Ciência e Tecnologia

Portugal exporta vírus para combater doenças (“por amizade científica”)

Há, em Portugal, um Banco de vírus que está a ser “alimentado” há vários anos pela equipa da investigadora Joana Azeredo da Escola de Engenharia da Universidade do Minho, em Braga. Deste Banco saem vírus para hospitais estrangeiros para ajudar no tratamento de doenças provocadas por bactérias multirresistentes, no âmbito de uma terapia que não é usada em Portugal.

 

O grupo de trabalho que a professora Joana Azeredo lidera investiga, há muitos anos, vírus que infectam bactérias e que existem no ambiente, convivendo com os seres humanos. “Encontramos muitos nos afluentes e nas águas residuais“, explica ao ZAP a investigadora, salientando que a colecção tem vírus “puros, isolados e caracterizados” – “sabemos muito bem como se comportam, como interagem com as bactérias e, sobretudo, conhecemos o seu código genético”, vinca.

O Banco acolhe apenas vírus que infectam bactériasque causam doenças em humanos e tem “mais de uma centena de vírus novos”, “alguns deles até muito diferentes, de espécies diferentes que não tinham sido descobertas até agora”, nota Joana Azeredo, falando do seu “grande potencial do ponto de vista da terapia fágica”.

A terapia fágica mais não é do que a utilização de “vírus que infectam bactérias para o combate de doenças infecciosas provocadas justamente por bactérias”, como resume Joana Azeredo. São os chamados bacteriófagos e trata-se de um “conceito muito antigo” que surgiu no início do Século XX, numa altura em que não havia antibióticos, como realça a investigadora que, recentemente, se tornou na primeira portuguesa a baptizar um grupo de vírus – e apenas a quarta no mundo.

Após a descoberta de antibióticos, a terapia fágica “deixou de fazer sentido, ficando centrada a países da ex-União Soviética, à Geórgia, à Rússia e também à Polónia”, países que têm, actualmente, centros dedicados a esta abordagem terapêutica, relata ao ZAP Joana Azeredo.

Mas com o “problema muito grave” e crescente das “doenças infecciosas provocadas por bactérias resistentes a antibióticos“, Joana Azeredo salienta que outros países começaram também a olhar para a terapia fágica como uma opção “alternativa ou até complementar”, como é o caso de Bélgica, Holanda e França.

“Nunca foi usada em Portugal e é uma pena”

Os bacteriófagos “injectam material genético nas bactérias e depois causam a sua exclusão, destroem as bactérias”, como esclarece a investigadora, lamentando que a terapia não seja ainda utilizada em Portugal.

No nosso país, a terapia fágica “não é utilizada em nenhuma circunstância, nem em “tratamento de compaixão”, diz Joana Azeredo referindo-se àquelas situações em que o paciente “está às portas da morte” e onde “não há antibiótico nenhum que consiga debelar a infecção”.

“Que eu saiba nunca foi usada e é uma pena que em Portugal não haja investimento nesta área”, aponta.

A nível da União Europeia também não há legislação para esta terapia que não está aprovada “do ponto de vista farmacológico”, por não ter havido ainda “ensaios clínicos suficientemente robustos” para a “poderem validar”, frisa Joana Azeredo. Mas, apesar disso, “está a ser usada em hospitais”, com a prescrição de cocktails de vírus que vão actuar directamente nas bactérias.

A equipa de Joana Azeredo tem colaborado com um Hospital na Bélgica que também tem um Banco de vírus, mas que recorre à sua colecção sempre que não encontra o vírus ideal para combater bactérias multirresistentes.

“A Bélgica é muito pioneira” porque “conseguiu, ao nível dos regulamentos, arranjar uma fórmula de tornar [a terapia] aplicável”, destaca a investigadora, realçando que outros países estão também a aproveitar esse modelo e a implementar esta abordagem terapêutica.

O Banco de vírus de Joana Azeredo também envia vírus para a Suíça e a França e, recentemente, foi chamado a ajudar num caso de um bebé com uma “infeção muito difícil de debelar na Alemanha” – neste caso, a equipa da investigadora tentou, em vão, encontrar um vírus para tratar o problema.

Assim, o Banco exporta vírus para outros países, mas “exportamos sem valor comercial, por amizade científica” e por pura “carolice”, trata de salientar Joana Azeredo.

Enquanto isso, a investigadora lamenta que “é uma pena termos toda a capacidade científica para avançar com isto e não investir em Portugal” nesta abordagem terapêutica.

Joana Azeredo considera que “ainda não houve força do ponto de vista clínico que tenha puxado para essa necessidade”, mas trata de salvaguardar que “não é uma ciência esotérica, nem uma terapia estranha“, e que “está validada do ponto de vista científico”.

Agora, é preciso que as autoridades de Saúde a validem também para que “nenhum médico vá preso por aplicar esta terapia”, constata ao ZAP.

Farmacêutica alemã vai vender enzimas do Banco de vírus como medicamento

Na terapia fágica, não há manipulação nenhuma dos vírus – esta abordagem recorre, apenas, a cocktails de vírus que se encontram na natureza. É, basicamente, “usar a natureza para nos ajudar”, vinca Joana Azeredo.

A investigadora atesta que alguns destes vírus são “muito eficazes, mas não actuam em todas as doenças”, apresentando “algumas limitações” que a sua equipa está a tentar colmatar em laboratório, com a criação de fagos sintéticos “por manipulação genética”, pegando no código genético dos vírus e alterando-o, para os tornar “mais eficientes e mais seguros”.

A professora da Universidade do Minho espera, agora, que “possa haver legislação” para que “o próximo passo seja poder utilizar estes fagos sintéticos, claro que muito confinados – não podem ir para o ambiente e temos que ter algum cuidado“, assume em declarações ao ZAP.

Reforçando que “já existem terapias com vírus sintéticos, oncológicas inclusive que utilizam vírus geneticamente manipulados”, Joana Azeredo nota que os fagos sintéticos que são desenvolvidos pela sua equipa estão em fase de testes em animais, mas, para já, os resultados são promissores.

“Já provamos, quer in vitro, quer em modelos de invertebrados, que são muito eficazes e bastante seguros, mas faltam ainda muitas validações até chegar a um produto final”, releva, frisando que isso “exige muito investimento” e que o seu laboratório não tem “essa capacidade financeira”.

As investigações da equipa de Joana Azeredo têm sido financiadas pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR-N) e também por fundos comunitários, através do programa Horizonte 2020 e da ESCMID – Sociedade Europeia de Microbiologia Clínica e Doenças Infecciosas.

O Banco de vírus também tem “contratos com a indústria”, nomeadamente “um contrato com uma empresa alemã na área da farmacêutica” que já adquiriu “duas das patentes” desenvolvidas pela equipa de Joana Azeredo para fazer a sua “exploração industrial”.

Estão em causa “patentes relativas a enzimas que foram produzidas com base no código genético de vírus e que estão também a ser utilizadas como alternativa aos antibióticos no combate de bactérias”, conta a investigadora ao ZAP.

Neste momento, decorrem os ensaios clínicos e o objectivo é que estas enzimas venham a ser usadas como medicamentos contra as bactérias pseudomonas aeruginosa que são resistentes a antibióticos e surgem, muitas vezes, em contextos hospitalares, nomeadamente após cirurgias.

SV, ZAP //

 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/portugal-exporta-virus-combater-doencas-332223

O nunca por demais recordado Mariano Gago

Se quisermos ter dos portugueses uma perspetiva justificadamente negativa podemos sublinhar-lhes a tendência para condenarem ao esquecimento os melhores de entre eles, porque poderão subsistir sem escândalo os cuja mediocridade melhor justificaria tal condenação.

 

Explica-se assim que os dez anos sobre a morte de Saramago quase se passassem sem referência, bem como os 50 anos de idade que, hoje, Bernardo Sassetti faria. Não podemos, pois, admirarmo-nos com o esquecimento a que é sujeito Mariano Gago, apesar de terem sido determinantes para Portugal os anos em que foi Ministro da Ciência e Tecnologia (e do Ensino Superior num deles) em quatro governos constitucionais, liderados por António Guterres e José Sócrates. Apesar de tudo quanto os governos do PSD/CDS fizeram, entretanto, para lhe prejudicarem a herança, os resultados das suas políticasvão-se afirmando, como agora sucedeu com o relatório doEuropean Innovation Scoreboard,que situa Portugal no grupo mais avançado dos países fortemente inovadores.

 

Acaso Passos Coelho e sua companhia, tivessem prosseguido na rota de vocacionar o país para se tornar numa espécie de Bangladesh da Europa e a notícia de hoje nunca ocorreria. Mas como foi atirado para o tal caixote do lixo em finais de 2015 o referido relatório dá Portugal como único país do sul a ficar entre os doze primeiros entre os 27. Portugal equipara-se à França e a Alemanha, deixando para trás a Espanha ou a Polónia. E, porque o carácter visionário da ação de Mariano Gago só a prazo se revela, o relatório sublinha o enorme salto dado nos últimos dois anos em que a pontuação doranking subiu 20%. Com este acelerar da herança poderemos estar otimistas quanto ao que revelarão os próximos relatórios.

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2020/06/o-nunca-por-demais-recordado-mariano.html

Podem existir cerca de 6 mil milhões de planetas semelhantes à Terra na Via Láctea

 

Podem existir mais de 6 mil milhões de planetas semelhantes à Terra na Via Láctea, concluiu uma nova investigação levada a cabo por cientistas daUniversidade da Colúmbia Britânica (UBC), nos Estados Unidos.

 

Um planeta é considerado semelhante à Terra se cumprir uma série de requisitos: deve ser rochoso, do tamanho do nosso planeta, orbitar estrelas do tipo do Sol (do tipo G) e estar entre a zona habitável da sua estrela, referem em comunicado, citado pelo portal Phys.

Para chegar à nova estimativa, os cientistas calcularam uma nova proporção entre a quantidade de planetas semelhantes com a Terra para cada estrela do tipo G – também chamada de anã amarela – já identificada na Via Láctea.

“Os meus cálculos apontam para um limite superior ao de 0,18 planetas do tipo da Terra por estrela do tipo G”, começou por explicar a cientista da universidade norte-americana Michelle Kunimoto, também co-autora novo estudo publicado no The Astronomical Journal.

E o seu colega Jaymie Matthews completou: “A nossa Via Láctea tem até 400 mil milhões de estrelas. Destas, 7% são do tipo G. Isto significa que menos de seis mil milhões de estrelas podem ter planetas semelhantes à Terra na nossa galáxia”.

Estimativas anteriores chegaram a apontar proporções que variavam entre 0,02, até mais de um exoplaneta por estrela do tipo do Sol.

Para chegar às novas estimativas, os cientistas da UBC recorreram a uma técnica conhecida como modelagemdireta. Tal como explicou Kunimoto, o processo científico começou a partir de uma simulação de toda a população de exoplanetas em torno de mais de 200 mil estrelas estudadas pelo telescópio espacial Kepler.

A equipa classificou depois cada astro como “detetado” ou “perdido”, de acordo com a com a probabilidade de o algoritmo dos próprios cientistas identificar os exoplanetas.

“Depois, comparei os planetas ‘detetados’ com o meu catálogo real de planetas. Se a simulação produz uma resposta próxima, então a população inicial [dos catálogos] é provavelmente uma boa representação da população real de planetas que orbitam as estrelas”, sintetizou a co-autora do estudo.

ZAP //

 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/podem-existir-6-mil-milhoes-planetas-semelhantes-terra-na-via-lactea-330526

Investigadora portuguesa dá nome a “vírus bons”. É a quarta mulher (e a única viva) a receber a distinção

A investigadora Joana Azeredo, da Escola de Engenharia da Universidade do Minho, vai ser a primeira portuguesa a baptizar um grupo de vírus. Trata-se da quarta mulher, a nível mundial, a receber a distinção e a única que se encontra viva aquando da nomeação.

 

Joana Azeredo, que é professora na Universidade do Minho (UM), vai ter o seu apelido associado a um grupo de vírus, em concreto, à subfamília Azeredovirinae, que atacam bactérias patogénicas para os humanos.

Trata-se de “um grupo [de vírus] que infectam especificamente bactérias” e são “completamente inofensivos para os humanos”, conforme explica ao ZAP a investigadora. Mas “é bondade falar em vírus bons”, refere, salientando que “também estão associados à transferência das resistências em bactérias”.

O que é bom é o facto de conseguirem “reconhecer e matar bactérias”, podendo, assim, ser utilizados “como armas” no combate a infecções bacteriológicas, nomeadamente no âmbito de “feridas crónicas, infecções urinárias e respiratórias”, como explica a investigadora.

Os vírus Azeredovirinae “infectam e matam bactérias do género Estafilococos, causadores de doenças nos humanos” e “têm um grande interesse terapêutico”, como destaca o comunicado do Gabinete de Comunicação da UM.

“Actualmente, há 43 sub-famílias de vírus bacterianos (também chamados bacteriófagos ou fagos) e só 14 delas foram nomeadas em tributo a cientistas”, destaca ainda a Universidade.

“Há poucas mulheres em cargos de liderança em Ciência”

A nomeação de Joana Azeredo foi anunciada pelo presidente do Sub-comité de Vírus de Bactérias e Arqueas do Comité Internacional de Taxonomia de Vírus, Andrew Kropinski, e a aprovação deve acontecer na próxima assembleia do organismo, em 2021, e é “habitualmente consensual”, segundo o comunicado da UM.

Trata-se da quarta vez que esta homenagem mundial é feita a uma mulher e é a primeira vez que é feita com uma cientista viva. Joana Azeredo confessa ao ZAP o seu “orgulho” com a distinção, sobretudo porque “não é a título póstumo e porque se trata também de um vírus bom”.

A investigadora admite que o mundo da Ciência ainda é dominado por homens, mas salienta que Portugal “é um dos países europeus com mais mulheres, sobretudo na área das Ciências da Vida”. “A minha equipa até tem mais mulheres do que homens”, diz ainda.

Não sinto nenhuma discriminação de género em Portugal, mas reconheço que possa existir, sobretudo porque há poucas mulheres que ocupam cargos de liderança em Ciência”, salienta também ao ZAP.

Joana Azeredo aproveita ainda para destacar que Portugal “evoluiu muito em termos de Ciência nos últimos anos, sobretudo depois de Mariano Gago”.

Licenciada em Engenharia Biológica e doutorada em Engenharia Química e Biológica pela UM, onde é professora associada, é coordenadora do grupo de Ciência e Engenharia de Biofilmes do CEB – Centro de Engenharia Biológica da Universidade.

Joana Azeredo também colabora com a Universidade Católica da Lovaina (Bélgica), o MIT – Instituto de Tecnologia de Massachusetts (EUA) e as universidades de Groningen e Wageningen (Holanda), entre outras instituições.

A investigadora foi uma das co-fundadoras da International Society of Viruses of Microbes e é editora do “Virology Journal” e co-autora de quatro patentes, três livros e mais de 150 artigos em revistas internacionais, além de ter coordenado dois projectos de investigação europeus e sete nacionais.

SV, ZAP //

 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/investigadora-portuguesa-da-nome-virus-bons-quarta-mulher-unica-viva-receber-distincao-330891

A mercantilização das Universidades e da Investigação: o caso da grande indústria farmacêutica em período de Covid-19 – Nota Introdutória. Por Júlio Marques Mota

Espuma dos dias Mercantilização Universidade Investigação

Nota introdutória

julio-marques-mota Por Júlio Marques Mota

em 8 de junho de 2020

 

Lancet é uma das principais revistas científicas à escala mundial sobre medicina. A sua direção deve sabê-lo, mas mais ainda, deve saber que aquilo que disser e sugerir é revestido de um tal peso que todas as autoridades públicas de saúde acatam o que em Lancet se escreve e se sugere. Foi assim com o agora famoso artigo em torno da cloroquina, “Hydroxychloroquine or chloroquine with or without a macrolide for treatment of COVID-19: a multinational registry analysis”, publicado em 22 de maio último (ver aqui). E isto é tanto mais verdade que a Organização Mundial de Saúde suspendeu imediatamente os ensaios clínicos em torno da cloroquina e com ela muitos países fizeram o mesmo. Face às inúmeras críticas levantadas em torno deste relatório, nomeadamente de dados manipulados, a própria revista Lancet viu-se obrigada a emitir uma declaração, em 3 de junho, em que reconhece que “Foram levantadas graves  questões científicas sobre os dados” do referido relatório e que, embora os autores tenham solicitado uma auditoria independente à proveniência e validade dos dados, que se encontra em curso, a Lancet emite uma “Manifestação de Preocupação para alertar [sublinhado nosso] os leitores para o facto de terem sido trazidas ao nosso conhecimento questões científicas sérias”. E de tal modo que o artigo neste momento tem o carimbo de Recolhido [retracted]. Falta saber qual o impacto e consequências da decisão tomada pela OMS e por muitos países de suspensão dos ensaios clínicos. Grave, gravíssimo que uma revista do mais elevado gabarito mundial tenha caído nesta vergonhosa situação de publicar um artigo com dados manipulados.

Dito isto, devo dizer que eu, que não sou médico, pelo que tenho ouvido desde há muitos anos sobre esta revista científica, comungo da opinião geral de que se trata de uma publicação do mais alto gabarito, do mais elevado crédito.

Mas então como se explica isto? Muito poderia ser dito do ponto de vista do sistema avaliação em que assenta a carreira universitária e de investigação quanto a hipóteses de explicação para o sucedido mas retenhamos a hipótese mais provável de ter sido um artigo que foi sujeito a uma triagem por um conjunto de peritos avaliadores ditos independentes que depois sustentou a decisão de publicação (o que, no entanto, é contraditório com a posterior nota de alerta emitida pela revista), situação que, de resto, acontece também a uma escala muito mais geral que a revista Lancet.

Vivemos num mundo de “especialização“ absurdamente completa, com uma parcelarização de tarefas não menos absurda. As revistas científicas e os seus diretores descarregam a sua decisão de publicar o artigo x ou y na base da opinião de peritos avaliadores, de comentadores “ditos independentes e não conhecidos pelos autores dos textos analisados”, que lhes dizem publique-se ou não se publique. No caso de a sugestão ser a de “não se publique” fazem um relatório explicativo, ou de rejeição pura e simples ou de sugestões que deverão ser levadas em conta para nova sujeição aos mesmos peritos. Criam-se assim múltiplas linhas de interdependência ou até de eventual pressão que escapam ao controlo de quem quer que seja, criando-se assim redes de garantia de publicação. Há sempre quem conheça quem! E o recente caso da FCT e dos candidatos a projetos de investigação Covid pode ser encarado neste mesmo âmbito. Porque não?

As decisões de publicar ou não são deixadas à responsabilidade destes peritos avaliadores e estas decisões são sempre justificadas em nome da independência, da ciência, do rigor. Se olharmos para o sistema financeiro da crise de 2008 foi exatamente assim: montou-se uma cadeia de agentes económicos e financeiros, vendedores de casas pagos à comissão, empresas imobiliárias, bancos de crédito, bancos de investimento, arranjadores de pacotes de hipotecas e de segmentação de riscos, agências de rating, lançamento de emissões de títulos, autorizações da SEC, fundos de cobertura, fundos de pensões, toda uma cadeia de responsabilizações de uns sobre os  outros, em que bastava um tipo de agentes fazer falcatrua, para serem todos arrastados nela e ninguém era depois responsável. Foi o que aconteceu em 2008, daí a ausência de gente a ser presa pela enorme fraude criada……….

142 Mercantilização Univ e Invest Big Pharma 0 VD 1

Ora, vivemos num mundo onde se exige que se publique, publique, se publique cada vez mais, conforme sublinhámos nos nossos textos recentes sobre a crise universitária. Como se sublinhou num desses textos nunca tanta gente escreveu tanto para tão poucos. E a quantidade acaba por se sobrepor à qualidade. Assim, sucedem-se, e aos montes. os artigos submetidos à apreciação das revistas, a progressão na carreira assim o exige, e daí os múltiplos canais de pressão sobre as mesmas no sentido de publique-se. E uma publicação na Lancet, para efeitos de avaliação do autor vale ouro. Estas revistas, como defesa, face aos muitos artigos que recebem para publicação, recorrem cada vez mais aos ditos peritos. E haverá tantos mais avaliadores quanto maior for a segmentação do saber, o mesmo é dizer quanto mais se exige saber cada vez mais de cada vez menos, a lembrar a célebre frase de Niels Bhor. Desta maneira, os editores libertam-se de responsabilidades editoriais. Delegam nos ditos peritos avaliadores a decisão de publicar ou de rejeitar. Ora, muitos artigos apresentados a submeterem-se para editar significa muitos avaliadores em funções, muitos avaliadores em funções significa muitos custos como pagamento do seu trabalho e não só, enquanto que, por outro lado, muitos custos na edição de revistas exige receitas crescentes, exige  um número crescente de assinaturas, a sua fonte de base para as receitas e isto quando o número de Instituições que as assinam tende a diminuir, dada a política de austeridade que passou a ser praticada nos Centros de Investigação e nas Universidades. A quantidade impõe assim custos a aumentar enquanto as receitas podem estar a diminuir e a qualidade a descer. Recorre-se, pois, à lógica de redução dos custos de edição e, como em todo o lado, reduzem-se os custos pela redução na qualidade dos serviços prestados. Uma das vias de redução de custos será baixar o custo nos peritos avaliadores e que podem ser muitos, contratando talvez jovens “turcos” em princípio de carreira. Evidentemente, com a carga de artigos submetidos nas direções das revistas seria impensável encontrar avaliadores de nome já feito, porque não estariam disponíveis, pelo trabalho que isso lhes dava, pela fraca remuneração que lhes seria proposta e porque não precisam de nenhuma linha acrescentada ao seu curriculum vitae. Dou-vos um exemplo que conheci de perto: a editora Dunod em França. O diretor de qualquer coleção teria de ser um especialista na temática geral da coleção, o tradutor de qualquer livro editado pela Dunod teria de ser um especialista na matéria tratada (!) e o seu revisor tinha de ser alguém que em termos científicos estivesse ainda acima dele. Consequência: o custo de livro editado pela Dunod era incomparavelmente superior ao de outras editoras. Talvez houvesse um outro concorrente ao mesmo nível, a Gauthier-Villars, concorrente em termos de qualidade e também de custo em alta!

O recurso aos jovens “turcos” é pois uma solução e estes quando fazem um relatório sobre um qualquer artigo a ser rejeitado ou em que é proposto ser modificado, fazem-no tanto para o autor criticado como para o editor, a mostrar os seus méritos na análise dos textos considerados. Noblesse oblige!

Esta é penso eu, a dinâmica no mundo editorial que se tem vindo a agravar, sobretudo em revistas menores. Hoje há situações mais delicadas do que a hipótese que se coloca para com a Lancet. Com efeito, não é agora estranho a esta dinâmica que recentemente tenham passado a existir revistas a exigir dinheiro para que os artigos sejam editados, com a justificação de ser um pagamento dos custos que não são compensados pelas receitas!!! Não deixa de ser curioso que, sendo assim que as coisas funcionam, se possam constituir por esta via e por esta forma notações de docentes, de centros de investigação, de Universidades. Mas não nos espantemos: o mesmo se passa no mundo dos livros. Muitas edições são pagas, são edições de autor, pagas à cabeça, com a chancela de editor. Conheci um caso em que foram pedidos 4 mil euros para editar um livro de poesia com 500 exemplares. O que houvesse de receitas acima dos 4 mil euros deste valor seria repartido entre editor e autor!

Deixem-me dar aqui um exemplo sobre publicações e peritos avaliadores: uma pessoa amiga submeteu a uma revista brasileira de qualidade, um artigo para publicação. Tratava-se de uma revista em que os artigos passavam pelo crivo dos avaliadores. Não foi admitido a publicação. Porém, admitia-se como possível a publicação se fossem aceites as sugestões propostas pelos avaliadores designados pela direção da revista. Houve assim dois relatórios sobre o referido artigo, dois longos e espantosos relatórios que, na minha opinião, me explicavam a olho nu que os seus relatores não perceberam nada do artigo e do tema tratado. As sugestões por eles emitidas iam no sentido oposto às teses defendidas pelo autor e tornariam o artigo num amontado de frases contraditórias se fossem aceites. Senti-me tão incomodado com os relatórios que li, relatórios muito extensos, acrescente-se, a mostrar que os seus autores se empenharam no trabalho realizado. Mas isso, por si-só, não lhes confere qualidade. Tão incomodado me senti que enviei o texto, traduzido em inglês, para um economista meu amigo, um economista de renome internacional, que me respondeu na volta do correio, dizendo que se tratava de um artigo de qualidade e que através dele percebeu, o que não percebeu pelas revistas da especialidade, as deambulações da Administração de António Costa no seu primeiro mandato em termos de política económica e social e da maquilhagem que estava a ser feita quanto à política da Troika que estava subjacente a muitas das posições de política tomadas nesse período.

Propus ao autor do artigo que me deixasse responder aos dois relatores, de uma forma simples, dizendo-lhes que terão lido muito, muito mesmo, a avaliar pelas referências bibliográficas em que assentavam os seus relatórios, mas caminharam sempre numa estrada em sentido contrário à seguida pelos grandes especialistas internacionais sobre a temática do artigo em questão e também do próprio autor, cuja visão do mundo se situava nas antípodas da dos avaliadores em questão. Não diria mais nada e, como exemplo, mandar-lhes-ia dois artigos, um de Stiglitz, outro de Martin Wolf que, escritos meses depois do artigo em discussão ter sido submetido à revista, confirmavam alguns dos pontos de vista que os peritos avaliadores pretendiam que se alterassem! A pessoa amiga não aceitou a minha sugestão e entendeu que o esquecimento era a melhor resposta. Aceitei e respeitei, mas discordei totalmente.

Curiosamente foi-me dado hoje a ler um artigo, publicado em 2015, de Richard Horton, editor de The Lancet, em que este afirma:

“O caso contra a ciência é simples: grande parte da literatura científica, talvez metade, pode simplesmente ser falsa. Afligida com estudos com amostras de pequenas dimensões, pequenos efeitos, análises exploratórias inválidas e flagrantes conflitos de interesses, juntamente com uma obsessão por prosseguir tendências de moda de importância duvidosa, a ciência deu uma viragem para a escuridão. Como disse um participante, “os maus métodos obtêm resultados”.

“A Academia das Ciências Médicas, o Conselho de Investigação Médica e o Conselho de Investigação das Ciências Biotecnológicas e Biológicas puseram agora a sua reputação por detrás de uma investigação sobre estas práticas de investigação questionáveis. O aparente carácter endémico do mau comportamento da investigação é alarmante. Na sua tentativa de contar uma história convincente, os cientistas esculpem demasiadas vezes os dados para encaixarem com a sua teoria preferida do mundo. Ou reajustam as hipóteses para encaixarem com os seus dados.”

O que o autor nos diz não é nada diferente daquilo que temos dito e também lido em muitos artigos. A seriedade aqui evidenciada leva-nos a acreditar que a nossa leitura sobre como foi possível a Lancet cair nesta situação é uma leitura plausível e, se o é, mostra na verdade que é todo o edifício da investigação e ensino superior que é posto em causa. Até os mais sérios acabam por cair naquilo que criticam fortemente e claramente estarão inocentes. Como na crise dita de suprime de 2008! Tratar este problema exige muita coragem e não sei se esta existe. A olhar para o que se passa no Ensino Superior em Portugal, coragem é aí hoje uma qualidade rara, raríssima.

142 Mercantilização Univ e Invest Big Pharma 0 VD 2

E dou-vos mais um exemplo de como as coisas vão mal no campo do ensino e das carreiras universitárias. Um amigo meu, hoje explicador de um conjunto de disciplinas de nível Universitário e Politécnico recebe uma mensagem com o seguinte pedido:

“- É o Dr. Manuel Gomes?

– Olhe eu sou (XXXX) professor do ensino secundário e inscrevi-me na Universidade Aberta para me doutorar e progredir na carreira. Mas tenho quatro cadeiras, Microeconomia, Macroeconomia, Análise de Projetos de Investimento e Cálculo Financeiro das quais não percebo nada. Eu sabia que as aulas não eram presenciais, mas julgava que eram aulas normais em vídeo pela net. Mas não. Os professores dão-nos apenas o programa e a bibliografia e temos que nos desenrascar só com isso. Vou ter um exame de Micro no sábado. Será que me pode ajudar a resolvê-lo online? “

A resposta do Manuel Gomes, meu amigo de longa data, foi obviamente NÃO, mas há aqui algo ainda bem mais preocupante do que esta fraude singular: como é que uma Universidade funciona nestes moldes, se é que isto é verdade, mas sinceramente nem quero procurar tal o nojo que tudo isto me mete. Porém, se isto é verdade, onde é que está a fraude maior: no aluno em questão que quer fingir saber o que não lhe ensinaram ou numa Universidade que quer carimbar um diploma, que quer fingir ter ensinado o que se deveria saber? Para mim, esta segunda fraude é bem mais grave. Passamos de uma fraude individual a uma fraude que tem contornos de fraude coletiva e coletivamente consentida. E se é verdade o que nos diz o texto do professor candidato ao grau de Doutorado, como é então possível que um Ministério do Ensino Superior e Investigação o consinta?

Tudo isto coloca as Universidades nas antípodas do que Walter Benjamin e o filósofo italiano Giorgio Agamben pensam sobre as Universidades e a forma de nelas se viver. Recentemente o jornalista António Guerreiro chamava a atenção para a leitura de Giorgio Agamben. Vejamos alguns excertos de um artigo sobre a Universidade pulicado por este filósofo:

Passaram cem anos desde que Walter Benjamin, num memorável ensaio, denunciou a miséria espiritual da vida dos estudantes de Berlim, e exatamente meio século desde que circulou na Universidade de Estrasburgo uma brochura anónima que apresentava o seu tema com o título “A miséria no ambiente estudantil, considerada nos seus aspetos económicos, políticos, psicológicos, sexuais e especialmente intelectuais”. Desde então, não só o diagnóstico impiedoso não perdeu a sua atualidade, como pode dizer-se, sem receio de exagero, que a miséria – tanto económica como espiritual – da condição estudantil tem crescido de forma incontrolável. E esta degradação é, para um observador astuto, tanto mais evidente quanto se procura escondê-la através da elaboração de um vocabulário ad hoc, que se situa entre o calão da empresa e a nomenclatura do laboratório científico.

(…)

O estudo é, pelo contrário, uma condição permanente. Pode-se, de facto, definir o estudo como o ponto em que um desejo de conhecimento atinge a sua intensidade máxima e se torna uma forma de vida: a vida do estudante – melhor ainda, a vida do estudioso. Por esta razão – ao contrário do que está implícito na terminologia académica, em que o aluno é um grau inferior ao do investigador – o estudo é um paradigma cognitivo hierarquicamente superior à investigação, no sentido em que a investigação não pode atingir o seu objetivo se não for animada por um desejo e, uma vez atingido, não pode deixar de viver estudiosamente com ele, transformando-se em estudo.(…)

A condição de estudante é, na verdade, para muitos, a única oportunidade de viver hoje a experiência cada vez mais rara de uma vida despida de propósitos utilitários. Por esta razão a transformação das faculdades de humanidades em escolas profissionais é, para os estudantes, simultaneamente um engano e um desastre, um engano porque não existe nem pode existir uma profissão que corresponda ao estudo (e esta não é certamente a didática cada vez mais rarefeita e desacreditada); um desastre, porque priva os estudantes do que constituía o sentido mais adequado da sua condição, a vida e o pensamento unidos no estudo, deixando que ainda antes de serem capturados pelo mercado de trabalho, vida e pensamento, unidos pelo estudo, se separem irrevogavelmente para eles.

No exemplo acima citado, o estudante, professor de profissão, situa-se nas antípodas do que Walter Benjamim e Agamben entendem por estudante. Este “estudante” encara a sua presença na Universidade apenas como uma questão de subida na sua carreira profissional, o que é grave, muito grave, mas mais grave é ainda quando quer subir na carreira pela fraude e por uma fraude que a própria Universidade pelo seu próprio funcionamento consente. Esvazia-se o próprio conceito de estudo, cuja aprendizagem não existe e é substituída por um sistema de fraude. Há ainda uma outra pergunta, pergunta de base que deve ser formulada. Estamos a falar de um professor do ensino português, portanto estamos a falar de um licenciado que se propõe para um doutoramento. Mas na faculdade onde andou o que é que aprendeu que terá sido de tal modo tão pouco que o deixou incapacitado para poder continuar a aprender e tão incapacitado que não consegue sequer compreender nada de Microeconomia, Macroeconomia, Análise de Projetos de Investimento e Cálculo Financeiro? E na sequência desta pergunta cuja resposta imagino, levanta-se-me outra: que filtros de seleção há para que um qualquer aluno seja admitido a um projeto de doutoramento? Possivelmente um só: ter dinheiro para pagar as propinas que agora não serão baixas. É a isto que se tem estado a reduzir as Universidades em Portugal e não só, no resto do mundo também, mas os neoliberais dão um nome a este processo: competitividade do ensino sancionada à posteriori pelo mercado que fará o resto, selecionará. Aliás, um professor universitário, professor associado, ex-deputado na Assembleia da República e no Parlamento Europeu, dizia-me há anos duas notas curiosas que aqui deixo em resumo:

1ª Nota.

Que os cursos deveriam ter muitas disciplinas de opção livre, porque isso aumentava a concorrência interna entre os docentes. Podia-se ir mesmo mais longe: ter disciplinas com o mesmo nome e professores diferentes com programas diferentes porque subiam-se mais níveis no aprofundamento da competitividade. Um truque simples reduzia tudo isto a zero: bastou colocar um limite mínimo de alunos para que uma disciplina pudesse funcionar para que os docentes se disputassem entre si para a inscrição de alunos e a concorrência era feita então pela maior ou menor facilidade com que se passava na disciplina! Caso contrário, arriscavam-se a ser professores ambulantes no quadro de uma licenciatura com distribuição de trabalho variável e ao sabor da afluência dos alunos e da imagem que estes tivessem sobre a respetiva disciplina e sobre a rigidez do professor que a lecionava.

Tudo simples então, e as faculdades passaram a ter um enorme sucesso escolar, medido por um só padrão de referência: o baixo grau de reprovação. Curiosamente, quando Paul Samuelson, prémio Nobel da Economia, veio a Portugal, à Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa, então a funcionar no antigo ISCTE, os estudantes não assistiram à sua conferência, estavam nos corredores sentados no chão com diversos cartazes onde se lia: não queremos ser a melhor Faculdade do país pela alta taxa de reprovação. Moral daquela manifestação e daqueles cartazes: a diferença era marcada não pela qualidade do ensino, mas pela taxa de reprovação. Para os alunos a diferença entre a Faculdade de Economia da Universidade Nova e as restantes passava apenas por essa taxa. Curiosamente, era o que se podia deduzir dos diversos cartazes que os estudantes ostentavam!

2ª Nota.

Que não deveria haver exames: a sanção devia ser dada exclusivamente pelo mercado. Estes são soberanos na sua seleção, evitemos então repetição de funções.

O tratamento destas duas notas daria um outro artigo, mas deixemos isso.

 

Mas há uma outra perspetiva de se ver o esvaziamento da função da Universidade, não pela fraude, singular ou generalizada, mas pelo esvaziamento da sua função de criar capacidades de reflexão, na tal associação entre vida e pensamento, face ao mundo em que a Universidade, na sua nobre missão de criação de capacidades intelectuais, se deve situar.142 Mercantilização Univ e Invest Big Pharma 0 VD 3

Como assinala Bill Mitchell, a propósito do “mundo fictício da economia convencional” e de “como um corpo de ficção se tornou a ortodoxia e tem arruinado a vida de milhares de pessoas” (vd. aqui),

cria-se “uma geração ou mais de jovens estudantes [que] acabam com qualificações de pós-graduação ou de doutoramentos em ficção e entram no mercado de trabalho em posições de influência e com uma sobranceria assente na arrogância que estas qualificações convencionais geram e impulsionam políticas que nunca poderão funcionar no interesse dos trabalhadores e das suas famílias. (…)

E então exageram (caso da Grande Crise Financeira de 2008) ou então ocorre uma crise imprevisível (pandemia) e a sua conversa fiada de disparates fica exposta à vista de todos.(…)

É assim que o absurdo permeou a profissão e envenenou a mente de jovens aspirantes a economistas que não tinham a fibra moral para fazer frente aos professores que os levavam a interiorizar esta ficção e, em vez disso, empenharam-se em obter elevadas notas e o acesso a empregos que a “rede” dominante (os grupos de reflexão promovem estes percursos) gerou.

Em breve, os jovens tornaram-se professores e altos funcionários e a lavagem ao cérebro e a falta de coragem continuaram.

Mas nada disto resiste ao teste do tempo, pois não?

Um exemplo desse esvaziamento da função da Universidade assisti eu anteontem no programa Pós e Contras ao ouvir Clara Raposo, diretora de uma das mais prestigiadas Faculdades de Economia, o ISEG, sobre o tema Estabilizar Portugal, ou seja, sobre a crise atual, em que algumas das suas declarações não passaram de puras banalidades e/ou de muita ignorância, ou então de recusa em encarar a realidade. Para perceber o vazio das suas declarações olhemos primeiramente para dois documentos oficiais sobre a crise atual, um do BCE e outro do Congressional Budget Office dos EUA onde se espelha bem a dimensão da crise que atravessamos, uma crise que pode levar dez anos a retomar o ponto de partida de 2020:

 

Do BCE:

O PIB real registou um declínio sem precedentes no primeiro trimestre de 2020. De acordo com a estimativa provisória do Eurostat, o PIB real caiu 3,8% no primeiro trimestre de 2020, pondo fim a quase sete anos de expansão. Quase todos os países da área do euro registaram taxas de crescimento trimestrais negativas nesse trimestre, em particular França, Itália e Espanha, entre os países maiores da área do euro. A descida da atividade no primeiro trimestre foi a mais acentuada registada até à data. Os dados disponíveis sugerem que o comércio a retalho, os transportes, bem como as atividades artísticas, de entretenimento e recreativas sofreram as maiores perdas, embora de forma diferente em todos os países da área do euro. (…)

142 Mercantilização Univ e Invest Big Pharma 0 VD 4

Cenários alternativos para as perspetivas económicas da área do euro

A elevada incerteza em torno do impacto da pandemia da COVID-19 sobre as perspetivas económicas da área do euro justifica uma análise baseada em cenários alternativos. A presente caixa descreve dois cenários, que representam alternativas à linha de base das projeções dos especialistas de Junho de 2020, para ilustrar o leque de possíveis impactos da pandemia da COVID-19 sobre a economia da área do euro. Estes cenários podem ser vistos como fornecendo um intervalo ilustrativo em torno da projeção de base. (…)

Em comparação com o cenário grave, o cenário ligeiro implica tanto uma queda menor da atividade económica no segundo trimestre como uma recuperação mais forte no terceiro trimestre (ver Gráfico abaixo). O PIB real cairia cerca de 10% e 16% no segundo trimestre sob os cenários suave e severo, respetivamente. A isto se seguiria uma recuperação que implicaria taxas de crescimento trimestrais de cerca de 10% e 5% no terceiro trimestre, respetivamente, e cerca de 3% no quarto trimestre em ambos os cenários. A recuperação mais fraca no cenário grave é porque se assume medidas de contenção mais rigorosas do que no cenário leve e na linha de base, o que seria necessário tendo em conta o êxito muito limitado na contenção do vírus e o seu forte ressurgimento.

142 Mercantilização Univ e Invest Big Pharma 0 VD 5.jpg

Prevê-se que o PIB real recupere mais fortemente, em média sobre 2021-22, no cenário moderado, do que no cenário grave (ver Quadro acima). Isto  reflete a normalização da atividade, na sequência do êxito da contenção do vírus no cenário moderado. Em contrapartida, no cenário grave, a epidemiologia incerta do vírus, a eficácia limitada das medidas de confinamento e os prejuízos económicos persistentes assumidos continuariam a pesar na atividade económica ao longo do horizonte. Prevê-se que o PIB real em 2022 recupere próximo do nível previsto nas projeções de Março de 2020 no cenário moderado, situando-se ao mesmo tempo muito abaixo desse nível no cenário grave (cerca de 9,5% mais baixo).

Dizem-nos do Congressional Budget Office dos EUA:

PIB real. A previsão revista para o PIB nominal reflete uma redução significativa na projeção da produção real (corrigida da inflação) do CBO nos Estados Unidos, como resultado da pandemia. Espera-se que o encerramento  de empresas e medidas de distanciamento social reduzam os gastos dos consumidores, enquanto a recente queda nos preços da energia deverá reduzir severamente os investimentos dos EUA no setor energético. A legislação recente irá, na avaliação da CBO, mitigar parcialmente a deterioração das condições económicas.

A projeção de maio da CBO para o PIB real no segundo trimestre de 2020 foi de US$724 mil milhões (ou 13,3%) menor em dólares de 2019 do que a projeção de CBO feita a partir de janeiro. Após o segundo trimestre de 2020, a diferença entre essas projeções do PIB real reduz-se para 422 mil milhões de dólares de 2019 (7,6% menor na projeção mais recente) até ao final de 2020 e desaparece aproximadamente até 2030 (ver Figura 3). Como resultado dessas diferenças, o CBO projeta que, no horizonte de 11 anos, a produção real acumulada (em dólares de 2019) será de US$7,9 milhões de milhões, ou 3,0 por cento do PIB real acumulado, menos do que aquilo que o CBO projetou em janeiro.”

Figuras que ilustram o texto do CBO:142 Mercantilização Univ e Invest Big Pharma 0 VD 6

142 Mercantilização Univ e Invest Big Pharma 0 VD 7

 

Pois quando estas duas grandes Instituições se posicionam desta forma face à crise, ouvimos a senhora Diretora do ISEG, professora doutora Clara Raposo, dizer:

Questionada sobre a saída da crise fala-nos de um vago compromisso europeu e afirma:

“O compromisso europeu sozinho não chega. A Europa não vai poder estar a competir com um mundo com critérios muito mais baixos… não é… que depois se torna mais competitivo do que a Europa para tudo. Portanto, a Europa não é uma potência económica tão forte que consiga combater sozinha uma China, ou os EUA, que optem por outras soluções que sejam no curto prazo mais baratas, mesmo que nos levem para a desgraça… não é… enfim… no longo prazo”.

Não perceber a guerra comercial EUA-China, ou não entender que a solução num mundo globalizado em que a China make and the West take, passa por uma reconfiguração total do comércio internacional e das suas cadeias de criação de valor, assim como não perceber o quadro político sobre o qual a Ordem Económica Internacional tem sido gerida, é o que esta implícito no discurso que por foi proferido pela Diretora do ISEG. De resto, ao contrário do que diz a citada professora o que a UE tem exatamente praticado é ter-se transformado num espaço político diretamente às ordens de Washington e indiretamente sujeita aos desejos de Pequim, o que lhe tirou todo e qualquer espaço de manobra, ou seja, transformou-se numa colónia das potências hoje dominantes. E o resultado está à vista. Com esta posição, pelos vistos, parece pretender-se que continue assim, não se opor nem aos EUA nem à China, porque não se tem força. A ser assim continuaremos a manter uma sociedade de gente precária, fundamentalmente os trabalhadores que agora se descobrem como sendo os “essenciais” , quase sem condições de trabalho e sem direitos, em que se deseja que o Estado não se meta nos negócios privados. Esta tem sido a base da globalização feliz dos neoliberais.

Quanto à necessidade de intervenção do Estado no estado de crise que atravessamos foi-nos dito pela professora Clara Raposo:

“Quanto à estatização, acho que isto…acho que todos estiveram certos. Ninguém quer um Estado que é o motor da economia, que decide tudo e que é dirigista a esse nível. Esse é o Estado de que precisam os países que têm uma população acomodada, essencialmente. Isto gera uma população ou é o resultado de e ou provoca que as pessoas se tornem apáticas, desinteressantes e sem capacidade de inovação e mobilização e isso é bastante triste. E acho que nenhum de nós quer viver nas circunstâncias de sentir que um Big Brother decidiu por nós aquilo que devemos fazer a todos os níveis.”

Numa situação de crise como esta crise que está para durar como assinalam os documentos acima citados, em que a própria reconhece que os privados não têm capacidade para suportar as suas consequências, estar a argumentar desta forma e a defender um Estado neoliberal contra a necessidade forte de um Estado intervencionista é pura expressão do vazio intelectual que se forma através de brilhantes diplomas de uma Universidade que se perdeu na sua missão. Como é possível que alguém com um CV tão brilhante, como é o de Clara Raposo, se reduza num debate de tema tão sério a tanta falta de brilho? É o resultado da profissionalização da missão da Universidade a que se refere Agamben no quadro do modelo neoliberal de que Clara Raposo mostrou ser defensora. Uma situação tão grave ou bem mais grave que a do aluno professor defraudador porque significa a formação de elites que não sabem fazer outra coisa que não seja politicamente atuar de costas para a realidade e na lógica dos interesses de classe que representam [1].

142 Mercantilização Univ e Invest Big Pharma 0 VD 8

Depois do que escrevemos sobre as Universidades e do que publicámos sobre a desorganização da investigação em torno do COVID 19, perguntamo-nos se este caso criado pelo artigo publicado pela revista Lancet não é mais uma prova de que algo vai mal, muito mal, no Reino da Investigação e do Ensino Superior? E não é a prova de que todas as estruturas em que esta tem assentado devem elas, tal como as estruturas universitárias, ser completamente revistas? Responda quem souber.

É pois em todo este lodo que se situa o caso de Lancet e como diz o ditado popular: em bom pano cai a nódoa, sendo certo que o drama agora é que não se trata já de uma nódoa  nem de um bom pano, trata-se de uma vaga de sujidade  tão intensa  à qual não é possível que nenhum bom  pano lhe resista. E Lancet era mesmo feita de um bom pano.

Sobre o assunto publicamos os seguintes textos:

  1. O alucinante Golpe Montado contra a cloroquina, por Xavier Bazin
  2. Estudo Covid-19 sobre a utilização de hidroxicloroquina, questionado por 120 investigadores e profissionais médicos, por Melissa Davey do The Guardian
  3. Carta Aberta – Preocupações relativas à análise estatística e à integridade dos dados do estudo “Hydroxychloroquine or chloroquine with or without a macrolide for treatment of COVID19: a multinational registry analysis”
  4. Um infectologista marroquino passa a pente fino o estudo de The Lancet que critica a cloroquina, por Kamal Louadj
  5. Curar doentes é um modelo de negócio sustentável? 1ªparte
    • A Goldman Sachs pergunta em relatório de investigação biotecnológica: Curar doentes é um modelo de negócio sustentável? Por Tae Kim
    • Goldman Sachs e a economia da cura das doenças. Por factotumk
    • Aconteceu finalmente: Goldman Sachs pergunta se “A cura dos pacientes é um modelo de negócio sustentável”. Por Walter Einenkel
  6. Curar doentes é um modelo de negócio sustentável? 2ªparte
    • Quando curar uma doença com terapia genética é mau negócio, por Antonio Regalado
    • O desafio da terapia genética: quanto deve custar e como é que vamos pagar por ela? Por Ricki Lewis
  7. Offline: o que é o medicamento dos 5 sigmas? Por Richard Horton

 

________________________

Nota

[1] Estes dois exemplos nada têm de pessoal, como é óbvio. Refletem apenas os dois extremos da deformação do ensino superior: a banalização total por um lado, em que não sabe quase nada de quase tudo, caso do aluno candidato a um doutoramento, ou que sabe quase tudo, mas de quase nada que é, na minha opinião, o caso da diretora do ISEG, pela amostra dada nesse debate, produto da especialização extremada e levada ao limite. Os dois casos representam, um a formação generalista sobre nada, a maioria do que se gera nas Universidades atuais, o outro uma especialização tecnicista extrema de gente brilhante que a deixa incapacitante face ao mundo complexo que a perceção da crise pandémica exige, que representa a quase totalidade da minoria dos licenciados e doutorados hoje. Os restantes, uma escassíssima minoria de gente que se quer em extinção, representam o grupo que se pode identificar com o que diz Walter Benjamin e o filósofo  Giorgio Agamben, a que podíamos também chamar os polímatas. Este é um tema que tratarei neste blog num extenso texto de homenagem ao meu colega e amigo João Sousa Andrade, pelo que não me alongo mais, onde explicarei que a formação altamente especializada e ao menor custo de dinheiro e tempo é comparável, à escala das nações, à especialização extrema à Ricardo que levou ao slogan A China make, o Ocidente take e por esta via levou à desorganização industrial do Ocidente.

Não deixa, porém, de me espantar, no caso de Clara Raposo, que não perceber que o problema de Portugal e da Europa não é uma questão apenas de liquidez, mas de modelo, é grave, gravíssimo. A máquina eletrónica do BCE pode imprimir milhares de milhões de euros, o compromisso europeu de que se fala nesse debate, mas não pode imprimir empregos. Isso, no caso presente, só pode exigir um modelo macroeconómico coordenado à escala europeia para o crescimento e este exige o que ela recusa: um Estado forte assente num projeto coletivamente assumido e não na livre atuação dos mercados.

 

 

 

 

 

 

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/06/12/a-mercantilizacao-das-universidades-e-da-investigacao-o-caso-da-grande-industria-farmaceutica-em-periodo-de-covid-19-nota-introdutoria-por-julio-marques-mota/

"A ciência fez uma viragem para o obscurantismo"

por MPR

Dr. Richard Horton. Há alguns anos o doutor Richard Horton, editor chefe de revista de medicina The Lancet, cometeu um verdadeiro sacrilégio ao por em dúvida a validade de uma boa parte das investigações científicas. Escreveu isso na sua própria revista [1] , mas por razões óbvias este tipo de publicação passa desapercebida porque a medicina continua a arrastar a sua origem sagrada.

Os ignaros não apreciarão as palavras de Horton:

"Grande parte da literatura científica, talvez a metade, simplesmente é falsificada. Está podre pela natureza estreita das amostras estudadas, pelos efeitos observados virtualmente imperceptíveis, pelas análises exploratórias e protocolos experimentais inúteis e pelos conflitos de interesses flagrantes, que se somam à obsessão por seguir as tendências duvidosas que estejam na moda naquele momento. A ciência fez uma viragem rumo à obscuridade".

Não seria possível resumir melhor o estado ruinoso da ciência actual em especializações muito diversas, tanto mais ruinoso quanto mais mediático for.

É preciso agradecer a Horton não abrir excepções, nem sequer consigo próprio, com os editores das revista científicas:

"Nós ajudamos e instigamos os piores comportamentos. Nossa aceitação do factor de impacto alimenta uma competição malsã para ganhar um lugar numas poucas revistas. Nosso amor pelos 'significados' contamina a literatura com muitos contos de fadas estatísticos ".

Um dado significativo é que as diferentes formas de corrupção ou fraude científica são mais frequentes nas revistas qualificadas como "mais prestigiosas" ou de maior impacto.

As revistas médicas são controladas pelos grupos de pressão farmacêuticos. Os estudos que se apresentam para publicação já não têm nem sequer a aparência de trabalhos científicos. Em primeira leitura é evidente que seus autores conseguiram obter resultados coerentes com uma hipótese ditada pelas empresas que os financiam.

Uma das muitas taras das publicações científicas é a revisão pelos pares (peer review), que está ao serviço dos grupos de pressão que, na investigação médica, são compostos pelas grandes empresas farmacêuticas.

É o servilismo do dinheiro, do qual a investigação científica e médica não está isento, que criou uma situação que Horton qualifica de "alarmante". Dela não escapam nem os cientistas, nem as publicações, nem as universidades, nem os laboratórios, nem os centros de investigação. O capitalismo está apodrecendo absolutamente tudo.

28/Maio/2020

Ver também:

Até que ponto descoberta da NASA sobre universo paralelo seria plausível?

O principal investigador de um projeto financiado pela NASA de detecção de neutrinos nega as informações veiculadas em algumas mídias, mas confirma alguns dados surpreendentes da pesquisa.

Várias mídias e redes sociais relataram recentemente que a NASA supostamente teria descoberto um universo paralelo na Antártica, no qual o tempo se move para atrás.

A verdade, porém, é que esta interpretação dos fatos suscitou diversas dúvidas nos meios científicos, segundo informa o portal Science Alert.

Tudo começou quando a respeitada revista New Scientist publicou um artigo em 8 de abril apontando para alguns resultados anômalos de experimentos de detecção de neutrinos na Antártica e que isso reforçaria as teorias cosmológicas segundo as quais existe um universo de antimatéria que se estenderia para trás a partir do Big Bang.

"Parece que, para esta versão tabloide da ciência, uma especulativa teoria física remotamente plausível, foi amplificada por razões sensacionalistas", observou ao portal Science Alert o físico Peter Gorham, especialista em partículas experimentais da Universidade do Havaí e principal investigador do projeto ANITA.

O que foi realmente descoberto?

Parcialmente financiado pela NASA, o projeto ANITA utiliza um balão gigante que voa sobre o continente antártico apontando suas antenas de rádio para o solo.

Desta forma, detectou alguns fenômenos do que pareciam ser partículas subatômicas de alta energia, conhecidas como neutrinos, atravessando a Terra.

Neutrinos são partículas subatômicas sem carga elétrica que interagem com outras partículas apenas por meio da gravidade e da força nuclear, sendo capazes de penetrar quase tudo sem interagir com a matéria, o que as torna extremamente difíceis de detectar.

Mas, se produzidos por poderosos objetos espaciais, os neutrinos podem obter uma energia tão alta que intensifica sua capacidade de interagir com a matéria.

A antena Antarctic Impulsive Transient Antenna (ANITA, na sigla em inglês) detecta sinais de chuvas de partículas secundárias, produzidas por neutrinos de alta energia que colidem com a camada de gelo do continente gelado, e que supostamente vêm do espaço profundo.

Universo (imagem referencial)

Universo (imagem referencial)

O estranho é que os neutrinos recentemente identificados vêm não do espaço profundo mas sim das entranhas de nosso planeta, onde deveriam ter colidido com algo mais antes de iniciar sua jornada pelas camadas geológicas.

Os físicos envolvidos no projeto tentaram entender se essas anomalias poderiam ser explicadas pelos modelos padrão da física, ou se teriam algo a ver com a configuração do experimento, ou então se tinha acontecido algo de verdadeiramente estranho.

Foi esta última possibilidade que alimentou as especulações sobre a existência de um universo paralelo antimatéria que se estenderia para trás a partir do Big Bang.

"Encontramos um pequeno número de anomalias em nossos dados, e só uma vez esgotadas todas as explicações possíveis dentro do Modelo Padrão da Física, será hora de equacionar outras hipóteses para além desses limites. Mas ainda não chegamos lá, muito menos ao ponto em que poderiam existir universos paralelos", garantiu Gorham ao Science Portal.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/ciencia_tecnologia/2020052415618065-ate-que-ponto-descoberta-da-nasa-sobre-universo-paralelo-seria-plausivel/

Pergaminhos 'em branco' dos Manuscritos do Mar Morto revelam texto oculto da Bíblia (FOTOS)

Rolo de pergaminho (imagem referencial)
© Foto / Pixabay / icame

Pedaços escondidos de texto escritos em hebraico e aramaico foram revelados em quatro fragmentos de pergaminhos dos Manuscritos do Mar Morto que há muito se julgava estarem em branco.

Escondidos por judeus há quase 2.000 anos, os Manuscritos do Mar Morto contêm alguns dos mais antigos fragmentos conhecidos da Bíblia hebraica, tendo sido descobertos nas cavernas de Qumran, que ficam perto de Jerusalém, na Cisjordânia, por tribos beduínas.

Arqueólogos que se apressaram ao local não viram interesse em alguns desses pergaminhos, aparentemente em branco, acabando por os doar, informa o portal SmithsonianMag.

No entanto, há alguns anos, uma equipe de pesquisadores se propôs estudar artefatos das cavernas de Qumran que foram dispersos por museus e coleções ao redor do mundo.

"Nos primeiros tempos da pesquisa, nos anos 50 e 60, os arqueólogos por vezes doavam muitos artefatos, geralmente cerâmicas, para museus colaboradores como presentes", contou ao SmithsonianMag Dennis Mizzi, professor sênior de hebraico e judaísmo antigo da Universidade de Malta e líder da equipe de arqueólogos.

Benefícios das novas tecnologias

Os arqueólogos vêm evoluindo cada vez mais em seu trabalho, recorrendo a avançadas tecnologias que possibilitam fazer descobertas que antes eram impensáveis. Por isso, Mizzi e sua equipe, fazendo uso dessas novas tecnologias, acharam que seria útil reanalisar parte do material disperso.

 

Nunca se sabe o que se vai encontrar quando se olha duas vezes para textos antigos. Escrita encontrada em fragmentos em "branco" dos Manuscritos do Mar Morto

Assim, encontraram papiro decomposto que anteriormente se pensava ser esterco de morcego e tecidos usados para embrulhar pergaminhos que tinham sido armazenados em uma caixa de charutos. Mas nunca lhes ocorreu procurar por textos perdidos, refere o SmithsonianMag.

Na sua busca pelos artefatos, depararam-se com uma coleção de pergaminhos, supostamente sem nada escrito, dos Manuscritos do Mar Morto doados na década de 1950 pelo governo jordaniano a um especialista em couro e pergaminho da Universidade de Leeds (Reino Unido).

Essa coleção seria mais tarde doada à Universidade de Manchester (Reino Unido) em 1997 e permaneceu em depósito na Biblioteca John Rylands desde então.

Olho de falcão

Ao examinar um fragmento supostamente em branco daquela coleção, a pesquisadora Joan Taylor, do londrino King's College e colaboradora de Mizzi, pensou ver os ténues traços de um lamed – a letra "L" hebraica.

Seguindo o palpite, 51 fragmentos aparentemente em branco maiores que um centímetro foram fotografados. A equipe utilizou imagens multiespectrais, uma técnica que captura diferentes comprimentos de onda do espectro eletromagnético, incluindo alguns invisíveis a olho nu.

 

Revelação: quatro fragmentos dos Manuscritos do Mar Morto, do acervo da Biblioteca John Rylands, supostamente em branco… contêm mesmo texto!

Taylor, Mizzi e restante equipe ficaram surpresos quando obtiveram os resultados e viram linhas de texto óbvias em quatro dos fragmentos.

Neles foram encontradas palavras hebraicas como Shabat que, segundo Mizzi, podem pertencer ao livro de Ezequiel.

No entanto, ele e seus colegas estão apenas começando a interpretar os fragmentos, sendo ainda muito cedo, segundo o especialista, para especular sobre seu significado.

"Ainda estamos trabalhando para descobrir as letras que são visíveis nos fragmentos", afirmou Mizzi, citado pelo SmithsonianMag.

A equipe quer realizar testes complementares para elucidar os aspectos físicos dos artefatos, incluindo a composição da tinta e a produção do pergaminho.

Perspectivas futuras

É raro aparecerem trechos de texto novos e autênticos dos Manuscritos do Mar Morto. Felizmente, estes fragmentos têm uma história bem documentada e sua autenticidade é indubitável.

Os pesquisadores sabem que eles foram encontrados na Caverna 4 em Qumran, onde a maioria dos Manuscritos do Mar Morto foi achada junto com milhares de fragmentos de cerca de 500 textos.

Para Robert Cargill, professor da Universidade de Iowa (EUA), esta descoberta deveria servir de "lembrete da importância de objetos comprovados que podem não parecer sensacionais à primeira vista", afirmou ao SmithsonianMag.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/ciencia_tecnologia/2020052315616441-pergaminhos-em-branco-dos-manuscritos-do-mar-morto-revelam-texto-oculto-da-biblia-fotos/

Dente de 45.000 anos muda tudo o que sabemos sobre êxodo humano à Europa (FOTOS)

Restos de ser humano moderno de 45.000 anos encontrados nos Balcãs provam que nossos ancestrais coexistiram com os neandertais na Europa por cerca de 8.000 anos.

Um único dente e alguns fragmentos de osso encontrados em uma caverna na Bulgária foram suficientes para demonstrar que o Homo sapiens chegou à Europa há mais de 45.000 anos, ou seja, cerca de 5.000 anos antes do imaginado anteriormente, segundo informa o jornal Haaretz.

Os restos foram encontrados na caverna Bacho Kiro, um labirinto pré-histórico de quatro andares de galerias e corredores de 3.600 metros de comprimento situado na Bulgária, e mostram que o Homo sapiens coexistiu por milhares de anos com os hominídeos autóctones da Europa, os neandertais.

 

Novos fósseis de 45.000 anos encontrados na Bulgária documentam o mais antigo Homo sapiens do Paleolítico Superior na Europa

Trata-se da conclusão chegada por uma equipe internacional de pesquisadores, em um estudo publicado em 11 de maio na revista Nature.

Embora seja improvável que o estudo dissipe o mistério em torno do desaparecimento dos neandertais, ele sugere que a história de como os humanos modernos se expandiram para a Eurásia e substituíram nossos parentes evolutivos é muito mais longa e mais complexa do que se acreditava.

 

O dente revelador de um Homo sapiens de 45.000 anos atrás - um molar inferior - encontrado na caverna búlgara Bacho Kiro
O dente revelador de um Homo sapiens de 45.000 anos atrás - um molar inferior - encontrado na caverna búlgara Bacho Kiro

O debate sobre a extinção dos neandertais e se os Homo sapiens, nossos ancestrais diretos, desempenharam algum papel nefasto nela, tem sido muitas vezes ligado à questão de quando o Homo sapiens moderno teria invadido seu território pela primeira vez.

Até agora, os primeiros vestígios humanos modernos indiscutíveis na Europa tinham sido detectados em Oase Cave, na Romênia, e são de 41.000 atrás.

Como os neandertais estavam praticamente extintos há 39.000 anos, essa cronologia sugeriu que seu declínio foi rápido e que teve lugar pouco depois da chegada dos primeiros humanos modernos na Europa.

"Contudo, estas novas descobertas de Bacho Kiro desafiam esse quadro", afirma Jean-Jacques Hublin, líder da equipe de pesquisadores e chefe do Departamento de Evolução Humana do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva em Leipzig, na Alemanha.

Neardentais e Homo sapiens juntos durante 8.000 anos

Os achados demonstram que o Homo sapiens coexistiu com o neandertal na Europa por cerca de 8.000 anos, refere-se no estudo.

Arqueólogos que têm cavado na gruta de Bacho Kiro desde 2015 não têm encontrado esqueletos bem preservados ou fósseis espetaculares.

Contudo, têm aplicado novas e avançadas tecnologias científicas a descobertas anteriores negligenciadas ou descartadas, informa o Haaretz.

Em Bacho Kiro, arqueólogos descobriram um único dente humano e seis fragmentos ósseos pertencentes a hominídeos. Os pedaços de osso eram tão pequenos que não puderam ser identificados pela sua aparência, mas foram estudados usando uma nova técnica que analisa sequências de proteínas em restos de animais e identifica a que espécie pertence.

Vista superior do molar de humano moderno encontrado onde não se pensava que nenhum ser humano pudesse ter estado há 45.000 anos
Vista superior do molar de humano moderno encontrado onde não se pensava que nenhum ser humano pudesse ter estado há 45.000 anos

Foi assim determinado que o dente – um segundo molar inferior – era de um humano. Para que não restassem dúvidas, o DNA extraído dos restos mortais foi comparado ao material genético do Homo sapiens, neandertais e hominídeos de Denisova.

Resultados confirmaram que os habitantes da caverna tinham sido Homo sapiens, humanos modernos, concluiu-se no estudo.

Recorrendo à datação por radiocarbono, pesquisadores apuraram que os restos tinham 45.000 anos. No entanto, como as ferramentas e ossos de animais ali encontrados eram de 47.000 anos atrás, os arqueólogos não descartam que o Homo sapiens habitasse o local já naquela época, cerca de 8.000 anos antes do desaparecimento final dos neandertais.

Homo sapiens afinal foi pioneiro de artefatos líticos

A equipe também descobriu milhares de ossos de animais, pedras e ferramentas ósseas, contas e ornamentos, especialmente pingentes feitos com dentes de urso de caverna, característicos do período pré-histórico do Paleolítico Superior Inicial.

 

Novos fósseis de 45.000 anos da Bulgária documentam o Homo sapiens mais antigo da Europa

A produção de ferramentas em pedra surge pela primeira vez há cerca de 50 mil anos no que é hoje Israel, no deserto do Negev. Depois se espalha pelo Líbano, Turquia e pela Eurásia, até a Mongólia.

Apesar da falta de restos humanos nesses locais, a marcha desse tipo de ferramenta parece acompanhar a dispersão dos humanos modernos da África.

"Até agora tinha sido impossível provar que essas ferramentas foram feitas pelos humanos modernos, mas aqui temos uma clara identificação genética dos habitantes da caverna como Homo sapiens", afirmou Jean-Jacques Hublin ao Haaretz.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/ciencia_tecnologia/2020051215570101-dente-de-45000-anos-muda-tudo-o-que-sabemos-sobre-exodo-humano-a-europa-fotos/

Ciência, política, incerteza

Ainda é cedo para comparar rigorosamente as estratégias de resposta à ameaça pandémica seguidas, por um lado, pelos países que confinaram com rigor e, por outro lado, pelos países que deixaram correr a infecção. Até agora, os países que confinaram (mesmo moderadamente, como Portugal) tiveram melhores resultados do que os países que mantiveram a vida social largamente sem restrições e apostaram na imunidade de grupo. Mas falta muito para isto acabar e ainda temos muito para ver e aprender. Só retrospectivamente vamos saber com mais segurança onde poderia ter estado o equilíbrio mais acertado - embora essa avaliação dependa dos valores implicados.

De qualquer modo, é interessante acompanhar o caso da Suécia. Não foram os únicos que começaram por seguir uma estratégia percepcionada como descontraída, deixando a vida social correr sem grandes constrangimentos. Não está aí a especificidade. O ponto que me interessa é que, nesse país, estas decisões não cabem, normalmente, aos governantes: cabem às autoridades de saúde, que decidem segundo critérios científicos e técnicos. A esmagadora maioria das pessoas considera que isso é uma garantia, porque os cientistas é que sabem e os políticos não devem meter-se.

Grave erro.

Primeiro, porque não há nenhuma disciplina científica cujo objecto de estudo seja o conjunto completo de factores em questão num cenário como o presente, de vasta complexidade. Isto constitui um notável obstáculo a que muitos especialistas consigam compreender toda a extensão do problema (embora alguns estejam para isso mais vocacionados do que outros: o pessoal de saúde pública está treinado para uma abordagem abrangente em termos de interacção entre os vectores sociais e os vectores naturais de um cenário destes). Não havendo nenhuma disciplina científica com tal objecto, tão-pouco as abordagens intrinsecamente pluridisciplinares têm as oportunidades que deviam ter - num contexto de trabalho científico dominado por um grau assustador de compartimentação (a face perigosa da necessária especialização).

Segundo, porque nem todo o conhecimento científico junto pode dar respostas inequívocas a todas as perguntas que se colocam aos decisores numa situação da complexidade da actual pandemia. Se esse conhecimento completo existisse, talvez bastasse uma única decisão política: não desprezar o conhecimento disponível. Mas não existe esse cenário. Os decisores políticos têm sempre de tomar decisões em contexto de incerteza, guiados por valores civilizacionais e pelo conhecimento das formas de funcionamento das comunidades. A decisão política é sempre prudencial, precisamente porque é impossível ver o futuro de consequências dos passos dados hoje. Aplicar uma ética das consequências, neste caso, tem um grave problema: é impossível ter certezas acerca das consequências futuras concretas do que fazemos ou deixamos de fazer hoje. E as nossas intenções não contam nada aí, porque a maior parte do que acontece no mundo são consequências não intencionadas das acções individuais agregadas em comportamentos colectivos.

E esta dimensão irredutível da decisão política não se conforma com a postura de deixar a chave de uma encruzilhada destas nas mãos dos especialistas, embora os especialistas não possam ser ignorados. A admiração pelo modelo sueco, na parte em que confia estas decisões às estruturas técnicas e científicas, é uma postura que merece o nosso espanto - especialmente quando vem de cientistas sociais.

Porfírio Silva, 6 de Maio de 2020

Ver original em "Machina Speculatrix" (aqui)

CIÊNCIA E SOLIDARIEDADE OPÕEM E FRAGILIZAM A SOLIDARIEDADE, por EMMANUEL TOURINHO

OBRIGADO A EMMANUEL TOURINHO, CARTA CAPITAL E CAMILO JOSEPH

Selecção de Camilo Joseph

 

No conto “Civilização”, de Eça de Queiroz, um evento fortuito conduz o protagonista, “o [homem] mais complexamente civilizado”, a uma experiência de vida inédita e que encerra a possibilidade de realizações antes preteridas. De modo análogo, a pandemia do coronavírus inaugura para as sociedades contemporâneas uma realidade que expõe os limites de modos de vida que nos são muito familiares, ao tempo em que nos confronta com valores que contêm uma possibilidade de avanço civilizatório.

É preciso reconhecer que é muito cedo para dizer qual mundo sairá desta pandemia. Reflexões bem articuladas têm apontando possibilidades sobre a vida pós coronavírus que chegam a ser conflituantes, o que atesta que os sinais atuais são ainda insuficientes para previsões seguras. Mas a incerteza não impede a reflexão sobre questões possivelmente inescapáveis no futuro próximo.

A ciência – modalidade moderna de discurso explicativo da realidade, resultante de esforços intelectuais e investigativos inéditos, com impactos inigualáveis na produção de conforto e segurança para a vida cotidiana; e a solidariedade – valor ético que molda organizações e práticas que geram coesão e compartilhamento de oportunidades, que se contrapõem a processos de (re)produção de iniquidades e injustiças; ambos têm estado presentes em sociedades de todos os continentes nos últimos séculos.

Não são, portanto, uma novidade. Mas são, neste momento, o contraponto a uma onda que nas últimas décadas tem acumulado enorme expressão em muitas regiões do planeta. Obscurantismo e políticas econômicas concentradoras de riqueza e renda são as expressões máximas dessa onda anti-civilizatória e não é desprezível o seu alcance hoje, nem o universo de pessoas que morrem ou transitam para uma condição degradada de vida sob os seus efeitos.

Sem o distanciamento necessário para observar todas as dimensões desse processo, muitas pessoas passaram a tratar como aceitáveis ou não prejudiciais discursos baseados no senso comum ou no capricho, a exemplo de campanhas contra vacinas e outros desenvolvimentos científicos, contra os cientistas e contra as instituições que fazem ciência – as universidades e os institutos de pesquisa. No limite, passaram a levar a sério a tese de que a terra é plana, um retorno explícito ao cosmo medieval, pré-científico.

Do mesmo modo, acolhem como válidas receitas econômicas que geram a supressão de direitos para grande parte da população, que reduzem os investimentos públicos em saúde, educação, ciência e tecnologia, ao passo que garantem lucros maiores para o mercado financeiro. Prescrições que têm mantido ou transportado milhões de pessoas de volta à condição de pobreza ou pobreza extrema, subtraindo ou perpetuando a ausência de condições para uma vida com dignidade.

A questão é que, enquanto discutimos se vale mais a ciência ou a ignorância (é inacreditável que isso esteja em pauta em algumas sociedades, mas está), se a política econômica deve ou não distribuir riqueza e renda, a realidade da pandemia chacoalha o debate para bradar: sem conhecimento científico, serão milhões de mortos; e, sim, todas as pessoas importam, absolutamente todas, e os mortos podem ser quaisquer uns. É com isso que estamos sendo confrontados neste momento.

Mudanças nos biomas de todos os continentes e novas práticas de consumo tornaram inevitável a circulação nas cidades de organismos antes restritos a ambientes não alterados por processos antrópicos. Os problemas de saúde pública serão recorrentes e cada vez mais graves (desafios de impactos comparáveis serão enfrentados em muitas outras áreas, por exemplo, clima, recursos energéticos, alimentos etc.). A ciência precisará ser eficiente e rápida. A ciência? Sim, ela mesma. E a nação que não dispuser de um sistema de ciência e tecnologia robusto vai pagar muito mais caro por tecnologias e tratamentos – se a eles tiver acesso.

 

Para continuar a ler clique em:

Ciência e solidariedade opõem e fragilizam a barbárie

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/05/03/ciencia-e-solidariedade-opoem-e-fragilizam-a-solidariedade-por-emmanuel-tourinho/

O Dr. Fauci apoiou o controverso laboratório de Wuhan com milhões de dólares norte-americanos para investigação arriscada sobre o coronavírus. Por Fred Guterl

 

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Fred Guterl 

Por Fred Guterl

Publicado por  Newsweek em 28/04/2020 (“Dr. Fauci backed controversial Wuhan lab with millions os US dollars for risky coronavírus research”, ver aqui)

 

 

99 coronavirus-outbreak-the-worst-is-ahead-for-us-says-fauci 1

A investigação biomédica acaba por proteger a saúde pública, disse o Dr. Anthony Fauci, ao explicar o seu apoio à investigação controversa. CHIP SOMODEVILLA/GETTY IMAGES

O Dr. Anthony Fauci é conselheiro do Presidente Donald Trump e algo como um herói do povo americano pela sua liderança firme e calma durante a crise pandémica. Pelo menos uma sondagem mostra que os americanos confiam mais em Fauci do que em Trump na pandemia do coronavírus – e poucos cientistas são apresentados  na televisão por Brad Pitt.

Mas ainda no ano passado, o Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infeciosas (NIAID), a organização liderada pelo Dr. Fauci, financiou cientistas do Instituto Wuhan de Virologia e outras instituições para trabalharem em investigação sobre ganho de funções [1] sobre os coronavírus dos morcegos.

Em 2019, com o apoio do NIAID, o Instituto Nacional de Saúde (NIH) autorizou um montante de 3,7 milhões de dólares ao longo de seis anos para investigação que incluiu investigação ganho de funções sobre o coronavírus em morcegos. O programa surge na sequência de um outro programa de 3,7 milhões de dólares, com a duração de 5 anos, para a recolha e estudo de coronavírus de morcegos, que terminou em 2019, elevando o total para 7,4 milhões de dólares.

Muitos cientistas criticaram a investigação ganho de funções, que envolve a manipulação de vírus no laboratório para explorar o seu potencial de infeção humana, porque cria o risco de se iniciar uma pandemia a partir de uma libertação acidental.

Pensa-se que o SARS-CoV-2 , o vírus que agora causa uma pandemia global, tenha tido origem em morcegos. Os serviços secretos norte-americanos, após terem inicialmente afirmado que o coronavírus tinha ocorrido naturalmente, admitiram no mês passado que a pandemia pode ter tido origem numa fuga do laboratório de Wuhan. (Nesta altura, a maioria dos cientistas diz ser possível – mas não provável – que o vírus pandémico tenha sido engendrado ou manipulado).

O Dr. Fauci não respondeu aos pedidos de comentários da Newsweek. O NIH respondeu com uma declaração que dizia, em parte, o seguinte: “A maioria dos vírus humanos emergentes provém da vida selvagem e estes representam uma ameaça significativa para a saúde pública e a biossegurança nos EUA e a nível mundial, tal como demonstrado pela epidemia do SARS de 2002-03 e pela atual pandemia da COVID-19… a investigação científica indica que não existem provas que sugiram que o vírus tenha sido criado num laboratório“.

A investigação do NIH consistia em duas partes. A primeira parte teve início em 2014 e envolveu a vigilância de coronavírus de morcegos, tendo um orçamento de 3,7 milhões de dólares. O programa financiou Shi Zheng-Li, um virologista do laboratório de Wuhan, e outros investigadores para investigar e catalogar os coronavírus de morcegos na natureza. Esta parte do projeto foi concluída em 2019.

Uma segunda fase do projeto, com início nesse ano, incluiu trabalho de vigilância adicional, mas também investigação de ganho de funções, com o objetivo de compreender como os coronavírus de morcegos poderiam sofrer mutações para atacar seres humanos. O projeto foi gerido pela EcoHealth Alliance, um grupo de investigação sem fins lucrativos, sob a direção do Presidente Peter Daszak, um perito em ecologia das doenças. O NIH cancelou o projeto ainda na passada sexta-feira, 24 de Abril, informou o jornal Politico. Daszak não respondeu imediatamente aos pedidos de comentários da Newsweek.

A proposta de projeto afirma: “Utilizaremos dados de sequências proteicas S, tecnologia de clonagem infecciosa, experiências de infeção in vitro e in vivo e análise da ligação dos recetores para testar a hipótese de limiares de divergência de % nas sequências proteicas S preverem o potencial de repercussões”.

Em termos leigos, “efeitos de arrasto potenciais” refere-se à capacidade de um vírus saltar dos animais para os seres humanos, o que exige que o vírus seja capaz de se ligar a recetores nas células dos seres humanos. O SARS-CoV-2, por exemplo, está apto a ligar-se ao recetor ACE2 nos pulmões humanos e noutros órgãos.

Segundo Richard Ebright, especialista em doenças infecciosas da Universidade de Rutgers, a descrição do projeto refere-se a experiências que reforçariam a capacidade do coronavírus de morcego para infetar células humanas e animais de laboratório, utilizando técnicas de engenharia genética. Na sequência da pandemia, este é um pormenor digno de nota.

Ebright, juntamente com muitos outros cientistas, tem sido um opositor declarado da investigação sobre o ganho de funções, devido ao risco que apresenta de criar uma pandemia através de uma libertação acidental de um laboratório.

O Dr. Fauci é conhecido pelo seu trabalho sobre a crise do VIH/SIDA nos anos 90. Nascido em Brooklyn, formou-se em 1966 na Faculdade de Medicina da Universidade de Cornell. Como chefe do NIAID desde 1984, tem servido como conselheiro de todos os presidentes dos Estados Unidos desde Ronald Reagan.

Há uma década, durante uma controvérsia sobre a pesquisa de ganho de funções sobre o vírus da gripe das aves, o Dr. Fauci desempenhou um papel importante na promoção do trabalho. Argumentou que a investigação valia o risco que implicava, porque permite aos cientistas investigar possíveis medicamentos antivirais.

O trabalho em questão era um tipo de investigação de ganho de funções que envolvia a captura de vírus selvagens e a sua passagem através de animais vivos até que estes sofressem uma mutação que poderia constituir uma ameaça pandémica. Os cientistas utilizaram esta metodologia para pegar num vírus que mal se transmitia entre os seres humanos e transformá-lo num vírus altamente transmissível – uma marca distintiva de um vírus pandémico. Este trabalho foi feito infetando uma série de furões, permitindo que o vírus sofresse uma mutação até que um furão que não tivesse sido infetado deliberadamente contraísse a doença.

O trabalho implicava riscos que preocupavam mesmo os investigadores mais experientes. Mais de 200 cientistas pediram que o trabalho fosse interrompido. O problema, disseram eles, é que aumentou a probabilidade de ocorrência de uma pandemia através de um acidente de laboratório.

O Dr. Fauci defendeu o trabalho. “O determinar o calcanhar molecular de Aquiles destes vírus pode permitir aos cientistas identificar novos alvos de medicamentos antivirais que possam ser usados para prevenir a infeção das pessoas em risco ou para tratar melhor os infetados”, escreveu Fauci e dois co-autores no Washington Post, em 30 de dezembro de 2011. “Décadas de experiência dizem-nos que a divulgação da informação obtida através da investigação biomédica a cientistas legítimos e a funcionários da saúde constitui uma base fundamental para gerar contramedidas adequadas e, em última análise, para proteger a saúde pública”.

No entanto, em 2014, sob pressão da administração Obama, o NIH instituiu uma moratória sobre os trabalhos, suspendendo 21 estudos.

Três anos depois no entanto – em Dezembro de 2017 – o NIH terminou a moratória e iniciou-se a segunda fase do projeto NIAID, que incluiu a investigação sobre ganho de funções. O NIH estabeleceu um quadro para determinar a forma como a investigação iria avançar: os cientistas têm de obter a aprovação de um painel de peritos, que decidiriam se os riscos se justificavam.

As revisões foram efetivamente conduzidas – mas em segredo, pelo que o NIH tem sido criticado. No início de 2019, depois de um repórter da revista Science ter descoberto que o NIH tinha aprovado dois projetos de investigação sobre a gripe que utilizavam métodos de ganho de funções, os cientistas que se opõem a este tipo de investigação criticaram duramente o NIH num editorial do Washington Post.

Temos sérias dúvidas sobre se estas experiências devem ou não ser realizadas“, escreveu Tom Inglesby, da Universidade Johns Hopkins, e Marc Lipsitch, de Harvard. “Com deliberações mantidas à porta fechada, nenhum de nós terá oportunidade de compreender como é que o governo chegou a estas decisões ou de julgar o rigor e a integridade desse processo“.

 

____________________

NOTA

[1] N.T. A investigação sobre o ganho de funções (GOF) envolve experiências que visam ou se espera que venham a aumentar a transmissibilidade e/ou virulência de agentes patogénicos. Esta investigação, quando conduzida por cientistas responsáveis, visa geralmente melhorar a compreensão dos agentes causadores da doença, da sua interação com hospedeiros humanos e/ou do seu potencial para causar pandemias. O objetivo final dessa investigação é informar melhor a saúde pública e os esforços de preparação e/ou desenvolvimento de contramedidas médicas. Apesar destes importantes benefícios potenciais, a investigação GOF (GOFR) pode apresentar riscos em matéria de biossegurança e de biossegurança. (vd. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4996883/)

_____________________

O autor: Fred Guterl, é um jornalista estado-unidense, licenciado em Engenharia Elétrica pela Universidade de Rochester. É editor de projetos especiais na Newsweek, e diretor de Guterl Media. Foi editor no New York Times Magazine e em Scientific American. Foi vice-presidente de Global Health Care Insights. Jornalista e editor científico premiado, focado na narração de histórias para organizações e clientes individuais. Especializou-se na elaboração de narrativas sobre temas científicos, incluindo tecnologia, medicina e ambiente. Experiência em digital, impressão, vídeo, gráficos, redes sociais, eventos ao vivo e transmissão.

 

 

 

 

Coronavirus Outbreak: The Worst Is ‘Ahead for Us,’ Says Fauci

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/05/03/o-dr-fauci-apoiou-o-controverso-laboratorio-de-wuhan-com-milhoes-de-dolares-norte-americanos-para-investigacao-arriscada-sobre-o-coronavirus-por-fred-guterl/

Uma bela história de vírus (contra a virofobia ambiente...)

por Guillaume Suing [*]

Felix D'Herelle. Entre 1915 e 1917, o biólogo autodidata Felix D'Herelle [1] descobriu uma nova forma de combate a epidemias, a "fagoterapia", a trabalhar para o Instituto Pasteur. Foi uma verdadeira revolução médica, uma promessa considerável para a investigação: D'Herelle utiliza contra estirpes de bactérias infecciosas variedades particulares de vírus chamados bacteriófagos, variedades seleccionadas a partir de uma rica biodiversidade natural ainda mal descoberta. Na natureza, mesmo que o fenómeno seja discreto à nossa escala, metade das bactérias do planeta é morta por estes bacteriófagos nas águas estagnadas ou residuais.

De modo geral, os vírus são sem dúvida as formas de vida mais primitivas e as mais minúsculas (uma vez que escapam ao alcance dos microscópios ópticos clássicos), muito mais pequenas do que as bactérias, elas próprias muito menores do que as chamadas células "eucariótas" (que possuem um núcleo) das quais somos compostos.

Os vírus são tão pequenos e primitivos (apenas alguns genes envoltos numa pequena casca de proteína inerte, ela própria coberta com moléculas que aderem às células-alvo) que muitos biólogos ainda as afastam do "dicionário" dos seres vivos, acreditando poder decidir à priori, por critérios arbitrários, a lista precisa. Os séculos XX e XXI já o confirmaram abundantemente: a biodiversidade dos vírus é imensa. De tal modo imensa que grande parte deles permanecem desconhecidos para nós porque, em vez de infectarem as nossas células, infectam... bactérias! Foi isolando múltiplas estirpes de tais bacteriófagos que Felix D'Herelle se tornou conhecido, desde o seu primeiro êxito contra a bactéria responsável pela disenteria.

Evidentemente, se é preciso isolar, para cada estirpe de bactéria infecciosa, uma estirpe específica de bacteriófago dirigido contra ela, o trabalho dos biólogos prometia ser colossal e altamente dispendioso (em dinheiro mas também em energia e trabalho colectivo gasto)... e quando, em 1928, Alexander Flemming descobre uma substância, a penicilina, capaz de destruir um espectro muito vasto de bactérias com um custo mais baixo e a possibilidade de um processo industrial relativamente simples, a escolha dos investidores ocidentais não se fez esperar. Era preciso evidentemente avançar com tudo o que podiam neste novo mercado sumarento dos antibióticos e remeter rapidamente para o museu os métodos arcaicos do Doutor D'Herelle.

Não se trata aqui de desqualificar os imensos avanços ligados aos antibióticos, evidentemente, mas de fazer um balanço numa altura em que os investigadores médicos estão encostados à parede, uma vez que a maior parte das bactérias infecciosas adquiriu, sobretudo pela utilização mais do que maciça de antibióticos na criação intensiva, resistências múltiplas e duradouras à maior parte dos antibióticos actualmente conhecidos.

Desde há alguns anos, numerosos investigadores ocidentais e numerosos doentes ocidentais insensíveis aos antibióticos e correndo um grande perigo, viajam a Tíflis, Geórgia, para beneficiarem da fagoterapia... Tíflis?

Nos anos trinta, posto em quarentena no Ocidente, onde se instalava o reino dos antibióticos, D'Herelle foi acolhido na Geórgia com o seu aluno e colega soviético George Eliava, onde a sua fama foi indiscutível até ao final do século XX. Ele foi celebrado com os mais famosos (Oparin, Vernadski, Williams, Pavlov, Korolev, etc) como herói da ciência soviética e, tal como muitos destes sábios de renome que receberam medalhas da URSS, não era comunista – o que merece ser assinalado nestes tempos de confusão ideológica em que a ciência ocidental se apresenta como a mais "pragmática"... mas que frequentemente funciona com anátemas, lutas de interesses e guerras políticas entre laboratórios para obter financiamentos.

"Na URSS, creio que a aplicação de maneira geral neste país do método dos tratamentos das doenças infecciosas pelo bacteriófago vai estar na origem de uma verdadeira revolução terapêutica", havia declarado D'Herelle com esperança. E se o homem hoje está caído no esquecimento entre nós, o centro Eliava de Tíflis passava a concentrar as esperanças de todos os infectologistas do planeta... Durante décadas, pacientemente, o poder soviético continuou a inventariar, patentear e reunir neste centro (e em outros no território soviético) todas as infecções bacterianas conhecidas ou novas que se manifestavam desde a Ucrânia até Vladivostoque, correlacionadas com uma estirpe de bacteriófago específicos isolados e concebidos como tratamento antibacteriano.

No fundo desta história há uma "necessidade" dialéctica envolvendo o "acaso" da descoberta do primeiro bacteriófago, assim como a da penicilina a cair sobre um vaso de Petri em que Fleming cultivava bactérias foi a centelha do imenso mercado dos antibióticos (e dos lobbies e monopólios farmacêuticos assassinos), até os nossos dias. Mas esta necessidade, curiosamente, lança luz sobre uma abordagem fundamentalmente diferente da investigação científica (do ponto de vista do que se investia maciçamente com dinheiros públicos) entre o Oriente e o Ocidente.

De um lado, no Ocidente, o que conta é sobretudo o curto prazo, o rentável, o tecnicamente reprodutível e o processo de produção mais simples e mais padronizado possível. É este o caso da indústria farmacêutica, voltada essencialmente para a produção de moléculas como os antibióticos, preferindo – para caricaturar – a química (de facto, a bioquímica) à biologia, o estável ao instável, a fixidês à evolução, o reducionismo ao holismo, o unidireccional à interacção e ao sistémico.

Do outro lado, a Leste, investiu-se mais na biologia, biodiversidade, no vivo e nas propriedades já estabelecidas ao longo de milhões de anos de evolução, ao invés do efeito específico que tem sido absolutamente (e em vão) controlado e fixado. Em suma, uma abordagem dialéctica e dinâmica é tipicamente encontrada no Leste, mesmo entre os sábios não comunistas, enquanto no Ocidente, pelo contrário, encontra-se nas correntes dominantes um espírito reducionista, binário, em suma, mecanicista (a do "tudo genético" foi o mais sintomática até há pouco tempo).

Pode-se encontrar na agronomia um duplo exemplo desta contradição epistemológica. No ocidente, em meados do século XX, voltou-se tudo para a química dos adubos e dos pesticidas (para a agricultura, utilizáveis quaisquer que fossem o solo e o clima, no momento que se desenvolveu suficientemente a monocultura intensiva) quando, no Leste [antes de Kruchov], em 1948 lançava-se o mais vasto plano de agroflorestação e de policultura da história, na base de um conhecimento agrobiológico do solo e das suas propriedades vitais, tudo sem pesticidas (conhecidos por destruírem cegamente toda vida que anima o solo). Os "auxiliares de cultura" (os insectos capazes de lutar contra parasitas que afectam as culturas, como prescreve por exemplo a permacultura) eram ali claramente preferidos às moléculas inertes que destroem não selectivamente toda forma de vida do solo). Do mesmo modo, o imenso banco soviético de sementes vegetais endémicas do mundo inteiro, criado pelo geneticista Vavilov e seus colaboradores antes da guerra, favorecia uma agrobiologia humilde e baseada no que existe, nas potencialidades do próprio mundo vivo, resultado de uma paciente e engenhosa evolução.

Por outro lado, a pecuária no Ocidente desenvolveu-se sobre a indústria química (hormonas e antibióticos) com as consequências que hoje se conhecem (a maior parte das resistências aos antibióticos resulta nomeadamente da sua utilização maciça na pecuária intensiva por toda a parte do mundo). Visivelmente no Leste, pelo menos na medicina, apoiou-se sobre a imensa mas restritiva biodiversidade dos bacteriófagos, ao invés dos antibióticos, embora estes últimos naturalmente também tenham sido produzidos e prescritos.

A agroecologia soviética pré-Khruchoviana ou (actualmente) a cubana assenta numa grande variedade de sementes endémicas (que o catálogo standard da Bayer Monsanto actualmente proscreve em toda a parte do mundo), possivelmente "reeducadas" para uma ou outra condição ambiental local, bem como auxiliares de culturas mais eficientes por serem o produto de uma evolução milenar e não de uns poucos testes realizados à pressa, estabilizados em vão para o "todo terreno" (como o glifosato utilizado em todo o mundo, qualquer que seja o solo e o clima). A agroquímica ocidental, como se sabe hoje (e se lamenta), é a sua antítese teórica e prática.

Trazida progressivamente à razão, hoje encostada à parede, a ciência mais financiada (a ocidental) faz a sua autocrítica. Mesmo do ponto de vista da saúde, os antibióticos foram usados de tal modo pelo agrobusiness e pelas prescrições fáceis em medicina, que ao procurar alternativas críveis se redescobre, de modo bem mais dialéctico, não só os avanços da fagoterapia soviética (ocultando a sua origem) como também as benfeitorias do " microbiota " (tão atacada pelos antibióticos, pelo business da substituição do leite materno e outros produtos triunfantes da indústria química), incluindo a manutenção do sistema imunitário e, portanto, da saúde humana.

Esta é de facto uma atitude mais humilde face às imensas possibilidades ecológicas (no sentido científico do termo) que a ciência tenta agora ultrapassar os limites que se havia fixado por excesso de idealismo durante o século XX. Assim, apoia-se agora sobre a descoberta do microbiota (o conjunto dos microrganismos que vivem "com" cada um de nós e nos protegem de muitas bactérias indesejáveis, se os antibióticos não as tiverem sistematicamente destruído) para lutar contra as bactérias patogénicas – e o "higienismo" muito mecanicista dos anos 60 está agora a dar lugar a uma atitude mais sistémica em relação ao mundo dos microrganismos e do nosso sistema imunitário, que é agora visto como um complexo mini-ecosistema a respeitar e até a reforçar, ao invés de "substituir".

E O COVID-19?

E o COVID-19 nisso tudo? Numerosas pandemias são não bacterianas mas sim virais e é o que este coronavírus hoje nos recorda cruelmente. Evidentemente, se muitos vírus são inofensivos (e mesmo úteis), como certas bactérias do nosso microbiota, alguns no passado causaram os piores danos às populações humanas. E desta vez, nada de antibióticos! Os antivirais são muito mais complexos e dependem sempre, de uma forma mais dialéctica, das potencialidades do próprio sistema imunitário humano, já adaptado em muitos aspectos à luta antivíral pela sua própria evolução e memória. É evidente que, neste domínio, não deixarão de surgir descobertas revolucionárias, a começar pelas complexas interacções que poderão eventualmente existir entre vírus "bons" e "maus" no meio natural que o homem domina actualmente, apoiando-se talvez nuns contra os outros. Estas descobertas não devem tardar a chegar, pois, estando tudo ligado num mundo material em constante evolução, com ou sem nós, o actual aquecimento climático está, como um efeito colateral mal conhecido, a descongelar um enorme permafrost árctico no qual adormeciam milhares de vírus antigos que a memória imunitária humana desde há muito esqueceu. As pandemias do tipo COVID-19 não deixarão portanto de se repetir e, perante uma investigação centrada unicamente na "química", frequentemente hostil à "biologia" (que é mais complexa e difícil de apreender ou de comercializar), a realidade infelizmente não perdoará qualquer erro.

Onde os laboratórios de investigação ocidentais tentam produzir um medicamento único e patenteável para cada doença, de um modo idealista e reducionista, já percebemos, em plena pandemia, que a investigação pioneira chinesa ou cubana aposta, de uma forma inteiramente heterodoxa, no "drug repositionning", ou seja, na possibilidade de utilizar uma molécula contra patologias não relacionadas com o alvo original. O interferon alfa 2B recentemente reciclado pelos cubanos contra o COVID 19, o medicamento antipalúdico do tipo cloroquina testado para os conoravírus desde há vários anos na China, são exemplos bastante claros, ilustrando uma abordagem sistémica, não reducionista e, portanto, "dialéctica" da investigação médica. E é sem dúvida assim que devemos agora pensar a nossa "guerra" contra os agentes infecciosos: eles evoluem e adaptam-se? Utilizemos nós também a evolução das nossas armas e contra-fogos biológicos ao invés de acreditar cada vez no "remédio milagroso".

É igualmente a necessidade que hoje desenvolve o "drug repositionning", uma vez que, apesar dos investimentos cada vez mais maciços, as novas moléculas descobertas na investigação médica estão a tornar-se cada vez mais raras: Com a globalização capitalista, toda epidemia está agora destinada a tornar-se uma pandemia, e todo agente infeccioso, maciça e rapidamente exposto à menor molécula antibacteriana ou antiviral, tem todas as oportunidades de evoluir, sofrer mutações e de sobreviver para se recompor durante um período de latência crucial (uma vez que a descoberta de uma vacina leva um certo tempo).

De modo geral, agora é bastante claro que, enquanto os países capitalistas desmantelaram pacientemente os seus sistemas de saúde por não serem rentáveis a curto prazo, os países que emergiram do campo socialista, embora órfãos da União Soviética, ilustram-se por uma política totalmente inversa: Em Cuba a saúde faz parte das prioridades absolutas, com um número incalculável de médicos que fazem o país famoso (não é mais belo, mais humano, exportar conhecimentos saber ou saber fazer ao invés de produtos de consumo?) No triturador social europeu, é mesmo Cuba, a China e a Venezuela, e não Bruxelas, a que se apela por ajuda!

A China, por seu lado, venceu o vírus através de um considerável esforço estatal que nenhum país entre os mais ricos do mundo é capaz de aplicar. Mesmo em tempos de "paz" sanitária, o socialismo sempre se preocupou em garantir a protecção sanitária das populações a qualquer preço: Todo edifício público, mesmo as escolas, era concebido para se tornar um hospital em caso de emergência e os serviços médicos eram implantados nos menores recantos do território, com um sistema de cuidados de saúde totalmente gratuito.

A situação escandalosa em que o capitalismo liberal coloca toda a humanidade só com esta pandemia não está apenas em conflito com a superioridade do socialismo em matéria de protecção da saúde: É a própria investigação que é apontada a dedo, a montante.

É provável que a China seja o primeiro país a desenvolver uma vacina contra a COVID-19, mas antes disso, os primeiros países a proporem tratamentos antivirais por reposicionamento de emergência foram Cuba (Interferon alfa 2B) e a China (cloroquina em particular), enquanto os intermináveis debates em França paralisam as decisões sobre o que poderia deter a catástrofe, devido a conflitos de interesses e querelas de ego...

Não seria a ciência guiada pela "competição" estimulante entre egos de avental branco, mas por investimentos maciços do Estado e pelo trabalho colectivo dos funcionários? Que descoberta!

Daí até um dia se admitir que mais "materialismo" e mais "dialéctica" acelera os avanços científicos ao invés de os retardar com "dogmatismo pró-soviético arcaico ", o prazo sem dúvida ainda será bem longo...

Hoje, mais do que nunca, os nossos inimigos não são nem os vírus nem as bactérias, mas sim aqueles que – pelo chamariz do lucro – destroem as nossas melhores armas colectivas contra eles!

27/Março/2020

Ver também:

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/pandemia/suing_27mar20.html

Portugal cria banco biológico para estudar COVID-19

Sérgio Dias – Fundo IMM Laço

Lisboa, 21 abr (Xinhua) -- O Instituto Português de Medicina Molecular João Lobo Antunes criou um banco biológico para estudar a COVID-19. Ao armazenar amostras biológicas de pacientes diagnosticados com a doença no país, o instituto tem como objetivo criar um banco de dados que permita aos especialistas entender por que as pessoas reagem de maneira diferente ao novo coronavírus.

Sergio Dias, codiretor do Biobanco e responsável pela iniciativa, disse à Xinhua que eles iniciaram uma coleta porque sentiram que há um grande interesse em caracterizar a resposta imune de diferentes pacientes à infecção pela COVID-19.

O instituto pretende criar um repositório de amostras de pacientes com COVID-19, acompanhado pelas respectivas informações clínicas, que poderão ser usadas posteriormente em estudos de caracterização imunológica da resposta à COVID-19", explicou.

Por enquanto, o Biobanco não realiza análises. Ele coleta apenas amostras de sangue para obter plasma, soro e células circulantes, disse Dias, que também é pesquisador vinculado à Universidade de Lisboa.

As amostras de sangue são coletadas com o apoio de instalações médicas em várias regiões do país.

Nesta fase inicial do projeto, foram selecionados cerca de 200 doadores de quatro grupos: hospitalizados e recuperados; internados em terapia intensiva em situação clínica complexa; curados da doença quase sem sintomas; e médicos que tiveram contato com pacientes com resultado positivo para o vírus.

Sabemos muito pouco sobre esse vírus e como ele interage com seu hospedeiro humano. Portanto, o acesso a amostras clínicas é extraordinariamente relevante científica e clinicamente, afirmou Dias.

As amostras do banco serão disponibilizadas para toda a comunidade científica internacional, disse ele.

Sabemos que outros países estão criando biobancos semelhantes, por exemplo, Espanha e Luxemburgo. Podemos compartilhar nosso conhecimento, disse o pesquisador.

Portugal está no terceiro período do estado de emergência do coronavírus, que entrou em vigor em 18 de março e vai até 2 de maio.

Ver original em "XINHUA Português" na ligação seguinte:

http://portuguese.xinhuanet.com/2020-04/21/c_138994810.htm

Cientistas portugueses resolvem mistério de 1.000 anos de rara tinta azul medieval (FOTOS)

Um manuscrito (imagem referencial)
© Sputnik / Yevgeny Odinokov

Investigadores portugueses recriaram uma tinta azul púrpura que era muito usada na Idade Média em manuscritos e cuja fórmula há muito se tinha perdido.

Segundo informa hoje (20) o portal Ancient Origins, cientistas portugueses identificaram quer a planta que fornece o pigmento, quer o modo de produção da peculiar tinta azul púrpura que teve várias aplicações na Idade Média.

A tinta era usada para colorir diversas coisas, incluindo tecidos, e até a casca de um popular queijo holandês, mas era particularmente utilizada em manuscritos iluminados, que eram decorados com ouro, prata ou cores brilhantes e são considerados obras-primas do mundo medieval.

Os pesquisadores lograram recriar esta tinta azul muito em voga na Idade Média, recorrendo a um livro escrito em uma língua extinta.

A tinta era conhecida como folium e era famosa pela sua tonalidade e pelas suas propriedades duradouras, o que raramente acontece com as tintas azuis.

Tal fato, refere o portal, tornou o folium muito apreciado na Idade Média. Esta tonalidade azul não era como o anil da planta índigo, ainda hoje muito utilizado, nem como os pigmentos produzidos a partir de alguns tipos de flores.

Erva Chrozophora tinctoria (foto de arquivo)

Erva Chrozophora tinctoria (foto de arquivo)

Fórmula perdida

Após a produção da tinta, esta era embebida em pedaços de linho, permitindo dessa forma seu transporte por todo o continente europeu.

Contudo, depois de Gutenberg ter inventado a primeira máquina de impressão, os manuscritos iluminados foram ficando fora de uso. Com o tempo, o folium foi sendo cada vez menos utilizado e o processo de produção perdeu-se após a invenção dos corantes sintéticos.

A receita matriz era desconhecida desde pelo menos o século XIX. Agora, uma equipe de dez cientistas conservacionistas portugueses, liderados por Paula Nabais da Universidade Nova de Lisboa, decidiram resolver o mistério de como se produzia o folium. Para o efeito, tiveram de decifrar um texto medieval do século XV sobre como produzir cores para iluminuras, tarefa que na época era executada por monges cristãos.

 

Cientistas ressuscitaram tom púrpura-azul cuja origem botânica se tinha perdido ao longo do tempo

Traduzindo língua extinta

No entanto, este não foi um processo fácil. O livro estava escrito em judaico-português, um dialeto extinto da língua portuguesa usado pela comunidade hebraica lusitana.

Malgrado as dificuldades, a equipe logrou recuperar informação suficiente para tentar recriar o folium, descobrindo que o único ingrediente da tinta era uma pequena erva verde-prateada, Chrozophora tinctoria, mesmo não sendo o seu nome referido pelo livro medieval.

 

​Especialistas resolvem mistério de 1.000 anos de rara tinta azul medieval

Paula Nabais, a autora principal do estudo, citada pelo Ancient Origins, afirmou que o livro "diz como a planta é, como os frutos são... é muito específica, também dizendo quando e onde a planta cresce, e quando você pode coletá-la".

Resolvendo o mistério

O manuscrito dá instruções detalhadas e até indica o local onde coletar as melhores plantas a utilizar. Nabais e os seus colegas viajaram até Monsaraz, na região do Alentejo, no sul de Portugal.

Recolhido o fruto da planta, do tamanho de uma pequena noz, de exemplares que cresciam espontaneamente ao longo da estrada, rapidamente se deram conta que continha um líquido azul.

Com base na sua investigação, sabiam que as sementes não podiam ser esmagadas, porque isso poderia ter impacto na extração do pigmento.

Trazidas as amostras para o laboratório, usaram técnicas analíticas para zerar a estrutura da molécula de corante, conseguindo demonstrar que o composto químico da tonalidade azul púrpura era idêntico ao do fruto da planta a nível molecular, relata o portal.

Retalhos de pano pintados com tinta da erva Chrozophora tinctoria e fórmula química da substância
Retalhos de pano pintados com tinta da erva Chrozophora tinctoria e fórmula química da substância

De seguida, examinaram as moléculas do fruto da planta e simularam a interação da luz com a molécula candidata, para verificar se esta lhes daria o azul desejado. Confirmado, decidiram extrair o pigmento que era tão valorizado na Idade Média, continua o Ancient Origins.

Receita recriada

A equipe decidiu então copiar os procedimentos indicados nos textos medievais. O carácter vago das instruções levou a que o processo fosse demorado. Mas, após várias tentativas e muitos erros, foi possível extrair o pigmento do fruto minúsculo, informa o Ancient Origins.

Os cientistas esperam agora que a sua recriação do folium permita ajudar os especialistas que preservam e restauram livros raros iluminados, uma vez que o corante medieval poderia durar séculos.

Para além disso, a descoberta também poderá ajudar no desenvolvimento de pigmentos mais resistentes do que os corantes sintéticos, conclui o portal.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/ciencia_tecnologia/2020042015479165-cientistas-portugueses-resolvem-misterio-de-1000-anos-de-rara-tinta-azul-medieval-fotos/

China estabelecerá banco nacional de recursos de modelos animais para doenças humanas

SciTechDaily - Home | Facebook

Beijing, 16 abr (Xinhua) -- O Ministério da Ciência e Tecnologia e o Ministério das Finanças da China aprovaram a construção de um banco nacional de recursos de modelos animais para doenças humanas, de acordo com uma reportagem do Science and Technology Daily na terça-feira.

O banco de recursos, sob a Comissão Nacional da Saúde, será apoiado pelo Instituto de Ciências de Animais de Laboratório sob a Academia Chinesa de Ciências Médicas.

O banco pode promover ainda mais a utilização e o compartilhamento de recursos do modelo animal e foi incluído na plataforma nacional de serviços de compartilhamento de recursos de ciência e tecnologia.

Os modelos animais de doenças humanas, utilizados principalmente para triagem de medicamentos e pesquisa de vacinas, são animais com manifestações semelhantes de doenças humanas.

Qin Chuan, diretor do banco de recursos, disse em uma conferência de imprensa no mês passado que pesquisadores chineses estabeleceram os modelos de ratos e macacos rhesus na pesquisa e desenvolvimento de vacinas contra a COVID-19.

Uma vacina só pode entrar em testes clínicos depois que for comprovada como segura e eficaz em testes em animais, disse Wang Junzhi, acadêmico da Academia Chinesa de Engenharia.

A China aprovou três candidatos à vacina contra a COVID-19 para testes clínicos, anunciou o Ministério da Ciência e Tecnologia em uma coletiva de imprensa na terça-feira. Fim

Ver original em "XINHUA Português" na ligação seguinte:

http://portuguese.xinhuanet.com/2020-04/16/c_138982317.htm

Em Portugal, cientistas criam Biobanco com amostras de sangue de doentes para estudos da COVID-19

Frascos com reagentes para testes rápidos de coronavírus no laboratório do Parque Tecnológico de Skolkovo
© Sputnik / Yevgeny Biyatov

Cientistas de Portugal iniciaram os trabalhos para criação do Biobanco COVID-19, um repositório que vai guardar amostras biológicas de pacientes diagnosticados com a doença no país.

O objetivo é ter uma "coleção" disponível para realização de futuros estudos sobre o novo coronavírus. "Não se trata, nesta fase, de análises. Trata-se de criar uma coleção de amostras de sangue de pacientes COVID-19, dos quais obteremos plasma, soro e células circulantes", explica à Sputnik Brasil Sérgio Dias, codiretor do Biobanco e pesquisador do Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes, unidade científica, ligada à Universidade de Lisboa, que é a responsável pela iniciativa.

As amostras de sangue vão ser recolhidas com apoio de unidades de saúde de várias regiões do país. A objetivo é armazenar o material biológico de pelo menos 200 pessoas na fase inicial do projeto, que teve início na semana passada.

Os doadores são selecionados de acordo com quatro grupos: pacientes que foram hospitalizados com a COVID-19, mas se recuperaram; pacientes internados em UTI, com quadro clínico mais complicado; pessoas que tenham ficado curadas da doença quase sem apresentação de sintomas e ainda médicos que tiveram contato com doentes positivos.

"Sabemos tão pouco sobre este vírus e da forma como este interage com o seu hospedeiro humano, que o acesso a amostras clínicas, como soros, plasma, células do sangue de doentes, é, científica e clinicamente, extraordinariamente relevante", diz o pesquisador Sérgio Dias.

Futuro e cooperação

As amostras do Biobanco vão ficar disponíveis para estudos não apenas dos cientistas do Instituto de Medicina Molecular, mas de toda a comunidade científica internacional. No entanto, os pesquisadores que desejem ter acesso ao material vão precisar submeter um projeto para avaliação. "Uma comissão científica determinará a relevância e pertinência das questões científicas e clínicas levantadas. Os resultados dos estudos realizados com estas amostras serão apresentados à comunidade científica sob a forma de publicações e outras, como sempre fazemos em ciência. Ficarão, assim, acessíveis mundialmente", diz o codiretor do Biobanco.

A utilização das amostras vai facilitar a criação de "perfis imunológicos resultantes da exposição à COVID-19", explica Sérgio Dias, o que vai permitir uma melhor compreensão sobre as dúvidas que ainda intrigam a comunidade científica.

A equipe portuguesa se mostra aberta à cooperações internacionais. "Sabemos que outros países estão a criar Biobancos semelhantes, por exemplo Espanha e Luxemburgo, entre outros, com quem colaboramos frequentemente. Estamos em condições de poder partilhar o nosso know-how com esses parceiros e partilhar inclusive amostras, se for de mútuo interesse".

Portugal está no segundo período de estado de emergência por causa da pandemia, que entrou em vigor no último dia 3 e deve ser renovado por mais 15 dias. Atualmente, o país registra 629 mortes pela COVID-19 e 18.841 casos confirmados da doença.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2020041615465001-em-portugal-cientistas-criam-biobanco-com-amostras-de-sangue-de-doentes-para-estudos-da-covid-19/

Decisões políticas, evidência científica, Galileu e a pandemia

Nestes tempos conturbados de pandemia, e de crise social associada, os responsáveis políticos têm de tomar decisões na ausência de informação completa ou conhecimento estabilizado acerca do que está realmente a acontecer. Tem sido explicado vezes sem conta: os próprios cientistas desconhecem muito do que seria necessário saber para termos maior segurança acerca do melhor caminho a seguir. Contudo, e curiosamente, estamos sempre a falar de – e a pugnar por – decisões políticas baseadas na evidência científica. E bem! Não obstante, o que seja “a evidência científica” está longe de ser claramente apreendido pelas nossas sociedades. Num mundo onde, felizmente, a maior parte dos decisores se guia mais pelo conhecimento científico disponível do que por meras convicções acerca do mundo, é importante saber que a dita “evidência científica”… está longe de ser evidente. Compreender esta incerteza é decisivo para entendermos como nos comportarmos (colectivamente) em situações extremas, como esta em que estamos. E, na verdade, é muito difícil aceitar que vivemos numa base incerta, que é o nosso conhecimento acerca do mundo. Procuro, neste texto, aproveitar um testemunho recente para vos trazer ao caminho da incerteza… O Expresso publica (na revista da edição de hoje) uma entrevista com José Lourenço, um epidemiologista computacional que é um dos co-autores do estudo da Universidade de Oxford que traça um cenário, para o impacto mundial do novo coronavírus, alternativo ao que tem aparecido como dominante. A entrevista, realizada por Raquel Albuquerque, tem por título “Não estamos habituados a fazer ciência por necessidade” e é interessante a vários títulos, mas relevo aqui apenas um aspecto. Vejamos uma pergunta e uma resposta: Pergunta: No estudo agora publicado pela Universidade de Oxford, do qual é coautor, levantam a hipótese de o número de infetados por covid ser muito superior ao que conhecemos e, por consequência, a taxa de letalidade ser mais baixa. Como traçaram esse cenário?
Resposta: Ao contrário do que foi dito, o estudo não conclui que 50% da população do Reino Unido já terá sido infetada, porque não estamos a projetar o progresso da epidemia. Tentámos criar uma discussão sobre como é possível que o cenário seja o inverso do que tem sido debatido. Sem saber a imunidade da população (porque não sabemos quantas pessoas já foram expostas ao vírus) nem o tamanho do grupo de risco, tanto podemos assumir que a epidemia é gigantesca e o risco baixíssimo ou que a epidemia é pequena mas o risco é gigante. Ninguém consegue com certeza dizer qual é o cenário atual e qualquer um dos dois poderia resultar na mesma curva epidémica de mortos a que estamos a assistir. O nosso objetivo era transmitir a ideia de que temos de tentar, o mais rapidamente possível, medir uma das duas variáveis. Estimar o tamanho do grupo de risco só é possível depois de a epidemia passar, portanto a única coisa que podemos medir agora é a imunidade. Precisamos de saber em que cenário estamos, porque se o cenário for o inverso do que até agora tem sido apontado, então uma grande parte da população poderá já estar imune e não sabemos. Atentem, por favor, aos segmentos sublinhados. O raciocínio que eles sublinham, expresso no conjunto da resposta, é este: há uma dada evidência (as curvas de mortalidade que temos por causa da pandemia), mas há duas interpretações possíveis (a epidemia é gigantesca e o risco é baixíssimo OU a epidemia é pequena e o risco é gigante) e ainda não temos os dados para saber qual dessas leituras é correcta (e diz o que há a fazer para chegar lá: “temos de tentar, o mais rapidamente possível, medir uma das duas variáveis. Estimar o tamanho do grupo de risco só é possível depois de a epidemia passar, portanto a única coisa que podemos medir agora é a imunidade”). Isto é: nem sempre a evidência disponível permite estar certo acerca do que ela quer dizer para questões fundamentais à compreensão da realidade. Vou, agora, deixar outro exemplo desta relação entre evidência e interpretação em ciência. É um exemplo histórico, relacionado com o uso que Galileu faz do telescópio em defesa do heliocentrismo coperniciano. Galileu atribui-se a possibilidade de observar os fenómenos celestes com maior fiabilidade do que Aristóteles ou os seus sucessores adversários do heliocentrismo de Copérnico, devido ao facto de dispor e usar para o efeito o telescópio. Uma declaração típica dessa atitude tem como porta-voz o personagem Salviati, no “Diálogo dos Grandes Sistemas”: "Nós, graças ao telescópio, tornámos o céu trinta ou quarenta vezes mais próximo do que o era para Aristóteles, de tal modo que podemos aí descobrir mil e uma coisas que ele não podia ver". No entanto, a verdade é que o telescópio não era, à data, um instrumento indiscutível para o uso científico que Galileu lhe queria dar. O telescópio obtivera, já, sucessos importantes na visão de objectos terrestres, mas, nesse campo, era possível cotejar essas observações com observações de proximidade – coisa impossível na observação de objectos celestes. Ainda mais estranha era essa extensão do uso do telescópio quando, ao tempo, se consideravam as regiões terrestre e celeste como obedecendo a leis diferentes e formadas de diferentes matérias. Além do mais, não estava disponível na altura nenhuma concepção científica do funcionamento do telescópio, que era usado de forma ad hoc. Para se ter esse enquadramento científico do uso do telescópio na observação de corpos celestes seria preciso, pelo menos, a intervenção de ciências auxiliares como a óptica e a meteorologia (para explicar o instrumento e para explicar a visão através da atmosfera). Galileu ainda chegou a pretender que o seu aperfeiçoamento do telescópio se deveu a profundos estudos teóricos, mas noutras ocasiões revela que procedeu essencialmente por tentativa e erro. O próprio Kepler manifesta a Galileu a sua preocupação por esta situação. Nada disto impediu Galileu de fazer das observações telescópicas um argumento de peso na defesa da concepção coperniciana, mas não havia certeza nenhuma nesse procedimento. Alexandre Koyré (cf. “Do Mundo Fechado ao Universo Infinito”) suporta amplamente esta análise. Segundo este autor, o facto de o telescópio permitir observar "novas" estrelas, que anteriormente não estavam ao nosso alcance, poderia dever-se a
(1) essas estrelas serem demasiado pequenas, embora estando perto, ou…
(2) essas estrelas, sendo grandes, estarem demasiado afastadas para poderem ser vistas sem o telescópio.
Para os efeitos pretendidos por Galileu, essas duas alternativas arrastavam conclusões de consequências desiguais:
(2) implicava o abandono da distinção aristotélica entre uma região sublunar imperfeita e sujeita à mudança e uma região supralunar perfeita e imutável;
(1) não afectava minimamente a concepção tradicional. Como decidir entre as duas alternativas? Com apoio num completo domínio teórico do instrumento implicado? Segundo Koyré, na época "as duas interpretações convêm tanto uma como outra aos dados de facto da óptica; um homem deste tempo não podia então optar entre elas a não ser por razões filosóficas e não estritamente científicas. E foi por razões filosóficas que a tendência dominante no pensamento do século XVII rejeitou a primeira interpretação e adoptou a segunda": porque esta conflituava com a concepção tradicional e favorecia a concepção coperniciana. Em convergência com esta análise, Bernard Cohen (cf. “The Birth of a New Physics”) afirma que "a análise da experiência de Galileu da observação de corpos celestes por meio do telescópio, em 1609 e nos anos subsequentes, mostra como o seu apego às doutrinas copernicianas condicionou e até dirigiu a interpretação do que observou nessa altura". Galileu não "viu" montanhas na Lua: viu um conjunto de manchas, umas mais escuras do que outras e, depois, "transformou estes dados sensoriais ou imagens visuais num novo conceito: a superfície lunar com montanhas e vales", militando a favor da semelhança entre a Lua e a Terra. Galileu não "viu" satélites de Júpiter: observou o que lhe pareceu inicialmente ser um conjunto de pequenas estrelas, tendo sido o seu interesse teórico em defender o copernicanismo que o conduziu mais tarde a concluir que eram satélites de Júpiter, ponto importante para mostrar mais uma semelhança não aceite tradicionalmente entre a Terra e os planetas (já não era só a Terra a ter satélites). Trata-se, diz-nos Cohen, de mais um "processo de transformação dos dados sensíveis da experiência", com um interesse especial: é que, contra aqueles que diziam que uma Terra em movimento a grande velocidade perderia o seu satélite, podia agora mostrar-se como Júpiter, que todos admitiam mover-se, não perdia os seus satélites - anulando mais um argumento anti-coperniciano. Há ainda o caso das manchas solares: observadas desde a Idade Média, nenhum aristotélico ortodoxo admitiria que elas fossem mudanças nesse astro, tomando-as antes como resultado de passagens de planetas diante do Sol. Galileu, liberto desse condicionamento, pode ver outra coisa, "vendo" exactamente o mesmo. Isto serve para quê? Para entendermos que a incerteza quanto ao conhecimento do mundo não é exclusiva dos “leigos”, é uma condição importante do melhor conhecimento científico. Para estarmos cientes de que a evidência científica não é garantia de certeza, especialmente enquanto estamos a lidar com um fenómeno novo, mundial na sua extensão, que lida ao mesmo tempo com o muito pequeno e com a grande escala das dinâmicas populacionais. Para não esquecermos que uma comunidade só pode lidar com esta incerteza se for capaz de mobilizar valores extra-científicos para lidar com a fragilidade da condição humana e o sofrimento. Para aproveitarmos o que sabemos como guia. José Lourenço, o entrevistado acima mencionado, diz o seguinte na mesma entrevista: “Os especialistas podem discordar em alguns detalhes e nas formas como lidamos com a epidemia no dia-a-dia. Mas há consenso sobre o seu desfecho. Estaremos livres desta epidemia quando uma determinada proporção da população de cada país ficar imune e o vírus deixar de conseguir propagar-se por falta de indivíduos ainda disponíveis para infeção. Podemos, de futuro, chegar a esse nível de imunidade de grupo por exposição natural (ou seja, infeção) ou artificial (a vacinação), mas é altamente improvável que o vírus seja eliminado de outra forma.” Não, nós não somos os “senhores do universo”. Sabemos muito sobre o nosso mundo, mas sabemos muito pouco. É preferível termos noção disso e não pensarmos que tudo se resolve apelando à evidência científica. Porque, nos momentos de novidade, é preciso encaixar, nessa evidência científica, uma interpretação que ligue adequadamente com o profundo mistério da realidade.
Porfírio Silva, 4 de Abril de 2020

Ver original em "Machina Speculatrix" (aqui)

Coronavírus | MORCEGOS, REPRODUÇÃO GENÉTICA E ARMAS BIOLÓGICAS...

 
EXPERIÊNCIAS RECENTES DA DARPA FAZEM SURGIR PREOCUPAÇÕES PERANTE OS SURTOS DE CORONAVÍRUS 
 
Whitney Webb
 
Parte 1
 
A DARPA DESPENDEU, RECENTEMENTE, MILHÕES DE DÓLARES EM PESQUISAS ENVOLVENDO MORCEGOS E CORONAVÍRUS, BEM COMO NA REPRODUÇÃO GENÉTICA DE “ARMAS BIOLÓGICAS” ANTES DO RECENTE SURTO DE CORONAVÍRUS. AGORA, OS “ALIADOS ESTRATÉGICOS” DA AGÊNCIA ESCOLHERAM DESENVOLVER UMA VACINA DE MATERIAL GENÉTICO PARA IMPEDIR A EPIDEMIA POTENCIAL.
 
WASHINGTON D.C. – Nas últimas semanas, a preocupação com o aparecimento de um novo coronavírus na China aumentou, exponencialmente, à medida que a comunicação mediática, especialistas e funcionários do governo em todo o mundo se preocupavam abertamente com o facto de que essa nova doença tem o potencial de se transformar numa pandemia global.
 
À medida que têm aumentado as preocupações com o futuro do surto em curso, também aumenta o número de teorias que especulam sobre a origem do surto, muitas das quais culpam uma variedade de protagonistas estatais e/ou bilionários polémicos. Inevitavelmente,isto deu origem a esforços para conter a “desinformação” relacionada ao surto de coronavírus dos principais meios e das principais plataformas da comunicação social.
 
No entanto, embora muitas dessas teorias sejam claramente especulativas, também há evidência verificável sobre o interesse recente de uma agência governamental polémica dos EUA nos novos coronavírus, especificamente naqueles que são transmitidos de morcegos para os seres humanos. Essa agência, a Agência sobre Projectos de Pesquisa Avançada na Defesa, do Pentágono (DARPA), começou a investir milhões de dólares em tais pesquisas, em 2018, e alguns desses estudos financiados pelo Pentágono foram conduzidos em laboratórios militares de armas biológicas dos EUA que fazem fronteira com a China e resultaram na descoberta de dezenas de novos grupos de coronavírus  recentemente, melhor dizendo, em Abril do ano passado. Além do mais, as ligações do principal laboratório de biodefesa do Pentágono com um Instituto de Virologia em Wuhan, na China - onde se crê que o começou o surto actual - não foram relatados na comunicação social em língua inglesa, até ao momento.
 
Embora a causa do surto permaneça totalmente desconhecida, as particularidades das experiências recentes da DARPA e do Pentágono são, claramente, de interesse público, tendo especialmente em consideração que as empresas recentemente escolhidas para desenvolver uma vacina para combater o surto de coronavírus são aliadas estratégicas da DARPA. Não só esta circunstância, mas essas empresas apoiadas pela DARPA estão a desenvolver vacinas controversas de DNA e mRNA para essa categoria específica de coronavírus, uma categoria de vacina que nunca foi aprovada anteriormente para uso humano nos Estados Unidos.
 
No entanto, à medida que crescem os temores do potencial pandémico do coronavírus, essas vacinas devem ser lançadas no mercado para uso público, tornando importante que o público esteja ciente das recentes experiências da DARPA sobre coronavírus, morcegos e tecnologias de reprodução de genes e as suas implicações mais alargadas.
 
 
 
EXAMINANDO A NARRATIVA RECENTE DA ARMA BIOLÓGICA DE WUHAN
 
Como o surto de coronavírus passou a dominar os cabeçalhos das notícias das últimas semanas, vários meios de comunicação promoveram alegações de que o epicentro relatado do surto em Wuhan, na China, também era o local de laboratórios supostamente vinculados a um programa de guerra biológica do governo chinês. 
 
No entanto, após um exame mais aprofundado das fontes dessa alegação grave, estes supostos vínculos entre o surto e um suposto programa chinês de armas biológicas surgiram de duas fontes altamente duvidosas.
 
Por exemplo, o primeiro canal a relatar esta alegação foi a Radio Free Asia, o canal mediático financiado pelo governo dos EUA, voltado para o público asiático que costumava funcionar de maneira encoberta pela CIA e nomeado pelo New York Times como uma parte essencial da “Rede mundial de propaganda” dessa Agência [CIA]. Embora já não seja administrada directamente pela CIA, agora é administrada pelo Broadcasting Board of Governors (BBG), financiado pelo governo, que responde directamente ao Secretário de Estado Mike Pompeo, que era o Director da CIA imediatamente antes de seu cargo actual, à frente do Departamento de Estado.
 
Por outras palavras, a Radio Free Asia e outros meios de comunicação administrados pelo BBG são meios legais para a propaganda do governo dos EUA. Especialmente, a proibição de longa data do uso interno de propaganda do governo dos EUA direccionada aos cidadãos dos EUA, que foi levantada em 2013, com a justificação oficial de permitir que o governo “se comunicasse efectivamente, de maneira credível” e pudesse combater melhor a “Al-Qaeda e outras influências de extremistas violentos.” 
 
Voltando ao assunto em questão, o recente relatório da Radio Free Asia sobre as supostas origens do surto estarem vinculadas a um centro de virologia chinês ligado ao Estado citou, apenas, Ren Ruihong, o antigo Chefe do Departamento de Assistência Médica da Cruz Vermelha Chinesa, como o autor desta afirmação. Ruihong foi citado como especialista em vários relatórios da Radio Free Asia sobre surtos de doenças na China, mas não foi citado como especialista por nenhum outro meio de comunicação de língua inglesa.
 
Ruihong disse à Radio Free Asia o seguinte:
 
“É um novo tipo de coronavírus mutante. Eles não tornaram pública a sequência genética, porque é altamente contagiosa... A tecnologia da engenharia genética chegou a tal ponto agora e Wuhan é o local de residência de um centro de pesquisa viral que está sob a égide da Academia de Ciências da China, que é o mais alto nível de instalações de pesquisa na China.”
 
Embora Ruihong não tenha dito directamente que o governo chinês estava a criar uma arma biológica nas instalações de Wuhan, sugeriu que experiências genéticas nas instalações podem ter resultado na criação desse novo "coronavírus mutante" no centro do surto. 
 
Com a Radio Free Asia e a sua única fonte tendo especulando sobre as ligações do governo chinês com a criação do novo coronavírus, o Washington Times logo levou muito mais longe num relatório intitulado “Wuhan, atingido por vírus, tem dois laboratórios ligados ao programa chinês de guerra biológica.” Esse artigo, bem como o relatório anterior da Radio Free Asia, cita uma única fonte para essa argumentação, Dany Shoham, antigo especialista em guerra biológica dos serviços secretos/inteligência militar israelita.”
 
No entanto, lendo o artigo, verifica-se que Shoham nem sequer faz, directamente, a afirmação citada no título do artigo, pois disse apenas ao Washington Times que: “Certos laboratórios no instituto [de Wuhan] estavam provavelmente envolvidos, em termos de pesquisa e desenvolvimento, em [armas biológicas] chinesas, pelo menos colateralmente, mas não como sendo uma instalação principal do envolvimento chinês na Guerra Biológica (ênfase acrescentada por nós).”
 
Embora as alegações de Shoham sejam claramente especulativas, é dizer que o Washington Times se preocuparia em citá-lo, especialmente devido ao papel fundamental que ele desempenhou ao promover as falsas alegações de que os ataques de Anthrax, em 2001, foram obra de Saddam Hussein, no Iraque. As afirmações de Shoham sobre o governo iraquiano e sobre o Anthrax como arma, que foram usadas para fundamentar o caso da invasão do Iraque em 2003, uma vez que  foram comprovadas como sendo completamente falsas, visto que se descobriu que o Iraque não possuía nem “armas químicas, nem biológicas de destruição em massa”, que os “especialistas” como Shoham, afirmaram existir.
 
Além da história de Shoham de fazer alegações suspeitas, também vale a pena notar que o empregador anterior de Shoham, os Serviços Secretos militares israelitas, têm um passado preocupante com armas biológicas. Por exemplo, no final dos anos 90, foi relatado por vários meios de comunicação que Israel estava a desenvolver uma arma biológica genética que visaria os árabes, especificamente os iraquianos, mas não afectaria os judeus israelitas.
 
Dado o passado duvidoso de Shoham e a natureza claramente especulativa das suas argumentações e daquelas que foram feitas no relatório da Radio Free Asia, uma passagem do artigo do Washington Times é particularmente significativa sobre por que razão essas alegações surgiram recentemente:
 
“Um sinal ameaçador, disse uma autoridade dos EUA, é que há várias semanas, desde que o surto teve início, começaram a circular na Internet chinesa falsos rumores alegando que o vírus faz parte de uma conspiração dos EUA para espalhar germes como armas biológicas. Isso pode indicar que a China está a preparar meios de propaganda para combater acusações futuras de que o novo vírus escapou de um dos laboratórios civis ou de defesa de Wuhan (ênfase adicionada). ”
 
No entanto, como foi visto nesse mesmo artigo, as acusações de que o coronavírus escapou de um laboratório ligado ao Estado chinês dificilmente são acusações futuras, pois que o Washington Times e a Radio Free Asia já fizeram essa afirmação. Em vez disso, o que esta passagem sugere é que os relatórios da Radio Free Asia e do Washington Times foram respostas às reivindicações que circulam na China de que o surto está ligado a uma “conspiração dos EUA para espalhar germes como armas biológicas.”
 
Embora, até ao momento, a maioria dos meios de comunicação de língua inglesa não tenha examinado essa possibilidade, há fundamentos de apoio consideráveis que merecem ser examinados. Por exemplo, não apenas as forças armadas dos EUA, incluindo a sua pesquisa de armas controversa - a Agência de Projectos de Pesquisa Avançada de Defesa (DARPA), a financiar, recentemente, estudos na China e nas proximidades que descobriram novos coronavírus mutantes originários de morcegos, mas o Pentágono também ficou preocupado recentemente. sobre o uso potencial de morcegos como armas biológicas.

 

 
OS MORCEGOS COMO ARMAS BIOLÓGICAS
 
Como o surto de coronavírus que está a acontecer centrado na China, se espalhou para outros países e foi responsabilizado por um número crescente de mortes, surgiu um consenso de que esse vírus, em particular, actualmente classificado como um “coronavírus singular [ou seja, novo]”, acredita-se que tenha se originado em morcegos e foi transmitido aos seres humanos em Wuhan, na China, por meio de um mercado de frutos do mar que também comercializava animais exóticos. Os chamados mercados “húmidos”, como o de Wuhan, foram anteriormente culpados por surtos mortais de coronavírus na China, como o surto de 2003 da Síndroma Respiratória Aguda e Grave (SARS).
 
Além do mais, um estudo preliminar sobre o coronavírus responsável pelo surto actual descobriu que o receptor, a enzima conversora de angiotensina 2 (ACE2), não é só a mesma como a usada pelo coronavírus SARS, mas que os asiáticos orientais apresentam uma proporção muito maior de células pulmonares que expressam esse receptor do que as outras etnias (caucasianas e afro-americanas) incluídas no estudo. No entanto, essas descobertas são preliminares e o tamanho da amostra é muito pequeno para tirar conclusões definitivas desses dados preliminares.
 
Há dois anos, relatos da comunicação mediática começaram a discutir a súbita preocupação do Pentágono de que os morcegos poderiam ser usados como armas biológicas, particularmente na disseminação de coronavírus e de outras doenças mortais. O Washington Post afirmou que o interesse do Pentágono em investigar o uso potencial de morcegos para espalhar doenças mortais como armas biológicas foi devido aos imaginados esforços russos em fazer o mesmo. No entanto, essas alegações sobre esse interesse russo em usar morcegos como armas biológicas datam da década de 1980, quando a União Soviética se empenhou em pesquisas secretas envolvendo o vírus Marburg, pesquisa que nem sequer envolvia morcegos e que terminou com o colapso da União Soviética em 1991. 
 
Como muitos dos programas de pesquisa controversos do Pentágono, os morcegos como armas biológicas foram classificados como defensivos, apesar do facto de que nenhuma ameaça iminente envolvendo armas biológicas propagadas por morcegos tenha sido reconhecida. No entanto, cientistas independentes acusaram recentemente o Pentágono, particularmente a sua pesquisa de armas DARPA, de alegar estar envolvida em pesquisas que dizem ser “defensivas”, mas na verdade são “ofensivas”.
 
O exemplo mais recente desta situação envolveu o programa “Insectos Aliados” da DARPA, que, oficialmente, “se destina a proteger o suprimento de alimentos agrícolas dos EUA, distribuindo genes protectores às plantas através de insectos, responsáveis pela transmissão da maioria dos vírus vegetais” e assegurar “a segurança alimentar no caso de uma grande ameaça”, de acordo com os relatórios da DARPA e da comunicação mediática.
 
No entanto, um grupo de cientistas independentes e respeitados revelou numa análise categórica do programa que, longe de ser um projecto de pesquisa “defensivo”, o programa Insect Allies visava criar e fornecer uma “nova classe de arma biológica”. Os cientistas, escrevendo na revista Science e chefiados por Richard Guy Reeves, do Instituto Max Planck de Biologia Evolutiva na Alemanha, alertaram que o programa da DARPA - que usa insectos como veículo para agentes de alteração genética ambiental horizontal (HEGAAS) - revelou “a intenção desenvolver um meio de propagação de HEGAAs para fins ofensivos (enfâse nossa).”
 
Qualquer que seja a verdadeira motivação por trás da preocupação súbita e recente do Pentágono sobre os morcegos serem usados como veículo de transmissão de armas biológicas, os militares dos EUA aplicaram milhões de dólares nos últimos anos, a financiar pesquisas sobre morcegos, os vírus mortais que eles podem albergar - incluindo coronavírus - e como esses vírus são transmitidos dos morcegos aos seres humanos.
 
Por exemplo, a DARPA empregou 10 milhões de dólares num projecto, em 2018, “para desvendar as causas complexas dos vírus transmitidos pelos morcegos que recentemente deram se propagaram nos seres humanos, causando preocupação entre as autoridades mundiais de saúde”. Outro projecto de pesquisa apoiado pela DARPA e pelo NIH constatou pesquisadores da Colorado State University examinarem o coronavírus que causa a Síndrome Respiratória do Médio Oriente (MERS) em morcegos e camelos “para compreender o papel desses hospedeiros na transmissão de doenças aos seres humanos”. Outros estudos financiados pelos militares dos EUA, discutidos em pormenor, posteriormente neste relatório, descobriram várias novas linhagens de novos coronavírus transportados por morcegos, tanto na China como nos países vizinhos da China. 
 
Muitos desses projectos de pesquisa recentes estão relacionados com o programa de Prevenção de Ameaças Patogénicas Emergentes daDARPA, ou programa PREEMPT, que foi anunciado oficialmente em Abril de 2018. O PREEMPT concentra-se, especificamente, em reservatórios de doenças de animais, especificamente morcegos, e a DARPA até observou no seu comunicado à imprensa no programa que “está ciente das sensibilidades de bioproteção e biossegurança que possam surgir” devido à natureza da pesquisa.
 
O anúncio da DARPA para o PREEMPT veio apenas alguns meses após o governo dos EUA decidir encerrar controversamente uma moratória nos chamados estudos de “actividade nova ou melhorada” envolvendo patógenos perigosos. O VICE News explicou os estudos de “actividade nova ou melhorada” como se segue:
 
"Conhecidos como estudos de “actividade nova ou melhorada,” esse tipo de pesquisa é ostensivamente sobre como tentar ficar um passo à frente da natureza. Ao criar super-vírus mais patogénicos e facilmente transmissíveis, os cientistas são capazes de estudar a maneira como esses vírus podem evoluir e como as alterações genéticas afectam a maneira como um vírus interage com o seu hospedeiro. Usando estas informações, os cientistas podem tentar antecipar o aparecimento natural dessas características, desenvolvendo medicamentos antivirais capazes de evitar uma pandemia (ênfase adicionada). ”
 
Além do mais, enquanto o programa PREEMPT da DARPA e o interesse aberto do Pentágono nos morcegos como armas biológicas foram anunciados em 2018, os militares dos EUA - especificamente o Programa de Redução de Ameaças Cooperativas do Departamento de Defesa - começaram afinanciar pesquisas envolvendo morcegos e patógenos mortais, incluindo os coronavírus MERS e SARS, um ano antes, em 2017. Um desses estudos concentrou-se na  “Emergência de Doenças Zoonóticas por morcegos na Ásia Ocidental” e envolveu o Lugar Center, na Geórgia, identificado por antigos funcionários do governo da Geórgia, pelo governo russo e pela jornalista investigadora independente, Dilyana Gaytandzhieva, como um laboratório secreto de armas biológicas dos EUA.
 
Também é importante ressaltar o facto de que os principais laboratórios militares dos EUA, que envolvem o estudo de patógenos mortais, incluindo coronavírus, Ébola e outros, foram repentinamente encerrados em Julho passado, depois  do Centro de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) ter identificado grandes “lapsos de biossegurança” na instalação.
 
A instalação do Instituto de Pesquisas Infecciosas do Exército dos EUA (USAMRIID), em Fort Detrick, Maryland - o principal laboratório militar dos EUA para pesquisas de “defesa biológica” desde o final dos anos 1960 - foi forçada a interromper todas as pesquisas que estava conduzindo com uma série de patógenos mortais depois do CDC constatar que faltava “sistemas suficientes para descontaminar as águas residuais” dos seus laboratórios da mais alta segurança e a falha do pessoal em seguir os procedimentos de segurança, entre outros lapsos. A instalação contém laboratórios de biossegurança de nível 3 e 4. Embora não se saiba se as experiências envolvendo coronavírus estavam a ocorrer na época, a USAMRIID esteve recentemente envolvida em pesquisas alimentadas pela preocupação recente do Pentágono com o uso de morcegos como armas biológicas.
 
A decisão de encerrar as instalações da USAMRIID, surpreendentemente, obteve pouca cobertura dos media, assim como a decisão surpreendente do CDC de permitir que a instalação problemática “retomasse parcialmente” a pesquisa no final de Novembro, mesmo que a instalação estivessee ainda não esteja com “capacidade operacional total”. Um registo problemático de segurança nessas instalações é particularmente preocupante à luz do recente surto de coronavírus na China. Como este relatório  revelará em breve, isto acontece porque a USAMRIID mantém uma parceria estreita de décadas com o Instituto de Virologia Médica da Universidade de Wuhan, localizado no epicentro do surto actual.
 
 
O PENTÁGONO EM WUHAN?
 
Além das despesas recentes e do interesse das forças armadas dos EUA no uso de morcegos como armas biológicas, também vale a pena examinar os estudos recentes que os militares financiaram em relação aos morcegos e aos “novos coronavírus”, como o que ocorreu por trás do recente surto, ocorrido Na China ou nas proximidades da mesma.
 
Por exemplo, um estudo realizado no sul da China,em 2018, resultou na descoberta de 89 novas “estirpes de coronavírus de morcego” que usam o mesmo receptor que o coronavírus conhecido como Síndrome Respiratória do Médio Oriente (MERS). Esse estudo foi financiado em conjunto pelo Ministério da Ciência e Tecnologia do governo chinês e pela USAID - uma organização que há muito tempo é acusada de ser uma frente para os Serviços Secretos/inteligênciados EUA e o Instituto Nacional de Saúde dos EUA - que colaborou com a CIA e com o Pentágono em doenças infecciosas e pesquisa de armas biológicas.
 
Os autores do estudo também sequenciaram o genoma completo de duas dessas estirpes e também observaram que as vacinas MERS existentes seriam ineficazes no ataque desses vírus, levando-os a sugerir que uma deveria ser desenvolvida com antecedência. Isso não aconteceu.
 
Outro estudo financiado pelo governo dos EUA que descobriu ainda mais novas linhagens de “novos coronavírus de morcegos” foi publicado precisamente no ano passado. Intitulado “Descoberta e caracterização de novas linhagens de coronavírus de morcego do Cazaquistão”, focou-se na “fauna de morcegos da Ásia central, que liga a China à Europa Oriental” e as novas linhagens de coronavírus de morcego descobertas durante o estudo estavam “intimamente relacionadas aos coronavírus dos morcegos da China, da França, da Espanha e da África do Sul, sugerindo que a co-circulação de coronavírus é comum em várias espécies de morcegos com sobreposição de distribuições geográficas.” Por outras palavras, os coronavírus descobertos neste estudo foram identificados em populações de morcegos que migram entre a China e o Cazaquistão, entre outros países, e está intimamente relacionado aos coronavírus de morcegos em vários países, incluindo a China.
 
O estudo foi inteiramente financiado pelo Departamento de Defesa dos EUA, especificamente a Agência de Redução de Ameaças de Defesa (DTRA) como parte de um projecto que investiga os coronavírus semelhantes ao MERS, como o estudo de 2018 mencionado anteriormente. No entanto, além do financiamento deste estudo de 2019, também vale a pena observar as instituições envolvidas na realização deste estudo, devido às suas ligações íntimas com os militares e com o governo dos EUA.
 
Os autores do estudo são afiliados ao Instituto de Pesquisa para Problemas Biológicos de Segurança do Cazaquistão e/ou à Universidade Duke. O Instituto de Pesquisa para Problemas de Segurança Biológica, embora oficialmente faça parte do Centro Nacional de Biotecnologia do Cazaquistão, recebeu milhões do governo dos EUA, a maioria proveniente do Programa de Redução de Ameaças Cooperativas do Pentágono. É o depósito oficial do governo do Cazaquistão de “infecções animais e aves altamente perigosas, com uma colecção de 278 estirpes patogénicas de 46 doenças infecciosas”. Faz parte de uma rede de “laboratórios de armas biológicas” financiados pelo Pentágono em todo o território da Ásia Central, que faz fronteira com os dois principais Estados rivais dos EUA – a China e a Rússia.
 
O envolvimento da Duke University com este estudo também é interessante, dado que a Duke University é um parceiro-chave do programa DARPA Pandemic Prevention Platform (P3), que oficialmente visa “acelerar drasticamente a descoberta, a integração, os testes pré-clínicos e a fabricação de contramedidas médicas contra doenças infecciosas.” O primeiro passo do programa Duke/DARPA envolve a descoberta de vírus potencialmente ameaçadores e o “desenvolvimento de métodos para apoiar a propagação viral, para que o vírus possa ser usado em estudos posteriores”.
 
A Duke University também tem parceria com a UniversidadeWuhan da China, que está sediada na cidade onde o surto actual de coronavírus começou, o que resultou na abertura da Universidade Duke Kunshan (DKU), com sede na China, em 2018. Notavelmente, a Universidade Wuhan da China - além da sua parceria com a Duke - também inclui um Instituto de Virologia Médica de vários laboratórios que trabalha em estreita colaboração com o Instituto de Pesquisa Médica do Exército dos EUA para Doenças Infecciosas, desde a década de 1980, de acordo com o seu site. Como foi observado anteriormente, as instalações da USAMRIID nos EUA foram encerradas em Julho passado, por falhas no cumprimento dos procedimentos de biossegurança e pela rejeição inadequada de resíduos, mas foi autorizada a retomar parcialmente algumas experiências no final de Novembro.
 
Webpage: NO WAR NO NATO -- Publicado em 30 de Janeiro de 2020 
 
Tradutora: Maria Luísa de Vasconcellos 
Email: luisavasconcellos2012@gmail.com
 

 

A seguir: Parte 2 A HISTÓRIA SOMBRIA DA GUERRA BIOLÓGICA DO PENTÁGONO
Tradutora: Maria Luísa de Vasconcellos 
Email: luisavasconcellos2012@gmail.com
 
Leia em Página Global:
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/02/coronavirus-morcegos-reproducao.html

Cientista de Harvard detido e acusado de mentir sobre laços com a China

(Comentário:

Não deixa de ser estranho que os EUA, pretensos campeões da abertura dos mercados e da livre circulação, sejam tão ciosos de impedir outros países de partilhar conhecimento. Os mesmo EUA que durante décadas absorveram em proveito próprio tudo quanto era investigado e feito noutros países e que drenaram para as instituições dos EUA milhares e milhares de professores e investigadores originários e formados noutros países.

Agora os EUA regressam á lógica da 'guerra fria' e diabolizam todos quantos não se lhes submetem nomeadamente a China.

É pena!)


 

 

O presidente do Departamento de Química e Biologia Química da Universidade de Harvardfoi acusado recentemente de prestar declarações falsas ao Departamento de Defesa dos Estados Unidos (EUA) sobre a sua ligação com um programa do governo chinês para recrutar cientistas e pesquisadores estrangeiros.

 

O Departamento de Justiça informou que Lieber, de 60 anos, mentiu sobre seu contato com o programa “Thousand Talents Plan” (“Projeto Milhares de Talentos”, em tradução livre), que os EUA já haviam sinalizado. Foi também acusado de mentir sobre um contrato lucrativo que assinou com a Universidade de Tecnologia Wuhan, na China, noticioua NPR.

Lieber é acusado de ter recebido mais de 1,5 milhões de dólares (cerca de 1,3 milhões de euros) para criar um laboratório e fazer pesquisas na Universidade de Wuhan. De acordo com as autoridades, o cientista recebeu centenas de milhares a mais ao longo de vários anos, informou a Bloomberg News, citada pelo New York Post.

O agente especial do FBI Robert Plumb, referido pela NPR, disse que Lieber, que liderou um grupo de pesquisa de Harvard focado em nanociência, havia estabelecido um laboratório de pesquisa na Universidade de Wuhan, aparentemente sem o conhecimento de Harvard.

“Isto não é um acidente ou uma coincidência”, disse o advogado norte-americano Andrew Lelling, numa entrevista coletiva em Boston, onde Lieber foi acusado. “Esta é uma pequena amostra da campanha da China para desviar o ‘know-how’ e a tecnologia norte-americanos para proveito próprio”, acrescentou.

O acordo entre Lieber e a instituição chinesa permaneceu durante períodos “significativos”, entre 2012 e 2017. Durante grande parte do período em questão, foi também o investigador principal em pelo menos seis pesquisas do Departamento de Defesa dos EUA, num valor total de mais de oito milhões de dólares (cerca de 7, milhões de euros).

A acusação indica que o cientista foi ainda o investigador principal em projetos financiados pelos Institutos Nacionais de Saúdeem mais de 10 milhões de dólares (aproximadamente nove milhões de euros).

“Essas doações exigem a divulgação de conflitos de interesse financeiros estrangeiros, incluindo apoio financeiro de governos ou entidades estrangeiras”, disse a Procuradoria dos EUA em Massachusetts, num comunicado que informa sobre as acusações contra Lieber.

O professor “foi obrigado a trabalhar para a Universidade de Wuhan não menos que nove meses por ano, em projetos de cooperação internacional, atraindo jovens professores e estudantes de doutoramento, organizando conferências, solicitando patentes e publicando artigos” em nome do estabelecimento de ensino, declarou o Ministério Público dos EUA.

Argonne National Laboratory / Flickr

 

Em 2017, Harvard concedeu a Lieber a sua mais alta distinção entregue ao corpo docente, nomeando-o professor universitário – um título que compartilhou com apenas 25 outros membros do corpo docente, revelou o Harvard Gazette. Agora, o académico está proibido de entrar nas instalações da universidade.

Desde 2011, as suas alegadas ações levaram a que a universidade norte-americana tivesse que fazer declarações falsas aos Institutos Nacionais de Saúde sobre o seu trabalho com a China, visto que os subsídios exigiam a divulgação de laços com governos estrangeiros.

“As acusações do governo dos EUA contra o professor Lieber são extremamente graves. Harvard está a cooperar com as autoridades federais, incluindo os Institutos Nacionais de Saúde, e está a conduzir a sua própria revisão da alegada má conduta”, disse ao New York Post um porta-voz da universidade, acrescentando que aquele foi colocado sob “licença administrativa indefinida”.

Lieber licenciou-se em química no Franklin and Marshall College em Lancaster, na Pensilvânia. Concluiu o doutoramento na Universidade de Stanford e o pós-doutoramento no Instituto de Tecnologia da Califórnia. Em 1987, ingressou na Universidade de Columbia como professor assistente. Quatro anos depois, mudou para Harvard.

O docente é um dos vários académicos que os EUA acusaram criminalmente pelas relações que mantém com a China. Em 2019, o pesquisador da Universidade do Kansas Franklin (Feng) Tao foi acusado por ter escondido que trabalhava em período integral para uma universidade chinesa enquanto realizava pesquisas industriais financiadas pelos EUA.

Em dezembro, as autoridades acusaram um estudante de medicina chinês de tentar contrabandear 21 amostras de pesquisas de cancro para fora do país. Zaosong Zheng, de 30 anos, trabalhava em Boston quando foi preso no Aeroporto Internacional de Logan, quando tentava embarcar para a China. O homem admitiu que roubou os frascos do Centro Médico Beth Israel Deaconess, onde trabalhou como investigador.

A tenente do Exército de Libertação Popular da China Yanqing Ye, de 29 anos, foi acusada de mentir no seu pedido de visto para entrar nos EUA, alegando que era estudante. Enquanto trabalhava no Departamento de Física, Química e Engenharia Biomédica da Universidade de Boston, entre 2017 e 2019, recebia ordens de oficiais chineses para realizar pesquisas, avaliar sites militares dos EUA e enviar documentos para a China.

Yanqing Ye foi acusada de fraude na obtenção de visto, conspiração, declarações falsas e atuação como agente ilegal de um governo estrangeiro. Encontra-se atualmente na China.

Além dos espiões tradicionais, “a China está a utilizar o que chamamos de coletores não tradicionais, como professores, pesquisadores, hackers e empresas de fachada”, declarou ao Wall Street Journal Joseph Bonavolonta, chefe do escritório do FBI em Boston.

 

ZAP //

 
 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/cientista-harvard-detido-acusado-mentir-lacos-china-305852

A Humanidade é fruto não só de uma, mas de pelo menos quatro linhagens ancestrais

Homo sapiens da Idade do Metal, reconstituição

Novas análises de ADN sugerem que a Humanidade é fruto não só de uma, mas de pelo menos quatro linhagens ancestrais que viveram em África há cerca de 200.000 a 300.00 anos, revelou um novo estudo.

 

A conclusão é de uma equipa internacional de cientistas que conseguiu reconstruir na totalidade o genoma de quatro crianças enterradas há cerca de 8.000 e 3.000 anos no sítio arqueológico de Shum Laka, nos Camarões, conta o jornal espanhol ABC.

A nova investigação, cujos resultados foram recentemente publicados na revista científica Nature, refuta um outro estudo recente que fixou as origens da Humanidade num só lugar do “continente-mãe”. Na verdade, escreveram os cientistas no novo estudo, o Homem moderno é resultado de grupos muito diferentes e geograficamenteseparados.

A investigação foi liderada pelo geneticista David Reich da Faculdade de Medicina de Harvard, nos Estados Unidos, contando também com a colaboração internacional dos cientistas Fox e Íñigo Olalde, do Instituto de Biologia Evolutiva de Barcelona, em Espanha.

“A nosso estudo indica que existiram pelo menos quatro linhagens humanas profundas que contribuíram para as populações de hoje e que divergiram há cerca de 250 mil ou 200 mil anos”, explicou David Reich, citado pela agência espanhola EFE.

As quatro linhagens localizam-se no sul, leste e centro de África, havendo ainda uma quarta, que os cientistas apelidaram como “linhagem fantasma”, uma vez que não há nenhuma amostra antiga ou atual que seja 100% deste substrato. “Esta população já desapareceu, mas deixou a sua marca na espécie humana”, disse Lalueza Fox.

Estes resultados “destacam como é que a paisagem humana na África de há alguns milhares de anos era profundamente diferente do que é atualmente, enfatizando o poder do antigo ADN para revelar o passado humano por detrás dos movimento populacionais”, concluiu David Reich.

ZAP //

 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/humanidade-fruto-quatro-linhas-ancestrais-305171

Portugal recebe supercomputador ligado ao projeto do maior radiotelescópio do mundo

Lisboa, 31 jan (Xinhua) - Um supercomputador com desempenho equivalente à combinação de mais de mil computadores trabalhará em Évora, 140 quilômetros ao sul de Lisboa, informou a agência de notícias Lusa na quinta-feira.

O supercomputador Oblivion está associado ao projeto Square Kilometer Array (SKA), do maior radiotelescópio do mundo, construído nos desertos da África do Sul e Austrália.

É um projeto global que, em uma escala sem precedentes, envolve cientistas e engenheiros integrados a mais de 100 instituições em 21 países e regiões, com o objetivo de observar e mapear o Universo.

Miguel Avillez, coordenador do Oblivion, disse que "50% do tempo de CPU da máquina será destinado ao ENGAGE SKA" (o consórcio português composto por universidades de TI e indústrias locais), mas "os outros 50%" são para disponibilizar "à comunidade científica e a empresas no âmbito da Rede Nacional de Computação Avançada".

Avillez, também professor da Universidade de Évora, explicou que "esta máquina é capaz de processar 239 trilhões de operações por segundo com um custo energético muito baixo e vai ser preparada para armazenar 1,5 petabytes de dados (equivalente a 1,5 milhão de gigabytes)".

Ver original em "XINHUA Português" na ligação seguinte:

http://portuguese.xinhuanet.com/2020-01/31/c_138745833.htm

Insetos geneticamente modificados ganham liberdade pela 1ª vez nos EUA (FOTO)

Inseto (imagem referencial)
© CC0 / Pixabay

Cientistas dos EUA libertaram pela primeira vez em um campo aberto insetos geneticamente modificados com o objetivo de diminuir radicalmente a povoação de sua espécie.

Os cientistas da Universidade de Cornell, Nova York, EUA, pela primeira vez libertaram os insetos geneticamente modificados da espécie Plutella xylostella da família Plutellidae. O inseto é muito prejudicial para as culturas do gênero Brassica, como couve, brócolos, couve-flor e a canola.

Plutella xylostella
Plutella xylostella

O estudo recente busca avaliar o potencial da libertação da traça de couve geneticamente modificada no âmbito da proteção de plantações no futuro e foi publicado em 29 de janeiro na revista Frontiers in Bioengineering and Biotechnology.

Como funciona esta técnica?

Os genes de traças machos foram modificados de tal modo que ao acasalar transmitem à descendência um gene que impede a sobrevivência das fêmeas. Com liberações sustentadas, a povoação de pragas é suprimida de uma maneira específica e ecologicamente sustentável, afirmam os cientistas.

Antes da prova de campo foi realizado um estudo que demonstrou que a libertação sustentável da estirpe autolimitada suprimiu efetivamente a povoação de pragas e evitou o desenvolvimento de resistência a um inseticida, uma situação vantajosa para o controle de pragas.

"Nossa pesquisa se baseia na técnica de insetos estéreis para a manipulação de insetos desenvolvida na década de 1950", destacou o professor do Departamento de Entomologia de AgriTech da Universidade de Cornell, Anthony Shelton, citado pelo Eurek Alert.

O professor explicou que o uso da engenharia genética é o método mais eficiente para chegar ao mesmo fim e combater os insetos prejudiciais sem uso de inseticidas que danificam plantações.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/ciencia_tecnologia/2020013115079714-insetos-geneticamente-modificados-ganham-liberdade-pela-1-vez-nos-eua-foto/

Empresa quer vender dispositivos que extraiem água potável do ar

A empresa israelita Watergen está a planear começar a vender uma versão para o consumidor do seu aparelho que extrai água potável do ar ainda este ano.

A tecnologia do gerador atmosférico da empresa está em uso comercial desde 2012. A máquina usa um método patenteado de troca de calor GENius para extrair a humidade do ambiente e convertê-la em água potável para cidades, vilas, escolas e hospitais.

O dispositivo, apelidado de Genny, tem duas versões: a versão plug-in e outra versão que funciona com energia solar. A versão elétrica, que consegue gerar até 30 litros de água potável por dia, deverá ser lançada primeiro e vendida por cerca de 2.500 dólares (equivalente a 2250 euros), de acordo com Nick Harris, vice-presidente de marketing da Watergen na América do Norte, citado pela revista Forbes.

A versão solar consegue gerar até 13 litros por dia e é ideal para locais remotos. Esta versão será vendida por entre 5.000 e 8.000 dólares (entre 4500 e 7222 euros), dependendo da localização e configuração, a partir do terceiro trimestre.

 
https://player.vimeo.com/external/386933791.m3u8?s=c714aa3626939370332511a8e1dad918e3326151&oauth2_token_id=1275135991

Tanto as unidades elétricas como as solares têm pouco mais de um metro de altura, de tamanho semelhante a um bebedouro tradicional. O custo de gerar água é de cerca de 2 cêntimos por litro, usando 300 watts por hora de energia. Cada Genny possui um reservatório de 30 litros para armazenamento de água.

De acordo com Harris, o dispositivo tem como público-alvo os proprietários e os setores de pequenas empresas como uma alternativa aos gastos em água engarrafada e ao uso de plástico. “Genny elimina completamente a necessidade de os consumidores reabastecerem ao comprar água engarrafada ou a encomendar jarros de água em intervalos, economizando tempo e dinheiro para os consumidores”, disse.

O Genny esteve em exibição no Consumer Electronics Show (CES) em Las Vegas no início deste mês, onde foi nomeado como o Produto de Eficiência Energética do Ano nos Prémios de Marca de Excelência Smart Home 2020. O produto estará disponível no início do segundo trimestre de 2020.

O Genny não é o único aparelho que extrai água do ar. Estão disponíveis produtos como o AquaBoy, o que é bom para pessoas sem acesso convencional a água potável. Há ainda a a unidade Zero Mass Water.Porém, segundo a Watergen, o Genny é mais eficiente em termos de energia.

ZAP //

 

 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/empresa-dispositivo-agua-potavel-do-ar-303964

Descobertos na Sibéria vestígios de um mítico povo que “vivia debaixo da terra”

 

Uma equipa de arqueólogos russos encontrou na península de Taimyr, na Sibéria, vestígios do mítico povo Sikhirtia, avança a RussiaToday.

 

Os investigadores encontraram na pequena baía de Makárov uma caverna reforçada com uma estrutura de madeira à sua volta (uma espécie de moldura) e várias ferramentas de trabalho, algumas das quais feitas a partir de osso de mamute.

“São os monumentos mais orientais das culturas divulgadas na Península de Yamal [oeste de Taimyr] ao longo da costa do Ártico” e são atribuídos ao povo Sikhirtia, comentou o líder da expedição científica Danil Lysenko, citado pelo portal russo, acrescentando que a grande peculiaridade destes colonos é que “viviam debaixo da terra”.

“Fazem parte das lendas dos nenets”, precisou o especialista, referindo-se a um dos grupos étnicos que atualmente habita a região.

Segundo a análise de radio-carbono, as descobertas remontam ao século XIV, período que marca o fim de um clima relativamente quente a estas altitudes e uma queda das temperaturas com o início da Pequena Idade do Gelo.

Os habitantes desta região, que é banhada pelo mar Kara, viviam à procura de focas e urso, sendo o único assentamento da península que não estava associado à caça de renas.

Atualmente, a baía de Makárov conta com um antigo santuário onde os habitantes posteriores ofereceram como sacrifício patas e cabeças de ursos, bem como renas e asas de aves. “É um ritual antigo e arcaico que, ao que parece, os nenets herdaram da etnia anterior, os sikhirtias”, rematou o especialista.

De acordo com as lendas locais, os sikhirtias  são pessoas de baixa estatura, com cabelos loiros e olhos claros. Praticavam o xamanismo e viviam sob as colinas de onde saíam apenas à noite. Este povo criava “renas terrestres” (mamutes), pescava, tinha trenós puxados por cães e adornavam as suas portas com presas.

ZAP //

 
 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/descobertos-na-siberia-vestigios-um-mitico-povo-vivia-da-terra-304247

Colonização da Lua? Agência espacial começará a produzir oxigênio de poeira lunar

Lua (imagem de arquivo)
© Sputnik / Anton Denisov

Para criar uma instalação sustentável de produção de ar respirável na Lua, a Agência Espacial Europeia (ESA) lançou seu protótipo de usina de oxigênio para começar a produzir o elemento a partir de pó lunar.

O protótipo atual deverá ser aperfeiçoado, cuja temperatura de operação deverá ser reduzida e o design diminuído para criar uma versão portátil do sistema que poderia um dia ser lançado na Lua.

"Ser capaz de adquirir oxigênio de recursos encontrados na Lua seria obviamente muito útil para os futuros colonizadores lunares, tanto para a respiração como para a produção local de combustível para foguetes", disse a pesquisadora Beth Lomax, da Universidade de Glasgow (Escócia).

Verificou-se que o regolito lunar (rocha lunar) é extremamente útil para planos de colonização humana, uma vez que o elemento é composto por 40 a 45% de oxigênio.

Extração de oxigênio

No protótipo, a extração de oxigênio é feita por eletrólise de sal fundido, onde as rochas lunares são colocadas em uma cesta de metal com sal de cloreto de cálcio que é aquecido a 950 graus Celsius. Nessa temperatura, o regolito permanece sólido e se transforma em ligas de metal utilizáveis.

Os pesquisadores agora também estão explorando possíveis usos futuros para essas ligas metálicas, inclusive em impressoras 3D lunares para construir peças para bases lunares ou potencialmente até mesmo para naves espaciais.

Imagem da NASA mostra momento em que água é liberada da superfície da Lua durante chuvas de meteoros
Imagem da NASA mostra momento em que água é liberada da superfície da Lua durante chuvas de meteoros

No momento, a meta é obter um protótipo lunar funcional pronto para testes até meados da década de 2020.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/ciencia_tecnologia/2020012015027668-colonizacao-da-lua-agencia-espacial-comecara-a-produzir-oxigenio-de-poeira-lunar/

Mergulhadores natos? Estudo traz habilidade de neandertais nunca antes imaginada (FOTO)

Manchas de óleo são vistas na praia de Pedra do Sal, em Itapuã, em Salvador (BA).
© Folhapress / Eduardo Anizelli

Neandertais, que habitaram a costa da atual Itália, realizavam mergulhos para coletar conchas do mar com as quais seriam feitos instrumentos, revela uma pequena pesquisa científica.

Durante estudo, publicado na revista PLOS ONE, uma equipe de pesquisadores explorou uma caverna conhecida como Grotta dei Moscerini - um dos dois sítios arqueológicos italianos, que contém um grande número de conchas, relata o jornal Newsweek.

As conchas pertenciam a um clã da espécie de conchas Callista chinoe, que habitou a região há mais de 100 mil anos, muitas das quais foram modificadas para ser usadas como instrumentos. A equipe liderada por Paola Villa, da Universidade do Colorado, examinou 171 destas conchas modificadas com o intuito de compreender mais sobre estes objetos.

Neandertais coletavam conchas diretamente do mar para fazer utensílios
Neandertais coletavam conchas diretamente do mar para fazer utensílios

Anteriormente, acreditava-se que os restos marinhos foram coletados na praia após a morte do clã. No entanto, baseados em análises da equipe, que observou o estado de preservação dos objetos, conclui-se que aproximadamente um quarto seria proveniente do fundo do mar.

"Podemos constatar que em Moscerini foram reunidas em torno de quarenta conchas coletadas por mergulhadores neandertais diretamente do fundo do mar, assim como 167 foram coletadas na praia", afirmou Villa à Newsweek.

Mesmo já sabendo que neandertais usavam instrumentos, especialistas não possuíam uma ideia clara do quão capazes eles eram de explorar os recursos costeiros disponíveis.

As últimas descobertas acrescentam evidências de que os neandertais praticaram mergulhos em águas costeiras da região para coletar recursos muito antes do Homo sapiens fazer o mesmo.

"Provamos que a exploração de recursos aquáticos e a coleta de pedras – comum no período Paleolítico Superior – foram parte do comportamento dos neandertais muito antes da chega dos humanos modernos no Oeste Europeu", acrescentou Villa.

A pesquisadora destacou que "neandertais tinham a competência técnica, capacidade para inovar e o amplo conhecimento dos recursos do ambiente, que geralmente somente é atribuído a humanos modernos".

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/ciencia_tecnologia/2020011615012948-mergulhadores-natos-estudo-traz-habilidade-de-neandertais-nunca-antes-imaginada-foto/

Iniciada construção do centro de pesquisa em alto mar em Qingdao da China

Qingdao, 14 jan (Xinhua) -- Foi iniciada a construção de um centro de pesquisa em alto mar na cidade portuária de Qingdao, no leste da China, com a finalidade de explorar as áreas fronteiriças, bem como a origem da vida na Terra.

De acordo com fontes envolvidas no projeto, o centro foi estabelecido pelo Laboratório Nacional Piloto de Tecnologia e Ciência Marítima (Qingdao) e reunirá recursos nacionais e estrangeiros para a realização de pesquisas interdisciplinares no fundo do mar, abrangendo os campos de física, química, biologia e geologia marinhas.

O centro também planeja realizar pesquisas nas áreas fronteiriças, tais como energia escura no fundo do mar, a evolução da vida marinha, bem como tecnologias para a exploração do mar profundo e o desenvolvimento de recursos.

Nos últimos anos, o laboratório nacional piloto de Qingdao acelerou o ritmo de exploração no fundo do mar, com o desenvolvimento de um planador subaquático de 10.000 metros e alvos submersíveis.

Também estão sendo desenvolvidas plataformas de observação móveis não tripuladas, como robôs subaquáticos autônomos para todas as profundidades, tendo em vista fornecer suporte para pesquisas em alto mar.

"Nosso conhecimento sobre o fundo do mar ainda é muito limitado. Muitos mistérios permanecem sem solução, como o impacto do fundo do mar no clima global e a sobrevivência dos organismos em ambiente marinho com a escassez de luz e oxigênio", observou Hu Dunxin, da Academia Chinesa de Ciências. Fim

Ver original em "XINHUA Português" na ligação seguinte:

http://portuguese.xinhuanet.com/2020-01/14/c_138704224.htm

China pode ter mais de 40 lançamentos espaciais em 2020

Beijing, 3 jan (Xinhua) -- A indústria aeroespacial da China terá um ano movimentado em 2020, com o número de lançamentos espaciais devendo passar de 40, de acordo com a Companhia de Ciência e Tecnologia Aeroespaciais da China (CASC).

Os destaques das atividades espaciais incluem o lançamento da primeira sonda chinesa ao Marte e a sonda lunar Chang'e-5, que deve trazer amostras da lua de volta à Terra, a etapa final do atual programa de exploração lunar da China, bem como a conclusão da constelação do sistema de navegação por satélite BeiDou.

Três novos tipos de foguetes, incluindo o Longa Marcha-5B, Longa Marcha-7A e Longa Marcha-8, farão seus voos inaugurais em 2020, disse a CASC.

Além disso, também serão lançados alguns satélites comerciais, como o satélite APSTAR-6D e o satélite experimental para a construção da Internet via satélite.

Wu Yansheng, presidente da diretoria da CASC, disse que a empresa concluiu 27 lançamentos espaciais em 2019, enviando 66 satélites ao espaço.

O número de lançamentos espaciais da China nos últimos dois anos ficou em primeiro lugar no mundo.

As principais tarefas no próximo ano trarão tanto desafios como oportunidades para a CASC, disse Wu. Fim

Ver original em "XINHUA Português" na ligação seguinte:

http://portuguese.xinhuanet.com/2020-01/03/c_138676410.htm

H. ERECTUS durou mais que todas as outras espécies de Homo, nossa incluída

 Há cerca de 100.000 anos, a espécie Homo sapiens partilhou a Terra com - pelo menos - outras cinco espécies do género Homo.             
            image
https://www.sciencemag.org/news/2019/12/ancient-human-species-made-last-stand-100000-years-ago-indonesian-island?utm_campaign=news_daily_2019-12-18&et_rid=377420373&et_cid=3130168
Os últimos Homo erectus terão sobrevivido na ilha de Java, há apenas cerca de uma centena de milhar de anos. Esta datação foi efectuada em fósseis que já eram conhecidos, mas nos quais se conseguiu efectuar novas datações mais precisas, por métodos sofisticados.  A equipa da Universidade de Austin, Texas, que fez este estudo concluiu que os ossos fossilizados datam de 117.000 a 108.000 anos, segundo publicação na revista Nature.
Os H. erectus surgiram em África há cerca de 1.9 milhões de anos. Estes hominos, que fabricavam instrumentos de pedra,  saíram deste continente e colonizaram a Ásia, atravessando línguas de terra que ligavam Java ao continente asiático há cerca de 1.6 milhões de anos. Mais tarde, os níveis dos mares subiram e a população de Java ficou isolada numa ilha. Entretanto, no continente africano e na Ásia continental, os H. erectus extinguiram-se, há cerca de 500. 000 anos.
É pouco provável que H. erectus tenha sobrevivido muito tempo, para além dos 100.000 anos. Crê-se que, quando o homem moderno chegou, há pouco mais de 40.000 anos à ilha de Java, os seus primeiros habitantes já estivessem extintos há longo tempo.  O H. erectus deixou porém uma impressionante herança. Muitos pensam que ele originou duas outras espécies, à medida que ocupava ilhas de arquipélagos da Ásia do Sudeste, como é o caso das espécies H. floresiensis, na ilha de Flores (Indonésia) e H. luzonensis, encontrado na ilha de Luzon, nas Filipinas. Até certo ponto, terá havido cruzamentos com Denisovanos, próximos parentes dos Neandertais. Por sua vez, os Denisovanos ter-se-ão cruzado com homens modernos, na Indonésia e na Nova Guiné, talvez há somente 30.000 anos. Por via indirecta, é possível que algum ADN de H. erectus tenha ido parar aos humanos do Sudoeste da Ásia actuais, pois estes possuem, além do ADN Neandertal e Denisovano, cerca de 1% de ADN que não provém destas duas espécies e do qual não se sabe a origem. Embora esta hipótese seja meramente especulativa de momento, o facto é que - há cerca de 100.000 anos atrás - co-existiram numerosas espécies do género Homo: Homo erectus, Homo sapiens, Homo neanderthalensis, Homo denisovans, Homo floresiensis, H. luzonensis.  Os seus territórios podem ter estado muito separados nalguns casos mas noutros, houve coexistência, a qual terá sido pacífica, pois só neste caso se teriam proporcionado as condições de cruzamentos inter específicos, de que resultaram os segmentos de ADN transportados até hoje por largos sectores da humanidade...
As sucessivas descobertas e a revolução conceptual que elas desencadeiam, talvez sejam a mais importante mudança do nosso modo de ver a evolução da humanidade e, mesmo, da própria visão do ser humano. 
Em vez do modelo linear, temos um modelo arborescente, no qual apenas a nossa espécie terá sobrevivido, não sem se ter cruzado (por hibridizações interespecíficas) com outras. 
Transportamos um pouco dessa humanidade extinta no nosso ADN, o qual contribuiu para aquilo que somos hoje, enquanto espécie e enquanto indivíduos.  Esta visão arborescente da nossa evolução deveria deixar-nos mais humildes. Devíamos deixar de nos ver como um «culminar» da evolução: o caso da nossa espécie ser única representante actual do género Homo, é um resultado fortuito, não tem nada de transcendente! 

Ver o original em 'Manuel Banet' (clique aqui)

Leituras: Tecnologia e Felicidade

inteligencia-art.gifInterrogo-me muitas vezes se o progresso tecnológico exponencial criará uma felicidade humana exponencial, para além de 1% de criadores, proprietários e detentores de lucros dessas geniais máquinas miraculosas. Será uma meta virtuosa construir uma máquina humana perfeita, liberta de todas as suas imperfeições e ineficiências, para que possamos finalmente tornar-nos deuses, o que quer que isso signifique?

Não sei o que pensa quem me lê, mas não é um mundo que eu gostasse de ajudar a construir. Propor esse caminho é como brincar com o nosso futuro e condenar, à partida, o futuro dos nossos filhos e das gerações vindouras.

A felicidade não pode ser programada em máquinas, automatizada ou vendida. Não pode ser copiada, codificada ou aprendida a partir de um conjunto de dados. Deve emanar e crescer dentro de nós e entre nós, e a tecnologia está aqui para nos ajudar, como ferramenta. Somos uma espécie que usa tecnologia, não uma espécie destinada a ser tecnologia.

Finalmente, reflicta sobre isto: na língua inglesa, a própria palavra felicidade provém da palavra viquingue para sorte, happ. Isto relaciona-se igualmente com a noção de casualidade ou acaso. Os apologistas da tecnologia podem professar que estão a libertar as nossas vidas do lado negativo do acaso, que todos sabemos ser incalculável, desde a doença à pobreza, até à própria morte. No entanto, ao fazê-lo, poderão estar a alterar sistematicamente a capacidade do ser humano de experienciar níveis mais profundos de felicidade que não dependem de circunstâncias mensuráveis.

Sim, por favor, usemos as ferramentas que a tecnologia nos oferece para eliminar os perigos e os riscos de sermos humanos no planeta Terra. Mas não, não nos tornemos ferramentas das nossas ferramentas, trocando a nossa consciência mercurial e o nosso livre-arbítrio por um monte de bugigangas e emoções fáceis como nativos inocentes de um Novo Mundo.

Gerd Leonhard, Tecnologia Versus Humanidade (2017).

Pela primeira vez, informação foi teletransportada entre dois chips

Uma equipa de cientistas conseguiu, pela primeira vez, teletransportar informação de um chip para outro. Este é um passo importante no desenvolvimento de computadores quânticos.

 

Especialistas acreditam que os computadores quânticos e a Internet quântica podem representar um grande impacto para a sociedade do ponto de vista da solução de problemas complexos ou proteção de informações.

Mas estastecnologias dependem da informação quântica. Esta costuma ser codificada em partículas quânticas de forma individual. E estas partículas são muito difíceis de controlar e medir.

Diante este cenário, foi realizado, pela primeira vez, um teletransporte quântico de informação entre dois chips de computador. O feito foi conseguido por cientistas da Universidade de Bristol e da Universidade Técnica da Dinamarca. A informação foi transferida de um chip para o outro de forma instantânea, sem que ambos estivessem conectados eletrónica ou fisicamente.

O fenómeno conhecido por entrelaçamento quântico é o que possibilita este tipo de teletransporte. Neste fenómeno, duas partículas ficam tão entrelaçadas que conseguem trocar informações mesmo quando estão muito distantes.

Assim, uma partícula tem as suas propriedades alteradas instantaneamente após a alteração daquela com a qual está entrelaçada. Basicamente, as informações são teletransportadas entre elas. O estudo foi publicado, este mês, na revista científica Nature Physics.

Embora, o atual entendimento sobre a Física diga que nada viaja mais rápido do que a velocidade da luz, a informação parece ultrapassar este limite com o teletransporte quântico. Einstein chamou a isso de “ação fantasmagórica à distância”.

O novo estudo ajuda a aproximar este fenómeno da realidade. Para a sua realização, a equipa criou um par de fotões emaranhados nos chips. Depois foi realizada a medição quântica de um deles. O estado do fotão é alterado pela observação e instantaneamente estas alterações são aplicadas ao fotão no outro chip.

Os chips foram programados para realizar uma série de demonstrações utilizando o entrelaçamento. A principal foi a de teletransporte, com a transmissão do estado quântico de uma partícula através dos dois chips, depois da medição quântica.

O coautor do estudo, Dan Llewellyn, explica que “esta medida utiliza o estranho comportamento da física quântica, que simultaneamente retira o elo de entrelaçamento e transfere o estado das partículas para outra partícula já no chip recetor”.

A taxa de sucesso no teletransporte foi de 91%, de acordo com a equipa de cientistas. Além disso, conseguiram realizar outras funções que serão relevantes para a computação quântica. Entre elas, a troca de entrelaçamento (passagem de estado entre partículas que nunca interagiram) e entrelaçamento de até quatro fotões.

A distância de teletransporte das informações foi primeiro de uma sala, depois foi aumentando para 25 km, 100 km e 1.200 km via satélite. Isto já foi tinha sido conseguido entre partes de um chip, mas o teletransporte entre chips diferentes representa um grande avanço para a computação quântica.

 
 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/informacao-teletransportada-entre-chips-299820

Maior foguete portador da China, Longa Marcha-5, realiza novo voo

 

Longa Marcha-5 Y3 parte do Centro de Lançamento Espacial de Wenchang, na Província de Hainan, sul da China, em 27 de dezembro de 2019. (Xinhua/Yang Guanyu)

Wenchang, Hainan, 28 dez (Xinhua) -- A China lançou nesta sexta-feira à noite o terceiro Longa Marcha-5, o maior foguete portador do país, do Centro de Lançamento Espacial de Wenchang na Província de Hainan, sul da China.

O foguete, codificado como Longa Marcha-5 Y3, partiu do centro de lançamento costeiro às 20h45 (horário de Beijing), transportando o satélite de experimentação tecnológica Shijian-20, que pesa mais de oito toneladas, o satélite de comunicações mais pesado e mais avançado do país.

Cerca de 2.220 segundos depois, o satélite foi enviado a sua órbita planejada.

Wu Yanhua, vice-diretor da Administração Nacional do Espaço da China (CNSA, em inglês), declarou que o lançamento foi um êxito.

O sucesso do voo coloca a base para uma série de futuros projetos espaciais do país, incluindo a exploração de Marte, o traslado de amostras lunares e a construção de sua própria estação espacial, disse Wu.

O satélite Shijian-20 será usado para provar as tecnologias chave da plataforma DFH-5, a grande plataforma de satélite de nova geração da China e oferecerá serviço de comunicação e transmissão, indicou Wu.

O Longa Marcha-5, um foguete grande de duas etapas, é capaz de transportar um carregamento de 25 toneladas, equivalente ao peso de 16 automóveis, a uma órbita terrestre baixa, 14 toneladas a uma órbita de transferência geoestacionária, oito toneladas a uma órbita de transferência Terra-Lua ou cinco toneladas a uma órbita de transferência Terra-Marte, mais do dobro que a capacidade dos atuais foguetes da série principal Longa Marcha.

Combinado com uma etapa superior, o foguete é capaz de enviar sondas para explorar Júpiter e outros planetas no sistema costumar, disse a Companhia de Ciência e Tecnologia Aeroespaciais da China (CASC).

O Longa Marcha-5 fez seu primeiro voo em 3 de novembro de 2016 a partir de Wenchang. Entretanto, o segundo maior foguete, o Longa Marcha-5 Y2, sofreu uma falha logo depois de um mau funcionamento ocorrido menos de seis minutos depois de sua decolagem em 2 de julho de 2017.

O equipamento de pesquisa descobriu que a falha foi causada por um problema no motor da primeira etapa básica do foguete. "Fizemos melhoras no projeto, materiais e tecnologias do motor", explicou Li Dong, projetista-chefe do foguete Longa Marcha-5 da Academia Chinesa de Tecnologia de Veículos de Lançamento (CALT) da CASC.

Em comparação com o Longa Marcha-5 Y2, o novo foguete tem mais de 200 melhorias tecnológicas, mencionou Yang Hujun, vice-chefe de projeto do foguete.

O motor modificado foi submetido a mais de 10 provas em terra de mais de 3.000 segundos no total.

"Nos últimos dois anos, o equipamento de pesquisa tem resolvido o problema do motor e melhorado a confiabilidade do foguete", assinalou Wang Jue, comandante-chefe do equipamento de pesquisa.

O foguete tem um comprimento de 57 metros, equivalente a um edifício de 20 andares, com uma etapa central de cinco metros de diâmetro e propulsores de 3,35 metros de diâmetro. O Longa Marcha-5 é muito maior que os foguetes portadores anteriores da China. Tem um peso de decolagem de 870 toneladas e um impulso de mais de 1.000 toneladas.

Os quatro propulsores, desenvolvidos pela Academia de Tecnologia de Voos Espaciais de Shanghai da CASC, carregam mais de 90% do impulso para a decolagem.

O foguete usa combustível amigável com o meio ambiente, que inclui querosene, hidrogênio líquido e oxigênio líquido, em vez de propulsores altamente tóxicos.

É equipado com oito motores de foguete de oxigênio líquido e querosene em quatro propulsores auxiliares, dois motores de hidrogênio líquido e oxigênio líquido na primeira etapa e dois motores relativamente pequenos de hidrogênio líquido e oxigênio líquido na segunda etapa.

A capacidade de transporte do Longa Marcha-5 equivale ao de outros foguetes importantes de grande escala na indústria global, o que melhora enormemente a capacidade da China para lançar naves espaciais e coloca a base para o desenvolvimento de foguetes portadores de nova geração e de veículos de lançamento de carga pesada, disse Wang Xiaojun, chefe da CALT.

O foguete portador Long Marcha-5 Y3 no Centro de Lançamento Espacial de Wenchang, na Província de Hainan, sul da China, em 21 de dezembro de 2019. (Zhang Gaoxiang/Xinhua)

Ver original em "XINHUA Português" na ligação seguinte:

http://portuguese.xinhuanet.com/2019-12/28/c_138663360.htm

Homo erectus viveram mais tempo do que se pensava

Tim Evanson / Wikimedia

Um modelo do rosto do Homo erectus

Uma equipa de cientistas afirma ter calculado, finalmente, a idade dos fósseis de Homo erectus encontrados, nos anos 30, na Indonésia. Serão os vestígios mais recentes desta espécie humana já extinta.

 

De acordo com o Independent, os fragmentos de crânio fossilizados e outros ossos deste Homo erectus foram descobertos na ilha de Java, na Indonésia, nos anos 30, mas determinar a sua idade tem sido um desafio ao longos dos tempos.

Agora, uma equipa de cientistas, cujo estudo foi publicado na revista Nature, aponta que estes fósseis podem ter entre 117 mil e 108 mil anos. A nova datação torna estes vestígios os mais recentes desta espécie humana já extinta.

O Homo erectus surgiu em África há cerca de dois milhões de anos e, para além de se ter espalhado por todo o continente, também conquistou outros, como a Ásia e possivelmente a Europa. Chegou a Java há mais de 1,5 milhões de anos e a nova datação sugere que morreu pelo menos 35 mil anos antes da chegada da nossa espécie, o Homo sapiens.

As investigações arqueológicas concluíram ainda que estes indivíduos terão sido vítimas de “um evento de morte em massa”, que coincidiu com as mudanças ambientais que transformaram o seu ambiente de floresta aberta em floresta tropical.

Russell L. Ciochon, investigador da Universidade de Iowa, nos Estados Unidos, e um dos autores do estudo, acredita que o Homo erectus era demasiado dependente da floresta aberta e não se conseguiu adaptar ao novo ambiente.

Segundo a BBC, noutras ilhas do Sudeste Asiático, o Homo erectus parece ter evoluído para formas menores, como o Homo floresiensis — o chamado “Hobbit” —, nas Flores, e o Homo luzonensis, nas Filipinas. Isso provavelmente aconteceu porque havia recursos alimentares escassos nessas ilhas.

Mas, em Java, parece que houve comida suficiente para o Homoerectus manter o seu tamanho original. Os espécimes encontrados em Ngandong deveriam ter entre 1,50 e 1,80 metros de altura, comparáveis aos exemplos de África e de outros lugares da Eurásia.

“Compartilhando faixas temporais semelhantes, ambas representam três trajetórias evolutivas do Homo nas ilhas do Sudeste asiático, cada uma das quais terminou em extinção, constatam os autores do estudo, citados pelo jornal Público.

ZAP //

 
 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/homo-erectus-viveram-tempo-do-pensava-298348

GOMA DE BÉTULA COM 5700 ANOS E O QUE REVELA

                                         The entire genome of a female human who lived in Denmark 5,700 years ago was mapped from a piece of birch pitch that she chewed.
Num sítio arqueológico da Dinamarca com 5700 anos, uma «pastilha elástica» descartada encerrava muita informação sobre quem a mascou:  Foi sequenciado o genoma completo da mastigadora de goma de bétula. Esse ADN corresponde a uma mulher ou uma criança do sexo feminino, com traços fisionómicos mais próximos dos caçadores-recoletores da Europa do Oeste, do que dos agricultores que se tinham instalado recentemente (nessa época) na região. 
                 image

Além do ADN da menina, a goma de bétula também revelou a composição de micro-organismos presentes na cavidade oral: tinha o vírus de Epstein-Barr e deve ter sofrido de mononucleose.  Outra equipa de cientistas tinha descoberto, no ano anterior, também na Escandinávia, goma de bétula mascada, ainda mais antiga.  É muito raro obterem-se em escavações, ossos fossilizados do Mesolítico e do início do Neolítico na Escandinávia. Por isso, a técnica genómica aplicada a goma de bétula permite identificar muitos traços das populações desse período que - de outro modo - seriam difíceis de obter. É fantástica a quantidade de dados que a genómica aplicada à arqueologia tem revelado, sem dúvida, incluindo novos e surpreendentes aspectos da vida humana.

Ver o original em 'Manuel Banet' (clique aqui)

Descoberto o ponto continental mais profundo da Terra. É maior do que o México e os EUA juntos

Mathieu Morlighem / UCI

 

Uma equipa de cientistas da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, descobriu o ponto continental mais profundo da Terra enquanto elaborava o “retrato mais preciso” dos contornos da Antártida.

 

Durante o mapeamento, os cientistas descobriram o ponto continental mais profundo da Terra. Trata-se de um fosso sob o glaciar Denman, na Antártida Oriental, que fica 3,5 quilómetros abaixo do nível do mar.

A título de comparação, a área continental menos exposta do planeta, que se localiza na costa do Mar Morto, fica a 413 metros abaixo do nível do mar.

De acordo com o novo estudo, cujos resultados foram esta semana publicados na na revista científica especializada Nature Geoscience, o ponto tem cerca de 100 quilómetros de comprimento e 20 quilómetros de largura.

 
 

É maior do que os Estados Unidos e o México juntos“, disse Mathieu Morlighem, professor associado do departamento de Ciências do Sistema Terrestre da Universidade da Califórnia em Irvine, que liderou a investigação, citado pelo Diário de Notícias.

Para mapear a região, os cientistas utilizador dados sobre a espessura de gelo recolhidos por 19 instituições de pesquisa. Estes números foram depois combinados com valores da Operação IceBridge da NASA e com informações sísmicas.

A investigação agora apresentada é fruto de décadas de pesquisa e, inicialmente, os cientistas não estava a conseguir levar a cabo o projeto porque a área que tentavam mapear era muito grande. “Após meses de investigação, percebemos que não estávamos a conseguir mapear a área porque a topografia do leito sob o gelo estava a perder características importantes, como vales, cordilheiras”, explicou o cientista.

“Aplicámos essa técnica de mapeamento [com técnicas combinadas] em toda a camada de gelo e descobrimos um vale muito profundo escondido sob a camada de gelo”, acrescentou Mathieu Morlighem, dando conta que o grande desafio passou por reunir toda a informação possível, que era oriunda de vários países e instituições.

ZAP //

 
 
 

Construir a ponte: Ciência e Decisão Política em Portugal


(Na passada sexta-feira, 13 de Dezembro, participei na 5ª sessão do Curso Livre “Ciência e Decisão Política em Portugal”, promovido pelo Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa, que decorreu na Fundação Calouste Gulbenkian. Essa sessão levava o título “Construir a ponte: Ciência e Decisão Política em Portugal”. Deixo, para registo, o texto de base da minha intervenção. As imagens foram retiradas do site do Curso. )
Sendo deputado à Assembleia da República, mas sendo também investigador em filosofia das ciências, vou tentar colocar-me aqui entre as duas partes desta questão: ciência e política.
Colocar-me “entre”, na ponte, é colocar-me na perspetiva, não apenas de uma interação, mas também de uma responsabilidade mútua.
Essa responsabilidade, da política e da ciência, tem a ver com a forma como ambas se posicionam numa sociedade democrática, como ambas assumem a sua relação com outras esferas da nossa vida de comunidade e com a prossecução do bem comum.
Essa responsabilidade é partilhada, porque quer a comunidade dos praticantes de ciência quer as instituições políticas podem favorecer ou dificultar algo que me parece coletivamente desejável: que as decisões relativas à res publica sejam simultaneamente o mais informadas possível e processadas da forma mais democrática possível.
Como falamos de uma ponte, talvez não seja necessário um estudo de impacte ambiental, mas, decerto, precisamos de estudar as suas condições de possibilidade e, até, a sua relevância: saber se há quem a queira atravessar de cada uma das margens para a outra.
Portanto, ciência e política. Começo pela ciência. O último número do The New York Review of Books traz um texto intitulado “Jailed by Bad Science”, que contém uma breve descrição de um episódio na vida de um cidadão, que se pode resumir como segue (1).
Na sequência dos atentados bombistas de março de 2004 em Madrid, foi detetada uma impressão digital numa caixa de detonadores na estação de comboios de Atocha e essa impressão digital foi comunicada pelas autoridades espanholas a bases de dados mantidas pelas autoridades de muitos países em todo o mundo. O FBI comunicou que a pessoa a quem correspondia a impressão digital era um advogado do Oregon chamado Brandon Mayfield. Face às dúvidas das autoridades espanholas, o FBI mandou um dos seus peritos a Espanha para as convencer da segurança da sua identificação e, entretanto, obteve autorização para iniciar vigilância eletrónica do seu suspeito 24 sobre 24 horas, acabando por detê-lo no início de maio, quando achou que ele se preparava para fugir, iniciando também buscas em sua casa, escritório e veículos. Duas semanas depois, enquanto Mayfield continuava na cadeia, as autoridades espanholas anunciaram que tinham determinado a quem pertencia realmente aquela impressão digital. E não era a pessoa que o FBI perseguia. Mayfield acabou por ser libertado e, uns dias depois, o FBI admitiu que tinha errado naquela identificação baseada na impressão digital. Trata-se de um caso ilustrativo das debilidades recenseadas nas chamadas “ciências forenses”, muitas vezes decisivas no funcionamento da investigação policial e dos tribunais, tal como identificadas num relatório de 2009 da Academia Nacional das Ciência dos Estados Unidos(2). O relatório analisa o uso forense de várias técnicas, desde a análise microscópica de correspondências entre amostras de cabelo até ao estabelecimento de correspondências entre marcas de mordidelas e estruturas dentárias, passando por comparações de escrita manual, de rastos de pneus, de marcas de calçado, de vestígios de sangue, e, claro, também a comparação de impressões digitais, e muitas outras técnicas. O relatório, da responsabilidade de uma equipa que combinava pessoas das comunidades científica e da investigação policial e da justiça, identificou práticas de mau uso de ferramentas derivadas do conhecimento científico, porque os procedimentos não eram rigorosos, porque havia demasiada subjetividade envolvida na interpretação, porque faltava independência aos técnicos que faziam esse trabalho (por exemplo, por funcionarem no seio de organismos policiais ou por saberem qual o resultado esperado pela autoridade que pedia uma análise), porque se reclamava cientificidade para aplicações que nunca tinham sido realmente testadas por cientistas, porque havia relutância em admitir erros nos procedimentos. E, ainda por cima, como também sublinha o artigo em causa, os tribunais tendiam a aceitar declarações demasiado categóricas acerca da valia científica do testemunho de pessoas que se apresentam como peritos, sem que, muitas vezes, esses atributos fossem merecidos. Serve isto para dizer o quê? Para negar a utilidade de técnicas baseadas em conhecimento científico, que nos permitem ver mais do que seria possível a olho nu e para lá do momento presente? Não é isso que pretendemos. O que importa é compreender que a ciência é um fenómeno complexo, que há muitas camadas de conhecimento envolvidas em cada aplicação concreta (por exemplo, as ciências auxiliares envolvidas na instrumentação) e que os resultados dessa complexidade nem sempre são antecipados, que a ciência é também o leque de procedimentos e cautelas institucionais relevantes (por exemplo, é pernicioso que o investigador seja dependente de uma hierarquia que pressiona a obtenção de certos resultados) e que atitudes individuais desleais podem levar até ao extremo da fraude científica. A verdade é que o puro fascínio pelos instrumentos pode ser enganador. Lembremos que Galileu, quando virou o telescópio para os céus e observou novas estrelas, concluiu contra as teorias aristotélicas acerca da distinção entre uma região sublunar, imperfeita e sujeita a mudança, e uma região supralunar, perfeita e imutável. Contudo, a verdade é que Galileu não dispunha, nessa altura, de uma teoria ótica que permitisse explicar o funcionamento do telescópio, de forma a sustentar que aquelas estrelas eram grandes, mas muito longínquas (estando numa região supralunar) em vez de serem pequenas e próximas (estando na região infralunar). A conclusão que tirou não era um resultado estritamente observacional, mas também o resultado de uma preferência filosófica pela interpretação que contrariava a conceção tradicional e favorecia a nova conceção copernicana. O que a instrumentação diz pode ser metafisicamente influenciado (3). As chamadas ciências forenses fornecem um exemplo claro das possíveis consequências de usos inadequados do conhecimento científico. Mas há muitos outros exemplos, como as consequências sociais de políticas económicas e financeiras baseadas em teorias económicas irrealistas, mesmo quando suportadas em pesada utensilagem matemática.
Claro que só percebemos a complexidade do problema se, ao mesmo tempo, não perdermos de vista a enorme contribuição positiva do conhecimento científico para técnicas com grande fiabilidade, como é o caso, para voltarmos ao domínio forense, dos testes de ADN, que não só permitem detetar a culpabilidade, como têm permitido livrar muitas pessoas de suspeitas injustas. Precisamos de voltar a pensar filosoficamente acerca da ciência.

Sem dúvida que a ciência é um dos empreendimentos humanos mais maravilhosos, quer olhemos para ela apenas do ponto de vista do amor ao saber, quer olhemos para aquilo que a ciência permitiu conquistar em termos de bem-estar da humanidade.
Sem dúvida que precisamos preservar o papel do conhecimento científico na boa condução das nossas comunidades, especialmente numa época em que líderes políticos poderosos se comportam como ignorantes arrogantes – mas também numa época em que outros líderes políticos usam a ciência e a tecnologia como meios de dominação capazes de construir totalitarismos ferozes.
Nenhum empreendimento humano tem só uma cor. Não é preciso rebuscar muito para trazer à memória práticas que se legitimaram em nome da ciência embora sejam, à luz do nosso critério de hoje, inaceitáveis. Podemos citar o eugenismo e a sua pretensão a uma base científica. Ou podemos citar a história de Saartjie Baartman, uma mulher sul-africana da etnia hotentote, celebrizada no livro e no filme “Vénus Negra”, que foi para a Europa, onde foi exposta como uma aberração e, digamos assim, “estudada” por cientistas em modos escandalosos para os nossos padrões de hoje quanto a direitos humanos. Há outros empreendimentos humanos com um registo histórico tão ou mais trágico do que estes exemplos, desde a política à religião. Mas isso não nos dispensa de pensarmos sobre o que é apropriado exigir à ciência. E, na verdade, chega a ser assustador como, para alguns, ciência é associada a certeza, compreender como uma perspectiva falibilista acerca da ciência é tão mal vista em alguns quadrantes. Não é preciso ter lido o radical Feyerabend, basta ter lido Popper, para perceber o dano que causa não se compreender a importância do pensamento metafísico, e do pensamento filosófico em geral, para as realizações da ciência. Este muro vem de longe. David Hume acaba An Inquiry Concerning Human Understanding (1748), com estas palavras: “Se tomarmos nas mãos um volume qualquer – de teologia ou de metafísica das escolas, por exemplo – perguntemos: contém algum raciocínio abstrato acerca da quantidade ou do número? Não. Contém algum raciocínio experimental sobre questões de facto e existência? Não. Atiremo-lo, pois, às chamas, dado que só pode conter sofismas e ilusões.” Infelizmente, ainda é assim que alguns falam, pretensamente em nome da ciência e descartando outros saberes. No fundo, e para simplificar, precisamos evitar o cientismo, porque o cientismo é o pior ponto de partida para dar à ciência a importante função que ela deve ter na sociedade e na comunidade política. Genericamente, podíamos dizer que o cientismo é a ideia de que a ciência é co-extensa à razão, a ideia de que tudo na ciência é racional e nada fora da ciência é racional (4). Mas podemos ser mais modestos e procurar erros de cientismo de forma menos genérica e mais concreta. A filósofa Susan Haack colocou a correta apreciação do papel da Razão e da Ciência entre dois erros, a saber, por um lado, o cinismo, termo que a filósofa usa para designar a incapacidade para reconhecer as notáveis realizações intelectuais da ciência e os benefícios reais que ela tornou possível, e, por outro lado, o cientismo, aquela atitude acriticamente reverente para com a ciência, incapaz de reconhecer a sua falibilidade, as suas limitações e, até, os seus perigos potenciais (5) . Susan Haack elencou seis indicadores de cientismo (6). Primeiro, o uso honorífico do qualificativo “científico” como garantia de certeza (esquecendo que todas as teorias científicas sólidas estão rodeadas de hipóteses científicas que começam por ser altamente especulativas e muitas acabam por ter de ser abandonadas, no decurso do próprio avanço da ciência). Segundo, a tentativa de reivindicar autoridade pelo uso inapropriado de sinais exteriores de cientificidade, como números, terminologia ou modelos – como faz abundantemente a disciplina da economia, que falha massivamente as suas predições e receitas, apesar do recurso intensivo às ferramentas matemáticas e, até, no passado, de ter tentado explicar o comportamento económico com modelos importados da física de partículas. (Vale a pena, como curiosidade histórica, lembrar o economista marginalista Irving Fisher, que se deu ao exercício de expressar uma teoria económica altamente matematizada com recurso minucioso ao formalismo importado diretamente da física energética, dos campos, dos vetores, dos princípios de conservação, apresentando mesmo uma tabela de correspondências entre noções físicas e noções económicas, por exemplo, partícula/indivíduo, espaço a n dimensões / espaço de n mercadorias, energia/utilidade, trabalho/desutilidade.) Terceiroindicador de cientismo, um falso rigor na demarcação entre ciência e não ciência (inclusivamente, na esteira do positivismo, tentando tratar como desprovido de sentido tudo o que não corresponda a certos padrões de verificação empírica), o que conduziu a episódios tão significativos como Karl Popper ter em tempos considerado que a teoria da evolução natural era um programa de investigação metafísica, ou a imbróglios conceptuais como atirar para o limbo da cientificidade disciplinas formais como a matemática ou disciplinas normativas como o direito, quando a verdade é que, por exemplo, entre a cosmologia e a metafísica, ou entre a psicologia e a filosofia da mente, não há uma fronteira nítida, nem fixa, entre ciência e filosofia. Quarto, uma pretensão exclusivista centrada no método científico, passando por cima do facto de que não há qualquer tipo de acordo geral entre cientistas acerca do que seja o método científico, e descurando que o rigor da investigação e do confronto com a evidência não é um exclusivo das ciências naturais. Quinto, a pretensão de que todos os tipos de questões relevantes têm de ser respondidas por uma abordagem científica, quando é fácil identificar questões que, podendo e devendo ser clarificadas pelo melhor conhecimento científico disponível, têm de ser respondidas noutro plano. Decisões sobre a aceitabilidade moral do aborto, ou sobre a sua legalização, devem ser iluminadas por conhecimento médico, mas não são decisões científicas. Decisões sobre a forma de lidar com as alterações climáticas têm de ser informadas por conhecimento científico, mas essas decisões são políticas, porque o seu enquadramento no plano geral das políticas públicas implica opções, opções essas que são constrangidas, mas não completamente determinadas, pelos objetivos climáticos a atingir. Sextoindicador de cientismo listado por Susan Haack: denegrir áreas de reflexão não científicas, como se os desenvolvimentos em cosmologia ou em biologia evolutiva, por exemplo, que realmente retiraram pertinência a certo tipo de explicações sobrenaturais, eliminassem a relevância de toda a reflexão, filosófica por exemplo, sobre o sentido da vida ou do nosso lugar no universo. O que proponho é que uma abordagem que evite os erros do cientismo promove a responsabilidade social partilhada, dos cientistas e dos demais cidadãos, assumindo a ciência como uma parte essencial do empreendimento por uma sociedade civilizada, mas que essa responsabilidade não é honrada quando os praticantes de ciência se colocam na posição de excluir o valor de outras modalidades de pensamento e de outras modalidades de ação. Quero agora voltar-me para as responsabilidades da política e deixar alguns elementos de reflexão acerca de qual o tipo de vida política democrática que necessitamos para podermos beneficiar do contributo da ciência para a nossa vida em comum. Vivemos em democracia representativa e é desse ponto que vou partir.
Como funciona a representação? Por vezes a democracia representativa é concebida como um sistema que funciona com delegados. Nesta visão, os eleitores elegem representantes como seus delegados. Os deputados são considerados delegados que devem atuar simplesmente como porta-vozes das preferências expressas dos eleitores do seu círculo eleitoral, sendo, assim, concebidos como desprovidos de autonomia. Essencialmente, o representante não é mais do que a voz daqueles que não estão presentes. Numa visão estrita do modelo do representante como delegado, o deputado não tem sequer margem para conceber qual seria o interesse dos eleitores do seu círculo, porque isso já seria de certo modo especulativo. O delegado deveria, apenas, representar as preferências expressas dos seus eleitores. Este modelo foi contestado, no contexto da prática política efetiva, por Edmund Burke (1729-1797), um filósofo irlandês, que alguns consideram ter criado o que chamarei aqui “modelo fiduciário de representação”, à falta de me ocorrer tradução mais fiel para “trustee model of representation”. Neste modelo de representação, o eleito é um “trustee” em quem os eleitores depositam confiança para agir segundo um princípio de defesa do bem comum e do interesse da comunidade no seu todo (por exemplo, o interesse nacional), mesmo que isso signifique ir contra os interesses a curto prazo dos seus próprios eleitores no respetivo círculo eleitoral. Uma formulação deste modelo de representação acontece no discurso proferido por Burke ao receber a notícia de ter sido eleito membro do Parlamento inglês pela cidade de Bristol, a 3 de novembro de 1774.
Afirma, nessa altura:
“O vosso representante deve-vos, não apenas a sua diligência, mas o seu juízo; e ele trai-vos, em vez de vos servir, caso ele sacrifique o seu juízo à vossa opinião.”
E acrescenta:
“O Parlamento não é um congresso de embaixadores de interesses diferentes e hostis, que cada um deve assegurar, como um agente e um defensor, contra outros agentes e defensores; o Parlamento é uma assembleia deliberativa de uma nação, com um interesse, o da totalidade – onde nenhum propósito local, nem preconceitos locais, deveriam guiar, exceto o bem comum, resultante da razão geral do todo. Vós escolheis um membro, de facto; mas, tendo-o escolhido, ele não é membro de Bristol, mas é um membro do Parlamento.”
Nestes termos, o parlamento é essencialmente deliberativo: aí se trocam razões entre interesses diferentes, não para fazer prevalecer algum desses interesses particulares, mas para encontrar o interesse do todo.
No decurso do seu raciocínio, Burke aponta claramente para o carácter deliberativo do mecanismo. Afirma:
“Se o governo fosse uma questão de vontade de qualquer parte, a vossa vontade, sem dúvida, deveria ser superior. Mas o governo e a legislação são matérias de razão e de juízo e não de inclinação.”
E, refletindo sobre a ideia de que os seus eleitores lhe poderiam dar instruções sobre como votar no parlamento, continua:
“Que tipo de razão é essa em que a determinação precede a discussão, em que um grupo de homens delibera e outro decide e em que aqueles que formam a conclusão distam umas 300 milhas daqueles que ouvem os argumentos?”
Ou seja: o deputado não vai apenas entregar a opinião dos eleitores, vai deliberar com os outros parlamentares e assim dar sentido ao próprio parlamento como representação do todo.
Escusado será dizer que Bristol não reelegeu Burke… Neste ponto, a questão que suscitamos é esta: embora aceitando esta conceção fiduciária de representação do todo, como responsabilidade do parlamento no seu conjunto, será isto suficiente para a democracia?
É hoje generalizada a convicção de que isto não chega para termos uma democracia funcional.
Precisamos de avançar no aprofundamento da democracia representativa, em direção a uma democracia participativa, mas também visando uma democracia deliberativa. Além de votar, e de criar novas propostas e candidaturas, a nossa Constituição da República prevê várias formas de participação mais diretas e ativas dos cidadãos, tais como petições, a ação popular para defender no plano judicial interesses difusos (isto é, interesses da comunidade como um todo que se projetam em indivíduos concretos), referendos, constituir associações sindicais que têm variados direitos (por exemplo, participar na elaboração da legislação do trabalho, na gestão das instituições de segurança social, na contratação coletiva); criar comissões de trabalhadores, numa lógica de intervenção democrática na vida da empresa; a intervenção direta na administração da justiça (julgamentos com júri, juízes sociais em questões de trabalho ou saúde pública); as Iniciativas Legislativas de Cidadãos, isto é, projetos de lei que, em vez de serem apresentados por deputados, são apresentados por grupos de cidadãos. As vias da democracia participativa contribuem para prevenir e corrigir uma das doenças da democracia representativa, que é uma certa separação entre representados e representantes, e contribuem para enriquecer a comunidade democrática.
Contudo, tanto a democracia representativa como a democracia participativa necessitam de outra dinâmica: a democracia deliberativa. A democracia deliberativa responde a uma necessidade de cidadãos livres que vivem em comunidade: não basta a força (mesmo que seja a força do voto) para tomar decisões democráticas entre cidadãos livres. Temos direito a discutir as razões das decisões que são tomadas. Um órgão de soberania pode ter legitimidade para tomar uma determinada decisão, mesmo que essa decisão seja impopular (e, às vezes, é preciso tomar decisões de que muita gente discorda naquele momento). Mas o decisor deve apresentar as suas razões para essa decisão. E as pessoas interessadas devem ter oportunidade de apresentar as suas razões a favor e contra as várias opções. E cada um deve atender às razões dos outros. Pode não lhes dar razão, no sentido de não ficar convencido com os seus argumentos, mas tem de mostrar que considerou os seus argumentos: responder-lhes racionalmente, considerar as objeções e as propostas alternativas e, eventualmente, incorporar na decisão as modificações que resultem razoáveis da argumentação. A exigência de apresentar razões, em vez de apenas impor a força do voto maioritário, é válida ainda mais para matérias reconhecidamente complexas – como são muitas das matérias que mais precisam do contributo do conhecimento científico.
Mas isto interroga a própria forma como concebemos a função parlamentar. Vejamos um exemplo.
Andou por aí, no debate eleitoral, a proposta de ter assentos vazios no parlamento, como tradução de votos em branco. Os votos em candidaturas elegeriam deputados, os votos em branco “elegeriam” assentos vazios. Que tipo de conceção da representação subjaz a uma proposta como esta? Quando um grupo de peticionários é recebido na Assembleia da República, podem ser recebidos por assentos vazios, em vez de serem recebidos por deputados? Quando é preciso elaborar uma proposta para resolver um problema, podem ser assentos vazios a fazê-la? Ou terão de ser mesmo deputados de carne e osso? Quem fiscaliza a ação do Governo, assentos vazios ou deputados? Propostas como esta denotam uma desvalorização evidente da reflexividade do representante. Será, isso sim, no quadro de uma democracia representativa, mas também participativa, e também deliberativa, que pode trabalhar-se uma relação mais fecunda entre a ciência e a política democrática. Uma política democrática onde o conhecimento contribui mais assiduamente para a compreensão dos problemas e das potenciais soluções e onde os participantes da comunidade científica se envolvem mais profundamente na compreensão dos fatores societais e políticos que condicionam as escolhas possíveis e se envolvem deliberativamente na construção das soluções. Para avançar nesse caminho, precisamos de adaptar as nossas instituições. Precisamos de criar os espaços de partilha, de reflexão conjunta, de elaboração, que cumpram essa aproximação deliberativa entre ciência e decisores políticos.
O Alexandre Quintanilha talvez vos queira falar do que andamos a pensar sobre isso, mas eu limito-me aqui a dar um pequeno número de exemplos que poderiam inspirar-nos por cá (7). No Parlamento Europeu, existe, desde 1988 numa base permanente, o Painel de Avaliação das Opções Tecnológicas e Científicas, ao qual cabe contribuir para o debate e a apreciação legislativa das questões científicas e técnicas de especial relevância política, através de conhecimento científico que se pretende imparcial.
A abordagem do Painel é uma abordagem de longo prazo, deixando para outros serviços do Parlamento Europeu a resposta às exigências específicas sectoriais, ou de curto prazo, em matéria de investigação.
O Painel para o Futuro da Ciência e da Tecnologia desempenha a sua missão de várias formas, desde organizando fóruns onde políticos e cientistas discutem desenvolvimentos científicos que possam ser importantes para a sociedade, até fornecendo estudos aos órgãos parlamentares que permitam, por exemplo, avaliar o impacto potencial da introdução de novas tecnologias, passando pela promoção de atividades de avaliação tecnológica nos parlamentos nacionais.
Qualquer membro ou órgão do Parlamento Europeu pode apresentar uma proposta ao Painel, sendo este constituído por deputados de várias comissões parlamentares, incluindo a Comissão que lida com as questões relativas aos Direitos, Liberdades e Garantias. No Reino Unido, existe o POST (Parliamentary Office of Science and Technology), um serviço com uma experiência de mais de 30 anos ao serviço quer da Câmara dos Comuns quer da Câmara dos Lordes, cuja missão consiste em prover o parlamento, a partir de dentro, com análises independentes, equilibradas e acessíveis sobre questões de políticas públicas que estejam relacionadas com ciência e tecnologia – sem deixar de, com as suas iniciativas e publicações, contribuir também para a formação de um público para estas preocupações, servindo o propósito de “estabelecer pontes entre a investigação e as políticas”. Também, em França, existe o Office parlementaire d’Évalutation des Choix Scientifiques et Tecnologiques, comum à câmara alta (Senado) e à câmara baixa (Assembleia Nacional) do Parlamento. Este surgiu da consciência, despertada no início dos anos 1980, a propósito de debates sobre o programa nuclear, sobre o programa espacial ou, por exemplo, sobre as telecomunicações, de que o Parlamento não tinha os meios adequados para apreciar, de forma racional e independente, as decisões do governo. Ora, como é que se fiscaliza e se controla o Governo se não temos os meios para compreender em toda a sua extensão o que está a fazer e a planear? Neste “Office parlementaire”, é um deputado ou um senador que conduz os trabalhos em cada caso, reunindo os meios necessários para produzir o relatório sobre a matéria em causa, normalmente incluindo personalidades externas ao parlamento. Desde a sua criação, já produziu cerca de 200 relatórios, incluindo matérias como a micro/nano-eletrónica, o impacto de substâncias químicas na saúde humana, a biologia sintética, a estratégia nacional para a energia ou a segurança das barragens e estruturas hidráulicas. A minha sugestão é que precisamos, por cá, de nos inspirarmos nestes exemplos e procurar respostas institucionais apropriadas a estas preocupações. Fazendo da investigação científica uma parte integrante da democracia deliberativa. NOTAS
(1)RAKOFF, Jed S., “Jailed by Bad Science”, The New York Review of Books, Vol. 66, Nº 20, 19 de dezembro de 2019, pp.79ss
(2)National Research Council, Strengthening Forensic Science in the United States: A Path Forward. Washington, DC: The National Academies Press, 2009. https://doi.org/10.17226/12589
(3) KOYRÉ, A., Do Mundo Fechado ao Universo Infinito, Lisboa, Gradiva, 1986, pp. 96-97
(4) PIGLIUCCI, Massimo, “The Problem with Scientism”, post no Blog of the American Philosophical Association, datado de 25 de janeiro de 2018, https://blog.apaonline.org/2018/01/25/the-problem-with-scientism/
(5) HAACK, Susan, Defending Science – Within Reason: Between Scientism and Cynicism, Amherst, Prometheus Books, 2003
(6) HAACK, Susan, “Six Signs of Scientism”, in Logos & Episteme, III, 1 (2012): 75-95
(7) Alexandre Quintanilha era outro dos oradores na mesma sessão.
Porfírio Silva, 17 de Dezembro de 2019
Deputado do PS
 

Ver original em "Machina Speculatrix" (aqui)

FALSA CIÊNCIA CLIMÁTICA E FALSA CIÊNCIA ECONÓMICA

 
Qual a lógica comum que está subjacente à histeria do «Aquecimento Global», ao «Green New Deal» e à «Modern Monetary Theory» ou MMT?
 
Por muito que se tenha em conta a contribuição dos gases de efeito de estufa, o mais importante dos quais é - sem dúvida - o vapor de água, o certo é que o calor que mantém a temperatura da Terra é proveniente do Sol. A quantidade vinda do próprio interior da Terra, é considerada desprezível. As variações da atividade solar, as manchas solares e os seus ciclos de 11 anos, são da maior importância.
 
São igualmente importantes os ciclos de Milankovitch, um cientista sérvio, que descreveu as oscilações do eixo terrestre em relação ao plano de translação com ciclos da ordem de 40 mil anos, assim como outros movimentos relacionados com a excentricidade da órbita terrestre, que varia em ciclos da ordem de centenas de milhares de anos. O desencadear de uma fase glaciar é um fenómeno relativamente curto à escala geológica. Por contraste, a fase de reaquecimento (os períodos interglaciares) é muito mais progressiva.
 
Nós estamos num período interglaciar, que se iniciou por volta do final do paleolítico, há cerca de 15-14 mil anos. Não existe uma certeza matemática em relação aos inícios e fins das etapas dos ciclos climáticos de aquecimento e arrefecimento, mas sabe-se que são fenómenos periódicos que a Terra experimentou durante longuíssimos períodos de tempo. Sabemos isso, nomeadamente, pelos sedimentos e rochas sedimentares, que resultam da acumulação dos restos de seres vivos que se depositam no fundo dos oceanos. Logicamente, a composição dessas faunas planctónicas, assim como a sua abundância, vão variar em função da temperatura do oceano. Temos de ter em conta a existência de múltiplos factores, cuja escala e efeitos são muito difíceis de avaliar, até mesmo pelos especialistas. As pessoas leigas em climatologia – por muito que tenham uma formação científica de base – não estão conceptualmente equipadas para intervirem no debate científico.
Porém, ao nível da media social de massas e ao nível político, o que se observa é uma histeria com um propósito claro de empurrar para a «green new deal», a indústria de «energias renováveis» (as quais têm impactos ambientais muito sérios, pois estes não se limitam à «pegada-carbono»), sobretudo, um interesse muito grande em fazer avançar uma «taxa carbono» planetária, que seria gerida pelos grandes bancos, com a bênção da ONU e das instituições globalistas mundiais.
Com efeito, o ouro é uma matéria-prima rara, além de muito estável, tendo propriedades naturais adequadas para conservar o valor, ao longo de gerações (e mesmo, de milénios). A sua raridade é um factor importante de estabilidade para o sistema, pois é impossível, de um momento para o outro, inundar de ouro o mercado mundial, ao contrário das moedas-papel. A mineração aumenta o ouro existente, numa proporção mínima, anualmente.  Que interesse tem isso para a economia mundial?  - Se todas as moedas estiverem indexadas ao ouro (se foram convertíveis numa determinada quantidade deste metal) os governos não poderão gastar mais do que uma certa quantidade, não poderão entrar numa orgia de despesa pública. Sabemos que o fazem por demagogia, para serem reeleitos, ou numa corrida aos armamentos com potências rivais. Isto acontece, frequentemente, porque produzir divisas que não têm por detrás qualquer garantia, além da palavra do governo. Com efeito, as «moedas-fiat», «em papel» ou sua versão digital, têm, realmente, custo zero de fabricação. 
No famoso reset ou reforma monetária global, a grande questão será - no curto prazo - saber até que ponto a elite globalista conseguirá gerir a crise, que ela própria engendrou. Para obter ainda maior fatia de riqueza e poder, está disposta a tudo. No imediato, ela tem necessidade de desviar a atenção das pessoas, sobre o que está a ocorrer no presente: a grande transferência de activos financeiros (de riqueza e de poder), que essencialmente passa para as mãos privadas, sendo espoliados os cofres públicos, o dinheiro dos nossos impostos. É «a privatização dos lucros e da socialização dos prejuízos», mas que se quer acelerar e exacerbar, sob pretexto de «urgência climática». 
Por isso mesmo, a manipulação das mentes atinge um grau muito sofisticado. Poucas são as pessoas que resistem e guardam a cabeça fria e serena, de forma que não se deixam enganar por  políticos e financeiros corruptos e sedentos de poder. Os Clinton, os Bush, George Soros, os Rockefeller, os Rothchild etc, etc. são alguns dos políticos e multimilionários mais conhecidos.  Que é que nós -cidadãos normais- temos em comum com eles? Um bando de multimilionários ou bilionários, cuja agenda é de manter o controlo das suas imensas fortunas acumuladas. 
 
O problema é que muitas pessoas deixaram de pensar pela sua própria cabeça; cederam ao «politicamente correcto», ao «group think», ou seja, a pensar dentro do rebanho.

Ver o original em 'Manuel Banet' (clique aqui)

Fenprof quer ver corrigida indefinição legal de investigadores

Nas Instituições Privadas Sem Fins Lucrativos, criadas para desenvolver investigação pelas instituições do Ensino Superior, os investigadores viram negado o seu vínculo à Administração Pública.

CréditosInácio Rosa / Agência Lusa

As Instituições Privadas Sem Fins Lucrativos (IPSFL) são entidades criadas para o desenvolvimento de actividade de investigação, pelas instituições de Ensino Superior, com o objectivo de contornar obrigações legais, «nomeadamente no que respeita às relações laborais», denuncia a Federação Nacional de Professores (Fenprof/CGTP-IN) em nota divulgada.

Através destas instituições privadas, centenas de bolseiros desenvolvem actividade de investigação a que deveria corresponder um contrato a termo ou a título definitivo, defende a Fenprof, acrescentando que por não lhes serem aplicadas as normas estabelecidas no Código de Trabalho, vários investigadores requereram a regularização do seu vínculo no âmbito do Programa de Regularização dos Vínculos na Administração Pública (PREVPAP).

Em todos os casos, contudo, as Comissões de Avaliação Bipartida (CAB) deliberaram pela sua não admissão, por ter sido considerado que aquela actividade não é desenvolvida «em entidade integrada na Administração Pública». 

«Ficou, assim, a saber-se que quem exerce actividade nas IPSFL não trabalha na Administração Pública, mas também não se lhes aplicam as normas do sector privado», avança a nota, sublinhando que tal não pode acontecer, pois não existe uma «terceira via» para as relações laborais.

A Fenprof considera que esta situação constitui «um abuso e uma ilegalidade» face ao quadro legal que vigora. Nesse sentido, colocou o problema à Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT) e irá fazer chegar um dossier sobre as IPSFL (criação legal, estatutos ou outros documentos reguladores do seu funcionamento, documentos comprovativos das relações laborais estabelecidas).

Após apreciação destes documentos, a Fenprof espera que a ACT possa «intervir e pôr cobro ao abuso e à ilegalidade, impondo a estas entidades e a quem as utiliza para satisfação das suas necessidades o cumprimento da lei e, principalmente, respeito por quem nelas trabalha».

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/trabalho/fenprof-quer-ver-corrigida-indefinicao-legal-de-investigadores

Planeta misterioso: descubra fatos incríveis e desconhecidos sobre a Terra

A Terra é provavelmente o único planeta habitado do Sistema Solar. Para além disso, a vida surgiu no planeta quase imediatamente após sua formação há 4,25 bilhões de anos.

Desde então, na Terra se formou um sistema de anéis, que posteriormente desapareceu, uma parte da superfície terrestre se separou do planeta e voou para o espaço e cianobactérias originaram o aparecimento do Homo sapiens.

Terra tinha anéis igual a Saturno

Aproximadamente 715 milhões de anos atrás, a Terra estava completamente coberta com gelo e neve. Mesmo no sítio mais quente do planeta, o equador, as temperaturas não ultrapassavam os 20 graus negativos.

Este período durou quase 120 milhões de anos e é conhecido na ciência como Idade do Gelo. De acordo com uma das teorias, foi precisamente o eterno reino do gelo que originou a explosão Cambriana, época que foi acompanhada por uma grande diversificação de organismos, incluindo animais, fitoplâncton e calcimicróbios.

Por sua vez, o surgimento do período glacial é resultado de outro evento global – a formação de um sistema de anéis em torno da Terra, semelhantes àqueles que podemos observar em Saturno.

Os cientistas americanos Peter Fawcett e Mark Boslough teorizam que, antes de o nosso planeta se transformar em uma espécie de bola de gelo, ele foi atingido por um asteroide gigantesco.

Ilustração artística da Terra com anéis
© Illustration: RIA Novosti, Depositphotos/Shad.off, NASA
Ilustração artística da Terra com anéis

O impacto foi de tal força que os destroços rochosos que resultaram da colisão foram lançados para a órbita da Terra, formando assim anéis em torno do nosso planeta.

A sombra dos anéis dificultou a penetração da luz solar nas regiões tropicais da Terra, conduzindo a um drástico arrefecimento global.

Porém, o sistema de anéis era instável e estes desapareceram bastante rápido (do ponto de vista astronômico, claro) devido ao efeito lunar e ao vento solar que gradualmente dispersava os pequenos componentes dos discos para fora da órbita.

Lua fazia parte da Terra

Um dos argumentos daqueles que pensam que os estadunidenses nunca estiveram na Lua é a composição do solo trazido deste corpo celeste. Ele coincide com o terrestre ao ponto de ter partes iguais de isótopos de titânio, oxigênio e outros elementos.

Mas a questão não está na suposta falsificação de amostras espaciais – na verdade, alguns bilhões de anos atrás, a Lua fazia parte da Terra.

Segundo revelam pesquisadores norte-americanos da Universidade da Califórnia em Los Angeles, após a sua formação a Terra colidiu com um corpo celeste proporcionalmente semelhante a Marte.
Imagem ilustrativa da colisão entre Terra e Theia
© Depositphotos / Innovari
Imagem ilustrativa da colisão entre Terra e Theia

Theia, o nome dado ao corpo que colidiu com a Terra a grande velocidade, penetrou na crosta do nosso planeta e se fundiu com as rochas terrestres, tendo uma parte desta fusão sido expelida para o espaço, onde gradualmente se transformou na Lua.

No futuro só haverá um continente na Terra

Segundo as concepções modernas, daqui a 250 milhões de anos, os continentes irão se juntar novamente formando um supercontinente. Uns cientistas lhe chamam de Pangeia Última, outros de Aurica ou Amásia.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/ciencia_tecnologia/2019112414815892-planeta-misterioso-descubra-fatos-incriveis-e-desconhecidos-sobre-a-terra/

Cientistas chineses desenvolvem carne criada em laboratório de células animais

Nanjing, 22 nov (Xinhua) -- Cientistas chineses produziram 5 gramas de carne cultivada a partir de células tronco de músculo de animais, de acordo com a Universidade Agrícola de Nanjing, na Província de Jiangsu, leste da China.

A instituição anunciou nesta quinta-feira que o grupo liderado por Zhou Guanghong colheu a carne após ter cultivado as células tronco de músculos de porco por 20 dias.

É a primeira carne desenvolvida a partir de células tronco de músculo na China, de acordo com a Associação Chinesa de Sociedades de Ciência Agrícola, que realizou a avaliação da tecnologia. Fim

Ver original em "XINHUA Português" na ligação seguinte:

http://portuguese.xinhuanet.com/2019-11/22/c_138575142.htm

Cachorros clonados se unem à polícia de Beijing

(Preocupante ?!)

 
 

Beijing, 21 nov (Xinhua) -- A força policial de Beijing tem novos recrutas de quatro patas de aparência familiar -- seis cachorros clonados.

Em uma cerimônia realizada na quarta-feira pela Base de Cães Policiais do Departamento Municipal de Segurança Pública de Beijing, os treinadores colocaram crachás, colares coloridos e uniformes nos seis cães clonados, para comemorar seu ingresso oficial à força.

Ma Jinlei, um oficial de polícia dedicado a técnicas de treinamento de cães, disse que a pesquisa de como transmitir os genes de cães excelentes da polícia foi uma tarefa importante para a base nos últimos anos.

No início de 2019, a base começou a cooperar com as empresas para produzir seis cachorros clonados com base em amostras de pele de dois cães policiais.

Os seis cães nasceram em agosto na base, quatro dos quais são da mesma ninhada. Seu DNA é mais de 99% igual ao dos cães doadores.

Ma disse que os cães clonados têm apenas cerca de quatro meses de idade, mas mostraram as mesmas habilidades que os cães policiais não clonados de seis meses de idade em termos de cor, valentia e agressividade.

A base realizará um treinamento e monitoramento estritos dos seis cães clonados e continuará trabalhando com as empresas na pesquisa da clonagem em série de cães policiais, assim como no estabelecimento de um banco de células de cão para preservar completamente e utilizar cães policiais de primeira categoria.

Ver original em "XINHUA Português" na ligação seguinte:

http://portuguese.xinhuanet.com/2019-11/21/c_138572297.htm

Bebês geneticamente modificados: um dos grandes dilemas da ciência no século XXI

Edição de genes na China
© AP Photo / Mark Schiefelbein

Acredita-se que, dentro de dois anos, poderá ficar disponível uma nova tecnologia que liberará as gerações futuras de muitas das doenças graves que conhecemos hoje, revela uma análise publicada pelo jornal Bioethics. No entanto, os riscos e questionamentos éticos destes experimentos suscitam grandes debates.

Está previsto que, daqui a dois anos, poderá ser possível eliminar graves doenças em bebês geneticamente modificados, revela um novo estudo científico.

O bioeticista Kevin Smith, da Universidade de Abertay Dundee, na Escócia, cuja pesquisa foi publicada pela Bioethics, estima que a manipulação de genes quase não representa riscos e, portanto, poderá ser utilizada em embriões humanos.

Risco do 'design de bebês'

Porém, esta prática continua polêmica devido ao receio de que os genes dos bebês possam ser modificados por outras razões que não as terapêuticas. Por este motivo, muitos cientistas temem que esta prática seja empregada para alterar a aparência e outras características humanas, abrindo as portas para o que será um dos grandes dilemas do nosso século.

Primeiros bebês geneticamente modificados

Há um atrás, um cientista chinês, He Jiankui, fez um experimento, graças ao qual, segundo ele, nasceram dois bebês de um embrião modificado para torna-los resistentes ao HIV, provocando a indignação da comunidade cientifica internacional.

A sociedade moderna é majoritariamente contrária à modificação genética de humanos, segundo Kevin Smith. No entanto, a possibilidade de curar doenças que até agora não têm cura pode levar a humanidade a apoiar estas técnicas.

 

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/ciencia_tecnologia/2019112014796500-bebes-geneticamente-modificados-um-dos-grandes-dilemas-da-ciencia-no-seculo-xxi/

Comprovado cientificamente: luz azul de celulares acelera envelhecimento

Uma série de experimentos realizada em moscas da fruta revelou que a luz emitida por diodos luminosos danifica as células cerebrais e da retina e também acelera o envelhecimento.

Os resultados da pesquisa foram publicados na revista científica Nature.

Os autores do estudo explicam que a luz é um tipo de radiação eletromagnética que geralmente transporta certo volume de energia. A luz vermelha tem pouca energia e é percepcionada facilmente pelo olho humano. No entanto, a luz azul, que possui mais energia, faz que nossos olhos se cansem mais rápido.

A luz azul artificial emitida pelos atuais dispositivos eletrônicos causa o maior dano, já que seu comprimento de onda varia entre 380 e 500 nanômetros.

Para verificar a hipótese, cientistas da Universidade do Estado do Oregon realizaram uma série de experimentos usando moscas da fruta. O organismo deste inseto se parece muito com o dos humanos.

As moscas utilizadas nesta investigação foram dividas em três grupos. O primeiro grupo passou 12 horas debaixo de luz azul e 12 horas no escuro. O segundo grupo permaneceu todo o tempo no escuro e o terceiro foi submetido unicamente aos efeitos da luz azul.

Os resultados do experimento revelaram que os insetos do primeiro grupo tinham uma esperança de vida mais curta. Além disso, as moscas deste grupo sofreram danos no cérebro e na retina. Os cientistas também notaram que os insetos tentaram evitar a exposição à luz azul, ao contrário dos humanos, que estão em contato permanente com ela.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/ciencia_tecnologia/2019111014756128-comprovado-cientificamente-luz-azul-de-celulares-acelera-envelhecimento/

Equívoco cósmico? Novas evidências sugerem hipótese de 'Universo fechado'

Novas descobertas parecem apoiar a hipótese de um "Universo fechado" que tem algumas implicações não convencionais de espaço-tempo.

O novo estudo, conduzido por uma equipe de investigadores do Reino Unido e Itália e publicado na revista Nature Astronomy, parece apoiar a hipótese de que o Universo é curvo e não plano, como a maioria da ciência acredita atualmente.

Isso significa que, se viajar na mesma direção, a rota acabará por trazê-lo de volta ao ponto em que você começou. Esse fenômeno é chamado pelos cientistas de "Universo fechado".

Porém, a maioria dos cientistas hoje apoia a teoria do 'Universo plano', que sugere que o cosmo conhecido se expande em todas as direções, e que viajar em uma direção o levará ao infinito ou ao fim do Universo.

Crise cosmológica

Resultados anteriores da missão da nave espacial Planck parecem apoiar a teoria do Universo plano.

Intitulado "Evidência Planck para um Universo fechado e uma possível crise para a cosmologia", o estudo trata da radiação cósmica de fundo em micro-ondas (CMB) – uma assinatura eletromagnética do Big Bang que deu origem ao Universo no início.

Segundo a pesquisa, a CMB revela significativamente mais "lente gravitacional" do que o esperado, sugerindo que a gravidade está a dobrar as micro-ondas muito mais do que a física atual pode explicar.

"A suposição de um Universo plano poderia [...] mascarar uma crise cosmológica onde propriedades díspares observadas do Universo parecem ser mutuamente inconsistentes", observa a introdução do estudo.

Imagem do Universo
Imagem do Universo

Os autores do estudo, porém, também mantêm certo ceticismo em relação às suas próprias descobertas.

"Não quero dizer que acredito em um Universo fechado […] Eu sou um pouco mais neutro. Eu diria, vamos esperar os dados e o que os novos dados vão dizer. O que eu acredito é que há uma discrepância agora, que temos que ter cuidado e tentar descobrir o que está produzindo essa discrepância", disse à revista Live Science o coautor do estudo Alessandro Melchiorri, da Universidade Sapienza, em Roma.

Medições anteriores sugeriram que o Universo era plano, com uma precisão declarada de 99,8%.

"Medições futuras são necessárias para esclarecer se as discordâncias observadas são devidas a sistemática não detectada, ou a novas físicas, ou simplesmente são uma flutuação estatística", observam os cientistas.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/ciencia_tecnologia/2019110514734463-equivoco-cosmico-novas-evidencias-sugerem-hipotese-de-universo-fechado/

Rota da Seda espacial? China pretende criar zona econômica entre Terra e Lua até 2050

Os dois satélites Gaojing-1 01/02 lançados do cosmódromo de Taiyuan, na província de Shanxi, pelo foguete espacial Longa Marcha-2D
© AP Photo / Xinhua, Li Gang

A China planeja criar uma zona econômica entre a Terra e a Lua em meados deste século, afirmou o diretor da Comissão de Ciência e Tecnologia da Cooperação em Ciência e Tecnologia Aeroespacial do país.

Em um fórum que ocorreu em Pequim nesta semana, o diretor da Comissão de Ciência e Tecnologia da Cooperação em Ciência e Tecnologia Aeroespacial da China, Bao Weimin, afirmou que o país está planejando criar uma zona econômica entre a Terra e o seu satélite.

Bao Weimin, citado pelo jornal The Science and Technology Daily, explicou que Pequim estudaria a viabilidade do potencial econômico do projeto, seu custo e a criação de um sistema de transporte aeroespacial que ofereça voos espaciais regulares da Terra à Lua.

No que se refere aos prazos do projeto, segundo Bao Weimin, Pequim pretende completar a investigação básica das tecnologias até 2030, construir o sistema de transporte até 2040 e estabelecer a zona econômica espacial entre a Terra e a Lua aproximadamente em 2050.

Segundo especialistas não identificados citados pela média chinesa, a zona poderia gerar US$ 10 bilhões por ano.

A exploração do espaço entre a Terra e a Lua e a criação de nova "Rota de Seda" abre muitas portas a Pequim. Segundo especialistas, isso pode ajudar a desenvolver a indústria das viagens espaciais e realizar experimentos na Lua.

Avanços da China na área espacial

Nos últimos anos, a China tem feito grande progresso na área da exploração do espaço. Em janeiro, o país lançou com êxito a sonda Chang'e-4, no âmbito do seu programa de exploração lunar, que se centra no estudo do lado oculto da Lua.

Chang'e 4 na Lua, em 12 de janeiro de 2019
© AP Photo / Administração Espacial Nacional da China / Agência de notícias Xinhua
Chang'e 4 na Lua, em 12 de janeiro de 2019

Em julho, a empresa i-Space se tornou a primeira empresa chinesa privada a lançar um foguete portador para órbita. Além disso, em julho deste ano, cientistas chineses anunciaram ter completado a fabricação do rover que irá explorar Marte em 2020.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/ciencia_tecnologia/2019110214722520-rota-da-seda-espacial-china-pretende-criar-zona-economica-entre-terra-lua-ate-2050/

Equipe liderada por português acha 'planeta improvável' ao redor de estrela gigante vermelha

Uma equipa internacional de cientistas, após estudar duas estrelas gigantes vermelhas, descobriu um "planeta improvável" em torno de uma delas.

O estudo foi liderado por um pesquisador do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço (IA), de Portugal, e publicado recentemente no The Astrophysical Journal.

O instituto português comunicou que a descoberta surge de um estudo sobre duas estrelas gigantes vermelhas — a HD 212771 e a HD 203949 — à volta das quais já se sabia que existiam "exoplanetas".

"A pesquisa estudou duas estrelas gigantes vermelhas à volta das quais se conheciam exoplanetas, e em uma delas encontrou um planeta aparentemente improvável", disse o pesquisador.

Através dos dados recolhidos das duas gigantes vermelhas com a ajuda do satélite TESS da NASA, os pesquisadores conseguiram determinar as propriedades físicas dos dois astros, como a massa, tamanho e idade, mas acabaram por "focar" a sua atenção na estrela HD 203949 devido a seu "estado revolucionário".

Dilema científico

A detecção das oscilações só foi "possível" porque o satélite TESS tem "precisão suficiente para medir as pulsações à superfície das estrelas", ressalta o líder da pesquisa, Tiago Campante, da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP).

"O objetivo era perceber como é que o planeta conseguiu evitar ser engolido pela estrela", refere o instituto.

Um dos coautores do artigo, Vardan Adibekyan, explica que a "solução para este dilema científico" remete para o fato de as estrelas e os seus planetas "evoluírem em conjunto".

"Neste caso particular, o planeta conseguiu evitar ser consumido", complementa Adibekyan, que considera este estudo a "demonstração perfeita" de que a astrofísica estrelar e a exoplanetária estão "ligadas".

Sonda TESS da NASA na frente de um planeta de lava que orbita sua estrela (imagem ilustrativa)
© NASA .
Sonda TESS da NASA na frente de um planeta de lava que orbita sua estrela (imagem ilustrativa)

"A análise da estrela parece sugerir que a estrela é demasiada evoluída para ainda ter um planeta em uma órbita tão próxima, mas a análise exoplanetária mostra que o planeta está lá", salienta.

"Estas estrelas relativamente avançadas na escala evolutiva têm planetas ao redor", proporcionando um "laboratório de testes" ideal para estudar a evolução de sistemas planetários", concluiu Campante.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/ciencia_tecnologia/2019103014707324-pesquisadores-descobrem-planeta-improvavel-em-torno-de-estrela-gigante-vermelha/

Brasileiros lideram ranking de estrangeiros com bolsas de pesquisa do governo português

Universidade de Coimbra, Portugal (foto de arquivo)
© Folhapress / Ricardo Ribeiro

Doutorandos brasileiros são os estrangeiros que mais recebem bolsas da Fundação para Ciência e Tecnologia (FCT), órgão do governo de Portugal que financia pesquisa científica. Das 1.350 bolsas atribuídas pelo concurso de 2019 da FCT, 62 foram para brasileiros.

Os italianos aparecem em segundo lugar no ranking dos estrangeiros, recebendo 26 bolsas. Em seguida estão os iranianos, com dez bolsas, e espanhóis, com oito.

O número de brasileiros aprovados em concursos da FCT vem em crescimento desde 2016, quando apenas três receberam bolsas. A subida coincide com os períodos mais recentes em que os investimentos para pesquisa científica no Brasil sofreram alterações.

"Esse momento que o Brasil está vivendo é bastante delicado. Esses cortes têm o objetivo de sucatear mesmo. Claro que se intensificou nesse governo, mas não é novo. A gente tem acompanhado isso pelo menos nos três últimos anos. Quando Temer assumiu, já tinha a proposta desse contingenciamento. O governo Bolsonaro aumentou ainda mais", analisa Fernanda Campos, doutora em Educação, para a Sputnik Brasil.

Fuga de cérebros

Os últimos cortes do governo brasileiro para as verbas da educação atingem a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), que já perdeu cerca de 12 mil bolsas ao longo de 2019, e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que corre o risco de ver seus 80 mil bolsistas sem recursos financeiros nos próximos meses.

"É bastante preocupante, porque para os projetos de desenvolvimento tecnológico no Brasil, é a universidade que dá conta disso, em várias áreas. As empresas não ocupam esse lugar, também não existem tantas parcerias entre empresas e universidades, então o lugar das cabeças pensantes está ali e estão querendo cortar. É bastante delicado para o momento presente, mas para o futuro também", diz Fernanda Campos.

Com um cenário de incertezas, o exterior acaba se tornando cada vez mais atrativo. A chamada "fuga de cérebros" caracteriza o movimento de saída de pesquisadores do Brasil para outros países, que vão "motivados por uma preocupação, ou uma vontade de continuar esses estudos, e procurando uma segurança no ambiente acadêmico", avalia a docente.

Portugal não esconde que quer atrair e segurar mão de obra qualificada. O número de bolsas oferecidas pela FCT cresceu 87% nos últimos quatro anos e o recurso atual da instituição, no valor de 616 milhões de euros (mais de 2,8 bilhões reais), são 11% maior do que o do ano passado.

"Os concursos da FCT são muito competitivos. Quem tem as bolsas são os melhores. É muito importante criarmos condições para que bons estudantes brasileiros possam encontrar em Portugal também as condições para poderem estudar. Muitos vinham tradicionalmente com financiamento brasileiro, que é mais raro neste momento devido às prioridades do governo, mas nós continuamos abertos", diz à Sputnik Brasil o ministro da Educação português, Tiago Brandão Rodrigues.

O ministro considera que estudantes estrangeiros em geral "são absolutamente fundamentais" para o país.

"Temos que continuar a dar resposta positiva, até para aqueles brasileiros que vêm por curtos períodos, em intercâmbios, ou para fazer parte dos seus doutorados. Continuamos a trabalhar para diversificar nossas ofertas e darmos condições, como já fazemos, até para que quem faz o vestibular no Brasil possa também ter acesso ao ensino superior aqui em Portugal", completa o ministro.

Planejamento

A docente Fernanda Campos acredita que as facilidades de uma mudança para Portugal tornam o país atrativo. "Os vários acordos existentes entre Brasil e Portugal favorecem. Seja em termos de saúde, tem também a língua, e os próprios acordos acadêmicos. Cursos com notas 6 e 7 da CAPES são considerados de excelência, têm reconhecimento de diplomas praticamente automático em Portugal."

Fernanda avalia que o aumento nas políticas de estímulo ao desenvolvimento científico em Portugal nos últimos anos é real, mas recomenda cautela e planejamento.

"Quando voltam para o Brasil, para reconhecer um diploma português lá é mais difícil. Aqui em Portugal existem bem menos universidades e também são bem menos vagas, então quando abre um concurso público é muito concorrido. Há muita gente que tem doutorado e está trabalhando em outras áreas, se virando, porque não consegue emprego. Se eu puder dar um conselho é: viva o ambiente acadêmico, porque isso é o que vai abrir portas que são muito concorridas."

Para concorrer a uma bolsa de doutorado pela FCT, o candidato já precisa morar em Portugal com título de residência emitido pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) e estar matriculado em um curso de doutorado no país. Os concursos costumam abrir entre os meses de fevereiro e março, com resultados publicados logo antes do início do ano letivo nacional, que ocorre em setembro.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2019101814656970-brasileiros-lideram-ranking-de-estrangeiros-com-bolsas-de-pesquisa-do-governo-portugues/

Quinta semana de luta contra a precariedade no LNEC

Os investigadores precários do LNEC têm-se concentrado, todas as quintas-feiras, a exigir a acção imediata do Governo para resolver os problemas decorrentes da sua instabilidade laboral.

Créditos / STFPSSRA

Hoje, às 13h, pela quinta semana consecutiva, os trabalhadores do LNEC concentram-se junto à entrada das instalações, em Lisboa, para exigir ao Governo a abertura de concursos para integração imediata dos trabalhadores precários.

Há 23 meses que os trabalhadores precários do LNEC aguardam a homologação, pelo Governo, dos pareceres positivos dados pela Comissão de Avaliação Bipartida (CAB), no âmbito do Programa de Regularização Extraordinária de Vínculos à Administração Pública (PREVPAP), para se concretizar a sua integração.

São 111 os trabalhadores afectados por esta situação, dos quais 25, que não viram as suas bolsas renovadas, estão sem receber salário. Para o Sindicato dos Trabalhadores em Funções Públicas e Sociais do Sul e Regiões Autónomas (STFPSSRA/CGTP-IN) «não é entendível este bloqueio feito pelo Governo, que afecta a estabilidade profissional e pessoal dos trabalhadores, com graves prejuízos nas suas vidas».

Os trabalhadores têm contado com a presença solidária de Arménio Carlos, secretário-geral da CGTP-IN, e Ana Avoila, coordenadora da Frente Comum, assim como de representantes dos grupos parlamentares do PCP e do BE, e ainda da Associação dos Bolseiros de Investigação Científica (ABIC).

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/trabalho/quinta-semana-de-luta-contra-precariedade-no-lnec

Experimento quântico indica que viagem no tempo é possível

Máquina do tempo (imagem ilustrativa)
© Foto / Pixabay

Utilizando um computador quântico cientistas conseguiram fazer com que a máquina voltasse em uma fração de segundo ao passado mostrando que a viagem no tempo é possível.

Viajar ao passado é um dos maiores sonhos da humanidade há tempo. Sendo assim, diversas teorias de como viajar no tempo foram elaboradas.

No início do século XX os físicos começaram a ver o tempo como mais uma dimensão, o que deu origem ao sistema de coordenadas usado para o estudo da relatividade restrita e geral, o espaço-tempo.

Em 1915, Albert Einstein criou um sistema de equações do campo gravitacional que ligava o espaço-tempo com as propriedades da matéria que o preenchia.

Trinta anos mais tarde, o matemático austro-húngaro Kurt Goedel imaginou a matéria como partículas de poeira em rotação. Para melhor compreensão, Goedel comparou o sistema com o movimento das galáxias.

No sistema, a luz também se movia com certa rotação, o que significaria que os objetos podem se deslocar por trajetórias fechadas não somente no espaço, mas também no tempo. Desta forma, ao viajar pelo Universo o espectador também poderia viajar no tempo.

Fração de segundo

Tendo em vista as teorias passadas, em março deste ano cientistas da Rússia, Estados Unidos e Suíça demonstraram que viagens no tempo são possíveis na prática, porém só no nível quântico.

Antes da experiência, os cientistas mostraram de forma teórica que um elétron dentro de um espaço vazio pode espontaneamente voltar ao passado, ou seja, voltar ao estado em que ele se encontrava antes.

No entanto, tal evento, de acordo com os cálculos, só poderia ocorrer uma vez durante todo o tempo de existência do Universo. Além disso, o elétron só poderia voltar 0,06 nanossegundos atrás.

Querendo ver a situação na prática, os cientistas, com a ajuda de um computador quântico, juntaram dois bits quânticos. Preenchendo-os com um conjunto de números, os cientistas começaram a os manipular para que o nível caótico do sistema crescesse rapidamente.

Quando o caos atingiu certo nível, o gerenciamento dos bits quânticos foi assumido por outro programa, o que provocou uma evolução não para o estado caótico, mas para o ordenado. Ou seja, os bits quânticos voltaram ao passado.

Apesar de em 20% dos casos em que o experimento foi realizado a viagem ao passado não ter dado, isso seria resultado de erros do próprio computador quântico.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/ciencia_tecnologia/2019101114624690-experimento-quantico-indica-que-viagem-no-tempo-e-possivel/

Vencedor do Nobel de Física dá prazo para humanidade descobrir vida extraterrestre

Astrônomo Didier Queloz, vencedor do Prêmio Nobel de Física no dia 8 de outubro de 2019
© AP Photo / Frank Augstein

Discursando em Londres na terça-feira (8), o cientista sublinhou que a química que trouxe a vida à existência é onipresente, por isso é difícil acreditar que estamos sozinhos no Universo.

O astrônomo Didier Queloz e o astrofísico Michel Mayor, ambos suíços, receberam o Prêmio Nobel de Física no dia 8 de outubro "pela descoberta de um exoplaneta orbitando uma estrela semelhante ao Sol". O prêmio foi dividido com o físico canadense-americano James Peebles "pelas descobertas teóricas na cosmologia física".

Segundo Queloz, um equipamento capaz de melhorar a análise da atividade bioquímica em exoplanetas poderia ser desenvolvido em 30 anos, enquanto que daqui a 100 anos há uma boa chance de avistar vida alienígena.

Queloz sublinhou que a detecção de exoplanetas revolucionou a astronomia.

"Abrimos uma nova janela na astrofísica – demonstramos que há outros planetas como os que orbitam nosso Sistema Solar", acentuou Queloz, acrescentando que se trata da "expansão de nossos horizontes, e uma vez que expansão começa, há muitas perguntas a se fazer [...] por que somos como somos?".

Descobertas significativas

O astrônomo suíço Didier Queloz e o astrofísico Michael Mayor descobriram o primeiro planeta extra-solar, 51 Pegasi b, chamado não oficialmente de Bellerophon e mais tarde batizado oficialmente de Dimidium, em 6 de outubro de 1995.

Em 2017, vestígios de água foram detectados na atmosfera do corpo celeste. Desde a descoberta revolucionária, mais de 4.000 exoplanetas foram detectados no Universo.

Queloz e Mayor dividirão o prêmio de 740.000 libras esterlinas (R$ 3,7 milhões) em dezembro, na cerimônia de premiação em Estocolmo.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/ciencia_tecnologia/2019100914614257-vencedor-do-nobel-de-fisica-da-prazo-para-humanidade-descobrir-vida-extraterrestre/

Biomedicina prestes a ser revolucionada? Nova pesquisa analisa manipulação de células sanguíneas

Cientistas no laboratório, imagem referencial
© Fotolia / Bogdanhoda

Em nova pesquisa das células do sangue realizada, cientistas da Universidade Nacional de Pesquisa Nuclear MEPhI (Rússia) e da Universidade de Oulu (Finlândia) obtiveram resultados importantes que podem revolucionar a biomedicina.

Os cientistas acreditam que a interação dos eritrócitos pode ser aproveitada para usar estas células do nosso sangue como um meio de transporte "natural", levando o medicamento para o lugar exato do organismo que dele precisa.

Caso as experiências provem ser exitosas, a nova metódica permitirá colocar medicamentos sobre a superfície de eritrócitos para serem levados imediatamente aos tecidos afetados pela doença. Os resultados da pesquisa estão publicados na revista científica Scientific Reports. 

Este conceito pode contribuir para o desenvolvimento de um novo paradigma na medicina. Porém, os cientistas ainda precisam saber como as nanopartículas presentes nos medicamentos afetam a conduta dos eritrócitos como um fator de possível influência na saúde humana.

Cientistas
© Sputnik / Vitaly Ankov
Cientistas

A pesquisa russa mostrou, pela primeira vez na história, que é possível estudar a conduta de eritrócitos na presença de várias nanopartículas, oferecendo ao pesquisador a possibilidade de manipular as células, intervindo nas suas interações.

"Usamos, entre outros métodos, a pinça ótica de laser (método que em 2018 ganhou prêmio Nobel) e microscópios de contraste de fase e eletrônicos. A pinça ótica de laser permite criar as condições necessárias para a interação das células sanguíneas impossíveis nas condições normais. A combinação dos métodos oferece a possibilidade de medir a influência de certas partículas sobre a interação dos eritrócitos", contou à Sputnik Igor Meglinsky, professor da MEPhI e da Universidade de Oulu.

No futuro próximo, os cientistas planejam não só aperfeiçoar esta tecnologia, como também ampliar o leque das tarefas: pesquisar as propriedades das células sanguíneas na presença de alérgenos e vários nanomateriais (medicamentos, substâncias tóxicas, venenos) com a radiação eletromagnética, com diversas doenças e patologias, na área da imunoterapia e também para a criação do sangue artificial.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/ciencia_tecnologia/2019091614525075-biomedicina-prestes-a-ser-revolucionada-nova-pesquisa-analisa-manipulacao-de-celulas-sanguineas/

A Ciência e os argumentos de autoridade

 
Quando era adolescente adorava ouvir e ler Carl Sagan. As palavras dele sobre Ciência e epistemologia eram-me verdadeiramente inspiradoras. Uma série de outros autores de divulgação científica alinhavam pelo mesmo diapasão e eu gostava: a Ciência recusa "autoridades", o que importa são as "evidências"*, "devemos avaliar os argumentos pelos seus méritos, avaliar as evidências que os suportam, e ignorar a quantidade de gente que a eles adere ou a autoridade dos mesmos" e por aí fora. Para mim, que além de gostar de Ciência também tenho pouco entusiasmo por hierarquias isto era música para os meus ouvidos. Mas não foi só em mim que esta ideia ressoou. Esta ideia entranhou-se na cultura popular de forma rápida e impressionante. A ironia é que os mais destacados defensores desta ideia são todos extraordinários lutadores contra a pseudo-ciência e a desinformação, mas esta ideia fez muitíssimo pela promoção da pseudo-ciência e desinformação. Os próprios nunca aceitariam esta afirmação: se consideramos as evidências com suficiente atenção e reflexão, obviamente vamos acabar por rejeitar a pseudo-ciência. E nisso têm razão. Na verdade esta epistemologia seria a melhor epistemologia possível num Universo em que cada indivíduo tivesse uma capacidade cognitiva tremenda e uma quantidade quase ilimitada de tempo disponível para analisar todas as evidências. Se nos pudéssemos tornar especialistas de tudo, poderíamos avaliar todos os argumentos e afirmações científicas pelos seus méritos. Saberíamos o suficiente sobre Nutrição, Medicina, Física, Economia, História, Direito, Ciência Política, Química, Biologia, Matemática, Ciência da Computação, Antropologia, Psicologia, Sociologia, Engenharias várias e todas as demais ciências teóricas e aplicadas, para podermos compreender a literatura científica especializada e compreendermos se aquilo que é apresentado como "evidência" é realmente adequada ou nem por isso. E ainda é a melhor epistemologia possível caso nos tenhamos especializado (formal ou informalmente) num campo do saber. Quem faz investigação numa área tem de ser capaz de avaliar as afirmações que são feitas nesse campo sem recurso a argumentos de autoridade ou de popularidade. Se faz investigação, se é um especialista, tem de saber procurar e avaliar as evidências, e são essas apenas que importam. Mas geralmente nós somos confrontados com afirmações científicas em campos nos quais não nos especializámos. E muitas vezes não podemos simplesmente dizer "não sei", porque somos forçados a tomar uma decisão que tem implícita a aceitação ou recusa de uma determinada afirmação científica. Por exemplo, se leio num jornal que "a couve lombarda causa cegueira" (é um exemplo ilustrativo deliberadamente disparatado) eu posso decidir continuar a comer couve lombarda (tomando a afirmação como verdadeira) ou parar de comer couve lombarda (tomando a afirmação como falsa), mas a minha falta de capacidade para ir procurar e avaliar as evidências não me permite evitar esta decisão.
Um exemplo muito importante é a questão do voto. Os partidos políticos justificam as suas propostas com afirmações de índole económica, afirmações de índole histórica, de índole legal, índole ética e filosófica mas também de índole psicológica, climatérica, agronómica, etc...
Não é possível sermos especialistas em todos os campos do saber necessários para poder avaliar a veracidade das afirmações que os políticos fazem. Como lidar com este problema? O facto de não podermos ser especialistas em tudo tem uma consequência: vamos cometer erros. Vamos ter uma percepção da realidade que é inferior à que teríamos se avaliássemos todas as evidências disponíveis, reflectindo adequadamente sobre o significado e implicações das mesmas.
Mas como minimizar estes erros?
Usando heurísticas. E é aqui que entra a legitimidade do argumento de autoridade.
Se não sou especialista numa área, eu uso uma heurística: confio no consenso entre especialistas. Quando a generalidade dos especialistas estão de acordo num ponto, eu presumo que as evidências lhes dão razão, pois não tenho o tempo nem a capacidade de as avaliar. Confio que a discussão científica e a investigação até ao momento terá conduzido a maioria dos especialistas a tirarem a conclusão que melhor se alinha com as evidências disponíveis.
Se um criacionista ou um negacionista do holocausto me desafia com "evidências" eu sugiro que as apresentem num processo de peer-review e que quando convencerem os especialistas eu também serei convencido. Quando me dizem que se trata de um sistema conspiratório, eu já ouvi o que tinha a ouvir.
Dizem-me que os especialistas também estavam errados em duvidar do Galileu (é sempre este o exemplo apresentado), e eu admito que terão razão: esta heurística também pode falhar de vez em quando. Mas quando penso na quantidade de ideias falsas e disparatadas que os especialistas rejeitaram e que os tais especialistas eventualmente acabaram por aceitar as ideias de Galileu, sei que sem me tornar especialista na área não há nenhum processo tão certeiro como este.
E se a generalidade dos cientistas acredita numa determinada afirmação relativa ao seu campo de especialização, apresentar essa facto em suporte dessa afirmação - o argumento de autoridade - não se trata de uma falácia mas sim de um argumento adequado. Note-se que poderão existir algumas excepções a esta heurística. Quando os especialistas da matéria em causa, no seu todo, têm fortes interesses pessoais na afirmação em causa, será mais legítimo duvidar da afirmação ou exigir outros fundamentos. Dito isto, não podemos encontrar relações suficientemente indirectas ou absurdas (os climatólogos têm interesse em empolar os perigos do aquecimento global para receberem mais dinheiro para investigação) ao ponto de alinhar com o pós-modernismo mais extremista. Esta forma de funcionar permite "navegar" melhor pelos mares desconhecidos que somos forçados a navegar por necessidades pessoais e políticas.
A Ciência (principalmente as ciências naturais, graças a inúmeros avanços tecnológicos impressionantes e não só) granjeou um tal apreço e credibilidade que muitas pessoas acabam por usar esta heurística de forma intuitiva.
Quem não o faz, geralmente acredita simplesmente no que quer. Se os cientistas estão de acordo com o seu ponto de vista apresenta essa concordância como justificação adequada; se os cientistas discordam, então ai o Galileu e a Ciência não se faz por consenso. É aqui que chego à razão pela qual, ironicamente, a popularidade da ideia de que devemos recusar os argumentos de autoridade acabou por ajudar tanto a promover a pseudo-ciência. É que quando as pessoas avaliam as evidências para apurar algo, só sendo especialistas na área é que estão efectivamente a avaliar todas as evidências sabendo contextualizá-las na investigação que foi feita. Quando não são, podem ver um "documentário" no canal "Discovery" sobre como existem Sereias, documentário esse que apresenta "evidências" (o mesmo pode ser dito sobre os "documentários" a dizer que o 11 de Setembro foi da responsabilidade do governos dos EUA, ou que os Aliens têm raptado gente no Alabama, ou que o aquecimento global é uma treta, e por aí fora...) e, na ausência de tempo e capacidade de se inteirarem de todas as evidências disponíveis sobre o assunto, acreditam que as "evidências" os levaram a concluir isto.
Note-se que  a generalidade das pessoas com quem os proponentes destas afirmações contactam conhece ainda menos "evidências" (não viu os "documentários") mas recusa acreditar nestes disparates com base em argumentos de autoridade (por exemplo, eu eu não vou perder o meu tempo à procura das evidências que demonstram que as "evidências" de que há sereias são deficientes, porque não tenho vida para isso). Assim, os proponentes destas afirmações, com base na ideia de que são os próprios cientistas que nos dizem para rejeitar argumentos de autoridade, ganham acrescida convicção e investem-se mais ainda nestas crenças e na sua promoção. A ironia é que, com base nesta ideia de utilizar heurísticas, eu tendo a ter muita confiança nas afirmações de muitas das pessoas que ainda hoje promovem a recusa em aceitar argumentos de autoridade. Um exemplo ilustrativo é o youtuber potholer54 que faz um excelente trabalho de divulgação científica. Ele apela constantemente a que confirmemos por nós próprios tudo o que ele diz, facilitando o trabalho com links para todos os artigos científicos a que se refere ou outras referências que faça. Tal como Sagan e outros, a epistemologia apresentada é a da recusa total de argumentos de autoridade. Mas por muito que aprecie todo o seu conteúdo, a forma como expõe e como descreve a literatura científica, acredito que está na hora de começarmos a pensar numa epistemologia diferente, adequada a uma população que tem de formar crenças sobre a verdade ou falsidade de afirmações relativamente às quais não tem tempo nem disponibilidade para avaliar as evidências. Temos de saber quando e como usar argumentos de autoridade, compreendendo que há contextos nos quais são válidos e adequados. Post também publicado no Espaço Ágora. * - a tradução mais natural de "evidences" seria "provas", mas "provas" em português está associado a indícios tão fortes que se tornam quase definitivos, enquanto que o termo anglicizado "evidências" é mais fácil de associar a todos os indícios resultantes da observação que sejam relevantes para o que se pretende apurar.
Este uso do termo tornou-se tão comum que já consta do dicionário, logo a seguir ao seu significado original. 

Ver original em 'Esquerda Republicana' na seguinte ligação:

http://esquerda-republicana.blogspot.com/2019/09/a-ciencia-e-os-argumentos-de-autoridade.html

Morreu Immanuel Wallerstein

 
 
“O tempo em que podemos mudar o mundo”
 
Immanuel Wallerstein, que morreu ontem, foi o grande pensador dos sistemas-mundo. Examinava o declínio do capitalismo, mas frisava: falta saber o que irá substituí-lo; a transição não será apocalíptica e dependerá das escolhas de agora
 

 

************************************ 

Wallerstein em Outras Palavras
Desde seu lançamento, em 2010, Outras Palavras traduziu e publicou dezenas de textos de Immanuel Wallerstein. Neles, o sociólogo trata de temas centrais da conjuntura global e também de sua visão particular sobre a crise do capitalismo e a indefinição do futuro. Um índice destes artigos pode ser encontrado aqui.
 

************************************

Entrevista de Sophie Shevarnadze
 
(Publicada originalmente em 14/10/2011)
 
A entrevista durou pouco mais de onze minutos, mas alimentará horas de debates em todo o mundo e certamente ajudará a enxergar melhor o período tormentoso que vivemos. Aos 81 anos, o sociólogo estadunidense Immanuel Wallerstein, acredita que o capitalismo chegou ao fim da linha: já não pode mais sobreviver como sistema. Mas – e aqui começam as provocações – o que surgirá em seu lugar pode ser melhor (mais igualitário e democrático) ou pior (mais polarizado e explorador) do que temos hoje em dia.
 
Estamos, pensa este professor da Universidade de Yale e personagem assíduo dos Fóruns Sociais Mundiais, em meio a uma “bifurcação”, um momento histórico único nos últimos 500 anos.Ao contrário do que pensava Karl Marx, o sistema não sucumbirá num ato heróico. Desabará sobre suas próprias contradições. Mas atenção: diferente de certos críticos do filósofo alemão, Wallerstein não está sugerindo que as ações humanas são irrelevantes.
 
Ao contrário: para ele, vivemos o momento preciso em que as ações coletivas, e mesmo individuais, podem causar impactos decisivos sobre o destino comum da humanidade e do planeta. Ou seja, nossas escolhas realmente importam. “Quando o sistema está estável, é relativamente determinista. Mas, quando passa por crise estrutural, o livre-arbítrio torna-se importante.”
 
É no emblemático 1968, referência e inspiração de tantas iniciativas contemporâneas, que Wallerstein situa o início da bifurcação. Lá teria se quebrado “a ilusão liberal que governava o sistema-mundo”. Abertura de um período em que o sistema hegemônico começa a declinar e o futuro abre-se a rumos muito distintos, as revoltas daquele ano seriam, na opinião do sociólogo, o fato mais potente do século passado – superiores, por exemplo, à revolução soviética de 1917 ou a 1945, quando os EUA emergiram com grande poder mundial.
 
As declarações foram colhidas no dia 4 de outubro pela jornalista Sophie Shevardnadze, que conduz o programa Interview na emissora de televisão russa RT (abaixo). A transcrição e a tradução para o português são iniciativas de “Outras Palavras”.
 
Há exatamente dois anos, você disse ao RT que o colapso real da economia ainda demoraria alguns anos. Esse colapso está acontecendo agora?
 
Não, ainda vai demorar um ano ou dois, mas está claro que essa quebra está chegando.
 
Quem está em maiores apuros: Os Estados Unidos, a União Europeia ou o mundo todo?
 
Na verdade, o mundo todo vive problemas. Os Estados Unidos e União Europeia, claramente. Mas também acredito que os chamados países emergentes, ou em desenvolvimento – Brasil, Índia, China – também enfrentarão dificuldades. Não vejo ninguém em situação tranquila.
 
Você está dizendo que o sistema financeiro está claramente quebrado. O que há de errado com o capitalismo contemporâneo?
 
Essa é uma história muito longa. Na minha visão, o capitalismo chegou ao fim da linha e já não pode sobreviver como sistema. A crise estrutural que atravessamos começou há bastante tempo. Segundo meu ponto de vista, por volta dos anos 1970 – e ainda vai durar mais uns vinte, trinta ou quarenta anos. Não é uma crise de um ano, ou de curta duração: é o grande desabamento de um sistema. Estamos num momento de transição. Na verdade, na luta política que acontece no mundo — que a maioria das pessoas se recusa a reconhecer — não está em questão se o capitalismo sobreviverá ou não, mas o que irá sucedê-lo. E é claro: podem existir duas pontos de vista extremamente diferentes sobre o que deve tomar o lugar do capitalismo.
 
Qual a sua visão?
 
Eu gostaria de um sistema relativamente mais democrático, mais relativamente igualitário e moral. Essa é uma visão, nós nunca tivemos isso na história do mundo – mas é possível. A outra visão é de um sistema desigual, polarizado e explorador. O capitalismo já é assim, mas pode advir um sistema muito pior que ele. É como vejo a luta política que vivemos. Tecnicamente, significa é uma bifurcação de um sistema.
 
Então, a bifurcação do sistema capitalista está diretamente ligada aos caos econômico?
 
Sim, as raízes da crise são, de muitas maneiras, a incapacidade de reproduzir o princípio básico do capitalismo, que é a acumulação sistemática de capital. Esse é o ponto central do capitalismo como um sistema, e funcionou perfeitamente bem por 500 anos. Foi um sistema muito bem sucedido no que se propõe a fazer. Mas se desfez, como acontece com todos os sistemas.
 
Esses tremores econômicos, políticos e sociais são perigosos? Quais são os prós e contras?
Se você pergunta se os tremores são perigosos para você e para mim, então a resposta é sim, eles são extremamente perigosos para nós. Na verdade, num dos livros que escrevi, chamei-os de “inferno na terra”. É um período no qual quase tudo é relativamente imprevisível a curto prazo – e as pessoas não podem conviver com o imprevisível a curto prazo. Podemos nos ajustar ao imprevisível no longo prazo, mas não com a incerteza sobre o que vai acontecer no dia seguinte ou no ano seguinte. Você não sabe o que fazer, e é basicamente o que estamos vendo no mundo da economia hoje. É uma paralisia, pois ninguém está investindo, já que ninguém sabe se daqui a um ano ou dois vai ter esse dinheiro de volta. Quem não tem certeza de que em três anos vai receber seu dinheiro, não investe – mas não investir torna a situação ainda pior. As pessoas não sentem que têm muitas opções, e estão certas, as opções são escassas.
 
Então, estamos nesse processo de abalos, e não existem prós ou contras, não temos opção, a não ser estar nesse processo. Você vê uma saída?
 
Sim! O que acontece numa bifurcação é que, em algum momento, pendemos para um dos lados, e voltamos a uma situação relativamente estável. Quando a crise acabar, estaremos em um novo sistema, que não sabemos qual será. É uma situação muito otimista no sentido de que, na situação em que nos encontramos, o que eu e você fizermos realmente importa. Isso não acontece quando vivemos num sistema que funciona perfeitamente bem. Nesse caso, investimos uma quantidade imensa de energia e, no fim, tudo volta a ser o que era antes. Um pequeno exemplo. Estamos na Rússia. Aqui aconteceu uma coisa chamada Revolução Russa, em 1917. Foi um enorme esforço social, um número incrível de pessoas colocou muita energia nisso. Fizeram coisas incríveis, mas no final, onde está a Rússia, em relação ao lugar que ocupava em 1917? Em muitos aspectos, está de volta ao mesmo lugar, ou mudou muito pouco. A mesma coisa poderia ser dita sobre a Revolução Francesa.
 
O que isso diz sobre a importância das escolhas pessoais?
 
A situação muda quando você está em uma crise estrutural. Se, normalmente, muito esforço se traduz em pouca mudança, nessas situações raras um pequeno esforço traz um conjunto enorme de mudanças – porque o sistema, agora, está muito instável e volátil. Qualquer esforço leva a uma ou outra direção. Às vezes, digo que essa é a “historização” da velha distinção filosófica entre determinismo e livre-arbítrio. Quando o sistema está relativamente estável, é relativamente determinista, com pouco espaço para o livre-arbítrio. Mas, quando está instável, passando por uma crise estrutural, o livre-arbítrio torna-se importante. As ações de cada um realmente importam, de uma maneira que não se viu nos últimos 500 anos. Esse é meu argumento básico.
 
Você sempre apontou Karl Marx como uma de suas maiores influências. Você acredita que ele ainda seja tão relevante no século 21?
 
Bem, Karl Marx foi um grande pensador no século 19. Ele teve todas as virtudes, com suas ideias e percepções, e todas as limitações, por ser um homem do século 19. Uma de suas grandes limitações é que ele era um economista clássico demais, e era determinista demais. Ele viu que os sistemas tinham um fim, mas achou que esse fim se dava como resultado de um processo de revolução. Eu estou sugerindo que o fim é reflexo de contradições internas. Todos somos prisioneiros de nosso tempo, disso não há dúvidas. Marx foi um prisioneiro do fato de ter sido um pensador do século 19; eu sou prisioneiro do fato de ser um pensador do século 20.
 
Do século 21, agora.
 
É, mas eu nasci em 1930, eu vivi 70 anos no século 20, eu sinto que sou um produto do século 20. Isso provavelmente se revela como limitação no meu próprio pensamento.
Quanto – e de que maneiras – esses dois séculos se diferem? Eles são realmente tão diferentes?
 
Eu acredito que sim. Acredito que o ponto de virada deu-se por volta de 1970. Primeiro, pela revolução mundial de 1968, que não foi um evento sem importância. Na verdade, eu o considero o evento mais significantes do século 20. Mais importante que a Revolução Russa e mais importante que os Estados Unidos terem se tornado o poder hegemônico, em 1945. Porque 1968 quebrou a ilusão liberal que governava o sistema mundial e anunciou a bifurcação que viria. Vivemos, desde então, na esteira de 1968, em todo o mundo.
 
Você disse que vivemos a retomada de 68 desde que a revolução aconteceu. As pessoas às vezes dizem que o mundo ficou mais valente nas últimas duas décadas. O mundo ficou mais violento?
 
Eu acho que as pessoas sentem um desconforto, embora ele talvez não corresponda à realidade. Não há dúvidas de que as pessoas estavam relativamente tranquilas quanto à violência em 1950 ou 1960. Hoje, elas têm medo e, em muitos sentidos, têm o direito de sentir medo.
 
Você acredita que, com todo o progresso tecnológico, e com o fato de gostarmos de pensar que somos mais civilizados, não haverá mais guerras? O que isso diz sobre a natureza humana?
 
Significa que as pessoas estão prontas para serem violentas em muitas circunstâncias. Somos mais civilizados? Eu não sei. Esse é um conceito dúbio, primeiro porque o civilizado causa mais problemas que o não civilizado; os civilizados tentam destruir os bárbaros, não são os bárbaros que tentam destruir os civilizados. Os civilizados definem os bárbaros: os outros são bárbaros; nós, os civilizados.
 
É isso que vemos hoje? O Ocidente tentando ensinar os bárbaros de todo o mundo?
 
É o que vemos há 500 anos.
 
O vídeo da entrevista
 
 
 
 
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/09/morreu-immanuel-wallerstein.html

Na morte de Wallerstein

Durante o meu curso de História vivi algum tempo um equívoco. Como quase todos os teóricos recomendados já estavam mortos ou em vias disso, quando numa aula de história da expansão colonial – muito poucos tinham então a desfaçatez de falar de «descobrimentos» – um certo professor falou de Immanuel Wallerstein (1930-2019) e do sistema de economia-mundo, na minha ignorância dei-o por falecido. Afinal, o sociólogo norte-americano nem 50 anos tinha, e eu estava bem longe de imaginar que três décadas depois ainda viria a assistir a uma conferência sua.

A crítica do capitalismo global e o papel crucial que desde a juventude Wallerstein atribuiu aos movimentos anti-sistémicos, foram entretanto projetando o seu reconhecimento bem para lá do mundo académico, tornando-o uma figura nuclear do movimento anti-globalização e um pensador central para compreender as contradições e dinâmicas do mundo contemporâneo. Desapareceu este 31 de agosto aos 88, mas a sua reflexão continuará a municiar o quadro interpretativo para entender e transformar este lugar do universo que nos cabe.

 
 

Ver original em 'A Terceira Noite' na seguinte ligação:

http://www.aterceiranoite.org/2019/09/01/na-morte-de-wallerstein/

Quanta vida poderemos esperar?

(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 10/08/2019)

Viriato Soromenho Marques

Nunca tivemos tanto dados, mas escasseia a capacidade de os pensar articulada e sistemicamente, produzindo conhecimento relevante.

Um bom exemplo disso confirma-se no confronto entre duas séries temporais, distintas mas associadas, que se prendem, respetivamente, com a cronologia da Terra e a longevidade humana. A Terra foi até ao século XVIII, dominantemente, considerada como um planeta jovem. O diretor da classe de Matemáticas da Academia de Ciências de Berlim, o francês Alphonse de Vignolles (1649-1744), depois de uma vida de pesquisa matemática em torno dos livros do Antigo Testamento, calculava que, no máximo, desde o momento do Genesis (que formara a Terra e o resto o universo) não teriam decorrido mais de 6984 anos (a sua obra Cronologia da História Santa foi publicada em 1738). Contudo, seja com o conde de Buffon (1707-1788), seja com Kant (1724-1804), a Terra rapidamente ganhou um imenso passado. Buffon, modestamente, não arriscou, por escrito, mais de 74 000 anos. Kant, na sua obra Teoria do Céu (1755), na altura pouco influente, rompe com a clausura bíblica falando de uma Terra como parte de um cosmos potencialmente infinito no espaço e no tempo.

Na entrada do século XX, a Terra tinha já um longo passado (hoje estimado em 4,54 mil milhões de anos), e os humanos uma breve esperança de vida (pouco mais de 40 anos na Grã-Bretanha vitoriana). O futuro, por seu turno, parecia prenhe de esperanças tanto para o planeta como para a humanidade. No século XXI, pelo contrário, ocorre uma reviravolta paradoxal. A Terra aparece envolta num processo de alterações ontológicas aceleradas, induzidas pela ação tecnológica da civilização humana, que levaram mesmo ao atual debate sobre a mudança da nossa época geológica da designação de Holoceno (iniciada há 12 000 anos, no final da última glaciação) para Antropoceno, que segundo o nobel da Química Paul Crutzen, um dos seus proponentes, teria sido iniciada com a Revolução Industrial. O planeta não se encontra fisicamente ameaçado, pois continuará a rodar no espaço em torno do Sol ainda por muitas centenas de milhões de anos. O que corre risco de colapso irreversível nas próximas décadas são as miraculosas condições biofísicas do Sistema Terra que suportam a exuberância de vida no planeta. Condições de que a humanidade moderna se apoderou de modo predatório, irresponsável e potencialmente suicidário. Defender a tese de que o aumento da esperança de vida da espécie humana pode atingir mil anos, como o faz, entre outros, o biogerontologista Aubrey de Grey – autor do bestseller Acabar com o Envelhecimento (2007) – é sinal da imensa perturbação moral do nosso tempo, que não poupa sequer o mundo académico.

A vida dos indivíduos humanos não pode prolongar-se indefinidamente num planeta em que o atual modelo de crescimento económico destrói o software que permitiu e protege toda a vida, incluindo a da espécie humana. Quem não percebe isto envergonha não só a ciência como ofende o simples senso comum.

Professor universitário

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Cientistas resolvem um dos principais paradoxos do surgimento da vida humana

Microscópio (imagem referencial)
© Fotolia / Photokanok_1984

As células possuem pontos brilhantes que afinal são a chave para a compreensão da origem da vida.

A primeira cientista a reparar nos pontos brilhantes foi Caitlin Cornell, que contou seu achado a Sarah Keller, também cientista química da Universidade Washington. As investigadoras ficaram muito impressionadas com a descoberta.

Estrutura da célula

As células de quase todos os seres vivos são compostas, apesar das suas infinitas variações, por três elementos fundamentais.

O ADN e ARN – são moléculas de ácidos nucleicos que codificam a informação, sendo responsáveis pela transmissão hereditária.

As proteínas – são uma grande variedade de moléculas que desempenham um papel fundamental para a vida e que formam os tecidos do corpo humano.

Tudo isso fica encapsulado nas membranas, sendo esta a primeira linha de defesa das células.

É precisamente o processo de formação das membranas que tem dado a pensar aos cientistas por muitos anos.

O paradoxo

As primeiras membranas celulares eram compostas por ácidos gordos. O problema é que, conforme é estimado, a vida surgiu nos oceanos salgados e certos íons que compõem o sal desestabilizam catastroficamente as esferas compostas por ácidos gordos. Isso representa um grande problema para a formação da vida, já que o ARN nos núcleos necessita destes íons.

A pergunta que se coloca é como a vida poderia ter surgido no mar, quando seus elementos essenciais são os mesmos que destroem suas defesas? Caitlin Cornell e Sarah Keller acabam de encontrar a resposta para este paradoxo.

Em sua investigação recente, elas demonstraram que as esferas são capazes de suportar tanto os íons do sal como do magnésio, desde que estejam na presença de aminoácidos, moléculas que são os blocos de construção das proteínas.

Os pontos brilhantes que Cornell viu através de seu microscópio eram misturas de aminoácidos e ácidos gordos, que mantiveram sua forma mesmo na presença de sais.

Isto significa que dois dos componentes essenciais da vida, a membrana de uma protocélula e suas proteínas, oferecem condições necessárias para que uma e outra existam. Ao se juntarem aos ácidos gordos, os aminoácidos lhes proporcionaram estabilidade. Por sua vez, os ácidos gordos concentram os aminoácidos, forçando-os a fundir-se em proteínas.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/ciencia_tecnologia/2019081414386713-cientistas-resolvem-um-dos-principais-paradoxos-do-surgimento-da-vida-humana/

Buraco negro supermassivo pode 'engolir' todo o Universo, alerta astrônomo

Representação artística fornecida pela NASA mostra estrela sendo engolida por buraco negro
© AP Photo / NASA/Observatório de raios-X Chandra/M.Weiss via AP

A recente descoberta de um buraco negro supermassivo deu aos astrônomos uma nova perspectiva quanto à força potencial destes objetos celestes.

O astrônomo David Whitehouse afirma que nosso Universo poderia ser engolido por um gigante buraco negro. Em uma entrevista, ele explicou que um buraco negro supermassivo recentemente descoberto pelos astrônomos na América do Sul forneceu novas perspectivas sobre o quão grandes estes objetos podem ser.

"Começamos a nos dar conta daquilo que achávamos antes que havia um limite quanto ao tamanho dos buracos negros no centro da galáxia, porque eles conseguem engolir muitas estrelas. Os buracos negros aumentam em tamanho tragando a matéria, gás, estrelas e pó", Este [buraco negro recém-descoberto] é enorme, então talvez possam existir buracos negros ainda maiores, disse o astrônomo.

Segundo ele, várias teorias físicas especulam que, a um determinado momento no futuro, um buraco negro pode se tornar suficientemente grande para absorver cada vez mais estrelas e eventualmente engolir o Universo.

O PSO J352-15 - buraco negro (quasar) anormalmente brilhante
O PSO J352-15 - buraco negro (quasar) anormalmente brilhante

"Existem teorias que nos indicam que, possivelmente, em um futuro muito remoto, tudo irá acabar em um buraco negro, todo o Universo", opinou Whitehouse.

O cientista afirma que é importante investigar os buracos negros, porque suas propriedades físicas únicas proporcionam aos cientistas uma "perspectiva diferente sobre o funcionamento do Universo e aquilo que ele é capaz de criar".

"Os buracos negros têm diferentes tipos de formas e tamanhos. Existem buracos negros do tamanho de um átomo, por outro lado, no centro de galáxias, há buracos negros gigantescos que excedem o tamanho do Sol em bilhões de vezes, são objetos fascinantes", salientou o Dr. Whitehouse.

Os buracos negros são tão densos que criam uma força gravitacional capaz de capturar a luz. Nada lhes pode escapar. No entanto, essa incrível massa também deforma o tempo e o espaço nas suas imediações, fazendo com que o tempo decorra de forma totalmente diferente do que decorre para um observador que esteja de fora.

De acordo com equações teoréticas, somente as estrelas muito maiores que o nosso Sol podem formar um buraco negro.

No início deste mês, a NASA informou que, durante uma pesquisa do quasar PSO167-13 e de nove outros quasares com a ajuda do telescópio Chandra, os astrônomos poderiam ter detectado um buraco negro gigantesco e muito distante.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/ciencia_tecnologia/2019081414385502-buraco-negro-supermassivo-pode-engolir-todo-o-universo-alerta-astronomo/

Bolseiros: comunidade científica unida no protesto contra a precariedade

Largas dezenas de investigadores protestaram esta terça-feira, frente ao Centro de Congressos de Lisboa, tendo denunciado os problemas vividos no sector.

Largas dezenas de investigadores reuniram-se em protesto contra a precariedade na CiênciaCréditos / ABIC

O encontro nacional «Ciência 2019», organizado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), que decorre até hoje, contou no primeiro dia (segunda-feira) com as intervenções do ministro da Ciência, Manuel Heitor, e do primeiro-ministro, António Costa, que admitiram que «o trabalho não está concluído» e que o Programa de Regularização Extraordinária de Vínculos à Administração Pública (PREVPAP) foi insuficiente, sendo necessário «criar novos mecanismos».

«Uma mão cheia de nada»

Em declarações ao AbrilAbril, Nuno Peixinho, presidente da Associação de Bolseiros de Investigação Científica (ABIC), valorizou o protesto e as intervenções empenhadas dos participantes. «Chegamos ao fim da legislatura com uma mão cheia de nada», frisou. Sobre as declarações proferidas segunda-feira pelos ministros, referiu que «o espanto foi genuíno quando o ministro da Ciência disse que o PREVPAP não funcionou porque não estava previsto para as carreiras especiais, o que não é verdade. Está escrito na lei que era para aplicar às carreiras gerais e especiais».

Para o investigador, tudo não passa de uma questão de vontade política. «Se quisessem resolver a situação dos bolseiros, mesmo contra a vontade dos representantes das instituições universitárias, seriam capazes de garantir a aplicação da lei», disse. Os casos mais insólitos passam pela própria universidade não reconhecer que o requerente tenha estado a trabalhar na instituição. «É um processo totalmente individualizado, e está nas mãos do bolseiro, ele é que tem que dar provas de que existe e o empregador – a universidade – pode não reconhecer que essa pessoa está ligada à faculdade».

Considera que os investigadores começam a ganhar uma percepção mais sólida das incongruências deste processo, apesar de muitos já terem feito os requerimentos e de já terem chegado algumas notificações. «No ano passado os concursos da norma transitória não estavam abertos e por isso a tensão era muito grande. O CRUP [Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas] fez tudo para não iniciar o processo, os reitores não cumpriam a lei mas não havia como os sancionar», frisou.

Ouviram-se intervenções de vários investigadores sobre a situação vivida no sector, Centro de Congressos de Lisboa, 9 de Julho de 2019 Créditos

Este ano clarificaram-se os termos em que se coloca o diferendo. «O ministro confunde a existência de um contrato com o fim da precariedade. Contratos a termo não garantem uma progressão na carreira e, enquanto não existir uma carreira de investigação, não existe estabilidade», afirmou. Este continua a ser, segundo o dirigente, o maior problema dos investigadores. Referiu ainda a situação dos bolseiros de doutoramento, que «não são vistos como trabalhadores, não têm contrato de trabalho com os deveres e direitos que isso implica, mas são obrigados à exclusividade». Ou seja, sem contribuições não têm protecção, mas são impedidos de trabalhar noutra entidade com um contrato.

«Uma clara tentativa de afastar quem pede a regularização»

Já Sara Vargas, até agora bolseira na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL), ficou de fora do PREVPAP. Falou-nos da sua situação, que considera paradoxal. «Logo que fiz o requerimento, o director do centro de investigação indicou-me que não o deveria ter feito sem o ter consultado», disse. Acrescentou que muitas direcções dos centros não têm interesse em contratar e que as pessoas são pressionadas a não iniciar os processos com vista ao estabelecimento de um vínculo permanente.

«Comecei a trabalhar para substituir uma funcionária em todas as suas funções e outras, eu era necessária ao funcionamento diário do centro, o que obriga a um vínculo efectivo», afirmou. Mas, ainda assim, o seu contrato não foi renovado e o centro voltou a abrir um concurso de bolsa para as mesmas funções. Para Sara, foi uma «clara tentativa de afastar do posto a pessoa que tinha pedido a regularização», o que garante que aconteceu noutras instituições.

«Muitos anos a trabalhar para o progresso da Ciência, mas não somos trabalhadores»

No protesto encontrámos também Joana Freitas, bolseira de doutoramento na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH-UNL), que nos falou da perspectiva dos jovens investigadores. «O que fazer a seguir a anos com bolsas sucessivas? Se não somos contratados, ficamos fora das instituições. Estivemos muitos anos a trabalhar mas isso não é tido em conta», disse, acrescentando que «o acesso à investigação é abrangente mas o problema é continuar, ser integrado e progredir».

Impressiona-a a situação em que vivem muitos colegas: «Há pessoas que são bolseiros há 20 anos à espera de que a faculdade abra um concurso para terem um contrato, o que é raro. Prolonga-se o doutoramento porque se trabalha ao mesmo tempo fora da faculdade.»

Não tem dúvidas de que o trabalho que desenvolvem, para além de ter valor, é utilizado pelas instituições. «Estamos a produzir valores que são absorvidos pelas instituições, a Ciência evolui, estamos a trabalhar para isso, mas não somos considerados trabalhadores, e não temos qualquer protecção laboral», criticou.

Os investigadores estarão hoje nas bancadas da Assembleia da República a assistir ao debate do Estado da Nação.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/trabalho/bolseiros-comunidade-cientifica-unida-no-protesto-contra-precariedade

«A precariedade na Ciência não se combate com contratos a termo»

Os bolseiros anunciaram um protesto para o encontro nacional Ciência 2019, evento organizado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, que decorre até quarta-feira, no Centro de Congressos de Lisboa.

As acções de contestação têm o lema «Pelo fim da precariedade laboral e pela dignificação das carreiras científicas».Créditos

O encontro nacional Ciência 2019, iniciativa onde os cientistas portugueses são desafiados a falar e a mostrar o que fazem nos laboratórios, começa na segunda-feira com protestos dos investigadores precários.

A Associação de Bolseiros de Investigação Científica (ABIC) promove, a par dos sindicatos, as acções de contestação sob o lema «Pelo fim da precariedade laboral e pela dignificação das carreiras científicas».

As acções visam reclamar a implementação da carreira de investigação científica, a substituição de bolsas por contratos efectivos de trabalho, a regularização dos vínculos laborais precários e o reforço do investimento público na Ciência, até ao valor prometido de 3% do PIB.

Em declarações ao AbrilAbril, Bárbara Carvalho, presidente da ABIC, disse que esta acção vem no seguimento dos protestos dinamizados no encontro da Ciência de 2018. «O que mais espanta é que tudo se mantém igual e as reivindicações são praticamente as mesmas do ano passado», afirmou a dirigente. 

«As taxas de aprovação do PREVPAV são baixíssimas, o que prova que as declarações do ministro sobre o pleno emprego não correspondem à realidade», acrescenta. A dirigente considera que «o entendimento do Ministério é de que a precariedade se combate com um contrato a termo, logo, temos entendimentos diferentes sobre o combate à precariedade na Ciência».

Durante as intervenções, na sessão inaugural, do primeiro-ministro, António Costa, e do ministro da Ciência, Manuel Heitor, os bolseiros farão ouvir a sua voz. Na terça-feira, o protesto decorrerá no exterior do Centro de Congressos de Lisboa. No último dia do encontro, os investigadores deslocam-se às galerias do parlamento, onde será debatido o Estado da Nação.

No encontro nacional Ciência 2019 são esperados, ao longo de três dias, mais de quatro mil participantes, entre investigadores, empresários e alunos de doutoramento.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/trabalho/precariedade-na-ciencia-nao-se-combate-com-contratos-termo

Contra a ciência racista do século XXI

Os cientistas afirmam poder resolver desigualdades raciais nos cuidados de saúde através da genética. É uma abordagem equivocada e perigosa, cujo resultado pode tornar o racismo uma doutrina científica.

 

por Tina Sikka

A história e a existência contínua de práticas racistas na ciência e na medicina têm sido submetida a um escrutínio muito esperado nos últimos anos. Desde a adaptação de “A Vida Imortal” de Henrietta Lacks para a telinha, em 2017, há uma recontagem da história estadunidense de esterilizar comunidades raciais; houve uma discussão na campanha presidencial sobre as taxas de mortalidade materna das mulheres negras, e estão sendo trazidas à luz a negligência e a violência do atendimento médico a populações raciais.

Diante da crescente conscientização popular sobre essa história, cientistas, acadêmicos, empresas e autoridades do governo convergiram para a ciência genética como solução para questões de racismo na área da saúde. Essa tendência vê a ciência genética como um veículo para direcionar pesquisas, regimes de saúde, dietas, vitaminas e suplementos para populações historicamente negligenciadas pelas ciência médica e da saúde tradicionais – ou seja, minorias marginalizadas. Mas essa tendência, que chamo de “a genetificação da raça”, também está tendo o efeito perverso de tornar a raça como uma categoria social e biologicamente “real”.

Os exemplos incluem pesquisas como a cartilha “Fatos-chave sobre a saúde e a saúde por raça e etnia” da Kaiser Family Foundation e estudos científicos que buscam estabelecer ligações entre grupos raciais e a prevalência de doenças como o câncer de próstata. Esses estudos usam categorias raciais de maneira simplista, sem reconhecer adequadamente que as causas reais das doenças são ambientais, estruturais e políticas – mas foram feitas para se manifestarem de maneira racista.

Por sua vez, essas categorias raciais são cada vez mais valorizadas, embora a ciência por trás da medicina centrada no DNA esteja longe de ser indiscutível. Enquanto isso, a grande esperança de que a medicina genética proporcione uma panacéia para problemas de saúde ajudou as empresas e o Estado a fugir da necessidade de investir em sistemas públicos de saúde, lidar com as disparidades sociais e abordar as estruturas de classe que geram desigualdades na saúde.

Em vez de depender da genética da saúde, devemos lidar com os “determinantes sociais da saúde” que se dividem por linhas raciais não por causa da biologia e do acaso, mas por causa da história e das escolhas de quem está no poder. Isso resultou em grupos racializados que sofrem de níveis desproporcionalmente altos de estresse e falta de acesso a alimentos nutritivos e água limpa; educação; atendimento médico adequado; condições seguras de vida e trabalho (inclusive em relação à poluição); e estabilidade física e financeira. A desigualdade não está no DNA, mas nas estruturas sociais e políticas do capitalismo.

Ao discutir a saúde genética, tanto os cientistas quanto a esquerda devem considerar os seguintes fatores, todos eles em tensão um com o outro:

  • a existência de evidências científicas claras de que raça não tem base biológica (na verdade, existem mais diferenças genéticas dentro das categorias raciais do que entre elas);
  • a persistência, na ciência formal e popular, da idéia de raça usada como um substituto conveniente para categorizar populações (mesmo quando categorias biogeográficas ou étnicas são usadas como substitutas – já que classificações como européia, asiática e africana permanecem em competição); e
  • a infeliz realidade de que, apesar de raça ser uma ficção social, tem consequências materiais. Com relação à saúde, isso se manifesta em disparidades muito reais em que grupos racializados como negros e hispânicos em particular sofrem de taxas mais altas de mortalidade geral, doenças cardiovasculares, câncer, diabetes, asma e toda uma série de outras condições de saúde prejudiciais quando comparadas à população “branca”.

Para avançar em direção a um modelo que incorpore essas realidades, é importante entender a ciência básica subjacente à genética da saúde. Os meios atuais pelos quais corporações, instituições científicas e até mesmo empresas de pesquisas genéticas realizam esse trabalho é mapeando polimorfismos de nucleotídeo único (SNPs), que são variações de pares de bases de DNA, entre indivíduos relacionados a doenças específicas. Espera-se que isso leve a um senso mais apurado de quais grupos e indivíduos têm maior chance de sofrer de doenças específicas, já que os padrões de SNP podem ajudar a identificar populações em risco e tratá-las com mais eficiência.

Há, no entanto, várias suposições problemáticas por trás dessa lógica. Elas incluem os pressupostos:

  • que os dados genéticos coletados de pessoas em diferentes localizações geográficas podem ser considerados representativos de indivíduos fenotipicamente semelhantes (e que também mantêm noções problemáticas de “pureza” racial);
  • que os tamanhos das amostras que servem como populações de referência estão próximos de serem grandes o suficiente;
  • e que os genes funcionam isoladamente, e não em conjunto com o estilo de vida, o ambiente e várias redes de outros genes.

A crença de que se pode lidar com as disparidades de saúde racializadas através da ciência genética é infundada e desconcertante. Muitas vezes, até mesmo as doenças que se acredita serem ligadas a certos grupos raciais não têm, de fato, nada a ver com raça. Como Charles N. Rotimi e Lynn B. Jorde argumentam:

Exemplos bem conhecidos incluem a elevada prevalência da doença de Tay-Sachs entre pessoas de ascendência judaica Ashkenazi e doença falciforme, talassemia e deficiência de glucose-6-fosfato desidrogenase em algumas populações de ascendência africana. No entanto, a doença de Tay – Sachs é observada em populações não judias e tem uma prevalência relativamente alta em partes do Canadá francófono”.

Isso levou a erros fundamentais da ciência, a diagnósticos equivocados (particularmente quando os indivíduos podem mostrar os sintomas de uma condição, mas não se enquadram em categorias de prevalência), a estigmatização de indivíduos fenotipicamente associados a certas doenças e, criticamente, tendência a encontrar a raça no DNA.

Uma outra questão é como a genética da saúde pode ser usada para o lucro. Empresas de pesquisas sobre ancestrais como EasyDNA e 24Genetics – que oferecem recomendações duvidosas sobre saúde e nutrição com base em suas pesquisas – são obviamente beneficiárias. Talvez de forma mais ameaçadora, as empresas farmacêuticas estão preparadas para lucrar com a fenomenal ascensão da medicina baseada em raças.

Um exemplo importante é o patenteamento de BiDil, fabricado pela NitroMeduma, que combina dois medicamentos preexistentes (cujas patentes estavam prestes a expirar) para tratar insuficiência cardíaca em pacientes negros. Mais tarde foi descoberto que as pesquisas com a droga não estabeleceram a raça como um fator em sua eficácia, já que não havia um grupo de comparação (eles só testaram pacientes negros); eles contavam com a reanálise de dados mais antigos, e não prestaram atenção aos fatores ambientais. Assim, sob o pretexto de servir uma população subatendida, a BiDil ajudou a reificar as diferenças raciais – ao mesmo tempo em que estendeu convenientemente a patente do medicamento.

A solução destes problemas consiste primeiramente em uma reestruturação radical da ciência genética, de modo que a raça não seja mais usada como fator de diferença. Essa abordagem não é apenas cientificamente não informativa, mas também reafirma a raça como uma categoria biológica “real” que estigmatiza populações associadas a certas doenças, reforçando as bases do racismo sistêmico.

Também é necessário um entendimento mais amplo de como os genes funcionam como um fator entre muitos das doenças. Que incluem estilo de vida geral; fatores biológicos (como os genes não existem isoladamente, mas interagem com outros genes, com proteínas e com o ambiente); socioeconomia; falta de acesso a cuidados de saúde; vieses implícitos dos prestadores de cuidados de saúde; e questões estruturais como “práticas governamentais e empresariais, medidas de poluição em toda a área ou crimes violentos, características do ambiente construído, como sistemas de trânsito ou desertos alimentares”. Poderíamos até considerar as influências e os efeitos da industrialização e urbanização sobre a saúde.

Isso colocaria o ônus de abordar problemas de saúde em seus próprios lugares. Não em indivíduos racializados que seriam culpados pelas escolhas que fazem ou vistos como vítimas de sua biologia; mas sobre o Estado, que deve abordar as desigualdades estruturais e o racismo ambiental, facilitar o acesso aos cuidados de saúde e regular a voracidade das empresas em lucrar com a ciência distorcida.

Finalmente, precisamos entender melhor o papel que essas práticas raciais têm na produção de problemas de saúde. Barbara e Karen Fields definem a base do racismo com o que chamam de “racecraft”: uma espécie de truque de mágica através do qual a classificação racial passa de uma “maneira de isolar algumas das características da infinita diversidade humana”, generalizando-as em uma arquitetura de diferença biológica, social e até mesmo metafísica.A genética da saúde, através da construção de uma“ arquitetura ”médica da diferença, pode ser vista como uma forma própria de racismo. Ao usar os vastos recursos do establishment médico para promover a racialização das populações vulneráveis, pode-se estar apenas entrincheirando com o racismo e suas consequências.

Devemos nos envolver com a ciência genética como parte de uma complexa rede de fatores que determinam a saúde. Devemos nos aproximar da raça não como um meio científico para entender e fundamentar a diferença humana. E devemos levar o Estado a desafiar as forças estruturais que impactam negativamente a saúde. Trabalhar em direção a esses objetivos parece ser uma maneira muito mais proveitosa e socialmente justa de transformar para melhor a saúde de populações racializadas.


por Tina Sikka, Professora na Universidade de Newcastle (Reino Unido); trabalha em estudos feministas, teoria crítica da raça, saúde e meio ambiente | Texto em português do Brasil, com tradução de José Carlos Ruy

Exclusivo Editorial PV (Fonte: Jacobin)/ Tornado


 

 

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/contra-a-ciencia-racista-do-seculo-xxi/

HOMO LUZONENSIS: O QUE NOS CONTA ESTA DESCOBERTA SOBRE NOSSO PASSADO

                image
https://www.tsf.pt/sociedade/ciencia-e-tecnologia/interior/uma-uma-descoberta-absolutamente-espetacular-sobre-a-capacidade-do-homem-para-viajar-10784543.html
https://www.nationalgeographic.com/science/2019/04/new-species-ancient-human-discovered-luzon-philippines-homo-luzonensis/
                        image
Esta descoberta, agora anunciada, de Homo luzonensis, mas cujo sítio arqueológico vem sendo escavado desde há alguns anos, reforça o facto da arvore evolutiva do género Homo ter uma estrutura arborescente, que nos foi ocultada pelo facto da espécie Homo sapiens (a nossa) ter invadido e dominado todos os habitats da Terra, tendo sido um factor decisivo na extinção doutras espécies concorrentes, do género Homo, que connosco coexistiram.  Esta visão é reforçada com a descoberta na gruta perto de Luzon, Filipinas. Tal evidência já se afirmara com a descoberta de Homo floriesensis, no início do novo século, na Ilha das Flores (Indonésia).  Um facto importante é o de que Homo erectus, cuja existência se estende por mais de um milhão de anos, saiu de África e dispersou-se pelo continente asiático, atingindo os arquipélagos do que são hoje a Indonésia e as Filipinas. Porém, esta dispersão geográfica e no tempo originou variantes e novas espécies que se especializaram em determinados ambientes.  Não irei reproduzir aquilo que escrevi a propósito de Homo floriesensis. Mas é evidente que tanto a espécie alcunhada com o nome de «Hobbit», como esta de Luzon, só podem ter como ascendência o Homo erectus. Aliás, isto é reforçado pela existência de instrumentos de pedra e marcas de talhe em ossos de rinoceronte com 700 mil anos, encontrados não longe da gruta de Callao (onde foram descobertos os restos deste hominino).
Quanto ao «grande feito» de o género Homo ter alcançado ilhas hoje distantes, penso que existe uma certa exploração sensacionalista nas notícias: - primeiro, porque nos longuíssimos intervalos de tempo da evolução do género Homo, existiram vários episódios em que os níveis dos oceanos foram muito mais baixos (lembremos o estreito de Behring e a língua de terra chamada Beríngia, de onde vieram os primeiros colonizadores do continente americano). Em certas épocas, a separação entre as ilhas britânicas e o continente europeu (as costas francesas de hoje) era tão pequena, que manadas a atravessavam e no seu encalço, iam bandos de humanos...
- e segundo, não é nada espantoso que estes hominídeos tenham fabricado jangadas ou canoas escavadas em troncos de grandes árvores: a indústria lítica é apenas a que subsiste, após muitas centenas de milhares de anos, mas sabemos - por outras culturas ditas da «idade da pedra» - que os artefactos de pedra eram sempre uma minoria. Calcula-se que as culturas do paleolítico tinham cerca de 80% de instrumentos em madeira, fibra vegetal ou peles e tendões animais ; por que motivo o Homo erectus, que fabricava instrumentos de pedra, não teria também artefactos em madeira? 

Ver o original em 'Manuel Banet' (clique aqui)

Correlacionada colonização mortífera das Américas com frio intenso que atingiu Era Moderna

Segundo revelam pesquisadores britânicos, a morte desenfreada da população indígena nas Américas na época da colonização provocou o início da Pequena Idade do Gelo ao redor do globo.

Pesquisadores britânicos concluíram que, no momento da chegada de Cristóvão Colombo à América, em 1492, a população continental correspondia a uns 60,5 milhões de pessoas, que, em grande maioria, se dedicavam à agricultura.

Em particular, de acordo com cálculos da University College of London (UCL), havia um pouco mais de um hectare de terra cultivada per capita, o que seria a superfície da terra cultivada hoje na Rússia, onde agricultura abrange 80 milhões de hectares.

A população pré-colombiana se dedicava intensamente à agricultura, queimando florestas para cultivo. A atividade contribuiu para emissão regular de grandes emissões de dióxido de carbono, o que exacerbou o efeito estufa.


No entanto, quando os europeus chegaram ao continente tudo mudou. Depois de 1492, a população das Américas diminuiu 90% por causa de epidemias de varíola, febre tifoide, sarampo, gripe, peste bubônica, malária e outras doenças. Assim, nos anos 1600, após 100 anos de colonização, o número de índios diminuiu de 60 milhões para seis milhões.

A morte, que atingiu muitos índios, causou uma diminuição significativa na atividade agrícola. Segundo destaca a equipe de pesquisadores britânicos, liderada por Alexander Koch, cerca de 56 milhões de hectares de terra foram abandonados. Esses territórios foram rapidamente preenchidos por florestas, que começaram a absorber ativamente o dióxido de carbono do ar.

No decurso de sua investigação, os especialistas tentaram provar a hipótese acima mencionada. Para alcançar o objetivo, a equipe de Koch analisou várias camadas de gelo na Antárctica, registrando e concluindo que nesse período a concentração de dióxido de carbono no ar foi diminuída.

Com base nos dados conseguidos, revelou-se que a morte maciça de índios nas Américas contribuiu para o início da Pequena Idade do Gelo — fase mais fria da Era Moderna — ao redor do globo em que a Groenlândia foi coberta por gelo.

No entanto, é apenas uma das teorias de hoje em dia. A versão dominante ainda culpa a diminuição da velocidade da corrente do Golfo, que coincidiu com explosões vulcânicas e mínimo Maunder — o período conhecido como o mais baixo nível de atividade solar após o século V a.C.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/ciencia_tecnologia/2019020113228245-colonizacao-americas-morte-populacao-idade-gelo-terra/

Onde tempo corre ao contrário: poderíamos algum dia presenciar 'irmão' do Universo?

Nosso Universo poderia ser um "espelho" de um universo de antimatéria, onde o tempo se move para trás, ainda antes do Big Bang, escreve a revista Physics World.

Um novo modelo cosmológico, que sugere a existência de um "Antiverso", algo como um "universo contrário ao nosso", foi criado por físicos canadenses do Instituto de Física Teórica de Ontário (Canadá), liderados por Neil Turok.

A teoria sugere que esse universo exista e que seja uma extensão do nosso, preservando uma regra fundamental da física chamada simetria CPT (carga, paridade e tempo).


Apesar dos cientistas ainda necessitarem estudar muitos detalhes dessa teoria, eles afirmam que ela naturalmente explica a existência da matéria escura.

O físico teórico russo Aleksei Starobinsky, pesquisador do Instituto de Física Teórica de Landau, debateu o assunto com o jornal russo Moskovsky Komsomolets.

Perguntado se seria possível alguma vez avistar o Antiverso, sob a hipotética existência de um mundo paralelo, o cientista afirmou que, através da versão proposta pelos autores do artigo, não.

"Seu Antiverso existe em outro mundo, em outro espaço, de modo que agora não pode haver interação direta com ele. Pode-se dizer que ele se afasta de nós a um ritmo mais rápido do que a luz. No entanto, os dois universos estão ligados como gêmeo e antigêmeo, por um nascimento comum no passado, há cerca de 14 bilhões de anos", diz o pesquisador russo.

Quanto à localização aproximada do Antiverso, o pesquisador afirma ser impossível determiná-la, pois "seu espaço tridimensional não se cruza com o nosso".


Starobinsky diz que, segundo a teoria do estudo, esse universo paralelo "deveria ser extremamente semelhante ao nosso, na medida em que substitui a matéria por antimatéria, todas as partículas por antipartículas, uma carga elétrica positiva por negativa e vice-versa, assim como a esquerda pela direita, como se estivesse refletido em um espelho".

Ao ser questionado se o tempo se move do futuro para o passado no universo paralelo, o físico explica que "no universo onde vivemos, o tempo fluiu da nossa maneira habitual", enquanto que no outro universo, "começou a se mover com a mesma velocidade do que no passado".

"Tudo isso é relativo ao nosso universo. Se olhássemos o tempo de dentro do Antiverso, ele fluiria como aqui; os eventos e estruturas se desenvolveriam do simples ao complexo", conclui.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/ciencia_tecnologia/2019012813197255-tempo-corre-contrario-presenciar-irmao-universo-paralelo/

Divulgada 1ª FOTO captada no lado escuro da Lua

A sonda chinesa Chang'e-4 pousou no lado oculto da Lua pela primeira vez na história e enviou à Terra a primeira imagem da face lunar que o olhar humano não é capaz de ver.

A imagem foi enviada através do satélite Queqiao, que opera na órbita do halo em torno do segundo ponto de Lagrange L2 do sistema Terra-Lua.

Na imagem que a Corporação de Ciência e Tecnologia Aeroespacial da China postou em sua conta do WeChat pode ser observada a superfície lunar artificialmente iluminada, sendo visível uma cratera, assim como um fragmento do rover. 

​Com o sucesso da alunagem, a China entra para a história como o primeiro país a fazer pousar uma sonda nesta zona lunar até então inexplorada.

Segundo a rede de televisão chinesa CCTV, o pouso, que aconteceu relativamente perto do local predeterminado, permitiu "abrir um novo capítulo" no estudo do satélite da Terra.

A sonda lunar Chang'e-4 foi lançada do centro espacial de Xichang, localizado na província chinesa de Sichuan, em 7 de dezembro de 2018.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/ciencia_tecnologia/2019010313040024-lado-escuro-lua-sonda-china-foto/

7 descobertas científicas de 2018 que nos mostram um outro lado do mundo

Nem todas as descobertas científicas são revelações reais e capazes de contribuir para conhecimento profundo do mundo. A Sputnik apresenta quais foram as descobertas de 2018 que mudaram nossa percepção de enxergar o que está ao nosso redor.

Em maio, pesquisadores descobriram um novo órgão no corpo humano: o "interstício", uma rede de canais microscópicos cheios de fluído que se estende por todo o corpo.

Em julho, pesquisadores italianos anunciaram haver um lago de água debaixo da camada de gelo de Marte. Encontra-se no polo Sul do Planeta Vermelho e tem cerca de 20 quilômetros de diâmetro. Os resultados do estudo, publicados na revista Science, sugerem que haja lagos subterrâneos semelhantes em outras regiões marcianas.

Fluxos da água em Marte
© Foto : NASA/JPL/University of Arizona
Fluxos da água em Marte

Em setembro, arqueólogos encontraram as pinturas mais antigas do mundo, que datam de há 40.000 anos, em uma caverna na ilha de Bornéu, na Indonésia, de acordo com a revista Nature.

O mais antigo fragmento conhecido da Odisseia, de Homero, está em uma placa de argila do século III d.C., encontrada ao redor do santuário de Olímpia, na península do Peloponeso.


No pedaço de argila foram preservadas 13 linhas do Canto XIV, que descreveo encontro do rei de Ítaca, Ulisses, com o criador de porcos Eumaeus, após retorno à ilha natal.

Segundo uma pesquisa da NASA, Saturno está perdendo seus anéis a uma velocidade rapidíssima. A gravidade está atraindo os anéis, que estão caindo no planeta em forma de chuva de partículas de gelo sob a influência do campo magnético do planeta. De acordo com novos dados, os anéis desaparecerão daqui a 100 milhões de anos, e não em 300 milhões de anos como astrônomos acreditavam.

Vista de Saturno
Vista de Saturno

O objeto interestelar Oumuamua, que chegou ao nosso Sistema Solar em outubro de 2017, é um cometa pequeno e muito brilhante, de acordo com uma investigação publicada em junho.

O fóssil do animal mais antigo do mundo pertence ao Dickinsonia, que habitou o fundo dos oceanos há 558 milhões de anos, podendo ser oval e plano como uma água viva. Alguns tinham várias dezenas de centímetros de comprimento sem boca, intestino ou ânus.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/ciencia_tecnologia/2018122813005440-7-descobertas-cientificas-2018-sistema-solar/

FINALMENTE O GALILEU

15 de Dezembro de 2016. Foi apenas há dois anos que os primeiros serviços do sistema europeu de posicionamento global Galileo se tornaram operacionais. A conclusão da montagem do sistema só está prevista para 2020, quando todos os 24 satélites de referenciação se tornarem operacionais (abaixo), muito embora o sistema contasse já este Verão com mais de 200 milhões de utilizadores. Mas a questão que se põe, quando se sabe que o sistema norte-americano rival GPS entrou já nos hábitos de consumo por todo o mundo, é a razão para esta insistência europeia (cara: orçada em 10 mil milhões de euros) de querer criar o seu próprio sistema de posicionamento. Uma atitude em que a Europa é, aliás, acompanhada tanto pela China (Compass) quanto pela Rússia (Glonass). A verdade é que todos estes sistemas (e aqui já estou a falar de muitos outros, para lá dos de posicionamento), por muito complexos que sejam, por muito globalizados que estejam, têm sempre não apenas um dono, mas uma autoridade por detrás, a quem esse dono tem de prestar contas. E quem dirige as potências não está disposto a depender de outras potências em aspectos que sejam considerados primordiais. Por muito ricos que os donos possam ser, Zuckerberg é que é a realidade frágil, os Blofelds são só para aparecer nos filmes de James Bond.

Veja o original em 'Herdeiro de Aécio' na seguinte ligação::

http://herdeirodeaecio.blogspot.com/2018/12/finalmente-o-galileu.html

INVENTOR DA TÉCNICA DE CRISPR APELA A MORATÓRIA NOS HUMANOS

in Manuel Banet, ele próprio

 

 Dois artigos sobre os bébés chineses com os genes corrigidos e meu comentário em baixo:

https://www.zerohedge.com/news/2018-11-26/first-gene-edited-babies-claimed-china-spark-outrage-condemnation

https://www.theworldofchinese.com/2018/11/tech-thursday-cutting-crispr-corners/

O escândalo deu a volta ao mundo. Um cientista chinês realizou uma manipulação em embriões humanos, da qual nasceram duas meninas. A manipulação consistiu em modificar certo gene, com a técnica de CRISPR, uma técnica muito precisa que permite modificar uma sequência de ADN da forma que se queira. Neste caso, o gene manipulado foi de uma proteína de membrana que se exprime na superfície dos leucócitos e constitui a «porta de entrada» do vírus HIV, causador da SIDA, no seu interior. As pessoas cuja tal porta de entrada esteja modificada terão uma resistência ao vírus. O cientista argumenta que as meninas terão uma vantagem em terem essa resistência à doença auto-imune. Mas o facto é que esta modificação pode conferir fragilidades em relação a outras doenças. Os críticos apontam o facto, revelado pelo próprio cientista chinês, de que uma das duas gémeas apenas possui uma cópia modificada do gene. Nestas circunstâncias, esta não terá qualquer vantagem, pois continuará susceptível à infecção com HIV, mas ficará com uma fragilidade que poderá ter consequências. Em particular, certas doenças auto-imunes ou uma deficiência na panóplia de combate às infecções de que os leucócitos são os protagonistas. Pessoas que eram deficientes (naturalmente) no gene para esta proteína tinham uma maior susceptibilidade ao vírus do Nilo Ocidental que pode originar gripe mortal. 

Mesmo que tudo corra perfeitamente, existem muitos meios para prevenir a infecção com HIV, sendo ela muito tratável, hoje em dia, caso ocorra. Outras manipulações genéticas no ser humano envolveram genes cuja presença ou deficiência conferia doenças graves, potencialmente mortais. Nestes casos, a substituição pelo gene normal, ao ser posteriormente transmitida à descendência, caso esses indivíduos tivessem filhos, não iria acrescentar uma versão modificada de um gene.  Não é o caso da modificação efectuada nas gémeas. Se estas se reproduzirem, irão transmitir (apenas uma cópia) do referido gene. Sendo altamente provável que a outra cópia seja normal, pode-se desde já afirmar que os indivíduos da descendência terão uma susceptibilidade ao vírus HIV praticamente igual às pessoas em que ambos os genes são normais. 

O inventor desta técnica de manipulação dos genomas, que é aplicável a qualquer ADN, seja ele de planta, animal  ou mesmo humano, na sequência deste caso, fez uma declaração no sentido de propor uma moratória da sua aplicação a seres humanos.

Penso que no mínimo deveria ser necessário avaliar por um comité de peritos independentes a justificação ética de tais intervenções no futuro. Parece-me desejável que técnicas seguras sejam aplicadas aos humanos quando isto tenha reais e indiscutíveis benefícios para os pacientes, como no caso de reparação de genes conferindo doenças muito debilitantes, por exemplo a hemofilia. O grande perigo destas técnicas será a sua aplicação por técnicos pouco éticos para satisfazer o capricho dos pais, «desenhando» a preceito o futuro ser humano.  

Leia original aqui

Revelada causa do sumiço instantâneo de antiga civilização do Oriente Médio

Escavações (imagem referencial)
© Fotolia / Sebastian Corneanu

Um meteorito causou o fim de uma antiga civilização que habitava o território atual da Jordânia, segundo a Science News.

Cientistas realizaram uma análise de rochas antigas localizadas perto da cidade jordaniana de Tall el-Hammam e constataram que a cristalização de minerais nessa área foi instantânea devido a altíssimas temperaturas.

Além disso, ao estudarem os restos dos alicerces das construções, eles descobriram que as casas foram demolidas abruptamente. 

Os pesquisadores concluíram que uma civilização, que existiu há 2,5 mil anos, foi dizimada por um meteorito que explodiu sob a superfície da Terra há cerca de 3,7 mil anos, destruindo pelo menos cinco cidades e mais de cem aldeias em uma área de 25 quilômetros.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/ciencia_tecnologia/2018112212738936-revelada-causa-sumico-antiga-civilizacao-oriente-medio/

Bernardino António Gomes (1768-1823): 250 anos do nascimento, 206 anos da purificação do primeiro alcalóide

Em 29 de Outubro de 2018, assinalaram-se os 250 anos do nascimento de Bernardino António Gomes (1768-1793), médico e cientista português, aniversário que já foi aqui lembrado por Carlos Fiolhais. A sua contribuição pioneira para a extracção e purificação do primeiro alcalóide na forma de base pura, obtido da casca da quina (cinchona), usada no tratamento da malária, foi um feito notável que está na origem do desenvolvimento da química medicinal moderna baseada em compostos bioactivos.
Ao composto que obteve na forma cristalina e identificou com a “virtude febrífuga” das quinas, chamou cinchonino, nome que a partir de 1819, passou a ser cinchonina, seguindo a nomenclatura adoptada universalmente para os alcalóides. Este composto que apresenta as mesmas caracterísiticas terapêuticas da casca de quina, não existia noutras cascas de árvores que eram comercializadas, por fraude ou desconhecimento, também como medicamento para as febres intermitentes da malária. Este trabalho notabilíssimo, realizado em 1812 por solicitação da Academia das Ciências de Lisboa, no Laboratório da Casa da Moeda, de que era director Bonifácio de Andrada e Silva, abria assim o caminho para métodos de controlo de qualidade químicos e de programas de pesquisa de outras plantas que tivessem o mesmo princípio activo.
A descoberta de Gomes foi confirmada em 1920 por Pelletier e Caventou, autores que identificaram um outro dos alcalóides na casca da quina, a quinina, que existe em maior quantidade na casca, e que haviam já descoberto e purificado, em 1817 a estricnina, seguindo em ambos os casos o procedimento de Bernardino António Gomes. É de realçar que a morfina havia já sido isolada em 1806 por Friedrich Serturne, mas a obtenção do primeiro alcalóide puro e o estabelecimento dos princípios do método corrente que permitiu, a partir das primeiras décadas do século XIX, purificar dezenas de compostos alcalóides podem ser atribuídas à publicação de Bernardino António Gomes. Podemos perguntar por que razão não são mais conhecidas estas contribuições de Bernardino António Gomes e por que razão esta efeméride tão redonda (250 anos) está a passar, tanto quanto sabemos, quase despercebida. Obviamente a questão de Portugal ser um país periférico, sem grande tradição científica, tem sido relevante, mas não é essa a única razão. Gomes, embora com grande entusiasmo pela investigação irá continuar essencialmente um médico (notável e pioneiro também na vacinação contra a varíola e no estudo da elefantíase entre outros trabalhos), mas não continuou o trabalho sobre a quina, nem o estendeu a outras plantas, nem motivou outros investigadores portugueses a continuaram esse trabalho. Se o trabalho analítico e químico de Bernardino António Gomes tivesse tido continuidade, teria tido com certeza muito mais visibilidade. Assim, aquilo que seria provavelmente a grande motivação e o resultado mais importante do trabalho: identificar a “virtude febrífuga das quinas” que designaríamos actualmente pela busca do princípio activo ou do composto responsável pelo efeito terapêutico, abrindo a possibilidade pioneira na ciência da época de obter este composto de outras formas, substituíndo a necessidade de recorrer à quina, foi rapidamente esquecido e não teve continuidade.
Para o abandono do projecto e para o quase esquecimento do feito concorreram em grande medida razões locais. Os resultados de Bernardino António Gomes foram duramente criticados por José Feliciano de Castilho no "Jornal de Coimbra" com repercussões internacionais no "Investigador Português em Inglaterra". Tomé Rodrigues Sobral que arbitrou a disputa, optou por uma resposta inconclusiva sugerindo que a “virtude febrifúga” poderia ter uma origem múltipla, pondo-se assim termo à continuação do projecto.
Mais tarde, com a República e com o Estado Novo, Bernardino António Gomes foi sendo evocado, embora de forma tímida, como um grande cientista português. Mas estas evocações que podem confundir-se com as formas propagandísticas do nacionalismo não ajudaram a consolidar a sua memória num país com tão pouca tradição em homenagear de forma devida a sua ciência. Tem um busto no Jardim Botânico de Lisboa, o nome em algumas ruas, foi declarado fundador da dermatologia portuguesa e patrono da Sociedade Portuguesa de Dermatologia e, este ano, foi incluído numa emissão filatélica “Vultos da História e da Cultura”, a qual inclui o Padre Himalaya, outro cientista português que deveria ser mais conhecido, mas é pouco, muito pouco, como reconhecimento de tão notável personagem da história da ciência e da cultura portuguesas.
Bernardino António Gomes nasceu a 29 de Outubro de 1768 e foi baptizado, segundo Virgílo Machado, em Paredes do Coura, embora haja autores, incluindo o próprio filho homónimo, indicam como local de nascimento Arcos de Valdevez. Doutorou-se em medicina na Universidade de Coimbra em 1793, tendo ido exercer medicina para Aveiro até 1797. O interesse pela investigação chamava-o e muda-se para Lisboa onde pouco tempo depois é médico da Armada, embarcando para o Brasil. Dessa viagem surge uma publicação sobre a canela do Rio de Janeiro a que se seguirão vários outros trabalhos sobre plantas medicinais do Brasil. Casa em 1801 com Leonor Violante Mourão, jovem viúva sete anos mais nova com quem tem cinco filhos, o mais conhecido é o homónimo Bernardino António Gomes filho que foi professor da Universidade de Coimbra. Este casamento foi tumultuoso e envolveu separações e um divórico público que foi até já alvo de um estudo académico. Em 1806 publicou um trabalho sobre o tifo. Em 1812, esteve envolvido na fundação do Instituto Vacínico de que foi o primeiro director. Incansável investigador e autor, escreveu também sobre as boubas (peste bubónia), a desinfecção de cartas, doenças de pele, a elefantíase e a ténia. Em 1817 acompanhou como médico a princesa Maria Leopoldina até ao Rio de Janeiro. Morreu com 54 anos em Lisboa de “afecção malígna no estômago”. Foi sócio efectivo da Academia das Ciências de Lisboa (1812), cavaleiro da Ordem de Cristo (1812), Médico Honorário da Câmara Real (1813), entre outras distinções.
Há ainda bastantes aspectos da vida e dos trabalhos de Bernardino António Gomes que merecem ser melhor estudados. Felizmente, há neste momento pelo menos duas investigadoras, estudantes de doutoramento, que estão a realizar estudos que poderão lançar mais alguma luz sobre os seus trabalhos. Conhecer e divulgar na justa medida a história das descobertas e polémicas em que se viu involvido é uma contribuição importante para entendermos melhor a nossa História e as razões das nossas dificuldades passadas e pode contribuir para uma maior confiança colectiva na ciência portuguesa.
Bibliografia
AMORIM DA COSTA, A. M., "Thomé Rodrigues Sobral (1759-1829). A Química ao serviço da Comunidade" in História e Desenvolvimento da Ciência em Portugal, Publicações do II Centenário da Academia das Ciências de Lisboa, 1 (1986), 373-402.
GOMES, Bernardino António, Ensaio sobre o cinchonino e sobre a sua influencia na virtude da quina, e d''outras cascas, Memórias de Mathemática e Physica da Academia das Sciencias, 1812 (disponível online em várias fontes, republicado na Revista Portuguesa de Química Pura e Aplicada em 1908)
HEROLD, Bernardo, "Bernardino Gomes, pai e Agostinho Lourenço, precursores portugueses da química dos alcalóides e dos polímeros sintéticos" in História e Desenvolvimento da Ciência em Portugal, Publicações do II Centenário da Academia das Ciências de Lisboa, 1 (1986), 417-433.
HEROLD, Bernardo, CARNEIRO, Ana, Bernardino António Gomes, Biografias, SPQ (http://www.spq.pt/files/docs/Biografias/BAGomesport.pdf acedido 29 de Outubro de 2018).
MACHADO, Virgílio, O Doutor Bernardino Gomes (1768-1823) : a sua vida e suaobra. Lisboa : Portugalia, 1925(disponível em http://purl.pt/420)
REIS, Fernando, Bernardino António Gomes, Ciência em Portugal: personagens e episódios. Instituto Camões (http://cvc.instituto-camoes.pt/ciencia/p21.html, acedido 29 de Outubro de 2018)
SIMÕES, Manuela Lobo da Costa, Um divórcio na Lisboa oitocentista. Livros Horizonte: Lisboa, 2006.
SUBTIL, Carlos,Bernardino António Gomes: ilustre médico iluminista nascido em Paredes de Coura. Município de Paredes do Coura, 2017.

Ver original em 'De Rerum Natura' na seguinte ligação::

http://dererummundi.blogspot.com/2018/10/bernardino-antonio-gomes-1768-1793-250.html

Antes de morrer, Stephen Hawking deixou aviso sobre nova ameaça à humanidade

Antes de morrer, o físico britânico Stephen Hawking, falecido em 14 de março, escreveu uma matéria sobre seus receios quanto a um perigo que a humanidade pode vir a enfrentar em breve.

Segundo comunica o jornal The Sunday Times, citando o último livro do cientista "Brief Answers to Big Questions" ("Breves Respostas para Grandes Questões", em tradução livre) que deverá ser publicado em 16 de outubro, Hawking responde a perguntas essenciais do nosso tempo.

Em particular, o físico supõe que, um dia, as pessoas ricas começarão a modificar o DNA para melhorar suas capacidades corporais.

"Algumas não poderão superar a tentação de aperfeiçoar as caraterísticas humanas, por exemplo, a memória, resistência a doenças, expectativa de vida", o jornal cita o texto do livro.

Assim, Stephen Hawking espera que, devido ao aparecimento de "super-humanos", pessoas comuns venham a formar uma casta separada e, em seguida, desaparecerão completamente da Terra.

Stephen Hawking prediz futuro


Hawking fez sérias declarações sobre o destino da humanidade em geral.

Por exemplo, o cientista assegurou que a humanidade deixaria de evoluir, pois aprenderá a mudar suas caraterísticas mudando o DNA. Isso lhes permitira realizar viagens espaciais e colonizar outros planetas.

Em um momento de sua vida, o físico começou a comparar vírus de computador com organismos vivos.

"Tenho medo de a inteligência artificial ser capaz de substituir as pessoas", Hawking confessou em entrevista ao jornal Wierd, adicionando que chegará um dia quando os programas conseguirão se reproduzir e, assim, se tornarão mais inteligentes do que os humanos.

Méritos científicos do físico britânico

Stephen Hawking é considerado por muitos um gênio único e o físico mais brilhante desde Albert Einstein. Entretanto, algumas das descobertas científicas teóricas que realizou no campo da cosmologia e especialmente no estudo dos buracos negros não puderam ser confirmadas por dados de observação, o que o afastou da possibilidade de ganhar um Nobel.


Hawking foi o primeiro a estabelecer uma teoria da cosmologia explicada por uma união da teoria geral da relatividade e da mecânica quântica. Ele é um partidário vigoroso da interpretação de múltiplos mundos da mecânica quântica.

Hawking teve uma forma rara de início precoce, progressiva, de esclerose lateral amiotrófica (ALS) que gradualmente o paralisou ao longo das décadas. Hawking surpreendeu médicos em todo o mundo, enquanto vivia apesar da doença que geralmente leva à morte dentro de anos. O diagnóstico da doença foi feito quando ele tinha 21 anos.

O físico britânico morreu no dia 14 de março, em Cambridge. Os restos mortais de Stephen Hawking foram enterrados na Abadia de Westminster, ao lado de cientistas como Isaac Newton, Charles Darwin, J.J Thompson e Ernest Rutherford.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na sequinte ligação::

https://br.sputniknews.com/ciencia_tecnologia/2018101512439768-stephen-hawking-prediz-ameaca-humanidade/

Número de engenheiros em Portugal cresce mais do dobro da média europeia

fem_eng

O número de cientistas e engenheiros em Portugal cresceu 5,2% em 2017 face ao ano anterior. Na União Europeia o crescimento foi de apenas 2,3%, de acordo com uma nota hoje publicada pelo Eurostat. Considerando a população entre os 25 e os 64 anos, em 2017 havia 331 mil pessoas a trabalhar como cientistas e engenheiros, mais 16 mil que os 315 mil registados em 2016. Na União Europeia, este valor subiu de 16,1 milhões para 16,5 milhões.

A agência europeia de estatísticas fornece ainda uma medida de cientistas e engenheiros em percentagem da população ativa. Portugal está abaixo da média europeia mas em clara convergência. A percentagem de cientistas e engenheiros em Portugal cresce de 6,9% em 2016 para 7,2% em 2017, enquanto na União Europeia se registou uma subida de 7,4% para 7,6%.

A medida desta convergência é melhor ilustrada quando olhamos para a população entre os 25 e 34 anos. Portugal já se encontrava acima da média europeia neste domínio, mas em 2017 há um salto de cientistas e engenheiros no conjunto da população ativa neste segmento etário. Enquanto a evolução na União Europeia foi de apenas 0,2% (de 8,8% para 9,0%), em Portugal atingiu os 0,8% (de 11,0% para 11,8%).

ENG_POP

Fonte: Eurostat

Outro dado interessante é o peso cada vez maior do sexo feminino nas formações científicas. Também aqui Portugal deu um salto significativo, apesar de já se encontrar acima da média europeia. Em 2017 havia 13,1% de cientistas e engenheiros na população ativa do género feminino com idades entre os 25 e os 34 anos, bem acima dos 11,5% de 2016. Na União Europeia, a percentagem de engenharias e cientistas neste segmento etário subiu de 8,0% para 8,3%.

MUL_ENG_POP

Fonte: Eurostat

PUB


Ver original aqui

Publicações mais recentes

Últimos posts (Cascais)

Itens com Pin
    Atividades Recentes
    Aqui ainda não existem atividades

    Últimos posts (País e Mundo)

    Itens com Pin
      Atividades Recentes
      • LEGALIZAÇÃO DAS CASAS DE PROSTITUIÇÃO

        Um debate que provavelmente vai ganhar dimensão.
        Legalização da prostituição - petição apresentada na A.R
        Gravação da reunião na Assembleia da República
        0
        0
        0
        0
        0
        0
        Publicação sobre moderação
        Item de fluxo publicado com sucesso. Item passa a ser visível no seu fluxo.
      • Homicidal Cops Caught On Police Radio
        #TheJimmyDoreShow
        Homicidal Cops Caught On Police Radio
        42 219 visualizações
        •05/06/2020
        0
        0
        0
        0
        0
        0
        Publicação sobre moderação
        Item de fluxo publicado com sucesso. Item passa a ser visível no seu fluxo.
      Aqui ainda não existem atividades
      LOGO4 vert01
      A Plataforma Cascais - movimento cívico é um grupo aberto de cidadãos, autónomo de quaisquer interesses económicos, religiosos ou partidários.
      Todas as publicações deste site refletem apenas as opiniões dos seus autores e não responsabilizam a PC-mc
      exceto quando expressamente assinadas por esta.
       

      SSL Certificate
      SSL Certificate