Austrália

Documento do Departamento de Estado dos EUA sem peso nem credibilidade

 
 
Documento enganador não contém provas de ligação entre COVID-19 e laboratório, diz mídia australiana
 
Sydney, 26 mai (Xinhua) -- Um documento do Departamento de Estado dos EUA, que foi usado por alguns jornais australianos para vincular a COVID-19 a um laboratório, não contém provas sólidas, mas sim baseando-se em informações publicamente disponíveis, noticiou a Australian Broadcasting Corporation (ABC) na terça-feira.
 
O documento apareceu na mídia de propriedade da News Corp Australia no início deste mês e foi presumido como inteligência de alto nível de governo ocidental.
 
A embaixada dos EUA em Canberra realizou reuniões com autoridades australianas para esclarecer o documento como um pró-memória, destinado apenas ao uso nos bastidores, de acordo com a ABC.
 
"Um pró-memória é um documento diplomático que pretende ter um status essencialmente não oficial, quase negável e usado basicamente para gerar discussões com governos estrangeiros. Ele não tem grande peso ou credibilidade", disse à ABC Rory Medcalf, chefe da Faculdade de Segurança Nacional da Universidade Nacional da Austrália.
 
A ABC citou vários altos funcionários do governo australiano que pediram anonimato mas confirmaram a verdadeira natureza do documento, dizendo que ele era amplamente distribuído pelo Departamento de Estado dos EUA.
 
Outras áreas da mídia australiana, bem como líderes políticos, estão entre os que criticam o uso do documento para criar conteúdo enganoso e lançar calúnias infundadas contra o tratamento do surto da COVID-19 pela China e sua origem.
 
 
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/05/documento-do-departamento-de-estado-dos.html

Aborígenes: Cook chegou à Austrália há 250 anos. E os portugueses 250 anos antes

 
 
As comemorações da chegada dos britânicos foram canceladas devido à pandemia. História dos aborígenes começa a ser ouvida.
 
O 50.º aniversário da chegada do capitão James Cook à Austrália, que se comemora nesta quarta-feira, foi em grande parte desmarcado devido ao novo coronavírus.
 
Um evento que é cada vez menos destacado pelo lado da "descoberta", porque holandeses (um século antes) e portugueses (250 antes, no tempo de D. Manuel) estiveram à procura de uma lendária Ilha do Ouro, tendo ficado cartografado como Terra Java. E também porque a história de quem já lá vivia ganha maior relevo.
 
Em 29 de Abril de 1770, o capitão Cook dirigiu o Endeavour para Botany Bay - chamado Kamay na língua indígena local - um evento que cada vez mais é visto através dos olhos dos aborígenes australianos que se encontravam na costa.
 
O primeiro-ministro Scott Morrison disse que o aniversário representava "uma fusão de histórias", chamando Cook de "indivíduo extraordinário". "No dia em que Cook e a comunidade indígena local em Kamay estabeleceram o primeiro contacto, há 250 anos, mudou para sempre o rumo da nossa terra", afirmou. "É um momento a partir do qual embarcámos numa viagem partilhada que se realiza na forma como vivemos hoje".
 
No entanto, Peter Trickett, britânico radicado na Austrália, encontrou em 1999 uma carta náutica numa biblioteca de Los Angeles que atribui aos portugueses o papel de pioneiros ocidentais no que é hoje a Austrália. O Atlas Vallard, um conjunto de 15 mapas desenhados em 1545 em França tem dois deles intitulados Terra Java. Os mapas têm mais de cem nomes em português e alinhados de outra forma apresentam claras semelhanças com a costa australiana.
 
A sua tese foi publicada no livro Para além de Capricórnio (ed. Caderno). Para Trickett, a expedição terá decorrido em duas vezes, a partir de Cochim. A primeira em 1521 e a seguinte em 1522-23, tendo sido comandada por Cristovão de Mendonça, e provavelmente o francês Pedro Eanes como cartógrafo.
 
 
 
Comemorações canceladas
 
O governo de Camberra foi forçado a cancelar os acontecimentos que marcaram os 250 anos da chegada de Cook devido ao surto do covid-19, incluindo a circum-navegação da Austrália por uma réplica do Endeavour.
 
O primeiro contacto entre o navegador britânico e os aborígenes prefigurou a colonização do continente e séculos de expropriação para os indígenas australianos.
Durante a sua viagem, Cook declarou a Austrália Terra Nullius - ou terra legalmente desocupada - e reivindicou-a como território britânico apesar da história aborígene se estender por mais de 60 mil anos.
 
Mais tarde, em 1788, os britânicos estabeleceram uma colónia penal na Nova Gales do Sul.
O presidente da Fundação Gujaga, Ray Ingrey, disse que o povo indígena Dharawal tinha trabalhado com o Museu Nacional da Austrália durante 18 meses para mostrar as lembranças dos seus antepassados do encontro com Cook.
 
A sociedade australiana amadureceu muito nos últimos 50 anos, desde o 200.º aniversário", disse à AFP. "Muitas das mensagens recebidas pelo Museu Nacional foi a comunidade em geral a dizer 'Ouvimos falar do lado de Cook, ou da história do navio, e queremos ouvir mais sobre a história a partir da costa'."
 
Cook visto de terra
 
Uma exposição online apresenta as histórias "largamente ausentes" transmitidas através de gerações de indígenas australianos desses encontros com Cook e a sua tripulação.
 
"Quando os botes começaram a rumar em direção à costa, os meus antepassados perceberam que não eram aborígenes, eram na verdade um povo alienígena porque pareciam muito diferentes de nós. Pensávamos de facto que eram fantasmas", disse Shayne Williams, num vídeo divulgado pelo museu.
 
Na costa, os guerreiros começaram a gritar e a gesticular para que partissem, antes de começarem a atirar pedras e depois a atirar lanças, que aterraram aos pés da tripulação. "Se o nosso povo quisesse atingir um desses marinheiros, tê-lo-ia feito facilmente. Mas foi apenas um sinal de aviso", disse Williams.
 
"Então o que Cook e sua tripulação fizeram foi ripostar com o fogo dos seus mosquetes. Na verdade, atingiram um dos guerreiros com as pernas", continuou. Ingrey disse que o aniversário foi um "acontecimento significativo para todos os australianos", mas o lado indígena da história há muito que tinha sido ignorado ou deturpado. "Foi o primeiro ato de violência contra o nosso povo por parte dos britânicos, mas é a nossa história comum e nós partilhamos o presente, por isso é apenas senso comum que temos um futuro comum", disse à AFP.
 
"Ambas as histórias precisam de ser respeitadas e é tudo o que esperamos, que tenhamos a oportunidade de contar a nossa história da forma que a queremos contar e de ser respeitados para o fazer. Só então poderemos avançar como nação quando ambas as histórias forem reconhecidas e aceites", conclui.
 
Diário de Notícias | AFP
 
Na imagem: A Terra Java no Atlas Vallard, datado de 1545, contém 120 nomes de topónimos em português e assemelha-se à costa leste australiana.

Austrália roubou milhões de dólares de recursos petrolíferos timorenses -- Collaery

 
 
Livro de advogado australiano acusa Camberra de roubar recursos petrolíferos timorenses
 
Um novo livro da autoria do advogado australiano Bernard Collaery acusa Camberra de pactuar com empresas petrolíferas para roubar ao longo de décadas recursos petrolíferos de Timor-Leste.
 
"Os timorenses foram enganados e continuam a ser enganados pelo Governo australiano", disse à Lusa, Bernard Collaery o autor do livro que é lançado a 10 de março.
 
"Foram milhares e milhares de milhões de dólares desviados pelo Governo [do primeiro-ministro] John Howard e [do ministro dos Negócios Estrangeiros] Alexander Downer em que o dinheiro foi para uma empresa norte-americana, a ConnocoPhillips e para a Woodside, cuja maioria das ações são estrangeiras", afirmou.
 
Collaery, atualmente a ser julgado na Austrália num caso relacionado com espionagem australiana em Díli - sobre o qual está impedido de falar -, considera que em contraste com a solidariedade de por muitos na sociedade australiana, o Governo manteve durante anos uma "diplomacia corrupta", com "erros e manipulações que devem chocar os australianos".
 
A Austrália, escreve Collaery, "despojou os pobres de Timor de uma parte significativa dos seus ativos soberanos não renováveis" e, mesmo depois da independência, "considerou a ameaça de dificuldades económicas um instrumento legítimo de persuasão diplomática".
 
"E quando os timorenses começaram a dar alguma luta, a Austrália recorreu às táticas de um batoteiro sujo", lê-se no livro, uma cópia avançada do qual foi dada à Lusa.
 
 
Neste trecho, Collaery refere-se à espionagem de que Camberra é acusada de realizar a Timor-Leste durante as negociações sobre o Mar de Timor quando, sob cobertura de um programa humanitário de obras no Palácio do Governo em Díli instalou equipamento de escutas.
 
 
Quando isso foi descoberto, o Governo "invadiu a casa de um ex-agente do Serviço de Inteligência e Segurança Australiano (ASIS) que sem comprometer nomes ou técnicas usadas queria relatar provas de conduta ilegal" perante um tribunal arbitral internacional.
 
"Em absoluto desprezo pelo tribunal arbitral o Governo australiano cancelou o passaporte da testemunha e ameaçou-o com um processo judicial", refere.
 
"E sem ficar por aqui, o Procurador-Geral Federal emitiu o seu próprio mandado de acordo com as leis de segurança nacional introduzidos para combater terrorismo, para permitir a apreensão de documentos legalmente privilegiados dos escritórios do autor", nota.
 
"Oil over troubled waters" (Petróleo em águas turbulentas) foi escrito por Collaery, um advogado australiano que deu assistência jurídica à resistência timorense durante décadas.
 
Ex-procurador-geral em Camberra, Collaery representou Timor-Leste junto do Tribunal Penal Internacional, no âmbito da disputa com a Austrália sobre fronteiras marítimas.
 
Ao longo de 465 páginas o autor descreve a forma como a Austrália, ao longo de décadas e de forma "oportunista", acedeu a recursos que pertenciam a Timor-Leste.
 
Primeiro, evitando "a cooperação com Portugal como potência colonial em Timor-Leste" e depois com "conivência com a Indonésia no genocídio" da população timorense.
 
"Apesar de muitos australianos se recusarem a ouvir a palavra "genocídio", a Austrália foi cúmplice durante muitos anos da violação pela Indonésia de normas legais fundamentais não muito diferentes do genocídio arménio 90 anos antes ou da fome de nações ocupadas pela Alemanha de Hitler durante a Segunda Guerra Mundial", escreve.
 
Collaery sustenta que desde a segunda metade do século XX e até agora os principais partidos australianos, com poucas exceções, "abandonaram uma ordem baseada em regras para apoiar a exploração dos ativos soberanos do petróleo de um vizinho pobre".
 
Um "roubo patrocinado pelo Estado de ativos timorenses" cujos beneficiários estão agora "espalhados no setor empresarial australiano".
 
"Devemos resgatar a nossa consciência nacional estabelecendo um inquérito nacional independente em que os cúmplices, mortos ou vivos, são identificados, processados ou de outra forma envergonhados e despojados das suas honras", escreve.
 
Collaery quer que se trate "justamente" o povo timorense e quer influenciar "os políticos de coragem e integridade a questionar a conduta dos seus colegas", pelo que pede um inquérito oficial amplo sobre o assunto.
 
O advogado recorda que ele próprio foi alvo de escutas na sua casa e escritórios e que os seus arquivos foram confiscados, tendo em dezembro de 2013 sido alvo de uma rusga por agentes secretos munidos de um mandato emitido "sob poderes para combater o terrorismo".
 
Tratou-se, escreve, de um "registo abismal de erros geoestratégicos e compromisso de valores" adotados por sucessivos líderes políticos australianos e que penalizaram Timor-Leste, com destaque para o ex-chefe da diplomacia, Alexander Downer que "se destacou por um sofismo vazio com política externa e interesses éticos a distanciarem-se".
 
Downer e os seus conselheiros mais próximos, adotaram uma estratégia distorcida pelo aliciante do petróleo de tal forma que as empresas petrolíferas mais poderosas do mundo cativaram a política externa australiana face a Timor".
 
O ex-ministro não passou de "pajem da Royal Dutch Shell, ConocoPhillips e Woodside", escondendo aos timorenses as verdadeiras riquezas do Mar de Timor, permitindo que "ao longo dos anos uma cleptocracia intoxicada pelo petróleo transformasse o parlamento numa farsa que se limitava a carimbar licenças de roubo".
 
E detalha o processo em que as Nações Unidas e a Austrália "privaram gerações de timorenses dos seus direitos", atuando com má-fé com decisões que deveriam ser alvo de um inquérito judicial independente e julgamento.
 
"Este livro procura iluminar a razão ou as razões pelas quais um país civilizado como a Austrália se distanciou tanto e ao longo de muitos anos do Estado de direito e dos princípios "fair-go" defendidos pelos seus fundadores", escreve.
 
"Uma política externa incompetente e manhosa, com políticas opressivas em casa que viram a Austrália perder qualquer papel que possa ter tido como exemplo de liderança democrática numa região onde quer ter lugar", sublinha.
 
António Sampaio | Plataforma | Na imagem: 1 - Timorenses manifestam-se contra os roubos australianos; 2 - Bernard Collaery / Foto: Collaery Lawyers

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/03/australia-roubou-milhoes-de-dolares-de.html

A TRAGÉDIA ESTÁ BEM DOCUMENTADA, MAS OS POTENCIAIS EFEITO GLOBAIS NÃO ESTÃO

The Geopolitical Conseqences of Australia’s Wildfires. The tragedy has been well documented, but its potential global effects have not, por Allison Fedirka

GPF – Geopolitical Futures, 20 de Janeiro de 2020

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

 

Os incêndios florestais têm estado em fúria por toda a Austrália durante a maior parte dos últimos quatro meses. As altas temperaturas e os céus cheios de fumo envolveram uma faixa de terra maior que alguns países, ameaçando inúmeras espécies de plantas e animais. (Admito que procurei saber  diariamente as perspetivas de recuperação de Lewis, o Koala. RIP rapazinho).

A tragédia tem sido bem documentada, mas as suas potenciais ramificações não. Com isso em mente, vamos analisar como é que os incêndios podem afectar o cenário militar, económico e político da Austrália e o seu comportamento no cenário global.

Fogos na Austrália desde Novembro de 2019

Australia Fires Since November 2019

Os desastres naturais são um facto da vida, claro, e tendem a ser únicos para certas regiões. As Caraíbas têm a época dos furacões. A Índia tem monções. A Austrália tem a época dos incêndios florestais. As condições este ano foram, infelizmente, bem adequadas para o surto. Os estados do leste da Austrália têm estado em seca desde o início de 2017.   Os primeiros meses de 2019 foram os mais secos de que há registo. E grande parte da flora nativa, incluindo eucaliptos, é naturalmente altamente inflamável para começar. Por  outras palavras, a área era um barril de pólvora  rodeada por uma quantidade quase  infinita de combustível.   Os ventos fortes, alguns a 70 quilómetros por hora, espalharam os fogos mais rapidamente. Como resultado, a atual temporada de incêndios florestais começou mais cedo do que o normal, enquanto a temperatura e o alívio da precipitação só chegarão em meados de março.

É difícil (e talvez um pouco desajeitado) quantificar o quanto os incêndios atuais são piores do que os anteriores, mas comparar as áreas afectadas, as mortes e os danos materiais é instrutivo. Nesta temporada, cerca de 10 milhões de hectares foram afectados, ultrapassando a área afectada de qualquer temporada anterior, como já foi registado. Até agora, os incêndios são menos mortais que nos anos anteriores, com pouco menos de 30 pessoas mortas. (Isto exclui a perda de vida selvagem, que alguns dizem estar nos milhares de milhões. Os dados históricos de morte de animais são difíceis de obter). Em termos de danos materiais – que podem ser medidos através de reclamações de seguros, edifícios queimados e perda de gado – os incêndios atuais são desastrosos. Os danos estimados são de 2 mil milhões de dólares australianos (1,4 mil milhões de dólares) e crescentes; o recorde anterior era de cerca de AU$ 4,4 mil milhões em 2009.

Prejuízos e mortes causados pelos fogos na Austrália

Damages and Deaths from Australian Fires

Estratégia e Segurança

As instalações militares mais estrategicamente sensíveis da Austrália incluem bases navais ao longo da costa norte, que estão muito afastadas dos incêndios florestais. As instalações mais próximas dos incêndios estão consideradas intactas. Os incêndios não interromperam as operações militares no exterior ou a nível interno. Na verdade, as forças armadas têm desempenhado um papel crítico nas missões de evacuação e no apoio aos esforços de combate aos incêndios.  

É claro que a segurança nacional envolve mais do que apenas equipamento militar – também envolve recursos estratégicos necessários para a sua sustentação. A Austrália ostenta uma abundância de depósitos e de produção de minerais de terras raras. Estes minerais são relativamente escassos e desempenham um papel crítico na cadeia de fornecimento de tecnologia, aeroespacial e telecomunicações. A China detém um quase monopólio sobre o fornecimento mundial de terras raras, o que é um problema para os EUA e aliados como a Austrália. As jazidas são, portanto, um passo necessário nos  seus esforços conjuntos para mitigar o risco da cadeia de abastecimento, construindo uma rede alternativa de fornecimento de minerais de terras raras. Mas também aqui os incêndios parecem ser insignificantes, uma vez que as minas produtoras estão localizadas longe dos depósitos e das infraestruturas associadas. A Austrália também é líder mundial na exportação de carvão e gás natural liquefeito, que também são relativamente não afetados pelos incêndios. Os verdadeiros desafios enfrentados pela indústria de mineração são manter o abastecimento de água muito importante para as operações, apesar da seca e da tempestade política que está a ser  agitada.

As terras raras da Austrália

Australia's Rare Earths

 

Prejuízo económico

Os danos e perdas materiais devidos aos incêndios florestais não têm uma incidência uniforme sobre a economia da Austrália. Algumas áreas são diretamente afetadas, alguns danos são o resultado de efeitos secundários ou retardados, e ainda assim algumas partes podem saír realmente  beneficiadas uma vez que os incêndios sejam apagados.

As primeiras vítimas, potenciais ou reais, são os sectores de seguros, agricultura e turismo, dos quais a agricultura é a mais relevante do ponto de vista geopolítico. (Os seguros são internos  e 75 por cento dos turistas são nacionais ). A Austrália é um grande fornecedor mundial de carne bovina e laticínios. Este sector representa  AU$3,3 mil milhões e  em exportações está em  quarto lugar no mundo, sendo  um dos principais fornecedores para os mercados asiáticos. As queimadas ameaçam 12% do rebanho ovino nacional e 9% do rebanho nacional. O Ministério Federal da Agricultura prevê perdas de gado de mais de 100.000 cabeças. Já foram relatadas interrupções no abastecimento. Outro sector chave da agricultura, o trigo, não foi directamente afectado porque a colheita foi concluída antes de os incêndios entrarem em pleno vigor. Mesmo assim, os incêndios ameaçam os stocks de trigo em grão, a alimentação do gado e os rendimentos futuros da colheita.A exposição ao fogo intenso geralmente diminui a reserva de nutrientes no solo e a capacidade de retenção de água, tornando mais difícil o crescimento das culturas no futuro.

Os incêndios têm agravado uma indústria agrícola já agitada. A produção leiteira e de trigo já estava em declínio, graças à seca contínua. A produção de leite na Austrália atingiu o seu nível mais baixo dos últimos 22 anos. A produção de trigo foi tão baixa que teve de começar a importar em meados de 2019. As primeiras estimativas sugerem que a produção poderia diminuir mais 8% em 2019-2020. Os consumidores começarão a ver o impacto dos incêndios no fornecimento e nos preços dos bens básicos relacionados. A nível interno, isto irá manifestar-se no plano político (mais abaixo). Os importadores também passarão a sentir aumentos de preços. Os compradores já andam á procura de  fornecedores alternativos para compensar o declínio da produção da Austrália. Alguns países serão mais capazes de absorver os aumentos de preços do que outros. Considere a China, que é muito sensível até mesmo às pequenas flutuações de preços dos alimentos. A guerra comercial e a gripe suína já inflacionaram  os preços dos alimentos, e embora Pequim tenha encontrado fornecedores alternativos no Brasil e na Argentina, outros factores que aumentam os preços dos alimentos tornarão os alimentos menos acessíveis para os consumidores e aumentarão a pressão sobre o governo para mantê-los baixos.

A SGS Economics and Planning estima que as perdas relacionadas com incêndios neste ano fiscal serão de AU$1,1 mil milhões – AU$1,9 mil milhões.  Isto inclui áreas indirectamente afectadas como Sydney, que está a perder   até AU$50 milhões por dia por causa das mudanças nos hábitos dos trabalhadores e consumidores. Economistas da AMP Capital sugerem que a Austrália pode perder o equivalente a 1% de sua produção económica nacional. No entanto, o governo já autorizou AU$2 mil milhões nos próximos dois anos para reconstrução – um desembolso modesto para um país com um produto interno bruto de cerca de US$1,38 milhões de milhões. A um nível puramente macroeconómico, a Austrália deve ser capaz de resistir à tempestade de fogo.

Implicações Políticas

Qualquer emergência ou desastre natural coloca a gestão política sob o microscópio – e a Austrália certamente não é excepção. Mas o momento é particularmente mau  para o governo de Camberra, que tem tido um conjunto de grandes mudanças  na última década. Os incêndios renovaram o debate público sobre a indústria mineira e levantaram questões sobre a capacidade do governo de responder às necessidades da Austrália.

Embora a indústria extractiva seja uma das atividades globalmente significativas da Austrália, o futuro deste sector  é uma questão bastante divisiva. A  indústria extractiva  é responsável por cerca de 10% do PIB da Austrália e emprega dezenas de milhares de pessoas. O país também é um dos principais exportadores de carvão e de gás natural liquefeito . O primeiro-ministro e o seu partido apoiaram fortemente a indústria extractiva do país, mas os incêndios encorajaram os críticos da indústria, dando-lhes algum ímpeto nos debates sobre a redução da pegada de carbono da Austrália. Para ser claro, a Austrália não está prestes a suspender as suas atividades extractivas. Mas as batalhas políticas são importantes e, por enquanto, o partido no poder está na defensiva.  

Ao mesmo tempo, o custo dos incêndios pôs em questão a gestão económica geral do governo. Embora o PIB nacional do país tenha crescido durante quase três décadas, os consumidores têm vivido em várias ocasiões cenários de recessão, levando a quedas no PIB per capita. O crescimento dos salários quase estagnou. Os consumidores estão compreensivelmente zangados com o aumento dos preços dos bens básicos. E não há muito que o governo possa  fazer para impulsionar a economia através das taxas de juro. O Banco Central tinha  previsto  cortar as taxas de juros no início deste ano; os incêndios terão como um dos seus efeitos  mitigar quaisquer consequências  que  possam ter vindo dessa política.

Taxa de crescimento do PIB australiano per capita

Australia Real GDP Per Capita Growth Rate

Tudo isto para dizer que os incêndios não começaram os problemas políticos da Austrália, mas certamente não os estão a ajudar.   O país  tornou-se  bastante hábil em produzir  novos líderes dai que, mesmo que a pressão aumente a ponto de o público querer um novo primeiro-ministro ou partido, o impacto global será mínimo. As duas relações mais importantes da Austrália – a sua aliança com os Estados Unidos e a sua abordagem cautelosa com a China – serão em grande parte sem fases. As atuais necessidades económicas e de segurança da Austrália mantêm esta dinâmica mesmo sob os mais terríveis desastres naturais.  

 

Fonte: Allison Fedirka, sitio Geopolitical Futures,  The Geopolitical Consequences of Australia’s Wildfires – The tragedy has been well documented, but its potential global effects have not.  

 

Texto disponível em: https://geopoliticalfutures.com/the-geopolitical-consequences-of-australias-wildfires/

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/02/16/a-incapacidade-de-resposta-dos-neoliberais-face-as-situacoes-de-catastrofe-australia-reino-unido-e-portugal-como-exemplos-emblematicos-iv-as-consequencias-geopoliticas-dos-fogos/

A NEGAÇÃO DO INFERNO NA AUSTRÁLIA – O MAIOR HORROR ATÉ AGORA NÃO SÃO OS FOGOS EM SI MAS SIM A RESPOSTA QUE LHES É DADA, por AARON TIMMS

 

 

Australia’s Infernal Denial – The greatest horror so far isn’t the fires themselves—it’s the response to them., por Aaron Timms

The New Republic, 7 de Janeiro de 2020

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

Foi na primavera que o riso assustador do idiota chegou para Rimbaud. A própria temporada da Austrália no inferno chegou ao seu auge da estupidez um pouco mais tarde. Os fogos florestais  tinham deflagrado em toda a costa leste do país – onde a maioria da população está concentrada – em setembro. Em outubro, ainda a meio  da época primaveril  do hemisfério sul, os incêndios a oeste e sul de Sydney perderam o controle, e o manto de um céu manchado pelas mudanças climáticas  instalou-se  sobre a cidade.

Sentado em Nova York, recebi atualizações regulares do meu irmão, que me retransmitiu fotos da atmosfera de cinzas de Sydney e os seus efeitos na sua fisiologia, de resto robusta: os olhos a ficarem com picadas  e os pulmões que parecem estar a arder, a necessidade de trabalhar a meio gás  ao ar livre.

Quando cheguei a Sydney, alguns dias antes do Natal, a neblina sobre a cidade tinha diminuído, mas o cheiro do fumo  ao sair do aeroporto era poderoso e alarmante, porque  o clima tinha mudado, mas a vida das pessoas, aparentemente, não tinha.

Se isso demonstrava admirável adaptabilidade humana ou uma branda aquiescência diante de uma nova realidade ecológica inconsciente, não sei dizer.

Eu cresci em Sydney e vivi aqui durante quase três décadas antes de me mudar para os Estados Unidos.

Nada era normal sobre este ar, esta época de incêndios.

Na saída do aeroporto, notei uma bandeira australiana a flutuar  a meia haste. Com uma lentidão que era apenas um pouco auto-consciente, tomei-a como um presságio para as perspetivas vitais do país.

Em The Biggest Estate on Earth, o seu relato sobre os sofisticados sistemas de gestão de terras desenvolvidos pelos indígenas australianos antes da colonização do continente pelos britânicos, o historiador Bill Gammage escreveu sobre como os aborígenes usavam o fogo “para moldar a terra”. Era um grande totem, um amigo. Como nos dizem as músicas populares australianas,  o fogo unificou a Austrália.”

Hoje, o fogo uniu a Austrália mais uma vez, mas em sofrimento compartilhado, e não como uma ferramenta para o desfrute comum da terra. Naqueles primeiros dias, o fedor das florestas incineradoras do país  atingia-me  cada vez que eu saía de Sydney . Os piores incêndios foram a centenas de quilómetros de distância. A morte estava nas narinas de todos.

Para quem ainda se recusa a aceitar a ligação entre as alterações climáticas antropogénicas[1] e estes incêndios sem precedentes, o simples ato de respirar oferecia uma poderosa refutação. Mas muitos no governo conservador do país continuaram sem ser pressionados – como se o facto de 2019 ter sido o ano mais quente e seco de que há registo – pouco disso teve a ver com a prontidão da terra para se incendiar.

Em 21 de dezembro, Michael McCormack, o primeiro-ministro interino, argumentou que havia “muita histeria sobre as mudanças climáticas” e que outros fatores eram igualmente culpados pelos incêndios florestais: “Tem havido relâmpagos secos, tem havido pilhas de estrume autocombustível, tem havido muitos incendiários lá fora a provocaram os fogos .” Pilhas de esterco auto-combustível:  com isso, os líderes da Austrália disseram  – literalmente – coisas estúpidas sobre os incêndios, e a cortina foi levantada  sobre um desfile de idiotices políticas  de duas semanas quase tão monumental e catastrófico quanto os próprios incêndios.

No espaço de duas semanas, Scott Morrison elaborou o manual de respostas às urgências de toda a gente e em todo o mundo .

McCormack estava a atuar  como primeiro-ministro porque o verdadeiro primeiro-ministro, Scott Morrison, tinha ido de férias com a família para o Havaí, assim que os incêndios florestais entraram na sua fase mais destrutiva. Cancelar as férias teria decepcionado as filhas, explicou Morrison; além disso, a sua família não gozava férias desde maio.

Enquanto isso, vastas áreas do sudeste do país estavam em chamas: enquanto o primeiro-ministro fazia surf nas praias do Havaí, a Austrália enfrentava o dia mais quente de todos os tempos, com a temperatura média em todo o continente, e este é uma  superfície em terra equivalente aos  contíguos  Estados Unidos, a atingir  41,9 graus Celsius (107,4 graus Fahrenheit). No seu regresso, Morrison encontrou uma nação envolvida e uma população enfurecida. A sua  resposta foi continuar como se os incêndios não fossem nada fora do comum, um pouco de calor de verão como o calor de qualquer outro verão.

Entre os muitos espectáculos violentos desta temporada de incêndios – os milhares de pessoas bloqueadas  nas praias e longos trechos de estradas rurais empilhados com gado queimado, os pássaros a caírem  mortos  pelo  meio do dia, os bebés cangurus imolados nas cercas das quintas, os tornados do fogo e os céus em cor de fogo e sangue  – talvez o mais infernal tenha sido a marcha das nuvens de pirocumulus[2], produto de colunas  de fumo tão grandes que podem gerar raios que espalham ainda mais o fogo. Assim como esses incêndios criaram os seus próprios sistemas climáticos, os líderes políticos da Austrália também criaram o seu próprio tipo de realidade para combater a destruição.

Primeiro, houve um silêncio estudado de primeiro-ministro. Então, no dia de Ano Novo, veio uma pantomina de normalidade: Morrison gravou uma mensagem na qual ele alegremente assegurou aos australianos que “vivemos no país mais incrível do mundo”. Mais tarde naquele dia, ele recebeu as equipas de críquete da Austrália e da Nova Zelândia na  sua residência em Sydney e posou, no meio da bruma de fumaça  que  ainda sufoca a cidade, para uma foto com os jogadores.

Aqueles que lutaram contra os incêndios, disse ele, seriam “inspirados pelos grandes feitos dos  nossos jogadores de críquete”. As crianças brincavam para lá da erva tornada tão cinzenta como os dentes de um morto.  Nessa altura, os incêndios florestais eram tão intensos e descontrolados  que muitos deles sopraram através de linhas de contenção construídas através da combustão em contracorrente do fogo nas suas costas, do derrube  de  muitas árvores e de outros métodos de redução de riscos: um bombeiro testemunhou um incêndio numa  área que já tinha ardido duas semanas antes, mas as folhas ardidas ardiam de novo. .

No dia seguinte, quando Morrison finalmente percorreu as comunidades devastadas pelo fogo ao sul de Sydney, a escala da destruição – e a profundidade da raiva das pessoas contra ele – foi óbvia. A mensagem mais consistente que ele ouviu das pessoas na linha da frente do inferno naquele dia foi “Vai-te f…”. Diante das câmaras, depois de ter fugido do inferno dos habitantes de uma cidade, Morrison parecia genuinamente desorientado. O que eu vi nos  seus olhos não foi simpatia ou tristeza, mas medo: medo da força total e assassina da mudança climática e da fúria não envernizada dos que ficaram para trás para lutar contra ela. Aqui estava um homem totalmente desajustado ao desafio, sem saber o que fazer.

No intervalo de um dia, essa perplexidade desapareceu, substituída por um primeiro-ministro altamente excitado face ao negócio  da recuperação do depois do desastre. Primeiro, Morrison deu à Austrália o que ela realmente precisava: um anúncio de resposta de emergência do governo. Depois vieram algumas vagas concessões à ideia de que o aquecimento global era um fator nos incêndios, com a advertência obrigatória de que agora não era o momento de fazer  política.

Finalmente, é feito o anúncio de um fundo de recuperação dos incêndios  de 2 mil milhões de dólares australianos (1,4 mil milhões de dólares), e com a ajuda dos militares australianos. Morrison poderia apresentar-se como o primeiro a responder em chefe da nação, um homem de ação tardia, evitando ao mesmo tempo a confusão de fazer alguma coisa em relação à mudança climática que provocou os incêndios. A ação a curto prazo tem dado cobertura à inação a longo prazo.

Custe o que custar, custe o que custar, vamos garantir a resiliência  e o futuro deste país”, disse Morrison à imprensa no início desta semana. O que quer que seja necessário, isto é, exceto a ação mais necessária: afastar a economia da Austrália dos combustíveis fósseis e proporcionar e fazer parte da liderança global na estabilização do clima.

Negação, ofuscação, concessão, inação: No espaço de duas semanas, Scott Morrison preparou  o manual de intervenção em urgências para toda a gente.  É assim que devemos esperar que os conservadores tratem a Terra paciente à medida que a emergência climática se agrava: como o local de sucessivas feridas a serem tratadas de forma reativa e isolada, em vez de ser tratada um organismo doente que necessita de cuidados preventivos urgentes e holísticos. Estes esforços isolados de recuperação de desastres vão continuar até que, adivinhem só? Até que seja  tarde demais para fazer qualquer coisa. E até lá, o planeta já estará perdido para nós.

Todos os recursos necessários para uma transição justa para uma economia de baixo carbono estão sob os olhos da Austrália, à sua frente. Mas também  estão os elementos que mantêm o país inerte, ligados a uma prosperidade destruidora do planeta.

Eu vi a Austrália a arder a partir  da casa dos meus pais, numa zona calma no centro de Sidney, onde eu me deito na minha cama, todos os dias, folheando catálogos intermináveis das redes sociais sobre a  miséria natural e  humana, com o ar condicionado regulado a 19 graus C (66 graus Fahrenheit). Desta forma insensível, contribuí para a contínua destruição do planeta, causada pelas emissões. Em viagens para longe de casa,  eu  sentia-me  irritado com amigos, mesmo os meus melhores e mais velhos amigos  e  tornei-me  o tipo de expatriado demasiado bom face ao que eu sempre detestei.  Onde estava a fúria deles? Diante da catástrofe climática, reinava uma amabilidade liberal presunçosa. Um amigo que trabalha em direitos humanos disse-me que nunca tinha ouvido falar do historiador intelectual desiludido Samuel Moyn nem  da sua crítica ao movimento dos direitos humanos centrada sobre  a justiça social.

Outro amigo, quando mencionei que estava a pensar  em escrever sobre o próximo livro de Ezra Klein sobre polarização política, questionou porque é que eu  me iria “afundar ” em Ezra, que “parece tão legal” e tem um “grande podcast”. Numa festa da casa na noite de Ano Novo, na qual todos pareciam ressacados e infelizes, alguém me disse que seria errado cancelar o famoso fogo-de-artifício da meia-noite de Sydney, seja qual for o mau gosto desse  espectáculo no meio de uma catástrofe nacional, porque “eles contribuem com 100 milhões de dólares para a economia local”. Será que as pessoas aqui sempre foram tão ignorantes e incapazes de levantar questões ou será que eu estava simplesmente cego no passado pelo afecto por todos aqueles  que me eram próximos?

Contradição e absurdo assombram muitos países na era da mudança climática, mas cada país tem o seu próprio sabor de negação destrutiva, e a Austrália não é excepção. Há muito que me surpreende e me angustia que uma terra com tanta inteligência, energia e inteligência – um lugar de um grande  encanto e de carisma fácil – possa ter  simultaneamente tão pouca disponibilidade para a aventura e ser  tão satisfeita de si-própria e tão preguiçosa. Clive James, o escritor australiano que morreu recentemente depois de uma década de carreira como sendo talvez o crítico mais acutilante  e engraçado do mundo anglófono, também era um negador das mudanças climáticas.

Os paradoxos abundam na Austrália, especialmente quando se trata de política de recursos naturais: O país é o maior exportador líquido de carvão do mundo, mas tem enormes reservas de lítio e um grande  potencial de energia solar, o que o coloca entre as possíveis potências de um futuro global de energias renováveis. Sejam quais forem os imperativos morais e ecológicos para a acção das mudanças climáticas na Austrália hoje – e eles são esmagadores – o interesse  económico também é convincente. Por melhor que seja o presente do país, o futuro pode ser muito melhor.

Todos os recursos necessários para uma transição justa para uma economia de baixo carbono estão disponíveis em face da Austrália. Mas também o estão os elementos que mantêm o país inerte, ligado a uma prosperidade destruidora do planeta: um establishment político conservador não convencido da necessidade de descarbonização; poderosos interesses de combustíveis fósseis; e os media  saturados  da News Corp felizes em difundir  a mentira venenosa de que o aquecimento global é um golpe de libertinos.  A promessa do país é vasta, como a sua paralisia.

Já se fala, mesmo entre os grandes conservadores que fizeram discursos sobre as mudanças climáticas antropogénicas,  sobre o papel  da seca, das cargas de combustível e dos incendiários – fala-se de tudo menos das mudanças climáticas – na deflagração dos incêndios. O ex-primeiro-ministro conservador John Howard disse recentemente que os “australianos pacatos” – esses eleitores de classe média pouco reativos  que deram a Morrison uma vitória surpresa nas eleições federais de maio passado, apesar das sondagens  favorecerem consistentemente o “equilíbrio” trabalhista no “debate” sobre soluções para os incêndios florestais. Mas os “australianos tranquilos” que representam o maior perigo para o país não são os que votam nos que nada fazem contra as mudanças  climáticos como Morrison por ignorância ou  por não estarem bem informados. O perigo, esse, está nos  australianos que deveriam ser barulhentos, mas que não  se dão ao trabalho de  levantar a voz – aqueles que sabem melhor, que entendem as consequências de não fazer nada sobre as mudanças climáticas, mas que sucumbiram à apatia da prosperidade e  se contentam em deixar um voto para os partidos trabalhistas ou verdes, ou o ocasional tweet picante, o que define  o limite de sua coragem moral. (E, para ser claro, eu  conto-me  entre este grupo: O que tenho eu contribuído para os esforços de combate às alterações climáticas? Até hoje, essencialmente nada).

Mesmo que faltem meses para se chegar ao fim do verão australiano, as coisas voltarão, é claro, a alguma semelhança relativamente ao  que costumávamos chamar de “normalidade”: O calor vai abrandar; vai chover, embora provavelmente não o suficiente; o inverno virá. Então, em pouco tempo, outra catástrofe cair-nos-á em cima. A minha esperança, como a esperança de muitos ao meu redor, é que estes incêndios sejam um catalisador para os australianos em toda a parte – para uma fúria  permanente quanto aos problemas do clima, e para um empenhamento incessante a favor de uma rápida, equitativa e planetária descarbonização. Estamos a lutar pelas  nossas próprias vidas.

Este momento na história é obviamente um fim. Se formos industriosos e afortunados, será apenas o fim da era dos combustíveis fósseis, e não da civilização humana em si. Se este momento também prefigurar um começo, isso depende de nós. O que está a acontecer à nossa Terra não é normal e não é aceitável. Mas resistir à tentação de simplesmente recalibrar e continuar em frente  não será fácil. Na segunda-feira desta semana, quando comecei a trabalhar nesta peça, tirei o meu pequeno  portátil  do seu lugar na escrivaninha do meu quarto, onde ele  está colocado  na maioria das vezes,  quando não está a ser utilizado, perto de uma janela que esteve aberta durante dias. O portátil  estava coberto de cinza. A fumaça do fogo ainda estava no ar, mas eu já não conseguia sentir o seu cheiro.

Aaron Timms is a writer living in New York

__________

[1]O aquecimento global antropogénico é uma teoria que explica o aumento da temperatura média da atmosfera terrestre a longo prazo como um efeito da indústria e agricultura humanas.

[2] Nota de  tradutor: A nuvem  Pirocumulus também é também conhecida como nuvem de fogo e está associada a regiões de queimadas ou de erupções vulcânicas. Está nuvem  forma-se pelo aquecimento intenso e abrupto da superfície que induz uma forte convecção.

Para ler este texto no original clique em:

https://newrepublic.com/article/156137/australias-infernal-denial

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/02/15/a-incapacidade-de-resposta-dos-neoliberais-face-as-situacoes-de-catastrofe-australia-reino-unido-e-portugal-como-exemplos-emblematicos-iii-a-negacao-do-inferno-na-australia-o-m/

A DISTOPIA DOS INCÊNDIOS FLORESTAIS DA AUSTRÁLIA – UMA OUTRA ENTRADA PARA O BOLETIM NEOLIBERAL – por BILL MIT

 

 

Australia’s bushfire dystopia – another entry for the neoliberal report card, por Bill Mitchell

 

Bill Mitchell – Modern Monetary Theory, 9 de Janeiro de 2020

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

A crise da Austrália

É difícil sentir mais vergonha pela minha nacionalidade do que já sinto pela forma como temos permitido que sucessivos governos australianos encarcerem indefinidamente refugiados inocentes nas ilhas do Pacífico, ao longo de muitos anos.

 

Estas pessoas procuravam abrigo da opressão e da agitação, grande parte da qual provinha, inicialmente, do facto de os nossos governos terem decidido jogar à bola com as nojentas e ilegais invasões de várias nações (Afeganistão, Iraque, etc.) desencadeadas pelos  americanos.

 

Existe uma profunda insegurança cultural na Austrália, onde parecemos pensar que qualquer coisa americana deve ser celebrada e priorizada em relação à nossa própria identidade e capacidades.

 

Essa “bajulação cultural” atravessa todas as áreas das nossas vidas – política, cultural e educacional. Precisamos de crescer.

 

Nos anos 60, o nosso Primeiro Ministro foi convidado a resumir a nossa política externa. Ele respondeu “Irei até ao fim com  Lyndon B. Johnson,”!

 

Em 1999, vários meios de comunicação social começaram a referir-se ao nosso primeiro-ministro (então John Howard) como o xerife adjunto dos Estados Unidos em referência ao nosso compromisso de nos juntarmos e  à atividade militar americana, na sua maioria ilegal na região. Howard nunca negou ou desrespeitou o uso do termo.

 

Foi era profundamente embaraçoso para uma nação independente, mas mesmo assim continuamos em frente a acompanhar os americanos.

 

Aqui estávamos, como um cão de colo, unindo-nos a empreendimentos ilegais sob o diktat  de um personagem louco como Bill Clinton e depois George W Bush.

 

Devíamos ter louvado a nossa independência e a nossa própria confiança para resistir à cultura imperialista dos EUA e ao culto da celebridade.

 

Tudo muito vergonhoso.

 

Mas, esse nível de vergonha aumentou nos últimos anos, pois  torna-se  óbvio que nosso governo está a liderar  uma cabala de negação das mudanças climáticas, o que está a minar  os esforços globais para agilizar as respostas razoáveis à crise.

 

Desde  há  alguns anos, tenho vindo a realizar  projetos de investigação  para o União dos Sindicatos de Bombeiros sobre uma série de questões diferentes.

 

Gosto de pensar que, como resultado desse trabalho, tenho uma boa compreensão do sector, dos seus desafios e dos riscos que as nossas comunidades enfrentam neste contexto.

 

Se as pessoas na população em geral realmente entendessem de que maneira nos tornamos vulneráveis em termos de proteção contra incêndios como resultado da austeridade  governamental, então a sensação de alarme seria enorme.

 

Nós calculamos a taxa de resposta e os quocientes de danos e somos capazes de calcular com bastante precisão quando os danos passam de pequenas perdas patrimoniais a graves perdas humanas.

 

As taxas de resposta são impulsionadas pelo investimento em infraestrutura e desenvolvimento de competências, e pelo número de bombeiros capazes de serem destacados rapidamente.

 

Já antes escrevi   sobre a miopia do neoliberalismo. Por exemplo: :

 

1. Mental illness and homelessness – fiscal myopia strikes again (January 5, 2016).

2. British floods demonstrate the myopia of fiscal austerity (January 4, 2016).

3. The myopia of fiscal austerity (June 10, 2015).

4. The myopia of neo-liberalism and the IMF is now evident to all (October 8, 2014).

Há inúmeros exemplos ao longo desta era neoliberal em que os governos, procurando reduzir os seus gastos líquidos, para gerarem excedentes sem considerar se essa ambição é apropriada, dado o gasto não governamental e as decisões de poupança, acabam por ter de aumentar os seus gastos líquidos em múltiplos dos montantes inicialmente reduzidos, como resultado dos impactos dessas reduções iniciais.

 

A minha própria pesquisa para a UFU ao longo de muitos anos indicou um subfinanciamento substancial dos serviços de bombeiros.

 

O governo federal, que emite a moeda, sempre atribui a culpa de quaisquer questões como esta aos governos estaduais, que, de acordo com a nossa Constituição, assumem a maior parte das responsabilidades dos gastos dentro da nossa nação.

 

Entretanto, é óbvio que o governo federal pode sempre aumentar os subsídios aos estados para financiar a infraestrutura nacional essencial.

 

Portanto, em última análise, o subfinanciamento de serviços essenciais como a proteção contra incêndios  resume-se  ao fracasso do nosso governo federal.

 

Ambos os lados da política na Austrália estão obcecados em obter um excedente orçamental, apesar de não terem compreensão do que esse objetivo realmente significa em termos de seu impacto sobre a economia em geral.

 

É uma busca sem sentido de homens e mulheres ignorantes que se dedicam cegamente à sua própria imagem e à manutenção do poder.

 

Agora está claro que delegações de especialistas no setor de incêndios, incluindo ex-chefes de bombeiros em nível estadual, procuraram financiamento extra do governo federal no início de 2019, sob o pretexto de que a Austrália estava  a enfrentar  um futuro imediato desastroso como resultado de uma seca de longo prazo, que havia deixado as nossas florestas e pastagens secas e vulneráveis.

 

Pelo que sei, o Primeiro-Ministro recusou-se a encontrar-se com eles.

 

Desde o início do inverno, quando começaram as queimadas, ficou claro que algo sem precedentes estava-lhes pela  frente. A nossa estação de queimadas é normalmente em Fevereiro (no final do Verão) e não durante o Inverno.

 

O governo não deu resposta a esses incêndios florestais do início da estação, que depois se agravaram progressivamente até que quase todo o país se incendiou.

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Milhões de animais foram queimados vivos. O seu habitat foi destruído. Um número desconhecido mas enorme de casas foram destruídas e, em alguns casos, foram dizimadas cidades.

 

A cidade inteira teve que procurar abrigo na praia e esperar para ser resgatada por navios da Marinha enquanto a sua cidade ardia e  se ficava sem itens essenciais, como comida e água

 

As pessoas à espera.

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                                                             A evacuação de Mallacoota

Milhões de hectares  de matas foram destruídos.

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                                                                                 Fogos

Estima-se que pode levar 100 anos, até que se refaça o que agora foi destruído  dado o quão seca a nossa nação se tornou e como estes incêndios têm sido ferozes em resultado.

 

O governo conservador continua a dizer que a Austrália tem sempre fogos de mato. Mas é muito difícil, para quem entende da nossa história, comparar isso com  o desastre atual.

 

Quando os incêndios florestais começaram, o governo federal fez uma grande crítica a toda e qualquer pessoa que ousasse ligar o desastre ao debate sobre as mudanças climáticas.

 

A sua agenda tem sido claramente a de negar qualquer mudança climática e de recusar uma ação política apropriada.

 

Embora eu conheça todos os argumentos sobre as tendências dos dados e o facto de que os dados só estão disponíveis há tanto tempo, então extrapolar a partir de um conjunto de dados limitado (centenas de anos) pode ser muito difícil, o facto é que 2019 foi um ano recorde para os extremos climáticos na Austrália.

 

O Instituto  de Meteorologia informou que :

 

1. “Tem havido uma clara tendência ascendente nas temperaturas médias ao longo do último século.”

 

2. “Foi a primeira vez que uma anomalia anual chegou a dois graus acima da média.”

 

3. “Foi também o ano mais seco da Austrália, com apenas 277,6 milímetros de chuva em média para o país, 40% menos do que a média a longo prazo”.

 

4. “Os anos secos são frequentemente quentes porque a chuva arrefece as coisas, mas esta é a primeira vez por ano que é a mais quente e seca de que há registo.”

 

5. “Grandes inundações de Fevereiro a Abril através do oeste de Queensland trouxeram alívio a alguns e devastação a muitos.”

 

6. “Tempestade após tempestade de pó varreram  o país juntamente com uma série de tempestades que causaram estragos – desde a destruição das vinhas do sul da Austrália Riverland até ao granizo de 11 centímetros na região de Queensland’s Wide Bay.

 

7. “O sudeste do país até foi salpicado de neve em dado momento .”

 

8. “Janeiro foi assolado por ondas de calor, tornando-o o mês mais quente da Austrália.”

 

9. “Os incêndios arderam na Tasmânia durante semanas, resultando na pior época de incêndios do estado desde 1967.”

 

10. “Também houve grandes chamas em Victoria e na Austrália Ocidental no início do ano, e essa devastação só pode ser eclipsada pelos recentes incêndios de horror.”

 

11. “A 17 e 18 de Dezembro, a Austrália ultrapassou o seu dia mais quente de sempre – só falhou o dia 19 para hat-trick por uma unha negra .”

 

Eles ligam estas mudanças extremas do nosso tempo a “tendências muito bem definidas e claras … que temos visto ao longo das últimas décadas.

 

Em 9 de fevereiro de 2017, o nosso primeiro-ministro, então no Tesouro, trouxe um pedaço de carvão para o parlamento nacional como uma declaração de apoio à indústria de combustíveis fósseis e uma indicação de que ele rejeitou quaisquer narrativas de mudanças climáticas.

 

Ei-lo pois em plena forma :

 

 

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                                                                               Scott e o carvão

E os seus colegas no banco da frente acharam que isto era histérico::

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O governo continua dizendo que mesmo que houvesse mudança climática, a Austrália não deveria agir de forma significativa porque somos muito pequenos para influenciar o resultado geral e, portanto, só prejudicaria a nossa economia.

 

O argumento, é claro, não tem valor moral.

 

Mas também é claro que a nossa posição, por exemplo, na recente conferência das Nações Unidas sobre mudanças climáticas, em Madrid, foi uma vergonha.

 

O nosso governo não só procurou enganar o processo através do uso de uma lacuna contabilística  para cumprir a nossa meta climática, como também nos combinamos com os EUA e o Brasil para frustrar o progresso na reunião.

 

E então, as  nossas florestas e cidades começara, na verdade, a arder.

 

Portanto, temos um governo cientificamente ignorante, que se recusa a usar a sua capacidade  orçamental de forma responsável, e o resultado é uma enormíssima destruição em todo o nosso país.

 

O governo, por razões políticas, será arrastado para o processo de recuperação e será obrigado a desembolsar milhares de milhões de dólares como resultado.

 

Os meios de comunicação social já estão a falar sobre como isto irá pôr em risco o excedente orçamental .

 

O objetivo do excedente orçamental foi sempre irresponsável, dado que temos mais de 13,5% dos nossos recursos de mão-de-obra dispostos e capazes em inatividade, em desemprego.

 

Os meios de comunicação social deveriam aprender isso primeiro e deixar de manter o excedente orçamental  como sendo um objetivo político razoável que se tornou impossível de alcançar devido ao enorme desastre ambiental e civil provocado pelos incêndios florestais.

 

Devemos entender que a escala do desastre ambiental e civil, em parte, se deve à busca do excedente  orçamental  e ao subfinanciamento de programas ambientais e de proteção contra incêndios.

 

Nesse sentido, o governo federal tem agido de forma criminosa.

 

Também tem havido uma onda de ofertas de assistência financeira de várias pessoas conhecidas, que são manchete diariamente nos media  locais

 

Quase que se fica com a impressão, num espírito semelhante ao que aconteceu depois do incêndio em Notre-Dame de Paris,  de que essas “celebridades” se transformaram numa espécie de concorrência para se saber  quem é que pode oferecer mais  e quanto.

 

Também somos diariamente exortados pelos media a fazer doações a várias instituições de caridade para ajudar no processo de recuperação.

 

O problema é controverso.

 

Por um lado, a assistência financeira provavelmente proporcionará algum alívio, embora a falta de responsabilização em alguns casos suscite dúvidas quanto à eficácia dos fundos.

 

Por outro lado, deixa o governo desenrascar-se da situação.

 

Uma das marcas da era neoliberal tem sido a ascensão de instituições de caridade para preencher as lacunas de despesa pública  deixadas pela contração das funções do Estado, à medida que procuram a sua “retidão orçamental”.

 

. O Governo lança uma cortina de fumo na qual será ou não maravilhoso que os cidadãos na totalidade demonstrem generosidade nos tempos de crise, enquanto simultaneamente é minada a capacidade das comunidades em lidarem com a crise, devido à prossecução da insensata política de austeridade.

 

Assim, o ato de doações privadas realmente tira a pressão do governo para utilizar a sua capacidade orçamental de forma  adequada  e, muitas vezes, apenas faz deslocar  fundos daqueles que vivem em situação de necessidade  para outros que vivem igualmente em situação de necessidade, sob o pretexto da generosidade da comunidade.

 

Não é uma coisa fácil de discutir ou de resolver.

 

E, nas cidades, chegou-se  a isto.

 

Ontem, a poluição por fumo  em Newcastle foi tão má  que eu tive que colocar uma máscara P2 (compramos uma caixa inteira) para ir para a minha corrida matinal de 10k pela frente do oceano.

 

Eu nunca tive de fazer isso.

 

É a  vida nesta distopia ambiental.

https://aviagemdosargonautasdotcom.files.wordpress.com/2020/01/newcastle_running_mask_january_8_2019.jpg?w=113 113w, https://aviagemdosargonautasdotcom.files.wordpress.com/2020/01/newcastle_running_mask_january_8_2019.jpg?w=225 225w, https://aviagemdosargonautasdotcom.files.wordpress.com/2020/01/newcastle_running_mask_january_8_2019.jpg 720w" sizes="(max-width: 710px) 100vw, 710px" width="710" height="947">

Fonte: Bill Mitchell, Australia’s bushfire dystopia – another entry for the neoliberal report card .

Texto disponível em: http://bilbo.economicoutlook.net/blog/?p=44048

 

 

 

 

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/02/13/a-distopia-dos-incendios-florestais-da-australia-uma-outra-entrada-para-o-boletim-neoliberal-por-bill-mitchell-2/

Novo líder dos Verdes Australianos pede "Novo Acordo Verde"

Camberra, 4 fev (Xinhua) - Depois de ser eleito sem oposição para liderar os Verdes Australianos na terça-feira, Adam Bandt, pediu ao governo que fizesse um "Novo Acordo Verde".

Bandt, membro do Parlamento de Melbourne, foi apoiado pelo partido para liderar em Camberra na terça-feira de manhã após a renúncia de Richard Di Natale.

Ele se torna o primeiro membro da câmara baixa do Parlamento da Austrália, a Câmara dos Representantes, a liderar os Verdes, um partido político na Austrália, enquanto todos os seus antecessores foram membros do Senado.

Discursando para a mídia após sua eleição, Bandt deixou suas intenções claras, prometendo se concentrar em um "Novo Acordo Verde" para a Austrália.

"Estamos no meio de uma situação de emergência climática, empregos de longa duração e crises de desigualdade. As pessoas estão irritadas e ansiosas porque o governo não tem planos para os grandes problemas que o país enfrenta", afirmou ele.

"É por isso que a Austrália precisa de um novo acordo verde... Um novo acordo verde significa que o governo lidera o país na transformação de nossa economia, criando novos empregos e indústrias movidos a energia limpa e fornecendo serviços universais como odontológico para o Medicare e educação genuinamente gratuita. É pelo que lutarei".

Larissa Waters e Nick McKim, senadores de Queensland e Tasmânia, respectivamente, foram eleitos para servir como suplentes de Bandt.

Bandt, 47 anos, atua como deputado em Melbourne desde 2010, depois de trabalhar anteriormente como advogado de relações industriais e interesse público.

Os Verdes ocupam nove cadeiras no Senado, tornando-os o terceiro maior partido da casa.

 

Ver original em "XINHUA Português" na ligação seguinte:

http://portuguese.xinhuanet.com/2020-02/06/c_138760061.htm

A DISTOPIA DOS INCÊNDIOS FLORESTAIS DA AUSTRÁLIA – UMA OUTRA ENTRADA PARA O BOLETIM NEOLIBERAL – por BILL MITCHELL

Australia’s bushfire dystopia – another entry for the neoliberal report card, por Bill Mitchell

 

Bill Mitchell – Modern Monetary Theory, 9 de Janeiro de 2020

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

A crise da Austrália

É difícil sentir mais vergonha pela minha nacionalidade do que já sinto pela forma como temos permitido que sucessivos governos australianos encarcerem indefinidamente refugiados inocentes nas ilhas do Pacífico, ao longo de muitos anos.

 

Estas pessoas procuravam abrigo da opressão e da agitação, grande parte da qual provinha, inicialmente, do facto de os nossos governos terem decidido jogar à bola com as nojentas e ilegais invasões de várias nações (Afeganistão, Iraque, etc.) desencadeadas pelos  americanos.

 

Existe uma profunda insegurança cultural na Austrália, onde parecemos pensar que qualquer coisa americana deve ser celebrada e priorizada em relação à nossa própria identidade e capacidades.

 

Essa “bajulação cultural” atravessa todas as áreas das nossas vidas – política, cultural e educacional. Precisamos de crescer.

 

Nos anos 60, o nosso Primeiro Ministro foi convidado a resumir a nossa política externa. Ele respondeu “Irei até ao fim com  Lyndon B. Johnson,”!

 

Em 1999, vários meios de comunicação social começaram a referir-se ao nosso primeiro-ministro (então John Howard) como o xerife adjunto dos Estados Unidos em referência ao nosso compromisso de nos juntarmos e  à atividade militar americana, na sua maioria ilegal na região. Howard nunca negou ou desrespeitou o uso do termo.

 

Foi era profundamente embaraçoso para uma nação independente, mas mesmo assim continuamos em frente a acompanhar os americanos.

 

Aqui estávamos, como um cão de colo, unindo-nos a empreendimentos ilegais sob o diktat  de um personagem louco como Bill Clinton e depois George W Bush.

 

Devíamos ter louvado a nossa independência e a nossa própria confiança para resistir à cultura imperialista dos EUA e ao culto da celebridade.

 

Tudo muito vergonhoso.

 

Mas, esse nível de vergonha aumentou nos últimos anos, pois  torna-se  óbvio que nosso governo está a liderar  uma cabala de negação das mudanças climáticas, o que está a minar  os esforços globais para agilizar as respostas razoáveis à crise.

 

Desde  há  alguns anos, tenho vindo a realizar  projetos de investigação  para o União dos Sindicatos de Bombeiros sobre uma série de questões diferentes.

 

Gosto de pensar que, como resultado desse trabalho, tenho uma boa compreensão do sector, dos seus desafios e dos riscos que as nossas comunidades enfrentam neste contexto.

 

Se as pessoas na população em geral realmente entendessem de que maneira nos tornamos vulneráveis em termos de proteção contra incêndios como resultado da austeridade  governamental, então a sensação de alarme seria enorme.

 

Nós calculamos a taxa de resposta e os quocientes de danos e somos capazes de calcular com bastante precisão quando os danos passam de pequenas perdas patrimoniais a graves perdas humanas.

 

As taxas de resposta são impulsionadas pelo investimento em infraestrutura e desenvolvimento de competências, e pelo número de bombeiros capazes de serem destacados rapidamente.

 

Já antes escrevi   sobre a miopia do neoliberalismo. Por exemplo: :

 

1. Mental illness and homelessness – fiscal myopia strikes again (January 5, 2016).

2. British floods demonstrate the myopia of fiscal austerity (January 4, 2016).

3. The myopia of fiscal austerity (June 10, 2015).

4. The myopia of neo-liberalism and the IMF is now evident to all (October 8, 2014).

Há inúmeros exemplos ao longo desta era neoliberal em que os governos, procurando reduzir os seus gastos líquidos, para gerarem excedentes sem considerar se essa ambição é apropriada, dado o gasto não governamental e as decisões de poupança, acabam por ter de aumentar os seus gastos líquidos em múltiplos dos montantes inicialmente reduzidos, como resultado dos impactos dessas reduções iniciais.

 

A minha própria pesquisa para a UFU ao longo de muitos anos indicou um subfinanciamento substancial dos serviços de bombeiros.

 

O governo federal, que emite a moeda, sempre atribui a culpa de quaisquer questões como esta aos governos estaduais, que, de acordo com a nossa Constituição, assumem a maior parte das responsabilidades dos gastos dentro da nossa nação.

 

Entretanto, é óbvio que o governo federal pode sempre aumentar os subsídios aos estados para financiar a infraestrutura nacional essencial.

 

Portanto, em última análise, o subfinanciamento de serviços essenciais como a proteção contra incêndios  resume-se  ao fracasso do nosso governo federal.

 

Ambos os lados da política na Austrália estão obcecados em obter um excedente orçamental, apesar de não terem compreensão do que esse objetivo realmente significa em termos de seu impacto sobre a economia em geral.

 

É uma busca sem sentido de homens e mulheres ignorantes que se dedicam cegamente à sua própria imagem e à manutenção do poder.

 

Agora está claro que delegações de especialistas no setor de incêndios, incluindo ex-chefes de bombeiros em nível estadual, procuraram financiamento extra do governo federal no início de 2019, sob o pretexto de que a Austrália estava  a enfrentar  um futuro imediato desastroso como resultado de uma seca de longo prazo, que havia deixado as nossas florestas e pastagens secas e vulneráveis.

 

Pelo que sei, o Primeiro-Ministro recusou-se a encontrar-se com eles.

 

Desde o início do inverno, quando começaram as queimadas, ficou claro que algo sem precedentes estava-lhes pela  frente. A nossa estação de queimadas é normalmente em Fevereiro (no final do Verão) e não durante o Inverno.

 

O governo não deu resposta a esses incêndios florestais do início da estação, que depois se agravaram progressivamente até que quase todo o país se incendiou.

Milhões de animais foram queimados vivos. O seu habitat foi destruído. Um número desconhecido mas enorme de casas foram destruídas e, em alguns casos, foram dizimadas cidades.

 

A cidade inteira teve que procurar abrigo na praia e esperar para ser resgatada por navios da Marinha enquanto a sua cidade ardia e  se ficava sem itens essenciais, como comida e água

 

As pessoas à espera.

  A evacuação de Mallacoota

Milhões de hectares  de matas foram destruídos.

                                                                                 Fogos

Estima-se que pode levar 100 anos, até que se refaça o que agora foi destruído  dado o quão seca a nossa nação se tornou e como estes incêndios têm sido ferozes em resultado.

 

O governo conservador continua a dizer que a Austrália tem sempre fogos de mato. Mas é muito difícil, para quem entende da nossa história, comparar isso com  o desastre atual.

 

Quando os incêndios florestais começaram, o governo federal fez uma grande crítica a toda e qualquer pessoa que ousasse ligar o desastre ao debate sobre as mudanças climáticas.

 

A sua agenda tem sido claramente a de negar qualquer mudança climática e de recusar uma ação política apropriada.

 

Embora eu conheça todos os argumentos sobre as tendências dos dados e o facto de que os dados só estão disponíveis há tanto tempo, então extrapolar a partir de um conjunto de dados limitado (centenas de anos) pode ser muito difícil, o facto é que 2019 foi um ano recorde para os extremos climáticos na Austrália.

 

O Instituto  de Meteorologia informou que :

 

1. “Tem havido uma clara tendência ascendente nas temperaturas médias ao longo do último século.”

 

2. “Foi a primeira vez que uma anomalia anual chegou a dois graus acima da média.”

 

3. “Foi também o ano mais seco da Austrália, com apenas 277,6 milímetros de chuva em média para o país, 40% menos do que a média a longo prazo”.

 

4. “Os anos secos são frequentemente quentes porque a chuva arrefece as coisas, mas esta é a primeira vez por ano que é a mais quente e seca de que há registo.”

 

5. “Grandes inundações de Fevereiro a Abril através do oeste de Queensland trouxeram alívio a alguns e devastação a muitos.”

 

6. “Tempestade após tempestade de pó varreram  o país juntamente com uma série de tempestades que causaram estragos – desde a destruição das vinhas do sul da Austrália Riverland até ao granizo de 11 centímetros na região de Queensland’s Wide Bay.

 

7. “O sudeste do país até foi salpicado de neve em dado momento .”

 

8. “Janeiro foi assolado por ondas de calor, tornando-o o mês mais quente da Austrália.”

 

9. “Os incêndios arderam na Tasmânia durante semanas, resultando na pior época de incêndios do estado desde 1967.”

 

10. “Também houve grandes chamas em Victoria e na Austrália Ocidental no início do ano, e essa devastação só pode ser eclipsada pelos recentes incêndios de horror.”

 

11. “A 17 e 18 de Dezembro, a Austrália ultrapassou o seu dia mais quente de sempre – só falhou o dia 19 para hat-trick por uma unha negra .”

 

Eles ligam estas mudanças extremas do nosso tempo a “tendências muito bem definidas e claras … que temos visto ao longo das últimas décadas.

 

Em 9 de fevereiro de 2017, o nosso primeiro-ministro, então no Tesouro, trouxe um pedaço de carvão para o parlamento nacional como uma declaração de apoio à indústria de combustíveis fósseis e uma indicação de que ele rejeitou quaisquer narrativas de mudanças climáticas.

 

Ei-lo pois em plena forma :

 

 

                                                                               Scott e o carvão

E os seus colegas no banco da frente acharam que isto era histérico::

 

O governo continua dizendo que mesmo que houvesse mudança climática, a Austrália não deveria agir de forma significativa porque somos muito pequenos para influenciar o resultado geral e, portanto, só prejudicaria a nossa economia.

 

O argumento, é claro, não tem valor moral.

 

Mas também é claro que a nossa posição, por exemplo, na recente conferência das Nações Unidas sobre mudanças climáticas, em Madrid, foi uma vergonha.

 

O nosso governo não só procurou enganar o processo através do uso de uma lacuna contabilística  para cumprir a nossa meta climática, como também nos combinamos com os EUA e o Brasil para frustrar o progresso na reunião.

 

E então, as  nossas florestas e cidades começara, na verdade, a arder.

 

Portanto, temos um governo cientificamente ignorante, que se recusa a usar a sua capacidade  orçamental de forma responsável, e o resultado é uma enormíssima destruição em todo o nosso país.

 

O governo, por razões políticas, será arrastado para o processo de recuperação e será obrigado a desembolsar milhares de milhões de dólares como resultado.

 

Os meios de comunicação social já estão a falar sobre como isto irá pôr em risco o excedente orçamental .

 

O objetivo do excedente orçamental foi sempre irresponsável, dado que temos mais de 13,5% dos nossos recursos de mão-de-obra dispostos e capazes em inatividade, em desemprego.

 

Os meios de comunicação social deveriam aprender isso primeiro e deixar de manter o excedente orçamental  como sendo um objetivo político razoável que se tornou impossível de alcançar devido ao enorme desastre ambiental e civil provocado pelos incêndios florestais.

 

Devemos entender que a escala do desastre ambiental e civil, em parte, se deve à busca do excedente  orçamental  e ao subfinanciamento de programas ambientais e de proteção contra incêndios.

 

Nesse sentido, o governo federal tem agido de forma criminosa.

 

Também tem havido uma onda de ofertas de assistência financeira de várias pessoas conhecidas, que são manchete diariamente nos media  locais

 

Quase que se fica com a impressão, num espírito semelhante ao que aconteceu depois do incêndio em Notre-Dame de Paris,  de que essas “celebridades” se transformaram numa espécie de concorrência para se saber  quem é que pode oferecer mais  e quanto.

 

Também somos diariamente exortados pelos media a fazer doações a várias instituições de caridade para ajudar no processo de recuperação.

 

O problema é controverso.

 

Por um lado, a assistência financeira provavelmente proporcionará algum alívio, embora a falta de responsabilização em alguns casos suscite dúvidas quanto à eficácia dos fundos.

 

Por outro lado, deixa o governo desenrascar-se da situação.

 

Uma das marcas da era neoliberal tem sido a ascensão de instituições de caridade para preencher as lacunas de despesa pública  deixadas pela contração das funções do Estado, à medida que procuram a sua “retidão orçamental”.

 

. O Governo lança uma cortina de fumo na qual será ou não maravilhoso que os cidadãos na totalidade demonstrem generosidade nos tempos de crise, enquanto simultaneamente é minada a capacidade das comunidades em lidarem com a crise, devido à prossecução da insensata política de austeridade.

 

Assim, o ato de doações privadas realmente tira a pressão do governo para utilizar a sua capacidade orçamental de forma  adequada  e, muitas vezes, apenas faz deslocar  fundos daqueles que vivem em situação de necessidade  para outros que vivem igualmente em situação de necessidade, sob o pretexto da generosidade da comunidade.

 

Não é uma coisa fácil de discutir ou de resolver.

 

E, nas cidades, chegou-se  a isto.

 

Ontem, a poluição por fumo  em Newcastle foi tão má  que eu tive que colocar uma máscara P2 (compramos uma caixa inteira) para ir para a minha corrida matinal de 10k pela frente do oceano.

 

Eu nunca tive de fazer isso.

 

É a  vida nesta distopia ambiental.

 

Fonte: Bill Mitchell, Australia’s bushfire dystopia – another entry for the neoliberal report card .

Texto disponível em: http://bilbo.economicoutlook.net/blog/?p=44048

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/01/22/a-distopia-dos-incendios-florestais-da-australia-uma-outra-entrada-para-o-boletim-neoliberal-por-bill-mitchell/

AUSTRÁLIA | O OUTRO CRIME AMBIENTAL DA DIREITA

 
 
Ao contrário da Amazónia, a floresta seca é mais sujeita ao fogo. Mas catástrofe atual foi produzida também por um governo que nega o aquecimento global, incentiva os combustíveis fósseis e desmonta o sistema público de prevenção
 
Carolyn Kormann, no The New Yorker | Outras Palavras | Tradução: Antonio Martins
 
O atual primeiro ministro da Austrália, Scott Morrison, assumiu o posto, em agosto de 2018. Seu antecessor, Malcolm Turnbull, igualmente do Partido Liberal, era pressionado havia meses, quiçá anos, pela própria coligação de direita no poder, que reúne os partidos Liberal e Nacional. Mas o golpe final veio quando Turnbol apoiou um plano nacional de energia que, para controlar a emissão de gases de efeito estufa, teria reduzido, ainda que de forma moderada, a dependência do setor de energia em relação aos combustíveis fósseis. Numa tentativa de salvar seu mandato, na décima primeira hora, Turnbull desistiu de tornar a redução das emissões obrigatória por lei.
 
Era muito tarde. Morrison foi eleito pelos parlamentares liberais numa espécie de golpe de bastidores e logo declarou que o plano energético de Turnbull estava morto. Seu compromisso com os combustíveis fósseis já era conhecido. Em 2017, quando exercia o posto equivalente ao de ministro das Finanças [threasurer] – e a Austrália tornou-se, segundo a Agência Internacional de Energia, o maior exportador de carvão do mundo – ele levou uma pedra de carvão ao Parlamento e a apresentou a seus colegas, como se fossem alunos de escola primaria. “Isto é carvão. Não tenham medo! Não se assustem! Não vai machucar vocês”, disse. Não mencionou que a pedra havia sido laqueada, para evitar que suas mãos se sujassem…
 
 
 
O mandato de Morrison como primeiro ministro é marcado, desde então, pela recusa em admitir a relação, cientificamente confirmada, entre o uso de petróleo e carvão e a mudança climática. No final de 2018, uma seca severa e ondas de calor então inéditas fizeram dezenas de milhares de morcegos tombarem mortos do céu. Naquele ano, o Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC), descobriu, entre outros impactos terríveis, que a Grande Barreira de Coral perecerá inteiramente se o aquecimento superar 1,5ºC (já convivemos com vasta morte e branqueamento de corais). A primavera de 2019 foi a mais seca de todos os tempos na Austrália. Porém, ao invés de mudar de atitude, Morrison liderou uma política em favor dos combustíveis fósseis. Ela incluiu planos para uma nova nova usina termoelétrica a carvão e 10 milhões de dólares para um estudo destinado a ressuscitar uma outra, desativada, no estado de Queensland. O Partido Trabalhista voltou-se contra ele, defendendo uma plataforma eleitoral de maior ação climática – inclusive metas de redução de emissões efetivas. Ninguém esperava que Morrison se reelegesse; as pesquisas sugeriam que a maioria dos eleitores preocupava-se com a mudança climática. Mas um baixo comparecimento ás urnas e a apatia, devida em parte à natureza em geral instável da política australiana (nenhum primeiro ministro completa seu mandato, há mais de uma década) contribuíram para uma vitória surpreendente de Morrison, em maio de 2019. Na noite da eleição, ele disse a seus apoiantes: “Sempre acreditei em milagres”.
 
Talvez seja este o motivo para insistir que o carvão “não vai ferir vocês”, quando o mineral, obviamente, irá fazê-lo. O carvão é o combustível mais sujo e o que mais produz CO². Fechar todas as termoelétricas que o utilizam o é imperativo para limitar o aumento da temperatura global. Eliminar o carvão, especialmente em países da OCDE como a Austrália, é o primeiro passo na transição para energias renováveis. (Segundo um relatório, os países da OCDE deveriam eliminar inteiramente o uso de carvão em 2030). Há consenso científico generalizado em que o aumento das temperaturas já ocorrido – uma média global de 1,1ºC – contribuiu para a devastadora onda de incêndios na Austrália, ao criar condições ainda de ainda mais seca e calor. Mas, ainda em novembro, Morrison ameaçou criminalizar o ativismo climático, um dia depois de protestos diante de uma conferência de mineradores em Melbourne terminar em escaramuças com a polícia. “Estamos trabalhando para identificar mecanismos capazes de colocar fora da lei estas práticas, egoístas e indulgentes, que ameaçam a vida dos australianos”, disse ele…
 
Em dezembro, o país atingiu sua média de temperatura mais alta, com algumas localidades registando 46,1ºC. Estas condições logo criaram um inferno de incêndios devastadores, os quais continuam e cujo fim não está à vista. Milhares de casas já foram reduzidas a cinzas; muitos vilarejos, aniquilados; 28 pessoas morreram. A fumaça cobriu cidades. Em dezembro, a qualidade do ar em Sydney atingiu onze vezes o nível de risco; no dia do Ano Novo, na capital, Camberra, onde Morrison tem sua residência oficial de primeiro ministro, a qualidade do ar foi mais de 25 vezes pior que o nível de risco. Os moradores foram aconselhados a ficar em casa. Os incêndios mataram aproximadamente 1 bilião de animais, varrendo um terço dos koalas em New South Wales e possivelmente colocando algumas espécies perigosamente próximas à extinção – entre elas a felosa do oriente (um pássaro), o sapo corroboree e o gambá pigmeu das montanhas. Os incêndios são tão quentes, e se espalharam tanto (megaincêndios surgem quando dois fogos se encontram), que geraram seu próprio clima — inclusive incontroláveis tornados de fogo, formados quando ventos em espiral criam colunas maciças de fogo, cinzas, vapor e detritos. Área que quase nunca queimam, inclusive florestas húmidas que abrigam espécies endémicas e raras, estão em chamas. Mesmo os climatologistas australianos, cientes há anos de que o aquecimento global agravaria a severidade da estação de incêndios, estão atónitos com a escala do fogo. Virginia Young, uma estudiosa das florestas australianas, disse ao Washington Post acreditar que o país está à beira de uma “enorme mudança ecológica”.
 
O governo australiano, com Morrison no comando, não lidou bem com a crise. O primeiro ministro ignorou pedido de um grupo de ex-bomberios para um encontro na última primavera, em que pretendiam alertá-lo sobre a necessidade de mais água para o combate ao fogo. Em dezembro, a despeito do intensidade e velocidade crescentes com que muitos incêndios se espalhavam, ele tirou férias no Havaí, decidindo voltar apenas após a morte de dois bombeiros voluntários. Em seu primeiro dia após o retorno, disse a uma emissora de rádio de Sydney que ainda cogitava termoelétricas a carvão. “É preciso usar todas as fontes de energia. Sou muito agnóstico, importo-me que sejam confiáveis e baratas”. Acrescentou: “Haverá muito barulho em toda parte, mas tendo a ouvir as vozes quietas, caladas”. Ele foi repudiado em visitas a cidades destruídas, com os moradores e bombeiros recusando-se a apertar sua mão. Quando passou por Cobargo, um vilarejo chamuscado, um manifestante disse-lhe que deveria “ter vergonha de si mesmo” por “deixar o país arder”. Na última sexta-feira, dezenas de milhares de cidadãos caminharam pelas ruas para protestar contra seu governo, opor-se a novas minas de carvão – incluindo a gigante Carmichael, de propriedade do grupo indiano Adani, que o governo aprovou em junho – e para exigir políticas que reduzam as emissões causadas por fósseis. A multidão cantava: “Scomo [Scott Morrison] tem de ir embora” [Scommo has to go], enquanto avançava nas redes sociais a hashtag irónica #scottyfrommarketing, uma referência a seu passado de empresário de marketing, que inclui uma passagem como diretor da Tourism Australia.
 
 
Morrison não se sensibilizou. No domingo, depois de outro bombeiro voluntário morrer, ele deu entrevista de rádio em que chamou esta estação de incêndios e a mudança climática de “o novo normal”. Não deu indicação alguma de que mudará sua política e se engajará numa transição que supere os combustíveis fósseis. Também enfatizou a prevenção e as medidas adaptativas, para lidar com os impactos. “Não são só incêndios”, disse: “tem a ver com inundações, ciclones, secas, que terão impacto sobre muitos temas. A adaptação e a resiliência são chaves. A construção de represas, o manejo da vegetação nativa a limpeza da terra ou onde você constrói as casas são chaves”. Embora a adaptação seja de fato necessária e urgente, ela não pode, de modo algum, ser tudo o que os governos limitam-se a fazer para prevenir os piores efeitos da mudança climática.
 
Por enquanto, ao que parece, a Austrália permanecerá atada ao carvão. Na quarta-feira, Morrison disse a repórteres em Canberra: “Nosso setor de recursos é incrivelmente importante para a Austrália”. O país é o segundo maior exportador global de carvão termal (o tipo usado para produzir eletricidade), perdendo apenas para a Indonésia. Em 2018, a Austrália exportou 200 milhões de toneladas métricas, cotadas em 26 biliões de dólares, para a China, Japão e outros países do sudeste asiático. O volume está caindo vagarosamente, à medida em que a China utiliza suas fontes internas e tanto a China quanto o Japão distanciam-se do carvão. Mas a própria Austrália ainda obtém um terço de sua eletricidade de termoelétricas a carvão, o que faz dela um dos maiores emissores de CO² per capita do planeta.
 
O governo de Morrison, além disso, foi parcialmente responsável, nas conversações climáticas da ONU, em dezembro, por bloquear a negociação de políticas voltadas a combater o aquecimento global. Se países como a Austrália continuarem a agir como peso morto na transição energética, todas as adaptações que Morrison mencionou – a totalidade de sua “resposta à mudança climática” – será inconsequente. O aquecimento permanecerá e grandes extensões do continente, e do resto do planeta, irão tornar-se inabitáveis. Tragédias como os incêndios já não podem ser consideradas desastres naturais. Em 2 de janeiro, Morrison assistiu ao funeral de Geoffrey Keaton, um dos bombeiros mortos em trabalho. Numa entrevista coletiva que concedeu na sequência, ele afirmou: “Não podemos controlar os desastres naturais; o que podemos fazer é controlar nossa resposta.”
 
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Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/01/australia-o-outro-crime-ambiental-da.html

Incêndios florestais australianos destroem vida selvagem e enormes extensões de terra devido lenta resposta do governo

Incêndio na Austrália

Por Matt Goss

 

Camberra, 9 jan (Xinhua) -- O número de mortos pelos incêndios florestais na Austrália, que começaram extraordinariamente no início de setembro, subiu para 27, com o incêndio que continua queimando.

 

Na quarta-feira, mais de 10,7 milhões de hectares de terra haviam sido queimados no país inteiro. Na manhã de quinta-feira, o governo estadual de Nova Gales do Sul (NSW) anunciou que 1.870 casas foram destruídas no estado.

 

Tanto NSW quanto Victoria declararam estado de emergência e que condições catastróficas de incêndio florestal podem persistir.

 

A fumaça dos incêndios cobriu as principais cidades da Austrália por dias seguidos e se espalhou para o leste da Nova Zelândia até a América do Sul.

 

De acordo com dados compilados pelo Fundo Mundial para a Natureza, 1,25 bilhão de animais morreram nos incêndios, muitos dos quais eram espécies icônicas da Austrália, incluindo coalas, cangurus, marsupiais e cacatuas.

 

Em resposta à crise, o primeiro-ministro australiano Scott Morrison, o tesoureiro Josh Frydenberg e o vice-primeiro-ministro Michael McCormack, estabeleceram na segunda-feira a Agência Nacional de Recuperação de Incêndios Florestais e anunciaram 2 bilhões de dólares australianos (1,37 bilhão de dólares americanos) em financiamento para esforços de socorro e recuperação.

 

O anúncio foi feito em meio a um dos meses difíceis de Morrison desde que ele se tornou primeiro-ministro em agosto de 2018.

 

Em dezembro, ele pediu desculpas depois que deixou o país para passar férias em família no Havaí, enquanto grande parte de seu estado natal, NSW, estava em chamas.

 

Desde que ele interrompeu suas férias, Morrison enfrentou uma pressão significativa para seguir políticas mais ambiciosas de mudança climática para mitigar futuras crises.

 

A Austrália se comprometeu a reduzir suas emissões de carbono em 26 a 28 por cento em relação aos níveis de 2005 até 2030, segundo o acordo climático de Paris, uma meta que Morrison disse que "protegerá o meio ambiente", além de garantir a viabilidade a longo prazo dos "empregos e meios de subsistência das pessoas".

 

A crescente pressão sobre o primeiro-ministro para tomar medidas a fim de evitar futuros incêndios chegou ao seu ápice no início de janeiro, enquanto ele passeava pela cidade afetada de Cobargo, em NSW, onde duas pessoas morreram. Morrison foi questionado por moradores locais.

 

O Escritório de Meteorologia (BOM) divulgou na quinta-feira sua Declaração Anual do Clima, revelando que 2019 foi o ano mais quente e seco da Austrália desde o início dos registros em 1900.

 

De acordo com dados do BOM, a temperatura média da Austrália em 2019 foi 1,52 graus Celsius mais quente que a média de longo prazo.

 

O total nacional de chuvas foi de 277,6 milímetros (mm), bem abaixo do recorde anterior em 1902 (o mais baixo anterior foi de 314,5 mm).

 

Andrew Gissing, especialista em gerenciamento de emergências do Centro de Pesquisa Cooperativa de Incêndios Florestais e Desastres Naturais, disse recentemente que a Austrália gasta "muito em socorro e recuperação de desastres e pouco em prevenções".

 

"Mais pessoas vivem em áreas de alto risco de incêndio, serviços de emergência são ampliados e o clima está mudando rapidamente", disse ele em um comunicado à imprensa.

 

"Crises futuras são inevitáveis. Devemos considerar a perspectiva de uma temporada monstruosa de incêndios florestais, como nunca vimos".

 

Mais de um terço da Ilha Kangaroo, na costa do sul da Austrália, foi queimada por incêndios e cerca de 25.000 coalas, metade da população da ilha, podem ter morrido.

 

Os coalas da Ilha Kangaroo são considerados essenciais para a sobrevivência a longo prazo das espécies, porque foram descobertas como livres da clamídia que afeta quase metade daqueles no continente, causando cegueira, infertilidade e morte generalizadas.

 

Chris Dickman, ecologista da Universidade de Sydney, disse na quarta-feira que 800 milhões de animais morreram apenas em NSW.

 

"Provavelmente estamos vendo como as mudanças climáticas podem parecer para outras partes do mundo nos primeiros estágios da Austrália no momento", disse ele em comunicado.

 

"É um momento muito triste".

 

 Ver original em "XINHUA Português" na ligação seguinte:

http://portuguese.xinhuanet.com/2020-01/10/c_138694748.htm

Economista previu incêndios na Austrália há uma década

David Mariuz / EPA

 

Um estudo ambiental elaborado pelo economista Ross Garnaut foi capaz de prever, há mais de dez anos, os incêndios que iriam assolar a Austrália no início de 2020, bem como os impactos que estes teriam na economia do país.

 

O relatório, datado de 2008, foi agora recuperado pelos meios de comunicação australianos. Tal como escreve o semanário Expresso, o estudo ambiental de Garnaut tentou antever os impactos que estes meses de incêndios teriam na economia australiana.

O documento alertava que as condições climáticas iria provocar “o início mais precoce da época de fogos, um fim mais tardio da mesma e uma intensidade maior dos incêndios” na Austrália, principalmente a sudeste do país.

Na prática, Garnaut vaticinou que, caso a Austrália não tomasse medidas adequadas, enfrentaria uma temporada de incêndios mais frequente e intensa até 2020. “Este efeito aumenta com o tempo, mas deve ser diretamente observável até 2020”.

Além do alerta, Garnaut deixava ainda alguns conselhos para minimizar o problema. “O risco pode ser substancialmente reduzido através de ações fortes, eficazes e precoces de todas as principais economias do mundo”, escreveu o economista.

“A Austrália precisará desempenhar a sua parte proporcional na ação global. Como um dos países mais desenvolvidos, sua parte total será relativamente grande e envolverá grandes mudanças iniciais na estrutura económica estabelecida”.

Em declarações à SBS News, Garnaut mostrou-se frustrado por não ter conseguido passar a mensagem do seu relatório. “Sinto-me triste porque foi ineficaz. Tendo-me sido dada a oportunidade de conversar com os australianos sobre esse assunto, fui incapaz de os convencer de que era do nosso interesse nacional desempenhar um papel no esforço global para mitigar a efeitos das mudanças climáticas “, afirmou.

Já à ABC, o economista recusou-se a culpar os responsáveis pelas decisões políticas, mas recordou o papel da Ciência. “Se ignoramos a Ciência ao construir uma ponte, a ponte cai (…) Se ignoramos a Ciência ao construir um avião, o avião cai”.

Segundo estimativas do Conselho de Seguradoras da Austrália (ICA), os danos causados ​​pelos incêndios na Austrália ascendem aos 700 milhões de dólares australianos (432 milhões de euros). O valor deverá subir.

Desde setembro, altura em que os primeiros fogos deflagraram, já morreram pelo menos 26 pessoas e mais de duas mil habitações estão inabitáveis.

ZAP //

 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/economista-previu-fogos-na-australia-ha-decada-301480

Austrália e uma estranha indiferença

Imagem relacionada
A julgar pela indiferença generalizada que os incêndios sem precedentes na Austrália têm provocado no mundo, julgar-se-ia que o dito país é ainda uma mera colónia distante e sem interesse para a Europa e para os EUA.
Não sei explicar a razão dessa indiferença, apenas posso postular que a mesma não se justifica se levarmos em conta a dimensão da catástrofe,
Não sei explicar se as temperaturas muito acima do habitual, e ainda a subir, consequência das alterações climáticas, podem de alguma forma justificar essa estranha indiferença.
Não sei dizer se a abordagem do próprio primeiro-ministro australiano, defendendo que este é mais um conjunto de episódios que cabem dentro de uma certa normalidade australiana, terá alguma relação com a referida indiferença.
O certo é que a comunicação social, europeia e sobretudo americana abordam o assunto de forma desprendida e sem conteúdo,  e nem as imagens de um enorme país tomado pela cor vermelha parece suscitar particular inquietação. Estaremos todos insensíveis ou simplesmente não queremos olhar para uma realidade que não será seguramente exclusiva da Austrália?

Ver o original em 'Triunfo da Razão' na seguinte ligação:

http://triunfo-da-razao.blogspot.com/2020/01/australia-e-uma-estranha-indiferenca.html

A imprensa australiana contra a censura governamental

A imprensa australiana cobriu a tinta negra suas manchetes e passou anúncios nos canais de televisão para protestar contra a aplicação da lei de censura.

A Austrália, o Canadá, a Nova Zelândia e o Reino Unido tem uma legislação extremamente restritiva visando preservar segredos de Estado.

Vocês jamais ouvem falar de censura governamental nesses países, e por boa razão, já que ela é muito comum.

Três jornalistas estão sendo processados por ter revelado que :
- o governo pretendia usar os meios de interceptação dos «Cinco Olhos» (os quatro países acima mencionados mais os Estados Unidos) para espionar (espiar-pt) os cidadãos australianos.
- As Forças Especiais australianas cometeram crimes de guerra no Afeganistão.





Ver original na 'Rede Voltaire'



Austrália(gate)

Entender a importância da história de Collaery / Witness K (Campanha Mar de Timor)

 

 

Reluctant Saviour

10 minutos do filme

 
Mostrei o vídeo a alguns jornalistas mais jovens e eles esqueceram o massacre de 99 e o terror no complexo da ONU. De repente, eles “entenderam” a importância da história de Collaery / WitnessK.”
Gil Scrine
 
 

Ajude a apoiar uma maior consciencialização do filme.

Todos australianos Todas pessoas precisam conhecer esta história.

 

 

É a verdadeira história do porque da solução final da Indonésia para Timor-Leste ter falhado, e como Timor Leste nasceu depois de 24 anos de guerra. Contado através das histórias pessoais de personagens-chave, testemunhas oculares, activistas e denunciantes, Relutante Salvador mostra porque a Austrália deixou para tão tarde o envio dos soldados da paz e como o poder das pessoas e uma promessa sagrada salvou o dia.

 

RELUCTANT SAVIOR é um documentário dramático que tece imagens de arquivo, entrevista, animação, recreação, música e silêncio para evocar o trauma, bastardia, heroísmo e solidariedade que assistiu ao nascimento de Timor Leste.

 

 

Is the true story of why Indonesia’s final solution for East Timor failed and how Timor Leste was born after 24 years of war. Told through the personal stories of key players, eye-witnesses, activists and whistle-blowers, Reluctant Saviour shows why Australia left it so late to send in the peacekeepers and how people power and a sacred promise saved the day.

 

RELUCTANT SAVIOUR is a dramatic documentary that weaves archival footage, interview, animation, recreation, music and silence to evoke the trauma, bastardry, heroism and solidarity that attended the birth of Timor Leste.

 

 

 

 

 
 

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/australiagate/

Dizer a verdade sobre Timor

Timor Sea Justice Campaign. Campanha sobre o Mar de Timor. Veja o documento elaborado pela Sister Susan Connelly, uma freira australiana e activista da justiça do mar de Timor,  para iluminar décadas de engano e negócios nas negociações de petróleo e gás da Austrália com Timor-Leste

 

 

Dizer a verdade sobre Timor

 
 
 
 

 



Os Timorenses libertaram Timor

As alegações de alguns políticos australianos de que apoiavam a liberdade timorense não são apoiadas pelos factos.
O povo, e não os governos, mostrou-se amigo do povo timorense.

Os negócios oficiais da Austrália com Timor-Leste foram orientados desde o início pelo desejo de acesso aos recursos do Mar de Timor e pela manutenção de relações estáveis com a Indonésia.

O trabalho das tropas australianas a partir de Setembro de 1999 deve receber o devido reconhecimento. É de recordar, no entanto, que o apoio oficial australiano começou apenas após os Timorenses enfrentarem a morte, optando por arriscar uma votação. Em contraste, os australianos comuns estavam com Timor quando nenhum governo o faria. Muitos continuam a trabalhar com o povo timorense.

O 20º aniversário da votação da Independência deve ser marcado pela humildade australiana silenciosa. Regozijamo-nos com o triunfo timorense, mas reconhecemos que foi a fé, a coragem, o sentido de identidade e a vontade do povo timorense de sofrer pela justiça e pelos seus filhos, o que acabou por libertá-los da opressão.

Visite o antidotefilms.com.au para ver documentário de Gil Scrine sobre o livro “Reluctant Savior“, de Clinton Fernandes.


 
 
 
 

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/dizer-a-verdade-sobre-timor/

Campanha pelo Mar de Timor

Está em curso uma campanha internacional para pedir às autoridades australianas que cessem o processo contra o ex-procurador e agora advogado Bernard Collaery por este ter revelado segredos de Estado, relativas ao tratado de recursos do Mar de Timor.

 

 

 

Nossos valores

O que é que você considera de “valores australianos”? Justiça? A regra da lei? Honestidade? Decência?

Campeonato de underdog? Falar sem rodeios? Verdade? Justiça?

 

O problema

Em 2004, o pessoal de segurança australiano do Serviço Secreto Australiano de Inteligência (ASIS) colocou dispositivos de escuta nas paredes dos escritórios do Primeiro Ministro timorense para escutar as sessões de planeamento relativas ao tratado de recursos do Mar de Timor. Este acto de espionagem invalidou o direito dos timorenses a negociações abertas e justas, mas o governo australiano afirma ter agido “de boa fé”.

 

Um dos envolvidos (Witness K) falou com o seu superior quando descobriu que oficiais australianos que tinham ordenado a espionagem estavam a fazer lobby para a Woodside Petroleum, uma das companhias de petróleo ligadas aos negócios do Mar de Timor. A Witness K foi aconselhada pela ASIS a contactar um advogado, e ele  falou com Bernard Collaery. Em Junho de 2018, foram acusados de supostamente comunicar informações de segurança australianas.

 

Existem desafios à lei, verdade, transparência e honestidade neste artifício contra um vizinho em dificuldades. A acusação dos dois homens envolve acesso restrito a todos os factos e ao conceito de “segurança nacional” para ocultar acções do governo. Nem a espionagem nem a sua revelação tinham algo a ver com a segurança ou segurança de qualquer pessoa ou instituição australiana. A única “ameaça” é que mostra os comprimentos e as profundidades às quais o governo australiano pode ir para obter ganhos financeiros.

 

Acção

  • O Procurador Geral da Austrália tem o poder de desistir do caso
  • Esse poder existe sob s.71 da Lei Judiciária de 1903.
  • Actos Consolidados da Commonwealth
  • Nenhuma outra legislação se sobrepõe ao poder de A-G.

Por favor, contacte o Procurador Geral e peça que o caso contra Witness K e Bernard Collaery seja descontinuado imediatamente.

 

O procurador-geral da Austrália

Contacto de Christian Porter e Mark Dreyfus:

PO Box 6022
House of Representatives
Parliament House
Canberra ACT 2600

 

Não há necessidade de entrar em todos os detalhes … porque eles sabem. Mantenha simples.
Basta indicar as acusações.
Agora.
E que tal contactar também o seu MP local?

 

Se desejar, você pode enviar e-mails, mas é evidente que as cartas têm mais força.
Pode falar com os seus familiares e amigos para que escrevam também.

 

 
 

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/campanha-pelo-mar-de-timor/

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