU, implicando custos administrativos públicos de controlo. O coro de opiniões para cortar salários era quase uníssono:

“Os salários começam, pois, a cair, como previu há mais de um ano José Silva Lopes, o maior dos economistas portugueses. (...)Para “sermos mais competitivos”, temos de produzir com custos unitários mais baixos, o que agora significa salários mais baixos. A economia está a resignar na mesma inevitabilidade do Orçamento: é mau mas tem de ser. Não foi para isto que se criou a economia” (Pedro Santos Guerreiro, então director do Jornal de Negócios, 21/10/2010).
“Já quanto às alterações das leis laborais, espera-se um embaratecimento do despedimento para as empresas e admite-se flexibilização no contrato de trabalho em aspectos como o banco de horas (...). São aspectos positivos” (PSG, 15/12/2010). “Portugal teve durante anos uma legislação laboral troglodita, que este Governo modernizou há dois anos após um livro branco que trouxe novidades como o banco de horas ou o despedimento colectivo” (PSG, 25/1/2011).
“Tudo seria mais simples se o despedimento individual fosse, mesmo que marginalmente, flexibilizado. E as indemnizações reduzidas para todos com a justiça a garantir que seriam pagas. Aumentar os custos do trabalho em plena crise económica e financeira e reduzir as indemnizações só para alguns é fazer alguma coisa para ficar pior” (Helena Garrido, então directora adjunta do Jornal de Negócios, 25/1/2011).
“Temos de colocar opções: meus senhores, nós não temos moeda própria, aumentámos os salários reais nos últimos 10, 15 anos, mais que a produtividade, por isso, temos aqui um problema de excesso de custos unitários do trabalho e, portanto, como é que os poderemos resolver? Baixamos os salários ou reduzimos a TSU. Rejeitamos a primeira opção (António Costa, então director do jornal Diário Económico,11/5/2011).
“Qual a principal restrição da economia portuguesa? Elevado défice externo, sinal de que Estado e famílias vivem acima das suas posses. Neste contexto, a baixa dos custos das empresas, via TSU, ajudaria as exportações. Ao mesmo tempo, uma subida do IVA, sem ser a solução ideal, ajudaria a conter o consumo (onde pesam as importações)” (Camilo Lourenço, então director de diversas revistas económicas, director editorial de revistas do grupo Abril/Controjornal, comentador de assuntos económicos na rádio (Radio Capital, RCP, Media Capital Radios, dois programas na M80), comentador da RTP e RTP informação (com um programa) e TVI, 13/5/2011).
"A Esquerda (o PS) tem-se limitado a defender o status quo: recusa mexer na TSU, mesmo tendo-se comprometido com a troika; não quer mexer nos despedimentos, apesar de isso estar previstos no Memorando; continua a dizer que era preferível não ter recorrido a ajuda externa, mesmo depois de ter ouvido da troika que o país devia ter chamado o FMI mais cedo. Esta posição do PS suscita duas questões: pode um partido tão conservador fazer as reformas de que o país precisa para sair do buraco em que se encontra?” (CL, 23/5/2011).

Isto foi, em 2011, na altura em que o Governo Passos Coelho inicia estudos para a redução da TSU, mas esbarra no elevado encargo necessário de aumento de IVA (desvalorização fiscal). E adia o problema para o retomar apenas em Setembro de 2012 (já sem IVA), com aquela proposta que o derrotou de vez nas ruas:

“O problema é que não se pode aplicar a descida da TSU apenas às 20 mil empresas exportadoras e, em particular, às 3200 que são responsáveis por 95% das exportações. Seria o que faria sentido (e eu apoiaria) para tornar o sector dos bens transaccionáveis (exportações) apetecível para os investidores, em detrimento dos não transaccionáveis. (...) Por isso, se se quer descer os custos do factor trabalho, talvez seja melhor adoptar as propostas de Luís Campos e Cunha e Daniel Bessa: aumentar o horário semanal de trabalho em duas horas ou duas horas e meia. Tem o mesmo efeito (desvaloriza os custos de trabalho) e é menos complexa” (NS, 28/5/2011).
“O ex-líbris é a muito badalada desvalorização fiscal, que constitui, no dizer de Passos Coelho, uma aposta decisiva na reaquisição de competitividade externa, de crescimento do sector de bens transaccionáveis, mas também na criação de emprego, ao diminuírem a penalização fiscal do trabalho. (...) Que destas medidas resulte uma economia muito mais eficiente, criando empresas altamente competitivas, gerando inúmeros empregos e forte crescimento é algo que está por provar” (NS, 25/6/2011).
“Depois do Fórum da Competitividade, a primeira instituição a defender uma redução drástica os custos do trabalho, chegou a vez da CIP defender uma redução para os 15% da TSU. De imediato, as restantes confederações reivindicaram também uma redução da TSU. Agora uma coisa é certa. Esta medida só terá efeitos se for exclusivamente orientada para as empresas exportadoras” (AC, 5/7/2011).
“Uma situação que, como tem sido debatido publicamente, obriga os responsáveis governamentais a repensar a legislação laboral, flexibilizando-a, para, juntamente com a avaliação em curso da redução da TSU, atrair mais investimento empresarial e, por consequência, criar mais emprego” (AC, 8/8/2011).
“Temos de dar corda aos sapatos. Como? (...)3 - Baixar a TSU em 10%: o programa de ajustamento nunca terá sucesso sem crescimento económico” (CL, 14/9/2011).
“Baixar a TSU para as empresas que criem emprego (líquido) é uma medida certa? Sem dúvida. Mas ninguém contrata se não vender mais e se não tiver financiamento para aumentara capacidade produtiva. E aqui há duas incógnitas: como aumentar repentinamente as exportações se a baixa da TSU não vai ser significativa?” (CL, 22/9/2011).
“Borges diz depois que é necessário melhorar substancialmente a rentabilidade do sector exportador. Para isso, a medida mais imediata é a desvalorização fiscal, pois tem os mesmos efeitos que uma desvalorização da moeda que obteve excelentes resultados em 1983-85. O problema é que Borges, no passado, sempre se manifestou contra a desvalorização da moeda para repor a competitividade da economia” (NS, 1/10/2011). “Se a ideia avançasse, a quebra nas receitas da segurança social seria catastrófica (€3200 milhões no caso da descida de 8 pontos na TSU, em que insiste Poul Thomsen, do FMI). Como seria compensada esta quebra, é uma questão sem resposta credível até agora” (NS, 15/10/2011).
“O Governo foi para além dos objectivos traçados e teve a sabedoria de encontrar soluções que substituíssem propostas absurdas. Como a da redução da TSU” (HG, 7/11/2011). “Claro que é preciso alterar a legislação laboral para permitir que se possa reduzir salários.  (...). as empresas precisam de ajustar os seus custos aos proveitos, precisam de se adaptar à conjuntura. E a folha é, frequentemente, a única parcela dos custos em que podem mexer” (HG, 18/11/2011).
“O ajustamento salarial na economia portuguesa é neste momento inevitável. Existem duas formas de o fazer. Ou esta redução é rápida e voluntária preservando postos de trabalho ou é feita gradual e automaticamente por via do aumento do desemprego” (JVP, 19/11/2011).
“Como é que as empresas portuguesas podem diminuir os custos unitários de trabalho que, na última década, subiram mais do que a produtividade do País? Para quê? Para conseguirem vender no exterior os seus produtos ou em Portugal face à concorrência de produtos estrangeiros. (...) Por isso, surgiu a descida da TSU (...). A medida ficou pelo caminho, porque não havia forma de financiar o seu custo. Mas o problema continua por cá...” (AC, 21/11/2011).
“O ajustamento de que precisamos tem de ser rápido em dois anos. Ora num período de tempo tão curto é impossível garantir ganhos de produtividade que propiciem um disparo das exportações. Foi por isso (para reduzir drasticamente as importações) que a Troika obrigou à redução acentuada dos nossos rendimentos” (CL, 28/2/2012).
“O primeiro foi Silva Lopes: ou se descem salários ou teremos fábricas de desempregados. Depois foi Vítor Bento: a redução dos custos salariais é a ferramenta disponível. Veio a troika e impôs: desvalorização interna. Paul Krugman quantifica: menos 30% face à Alemanha. E muitos economistas, pensando o mesmo, não o dizem por medo de impopularidade. Porque a resposta ouvida é: mas nós já cortámos os salários! (...). As empresas estão a pagar quase o mesmo, os trabalhadores estão a receber muito menos. A diferença, é claro, leva-a o Estado: é o aumento de impostos. Desvalorizar a moeda, não dá (a Islândia, com moeda própria, fez num ápice o que nos vai demorar anos). Desvalorização fiscal, não dá (a descida da TSU foi suspensa). Desvalorização real, não dá (ao contrário dos anos 80, a inflação não é suficiente para criar ilusionismo). Desvalorização dos demais custos de produção, dificilmente dá (custos financeiros, energéticos, das matérias-primas são formados em mercado internacional). É por isso que os economistas sucumbem aos custos salariais: é o que dá. Dá? Dá. dá. Tem dado (...) Se o custo de vida está a subir e os salários líquidos a cair, é lógico que as famílias se enfureçam quando ouvem um economista recomendar cortes salariais. O problema é a sanguessuga do Estado” (PSG, 2/3/2012).

Surge então em meados de 2012, a proposta de alteração do Código do Trabalho, que veio aprofundar um conjunto de dispositivos cujo objectivo visava esse embaratecimento salarial. Despedimentos mais baratos, tempo de trabalho elástico sem aumento da retribuição salarial,  embaratecendo do trabalho extraordinário a ponto de ficar (nalguns casos) mais barato do que em horário normal, redução de dias de férias e feriados, do descanso compensatório, da criação de bancos de horas individuais e limitando a contratação colectiva.

“Ideologia pura e dura, a par de mentiras técnicas, é o que acontece, por outro lado, com a aprovação das alterações ao Código de Trabalho e o fim de dois feriados. (…) O objectivo não é o aumento da produtividade, mas o embaratecimento do factor trabalho. Ponto final” (NS, 31/3/2012). “O aumento do desemprego é a variável-chave no processo de ajustamento acordado com a troika. Já que não houve desvalorização fiscal, esta é a forma de reduzir, à bruta, os salários do sector público e privado” (NS, 19/5/2012).
“António Borges afirmou em entrevista ao [canal] Etv que a redução de salários não é uma política, é uma urgência, o que motivou críticas severas dos partidos da Oposição. Mas, a verdade, é que o ‘12º ministro' do Governo de Passos Coelho disse uma evidência, que não é repetida pelo Governo e pelo PS por mera táctica política (...). Quem é que discorda da ideia de que os salários em Portugal cresceram mais do que a economia - e a produtividade - poderia pagar? A consequência é esta, a que estamos a viver, uma recessão e um aumento pronunciado do desemprego. (...) Em economia, não há milagres, e quem os vende está a enganar os portugueses. Borges disse a verdade. Portugal precisa urgentemente de aumentar a produtividade e competitividade relativamente aos seus concorrentes, e como a produtividade não se recupera de um dia para o outro, o aumento da competitividade só lá vai, no curto prazo, por factores como a redução salarial. Não, não estou a sugerir uma estratégia de baixos salários” (AC, 4/6/2012).
“Hoje mata-se o bode expiatório: entra em vigor a nova legislação laboral. (...) Segundo um estudo do Governo divulgado ontem pelo Negócios, o impacto destas quatro medidas (menos feriados, menos dias de férias, horas extras mais baratas e compensações mais baixas em caso de rescisão) resulta numa redução de 5,23% no custo por hora trabalhada. Agora, começamos a entender-nos. Não estamos a falar de aumentar a produtividade, mas sim a produção. (...) Desvalorização interna é isto. Quando se ouve economistas, como Paul Krugman, dizerem que os salários dos portugueses têm de cair 20 a 30% face aos dos alemães, é isto. Já está a acontecer(...). A nova lei laboral é feita a pensar nas empresas. Baixa-lhes os custos. Promete libertação. Agiliza o mercado e, segundo os mesmos dados do Governo, terá um impacto positivo no emprego de 2,54% a curto prazo e 10,55% a longo prazo. (...) com esta lei laboral, ninguém nos agarra!” (PSG, 1/8/2012).

Em Setembro  de 2012, quando o Governo PSD/CDS anuncia as mexidas na TSU patronal e dos trabalhadores, desencadeia uma revolta de que nunca mais recuperou. O seu recuo deixou o Governo sem estratégia, já que acentava nesse choque para aumentar a competitividade, mas fê-lo encontrar a explicação para a explosão de desemprego que a austeridade estava a provocar. O descalabro faz os jornalistas abanarem nas suas convicções. E todos fogem agora das medidas de desvalorização interna. 

“A redução dos custos salariais com engenharias várias não é apenas uma paixão do FMI. Foi praticada pela Alemanha com a Agenda 2010 do chanceler Gerhard Schreider no início do século XXI. Foi através desse conjunto de medidas, que incluíram a flexibilização do mercado de trabalho e a redução dos benefícios do Estado Social, que, diz-se hoje, a Alemanha deixou de ser o homem doente da Europa para ser hoje a economia mais forte e admirada do euro e uma das poucas que resistiram ao abalo da crise financeira de 2007. Mas, quando a Alemanha fez o que fez todos os países do sul da Europa e do mundo ocidental viviam no entusiasmo da financialização da economia.(...) O que teria acontecido à Alemanha se todos tivessem feito como ela uma Agenda 2010 que se tivesse traduzido numa redução dos custos salariais? A desvalorização fiscal, (...), acaba por se revelar, aos poucos, uma estratégia proteccionista do tipo enriquece, empobrecendo o teu vizinho. Que ficará mais pobre ainda. (...). Se todos os países do euro começarem a cortar custos salariais, o resultado é ficarmos todos mais pobres” (HG, 7/11/2012).
“O Governo encontrou a ilusão que perdera (...). Essa ilusão é um efeito nominal que leva ao empobrecimento real. Os economistas chamam-lhe desvalorização interna. E é um meio, não um fim, para tornar a economia mais equilibrada e competitiva. Os tolos, como lhes chama o primeiro-ministro, ainda não viram grande coisa disso. Mas pronto, esses são tolos” (PSG, 26/11/2012). “O custo do trabalho já não é um problema (…) Os empresários alemães disseram há dias: Portugal já não concorre com os países de leste, onde os salários, pelo contrário, estão a subir” (PSG, 27/11/2012).
“Baixar a TSU faz sentido (se o tivéssemos feito, o desemprego não teria subido tanto). Que os patrões tenham surfado a onda populista de Setembro de 2012, em vez de marcarem uma posição, para dizerem agora exactamente o oposto, só mostra uma coisa: estão à deriva. Já não nos chegava os políticos...” (CL, 2/4/2013).
“Tecnicamente designada como desvalorização interna, foi desde a primeira hora uma insistência do FMI. Vítor Gaspar (...) posicionou-se sempre contra essa medida considerando-a de eficácia duvidosa. Está por contar a razão que o levou a aceitar a versão que o Governo apresentou ao país em Setembro de 2012. Mas seja qual for a razão, é ao FMI que temos de apontar o dedo por esse erro que desbaratou a confiança que o país ainda tinha no governo de Pedro Passos Coelho. A Comissão Europeia nunca olhou com bons olhos para esta estratégia de desvalorização interna” (HG, 25/6/2013).
“A reforma do Código do Trabalho foi aprovada com um coro unânime de elogios. Um ano depois ainda são escassos os efeitos dessa reforma considerada tão crucial. Os seus benefícios tardam em aparecer. (...)Entre desemprego e precariedade, é preferível que haja alguma precariedade durante mais algum tempo. Continuar a insistir em conceitos como precariedade é a maior ameaça ao emprego. Sindicatos (e grande parte dos trabalhadores) ainda estão agarrados à definição de um trabalho para a vida. Abram a janela e vejam o mundo. Ele mudou. O desafio das próximas gerações não é ter um emprego estável. E ter emprego. Ponto final! (...) Olhem à volta. A precariedade do trabalho só existe porque existem nas empresas um monte de pessoas que ainda têm um contrato vitalício de permanência mesmo que desempenhem mal o seu trabalho. (...) A estabilidade no emprego cria desemprego. E a instabilidade cria emprego” (JVP, 3/8/2013).
“Errada está a designada desvalorização interna, muito querida do FMI e baseada na hipótese cada vez mais desmentida de perda de competitividade da economia por causa dos altos salários. Conclusões que se podem tirar de um estudo também do FMI” (HG, 20/8/2013).
“A análise mais recente do FMI ao mercado de trabalho é um tratado. (...) O problema é económico, porque o FMI insiste na necessidade de ir mais longe na redução dos custos laborais como forma de aumentar a competitividade da economia, quando os dados completos disponíveis mostram que caíram 27% no sector privado (...). O Fundo deveria olhar para outros custos de contexto que pesam mais e influenciam mais a mudança de regime económico do País, absolutamente necessária. (...)A agenda de 32 pontos para a discussão com o Governo, percebe-se, assenta sobretudo na preocupação de resolver o problema do desemprego através da redução dos custos de contratação, quando o País precisa de valor acrescentado (...). Uma estratégia de baixar os salários que já são baixos, de flexibilizar a situação laboral de quem recebe o salário mínimo. A intenção é bondosa, os resultados seriam catastróficos” (AC, 29/8/2013).
“A ideia de descer salários para tornar a economia mais competitiva e atrair o investimento estrangeiro tecnologicamente avançado tem adeptos conhecidos cá por casa. A crença dos que professam tais teorias esbarra, contudo, na realidade. Com efeito, os nossos talentos e os mais bem preparados não estão disponíveis para trabalhar por 700 euros. E, por isso, seguindo o conselho do primeiro-ministro, emigram a bom ritmo para onde lhes paguem mais. (...) Quanto aos investimentos estrangeiros que haveriam de cair por si em catadupa, até agora nem rasto deles” (NS, 1/9/2013).
“As medidas mais relevantes para a competitividade e para a redução dos custos unitários do trabalho das empresas não foram chumbadas, passaram no crivo do Constitucional. (...) Desta vez, não é por causa do Constitucional que as empresas deixarão de ser mais competitivas e mais produtivas” (AC, 27/9/2013).

Surge a ideia de que é necessário tornar possível a redução dos salários nominais.

“Temos consciência que a proibição de reduzir salários se traduz em mais desemprego quando as empresas enfrentam problemas de mercado que podem ser apenas conjunturais? (...) Com a troika o que mudou? Alguma coisa, mas muito pouco. Reduziram-se custos salariais, nomeadamente no trabalho extraordinário. Mas continua a ser legalmente impossível reduzir salários. Para os salários descerem é preciso o acordo do trabalhador ou passar pelo desemprego (...) Com inflação baixa, impedir que os preços e salários diminuam é condenar o pais ao desemprego, é colocar Portugal a produzir menos do que aquilo que consegue” (HG, 17/12/2013).

Não o sendo possível, então que se torne viável o despedimento individual mais flexível, que permita a maior rotação de trabalhadores e a consequente redução salarial das novas contratações.

“A legislação laboral visou baixar custos às empresas (e ao Estado), flexibilizar o despedimento individual e anular privilégios herdados nos acordos colectivos. O trabalho ficou incrivelmente mais barato: nas horas extraordinárias, nas folgas, feriados e férias, nas indemnizações por rescisão. As empresas ficaram radiantes. Mas depois o Tribunal Constitucional (…) anulou o despedimento por extinção do posto de trabalho e por inadaptação, por considerar que a justa causa passava a ser um conceito indeterminado. O que o Governo quer é que o despedimento individual seja tão fácil como o despedimento colectivo, pois, crê, quanto mais fácil for despedir mais fácil será contratar. (...) As empresas pagam hoje menos pelo trabalho, vão pagar menos impostos pelos seus lucros e vão poder despedir mais facilmente” (PSG, 25/1/2014).
“Proibir o despedimento, congelar rendimentos ou regras de aumentos salariais quando a empresa vende menos ou o Estado recebe menos impostos, ou tem de gastar mais para apoiar quem mais precisa, é reivindicar o direito a ter sol todos os dias” (HG, 7/3/2014).
[Sobre a entrevista de António Saraiva em que disse que a legislação laboral não era constrangimento] “Qualquer legislação que crie barreiras à livre contratação de pessoas (v.g. por causa dos acordos colectivos, do custo das horas extraordinárias e da dificuldade em despedir) afecta decisões de investimento das empresas. E com isso a criação de riqueza” (CL, 24/4/2014).
“PSD, CDS e PS precisam de acordar uma alteração da Constituição que flexibilize quatro áreas do regime: 1 - estrutura do Estado (permitir despedimentos e reduções salariais); 2 - mercado laboral (flexibilização); 3 - sistema de pensões (vai haver anos em que as pensões terão mesmo de baixar); 4 - constitucionalização da regra de outro (o Constitucional não percebe que a CRP tem de ser lida com os Tratados da União, nomeadamente o orçamental). É muita coisa? É. Mas é inevitável” (CL, 14/5/2014).

E nunca desistem.

 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Chefe da ONU alerta para 'epidemia de desinformação' sobre o coronavírus

Secretário-geral da ONU, António Guterres
© AP Photo / Khalil Senosi

O secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, alertou nesta terça-feira sobre uma "perigosa epidemia de desinformação" em torno do surto global do novo coronavírus.

"Este é um momento de ciência e solidariedade", disse Guterres em comunicado e mensagem em vídeo.

"Enquanto o mundo luta contra a pandemia mortal de COVID-19 - a crise mais desafiadora que enfrentamos desde a Segunda Guerra Mundial -, também estamos vendo outra epidemia, uma perigosa epidemia de desinformação", prosseguiu.

Guterres não citou países ou meios de comunicação específicos, mas declarou que "conselhos prejudiciais à saúde e soluções de marketing enganoso estão proliferando.

"As falsidades estão enchendo as ondas de rádio", continuou ele. "Teorias da conspiração selvagens estão infectando a Internet. O ódio está se tornando viral, estigmatizando e difamando pessoas e grupos", acrescentou Guterres.

O secretário-geral da ONU comentou também que "o mundo também deve se unir contra esta doença", complementando que "a vacina é confiança", pedindo ainda às pessoas que "confiem na ciência".

Guterres elogiou jornalistas e verificadores de fatos e instou as empresas de mídia social a fazer "mais para erradicar o ódio e as afirmações prejudiciais sobre a COVID-19".

"Juntos, vamos rejeitar as mentiras e as bobagens por aí", disse ele, e "construir um mundo mais saudável, mais equitativo, justo e resiliente".

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2020041415458286-chefe-da-onu-alerta-para-epidemia-de-desinformacao-sobre-o-coronavirus/

Serviço postal de Conceição e Estoi cada vez mais reduzido

Com a privatização dos CTT, o serviço postal passou a funcionar na Junta das Freguesias de Conceição e Estoi, em Faro. Actualmente, só assegura o pagamento de pensões nalguns dias da semana.

Os CTT, uma empresa pública rentável para as contas do Estado, foram privatizados em 2013 e 2014 pelo governo do PSD e CDS-PP.Créditos

Desde a privatização, e após decisão da maioria PS na Junta da União de Freguesias de Conceição e Estoi de colocar a autarquia a suportar o expediente dos CTT, que a população tem vindo a ser confrontada com dificuldades de acesso ao serviço postal.

Actualmente, «só é assegurado parcialmente o pagamento de pensões em horário reduzido e em (poucos) dias fixos, todo o resto do serviço postal é agora prestado na loja dos CTT em Mar e Guerra». A denúncia partiu do PCP, que alerta ainda para o facto de a concentração de serviços nesta loja e a redução do horário de funcionamento provocar uma «enorme sobrecarga de atendimento». 

Os comunistas exigem medidas urgentes para combater a degradação do serviço postal e a reposição, em condições de normalidade, em todo o concelho de Faro, sublinhando que a pandemia de Covid-19, e as consequentes medidas de prevenção e combate, «não podem justificar a degradação» do serviço postal em Conceição e Estoi.

A privatização dos CTT, concretizada em 2014 pelo governo do PSD e do CDS-PP, conduziu ao encerramento de estações de correios e à degradação do serviço postal em todo o País.

A questão tem provocado fortes protestos por parte das populações, que, também através de petições, colocaram o tema da reversão do serviço postal para o Estado na Assembleia da República. As várias iniciativas já apresentadas no Parlamento foram, no entanto, sucessivamente chumbadas por PS, PSD e CDS-PP.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/local/servico-postal-de-conceicao-e-estoi-cada-vez-mais-reduzido

Cuidado com os sabichões

(Vicente Jorge Silva, in Público, 12/04/2020)

 

Quanto mais o tempo passa e perduram as incertezas ou as contradições sobre a evolução da pandemia da covid-19, maior é a tentação de encontrar receitas mágicas para ultrapassar os efeitos desta crise sem precedentes – ou que nos remete para a Grande Depressão dos anos 30 do século passado ou da «gripe espanhola» dos tempos da primeira Grande Guerra. Percebe-se que os níveis inéditos de ansiedade e preocupação de encontrar saídas para o labirinto onde estamos confinados suscitem as mais variadas intervenções, divagações, propostas e palpites por parte de uma multidão de comentadores que vem engrossando todos os dias nos canais de TV e nos jornais (muitos deles pronunciando-se, de forma muitas vezes definitiva, sobre assuntos de que não são especialistas mas apenas aprendizes de oráculos).

Ora, esta tendência que ameaça crescer para além do que seria minimamente razoável acaba por influenciar também o discurso político, levando os responsáveis governamentais e partidários – senão o próprio Presidente da República (PR) – a formular propostas de sentido difuso e aparentemente antagónico sobre as medidas a adoptar para responder às crises sanitária e socioeconómica, arriscando criar com isso um clima de ainda maior desorientação entre uma população já naturalmente desorientada.

Assim, enquanto se avançam datas possíveis para o fim do estado de emergência – que não parecem ser exactamente as mesmas para o Governo e para o PR – assistem-se a sinais contraditórios relativamente à evolução da covid-19, entre o relativo optimismo que pressupõe o reatamento das aulas dos anos finais do secundário e o pessimismo manifestado pelo primeiro-ministro sobre a hipótese quase certa de uma segunda vaga da pandemia. Aliás, esta segunda vaga de que sabemos ainda muito pouco – como aconteceu, aliás, com a primeira vaga do coronavírus – está a suscitar uma onda suplementar de preocupações um pouco por todo o mundo, incluindo países que supostamente já teriam ultrapassado o problema e parecem vê-lo regressar, como é o caso da China.

Dito isto, nada pior do que alimentar expectativas irrealistas com base na necessidade urgente da recuperação económica, como fazem alguns dos nossos sabichões e aprendizes de oráculos ao compararem o carácter relativamente benigno – é-o, sem dúvida – da situação portuguesa com a de países como a Itália e a Espanha. Sim, é verdade que quanto mais tarde regressarmos à normalidade pior será para a economia (pelo menos, para esta economia que temos). Mas pior ainda do que isso será criar falsas ilusões que poderão ter consequências gravíssimas a nível sanitário – e, também, económico.

É certo que é mais fácil aceitar o confinamento do que sair dele. Por outro lado, para uma maioria de portugueses as condições desse confinamento são muito insatisfatórias e até deploráveis – devido à exiguidade e estado precário das habitações e ao número de familiares que nelas se aglomeram –, provocando situações de stress e violência potencial (ou efectiva). Mas perante o cenário de uma segunda vaga da pandemia resta saber o que será pior: prolongar o estado de confinamento actual ou correr o risco de expor os cidadãos a um surto de infecção cuja amplitude ninguém é capaz de prever.

O que esta crise global nos tem ensinado é que continuámos a saber muito pouco sobre a sua natureza até à descoberta de uma vacina eficaz contra a pandemia (o que só deverá acontecer daqui por um ano). Significa isto que, entretanto, teremos de nos submeter à paralisia e à impotência? De modo nenhum. O inconformismo e a busca persistente de soluções devem fazer parte da nossa agenda diária, mas não esquecendo o sábio conselho de que mais vale prevenir do que remediar – sobretudo aquilo que pode não ter remédio. Daí a oportunidade de outro conselho: cuidado com os sabichões.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Rapariga bonitinha precisa-se

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 10/04/2020)

Clara Ferreira Alves

Terça-feira, 7 de abril de 2020, 13h.

 

Abro a homepage de quatro jornais, o “Público”, o “Diário de Notícias”, o “Observador” e o meu jornal, o Expresso. Todos os dias faço este exercício, para ver se me engano. Conto as fotografias publicadas dos homens e das mulheres, incluindo as de publicidade ou promoção, as colunas de opinião, as notícias nacionais e internacionais. Corro tudo. Corro a homepage até ao fim e faço a contagem. Excluo as fotografias de grupo confusas e os conjuntos de futebolistas, mas não as repetições, porque as repetições ajudam a compreender o fenómeno da omnipresença. As mulheres não estão apenas em minoria em todas as representações, as mulheres são uma ínfima parte do espaço público e são usadas para ilustração de três coisas básicas: família ou casal, trabalho considerado feminino, como coser ou cuidar dos filhos, e limpeza.

Vamos ao dia em que escrevo, terça-feira, 13h.

No “Público”, um jornal com fama de feminista, conto 39 fotos de homens, onde se incluem chefes políticos, e quatro, 4, fotografias de mulheres. Mesmo as ilustrações de notícias covid, as prisões, a quarentena, quem morre no hospital, fotografias genéricas incluem mais homens do que mulheres, e temos também o homem mais velho do mundo. Haverá uma mulher?

app da empresa Idealista, publicidade, tem como ilustração um homem, género normalmente escolhido pela publicidade para tudo o que não seja detergente ou cosmética. As fotografias de banqueiros? Homens. De autarcas? Homens. Até a ilustração de uma rua de Londres traz um homem numa trotinete. A opinião masculina tem um destaque fotográfico que a opinião feminina muitas vezes não merece. Tenho vindo a investigar estas discriminações há muitos meses, desde antes da covid, sei do que falo. Nos conteúdos comerciais, as mulheres são largamente postas de lado, exceto na venda de carne a peso, caso das raparigas que entretêm o olhar masculino ou de celebridades. Uma ilustração de sem-abrigo traz um homem, e um abraço plastificado, covid recomenda, é entre pai e filha. A fotografia da possível abertura das escolas? Um grupo de rapazes.

Entretanto, esta semana morreu uma Bond girl, Pussy Galore, com quase 100 anos, e teve destaque nas respetivas homepages, porque Pussy Galore é um protótipo feminino velho como o mundo. A Bond girl, bonitinha e inútil. Mesmo que nada disto se aplique hoje à nossa sociedade, a Pussy teve mais fotos do que a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.

Vamos ao “Diário de Notícias”. Conto 45 fotos de homens, incluindo publicidade, e 23 de mulheres, incluindo uma promoção à Portugal Mobi Summit, que usa mulheres profissionais como ilustração. Para ilustrar a defesa das mulheres da limpeza do Luxemburgo lá vem uma mulher de vassoura. E no fabrico de máscaras lá está a máquina de costura. Na opinião, o “DN” dá voz a várias especialistas de circunstância, incluindo uma que ensina a sobreviver aos filhos. Numa rubrica, uma mulher aparece agarrada ao telemóvel com o título “Esta não é a altura de mandar mensagens ao ex”. O lugar-comum da ex-namorada histérica e que não larga o osso, assediando ex-namorados.

Num momento histórico em que o abuso e a violência doméstica estão a aumentar devido ao confinamento, não há sobre isto muitas linhas nos jornais portugueses, ao contrário do que fez “The Guardian”. Em compensação, a notícia da série de televisão “A Espia” tem no “Público” a melhor foto de mulheres, uma rapariga bonita e fresca. Os homens velhos aparecem em todo o lado. As mulheres velhas raramente são vistas em página. Falta de fotogenia. As exceções são Lagarde, que aperta os cordões da bolsa, e Merkel, pela mesma razão.

No “Observador”, temos 50 fotos de homens, com repetições, e Cristiano Ronaldo, António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa são os reis da repetição em todos os jornais, e 14 fotos de mulheres, com algumas repetições. Lá anda por entre as notícias a nossa Pussy Galore. Um anúncio da Cofidis, “Conta Connosco”, tem um homem por ilustração, porque sabemos que pedir dinheiro emprestado, tal como comprar casas, é privilégio masculino. Na opinião do “Observador”, as mulheres são clara minoria. Em compensação, a opinião masculina abunda e orneia, como diria o Eça ao Camilo.

No Expresso, conto, às 13h06, 44 fotografias de homens e 19 de mulheres, incluindo um torso feminino a ilustrar uma notícia. O destaque feminino vai para uma interessantíssima peça sobre Ming Hsu, a milionária chinesa que doou quase cinco milhões de euros de material médico a Portugal. Este perfil estava em primeiro lugar nos mais lidos, o que demonstra que as boas peças sobre mulheres poderosas são lidas. Mas Ming não é apenas uma mulher poderosa, é apresentável e sobretudo, a avaliar, muitíssimo generosa. Apesar de Ming constar dos “Paradise Papers”, que o Expresso e o Consórcio Internacional de Jornalistas publicaram, ela revela uma “paixão filantrópica” pelos lusitanos e pelo torrão nacional, onde tem investimentos. Tal como a Fosun, do Partido Comunista Chinês, que também doou material médico aos portugueses. Ming, figura nebulosa, recorda-me dois aforismos. O primeiro: a cavalo dado não se olha o dente, com um ponto de interrogação. O segundo: não há almoços grátis.

Tal como Isabel dos Santos, que por aí continua nos rodapés, figuras femininas como as de Ming Hsu ou outras, e há muitas, atraem leitores, mas este tipo de notícias, reportagens ou investigações são minoritárias. O grosso do que é produzido nos media, e não apenas portugueses, é supervisionado por homens para ser consumido por homens, visto e lido por homens. Boys will be boys. O preconceito está tão arreigado que nem as mulheres o notam. Sempre que é necessário produzir uma opinião de potestade, o homem é convocado. A mulher é relegada para a opinião de nicho, moda e design, cozinhados (mas não de chefe, categoria superior), família, filhos, crianças, cuidados, limpezas. Nessa disciplina essencial que é a economia, ou a gestão do dinheiro e da banca, as mulheres foram relegadas para o secretariado e a máquina de café. Olhe-se para a composição do Banco de Portugal ou dos conselhos de administração das empresas. Quando Cláudia Azevedo, filha de Belmiro de Azevedo, sucedeu ao irmão, Paulo Azevedo, como CEO da Sonae, as ações desceram, num sinal de desconfiança, entretanto recuperando. Apesar de tudo, o Governo de António Costa é mais ou menos representativo do “eterno feminino”, mas o PSD de Rui Rio é um imenso patriarcado.

De Jane Austen para cá, parece às vezes que nada mudou. E nem falo da discriminação salarial. As mulheres são quem mais consome informação e cultura, quem compra mais livros e quem mais lê. E votam. Façam as contas.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

BE insiste no “imposto Google” para apoiar os média com 15 milhões

 

Bloco de Esquerda propôs estas sexta-feira um apoio à comunicação social de 15 milhões de euros para os meses de maio, junho e junho, disponível para as empresas que não despeçam trabalhadores nem recorram a lay-off”.

Na ótica do BE, “o setor tem à vista uma crise generalizada e de duração imprevisível” devido à pandemia de covid-19, e o partido avisa que “a crise económica e a queda da publicidade pode silenciar boa parte da comunicação social”.

“Em tempos de crise, o jornalismo é sempre uma das primeiras vítimas, mas é nestes tempos que a democracia mais precisa do seu exercício por profissionais cujos direitos são respeitados”, frisam os bloquistas, numa nota enviada à Lusa, considerando “indispensável colocar a proteção do jornalismo no centro das medidas de apoio à comunicação social”.

Por isso, o Bloco de Esquerda pede “um pacote de apoio de emergência à comunicação social para os meses de maio, junho e julho”.

 
 

Este montante “equivale à estimativa de receita trimestral do imposto ‘Google’, a criar mais adiante”, explica o partido, considerando que, “mais do que nunca, as plataformas digitais, que vivem da publicidade cobrada na divulgação de conteúdos alheios, devem ser chamadas a contribuir para que o jornalismo não viva sob ameaça económica”.

O acesso a este apoio “obriga as empresas apoiadas a manter intactos os postos de trabalho e os salários existentes à data da declaração do estado de emergência (18 de março) e não é compatível com o recurso a ‘lay-off’ [suspensão temporária dos contratos de trabalho ou redução dos períodos normais de trabalho] ou medidas que diminuam a efetiva capacidade de produção jornalística”, concretiza o BE.

Este apoio tem como objetivo a “manutenção da capacidade jornalística dos meios de comunicação social e da pluralidade na produção de informação enquanto bem comum”.

A repartição das verbas, de acordo com a proposta do BE, seria de 43% (6,45 milhões de euros) para a televisão, o mesmo valor para a imprensa nacional, e 14% (2,1 milhões) para rádios de dimensão nacional e local com corpo redatorial.

No caso das televisões e das rádios, as verbas serão distribuídas de acordo com o número de jornalistas com contrato efetivo, enquanto à imprensa escrita generalista poderá ser aplicado o mesmo critério, mas será também proposto um protocolo.

Esse protocolo prevê a criação de “uma plataforma digital através da qual cada cidadão maior de 16 anos escolhe uma publicação”, podendo aceder gratuitamente aos conteúdos ‘online’ durante maio, junho e julho. “Aos meios de comunicação social será entregue, em cada um dos três meses, a parte da verba de apoio à imprensa nacional proporcional às escolhas feitas pela população”, acrescenta o partido.

Porte gratuito e eliminação de taxas

Para a imprensa desportiva e regional, “deverão ser estudados com o setor modelos de apoio específicos”. Na ótica dos bloquistas, estas medidas permitem aos meios de comunicação social “uma relação estreita com um enorme universo de pessoas, que passam a estar familiarizadas com o regime de assinatura”, apontando que esse é “o vínculo mais eficaz para garantir a sustentabilidade e a autonomia da imprensa”.

O partido pede também “porte pago gratuito para a imprensa local, regional e nacional”, a “eliminação do IVA nas assinaturas comerciais”, a “isenção de pagamento das taxas referentes à ERC e ANACOM durante o ano de 2020 (com compensação pelo Orçamento do Estado a estas entidades)” e o “cumprimento efetivo das regras da publicidade institucional com reforço de verbas das campanhas em curso”.

O Bloco de Esquerda refere ainda que “o critério da receita publicitária tem de ser ponderado com a intensidade de produção jornalística de cada meio, indicada pela dimensão dos seus quadros profissionais próprios”.

// Lusa

 
 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/be-insiste-no-imposto-google-apoiar-os-media-15-milhoes-318659

Sábias palavras

A pandemia nos media
Isto está cada vez pior - Sociedade, Comunicação e Política...

António Guerreirono «Ipsilon» do «Público» :
«Nestes tempos de virulência, coube a um certo jornalismo (sobretudo, mas não exclusivamente, aquele praticado entre nós pelos vários canais de televisão) assumir um papel de vanguarda na lógica viral. “O pior ainda está por vir”, dizia há dias um apresentador de um jornal televisivo ao introduzir uma reportagem sobre os efeitos do Covid-19 em Nova Iorque.Dia após dia, a volúpia do pior apoderou-se desta vanguarda jornalística que vive o seu grande momento : aquele em que lhe é dado fazer o relato dos últimos dias da humanidade. O andamento destas peças jornalísticas em modo repetitivo estão codificados:começam em andamento grave, alternando às vezes,nos melhores dias com um allegro ma nontroppo, passam depois para um adagioe acabam num allegricissimocom a exibição de divertidos videos domésticos de gente confinada mas bem humorada. (...) Devemos recear que as decisões políticas sejam muito mais determinadas por esta virulência jornalística do que pela ciência
 
 

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

Um jornal para tempos de mudança

Quando olhamos em volta vemos as imensas manifestações e gestos de solidariedade que a pandemia suscitou. Vemos também os que sempre defenderam o desinvestimento do Estado nos serviços públicos e a retirada de instrumentos de decisão aos poderes públicos virem agora apelar ao reforço do papel do Estado e das ajudas que este deveria disponibilizar. Podemos ser tentados a achar que, quando esta pandemia passar, porque ela vai passar, há condições muito melhores para, juntos, corrigirmos todas as falhas sistémicas agora à vista de todos. Podemos pensar que saberemos hierarquizar prioridades de investimento, por exemplo a saúde e não os bancos. Que saberemos revalorizar a investigação científica e o papel dos agentes educativos, com o investimento que estes sectores exigem. Que saberemos remunerar condignamente profissões durante tanto tempo invisíveis e que agora vemos que são essenciais à nossa existência, desde os profissionais da limpeza aos operadores de caixa de supermercado, passando pelos bombeiros e a protecção civil. Que saberemos reconhecer nos profissionais da cultura os responsáveis pela arrumação e higiene da nossa vida interior, aprendendo a pagar-lhes por isso. Que saberemos estender o perímetro das soluções públicas a todas as esferas de reprodução social da vida, por exemplo criando uma rede pública e universal de estruturas residenciais para idosos. Que saberemos recuperar o controlo público de sectores estratégicos, da energia à banca, levando o interesse colectivo expresso nas requisições civis em tempos de estado de emergência até à implantação de soluções duradouras, com a socialização ou até a nacionalização do que for necessário à preservação das nossas vidas. Mas se nada fizermos não é isso o que se prepara. 
Sandra Monteiro, Achatar as desigualdadesLe Monde diplomatique - edição portuguesa, Abril de 2020.

Doravante, todos sabemos o que custa confiar a cadeias de abastecimento espalhadas pelo mundo fora, e que operam sem stocks, a responsabilidade de fornecer a um país em perigo milhões de máscaras sanitárias e produtos farmacêuticos de que dependem a vida dos seus doentes, dos seus profissionais de saúde, dos seus distribuidores de mercadorias ao domicílio, dos seus empregados de caixa. Todos sabemos também o que custa ao planeta ter suportado desflorestações, deslocalizações, a acumulação de resíduos, a mobilidade permanente – Paris acolhe por ano trinta e oito milhões de turistas, ou seja, mais de dezassete vezes o número dos seus habitantes, e a autarquia congratula-se com isso…Doravante, o proteccionismo, a ecologia, a justiça social e a saúde estão ligados. Eles são os elementos fundamentais de uma coligação política anticapitalista suficientemente e poderosa para impor, e o tempo é agora, um programa de ruptura.
Serge Halimi, O tempo é agora, Le Monde diplomatique - edição portuguesa, Abril de 2020. Uma edição de Abril com uma componente portuguesa particularmente importante, da saúde pública à economia política, passando pelos olhares de 21 artistas nacionais. É realmente tempo.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

O Pluralismo continua de quarentena

Manipulação | Lentes de Aumento

Manuel Rodrigues
Julgo que na actualidade, ninguém negará a importância dos Media na formação de opinião de grandes massas populacionais. E, pelos dados  que vão sendo publicados, a esmagadora maioria de nós, portugueses, dependemos sobretudo da informação das TV. Quanto às fontes de informação, sobre política, uma sondagem do ICS/ISCTE(“Expresso” 21.09.19),  confirma que “apenas dois em cada dez inquiridos não se informam sobre assuntos políticos através da TV”; e que, também, “para os inquiridos com o ensino superior completo é a televisão a aparecer em primeiro lugar (66%)”.

 Vem isto a propósito das afirmações do senhor Presidente da República e do senhor Primeiro Ministro de que “a democracia não fica suspensa” com a declaração do Estado de Emergência.
 
É que, pelo menos  nas TV, e especialmente na selecção que fazem  dos comentadores e formadores de opinião, aPLURALIDADE INSCRITA NA CONSTITUIÇÃO HÁ MUITO QUE ESTÁ SUSPENSA, senão mesmo enterrada. E como se não bastasse a actual legião de comentadores, maioritariamente escolhidos a dedo ao gosto da Finança e de Bruxelas, o Imperialismo capitalista, neste tempo de pandemia, está já a preparar a ressaca, fazendo avançar a reserva estratégica: só em dois dias (31.03/01.04.2020) pudemos ver e ouvir nas TV, Pires de Lima, Luís Filipe Pereira, BagãoFélix e Durão Barroso; este último, que preside ao Goldman Sachs Internacional, voltou a estar presente, numa emissão especial da RTP1 em 08.04.2020. 
 
Com que justificação  são franqueados os écrans televisivos a estas pessoas?  Para nos proporem a mesma receita que os levou, enquanto governantes, a golpearem duramente Abril e a entregarem à finança internacional as bases materiais da soberania da pátria portuguesa? 
 
Temos de estar atentos  às operações psico-mediáticas que começam a esboçar-se, com o objectivo de levarem o Povo Português a aceitar passiva e resignadamente a sobre-exploração e o esbulho de direitos, que o imperialismo capitalista se prepara para nos impor, na ressaca da pandemia Covid19.
 Mas, claro,  não basta estarmos atentos; é preciso agir, denunciando os atropelos dos Media à Constituição e exigindo àqueles a quem cabe defende la, que actuem em conformidade. As maneiras de o fazermos temos nós de as criar; porque, como o Agostinho Lopes demonstrou no seu recente texto aqui publicado e o Zeca cantou, aos que comandam a Finança  “nada os prenda às vidas acabadas”…..e às por acabar, acrescento eu.

Via: FOICEBOOK https://bit.ly/2UTLUEa

 

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/04/09/o-pluralismo-continua-de-quarentena/

Observações

Lagarde: Crescimento da Zona do Euro é fraco, mas mostra...

1) Perante o crescente cepticismo e desaprovação da opinião publica sobre a UE Christine Lagarde diz que não tolerará nenhum endurecimento sobre as dívidas e lançou avisos às “agências de notação”
Veremos ?
2) Ontem a RTP no seu telejornal foi ouvir Durão Barroso , o Presidente da CiP e uma representante da AREST.  Tudo muito pluralista. Muitíssimo.
Mas hoje vai ouvir por exemplo,  o Prof João Ferreira do Amaral , a coordenadora da CGTP ,  um representante do Sindicatos da hotelaria e da Confederação dos micro, pequenos e medio empresários.
Vai sim senhor…ou sim senhora.

Via: FOICEBOOK https://bit.ly/2x7lINl

 

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/04/09/observacoes/

Os reaças continuam ativos entre nós

Já o tenho aqui escrito, mas vale a pena reiterar o que se pode concluir do ouvido de algumas criaturas nestes últimos dias: as nossas direitas ideológicas têm uma tal falta de imaginação, que não veem outra alternativa senão a de reciclarem argumentos metralhados repetidamente noutras ocasiões. Agora foi o diretor do «Expresso» a dar o mote: para ele os funcionários públicos deveriam sofrer cortes nos salários, já que existem tantos trabalhadores emlay-off ou mesmo desempregados. E Daniel Bessa - aquela aventesma nortenha de quem a direita gosta tanto de repetir ter pertencido, mesmo que efemeramente, a um governo de António Guterres (o que só comprova as limitações do atual secretário-geral da ONU nos tempos em que foi primeiro-ministro!- vem relançar o tema da “peste grisalha” sugerindo que os países do Norte só acedam à facilitação do financiamento à economia portuguesa nos próximos tempos se os pensionistas levarem violento corte nos rendimentos.

 

Seria pelo menos interessante ver as direitas adornarem-se de argumentos e táticas novas, mas a sua mediocridade é tal, que se contentam em fomentar os ódiozinhos entre trabalhadores do setor privado versus setor público ou das gerações mais novas relativamente às mais maduras. Porque sabem os perigos que existem quando os trabalhadores se unem, independentemente de quem têm como patrões, ou quando novos e velhos se põem a desejar aquilo que o poeta Aleixo designou como um “mundo novo a sério”.

 

Nestas primeiras tentativas, nem o Vieira Pereira do «Expresso» nem o Bessa conseguiram grande eco das suas palavras. Pelo contrário logo se levantou um clamor dos que bradam contra o regresso das intenções espúrias de tão desafinados bardos. Mas deveremos estar atentos, porque eles não desistirão à primeira, logo voltarão quando julgarem mais propícia a ocasião para reiterarem o que agora só lhes terá servido de teste apara aferir a reação. Como se dizia nos tempos subsequentes à Revolução de Abril convirá estar atentos, porque osreaças continuam ativos entre nós.

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2020/04/os-reacas-continuam-ativos-entre-nos.html

Edição de Abril de 2020

Índice

COVID-19: E A VIDA MUDOU

-O tempo é agora . SERGE HALIMI

-Achatar as desigualdades . SANDRA MONTEIRO

-O olhar dos artistas: 21 obras obras sobre a pandemia

-Pandemia, sociedade e SNS: superar o pesadelo, preparar o amanhecer . CONSTANTINO SAKELLARIDES

-Das certezas que gostaríamos de ter… ao que a todos cabe fazer . MARIA AUGUSTA SOUSA

-A pandemia, o Estado e o nosso SNS . ISABEL DO CARMO

-O hospital, no dia seguinte . ANDRÉ GRIMALDI e FRÉDÉRIC PIERRU

-Uma mina de outro para os laboratórios . QUENTIN RAVELLI

-Medicamentos e epidemias a virus . JOSÉ ARANDA DA SILVA

-Nós somos o SNS . CIPRIANO JUSTO

-Protecção do emprego em tempos de pandemia . FILIPE LAMELAS

-Lições urgentes . JOÃO RODRIGUES e NUNO TELES

-Financiamento sim, mais dívida não obrigado . EUGÉNIA PIERES e JOSÉ CASTRO CALDAS

-Virulência e confinamento . DENIS DUCLOS

-O que se sabe quando se decide . JOÃO LUÍS LISBOA

-Até ao próximo fim do mundo… . RENAUD LAMBERT e PIERRE RIMBERT

-Austeridade, a grande ceifeira . MICHAEL MARMOT

-No Reino Unido, a tentação do inelutável . THÉO BOURGERON

-Por trás das paredes da «fábrica das encomendas» . JEAN-BAPTISTE MALET

-Tocar o mundo sem mudar o poder . FRÉDÉRIC THOMAS

-Petrobras: privatização em águas profundas . ANNE VIGNA

-Reinventar a humanidade… . EVELYNE PIEILLER

Ver o original em Le Monde Diplomatique PT (clique aqui)

Governo prepara apoios aos media “à medida das televisões”

(Comentário:

Uma comunicação social livre é indispensável e o Estado deve apoiá-la. Mas a generalidade da comunicação social que hoje existe em Portugal NÃO É LIVRE. Pelo contrário é pertença e é subserviente dos interesses dos poderosos (dos donos disto tudo) ao serviço de quem manipula despudoradamente e medíocratiza o espaço público.

Uma comunicação social assim, que não respeita diversidade cultural, que não promove a inteligência e a pluralidade democrática, não merece que os cidadãos (o Estado) despendam dinheiro para sustentar)

 

O Governo está a preparar medidas de apoio aos meios de comunicação social, gravemente afetados pela crise causada pela pandemia de Covid-19.

Contudo, como considerou o administrador da Global Media Group, Afonso Camões, citado pelo Dinheiro Vivo, tudo indica que o pacote destinado a compensar a quebra de receitas de circulação e publicidade não vem ao encontro das necessidades dos editores de jornais e revistas nem, muito menos, de quem as distribui.

“O pacote, como está neste momento, é feito à medida das televisões, porque não tem em conta a circulação dos jornais e revistas, os meios mais prejudicados com a crise de saúde e económica que estamos a viver”, explicou, sublinhando a quebra nas vendas devido ao encerramento de quiosques e cafés.

De acordo com o Dinheiro Vivo, as medidas que o Governo está a preparar baseiam-se na quebra de receitas da publicidade para o cálculo dos apoios, sem incluir o valor perdido com a diminuição na circulação.

 
 

“Sem imprensa escrita, é em primeira e última análise o direito à informação, o Estado de direito e a Democracia que ficam em causa”, lembrou Afonso Camões.

Em comunicado, a VASP, responsável pela distribuição de publicações, apontou a importância da “aprovação de medidas específicas de apoio ao setor da imprensa, que incluam toda a cadeia de valor, distribuição incluída, e não apenas medidas relativas à quebra do investimento publicitário”.

“Sem o apoio do Estado, que estamos a solicitar, não vai ser possível manter, por muito tempo, a distribuição de imprensa a funcionar no mesmo modelo, e com as condições atuais, e seremos obrigados a tomar decisões e medidas que inevitavelmente irão penalizar, ainda mais, o setor da imprensa em papel”, frisou.

ZAP //

 
 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/governo-apoios-media-medida-televisoes-318109

O lixo editorial a que temos direito

Releiam o editorial do Financial Times da passada sexta-feira. Já está? Bom, agora experimentem ler um editorial de João Vieira Pereira no dia a seguir (sábado) no Expresso. Desculpem, mas não me apetece fazer ligação (e além disso paga-se para ler o esforço para nos transformar em lixo, em linha com crónicas antigas).

De facto, João Vieira Pereira tenta com toda a demagogia, que é o que resta aos neoliberais no campo das ideias, preparar caminho para a austeridade; ao mesmo tempo, anda a pedinchar ao Estado para que salve esta decadente imprensa. Enfim, façamos força que ele geme contra os funcionários públicos.

E agora leiam a sequência de Rui Cerdeira Branco, disponível gratuitamente no twitter (editado ligeiramente por António Vilarigues). Deixem-me só lembrar antes que Portugal não só tem o mais baixo investimento público (em percentagem do PIB) da UE, como tem das mais baixas percentagens de emprego público no emprego total, uma verdadeira desgraça para o nosso desenvolvimento.

“Ode a João Vieira Pereira! O João, no seu editorial de hoje [dia 4 de abril] no Expresso indigna-se por os funcionários do Estado não estarem a contribuir para o sacrifício nacional pois não há um único em lay off com corte de salário (que seria pago pelo mesmo Estado). De quem falará ele?

Diz que não é dos 30 569 médicos, nem dos 49 022 enfermeiros. Nem será dos 9 670 técnicos de diagnóstico e terapêutica. Bem como dos 1 962 técnicos superiores de saúde. Também não será dos 51 366 polícias das forças de segurança ou dos 1 548 polícias municipais. Ou dos 2 292 bombeiros. 


Se bem percebi também não fala dos 136 150 professores dos vários níveis de ensino básico e secundário que continuam a dar aulas à distância e a preparar o que aí vem. Ou dos 15 241 docentes universitários e 10 470 docentes superior politécnico que continuam com aulas não presenciais. 

Mesmo os políticos nacionais, regionais, locais estarão em overdrive como nunca pelo que também não será desses 2 374 que fala ou sequer dos autarcas que na larga maioria não contam para este totobola pois recebem senhas e não salário.

Será que fala dos 157 990 assistentes operacionais/ operário/ auxiliar (aqueles que constituem, no Estado, o grupo com mais infetados) que contém, lá pelo meio, a malta que está nos hospitais, centros de saúde, que nas autarquias continuam a desinfetar ruas e enterrar mortos? Se calhar não.

Talvez sejam os 87 448 assistentes técnico/ administrativos bom, mas também nesses os há que estão em teletrabalho a apoiar os 67 965 técnicos superiores que desenham e acodem a empresas e particulares com todas as medidas de exceção.

Já sei, são os dirigentes, os 11 107 dirigente intermédios e os 1 713 dirigentes superiores. Mas espera, quem define trabalho, organiza o trabalhado à distância, distribui pessoas para outras áreas críticas neste período? Não também não devem ser esses.

Talvez os 5 181 informáticos? Eh pá, também não! Esse andam completamente debaixo de água a tentar que tudo funcione à distância e a trabalhar como nunca. Os 403 diplomatas? Bom, esses andam em roda viva à procura de garantir equipamentos e razoabilidade entre pares.

Serão os magistrados, todos os 3 801? Bom, parece que há muitos processos ainda em curso e muito trabalho acumulado que implica ler, estudar e despachar. Ná. Também não andam a coçar a micose. 

Estão-se-me a acabar os suspeitos. Mas... serão os 3 441 tipos da investigação científica? Os de biomédicas? Os de economia? Quais? Sim haverá alguns que ficaram em casa mas até esses estão de prevenção e podem ser chamados a qualquer momento como determina o Estado de Emergência.

Pois é JVP, provavelmente NUNCA em tempo de paz os mandriões do Estado mandriaram tão pouco. Se calhar NUNCA tantos sentiram o peso e importância de cumprirem e se calhar NUNCA os que eles servem reconheceram tão facilmente quão importante é o seu trabalho para comunidade. Saúde!”

 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

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      • Homicidal Cops Caught On Police Radio
        #TheJimmyDoreShow
        Homicidal Cops Caught On Police Radio
        42 219 visualizações
        •05/06/2020
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