América Latina

ONU prevê encerramento de 2,7 milhões de empresas na América Latina

02/07/2020
 

A pandemia vai provocar o encerramento de 2,7 milhões de empresas na América Latina, microempresas sobretudo, e a destruição de 8,5 milhões de postos de trabalho, revelou a Comissão Económica para a América Latina e Caraíbas (CEPAL).

Segundo aquela agência da ONU, que apresentou a estimativa numa conferência de imprensa virtual, “o impacto da crise será muito diferente consoante o setor e o tipo de empresa”.

Os resultados foram apresentados pela secretária executiva da CEPAL, Alicia Bárcena.

Os mais afetados serão as micro e pequenas empresas, das quais dependem os setores mais atingidos pelas medidas sanitárias para impedir a propagação da covid-19, tais como o comércio, hotéis e restaurantes, de acordo com o novo estudo da agência da ONU.

O comércio, por exemplo, perderá 1,4 milhões de empresas e 4 milhões de empregos, enquanto que o turismo verá pelo menos 290.000 empresas e um milhão de empregos destruídos.

“A crise está a atingir mais duramente os setores industriais potencialmente mais dinâmicos tecnologicamente, e por isso irá aprofundar os problemas estruturais das economias da região”, disse Bárcena.

Se não forem implementadas políticas adequadas para fortalecer estes ramos de produção, acrescentou, “há uma grande probabilidade de se gerar uma mudança estrutural regressiva” que conduziria à recessão económica da região.

O continente americano é atualmente um dos maiores focos de pandemia do mundo. Os Estados Unidos, Brasil e Rússia representam mais de 40% dos casos globais e a classificação dos países mais afetados inclui também outros países da América Latina, como o México, Peru e Chile, de acordo com a Universidade Johns Hopkins, dos Estados Unidos.

A maioria das economias latino-americanas permanece semiparalisada, embora vários países estejam a planear a reabertura de setores não essenciais nas próximas semanas.

De acordo com o relatório, a grande maioria das empresas da região tem registado quedas significativas nos rendimentos e está a ter dificuldades em manter as suas atividades, uma vez que têm “problemas graves” no acesso ao financiamento e no cumprimento das suas obrigações salariais e financeiras.

A agência da ONU recomendou que os governos adotem uma série de medidas de apoio às empresas, nomeadamente a dilatação dos prazos e alcance dos eixos de intervenção no que toca à liquidez e financiamento, tal como o cofinanciamento dos salários durante seis meses.

As medidas para combater a pandemia paralisaram setores inteiros da economia mundial e levaram o Fundo monetário Internacional (FMI) a fazer previsões sem precedentes nos seus quase 75 anos de existência: a economia mundial poderá cair 3% em 2020, arrastada por uma contração de 5,9% nos Estados Unidos, de 7,5% na zona euro e de 5,2% no Japão.

Ver o original em 'Plataforma Media' na seguinte ligação:

https://www.plataformamedia.com/2020/07/02/onu-preve-encerramento-de-27-milhoes-de-empresas-na-america-latina/

Grupo de Puebla anuncia criação de rede de parlamentares progressistas

 

247 -O Grupo de Puebla anunciou que na sexta-feira será criada a rede parlamentar progressista latino-americana.

De acordo com a declaração da aliança progressista, o novo Grupo Parlamentar terá como objetivo desenvolver e articular iniciativas legislativas dos membros, para que possam ser traduzidas em projetos de resoluções, declarações e leis nos respectivos países; bem como uma instância de aconselhamento e análise de questões relacionadas ao campo legislativo, informa a Telesul.

A rede parlamentar será composta pelos legisladores fundadores do Grupo Puebla, além de outros parlamentares convidados entre senadores e deputados de países da região.

O Grupo de Puebla planeja aprovar a declaração constitutiva da rede, bem como uma declaração que apresentará iniciativas legislativas que instam os governos da região a considerar a vacina e tratamentos para curar a Covid-19 como bens públicos gratuitos e universais.

Quase um ano após o seu nascimento, o Grupo de Puebla, liderado por figuras políticas de destaque de 14 países, está ganhando força na região com a criação da rede parlamentar.

Fundada em julho de 2019 na cidade mexicana de Puebla, a aliança aumenta cada vez mais as personalidades que participam, entre estas o presidente da Argentina, Alberto Fernández, 10 ex-presidentes, entre eles Lula, ex-ministros das Relações Exteriores e líderes sociais.

Em meio à pandemia, o Grupo de Puebla realizou cúpulas virtuais nas quais, entre outras coisas, defendeu o cancelamento da dívida pública na região e o fim do bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos sobre Cuba e Venezuela.

"O Grupo Puebla quer integrar os sonhos dos progressistas da América Latina. Torne o continente um lugar melhor para todos", afirmam seus fundadores, entre os quais os ex-presidentes Luis Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff (Brasil), Rafael Correa (Equador), Ernesto Samper (Colômbia), Evo Morales (Bolívia) e José Mujica (Uruguai).

OIT: desemprego bate recorde e já atinge 41 milhões na América Latina e no Caribe

 

247 -A Organização Internacional do Trabalho (OIT) afirmou, nesta quarta-feira, 1º, que a pandemia do coronavírus colocou América Latina e Caribe "em uma crise econômica e social sem precedentes", deixando "um recorde de 41 milhões de desempregados".

Segundo artigo do Uol, a organização prevê um crescimento entre 4 e 5 pontos do desemprego, que se encontrava em 8,1% no final de 2019.

"Alcançamos um recorde histórico, nunca visto na América Latina e no Caribe, de 41 milhões de pessoas", declarou Vinícius Pinheiro, diretor regional da OIT.

A crise no Brasil

O Brasil acompanha o desenvolvimento do desemprego. Pela primeira vez, o País tem mais desempregados do que empregados. Dados do IBGE mostram que a população ocupada - empregados, empregadores, conta própria, servidores - era de 85,9 milhões no trimestre até maio, queda de 8,3% frente aos três meses anteriores e menos da metade do total da população em idade de trabalhar.

Houve uma perda de 7,8 milhões de vagas. É o pior resultado da série histórica, iniciada em 2012, informa o Valor Econômico.

Quase 2 milhões de empregos foram perdidos no comércio, o que representa redução de 11,1% ante os três meses anteriores.

 

Outras atividades tiveram perdas expressivas, como indústria (-1,23 milhão de postos), construção (-1,08 milhão) e serviços domésticos (-1,17 milhão).

A taxa de desemprego do país cresceu de 11,6% no trimestre até fevereiro para 12,9% no trimestre até maio. O país tinha 12,9 milhões de desempregados. Segundo economistas, a taxa de desemprego do país não mostrou a realidade do mercado de trabalho, porque o IBGE considera desempregado quem procura trabalho e não encontra. Mas na quarentena a busca é mais difícil.

Segundo cálculos da MCM Consultores, o desemprego teria atingido 20 milhões de pessoas e a taxa estaria em 18,9%.

 

Com a flexibilização da quarentena, os indicadores de desemprego devem mostrar alta em junho, refletindo uma maior busca por vagas no mercado de trabalho. Há estimativas que apontam alta da taxa para 14% em maio. Se confirmada, a taxa será um recorde da série.

Lula: saída para a América Latina após a pandemia é mais democracia e estado forte

Siga o Brasil 247 no Google NewsAssine a Newsletter 247

 

 

Leia a íntegra do discurso do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Universidade de Buenos Aires, no debate “Pensar a América Latina depois da pandemia do Covid-19” –

“É um privilégio compartilhar este momento com pessoas que fizeram e continuam fazendo tanto para mudar o mundo especialmente a nossa América Latina. Às vezes penso que viemos ao mundo com esta missão: de transformá-lo num lugar melhor para se viver. Um lugar mais humano, mais fraterno, mais solidário, menos desigual. Para muitos de nós, que viemos das camadas populares, que conhecemos o sofrimento e a privação, mais do que uma missão, transformar o mundo é antes de tudo uma questão de necessidade.

Eu não sei como será o mundo depois dessa pandemia, creio que ninguém sabe. Tenho apenas uma certeza: países em que o governo pensou primeiramente na população, como é o caso da Argentina, sairão desta crise em situação melhor do que os que não pensaram. Quando comparo os números da pandemia entre nossos países, penso primeiramente no sofrimento das famílias de mais de 55 mil pessoas que já morreram no Brasil. Nem as guerras em que o Brasil lutou nem qualquer outra doença causou tanta devastação num período tão curto.

Quando vejo quantas vidas foram salvas na Argentina, me dói muito ver meu próprio país desgovernado, com ministros incapazes de agir para proteger nosso povo e um presidente da República que chega a fazer piada com a tragédia. Lamento muito pelo Brasil e cumprimento o presidente Alberto Fernández pela alta responsabilidade com que vem enfrentando a pandemia, por ter mobilizado o país para este combate no momento certo, por resistir às incompreensões e pressões com a coragem que caracteriza um verdadeiro líder.

O mundo sempre precisou de líderes e de sonhos. Não faz tanto tempo assim, aqui na América Latina nós começamos resgatar o antigo sonho de Simon Bolívar, a Pátria Grande como ele dizia nos tempos heroicos da libertação e da independência dos nossos países. Bolívar já antecipava algo que se tornou muito claro ao longo do século passado. Primeiramente quando nossas riquezas naturais foram apropriadas pelo estrangeiro, que interferiam diretamente na nossa soberania, apoiando governos que serviam a seus interesses, ocupando nossos territórios com suas tropas ou apoiando golpes e ditaduras com o mesmo objetivo, sempre que as forças do povo e da soberania levantavam a cabeça.

Foi assim no Brasil, na Argentina, no Chile, na Bolívia, no Paraguai, no Peru, no Uruguai.

Foi nesse período que nós, na América Latina, começamos a conversar entre nós, olhando para nossas semelhanças, para a complementariedade de nossas economias, começamos a nos enxergar como vizinhos e parceiros. Começamos a conhecer nossa força e a sonhar o nosso próprio sonho de unidade.

 

Começamos pelos primeiros passos, fortalecendo o Mercosul e o comércio regional. Alguns números confirmam este movimento: em apenas dez anos, a partir de 2003, o fluxo de comércio do Brasil com o Mercosul passou de 10 bilhões de dólares para 50 bilhões. Na mesma proporção cresceu nosso comércio com os países da América do Sul, de 15 bilhões de dólares para 73 bilhões. E de 20 bilhões de dólares para 94 bilhões com o conjunto de países da América Latina e Caribe.

Estes números correspondem exatamente ao avanço das relações políticas entre nossos países.

Porque logo em seguida ao fortalecimento do Mercosul nós partimos para a criação da Unasul e, em seguida, da Comunidade de Estados Latino-Americanos e do Caribe, a Celac. Pela primeira vez criamos organismos internacionais em nossa região sem pedir licença aos Estados Unidos. Porque sabíamos o que queríamos e principalmente o que não queríamos. Rejeitamos soberanamente a ideia da Alca, que manteria nossas economias e principalmente a produção industrial subordinadas aos interesses norte-americanos. E porque queríamos decidir soberanamente os meios de convivência pacífica entre nossos países, criamos o Conselho de Defesa da Unasul.

 

Foi o sonho de Bolívar que animou companheiros saudosos como Nestor Kirchner, Hugo Chávez, ao quais presto minha homenagem neste momento. A eles nos juntamos e também Evo Morales, Rafael Correia, Fernando Lugo, Tabaré Vasquez, Pepe Mujica, Ricardo Lagos, Michele Bachelet e tantos outros nesta construção.

Olhando para trás, para o quanto avançamos e contrariamos interesses, é impossível atribuir a mera coincidência que tantos governos progressistas e populares tenham sido alvo de revezes políticos e golpes de estado nos anos recentes em nossa região.

E foram golpes de novo tipo, que nos surpreenderam pela utilização de instituições da democracia contra a democracia, pela utilização da mídia para desinformar e mentir, com apoio escancarado do poder financeiro global e de seus representantes em nossos próprios países.

Então eu chego à conclusão de que, mesmo que tenhamos feito quase que uma revolução silenciosa no Brasil para mudar a vida do povo, não conseguimos impedir que as instituições da democracia fossem utilizadas contra a democracia e o povo, mais uma vez em nossa história.

E que isso só foi possível com a participação direta, muito forte, das famílias que dominam a mídia, de corporações econômicas, do sistema financeiro e de interesses geopolíticos contrariados pelo que vínhamos fazendo em tantos países da América Latina para transformar a vida de nossas populações.

Eu mantenho e fortaleço a esperança quando vejo, por exemplo, como o povo argentino respondeu nas urnas ao fracasso retumbante que foi a volta do neoliberalismo.

Quando vejo o povo do Chile exigindo com muita força uma profunda reforma política, social e econômica, quando vejo que apesar das mentiras e dos golpes sucessivos, os partidos dos companheiros Rafael Correia e Evo Morales despontam como favoritos na preferência popular, e por isso mesmo insistem em golpeá-los por meio de farsas judiciais e institucionais.

Todos os seres humanos estão sujeitos a contrair o vírus, mas é entre os mais pobres que ele produz sua mortal devastação.

Há uma espécie de compreensão geral de que o momento é de gastar sem limites porque a vida não tem preço e a economia existe, afinal, em função das pessoas, não apenas dos números. E é o estado, em última análise, que pode proporcionar os recursos e organizar a sociedade para atravessar este momento tão difícil na história recente da humanidade.

O dogma do estado mínimo é apenas isso, um dogma, algo que não encontra explicação nem se justifica na vida real. O mito do deus mercado é apenas um mito, pois uma vez mais ele se revela incapaz de oferecer respostas para os problemas do mundo em que vivemos.

Exatamente como ocorreu na crise do Lehman Brothers em 2008 e em todas as crises sistêmicas do capitalismo das últimas décadas, é o estado que assume a conta.

Tive o privilégio de conversar sobre esse tema com o Papa Francisco e percebi que ele se dedica com alma a mobilizar os jovens economistas para encontrar saídas humanas diante deste que é o maior problema da humanidade. Sabemos que não é tarefa apenas para os economistas e as pessoas de boa vontade. Tem de envolver a (universidade) os intelectuais, os artistas, partidos políticos, sindicatos, movimentos sociais e igrejas.

Tive muito tempo recentemente para ler, estudar e refletir sobre essas questões. Foi a maneira que encontrei para tornar úteis os 580 dias em que estive preso, e aproveito mais uma vez para agradecer a solidariedade presidente Alberto Fernandez e do prêmio Nobel da Paz Adolfo Perez Esquivel, e tantos outros que se levantaram contra a ilegalidade daquela prisão.

A experiência me faz lembrar do que ocorreu em 2009, no auge da crise do sistema financeiro global.

Eu me recordo das reuniões do G-20 em Londres e Pitsburgh, quando os presidentes e primeiros-ministros assinamos um compromisso formal com a geração de empregos, com o socorro aos que perderam a casa e o emprego, com investimentos para a recuperação da economia. E tudo o que vimos foi o socorro ao sistema financeiro, trilhões de dólares que poderiam alimentar gerações de seres humanos e que foram utilizados para salvar os grandes bancos de uma crise que eles mesmo haviam criado com sua ganância sem limites.

A crise atual é ainda mais profunda, sem dúvida, e queira deus que desta vez os governantes do mundo aprendam algo antes que seja tarde demais. Aprendam que o estado não pode mais ser colocado exclusivamente a serviço dos interesses do capital. Aprendam que a economia tem de estar a serviço dos seres humanos e não o contrário.

Essas transformações que esperamos, e pelas quais muitos de nós lutamos toda uma vida, só podem ser realizadas, acredito, por meio da ação política.

Esta palavra e este instrumento de mediação civilizada de interesses que tem sido sistematicamente desprezada, desqualificada e criminalizada em tantos países, mas especialmente em nossa América Latina, tem de ser recuperada em sua essência. Ou voltamos a exercer a política em seu sentido histórico mais elevado, ou regressaremos à barbárie.

E esta é, a meu ver, a terceira lição que podemos aprender com a pandemia que se abateu sobre nós. Por mais profundas que sejam as crises, por mais escuro que esteja, depende de nós acender a luz nas trevas. A política, em última análise, é o instrumento pelo qual podemos transformar os sonhos em realidade.

E creio que nunca foi tão necessário sonhar e seguir lutando para construir um mundo melhor do que este em que vivemos.

Eu acho que o que vai salvar a América Latina depois da pandemia é uma palavra chamada democracia. Uma democracia de Estado forte pra cuidar do povo. Porque o que essa crise demonstrou foi que o mercado não vai salvar a vida de ninguém.”

A ALBA defende maior solidariedade e cooperação face à pandemia

Chefes de Estado e de governo da ALBA-TCP reafirmaram a intenção de reforçar a soliedariedade e a cooperação entre os países-membros do bloco tendo em conta os impactos da pandemia de Covid-19.

O presidente venezuelano, Nicolás Maduro, cumprimenta o diplomata boliviano David Choquehuanca, no âmbito da reunião da ALBA-TCP que decorreu em Caracas em Agosto de 2017Créditos / Alba Ciudad

No decorrer de uma videoconferência de alto nível, representantes dos países que integram a Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América – Tratado de Comércio dos Povos (ALBA-TCP) abordaram os desafios económicos e sociais que o bloco enfrenta e estabeleceram as bases para dar resposta aos efeitos da crise associada à catástrofe sanitária.

O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, sublinhou a necessidade de um novo sistema económico global, com uma visão humanista face ao impacto do novo coronavírus SARS-CoV-2, e destacou o papel do organismo regional como alternativa ao neoliberalismo em todas as suas expressões, informa a Prensa Latina.

No encontro virtual, que decorreu no passado dia 10, Maduro defendeu várias medidas económicas ao nível do bloco regional e propôs que os países-membros realizassem uma reunião, no próximo dia 29, ao nível de ministros dos Negócios Estrangeiros e da Economia para concretizar as propostas abordadas sobre o cenário económico pós-pandemia.

Por seu lado, o presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, reafirmou a vontade do seu governo para promover a colaboração com os membros da ALBA-TCP, tendo feito um apelo à troca de experiências no seio do organismo para enfrentar as consequências da Covid-19 na região.

No encontro, o mecanismo de integração regional ergueu a voz para repudiar o recrudescimento das medidas coercivas unilaterais impostas pelos Estados Unidos contra Cuba, a Venezuela e a Nicarágua, em plena pandemia.

Neste sentido, o presidente nicaraguense, Daniel Ortega, definiu o governo norte-americano como especialista em matar por asfixia os países que tentam construir as suas sociedades com base num modelo afastado do capitalismo.

Desafios dos pequenos estados insulares das Caraíbas orientais

A vulnerabilidade e os desafios colocados ao desenvolvimento dos pequenos estados insulares das Caraíbas orientais perante a crise económica e o impacto da pandemia ocuparam um espaço importante da agenda do bloco de integração, revela a agência cubana.

O primeiro-ministro de São Vicente e Granadinas, Ralph Gonsalves, exortou os demais representantes ao trabalho conjunto, de modo a aumentarem a ajuda comercial e o transporte marítimo, além de reforçarem a cooperação em áreas tradicionais, como a educação e a saúde. Destacou ainda o apoio de Cuba ao nível da resposta sanitária para enfrentar a Covid-19.

Já o primeiro-ministro de Dominica, Roosevelt Skerrit, salientou a linha essencial da ALBA-TCP, que põe o povo no centro das suas acções e esforços ao enfrentar a pandemia, garantindo o que é necessário, bem como a recuperação das pessoas afectadas pelo coronavírus.

O chefe de governo de Antígua e Barbuda, Gaston Browne, apelou à intensificação dos esforços em busca de uma vacina contra a Covid-19 para os países da ALBA, em cooperação com potências como a China e a Rússia. Nesta linha, Browne defendeu uma aproximação do organismo regional aos governos de Pequim e Moscovo, em particular ao nível de investimentos, e convidou a China a organizar um fórum com a ALBA-TCP.

Criada em Havana a 14 de Dezembro de 2004 por inciativa dos então presidentes da Venezuela, Hugo Chávez, e de Cuba, Fidel Castro, a ALBA-TCP integra os dois países fundadores, a Nicarágua, Dominica, Antígua e Barbuda, São Vicente e Granadinas, São Cristóvão e Nevis, e Granada.

Desde então, esta plataforma de integração regional tem fomentado a solidariedade, a justiça e a cooperação, visando concretizar transformações estruturais que levem ao desenvolvimento.

Evo Morales definiu a ALBA-TCP como um «mecanismo de dignidade para o continente». A Bolívia saiu do organismo após o golpe de Estado consumado em Novembro do ano passado, com o apoio dos Estados Unidos.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/alba-defende-maior-solidariedade-e-cooperacao-face-pandemia

Coronavírus atinge de forma mais dura Américas neste momento, alerta OMS

Siga o Brasil 247 no Google NewsAssine a Newsletter 247

 

 

Reuters - O continente americano está carregando o fardo da pandemia global de coronavírus neste momento, disse a Organização Mundial da Saúde (OMS) nesta sexta-feira, com as Américas do Norte e do Sul atualmente apresentando quatro dos 10 países mais afetados pela doença em todo o mundo.

A doença está “altamente ativa” nas Américas Central e do Sul, afirmou o chefe do programa de emergências da OMS, Mike Ryan, destacando problemas no Brasil e no México.

A situação atual do Brasil, agora um dos epicentros mundiais do coronavírus, é uma preocupação crescente, principalmente nas cidades densamente povoadas, disse Ryan.

O sistema de saúde do Brasil “ainda está suportando”, embora algumas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) estejam em um estágio crítico e sob forte pressão, com mais de 90% de taxas de ocupação do sistema de cuidado intensivo, apontou Ryan em entrevista coletiva.

O México enquanto isso tem quase 130 mil casos confirmados de Covid-19, e mais de 15 mil mortos, afirmou a OMS.

O Brasil é o segundo país mais atingido no mudo, com mais de 800 mil casos e 41 mil mortos, de acordo com uma contagem da Reuters.

 

Ambos os países estão atrás dos Estados Unidos, que tem os piores números, com mais de 2 milhões de casos e perto de 114 mil mortes.

“Estamos na ascensão dessa pandemia, principalmente no sul global”, disse Ryan. “Alguns países estão tendo problemas para sair dos chamados lockdowns enquanto estão vendo aumentos nos números de casos.”

É possível que a doença esteja se espalhando novamente enquanto as sociedades estão em reabertura e as pessoas estão voltando a se encontrar, especialmente onde não houve um número adequado de testes e o distanciamento social foi insuficiente.

 

Ainda assim, Ryan reconheceu as pressões sobre esses países para se voltar ao normal e principalmente reduzir os danos econômicos que a crise trouxe.

“Há um equilíbrio cuidadoso entre manter as pessoas em casa e o efeito desfavorável sobre a economia e a sociedade. Não é um equilíbrio fácil. Não há respostas corretas”, disse Ryan.

O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanmo Gheybreyesus afirmou que vigilância é necessária em todo mundo contra “o vírus muito perigoso” mesmo em regiões onde ele parece estar em queda.

“Nosso temor é que embora ele esteja em declínio na Europa, ele está crescendo em outras partes do mundo. Mesmo a Europa não pode estar em segurança pois o vírus pode ser reintroduzido no continente”, disse.

Bolívia: Após estudo descartar fraude, Grupo de Puebla pede que OEA valide reeleição de Morales

Siga o Brasil 247 no Google NewsAssine a Newsletter 247

 

 

Opera Mundi -O Grupo de Puebla, organização formada por 30 líderes progressistas de 12 países da América Latina, divulgou na tarde desta quarta-feira (10/06) uma nota solicitando que a Organização dos Estados Americanos (OEA) "declare a legalidade das eleições à presidência de Evo Morales", realizada no dia 20 de outubro de 2019.

O fato de a OEA ter afirmado que havia indícios de fraude na eleição que reelegeu Morales teve consequências e levou, diz o grupo, "à radicalização da oposição política boliviana, tendo como consequência um golpe de Estado" contra o ex-presidente.

O comunicado vem após um estudo de pesquisadores da Universidade da Pensilvânia e da Universidade de Tulane, divulgado pelo jornal New York Times, no qual se demonstrou, depois de uma análise da votação boliviana, que a OEA "não apresentou evidências de fraude nas eleições".

"Os pesquisadores demonstram que não houve variações nos padrões de votação, dentro dos recintos eleitorais, antes e depois da interrupção da contagem preliminar de votos. Inclusive, as trajetórias nas tendências de votação não variam em relação aos padrões eleitorais anteriores", afirma a nota.

A organização pede que a OEA esclareça "cada um dos elementos que foram contestados pelo estudo" e solicita ainda que a autoproclamada presidente da Bolívia, Jeanine Áñez, entregue o cargo devido ao "atraso sistemático e inexplicável das eleições naquele país".

"As ações cometidas pela OEA no caso boliviano são absolutamente repudiáveis, uma vez que, se suas discricionariedades forem comprovadas, permitiriam à comunidade internacional presumir que a organização multilateral foi cúmplice da derrubada de um governo democrático", diz o grupo.

 

Leia nota na íntegra:

O Grupo Puebla expressa sua preocupação com a nova evidência que esclarece a natureza precipitada e proposital da declaração da OEA , ao determinar a consumação de fraude eleitoral nas eleições realizadas na Bolívia em 20 de outubro de 2019. Este novo estudo demonstra que as evidências estatísticas disponibilizadas pela OEA são infundadas, de modo que as alegações de fraude eleitoral não têm sustentação.

O Grupo Puebla apela à comunidade internacional, com base nas dramáticas conseqüências que tiveram a observação eleitoral da OEA, considerando-as como um elemento que levou à radicalização da oposição política boliviana, tendo como consequência um golpe de estado contra o presidente da Bolívia, Evo Morales.

 

Conforme demonstra a análise dos pesquisadores da Universidade da Pensilvânia e da Universidade de Tulane, Rodríguez, Idrobo e Kronick, referenciada pelo New York Times, a OEA não apresentou evidências de fraude nas eleições. Os pesquisadores demonstram que não houve variações nos padrões de votação, dentro dos recintos eleitorais, antes e depois da interrupção da contagem preliminar de votos. Inclusive, as trajetórias nas tendências de votação não variam em relação aos padrões eleitorais anteriores. Essa publicação se soma a outros estudos, como os dos pesquisadores do Laboratório Eleitoral do MIT, publicado no Washington Post e a outros vários estudos do Centro de Investigação de Economia e Política (CEPR).

As ações cometidas pela OEA no caso boliviano são absolutamente repudiáveis, uma vez que, se suas discricionariedades forem comprovadas, permitiriam à comunidade internacional presumir que a organização multilateral foi cúmplice da derrubada de um governo democrático.

Instamos a OEA a esclarecer imediatamente cada um dos elementos que foram contestados pelo estudo de Rodríguez, Idrobo e Kronick. Ao mesmo tempo, solicitamos a presença de uma comissão independente para não deixar tudo sob responsabilidade da Secretaria Geral da OEA, a fim de resguardar o próximo processo eleitoral previsto para setembro.

Por outro lado, instamos o governo da Bolívia, liderado por Jeanine Áñez Chávez, a entregar imediatamente o poder do Estado, devido ao atraso sistemático e inexplicável das eleições naquele país.

Assinado em 10 de junho de 2020

1. Celso Amorim

2. Ernesto Samper

3. Aloizio Mercadante

4. Fernando Lugo

5. Dilma Rousseff

6. Camilo Lagos

7. Mónica Xavier

8. Rafael Correa

9. Jorge Taiana

10. Guillaume Long

11. Marco Enríquez-Ominami

12. Fernando Haddad

13. Esperanza Martínez

14. Gabriela Rivadeneira

15. Clara López

16. Daniel Martínez

17. Carlos Ominami

18. Alejandro Navarro

Os países que dão exemplo no combate à covid-19 nas Américas

 
 
Enquanto Brasil e Estados Unidos quebram tristes recordes em mortes e infecções por coronavírus, países como Paraguai, Uruguai e Costa Rica destacam-se pelas ações para conter o avanço da pandemia.
 
Com cerca de 2,3 milhões de casos confirmados, as Américas registam atualmente o maior número de infecções pelo coronavírus Sars-Cov-2 entre os continentes do mundo. No entanto, os dados de três países chamam atenção em nível regional e, em parte, global. De acordo com seus respectivos ministérios da Saúde, na Costa Rica foram registados 930 casos de covid-19  e 10 mortes; o Uruguai tem 22 mortes e um total de 769 casos; e as autoridades do Paraguai registram 862 infecções e 11 mortes.

Algo que os três países têm em comum é que seus governos agiram rapidamente, diz Carin Zissis, da organização Sociedade Americana/Conselho das Américas (AS/COA). A Costa Rica, por exemplo, foi o primeiro país da América Central em que foi registado um caso de covid-19 e, apesar de sua forte dependência do setor de turismo, em poucos dias, o país fechou suas fronteiras e restringiu as viagens.

O Uruguai declarou emergência de saúde e fechou as escolas no mesmo dia em que os primeiros casos foram confirmados. "Dos três países, é também o país com a maior taxa de testagem", afirmou Zissis à DW. O Paraguai, por sua vez, aplicou medidas de quarentena após a confirmação do segundo caso de contágio.

No entanto, como não são os únicos países latino-americanos que reagiram rapidamente à pandemia, Zissis também destaca fatores locais, como o facto de os três países terem populações relativamente pequenas. "Na América Latina, vimos que grandes áreas metropolitanas, como São Paulo e Cidade do México, são os epicentros."

 
Brasil, uma ameaça regional

Guillermo Sequera, diretor-geral de Vigilância Sanitária do Paraguai, faz uma avaliação positiva da fase de suspensão gradual das medidas de confinamento. Em entrevista à DW, ele citou o autor Roa Bastos, que descreveu o Paraguai como uma "ilha cercada por terra" e explica que é um país "com movimento e conectividade relativamente baixos com as grandes cidades do mundo. A conectividade global do território define a velocidade com que a epidemia é instalada."

No entanto, a resposta bem-sucedida do governo paraguaio ao coronavírus pode ser afetada pela gestão de crises na região. Na opinião de Guillermo Sequera, "o problema agora é o Brasil. Acreditamos que a Argentina está adotando medidas de defesa interna que acabam ajudando a região e nosso país. O que acontece no Brasil definirá o ritmo da epidemia regional e de todas as medidas não farmacológicas que estão sendo implementadas."

Na última segunda-feira (18/05), o presidente paraguaio, Mario Abdo Benítez, anunciou que, por serem os "focos mais vulneráveis", fronteiras e escolas serão os últimos a abrir. "Ainda não podemos abrir a fronteira enquanto houver disseminação significativa do vírus em nossos países irmãos e vizinhos", afirmou.
 
Luis Roberto Escoto, representante da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) no Paraguai, ressaltou que, nesse sentido, também é preocupante o número de cidadãos paraguaios que deseja retornar ao país. "Os esforços estão concentrados em organizar essas entradas de maneira mais fluída, ordenada, social e controlada do ponto de vista sanitário. A cooperação internacional também está apoiando o país a enfrentar esse grande desafio", disse o funcionário da Opas à DW.

Seu colega Giovanni Escalante Guzmán, representante da Opas no Uruguai, disse concordar que, em nível regional, o "principal desafio é a implementação de controle sanitário adequado e medidas preventivas frente à entrada de casos não diagnosticados na ampla fronteira que o país tem com o Brasil, principalmente em cidades binacionais como Rivera-Santana do Livramento e Chuí." 

Uruguai, uma história de sucesso

Segundo o especialista, "o país mostra uma evolução epidemiológica que indica que a pandemia de covid-19 está contida". Enquanto a taxa de mortalidade nos EUA é de 6%, no Uruguai, ela permaneceu estável em torno de 2,7%.

Entre os principais fatores que contribuíram para conter a propagação do vírus no país sul-americano, Giovanni Escalante mencionou "o nível sustentado de investimento público em saúde há mais de 15 anos" e destacou que "o Uruguai tem uma vantagem comparativa sobre outros países por sua solidez institucional, uma tradição democrática e cívica com uma importante credibilidade relativa em seus líderes, uma forte presença do Estado em áreas como saúde, seguridade social, sistema educacional e capacidade reguladora do setor privado."

Escalante também destacou a "civilidade da população que acatou e cumpriu as medidas restritivas sem a necessidade de torná-las obrigatórias." Também no caso da Costa Rica, o sólido sistema de saúde foi um fator-chave na luta contra a pandemia. Com 79,6 anos, a Costa Rica regista a maior expectativa de vida na América Latina, aponta Evelyn Gaiser, representante da Fundação Konrad Adenauer no país centro-americano. O Fundo da Seguridade Social da Costa Rica (CCSS) possui hospitais em todo o país e mais de 50 mil funcionários, o que equivale a um empregado para cada 100 habitantes.

Na opinião da especialista, a resposta costa-riquenha também se destaca por sua "agilidade e espírito de inovação". Em estreita cooperação com instituições privadas, o governo apostou em especialistas na área de tecnologia médica. As soluções inovadoras variam desde o desenvolvimento de equipamentos de proteção usando impressoras 3D até a implantação de um hospital especializado em covid-19 em apenas 11 dias, disse Gaiser à DW.

As medidas de contenção do coronavírus relativas aos portadores, no entanto, foram fortemente criticadas. Depois de detectar 50 casos de coronavírus em funcionários de transportadoras estrangeiras desde 5 de maio, a Costa Rica decidiu restringir a entrada de motoristas do exterior, o que gerou desconforto no setor privado e nos governos da América Central, que exigiram que a medida fosse suspensa.
 
Viola Traeder (ca) | Deutsche Welle
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/05/os-paises-que-dao-exemplo-no-combate.html

Pandemia pode jogar 215 milhões de latino-americanos na pobreza

Cepal propôe aos países da região uma renda básica universal de emergência.

 

 

A pandemia do novo coronavírus e suas repercussões econômicas ameaçam apagar 13 anos de mobilidade social na América Latina e deixar 214,7 milhões de pessoas na pobreza, além de 83,4 milhões na pobreza extrema. O alerta é da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), que propôs aos países da região estabelecerem uma renda básica universal de emergência.

Segundo a projeção, o México será o país com maior crescimento de pobreza na região, já que a pandemia expôs os problemas estruturais do modelo de desenvolvimento, as carências do sistema de proteção social e de políticas de bem-estar social muito insuficientes, frágeis e vulneráveis, declarou Alicia Bárcena, secretária executiva da Cepal.

No México se dará também o maior aumento de pobreza extrema – pessoas que não conseguem atender pelo menos metade de suas necessidades básicas –, com elevação de 4,8%. Este será o segundo país no quesito pobreza – perdendo apenas para Argentina –, com crescimento de 5,9%.

Por videoconferência, Bárcena destacou que as ações imediatas dos governos para enfrentar os efeitos econômicos da pandemia permitirão que não se caia novamente em outra década perdida, quando as crises econômicas nos anos 80 fizeram com que a região levasse 25 anos para recuperar os níveis de pobreza anteriores, que tampouco eram bons.

A Cepal propôs uma renda básica universal (para toda a população em idade de trabalhar). Os recursos para executá-la envolveriam gastos para além das margens definidas por alguns países e convocou os governos da região a fornecerem uma renda básica universal de emergência que seja focada em 34,6% da região, que hoje é pobre.

Um modelo de transferência por seis meses equivaleria a 3,4% do PIB, somados aos programas de transferência de renda adicionais. É quase metade dos 6,3% do PIB que a região perde por evasão fiscal. Segundo a Cepal, os mercados de trabalho da região são precários: existe uma alta proporção de empregos informais (53,1% em 2016, segundo a Organização Internacional do Trabalho.

Em 2018, apenas 47,4% dos ocupados aportavam sistemas de aposentadoria e mais de 20% dos ocupados viviam na pobreza). Mulheres, jovens, indígenas, afrodescendentes e imigrantes estão majoritariamente entre os trabalhadores informais.

Em qualquer cenário, a pobreza e a extrema pobreza aumentariam em todos os países. No quadro mais crítico, os maiores aumentos se dariam no México, Nicarágua e Equador. Também neste caso, a pobreza em geral aumentaria sobretudo nas três maiores economias da região – Brasil, México e Argentina –, além do Equador. Esse considera apenas os impactos no mercado de trabalho e a perda associada de renda.

Em caso de redução das remessas de familiares que migraram, a situação de pobreza daqueles que as recebem em seus países de origem deve se acentuar. Essa redução é provável, dado o forte impacto da Covid-19 na região e em países extra-regionais receptores de migrantes latino-americanos e caribenhos, como EUA e Espanha.

Em 2019, 77% da população latino-americana (470 milhões de pessoas) pertencia às camadas de baixa renda ou média baixa, com renda per capita de até três vezes a linha de pobreza, e não contava com poupanças suficientes para enfrentar uma crise. Em 2017, apenas 31,8% das pessoas economicamente ativas pertencentes a esses grupos estavam vinculadas ou contribuíam com o sistema de aposentadoria.


Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado


 

 
 
 
 
 
 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/pandemia-pode-jogar-215-milhoes-de-latino-americanos-na-pobreza/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=pandemia-pode-jogar-215-milhoes-de-latino-americanos-na-pobreza

CRISE DO COVID 19 E A INCAPACIDADE DAS SOCIEDADES NEOLIBERAIS EM LHE DAREM RESPOSTA – XXXV – ÍNDIOS E 200 MILHÕES DE PESSOAS POBRES EM RISCO NA AMÉRICA LATINA, por CLAUDIA FONTI

Indios e 200 milioni di poveri a rischio in America latina, por Claudia Fanti

Il Manifesto, 21 de Março de 2020

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

Emergência no horizonte. Da Guatemala ao Brasil, do Peru ao Chile e à Bolívia. E depois o Haiti… Sistemas de saúde esgotados, já saturados pela epidemia de dengue, face ao teste  Covid-19

 

 

                              Um policia e um vendedor ambulante numa rua de Lima © Ap

Com um número de casos de contágio Covid-19 ainda bastante baixo (cerca de 2.400, com 23 mortes no total), mas a crescer  rapidamente (mais 1678% numa semana), a América Latina corre o risco de uma catástrofe. Já comprovada, do ponto de vista sanitário, por uma das mais graves epidemias de dengue dos últimos anos, com mais de 3 milhões de casos e mais de 1.500 mortes (no ano corrente já há mais de 600.000 infetados e 156 vítimas), a região caminha lentamente para a paralisia económica, embora a quarentena obrigatória nacional ainda não tenha sido decretada em todo o lado, pelo menos com a mesma intensidade.

As consequências do isolamento  de milhões de trabalhadores informais – mais de 50% da população ativa, aumentando para cerca de 80% em países como Honduras, Guatemala, Nicarágua e Bolívia – são, no entanto, muito graves. Porque, se não forem tomadas medidas de apoio significativas, muito mais fortes do que as que foram postas em prática até agora pelos governos, os cerca de 200 milhões de habitantes que vivem abaixo do limiar da pobreza e que certamente não têm acesso ao trabalho inteligente ou não podem fazer compras na Internet, continuarão a preferir expor-se ao risco de contágio do que ficar em casa e passar fome.

E embora seja verdade que os governos podem sempre usar a força para manter as pessoas nas  suas casas, a presença da polícia e do exército nas ruas, numa região onde os protestos sociais já  têm vindo a ocorrer  há muito tempo, corre o risco de exacerbar ainda mais as tensões. Tanto mais que, para alguns governos, a crise atual já está a fornecer  um pretexto excecional para recuperar o controle social.

 

  Numa mercearia em  Santiago do Chile  (Ap)

Não é coincidência que o plebiscito sobre a nova Constituição já tenha sido adiado no Chile, que já não será  realizado em 26 de abril, mas em 25 de outubro, enquanto a eleição dos deputados  foi adiada para 4 de abril de 2021. E o mesmo destino aguarda, com toda a probabilidade, as eleições gerais cruciais na Bolívia, marcadas para 3 de Maio, em benefício, naturalmente, do governo golpista de Jeanine Añez, de cujo carácter alegadamente “estritamente transitório” já não restam quaisquer vestígios.

Os territórios indígenas são também motivo de grande preocupação, com a sua falta crónica de infraestruturas sanitárias, elevados níveis de subnutrição e acesso limitado a água potável.

Embora já seja um problema para muitas famílias indígenas rurais na Guatemala, Peru, México e outros países assegurar uma dieta decente, é até impraticável para eles abastecerem-se de  máscaras e desinfetantes, ou mesmo, em muitos casos, lavarem as mãos com água e sabão. Também não é um bom sinal que no Peru se tenha levado dias para traduzir para os idiomas originais as instruções para a prevenção do contágio.

Aliás, também muito crítica é a  situação dos povos indígenas do Brasil, onde o Conselho Indigenista Missionário (CIMI) até recomendou aos seus missionários que evitassem visitas às aldeias e cancelassem qualquer reunião, justamente para não expor a possíveis contágios  comunidades extremamente vulneráveis, ainda mais com os cortes drásticos à Secretaria Especial de Saúde Indígena decididos pelo governo. Mas, enquanto isso, já há notícias de um caso suspeito de pataxó indígena na aldeia de Coroa Vermelha, no sul da Bahia.

 

 

                                       Caixas de rum no aeroporto de Port au Prince (Ap)

 

ENTRE AS SITUAÇÕES potencialmente mais explosivas há também a do Haiti, onde no dia 19 de março foram registados os dois primeiros casos de positividade no Covid-19. No  meio de uma crise política, num total vazio institucional, sem recursos e com um sistema de saúde praticamente inexistente, a população haitiana está de facto abandonada a si mesma. Tanto que ontem muitas crianças apareceram na escola, apesar da suspensão das aulas decidida no dia anterior pelo governo de Jovenel Moïse, porque os seus pais não tinham sido informados.

O Haiti também não pode contar com a ajuda da China, que é essencial para outros países da região, já que o governo optou por manter relações diplomáticas com Taiwan, em detrimento das com Pequim.

 

Fonte: Claudia Fanti, Il Manifesto, Indios e 200 milioni di poveri a rischio in America latina, . Texto disponível em: https://ilmanifesto.it/indios-e-200-milioni-di-poveri-a-rischio-in-america-latina

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/04/30/crise-do-covid-19-e-a-incapacidade-das-sociedades-neoliberais-em-lhe-darem-resposta-xxxv-indios-e-200-milhoes-de-pessoas-pobres-em-risco-na-america-latina-por-claudia-fonti/

Alerta das Nações Unidas para travar a fome na América Latina

A suspensão das aulas, por causa da pandemia de Covid-19, fez com que 85 milhões de estudantes deixassem de receber refeições escolares na América Latina e Caraíbas, revelou a ONU.

A crise agravada pela pandemia de Covid-19 aumenta os riscos de fome, pobreza e desigualdadeCréditos / elheraldo.hn

A Direcção Regional do Programa Alimentar Mundial (PAM) das Nações Unidas para a América Latina e Caraíbas sublinhou, numa nota divulgada na sua sede, na Cidade do Panamá, que o «almoço escolar representava para muitas crianças a "única refeição do dia"» e, neste sentido, instou os governos da região a encontrar alternativas que permitam proteger «as crianças e famílias pobres da escassez alimentar».

A nota, a que a agência Prensa Latina teve acesso, é assinada pelo director regional do organismo da agência da ONU, Miguel Barreto. Nela, reconhece que as autoridades de vários países entregam doses de alimentos através de escolas ou em casa, nas quais se incluem arroz, feijões, azeite e farinha de milho, no âmbito de um programa social adaptado às consequências da crise sanitária.

Além das crianças em idade escolar, o PAM considera que existem outros grupos populacionais vulneráveis que também necessitam de apoio, tendo referido adultos idosos, grávidas, lactantes, menores de cinco anos, portadores de HIV e famílias com baixos rendimentos. Defendeu que as autoridades devem agir rapidamente, uma vez que estes grupos correm o risco de ser «empurrados ainda mais» para «a pobreza e a fome», em virtude da situação de crise.

No entender do funcionário da ONU, programas sociais concebidos para «diminuir a pobreza» podem ser uma base de resposta, nomeadamente «pensões sociais, subvenções, transferências monetárias ou em espécie, entrega de alimentos e refeitórios económicos».

Mais de 200 milhões de pessoas – um terço da população da região – estão «protegidas», afirmou, sendo que, em 23 países, se aumentou as ajudas monetárias para fazer frente a certas necessidades básicas enquanto as pessoas estão de quarentena.

No entanto, lembrou Barreto, há grupos que carecem de cobertura, como os migrantes e os trabalhadores da chamada economia informal, que enfrentam actualmente situações de «desamparo nesta emergência sanitária», com «grande impacto social e económico».

Recentemente, o PAM alertou que a pandemia de Covid-19 e o seu impacto económico poderiam levar à duplicação, no final de 2020, do número de pessoas que actualmente são afectadas por insegurança alimentar severa: cerca 265 milhões de pessoas é a estimativa do PAM.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/alerta-das-nacoes-unidas-para-travar-fome-na-america-latina

Geografia política do Coronavírus na América Latina

Na América Latina, a chegada da pandemia da COVID-19 aborreceu todos os apriorismos de analistas e formadores de opinião. Cada país, uma realidade. Os posicionamentos na cartografia ideológica, econômica e demográficas não servem para nos guiar quanto a medidas de confinamento, toques de recolher, suspensão de eventos eleitorais e outras medidas preventivas frente à crise.

Entretanto, em meio dessa atomização  nacional das respostas, é possível identificar  alguns lugares comuns que traçam tendências regionais comuns reconhecíveis.

É notória a reação exagerada de alguns líderes que enfrentavam grandes contestações sociais e políticas. O coronavírus estaria sendo assim uma desculpa para intensificar ataques à oposição, dissipar protestos populares e exibir o músculo repressivo.

Efetivamente, Ánez, na Bolívia, não demorou em adiar as eleições, a aprovar o toque de recolher e iniciar a perseguição de jornalistas e cidadãos críticos nas redes. Em El Salvador, apenas um mês atrás, Bukele invadia a Assembleia Legislativa com as forças armadas. Neste cenário, ele se apressou (sem nem ter um caso confirmado de COVID-19) em fechar as fronteiras do país, iniciar um toque de recolher  e pactuar um tipo de lei marcial com o crime organizado das gangues salvadorenhas. No Equador, o decadente governo de Lenín Moreno, que enfrentou graves conflitos com o movimento popular nas serras equatorianas, não demorou para aprovar um toque de recolher em todo o país, sem distinção entre a costa de Guayas (que ainda é menos hostil ao governo) e o resto do país. Finalmente, no Chile, Piñera se “aproveitou” da situação para adiar um plebiscito constitucional que o tinha contra a parede e para dissipar a população em protesto nas ruas com um rígido toque de recolher sem racionalidade médica. Na Guiana, ainda é “desconhecido” o resultado das eleições presidenciais, um mês após a nomeação eleitoral.

Outro eixo destacável como lugar comum é o que opõe a economia e a saúde. No campo dos apaixonados pela econometria se destacam Brasil, Chile e Colômbia, países em que os governos e seus ministros de Saúde subestimaram e minimizaram o impacto do vírus no seu estágio inicial (Brasil) ou sob a pressão do establishment empresarial para relaxar ou finalizar as medidas de confinamento (Colômbia).

Nesses casos, se mostram as outras facetas marcantes da geografia política dessa crise: o papel dos governos distritais e locais na frente de defesa da saúde pública contra seus governos. As lideranças na crise estão em campo distrital. No Brasil, o Supremo Tribunal de Federal anulou a tentativa de Bolsonaro de acabar com as quarentenas impostas pelos governadores e prefeitos como João Dória (São Paulo) ou Wilson Witzel (Rio de Janeiro). No Chile, o prefeito de Valparaíso, Jorge Sharp, liderou 56 prefeitos que exigiam a quarentena para o indolente Piñera. Na Colômbia, o governador de Magdalena, Carlos Caicedo, e a prefeita de Bogotá, Claudia López, enfrentam abertamente um presidente comprometido com o fim das quarentenas.

Em todo caso, o que parece claro é que, no contexto do tobogã emocional causado pela pandemia, a população está em busca de certezas para se agarrar. Os presidentes que agiram com rapidez e de forma indubitável estariam – por enquanto – recebendo o apoio da opinião pública. E isso ocorre independente da pertinência epidemiológica de suas medidas. Assim, por exemplo, embora Bukele parecesse exagerar ao adotar medidas de contenção em vez de adotar medidas de acompanhamento e prevenção antes de ter qualquer caso no país, sua imagem se recupera. Pelo contrário, no México, as medidas ajustadas às recomendações da OMS e à realidade nacional – de um país com capacidade farmacológica e com um dos sistemas de saúdes mais robustos da região – estariam sendo penalizadas por sua precisão e moderação. Piñera  e Duque estão dando um respiro de alívio graças à aprovação de suas medidas iniciais – como toque de recolher -, embora ainda esteja por decidir como evoluirá o conflito com as forças distritais e o desequilíbrio entre economia e saúde.

Enquanto isso, os líderes de partidos opositores estão se vendo em uma dura prova. Efetivamente, a maioria dos líderes opositores regionais, da esquerda à direita, estão desaparecidos ou fagocitados. No Uruguai, a Frente Ampla não encontra uma figura que possa disputar com Lacalle Pou, que joga com a vantagem da herança recebida pelo último governo, saneada na esfera econômica e no setor da saúde. Na Argentina, um Macri derrotado e seus seguidores suportam silenciosamente a liderança esmagadora de Alberto Fernández, algo semelhante ao que acontece no Paraguai, onde Efraín Alegre se vê com dificuldade de levantar a voz enquanto a ala pactista do liberalismo-  Blas Llano – aparece abraçada ao presidente Mario Abdo para afrontar a crise. No Peru, um fortalecido Vizcarra, vencedor moral das eleições legislativas de janeiro, não encontra ninguém à sua frente, sendo apoiado por medidas ágeis e imaginativas de todos os tipos.

Foge desta situação o senador Gustavo Petro na Colômbia, que acompanha a rejeição dos prefeitos ao governo e à frouxidão de Duque e Rafael Correa no Equador, que apesar dos últimos casos de violência contra sua figura via lawfare, continua sendo uma ótima alternativa ao colapso do governo de Lenín Moreno.

Mas, para saber com detalhes como o cenário se desenrola, vamos ver o que acontece em todos os cantos da região.

Um passeio pela região

Equador e o presidente ausente

As medidas de contenção no Equador tiveram duas fases. Na primeira, foi declarado um estado de exceção em 16 de março, com o decreto de toque de recolher das 21h às 05h (a partir das 16h em Guayaquil desde o dia 18 de março e a partir das 14h em todo o território desde 24 de março). Os voos nacionais, o transporte interprovincial e a circulação de automóveis particulares foram suspendidas. A mobilidade foi limitada a apenas saídas para compra de alimentos.

Na segunda fase, iniciada no dia 2 de abril, foram prolongadas as medidas já existentes e incrementada a suspensão da jornada de trabalho presencial até o dia 12 de abril (uma medida que também fora adotada na Espanha e Itália tendo em vista os 100.000 contagiados). Por sua vez, se mantém a suspensão do transporte internacional e interprovincial de passageiros em todo o mês de abril, a proibição de circulação de pessoas entre as províncias, a suspensão de grandes eventos e espetáculos públicos entre abril e maio, e foi estabelecida uma ordem obrigando a todas as autoridades dos GAD  (governos de Estado, prefeituras, etc.) a acatar as resoluções de um Comitê de Operações de Emergência (COE).

Apesar das medidas, o impacto da pandemia exacerbado pela presença de cadáveres nas ruas de Guayaquil acabou corroendo a imagem presidencial de Lenín Moreno, que já estava sendo seriamente abalada pela dura crise que o Equador está passando. Sua gestão errática, irradiando pouca confiança e deixando em dúvida os próprios gerentes de crise indicados por ele (a quem ele questionou o número de mortos e infectados) fez sua liderança pessoal cair a menos de 5% de aprovação e comprometeu seriamente a capacidade do governo nacional de liderar um processo que requer disciplina social e orientação. Um relatório recente do IPSOS revela que a medida de quarentena é aprovada pela maioria da população, embora a aprovação do governo como um todo seja de 29%.

Como se isso não bastasse para o presidente, que está no grupo de risco, não está na vanguarda da crise, que dirige seu vice-presidente, o que diminui ainda mais a confiança equatoriana em seu governo.

A demanda por certezas está crescendo e o governo atualmente não está ajudando a reduzir o caos. As autoridades da área mais atingida pela crise, na província e cidade de Guayas – Guayaquil, um conglomerado político que aspirava herdar o governo Moreno na figura de Jaime Nebot, também estariam vendo-se atingidas por sua incapacidade de responder operacionalmente à crise com instituições com recursos mínimos, após décadas de governos locais neoliberais. No que se refere à confrontação política, a principal linha de discurso do governo é contra Rafael Correa, encabeçada por Maria Paula Romo e o porta-voz mais virulento, Guillermo Lasso. A dura sentença ditada contra o ex-presidente no contexto de uma crise de reputação governamental pode acabar se voltando contra todo o argumento anti-correista do governo.

A tensão entre economia e saúde também está em um momento crítico, segundo o IPSOS, até 24% da população declara que precisa sair para comprar certos produtos e não tem dinheiro para isso. Em um contexto socialmente explosivo, a possibilidade de adiar as eleições presidenciais e legislativas de 2021 devido à emergência sanitária do covid-19 , proposta por Diana Atamaint, presidente do Conselho Nacional Eleitoral, não contou com o apoio do presidente Moreno. Ele rejeitou a proposta dia 30 de março.

No que se refere ás medidas de proteção social, um vale de proteção social de 60 dólares foi estendido para ajudar 400.000 pessoas que trabalham por conta própria e estão na linha de pobreza (renda inferior a 400 dólares por mês). No plano da economia formal, o ministério do trabalho estabeleceu que os empregadores do setor privado determinarão a forma e a recuperação de até 12 horas por semana, fazendo com que o ônus da rescisão autorizada de 25% das horas da jornada de trabalho recaia sobre os trabalhadores. Até 25 de março, 6.027 empresas haviam se beneficiado da suspensão, redução e modificação emergente da jornada útil. A principal pressão para expandir as medidas em favor das empresas vem de Nebot, que propõe a aprovação de jornadas reduzidas/parciais, uma medida cujo os resultados em termos de precarização são amplamente conhecidos.

Brasil e o beijo de judas no Messias

No caso do Brasil, foi a própria cidadania que se rebelou contra a indiferença governamental, exigindo medidas para prevenir o contágio massivo. Bolsonaro está entre os dirigentes que, junto com Trump, começaram menosprezando o impacto do coronavírus. Os diferentes panelaços contra Jair Bolsonaro também revelaram as diferenças nas ações dos governos locais com estigmas políticos distintos. Por final, até a muita politizada Justiça brasileira na última sexta feira de março ordenou ao governo central o cancelamento de uma campanha publicitária que visava suspender o isolamento devido a pandemia. O Brasil não é apenas o país mais populoso do continente, mas também o país com o maior número de infecções e mortes por COVID-19.

As ações de Bolsonaro não seguiram nenhuma das orientações da OMS e clamou repetidamente pela volta da vida normal, argumentando que os alertas eram apenas produtos da “histeria coletiva”. Entre os discursos do Bolsonaro, se destacaram o seu apelo à virilidade e ao misticismo religioso. Incrivelmente, ele também foi o primeiro impulsor de notícias falsas nas redes sociais. A oposição à má gestão de crise do Executivo veio por parte dos governos estatais e locais, inicialmente oriundos do nordeste brasileiro, mas também de governadores que até recentemente serviam como aliados, alguns prefeitos, e de pouco a pouco, até o próprio ministro da saúde, o congresso e o Supremo Tribunal Federal se opuseram. O confronto com o Executivo adquiriu um termo de vida ou morte, que acabou fortalecendo a unidade da oposição junto com diversas figuras públicas.

Segundo a última pesquisa conhecida, realizada entre os dias 1 e 3 de abril em todo o pais, enquanto o ministério da saúde recebeu 76% de aprovação (boa e muito boa), Bolsonaro recebeu 33% (teve 35% de aprovação até o dia 25 de março). Ao tempo, desde o pico de poder de Bolsonaro, a distância para uma possível saída do presidente vem sendo encurtada, razão pela qual não é irracional afirmar que sua falta de reflexos diante da crise e sua dissonância com as demandas sociais de maior contenção poderiam chegar a ser um fator decisivo para sua queda.

Chile e o impasse do pinochetismo encurralado

No Chile, a pandemia ocorre logo após a maior onda de protestos de massas que não apenas devastou a legitimidade presidencial, mas também conseguiu um processo constituinte, que permitiria varrer os andaimes jurídicos do pinochetismo. O plebiscito convocado para esse fim, já foi adiado para 25 de outubro, após a pandemia, em um acordo entre os partidos.

As medidas restritivas impostas com entusiasmo pelo governo não apenas serviram para evitar o contágio, mas também para evitar a presença multitudinária da sociedade nas ruas. No dia 18 de março, as fronteiras foram fechadas para estrangeiros. Nesse mesmo dia, foi decretado um “estado de exceção” de 90 dias por meio de um toque de recolher, uma medida mais ideológica do que eficaz em termos epidemiológicos. Também foi criada uma Mesa Solidária COVID-19 com diferentes atores políticos e sociais. A quarentena não é obrigatória, exceto em 6 comunidades de alta renda em Santiago e na Ilha de Páscoa.

As últimas pesquisas conhecidas revelam que essa estratégia de dura resistência ao vírus melhorou parcialmente a rejeição da imagem presidencial. Um estudo da Cadem, realizado entre 18 e 20 de março, mostrou que nas últimas duas semanas houve um aumento consecutivo na aprovação do presidente: subiu 3% e agora possui 21% de aprovação.

A rejeição a sua administração também foi reduzida de 71% para 68%. Quanto ao seu governo, 19% o aprovam, enquanto 73% rejeitam seu desempenho. Por sua vez, a pesquisa da Criteria, realizada entre o dia 26 e 30 de março, indica que Piñera tem sua imagem positiva estagnada entre 15% da população. Em relação a gestão de combate ao coronavírus, os chilenos avaliam em 13% de aprovação seu governo, 52% de aprovação ao Colégio Médico [ed: entidade associativa que compõe a Mesa Solidária] e o trabalho dos prefeitos em 54%.

A chegada da pandemia no Chile expôs a extrema privatização do sistema de saúde chileno e as restrições existentes de acordo com a renda para receber os cuidados adequados.

Por outro lado, o Chile expõe como nenhum outro país a tensão existente entre economia e saúde. Piñera tomou medidas bastante frouxas para o sistema de saúde, como um vago aumento do orçamento e ordens de restrições quanto a mobilidade. Quarentenas seletivas e a recusa em impor isolamento obrigatório para todos visam aliviar a desaceleração da atividade econômica e possíveis surtos.

As principais tensões políticas com o Executivo ocorreram em três setores: (i)os movimentos sociais e ciadãos que lideraram os protestos no final do ano passado e que estão latentes na organizando a resistência pelas redes sociais; (ii) o Colégio Médico do Chile, que defende a plena implementação das recomendações da OMS,  em franco desacordo com o Ministério da Saúde, que minimiza o perigo do vírus, e (iii) os chefes de muitos governos locais. Nesse último, os prefeitos, inclusive aliados do presidente, estão tomando medidas próprias.  Esta tensão tem seu atrito principal no controle da ordem pública, muito centralizado no Chile.

De fato, o controle das quarentenas decretadas em alguns municípios requer força de ordem pública, e isso é de responsabilidade do governo central. A “Mesa Social” criada no final do mês retrasado, buscou ser uma instância de acordos, embora tenha tido pouca eficácia diante da recusa do governo em endurecer as medidas de proteção da população.

Colômbia e as novas lideranças pedagógicas

Na Colômbia, a resposta do presidente Ivan Duque ante a pandemia veio de forma paulatina e pressionada pelas decisões das autoridades locais, especialmente do prefeito de Bogotá. A posição inicial do governo central foi imitar a posição do governo central brasileiro de minimizar e subestimar o perigo do vírus e fechando a possibilidade de parar a economia com isolamento social geral.

As ações concretas do governo começaram no dia 10 de março com a Resolução 380 do Ministério de Saúde e Proteção Social, onde medidas preventivas foram estabelecidas mas sem declarar isolamento ou outras medidas de grande impacto. Dois dias depois, o Ministério declarou uma emergência de saúde e mais tarde, por decreto, declarou emergência econômica, social e ecológica foi promulgada.

Após a declaração de toque de recolher de forma autônoma pelos líderes do municípios e a declaração de uma medida particular de isolamento pedagógico em Bogotá, Duque se viu obrigado a decretar o isolamento obrigatório desde o dia 24 de março a 13 de abril para depois estendê-lo até o fim do mês.

Em Bogotá, a prefeita Claudia López, definiu uma simulação obrigatória de isolamento do dia 20 a 24 de março, ainda que não fosse uma medida efetivada em todo o país. Enquanto isso, o governador de Magdalena, Carlos Caicedo, decretou uma quarentena desde o dia 21 de março, 3 dias antes do decreto presidencial. Em ambos os casos, os líderes locais procuraram a mídia para explicar as medidas e orientações corretas sobre o gerenciamento da pandemia.

Os meios de comunicação tradicionais vem sendo o centro da estratégia governamental durante a pandemia, com a preocupação de melhorar a desgastada imagem presidencial. Neste contexto, algumas pesquisas de opinião indicam que 46% dos entrevistados afirmam estar de acordo ou muito de acordo com as ações do Presidente Duque, enquanto, por exemplo, a aprovação de Claudia López atinge 86,2%.

Mesmo em contexto extraordinário, o Estado Colombiano segue fiel ao seu estilo, com medidas de forte tom repressivo repressiva. O toque de recolher é realizado na presença do exército enquanto o congresso está fechado e em prática, Duque governa por decreto. Por final, a saúde está sendo organizada em um sistema misto, com um regime contributivo e um subsidiado, no qual se encontra a totalidade da população. Empresas privadas e mistas (com ações estatais) que prestam serviços de saúde (EPS) estão recebendo recursos estatais e privados dos dois regimes e administram o acesso ao direito á saúde. Com a declaração da emergência de saúde pelo COVID-19, o governo adiantou o pagamento dos EPS e começou a compra de roupas de cama, respiradores e outros suprimentos básicos para enfrentar a pandemia. Todos esses insumos devem ser comprados do exterior e evidenciam o caráter deficiente do sistema sanitário.

Vizcarra se destaca

No caso do Peru, Martin Vizcarra adotou cedo medidas e contenção sem nenhuma hesitação. As medidas de contenção de isolamento unidas a um bônus adiantado para 800.000 famílias mais vulneráveis seriam a chave do aumento de 16 pontos em sua popularidade, que agora chega a 87% de aprovação.

Vizcarra entrou pela porta pequena, mas mostrou que sabe aproveitar das crises. Durante seu mandato, ele varreu a oposição Fujimori, deslocando-a do Congresso e formando uma nova oposição altamente fragmentada. No meio dessa crise, ele aumentou sua popularidade com medidas restritivas e um toque de recolher total para a Páscoa.

Em termos de comunicação política, Vizcarra sustentou aparições recorrentes na mídia pública com o objetivo de fornecer relatórios sobre o estado da pandemia e transmitir cada uma das notícias à população para mostrar que existe uma coordenação política avançada com os diferentes atores, poderes governamentais e instâncias do Estado. Note-se que o Peru realizará eleições gerais em 2021 e que na Constituição é proibida a reeleição imediata; Vizcarra não tem apoio partidário nem apoio na esfera legislativa. Para mostrar apoio por parte do Estado, foi formado um grupo de trabalho integrado pelas máximas autoridades do congresso, do poder judiciário, Ministério Público, Defensoria do Povo, Tribunal Constitucional e Controladoria Geral. Ao encontro desses grupos foi adicionada uma teleconferência com os governadores regionais, onde Vizcarra afirmou que “essas medidas terão o resultado esperado na medida em que sejam apoiadas pelas autoridades regionais e locais”.

No meio da pandemia, Vizcarra imitou práticas antigas de seus supostos inimigos: o autoritarismo fujimorista. O país foi militarizado para controlar a quarentena geral e as garantias de liberdade foram suspensas pelo estado de emergência; além disso, se promulgou uma lei de gatilho fácil. A regra tem caráter permanente, não se limita ao estado de emergência e exime os membros das forças de segurança ao usarem suas armas contra a população “no comprimento de seus deveres”. Além disso, como no Panamá, ele providenciou que os homens e mulheres apenas saíssem em dias alternados, embora mais tarde se declarasse como o primeiro presidente a reconhecer e a incluir a comunidade trans em seu discurso presidencial. Dessa maneira, o jogo maniqueísta entre punitivismo, direitos de terceira geração e governança por meio de pesquisas de opinião, foi selado.

Por final, o governo aproveitou suas linhas de crédito com um programa ambicioso de US $26 bilhões de dólares para aliviar a quarentena e prestar assistência à enorme enorme proporção de trabalhadores informais. Apesar disso, para o The Economist, o PIB pode contrair pelo menos 4,5%

Bolívia, punitividade e eclosão de medidas coercitivas pós golpe

Na Bolívia, após o golpe de Estado, as ações repressivas se seguiram. O uso de figuras penais de sedição e terrorismo para perseguir ex-autoridades do MAS, líderes sociais e pessoas que expressam posições críticas ao governo do golpista são permanentes. A pandemia não foi uma exceção na abordagem do Estado.

Em primeiro lugar, o toque de recolher foi emitido no dia 18 de março, das 17h00 ás 06h0. Essa medida não mostra uma preponderância de argumentos técnicos sanitários para tomá-la e, como não foi planejada adequadamente, causou aglomerações entre a população em determinados horários que pioraram a probabilidade de contágio entre as pessoas.

Quando a quarentena total foi estabelecida no dia 23 de março, foram institucionalizadas medidas penais e de multa de até Bs$1.000$ (143$ dólares estadounidenses) para as pessoas que não cumprirem a quarentena. As declarações de ministros do governo chamam a atenção por relacionarem o MAS com alguns casos de incumprimento da quarentena desde o início da mesma, estigmatizando até uma cidade como El Alto, definindo-os como selvagens os suplentes que alegavam que a quarentena não poderia ser eficaz sem medidas sociais e econômicas para acompanhar essa decisão. Na última semana, destacam-se as declarações do ministro Wilfredo Rojo, nas quais ele declara que o MAS “sob o pretexto da fome” usa a distribuição de alimentos e dinheiro para promover na sociedade a quebra da quarentena. Houve muitos casos de prisões de pessoas que protestaram porque as medidas socioeconômicas têm sido insuficientes, como em Riberalta (Beni) e Ypacani (Santa Cruz).

Múltiplas ameaças também foram feitas por ministros de Estado, principalmente por parte de Arturo Murillo (Ministro do governo e encarregado da segurança interna) para aprisionar até funcionários de saúde subnacionais que fornecem “informações falsas” sobre o coronavírus. Também foi anunciado que as redes sociais estão sendo monitoradas.

Uma questão particularmente controversa foi a decisão do governo golpista de não permitir a entrada de 300 bolivianos e bolivianas vindos do Chile, entre os quais se encontravam crianças e mulheres grávidas. Esta decisão violou uma recomendação específica de organizações internacionais, como a OMS, que recomenda que os Estados permitam que as pessoas possam retornar aos seus países. Paralelamente, o governo de Jeanine Anez coordenou voos de repatriamento de estrangeiros da Bolívia para os EUA e Europa.

No que diz respeito ao escudo social, o governo de Anez reagiu reforçando os vínculos que atendem aos setores populares (Juancito Pinto e a Renta Dignidad) mas não adotou medidas para mitigar o golpe econômico na economia informal majoritária.

Quanto ao conflito entre os diferentes níveis de governo, desde o início houve uma forte tensão inicial entre o governo central e o governo municipal de Santa Cruz sobre as horas de proibição de movimento durante o toque de recolher, antes do decreto da quarentena total obrigatória. Essa tensão política é o resultado de uma luta entre distintas posições da direita, posições que já estavam ficando tensas no contexto pré-golpe.

Da mesma forma, houve tensões entre as autoridades nacionais e as autoridades subnacionais identificadas com o MAS, dentre as quais se destaca a tensão com o governador e o prefeito de Oruro. Essas autoridades emitiram a quarentena obrigatória antes que o governo nacional o fizesse, quando 8 casos de COVID-19 foram encontrados neste departamento. Também existem fortes tensões entre as autoridades de saúde, particularmente entre o ministério e o serviços de departamento de saúde. Destacam-se os casos de Cochabamba (em que Murillo ameaçou aprisionar publicamente o diretor departamental de saúde por ter denunciado que havia muito atraso no processamento de exames laboratoriais) e em La Paz, (onde o Ministro da Saúde denunciou publicamente uma grande dificuldade de coordenação com a instância departamental).

Uruguai e as vantagens da herança recebida

A crise da pandemia no Uruguai explodiu duas semanas depois da instalação do novo governo de direita. A partir de então, todos os dias o Executivo realiza uma conferência de imprensa transmitida ao vivo. Os porta-vozes mudam mas Luis Lacalle e/ou o secretário do presidente, Álvaro Delgado, está presente em todos eles. As primeiras medidas adotadas foram de natureza sanitária e concentraram-se em mitigar a entrada de casos “importados” do COVID-19. Isso inclui, “fechamentos de fronteiras” com quarentena obrigatória de 14 dias para passageiros de países declarados em risco.

O primeiro a se destacar é que, após 15 anos de governo da Frente Ampla, as capacidades do Estado para enfrentar a pandemia são de enorme força. Desde a saúde pública às tecnologias de comunicação que atingem praticamente todos os lugares (incluindo a Internet e o plano Ceibal, que concede um computador por criança). Há também a confiança do país na esfera internacional, que dá origem a linhas de crédito de até 1.500 milhões de dólares, se necessário.

O segundo conjunto de medidas sanitárias visa reduzir a circulação interna do vírus. Nesse sentido, a exortação a ficar em casa tem sido constante, mas até agora não foi declarado o caráter obrigatório. Nesse conjunto de medidas, destacam-se a suspensão de aulas em todos os níveis educacionais e a suspensão de todos os espetáculos artísticos, para evitar multidões. No mesmo sentido, foram tomadas medidas para reduzir as linhas de transporte. Outras medidas no âmbito econômico envolvem a extensão dos planos sociais existentes, novos programas, linhas de crédito para as empresas, implementação do teletrabalho e a expansão de modalidades abrangidas pelo seguro-desemprego. A publicação de uma lista de preços de produtos básicos também foi estipulada, mas o preço desses produtos não foi determinado, apesar do comportamento abusivo de várias empresas e comércios.

O segundo conjunto de medidas sanitárias visa reduzir a circulação interna do vírus. Nesse sentido, a exortação a ficar em casa tem sido constante, mas até agora não foi declarado o caráter obrigatório. Nesse conjunto de medidas, destacam-se a suspensão de aulas em todos os níveis educacionais e a suspensão de todos os espetáculos artísticos, para evitar multidões. No mesmo sentido, foram tomadas medidas para reduzir as linhas de transporte. Outras medidas no âmbito econômico envolvem a extensão dos planos sociais existentes, novos programas, linhas de crédito para as empresas, implementação do teletrabalho e a expansão de modalidades abrangidas pelo seguro-desemprego. A publicação de uma lista de preços de produtos básicos também foi estipulada, mas o preço desses produtos não foi determinado, apesar do comportamento abusivo de várias empresas e comércios.

A demagogia não está ausente no Uruguai e toma o rosto contra os apelos por cortes temporários dos cargos políticos, bem como nos “altos” salários dos funcionários públicos. Isso contribuiria para um fundo criado para receber doações e outras outras fontes de renda para a crise. A quantidade de recursos gerados por esses “cortes” é insignificante em termos de custo total, mas a ação política é clara (mais de 80% da população o apoia. Por outro lado, confronta os trabalhadores públicos e privados e ajuda a fortalecer o preconceito sobre eles e, portanto, contra o Estado, que será um expoente para se posicionar quando as posições neoliberais retornarem claramente.

Dentro dos movimentos sociais, o primeiro grupo a sair forte em propor medidas foi o Sindicato Médico do Uruguai, que instou promover a quarentena geral antes das medidas do governo. Da mesma forma, o movimento sindical realizou várias ações, por exemplo, um acordo entre o Sindicato da Construção e o sindicato dos empregadores para interromper as obras (exceto as de hospitais). A princípio, o governo os impediu, mas depois aprovou a proposta. Por sua parte, a Universidade da República convocou um comitê de crise acadêmica em 16 de março e tem sido um ator importante, principalmente por colocar o componente científico em debate e colaborar com a pesquisa, tanto nos kits de teste quanto na tecnologia disponível para a avaliação da amostra.

A Frente Ampla é o único partido da oposição e tem tido dificuldade em tomar uma posição clara e centralizada. Embora tenham desenvolvido um conjunto de medidas que eles acreditam que devem ser implementadas, a falta de um porta-voz legítimo e ordenado impediu que ele fosse capaz de superar a barreira midiática.

Argentina, o progressismo se reinventa

A Argentina foi o primeiro país a tomar medidas contra a pandemia, em parte porque também foi o primeiro país da região com casos. Desde então, as medidas do executivo tiveram a aprovação da maioria da população. Tanto os consultores da M&F como os da Poliarquia y Analogias concordaram que o governo nacional tem um alto nível de aprovação, enquanto a imagem positiva de Alberto Fernandez subiu para níveis recordes. No estudo da M&F, 91,7% dos entrevistados que aprovam muito (65,2%) e aprovam algo (26,5%) na forma de como Alberto Fernandez conduz o problema do coronavírus no país. Desagregado pelos votos no presidente, 87,2% dos que votaram na Frente de Todos aprovam em “muito” as ações do governo, enquanto 45,3% dos que votaram no Juntos pela Mudança aprovaram em “muito” o governo.

Para a Poliarquia, 64% dos pesquisados valorizam positivamente a administração do presidente, com uma tendência ascendente. Último, Analogias constatou um nível de aprovação das medidas do executivo em 79%, enquanto o valor da imagem positiva do presidente varia para 94%, apoiado por todos os segmentos etários e em todas as variáveis sociodemográficas.

A Argentina não apenas se concentrou nos cuidados, dissolvendo também uma contradição inexistente entre saúde e economia (como está sendo dramaticamente evidente para quem apostou na economia no início da crise), mas também estabeleceu um precedente importante em termos de integração regional. Em sua participação no G-20, promoveu os valores da solidariedade internacional para a criação de um Fundo de Solidariedade Humanitária e se referiu aos países que estão sofrendo bloqueios e sanções econômicas em referência à Venezuela e Cuba.

Além das medidas obrigatórias de confinamento, o governo enfatizou que não era necessário tomar medidas como toque de recolher ou estado de sítio, e que a resolução da pandemia viria da democracia. O governo argentino, que assumiu no final de 2019 após 4 anos de desastre e endividamento macrista – que reduziu o Ministério da Saúde à secretaria, reduzindo o orçamento em saúde e ciência e tecnologia – reconstruiu a capacidade estatal descartada pelo seu antecessor. Em março, a Unidade COVID-19 foi criada pelo Ministério da Ciência e Tecnologia, pelo Conicet e pela Agência Nacional para a Promoção da Pesquisa, Desenvolvimento Tecnológico e Inovação. Seu objetivo é articular as capacidades que a área de C&T (ciência e tecnologia) possui para enfrentar a pandemia. A Argentina foi escolhida como um dos 10 países do mundo para testar e produzir possíveis medicamentos contra o vírus e recentemente, cientistas argentinos conseguiram decifrar o genoma do vírus. Tudo isso demonstra que as decisões de governo são capazes de fazer a diferença.

Em relação ao objetivo da oposição, Fernandez conseguiu fazer com que a crise cancelasse a rixa e fez discursos em unidade com eles, recebendo assim o apoio de seus oponentes. O presidente é o único porta-voz e deve liderar uma crise sem precedentes em um contexto de endividamento que bate recordes históricos logo após sua posse. É por isso que a oposição -fundamentalmente aqueles que vem do governo anterior- decidiram embainhar a espada das hostilidades e apoiar, por enquanto, seu governo.

Venezuela e a resiliência planejada

A resposta do governo da Venezuela foi rápida. Se antecipou às medidas tomadas em outros países da região. Nicolas Maduro tomou a iniciativa política em meio ao cerco que o país está sofrendo com o bloqueio econômico ignorante dos EUA, da União Europeia e do chamado Grupo de Lima. Uma das principais articulações venezuelanas foi com o governo da China para conhecer em detalhes as medidas para conter a pandemia e incorporar todas as indicações para evitar uma situação crítica como a que ocorreu na Itália e na Espanha.

O governo venezuelano estabeleceu a Comissão Presidencial para o Controle e Prevenção da pandemia, orientando medidas específicas para o controle sanitário, compra de testes de COVID-19, equipamento de proteção para o pessoal da saúde (roupa, luvas, máscaras e óculos) bem como a aplicação de medidas econômicas destinadas a garantir a quarentena obrigatória. Foram reforçadas missões específicas sobre questões sociais (a missão Barrio Adentro) e outros programas, como o Carnet de la Patria e os comitês locais de suprimento e produção (CLAP), com o objetivo de garantir a alimentação de 2 milhões de famílias, alcançadas pelas medidas.

O ministério das relações exteriores da Venezuela informou que cerca de 16 mil migrantes venezuelanos estão tentando retornar através da fronteira terrestre com a Colômbia e determinou um envio de um comitê sanitário na fronteira para recebê-los, com medidas de quarentena obrigatória, acompanhamento social e um pacote de ajuda necessário para o repatriamento. No dia 4 de abril, o governo anunciou um toque de recolher em dois municípios fronteiriços (Táchira e Ureña) para impedir que grupos armados colombianos atravessassem a fronteira por medidas ilegais e se tornassem fatores de risco, devido a sua atividade ilegal e à possibilidade de transmissão do vírus. A pandemia entra em uma Venezuela com a já conhecida crise geopolítica, mas com um Estado forte.

O governo também anunciou no dia 20 de março o lançamento de um livro que descreve 101 medidas para impedir a propagação do COVID-19. O livro foi escrito com depoimentos de moradores de Wuhan, província da China, relatando formas de resistência social à pandemia. Foi compartilhado com os 45.000 conselhos comunitários, para que pudesse ser estudado e distribuído digitalmente com as famílias que os compõem.

O Comitê Presidencial e o Presidente se apresentam ao público apresentando números sobre infecções e as tendências globais da pandemia, mostrando a eficácia do isolamento social e todas as medidas que estão sendo tomada.

América Central Populista

Em El Salvador, Nayib Bukele foi o primeiro presidente da região que tomou medidas contra o COVID-19. Sem nenhum caso no território salvadorenho, ele decretou o fechamento de fronteiras e ordenou a criação de centros de quarentena onde se encontravam as pessoas que estavam entrando no país. Em 21 de março, a quarentena foi declarada obrigatória, e com isso, aumentou as restrições de trânsito no território salvadorenho. Paradoxalmente, o Estado tinha o aliado mais inesperado: os grupos de gangues que controlam o território – MS13 e as duas facções do bairro 18, Sureños e Revolucionarios- organizaram a quarentena através de ameaças áqueles que decidiram se circular nas vias públicas. As medidas são muito semelhantes às do governo central, que permite que apenas uma pessoa por família vá comprar comida nos mercados, as empresas têm horário de funcionamento e fechamento, e as pessoas que não cumprirem as ordens, serão espancados ou mortos. Paradoxalmente, o toque de recolher obrigatório do Estado e das organizações armadas reduziu a taxa de mortes violentas; uma das taxas mais baixas foi registrada em março: 65 assassinatos.

Na Guatemala, algo semelhante aconteceu. O crime organizado suspendeu a cobrança de extorsão ante a emergência d COVID-19, assumindo o custo da crise. Para a Páscoa, o recém eleito Alejandro Giammattei estabeleceu medidas como a proibição de mobilização fora dos departamentos de residência, viagens de lazer e até uso de bebidas alcoólicas em espaços públicos. Da mesma forma, o Executivo enviou um pacote de reformas a serem aprovadas pela Assembleia, reformas que são a continuação do “Pacto dos Corruptos”, como a transferência do Ministério de Governança, transferência de equipamentos e salários da Policia Civil Nacional, em torno US$2.600.000 dólares para o parlamento, $650.000 para a Associação de Dignitarios da Assembleia Nacional Constituinte -setor que apoiou Jimmy Morales em sua decisão de não renovar o mandato da comissão internacional contra a impunidade – e somente 3.900 dólares ao Ministério da Saúde para melhorar a infraestrutura e hospitais.

Em Honduras a profunda preocupação pelo alcance real do sistema público de saúde hondurenho provocou que comunidades Lencas e Garifunas – onde se encontram o Comitê Cívico de Organizações Populares e Índigenas de Honduras (COPINH) e a Organização Fraternal Negra Hondurenha (OFRANEH) – fechassem suas comunidades e levaram a cabo um processo organizativo de saúde e de resgate dos saberes dos povos para confrontar o COVID-19. O COPINH, por sua parte, denunciou no 4 de abril que o exército centraliza as principais ferramentas para atender o COVID-19, o que em prática está deixando a população hondurenha a sua própria sorte.

Juntamente com a quarentena e o toque de recolher obrigatórios a partir das 22h no Distrito Central, La Ceiba e Choluteca, o governo se reuniu com o Conselho Empresarial Privado de Honduras (COPHEP), a quem ofereceu benefícios como extensão do prazo para pagamento de impostos, programas de financiamento do Banco de Produção e Habitação de Honduras (Banhprovi), redução de dias úteis de trabalho por meio de um conceito de férias e criação de um fundo comum para dar salários aos trabalhadores e trabalhadoras. Diante disso, o setor mais afetado continua sendo o de pequenos comerciantes e trabalhadores. A prioridade do presidente Juan Orlando Hernandez foi encontrada na militarização, como uma manobra para a manutenção do regime. Na América Central, é o Estado que dedica o maior investimento a entidades repressiva – US$ 364 milhões- enquanto o investimento em saúde vem diminuindo.

Por último, Panamá é o país com o maior número de pessoas infectadas e com as medidas de contenção mais arbitrárias. Conforme anunciado pelo Ministério da Segurança, as mulheres só serão autorizadas a ir a supermercados, bancos e farmácias as segundas, quartas e sexta-feiras, enquanto os homens poderão fazê-lo às terças, quintas e sábados. Aos domingos, no entanto, ninguém poderá sair de casa. A medida, de estrito binarismo biológico (não se sabe quais são as opções oferecidas às pessoas que não se identificam com o sexo de nascimento). Essas medidas tão pouco impediram os primeiros saques de lojas, devido à crise econômica, algo semelhante ao que também é registrado em Honduras.

Na Nicarágua, as medidas adotadas por Daniel Ortega têm sido controversas. Rosário Murillo, vice-presidente da República, informou que o governo está treinando mais de 100.000 novos membros da brigada de saúde com os quais, no total, seriam 250.000 pra visitar aproximadamente um milhão de famílias, compartilhando e explicando as medidas de prevenção de COVID-19, como sobre higiene e segurança. Esses 250.000 membros da brigada também continuarão com o trabalho de investigação, identificando casos com sintomas respiratórios e febre. Embora o sistema de saúde da Nicarágua tenha se mostrado eficaz em outras pandemias, como a dengue, alguns especialistas afirmam que não é uma medida apropriada.

Em Cuba, no início de abril, foi declarada a fase de transmissão autóctone limitada de COVID-19 e foram iniciadas medidas de quarentena (de forma escalonada), de acordo com os critérios técnicos da autoridade sanitária do Ministério da Saúde Pública e em correspondência com as medidas contidas no Plano de Prevenção e Controle do novo coronavírus(COVID-19). Essas medidas serão modificadas, dependendo do comportamento do vírus. Anteriormente, o distanciamento social era solicitado e também foi tomada a decisão de solicitar a retirada de navios e estrangeiros e suspender a chegada de todos os tipos de aeronaves. Ao mesmo tempo, o governo decidiu que, no caso de qualquer pessoa nessas equipes apresentar sintomas de COVID-19 receberá atendimento médico – de acordo com os princípios da revolução-.

A marcha de 1° de maio foi cancelada e também a realização da Congresso da Associação Nacional de Pequenos Agricultores. Diante disso, o governo convocou a Central dos Trabalhadores de Cuba a conceber uma maneira de comemorar o 1° de maio, para que não seja esquecido. Além disso, existem considerações específicas de teletrabalho para as pessoas mais vulneráveis à contração do vírus; Isso é feito para que essas instâncias não se fechem completamente. Cuba também foi o país da região que proporcionou maior colaboração com outros governos no combate ao COVID-19 (Itália, Belize, Haiti, etc.).

O gigante regional, o México, tem dois pontos fortes chave: é o principal exportador da indústria farmacêutica da América Latina, com mais de 600 unidades econômicas especializadas no setor. Por isso, ele conseguiu acompanhar o chamado do Diretor-Geral da OMS, testando todos os casos suspeitos. Em segundo lugar, possui uma maior infraestrutura de saúde, comparada a maioria de seus vizinhos.

A adoção cautelosa de medidas, mais enérgicas e antecipatórias do que na Europa, mas longe do populismo sanitário de Bukele, afetou levemente a popularidade de López Obrador. Em um momento de alta emocionalidade, o público pedia medidas rápidas independente da racionalidade da medida. No #AMLOTrackingPoll, um exercício estatístico diário de medição digital sobre a aprovação ou desaprovação do presidente Andrés Manuel López Obrador, realizado pela Consulta Mitofsky, verifica-se que a aprovação do presidente mexicano caiu de 55,6% em fevereiro para 49,6% em 27 de março. No mesmo sentido, o Grupo de Economistas Associados e Pesquisa Social Aplica em seu relatório intitulado “México: governança em tempos da quarta transformação”, destaca-se que a aprovação do presidente passou de 57% em novembro para 47% no início de março.

Apesar das críticas, deve-se lembrar que as medidas de isolamento para populações vulneráveis foram decretadas em 16 de março, quando havia apenas 100 infectados (na Espanha foram realizados 1.000 casos e na Itália, com mais de 2.000). Além disso, no México, existe um sistema implantado no território para vigilância epidemiológica: Sentinela. Este sistema envia alertas precoces de detecção de influenza e incorporou um algoritmo para testar o coronavírus. Por fim, em relação à política econômica, o México providenciou a criação de um Fundo de Prevenção e Prevenção de Emergências de 180 bilhões de pesos para enfrentar essa adversidade.

Terminamos o tour pela região da América Latina no Paraguai, onde o governo de Mario Abdo adotou medidas rápidas e drásticas destinadas a impedir a circulação e propagação do vírus pelo Paraguai. O presidente se apresenta como o principal porta-voz da campanha, usando as entrevistas coletivas como uma ferramenta fundamental de comunicação para transmitir suas decisões. Entre as medidas mais recentes, destaca-se a realocação de mais de 50% do orçamento programado para o primeiro semestre, orientando-o para o fortalecimento do Ministério da Saúde. Destaca-se também o pedido de ajuda do Banco Mundial e do Banco Interamericano de Desenvolvimento para enfrentar a situação. Também foram organizados o fechamento de fronteiras e a cessação de atividades acadêmicas de todos os níveis e espetáculos massivos para evitar aglomerações.

Atualmente, o Paraguai deve enfrentar a pandemia com um sistema de saúde debilitado devido a uma longa história de esvaziamento da saúde pública  nos goernos colorados e o golpe da pandemia de dengue.

A frente eleitoral no contexto da pandemia

Na Bolívia, o TSE decidiu adiar as eleições, que não serão mais em 3 de maio. No entanto, a data ainda não foi definida. O órgão eleitoral enviou um projeto de lei à Assembleia Legislativa, estabelecendo um período muito amplo, entre junho e setembro, para a realização das eleições gerais.

Antes da pandemia, Jeanine Áñez estava mostrando um aumento na preferência eleitoral e Mesa havia estagnado. Os limites eleitorais de Luis Arce e Jeanine Áñez eram semelhantes. Não é fácil antecipar o comportamento da votação após a pandemia. Pesquisas mostram que o apoio da população às medidas adotadas pelo governo de Áñez contra o COVID-19 tem um apoio da população entre 53% a 64%, embora a rechaça de certos setores da população ao duplo papel de presidente e candidata de Jeanine seja relevante e crescente. No início das medidas contra a pandemia, Luis Arce foi muito ativo, conseguindo que várias de suas propostas sejam implementadas pelo governo golpista. No entanto, nas últimas duas semanas, sua presença pública diminuiu até quase desaparecer. Em contrapartida, Carlos Mesa mostra maior atividade de comunicação, até colocando posições críticas em relação as medidas adotadas pelo governo golpista.

Entre as medidas drásticas adotadas pelo governo Mario Abdo no Paraguai, o Tribunal Superior de Justiça Eleitoral (TSJE) anunciou o adiamento das eleições partidárias e municipais em resposta ao alerta epidemiológico emitido pelo Ministério da Saúde Pública. As eleições municipais para votar nos prefeitos e membros das Câmaras Municipais para o período 2020-2025 serão adidas para meados de novembro, de acordo com o novo calendário do TSJE, e a data em que os partidos elegerão seus candidatos, prefeitos e vereadores passará a ser de 12 de julho a 2 de agosto.

Na República Dominicana, foram realizadas as eleições municipais que haviam sido adiadas. O resultado uniforme entre os candidatos ocorre em meio a alegações de fraude após a falha do sistema automatizado e sob o forte impacto da eleição ter começado ao mesmo tempo em que os primeiros casos da pandemia apareceram na ilha.

Na Guiana, a contagem eleitoral atrasada foi adiada por quase um mês (a partir de 2 de março) e eles permanecem na incerteza, ainda hoje, de quem governará nos próximos 5 anos. A pandemia invisibiliza nada menos que uma manobra adiada e um atraso excessivo e injustificado na divulgação dos resultados das eleições gerais.

Em outros casos, como no do Haiti, as eleições demoraram para conseguir parar os protestos que desde 2018 queimam na ilha. O toque de recolher alcançou o que a política não pôde: travar os protestos sociais e ignorar a ausência do congresso desde o inicio do ano e a suspensão indefinida da eleição dos congressistas

The post Geografia política do Coronavírus na América Latina appeared first on Revista Opera.

Ver original em 'Revista Opera' (aqui)

Invasão dos EUA na América do Sul marcaria todo o século XXI, afirma Celso Amorim

O diplomata brasileiro, Celso Amorim, durante coletiva de imprensa no seminário Ameças à Democracia e Ordem Multipolar, em São Paulo, em 13 de setembro de 2018.
© AP Photo / Nelson Almeida

Ex-ministro da Defesa do Brasil, Celso Amorim falou sobre a situação no Brasil, envolvendo a situação presidencial e das Forças Armadas. Além de opinar sobre uma possível invasão norte-americana na América do Sul.

Questionado sobre os "problemas institucionais" no Brasil, o diplomata considerou que o general Braga Netto evidencia um "aspecto mais orgânico das Forças Armadas no governo e maior influência".

Além disso, o ex-ministro enfatizou à Sputnik Mundo que Bolsonaro não estaria perdendo o comando da Presidência, e que os boatos sobre Braga Netto não passam de informações mal interpretadas.

"A única influência que Bolsonaro estaria sofrendo seria na parte econômica, que tem a marca do ministro da Economia, Paulo Guedes, que até o momento, não sofreu a influência dos militares", afirmou.

Dessa maneira, deve-se ter cautela em dizer que Braga Netto seja o presidente operacional, "entretanto as outras partes do governo aparentemente querem uma grande coordenação no âmbito da saúde, transporte e infraestrutura".

Ou seja, essa influência estaria limitando e moderando as ações de Bolsonaro, entretanto, atualmente, Guedes e os militares estariam coordenando o governo.

Classe empresarial

A classe empresarial de Brasília está muito debilitada, que por sinal, estava ficando cada vez mais debilitada nos último quatro ou cinco anos.

Hoje, os apoiadores de Bolsonaro são supermercados, alguns produtores agrícolas e outras empresas que não têm força econômica no Brasil.

Ou seja, Bolsonaro não conta com o apoio das fortes associações empresariais capazes de "erguer" a economia brasileira, mas, sim, apenas com a classe média empresarial, explica Celso Amorim.

Invasão dos EUA na América do Sul

A ameaça de Washington contra Caracas e o desdobramento do Pentágono no Caribe provocam um temor de uma ação que afetaria gravemente a região.

"Há uma ameaça direta de invasão. Seria a primeira vez na América do Sul", advertiu o diplomata.

Assim que os EUA anunciaram um ambicioso desdobramento militar no Caribe sob o pretexto de uma operação antidrogas, os alarmes regionais foram acionados.

 

O diplomata também ressalta que o Brasil poderia apoiar uma invasão dos EUA, até porque já teria apoiado outros planos norte-americanos contra a Venezuela, citando o apoio do atual ministro das Relações Exteriores do Brasil, Ernesto Araújo, que "apoiou o plano de Pompeo para a transição da Venezuela [...] Os militares são conservadores porém têm sentido comum".

Para Celso Amorim, diplomata e ex-ministro da Defesa do Brasil, a estratégia da Casa Branca "causa temor sobre uma ação de guerra".

"Provavelmente farão com o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, o mesmo que fizeram com Manuel Noriega no Panamá em 1989 [...] Seria a primeira invasão dos EUA na América do Sul e isso ficaria marcado por 100 anos", adicionou.

"Os EUA montaram o cenário das drogas porque não podem dizer que Maduro tem armas de destruição massiva", como mentiram com Saddam Hussein para justificar o bombardeio contra o Iraque, ironizou o diplomata brasileiro.

As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/opiniao/2020040815430362-invasao-dos-eua-na-america-do-sul-marcaria-todo-o-seculo-xxi-afirma-celso-amorim/

Cepal prevê efeitos econômicos severos da Covid-19 na América Latina

 
 
Santiago do Chile, 3 abr (Prensa Latina) A Comissão Económica para América Latina e Caribe (Cepal) apresentará hoje um relatório sobre os efeitos económicos e sociais da Covid-19 para a região, e os cenários e projeções para 2030 com a presente crise.
 
Ainda antes de divulgar o conteúdo desse estudo, é possível calcular que a pandemia provocada pelo SARS-Cov-2 acarretará grandes problemas para uma região que já em 2019 apresentou um crescimento fraco e um aprofundamento dos problemas estruturais da maioria de suas economias. A secretária executiva da Cepal, Alicia Bárcena, disse recentemente que as sérias dificuldades económicas e sociais para a América Latina e o Caribe devido à pandemia propõem com mais força a necessidade de um novo modelo de desenvolvimento. Numa coluna de opinião, a alta funcionária pública considerou que esta é a maior crise humana e de saúde que a Humanidade já encarou, com profundos envolvimentos económicos, mas na qual o centro das decisões políticas deve ser preservar a saúde e o bem-estar das pessoas.
 
Alerta ao fato de que o impacto económico para a região responde à queda na atividade dos principais sócios comerciais; à queda no preço das matérias prima; à interrupção nas cadeias globais de valor; a baixa aguda no turismo, que afeta principalmente o Caribe, e a piora das condições financeiras. Bárcena lembra que se em dezembro a Cepal previa para a região em 2020 um crescimento pobre de 1,3%, hoje, uma aproximação conservadora propõe que registará um crescimento negativo de -1,8%, com maiores quedas em algumas nações. Assim mesmo, o valor das exportações regionais poderiam cair em -10,7%, o que implica um grande aumento no desemprego e na informalidade do trabalho e passar dos atuais 186 milhões de pobres a 220 milhões, e de 67,5 milhões de latino-americanos e caribenhos em pobreza extrema a 90,8 milhões. Além disso, a região mostra sistemas de saúde fragmentados e sem cobertura universal onde mais de 47% da população não tem acesso à seguridade social. Bárcena propõe que na atual situação é necessário um estímulo fiscal em massa para resgatar os serviços de saúde; proteger a renda e os empregos; manter a provisão de medicamentos, comida e energia; garantir o cuidado médico de todos que o necessitam, e financiar a proteção social aos setores mais vulneráveis. A Cepal também fez um chamado ao levantamento urgente das sanções e bloqueios unilaterais, que dificultam a populações inteiras o acesso a bens e serviços, e enfatizou que 'as considerações humanitárias estão hoje acima de qualquer diferença política. A saúde não pode ser refém de rancores geopolíticos'. Bárcena adverte também que a crise sanitária expôs a fragilidade da globalização e do modelo em que se sustentava, e por tanto deve ser reformada. Por isso, conclui que a pandemia 'entranha o potencial de transformar a geopolítica da globalização, mas é também uma oportunidade para relevar os benefícios das ações multilaterais e abrir espaço ao necessário debate sobre um modelo novo, sustentável e igualitário de desenvolvimento'. Prensa Latina | agp/rc/jp
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/04/cepal-preve-efeitos-economicos-severos.html

Declaração dos Partidos Comunistas da América do Sul perante a Covid-19

Uma declaração conjunta, assinada pelos partidos comunistas da América do Sul, destaca o papel decisivo dos trabalhadores cubanos da saúde no enfrentamento da pandemia que está a devastar o mundo.

Estas organizações políticas saudaram a realização da Teleconferência de ministros da Saúde e ministérios das Relações Exteriores, convocada pela presidência pro-tempore mexicana da Celac, um espaço que elas consideram «o único onde todos os países de Nossa América se podem encontrar com a presença inestimável de Cuba», que eles descreveram como «vanguarda mundial em inovação médica e bioquímica e em ética humanística».

Além disso, participaram na Organização Pan-Americana da Saúde e uma delegação de alto nível da República Popular da China.

«A pandemia da Covid-19 revela tragicamente as deficiências nos sistemas de saúde da maior parte da região, resultado de políticas impopulares seguidas por governos neoliberais subordinados ao grande capital monopolista», afirmou o comunicado.

Via: Home https://bit.ly/3dQBLPN

 

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/04/02/declaracao-dos-partidos-comunistas-da-america-do-sul-perante-a-covid-19/

Fundações chinesas doarão suprimentos médicos à América Latina

 

Suprimentos médicos doados pela Fundação Jack Ma e Fundação Alibaba são empacotados para a remessa no Aeroporto Internacional Baiyun de Guangzhou, capital da Província de Guangdong, sul da China, em 21 de março de 2020. (Xinhua/Tian Jianchuan)

Hangzhou, 24 mar (Xinhua) -- A Fundação Jack Ma e a Fundação Alibaba anunciaram planos de doar suprimentos médicos a 24 países latino-americanos para ajudá-los em sua batalha contra a propagação da COVID-19.

Dois milhões de máscaras, 400 mil kits de teste e 104 respiradores serão doados a 24 países latino-americanos, incluindo Argentina, Brasil, Chile, Cuba, Equador, República Dominicana e Peru.

"Enviaremos à longa distância e nos apressaremos! SOMOS UM!", disse Jack Ma, anunciando as promessas através de sua conta no Twitter.

 

Ver original em "XINHUA Português" na ligação seguinte:

http://portuguese.xinhuanet.com/2020-03/24/c_138911293.htm

Relembrando o heroísmo de Berta Cáceres quatro anos após seu assassinato: uma entrevista com sua filha

 

Em 15 de julho de 2013, o Conselho Cívico de Organizações Populares e Indígenas de Honduras (COPINH), liderado por Berta Cáceres Flores, protestou contra a construção de uma barragem hidrelétrica no rio Gualcarque. Este rio, na região oeste de Honduras, é considerado sagrado pela comunidade indígena de Lenca. Ninguém da empresa que queria construir a barragem havia avisado Lenca. A empresa –Desarrollos Energéticos Sociedade Anônima (DESA) – era de propriedade controlada por uma das famílias mais poderosas de Honduras, os Atala Zablahs. O Exército de Honduras, a pedido da DESA, vigiava o local. Os soldados abriram fogo contra os manifestantes e mataram Tomás García.

Três anos depois, em 2 de março de 2016, homens armados invadiram a casa de Berta Cáceres e a assassinaram. Esses homens e alguns de seus responsáveis ​​imediatos foram condenados a penas de prisão que durarão de 30 a 50 anos. As evidências apresentadas no tribunal – incluindo registros telefônicos e conversas pelo WhatsApp – mostram de maneira bastante conclusiva que esses assassinos, muitos veteranos do exército de Honduras, agiram sob as ordens de executivos da DESA. Nenhum dos proprietários da DESA, muitos dos quais estavam nessas conversas do WhatsApp, foram acusados do crime.

Agora, quatro anos depois do assassinato de Berta Cáceres, conversei com sua filha Bertha Zúñiga Cáceres, coordenadora geral da COPINH. É importante mencionar que, quando Zúñiga Cáceres retornou de seus estudos na Cidade do México para assumir o manto da COPINH, ela mesma sofreu uma tentativa de assassinato, em 30 de junho de 2017. O assassinato de Berta Cáceres ocorreu em 15 de março de 2016, ao lado do assassinato de Nelson Noé García, da COPINH, e em 18 de outubro de 2016, ocorreram os assassinatos de José Ángel Flores e Silmer Dionisio George, doMovimento Unificado Campesino del Aguán (Movimento Camponês Unificado de Aguán, ou MUCA). Agora se sabe que Honduras está entre os países com as maiores taxas de homicídios do mundo; mas não é por isso que essas pessoas são mortas – elas são mortas pelo que representam e contra quem lutam.

Conluio

Zúñiga Cáceres me conta que os últimos quatro anos foram “muito desafiadores para nós” porque ela e seus colegas da COPINH tiveram que lutar para garantir que o “processo não fosse silenciado”. É verdade que os investigadores hondurenhos, sob imensa pressão internacional, prenderam os principais atiradores e alguns de seus mandantes imediatos. Esses mandantes incluem Douglas Bustillo, ex-chefe de segurança da DESA que dirigiu a operação; Sergio Rodríguez, executivo da DESA; e Roberto David Castillo Mejía, presidente da DESA. Nenhum dos “autores intelectuais” do crime foram, no entanto, presos; esses “autores intelectuais” incluiriam os proprietários da DESA e membros do governo.

David Castillo é o funcionário de posto mais alto da DESA que foi preso. Os registros mostram que ele havia participado da conspiração. No entanto, o caso contra ele foi paralisado. O atraso ocorreu pois em 2 de março de 2020 a lei hondurenha permitia às autoridades libertar David Castillo. “Acreditamos que os promotores vão permitir uma extensão única que pode ser solicitada por mais seis meses”, disse Zúñiga Cáceres. Mas não há garantia de que isso adiantará alguma coisa. “Estamos com muitas incertezas”, disse-me, já que “o sistema de justiça em Honduras nunca se importou com isto”. O “isto” em sua declaração refere-se ao papel da DESA e de seus executivos. As autoridades estão protegendo a família Atala Zablah e o partido no poder, que tentaram conspirar no encobrimento.

Em 2009, o governo dos EUA participou ativamente e incentivou a oligarquia a realizar um golpe de estado contra o governo de esquerda de Manuel Zelaya. Desde então, Honduras é governada pelo Partido Nacional de extrema direita, cujo atual líder e presidente hondurenho é Juan Orlando Hernández. Este é o partido favorito da oligarquia. É importante pontuar que a investigação do governo dos EUA sobre o tráfico de drogas envolveu o presidente Hernández em narcopolíticas dadeepweb na região. Depois que Hernández venceu a reeleição em 2017, os protestos nas ruas de Honduras foram recebidos com gás lacrimogêneo e fogo aberto, matando pelo menos 22 pessoas.

Depois do assassinato de Berta Cáceres, o ministro da segurança do presidente Hernández, Julián Pacheco Tinoco, escreveu a Pedro Atala Zablah, um dos líderes da família Atala Zablah e membro do conselho da DESA. Ele queria garantir a Atala Zablah e à sua família que o governo não levaria adiante o caso com seriedade; o caso, disse ele, seria visto como um “crime passional”. Esse nível de conluio é confuso. Zúñiga Cáceres me diz que “nem o exército agiu sozinho e nem a companhia agiu sozinha”. Há, ela diz, “coordenação entre os centros de poder econômico e militar, que é a essência da ditadura sob a qual vivemos em Honduras”.

De fato, a investigação – e os registros do tribunal – mostram um nível muito alto de conluio. Os funcionários da DESA se reuniam na casa presidencial enquanto planejavam como minar a COPINH. Isso deve expor a cumplicidade no mais alto nível pelo assassinato de Berta Cáceres. Mas isso foi deixado de lado. O mesmo acontece com as muitas mensagens do WhatsApp que mostram os membros da família Atala Zablah instigando – em linguagem muito codificada – a equipe a fazer algo sobre Berta Cáceres.

Há uma ampla evidência de funcionários da DESA se gabando de como eles têm o governo – e particularmente as forças armadas e a polícia – no bolso. Em 2013, o diretor financeiro da DESA, Daniel Atala Midence, disse em um momento que “gastou muito dinheiro e influência política para obter esses três mandados de prisão” e, em muito pouco tempo, Berta Cáceres, Tomás Gómez Membreño e Aureliano Molina foram presos. Mostrou-se que Atala Midence teve uma influência considerável. Em outro momento nas conversas do WhatsApp, Pedro Atala Zablah diz aos funcionários da DESA que já haviam usado o exército e a polícia de Honduras para proteger sua propriedade e atacar os ativistas da COPINH, que deveriam pagar à polícia “com algo mais do que comida” para fazê-los cumprir suas demandas. 

O Rio

Em agosto de 2019, o Grupo de Trabalho da ONU sobre Empresas e Direitos Humanos foi para Honduras. Este é um grupo que tenta fazer com que os países adotem os Princípios Orientadores da ONU sobre Empresas e Direitos Humanos. Elas são bastante anêmicas, mas pelo menos sugerem que as empresas não devem se comportar de maneira criminosa, nem os negócios devem ser feitos em segredo. Em seu relatório público, o Grupo de Trabalho enunciou dois pontos importantes. Primeiro, eles disseram que, embora o Ministério do Meio Ambiente (MiAmbiente) afirme que mantém consultas abertas quando as licenças ambientais estão sendo avaliadas, a maioria dessas reuniões é realizada somente após a concessão das licenças. Foi exatamente isso que aconteceu no caso da barragem de Agua Zarca.

Segundo, a lei (Decreto Legislativo 418-2013) e dois decretos ministeriais (725-2008 e 1402-2018) permitem que o ministério classifique os elementos de Estudo de Impacto Ambiental e o que eles consideram como “Informações Secretas”. Isso significa que os interessados em um caso não possuem livre e justo acesso a informações para deliberarem seus méritos; o governo pode facilmente embaralhar a papelada de uma maneira completamente antidemocrática.

Zúñiga Cáceres disse que essas leis ameaçam Honduras. Uma nova “onda de projetos extrativos e de geração de energia” esteve em jogo na última década, desde o golpe de estado de 2009. O governo está ansioso para enfraquecer a estrutura regulatória e permitir que empresas de todos os tipos tenham acesso às riquezas de Honduras.

Em memória de sua mãe e dos quase 30 anos de luta da COPINH, Zúñiga Cáceres diz que é preciso haver uma “refundação de Honduras”. Honduras tem muitos desafios, diz ela – corrupção, militarização, ataque às terras das comunidades indígenas, feminicídios e assassinatos políticos. Mais uma razão para lutar arduamente não apenas para defender os direitos do povo, mas para reivindicar o país em seu nome. Fazer isso, diz Zúñiga Cáceres, é homenagear a memória de sua mãe Berta Cáceres, assassinada há quatro anos atrás.

Esse artigo foi produzido pelo Globetrotter, um projeto do Instituto de Mídia Independente.

The post Relembrando o heroísmo de Berta Cáceres quatro anos após seu assassinato: uma entrevista com sua filha appeared first on Revista Opera.

Ver original em 'Revista Opera' (aqui)

EUA aumentarão presença militar na América Latina

 

 

247 - O chefe do Comando Sul dos EUA, almirante Craig Faller, anunciou nesta quarta-feira (11) que Washington aumentará a presença militar na América Latina até o final do ano, "diante de ameaças complexas" na região.

Segundo Faller, a medida incluirá a instalação de mais navios, aviões e forças de segurança. Em audiência no Comitê de Serviços Armados do Senado, a autoridade militar disse que o objetivo é "tranquilizar" os "parceiros" dos EUA e "neutralize uma série de ameaças, incluindo o narcoterrorismo".

Ao mesmo tempo, o chefe do Comando Sul denunciou que, enquanto Rússia, China e Cuba "colaboram" com o governo venezuelano, "as democracias do mundo estão procurando uma maneira de conseguir para o povo venezuelano o que eles merecem: uma economia livre e próspera" .

As declarações de Faller são dadas após a reunião que Jair Bolsonaro teve com o governo dos EUA no último doming. Ambos os governos assinaram um acordo de cooperação militar "estratégico". O chefe do Comando do Sul descreveu o pacto assinado como "histórico", pois vai fortalecer "a defesa" da região "contra ameaças".

Dias atrás, o presidente venezuelano Nicolás Maduro alertou que os EUA estavam tentando empurrar o Brasil para um conflito armado contra a Venezuela. "Pedimos aos setores humanistas democráticos, ao povo do Brasil e às forças armadas que parem qualquer aventura de Jair Bolsonaro, em coordenação com Donald Trump".

Segundo o presidente venezuelano, Bolsonaro "foi convocado à mansão de Donald Trump em Miami" para debater sobre a Venezuela.

"Desde a Casa Branca, um plano foi decidido para trazer guerra, terrorismo, desestabilizar e encher a Venezuela de violência, escalar um conflito armado e justificar a intervenção militar em nosso país", denunciou o presidente venezuelano.

Informações de Russia Today.

A América Latina derrota a ilusão de identidade

 
 
Os colonizadores tentaram. Mas seu projeto de pureza, razão, ordem e centralismo sucumbiu à potência da natureza e da mestiçagem. Esta subversão histórica, e singular, deveria dizer algo aos movimentos emancipatórios contemporâneos
 
Ricardo Cavalcanti-Schiel | Outras Palavras | Imagem: Tarsila do Amaral, Batizado de Macunaíma(1956)
 
Antes dos governos de Evo Morales na Bolívia, sobretudo nas duas últimas décadas do século XX e no primeiro lustro do século XXI, as organizações de base indígena do país (o que não deixa de incluir, apesar das marcas históricas específicas, as organizações de mineiros), quando queriam alçar seus protestos de modo mais contundente, lançavam mão de um recurso tático de fato impressionante para a realidade dos demais países latino-americanos: realizavam, por alguns dias (ou, no caso da derrubada do governo neoliberal de Gonzalo Sánchez de Lozada em 2003, por várias semanas), um “bloqueo general de caminos”: simplesmente fechavam todas as estradas do país. E então a Bolívia se mostrava como realmente é: um esquálido arquipélago de hispanidade em meio a um denso mar indígena.
Para ir de uma cidade a outra, só de avião. Claro que a Bolívia é um caso especial. Trata-se do único país das Américas com população de maioria indígena (6,2 milhões, representando 62,2% do total; seguido da Guatemala, com 41%) ― mesmo que a maior população indígena se concentre no México (17 milhões). Mas talvez, por isso mesmo, ela nos sugira uma aproximação genética a uma imagem ancestral da conformação histórico-social do continente. Essa figura de cidades plantadas como enclaves adventícios ― e pretensamente dominantes ― em um espaço de outra natureza nos remete a uma elaboração interpretativa do crítico literário uruguaio Ángel Rama.
 
Este, que foi um dos mais intensos pensadores e agitadores culturais latino-americanos da segunda metade do século XX, interlocutor próximo e constante de Antonio Candido em seu “projeto latino-americano” comumi, tragicamente falecido em um acidente de avião em Madri em 1983, junto com o poeta e romancista peruano Manuel Scorza, partiu, assim como Candido, de uma inspiração marxista genérica (a precedência lógica do contexto, e não do ator ― ou, nesse caso, do autor literário), para sugerir uma interpretação estrutural da produção cultural do subcontinente, em que a ênfase explicativa recai sobre os processos antes que sobre os produtos. Nesse sentido, uma de suas contribuições mais relevantes foi a de retomar, para o campo da produção literária, a ferramenta conceitual proposta em 1940 pelo antropólogo cubano Fernando Ortiz, em oposição à ideia norte-americana de “aculturação” (qual seja, da mera “substituição” cultural, medida pelos produtos, ou, diria hoje seu reloaded pós-moderno ― coisificador e utilitarista ―, pelos “híbridos”). Ángel Rama e Fernando Ortiz assinalaram, como alternativa, um processo sempre tenso, heteróclito e incompleto de apropriações de signos e referentes ― que nem por isso instauram um novo, autonômico e determinante sistema de significação ―; processo que valeria o apodo de “transculturação”.
 
 
A síntese de Rama (Transculturación narrativa en América Latina), a partir de ensaios dispersos, foi publicada um ano antes de sua morte. A essa edição seguiu-se, postumamente (em 1984), a revisão das conferências dessa mesma época, intitulada La ciudad letrada (em português: A cidade das letras; São Paulo: Boitempo, 2015). É exatamente essa cidade letrada (ou antes, talvez ― se acrescentarmos o regime excludente da lógica do privilégio ―, essa cidadela) que parece traduzir em conceito aquela imagem boliviana das cidades-enclave. No entanto ― e isso é o que aqui se defende ―, esse termo capital da colonialidade precisa ser sopesado por aquele outro, da “transculturação”.
 
Historicamente, a colonização hispânica da América caracterizou-se como um processo de plantar centros urbanos. Estes poderiam oscilar da função tática imediata de praça forte à função institucional de sede administrativa. Na América hispânica a consolidação da grande propriedade rural é sucedânea da irradiação da ordem e da autoridade urbana. Em 1521 Alonso García Bravo projeta, por sobre as formas monumentais da capital asteca Tenochtitlan, um plano ortogonal de arruamentos e quadras para moradias e centros administrativos que viria a ser o núcleo da atual cidade do México. Dois anos depois, o rei Carlos I (e primeiro dos Áustrias) emite uma ordenança, determinando que, na América, as novas povoações obedeceriam a uma planta regular, “a cordel y regla” (em linhas retas), expandida a partir de uma praça central vazia, em torno da qual se assentariam as instituições do poder, “dexando tanto compás abierto, que aunque la población vaya en gran crecimiento, se pueda siempre proseguir y dilatar en la misma forma”ii. É o grande sonho inclusivo da Monarquia Católica: hierarquia, centralismo e ordem.
 
A ideia de uma planta urbana ortogonal, por oposição à organicidade topográfica e tortuosa da cidade medieval, evoca tanto modelos clássicos da antiguidade romana, quanto as novas cidades espanholas dos Reis Católicos do final do século XV, quanto, até mesmo, os espaços cerimoniais das próprias cidades mesoamericanas. No entanto, a ideia de um projeto prévio, medido e equilibrado enquanto desenho, é obra renascentista. Cinquenta anos depois daquela primeira ordenança real, uma outra, de Felipe II, será tão minuciosa que jamais viria a ser aplicada integralmente em cidade alguma.
 
Em 1535, a fundação de Lima inaugura o desenho da malha expansiva rigorosamente quadriculada ― na cidade do México e em Puebla, as quadras ainda eram retangulares. A “traza en cuadrícula” (posteriormente consagrada como “quadrícula espanhola”) era um modelo até então desconhecido na Europa. Hoje para nós, é absolutamente familiar, a ponto de reconhecê-lo como “natural” quando pensamos em cidades. Mesmo cidades limitadas por muralhas, como São Domingos, Montevidéu, Trujillo e até mesmo a “irregular” Cartagena de Índias, seguiriam o mesmo princípio estruturante. Para as novas urbes hispano-americanas, a partir de então, o protocolo de autorização da sua fundação incluía seu traçado prévio, seguindo aquele modelo regular, outorgado diretamente pela Coroa.
 
O tipo ideal, evidentemente, não tem estatuto de universalidade. E aqui já começam as “transculturações”. O mesmo plano ortogonal de Alonso García Bravo para o Zócalo e seus arredores, na cidade do México, sucumbia ao emaranhado indígena na sua imediata periferia. Ao longo de toda a América hispânica, mesmo nos bairros de índios e nos povoados reducionais (ou seja, aqueles em que os índios eram concentrados para ser melhor evangelizados) estabelecidos em concordância com a “traza en cuadrícula”, o valor simbólico dos espaços assumia, para seus ocupantes, a lógica indígena das organizações dualistas e da sacralização cerimonial dos espaços abertosiii. A razão planificadora e centralista do Renascimento parece encontrar, na estranheza do Outro, o limite da sua presumida suficiência, ainda que, aparentemente, ordene a “infraestrutura” da morfologia.
 
Em que pese a famosa distinção interpretativa cunhada por Sérgio Buarque de Holanda no capítulo IV de Raízes do Brasil entre semeadores e ladrilhadores, para caracterizar, respectivamente, portugueses e espanhóis quanto ao estilo das suas empresas coloniais, cabendo aos primeiros uma índole mais desorganizada (Sérgio Buarque prefere mesmo a qualificação “desleixada”iv), francamente não planificadora, Ángel Rama, de sua parte, insiste que o projeto ibérico na América Latina expressa, como essência da colonialidade, o “sonho de ordem” encarnado na abstração retilínea do plano urbano. Essa cidade latino-americana seria, antes que tudo, um “parto da inteligência” (A cidade das letras, 2015: p. 21) e não, como no mundo português de Sérgio Buarque, resultado casual de um acordo prudente com a contingência.
 
Mais do que isso, a cidade americana (também irônica e curiosamente categorizada, a partir da metrópole, como cidade indiana) expressaria, dessa forma, para Rama a independência da ordem dos signos, o primado do plano, do traçado da ordem manipulatória do centralismo monárquico, de modo que Rama chega a sintetizar que, nessa perspectiva, a ordem existe antes da cidade existir. Nessa quimera da razão e do poder, as formas do signo e do discurso assumem uma função normativa. A partir de então, a escritura e o tabelião passam a ser suas figuras culturais chave. “Dar fé”, que corresponderia a trazer um fato da ordem do cogito para a ordem da efetividade das relações, significava, antes de mais nada, registrar em documento. Todo rito fundacional de lugar, território e propriedade era regido pela fé dada na (e por meio da) palavra escrita. Tal tecnologia do intelecto, elevada à condição de regente das coisas, ambicionará a condição de perpetuidade:
 
“(…) o signo ostenta uma perenidade que é alheia à duração da coisa. Enquanto o signo existe, está assegurada sua própria permanência. (…) Fica consagrada a inalterabilidade do universo dos signos, pois eles não estão submetidos ao decaimento físico, mas somente à hermenêutica” (A cidade das letras: 28).
 
A cidade colonial (e seu intrínseco aparato escriturário) se assentaria e se reproduziria, assim, sobre um corpo de operadores que fazia funcionar aquele sonho de ordem que produziu, na América, essa característica experiência burocrática, irmã siamesa do exercício do poder. Tal poder, operado e mediado pelos artífices do logos (clérigos, juristas, advogados, escrivães, cronistas, escreventes…), dispensados da “servidão das circunstâncias” (:38), outorgará à cidade a condição tanto de sede administrativa quanto de lugar da produção de discurso, ambos entrelaçados, e de onde, por meio de ordenanças, cédulas e provisões, se repartirão mercês e privilégios, já que conformado um “cordão umbilical escriturário” (:53) com a sede metropolitana. Essa é a cidade letrada de Ángel Rama, seus instrumentos e seus agentes. A partir daí, Rama lançará suas explorações históricas sobre as especificidades da produção intelectual e literária na América Latina. Cabe, no entanto, se perguntar se essa chave dispositiva dá conta da ordem geral dos fenômenos ou se é preciso, como já foi aventado, ponderar o Rama da cidade letrada com o Rama da transculturação.
 
Aqui nos afastamos mais decididamente da terminologia do crítico uruguaio. Rama não faz muita distinção entre as ideias político-administrativas dos dois primeiros Habsburgos (a casa dos Áustrias, da Espanha) ― em especial no que viemos nos referindo como um projeto renascentista ― e o ambiente intelectual que se consolidou na metrópole e se espraiou com outras reverberações para a colônia a partir do período final do “siglo de oro”, ou seja, a partir do reinado de Felipe III, que se iniciou na virada do século XVI para o XVII. À diferença da terminologia que vínhamos utilizando, para Rama o reconhecimento da cidade letrada leva a rubrica genérica de “cidade barroca”. E aqui lançamos mão de outras interpretações latino-americanas, exatamente para tratar de uma certa especificidade cultural, mesmo que ela continue comportando as linhas mestras até agora insinuadas da mentalidade da Monarquia Católica: o barroco.
 
Num dos seus polêmicos vaticínios, o escritor e crítico cubano José Lezama Lima afirma que “depois do Renascimento, a história da Espanha passa para a América, e o barroco americano se ergue com superioridade” (“La curiosidad barroca”. In: La expresión americana: 79-106. México D. F.: Fondo de Cultura Económica, 1993, p. 100 ― o ensaio é, originalmente, de 1957). Para Lezama, o que primeiro propicia esse protagonismo, constituído ao longo do século XVII, é a exuberância da natureza americana e da sua diversidade, que, contrariamente ao ascetismo de recursos da Península Ibérica, dispõe para o uso arquitetônico, mobiliário e imagético uma pletora de materiais tanto quanto de referentes. Se o barroco americano comporta um “impulso voltado para a forma, na busca da finalidade do seu símbolo” (idem: 83), tal impulso será regido por uma tensão, na qual o hispânico (ou, genericamente, o ibérico) tem de se confrontar com o nativo e com o africano diaspórico, a quem cabem, mais intimamente, dar forma àqueles materiais e lançar mão daqueles referentes. Mais que apenas escritural, a cidade barroca se contaminará com uma profusão imagética.
 
Mesmo o estrito âmbito das letras parece então se contagiar com um outro gesto, que, nesse caso, Lezama encontra exemplarmente manifesto em El divino Narciso, de 1689, de Sor Juana Inés de la Cruz, em que a irremediavelmente “mal resolvida” freira mexicana (verbi gratia Octavio Paz e suas armadilhas da fé) justapõe o rito asteca de Huitzilopochtli ao rito católico da comunhão. Nessa perspectiva, o barroco ― designação a princípio pejorativa, e que só vai receber uma valoração positiva no final do século XIX ― acaba sendo aquilo que distorce o equilíbrio ordenado renascentista, para fazer caber dentro da forma a polissemia das misturas. Se a aposta renascentista instaurara idealmente a independência da ordem dos signos, o barroco irá inflacionar o signo com a desmesura abundante do significado. Antes que uma estética do império do logos, ele expressará, para evocar o título do ensaio de Lezama, uma “estética da curiosidade”, na qual o logos passa a conviver com o mythos ― tanto o de uma mística católica quanto o nativo.
 
Assim, por oposição ao barroco europeu, caracterizado por Werner Weisbach (1921) como a arte da Contrarreforma, o barroco americano será, na interpretação de Lezama, uma arte da Contraconquista (:80). Estamos aqui, plenamente, no horizonte da transculturação. Mesmo que Lezama pareça sucumbir a uma tentação senhorial, análoga àquela de ver o mundo a partir da cidadela letrada, quando atribui ao “senhor barroco” (“detentor de suas riquezas” ― :81) a condição de figura referencial (quase que sujeito sociológico) dessa nova sensibilidade, a capacidade de ação desse “senhor barroco” já parece, desde o princípio, limitada pela contingência de se ver em um mundo onde acaba sendo impossível impor alguma univocidade, pelo simples império daquela abundância semânticav. Assim, até mesmo o espanhol Luís de Góngora, “senhor barroco arquetípico” (:90), encontraria no poeta colombiano Hernando Domínguez Camargo, seguidor do cânone gongoriano, “um excesso ainda mais excessivo” (:87).
 
A “tensão barroca” é aquela que se conforma, então, sob o signo da mestiçagem, tendo-se em conta que “mestiçagem” aqui é o nome da relação, e não o nome da coisa. Para outro cubano, Alejo Carpentier que, à diferença de Lezama, preferia inspirar-se no catalão Eugeni d’Ors (1930) para defender que o barroco seria não um estilo, mas uma “constante humana” (“O barroco e o real maravilhoso”. In: A literatura do maravilhoso: 109-129. São Paulo: Vértice, 1987, p. 114), é a proposição anterior ao revés que assinala o termo do universal: “toda simbiose, toda mestiçagem, engendra um barroquismo” (idem: 121). Citemos Serge Gruzinski, ao reportar-se ao caso mexicano, para ilustrar a mestiçagem sob a clave da relação, e não da coisa:
 
“Os índios tratavam as novas imagens da mesma forma que as estátuas e as pinturas pré-hispânicas. O olhar que dirigiam aos cristos, madonas e santos refletia um modo de ver solidamente enraizado havia séculos, e até mesmo milênios” (O pensamento mestiço. São Paulo: Companhia das Letras, 2001, p. 293).
 
O barroco latino-americano será, por excelência, o campo de exercício da expressão plástica, musical e arquitetônica em que sobretudo os mestres e artífices, gente, portanto, à margem da estrita cúpula da cidade letrada, ingressam para produzir um artesanato e um discurso voluptuoso, sensual, ambíguo e retorcido. É o espaço de mulatos e aleijadinhos, de índios ladinos como o cronista aymara Juan de Santa Cruz Pachacuti Yamqui Salcamaygua e o cronista quéchua Felipe Guamán Poma de Ayala, dos indígenas mestres pintores das escolas cusquenha, quitenha e potosina. O barroco é, antes que tudo, o espaço de indeterminação aberto pela mestiçagem, é o que subverte a própria ideia espanhola de “casta”, assentada sobre a “pureza de sangre”, para transformá-la em possibilidade combinatória aberta, como o expressam as pinturas mexicanas de castas que, a partir da segunda década do século XVIII, retratam, cada vez mais numerosamente, as muitas mestiçagens familiares das gentes. Em lugar do “castizo” espanhol, que se remete à marcação da origem, abundam agora as muitas “castas”, que instauram novas “origens”, tanto quanto, por sua própria inflação, as borram. O sonho de pureza só persistirá como cavalo de batalha simbólico para os que pretendem, obstinadamente, fazer valer, a seu modo (qual seja, em modo senhorial ― ou como seu simulacro), a lógica do privilégio. Em lugar da pureza identitária, nuestra América prova então a proliferação relacional dos entrecruzamentos, onde se conjugam tanto tensão quanto abertura.
 
Nesse mundo americano, as misturas são irremediavelmente frágeis e instáveis, mas ainda assim ― e isso talvez seja o mais relevante ―, incontroláveis por parte de uma razão soberanamente ordenadora, responda ela pelo nome de “dominação” (colonial) ou mesmo pelo nome de “identidade”. Esse é o espaço dinâmico da transculturação. Nesse mundo, só uma mistura supera outra mistura. E isso, como consequência, não garante a imposição do controle de uma significação unívoca, tanto quanto a validade inequívoca de um cânone: o misturado (ou o heterogêneo, para falar em termos mais precisos, como o defendeu o crítico peruano Antonio Cornejo Polar) não produz “tradição” ― “tradição” no sentido da autoridade do cânone. A única “tradição” que resta é a própria mistura reiterada como tal, como processo, e não como coisa. Mais uma vez Serge Gruzinski:
 
“As mestiçagens manobram, na verdade, com tal número de variáveis, que confundem o jogo habitual dos poderes e das tradições, (…) escapolem das mãos do historiador que as persegue ou são menosprezadas pelo antropólogo amante de arcaísmos” (:304).
 
O barroco, como metáfora da complexidade latino-americana, é, portanto, aquilo que subverte, diante do sonho de ordem da cidade letrada, tanto a suposição de uma dominação categórica quanto a racionalidade colonial das purezas, das marcas de origem e da identidade como atributo fundador da socialidade. Ao defrontar-se (antes que tão apenas confrontar-se) com a alteridade, seu espírito é inflectido pela relacionalidade e pela indeterminação do devir, olhando-se então no espelho daquele princípio regente da socialidade ameríndia que Lévi-Strauss caracterizara como o da “abertura ao outro” (História de lince. São Paulo: Companhia das Letras, 1993), para conformar o que Lezama chamara de “protoplasma incorporativo do americano” (“Sumas críticas del americano”. In: La expresión americana: 157-182, p. 177), e que, mais recentemente, Arturo Escobar, um analista do Projeto Modernidade-Colonialidade-Decolonialidade, adjudicaria ao contexto das nossas (por que não?) ontologias relacionais (Territories of difference: place, movements, life, redes. Durham: Duke University Press, 2008), aquelas que têm como horizonte estratégico ver-se diante de outros, e não apenas diante de um si-mesmo. Relações, e não identidades.
 
A experiência decolonial de fato potencialmente subversiva na América Latina não é a experiência da emancipação do indivíduo, sob o pretexto de alguma pureza identitária e isolacionista do self (ou de um “étnico” transcrito como utilidade agregada ao ego individual liberal), mas a experiência muitas vezes imponderável do encontro e da mistura dos muitos. Claro, ela pode, ainda assim, pretender ser ordenada pelo código ibérico ― e igualmente inclusivo, como já nos sugeria Richard Morse ― da hierarquia e do privilégio. Mas pode também se insinuar sob o compromisso da solidariedade, de estar em relação, e a partir daí sugerir outra ordem para além da lógica do privilégio e das tenazes da hierarquia. É essa insinuação que abre caminho para uma utopia civilizacional ainda apenas esboçada, e que hoje parece repousar em silêncio, aguardando quem lhe retome os fios soltos de uma história não terminada, mas potente como grande impulso cultural.
 
A história latino-americana não começa naquele sonho de ordem, naquele fiat de descobrimentos e conquistadores. Se ela já estava antes ― não, necessariamente, como “consciência histórica” (no sentido que lhe precisou Hans-Georg Gadamer) para seus próprios povos originários ―, ela seguirá efetivamente seu curso no depois, para além dos sonhos de pureza, e já no transe dos encontros desencontrados. Recusar tal reconhecimento, em nome das grandes razões ordenadoras (sejam positivistas, sejam liberais-utilitárias), pode ser não mais que insistir num sonho um tanto distante das contingências.
* O presente texto foi preparado como base para uma aula ministrada na 11ª Escola de Verão do Instituto Latino-Americano de Estudos Avançados (ILEA), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em 14 de janeiro de 2020. Título original: “Revisitando a Cidade Letrada: do sonho de ordem à subversão das misturas”.
 
Notas:
i Veja-se o elucidativo Prólogo de Pablo Rocca para o volume da correspondência entre Rama e Candido: Conversa Cortada. A correspondência entre Antonio Candido e Ángel Rama. O esboço de um projeto latino-americano. 1960-1983 (Rio de Janeiro/ São Paulo: Ouro sobre Azul/ EdUSP, 2018).
ii Recopilación de Leyes de los Reynos de las Indias, Libro Cuarto, Título Séptimo, Ley Primera. México D. F.: Escuela Libre de Derecho / Miguel Ángel Porrúa Librero Editor, 1987. Edição fac-similar do original de 1681.
iii Veja-se a esse propósito: Gutiérrez, Ramón (ed.). 1993. Pueblos de indios. Otro urbanismo en la región andina. Quito: Abya-Yala.
iv “A cidade que os portugueses construíram na América não é produto mental, não chega a contradizer o quadro da natureza, e sua silhueta se enlaça na linha da paisagem. Nenhum rigor, nenhum método, nenhuma previdência, sempre esse significativo abandono que exprime a palavra ‘desleixo’” (Raízes do Brasil; Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 20ª edição, 1988, p. 76).
v “En el medio de esa naturaleza que se regala, de esa absorción del bosque por la contenciosa piedra, de esa naturaleza que parece rebelarse y volver por sus fueros, el señor barroco quisiera poner un poco de orden pero sin rechazo, una imposible victoria donde todos los vencidos pudieran mantener las exigencias de su orgullo y de su despilfarro” (“La curiosidad barroca”. In: La expresión americana: 79-106. México D. F.: Fondo de Cultura Económica, 1993, p. 83). Nossa tradução: “No meio daquela natureza deleitosa, daquela absorção da floresta pela pedra recalcitrante, daquela natureza que parece se rebelar e retornar aos seus privilégios, o senhor barroco gostaria de pôr um pouco de ordem, mas sem opor resistência: uma vitória impossível onde todos os derrotados poderiam manter as exigências do seu orgulho e do seu desperdício”.
 
Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OUTROS QUINHENTOS

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/03/a-america-latina-derrota-ilusao-de.html

Golpe presidencial em El Salvador: governo manda exército invadir Parlamento e convoca povo à 'insurreição'

247 - Numa medida surpreendente, o presidente de El Salvador, Najib Bukele, mandou a polícia e o exército invadirem o Parlamento e disse que vai promover uma "insurreição" popular para pressionar os deputados a aprovarem um empréstimo que financiará projetos no setor de segurança.

Militares e membros da Polícia Nacional Civil (PNC) invadiram neste domingo (9) a sala de sessões da Assembléia Legislativa (Congresso) de El Salvador, onde o presidente Najib Bukele convocou uma sessão extraordinária para a aprovação de um empréstimo de 109 milhões de dólares para financiar um plano de segurança para o país centro-americano.

A pressão do presidente salvadorenho, Najib Bukele, contra o Parlamento aumentou com a entrada da forças de policiais e do Exército Nacional na Assembléia Legislativa que já havia convocado uma nova sessão plenária para segunda-feira para analisar o problema, desde que "haja vontade dos diferentes partidos de votar", segundo o presidente do órgão legislativo, Mario Ponce, informa a Telesul.

 

Chile e a crônica de uma revolta anunciada

Existem duas formas de fazer uma análise sobre as condições socioeconômicas do Chile. Uma a partir da ótica economicista, pela qual se mede a evolução do PIB, o PIB per capita, e a queda de pobreza medida por receita. Outra, que incorpora uma visão sobre o bem-estar da população, as condições trabalhistas, a possibilidade de acesso à edução, os níveis de segurança social e a desigualdade entre iguais.

A partir da primeira visão é impossível entender a revolta social que vive o Chile desde outubro do ano passado, quando o governo de Sebastián Piñera aumentou o preço do transporte público. A partir da segunda, a revolta já estava anunciada.

Neste informe se tentará aprofundar aqueles aspectos sobre a realidade social chilena que permitam jogar luz sobre as razões pelas quais o povo reclama uma mudança constitucional urgente.

Mercantilização da vida

Como é bem sabido, as mobilizações pela educação pública, o movimento contra as Administradoras de Fundo de Pensão (AFP) e as exigências por um sistema de saúde universal [1] vêm fazendo eco sobre os distintos governos que assumiram no país desde 1990. Estes governos adaptaram uma política economicista e focalizada para melhorar as condições sociais da população e, ainda assim, esses remendos não puderam alterar as premissas de uma Carta Magna instaurada durante a ditadura militar, cujo resultado foi que 45% da população ficasse abaixo da linha da pobreza.

Esse aspecto da vida no Chile condiciona todas as decisões de sua população; não se parte de um nível mínimo da segurança social, e sim há que conquistá-lo. Considerando esse ponto, é possível distinguir entre a pobreza medida pela renda, que foi de 8,6% em 2017, menor em comparação a 2015, e a pobreza multidimensional, que foi de 20,7% em 2017 [2] e manteve seu nível comparado a 2015.

Insegurança trabalhista

No país modelo do neoliberalismo se aplicaram todas as medidas possíveis de flexibilização trabalhista (menos a flexibilização da jornada laboral, que ficou pendente frente as mobilizações). Como é sabido, entre outras coisas, essas medidas permitem que os empregadores tenham um nível de rotação de pessoal alto, que vai se adaptando a suas necessidades de acordo com a temporada, nível de atividade, etc., reduzindo os custos laborais.

Naturalmente, aquilo que é benéfico para o empregados geralmente não é para o empregado. A rotação laboral no Chile é alta, sobretudo em empregos de baixa produtividade, que são os que mais necessitam de pessoal, como os serviços. Esse aspecto gera grandes níveis de instabilidade social, sob a qual em cada certo período as pessoas ficam desempregadas (6,9%), ou com um emprego que não é suficiente para o mês inteiro. A taxa combinada de desocupação e tempo parcial involuntário é de 16,6% [3] e, ainda assim, os níveis de informalidade se mantêm em 30% [4], acompanhando a redução de possibilidade de alcançar um melhor salário. Neste sentido, se focarmos sobre as diferenças condições sociais da população, o desemprego no decil mais baixo aumentou, entre 2015 e 2017, de 25,8% para 29%, mostrando um foco de pobreza estrutural.

Essas condições fazem com que os fatos de que 50% dos assalariados de mais de 30 horas tenha um salário mínimo (390 dólares) [5], que o ingresso mensal médio dos ocupados seja de 743,79 dólares [6] e que o PIB per capita seja de 15.924 dólares [7] perda sentido como uma forma de medir as condições da população.

Desigualdade

Existem duas respostas comuns ao fato de que o Chile é um dos países mais desiguais do mundo. A primeira é que o país sempre foi desigual (como se essa justificação pudesse reduzir o peso do problema) e a segunda é que essa desigualdade está diminuindo. No entanto, dados de desigualdade de longo prazo mostram que, de fato, a desigualdade no Chile é historicamente alta, mas também foi reduzida em determinados períodos, como durante o Governo da Unidade Popular, que aumentou acima da média durante a ditadura militar e que o declínio dos últimos tempos conseguiu ficar abaixo da média histórica (0,53) do Chile, mas não que o país seja menos desigual do que 170 anos atrás [8].

Outro dado a considerar é que a pesquisa CASEN (Encuesta de Caracterización Socioeconómica Nacional) de 2017 atingiu um coeficiente Gini superior ao da pesquisa de 2015, mostrando uma mudança na tendência que poderia se aprofundar se considerada a estagnação no crescimento dos últimos anos e o aumento do desemprego. Em 2015, os 10% mais ricos foram 33,9 vezes maior que o decil mais baixo, enquanto em 2017 foram 39,1 vezes maior.

Da mesma forma, os dados se tornam mais interessantes e explicativos quanto mais se aprofunda. Segundo o estudo “Desiguales” do PNUD, em 2015 os 5% mais ricos mantinham 51,5% da renda do país, 1% com 33% e 0,1% com 19,5%.

Comentários finais

Durante os últimos 20 anos o Chile teve um crescimento médio a nível regional [9], tem um dos PIB per capita mais altos da região, o desemprego e a pobreza em níveis baixos, e ainda assim, como pudemos ver, esses indicadores refletem somente parcialmente as condições de vida no Chile.

Os indicadores macro parecem descrever uma porção menor da sociedade, proprietária dos grupos econômicos e parte da elite chilena que se apropria do crescimento. Enquanto a maioria da população recebe os restos, às vezes mediados pelo Estado e às vezes não, o que permite que os indicadores padronizados para medir as condições sociais melhorem, sem que meçam a pressão da panela.

Notas:

[1] https://www.celag.org/servicios-sociales-chile-garantia-de-desigualdad/

[2] Dados da pesquisa CASEN 2015 y 2017.

[3] Ine setembro, outubro e novembro de 2019.

[4] Encuesta Nacional de Empleo, INE-Chile. Setembro – Novembro 2019.

[5] Lei 21112 sobre câmbio oficial.

[6] INE 2018.

[7] Cifra do Banco Mundial para 2018.

[8] Desiguales, PNUD. Gráfico de desigualdade da receita pessoal (Gini) no Chile em largo prazo (1850-2009).

[9] https://www.celag.org/latinoamerica-dos-decadas-de-crecimiento-economico/

The post Chile e a crônica de uma revolta anunciada appeared first on Revista Opera.

Ver original em 'Revista Opera' (aqui)

Quase 43% dos hondurenhos vivem em situação de pobreza

A maioria da população pobre reside nas regiões rurais do país centro-americano, que foi classificado como o mais pobre de todo o continente pela Comissão Económica para a América Latina e Caraíbas.

Da população em situação de pobreza nas Honduras, 60,1% reside nas regiões ruraisCréditos / elheraldo.hn

Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e o Banco Mundial (BM), em 2018 a pobreza atingia 42,7% dos lares nas Honduras.

Entretanto, as entidades referidas actualizaram a metodologia utilizada e, de acordo com as conclusões do processo concluído em Janeiro, determinaram que o limiar da pobreza se situa num rendimento mensal de 2697 lempiras (cerca de 109 dólares) para os habitantes das cidades e de 1424 lempiras (cerca de 59 dólares) para os residentes nas regiões rurais, indica a TeleSur.

Assim, os dados recentemente actualizados referem que cerca de 43% da população hondurenha vive abaixo do limiar da pobreza e tem dificuldades em aceder a bens e serviços essenciais como alimentos, educação, saúde, roupa ou transportes. Da população em situação de pobreza, 38,4% vive nas cidades e 60,1% no campo.

Recentemente, o LIBRE (Partido Liberdade e Refundação) criticou o orçamento do Estado para 2020, sublinhando que «o nível de crise entre a população está presente em todos os indicadores do modelo neoliberal e na dor dos migrantes».

Denunciou, além disso, que seis em cada dez hondurenhos estão desempregados ou subempregados e que quatro em cada dez vivem em situação de pobreza extrema.

Há alguns dias, uma sondagem de opinião a que a Prensa Latina faz referência (CID-Gallup) destacava o mau rumo do país, sobretudo a nível económico. A mesma fonte indica que 55% dos hondurenhos reprovavam a governação do presidente Juan Orlando Hernández.

A Comissão Económica para a América Latina e Caraíbas (Cepal) define as Honduras como o país mais pobre de todo o continente – uma realidade de que tentam escapar milhares de migrantes todos os anos, sobretudo com destino aos Estados Unidos.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/quase-43-dos-hondurenhos-vivem-em-situacao-de-pobreza

Lei anti-greves «não vai travar a luta» na Costa Rica

O presidente costa-riquenho homologou a lei que limita o direito à greve e a proíbe em serviços públicos considerados essenciais. O dirigente sindical Albino Vargas afirmou que a lei não vai parar a luta.

Na Costa Rica, a greve geral por tempo indeterminado contra o projecto de reforma fiscal iniciou-se no dia 10 de Setembro e continua mobilizar muitos milhares de pessoasCréditos / pstu.com.ar

Com forte oposição dos sindicatos, a Assembleia Legislativa da Costa Rica aprovou, há uma semana, com 35 votos a favor e 13 contra, o projecto de lei 21.049, que, nas palavras dos seus promotores, visa criar novas regras «para que os trabalhadores possam exercer o direito à greve» e «impedir abusos».

Já esta semana, o presidente do país centro-americano, Carlos Alvarado, homologou a lei aprovada no Congresso, dando sequência a uma iniciativa que é encarada como resposta à greve contra o chamado projecto de «Reforço das Finanças Públicas» que, convocada por sindicatos do sector público, em 2018 quase parou o país durante três meses.

De acordo com a nova legislação, são ilegais as greves em serviços públicos considerados essenciais, como a saúde, a segurança e a distribuição de energia, e são impostos limites à duração da greve no sector da Educação, informa a agência AFP.

Uma «lei da mordaça anti-greve»

Albino Vargas, secretário-geral da Associação Nacional de Empregados Públicos e Privados (ANEP), que designou a nova legislação como «lei da mordaça e anti-greves», sublinhou que «não haverá lei alguma que pare a luta pela justiça social».

Citado pelo portal laprensalibre.cr, Vargas insistiu que a lei não impedirá a luta na Costa Rica e acusou o presidente Carlos Alvarado de estar a atacar os direitos dos trabalhadores.

A contestação ao projecto de lei 21.409 dura há meses. Em Setembro do ano passado, Albino Vargas alertou que, por trás da «Lei da Mordaça», vêm medidas drásticas de ajustamento estrutural da economia, sendo que a classe dominante teme que o povo costa-riquenho lhe peça contas pela desigualdade crescente.

«Um povo com fome, sem trabalho, a quem retiram paulatinamente o seu salário e a quem aumentam o custo de vida, é um povo que vai continuar a lutar», declarou então o presidente da ANEP, citado pela TeleSur.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/lei-anti-greves-nao-vai-travar-luta-na-costa-rica

Dividir o Caribe é a nova estratégia dos Estados Unidos

247 - O modus operandi do imperialismo ao aplicar o princípio "dividir e conquistar" tem sido utilizado de várias maneiras na região. Em alguns casos, oferecendo brindes, em outros fazendo chantagem.

Conscientes dos riscos que a unidade da América Latina acarreta para seus interesses imperiais, os instrumentos políticos dos Estados Unidos arremetem contra as organizações de integração regional latino-americanas e caribenhas.

Por um lado, a Casa Branca promove o Grupo Lima ou a desacreditada Organização dos Estados Americanos (OEA) como fóruns para tentar legitimar a guerra contra a Venezuela e outros países que não cumprem seus desígnios. Por outro lado, estimulou, por diversas manobras, a saída da Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Paraguai e Peru da União das Nações Sul-Americanas (Unasul) em 2018 e em 2019 do Equador; o abandono do Equador e da Bolívia da Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América - Acordo Comercial dos Povos (alba-tcp); e a recente saída do Brasil da Comunidade dos Estados da América Latina e do Caribe (Celac).

 

Agora, seus planos parecem ter como objetivo dividir a Comunidade do Caribe (Caricom). No ano passado, o presidente dos EUA, Donald Trump, se reuniu com governantes de países da região na Flórida. Entre os tópicos da agenda da reunião estavam a cooperação regional e a situação na Venezuela. O porta-voz da Casa Branca, Hogan Gidley, disse através de um comunicado à imprensa que a Corporação para Investimentos Estrangeiros Privados (Opic) priorizará os cinco países com cujos líderes Trump se encontrou. Trump.

Leia análise de Enrique Moreno Gimeranez no jornal Granma.

Venezuela denuncia a «agressão permanente» dos EUA contra a América Latina

Jorge Arreaza afirmou em Pequim que os EUA mantêm uma agressão permanente contra a América Latina porque querem apoderar-se dos recursos naturais da região e impor governos submissos aos seus interesses.

Em Pequim, Jorge Arreaza destacou que a Venezuela e a China possuem «uma aliança inquebrável que saberá adaptarse às circunstâncias e agressões»Créditos / CancilleriaVE

Numa conferência de imprensa dada esta sexta-feira, o ministro venezuelano dos Negócios Estrangeiros, Jorge Arreaza, afirmou que a região da América Latina e Caraíbas é alvo constante de tentativas de golpes de Estado, desestabilização, terrorismo, guerra de comunicação, bloqueio económico, comercial e bancário.

Arreaza, que se encontra na China em visita oficial e de trabalho desde quarta-feira, definiu a situação como um continente em que ocorre uma «disputa entre os seus povos soberanos e a elite que governa os Estados Unidos», na medida em que esta «procura assumir o controlo absoluto das riquezas em petróleo, gás, minerais, terras, água, clima e lítio», disse citado pela Prensa Latina.

Ilustrou o que disse com aquilo se passa na Bolívia e no seu próprio país desde o início de 2019, depois de a Casa Branca ter convencido vários governos a reconhecer o deputado Juan Guaidó como «presidente interino» e ter apoiado acções violentas com vista a depor o presidente constitucionalmente eleito, Nicolás Maduro.

O diplomata chamou a atenção para o facto de as sanções e medidas coercitivas unilaterais impostas ao seu país – como o bloqueio de contas bancárias no estrangeiro – atingirem a população, uma vez que a priva de produtos básicos e impede o desenvolvimento dos principais sectores económicos.

Ainda assim, destacou que «o presidente legítimo conseguiu paulatinamente devolver a tranquilidade à Venezuela, com iniciativas democráticas e pacíficas, e com o apego à via da negociação para solucionar a situação política».

Além disso, afirmou Arreaza, a Venezuela mostra já alguns sinais de recuperação e o governo está a trabalhar em alternativas com países como a Rússia, a Turquia e a China para dinamizar o comércio externo.

Aliança estratégica com a China

Sobre as relações com o gigante asiático, Jorge Arreaza disse que existe uma aliança estratégica integral, que procura diversificar a cooperação económica e se esforça para que os investimentos chineses se traduzam imediatamente em habitações, maior produção petrolífera e bem-estar social.

Precisou que a sua visita tem como objetivo reforçar estes laços e visa acelerar os elementos necessários para que haja maiores resultados, indica a Prensa Latina. «A colaboração com Pequim respeita os planos nacionais de desenvolvimento», afirmou o ministro, acrescentando que não existem «condicionamentos nem interferências em assuntos internos».

«Possuímos uma aliança inquebrável que saberá adaptarse às circunstâncias e agressões. Temos a certeza de que, com o apoio da China, Maduro poderá dinamizar os motores produtivos e recuperar a economia da agressão selvagem e criminosa de que foi alvo nos últimos anos», frisou.

Reforçar relações bilaterais

O ministro venezuelano dos Negócios Estrangeiros chegou à China, em visita oficial, na passada quarta-feira, tendo sido recebido por Chen Luning, conselheiro do Departamento da América Latina e Caraíbas do Ministério chinês dos Negócios Estrangeiros.

No dia seguinte, Jorge Arreaza manteve uma reunião com o vice-presidente da China, Wang Qishan, no decorrer da qual foram abordados os avanços e desafios existentes no âmbito da Associação Estratégica entre ambos os países.

Em Setembro de 2018, o presidente da República Bolivariana da Venezuela, Nicolás Maduro, realizou uma visita de Estado à China, no contexto da XVI Comissão Mista de Alto Nível China-Venezuela.

Então, o encontro inter-governamental permitiu aprofundar a aliança estratégica integral que o país caribenho mantém com o asiático, tendo ambos firmado 28 acordos em sectores como a exploração mineira e petrolífera, a cibersegurança, a tecnologia aeroespacial e de satélites, a robótica, telecomunicações, o abastecimento de medicamentos e de equipas cirúrgicas.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/venezuela-denuncia-agressao-permanente-dos-eua-contra-america-latina

América Latina: Entre o porrete ianque e o dragão chinês

Em 1901, o banqueiro e militar venezuelano Manuel Antonio Matos lançou, com o apoio daCompañia Francesa de Cables Telegráficos(França), daFerocarril Alemán(Alemanha) e das norte-americanasNew York & Bermúdez CompanyeOrinoco Steamship Company, um movimento militar com o objetivo de derrubar Cipriano Castro da presidência da Venezuela.

No centro do conflito, os interesses de banqueiros norte-americanos e europeus, que insistiam que o país pagasse suas dívidas. O diplomata alemão Theodor Von Holleben, por exemplo, enviou ao secretário de Estado norte-americano John Hay um informe sobre uma dívida venezuelana com o banco alemãoDisconto-Gesellschaft no montante de 33 milhões de bolívares. O presidente venezuelano se negava a reconhecer a dívida, que seria na verdade cinco vezes menor.

Por quase um ano, a chamada Revolução Libertadora de Matos se enfrentou com o Governo Restaurador de Castro, que acabou vitorioso, às custas de milhares de vidas. Derrotados, era a hora dos interesses internacionais passarem à intervenção direta. 

Em 1902, navios de guerra alemães, ingleses e italianos bloqueiam os portos venezuelanos, exigindo o pagamento das dívidas – em especial aquelas contraídas para a construção da rede ferroviária no país – e, para tanto, bombardeando as costas do país e saqueando povoados. Cipriano Castro volta-se aos Estados Unidos, exigindo que o presidente Theodore Roosevelt agisse, mediando o conflito, em conformidade com a Doutrina Monroe. 

Anunciada em 1823 pelo presidente norte-americano James Monroe, a Doutrina Monroe tinha como premissa apresentar os EUA como defensor de um continente frente às tentativas europeias para submetê-lo. Em muitos países da América Latina, era vista com otimismo; Colômbia e Argentina, por exemplo, solicitaram a proteção norte-americana algumas vezes. O ministro chileno Diego Portales (1793-1837) era mais receoso. “Nós devemos tomar muito cuidado: para os americanos do norte, os únicos americanos são eles mesmos”, dizia. Mas, à época, os norte-americanos eram de preocupação menor: eram os países europeus, as maiores potências coloniais daqueles tempos, que faziam as veias abertas pulsar e derramar sangue.

Cipriano se punha em meio de dois blocos, tentando avistar a liberdade por suas brechas. Mas Portales estava certo: americanos, todos – mas uns mais que os outros. O presidente Theodore Roosevelt, que considerava Castro “um macaquinho indescritivelmente vil” e que já havia declarado que “se qualquer país sul-americano se portar mal frente a um país europeu, que o país europeu o espanque”, lavou suas mãos, e a surra começou. Cipriano Castro foi forçado a aceitar um acordo no qual o país comprometia 30% de seus direitos aduaneiros de seus principais portos para o pagamento dos credores, em troca do fim do bloqueio. Em troca, os europeus se retiravam.

Cipriano Castro em seu escritório. 1906.

Esse episódio teve especial importância para a mensagem ao Congresso do presidente norte-americano em 1904, no qual ficava consolidado o Corolário Roosevelt (ou Política do Grande Porrete –Big Stick Policy,assim chamada a partir do provérbio africano “fale manso, mas sempre com um porrete em mãos.”) Com o Corolário, ficava definido, de maneira mais concreta, o que a Doutrina Monroe afinal significaria 80 anos depois, quando o poderio dos Estados Unidos já crescia, junto de sua frota naval: “Não é verdade que os Estados Unidos sentem qualquer fome de terra. […] Tudo o que este país deseja é ver os países vizinhos estáveis, ordeiros e prósperos. Qualquer país cujo povo se conduza bem pode contar com nossa amizade sincera. […] [Mas] irregularidades crônicas, ou uma incapacidade que resulte num afrouxamento geral dos laços da sociedade civilizada, podem em última instância exigir, na América como em outro lugar, intervenção por alguma nação civilizada, e no Hemisfério Ocidental a adesão dos Estados Unidos à Doutrina Monroe pode forçar os Estados Unidos, ainda que com relutância, em casos flagrantes de tais irregularidades ou incapacidade, ao exercício de um poder de polícia internacional.” De protetores contra oshegemons europeus, os Estados Unidos passaram a proclamar – e a garantir – sua hegemonia regional. Era óbvio: o pan-americanismo não buscava isolar opressores e abraçar aliados, mas isolar competidores, na busca de novos escravos.

O general Juan Vicente Gómez, vice de Castro, assume a presidência no ano de 1908, enquanto Cipriano embarca para a Europa, para tratar da sífilis que o acometia e que havia agravado sua saúde. Essa viagem é aproveitada por Gómez, que com um movimento apoiado pelos EUA, França e Países Baixos dá um golpe de Estado em 19 de dezembro. Goméz lideraria uma ditadura – com fachada constitucional e democrática – durante 27 anos. O “César democrático” usou da nascente indústria petroleira do país para pagar a dívida externa, orbitando – principalmente por conta do petróleo – em torno dos Estados Unidos. A dependência era tamanha quepartes da Lei do Petróleo de 1922 foram escritas por companhias petroleiras estrangeiras. O pagamento das dívidas, com o petróleo, afastava os europeus. Mas sua produção atiçava e aproximava os norte-americanos.

A hegemonia regional

Se nos tempos de Monroe havia líderes latino-americanos buscando consolidar alguma independência navegando pelas brechas de duas grandes rochas, a virada do século ficava marcada por um mapa de ação em que qualquer respiro se encontrava em torno de um só rochedo, ao redor do qual se podia orbitar ou ser esmagado. Os encouraçados do Irmão do Norte serviam para espantar europeus, mas também para subjugar latinos.

Em 1903, por exemplo, após o Senado colombiano recusar-se a aprovar o Tratado Hay-Herrán, que concedia aos norte-americanos o domínio sobre as terras na zona do Canal do Panamá, Manuel Amador e seus rebeldes panamenhos, estimulados por Roosevelt, proclamaram a independência do Panamá. Quinze dias depois, os EUA conseguiam do novo governo o tratado necessário para a construção do canal.

Ao mesmo tempo, os Estados Unidos se projetavam para o mundo, exibindo seu poderio naval. Em 1909, uma esquadra de guerra da Marinha dos EUA, composta por 16 encouraçados, deu a volta ao mundo, saindo de Hampton Roads e passando por Brasil, Argentina, Peru, México, Havaí, ilhas Samoa, Nova Zelândia, Austrália, Filipinas, Japão, China, Sri Lanka, Egito, Argélia, Grécia, Líbano, Turquia, Marrocos, França e Itália. “Reconhecida pela sociedade internacional, a emergente Marinha dos EUA dançaria uma valsa conduzida pelo balanço do mar, como a debutante que, de branco, exibe diante do público que está preparada (e armada!) para ingressar no mundo daqueles que já alcançaram a maturidade”,escreveu Luigi Bonafé.

Após a aprovação, em 1907, de um tratado que tornava ilegal o uso de força militar para a cobrança de dívidas, os EUA passaram a revisar alguns de seus métodos – o que não implicou em um fim do intervencionismo norte-americano na América Latina. O presidente republicano William Taft, sucessor de Roosevelt, foi responsável pela virada, que deixava de lado as intervenções como forma preferencial de resolver cobranças de dívida, implicando na “Diplomacia do Dólar”. O movimento consistia em incentivar bancos dos EUA a comprarem dívidas de países do Caribe e América Central com credores europeus, além de aumentar sua penetração na China.

Cunhando moedas de sangue

O senador republicano liberal pelo Estado de Nebraska, George W. Norris, proclamou um discurso no dia 4 de abril de 1917, no qual dizia: “Estamos indo à guerra sob o comando do ouro. Nós vamos arriscar sacrificar milhões de vida de nossos compatriotas para que outros compatriotas possam cunhar sua força vital em dinheiro”.

Com cerca de 20 milhões de mortes, muito sangue foi vertido, de fato, nas trincheiras da Primeira Guerra. Mas muito dinheiro era também cunhado. De acordo com Moniz Bandeira, em“Formação do Império Americano: Da guerra contra a Espanha à Guerra contra o Iraque”, as exportações de aço dos EUA durante a guerra quadriplicaram. As de munição foram de 40 milhões de dólares para 330 milhões. Os explosivos exportados, em 1914, eram da ordem de 60 milhões de dólares – entre 1916 e 1917, eram de 1,7 bilhão. A empresa norte-americana DuPont havia suprido, sozinha, dois quintos da munição usada pelos países daEntente, testemunhando nas suas ações de mercado um salto que foi de 20 dólares, em 1914, para mil dólares, em 1918.

Quando o armistício pôs fim à guerra, em 1918, havia 21 mil novos milionários nos EUA. Dos 20 milhões de mortos ao final da guerra, somente 116 mil eram norte-americanos, num fato que corrigia a declaração do senador Norris: cunhava-se dinheiro com força vital, sim, mas não com a de seus compatriotas. Por outro lado, quatro impérios estavam completamente arruinados ao fim da guerra: o alemão, o russo, o austro-húngaro e o otomano. E os poderes aliados haviam acumulado uma enorme dívida com os EUA, de forma que o país logo se transformou, de devedor, para credor da Europa. Em 1914, os EUA deviam à Europa entre 4 e 5 bilhões de dólares. Em dois anos, liquidaram a dívida, e em 1918 já haviam concedido créditos no montante de 25 bilhões de dólares.

As bombas enriquecem: arsenal inglês durante a Primeira Guerra. (Foto: Ministry of Information First World War Official Collection)

À guerra seguia a partilha. No Oriente Médio, Palestina e Iraque ficavam sob mandato inglês, e Síria e Líbano sob o francês, que se apossaram também de colônias alemãs na África. O Japão e a Itália também participavam a partilha. Mas a América Latina ficava livre da divisão. Assim, conservava-se a América Latina e o Caribe como protetorado norte-americano.

Duas décadas depois, em 14 de abril de 1939, o presidente norte-americano Franklin D. Rooseveltenviou um telegrama a Hitler, manifestando sua preocupação com uma nova guerra e solicitando a garantia de não-agressão, por 10 anos, a 31 países. Hitler respondeu duas semanas depois, dizendo que se Roosevelt tinha tanto interesse em saber de suas intenções na Europa, ele também queria saber quais eram as intenções dos EUA em relação aos países da América Latina. E, evocando a Doutrina Monroe, disse que “nós alemães sustentamos doutrina similar para a Europa – sobretudo para o território e para os interesses do Grande Império Alemão.”

A guerra de fato viria. E, com ela, “Roosevelt colimava, simultaneamente, alguns objetivos: esmagar a Alemanha, como potência, principal concorrente dos Estados Unidos, e liquidar as possessões da Itália e do Japão; dissolver o império colonial que a França, a Holanda e a Bélgica ainda mantinham, e assumir todas as posições e domínios da Grã-Bretanha, proposta feita a Churchill na reunião de Placentia Bay (9 de agosto de 1941), e estabelecer nova ordem mundial, sob a hegemonia dos Estados Unidos”, de acordo com Moniz Bandeira. 

Assim foi feito. 

Globalizando a hegemonia

A emergência do movimento anticolonial em todo o mundo representava a retirada de uma parcela considerável do globo do jugo das antigas potências. Aqui estava incluída a União Soviética, bastião desta luta, que conseguira sair da Primeira Guerra Mundial escapando pelos dedos do domínio estrangeiro e afirmando a sua própria independência política.

O projeto de Hitler, como ele mesmo dissera, era “sustentar teoria similar [à Doutrina Monroe] para os interesses do Grande Império Alemão”. Ocorre que a União Soviética era um alvo especial dos nazistas.

Heinrich Himmler, comandante militar da SS e uma das principais figuras do partido nazista, disse em um discurso na cidade de Posen, na Polônia: “O que acontece a um russo, ou a um checo não me interessa o mínimo. O que as nações podem oferecer na forma de bom sangue do nosso tipo, nós vamos tomar, se necessário, raptando os seus filhos e criando-os aqui conosco. Se as nações vivem em prosperidade ou morrem de fome, só me interessa enquanto nós precisarmos deles como escravos para a nossa cultura; caso contrário, não me interessa. Se 10.000 mulheres russas caem de exaustão enquanto cavam uma vala antitanque, interessa-me apenas na medida em que a vala antitanque para a Alemanha esteja terminada. Nunca seremos rudes e sem coração quando isso não for necessário, isso é claro. Nós alemães, que somos o único povo no mundo que tem uma atitude decente para com os animais, também assumimos uma atitude decente para com estes animais humanos (Menschentieren).”

Assim eram vistos: “animais humanos”. OGeneralplan Ost nazista (Grande Plano para o Leste) consistia em genocídio, limpeza étnica e colonização em larga escala dos países do leste europeu. Escravos seriam então usados nos esforços de guerra, junto das reservas de petróleo do Cáucaso e ascommodities agrícolas da União Soviética. Em última instância, o leste europeu poderia se tornar colônia alemã.

Para os Estados Unidos, a Alemanha nazista significava, por um lado, uma ponta de lança contra os comunistas (na Europa e em relação a União Soviética) e, por outro, um ousado competidor no campo geopolítico. Aquela antiga potência, derrotada na Primeira Guerra e submetida ao endividamento, emergia mais uma vez, estendendo sua influência por todos os continentes com promessas de guerra. E se a guerra fosse declarada contra os Estados Unidos – como de fato foi, em 1941 – a América Latina seria um território chave.

Ataque em Pearl Harbor, 1941. (Foto: US archives)

Para a Alemanha nazista, bastava que os países latino-americanos ficassem neutros. Os Estados Unidos garantiram apoio na região, no entanto, por meio da “Política de Boa Vizinhança”, aumentando os investimentos na América Latina e promovendo intercâmbios culturais. Os países que tenderam mais à neutralidade – como Chile e Argentina – foram castigados no campo econômico.

Depois que um furacão de carne humana, alimentado principalmente pelo sangue soviético, varreu o governo nazista da Alemanha e impôs a rendição ao Japão e à Itália, o tabuleiro global ficou limpo: norte-americanos de um lado, soviéticos de outro. A partilha já havia sido preparada em Yalta, na Crimeia, oito meses antes, e um ano antes os Estados Unidos já haviam decidido, na Conferência Monetária e Financeira das Nações Unidas, em Breton Woods, pela criação do Acordo Geral sobre Comércio e Tarifas (GATT, em inglês), do Fundo Monetário Internacional (FMI), e do Banco Mundial.

A intenção era promover o comércio multilateral, com livre circulação de mercadorias e investimentos, por meio da conversibilidade das moedas (tendo o dólar como base); a concessão de ajuda financeira aos países em troca de medidas de redução de gastos e privatizações, e a promoção de investimentos privados e empréstimos em massa às nações no pós-guerra. Por meio dele, os Estados Unidos não só estariam em luta contra a URSS, mas também assegurando o domínio sobre as antigas colônias britânicas e francesas e, porque não, sobre a Inglaterra e a França em si.

Logo após a Segunda Guerra, chegou-se à chamada Guerra Fria. A disputa geopolítica entre soviéticos e norte-americanos no pós-guerra, cada vez mais, tornaria o estalar de uma nova guerra necessário. No entanto, ela seria contraprodutiva para ambas as partes: as duas potências saíam vitoriosas de campos de batalha que lhes haviam custado enormes quantidades de recursos, humanos e financeiros. Guerrear não só implicava abrir mão dos garantidos e imediatos espólios da Segunda Guerra, como jogar-se, como potência, num mundo em que o caos poderia destronar ambos os reis.

Era necessário guerrear sem armas, mas sempre sob sua sombra. A Guerra Fria foi, assim, feita nos moldes da política, e a política era feita como num mapa da guerra. O desenvolvimento da capacidade nuclear soviética em 1949 transpunha para o campo militar o paradoxo político após a Segunda-Guerra: vencer o inimigo era necessário, para ambos os lados. Mas para ambos os lados era contraproducente e perigoso demais combater. Neste jogo de xadrez em que não havia mais torres, cavalos, bispos ou rainhas, a vitória seria alcançada pelos peões, convertidos em torres de hegemonia de cada um dos reis.

Torres de hegemonia

A Guerra Fria foi combatida em todo o mundo, na dimensão cultural, política e econômica. Batalhas militares eram efetivamente travadas, mas com caráter limitado. 

Na Ásia, em 1949, a Revolução Chinesa ergueu, às portas da Rússia, a primeira torre de hegemonia contra os Estados Unidos. Igualmente ocorreu na Península Coreana, que acabou dividida e passou pela Guerra da Coreia entre 1950 e 1953. O Japão e a Coreia do Sul, por sua vez, serviram de torres norte-americanas na região, com centenas de milhares de dólares em investimentos e ajuda financeira, e ostensiva presença militar norte-americana. A Tailândia e as Filipinas também cumpriram papéis importantes na “doutrina asiática” daSoutheast Asian Treaty Organization(Organização do Tratado do Sudeste Asiático), um pacto militar que incluiu também a Inglaterra, Nova Zelândia, Austrália, França e Paquistão, com o objetivo de defender o Vietnã do Sul, o Laos e o Camboja dos comunistas. A doutrina asiática, como a Doutrina Monroe, considerava que qualquer intrusão no sudeste da Ásia era perigosa para a paz e segurança dos EUA. 

No Leste Europeu, até a Alemanha Oriental, a influência foi assegurada à União Soviética. Na Europa Ocidental, a hegemonia norte-americana era mantida.

Um campo de batalha especial foi o Oriente Médio. Ali, a influência norte-americana era forte, com a grande torre de Israel, erguida em 1948, a Arábia Saudita e, depois do golpe contra Mohammad Mossadegh, o Irã. A Síria e o Iraque permaneciam alinhadas ao Bloco Soviético, que teve sua influência expandida também para o Egito, cujo líder, Abdel Nasser, nacionalizou o Canal de Suez em 1956.

Na América Latina, prevalecia a Doutrina Monroe. A hegemonia em alguns países, durante o final dos anos 40 e os anos 50, já era assegurada pelo grande porrete literal do irmão do norte: Costa Rica, Guatemala e Paraguai. Em 1959, no entanto, a Revolução Cubana estourou, e a ilha se alinhou ao Bloco Soviético a partir de 1961. A tensão, agora no protetorado preferencial dos Estados Unidos, deveria ser resolvida. Argentina, Brasil, Chile, Nicarágua, Panamá, Peru e Uruguai seriam todos alvos do porrete norte-americano e seus representantes regionais: coturnos e milicos.

Novas potências

Gay Talese, o lendário escritor e jornalista norte-americano, escreveu certa vez, sobre a final da Copa do Mundo de Futebol Feminino em 1999, disputada entre EUA e China: “Era sim uma visão contrastante e atualizada do tipo de mulher chinesa que Mao havia imaginado capaz de levar o mundo nas costas. Aquelas modernas finalistas chinesas, que viajavam pelo planeta e calçavam chuteiras com travas na final da Copa do Mundo de 1999, eram, em certos casos, netas ou bisnetas de mulheres que no passado manquitolavam em sua terra com pés atados e, por isso, deformados. Aquelas jogadoras de futebol eram, num sentido histórico, parte de uma longa marcha que ainda continuava, de um grande salto avante rumo ao século XXI, no qual, como futuras mães numa superpotência florescente e tecnicamente avançada, seus genes competitivos talvez epitomassem a energia e a determinação com que novas gerações de chineses poderiam vir a competir com os americanos na tentativa recíproca de riscar o outro país do mapa.”

Oito anos antes, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas encontrava o colapso, depois dos governos comunistas caírem nos aliados Hungria, Tchecoeslováquia, Bulgária, Romênia e Alemanha Oriental, e a as repúblicas soviéticas da Lituânia, Letônia e Estônia declararem sua independência.

A China, que já se mantinha independente dos soviéticos, havia empreendido a partir de 1976 grandes reformas econômicas. Na década de 1960-1970, a economia do país crescia no passo de 4,5%; entre 1970-1980, 5,8%; entre 1980-1990, 8,5%.

A União Soviética havia sido destruída, sim, e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) se expandia para suas antigas fronteiras. Mas na Ásia Oriental o “perigo vermelho” crescia e se tornava uma potência. Os canhões rudimentares viraram modernos e sofisticados mísseis. A industrialização avançava a passos largos. E os pés confinados por panos e deformados agora vestiam chuteiras e chutavam ao gol no final da Copa.

Desde aquela final, em 1999, o PIB chinês saltou de 1,094 trilhão para 12,24 trilhões (em comparação, o PIB norte-americano saltou de 9,6 trilhões para 19,3 trilhões). O tamanho dessa potência econômica é tal que,de acordo com um relatório daOxford Economics, “a indústria chinesa […] reduziu os preços dos bens de consumo nos Estados Unidos, amorteceu a inflação e colocou mais dinheiro nos bolsos americanos […] o comércio com a China […] economizou até 850 dólares por ano para essas famílias.” Além disso, tudo indica que a Chinaesteja na dianteira no desenvolvimento do 5G, a “quarta revolução tecnológica”, enquanto a indústria bélica norte-americana se torna cada vez mais dependente decommodities chinesas, em especial das chamadas “terras raras”.Um relatório do Departamento de Defesa norte-americano considera que a China “representa um risco significativo e crescente para o fornecimento de materiais considerados estratégicos e críticos para a segurança nacional dos EUA, já que o país asiático é a única fonte ou provedor principal de uma série de materiais utilizados na indústria de defesa.”

Velhos porretes

O ex-Secretário de Defesa dos Estados Unidosdeclarou em 2018, quando anunciando a nova doutrina estratégica de seu país: “Continuaremos a levar adiante a campanha contra terroristas em que estamos envolvidos hoje, mas a competição entre grandes potências, não o terrorismo, agora é o foco principal da segurança nacional dos EUA.” Como escrevi em “Carta no Coturno – A volta do Partido Fardado no Brasil”, “a retomada da Doutrina Monroe não é só uma teoria; é discurso oficial. Se em 2013 o então Secretário do Estado John Kerrydeclarava publicamente que ‘a era da Doutrina Monroe acabou”, o então Secretário de Estado de Trump, Rex Tillersondeclarava, antes de embarcar para uma série de viagens na América Latina, que a Doutrina era ‘claramente um sucesso […] tão relevante hoje como no dia em que foi escrita.’ Nesta mesma ocasião, disse que ‘hoje a China está colocando um pé na América Latina. Está usando políticas econômicas para colocar a região na sua órbita. A pergunta é: a que preço? A América Latina não precisa de novos poderes imperiais que só buscam beneficiar seu próprio povo.’ O Conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos, John Bolton, também gosta de rememorar o presidente Monroe.Respondendo a uma pergunta sobre a Venezuela, declarou que ‘nessa administração nós não temos medo de usar a frase ‘Doutrina Monroe’. Esse é um país em nosso hemisfério, tem sido o objetivo de presidentes desde Ronald Reagan ter um hemisfério completamente democrático.”

De fato, a China tem posto um pé na América Latina. Um não; vários. E de chuteiras. Desde 2005, são cerca de 140 bilhões de dólares em empréstimos enviados à região, dos quais 90% foram para quatro países: Venezuela, Brasil, Equador e Argentina. Os empréstimos chineses para o desenvolvimento da América Latina e Caribe nos últimos anostêm sido maiores do que os do Banco Mundial, do Banco Interamericano de Desenvolvimento e do Banco de Desenvolvimento da América Latina juntos.

O país que mais recebeu dinheiro chinês na região foi a Venezuela (67,2 bilhões de dólares entre 2001-2018). O país deve à China cerca de 19 bilhões de dólares em petróleo. No Brasil, para o mesmo período, o montante foi de 29,8 bilhões de dólares, e a China é o nosso principal parceiro comercial desde 2009. O Equador, de 2009 a 2018, recebeu 18 bilhões de dólares, e um acordo com o ex-presidente Rafael Correa estabeleceu que 90% das exportações de petróleo cru seriam feitas ao dragão asiático. E a Argentina, nas últimas duas décadas, recebeu quase 17 bilhões de dólares. Grande parte dos investimentos se destinam ao desenvolvimento de infraestrutura.

No Brasil, Bolsonaro fala duro com a China e mole com os Estados Unidos, mas a língua é mordida, no primeiro caso, e ignorada, no segundo. O presidente chegou a abrir mão de benefícios da Organização Mundial do Comércio (OMC) em troca de uma prometida entrada do país na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE),que foi frustrada. Os EUA tambémnegaram a abertura de seus mercados para a carne bovinain natura do Brasil. E Trump também disse que taxaria as exportações de aço brasileiro, para queBolsonaro depois dissesse que o mandatário norte-americano se comprometeu a não fazê-lo; o brasileiro já foi enganado pelo amigo do norte antes.

A China, por outro lado,colocou 100 bilhões de dólares à disposição do Brasil após a XI Cúpula de Líderes do Brics, e foi o único país a tomar parte no mega leilão do pré-sal ocorrido em novembro (de acordo com aFolha de São Paulo, a pedido do próprio Bolsonaro).

Para fazer frente à presença econômica da China na região, os Estados Unidos criaram o programa “América Cresce”.O Brasil deve assinar em breve um memorando para participar. Mas concorrer em empréstimos com outras potências – em especial uma liderada por um Partido Comunista – não é o que prega a Doutrina Monroe. Forçar sua retirada sim.

(Washington, DC – EUA 19/03/2019) Donald Trump, Presidente dos Estados Unidos da América, entrega uma camisa personalizada, simbolizando o esporte nacional, ao Presidente da República Jair Bolsonaro. (Foto: Isac Nóbrega/PR)

O presidente brasileiro, com sua política pró-americana, parece buscar, a partir da fraqueza, o apoio incondicional dos Estados Unidos. Acena a todas as posições norte-americanas e, também no campo diplomático, as repete.Aceitou inclusive sediar um encontro “anti-Irã” no Brasil em fevereiro. A lógica de Bolsonaro, ao que tudo indica, é falar mais manso do que quem fala manso. Não sem custos internos, econômicos e políticos. Por outro lado, adotou uma postura chamada “mais pragmática” pelos grandes meios em relação à China nos últimos meses.

Nada disso está ocorrendo nos tempos de Cipriano Castro. Tampouco os eventos ocorrem na Europa, na Ásia, no Oriente Médio, nas portas da China ou da Rússia. Os oficiais norte-americanos não estão declarando, neste momento, que “o mundo é assim” ou que “os mercados são livres”. Pelo contrário, estão dizendo: o porrete está vivo; nós acreditamos no porrete!

No Brasil, e em toda a América Latina, chegará o momento em que os governos terão de fazer uma escolha. E, para aqueles que não entendam o falar manso do império, o porrete está ao alcance das mãos. Ele já afastou antes potências muito menos perigosas, já comprou dívidas, já derrubou governos, já procurou os militares, já autorizou surras. Somente a ingenuidade pode nos permitir acreditar que não fará de novo.

The post América Latina: Entre o porrete ianque e o dragão chinês appeared first on Revista Opera.

Ver original em 'Revista Opera' (aqui)

Como os indígenas lideram as lutas de resistência na América Latina

Muitas das revoltas populares nos países da América Latina são provenientes da insatisfação popular diante das medidas de governos ultraliberais.

 

 

Desde o mês de outubro, vimos eclodir uma série de revoltas populares nos países da América Latina, muitas delas provenientes da insatisfação popular diante das medidas de governos ultraliberais. A mídia tradicional burguesa se limita a interpretar essas manifestações como algo relativo às demandas específicas, como aumento do preço do combustível ou das tarifas de metrô. Mas estamos diante de rebeliões num continente em que é cada vez mais estratégico às disputas imperialistas e às lutas de classes.

Nesse cenário em que os governos progressistas da América Latina estão em decaída, seguidos por governos ultraliberais, vimos o destaque dos movimentos indígenas à frente das mobilizações em casos específicos e peculiares. Analisemos alguns deles:

O papel da Conaie na resistência do Equador

No Equador, o presidente Lenin Moreno anunciou um pacote de ajustes para cumprir as metas impostas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). Entre as medidas impopulares, o fim do subsídio aos combustíveis, aumentando o preço da gasolina em 123%, o que gerou uma onda de protestos nas ruas do país. Diante da insatisfação popular, a Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador (Conaie) realizou uma série de marchas pelo país, fazendo o presidente transferir a sede do governo equatoriano de Quito para Guayaquil.

Com do aprofundamento das manifestações, Lenin Moreno recuou e revogou as medidas impopulares. Apesar da vitória, hoje a Conaie tem denunciado a prisão de indígenas por parte do Estado, acusando-os de terrorismo nos protestos de outubro. Vemos que a situação no Equador foi uma conquista temporária, pois o governo de Lenin Moreno continua a serviço dos interesses do grande capital, demonstrando a capitulação do Alianza País, partido de Moreno e do qual Rafael Correa se desfiliou em 2018.

Os indígenas, que representam cerca de 25% da população, estão organizados e acatam as decisões da Conaie, demonstrando a força do movimento, que conseguiu dar um tom mais incisivo nos protestos de outubro, garantindo o recuo do governo de atender às exigências do FMI, à revelia da população. Na população pobre no Equador, 68% são indígenas e estariam diretamente prejudicadas com as medidas.

Fundada em 1986, a Conaie protagonizou diversos movimentos na década de 90, derrubando ex-presidentes contra suas medidas impopulares. A Conaie tem sua atuação partidária através do Movimento de Unidade Plurinacional Pachakutik-Novo País (MUPP-NP). Conhecido apenas como Pachakutik, é um partido de esquerda indigenista que participa das eleições desde 1996, disputando parlamentos locais, prefeituras e alcaides (denominação para os presidentes de câmaras municipais que exercem também o Poder Executivo).

O movimento dos mapuches no Chile

Enquanto isso, no Chile, a população foi às ruas contra o aumento na passagem do metrô em Santiago. Em resposta, o presidente Sebastian Piñera decretou estado de emergência e colocou o exército para reprimir os protestos, coisa que não acontecia no país desde o fim da ditadura de Pinochet. Apesar do recuo do governo em aumentar a tarifa, os protestos geraram uma onda de insatisfação contra as políticas ultraliberais de Piñera. O governo tem dado resposta com mais repressão, surgindo casos de prisões arbitrárias e torturas, bem como o registro de centenas de manifestantes que ficaram cegos após disparos de balas de borracha da polícia.

Nesse contexto, viralizou na internet uma foto da maior manifestação em Santiago no dia 25 de outubro, com cerca de 1,2 milhão de pessoas, onde no topo da estátua é hasteada a bandeira dos mapuches, povo indígena da região centro-sul do Chile. Com a redemocratização do país na década de 90, os povos mapuches reivindicam o reconhecimento da diversidade étnica e cultural chilena, bem como a desapropriação de terras privadas para a criação de assentamentos de comunidades indígenas, entrando assim em conflito com o uso das riquezas naturais para os interesses do capitalismo.

O tensionamento das relações entre estado chileno e mapuches originou a bandeira de autonomia indígena, conflito este que se estende por todo o período democrático chileno. Com a eclosão dos protestos, as pautas dos povos mapuches começaram a tomar notoriedade, resultando nas marchas do último dia 14, quando se completou um ano da morte de Camilo Catrillanca, agricultor mapuche de 24 anos que foi assassinado em uma operação policial no sul do Chile.

Em alguns protestos é comum ver a derrubada de estátuas que representam conquistadores espanhóis, substituindo-as por representações indígenas, num claro processo de luta pela reescrita da história oficial chilena.

A resistência dos índios contra o golpe na Bolívia

O clima de instabilidade na Bolívia, com a interferência da Organização dos Estados Americanos (OEA), que contestou a vitória de Evo Morales, consequentemente deu aval para os protestos da oposição, protestos esses que visavam perseguir figuras vinculadas ao Movimento al Socialismo (MAS), partido de Evo, bem como a depredação de prédios públicos. Essa situação resultou na renúncia do presidente, pressionado por setores golpistas dentro do exército, mesmo após a proposta de novas eleições por parte de Evo.

Após a renúncia, Evo pediu asilo político no México. A população tem ido às ruas contra o golpe, agora com uma autoproclamada presidente numa sessão parlamentar esvaziada com a ausência dos parlamentares do MAS, que se negaram a participar devido às represálias golpistas.

Diante desse contexto, é perceptível a fragilidade do MAS em manter a resistência contra o golpe, visto que a própria Central Obrera Boliviana (COB) demonstra fraqueza nos chamados aos atos em defesa do estado plurinacional boliviano. Em oposição a essa fragilidade, vemos o grau de resistência dos povos indígenas bolivianos, em especial após os episódios de soldados do exército que rasgaram a bandeira whipala de seus uniformes, bandeira esta que representa os povos originários e o estado plurinacional.

Jeanine Añez, autoproclamada presidente da Bolívia, saiu da sessão segurando uma Bíblia e tem dado declarações xenofóbicas, alegando ser contra o estado plurinacional e declaradamente a favor de um estado branco, cristão e burguês. Essas declarações são verdadeiras afrontas ao povos indígenas, que marcham pelas cidades bolivianas e resistem contra o golpe.

Diante desses casos, que fazer?

A consolidação do capitalismo nos países latino-americanos, devido à subserviência às grandes potências imperialistas, demonstra diversas tarefas que ainda estão em atraso na ordem do dia. Dentre elas, a questão indígena é uma das essenciais, visto que em países como a Bolívia o número de indígenas chega a 62% da população, totalizando cerca de 45 milhões em toda a América Latina.

Em casos como os da Conaie no Equador, é perceptível o recuo limitado pelas pautas imediatas, devido à ausência da consolidação do pensamento revolucionário nas organizações de massa, tarefa a que os comunistas precisam se dedicar energicamente.

José Carlos Mariátegui, um dos primeiros marxistas latino-americanos, expôs na década de 20 do século passado que o problema do índio é identificado com o problema da terra. Após séculos de exploração e submissão, os indígenas têm ainda a reivindicação da terra como uma luta histórica – daí a necessidade de colocar a demarcação das terras indígenas como uma bandeira de luta significativa para o conjunto dos movimentos sociais, na perspectiva de unificação das pautas para a construção de um bloco de lutas do proletariado contra os governos ultraliberais e o grande capital.

Essa luta unificada não pode se limitar ao campo das ideias, mas também naquilo que Mariátegui apontava como “a solidariedade fraterna dos sindicatos” para com as massas indígenas. Ao caracterizar as sociedades autóctones indígenas da pré-colonização com aquilo que Engels definiu como o socialismo primitivo, Mariátegui aponta para a necessidade de uma aliança entre proletários e indígenas, na construção do socialismo científico, uma etapa superior, mas que tem muito a aprender com as sociedades indígenas pré-coloniais, visto que o socialismo indoamericano não pode ser cópia de outros socialismos.

Essa unidade não contesta o proletariado como a classe revolucionária, tal como a unidade proletário-campesina foi essencial para a consolidação da revolução soviética. Mariátegui afirma que “as populações indígenas ou negras escravizadas devem ter a certeza de que apenas um governo de trabalhadores e camponeses de todas as raças que habitam o território os emancipará verdadeiramente, pois só podem extinguir o regime de latifúndio e o regime industrial capitalista e liberá-los definitivamente da opressão imperialista”[1].

Temos um longo caminho de lutas pela frente, visto que a América Latina, devido às suas riquezas naturais e potencialidades econômicas, tem se tornado uma área estratégica para o grande capital. A luta por nossa emancipação e pela construção do socialismo indo-americano traz consigo a luta contra todos os atrasos causados pelo capitalismo imperialista, abarcando assim a luta dos povos indígenas.

A unidade entre revolucionários comunistas e movimentos sociais indígenas é uma tarefa urgente. Mariátegui, num Peru constituído em sua maioria por índios, afirmava que “uma consciência revolucionária indígena pode levar tempo para se formar; mas, uma vez que o indígena fez a própria ideia socialista, vai servi-lo com uma disciplina, uma tenacidade e uma força, na qual poucos proletários de outros meios poderão superá-lo”. Avante na luta por uma América socialista, pois, se somos americanos, seremos uma só canção!

 

 
 

[1] Todas as citações são originais do texto de Mariátegui “Ideologia e Política, Capítulo 1 – O problema das raças na América Latina”


Texto original em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado

Publicado originalmente no site do Sintef

 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/como-os-indigenas-lideram-as-lutas-de-resistencia-na-america-latina/

Alvo de golpes, América Latina terá novo ano de estagnação econômica

247 -A América Latina viveu em 2019 um período de desenvolvimento medíocre e deve ter mais um ano de baixo crescimento.

Economistas estimam que a região crescerá no máximo 1,7% em 2020.

Os governos de direita, que adotaram políticas econômicas e neoliberais de arrocho e recessivas, temem que o cenário econômico adverso gere um ambiente político propício à ocorrência de manifestações de protestos.

A maioria dos países deve crescer neste ano um pouco mais do que em 2019, mas ainda abaixo de seu potencial, indica reportagem do Valor. A estimativa para o Brasil é de baixo crescimento - apenas 2%.

A Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) faz previsões sombrias. No início de 2019, a Cepal estimava uma expansão de 1,7% para a América Latina. Hoje, vê crescimento de 0,1% para 2019 e de 1,3% para 2020.

Por seu turno, Alberto Ramos, do Goldman Sachs, lembra que a última vez em que a América Latina cresceu mais de 2% foi em 2013. Ele prevê uma expansão de apenas 1,7% para neste ano.

Celso Amorim: México e Argentina podem formar 'eixo do bem' na América Latina

 
 
Em entrevista exclusiva a Opera Mundi, ex-chanceler falou sobre Grupo de Puebla, América Latina, a situação na Bolívia e a liberdade do ex-presidente Lula
 
O ex-chanceler Celso Amorim disse, durante entrevista exclusiva concedida na última segunda-feira (11/11) a Opera Mundi e ao coletivo QuatroV, que a América Latina atravessa um momento histórico muito importante e que, neste contexto, México e Argentina, que têm (ou terão, no caso do nosso vizinho) governos de esquerda, podem representar um “eixo do bem” no continente.
 
“É um momento muito importante para a América Latina, e isso preocupa muito a direita continental. O Brasil, agora, está do outro lado, mas Argentina e México podem formar uma espécie de “eixo do bem” na região, contrariamente ao “eixo do mal”, de que falava o [ex-presidente dos EUA George W.] Bush, disse.
 
O México é governado por Andrés Manuel López Obrador, representante da esquerda, e a Argentina, a partir de 10 de dezembro, será liderada pelo peronista Alberto Fernández, tendo a ex-presidente Cristina Kirchner como vice.
 
Amorim se referiu ao Grupo de Puebla, que reúne intelectuais e políticos da esquerda latino-americana - e do qual o próprio ex-chanceler participa -, como um instrumento para pensar a região e atuar frente a outros blocos. “O Grupo de Puebla é muito importante porque tem capilaridade. Acho que um desafio nosso é nos aproveitarmos de um mundo multipolar, não dominado por um único país. Nenhum país da América Latina, nem o Brasil, é grande o suficiente para lidar com esse mundo de blocos. Mas a América Latina é. E o Grupo de Puebla pode ajudar nisso”, afirmou.
 
“A América Latina não é uma só, são muitas, porque cada lugar tem suas características, mas, por outro, lado, tem uma desigualdade imensa e a dependência em relação ao poder hegemônico do continente, que são os EUA. Acho que essas duas coisas caminham juntas de alguma maneira, e o Grupo de Puebla pode ter um papel importante nisso”, disse.
 
 
Bolívia
 
E a Bolívia é, talvez, o país latino-americano mais em evidência no momento, por conta do golpe que levou à renúncia do presidente Evo Morales no último domingo (10/11). Para Amorim, o racismo e o rancor da elite boliviana, que nunca aceitou um líder indígena cocaleiro, desempenharam um grande papel na queda
 
“O ressentimento, os rancores e ódios das classes dominantes bolivianas nunca aceitaram que um índio cocaleiro pudesse ser Presidente da República e fazer uma política de distribuição de renda, de benefício para os mais pobres. As elites bolivianas nunca aceitaram que um líder cocaleiro pudesse ser presidente”, disse.
 
Amorim, que chefiou o Itamaraty nos governos de Itamar Franco (durante o qual ocupou o posto entre 1993 e 1995) e Luiz Inácio Lula da Silva (entre 2003 e 2011), relembrou uma conversa que teve com Morales sobre o assunto. 
 
“Em 2008, eu visitei a Bolívia, juntamente com o chanceler da Argentina, [Jorge] Taiana, e com o chanceler interino da Colômbia. E o Evo, na conversa particular que tive com ele, que durou muito tempo, falou: ‘querem tumbar el índio’ [querem derrubar o índio]”, contou.
 
Na mesma época, Amorim disse que se encontrou com representantes da direita boliviana, e que sentiu  total inflexibilidade por parte deles. “Esse pessoal, encarnado principalmente pelo [Luis Fernando] Camacho, não quer conversa. Dessa vez em que estive na Bolívia, aproveitei também para ter conversas com líderes da direita. Eles são radicalmente contra a ascensão dos índios”, afirmou.
 
Lula
 
Amorim também falou sobre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que foi libertado no último dia 8 de novembro. Para ele, o petista virou um símbolo não só da esquerda, mas da “justiça social”. 
 
“Depois da prisão, ele virou um símbolo do que é a luta por justiça social. Vinham [visitar o ex-presidente na cadeia] pessoas de esquerda tipo o [francês Jean-Luc] Mélenchon, que não era nenhum radical, nunca tocou fogo na Bastilha nem nada, mas também da social-democracia alemã. O Brasil era o único país em que uma prisão de província era mais visitada do que o palácio presidencial”, disse.
 
O ex-presidente, em entrevista exclusiva a Opera Mundi em setembro, chegou a dizer que Amorim foi “o melhor chanceler do mundo” no período em que ocupou o Ministério das Relações Exteriores durante o período petista no poder. Por sua vez, o chanceler disse que era “muito fácil ser chanceler do Lula”.
 
“O Brasil era requisitado. As pessoas todas queriam sair na foto com o Lula, e não era só a esquerda não. A direita pensante - claro que a extrema direita não - também: [o ex-presidente francês Jacques] Chirac, o Bush... o Bush veio aqui e botou o capacete da Petrobras na cabeça. Eu nunca pude imaginar isso, eu que sou antigo, da época do ‘petróleo é nosso’...”, contou.
 
RAFAEL TARGINO, São Paulo (Brasil), 16 de nov de 2019 – em Opera Mundi

Crónica antecipada de um golpe – México

A fabricação de um golpe com a intervenção de alguns idiotas úteis de esquerda

http://www.informationclearinghouse.info/52736.htm
Em Inglês
——————————————————
Em Castelhano

El pasado mes de julio pronuncié un discurso en el Foro de Izquierda en Brooklyn. Cuando terminó, un joven activista se puso de pie y anunció, en perfecto inglés, que era un anarquista de México que había viajado al Foro de Izquierda para hablar en contra de los abusos contra los derechos humanos perpetrados por el presidente mexicano “neoliberal”, A M Lopes Obrador(AMLO) contra los manifestantes. Dado que el panel en el que participé no tenía nada que ver con México, imaginé a todo un batallón de autoproclamados izquetas de vanguardia mexicana cambiando el tema en panel tras panel en el foro izquierdo para dañar la imagen de AMLO exagerando la conexión entre los La presidenta mexicana y las fuerzas de policía locales bajo el control de los gobiernos de la oposición, como le había sucedido a la presidenta brasileña Dilma Rousseff durante la consenada a la Copa del Mundo. “Así que comienza”, pensé. Como decimos en Brasil, ‘Já vi este filme’.
 
Basándome en el hecho de que el Estado Integral -el gobierno, los medios de comunicación, las corporaciones, las instituciones académicas, los partidos políticos, los grupos de reflexión y los ONGS que apoyan el proyecto imperialista- le encanta reciclar tácticas y estrategias de cambio de régimen, me gustaría predecir cómo los actores dentro de la izquierda de estados Unidos podrían, ya sea de manera tajante o inadvertida, fortalecer el apoyo al intento de golpe de Estado que obviamente ya está dando inicio contra México, un país que tiene yacimientos de petróleo y otros recursos naturales codiciados por una corporación estadounidense; país cuyos hijos ya están recluidos en jaulas americanas. Este artículo está destinado a ayudar a identificar señales de advertencia y, con suerte, reducir el número de progresistas estadounidenses que caen en las mismas técnicas de psiquiops que se utilizaron contra Honduras, Paraguay, Brasil, Nicaragua, Venezuela y Bolivia durante los recientes golpes de Estado y golpes de Estado apoyados por Estados Unidos en esos países. Aunque este artículo es sátira, he insertado enlaces a tipos similares de artículos de medios de comunicación progresistas sobre países latinoamericanos que han sufrido de recientes intentos de cambio de régimen respaldados por Estados Unidos.
 
Etapa 1
Una revista izquieralista estadounidense comienza una campaña de artículos de académicos trotskistas financiados por NED sobre cómo AMLO está “traicionando a la izquierda”. En el frente ambiental, AMLO es castigado por no haber desembolsado inmediatamente la economía mexicana de los combustibles fósiles.
Mientras tanto, empresas de medios liberales como New York Times, Intercept and the Guardian, algunas de las cuales ya han transferido a sus mejores escritores latinoamericanos a la Ciudad de México, ejecutan decenas de artículos destacando mega proyectos de construcción inacabados,, crimen,, crisis ambientales y corrupción,como si no fueran problemas estructurales sistemáticos causados por siglos de parasitaria explotación capitalista y golpes de estado perpetrados por Estados Unidos y sus aliados del norte. Ellos pretenderán que es un fenómeno completamente nuevo en México, que según los idiotas útiles, existen en un vacío geopolítico.

Etapa 2
A medida que aumenta la presión contra México, un medio de comunicación di  izquerda estadounidense hace un llamamiento para que los izquerdanos sean “honestos” sobre AMLO,escrito por un respetado profesor de estudios latinoamericanos, que no ha vivido en América Latina desde su investigación de doctorado, hace 30 años. [tal vez agregue cómo su familia también puede ser germano-mexicana y su abuelo vino misteriosamente a México en 1945]. Esta pieza insistirá en que AMLO es un capitalista, que no merece nuestra solidaridad. Esto es seguido por una oleada de artículos engreídos por estudiantes de posgrado desesperados por escapar de la pesadilla futura de addecidir que se centra en los “fracasos” de AMLO.
Ninguno de ellos menciona a los EE.UU. o el imperialismo. Cada promesa de campaña que no se cumple, cada iniciativa política que no cumple con su propósito, es culpa de las ventas en la izquierda mexicana. Todos ignoran el impresionante obstruccionismo de la derecha. México necesita una nueva izquierda, una que haga un descanso limpio del pasado, de sus sindicatos y sus movimientos sociales. El propósito de esta oleada de análisis negativos, intencionales o no, debilita la solidaridad con México, que ya es débil debido al aluvión constante de racismo sutil y lavó cerebro contra los mexicano-estadounidenses en la industria hegemónica de medios y entretenimiento.
Mientras tanto, un nuevo movimiento social surge en México, liderado por estudiantes universitarios blancosde clase mediaalta, bajo el lema de “sin banderas, sin partidos políticos”.
 
Etapa 3
Como ONG internacionales como Human Rights Watch y Transparencia Internacional,junto con think tanks financiados por empresas como AS/COA alimentan noticias calumniosas en los medios hegemónicos, que de repente está más interesado en México que nunca. Las protestas comienzan a expandirse.
Las élites conservadoras desfilan por las calles cantando el himno nacional de Los Estados Unidos loro de los eslóganes racistas contra los grupos indígenas y la retórica anticomunista de la guerra fría inunda las redes sociales, gracias a una masiva operación de psy-ops financiadaal estilo de Cambridge Analytica en Estados Unidos y El Reino.
El programa de radio progresista más popular del país trae a uno de los jóvenes manifestantes al programa, para hablar sobre los horribles abusos contra los derechos humanos cometidos por la “policía de AMLO”. Una importante organización de estudios progresistas latinoamericanos invita a un grupo de manifestantes a participar en una mesa redonda sobre el autoritarismo. Usan máscaras, pero luego se los quitan para tomar selfies durante una reunión con Mike Rubio y Ted Cruz. El matiz de que el presidente mexicano no tiene más control sobre las fuerzas de la policía local que Obama sobre la policía de Oklahoma City o Dallas durante su presidencia, se pierde en la traducción.
En Twitter, un destacado miembro de “The Squad” comienza a preocuparse públicamente por el creciente “autoritarismo” en México. Esto es retuiteado de manera poco crítica por decenas de miles de progresistas estadounidenses, incluyendo la mayoría de las instituciones de medios de izquierda más grandes, sus periodistas y editores.
 
Stage 4
Obrador cae. El partido neoliberal originalmente apoyado por los golpes de Estado respaldados por Estados Unidos se estrella y se quema y un payaso neofascista al estilo Trump/Bolsonaro/Boris Johnson, respaldado por los narcotraficantes y el ejército toma la delantera en una campaña electoral a toda prisa. Durante el mes anterior a las elecciones el Guardián lleva 22 artículos explicando por qué el candidato de payaso neofascista no es realmente tan malo.
A medida que se desmantelan los organismos de protección del medio ambiente y las leyes laborales, los pogramas comienzan contra los pueblos indígenas y los habitantes de los barrios marginales. Comienzan los asesinatos y las detenciones arbitrarias de líderes laborales y de movimientos sociales.
Las organizaciones de medios de comunicación izquierdas y liberales por igual, comienzan a publicar artículos sobre lo que salió mal. Los líderes indígenas y sindicales -ignorados durante el proceso de golpe de Estado- de repente se encuentran siendo invitados a dar entrevistas y escribir artículos de opinión para los principales medios de comunicación estadounidenses.
 
Mientras tanto, según los mismos grupos de medios, un espectro se cierne sobre Argentina. En las páginas de la publicación socialista más popular de Estados Unidos, un académico troskyista financiado por NED pregunta: “¿Están Fernández y Kirchner abriendo las puertas del neoliberalismo?”

 

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2019/12/24/cronica-antecipada-de-um-golpe-mexico/

Analisando alternativas de luta à crise democrática na América Latina

 
 
Há uma guerra híbrida em curso na América Latina. A guerra híbrida, guerra irregular, guerra de quarta geração, entre outras denominações, tem origem na projeção de poder dos Estados Unidos, que acabam desestabilizando sociedades nas suas periferias.
 
 
O levantamento publicado pelo Jornal O Globo, em novembro deste ano, denunciou a fragilidade das democracias sul-americanas no último século. De acordo com a investigação, a cada dez meses, um presidente não conseguiu terminar seu mandato por razões políticas. A pesquisa considerou os 12 países da América do Sul: Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile, Colômbia, Bolívia, Venezuela, Equador, Peru, Guiana e Suriname, onde 114 chefes de Estado tiveram de abandonar seus cargos, entre 1912 a 2019. Assim, na política latino-americana, a baboseira liberal não vale. A única certeza é a inconstância, a possibilidade de virada de mesa e a intervenção do imperialismo. Outro padrão é a condição recalcitrante de um republicanismo vazio. A ilusão é a força motriz da reprodução de padrões social-democratas da Europa em nossos países. Ilusões perigosas, governos de centro-esquerda fracos, ideologicamente frouxos e com síndrome de Estocolmo. No século XXI, a modalidade de derrubada de governos é outra. Vejamos o que iniciou em Honduras em junho de 2009, ganhou contornos quase de drama caricato no golpe paraguaio de 2012 e atravessa nossas realidades.
 
No Brasil, o Estado de Exceção operando sobre o Poder Executivo – uma constante para a população mais pobre e a maioria negra – encontrou lugar mais recentemente em 2016, com o impeachment de Dilma Rousseff. Podemos caracterizar a deposição da ex-presidenta como um Golpe de Estado em função de três elementos.
 
O primeiro e o mais visível foi ao se publicizar uma gravação da ex-presidenta com o ex-presidente Lula, quando não havia autorização do Supremo para aquela gravação. Pela regra, essa gravação deveria ter sido eliminada. Grampear uma presidenta da República no exercício do mandato e, ao mesmo tempo, de outros ministros de Estado, como o então ministro Jacques Wagner, e depois tornar público o conteúdo da conversa, caracteriza um arranjo político, jurídico e midiático. Logo, se não houvesse a presença e a criação de consenso da opinião pública através da opinião publicada, seria impossível a queda do governo e a mudança de regime (no caso, abalando o Pacto Constitucional de 1988).
 
 
O segundo elemento foi usar o artifício das pedaladas para justificar o impeachment. Mesmo tendo uma legalidade contestável, as pedaladas são um procedimento muito comum em vários mandatos e continuaram sendo.
 
E o terceiro elemento foi porque, num impeachment, os direitos políticos da presidenta teriam sido cassados, e não foram. Então, não se localizou uma causa-crime. Teria sido um procedimento do tipo parlamentarista, num voto de desconfiança, num regime brasileiro, que é presidencialista. arranjo político que resultou no impeachment de Dilma teve, evidentemente, um objetivo maior.
 
O volume de denúncias difundidas pelo The Intercept Brasil – que também tiveram leitura e checagem co-organizadas por uma série de consórcios jornalísticos -, traz material suficiente para provar que havia uma unidade política dentro da força-tarefa da Lava Jato e uma relação entre Ministério Público e juiz – que operava quase como um juiz-inquisidor – na intenção de interferir no resultado das eleições de 2018.
 
Com o ex-presidente Lula liderando todas as pesquisas de intenção de voto, era necessário removê-lo da corrida eleitoral. Avaliando os processos do Tríplex do Guarujá e do sítio de Atibaia, a impressão é de que Lula já havia sido condenado de antemão e todo o processo serviu para legitimar a sentença. Isso não significa que Lula não seja culpado, entretanto, nos casos específicos em que foi condenado, não houve provas consistentes contra o ex-presidente. E, na ausência de provas, ninguém pode – ou ao menos jamais deveria – ser culpado.
 
O que deveria acontecer, em um “verdadeiro” Estado Democrático de Direito, é a anulação dos processos, em função da parcialidade do juiz Sérgio Moro – ainda mais evidenciada com a sua saída da magistratura para tomar posse como titular do Ministério da Justiça do Governo Jair Bolsonaro. Isso seria o mais consistente, para não radicalizar o apreço sobre o Judiciário e o Ministério Público.
 
A mudança no rumo dos acontecimentos poderia ser indicada a partir do julgamento, pelo Supremo Tribunal Federal, da Ação Declaratória de Constitucionalidade que derrubou as prisões em segunda instância, usadas e abusadas pela Operação Lava Jato. No entanto, ao que tudo indica, a decisão do STF esteve mais correlacionada a uma disputa de posições entre o Supremo e a força-tarefa, disputas intra-Supremo – a correlação de forças dentro do aparelho jurídico e dentro do poder político –, e até a algum tipo de pressão dos militares do que necessariamente um rigor do Estado Democrático de Direito ou a defesa de uma Cláusula Pétrea da Constituição. Nesse sentido, se fôssemos interpretar a Constituição Brasileira e o orçamento vinculado do Brasil sob o Controle Social, jamais poderiam ter aprovado a PEC 55, por exemplo. No entanto, ela foi aprovada e não entrou em nenhum problema de constitucionalidade.
 
Por que o Supremo não fez este movimento, de proibir as prisões em segunda instância, antes de 2016? É uma grande dúvida, mas cuja suspeita é de que o STF, no mínimo, foi omisso em todo o processo.
 
Com a omissão do Poder Judiciário, fica muito mais “lisa” a relação entre setores de classe dominante que exercem o poder e as elites gerenciais de transnacionais ou de capital financeiro que operam no País com o poder político. Essa relação promíscua, inúmeras vezes, acaba ultrapassando a própria soberania do povo. E isso é uma espécie de regra do jogo do capitalismo, que se verifica, com muito mais intensidade, em capitalismos periféricos.
 
Jogo de interesses
 
O jogo de interesses – balizado pelas instituições concretas e os sistemas de crenças – ficou muito mais visível no Brasil a partir de 2019, com o Governo Bolsonaro. Se há algum consenso das direitas pós-2015 ou pós segundo turno 2014, é a agenda ultraliberal do “Chicago Boy” Paulo Guedes, que foi referendada pelo Congresso.
 
Há vários interesses setoriais como, por exemplo, da indústria brasileira e de seus controladores, que acumulam com a jogatina financeira mais do que com a própria indústria – que, por gerar emprego direto e ter acesso a empréstimos, a importação de maquinário, a bens de produção, de capital etc., é importante ser mantida, até para ser uma forma de se extrair mais recursos.
 
Outra possibilidade é esse conflito dentro do agronegócio, do agribusiness brasileiro, entre mais entreguismo ou menos entreguismo, como por exemplo, entre setores representados pela senadora Kátia Abreu, pelo também senador Blairo Maggi (ambos ex-ministros do seu setor) e a linha ainda mais dura, com a UDR ainda ocupando cargos no Governo Bolsonaro.
 
Uma terceira possibilidade é este enorme mercado de exploração da fé – não confundindo evangélico com direita evangélica, embora a direita evangélica consiga capitanear o discurso do evangelicalismo ou dos evangélicos na política, o que é uma pena. Infelizmente, as posições mais conservadoras e a favor do “ocidente imaginário da fé cristã” terminam por gerar um comportamento de manada nas igrejas protestantes, evangélicas e pentecostais, ao menos aparentando ter havido uma posição uníssona no segundo turno a favor de Bolsonaro e suas barbaridades. Casos como a “mamadeira peniana” após os protestos do #EleNão representam esse momento.
 
Crise continental
 
O modelo ultraliberal que deseja-se implementar no Brasil é o mesmo que colapsou o Chile. As condições de vida da sociedade chilena implicam numa concentração de renda de 23 a 28% no 1% mais rico. Nossos vizinhos têm um texto constitucional cuja espinha dorsal foi escrita ainda durante a Ditadura de Pinochet – com muita participação de juristas e políticos do partido UDI, que é a coalizão de governo com Piñera (este da RN, um partido oligárquico de trajetória golpista). E, no Chile, praticamente quase nada é público e nada é gratuito. Então, o custo de vida é muito alto. Além disso, o ultraliberalismo é algo que implica uma carga tributária muito regressiva. Ou seja, quanto menos se ganha, mais se é tributado. Existe classe média, mas muito instável nas suas condições materiais. Logo, o descontentamento é ainda maior.
 
Os protestos realizados recentemente pelos chilenos visaram a demonstrar para as elites políticas que topam negociar e são especialistas em traição popular que estas camarilhas (direita RN-UDI, centro-direita capitaneada pelo PDC e seus rachas e centro esquerda do Frente Amplio liderado pelo PS) praticamente não tomaram posição para deslegitimar e desconstituir o texto constitucional de Pinochet e, ainda, o sistema de ensino superior privatizado, a saúde privatizada e o desastroso sistema de aposentadorias.
 
Mas condições ideológicas e organizativas estão dadas e têm, na Plaza Italia, centro de Santiago, o seu epicentro. As conquistas concretas ainda não foram atingidas. Foram melhoradas. Alguns decretos do presidente Piñera foram aplicados para melhorar parcialmente as condições de vida. O que pode acontecer, num processo constituinte, se não tiver uma participação intermediada por políticos profissionais, é avançar bastante. Até agora o modelo de convocatória da Constituinte está em aberto e a tendência é, primeiro, um plebiscito tipo SIM ou NÃO – se sai ou não a Constituinte – e, depois, no modelo de convocatória e participação. Assim, Piñera também vai ganhando tempo e sobrevivendo em seu carcomido governo.
 
 O Equador, por sua vez – em que rebeliões populares obrigaram o presidente Lenín Moreno a revogar o aumento no preço dos combustíveis –, tem outro problema gravíssimo, que é uma chantagem de que a estabilidade econômica estaria vinculada à dolarização da economia. O Equador é um país que não tem moeda soberana e utiliza o dólar como moeda corrente. Ainda assim, com a economia dolarizada, o Governo Rafael Correa gerou condições de crescimento no país, mesmo insistindo nessa maldição mineral exportadora, que quase sempre se choca com, por exemplo, os direitos dos povos originários, os direitos indígenas e as áreas de preservação.
 
O que ocorre no Equador é um recrudescimento da perseguição jurídica posterior à rebelião que quase conseguiu derrubar o governo de Lenín Moreno. A rebelião ainda conseguiu derrubar o decreto 887 e também conseguiu reverter pelo menos a piora de condição de vida. Apesar de a repressão estar vindo muito forte, há uma reorganização social que vem de fora para dentro, do campo para a cidade, da população indígena para a urbana. É pertinente lembrar que a Confederação Indígena (Conaie) rompeu com o correismo desde 2010 e tem uma agenda própria e desvinculada do ex-presidente no exílio.
 
Já a Venezuela, exemplo crítico de crise econômica, humanitária e política, deve seu colapso especialmente à tradição mineral exportadora, que a transformou em uma economia muito dependente do petróleo, não chegando a ter a capacidade instalada necessária para se industrializar plenamente e sequer produzir todo o alimento que consome.
 
A crise da Venezuela também tem muito a ver com as medidas de punição, de bloqueios econômicos, congelamento de contas, isolamento do sistema de trocas financeiras, impostos pelos Estados Unidos ao governo venezuelano, desde a administração Bush Filho (e que vieram crescendo com Obama e Trump). Com o isolamento e com a perda do poder de compras do bolívar (moeda nacional), a capacidade de importação da Venezuela é muito baixa e, como o país não tem muita produtividade, resulta que o maior negócio da Venezuela é o contrabando. Então, o “mercado branco” – ironia –  costuma gerar uma inflação terrível.
 
No âmbito político, a crise venezuelana se dá a partir de abril de 2002, quando a direita que perdeu na urna se depara com uma constituição bolivariana, na qual ela é diretamente atingida e a maioria da população é beneficiada. Naquela tentativa de golpe de 2002, já havia crise política, que, de lá para cá, veio crescendo. A crise política só não está pior na Venezuela graças ao fato de que a oposição venezuelana é uma caricatura mafiosa que não se entende como um todo. Sempre tem uma parcela que aceita negociar com o governo, que é o que está acontecendo agora, inclusive com a possibilidade de libertação de presos políticos.
 
Guerra híbrida e as mídias
 
Há uma guerra híbrida em curso na América Latina. A guerra híbrida, guerra irregular, guerra de quarta geração, entre outras denominações, tem origem na projeção de poder dos Estados Unidos, que acabam desestabilizando sociedades nas suas periferias. Essa projeção de poder implica num conjunto de ações que vão ao encontro de interesses da superpotência, aplicando métodos de mobilização social e de instabilidade política, mas necessariamente tem também parceiros aliados e protagonistas locais. O Brasil foi um caso de guerra híbrida que começou no segundo turno de 2014, assim como em outros países da América Latina.
 
A guerra híbrida em sua operação mais recente – a partir, especialmente, da administração do Governo Trump –, visa a acionar corações e mentes através das mídias e redes sociais para os temas da corrupção moderna. No Projeto Pontes, por exemplo, a guerra híbrida colocou a Lava Jato em metástase, incidindo sobre o contrato de empresas brasileiras em vários países da América.
 
Nesse processo, o papel dos grandes conglomerados privados de comunicação é muito forte, mesmo com a influência das redes sociais, de grandes influenciadores digitais, dos circuitos da extrema direita que correm em paralelo aos grandes grupos de mídia. Teria sido impossível, por exemplo, grupos como MBL, Vem pra Rua e outros movimentos da nova direita a favor do impeachment ganharem relevância sem a projeção dos grupos de mídia e sem a falta de exercício jornalístico.
 
Um exemplo foi difusão da conversa entre a ex-presidenta Dilma com o ex-presidente Lula. Se não fosse a difusão da conversa – com o tipo de cobertura sensacionalista que foi feita, sem nem falar que aquilo ali era um crime –, o golpe não teria tido efeito. A Lava Jato alimentou progressivamente as redações dos telejornais e, em específico, da Rede Globo, com controversos vazamentos.
 
É preciso que haja exercício jornalístico, a busca do contraditório e precisão naquilo que se difunde. Propaganda e panfleto (não importando suporte e linguagem) são muito importantes, mas só o jornalismo e o espaço público midiático de baixo para cima garantem a democracia de base e o protagonismo das maiorias.
 
Traduzindo: sem democracia na comunicação não há democracia nenhuma. Mesmo em período de guerra cibernética, onde as redes têm um peso muito grande, elas também repercutem o que circula na grande mídia. Ou seja, é impossível fazer política sem o aparelho midiático, e é impossível ter democracia sem a democratização da comunicação.
 
Mobilizações populares
 
Quando vemos mobilizações populares da intensidade do Haiti, que continua em conflito civil contra um governo a favor do FMI (aliás, o maior volume de mortes no segundo semestre de 2019 está no Haiti, dentre os países que estão em rebelião popular na América Latina e no Caribe); depois, no Equador; logo após, no Chile; no intervalo, na Bolívia; e mais recentemente, a greve geral na Colômbia; todas as mobilizações populares não se dão de maneira espontânea, não é uma convulsão. Elas ocorrem porque muita gente chega às convocatórias, mas a base de quem convoca é muito organizada e tem uma profunda inserção social com algum grau de legitimidade, de alto para médio. Do contrário, seria impossível.
 
Sem a população organizada, com disposição de luta e capacidade de realização de grandes atos públicos, a capacidade de manipulação e de internalização de interesses externos das potências é gigantesca. Logo, a chance que os povos latino-americanos, nossos países, nossos territórios têm de se libertar da influência externa é nenhuma.
 
Se toda a esquerda se subordina à centro-esquerda e coloca sua energia no exercício do poder político burocrático, em rechear os espaços vazios no aparelho do Estado, não sobrará energia e, então, o povo sempre perderá.
 
Depois, é preciso admitir os limites do jogo democrático burguês na América Latina. Mesmo um partido reformista com propostas sólidas, se chegar ao poder pelo voto ou por uma coalizão, tem de levar em consideração, o tempo inteiro, que pode ser derrubado. A única certeza na política latino-americana é a incerteza gerada pela virada de mesa, a presença do imperialismo dos EUA, o acionar entreguista e anti-popular das elites econômicas e a fragilidade diante da presença cada vez maior do capital chinês.
 
A dimensão da estabilidade e instabilidade na América Latina não é um problema, é um sintoma. O problema é a continuidade e a descontinuidade dos projetos populares. Desde a independência formal de nossos países, é assim. É preciso entender que existem limites muito curtos dentro da institucionalidade.
 
Mas, enfim, há uma agenda positiva? Evidente!
 
Uma delas é a defesa dos territórios. No caso brasileiro, de territórios de populações tradicionais, de indígenas, quilombolas. Se somarmos tudo, é cerca de 40% de território brasileiro. É muita terra, muita área preservada, áreas onde não existem práticas de modus vivendi capitalistas, e isso é inegociável. Então, o que a esquerda ainda classista e com disposição de luta deveria fazer é militar. Militar socialmente, fazer política na base social – e não para ela ou apesar dela. Este é o primeiro ponto necessário.
 
Outro ponto seria buscar saídas econômicas do capitalismo dentro do próprio capitalismo. Do contrário, a disputa se dará sempre na urna, podendo ganhar e não levar, levar primeiro e perder depois etc. Então, é importantíssimo ter debate de autogestão, de moeda social, de sistemas de trocas e, urgentemente, da Moderna Teoria Monetária (MMT).
 
Precisamos acabar com a mentira fiscalista, esta mentira deslavada do rentismo, dos supostos economistas neoclássicos, de que o excesso de moeda gera inflação. Isso não é um capricho acadêmico, mas algo que pode gerar muita riqueza, mesmo no capitalismo periférico. Se nos rendermos às mentiras fiscalistas, não temos como sair da armadilha do austericídio. Esse seria, de todos os debates, aquele que poderia unificar todo mundo, dos que vão do nacionalismo à extrema esquerda – nacionalista ou não –, e a luta dos povos organizados em toda a América Latina.
 
*Anne Ledur é jornalista formada pela UFRGS e especialista em comunicação visual na Itália (aledur@gmail.com)
 
*Bruno Lima Rocha é pós-doutorando em economia política, doutor e mestre em ciência política e professor universitário nos cursos de relações internacionais, jornalismo e direito; graduado em  jornalismo, editor do portal Estratégia & Análise
 
www.estrategiaeanaliseblog.com – para textos e comentários atualizados
www.estrategiaeanalise.com.br – arquivo de 2005 a 2018, incluindo textos anteriores
blimarocha@gmail.com para E-mail e Facebook
https://www.facebook.com/estrategiaeanaliseoficial/ – para todo material de áudio, TV e produções em língua espanhola e em inglês
t.me/estrategiaeanalise – grupo do portal no Telegram

América Latina terá mais uma década perdida?

O  “Balanço Preliminar das Economias da América Latina e do Caribe 2019”, divulgado nesta quarta-feira (18), pela Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal), órgão da Organização das Nações Unidas (ONU), apresenta o pior cenário na economia da região dos últimos 40 anos de 2014 a 2020.

 

Já são seis anos, entrando para o sétimo, de baixo crescimento econômico e as previsões para 2020 não são otimistas.

O levantamento da Cepal mostra que a região crescerá 0,1% neste ano e tem projeção de 1,3% para 2020. Lembrando que projetava-se 0,5% de crescimento em 2019. “O cenário precisa mudar para que os países latino-americanos voltem a crescer com políticas de combate às desigualdades, que crescem assustadoramente com o neoliberalismo imperando em vários países”, afirma Ivânia Pereira, primeira vice-presidenta da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB).

“O problema”, diz Divanilton Pereira, segundo vice-presidente da CTB, é que “o império norte-americano atua para recuperar terreno na América Latina e por isso intensifica uma política agressiva e intervencionista para recuperar a sua influência política na região”.

De acordo com ele, “as defasagens estruturais e as economias dependentes, onde predomina a exportação de bens primários, criam uma dependência muito grande dos fluxos da situação do mercado internacional”, que no momento não é das melhores.

É “essa limitação econômica que continua criando condições para que ocorram desestabilizações políticas”, sendo o “grande gargalo estrutural que a economia latino-americana ainda não superou”, acentua.

Saiba mais pelo link Balance Preliminar de las Economías de América Latina y el Caribe 2019

Por isso, mesmo depois de vários países latino-americanos viverem experiências democráticas e progressistas com política econômica voltada para os interesses nacionais com combate às desigualdades, o ressentimento da classe média e os interesses mesquinhos da elite econômica proporcionam o campo para a ação de poderosos conglomerados econômicos contra os estados nacionais e contra a classe trabalhadora”, realça Ivânia, poderosos internacionais para pôr fim aos governos livres da tutela do imperialismo.

A Cepal mostra também que a dívida pública saltou de 36,1% em 2014 para 43,2% em 2019. Pondo fim ao discurso de austeridade fiscal para solucionar a crise. Aliás, o neoliberalismo aprofunda as desigualdades e provoca aumento do índice de desemprego que para 2019 deve ficar em 8,2% na América Latina e 8,4% em 2020.

Mesmo países com economias mais desenvolvidas como Brasil, Argentina e México, apesar de “não sofrerem abalos fortíssimos”, diz Divanilton, como países mais dependentes, a renda per capita “cai de uma forma muito acentuada”. Entre 2015 e 2016, “a queda foi de 8% no Brasil e 6% na Argentina nos últimos três anos e queda de 60% na Venezuela”.

Em relação às dívidas públicas, o Brasil (224%) e o Chile (200%) têm os maiores níveis de dívida em relação ao Produto Interno Bruto (PIB). Contando somente a dívida pública, a Argentina lidera com 80,7% do PIB e o Brasil vem em segundo lugar com 78,7%. “Resultado do golpe de 2016 e da falta de projeto de desenvolvimento do atual presidente”, revela Ivânia.

Estima-se ainda que a região terá 191 milhões de pobres no final deste ano. Eram 185 milhões em 2018. Pior ainda é que deveremos ter 72 milhões de latino-americanos na situação de extrema pobreza ainda em 2019. Índices puxados pelo crescimento da pobreza no Brasil, que elegeu um presidente de extrema-direita e atua para destruir o país com políticas antinacionais e antipovo e a Venezuela que enfrente um embargo econômico promovido pelos Estados Unidos.

Os golpes proliferam na região. O mais recente aconteceu na Bolívia que culminou com o exílio do ex-presidente Evo Morales. No Brasil, o golpe ocorreu em 2016 e aprofundou a crise que vinha desde 2015. Jair Bolsonaro trata de afundar o país de vez.

Para a CTB os “países dependentes com limitações estruturais e que têm a economia voltada para a exportação de bens primários precisam da presença do Estado, de empresas fortes, articuladas entre o capital privado e público”. E assim gerarem “demandas próprias e a partir delas ofertas necessárias para que o emprego e as condições sociais dos povos da região possam ser melhoradas”, reforça Divanilton.

 
Para não termos mais uma década perdida, precisamos reagir com unidade. O povo está nas ruas no Chile, na Argentina o neoliberalismo foi derrotado nas urnas, a resistência ao golpe de Estado na Bolívia se mantém de pé e o Brasil te a sua chance de virar a página se dermos uma resposta contundente votando em prefeitos e vereadores de oposição a Bolsonaro”.
Ivânia
 
 

Texto em português do Brasil


 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/america-latina-tera-mais-uma-decada-perdida/

O Estado de exceção na Bolívia e no Brasil

Factos como a ordem de prisão imediata contra o ex-presidente da Bolívia Evo Morales e a denúncia de um procurador do Ministério Público Federal (MPF) em Brasília contra o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz, por suposta calúnia ao ministro da Justiça, Sérgio Moro, são episódios que atestam a gravidade da ofensiva da extrema direita na região.

 

 

São subprodutos da cadeia de golpes que engolfou o Brasil e levou à fraude do impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff em 2016.

Em graus diferentes, os atentados às instituições democráticas têm sido a base para os golpistas formar o seu arcabouço político. Mesmo na Argentina, onde não aconteceu um processo demarcado por essa nova modalidade golpista que se espalhou na região quando o neoliberal Maurício Macri substituiu Cristina Kirchner na Presidência da República, houve a prática de instrumentalizar setores do Judiciário para fazer perseguição política.

O caso mais violento é o da Bolívia. A coincidência de ter havido o golpe ao mesmo tempo em que ocorriam rebeliões populares quase simultaneamente no Equador, no Chile e na Colômbia mostrou o contraste entre os dois projetos fundamentais que disputam a região. Enquanto o povo nas ruas protestava contra os efeitos do neoliberalismo neocolonial, os golpistas assumiam dispostos a impor o seu projeto à base de forte repressão.

No Brasil, esse projeto avança celeremente. A forma autoritária como Moro se manifestou sobre a denúncia do procurador é uma boa medida dessa escalada. Ao acusar Felipe Santa Cruz de militante político-partidário, o ministro deu razão aos que veem em suas posturas uma conduta marcada pela ideologia de extrema direita.

Ele demonstrou intransigência e intolerância, procedimentos incompatíveis com as prerrogativas de quem está investido de um alto poder na República, regido pelo Estado Democrático de Direito. Segundo a assessoria de Moro, ele espera “que a Justiça seja feita e que a ação por calúnia demova o presidente da OAB de persistir com ofensas gratuitas às autoridades públicas”.

Não há mediação nessa afirmação. É um claro expediente de intimidação, com conotação de ameaça. Como bem caracterizou a defesa de Santa Cruz, “tal postura (do MPF) é um atentado à liberdade de expressão, de crítica, e fragiliza o ambiente democrático”.

Essas atitudes – do procurador e de Moro – devem ser vistas com preocupação. Elas estão inseridas no rol de objetivos do conjunto de medidas que o ministro da Justiça e o presidente Jair Bolsonaro tentam implementar para amordaçar os que defendem o pleno exercícios dos diretos democráticos.

São atitudes típicas da ideologia do Estado de exceção, condizentes com os propósitos anunciados quando o grupo bolsonarista se constituiu como projeto de poder. Eles estão dando consecução a esse projeto, construindo a estrutura do programa de governo da modalidade de golpes do projeto neoliberal e neocolonial que chegou à região.

A Operação Lava Jato, que tem sido o esteio da travessia do golpe à sustentação desse projeto de poder, exportou suas práticas para países vizinhos e no Brasil segue praticando arbitrariedades, como se viu no recente episódio envolvendo o filho do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Fábio Luís Lula da Silva. São evidências de que a luta democrática precisa, urgentemente, reunir forças para enfrentar a escalada autoritária.


Texto original em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado

 
 
 
 
 
 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/o-estado-de-excecao-na-bolivia-e-no-brasil/

Conselho Português realiza ato sobre a América Latina com diplomatas de Cuba e Venezuela e o Cebrapaz

O Conselho Português para a Paz e Cooperação (CPPC) realizou um debate intitulado “Os novos desafios para a Paz na América Latina” nesta segunda-feira (16), no Clube dos Fenianos Portuenses, em Porto, Portugal. O evento foi mediado pela presidenta da Direção do CPPC, Ilda Figueiredo, com a participação do embaixador da Venezuela Lucas Rincón, da representante da Embaixada de Cuba Jassellys Roque, e da diretora do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz), Moara Crivelente.

A imagem pode conter: 7 pessoas, pessoas sorrindo, pessoas sentadas, pessoas em pé, criança, mesa e área interna
Ato do CPPC sobre a América Latina no Porto, Portugal. Dezembro de 2019. Foto: CPPC

 

O ato contou com a participação e presença de indivíduos e representantes de entidades dos movimentos sociais que acompanham atentamente a situação da América Latina e o Caribe, com cartazes de apoio à resistência do povo venezuelano às manobras e ameaças golpistas no país.

A presidenta do CPPC Ilda Figueiredo introduziu a sessão abordando a situação do ponto de vista da solidariedade internacional e, em particular, dos portugueses. Também intervieram Vitor Pinto Basto, jornalista e escritor, com uma análise das políticas imperialistas, intervencionistas e promotoras de golpes; Henrique Borges, da União de Sindicatos do Porto / Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses (CGTP), que falou da solidariedade dos trabalhadores à luta dos cubanos, venezuelanos, brasileiros e bolivianos, e da política doméstica portuguesa a respeito; e Vitor Tito, da direção do Clube dos Fenianos Portuenses, que fez uma saudação ao evento e falou da larga tradição de 115 anos de resistência democrática e solidariedade que sustenta o clube.

Moara Crivelente abordou os desafios na região começando por saudar a iniciativa do CPPC e expressar a solidariedade dos brasileiros aos povos cubano e venezuelano, contra quem o Governo Bolsonaro age com uma política externa regional agressiva e desestabilizadora. Denunciou o golpe de Estado racista, fanático e servil aos EUA na Bolívia contra o presidente Evo Morales e mencionou as manifestações e greves em países como a Colômbia e o Chile, saudando ainda a vitória eleitoral de Alberto Fernández e Cristina Kirchner na Argentina.

A imagem pode conter: textoTambém falou do fortalecimento da resistência no Brasil aos retrocessos históricos impostos aos trabalhadores e à juventude pelo Governo Bolsonaro, inclusive a perseguição e criminalização dos movimentos sociais e da população mais pobre, denunciando a perigosa apologia à ditadura por parte do próprio presidente, seus filhos parlamentares, seu ministro da Economia e seu vice-presidente, o general Mourão.

Moara ressaltou ainda que os retrocessos no plano interno incluem o gravíssimo aumento do desemprego e da miséria num dos países mais desiguais do mundo, a suspensão de direitos fundamentais e a normalização do estado de exceção e, no plano externo, a total subserviência à agenda estadunidense, o entreguismo ao capital internacional e a aliança carnal com o regime sionista de Israel, normalizando também seus mais graves crimes contra o povo palestino.

A seguir, o embaixador da Venezuela Lucas Rincón, general que era o oficial militar de mais alto escalão durante a tentativa de golpe de Estado de 2002 contra o presidente Hugo Chávez, fez contundente denúncia das contínuas tentativas de golpe contra o presidente Nicolás Maduro; da ação ofensiva da Organização de Estados Americanos (OEA), sob a influência dominante dos Estados Unidos; e das sanções e o roubo das volumosas reservas venezuelanas no exterior, enquanto lideranças ocidentais, de forma hipócrita, condenam o governo pelas dificuldades enfrentadas pelo povo sob este cerco.

Denunciou ainda a subserviência de países vizinhos aos ditames da potência imperialista, participando da ofensiva contra a Revolução Bolivariana, ao tempo em que reafirmou a disposição do seu povo, das forças armadas e do seu governo em defender sua pátria e sua soberania. Saudou também a valente resistência do povo cubano ao bloqueio criminoso imposto pelos Estados Unidos e rechaçou o golpe de Estado contra o presidente Evo Morales na Bolívia.

Já a representante da Embaixada de Cuba, a segunda-secretária Jassellys Roque, denunciou o aperto do bloqueio estadunidense contra Cuba com a ativação do título três da Lei Helms-Burton, com que a potência imperialista busca estrangular ainda mais o povo cubano para, em vão, tentar dissuadi-lo de continuar resistindo.

A diplomata agradeceu o apoio e solidariedade ao povo cubano e garantiu que a luta se fortalece à medida em que os Estados Unidos e seus aliados regionais buscam intensificar o cerco à ilha revolucionária, que resiste há mais seis décadas.

No fim do evento, um jovem na audiência falou da importância de eventos como aquele para o fortalecimento do espírito de solidariedade internacional e ressaltou a massiva participação da juventude na resistência e na defesa da democracia e da justiça social em diversos países, como no Brasil. Ficou reafirmada a confiança em que a solidariedade entre os povos e a unidade nesta luta comum é que travarão os retrocessos e fortalecerão a defesa da democracia, da soberania nacional e do progresso social.

 

Leia o original em CEBRAPAZ (clique aqui)

O verdadeiro interesse dos Estados Unidos e das grandes transnacionais

Qual é o verdadeiro interesse dos EUA e dos monopólios na região? A suposta liberdade, democracia, direitos humanos? Não. É para preservar o domínio imperialista sobre os recursos naturais

Autor: Enrique Moreno Gimeranez | internet@granma.cu

Dezembro, 2019

 

A história dos países latino-americanos tem sido a expropriação de suas riquezas naturais. Fundação Heinrich Bóll

Nossa América sofre novamente o ataque do imperialismo norte-americano e das oligarquias. Está a acontecer uma triste realidade na região de perigosas convulsões e instabilidade política e social, promovida a partir de Washington. As forças mais reacionárias do hemisfério aplicam um roteiro de golpes contra os governos soberanos, fórmulas de guerra não convencional, repressão policial brutal, militarização, medidas coercitivas unilaterais, procedimentos judiciais contra líderes progressistas e proclamam a validade da Doutrina Monroe e o macarthismo.

Via: Home http://bit.ly/2M3h8E3

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2019/12/17/o-verdadeiro-interesse-dos-estados-unidos-e-das-grandes-transnacionais/

Política intervencionista dos EUA e golpe na Bolívia condenados em Havana

A ALBA-TCP denunciou a política agressiva dos EUA, que desestabiliza a América Latina, com a cumplicidade da comunicação social e de oligarquias locais, e a implementação de modelos neoliberais.

Nicolás Maduro, presidente da Venezuela, e Miguel Díaz-Canel, presidente de Cuba, dialogam no decorrer da XVII Cimeira da ALBA-TCP, celebrada este sábado em HavanaCréditos / @CancilleriaVE

Na Declaração da XVII Cimeira da Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América – Tratado de Comércio dos Povos (ALBA-TCP), que hoje decorreu na capital cubana, afirma-se que o golpe contra Evo Morales, na Bolívia, é «uma expressão clara da estratégia imperialista de Washington no hemisfério ocidental».

O documento, lido pelo ministro dos Negócios Estrangeiros de Cuba, Bruno Rodríguez, condena igualmente a intenção dos EUA de violar a soberania dos povos em função das suas pretensões hegemónicas.

Para os participantes no encontro, não há dúvidas quanto à cumplicidade da oligarquia boliviana na «violenta interrupção da institucionalidade democrática» no país andino, nem quanto ao «apoio complacente de outras oligarquias da região».

 

Denunciam ainda que, na Bolívia, «se multiplicaram a intolerância, o racismo, a repressão brutal contra os movimentos sociais e os povos originários, com a clara determinação de reverter as conquistas alcançadas pelo povo» durante a governação de Evo Morales.

A ALBA-TCP condenou também as ameaças de recurso à força por parte dos Estados Unidos contra a Venezuela, bem como a manutenção e o reforço de medidas coercitivas unilaterais contra o seu povo.

Declarando o apoio à revolução bolivariana, o mecanismo criado em 2004 por Hugo Chávez e Fidel Castro rejeitou ainda a activação do Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR) contra o país caribenho e denunciou as ameaças e repetidas tentativas de desestabilização dirigidas à presidência de Daniel Ortega na Nicarágua.

EUA atentam contra o princípio da América Latina como Zona de Paz

A política norte-americana viola gravemente o princípio da América Latina como Zona de Paz, referiu Bruno Rodríguez ao ler a Declaração, denunciando que Washington retoma métodos que pareciam ultrapassados na região e aplica novas fórmulas da guerra não convencional em vários países, com o intuito de recuperar os espaços conquistados pelos governos progressistas.

 

Foram também apontadas e condenadas as sistemáticas acções levadas a cabo pelos Estados Unidos para sabotar a cooperação cubana em vários países em prol dos que mais precisam, assim como as pressões exercidas sobre alguns governos para que ponham fim a essa cooperação.

O texto sublinha que a assunção do poder por governos neoliberais na região gerou retrocessos visíveis nas políticas sociais, fez aumentar a pobreza e a desigualdade social, e pôs de parte amplos sectores populares. Este cenário e a corrupção crescente, entre outros factores, provocaram as múltiplas manifestações de descontentamento e revolta na América Latina, nomeadamente no Chile, na Colômbia e no Equador.

Participação de elevado nível

Na XVII Cimeira da ALBA-TCP, que hoje decorreu em Havana, estiveram presentes os presidentes de Cuba, Miguel Díaz-Canel, da Venezuela, Nicolás Maduro, e da Nicarágua, Daniel Ortega, o primeiro-ministro de São Vicente e Granadinas, Ralph Gonsalves, além de outros altos representantes dos países que integram o bloco e convidados.

Criada em Havana a 14 de Dezembro de 2004 por inciativa dos então presidentes da Venezuela, Hugo Chávez, e de Cuba, Fidel Castro, a ALBA-TCP, cujo secretário executivo é o ex-ministro boliviano dos Negócios Estrangeiros, David Choquehuanca, integra os dois países fundadores, a Nicarágua, Dominica, Antígua e Barbuda, São Vicente e Granadinas, o Suriname, Santa Lúcia, São Cristóvão e Nevis, e Granada.

Em Novembro último, depois do golpe na Bolívia, o governo golpista da autoproclamada Áñez anunciou a saída do país andino deste bloco, tal como fez o Equador, governado pelo «traidor» Lenín, no ano passado.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/politica-intervencionista-dos-eua-e-golpe-na-bolivia-condenados-em-havana

A longa história do apoio do New York Times a golpes militares

O presidente boliviano Evo Morales foi derrubado em um golpe de estado militar apoiado pelos Estados Unidos no mês passado, depois que generais do exército apareceram na televisão demandando sua saída. Depois que Morales foi asilado no México, o exército nomeou a senadora de direita Jeanine Añez como sua sucessora. Añez, uma conservadora cristã que descreveu a maioria indígena da Bolívia como “satânica”, chegou ao palácio presidencial segurando uma Bíblia gigante, declarando que o cristianismo estava voltando ao governo. Ela imediatamente anunciou que “tomaria todas as medidas necessárias” para “pacificar” a resistência indígena que seguiu sua posse.

Isso incluía isentar os serviços de segurança do país de todos os crimes futuros no seu “reestabelecimento da ordem”, o que levou ao massacre de dezenas de pessoas, majoritariamente indígenas.

Leia também – Bolívia: Lições de um golpe de estado (parte 1)

O The New York Times(NYT), o jornal mais influente dos Estados Unidos, imediatamente aplaudiu os eventos, com seu comitê editorial recusando-se a usar a palavra “golpe” para descrever a derrubada, argumentando que Morales na verdade havia “renunciado”, levando a um “vácuo de poder” o qual Añez foi forçada a ocupar. O Times apresentou o presidente deposto como um “arrogante” e “crescentemente autocrático” tirano populista, abusando descaradamente do “poder”, “enchendo” a Suprema Corte com seus partidários, “esmagando qualquer instituição” em seu caminho e presidindo após uma eleição “altamente suspeita”.

As eleições, para os bolivianos de espírito democrático, foram a “gota d’água”, e forçar Evo à renúncia “se tornou a única opção”, disse o jornal. O NYT expressou alívio pelo país agora estar nas mãos de “líderes mais responsáveis”, e declarou enfaticamente que toda a situação foi culpa de Evo; “não pode haver dúvidas sobre quem foi responsável pelo caos: o presidente que recentemente renunciou, Evo Morales”, disse o comitê editorial no primeiro parágrafo de um artigo.

O NYT, de acordo com o professor Ian Hudson, da Universidade de Manitoba, co-autor de “Gatekeeper: 60 Years of Economics According to the New York Times“, continua sendo o veículo mais influente dos Estados Unidos quando se trata de moldar a opinião pública.

“Apesar da mudança no horizonte midiático e dos problemas financeiros dos velhos modelos de jornalismo – que incluem o NYT – o jornal continua sendo o agenda setter[impositor de agenda, em tradução livre]. As mídias sociais frequentemente usam ou respondem às matérias do Times. Ele continua a ser, provavelmente, o mais referenciado veículo de notícias dos EUA. Outros websites, como Yahoo, têm mais acessos, mas não reportam ou criam suas próprias matérias jornalísticas. O The New York Times continua no topo do ranking quando se trata de organizações investigativas ou de influência na opinião”, ele declarou ao Mintpress News.

O primeiro rascunho da história

As redações por todo os EUA recebem exemplares da primeira página do Times antes que elas cheguem às bancas, para que eles saibam quais são as “notícias importantes” e ajustem sua própria cobertura de acordo com elas. Dessa maneira, sua influência se extende muito além dos seus 5 milhões de assinantes, sua produção se tornando o “primeiro rascunho da história”.

No entanto, quando se trata de intervenção dos EUA, o Times oferece seu “apoio consistente” às ações americanas em todo o mundo, diz Hudson, alegando que o exemplo mais recente da Bolívia “seguiu muito essa tendência”. De fato, raramente houve um esforço para mudança de regime que o jornal não endossou totalmente, incluindo os seis exemplos a seguir.

Irã, 1953

Em 1953, a CIA orquestrou um golpe contra a administração de Mohammad Mossadegh, instalando o Xá como um autocrata em seu lugar. Mossadegh, um reformador liberal secular, havia enfurecido os governos ocidentais ao nacionalizar a indústria de petróleo iraniana, argumentando que os recursos do país deveriam ser propriedade do povo, e usados em seu benefício. O Xá presidiu décadas de terror e abusos contra direitos humanos, sendo finalmente derrubado na revolução de 1979.

A primeira página do New York Times em 20 de agosto de 1953. (Foto: @OnThisDayNYT)

O Times expressou um “grande sentimento de alívio”, já que muitos pensavam que Mossadegh era um “homem fanático por poder”, e um fantoche de Moscou que havia “destruído a economia” em sua “aposta pela ditadura”. O comitê editorial dava um alerta a outros que tentassem nacionalizar indústrias de propriedade norte-americana: “Países subdesenvolvidos ricos em recursos agora têm uma lição objetiva sobre o custo que pode ser pago por aqueles que busquem de maneira selvagem o fanatismo nacionalista”, dizia o jornal dois dias após a derrubada de Mossadegh.

Brasil, 1964

Como com Mossadegh, o presidente brasileiro João Goulart estava longe de ser um comunista; o reformista de centro-esquerda que estava no poder desde 1961 tinha John F. Kennedy como um modelo. Ele foi derrubado por um golpe militar apoiado pelos Estados Unidos que levou ao país a ficar cerca de 20 anos sob uma ditadura fascista, com dezenas de milhares de presos e torturados.

Dois dias depois do golpe, o comitê editorial do Times anunciou: “Nós não lamentamos o fim de um líder que se provou tão incompetente e irresponsável.” Como no caso boliviano, o jornal recusou-se a usar a palavra “golpe”, argumentando que Goulart “quase não tinha apoiadores” e havia sido deposto em “mais uma revolução pacífica.”

Um mês depois, uma reportagem intitulada “Brasil aliviado pela queda de Goulart” dizia que “não havia choro ou preocupação” pelos eventos, mas, ao invés disso, um “sentimento geral de grande alívio e otimismo” tomava o país. O texto dizia que o Brasil havia “deixado de lado” o “regime extremista” e de “extrema-esquerda”, e apoiado a “revolta” contra ele. De um jeito particularmente Orwelliano, dizia ainda que “A nação parece estar ansiando” por uma “limpeza política” de “extremistas”, e aplaudindo a prisão generalizada de funcionários do governo Goulart com o argumento de que eram “comunistas”.

Chile, 1973

A derrubada do socialista chileno democraticamente eleito Salvador Allende em 1973 e sua substituição pelo ditador fascista Augusto Pinochet é um dos eventos mais conhecidos e infames da história da CIA. As conseqüências da má administração econômica de Pinochet e do reinado de terror continuam até hoje e fornecem o pano de fundo para o enorme movimento de protesto antigoverno que atualmente envolve o país.

Assim que Allende foi eleito, o Times iniciou uma campanha para demonizar o novo líder, alegando que as “instituições livres” do Chile provavelmente não sobreviveriam à “virada acentuada para a esquerda” que ele estava propondo. No dia seguinte ao golpe, quando as forças de Pinochet bombardearam o palácio presidencial e forçaram Allende a se suicidar, o conselho editorial do Times culpou o presidente por sua própria queda, assim como aconteceu com Morales e Mossadegh, alegando:

“Nenhum partido ou facção chilena pode escapar de alguma responsabilidade … mas uma parcela pesada deve ser atribuída ao infeliz Dr. Allende. Mesmo quando os perigos da polarização se tornaram inconfundivelmente evidentes, ele insistiu em promover um programa de socialismo generalizado para o qual não tinha mandato popular.”

A primeira página do The New York Times em 12 de setembro de 1973. (Foto: @OnThisDayNYT)

O jornal também determinou que o envolvimento muito óbvio do governo dos EUA, conduzindo uma campanha de guerra econômica contra o Chile, a fim de “fazer a economia gritar” nas palavras do presidente Nixon e Henry Kissinger para a CIA, não existia. O conselho editorial informou que “é essencial que Washington mantenha meticulosamente as mãos longe da crise atual … Não deve haver motivos para suspeitar de intervenção externa”.

Venezuela, 2002 e 2019

Em abril de 2002, o governo dos EUA bancou e apoiou uma tentativa de golpe contra o presidente venezuelano Hugo Chávez. Em um padrão consistente, o conselho editorial do Times aprovou com veemência os procedimentos, abstendo-se deliberadamente de usar a palavra golpe. Dois dias após o evento, observou:

“Com a renúncia de ontem do presidente Hugo Chávez, a democracia venezuelana não é mais ameaçada por um pretenso ditador. Chávez, um demagogo ruinoso, deixou o cargo após a intervenção militar e entregou o poder a um respeitado líder empresarial, Pedro Carmona.”

E, como em outros golpes, o Times imediatamente tratou a ideia de envolvimento dos EUA como totalmente impossível, acrescentando: “Corretamente, sua remoção foi uma questão puramente venezuelana”.

O que foi único neste evento foi que o golpe foi dramaticamente oposto por centenas de milhares de pessoas nas ruas, que convenceram unidades militares leais a Chávez para retomar o palácio presidencial. Desde então, sucessivos governos dos EUA dedicaram recursos significativos à mudança de regime na Venezuela. O Times também aplaudiu a tentativa do auto-declarado presidente Juan Guaidó de obter poder no início deste ano, apresentando-o como um homem do povo, alegando que ele era “aplaudido por milhares de apoiadores nas ruas e por um número crescente de governos, incluindo os Estados Unidos.”

Mas quando a tentativa de Guaidó entrou em colapso sob o peso de sua própria impopularidade, o Times expressou sua raiva pelo fato de que Maduro, um agente russo corrupto, que levou a Venezuela à “completa ruína”, continuava no poder. “Seria um grande alívio para a Venezuela se livrar de Maduro”, ponderou o conselho editorial, “quanto mais cedo as forças armadas despojarem os ladrões” melhor, disse o jornal, decepcionado por, pela primeira vez, não poder comemorar um bem-sucedido golpe dos EUA.

Fabricando consenso

Estudando a cobertura do Times de tentativas de golpe orquestradas pelos EUA, se torna claro que há uma lista de pontos que são usados com constância para justificar os eventos.

1 – Culpe o governo por todos os problemas econômicos e políticos; ignore o efeito de quaisquer sanções norte-americanas.

2 – Constantemente apresente o líder que tem como alvo como um autocrata tirânico que esmaga os dissidentes, não importando quão real isso é.

3 – Insista que o líder é na verdade um fantoche russo controlado pelo Kremlin.

4 – Evite usar a palavra “golpe”. Prefira palavras como “levante”, “revolta” ou “transição”.

5 – Faça passar por ridícula a ideia de que os EUA possam estar envolvidos no caso.

6 – Apresente os novos líderes apoiados pelos EUA como pessoas de mentalidade democrática e minimize qualquer violência que cometam no estabelecimento de seu poder.

7 – Culpe o líder deposto por sua própria queda.

É certo que o The New York Times não é o único veículo midiático culpado por apoiar intencionalmente todas as ações norte-americanas ao redor do mundo. O The Economist e o Washington Post também apoiarem o golpe na Bolívia, como fizeram antes na Venezuela. Mas a posição do Times como “o jornal recordista” coloca sua importância em outro nível.

Essa posição o faz uma arma crucial na guerra de propaganda contra o público norte-americano, em ordem de fabricar o consenso para a mudança de regime em outros países.

 

 

Ver original em 'Revista Opera' (aqui)

Duas vidas do neoliberalismo na América Latina

Augusto Pinochet e os “Chicago Boys” que assessoraram sua política económica

 

Nos anos 70, modelo difundiu-se prometendo mais “liberdade”. Desigualdade evidenciou seu fracasso. Mas voltou e, mesmo esgotado, busca perpetuar-se pelo autoritarismo. Chile e Argentina mostram que nova onda pode ter fôlego curto
 
 
Luiz Filgueiras | Outras Palavras
 
1- Origem e difusão do neoliberalismo na América Latina
 
O neoliberalismo ganhou notoriedade, enquanto doutrina/teoria, logo após a Segunda Guerra Mundial, quando Hayek, Mises, Friedman, Stigler e Popper, entre outros, passaram a se reunir na Sociedade de Mont Pèlerin na Suíça (criada em 1947). Concebido em oposição ao socialismo e, mais diretamente, à socialdemocracia então em construção na Europa e ao New Deal nos EUA (Estado de Bem-Estar Social e políticas neokeynesianas), ficou “hibernando” por quase trinta anos. Durante os chamados “anos gloriosos” do capitalismo (e vigência da Guerra Fria), essa ideologia não orientou politicamente as ações do grande capital, então às voltas com a construção de um pacto social que servia de contenção ao “perigo comunista”.
 
No início dos anos 1970, com a crise do Fordismo e das políticas neokeynesianas, e com a retirada do grande capital do pacto socialdemocrata, o neoliberalismo saiu do ostracismo e ascendeu à condição de projeto mundial do capitalismo financeirizado e de política de governo (econômica e social). Primeiramente no Chile, quando da deposição do Governo Allende através de um golpe de Estado promovido na época, como de costume, pelos EUA e executado pelos militares com participação ativa de sua grande burguesia (1973).
 
Portanto, antes mesmo da Inglaterra de Margaret Thatcher (1979) e dos EUA de Ronald Reagan (1980), a primeira experiência neoliberal no mundo se deu na América Latina e já evidenciou o seu caráter autoritário, perverso e regressivo. Assim como Milton Friedman, que atuou diretamente em sua implementação, através dos “Chicago Boys”, Friedrich Hayek também em nome do “livre mercado” apoiou o regime e visitou o Chile duas vezes (1977 e 1981), sendo que na primeira teve uma audiência pessoal com o general-ditador Augusto Pinochet. Além de fazer, posteriormente, através de declarações públicas e cartas publicadas em jornais, a defesa da experiência que estava ocorrendo no Chile, segundo ele, de retorno ao “livre mercado”.
 
 
Na verdade, o pensamento político-filosófico de Hayek, um dos principais formuladores da doutrina neoliberal, confronta, no limite, a Democracia e o Estado de Direito. Essa é a razão objetiva do capitalismo contemporâneo, construído a partir da crise do Fordismo e da Socialdemocracia, ter resgatado esse pensamento nos anos 1970; pois o novo padrão de acumulação de capital construído, a partir de então, fica cada vez mais evidente, também confronta a Democracia e o Estado de Direito.
 
Explicitamente, é um pensamento que reivindica, antes de tudo, a liberdade (do indivíduo), mas que, em seu próprio desenvolvimento, se transmuta em uma ideologia autoritária: a liberdade, do indivíduo, é reduzida, fundamentalmente, à liberdade de empreender e dispor de forma absoluta da propriedade privada dos meios de produção (liberdade irrestrita para o capital); e a Democracia e o Estado de Direito só são efetivos se promoverem o “livre mercado”. Daí a conclusão de Hayek de que a Democracia só tem utilidade (concebida como um meio, um instrumento, e não um fim) se preservar a liberdade (concebida como o verdadeiro fim) conforme definida acima; daí também a sua assertiva de que a Ditadura não leva, inevitavelmente, à abolição da liberdade: “pode haver mais liberdade cultural e espiritual sob regimes autocráticos do que em certas democracias” (O Caminho da Servidão). Em suma, e no limite, para Hayek é o “livre mercado”, e não a democracia, que se constitui na condição essencial da liberdade.
 
Adicionalmente, e o mais importante, no que concerne ao seu contraste com a socialdemocracia e o socialismo, o neoliberalismo tem por princípio mais geral a crença de que a desigualdade é um valor positivo e imprescindível na constituição de uma sociedade democrática, pois é base da liberdade e da vitalidade da concorrência.
 
Após a primeira experiência no Chile, o neoliberalismo difundiu-se em toda a América Latina em ondas sucessivas nas décadas de 1980 e 1990: tempos de Menem na Argentina, Fujimori no Peru, Salinas no México e, por último, FHC no Brasil; experiências que, ao aprofundarem a dependência e a vulnerabilidade externa da região, e terminarem em graves crises cambiais e financeiras, promoveram a concentração da riqueza, o aumento da desigualdade e o crescimento da pobreza. Como consequência, durante os anos 2000 a reação contra o neoliberalismo na região se materializou na chamada “onda rosa”: espécie de socialdemocracia/neodesenvolvimentismo tardios e desidratados na periferia -, que se espalhou pela América do Sul: Chaves na Venezuela, Morales na Bolívia, os Kirchner na Argentina, a Frente Ampla no Uruguai, Correa no Equador, Lugo na Paraguai e Lula no Brasil.
 
2- Neoliberalismo, democracia e Estado de Exceção
 
Mais recentemente, após a crise geral do capitalismo de 2008 e, principalmente, a partir dos anos 2010 (a crise da Zona do Euro), o neoliberalismo, em uma versão mais fundamentalista, voltou com força total, apoiado agora no plano mundial e nas Américas em forças políticas neofascistas (mobilizadoras) e, quando necessário, cavalgando ações e golpes de Estado de novo tipo: executados através de “guerras híbridas” silenciosas, que desestabilizaram os países alvos a partir de dentro, com o uso de redes sociais na internet e tendo por protagonistas o Poder Judiciário, o próprio Legislativo e a mídia corporativa, com apoio direto dos EUA e de Igrejas Evangélicas fundamentalistas e internacionalizadas.
Essa nova modalidade de golpe de Estado, que consolidou o casamento entre neoliberalismo e Estado de Exceção (no limite o neofascismo), se evidenciou na tentativa (Venezuela em 2002) ou derrubada efetiva de governos eleitos democraticamente em vários países da América Latina: Honduras (2009), Paraguai (2012), Brasil (2016) e, agora, recentemente, Bolívia. Em todos os casos o elemento mobilizador, que catalisou em especial as classes médias, foram nossos velhos conhecidos, reiteradamente presentes em golpes de Estado na América Latina: a denúncia e o combate à corrupção e ao comunismo.
 
No entanto, essa nova onda neoliberal na região parece ter fôlego curto, em razão dos estragos cumulativos (concentração de renda, aumento da pobreza, desemprego, precarização do trabalho, insegurança etc.) que promoveu desde os anos 1980. A reação a ela iniciou-se no México em 2018, com a vitória eleitoral de Lopez Obrador; seguida de vitórias das forças democráticas nas eleições deste ano para Presidente na Argentina, Uruguai e Bolívia; além de eleições municipais na Colômbia. Adicionalmente, explodiram revoltas populares no Haiti, Honduras, Equador e Chile; todas contra governos de direita e as reformas e políticas neoliberais.
 
Os exemplos do Chile e da Argentina são paradigmáticos. No primeiro, 1% da população detém 33% da riqueza nacional; os sistemas de saúde, água e serviços básicos foram privatizados, assim como a previdência – transformada em um sistema de capitalização que resultou em aposentadorias, para os seguimentos mais pobres da população, com valores abaixo do salário mínimo do país. O objetivo da revolta em andamento, cujo estopim foi o aumento das passagens de metrô, evoluiu para a derrubada do governo, novas eleições e instalação de uma Assembleia Constituinte para a elaboração de uma nova Constituição – em substituição a atual promulgada em 1980, ainda sob o regime militar e a Ditadura de Pinochet.
 
Na Argentina, o fracasso do programa econômico neoliberal em curto período de tempo – queda do PIB, aumento da inflação, crescimento do desemprego e da pobreza absoluta – pavimentou a vitória eleitoral peronista. Como no Chile, a razão fundamental, e mais profunda, da oposição ao neoliberalismo é a extrema e vergonhosa concentração de renda promovida por suas reformas, privatizações e políticas econômicas e sociais. Tornou-se cada vez mais claro que os seus beneficiários são o imperialismo e o grande capital, em especial o capital financeiro e uma diminuta “classe média alta” – que constituem uma pequena minoria da população.
 
3- Conclusão
 
Depois de mais de quatro décadas, desde a sua primeira experiência no Chile, está evidente que o neoliberalismo não tem nada a oferecer à esmagadora maioria da população em qualquer parte do mundo, em especial na América Latina. A sua obra é sempre mais do mesmo e com as mesmas consequências econômicas e políticas: mais desigualdade, pobreza e instabilidade. Essa é a razão fundamental de sua associação, agora explícita, com forças políticas de extrema-direita e o neofascismo, cujo exemplo maior, na atualidade, é o Brasil; evidenciando claramente a sua necessidade de um Estado de Exceção para ser viabilizado. Portanto, a potencial tensão e oposição entre neoliberalismo e democracia, presente desde o início dessa utopia regressiva, se concretiza claramente na atualidade.
 
Em particular, nos países da América Latina, de capitalismo dependente, as suas burguesias cosmopolitas associadas ao imperialismo não conseguem e nem aceitam conviver com uma melhor distribuição de renda; a necessidade de superexploração do trabalho está entranhada, historicamente, em seu ethos de classe e na subjetividade de seus integrantes. Daí a sua vocação para o golpismo e o autoritarismo, que a história da América Latina não desmente e nem deixa esconder.
 
Em suma, o combate ao neoliberalismo pelas forças político-sociais democráticas e socialistas (no sentido amplo) passa hoje, necessariamente, pelo combate à extrema-direita, ao fundamentalismo religioso e ao neofascismo. Portanto, esse combate tornou-se mais difícil e complicado mas, em compensação, está-se combatendo um projeto já desgastado para amplas parcelas da população – que o vê como regressivo do ponto de vista econômico, social, cultural e moral. Um verdadeiro retrocesso civilizatório.
 
Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OUTROS QUINHENTOS

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/12/duas-vidas-do-neoliberalismo-na-america.html

Conselheiro político de alto escalão chinês pede mais cooperação China-América Latina

Cidade do Panamá, 10 dez (Xinhua) -- A China está preparada para promover suas relações com a América Latina e elevar os laços para um nível mais alto, disse um conselheiro político chinês de alto escalão na segunda-feira.

Liu Qibao, vice-presidente do Comitê Nacional da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês (CCPPC), fez as observações durante seu discurso na cerimônia de abertura da XIII Cúpula Empresarial China-América Latina e Caribe.

A China e a América Latina são significativas entre os países em desenvolvimento e os países de mercado emergente, disse Liu. Ele acrescentou que construir uma comunidade China-América Latina com um futuro compartilhado, proposto pelo presidente chinês Xi Jinping nos últimos anos, inaugurará uma nova era das relações China-América Latina.

A China está preparada para trabalhar com a América Latina para construir conjuntamente o Cinturão e Rota e aprofundar a cooperação econômica e comercial e intercâmbios entre pessoas, disse ele.

O presidente do Panamá, Laurentino Cortizo, também participou da cúpula e se reuniu com a delegação da CCPPC em visita liderada por Liu.

Liu transmitiu as saudações cordiais do presidente Xi para o presidente panamenho, e Cortizo pediu que Liu transmita suas saudações e votos para Xi.

Depois de discursar, Liu visitou a Exibição de Comércio e Investimento China-América Latina juntamente com Cortizo.

Liu também realizou conversações com o presidente da Assembleia Nacional panamenha, Marcos Castillero, e o ministro das Relações Exteriores panamenho, Alejandro Ferrer.

Ver original em "XINHUA Português" na ligação seguinte:

http://portuguese.xinhuanet.com/2019-12/11/c_138623241.htm

A longa história do apoio do New York Times a golpes promovidos pelos EUA

Alan Macleod    11.Dic.19 
O New York Times é um exemplo emblemático do papel dos grandes media na ofensiva do imperialismo norte-americano contra os povos. Este artigo apresenta um breve historial desse contributo ao longo das últimas seis décadas. O padrão é de tal forma sistemático que os termos usados para justificar o golpe de 1953 no Irão são no essencial os mesmos para justificar o recente golpe na Bolívia.
 

Ver o original em ODiario.info (clique aqui)

Cebrapaz realiza Assembleia em grande unidade; Jamil Murad é eleito presidente

A 5a Assembleia Nacional do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz), realizada em Salvador, Bahia, em 7 de dezembro, contou com 70 delegados de 11 núcleos estaduais (Amapá, Bahia, Distrito Federal, Ceará, Minas Gerais, Paraná, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Sergipe e São Paulo) e elegeu por aclamação a nova direção nacional. Foram eleitos, como presidente, Jamil Murad, vice-presidente, Wevergton Brito e secretário-geral,  José Reinaldo Carvalho.

 

Jamil sucede no comando do Cebrapaz o companheiro Antônio Barreto, que continua compondo a Direção Executiva. Ao final da matéria a lista completa da nova direção.

Os delegados e delegadas foram recepcionados na manhã do dia 7 com uma feijoada e uma performance do artista Tiago Poeta, no teatro Raul Seixas, do Sindicato dos Bancários, entidade anfitriã da 5a Assembleia. A diretora cultural do Sindicato, Alda Valéria, deu as boas vindas aos ativistas brasileiros pela paz mundial.

Os trabalhos foram iniciados pela tarde, com um ato político. A mesa foi composta por Milena Caridad Zaldivar Piedra, cônsul-geral de Cuba em Salvador; Ana Prestes, representando o Comitê Central do PCdoB; Antonio Barreto, presidente da direção cessante do Cebrapaz; Aurino Pedreira, Diretor de Relações Internacionais da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil na Bahia; Jamil Murad, conselheiro consultivo da direção cessante; José Reinaldo, diretor de Pesquisa da direção cessante; Jussara Cony, vice-presidenta da direção cessante; Maria Ivone Souza, presidenta da Associação Cultural José Martí na Bahia; Socorro Gomes, presidente do Conselho Mundial da Paz; e Wevergton Brito, secretário-geral da direção cessante do Cebrapaz.

Luta pela Paz

Socorro Gomes resgatou a história de fundação do CMP, que completa, em 2019, 70 anos. Ivone Souza saudou as delegações estaduais em nome dos ativistas da Bahia. José Reinaldo fez uma intervenção sobre o caráter do Cebrapaz, entidade de luta pela paz mundial, de solidariedade aos povos e anti-imperialista, defendendo que este caráter seja mantido e reforçado.

Aurino Pedreira relacionou a importância de a discussão internacional ganhar corpo entre os trabalhadores como instrumento da elevação da consciência política e Ana Prestes lembrou do compromisso dos comunistas com o internacionalismo, ressaltando a importância da atividade do Cebrapaz.

A cônsul-geral de Cuba, Milena Piedra, agradeceu a constante solidariedade do Cebrapaz ao povo cubano e relatou o grave acirramento do cerco promovido pelo governo de Donald Trump contra a heroica ilha caribenha, o que dá ainda maior relevo à defesa de Cuba.

Jamil Murad agradeceu a indicação de seu nome para presidente do Cebrapaz e disse que, se eleito, como aconteceu, contaria com o concurso de todos os demais membros da nova Direção.

Reforço do Cebrapaz

Desfeita a mesa de abertura, iniciou-se o debate sobre a Proposta de Resolução Política e a Proposta de nova direção, na mesa coordenada por Antonio Barreto, Wevergton Brito e Jussara Cony. Coube a Wevergton Brito a apresentação das teses e a Barreto a defesa da proposta da nominata.

Quinze companheiros e companheiras usaram dos sete minutos disponíveis e 62 propostas de emendas foram enviadas; apenas duas foram rejeitadas e uma foi acolhida parcialmente. Nenhuma das emendas apresentava contradição política ou de conteúdo com o texto, melhorando, dando maior precisão e aperfeiçoando a redação.

Tanto a proposta de resolução quanto a proposta de nova direção foram aprovadas por unanimidade pelo plenário. O relator da Comissão de Redação foi o conselheiro consultivo Caio Botelho.

Foram aprovadas ainda sete moções: Moção de apoio e solidariedade aos países e povos que lutam e resistem na América Latina e Caribe; Moção de Solidariedade a Cuba; Moção de Solidariedade ao Povo Palestino; Moção pela descolonização do Saara Ocidental e a libertação do povo saarauí; Moção de Apoio à República Árabe da Síria; Moção sobre as bases militares dos EUA e da OTAN; Moção de Solidariedade à Coreia Popular. Em breve publicaremos a íntegra da Resolução Política e de todas as moções.

Já como presidente eleito, Jamil Murad discursou fazendo um apelo a todos e todas pelo fortalecimento do Cebrapaz e disse estar confiante no crescimento da entidade e da militância internacionalista. Jamil também agradeceu ao ex-presidente Antonio Barreto, que, durante os debates, foi homenageado pela 5a Assembleia com uma placa entregue por Socorro Gomes.

70 anos do CMP70 anos do Conselho Mundial da Paz

A 5a Assembleia Nacional do Cebrapaz foi encerrada com a realização de um Ato-Festa em comemoração pelos 70 anos do Conselho Mundial da Paz (CMP), entidade histórica de luta anti-imperialista e anti-colonialista de que o Cebrapaz é membro. O evento ocorreu no teatro Raul Seixas, com show da banda Trilha Latina, bolos de aniversário e falas de Antonio Barreto, Jamil Murad e da presidenta do CMP, Socorro Gomes.

A presença de Milena Piedra, Cônsul-Geral de Cuba, e de outros membros do corpo consular da “maior da Antilhas”, foi significativa. Afinal, a 5a Assembleia Nacional do Cebrapaz reafirmou os inquebrantáveis compromissos da entidade com a paz, o internacionalismo e a solidariedade aos povos em luta, valores tão bem simbolizados pelos valentes representantes de Cuba socialista.

Sistema de Direção do Cebrapaz eleito para o Triênio 2019-2022

Diretoria Executiva:

Presidente: Jamil Murad

Vice-Presidente: Wevergton Brito Lima

Secretário Geral: José Reinaldo Carvalho

Diretor de Planejamento e Patrimônio: Sergio Benassi

Diretor de Pesquisas: Gustavo Guerreiro

Diretora de Comunicação: Moara Assis Crivelente

Diretor de Relações Sindicais: Antonio Barreto

Diretora de Intercâmbio com os Movimentos Sociais: Jussara Cony

Diretora de Cultura: Maria Pimentel

Diretor de Imigração: Raul Carrion

Diretoria Nacional:

Diretora no Estado do Amapá: Vivian Régia Bandeira da Silva

Diretor no Estado do Amazonas: Ricardo Ribeiro Chaves

Diretora no Estado da Bahia: Maria Ivone Santana Souza

Diretor do Distrito Federal: Sayid Marcos Tenório

Diretora no Estado do Ceará: Teresinha Braga Monte

Diretora no Estado do Espírito Santo: Mônica Santos

Diretor no Estado do Maranhão: Allan Kardec Filho

Diretora no Estado de Minas Gerais: Antonieta Shirlene Mateus

Diretor no Estado do Pará: Rodrigo Ferreira de Moraes

Diretor no Estado Paraná: Francisco Manoel de Assis França

Diretora no Estado do Piauí: Francisca Zelma Lima Cavalcante

Diretor no Estado do Rio de Janeiro: Marcos Costa

Diretor no Estado do Rio Grande do Sul: Diego Pautasso

Diretor no Estado de Sergipe: Durand Noronha Silva Junior

Diretor no Estado de São Paulo: Diego Pereira Nogueira

Conselho Fiscal:

Conselheira Fiscal: Maria José de Souza El Saad

Conselheira Fiscal: Simone Esterlina

Conselheira Fiscal: Heloísa da Silva Vieira

1º. Suplente do Conselho Fiscal: Jihad Abu Ali

2º. Suplente do Conselho Fiscal: Pâmela Martins

Conselho Consultivo:

Conselheiro Consultivo: Adilson Araújo

Conselheiro Consultivo: Caio Botelho

Conselheiro Consultivo: Gilson Luiz Reis

Conselheiro Consultivo: Hélio de Mattos Alves

Conselheira Consultiva: Madalena Guasco Peixoto

Conselheiro Consultivo: Marcelo Pereira Fernandes

Conselheira Consultiva:  Marcionila Fernandes

Conselheira Consultiva: Socorro Gomes

Conselheira Consultiva: Rita Matos Coitinho

Conselheiro Consultivo: Thomas de Toledo

 

Leia o original em CEBRAPAZ (clique aqui)

A Revolta Latina, a crise dos EUA e a esquerda

 
 
Desgaste do neoliberalismo alastra-se e chega à Colômbia. Cavalga na paralisia dos EUA, perdidos em disputas internas e fracassos geopolíticos. Washington ainda pode vetar e estrangular – mas impasses vão crescer, e exigem respostas
 
José Luís Fiori | Outras Palavras
 
“Muitos no Departamento de Estado
perderam o respeito por Mike Pompeo –
por um bom motivo. Seu comportamento
é uma das coisas mais vergonhosas
que já vi em 40 anos de cobertura
da diplomacia americana”.
 
Thomas Friedman, no New York Times
 
Num primeiro momento, pensou-se que a direita retomaria a iniciativa, e se fosse necessário, passaria por cima das forças sociais que se rebelaram, e surpreenderam o mundo durante o “outubro vermelho” da América Latina. E de fato, no início do mês de novembro, o governo brasileiro procurou reverter o avanço esquerdista, tomando uma posição agressiva e de confronto direto com o novo governo peronista da Argentina. Em seguida interveio, de forma direta e pouco diplomática, no processo de derrubada do presidente boliviano, Evo Morales, que havia acabado de obter 47% dos votos nas eleições presidenciais da Bolívia. A chancelaria brasileira não apenas estimulou o movimento cívico-religioso da extrema-direita de Santa Cruz, como foi a primeira a reconhecer o novo governo instalado pelo golpe cívico-militar e dirigido por uma senadora que só havia obtido 4,5% dos votos nas últimas eleições. Ao mesmo tempo, o governo brasileiro procurou intervir no segundo turno das eleições uruguaias, dando seu apoio público ao candidato conservador, Lacalle Pou – que o rejeitou imediatamente – e recebendo em Brasília o líder da extrema-direita uruguaia que havia sido derrotado no primeiro turno, mas que deu seu apoio a Lacalle Pou no segundo turno.
 
Mesmo assim, ao fazer-se um balanço completo do que passou no mês de novembro, o que se constata é que uma expansão da “onda vermelha” havia se instalado no mês anterior no continente latino-americano. Nessa direção, e por ordem, o primeiro que aconteceu foi a libertação do principal líder da esquerda mundial, segundo Steve Bannon, o ex-presidente Lula, que se impôs à resistência da direita civil e militar do país, graças a uma enorme mobilização da opinião pública nacional e internacional. Em seguida aconteceu o levante popular e indígena da Bolívia, que interrompeu e reverteu o golpe de Estado da direita boliviana e brasileira, impondo ao novo governo instalado a convocação de novas eleições presidenciais com direito à participação de todos os partidos políticos, incluindo o de Evo Morales. Da mesma forma, a revolta popular chilena também obteve uma grande vitória com a convocação, pelo Congresso Nacional, de uma Assembleia Constituinte que deverá escrever uma nova Constituição para o país, enterrando definitivamente o modelo socioeconómico herdado da ditadura do General Pinochet. E mesmo assim, a população rebelada ainda não abandou as ruas e deve completar dois meses de mobilização quase contínua, com o alargamento progressivo da sua “agenda de reivindicações” e a queda sucessiva do prestígio do presidente Sebastian Piñera, que hoje está reduzido a 4,6%. Neste momento, a população segue discutindo nas praças públicas, em cada bairro e província, as próprias regras da nova constituinte, prenunciando uma experiência que pode vir a ser revolucionária, de construção de uma constituição nacional e popular, apesar de ainda existirem partidos e organizações sociais que seguem exigindo um avanço ainda maior do que o que já foi logrado.
 
 
No caso do Equador, o país que se transformou no estopim das revoltas de outubro, o movimento indígena e popular também obrigou o governo de Lenin Moreno a recuar do seu programa de reformas e medidas impostas pelo FMI, e aceitar uma “mesa de negociações” que está discutindo medidas e políticas alternativas junto com uma agenda ampla de reivindicações plurinacionais, ecológicas e feministas. Mas além de tudo isso, o mais surpreendente acabou acontecendo na Colômbia, o país que vem sendo há muitos anos o baluarte da direita latino-americana e é hoje o principal aliado dos Estados Unidos, do presidente Donald Trump, e do Brasil do capitão Bolsonaro, no seu projeto conjunto de derrubada do governo venezuelano e de liquidação dos seus aliados “bolivarianos”. Depois da vitória eleitoral da esquerda, e da oposição em geral, em várias cidades importantes da Colômbia, nas eleições do mês de outubro, a convocação de uma greve geral em todo o país, no dia 21 de novembro, deslanchou uma onda nacional de mobilizações e protestos que seguem contra as políticas e reformas neoliberais do presidente Ivan Duque, cada vez mais acuado e desprestigiado.
 
A agenda proposta pelos movimentos populares varia em cada um desses países, mas todas elas têm um ponto em comum: a rejeição das políticas e reformas neoliberais, e sua intolerância radical com relação às suas consequências sociais dramáticas – que já foram experimentadas várias vezes através de toda a história da América Latina – e que acabaram derrubando o seu próprio “modelo ideal” chileno. Frente a esta contestação quase unânime, duas coisas chamam muito a atenção dos observadores: a primeira é a paralisia ou impotência das elites liberais e conservadoras do continente, que parecem acuadas e sem nenhuma ideia ou proposta nova, que não seja a reiteração de sua velha cantilena da austeridade fiscal e da defesa milagrosa das privatizações que vêm fracassando por todos os lados; e a segunda é a relativa ausência ou distanciamento dos Estados Unidos frente ao avanço da “revolta latina”. Porque mesmo quando tenham participado do golpe boliviano, fizeram com uma equipe de terceiro time do Departamento de Estado, e não contaram com o entusiasmo que o mesmo departamento dedicou, por exemplo, à sua “operação Bolsonaro” no Brasil. Ao mesmo tempo, este distanciamento americano tem dado maior visibilidade ao amadorismo e à incompetência da nova política externa brasileira, conduzida pelo seu chanceler bíblico.
 
Para entender melhor esse “déficit de atenção” americano, é importante olhar para alguns acontecimentos e desdobramentos internacionais dos dois últimos meses, e que se encontram em pleno curso. É óbvio que não existe uma relação de causalidade necessária entre esses acontecimentos, mas com certeza existe uma grande “afinidade eletiva” entre o que está passando na América Latina e a intensificação da luta interna dentro do establishment norte-americano, que alcançou um novo patamar com a abertura do processo de impeachment contra o presidente Donald Trump, envolvendo diretamente sua política externa.
 
E tudo indica que esta briga passou para outro patamar de violência depois que Trump demitiu John Bolton, seu Conselheiro de Segurança Nacional. Esta demissão parece ter provocado uma inusitada convergência entre a ala mais belicista do Partido Republicano e do “deep state” norte-americano e um grupo expressivo de congressistas do Partido Democrático que foi responsável pela decisão de julgar o presidente Trump. É muito pouco provável que o impeachment se concretize, mas seu processo deverá se transformar num campo de batalha política e eleitoral até as eleições presidenciais de 2020. Além disto, com o afastamento de Bolton e a intimação imediata para depor do Secretário de Estado, Mike Pompeo, desmontou-se a dupla – extremamente agressiva – que junto com o vice-presidente Mike Pence, foi responsável pela radicalização religiosa da política externa americana nos últimos dois anos.
 
Com isto rompeu-se também a linha de comando da extrema-direita latino-americana, e talvez tenha sido isto que deixou a descoberto seus operadores brasileiros de Curitiba e Porto Alegre, na hora em que foram desmascarados pelo site do Intercept, como também tenha deixado a devida cobertura o pupilo idiota que eles ajudaram a instalar nas Relações Exteriores brasileiras. Não se pode esquecer que Mike Pompeo teve papel decisivo na “trapalhada diplomática”’ da Ucrânia que deu origem ao processo de impeachment. Por isto, tudo o que hoje diga ou ameace o chefe do Departamento de Estado tem uma credibilidade e eficácia que serão cada vez menores, pelo menos até novembro de 2020.
 
Mas atenção que este não foi o único erro, nem é o único motivo da luta que divide a elite norte-americana no acirramento de sua briga interna. Pelo contrário, a causa mais importante desta divisão está no fracasso da política americana de contenção da China e da Rússia, que não está conseguindo deter nem curvar a expansão mundial da China, e o acelerado avanço tecnológico-militar da Rússia. Duas forças expansivas que já desembarcaram na América Latina, modificando os termos e a eficácia da famosa Doutrina Monroe, formulada em 1822. Isso pôde ser verificado recentemente como posicionamento russo frente à crise boliviana, sobretudo com a ajuda chinesa para “salvar” os dois últimos leilões, da “cessão onerosa”, na Bacia de Campo, e da “partilha”, na Bacia de Santos, e para viabilizar – muito provavelmente – as próximas privatizações anunciadas pelo ministro Paulo Guedes. Tudo isto, a despeito e por cima das bravatas “judaico-cristãs” do seu chanceler.
 
Não é necessário repetir que não existe uma única causa, ou alguma causa necessária, que explique a “revolta latina” que começou no início do mês de outubro. Mas não há dúvida de que esta divisão americana, junto com a mudança da geopolítica mundial, tem contribuído decisivamente para a fragilização das forças conservadoras na América Latina. Tem contribuído também para a acelerada desintegração do atual governo brasileiro e a perda de sua liderança dentro do continente latino-americano, com a possibilidade de que o Brasil se transforme brevemente num pária continental.
 
Por tudo isto, concluindo, quando se olha para frente,é possível prever algumas tendências, apesar da densa neblina que encobre o futuro neste momento da nossa história:
 
A divisão interna americana deve seguir e a luta deve aumentar, apesar de que os grupos em disputa compartam o mesmo objetivo, que é, em última instância, preservar e expandir o poder global dos Estados Unidos. Mas os EUA encontraram uma barreira intransponível e já não conseguirão mais ter o poder que alcançaram depois do fim da Guerra Fria.
 
Por isso mesmo, os EUA se voltaram para o “hemisfério ocidental com redobrada possessividade, mas também na América Latina eles estão se enfrentando com uma nova realidade, e já não conseguirão mais sustentar a incontestabilidade do seu poder.
 
Como consequência, será cada vez mais difícil impor à população local os custos sociais gigantescos da estratégia económica neoliberal que eles apoiam ou tentam impor a toda sua periferia latino-americana. Trata-se de uma estratégia que é definitivamente incompatível com qualquer ideia de justiça e igualdade social, e é literalmente inaplicável em países com maior densidade demográfica, maior extensão territorial e complexidade socioeconômica. Uma espécie de “círculo quadrado”.
 
Por fim, apesar disso, existe um enigma no caminho alternativo proposto pelas forças progressistas. E este enigma não é técnico, nem tem a ver estritamente com política económica, porque é um problema de “assimetria de poder”. Na verdade, mesmo quando contestados, os EUA e o capital financeiro internacional mantêm o seu poder de vetar, bloquear ou estrangular economias periféricas que tentem uma estratégia de desenvolvimento alternativa e soberana, fora da camisa de força neoliberal, e mais próxima das reivindicações desta grande revolta latino-americana.
 
Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OUTROS QUINHENTOS

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/12/a-revolta-latina-crise-dos-eua-e.html

Nossa América perante o ataque do imperialismo e das oligarquias

Declaracion minrex

Declaração do Ministério das Relações Exteriores

OS eventos mais recentes da região confirmam o governo dos Estados Unidos e as oligarquias reacionárias como os principais responsáveis ​​pela perigosa agitação e instabilidade política e social da América Latina e do Caribe.

Conforme advertiu em 1 de janeiro de 2019, o primeiro secretário do Partido Comunista de Cuba, general-de-exército Raúl Castro Ruz: «Os que estão entusiasmados com a restauração do domínio imperialista em nossa região devem entender que a América Latina e o Caribe mudaram e o mundo também (…) A região se assemelha a uma pradaria em tempos de seca. Uma faísca pode gerar um incêndio incontrolável que prejudicaria os interesses nacionais de todos».

O presidente Donald Trump proclamou a validade da Doutrina Monroe e apela ao macartismo para preservar o domínio imperialista sobre os recursos naturais da região, impedir o exercício da soberania nacional e as aspirações à integração e cooperação regionais; tentar restabelecer sua hegemonia unipolar em escala global e hemisférica; eliminar modelos progressivos, revolucionários e alternativos ao capitalismo selvagem; reverter as conquistas políticas e sociais e impor modelos neoliberais, sem se importar com o Direito Internacional, com as regras do jogo da democracia representativa, o meio ambiente ou o bem-estar dos povos.

Na segunda-feira, 2 de dezembro, o secretário de Estado Mike Pompeo acusou Cuba e Venezuela, ameaçadoramente, de tirar proveito e ajudar a aumentar a turbulência nos países da região. Deturpa e manipula a realidade e oculta, como elemento central da instabilidade regional, a intervenção permanente dos Estados Unidos na América Latina e no Caribe.

Os protestos legítimos e as massivas mobilizações populares registradas no continente, particularmente no Estado Plurinacional da Bolívia, Chile, Colômbia, Equador e o Brasil, são causadas pela pobreza e pela crescente desigualdade na distribuição da riqueza; a certeza de que as fórmulas neoliberais agravam a situação exclusiva e insustentável de vulnerabilidade social; a ausência ou precariedade dos serviços de saúde, educação e previdência social; os abusos contra a dignidade humana; o desemprego e a restrição dos direitos trabalhistas; a privatização, aumento do custo e cancelamento de serviços públicos e o aumento da insegurança cidadã.

Esses fatos revelam a crise dos sistemas políticos, a falta de verdadeira democracia, o descrédito dos partidos conservadores tradicionais, o protesto contra a corrupção histórica típica das ditaduras militares e governos da direita, o apoio popular insuficiente às autoridades oficiais, a desconfiança nas instituições e no sistema de justiça.

Eles também protestam contra a repressão policial brutal, a militarização desta última sob o pretexto de proteger a infraestrutura crítica, a isenção de responsabilidade criminal dos repressores; o uso de armas de guerra e equipamentos anti-motins que causam mortes e ferimentos graves, incluindo centenas de jovens com lesões oculares irreversíveis pelo uso de bolas de chumbo; a criminalização das manifestações; os estupros, espancamentos e violência contra os detentos, incluindo menores; e até o assassinato de líderes sociais, guerrilheiros desmobilizados e jornalistas.

Os Estados Unidos defendem e apoiam a repressão contra manifestantes sob o pretexto de salvaguardar a suposta «ordem democrática». O silêncio disfarçado de vários governos, instituições e personalidades muito ativas e críticas contra a esquerda é uma vergonha. A cumplicidade da grande mídia corporativa é vergonhosa.

Os povos se perguntam com razão onde está a democracia e o estado de direito; o que fazem as instituições supostamente dedicadas à proteção dos direitos humanos; onde está o sistema de justiça cuja independência é proclamada?

Vamos revisar alguns fatos. Em março de 2015, o presidente Barack Obama assinou uma Ordem Executiva incomum declarando a República Bolivariana da Venezuela «uma ameaça incomum e extraordinária à segurança nacional, a economia e a política externa» da grande potência. Em novembro de 2015, ocorreu a onerosa derrota eleitoral da esquerda na Argentina.

A ofensiva neoliberal teve um momento decisivo, em agosto de 2016, com o golpe parlamentar-judicial no Brasil contra a presidenta Dilma Rousseff, a criminalização e prisão dos líderes do Partido dos Trabalhadores e, posteriormente, do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com a participação precoce do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, por meio da Lei de Práticas Corruptas no Exterior, para instalar um governo dependente, disposto a reverter importantes conquistas sociais por meio de ajustes neoliberais, a mudança desastrosa do modelo de desenvolvimento, para permitir a destruição da empresa nacional e a privatização e pilhagem; a venda barata dos recursos e infraestrutura do país às transnacionais dos EUA.

No final de 2017, houve um protesto em Honduras contra o resultado eleitoral e sua terrível repressão.

Em janeiro de 2018, os Estados Unidos fazem abortar a assinatura de um acordo entre o governo venezuelano e a oposição manipulada a partir de Washington. Um mês depois, o secretário de Estado proclama a validade da Doutrina Monroe e conclama a um golpe militar contra a Revolução Bolivariana e Chavista.

Em março de 2018, ocorreu o atroz assassinato da vereadora brasileira Marielle Franco, que provocou uma onda de indignação em seu país e no mundo e do qual as implicações sombrias dos grupos de poder permanecem ocultas. Em abril, Lula é preso por meio de manobras legais espúrias. Existem evidências abundantes da intervenção dos Estados Unidos nas eleições brasileiras, por meio de empresas especializadas que usam tecnologias de big data e polimetria para manipular individualmente a vontade dos eleitores, como aquelas gerenciadas pelo ultrarreacionário Steve Bannon e outros israelenses.

Nesse período, são abertos processos judiciais contra os ex-presidentes Cristina Fernández de Kirchner e Rafael Correa. Em abril de 2018, tentam desestabilizar a Nicarágua por meio de interferência externa e aplicação de medidas coercitivas unilaterais.

Em 4 de agosto de 2018, é a tentativa de assassinato contra o presidente Nicolás Maduro Moros. Em janeiro de 2019, ocorre a autoproclamação do desconhecido e corrupto Juan Guaidó, organizada em Washington. Em março de 2019, o presidente Trump renova a Ordem Executiva que considera a Venezuela uma ameaça. Em 30 de abril, é a tentativa de golpe militar em Caracas que falha de maneira retumbante, e os Estados Unidos, vingativamente, escalam em sua guerra não convencional contra a nação sul-americana que resiste tenaz e heroicamente com a união cívico-militar de seu povo.

Durante este período, o governo dos EUA aplica políticas selvagens contra os imigrantes e um comportamento agressivo e odioso para alimentar o medo e a divisão nos eleitores. Tenta erguer o muro xenofóbico na fronteira com o México, ameaça este país e a América Central com a aplicação de tarifas e sanções terríveis, se não impedirem os que fogem da pobreza e insegurança, e multiplica as deportações. Cruelmente separa milhares de crianças de seus pais, prendeu 69 mil crianças e tenta expulsar os filhos de imigrantes nascidos e criados em território norte-americano.

Mostrando subordinação vergonhosa aos Estados Unidos, o governo brasileiro de extrema-direita liderado por Jair Bolsonaro recorreu à mentira, ao discurso xenofóbico, racista, misógino e homofóbico, combinado com projeções delirantes sobre fenômenos sociais e políticos como a mudança climática, as populações nativas, os incêndios na Amazônia e a emigração, que geraram o repúdio de inúmeros líderes e organizações. Na gestão do governo, as políticas sociais que levaram o Brasil durante os governos do Partido dos Trabalhadores a reduzir significativamente os níveis de pobreza e exclusão social foram desmanteladas.

Desde maio de 2019, dezenas de milhares de manifestantes foram às ruas para protestar contra os cortes na educação, as reformas no sistema de pensões, as políticas discriminatórias e a violência de gênero.

O governo brasileiro interveio nos assuntos internos de países vizinhos, como Venezuela, Argentina, Paraguai e Uruguai, e assumiu posições hostis em relação a Cuba, violando o Direito Internacional. Como a imprensa brasileira publicou em abril de 2019, o Ministério das Relações Exteriores emitiu instruções a 15 das suas embaixadas para coordenar com os Estados Unidos a instar os governos beneficiários a condenarem Cuba em fóruns internacionais.

Pela primeira vez desde 1992, o Brasil votou neste ano contra, apenas acompanhado pelos Estados Unidos e Israel, a resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas que pede o fim do bloqueio econômico, comercial e financeiro, que agora os Estados Unidos endurecem contra Cuba e a cessação da aplicação extraterritorial de suas leis contra Estados terceiros.

Ao mesmo tempo, o governo colombiano absteve-se na votação da resolução que apoiou desde 1992 a qual exige, no momento em que está sendo intensificado, a cessação do bloqueio genocida dos Estados Unidos contra Cuba e seu alcance extraterritorial. Para justificar essa decisão censurável, as autoridades daquele país recorreram à manipulação ingrata e motivada politicamente da contribuição altruísta, consagrada, discreta e indiscutível de Cuba para a paz na Colômbia, questão em que a conduta de nosso país é universalmente reconhecida. É conhecido o amplo e crítico debate que esse evento gerou naquela nação, mas, apesar de tudo, continuaremos acompanhando seus esforços para alcançar a paz.

A difamação norte-americana de atribuir a Cuba supostas responsabilidades na organização de mobilizações populares contra o neoliberalismo na América do Sul constitui uma desculpa incrível para justificar e reforçar o bloqueio e a política hostil contra nosso povo. Da mesma forma, é inútil ocultar o fracasso do sistema capitalista, proteger governos instáveis ​​e repressivos, ocultar golpes parlamentares, judiciais e policiais; e sacudir o fantasma do socialismo para intimidar as pessoas. Com isso, também quer justificar a repressão e a criminalização dos protestos sociais.

A única responsabilidade de Cuba é aquela que emana do exemplo que seu povo heróico deu na defesa de sua soberania, na resistência às agressões mais brutais e sistemáticas, na prática invariável de solidariedade e a cooperação com as nações irmãs da América Latina e Caribe.

Dói ao imperialismo que Cuba tenha mostrado que existe outro mundo possível e que um modelo alternativo ao neoliberalismo pode ser construído, baseado na solidariedade, cooperação, dignidade, na justa distribuição de renda, acesso igual à superação profissional, à segurança e proteção dos cidadãos e à plena libertação dos seres humanos.

A Revolução Cubana também é uma evidência de que um povo estreitamente unido, dono de seu país e de suas instituições, em permanente e profunda democracia, pode resistir vitoriosamente e avançar em seu desenvolvimento, diante das maiores agressões e bloqueios da história.

O golpe de Estado na Bolívia, orquestrado pelos Estados Unidos, usando a OEA e a oligarquia local como instrumento, é uma demonstração da agressividade da ofensiva imperialista. Cuba reitera sua condenação ao golpe, à brutal repressão desencadeada e expressa sua solidariedade ao companheiro Evo Morales Ayma e ao povo boliviano.

Enquanto o governo dos EUA continua sua guerra não convencional para tentar derrubar o governo legitimamente constituído do presidente Nicolás Maduro Moros e invoca o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR), Cuba ratifica a vontade inabalável de manter a cooperação com o governo e o povo venezuelanos

Ao governo sandinista e ao povo da Nicarágua, liderado pelo presidente Daniel Ortega, que enfrenta tentativas de desestabilização e medidas coercitivas unilaterais dos EUA, reiteramos nossa solidariedade.

O governo legítimo da Comunidade da Dominica e seu primeiro-ministro Roosevelt Skerrit merecem a solidariedade internacional e já têm a do povo cubano, numa época em que a Ilha é vítima da interferência externa que já causou violência e tem como objetivo frustrar o processo eleitoral.

Nesse cenário complexo, o governo de Andrés Manuel López Obrador, no México, enfrenta o neoliberalismo e defende os princípios de não intervenção e de respeito à soberania, enquanto a eleição de Alberto Fernández e Cristina Fernández como presidente e vice-presidenta na Argentina expressam a rejeição inequívoca dessa nação às fórmulas neoliberais que empobreceram, endividaram e danificaram seriamente seu povo. A libertação de Lula é um triunfo dos povos, e Cuba reitera seu apelo à mobilização mundial pela reivindicação de sua plena liberdade, a restituição de sua inocência e seus direitos políticos.

A corrupção que caracteriza o comportamento do atual governo dos Estados Unidos já é inquestionável. Seu impacto sobre os povos da América Latina e do Caribe tem um custo em vidas, sofrimento, instabilidade e danos econômicos.

Na dramática conjuntura que atravessa a região e o mundo, Cuba reafirma os princípios de soberania, não intervenção nos assuntos internos de outros Estados e o direito de cada povo de escolher e construir livremente seu sistema político, em um ambiente de paz, estabilidade e justiça; sem ameaças, agressões ou medidas coercitivas unilaterais e apela ao cumprimento dos postulados da Proclamação da América Latina e do Caribe como Zona de Paz.

Cuba continuará trabalhando no caminho da integração de Nossa América, que inclui a realização de todos os esforços para que a Comunidade dos Estados da América Latina e do Caribe (Celac), presidida em breve pelo México, continue promovendo os interesses comuns de nossas nações, fortalecendo a unidade dentro da diversidade.

Diante do ataque implacável das forças mais reacionárias do hemisfério, Cuba opõe a resistência inabalável de seu povo, juntamente com a vontade de defender a unidade da nação, suas conquistas sociais, sua soberania e independência e o socialismo ao preço necessário. Fazemo-lo com otimismo e confiança inabalável na vitória que nos legou o Comandante-em-chefe da Revolução Cubana, Fidel Castro Ruz, com a condução do primeiro secretário do nosso Partido, o general-de-exército Raúl Castro e a liderança do presidente Miguel Díaz-Canel

Havana, 3 de dezembro de 2019.

Via: Cubadebate (Português) http://bit.ly/34Xy9XA

Uruguai perde com fiasco econômico de Brasil e Argentina: 'Vizinhos estão doentes', diz Mujica

Ex-presidente do Uruguai e atual senador, José Mujica, durante conferência na Universidade Iberoamericana (UIA), na Cidade do México, em 2 de dezembro de 2019
© REUTERS / Luis Cortes

Em visita ao México, o ex-presidente do Uruguai, José Mujica, fala sobre derrocada da esquerda no país e futuro da América Latina e alerta: solução não está nas "velhas instituições" como a OEA.

Em conversas com estudantes e jornalistas, o ex-presidente e atual senador uruguaio, José "Pepe" Mujica, disse que a América Latina deve se unir para enfrentar os desafios geopolíticos atuais.

"Sou um sonhador. A América Latina é uma nação ainda não construída [...] construímos vários países. Mas ainda não construímos uma nação", disse.

Para ele, as grandes potências estão se unindo em grandes blocos multinacionais. Nesse contexto, uma América Latina dividida não teria futuro.

"O mundo está se organizando em torno de unidades colossais de Estados multinacionais. A China é uma nação multinacional milenária, a Índia também. A Europa, com todas as suas contradições, luta há um tempo por se unir", explicou.

"E a grande pergunta é: o que vamos fazer nesse mundo nós os latino-americanos atomizados em um conjunto de repúblicas?", questionou.

Para ele, a solução para a divisão latino-americana será apresentada pelas novas gerações, e não por "instituições velhas [...] como a Organização dos Estados Americanos (OEA)".

Derrota na esquerda no Uruguai

Questionado sobre a recente derrota da coalizão de esquerda no Uruguai, Mujica considerou que a estagnação econômica no país, causada em certa medida pelas crises no Brasil e Argentina, teve papel fundamental na vitória do candidato da centro-direita Luis Lacalle Pou nas últimas eleições presidenciais.

"Tivemos um período de crescimento, mas agora a economia está um pouco congelada, porque temos dois vizinhos enormes que estão doentes", disse.

Para o senador, o Uruguai deve se esforçar para não ser "arrastado" para a estagnação econômica da Argentina e do Brasil.

Mujica deixa sessão eleitoral com seu famoso fusca azul claro, em Montevidéu, em 27 de outubro de 2019
© AP Photo / Matilde Campodonico
Mujica deixa sessão eleitoral com seu famoso fusca azul claro, em Montevidéu, em 27 de outubro de 2019

Visita a Evo Morales

Mujica contou que visitou o mandatário deposto da Bolívia, Evo Morales, que recebeu asilo político no México:

"Sou amigo de Evo há muitos anos [...] Nós fomos presidentes, mas não deixamos de ser humanos e temos sentimentos […] Fui visitar um latino americano machucado", contou.

O ex-presidente agradeceu ao México por fornecer asilo ao boliviano e manifestou esperança de que a crise no país andino se resolva de maneira democrática:

"Espero que a desgraça que assola a Bolívia possa ser superada. Parece que há uma saída mais ou menos democrática”, disse, se referindo às prováveis eleições gerais bolivianas.

Recebi a visita do meu irmão Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai e lutador social incansável pela dignidade dos nossos povos. Agradeço a sua solidariedade com a nossa querida Bolívia nesses tempos.

Mujica demonstrou preocupação com a ascensão da intolerância e do fanatismo na América Latina:

"O fanatismo é uma atitude humana. É a negação permanente da convivência, da aceitação intelectual do diferente. O fanatismo é negar o reinado da dúvida. O fanatismo significa ignorar o pouco que sabemos e significa não tolerar a nossa pequenez diante dos desafios que temos que enfrentar", considerou.

Em 28 de novembro, o Tribunal Eleitoral do Uruguai confirmou a vitória do candidato do Partido Nacional, considerado de centro-direita, Luis Lacalle Pou, nas eleições presidenciais. A vitória colocou fim a 15 anos de governo da esquerda no país platino.

Sapatos do senador e ex-presidente uruguaio José Mujica. Com 84 anos, Mujica governou o Uruguai entre 2010 e 2015
© REUTERS / Luis Cortes
Sapatos do senador e ex-presidente uruguaio José Mujica. Com 84 anos, Mujica governou o Uruguai entre 2010 e 2015

José "Pepe" Mujica, por sua vez, foi eleito senador pela coalizão de esquerda Frente Ampla. O agricultor e político foi presidente do Uruguai entre 2010 a 2015, quando obteve 65% de aprovação pela sua gestão.

O ex-presidente e atual senador recebeu o título de "doutor honoris causa" da Universidade Ibero-Americana, na Cidade do México.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019120314846602-uruguai-perde-com-fiasco-economico-de-brasil-e-argentina-vizinhos-estao-doentes-diz-mujica/

'Quintal dos EUA': Washington ajudará governos latinos aliados a barrar protestos, diz Pompeo

Jair Bolsonaro ao lado de Mike Pompeo, secretário de Estado dos EUA, após a posse do presidente brasileiro em Brasília
© Foto / Marcos Corrêa/PR

O secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, afirmou que os EUA ajudarão "governos legítimos" na América Latina, a fim de impedir que os protestos "se transformem em tumultos".

Pompeo expressou a posição de Washington enquanto fazia comentários na Universidade de Louisville nesta segunda-feira.

Ele declarou que a política dos EUA na América Latina se baseia em "clareza moral e estratégica", o que significa que Washington "não pode tolerar" regimes que considere insatisfatórios na região.

Pompeo disse que os protestos na Bolívia, Chile, Colômbia e Equador refletem o "caráter de governos democráticos legítimos e expressão democrática" e que os governos da região devem respeitar isso.

"Trabalharemos com governos legítimos para impedir que os protestos se transformem em tumultos e violências que não refletem a vontade democrática do povo", pontuou.

Pompeo acrescentou que os EUA "continuarão a apoiar países que tentam impedir que Cuba e Venezuela sequestrem esses protestos". Ele também acusou a Rússia de influência "maligna" na América Latina e de "sustentar" o governo venezuelano de Nicolás Maduro.

Os comentários de Pompeo surgem após o golpe de novembro na Bolívia, no qual o presidente socialista Evo Morales foi deposto enquanto protestos violentos e ataques a políticos o obrigaram a deixar o país. Jeanine Añez, líder da oposição, se declarou "presidente interina". Os protestos liderados pela oposição começaram por supostas irregularidades nas eleições.

Polícia lança gás lacrimogêneo em apoiadores de Evo Morales em La Paz, na Bolívia
© REUTERS / Marco Bello
Polícia lança gás lacrimogêneo em apoiadores de Evo Morales em La Paz, na Bolívia

As opiniões distintamente francas de Pompeo são uma espécie de admissão de que os EUA incentivarão protestos violentos e mudanças de regime onde considerarem um governo ilegítimo, mas trabalharão para anular o sentimento antigovernamental em países que veem como aliados obedientes.

Embora os EUA tenham apoiado o golpe boliviano, bem como as tentativas de golpe na Venezuela no início deste ano, praticamente ignoraram os protestos contra o governo no Chile, onde culpa a influência "maligna" da Rússia e da China.
Na Venezuela e na Bolívia, Washington apoia os auto-declarados "presidentes interinos".

Pompeo concluiu dizendo que ainda há "muito trabalho a fazer" na região, referindo-se à América Latina como o "quintal" dos EUA. Ele também alertou contra "atividades predatórias chinesas" na região, que, segundo ele, podem levar os países a fazer acordos que "parecem atraentes", mas "ruins" para os cidadãos.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019120214844503-quintal-dos-eua-washington-ajudara-governos-latinos-aliados-a-barrar-protestos-diz-pompeo/

Entrevista: Políticas precisam combater desigualdade na América Latina, segundo funcionária da ONU

Por Cristobal Chavez Bravo

Santiago, 28 nov (Xinhua) - A desigualdade é um grande problema para a América Latina, disse uma importante autoridade da ONU na quinta-feira, pedindo aos governos que adotem políticas inclusivas, especialmente em educação e emprego, para fortalecerem a classe média.

Alicia Barcena, secretária-executiva da Comissão Econômica das Nações Unidas para a América Latina e o Caribe (CEPAL), fez as observações à Xinhua depois de apresentar o último relatório da agência "Panorama Social da América Latina 2019" na sede da CEPAL em Santiago.

"Estamos dizendo isso há uma década: esta região tem a maior desigualdade do mundo. Não é a mais pobre, de fato, fizemos um grande progresso em tirar as pessoas da pobreza, como podemos ver pelo cenário", Barcena disse.

O problema é que "nós os tiramos da pobreza e demos grandes expectativas de encontrar... serviços públicos que não existem", disse Barcena.

"De repente, essa sociedade está percebendo que precisa pagar por tudo, que tudo vai custar, que tudo foi gradualmente privatizado e que existem muito poucos serviços públicos", explicou ela.

A fraqueza estrutural mais preocupante da América Latina é a educação, observou Barcena.

Segundo o relatório, os números de 2017 mostraram que 52 por cento dos latino-americanos com mais de 25 anos eram de renda média e não concluíram o ensino médio.

Uma nova realidade na América Latina é que "temos uma classe média altamente vulnerável e é aí que temos de oferecer as respostas certas, especialmente aos jovens", afirmou ela.

Entre 2002 e 2017, a população de classe média da região cresceu de 26,9 para 41,1 por cento. Enquanto isso, o grupo de alta renda também cresceu de 2,2 para 3 por cento.

A desigualdade, medida pelo índice de Gini, com base em pesquisas domiciliares, mostra que a diferença de riqueza está diminuindo, mas a uma taxa mais lenta do que antes, afirmou o relatório.

Observando que "existe uma situação de grande volatilidade financeira", ela disse que a região pode estar avançando mais em desenvolvimento, o que ajudaria a protegê-la de altos e baixos financeiros.

No entanto, uma grave desigualdade, se não for atendida, impedirá a região, alertou Barcena.

O que é necessário são políticas que promovam a inclusão social e no local de trabalho para ajudar a erradicar a pobreza e fortalecer a classe média, recomenda o relatório.

Além disso, essas políticas devem andar de mãos dadas com outras que garantam emprego de qualidade e um salário decente, de acordo com a agência.

Ver original em "XINHUA Português" na ligação seguinte:

http://portuguese.xinhuanet.com/2019-11/30/c_138595026.htm

Cresce tentação autoritária entre governos da América do Sul

 
 
Brasil, Chile, Equador suspendem seus projetos de reformas devido aos protestos crescentes. Medidas necessárias excluem, porém, os privilegiados. Assim, economia da região se arrasta, impossibilitando redução da pobreza.
 
O ministro brasileiro da Economia, Paulo Guedes, não é conhecido por ser especialmente cauteloso. No entanto, em sua fala em Washington, no fim de novembro, surpreendeu com uma estratégia de recuo, ao suspender temporariamente – devido aos protestos nos vizinhos sul-americanos – o abrangente pacote de reformas do aparato estatal e do sistema tributário, anunciado há apenas três semanas.
 
"Não queremos dar nenhum pretexto para as pessoas irem às ruas", disse, contrito, segundo o jornal Estado de S. Paulo: "Vamos ver o que está acontecendo primeiro. Vamos entender o que está acontecendo."
 
Assim, o Brasil é o último governo latino-americano a sustar um pacote de reformas abrangentes. Antes, o Equador e o Chile haviam recuado em seus planos. Na Colômbia, o povo também está protestando, em parte contra a reforma da aposentadoria.
 
As reformas não foram o estopim direto para os protestos em nível nacional, mas sim aumentos de preços dos transportes públicos ou combustíveis, ou possíveis manipulações eleitorais. Ainda assim, os projetos nacionais de reforma intensificaram as manifestações.
 
 
Em geral, os pacotes visam reduzir os altos déficits orçamentários, responsáveis por inflação e alto endividamento – nesse sentido, os esforços dos governos para reduzir gradativamente as aposentadorias. Por outro lado, sua meta é tornar a economia mais produtiva e reduzir o aparato estatal.
 
Em termos de produtividade, as economias sul-americanas vão mancando atrás tanto das dos países industriais quanto das do Extremo Oriente, que crescem rapidamente. As empresas e empregados da região são pouco competitivos no mercado mundial. Os Estados, por sua vez, oferecem serviços de baixa qualidade; a oferta estatal em educação, saúde, infraestrutura e segurança é catastrófica.
 
Nesse sentido, as reformas não só fazem sentido, como são urgentemente necessárias para que a América do Sul não fique mais uma vez para trás na economia mundial. Em 2019, ela é o continente que menos crescerá, e os protestos frearão ainda mais o crescimento.
 
O problema das reformas, contudo, é que os governos conservadores do Brasil, Chile e Colômbia pretendem distribuir os custos dos cortes orçamentários pelo maior número possível de cidadãos, mas hesitam em confrontar os privilegiados com desvantagens. Além disso, querem impor sobretudo medidas que favoreçam as empresas.
 
Uma das promessas eleitorais principais do presidente Sebastián Piñera – ele próprio um dos empresários chilenos mais ricos – foi reverter, em parte, a reforma das leis sobre empresas de sua antecessora, Michelle Bachelet. Para muitos chilenos, o gabinete de Piñera parecia uma comunidade de interesses da elite empresarial do país.
 
Também no Brasil, o governo de fato flexibilizou as totalmente antiquadas leis trabalhistas e elevou a idade mínima de aposentadoria, mas os privilégios dos militares permaneceram intocados; e ele dificilmente decretará cortes para os funcionários alto-assalariados. Em suas reformas, os governos conservadores sul-americanos são cegos do olho social e não ousam tocar nas sinecuras dos altamente privilegiados – dos quais eles também fazem parte. Isso reduz ainda mais a credibilidade dos processos reformistas.
 
Agora ameaça o perigo de os Estados caírem na tentação de impor de forma autoritária as reformas fracassadas ou suspensas. Na América do Sul existe a franca tradição de mobilizar os militares para "garantir a ordem pública", o que muitas vezes é sinônimo de "garantir os interesses das elites".
 
Em Washington, visivelmente exasperado, o ministro Guedes esbravejou que, diante dos protestos, "não se assustem se alguém pedir o AI-5" em breve – uma dissonante lembrança dos atos institucionais impostos cerca de 50 anos atrás pela ditadura militar.
 
Alexander Busch (av) | Deutsche Welle
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/11/cresce-tentacao-autoritaria-entre.html

EUA estão tentando tornar América Latina mais controlável

Durante os últimos anos, os EUA têm tido a ideia de tornar a América Latina mais controlável, disse o chefe do departamento latino-americano do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Aleksandr Schetinin.

O diplomata russo comentou a situação de instabilidade e de crise política pela qual vários países do continente sul-americano estão passando.

"O que está acontecendo lá no nosso ponto de vista? O que acontece é que durante os últimos anos, e isso se vê mais claramente nos últimos dois, os nossos parceiros americanos estão interessados [...] em a formatar [esta região], torná-la mais controlável", disse Schetinin durante um debate sobre o tema "Continente em chamas: crises e protestos na América Latina".

O diplomata destacou que em Washington "tiraram dos baús a Doutrina Monroe".

Na semana passada, o diretor do Serviço de Inteligência Exterior da Rússia, Sergei Naryshkin, disse que os EUA estão envolvidos na crise política na Bolívia e estão tentando "abalar" a situação na América Latina "no seguimento do que está acontecendo na Venezuela".

Anteriormente o chanceler russo Sergei Lavrov disse que as regiões da América Latina e do Caribe estão sob uma enorme pressão.

"As tentativas dos EUA de reformatar o cenário político da América Latina à sua medida, no espírito da ressuscitada Doutrina Monroe, causam grande preocupação. Em essência, Washington se arrogou o direito, baseado em suas próprias interpretações, de usar a força onde quiser derrubar governos que, entre outras razões, não o satisfazem", afirmou Lavrov.

De acordo com ele, estas ações de Washington minam as bases da segurança e estabilidade regional, "levam à polarização das sociedades latino-americanas e vão contra a tarefa de construir uma zona de paz na América Latina".

Em 1823, o presidente dos EUA James Monroe declarou uma doutrina política, conhecida como Doutrina Monroe, na qual repudiava a interferência de potências europeias no continente americano.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019112714826570-chancelaria-russa-eua-estao-tentando-tornar-america-latina-mais-controlavel/

América Latina se levanta contra FMI e capitalismo selvagem, afirma Maduro

Presidente venezuelano Nicolás Maduro fala perante apoiadores em Caracas, Venezuela
© Sputnik / Stringer

O presidente venezuelano, Nicolás Maduro, assegurou que os povos latino-americanos saíram às ruas como uma medida de exclusão do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do capitalismo.

Maduro afirmou que a Venezuela se revoltou contra o neoliberalismo, para dar lugar ao "socialismo bolivariano" que será mantido pelo bem de seus cidadãos.

"Por que o povo da Colômbia está nas ruas aos milhões? Por que o povo do Chile está nas ruas aos milhões? Por que o povo do Equador saiu às ruas aos milhões? Porque a América Latina se levanta contra o Fundo Monetário Internacional, contra o capitalismo selvagem", discursou Nicolás Maduro durante a entrega de residências.

Vale destacar que o programa da casa própria foi aprovado por Maduro também para o próximo ano. Espera-se que 500 mil casas sejam construídas.

"Procederei para aprovar o plano para 2025 e a meta anual de 2020 manterei em 500.000 residências, com recursos e investimentos necessários em bolívares, petro e moedas convertíveis", afirmou.

"A Grande Missão Habitação demonstrou que é possível viver na cidade como cidadão tendo todas suas garantias, Venezuela se transformou em referência mundial em matéria de direito à casa própria", acrescentou Maduro.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019112714824719-america-latina-se-levanta-contra-fmi-e-capitalismo-selvagem-afirma-maduro/

Apenas as oscilações no valor das commodities não explicam a política da América do Sul

É certo que a situação das commodities e da economia chinesa, sobretudo após a crise de 2008, afetou a América do Sul. A agudização dos conflitos sociais e econômicos, entretanto, advém muito mais da disputa por poder de setores da elite, do ponto de vista nacional, e da disputa por hegemonia, do ponto de vista internacional.

 

 

Marcado pela reação aos efeitos globais do neoliberalismo, o início do século 21 foi de grandes transformações mundiais. Segundo o sociólogo Emir Sader, em seu livro A Nova Toupeira (2009), a virada do século 20 para o 21 viveu “uma fase de resistência, de defesa contra a virada regressiva de proporções históricas gigantescas, operada pela passagem de um mundo bipolar para o mundo unipolar, sob a hegemonia imperial norte-americana, e do modelo regulador para o modelo neoliberal”.

Para ele as manifestações contra o encontro da Organização Mundial do Comércio (OMC), em Seattle, 1999, sinalizaram a extensão do mal-estar diante do modelo hegemônico e o potencial popular da luta de resistência. Naquelas manifestações milhares de pessoas, entre as quais ecologistas, anarquistas, trabalhadores sindicalizados, militantes operários, estudantes, pacifistas e humanistas mobilizaram-se por mudanças sociais, econômicas, políticas e ambientais nas ruas de Seattle, de 30 de novembro até a queda da chamada “Rodada do Milênio”.

De fato, como ponderou o sociólogo, aquele foi um sinal dos novos tempos, no qual vimos emergir governos de esquerda na América Latina, como os de Hugo Cháves, na Venezuela, em 1998, Luís Inácio Lula da Silva, no Brasil, em 2002, Néstor Kirchner, na Argentina, em 2003, Tabaré Vázquez, no Uruguai, em 2004 e Evo Morales, na Bolívia, em 2006.

O sucesso e a derrocada, a partir da crise da bolsa de 2008, daqueles governos latino-americanos tem relação com o valor das commodities na economia internacional, como defendem os cientistas políticos Daniela Campello e Cesar Zucco, no artigo Frustração com economia alimenta revoltas na América do Sul (Ilustríssima, 17/11/2019).

Mas a análise fria dos cientistas não é suficiente para explicar a história destes países em sua complexidade social, econômica, política e, muito importante, cultural. Mais do que isso, assim como a estatística pode ser manipulada para camuflar realidades (uma boa média, por exemplo, pode esconder grandes disparidades), uma análise esquemática, laboratorial, esconde o acirrado embate que existe por trás da ascensão de governos, levando-nos a um conformismo determinista com relação aos rumos da história.

Segundo Campello e Zucco, “a partir de 2003, um cenário internacional excepcionalmente favorável para as economias sul-americanas permitiu uma aceleração das taxas de crescimento, com redução generalizada da pobreza e da desigualdade de renda sob governos de diferentes matizes ideológicas. A reversão deste cenário no final de 2011 e a piora das condições de vida que se seguiu desde então vêm acirrando conflitos distributivos, favorecendo a polarização e tornando os países da América do Sul mais vulneráveis a protestos e convulsões”. De fato, assistimos vultuosas massas irem para as ruas no Brasil, em 2013, e no Chile, Bolívia e Equador, mais recentemente.

Os analistas afirmam que, de Álvaro Uribe, na Colômbia, à Hugo Chávez, na Venezuela, o período que vai de 2003 a 2011 foi “de exuberância econômica e aumento generalizado do bem-estar”, mas atribuem à “sorte” a variação nas condições exógenas enfrentadas por diferentes presidentes sul-americanos, sendo, nestes casos, a economia quase independente das políticas públicas. “Governos são mal avaliados durante períodos desfavoráveis e bem avaliados naqueles favoráveis, independentemente da qualidade de suas ações”, dizem.

Nesta análise, o projeto implementado no governo Lula, por exemplo, entre 2003 e 2011, com programas de redução da miséria e inserção das classes mais carentes, como o Fome Zero e o Bolsa Família, não se deu com base em uma concepção política. O artigo publicado na Ilustríssima defende que a flagrante melhora na vida dos brasileiros naquele período ocorreu ao sabor da sorte ou, pior, por determinação de um ciclo preestabelecido. Fosse Lula ou FHC, fosse Temer ou Bolsonaro, as condições dadas para a as benfeitorias econômicas seriam bem aproveitadas e revertidas para a população carente e para o desenvolvimento social.

Nesta análise faltam elementos que proporcionem uma melhor compreensão sobre a dinâmica que faz com que governos progressistas sejam eleitos ou depostos.

É certo que a situação das commodities e da economia chinesa, sobretudo após a crise de 2008, afetou a América do Sul. A agudização dos conflitos sociais e econômicos, entretanto, advém muito mais da disputa por poder de setores da elite, do ponto de vista nacional, e da disputa por hegemonia, do ponto de vista internacional. Ou seja, a crise procedente da quebra da bolsa que inevitavelmente repercutiu nas econômicas sul-americanas foi uma brecha para a tomada abrupta de poder e deposições precoces, com manipulações das leis e dos meios de comunicação a fim de criar uma mentalidade avessa à governos progressistas.

A ascensão de governos de esquerda na América do Sul no início do século 21, está relacionada, como disse Sader, a uma reação à crise econômica das décadas de 1980 e 90, dominadas pelo modelo liberalizante de Reagan e Thatcher, e a uma incapacidade deste modelo em resolver problemas como o desemprego e a pobreza. Está relacionada também ao crescimento e a consolidação dos movimentos sociais, antes sufocados por regimes ditatoriais.

Mas, assim como ocorreu quando estes países sofreram golpes nas décadas de 1960 e 1970, sempre que algum governo dá sinais de que está disposto a empenhar-se na superação da secular condição de exportador de matéria prima, as commodities, tanto governos mais ricos, como os dos EUA, quanto setores das elites locais, que se beneficiam do atraso (com mão de obra barata, por exemplo) reagem, lançando mão de todos os meios, lícitos ou ilícitos, para derrubá-los. Parece teoria conspiratória, mas é o que está acontecendo exatamente agora.

Filmes e livro que tratam do assunto

Recomento dois documentários que mostram, com registros históricos, como a ascensão da direita não pode ser explicada somente com base em gráficos e equações.

Dossiê Jango

Um deles é Dossiê Jango (2013, Paulo Henrique Fontenelle). O filme exibe, entre outras coisas, gravações em áudio do embaixador Lincoln Gordon e do ex-presidente americano John Kennedy, que comprovam a preocupação americana com o momento político do País e que o ex-presidente Lyndon Johnson estaria disposto a agir no Brasil para instituir a ditadura e assegurar o afastamento de Jango.

 

 

Privacidade hackeada

Outro é Privacidade hackeada (2019, Karim Amer, Jehane Noujaim). O angustiante documentário releva as relações entre a empresa Cambridge Analytica, que usou informações pessoais de 50 milhões de perfis do Facebook, com a eleição do presidente Trump, nos Estados Unidos, e o referendo Brexit, no Reino Unido.

 

 

Quando o Google Encontrou o Wikileaks (2014, Julian Assange)Quando o Google Encontrou o Wikileaks

E um livro: Quando o Google Encontrou o Wikileaks (2014, Julian Assange). Assange revela como as redes sociais, como o Twitter, manipularam as grandes manifestações da chamada Primavera Árabe e foram decisivas para a deposição de governos. Revela também como o Google está atrelado ao governo estadunidense.


Texto em português do Brasil


 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/apenas-as-oscilacoes-no-valor-das-commodities-nao-explicam-a-politica-da-america-do-sul/

“PINOCHETAZZO” SOBRE A AMÉRICA LATINA!

 
 
 Martinho Júnior, Luanda 
 
O imperial fantasma do “Chicago boy” Pinochet, paira como um monstruoso condor sobre toda a América Latina e Caraíbas, do Rio Grande ao Cabo Horn!
 
Essa sulfúrica espada de Dâmocles manipulada pelo império da hegemonia unipolar, pende sobre as nações, os estados e os povos, irremediavelmente suspensa e pronta a abater, desenhando-se em todos e quaisquer horizontes e só Cuba Revolucionária, assim como a Venezuela Bolivariana, criaram organicamente escudos e anticorpos vitais, graças à lucidez e às frutíferas experiências dos Comandantes Fidel de Castro e Hugo Chavez e seus dignos povos, com capacidade e pujança para vencer e vencer e vencer o monstro, apesar do ódio desse monstro e apesar da barbaridade das sanções e bloqueios!...
 
01- O universo progressista continua a produzir suas próprias ilusões, não podendo ainda escapar a elas, pelo que está condenado a alimentar ainda muitas utopias irrealizáveis nos seus horizontes: apesar da sua clarividência e identidade, cada vez coloca mais raposas nos seus próprios galinheiros e, com a proliferação das raposas, as galinhas acabam sempre por estar à mercê do seu trágico destino!
 
Explico-me:
 
. Na superestrutura ideológica o fantasma fascizante de Pinochet flui em seu éter fundamentalista e radicalista, formatado no sopro da “civilização judaica-cristã ocidental”, no prolongamento transatlântico do sopro do “Le Cercle”, tão experimentado em transversalidades ao sabor das “redes stay behind” da NATO, como das “revoluções coloridas” e “primaveras árabes” de última geração;
 
. Nos instrumentos de poder de estado, os oficiais das Forças Armadas são “formados” geração após geração, na Escola das Américas, assim como os oficiais das Polícias, “aprendem” em escolas do FBI, de forma a garantir a matriz do jogo do império por toda a América Latina e Caraíbas;
 
. No aparelho da Justiça, são as Universidades dos Estados Unidos a chancela para curriculuns doutrinários “bem-sucedidos”, indispensáveis para se dar caça àqueles que alguma vez ousarem desafiar o imperial fantasma;
 
. Na economia, as oligarquias formadas sobretudo ao sabor da tão primária indústria extractivista, animam seu próprio destino embaladas pelas correntes neoliberais que escancaram as portas de todos os mais vulneráveis países às transnacionais entre si concorrentes e também por isso ávidas de matérias-primas baratas e de mão-de-obra escrava, dócil e submissa;
 
. Nas relações internacionais as disputas entre hegemonia unipolar e multilateralismo, faz-se indexada a um capitalismo que pouco espaço dá às nações e aos povos que aspiram legitimamente à civilização e não à barbárie, a um mundo efectivamente melhor e respeitador quer da humanidade, quer do próprio planeta!...
 
 
02- Não basta aos progressistas esmerarem seus programas eleitorais e de governo respeitadores das camadas sociais que têm composto os 99% dos condenados globais, respeitadores da humanidade e respeitadores da própria Mãe Terra!
 
Não basta identificarem-se com cada vez mais organizações sociais que se identifiquem com as camadas mais marginalizadas, oprimidas ou exploradas da Terra!
 
Não basta abrir a janela da democracia participativa e “protagónica” que timidamente vai ripostando a uma tão tóxica quão adversa representatividade!
 
Está-se longe de vencer os fundamentalismos seculares injectados pelas camadas mais retrógradas e ultraconservadoras das ideologias “judaico-cristãs ocidentais”, enquanto fenómenos decorrentes da própria colonização da América!
 
Está-se longe de encontrar soluções alternativas para a formação de oficiais e juristas fora dos mecanismos aglutinadores das escolas “veiculares” dos Estados Unidos!
 
Quaisquer transnacionais podem prover a mobilização, o recrutamento e a formatação egoísta de seus quadros para, num universo propício e difuso, os aplicarem em função de seus próprios interesses, conveniências e subtis ingerências e manipulações!
 
Os “timings” previstos para os exercícios governamentais em tempo de “democracia representativa” estão a demonstrar ser incompatíveis com reeleições de progressistas, por muito bom trabalho que possam ter feito em suporte de todo o seu povo e até dessas oligarquias!
 
O recrutamento de cérebros, usando a captação capitalista e consumista, permanece uma constante nas estratificadas sociedades da América, tal como a atracção “soft power” e hollyhoodesca ao “sonho americano”, apesar da época protecionista inaugurada pela brutal administração republicana de Donald Trump!
 
03- O campo progressista na América, face ao império da hegemonia unipolar tem, em especial na América Latina, tudo a rever em relação ao carácter dos seus estados, ao carácter das suas ideologias (ainda que alimentadas em contraditórios aparentemente latentes), dos instrumentos de poder que têm sido instalados geração após geração, do raio de acção da representatividade em prejuízo da participação e do protagonismo, da modelagem de suas oligarquias e de sua inserção nos respectivos espaços nacionais, das alianças, abertas ou clandestinas que têm vindo a gerar cada vez mais complexos “sistemas em rede”, ao abrigo do poder dominante da aristocracia financeira mundial e seus tentaculares instrumentos de domínio!...
 
Ao fazer essa abordagem devem melhor saber equacionar o seu enquadramento no processo embrionário de sua vocação progressista, face a um desafio histórico, antropológico e até físico-geográfico (quando existirem regionalismos enquistados nos espaços nacionais) tudo ambientes hostis e inseridos num universo ainda mais hostil!…
 
A nível internacional não serão os emergentes multilateralistas que farão objecção a novos actores, ainda que fundamentalistas ou radicais, por razão de seus próprios negócios, interesses e conveniências!
 
Essas potências emergentes e multilaterais, têm capacidades para se adaptar num quadro de crises em geometria variável e tocar em frente!
 
Os Comandantes Fidel de Castro e Hugo Chavez foram homens que tiveram a humildade da clarividência e da inteligência em relação às dialéticas e dinâmicas das sociedades e de sua correlação não só com as instituições derivadas do estado colonial, como também em correlação com o ambiente físico-geográfico dos seus países e espaço regionais, fundamentando sua solidariedade nessa clarividência e inteligência que souberam conduzir até à plataforma duma nova cultura civilizacional simultaneamente internacionalista e militante!
 
Eles foram para além do activismo elementar e básico, para além da identidade para com os pobres e os desprotegidos que são a maioria em qualquer eleitorado da América, para além da capacidade de luta contra as tentações de qualquer tipo de corrupção, para além dos paradigmas impostos por outros, pois ao os receber como herança, os progressistas acabam quase sempre por ficar sujeitos à sua lógica e à força de sua inércia!
 
Os Comandantes foram homens que geraram o embrião duma tão enérgica quão saudável cultura rebelde, animada de lógica com sentido de vida e de segurança vital, num ambiente oxigenado com pernas de educação, de saúde, de participação, de protagonismo, de inteligência, de solidariedade, de internacionalismo e duma paz nunca antes experimentada!
 
O campo de acção ideológica da Igreja Católica Apostólica Romana, com sede no Vaticano, uma igreja cúmplice da colonização e da escravatura, foi colocada em causa no seu ultraconservadorismo pelos Comandantes, sem dar espaço a ambiguidades, muito menos ao cinismo e à hipocrisia tipicamente feudal e “ocidental” de que essa igeja e as suas concorrentes se nutrem!
 
A Teologia da Libertação que o Vaticano excomungou, é hoje um incontornável desafio aos fantasmas de Pinochet na superestrutura ideológica da própria igreja, mas de “pinochetazzo” em “pinochetazzo”, o domínio bárbaro do império da hegemonia unipolar possui um imenso campo de disponibilidade subversiva que ainda lhe é favorável, de tal modo que para os progressistas o maior desafio é não só vencer as suas próprias debilidades, vulnerabilidades e ilusões, mas encontrar o caminho viável para uma equação cívico-militar capaz de assumir ruptura, mas sobretudo rumo civilizacional, no meio de tanta turbulência global de natureza bárbara, retrógrada e rarefeita à vida, que envolve as nações, os estados e os povos da Terra!
 
A luta tem que ser feita no sentido de não dar mais espaço de animação e projecção ao fantasma-condor de Pinochet, erradicá-lo do mapa das tentações de ingerência e manipulação do império da hegemonia unipolar e de seu inesgotável cortejo de vassalagens e vassalos!
 
Martinho Júnior -- Luanda, 20 de Novembro de 2019
 
Imagem: Comandantes Fidel e Chavez, desses sábios, desses fortes e de suas notáveis experiências de colectiva vida social, narrará a história!

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/11/pinochetazzo-sobre-america-latina.html

América Latina: Povo sem pernas, mas que caminha

 
 
Nas linhas tortas da História, um caminho pavimentado pela violência colonial: chicotes, pobreza e desumanidades. Com ultradireita, vive nova encruzilhada. Mas novas revoltas sugerem: hora é de recuperar o sabor da resistência
 
Luís Felipe Machado de Genaro| Imagem: Joaquín Torres García, Construtivo en cinco tonos (1945)
 
Por vezes me pego refletindo, entre agonias e desilusões, sobre o mapa invertido da América Latina do artista uruguaio Joaquin Torres García, que o teria rabiscado em meados da primeira metade do século passado.
 
Há neste mapa uma porção de significados simbólicos que olhando ao nosso redor, neste cenário histórico-político aterrador, parece, em alguns poucos momentos, me encher de esperança, enquanto em outros permaneço incrédulo e estático – não há transformação possível, penso. Como inverteríamos este mapa? Torres García imaginava um continente unido em oposição radical aos interesses do Norte global. Nas palavras do artista:
 
“Nosso norte é o Sul. Não deve haver norte, para nós, senão por oposição ao nosso Sul. Por isso agora pomos o mapa ao revés, e então já temos a exata ideia de nossa posição, e não como querem no resto do mundo. A ponta da América, desde agora, prolongando-se, assinala insistentemente o Sul, nosso Norte”.
 
 
Em um continente marcado por instabilidades seculares, corrupção pública e privada, desigualdades extremas entre classes sociais, descaso de governantes para com os direitos mais básicos e fundamentais de seus povos, violência estatal e para-estatais quotidianas – e naturalizadas – em muitas de suas regiões e o parasitismo opulento de grupos dominantes que, nas palavras de Darcy Ribeiro, “são, de fato, muito mais parecidas com o patriciado escravista romano do que com qualquer burguesia clássica”, o cenário é desolador.
 
Por que, questiona o historiador Fábio Luís Barbosa dos Santos, “de tempos em tempos, somos invadidos pelo sentimento desesperador do eterno retorno do mesmo?”.
 
Durante o raiar do século XXI até alguns atrás parecíamos estar vivendo uma integração civilizadora entre os países da América, mesmo com as mais diferentes particularidades, tropeços e concertações políticas destes mesmos países.
 
Hoje, populações estão adoecendo; um universo online de notícias falsas e impropérios dos mais diversos ameaça não só a sanidade mental de suas gentes, mas as instituições políticas frágeis do continente; classes vulneráveis contam com cada vez menos acesso aos direitos humanos; senão privatizadas e cada vez mais inacessíveis pela falta de financiamento, universidades e escolas – Educação pública, crítica e de qualidade – parecem ser sonho cada vez mais distante; assassinatos e prisões de lideranças políticas populares na Colômbia, Equador, Argentina e Brasil tornaram-se recorrentes, como nos tempos do Condor; empregos informais e precarizados; enfim, uma vida cada vez mais difícil, acelerada, intensa e solitária em meio à multidão, nos assola. Seria este o destino reservado ao continente do labor?
 
O colombiano Gabriel García Márquez, narrando o general Bolívar em muitos de seus labirintos, num de seus mais belos romances, escreveu fictício diálogo entre O Libertador e o general Carreño: – Não me ocorre nada mais digno – concluiu. – Bem, mas pelo menos lá é a pátria – disse. – Não sejas bobo – disse o general Bolívar – Para nós a pátria é a América, e ela toda não tem jeito.
 
Que “jeito” é este que não há de que nos fala García Márquez em seu romance, pelos lábios do libertador Bolívar? A História, como imagina o senso comum, não é cíclica e nem se repete, não há fases e nem mesmo é linear, perfeitamente construída em uma linha reta do passado ao presente, mas uma infinidade de sedimentos, camadas sobrepostas – talvez uma linha, sim, mas com infinitos caminhos tortuosos, abissais muitas vezes.
 
Como escreveu Walter Benjamin, “cadeia de acontecimentos que acumula incansavelmente ruína sobre ruína”. O continente sul-americano se encontra em um destes caminhos.
 
Encurralado, mas resistente no Palácio La Moneda, em 11 de setembro de 1973, o presidente Salvador Allende, horas antes de um dos golpes militares mais sangrentos do continente serem desfechados pelas forças armadas, foi categórico: a História é nossa e a fazem os povos.
 
“O drama ocorreu no Chile, pela desgraça dos chilenos, mas há de passar para a História como algo que aconteceu sem remédio a todos os homens deste tempo e que ficou em nossas vidas para sempre”, datilografou García Márquez em suas Reportagens Políticas.
 
Dramas semelhantes estariam se avizinhando para os dias que correm? O terremoto social anti-neoliberal no Chile; a soltura da maior liderança popular do Brasil, Lula, após meses de prisão política; o golpe civil-militar na Bolívia; a vitória eleitoral de Fernandez, na Argentina; as dificuldades políticas da Frente Ampla, no Uruguai, tudo, tudo está conectado.
 
Hoje, refletindo sobre as palavras de Evo Morales após o golpe desfechado dias atrás, “Nunca me abandonaron, nunca los abandonaré”, que precisamos guardar as desesperanças que nos acometem diariamente em algum lugar obscuro e distante, trancá-las às sete chaves, girar o continente como rabiscou Joaquin Torres García, e humanizar a nossa civilização, nossa Pátria Grande tão marcada por chicotes, torturas, violências, berros, pobreza e desumanidades.
 
Construir caminhos solidários, igualitários e fraternos dentre tantos os infinitos que existiram, existem e existirão – e só pela conscientização política, trabalhos de base, uma luta feroz nas ruas e avenidas e uma Educação crítica, pública e de qualidade que conseguiremos estancar as veias abertas da região.
 
Precisamos que nos devolvam – e teremos de lutar por isso! – a união entre os nossos povos e a alegria de viver, uma alegria perdida em um dos continentes mais belos e extraordinários da Terra.
 
REFERÊNCIAS
Fábio Luís Barbosa dos Santos. Uma história da onda progressista latino-americana (1998-2016).
Darcy Ribeiro. América Latina: A Pátria Grande.
Gabriel García Márquez. O General em seu Labirinto.
___. Reportagens Políticas.
 
Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OUTROS QUINHENTOS
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/11/america-latina-povo-sem-pernas-mas-que.html

Os limites, concessões e contradições do progressismo

por PCM [*]

As armas com as quais a burguesia realiza violentos tumultos e golpes de Estado, como na Bolívia, foram preservadas, desenvolvidas e fortalecidas pelo chamado progressismo. Na Bolívia, esse mesmo progressismo foi dominado pelos instrumentos da burguesia com os quais governava, e os mais afetados foram as forças operárias e populares, que fazem frente à situação. […] Limitar-se à luta antineoliberal ou à existência de governos "contrários ao neoliberalismo" é entrar no terreno político favorável à burguesia. […] A pretensão de fazer profundas e radicais mudanças conservando o Estado burguês enfrenta a crua realidade de que, no final, a burguesia impõe a última palavra, pelos meios que considera convenientes.

O Partido Comunista do México condena o golpe de Estado na Bolívia, conduzido por forças reacionárias, policiais e militares, aproveitando os limites, as concessões e as contradições do governo boliviano, isto é, do progressismo.

Realçamos que o fator externo, principalmente da Organização dos Estados Americanos (OEA), como instrumento das políticas imperialistas, foi fundamental para as forças reacionárias internas. A OEA é um instrumento do imperialismo contra todos os povos da América. É necessário pôr fim à sua existência como instância supranacional que atenta contra a soberania popular e a autodeterminação dos povos e nações. O PCM lutará pela saída do México da OEA, denunciando o seu caráter de classe.

Condenamos a perseguição desencadeada contra as organizações indígenas e populares, contra os sindicatos e a classe operária. Expressamos nossa solidariedade ao Partido e à Juventude Comunista da Bolívia.

Expressamos nossa solidariedade à resistência popular das cidades e dos campos da Bolívia, reiterando que a história é escrita pelos trabalhadores, pelos povos.

Consideramos que, à luz dos últimos acontecimentos continentais, confirma-se que a chamada ordem constitucional – à qual várias forças políticas e, especialmente, as alinhadas no progressismo e na social-democracia prestam um desarmante culto fetichista – é apenas um leque de opções legais e extralegais para resolver disputas entre vários grupos de poder da burguesia e os substitutos de gestores da ditadura da classe dominante. Esta chamada ordem constitucional burguesa complementa-se com as alternativas do golpe de estado.

A social-democracia na América Latina, também definida como progressismo, aceitou as leis do jogo burguês e transformou a sua gestão de exploração e de pilhagem em ilusões de melhorias para a classe operária e os setores populares. Em diferentes casos, acentuou a militarização; decidiu a participação das suas Forças Armadas em coligações internacionais que as treinem na luta de classes no interior dos seus respetivos países e as obriguem a participar nas agressões imperialistas e na repartição do mundo; intensificou o peso do exército e forças repressivas na vida nacional.

As armas com as quais a burguesia realiza violentos tumultos e golpes de Estado, como na Bolívia, foram preservadas, desenvolvidas e fortalecidas pelo chamado progressismo. Na Bolívia, esse mesmo progressismo foi dominado pelos instrumentos da burguesia com os quais governava, e os mais afetados foram as forças operárias e populares, que fazem frente à situação. Desta forma, a burguesia muda de rumo em função da crise económica que já se vislumbra, e envolve as décadas de progressismo no seu objetivo de lhe impor a sucessão de outra gestão capitalista de claras orientações reacionárias. Limitar-se à luta antineoliberal ou à existência de governos "contrários ao neoliberalismo" é entrar no terreno político favorável à burguesia.

Perante os acontecimentos na Bolívia, os povos latino-americanos devem retirar as pertinentes lições. A pretensão de fazer profundas e radicais mudanças conservando o Estado burguês enfrenta a crua realidade de que, no final, a burguesia impõe a última palavra, pelos meios que considera convenientes.

O caminho das reformas não favorece a acumulação de forças na direção de qualitativos saltos revolucionários e, pior, pode desmobilizar as forças populares, o que facilita o caminho a ofensivas conservadoras e reacionárias da gestão capitalista. Ir contra o neoliberalismo sem ir contra o capitalismo é manter intacta a base dos problemas contemporâneos dos trabalhadores e dos povos.

Proletários de todos os países, uni-vos!

Comissão Política do Comité Central do PCM

Ver também:

 

[*] Partido Comunista do México

O original encontra-se em www.comunistas-mexicanos.org/partido-comunista-de-mexico
e a tradução em pelosocialismo.blogs.sapo.pt/condenamos-o-golpe-de-estado-na-bolivia-80876

 

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/bolivia/declaracao_pcm_15nov19.html

Tantas lições

el pueblo unido

A América Latina é, com as revoluções mexicana (1917) e cubana (1959), a Unidade Popular chilena (1970-73) ou o sandinismo (1979), um laboratório de experiências políticas com mais impacto mundial do que se julga. A grande viragem progressista, que irrompeu com Chávez (1998) e se alastrou com os movimentos emancipadores de Rafael Correa (Equador) e Evo Morales (Bolívia) e com as vitórias eleitorais contra as receitas do FMI (Lula, os Kirchner, Pepe Mujica), constituiu a primeira grande vaga de contestação global ao neoliberalismo que começou a devastar os direitos sociais a partir do fim dos anos 1970 (...) O regresso em força dos movimentos sociais, persistentes e corajosos como em poucos lugares do mundo, no Equador e no Chile (onde a democratização não tocou no neoliberalismo económico herdado da ditadura), o esvaziamento de Guaidó na Venezuela e o regresso do kirchnerismo dão razão a Álvaro García Linera, o vice-presidente boloviano que agora se exilou no México: “Lutar, vencer, cair. Levantarmo-nos, lutar, vencer, cair, levantarmo-nos. Até que se nos acabe a vida.”  Excertos do excelente artigo de Manuel Loff no Público. Toda uma lição: nunca se desiste, de facto. Acrescentaria apenas a importância na América Latina de uma cultura política nacionalista, de matriz anti-imperialista, à esquerda. Nacionalismos há muitos, como todos têm a obrigação de saber. Esta resiliente cultura política valoriza ainda hoje o cruzamento entre a questão nacional, a da independência política e do projecto de desenvolvimento que lhe poder dar densidade material, e a social, a do combate às desigualdades; uma consciência social nacional-popular que implica toda uma economia política e que não é incompatível, antes pelo contrário, com as formas mais consequentes de reconhecimento do pluralismo nacional e de internacionalismo, outra lições de um continente no seu melhor. Independentemente da conjuntura mais ou menos favorável, esta cultura tem lições a dar a certas e determinadas esquerdas europeias, as que, com maior ou menor força eleitoral, estão intelectualmente debilitadas por décadas de colonização pelo euro-liberalismo, o que levou sectores dominantes, particularmente entre a intelectualidade, a abandonar qualquer veleidade nacional-popular. Do ponto de vista das consequências políticas nocivas deste estado de coisas, basta pensar, e este é só um exemplo nacional, entre tantos outros mais ou menos graves, como hoje em dia governantes socialistas portugueses justificam projectos extractivistas em nome da retórica de uma indústria europeia e apoiada pela Comissão Europeia. Pense-se o que se quiser na questão do lítio, mas todos temos a obrigação realista de saber que esta retórica governamental não augura mesmo nada de bom para os interesses dos que vivem e dos que querem voltar a viver neste rectângulo. Trata-se do problema de termos uma esquerda que se imagina, a grande ilusão, no centro europeu e cujo projecto político dominante ainda é o de procurar, a grande contradição nos termos, democratizar as encarnações continentais do imperialismo, das instituições supranacionais que estão ao serviço do capital financeiro oriundo dos países do centro e que tem ramificações nos países da periferia europeia. É claro que o imperialismo é variegado. Por exemplo, o golpe de estado financeiro ainda basta deste lado quando há problemas potenciais, como se viu numa Grécia desarmada...

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

“Claramente o que aconteceu na Bolívia foi golpe”

Nesta entrevista, o ex-presidente do Equador, Rafael Correa, falou sobre o golpe contra Evo Morales na Bolívia e a resistência em massa ao seu sucessor Lenín Moreno, no Equador.

 

 

Entrevista de Rafael Correa a Nicolas Allen

Rafael Correa, presidente do Equador de 2007 a 2017, está entre os maiores líderes da Maré Rosa na América do Sul. Ele chegou ao poder em uma terra devastada pela pobreza e prejudicada por programas de austeridade e privatização, e liderou a transformação do Equador – o salário mínimo mais que dobrou, bilhões foram investidos em saúde e a pobreza foi reduzida pela metade. Sua história não é diferente do recentemente deposto Evo Morales, que não apenas foi o primeiro presidente indígena da Bolívia, mas o mais bem-sucedido.

Nicolas Allen: Vamos começar com a Bolívia, a questão mais urgente. Como você entende o que está acontecendo lá?

Rafael Correa: Quando a polícia está se revoltando e os militares “sugerem” que o presidente renuncie, é claramente um golpe de estado. No Brasil, Argentina ou China, chamaríamos isso de golpe, mas algumas pessoas não gostam de chamar as coisas pelos nomes reais. Sim, o Presidente Morales renunciou. Mas se alguém segura uma arma na sua cabeça e diz educadamente: “me dê sua carteira”, e você a entrega, isso significa que não foi roubo, mas foi acordado por consentimento mútuo? Claramente, o que aconteceu na Bolívia foi um golpe.

Assim como as forças armadas, as forças de segurança interna e alguns setores da sociedade boliviana, parece que a Organização dos Estados Americanos (OEA) também foi um fator nesse golpe.

Os países da OEA seguem a linha dos EUA e geralmente agem em conjunto. Vimos como a OEA reagiu não apenas à crise boliviana, mas também à do Equador. Quando o povo equatoriano se levantou contra as traições do presidente Lenín Moreno, insistindo na necessidade de eleições antecipadas (como a constituição permite em tempos de crise), a OEA declarou que Moreno deve concluir seu mandato de quatro anos.

Preferia mortes, ferimentos e prisões a uma votação que Moreno claramente teria perdido, como o servo de Washington que é. O secretário-geral da OEA, Luis Almagro, foi ao Equador para parabenizar Moreno por seu espírito democrático, assim como nos roubava a democracia. Mas a OEA não disse que Morales deveria terminar seu mandato. Como podemos explicar um padrão tão duplo?

A América Latina deve refletir sobre o papel da OEA. Não há dúvida de que Washington exerce um peso hegemônico predominante na OEA, e obviamente Almagro é um porta-voz de Washington. Não me considere um anti-gringo, eu amo profundamente os Estados Unidos – morei lá por quatro anos e sou formado em duas universidades estadunidenses. Mas devo dizer que a OEA atua como um cão de guarda leal, como o ministério colonial dos Estados Unidos. Não passa de um instrumento para defender os interesses dos EUA e demonstrou isso muito claramente durante a crise boliviana.

É trágico que o governo de Evo Morales foi derrotado assim. Como você avalia o governo dele – é um modelo para a região?

Claro, é algo extraordinário. Como era a Bolívia antes de Evo Morales? O que esse governo conseguiu é impressionante – ele tinha alguns dos melhores indicadores macroeconômicos do planeta. Tirou um terço da população da pobreza, reduziu radicalmente o analfabetismo e teve uma das menores taxas de desemprego da região.

Mas aqueles que derrubaram Morales acreditam na prosperidade para alguns e não para todos. Se você oferecer à nossa elite a chance de ser mais próspera, mas igual a todos os outros, eles dirão que não. O poder deles se baseia na desigualdade – é assim que eles nos dominam e garantem seu próprio bem-estar.

Isso é difícil de entender porque tendemos a comparar a América Latina contemporânea com os Estados Unidos contemporâneos; mas faria mais sentido comparar nossa situação com a era da escravidão nos Estados Unidos, quando Abraham Lincoln teve que enfrentar uma guerra civil para abolir a escravidão, quando os estados confederados se separaram.

Quando Lincoln foi morto, John Wilkes Booth gritou: “Sic semper tyrannis!” Para os proprietários de escravos, Lincoln era um tirano – e as coisas são as mesmas aqui hoje. Eles querem um tipo de exclusão que mantenha a pobreza e mantenha a América do Sul como o continente mais desigual do planeta. Quando eles falam sobre liberdade, só querem direitos para si mesmos. E farão o possível para isso.

Foi o que aconteceu na Bolívia. Os indicadores econômicos, o progresso, a prosperidade, a igualdade foram espetaculares. Mas as suposições da elite boliviana são profundamente racistas. Que um índio fez tudo isso e concedeu direitos aos mais pobres, àqueles com pele escura, aos indígenas (ou como eles os chamam, os cholos) – tudo isso é inaceitável para eles. Então, usam seus meios de comunicação para atacar Morales e estimular os verdadeiros poderes da sociedade, como as forças armadas.

Como você diz, em muitos países – do Brasil à Argentina e Equador – tornou-se comum falar de figuras populares como Evo Morales como “tiranos”, cinicamente empregando uma retórica democrática. Nesse sentido, o golpe na Bolívia hoje não é o mesmo da década de 1970 – fala a linguagem da democracia, do estado de direito, do combate à corrupção, às vezes até ouvimos o termo “lei”. Como você leu a estratégia do direito “democrático” ao nível regional?

Primeiro, as elites latino-americanas não acreditam em democracia. A democracia está bem desde que se alinhe aos seus interesses, mas quando há o risco de algo mudar, eles farão de tudo para combatê-la. Eles também não acreditam na igualdade. Algumas das elites que aplaudem o golpe podem até ter sido simpáticas a um presidente que queria criar melhores escolas para os filhos de seus servos. Mas eles também poderiam assassinar esse mesmo presidente se ele tentasse criar escolas para essas crianças iguais às das elites.

Segundo, os governos dos EUA acreditam na democracia em casa, mas também pensam que precisam substituir governos estrangeiros se não se alinharem à política externa dos EUA. Mesmo que esses governos sejam ainda mais democráticos do que os próprios Estados Unidos, eles precisam ser substituídos por ditadores sangrentos. É assim que as coisas eram na década de 1970.

Hoje, esses tipos de ditadura não são mais possíveis na América do Sul. Foi possível em Honduras em 2009, mas é mais difícil em outros lugares. Portanto, existem novas estratégias – os chamados golpes fracos que exploram a insatisfação popular para tentar desestabilizar os governos. Mas na Bolívia, vimos um golpe que envolveu a força armada insurgente, os distúrbios da polícia e o comando do exército sugerindo a renúncia de um presidente eleito democraticamente.

Foi com isso que tivemos que lidar durante os últimos anos de mudanças históricas na América Latina, onde vimos uma série de governos progressistas que não se alinharam às políticas dos EUA. Washington tomou estes últimos como inimigos – e os desestabilizou, cada vez mais descaradamente. Quando não pode fazer isso, por causa do apoio popular, tenta liquidá-los por meio da lei. Essa criminalização da política explica o que aconteceu com Lula, com Cristina Kirchner na Argentina e com meu vice-presidente Jorge Glas. Tais coisas são impossíveis em um estado baseado no Estado de direito, mas elas são boas quando são usadas contra líderes de esquerda.

Evo Morales buscou asilo no México. Você acha que seria possível ele pedir asilo no Equador?

Há vários desequilíbrios aqui – a influência dos EUA, o bloqueio da Venezuela, a [entrega do governo equatoriano] de Julian Assange e a concessão de uma nova base militar americana nas Ilhas Galápagos. Gostaria de receber uma base militar dos EUA em Manta se eles derem ao Equador uma base militar em Miami. Mas ainda não tive resposta a esta proposta.

Pessoas como Lenín Moreno nos perseguem e tentam nos aniquilar como povos, juntamente com nossa reputação, acusando-nos de corrupção e repressão. Criam mitos políticos tentando eliminar nossos movimentos políticos, sabendo que somos a principal força eleitoral.

Como Evo Morales poderia se arriscar a ir para o Equador, mesmo que temporariamente, quando Lenín Moreno é tão dependente dos Estados Unidos que nem sequer permite que Morales atravesse o espaço aéreo equatoriano? Ele fez isso para demonstrar sua submissão a Donald Trump, mas acho que até Trump vai rir de um subordinado como Moreno. Felizmente, López Obrador está lá no México e abriu as portas para Morales, seguindo sua tradição de quase um século de respeito aos direitos humanos.

O Equador agora tem uma paz tensa, após as recentes revoltas contra as políticas neoliberais de Moreno e os cortes nos subsídios do governo. Como você vê a situação atual, depois dos acordos do governo com vários setores sociais?

Isso não é paz, mas pacificação. A paz é baseada na verdade e na justiça. Este governo está mantendo o controle através do terror, por medo de que eu ganhe. Quando você diz que há diálogo com algumas forças políticas que participaram dos protestos, o fato é que o principal grupo envolvido no diálogo foi a CONAIE [Confederação Indígena]. Mas a liderança da CONAIE sempre apoiou o governo, então isso era apenas pantomima. Eles não eram apenas simpatizantes – tinham ministros do governo. Mas uma vez que o governo foi enfraquecido, as bases se rebelaram e dominaram a liderança.

Uma coisa boa de nossa constituição é que você pode evitar o caos antecipando as eleições, como uma válvula de segurança. Assim, o governo concordou em dialogar para revogar certas medidas. Tudo isso só aconteceu depois que onze pessoas morreram, juntamente com 1.300 feridos, 1.200 detidos e os maiores protestos em nossa história contemporânea. Vimos a repressão mais brutal que podemos lembrar desde a ditadura militar, se não muito pior. E, no entanto, o governo quer agir como se o aumento dos preços dos combustíveis fosse o único problema.

Há pouco tempo, conheci um consultor industrial da CONAIE, Paco Dávalo, que disse que o governo cairia na segunda-feira seguinte. Mas no domingo, a CONAIE decidiu entrar em diálogo com o governo, para que eu não tivesse a chance de exigir que o governo se demitisse. Eles só concordaram em negociar e revogar os aumentos de preços após muita dor e morte. Isso enfureceu grande parte da base indígena, bem como as pessoas em geral. Esta é uma bomba-relógio, especialmente se eles levarem adiante o acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI). As pessoas exigiram que o FMI saísse, que Moreno saísse, que os ministérios da Defesa e do Interior saíssem. Mas o acordo com a FMI exige que Moreno libere os preços dos combustíveis, que aumente o IVA e tome outras medidas que poderiam ser o detonador de novos protestos.

O seu partido, Revolução Cidadã, pode recuperar um papel na política institucional?

Nas últimas eleições, vimos que somos a maior força política do país – tivemos a maior votação popular, apesar de não podermos lançar candidatos em todas as províncias. Tivemos que nos unir a uma nova aliança política porque nosso histórico foi roubado. Mesmo cinco dias antes das eleições, ainda não tínhamos permissão para registrar um novo partido e, mesmo depois, muitas pessoas não sabiam que nosso projeto político Revolução Cidadã participou do Compromisso Social – Lista Eleitoral 5.

Mas nas três províncias mais populosas, chegamos ao segundo lugar numa e primeiro lugar nas outras duas. Portanto, temos muitos apoiadores e essas dificuldades não nos impedem de participar. Por esse motivo, eles emitiram liminares e ordens de prisão para que eu não possa retornar ao meu país. Eu mantive meus direitos políticos intactos e poderia concorrer a vice-presidente mais adiante, mas eles não vão permitir. Se isso fosse uma democracia real, se eles cumprissem as regras, o campo estaria aberto para voltarmos ao poder.

O mapa político continental está tremendo, por exemplo, no Brasil,e também no Chile. O que você acha da rebelião popular lá?

Há esperança. O povo chileno se levantou, mas também sinto muita dor pela tragédia que sofreu e pelo custo em vidas humanas. Sinto pelo estudante de psicologia Gustavo Gatica, de 21 anos, que perdeu a visão nos dois olhos quando um policial atirou nele, na cara. Eles o cegaram – e quando penso nisso, é difícil para mim dormir. Eu ofereço minha total solidariedade.

Essa dor também é a base da esperança para o povo chileno – e surgiu não apenas contra um aumento de trinta pesos na tarifa do metrô, mas contra mais de trinta anos de exclusão. Eles estão derrubando um modelo econômico e político “bem-sucedido” que realmente nunca o foi. De fato, o Uruguai teve mais sucesso, mas somente depois de dez anos de um governo de esquerda – e isso não serve para fins de propaganda [da direita]. O Chile tem a maior renda per capita na região, mas também é a mais desigual. A realidade é completamente diferente do que dizem os indicadores do [PIB].

Diante de tanta injustiça e exclusão, as pessoas se rebelaram. Não sei qual será a solução. Infelizmente, o Chile ainda opera sob a constituição de 1983, escrita sob Augusto Pinochet. Muitas pessoas estão propondo uma assembléia constituinte. O que está claro é que o Chile nunca mais será o mesmo.

E há outros sinais de esperança também. Por exemplo, a libertação de Lula foi uma ótima notícia, assim como a vitória de Alberto Fernandez na Argentina e a popularidade de outros líderes de esquerda. No Brasil, a popularidade de Bolsonaro é destruída – se Lula fosse candidato, ele seria presidente. Eles roubaram sua liberdade, mas também roubaram o Brasil da democracia.

A outra boa notícia é o acordo governamental na Espanha – um país muito importante para a América Latina. Uma coalizão progressista entre o PSOE e a Esquerda Unida vai formar um governo progressista bem familiarizado com a América Latina, especialmente graças ao Podemos. A Espanha e a Europa terão que prestar mais atenção à América Latina e isso será um fator importante na prevenção de tantos abusos, tantas leis, tantos colapsos constitucionais, tantos golpes de Estado.

Acredito que haja momentos de esperança, mas, infelizmente, existem avanços e retrocessos. Lembre-se, Evo venceu a eleição – a única discussão é sobre quanto ele ganhou. Há um relatório da OEA que diz que houve irregularidades, mas nenhuma fraude. Portanto, este não foi o verdadeiro gatilho para tanta violência e para a remoção de Morales. Os Estados Unidos estavam por trás disso.

A América Latina deve perceber que não podemos mais realizar nada com a OEA – precisamos de nosso próprio espaço para discutir nossos problemas com os Estados Unidos e o Canadá, mas devemos fazê-lo em um bloco em que possamos nos encontrar para resolver conflitos e tomar decisões . Esse espaço real, esse fórum sério, é a Comunidade dos Estados da América Latina e do Caribe, CELAC.

O fato de Lula ser livre, pelo menos por enquanto, levanta a perspectiva de uma reconfiguração da CELAC e de passos em direção à unidade regional…

Sim, os conservadores podem lançar obstáculos, mas não podem mudar o curso da história. No final dos anos 80, eles impuseram o neoliberalismo e o Consenso de Washington sobre nós, mas os latino-americanos nunca o aceitaram. Nós, os governos progressistas, saímos de uma década perdida, uma década de administração da crise da dívida. Se compararmos 2002–2014 àqueles tempos, era a idade de ouro da América Latina. Nunca vimos tanto crescimento ou tanta redução da pobreza.

Também tivemos crescimento nas décadas de 1960 e 1970. Mas não de uma maneira tão saudável, com a desigualdade e a pobreza em queda e uma presença crescente nos assuntos internacionais. No [período de 2002-14], fomos amplamente admirados – noventa milhões de latino-americanos foram retirados da pobreza, principalmente por causa das políticas de governos progressistas. Depois de dez anos, quatorze anos no poder, eles sempre conseguem encontrar uma vírgula equivocada e dizer: “veja, há corrupção” e enganar as pessoas. Dizem que tudo deu errado e que poderiam fazer melhor. Mas vieram nos denegrir, não para melhorar a situação. E depois de seis meses ou um ano no poder, não alcançaram nada melhor. As pessoas agora percebem que estavam melhor antes. Você não pode mais enganar todas as pessoas o tempo todo. Os conservadores precisam se comparar aos nossos resultados.

Veja o que está acontecendo na Argentina ou pense no que teria acontecido no Brasil se Lula fosse candidato. Veja o que aconteceu na Bolívia: Evo obteve 48% dos votos. Ou olhe para mim no Equador – eles têm que me perseguir porque eu os venceria em qualquer eleição. As pessoas estão connosco. Portanto, eles podem continuar atrasando o curso da história, mas não poderão alterá-lo.

É difícil falar em termos macro, mas hoje uma interpretação sustenta que o neoliberalismo é fraco e que suas garras têm uma influência mais fraca na região. Seja nas ruas e nas urnas, há um questionamento mais aberto das coisas. O que você acha desse argumento?

Há algum tempo, as pessoas começam a perceber como foram enganadas. Por exemplo, no Equador, os impostos e tarifas foram reduzidos para melhorar as fontes externas de financiamento dos bancos, mas os recursos disponíveis para bancos públicos, previdência social e banco central foram cortados. O governo Lenín Moreno restabeleceu alguns subsídios que removemos porque eram ineficazes – mas o fizeram apenas para dizer que são humanitários e eu não.

Mesmo aqueles que acreditam politicamente no neoliberalismo precisam dizer que essa é uma maneira inadequada de instalá-lo na América Latina. O neoliberalismo deve se basear no livre mercado, mas é necessária uma série de condições para que o mercado livre funcione com eficiência, o que é especialmente implausível no contexto latino-americano. Acima de tudo, entre as enormes desigualdades, há falta de concorrência. A igualdade de condições em que o neoliberalismo deve funcionar é precisamente o que nos falta na América Latina.

Alguém poderia dizer: “Sim, acredito no neoliberalismo”. Mas, primeiro, precisamos gerar condições iguais em educação, saúde, universidade e treinamento técnico. E essas coisas devem vir do estado.

Conceitualmente, é isso que o neoliberalismo exige. Mas quando se trata de implementação, eles são neoliberais crioulos – ou seja, são neoliberais apenas quando lhes convém. Quando vencem, privatizam os lucros e, quando perdem, socializam as perdas. Dizem que tudo é culpa do governo, que temos neoliberalismo, mas está infectado com grandes doses de corrupção. Mas, de fato, estão usando o poder político para beneficiar certos grupos sob o disfarce da concorrência. É o que Lenín Moreno está fazendo no Equador: cortando impostos para grupos poderosos e importadores e aumentando os preços dos combustíveis que prejudicam todo o povo equatoriano.

No Brasil, sob Bolsonaro, vemos a ascensão de uma extrema direita mais cruel, como acontece com Camacho na Bolívia. Há também uma incipiente extrema direita no Equador e na Argentina. Como devemos entender esse fenômeno?

Acho que a extrema direita sempre esteve lá, mas teve que se esconder porque essas pessoas perderam poder. Mas agora voltaram com sede de vingança. Usam uma retórica brutal e grosseira e bombardeiam a mídia com ela – afinal, a mídia pertence a eles também.

As pessoas aceitam isso por um tempo, pelo menos, porque parece uma solução. Por exemplo, Bolsonaro enfatizou a questão da insegurança. No entanto, a questão da segurança foi um grande tema levantado pela esquerda, porque a única maneira de combatê-la é com o desenvolvimento humano, não dando armas maiores à polícia.

Na Bolívia, Camacho – que era, aliás, um desconhecido como Bolsonaro, um fundamentalista religioso de extrema direita – é supostamente um defensor da democracia. Mas ele se opõe a novas eleições porque sabe que Evo vencerá. As elites não suportam o fato de um presidente indígena ter feito mais pela Bolívia em treze anos do que em mais de um século. Eles são tremendamente racistas. Estão se mostrando pelo que são, porque agora enfrentam uma batalha pelo poder, enquanto antes não precisavam lutar por isso.

Parece-me que há uma questão importante aqui sobre militarização e o papel do exército na América Latina pós-ditadura.

Nossas nações, nossas repúblicas, nasceram de origens militares – seus primeiros líderes e presidentes foram os oficiais que lutaram pela independência à frente dos exércitos. Desde o início, houve uma forte presença das forças armadas.

Isso ajuda a explicar por que a América Latina implodiu. Desde a independência, as mesmas divisões políticas e administrativas foram mantidas, para o bem ou para o mal, que existiam durante o Vice-reinado colonial de Nova Granada, as Províncias Unidas do Sul e as Províncias da América Central. Mas todo líder militar queria seu próprio país.

Infelizmente, o poder excessivo das forças armadas permaneceu – e continua sendo uma ameaça ao poder político. É difícil enfrentá-lo, porque os militares se tornam árbitros da democracia, retirando ou concedendo seu apoio. Se você não tem o apoio das forças armadas e tem uma democracia imatura com uma oligarquia, as elites fascistas podem fazer todo o tipo com você.

No Equador, é por isso que os oficiais militares de mais alto escalão se opuseram a mim, criando uma lei de segurança especial para os cidadãos. Eles receberam pagamentos de US $ 5.000 pagos por soldados de nível inferior, para que os policiais pudessem ter um supermercado especial com brinquedos para o Natal e tudo mais. Eles ainda tinham um cronograma para as diferentes fileiras: segunda-feira era para os comandantes e os coronéis, suas esposas e famílias, etc. Terça-feira era para tenentes-coronéis e outros oficiais seniores, e assim por diante. Os soldados foram no sábado e até então não havia mais nada. Eles tinham salários miseráveis, mas instilavam uma mentalidade paternalista. O filho de cinco anos de um general está convencido de que ele é superior porque recebe um brinquedo elétrico de presente. Os militares tinham seu próprio sistema educacional, seu próprio sistema financeiro e habitacional, seu próprio sistema industrial. Eles tinham sua própria república separada. Quando se aposentam (geralmente muito cedo), ingressam nas reservas, com pensões astronômicas. Qual é o sentido disso?

É muito difícil quando você luta contra isso – eles têm armas, poder e muito pouco sentimento democrático. Mas se queremos ter repúblicas genuínas e verdadeira democracia, não podemos continuar suportando o peso excessivo das forças armadas.

Quero perguntar sobre corrupção, que está relacionada à questão da lei que você mencionou anteriormente. Como podemos resolver esta questão da esquerda?

Infelizmente, a corrupção é socialmente aceita – os psicólogos cham

+am de dissonância cognitiva. Uma coisa é expressar seus valores em oposição à corrupção e outra é praticá-los. Todo mundo tolera.

A corrupção é uma pandemia na América Latina. Toleramos a corrupção, e quando você a combate, encontra combinações e contas secretas em Andorra, e precisa combater os paraísos fiscais. Proibimos paraísos fiscais para funcionários públicos.

Mas “anticorrupção” é uma estratégia perversa e persistente, como a lei. Não matam você como nos anos 70, mas matam sua reputação falando sobre corrupção.

Se você quiser encontrar algo errado em um governo de dez anos, poderá – seja uma multa extraviada ou outra coisa à qual queira chamar atenção. Governos livres de corrupção só existem nos Estados Unidos. Há corrupção na Espanha, na Alemanha, no Vaticano. Meus governos não toleraram corrupção. Mas, com o controle da mídia, as elites podem explorar os casos que inevitavelmente surgem. E se o culpado está no QG do governo ou em um ministério, a mídia culpará o presidente.

Eles provocaram um escândalo ao meu redor, analisando minhas viagens, todos os meus e-mails, meus computadores e tudo mais, mas não encontraram nada. Mas continuaram repetindo que o presidente é corrupto ou que ele tolerou a corrupção, mesmo que a tenhamos erradicado. O mesmo pode ser dito sobre Lula, Cristina ou Evo Morales.

Com o tempo, as pessoas perceberam que houve mais corrupção nos últimos dois anos do que no meu governo nos últimos dez anos. Mas, a princípio, essas acusações desmoralizam até nossos próprios ativistas. Diante da corrupção, os ativistas se distanciam por um tempo, tornam-se inativos, desmoralizados. Mas eles se recuperam com o tempo, mesmo que tenham sofrido algum dano.


entrevista de Rafael Correa, foi presidente do Equador de 2007 a 2017 a Nicolas Allen é doutorando em literatura na Universidade de Buenos Aires  |  Texto em português do Brasil, com tradução de José Carlos Ruy

Exclusivo Editorial PV (Fonte: Jacobin)/ Tornado


 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/claramente-o-que-aconteceu-na-bolivia-foi-golpe/

O lítio rende prémios Nobel e muito dinheiro, mas a que custo?

 Três cientistas que estabeleceram marcos no desenvolvimento de baterias de lítio ganharam o Prémio Nobel de Química em 2019. Eles vêm de países que industrializam o mineral exportado (principalmente) da América do Sul, onde estão 85% das reservas mundiais. Sputnik explica como o negócio funciona no Chile, o principal produtor mundial.

Há quem imagine uma sociedade sem fios para a comunicação e livre de combustíveis fósseis. As baterias de iões de lítio mudaram substancialmente as tecnologias de comunicação e significaram uma metamorfose na maneira como comunicamos. Também tiveram um forte impacto no transporte e na electrificação rural.

No entanto, o que não mudou foi a política de extracção que prevalece na América do Sul, onde parece que a mineração e o desenvolvimento tecnológico não são compatíveis. Argentina, Bolívia e Chile são mundialmente conhecidos pela sua salmoura rica, da qual o lítio é extraído, estes países compõem o "Triângulo de Lítio", mas exportam a matéria-prima sem a industrializar.

O lítio é obtido através de um processo de evaporação. "As salmouras presentes sob a superfície do sal são extraídas em poços de bombagem e depois transportadas para grandes piscinas de evaporação para obter os sais. Através de um processo químico, o carbonato de lítio é obtido", explicou a Sputnik Gabriela Burdiles, directora de projectos da ONG chilena FIMA.

O Chile, líder na extracção, acredita que, para manter a sua primeira posição, deve aumentar a quantidade de toneladas de lítio que exporta, e não agregar valor. Segundo o estudo La economía política de la explotación de litio en Chile: 1980-2018 – publicado em 2018 no Journal No. 34 de Ciências Sociais da Universidade de Quilmes, Argentina –, tal acontece em parte devido à sólida estrutura política e social, tecnológica e produtiva que a elite instalou no país.

AS CHAVES DO NEGÓCIO

Pre Embora no Chile o lítio seja considerado "mineral estratégico" e – em teoria – os depósitos pertençam ao Estado, os privados têm as concessões de exploração e eles próprios realizam os estudos de viabilidade exigidos pelo Estado para conceder as licenças. Os lucros que obtêm são desconhecidos.

No entanto, sabe-se que em 2016 o Chile exportou 201 310 toneladas do mineral e seus componentes, 38,4% da produção mundial, e que em 2017 as exportações geraram mais de 700 milhões de dólares. No ano seguinte, as exportações de lítio totalizaram 948 milhões de dólares, segundo América Economia. Duas empresas instaladas no norte do Chile possuem o monopólio, a Sociedade Química e Minera (SQM) e a Rockwood-Albemarle.

Os autores do estudo garantem que os capitais da indústria de mineração de lítio no Chile funcionam como "enxertia" nas economias dos territórios onde estão instaladas, limitando o seu desenvolvimento, sendo geralmente prejudiciais.

As externalidades negativas que geram são diversas:

  • esgotamento progressivo das reservas de água;
  • divisão interna dos povos nativos, forçados a negociar privilégios com as empresas no seu próprio território;
  • destruição e poluição dos ecossistemas;
  • quando as empresas se instalam, importam os bens e serviços necessários para operar (como máquinas e serviços técnicos), a mão-de-obra que contratam é pouco qualificada;
  • geram uma migração interna de trabalhadores, com jornadas de trabalho que não podem ser consideradas normais;
  • não há reinvestimento no território, o que acentua uma economia não diversificada;
  • também não há investimentos em laboratórios de pesquisa, perpetuando a exploração e exportação de minério não industrializado.

No entanto, o modelo extractivista de enclave de exportação é incentivado pelas elites quer políticas quer empresariais, que em muitos casos são compostas pelas mesmas pessoas.

Eles contam com a estrutura legislativa mais liberal do mundo: no Chile, os trabalhadores não podem negociar condições de trabalho ou salários por sectores produtivos, mas uma empresa pode estar discutir o mesmo aspecto com dois sindicatos, propondo ofertas diferentes.

Entre outras coisas, as empresas não fazem contribuições para pensões de reforma dos trabalhadores; também não está estabelecido um limite quanto ao número de trabalhadores que podem ser subcontratados. Na indústria do cobre, mais de 60% dos trabalhadores têm emprego desta forma.

Este artigo encontra-se em https://resistir.info/ .

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/energia/litio_custos.html

Lições sul-americanas (2)

«Enganou-se quem julgava que, com Trump e Bolsonaro, a vitória das direitas americanas era irreversível. O regresso em força dos movimentos sociais, persistentes e corajosos como em poucos lugares do mundo, no Equador e no Chile (onde a democratização não tocou no neoliberalismo económico herdado da ditadura), o esvaziamento de Guaidó na Venezuela e o regresso do kirchnerismo dão razão a Álvaro García Linera, o vice-presidente boloviano que agora se exilou no México: “Lutar, vencer, cair. Levantarmo-nos, lutar, vencer, cair, levantarmo-nos. Até que se nos acabe a vida.”»
Manuel Loff, in Público, 14/11/2019 
 

Ver original em 'Conversa Avinagrada' (aqui)

América Latina: a lição da resistência

(Manuel Loff, in Público, 14/11/2019)

Manuel Loff

 

A América Latina é, com as revoluções mexicana (1917) e cubana (1959), a Unidade Popular chilena (1970-73) ou o sandinismo (1979), um laboratório de experiências políticas com mais impacto mundial do que se julga. A grande viragem progressista, que irrompeu com Chávez (1998) e se alastrou com os movimentos emancipadores de Rafael Correa (Equador) e Evo Morales (Bolívia) e com as vitórias eleitorais contra as receitas do FMI (Lula, os Kirchner, Pepe Mujica), constituiu a primeira grande vaga de contestação global ao neoliberalismo que começou a devastar os direitos sociais a partir do fim dos anos 1970.

Os latino-americanos têm dado lições ao mundo sobre a emancipação camponesa e a batalha pela terra, que hoje, finalmente, se começa a perceber ser uma batalha pela salvação da natureza; sobre a emancipação das mulheres e das minorias LGBTI num subcontinente onde a violência de género tem sido mais combatida do que em qualquer outro; sobre a luta anticolonial contra a dominação económica, sustentada sobre o preconceito racista e a crueldade social das burguesias de origem europeia. A origem popular de Lula ou Mujica, que Chávez e Correa sejam mestiços e que Evo Morales seja um uru-aimará, são argumentos centrais no ataque a todos eles e nas caricaturas que deles fazem os media e as direitas de todo o mundo. O racismo nauseabundo e o fundamentalismo religioso de Bolsonaro ou do novo líder da extrema-direita boliviana, Luis Fernando Camacho, garantem a ambos um lugar de destaque como símbolos acabados da burguesia branca latino-americana.

Depois de terem desencadeado e coordenado nos anos 1970 a batalha pelo extermínio físico e político das esquerdas revolucionárias, fomentando por todo o lado ditaduras de militares e ricos empresários, os EUA, julgando-a definitivamente vencida, passaram nos anos 1980 a permitir que se aliviasse a repressão e que os militares se retirassem com a condição de que os seus sucessores prosseguissem extensão à América Latina das políticas neoliberais já adotadas pelas direitas e a social-democracia dos países ricos. Esta fórmula democratização + privatização generalizada + aumento da desigualdade entrou em crise no final do século passado e abriu caminho à vaga progressista, que, por sua vez, entrou em crise a partir de 2015.

Não é que quem sempre mandou nas repúblicas americanas desde há 200 anos tivesse aceitado algum dos projetos de mudança socioeconómica, que, apesar de todas as suas hesitações (raramente se renacionalizou algum dos avultadíssimos recursos privatizados nos anos 1990; grandes multinacionais americanas, europeias, agora também asiáticas, continuaram a operar livremente), trouxeram melhorias consistentes ao nível de vida dos mais pobres e um reconhecimento constitucional da plurinacionalidade de Estados historicamente construídos sobre o genocídio dos povos ameríndios (Venezuela, Bolívia, Equador, mas não no Brasil, ou no Chile). Também na radicalização das direitas, a América Latina foi pioneira. Acrescentou-se sabotagem económica e corrupção a modelos de produção não reformados; em sociedades em que a violência é um recurso permanente, juntou-se-a a processos de contestação social. Direitas abertamente saudosas das ditaduras do passado recente passaram a denunciar o “autoritarismo” e o “populismo” dos governos progressistas ou a “ditadura cultural marxista” que estaria na agenda destes. Para os derrubar, têm usado sobretudo meios “institucionais”: Manuel Zelaya nas Honduras (2009), Fernando Lugo no Paraguai (2012) e Dilma Rousseff no Brasil (2016). Pela via eleitoral, ganharam apenas na Argentina (Macri, 2015) — e acabam de voltar a perder; e no Brasil, mas só depois de prenderem Lula. Como acaba de se demonstrar na Bolívia (e em 2002 contra Chávez), nunca perderam o velho tique do golpe militar.

Enganou-se quem julgava que, com Trump e Bolsonaro, a vitória das direitas americanas era irreversível. O regresso em força dos movimentos sociais, persistentes e corajosos como em poucos lugares do mundo, no Equador e no Chile (onde a democratização não tocou no neoliberalismo económico herdado da ditadura), o esvaziamento de Guaidó na Venezuela e o regresso do kirchnerismo dão razão a Álvaro García Linera, o vice-presidente boloviano que agora se exilou no México:

“Lutar, vencer, cair. Levantarmo-nos, lutar, vencer, cair, levantarmo-nos. Até que se nos acabe a vida.”

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

América Latina, vítima dos golpes

Dos cinco continentes, a África e a América Latina são as maiores vítimas dos golpes. Na África, quase sempre é sob o comando de franceses, ingleses, japoneses. Na América Latina, é quase sempre pelos americanos, ou seja, ricos massacrando pobres. Aqui, o país mais violentado, com cerca de 193 golpes desde 1825, é a Bolívia. Mas a Venezuela já sofreu 12, o Brasil dez, a Argentina seis.

 

 

Nas recentes décadas, dos 20 países do nosso continente, 13 sucumbiram sob o domínio de ferozes ditaduras militares que no Brasil nos infelicitou por 21 anos, no Chile por 17, no Uruguai por 12 e na Argentina por sete anos. Na maioria desses golpes, a “justificativa” sempre foi “garantir” a democracia, a paz, o progresso, ou impedir o comunismo. Mas o resultado sempre foram barbaridades, como prisões de inocentes, torturas, mortes, banimentos, destruição de patrimônios públicos e privados além de incontroláveis ações terroristas.

Vimos isso de forma clara no Iraque (com a desculpa de destruir armas químicas que nunca existiram) e no Afeganistão, onde os americanos se aliaram ao Al Qaeda de Bin Laden, e na Síria, ao Estado Islâmico.

Aqui no Brasil, assim como na Argentina, no Uruguai, no Chile e outros países, os democratas, as pessoas esclarecidas e honestas, se lembram bem das barbaridades, dos desastres e dos prejuízos causados pelas ditaduras dos militares com apoio das elites, parte da classe média, da mídia e do judiciário.

No mais recente golpe, novamente na Bolívia, a “justificativa” foi “reparar” uma fraude eleitoral de uma eleição ganha no 1º turno – mas uma fraude até agora não comprovada. Mesmo após o eleito declarar que aceitaria nova eleição e até renunciar ao mandato de presidente ainda inconcluso, foi perseguido e, se encontrado, segundo denúncias, seria assassinado, como Pinochet fez com Salvador Allende no Chile.

Na Bolívia, onde até poucos dias reinava a tranquilidade e o progresso, sendo o país da América Latina que apresentava a maior taxa de crescimento do PIB – entre 5 a 4% –, tendo durante os governos Evo Morales, aumentado em nove vezes sua economia, onde a miséria extrema foi reduzida de 78% para 15% e a renda per capita saiu de US$ 900 para US$ 4 mil, hoje reinam o terror e a baderna.

Assim também foi no Brasil, em que, sob os governos Lula, o crescimento do PIB de 1,5% chegou a 7%. Após o golpe, nos governos Temer e agora Bolsonaro, passados quatro anos, o PIB brasileiro não atingiu sequer 1%. Hoje o Brasil enfrenta maior desemprego, mais violência, a perda de direitos trabalhistas, da previdência, das verbas para educação, saúde, e só aumenta o número de miseráveis.

Como se a desgraça fosse pouca, o atual governo promove a maior entrega das riquezas do Brasil em todos os tempos, como os ricos poços de petróleo do pré-sal, esfacela a Petrobras e praticamente todas as empresas do povo brasileiro.

Enfim, a cada dia fica mais claro que os golpes nunca foram para garantir a democracia, a paz ou o progresso – mas, sim, para nos dominar pela força, para nos explorar ainda mais e assaltar nossas riquezas. O objetivo é destruir as possibilidades de crescimento dos países vítimas, torná-los meros fornecedores de matéria-prima e mão de obra barata, para garantir o domínio – no caso, dos EUA – sobre a América Latina e do seu cruel, injusto e moribundo regime capitalista.

 


por Aluisio Arruda, Jornalista, arquiteto e urbanista  |  Texto original em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado

 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/america-latina-vitima-dos-golpes/

A era dos golpes de Estado discretos

Habituada aos golpes de Estado, a América Latina tornou-se, depois do inverno das ditaduras, um laboratório de experimentações políticas à esquerda. Mas, agora, os Estados Unidos e os seus aliados aprenderam a derrubar – ou a tentar derrubar – os governos que os incomodam sem causar demasiado derramamento de sangue.

Miami, 23 de Setembro de 2010. Nas instalações do luxuoso Bankers Club, e sob os auspícios do Instituto Inter-Americano para a Liberdade e a Democracia, o anticastrista radical Carlos Alberto Montaner faz a abertura da conferência «O colapso dos modelos do socialismo do século XXI». Na assembleia vêem-se alguns exilados equatorianos muito conhecidos: Mario Ribadeneira, ex-ministro do governo de Sixto Durán Ballén (1992-1996), durante o apogeu do neoliberalismo em Quito; Roberto Isaías, que fugiu da justiça depois de ter causado a falência fraudulenta do seu banco, o Filanbanco, que era o maior do país; o ex-coronel Mario Pazmino, director do Serviço de Informações do Exército, destituído em 2008 pelo chefe de Estado Rafael Correa devido às ligações um pouco demasiado estreitas que mantinha com a Central Intelligence Agency (CIA).

O orador do dia foi Lucio Gutiérrez, ex-coronel que se tornou presidente do Equador e foi expulso do poder a 20 de Abril de 2005 por uma rebelião popular. Na intervenção denunciou as visões milenaristas e místicas dos socialistas, o seu marxismo em fanicos, o seu perigoso populismo. Previu a chegada de uma nova era de felicidade e de progresso. Desde que, como é evidente, certas condições sejam respeitadas… «Para acabar com o socialismo do século XXI é preciso acabar com Rafael Correa!» Foi dito; foi até gravado. Tal como a explosão de aplausos que veio saudar a intervenção.

Uma semana mais tarde, na noite de 29 para 30 de Setembro de 2012, em Quito, numa das vinte e uma salas do Swissotel, uma reunião dos membros da oposição prolonga-se até às 3 horas da manhã. Às 7 horas, no canal de televisão Ecuavisa, o programa Contacto directo recebe Galo Lara. Perante as câmaras, este dirigente do partido Sociedade Patriótica (SP) evoca a lei de serviço público que a Assembleia Nacional acaba de aprovar. Abrangendo diversas categorias de funcionários públicos, entre os quais os polícias, esta lei acaba com uma série de privilégios: bonificações, prémios pela entrega de medalhas e condecorações, presentes de Natal, etc.

Em contrapartida, a lei concede-lhes outras vantagens, como o pagamento das horas suplementares e o acesso a programas de habitação social. As palavras de Galo Lara sobre a lei estalam como chicotadas: «O presidente Correa arrancou os brinquedos aos filhos dos polícias. É por isso que tem medo de ser linchado! É por isso que está a preparar as malas para sair do país!» Caramba… Também no diário El Universo é publicado um artigo apocalíptico do famoso editorialista Emilio Palacio.

Quando, às 8 horas, Correa é informado de que, para protestar contra a famosa lei, os polícias estão a fazer uma greve de zelo no recinto do regimento Quito, não hesita um segundo, como recorda o seu ministro de então, Gustavo Jalkh: «“É um mal-entendido, eu vou negociar directamente com eles”». Abandonando o palácio presidencial de Carondelet, deslocam-se ambos ao local da greve. A notícia da sua presença percorre a multidão dos oitocentos membros das forças da ordem que ali se amontoam. «Vêm aí os comunistas!»; «Fora os chavistas!» – uma referência, claro, ao presidente venezuelano Hugo Chávez (que iria morrer em 2013).

Misturados com os «chuis» em início de carreira, os instigadores – óculos escuros, intercomunicadores, telemóveis – organizam a barafunda. Entre eles, como não reparar em Fidel Araujo, porta-voz do ex-presidente Gutiérrez e dirigente do SP, o seu partido?… Confusão, insultos… Granadas de gás lacrimogéneo atingem o chefe de Estado. De uma janela no segundo piso, onde um punhado de guarda-costas consegue fazer entrar Correa, o presidente tenta articular um discurso: «Esta lei vai melhorar as vossas condições. Nós temos trabalhado a favor da polícia, lembrem-se de tudo o que nós vos demos!» [1]…

Correa é apupado. Chega a ouvir gritos de «Agarrem-no!», «Matem-no!». Enche-se de coragem, desaperta a gravata e abre o colarinho da camisa num gesto de desafio: «Senhores, se querem matar o presidente, ele está aqui: matem-me, se quiserem! Matem-me, se tiverem coragem, em vez de se esconderem cobardemente na multidão!» Insolência? Imprudência? Pelos contornos espectaculares, o episódio não passa despercebido.

Quatrocentos soldados assumem o controlo do aeroporto Mariscal Sucre de Quito. São também investidos outros espaços: a base da força aérea de Tacunga; a Assembleia Nacional (pela guarda legislativa que devia protegê-la); o porto e os aeroportos de Guayaquil, a capital económica do país. Ali, desde as 9 horas que, misteriosamente advertidos de que as forças da ordem haviam desertado a via pública, bandos de delinquentes partem as montras, saqueiam as lojas, vandalizam as caixas multibanco, aterrorizam os cidadãos.

Tal como aconteceu na Venezuela a 13 de Abril de 2002, aquando do sequestro de Chávez durante a tentativa de golpe de Estado, dezenas de milhares de cidadãos saem à rua em sinal de apoio ao seu dirigente. Em contrapartida, uma parte da chamada oposição democrática coloca condições para o seu apoio. Uma outra, à semelhança do grupo parlamentar Pachakutik – braço político da Confederação das Nacionalidades Indígenas do Equador (Conaie) –, Cléver Jiménez, convida os movimentos indígena e sociais (que não o seguirão) a constituir uma «frente nacional» para exigir o afastamento do presidente.

«Sociedade civil» ou oposição de direita?

Ferido, asfixiado pelos gases lacrimogéneos, Correa é forçado a refugiar-se no hospital da polícia, paredes-meias com o regimento Quito, cercado pelos motins. Aí permanece, bloqueado no terceiro piso, durante mais de dez horas, até que, às 20 horas, o grupo de operações especiais (GOE) do exército e elementos leais do grupo de intervenção e resgate (GIR) da polícia vêm finalmente libertá-lo. Nos emissores de rádio dos polícias colocados no exterior do estabelecimento foram captados os seguintes apelos: «Retirem Correa e façam-no embarcar antes que os chuspangos [militares] cheguem!»; «Matem-no, matem o presidente!». Este acaba por sair no meio de um intenso tiroteio. Um soldado que o protege tomba, mortalmente atingido; um outro, que lhe emprestou o seu colete anti-balas, fica com o pulmão perfurado. No veículo do chefe de Estado vêem-se cinco marcas de balas; dezassete nas viaturas que o escoltaram. Balanço do dia: dez mortos e cerca de trezentos feridos.

Tratou-se da derrapagem de um movimento espontâneo? Desde várias semanas antes, torrentes de mensagens electrónicas e de panfletos inundaram a instituição policial. Tinham em comum a denúncia da famosa lei, cujos termos surgiam deturpados. Na verdade, o que aconteceu foi que certas facções habituadas à impunidade não gostaram da detenção e condenação de membros de uma unidade especializada, o Grupo de Apoio Operacional (GAO), responsáveis por torturas e desaparecimentos. Quanto à comissão da verdade instituída para esclarecer os crimes da repressão na década de 1980 [2], alguns tê-la-iam dispensado de bom grado. A isto deve juntar-se a política social do presidente Correa, a sua proximidade com os governos progressistas da região e a integração do Equador na Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América (ALBA), e o encerramento da base militar americana de Manta. Por baixo do elegante verniz da defesa dos seus interesses, os polícias foram manipulados. Neste 30-S (30 de Setembro), o que estava em causa não era uma simples insubordinação mas, de facto, uma tentativa de golpe de Estado.

«Normalmente, por aconselhamento das suas equipas de segurança, os presidentes não se expõem e ficam enclausurados em Carondelet, onde depressa se vêem encurralados», observa Oscar Bonilla, membro da Comissão 30-S, encarregada de estabelecer a verdade sobre a sublevação. O ministro da Cultura Francisco Velasco completa o seu pensamento: «Com os polícias acantonados nas casernas e com grupos de delinquentes a organizar o caos no exterior e a obrigar os cidadãos a ficar em casa, o cenário torna-se perfeito para que, passados alguns dias de crescimento da rebelião, um grupo de militares, em ligação com deputados da oposição e com os sectores associados aos interesses internacionais, declare um vazio do poder e intervenha, em nome da “governabilidade”». Aqui sabe-se como se comportaram os generais no passado, aquando das rebeliões – populares, estas não violentas – contra os presidentes Abdalá Bucaram (1997), Jamil Mahuad (2000) e Gutiérrez (2005): quando a agitação atingiu o auge, o exército abandonou-os e, para acalmar a situação, deu aval à sua destituição.

Paradoxalmente, o chefe de Estado equatoriano, ao manifestar a mesma temeridade pela qual tantas vezes foi criticado, ao deslocar-se ao regimento Quito e ao pôr a nu a conspiração, acabou por transtornar o cenário previsto – «dar uma saída constitucional à crise» – e salvou a «revolução cidadã».

Isso não impediu que, nos dias seguintes, a oposição e a comunicação social local tenham apresentado uma versão muito particular dos factos: não houve tentativa de golpe de Estado; não houve sequestro; não houve vontade de assassinar o presidente; e o único responsável pela situação é o próprio Correa… No El Universo, um editorial de Emilio Palacio faz mesmo um apelo a que o presidente seja acusado no Tribunal Penal Internacional (TPI) por «crime contra a humanidade», porque «ele ordenou ao exército que abrisse fogo sobre um hospital». O artigo desencadeou um processo judicial do presidente, uma polémica sobre a liberdade de expressão e o exílio de Palacio.

No estrangeiro, a maioria dos jornalistas irá reproduzir todos estes argumentos ou, no melhor dos casos, transmiti-los sem os questionar: «A oposição (…) considera que a imprudência e a arrogância do presidente estão na origem dos excessos», escreve por exemplo o Le Monde, a 12 de Janeiro de 2011.

Este episódio equatoriano só raramente é analisado [3], mas vale a pena determo-nos nele. Com efeito, ele representa um caso exemplar das novas estratégias postas em prática para ejectar do poder um chefe de Estado considerado incómodo. É certo que parece estar longe o tempo em que, na América do Sul, os militares, com a ajuda de Washington, varriam governos constitucionais e resultantes de eleições democráticas. Contudo, desde que uma vaga de dirigentes carismáticos, de esquerda ou de centro-esquerda, chegou ao poder na região mobilizando os desfavorecidos, ou seja, a partir de 1999, que vários golpes de Estado e outras tentativas de desestabilização – umas abortadas, outras concretizadas – tiveram lugar na Venezuela (2002, 2003, 2014), no Haiti (2004), na Bolívia (2008), nas Honduras (2009), no Equador (2010) e no Paraguai (2012). As forças conservadoras aprenderam que, para a opinião pública internacional, os métodos sangrentos acabam por ser contraproducentes e que, pelo menos na América Latina, um «golpe» clássico já não passa. Nesse momento, as técnicas evoluíram.

A acção psicológica, utilizada durante a guerra, desempenha também um grande papel em tempo de paz. No início da década de 1970, o diário chileno El Mercurio preparou activamente o golpe de Estado de 11 de Setembro de 1973 contra Salvador Allende [4]. Mas nessa altura havia, em particular na Europa, publicações progressistas capazes de desmontar e denunciar esta propaganda. Com excepções demasiado raras, já não é assim. Coincidindo com uma adesão geral ao neoliberalismo, bem como à ordem imposta pelos Estados Unidos e pela União Europeia, o surgimento da Internet (onde o melhor caminha ao lado do pior) e a generalização do copiar-colar uniformizaram a informação da chamada comunicação social «ocidental».

Continuando igual a si mesmo no Chile, o El Mercurio teve filhotes [5]: o Clarín e La Nación na Argentina; O Globo e a Folha no Brasil; El Nacional, Tal Cual e El Universal na Venezuela; La Hora, El Comercio e El Universo no Equador; La Tribuna, El Heraldo e La Prensa nas Honduras; El Deber e La Razón na Bolívia; El Tiempo e Semana na Colômbia. Sem esquecer a CNN, o The Wall Street Journal, o The Washington Post ou o Miami Herald nos Estados Unidos; o Financial Times no Reino Unido; o El País, o El Mundo e o ABC em Espanha; o Le Monde,o Libération e o audiovisual público em França – para citar apenas alguns.

Uma paisagem mediática como esta autoriza a realização «psy ops» (operações psicológicas) subtis – mesmo que nem todos os actores tenham consciência de nelas participarem – destinadas a manipular ou desestabilizar por dentro os governos visados e a dar ao estrangeiro uma imagem negativa deles. Estamos, portanto, muito para lá da necessária crítica das políticas desenvolvidas. Repetido ininterruptamente, o termo «populismo» [6] permite, por exemplo, relegar para segundo plano a redução da pobreza, a redistribuição das riquezas e os avanços sociais, por vezes muito significativos, nos países visados, transformando as suas escolhas soberanas em «políticas irresponsáveis incompatíveis com a democracia».

Na Venezuela, no início da década iniciada em 2000, a opinião pública foi bombardeada, na perspectiva da tentativa de golpe de Estado contra Chávez, com títulos espalhafatosos do El Nacional e, entre outros, do El Universal – «Talibãs na Assembleia Nacional», «Outubro negro», «Terroristas no governo» –, bem como com apelos ao derrube do presidente. Esta etapa foi comparável à preparação de artilharia que antecede o assalto durante uma campanha militar.

O primeiro elemento da montagem das condições destinadas à comunicação social e às diplomacias estrangeiras foi o de que a «sociedade civil» estaria a manifestar o seu descontentamento. É uma expressão mágica. O anúncio de uma mobilização da «oposição de direita» assume um sentido que qualquer leitor descodifica perfeitamente; a apresentação de uma «sociedade civil», por definição simpática, assume outro sentido, mesmo que esta – mas para quê precisá-lo? – apenas represente, à saída das urnas, uma minoria.

No quadro da crise que eclodiu em Fevereiro de 2014, o termo «sociedade civil» foi substituído por outro, mais apresentável do que «extrema-direita em acção»: «estudantes». Recorde-se que, no Chile, sob o governo de Allende, dois movimentos desempenharam um papel-chave na preparação do golpe: o Poder Feminino, com as suas marchas das «panelas vazias» – justificadas por uma escassez em grande parte organizada –, e a Federação dos Estudantes da Universidade Católica (FEUC)…

Para reforçar a imagem de uma multidão pacífica que afronta uma ditadura, convém poder agitar vítimas inocentes. A 11 de Abril de 2002, na Venezuela, enquanto a famosa «sociedade civil» se manifestava, franco-atiradores abateram vários dos seus membros (bem como partidários do presidente). Estava encontrado o pretexto para que um grupo de militares detivesse Chávez, acusado de ter enviado as suas «milícias», os seus «camisas castanhas», para reprimir a oposição. Passados doze anos, os colectivos (sociais, culturais, educativos, desportivos, etc.), sistematicamente apresentados como «paramilitares», são alvo da mesma campanha de diabolização.

Os militares regressam aos quartéis

Tendo a vantagem de não poderem ser identificados, os franco-atiradores foram também utilizados, desta vez indirectamente, para provocar o derrube de Fernando Lugo no Paraguai. Desde a chegada ao poder do presidente, os seus opositores evocaram regularmente, sob os mais diversos pretextos, a sua «destituição». Um conflito camponês proporcionou a oportunidade de concretizar a operação, que se desenrolou a 15 de Junho de 2012, no chamado lugar de Marina Kue, quando uma intervenção policial contra uma ocupação de terras causou, na sequência de um tiroteio, dezassete mortos: onze camponeses e seis polícias. A responsabilidade do drama foi atribuída aos «sem terra», que teriam montado uma emboscada às forças da ordem.

No entanto, testemunhos como o do dirigente camponês Vidal Vega, que conduziu uma investigação paralela, afirmam que o tiroteio teria sido desencadeado por «infiltrados» que teriam disparado ao mesmo tempo sobre os seus companheiros e os polícias. No termo de um rápido julgamento político, habilmente conduzido pelo Congresso, o episódio permitiu destituir Fernando Lugo, acusado de ter, com a sua política, atiçado a violência contra os proprietários de terras. Desde então, Vidal Vega foi assassinado por dois sicários mascarados [7].

A 28 de Junho de 2009 foram as Honduras, membro da ALBA, que serviu de laboratório a este tipo de «golpe de Estado constitucional» – os que passam mais facilmente, podendo os golpistas empregar a expressão «demissão forçada» (e levar a imprensa internacional, pouco atenta no vocabulário, a evocar o «presidente deposto»). Os parlamentares destituíram Manuel Zelaya com um pretexto falacioso, a saber, a sua suposta vontade de ser reeleito em violação da Constituição, quando na realidade ele quisera organizar uma consulta, sem carácter vinculativo, sobre a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte [8]. Mas o interesse da técnica usada reside de igual modo no que se seguiu.

A 28 de Junho, é um comando militar que prende Zelaya, o força a subir para um avião com destino à Costa Rica e reprime violentamente os seus partidários que saíram à rua. Contudo, o executor destes actos desprezíveis, o general Romeo Vasquez, entrega imediatamente o poder ao presidente do Congresso Roberto Micheletti. A manobra é perfeita: «Submetidos ao poder civil», os militares permitem uma «sucessão presidencial». O governo golpista de Micheletti será em breve rebaptizado como «governo de transição». Em 2002, na Venezuela, uma vez executado o seu plano, os generais e almirantes traidores fizeram o mesmo, entregando as chaves do palácio presidencial ao patrão dos patrões, Pedro Carmona.

Em resumo, enquanto no passado os militares, depois de terem actuado em favor desta ou daquela facção, continuavam no poder, agora eles regressam aos seus quartéis. A ditadura, civil, torna-se transparente, não podendo ninguém denunciar um novo Augusto Pinochet. Bastará organizar, alguns meses mais tarde, eleições «controladas», suspendendo o breve período em que esteve banida pela comunidade latino-americana (ou internacional), e a golpada está concluída [9].

Neste início de século XXI, Washington continua a conceber a democracia apenas como uma ferramenta para o bom funcionamento do mercado. A «nova esquerda» latino-americana, ao acabar com o grande romance da globalização feliz, ao nacionalizar os seus recursos naturais e ao afirmar a sua independência, escapa à sua tradicional hegemonia. O que fazer? Com Richard Nixon e Ronald Reagan, armados com a sua bíblia, a «doutrina de segurança nacional», as coisas eram claras: para manter o controlo, travava-se uma guerra total, generalizada, absoluta. Com George W. Bush, continuaram claras: os Estados Unidos estão directamente implicados na tentativa de golpe de 2002 na Venezuela.

Na Bolívia, país que, governado pelo índio Evo Morales, «não mais tem senhores, tem parceiros» [10], o embaixador americano Philip Goldberg, chegado em Outubro de 2006, inicia uma relação estreita com a oposição da Media Luna (Meia Lua), as zonas ricas em hidrocarbonetos e gás de Santa Cruz, Tarija, Beni e Pando [11]. De 2004 a 2006, Goldberg dirigira a missão americana em Pristina, no Kosovo. Como por acaso, com a luta contra o projecto de Morales que é denunciado como estatista, autoritário e indigenista (neste caso, «indigenista» substitui «populista»), a Bolívia, «satélite do chavismo» [12], entra por sua vez num processo de… balcanização.

Nebulosa de think tanks

A partir de 4 de Maio de 2008, os departamentos da Media Luna organizam sucessivamente referendos ilegais para aprovar um estatuto de autonomia muito semelhante a uma declaração de independência. Rebentam violentos tumultos. Tropas de choque «autonomistas» semeiam o terror, apoderam-se de aeroportos e das instalações e edifícios do governo. Em Setembro, paramilitares assassinam trinta camponeses no departamento de Pando.

Em nenhum momento surge a tradicional proclamação golpista sobre a «tomada do poder». Mas, tal como se verá na Venezuela em 2014 [13], o que está em causa é fazer correr o sangue, seja pela «violência espontânea», seja através da repressão governamental dessa «violência espontânea», e tornar o país ingovernável, com o objectivo de conseguir uma condenação geral do poder pela «comunidade internacional», o que tornará aceitável a demissão forçada ou o afastamento do chefe de Estado.

Evo Morales, apostando na mobilização popular e não na repressão militar, e além disso apoiado pela União das Nações Sul-Americanas (Unasul), conseguirá fazer com que o plano fracasse na Bolívia. Será necessário dizer que quando, a 10 de Setembro de 2008, La Paz deu setenta e duas horas ao embaixador Goldberg para abandonar o país, a febre separatista desceu bruscamente?

Enquanto os acontecimentos de 28 de Junho de 2009 geravam comoção nas Honduras, Barack Obama substituía Bush na Casa Branca. No entanto, o avião que procede à transferência forçada de Zelaya de Tegucigalpa para San José da Costa Rica (trinta minutos de voo) faz escalada na base militar norte-americana de Palmerola, situada desde a década de 1980 em território hondurenho. Mas ninguém ali se dá conta de nada! «Quando perguntei ao presidente Correa se os Estados Unidos estavam por trás do 30-S», diz divertido, em Quito, Juan Paz y Miño [14], «ele respondeu-me: “Não temos provas, mas nunca podemos excluir essa possibilidade…”». Posteriormente, o presidente equatoriano esclareceu o seu pensamento quando, ao mesmo tempo que afastou a responsabilidade directa do presidente Obama, pôs em causa a CIA: «O que nós temos certeza é que [nos Estados Unidos] há grupos de extrema-direita, uma multiplicidade de fundações que financiam os grupos e muitos conspiradores contrários à nossa governação» [15]…

Em 1983, por iniciativa de Reagan e sob a égide do Congresso, nasceu a Fundação Nacional para a Democracia (National Endowment for Democracy, NED), destinada a «promover a democracia» no mundo. Em ligação com a Agência Americana de Desenvolvimento (Usaid), o Instituto Internacional Republicano (IRI), o Instituto Nacional Democrata (NDI) e o Instituto dos Estados Unidos para a Paz (USIP), mas também com uma nebulosa de think tanks e fundações – Freedom House, Open Society Institute, etc. –, e até com estruturas de regiões distantes, como a Otpor (Resistência), surgida na Sérvia no fim do século passado, as oposições e as suas organizações não governamentais são financiadas e preparadas, tanto ideológica como tecnicamente.

«Mesmos actores, mesmas estruturas…»

Só entre 2013 e 2014, a oposição venezuelana foi irrigada, por diversos canais, com 14 milhões de dólares, tanto para as campanhas eleitorais como para os «protestos pacíficos» de 2014, que apresentam todas as características de uma rebelião anti-democrática. A Plataforma da Unidade Democrática (MUD) recebeu 100 mil dólares (73 500 euros) para um projecto de câmbios com organizações bolivianas, nicaraguenses e argentinas a fim de «partilhar as lições aprendidas na Venezuela e permitir adaptar essa experiência a estes países» [16].

No caso da República Bolivariana da Venezuela, muitas vezes só nos lembramos da tentativa de golpe de Estado de Abril de 2002. Na realidade, antes e depois disso, a ofensiva nunca foi interrompida. Dezembro de 2001: greve geral (organizada pelo patronato); Dezembro de 2002-Janeiro de 2003: desestabilização económica através da paralisia da companhia petrolífera nacional, militares apelam à sublevação a partir da «zona libertada» da praça Altamira (bairro chique de Caracas); 2004: primeiras guarimbas (bloqueios das ruas e barricadas), incursão de uma centena de paramilitares colombianos nas proximidades de Caracas; 2014… «Eles aqui aplicam aquilo a que a esquerda chamava a “combinação de todas as formas de luta”», confidencia o ministro venezuelano do Interior Miguel Rodríguez Torres. «E, se fizer a lista dos actores implicados, são os mesmos desde o início; as mesmas estruturas, com algumas variações. O que muda, de cada vez, é o método.»

MAURICE LEMOINE *

* Jornalista. Autor de Sur les eaux noires du fleuve, Don Quichotte, Paris, 2013.

Foto: By Gabrielt4e, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/ind...


[1] Desde 2007, o salário dos polícias menos graduados passou de 355 para 886 dólares (260 para 650 euros); o de um sargento, de 707 para 1329 dólares (520 para 980 euros).

[2] Cf. Hernando Calvo Ospina, Tais-toi et respire, Bruno Leprince, Paris, 2013.

[3] Ler «État d'exception en Equateur», La valise diplomatique, 1 de Outubro de 2010, www.monde-diplomatique.fr.

[4] Ler Armand Mattelart, «“La Spirale”, quand l'ancien monde refuse de mourir», Le Monde diplomatique, Setembro de 2013.

[5] Ler Renaud Lambert, «Na América Latina, os governos enfrentam os patrões dos media», Le Monde diplomatique – edição portuguesa, Dezembro de 2012.

[6] Ler Gérard Mauger, «“Populismo”, itinerário de uma palavra viajante», Le Monde diplomatique – edição portuguesa, Julho de 2014.

[7] Ler «Le Paraguay dévoré par le soja», Le Monde diplomatique, Janeiro de 2014.

[8] Ler «Retour des “gorilles” au Honduras», La valise diplomatique, Julho de 2009, www.mondediplomatique.fr.

[9] Ler Renaud Lambert, «Honduras: retour à l'OEA, retour à la normale?», La valise diplomatique, Junho de 2011, www.monde-diplomatique.fr.

[10] Le Courrier, Genebra, 30 de Junho de 2007.

[11] Ler Hernando Calvo Ospina, «Pequeno manual de desestabilização na Bolívia», Le Monde diplomatique – edição portuguesa, Junho de 2010.

[12] «Bolivia es un satélite absoluto del chavismo», El País, Madrid, 9 de Agosto de 2008.

[13] Ler Alexander Main, «Na Venezuela, a tentação do golpe de força», Le Monde diplomatique – edição portuguesa, Abril de 2014.

[14] Juan J. Paz y Miño Cepeda, autor de Insubordinación o golpe, Abya Yala, Quito, 2011.

[15] Telesur, 4 de Janeiro de 2011.

[16] Eva Golinger, «Sigue la mano sucia de la NED en Venezuela», 21 de Abril de 2014, www.actualidad.rt.com.

Ver o original em Le Monde Diplomatique PT (clique aqui)

Pequeno manual de desestabilização na Bolívia

Em Abril de 2009, o presidente americano Barack Obama declarou perante os seus homólogos latino-americanos: «Temos de aprender as lições da história [para] promover a paz». A atitude de Washington durante o recente golpe de Estado nas Honduras indica que, apesar das promessas, as intervenções americanas na América Latina podem vir a manter-se. Assumindo, por vezes, modalidades inesperadas.

Os Estados Unidos, para lá da «cenoura» económica e do «bastão» da intervenção militar − a que o recente golpe de Estado nas Honduras veio oferecer um inesperado rejuvenescimento −, têm muitas ideias para conter as veleidades emancipatórias dos seus vizinhos do Sul. Um dos métodos consiste em apoiar as reivindicações independentistas de elites locais cuja «identidade» estaria a ser posta em causa pelas políticas de redistribuição dos governos progressistas. A estratégia foi utilizada na Nicarágua no início da década de 1980 [1] e, mais recentemente, na Bolívia.

Em Dezembro de 2005, Evo Morales foi eleito presidente da Bolívia. Apoiado pela pequena burguesia urbana, o dirigente do Movimento para o Socialismo (MAS) seduziu também as organizações indígenas com uma campanha que deu grande destaque ao discurso identitário [2]. Ora, o Estado plurinacional promovido pelo MAS depressa suscitou uma inesperada reivindicação: a das elites locais defensoras de um «“separatismo” social» a que, segundo elas, o projecto da nova Constituição abre caminho, uma vez que «prevê a diferentes níveis de autonomia, indígena, municipal ou regional, sem definir a sua articulação» [3]. Estavam reunidos, é claro, todos os elementos para incitar os Estados Unidos a apoiarem o movimento, da defesa das minorias oprimidas à possibilidade de desestabilizar as autoridades bolivianas.

A estratégia americana depressa identificou a região de Santa Cruz como um objectivo prioritário, uma vez que a economia da Bolívia depende dos recursos naturais (hidrocarbonetos, ouro e ferro, em especial) que ali existem. As igualmente ricas em gás e terras férteis províncias de Tarija, Pando e Beni − que com a de Santa Cruz formam a chamada região da Meia-Lua − depressa se juntaram às reivindicações de Santa Cruz, cuja capital, do mesmo nome, acabou por transformar-se num centro da oposição a Evo Morales.

O embaixador americano na Bolívia, Philip Goldberg, dois meses depois de ter sido credenciado para o cargo, a 13 de Outubro de 2006, iniciou discussões com a oposição da Meia-Lua. Note-se que, de 1994 a 1996, aquando da guerra dos Balcãs, o diplomata dirigia os serviços do Departamento de Estado para a Bósnia. Mais tarde, entre 2004 e 2006, tornou-se «chefe de missão» em Pristina, no Kosovo, onde, segundo Evo Morales,«apoiou o separatismo desta região, que causou milhares de mortos» [4]. Este historial já prenunciava mais do que um simples apoio dos americanos às organizações políticas da oposição «separatista».

Na Bolívia, «o seu trabalho não era segredo para ninguém», afirma Hugo Moldiz, advogado e director do semanário La Época. «Ele também não o escondia. O plano estabelecido visava provocar um estado de ingovernabilidade a partir de acções violentas e mortíferas, envolvendo as forças armadas e a polícia, tendo como objectivo a demissão do presidente e a convocação de eleições que fossem ganhas por candidatos cooptados pela embaixada.»

Em Setembro de 2008, grupos paramilitares assassinaram perto de trinta camponeses indefesos, antes de se apoderarem do aeroporto de Beni e dos campos petrolíferos de Tarija e Santa Cruz. Sérgio Espinal, um oficial na reforma, está convencido de que «o seu modo de actuação deixava adivinhar conselhos de peritos estrangeiros e a participação de paramilitares colombianos». Pior ainda, «a passividade das forças armadas, que chegaram mesmo a deixar-se desarmar nos campos petrolíferos, demonstrou que alguns dos seus membros estavam envolvidos na manobra».

A comunicação social privada, próxima das elites da Média Lua, não permaneceu de braços cruzados. «A imprensa relatou todos estes factos, não para os condenar, mas para contribuir para um clima de instabilidade e de medo», recorda Sabino Mendoza, um cocalero (cultivador de coca) que hoje é deputado. «A mensagem transmitida era que se o “Evo” não se demitisse, podia rebentar uma guerra, com a intervenção do exército dos Estados Unidos. Rumores, mentiras e exageros visaram semear a confusão entre os que, como eu, apoiavam o presidente.»

Um internacionalismo de direita

A partir de Julho de 2007, a Agência Norte-Americana para o Desenvolvimento Internacional (USAID) foi acusada de canalizar fundos para os grupos da oposição. O governo tinha interceptado documentos que referiam a necessidade de financiar programas para «restabelecer um governo democrático». Um eufemismo bem conhecido, explica a socióloga Cristina Guzmán: «Estas organizações financiam, directamente ou por meio de outras agências, várias organizações não governamentais [ONG], estruturas da pretensa “sociedade civil” e partidos políticos, de modo a que, sob a capa dos direitos humanos, da liberdade de imprensa e da livre iniciativa, possam encorajar a hostilidade em relação ao governo».

Durante todo este tempo, o gabinete de Evo Morales conservou a extravagante proximidade de um escritório da Central Intelligence Agency (CIA) no interior do próprio palácio presidencial, um resquício de uma época em que os governos se preocupavam menos com a soberania do que com as boas relações com os Estados Unidos. «Era um serviço gerido por um general da polícia e chamava-se Centro de Operações Policiais Especiais [COPES]; dependia directamente da embaixada dos Estados Unidos!», esclarece Jorge Cuba, director da Agência Boliviana de Imprensa (ABI).

Evo Morales, constatando que o separatismo local estava a ser alimentado com a ajuda de um internacionalismo de direita, mandou desmantelar o referido escritório. A 3 de Novembro de 2008, anunciou aliás que, por motivos de «dignidade nacional», a agência deixava de ser bem-vinda na Bolívia. Na véspera havia expulsado a organização norte-americana de luta contra os estupefacientes, a Drug Enforcement Agency (DEA), por observar que as suas prerrogativas pareciam ter-se estendido ao apoio à oposição secessionista da Meia-Lua e que isso nada tinha a ver com o enquadramento da sua missão oficial. Por fim, a 11 de Setembro de 2008, quando existia uma situação muito tensa entre o governo e a oposição, o presidente Morales declarou o embaixador dos Estados Unidos persona non grata.

Com a expulsão do embaixador, a imposição de limites à USAID e a partida da CIA e da DEA, a febre separatista, curiosamente, deu sinais de abaixamento. De passagem, Evo Morales continuou a registar importantes êxitos eleitorais. Os mais radicais abandonaram com facilidade qualquer reivindicação política e passaram, sem pestanejar, da pretensa «defesa da democracia» para o projecto de assassinato. Com efeito, para eles só há uma opção: acabar com esse «índio» presidente e com o seu vice-presidente, Alvaro García Linera.

A operação foi encabeçada por Branco Marinkovic, um homem de negócios. Filho de um ustaque croata refugiado na Bolívia, Marinkovic presidia então ao Comité Cívico Pró-Santa Cruz (CPSC) [5] e dirigia o Movimento Nação Camba de Libertação (MNCL), que reclama a «independência» da Meia-Lua. No sítio Internet do MNCL, pode de facto ler-se o seguinte: «Antes que haja derramamento de sangue, não seria melhor separarmo-nos amigavelmente, para que cada nação gira os seus próprios recursos e resolva os seus próprios problemas?». Jorge Cuba considera que, apesar destas palavras adocicadas, o objectivo de Branco Marinkovic consiste em «transpor para a Bolívia o cenário racista, religioso e secessionista da guerra dos Balcãs».

Foi justamente desta região que Branco Marinkovic mandou vir Eduardo Rózsa, um participante do conflito que ocorreu no interior das forças croatas nacionalistas. Este chegou acompanhado por Michael Dwyer (irlandês), Arpád Magyarosi (romeno húngaro), Elod Toaso (húngaro) e Mario Tadic (croata), quase todos veteranos da guerra dos Balcãs. «O plano estava a desenrolar se na perfeição até que um polícia − “um indio-zito”, terão eles dito − se infiltrou no grupo», conta Jorge Cuba. «A 16 de Abril de 2009, a polícia chegou ao hotel onde eles se encontravam e três deles que recusaram entregar-se, entre os quais Rózsa, foram abatidos. Nessa noite morreu também o último projecto de divisão da Bolívia.» Neste contexto, Marinkovik preferiu fugir e encontrou asilo nos Estados Unidos.

Uma teia de fundações e ONG terão assim beneficiado da imagem de elementos intocáveis da «sociedade civil» para desestabilizar governos. A historiadora equatoriana Adriana Villegas não tem dúvidas sobre isso: «Tudo demonstra, em diferentes situações pelo mundo fora, que elas podem ser mais eficazes do que um exército da OTAN» [Organização do Tratado do Atlântico Norte].

O método, testado na Bolívia, parece ter sido também adoptado no Equador e na Venezuela, como afirma Adriana Villegas: «Não é só na Meia-Lua. Também na Venezuela se encoraja os que desejam a independência do estado de Zulia − que tem uma das maiores indústrias petrolíferas do mundo − e, no Equador, encoraja-se os que têm o mesmo projecto para a província de Guayas, onde se situa o principal porto e centro económico do país. Além disso, tal como Santa Cruz associou à sua causa três outras regiões [Beni, Pando e Tarija], também o estado de Zulia conseguiu o apoio dos de Táchira e Mérida, e entre nós, o de Guayas conseguiu o de Manabí.»

Enviado especial HERNANDO CALVO OSPINA *

* Jornalista.

Foto: By User:J. Patrick Fischer - Self-made out of Image:Bolivia departments named.png by User:Golbez, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/ind...


[1] Ler Maurice Lemoine, «L'Autonomie perdue des Miskitos du Nicaragua», Le Monde diplomatique, Setembro de 1997.

[2] Os indígenas representam oficialmente 60% da população boliviana.

[3] Franck Poupeau e Hervé Do Alto, «L'Indianisme est-il de gauche?», Civilisations, n.º 58-1, Bruxelas, 2009, http://civilisations.revues.org.

[4] El Mundo, Madrid, 11 de Setembro de 2008.

[5] Instituição regionalista estabelecida pela província de Santa Cruz e muito influenciada pelo patronato local.

Ver o original em Le Monde Diplomatique PT (clique aqui)

América Latina: a ultradireita contra-ataca

 
 
Na Bolívia, golpe de Estado. No Brasil, tentativa de encarcerar Lula de novo. Derrotados no Outubro Rebelde, protofascistas querem o troco. Mas rebeldia no Chile expõe seu ponto vulnerável: o rabo preso com a devastação neoliberal
 
Antonio Martins | Outras Palavras | Imagem: Emil Nolde, “Soldados” (1913)
 
Última lição do dia: os homens, eles voltam sempre. É preciso estar sempre de olhos abertos… Na peça Os Saltimbancos, recriada por Chico Buarque, o aviso é dado pelo Jumento, personagem de fina inteligência. Os Bichos espantaram os Barões e têm, enfim, onde dormir. Mas ainda não podem descansar em paz, porque prepara-se a revanche. Na América Latina, um Outubro Rebelde abalou os governos neoliberais do Chile e do Equador, destronou Maurício Macri na Argentina e continua a sacudir o Haiti. Novembro, porém, começou em refrega. Na Bolívia, um golpe militar que estava em fermentação desde 23 de outubro derrubou ontem Evo Morales, seu vice, a presidente do Senado e o da Câmara. Gravações vazadas pelo jornal El Periodico (e reproduzidas no Brasil pela revista Fórum) indicam que em sua preparação participaram assessores de Jair Bolsonaro e senadores norte-americanos. Agora, o país está acéfalo, aterrorizado por milícias. Dois governadores, um ministro e a irmã do presidente tiveram suas casas queimadas. Meios de comunicação independentes foram atacados e tirados do ar. Num dos episódios, José Aramayo, diretor de rádio ligada à Confederação dos Trabalhadores Camponeses, foi amarrado a uma árvore. A Patricia Arce, prefeita de Vinto, na região de Cochabamba, rasparam os cabelos, pintaram o corpo de vermelho e fizeram caminhar sob insultos proferidos por homens.
 
Ao Brasil, cuja importância geopolítica é incomparável, a orientação foi dada pelo próprio Steve Bannon, principal ideólogo e articulador da onda protofascista. Inconformado com a libertação de Lula, ele propôs no sábado, em entrevista à BBC, que os partidários de Bolsonaro se aproveitem do fato para acirrar a polarização e “empurrar a agenda de reformas com um senso extra de urgência”. Contudo, advertiu que isso deveria ser apresentado não por meio da defesa explícita das propostas, mas como um movimento em favor do combate à corrupção e ao sistema político. Dito e feito. Ainda ontem (10/11), revela a Folha de S.Paulo, Bolsonaro alterou sua tática inicial diante de Lula – que era manter relativo silêncio. Decidiu encarregar Sérgio Moro de lançar campanha para que o Congresso restabeleça, por meio de Emenda Constitucional, a prisão dos réus, após condenação segunda instância.
 
No mesmo domingo, porém, vinha do Chile um sinal de sentido oposto. Incapaz de frear os protestos contra seu governo (houve nova manifestação gigante na sexta-feira), o presidente Sebastián Piñera sinalizava que aceitará a convocação de um “Congresso Constituinte”. Embora nenhuma informação adicional tenha sido dada, o ato expressa clara vitória de uma revolta popular reprimida com selvageria. Poderá significar forte pressão contra o projeto neoliberal, num país que era há pouco visto como sua “vitrine”.
 
A América Latina continua instável e, em certa medida, imprevisível. Até outubro, a região era marcada pelo avanço de uma onda conservadora em que se somam correntes ultracapitalistas e protofascistas. No mês passado, uma sucessão revoltas populares e resultados eleitorais – em especial o da Argentina – interrompeu a maré e criou uma situação de impasse. Agora, vem a ressaca. A região parece transformar-se num palco crucial para a disputa entre a ultradireita e os que buscam, diante da crise civilizatória, alternativas humanizadoras. O Brasil será certamente centro deste embate – em especial após as esperanças e ódios despertados pela libertação de Lula. Eis, com base nos fatos mais recentes, quatro hipóteses para examinar o novo cenário.
 
 
1. As ruas, e não as instituições, estão se tornando o palco central da disputa:
 
Atente à contradição. Na Bolívia, um dos governos mais comprometidos com mudanças estruturais na América do Sul caiu ontem, por ser incapaz de mobilizar as maiorias contra os bandos fascistas e a polícia, convertida em força pelo golpe. Mas no Chile, governado por um ultracapitalista, nem ele, nem os tanques do exército e o toque de recolher, nem a morte de 20 manifestantes pelo exército e os carabineros foram capazes de frear o ascenso de um movimento que contesta frontalmente o projeto neoliberal.
 
A América Latina parece viver um período raro, em que as ruas adquirem força política. Estão em disputa, em todo o mundo – atente também à Catalunha, à Argélia, ao Egito, ao Líbano, a Hong Kong. São voláteis. Como a velha ordem capitalista deixou de produzir estabilidade, radicalizam-se e perdem o medo. É arriscado confiar nas instituições para controlá-las. Um texto publicado por El País no domingo relata o importante trabalho político realizado junto aos comandantes do exército, ao longo de anos, por Evo Morales. Reunia-se com eles uma vez por semana. Participava constantemente de suas cerimônias.
Estimulou-os a criar empresas militares. Julgava-se seguro. Mas seu apoio castrense esvaiu-se em dias, após uma combinação de pressões norte-americanas e protestos de rua. Os avanços sociais e econômicos da Bolívia, em 13 anos de Evo, são inegáveis. Mas não bastaram nem para refrear os preconceitos das elites contra o presidente indígena, nem para constituir, entre as maiorias, um movimento capaz de defendê-lo permanentemente. As causas precisam ser examinadas sem precipitação – mas a derrota, também nas ruas, é clara.
 
2. É preciso impedir que a ultradireita apresente-se como antissistema:
 
Do ponto de vista de seus interesses, Steve Bannon está coberto de razão, quando orienta a ultradireita brasileira a erguer as bandeiras da luta contra a corrupção e o establishment. Ele tenta, há anos, ocupar um vazio político real e muito potente – ao qual a esquerda demora a atentar. O sistema político está em crise, em todo o mundo. As maiorias sentem-se abandonadas por ele, pois a desigualdade tornou-se acintosa, as condições de vida das maiorias deterioram-se e a democracia, sequestrada pelo poder econômico, não oferece alternativas.
 
Descrita por Serge Halimi e Pierre Rimbert num texto essencial para compreender as novas condições da disputa política, a manipulação articulada por Bannon é notável. Ela permitiu, a dezenas de partidos de ultradireita em todo o mundo, muitos dos quais sequer existiam antes da crise de 2008, capturar o ressentimento decorrente destas frustrações. Para fazê-lo, desviam o foco. Jamais atacam a ditadura financeira, que produz a concentração brutal de riquezas e o esvaziamento da democracia. Voltam seu eleitorado suscetível contra uma suposta “elite” – composta pelos mais letrados; pelos que expressam etnias, culturas, religiões, sexualidades ou padrões morais não-hegemônicos; pelos que podem ser apontados como politicamente desviantes.
 
Mas esta manipulação só tem sido possível graças ao espaço aberto pela esquerda. Incapazes até o momento – em quase todos os países – de dialogar com o legítimo sentimento antissistema que cresce entre as multidões, os partidos progressistas travestem-se de defensores das instituições. Não percebem que já não se trata apenas de defender a velha democracia, mas de resgatá-la e reinventá-la. Fazem-no, muitas vezes, porque mergulharam tão profundamente no aparelho de Estado que são incapazes de enxergar uma política da mobilização social.
 
O resultado é trágico, como mostra todo o processo que levou ao impeachment de Dilma Rousseff no Brasil. A situação é bastante distinta hoje, no Brasil. Mas não se deve desprezar o bolsonarismo – que criou uma importante legião de apoiadores, uma milícia digital eficiente para mantê-los mobilizados e um imaginário político primitivo e retrógrado que lhes serve de horizonte.
 
3. A força da ultradireita – sua aliança com o neoliberalismo – pode ser seu desastre
 
No Brasil, ao contrário do que ocorreu a partir de 2015, a luta contra a ultradireita pode tirar proveito de um enorme trunfo. O país é governado há mais de três anos por uma coalizão de forças golpistas e conservadoras. As condições de vida agravaram-se. Direitos sociais foram suprimidos e serviços públicos regrediram. Nenhuma das promessas de geração de mais ocupações cumpriu-se. E o governo acaba de apresentar três Propostas de Emendas Constitucionais (PECs) que poderão tornar tudo ainda mais dramático. Os salários dos servidores poderão ser congelados ou mesmo reduzidos – diminuindo-se também as horas de atendimento aos usuários. Direitos sociais como licença-maternidade, auxílio-doença e outros estão sujeitos à interrupção. Fundos sociais – que financiam a Educação ou a Ciência e Tecnologia – serão extintos. Um em cada cinco municípios pode ser fechado.
 
O pacote deve-se à aliança com os neoliberais. Até agora, ela tem sido a fortaleza da ultradireita. Pode, porém, esvaziar seu discurso e levá-la ao desastre. Entre os benefícios de que estas duas forças se aproveitam, ao atuar em frente, está a blindagem mútua. Nenhum presidente que pratica atos ou faz declarações como as de Bolsonaro poderia manter-se à frente do governo, se não fosse o executor do programa que os ultracapitalistas querem impor ao país. E este projeto, por sua vez, seria irrealizável sem o apoio de um político capaz não apenas de vencer as eleições – mas de impor medidas antipopulares enquanto desvia a atenção da sociedade para temas menores.
 
Mas a vantagem desta aliança transforma-se num estorvo e num fator de crise quando seus objetivos reais aparecem sem máscara. Por que os apoiadores de Bolsonaro, atraídos pelo discurso em favor de “Saúde e Educação padrão FIFA”, precisam defender o corte drástico dos recursos para estas duas áreas? Aqui, o caso do Chile merece um exame especial. A mobilização que abalou Piñera foi possível porque houve, antes, campanhas intensas contra as políticas neoliberais. Surgiram, ao longo de mais de uma década, coalizões contra a entrega do abastecimento de água a transnacionais, o sistema privado de aposentadorias, a crise da Educação, o péssimo atendimento à Saúde, o altíssimo custo de vida. A alta dos preços das passagens de metrô foi apenas o estopim. Quando deu-se a explosão, o acúmulo de consciência e organização pré-existente tornou possível politizar a revolta rapidamente, formular um conjunto claro e conciso de reivindicações, torná-lo popular entre a sociedade.
 
No período intenso que promete se abrir no Brasil, o exemplo é inspirador. E a tramitação, no Congresso, do pacote de PECs de Bolsonaro e Paulo Guedes pode ser um momento de virada. Elas são tão abertamente antissociais, e seu fundamentalismo está tão em desacordo até mesmo com o pensamento mais pragmático de outros líderes de direita (no Reino Unido, Boris Johnson propõe o fim da “austeridade”; no próprio Chile, depois de pressionado, Piñera tentou calar os protestos com um “pacote social”) que valeria pensar na hipótese de um combate mais radical contra elas. Em vez de buscar emendá-las, como fez na votação da contrarreforma da Previdência, a oposição poderia pensar em rechaçá-las em bloco; e em propor um conjunto de medidas alternativas; e em abrir uma disputa de projeto contra projeto, para os serviços públicos do Estado brasileiro.
 
4. Em vez da nostalgia dos “bons tempos”, é preciso um novo programa
 
Ao analisar, no sábado, as consequências políticas da libertação de Lula, o filósofo Marcos Nobre chamou a atenção, entre outros, para dois pontos. Livre, o ex-presidente tirará, quase automaticamente, a esquerda e o PT de uma postura puramente defensiva. Para contrapor-se a Bolsonaro, já não poderá reclamar a liberdade – terá de apresentar ideias de país. Espera-se, completou Nobre, que, ao contrário do que ocorreu em 2018, estas ideias não sejam apenas a evocação aos “bons tempos dos governos petistas” – mas, principalmente, uma visão distinta sobre os desafios que o Brasil enfrenta agora. Uma visão semelhante tem sido sustentada com insistência em Outras Palavras. Não basta falar aos já convencidos da capacidade da esquerda; nem ocultar que o projeto adotado nos governos Lula e Dilma entrou em crise já em 2013 e não pode ser repetido.
 
Ao falar a milhares apoiadores em São Bernardo, no mesmo sábado, Lula colocou de fato a esquerda em outro patamar. Suas críticas a Paulo Guedes – muito mais que as feitas a Moro – indicam que enxerga a fragilidade central do governo Bolsonaro. Sua alusão a temas que angustiam as maiorias, mas são frequentemente ocultados do debate público (por exemplo, a captura da riqueza nacional pelo sistema financeiro; o drama das dezenas de milhões de endividados) mostra que a sensibilidade, uma de suas grandes virtudes, continua presente e afiada.
 
Lula parece disposto a partir, agora, para uma caravana pessoal pelo país, em grandes atos, cujo objetivo seria resistir e passar à ofensiva. A princípio, parece ótimo. Quebrar a ausência de oposição, que persiste há tanto tempo, é, mais que nunca, bem-vindo. Mas talvez também esteja presente, na iniciativa, o risco ao qual Nobre alude.
 
O protagonismo pessoal do ex-presidente é uma força extraordinária e pode ser ainda mais imprescindível em tempos muito difíceis. Não seria conveniente, por isso mesmo, que ele estivesse articulada com um esforço mais coletivo de superação do labirinto em que nos perdemos? Que pudesse atrair outros sujeitos e outros públicos, além dos que desejariam a volta dos governos de Lula? Por exemplo, os partidos que, à esquerda, têm projetos distintos dos do PT. Ou os movimentos que propõem novos paradigmas de desenvolvimento; ou julgam insuficientes as “reformas fracas” que o lulismo promoveu em seu período. Não será possível abrir, em mobilização e nas ruas, um novo processo de resistência e de construção de alternativas, que vá além da reivindicação do passado pré-2016?
 
Rebeliões. Golpes. Disputa acirrada pelas ruas. Imprevisibilidade. Numa América Latina em que as perspectivas pareciam tão estreitas, há apenas 40 dias, o futuro está de novo em aberto. Será um prazer acompanhar os fatos novos e deixar a condição de espectadores passivos de nossa tragédia.
 
Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OUTROS QUINHENTOS

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/11/america-latina-ultradireita-contra-ataca.html

Argentina e México formam 'eixo do bem', diz Mercadante em Buenos Aires

O ex-ministro Aloizio Mercadante.
© Sputnik / Francisco Lucotti

O ex-ministro do PT Aloizio Mercadante falou durante a reunião do Grupo Puebla, em Buenos Aires, Argentina, sobre a liberdade de Lula e momento político da região.

"O encontro entre o presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, e o presidente eleito da Argentina, Alberto Fernández, é um novo eixo do bem estruturante na região", afirmou Mercadante segundo a Sputnik Mundo.

A primeira viagem internacional de Fernández após ser eleito foi ao México, onde encontrou o também esquerdista López Obrador. Fernández já defendeu repetidas vezes o ex-presidente Lula e foi alvo de críticas do atual presidente brasileiro, Jair Bolsonaro (PSL).

O Grupo Puebla também reuniu a ex-presidente Dilma Rousseff, o ex-presidente da Colômbia Ernesto Samper e o presidente eleito da Argentina Alberto Fernández.

Mercadante destacou, em entrevista com a imprensa após o evento, que Lula "impulsionará a oposição" no Brasil.

"A liberdade de Lula muda a política brasileira", disse o ex-ministro petista. "Se [Lula] começar a andar pelas ruas e entrar em contato com as pessoas, como sempre fez, isso impulsionará a oposição e o resgate de um projeto pelo qual as pessoas do Brasil e do mundo estão cada vez mais desejando."

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019110914755287-argentina-e-mexico-formam-eixo-do-bem-na-regiao-diz-mercadante-em-buenos-aires/

email a um reaça

image
 

Caro senhor Rangel  'paulo.rangel@europarl.europa.eu'
Venho por esta via, e de modo respeitoso, agradecer-lhe a crónica “Os protestos na América Latina: uma vaga provocada ou geração espontânea?”. Estou sempre muito atento às suas análises políticas e ao seu estado de alma, que neste seu primoroso trabalho, noto com maldosa alegria a sua bendita tristeza.
É assim, caro senhor, a vida é por vezes madrasta, o seu amigo Guaidó está com algumas dificuldades e, a alegria que por entre as pernas dos outros gangsters manifesta, certamente que já esmoreceu. É a vida!
Para seu conhecimento, vou fazer circular este meu testemunho de reconhecimento pelas benditas redes sociais onde terei mais leitores que as suas redações semanais.
Muita saúde para assistir à derrocada dos seus sonhos.
Cidsimoes

Ver o original em As palavras são armas (clique aqui)

O “Outubro Vermelho” e a esclerose brasileira

 
 
Ainda que a velha mídia feche os olhos, o tabuleiro da América Latina foi sacudido. Todas as forças políticas refazem seus cálculos. O futuro está de novo aberto. Os impasses que se armam em Buenos Aires, Santiago e Brasília serão decisivos
 
José Luís Fiori | Outras Palavras
 
“Por qué protestan? Es por la desigualdad económica.
Y los bajos salários. También por la baja o nula movilidad social
y la falta de un futuro mejor para los jóvenes.
Es por los servicios públicos infames.
Y por la globalización y la pérdida de puestos de trabajo…”
 
Moisés Naim, El País, 27 de outubro de 2019
 
Desta vez tudo passou muito rápido. Como se, em apenas uma noite, a América Latina tivesse dormido de direita e acordado de esquerda. Depois da avassaladora vitória de Lopez Obrador no México, em 2018, em apenas um mês, outubro de 2019, as forças progressistas venceram as eleições presidenciais na Bolívia, Uruguai e Argentina, elegeram um jovem economista de esquerda para o governo de Buenos Aires e ganharam as eleições na Colômbia, para o governo de suas principais cidades, como Bogotá e Medellín. E quase simultaneamente, uma sucessão de revoltas populares derrubou ou colocou de joelhos os governos direitistas de Haiti e Honduras, impondo pesadas derrotas aos presidentes de direita, do Equador e do Chile.
 
Muitos analistas se surpreenderam com essa sequência de derrotas da direita, como se fosse inesperada, um verdadeiro raio em céu azul. Mas isto não é verdade, sobretudo nos casos iminentes da rebelião do povo chileno e da derrota de Mauricio Macri na Argentina. No caso do Chile, já tinha havido uma gigantesca manifestação de mais de um milhão de pessoas, em 1988, pelo fim da ditadura do General Pinochet, acossada pelo fracasso de uma economia que havia crescido apenas 1,6%, em média, durante os 15 anos da ditadura militar, deixando como herança um desemprego de 18%, e 45% da população abaixo da linha da pobreza.
 
Logo depois da redemocratização do país, a partir de 2006, sucederam-se grandes mobilizações estudantis contra a privatização e os altos custos da educação, da saúde, da água e do saneamento básico, que haviam sido privatizados durante a ditadura e permaneceram privados depois da redemocratização. Numa mobilização quase contínua, que alcançou uma extraordinária vitória em janeiro de 2018, com a aprovação pelo Congresso Nacional chileno de um novo sistema de educação universitária, universal e gratuita, tanto pública quanto privada. E foi na esteira dessas manifestações que a população chilena voltou a sair às ruas neste mês de outubro, contra uma sociedade que apesar do seu “equilíbrio macroeconômico”, segue sendo a mais desigual dentre todos os países da OCDE, com a concentração de 33% da riqueza nacional nas mãos de apenas 1% da população chilena. E contra os sistemas de saúde, água e serviços básicos que seguem privatizados e com custos exorbitantes; e contra um sistema de previdência privada que entrega aos aposentados apenas 33% do seu salário ativo. Num quadro de descontentamento que já prenuncia a derrota provável das forças de direita nas eleições presidenciais chilenas de 2021.
 
 
No caso da Argentina, a vitória peronista foi uma resposta imediata e explícita ao fracasso do programa econômico neoliberal do presidente Mauricio Macri, que conseguiu destruir e endividar a economia argentina, deixando como herança um crescimento negativo do PIB, com um taxa de inflação de 50%, um desemprego de 10% e 32% da população abaixo da linha de pobreza. Sabe-se que a Argentina foi, até bem pouco tempo atrás, a sociedade mais rica e com melhor qualidade de vida e nível educacional de toda a América Latina. Ou seja, resumindo o argumento, a rebelião chilena e a vitória peronista na Argentina não têm nada de surpreendentes, como acontece também com a sucessão em cadeia das demais derrotas da direita latino-americana.
 
Que consequências imediatas se devem esperar, e que lições extrair deste “outubro vermelho”? A primeira e mais contundente é que os latino-americanos não suportam nem aceitam mais viver em sociedades com um nível de desigualdade tão extrema e vergonhosa. A segunda é que o mesmo programa neoliberal que fracassou na década de 90 voltou a fracassar exatamente porque não produz crescimento econômico sustentado e acentua violentamente a precarização, a miséria e a desigualdade que já existem em toda a América Latina. Por outro lado, do ponto de vista estritamente brasileiro, este fracasso neoliberal, sobretudo o fracasso do Chile e da Argentina, caem como uma bomba em cima do programa de promessas e blefes ultraliberais do senhor Guedes, cuja insistência na mesma tecla, depois de tudo o que aconteceu, sugere tratar-se de um financista que, além de fanático, parece ser cego ou burro.
 
Assim, permanecem no ar duas perguntas importantes: por que este novo ciclo neoliberal foi tão curto? E o que se deve esperar para o futuro? Para refletir sobre esta questão, entretanto, é necessário afastar-se um pouco da conjuntura e de seus debates mais acalorados, recorrendo a uma hipótese de mais logo prazo, sobre a natureza contraditória do desenvolvimento capitalista, que foi formulada pelo economista e historiador austríaco Karl Polanyi, na sua obra A Grande Transformação, publicada em 1944.
 
Polanyi propunha-se a explicar o fim da “ordem liberal do século XIX”, que alcança seu apogeu e começa sua crise e transformação, a um só tempo, a partir de 1870. Segundo o economista austríaco, esta simultaneidade deve-se à existência de um duplo princípio que comanda a expansão capitalista: “o princípio do liberalismo econômico, que objetiva estabelecer um mercado autorregulado, e o princípio da proteção social, cuja finalidade é preservar o homem e a natureza, além da organização produtiva”.
 
1 E teria sido exatamente por isso que os Estados e sociedades capitalistas mais avançados e suas populações teriam começado a se defender do avanço do liberalismo desenfreado, no exato momento em que tal avanço alcançou seu apogeu. Como consequência, segundo Polanyi, a partir de 1870, “o mundo continuou a acreditar no internacionalismo e na interdependência, mas agiu cada vez mais sob os impulsos do nacionalismo e da autossuficiência”. 2 Por isso, na mesma hora do padrão-ouro, da desregulação dos mercados financeiros e da expansão imperialista do final do século XIX, os Estados europeus começaram a praticar o protecionismo e a desenvolver as formas embrionárias de seus sistemas de proteção social, que iriam alcançar seu ápice com a criação do Estado de Bem-Estar Social, após a Segunda Guerra Mundial.
 
Seguindo Polanyi, podemos também formular a hipótese de que o sistema capitalista voltou a experimentar um grande impulso de internacionalização, liberalização e promoção ativa dos mercados desregulados a partir dos anos 80 do século XX, e que esse “surto internacionalizante” entrou em crise terminal com as guerras do início do século XXI e o colapso econômico-financeiro de 2008. E foi essa crise terminal que desencadeou ou acelerou um novo grande movimento de autoproteção por parte dos Estados e economias nacionais, que começou na Rússia e na China, no início do século XXI, alastrou-se pela periferia do sistema europeu e acabou atingindo o próprio núcleo financeiro e anglo-americano do sistema capitalista mundial, na hora do Brexit; e ainda mais, na hora da eleição de Donald Trump e seu “America first”.
 
Desta perspectiva, podemos também conjeturar que a onda neoliberal da América Latina dos tempos de Menem, Fujimori, Fernando H. Cardoso e Salinas fez parte do movimento geral de internacionalização, desregulação e globalização das décadas de 1980/90, liderado pelos países anglo-saxônicos. E a “virada à esquerda” do continente, da primeira década do século XXI, com seu viés nacional-desenvolvimentista, também fez parte desse novo e grande movimento de autoproteção estatal, econômico e social que está em pleno curso sob a liderança das quatro grandes potências que deverão liderar o mundo no século XXI: EUA, China, Rússia e Índia.
 
Olhando para o mundo desta maneira, pode-se entender melhor por que o revival neoliberal latino-americano dos últimos cinco anos durou tão pouco: porque está rigorosamente na contramão do sistema capitalista mundial. Apesar disso, esta reincidência neoliberal tardia pode fazer parte de uma disputa pelo futuro do continente que ainda está em pleno curso e que pode se prolongar ainda por muitos anos, incluindo a possibilidade de um impasse sem solução. Ou seja, deste ponto de vista, apesar da grande vitória progressista deste outubro vermelho, o futuro da América Latina segue incerto e dependerá muitíssimo do que venha a passar na Argentina, Chile e Brasil, nos próximos tempos.
 
No caso da Argentina, o novo governo de Alberto Fernandez enfrentará desafios de grande proporção quase imediatos e que podem levar o país a repetir o dilema das últimas décadas, prisioneiro de uma “gangorra” que não deslancha, ora sob o comando dos “liberistas”, ora sob o comando dos “nacionalistas”, sem conseguir sustentar uma estratégia de desenvolvimento que seja coerente, consistente e duradoura. A diferença entre Fernandez e Macri foi de 8%, e apesar de que Fernandez terá maioria no Senado, não a terá no Congresso, onde será obrigado a negociar com Macri e com os demais partidos para aprovar seus projetos. Além disso, Fernandez começará seu governo no mês de dezembro, com um país quebrado e endividado, com reservas que já estão quase inteiramente comprometidas com o pagamento de dívidas de curto prazo, com altas taxas de inflação, desemprego e miséria. E com a ameaça permanente de ver seu governo torpedeado por novas explosões inflacionárias e crises financeiras que se repetem periodicamente na Argentina.
 
Por outro lado, no caso do Chile, as forças progressistas só poderão recuperar o governo em 2021, e até lá terão que negociar com o governo de Sebastián Piñera um programa de reformas constitucionais que terá que enfrentar o problema da reestatização dos serviços de saúde, água e saneamento básico, pelo menos, além da rediscussão do sistema de previdência social por capitalização, que fracassou rotundamente do ponto de vista dos aposentados. E a aceitação conjunta de que o desempenho macroeconômico chileno das duas últimas décadas é insuficiente para dar conta das necessidades concretas dos cidadãos comuns que não se interessam pelas cifras e querem apenas sobreviver com um mínimo de decência e qualidade de vida.
 
Por fim, o futuro brasileiro está cada vez mais difícil de prever depois dessa revolta continental. Mesmo que o país consiga se desfazer deste grupo de pessoas que se apoderou do Estado brasileiro, evitando portanto, a instalação autoritária de um regime controlado por milicianos e narcotraficantes, mesmo assim, depois do que já fizeram, eles já deixarão para trás, como uma herança funesta, um Estado e uma economia aos pedaços, e uma sociedade dividida e moralmente destruída. O que foi construído pelos brasileiros nos últimos 90 anos está sendo destruído e entregue, sistematicamente, por estes senhores, em troca de promessas e blefes que não têm a menor base científica ou histórica.
 
Mesmo sem voltar a falar da cegueira ideológica do senhor Guedes, basta ver o estrago que já foi feito novo chanceler brasileiro à imagem internacional do país, e à toda sua história diplomática, induzido pelos seus delírios religiosos e milenaristas, e pela sua decisão de “purificar” os costumes “ocidentais e cristãos”. A sua invasão da Venezuela já virou piada internacional, o seu Grupo de Lima implodiu, e o seu servilismo americano abriu portas para a formação de um novo eixo político-diplomático no continente, articulado em torno do México e da Argentina, enquanto ele próprio, se seguir por este caminho, acabará passando para a história da diplomacia brasileira como um personagem patético: “Ernesto, o Idiota”.
 
Concluindo, mesmo depois que esse grupo de marginais e fanáticos seja devolvido ao seu devido lugar de origem, o Brasil terá que enfrentar o desafio extremamente complexo de reconstruir seu Estado, suas instituições e sua própria sociabilidade, ao mesmo tempo em que define os novos caminhos da sua economia. E isto só será possível a partir de um grande acordo civilizatório entre as forças políticas democráticas, que tenha como ponto de partida o rechaço terminante do projeto atual de destruição do Estado e de submissão do país à direção econômica e ao protetorado militar dos Estados Unidos.
 
Notas:
1 Polanyi, K. A Grande Transformação. Rio de Janeiro: Editora Campus, Rio de Janeiro, 1980, p. 139.
2 Idem, p. 142.
 
Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OUTROS QUINHENTOS
 
 

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/11/o-outubro-vermelho-e-esclerose.html

'OEA se consolida como instrumento de pressão política dos EUA', diz presidente de Cuba

Mesa de reunião de chanceleres da OEA no México em 18 de junho de 2017
© REUTERS / Carlos Jasso

Durante um evento político em Havana, Cuba, o presidente do país, Miguel Díaz-Canel, acusou a OEA de ser um "instrumento de pressão dos EUA" e alertou sobre o "retorno da Doutrina Monroe".

Na ocasião, Díaz-Canel discursava no Encontro Anti-Imperialista de Solidariedade pela Democracia contra o Neoliberalismo, na capital cubana.

O chefe de Estado cubano analisou o cenário político em países latino-americanos como a Venezuela, Bolívia, Argentina e Brasil, acusando a Organização dos Estados Americanos (OEA) de ser um instrumento de Washington.

"Como não me rir da OEA se ela é uma coisa tão feia, mas tão feia que me faz rir [...]. A OEA se consolida como instrumento de pressão política dos EUA e das oligarquias que defendem o neoliberalismo", afirmou Díaz-Canel.

As palavras do presidente se referiram ao momento em que seu país foi expulso da organização tendo como fundo a Revolução Cubana, conforme publicou o Granma.

Díaz-Canel também acusou os EUA de não aceitarem as diferenças políticas e ideológicas no mundo, em particular na América Latina. Se referindo a "ingerências" no continente, o presidente cubano disse que a "América Latina e o Caribe enfrentam o retorno da Doutrina Monroe".

Doutrina Monroe

Em 1823, o presidente dos EUA James Monroe declarou uma doutrina política, conhecida como Doutrina Monroe, no qual repudiava a interferência de potências europeias no continente americano.

No entanto, se por um lado a doutrina parecia ser contra o colonialismo europeu no hemisfério ocidental, por outro ela teria servido como instrumento de fortalecimento da posição de lierança dos EUA no continente.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019110414727892-oea-se-consolida-como-instrumento-de-pressao-politica-dos-eua-diz-presidente-de-cuba/

Contestação à decisão de El Salvador em expulsar diplomatas venezuelanos

São muitas as vozes, de diferentes sectores, que criticam a decisão do governo salvadorenho contra a soberania da Venezuela, que reconhece Guaidó e expulsa do país todo o corpo diplomático bolivariano.

Nayib Bukele, presidente de El SavadorCréditos / EPA

O governo de Nayib Bukele deu 48 horas ao corpo diplomático da Venezuela para abandonar o seu território, depois de num documento oficial «reconhecer a legitimidade» de Juan Guaidó, que se autoproclamou, com o apoio expresso dos EUA e seus aliados, presidente da Venezuela no início do ano, numa tentativa de descredibilização das instituições bolivarianas e de desestabilização do país.

A ex-comandante Nidia Díaz, deputada pela Frente Farabundo Martí para a Libertação Nacional (FMLN), apelidou esta medida de «fascista» e de subserviência aos interesses dos EUA. No mesmo sentido, o secretário de comunicação da FMLN, Raúl Llarul, afirmou nas suas redes sociais que se trata de «um governo fascista, vendedor de a soberania nacional, ao serviço dos interesses de uma potência estrangeira, que não merece nem respeito, nem obediência».

Também o ex-presidente de El Salvador, Mauricio Funes, criticou a medida, relembrando na sua conta do Twitter que «Nayib age da mesma forma que Paco Flores enquanto presidente. Flores foi dos poucos governantes a reconhecer Carmona como presidente da Venezuela depois do falhado golpe de Estado contra Chávez levado a caboi pelos EUA».

Eugenio Chicas, deputado no Parlamento Centroamericano, recordou que as Nações Unidas reconhecem legitimidade ao presidente Nicolas Maduro, e que esta decisão de Bukele ratifica subserviência aos interesses estadunidenses.

A parlamentar Anabel Belloso considerou tratar-se de uma decisão condenável a de deixar de reconhecer um governo eleito democraticamente e com grande apoio popular.

Confirmando que esta posição está alinhada com os EUA, o embaixador deste país em El Salvador, Ronald Johnson, saudou de imediato a decisão de Bukele.

Recorde-se que já em Junho, poucos dias após a sua tomada de posse como presidente de El Salvador, Nayib Bukele anunciou o fim das relações diplomáticas com a República Árabe Saraui Democrática e o reforço dos vínculos com o Reino de Marrocos.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/contestacao-decisao-de-el-salvador-em-expulsar-diplomatas-venezuelanos

Agonia e morte do neoliberalismo na América Latina

Atílio A. Boron 02.Nov.19As extraordinárias movimentações de massas verificadas no Equador e agora no Chile inserem-se numa generalizada rejeição popular pela barbárie neoliberal, expressão extrema da barbárie capitalista. Barbárie que impregna todas as dimensões da vida social, económica e política de forma de tal modo intolerável que povos inteiros se levantam contra ela. Como este texto acertadamente conclui, o colapso de neoliberalismo não significará o fim do capitalismo. Mas o heroico levantamento popular chileno, no país-modelo da “Escola de Chicago”, mostra como a História está muito longe de ter chegado ao fim.


Nas últimas semanas o neoliberalismo sofreu uma série de derrotas que aceleraram a sua agonia e, entre convulsões terríveis e violentas, desencadearam o seu falecimento. Depois de quase meio século de pilhagens, tropelias e crimes de todos os tipos contra a sociedade e o meio ambiente, a fórmula de governança tão entusiasticamente promovida pelos governos dos países do capitalismo avançado, instituições como o FMI e o Banco Mundial, e estimada pelos Intelectuais bem-pensantes ​​e políticos do establishment jaz em ruínas.

O navio almirante dessa flotilha de saqueadores em série, o Chile de Sebastián Piñera, afundou-se sob o formidável impulso de um protesto popular sem precedentes, indignado e enfurecido por décadas de enganos, truques e manipulações mediáticas. Tinham prometido às massas chilenas o paraíso do consumismo capitalista e, durante muito tempo, acreditaram nessas mentiras. Quando despertaram do seu sonambulismo político deram-se conta que a pandilha que as governou sob uma capa fingidamente democrática os havia despojado de tudo: arrebataram-lhes a saúde e a educação pública, eram vigarizados sem escrúpulos pelos gestores dos fundos de pensões, encontraram-se endividados até ao pescoço e incapazes de pagar as suas dívidas enquanto contemplavam estupefactos como o 1% mais opulento do país se apropriava de 26,5% da renda nacional e aos 50% mais pobres apenas cabia 2,1%.

Todo esse despojo se produziu no meio de um ensurdecedor concerto mediático que embotava as consciências, alimentava com créditos indiscriminados esta bonança artificial e fez acreditar a uns e outros que o capitalismo cumpria com as suas promessas e que todos poderiam fazer o que quisessem com as suas vidas, sem que o Estado interferisse e aproveitando as imensas oportunidades que o livre comércio oferecia.

Mas nenhuma utopia, mesmo a do mercado total, está a salvo da acção dos seus vilões. E estes apareceram de súbito personificados nas figuras de alguns adolescentes do ensino médio que, com exemplar audácia e filial solidariedade, se rebelaram contra o aumento das tarifas do metro que prejudicavam não a eles mas a seus pais. A sua ousadia quebrou o feitiço e aqueles que tinham caído na armadilha de renunciar à sua cidadania política em troca do consumismo deram-se conta de que haviam sido burlados e vigarizados e saíram às ruas para expressar o seu descontentamento e a sua cólera. Converteram-se, da noite para o dia, em “vândalos”, “terroristas” ou num revoltoso bando de “estrangeiros” - para usar a eloquente descrição da mulher do presidente Piñera - que identificaram os limites inultrapassáveis ​​do consumismo e do endividamento infinito e o carácter de farsa do minueto democrático que ocultava, sob prolixas roupagens e vazias formalidades, a implacável tirania do capital.

Comprovaram nesse violento despertar que uma das sociedades outrora mais igualitárias da América Latina compartilhava agora, segundo o Banco Mundial, a dúbia honra de ser juntamente com o Ruanda um dos oito países mais desiguais do planeta. Como um relâmpago, perceberam que haviam sido condenados a sobreviver em débito vitalício, vítimas de uma plutocracia - insaciável, intolerante e violenta - e da corrupta partidocracia que era cúmplice daquela e gestora do saque contra o seu próprio povo e os recursos naturais do país. Por isso que tomaram as ruas e saíram em imponentes manifestações a lutar contra os seus opressores e exploradores, e fizeram-no - e até hoje o fazem - com uma valentia e heroísmo poucas vezes vistos. São já pelo menos vinte os mortos pela repressão das forças de segurança e os desaparecidos registados somam mais de cem, além das centenas de feridos e torturados e os milhares de detidos que marcam, com lúgubres tonalidades, os estertores finais do tão admirado modelo.

Depois dessa espontânea insurreição popular nada voltará a ser igual, nada reviverá o neoliberalismo, ninguém o indicará como o caminho real para a democracia, a liberdade e a justiça social. E isso embora Piñera continue em La Moneda e prossiga a sua brutal repressão. Apesar da qual nem a OEA, nem os governos “democráticos” do continente - presididos por sombrios personagens de largo currículo - nem os hipócritas guardiões dos valores republicanos terão o átomo de decência para caracterizar o seu governo como uma ditadura, qualificação que apenas Nicolas Maduro merece, embora nunca tenha havido no seu governo uma repressão tão bestial e sanguinária como a que foi documentada numa infinidade de vídeos gravados no Chile e que se tornaram virais online.

Para Donald Trump, Piñera é um amigo, vassalo e sicário político da Casa Branca, imprescindível para atacar a Venezuela Bolivariana e essas são razões mais do que suficientes para o defender e proteger a qualquer preço. Obedientes, as ONG’s do império e suas sucursais na Europa e na América Latina - inverosímeis ​​defensoras dos direitos humanos, da democracia, da sociedade civil e do meio ambiente - manterão um silêncio cúmplice ante os crimes cometidos pelo ocupante de La Moneda. Alguns expressarão outras opiniões, mas não aquelas que são os tentáculos ocultos do imperialismo.

Imperturbáveis, os publicistas do sistema continuarão a apontar Nicolás Maduro como o arquétipo da ditadura e o chileno como a própria personificação da democracia. Mas tudo será inútil, e o que morreu - a receita neoliberal - morto está.

Obviamente, a história não começa nem termina no Chile. Pouco antes do eclodir do levantamento social ainda em curso, o Equador do traidor e corrupto Presidente Moreno fora convulsionado por imensos protestos populares. O detonador, a faísca que incendiou a pradaria, foi a remoção dos subsídios aos combustíveis. Mas o factor determinante foi a implementação do “paquetazo” ordenado pelo FMI ao servil agente instalado no Palácio de Carondelet.

A reacção popular, iniciada primeiro entre transportadores e sectores populares urbanos e depois potenciada pela multitudinária irrupção das populações nativas nas principais cidades do país estendeu pouco mais de uma semana e obrigou o cobarde presidente a transferir a sede do Executivo para Guayaquil . Pouco depois teve que suspender a cruel repressão com que havia respondido ao desafio e abrir uma fraudulenta negociação com os autoproclamados líderes da revolta indígena. Astuto, acordou uma trégua com a desprestigiada e também ingênua liderança do CONAIE e revogou o decreto sobre o subsídio aos combustíveis, prometendo rever o que fora feito.

Nada disso aconteceu, mas conseguiu desarticular o protesto, por agora. Como é adequado a um traidor em série como Moreno o chefe dos negociadores indígenas, Jaime Vargas, está a ser processado judicialmente pelo governo. A ” paquetazo ” será posto em prática porque o mandato do FMI é inapelável e Moreno é um peão mais do que obediente: é obsequioso.

Sabe-se que esses programas do Fundo apenas são viáveis ​​se forem geridos com uma mistura - variável conforme os casos - de enganos e repressão. Mas agora a passividade cidadã tem pavio curto e em poucos meses mais, assim que se façam sentir os rigores do ajustamento selvagem, não seria estranho que estale uma nova rebelião plebeia que esperemos não caia nas armadilhas de Moreno e seus compinchas e culmine com sucesso com a destituição do presidente e a refundação da democracia no Equador.

O presidente está manietado: se aplica o programa do FMI, a massa popular provavelmente acaba com seu governo; se não o faz, o império pode decidir que chegou a hora de dispensar os seus serviços como inúteis. E como a Casa Branca “sabe demais” das trapalhadas e dos negócios sujos de Moreno, não terá outro remédio que não seja aceitar o ukase imperial e acolher-se a um “desemprego involuntário”, como dizia Keynes. Mas apesar da sua inutilidade e dos crimes perpetrados durante a repressão aos protestos populares, Washington encarregar-se-á de o esconder e proteger. Como fez com outro assassino, Gonzalo Sánchez de Lozada e com tantos outros. Dentro de pouco tempo saberemos qual será o desenlace.

O neoliberalismo sofreu outra derrota na Bolívia, quando o presidente Evo Morales foi reeleito com 47,08% dos votos contra 36,51% obtidos por Carlos Mesa, candidato de Comunidad Ciudadana. Apesar de o presidente ter conseguido mais 10,57% dos votos do que o seu oponente (mais do que os 10% que a legislação boliviana define para declarar o vencedor na primeira volta) e de não ter havido qualquer denúncia concreta de fraude, apenas gritos e uivos da oposição, esta exige que seja convocada a votação. Os que desde os EUA manipulam os inimigos de Evo na Bolívia contam com a previsível conivência da OEA e de alguns desastrados governos da região, como os da Argentina, Brasil, Chile, Colômbia.

Dizem que as irregularidades havidas na transmissão e difusão do escrutínio (explicadas de forma convincente pelas autoridades bolivianas), juntamente com a exiguidade da diferença obtida por Evo (mas acima de 10%, evidentemente) obriga a proceder dessa maneira. Se fosse esse o caso estas virtuosas vestais da democracia deveriam ordenar sem demora a anulação das eleições presidenciais de 1960 nos Estados Unidos, quando John F. Kennedy obteve 0,17% de vantagem sobre Richard Nixon (49,72 versus 49,55%) e foi investido como presidente sem enfrentar qualquer reclamação.

Mesa, que perdeu por uma diferença de 10,57%, faria bem em calar-se. Não o fará, porque num prodígio de adivinhação (que, obviamente, lhe saiu mal), tinha antecipado a sua vitória e que não reconheceria outro resultado que não fosse esse, como corresponde a um democrata “made in USA ” Se ganho, a eleição foi limpa; Se perco, houve fraude. Nada de novo: a direita nunca acreditou na democracia, muito menos nestas latitudes, e está de forma irresponsável a apelar à desobediência civil e a promover desmandos para “corrigir” o resultado que lhe foi negado nas urnas.

Evo, em um gesto que o enaltece, desafiou a OEA a realizar uma peritagem integral do processo e que, se encontrar evidência de fraude, convocaria de imediato a votação. Será inútil, mas o capataz Almagro enviará uma missão à Bolívia para agitar o vespeiro e entorpecer o trabalho do governo. Desgraçadamente, haverá pessoas que morrerão ou sofrerão ferimentos graves por causa dos distúrbios que essa missão causará. Claro está que os movimentos sociais da Bolívia não permitirão que uma derrota de mais de dez pontos obrigue a uma votação ou promova como vencedor o perdedor. Além disso, não é um facto menor que os governos do México e o novo da Argentina tenham reconhecido o triunfo de Evo, tal como os de Cuba e da República Bolivariana da Venezuela. Em suma: a restauração do neoliberalismo na Bolívia parece ter ficado novamente frustrada, por mais esforços que o império e seus tenentes locais façam.

Em linha com esse quadro regional marcado por um generalizado clima ideológico de rejeição do neoliberalismo imperante, na Argentina a experiência neoliberal de Mauricio Macri foi repudiada nas urnas. Amplamente porque o que aconteceu em 27 de Outubro não foi a primeira volta de uma eleição presidencial. Esta aconteceu, de facto, no dia 11 de Agosto, nas PASO (eleições primárias, abertas, simultâneas e obrigatórias) e ali as diferentes alianças políticas mediram as suas forças. Como naquela ocasião ficou demonstrado que apenas Mauricio Macri tinha votos para desfiar o poder eleitoral da Frente de Todos, o presidente atraiu as preferências dos eleitores de direita que nas PASO tinham optado por outras candidaturas (Juan José Gómez Centurión ou José Luis Espert e alguns de Roberto Lavagna) e provavelmente com um segmento majoritário do maior afluxo cidadão que compareceu às eleições neste domingo.

De qualquer forma ficam algumas incógnitas de difícil resolução e que despertam cada vez mais fundadas suspeitas sobre o genuíno veredicto das urnas. Por exemplo, é difícil entender o facto de a fórmula de Fernández-Fernández apenas ter aumentado o seu caudal eleitoral em cerca de 250.000 votos, diminuindo sua gravitação percentual em relação às PASO em quase um e meio por cento. Se o seu rival o tivesse aumentado, mas que o tivesse feito em 2.350.000 votos e quase sete e meio por cento causa pelo menos alguma curiosidade. É óbvio que o macrismo beneficiou com a fuga de votos para a sua candidatura, mas o seu crescimento surge tão excessivo quanto o muito pouco que a Frente de Todos experimentou num contexto de aprofundamento da crise económica como a vivida pela Argentina nos últimos dois meses.

Outro mistério da aritmética eleitoral é o paradeiro dos 900.000 votos obtidos na PASO pelas duas candidaturas presidenciais do trotskismo e que se reduziram a pouco mais de 550.000 no último domingo. O que aconteceu com esses 350.000 votos desaparecidos: evaporaram-se, votaram em Macri? São demasiadas interrogações que não poderemos resolver aqui, mas que alimentam a suspeita de que pode ter havido uma fraude informática muito sofisticada que seguramente será descoberta assim que esteja concluído o escrutínio final da eleição.

De qualquer forma, para além destes insólitos, os quase oito pontos percentuais que separam Fernández de Macri (que podem aumentar quando forem conhecidos os dados definitivos) são, para uma votação, uma diferença muito significativa. Recorde-se que na segunda volta das eleições presidenciais de 2015 Macri teve sobre Daniel Scioli dois pontos e meio de vantagem, 2,68% segundo o escrutínio definitivo. Certo é que a árdua tarefa de reconstruir a economia e curar as profundas feridas que o macrismo deixou no tecido social apenas será possível abandonando as receitas do neoliberalismo. Este causou na Argentina a mais grave crise da sua história, pior ainda do que o traumático colapso da Conversibilidade em 2001.

Será como subir uma ladeira íngreme, porque Macri deixa o país em profunda recessão, afligido pela inflação e um desemprego de dois dígitos, com quase quarenta por cento das pessoas em situação de pobreza e uma dívida descomunal e de curto prazo, nada menos do que com o FMI. Mas os levantamento sociais do Chile e do Equador são um eloquente dissuasor para desencorajar quem queira aconselhar o novo presidente que o que há que fazer é imitar as realizações do neoliberalismo tal como foram conhecidas no Chile.

Não poderia concluir esta visão panorâmica da agonia do neoliberalismo na América Latina sem mencionar o sério revés sofrido no domingo passado por essa corrente ideológica nas eleições regionais da Colômbia. Nesse país, o autoproclamado Centro Democrático (que não é um nem o outro, mas uma direita radical e visceralmente antidemocrática), partido ao qual pertencem Álvaro Uribe e o actual presidente Iván Duque, sofreu uma forte derrota na disputa travada nas duas principais cidades do país, Bogotá e Medellín. Em ambas se impôs a oposição de centro-esquerda e o uribismo apenas prevaleceu em duas das 32 províncias da Colômbia. Embora seja prematuro antecipar qualquer previsão sobre o que poderia acontecer nas eleições presidenciais de 2022, o certo é que se algo não era esperado na Colômbia, era um tropeção tão contundente da direita ultra-neoliberal naquelas cidades. Um sinal muito positivo, sem dúvida.

Tampouco poderia encerrar essas linhas sem compartilhar neste caso a preocupação gerada pelo processo eleitoral no Uruguai, em cuja primeira volta o candidato da Frente Amplio e ex-prefeito de Montevidéu, Daniel Martínez, obteve 39,2% dos votos contra 28,6% de Luis Lacalle Pou, do conservador Partido Nacional. Isto faz prever uma disputa renhida na votação que ocorrerá em 24 de Novembro, porque as restantes forças políticas da direita prometeram o seu apoio a Lacalle Pou, incluindo a lamentável novidade da política uruguaia: o “bolsonarismo” encarnado no partido Cabildo Abierto liderado pelo ex-comandante do Exército Nacional Guido Manini Ríos, fervoroso opositor de qualquer pretensão de revisão de casos de violação dos direitos humanos perpetrados pela ditadura no Uruguai e duro crítico de toda a legislação progressista aprovada pela Frente Ampla ao longo de quinze anos de governo.

Nem tudo está perdido, mas faltam apenas quatro semanas para persuadir o eleitorado uruguaio de que eleger um governo neoliberal num momento em que essa corrente se desmorona em meio de tremendas convulsões sociais - no Chile, no Equador, no Haiti e antes no México, com o triunfo de López Obrador - condenaria aquele país a enveredar por um caminho que terminou num rotundo fracasso em todos os países da região. Seria ingénuo pensar que o que produziu um holocausto social sem precedentes no México, depois de 36 anos (1982-2018) de co-governo do FMI-PRI-PAN; ou a gravíssima crise que assola a Argentina e o descalabro que devora o Chile e o Equador podem dar origem a um resultado virtuoso na nação do Rio de La Plata. Muito terá que trabalhar a Frente Ampla para que seus compatriotas observem com cuidado o cenário regional e extraiam as suas próprias consequências.

Pomos ponto final nesta visão panorâmica das vicissitudes da agonia e morte do neoliberalismo na América Latina. O que está morto morto está, mas não é fácil discernir o que brotará das suas cinzas. Será ditado, como todos os processos sociais, pelas vicissitudes da luta de classes, pela clarividência das forças dirigentes do processo de reconstrução económica e social; pela sua audácia em enfrentar todo o tipo de contingências e preservar a preciosa unidade das forças políticas e sociais democráticas e de esquerda; pela sua valentia para desbaratar os planos e as iniciativas dos figurões do passado, dos guardiões da velha ordem; pela eficácia com que se organize e consciencialize o heteróclito e tumultuoso campo popular para enfrentar seus inimigos de classe, o império e seus aliados, o capitalismo como sistema, que conta com enormes recursos à sua disposição para preservar os seus privilégios e prosseguir as suas exacções Será uma tarefa hercúlea, mas não impossível.

Avizinham-se “tempos interessantes” e grávidos de grande potencial de mudança. A incerteza domina a cena, como invariavelmente acontece em todos os momentos decisivos da história. Mas onde há uma certeza absoluta é que já mais ninguém na América Latina pode enganar os nossos povos, ou pretender ganhar eleições dizendo que “há que imitar o modelo chileno” ou seguir os passos do “melhor aluno” do Consenso de Washington.

Isto foi o que durante décadas eles recomendaram - em vão, visto o veredicto final da história - o anteriormente loquaz e agora silencioso Mario Vargas Llosa juntamente com a plêiade de publicistas do neoliberalismo que impunham com prepotência as suas falácias e sofismas graças à sua inserção privilegiada nos oligopólios mediáticos e dispositivos de propaganda da direita.

Mas isso já é passado. E não cometeremos a imbecilidade de fingir fazer gala de uma inverosímil “neutralidade” ou boas maneiras na hora de descartar essa corrente ideológica nas suas exéquias, desejando-lhe que “descanse em paz”, como se faz com aqueles que deixaram uma marca virtuosa na sua passagem por este mundo. Em vez disso, o que diremos é: “vai para o inferno, maldita, pagar pelos crimes perpetrados por ti e pelos teus mentores!”

Fonte: http://www.resumenlatinoamericano.org/2019/10/30/pensamiento-critico-agonia-y-muerte-del-neoliberalismo-en-america-latina/[1]

Divulga o endereço[2] deste texto e o de odiario.info[3] entre os teus amigos e conhecidos

References

  1. ^http://www.resumenlatinoamericano.org/2019/10/30/pensamiento-critico-agonia-y-muerte-del-neoliberalismo-en-america-latina/ (www.resumenlatinoamericano.org)
  2. ^endereço (www.odiario.info)
  3. ^odiario.info (odiario.info)

Ver o original em ODiario.info (clique aqui)

O DESPERTAR DOS POVOS

 
 
Parece inegável que em pontos muito diferentes do globo há povos que despertam contra a ditadura económica globalizante do neoliberalismo e as suas trágicas consequências sociais.
 
José Goulão | AbrilAbril | opinião
 
A paz podre do neoliberalismo globalizante e o conformismo social que lhe corresponde estão a ser sacudidosatravés do mundo. Nas urnas e nas ruas – as duas frentes são democraticamente legítimas e complementares – os povos dão sinais de que a sonolência hipnótica induzida pelo entertainment mediático em que se transformou tudo o que tem a ver com a vida das pessoas é uma arma que também se desgasta, desmascara e vai perdendo eficácia. Uma faúlha representada por um aumento de preços, um corte de subsídios sociais, o lançamento de mais um imposto tornaram-se agora susceptíveis de provocar grandes e vibrantes explosões sociais. A arbitrariedade e a impunidade do sistema dominante começam a encontrar barreiras humanas.
 
Multiplicam-se os focos de contestação popular em zonas diversificadas do mundo. Mas será um erro avaliá-los segundo uma bitola única, além de ser profundamente desaconselhável deixar-nos conduzir pelos conteúdos e sistematizações que brotam da comunicação social dominante. Esta recorre a métodos padronizados com alguns objectivos principais: diluir a importância e a legitimidade de acções cívicas através do empolamento dos fenómenos de violência e que, em última análise, funcionam em benefício do opressor; misturar razões e motivos para confundir e esconder, deste modo, a mensagem essencial enviada pelos comportamentos de massas; associar situações que são liminarmente antagónicas; ou então evitar ligar circunstâncias e consequências que, sendo diferentes, têm, obviamente, objectivos convergentes. Por exemplo, tratar as manifestações no Chile contra o neoliberalismo como irmãs gémeas dos desacatos na Bolívia a favor do neoliberalismo é tão perverso do ponto de vista informativo como esconder que os movimentos populares chilenos têm exactamente a mesma motivação que os resultados das eleições na Argentina dando guia de marcha a Macri, o homem do FMI.
 
A única maneira de compreender o que está a passar-se do ponto de vista global através das grandes movimentações populares em curso é partir da observação isolada de cada caso para chegar ao que têm em comum – como indicadores de uma tendência.
 
 
Do Chile à Catalunha
 
Embora em diferentes fases de maturação, é possível comparar, sem misturar alhos com bugalhos como capricha em fazer a informação mainstream, várias situações em diferentes continentes: Chile, Bolívia (e Venezuela), Líbano, Catalunha, Argentina, Equador, Hong Kong, Honduras, Iraque, Nicarágua.
 
O que está a passar-se no Chile tem características objectivas e simbólicas importantíssimas, das quais ressalta uma rejeição absoluta da ditadura económica neoliberal. O Chile é o país onde foi aplicada pela primeira vez, já lá vão 46 anos, a ortodoxia económica neoliberal, a cargo dos agentes da sua escola teórica em Chicago, sob cobertura da ditadura política fascista do general Augusto Pinochet.
 
A situação demonstrou que o neoliberalismo é, de facto, o fascismo económico; desenvolvimentos posteriores revelaram – como aliás constatou a senhora Thatcher, inspiradora do «novo» partido parlamentar Iniciativa Liberal – que pode ser compatível com formas muito controladas e manipuladas de democracia política, desde que sustentadas pela transformação da comunicação social dominante num aparelho feroz de propaganda. O que se mantém, em qualquer das situações, são os mecanismos de ditadura económica através da imposição da ortodoxia do «sistema de mercado».
 
No Chile não houve uma transição para a democracia com a saída de Pinochet, mas sim o prolongamento do pinochetismo travestido de democracia, regime em que se comprometeu – traindo inexoravelmente a memória do sacrificado Salvador Allende – o Partido Socialista do Chile, através da ex-presidente Michelle Bachelet.
 
É contra essa eternização da escravatura neoliberal que se levantam agora as massas chilenas, quanto a propaganda disfarçada de informação prefere destacar os comportamentos violentos para esconder, por exemplo, a gigantesca manifestação pacífica de um milhão e 200 mil pessoas em Santiago no passado dia 25, que só tem paralelo com as da Unidade Popular nos anos setenta do século passado. O aumento dos preços das viagens de metropolitano foi o detonador, a gota que pôs fim à paciência dos chilenos, que os ricos mais ricos de um dos países mais desiguais do mundo julgavam eterna.
 
Na Catalunha não é o neoliberalismo que está directamente em causa. Mas a incapacidade para se dar conta da existência de um movimento de milhões de pessoas pela autodeterminação catalã é comportamento próprio de um Estado centralista e avesso ao diálogo – como são as estruturas de poder neoliberais.
 
É evidente que a propósito da Catalunha, a região mais rica de Espanha, existem razões económicas escondidas em invocações «constitucionalistas» baratas e em «unidades nacionais» de índole feudal. Um Estado verdadeiramente democrático não teria dificuldades em dar a palavra aos catalães – e a outros povos de Espanha – para decidirem sobre o seu futuro. Mas o Estado que emana de Madrid o seu neofranquismo latente, agora como sustentáculo da ortodoxia neoliberal, não é capaz de viver com isso. No entanto, tal como no Chile, há novas realidades que tornam impossível que tudo continue como até aqui.
 
Por detrás do autoritarismo do Estado espanhol está a União Europeia, esse panteão neoliberal que se recusa a conhecer o que pretendem os catalães mas foi lépido em acolher entidades secessionistas como a Estónia, Letónia, Lituânia, Eslováquia, Croácia, Eslovénia; e que inventou outras por sua conta, risco, fraudes e guerras, como o Kosovo e a Macedónia do Norte.
 
Do Equador a Hong Kong
 
Quem seguir os acontecimentos no Equador e em Hong Kong comodamente instalado em frente do televisor, ainda que vá manejando o telecomando para ir variando de espaços noticiosos, fica a saber que os energúmenos latino-americanos são incapazes de aceitar um corte de subsídios de combustível recomendado pelo FMI e que o corajoso povo asiático enfrenta destemidamente os sinistros ocupantes chineses.
 
São bons exemplos de como funciona a propaganda neoliberal.
 
No Equador, as populações levantam-se contra o ressurgimento neoliberal proporcionado pela traição de Lenin Moreno à política de uma década de avanços sociais e soberanos conduzida por Rafael Corrêa, de quem foi vice-presidente. Os equatorianos recusam-se, deste modo, a regressar a um passado de submissão ainda recente.
 
Em Hong Kong, os «ninjas» teleguiados de Washington e recorrendo a uma estratégia generalizada de intimidação actuam para que se mantenha o colonialismo ocidental, que fez do território um bastião do capitalismo na sua versão neoliberal mais ortodoxa.
 
Uma vez que o regresso do território à soberania chinesa é interpretado como uma tentativa para perturbar a ortodoxia colonialista reinante torna-se fácil entender o que está a acontecer, sobretudo enquadrando a situação na fase de ataque cerrado contra os avanços económicos e comerciais chineses conduzido pela administração Trump. Em Hong Kong, o activismo a soldo de Washington e Londres nada tem a ver com uma população que, quando chamada a pronunciar-se sobre a administração do território, vota em massa nas organizações sintonizadas com a soberania chinesa.
 
Nas urnas como nas ruas
 
Na Argentina e na Bolívia os cidadãos disseram nas urnas o mesmo que os chilenos, equatorianos, hondurenhos e libaneses expressam nas ruas: a rejeição do neoliberalismo.
A realidade é mais complexa, naturalmente, mas essa é a mensagem essencial.
 
Os argentinos não deixaram margem para dúvidas: aproveitaram a primeira oportunidade eleitoral que lhes surgiu e puseram fim ao terrorismo neoliberal implantado pela ditadura de Mauricio Macri, ao serviço do FMI, que em quatro anos arrasou a economia do país ampliando fenómenos como a pobreza, a submissão, a desigualdade, a delinquência.
 
A afinidade entre chilenos e argentinos é total; o mesmo acontece com os equatorianos e os hondurenhos. Estes enfrentam corajosamente um regime terrorista nascido de um golpe patrocinado por Barack Obama e Hillary Clinton e sustentado por sucessivas eleições fraudulentas as quais, não obstante, têm recebido a chancela de legitimidade democrática outorgada por delegações da União Europeia.
 
Na Bolívia, o triunfo de Evo Morales e a nova rejeição do neoliberalismo foram difíceis num ambiente de manipulação norte-americana – a embaixada em La Paz foi apanhada a comprar votos, principalmente em Santa Cruz, tal como já o fizera com deputados da Macedónia do Norte – que continua após as eleições.
 
O candidato oficial do neoliberalismo, o antigo presidente Carlos Mesa, deu o tiro de partida para a contestação levantando a acusação de «fraude» quando a contagem de votos estava no início. Dessa suposta fraude nenhuma prova apresentou, porque não houve. Mas as consequentes arruaças servem para a propaganda mediática disseminar o mote como uma verdade absoluta, sancionada por «organizações internacionais», as que se consideram portadoras dos mecanismos de avaliação de legitimidades.
 
Não é difícil perceber a intenção manipuladora da comunicação social dominante quando associa os protestos na Bolívia aos do Chile. No fundo é o mesmo estilo de propaganda que transforma em grandes manifestações populares pela democracia as arruaças terroristas do usurpador Juan Guaidó na Venezuela.
 
Desperta também o povo do Líbano. Nova sobrecarga de impostos num país avassalado por uma crise económica e afogado em corrupção e privilégios dos titulares e ex-titulares do poder foi a gota que fez transbordar a paciência. É um protesto massivo contra um sistema político que pode ser assimilado a outros como os do Chile, Equador e Honduras, mas que que combina a ortodoxia neoliberal com um confessionalismo herdado do domínio colonial – sempre presente. Por isso, as reivindicações populares vão além da convocação de novas eleições gerais; exigem uma lei eleitoral que deixe de estar subordinada a quotas de eleitos distribuídas pelas comunidades étnico-religiosas e estabeleça um sufrágio universal directo e proporcional. É aí que se fixa o nó do problema, porque nenhum dos protectores coloniais do Líbano, da França aos Estados Unidos, passando por Israel e Arábia Saudita, está disposto a aceitar uma transparência democrática que possa traduzir-se, por exemplo, numa vitória do Hezbollah, como chega a ser vaticinada ainda que a comunidade xiita não seja maioritária no país. As manifestações de massas fizeram já cair o presidente, mas a realização de eleições segundo a metodologia em vigor produzirá um pouco de mais do mesmo. E, para já, de uma maneira perversa, a Arábia Saudita marcou pontos, porque estava interessada na queda do actual chefe de Estado.
 
Os tumultos no Iraque têm motivações bastante mais ambíguas e enviesadas. Não é difícil arrastar as massas para as ruas numa situação de crise económica grave decorrente da invasão, ocupação e desmantelamento do país pelas tropas norte-americanas, a que se seguiram guerras ainda por resolver. Porém, a concretização das exigências do sector mais radical e contundente dos manifestantes, a demissão do primeiro-ministro, seria um favor às pretensões actuais dos Estados Unidos, que vêem no actual governo um adversário aos seus objectivos de isolamento e fragilização do Irão.
 
Povos em acção
 
Parece inegável que em pontos muito diferentes do globo há povos que despertam contra a ditadura económica globalizante do neoliberalismo e as suas trágicas consequências sociais. Independente de questões específicas de cada caso, começa a desenhar-se uma tendência popular para abandonar o conformismo e enfrentar Estados tornados autoritários para poderem impor as soluções económicas únicas, as toleradas pelo «mercado».
 
Essas acções populares não se confundem, a não ser no âmbito da estratégia manipuladora da própria propaganda neoliberal, com arruaças, tumultos e comportamentos terroristas como os que acontecem na Bolívia, na Venezuela, Hong Kong e Nicarágua, por exemplo, onde se colocam travões aos mecanismos predadores do «mercado».
 
O despertar dos povos, nas urnas ou nas ruas, vem pôr em causa os pilares em que assenta a democracia corrompida que serve de cobertura à ditadura do «mercado». Quer isto dizer que os povos não só querem ter voz como começam a exigir que esta seja ouvida e respeitada.
 
O que nos dizem estes levantamentos? Que ficar à espera de um neoliberalismo democrático é o mesmo que aceitar passivamente a canga da submissão perante a selvajaria capitalista. Realidade que é válida tanto no exterior como no interior da União Europeia.

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/11/o-despertar-dos-povos.html

Depois da Venezuela, porque será que a imprensa ignora Chile e Equador?

Tanto o Equador como o Chile têm vindo a opor-se às políticas neoliberais de Moreno e Piñera. Em ambos os casos, a imprensa internacional, que apostou na Venezuela, tem passado ao lado dos protestos.

Apesar das promessas do Presidente Piñera, a polícia do Chile continua a usar da violência indiscriminada e a deter manifestantes. Santiago, Chile, 29 de Outubro de 2019CréditosPablo Sanhueza

Os meios de comunicação social não estão a dar eco dos protestos no Chile e no Equador com a mesma intensidade com que trataram a Venezuela, tendo atingido o auge no início deste ano. A constatação da Telesur surge apoiada no comentário que o jornalista da CNN, Carlos Montero, deixou na sua conta do Twitter, em 22 de Outubro.

Montero questiona inclusive as manchetes dos órgãos internacionais, onde não há referências aos protestos populares e à repressão que lhes tem sucedido em ambos os países. 

O jornalista estabelece uma comparação com o tratamento dado, designadamente pelo The New York Times, à violência das guarimbas, que a direita venezuelana levou a cabo em 2017 com o objectivo de derrubar o presidente Nicolás Maduro, com lugar de destaque nos títulos norte-americanos de grande circulação.

Siempre leo el @nytimes Tengo una duda, puede ser que se me haya escapado, por qué no publican en portada, como hacían con las de #Venezuela , las protestas en #Ecuador y #Chile ? Me parece raro.

— Carlos Montero (@CMonteroOficial) October 22, 2019

A Telesuradianta que, desde o início de Janeiro deste ano, o The New York Times publicou mais de 900 artigos sobre a Venezuela, na sua maioria muito críticos do governo de Maduro, recorrendo a uma guerra semântica. 

«Ditador» e «tirano» foram termos utilizados para designar o presidente eleito, ao mesmo tempo que identificaram os grupos violentos que agrediram as forças de segurança com bombas molotov, pedras e armas de fogo como «activistas» e «pacifistas».

Por outro lado, a Telesur lembra que o apoio dos EUA ao governo do Equador e ao presidente Moreno, com Mike Pompeo a valorizar os «esforços [...] para instituir prácticas democráticas e implementar reformas económicas», não aconteceu na Venezuela, quando sectores violentos tentaram desestabilizar o governo venezuelano.

Recorde-se que o governo da Venezuela acusou John Bolton de promover um golpe de Estado no país ao tentar impor um governo do então auto-proclamado presidente interino Juan Guaidó. 

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/depois-da-venezuela-porque-sera-que-imprensa-ignora-chile-e-equador

Chile: 'É o começo do fim de um sistema ultramercantilizado', diz cientista político

 
 
Segundo Hassan Akran, professor de políticas públicas na universidade chilena Diego Portales, doutor em ciências políticas e especialista por Cambridge, protestos evidenciam que o sucesso chileno é uma 'farsa neoliberal'
 
Lu Sudré*
 
As manifestações massivas contra o aumento da tarifa no transporte público chileno, iniciadas em 18 de outubro, foram o estopim para uma revolta popular contra a política neoliberal vigente no país desde a ditadura comandada por Augusto Pinochet (1973-1990). De lá pra cá, as reivindicações por trás das “evasiones masivas” – ato de pular as catracas coletivamente para não pagar a passagem – ganharam força a ponto de deixar acuado o governo de Sebastián Piñera. 
 
Dias após o início dos protestos que levaram milhões de pessoas às ruas, as manifestações contra a alta concentração de renda e contra os serviços privados na área da saúde, educação e previdência social continuam a chamar atenção do mundo todo. 
 
Em entrevista ao Brasil de Fato, Hassan Akram, professor de políticas públicas na universidade chilena Diego Portales, doutor em ciências políticas e especialista em desenvolvimento econômico pela Universidade de Cambridge, analisa o impacto dos protestos no país. 
 
“Esse estopim social é algo histórico”, diz Akram. “É o começo do fim de um sistema tão neoliberal no Chile. Isso não irá acontecer imediatamente. Agora temos um governo de direita que vai tentar apaziguar o conflito oferecendo migalhas, mudanças superficiais. Mas há sementes. As ideias do povo estão crescendo. No futuro, nos próximos dez anos, essas ideias só ficarão mais e mais fortes. Se abre uma possibilidade”.
 
 
O Chile é frequentemente citado por neoliberais como um grande exemplo de desenvolvimento econômico na América Latina, incluindo Jair Bolsonaro e Paulo Guedes. No entanto, na opinião do pesquisador, os protestos populares mostram que “o sucesso chileno é uma espécie de mito”. 
 
Desde a madrugada do dia 19 de outubro, Sebastián Piñera decretou estado de emergência em todo país. Somente na última segunda-feira (28/10), após confrontos violentos entre policiais e manifestantes, saques e incêndios no metrô, Piñera suspendeu o decreto. 
 
Vinte pessoas foram mortas durante protestos fortemente reprimidos pelo exército e pelos carabineiros (instituição de polícia ostensiva militar do Chile). Mais de 2.400 pessoas foram detidas.
 
Em resposta, mais de cinco mil personalidades, entre elas intelectuais como Silvia Federici, Toni Negri e Judith Butler, assim como 327 organizações sociais e políticas, publicaram uma moção em repúdio à violência estatal e violação de direitos humanos no Chile. 
 
Segundo Hassan Akran, os protestos mostram que há uma clareza entre os manifestantes de que é urgente mudar a Constituição Pinochetista que ainda vigora no país e uma ruptura imediata com o modelo de economia neoliberal.
 
"É muito simbólico que esse país, que supostamente é exemplo de sucesso no continente em termos de neoliberalismo, mostre que esse sistema, inclusive aqui, é um fracasso total", argumenta.
 
 
 
 
Brasil de Fato: Sabemos que os protestos no Chile começaram devido ao aumento da tarifa do transporte público. Mas, há questões maiores do que essa? Os chilenos protestam contra o que?
 
Hassan Akram: O transporte público é um tema estrutural no Chile. Em comparação com o continente latino americano, é muito mais caro. O custo do metrô é 70% a mais que a média da região, considerando todos os metrôs da América Latina. É o segundo mais caro de todos… O único mais caro é o de Brasília. Mas o de Santiago é mais caro que Porto Alegre, de Rio de Janeiro, de São Paulo, de Salvador.
 
Além disso, a população chilena ganha pouco. É um país muito rico mas muito desigual. Se calcula que o transporte é o segundo gasto mais importante das pessoas, 15% de toda a renda mensal aproximadamente são gastos com transporte em Santiago.
 
Para os mais pobres, esse número sobe para 28%. Mas não poderia dizer que o tema do transporte público é um reflexo do problema dos baixos salários. As pessoas não podem pagar o metrô porque ganham muito pouco em comparação com os custos de vida em Santiago e isso tem a ver com a desigualdade. É um país muito rico mas com renda muito mal distribuída. 
 
Segundo um estudo de Branko Milanovic, um economista muito famoso da Croácia que trabalhou para o Banco Mundial e especialista em desigualdade, diz que a renda dos 5% mais pobres do Chile, é igual a renda dos 5% mais pobres da Mongólia. Mas, os 2% mais ricos no Chile têm a mesma renda que os 2% mais ricos que Alemanha. 
 
Isso é desigualdade. Existem dois mundos no Chile completamente diferentes entre pessoas que vivem na Alemanha e pessoas que vivem na Mongólia. Isso explica porque o aumento do preço do metrô gera tanta raiva entre pessoas comuns. Porque as coisas são caras e as pessoas ganham muito pouco, se não são parte da elite. Isso que geram os protestos.
 
O Chile sempre foi citado como um país de sucesso econômico do neoliberalismo na América Latina. As manifestações da última semana, no entanto, mostram que há problemas no país. Qual a real situação do Chile nos últimos anos e principalmente no governo Piñera? 
 
O sucesso chileno é uma espécie de mito. Nunca foi bem sucedido. Em algum momento, há muitos anos, nos anos 1990, se falava do Chile como um modelo de sucesso porque crescia economicamente muito rapidamente. Mas, desde então, houve uma desaceleração no crescimento da economia. Os salários das pessoas tiveram um crescimento real muito lento nos últimos dez anos. Há pelo menos quinze anos que a produtividade é estagnada e os salários não crescem.
 
O sucesso do Chile é de comunicação, de relações públicas, propaganda. O Chile nunca foi uma economia bem sucedida. As economias realmente exitosas, que cresciam rapidamente, logo conseguiram baixar o nível de pobreza são os países da Ásia. Como Coreia do Sul, Taiwan, Singapura, mas nunca o Chile. Ele cresce relativamente lento, mas mais rápido que a média da região, mas não muito melhor do que isso. 
 
O Chile sempre depende do alto preço do cobre. É um país onde 60% de suas exportações são de cobre ou de recursos naturais levemente processados. É uma economia que depende de recursos naturais que cresce mas não tão rapidamente como dizem, e isso implica poucas possibilidade de aumento de salário.
 
Não é um problema só do Piñera. É um problema histórico que está explodindo agora. O neoliberalismo chileno começa durante a ditadura, em 1973. Desde o retorno da democracia, em 1980, se seguiu o mesmo modelo. Havia alguns anos em que os salários estavam aumentando e o Chile estava voltando ao estado anterior a ditadura, mas, rapidamente isso desapareceu e seguimos na mesma. Nunca foi um país bem sucedido economicamente, e sim um país dominado pelo poder dos empresários onde as pessoas estão cansadas sem expressar sua raiva por não ter nenhuma outra opção. 
 
Em termos eleitorais, as pessoas simplesmente deixaram de ir as eleições porque não viam nenhuma possibilidade de mudança. É um país cansado que aceitava isso porque não tinha outra opção. Em algum momento, foi tanto o abuso que explodiu. Não é apenas no governo de Piñera, é um problema histórico e estrutural de décadas. 
 
De fato, as pessoas que desenhou o sistema de aumento do preço do metrô é um economista que se chama Claudio Agostini. Um economista da democracia cristã, que esteve atrás do desenho econômico e tributário de Michelle Bachelet. Então não é só do governo de Piñera. É de toda a classe política. Da centro direita e da centro esquerda… esses dois grupos, o duopólio chileno, estão sendo rechaçados transversalmente. 
 
Aqui no Brasil, o próprio presidente, Jair Bolsonaro, e Paulo Guedes, ministro da Economia, afirmam que o Chile é um ótimo exemplo em termos econômicos…
 
Esse discurso se vende para fora. Para Colômbia, pro Brasil, para países que falam sobre como o modelo chileno é bom. Mas a realidade é que não é assim para os chilenos que vivem no Chile. De fato, aqui chegam muitos imigrantes estrangeiros da América Latino, inclusive tivemos uma onda recente de venezuelanos. E quando os venezuelanos se dão conta de que Santiago é tão caro, de que as pessoas ganham tão pouco, e de que o serviços sociais como saúde e educação são pagos, rapidamente se dão conta de que o sucesso chileno não é real.
 
Então, se usa essa narrativa estrategicamente em defesa do neoliberalismo?
 
Sim, definitivamente. Nem tanto Bolsonaro, porque ele não sabe muito de economia. Como militar é mais estatista, a favor do gasto público com a polícia e com militares. Mas o ministro de Economia do Brasil, Paulo Guedes, estudou na Universidade de Chicago e tem essa visão extremista e ideológica de como são as coisas. Então claro que ele apoia o modelo chileno. Na verdade, o modelo chileno é muito bom se você é parte dos 2% mais ricos. Se faz parte da elite empresarial, se é um “homem de negócios”… Chile é o país ideal porque aqui os empresários pagam poucos impostos, enfrentam poucas regulações, não têm que pagar a aposentadoria de seus trabalhadores. É o paraíso para os empresários. Enquanto os empresários vivem bem, resultado de ter o Estado ao seu lado, as pessoas vivem mal.
 
O senhor citou a questão da mercantilização da saúde e da educação, bandeiras que têm sido levantadas nos protestos. Podemos dizer que essas medidas neoliberais aprofundaram a revolta da população?
 
Os temas concretos são três: Saúde, aposentadorias e educação. É o que mais tem sido mencionado. Todos relacionados a baixos salários e a necessidade de pagar por esses serviços. De fato, a questão mais forte é a aposentadoria. A maioria das pessoas que se aposentam no Chile, recebem uma pensão abaixo da linha da pobreza. A forma de calcular quanto se vai receber de aposentadoria, depende de quanto conseguiu colaborar durante seu tempo trabalhando. 
 
Esse sistema que chama capitalização individual ou administradoras de fundo de pensão, um sistema completamente privatizado, prejudica mais as mulheres. Uma mulher entra no mercado de trabalho por um tempo e, se tem filhos, sai do mercado laboral. No tempo que está com seus filhos não está colocando saldo no seu fundo de pensão. As mulheres têm aposentadorias muito baixas. 
 
É um sistema muito machista, que paga aposentadorias de miséria. Há muita raiva porque as pessoas precisam pagar 7% de sua renda para uma conta dos fundos privados. As pessoas querem mudar esse sistema. E o que propôs Piñera? Aumentar a cotização. Além dos 7%, quer 4% a mais. Mas o que se acontecerá com esse 4% extra? Não irá aumentar a aposentadoria de todos, vai aumentar a conta individual. Se é uma pessoa com muito dinheiro, sua aposentadoria aumenta. Se é pobre, a aposentadoria não aumenta. Ao invés de ir para um fundo comum, irá para uma conta individual e fará com que a aposentadoria depende do quanto se ganha. 
 
A mesma coisa acontece com a saúde. Se paga para uma conta individual. Uma pessoa profissional com boa renda pode colocar em uma conta individual. Ou seja os mais ricos, no Chile, economizam para por sua saúde. Esse dinheiro vai somente para sua própria saúde, não vai para um fundo comum, um fundo único, que ajudaria todas as pessoas a melhorar sua saúde. São muitas pessoas para poucos médicos, enquanto os 20% dos mais ricos estão com a maioria dos médicos em um sistema a parte, é a segregação por renda. 
 
Recentemente o Chile foi palco de um ato com milhões de pessoas, o maior após o período ditatorial. Qual a relevância dessa manifestação para a história do país? Qual a mensagem que o povo chileno deixa registrado para todo o mundo?
 
Esse estopim social é algo histórico, algo que não acontece há muito tempo no Chile. Fala-se sobre uma mudança profunda porque muita gente entre as universidades e centros de pesquisa que têm estudado a desigualdade. O 1% mais rico tem aproximadamente um terço da renda nacional. Há um problema na desigualdade que no Chile é excepcionalmente alta e que todos os estudos mostram constantemente. Mas quando chega a hora de fazer leis para mudar essa situação, esse 1% que tem um terço da renda, tem um poder de veto.
 
Há um problema com o financiamento da política, em que os mais ricos, por meio de suas empresas, compram políticos. Então os políticos votam contra reformas de redistribuição. O que está acontecendo aqui é que se tem denunciado isso por anos e a classe política, o duopólio da centro esquerda e da centro direita, simplesmente fingiu surdez. Ignoraram esse diagnóstico acadêmico e social sobre a desigualdade. Agora o povo se cansou e eles não podem seguir ignorando isso. Eles têm que perceber que são necessárias profundas mudanças, aumentando os impostos, tirando os serviços sociais do mercado. A saúde e a aposentadoria não podem ser disponibilizadas de acordo com capacidade de pagamento, devem ser universais. 
 
Essa pressão está sendo o começo do fim de um sistema ultra mercantilizado, de um sistema tão neoliberal como o que se tem no Chile. É o começo do fim. Isso não irá acontecer imediatamente. Agora temos um governo de direita que vai tentar apaziguar o conflito oferecendo migalhas, mudanças superficiais. Mas há sementes. As ideias do povo estão crescendo. No futuro, nos próximos dez anos, essas ideias só ficarão mais e mais fortes. Se abre uma possibilidade.
 
Pela primeira vez, desde a ditadura, o governo chileno colocou militares na rua para reprimir a população. Apesar de ter suspendido o estado de emergência no Chile, como a decisão de Piñera impactou a população?
 
Há que se dividir em termos de classe social, eu acredito. As pessoas mais pobres, que vivem em lugares como favelas, estão acostumadas com muita violência policial. Por conta da criminalização, pela pobreza, os carabineiros [instituição de polícia ostensiva militar do Chile] entram e tentam achar culpados fazendo a destruição e atacando comunidades. 
 
No Sul, a comunidade indígena dos Mapuches vive com a ocupação militar de terras indígenas. Isso, de certa maneira, é o mais do mesmo para as pessoas dessas populações. Porém, com essa crise, o tema dos direitos humanos e da violência dos carabineiros está sendo colocado em primeiro tempo. Está recebendo muito mais atenção. A violência, os ataques, as humilhações e agora dos militares, pela primeira vez em muitos anos, as pessoas dizem: "Isso não é aceitável". 
 
As pessoas de classe mais alta estão vendo essa violência pela primeira vez. Uma das coisas mais novas dessas mobilizações é que os protestos chegaram aos bairros mais ricos de Santiago. Aos grandes centros comerciais como Parque Araucano, um grande centro comercial muito caro onde nunca há protestos. Na Avenida Apoquindo, que é outra parte da zona mais rica e próspera de Santiago, onde também nunca se vê protestos, as pessoas começaram a protestar.
 
E chegaram os militares e apontaram [armas] nas caras de pessoas que acreditam na democracia do Chile porque vivem em uma bolha, em um mundo paralelo onde nunca se havia visto violência de Estado, a violência da força militar e nem a dos carabineiros. As pessoas das zonas ricas não vivem a realidade da população mais pobre. Na semana passada, viram pela primeira vez a violência de Estado. Isso mudou consciências e deixará marcas. 
 
Agora, no Congresso, está sendo debatida no Congresso uma acusação constitucional contra Sebastián Piñera, por conta da morte de pelo menos cinco pessoas devido a violência das forças repressoras. Isso causará um estrondo no sistema político chileno e no sistema de Justiça por muitos anos.
 
Há, em certo nível, medo do retorno da ditadura?
 
Em certos grupos sim. Sou professor de políticas públicas e a análise acadêmica é de que o que estamos vendo não é uma volta da ditadura. Aqui estamos com um sistema democrático, muito debilitado, mas é um sistema democrático. Com limites em relação ao que os carabineiros e militares podem fazer. As pessoas que viveram a ditadura, mais velhas, sabem que isso não é o mesmo. Há muita violência, mais mortos, mas não é a mesma impunidade. É um nível mais baixo, ainda que muito terrível. 
 
Estamos vivendo coisas muito terríveis e as pessoas entendem que não é a normalidade democrática, que há algo que está violando os direitos humanos, e é uma situação que é preciso protestar. Não é normal, mas não é o mesmo que a ditadura. Estamos em outra situação. Inclusive para os eleitores conservadores. Há um eleitor ideologicamente conservador que crê na mão firme, nas forças militares, na repressão. Mas, no caso das pessoas que votam em Piñera, que são mais moderados, para pessoas que defendem o livre mercado mas não são tão políticos, ver essa violência está gerando aborrecimento também. 
 
Piñera afirmou que o governo “escutou e compreendeu a mensagem dos chilenos”, e depois pediu a todos os ministros que deixassem seus cargos. Como avalia essa decisão?
 
Ele anunciou mudanças da equipe de governo. Trocou-se o Ministro do Interior, se mudou toda a equipe política. Isso traz implicações porque o Ministro do Interior é o vice-presidente. Retiraram Andrés Chadwick, representante de toda a repressão desse sistema.
É algo simbólico e importante. No entanto, é preciso olhar as mudanças. Sai Chadwick e entra Gonzalo Blumen. Trocaram também o Ministério da Fazenda, a secretaria geral da presidência. Mas não trocaram provavelmente os dois ministros mais controversos por duas decisões anti movimentos sociais que é a Marcela Cubillo, da Educação. Uma ministra verdadeiramente odiada porque fez de tudo para destruir a educação pública. Deixar a Marcela Cubillo na educação, apesar de todos os problemas que tem, mostra quão pouco o governo está dando peso real a essa situação.
 
A outra pessoa que se manteve é Jaime Mañalich, ministro da Saúde. A saúde e educação, duas das grandes demandas do movimento social das ruas. O governo manteve os seus ministros assim como estavam. Então não, não aprenderam na realidade que é necessário outro caminho. Não escutaram, não entenderam a mensagem dos chilenos, porque deixaram o ministros da Saúde e da Educação em seus postos.
 
O que aconteceu nessa mudança de governo é que tiraram ministros da União Democrática Independente (UDI) um partido mais Pinochetistas, e colocaram ministros de um partido mais liberal, o Evolução Política. Porém, essa mudança, sem alterar educação e saúde, mostra uma alteração de seio político, insuficiente. 
 
O Chile é considerado uma das democracias mais consolidadas na região. No entanto, é regido por uma constituição pinochetista. Qual a urgência de mudanças nessa Constituição? Os protestos podem resultar em reformas na lei?
 
A Constituição foi criada em 1980, sob uma ditadura. Se designou um grupo de advogados constitucionalistas, todos de extrema direita. O mais importante foi Jaime Guzmán que foi fundador do UDI, partido que apoia Piñera agora. Supostamente a reformaram em 2005, com o presidente do partido socialista Ricardo Lagos, foi uma mudança superficial e seguiu exatamente igual em termos de limitação da democracia. 
 
A versão original da Constituição de 1980, colocava os militares como os guardiões da ordem constitucional. Também haviam senadores designados pelo presidente Pinochet. Em 2005 isso mudou, entretanto, mudou por meio das regras da própria Constituição. Quando se altera uma Constituição por meio de suas próprias regras, isso implica que toda mudança tem que ser negociada com a permissão da direita porque eles, com um terço dos votos, poderiam frear qualquer mudança já que é preciso um quórum de dois terços para alterar a Constituição. Foram eles que aceitaram as mudanças de 2005.
 
Havia um sistema eleitoral que só representava a direita. Além desse sistema, uma série de lei majoritárias. Para mudar essas certas leis não é simplesmente 50% + 1% e sim dois terços. Depois a direita poderia mandar leis ao Tribunal Constitucional que declarou que as leis alteradas no Congresso são inconstitucionais. Isso aconteceu, por exemplo, com a legalização do aborto. O Chile queria, havia uma maioria favorável na população. Porém quando propuseram essa lei, o Tribunal Constitucional disse que a lei que legalizava o aborto era inconstitucional. Alteraram a lei, fazendo a autorização do aborto muito mais difícil. É assim todo o tempo. Há uma intervenção na política pelo Tribunal Constitucional, fruto desse sistema. 
 
Há uma coisa interessante. Há muita raiva, as pessoas vão às ruas protestam e se organizam em conselhos comunitários, grupos de pessoas que participam dos protestos e pensam como resolver a questão. Há muita clareza de que a solução para democratizar o Chile, mudar o sistema de saúde e de aposentadoria, é mudando a Constituição. Está se propondo a urgência de uma mudança constitucional para resolver os problemas. É preciso uma Constituição que não esteja direcionada para limitar a democracia, e sim facilitar a democracia. 
 
Acredita que as mobilizações no Chile irão continuar? Elas podem inspirar outros países latino-americanos?
 
O Chile é um país distinto em relação aos demais na América Latina. Penso que estamos em um ciclo diferente. No caso do Brasil, da Argentina, da Venezuela e do Uruguai, são países que de certa forma maneira, nos anos 2000, viveram processos de esquerda. Aqui isso nunca aconteceu. Tivemos governos de centro esquerda. O Ricardo Lagos, que foi do partido socialista, teve negociações com Lula sobre o Mercosul… E o Chile votou pelo Mercosul fechar um tratado de livre comércio com os Estados Unidos. Isso mostra onde estava o Chile nos anos 2000. Enquanto toda a América Latina estava com a esquerda construindo algo diferente, Chile estava com os Estados Unidos.
 
O que estamos vendo em Chile é uma ação contra um modelo muito extremista. Muito livre mercado, muito neoliberal, que não tem comparação com os demais países da América Latina. No caso do que aconteceu com a vitória da esquerda da Argentina e na Bolívia, incluindo nas eleições municipais da Colômbia, é outra coisa. É outro ciclo. Por isso não sei se o Chile, por estar tão distante, pode inspirar ou liderar esse processo. Eu creio honestamente que o que acontece no Chile tem mais repercussão em nível mundial, em nível europeu e estadunidense, mais do que na América Latina. 
 
É muito simbólico que esse país, que supostamente é exemplo de sucesso no continente em termos de neoliberalismo, mostre que esse sistema, inclusive aqui, é um fracasso total. 
 
Em outros países latino-americanos também há indícios de insatisfação popular. Na sua opinião, o que pode ser um aspecto em comum a esses países com o Chile?
 
Como disse, o Chile é muito diferente dos outros países. No entanto, é uma coincidência interessante que justamente nas últimas semanas no Equador, tenha acontecido protestos contra o aumento no combustível. O Fundo Monetário Internacional (FMI) quis impor ao Equador o aumento, tirando o subsídio. Isso gerou um estopim social enorme contra a ação. E o presidente Lenin Moreno teve que barrar a proposta. 
 
Aqui temos uma situação parecida, não é como o Equador, porque aqui não é uma organização internacional, são os empresários que impõem o aumento da tarifa de transporte. Essa é a primeira diferença. A segunda é que o Equador é super organizado, com um movimento indígena muito expressivo, com uma confederação nacional e um partido político próprio.
 
No Chile, nada. São empresários locais lutando contra um povo sem muita organização. Com muita raiva em relação a esse modelo tão extremista, tão fora do comum na América Latina, onde geralmente a esquerda possui mais instituições estabelecidas. Aqui a direita controla tudo: o poder empresarial, limita o Estado. Finalmente estamos vendo uma revolta muito mais generalizada e muito mais fora da institucionalidade.
 
Nesse sentido há algo em comum, que é a raiva. Uma raiva que está contra as elites e seus privilégios. Mas o contexto no Chile é muito mais extremo e os caminhos são muitos diferentes. Com certeza porque esse modelo aqui, está em seu extremo.
 
 
Imagem - Rafael Edwards/FlickrCC - Manifestações contra alta concentração de renda e contra os serviços privados continuam a chamar atenção do mundo.
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/11/chile-e-o-comeco-do-fim-de-um-sistema.html

A América Latina após o Outubro Rebelde

 
 
Ciclo de direita está abalado. Revoltas devastaram governos neoliberais e eleições abriram alternativas. Repressão militar foi neutralizada pelas multidões. Não há um rumo, mas velho projeto de esquerda – esgotado – pode dar lugar a algo novo
 
Antonio Martins | Outras Palavras
 
Tá com medinho, capitão?, zombava, na última sexta-feira, um “meme” de Outras Palavras. Na véspera, Jair Bolsonaro pedira ao Exército para “monitorar” a possível chegada ao Brasil da onda de protestos que sacudia o Chile, desafiando o Estado de Emergência e os tanques de guerra. Nas horas seguintes, ficaria claro que, sim, a revolta era temida pelo presidente e pelos que comandam sua estratégia para manter-se no poder. Já no sábado de manhã, circulava, nas redes sociais bolsonaristas, a ordem: nada de atiçar as ruas. Manifestações para execrar o STF a pretexto da possível libertação de Lula, antes convocadas – com arrogância e em tom desafiador – para 3/11, foram rapidamente abortadas. O astrólogo Olavo de Carvalho deixou claro o receio: “Meu povo amigo, (…) não vamos participar de manifestação alguma na próxima semana. A onda de parar o Brasil (…) só favorece a esquerda”.
 
O temor é resultado óbvio do vendaval político que sacudiu o cenário da América do Sul nos últimos trinta dias. A onda conservadora que percorria a região há quatro anos, e que parecia prestes a engolir também a Bolívia e o Uruguai, foi quebrada. Os governos do Chile e do Equador foram abalados por manifestações gigantescas. Borraram-se, ao recorrer à intervenção militar contra a população, humilharam-se quando também esta fracassou e viram-se obrigados a ceder. As perdas não são pequenas. O primeiro país é apontado, pelos próprios neoliberais, como caso “exemplar” da aplicação de suas políticas. O segundo converteu-se, há dois anos, em estridente peão da geopolítica dos Estados Unidos e das brutalidades de Donald Trump.
 
Mas aos levantes populares somaram-se as eleições. Em 27 de outubro, elas colocaram forças claramente opostas ao neoliberalismo no poder, na Argentina – um país cuja importância geopolítica poderá crescer, no vácuo do Brasil, em caso de sucesso do novo governo. Uma semana antes, Evo Morales vencera na Bolívia, e parece capaz de enfrentar a campanha infundada que busca contestar o resultado. Na mesma data da vitória de Alberto Fernández em Buenos Aires, a Frente Ampla venceu no vizinho Uruguai, embora tenha pela frente um difícil segundo turno. Simultaneamente, na Colômbia, outro país de enorme peso regional, o principal partido de direita, comandado pelo ex-presidente Alvaro Uribe, sofria dura derrota nas eleições municipais e regionais. A capital, Bogotá, escolheu pela primeira vez uma prefeita – Cláudia Lopez, lésbica e integrante da coalizão à esquerda formada pelo Polo Democrático e Partido Verde.
 
Quando Bolsonaro tomou posse, em 1º de janeiro, temia-se o avanço avassalador da direita. Agora, temos uma América do Sul simbolicamente dividida – e há uma ofensiva, ainda discreta porém nítida, das ideias que querem superar o neoliberalismo. Quais as características deste movimento? Quão consistente ele é? Poderá articular-se em toda a região? Expressa um passo adiante em relação à onda rosa que atravessou a América do Sul da virada do século até a metade desta década? Como poderia espraiar-se também pelo Brasil? É, evidentemente, muito cedo para dizer. Mas vale examinar com atenção o que é novo. No curto espaço de tempo deste Outubro Rebelde, afloraram, além da luta de ruas, cinco tendências que desafiam o pensamento convencional sobre a a situação política no continente e por isso merecem ser analisadas com atenção.
 
 
1. A ultrapolarização despolitiza – é preciso ter coragem de rompê-la
 
A contraofensiva que eclodiu nas últimas semanas, e que permitirá terminar o ano em meio a alguma esperança, tem um marco inicial evidente. Em 18 de maio, Cristina Kirchner surpreendeu a Argentina ao anunciar que não seria candidata à presidência. Optava, em vez disso, por disputar a vice-presidência, ao lado de Alberto Fernández. O gesto teve enorme potência. É provável que tenha definido o resultado das eleições. Mas ainda não foi compreendido pelos que alimentam a ultrapolarização, julgando que, embora provocada pela ultradireita, ela terminará por favorecer a esquerda.
 
No cenário atual da América do Sul, ultrapolarizar é uma tática despolitizadora, argumentava um texto publicado à época por Outras Palavras. Permite suprimir o diálogo e o debate sobre temas cruciais para região e seus países. Oferece à ultradireita a oportunidade de galvanizar uma parcela do eleitorado muito superior à que a apoiaria em condições normais – porque desperta e articula os preconceitos mais profundos do pensamento colonial. A necessidade de submeter os diferentes, inclusive por meio da força bruta. A negação de autonomia aos não-brancos ou não-machos. A aceitação da supremacia dos que são militar ou economicamente mais fortes. Tudo isso aflora, mobiliza e se autojustifica – a pretexto de um suposto “ataque”, promovido pelo Foro de São Paulo, pela “Ursal”, pelo “marxismo cultural” ou pela “ameaça feminista”.
 
Do ponto de vista especificamente eleitoral, a tática pode ser ainda mais eficaz. Ele oferece, a projetos muito impopulares (o de Macri na Argentina, ou o do golpe de 2016 no Brasil) a oportunidade de evitar o julgamento popular e de deslocar o centro do debate para o que lhes interessa. Foi a “ameaça do petismo”, em 2018. Seria a “volta do peronismo” este ano, na Argentina.
 
Cristina esquivou-se com um drible que faria jus a Maradona. Ao indicar Alberto Fernández, deixou de se oferecer como alvo e esvaziou o argumento essencial de Macri e do neoliberalismo na Argentina.Despolarizar permitiu repolitizar, ou seja, debater o essencial: a crise social e econômica profunda do país e suas causas. Foi necessário, porém, enorme desprendimento e noção de tempo político. Nesta matéria da BBC, a jornalista Camila Veras Mota resgata as circunstâncias da decisão da ex-presidente. Ela mostra que teve peso crucial o exame da experiência do Brasil, onde a insistência de Lula em manter sua própria candidatura inviabilizou o processo de repolitização. Haddad não era proposta, mas apenas um substituto, uma máscara. A pergunta incômoda, no Brasil, é: terá havido aprendizado?
 
2. A esquerda não está condenada a ser sistema
 
Reducción de las dietas [salários] parlamentarias. Incomum nos documentos tradicionais da esquerda, esta reivindicação ajudou a convocar, no Chile, a manifestação gigante de 25/11, que forçou o presidente Sebastián Piñera ao primeiro grande recuo. Estava associada às cinco ou seis bandeiras que implicam reversão do projeto neoliberal, ao fim do Estado de Exceção (conquistado em seguida) e à exigência de uma Assembleia Constituinte. Sua presença tem caráter emblemático. As revoltas do Equador e do Chile tiveram êxito também porque assumiram – e politizaram – a ira da população contra um sistema institucional que sequestrou a democracia. Ao fazê-lo, impediram que a direita capturasse esta queixa, que se espalha pelas sociedades, e lhe desse sentido autoritário ou protofascista.
 
Nos dois países, rompeu-se uma prisão que a esquerda histórica impõe a si mesma quando assume, de modo acrítico, a defesa de um sistema político visivelmente capturado pelo poder econômico. E este cacoete tem força especial no Brasil, onde o acomodamento de militantes no aparelho de Estado vem de longa data, assumiu proporções espantosas nos governos Lula e Dilma e contribuiu de modo decisivo para amortecer as lutas sociais. Mas manteve-se mesmo depois do golpe de 2016. Está presente até mesmo nas melhores falas de Lula – como a “discurso da jararaca”, que ele fez em setembro daquele ano, logo após ser coagido a depor na Polícia Federal.
 
Ao defender o establishment, a esquerda tranca três bolas de ferro em seu próprio tornozelo. A primeira, ao tornar-se cúmplice de práticas e personagens execrados, com razão, pelas maiorias. A segunda, ao defender as instituições que bloqueiam as mudanças estruturais indispensáveis para construir uma sociedade mais justa. A terceira, e mais pesada, por oferecer à ultradireita a enorme avenida de um combate fictício à “velha política”. Ao livrarem-se destas bolas de ferro, chilenos e equatorianos giraram uma chave que pode ser decisiva para reconstruir o pensamento e a ação anticapitalistas.
 
3. As multidões podem dirigir a si mesmas – até certo ponto…
 
Até que ponto as multidões em luta podem auto-organizar seu movimento? Como responder às iniciativas do poder, aos atos dos provocadores, ou articular a comunicação com a sociedade – e manter coesão? A inteligência coletiva que se produz nestas ocasiões é suficiente para lidar com sucessões de fatos novos, súbitas reviravoltas, simulações, ciladas? Estas questões, que são objeto de estudo e despertam ampla polêmica, entre entre as organizações políticas e nas ciências sociais, puderam ser examinadas a quente, durante o Outubro Rebelde da América do Sul.
 
Mais uma vez, o laboratório principal foi o Chile1. As observações são ainda provisórias: tudo se passou há muito pouco, ou se passa ainda; revelações futuras poderão, eventualmente, jogar luz sobre o que não se vê agora. Mas vale registrar o que já é sabido e formular hipóteses a respeito.
 
A. Embora tenha sido deflagrada após chamamento de uma entidade estudantil (a Assembleia Coordenadora dos Estudantes Secundaristas – ACES), a revolta contra o aumento das passagens de metrô – estopim dos protestos – espalhou-se por espontaneidade. Ganhou corpo pouco a pouco, a partir de 1º de outubro, mais ou menos como a luta contra o aumento das passagens de ônibus, no Brasil, em junho de 2013. Foi favorecida por uma forma de luta particular: as evasiones, ou pula-catracas, que podem ser reproduzidas autonomamente por pequenos grupos e compartilhadas nas redes sociais, multiplicando e capilarizando os protestos.
 
B. A partir de 18/10, uma sexta-feira, o movimento agigantou-se, em resposta à repressão policial. É o mesmo padrão registrado em quase todas as “novas revoltas” que se espalharam pelo mundo, a partir de 2011. Então, em menos de 24 horas, Piñera descreveu um ziguezague duplo. Na madrugada do sábado, decretou Estado de Emergência e convocou os militares a reprimir os protestos. Na tarde do mesmo dia, recuou do aumento das passagens. No domingo, falou em “guerra” contra os manifestantes. Neste fim de semana crucial, em que não parece ter havido comando algum, a inteligência coletiva respondeu de forma notável. As multidões reagiram à repressão com mais mobilização e rechaçaram a “oferta” do presidente – revogar o aumento da tarifa, mas manter o Estado de Emergência.
 
C. Mas derrotar o governo, num cenário de intervenção militar, mais de uma dezena de mortos (foram vinte, ao final da onda de protestos) e de duas mil prisões exigia dar um passo adiante. Foi então que emergiu uma forma organizativa nova, a Plataforma de Unidade Social. Reunia cerca de 60 organizações: as redes que lutam por um novo sistema de aposentadorias, pela republicização da água (privatizada no Chile) e contra os acordos de “livre” comércio; o feminismo; a Central Única de Trabalhadores e os sindicatos mais ativos; entidades estudantis e de educadores; ONGs ligadas às lutas sociais. Fora criada semanas antes, em setembro, para articular crítica e ações contra o projeto neoliberal. Sua presença na cena chilena era, até então, mínima. Mas sua representatividade social a credenciava a assumir um papel na revolta.
 
A Unidade Social, como se tornou conhecida, foi decisiva para articular os lances decisivos da luta contra Piñera: a greve geral em 23 e 24/10; e a megamanifestação de 1,2 milhão de pessoas que desmoralizou, na sexta-feira passada (25/10), o Estado de Emergência. Na tarde de domingo (27/10), Piñera finalmente cedeu. As medidas de exceção foram revogadas e o exército saiu das ruas.
 
D. A Unidade Social lançou, então, uma nova fase da luta – menos intensa, porém mais capilar. As reivindicações antineoliberais se mantêm, assim como a exigência de uma Assembleia Constituinte. Mas o objetivo agora é organizar e dar densidade ao movimento. Para isso, criaram-se os Cabildos e Assembleias Cidadãs. São articulações informais, que podem reunir-se nas praças, nas organizações populares ou nas casas de quem os deseje reunir. Visam debater os problema do país e as alternativas. Esta repolitização, acredita-se, poderá abrir terreno para a Constituinte.
 
E. Convocar a Assembleia exige, obviamente, articulação institucional. Ela já começou. O concerto central é com um bloco parlamentar (No más abusos) que reúne Frente Ampla, Partido Comunista e Partido Progressista: os que se recusaram a dialogar com Piñera enquanto durou o Estado de Exceção. Mas busca-se também a adesão de setores do Partido Socialista (moderado, no poder entre 2006-10 e 2014-18).
 
A eclosão de uma revolta espontânea não derrubou o poder conservador no Chile. Mas em um mês, o cenário do país se transformou. A agenda neoliberal, que avançava, está interrompida e questionada. Há um horizonte alternativo claro. Parte central do Outubro Rebelde, o Chile volta a lembrar que a luta social é o motor das transformações; e que delas pode surgir não apenas inteligência coletiva, mas também as estruturas organizativas que podem levá-la a novos patamares.
 
4. É possível neutralizar a violência das armas
 
Foram pelo menos sete mortos no Equador e vinte no Chile. Houve milhares de pessoas presas, e inúmeras denúncias de abusos (inclusive sexuais) nas dependências da polícia. Atropelamentos propositais. Espancamentos constantes nas ruas, inclusive de adolescentes. Estado de emergência e exército contra a população. O neoliberalismo latino-americano tirou as máscaras e mostrou as garras, nos dois países. Lênin Moreno e Piñera adotaram, contra protestos pacíficos, selvageria que era antes associada apenas a déspotas caricatos – como Hosni Moubarak, na Primavera Árabe egípcia (no Brasil, Bolsonaro já anunciou que fará o mesmo, em condições semelhantes).
 
Porém, no que diz respeito à repressão, algo muito mais relevante, portador de futuros e em certa medida inédito surgiu, durante o Outubro Rebelde. Ficou claro que, em certas condições, as lutas sociais podem resistir à violência militar, arma extrema dos Estados autoritários. Não por meio da força, é claro. Basta observar o armamento atual dos policiais, em todo o mundo, os dispositivos tecnológicos e acesso a bancos de dados que têm em seu favor, as armaduras Robocop que os blindam ou as cores propositadamente ameaçadoras de seus uniformes para perceber que não é possível fazer-lhes frente. Mas pode-se paralisá-los, impedi-los de usar a enorme superioridade bélica que possuem diante da multidão.
 
De distintas maneiras, Chile e Equador foram, no último mês, laboratórios valiosíssimos (e muito bem sucedidos) de resistência ativa ao uso da violência. Examine, em particular, duas cenas em Santiago, ambas sob Estado de Exceção. Em 19/10, quando os protestos estão tomando as praças, o exército envia soldados e tanques de guerra para desocupá-las. Como a brutalidade da repressão já havia se manifestado, os riscos para os manifestantes são evidentes. Mas estes não recuam: colocam-se diante dos blindados, cujos condutores hesitam. Já em 25/10, a Unidade Social convoca a marcha más grande de Chile. Piñera já havia, então, declarado “guerra” contra a população revoltada. Carabineros (polícia militar) e soldados cercam a Praça Itália, fortemente armados. Mas os rios de gente começam a chegar, engrossam, tomam todo o espaço. Em breve, serão 1,2 milhão de pessoas, que cantam, dançam por horas e se recusam a voltar para suas casas. Os soldados têm, é óbvio, armamento para reprimi-las – mas lhes faltam condições políticas e mesmo psíquicas. A força militar é derrotada. Sem recursos, Piñera só tem, como alternativa, recuar. Em menos de 48 horas, ele anunciará o fim do Estado de Exceção e do toque de recolher.
 
No Equador, onde não houve manifestações tão gigantescas, a multidão enfrentou o exército de formas distintas. Primeiro, em enfrentamentos de rua, onde grandes massas de jovens resistiam ao avanço dos soldados com seus corpos, ou os enfrentavam a pedradas. Mais tarde, com a chegada à capital de 20 mil indígenas, que se instalaram em escolas e centros culturais, transformaram-nos em espaços de assembleias e tornaram muito alto o custo de um desalojamento forçado. Adicionalmente, a Confederação Indígena (Conaie), decretou seu próprio “estado de exceção” nos territórios originários, onde militares chegaram a ser detidos.
 
Por que a resistência aos tanques, que não foi possível em tantos momentos da história da América Latina, agora tornou-se eficaz? Encontrar a resposta exigirá esforço teórico complexo – porém, indispensável e urgente, porque está em jogo algo de enorme relevãncia para as lutas sociais. Vale, entre muitas outras, considerar a contribuição de dois chilenos ouvidos pelos jornalistas em 19/10, quando começou a fase mais intensa da revolta em Santiago e houve saques. “Não gosto que quebrem tudo, mas de repente essas coisas têm que acontecer, para que deixem de brincar conosco, aumentando preço de tudo, menos salários, para que os ricos deste país sejam mais ricos”, disse a vendedora Alejandra Ibánez, de 38 anos. “As pessoas estão cansadas e sem medo”, acrescentou Francisco Vargas, funcionário público de 33 anos.
 
5. Um novo projeto estará em gestação?
 
Enquanto Jair Bolsonaro rosna, Alberto Fernández, o novo presidente argentino, age. Nesta sexta-feira (1º/11), menos de uma semana depois de eleito e faltando ainda cinco semanas para tomar posse (em 10/12), ele iniciará sua primeira viagem internacional. O destino foi escolhido a dedo: Cidade do México. Ao encontrar-se com López Obrador – presidente do país e identificado como ele próprio com uma crítica moderada, porém consistente, ao neoliberalismo –, Fernández lançará ao menos dois sinais. Um, a Bolsonaro, sobre a possível constituição de um eixo autônomo na América Latina – contrário, portanto, ao alinhamento canino do presidente brasileiro a Washington. Outro, a Donald Trump, que se apoia em Brasília para tentar impor à região o retorno à condição de quintal.
 
Desde que eleito, Alberto Fernández não voltou a falar sobre Economia, mas especula-se que tentará tirar seu país da situação dramática em que se encontra contestando as “receitas” do FMI. Reduzirá os juros internos, que o Fundo manda elevar (e Macri obedeceu…). Negará o dogma que manda não intervir nos mercados – lançando um plano ambicioso de estímulos à ocupação dos desempregados e às pequenas e médias empresas.
 
Movimentos sociais autônomos (como os do Chile e Equador) e governos que resistem ao neoliberalismo (ainda que sem a mesma radicalidade) poderão constituir duas pernas – independentes, porém articuladas – de um novo projeto alternativo para a América Latina?
 
Parece necessário – inclusive porque o projeto anterior, que marcou a primeira década do século e a metade da segunda, na região, esgotou-se. Mostram-no os casos da Bolívia e Uruguai. No primeiro país, Evo Morales, por certo o presidente que mais fez contra a dominação colonial, venceu por um tris as eleições, no primeiro turno. Uma segunda volta lhe seria muito difícil – como será no Uruguai, para Daniel Martínez, candidato da Frente Ampla.
 
Mas que bases poderiam sustentar um novo projeto de esquerda na região? A agenda chilena e, por oposição, a argentina oferecem boas pistas: Serviços Públicos, Bens Comuns. Em Santiago, pede-se Previdência digna (e pública), Educação, Saúde, Jornada de 40 horas, Salário mínimo decente, desprivatização da água. Em Buenos Aires, Macri caiu por privatizar tudo o que pôde, permitir que os novos donos dos serviços impusessem tarifas escorchantes, aceitar uma financeirzação que deixou milhões de desocupados e empobrecidos, além de devastar os pequeno empreendedores.
 
Se, nesta nova etapa que se abre, Fernández, Lopez Obrador, Evo e Daniel Martínez – os quatro possíveis pontos de apoio de uma mudança – adotarem políticas sintonizadas com estes anseio pelo Comum, certamente atrairão a atenção dos que foram às ruas em Santigo e Quito – ou dos muitos que, em todos os países latino-americanos, também ressentem-se da desigualdade e da surdez do sistema político; também sentem que a vida perde o sentido, submetida às lógicas atuais; também também estão, aos poucos, perdendo o medo.
 
Não será fácil: o silêncio quase sepulcral da velha mídia diante das mortes e das brutalidades dos governos neoliberais no Chile e Equador; ou a tolerância das elites brasileiras às tendências abertamente fascistas de Bolsonaro relembram quanto o capitalismo divorciou-se da democracia.
 
Não será impossível, tampouco. O planeta está saturado das políticas hoje hegemônicas, como demonstram, por exemplo, o surgimento precoce da geração política dos muito jovens, ou o fato de, mesmo nos Estados Unidos, a ideia de “socialismo” ter se tornado, para a juventude, mais atraente que a de “capitalismo”.
 
É improvável prever qualquer desfecho. Mas algo parece certo: o Outubro Rebelde reacendeu a disputa política na América Latina. Há de novo, ao menos em esboço, um choque de projetos. Para quem tiver coração, será um deleite envolver-se na disputa. Quem preferir a condição de espectador assistirá, provavelmente, a algo memorável. As luzes estão se apagando, o bzzzzzzz das campainhas vem aí. Escolha seu papel, sua ética, seu lugar. Breve, vai começar!
 
Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OUTROS QUINHENTOS
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/11/a-america-latina-apos-o-outubro-rebelde.html

Fernández tem uma tarefa 'titânica' na Argentina, diz vice-presidente do Uruguai

Maioria unânime do Parlamento conduziu Lucía Topolansky para a vice-presidência do Uruguai
© REUTERS / Andres Stapff

O recém-eleito presidente da Argentina, Alberto Fernández, enfrenta uma tarefa difícil porque seu país está "fundido", disse nesta quarta-feira (30) a vice-presidente do Uruguai, Lucía Topolansky.

"A verdade é que não invejo Fernández, [não gostaria de] estar no lugar dele, porque a tarefa que ele tem é titânica, espero, pelo destino dos argentinos e latino-americanos, que ele se dê muito bem", disse Topolansky à Sputnik.

A vice-presidente do Uruguai considerou que as eleições na Argentina ocorreram em um momento "peculiar", já que o país está "fundido", há uma inflação "galopante", o dólar e o risco país disparam e a pobreza aumenta "exponencialmente".

"Acho que a população de maneira civilizada se expressou com o voto para dizer basta", acrescentou.

O preço da cesta básica na Argentina aumentou 54,5% desde agosto de 2018 e a taxa de desemprego está atualmente em 10,6%, número semelhante ao de quando Mauricio Macri foi eleito presidente, em 2015.

Na primeira metade de 2019, a pobreza aumentou 8,1% e passou a atingir 35,4% da população. Já a taxa de indigência está em 7,7%. 

Fernández foi eleito presidente da Argentina no domingo (27) no primeiro turno após conseguir 48,1% dos votos. O segundo colocado do pleito foi o atual presidente Macri, com 40,4% dos votos. 

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019103014712191-fernandez-tem-uma-tarefa-titanica-na-argentina-diz-vice-presidente-do-uruguai/

Liberalismo e democracia, a história de um divórcio

 
 
Por trás da brutal repressão no Equador e no Chile, o desespero: crise de 2008 escancarou modelo insustentável, calcado nas desigualdades. Agonizante, busca sobrevida no autoritarismo. América Latina será o início da insurgência?
 
Almir Felitte | Outras Palavras | Imagem: Caio Gomez
 
Na última década, o mundo inteiro parece ter entrado em um momento conturbado de sua história. Desde a grande Crise de 2008, instabilidades políticas e económicas vêm tomando conta de uma série de países, de potências do centro global a nações mais periféricas, causando convulsões sociais que, por vezes, parecem prenunciar um novo momento revolucionário mundial.
 
E a Crise de 2008 não foi, aqui, citada à toa. O choque económico, que se sente até hoje, para muitos, foi um verdadeiro divisor de águas em nossa história, colocando em xeque todo o ideário liberal político-económico. Autores como Wolfgang Streeck, por exemplo, chegam a colocar a Crise como o marco temporal do derradeiro divórcio entre o capitalismo liberal e a própria democracia. As cenas de repressão policial a manifestações contra a agenda liberal ao redor do globo parecem corroborar bem com essa tese.
 
Porém, toda essa resposta violenta e autoritária de uma ordem liberal capenga contra o povo nos coloca uma pergunta: em algum momento da história o pensamento liberal e a ideia de expansão democrática realmente caminharam lado a lado?
 
No livro Liberalismo e Democracia, analisando a construção histórica destes dois conceitos, Norberto Bobbio já introduz uma premissa que vai acompanhar o restante de sua obra:
 
“Um Estado liberal não é necessariamente democrático: ao contrário, realiza-se historicamente em sociedades nas quais a participação no governo é bastante restrita, limitada às classes possuidoras. Um governo democrático não dá vida necessariamente a um Estado liberal: ao contrário, o Estado liberal clássico foi posto em crise pelo progressivo processo de democratização produzido pela gradual ampliação do sufrágio até o sufrágio universal”.
 
 
De fato, a tese de Bobbio fica mais clara quando analisamos o discurso de célebres e históricos liberais, como Benjamin Constant que, em 1818, proferiu um discurso no Ateneu Real de Paris em que diferia a “liberdade dos antigos”, pautada na distribuição do poder político entre todos os cidadãos, da “liberdade dos modernos”, baseada na segurança das fruições privadas. Constant teria concluído: “Não podemos mais usufruir da liberdade dos antigos, que era constituída pela participação ativa e constante no poder coletivo. A nossa liberdade deve, ao contrário, ser constituída pela fruição pacífica da independência privada”.
 
À época, com a ideia de que os direitos individuais eram verdadeiros direitos naturais do homem, o pensamento liberal conceituava a liberdade como uma espécie de antítese do poder. Ou seja, a fundação do Estado de Direito Liberal tinha como base, não só a constitucionalização desses direitos individuais (vistos como naturais), mas também a limitação ao poder do Estado de interferir nesses direitos e liberdades. Casava-se, assim, com a ideia de Adam Smith de que os poderes do Estado deviam limitar-se à defesa contra inimigos externos e a proteção de todo indivíduo das ofensas que este poderia sofrer de outro indivíduo.
 
Desse modo, a partir desse conceito de liberdade altamente ligado ao laissez faire, o pensamento liberal convencionou trabalhar com a ideia de um Estado mínimo, visto como um mal necessário que deve ter suas funções sempre limitadas, sob o risco de que o aumento de seu poder ameace as liberdades e os direitos naturais dos homens. Porém, não era só o poder de um “soberano” que era visto pelos liberais como uma ameaça.
 
Bobbio conceitua que o igualitarismo típico dos democratas é uma espécie de antítese ao conceito de igualdade liberal. Para o autor, o conceito liberal de igualdade limita-se às ideias de igualdade perante a lei e de direitos, prevendo a “equalização dos pontos de partida, mas não dos pontos de chegada”, ao contrário do ideal democrata, preocupado com a equalização económica.
 
Numa sociedade marcada por uma série de estruturas de opressão como a nossa, estratificada em classes, raças, géneros e regionalismos, é de se esperar que um conceito de igualdade tão pobre como o liberal acabasse por ter resultados de desigualdade extrema altamente antidemocráticos. Desigualdade essa, aliás, que é bem demonstrada pelos estudos de Piketty, (tanto em sua obra O Capital no Século XXI, quanto em sua plataforma de pesquisa Wealth and Income Database), os quais mostram uma curva de desigualdade que atinge picos, justamente, no pré-Crise Liberal dos anos 20 e após a onda neoliberal dos anos 70.
 
Mesmo com a evolução do pensamento liberal, abandonando as ideias de direito natural para abraçar a visão chamada utilitarista, na qual o legislador deveria emanar leis que buscassem a felicidade do maior número possível de cidadãos, os conceitos liberais de igualdade e liberdade ainda continuaram a ser bem questionáveis aos olhos de democratas.
 
É através dessa visão, por exemplo, que Stuart Mill, ainda que propondo a expansão do sufrágio, sugere que o direito de voto se limite àqueles que pagam algum imposto (excluindo miseráveis), bem como propõe o chamado “voto plural”, segundo o qual os votos de pessoas tidas como “mais instruídas” poderiam ter maior peso eleitoral do que as “menos instruídas”. Além disso, o próprio conceito de liberdade, para Mill, é reduzido a “sociedades civilizadas”, sendo que, para ele, “o despotismo é uma forma legítima de governo quando se está na presença de bárbaros, desde que o fim seja o progresso deles e os meios sejam adequados para sua efetiva obtenção”.
 
Mas é a partir do advento dos ideais socialistas e, por consequência, dos partidos socialistas, que liberalismo e democracia passam a tomar caminhos mais separados. Isso porque, para Bobbio, os democratas mais radicais acabam por se aliar aos movimentos e agremiações socialistas, com uma forte visão de buscar a igualdade de fato e a liberdade não só como meio, mas como “substância”, contrapondo-se à mera igualdade do ponto de partida e à liberdade como meio, ambas típicas dos liberais.
 
É nesse momento que o conceito de Estado Social passa a ganhar mais força, com direitos sociais sendo constitucionalizados com o mesmo ímpeto de proteção que os direitos individuais tradicionalmente liberais, formando o conceito dos Estados Social-Liberais de Direito.
 
Para Bobbio “não há dúvida de que a emergência e a difusão das doutrinas e dos movimentos socialistas, bem como a correspondente e explicitamente declarada aliança desses movimentos com os partidos democráticos, reabriram o contraste histórico entre liberalismo e democracia, exatamente no momento em que, caminhando os países mais avançados rumo ao sufrágio universal, parecia que entre liberalismo e democracia teria havido uma conciliação histórica definitiva”.
 
O autor ainda conclui: “Precisamente na reação contra o presumido avanço do socialismo, com seu programa geral de economia planificada e de coletivização dos meios de produção, a doutrina liberal foi cada vez mais se concentrando na defesa da economia de mercado e da liberdade de iniciativa económica (bem como da correspondente tutela da propriedade privada)”.
 
Em outras palavras, as conquistas do socialismo dentro do próprio Estado de Direito, ainda que sem subverter totalmente o sistema capitalista, acabaram por afastar ainda mais o pensamento liberal do pensamento democrático, vez que a expansão dos valores democráticos, como a maior participação popular, acabou por ameaçar os valores liberais e a proteção destes pelo Estado de Direito. Desse modo, o pensamento liberal passou a se preocupar mais com seus interesses económicos do que com valores políticos democráticos, vez que havia certo antagonismo entre ambos.
 
É dessa separação entre os valores políticos e os valores econômicos que viria a se desenvolver o que, hoje, se convém chamar de neoliberalismo, para Bobbio, uma defesa intransigente da liberdade económica para a qual a liberdade política nem sempre é necessária.
 
E, ora, convenhamos, não faltam experiências políticas no mundo que corroborem para essa tese. O que dizer, por exemplo, das ditaduras militares da América do Sul, com exceção da brasileira, todas altamente influenciadas pelos ideais neoliberais, tendo como grande expoente o sanguinário ditador chileno Pinochet? Do mesmo modo, neste momento que, para alguns, pode estar marcando o fim da ordem liberal, vemos medidas desesperadas, violentas e autoritárias em defesa do liberalismo económico em países como Equador, Chile, França, Hungria e Brasil.
 
Com todos os recentes acontecimentos, não é de se jogar fora a tese de que a ordem liberal realmente tenha chegado a seu fim. E, analisando historicamente a construção do pensamento liberal, sempre em conflito com os princípios igualitários tipicamente democráticos, bem como o estremecimento de sua relação com a democracia a partir das conquistas do socialismo no próprio Estado de Direito, é de se perguntar: seria o socialismo a natural evolução da democracia?
 
Talvez o século 21 e a América do Sul sejam a hora e o lugar propícios para falarmos sobre isso.
 
Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OUTROS QUINHENTOS
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/10/liberalismo-e-democracia-historia-de-um.html

A história não pára

(Alexandre Abreu, in Expresso Diário, 24/10/2019)

Alexandre Abreu

 

A América do Sul é há muito o continente com mais elevada desigualdade socioeconómica, herança das características do sistema colonial e esclavagista, do padrão de concentração fundiária e da acção das ditaduras de direita que dominaram o continente durante a segunda metade do século XX. No final da década de 1990 e na década de 2000, esta tendência começou finalmente a alterar-se com a chamada ‘maré rosa’, concretizada na ascensão ao poder, num país após outro, de governos de esquerda ou centro-esquerda. Esta inflexão política levou à saída da pobreza de muitos milhões de pessoas e à redução dos níveis de desigualdade: mesmo continuando a ser o mais desigual dos continentes, a América do Sul foi neste período o continente em que esta mais diminuiu, convergindo significativamente em relação à média global. Os factores mais importantes para isso foram a melhoria dos níveis de educação, as transferências sociais e as políticas laborais, particularmente quanto ao salário mínimo.

Porém, é também verdade que a acção dos governos da ‘maré rosa’ teve importantes limitações, incluindo o facto de ter assentado demasiado na redistribuição dependente da fase de alta dos preços das matérias-primas em detrimento da transformação das estruturas económicas fundamentais, nomeadamente no que diz respeito ao modelo extractivista predominante. Isso tornou esta vaga progressista especialmente vulnerável a uma contra-reacção conservadora, particularmente aquando da fase de queda dos preços das matérias-primas no mercado internacional que ocorreu de 2010 em diante.

Erros estratégicos próprios, a má fortuna da evolução do mercado internacional e o ódio ardente das elites conjuraram-se assim para permitir uma nova ascensão de governos conservadores um pouco por todo o continente na última década. Num país após outro, através de eleições ou de golpes constitucionais ou inconstitucionais, a direita conservadora regressou ao poder e reestabeleceu a orientação neoliberal na política económica, levando logicamente a que, na década de 2010, o caminho de redução da desigualdade no continente se detivesse. Mas a reacção a este recuo não haveria de se fazer esperar, e aquilo a que estamos a assistir agora em diversos países não é outra coisa senão uma nova vaga de levantamento popular contra os retrocessos sociais e económicos impostos pelo rumo neoliberal e conservador que nos últimos anos voltou a tomar conta do continente.

No Chile, os estudantes e as classes populares erguem barricadas contra o aumento dos preços dos transportes, mas esta é apenas a causa próxima: o motivo mais profundo é a revolta contra décadas de estruturas e políticas neoliberais que remontam à ditadura de Pinochet e que as três décadas de democracia não só não desmantelaram, como em muitos casos aprofundaram: o modelo de capitalização privada da segurança social que deixa centenas de milhares de idosos desprotegidos, a saúde apenas ao acesso dos mais ricos, as elevadas propinas para acesso ao ensino, a privatização da água.

No Equador, a revolta popular e dos povos indígenas foi desencadeado pelo anúncio do aumento do preço dos combustíveis, mas dirige-se de forma mais geral contra o duríssimo pacote de políticas neoliberais que tem vindo a ser implementado pelo Presidente Lenín Moreno, protagonista algo surpreendente do retrocesso neste país na medida em que foi eleito pelo mesmo partido de esquerda do seu antecessor Rafael Correa e só alterou radicalmente a sua orientação política após as eleições. Na Argentina, os eleitores preparam-se para daqui a três dias castigar nas urnas Mauricio Macri, cujas políticas nos últimos quatro anos fizeram voltar a disparar os níveis de pobreza e desigualdade.

Em muitos destes casos, a reacção dos líderes políticos mostra o quanto a preservação de políticas neoliberais socialmente destrutivas não dispensa o autoritarismo. Moreno, no Equador, e Piñera, no Chile, responderam aos protestos através de uma vaga de repressão policial que provocou sete mortos no primeiro destes dois países e, até agora, mais de uma dezena no segundo. Mas o recuo de ambos num segundo momento, ainda que seja meramente táctico, mostra também que há limites para a capacidade de reprimir a força popular quando esta se levanta contra a injustiça.

Uma coisa é certa: a história não pára, e as lutas sociais entre as classes populares e as elites, na América Latina como noutras partes do mundo, não terminam por decreto.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Ontem, Equador. Hoje, Chile. Amanhã, Brasil?

 
 
Bolsonaro & Guedes insistem em privatizações e “reformas” da Previdência e Administrativa, com efeitos perversos a longo prazo. Contra ultraliberalismo, chilenos e equatorianos tomaram as ruas. Também iremos nos insurgir?
 
Paulo Kliass | Outras Palavras
 
A população chilena está dando um recado muito claro a respeito do que pensa sobre as reformas estruturais levadas a cabo em seu país ao longo das últimas décadas. É verdade que as gigantescas manifestações em Santiago e demais cidades têm por base mais imediata a crítica às decisões relativas à elevação de preços e tarifas de serviços públicos. Porém, o aparente espontaneísmo atual não pode ser explicado sem se levar em conta as sequelas da herança trágica do conservadorismo na política econômica por lá.
 
O fato detonador do movimento de insatisfação popular foi a majoração do valor do bilhete do metrô da capital. O reajuste até que nem foi tão explosivo assim, pois subiu de 800 para 830 pesos – menos de 4% no aumento. Se compararmos, por exemplo, com a recente mobilização popular de insatisfação com políticas públicas que afeta o Equador, o quadro é bem mais “ameno”. Lembremos que o presidente Lenin Moreno havia autorizado inicialmente um reajuste de 123% nos preços dos derivados de petróleo. As consequências foram sentidas logo nos dias que se seguiram aos efeitos em cadeia de tal medida.
 
O fato concreto é que o governo equatoriano havia solicitado um empréstimo ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e o organismo multilateral acabou impondo uma série de exigências como contrapartida da liberação dos recursos. Como sempre, surgiram as ideias de privatização e liberalização, com a recomendação do fim de subsídios públicos. Com isso, a tecnocracia teve a brilhante ideia de promover o chamado ”realismo tarifário” também nos derivados do petróleo. Um reajuste instantâneo e imediato, sem nenhuma regra de transição. Foi como lançar centelha em combustível, literalmente.
 
 
Chile, Equador i otras cositas más
 
No entanto, apesar das semelhanças entre os dois casos, parece evidente que a amplitude das jornadas de luta no Chile guarda uma relação muito mais profunda com o conjunto das políticas levadas a cabo pelo governo conservador e monetarista de Sebastián Piñera e seus antecessores do que o mero reajuste no transporte de Santiago. Na verdade, boa parte das análises que começam a surgir a respeito do “tsunami chileno” apontam para o processo de empobrecimento crescente de parcelas cada vez mais amplas da população, em razão das opções neoliberais deste governo e dos anteriores.
 
O processo de transformação do Estado chileno e dessas políticas públicas antipopulares remonta ainda ao golpe militar comandado pelo General Pinochet em 1973, que implantou uma das ditaduras mais ferozes que se tem conhecimento no continente latino-americano. Após assassinar o Presidente Allende e espalhar o terror e a tortura, o regime se transformou em um verdadeiro laboratório de experiências das propostas tresloucadas da chamada Escola de Chicago. Eram economistas obcecados em promover a destruição do Estado pelo mundo afora, em dar um basta às criações geradas ao longo dos anos de ouro do keynesianismo nos próprios países do universo capitalista.
 
Graças à existência de um regime que assassinava e exilava os opositores, o governo seguiu à risca as recomendações dos chamados Chicago boys. Eram alunos recém-doutorados sob a orientação da turma de Milton Friedman que voltavam do Estados Unidos ao Chile imbuídos de uma missão. Seu objetivo maior era privatizar, reduzir a capacidade de a administração pública desenvolver políticas de desenvolvimento e destruir o regime de previdência social. Os descontentamentos e as críticas a tais intentos eram solucionados manu militari, de forma que as possibilidades de reversão desse conjunto de medidas só viriam com o fim da ditadura a partir de 1990.
 
Experimento neoliberal lá e cá
 
Mas mesmo assim, os efeitos perversos dessa experiência neoliberal se fizeram sentir ao longo de todo esse período. Um dos casos mais evidentes é o da famosa rede da seguridad social chilena, que foi desmontada e substituída por um sistema de instituições financeiras privadas administrando contas de capitalização dos indivíduos. A falência desse novo modelo só viria a ser sentida uma geração depois, quando boa parte da população idosa começou a apresentar sinais de pobreza e até de miséria. O próprio Estado chileno se viu obrigado a reestatizar o sistema privado que não conseguia mais cumprir com suas funções precípuas de fornecer aposentadorias e pensões dignas à população.
 
Tendo em vista todo esse complexo histórico vivido pelo país quase vizinho, muitos analistas começam a apresentar sinais de preocupação com relação ao futuro do Brasil. Afinal, o objetivo declarado de Paulo Guedes é promover por aqui um intento neoliberal fora de época. Assim foi com a manutenção da EC 95, congelando por 20 anos os gastos orçamentários com políticas sociais e com investimentos públicos. Assim está sendo com a proposta de destruição do Regime Geral da Previdência Social (PEC 06) e com a proposta de ainda implementar por aqui também o regime de capitalização (PEC paralela). Assim está ocorrendo com a tentativa de promover um amplo processo de privatização de empresas estatais do governo federal.
 
Assim foi com a continuidade das mudanças proporcionadas pela chamada “Reforma Trabalhista” do governo Temer, que nada mais significa senão destruição de direitos dos trabalhadores e redução de seus salários. Assim pretende também ser com a prometida “Reforma Administrativa”, um eufemismo que objetiva destruir alguns dos alicerces de uma administração pública que ainda seja capaz de cumprir com os mandamentos constitucionais de serviços públicos universais e direitos de cidadania ainda preservados. Assim pretende ser também com a cruzada obstinada do superministro em seu intento do chamado “3D” – desconstitucionalizar, desindexar e desvincular.
 
No entanto, ao contrário do que se viu nos países vizinhos, a população brasileira parece ainda não ter tomado plena consciência a respeito dos riscos envolvidos em todo esse processo de destruição e desmonte. Mas não há dúvidas de que os efeitos serão sentidos em toda a sua plenitude em algum momento à frente. Afinal, a estratégia é retirar toda e qualquer capacidade de que sejam promovidas políticas públicas voltadas para um projeto de desenvolvimento econômico e social de natureza inclusiva e sustentável. Mais do que nunca, a maioria da população ficará sujeita exclusivamente às condições reinantes no sacrossanto e endeusado mercado para conseguir sobreviver. Uma loucura!
 
Caso não se consiga impedir essa avalanche criminosa por essas terras, o futuro pode ficar sombrio e preocupante también para nosotros.
 
Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OUTROS QUINHENTOS

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/10/ontem-equador-hoje-chile-amanha-brasil.html

Por que a economia da Bolívia funciona?

A Bolívia era um país bimonetário. Pouco antes da chegada de Evo Morales ao governo, em 2005, apenas 15% dos depósitos eram em moeda nacional; em termos de crédito, apenas 7% eram concedidos em pesos bolivianos. Naqueles anos, sempre sob governos neoliberais, todos usavam o dólar para se refugiar da desvalorização do peso. Aqueles que podiam comprar dólares mensalmente e vendê-los quando precisavam gastar. A economia estava mais dolarizada do que a da Argentina de hoje. No entanto, após pouco mais de uma década, em apenas 13 anos, a situação mudou completamente. Em 2019, 99% dos depósitos e 87% dos empréstimos são em pesos bolivianos. Atualmente, todo mundo prefere emprestar em pesos e fazer depósitos em pesos, porque é uma moeda forte e rentável.

Essa transformação econômica não ocorreu por mágica. Na economia, milagres não existem. Tudo tem a ver com tudo. Cada resultado econômico é a conseqüência de um grande conjunto de decisões que têm pouco ou nada a ver com a crença “paranormal” de que os mercados, por si mesmos, nos levarão a um equilíbrio virtuoso. Não. A economia não funciona dessa maneira. Longe disso.

Evo alcançou a bolivianização do sistema financeiro, enquanto fazia a economia boliviana crescer mais do que qualquer uma na América Latina. Ele também sabia como combinar bem-estar macroeconômico com o bem-estar microeconômico das famílias, algo diferente do que acontece no Peru, Colômbia ou Paraguai, que só podem apresentar bons indicadores macroeconômicos, e muito diferente da Argentina, que não desfruta de bem-estar macro ou microeconômico.

Como foi possível? Aqui está uma breve enumeração das principais ações:

1 – Evo recebeu o governo com uma taxa de câmbio de 8 pesos por dólar, logo após assumir, “apreciou” a moeda em 7 pesos e, atualmente, permanece estável (cotada em 6,95). Gerou uma perda para os detentores de dólares com a qual rompeu a inércia e enviou o sinal de que nem sempre quem aposta no dólar ganha.

2 – Desencorajou a compra e venda de moedas, expandindo o diferencial de troca entre compra e venda de moedas para uma diferença de 10 centavos.

3 – A reserva líquida que os bancos devem ter para cada depósito em dólar aumentou para 66,5%, enquanto a exigência de reserva para depósitos em pesos é de 11%. A medida aumenta o custo dos créditos em dólares.

4 – Taxas ligeiramente mais altas foram oferecidas aos poupadores em pesos.

5 – Foi estabelecido um imposto sobre transações financeiras em dólares, que afeta apenas bancos de poupança com mais de 2 mil dólares e depósitos com prazos inferiores a um ano.

6 – Os requisitos para a concessão de empréstimos em moeda estrangeira foram aumentados e o crédito em moeda nacional foi facilitado, de modo que a preferência para conceder empréstimos em pesos aumentou bastante.

7 – A Unidade de Desenvolvimento Habitacional, uma unidade de conta atualizada com a inflação local, foi usada como instrumento para executar todos os tipos de contratos em moeda local e desencorajar o uso do dólar como unidade de conta.

8 – Os títulos públicos foram emitidos em moeda nacional e os títulos em dólares desapareceram.

9 – Títulos especiais em pesos foram emitidos para pequenos proprietários.

10 – Utilizando diversos instrumentos, especialmente os coeficientes de reserva e cotas máximas, o crédito bancário foi direcionado para atividades produtivas, principalmente habitação, habitação social, empresas, microcréditos e PMEs (Pequenas e Médias Empresas), ampliando a carteira de empréstimos em quase 7 vezes. As taxas de juros resultantes dessa política são invejáveis: abaixo de 10% para empréstimos hipotecários, abaixo de 7% para empréstimos à habitação social, perto de 20% para consumo, abaixo de 5% se for crédito negócios e 7% no que diz respeito às PME.

11 – A indexação das tarifas em função da evolução do dólar foi proibida.

12 – Foi criado um fundo anticíclico de reservas internacionais que representa cerca de 25% do PIB.

13 – Foi implementada uma política deliberada de controle de monopólio e “abuso de posição dominante”, com monitoramento quase diário e controle direto da Presidência sobre os preços relevantes da economia.

14 – Foi adotada uma política obsessiva de apoio à produção, com crédito voltado ao investimento produtivo e um vasto investimento em infraestrutura que teve o efeito de estender a área geográfica de onde a produção é fornecida às grandes cidades, motivo que levou a oferta produtiva a se expandir e, com ela, muitos preços caíram.

E, se isso não bastasse, tudo foi feito em um contexto de nacionalizações que, segundo relatório da Celag, tiveram um impacto na economia boliviana de geração de riqueza em 74 bilhões de dólares (dois PIBs de 2017), 670.000 postos de trabalho, economia de 45% em divisas, aumento de 125% no consumo e aumento de investimentos para 11,2 bilhões de dólares (29,9% do PIB). Além disso, isso ocorreu em um clima de inflação descendente; 1,5% no último ano, igual ou menor que os EUA, apesar do forte ritmo de crescimento sustentado e melhoria em absolutamente todos os indicadores de bem-estar social e econômico.

Depois de todo o exposto, e olhando o que aconteceu com Macri na Argentina, quem se atreve a dizer que não há alternativa ou pragmatismo nessa proposta econômica boliviana?

The post Por que a economia da Bolívia funciona? appeared first on Revista Opera.

Ver original em 'Revista Opera' (aqui)

O que está por trás dos protestos que estão deixando a América do Sul em 'chamas'?

Protestos em Santiago, no Chile, 20 de outubro de 2019
© AP Photo / Esteban Felix

Atualmente a América do Sul está enfrentando uma onda de protestos e crises políticas, originando confrontos, descontentamentos da população e provocando um grande número de mortes. A Sputnik explica o que está por trás dessa insatisfação e como o Brasil pretende evitar passar por situação semelhante.

Protestos da população e 'declaração de guerra' no Chile

O Chile é um dos países que está enfrentando uma onda de protestos na América do Sul, depois da Venezuela e Equador, que também enfrentaram casos distintos de insatisfação e crise política.

No Chile, os protestos começaram no dia 14 de outubro, quando o governo decidiu aumentar o preço das passagens do metrô de Santiago. Mesmo depois de o presidente chileno Sebastián Piñera anunciar a suspensão do aumento, os violentos protestos continuam pelo país.

Isso pode significar que a raiz do problema seja ainda mais profunda e o aumento do preço das passagens simplesmente puxaram o gatilho para um descontentamento generalizado.

"Em 30 anos o Chile não viveu uma explosão de raiva popular como a que está vivendo agora", afirmou à Sputnik Mundo Esteban Maturana, dirigente da Confederação Nacional de Saúde Municipal (Confusam), um dos sindicatos que convocou a greve geral contra a repressão policial desencadeada nas ruas.

"O problema não são os 30 pesos. São os 30 anos de corrupção e de abuso da classe política, da igreja e das Forças Armadas", ressaltou Maturana.

Devido às ações de protestos, saques, incêndios e barricadas, o governo do país decidiu decretar o estado de emergência em grande parte da zona central do país, além de instaurar o toque de recolher para as noites de sábado e domingo.

Nesta segunda-feira (21), o presidente chileno afirmou em uma coletiva de imprensa que o país está em guerra devido aos violentos protestos, que já provocaram a morte de 18 pessoas, incluindo uma criança de 4 anos de idade.

Insatisfação na Bolívia e estado de emergência

Na Bolívia, a população demonstrou insatisfação com os resultados das eleições, que foram anunciados nesta segunda-feira (21) e que resultaram na reeleição do presidente Evo Morales.

Após o anúncio, diversos manifestantes foram às ruas para exigir a recontagem dos votos, alegando que as eleições teriam sido uma fraude. Durante os protestos, escritórios eleitorais das cidades de Oruro, Tarija e Sucre foram incendiados.

Além da população, o opositor de Morales na corrida eleitoral, Carlos Mesa, também acusou as autoridades eleitorais do país de "fraude".

Perante a situação, Morales declarou o estado de emergência no país, por entender que a democracia boliviana estaria sendo ameaçada.

Além disso, nesta quarta-feira (23) o presidente boliviano convidou a UE e a OEA para verificar cada uma das urnas utilizadas no país, para que o resultado seja comprovado, e afirmou que as declarações não passam de uma tentativa de golpe de Estado organizado pela direita com apoio internacional.

Eleição na Colômbia e fechamento das fronteiras

As eleições na Colômbia devem ocorrer no próximo dia 27 de outubro e, como medida de segurança para evitar problemas e tensões, tais como os enfrentados pelos vizinhos, o país decidiu que fechará a fronteira com a Venezuela de 24 a 27 de outubro, além da fronteira com o Brasil, Equador e Peru, que será fechada a partir de sábado (26).

Segundo o diretor de agência alfandegária Migração da Colômbia, Christian Kruger, a medida será tomada para garantir a normalidade no decorrer das eleições regionais, que ocorrerão no território nacional.

Reformas econômicas e ajustes fiscais

A América do Sul vive momentos de tensão, e isso estaria ligado com as reformas econômicas, os ajustes fiscais, os abusos dos governos e as expectativas de melhorias.

A população sul-americana parece estar se cansando cada dia mais dos abusos de seus governantes, que estão enfrentando uma onda de crise política em seus territórios. Como é o caso do Equador, que eliminou os subsídios como uma forma de conter o déficit fiscal, o caso do Chile, que aumentou o preço das passagens de metrô, o caso da Bolívia, que estaria ligada com uma suposta fraude nas eleições, a Venezuela, que sofre com a desigualdade e miséria, a Argentina, que passou por crises econômicas e, claro, o Brasil, que sofre com a "interminável" corrupção.

Além disso, há o fator das expectativas criadas pelos governantes que, na maioria das vezes, são apenas ferramentas utilizadas para conquistar os eleitores através de falsas promessas de melhoria de qualidade de vida, além de reformas constitucionais, educacionais, tributárias e de saúde. Entretanto, quase nenhuma dessas promessas de fato é cumprida, provocando assim a revolta da população do país.

A desigualdade social não pode ser deixada de lado, já que há um abismo social cada vez mais profundo, onde a população trabalha e sofre para sustentar sua família, enquanto que os governantes recebem aumento salarial constantemente. No Brasil, por exemplo, 60% dos trabalhadores tiveram um rendimento médio mensal de apenas R$ 928 no ano passado, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, do IBGE.

Um exemplo mais recente no Brasil é a aprovação do orçamento para 2020 sem reajuste real para o salário mínimo pelo Congresso do país, enquanto que o reajuste salarial de deputados e membros do governo ocorre frequentemente, inclusive há aqueles que se dizem insatisfeitos com um salário de aproximadamente R$ 25 mil.

Todos esses fatores, obviamente, provocarão um sentimento de abandono e de que suas expectativas continuam não correspondidas pelos governos dos respectivos países.

Confrontos na América do Sul preocupam Bolsonaro

Em meio aos protestos que assolam a América do Sul, o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, deixa claro que o país pode ser o próximo a se "inflamar" devido ao descontentamento da população com seu governo, e demonstra sua preocupação com relação ao assunto tentando encontrar culpados e explicações de maneira antecipada.

Tanto é que afirmou monitorar todos os protestos, chegando a culpar até mesmo o Foro de São Paulo pela crise no Chile, alegando que o Foro de SP, grupo criado por partidos de esquerda, estaria agindo para atacar os EUA.

Entretanto, Bolsonaro parece mais preocupado com a situação política do que com a situação da população, que continua apenas com as expectativas criadas por mais um governante. Durante suas declarações sobre a situação sul-americana, o presidente brasileiro manteve seu foco político e apenas fez referências a partidos de esquerda, indicando sua preocupação pelo poder.

Solução de Bolsonaro para 'blindar' o Brasil

Depois de demonstrar sua "preocupação política", Bolsonaro afirmou ter a possível solução para evitar o caos no Brasil, as Forças Armadas.

Segundo ele, as Forças Armadas estariam prontas para enfrentar possíveis manifestações, pois mantém constante contato com o Ministério da Defesa.

Entretanto, segundo o especialista em segurança Paulo Storani, ex-instrutor do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE), as Forças Armadas do país não têm "nenhuma" experiência em lidar com protestos.

"As Forças Armadas estão preparadas tecnicamente? Sim. Se têm experiência? Não, sem dúvida nenhuma", afirmou o especialista.

Ou seja, ao invés de planejar como enfrentar as manifestações, Bolsonaro deveria pensar em como melhorar o país e a qualidade de vida da população para eliminar a possibilidade da ocorrência dos protestos.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/sputnik_explica/2019102414683523-o-que-esta-por-tras-dos-protestos-que-estao-deixando-a-america-do-sul-em-chamas/

Retrocesso econômico e repressão na América Latina

Opção pelas medidas repressivas revela a intenção dos governos neoliberais do continente de procurar avançar para o Estado policial como gestão ofensiva contra a integração da violência com a desigualdade.

 

 

A crise global de 2008 despertou reação distinta no conjunto das economias latino-americanas quando comparada à Grande Depressão de 1929. Naquela oportunidade, países da região aproveitaram para alterar profundamente a sua orientação econômica, ao contrário do verificado mais recentemente, com a acomodação em torno das políticas neoliberais.

A divulgação do manifesto latino-americano por Raul Prebisch (O desenvolvimento econômico da América Latina e alguns de seus problemas principais), em 1949, apontou o equívoco na época que seria ter mantido o modelo de exportação das commodities da região centralizado na decadente Inglaterra. O abandono das políticas liberais vigentes e o deslocamento da centralidade para os Estados Unidos, o país mais dinâmico desde então, concedeu notável desempenho econômico à América Latina.

A elevação na participação da economia da região no Produto Interno Bruto mundial de menos de 7% para quase 12% entre as décadas de 1930 e 1970 resultou da instalação de governos nacionais comprometidos com projetos de substituição dos produtos industriais até então importados pela produção local, sempre que possível. Assim, as políticas desenvolvimentistas se destacaram na transformação inegável das bases materiais, cada vez mais diversificadas e integradas, e da mobilidade social ascendente da população latino-americana.

Na crise global desencadeada a partir de 2008, o conjunto da região não conseguiu alterar radicalmente a trajetória das políticas neoliberais adotadas desde a década de 1980, salvo exceções. Mesmo países como a Argentina, Brasil, Peru e Equador, por exemplo, que vinham adotando nos anos 2000 políticas desenvolvimentistas em reação à inserção passiva e subordinada do final do século 20, apresentaram retrocessos profundos na década de 2010, com a ascensão de governos pró-mercados.

Dessa forma, a crise global de 2008 terminou estabelecendo na região a consolidação do neoliberalismo e a subordinação à decadência relativa dos EUA, com o aprofundamento do modelo de especialização produtiva através da crescente dependência da exportação de commodities. O resultado passou a ser a continuidade na queda da participação relativa da economia latino-americana no PIB mundial para cerca de 7%, cada vez mais próxima do patamar verificado ainda na década de 1930.

O atual retorno ao modelo econômico prevalecente ao período pré-1930 tem implicado brutal regressão nas atuais bases materiais e sociais latino-americanas, pois não mais se tratam de sociedades agrárias, como no passado longínquo. O predomínio do padrão urbano de vida impõe a necessidade da convivência com custos cada vez mais difíceis de serem financiados frente à dominância das políticas de austeridade fiscal e de massificação, por consequência, da pobreza associada às ocupações precárias e ao desemprego generalizado.

Em função de mais de dois quintos da população ocupada na América Latina ter como rendimento do trabalho abaixo do valor do salário mínimo nacional, sobretudo entre jovens e mulheres, o corte no gasto público, sobretudo nos investimentos e políticas sociais, eleva ainda mais os constrangimentos à reprodução do padrão mínimo de vida urbana. A revolta que começa a se generalizar em vários países da região (Equador, Haiti e Chile) apenas enuncia a forma com que os governos de direita pretendem debelar o descontentamento social crescente.

A opção pelas medidas repressivas e de instalação do estado de emergência revela a intensão dos governos neoliberais da região de procurar avançar para o Estado policial como gestão ofensiva contra a integração da violência com a desigualdade, produto do próprio modelo econômico neoliberal em curso. Nestes termos, a América Latina que já possui a maior taxa mundial de homicídios (1 a cada 3 pessoas assassinadas), destacando-se ainda por deter 41 das 50 cidades mais violentas do mundo (21 pertencem ao Brasil), corre o sério risco do retrocesso político maior, que seria o abandono das recentes experiências de regimes democráticos, mais uma vez.


por Marcio Pochmann, Professor do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho, ambos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) | Texto original em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV (RBA) / Tornado

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/retrocesso-economico-e-repressao-na-america-latina/

América Latina rebelada: A Projeção Continental do Povo e a geopolítica da força

Algumas coisas têm em comum o Equador, o Chile, o Peru e a Colômbia.

A primeira, talvez a mais óbvia nesses dias que cheiram a gasolina e fogo, é que uma onda de instabilidade os tem atingido, um atrás do outro.

A segunda, que nos diz algo, mas não muito, é que são todos países governados por finos representantes do consenso liberal – do tipo que comem com garfos e facas, alguns mais do que outros, e não com as mãos. E, garfos e facas em mãos, fazem de tudo para comer da mesa do povo, dividindo-na e brindando requintados uísques com os sócios estrangeiros, até que ao povo nem mais as migalhas sobrem.

A terceira, fundamental, é que esses ajeitados senhores, que alguns no Brasil diriam que “não são como Bolsonaro”, apesar de toda sua respeitabilidade liberal, têm recorrido à força das armas e aos “profissionais da violência” para fazer frente à maré que se avoluma. No Equador, doze dias de duras manifestações contra o pacote de maldades antipopulares de Lênin Moreno e do FMI (Fundo Monetário Internacional) foram respondidas pelo estado de exceção, pelo toque de recolher e pelo Exército. Foram oito mortos, 1340 feridos e 1192 presos; tudo sob o sorriso carismático de um presidente em sua cadeira de rodas.

No Chile, Sebastián Piñera tomou o exemplo de Moreno: o estado de emergência, o toque de recolher, três mil militares e cinco mil policiais carabineros nas ruas fazendo frente às manifestações massivas de jovens que se levantaram contra o aumento das passagens do metrô, primeiro, e depois contra o “custo de vida” imposto pelo neoliberalismo. Informação que deve derreter o coração sensível dos que diziam há algumas semanas que “Bolsonaro quer ser Piñera, mas é Hugo Chávez” é que poucos dias de manifestações bastaram para gerar oito mortos e 1472 detidos no Chile. Será que na verdade Piñera quer ser Bolsonaro?

No Peru, o Presidente Vizcarra fechou o Congresso, que respondeu empossando sua vice e desautorizando o Presidente, que por fim contestou postando uma foto no Twitter, acompanhado dos comandantes das Forças Armadas. Isso parece ter bastado para o Congresso se curvar à autoridade presidencial, e para a vice deixar de lado essa história de vestir a faixa. Por ora, ao menos.

Na Colômbia, onde governa Iván Duque (dentre os gentlemans, o menos afeito aos talheres, é verdade), as manifestações contra as reformas trabalhista e previdenciária e as privatizações, todas apoiadas pelo FMI, ainda não tiveram envergadura suficiente para gerar respostas como no Peru, Chile e Equador. Nem precisam: Juan Manuel Santos, outro refinado senhor de cabelos brancos, já havia assegurado a entrada do país na OTAN como “parceiro global”, e Duque não só prosseguiu a guerra contra o Exército de Libertação Nacional (ELN) como também, com seus assassinatos e boicotes ao processo de paz, reviveu a guerra contra as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Exército do Povo (FARC-EP).

E por fim chegamos à quarta, e talvez mais preocupante, similaridade. É que todos esses países significam, juntos, a totalidade da costa do continente para o Oceano Pacífico.

Muralha ou porta de acesso? Rebelião no Pacífico Sul tem implicações geopolíticas. (Imagem: Revista Opera / Estúdio Gauche)

O Marechal Mário Travassos (1891-1973), idealizador e primeiro comandante da Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), combatente da Força Expedicionária Brasileira (FEB) durante a Segunda Guerra e articulista do Jornal do Brasil, Defesa Nacional e O Estado de S. Paulo, escreveu em 1931 sua grande obra, Aspectos Geográficos Sul-Americanos, renomeada em 1935 para Projeção Continental do Brasil. Um dos livros brasileiros mais traduzidos da história, com incontáveis edições em espanhol, a obra de Travassos é um clássico do pensamento geopolítico brasileiro, tendo influenciado enormemente não só a geografia política no Brasil como também a de todo o continente.

A obra de Travassos associa o desenvolvimento brasileiro ao do continente como um todo, e ficou especialmente conhecida por ensaiar uma transposição do conceito de heartland (coração da terra), desenvolvido por Halford Mackinder em 1904, para o contexto sul-americano. Nesta obra, Travassos faz uma observação relevante para hoje: “tudo faz crer que os maiores progressos da infiltração dos interesses norte-americanos em nosso continente se farão pelas vias andinas e ao longo da costa do Pacífico.”

A costa do Pacífico, assim, era a “via natural” da pressão e influência norte-americana geopolítica sobre o continente. Hoje, todos os países que a compõem, a despeito de seus governos-moinhos alinhadíssimos com os ventos do Norte, vivem uma onda de instabilidade. Não é por acaso que ela seja respondida com pulso tão forte – muito mais do que a estabilidade dos governos regionais e do endividamento dos países via FMI, pode estar em jogo a estabilidade da ingerência geopolítica norte-americana no continente.

Mas há uma pergunta a ser feita: e se, frente à onda popular, erguer-se, no lugar da repressão reativa dos governos, um revide colossal e contínuo, de coturnos e fuzis? E se, acuados pelo povo, estimulados pelo caos, os atores regionais procurarem uma ordem Leviatânica? Ou, ainda, e se for nos Estados Unidos que os governos da região procurarem sua salvaguarda? Ao invés de uma muralha contra a projeção norte-americana no Pacífico, teríamos dentro do continente nascentes imperiais de terror.

Bolívia: Boleta o Balazo?

No meio de tudo isso, no meio do continente, há a Bolívia. O país faz fronteira com cinco países: Brasil, Paraguai, Chile, Peru e Argentina. No país, nos lembra Travassos, há a Cordilheira dos Andes, que divide o continente a leste e a oeste, e as bacias dos rios Amazonas e Prata, que desenham uma divisão norte-sul; ali se concentram, ao mesmo tempo, as tensões do Pacífico e do Atlântico, enquanto que as duas principais bacias hidrográficas do continente se entrelaçam e apertam as mãos. O país, sem acesso para o oceano e amurado pelos Andes e pelo Altiplano, com saídas para todo o continente, nos diz o professor de História do Brasil na Universidade de Creighton, Lewis Tambs, constitui um heartland: “quem controla Santa Cruz comanda Charcas. Quem controla Charcas comanda o Heartland. Quem controla o Heartland comanda a América do Sul.” Não bastasse sua vocação natural a pesar muito no continente, a Bolívia é ainda parceira estratégica da China, e recentemente anunciou uma aliança com a Rússia para a construção de um complexo de tecnologia nuclear.

Esse país, por fim, passou por eleições no último domingo (20). O atual presidente, Evo Morales, de acordo com dados preliminares divulgados (com cerca de 80% dos votos contados) é o primeiro colocado, com 45% dos votos. Atrás dele, Carlos Mesa conquistou 38%. Há ainda o pastor evangélico conservador Chi Hyun Chung, com 8%, e Óscar Ortiz, com 4%. Na Bolívia, a não ser que o primeiro colocado consiga 50% dos votos mais um, ou que a diferença entre o primeiro e o segundo seja maior de 10%, há segundo turno. De maneira que, caso Evo não recupere ao menos 3% de vantagem nos 20% dos votos que ainda não foram apurados, as chances de ser derrotado (com uma transferência do eleitorado de Hyun Chung e Ortiz a Mesa) são muito grandes. Não bastasse, é claro, a pressão que a OEA e o nosso Itamaraty já começaram a fazer sobre as eleições do país, e o suposto plano, denunciado por Evo e traçado por ex-militares, de pôr em marcha um golpe no país no caso de sua vitória. Além disso, os dados preliminares apontam que o MAS (Movimento Ao Socialismo) de Evo deve perder maioria de 2/3 no Senado – o que já é, por si só, motivo de muita preocupação. A Bolívia já é alvo; natural, geopolítico, econômico.

As vozes que ecoavam no Equador cantando que “El Pueblo Unido Jamás Será Vencido, agora espalhadas pelo continente, passam a formar uma sinfonia geopolítica. Mantendo-se o povo no palco, é certo, Tio Sam deixa a plateia. Mas que canções se ouvirá na América Latina se, ao invés disso, ele virar maestro na Bolívia, compositor no Pacífico ou, ainda, regente de orquestras de gorilas? O que se tem por certo é que, com sua giganteza, o Brasil não passará indiferente.

 

The post América Latina rebelada: A Projeção Continental do Povo e a geopolítica da força appeared first on Revista Opera.

Ver original em 'Revista Opera' (aqui)

UM CONTINENTE A ARDER

image
 
Do Haiti à Terra do Fogo, nesta imensa região do continente americano, o fogo alastra, não só  o da Amazónia, mas no social, económico e politico.
 Não se trata de escaramuças, descontentamentos localizados, mas de países em que é declarado o estado de sítio e o exército entra em guerra com os seus próprios povos. Onde os confrontos são diários com vítimas mortais, milhares de feridos e de detidos.
Podemo-nos aperceber de tudo isto se estivermos atentos às redes sociais e desligarmos os televisores, a arma letal mais potente do imperialismo de que a nossa media é um dos seus bracinhos.
Procurem as notícias fora do Bilderberg Balsemão ou dos outros porta-vozes do império ianque. A media, não é só medíocre, é a verdugo da verdade. É criminosa.
Chileaté agora 3 mortos, 308 detidos e 160 feridos. Honduras. pela destituição do presidente corrupto.
Colômbia, Equador……

Ver o original em As palavras são armas (clique aqui)

Eleições na Bolívia: urnas encerradas e decorre contagem

Os resultados das eleições na Bolívia, que decorreram neste domingo, são aguardados com expectativa também internacionalmente, depois dos recentes confrontos em países vizinhos como o Equador e o Chile.

Mais de 7,3 milhões de bolivianos são chamados a votar este domingo em eleições que elegerão o próximo Presidente da Bolívia neste estratégico país da América do Sul. Os principais candidatos, após uma disputada campanha eleitoral, são o actual presidente, Evo Morales, e o seu opositor de direita, Carlos Mesa.CréditosAizar Raldes / AFP

Cerca de 7,3 milhões de bolivianos foram às urnas neste domingo, nos nove departamentos do país e no estrangeiro, para eleger o presidente, o vice-presidente, 130 deputados e 36 senadores, para o mandato de 2020-2025.

As urnas abriram às 8h e encerraram às 17h locais (20h em Lisboa) e a votação decorreu sem incidentes de maior à excepção daquele que ocorreu em Santa Cruz de La Sierra, quando a polícia deteve 106 jovens partidários de um dos candidatos da direita, Óscar Ortiz, sob a acusação de estarem a violar as leis eleitorais, para isso tendo de utilizar gás lacrimogéneo. A localidade, na região oriental do país, tem sido objecto de actos de vandalismo promovidos por sectores de direita e extrema-direita.

Mais de 39 mil polícias foram escalados para trabalhar no processo eleitoral em todo o país. Cerca de 230 observadores internacionais acompanham a votação e o apuramento para verificar possíveis violações de direitos, fraudes ou equívocos na contagem.

Durante o acto eleitoral não circulam carros, ónibus nem teleféricos em La Paz, capital do país, e o comércio permanece fechado até as 13h. Também os voos nacionais estão suspensos durante o dia.

A expectativa do Tribunal Supremo Eleitoral (TSE),