Argentina

Argentina frustra credores e prorroga mais uma vez o prazo para reestruturar a sua dívida

Peso argentino e dólar norte-americano
© AP Photo / Natacha Pisarenko

A Argentina estendeu seu prazo para reestruturar uma dívida de US$ 66 bilhões (R$ 354 bilhões) pela terceira vez até 12 de junho, em uma tentativa de melhorar sua oferta aos credores, informou o Ministério da Economia nesta segunda-feira (1º).

O prazo anterior expiraria na terça-feira (2), mas agora a Argentina tentará "introduzir ajustes adicionais com o objetivo de maximizar o apoio ao investidor, preservando ao mesmo tempo seu objetivo [da Argentina] de uma dívida sustentável", disse um comunicado oficial.

"A Argentina e seus consultores pretendem aproveitar essa extensão para continuar as discussões e permitir que os investidores continuem contribuindo para uma reestruturação bem-sucedida da dívida", acrescentou a nota.

A notícia chega apenas 10 dias depois que a Argentina deixou de pagar por não pagar US$ 500 milhões (R$ 2,68 bilhões) em juros sobre sua dívida.

Embora a Argentina seja uma das líderes mundiais em exportação de alimentos, foi a nona inadimplência do país e a primeira desde 2001, quando devia US$ 100 bilhões (R$ 536,33 bilhões) provocando uma dolorosa crise social e econômica.

Na segunda-feira (1º), o Fundo Monetário Internacional (FMI) apoiou uma proposta revisada do governo argentino. A Argentina esteve envolvida em meses de duras negociações com credores, mas o FMI alertou que o governo tem pouco espaço para uma oferta melhor.

A oferta revisada da Argentina apresentada aos credores na semana passada "seria consistente com a restauração da sustentabilidade da dívida com alta probabilidade", afirmou o FMI em comunicado.

Presidente argentino Alberto Fernández em Buenos Aires (foto de arquivo)

© AP Photo / Natacha Pisarenko
Presidente argentino Alberto Fernández em Buenos Aires (foto de arquivo)

No entanto, a entidade afirmou que "a análise sugere que há apenas um escopo limitado para aumentar os pagamentos aos credores privados, enquanto ainda cumprimos as metas de dívida e serviço da dívida".

A Argentina declarou que uma negociação bem-sucedida "estabilizaria a economia, aliviando as restrições de médio e longo prazo" sobre a economia, "permitindo assim que a trajetória econômica do país fosse redirecionada para o crescimento a longo prazo".

Em abril, a Argentina solicitou aos detentores de títulos um período de carência de três anos no pagamento da dívida, uma redução de 62% nos juros no valor de US$ 37,9 bilhões (R$ 203,26 bilhões) e 5,4% no capital - ou US$ 3,6 bilhões (R$ 19,3 bilhões).

Isso foi rejeitado pela maioria dos credores, mas a proposta revisada implicava termos um pouco mais favoráveis, oferecendo credores na região de 45 centavos por dólar.

O país sul-americano em crise, que está em recessão há dois anos, atualmente deve US$ 324 bilhões (R$ 1,73 trilhão), o equivalente a cerca de 90% de seu PIB. Além disso, cerca de 35% de seus 44 milhões de pessoas vivem na pobreza.

A pandemia do novo coronavírus provocou uma queda de 11,5% na economia em março em comparação com o mesmo período do ano passado.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2020060115649993-argentina-frustra-credores-e-prorroga-mais-uma-vez-o-prazo-para-reestruturar-a-sua-divida/

Moro tem palestra cancelada na Argentina e critica 'intolerância' e 'polarização' no país

Uma mulher usando máscara contra a COVID-19 caminha em frente à Casa Rosada, em Buenos Aires, Argentina, em 21 de maio de 2020.
© REUTERS / Agustin Marcarian

Após ter palestra virtual que realizaria para Universidade de Buenos Aires cancelada, ex-ministro da Justiça Sergio Moro disse que "houve um misto de intolerância e de pressão política num cenário de polarização". 

A faculdade de direito da Universidade de Buenos Aires (UBA) decidiu cancelar na quinta-feira (28) evento que teria como principal orador o ex-juiz, horas depois de divulgá-lo em sua página oficial e nas redes sociais.

O convite para Moro participar da palestra havia sido feito pelo Centro de Estudos sobre Transparência e Luta contra a Corrupção, ligado ao ex-presidente Mauricio Macri e a seu partido.

No entanto, a participação do ex-ministro da Justiça causou muita resistência em setores de esquerda e políticos kirchneristas e alinhados ao presidente Alberto Fernández, que são críticos à atuação de Moro no processo contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O organizador do evento decidiu então suspender a palestra. 

A conferência "Combate contra a corrupção, democracia e estado de direito" seria realizada pela plataforma digital Zoom no dia 10 de junho.

Em entrevista para o canal argentino La Nación, segundo publicado pela agência RFI, Moro disse que o "cenário de polarização" apontada por ele "afeta tanto Brasil quanto a Argentina". 

"Não levo isso para o lado pessoal. Essa polarização política dificulta o diálogo e o debate", afirmou o ex-juiz. 

Moro disse ainda que, após o cancelamento, recebeu convites de outras instituições argentinas para participar de eventos. 

'Quando se queimavam livros'

"Eu devo realizar alguma outra conferência. Depois do cancelamento, muitos argentinos entraram em contato, lamentando o havido e ofereceram para realizar a conferência em outro cenário, em outro contexto", afirmou. 

Moro comparou o cancelamento da conferência à queima de livros. 

"Esse tipo de situação de impedir palestras é mais ou menos o que se fazia no passado quando se queimavam livros em situações arbitrárias", criticou. "Não me parece a postura mais apropriada do ponto de vista da tolerância", acrescentou. 

Moro também lamentou a visita que Alberto Fernández fez a Lula na prisão, em Curitiba, em julho do ano passado, antes de tomar posse como presidente. 

"Na época, achei que isso foi um pouco ofensivo. Sinceramente, achei que não fez bem para as relações bilaterais. Não foi muito apropriado", opinou Moro, para quem "a relação Brasil-Argentina tem de ficar acima de questões partidárias". 

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2020053015643173-moro-tem-palestra-cancelada-na-argentina-e-critica-intolerancia-e-polarizacao-no-pais/

Mobilizações pelo aborto legal, seguro e gratuito na Argentina

A Campanha Nacional pelo Direito ao Aborto Legal, Seguro e Gratuito cumpre 15 anos de existência com uma «manifestação virtual», concentrações e a exigência renovada da despenalização da IVG.

Mulheres argentinas frente ao Congresso antes da votação histórica de 14 de Junho de 2018, que deu luz verde ao projecto de despenalização da IVG; seria chumbado em Agosto desse ano no SenadoCréditos / Campaña Nacional por el Derecho al Aborto Legal, Seguro y Gratuito

A Campanha Nacional pelo Direito ao Aborto Legal, Seguro e Gratuito lançou-se ao caminho a 28 de Maio de 2005. Para assinalar este facto, as responsáveis da Campanha agendaram para hoje uma «manifestação virtual» sob o lema «15 anos de Campanha. Um Projecto de vida. Uma história partilhada», para a qual convidaram toda a gente a participar ao longo do dia, com «acções nas redes sociais».

Segundo explicaram num comunicado emitido no fim-de-semana passado, «serão divulgados materiais gráficos e audiovisuais, debates, entrevistas e performances artísticas», num dia que serve para reafirmar a exigência de aprovação do «Projecto de Lei de Interrupção Voluntária da Gravidez [IVG], apresentado pela oitava vez consecutiva no Congresso há exactamente um ano».

 

Em 2018, em meados de Junho, a Câmara dos Deputados aprovou um texto que se baseava precisamente no projecto defendido pela Campanha Nacional pelo Direito ao Aborto Legal, Seguro e Gratuito, que contempla a despenalização da IVG até à 14.ª semana de gestação. Fora deste período, a mulher pode abortar em três casos: violação, risco de vida ou saúde para a gestante e diagnóstico de inviabilidade de vida extra-uterina do feto.

De acordo com dados então divulgados pela Campanha Nacional pelo Direito ao Aborto Legal, Seguro e Gratuito, que integra cerca de 500 organizações sociais e políticas, na Argentina são praticados anualmente mais de 500 mil abortos clandestinos, com perigo para a vida das mulheres. No entanto, apesar da «votação histórica» de Junho, a 8 de Agosto o Senado chumbou o projecto. E a reivindicação mantém-se.

Concentrações em várias cidades

Organizações sociais, sindicatos, grupos de defesa dos direitos das mulheres, partidos de esquerda promovem a realização de concentrações, em vários pontos da Argentina, para reivindicar a legalização do direito ao aborto – seguro e gratuito.

Respeitanto as medidas de distanciamento social relacionadas com a Covid-19, os organismos decidiram mobilizar-se para reclamar o reconhecimento e a aprovação desse direito, bem como a resposta urgente às exigências das trabalhadoras da Saúde, que estão na primeira linha da luta contra a epidemia. Estão previstas concentrações na Cidade de Buenos Aires, em Córdoba, La Plata, Neuquén, informa o Izquierda Diario.

No comunicado, a Campanha lembra que «a problemática dos abortos inseguros é uma questão de saúde pública» e que, «quando ocorre uma morte como consequência de uma criminalização desigual», isso é responsabilidade do Estado.

Os anos passam e o aborto não só não é lei como, no contexto da actual crise social, económica e sanitária, são as mulheres – sobretudo as mais jovens e pobres – as que mais mal passam. No entanto, a Campanha mostra-se confiante nos resultados da sua luta, da «persistência».

«Temos história, presente e um Projecto: aborto legal já. Será Lei em 2020», afirmam no comunicado.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/mobilizacoes-pelo-aborto-legal-seguro-e-gratuito-na-argentina

Tudo pode ser melhor, mostra a Argentina

 
 
Covid sob controle. Ampliação dos gastos sociais. Apoio à Economia Solidária. Em meio à quarentena, vizinhos indicam que saída avançada da crise é possível, e preparam-se para nova disputa – agora, contra a oligarquia financeira

Antonio Martins | Outras Palavras
 
Um fantasma tira o sono de Jair Bolsonaro: a vizinha Argentina demonstra, por contraste, que a covid-19 pode ser enfrentada com custo humano e político infinitamente menor. Na terça-feira (19/5), dia em que o Brasil quebrou um novo recorde macabro, e registou 1179 mortes, apenas 11 argentinos perderam a vida. Sim, as populações são diferentes, mas o contraste persiste quando se examina o índice de mortes. Aqui, são 85,6 por milhão de habitantes; lá, quase onze vezes menos: 7,93. Ao invés de instigar conflitos, o governo uniu o país. A quarentena foi adotada antecipadamente. Os cientistas, convidados a participar da formulação de políticas. Mesmo em situação financeira precária, após quatro anos de neoliberalismo ruinoso, o Estado age para minorar o dano social – e envolve a população. Como resultado, 81,1% da população consideram ótima ou boa a gestão da crise.

Um fantasma tira o sono de Alberto Fernández, o presidente argentino. A oligarquia financeira não aceita que uma sociedade coloque o bem-estar público à frente do pagamento de juros. A partir desta sexta-feira, 22/5, o país pode entrar novamente em moratória, o que o colocará em curto-circuito com os grandes bancos e fundos do mundo – e pode provocar uma tempestade global. Fernández anunciou desde a campanha à Presidência, no ano passado, que não aceitaria manter os pagamentos em níveis que continuassem colocando o país na lona. Na Argentina, tradicionalmente o país mais rico da América Latina, agora 40% da população está abaixo da linha de pobreza.

Ainda em março, apresentou uma proposta clara e estruturada de renegociação. Não se recusa a pagar, mas quer três anos de alívio, para recompor a economia nacional alquebrada. Exige que os juros sejam compatíveis com o que pagam países muito mais ricos. O plano, sofisticado, tem o apoio explícito de economistas do mainstream, como Joseph Stiglitz e Jeffrey Sachs. Sequer o FMI se opõe, por motivos que veremos adiante. Mas a Argentina terá de enfrentar e vencer um novo tipo de instituição financeira. Mega-fundos de investimento, que têm nomes pouquíssimo conhecidos (Black Rock, Franklin Templeton, PIMCO e outros) mas triliões de dólares em ativos, compõem o que é chamado “sistema bancário das sombras” (“shadow banking system”). Credores da maior parte dos títulos da dívida argentina em mãos privadas, recusam-se a negociar. São, por sua agressividade, uma espécie de Jair Bolsonaro do capitalismo financeirizado. Fernández e a Argentina terão de vencê-los.

 
Os resultados radicalmente distintos, que Brasil e Argentina colhem agora em face da covid-19, são consequência direta das decisões de seus governos. Brasília comportou-se como uma espécie de Washington tropical. Buenos Aires atuou como uma Pequim das Américas. Os dois países foram atingidos pela pandemia quase ao mesmo tempo. O primeiro caso brasileiro foi constatado em 25/2; o argentino, uma semana depois. Mas a primeira morte em Buenos Aires sobreveio em 7/3, uma semana antes do óbito inicial em São Paulo. Adiferença esteve nas respostas. Além de rastrear os contatos sociais de cada doente (o que jamais foi feito no Brasil), o ministério da Saúde argentino submeteu a quarentena, já a partir de 10/3, todos os estrangeiros que chegavam a seu território, procedentes da China, Coreia do Sul, União Europeia ou Estados Unidos. No Brasil, nunca houve controle algum de viajantes capazes de introduzir o vírus no país. No mesmo dia, Bolsonaro encontrava-se em Miami com Trump e opinava, sobre o novo vírus: “muito do que tem aí é fantasia, não é tudo aquilo que a mídia propaga”.

Em 20 de março, Fernández decretou, na Argentina, “isolamento social preventivo e obrigatório”. Até então, o índice de casos era compatível, nos dois países. Em 21/3, o Brasil registou 224 adoecimentos; os vizinhos, que têm população cinco vezes menor, 67. Mas três fatores, que caracterizam a quarentena argentina, contribuíram para seu sucesso. O primeiro foi seu rigor. Pode-se sair de casa apenas uma vez a cada dois dias (o controle é feito, par ou ímpar, segundo o algarismo final da carteira de identidade). O raio de circulação é de, no máximo, 500 metros. A multa, em caso de descumprimento, é equivalente a R$ 7 mil.

A segunda característica, oposta a esta apenas na aparência, revela o que filósofos como Giorgio Agamben ainda não foram capazes de compreender. Em tempos de emergência sanitária, o controle da circulação é de fato necessário. Mas ele não implica, necessariamente, aumento do poder do Estado sobre os cidadãos. Na Argentina, as medidas restritivas foram adotadas com forte participação social. O presidente Fernández afirmou, desde o primeiro momento, que “entre a Vida e a Economia, fico com a primeira”. Mas a Casa Rosada, consciente de que precisa dar repostas às duas dimensões, formou um comité de sanitaristas, trabalhadores e empresários para assessorar permanentemente o governo, em cada passo das medidas. É triste comparar com a arrogância e o belicismo permanentes de Bolsonaro…

À quarentena, correspondeu proteção social. Em 31 de março, o governo baixou, após diálogo com as centrais sindicais, um Decreto de Necessidade e Urgência, instrumento semelhante às Medidas Provisórias, por meio do qual o Estado proibiu as demissões de trabalhadores. Mas foi além disso. Para amparar as empresas, em tempos de dificuldades, o Estado garantiu o pagamento de 50% dos salários, sempre que se demonstrasse queda importante das receitas. E um crédito especial, com taxa de juros zero, foi aberto para pequenas empresas e microempreendedores.

As medidas de desembolso estatal foram acompanhadas por outras – em certos casos, muito inovadoras – de participação popular. Para dar assistência aos infectados leves, surgiu o movimento El Barrio cuida al Barrio. Quem visita as casas, onde pode haver possíveis doentes, não são funcionários do Estado, mas mobilizadores populares articulados pela União de Trabalhadores da Economia Popular (UTEP) que tem, entre suas origens, a dos movimentos piqueteiros. Por decisão do governo, o Mercado Central de Buenos Aires passou a ser gerido por Marcos Levaggi, um dos líderes do movimento agroecológico na Argentina. Referência da União dos Trabalhadores da Terra (UTT), ele tornou-se conhecido por liderar os verdurazos. Eram atos nos quais os cultivadores de hortas rurais na periferia de Buenos Aires desafiavam a polícia, ocupavam as praças principais de Buenos Aires e outras cidades e vendiam, em pleno período neoliberal, seus produtos diretamente à população.

A terceira característica da política argentina contra a covid-19 foi a busca de união nacional. No Brasil, Bolsonaro provoca dos governadores à China e cria, em meio à crise sanitária, um ambiente de tensão constante. Na Argentina, Fernández incluiu em seu esforço contra a pandemia também a oposição. A atitude generosa neutralizou a oposição mais estridente. A adesão ao distanciamento social superou os 75%. A partir de 11 de maio a quarentena começou a ser, provisoriamente, relaxada – exceto na região em Buenos Aires, por enquanto. A tendência é que mesmo os traumas económicos sejam muito menos dramáticos, quando se governa de modo inteligente. Mas há um limite: a ditadura financeira.

* * *

O Estado argentino pode emitir pesos, para fazer frente às despesas econômicas que enfrentará, em sua abordagem inovadora à crise. Mas, para parte de seus gastos, a Argentina precisa de outro dinheiro. Ela importa remédios, electrónicos, equipamentos de saúde, bens industriais diversos, tecnologia. Para adquiri-los precisa de moedas fortes – dólares, em especial. E o sistema financeiro global, por onde giram estes dólares, cobra-lhe uma dívida impagável, nas condições atuais.

Quando os governos peronistas foram batidos nas urnas, em 2015, a dívida externa argentina era próxima de zero. Os quatro anos ultraliberais de Maurício Macri produziram uma combinação particular de desnacionalizações, devastação dos direitos sociais e… populismo. O Estado abriu as portas da economia ao capital externo. As corporações internacionais que passaram a controlar os serviços públicos foram autorizadas a impor tarifas. Contrarreformas trabalhistas eliminaram direitos sociais. Os impostos pagos pelos mais ricos e pelas corporações foram reduzidos. Para compensar parcialmente as perdas da maioria, Macri escorou-se em políticas “compensatórias”, que quebraram o Estado argentino. Praticamente a zeros, no momento de sua posse, a dívida externa argentina em dólares subiu para cerca de US$ 120 bilhões. Os juros tornaram-se impagáveis. Em de 2018, Macri recorreu ao FMI. O Fundo concedeu-lhe o maior empréstimo de toda sua história: U$ 57 bi. O crédito era de altíssimo risco político. Se Macri se reelegesse – o que então parecia provável –, as duas partes chegariam a um arranjo. Caso contrário, sobreviria uma crise certa.

No final do ano passado, a aposta de Macri, da oligarquia financeira global e do FMI fracassou. Um gesto inesperado da ex-presidente Cristina Kirchner sacudiu o tabuleiro político, ao desarmar uma polarização despolitizadora com a qual os neoliberais contavam. Numa disputa com Macri, Cristina provavelmente perderia. Ao recuar para a vice-presidência, e indicar Alberto para a cabeça da chapa presidencial, ela mudou o jogo.

Sob Alberto e Cristina, Buenos Aires formulou uma estratégia sofisticada para renegociar a dívida. O primeiro passo foi neutralizar o FMI. Embora partidário do neoliberalismo, o Fundo é uma instituição multilateral – e, em teoria, politicamente neutra. Além disso, o empréstimo gigante à Argentina, sob Macri, desequilibrou seu balanço. O que menos o Fundo deseja, hoje, é uma disputa que exponha o viés ideológico do crédito feito em 2018. ACasa Rosada usou sagacidade para tirar proveito deste contrapé.

Apresentada em meados de março, a proposta de reestruturação da dívida argentina dirige-se apenas aos credores privados – em sua maioria, fundos mastodônticos como o Black Rock, o Franklin Templeton e o PIMCO. A eles, Buenos Aires deve U$ 66 bi. Paga hoje juros de 7% ao ano – totalmente fora dos padrões globais, em torno de zero. Exige derrubar esta taxa para 0,5%, com três anos de alívio.

Em 22 de abril – cerca de um mês após lançar sua proposta de reestruturação – o governo de Alberto Fernandez lançou um subtil desafio. Deixou de pagar, aos credores privados, uma pequena parcela da dívida, equivalente a U$ 506 milhões – menos de 1% do total. Condicionou a retomada do pagamento à aceitação dos novos termos. Os credores que aceitaram o lance, desde então, detêm apenas 15% dos títulos.

* * *

Os megafundos são um novo predador, na selva dos mercados financeiros globais. Surgem no ambiente de desigualdade extrema. O Black Rock, que reúne sozinho investimentos de 3 triliões de dólares – o dobro do PIB do Brasil – surgiu apenas em 1988 e cresceu vertiginosamente desde então. Os megafundos não são regulados pelos Estados ou Bancos Centrais. Não operam junto ao público – portanto, não têm reputações a zelar, nem são sujeitos a pressão social. Surfam e ganham na imensa montanha de papéis surgida no período neoliberal. Nada têm a perder. Tudo indica que, contra a proposta de Buenos Aires, pagarão para ver. Na próxima sexta-feira (22/5), quanto tiverem se passado 30 dias do não-pagamento da minúscula parcela, a Argentina estará tecnicamente em moratória. As consequências são, por enquanto, imprevisíveis.

O caso argentino é importante não apenas por se tratar de um país vizinho, nem por escancarar a brutalidade da opção de Bolsonaro. O cenário expõe, com clareza máxima, algo mais profundo. Diante da pandemia, há duas escolhas. As sociedades e os Estados podem dobrar-se diante da oligarquia financeira. Aceitar que triliões de dólares se produzam para salvar bancos e corporações. Renunciar a exigir que o dinheiro seja emitido para todos, como um Bem Comum. Resignar-se às políticas de redução de direitos sociais e de desmonte dos serviços públicos que serão (como no pós-crise de 2008) certamente lançadas, quando a poeira baixar.

Mas as sociedades podem, também, erguer-se em defesa tanto da Vida quanto de uma nova Economia. Valerá acompanhar este exemplo rebelde — que não vem de uma utopia futura mas de um país que está ao lado – a partir desta sexta-feira fatídica.

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OUTROS QUINHENTOS
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/05/tudo-pode-ser-melhor-mostra-argentina.html

Avós da Praça de Maio pedem retomada de julgamentos de crimes contra a humanidade

Taty Almeyda, ativista das Mães da Praça de Maio na Argentina
© AP Photo / Victor R. Caivano

As Avós da Praça de Maio pediram em carta que o Tribunal Federal de Cassação retome os processos de crimes imprescritíveis que foram suspensos em face da emergência de saúde causada pelo coronavírus.

As avôs que se tornaram mundialmente famosas por demandaram informações sobre seus netos que foram vítimas da violência durante a ditadura militar da Argentina pediram ao Tribunal que "os meios, recursos e provisões" necessários para os julgamentos sejam providenciados

O grupo destacou que 22 depoimentos orais foram suspensos e que outros 65 depoimentos precisam ser agendados.

"Há 44 anos, procuramos uma resposta para o horror dos crimes cometidos neste país", enfatizaram na carta dirigida à presidente da corte, Angela Ledesma.

Com apoio do Centro de Estudos Jurídicos e Sociais (CELS), a organização argumentou que a interrupção dos julgamentos afeta as vítimas em face dos "crimes graves cometidos por dezenas de réus que são julgados por homicídios em massa, desaparecimentos forçados e privação ilegal de liberdade, apropriação de crianças, tormentos e violações de todos os tipos".

A quarentena ordenada pelo governo argentino não deve estar em desacordo com a atividade judicial, argumentam as avós.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2020050115521864-avos-da-praca-de-maio-pedem-retomada-de-julgamentos-de-crimes-contra-a-humanidade/

Argentina propõe suspender pagamentos de sua dívida externa até 2023

Peso argentino e dólar norte-americano
© AP Photo / Natacha Pisarenko

O Governo argentino apresentou um plano para reestruturar a dívida externa ao longo dos próximos três anos.

A proposta do governo "incorpora um período de carência" para não pagar juros durante "três anos", explicou o ministro da Economia, Martín Guzmán, durante a apresentação na província de Buenos Aires.

Durante um encontro com o presidente Alberto Fernández, a vice-presidente Cristina Kirchner e vários governadores do país, o titular do Palácio da Fazenda reconheceu que ainda não há um acordo com os credores, mas advertiu "que hoje a Argentina não pode pagar nada, não somente agora, mas também por alguns anos".

No cenário atual, o país sul-americano propôs aos credores de sua dívida externa um corte de 62% dos juros, o que equivale a US$ 37,9 bilhões (R$ 198,3 bilhões), mais uma redução de capital de 5,4%, o que traria um alívio adicional de 3,6 bilhões de dólares (R$ 18,8 bilhões).

O país vizinho retomaria o pagamento dos juros "com uma taxa de 0,5%" inicial até que vá "crescendo até níveis sustentáveis". O governo argentino dará um prazo de 20 dias para que credores aceitem este acordo.

A comunicação formal da proposta aos credores externos será realizada em 17 de abril.

"Querer forçar o pagamento de uma dívida insustentável significaria uma carga ainda maior. Significaria condenar mais milhões à pobreza, ao desemprego, à perda de oportunidades e sonhos", disse Guzmán ao defender um alívio que permita ao país honrar suas dívidas.

Necessidades agravadas

O presidente Alberto Fernández, por sua parte, sublinhou que "uma dívida sustentável é aquela que não adia as necessidades da Argentina".

As necessidades que o país tinha em dezembro "foram incrementadas devido ao desastre da pandemia do novo coronavírus", observou o chefe de Estado.

Em todo o caso, "propomos ser sérios e não aproveitar a conjuntura do coronavírus para dilatar este problema", acrescentou Fernández após a intervenção de seu ministro da Economia.

O país sul-americano mantém, entre outras, uma dívida para com o Fundo Monetário Internacional de US$ 44 bilhões (R$ 230 bilhões), que foi contraída durante a presidência de Maurício Macri (2015 - 2019).

O governo espera renegociar a dívida externa que se encontra em mãos de credores estrangeiros, mas advertiu que o país deve crescer antes de cumprir seus compromissos financeiros.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/economia/2020041715466803-argentina-propoe-suspender-pagamentos-de-sua-divida-externa-ate-2023/

Presidente argentino diz que não existe dúvida entre 'preservar a economia ou a vida'

Presidente da Argentina, Alberto Fernández
© REUTERS / Agustin Marcarian

O presidente da Argentina, Alberto Fernández, disse nesta quinta-feira (26) que entre o "dilema de preservar a economia ou a vida, escolhemos a vida". 

"Diante do dilema de preservar a economia ou a vida, não temos dúvida: escolhemos a vida", afirmou Fernández por meio do Twitter. 

A publicação foi feita após o mandatário participar de uma videoconferência com líderes do grupo G20 para discutir a resposta global à pandemia do coronavírus. 

Na reunião, ele pediu a criação de um fundo mundial de emergência humanitária para conter os efeitos da COVID-19, doença provocada pelo vírus. 

 

Durante uma videoconferência com líderes do G20 propus a criação de um Fundo Mundial de Emergência Humanitária para enfrentar, melhor equipados de insumos, a pandemia do coronavírus COVID-19. Diante do dilema de preservar a economia ou a vida, não temos dúvida: escolhemos a vida

Um comunicado da presidência informou que Fernández afirmou na videoconferência que o mundo precisava de soluções "extraordinárias" para lidar com a crise, o que inclui um fundo de ajuda aos países para "enfrentar, melhores equipados de insumos, o contexto que vivemos", segundo publicado pela agência Reuters. 

O coronavírus chegou à América Latina e a maioria dos países vem adotando regimes de quarentena para tentar conter a COVID-19, que deixou mais de 20 mil mortos no mundo. 

Putin pede plano para recuperar economia

Na cúpula virtual do G20, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, pediu a adoção de um plano comum para recuperar a economia mundial após a pandemia; O líder afirmou que o atual momento não permite que se continue agindo conforme o princípio de "cada um por si" quando milhões de empregos estão em risco. 

Alberto Fernández celebrou o fato de entidades como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional terem reconhecido que a dívida de alguns países eram insustentáveis. 

A Argentina tomou um empréstimo do FMI em 2018 no valor de cerca de 44 bilhões de dólares, fora uma dívida externa de quase 70 bilhões de dólares. 

"O tempo dos gananciosos chegou ao fim", afirmou Fernández. "Como ensina o papa Francisco, temos que abrir nossos olhos e nossos corações para atuar com uma nova sensibilidade", acrescentou.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2020032615379265-presidente-argentino-diz-que-nao-existe-duvida-entre-preservar-a-economia-ou-a-vida/

A Argentina reforça o melhor antídoto contra o coronavirus: o Estado as políticas públicas e a solidariedade

 

Com 158 casos e 3 mortos por coronavirus na Argentina, o governo de Alberto Fernandez enfrenta de forma alentadora este gravíssimo problema mundial, acionando a mão forte do Estado com medidas e instruções urgentes e severas na área da saúde, da proteção social, da economia e da defesa nacional para proteger uma população de mais de 44 milhões de argentinos.

Aqui, o governo antecipou-se a uma previsível rápida difusão do vírus de forma preventiva, há 10 dias atrás, partindo do alerta vermelho e das experiências da Itália e da Espanha, e da Europa em geral cujos governos, lamentavelmente, despertaram tarde, enfrentando agora uma difusão catastrófica de difícil controle, com mortes a um nível já superior à da República Popular da China. País este, que, graças à sua estrutura econômica-social baseada na eficiência de uma Estado socialista e numa disciplina coletiva, solidária e centralizada do povo, não só está vencendo a pandemia e a infodemia, mas se encontra em vias de criar uma vacina anti-Covid-19 para o mundo, como anunciado pela Academia Militar de Ciências Médicas da China. Enquanto a infodemia esparge o vírus das fakenews, dos ataques ao “coronavirus vermelho” e do anticomunismo e do racismo, desnuda-se aos olhos dos povos, a impotência das estruturas capitalistas, induzidas pelo neoliberalismo ao esvaziamento do Estado, à medicina privatizada como nos EUA e na Europa. É nesse meio de cultura neoliberal e de guerra mundial que a propagação do coronavirus é mais rápida quanto mais débeis são as estruturas sanitárias públicas.

Diante disso, o governo da Lombardia, epicentro do foco do coronavirus na Itália, pede ajuda aos médicos de Cuba, China e Venezuela. Os chineses já fizeram chegar um contingente de médicos, remédios, instrumentos, máscaras e respiradores. Cuba, com o antiviral Interferon alfa 2B curativo capaz de debelar o Covid-19 produzido pela indústria biotecnologia cubana e agora na indústria mista cubana-chinesa ChangHeber de Changchun na China, oferece ajuda à Itália, e à Venezuela. Cristina Kirchner que acaba de voltar de Cuba com sua filha Florencia terá muito a contar; oxalá traga um projeto de cooperação similar de produção de Interferon na Argentina. Leia.

Como o governo de Frente de Todos enfrenta o coronavirus

A equipe governamental de Alberto Fernandez empenha-se e consegue o apoio de legisladores e governadores da oposição. Diferentemente do Brasil, as várias áreas ministeriais trabalham de forma intensa e coordenada na luta contra o coronavirus, na contracorrente de uma economia arrasada pelo neoliberalismo de Macri para quem “o populismo é pior que o coronavirus”, numa afirmação tão irresponsável quanto a dos Bolsonaros e seus seguidores que minimizam a pandemia atribuindo-a a uma invenção midiática, ou a uma criação da China. A única diferença é que Macri já foi embora “lavando as mãos”, e Bolsonaro não as lava e é ainda presidente da mais populosa nação da América Latina para a qual deve dar contas dos seus atos, sem descartar o Parlamento e a Justiça. Eis uma grande preocupação dos irmãos latino-americanos, além do valente haitiano, diante dos riscos que o desgoverno de Bolsonaro significa para a vida do povo brasileiro.

Duríssima é a batalha do governo da Frente de Todos no novo cenário criado pelo coronavirus, com um sistema sanitário público destruído pelos cortes de Macri que reduziu o Ministério da Saúde numa simples Secretaria de Saúde. O famoso Instituto Nacional de Microbiologia Dr. Malbran, encontrado num estado de total abandono, está sendo recuperado de urgência para ser o ponto focal de atenção aos infectados pelo Covid-19. Entre as várias medidas sanitárias, o governo nacional decidiu a construção de 8 módulos hospitalares de emergência na Província de Buenos Aires (a mais populosa e infectada), dos quais 5 serão nos municípios da periferia da capital e 3 no interior do país. Assinou-se um acordo entre o governo, a CGT e os sindicatos (4 bilhões de pesos para as obras sociais). Isso atinge 15 milhões de pessoas, ou seja, 1/3 de argentinos. Nisto se inclui o fornecimento de camas e aparelhos para hospitais, além de colocar os hotéis, normalmente usados para lazer e eventos sindicais, à disposição das quarentenas. Os moradores de rua também serão acolhidos nos hotéis e pousadas e albergues.

 

Além disso, independentemente da emergência coranavirus, voltam-se a distribuir gratuitamente todos os remédios essenciais aos idosos; aceleram-se também as políticas de contenção das outras epidemias massivas e fatais como a do dengue e do sarampo, ignoradas pela gestão macrista que se dedicou a levar bilhões de dólares ao exterior. O Ministro de Defesa, Agustin Rossi, anuncia que máscaras de proteção e álcool estão sendo produzidos pela fábrica militar que suspende, momentaneamente, a produção de fardas dos soldados. E o mais importante é que Alberto Fernández reuniu-se com o embaixador da República Popular da China para selar acordos semelhantes aos realizados entre esse país e a Itália. Em pouco tempo a Argentina terá uma quantidade significativa de reagentes para prova de Coronavirus e outros instrumentos sanitários. Entre o modelo italiano e o chinês, a Argentina opta por acelerar os passos e organizar a estrutura sanitária e a consciência social coletiva como na China.

Logicamente, entre todas as medidas de contenção da propagação do coronavirus estão decretados os fechamentos das escolas públicas e privadas, até dia 31 de março e suspensas todas as atividades esportivas, culturais, cinema, teatro, espetáculos que impliquem aglomerações. Os trabalhadores estatais e privados têm licença de 14 dias, enquanto a permissão ao trabalho a partir de casa está generalizada. O Ministério da Educação e equipes de educadores ocupam as telas da TV Pública, dos canais Novo Encontro (cultural) e Paka Paka (infantil) com programas para educação e entretenimento, suprindo o fechamento das escolas. As mães e avós da Praça de maio, suspendem a histórica manifestação anual em homenagem aos mortos e desaparecidos na ditadura, a do “Nunca Mais”, da “Memória, Justiça e Verdade”, neste 24 de março, sem deixar de realizar encontros restritos e pronunciamentos pelas redes.

A intervenção do Estado frente à virulenta crise econômica

 

O ministro da Economia, Martín Guzmán, e o ministro da Produção, Matías Kulfas, anunciaram as medidas emergentes no plano econômico para conter os efeitos nefastos da “crise coronavirus” na subsistência do trabalhador e na atividade produtiva, das pequenas e médias empresas e comércios. Felizmente, trata-se de um governo eleito com um projeto de fortalecimento e recuperação do Estado. A emergência social cria um bônus aos aposentados de baixa renda, e um aumento da AUH (Subsídio universal por filho), um maior abastecimento dos chamados “comedores populares” nos bairros pobres, e uma prorrogação de dois meses para o vencimento das dívidas dos aposentados por créditos sociais ao fundo de pensão. Enfim, o Estado deverá respaldar a subsistência dos setores mais indefesos da população nestes meses excepcionais de calamidade pública. Os trabalhadores autônomos e informais, que são cerca de 10 milhões, sobretudo jovens, serão contemplados nos próximos dias na ajuda emergencial. A organizações católicas dos “Padres pelos pobres”, que atendem os favelados pressionam para organizar material sanitário e quarentenas nas comunidades. A suspensão dos transportes públicos é parcial, com regras de manutenção higiênica e impedimento de usuários em pé (exclusivamente sentados). A circulação entre várias Províncias (estados) também está fechada, e o movimento de automóveis nas estradas é restrito e controlado.

A guerra ao coranavirus na Argentina traz um pacote de medidas de apoio às patronais onde o Estado dará 350 bilhões de pesos em créditos para as chamadas PYMES (pequena e média empresas) e subsídios para o pagamento de salários dos trabalhadores. A meta é garantir “produção, trabalho e abastecimento”. Mas ao mesmo tempo, o governo garante que haverá um severo controle delimitando preços máximos ao consumidor; que combaterá a especulação nos supermercados que exploram o pânico social provocado por falsos alarmes de desabastecimento. Este será um bom momento para o exercício do controle popular. A produção da indústria alimentar, farmacêutica, agropecuária, lavanderia, petróleo e obra pública está garantida.

Ao finalizar este artigo, o presidente Alberto Fernandez, reunido com todos os governadores emite um Decreto Nacional de Urgência que ordena uma quarentena obrigatória de todos os cidadãos em todo o país, a partir de hoje, dia 20 ao 31 de março. Leia detalhes das medidas no seu comovente apelo ao povo argentino através da sua carta publicada no site da Casa Rosada. Não obstante farta comunicação governamental sobre o enorme risco que corre o país, há ainda muita irresponsabilidade e individualismo de “espertinhos” de pequenos extratos altos da sociedade incapazes de pensar no coletivo, resistindo à quarentena e à ordem institucional, alastrando o coronavirus. O isolamento individual obrigatório é fundamental pois a velocidade do vírus é maior que o tempo necessário para organizar a estrutura sanitária de salvação. “É uma luta contra um inimigo invisível, para salvar vidas”. “O Estado será implacável com aqueles que colocarem em risco a saúde dos argentinos!” “Farei cumprir a lei com todo rigor para salvar vidas. Seremos muito estritos para assegurar o cuidado do nosso povo.” “Trata-se de uma Democracia para reduzir o dano ao povo e salvar a maior quantidade de vidas possíveis!”(Alberto Fernandez) O Ministério da Defesa acaba de convocar o Exército para uma Operação de proteção civil, chamada Covid-19. O comandante diz-se orgulhoso de ser militar para cuidar do seu povo e visibilizar o inimigo. O lado positivo nesta situação, é que a maioria do povo argentino está passando por uma prova de mudanças culturais, nos costumes e na atitude solidária. Mais Estado e solidariedade! O reconhecimento ao papel abnegado do pessoal sanitário e hospitalar na defesa das vítimas do coronavirus expressou-se no aplauso popular, hoje, às 21 horas nas janelas de todo o país.

Não há outro caminho para debelar o coronavirus senão protagonizar o Estado. Até mesmo governos como o de Macrón (França) e de Giuseppe Conte (Itália) cujos projetos neoliberais foram pegos de surpresa pelo coronavirus são obrigados a valorizar o Estado. A Itália nacionaliza a companhia de aviação Alitália, e Macron se pronuncia contra o mercado, as privatizações, e diz suspender as decisões pela reforma das pensões, destinando 300 bilhões de euros do Estado para proteger os trabalhadores e as empresas.

Não há que alarmar-se, mas é preocupante um cenário de guerra mundial provocada por um estranho vírus cujo desenvolvimento é ainda desconhecido, e cuja origem é controversa; simples acaso, ou uma guerra bacteriológica provocada por uma guerra econômica entre EUA versus China? EUA versus uma Europa que abre as portas para a Rota da Seda? EUA (Pentágono e poder financeiro internacional) versus a crescente contestação dos povos ao neo-liberalismo, unidos, mobilizados, do Chile, à Espanha, França ao Irã? Por algo houve pronunciamentos no Irã e na China, denunciando a criação do coronavirus em laboratórios nos EUA. E por algo, as forças militares da Otan preparam-se para exercitações militares de 20 de abril a julho, através da operação “Europe Defender 20”, usando suas bases militares na Europa. Em plena pandemia de coronavirus declarada pela OMS, anunciaram inicialmente 20 mil soldados dos EUA (posteriormente, Trump recuou e reduziu o contingente) desembarcando em 7 aeroportos europeus somando-se aos 10 mil já existentes, além dos 7 mil dos outros países da Otan. Junto a isso, a Otan importará 14 mil meios militares, tanques, helicópteros e munições. Porém, a Itália e a Noruega já se negaram a participar das operações “Defender 20” da Otan. Ao contrário, o governo italiano é obrigado a mobilizar soldados na proteção civil diante da catástrofe social. O presidente da Sérbia, Aleksandar Vucik , critica a “solidariedade europeia como conto de fadas”, elogia a China e lhe pede socorro.

O fato é que a crise mundial econômica-social do capitalismo chega à beira do lançamento de uma guerra fatal. Como já previsto pelo dirigente teórico trotskista, J. Posadas, ela será inevitável por questão de sua sobrevivência como sistema; e ela poderia ser atômica, sem previsão de quando, nem como, nem onde. O pior é que a guerra bacteriológica, pode ser tão destrutiva quanto a atômica, sem que o ator político seja um sujeito visível contra o qual combater, como na guerra convencional, ou na de Hiroshima e Nagasaki. Só a história o dirá. Agora, trata-se de unir todas as forças da humanidade, exigindo políticas públicas nos países, contra as privatizações, exigindo uma intervenção plena e urgente de um Estado de bem estar social e revolucionário para superar este dramático charco do coronavirus.

A Argentina está dando um voto de confiança ao governo da Frente de Todos, de Alberto e Cristina, onde o povo deve ser protagonista e não vítima do seu destino. A Argentina se lança a dar um exemplo para a América Latina, a avançar rumo a um Estado popular, educando o povo a ser consciente e solidário com os que sofrem e necessitam. Uma das boas medidas que deixa o covid-19 é que não deixa dúvidas ao FMI: a dívida externa é impagável. Se o coronavirus surgiu para matar, confinar, intimidar e dividir os povos, será derrotado e produzirá um efeito contrário: será o fim do capitalismo, pelo menos na consciência humana. Quatorze dias de confinamento domiciliar deverão produzir uma reflexão profunda nos seres humanos; passou da hora de optar entre dois modelos de sociedade contrapostos: a do mercado, ou a do Estado. A China demonstrou na batalha contra o coronavirus, sua superioridade como sistema. Cuba envia médicos cubanos, interferon-Alfa-2B e remédios contra o covid-19 a vários países. Boris Johnson da Inglaterra deixa solto o virus para “aumentar a imunidade” do seu povo, enquanto Cuba, esta ilha socialista solidária, é o único país que abre os portos ao Cruzeiro Britânico, recebe e medica seus passageiros e tripulantes ingleses. Os EUA mantém o bloqueio criminoso à Venezuela e o FMI nega-lhe empréstimos para combater a epidemia. A história ainda não desvendou a origem exata do covid-19, mas a humanidade já constatou quem são os seus inimigos O mundo não será o mesmo depois do charco do coronavirus. Mas não será um mundo de paz, as classes existem e a política será necessária.

Ilhas Malvinas ressurgem na agenda da Argentina com novo presidente

Memorial em Ushuaia da Guerra das Malvinas
© AP Photo / Natacha Pisarenko

O Poder Executivo do país publicou três novas medidas que visam retomar o diálogo internacional e bilateral com o Reino Unido sobre a questão dos territórios do Atlântico Sul.

Cumprindo as promessas feitas em seu discurso inaugural, o presidente argentino Alberto Fernández anunciou um conjunto de projetos de lei para fortalecer a posição do país diante do Reino Unido em relação à soberania sobre o arquipélago, as áreas marítimas e os recursos naturais das Ilhas Malvinas.

Há uma mudança de tom significativa relativamente às ações do governo anterior de Mauricio Macri (2015-2019) no que diz respeito à posição da Argentina frente à recuperação dos territórios do Atlântico Sul. Agora, o poder executivo do país promove três medidas destinadas a obter o apoio de todas as forças políticas para unificar uma estratégia a longo prazo de ações internacionais.

Plano da Argentina para as Malvinas

Criação do Conselho Nacional das Ilhas Malvinas, Geórgia do Sul, Sanduíche do Sul e Assuntos Marítimos Correspondentes

A entidade incluirá representantes do governo e da oposição, veteranos da Guerra das Malvinas (1982), acadêmicos, juristas e delegados da província da Terra do Fogo, à qual estes territórios correspondem de acordo com a lei argentina.

"Esta iniciativa é uma tentativa de assegurar que a questão das Malvinas seja definitivamente considerada uma política estatal, através de um espaço pluralista, para que seu tratamento não seja mais deixado aos interesses particulares de determinado governo", disse Andrés Dachary, secretário das Malvinas, Antártica, Ilhas do Atlântico Sul e Assuntos Internacionais da Terra do Fogo, à Sputnik Mundo.

Assim que tomou posse em dezembro de 2019, o presidente Alberto Fernández restabeleceu como secretaria a área do Ministério das Relações Exteriores dedicada à questão das Malvinas, e colocou à sua frente Daniel Filmus, que havia ocupado este cargo nos últimos anos da presidência de Cristina Fernández de Kirchner (2007-2015). Durante a presidência de Mauricio Macri (2015-2019), a área passou a ser apenas uma subsecretaria.

Nova demarcação do limite externo da plataforma continental argentina

A plataforma continental do país será estendida de 200 milhas náuticas (322 quilômetros) para 350 (563 quilômetros), conforme decidido pela Organização das Nações Unidas (ONU). A política visa reforçar os direitos de soberania e aumentar a segurança jurídica no contexto da exploração de hidrocarbonetos e minerais.

Em março de 2017, a ONU aprovou a expansão do espaço marítimo da Argentina em mais de 1,7 milhões km2, elevando-o para mais de 6,5 milhões km2. Isto significa um aumento de 35% na sua área soberana, o que lhe daria o controlo sobre os recursos naturais do fundo marinho.Ex-combatente da Guerra das Malvinas Armando González e seu filho Martín seguram a bandeira de um grupo de heróis do conflito na praia onde se defendeu o regimento

© Sputnik / Nicolás Ayala
Ex-combatente da Guerra das Malvinas Armando González e seu filho Martín seguram a bandeira de um grupo de heróis do conflito na praia onde se defendeu o regimento

Desde 2010, as companhias petrolíferas estão explorando e prospectando hidrocarbonetos nas águas próximas às ilhas. Em março de 2011, o Congresso da Nação Argentina proibiu as atividades petrolíferas na plataforma continental argentina sem autorização, incluindo o arquipélago. O Reino Unido apelidou o passo de ilegal.

"Quando falamos da reivindicação das Malvinas, estamos falando também da base militar britânica de Monte Agradable [no arquipélago], que tem controle sobre nossa plataforma marítima e as passagens oceânicas Atlântico-Pacífico, e sobre a especulação de que o governo britânico está olhando para a futura discussão do Pacto Antártico em 2040", disse Edgardo Esteban, um ex-veterano de guerra e diretor do Museu das Malvinas, à Sputnik.

Modificação do Regime Federal de Pesca

Esta medida vai aumentar as sanções contra as embarcações que pescam ilegalmente em águas sob jurisdição argentina, ou em águas onde o país tem soberania sobre os recursos biológicos, incluindo a controversa "zona de exclusão" que o Reino Unido tem mantido em torno das ilhas desde a guerra de 1982.

"De 1983 a 2015, o governo das Ilhas [Malvinas] cobrou royalties de pesca no valor de US$ 147 bilhões (R$ 677,3 bilhões), três vezes o que o governo de Mauricio Macri pediu ao Fundo Monetário Internacional (FMI). Quantas escolas, quantos planos de alimentação, quantos hospitais a República Argentina poderia ter construído?", questionou, indignado, Esteban.

O veterano e escritor de guerra explicou que a época alta da lula está começando agora mesmo, e o governo britânico está prorrogando as licenças de pesca por 25 anos. "Está a ocorrer uma depredação da nossa fauna", avisou.

Um caminho para "o fim do colonialismo"

"Para entender a reviravolta de 180 graus que se deu, é preciso analisar algumas ações insensatas promovidas pelo governo de Macri, que, embora pareça incrível, pretendia fazer com que nosso Estado, que atualmente tem um conflito soberano com o Reino Unido, se comprometesse a remover os obstáculos que impedem o desenvolvimento sustentável das ilhas, e a fortalecer a posição britânica, o que também está levando a um processo de militarização e proliferação no Atlântico Sul", disse Dachary.Homem segurando bandeira argentina com imagem das ilhas Malvinas (foto de arquivo)

© REUTERS / Marcos Brindicci
Homem segurando bandeira argentina com imagem das ilhas Malvinas (foto de arquivo)

Esta mudança está ocorrendo no contexto do Brexit, a saída do Reino Unido da União Europeia, que poderia deixar as ilhas do Atlântico Sul vulneráveis à perda das isenções tarifárias de que desfrutavam como membros da comunidade comercial.

Desde 1965, as Nações Unidas adotaram uma resolução que reconhece a disputa entre o Reino Unido e a Argentina, e convida as partes a uma resolução pacífica através de negociações bilaterais, e levando em conta os interesses dos habitantes das ilhas. O Estado britânico, que detém as ilhas desde 1833, tem se recusado a dialogar, especialmente desde o início da guerra, em 1982.

"Acreditamos que é essencial reorientar a questão das Malvinas como o principal ponto da agenda, de acordo com nosso mandato constitucional, especialmente neste novo cenário internacional, que representa claramente uma oportunidade para procurar reverter décadas de exploração e uma situação que tem sido denunciada como puramente colonial", insistiu o responsável.

"Estamos buscando uma reafirmação do nosso direito soberano, com um apoio que temos que recuperar na região, com fóruns internacionais, mas particularmente com o Comitê de Descolonização da ONU, para que o Reino Unido respeite a resolução e se sente para dialogar e acabar com uma das 16 colônias que ainda existem no planeta", concluiu Esteban.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2020030615299935-ilhas-malvinas-ressurgem-na-agenda-da-argentina-com-novo-presidente/

Fuga de capitais e dívida, a 'maldição' eterna da Argentina

Presidente da Argentina Alberto Fernández e sua vice-presidente Cristina Kirchner
© AP Photo / Marcos Brindicci

Na Argentina a fuga de capitais é um "esporte nacional", as crises da dívida externa e fuga de dólares se repetem com frequência ao longo dos anos.

Desde os anos oitenta, quando na América Latina ocorreram crises das dívidas externas, a Argentina já passou por diversos episódios críticos, como em 1982, com a Guerra das Malvinas e a dívida adquirida durante o governo Macri (2015-2019).

Cada crise levou, primeiramente, a um ingresso de dólares para alimentar o frenesi especulativo, para então financiar uma fuga de capitais.

Nota de peso argentino em homenagem às ilhas Malvinas

© Sputnik / Francisco Lucotti
Nota de peso argentino em homenagem às ilhas Malvinas

Em cada um desses momentos dramáticos da economia argentina foram criadas comissões para identificar o que ocorreu com os valores da dívida. Na última, entre dezembro de 2015 e setembro de 2019, o aumento líquido da dívida pública em moeda estrangeira foi exponencial, em paralelo com uma fuga de dólares de US$ 93,6 bilhões (R$ 423 bilhões), segundo um informe do Centro de Pesquisa e Investigação da República Argentina (CIFRA) e Central de Trabalhadores da Argentina (CTA).

Discurso

O traço principal do ciclo de endividamento mais recente foi que não serviu somente para aumentar o nível da atividade econômica, mas sim para financiar a fuga de capitais.

Os dólares que deveriam ser usados para financiar o desenvolvimento produtivo foram usados em uma impressionante bolha especulativa, terminando em uma fuga desse dinheiro do país.

Alberto Fernández, atual presidente argentino, levantou três pontos sobre a questão:

Entre os desafios de curto prazo, se encontram a necessidade de colocar fim na especulação financeira, reduzindo a taxa de juros de referência do Banco Central, que já baixou de 63% para 40%, assim como avançar no difícil processo de renegociação da dívida para reduzir a "brecha externa". Ou seja, a disponibilidade de dólares.

Correlação

O problema não é somente a magnitude da saída de capitais ao exterior e seu impacto na economia doméstica. Afinal, a saída de capitais do sistema financeiro não é ilegal.

A questão principal é que nem o Estado, nem o Banco Central da Argentina, nem os bancos aplicam adequadamente as medidas de controle dos capitais que fogem do país. Cada investigação atualmente em curso no país sul-americano revela o estreito grau de correlação ente a fuga de capitais e a concentração do mesmo.

As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/opiniao/2020030415288166-fuga-de-capitais-e-divida-a-maldicao-eterna-da-argentina/

Cristina Kirchner diz que Argentina não pagará dívida ao FMI

 

Sputinik –Neste sábado (8), a vice-presidente argentina Cristina Kirchner disse que, havendo recessão, o governo não pagará nem "meio por cento" de sua dívida ao FMI.

Na apresentação de seu livro "Sinceramente" na Feira Internacional do Livro de Cuba, em Havana, Kirschner considerou que "a primeira coisa que devemos fazer para pode pagar é sair da recessão", revela agência Reuters.

"Se há uma recessão, ninguém pagará nem mesmo meio por cento e a forma de sair de uma recessão é através de forte investimento do Estado".

A Argentina precisa reestruturar US$ 100 milhões (R$ 432 milhões) da dívida soberana, incluindo parte dos US$ 57 bilhões (R$ 246 bilhões) emprestados ao país pelo FMI em 2018.

 

As negociações com o FMI é a principal esperança da Argentina para evitar a inadimplência em meio a uma desvalorização cambial, forte inflação e contração da economia. Em Buenos Aires, uma missão técnica do FMI deve discutir nas próximas semanas as obrigações devidas ao fundo.

A peronista Kirchner viaja constantemente para Cuba a fim de visitar sua filha Florencia Kirchner, que está passando por tratamento médico no país caribenho.

 

Alberto Fernández vai propor lei de descriminalização do aborto na Argentina

247 - O presidente de Argentina, Alberto Fernández, afirmou que o seu governo promoverá uma lei de descriminalização do aborto, que passará a ser legal. De acordo com o mandatário, a proposta diz respeito ao aborto em qualquer circunstância.

“Não posso estar em paz com minha consciência sabendo que milhares de mulheres estão perdendo a vida em abortos clandestinos”, disse Fernández em uma palestra realizada nesta quarta-feira (5), no Instituto de Estudos Públicos de Paris.

O presidente fez uma ressalva sobre o projeto. “Espero que não se transforme em uma disputa entre parlamentares progressistas e conservadores, porque o tema deve ser visto como um problema de saúde pública a ser resolvido, e não como uma questão filosófica”, acrescentou.

 

'A alguns metros do precipício': província de Buenos Aires pode anunciar default em poucos dias

Mulheres gritam contra o presidente argentino Mauricio Macri. Uma delas, no centro, segura uma placa com a mensagem Não ao FMI, não à austeridade, sim à pátria-mãe, em Buenos Aires. Milhares protestaram contra a decisão do governo de pedir socorro ao FMI. Foto de 25 de maio de 2018.
© AP Photo / Victor R. Caivano

A província de Buenos Aires pode declarar default na semana que vem, caso credores não aceitem proposta de renegociação de dívida. Situação da província terá impactos nas negociações entre Argentina e FMI, programadas para 5 de fevereiro.

Credores que possuem títulos emitidos pela província de Buenos Aires com vencimento em 2021 têm até a tarde de sexta-feira para aceitar proposta de reestruturação da dívida.

A oferta, que adia o pagamento de principal estimado em US$ 250 milhões (cerca de R$ 1 bilhão) até o dia 1º de maio, pode abrir precedentes para a reestruturação da dívida nacional argentina, que atinge US$ 100 bilhões (cerca de R$ 424 bilhões).

"Se [a província] não pagar a dívida nesse mês, as consequências serão graves", alertou o ING group, acrescentando que o caso da província pode ser uma "amostra do que está por vir".   

O presidente argentino, Alberto Fernández, declarou a intenção de concluir as negociações da dívida nacional com o Fundo Monetário Internacional (FMI) até o fim de março.

"O presidente argentino e o governador de Buenos Aires estão usando suas cartas há poucos metros do precipício", versa relatório da consultoria Massot Monteverde & Associados.

Para a consultoria, é necessário apenas "um movimento em falso" para a situação se deteriorar rapidamente, reportou a Reuters.

A matriz do Fundo Monetário Internacional (FMI), na capital dos EUA, Washington D.C
Cliff Owen
A matriz do Fundo Monetário Internacional (FMI), na capital dos EUA, Washington D.C

A província tem dez dias de tolerância após o dia 26 de janeiro, prazo final para o pagamento da dívida. Isso significa que, caso não pague as obrigações, Buenos Aires poderá declarar default no dia 5 de fevereiro, o mesmo dia da reunião entre o ministro da Economia Martín Guzmán e o FMI, a ser celebrada em Roma.

"Apesar do [eventual] default ter efeito limitado à província de Buenos Aires, o barulho gerado pode ser tridimensional ao processo de negociação da dívida do governo federal", asseverou o ING.   

A oferta da província de Buenos Aires solicita que credores adiem o recebimento de cerca de 75% do montante total da dívida. Essa já é a segunda tentativa de negociação encabeçada pela província, que teve sua primeira oferta rejeitada pelos credores.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2020013115079648-a-alguns-metros-do-precipicio-provincia-de-buenos-aires-pode-anunciar-default-em-poucos-dias-/

A “questão Malvinas” e a geopolítica do Atlântico Sul

A “questão Malvinas” refere-se a um conflito geopolítico que envolve quase 6 milhões de quilômetros quadrados, equivalente a duas Argentinas e um oceano repleto de recursos.

Há um mês [20 de novembro de 2019], precisamente no Dia da Soberania Nacional, começou a operar o voo que conecta São Paulo às Ilhas Malvinas, uma nova rota comercial administrada pela Latam Airlines Brasil.

Não se trata de um evento isolado, devendo ser concebido como resultado do Acordo Foradori-Duncan, assinado no dia 13 de setembro de 2016. Dito acordo pretende limitar ou evitar as restrições econômicas impostas pelas leis argentinas, sancionadas pelo Congresso Nacional, sobre proteção de recursos de pesca e exploração de hidrocarbonetos. Entre outras medidas, incluiu-se a possibilidade de aumentar o número de voos às ilhas, com escala na Argentina, mas sem aceitação das empresas de transporte aéreo nacionais nem de voos diretos saindo da Argentina continental. Tudo no marco da política sobre as Malvinas implementada durante a presidência de Mauricio Macri, destinada a melhorar as condições desse enclave neocolonial-militar, como um dos pilares para recuperar as relações amistosas (subordinadas) com as potências ocidentais.

Contexto

1) O governo de Mauricio Macri trabalhou para “remover os obstáculos” que impedissem a exploração britânica nas Ilhas Malvinas e seus espaços marítimos circundantes, como ficou explícito no acordo de setembro de 2016; remover os obstáculos (leia-se “desmantelar medidas jurídicas, administrativas e legais”) supõe, por exemplo, em matéria de navegação, pesca e hidrocarbonetos, evitar punir as empresas que atuem em território argentino sem permissão.

2) Esta orientação diverge substancialmente das diretrizes sobre as Malvinas durante os governos de Néstor Kirchner (2003-2007) e de Cristina Fernández (2007-2015), centradas na questão soberana e que articularam as denúncias sobre a depredação de recursos naturais e militarização do Atlântico Sul, e que levaram à decisão de limitar a exploração de recursos naturais por parte da Grã Bretanha e outros países, inclusive de empresas multinacionais detentoras de licenças comerciais.

Malvinas e o Atlântico Sul: impacto geopolítico global

Vale destacar que no Atlântico Sul ocidental – setor correspondente à América do Sul – apenas dois atores regionais detêm quase a totalidade do litoral marítimo: Brasil e Argentina. Por outro lado, as potências extrarregionais que mantêm forte presença são os Estados Unidos e o Reino Unido, detentores da cadeia de ilhas que se encontram no centro do Oceano Atlântico Sul, entre a América e a África, simultaneamente exercendo controle naval da zona [1]. Desta forma, longe de uma disputa de 11 mil quilômetros quadrados – correspondentes às duas ilhas maiores e ao conjunto de ilhotas que se desprende delas – a “questão Malvinas” diz respeito a um conflito sobre cerca de 6 milhões de quilômetros quadrados, ou seja, nada mais, nada menos do que o correspondente a duas Argentinas continentais e um oceano repleto de recursos.

O Estreito de Magalhães e os canais de Beagle e Drake possibilitam a comunicação interoceânica Atlântico-Pacífico e são fundamentais para o monitoramento e intervenção no comércio mundial. Estima-se que cerca de 200.000 navios de carga transitam anualmente pelo Atlântico Sul, onde 80% do petróleo que demanda a Europa Ocidental e 40% das importações dos EUA representam parte importante deste fluxo comercial [2]. Outra dimensão que mostra a importância geoestratégica das Malvinas é a conexão que estabelece com a Antártida, território cobiçado pelas potências hegemônicas por ser uma reserva de minerais, biodiversidade e mais de ¾ da água doce existente no planeta armazenada em forma de gelo, além da suma importância para a atividade espacial.

Atualmente, o enclave militar com a base aérea de Mount Pleasant conta com uma pista de 2590 metros e outra de 1525 que permitem o deslocamento de aviões de grande porte e helicópteros. A isto agrega-se o porto de águas profundas Mare Harbour utilizado pela Marinha Real para a amarra de navios e submarinos (Londres tem enviado submarinos de última geração e de propulsão nuclear), além de silos e rampas para lançamento de armas nucleares. Aí vivem entre 1500 a 2000 efetivos, dos quais cerca de 500 residem de forma permanente enquanto os demais são parte de contingentes rotativos que chegam para serem submetidos a treinamento, sendo posteriormente enviados a cenários bélicos onde a Grã Bretanha esteja envolvida, como foi o caso do Iraque e do Afeganistão [3].

Esta base conta com aviões de última geração, intitulados Eurofighter Typhoon, que substituíram os Tornado F3 e Harrier usados na guerra; nenhuma força aérea na América Latina conta com este tipo de avião [4]. Além disso, em 2017 o Ministério de Defesa britânico resolveu ampliar o orçamento da base para 267 milhões de libras durante os próximos dez anos, implementando novos sistemas de defesa de mísseis que substituam o sistema anterior de defesa Rapier.

Essas informações deixam claro que se trata de um ponto geopolítico e geoestratégico de primeira importância. Os assentamentos coloniais britânicos – cuja descolonização segue pendente no século XXI – servem para estabelecer um sistema interconectado de bases militares que incluem Tristán de Acuña, Santa Elena e Ascensión. Ainda que algumas não conformem bases militares clássicas, constituem importantes “barreiras” na geopolítica do Atlântico Sul, já que, como Santa Elena – com uma recente inauguração de uma pista aérea – podem transformar-se rapidamente em bases úteis para o transporte e apoio logístico; uma espécie de coluna vertebral que permite o abastecimento e translado de forças de combate rapidamente [5].

Rede de bases e infraestrutura britânicas distribuída pelo hemisfério

– Ilha Ascensión (base militar Wideawake Airfield a 8000 km de distância de Londres, enclave anglo-americano fundamental para abastecimento e logística).
– Ilha Santa Elena e ilhota Tristán de Cunha
– Ilhas Malvinas (Monte Agradable é a principal base militar da OTAN no Atlântico Sul)
– Ilhas Georgias e Sandwich del Sur (último elo da cadeia de controle naval)

Malvinas e a disputa “Ocidente versus Oriente”

É fundamental entender a estratégia do Reino Unido no Atlântico Sul como complementar à dos Estados Unidos e ao esquema de implementação militar da OTAN. Em 2004, Londres transferiu o Comando Naval do Atlântico Sul a Mare Harbour e Monte Agradable. Quatro anos depois, os EUA anunciaram a reativação da IV Frota para patrulhar o Caribe, América Central e América do Sul com fins “humanitários”. Em 2009 as Ilhas Malvinas, ilhas do Atlântico Sul e Território Antártico reivindicado pela Grã Bretanha foram incorporados unilateralmente como territórios europeus ultramarinos através da ratificação do Tratado de Lisboa e da aprovação da Constituição Europeia pelo Parlamento Europeu.

Em agosto de 2018 o secretário de Defesa britânico, Gavin Williamson, diante do grupo de especialistas do Atlantic Councilthink-tank que é referência do establishment imperialista, fundado em 1961 no marco da Guerra Fria – ressaltou a fortaleza da relação entre o Reino Unido e os EUA:

“(…) Estamos prontos para responder a qualquer situação em qualquer momento. Implantamos forças em todo o mundo, podemos recorrer aos nossos territórios ultramarinos em Gibraltar, às Áreas da Base Soberana no Chipre, à ilha Ascensión, às ilhas Falklands* e ao Território Britânico do Oceano Índico. Eles geralmente fornecem instalações estratégicas não apenas para nós, mas também para os Estados Unidos”[6].

Em um relatório da Comissão de Revisão Econômica e de Segurança EUA – China do Congresso dos Estados Unidos intitulado “Acordos militares da China com a Argentina: uma potencial nova fase nas relações de Defesa China – América Latina” há uma consideração sobre a “intensificação temporal da disputa pelas Falklands”:

– Os EUA não adotam nenhuma posição sobre a disputa das ilhas Falklands que não seja a de encorajar uma resolução diplomática das diferenças, mas os seus interesses serão prejudicados pelo aumento das tensões entre os reclamantes – ambos aliados dos Estados Unidos –, e a tensão que isto geraria para os seus esforços de estabilidade regional.

– Os potenciais acordos de venda de armas e cooperação espacial da China com a Argentina já têm servido para intensificar marginalmente a disputa, e a China apoia publicamente o reclamo da Argentina sobre as ilhas, provavelmente vendo-o como análogo ao seu próprio reclamo sobre Taiwan.

– Antes que fossem conhecidos os seus acordos oficiais com a China, o mero interesse da Argentina nos caça-bombardeiros russos SU-24 levou o Reino Unido a realizar uma revisão oficial das defesas das ilhas e investir em pequenas melhoras, uma medida que foi fortemente criticada pela Argentina.

– Apesar do potencial valor de bilhões de dólares, esses acordos não proporcionariam ativos suficientes para inclinar o equilíbrio de poder militar a favor da Argentina [7].

Hidrocarbonetos

Durante os anos 70, a Grã Bretanha realizou várias missões científicas e estudos de prospecção sobre os recursos nas ilhas, especialmente de petróleo. No fim da década, por mero acaso, diversos meios começaram a expressar consensualmente que a Coroa britânica deveria buscar novas fórmulas para o desenvolvimento das potencialidades de mineria nas ilhas, assim como a importância de tirar da mesa de discussão com a Argentina a questão da soberania. Ao mesmo tempo, os EUA sentenciavam que “a única região fora da OPEP e dos países comunistas com um potencial petroleiro significativo é a bacia das Malvinas, entre a Argentina e as ilhas Falkland” [8].

Logo após a guerra, durante o governo de Carlos Menem, as Malvinas deixaram de ser uma questão soberana, no marco de uma política de “abordagens práticas”, favorecendo através de tratados e convênios os interesses econômicos e políticos da Grã Bretanha [9].

Este marco legal permitiu que a Grã Bretanha lançasse unilateralmente uma licitação pública para a exploração de petróleo nas ilhas durante os anos 90. Foram perfurados seis poços em 1998, e em 2010 a Ocean Guardian liderou um novo ciclo de perfurações. No dia 2 de abril de 2015 a Premier Oil, a Falkland Oil & Gas e a Rockhopper Exploration anunciaram a descoberta de reservas de petróleo e gás superando, de longe, as expectativas [10]. Em setembro de 2017, durante a Conferência Capital Oil, o CEO da Rockhopper Exploration anunciou que o poço denominado Sea Lion possuía reservas certificadas entre 500 milhões e 1 bilhão de barris de petróleo. Estima-se que a extração comercial de petróleo cru nas Malvinas poderia começar em 2020. Para 2022 é projetada uma produção offshore de 75.000 barris diários, volume que poderia alcançar um máximo de 120.000 em 2025 [11].

É importante lembrar da condição transnacional das companhias petroleiras. No caso das Malvinas, existem importantes interesses estadunidenses em aliança com as companhias britânicas. A Rockhopper Exploration e a Diamond Offshore, por exemplo, negociam a documentação vinculante a partir dos princípios acordados para o fornecimento de uma unidade de perfuração e de financiamento do provedor [12]. Atualmente, as empresas que buscam e exploram a área são: Falkland Oil and Gas Limited, Borders and Southern Petroleum, Rockhopper Exploration, Diamond Offshore Driling, BHP Billition e Argos, além de empresas responsáveis por serviços financeiros e acionistas [13].

Uma informação fundamental é que a lei de hidrocarbonetos da Argentina, modificada em 2013, prevê que nenhuma empresa petroleira que tenha atuado nas Malvinas poderá fazê-lo na plataforma continental argentina, por ser uma exploração clandestina e ilegal. Em outubro de 2018, o governo de Mauricio Macri lançou o decreto 872 que instrui a Secretaria do Governo de Energia, dependente do Ministério da Fazenda, a convocar um concurso público internacional para adjudicar permissões de exploração e busca de hidrocarbonetos offshore.

Neste contexto, foram concedidas áreas a empresas europeias que já estão operando nas Malvinas [14], enquanto entregam informação geológica da plataforma continental argentina e aceitam empresas britânicas que operaram nas Malvinas sob a administração ilegal das ilhas. Esses acontecimentos fortalecem a ocupação colonial britânica ao conceder explorações a essas empresas, que violam a Constituição Argentina ao reconhecer o governo kelper** [15]. Em outras palavras, não apenas foram outorgadas essas concessões ilegais como também legitimou-se a ocupação colonial.

Recursos marinhos vivos

Depois da guerra, e como parte do plano para o apoio econômico das ilhas e manutenção da base militar do Reino Unido, o apoio econômico foi concretizado por meio do outorgamento de licenças de pesca no Mar Argentino. Na última década, a pesca representou mais da metade da renda das ilhas, a partir do sistema de licenças ilegais. Em 2011, 118 navios com licença britânica pescaram um total de 232.000 toneladas. Apenas a pesca de lulas ultrapassou o valor de 1,6 bilhões de dólares em 2012, produto da captura de 50 toneladas por dia.

Dados importantes

  1. A temporada 2019 foi a de melhor rendimento desde 1995, alcançando 51 mil toneladas, a partir da presença de mais de meia centena de barcos estrangeiros.
  2. Em fevereiro de 2019, o governo britânico das Malvinas outorgou 105 licenças de pesca apenas para lulas, ao mesmo tempo em que realizam uma investigação “conjunta” com o governo argentino sobre a espécie de lula illex, com o navio “Victor Angelescu”, para estimar a quantidade desse tipo de molusco para março de 2020.

 

Perspectiva: a urgência de uma nova etapa para as Malvinas e o Atlântico Sul

Durante o governo de Macri o “reclamo” pelas Malvinas e o Atlântico Sul esteve supeditado ao desejo de relançar o vínculo comercial com Londres, como um importante sócio para a estratégia de “reinserção no mundo”. Consequentemente, desatendeu o histórico reclamo pela soberania e desenvolvimento do Atlântico Sul. À luz da mudança de governo na Argentina, torna-se importante destacar aspectos fundamentais sobre a questão das Malvinas, que devem voltar a ser considerados como ponto de partida para o debate e tomadas de decisão:

  • É fundamental conceber as Malvinas no contexto de uma política oceânica e antártica. Para isso a Argentina deve pensar-se como um país marítimo e antártico.
  • A “questão Malvinas” implica recursos em disputa como o petróleo, a pesca, os grandes recursos na plataforma continental ou os minerais das profundezas marinhas oceânicas.
  • A Argentina oceânica e antártica deve ser pensada como política para o Atlântico Sul, como desenvolvimento da ciência e de uma logística para a Patagônia argentina continental e insular.
  • É urgente reativar as estratégias que tendem a gerar um acompanhamento regional e internacional na questão.
  • Seria conveniente reorientar as negociações para impedir a unilateralidade britânica em setores como a pesca ou hidrocarbonetos.

Notas autorais:

[1] Altieri, Mariana, “Regionalización de la Cuestión Malvinas: la construcción de una estrategia de política exterior desde un posicionamiento frente al mundo”, en Wainer, Luis (coord.), Malvinas en la geopolítica de América Latina, Ed. CCC-Unsam, 2019 (en edición).

[2]https://www.vocesenelfenix.com/content/geopol%C3%ADtica-del-atl%C3%A1ntico-sur-desarrollo-e-integraci%C3%B3n-para-defender-la-soberan%C3%ADa-en-el-sigl

[3] Entrevista a la Dra. Sonia Winer (UBA-CONICET) realizada el 3 de diciembre de 2019

[4]Volpe, Mario, “Razones e intereses de una soberanía en disputa internacional y cultural”, en Giordano, C. Malvinas y Atlántico sur: estudios sobre soberanía, UNLP, 2017.

[5]Volpe, Mario, ob. cit.

[6]https://www.gov.uk/government/speeches/defence-secretary-at-atlantic-council

[7]https://www.uscc.gov/sites/default/files/Research/China’s%20Military%20Agreements%20with%20Argentina.pdf

[8]Álvarez Cardier, Jorge, La guerra de las Malvinas, enseñanzas para Venezuela, Editorial Enfoque, Caracas, 1982.

[9]https://www.nodal.am/2018/04/malvinas-entre-un-tiempo-de-recomposicion-neocolonial-y-un-nuevo-ciclo-de-desmalvinizacion-por-luis-wainer/

[10]https://www.theguardian.com/business/marketforceslive/2015/apr/02/premier-falkland-oi-gas-and-rockhopper-announce-oil-discovery

[11]https://www.revistapetroquimica.com/dos-petroleras-norteamericanas-dejan-de-explorar-en-malvinas/

[12]https://www.revistapetroquimica.com/dos-petroleras-norteamericanas-dejan-de-explorar-en-malvinas/

[13]Entrevista a la Dra. Sonia Winer (UBA-CONICET) realizada el 3 de diciembre de 2019

[14]https://www.perfil.com/noticias/equipo-de-investigacion/nuevo-vuelo-malvinas-vinculo-comercial-petroleo-kelpers.phtml

[15]http://www.oetec.org/nota.php?id=4206&area=1

 

Ver original em 'Revista Opera' (aqui)

Argentina: novo governo mobiliza a esperança

Governo Fernández é resultado de amplas lutas populares e vigoroso debate em torno da Agenda Argentina.

 

 

O ano de 2020 começou antes mesmo da virada na Argentina. A posse do governo de Alberto Fernández e Cristina Kirchner ocorreu há um mês, no dia 10 de dezembro de 2019. Desde os primeiros momentos, a nova presidência procurou dar sinais vigorosos aos mais de 45 milhões de argentinos em relação à disposição de combate à desigualdade social e econômica existente no país.

Como uma das primeiras medidas, foi aprovada no Congresso uma Lei de Emergência, que garante o aumento do pagamento de aposentadorias por determinado período de tempo. Além disso, dá sinais de que pretende redistribuir internamente a riqueza produzida no campo e compôs ministérios com representação ampla da base de apoio popular e partidária. Na política externa, almeja se descolar do bloco conservador pró-estadunidense na região.

Medidas simbólicas também foram adotadas, como a retirada de cercas que distanciavam a população do palácio presidencial, a Casa Rosada, localizada na capital Buenos Aires.

A comparação com a chegada de supetão de Bolsonaro ao governo do país vizinho não poderia ser mais inglória ao presidente brasileiro: enquanto para Fernández a esperança é uma chave de propulsão diante do desastre neoliberal do governo de Mauricio Macri – seu antecessor –, o presidente brasileiro mobiliza os sentimentos de rancor, ressentimento, vingança e promete perseguição a tudo e a todos: comunistas, petistas, militantes de movimentos populares, universidades, ONG’s, quilombolas, indígenas…

Ao contrário de acirrar as polarizações políticas buscando atender anseios de seus eleitores, Alberto Fernández procura reconstruir um pacto social consistente e com respaldo popular.

A plataforma do novo governo da Argentina foi construída em diálogo com amplos setores da sociedade, com escuta à intelectualidade jovem do país. Prova disso é o livro Hablemos de ideas: una nueva generación piensa como governar una Argentina que cambió” (em tradução livre: Falemos de ideias: uma nova geração pensa como governar uma Argentina que mudou), da Editora Siglo XXI (2019).

A obra foi organizada por Santiago Cafiero – que após a vitória eleitoral assumiu a chefia de gabinete do presidente Fernández –, junto com Cecília Gómez Mirada – intelectual e política com forte atuação na área de gênero – e Nahuel Sosa – pesquisador e professor, um dos principais porta-vozes da Agenda Argentina, uma iniciativa lançada por diferentes grupos de pensamento crítico com o objetivo de contribuir para unidade do campo popular, mobilizando intelectuais de diferentes vertentes políticas.

Com 24 artigos curtos, escritos por diversos intelectuais, sobre temas como mercado de trabalho no século XXI, democracia participativa, impacto do neoliberalismo no governo Macri, a batalha dos imaginários, feminismo, seguridade social, temas emergentes na área de ciência e tecnologia e providências para um novo pacto social, o livro tem o objetivo de sintetizar, de forma didática, as propostas para uma nova plataforma política de governo na Argentina.

No texto “Um nuevo acuerdo social”, Cafiero e Sosa analisam as agruras do governo macrista, sistematizam os valores do sistema de poder neoliberal – a cultura do empreendedorismo, a cultura punitivista para com os mais pobres, a meritocracia, entre outros – e apontam os elementos em disputa, que, vencida a eleição, podem efetivamente balizar a construção de outra cultura política.

“Porque o que está em disputa não é apenas uma dimensão econômica, mas uma forma de compreender as transformações no mundo do trabalho: em nome da modernidade e da liberdade se pretende consolidar um fenômeno de precarização feroz, em nome da autonomia a autorrealização se transforma em autoexploração descarnada. A meritocracia, se não há um Estado que possa garantir condições de igualdade, é uma estafa sem precedentes e uma forma de individualizar problemas coletivos”, trazem os autores.

Com experiência na chefia de gabinete do governo do ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007), Alberto Fernández demonstra habilidade para lidar com a oposição derrotada nas urnas e com a mídia empresarial, ávida por lhe atribuir carimbos de “mais um líder populista, demagogo e autoritário do peronismo”.

Por exemplo, antes de receber os governadores de sua base de apoio, Fernández recebeu governadores da oposição, em evidente disposição de escuta e diálogo. E sem grandes dificuldades, se movendo sobre a desorientação de uma oposição derrotada, conseguiu aprovar rapidamente a Lei de Emergência no parlamento argentino.

Para nós, brasileiros, é animador perceber o conjunto de providências que a população argentina tomou para fortalecer a resistência popular e derrotar o governo Macri nas urnas.

Segundo o artigo “Los feminismos en la transición”, de Flor Minici, as crescentes mobilizações feministas desempenharam papel relevante no processo: “Construiu-se como um ator capaz de se constituir de maneira transversal e plural, colocando na agenda uma série de demandas e articulando alianças que geraram massivas mobilizações definidas por nítido caráter antineoliberal e interseccional”.

Uma das iniciativas do novo governo foi criar o Ministério de Mulheres, Gênero e Diversidade. No Brasil, o grupo no poder tem como uma das principais bandeiras o combate à inventada expressão “ideologia de gênero”, bandeira útil para criminalizar o debate feminista nas escolas e fortalecer a cultura da perseguição e denúncia contra aqueles que questionem as estruturas arcaicas do poder patriarcal no Brasil.

O governo que assumiu a presidência argentina em dezembro de 2019 demonstra consciência que o problema a ser enfrentando não é apenas o de estabilização da economia a qualquer custo. Pelo contrário, invertendo prioridades, coloca a redução da pobreza e da desigualdade a frente do pagamento da dívida externa, em grande esforço de negociação com o sistema financeiro internacional e com a oposição nacional, buscando apoio do conjunto da população, desgastada com o aumento da miséria e com o avanço do neoliberalismo.

Por isso, o povo também está disposto a dar crédito ao fôlego vigoroso das propostas e projetos de Fernández nas primeiras semanas de governo.

A nova geração de dirigentes políticos argentinos encara com lucidez o desafio de reconstruir o Estado Nacional, conforme atestam Cecilia Gómez Mirada e Federico Martelli, no texto “Los desafios políticos de uma nueva generación”: “Um novo Estado não significa um novo organograma cheio de objetivos e funções, mas uma nova cultura política geracional em acordo com as demandas e intermediações de nossa sociedade”.

Chama atenção o fato da palavra “nação” fazer parte do vocabulário corrente dos argentinos: uma preocupação que figura no horizonte como uma meta a ser atingida, por uma sociedade que já figurou no cenário internacional como um dos países com menor diferença entre ricos e pobres do planeta, antes de ter seu processo formativo interrompido por violentas ditaduras e pelo ciclo neoliberal. Um país cuja população demonstra, em grande parte, ter consciência de seus dilemas e responsabilidade com a memória histórica.


por Rafael Villas Boas, Professor da Universidade de Brasília  |  Texto original em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado

 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/argentina-novo-governo-mobiliza-a-esperanca/

Argentina descredencia embaixadora de Juan Guaidó

Juan Guaidó, líder da oposição venezuelana (foto de arquivo)
© AP Photo / Andrea Hernandez Briceño

Governo argentino decidiu não mais reconhecer Elisa Trotta Gamus como embaixadora da Venezuela após a mesma ter sido credenciada ano passado durante administração de Mauricio Macri.

"Dirijo-me à senhora com o objetivo de comunicar que a partir do dia desta data se põe fim à sua missão [diplomática] especial na República Argentina e as suas funções no marco da mesma", declarou em nota feita ontem (7), a subdiretora do Cerimonial do Ministério das Relações Exteriores da Argentina, Mariángeles Bellusci, à Elisa Trotta Gamus.

É válido lembrar que ainda em 11 de outubro passado Elisa Trotta Gamus havia sido reconhecida por Buenos Aires como chefe da missão diplomática venezuelana na Argentina. Anteriormente, a mesma havia sido escolhida pelo líder oposicionista venezuelano Juan Guaidó para ocupar o cargo.

Contudo, desde a eleição do atual presidente argentino, Alberto Fernández, mudanças na forma do país ver a crise na Venezuelana foram esperadas.

Reação

Conforme publicou o jornal argentino Clarín, Trotta disse que continuará sendo porta-voz de Guaidó.

"Estamos abertos a continuar o diálogo com o governo argentino. Sabemos que os argentinos querem recuperar a democracia na Venezuela", afirmou a ex-embaixadora.

Anteriormente, o novo chanceler argentino, Felipe Solá, classificou as atividades diplomáticas de Trotta como "ilegais".

"É ilegal, não vamos buscar desculpas. Pensamos que as relações são complexas, mas tampouco se pode violar a legislação para ter o embaixador que um quer", afirmou Solá ao jornal.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2020010814982723-argentina-descredencia-embaixadora-de-juan-guaido/

Fernández: FMI emprestou para quem não podia pagar e tem muita culpa por pobreza na Argentina

A coalisão Frente de Todos uniu todos os setores do peronismo e da esquerda argentina para derrotar o atual presidente Mauricio Macri nas eleições presidenciais de 2019
© AP Photo / Gustavo Garello

O presidente da Argentina, Alberto Fernández, disse que o Fundo Monetário Internacional (FMI) emprestou dinheiro a quem não podia pagar e "tem muita responsabilidade" pelo aumento da pobreza no país.

"O FMI tem muita responsabilidade no que se passou, nem sequer peço uma mea culpa, peço que tenha em conta o que se passou: emprestou dinheiro a alguém que sabia que nunca ia poder devolver", disse o chefe de Estado em entrevista divulgada nesta quinta-feira (2) pela emissora Radio 10. 

Recentemente, a ex-diretora da entidade, Christine Lagarde, que chefiava o Fundo quando foi feito o empréstimo para a Argentina, disse que o programa econômico elaborado em parceria com o governo do então presidente Mauricio Macri teve "efeitos colaterais", como o aumento da "pobreza e da inflação". 

Segundo ela, o FMI fez o melhor que podia "quando os líderes da Argentina vieram a nós porque estavam em uma situação muito difícil". 

Dinheiro para 'ganhar uma eleição'

Fernández, no entanto, não eximiu a direção da entidade de culpa. Para ele, o Fundo emprestou dinheiro ao governo anterior "para que pudesse ganhar uma eleição e pudesse ocultar o verdadeiro problema que havia, o que no tema de gestão econômica é uma vergonha".  

A pobreza na Argentina subiu 6,2 pontos percentuais entre 2015 e 2019, de 34,6% para 40,8%, de acordo com o Observatório da Dívida Social da Universidade Católica. 

A inflação no período, por sua vez, foi de 162,6%, com uma alta de 50% apenas no último ano, segundo o Instituto Nacional de Estatística e Censos. 

Novo pacto social

Para mudar essa situação, o presidente citou na entrevista o pacto de desenvolvimento assinado pelo seu governo, empresários, sindicatos e movimentos sociais em 27 de dezembro, pouco após tomar posse, em 10 de dezembro. 

"É a primeira vez na qual empresários, trabalhadores e Estado se unem para dizer aos credores: acreditamos que a fórmula para pagar não passa por seguir arrochando a economia argentina, primeiro a Argentina deve crescer para depois encarar suas obrigações", afirmou Fernández. 

Em junho de 2018, o governo argentino solicitou um resgate de 50 bilhões de dólares ao FMI, que três meses depois foi ampliado para 56,3 bilhões, em troca de um ajuste nas contas públicas. 

O novo governo busca prorrogar o pagamento dos juros do empréstimo do FMI, que chegou a desembolsar 44 bilhões de dólares.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2020010214962957-fernandez-fmi-emprestou-para-quem-nao-podia-pagar-e-tem-muita-culpa-por-pobreza-na-argentina/

Argentina está em estado de 'calote virtual', diz novo presidente Alberto Fernández

Presidente da Argentina, Alberto Fernández, durante conferência de imprensa (foto de arquivo)
© REUTERS / Mariana Greif

O recém-empossado presidente da Argentina, Alberto Fernández, declarou neste domingo (23) que seu país está em "calote virtual" e comparou a situação atual com a de 2001 – a pior na história do país platino.

A economia argentina deve retrair em 3,1% neste ano. O país sofre há 18 meses com recessão e grave crise econômica desencadeada por forte queda no valor do peso argentino.

"Não é o mesmo que em 2001, mas é semelhante. Na época, a pobreza atingia 57% [da população], hoje temos 41% de pobres. Naquela época, estávamos em situação de calote da dívida. Agora, estamos em calote virtual", disse o presidente argentino em entrevista a uma televisão local.

Na sexta-feira (20), a Argentina anunciou que não pagará os cerca de US$ 9 bilhões (R$36 bilhões) em vencimentos, o que provocou a queda nas suas notas de risco determinadas pelas agências Fitch e S&P.

"Nós herdamos isso", notou o presidente, acrescentando que em 2001 "não tínhamos um processo inflacionário como o de agora".

O presidente obteve apoio do Congresso Nacional para tomar medidas de urgência no campo econômico. O pacote emergencial deve entrar em vigor nesta segunda-feira (23), reportou a AFP.

Manifestantes na frente da Casa Rosada, sede do governo argentino, protestam por aumento no programa de sopas grátis fornecidas pelo governo à moradores de rua, em setembro de 2019
© AP Photo / Natacha Pisarenko
Manifestantes na frente da Casa Rosada, sede do governo argentino, protestam por aumento no programa de sopas grátis fornecidas pelo governo à moradores de rua, em setembro de 2019

Apesar do pacote, medidas impostas por seu antecessor, Maurício Macri, como a imposição de um teto para compras de dólares em US$ 200 (R$ 820), devem ser mantidas.

"Precisamos acabar com esse hábito de poupar em dólares", disse, referindo-se à prática difundida na Argentina de poupar dinheiro em moeda estrangeira.

A inflação anual argentina bateu os 55%, e suas reservas internacionais estão próximas a zero. A dívida externa alcançou cerca de 90% do PIB.

"O nível de decadência em que estamos é muito grande [...] em dois anos a Argentina ficou endividada de uma maneira impactante."

Em outubro de 2018, o Fundo Monetário Internacional (FMI) aprovou um pacote de US$ 5,7 bilhões (R$ 23 bilhões) para a Argentina, a fim de estabilizar a economia do país, após doze anos sem ele recorrer ao fundo.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019122314927941-argentina-esta-em-estado-de-calote-virtual-diz-novo-presidente-alberto-fernandez/

Senado argentino aprova projeto de Fernández contra crise econômica

 

247 -O Senado da Argentina aprovou na madrugada deste sábado (21) o projeto econômico enviado pelo governo de Alberto Fernández para tentar tirar o país da crise em que afundou durante o governo neoliberal de Mauricio Macri. O projeto aprovado tem o nome de Lei de Solidaridade Social e Reativação Produtiva.

Depois de uma sessão de 12 horas, as medidas emergenciais, consideradas essenciais pelo novo governo para recolocar a economia da Argentina nos trilhos, foram aprovadas por 41 senadores. Outros 23 votaram contra o projeto e um se absteve.

A votação também marcou a "estreia" da ex-presidente Cristina Kirchner, atual vice-presidente do país, na presidência do Senado. Os trabalhos começaram logo depois da Câmara dos Deputados aprovar o projeto na madrugada de ontem, após 15 horas de debates.

A Lei de Solidariedade e Reativação Produtiva aprovada hoje declara emergência em matéria econômica, financeira, fiscal e administrativa na Argentina, dando ao governo poderes especiais até 31 de dezembro de 2020.

O pacote prevê, entre outras coisas, o congelamento no reajuste dos preços dos serviços públicos, mudanças no cálculo do aumento das aposentadorias, impostos mais altos para os ricos e alguns tipos de operação no mercado financeiro, enquanto os pobres passam a ter benefícios públicos. Haverá incentivos fiscais à produção, entre outros pontos.

A "Juntos pela Mudança", aliança neoliberal liderada pelo ex-presidente Mauricio Macri e principal força de oposição na Argentina, foi contra o projeto. Para a direita argentina, o pacote dá um "cheque em branco ao governo". Mas a retórica das elites argentinas deixou de ter eco no país.

O projeto agora vai para a sanção de Fernández e entrará em vigor assim que for publicado no Diário Oficial

Argentina: Alberto Fernández quer unir o país e superar a crise

O lilás dos jacarandás não foi suficiente para amenizar o sol que brilhou em Buenos Aires na manhã desta terça-feira (10). Apesar do calor intenso, milhares de argentinos se aglomeraram nas praças para ver a chegada de Alberto Fernández e Cristina Kirchner à Casa Rosada. Pelo caminho, um balé de bandeiras celestes mescladas ao céu muito azul e às cores vivas da whiphala e dos povos mapuche, deu o tom da festa do campo popular no Sul do mundo.

 

 

O novo presidente discursou para uma plateia diversa, composta pelos maiores líderes contemporâneos do campo progressista latino-americano, ao lado de políticos do centro e da direita dos países vizinhos. As mães e as avós da Praça de Maio, símbolo da resistência argentina à ditadura, estavam acomodadas com seus pañuelos nas galerias superiores do Congresso, que serviram também para acolher os estudantes, as feministas, os sindicalistas e os os demais movimentos populares.

Junto à vice-presidenta Cristina Kirchner, e ao presidente da Câmara dos Deputados, Sergio Massa, Alberto Fernández apresentou um plano para combater a fome e o desemprego – que hoje atinge principalmente os jovens e as mulheres – e já anunciou uma reforma integral do poder judiciário. Levantou a bandeira da unidade para governar e defendeu uma Argentina capaz de resolver sozinha suas questões internas, sem a interferência do FMI, do Banco Mundial e de outros agentes externos.

Defesa da soberania foi o fio condutor do discurso do presidente que garantiu o fim da subserviência aos Estados Unidos. Atualmente, a Argentina tem o maior empréstimo do mundo concedido pelo Banco Mundial a um mesmo país, o impacto negativo causado pela dívida externa no PIB é o maior desde 2004. Mas o cenário desastroso deixado pelo neoliberal Maurício Macri parece não assustar Fernández que já em seu primeiro discurso defendeu formas mais justas de negociação.

 
Vamos encarar o problema da dívida externa. Mas não há pagamentos de dívidas que se sustentem se o país não cresce. Simples assim: para poder pagar, é necessário crescer. Buscaremos uma relação construtiva e cooperativa com o Fundo Monetário Internacional e com nossos credores. Resolver o problema da dívida insustentável que a Argentina tem hoje não é uma questão de ganhar a disputa de ninguém”.
 
 
 

Como no Brasil, o método “Lava Jato” se alastrou feito erva daninha pelo judiciário argentino. Se depender na nova gestão, chegou ao fim a “escola Sérgio Moro”: “Nunca mais uma justiça contaminada por serviços de inteligência, ‘operadores judiciais’, procedimentos obscuros e linchamentos midiáticos. Nunca mais uma justiça que decide e persegue segundo os ventos políticos do poder da vez. Nunca mais uma justiça que seja utilizada para saldar discussões políticas, nem a uma política que judicializa os dissensos para eliminar o adversário. E o digo com a firmeza de uma decisão profunda: nunca mais é nunca mais. Porque uma justiça demorada e manipulada significa uma democracia perseguida e renegada”, afirmou o presidente.

Admirado por sua habilidade de diálogo com os mais diversos campos políticos, Fernández posicionou a Argentina como um agente para amenizar os conflitos ideológicos e crises políticas que assolam o continente neste momento. “Seguimos apostando por uma América Latina unida. Em 1974, o general Juan Domingo Perón afirmava que ‘a níveis nacionais, ninguém pode realizar-se em um país que não se realiza. Da mesma maneira, a nível continental, nenhum país poderá se realizar em um continente que não se realize’. Sabemos que se trata de um mundo altamente complexo, com graves problemas e desequilíbrios econômicos. Tem crescido em vários países movimentos autoritários, houve golpes de Estado e ao mesmo tempo em vários países crescem manifestações cidadãs contra o neoliberalismo e a desigualdade social. Em qualquer cenário a Argentina levantará alto seus princípios de paz, de defesa da democracia, de plena vigência dos direitos humanos. Defenderemos a liberdade e a autonomia dos povos para discutir seus próprios destinos”.

Na plateia, o ex-presidente do Equador, Rafael Correa, ao lado do ex-presidente paraguaio Fernando Lugo, vítima de golpe de Estado, aplaudiram a iniciativa. Ao mesmo tempo, o movimento do leque da primeira dama cubana, Lis Cuesta, conferiu leveza ao cenário composto pelo presidente da ilha socialista, Diaz Canel, posicionado entre os chefes de Estado de direita do Brasil e do Paraguai, Geraneral Hamilton Mourão e Mario Abdo, respectivamente.

A proposta de uma diplomacia voltada aos princípios da paz e do diálogo não ficou só no discurso. O Chile neoliberal de Sebastián Piñera foi o primeiro país a receber ajuda oficial da nova Argentina. Fernández destacou seu ministro da Defesa para ajudar na busca de um avião militar chileno que desapareceu nesta segunda-feira (9). E enviou sua solidariedade ao seu homônimo que, devido ao acidente, não participou da cerimônia.

Os ministros e secretários já anunciados mostram que os novos ventos não sopram só a política externa. Para as agendas internas Fernández nomeou muitos políticos jovens e bastante técnicos. É o caso de Martín Guzman, que aos 37 anos assumiu o ministério da Economia já com a proposta corajosa de suspender o pagamento da dívida externa por dois anos. Mas também contará com quadros políticos experientes, como o professor Pablo Gentili que deixou de ser chefe de gabinete do espanhol Pablo Iglesias (Podemos), para voltar à sua terra natal e integrar o novo governo.

Conhecido por ter um bom diálogo com a direita e com os setores mais agressivos da mídia, Fernández defendeu a liberdade da imprensa e boas relações com a oposição, a fim de derrubar o “muro do rancor e do ódio entre os argentinos”, e superar “o muro do desperdício de energias produtivas” porque são estes, aliados “às ideias distintas que nos dividem neste tempo histórico”.

Alinhado mais ao centro quando o tema são as pautas econômicas e políticas de desenvolvimento e comércio, o novo presidente se posiciona de forma mais progressista quando se trata de direitos humanos e liberdades individuais. Um mar de lencinhos verdes invadiram o Congresso no momento em que dezenas de mulheres levantaram o punho esquerdo cerrado em apoio às politicas de inclusão e em defesa da ampliação de direitos, como a regulamentação do aborto.

 
Ni una a Menos [nome da campanha feminista de combate à violência contra a mulher] deve ser uma bandeira de toda a sociedade e de todos os poderes da República. O Estado deve reduzir drasticamente a violência contra as mulheres até sua total erradicação. Também em nossa Argentina há muito sofrimento pelos estereótipos, os estigmas, pela forma de se vestir, pela cor de pele, pela origem étnica, o gênero ou a orientação sexual. Abraçaremos a todos que sejam discriminados. Porque qualquer ser humano, qualquer um de nós pode ser discriminado pelo que é, pelo que faz, pelo que pensa. E essa discriminação deve ser imperdoável”.
 
 
 

Da plateia, um jovem de cabelo bagunçado, alargador numa orelha e brinco na outra, aplaudia com entusiasmo. O lencinho de cetim colorido preso à lapela do terno impecável seria só um detalhe se este não fosse o filho de Alberto Fernández. Estanislao é um influencer famoso na Argentina por suas caracterizações como drag queen e cosplay. O rapaz de braços inteiros tatuados fez todo o trajeto entre o Congresso e a Casa Rosada sentado no banco da frente do carro presidencial, e posou para a foto junto à vice-presidenta, primeira-dama e presidente Câmara com um sorriso largo, depois de cumprimentar o pai com um beijo no rosto.

Antes de finalizar seu primeiro discurso, Fernández arrancou lágrimas de Cristina e Máximo Kirchner [deputado e filho do casal que comandou a Casa Rosada por uma década]: ao homenagear Néstor Kirchner, “que no ano de 2003 me permitiu participar da maravilhosa aventura de tirar a Argentina da prostração”.

O atual presidente foi o chefe de gabinete do líder peronista que tirou a Argentina da grande crise política de 2001, uma das maiores de toda a história do país. Graduado em Direito, Fernández trabalhou como advogado e professor de Direito Penal da Universidade de Buenos Aires. Após deixar a administração Kirchner, se tornou um crítico ferrenho ao governo e se posicionou mais ao centro.

A crise econômica na qual Argentina está inserida agora é comparada pelos economistas apenas à de 2001. Foi diante deste cenário que os dois Fernández – Cristina Fernández Kirchner e Alberto Fernández – se reconciliaram e tiveram a maturidade política necessária para fazer a composição de chapa capaz de dialogar com o momento histórico.

Pelo telefone um amigo jornalista argentino me conta aos gritos que está na rua, levou vinho e dividiu com desconhecidos porque “estamos muito felizes”. Diz que a festa vai longe, haverá dezenas de shows de grandes nomes da música argentina. As pessoas estão alvoroçadas pelo calor e pela mística. O presidente chileno Salvador Allende pretendia que seu socialismo tivesse sabor de vinho tinto e cheiro de empanadas, mas o sonho foi interrompido por um golpe. Anos depois, que pelo menos a democracia seja celebrada ao som de cúmbia e rock argentino, numa grande praça liberada, com vinho branco e rosè para aliviar o calor de uma noite primaveril que cheira a tília e não fica tão escura pelo lilás dos jacarandás.


por Mariana Serafini, Jornalista  |  Texto original em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado

 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/argentina-alberto-fernandez-quer-unir-o-pais-e-superar-a-crise/

'Nova moda na América Latina': Kirchner critica autroproclamação de presidente interina na Bolívia

Cristina Kirchner, presidenta da Argentina entre 2007 e 2015 e atual vice presidenta eleita do país sul-americano.
© Sputnik / Yevgeny Biyatov

A vice-presidente eleita da Argentina critica a autoproclamação da senadora Jeanine Áñez na Bolívia: "Parece que [na América Latina] já não é o povo que elege seus presidentes".

A vice-presidente eleita da Argentina, Cristina Fernández de Kirchner, criticou a autoproclamação de senadora de oposição ao cargo de presidente interina da Bolívia, após renúncia sob coação do mandatário do país, Evo Morales, neste domingo (10).

"Agora, [as pessoas] se autoproclamam com grande patrocínio midiático e imediato reconhecimento de já sabemos quem", disse, em uma possível referência ao rápido reconhecimento norte-americano da nova chefe de Estado interina da Bolívia.

Assim como os EUA, o governo brasileiro também reconheceu a autoproclamação de Jeanine Áñez. O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, declarou que a percepção do Brasil é de que "a Constituição boliviana está sendo respeitada".

Jeanine Áñez, presidente interina da Bolívia
© REUTERS / Carlos Garcia Rawlins
Jeanine Áñez, presidente interina da Bolívia

Em contrapartida, o governo argentino, liderado pelo adversário político de Kirchner, Maurício Macri, ainda não reconheceu o novo governo boliviano. O chanceler uruguaio, por sua vez, declarou que seu país só reconhece "presidentes que ascendem ao cargo por via de eleições", reportou a RT.

"É uma nova moda na América Latina: parece que já não é o povo que elege os seus presidentes", declarou a vice-presidente eleita.

A autoproclamação de Áñez é a segunda em menos de um ano na América Latina: em 23 de janeiro, Juan Guaidó se autoproclamou presidente da república na Venezuela. Assim como Áñez, Guaidó recebeu apoio imediato dos EUA e do governo de Jair Bolsonaro.

"O mais curioso é que dizem fazer isso em nome da democracia", concluiu Cristina Kirchner.

Os meios de comunicação hegemônicos modificaram sua narrativa em torno de Juan Guaidó, líder da oposição venezuelana: passaram a chamá-lo de presidente interino para presidente autoproclamado com o fracasso de sua estratégia apoiada pelos EUA
© Sputnik / Stringer
Os meios de comunicação hegemônicos modificaram sua narrativa em torno de Juan Guaidó, líder da oposição venezuelana: passaram a chamá-lo de "presidente interino" para "presidente autoproclamado" com o fracasso de sua estratégia apoiada pelos EUA

Nesta segunda-feira (11), a senadora da oposição Jeanine Áñez Chávez se autoproclamou presidente interina da Bolívia em sessão parlamentar sem quórum. O mandatário deposto, Evo Morales, denunciou a violação da Constituição boliviana e das normas da Assembleia Nacional do país.

Cristina Kirchner, que atualmente é senadora, foi recentemente eleita vice-presidente da Argentina, em chapa liderada por Alberto Fernández. Kirchner foi presidente da Argentina entre os anos de 2007 e 2015.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019111414773551-nova-moda-na-america-latina-kirchner-critica-autroproclamacao-de-presidente-interina-na-bolivia/

Bolívia notifica Argentina que está 'impedida' de continuar fornecendo gás natural

Gasoduto na Bolívia (arquivo)
© AP Photo / Dado Galdieri

Após os recentes acontecimentos na Bolívia, a empresa estatal YPFB comunicou à Argentina que não poderá continuar enviando gás natural, devido à tomada de uma de suas unidades de produção, divulgou o jornal BAE.

A YPFB informou a empresa Integração Energética Argentina (IEASA) através de uma carta, em que alega que poderia interromper as exportações desse recurso natural devido a limitações verificadas na unidade de hidrocarbonetos Campo Carrasco, no departamento de Cochabamba, que foi tomada por um grupo de pessoas.

"A YPFB, ao encontrar-se impedida de cumprir suas obrigações nos termos do contrato de compra e venda de gás natural, por um acontecimento fora de seu controle, invoca a liberação do cumprimento de suas obrigações devido a um evento de força maior/caso fortuito", adverte a carta, datada da segunda-feira (11).
 

​EnerNews | Bolívia adverte que poderia interromper o envio de gás natural para Argentina. O comunicado da YPFB.

A empresa boliviana também advertiu que, em razão da crise política que o país atravessa, "não se descarta" que o mesmo ocorra em outras unidades de produção ou de transporte de gás natural, o que poderia agravar a situação.

No entanto, o porta-voz da IEASA comentou à agência Reuters que a carta é "preventiva", e que o envio de gás não se encontra suspenso até o momento.

Ainda que a Argentina conte com sua própria produção de gás, não chega a cobrir completamente sua demanda nos meses de maior consumo. Por esse motivo, em 2006 assinou com a Bolívia um contrato, estipulando a compra diária de em torno de onze milhões de metros cúbicos de gás natural.

O presidente boliviano renunciou ao cargo no domingo (10) por exigência das Forças Armadas do país, que enfrenta uma onda de grandes protestos e violência desde as contestadas eleições de 20 de outubro, vencidas pelo ex-mandatário Morales sob denúncias de fraude. O país andino deste então enfrenta um período de forte incerteza política.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019111314767396-bolivia-notifica-argentina-que-esta-impedida-de-continuar-fornecendo-gas-natural/

Presidente eleito da Argentina diz que FMI é 'cúmplice' da crise econômica

Mauricio Macri (à esquerda) e Alberto Fernandez (à direita) durante um debate presidencial, em 20 de outubro de 2019
© REUTERS / Agustin Marcarian

O presidente eleito da Argentina, o peronista Alberto Fernández, envolveu o Fundo Monetário Internacional (FMI) na grave crise econômica que o país sul-americano enfrenta.

"Todo mundo sabe que foram cúmplices, que o Fundo [Monetário Internacional] foi cúmplice do que aconteceu", disse Fernández no programa do ex-presidente equatoriano Rafael Correa no canal RT.

Na quinta-feira, o porta-voz do FMI, Gerry Rice, disse que o credor cooperará com o governo Fernández, que assumirá como presidente em 10 de dezembro.

O presidente eleito reconheceu que a situação econômica de seu país é bastante grave e enfrenta "problemas que nunca nos ocorreram que poderíamos ter".

Para o ex-chefe de gabinete do governo de Néstor Kirchner (2003 - 2007), isso se deve às políticas do atual presidente Mauricio Macri.

"O Fundo Monetário Internacional emprestou a Macri US$ 57 bilhões, o que representa 60% do que emprestou ao mundo", disse Fernandez, acrescentando que o FMI fez isso "para que Macri pudesse se sustentar".

O líder peronista disse que "a campanha política mais cara da história da humanidade é a de Macri; custou aos argentinos US$ 57 bilhões" e reiterou que "o estado em que estamos é culpa de Macri e do FMI".

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019110914755183-presidente-eleito-da-argentina-diz-que-fmi-e-cumplice-da-crise-economica/

Novo presidente da Argentina revela ligação de Trump e apoio junto ao FMI

Alberto Fernández, candidato à presidência argentina
© REUTERS / Agustin Marcarian

O presidente eleito da Argentina, Alberto Fernández, realizou uma ligação nesta sexta-feira com o presidente dos EUA, Donald Trump, informou a assessoria de imprensa de Fernández, depois que o político de centro-esquerda venceu uma eleição no domingo.

Durante a ligação, Trump prometeu a Fernandez que havia "instruído" o Fundo Monetário Internacional (FMI), que concedeu uma linha de crédito de US$ 57 bilhões ao país no ano passado, para trabalhar com o novo governo da Argentina.

"Não hesite em me ligar", afirmou Trump a Fernandez durante a ligação. O presidente eleito da Argentina declarou a Trump que espera que os dois tenham um relacionamento "maduro e cordial", prosseguiu o comunicado.

"Temos que fazer as coisas juntos", destacou Fernández, de acordo com uma transcrição da ligação fornecida pela equipe do novo presidente argentino.

O acordo do FMI, negociado com o atual presidente da Argentina, Mauricio Macri, está no limbo desde as eleições primárias de 11 de agosto, que Fernández venceu por uma margem maior que o esperado. O resultado primário provocou uma forte venda de ativos argentinos e provocou medo de um default soberano.

Alberto Fernández e Cristina Kirchner, vencedores da eleição presidencial argentina
© REUTERS / AGUSTIN MARCARIAN
Alberto Fernández e Cristina Kirchner, vencedores da eleição presidencial argentina

Mas o peso se estabilizou nesta semana, ajudado por intervenções do Banco Central, após a vitória de Fernández nas eleições. A moeda fechou sexta-feira em 59.745 pesos para cada dólar americano.

Macri, que é favorável às empresas, conquistou o cargo em 2015 com a promessa de "normalizar" uma economia distorcida por controles governamentais severos implementados pela presidente anterior, Cristina Kirchner, que foi companheira de chapa de Fernández e se tornará a próxima vice-presidente da Argentina em dezembro.

Mas Macri não conseguiu atrair o investimento estrangeiro direto necessário para sustentar o crescimento em uma economia atingida pela recessão, alta inflação e temores de dívidas.

Os mercados locais de ações e títulos, bem como o setor agrícola mais importante do país, estão em dificuldades, aguardando sinais de Alberto Fernández sobre sua futura estrutura de políticas. Os agricultores dizem que estão retendo o investimento até que o líder que está entrando deixe suas políticas comerciais claras.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019110114722133-novo-presidente-da-argentina-revela-ligacao-de-trump-e-apoio-junto-ao-fmi/

A AMÉRICA LATINA SOB O FOGO DO NEOLIBERALISMO, SOB A PRESSÃO DA AUSTERIDADE – VI – THE ECONOMIST – OS TÍTULOS FINANCEIROS QUE COMPROMETEM – A ARGENTINA ENFRENTA A PERSPETIVA DE OUTRO INCUMPRIMENTO

 

Um triunfo da oposição nas eleições primárias leva a uma  vendabrutala preço de saldo 

 

 

The bonds that tie. Argentina faces the prospect of another default

 

The Economist, 15 de Agosto de 2019

 

Blogue Gonzallo Raffo

 

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

 

A eleição de Mauricio Macri em 2015 deveria inaugurar uma nova era na Argentina, um país com uma reputação de boa carne de bife, inflação rápida e  incumprimento quanto à sua dívida.  Macri prometeu domesticar a alta dos preços com uma política monetária rígida, um problema que Cristina Fernández de Kirchner, ex-presidente da Argentina, tinha tentado  ofuscar ao publicar dados macroeconómicos duvidosos e impor controles monetários.

 

Macri aboliu esses controles,  permitindo que o peso flutuasse livremente, e eliminou as quotas de exportação e os direitos aduaneiros. Os investidores aplaudiram. Depois de resolver disputas de longa data com investidores sobre obrigações de dívida pública, a Argentina conseguiu emitir dívida mais uma vez. Em junho de 2017,  Macri chegou a emitir títulos de 100 anos no valor de US$ 2,7 mil milhões com um rendimento de 8%. Foram quase quatro vezes mais do que a subscrição.

 

A boa sorte não durou muito. Mudanças inesperadas nas metas de inflação e a rápida emissão de dívida alarmaram os investidores em 2017. Esses receios  transformaram-se numa  crise cambial no ano passado. Quando o peso caiu, o banco central aumentou as taxas de juros para 40%.

 

Macri foi forçado a pedir um empréstimo de 57 mil milhões de dólares ao FMI. A fim de satisfazer os termos do resgate, ele teve de reduzir a despesa pública  e aumentou os preços dos serviços públicos, como  o gás, a eletricidade, e dos transportes públicos. A crise teve um pesado impacto sobre a economia. A Argentina está em recessão desde o ano passado; a inflação é superior a 50%. A taxa de pobreza, medida pela Universidade Católica da Argentina, subiu de 27% em 2017 para 35% agora.

 

 

 

As dificuldades económicas não têm caído bem  aos eleitores. “Votamos pela última vez para o presidente porque queríamos uma vida melhor, especialmente para os nossos filhos “, diz Mercedes, uma assistente de loja em Buenos Aires. “Mas a vida ficou pior sob a sua Presidência. Trabalhamos mais para termos menos”.

 

Em 11 de agosto, a população  expressou o  seu descontentamento nas eleições primárias para a presidência. A oposição, liderada por um  peronista veterano, Alberto Fernández, com a ex-presidente Fernández (sem  nenhum parentesco entre eles ) como sua companheira de candidatura, ganhou 47% dos votos. A coligação de  Macri ganhou apenas 32%.

 

A reação dos investidores foi rápida e cruel. Em 12 de agosto, eles apressaram-se a despejar  no mercado os ativos argentinos.  Macri pode não ter sido uma panaceia para todos os males da Argentina, mas a sua administração da economia foi muito mais sóbria do que a da sua antecessora, a quem  agora parece provável que lhe seja restituído o alto cargo. A bolsa de valores da Argentina, o Merval, caiu 37%. Em dado momento do dia, o peso caiu 30% antes que o banco central interviesse e aumentasse as taxas de juros para 74%. Ele ainda fechou 15% mais abaixo.

 

Em termos de dólar, o colapso da bolsa de valores é a segunda maior queda em um dia registada em qualquer parte do mundo desde, pelo menos, 1950. As obrigações a 100 anos que os investidores tanto desejaram  quando Macri as emitiu valem agora apenas 54 cêntimos sobre o dólar, o que implica um risco de incumprimento de 57%.

 

A queda no  preço dos ativos foi severa, em primeiro lugar, porque a esperança de que  Macri possa recuperar é pequena.

 

No dia 11 de Agosto ninguém ganhou ou perdeu o mandato: a votação foi tecnicamente primária e os principais candidatos não foram contestados nos seus partidos. Mas como todos os argentinos com mais de 16 anos eram legalmente obrigados a votar, funcionou como um ensaio completo para a verdadeira eleição, que será realizada no final de outubro. Se Fernández ganhar mais de 45% dos votos novamente em outubro, eles conquistarão a vitória na primeira volta.

 

Em segundo lugar, os investidores temem, com razão, as políticas que a dupla de peronistas pode pôr  em prática. A reputação de gastadora da Sra. Fernández  precede-a. O candidato a Presidente, Fernández , advertiu nos últimos dias da campanha que a desvalorização do peso estava a chegar. Ele também prometeu renegociar o empréstimo de US$ 57  mil milhões do FMI, e disse que poderia, de facto, não pagar os títulos argentinos.

 

Na sequência da votação, o senhor Fernández tentou usar um tom mais moderado. “Não éramos loucos no governo antes”, declarou. Reduzindo as expectativas, um de seus assessores ressalta que, se o presidente Fernández vencer, um peso fraco tornará o cargo de presidente “muito mais difícil”. Mas talvez já seja tarde demais. Enquanto The Economist estava a ser fechado para ir para a tipografia, o peso caiu 25% em relação ao dólar desde a eleição.

 

Uma moeda mais fraca fará subir os preços dos bens importados, fazendo com que a inflação suba ainda mais. Também tem implicações adversas para os títulos do país. A Argentina inadimpliu em sua dívida soberana oito vezes desde a independência em 1816, mais recentemente em 2014, quando a Sra. Fernández entrou em conflito com os fundos hedge. A dívida pública na Argentina vale atualmente 88% do PIB. Três quartos estão denominados em moeda estrangeira. Um peso em queda aumentará o fardo do seu serviço. Economistas do Bank of America agora acham que a probabilidade de uma reestruturação no próximo ano é alta e que o valor da recuperação da dívida da Argentina pode chegar a 40%.

 

Na sequência da votação, o senhor deputado Fernández tentou usar um tom mais moderado. “Não éramos loucos no governo antes”, declarou. Reduzindo as expectativas, um de seus assessores ressalta que, se o presidente Fernández vencer, um peso fraco tornará o cargo de presidente “muito mais difícil”. Mas talvez já seja tarde demais. Enquanto o The Economist foi à imprensa, o peso caiu 25% em relação ao dólar desde a eleição.

 

Uma moeda mais fraca fará subir os preços dos bens importados, fazendo com que a inflação suba ainda mais. Também tem implicações adversas para os títulos financeiros do país (as obrigações de dívida). A Argentina não cumpriu com os seus pagamentos de  dívida soberana oito vezes desde a independência em 1816, mais recentemente em 2014, quando a Sra. Fernández entrou em conflito com os fundos de cobertura. A dívida pública na Argentina representa  atualmente 88% do PIB. Três quartos estão denominados em moeda estrangeira. Um peso em queda aumentará o fardo do  serviço da dívida. Economistas do Bank of America agora acham que a probabilidade de uma reestruturação no próximo ano é alta e que o valor da recuperação da dívida da Argentina pode ser tão baixo como cerca  de  40%.

 

Será que o colapso dos mercados poderia persuadir os argentinos a mudarem de opinião até outubro? Alguns eleitores aproveitaram certamente a oportunidade para punir Macri na votação primária e voltarão para ele quando a eleição for efetiva. Mas poucos pensam que isso  será suficiente. Eduardo D’Alessio, da empresa de sondagens  D’Alessio/Berensztein, diz que seria preciso “um grande e óbvio erro” de Los Fernández antes de outubro para manter  Macri no cargo. Dentro do campo do  presidente, o clima é de  desgraça. “Isto é uma catástrofe”, disse um dos  seus assessores. “É quase impossível dar a volta a isto”,  disse um de seus assessores.

 

O Sr. Macri prometeu reagir. Em 14 de agosto, ele disse aos eleitores: “Eu entendo o sentimento de raiva”.

 

Ele introduziu um pacote de estímulo de $740 milhões de cortes de impostos, congelamento de preços e pagamentos de benefícios mais elevados.

 

Talvez isso o ajude a recuperar alguns votos.

 

Mas para quem ficar com o cargo  depois da votação em outubro, isto acaba por se tornar muito mais  difícil.

Fonte:  The bonds that tie – Argentina faces the prospect of another default, publicado por The Economist e republicado por Gonzalo Raffo. Texto disponível em:

https://gonzaloraffoinfonews.blogspot.com/2019/08/the-bonds-that-tie-argentina-faces.html

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2019/11/01/a-america-latina-sob-o-fogo-do-neoliberalismo-sob-a-pressao-da-austeridade-vi-the-economist-os-titulos-financeiros-que-comprometem-a-argentina-enfrenta-a-perspetiva-de-outro-i/

Fernández tem uma tarefa 'titânica' na Argentina, diz vice-presidente do Uruguai

Maioria unânime do Parlamento conduziu Lucía Topolansky para a vice-presidência do Uruguai
© REUTERS / Andres Stapff

O recém-eleito presidente da Argentina, Alberto Fernández, enfrenta uma tarefa difícil porque seu país está "fundido", disse nesta quarta-feira (30) a vice-presidente do Uruguai, Lucía Topolansky.

"A verdade é que não invejo Fernández, [não gostaria de] estar no lugar dele, porque a tarefa que ele tem é titânica, espero, pelo destino dos argentinos e latino-americanos, que ele se dê muito bem", disse Topolansky à Sputnik.

A vice-presidente do Uruguai considerou que as eleições na Argentina ocorreram em um momento "peculiar", já que o país está "fundido", há uma inflação "galopante", o dólar e o risco país disparam e a pobreza aumenta "exponencialmente".

"Acho que a população de maneira civilizada se expressou com o voto para dizer basta", acrescentou.

O preço da cesta básica na Argentina aumentou 54,5% desde agosto de 2018 e a taxa de desemprego está atualmente em 10,6%, número semelhante ao de quando Mauricio Macri foi eleito presidente, em 2015.

Na primeira metade de 2019, a pobreza aumentou 8,1% e passou a atingir 35,4% da população. Já a taxa de indigência está em 7,7%. 

Fernández foi eleito presidente da Argentina no domingo (27) no primeiro turno após conseguir 48,1% dos votos. O segundo colocado do pleito foi o atual presidente Macri, com 40,4% dos votos. 

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019103014712191-fernandez-tem-uma-tarefa-titanica-na-argentina-diz-vice-presidente-do-uruguai/

Alberto Fernández se emociona com carta e reitera 'Lula Livre'

Alberto Fernández
© REUTERS / Ricardo Moraes

O presidente eleito da Argentina, Alberto Fernández, afirmou ter ficado emociaonado com carta enviada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O futuro presidente argentino também reiterou o que afirmou no dia de sua eleição, escrevendo 'Lula Livre'.

Fernández publicou sua reposta a Lula em sua conta no Twitter:

 

​As palavras do meu amigo Lula me emocionam. Como disse em sua carta, junto a Cristina Kirchner recuperaremos aos poucos nossos laços de fraternidade e respeito. Aproveito para reivindicar sua liberdade e para enviar uma calorosa saudação a todos os irmãos do Brasil.

Alberto Fernández foi eleito presidente da Argentina no primeiro turno das eleições realizadas no domingo (27).

O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, apoiava abertamente o adversário de Fernandez, o atual presidente argentino Mauricio Macri. Bolsonaro chegou a afirmar após os resultados eleitorais do país vizinho que os argentinos escolheram errado e criticou o apoio do presidente eleito pela liberdade de Lula.

Fernández foi eleito com 48% dos votos tendo como vice-presidente em sua chapa a ex-presidente Cristina Kirchner.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019103014711500-alberto-fernandez-se-emociona-com-carta-e-reitera-lula-livre/

Alberto Fernández vence o neoliberalismo na Argentina à primeira volta

Mauricio Macri, que representava até agora as políticas de retrocesso social do país, admitiu a sua derrota nas eleições gerais que deu vitória à Frente de Todos.

CréditosENRIQUE GARCIA MEDINA / EPA

Com 80% dos votos contados, o candidato peronista Alberto Fernández vence as eleições na Argentina com 47,80%, de acordo com os dados fornecidos pela Direcção Nacional Eleitoral (DINE). O actual presidente, Mauricio Macri, soma 40,68% dos votos dos argentinos. Com este resultado, o candidato Alberto Fernández é eleito à primeira volta. 

Fernández será, a partir de 10 de Dezembro, o 9.º presidente desde a conquista da democracia neste país (1983), com Cristina Fernández Kirchner como vice-presidente, e procurará recuperar a justiça social e igualdade para a Argentina.

«Vêm aí tempos difíceis», disse o peronista no discurso da vitória, criticando a herança de Macri que atirou o país para uma grave crise económica, com a economia em recessão há mais de um ano. Mas prometeu que o país será reconstruído a partir «das cinzas em que o deixaram».

Por fim, afirmou que irá governar «para toda a gente». «De agora em diante, tudo o que temos de fazer é cumprir as nossas promessas. Que os argentinos saibam que cada palavra que proferimos e cada compromisso que assumimos foi um compromisso moral e ético com o país que devemos cumprir», sublinhou.

Um país fragilizado

Os resultados oficiais das PASO [Primárias, Abertas, Simultâneas e Obrigatórias] de Agosto passado, o ensaio geral para as presidenciais, já apontavam para uma significativa rejeição da política neoliberal e austeritária de Macri, também caracterizada como subserviente dos interesses económicos dos EUA, do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do grande capital.

Recorde-se que Paul Singer, um dos bilionários americanos que mais contribui para o partido Republicano e para Donald Trump, levou a Argentina à falência em 2014, numa criticada decisão judicial de um tribunal de Nova Iorque, vista por alguns comentadores como um meio de derrubar Kirchner e abrir as portas a Macri, ao mesmo tempo proporcionando milhares de milhões de dólares de lucro àquele que é designado no meio como «o investidor-abutre».

A recessão económica e o peso (moeda argentina) altamente desvalorizado, o acordo celebrado entre o governo de Macri e o FMI – com os habituais «pedidos» de redução na despesa pública e de aprofundamento das políticas de austeridade –, os aumentos de preços nos serviços básicos, as subidas constantes dos preços da alimentação, os despedimentos, os encerramentos de inúmeras empresas, o elevado desemprego estão entre os factores que contribuíram para que a Argentina tenha atingido, este ano, o número recorde de pessoas em situação de pobreza.

Deputada ao Parlamento Europeu acompanhou o processo eleitoral

Sandra Pereira, a deputada do PCP no Parlamento Europeu, esteve presente a acompanhar o que considerou ser «uma jornada histórica», na qual 48% dos argentinos disseram «não» às políticas neoliberais que vinham a ser protagonizadas por Macri.

Em declarações ao AbrilAbril, a deputada afirmou que, com este resultado, fica claro que «é hora para mudar para uma Argentina mais solidária, que privilegie os que trabalham», acrescentando que «os argentinos exigem um corte com as políticas neoliberais e com o seguidismo aos EUA».

Num processo marcado pela transparência, em que o voto foi «livre e exercido democraticamente», as eleições contaram com 80 acompanhantes internacionais, entre os quais José Luis Zapatero, antigo primeiro ministro espanhol. 

A deputada comunista disse ainda que, ontem, nos vários discursos de vitória, foi referido que «a experiência neoliberal está a falhar em todo o lado e que a prova disso é que os países onde essa política tem sido implementada têm mais desemprego, mais pobreza, mais desigualdades e aumento da dívida pública».

«Esta é a voz de mais um povo que se ergueu a dizer «não à austeridade», «não à ingerência externa», e que o caminho é pelo desenvolvimento do país, por proteger os argentinos e criar uma argentina solidária», concluiu.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/alberto-fernandez-vence-o-neoliberalismo-na-argentina-primeira-volta

Tereza Romero: “Argentinos darão uma surra de votos no neoliberalismo”

“Vamos às urnas contra Macri pensando nos milhões de argentinos que dormem sem ter o que comer, nas crianças que passaram a se alimentar com as sobras nos cestos de lixo”.

 

 

 
Vamos às urnas contra Macri pensando nos milhões de argentinos que dormem sem ter o que comer, nas crianças que passaram a se alimentar com as sobras nos cestos de lixo, nos jovens que foram condenados a servir por pouco mais que nada enquanto os filhos da oligarquia são preparados nas melhores escolas para ser seus governantes, nos aposentados sem remédios nem médicos, nos aumentos de mais de 1.000% nas tarifas de água e luz. Hoje daremos uma linda surra de votos no neoliberalismo. Basta!”.
Maria Tereza Romero, da Secretaria de Formação da Associação dos Trabalhadores do Estado (ATE)
 
 

Mais do que uma afirmação, a convicção de Maria Tereza Romero, da Secretaria de Formação da Associação dos Trabalhadores do Estado (ATE) – entidade com mais de 260 mil filiados -, é que estamos diante de “um momento histórico, plebiscitário, entre sim ou não, avanço ou retrocesso”.

Dirigente de uma entidade nacional que vem tendo um papel chave nas massivas mobilizações em defesa dos empregos, salários e direitos – e que organizou sua base para ir às urnas e dar a estocada final nos privatistas e entreguistas -, Romero avalia que “chegou a hora de virar a página”.

O fato, explicou a liderança, “é que em quatro anos há 15 milhões de pobres, uma tragédia que não pode mais ser suportada”. Está óbvio, apontou, que “de forma irresponsável e desumana, Macri fez com que as políticas públicas fossem desaparecendo. Políticas não só dos Kirchner, mas todas as que se propunham a defender o trabalhador de uma forma geral”.

O prejuízo aos aposentados, assinalou Romero, “é evidente, não só porque foram reduzidos enormemente os valores pagos, como os serviços de atenção médica prestados”. “E todo esse retrocesso para quê? Para nos endividarmos com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e ninguém ver aonde foi parar o dinheiro”, pontuou.

“Apesar de toda a campanha da grande mídia para mascarar a realidade”, destacou Romero, “é preciso deixar claro que a receita política e econômica neoliberal é uma só: entregar o poder para o capital estrangeiro, particularmente o norte-americano, mas isso só fazem se nós permitirmos”.

 
Daí a importância das mobilizações, como estão fazendo os povos chileno e equatoriano, daí o significado de uma vitória eleitoral expressiva como a que teve o povo boliviano, reelegendo o presidente Evo Morales, daí a relevância da resistência heroica do povo cubano contra um bloqueio de 60 anos e a denúncia das sanções à Venezuela”.
Tereza Romero
 
 

Para Maria Tereza Romero, nesta conjuntura extremamente polarizada, “ganha papel de destaque a vitória do povo argentino”. “Alberto Fernandez e Cristina Kirchner representam melhores e mais fortes ventos de esperança para a construção da nossa Pátria Grande”, concluiu.


por Leonardo Wexell Severo, Jornalista do HP e integra o Coletivo de Comunicação Colaborativa ComunicaSul, que está cobrindo as eleições na Bolívia, Argentina e Uruguai com o apoio das seguintes entidades: Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, Hora do Povo, Diálogos do Sul, SaibaMais, Fundação Perseu Abramo, Fundação Mauricio Grabois, CTB, CUT, Adurn-Sindicato, Contee, CNTE, Si | Texto original em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado

 
 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/tereza-romero-argentinos-darao-uma-surra-de-votos-no-neoliberalismo/

Na Argentina, 34 milhões vão às urnas em meio a tensão regional

O presidente da Argentina, Mauricio Macri (à esquerda) e o candidato opositor Alberto Fernandez (à direita), durante um debate presidencial em 20 de outubro de 2019.
© REUTERS / Agustin Marcarian

Neste domingo (27), quase 34 milhões de argentinos participam das elegem um novo presidente além de 130 deputados e 24 senadores. Governadores e legisladores também serão apontados em algumas províncias.

A eleição mais aguardada, a presidencial, tem 6 candidatos na disputa pelo mandato de 4 anos. Apenas dois candidatos despontaram nas primárias realizadas no dia 11 de agosto deste ano, a exemplo da polarização política que se instalou na Argentina.

Á época, o candidato Alberto Fernández, do partido Frente de Todos, levou a melhor, com 47% dos votos. Fernández tem em sua a chapa a ex-presidente Cristina Kirchner.

Logo em seguida, ficou o atual presidente Mauricio Macri, do Juntos pela Mudança, que alcançou 32% dos votos e faz um esforço de campanha desde então para tentar um segundo turno nas eleições.

Para vencer em primeiro turno, um candidato à Presidência na Argentina deve obter 45% dos votos ou mais, ou então 40% dos votos com uma diferença de 10% para o segundo colocado.

Além da eleição presidencial, serão decididas as lideranças nos distritos mais importantes do país, a cidade e a província de Buenos Aires, que estão nas mãos da situação. A expectativa é que o partido de Macri se mantenha na capital enquanto na região a vitória tende ao kirchnerismo.

Crise econômica e protestos

A Argentina vive uma crise econômica e aumento da pobreza. Recentemente o país pediu moratória ao Fundo Monetário Internacional (FMI) por não reunir condições para pagar o empréstimo de US$ 50 bilhões tomado durante o governo Macri. A expectativa do próprio FMI é de que a economia Argentina encolha 3,1% neste ano.

Mesmo com a crise, o atual presidente conseguiu ser o segundo colocado nas primárias e se dedica a conquistar mais votos desde então e evitar a vitória de Fernández ainda no primeiro turno.

Apoiadores de Mauricio Macri carregam um boneco inflável da ex-presidente Cristina Kirchner, candidata a vice-presidente com Alberto Fernandez, durante um com comício no dia 24 de outubro de 2019.
© REUTERS / Carlos Garcia Rawlins
Apoiadores de Mauricio Macri carregam um boneco inflável da ex-presidente Cristina Kirchner, candidata a vice-presidente com Alberto Fernandez, durante um com comício no dia 24 de outubro de 2019.

A eleição é observada pelas lideranças regionais de perto, uma vez que os países da região vivem protestos de massa contra o neoliberalismo - caso do Equador e Chile - e é a bola da vez na polarização regional entre direita e esquerda. A mais recente eleição nesse modelo foi a da Bolívia, que teve a vitória em primeiro turno de Evo Morales sobre o principal adversário, Carlos Mesa.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019102714698439-na-argentina-34-milhoes-vao-as-urnas-em-meio-a-tensao-regional/

Polícia da Argentina apreende surpreendente quantidade de objetos de 'tesouro nazi'

Medalha nazista
© Sputnik / А. Shadrin

Um busto de Hitler, punhais e espadas com cruz suástica, com certificados de autenticidade, são apenas algumas das peças confiscadas pelas autoridades da província de Córdoba, no norte de Argentina.

A Polícia de Córdoba apreendeu nesta quinta-feira (5) um carregamento importante de objetos com simbologia nazi após ter realizado quatro operações de busca em duas localidades diferentes.

Segundo indica a mídia local La Voz, a Divisão de Inteligência Antiterrorista (DIA) da Polícia confiscou um busto de Hitler, espadas e punhais com a cruz suástica e certificados de autenticidade, medalhas de soldados e louça com estampas da SS (forças de segurança do nazismo), entre outros artigos.

"Se for comprovada a autenticidade de todos estes itens, estaríamos na presença de objetos com um valor histórico incalculável", indicaram as autoridades ao finalizar os procedimentos de apreensão.

Em 2017, o mesmo Tribunal que ordenou o recente confisco tinha solicitado outra intervenção em uma terceira localidade, onde os agentes da polícia descobriram em um apartamento peças semelhantes.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019090614485141-policia-de-argentina-apreende-surpreendente-quantidade-de-objetos-de-tesouro-nazi/

Argentina corre contra a inadimplência, diz Joseph Stiglitz

A Argentina poderá evitar uma reestruturação de dívidas se as autoridades reverterem as medidas de austeridade a tempo suficiente de estimular crescimento econômico para evitar uma crise de dívida, disse o economista Joseph Stiglitz, vencedor do Nobel, à agência Reuters.

 

A derrota esmagadora do presidente liberal Mauricio Macri nas eleições primárias de 11 de agosto contra seu rival peronista, Alberto Fernández, despertou reação dos especuladores e seus porta-vozes na mídia, que temem que o retorno da atual oposição ao poder possa significar uma reestruturação da dívida na terceira maior economia da América Latina.

Stiglitz, ex-economista-chefe do Banco Mundial e crítico das medidas de austeridade durante a crise da dívida na zona do euro, disse que as apertadas políticas fiscais de Macri paralisaram a economia justamente quando o crescimento era necessário para garantir que a Argentina pudesse pagar suas dívidas.

“O problema é que as políticas em que o governo se engajou não eram propícias ao crescimento econômico”, disse Stiglitz à Reuters. “Austeridade e orçamentos apertados levam a um baixo crescimento e isso torna a dívida menos sustentável.”

A economia da Argentina deve encolher 1,5% este ano, segundo a última pesquisa de analistas do banco central. O crescimento previsto para 2020 é de 2,0%.

Fernández, agora o favorito para a eleição, alertou que uma reestruturação da dívida pode ser necessária. Ele disse que buscará renegociar um acordo de 57 bilhões de dólares com o Fundo Monetário Internacional.

Fernández disse não estar de acordo com as medidas de austeridade de Macri, que, embora direcionadas a reduzir o déficit fiscal, prejudicaram o crescimento, ao mesmo tempo em que comprometeram a popularidade do presidente

A próxima revisão do FMI sobre a economia da Argentina em 15 de setembro deve dizer se Fundo ainda acredita que a Argentina pode pagar seus empréstimos. Outro ponto crucial será o segundo trimestre de 2020, quando a Argentina deverá pagar 20 bilhões de dólares em dívidas, um aumento de 5,6 bilhões em relação ao primeiro trimestre.


Texto original em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado


 
 
 

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/argentina-corre-contra-a-inadimplencia-diz-joseph-stiglitz/

Argentina impõe limites a compras de dólar e transferências de fundos ao exterior

Cédulas de dólar norte-americano
© Sputnik / Aleksei Sukhorukov

O governo argentino autorizou o Banco Central a restringir as compras de divisas, informou o boletim oficial neste domingo (1) em meio à crise financeira do país.

O decreto estabelece que o Banco Central deve autorizar a compra de divisas e transferências para o exterior, distinguindo a situação das pessoas físicas e jurídicas.

"Dados os recentes eventos econômico-financeiros desencadeados (...) é necessário adotar medidas temporárias e urgentes para regular o regime de câmbio com maior intensidade", explicou o decreto.

Na sexta-feira, o risco país argentino ultrapassou 2.500 pontos, níveis nunca vistos desde 2005, enquanto o peso acumulou uma depreciação de 26,26% em agosto e uma queda de 36,66% em 2019.

A medida, que vigorará até 31 de dezembro, é adotada em meio a uma grave crise financeira no país da América do Sul, com uma profunda queda no peso e na saída de depósitos dos bancos, além de uma notável retração nas reservas internacionais.

A entidade monetária esclareceu que a medida busca alcançar maior estabilidade cambial e proteger o poupador.

"Não há impedimentos ao comércio exterior e não há restrições às viagens", afirma o Banco Central. 

Os indivíduos não podem comprar mais de US$ 10.000 por mês e as transferências de fundos para o exterior serão limitadas a US$ 10.000 por mês.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/economia/2019090114468504-argentina-impoe-limites-a-compra-de-dolar-e-transferencia-de-fundos-para-exterior/

Argentina pede moratória ao FMI e Fundo relata encontro com Fernández

Argentina's President Mauricio Macri speaks from the government house in Buenos Aires, Argentina Thursday, Sept. 27, 2018.
© AP Photo / Natacha Pisarenko

O governo da Argentina pediu ao Fundo Monetário Internacional (FMI) que a dívida do país seja revista. A decisão foi anunciada nesta quarta-feira (28) pelo ministro da Fazenda, Hernán Lacunza.

A dívida que faz parte do pedido argentino é de US$ 56 bilhões. O objetivo da revisão é que diminua a turbulência no mercado cambial do país. O pedido de moratória significa que o país precisa dilatar o prazo de pagamento, que teria início em 2021, uma vez que não dispõe dos recursos necessários para saldar a dívida.

Ao anunciar a medida, o ministro afirmou que as conversas com o FMI podem ter início durante o governo de Maurício Macri, mas que seria inevitável que continuassem durante o governo seguinte, que terá início em 10 de dezembro.

Macri foi derrotado recentemente nas primárias das eleições presidenciais argentinas pela chapa do kirchnerista Alberto Fernández, que tem como vice a ex-presidente do país, Cristina Kirchner. Fernández segue sendo apontando como favorito para eleição presidencial que será realizada em outubro deste ano.

Após os resultados das primárias, Macri anunciou uma série de medidas de estímulo à economia, o que gerou críticas de aliados.

 

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019082814444897-argentina-pede-moratoria-ao-fmi/

Candidato argentino à Presidência manda recado para Bolsonaro

© REUTERS / Agustin Marcarian

Em entrevistas aos principais jornais da Argentina, o candidato favorito à Presidência do país, Alberto Fernández, rebateu falas do presidente do Brasil, Jair Bolsonaro.

Em entrevistas concedidas aos jornais La Nación e Clarín, o candidato kirchnerista, Alberto Fernández, disse que não fechará a economia e o Mercosul será importante em um possível governo.

Fernández, que divide a chapa com a ex-presidente argentina, Cristina Kirchner, venceu as primárias nas eleições presidenciais argentinas, deixando o atual presidente mais longe da reeleição.

O candidato afirmou ao La Nación que o "Mercosul é um lugar central" e que o Brasil é o "principal parceiro" da Argentina e "continuará sendo". Além disso, afirmou que não fechará a economia, respondendo a uma ameaça de Bolsonaro de tirar o Brasil do Mercosul caso a Argentina restrinja seu mercado sob um novo governo.

Já na entrevista ao Clarín, Fernández falou diretamente sobre Bolsonaro e também sobre o presidente dos EUA, Donald Trump. Sobre eles, afirmou que serão "dois problemas a resolver" caso seja eleito.

O kirchnerista também disse ao jornal que se incomoda com a "prepotência" na fala do presidente brasileiro, "entre outras coisas", concluindo que "O Brasi é muito mais importante que Bolsonaro".

Após o resultado das primárias argentinas Bolsonaro fez declarações depreciativas sobre a chapa de Fernández e Kirchner referindo-se à vitória da chapa nas primárias como um avanço dos "bandidos da esquerda".

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019081914405719-candidato-argentino-a-presidencia-manda-recado-para-bolsonaro/

Após derrota de Macri, ministro da Fazenda renuncia na Argentina

Macri durante a cúpula dos Brics, em 2018.
© Sputnik / Vladimir Astapkovich

O ministro da Fazenda, Nicolás Dujovne, apresentou sua renúncia ao cargo de Ministro da Fazenda da Argentina após vários dias de rumores sobre mudanças no gabinete como consequência da crise econômica que se agravou após os resultados das eleições primárias.

Dujovne comunicou sua renúncia ao presidente da Argentina, Mauricio Macri, por meio de uma carta: "Estou convencido de que, dadas as circunstâncias, a administração que você lidera precisa de uma renovação significativa".

"Certamente cometemos erros", reconheceu o agora ex-ministro.

A mídia local aponta para Hernán Lacunza - atual chefe do Tesouro da província de Buenos Aires - como o sucessor de Dujovne.

A chapa da oposição, formada por Alberto Fernández e Cristina Kirchner, venceu as eleições primárias na Argentina por 47% contra 32% do presidente Mauricio Macri.

A vitória de Fernández nas eleições primárias do último domingo foi seguida por uma queda aguda no mercado de ações da Argentina e na moeda local, o peso.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019081714400021-apos-derrota-de-macri-ministro-da-fazenda-renuncia-na-argentina/

Sentido de Estado e o “regresso dos bandidos”

"bandidos de esquerda que começaram a voltar ao poder".
 «"Olhem para o que se está a passar na Argentina agora, está-se a criar o caos, o país começa a seguir o rumo da Venezuela porque nas primárias os bandidos de esquerda começaram a voltar ao poder", disse o chefe de Estado brasileiro durante um comício em Parnaíba, no estado do Piauí, no nordeste brasileiro.» Expresso
  imageGente destrambelhada há em qualquer parte, e numa sociedade atenta à saúde individual e coletiva há auspícios apetrechados para lhes proporcionar os cuidados adequados. O Brasil está meio louco! Essa deverá ser a nossa maior preocupação.
 
Gerir um nação como quem gere uma taberna de ébrios, não é caso único, mas vermos um país em que milhões de indivíduos se confundem com o energúmeno que elegeram, e muitos deles circulam entre nós, é o que me preocupa e entristece.
 

Ver o original em As palavras são armas (clique aqui)

Bolsonaro ameaça argentinos

As ameaças de Bolsonaro à Argentina caso se confirme uma derrota de Macri nas eleições de Outubro podem contribuir para aumentar o voto de repúdio à direita neoliberal naquele país vizinho do Brasil.

Créditos / Brasil Soberano e Livre

O presidente brasileiro Jair Bolsonaro corroborou hoje, sexta-feira, as declarações do seu ministro da Economia, que ontem produzira um primeiro comentário de Brasília sobre a derrota de Mauricio Macri no plebiscito de domingo passado na Argentina.

O actual presidente argentino sofreu uma estrondosa derrota no ensaio geral para as eleições gerais a realizar a 27 de Outubro, ficando a mais de 15 pontos de Alberto Fernandéz, candidato peronista de centro-esquerda ostensivamente apoiado pela ex-presidente Cristina Kirchner, que se apresentou a sufrágio como seu número dois.

O ultraliberal economista Paulo Guedes, segundo o brasileiro Carta Capital, afirmara ontem que uma vitória da oposição de centro-esquerda na Argentina, nas eleições de Outubro próximo, conduzirá à saída do Brasil do Mercosul caso a nova governação «apresente resistência à abertura económica» daquele bloco, pretendida pelos EUA e apoiada pelo Brasil.

«Se vence o Macri, o Bolsonaro se dá bem com ele e os dois se dão bem com o Trump», declarou Paulo Guedes. Senão, «a gente sai fora do Mercosul e vamos embora», resumiu o ministro.

As declarações de Jair Bolsonaro vêm confirmar que as palavras do ministro da Economia não foram obra do momento mas concertadas com o presidente do Brasil. Segundo o Carta Capital, Bolsonaro não escondeu o seu «viés ideológico» contra Fernandéz, ao deixar o Palácio da Alvorada esta manhã: «O actual candidato que está à frente na Argentina, ele já esteve visitando o [ex-presidente] Lula, já falou que é uma injustiça ele estar preso, já falou que quer rever o Mercosul. Então o Paulo Guedes, perfeitamente afinado comigo, falou que se criar problema, o Brasil sai do Mercosul, e está avalizado».

Mauricio Macri vive «pesadelo»

O sonho, acalentado por Mauricio Macri, de vir a ser reeleito para um segundo mandato na presidência, nas eleições gerais que se realizarão em Outubro próximo na Argentina, «converteu-se num pesadelo», segundo o catalão El Periodico.

Nas eleições Primárias, Abertas, Simultâneas e Obrigatórias (PASO), realizadas no passado domingo, 11 de Agosto, o actual presidente da República não reuniu mais do que 32,1% dos votos e ficou a mais de 15 pontos do candidato peronista Alberto Fernández (42,7%), considerado de centro-esquerda pela imprensa argentina.

As PASO, uma originalidade do quadro constitucional argentino, «são uma espécie de ensaio geral para as eleições presidenciais previstas para 27 de Outubro», esclarece o El Periodico, fazendo notar que «se dá por adquirido que o resultado deste “simulacro” será igual ou muito parecido» ao que virá a ser expresso na próxima contenda eleitoral».

Tratou-se de uma «derrota histórica da direita», conclui aquele diário.

Alberto Fernández, que teve na segunda posição a ex-presidente Cristina Kirchner, afirmou, no seu discurso de vitória, ser necessário «acabar com o tempo das mentiras» e dar aos argentinos «um horizonte melhor para o futuro».

Os resultados oficiais das PASO de 2019 apontam para uma significativa rejeição da política neoliberal e austeritária de Macri, também caracterizada como subserviente dos interesses económicos dos EUA, do FMI e do grande capital.

Recorde-se que Paul Singer, um dos bilionários americanos que mais contribui para o partido Republicano e para Donald Trump, levou a Argentina à falência em 2014, numa criticada decisão judicial de um tribunal de Nova Iorque, vista por alguns comentadores como um meio de derrubar Kirchner e abrir as portas a Macri, ao mesmo tempo proporcionando milhares de milhões de dólares de lucro àquele que é designado no meio como «o investidor-abutre».

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/bolsonaro-ameaca-argentinos

Lições argentinas

 
 
Os resultados do processo eleitoral ocorrido na Argentina no domingo passado provocaram efeitos imediatos sobre o cenário político e econômico deste lado da fronteira.
 
Paulo Kliass – de Berlim | Correio do Brasil | opinião
 
Os resultados do processo eleitoral ocorrido na Argentina no domingo passado provocaram efeitos imediatos sobre o cenário político e econômico deste lado da fronteira. Existe muito de História, de estórias e de anedotas envolvendo a evolução da conjuntura em ambos os países.
 
São variações que vão desde a admiração recíproca por razões diversas até rivalidades compreensíveis também entre nações vizinhas. Vargas, Perón. Justicialismo, trabalhismo. Ciclos de ditaduras militares. Pelé, Maradona. Plano Cruzado, Plano Austral. Era dos Kirchner, era Lula/Dilma. E também o famoso efeito Orloff, do “eu sou você amanhã”.
 
As regras eleitorais na Argentina preveem a realização de prévias entre todos os partidos e/ou candidatos interessados em participar do pleito. Assim, cada uma das listas concorrentes deve ultrapassar a cláusula de barreira de 1,5% do total de votos para estar presente na disputa que ocorrerá em 27 de outubro.
 
O comparecimento às urnas durante as prévias é aberto a toda a população e costuma operar como um termômetro indicativo das intenções de voto para a próxima etapa.
 
A vitória da chapa que tem Alberto Fernández e Cristina Kirchner como candidatos a presidente e vice, respectivamente, superou aquela protagonizada por Mauricio Macri, atual presidente e candidato à reeleição.
 
Ainda que o resultado das prévias não seja garantia de vitória segura também daqui a dois meses, o fato é que boa parte dos analistas políticos consideram bastante difícil que a diferença (49% a 33%) nas apurações deste domingo seja revertida em tão curto espaço de tempo.
 
 
Vitória de Fernández/Kirchner
 
A derrota de Macri tem o significado de um claro voto de desconfiança e descontentamento por parte da população que o elegeu em 2015, após um período de 12 anos do chamado kirchnerismo no poder.
 
Por outro lado, Cristina e seu grupo mais próximo foram habilidosos e amplos o suficiente para perceber que precisavam compor a chapa, de forma a evitar um simples plebiscito a respeito de sua volta. Assim ofereceu a cabeça de chapa a Fernández, que ocupou por diversas vezes cargos de ministro em seu gabinete e de seu falecido marido.
 
As urnas demonstraram que a opção por uma política econômica de inspiração neoliberal levada a cabo pelo então candidato Macri, apoiado abertamente pelo financismo em 2015, não ofereceu nenhuma boa notícia para a maioria do povo argentino. Muito pelo contrário. A receita da austeridade terminou por aprofundar a crise.
 
A tabela abaixo nos oferece um pouco de pistas para a razão de um fenômeno de queda tão abrupta da popularidade do candidato liberal que se apresentava como o coveiro definitivo de todo e qualquer traço do peronismo.
 
Na verdade, por trás da roupagem do bom moço admirado pelo establishment financeiro, Macri reeditou na terra de los hermanos o velho e surrado cardápio do neoliberalismo. Austeridade fiscal, juros altos e redução da presença do Estado na economia.
 
O resultado foi um aprofundamento das condições gerais da economia e de vida do povo argentino.
 
Ao longo do mandato de Macri todos os indicadores pioraram. A inflação mais do que dobrou, saindo da casa dos 25% ao ano para chegar a 56%. A taxa oficial de juros estava em 38% antes de sua posse e agora atingiu 60%. A taxa de câmbio explodiu e sofreu enorme desvalorização – saiu de 15 pesos/dólar e chegou a 46 antes dos resultados da eleição.
 
Além disso, como que por ironia trágica, o próprio “risco país” aumentou no período. Ou seja, o candidato apreciado e recomendado pelo financismo local e internacional fez a lição de casa e, ainda assim, o risco para o investidor estrangeiro aumento de 487 para 900 pontos – ou seja, quase dobrou em quatro anos. Acompanhando essa evolução, a dívida externa argentina também cresceu mais de 60%, saindo de US$ 167 bi e atingindo US$ 275 bilhões.
 
 
Pelo lado social, a dimensão da política econômica da austeridade foi implacável com a maioria da população do país vizinho. O poder de compra do salário mínimo medido em dólares caiu mais da metade, saindo de 580 para 279. O desemprego oficial medido pelo INDEC aumentou também em 50%, saindo de 7% para 10%. Os índices de pobreza e indigência também subiram durante o mandato de Macri, ainda que tenham atingido valores bem inferiores à triste realidade social e econômica de nossas terras.
 
Finalmente vale como registro da piora qualidade de vida a observação da queda expressiva no comportamento de dois bens que são bastante simbólicos do modo de vida dos argentinos. O consumo de leite caiu quase 40% e o consumo de carne foi reduzido em aproximadamente 20%. Especulação criminosa no dia seguinte.
 
No dia seguinte ao anúncio da vitória de Fernández, o próprio “mercado” financeiro começou o conhecido trabalho de especulação irresponsável, com o objetivo de apostar todas as suas fichas na política do “quanto pior, melhor.” Assim, começou a criação da narrativa catastrofista em torno dos riscos do retorno do suposto “populismo” e dos “irresponsáveis fiscalmente” à Casa Rosada.
 
A chantagem protagonizada por meio da manipulação das variáveis da política econômica não esperou nem algumas horas para ter início. Desde a abertura das operações de natureza financeira na manhã de segunda-feira, as transações apontavam para a desvalorização artificial e súbita do peso argentino na relação com o dólar norte-americano.
 
Ocorre que, ao contrário do Brasil, a Argentina ainda permanece bastante dependente do capital estrangeiro, em razão da dívida externa relativamente elevada.
 
A fim de evitar as consequências nefastas dessa aventura especulativa sobre o conjunto dos atores da sociedade argentina, a equipe de Macri se viu obrigada a elevar a taxa de juros, com o objetivo de reduzir a revoada de capital para o exterior.
 
Aliás, nos já vimos esse enredo por aqui em diversos momentos de nossa História. Em 2002, por exemplo, com a subida das intenções de voto de Lula, o mercado financeiro também apostou numa possível virada a favor do candidato do establishment, José Serra.
Para isso, foi construída também uma narrativa de que o Brasil iria se quebrar caso o PT ganhasse as eleições e a insuflação do temor à catástrofe iminente.
 
E o recurso à especulação com o dólar também promoveu uma desvalorização artificial, levando a taxa de câmbio atingir quase R$ 4/US$ entre o primeiro e segundo turnos de outubro daquele ano. A especulação promoveu uma piora de 80% na taxa ente março e as eleições. Uma loucura!
 
A Argentina infelizmente deve sofrer processo semelhante. Lula divulgou a famosa “Carta ao Povo Brasileiro” em junho de 2002, na tentativa de acalmar os humores do grande capital.
 
O problema é que a equipe no comando da economia até a posse do novo governo na Argentina é comandada por Macri, que perdeu as prévias. O mesmo aconteceu naquele ano no Brasil, com os tucanos no poder e apoiando Serra contra Lula.
 
Assim, o cenário que deve se aguardar para o país vizinho não é dos mais alentadores, do ponto de vista da política econômica. Macri vai usar de todos os recursos para ampliar esse quadro catastrofista e jogar na tentativa de usar o fantasma do retorno dos peronistas ao poder.
 
Difícil imaginar que uma sociedade que tende a reforçar os elementos emocionais na condução e na disputa do jogo político consiga superar tal instabilidade e que os atores envolvidos aceitem um jogo, digamos, civilizado.
 
Fala, Bolsonaro!
 
O recado das urnas foi claro. A maioria da sociedade deseja mudança, quer a saída de Macri e propõe a volta dos atores da era K. Os interesses do financismo e de parte da oligarquia local, por seu turno, também deixaram claro que não aceitam esse retorno. E avisam que farão de tudo, e mais um pouco, para evitar a vitória de Fernández/Kirchner em outubro próximo. A irresponsabilidade do capital é internacional.
 
Os próximos dois meses serão de elevada tensão e incerteza. É bem possível os emissários de Macri já tenham percebido que a pretensa ajudinha de Bolsonaro pode se converter em “abraço de afogado”.
 
A imagem do capitão é muito desgastada também lá fora. Quanto mais ele se meter na disputa, mais votos ele deve tirar de Macri e ajudar a chapa oposicionista. Assim, talvez devêssemos incentivá-lo em suas saidinhas tresloucadas: “Fala, Bolsonaro!”.
 
*Paulo Kliass é doutor em economia e membro da carreira de Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental do governo federal.
 
 
 
 
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/08/licoes-argentinas.html

Argentina | Os mercados cercam a democracia

 
 
Nas urnas, população goleou política quase idêntica à de Bolsonaro. Um dia depois, oligarquia financeira deflagra crise cambial e sugere: “agora, quem vota somos nós”. Vêm aí lances decisivos para o futuro da América do Sul
 
Antonio Martins | Outras Palavras
 
Por que permanecem firmes os governos que, a exemplo do brasileiro, perdem apoio popular, mantêm ou agravam a crise social, devastam o parque produtivo e vomitam por todos os poros incivilidade e patifaria? Qual a relação entre as políticas ultracapitalistas, tramadas nos salões elegantes dos bancos e das empresas de consultoria globais, e as falas de latrina de um Bolsonaro, um Trump, um Duterte – ou, ainda pior, a rápida erosão das liberdades civis e o avanço das milícias e esquadrões da morte? Pode um político neoliberal disfarçar-se de populista e contar com o apoio explícito do FMI? Como vencer este casamento de conveniências – porém, de sinistras consequências – entre defensores extremados da “liberdade” dos mercados e protofascistas?
 
Nada como a experiência, para encontrar as respostas. No último domingo (11/8), os argentinos – que em 2001 repudiaram uma dívida externa avassaladora e produziram o maior defaultfinanceiro de todos os tempos – protagonizaram outro evento inédito. Pela primeira vez, um governo instalado na onda atual de ascenso da ultra-direita foi batido nas urnas. Os peronistas Alberto Fernández e Cristina Fernández (Kirchner) arrasaram Maurício Macri, vencendo-o por 15 pontos percentuais (47,7% x 32,2%) em primárias gerais. Embora não sejam as eleições definitivas (marcadas para 27/10), as primárias atraíram 75% dos eleitores, foram realizadas pela Justiça Eleitoral segundo as mesmas normas e procedimentos do pleito e são consideradas por todos como indício de derrota quase certa do candidato neoliberal.
 
Na segunda-feira, os mercados deflagraram sua resposta. Os grandes aplicadores iniciaram uma fuga cambial em massa, que fez a moeda argentina despencar 30% em poucas horas. O dólar chegou a valer 60 pesos (caindo para 57,30 depois de três intervenções do Banco Central, que torraram mais US$ 106 milhões). Na bolsa de Buenos Aires, as ações também desabaram, com o Índice Merval recuando também 30%. A onda de pessimismo repercutiu pelo mundo e derrubou as cotações de outras moedas na periferia do sistema: a lira turca, o rand sul-africano, o real brasileiro. Mas a oligarquia financeira, que apoiou Macri durante todo o seu mandato, julgou-se em condições de fazer exigências… a Alberto Fernández. O candidato peronista “precisa enviar uma mensagem para os mercados, que o enxergam com desconfiança”, disse Rodrigo Álvarez, diretor da consultora Analytica, ao diário portenho Clarín.
 
 
Ultracapitalistas e protofascistas estiveram em campos muito distintos, durante quase todo o século XX. O arranjo entre estas duas correntes políticas repete-se, em todo o mundo, cada vez mais frequentemente desde a crise de 2008 – mas assume características distintas em cada país. Na Argentina, foi galvanizada pela eleição de Maurício Macri em 2015 e configurou-se como um neoliberalismo com fortes nuances assistencialistas. O governo do atual presidente tem três fases distintas. As transições entre elas revelam que a conexão entre as correntes que o apoiam não é fortuita, porque se mantém, em distintos cenários.
 
Na primeira fase, Macri é, em essência, neoliberal ao extremo e repressivo. No terreno econômico, ele libera a entrada e saída de dólares (permitindo, inclusive, contas de argentinas na moeda norte-americana). Elimina os impostos de importação, que distribuíam parte da imensa riqueza dos proprietários de terra. Entra em acordo com a oligarquia financeira global, desfazendo o default aberto e a renegociação da dívida (em termos muito mais favoráveis) realizada por Nestor e Cristina Kirchner. Elimina os subsídios à eletricidade e ao gás, fazendo disparar os preços destes itens de consumo popular. Aprova no Congresso uma contrarreforma trabalhista que limita a possibilidade de os trabalhadores recorrerem à Justiça contra seus patres. Alinha-se com Donald Trump. No terreno dos direitos humanos, crescem fenômenos pouco conhecidos até então pelos argentinos, como o encarceramento em massa (a pretexto da “guerra às drogas”) e as execuções de “suspeitos” pela polícia. Mas avançou também a repressão política por parte do Estado. Uma aproximação oportunista com os militares levou o presidente a relativizar, em diversas ocasiões, os crimes da ditadura sangrenta pós-1976. E novas normas legais facilitaram a detenção maciça de participantes em manifestações de rua.
 
Para que os ataques a direitos sociais não pintassem um governo claramente antipopular, houvepolíticas assistencialistas. Atenção nutricional a crianças até 4 anos. Um pequeno apoio econômico a micro e pequenas empresas (muito insuficiente para compensar a quebradeira provocada pelas políticas neoliberais). Uma cópia do Benefício de Prestação Continuada que, no Brasil, atende aos idosos que não puderam contribuir com a Previdência o tempo necessário para obter aposentadoria.
 
Os mercados globais aplaudiram e financiaram a aventura. Um forte fluxo de aplicações irrigou a Argentina, por cerca de dois anos e meio. A queda das receitas tributárias foi financiada em dólares. O resultado foi um enorme salto da dívida externa. Entre 2015 e 2018, ela mais do que dobrou, saltando de US$ 63 bilhões para US$ 140 bi. Então, os credores apresentaram a conta, na forma de uma primeira rodada de pressões intensas sobre o peso.
 
Até o final do governo de Cristina Kirchner, a cotação do dólar mantinha-se relativamente estável, em torno de 20 pesos. Em 2018, em menos de seis meses, a taxa pulou para 40. Como ocorreria também no Brasil, o resultado foi uma forte alta na inflação. Em junho, a barreira dos 30% ao ano foi rompida. Para um presidente que, como candidato, prometera inflação zero, era um desastre político.
 
Começa então, simultaneamente uma segunda etapa do governo e da parceria entre ultracapitalistas e protofascistas. O marco emblemático é o acordo com o FMI, firmado neste mesmo mês. Suas condições são especialíssimas, como mostra um estudo detalhado do Centro de Economia Política Argentina (CEPA). Nunca o Fundo havia emprestado tanto a um país: US$ 50 bilhões, que depois subirão para US$ 57 bi. Mas o que chama mais atenção é a extrema coincidência entre os desembolsos e… o calendário eleitoral. Como mostra o CEPA, 88% das transferências bilionárias do FMI vão se dar até as eleições de outubro próximo – e deste montante, os volumes mais gordos correspondem exatamente aos meses finais da campanha. Tudo parece claro: não se trata do “resgate” de um país, mas da tentativa, por parte da aristocracia financeira global, de salvar seu aliado local e bloquear a eleição de um governo de esquerda. Em novembro, quase todo o empréstimo estará esgotado. Se Macri for reeleito, pagará a conta. Se os eleitores preferirem os peronistas, o país estará quebrado.
 
Como é comum nestes casos, contudo, o feitiço fracassa. O FMI impõe aos argentinos a “austeridade”, com tentativa de redução drástica do déficit fiscal – salvo, é claro, para pagar juros aos grandes credores do Estado. Emerge uma crise social descrita, em detalhes, por vasta matéria do New York Times. No segundo semestre, o percentual da população abaixo da linha de pobreza chega a 32%. O país passa a conviver com favelas, enorme aumento da população obrigada a viver nas ruas, gente obrigada a buscar nos lixões algo com que sobreviver.
 
E vem, em abril de 2019, a última viragem, quase uma confirmação do desespero. O Fundo Monetário Internacional não se limita a elevar em 7 bilhões de dólares um “resgate” que já era recorde. Agora permite explicitamente, e contrariando suas normas internas, que o dinheiro seja utilizado para sustentar, de modo provisório e precário, a cotação do peso frente ao dólar. Abastecido – e sem vergonha alguma de contrariar a si próprio – o governo Macri adotará alguma das medidas que mais criticava no período peronista, e que o FMI mais critica nos governos que deseja sabotar. Controle preços, mediante “acordo” com as grandes redes de varejo. Subsídio de tarifas públicas – com reversão de aumentos que já haviam sido anunciados. Volta de alguns dos impostos sobre exportação de commodities.
 
“Um tsunami passou pelo quarto escuro. Às vezes, os cidadãos pronunciam-se como se tivessem conjurado”, escreveu, em Página 12, o analista político Mário Wainfeld. A autêntica revolta popular expressa nas urnas em 11/8 revela “fastio e esperança”, disse ele. Há limites para a demagogia, as fake news, a troca da política pelo emprego maciço de Big Data, a provocação ininterrupta, o xingamento dos adversários, a polarização que tolhe o debate, o desrespeito aos ritos da democracia e até aos bons modos. Também os bolsonaros encontram seu dia.
 
O ataque detonado na segunda-feira pela oligarquia financeira é um desafio claro a Alberto Fernández e Cristina. Como reagirá o candidato à Presidência, conhecido por uma postura mais moderada que a de sua companheira de chapa? Assinará algo como uma “Carta aos Argentinos”, 17 anos depois de Lula e numa conjuntura em que os banqueiros já não buscam acordos no âmbito da democracia — e sim rompê-la, para proteger seus próprios privilégios?
 
Em grande medida, a goleada imposta por Fernández parece dever-se ao fato de ter adotado outra postura, ao longo dos primeiros meses de campanha. Embora evitando cair em armadilhas e fazer declarações que pudessem ser transformadas em armas contra si pela mídia hegemônica, ele deixou claro em uma de suas peças de propaganda na TV: “não podemos pagar nossas dívidas até que voltemos a crescer”.
 
Significa que ele “poderia, se eleito, dar calote nos papéis do governo e renegociar o empréstimo com o FMI”, lamentou The Economist, em comentário que não esconde a torcida por Macri. Os eleitores mostraram que pensam diferente; que é possível contar com eles para uma virada que sacuda a aliança entre as duas direitas e coloque a Argentina em rumo oposto ao atual. As onze semanas que faltam para a eleição serão dramáticas. Mas se as inspirações da coragem política animarem Alberto e Cristina, o cenário político da América do Sul irá se tornar, a partir de 27 de outubro, muito mais interessante, rico em alternativas, menos sombrio e cinzento. 
 
Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OUTROS QUINHENTOS
 
Leia também em Outras Palavras: O que aprender com Cristina Kirchner
Ao renunciar à candidatura à presidência, ela qualificou-se como estrategista da vitória sobre a direita – agora mais possível que nunca. Seu gesto diz muito, a Brasil às voltas com Bolsonaro e a uma Europa ameaçada pelo neofascismo -- Por Antonio Martins
 
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/08/argentina-os-mercados-cercam-democracia.html

O império contra-ataca a Argentina com truculência de Bolsonaro

A atuação do presidente brasileiro para difamar a chapa formada por Alberto Fernández e Cristina Kirchner é regida pelo chefão da Casa Branca.

 

 

Se assustou com a tragédia argentina? Já pensou se fosse o seu dinheiro? Já pensou se um evento desses ocorresse no Brasil? Você sobreviveria? Com essas indagações, um analista do mercado financeiro explicou que o “argentino” que foi dormir feliz na sexta-feira, depois de uma alta de 8% da bolsa, terminou a segunda-feira amargando o segundo pior pregão da história do mundo, nas contas da Bloomberg, uma agência de notícias que funciona também como empresa de tecnologia e dados para o mercado financeiro.

A queda foi de 48% em dólares do índice Merval, o principal indicador de bolsa de valores da Argentina e o terceiro mais importante da América Latina, atrás apenas da BM&FBovespa em São Paulo e da Bolsa de Valores Mexicana, na Cidade do México. Só com o câmbio, diz o analista, o “argentino” ficou 30% mais pobre em apenas alguns minutos de pregão. E não foram só os pequenos investidores que perderam; pesquisa do Bank of America Merrill Lynch mostrou que dois em cada três gestores também acreditavam em “melhora” no quadro político.

Epicentro da economia europeia

Esse “argentino” na verdade é um personagem integrante do que o economista Paulo Nogueira Batista Jr. chama de “a turma da bufunfa”; segundo ele, “um agrupamento razoavelmente estruturado, que se dedica a fomentar, proteger e cultuar o vil metal”. Não é o povo argentino. E o analista do mercado financeiro não estava falando para o povo brasileiro, mas, sim, para o “brasileiro” da mesma “turma” do “argentino” que, nas suas palavras, foi vítima de uma “destruição de riqueza”.

O povo argentino é vítima do governo desse “argentino”, assim como o povo do Brasil é vítima do governo do “brasileiro” para quem o analista fez as perguntas iniciais. Esse povo paga a conta de indicadores como o índice de atividade econômica do Banco Central (IBC-Br), que reúne dados de indústria, serviços e agropecuária, apontando encolhimento no segundo trimestre, como já ocorrera no primeiro, um dado que alguns economistas consideram nova recessão.

É o caminho da Argentina. E, em certo sentido, da Europa, com a Alemanha — uma espécie de epicentro da economia europeia — enfrentando um recuo da produção industrial, sinalizando uma recessão. É mais uma vítima da intensificação da guerra comercial movida pelo governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra a China — ambos os países são importantes destinos das exportações alemãs.

Sobre esses dois casos, é importante considerar a má educação e a inconveniência do presidente Jair Bolsonaro e de seu vice, general Hamilton Mourão. O primeiro tem agredido de forma vil e covarde a chapa formada por Alberto Fernández e Cristina Kirchner, vitoriosa nas eleições primárias argentinas, chamada por ele — dentre outros adjetivos degenerados — de “esquerdalha”; e o segundo, seguindo o comportamento obsceno do primeiro, disse que os tremores da chanceler alemã Angela Merkel (possivelmente um problema de saúde) se devem a uma “encarada de Trump”.

Poder de compra dos trabalhadores

No pano de fundo dessa situação estão os números reunidos pelo vice-presidente do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Sérgio Rubens, dando conta de que depois da bancarrota capitalista de 2007-2008 sobreveio, em 2012-2013, na Europa, a segunda onda da crise, sendo seguida, na terceira onda, a partir de 2014, pelo conjunto da periferia capitalista.

Os dados de Sérgio Rubens indicam que a taxa de crescimento do PIB mundial, de 2010 até 2018, foi medíocre — Estados Unidos, média de 2% ao ano; Japão, 1,5%; Europa,1%. Escapou apenas a China, ainda que não inteiramente, que teve seu crescimento reduzido para a faixa de 6% depois de mantê-lo próximo aos 10% anuais durante três décadas. Para piorar a situação, o Bird, o FMI, a OCDE e a OMC preveem um desaquecimento da economia mundial e apontam como primeiro sintoma a violenta oscilação nas bolsas, no final do ano passado.

As informações de Sérgio Rubens dizem também que a massa de recursos fora da esfera produtiva, que circula no circuito financeiro constituído basicamente por “derivativos” — o papelório inventado pelos financistas internacionais —, voltou ao perigoso patamar de antes do desabamento, em 2008: US$ 600 trilhões. As dívidas pública e privada cresceram de maneira vertiginosa, atingindo US$ 233 trilhões — o triplo do PIB mundial.

Por fim, ainda segundo Sérgio Rubens, a taxa de lucro nas principais economias capitalistas estacionou num patamar que corresponde à metade do que era no começo da década de 1960, bloqueando a transferência dos recursos financeiros para a esfera produtiva. Esse cenário é agravado pela redução do poder de compra dos trabalhadores, decorrente do desmonte das conquistas sociais do pós-Segunda Guerra Mundial.

Revolucionários que deram certo

Os operadores da engrenagem que move essa massa de dinheiro, espelho do capital fictício, têm um projeto de poder. A cadeia de golpes e a intensificação das manipulações ideológicas na América Latina — sobretudo pelo recurso midiático —, apoiadas por guerras econômicas, são o terceiro ciclo de implantação do projeto neoliberal na região. O primeiro foi o seu lançamento, marcado pela condução anglo-saxã de Ronald Reagan (presidente dos Estados Unidos) e Margaret Thatcher (primeira-ministra da Inglaterra).

Seus prepostos, abertamente aliciados, foram Augusto Pinochet (Chile), Calos Menem (Argentina), Carlos Salinas de Gortari (México), Alberto Fujimori (Peru), Andrés Perez (Venezuela), Gonzalo Sánchez de Lozada (Bolívia) e Fernando Collor de Mello (Brasil). Perseguidos pela lei — alguns ainda estão foragidos —, eles foram substituídos, num segundo ciclo também marcado pela condução anglo-saxã (desta vez com Bill Clinton e Tony Blair), por presidentes mais precavidos — chegaram a mudar a lei, com fez Fernando Henrique Cardoso (FHC), para criar proteções em caso de serem levados aos tribunais.

Agora, sob o comando de Trump, eles tentam restaurar aquela ordem, se utilizando de representantes truculentos, como Bolsonaro e Mourão, e de falsos paladinos da moralidade, como a trupe da Operação Lava Jato. O Brasil, na condição de casa de força da região, está sendo tutelado pela Casa Branca com o objetivo claro de neutralizar a sua influência local. Voltou à cena política, agora de forma ainda mais rasa, a tese de que os revolucionários que deram certo não foram Karl Marx, Vladimir Lênin e Mao Tse Tung, mas Milton Friedman, Ronald Reagan e Margaret Thatcher.

Essa tese é especialmente importante na guerra contra a aproximação soberana entre Brasil e Argentina. Como explicou o cientista político e historiador Luis Moniz Bandeira, quando ele lançou seu livro A formação dos Estados na Bacia do Prata, em 2006, os Estados Unidos não aceitam a unidade desses dois países porque eles são capazes de formar na América do Sul “um superestado como a União Europeia”.

Em entrevista ao site uruguaio La Onda Digital, Moniz Bandeira analisou “a grande influência do Brasil” na origem dos “países da América hispânica”, um processo histórico que “de alguma maneira continua até hoje”. Ele lembrou que “a soma do Brasil com a Argentina é uma potência que, em termos de PIB, é quase equivalente à Alemanha e muito superior a todo o resto da América do Sul”.

Silêncio de Samuel Pinheiro Guimarães

A então “guerra psicológica em curso na América do Sul” e “a campanha no Brasil contra o governo Lula” era “contra a política externa, não contra a política econômica”, disse ele, referindo-se ao auge da farsa do “mensalão”. Com o agravante de que o projeto norte-americano de criar a Área de Livre-Comércio das Américas (Alca) entrara “em colapso”. “A América do Sul não tem saída se não se unir, e o eixo dessa união pode ser formado por Brasil, Argentina e Venezuela”, analisou.

Foi o que de fato aconteceu. Os governos brasileiro e argentino puseram boa parte do aparato do Estado trabalhando para o aumento das exportações, mudando o rumo da política externa do projeto neoliberal ao desenvolver uma estratégia multipolar de afirmação da soberania da região, de construção paciente e pertinaz de um bloco sul-americano, de redução das desigualdades e de realização do potencial dos países do hemisfério Sul. O Brasil criou embaixadas em Camarões, Tanzânia, Belize, Croácia, Guiné Equatorial e Sudão, e consulados em Doha (Catar), Lagoa (Nigéria), Beirute (Líbano) e Iquitos (Peru).

O ódio dos atuais neoliberais não consegue esconder os êxitos daquela política externa brasileira. É o mesmo fel dos editoriais e colunas da mídia destilado contra o então chanceler Celso Amorim e, principalmente, o arquiteto dessa política externa, o então secretário-geral do Itamaraty, Samuel Pinheiro Guimarães.Tacharam-no de “xenófobo”, “inimigo da modernidade” e “dinossauro nacionalista”. Ele suportou tudo com galhardia, exercendo sua função com discrição — ao contrário dos atuais pavões do Itamaraty. Esse é o ponto em que os homens se distinguem dos moleques; Samuel Pinheiro Guimarães foi brilhante mesmo em silêncio.


por Osvaldo Bertolino | Texto original em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado


 

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/o-imperio-contra-ataca-a-argentina-com-truculencia-de-bolsonaro/

'Bandidos de esquerda começam a voltar ao poder na Argentina', diz Bolsonaro

Presidente da Argentina, Mauricio Macri, e seu colega brasileiro, Jair Bolsonaro, na 54ª cúpula de presidentes do Mercosul
© REUTERS / Handout

O oposicionista Alberto Fernandéz, que venceu com larga vantagem as primárias presidenciais na Argentina no último domingo, havia chamado Bolsonaro de "racista, misógino e violento" durante a semana.

A chapa da oposição, formada por Alberto Fernández e Cristina Kirchner, venceu as eleições primárias na Argentina por 47% contra 32% do presidente Maurício Macri.

O presidente Jair Bolsonaro, que é aliado de Maurício Macri, comentou o resultado das primárias presidenciais na Argentina, classificando a oposição do país como "bandidos de esquerda".

“Olha o que está acontecendo com a Argentina agora. A Argentina está mergulhando no caos. A Argentina começa a trilhar o rumo da Venezuela, porque, nas primárias, bandidos de esquerda começaram a voltar ao poder”, disse o presidente ao participar de um evento no Piauí.

“Nas próximas eleições, nós vamos varrer essa turma vermelha do Brasil. Nós juntos vamos varrer a corrupção e o comunismo do Brasil”, acrescentou.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/brasil/2019081414387395-bolsonaro-bandidos-de-esquerda-comecam-a-voltar-ao-poder-na-argentina/

Macri anuncia aumento de salário mínimo para tentar reverter derrota nas eleições

Presidente argentino Mauricio Macri votando nas primárias em Buenos Aires em 17 de agosto de 2017
© AP Photo / Natacha Pisarenko

Após sofrer contundente vitória da oposição nas primarias das eleições argentinas no último domingo, o presidente Maurício Macri adotou um pacote de medidas econômicas para tentar reverter a disputa.

O pacote econômico de Macri inclui um aumento do salário mínimo, congelamento do preço da gasolina e bônus de 5 mil pesos para funcionários públicos e privados.

Além disso, o presidente argentino pediu desculpas por declarações feitas na segunda-feira e disse que "respeita o voto dos eleitores". Após o resultado das primarias, Macri foi muito criticado por afirmar que a oposição teria sido culpada pela má reação dos mercados aos resultados das eleições.

"Respeito profundamente a decisão dos argentinos. Quero pedir desculpas pelo que disse na entrevista coletiva da segunda-feira. Hesitei em fazê-la porque ainda estava muito afetado pelo resultado das eleições, estava sem dormir e triste", afirmou Macri nesta quarta-feira.

A chapa formada por Alberto Fernández e sua vice Cristina Kirchner recebeu 47% dos votos no pleito, contra 32% de Mauricio Macri.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019081414387016-macri-anuncia-aumento-de-salario-minimo-para-tentar-reverter-derrota-nas-eleicoes/

SAUDAÇÃO AOS DEMOCRATAS ARGENTINOS

 
imageimage
 
Frente de Todos 47.35% - Macri 32.33%
Ao saber dos resultados eleitorais na Argentina vasculhei os noticiários nacionais e alguns estrangeiros. Numa televisão nacional apareceu-me o podengo Guaido a latir nem sei o quê. Para a “informação” a que estamos sujeitos, silêncio absoluto sobre a tremenda derrota de Macri nestas primárias argentinas.
Para Washington e Telavive, Trump e Netanyahu esta derrota do gorila argentino enfraquece a dupla Macri-Bolsonaro e revigora as forças democráticas em toda a América-Latina, nomeadamente na Bolívia, Uruguai, Venezuela, Porto Rico, Nicarágua mesmo para o México, sem esquecer a martirizada Cuba.
As eleições gerais estão marcadas para 27 de outubro.
O FMI,  CIA e a Mossad dos nazissionistas, não brincam em serviço e dificilmente aceitarão um resultado contrário aos seus interesses.
«BRASÍLIA — O governo brasileiro vê com preocupação o resultado da prévia da eleição presidencial argentina, realizada no domingo. (O Globo)»
«Goldman Sachs: Resultado das eleições na Argentina é quase irreversível»
 

Ver o original em As palavras são armas (clique aqui)

As primárias argentinas e a força da ação política

É importante dizer que Cristina Kirchner foi brilhante em sua tática de não ocupar a cabeça de chapa da Frente de Todos? Sim. Só isso explica a estrondosa votação nas primárias do dia 11? Não. Tem gente no Brasil perdendo tempo com a querela “Kirchner deu ou não uma lição em Lula”? Sim. Isso ajuda a entender o que está ocorrendo na Argentina? Não.

 

 

A construção de uma unidade ampla, sem hegemonismos, nem vetos, e o foco na luta para recuperar social e economicamente o país, com garantia de liberdades e funcionamento do Estado de direito, são antes de tudo os grandes ensinamentos deste processo.

Dito isso, tentemos extrair lições da movida rumo ao reagrupamento e acumulação de forças da esquerda argentina no último período. Um primeiro diferencial importante a ser lembrado para nós, que estamos do lado de cá do Rio da Prata: na Argentina ainda funciona uma democracia. Por mais que Macri encarne todos os fantasmas do neoliberalismo e subserviência externa que nos remete às trevas da América Latina da década de 90, com alguns casos de prisões arbitrárias e perseguições a militantes, ele não conseguiu fechar o país em um regime de exceção e com restrições fundamentais ao funcionamento democrático. Embora intelectuais como Atílio Boron defendam que ele faz um governo semi-autoritário ou uma “democradura”, ele não conseguiu calar a oposição. Esse é um dado importante para entender como Cristina não foi presa arbitrariamente ainda, a exemplo do que ocorreu com Lula no Brasil e com quem ficou do governo Correa em solo equatoriano. Explica também como, dia sim e outro também, há ocupação sistemática do espaço público nas principais cidades do país com protestos e manifestações, especialmente após a agudização da crise econômica.

A Argentina tem uma cultura popular “callejera”, seja nas artes, seja nas manifestações políticas em forma de marchas e protestos. Tente passar uma tarde na Plaza de Mayo, no coração de Buenos Aires, sem topar com umas três manifestações distintas. O governo Macri foi o principal combustível da organização política seja de base comunitária, popular ou sindical, nos últimos anos no país. Ao manejar a economia como quem administra um cassino, a economia macrista gerou sérios problemas à atividade produtiva e vendeu facilidades ao setor financeiro. Os tarifaços macristas levaram a inflação às alturas e o câmbio do peso com o dólar já não toca o chão há tempos. Sob Macri 200 mil perderam seus empregos e a capacidade da indústria caiu vertiginosamente. A pobreza que estava na casa dos 25% no último governo de Cristina foi a 34,1% com Macri, segundo os últimos dados do Indec. Mais de 7%, cerca de um milhão de pessoas, vivem em situação de indigência. Para sair do atoleiro, Macri recorreu ao FMI e o país passou a ser governado pela tróica Macri, Trump e Lagarde. Reciclado o neoliberalismo, a cultura callejera não deixou o país dormir.

Quem acompanha minimamente a política argentina, percebeu que nas últimas semanas as eleições foram tratadas pela imprensa com tons moderadores de “Macri não está tão mal assim e pode surpreender” ou “há um forte sentimento anti-Kirchner como o anti-petismo no Brasil”. Por baixo desse manto de moderação, uma verdadeira intoxicação de fakenews varria os grupos de whatsapp, fenômeno que conhecemos bem aqui no Brasil. Enquanto isso, as peças publicitárias eram de um Macri humilde e humano, que reconhecia os problemas do país e que pedia mais tempo para consertar as mazelas do passado, um verdadeiro lobo em pele de cordeiro que ao se vitimizar ainda jogou a responsabilidade para a população por não ter dado tempo às reformas necessárias. Nem o pé no freio da imprensa, as fakenews de Bannon ou a publicidade melosa de Macri conseguiram iludir a população argentina, suficientemente vacinada em tragédias econômicas. A casa caiu para o macrismo como demonstraram as primárias e a consequente queda vertiginosa das bolsas, elevação do peso e dos juros na ressaca do PASO.

Diante desse cenário, de democracia sobrevivente, aguda crise econômica, cultura popular organizativa e de contestação, além da impermeabilidade às fake news, um fator foi decisivo para a expressiva participação de 75% do eleitorado nas primárias e a estrondosa votação dedicada à Frente Para Todos. Esse fator se chama unidade política construída com muita articulação, estratégia (como o posicionamento de Cristina na vice) e “fazer político” sem resvalar para o flerte com os supostos movimentos “antipolítica”. Foi tecido então um reencontro entre as distintas correntes do peronismo, com o apoio da maioria dos governadores, prefeitos e legisladores peronistas espalhados pelo país que somados a radicais, comunistas, autonomistas, humanistas, bolivarianos, cooperativistas, líderes sindicais e de movimentos sociais, formaram uma grande frente. Um movimento capaz de reabilitar a esperança e capacidade de sonhar dos argentinos. Mais do que tudo, a mensagem do último dia 11 foi a do poder da mobilização e da ação política. Na contramão dos laboratórios de virtualização a aplastamento da política, nada como rua, unidade e voto.


por Ana Prestes, Socióloga, especialista em relações internacionais  |  Texto original em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado


 
 
 
 
 

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/cristina-kirchner-as-primarias-argentinas-e-a-forca-da-acao-politica/

Argentina | Oposição derrota Macri nas eleições primárias argentinas

 
 
Alberto Fernández surpreende e vence com folga o atual presidente. Assim, chapa de Cristina Kirchner parte como favorita ao pleito de outubro, com chance de ganhar até no primeiro turno. Macri reconhece votação "ruim".
 
O peronista Alberto Fernández derrotou com vantagem de mais de 15 pontos percentuais o presidente da Argentina, Mauricio Macri, nas eleições primárias deste domingo (11/08) no país. O candidato de centro-esquerda, que tem como vice a ex-presidente Cristina Kirchner, sai assim como favorito às presidenciais de outubro.
 
Com quase 90% dos votos apurados, Fernández, candidato presidencial da aliança Frente de Todos, obteve 47,36% dos votos, enquanto Macri, que tenta a reeleição, conseguiu 32,23%.
 
Embora as sondagens eleitorais já dessem o primeiro lugar a Fernández, nenhuma pesquisa havia previsto uma vitória com diferença tão ampla. Segundo dados oficiais, a taxa de participação nas urnas foi de cerca de 75%, entre as 33,8 milhões de pessoas aptas a votar.
 
Para ganhar no primeiro turno, o candidato a presidente tem que obter 45% dos votos ou mais de 40% com uma diferença de 10 pontos sobre o segundo colocado. Caso os resultados se repitam na eleição presidencial de 27 de outubro, Fernández pode ser eleito sem necessidade de segundo turno.
 
 
O presidente Macri reconheceu a derrota antes mesmo da divulgação dos primeiros resultados. "Tivemos uma votação ruim e isso nos obriga, a partir de amanhã, a redobrar os esforços para que em outubro consigamos o apoio necessário para continuar com a mudança", afirmou ele em discurso a partidários.
 
"Claramente estamos dando tudo pelo nosso querido país. Dói que hoje não tenhamos tido todo o apoio que esperávamos, mas, a partir de manhã, todos somos mais responsáveis por este país avançar. Portanto, é dormir e recomeçar a trabalhar amanhã de manhã", acrescentou.
 
No discurso, Macri ressaltou que os argentinos estão decidindo nestas eleições os próximos 30 anos da Argentina e pediu que a opção seja por uma candidatura que fortaleça ainda mais a democracia.
 
O presidente reconheceu que o país vive tempos difíceis, em uma clara referência à crise econômica iniciada em abril do ano passado por uma abrupta desvalorização do peso, mas disse que, junto com a população, ele pode fazer mais e tirar a Argentina dessa situação se for reeleito.
 
"Estou aqui para ajudá-los, estou aqui porque amo este país e porque acredito em cada um dos senhores e no que, juntos, todos podemos fazer. É muito importante que todos sigamos dialogando neste país e tentando explicar ao mundo o que é que queremos. Isolados do mundo, nós não temos futuro", afirmou Macri.
 
Os resultados oficiais devem ser anunciados a partir desta terça-feira. Entre as dez chapas de pré-candidatos à presidência, assim como para os pré-candidatos às legislativas – em outubro será renovada metade da Câmara de Deputados e um terço do Senado –, apenas terão acesso às eleições gerais as que receberem pelo menos 1,5% dos votos nas chamadas Primárias Abertas, Simultâneas e Obrigatórias (PASO).
 
O objetivo das primárias na Argentina é que os eleitores escolham diretamente os candidatos a disputarem a eleição presidencial de 27 de outubro. Na prática, entretanto, nenhuma agremiação política apresentou mais de uma chapa de candidatos – todos os candidatos foram escolhidos pelos partidos.
 
Seguindo o resultado das primárias, em outubro a escolha dos argentinos deve ser mesmo entre a reeleição de Macri e o regresso da ex-presidente Cristina Kirchner, agora como vice de Fernández, ao poder­ – essa segunda possibilidade é motivo frequente de comentários críticos do presidente Jair Bolsonaro.
 
Deutsche Welle | MD/efe/lusa
 
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/08/argentina-oposicao-derrota-macri-nas.html

Eleições na Argentina: entenda como funcionam as primárias no país

Mauricio Macri e Cristina Fernández de Kirchner
© REUTERS / Marcos Brindicci

Argentinos decidem hoje (11) quem continua nas disputas eleitorais. Os partidos já possuem seus candidatos definidos, mas as primárias são obrigatórias. Sputnik analisa o quadro eleitoral no país.

Argentinos já começaram a decidir hoje quem continua na disputa eleitoral. A cada quatro anos os argentinos decidem durante as prévias quem deve competir nas eleições nacionais. Tal evento se dá no mês de agosto após ter sido aprovado por lei em 2009. Eleições se darão no dia 27 de outubro.

No entanto, as primárias servem mais para mostrar a intenção de voto dos argentinos do que selar o destino dos candidatos.

O que se decide na votação?

Enquanto o país vive momentos difíceis, dois candidatos polarizam a eleição. De um lado o atual presidente, Mauricio Macri, e do outro Alberto Fernández, tendo Cristina Fernández Kirchner, presidente entre 2003 e 2015, como sua vice-presidente.

Presidente argentino Mauricio Macri votando nas primárias em Buenos Aires em 17 de agosto de 2017
© AP Photo / Natacha Pisarenko
Presidente argentino Mauricio Macri votando nas primárias em Buenos Aires em 17 de agosto de 2017

A chapa de Alberto defende maior intervenção do Estado na economia, ao passo que Macri tem gerenciado sua política econômica com base em princípios liberais.

Fora da esfera presidencial, deputados e senadores terão seus nomes decididos nas primárias, sendo os senadores nacionais apenas votados na cidade de Buenos Aires, Chaco, Entre Ríos, Neuquén, Río Negro, Salta, Santiago del Estero e Tierra del Fuego.

Na cidade de Buenos Aires, serão eleitos o chefe do governo e legisladores locais. Já na província de Buenos Aires será votado o governador, deputados provinciais, prefeitos e vereadores. Já em Catamarca as eleições incluem o governador junto com deputados e senadores provinciais.

Durante o pleito, o mais importante é conseguir mais de 1,5% dos votos, caso contrário o candidato fica fora das eleições.

Quem deve votar?

Todos os cidadãos que tenham entre 17 e 70 anos deverão participar do sufrágio, podendo não votar caso estejam a mais de 500 km do seu local de votação, doentes ou impossibilitados, envolvidos no serviço eleitoral ou juízes que devam trabalhar no dia das eleições.

Apoiadora de Cristina Kirchner levanta bandeira do seu país com o nome de sua candidata em 25 de maio de 2019
© AP Photo / Gustavo Garello
Apoiadora de Cristina Kirchner levanta bandeira do seu país com o nome de sua candidata em 25 de maio de 2019

Também estarão desobrigados de votar os cidadãos argentinos no exterior. Todos os que tiverem entre 16 e 17 anos ou mais de 70 podem optar por não votar, se assim desejarem.

No total, a Argentina tem 32.064.323 eleitores aptos para votar. Os maiores colégios eleitorais são as províncias de Buenos Aires e Córdoba, tendo a primeira 11.867.979 eleitores e a segunda 2.783.122.

Como ganhar a eleição?

Pelas leis do país, o candidato a presidente vencedor deve somar pelos menos 45% dos votos ou ter 40% junto com uma diferença de 10 pontos do candidato em segundo lugar. Caso isso não ocorra, os candidatos vão para um segundo turno.

Principais candidatos

Atualmente, os governistas são encabeçados pelo presidente Mauricio Macri, acompanhado do senador Miguel Ángel Pichetto para vice-presidente, representando a aliança Juntos por el Cambio.

A aliança Frente de Todos, da oposição, é liderada por Alberto Fernández e sua vice – Cristina Fernández de Kirchner. Alberto Fernández foi chefe de gabinete (2003-2008) de Cristina Kirchner quando esta era ainda presidente.

O Consenso Federal 2030 é outra das alianças políticas a participar das eleições. Liderada por Roberto Lavagna, ex-ministro de Néstor Kirchner, ela surgiu em 2018 da fusão das alianças peronistas Consenso 2019 e a Alternativa Federal. Lavagna tem como vice Juan Manuel Urtubey, atual governador de Salta.

Na esquerda os argentinos têm a Frente de Izquierda Unidad, representada por Nicolás del Caño e sua vice Romina del Plá.

Ainda na corrida presidencial participa Manuela Castañeira (34), a pré-candidata mais jovem de todos os concorrentes e que representa o Nuevo MAS.

Tendo o maior número de eleitores, a província de Buenos Aires, contendo 37% do eleitorado, é o centro das atenções.

Disputam o poder ali a atual governadora María Eugenia Vidal, da Juntos por el Cambio, e Alex Kicillof, ex-ministro da economia de Cristina Kirchner, pela Frente de Todos.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019081114374222-eleicoes-na-argentina-entenda-como-funcionam-as-primarias-no-pais/

Argentina | O governo de Macri «trouxe a fome de volta»

Milhares de trabalhadores argentinos – mais de 100 mil, segundo os organizadores – participaram esta quarta-feira, em Buenos Aires, na 4.ª marcha por «Paz, Pão, Terra, Tecto e Trabalho».

De acordo com os organizadoresm, mais de 100 mil pessoas participaram na marcha desta quarta-feira entre o Bairro de Liniers e o Congresso, em Buenos AiresCréditosBernardino Avila / Página 12

O dia de São Caetano (7 de Agosto), patrono do trabalho, voltou a ser assinalado com uma grande mobilização na capital argentina em defesa do prolongamento da declaração de emergência social, da declaração de emergência alimentar, bem como de maiores apoios sociais, de apoios para a agricultura familiar e para as infra-estruturas nos bairros.

Promovida pela Confederação de Trabalhadores da Economia Popular (CTEP), a Bairros de Pé, a Corrente Classista e Combativa (CCC), a Frente Popular Darío Santillán, a edição deste ano da marcha ficou marcada pelo forte apoio sindical, pela proximidade das eleições (as primárias disputam-se este fim-de-semana) e pelo elevado nível de pobreza (35%, segundo dados do Observatório da Dívida Social da Universidade Católica Argentina).

«Este governo disse que vinha governar para todos os argentinos mas trouxe a fome de volta. Destruiu o emprego. Condenou metade dos nossos pibes [miúdos, jovens] a ser pobres», afirmaram representantes das organizações promotoras no encerramento, junto ao Congresso.

Além de denunciarem o modelo económico imposto pelo executivo de Mauricio Macri, que classificaram como «gerador de catástrofe social», os organismos solicitaram ao governo que for eleito em Outubro que assuma as reivindicações das organizações sociais, segundo informa a Página 12.

Esteban Castro, da CTEP – organização que esteve envolvida nesta marcha desde a sua primeira edição, em Agosto de 2016, com Macri no poder havia oito meses –, sublinhou que o «governo não pode andar mais para trás» e que as propostas em defesa das populações e dos bairros mais carenciados são claras, tendo sido já todas apresentadas ao Congresso.

«As propostas são claras. A questão é que não temos a capacidade mediática para as divulgar. Por isso, temos de aproveitar estes meses de debate político para apresentar a agenda das organizações sociais», disse.

Num comunicado, as organizações referidas exigiram ainda, entre outras coisas, a aplicação de um programa urgente de reforço nos refeitórios escolares e comunitários, e que as camadas populares tenham acesso a produtos alimentares básicos a preços mais em conta.

Também alertaram para a gravidade da situação que se vive nos bairros populares de Buenos Aires devido «à pressão de grupos criminosos de narcotráfico», que «impõem um regime de medo aos habitantes e um futuro de morte aos pibes». Neste sentido, solicitaram às autoridades «a declaração imediata de emergência relativa a dependências» e o «reforços de dispositivos» nesta área, indica o Resumen Latinoamericano.

«Mais quatro anos com eles não se aguentam»

Ao intervir, Juan Carlos Alderete, da Corrente Classista e Combativa, classificou o actual governo argentino como «infame», lembrando que enganou os trabalhadores no que respeita aos imposto, que «despediu milhares e encerrou empresas todos os dias». «Mais quatro anos com eles não se aguentam», declarou, citado pelo Página 12.

Outra militante da CCC, Ramona Cantero, do bairro de Berazategui, disse ao periódico que não consegue continuar a pagar a factura da luz e que lhe cortaram o serviço. «Nos refeitórios já não conseguimos pagar a garrafa de gás e passámos a cozinhar a lenha, com aquilo que encontramos», explicou.

Por seu lado, Beatriz Sosa, de Florencio Varela, na região Sul da Grande Buenos Aires, disse que esta é a sua primeira marcha de São Caetano, depois de ter perdido o emprego o ano passado. «Trabalhava na casa de uma família e deixaram de me poder pagar», relatou.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/o-governo-de-macri-trouxe-fome-de-volta

Argentina, cada vez mais colónia: tropas israelitas vigiarão as costas fronteiriças

 
Cada viragem à direita na América Latina (mas não apenas aí) é acompanhada de um forte acréscimo de dependência em relação aos EUA. Dependência económica, política, diplomática, militar de tal forma subalterna que toma contornos de dependência colonial. No caso da Argentina a presença militar dos EUA é acompanhada da presença de tropas sionistas. Uma aliança contra os povos que não se circunscreve ao Médio Oriente.
 
Com a desculpa de controlar o contrabando de drogas e mercadorias provenientes de território paraguaio, quatro canhoneiras israelitas Shalgag MKII e consultores desse país estão desde domingo em Posadas, Argentina, capital da província de Misiones que configura a chamada tripla fronteira com o Brasil e o Paraguai, e passarão a controlar quase mil quilômetros nas águas dos rios Paraguai e Paraná.

Como acrescenta o La Jornada, nestes últimos dois anos, desde Março de 2016, começaram a ser assinados acordos militares e de segurança entre o governo do presidente argentino Mauricio Macri e os Estados Unidos e Israel, bem como a efectuar-se a compra de equipamentos e armas e o estabelecimento de bases militares, tanto no extremo sul do país como nas zonas fronteiriças do noroeste e nordeste. O governo autorizou também a presença de tropas norte-americanas do Comando Sul, sem consulta prévia ao Congresso argentino.

 
De facto, em Misiones já se encontra também uma “força-tarefa” da agência anti-drogas dos EUA, acordo assinado em 2017 nos Estados Unidos pela ministra da Segurança Patricia Bullrich, que também comprou estas lanchas pagando um preço mais elevado do que teria custado em outros países.

Enquanto se inicia a construção de uma base militar financiada pelo Comando Sul na província de Neuquén, avançou-se desde 2017, segundo também este jornal, na instalação de pelo menos duas bases militares em Tierra del Fuego, a chamada ilha do fim do mundo, uma supostamente para monitorar explosões nucleares na cidade de Tolhuin e em Usuhaia o Centro de informações regional, acordo assinado entre Bullrich e a governadora de Tierra del Fuego em 31 de Outubro de 2017 ao qual chamam os alicerces de uma base dos EUA, e outra “logística” anunciada este ano pelo ministro da Defesa, Oscar Aguad.

Os lanchas artilhadas e o esquema de segurança fronteiriça terão o seu centro operacional em Posadas e agora estão no porto da Prefeitura Naval Argentina, conforme anunciado pelo jornal El Territorio da Provincia de Misiones. A jurisdição a cobrir é de mil quilômetros e vai de Clorinda (Formosa) a Puerto Iguazú. Percorrerão quatro províncias, incluindo Corrientes e Chaco, que fazem fronteira com o país de onde entra a maior quantidade de marijuana na Argentina. “No total, são quatro embarcações”, disse este jornal.

O esquema de militarização estrangeira na Argentina é o mais importante que é conhecido na história do país e foi realizado sob o governo de Macri sem qualquer autorização do Congresso.

* Fonte: La Jornada; http://www.resumenlatinoamericano.org/2019/07/14/argentina-cada- vez-mas-colonia-tropas-israelis-vigilaran-costas-fronterizas /

 
 

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/07/argentina-cada-vez-mais-colonia-tropas.html

Pobreza na Argentina aumenta e ronda os 35%

Um relatório preliminar da Universidade Católica Argentina (UCA) estima que, dos 40,5 milhões de habitantes no país austral, 14 milhões sejam pobres e quase 3 milhões vivam em condições de indigência.

Quase três milhões de argentinos vivem em situação de indigência ou pobreza extremaCréditos / Motor Económico

Na campanha eleitoral de 2015, o actual presidente da Argentina, Mauricio Macri, chegou a estabelecer como meta a «Pobreza Zero» para o seu país. Quase quatro anos volvidos, o eleito pela coligação Cambiemos está não só muito longe dessa «promessa» como é cada vez mais responsabilizado, pelos seus concidadãos, pelo actual cenário de ruptura social.

Num relatório preliminar, cujos dados foram revelados este domingo – os dados oficiais só deverão ser conhecidos em Setembro, após das eleições primárias de 11 de Agosto e antes das gerais de 27 de Outubro –, o Observatório da Dívida Social da UCA regista um aumento da pobreza no país, estimando que 35% da população se encontre «em condições de vulnerabilidade».

Em declarações à imprensa argentina, Eduardo Donza, investigador do Observatório, disse existirem «várias razões» para este aumento. «Durante os primeiros meses do ano, o aumento dos preços dos alimentos foi maior que a média geral», afirmou, sublinhando que «ainda não há uma recuperação».

Nas ruas de Buenos Aires, vêem-se todos os dias centenas pessoas – por vezes, famílias inteiras – com colchões estendidos nos passeios, ao relento.

De acordo com o investigador, a subida da inflação associada à enorme desvalorização da moeda nacional teve impacto nos preços dos bens essenciais e levou ao aumento da pobreza. «Os preços sobem pelo elevador e os salários pela escada», disse, acrescentando que, «quando há desvalorizações [monetárias], que são muitas vezes bruscas, há subidas de preços muito grandes e um mercado de trabalho que está cada vez mais "precarizado"», lê-se no portal infobae.com.

Em Março, o Instituto Nacional de Estatística revelou que, no final de 2018, 32% da população argentina vivia em situação de pobreza e que mais de 2,7 milhões viviam em situação de indigência ou pobreza extrema.

A recessão económica e o peso altamente desvalorizado, o acordo celebrado entre o governo de Macri e o Fundo Monetário Internacional – com os habituais «pedidos» de redução na despesa pública e de aprofundamento das políticas de austeridade –, os aumentos de preços nos serviços básicos, as subidas constantes dos preços da alimentação, os despedimentos, os encerramentos de inúmeras empresas, o elevado desemprego estão entre os factores que contribuíram para que a Argentina atinja, este ano, o número recorde de pessoas em situação de pobreza.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/pobreza-na-argentina-aumenta-e-ronda-os-35

Bolsonaro diz que a eleição de Cristina Kirchner tornaria a Argentina uma nova Venezuela

Presidente Jair Bolsonaro recebe o presidente argentino, Mauricio Macri no Palácio do Planalto
© Foto : José Cruz/Agência Brasil

O presidente brasileiro Jair Bolsonaro alertou nesta sexta-feira sobre o perigo que a ex-presidente argentina Cristina Kirchner representa se vencer as eleições de outubro.

Sem mencioná-la pelo nome, Bolsonaro abriu um discurso diante de novos diplomatas, dizendo que a preocupação agora deve ser a Argentina e que ninguém quer que ela se torne uma nova Venezuela.

Na noite de quinta-feira, em transmissão de vídeo, Bolsonaro afirmou que a ex-presidente da Argentina está ligada aos ex-mandatários brasileiros Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, além do venezuelano Nicolás Maduro.

"Se isso acontecer, certamente a Argentina entrará em uma situação semelhante à da Venezuela", avaliou Bolsonaro na quinta-feira.


É a segunda vez que o presidente brasileiro tece comentários sobre processos eleitorais de outros países. Na sua visita aos EUA no mês passado, Bolsonaro arriscou o palpite de que o presidente estadunidense Donald Trump conseguirá se reeleger.

Para analistas, tais comentários podem causar problemas ao Brasil, pois dificultam o diálogo bilateral, caso as urnas apresentem um resultado contrário ao que gostaria Bolsonaro – na Argentina, uma vitória de Kirchner, nos EUA uma eleição vitoriosa democrata em 2020.

Grande parceiro sul-americano do Brasil, a Argentina enfrenta uma série crise econômica, o que coloca em xeque o governo do presidente Mauricio Macri. Ele esteve no Brasil neste ano, mas Bolsonaro quebrou uma tradição histórica, preterindo Buenos Aires como sua primeira parada internacional, preferindo visitar os EUA, Israel e o Chile.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019050313803720-bolsonaro-kirchner-argentina/

Cristina Kirchner lança livro contra farsa jurídica

Ex-presidenta da Argentina também sofre perseguição política por parte do Judiciário.

Chegou às livrarias nesta quinta-feira (25) “Sinceramente”, o livro de Cristina Kirchner. A obra foi uma surpresa e um golpe no cenário político — a ex-presidenta está à frente do neoliberal Mauricio Macri na corrida pela reeleição, segundo pesquisas de intenção de votos.

Mesmo em um cenário de segundo turno, Cristina está à frente de Macri. “Hoje, quando o país está em completo declínio político, econômico, social e cultural, espero que lendo essas páginas possamos pensar e discutir sem ódio, sem mentiras e sem queixas”, diz ela no livro.

A ex-presidenta de 66 anos enfrenta, como o ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, uma feroz perseguição política por parte do Judiciário. Ela enfrentará seu primeiro julgamento em 21 de maio por “corrupção” e está em Cuba acompanhando sua filha Florencia, sob tratamento médico por obstrução linfática. 

Ambas são perseguidas politicamente por setores da Justiça, bem como seu outro filho, Máximo, um deputado. “Eles fizeram e continuam a fazer todo o possível para me destruir. Eles acreditavam que acabariam me derrubando. É claro que eles não me conhecem”, afirma no livro. Cristina Kirchner atualmente senadora. 

“Sinceramente”, o livro de Cristina Kirchner

Alguns trechos da obra:

Deixar o poder:

houve uma decisão minha de me retirar, porque sentia que tudo havia sido muito vertiginoso, talvez intenso demais. Todos necessitávamos descansar: eu dos argentinos e os argentinos de mim. Porque, governar este país, mãe do céu…”.

 

Macri:

se alguém me pedisse para definir a Mauricio Macri em uma só palavra, a única que vem à minha mente é `caos´. Sim, Macri é o caos, e por isso creio fortemente que é preciso voltar a ordenar a Argentina”.

 

O fracasso do PRO (partido macrista):

Macri poderia ter sido um capitalista bem sucedido, disciplinar o setor agroexportador com taxas escalonadas e diferenciadas, mas preferiu ser o capataz do sistema financeiro”.

 

Daniel Scioli (ex-candidato presidencial apoiado por sua coalizão em 2015):

quando estávamos prestes a fechar as listas eleitorais, ele foi à residência presidencial de Olivos para me visitar (e pedir que eu fosse candidata ao parlamento). Estivemos a sós, e eu lhe disse `não, Daniel. Eles vão nos atacar dizendo que quero foro privilegiado, ou pior ainda, que serei sua tutora política na Câmara dos Deputados´. Hoje, com o tempo, posso refletir sobre isso enquanto escrevo, e ao ver os números daquela eleição em primeiro e segundo turno, me pergunto: se eu fosse candidata, isso teria ajudado a cobrir a pequena diferença de votos que tivemos no segundo turno?”.

 

Presságio:

Néstor me disse que `vão perseguir você e os seus filhos´. Não precisou ser eloquente. Estava sério, e quando perguntei porque havia dito aquilo, logo mudou de assunto. Essa conversa aconteceu um dia, em El Calafate. Não recordo se foi durante a última semana que estivemos juntos”.

 

O amor:

amor é ter vontade de estar com o outro. Para escutá-lo, para falar, para o que seja. Eu adorava estar com ele, e ele comigo. Sempre me dizia: `a única coisa da qual não me canso nunca é de você´”.

 

Férias em Cariló:

Néstor, com seus jornais empilhados (Clarín, La Nación, Página/12, Crónica, Ámbito Financiero, La Prensa, El Día de La Plata, e todas as revistas que encontrava), ia até uma confeitaria e esperava eu voltar de fazer as minhas compras, tomando um café. Claro que eu me produzia como se fosse a uma festa: chapéu, lentes de sol, maquiagem, etc, etc. Ele ia de camiseta, tênis, meias, sunga e um boné com a aba para trás. Um dia desses, estava sentado na mesa com a pilha de diários e revistas e se aproximou uma senhora pedindo: `me passa o La Nación, por favor?´. Eu vinha entrando naquele exato momento, e Néstor responde: `não, senhora, não posso, são da patroazinha que vem aí´”.

 

(Ex-presidente Eduardo) Duhalde:

tivemos uma forte discussão vinculada à aliança eleitoral com Duhalde, para enfrentar Carlos Menem nas eleições presidenciais de 2003. Eu não queria; insistia em que era um erro do qual depois não poderíamos nos desfazer. Contudo, Néstor estava convencido de que era uma aliança necessária. Trabalhava em todas as frentes para me convencer, até mesmo na esfera familiar. Muitos anos depois Máximo me contou que um dia, em Río Gallegos, seu pai o convidou a dar uma volta: `me acompanha a ver algumas obras?´, pediu, e quando entraram no carro, com Néstor al volante, perguntou: `você acha que os milicos devem ser presos por tudo o que fizeram?´. Máximo disse que sim, que era óbvio, e então fez outra pergunta: `você acha que este país precisa acabar com a dívida externa crônica e ter outra política econômica, que gere mais trabalho?´. Máximo voltou a responder que sim, claro que sim, e então Néstor disse: `bom, então me ajude a convencer a sua velha, porque temos que fechar com o Duhalde. Se não, não ganhamos´”.

 

Patrimônio:

nunca chegaram pobres a nenhum cargo na função pública. E menos à Presidência da nação”.

 

Obras públicas:

não posso deixar de observar que as duas principais obras da província (patagônica de Santa Cruz), o aeroporto internacional de El Calafate e o porto de águas profundas de Caleta Olivia, foram realizadas por duas importantes empresas construtoras com bastante atuação na República Argentina. Benito Roggio e Filhos começou como empresa construtora no ano de 1908, e a ESUCO, de Carlos Wagner (ex-presidente da Câmara da Construção), em 1948. Por isso, me parece indignante e ofensivo à inteligência essa linha levantada pelo que se conhece (na Argentina) como o `Caso das Fotocópias dos Cadernos´, de que os donos dessas empreiteiras, uma com mais de 110 anos e outra com 70 anos, dizem `entre muitas outras coisas´, que somente a partir de 2004 houve cartelização, exatamente quando chega o ministro do Planejamento Julio de Vido, que teria praticamente ensinado esses empresários, como se fossem crianças do jardim infantil, a agir de forma mafiosa. É uma versão ridícula”.

 

Pinguim ou pinguina:

me lembro de que em 2007, ele (Néstor) me disse: `posso sair novamente (como candidato presidencial) e depois você´. `Nem louca´, respondi. Porque se eu era candidata depois de dois mandatos consecutivos de Néstor, certamente diriam que `ele coloca a mulher porque não pode ser reeleito´”.

 

A CGT (Confederação Geral dos Trabalhadores da Argentina):

quando recordo as cinco greves gerais que fizeram durante o meu último mandato não posso deixar de pensar que também houve um forte componente de gênero. Digamos com todas as letras: a CGT é uma confederação onde não há mulheres na liderança”.

 

Néstor e Bergoglio:

no primeiro almoço, lembro que conversamos sobre Néstor, e eu perguntei: `sabe o que eu acho que ocorreu entre vocês, Jorge?´ (porque quando conversamos, eu o chamo de Jorge, e não de Sua Santidade, e ele obviamente me chama de Cristina). `No fundo, creio que a Argentina era um país pequeno demais para vocês dois juntos´”.

 

O Papa Francisco e o Bairro Norte:

naqueles dias, muitos habitantes do Bairro Norte e de Recoleta, os mais ricos da cidade de Buenos Aires, penduraram em suas varandas bandeiras do Vaticano, amarelas e brancas, para festejar a escolha de Bergoglio. Tenho certeza que, no primeiro momento, acreditavam ter encontrado um novo líder para lutar contra `a égua´. Quando foi difundida minha felicitação e minha decisão de viajar a Roma, os festejos da oposição acabaram. Foi incrível: lentamente, foram desaparecendo as bandeiras, e estava claro que, apesar de que houve tensões, eles nunca entenderam nem a mim nem ao Néstor, e talvez menos ainda a Bergoglio. Guardavam a secreta esperança de que Francisco – o nome que ele escolheu para seu papado e que fazia alusão ao nome de San Francisco de Assis, o santo dos pobres – fosse um tenaz opositor ao nosso governo”.

 

Memorando com o Irã:

a ilusão de assinar o memorando e imaginar a fotografia do juiz argentino responsável pela causa (do atentando contra a AMIA) podendo ir a Teerã para tomar a declaração dos acusados iranianos, foi uma verdadeira ingenuidade da nossa parte, que nos fez ignorar os interesses geopolíticos em pugna, e hoje posso confirmar isso”.

 

Grupo Clarín:

recordo o dia que, após terminar a sobremesa, nós caminhávamos na direção da saída do restaurante, e Magnetto (Héctor, presidente do grupo econômico e comunicacional) se aproximou e disse: `(vocês) não podem fazer as reformas, a gente não concorda, as ruas não concordam, há muita crítica e opinião negativa´. Então, eu respondi: `ah, Héctor (naquele então, não o chamava de Magnetto, o chamava de Héctor), as ruas? Você está falando sério? Você acredita que a rua sabe o que estamos discutindo no Senado? A rua nem sabe o que é o Conselho da Magistratura. São só vocês que estão contra, não as ruas. Olha, podem continuar publicando vinte mil editoriais e artigos contra mim que vou continuar opinando o mesmo, e votando igual´”.

 

Héctor Magnetto (dono do Grupo Clarín):

Ele tem um forte interesse pela política, e não se trata somente de um tema de lobby, para defender ou promover seus interesses econômicos. Isso seria minimizá-lo. Seu apreço é pelo poder que emana da política, o poder do sistema de decisões, ou seja, o poder no sentido específico e completo”.


Texto original em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/cristina-kirchner-lanca-livro-contra-farsa-juridica/

Argentina | Ainda bem que há eleições…

Divertida reviravolta: diante da crise, governo Macri – que prometeu a ortodoxia neoliberal – congela preços e oferece subsídios. A oligarquia financeira redescobre a política, para conservar o poder e tentar impedir a volta da esquerda…

Felipe Calabrez | Outras Palavras

A crise que devasta a economia argentina passava relativamente despercebida pela velha mídia, que, como sabemos, costuma mensurar a gravidade dos dramas dos países vizinhos em função da orientação ideológica de seus governos. O galopante declínio das condições de vida dos argentinos e o aumento acelerado e concomitante nos preços e nos níveis de pobreza não ocupavam destaque nos grandes jornais.

Eis que ontem (17/04), o anúncio de um pacote de medidas do presidente Maurício Macri causou sobressalto. Diante da escalada de preços, o governo anunciou um amplo pacote que inclui acordo entre governo e empresas para manter estáveis os preços de itens da cesta básica, descontos em medicamentos para beneficiários de programas sociais e subsídios estatais a tarifas de energia.


A rigor, trata-se do avesso do ideário neoliberal, aquele que a eleição de Macri representava e que animou os “mercados” e a mídia, e que conta com a chancela do FMI.
“Populista!” e “eleitoreiro!”, já bradaram os analistas de mercado. Aqui vale pontuar algumas questões.

Apesar da deterioração dos níveis de atividade econômica, a inflação ganha força na Argentina. Segundo o Instituto Nacional de Estatística e Censos, o índice acumulado dos últimos 12 meses supera os 54%. Dentre os itens mais afetados estão alimentação e transporte. Os fatores que explicam a escalada generalizada de preços incluem a acelerada desvalorização do peso e o desrepresamento de preços administrados. Soma-se a esses fatores o elemento “inercial”, tão conhecido dos brasileiros, e que consiste no reajuste de preços futuros baseado na inflação passada. Trata-se aqui de expectativas.

Para reverter o primeiro elemento causador da inflação – a desvalorização do peso – o governo Macri tem queimado suas reservas internacionais. O objetivo é irrigar a economia com dólares para reverter sua valorização em relação ao peso. Uma parte desse dinheiro provém do empréstimo contraído com o FMI ano passado. Soma-se a isso, como não poderia faltar no receituário neoliberal, taxas de juros estratosféricas, que superam a casa dos 60% ao ano e que garantem uma situação confortável aos bancos.

Em relação aos preços-chave da economia, que foram repetidamente reajustados, o governo mostrou, em seu recente pacote, uma brutal reversão de estratégia, anunciando que não haverá mais reajuste de eletricidade, gás e energia elétrica até o fim do ano. “Não haverá novos aumentos. Os dois aumentos anunciados [para eletricidade residencial] para o resto de 2019 serão absorvidos pelo Estado Nacional”, afirma o documento governamental.

A política anunciada por Macri diante da caótica situação em que o país se encontra adiará novamente o chamado “ajuste fiscal”. De acordo com o ministro da Economia, Nicolás Dujovne, serão gastos cerca de 9 bilhões de pesos (cerca de US$ 215 milhões), inviabilizando a zeragem do déficit primário. Vale lembrar que a zeragem do déficit consta como condicionalidade do FMI diante do empréstimo ao governo.

É compreensível a estupefação que acomete os analistas de mercado. Subsídios públicos e represamento de preços são o que mais foi condenado das políticas dos governos Kirchner: a “origem de todos os males”; o que deve ser extirpado da política, dando lugar à “racionalidade econômica”. O que a realidade dos países latino-americanos parece demonstrar, no entanto, é que doses muito altas de “racionalidade econômica” podem produzir sérios problemas sociais e políticos.

E aqui o economista crente nas virtudes auto-ajustáveis do mercado poderia argumentar que tudo se deve às políticas supostamente erráticas dos governos anteriores, “populistas” (de esquerda) que foram. Pouco importa. O mundo real é complexo demais para ser submetido a experimentos puros, em laboratório, isento da ação de variáveis intervenientes. Em outras palavras, sua “ciência econômica” sempre carece da prova cabal. Quando a realidade se impõe, o governo neoliberal aciona os mecanismo de Estado que permitem manejar certos preços da economia, fazendo “política” – aquela ferramenta que produz a interessante simbiose entre satisfazer as necessidades mais imediatas da população com o olho nas próximas eleições.

Nesse aspecto, os analistas do mercado parecem ter razão. Macri está de olho nas próximas eleições. E aqui chegamos ao nó da questão: Até que ponto conseguirá contar com a condescendência do FMI para práticas “populistas”? Macri parece estar em uma sinuca de bico, de certa forma semelhante àquela em que se encontra Jair Bolsonaro: Como conciliar as exigências do “mercado” e das pessoas para determinar os preços-chave da economia?

No caso de Macri algo parece jogar a seu favor: o pavor que as elites financeiras têm do kirchnerismo. “Melhor que vocês o façam, senão eles o farão”.

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OUTROS QUINHENTOS

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/04/argentina-ainda-bem-que-ha-eleicoes.html

Crise na Argentina: a fome já atinge a classe média

A assistência aos bandejões comunitários da cidade cresceu entre 40% e 50% no último ano. Até as famílias de classe média frequentam esses locais. Mas o governo portenho destina cada vez menos fundos ao programa que busca diminuir a desigualdade
Os bandejões comunitários de Buenos Aires vêm contando com uma presença cada dia maior de pessoas nos últimos anos, o que inclui muitas famílias de classe média que precisam de uma alternativa mais barata para sua alimentação. Esses centros que oferecem refeições a preços muito baratos, dedicado a pessoas de poucos recursos, tiveram um aumento entre 40% e 50 nos últimos 12 meses, o que significa que são cada mais as famílias que os frequentam, por ser a melhor forma de se alimentar sem ter que gastar tanto dinheiro, incluindo pessoas que podem ser consideradas de classe média, mas que já não possuem renda suficiente para manter o padrão de vida de outros tempos. Essa realidade evidencia como a situação social na cidade de Buenos Aires tem piorado cada vez mais. A indigência se duplicou nos últimos três anos (período em que Mauricio Macriestá no poder) e a pobreza cresceu em 20%. Assim, pode-se dizer que um de cada cinco habitantes da capital argentina é pobre, dado vergonhoso para a cidade mais rica de um dos países mais ricos da América Latina.


O prefeito da cidade, Horacio Rodríguez Larreta (macrista), destina cada vez menos orçamento ao programa Cidadania Portenha, cujo objetivo é diminuir a desigualdade através de subsídios orientados a garantir o acesso a produtos de primeira necessidade, o cuidado da saúde e a continuidade educativa. Segundo um informe realizado pelo Centro de Estudos Metropolitanos (CEM), “o programa vem perdendo muitos recursos nos últimos quatro anos”, e destaca a quantidade de lares ajudados por outras políticas relacionadas a ele, o que também vem diminuindo, seja por redução orçamentária ou por não execução das verbas destinadas. “A análise do orçamento do programa Cidadania Portenha tem como objetivo determinar o investimento realizado pela cidade para os setores mais vulneráveis. O que observamos claramente é que a cidade mais rica do nosso país tomou a decisão de esvaziar programas sociais e de assistência a esses setores, justamente quando o país vive um aumento da indigência”, declarou Nicolás Trotta, reitor da Universidade Metropolitana para a Educação e o Trabalho (UMET), em entrevista ao diário Página/12. A UMET é uma das casas de estudo que integra o CEM. O benefício outorgado pelo programa consiste em um subsídio mensal, através da entrega de um cartão de compra pré-pago, emitido pelo Banco Ciudad de Buenos Aires para ser utilizado somente na Rede de Comércios ligados ao programa, exclusivamente para a compra de alimentos, produtos de limpeza e higiene, combustível para cozinha e artigos escolares. As cifras são contundentes. Segundo dados do Departamento Geral de Estatísticas e Censos da cidade, no terceiro trimestre de 2018 havia 639 mil pobres na cidade, dos quais 198 mil estavam em situação de indigência. Apesar do aumento da pobreza e da indigência na cidade, as verbas para as políticas sociais que permitem conter e dar resposta à crise definharam, segundo o informe do CEM: “entre 2015 e 2019, as metas orçamentárias do programa Cidadania Portenha se mantiveram em valores suficientes para cobrir até 96 mil lares em situação de pobreza, embora os lares vulneráveis tenha passado de 123 mil a 191 mil (55% mais) no mesmo período”. “O que se observa é que o nível de recursos investidos é marcadamente inferior ao próprio crescimento do orçamento do governo portenho. Se analisamos o período entre 2015 e 2019, o crescimento nesse aspecto foi de 276%, tendo em conta esses anos de forte inflação e também de aumento da capacidade arrecadatória do Município. Mas quando observamos os recursos destinados ao programa, vemos que foi de 150%. Isso está claramente abaixo da inflação – que na cidade de Buenos Aires se calcula em 185% durante o período de Mauricio Macri na Casa Rosada – e do crescimento do orçamento como um todo”, detalhou Trotta. “Isso demonstra a falta de acompanhamento do governo portenho aos setores que mais sofrem o impacto das políticas macroeconômicas nacionais”, analisou o acadêmico. Trotta aponta que há dois fatores primordiais que explicam o aumento da pobreza e da indigência não só na capital, mas em todo o país: a enorme perda do poder de compra dos salários (só em 2018 foi de 11%) e a destruição dos postos de trabalho. Nesse sentido, o advogado e docente universitário insiste no impacto da crise sobre a classe média. “Os setores médios estão sofrendo uma crise profunda, em parte por esta queda da capacidade de compra do salário, que é acompanhada por um aumento irracional das tarifas dos serviços públicos, porque há certos gastos que não podem ser evitados (como água, luz e gás) e que tiveram aumentos de 2000% em média. Se além disso contamos também o aumento da média dos aluguéis, acaba impactando fortemente as famílias de setores médios, que se viram empobrecidas neste período”, sustentou. Nessa mesma linha, a deputada Claudia Neira, da Assembleia portenha, assegura que a assistência aos bandejões da cidade aumentaram “principalmente porque as famílias de classe média passaram a precisar deles, especialmente no fim do mês, quando é preciso ajustar os recursos que restam até o próximo pagamento, embora também há os que vêm regularmente durante o mês”, relata. “Os bandejões comunitários estão realmente lotados, atendendo mais gente do que o esperado. Temos um caso, no bairro Mugica, onde havia mais ou menos 500 por dia até o primeiro semestre do ano passado, e agora são mais de mil diariamente, e as rações enviadas pelo Ministério de Desenvolvimento Social não cobrem nem um terço desse aumento de necessitados”, denunciou Neira, em diálogo com o Página/12. “Há uma situação de desamparo que é sentida por boa parte dos portenhos. A fome reapareceu como um fator determinante. E isso não significa pensar que antes não havia pobreza, mas há muitos anos não se via uma fome como se vê hoje na Argentina, e particularmente na cidade de Buenos Aires. Tampouco se via uma classe média trabalhadora sofrendo a situação de desespero que vemos agora”, analisou. Ademais, existe um brutal impacto de gênero da crise social e econômica. “As mulheres são as mais golpeadas pela crise, e ao mesmo tempo são as que mais atuam para conter a fome na Argentina”, comenta a deputada, e completa: “são elas que devem buscar novos recursos, as que vão aos bandejões pedir comida e as que passam horas pesquisando preços para que todos possam comer com o pouco que podem comprar; além de serem também as que se expõem, sobretudo nos bairros mais vulneráveis, resolvem as necessidades do bairro e trabalham grátis nos bandejões, cozinhando horas e horas para milhares de garotas e garotos”.
Classe média arrependida de votar em Macri Tomando como base o resultado eleitoral das Legislativas de 2017, o presidente Mauricio Macri já perdeu um terço dos votos que sua coalizão conseguiu a nível nacional naquele então. Em números concretos, há dois anos atrás a coligação Cambiemos (“mudemos”) obteve cerca de 42% naquelas Legislativas, e hoje, sua intenção de voto está abaixo de 30%, segundo as estimativas publicadas nas últimas semanas e reunidas em levantamento do diário Tiempo Argentino. Essa drenagem do potencial eleitoral se dá, sobretudo nos setores de classe média, que foi a base social que sustentou o projeto de poder do macrismo. Quais são os motivos deste distanciamento? A qual opção política essas pessoas estão migrando? “Macri tem um eleitorado fiel de uns 24%, que é mais ou menos o que ele conseguiu nas primárias de 2015. É a proporção histórica da direita argentina”, comentou o sociólogo Carlos De Aneglis, coordenador do Observatório de Opinião Pública da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires (UBA). “Há um setor que, em outra época votou em Ricardo López Murphy, ou em Álvaro Alsogaray (referentes de centro-direita). Macri sempre teve o cuidado de conservar um eleitorado diversificado, mas agora não está tendo sucesso nesse sentido”, agrega. Numa análise rápida, a primeira impressão seria que o presidente perde este apoio pela crise econômica, pelos aumentos intermináveis das tarifas de serviços básicos (água, luz, gás, combustíveis) e a queda da qualidade de vida de quase todos os que vivem de rendas fixas. Sem negar estes elementos, De Aneglis acrescenta mais alguns: “este voto mais diversificado, de classe média e classe média baixa, é o que está mais decepcionado. Primeiro, porque no começo não viu o chefe de Estado decidido a respeito do programa econômico, e logo porque quando se mostrou decidido começou a afogá-los com os ajustes e aumentos. Então, essas pessoas tiveram que passar os filhos da escola privada à pública, venderam o carro, não viajaram nas férias, entre outras coisas”. O sociólogo explica que “Macri é visto hoje como uma figura mais distante, e esse é um aspecto contraditório da sociedade, porque é como se esperassem uma liderança mais forte, embora isso era justamente o que os incomodava em Cristina Kirchnerem 2015. O fato de Macri tomar 40 dias de férias causou uma forte indignação nessa classe média que agora vivem em problemas. São muitos fatores que foram se somando”. O consultor comparou a atual situação do macrismo com o problema que o kirchnerismo enfrenta, a respeito das causas judiciais contra Cristina e outras figuras do seu governo – o que certamente dificulta a relação destes com o eleitorado de classe média. “Uma das coisas que mais afetou o kirchnerismo e sua imagem perante a classe média foi quando começou a negar problemas que as pessoas sentiam em sua vida cotidiana, como a inflação e o aumento da insegurança. E Macri está cometendo o mesmo erro agora, negando os problemas”. Sobre a tradução eleitoral desse processo, De Angelis sustenta que esses votos fugitivos de classe média estavam buscando uma opção “até que surgiu a possibilidade de uma candidatura de Roberto Lavagna (ex-ministro de Néstor Kirchner, e economista de perfil neoliberal moderado). Cerca de 60% dos votos perdidos foram captados por ele, e a maioria dos demais está indeciso agora”. Colocando em números mais claros: isso significa que do percentual entre 12% e 14% que o economista mostra nas pesquisas, cerca de 7% vem dos arrependidos com o macrismo. Já o consultor político Ricardo Rouvier considera que o motivo central da queda no apoio ao presidente é econômico, embora se complemente com um efeito político. “Os problemas da economia comprovam uma falta de governabilidade. A sociedade sente que o governo é fraco em seu enfrentamento aos fatores econômicos. As pessoas querem sentir que o presidente conduz, mas a atual gestão mostra uma grande fragilidade. Começou seu mandato forte, muita gente pensou que podia ser um processo transformador. Entretanto, está terminando em grandes problemas. Não foi capaz de controlar o dólar nem a inflação, e dá uma imagem de incapacidade política, e de não ter autoridade para governar”. Rouvier destaca também destaca que isso “tem um efeito muito negativo no voto a favor do macrismo, especialmente aquela pessoa que não o apoiou por convicção, mas sim por querer provar uma alternativa ao kirchnerismo”. A incógnita que fica no ar é se essa drenagem já se esgotou ou se a crise econômica argentina, que ainda está vigente, fará com que essa goteira seja cada vez mais forte. *Com informações em textos de Gisela Marziotta, do Página/12, e de Damián Verduga, do Tiempo Argentino
Carta Maior* | Foto: Joaquín Salguero
Este texto faz parte do especial "Argentina em Crise"

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/04/crise-na-argentina-fome-ja-atinge.html

NÃO ESPIES POR MIM, ARGENTINA

image
WAYNE MADSEN | 20.03.2019 https://www.strategic-culture.org/news/2019/03/20/dont-spy-for-me-argentina.html

Quando um presidente dos EUA incompetente contrata como seu enviado «especial» para mudança de regime na Venezuela o mesmo bufão que nas suas trapalhadas ajudou a que o escândalo Irão-Contras rebentasse, pode-se esperar tudo. Abrams, ao ajudar a canalizar por engano fundos que solicitara ao Sultão de Brunei, que, em vez disso, acabaram por ir parar à conta suíça de um rico armador, chamou a atenção e despoletou a investigação sobre o esquema de cobertura Irão-Contras pelas autoridades bancárias suíças.

A descoberta recente, pelo juíz argentino Alejo Ramos Padilla de que a administração de Trump cooptara o regime direitista argentino do presidente Mauricio Macri para atingir a companhia petrolífera estatal da Venezuela e o regime de esquerda do Uruguai, numa enorme operação de extorsão, exibe todos os sinais do enviado imbecil de Trump para a Venezuela, Elliott Abrams. Quando era Secretário de Estado Adjunto para os assuntos do Hemisfério Ocidental, durante a administração de Ronald Reagan, Abrams, foi indiciado pelo seu papel num comércio ilegal de armas para o Irão em troca dos reféns americanos mantidos pelas milícias xiitas pró-iranianas no Líbano. Agora foi repescado da reforma pelo seu colega neo-conservador John Bolton para levar a cabo o derrube do governo do presidente Nicolas Maduro na Venezuela. Durante o episódio Irão-Contras, o nefasto Abrams, que se auto-denomina perito sobre a América Latina, ajudou a usar os fundos obtidos da venda ilegal de armas ao Irão para comprar, no mercado negro, armas para os Contras da Nicarágua. Ele levou a cabo a operação com a assistência do cartel de droga de Madellin na Colômbia e com o líder panamiano Manuel Noriega. Abrams teria provavelmente cumprido uma longa sentença de prisão pelos seus crimes, caso o presidente George H. W. Bush não o tivesse perdoado, assim como a outros condenados pelo caso Irão-Contras, na véspera de Natal de 1992. As impressões digitais de Abrams, de Bolton, do secretário de Estado Mike Pompeo e do Senador membro do Comité para as Relações com o Hemisfério Ocidental, Marco Rubio estão por todo lado neste escândalo de extorsão, que agora abala a Argentina.

O juiz Padilla está direccionando o processo contra o regime de Macri, que envolve milhões de dólares, que têm sido extorquidos por aliados de Macri contra alvos de oposição política, assim como coerção de falso testemunho contra esses alvos. Padilla disse ao Comité de Liberdade de Expressão da Câmara dos Deputados Argentina que aquilo que ele descobriu foi «uma rede para-estatal de espionagem de grande magnitude, ideológica, política e judicial», acrescentando que se tratava de “uma teia de operações de espionagem ilegais envolvendo forças judiciais, do governo, da segurança, dos poderes políticos e dos media”. Macri esteve associado como sócio do negócio do imobiliário com a Organização Trump, para construir na baixa de Buenos Aires uma Torre Trump. Embora o projecto não tenha vingado, as relações de negócio entre Macri e o seu pai, o italo-argentino milionário Francesco Macri, com a Organização Trump estendem-se, no passado, aos dias em que o pai de Donald Trump, Fred Trump, dirigia a empresa e são famosas. Elas incluíram colaborações para construção de imobiliário em Manhattan e em Buenos Aires. Companhias de fachada, off-shore da empresa Trump Organization e da empresa da família de Macri, o conglomerado Socma, estão presentes em documentos da agora defunta firma de advogados da cidade de Panamá, Mossacka-Fonseca.

O juíz Padilla foi recentemente convidado a testemunhar sobre o escândalo de extorsão pelo presidente do Comité para a Liberdade de Expressão, Leopoldo Moreau. O convite surge depois do presidente do Comité de Contra-Espionagem, o senador Juan Carlos Marino, um fiel adepto de Macri ter recusado convidar Padilla a testemunhar em frente do Comité a que preside. Moreau classificou o escândolo de extorsão «o mais grave escândalo institucional desde que a democracia regressou à Argentina [em 1983],” acrescentando que é “uma máfia dedicando-se a entalar os oponentes, forçando a testemunhos falsos e espionagem.” Padilla nomeou como executantes da operação de extorsão, o Delegado Público Federal Carlos Stornelli, o seu próximo associado, Marcelo d’Alessio, assim como os serviços secretos argentinos “Agencia Federal de Inteligencia”(AFI), o chefe da AFI Gustavo Arribas, duas mulheres-congressistas de direita — Elisa Carrió e Paula Olivetto da Coalição Cívica pró-Macri — e o diário de direita, “Clarín”. D’Alessio foi preso a 15 de Fevereiro deste ano. Nas 22 horas de gravações audio e video incriminadoras de d’Alessio, este ter recoltado $12 milhões em subornos dos indivíduos que tinham sido ilegalmente sujeitos a chantagem, desde Agosto de 2018. Stornelli, pensa-se ter conduzido a operação de extorsão com conhecimento e encorajamento da Ministra da Segurança Patricia Bullrich. Stornelli recusou compareccer diante do juíz Padilla ou entregar os seus telemóveis segundo um ordem judicial. O que seria o presumido «colector» na operação, Salta Mayor Gustavo Sáen, um próximo aliado de Macri, forneceu os seus telemóveis pessoais a Padilla. Padilla, que tem estado sob intensa crítica dos media pró-Macri, tem sido descrito por alguns como o equivalente na Argentina de Robert Mueller, o Conselheiro Especial dos EUA investigando Trump. Padilla revelou como d’Alessio trabalhou para a CIA e que tinha na sua posse documentos da embaixada dos EUA em Buenos Aires, manuais da CIA sobre agentes encobertos da Argentina e da Venezuela, e armas licenciadas nos EUA. Os textos de mensagens usando WhatsApp, extraídas do smart-phone de d’Alessio, tinham a ver com assuntos como espionagem contro o Uruguai, a chantagem para fazer falso testemunho contra o governo de Maduro de Venezuela por um advogado da “Petróleos de Venezuela, S.A.” (PdVSA), a companhia estatal venezuelana de petróleos – cujos activos foram tomados pela administração Trump – e de ter enviado relatórios, via mala diplomática, a um centro de espionagem dos EUA situado no Estado do Maine, que está situado no «US Navy’s Very-Low Frequency Navy Communications Station» na cidade de Cutler. Padilla disse que na busca a casa de d’Alessio’s na cidade de Esteban Echeverría, “Encontrámos documentos, ficheiros de serviços secretos, blocos de apontamentos com dados detalhados sobre filhos, esposas, parentes daqueles que estavam a ser alvo de chantagem, elementos de espionagem como câmaras ocultas, drones, uma arma que chamou a a atenção de todos” Padilla estava obviamente a referir-se à tentativa de assassinato falhada contra o presidente venezuelano Nicolas Maduro no Agosto passado, uma operação relacionada com os operativos da CIA baseados na Colômbia. A operação visando a PdVSA era uma tentativa, em parte, de falsamente ligar a empresa a tráfico de drogas e de armas e a outras operações ilícitas e de acusar o presidente Maduro e seu antecessor, Hugo Chavez, de envolvimento com tais operações. Padilla descobriu que a operação para denegrir Maduro e Chavez envolvia não apenas d’Alessio e a CIA, mas igualmente a DEA, a agência dos EUA de combate à droga. A operação, com o nome de código “OPERATION BRUSA DOVAT,” envolvia o anterior director da PdVSA, Gonzalo Brusa Dovat, um cidadão uruguaio, e enquadrava-se no plano global da administração Trump para congelar os bens da companhia de petróleos venezuelana no estrangeiro. Outras mensagens de texto de d’Alessio revelavam uma armadilha para comprometer o ministro das obras públicas Julio de Vido e seu secretário, Roberto Baratta, utilizando dados roubados por um operacional da NSA (National Security Agency dos EUA) David Cohen, que trabalhava para “Energía Argentina SA” (ENARSA), a agência estatal argentina da energia. Cohen foi constituído arguido pelas autoridades argentinas a 8 de Março. Padilla também descobriu o envolvimento da espionagem de Israel na operação para-estatal de extorsão. Padilla revelou que a operação de extorsão também visava também a actual senadora da oposição e ex-presidente Cristina Fernández de Kirchner e vários proeminentes jornalistas anti-Macri. Também se descubriu no telemóvel de d’Alessio mensagens de texto de membros da equipa de Trump na Casa Branca, oferecendo o fornecimento a Macri de «apoio mediático» (“media coaching”) para a sua campanha de re-eleição de 2019. O ex-estratega principal de Trump, Steve Bannon deu assistência efectiva ao presidente neo-nazi brasileiro Jair Bolsonaro durante a sua campanha vitoriosa de 2018. Em Fevereiro deste ano, Bannon designou o filho de Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, um senador brasileiro, como o chefe para a América Latina da organização mundial fascista, chamada «O Movimento». A operação conjunta de Argentina/CIA/Israel centrava-se numa tentativa de comprometer o governo de esquerda de “Frente Amplio de Uruguay” do presidente Tabaré Vázquez numa ligação falsa a uma missão comercial iraniana operando no Uruguay. D’Alessio tinha, segundo foi revelado, correspondência com cabeçalho da embaixada dos EUA em Buenos Aires e com cabeçalho do ministério da defesa de Israel. A ligação forjada ao Irão foi usada como justificação para lançar uma operação ilegal de vigilância dos políticos da Frente Amplio, incluíndo o presidente Vázquez, o antigo presidente José “Pepe” Mujica e a esposa de Mujica, a actual vice-presidente Lucía Topolansky.
Havia alegações falsas nos ficheiros guardados por d’Alessio de que a missão comercial iraniana no Uruguay estava fazendo negócios com a Argentina através de uma companhia russa de fachada. A informação forjada terá sido fornecida aparentemente pelos serviços secretos de Israel, o MOSSAD. D’Alessio foi identificado por Padilla como fazendo parte de uma operação visando o Hezbollah libanês. Sem surpresa, d’Alessio estava em ligação com o presidente da câmara de comércio Argentina-Israel em Buenos Aires.
As revelações de Padilla levaram o juiz de instrução uruguaio dos crimes organizados, Luis Pacheco a afirmar que poderá procurar mais informação sobre o escândalo das etorsões ao governo da Argentina.

Está-se perante a possibilidade de uma tentativa de golpe contra o presidente President Vázquez, ajudada e avalizada pela CIA e a Casa Branca de Trump. A 13 de março Vázquez demitiu o comandante-chefe do exército, General Guido Manini Ríos, por este ter criticado julgamentos de oficiais que cometeram violações dos direitos humanos a ditadura militar uruguaia, tendo-se encontrado com políticos direitistas de oposição, e mais grave ainda, visitando Bolsonaro, do Brasil, que elogiou as ditaduras militares passadas do Brasil e de outras nações latino-americanas, incluindo o Uruguay, a Argentina e o Chile.
A CIA dirigida pela defensora da tortura, Gina Haspel, tornou-se a infantaria do exército que serve os desejos de Trumps e as escuras políticas neo-conservadoras de Bolton e de Pompeo. É claro que Abrams, Bolton, Pompeo, Rubio, Bannon, e seus protegidos, incluindo Macri e Bolsonaro, estão a tentar recriar a OPERAÇÃO CONDOR dos anos 1960, 70 e 80, uma aliança dos serviços secretos das ditaduras de Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai, que eram membros titulares, enquanto o Equador e o Peru eram membros associados. Dezenas de milhares de militantes de esquerda foram perseguidos e executados durante essa época do CONDOR, que operava com plena concordância e participação da CIA.

O regime de Macri respondeu às revelações de Padilla perante a câmara dos deputados da Argentina iniciando o processo de impugnação contra o juíz. O ministro da justiça requereu formalmente o Conselho da Magistratura, que tem autoridade sobre os juízes, para abrir uma investigação formal a Padilla. Padilla foi sujeito a uma campanha perversa de difamação nos media argentinos pró-Macri, com alguns críticos questionando mesmo o seu serviço militar durante a guerra das Malvinas contra os britânicos. Padilla, neste ponto, não difere de Robert Mueller, cujo serviço no Corpo de Marines no VIetnam também foi questionado pelos aliados de Trump. TRADUÇÃO DE MANUEL BAPTISTA PARA OBSERVATÓRIO DA GUERRA E MILITARISMO

Ver o original em 'Manuel Banet' (clique aqui)

Senado argentino aprova orçamento «do endividamento e da recessão»

Após uma sessão que durou mais de 13 horas, a câmara alta do Congresso transformou em lei a proposta de Orçamento para 2019, que a oposição afirma ter sido «pensado e redigido pelo FMI».

Com a aprovação no Senado, já esta madrugada – por 45 votos a favor, 24 contra e uma abstenção –, o governo de Mauricio Macri conseguiu ultrapassar a última prova de fogo antes de ver convertida em lei a polémica proposta de Orçamento para 2019, que voltou a ser alvo de fortes críticas por parte da oposição parlamentar e, nas ruas, de milhares de trabalhadores, convocados por partidos políticos, sindicatos e organizações sociais.

O diário Página 12 afirma que, a pedido do Fundo Monetário Internacional (FMI), o Senado deu luz verde um Orçamento que contempla grandes cortes nas áreas da saúde, educação, cultura, obras públicas e habitação, e que prevê uma inflação de 23% e uma queda de 0,5% no produto interno bruto (PIB).

A forte redução na despesa pública está ligada ao pagamento dos juros da dívida, que, no final de 2019, deverá representar 87% do PIB. Neste «orçamento de austeridade», a única verba que aumentará brutalmente, mais que a inflação, é a destinada ao pagamento da dívida, refere ainda o Página 12.

A aprovação orçamental implica um «sim» à política de austeridade e de «défice zero» que Mauricio Macri se comprometeu a atingir nas negociações com o FMI, de modo a garantir um empréstimo de 57 mil milhões de dólares.

Críticas dentro e fora da câmara

Enquanto o macrista Esteban Bullrich, que defendeu enfaticamente as virtudes da «poupança» e do «reordenamento dos recursos do Estado», agradeceu o apoio da maioria dos senadores ao «esforço histórico de redução do défice para 0%» e disse reconhecer «o sacrifício exigido aos argentinos», vários senadores da oposição não foram parcos nas críticas à proposta transformada em lei.

A ex-presidente Cristina Fernández Kirchner disse que «a maioria das leis de défice zero não deram resultados no mundo» e criticou o actual executivo por ter contraído ao FMI um empréstimo de 57 mil milhões de dólares. «Pensam que isto será a solução? Pode algum argentino, depois de tantas experiências, acreditar que a solução virá daí?», perguntou, citada pela Prensa Latina.


Por seu lado, o senador Solanas caracterizou a redução da inflação para 23% como «um conto infantil». «Vamos terminar o ano com 48 ou 49% e os magos do Cambiemos – partido de Macri – vão fazê-la baixar para 23%. Não é sério», frisou.

«O governo do Cambiemos apenas tem para oferecer aos argentinos mais austeridade, precarização, endividadamento e recessão», criticou o senador da oposição Marcelo Fuentes. «É cínico que apresentem como uma virtude os programas de emergência que criam como paliativos para a crise que eles próprios geraram», acrescentou, citado pelo Página 12.

Tal como aconteceu a 25 de Outubro, quando a Câmara dos Deputados aprovou a proposta de Orçamento apresentada pelo governo, milhares de pessoas saíram para as ruas de Buenos Aires, em protesto contra o «Orçamento do FMI».

Apesar de bastante menos participada que a de Outubro, a mobilização de ontem, que entrou pela madrugada de hoje, enfrentou um Congresso igualmente blindado, protegido por baias e por um amplo dispositivo policial, que mantinham os manifestantes bastante afastados da câmara alta. De acordo com a Prensa Latina, desta vez a Polícia manteve-se quase sempre atrás das baias. Ainda assim, registaram-se duas detenções.

Ver original em 'AbrilAbril' (aqui)

Organizações sociais exigem «emergência alimentar» na Argentina

Diversas organizações promoveram uma jornada nacional de protestos para exigir ao governo argentino que «declare a emergência alimentar» e trave «o aumento da fome» entre as camadas mais desfavorecidas.

A reivindicação não é nova, mas, nos últimos tempos, a situação nos bairros populares, entre a população mais vulnerável, tornou-se «crítica». Com as medidas de austeridade promovidas pelo governo de Mauricio Macri a atingirem em cheio os trabalhadores, nos bairros populares há «milhares de famílias desempregadas a procurarem as cantinas sociais», que estão «abarrotadas».

A informação foi veiculada num documento conjunto das organizações promotoras da jornada nacional de protesto, em que figuravam, entre outras, a Confederação dos Trabalhadores da Economia Popular (CTEP), a Corrente Classista e Combativa, a Bairros de Pé, a Frente Popular Darío Santillán.

Na capital, Buenos Aires, a mobilização incluiu cortes de estrada, cânticos, palavras de ordem, muitas faixas e cartazes, seguindo ao longo de várias horas, em registo de ocupação, pela Avenida 9 de Julho, antes de terminar frente ao Ministério da Saúde e do Desenvolvimento Social.

«Perante a grave crise económica e alimentar que se vive nos bairros populares», os movimentos sociais e populares decidiram «sair à rua para dizer "basta"», lê-se no documento divulgado pelas organizações promotoras, que acrescentam: «Face ao aumento da pobreza e à austeridade que se aprofunda de dia para dia, exigimos diálogo e respostas da parte do governo.»


Bahía Blanca, Rosario, Salta, Córdoba, Misiones, Mendoza, Tucumán, Esquel, Chaco e Santiago del Estero foram outras cidades argentinas onde houve manifestações para vincar a necessidade de reforçar as verbas atribuídas às cantinas sociais, bem como a urgência da declaração da emergência alimentar, de modo a «aliviar as consequências da crise» entre os sectores mais desfavorecidos, refere o diário Página 12.

Exigiram ainda ao governo argentino a criação de mais programas de emprego e manifestaram, para além disso, o seu repúdio face à «criminalização do protesto», tendo em conta o anteprojecto de lei que Macri já tem pronto para enviar ao Senado.

«O acordo com o FMI e as condições de endividamento, juntamente com o orçamento de austeridade que está a ser aprovado no Congresso, não fazem mais do que agravar o panorama em que vivemos e têm impacto directo nas condiçõeses de vida do povo trabalhador e, mais ainda, no sector da economia popular», denunciam as organizações sociais.

Criminalização do protesto

De acordo com órgãos de comunicação social argentinos, a que a TeleSur faz referência, o Macri vai levar este mês ao Senado um anteprojecto de reforma do Código Penal que endurece a legislação sobre os cortes de estrada e penaliza os migrantes.

A TeleSur refere que o governo argentino pretende aumentar as penas por cortes de estrada, entendidos como «atentados à segurança pública», e criar o crime de «incumprimento da proibição de entrada no país» para os imigrantes.

Um alto funcionário do governo macrista disse a El Destape que este Código Penal reformado defende valores como o da «convivência na rua, que foi muito pouco sancionado», algo que, em seu entender, «tem de começar a mudar». «E os estrangeiros que violam a lei, reincidentes, devem sofrer consequências», disse.

Ver original em 'AbrilAbril' (aqui)

Reformas de Macri terão custo alto para o povo argentino, diz Nobel de Economia

Para o prêmio Nobel de Economia, Joseph Stiglitz, as medidas adotadas pela Argentina para tentar conter a crise econômica que resultaram na elevação da taxa básica de juros para 60% ao ano, corte de despesas e ministérios, redução dos investimentos e no pedido de socorro ao FMI, de pouco adiantarão se o presidente Mauricio Macri não tentar renegociar a dívida do país.

Para o vencedor do prêmio Nobel de Economia Joseph Stiglitz, as medidas adotadas pela Argentina para tentar conter a crise econômica que resultaram na elevação da taxa básica de juros para 60% ao ano, corte de despesas e ministérios, redução dos investimentos e no pedido de socorro ao Fundo Monetário Internacional (FMI), de pouco adiantarão se o presidente Mauricio Macri não tentar renegociar a dívida do país.

“Creio que deve ser feita a reestruturação (ou renegociação) da dívida. Do contrário, os custos que vão aparecer por causa da austeridade são grandes demais. Há muito otimismo irracional, tanto dos devedores quando dos credores”, afirmou Stiglitz em entrevista à BBC. Para ele, se não for contida, a crise argentina pode acabar chegando a outros países da América Latina.

“Uma grande crise no país poderia afetar os outros países da região de diversas formas”, disse o economista..

Particularmente neste momento concreto porque os países do mundo têm déficits de conta corrente, como a Turquia, ou com grande déficit de dívidas grande déficit de dívidas, enfrentam problemas”.
Macri, quando chegou, confiou demais na ideia de que haveria uma entrada de capital de investimento estrangeiro. Ele cometeu um grande erro ao cortar os impostos sobre exportação, que eram uma importante fonte de recursos, e ao aumentar a dívida com o montante que teve que pedir emprestado. Isso tudo encareceu os alimentos e reduziu os salários reais dos trabalhadores”.
Joseph Stiglitz

Stiglitz também destaca que uma “parte crítica” do neoliberalismo de Macri “foi foi o enfoque excessivo nas metas de inflação”, que atraía apenas o capital especulativo.

Juros excessivamente altos atraem capital que vem por um tempo e logo vai embora. O que me preocupa é que, uma vez que se cria uma crise, como parecem ter feito, bem previsivelmente, essas políticas de má gestão, a margem de manobra fica muito limitada. As medidas de austeridade que estão implantando vão desacelerar a economia e impor novamente um alto custo para o povo. Um outro instrumento é a reestruturação da dívida”.
Stiglitz
Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial Brasil247  / Tornado

Ver artigo original em "O TORNADO"

Argentina: crise, falsa saída e contágio

Fuga de capitais é grave e reflete desajustes da economia global. Mas governo Macri submete-se aos “remédios” do FMI e ataca direitos sociais, para “proteger” investidores externos

Por Mark Weisbrot, em entrevista a Greg Wilpert, no Democracy Now | Tradução: Inês Castilho

Nos últimos dias, a crise econômica na Argentina está se tornando cada vez mais séria. Semana passada, o presidente Maurício Macri anunciou um novo aumento nas taxas de juros do país, elevando-as a 60% — as mais altas do mundo. A medida visa deter a fuga de capitais e o declínio da moeda argentina. O peso já caiu mais de 50% desde o começo do ano, e despencou mais uma vez no início da semana. Macri planeja também aumentar os impostos sobre exportação e introduzir medidas de austeridade ainda mais duras do que as já introduzidas este ano. O ministro das Finanças do país, Nicolas Dujovne, descreveu assim seu plano:

“Vamos economizar mais 6 bilhões de dólares, que não teremos de financiar no mercado, e em 2020 vamos ter um superávit primário de 1% do PIB, o que economizará outros 5,2 bilhões de dólares.”

A Argentina anunciou também que irá pedir ao FMI o desembolso imediato de uma linha de crédito de 50 bilhões de dólares, que foi aprovada em maio passado  um dos maiores empréstimos desse tipo na história do FMI. Enquanto isso, a população tem ido às ruas para protestar contra a dura austeridade e crescente inflação do país. Por exemplo, manifestantes tiveram um confronto com a polícia semana passada, num protesto contra demissões no setor público.

Vamos começar pelos mais recentes anúncios de Macri sobre política econômica: aumento da taxa de juros e dos impostos de exportação, e introdução de medidas de austeridade ainda mais duras. Qual a justificativa dessas políticas, para o governo?

A justificativa é restaurar a confiança dos mercados. E isso é especificado no acordo com o FMI que eles assinaram em junho. A ideia é que essas medidas garantirão aos mercados que o governo não vai continuar a não fazer nada que abale a confiança, particularmente dos investidores estrangeiros, já que a dívida externa tornou-se enorme desde que Macri assumiu o cargo.

Quais são os efeitos mais prováveis dessas políticas, no curto e longo prazo, deixando de lado se vão realmente aumentar a confiança na economia?

O efeito da austeridade, no curto prazo, é encolher ainda mais a economia. E isso é típico  na verdade, uma solução típica do FMI para uma conta corrente deficitária. Déficit em conta corrente é basicamente o déficit comercial somado a outros empréstimos anuais que o país está utilizando, tomados no resto do mundo. Eles hoje têm um alto déficit em conta corrente. Se você encolhe a economia com a austeridade, irá reduzir as importações. E essa é uma maneira de reduzir o comércio e o déficit em conta corrente. Não é um bom caminho, em geral, e significa que o povo irá sofrer mais. O desemprego já subiu cerca de 2 pontos percentuais desde que Macri assumiu o governo. De modo que as medidas serão muito desconfortável para a população. É uma das razões por que você vê as pessoas se manifestando nas ruas.

Na verdade, além de tentar reduzir as importações, parece que eles estariam também reduzindo as exportações com esse imposto. Você não diria isso?

Não, acho que os impostos sobre exportação estão corretos. Essa é uma boa fonte de renda para o governo, e penso que Macri não deveria é ter reduzido esses tributos, ao assumir o governo. Mas o problema é mesmo que o governo emprestou tanto dinheiro. De 63 bilhões de dólares, a dívida do governo central foi para mais de 140 bilhões. Não havia razões para isso. Também queimaram rapidamente as reservas do banco central.

Isso é parte do que está gerando a crise. E era desnecessário, porque eles poderiam, ao contrário, ter tomado empréstimos domésticos. Vale lembrar que a ex-presidente Cristina Kirchner deixou uma dívida externa muito, muito pequena em relação à economia do país. Isso é importante porque esse governo — e parte da mídia e das pessoas que o apoiam — estão tentando culpar o governo anterior pela crise atual. De fato, os Kirchners [Cristina e Nestor, presidente que a antecedeu] deixaram alguns desequilíbrios. Claro, Macri teve que liquidar a dívida dos fundos abutres, remover alguns dos controles de capital e permitir que a taxa de câmbio flutuasse. Foram medidas positivas. Mas as causas da crise estão nos empréstimos externos e no desperdício de bilhões de dólares tentando defender a moeda, enquanto ela estava caindo. Todo esse dinheiro foi desperdiçado e somado à dívida externa.

Vamos aprofundar isso um pouco mais. Como o peso perdeu tanto valor? Você mencionou, é claro, os empréstimos – mas como Macri de repente acaba nessa crise financeira que ele de fato não encontrou ao assumir o governo?

Ele tornou as coisas muito piores, penso, principalmente pelo endividamento externo. E também, é claro, a austeridade dói. Mas acho que o pior é que ele agora está aprisionado numa armadilha. Com o acordo do FMI amarrou-se à “austeridade”. Agora, os investidores sabem que a economia não vai melhorar tão cedo. Então, ele está tentando construir confiança no mercado, mas, como vimos na zona do euro, isso geralmente tem o efeito contrário.

Então agora podemos esperar anda mais “austeridade”, e uma queda ainda maior na economia argentina, ao menos no médio prazo?

É o que parece, com certeza. E penso que serão forçados a manter o erro, já que o FMI vai monitorá-los a cada trimestre, para desembolsar as parcelas do empréstimo. Isso não significa que a economia não poderá recuperar-se, a uma certa altura. Mas no curto prazo as coisas parecem bem ruins.

Essa situação tem algumas semelhanças com o que aconteceu nos anos 1990. Eles tiveram quatro anos de depressão, e ficaram inadimplentes com suas dívidas. Agora, não há depressão. A economia está desacelerando, provavelmente terão uma recessão. Mas a semelhança é que estão presos a esse programa, e tentando construir confiança nos mercados, mas tudo o que fazem na verdade só piora a situação.

E há uma outra semelhança, que a maioria das pessoas notou, e penso que é muito importante. Macri apresenta uma série de desculpas para o que aconteceu, dizendo que a culpa não é sua. Numa destas alegações, ele tem razão. É o recente aumento das taxas de juros pelo Federal Reserve [banco central dos EUA]. Isso é semelhante ao que aconteceu entre 1994 e 1997, quando o Fed elevou as taxas de juros e espalhou crises pelo mundo. Começaram no México, espalharam-se pela Argentina e se converteram na crise financeira da Ásia, que começou em 97. Desdobraram-se em crises na Rússia e no Brasil. Isso é realmente um grande fator, e mostra o quão poderoso é o Federal Reserve e sua influência nos países em desenvolvimento. Algo que ele não leva em conta, é claro, quando decide sua política monetária.

Recordo também de como a Turquia, por exemplo, está agora enfrentando uma crise, em parte, causada pelo aumento da taxa de juros do Fed.

Sim. São exemplos de como países que os investidores consideram vulneráveis – se são ou não é outra história – sofrerão um impacto, e terão crises financeiras. E às vezes simplesmente porque os “mercados” decidem que devem fugir.

 

Ver o original em 'Outras Palavras' na seguinte ligação:

https://outraspalavras.net/mundo/america-latina/argentina-crise-falsa-saida-e-contagio/

 

Argentina: nada será como antes

Foto: Nuria Alvarez, Coletivo Passarinho

Uma semana depois, balanço da jornada que quase levou à aprovação do direito ao aborto indica: lutas feministas tornaram-se mais fortes que nunca, espalham-se pelo continente e desafiam promiscuidade entre religião e Estado

Por Fernanda Paixão e Antônio Ferreira, do Coletivo Passarinho

Na madrugada da quinta-feira 9 de agosto, depois de mais de 17horas de pronunciamentos, o Senado argentino vetou o projeto de lei de interrupção voluntária da gravidez (IVA). A longa jornada de mobilização nas imediações do Congresso desde as primeiras horas do dia 8 de Aborto, ou “8A”, como se intitulou a data histórica, terminava com o rechaço decidido por 24 senadores e 14 senadoras. Nas ruas, o lado dos lenços azuis “pró-vida”, à direita do edifício do Congresso, não economizou fogos de artifício e cartazes alçados com os dizeres “Cristo venceu”. O lema “Que seja lei”, difundido nos últimos meses por toda Argentina junto com a maré verde pró-aborto legal, ao final da noite deu lugar com força ao “Será lei”. Talvez não hoje, mas amanhã, como ressaltaram em seus discursos senadores que votaram pelo “sim”, como Pino Solanas e a ex-presidenta Cristina Kirchner. O projeto, que já foi apresentado ao Congresso Nacional sete vezes, agora espera o início das sessões legislativas de 2019 para ser apresentado novamente.

Na manhã seguinte, em contraste com um 8 de agosto coberto de chuva, abriu-se um dia estranhamente ensolarado. O aborto seguia na clandestinidade, deixando em jogo a vida, a saúde e a autonomia das mulheres de todo um país. Porém, aquela jornada épica de quase 2 milhões de pessoas que passaram todo o dia sob uma incessante chuva e sensação térmica de 2ºC, mostrou com clareza que alguma coisa estava fora da velha ordem. O país foi tomado pelos lenços verdes, símbolo da Campanha Nacional pelo Aborto Legal, Seguro e Gratuito. Até o mais reacionário dos senadores antidireitos e pró-aborto clandestino pôde sentir que este rio que tudo arrasta não vai parar.

Foto de Vivian Ribeiro, do Coletivo Passarinho

A maré verde

Tanto nesse 8A quanto na vigília daquele 13 de junho, quando o projeto foi aprovado pela Câmara dos Deputados, os arredores à esquerda do Congresso se transformaram em um espaço e contexto de sororidade, onde milhares de mulheres desconhecidas encontravam algo em comum, profundamente familiar. O microcosmos da avenida Callao, entre a avenida Corrientes e a rua Sarmiento, estava repleto de tendas de diversas organizações, como o Nenhuma a Menos, a Assembleia Popular Feminista (APF) e a Não Tão Diferentes, organização de mulheres em situação de rua.

O movimento de mulheres conseguiu enraizar socialmente o tema da legalização do aborto. Levou o assunto para a rua, escolas, hospitais e, sobretudo, para dentro das famílias. Furou o bloqueio da mídia hegemônica e conseguiu pautar o debate. Desmantelou a separação entre o público e o privado, que sempre se prestou para reforçar o machismo, politizando a sala de jantar. Fez irromper uma identidade feminista forte, descentralizada, que alimentou as ações cotidianas com alegria e energia desmedidas. Daí a pujança do 8A e a convicção desse verso tão cantado em coro feminino: “Abaixo o patriarcado, que vai cair, que vai cair”.

A luta pela legalização do aborto na Argentina é a ponta de um iceberg que tem por debaixo décadas de organização feminista. A Campanha Nacional pelo Direito ao Aborto Legal foi gestada nos Encontros Nacionais de Mulheres de Rosário e Mendoza e lançada oficialmente em 28 de maio de 2005, no Dia Internacional de Ação pela Saúde das Mulheres. De lá pra cá, o movimento foi incansável no debate científico-universitário e nas discussões sobre políticas públicas para mulheres. Construiu um mote claro: “Educação sexual para decidir, anticoncepcionais para não abortar e aborto legal para não morrer”.

Assim, a questão do aborto legal entrou na agenda dos direitos humanos e da democracia, e foi incorporada por diversas outras organizações denominadas “socorristas”, que cumprem um importante papel de dar assistência a mulheres que desejam realizar um aborto, enquanto a lei não sai.

“O compartilhamento de experiências é necessário entre as mulheres que vivenciam uma gravidez indesejada. As equipes de saúde que prestam informações relevantes a quem opta por realizar um aborto são criminalizadas”, afirma Yamila, integrante da Assembleia Popular Feminista, destacando o papel do Protocolo ILE (Protocolo para a Atenção Integral das Pessoas com Direito a Interrupção Legal da Gravidez), que foi base para determinar o reconhecimento do aborto por lei no Brasil: casos de estupro, risco de vida da mãe e anencefalia do feto.

Foto de Nuria Alvarez, do Coletivo Passarinho

Um novo cenário

A grande maré verde contou com a ocupação de escolas por estudantes secundaristas para exigir a aprovação do projeto, como ocorreu na Escola Superior de Educação Artística Rogelio Yrurtia, na cidade de Buenos Aires. No colégio Católico Instituto Padre Márquez os alunos foram obrigados a colar cartazes “pró-vida” e a resposta foi uma chuva de lenços verdes. Professores encurralados ou encorajados pela audácia das jovens não tiveram como fugir do debate. O aborto teve que entrar na pauta escolar. Nas manifestações e diariamente nas ruas é comum ver meninas jovens com seu grupo de amigas, todas com os lenços – oupañuelos– verdes, com argumentos muito claros sobre o que significa a legalização do aborto na sociedade.

A linguagem inclusiva também ganhou espaços antes inimagináveis. Cresceu nos coletivos militantes, em parte do jornalismo, especialmente o contra-hegemônico, e em círculos literários. Antes com o “x”, de “xs estudantxs”, e agora com o “e”, de “es menines”, desnuda como a linguagem corrente sedimentou em sua própria estrutura concepções patriarcais, heteronormativas e binárias. Para além dos binarismos, a nova linguagem buscatranspor os gêneros.

Tudo isso não seria possível sem a força comunicativa da campanha. Ao contrário do Brasil, a Argentina não possui um sistema de meios de comunicação tão concentrado e unidimensional. Seja pela sua tradição mais igualitária e democrática ou por avanços da lei de meios de comunicação durante o período kirchnerista, há algum espaço para o dissenso. Exemplos disso são o Página 12, jornal impresso diário com perfil de esquerda; a C5N, uma rede de televisão privada claramente contrária ao governo Macri, e diversas redes de rádios com perfil crítico. Mesmo nos canais televisivos do establishment existe uma tradição de debate aberto entre diversas correntes de pensamento. Tudo isso somado a uma pujante rede de meios de comunicação alternativos e à difusão do movimento pelas redes sociais permitiu que a questão ganhasse corpo, transformando-se em um debate público de massas.

Foto de Vivian Ribeiro, do Coletivo Passarinho

Mulheres contra os direitos das mulheres

Com maioria de votos contrários do bloco Cambiemos, do atual governo, a lei foi rejeitada com 38 votos negativos contra 31 a favor. Como se poderia prever, as mulheres não são maioria na mesa. Contudo, o corpo do Senado argentino atualmente é conformado por 30 mulheres e 40 homens, uma relação bastante equilibrada considerando que a presença de mulheres nas cadeiras altas no âmbito político normalmente representa uma porcentagem ínfima em comparação aos homens. Enquanto na Argentina a presença de mulheres representa 41,7% do Senado, no Brasil são 14,8%. A Argentina é um dos poucos países da América Latina que contempla em maior número mulheres na política, inclusive na presidência do parlamento – neste caso, quem coloca a Argentina nesse posto é a vice-presidente Gabriela Michetti, confessamente contrária à lei do aborto. Durante os meses prévios à sessão que iria presidir, Michetti arriscou manobras para atrasar a votação do projeto e soltou frases polêmicas sobre a questão do aborto mesmo em casos de estupro: “Você pode dar depois em adoção depois e fica tudo bem. Há dramas maiores na vida”.

O 8A foi marcado pela prevalência final das cadeiras representadas em vermelho nos telões que transmitiam a sessão para a multidão do lado de fora, e o voto feminino no Senado se dividiu: de 28 mulheres votantes,14 optaram pelo “sim” e 14 pelo “não”. As duas senadoras que se abstiveram foram Eugenia Caltafamo, do partido Unidad Justicialista, do estado de San Luis, que não se apresentou por estar de licença-maternidade; e a senadora Lucila Crexell, do Movimiento Popular Neuquino, de Neuquén, que mesmo presente pediu abstenção. Ela buscava a aprovação de um projeto intermediário que contemplasse a despenalização, mas não a legalização da prática.

A maioria das que vetaram o projeto sustentava “argumentos” pouco fundamentados sobre o início da vida e sobre o conceito de maternidade. Entre afirmações como “não li o projeto de lei”, proferida pela senadora Cristina López Valverde, de San Juan, do partido Frente Todos, e que “uma mulher que está em uma gravidez não desejada precisa de alternativas que não ponham em risco a vida de seu filho”, da senadora de Tucumán Silvia Elías de Pérez, da Unión Cívica Radical, a postura em negativa de senadoras mulheres foi decisiva para o resultado no Senado. Com justificativas tão vazias quanto contraditórias, seus discursos só parecem levemente menos absurdos do que os de senadores homens que acreditam poder opinar sobre a gravidez e até sobre o que representa um estupro para uma mulher. Em um momento inacreditável da sessão, o senador de Salta, Rodolfo Urtubey, do partido Justicialista, deixou uma multidão chocada com sua exposição: “O estupro nem sempre representa uma violência contra a mulher. Por exemplo, nos casos de abuso intrafamiliar. Não é o estupro clássico”. Já se espalham petições denunciando o senador por apologia ao estupro.

Foto: Nuria Alvarez, do Coletivo Passarinho

Macrismo polivalente

Nem tudo são flores neste processo de ascendência do movimento feminista e de discussão sobre o aborto legal. A situação se complexifica quando se verifica que o próprio presidente Maurício Macri foi quem habilitou o debate no Congresso Nacional em seu discurso de abertura das sessões legislativas deste ano. Por ironia do destino, um projeto cujo debate legislativo foi barrado durante os mais de 10 anos de kirchnerismo foi disparado por um governo neoliberal do tipo Robin Hood às avessas, que promove um ajuste brutal sobre o povo argentino e inicia mais um ciclo de dependência descarada, com a predominância dos interesses do setor financeiro e agro-exportador.

Independentemente dos objetivos íntimos do presidente (promover uma cortina de fumaça para a crise brutal pela qual passa Argentina; buscar aproximação com um setor das classes médias liberais e progressistas ou contribuir para um feito histórico equiparável ao que significou a aprovação do casamento igualitário durante o governo de Cristina), o fato concreto é que a discussão legislativa do projeto deu vazão a um processo que já deixou marcas irreversíveis na sociedade argentina. Essas marcas ultrapassam ainda os limites do país hermano, em uma repercussão expansiva de uma campanha pela legalização do aborto por toda a América Latina, que se faz notar especialmente pelo fato de que a Argentina sequer é o primeiro país a levantar o assunto: o Uruguai mesmo, ali ao lado, conquistou a aprovação da lei em 2012.

Macri, com seu pragmatismo neoliberal, fez questão de deixar claro que individualmente era contra a legalização do aborto. Agora, juntamente com alguns de seus correligionários do Cambiemos, busca eximir-se de responsabilidade, afastando-se dos resultados da votação. Tenta ocultar que dos 25 senadores que compõem o bloco Cambiemos, 17 votaram contra o projeto. Entretanto, a forma cínica e burlesca como Gabriela Michetti conduziu os trabalhos legislativos, insultando senadores pró-legalização e comemorando a rejeição do projeto, dá conta de como sob o macrismo, o liberalismo e o medievalismo da Opus Dei convivem em harmonia.

Foto: Nuria Alvarez

Reação e contrarreação

O deputado da esquerda trotskista Nicolas Del Caño, quando da sessão que aprovou a legalização na Câmara dos Deputados disse que “em um Senado dominado diretamente por governadores feudais do Partido Justicialista, do Cambiemos e de partidos provinciais, não seria fácil a sanção da lei”. E realmente, após a aprovação parcial do projeto na Câmara, a reação foi imediata. Luciana Rosende e Werner Pertot, em minucioso artigo sobre o tema, contam como se deu essa reviravolta. Segundo as autoras, “a partir de 13 de junho os setores antidireitos redobraram a aposta. A Igreja assumiu uma posição beligerante, as ONGs religiosas ativaram seus contatos nos meios de comunicação, aumentaram sua pressão sobre o governo e sobre o bloco de oposição. E começaram a ser vistos mais lenços azuis com o lema ‘Salvemos as duas vidas’”. A concertação entre o conservadorismo das elites provinciais, as ações performáticas do grupos “pró-vida” e aintelligentsiados quadros médicos e de juristas da Universidade Católica e Universidade Austral, esta última daOpus Dei, foram imprescindíveis para garantir o “não” no Senado.

Entretanto, a derrota da legalização do aborto abriu o caminho para outro debate. Colocou na ordem do dia a discussão sobre a laicidade do estado– diferente do Brasil, a Argentina sequer se declara um Estado laico. Junto aos lenços verdes surgiram os lenços laranjas da Campanha Nacional pelo Estado Laico, que diz: “Igreja e Estado Assuntos Separados”. Veio à tona a questão do financiamento estatal da Igreja Católica e do pagamento dos salários dos bispos por parte do Estado, ancorados em leis editadas durante a ditadura militar argentina, por Rafael Videla. Nora Cortiñas, uma das mães da Praça de Maio, disse sem meias palavras que “durante a ditadura a Igreja não se importava com as duas vidas, davam choques elétricos na vagina de mulheres grávidas e a Igreja abençoava os voos da morte”.

Na linha discursiva dos que votaram pelo “não”, principalmente entre os senadores homens, há uma perda do que chamam de “paz social”. Ter mulheres nas ruas pedindo por seus direitos balança as estruturas, provocando receio. Sempre foi assim – um dos grandes “argumentos” contra o sufrágio feminino era que seria muito trabalhoso “ensinar às mulheres a importância do voto”, um eufemismo risível que deixa exposto em carne viva o medo da perda de controle. É que na ação coletiva as mulheres retiram o patriarcado da sua posição naturalizada e de perigosa invisibilidade. De repente, o poder masculino aparece como violência e força bruta. E certamente não é agradável tomar consciência da sua própria condição de opressor.

Octavio Salazar, professor de Direito Constitucional da Universidade de Córdoba e autor do livroEl hombre que (no) deberíamos ser, fala que“nós, homens, temos medo do feminismo porque nos revela coisas de nós mesmos que não gostamos de conhecer”. Talvez o grande medo que inspira a reação machista é que as mulheres empoderadas venham a fazer com os homens o que eles sempre fizeram sob a benção do patriarcado.

Foto: Vivian Ribeiro, do Coletivo Passarinho

Não se pode parar o vento

A onda verde se espalhou pela América Latina. A pauta está instalada com uma força nunca antes vista e a mensagem é clara: a campanha continua. Os lenços verdes chegaram a diversos países e vêm se espalhando pelo Brasil, onde o tema já está instalado no Supremo Tribunal Federal, apesar da imprevisibilidade do resultado do julgamento. As últimas audiências dos dias 3 e 6 de agosto, presididas pela ministra Rosa Weber, já são vistas como um grande passo.

Dois dias depois da rejeição da lei, a campanha oficial publicou uma mensagem exaltando a conquista inédita e histórica de colocar em pauta a problemática das mulheres e de se fazer ouvir as vozes feministas. Enfatizou a importância de não votar nos políticos que se abstiveram ou foram contrários ao direito das mulheres a decidir. A campanha convocou aos chamados “pañuelazos” – manifestações em que todas levantam seus lenços verdes em um símbolo coletivo de demanda por uma lei do aborto seguro e gratuito –, na América Latina e no mundo; e também a que todas estejam presentes no Encontro Nacional de Mulheres, a acontecer este ano na província de Chubut, no sul do país.

Ao reforçar a necessidade de um Estado laico, o comunicado joga luz sobre um assunto profundamente necessário, reforçando a importância dessa campanha, representada pelos lenços laranjas. Talvez mais ainda no Brasil, onde religião e política andam cada vez mais juntas. O grito vem das ruas, e como bem se anda dizendo entre os grupos feministas nesses últimos dias: nunca nada nos foi dado de mão beijada.

Ver o original em 'Outras Palavras' na seguinte ligação:

https://outraspalavras.net/mundo/america-latina/argentina-nada-sera-como-antes/

 

Segurança e repressão para o ajustamento com o FMI

O governo de Macri fez regressar o FMI à Argentina, confirmando com esse aval a sua política de retrocesso social e de empobrecimento das camadas populares. Política que não pode instalar-se sem um acréscimo da repressão. O descontentamento popular vem mobilizando impressionantes manifestações de massas. Não têm ainda a força e a unidade de objectivos capaz de derrotar a ofensiva. Mas são a condição necessária para que tal seja conseguido.

Foi impressionante o dispositivo repressivo de segurança para isolar da mobilização popular o conclave em Buenos Aires dos responsáveis económicos e financeiros do G20.

Com efeito, para que pudessem reunir-se este fim-de-semana os ministros da economia e os presidentes dos bancos centrais do G20 mais os organismos internacionais, especialmente o FMI, tiveram que cercar vários quarteirões à volta do Centro de Convenções da Cidade.

Sábado pela manhã, em Conferencia de Imprensa conjunta entre Christine Lagarde e Nicolás Dujovne, a primeira tinha assinalado que o FMI dialogava regularmente com a sociedade civil. Tinham-lhe perguntado se o organismo internacional aceitaria conversações com sindicatos e organizações sociais.

Fica claro que se trata de um diálogo de surdos, típico de amos ou patrões, que apenas proferem discursos unicamente destinados a ser convalidados pelos súbditos ou parceiros afins. Não aceitam outra linguajem senão a que promove a submissão ideológica ou o temor das armas e da repressão.

“Vamos bem” disseram os titulares do Fundo e da Política económica da Argentina. Dito em simultâneo com uma inflação de 3,7% em Junho e de 16% entre Janeiro e Junho, projectando uns 32% para todo o ano.

¿A quem vai bem esta subida da média dos preços? Aos poucos em condições de estabelecer preços, caso dos grandes produtores e exportadores ou dos sectores da alta especulação com taxas de juro entre 40 e 60% nos seus investimentos milionários.

Ilusões macristas

Mas fiquemos tranquilos porque Macri previu que no próximo ano de 2019 a inflação será 10 pontos mais baixa, quer dizer, quase a mesma que a elevada taxa de inflação de 2017.

Em rigor, outra ilusão que se vende à população, como aquela que previa o crescimento no segundo semestre de 2016, e que depois passou para o próximo ano, 2017.

Trata-se sempre de um imaginário futuro, enquanto passa o ajustamento regressivo. O projecto de Cambiemos assenta no discurso vazio (para a maioria da sociedade) de um futuro melhor por vir.

A ilusão do crescimento do PIB, da chegada dos investimentos, ou da baixa dos preços é apresentada enquanto a realidade transita por outro caminho. Estabelece-se, por exemplo, um tecto aos salários nas negociações paritárias e deterioram-se os rendimentos populares da maioria da sociedade.

Não só há menos recursos para a maioria da população, como também se afecta a actividade económica, com um crescimento previsto de 0,4% para o ano e prognósticos de baixa do PIB à volta de -1,5% para todo 2018.

É a base com a qual se organiza o orçamento do ajustamento para 2019 no qual pretendem espartilhar as províncias.

Com estas perspectivas de crescimento baixam-se as expectativas para resolver o problema do emprego de milhões de despedidos e da jovem geração que pretende ingressar no seu primeiro emprego.

Inflação e recessão são o resultado da política económica do governo, convalidada no acordo com o FMI.

O organismo insiste que o Plano é do Governo Macri e que o Fundo avaliza e financia. São parceiros no ajustamento social, condição da possibilidade de viabilizar a rentabilidade futura dos investimentos.

A inflação e a recessão não são ilusões. São a realidade de uma política que apenas tem perspectiva se se confirmar uma distribuição regressiva do rendimento e da riqueza.
Em outros momentos do desenvolvimento capitalista, entre 1930 e 1980, o processo de acumulação foi obrigado pela correlação de forças no mundo a satisfazer, ainda que desigualmente, a reivindicação salarial e o lucro.

Mas nas condições actuais do desenvolvimento capitalista, a acumulação apenas atende o objectivo do lucro. Por isso, as classes dominantes arremetem com força contra os direitos sociais, laborais e sindicais.

É a luta de classes em tempos contemporâneos, que o processo de mudança política na região latino-americana e caribenha no início do século alertou, e em consequência do qual actualizou os mecanismos de uma ofensiva favorável à rentabilidade do capital.

Fortalecer o poder de reivindicação social

A ofensiva do capital instalou-se com força desde começos dos anos setenta e generalizou-se como “neoliberalismo”, para além da polémica que o termo em si mesmo gera, já que a política hegemónica neste tempo não é nova nem liberal.

Para contrariar essa ofensiva e a consequente iniciativa política requer-se restabelecer a capacidade de reivindicação social por direitos, à alimentação, à educação e à saúde, à energia e à democracia participativa e comunitária, à paridade de género e à diversidade sexual; ao direito à vida e por consequência à despenalização do aborto, entre muitos direitos a reivindicar.

As mobilizações contra o FMI encheram as ruas do país na sexta-feira e no sábado, e acumulam na grande batalha de denuncia das políticas que emanam dos governos do G20 e dos organismos internacionais, que se reunirão em Buenos Aires em conclave de presidentes nos próximos dias 30/11 e 1/12.

Constitui um desafio articular o fragmentado protesto que o descontentamento social anima. Caso contrario, a ilusão macrista poderá continuar a disputar o consenso eleitoral para além do presente período de gestão de governo.

A mobilização popular é a condição necessária, ainda não suficiente, para gerar um horizonte alternativo à política repressiva, de ajustamento e reestruturação regressiva do Governo Macri que o FMI avalisa e financia.

Buenos Aires, 21 de Julho de 2018

Leia original aqui

Publicações mais recentes

Últimos posts (Cascais)

Itens com Pin
    Atividades Recentes
    Aqui ainda não existem atividades

    Últimos posts (País e Mundo)

    Itens com Pin
      Atividades Recentes
      • LEGALIZAÇÃO DAS CASAS DE PROSTITUIÇÃO

        Um debate que provavelmente vai ganhar dimensão.
        Legalização da prostituição - petição apresentada na A.R
        Gravação da reunião na Assembleia da República
        0
        0
        0
        0
        0
        0
        Publicação sobre moderação
        Item de fluxo publicado com sucesso. Item passa a ser visível no seu fluxo.
      • Homicidal Cops Caught On Police Radio
        #TheJimmyDoreShow
        Homicidal Cops Caught On Police Radio
        42 219 visualizações
        •05/06/2020
        0
        0
        0
        0
        0
        0
        Publicação sobre moderação
        Item de fluxo publicado com sucesso. Item passa a ser visível no seu fluxo.
      Aqui ainda não existem atividades
      LOGO4 vert01
      A Plataforma Cascais - movimento cívico é um grupo aberto de cidadãos, autónomo de quaisquer interesses económicos, religiosos ou partidários.
      Todas as publicações deste site refletem apenas as opiniões dos seus autores e não responsabilizam a PC-mc
      exceto quando expressamente assinadas por esta.
       

      SSL Certificate
      SSL Certificate