América Latina

EUA estariam construindo base militar na fronteira entre Argentina, Brasil e Paraguai

O Paraguai teria permitido que os EUA instalassem uma base militar na zona da tríplice fronteira, com Argentina e Brasil.

"Este não é um processo de médio prazo. Há militares lá e as construções já iniciaram", alertou o ex-político e jornalista uruguaio Juan Raúl Ferreira durante entrevista à rádio Sputnik.

Recentemente, Ferreira escreveu um artigo intitulado "Nova intervenção dos EUA na região".

"Houve uma lei paraguaia que, se não fosse trágica, a questão seria até engraçada, pois é uma lei sem precedentes, já que é como uma confissão da parte", afirmou Ferreira.

A norma em questão permitiu a instalação e presença militar dos EUA em seu território, porém em uma zona que também envolve o Brasil e a Argentina: na chamada tríplice fronteira.

"É um lugar especialmente perigoso pela instalação do crime organizado há muitos anos. Mais de uma vez os EUA utilizaram lugares de periculosidade delituosa como pretexto para instalar bases em lugares estrategicamente importantes para eles", ressaltou.

Ele citou uma situação semelhante quando o presidente uruguaio, Tabaré Vázquez, recebeu durante seu primeiro mandato (2000-2005) o mandatário colombiano daquela época.

"Lembro-me da visita do então presidente [Álvaro] Uribe para avisar a todos os presidentes da América Latina que ele aceitaria a instalação de bases norte-americanas na Colômbia com o pretexto de lutar contra o narcotráfico. E algo semelhante ocorreu no Paraguai", explicou.

Militares da Marinha dos EUA durante a cerimônia de descida das bandeiras
© AFP 2019 / Toru YAMANAKA
Militares da Marinha dos EUA durante a cerimônia de descida das bandeiras

A lei aprovada pelo legislativo guarani "tem um artigo que se refere à imunidade dos militares das bases; e diz textualmente que 'serão dadas todas as imunidades diplomáticas necessárias'", questionou, adicionando uma nova informação que do ponto de vista jurídico "não tem precedente".

"Se alguém ainda tinha alguma dúvida, o artigo seguinte diz que, sem prejuízo do artigo anterior, alguma outra imunidade solicitada pelos EUA será concedida automaticamente. É uma coisa que não se pode acreditar, até como técnica jurídica", ressaltou.

Ferreira também afirma que a instalação está se desenvolvendo em um ritmo acelerado e, como se trata de uma lei paraguaia e não de um acordo, não é possível saber quantos militares há no local, bem como que material e tecnologias militares serão instalados.

"Preocupa a falta de interesse que há por parte dos governos que permitem que os EUA estabeleçam a agenda de prioridades" na região, concluiu Ferreira.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019082014410604-eua-estariam-construindo-base-militar-na-fronteira-entre-argentina-brasil-e-paraguai/

O império contra-ataca a Argentina com truculência de Bolsonaro

A atuação do presidente brasileiro para difamar a chapa formada por Alberto Fernández e Cristina Kirchner é regida pelo chefão da Casa Branca.

 

 

Se assustou com a tragédia argentina? Já pensou se fosse o seu dinheiro? Já pensou se um evento desses ocorresse no Brasil? Você sobreviveria? Com essas indagações, um analista do mercado financeiro explicou que o “argentino” que foi dormir feliz na sexta-feira, depois de uma alta de 8% da bolsa, terminou a segunda-feira amargando o segundo pior pregão da história do mundo, nas contas da Bloomberg, uma agência de notícias que funciona também como empresa de tecnologia e dados para o mercado financeiro.

A queda foi de 48% em dólares do índice Merval, o principal indicador de bolsa de valores da Argentina e o terceiro mais importante da América Latina, atrás apenas da BM&FBovespa em São Paulo e da Bolsa de Valores Mexicana, na Cidade do México. Só com o câmbio, diz o analista, o “argentino” ficou 30% mais pobre em apenas alguns minutos de pregão. E não foram só os pequenos investidores que perderam; pesquisa do Bank of America Merrill Lynch mostrou que dois em cada três gestores também acreditavam em “melhora” no quadro político.

Epicentro da economia europeia

Esse “argentino” na verdade é um personagem integrante do que o economista Paulo Nogueira Batista Jr. chama de “a turma da bufunfa”; segundo ele, “um agrupamento razoavelmente estruturado, que se dedica a fomentar, proteger e cultuar o vil metal”. Não é o povo argentino. E o analista do mercado financeiro não estava falando para o povo brasileiro, mas, sim, para o “brasileiro” da mesma “turma” do “argentino” que, nas suas palavras, foi vítima de uma “destruição de riqueza”.

O povo argentino é vítima do governo desse “argentino”, assim como o povo do Brasil é vítima do governo do “brasileiro” para quem o analista fez as perguntas iniciais. Esse povo paga a conta de indicadores como o índice de atividade econômica do Banco Central (IBC-Br), que reúne dados de indústria, serviços e agropecuária, apontando encolhimento no segundo trimestre, como já ocorrera no primeiro, um dado que alguns economistas consideram nova recessão.

É o caminho da Argentina. E, em certo sentido, da Europa, com a Alemanha — uma espécie de epicentro da economia europeia — enfrentando um recuo da produção industrial, sinalizando uma recessão. É mais uma vítima da intensificação da guerra comercial movida pelo governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra a China — ambos os países são importantes destinos das exportações alemãs.

Sobre esses dois casos, é importante considerar a má educação e a inconveniência do presidente Jair Bolsonaro e de seu vice, general Hamilton Mourão. O primeiro tem agredido de forma vil e covarde a chapa formada por Alberto Fernández e Cristina Kirchner, vitoriosa nas eleições primárias argentinas, chamada por ele — dentre outros adjetivos degenerados — de “esquerdalha”; e o segundo, seguindo o comportamento obsceno do primeiro, disse que os tremores da chanceler alemã Angela Merkel (possivelmente um problema de saúde) se devem a uma “encarada de Trump”.

Poder de compra dos trabalhadores

No pano de fundo dessa situação estão os números reunidos pelo vice-presidente do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Sérgio Rubens, dando conta de que depois da bancarrota capitalista de 2007-2008 sobreveio, em 2012-2013, na Europa, a segunda onda da crise, sendo seguida, na terceira onda, a partir de 2014, pelo conjunto da periferia capitalista.

Os dados de Sérgio Rubens indicam que a taxa de crescimento do PIB mundial, de 2010 até 2018, foi medíocre — Estados Unidos, média de 2% ao ano; Japão, 1,5%; Europa,1%. Escapou apenas a China, ainda que não inteiramente, que teve seu crescimento reduzido para a faixa de 6% depois de mantê-lo próximo aos 10% anuais durante três décadas. Para piorar a situação, o Bird, o FMI, a OCDE e a OMC preveem um desaquecimento da economia mundial e apontam como primeiro sintoma a violenta oscilação nas bolsas, no final do ano passado.

As informações de Sérgio Rubens dizem também que a massa de recursos fora da esfera produtiva, que circula no circuito financeiro constituído basicamente por “derivativos” — o papelório inventado pelos financistas internacionais —, voltou ao perigoso patamar de antes do desabamento, em 2008: US$ 600 trilhões. As dívidas pública e privada cresceram de maneira vertiginosa, atingindo US$ 233 trilhões — o triplo do PIB mundial.

Por fim, ainda segundo Sérgio Rubens, a taxa de lucro nas principais economias capitalistas estacionou num patamar que corresponde à metade do que era no começo da década de 1960, bloqueando a transferência dos recursos financeiros para a esfera produtiva. Esse cenário é agravado pela redução do poder de compra dos trabalhadores, decorrente do desmonte das conquistas sociais do pós-Segunda Guerra Mundial.

Revolucionários que deram certo

Os operadores da engrenagem que move essa massa de dinheiro, espelho do capital fictício, têm um projeto de poder. A cadeia de golpes e a intensificação das manipulações ideológicas na América Latina — sobretudo pelo recurso midiático —, apoiadas por guerras econômicas, são o terceiro ciclo de implantação do projeto neoliberal na região. O primeiro foi o seu lançamento, marcado pela condução anglo-saxã de Ronald Reagan (presidente dos Estados Unidos) e Margaret Thatcher (primeira-ministra da Inglaterra).

Seus prepostos, abertamente aliciados, foram Augusto Pinochet (Chile), Calos Menem (Argentina), Carlos Salinas de Gortari (México), Alberto Fujimori (Peru), Andrés Perez (Venezuela), Gonzalo Sánchez de Lozada (Bolívia) e Fernando Collor de Mello (Brasil). Perseguidos pela lei — alguns ainda estão foragidos —, eles foram substituídos, num segundo ciclo também marcado pela condução anglo-saxã (desta vez com Bill Clinton e Tony Blair), por presidentes mais precavidos — chegaram a mudar a lei, com fez Fernando Henrique Cardoso (FHC), para criar proteções em caso de serem levados aos tribunais.

Agora, sob o comando de Trump, eles tentam restaurar aquela ordem, se utilizando de representantes truculentos, como Bolsonaro e Mourão, e de falsos paladinos da moralidade, como a trupe da Operação Lava Jato. O Brasil, na condição de casa de força da região, está sendo tutelado pela Casa Branca com o objetivo claro de neutralizar a sua influência local. Voltou à cena política, agora de forma ainda mais rasa, a tese de que os revolucionários que deram certo não foram Karl Marx, Vladimir Lênin e Mao Tse Tung, mas Milton Friedman, Ronald Reagan e Margaret Thatcher.

Essa tese é especialmente importante na guerra contra a aproximação soberana entre Brasil e Argentina. Como explicou o cientista político e historiador Luis Moniz Bandeira, quando ele lançou seu livro A formação dos Estados na Bacia do Prata, em 2006, os Estados Unidos não aceitam a unidade desses dois países porque eles são capazes de formar na América do Sul “um superestado como a União Europeia”.

Em entrevista ao site uruguaio La Onda Digital, Moniz Bandeira analisou “a grande influência do Brasil” na origem dos “países da América hispânica”, um processo histórico que “de alguma maneira continua até hoje”. Ele lembrou que “a soma do Brasil com a Argentina é uma potência que, em termos de PIB, é quase equivalente à Alemanha e muito superior a todo o resto da América do Sul”.

Silêncio de Samuel Pinheiro Guimarães

A então “guerra psicológica em curso na América do Sul” e “a campanha no Brasil contra o governo Lula” era “contra a política externa, não contra a política econômica”, disse ele, referindo-se ao auge da farsa do “mensalão”. Com o agravante de que o projeto norte-americano de criar a Área de Livre-Comércio das Américas (Alca) entrara “em colapso”. “A América do Sul não tem saída se não se unir, e o eixo dessa união pode ser formado por Brasil, Argentina e Venezuela”, analisou.

Foi o que de fato aconteceu. Os governos brasileiro e argentino puseram boa parte do aparato do Estado trabalhando para o aumento das exportações, mudando o rumo da política externa do projeto neoliberal ao desenvolver uma estratégia multipolar de afirmação da soberania da região, de construção paciente e pertinaz de um bloco sul-americano, de redução das desigualdades e de realização do potencial dos países do hemisfério Sul. O Brasil criou embaixadas em Camarões, Tanzânia, Belize, Croácia, Guiné Equatorial e Sudão, e consulados em Doha (Catar), Lagoa (Nigéria), Beirute (Líbano) e Iquitos (Peru).

O ódio dos atuais neoliberais não consegue esconder os êxitos daquela política externa brasileira. É o mesmo fel dos editoriais e colunas da mídia destilado contra o então chanceler Celso Amorim e, principalmente, o arquiteto dessa política externa, o então secretário-geral do Itamaraty, Samuel Pinheiro Guimarães.Tacharam-no de “xenófobo”, “inimigo da modernidade” e “dinossauro nacionalista”. Ele suportou tudo com galhardia, exercendo sua função com discrição — ao contrário dos atuais pavões do Itamaraty. Esse é o ponto em que os homens se distinguem dos moleques; Samuel Pinheiro Guimarães foi brilhante mesmo em silêncio.


por Osvaldo Bertolino | Texto original em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado


 

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/o-imperio-contra-ataca-a-argentina-com-truculencia-de-bolsonaro/

'Bandidos de esquerda começam a voltar ao poder na Argentina', diz Bolsonaro

Presidente da Argentina, Mauricio Macri, e seu colega brasileiro, Jair Bolsonaro, na 54ª cúpula de presidentes do Mercosul
© REUTERS / Handout

O oposicionista Alberto Fernandéz, que venceu com larga vantagem as primárias presidenciais na Argentina no último domingo, havia chamado Bolsonaro de "racista, misógino e violento" durante a semana.

A chapa da oposição, formada por Alberto Fernández e Cristina Kirchner, venceu as eleições primárias na Argentina por 47% contra 32% do presidente Maurício Macri.

O presidente Jair Bolsonaro, que é aliado de Maurício Macri, comentou o resultado das primárias presidenciais na Argentina, classificando a oposição do país como "bandidos de esquerda".

“Olha o que está acontecendo com a Argentina agora. A Argentina está mergulhando no caos. A Argentina começa a trilhar o rumo da Venezuela, porque, nas primárias, bandidos de esquerda começaram a voltar ao poder”, disse o presidente ao participar de um evento no Piauí.

“Nas próximas eleições, nós vamos varrer essa turma vermelha do Brasil. Nós juntos vamos varrer a corrupção e o comunismo do Brasil”, acrescentou.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/brasil/2019081414387395-bolsonaro-bandidos-de-esquerda-comecam-a-voltar-ao-poder-na-argentina/

O mundo, a América Latina e o Brasil

por Ivan Pinheiro [*]
entrevistado por Portal PCB/SC

Ivan Pinheiro em debate na Casa do Alentejo, 10/Maio/2019. PCB/SC: Vamos começar falando sobre a conjuntura mundial. Como você tem observado o conflito entre os Estados Unidos e a China? Há uma nova configuração do imperialismo no atual momento histórico?

Ivan: O conflito entre os Estados Unidos e a China, na atualidade em forma de acirradas disputas geopolíticas e econômicas, é a expressão maior do agravamento das contradições interimperialistas com o fim do mundo unipolar que, a partir da contrarrevolução na União Soviética (1991) garantira aos Estados Unidos uma hegemonia absoluta em todos os aspectos, por cerca de duas décadas.

O fator mais perigoso desta acirrada disputa multipolar, em que, a grosso modo, polarizam Estados Unidos/União Europeia e China/Rússia, é a volta da corrida armamentista, que pode levar a conflitos militares de enormes proporções. Grandes guerras sempre foram inevitáveis em todos os momentos da história marcados por mudanças na hegemonia mundial, como este em que vivemos na atualidade, ainda mais dramatizado pela crise sistêmica do capitalismo.

Esse quadro nos coloca novamente diante da questão da paz e da guerra. Para os revolucionários, volta à ordem do dia a luta contra as guerras imperialistas, pela paz entre os povos, não entre as classes.

A crise mundial do capitalismo acirra as disputas entre os grandes monopólios por matérias primas, tecnologia, mercados, rotas e territórios e, entre os principais países e blocos imperialistas, por hegemonia nos campos econômico, político, cultural e militar.

Sem pretender aqui alimentar qualquer ilusão de que essa multipolaridade torne a ONU "democrática" e "progressista" e muito menos que favoreça as revoluções socialistas, considero que seu aspecto positivo é que o imperialismo estadunidense já não pode mais tomar atitudes unilaterais, como ocorreu em suas covardes agressões ao Afeganistão, ao Iraque, à Líbia, em aliança com potências europeias (OTAN), sempre precedidas de mentiras e manipulações para satanizar os governos locais e tendo como objetivos a venda de mais armas, a ocupação de territórios estratégicos, o saque das riquezas naturais dos povos.

Na sua última aventura militar, os EUA já não puderam mais se valer do até então silêncio cúmplice e conciliador da Rússia e da China, no Conselho de Segurança da ONU. A Síria deve sua sobrevivência como país à mudança de atitude dessas duas potências, cujos interesses geopolíticos estavam sendo ameaçados, sobretudo no Oriente Médio.

Tendo sofrido na Síria uma grande derrota política e militar, o imperialismo estadunidense volta agora as armas de suas guerras híbridas contra países que não abrem mão de sua soberania e dispõem de imensas reservas de petróleo, como o Irã e a Venezuela.

É inegável que a ação da Rússia e da China, cada qual à sua maneira, tem sido fundamental para confrontar e, em alguns casos, conter o ímpeto do imperialismo estadunidense, como foi o caso de sua postura de recuo frente à Coreia do Norte. Devemos saudar este fato, mas sem ilusões, pois o motor desta ação são os interesses econômicos e geopolíticos destas duas grandes potências, também imperialistas, e não o exercício do internacionalismo proletário! Nesse contexto, cabe aos comunistas saber aproveitar as contradições interimperialistas para avançar o processo revolucionário em cada país.

PCB/SC: Um dos fenômenos que observamos como consequência da crise capitalista originada em 2007/08 é que a burguesia passou a apostar em alternativas capitaneadas pela extrema-direita como saída para os seus problemas. Como você observa esse processo no contexto internacional?

'. Ivan: Para enfrentar os efeitos da crise, que impactam negativamente a taxa de lucro e a reprodução do capital, as burguesias vêm adotando medidas que afetam de forma dramática os interesses dos trabalhadores e das camadas populares, como o arrocho salarial, a destruição de direitos trabalhistas, previdenciários e sociais, o saque ao orçamento e ao patrimônio público, uma pauta que acirra as contradições entre o capital e o trabalho e, por conseguinte, a luta de classes.

É duro termos de reconhecer que, em âmbito mundial, essa ofensiva se dá num momento em que o reformismo predomina em relação às forças revolucionárias e que a hegemonia do capital é de tal ordem que sua máquina de propaganda chega a convencer parcelas da classe trabalhadora a aceitar o discurso da "responsabilidade fiscal" como forma de garantir seus empregos, atuais ou futuros, ainda que com menos direitos.

Para tentar levar a efeito essas medidas, o estado burguês precisa restringir as liberdades democráticas conquistadas e fortalecer seu aparato de repressão, a fim de intimidar e conter as lutas em defesa dos direitos ameaçados. Medidas e leis repressivas vêm sendo adotadas na maioria dos países, em graus diferenciados, a depender das necessidades e possibilidades das suas classes dominantes, da cultura política do país e da correlação de forças.

Entretanto, nem sempre a burguesia precisa se valer de alternativas de extrema-direita, simplesmente porque já exerce uma confortável hegemonia política e cultural em todos os principais poderes e instituições, estatais ou sociais, de fato e de direito. Na grande maioria de países, a melhor forma de dominação continua sendo a velha e ilusória democracia burguesa, um instrumento flexível para administrar a vigência e o grau das chamadas liberdades democráticas e cuja principal arma são as eleições periódicas, que lhe conferem legitimidade e legalidade.

Arrisco dizer que os atuais governos mais notórios de extrema direita não eram as opções prioritárias dos setores hegemônicos das respectivas classes dominantes. Venceram na margem de erro de cada eleição. Na Itália, Polônia e Hungria, exemplos mais visíveis, o que pesou mais na eleição de candidatos de extrema-direita foi o discurso contra os imigrantes, alimentado por um nacionalismo xenófobo. O mesmo fator resultou num crescimento da ultradireita nas recentes eleições do Parlamento Europeu. No Brasil, Bolsonaro só passou a ser apoiado pelo capital depois que ficou claro que nenhum dos seus candidatos mais confiáveis (Alckmin, Meirelles, Amoedo) iria para o segundo turno, pois o objetivo, em razão da crise, era descartar a conciliação de classe petista.

PCB/SC: Na América Latina, governos de direita e extrema-direita ganharam força nos últimos anos. No entanto, a Venezuela tem conseguido manter a denominada Revolução Bolivariana resistindo à ofensiva de um forte ataque externo, capitaneado pelos EUA. Como você analisa esse cenário?

Ivan: A América Latina, considerada o quintal dos fundos do imperialismo estadunidense, em que – com a gloriosa exceção de Cuba Socialista – todas as aspirações e possibilidades de soberania e progresso social foram sufocadas pelos Estados Unidos, torna-se hoje um fator importante na cena mundial e um dos palcos das disputas interimperialistas. O resultado da ofensiva que os Estados Unidos movem contra a Venezuela terá importante impacto na correlação de forças mundial e sobretudo na América Latina. Por isso, independentemente de qualquer restrição que possamos fazer aos rumos atuais do processo bolivariano, nossa solidariedade não pode faltar ao povo venezuelano, em especial às suas organizações revolucionárias.

Muitos motivos levam os EUA a não desistir da tentativa de derrubar o governo do PSUV, hoje encabeçado por Maduro, e entregá-lo aos setores da oligarquia venezuelana que lhes são servis. Tentam isso desde 2002, quando sequestraram Hugo Chávez e o levaram para uma base militar e as massas ganharam as ruas exigindo sua libertação e sua volta ao governo. Nunca deixaram de conspirar, provocar ações violentas, satanizar o processo e suas lideranças e, principalmente, boicotar a economia venezuelana, de todas as formas possíveis, para jogar o povo e a opinião pública mundial contra o governo. Mas agora a instabilidade se agravou e estamos às vésperas de um desfecho. Nesse sentido, devemos denunciar as tentativas de golpe de Estado do imperialismo estadunidense e das classes dominantes venezuelanas para derrubar o Governo Maduro.

Além de ser palco do processo de mudanças que mais avançou em termos sociais e políticos na região, o país dispõe de uma das maiores reservas de petróleo (próximas ao território norte-americano), é uma referência para os povos latino-americanos, desenvolve intensas relações bilaterais de colaboração com Cuba e, além do mais, é a principal porta de entrada de capitais russos e chineses na América Latina.

Como dissemos anteriormente, não podemos subestimar o respaldo que a Venezuela bolivariana vem recebendo da Rússia e da China, sem o qual o Conselho de Segurança da ONU já poderia ter autorizado uma intervenção militar dos Estados Unidos, com o respaldo de países sul-americanos governados pela direita, que compõem o chamado Grupo de Lima. Mas não se pode confiar cegamente em potências estrangeiras, cujos interesses estratégicos podem levá-las a mover suas peças no tabuleiro global.

Não podemos subestimar também o apoio, até aqui determinante, das Forças Armadas venezuelanas, mas sem deixar de levar em conta a possibilidade de um eventual agravamento da crise econômica e social, que torne o país ingovernável, levá-las a outros caminhos, inclusive próprios.

As forças revolucionárias venezuelanas exigem corretamente que o socialismo deixe de ser apenas fonte de discursos e promessas e comece a ser construído de fato, com a formação de uma frente revolucionária e a adoção de medidas como a urgente estatização do sistema financeiro e dos monopólios privados e a industrialização do país, sob controle dos trabalhadores, para garantir a substituição de importações e pôr fim à dependência exclusiva do petróleo, geradora do rentismo parasitário da burguesia, incluindo sua parcela incrustada no governo, principal fator de contenção de novos avanços e de práticas de corrupção, inerente ao sistema capitalista, ainda vigente no país. Só é possível enfrentar a grave crise (agravada pelo imperialismo e as oligarquias locais), com medidas socializantes e não com paternalismo e as políticas compensatórias que têm prevalecido.

Definitivamente, o fator decisivo será a capacidade do processo de mudanças radicalizar, no sentido da revolução socialista e da tomada do poder do estado burguês.

Vítima de guerra econômica que provoca desabastecimento, queda na qualidade nos serviços públicos e inflação galopante e tendo sofrido neste ano apagões elétricos e tentativas de golpe – a "ajuda humanitária" nas fronteiras com Brasil e Colômbia e a "sublevação militar" em Altamira – e em meio a uma correlação de forças na América Latina altamente desfavorável, o bolivarianismo ainda sobrevive porque os trabalhadores e as camadas populares valorizam as conquistas reais que tiveram, sobretudo nas áreas da saúde, habitação, educação. Mas, neste momento complexo e decisivo, o apoio popular só será garantido com a radicalização do processo.

Se não for superada a crise política, social e econômica, não podemos subestimar a possibilidade de um retrocesso político na Venezuela, seja através de algum novo golpe de direita mais forte ou da conciliação em torno de um pacto de "união nacional" com a oposição, como sugerem os diálogos mediados pela Noruega, mas que podem também ser rompidos em razão da oposição que vêm gerando nos setores mais radicalizados dos dois lados, ou seja, à esquerda de Maduro e à direita do fantoche ianque Guaidó, o que poria fim à trégua tácita e instável que assistimos hoje.

Não se pode descartar também a possibilidade de uma insurreição ou mesmo guerra civil, levando-se em conta que há setores organizados e armados tanto nas classes dominadas como nas dominantes. Sejam quais forem os desdobramentos da crise venezuelana, jogará um papel significativo o principal legado do chavismo: a conscientização do proletariado e a grande rede de organizações de massa, os coletivos, brigadas e comunas, uns criados de cima para baixo e outros de forma independente, a partir das bases.

Apesar de tudo, a heroica sobrevivência do processo de mudanças na Venezuela bolivariana – a despeito de seus limites – é uma referência importante para refletirmos sobre as razões das recentes derrotas de governos classificados como progressistas em nosso continente, alguns em processos eleitorais e outros por variadas formas de golpes, todos exatamente por não terem promovido as mudanças que haviam prometido.

Na Venezuela bolivariana não se trata apenas de governos "progressistas", como os que administram o capitalismo prometendo humanizá-lo e que caem porque essa é uma tarefa impossível. Trata-se de um processo de mudanças radicalizado, com acentuado viés anti-imperialista, e que resultou em conquistas reais a favor das camadas populares, no fim do monopólio da mídia burguesa, no avanço da conscientização e da organização das massas.

PCB/SC: Fale então um pouco mais sobre o aparente esgotamento do ciclo dos chamados governos "progressistas" na América Latina.

Ivan: Além do Brasil, que merece uma reflexão específica, em dois outros países do nosso continente governos progressistas foram derrubados por golpes de estado: Honduras (2009) e Paraguai (2012). Nas duas ocasiões, estive pessoalmente em missão de solidariedade, em nome do PCB.

Como em todos os golpes de estado na América Latina, o imperialismo norte-americano teve papel determinante nestes episódios, em aliança com as oligarquias locais. Em Honduras, essa presença foi às claras. Manuel Zelaya, um burguês progressista e nacionalista que havia se aproximado de Hugo Chávez e da ALBA, foi retirado à força da sede do governo por militares e levado preso a uma base dos EUA no próprio território hondurenho. A resistência popular foi massiva e aguerrida, mas acabou derrotada por violenta repressão e, não podemos deixar de registrar, pela falta de uma vanguarda revolucionária que conduzisse a luta para além do espontaneísmo. Pelas mesmas razões, uma possível insurreição popular foi derrotada em Honduras recentemente.

No Paraguai, o golpe parlamentar que derrubou Fernando Lugo foi rápido e sem muita resistência. Apesar de seu governo ter gerado grandes mobilizações populares e uma inédita frente política e social de esquerda, o próprio Presidente, humanista e pacifista, que fora Bispo da Igreja Católica, acatou publicamente a decisão do Senado pelo seu impedimento, em um processo forjado que tramitou a toque de caixa, em menos de uma semana.

Em outros países, governos tidos como progressistas assumiram e caíram através de eleições e – ouso aqui levantar uma hipótese – muitos deles poderão voltar ao governo pela mesma via, provavelmente menos progressistas, pagando preços mais altos em termos de alianças com setores da burguesia para tentar garantir a governabilidade institucional, inclusive podendo aplicar certas políticas de "austeridade fiscal", de forma menos rápida e profunda, em comparação a governos de direita.

Ocorre que, no quadro da crise sistêmica do capitalismo, vem se consolidando em muitos países uma bipolaridade política entre forças que administram o capital. Numa época em que caracterizações políticas precisam ser relativizadas, podemos usar um vasto cardápio para classificar essa bipolaridade em cada país, tais como centro-esquerda, socialdemocratas, reformistas ou progressistas X direita, centro-direita, neoliberais ou conservadores. O certo é que as diferenças entre estes polos vêm diminuindo. Por vezes, mudam os nomes de candidatos e mesmo os de partidos ou frentes. Mas não mudam o fato de que são duas alternativas que cabem perfeitamente nos limites da democracia burguesa e do capitalismo e que tendem a se revezar, na chamada "alternância do poder", que prefiro chamar de alternância de governo, já que, através de eleições, nunca está em jogo o poder do estado burguês.

Essa alternância se dá porque, em geral, o governo de turno é derrotado em eleição seguinte, por não ter podido cumprir as promessas que fez em campanha para superar o desemprego, a pobreza, a insegurança, os péssimos serviços públicos.

No Chile, a alternância tem se dado de forma monótona, com os mesmos personagens e partidos, a quatro eleições seguidas: Bachelet (2006), Piñera (2010), Bachelet (2014) e Piñera (2018). Michelle Bachelet é um bom exemplo de outro fenômeno: a degeneração ideológica e a cooptação ao sistema que gera o exercício da administração do capitalismo. Depois de dois mandatos como Presidente, o segundo menos progressista que o primeiro, tornou-se Alta Comissária da ONU para Direitos Humanos e acaba de divulgar um relatório parcial e mentiroso sobre a situação na Venezuela, prestando um relevante serviço ao imperialismo norte-americano.

Na Argentina, o revezamento deve se dar nas eleições agora em outubro. Cristina Kirchner despontava como favorita em todas as pesquisas. No entanto, satanizada como progressista radical, decidiu formar uma chapa que sugere moderação, em que ela vem como vice de Alberto Fernández (bem aceito pelo "mercado"), na denominada Frente de Todos. Ao que tudo indica, o ultraliberal Macri poderá ser derrotado, porque não aconteceu o "milagre econômico" que havia prometido. Nesse caso, o próximo governo argentino tende a ser mais pragmático e menos progressista que os dos Kirchners (Néstor e Cristina).

No Equador, a alternância se deu de maneira surpreendente. Rafael Correa, em seu primeiro mandato como Presidente (2007/2012), convocou uma Constituinte soberana, promoveu algumas mudanças e desafiou o imperialismo norte-americano, despejando-o da base militar de Manta, a maior da América Latina. Após um segundo mandato (2012/2017) em que não deu continuidade às mudanças nem preparou um sucessor progressista – e sem poder legalmente candidatar-se a uma segunda reeleição – Correa se viu obrigado a apoiar a candidatura de Lenin Moreno, que havia sido seu Vice-Presidente, numa aliança com setores burgueses. Depois de eleito e empossado, em 2018, Lenin (que ironia!) devolveu a base de Manta aos EUA, juntou-se aos governos de direita da região contra a Venezuela bolivariana e atualmente se soma a uma campanha de criminalização de Rafael Correa, para que este, como Lula, não possa ser candidato às próximas eleições. Qualquer semelhança com Michel Temer, que era o vice de Dilma Rousseff, não é mera coincidência!

Em razão do desgaste e da acomodação política causados pelos limites da administração do capitalismo, até mesmo dois governos progressistas longevos – Uruguai (desde 2005) e Bolívia (desde 2006) – estão às voltas com as mais difíceis eleições que disputaram e que ocorrerão este ano. Ambos já procuram parecer mais moderados. No caso do Uruguai, o ex-Presidente Pepe Mujica e o novo candidato da progressista Frente Ampla (Daniel Martínez) vêm declarando publicamente que o governo Maduro é uma ditadura! No caso da Bolívia, que avançou positivamente em muitas mudanças políticas e sociais e resistiu com o povo nas ruas a várias tentativas golpistas, Evo Morales tem adotado atitudes regressivas, como prestigiar pessoalmente a posse de Bolsonaro, aceitar a redução do preço do gás que a Bolívia vende ao Brasil e negar asilo político a Cesare Battisti, o que obviamente resultou na sua entrega à polícia brasileira e sua extradição para a Itália, onde cumpre prisão perpétua.

No México, a eleição do progressista López Obrador reforça a tese da alternância de governo. Esse fenômeno ultrapassa as fronteiras da América Latina. Para ficar entre os países sobre os quais temos mais informações, esse revezamento bipolar da administração do capitalismo vem acontecendo na França, Espanha, Portugal, Itália e na Grécia, onde o socialdemocrata Syriza acaba de ser derrotado pela centro-direita, depois de ter implantado as políticas de austeridade fiscal ditadas pela Troika (FMI, Banco Central Europeu e Comissão Europeia).

É evidente que a esquerda revolucionária não prefere um governo de direita, na lógica do "quanto pior, melhor", na suposição de que "acentua as contradições e abre caminho para a revolução socialista". Em qualquer circunstância, o que pode levar à revolução socialista é a conscientização, organização e capacidade de luta do proletariado e a presença de uma consistente vanguarda revolucionária.

Por outro lado, mesmo não sendo prioridade, não devemos subestimar os processos eleitorais, momentos importantes para fazer o trabalho político e ideológico junto aos trabalhadores, apresentar nossas propostas, táticas e estratégicas, denunciar a exploração capitalista e o jogo marcado da democracia burguesa, objetivos que recomendam nossa participação com identidade própria, mesmo que em coligação com outras forças. Se as circunstâncias nos levarem a apoiar um candidato que signifique um "mal menor", não podemos deixar de dizer aos trabalhadores, com todas as letras, que se trata do "menos ruim"!

PCB/SC: Você não falou da Colômbia. Como vê a situação por lá, após o acordo de paz assinado pelas FARC-EP?

Ivan: Pois é, camaradas. Estávamos tratando de alternância de governo, que na história da Colômbia só se deu até hoje entre facções da oligarquia, entre a direita e a ultradireita.

Mesmo para quem acompanhou relativamente de perto os Diálogos de Havana, é difícil entender e fazer um juízo de valor sobre a abrupta decisão das FARC-EP de aceitar a exigência de entrega prévia das armas para assinar o "acordo de paz". Essa alterativa nunca foi aventada em toda a história invicta deste partido comunista em armas. Uma hipótese que pode justificar esta decisão é a de que houvesse um risco iminente de derrota militar, em função de um certo desequilíbrio que vinha causando o uso de novas tecnologias (mísseis "inteligentes", drones, chips etc) por parte de um poderoso aparato militar, treinado e armado pelo imperialismo norte-americano, que dispõe de nove bases no país. Agora membro associado da OTAN, a Colômbia é uma cabeça de ponte dos EUA, localizada estrategicamente entre as Américas do Sul e Central e de frente para o Caribe, uma espécie de Israel em nosso continente.

A dissidência que se cristaliza entre os antigos comandantes guerrilheiros, e que vai se tornando pública, certamente em algum momento jogará luz sobre as circunstâncias políticas em que se deu aquela decisão, que surpreendeu a todos, inclusive às forças políticas solidárias. Há a hipótese também de alguma influência das ideias reformistas e socialdemocratas que grassam na esquerda mundial, inclusive em parte do movimento comunista, nomeadamente as ilusões eleitorais e institucionais.

Independente das razões que levaram a este desfecho, penso que esta foi a pior derrota que tivemos na América Latina nos últimos tempos. Diferentemente de derrotas eleitorais, que sempre podem ser revertidas, esta é uma derrota política e ideológica de longo alcance, para além da Colômbia. Uma das consequências foi deixar desguarnecida a extensa fronteira entre a Colômbia e a Venezuela, onde era muito forte a presença militar das FARC, o que pode facilitar a infiltração de paramilitares ou soldados regulares colombianos, uma das alternativas dos EUA contra a Venezuela bolivariana.

Alguns dos antigos comandantes têm se pronunciado publicamente de forma autocrítica. Iván Márquez recentemente classificou como inocência política a forma da entrega das armas e a desmobilização, enquanto Jésus Santrich, vítima de uma farsa judicial com tentativa de extradição aos EUA, vinha denunciando o extermínio de ex-guerrilheiros e militantes sociais, tendo aconselhado publicamente o ELN (Exército de Libertação Nacional) a não entregar suas armas nos marcos das negociações que mantém com o governo colombiano, atualmente suspensas por este. Encontrando-se na mira do estado colombiano, correndo iminente risco de vida, há notícias de que ambos se encontram foragidos.

É preciso deixar claro que a crítica aqui não é por considerar que as FARC-EP deveriam manter a mesma forma de luta armada até à vitória final, a que jamais chegariam por esta única via, ou seja, se não contassem com um amplo e combativo movimento de massas e uma vanguarda revolucionária nas grandes cidades e entre o campesinato. Foi correto compor a mesa de diálogos com o governo, para a busca de uma "solução política do conflito", no conceito da insurgência, que sempre evitou a expressão "acordo de paz" (usada pelo governo), já que não há paz na luta de classes, ainda mais num estado terrorista como o colombiano. Foi correto buscar uma solução para o conflito que durante toda a sua história de mais de 50 anos custou a vida apenas de filhos do proletariado, nos dois lados em armas. Durante os diálogos em Havana, houve um extraordinário crescimento do movimento de massas, já que as FARC-EP haviam se transformado em porta-voz das reivindicações populares, muitas delas contempladas no documento assinado entre as partes, mas em sua maioria tornadas letras mortas.

O açodamento e principalmente a forma da desmobilização da insurgência abriram espaço para o governo descumprir e inviabilizar a aplicação dos principais pontos acordados, o que provocou desilusão e descrédito no povo colombiano e o consequente refluxo do movimento de massas. Tratou-se de uma cilada, uma paz de cemitérios. Ao invés da idealizada conciliação nacional, assistimos hoje ao recrudescimento do terrorismo de estado. Desde a desmobilização, já foram assassinados centenas de militantes sociais e mais de 140 ex-guerrilheiros, enquanto o Estado lava as mãos, atribuindo os crimes ao paramilitarismo.

Não serviu de exemplo o comportamento histórico da oligarquia colombiana, que descumpriu todos os compromissos assumidos com diversas guerrilhas, inclusive com as próprias FARC, que, após um acordo com o governo Belisário Bitencourt, se desmobilizaram parcialmente e, em 1985, juntamente com o Partido Comunista Colombiano, criaram um partido legal, a União Patriótica. Após as eleições de 1986, em que a UP teve um bom desempenho, elegendo 5 senadores e 14 deputados, além de prefeitos e vereadores, começou um extermínio, atribuído a grupos paramilitares, que resultou no assassinato de 4.000 militantes, no episódio que a oligarquia batizou cinicamente de El Baile Rojo.

PCB/SC: E sobre Cuba? Como vai enfrentando as sanções e ameaças do governo Trump? Qual a importância da ilha na atualidade?

Ivan: A Revolução Cubana segue sendo um grande exemplo para todos os povos do mundo. Cuba é o único país em que me sinto pessoalmente seguro de dizer que mantém uma experiência de construção do socialismo.

Apesar de 60 anos de um cruel e desumano bloqueio levado a efeito pela maior potência mundial, a poucas milhas de seu território, Cuba segue soberana. Apesar do fim da União Soviética, que sempre lhe deu suporte político, econômico e militar, o socialismo sobreviveu em Cuba, com muito sacrifício, ao chamado período especial que se seguiu, num momento em que o fim do socialismo no país era estimado em dias, meses ou em poucos anos. Apesar das dificuldades de construir o socialismo praticamente em um só país, uma pequena ilha, Cuba continua revolucionária, internacionalista e anti-imperialista.

Mas não podemos deixar de reconhecer e compreender que a Revolução Cubana, por conta de todas essas dificuldades, sobretudo econômicas, não achou outra alternativa senão a adoção de algumas mudanças que vêm abrindo espaço à iniciativa privada, para poder manter alguns dos mais importantes princípios da Revolução: as garantias de trabalho e de gratuidade em todos os níveis da educação e em todos os serviços de saúde. Uma das soluções encontradas foi um plano de demissão voluntária de servidores públicos em áreas com grande excesso de pessoal, em troca do direito de empreender alguma atividade que lhes gerasse rendimento com seu trabalho e de pessoas de sua família, num sistema que ficou conhecido como contapropismo.

Entretanto, na busca por mais valor (e confirmando a inescapável lei da acumulação capitalista), alguns desses empreendimentos, sobretudo na diversificada e importante área do turismo, se desenvolveram e passaram a utilizar mão de obra informal de terceiros. Esse tema foi objeto de amplo debate no recente processo de revisão da Constituição Cubana, que envolveu praticamente toda a população. O anteprojeto que resultou desta consulta foi submetido a um referendo nacional, sendo aprovado por 87% dos cubanos, com comparecimento às urnas de 90% dos eleitores. Entre as principais mudanças constitucionais estão medidas para conter a expansão do setor privado na economia, com regras rígidas para coibir a exploração de mão de obra, o aumento de preços dos produtos de consumo popular, a evasão de impostos, além de vários ajustes e correções de rumo para resolver os principais problemas do país, dentro de um contexto de reafirmação da construção do socialismo.

Já com relação às manobras, provocações e agressões do imperialismo norte-americano – que nunca deu trégua nos 60 anos de Revolução Socialista – a atual crise na Venezuela suscitou uma nova onda de ameaças e sanções específicas contra Cuba, mas que na realidade têm o objetivo de tentar "matar dois coelhos com uma só cajadada", ou seja, atingir e tentar fragilizar esses dois países que não se submetem aos seus desígnios, procurando debilitar uma relação bilateral que beneficia os dois povos. Com este objetivo, o governo Trump mente descaradamente para apertar o cerco econômico contra a Ilha, afirmando que há tropas cubanas na Venezuela.

Baseada na famigerada Lei Helms-Burton, de 1996 (governo Clinton), a ofensiva atual ataca exatamente as duas necessidades fundamentais para a solução dos problemas econômicos cubanos: os investimentos estrangeiros e o setor do turismo, suas principais fontes de receitas em moedas estrangeiras e de geração de emprego e rendimento. Para afastar investimentos, usando seu arbitrário poder extraterritorial, o governo dos EUA resolveu impor sanções às empresas que tenham alguma relação comercial em imóveis nacionalizados há décadas pela Revolução Cubana e, para estancar o crescente fluxo de turistas estrangeiros na ilha caribenha (4 milhões, em 2018), estabeleceu fortes restrições a viagens de cidadãos estadunidense a Cuba.

Mas a Revolução Cubana tem como uma de suas principais marcas a superação de obstáculos, que não têm sido poucos nem fáceis de vencer. Nunca se entregou! E mais uma vez vencerá!

Por conta desta história de resistência invicta, da mística revolucionária de Fidel, Che, Camilo Cienfuegos e seus camaradas da Sierra Maestra, de sua determinação de criar uma sociedade sem opressores nem oprimidos, por ser na atualidade o único país, povo e governo do mundo a praticar o internacionalismo proletário, nunca lhe faltou nem faltará a solidariedade vinda de todas as partes do mundo, sobretudo de todas as expressões políticas e sociais comprometidas com a construção de um mundo sem guerras, sem fome nem miséria, onde todos possamos compartilhar os mesmos direitos e deveres e, como em Cuba, nos chamarmos de companheiros.

PCB/SC: Vivemos o esgotamento do ciclo lulista, que foi derrotado pelo Golpe de 2016, que culminou com a prisão de Lula e a derrota de Haddad nas eleições de 2018. O que levou à crise e à derrota desse projeto? Por que, mesmo com o desgaste do projeto petista, a esquerda socialista não conseguiu se apresentar como uma alternativa real para a classe trabalhadora brasileira?

Ivan: O golpe contra Dilma foi consequência do agravamento no Brasil da crise mundial do capitalismo, que levou a burguesia a prescindir da conciliação de classes dos governos petistas que, enquanto a economia ia bem (favorecida pelo "boom das commodities"), garantiam a expansão e os lucros do capital e, ao mesmo tempo, amaciavam a luta de classes com políticas compensatórias, a cooptação e o apassivamento do movimento sindical e popular.

Enquanto os efeitos mais graves da crise não chegavam aqui, os governos petistas se mantiveram de pé, sem muitos sobressaltos, por três mandatos consecutivos (2003/2014). A governabilidade petista neste período era garantida por uma ampla aliança com partidos burgueses, que assegurava folgada maioria no parlamento, ao custo da impossibilidade de promover qualquer mudança estrutural. Uma das consequências foi não ter sido feito absolutamente nada ao menos para mitigar o monopólio da mídia burguesa. Pelo contrário, os governos petistas tentavam, em vão, neutralizá-la com robustas verbas públicas. Há um PT na oposição e outro no governo. Com a posse de Lula em 2003, seu partido, que havia liderado a luta pela reestatização da Vale do Rio Doce, privatizada no governo FHC, calou-se e não moveu uma palha a respeito.

Quando a crise econômica atingiu em cheio o final do primeiro mandato de Dilma, os governos petistas se tornaram anacrônicos para o sistema, pois não podiam mais sustentar a conciliação de classes (como se viu a partir das manifestações de 2013) nem assegurar, de forma rápida e intensa, as contrarreformas de que o capital necessita para sair da crise às custas dos trabalhadores. A burguesia precisava de um governo para chamar de seu. Dilma ainda tentou agradar o capital, com a nomeação de um ministro da Fazenda de absoluta confiança do mercado. Mas sua sorte já estava lançada.

As medidas adotadas pelo governo Temer deixam bem claro que as razões do impedimento da Presidente Dilma não foram as "pedaladas fiscais", pretexto que até hoje pouca gente sabe do que se trata. Mesmo com um índice de rejeição popular recorde e enredado em graves denúncias de corrupção, Temer conseguiu, em seu breve mandato, aprovar a contrarreforma trabalhista, a generalização das terceirizações, o "teto de gastos públicos" por 20 anos, sem que nem as imagens de uma mala com 500 mil reais carregada por assessor de sua confiança lhe ameaçassem o mandato.

O golpe parlamentar, judicial e midiático contra Dilma só foi possível porque os trabalhadores e as camadas populares – diferente do que vem ocorrendo na Venezuela – não atenderam ao chamado para defendê-la, exatamente porque não havia conquistas significativas nem mudanças estruturais a preservar. E foi facilitado pela conciliação dos governos petistas: pela campanha de satanização da mídia que não combateram, pelo oportunismo dos Ministros do STF que nomearam e pela traição do Vice-Presidente e dos partidos burgueses com os quais se coligaram. Em resumo: o PT foi vítima da sua própria conciliação!

Apesar desta derrota, considero um erro a teoria do "esgotamento do ciclo petista", surgida em nosso meio após as manifestações de 2013 e reforçada depois do golpe contra Dilma. Essa teoria induziu ao voluntarismo de achar que o PT estaria morrendo e que chegara a hora e a vez de as forças da esquerda revolucionária dirigirem um novo ciclo de lutas, no qual o reformismo não teria mais espaço, o que é outra ilusão. Mesmo que o PT tivesse desaparecido, o reformismo migraria para outro partido socialdemocrata, pois esta é uma ideologia predominante na pequena-burguesia. Por sinal, o PSOL já vem se beneficiando do desgaste do PT.

Se levarmos em conta que o sistema teve que prender Lula para ele não vencer as eleições de 2018 e que – a despeito de toda a satanização dele e do PT (como se tivessem inventado a corrupção no Brasil) – Haddad ainda assim foi para o segundo turno e o PT elegeu novamente a maior bancada de Deputados Federais, temos que reconhecer que o petismo sofreu um grande desgaste, mas não se esgotou, inclusive no movimento sindical, em que ainda é a maior força. O PT pode até voltar ao governo pelo voto em 2022, já que a crise econômica dá sinais de que pode agravar-se. Nesta hipótese, não podemos descartar que essa eventual volta ao governo se dê com o apoio – no primeiro ou segundo turno – de setores das classes dominantes que deverão ser prejudicados pela contrarreforma da previdência (que deverá provocar a retração do consumo das camadas médias e populares), pela desindustrialização, que se aprofundará com o acordo Mercosul/União Europeia, e com o alinhamento incondicional aos EUA, que afasta mercados importantes para os produtos brasileiros. Ainda mais se as revelações dos bastidores da "Operação Lava Jato" forem mais fundo e deixarem evidentes a parcialidade e a politização do julgamento de Lula.

A esquerda socialista não se tornou alternativa ao desgaste do petismo por várias razões. Uma delas foi que a mídia transformou o PT em sinônimo de esquerda, de socialismo e até de comunismo. Mas há outros fatores que pesam, como a débil inserção na classe operária e nos setores populares, a incapacidade de forjar frentes de luta unitária para além de eleições, o movimentismo e o identitarismo que predominam na grande maioria das correntes que reivindicam a esquerda socialista. Muitas delas se movimentam tendo como bússola a sua performance nas próximas eleições. A mais de um ano das eleições municipais de outubro de 2020 – e em plena tramitação da contrarreforma da previdência – os partidos reformistas já começam a tratar como prioridade o debate sobre coligações e candidaturas a prefeitos e vereadores. Nas sábias palavras de um camarada, nos anos ímpares esta esquerda se prepara para as eleições, que se dão nos anos pares!

PCB/SC: Qual a sua avaliação sobre os primeiros meses do governo Bolsonaro? Como analisa a crise interna do governo e as consequências do vazamento dos bastidores da Lava Jato? Nesse cenário o que deve ser defendido pelas esquerdas? Como os movimentos sociais e populares podem interferir nesse processo? Qual a alternativa para a classe trabalhadora mudar uma conjuntura tão adversa?

Ivan: O governo Bolsonaro só não conseguiu ser pior, do nosso ponto de vista, em função das trapalhadas diárias que cria, das crises e conspirações urdidas por seus filhos, seu ideólogo Olavo de Carvalho e seus ministros, que atrasam o ritmo do seu próprio projeto de destruição do que resta do estado social, dos direitos trabalhistas, civis e políticos e da própria soberania nacional. Mas o retrocesso já é muito grande, em todos os aspectos.

Pelo que se observa na mídia hegemônica – a fonte mais reveladora dos humores das classes dominantes – há entre elas um desconforto com as asneiras e destemperos diários do inacreditável presidente que elegeram. Suas propostas preconceituosas e ultraconservadoras e suas declarações histriônicas, algumas de inspiração fascista, dificultam a pressa da imensa maioria de direita no parlamento em implantar as reformas neoliberais que dependem de iniciativa legislativa. A burguesia está preocupada com medidas a seu favor para a superação da crise econômica, não com o "marxismo cultural", a "ideologia de gênero" e outras bizarrices.

A crise do momento, em que se destacam os bastidores da Lava Jato (que acirram o conflito entre o STF e o MPF) e as declarações torpes e mentirosas do Presidente sobre a prisão e o assassinato de Fernando Santa Cruz pela ditadura burguesa sob a forma militar, se desenrola exatamente no reinício da tramitação no parlamento da contrarreforma da previdência, considerada pelo "mercado" como a mãe de todas as chamadas reformas estruturantes a favor do capital.

Entretanto, ao menos no curto prazo, tudo indica que não haverá qualquer iniciativa no andar de cima com vistas a uma campanha pelo impedimento do Presidente. Motivos não faltariam: as fake news nas eleições, a relação íntima do clã com as milícias no Rio de Janeiro, o possível envolvimento no assassinato de Marielle Franco, o esquema de lavagem de dinheiro de Flávio Bolsonaro, as evidentes manobras para impedir a candidatura de Lula.

A razão principal desta sustentação política, ainda que constrangida, é que, bem ou mal, a agenda das reformas que interessam ao capital começou a andar no parlamento e também em matérias que são da alçada do executivo, como foi a privatização em tempo recorde da BR Distribuidora [de combustíveis], aliás, com respaldo do STF. É bom lembrar que a mídia e os três poderes estatais estão perfeitamente afinados com o projeto do capital e só colocam obstáculos a propostas estapafúrdias do executivo, que extrapolem limites do que consideram civilizado, como a liberação da posse e do porte de armas e o afrouxamento das multas de trânsito.

Para garantir seu mandato, Bolsonaro tende a adotar cada vez mais iniciativas que satisfaçam o apetite do capital por extrair mais valor. É o caso da recente Medida Provisória 881/2019, apresentada pelo governo com o esperto título de "MP da Liberdade Econômica" mas que, a pretexto de desburocratizar as empresas, amplia os efeitos perversos da contrarreforma trabalhista de Temer, estabelecendo o aumento da jornada de trabalho de várias categorias, a permissão de trabalho aos domingos e feriados sem negociação coletiva, a suspensão de normas sobre saúde e segurança do trabalho, inclusive a possibilidade de extinção das Comissões Internas de Prevenção de Acidentes, entre outras perdas de direitos trabalhistas…

Outra razão importante que vem garantindo a governabilidade é que Bolsonaro ainda possui uma sólida base social, radicalizada e idiotizada, que venderia caro uma tentativa de seu impedimento, contando com o apoio das igrejas neopentecostais, da maioria do comando e principalmente das bases das forças armadas, das polícias de todos os âmbitos e esferas, do agronegócio, dos caminhoneiros (que podem parar o país) e de milícias e organizações de ultra direita que podem transformar em episódios sangrentos a defesa do seu "mito".

 burguesia só recorrerá ao processo de impedimento contra Bolsonaro se não houver mais condições de administrar as constantes crises que ele gera e se aprofundarem-se o seu isolamento político, inclusive entre seus fiadores militares, e o desgaste em sua base social, a ponto de ele passar a não dispor mais de meios razoáveis para tentar um autogolpe.

Enquanto isso, a burguesia, que não pode esperar, já arranjou uma maneira informal, provisória ou não (a depender dos desdobramentos), de levar à frente sua pauta no legislativo, sem precisar contar com Bolsonaro e, em alguns casos, apesar dele. Dispondo de uma bancada parlamentar de centro-direita maior do que a soma das bancadas da oposição de centro-esquerda e do partido de extrema-direita de Bolsonaro, forjou-se um parlamentarismo de fato, sob a liderança de Rodrigo Maia, alçado à condição de primeiro ministro de fato e, quiçá, de próximo candidato a Presidente da República da maioria das classes dominantes, expressando um campo de centro-direita, neoliberal na economia e "democrático" na política e nos costumes. Essa articulação chamou para si a contrarreforma da previdência e já se prepara para conduzir outras reformas de interesse do capital, a começar pela tributária.

Já no campo da oposição dita de esquerda e do movimento popular há muitas apostas em soluções institucionais que em nada alterariam a atual correlação de forças desfavorável.

Há os que torcem para Bolsonaro ficar na presidência até o fim do mandato, considerando que ele complica os projetos da burguesia e chegaria desgastado às eleições de 2022, facilitando a vitória de Lula ou de outro candidato progressista. Já os que torcem por Mourão (e, portanto, pelo impedimento do Presidente) iludem-se com a maquiagem que o general vem fazendo em sua imagem, contrapondo suas opiniões às do Presidente. Acham que ele não causaria tantos retrocessos e estaria aberto ao diálogo.

É preciso acabar com essas ilusões. Um processo de impedimento antes das principais reformas neoliberais e do aprofundamento do desgaste de Bolsonaro atrasaria mais os planos das classes dominantes do que a diarreia verbal incontinente do Presidente e ainda poderia trazer instabilidade política e social. Por outro lado, os militares ainda apoiam e participam do governo Bolsonaro. Não são democratas nem nacionalistas. Vários dos seus expoentes, inclusive os generais Mourão, Heleno e Vilas-Boas, pronunciaram-se publicamente a favor do golpe contra Dilma e contra a libertação de Lula, chantageando a opinião pública, o parlamento e o poder judiciário, e não levantaram uma só palavra contra a entrega da Embraer à Boeing e da base de Alcântara aos EUA e tampouco a sanha privatizante do governo. Humilhados pela fritura de alguns de seus generais e sem conseguir cumprir o papel moderador que imaginavam, os militares sairão desmoralizados por sua participação neste governo.

Doces ilusões! Não podemos nos comportar como torcedores, na expectativa de soluções vindas de cima que pareçam "menos ruins". Só a conscientização, a organização e a luta dos trabalhadores e das camadas populares, com independência de classe, poderão evitar a destruição dos direitos trabalhistas, sociais, civis e políticos e avançar em outras conquistas. Essa é a nossa tarefa principal, não pensando apenas na atual conjuntura, mas em qualquer cenário, qualquer correlação de forças, a qualquer tempo. Não podemos subestimar as divisões e contradições interburguesas, que são inerentes ao capitalismo; quando possível, devemos aproveitá-las a nosso favor. Mas sem ilusões! Não há divergências inconciliáveis nas classes dominantes sobre a pauta que as levaram a apoiar Bolsonaro. Muito menos no governo, onde as diferenças são de forma e estilo, não de conteúdo!

Um outro entrave ao movimento de massas é o fato de o campo petista privilegiar o "Lula Livre!" como a bandeira principal, em detrimento da luta contra a ofensiva do capital. Essa prioridade debilita o movimento de massas, estimulando a ilusão de que só com eleições e a volta de Lula ao governo podemos assegurar nossos direitos. Não se trata aqui de negar a justeza desta bandeira. O julgamento de Lula foi político e seletivo, um novo golpe para evitar sua candidatura em 2018. Devemos prestar nossa solidariedade ao ex-Presidente, participando de algumas iniciativas específicas da campanha por sua libertação, mas sem priorizar esta bandeira nem abrir mão das necessárias críticas à conciliação dos governos petistas.

É preciso também combater as ilusões de classe disseminadas por setores da socialdemocracia "de esquerda", que enganam e desmobilizam as massas com a vã esperança de derrotarmos ou mitigarmos os planos do capital no parlamento ou na justiça (instituições do estado burguês), como vimos durante a fase da luta contra a "reforma" da previdência anterior à votação em primeiro turno na Câmara dos Deputados, onde, por sinal, os reformistas negociam e conciliam com o seu Presidente, cacifando ainda mais este líder emergente da centro-direita, queridinho da mídia e do "mercado". Os deputados do PcdoB, por exemplo, votaram nele para Presidente da Câmara, já no primeiro turno, mesmo havendo um candidato da bancada de esquerda!

Outra questão é a caracterização do governo Bolsonaro. Apesar de declarações e atitudes de inspiração fascista da parte dele e de seu entorno político mais próximo, não me parece correto definir o governo como fascista ou neofascista e nem exagerarmos os riscos do advento de uma ditadura aberta. Isso nos levaria ao erro de privilegiar os esforços por uma gelatinosa frente democrática policlassista e não pela necessária unidade na ação com a esquerda socialista e os movimentos sindicais e populares. Significaria privilegiar a luta em defesa da democracia burguesa, em detrimento dos direitos trabalhistas e sociais.

Apesar de Bolsonaro, o chamado "estado democrático de direito" funciona normalmente nestes sete meses de governo, embora com viés autoritário. O fato de haver neofascistas no governo não significa que estejamos sob o fascismo. Seria o mesmo que caracterizar os governos petistas como socialistas ou comunistas só porque deles participavam partidos que ainda mantêm nos seus nomes esses conceitos. Não há qualquer indício de que as classes dominantes em nosso país apoiariam, nos dias de hoje, uma ditadura aberta ou um processo de fascistização, alternativas a que recorreram, em 1964, quando viram ameaças concretas de mudanças estruturais, com o avanço do movimento de massas que empurrava o governo João Goulart para a esquerda. Isso se deu no auge da União Soviética e em plena Guerra Fria, na época das revoluções socialistas e de libertação nacional e numa América Latina rebelde, onde a Revolução Cubana inspirava movimentos revolucionários, o que levou o imperialismo a apoiar e articular ditaduras burguesas fascistizantes em quase todo o nosso continente.

Nos dias de hoje, o rompimento do "estado democrático de direito", além de anacrônico e absolutamente desnecessário para o sistema, seria um tiro no pé dos interesses das classes dominantes, exatamente quando clamam de joelhos por investimentos estrangeiros, que dependem de segurança jurídica e estabilidade política. Além do mais, desde a chamada "transição democrática" – lenta, gradual e segura, como convinha aos interesses das classes dominantes – nunca houve uma correlação de forças tão favorável para assegurar os interesses do capital.

Isso não significa que a democracia burguesa (em verdade uma ditadura de classe) não possa recrudescer seu lado repressor. Ela é flexível, em função das necessidades do capital e da correlação de forças. Por isso – sem nos desviarmos da centralidade da luta contra a ofensiva do capital em relação aos direitos trabalhistas e sociais –, não podemos perder de vista a defesa das liberdades democráticas, entendidas como o conjunto de direitos políticos conquistados, nomeadamente os de expressão, organização e manifestação. Nesse sentido, não podemos descuidar do diálogo, de forma pontual e independente, com as forças reformistas de centro-esquerda nem das necessárias precauções ligadas à segurança e autodefesa. Quanto mais se desgasta o governo e ficam evidentes as barreiras aos seus delírios, mais radicalizados e ousados ficarão seus fiéis apoiadores.

Se fizermos um balanço realista da atual correlação de forças em nossa sociedade, infelizmente teremos que reconhecer que a disputa pelo poder não é entre esquerda e direita, como aqui em 1964 ou na Venezuela na atualidade, mas entre a direita e a centro-direita, de cujos embates é que podem surgir aventuras golpistas e autoritárias. De certa forma, ainda pagando o preço dos governos petistas de conciliação de classe e do reformismo que hegemoniza o que chamamos de esquerda, temos influído pouco na conjuntura, sendo mais expectadores da cena política do que atores.

Para reverter essa correlação de forças desfavorável e avançar na luta é necessário combater as ilusões em soluções institucionais, jogar toda a energia militante na conscientização, organização e mobilização dos trabalhadores e das camadas populares e promover, no campo da esquerda socialista, um urgente debate com o objetivo de unificar e politizar a luta comum. Nesse sentido, seria fundamental a realização de um encontro nacional das centrais e correntes sindicais e dos movimentos, entidades e coletivos populares classistas, com vistas a unificar as bandeiras políticas, a pauta comum e uma articulação nacional, superando a fragmentação dos recentes dias nacionais de luta, que têm sido convocados de forma setorial, ora apenas pelas centrais sindicais ora por entidades de estudantes ou de professores para a defesa de pautas específicas.

Quanto à ação dos comunistas revolucionários (com perdão da necessária redundância), a crise mundial do capitalismo e o consequente aprofundamento da exploração e da barbárie nos propiciam melhores argumentos e condições para esclarecer as massas sobre a natureza da luta de classes e do estado burguês, favorecendo a agitação e a propaganda do socialismo e do comunismo e, portanto, as nossas possibilidades de inserção entre o proletariado e as camadas populares, fator indispensável para o crescimento qualitativo do partido revolucionário e para o acerto da linha política, nos princípios do marxismo-leninismo.

Nosso principal desafio é avançar na construção revolucionária do partido, girando a militância para atuação nas lutas do movimento sindical e operário e da juventude proletária, promovendo atividades próprias e autônomas em relação a outras forças e praticando uma política de alianças com independência e identidade própria.

07/Agosto/2019
[*] Membro do Comité Central do PCB.

O original encontra-se em pcbsc.wordpress.com/...

Esta entrevista encontra-se em http://resistir.info/ .

 

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/brasil/ivan_07ago19.html

Maduro dá lição a Duque: Libertador da Colômbia é Simón Bolívar, e não Capitão América

O presidente venezuelano, Nicolás Maduro, no 200º aniversário da Batalha de Boyacá, lembrou ao presidente colombiano, Iván Duque Márquez, que o libertador dos povos da América do Sul foi Simon Bolívar, e não o Capitão América.

Durante a celebração do aniversário da Batalha de Boyacá, na quarta-feira (7), um general venezuelano lembrou a declaração de Duque, que destacou a importância crucial dos pais fundadores dos Estados Unidos na independência da Colômbia. Maduro não perdeu a oportunidade de comentar as palavras do presidente colombiano.

No início de janeiro de 2019, durante visita do secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, a Cartagena, Duque escreveu no Twitter.

200 anos atrás, o apoio dos pais fundadores dos Estados Unidos à nossa independência foi crucial, e receber hoje a sua visita nos preenche de alegria e honra, justamente no ano do bicentenário tão importante para nosso país

A declaração dirigida a Pompeo causou uma enxurrada de críticas nas redes sociais, vindo até a se tornar meme.

Críticas na web

Internautas começaram a publicar imagens históricas das principais batalhas pela independência da América Latina, substituindo os heróis dos quadrinhos – Capitão América, Super-Homem, Mulher Maravilha e outros. No entanto, Duque não chegou a mencionar os personagens de filmes fictícios na declaração.

"Partilho a indignação e a raiva do general pelo comportamento de Iván Duque perante Mike Pompeo, que disse que o Capitão América foi o libertador da Colômbia. Talvez isto seja uma piada de mau gosto. Ela pode ter sido apreciada por alguém que gosta do filme do Capitão América ou Homem-Aranha [...] Iván Duque, escute-me [...] Simon Bolívar sempre foi e sempre será o Libertador da Colômbia [...] Querem distorcer a história para nos enganar! Covardes, oligarcas, covardes!", ressaltou o presidente da Venezuela.

A Batalha de Boyacá de 7 de agosto de 1819 simboliza a libertação de grande parte da América Latina do domínio espanhol, sendo Simon Bolívar o herói nacional da Venezuela.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019080814361927-maduro-da-licao-a-duque-libertador-da-colombia-e-simon-bolivar-e-nao-capitao-america/

Roubo no Paraguai envolve PSL de Bolsonaro

O sofrido Paraguai – segundo país da América Latina, depois de Honduras e antes do Brasil, a sofrer um golpe parlamentar-judicial-midiático – segue sob forte tensão. Na semana passada, o presidente Abdo Benitez quase foi deposto.

 

Nas ruas de Assunção, milhares de populares gritaram “Itaipu não se vende, se defende”, criticaram um criminoso acordo firmado com o Brasil sobre a hidrelétrica binacional e exigiram o impeachment do governante ultradireitista e trambiqueiro. Ele só não caiu porque recuou na negociata, que teve o envolvimento direto de um lobista do PSL de Jair Bolsonaro, conforme denúncias dos jornais paraguaios “ABC Collor” e “Última Hora”.

Segundo estes veículos, uma empresa ligada ao “capetão” seria beneficiada “através da exclusividade nas vendas do excedente de energia elétrica do Paraguai no mercado brasileiro”. O acordo entre os presidente Abdo Benitez e Jair Bolsonaro foi assinado em 24 de maio, mas seus detalhes foram mantidos em segredo. Quando alguns itens foram vazados pela imprensa local, o clima foi de indignação e revolta. Após cálculos de que o acordo de Itaipu iria causar prejuízos de mais de US$ 200 milhões aos cofres paraguaios até 2022, a crise política instalou-se no país.

Conforme relato do jornal Hora do Povo, o clima piorou a partir de 24 de julho, “quando o presidente da ANDE (Administração Nacional de Eletricidade), Pedro Ferreira, anunciou a sua renúncia. Ele considerou o acordo de ‘alta traição’ aos interesses paraguaios e de ‘extorsão financeira’. O Senado do país vizinho, assim que a renúncia de Ferreira foi anunciada, pediu esclarecimentos sobre o acordo, até aquele momento mantido em sigilo diante do parlamento paraguaio”. Na sequência, também anunciaram suas renúncias o ministro do Exterior, Luis Castiglioni, e o embaixador paraguaio no Brasil, Hugo Saguier, além de outros dirigentes da estatal Itaipu. O jornal Hora Povo ainda dá algumas pistas sobre o envolvimento de figuras ligadas ao presidente Jair Bolsonaro.

“Os jornais paraguaios denunciaram que um lobby bolsonarista, incluindo o advogado José Rodríguez González, assessor jurídico do vice-presidente Hugo Velázquez, atuou em conjunto com o suplente de senador pelo PSL de São Paulo, Alexandre Giordano”. A gangue pressionou para que a empresa Léros Comercializadora de Energia fosse a revendedora exclusiva da energia excedente do Paraguai no Brasil. “Segundo o jornal, o advogado afirmou que ‘em todas as conversações que tivemos com esse grupo empresarial brasileiro, a primeira coisa que fizeram foi dizer que têm o apoio do alto comando brasileiro para conseguir as autorizações de importação de energia’”.

“O jornal ABC vai além e conecta a exclusão do ‘item 6’ [sobre venda de energia] aos interesses de Bolsonaro. Diz que em 23 de maio, portanto, na véspera do dia em que o acordo foi assinado, o lobista González mandou uma mensagem aos diretores da ANDE em nome do próprio presidente Abdo Benítez e de seu vice, Hugo Velázquez. Nela, ele solicita a exclusão do item do novo acordo. Na mensagem, ainda segundo o jornal, ele diz que o item 6 deveria ser excluído ‘porque em conversas com o mais alto comando do país vizinho concluiu-se que não é o mais favorável a fim de proteger o manuseio para que a operação em andamento seja efetivada com o sucesso’”.

Alexandre Giordano, o suplente de senador do PSL – já batizado de Partido Só de Laranjas – confirmou ao jornal Estadão que participou da reunião no Paraguai com a ANDE, ao lado de um representante da empresa Léros. Mas negou ter falado em nome do clã Bolsonaro: “Meu contato com a família Bolsonaro é zero. Fui lá em interesse da minha empresa. Não tem nada a ver com o acordo de Itaipu”. O Estadão, porém, colocou em dúvida a resposta do suplente. Já a Folha relata que as mensagens vazadas do lobista José Rodrigues Gonzalez confirmaram que a “empresa brasileira Léros representaria a ‘família presidencial do país vizinho’, ou seja, a família do presidente Jair Bolsonaro… Rodríguez menciona ainda Alexandre Giordano, suplente do senador Major Olímpio (PSL-SP), como receptor da carta de intenções relacionada à venda de energia ao Brasil”.

Há algo muito estranho no escândalo que quase levou à queda do presidente fascistoide e bandido do Paraguai!


por Altamiro Borges, Jornalista e presidente do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé   |  Texto original em português do Brasil


Exclusivo Editorial PV / Tornado


 
 
 
 
 
 

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/roubo-no-paraguai-envolve-psl-de-bolsonaro/

O fascismo jihadista e o feminismo contemporâneo

O jihadismo moderno, em qualquer das suas variantes, seja o da Irmandade Muçulmana do Qatar e da Turquia, seja – muito mais radical e perigoso – o da teocracia iraniana – é o fascismo dos nossos dias.

 

 

  1. O jihadismo centra-se na misoginia

Uma das primeiras medidas tomadas pelas autoridades iraquianas depois da ‘revolução islâmica’ – como tentei explicar em livro que escrevi sobre o assunto, a força militar que afastou Saddam foi americana, mas quem comandou as principais mudanças políticas subsequentes foi o jihadismo iraniano – foi a de obrigar as mulheres a depender da autorização dos maridos para obter passaporte.

Como pude testemunhar na altura, a instituição desta tutelagem das mulheres (que não vigora no Curdistão iraquiano) foi fortemente sentida por estas como um brutal retrocesso civilizacional. O regime de Saddam foi uma ditadura despótica, sanguinária e mesmo genocidária, mas não impunha esta tutelagem das mulheres. A história provou que era possível fazer pior que Saddam, com a agravante de esse pior ser zelosamente escondido da opinião pública.

O nó górdio do jihadismo é a negação da igualdade de direitos para as mulheres. A história social ajuda-nos de resto a entender isso. Como sabemos, com raras e honrosas excepções, a história da humanidade é marcada por uma persistente misoginia. É mais fácil encontrar no pensamento grego clássico que chegou aos nossos dias humanidade e consideração por escravos ou mesmo por animais do que a defesa da igualdade de direitos entre sexos.

Na época contemporânea, só ao longo do século XX, muito depois do início do movimento democrático, é que foi conquistado o princípio da igualdade de direitos para as mulheres, e foi-o lentamente, a reboque do movimento feminista.

O jihadismo moderno é um movimento contemporâneo do movimento de igualdade para as mulheres e profundamente reacionário, sendo que a radical oposição ao feminismo moderno é uma das suas principais motivações.

No Irão, o golpe antiliberal de 1953 contra Mossadegh – organizado em parceria pelo Xá, o clero Xiita e os serviços secretos britânicos – deu origem a uma curta lua-de-mel entre a coroa autoritária e o clero, baseada na repressão da dissidência religiosa (a perseguição dos Bahai e a demolição dos seus templos a que Mossadegh se tinha oposto recomeçou logo a seguir à sua deposição).

Sob pressão norte-americana, nos anos sessenta, o Xá promoveu a ‘revolução branca’ que passava pela reforma agrária (o que incomodava fortemente o clero latifundiário) mas tinha como ponto essencial a liberalização social, nomeadamente a promoção dos direitos da mulher. Foi este o ponto de ebulição que levou o clero a declarar o Xá como herético e a reclamar a sua execução.

  1. Feminismo, radicalismo e jihadismo

Quem tenha um mínimo de compreensão pela dinâmica do que se passa no mundo e algum sentido do equilíbrio não pode deixar de constatar que é no jihadismo que se encontra a principal força reacionária contemporânea que tem como timbre o combate os direitos da mulher e que, em consequência, é nos países muçulmanos que os direitos das mulheres são mais atacados.

Isto não nos pode levar a concluir que o Islão é necessariamente uma religião contra os direitos das mulheres. No Curdistão iraquiano, por exemplo, onde o Islão é a religião dominante, a igualdade de direitos para as mulheres é uma preocupação, sendo que existem movimentos islâmicos que fazem da igualdade de direitos para as mulheres a pedra angular da sua política.

Por outro lado, há que entender o radicalismo como algo natural no movimento feminista, como aliás em qualquer outro movimento cívico. Traçar a fronteira entre o que é normal e o que é excessivo nem sempre é fácil e dependerá também do ponto de vista do observador.

É verdade que, como todo o radicalismo, este pode transformar-se num movimento oposto ao que proclama. Nas sociedades democráticas (Alemanha e Índia, por exemplo) há quem defenda o apartheid de género como forma de defender as mulheres, numa lógica em que os homens são por definição agressores.

Esse radicalismo dá assim cobertura à misoginia jihadista que, justamente, tem no apartheid de género a sua imagem de marca, impondo-a em numerosos domínios, nomeadamente nos transportes públicos.

Para os portugueses da geração do 25 de Abril, como eu, que retêm na memória o fim do apartheid de género educacional como um dos seus principais símbolos, isto deveria ser tão evidente que não precisaria de qualquer explicação, mas tendo em conta as acções, declarações e posicionamentos de muitos dos que se reclamam de ‘esquerda’ (e isto vai para lá do Bloco de Esquerda) é essencial recordá-lo.

Aqui, é também importante ter em conta outra característica essencial do Jihadismo (esta baseada na tradição clerical e especialmente refinada entre o clero xiita) que é o princípio da dissimulação, do discurso duplo, da efabulação ou da pura mentira.

Tal como quando da invasão do Iraque, em que a teocracia foi capaz simultaneamente de a provocar e de a denunciar como consequência do pérfido imperialismo americano, também com o feminismo os jihadistas são capazes de fazer longas prédicas a explicar que o que defendem apenas tem como objectivo defender as mulheres, ao mesmo tempo que tudo fazem para as reduzir a uma condição inferior.

Para finalizar, temos que ter em conta a ingenuidade, ou mesmo angelismo, dominante nas nossas sociedades democráticas, e que explica como é possível que um movimento que mobilizou muitos milhões de norte americanas (como eu pude constatar, fundamentalmente oriundas da classe média instruída de origem anglo-saxónica), a marcha das mulheres, fosse dirigido por Linda Sarsour, uma das principais dirigentes no Ocidente do movimento jihadista moderno.

O que nos mostra a história é que, contrariamente ao que nos querem fazer crer, o nazismo impôs-se mais por força dos que o que o queriam apaziguar do que pela fé dos seus partidários; por outras palavras, a ingenuidade fantasiosa foi mais importante do que o fanatismo na materialização da ameaça nazi.

  1. Da transição saudita ao fascismo pintado de vermelho

A Arábia Saudita é um puro fruto da Jihad, sendo que mesmo o nome do país lhe foi dado pelo chefe tribal que se aliou ao clero fanático para conquistar o poder. Juntando o fanatismo religioso à força do dinheiro do petróleo, foi durante muito tempo o coração do reacionarismo mundial.

E isso foi assim até que essa posição começou a ser-lhe disputada pela nova geração jihadista, mais radical que a anterior, que considerou inaceitáveis as concessões da coroa saudita à modernidade.

A Arábia Saudita, ao longo de décadas, foi procurando responder ao desafio do jihadismo moderno com um misto de apaziguamento – cedendo às reivindicações do clero, financiando-as principescamente, apoiando o seu proselitismo e a sua doutrinação fanática – ou rivalizando com ele em fanatismo. Falhou em toda a linha!

A Arábia Saudita desenvolveu-se como uma monarquia feudal com mais de três dezenas de clãs reconhecidos oficialmente (na verdade mais de mil, como me confidenciou um príncipe dissidente que viria a exilar-se e depois a desaparecer) em que a intriga e a disputa interna feita por todos os meios, incluindo o financiamento do jihadismo terrorista, foram a norma.

Com o actual príncipe regente, Mohammed bin Salman (MBS), passámos da monarquia feudal à absoluta. Meteu na prisão ou fez desaparecer todos os que se atreveram a enfrentá-lo; contrariamente aos seus antecessores, não respeitou sequer nenhum poder feudal. Ao mesmo tempo anunciou um conjunto de reformas destinadas a cercear o poder do clero e a sua doutrina jihadista, nomeadamente distanciando-se do racismo anti-Judeu e abolindo as leis mais misóginas do país, como as que estipulam a tutelagem das mulheres ou as que as proíbiam de conduzir.

Enquanto isto, no mundo ocidental, mas em particular nos EUA, e na sequência do movimento nascido da marcha das mulheres a que fizemos referência, aparece um conjunto de protagonistas femininos simbolizado por quatro congressistas democratas (conhecidas por ‘the squad’) que fazem a apologia do racismo antijudeu ou mesmo antibranco (o problema não é a Jihad, é o homem branco, diz uma ex-refugiada da Somália) escondido atrás de um conjunto de propostas de esquerda.

Nestas circunstâncias, é essencial saber distinguir o essencial do acessório e, literalmente, ‘não cair no conto do vigário’.

O jihadismo moderno, em qualquer das suas variantes, seja o da Irmandade Muçulmana do Qatar e da Turquia, seja – muito mais radical e perigoso – o da teocracia iraniana – é o fascismo dos nossos dias.

Por mais maquilhado que ele se apresente com ecologia, igualdade económica, ‘feminismo islamista’, etc. é ele o adversário principal que os verdadeiros antifascistas têm de combater.

Tudo o resto é acessório quando não mesmo ilusório.


 

Transferência Bancária

Nome: Quarto Poder Associação Cívica e Cultural
Banco: Montepio Geral
IBAN: PT50 0036 0039 9910 0321 080 93
SWIFT/BIC: MPIOPTPL

 

 

Pagamento de Serviços

Entidade: 21 312
Referência: 122 651 941
Valor: (desde €1)

 

Pagamento PayPal

 

 

Envie-nos o comprovativo para o seguinte endereço electrónico: [email protected]

Ao fazer o envio, indique o seu nome, número de contribuinte e morada, que oportunamente lhe enviaremos um recibo via e-mail.

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 

Para quem é a entrega?

por Henrique Júdice Magalhães

Clique a imagem para ampliar. Em 1703, Portugal, à época uma potência decadente, assinou com a Inglaterra (potência ascendente) o Tratado de Methuen. A troco da isenção de tarifas no ingresso de vinhos portugueses em território britânico, a coroa lusitana cedeu perpetuamente à indústria inglesa seu mercado consumidor de tecidos – que incluía o Brasil. Em 1785, Lisboa ordenou a destruição de quase todos os bens de produção manufatureira existentes aqui [1] .

Em 1933, a Argentina firmou com a Inglaterra o Pacto Roca-Runciman. A troco do compromisso britânico de continuar comprando sua carne bovina desde que ela fosse mais barata que a de outros países, o governo argentino assegurou a frigoríficos ingleses 85% do setor frigorífico e ainda eliminou ou reduziu as tarifas de importação de 235 produtos britânicos, entre outras concessões. Arturo Jauretche definiu esse tratado como o "marco legal da colonização".

O tratado Mercosul – União Européia (UE) anunciado no começo de julho é igual, ou até pior. Ao prever a eliminação geral de tarifas entre países dos dois blocos a curtíssimo prazo (menos de 10 anos), condena à morte o que resta da indústria sul-americana. Até a produção de vinhos – usada como "compensação" no Tratado de Methuen – está ameaçada, pois nem a reconhecida excelência da Argentina e do Chile é páreo, em tais condições, para a concorrência europeia.

No Brasil, os segmentos mais favorecidos, até agora, são os da cana de açúcar, suco de laranja e café solúvel. Soja e milho ficam de fora enquanto durar o laivo de sensatez que impede a Europa de se abrir aos transgênicos e a certos agrotóxicos.

E isso deve durar pouco: além de aniquilar a pouca indústria que ainda há nos países do Mercosul, o tratado é um duro golpe contra a soberania e a segurança alimentares que a Europa (especialmente França e Itália) sempre se preocupou em manter acima de considerações econômicas imediatas. Os subsídios europeus à produção camponesa não deixam de existir, mas, ao isentar de tarifas a importação de frutas e legumes produzidos a baixo custo na América do Sul, a UE impõe a seu campesinato uma concorrência tão predatória quanto a que sua indústria faz à sul-americana.

Colônias por procuração

Detalhes do acordo ainda pendem de definição, pois, após o anúncio oficial realizado dias atrás, ele ainda precisa ser assinado e aprovado pelos parlamentos dos países envolvidos. Mas seu espírito está suficientemente claro para permitir algumas constatações.

O tratado estava em negociação havia 20 anos. Em algum momento, chegou a ser concebido como um instrumento para que os dois blocos adquirissem maior autonomia comercial e política face aos EUA, ainda que – para o Mercosul – sem maior conotação emancipatória, e sim no grau primário de barganha com dois imperialismos (o estadunidense e o europeu).

Mas seu fechamento se dá no ápice da submissão de ambos blocos aos EUA. Brasil, Argentina, Paraguai e Chile se encontram hoje sob os governos mais submissos a Washington que já tiveram em toda a história. Na Europa, se apaga a cada dia a lembrança da época em que – por exemplo – a direita gaullista francesa, sob a liderança de Chirac, tentava que a UE alçasse vôo próprio no cenário internacional. Predomina, hoje, o mais acerbo atlantismo, e o fato de Merkel ser mais sensata que Trump não é, nem de longe, suficiente para estabelecer-lhe um contraponto.

A hipótese mais plausível é que, por trás, esteja a mão dos EUA para assegurar o domínio sobre a América Latina usando a UE como intermediária e ainda liquidar as restrições europeias ao envenenamento de comida e à dependência alimentar. Exatamente como fez a Inglaterra para anexar economicamente o Brasil via Portugal com o tratado de Methuen e o alvará industricida de 1785.

 

Xadrez geopolítico

Na última década e meia, ao mesmo tempo em que agiam de forma dócil ou neutra face ao capital estadunidense, alguns governos sul-americanos atingiram em cheio o interesse geopolítico dos EUA ao incrementar em demasia as relações com a China e – no caso venezuelano – a Rússia.

O dado mais importante para entender as recentes reviravoltas no quadro sul-americano é que a China se tornou o mais importante parceiro comercial de Brasil e Argentina, e isso começava a se desdobrar para a dimensão política mediante acordos como o BRIC, que punha em risco o controle dos EUA sobre sua tradicional zona de influência geopolítica.

O acordo UE-Mercosul é parte da contraofensiva estadunidense para reter tal controle. Fazer isso usando os europeus como intermediários tem, para os EUA, diversas vantagens.

  1. Suscita menor resistência: facções parlamentares que teriam reticências a um acordo desse tipo diretamente com Washington confraternizam com organizações europeias congêneres na II Internacional "Socialista", ou são clientes habituais da Fundação Friedrich Ebert.

     

  2. Convém mais aos EUA afiançar a aliança com o latifúndio exportador sul-americano destruindo a produção agroalimentar europeia do que a sua própria. E é duvidoso que a decadente economia estadunidense possa suprir, de imediato, a demanda sul-americana de manufaturados.

     

  3. O ponto de partida: a UE já é, hoje, o segundo parceiro comercial do Mercosul, depois da China.

     

  4. O tratado afasta não só o Mercosul, mas também a UE da influência chinesa. O latifúndio sul-americano e a indústria europeia ganham mercados de muito peso, alternativos ao chinês.

     

  5. Em paralelo, os EUA preparam acordos diretos tanto com a UE como com o Mercosul. Essa intenção foi explicitada por Maurício Macri dois dias após o anúncio do tratado Mercosul-UE.
 

Compensações. Tácitas?

Ao mesmo tempo em que é parte da disputa econômica e geopolítica entre China e EUA, o acordo embute compensações – tácitas ou negociadas detrás da cortina – a Pequim.

O atual nível de integração entre as economias industriais chinesa e europeia e a própria localização da Europa apontam para a possibilidade de que esta se transforme em entreposto para mercadorias produzidas na China – o que asseguraria a Pequim uma compensação econômica expressiva, ao mesmo tempo em que corta as asas da expansão geopolítica chinesa.

Algo assim já ocorreu no Brasil, onde a abertura da exploração do pré-sal – obra da intensa e irrestrita ação de lobby das seis irmãs e da embaixada estadunidense – embutiu generosas cotas a firmas chinesas nos leilões subsequentes.

Mas é improvável que o grupo dirigente chinês se contente com isso. A disputa tende a sair dos bastidores e a se intensificar. Seus desdobramentos políticos também.

O original encontra-se em anovademocracia.com.br/no-225/11515-para-quem-e-a-entrega

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

 

 

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/europa/mercosul_ue.html

Chanceler do Paraguai anuncia renúncia após polêmico acordo com o Brasil

Luis Alberto Castiglioni, ministro das Relações Exteriores do Paraguai, durante coletiva de imprensa em Assunção, capital do país, em 28 de julho de 2019
© REUTERS / Jorge Adorno

O ministro das Relações Exteriores do Paraguai, Luis Alberto Castiglioni, apresentou hoje o seu pedido de renúncia em meio à crise provocada por um recente acordo firmado com o Brasil, que obrigaria os paraguaios a adquirir eletricidade da hidrelétrica binacional de Itaipu por um preço maior do que o atual.

"Por ética e responsabilidade política, coloquei o meu cargo à disposição do presidente Mario Abdo. Lamento que a deturpação tenha levado a esse estado de tensão. Tudo foi feito de forma transparente e em benefício do país", disse Castiglioni através de sua conta no Twitter. 

​O ministro, cuja renúncia ainda não foi aceita, foi ao parlamento na última segunda-feira para explicar o alcance do polêmico acordo

​"Do lugar que tenho que agir, continuarei a trabalhar pelo engrandecimento do nosso querido Paraguai", acrescentou o chanceler.

Além do ministro das Relações Exteriores, também teriam colocado seus cargos à disposição Alcides Jiménez, presidente da Administração Nacional de Eletricidade (ANDE), o embaixador paraguaio em Brasília, Hugo Saguier, e o presidente da Itaipu Binacional, José Alberto Alderete.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019072914300321-chanceler-do-paraguai-anuncia-renuncia-apos-polemico-acordo-com-o-brasil/

Fórum denuncia "agressões sistemáticas do imperialismo" na América Latina

 
 
O Fórum de São Paulo denunciou, na proposta de declaração final a assinar hoje, as "agressões sistemáticas do imperialismo" e alertou para o "desenvolvimento de uma guerra judicial" para isolar líderes políticos e sociais de esquerda na região.
 
"Reconhecemos a necessidade urgente de travar as agressões sistemáticas do imperialismo contra a soberania, a autodeterminação e a integração dos nossos povos", na América Latina, disse o grupo na proposta de declaração final, que será assinada por quase 500 delegados, no último dia do encontro, em Caracas.
 
De acordo com o documento, o imperialismo, numa referência aos Estados Unidos e a alguns países da Europa, "pretende pôr fim a todos os princípios do Direito internacional público e impor cenários de guerra" na América Latina.
 
Estas agressões manifestam-se em ataques contra a Venezuela, através de sanções, no "agravamento do injusto bloqueio a Cuba" e no "homicídio sistemático de líderes sociais" na Colômbia, enumerou o texto do Foro.
 
O grupo denunciou também "o desenvolvimento de uma guerra judicial que pretende a criminalização de líderes sociais e políticos da região", o que impede o livre exercício da democracia e integra uma "estratégia de recolonização da América Latina e das Caraíbas", liderada pelos Estados Unidos.
 
 
No texto, movimentos e partidos de quase 200 países comprometem-se a lutar contra "o patriarcado, a xenofobia, o racismo, a criminalização da migração e, em geral, contra qualquer forma de discriminação por motivos étnicos, religiosos, de género ou orientação sexual".
 
O Fórum de São Paulo é um mecanismo de concertação de formações políticas e movimentos sociais de esquerda e progressistas da América Latina e das Caraíbas, fundado em 1990 com o apoio do Partido dos Trabalhadores (PT) do Brasil.
 
Sob o lema "Pela paz, a soberania e a prosperidade dos povos", o encontro de Caracas juntou mais de 1.100 participantes, incluindo cerca de 500 delegados de movimentos sociais do continente americano, da Ásia, de África e da Europa.
 
A luta pela paz na Colômbia, o apoio ao diálogo na Nicarágua, o processo de diálogo entre os setores políticos venezuelanos, as sanções e pressões dos Estados Unidos contra a Venezuela, a Nicarágua e Cuba dominaram a agenda.
 
Notícias ao Minuto | Lusa

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/07/forum-denuncia-agressoes-sistematicas.html

Vazamentos do Telegram e protestos derrubam governador de Porto Rico

Após duas semanas de protestos em massa, o governador de Porto Rico, Ricardo Rosselló, anunciou sua renúncia para 2 de agosto. O político está no centro de um escândalo desencadeado pelo vazamento de conversas entre ele e alguns de seus assessores. As mensagens foram trocadas no aplicativo Telegram.

 

Nas conversas, Rosselló e outros 11 membros de sua equipe usam linguagem obscena para debochar de jornalistas, mulheres, políticos, artistas, membros da comunidade Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais ou Transgêneros (LGBT) e vítimas do furacão Maria, que atingiu a ilha há quase dois anos. As mensagens, vazadas pelo Centro de Jornalismo Investigativo, enfureceram porto-riquenhos já frustrados com a corrupção, a má gestão, a crise econômica e a lenta recuperação do país após o furacão.

No início desta semana, dezenas de milhares de pessoas se reuniram em mais um protesto na capital, San Juan, para exigir a demissão do governador da ilha caribenha. O cantor Ricky Martin, que é porto-riquenho, se juntou aos protestos e pediu a renúncia de Rosselló por meio das redes sociais.

Nesta quarta, uma multidão de milhares de pessoas reunidas diante da mansão do governador na capital comemorou o anúncio feito por Roselló por meio do Facebook. Em várias partes da cidade, os cidadãos foram até as janelas e fizeram um “panelaço”.

“Depois de escutar as reivindicações, falar com a minha família, pensar nos meus filhos e em oração, hoje anúncio que renunciarei ao posto do governador efetivo no dia 2 de agosto”, disse o governador em seu comunicado, listando seus feitos antes de deixar claro que renunciará.

Rosselló disse esperar que sua renúncia sirva de “apelo à reconciliação dos cidadãos”. A secretária de Justiça, Wanda Vázquez, assumirá o cargo ocupado por Rosselló por dois anos e meio. O político de 40 anos, filho de um ex-governador, tornou-se o primeiro chefe do Executivo a renunciar na história moderna de Porto Rico.

O país é, na realidade, um território dos Estados Unidos onde vivem mais de 3 milhões de cidadãos norte-americanos. Antiga colônia espanhola, o território foi anexado aos EUA após a Guerra Hispano-Americana de 1898. Sua população, majoritariamente falante do espanhol, tem a cidadania americana desde 2017, mas sem o direito de votar para presidente. A onda de protestos é vista como a pior crise política da história de Porto Rico.


Texto original em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado


 
 
 

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/vazamentos-do-telegram-e-protestos-derrubam-governador-de-porto-rico/

Analista: visita de Pompeo mostra que EUA ainda encaram América Latina como seu 'quintal'

Pompeo durante visita a El Salvador
© AFP 2019 / MARVIN RECINOS

A visita do secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, a vários países latino-americanos reforça a tradicional relação desigual entre os Estados Unidos e a região, segundo especialistas.

Entre os dias 19 e 21 de julho, o secretário de Estado norte-americano Mike Pompeo visitou a Argentina, o Equador, o México e El Salvador. Durante os encontros oficiais foram discutidos temas importantes para a política externa americana. Diversas questões de alta relevância para os países da região ficaram fora das conversações, o que evidencia que os Estados Unidos continuam vendo a América Latina como seu "quintal", segundo o que especialistas disseram à Sputnik Mundo. A visita de Pompeo não buscou aprofundar uma visão que atendesse às necessidades da região, segundo Sebastían Hagobian, membro da coalização política uruguaia Frente Ampla.

"Esta é a quarta visita de Pompeo à América Latina. Ela cumpre alguns dos objetivos da agenda que os EUA estabeleceram dentro deste processo de recuperação de seu quintal", disse o analista e editor da revista Crisis de Ecuador, Carlos Pazmiño. Nos últimos anos, os Estados Unidos perderam influência na região para países como a Rússia, China e Irã, tanto no campo militar, como político e econômico.

Para ambos os especialistas, o terrorismo, a situação na Venezuela, o narcotráfico e a imigração legal foram os temas mais importantes na agenda de Pompeo.

Terrorismo

Nos dias 18 e 19 de julho foi realizada em Buenos Aires a Segunda Conferência Ministerial Hemisférica de Luta contra o Terrorismo, da qual Pompeo participou. Simultaneamente, o governo argentino criou um registro público de pessoas ligadas ao terrorismo a pedido dos Estados Unidos e de Israel, que poderia marcar a imposição de restrições políticas e financeiras a supostos integrantes da milícia xiita libanesa Hezbollah no território do país sul-americano.

"Quando dizemos que a prioridade é o terrorismo, na América Latina não há tal preocupação, uma vez que ele não figura entre os principais problemas da região. Isto é um problema dos Estados Unidos", afirma Hagobian.

Manifestantes em Washington, DC, durante protesto contra a postura ameaçadora dos EUA em relação à Venezuela
Manifestantes em Washington, DC, durante protesto contra a postura ameaçadora dos EUA em relação à Venezuela

Venezuela

Em 21 de julho, Pompeo citou a Venezuela como a maior ameaça para a América Latina. Para os Estados Unidos a crise na Venezuela só acabará com a saída de Maduro. Pazmiño especula que Pompeo esteja buscando apoio para formação de uma aliança militar contra Maduro. "Pompeo, em uma de suas declarações, disse que os dias da Venezuela estavam contados [...] podemos até especular que eles estão buscando apoio para organizar uma intervenção militar", acrescentou.

"A ameaça da região é a Venezuela. O importante é que, quando vemos nossos valores afetados, trabalhemos junto com países que pensam como a gente", disse Pompeo em uma conferência de imprensa com o presidente de El Salvador Nayib Bukele.

Sendo assim, Washington não vê o diálogo e a aproximação das partes em conflito como uma alternativa.

Imigração e Narcotráfico

Quanto à imigração ilegal, Washington tem focalizado o estudo do problema nos imigrantes, sem buscar entender as causas do fenômeno. De modo semelhante, o foco sobre a grande produção de drogas na América Latina e sua entrada nos EUA não leva em consideração o grande consumo de narcóticos entre a população norte-americana.

Os Estados Unidos têm apostado em medidas paliativas sem tocar na raiz dos problemas da imigração e do narcotráfico.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/opiniao/2019072314262436-analista-visita-de-pompeo-mostra-que-eua-ainda-encaram-america-latina-como-seu-quintal/

Como mudou o papel do FMI na América Latina em 75 anos

Logotipo do Fundo Monetário Internacional (FMI)
© REUTERS / Yuri Gripas

Há exatos 75 anos, no dia 22 de julho de 1944, em uma conferência monetária e financeira da ONU foi decidida a criação do Fundo Monetário Internacional (FMI).

O economista espanhol Santiago Niño Becerra explicou durante sua entrevista à Sputnik Mundo o papel atual do FMI na América Latina.

Na opinião do professor de estrutura econômica da Universidade Ramon Llull (Espanha), o papel que o FMI tem desempenhado desde a crise da dívida dos anos 80 na América Latina e em outros países não tem nada a ver com o que lhe foi originalmente atribuído em 1944, que era garantir a estabilidade de um sistema monetário internacional baseado no dólar em uma atmosfera de Guerra Fria.

"Hoje o FMI é, por um lado, um emprestador que canaliza recursos financeiros e, por outro, um serviço de pesquisa que estima as tendências prováveis da economia mundial", afirma Niño Becerra.

O especialista explica que a organização internacional desempenhou um papel importante na economia argentina, sendo que o país assinou um novo contrato com a entidade em 2018.

"Com a Argentina, o FMI voltou um pouco ao papel dos anos 80, porque será o FMI que terá de desempenhar o papel de polícia quando os problemas de pagamento da dívida começarem na Argentina", disse Niño Becerra.

Posição do FMI nos países latino-americanos

Niño Becerra também recordou que Cuba foi um dos membros fundadores do FMI em 1944, mas os acontecimentos de 1961 tornaram impossível para Cuba permanecer "em uma organização projetada para atender aos interesses do dólar".

Para o especialista, foi esse o motivo que "determinou a posição do FMI na América Latina nas três décadas seguintes".

"Na minha opinião, até os anos 2000, a relação da América Latina com o FMI nada mais foi que a institucionalização em uma organização internacional dos interesses norte-americanos", ressaltou.

Há também casos na história em que os governos decidem seguir o seu próprio caminho e rejeitam a ajuda do FMI, como foi o caso da Malásia, que renunciou à assistência da organização no período mais difícil da crise de 1997 a 1998 e que agora tem uma economia em constante crescimento.

"Penso que o problema não está tanto em recusar ou não a ajuda do FMI, mas na dependência que faz com que um país tenha de se aproximar de uma economia muito grande ou de um organismo internacional para 'ser ajudado'. Em outras palavras, se um país carece de autonomia econômica e se torna dependente de 'alguém', acabará inevitavelmente caindo na estagnação", conclui.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/opiniao/2019072214258074-como-mudou-o-papel-do-fmi-na-america-latina-em-75-anos/

Protestos se intensificam em Porto Rico

Os porto-riquenhos saíram às ruas após a divulgação de mensagens enviadas pelo governador de Porto Rico, Ricardo Rosselló, em chats privados, nos quais faz piadas preconceituosas e ataca políticos, jornalistas e artistas do país, como Ricky Martin e Bad Bunny.

 

Rosselló também é acusado de desviar US$ 15 milhões de dólares (cerca de R$ 56 milhões) de fundos federais americanos destinados à recuperação da ilha após passagem do furacão Maria, em 2017. A informação é da Agence France-Presse.

Na quarta (17), os protestos terminaram com enfrentamentos entre manifestantes e polícia, além de detenções.

“As manifestações que ocorreram nesta tarde e na noite de ontem não passaram despercebidas por mim, pela família e certamente por ninguém do povo de Porto Rico”, disse Rosselló em um comunicado.

“Reconheço o desafio que tenho diante de mim devido às controvérsias recentes”, afirmou o governador do território americano, “mas acredito firmemente que é possível restaurar a confiança e que podemos, depois deste processo doloroso e penoso, conseguirmos uma reconciliação”.

Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, mencionou Rosselló em uma publicação numa rede social. “Muitas coisas ruins estão acontecendo em Porto Rico. O governador está sitiado”, escreveu.

O presidente também chamou o governo da ilha de corrupto e afirmou que as autoridades porto-riquenhas estavam roubando do governo americano. “O Congresso insensatamente deu US$ 92 bilhões para a recuperação [da ilha] após o furacão Maria, e grande parte foi desperdiçada”, disse Trump.


O rapper porto-riquenho Rene Perez, conhecido como Residente, discursa ao lado de artistas da ilha durante protesto na quarta feira (17), na capital, San Juan – Eric Rojas – 17.jul.2019/AFP

Artistas como Benicio del Toro e os cantores Ricky Martin, Bad Bunny, René Pérez (conhecido como Residente) e Ileana Cabra participaram do ato.

Na madrugada da quinta-feira, após o fim da marcha, manifestantes atiraram pedras e coquetéis molotov nos policiais, que responderam com bombas de gás lacrimogêneo.

Orlando, Miami e Nova York também foram palco de protestos nos últimos dias — as cidades abrigam grandes comunidades de porto-riquenhos.


Texto original em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado


 

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/protestos-se-intensificam-em-porto-rico/

ODiario.info » O Tribunal de Recurso de Roma impôs penas a militares uruguaios, peruanos, chilenos e bolivianos envolvidos no Plano Condor

O chamado “Plano Condor” na América Latina dos anos 70 e 80 do século passado foi uma acção coordenada de terrorismo de Estado que custou a vida a dezenas de milhares de democratas em vários países. Um Tribunal italiano condenou agora os responsáveis pela morte de numerosas pessoas de origem italiana. Alguns dos criminosos morreram já, outros vivem em liberdade nos seus países. Mas a importância política destas condenações é enorme. Porque a reacção latino-americana e os seus bárbaros métodos não se circunscrevem aos anos 70 e 80 do século passado.

A Justiça italiana condenou, nesta segunda feira, a prisão perpétua 24 envolvidos na Operação Condor. Entre os condenados estão ex-chefes de Estado, ministros e figuras proeminentes dos Serviços Militares e de Segurança da Bolívia, Chile, Peru e Uruguai, acusados ​​de sequestrar e assassinar 23 cidadãos de origem italiana que viviam em países sul-americanos nas décadas de 1970 e 1980, informa a Agência Brasil.

Os familiares dos 43 Ítalo-latino-americanos (6 argentinos, 4 chilenos e 33 uruguaios) desaparecidos durante as ditaduras da década de 1970 receberam com grande satisfação e grande esperança o acórdão do Tribunal de Recurso de Roma. O tribunal condenou a prisão perpétua 24 acusados, e não apenas 8 como tinha feito a primeira instância do processo iniciado em 2015. Os condenados são na sua maioria militares chilenos, uruguaios, peruanos e bolivianos acusados ​​de ter feito desaparecer as vítimas como parte do Plano Condor, o sistema internacional que coordenava os sequestros e desaparecimentos, deslocando secretamente os sequestrados de um país para outro onde desapareciam. O Tribunal considerou-os “culpados de homicídio voluntário pluri-agravado” e para alguns deles estabeleceu também que estarão em “isolamento diurno durante dois anos”, além de pagarem os custos dos julgamentos e remunerarem os familiares em vários milhares de euros.

Alguns dos acusados ​​estão detidos nos seus próprios países, cumprindo já sentenças. O único fisicamente presente neste julgamento - embora não tenha estado presente em todas as audiências - foi o uruguaio Jorge Nestor Troccoli que vive em Itália desde há vários anos e evitou várias eventuais detenções e condenações pelo facto de ter passaporte italiano. Se as sentenças forem confirmadas pelo Supremo Tribunal, a Itália poderia solicitar a extradição dos militares, sobretudo se estiverem em liberdade nos seus países.

“Finalmente temos uma sentença que realmente nos dá justiça”, comentou a chilena María Paz Venturelli à Página12. É a sentença que esperávamos. Não sei porquê não foi possível tê-la na primeira instância. Este foi um tribunal muito atento. Espero que tudo tenha sido feito como deveria ser feito e que o Supremo Tribunal, quando for apelado, não tenha que mudar nada. ” Maria Paz, que reside na cidade de Bolonha, é filha do ex-sacerdote e professor universitário, Omar Roberto Venturelli, preso e depois desaparecido no Chile em 1973.

Cristina Mihura é uruguaia e viúva de Armando Bernardo Arnone Hernández, também uruguaio, mas sequestrada em Buenos Aires em 1975. “Estou muito emocionada - disse a este jornal -. Creio que esta sentença corrigiu a parte equivocada da sentença anterior e creio também que para os que dizem que quando chega demasiado tarde a justiça não é justiça, ao ouvir a sentença de hoje, posso dizer que eu senti que a justiça é justiça quando chega. Fiquei muito emocionada pelas vítimas de Troccoli, pelos que estão vivos, os que estão mortos, os que estão desaparecidos. Ele escapou várias vezes, mas hoje ele foi condenado. Aprecio muito o trabalho deste Tribunal porque creio que foi justo, com as provas e com a verdade “. Mihura começou a trabalhar para promover esse processo em 1999. Em 1982 tinha apresentado a primeira denúncia em Itália pelo desaparecimento do seu marido.

Nestor Gomez é o irmão da uruguaia Celica Elida Gomez Rosano que trabalhava na agência de notícias argentina Télam em Buenos Aires quando foi sequestrada em 1978. “Deu-nos um grande alívio o facto de saber que por uma vez as coisas foram levadas a sério e não deixaram livres os militares. A sentença anterior tinha-nos deixado desanimados, com medo de que deixassem livres esses bandidos “, disse ele.

Alguns réus, que haviam sido incluídos no primeiro processo, faleceram durante o julgamento ou pouco depois, pelo que não foram incluídos nesta segunda sentença. Segundo a justiça italiana, os acusados ​​e os familiares das vítimas terão o direito de recorrer uma segunda vez, mas desta vez será perante o Supremo Tribunal de Justiça e a sua decisão será a sentença final.

O acórdão do Tribunal de Recurso confirmou as condenações do primeiro julgamento em que oito pessoas (agora seis porque dois morreram) já haviam sido condenados à prisão perpétua, entre elas o boliviano Luis Arce Gómez e o peruano Francisco Morales Bermudez, presidente do Peru entre 1975 e 1980. Mas acima de tudo condenou a prisão perpétua outros 18 sobre quem em primeira instância os juízes tinham dito que o seu crime tinha prescrito. No total, os condenados são agora 24, quase todos os militares acusados ​​de crimes como sequestros, torturas, assassínios e desaparecimentos.

Entre os condenados não há nenhum militar argentino, porque a Argentina há anos vem fazendo por conta própria os julgamentos contra os militares do Plano Condor, ao contrário de outros países latino-americanos. Mas há argentinos entre os desaparecidos de origem italiana cujos casos foram tratados neste processo. Entre eles o caso de Mafalda Corinaldesi sequestrada na Argentina pelo que foi acusado o uruguaio Juan Carlos Blanco, ex-ministro das Relações Exteriores do Uruguai entre 1972 e 1976. Mas a sentença de ontem absolveu-o pelo caso de sequestro e assassínio de Corinaldesi, embora não se saiba exatamente quais os fundamentos desta decisão nem as sentenças em geral, uma vez que tribunal tem 90 dias para elaborar e apresentar oficialmente os fundamentos das suas decisões. Outros argentinos incluídos entre as vítimas incluído foram Luis Stamponi, sequestrado na Bolívia, Alejandro José Loguso Di Martino e Dora Marta Landi, sequestrados no Paraguai, e Lorenzo Ismael Viñas Gigli e Horacio Domenico Campiglia, sequestrados no Brasil.

Na manhã de hoje, antes de conhecer a sentença, os familiares de desaparecidos reunidos em Roma faltando decidiram prestar homenagem às Fossas Ardeatinas, onde em 24 de Março de 1944 foram assassinado pelos nazis 335 pessoas inocentes como retaliação por um atentado do dia anterior contra eles, que a Resistência tinha realizado no centro de Roma. “Em 24 de Março de 1944, sucedeu o massacre das Fossas Ardeatinas. Em 24 de Março de 1976 foi oficializado o massacre de 30.000 desaparecidos na Argentina e um milhão e meio de exilados” recordou Julio Frondizi, filho do professor universitário Silvio Frondizi assassinado pela Triple A em 1974. “E devo dizer, para aqueles que não o sabem, que a operação Condor nunca terminou. E prossegue”, disse Frondizi, que vive em Itália desde que o seu pai foi assassinado.

Diego Jiménez, vice-ministro da Transparência do Ministério da Justiça da Bolívia, participou na homenagem nas Fossas Ardeatinas. “O governo da Bolívia segue os processos que procuram a justiça, a construção da memória e a verdade do que implicou para a América Latina o período das ditaduras”, declarou. Particularmente o Plano Condor e suas incidências nos nossos países. Dois dos acusados ​​foram ditadores no nosso país. García Mezza, que morreu há algum tempo, e Luis Arce Gómez, que era o seu lugar-tenente. Essas pessoas representam o que o terrorismo de Estado implicou. Os crimes que cometeram foram crimes contra a humanidade e, hoje, as feridas que deixaram não estão encerradas. É por isso que fazendo o acompanhamento deste longo processo, nos sentimos com a esperança de que a sentença de hoje seja uma sentença histórica, uma sentença que faça justiça e um símbolo para a humanidade”. E acrescentou: “Se o Plano Condor continua a existir? É assim. Nós acreditamos que as forças reaccionárias que estão presentes na América Latina, privilegiando os interesses do imperialismo norte-americano, não cessaram. Embora tenha havido avanços por parte de muitos países que tiveram governos progressistas. Na América do Sul, hoje, há uma corrente muito agressiva, muito destrutiva e anti processos sociais. E isso significa que os níveis de coordenação ainda estão lá. É por isso que processos dessa natureza, que refrescam a memória do que aconteceu na América Latina, são importantes. Não podemos permitir que aconteça de novo. As novas gerações devem entender todos os danos causados ​​pelos governos ditatoriais “.


Fonte: http://www.resumenlatinoamericano.org/2019/07/09/argentina-condenan-a-perpetua-a-24-represores-sudamericanos-en-italia-por-el-plan-condor/

Divulga o endereço[1] deste texto e o de odiario.info[2] entre os teus amigos e conhecidos

References

  1. ^ endereço (www.odiario.info)
  2. ^ odiario.info (odiario.info)

Ver o original em ODiario.info (clique aqui)

Problemas da Venezuela não serão resolvidos com intervenção ou com golpe, diz Evo Morales

Evo Morales, presidente da Bolívia, em Moscou
© Sputnik / Sergey Guneev

O presidente da Bolívia, Evo Morales, alertou que nem uma intervenção estrangeira nem um golpe de Estado resolverão os problemas da Venezuela, e convocou os países latino-americanos a preservarem a paz regional.

"Não compartilhamos com intervencionistas e líderes do golpe como na Venezuela, que não resolverá nada para os venezuelanos, nem para os latino-americanos", disse Morales em comunicado à rádio estatal Patria Nueva, de Paramaribo, capital do Suriname, onde faz uma breve visita oficial.

Morales reafirmou seu apoio ao governo de Nicolás Maduro, diante de problemas econômicos internos e forte pressão internacional liderada pelos Estados Unidos que apoia o autodenominado "presidente em exercício" Juan Guaidó.

"Esse processo de paz que temos no continente deve ser defendido e aprofundado", disse o líder boliviano no final de sua visita ao Suriname, durante o qual se encontrou com o presidente daquele país, Dési Bouterse, e assinou acordos de cooperação, de acordo com a mídia oficial boliviana.
Morales disse que lamenta que alguns países latino-americanos apoiem a política dos EUA em relação à Venezuela, que inclui um bloqueio econômico.

Depois de visitar Paramaribo, Morales continuou sua viagem a Moscou, onde será recebido na quinta-feira pelo líder russo Vladimir Putin para revisar os acordos de cooperação.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019071014187895-problemas-da-venezuela-nao-serao-resolvidos-com-intervencao-ou-com-golpe-diz-evo-morales/

Justiça italiana condena 24 envolvidos na Operação Condor

Entre os condenados figuram políticos, ex-chefes de Estado e militares ligados ao assassinato, tortura e desaparecimento de italianos no Chile, Peru, Uruguai e Bolívia nos anos 70 e 80.

Milhares de pessoas na Marcha do Silêncio, em MontevideuCréditosSarah Yanez-Richards / EPA

A Justiça italiana condenou, esta segunda-feira, a prisão perpétua 24 envolvidos na Operação Condor. Entre os condenados estão ex-chefes de Estado, ministros e figuras destacadas dos serviços militares e de segurança de Bolívia, Chile, Peru e Uruguai, acusados de sequestrar e assassinar 23 cidadãos de origem italiana que viviam em países sul-americanos nas décadas de 1970 e 1980, informa a Agência Brasil.

A chamada Operação Condor foi uma estratégia político-militar da CIA em coordenação com ditaduras do Cone Sul, levada a cabo nos anos 70 e 80 do século passado com o propósito de coordenar a repressão sobre a oposição a essas ditaduras – no Brasil, Argentina, Chile, Bolívia, Paraguai e Uruguai – e eliminar os adversários políticos (dirigentes de partidos de esquerda, sindicalistas, manifestantes, entre outros).

Com a decisão ontem tomada, o Tribunal de Apelação de Roma alterou a sentença de primeira instância, proferida em 2017, de acordo com a qual oito réus eram condenados a prisão perpétua e 19 eram absolvidos, por delitos prescritos.

O processo teve início há 20 anos, em 1999, com a denúncia, formulada em Itália, de familiares de desaparecidos. Inicialmente, a investigação incluía 140 pessoas, mas problemas burocráticos ligados à morte de muitos dos suspeitos reduziram o número de réus, refere a Agência Brasil.

Um dos condenados é o ex-militar uruguaio Jorge Néstor Troccoli, que foi o único a comparecer ao julgamento, uma vez que também tem nacionalidade italiana e reside no país transalpino desde 2007, quando fugiu do Uruguai, depois de ter confessado o seu envolvimento em torturas.

Troccoli, chefe do serviço de inteligência do Corpo de Fuzileiros Navais do Uruguai, foi acusado de ligação ao aparelho de repressão argentino, com o qual executava o planeamento de assassinatos. Em Abril deste ano, o governo uruguaio enviou à Justiça italiana informações de acordo com as quais Troccoli teria participado na organização de um voo que levou ao desaparecimento de 22 uruguaios.

Em primeira instância foram condenadas a pena perpétua o ditador boliviano Luis García Meza, falecido em Abril de 2018, e o seu ministro do Interior, Luis Arce Gómez. Também o antigo presidente peruano Francisco Morales Bermúdez, o seu primeiro-ministro, Pedro Richter Prada, falecido em Julho de 2017, o ex-militar peruano Germán Ruiz. Ainda os chilenos Hernán Ramírez e Rafael Ahumada Valderrama, e o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros uruguaio Juan Carlos Blanco.

A estes, juntam-se agora os ex-militares chilenos Pedro Octavio Espinoza Bravo, Daniel Aguirre Mora, Carlos Luco Astroza, Orlando Moreno Vásquez e Manuel Abraham Vásquez Chauan, indica o Resumen Latinoamericano.

Foram também condenados os ex-militares uruguaios José Ricardo Arab, José Nino Gavazzo, Juan Carlos Larcebeau, Pedro Antonio Mato, Luis Alfredo Maurente, Ricardo José Medina, Ernesto Avelino Ramas Pereira, José Sande Lima, Jorge Alberto Silveira, Ernesto Soca e Gilberto Vázquez.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/justica-italiana-condena-24-envolvidos-na-operacao-condor

Paulo Nogueira Júnior: não estamos diante de um acordo de livre-comércio

247 - O economista, ex-vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, Paulo Nogueira Júnior, emartigono jornal Folha de S.Paulo, afirma que "transcorreu de forma opaca a negociação entre União Europeia e Mercosul, concluída na semana passada" e que "não estamos diante de um acordo de livre-comércio".

"O acordo Mercosul-União Europeia segue, em larga medida, o modelo geral da Alca (Área de Livre Comércio das Américas), lançada pelos Estados Unidos nos anos 90, que incluía todo um conjunto de normas detalhadas, nas áreas acima citadas, em troca de poucas vantagens comerciais nos Estados Unidos. "

"Outro risco agora é que os EUA e demais países desenvolvidos queiram fazer acordos semelhantes com o Mercosul para evitar que os europeus levem vantagem nos mercados do bloco sul-americano. À medida que isso ocorrer, ficará agravada a perda de autonomia na definição das políticas de desenvolvimento. "

"O leitor poderá perguntar, perplexo: europeus e americanos pensam, então, que somos idiotas? Talvez. "

"Eles contam, provavelmente, com o nosso fascínio atávico por aspectos intangíveis, etéreos desse tipo de negociação, entre eles o “prestígio” de fechar acordos com os principais países, a inserção no mundo “globalizado”, o sinal de “confiança” para os mercados e investidores internacionais etc."

França declara 'não estar pronta' para ratificar acordo comercial entre UE e Mercosul

Mercosul e UE podem fechar acordo este ano
Sakis Mitrolidis/AFP

A porta-voz do governo da França, Sibeth Ndiaye, disse que o país não está preparado para ratificar o acordo comercial selado entre a União Europeia e o bloco sul-americano Mercosul.

Ao citar o acordo comercial entre a UE e o Canadá, que levou anos para ser ratificado, Ndiaye afirmou que Paris fará "o mesmo com os países do Mercosul", adicionando que a decisão será tomada depois da análise dos detalhes, escreveu AFP.

"A França ainda não está pronta para ratificar [o acordo]", declarou a porta-voz nesta terça-feira (2) em entrevista ao canal de notícias BFM.

O acordo alcançado na sexta-feira (28) é o maior já fechado entre a aliança europeia e os quatro países sul-americanos (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai), sendo classificado por ambos os lados como um forte sinal a favor do livre comércio e do multilateralismo, principalmente em meio às crescentes tensões comerciais entre os EUA e a China.

Receios no setor agrícola

Apesar das vantagens, a decisão levantou preocupações entre os agricultores europeus que receiam uma concorrência desleal por parte da América do Sul, bem como entre as ONGs preocupadas com as consequências climáticas.

O agricultor e deputado do partido governista Jean-Baptiste Moreau escreveu ao jornal Le Monde que se opõe à importação de produtos agrícolas do Brasil, pois, segundo ele, tinha "um dos setores agrícolas mais prejudiciais do mundo".

Bolsonaro está confiante

Em entrevista à Sputnik Brasil, Leonardo Trevisan, especialista em geoeconomia internacional e professor de relações internacionais da Escola Superior de Propaganda e Marketing de São Paulo (ESPM/SP), ressaltou que Bolsonaro está otimista quanto ao contrato.

No último domingo (30), o presidente Jair Bolsonaro disse que espera que a resolução entre os blocos entre em vigor em até três anos.

"[O acordo] entra em vigor em 1 ou 3 anos, depende dos parlamentos. Vamos ver se o nosso aqui, talvez sejamos um dos primeiros a aprovar, espero e a luta continua", declarou o presidente, citado pela Reuters.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/economia/2019070214151449-franca-nao-esta-pronta-ratificar-acordo-comercial-uniao-europeia-mercosul/

Fim de qual ciclo?

O imperialismo e a reacção doméstica sul-americana conseguiram sucessos a partir de meados da década. Houve que falasse do “fim de um ciclo”. Mas não só esses sucessos não foram generalizados como vários dos governos assim instalados passam por grandes dificuldades e vêm desmoronar-se o apoio que terão tido.

Foram muitas e muitos os que a meio desta década e em coincidência -¿casual, involuntária? - com o desenvolvimento da ofensiva restauradora do império correram a anunciar o “fim do ciclo” progressista na América Latina. A derrota do kirchnerismo em 2015 e o ilegal e ilegítimo derrube de Dilma Rousseff em 2016 bem como o grotesco julgamento e prisão de Lula apareciam como sinais inconfundíveis do início de um novo ciclo histórico.

Só que os profetas desta epifania nunca se aventuraram a arriscar algo muito elementar: o que vinha a seguir? Terminava um ciclo, bem, mas: significava isso que outro começava? Silêncio absoluto. Duas alternativas. Ou bem aderiam às teses de Francis Fukuyama sobre o fim da história, coisa absurda entre todas; ou como insinuavam os mais audaciosos, com fingida preocupação, estávamos no começo de um longo ciclo de governos de direita. Digo fingida porque, hipercríticos com os governos do ciclo supostamente em bancarrota in pectore preferiam a chegada de uma direita pura e dura que, supostamente, acentuaria as contradições do sistema e magicamente abriria a porta a quem sabe lá o quê … porque, surpreendentemente, nenhum desses acerbos críticos do ciclo progressista falava de revolução socialista ou comunista, ou da necessidade de aprofundar a luta anti-imperialista. Portanto, o seu argumento meramente retórico e académico morria na mera certificação do suposto encerramento de uma etapa e nada mais.

Ora bem: todos esses discursos se desmoronaram abruptamente nas últimas semanas. Na verdade, vinham já em queda desde o inesperado triunfo de López Obrador no México e sua tardia incorporação ao “ciclo progressivo”. A sua vitória demonstrava que, embora gravemente ferido, este não havia morrido. O debacle da macrismo e a sua quase certa derrota nas eleições presidenciais em Outubro deste ano e a recente revelação das ilegais e imorais chicanas articuladas entre o corrupto juiz Sergio Moro e os promotores do poder judicial brasileiro para enviar Lula para a prisão assentam um duro golpe nos dois esteios sobre os quais repousava o início do suposto ciclo “pós-progressista”.

Na Argentina, os macristas esperam o pior, sabendo que apenas um milagre os salvaria de uma derrota. E Bolsonaro está à beira do abismo em resultado da crise económica no Brasil e por ter designado como super-ministro da justiça a um iletrado sem escrúpulos que oferece um retumbante desmentido à sua pretensão de oferecer um governo transparente, impoluto, inspirado nos mais elevados princípios morais do cristianismo que os pastores da igreja evangélica lhe inculcaram quando - apropriada e oportunisticamente – o rebaptizaram no rio Jordão como Jair “Messias” Bolsonaro.

A divulgação de conversas por WhatsApp entre Moro e os promotores revelados por The Intercept , além das múltiplas denúncias de corrupção contra ele e seus filhos, revelam que este santo varão chamado a lavar a política brasileira dos seus pecados nada mais é do que o chefe de um bando de delinquentes, um impostor, um charlatão de feira, um energúmeno cujos dias no Palácio do Planalto parecem estar contados. E manter Lula na prisão será cada vez mais difícil tendo em conta da farsa jurídica perpetrada contra ele e exibida agora em plena luz do dia. E Lula livre é uma das principais ameaças para o actual governo do Brasil.

Será que apenas a Argentina e o Brasil não estão a cumprir as previsões dos teóricos do “fim do ciclo”? Não. O que dizer sobre o desastre colombiano, uma verdadeira “ditamole” pseudo-constitucional onde, de acordo com o tradicional jornal El Tiempo “durante os primeiros 100 dias de mandato do presidente Ivan Duque houve 120 assassínios de líderes,” um banho de sangue comparável ​​ou pior do que nas ditaduras que assolaram países como Argentina, Brasil, Chile e Uruguai nos anos setenta e oitenta (https://www.eltiempo.com/colombia/otras-ciudades/el-mapa-de-los-lideres-sociales-asesinados-en-colombia-184408).

E que dizer do Peru, onde todos os ex-presidentes desde 1980 (Alberto Fujimori, Alejandro Toledo, Ollanta Humala, Pedro Pablo Kuczynski e Alan García estão presos, fugitivos ou suicidados o que, juntamente com a catástrofe colombiana e a deserção do México humedeceu irremediavelmente a pouca pólvora que permanecia nas mãos do “Cartel de Lima” como lacaio regional do Calígula norte-americano.

Mesmo caso chileno não está isento de dúvidas, já que a deslegitimação do seu sistema político atingiu níveis sem precedentes. Com efeito, dada a capitulação escandalosa desta frágil democracia face aos grandes interesses corporativos, em cujo nome exclusivamente se governa, a maioria da população adulta optou pelo abstencionismo eleitoral com o consequente esvaziamento do projeto democrático.

Em poucas palavras: o que supostamente viria uma vez consumado o esgotamento do “ciclo progressista” é pelo menos problemático e está longe de constituir uma alternativa que supere o “extractivismo” ou o “populismo” que supostamente teriam caracterizado os governos anteriores.

O precedente não deve ser interpretado como uma afirmação de que o ciclo iniciado com o triunfo de Chávez nas eleições presidenciais de Dezembro de 1998 na Venezuela prossegue a sua marcha imperturbável. Muito sofreu nos últimos tempos. A alteração no clima económico internacional joga contra ele; a obra de destruição levada a cabo por Macri, Piñera, Duque, Bolsonaro e a infame traição de Moreno, essa verdadeira ” armada Brancaleone ” que Trump e o seu antecessor instalaram na América Latina, minou muitos dos avanços do passado.

Mas a realidade é teimosa e um revés não é uma derrota, como também não o é um retrocesso pontual. A velha toupeira da história prossegue incansavelmente o seu trabalho, favorecida pela exasperação das contradições de um capitalismo cada vez mais selvagem e predatório. A longa marcha pela emancipação dos nossos povos - que nunca foi linear e invariavelmente ascendente - continua e, eventualmente, acabará por expulsar esses governos entreguistas, reaccionários e sipaios que hoje afligem a América Latina e nos envergonham perante o mundo. E não haverá que esperar muito para o ver.

Fonte: https://www.lahaine.org/mundo.php/ifin-de-cual-ciclo

Divulga o endereço[1] deste texto e o de odiario.info[2] entre os teus amigos e conhecidos

References

  1. ^ endereço (www.odiario.info)
  2. ^ odiario.info (odiario.info)

Ver o original em ODiario.info (clique aqui)

Mercosul e União Europeia fecham acordo de livre comércio

Em nota conjunta dos ministérios da Economia e das Relações Exteriores, o governo brasileiro destaca que o acordo é um marco histórico no relacionamento entre o Mercosul e a União Europeia, que representam, juntos, cerca de 25% do PIB mundial e um mercado de 780 milhões de pessoas.

 

“Em momento de tensões e incertezas no comércio internacional, a conclusão do acordo ressalta o compromisso dos dois blocos com a abertura econômica e o fortalecimento das condições de competitividade”, diz a nota.

O acordo entre os dois blocos foi fechado após dois dias de reuniões ministeriais em Bruxelas, ontem (27) e hoje. Representaram o Brasil os ministros das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina, e o secretário Especial de Comércio Exterior e Assuntos Internacionais do Ministério da Economia, Marcos Troyjo.

“O acordo comercial com a UE constituirá uma das maiores áreas de livre comércio do mundo. Pela sua importância econômica e a abrangência de suas disciplinas, é o acordo mais amplo e de maior complexidade já negociado pelo Mercosul”, ressalta o governo brasileiro.

Acordo

O acordo cobre temas tanto tarifários quanto de natureza regulatória, como serviços, compras governamentais, facilitação de comércio, barreiras técnicas, medidas sanitárias e fitossanitárias e propriedade intelectual. Conforme nota do governo federal, produtos agrícolas de grande interesse do Brasil terão suas tarifas eliminadas, como suco de laranja, frutas e café solúvel. Os exportadores brasileiros obterão ampliação do acesso, por meio de quotas, para carnes, açúcar e etanol, entre outros produtos. O acordo também reconhecerá como distintivos do Brasil vários produtos, como cachaças, queijos, vinhos e cafés.

As empresas do país serão beneficiadas com a eliminação de tarifas na exportação de 100% dos produtos industriais. Segundo o governo brasileiro, serão, desta forma, equalizadas as condições de concorrência com outros parceiros que já têm acordos de livre comércio com a União Europeia.

O acordo garantirá ainda acesso efetivo em diversos segmentos de serviços, como comunicação, construção, distribuição, turismo, transportes e serviços profissionais e financeiros. Em compras públicas, empresas brasileiras obterão acesso ao mercado de licitações da União Europeia, estimado em US$ 1,6 trilhão. Os compromissos assumidos também vão agilizar e reduzir os custos dos trâmites de importação, exportação e trânsito de bens.

O governo brasileiro destaca ainda que o acordo propiciará um incremento de competitividade da economia brasileira ao garantir, para os produtores nacionais, acesso a insumos de elevado teor tecnológico e com preços mais baixos. “A redução de barreiras e a maior segurança jurídica e transparência de regras irão facilitar a inserção do Brasil nas cadeias globais de valor, com geração de mais investimentos, emprego e renda. Os consumidores também serão beneficiados pelo acordo, com acesso a maior variedade de produtos a preços competitivos”, diz a nota.

Balança comercial

Desde 1999, os integrantes do Mercosul (Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai) e os 28 países da União Europeia iniciaram negociações para um acordo de livre comércio. As conversas foram interrompidas em 2004 e retomadas em 2010.

A União Europeia é o segundo parceiro comercial do Mercosul, atrás da China, e o primeiro em matéria de investimentos. Já o Mercosul é o oitavo principal parceiro comercial extrarregional da União Europeia.

Em nota conjunta dos ministérios da Economia e das Relações Exteriores, o governo brasileiro destaca que o acordo é um marco histórico no relacionamento entre o Mercosul e a União Europeia, que representam, juntos, cerca de 25% do PIB mundial e um mercado de 780 milhões de pessoas. “Em momento de tensões e incertezas no comércio internacional, a conclusão do acordo ressalta o compromisso dos dois blocos com a abertura econômica e o fortalecimento das condições de competitividade”, diz a nota.

O acordo entre os dois blocos foi fechado após dois dias de reuniões ministeriais em Bruxelas, ontem (27) e hoje. Representaram o Brasil os ministros das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina, e o secretário Especial de Comércio Exterior e Assuntos Internacionais do Ministério da Economia, Marcos Troyjo.

O acordo comercial com a UE constituirá uma das maiores áreas de livre comércio do mundo. Pela sua importância econômica e a abrangência de suas disciplinas, é o acordo mais amplo e de maior complexidade já negociado pelo Mercosul”.
governo brasileiro

A corrente de comércio birregional foi de mais de US$ 90 bilhões em 2018. Em 2017, o estoque de investimentos do bloco europeu no bloco sul-americano somava cerca de US$ 433 bilhões.

Os sul-americanos vendem, principalmente, produtos agropecuários. Já os europeus exportam produtos industriais, como autopeças, veículos e farmacêuticos.

No ano passado, o Brasil registrou comércio de US$ 76 bilhões com a União Europeia e superávit de US$ 7 bilhões. As vendas para esse bloco totalizaram mais de US$ 42 bilhões, aproximadamente 18% do volume exportado pelo país.

O Brasil destaca-se como o maior destino do investimento externo direto (IED) dos países da União Europeia na América Latina, com quase metade do estoque de investimentos na região. O Brasil é o quarto maior destino de IED do bloco europeu, que se distribui em setores de alto valor estratégico.


Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial Rádio Peão Brasil / Tornado


 

Estratégia dos EUA na América Latina está fracassando, afirma ministro boliviano

A estratégia dos EUA na América Latina já está fracassando, e os países precisam de um continente soberano e pacífico para que a região tenha voz, afirmo o ministro da Presidência da Bolívia, Juan Ramón Quintana.

"Em muitos fóruns realizados na América Latina, foi dito que novos tempos estão chegando, um novo século está chegando. E este novo século XXI será o século dos povos. Apesar disso, há um aumento na agressividade do governo dos EUA", ressaltou.

"Diariamente, na América Latina são experimentadas práticas de chantagem através das políticas financeiras internacionais, para impor modelos de economia de livre mercado, que acabam roubando recursos naturais das nações."

Brasil e Argentina 'condenados à pobreza'

Como exemplo, Quintana mencionou os casos da Argentina e do Brasil, "com suas sociedades condenadas ao aumento da pobreza, à perda de soberania sobre seus recursos naturais e à maior interferência no projeto de modelos econômicos".

"Não queremos isso para a Bolívia ou para a América Latina", afirmou, adicionando que "queremos um continente unido, um continente pacífico, um continente soberano".

Segundo o ministro, soberania, pacificidade e união darão voz ao continente no mundo. "Na medida em que os Estados Unidos dominam a América Latina, a América Latina deixa de ser um locutor válido no mundo; portanto, deixa de existir, deixa de ter uma voz própria e soberana na comunidade internacional."

"Não queremos ser tutelados por nenhuma potência estrangeira, muito menos pela potência norte-americana que se acostumou a governar pela força, pela imposição, pela chantagem, por golpes de Estado e por golpes brandos", de acordo com Juan Ramón Quintana.

EUA fraquejam na América Latina

Quintana esclareceu que a estratégia dos EUA na América Latina já tem sérias dificuldades para se sustentar, portanto, "o que corresponde aos nossos países é uma maior consciência política de seu próprio desenvolvimento e do desenvolvimento da região", concluiu.

O ministro acrescentou que a Bolívia condena "o unilateralismo que os Estados Unidos pretendem construir, que é uma política de subjugação das soberanias estatais e, portanto, de construção de um regime antidemocrático".

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019062714127197-estrategia-eua-america-latina-fracassando-afirma-boliviano-ministro/

Polícia reprime protestos de estudantes hondurenhos em defesa da Educação pública

Unidades da Polícia Militar e das forças «Tigres» da Polícia Nacional entraram, esta segunda-feira, nas instalações da Universidade Nacional Autónoma das Honduras (UNAH) e dispararam sobre os estudantes.

Militares entraram na Universidade Nacional Autónoma das Honduras; pelo menos quatro estudantes ficaram feridosCréditos / Noticieros Televisa

Centenas de jovens universitários juntaram-se aos protestos que a Plataforma pela Defesa da Saúde e da Educação tem promovido contra a privatização destes sectores no país centro-americano, bem como para exigir a demissão do presidente hondurenho, Juan Orlando Hernández (amplamente conhecido pela sigla JOH).

De acordo com a Prensa Latina, os estudantes estiveram concentrados, primeiro, nas imediações das instalações universitárias, em Tegucigalpa, tendo-se refugiado nelas quando da chegada dos efectivos da Polícia Nacional e Militar.

Por seu lado, o Comité de Familiares Detidos Desaparecidos nas Honduras (Cofadeh) afirma que as unidades policiais lançaram «uma feroz caça» aos estudantes no interior da UNAH, contra os quais lançaram bombas de gás lacrimogéneo e dispararam balas reais. Houve vários feridos e pelo menos quatro estudantes, atingindos a tiro, tiveram de ser internados em unidades hospitalares.

A Polícia Militar justificou a entrada ilegal nas instalações universitárias na capital do país com o alegado sequestro de um dos seus membros por parte dos estudantes – uma versão do que se passou ontem na UNAH que foi desmentida pelos estudantes, revela o Confidencial HN.

Manifestações contra as privatizações vão continuar

Ontem, a Plataforma pela Defesa da Saúde e da Educação, que junta estruturas representativas de ambos os sectores, fez um apelo à continuidade e à intensificação dos protestos no país, para reivindicar a que a saúde e a educação são direitos, tendo convocado para esta terça-feira novas manifestações, segundo informou a presidente do Colégio Médico das Honduras (CMH), Suyapa Figueroa.

Em declarações à imprensa, a que VTV faz referência, a dirigente sindical denunciou a violação dos direitos humanos por parte do governo de JOH, tendo recordado, a este propósito, que Eblin Noel Corea Maradiaga, de 17 anos, foi morto a tiro quando participava nos protestos na localidade de Yarumela (departamento La Paz), na semana passada.

Os dirigentes da Plataforma chamaram ainda a atenção para os perigos que o povo hondurenho enfrenta depois de o governo ter dado ordem aos militares para ocuparem as ruas do país e, nesse sentido, vão apresentar uma denúncia formal junto do Gabinete da Alta Comissária da Organização das Nações Unidas para os Direitos Humanos.

O «presidente do FMI»

Juan Orlando Hernández, aliado de Washington e apoiado pelos militares, foi alvo de forte contestação popular, há menos de dois anos, quando foi reeleito presidente por entre acusações de fraude.

Com a aplicação de políticas de austeridade (que lhe valeram a designação de «presidente do FMI»), as privatizações e a submissão aos interesses norte-americanos – bem visíveis no que respeita à questão dos emigrantes, que procuram escapar à miséria, à violência e à falta de perspectivas no seu país –, JOH aprofundou a grande crise em que as Honduras mergulharam na sequência do golpe de Estado perpetrado contra o governo legítimo do presidente Manuel Zelaya, em 2009, executado com o apoio do então presidente norte-americano Barack Obama e da sua Secretária de Estado, Hillary Clinton.

Encarado como «autoritário» mesmo por sectores que lhe são afins e criticado também pela Conferência Episcopal, o presidente hondurenho continua a responder com a força a esta nova onda de protestos, que já se prolonga desde o final de Abril e no âmbito da qual já foram mortas pelo menos três pessoas e centenas ficaram feridas.

«Enquanto Washington e os militares o apoiarem, a mudança não estará à vista», disse à Prensa Latina o jornalista Noé Leyva. Uma mudança «necessária» quando, de acordo com o Centro Estratégico Latino-americano de Geopolítica (CELAG), mais de metade dos hondurenhos não tem emprego e cerca de 60% são pobres.

Cristina Kirchner: A guerra midiática-judicial contra os líderes na América Latina foi exposta

“A guerra midiática-judicial contra os líderes da oposição na América Latina foi exposta”, afirma a ex-presidente da Argentina, Cristina Kirchner, sobre as revelações trazidas pelas conversas entre o então juiz Sergio Moro e os procuradores de Lava Jato.

 

A ex-presidente da Argentina Cristina Kirchner comentou o vazamento de conversas do juiz e agora ministro Sérgio Moro com os procuradores da Lava Jato. Para ela, a revelação trazida pela reportagem do The Intercept evidenciam “a guerra midiática-judicial contra os líderes da oposição na América Latina”. Critica enfrenta a mesma perseguição em seu país desde que saiu do poder.

“A guerra midiática-judicial contra os líderes da oposição na América Latina foi exposta”, afirma Cristina. “A acusação contra @LulaOficial desmoronou. Tem que acabar com a perseguição contra ele e deve recuperar a sua liberdade”, completou.

La guerra mediática-judicial contra los lideres de la oposición en América Latina quedó al descubierto. La acusación contra @LulaOficial se desmoronó. Tiene que finalizar la persecución contra él y debe recuperar la libertad.https://t.co/gpEDImbHQR

— Cristina Kirchner (@CFKArgentina) 10 de junho de 2019

 


Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial Brasil247 / Tornado


 

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/cristina-kirchner-a-guerra-midiatica-judicial-contra-os-lideres-na-america-latina-foi-exposta/

Mobilizações contra privatização de Saúde e Educação prosseguem nas Honduras

Médicos e docentes em greve, juntamente com estudantes, manifestaram-se esta terça-feira para exigir a revogação dos decretos que levam à privatização dos serviços de Saúdes e Educação.

Protesto contra a privatização dos sectores da Saúde e da Educação nas HondurasCréditos

Os protestos, anunciados pela Plataforma pela Defesa da Saúde e Educação, começaram na véspera, na Praça Cuba, em Tegucigalpa, em solidariedade com os funcionários do Instituto Nacional de Formação Profissional, que correm o risco de ser despedidos, no âmbito do processo de privatização da instituição.

De acordo com o Confidencial HN, esta terça-feira os médicos suspenderam as consultas externas nos hospitais públicos e realizaram plenários; por seu lado, os sindicatos de professores agendaram paralisações, piquetes e mobilizações.

A Plataforma fez um apelo à unidade dos trabalhadores destes sectores, na medida em que, se a Lei de Reestruturação e Fortalecimento da Saúde e da Educação, tal como proposta pelo governo hondurenho, foi retirada do Congresso Nacional, continua a existir uma legislação que, em seu entender, visa limitar o direito da população aos serviços públicos essenciais e despedir «de forma massiva» os funcionários públicos na Educação e na Saúde.

De acordo com a HispanTV, na capital do país, Tegucigalpa, a manifestação reuniu mais de 2000 pessoas, entre médicos, professores e estudantes. Outras acções de protesto e manifestações realizaram-se, ao longo do dia, em vários departamentos do país centro-americano.

Privatizar e atacar conquistas

As acções de protesto têm lugar desde o final de Abril, contra uma legislação que, segundo os sindicatos, permitirá ao governo proceder à realização de «despedimentos massivos de funcionários», acabar com «as conquistas que os trabalhadores alcançaram em décadas de luta» e implicará a privatização dos sectores da Educação e da Saúde no país centro-americano.

Nas primeiras mobilizações, em que os manifestantes exigiram também a demissão do presidente Juan Orlando Hernádez, registaram-se episódios de grande violência policial, tendo sido registados disparos. Com base em depoimentos recolhidos nas redes sociais, a RT afirmou que «se viram imagens perturbadoras nas Honduras, onde alegados civis armados agem em conluio com a Polícia hondurenha e atacam manifestantes».

A necessária recuperação do debate estrutural na América Latina

Por trás da visão de exploração e exportação de petróleo cru está novamente aquele ideário liberal e de posição subordinada do Brasil na divisão internacional do trabalho.

Dois temas ocuparam lugar de destaque na agenda das discussões socioeconômicas neste início do século XXI: o redesenho do mapa geopolítico e a polarização crescente da riqueza e do poder mundial; e a pauperização de grandes massas populacionais, sobretudo na periferia do sistema capitalista. Estes não são problemas novos, pois vêm sendo discutidos há muito tempo, no campo teórico e político. Cabe lembrar que tais problemas se intensificaram no período denominado de globalização.

Essa “fase” não pode ser tratada como algo necessariamente novo, é uma espécie de exacerbação do liberalismo clássico, econômico e político, em particular da sua crença num capitalismo sem fronteiras e gerido por Estados nacionais que fossem reduzidos às suas funções mais elementares. Outro elemento central nesse ideário é a certeza de que a desregulação dos mercados e a liberalização das economias nacionais promoveria no médio prazo a convergência da riqueza das nações e a redução das desigualdades entre as classes sociais.

Na América Latina, essas ideias acabaram dominando o pensamento político e acadêmico, durante as décadas de 1980 e 1990, e se transformaram no fundamento teórico e ideológico de um novo projeto econômico de desenvolvimento, “associado e dependente” das grandes potências, em particular, do poder e da economia norte-americana. Por isto, também na América Latina, durante este período, foram descartadas, como anacrônicas, todas as teses e preocupações, contidas na agenda do debate latino-americano sobre o desenvolvimento, como as restrições externas ao crescimento e as origens das desigualdades sociais; mas também, a necessidade do intervencionismo estatal, e de um projeto de construção de um sistema econômico, nacional e autônomo.

“Há uma espécie de retomada do pensamento liberal nas agendas de parte dos governos latino-americanos”

 

O insucesso econômico das políticas liberais naquela década contribuiu decisivamente para a “virada à esquerda” dos governos sul-americanos, durante a primeira década do século XXI. Em poucos anos, quase todos os países da região elegeram governos de orientação nacionalista, desenvolvimentista ou socialista, que mudaram o rumo político-ideológico do continente. Como já lembrado em outro artigo,[1] todos se opuseram às ideias e políticas neoliberais da década de 1990 e todos apoiaram ativamente o projeto de integração da América do Sul, opondo-se ao intervencionismo norte-americano no continente. Esse giro político à esquerda coincidiu com o ciclo de expansão da economia mundial, que favoreceu o crescimento generalizado das economias regionais até a crise financeira de 2008.

Os sucessos econômicos ao lado da maior autonomia política e social materializada no fortalecimento do bloco regional latino-americano, de certa forma, foram se colocando, ao longo do tempo, de forma conflituosa aos interesses das grandes potências, principalmente a norte-americana. Essa maior “autonomia” também significou um maior controle de ativos estratégicos latino-americanos pelos seus respectivos Estados nacionais, como foi o caso do setor de energia, o que novamente entrou em rota de colisão com os interesses dos Estados Unidos. A importância da descoberta do pré-sal no Brasil e do gás não convencional na Argentina, por exemplo, tem um papel central para a geopolítica energética dos Estados Unidos no longo prazo. debate estrutural na América Latina

Não deve-se negligenciar nesse debate o impacto da crise internacional do início da década atual, nem dos eventuais equívocos dos governos à esquerda latino-americanos, mas essa tensão e divergência “estratégica” entre os países da América Latina e os Estados Unidos impulsionam uma reorganização política, nesta segunda década do século XXI, que tem como mantra as ideias liberais.

Assim como nos anos 1990, um fantasma que ronda hoje parte dos governos latino-americanos é a incapacidade de se entregar resultados diferentes dos observados naquele período. As experiências recentes mostram novamente as dificuldades para se beneficiar por completo do modelo liberal globalizante das grandes nações, isto é, para apresentar êxitos econômicos, como na questão da dívida pública, e sociais, como na redução da pobreza. A agenda do governo Macri na Argentina, por exemplo, recupera na íntegra as premissas liberais adotadas nos últimos vinte anos do século XX. Como mostra o jornalista argentino, Fernando Rosso, “logo depois de triunfar nas eleições em outubro de 2017, Macri lançou uma agenda econômico sustentada pelo tripé de ‘reformas permanentes’ (reforma da previdência, flexibilização trabalhista e ajuste fiscal)”.[2] E as consequências de tais políticas já são visíveis como mostra o mesmo jornalista:

Algumas variáveis sintetizam o (des)equilíbrio econômico do governo de Macri em seus três anos de gestão: o PIB acumulou uma queda de 1,3%, a inflação foi da ordem de 163%, o dólar subiu 290% em relação à cotação oficial de dezembro de 2015 e 160% em relação ao dólar paralelo naquele momento. A dívida cresceu US$ 80 bilhões com credores privados e mais de US$ 100 bilhões se forem incluídos os primeiros desembolsos do acordo com o FMI. (…) As consequências desses números sobre a vida cotidiana das maiorias populares são profundamente desoladoras. O desemprego atingiu 9% durante o terceiro trimestre de 2018 e não atingiu os dois dígitos porque, para já, o grosso do ajustamento foi feito por via da liquidação do poder de compra do salário. As convulsões econômicas e os profundos retrocessos sociais são o saldo que o governo da nova direita argentina deixou até agora. E o pior parece ainda estar para vir.”

 

Esse é apenas um exemplo de como, nos últimos dois anos, essas ideias voltam a vigorar com força na agenda e no pensamento econômico de parte da América Latina, em especial no Brasil.

Não deixa de ser curioso que, se na década de 1920 e 1930 a concentração da América Latina na produção de produtos primários, no caso brasileiro o café, é o que impulsiona o debate estruturalista inaugurado pela Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), nos final dos anos 2010, as ideias dos formuladores econômicos latino-americanos retomam aquela visão de mundo pré-Cepal, mas dessa vez não é café, mas sim o petróleo, a bola da vez. O atual presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, sintetiza de certa forma cristalina essa visão ao comentar o foco da empresa neste momento:

parecemos envergonhadas em explorar commodities. Vamos explorar e produzir valor para o Brasil”.

 

Não pretende-se aqui discutir o caráter geoestratégico de um recurso como o petróleo, mas sim que por trás desta visão de exploração e exportação de petróleo cru está novamente aquele ideário liberal e de posição subordinada do Brasil na divisão internacional do trabalho.

É indiscutível que, neste momento e a despeito dos resultados anteriores, há uma espécie de retomada do pensamento liberal nas agendas de parte dos governos latino-americanos. E junto há uma tentativa não apenas de estreitar, mas de sepultar qualquer pensamento crítico a esse ideário. Dessa forma, torna-se indispensável novamente a recuperação de um debate que muitos consideram superados sobre o desenvolvimento desigual e pauperizante do capitalismo.

A dúvida é se haverá capacidade de reorganização do debate estrutural sobre os rumos da América Latina, incluindo aí o seu papel da geopolítica e geoeconomia, ou se ficaremos reféns apenas de responder aos desafios da “nova-velha” agenda liberal.

 

[1] FIORI, J. L. O Brasil e seu entorno estratégico na primeira década do século XXI. In: SADER, E. (Org.). 10 Anos de governos pós-neoliberais no Brasil: Lula e Dilma. São Paulo: Boitempo, 2013.

[1] ROSSO, F. La enigmática supervivencia política de Mauricio Macri. Nueva Sociedad, n. 279: 4-12, enero-febrero, 2019. 


por José Luis Fiori e Rodrigo Leão | Texto original em português do Brasil

  • José Luis Fiori é professor titular em Economia Política Internacional da UFRJ e pesquisador do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep); e
  • Rodrigo Leão é mestre em desenvolvimento econômico (IE/Unicamp), um dos diretores do Ineep e pesquisador visitante do Núcleo de Estudos Conjunturais da UFBA.

Exclusivo Editorial PV / Tornado


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/a-necessaria-recuperacao-do-debate-estrutural-na-america-latina/

Venezuela é laboratório dos EUA antes de 'ataques' contra Cuba e Nicarágua, diz oficial russo

Manifestação dos partidários do autoproclamado presidente interino da Venezuela e líder da oposição, Juan Guaidó, em Caracas
© Sputnik / Leo Alvarez

Os EUA estão prontos a usar todos os meios para remover os governos socialistas indesejados da Venezuela, Nicarágua e Cuba do poder, a fim de alcançar o controle total sobre a América Latina, alertou o chefe russo do Departamento Central de Inteligência (GRU), Igor Kostyukov.

A política externa de Washington será a principal ameaça de segurança para a América Latina nos próximos anos, disse Igor Kostyukov na Conferência Anual de Moscou sobre Segurança Internacional.

Washington atua "em desrespeito ao direito internacional" e sem considerar as possíveis consequências para seus aliados "a fim de alcançar o controle total sobre a região", declarou.


Presidente venezuelano Nicolás Maduro (foto de arquivo)
© REUTERS / Miraflores Palace/Handout via Reuters

O Departamento de Estado dos EUA gasta oficialmente pelo menos US$ 1,5 bilhão a cada ano para aumentar sua influência na América Latina, revelou Kostyukov. Levar em conta "programas especiais e não orçamentários" tornaria a quantia muito maior, acrescentou.

"As tecnologias da ‘revolução colorida’ que estão sendo desenvolvidas na Venezuela, poderão ser implementadas em breve na Nicarágua e em Cuba", avaliou.

Na Nicarágua, a "oposição patrocinada pelos EUA está interrompendo o diálogo nacional ao apresentar termos que são obviamente inaceitáveis para as autoridades", disse Kostyukov.

O país continua em um impasse quando os protestos contra a Reforma da Previdência, um ano atrás, se tornaram violentos e levaram a centenas de mortos. As conversações entre o governo de Daniel Ortega e a oposição só foram retomadas em fevereiro, depois que as autoridades libertaram muitos dos detidos durante os distúrbios.

Quanto a Cuba, o governo Trump tentará contar com medidas econômicas para atingir seus objetivos, afirmou o chefe do GRU.

"Em março, a Lei Helms-Burton foi reintroduzida pelos EUA. Ela permite que os americanos peçam indenização por bens perdidos na república [cubana], o que poderia afetar cerca de 200 empresas cubanas. Uma redução significativa na oferta de petróleo venezuelano como resultado das sanções dos EUA foi também um golpe para Cuba", destacou.

Apesar de todas as ambições de Washington, a "blitzkrieg" (guerra relâmpago) na Venezuela falhou, disse Kostyukov.

"Os EUA calcularam mal o nível de robustez do governo democraticamente eleito, seu apoio pela população e a disposição das agências de segurança venezuelanas para defender a ordem constitucional. Esperanças de confrontos sangrentos entre o povo e o exército não renderam tampouco", completou.

Washington apoiou totalmente o líder da oposição Juan Guaidó, que se declarou presidente interino da Venezuela em janeiro, e colocou o país sob duras sanções econômicas. Os movimentos, porém, não têm sido suficientes derrubar Nicolás Maduro como chefe do estado venezuelano.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019042613764644-eua-revolucoes-cuba-nicaragua/

EUA enfrentarão país 'duro de matar' na América Latina, diz americanista

A operação dos EUA na América Latina poderia ter uma "chance histórica" de aumentar a aprovação do presidente norte-americano Donald Trump na véspera das eleições, escreveu The Wall Street Journal.

Recentemente, o colunista do The Wall Street Journal, Walter Russell Mead, escreveu que a derrota do presidente da Venezuela Nicolás Maduro teria sido um grande sucesso para os EUA, mas o apoio da Rússia à Venezuela atrapalhou o plano estadunidense.


O cientista político americanista da Academia de Ciência da Rússia, Konstantin Blokhin, em entrevista ao serviço russo da Rádio Sputnik, disse acreditar que a derrota de Maduro poderia ter sido apresentada pela administração Trump como sua maior conquista da política externa, recordando que houve "vitórias hipotéticas" dos EUA sobre Daesh (grupo terrorista proibido na Rússia e em uma série de países) ou a última cúpula com o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un.

"Golpe na Venezuela seria recebido pelos Estados Unidos como um 'princípio dominó', vindo a ser esperada uma sequência com Cuba, Nicarágua etc. Mas dificilmente isso aconteceria, porque, mesmo não falando sobre Venezuela, os cubanos, por exemplo, pode-se dizer que, a um nível genético, já se acostumaram com uma vida de sanções e de pressão inacreditável dos EUA. Cuba é [um país] 'duro de matar' para EUA."

O americanista reforça que as nações da "América latina, veem que a Rússia e a China se mostram interessadas no continente e concluem que não estão 'abandonadas' à mercê dos EUA e que elas não são mais 'quintal' dos Estados Unidos".


O que, para o cientista político, significa apoio moral da Rússia. Blokhin sublinhou que a "política de ultimatos" norte-americana vai somente afastar América Latrina dos EUA.

Na quarta-feira (17), o secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, anunciou que, a partir do dia 2 de maio, vai ser anulada uma antiga proibição a ações civis de cidadãos norte-americanos contra empresas estrangeiras que usam propriedades confiscadas pelo governo cubano desde a revolução de 1959 de Fidel castro.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/opiniao/2019042513755519-eua-enfrenta-pais-duro-matar-amrica-latina/

EUA ameaçam 'cenário sírio' em Cuba e Venezuela, escreve jornal americano

Presidente dos EUA, Donald Trump em frente à logo da OTAN.
© Sputnik / Alexey Vitvitskiy

A derrubada do presidente venezuelano Nicolás Maduro teria sido um grande sucesso para a administração Trump na véspera da nova eleição presidencial dos EUA, mas o apoio da Rússia atrapalhou os planos do líder americano, escreveu o jornal Wall Street Journal.

Segundo o colunista Walter Russell Mead, Trump acredita que todos os governos que não lhe agradam estão apoiando a Venezuela, foi por isso que seu novo passo para "derrubar" Maduro foi exercendo pressão sobre Cuba.

O jornal Wall Street Journal destaca que anteriormente o ex-presidente Barack Obama havia tentado melhorar as relações entre Cuba e os EUA na esperança que Havana se afastasse de Caracas.

No entanto, os planos não foram concretizados, pois "a Venezuela substituiu Cuba pela Rússia como fonte de subsídios".

O jornalista explica que a destruição da economia venezuelana poderia ser seguida de um desmoronamento do regime cubano — e esse duplo sucesso seria a "chance histórica" para Trump, principalmente no período que antecede as eleições.


Para Russell Mead, a Rússia não permitirá que os EUA pressionem tanto a Venezuela quanto Cuba e, ao mesmo tempo, o "cenário sírio" pode se repetir, e Moscou novamente "humilhará" Washington.

O desejo do presidente dos EUA de derrubar Maduro na Venezuela demonstra a importância crítica dessa questão para Trump. Ao mesmo tempo, seu impulso pode ser um enorme fracasso, já que a Venezuela e Cuba provavelmente serão apoiadas pela Rússia e China. Além disso, o Canadá e os parceiros europeus dos EUA já condenaram as sanções extraterritoriais americanas contra o Irã, e agora é improvável que fiquem de fora, diz o jornalista.

Apesar dos esforços de Trump em derrubar Maduro, tal cenário pode ser um fracasso, uma vez que a Venezuela e Cuba provavelmente serão apoiadas por Rússia e China, escreve o colunista.

Na quarta-feira (24), o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, anunciou que os EUA não estenderão a exceção à Lei Helms-Burton, que a partir de 2 de maio permitirá que cidadãos norte-americanos intentem ações judiciais relativamente às propriedades nacionalizadas ou confiscadas em Cuba no início dos anos 1960.


Os protestos em massa começaram na Venezuela em 21 de janeiro após a reeleição do presidente venezuelano Maduro, seguidos pela autoproclamação de Juan Guaidó como líder interino do país dois dias após a posse.

Os EUA e vários outros países reconheceram o líder da oposição como legítimo, enquanto Maduro chamou Guaidó de fantoche de Washington. Rússia, China e vários outros países apoiaram Maduro como o presidente legítimo da Venezuela, e Moscou classificou o "estatuto presidencial" de Guaidó de "inexistente".

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019042513753317-eua-ameacam-cenario-sirio-em-cuba-venezuela-escreve-jornal-americano/

EUA ressuscitam Doutrina Monroe na América Latina, alerta Defesa da Rússia

Washington está restaurando sua Doutrina Monroe na América Latina para limitar a soberania dos países da região, afirmou nesta quarta-feira (24) o ministro da Defesa da Rússia, Sergei Shoigu.

"Os Estados Unidos estão ressuscitando a Doutrina Monroe, que busca limitar a soberania dos países latino-americanos e pressionar aqueles que seguem políticas que não foram acordadas com Washington", disse o ministro russo na Conferência de Segurança Internacional de Moscou.

Shoigu observou que um exemplo típico de tal política de Washington é a situação na Venezuela, onde o governo legítimo está exposto a uma influência externa "sem precedentes".

Os Estados Unidos têm visto tradicionalmente a América do Sul como uma área de seus interesses exclusivos baseada na doutrina do ex-presidente James Monroe ("América para os Americanos") de 1823, que implica a não interferência de países de outras regiões nos assuntos dos governos americanos.


No início do século XX, essa ideologia foi complementada pela tese de que a resolução de conflitos no continente latino-americano deveria ser realizada pelos EUA, inclusive através do uso da força militar. Durante a Guerra Fria, essa ideologia foi usada para combater a influência soviética e a disseminação do socialismo em Cuba e em outros países da região.

O ministro da Defesa russo destacou que Moscou está disposta a reforçar a cooperação militar com os países latino-americanos, destacando como "amigos e aliados tradicionais" da Rússia na América Latina países como Cuba, Nicarágua, Venezuela, Brasil, Bolívia, México, Uruguai, Paraguai e Chile.

"Apreciamos o nível de confiança alcançado e trabalharemos para aumentá-lo", comunicou Shoigu, adicionando que Moscou está disposta a "aumentar a cooperação militar e técnico-militar com os países que veem a Rússia como parceira".

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019042413747541-eua-ressuscitam-doutrina-monroe-america-latina-defesa-da-russia/

Notas internacionais: suicídio de García (Perú) diz muito sobre a América Latina

Morte de ex-presidente peruano, investidas norte-americanas contra Cuba e congelamento de preços de Macri

O suicídio de García diz muito sobre a América Latina. O suicídio de Alan García (1985-1990 e 2006-2011), ex-presidente peruano, levou ao inevitável debate mundial sobre o que está acontecendo na América Latina em termos de judicialização e criminalização da política. Segundo a imprensa peruana, ainda havia poucas evidências concretas dos crimes de corrupção de que García era acusado. O único pagamento por ele recebido da Odebrecht de que se tinha prova material eram 100 mil dólares por uma palestra realizada pela Fiesp em São Paulo no ano de 2012. Não coincidentemente, líderes latino-americanos do período progressista vivido nas duas primeiras décadas do século XXI na região, como Lula, C. Kirchner e Correa estão sendo processados ou já presos, como no caso de Lula, sem que haja material probatório consistente de crimes de corrupção.

Garcia morto, Kuczynski na UTI. Ao total 4 ex-presidentes peruanos (Garcia, Toledo, Kuczynski e Humala) e uma líder da oposição (Keiko Fujimori) estão envolvidos com denúncias de corrupção e ontem, após o suicídio de Alan Garcia, um deles, Pedro Paulo Kuczynski foi hospitalizado em uma UTIcom crise de hipertensão. Ele está preso preventivamente também acusado de corrupção com a Odebrecht.


Trump avança contra Cuba. O governo Trump anunciou ontem (17/04) novas medidas contra Cuba. Trata-se da ativação do “Título 3”, um dispositivo da lei Helms-Burton que permite a contestação judicial por parte de indivíduos ou empresas sobre propriedades em solo cubano ainda do período pré-revolucionário. São propriedades em sua maioria que foram nacionalizadas pela Revolução Cubana e perderam seu status anterior. A decisão de ativar um dispositivo da lei que estava inativo há duas décadas pode fazer com que várias empresas americanas, europeias e canadenses, em especial, travem ações judiciais de bilhões de dólares e comprometer a capacidade cubana de atrair investimento econômico em um período muito delicado de fragilidade de sua economia. A medida foi tomada no escopo da elevação da pressão sobre Cuba por seu apoio a Maduro na Venezuela. O embargo comercial dos EUA sobre Cuba já dura 6 décadas.

UE vai à OMC contra EUA no caso cubano. A União Europeia se pronunciou sobre a decisão dos EUA de ativar o “título 3”da lei Helms-Burton contra Cuba e disse “condena veementemente” a medida e que isso “criará ainda mais confusão para os investimentos estrangeiros, que estão ajudando a criar empregos e prosperidade em Cuba”, segundo Alberto Navarro, enviado da UE a Havana, citado em matéria da DW. A UE pode levar o caso para a OMC.

EUA querem derrubar Venezuela e Cuba a uma só vez. A manobra norte-americana dos últimos dias com a abertura de uma franca artilharia sobre Cuba revela um plano em que a “derrubada da Venezuela” está associada a mais uma tentativa de derrubada do governo cubano.

48 bilhões podem entrar na Venezuela se Maduro cair. Ainda sobre EUA e Venezuela, uma reportagem do The Interceptrevela que está circulando um documento do BID (Banco Interamericano de Investimento) que prevê a injeção de até 48 bilhões de dólares na economia da Venezuela caso Maduro seja derrubado. O título do documento é “Venezuela: desafios e oportunidades”. A oferta de financiamento bilionário seria uma isca para governos e corporações internacionais apoiarem Washington na derrubada de Maduro, além dar confiança à comunidade empresarial venezuelana para apoiar a oposição interna ao atual governo, na opinião dos jornalistas que assinam o artigo, Rafael Moro e Ryan Grim, que tiveram acesso aos documentos.

Rússia Gate. É aguardada para esta manhã de quinta (18/04), nos EUA, a apresentação do relatório do promotor especial Robert Mueller sobre a suposta “Interferência russa nas eleições de 2016”no país. Segundo a CNN, são 400 páginas de relato após quase dois anos de investigação e entrevistas a mais de 500 testemunhas. Segundo Trump, via Twitter, o relatório foi preparado por 18 democratas raivosos e o documento deveria ser focado em quem espionou sua campanha em 2016 e não sobre o que ele chama de “embuste russo”.

Macri congela preços. O governo Macri, da Argentina, anunciou ontem (17/04) um congelamento de preços no país. Um relatório divulgado no dia 16 indicou aumento da inflação para 4,7% e aumento da pobreza que já está na faixa dos 32%. Serão 60 os produtos que constam da cesta básica e que terão por seis meses seus preços congelados. Outras medidas como descontos para compras de outros itens, como eletrodomésticos ou medicamentos, foram tomadas direcionadas para pensionistas e aposentados. Ainda, segundo Macri, tarifas como eletricidade, gás e transporte não terão aumento até o final do ano. O presidente argentino vive o drama de ver o país se deteriorando economicamente em pleno ano eleitoral. Até mesmo contas de telefones celulares sofrerão congelamento. Ele retomou várias medidas que já existiam no governo de C. Kirchner, subsidio do Estado ao preço do gás ou o programa Preços Cuidados, dedicado a vários itens da cesta básica.

Um ano dos protestos na Nicarágua. Há exatamente um ano, 18 de julho de 2018, começava uma onda de protestos contra o presidente Daniel Ortega na Nicarágua. Os protestos duraram meses, geraram mortos e encarcerados e uma profunda instabilidade política no país. Várias mesas de negociação já foram abertas e fechadas sem que a oposição conseguisse conquistar seu maior pleito: antecipação das eleições presidenciais. A crise revelou a força da igreja católica no país, mas também da militância sandinista e a influência do empresariado norte-americano sobre o empresariado local. O estopim dos protestos na época foi uma proposta de reforma da previdência.

Eleições para o parlamento europeu. O maior parlamento do mundo, o da União Europeia, terá eleições daqui um mês. A eleição será em 26 de maio. Segundo pesquisa divulgada pelo Conselho Europeu de Relações Exteriores, ainda há um milhão de cidadãos europeus indecisos sobre o pleito. Segundo um dos coordenadores da pesquisa, Mark Leonard, há uma tentativa por parte da extrema-direita de fazer da eleição um grande referendo sobre o tema da imigração, mas isso não se verifica nos números quando se questionam as pessoas da maioria dos países sobre suas principais preocupações. Outro “mito”, segundo ele, da eleição é confrontar os defensores do bloco e os eurocéticos, visto que a maioria das pessoas ainda aposta na existência de uma união dos países europeus.

Indonésia reelege presidente. Terminaram ontem (17/04) as eleições presidenciais na Indonésia. Mais de 190 milhões de pessoas estavam aptas a votar, configurando a 3ª maior democracia do mundo. O atual presidente Joko Widodo foi o vencedor com 54% dos votos.
Trump quer dar palavra final sobre guerras. Trump vetou no último dia 16 uma resolução do Congresso norte-americano que determinava o fim da participação dos EUA na guerra do Iêmen. A guerra liderada pela Arábia Saudita já dura 4 anos, já matou milhares de pessoas e deixou o país na maior crise humanitária do mundo. A guerra é palco da disputa entre Arábia Saudita e Irã, que apoia os rebeldes houthis. O veto de Trump e a resolução do parlamento norte-americano na verdade é um duelo sobre quem tem a palavra final no caso de participações em guerras, o presidente ou o parlamento?

Kim e Putin together. Kim e Putin devem se encontrar ainda neste mês de abril. Enquanto isso, a Coreia do Norte pediu aos EUA que Mike Pompeo deixe de ser o principal negociador sobre desnuclearização com o país.

Greve de caminhoneiros em Portugal. Uma greve de caminhoneiros que começou na segunda (16/04) em Portugal levou o país a uma crise energética. Postos de combustíveis estão sem combustível e até o aeroporto de Lisboa ontem (17/04) ficou sem combustível.
Maior aeroporto do mundo. Um mega-aeroporto está em vias de ser inaugurado em Beijing, na China. Leva o nome de Daxing e será o maior terminal aeroportuário do mundo em uma só edificação. Espera-se que 100 milhões de passageiros/ano circulem pelo aeroporto.

Rússia pode se desconectar do mundo, se assim quiser. A Duma, parlamento russo, aprovou ontem (16/04) um projeto de lei que permite ao país salvaguarda total de sua internet. Durante crises ou ataques cibernéticos será possível se desconectar totalmente da rede mundial de computadores.

Rebelião contra a extinção da Terra. Um movimento nascido no Reino Unido, chamado “Extinction Rebellion”, que pretende denunciar a destruição ambiental do planeta, promete uma rebelião internacional com protestos em 80 cidades de 30 países até 22 de abril. Eles estão mobilizados nas ruas de Londres desde a segunda (16/04) e vários já foram presos ao se acorrentarem a carros ou ocuparem escritórios de empresas como a petroleira Shell.

Bolsonaro influente, mas em quê? Bolsonaro apareceu na lista dos 100 mais influentes do mundo da Time como “personagem complexo”, “homofóbico”, “ultraconservador” e que promete “guerra cultural”. 

Ana Prestes, Brasil | Análise em Opera Mundi
Se você gostou desse conteúdo...
…saiba que são os leitores os principais financiadores deste site. Enquanto a mídia tradicional que apoiou o golpe entra em crise, os veículos independentes continuam na luta pela democracia e pela informação de qualidade, mesmo sem publicidade do governo federal ou de grandes empresas privadas. Produzir um jornalismo crítico e independente custa caro e dá trabalho. Mas nós acreditamos que o esforço vale a pena. E sabemos que você concorda com isso.

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/04/notas-internacionais-suicidio-de-garcia.html

Washington monta guerra colonial na América Latina

por José Goulão

Elliot Abrams. Os acontecimentos sucedem-se em cascata nos últimos dias tendo como alvos a Venezuela e, por arrastamento, a Nicarágua e Cuba – a "troika da tirania", citando o triunvirato fascista que comanda Trump: Michael Pompeo, John Bolton e Michael Pence. Os movimentos militares não estão apenas em cima das mesas de conspiração, conforme reconhece a própria CNN, as sanções económicas e políticas multiplicam-se, as ondas de choque extravasam em muito a região latino-americana e desconcertam até alguns dos mais fiéis súbditos de Washington, como a União Europeia.

A CNN, citando fontes próprias do interior do establishment norte-americano, revelou a existência de actividades militares orientadas para a América Central e do Sul resultantes da coordenação do Estado-Maior conjunto do Pentágono com o Comando Sul (SouthCom), aprofundando a interacção com países vizinhos – sobretudo Colômbia e Brasil. De acordo com as mesmas fontes, trata-se de dissuadir a alegada penetração da Rússia e da China na região, que recentemente o secretário de Estado, Michael Pompeo, qualificou como "uma provocação" além de, imagine-se, uma "ingerência nos assuntos internos" da Venezuela.

Tais razões serão válidas apenas para consumo propagandístico e agitação de fantasmas; porque, em termos práticos, o que continua a ganhar forma, depois do espaço dado à vocação "humanitária", são os preparativos de uma agressão militar norte-americana contra a Venezuela, que Washington continua a preferir por procuração, isto é, através de exércitos e mercenários alheios. As movimentações militares, especialmente navais, serviriam de enquadramento das operações ofensivas e teriam igualmente cariz intimidatório.

Os sinais de reactivação da "opção militar coincidem com os fracassos sucessivos de outras formas de desestabilização da Venezuela testadas desde que o vice-presidente dos Estados Unidos, Michael Pence, telefonou a Juan Guaidó para este se auto-designar "presidente interino" da Venezuela, em 23 de Janeiro.

Um mês depois registou-se o falhanço estrondoso da intervenção contra Caracas a partir da Colômbia, sob capa de "ajuda humanitária", que acabou por se virar contra os promotores e deixar Guaidó em maus lençóis perante os patrocinadores de Washington.

Mais recentemente, em 6 de Abril, esteve programado o início de um "levantamento de massas" através da Venezuela, que deveria ir ganhando projecção e manter-se até à queda do governo eleito de Nicolás Maduro. Foi montada uma rede de células que deveria agitar manifestações em todo o país, mas tudo indica que a operação morreu no ovo: a resposta "das massas" está longe de ter o vigor ambicionado.

A conspiração de Washington

A perspectiva de novo fracasso parece ter esgotado a já pouca paciência de Washington. Em 10 de Abril, as estruturas conspirativas norte-americanas montaram uma "mesa-redonda" na capital federal, sob a capa do Centro de Estudo Estratégicos e Internacionais (CEEI), com um ponto único na ordem de trabalhos: "Avaliar a utilização da força militar na Venezuela".

A reunião deveria ter sido "privada", o que de facto aconteceu, mas o jornalista de investigação Max Blumenthal logrou acesso à lista de participantes – honrando a liberdade de imprensa e provando que a luta dos jornalistas dedicados à investigação e à busca da verdade foi ferida mas não liquidada com a prisão de Julian Assange.

A "lista de participantes" expõe uma autêntica associação de malfeitores, um conluio de índole mafiosa, gente para quem "a mudança de regime na Venezuela só é possível castigando a população", o que "não tem qualquer importância" – segundo palavras anteriormente proferidas por um dos presentes, o embaixador William Brownfield.

Desconhece-se o teor das intervenções na reunião sobre a intervenção militar na Venezuela. Mas averiguando o que pensam os conspiradores, pelo menos os principais, ficaremos com uma noção do que foi dito e preparado.

O já citado William Brownfield foi embaixador dos Estados Unidos na Venezuela a seguir ao golpe de 2002 contra Hugo Chávez e não descansou um momento no ataque à democracia venezuelana, sucessivamente como membro das administrações de George W. Bush, Obama e agora Trump. "Mais do que um narco-Estado, a Venezuela é um Estado mafioso", considera Brownfield. Por isso, "a melhor solução é acelerar o colapso, nem que produza um período de maior sofrimento durante meses, talvez anos".

Não será descabido supor, perante este tipo de afirmações, que o "combate ao narcotráfico" venha a ser um dos argumentos a brandir para justificar uma agressão militar contra a Venezuela. Já não seria a primeira vez, conhecendo o tipo de alegações que conduziram à invasão do Panamá e até do Afeganistão, país onde, desde a instalação da NATO, o comércio de estupefacientes floresce como nunca. O que acontece também com um dos grandes aliados norte-americanos na América Latina, a Colômbia, um narco-Estado que não necessita de ser invadido porque Washington já está presente e tirando proveito.

Uma reunião que não foi académica

Olhando a lista de participantes na reunião promovida em 10 de Abril deduz-se que a intenção de "avaliar a utilização da força militar na Venezuela" fica muito aquém do que efectivamente se passou. Tratou-se muito provavelmente de uma reunião operacional, pois figuras como o almirante Kurt Tidd, o embaixador Brownfield ou o terrorista Roger Noriega não são pessoas de perder tempo e gastar experiência com debates académicos. E a presença de membros em funções no Departamento de Estado de Pompeo, como Stephen Dreikorn e Keith Mines, de um alto quadro do Conselho Nacional de Inteligência, como David Tapia, de três representantes da USAID, uma agência da CIA para mudanças de regimes, além de vários "assessores" da equipa usurpadora de Juan Guaidó indiciam um estado mais avançado de preparação do que uma simples troca de opiniões. Sem esquecer o significado da presença de delegações oficiais representativas da Colômbia e do Brasil.

O almirante Kurt Tidd foi, até há quatro meses, o comandante do Comando Sul das Forças Navais norte-americanas (SouthCom), com tarefas de controlo sobre a América Latina.

A sua presença numa reunião deste tipo tem enorme importância, não há outra interpretação possível; porque trata-se de alguém com anos de práticas desestabilizadoras e intimidatórias contra a Venezuela, incluindo planos golpistas organizados como o que esteve previsto para 2016 e foi frustrado pela Revolução Bolivariana.

"Há que continuar a manipular o cenário em que a Venezuela 'está à beira do colapso e da implosão', reforçando "a matriz mediática que liga a crise eléctrica à responsabilidade exclusiva de Maduro", incitou o almirante em ocasiões anteriores que não estão, porém, desactualizadas. A multiplicação de actos terroristas para provocar apagões que afectam a Venezuela é actual e provavelmente continua a ser testada não apenas para minar a situação interna mas também para ser uma arma em situação de agressão militar.

O terrorista Noriega

A presença de uma figura como Roger Noriega na reunião de 10 de Abril, ainda que na discreta posição de representante do American Enterprise Institute, é todo um programa de conspiração operacional.

Noriega é um intervencionista veterano dos tempos do escândalo Irão-Contras, um braço executivo de Elliot Abrams no apoio a grupos de mercenários e esquadrões da morte patrocinados pelos Estados Unidos para lançar o terror contra as revoluções na Nicarágua e em El Salvador nas duas últimas décadas do século passado.

Sendo Elliot Abrams, actualmente, o enviado especial norte-americano para a entronização de Guaidó e o derrube de Maduro, a presença de Roger Noriega numa reunião sobre o uso da força militar na Venezuela significa que a sua realização tem de ser levada muito a sério.

Os planos contra Caracas desenvolvidos sob a alçada do almirante Kurt Tidd prevêem desde sempre o recurso a mercenários e esquadrões da morte que, para o efeito, continuam a ser preparados nas bases norte-americanas de Tona e Tolemaida, na Colômbia.

Perante os acontecimentos em cascata que se têm sucedido nos últimos dias torna-se evidente que Roger Noriega reaparece agora como uma peça-chave dos planos de Pompeo, Bolton e Adams para a América Latina - e que vão além da Venezuela.

O recentíssimo reforço das sanções contra a Nicarágua e, sobretudo, contra Cuba representam o agravamento de uma filosofia colonial intervencionista no "quintal das traseiras" e que tem vindo a ser considerada como a restauração plena da velha Doutrina Monroe. À luz da qual, obviamente, quaisquer apoios a países da região por parte de potências como a China e a Rússia são "provocações", como já declarou Michael Pompeo, o secretário de Estado e ex-director da CIA.

Além de antigo e actual colaborador próximo de Elliott Abrams na definição da estratégia terrorista contra a Venezuela, existem outras poderosas razões para considerar relevante o papel de Noriega em tudo o que está a passar-se na América Latina. Ele foi exactamente um dos autores da lei anti-cubana Helms-Burton, em 1996, agora restaurada em todo o seu articulado para agravar as sanções contra Havana.

Existe uma unidade estratégica na política de Pompeo, Bolton e Adams para a América Latina. E Roger Noriega é um dos elementos fulcrais da equipa que a desenvolve e aplica. Por isso, a sua presença na reunião de 10 de Abril, juntamente com o almirante Kurt Tidd e o embaixador William Brownfield, confirma o carácter operacional desta.

Roger Noriega, o terrorista que em tempos lamentou o facto de "os Estados Unidos se terem enganado ao não dar a devida importância a Hugo Chávez", defende que a mudança de regime é a única opção a tomar em relação à Venezuela. "Quando existe um regime cruel, não há outra solução", afirma.

A restauração plena da chamada Lei Helms-Burton é mais um reforço do bloqueio contra Cuba mas afecta também numerosas empresas e importantes negócios de outras regiões e entidades, incluindo a União Europeia.

Ora a União Europeia tem-se identificado com a estratégia latino-americana do triunvirato fascista que envolve Trump. O alargamento dessa estratégia a vários países, designadamente Cuba, afecta ainda mais directamente vastos e importantes interesses da União Europeia. Interesses que realmente contam para Bruxelas, como os dos negócios privados e das propriedades e lucros das empresas.

A imprensa espanhola revelou que a alta representante para a política externa da União Europeia, Federica Mogherini, escreveu uma carta para a Casa Branca garantindo que Bruxelas fará queixa dos Estados Unidos à Organização Mundial de Comércio se a aplicação da lei de Noriega contra Cuba for até às últimas consequências. O cenário resultante desta demanda europeia, se for concretizada, poderá criar atritos muito sérios entre a União e Washington.

Resta agora saber se este rasgo de "atrevimento" de Mogherini segue os seus trâmites ou não passará de um papel perante o qual Trump irá rir-se às gargalhadas.

Os acontecimentos dos últimos dias em relação a América Latina, incluindo a reunião de guerra efectuada em 10 de Abril, colocam, afinal, um dilema à União Europeia: reage à doutrina colonial de Washington ou continua, como até aqui, a sustentar uma figura golpista e cada vez mais desacreditada como Guaidó?

Tendo em consideração os antecedentes próximos ou afastados e o que está em jogo – não apenas regionalmente – é difícil acreditar que Bruxelas chegue a desafiar Washington. Nada faz prever que tenha chegado o dia das surpresas.

19/Abril/2019

Ver também:

 

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/eua/guerra_colonial_19abr19.html

Moscou: declaração de Bolton sobre Doutrina Monroe é um insulto a toda América Latina

Ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov
© Sputnik / Grigory Sysoev

A declaração do conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, John Bolton, de que Washington não tem medo de usar as palavras "Doutrina Monroe" em relação à Venezuela é um insulto a toda América Latina, disse o chanceler russo Sergei Lavrov.

O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, lembrou que, após a criação da ONU em 1945, a lei internacional é regulada por essa organização, a mais legítima e universal.

"A teoria e prática dos 'quintais' é, de uma maneira geral, ultrajante. Suponho que os países da América Latina reagirão a essa declaração de John Bolton. Ele mencionou a Doutrina Monroe em relação à Venezuela, mas insultou toda a América Latina", declarou Lavrov após as negociações com o chanceler do Qatar, Mohammed bin Abdulrahman al-Thani.

Recentemente, Bolton declarou que os EUA buscam criar uma coalizão para mudar o governo atual na Venezuela, acrescentando que "nessa administração não temos medo de usar as palavras Doutrina Monroe".


Em 23 de fevereiro, a oposição venezuelana tentou fazer entrar na Venezuela, a partir do Brasil e da Colômbia, a chamada ajuda humanitária que inclui medicamentos e alimentos provenientes dos EUA e de outros países.

As autoridades venezuelanas rejeitaram as entregas de ajuda patrocinada pelos EUA e afirmaram que as declarações sobre a crise humanitária se destinam a justificar uma invasão da Venezuela.

A tensão política na Venezuela aumentou desde que, em janeiro de 2019, o líder da oposição Juan Guaidó se declarou presidente interino do país.

Os EUA e vários países da Europa e América Latina, inclusive o Brasil, reconheceram Guaidó como presidente interino do país. A Rússia e muitos outros países manifestaram seu apoio a Maduro como presidente legítimo do país e exigiram que os outros países respeitem o princípio de não interferência nos assuntos internos do país latino-americano.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019030413428932-eua-bolton-venezuela-doutrina-monroe-lavrov-america-latina/

ODiario.info » Milhões validam a democracia de Cuba com o seu voto no referendo constitucional

No mesmo fim-de-semana em que os EUA e os seus aliados regionais procuravam uma escalada no golpe contra a Venezuela, os eleitores cubanos participavam em massa no referendo sobre a nova Constituição do país. Uma participação de mais de 80% dos inscritos dá expressão às profundas raízes populares da Revolução Cubana.

Milhões de cubanos votaram ontem para se pronunciarem sobre a nova Constituição da República, chamada às urnas que confirmou o seu apoio ao sistema democrático da ilha. Em ambiente de festa, num dia quente e sem chuva, os eleitores mobilizaram-se nas 15 províncias do país para responder à pergunta “Ratifica a nova Constituição da República?”.
Segundo a última nota emitida este domingo pela (CEN) Comissão Nacional de Eleições, até às 17:00, hora local, tinham exercido o seu direito de voto sete milhões 524 mil 318 cidadãos com mais de 16 anos, 81,53 por cento dos inscritos.
A CEN tem prevista para esta tarde uma conferência de imprensa para informar os resultados preliminares de um referendo qualificado de histórico, pela oportunidade de ratificar uma Carta Magna construído colectivamente, que encarna a irrevogabilidade do projecto socialista e amplia as garantias e os direitos dos cubanos.
Após o encerramento de mais de 24 mil secções de voto às 18:00, os membros das mesas procederam à abertura das urnas para a contagem dos votos, um processo que na ilha caribenha é público.
Nas secções de voto desta capital e do país, a Prensa Latina e outros meios de comunicação constataram uma forte maioria de votos reflectindo o apoio à nova Constituição, mas terá que se esperar até amanhã para saber os detalhes da contagem.
Depois de exercer seu direito de voto, o presidente Miguel Díaz-Canel assegurou que a lei das leis é um texto para o presente e o futuro da nação.
«Trata-se de um documento moderno e avançado, que nos permite desbloquear processos e avançar de uma forma mais determinada. Agora vem um amplo exercício legislativo, já o estamos a organizar e procuramos que no menor tempo possível possamos aprovar e implementar as leis que apoiem a Constituição», sublinhou.
A jornada eleitoral permitiu também que Cuba reiterasse seu apoio à Venezuela e ao presidente Nicolás Maduro, num momento em que os Estados Unidos intensificam a sua cruzada pela mudança de regime e ameaçam com a intervenção militar.
O próprio Diaz-Canel condenou a ingerência nos assuntos internos do país sul-americano e a cumplicidade com Washington de alguns governantes latino-americanos.
Por seu lado, o primeiro vice-presidente, Salvador Valdés, exigiu o respeito pelo direito dos venezuelanos a resolver de forma soberana as suas situações e pediu apego ao Direito Internacional e à Carta das Nações Unidas, cujos propósitos e princípios apostam pela paz, a igualdade de todos os Estados, a solução pacífica de controvérsias e a não-utilização ou ameaça do uso da força.
Depois de aprovada na Assembleia Nacional do Poder Popular em Dezembro e após a ratificação de hoje em referendo - como tudo parece indicar – a nova Constituição de Cuba entrará em vigor, uma vez proclamada, a partir de sua publicação no Diário Oficial da República, o que foi estabelecido nas Disposições finais do texto supremo.

Fonte: http://www.prensa-latina.cu/index.php?o=rn&id=255848&SEO=millones-validan-democracia-de-cuba-con-su-voto-en-referendo-fotos-y-video

Divulga o endereço[1] deste texto e o de odiario.info[2] entre os teus amigos e conhecidos

Ver o original em ODiario.info (clique aqui)

Anatomia da intervenção imperialista

Prabhat Patnaik [*]
O que está a acontecer na Venezuela de hoje proporciona uma lição objectiva sobre a natureza da intervenção imperialista em países do terceiro mundo na era do neoliberalismo. O imperialismo ultimamente interveio de acordo com linhas semelhantes em outros países latino-americanos, nomeadamente no Brasil, mas a Venezuela, precisamente por causa da forte resistência que apresentou, mostra as técnicas do imperialismo num contraste mais agudo. Não há muito, a viragem à esquerda na América Latina – não apenas em Cuba, Bolívia e Venezuela mas também no Brasil, Argentina, Equador e vários outros países onde regimes de centro-esquerda chegaram ao poder e perseguiram políticas redistributivas em favor dos trabalhadores pobres – foram uma fonte de inspiração para forças progressistas de todo o mundo. Hoje, muitos destes regimes foram derrubados, não porque seus programas e políticas tivessem perdido apoio popular, mas através de maquinações vis nas quais os EUA desempenharam um papel importante. Foram golpes de estado de uma nova espécie, diferentes dos anteriores efectuados pelos EUA nos anos 50, 60 e 70; eles são específicos da era do neoliberalismo.


Houve dois importantes factores que contribuíram para estes derrubes. Um é o colapso dos termos de troca dascommodities primárias na esteira da crise capitalista mundial. Países latino-americanos, incluindo o Brasil, têm sido fortes exportadores de matérias-primas e o movimento desfavorável dos termos de troca deixou-os com receitas cambiais reduzidas para a compra das suas importações essenciais. No caso da Venezuela, os preços reduzidos do petróleo desempenharam este papel; além disso os preços reduzidos do óleo também reduziram as receitas do governo. A tentativa do governo de preservar os benefícios redistributivos desfrutados pelos pobres diante do declínio das receitas cambiais, ao invés de adoptar as medidas de "austeridade" que as agências imperialistas advogam, provocou um surto de inflação. Isto indubitavelmente significou adversidade para os pobres. Mas estas adversidades, deve-se notar, não foram por causa das políticas; elas foram causadas pela deterioração dos termos de troca. De facto os pobres teriam sofrido muito mais no caso de uma política de "austeridade" face a estas dificuldades do que sofreram pela não-imposição de uma tal política de "austeridade". As dificuldades económicas da Venezuela foram infinitamente pioradas por causa das sanções impostas pelos EUA, as quais impedem mesmo que mercadorias essenciais como remédios para salvar vidas sejam importadas livremente. E ultimamente os EUA mais uma vez escalaram sua guerra económica contra a Venezuela através do congelamento dos activos possuídos pelo Estado venezuelano, a companhia petrolífera nos EUA, e através do anúncio de que todas as receitas das exportações de petróleo venezuelano para os EUA não serão entregues ao regime democraticamente eleito e constitucionalmente legítimo do presidente Nicolas Maduro mas sim ao regime de Juan Guaidó, o qual, com apoio dos EUA, simplesmente proclamou-se como o presidente. Isto equivale literalmente a roubar o dinheiro da Venezuela para encenar um golpe na própria Venezuela, um fenómeno que recorda a era colonial quando os povos eram pilhados para financiar conquistas coloniais. Tais roubos e sanções, não é preciso dizer, agravam a miséria do povo da Venezuela e a culpa desta mesma miséria é então atribuída ao governo Maduro a fim de voltar o povo contra ele. O segundo elemento que tem contribuído para o recente jogo do derrube é o facto de que os EUA estão agora a se desvincular gradualmente do envolvimento directo no Médio Oriente, sem de qualquer forma abandonar seus desígnios imperiais ali. E isto permite-lhe agora centrar-se mais sobre a América Latina. As recentes tentativas de golpes dos EUA, das quais a Venezuela é um exemplo clássico, diferem dos golpes que patrocinaram nas décadas de 50, 60 e 70 em pelo menos seis modos óbvios e em conjunto constituem um novo padrão. O primeiro é que apesar de os golpes anteriores, seja no Irão ou Guatemala ou Chile, terem sido contra governos eleitos democraticamente, e terem desavergonhadamente instalado em sua substituição regimes autoritários apoiados pelos EUA, são executados em nome da democracia. No Brasil, Bolsonaro aparece como um presidente democraticamente eleito; mas não só houve um golpe "parlamentar" contra Dilma Rousseff como o líder político reconhecido como o mais popular no país, o ex-presidente Lula do Partido dos Trabalhadores, foi impedido de competir nas eleições presidenciais. Da mesma forma na Venezuela, Juan Guaidó, o pretendente apoiado pelos EUA, acontece ser o presidente da assembleia nacional e não apenas algum homem forte militar. Por outras palavras, as forças políticas que representam a velha ordem exploradora de supremacia branca estão a ser directamente mobilizadas  em massapelos EUAnesta luta contra os regimes progressistas na América Latina. Associado a isto está o fenómeno de protestos de rua em grande escala e manifestações organizadas pelas forças apoiadas pelos EUA, as quais afirmam estarem a defender a democracia muito embora sejam arregimentadas contra governos democraticamente eleitos. Os golpes contra-revolucionários, em suma, adquiriram um carácter de massa ao invés de serem meros putsches militares, como era o caso anteriormente. Em segundo lugar, estes levantamentos contra-revolucionários em massa decorrem de dificuldades económicas enfrentadas pelo povo, muito embora os governos progressistas não sejam responsáveis por estas dificuldades e apesar de a maior parte das mesmas serem criadas através de actividades deliberadas do próprio imperialismo dos EUA. Os golpes da era anterior não tinham um carácter de massa, nem seguiam a irrupção de quaisquer dificuldades económicas, nem mesmo incomodavam-se a justificar-se invocando estas dificuldades. É verdade que o governo do Dr. Cheddi Jagan, na Guiana, foi derrubado através do desencadeamento de uma greve de camionistas que foi financiada pelo imperialismo. Mas o que então era utilizado ocasionalmente, agora é a nova norma. Em terceiro lugar, as culpas pelas dificuldades económicas, embora em grande medida criadas pelo próprio imperialismo, a acrescentar-se ao funcionamento da economia capitalista mundial, são atribuídas não só a governos progressistas, mas mais explicitamente às suas políticas de esquerda. Dificuldades económicas são atribuídas à nacionalização de recursos minerais, à intervenção do Estado na economia, a posições políticas anti-capitalistas e assim por diante. A propaganda para o golpe, em suma, incorpora um ataque ideológico a qualquer interferência no funcionamento da ordem neoliberal. Este ataque ideológico é necessariamente difuso. Ele invoca conceitos como "corrupção" e "incompetência": mas estes são supostamente considerados como sinónimos da interferência do Estado na ordem neoliberal. Em quarto lugar, da mesma maneira, o golpe explicitamente argumenta em favor de uma agenda que envolve a restauração da ordem neoliberal pró corporações. Um plano para a "Transição democrática" avançado na Venezuela, por exemplo, esboça que o golpe incluirá:   (i) A reactivação do aparelho produtivo (pelo acesso a fundos do FMI);   (ii) A remoção de todos os controles, regulamentos e "obstáculos burocráticos e medidas punitivas";   (iii) o investimento internacional dentro de um quadro regulamentar que crie confiança e protecção efectiva da propriedade privada;   (iv) Abertura ao investimento privado em empresas públicas;   (v) Aprovação de uma nova Lei dos Hidrocarbonetos que permitira ao capital privado manter maiorias accionistas em projectos petrolíferos;   (vi) O sector privado será responsável pela operação de empresas concessionárias de serviços públicos;   (vii) Eficiência a fim de reduzir a dimensão do Estado. Isto é uma agenda desavergonhadamente neoliberal; mas ela constitui o programa do golpe. Uma tal mensagem clara de que o governo democraticamente eleito deveria ser derrubado a fim de pressionar por uma agenda corporativa nunca fora tão explícito anteriormente. Em quinto lugar, os golpes actuais são efectuados com base no apoio de todas as potências imperialistas, muito embora eles possam ser efectuados pelos EUA. Portanto a União Europeia foi solicitada por Trump a que reconhecesse o pretenso governo de Juan Guaidó como governo legítimo da Venezuela – e ela o fez. É um sinal dos tempos, tanto pelo facto de que os próprios EUA não têm a mesma força que tinham antes como pelo facto de que vivemos num mundo onde rivalidades inter-imperialistas são postas em surdina, que a cooperação dos outros é requerida pelos EUA mesmo quando empreende uma acção imperialista. E finalmente o caso da Venezuela mostra o importante papel que os media estão agora desempenhar para amolecer os povos e levá-los a aceitar que uma acção imperialista contra um governo do terceiro mundo constitui uma defesa da democracia. Jornais como The New York Times têm estado a impulsionar esta linha. Em suma, temos agora uma nova ordem mundial, em que igualar interesses corporativos com democracia está a tornar-se um princípio aceite. O povo venezuelano até agora tem permanecido firme contra o golpe patrocinado pelos EUA; mas por causa disto os EUA estão agora a ameaçá-lo com intervenção armada. Se a intervenção armada acontecer, então será a primeira acção assim em anos recentes contra um país soberano, não com o argumento, não importa quão frágil, de que apresenta uma ameaça à segurança dos EUA ou de que de alguma forma prejudicou interesses dos EUA, mas simplesmente com o argumento de que ousou afastar-se de um regime de neoliberalismo. 

24/Fevereiro/2019

[*] Economista, indiano, ver Wikipedia  O original encontra-se em peoplesdemocracy.in/2019/0224_pd/anatomy-imperialist-intervention . Tradução de JF.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/

A LUTA GANHA-SE NAS RUAS

 

Graphic 25 02 2019 20 41 30

Dos “coletes amarelos” que ainda não sei bem o que é, às lutas que diariamente e de múltiplas formas se travam em todos os setores nacionais; lembrando ainda o que nos querem fazer esquecer a América do Sul, verdadeiro vulcão social, onde os povos vão tomando cada vez mais consciência do seu papel na história.
A media nacional e internacional não nos fala da Argentina e das enormes movimentações de massas contestando o Macri de extrema-direita que os empobrece.
Nem da miséria na Colômbia cujos militares se recusam a entrar em confronto aberto com a Venezuela com receio da contestação interna, contestação que acelerou com o rompimento das relações diplomáticas e o encerramento da fronteira anunciada por Nicolás Maduro. Uma fronteira marítima e outra terrestre de mais de 2.200 quilómetros.
«Na Venezuela vivem cerca de cinco milhões de colombianos e vastos setores da população fronteiriça abastece-se de produtos (alimentos, gasolina entre outros) no país vizinho [Venezuela] numa fronteira que até esta sexta-feira, era muito ativa e de trânsito livre pelas duas pontes, vias fluviais e os chamados “caminhos verdes”.
E a miséria nas Honduras, Guatemala e outros mais países, descolada da sua realidade como tragédia quotidiana, para se apresentar como conflito na entrada ou não nos EUA destes retirantes que fogem da fome.
AS REDES SOCIAIS QUE NOS ENGANAM MINUTO A MINUTO, MOSTRAM TAMBÉM E EM DIRETO AS SUAS PRÓPRIAS MANHAS. SOCIAL E POLITICAMENTE, NADA É LINEAR.

Ver o original em As palavras são armas (clique aqui)

Os Estados Unidos preparam uma guerra entre Latino-americanos

Thierry Meyssan*
Pouco a pouco os partidários da doutrina Cebrowski avançam os seus piões. Se tiverem que cessar de fabricar guerras no Médio-Oriente Alargado, irão fazê-lo na Bacia das Caraíbas. Antes de mais, o Pentágono planifica o assassínio de um chefe de Estado eleito, a ruína do seu país e sabota a unidade da América Latina.
John Bolton, o novo ConselheiroNacional de Segurança dos Estados Unidos, relançou o projecto de destruição das estruturas estatais da Bacia das Caraíbas.
Recorde-se que, na onda dos atentados do 11-de-Setembro, o Secretário da Defesa da época, Donald Rumsfeld tinha criado um Gabinete de Transformação de Força (Office of Force Transformation) e designado o Almirante Arthur Cebrowski para o dirigir. A sua missão era a de preparar o Exército norte-americano para a sua nova missão da era da globalização financeira. Tratava-se de mudar a cultura militar a fim de destruir as estruturas estatais das regiões não-conectadas à economia globalizada. O primeiro componente deste plano consistiu em desarticular o «Médio-Oriente Alargado». A segunda etapa deveria ser fazer o mesmo na «Bacia das Caraíbas».O plano previa destruir uma vintena de Estados costeiros e insulares, à excepção da Colômbia, do México e o mesmo quanto a territórios britânicos, norte-americanos, franceses e neerlandeses.
Logo após a sua ascensão à Casa Branca, o Presidente Donald Trump opôs-se ao plano Cebrowski. No entanto dois anos mais tarde, apenas conseguiu interditar ao Pentágono e à OTAN de entregar um Estado aos grupos terroristas que eles empregam (o «Califado»), mas não em desistir de manipular o terrorismo. Em relação ao Médio-Oriente Alargado, conseguiu fazer diminuir a tensão, mas as guerras continuam com menor intensidade. Em relação à Bacia das Caraíbas, ele travou o Pentágono, interditando-o de desencadear operações militares directas.
Em Maio último, Stella Calloni revelava uma nota do Almirante Kurt Tidd, Comandante-em-chefe do SouthCom, expondo os meios postos em marcha contra a Venezuela [1]. Uma segunda incursão é conduzida em simultâneo na Nicarágua e uma terceira, desde há um século e meio, contra Cuba.
Em diversas análises precedentes havíamos concluído que a desestabilização da Venezuela, iniciada pelo movimento das guarimbas, prosseguida pela tentativa de golpe de Estado, de 12 de Fevereiro de 2015 (operação Jericó) [2], depois pelos ataques contra a moeda nacional e a organização da emigração, desaguaria em operações militares [3] conduzidas a partir do Brasil, da Colômbia e da Guiana. Manobras multinacionais de transporte de tropas foram organizadas pelos Estados Unidos e seus aliados, em Agosto de 2017 [4]. A subida ao Poder em Brasília, a 1 de Janeiro de 2019, do Presidente pró-israelita Jair Bolsonaro tornará isso possível.
De facto, o próximo Vice-presidente brasileiro será o General Hamilton Mourão, cujo pai desempenhou um papel notável no golpe militar pró-EUA de 1964. Ele próprio se salientou por suas declarações contra os Presidentes Lula e Rousseff. Em 2017, ele declarara —em nome do Grande Oriente do Brasil— que chegara o momento de um novo golpe militar. No fim, acabou eleito com o Presidente Bolsonaro. Numa entrevista à revista Piauí, anunciou um próximo derrube do Presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e a instalação de uma força de «paz» brasileira (sic). Perante a gravidade destas afirmações, que constituem uma violação da Carta das Nações Unidas, o Presidente eleito, Bolsonaro, assegurou que ninguém queria fazer guerra a ninguém e que o seu Vice-presidente falava demais.
Seja como for, o Presidente Maduro, numa conferência de imprensa, em 12 Dezembro de 2018, revelou que o Conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, John Bolton, assegurava a coordenação entre a equipa do Presidente colombiano, Iván Duque, e a do Vice-presidente brasileiro. Um grupo de 734 mercenários está actualmente a ser treinado em Tona, na Colômbia, para realizar um ataque de falsa bandeira contra a Colômbia e justificar assim uma guerra da Colômbia contra a Venezuela. Ele seria comandado pelo antigo Coronel Oswaldo Valentín García Palomo, hoje em dia em fuga após a tentativa de assassinato com drone do Presidente Maduro, no aniversário da Guarda Nacional, a 4 de Agosto último. Estes mercenários são apoiados por Forças Especiais estacionadas nas bases militares dos EUA em Tolemaida (Colômbia) e Eglin (Florida). O plano norte-americano prevê a captura, desde o início do conflito, de três bases militares venezuelanas, Libertador de Palo Negro, Puerto Cabello e Barcelona.
O Conselho de Segurança Nacional dos EUA tenta convencer vários Estados a não reconhecer o segundo mandato de Nicolás Maduro (reeleito em Maio último, mas que deverá iniciar o mandato com o Ano Novo). Foi por isso que os Estados do Grupo Lima contestaram o escrutínio presidencial antes mesmo da sua realização, e interditaram, ilegalmente, a sua organização nos consulados da Venezuela. Da mesma forma, a crise migratória acaba por não passar de mais uma manipulação: são hoje inúmeros os Venezuelanos que fugiram da crise monetária, acreditando encontrar facilmente trabalho num outro Estado latino-americano, a tentar voltar para casa. Mas, o Grupo Lima impede-os, proibindo os aviões venezuelanos que tentam ir repatriá-los de sobrevoar o seu espaço aéreo e aos autocarros (ônibus-br) vindos para os buscar de cruzar as fronteiras.
Tudo se passa, pois, como se estivéssemos assistindo a um remake (repetição-ndT) dos acontecimentos que ensanguentam o Médio-Oriente Alargado desde os atentados do 11 de Setembro de 2001. O essencial não reside nas acções militares, mas na representação de desordem conferida pelos acontecimentos. Trata-se, primeiro, de fazer levar gato por lebre [5].Em cinco anos, a Venezuela e a Nicarágua que tinham uma imagem positiva no exterior são hoje consideradas, erradamente, como «Estados falidos». Se ainda não se reescreveu a história dos Sandinistas e da sua luta face à ditadura dos Somoza, dá-se como adquirido que Hugo Chávez Frías era um «ditador comunista» (sic), quando o seu país deu um incrível salto em frente, político e económico, sob a sua presidência. Em breve, irá ser possível destruir estes Estados sem que ninguém se incomode em reclamar.
O tempo esgota-se cada vez mais rapidamente. Assim, quando em 1823 o Presidente James Monroe decidiu fechar as Américas ao controlo europeu, ele não sabia que a sua doutrina evoluiria, 50 anos mais tarde, para uma afirmação do imperialismo dos EUA. Tal como hoje, quando o Presidente Donald Trump afirmava no dia da sua investidura que o tempo de mudanças de regime acabara, ele não pensava que seria traído pelos seus. Ora, a 1 de Novembro de 2018, o seu Conselheiro de Segurança, John Bolton, declarava em Miami que Cuba, a Nicarágua e a Venezuela formam a «troika da tirania». Depois o seu Secretário da Defesa, o General James Mattis, afirmava, a 1 de Dezembro, diante do Reagan National Defense Forum que o eleito Presidente Maduro é um «déspota irresponsável», que «deve partir» [6].
Thierry Meyssan* | Voltaire.net.org | Tradução Alva
*Intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: Sous nos yeux. Du 11-Septembre à Donald Trump. Outra obras : L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación(Monte Ávila Editores, 2008).
Na imagem: Falando perante a comunidade anti-castrista, no Miami Dade College, John Bolton denunciou «Esta troika da tirania, que se estende de Havana a Caracas passando por Manágua, [a qual] é a causa de imenso sofrimento humano, o impulso para uma enorme instabilidade regional, e a génese de um sórdido berço do comunismo no hemisfério ocidental».

Notas
[1] « Plan to overthrow the Venezuelan Dictatorship – “Masterstroke” », Admiral Kurt W. Tidd, Voltaire Network, 23 février 2018. “O “Golpe de Mestre” dos Estados Unidos contra a Venezuela (Documento do Comando Sul)”, Stella Calloni, Tradução Alva, Rede Voltaire, 13 de Maio de 2018.
[2] “Obama falha o seu golpe de Estado na Venezuela”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 23 de Fevereiro de 2015.
[3] “General Jacinto Perez Arcay considera «inexorável» a invasão da Venezuela”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 12 de Junho de 2016.
[4] “Grandes manobras ao redor da Venezuela”, Manlio Dinucci, Tradução Maria Luísa de Vasconcellos, Il Manifesto (Itália) , Rede Voltaire, 23 de Agosto de 2017.
[5] “Venezuela, a intervenção ilegal”, Julio Yao Villalaz, Tradução Alva, Rede Voltaire, 5 de Março de 2018.
[6] “Mattis condemns Venezuela’s Maduro as a ’despot’ who has to go” («Mattis condena Maduro da Venezuela como um “déspota” que tem que partir»), Reuters, Phil Stewart, December 1, 2018.
** Artigo datado de 18 dezembro de 2018

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/02/os-estados-unidos-preparam-uma-guerra.html

Ajuda humanitária para Haiti

Há uma semana que o heróico povo haitiano luta contra o governo imposto pelos Estados-Unidos. image

Segundo a Reuters, o Departamento de Estado norte-americano está ao corrente de que a polícia do Haiti deteve “um grupo que incluem cidadãos dos EUA” com “historial militar.” Os sete detidos deslocavam-se em Porto Príncipe no passado dia 17 em dois veículos sem matrícula e transportavam armas brancas e de fogo, munições, equipamentos de comunicação por satélite, drones e outros acessórios.
AJUDA HUMANITÁRIA DOS EUA PARA UM DOS MAIS POBRES E SACRIFICADOS PAÍSES DO MUNDO

Ver o original em As palavras são armas (clique aqui)

“Para combater o caos criado pelo imperialismo, liderança honesta e instituições fortes devem ser acompanhadas por uma mobilização popular intensa e bem organizada”

Uma importante entrevista em que é feito o ponto da situação da ofensiva imperialista em diversas zonas do mundo – com particular destaque para a América Latina -, da resistência dos povos, da generalizada ausência de influentes forças políticas revolucionárias que assumam a vanguarda da luta de massas anti-imperialista e anticapitalista.


 

Mohsen Abdelmoumen: Como explica o recuo da esquerda e a ascensão da extrema-direita na América Latina, como vimos no Brasil com a eleição do fascista e torcionário Jair Bolsonaro e com Mauricio Macri na Argentina?

Prof. Atilio Borón: Há muitas razões, que só posso resumir aqui. Primeiro, foi impressionante a intensidade da contraofensiva dos EUA para derrotar os governos progressistas. Macri foi um presente inesperado, mais devido aos erros do kirchnerismo do que a qualquer outra coisa. Mas a vitória foi muito importante para os Estados Unidos. Bolsonaro é o produto da desmobilização do PT levada a cabo por Lula desde o início, da completa corrupção do sistema judicial que colocou Lula na prisão e permitiu que Bolsonaro não estivesse presente nos debates presidenciais, o apoio constante dos media hegemónicos e, claro, os graves erros dos governos Lula/Dilma, que acreditavam que a política social e o retirar de milhões de pessoas da pobreza extrema seriam suficientes para mudar a consciência popular e transformá-los em defensores de políticas progressistas. Como na Argentina, era uma política de redistribuição de renda sem educação de massas ou socialização. Além disso, o problema da violência dos gangues nas favelas era crucial no Brasil, e não foi bem combatido pelos governos do PT, dando a impressão de que a única política que eles tinham para lidar com este problema sério era um programa de educação cívica de longo prazo que, naturalmente, não conseguiu impedir o avanço vertiginoso do crime em bairros da lata e favelas. Propaganda subtil e metadados, mais a Cambridge Analytica e a habilidade de Steve Bannon fizeram o resto. O Brasil provou, como antes os EUA, que “notícias falsas” são geralmente consideradas informações confiáveis. Assim, as mentiras e a difamação da campanha de Bolsonaro foram extremamente eficazes.

No seu muito relevante livro ” Twenty-First Century Socialism : Is There Life After Neo-Liberalism?”, demonstra que a América Latina não tem qualquer perspectiva com o capitalismo, e desmente as teses neoliberais que afirmam que o capitalismo é o remédio para todos os males. Não pensa que o sistema capitalista simplesmente fracassou, seja no centro capitalista como se vê com o movimento dos Coletes Amarelos em França, mas também na periferia? Não acha que o sistema capitalista não oferece perspectiva em nenhum lugar?

O capitalismo foi um enorme fracasso. Muitas conquistas tecnológicas e subidas muito modestas no padrão de vida das maiorias sociais combinaram-se com uma concentração irresistível da riqueza e dos rendimentos, tanto no centro como na periferia. O livro de Thomas Piketty e milhares de artigos e livros provaram isso, e a tendência não pode ser revertida. Hoje, o 1% mais rico da população mundial apropriou-se de mais riqueza do que os 99% restantes. Esta situação não tem precedentes na história do mundo! E é política, social e economicamente insustentável. Além disso, recentes desenvolvimentos capitalistas prejudicaram a Mãe Natureza como nunca antes. Assim, a “segunda contradição” do capitalismo, como postulado por Jim O’Connor, tornou-se fatal nos dias de hoje. Basta analisar com suficiente atenção as catástrofes ambientais da mudança climática para entender a magnitude desse problema e a total incapacidade das sociedades capitalistas para lidarem com ele.

Na sua opinião, não traz consigo o capitalismo a sua própria ruína?

Sim, foi a principal tese de Marx nos seus escritos, mas também foi estabelecida, embora metafisicamente, pelas penetrantes reflexões de Hegel sobre a dialética dos mercados e da sociedade civil no capitalismo. Mas, como Lénine ensinou, o sistema capitalista não entrará em colapso a menos que as forças sociais e políticas o derrubem. Bernstein estava errado a este respeito e Marx e quase todos os seus seguidores estavam certos em apontar a necessidade de uma força revolucionária, seja um partido, um movimento ou qualquer outra organização popular. Por si mesmo, o capitalismo perdurará apesar das suas contradições e, nesse processo, a barbárie tornar-se-á o seu sinal distintivo.

Na sua opinião, o movimento dos Coletes Amarelos que surgiu na França e que está a espalhar-se na Europa não será um movimento revolucionário e fundamentalmente anticapitalista?

É uma revolta popular, anti-neoliberal, mas não inteiramente anticapitalista. Além disso, é uma colecção extremamente heterogénea de actores sociais e não tenho a certeza de que no final todos estariam prontos a atacar a cidadela ou o poder capitalista. Não ficaria surpreso se uma parte significativa deles concluísse o seu activismo juntando-se às forças da direita. O “poujadismo” foi uma experiência muito importante na França do pós segunda guerra mundial.

Não acha que há necessidade de refundar a esquerda na América Latina e no mundo? A classe trabalhadora não terá a necessidade imperiosa de uma estrutura revolucionária que corresponda às exigências do momento?

Sim, é absolutamente necessário. Mas somos confrontados com um problema crítico: a divisão das condições objectivas da revolução, já suficientemente maduras, e o atraso na constituição de uma consciência revolucionária, o atraso no amadurecimento das condições subjetivas. Apesar do passado, a perspectiva revolucionária é completamente invisível para as massas, na América Latina e no resto do mundo. A formidável eficácia dos aparelhos ideológicos do Estado capitalista apagou completamente a revolução da paisagem. Portanto, a enorme importância da batalha ideológica é de convencer as massas de que a revolução não é apenas possível, mas necessária. Em segundo lugar, uma vez que a primeira tenha sido alcançada, deveríamos encontrar a forma política apropriada para canalizar o renovado impulso revolucionário das massas. Os partidos leninistas ou gramscianos tradicionais são a resposta certa para um novo proletariado mundial, imenso e muito heterogéneo, fragmentado em milhares de pequenos pedaços, como um espelho quebrado? Eu duvido disso. O dito de Mariátegui de que “a revolução não pode ser nem uma “cópia verdadeira” (calco,”traço”), nem uma réplica mas uma criação heroica das massas” é mais válida do que nunca.

O ex-assessor de Trump, Steve Bannon, está em vias de federar toda a extrema-direita na Europa. Sabendo que na América Latina, os EUA apoiaram fascistas como Bolsonaro e Macri, não pensa que existe um plano liderado pelo governo dos EUA para unir toda a extrema-direita no mundo?

Sim, de facto. E isso foi explicitamente declarado por Bannon e muitas outras pessoas. É uma aspiração de longa data do governo dos Estados Unidos desde o fim da Segunda Guerra Mundial, e a rápida mudança no clima político (numa direcção reacionária, começando na Europa por causa dos refugiados e a crescente presença de população muçulmana) forneceu a Trump uma oportunidade de ouro. No entanto, o resultado está longe de ser o que eles esperam e numerosos factores intervêm na evolução da situação política. Os resultados podem ser muito decepcionantes para o governo dos EUA.

Segundo a sua opinião, em alguns países susceptíveis de sofrer intervenções imperialistas visando as riquezas do seu subsolo e por interesse geopolítico, como por exemplo a Argélia, não haverá necessidade de ter dirigentes legítimos e honestos e instituições fortes para evitar o caos? Ibn Khaldun profetizou que os tiranos atrairão os invasores; os verdadeiros aliados do imperialismo não serão os dirigentes corruptos e ilegítimos?

Para combater o caos criado pelo imperialismo, uma liderança honesta e instituições fortes devem ser acompanhadas por uma mobilização popular intensa e bem organizada. Há muitas histórias na América Latina em que governos honestos foram expulsos por golpes de estado promovidos pelo governo dos EUA e seus aliados oligárquicos no terreno. Tomemos o caso de Salvador Allende no Chile em 1973 ou de Arturo U. Illía na Argentina em 1966, dois exemplos eloquentes do que digo. Em contrapartida, a sabotagem, a corrupção e o despotismo foram as marcas de todos os regimes estabelecidos após a intervenção imperialista na América Latina ou no Caribe. Casos como Alfred Stroessner no Paraguai, François Duvalier no Haiti, Rafael L. Trujillo na República Dominicana e Anastasio Somoza na Nicarágua, para não mencionar ditaduras mais recentes na Argentina, Brasil e Chile, mostram conclusivamente que os Estados Unidos e os interesses burgueses locais não acreditam em procedimentos democráticos. A retórica da direita é absolutamente falaciosa. Se, para fazer prevalecer os seus interesses, eles necessitam de matar, encarcerar ou torturar, eles farão tudo isso. Tomemos o caso de Sukarno na Indonésia e o assassínio em massa de meio milhão de pessoas para limpar o país de “comunistas”; ou os milhares de “desaparecidos” na Argentina, ou magnicídios perpetrados contra personalidades destacadas da esquerda na América Latina como João Goulart, Pablo Neruda, Orlando Letelier (em Dupont Circle, Washington DC !!!), Omar Torrijos do Panamá e Jaime Roldós do Equador, entre as personalidades mais conhecidas. O imperialismo e os governos honestos não vão bem juntos. A luta pela autodeterminação nacional, para uma democracia dinâmica e uma governança honesta está condenada ao fracasso sem uma forte resistência contra o imperialismo, verdadeiro factótum dos regimes mais atrozes que já conheci na nossa região.

Sobreviverão as conquistas da revolução sandinista na Nicarágua aos contínuos ataques do imperialismo dos EUA?

Penso que sim, mas à custa de um endurecimento do regime político. Uma cidadela sitiada nunca oferece um terreno fértil para a tolerância, o pluralismo, liberdades desenfreadas. Mas os planos do império são exactamente de fazer os sandinistas regredir numa involução não democrática levando a uma “crise humanitária” que poderia servir de prelúdio a uma “solução Líbia”, invasão, caos social e econômico, desordem e linchamento de Ortega e dos seus próximos.

Não há risco de intervenção americana na Venezuela?

Existem planos. O Comando Sul disse-o há alguns anos. O problema com que estão confrontados é que as forças militares bolivarianas são fortes, bem equipadas e prontas para lutar. O Exército brasileiro hesita em participar numa invasão e os seus homólogos colombianos temem que a distração das suas forças na Venezuela crie as condições para um crescimento rápido da guerrilha no seu país. Então, eu não excluiria a possibilidade de uma intervenção militar cirúrgica dos Estados Unidos na Venezuela, mas até ao momento tudo não passou de conversas e nenhuma ação. Além disso, de forma não militar, é persistente a intervenção norte-americana na Venezuela desde a ascensão de Chávez em 1999. Sanções económicas, sabotagem, tentativas de golpe, pressão diplomática, bloqueio comercial etc. têm sido comuns e persistentes ao longo de toda a experiência bolivariana.

Como analisa a transição política em Cuba? Como explica o contínuo encarniçamento do governo dos EUA contra Cuba desde que o embargo foi introduzido em 1962?

É uma longa história. Já em 1783, John Adams solicitou a incorporação de Cuba sob a jurisdição dos Estados Unidos. Cuba tem um enorme valor geopolítico enquanto principal porta de entrada para o Caribe, considerado pelos militares e estrategas dos EUA como uma espécie de “mare nostrum”, e eles não aceitam o facto de Cuba agir como como nação soberana, com autodeterminação e não queira receber humildemente as ordens da Casa Branca. O bloqueio fracassou porque o regime revolucionário não caiu, mas os sofrimentos infligidos ao povo cubano são enormes e criminosos, tal como os obstáculos que o bloqueio causou ao desenvolvimento económico de Cuba. No entanto, a Revolução continua capaz de oferecer melhores políticas sociais em matéria de saúde, educação e segurança social do que a maioria dos países do mundo e, para Washington, é um “mau exemplo” intolerável que deve ser erradicado a todo o custo. Até agora, não foram capazes de o fazer e não penso o farão num futuro próximo.

Vê-se, por exemplo, o martírio do povo palestino pela entidade criminosa de Israel, ou o massacre do povo do Iémen pela Arábia Saudita, aliada dos Estados Unidos. Não será necessário ter uma frente mundial anti-imperialista seja na América, África, Europa ou Ásia, onde os povos compartilham a mesma luta: resistir ao imperialismo que devasta os países e o capitalismo que explora e sangra os povos?

Absolutamente. Chávez queria criar essa frente anti-imperialista, mas a sua solicitação não foi bem acolhida porque muitos interpretaram mal a sua proposta como sendo um renascimento ou a Terceira Internacional sob Stalin. Foi estúpido, mas infelizmente numerosas organizações populares seguiram essa linha. Samir Amin, François Houtart e eu próprio propusemos a criação de uma tal frente internacional no Conselho Internacional do Fórum Social Mundial de Porto Alegre e fomos derrotados, em grande parte devido à oposição de ONG’s poderosas que rejeitaram essa ideia. Não apenas isso: essas ONG’s foram também instrumentais na disseminação de um forte sentimento “antipolítico” que desprezava os partidos políticos, os dirigentes políticos e as agendas políticas. A tal ponto que foi muito difícil convidar Lula e Chávez para as reuniões sucessivas do Fórum. Hoje, isso mudou, embora eu não tenha certezas quanto à profundidade e coerência desse desenvolvimento promissor.

Fonte: https://www.legrandsoir.info/pour-contrer-le-chaos-cree-par-l-imperialisme-un-leadership-honnete-et-des-institutions-fortes-doivent-s-accompagner-d-une.html[1]

Divulga o endereço[2] deste texto e o de odiario.info[3] entre os teus amigos e conhecidos

Leia original aqui

México e Uruguai vão realizar conferência para discutir situação da Venezuela

Militantes da oposição durante manifestação contra o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, em Caracas, Venezuela
© REUTERS / Carlos Garcia Rawlins

Os governos do México e do Uruguai estão convocando uma conferência internacional para discutir a situação da Venezuela para o dia 7 de fevereiro em Montevidéu.

A informação foi dada pela chancelaria uruguaia que comunicou que mais de 10 países devem participar.


Os dois governos, "em virtude da posição neutra que ambos adotaram frente a Venezuela, decidiram organizar uma conferência internacional com representantes dos principais países e organizações internacionais que compartilharam esta posição diante desta situação", diz o texto.

No comunicado, os governos do Uruguai e do México alertam que o objetivo da conferência "é lançar as bases para estabelecer um novo mecanismo de diálogo que, com a inclusão de todos os Forças venezuelanas, ajudam a restaurar a estabilidade e a paz naquele país ", respondendo ao apelo do Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres.

México e Uruguai não reconheceram o líder da oposição e líder do parlamento, Juan Guaidó, que se proclamou presidente da Venezuela no dia 23 de janeiro, e decidiu continuar reconhecendo Nicolás Maduro como presidente do país.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019013013217794-mexico-uruguai-realizar-conferencia-discutir-situacao-venezuela/

O eurocentrismo de Duarte Pacheco

ng2819496Não, este não é só um texto sobre a Venezuela. Esta é uma reflexão sobre declarações proferidas por Duarte Pacheco, deputado do PSD, no Esquerda-Direita da SIC Notícias, sobre a legitimidade da ONU e da UE. Duarte Pacheco não é só mais um deputado, é também secretário da Mesa da Assembleia da República. A desvalorização do papel da ONU é um padrão que tem vindo a ganhar adeptos entre os representantes dos Estados mais reacionários e unilateralistas, como Trump nos EUA e Bolsonaro no Brasil.

Pacheco puxa dos galões e compara a ditadura fascista que vigorou em Portugal, durante 48 anos, com o momento que se vive na Venezuela. Ora, em Portugal, em 48 anos, houve sete eleições, todas viciadas, todas sem qualquer acompanhamento internacional. Em todas ganhou o fascismo. Na Venezuela, desde que Chavez subiu ao poder, por via eleitoral, em 1999, houve mais de 20 atos eleitorais e referendários; nuns ganhou o chavismo, noutros não, como foi o caso do referendo constitucional de 2007, que Chavez perdeu. Seguidamente, num outro referendo sobre a continuidade de Chavez como presidente, este ganhou. Desta vez, Jimmy Carter, ex-presidente dos EUA, e António Guterres, atual presidente da AG da ONU, foram observadores internacionais e atestaram a validade do ato. Nas eleições para a Assembleia Nacional, Maduro perdeu e foi criada uma Assembleia Constitucional, que era, de resto, uma exigência da oposição. Recorde-se que foi na Venezuela, país governado de forma ditatorial, segundo Duarte Pacheco, que a oposição pôde realizar o seu próprio referendo, sem qualquer acompanhamento internacional, e, no fim, queimar os votos, afirmando que 98% dos votantes decidiu pela destituição de Maduro. Aqui ao lado, em Espanha, há presos políticos por terem feito o mesmo na Catalunha. Um referendo. Negar tudo isto é, na melhor das hipóteses, ignorância. Na pior, manipulação descarada da opinião pública e alinhamento com a opinião publicada.


Pinochet vs Maduro

“Pinochet não pôs a economia tão mal como Maduro”. Esta é, talvez, uma afirmação tão nojenta como sem sentido. A economia chilena de Pinochet não piorou, porque foram precisamente os setores económicos oligarcas, com o imprescindível apoio dos EUA no assassinato de Allende. Achar que os setores económicos que promoveram o golpe sangrento que resultaria na ditadura sanguinária de Pinochet seriam os mesmos a sofrer as suas consequências, não pode ser só ignorância. É má-fé e reveladora de falta de caráter. Fazer de conta que as sanções económicas impostas pelos EUA e UE, à revelia da ONU, não têm qualquer preponderância na situação catastrófica da Venezuela, é desonesto. Não há outro nome.

 

ONU vs UE

Duarte Pacheco, mestre em Estudos Europeus, tem obrigação de saber qual é o papel da ONU, para o bem e para o mal. Estudou, com certeza, Tomas Hobbes e a sua teoria do conflito permanente, com a ausência de um Leviatão – uma entidade suprema que regulasse a relação entre Estados. A ONU, ainda que o seu órgão máximo, a Assembleia Geral, possa apenas aprovar ou rejeitar resoluções, sem caráter deliberativo, foi a forma encontrada para equilibrar as relações entre os Estados. Obviamente, com o papel central no seu Conselho de Segurança, há uma situação de desigualdade entre todos os seus membros, uma vez que nada garante – e acontece amiúde – que os países do Conselho de Segurança deliberem em função dos seus interesses estratégicos e políticos e não em favor dos interesses da maioria da sociedade internacional. Quando Duarte Pacheco afirma que “conhecemos a forma como funcionam muitas das democracias da ONU”, para justificar que a legitimação de Guaidó não tenha passado naquela organização, está, de forma lamentável, a questionar a legitimidade da ONU, como o fazem Trump e Bolsonaro no que respeita, por exemplo, à mudança das suas embaixadas para Jerusalém. No entanto, não surpreende. Duarte Pacheco era deputado do PSD quando Durão Barroso, à revelia da ONU, albergou uma das maiores farsas da História recente, que provocou milhões de mortos, com a cimeira das Lages e as provas, que nunca existiram, da existência de armas de destruição massiva no Iraque.

 

O eurocentrismo neocolonialista

Em França, há semanas que decorrem confrontos com os Coletes Amarelos. Resultaram, até ao momento, pelo menos, em 11 mortos, mais de 3.000 feridos, e centenas de detidos. Em Espanha, continuam detidos militantes independentistas catalães e bascos, para além de artistas condenados ao abrigo da célebre Lei Mordaça. No entanto, nestes casos, parece não haver nada de anormal. Duarte Pacheco não acha que haja comparação entre a situação em França e a situação na Venezuela. Os mortos franceses são menos mortos que os venezuelanos, os feridos franceses são menos feridos do que os feridos venezuelanos e os detidos são menos detidos. Porquê? Por nada. Apenas e só porque o renascido eurocentrismo neocolonialista assim o dita. Porque o eixo EUA-UE considera apenas uma forma de organização social e de Estado e é a democracia liberal. Tudo o que vá além disso, deixa de ser legítimo, ainda que haja razões históricas, culturais e sociais para que assim seja. Um mundo uniformizado sob a égide dos cidadãos europeus, tão melhores e tão mais avançados do que os indígenas do resto do Mundo. É por isso que Duarte Pacheco coloca a ONU num patamar abaixo da UE, onde pode haver mortos e feridos por protestos antigovernamentais, que continua a ser uma democracia. Não há outro motivo, embora a História nos ensine o que sucedeu após o descrédito da Sociedade das Nações. A ideologia dominante reconhece apenas o seu modo de organização. Para lá disto, é o vazio. É, no fundo, o neocolonialismo. Levar o nosso modo de vida a todo o Mundo, subdesenvolvido, de incapazes de se governarem sem a bênção dos seus colonizadores. É, no fundo, uma vergonha. O mapa abaixo, publicado pela AFP, demonstra este caminho que se está a trilhar. Para a agência de notícias francesa, o mundo é apenas América do Norte e Europa, dando espaço à China, mau era, atendendo à sua dimensão diplomática e política na cena internacional. No entanto, África não é considerada, nem a maior democracia do Mundo, a Índia, que não reconhece Guaidó como presidente da Venezuela. No fundo, todos sabemos que nada disto tem a ver com petróleo.

50710739 10161250793895459 8765757809930272768 n

Ver original em 'Manifesto 74' na seguinte ligação:

http://manifesto74.blogspot.com/2019/01/o-eurocentrismo-de-duarte-pacheco.html

Evo Morales sobre ameaças dos EUA à Venezuela: querem devastá-la como fizeram com Iraque

Presidente da Bolívia, Evo Morales (foto do arquivo)
© REUTERS / Mike Segar

O presidente boliviano, Evo Morales, escreveu que as ameaças dos EUA à Venezuela minam a convivência pacífica dos países latino-americanos.

De acordo com Evo Morales, os Estados Unidos pretendem empobrecer e devastar a Venezuela assim com fizeram com o Iraque e a Líbia.

As ameaças dos EUA contra a Venezuela são ameaças à convivência pacífica na América Latina. Querem provocar o enfraquecimento entre irmãos com guerra e violência. O império [norte-americano] quer que Venezuela fique devastada e empobrecida como ficaram o Iraque e a Líbia

Em outro tweet, o presidente da Bolívia reforçou seu apoio a Maduro e seu desejo de que a América Latina não seja tomada por intervenções.

​América Latina é uma região de paz, defendemos novamente a construção de uma identidade sul-americana em matéria de defesa e rechaçamos qualquer tentativa de intervenção. Devemos promover a resolução pacífica de conflitos e uma cultura de paz no continente e no mundo

Desde 21 de janeiro, Venezuela está alagada em protestos antigovernamentais. O líder da oposição, Juan Guaidó, em 23 de janeiro se declarou presidente interino do país.

Os EUA e outros países, inclusive o Brasil, declararam reconhecer Guaidó como presidente interino. A Rússia apoia Nicolás Maduro como legítimo presidente da Venezuela.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019013013215766-evo-morales-ameacas-eua-venezuela-devastar/

Evo Morales vence primárias para tentar 4º mandato na Bolívia

Evo Morales, presidente da Bolívia, em Moscou
© Sputnik / Sergey Guneev

Sob críticas da oposição, o atual presidente da Bolívia, Evo Morales, venceu as eleições primárias dentro de seu partido conquistando a maioria dos votos internos e a indicação pelo partido para a candidaturas nas próximas eleições presidenciais na Bolívia.

Caso vença as eleições, Morales chegará ao 4º mandato consecutivo como presidente da Bolívia. A vitória nas eleições primárias, porém, foi oficializada pelo Tribunal Superior Eleitoral do país.

"Os candidatos Evo Morales e [seu vice-presidente] Álvaro García receberam 89,7% dos votos de seu partido, já contabilizados 77% das atas da votação", disse a presidente do Tribunal Superior Eleitoral da Bolívia, María Eugenia Choque, ao apresentar durante uma coletiva de imprensa os resultados oficiais preliminares das eleições internas no partido.

Ao lado de Morales, outros oito candidatos opositores também foram confirmados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) do país. As eleições de outubro deste ano colocam em disputa o mandato presidencial de 2020 a 2025.

Dentre os mais votados, estão também o candidato de direita, Oscar Ortiz, teve 71% dos votos dentro da frente 21F, enquanto o neoliberal Carlos Mesa garantiu 81% dentro do Comunidade Cidadã. Já o indígena Félix Patzi, teve 67% dos votos do Movimento Terceiro Sistema.


Os outros candidatos qualificados foram Ruth Nina, do Partido Ação Nacional Bolívia, Jaime Paz Zamora, do Partido Democrata Cristão, Víctor Hugo Cárdenas, do Unidade Cívica e Solidariedade, Virgino Lema, do Movimento Nacionalista Revolucionário e Israel Rodríguez, do Frente para a Vitória.

A validação da candidatura de Morales já era dada como certa pois participou do pleito interno de seu partido, o MAS, como chapa única. O que se repetiu nas candidaturas opositoras. Os opositores alegam que a candidatura de Evo é ilegal, porém ela foi aceita pelo TSE em cumprimento a uma sentença do Tribunal Constitucional do país. A votação nas primárias do MAS foi 10 vezes maior que a dos oito outros partidos combinados, chegando a 350 mil votos com 80% da apuração concluída.

A sentença tirou o efeito de um referendo realizado em 21 de fevereiro de 2016 que teve como resultado o rechaço à possibilidade de uma nova reeleição de Morales. O referendo é citada por uma das chapas opositoras, a da frente "Bolívia disse Não", sob a sigla 21F. 

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019012713195893-bolivia-evo-morales-presidencia/

Dos EUA | "Quintal das traseiras" a ferro e fogo

Michael Pompeu já deu instruções aos seus vassalos sobre como quer a guerra contra a Venezuela
José Goulão
A guerra conduzida pelos Estados Unidos contra a Venezuela está em marcha. Independentementedos contornos militares que vier a assumir, o pretexto político já foi definido – a suposta "ilegitimidade" do novo mandato de Nicolás Maduro –, os encontros conspirativos regionais sucedem-se e as provocações belicistas também, enquanto as pressões diplomáticas se intensificam. Porém, nem tudo poderá correr de feição para os promotores da agressão: a juntar à disponibilidade da Venezuela para resistir ganha forma a possibilidade de a Rússia vir a estabelecer uma base aeronaval permanente em zona insular do território venezuelano.
A velha doutrina de Washington sobre o domínio "do quintal das traseiras" – as Américas Central e do Sul – reactivada a partir de 2008 com uma série de golpes políticos e diplomáticos, sob fundo militar, parece caminhar sobre rodas. Uns atrás dos outros, os governos latino-americanos que opuseram a soberania à subserviência desaparecem do mapa e os seus sucessores representam agora postos avançados contra os que falta abater: a "troika da tirania", definição estabelecida em Washington para englobar Venezuela, Nicarágua e Cuba; e a Bolívia, que aguarda novo assalto. A partir do momento em que se completou no Brasil o processo golpista iniciado em 2016 e os novos dirigentes do país mostraram, em curtos dias, absoluta disponibilidade para se assumirem como servos coloniais, a guerra contra os países renitentes vai sendo afinada, tendo como próximo objectivo a Venezuela. A escolha nada tem de surpreendente, trata-se do país que tem referenciadas as principais reservas de hidrocarbonetos do mundo, superiores às da própria Arábia Saudita, circunstância que, em Washington e arredores, é absolutamente incompatível com uma política de soberania nacional. Conspiração em Brasília e Bogotá  Viajando pelo "quintal" para abençoar a posse de Jair Bolsonaro, o secretário de Estado norte-americano e ex-patrão da CIA, Michael Pompeo, concentrou-se em activas reuniões de bastidores. Com o novo presidente brasileiro estabeleceu os próximos passos do que será a "luta contra os regimes autoritários de Venezuela e Cuba". Antes ainda de serem empossados, os novos dirigentes brasileiros tinham multiplicado sinais dando conta da sua vontade de desempenharem um papel principal numa intervenção contra a Venezuela. O vice-presidente e general Hamilton Mourão terá exagerado até no entusiasmo, pelo menos em termos de "timing", oferecendo-se para enviar "uma força de paz" com destino a Caracas. A seguir, Pompeo viajou para Bogotá, Colômbia, ao encontro de outro chefe fascista, Iván Duque, com quem delineou o "isolamento diplomático" da Venezuela. Kerch reproduzido na Guiana Por essa altura, primeiros dias de Janeiro, estava em desenvolvimento uma provocação no terreno, aliás a fazer lembrar metodologicamente a que foi tentada pelo fascismo ucraniano contra a Rússia, em 25 de Novembro, no Estreito de Kerch. Em 22 de Dezembro de 2018, a Marinha venezuelana vira-se forçada a expulsar das suas águas territoriais dois navios ao serviço da Exxon Mobil, o principal fornecedor de combustíveis do Pentágono, que ali faziam prospecção de hidrocarbonetos sem terem sido convidados. Essa atitude de Caracas em defesa da soberania venezuelana foi qualificada, em 4 de Janeiro, como "uma provocação da Venezuela que põe em causa a segurança colectiva", no artigo 9º da declaração resultante da reunião do chamado Grupo de Lima, a etapa seguinte do périplo de Pompeo. Os membros do Grupo de Lima, uma entidade informal constituída por fiéis seguidores regionais das estratégias delineadas por Washington, assumiram esta posição partindo do princípio de que os intrometidos navios estariam em actividade em águas territoriais disputadas entre a Guiana (ex-Guiana Britânica) e a Venezuela. Existe, na verdade, uma indefinição de estatuto relativa a um território florestal não habitado de 160 mil quilómetros quadrados e que resultou do facto de os colonizadores britânicos e espanhóis não terem estabelecido esse sector de fronteira entre as Guianas Britânica e Espanhola, hoje território venezuelano. O contencioso esteve praticamente congelado entre o século XIX e 2015 – houve um acordo que deixou o assunto entre parêntesis em Genebra, em 1966 – até que surgiram indícios fortes da existência de hidrocarbonetos nas águas territoriais correspondentes a essa zona por definir. Porém, em 9 de Janeiro, o presidente da Venezuela provou, durante uma conferência de imprensa de âmbito internacional, que os navios da Exxon Mobil não estavam em águas disputadas, mas sim em águas venezuelanas na foz do rio Orenoco. Maduro apresentou várias provas: a posição exacta em que se encontravam os navios, reveladas por um dos capitães durante conversações com a Marinha venezuelana; o qual admitiu ainda possuir apenas uma autorização escrita do governo da Guiana, que aliás fora derrubado na véspera através de um estranho episódio: o deputado governamental que assegurava a maioria votou contra o executivo numa moção de censura e a seguir fugiu do país, refugiando-se no Canadá. O presidente Nicolás Maduro exigiu então, na sequência da apresentação destas provas, que o Grupo de Lima retirasse o artigo 9º do seu comunicado, o que acabou por acontecer, embora com votos contrários do governo fascista paraguaio e, significativamente, do Canadá. Doutrina agressiva Apesar desse recuo, o Grupo de Lima, regido por Pompeo, deixou estabelecida a sua doutrina agressiva contra a Venezuela ao postular a "ilegitimidade" do novo mandato de Maduro, porque resultante de eleições que não devem ser consideradas por terem tido 54% de abstenções, alegadamente devido a um boicote por sectores da oposição fascista dirigida de Washington. Ora as abstenções de 54% são comuns nas eleições presidenciais norte-americanas, mesmo sem que haja, como houve na Venezuela, ameaças contra votantes, sabotagem de meios de transporte e outras situações anómalas. E 54% foi a abstenção ocorrida, semanas antes, nas eleições que entronizaram Sebastián Piñera, discípulo de Pinochet, como presidente do Chile. Sensivelmente na mesma ocasião foi detectada mais uma gigantesca fraude na eleição de Juan Hernandez nas Honduras, de tal modo que os Estados Unidos e a própria e domesticada Organização dos Estados Americanos (OEA) demoraram mais de um mês a reconhecê-la. E que dizer do Brasil, onde as eleições presidenciais se realizaram depois de encarcerado e impedido de concorrer o candidato que, segundo as sondagens, tinha a eleição praticamente assegurada? A "ilegitimidade" de Maduro, estabelecida apesar da coexistência de cenários deste tipo, vai ser, doravante, o combustível das acções de guerra contra a Venezuela. 
Eis que se fala da Rússia Não é novidade que a campanha contra a Venezuela tem um contexto mais abrangente. Os Estados Unidos confirmam-no ao colectivizarem os objectivos, de modo a englobarem também Cuba, a Nicarágua, a Bolívia, Estados que não prescindem da sua soberania e seguem caminhos próprios de desenvolvimento. Não se trata apenas, porém, de abater regimes insubmissos. A estratégia global dos Estados Unidos e aliados implica o reforço de mecanismos de dominação de âmbito militar regional que desencorajem a formação de governos independentes e com pouca vocação para acatar as ordens emanadas do Norte. A intensa actividade do Comando Sul (SouthCom) do Pentágono, a reactivação da Quarta Esquadra norte-americana, os exercícios militares gigantescos e provocatórios são sinais permanentes a fazer lembrar que a guerra está em marcha. Além disso, o Reino Unido prepara-se para juntar à ocupação militar das Malvinas argentinas a criação, a breve prazo, de uma base aeronaval na região das Caraíbas. Provavelmente na Guiana, admitindo-se que a ebulição política em que este país mergulhou, em 21 de Dezembro, não seja desenquadrada desse objectivo de Londres – e que o Canadá tenha ajudado. No contexto geral, porém, também é certo que os países que apostam na soberania política e económica, como a Venezuela, têm diversificado as suas relações com nações e regiões de outros continentes. Pelo que os interesses dos Estados Unidos e aliados no "quintal das traseiras" de Washington não são os únicos no terreno. Outros foram sendo estabelecidos, oriundos de outras regiões. As relações entre Caracas e Moscovo têm-se aprofundado, do mesmo modo que as da Venezuela com a China. Não sendo de ignorar também o volume de investimento que Pequim tenciona fazer num novo canal interoceânico, alternativo ao do Panamá, a abrir na Nicarágua. Além disso, como é de conhecimento geral, a relação de forças mundial está em mudança significativa – a própria supremacia militar é hoje muito mais repartida. Daí que esteja a ganhar forma a possibilidade de a Rússia vir a construir uma base aeronaval na ilha de Orchila, em território da Venezuela, a mesma onde o presidente Hugo Chávez esteve encarcerado durante algumas horas, em 2002, enquanto decorria a tentativa de golpe de Estado coordenada pela administração de George W. Bush. Uma base na qual Moscovo encara a possibilidade de estacionar bombardeiros estratégicos, o que traz à memória as angústias vividas pelo establishment de Washington por ocasião da chamada "crise dos mísseis" em Cuba, em 1962. Pelo que, por muitas razões, e mais esta, uma guerra na América Latina iniciada com uma agressão dos Estados Unidos e colónias contra a Venezuela soberana pode não ser uma simples e vingativa degola de inocentes. 
16/Janeiro/2019
O original encontra-se em www.oladooculto.com/noticias.php?id=202 Este artigo encontra-se em http://resistir.info/

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2019/01/dos-eua-quintal-das-traseiras-ferro-e.html

Especialista pondera de quem Venezuela pode ou não se defender em caso de conflito direto

Soldado venezuelano
© AFP 2018 / Federico Parra

Perante a situação venezuelana e repercussão, especialista acredita que o país possui potencial bélico para reagir a qualquer ameaça de países inimigos da região.

Apesar de os venezuelanos possuírem capacidade de lutar com os países da região, Caracas não seria capaz de vencer um conflito contra os EUA, declarou o especialista militar Konstantin Sivkov.

"O Exército da Venezuela atualmente é capaz de repelir efetivamente as forças armadas de países vizinhos, como, por exemplo, da Colômbia, que disputa território com Caracas", observou o especialista.

Além disso, a "Venezuela possui modernas armas russas, como aviões e blindados, incluindo os tanques modernizados T-72 e os blindados BTR-80A, enquanto que o Exército colombiano é equipado com antigas armas americanas, das quais algumas delas são da época da Segunda Guerra Mundial", afirmou Sivkov.


"Contudo, em caso de uma intervenção de vários países e de uma única vez, como Colômbia e Brasil com a participação dos EUA, que utilizariam os exércitos latino-americanos como ‘bucha de canhão', limitando-se a ataques aéreos, a Venezuela não poderia vencer um enfrentamento direto", completou.

Para o especialista, em caso do confronto direto, a única opção de Caracas seria iniciar uma guerra de guerrilhas que poderia durar décadas, assim como no Afeganistão e Iraque, entretanto, os EUA deixaram o Irã por não saberem enfrentar uma guerra de guerrilhas.

Em 23 de janeiro, o presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Juan Guaidó, se declarou presidente interino da Venezuela em meio a protestos da oposição contra o governo de Nicolás Maduro.

Como resultado da ação, os EUA e uma série de outros países, inclusive o Brasil, reconheceram Guaidó como presidente da Venezuela. O atual líder venezuelano, Nicolás Maduro, afirma se manter como chefe de Estado constitucional e chamou Guaidó de "marionete dos EUA".

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019012513183577-venezuela-defender-conflito-direto/

Fascismo em marcha na América Latina e na UE

(Por Peter Koenig, in Global Research, 12/11/2018)

bresil-bolsonaro

A América Latina está a reconverter-se no “quintal” de Washington e, como atividade paralela, está a voltar à esfera fascista, semelhante, mas pior, do que nos anos 60, 70 e 80 quando ficou sob a influência da Operação ou Plano Condor, liderada pela CIA. Muitos chamam à atual tendência de direita de Operação Condor II, que está provavelmente tão próxima da verdade quanto possível. É tudo fabricado por Washington/CIA, apenas com maior rigor e sofisticação do que o Plano Condor de há 40 e 50 anos atrás. Por muito que custe dizer, depois de todos os louros e glória remetidos à América Latina – com Hugo Chávez, Fidel Castro, Rafael Correa, Evo Morales, Lula, os Kirchner, José Mujica, Michelle Bachelet – mais de 80% da população da América Latina havia vivido durante cerca de 15 a 20 anos sob governos democraticamente eleitos, verdadeiramente progressistas, na sua maioria com inclinação de esquerda. Em pouco tempo, em menos de 3 anos, a “mesa virou”.


A América Latina foi durante cerca de 20 anos a única parte do mundo ocidental, que esteve totalmente afastada das garras do império. Sucumbiu novamente às forças do mal, às forças do dinheiro, às forças da corrupção total e da ganância. Os povos da América Latina traíram os seus próprios princípios. Fizeram-no novamente. Os seres humanos permanecem reduzidos, como em tempos ancestrais, aos poderes infalíveis da reprodução e do ego cum ganância. Parece que no final, o ego e a ganância vencem sempre as forças da luz, do bem, da paz e da harmonia. É por isso que até o Banco Mundial chama a corrupção como o maior obstáculo ao desenvolvimento. Referem-se ao desenvolvimento económico; Quero dizer desenvolvimento consciencioso. Desta vez, o truque usado são campanhas eleitorais falsas e fraudulentas; eleições compradas; Washington instigou golpes parlamentares – que no Brasil, levou o presidente não eleito Temer ao poder, um prelúdio para o pior, que ainda estava para vir, o fascista, misógino, racista e autoproclamado militar, Jair Bolsonaro.

A eleição presidencial de 2015 na Argentina trouxe uma vitória inteligentemente fabricada em Washington para Mauricio Macri, um amigo e ex-sócio de Donald Trump, por assim dizer. A eleição foi manipulada pelo agora bem conhecido método maquiavélico da Cambridge Analytica, de enganar os eleitores através de mensagens individualizadas espalhadas pelas redes sociais, para os fazer acreditar em todo tipo de mentiras sobre os candidatos. Os eleitores foram assim, apanhados de surpresa, quando o adversário de Macri, o esquerdista Daniel Scioli da Frente para a Vitória, que era líder nas sondagens, foi derrotado.

Atualmente, Macri, tem adotado uma agenda económica fascista, endividou o país com os pacotes de austeridade do FMI, aumentou o desemprego e a pobreza que se situavam nos 12% antes da sua eleição em 2015, para próximo dos 40% em 2018. Macri está a levar a Argentina em direção a um cenário déjà-vu dos anos 80 e especialmente 1990, quando sob pressão dos EUA, FMI e Banco Mundial, o país teve de adotar o dólar dos EUA como moeda local, ou, para ser exato, a Argentina podia manter o peso mas tinha de se comprometer com a paridade de um-para-um com o dólar americano. A explicação oficial para esta situação em termos económicos (impor o uso da moeda de um país para a economia de outro país não é apenas insano, é absolutamente criminoso) era poder parar a altíssima taxa de inflação – o que temporariamente aconteceu, mas em detrimento da classe trabalhadora, para quem produtos básicos e bens comuns se tornaram inacessíveis.

O desastre foi pré-programado. E o colapso da economia argentina aconteceu em 2000 e 2001. Finalmente, em Janeiro de 2002, o presidente Eduardo Duhalde acabou com a notória paridade peso-dólar. O peso foi primeiro desvalorizado em 40% – depois flutuou para uma desvalorização de 70% e gradualmente fixou-se em outras moedas internacionais, como o euro, o iene japonês e o yuan chinês. Por fim, a nova moeda flutuante permitiu que a economia argentina ganhasse um novo impulso e se recuperasse rapidamente. Talvez muito rapidamente, para o bem da Argentina.

A economia cresceu substancialmente sob os governos de esquerda dos Kirchner. Governos plenamente eleitos democraticamente. A economia não apenas cresceu rapidamente, como também cresceu de forma “distributiva”, o que significou a redução da pobreza avaliada em quase dois terços da população em 2001, para cerca de 12%, apenas um mês antes de Macri ser catapultado para o cargo por Washington e pela Cambridge Analytica, em Dezembro de 2015. A Argentina voltava a ser rica; agora poderia ser novamente ordenhada e extorquida pelo setor bancário e pelo corporativismo internacional, protegidos por três bases militares dos Estados Unidos recém-criadas nas províncias de Neuquen, Misiones e Tierra del Fuego. As bases  estarão inicialmente sob o Comando Sul dos EUA, mas provavelmente em pouco tempo serão convertidas em bases da OTAN. A OTAN já está na Colômbia e poderá em breve expandir-se para o Brasil de Bolsonaro.

Embora ninguém compreenda realmente o que a Organização do Tratado do Atlântico Norte tem a fazer na América do Sul – a resposta não é importante. O império adequa-se ao que se ajusta ao propósito. Não há regras, ética, nem leis – tudo vale perante o neoliberalismo. A OTAN deverá tornar-se numa força de ataque militar sob o controle de Washington e dirigida por aqueles poucos “iluminados”, que mexem os cordelinhos por trás das cortinas, desde o obscuro “Estado Profundo”.

Macri marcou o início do novo fascismo da América Latina. A América do Sul lutou por 15 a 20 anos para se tornar independente dos senhores neoliberais do norte. Foi agora reabsorvida na elite do norte, no “quintal” do império – sim, infelizmente foi nisso que a América Latina se tornou em grande parte, num mero “quintal” de Washington.

A ditadura de direita da Argentina imposta por Washington, foi precedida pelo golpe parlamentar do Paraguai em 2012, que em abril de 2013, levou ao poder Horacio Cartes, do partido de extrema-direita Colorado. O Partido Colorado foi também o partido de Alfredo Stroessner, o brutal ditador militar fascista que governou o Paraguai de 1954 a 1989.

No Chile, em 11 de Setembro de 1973, um socialista democraticamente eleito, Salvador Allende, foi derrubado sob o comando da CIA e um brutal ditador militar, Augusto Pinochet, foi instalado no poder por quase 30 anos. Depois de uma breve aparição de governos de centro e com inclinação de esquerda, o Chile, em Dezembro de 2017, voltou à política neoliberal de direita com Sebastian Piñera, ex-sócio de Pinochet. Rodeado com os seus amigos neoliberais e cúmplices próximos da Argentina, Colômbia, Brasil, Peru e até no Equador, com certeza Sebastian Piñera irá adoptar as regras económicas neofascistas de extrema direita, e assim, cairá nas boas graças dos bancos de Washington e seus instrumentos, o FMI e o Banco Mundial.

O fascismo está em marcha. Isto apesar do facto de que 99,99% da população, não apenas na América Latina, como em todo o mundo, não querem nada com o fascismo – então, onde está a fraude? Por que ninguém está a investigar os golpes e fraudes no Brasil, Argentina, Chile, Peru, Colômbia? – para depois se apresentar os resultados para toda a gente ver?

Entretanto, aprendemos sobre a Cambridge/Oxford Analytica (CA & OA). Como operam e enganam o eleitorado. Eles mesmos finalmente admitiram o uso de métodos dentro dos quais operam e influenciam os eleitores com recurso a mentiras – com dados roubados ou comprados das redes sociais, principalmente do Facebook; milhões e milhões de dados pessoais para chegar electronicamente a grupos específicos de pessoas – bombardeando-as com mentiras para promover ou denegrir um ou outro candidato.

E foi precisamente isso que aconteceu no Brasil. Uma semana antes do segundo turno das eleições, ocorrido no último domingo, 28 de Outubro, Fernando Haddad (PT) lançou uma investigação criminal precisamente por esse motivo contra a campanha de Bolsonaro. Claro, nada aconteceu. Todos os juízes, tribunais e advogados estão sob o controle do não-eleito governo corrupto de direita Temer – que chegou ao poder através de um golpe parlamentar implacável orquestrado no estrangeiro, impugnando sob pretensões totalmente falsas a presidente eleita democraticamente Dilma Rousseff.

E agora – não há ninguém a investigar o que aconteceu no Brasil? Como se trouxe um “menino” militar como Jair Bolsonaro até ao poder? A esquerda está morta? Estarrecida até ao esquecimento? – Por quê? Com todas as lições para serem aprendidas ao redor do mundo, e para não ir mais longe, na vizinha Argentina – como pode a esquerda brasileira ser tão cega e ingénua, ao ponto de não perceber que seguindo o sistema  legal criminoso do seu país, é seguir o caminho para a sua própria morte, cavando a sua própria cova?

Desde o primeiro dia, os EUA contam firmemente com Bolsonaro para cercar a Venezuela, juntamente com a Colômbia. O presidente Trump já expressou as suas expectativas de trabalhar “estreitamente” com o novo governo de Bolsonaro em “questões de comércio, militar – e outras coisas”. Bolsonaro já se reuniu com Mike Pompeo, o secretário de Relações Exteriores dos EUA, e este último disse-lhe que a situação na Venezuela é uma “prioridade” para o Brasil. Ai está; Washington dita aos líderes estrangeiros as suas prioridades. Bolsonaro vai obedecer, com certeza.

Acorde – ESQUERDA! – não apenas na América Latina, mas em todo o mundo.

Hoje, são os principais meios de comunicação social que aprenderam os truques e as trapaças e aperfeiçoaram a Cambridge e Oxford Analyticas; e fazem-no sem parar. Possuem todo o dinheiro falso e fiduciário do mundo para poder pagar essas campanhas falsas e enganosas – Eles são propriedade da elite militar e financeira corporativa, CIA, MI6/5, Mossad – são propriedade e administrados pelo neoliberalismo ocidental todo abrangente cum fascismo. Os grupos de elite ricos têm livre acesso à oferta monetária falsa e fiduciária – o seu governo é fornecido tanto nos EUA quanto na Europa; a dívida não é problema para eles, desde que “se comportem”.

Sim. A ênfase está no saber comportar-se. As tendências ditatoriais são também omnipresentes na UE e, em especial, na não eleita Comissão Europeia (CE) , que é quem dita as regras em todas as questões importantes. O governo eurocético  5 Estrelas da Itália apresentou o seu orçamento para 2019 em Bruxelas. Não só foi o governo italiano repreendido por estender as suas contas com um défice superior à margem de 3% da dívida imposta pela UE, como também teve que apresentar um novo orçamento num prazo de 3 semanas. É assim que um governo da UE que não se comporta bem é tratado. Que alcance tem o controlo autoritário da UE em relação a um governo soberano. E “soberania” é – a UE ostenta – a chave para uma União Europeia coerente.

Por outro lado, a França tem infringido durante anos a famosa regra dos 3%. Aconteceu novamente com o orçamento de 2019. No entanto, o governo francês apenas recebeu uma nota esboçada, dizendo: por favor, reconsiderem o défice orçamental para o próximo ano. Não houve nenhuma reprimenda. Não se repreende uma Criança dos Rothschild. Dois pesos duas medidas, corrupção, nepotismo, estão entre os atributos do fascismo. Está a crescer rapidamente em todo o Ocidente. Está a assumir vida própria. E os militares estão preparados. Em toda parte. Se ao menos eles, os militares, acordassem e ficassem do lado do povo em vez do da elite dominante que os trata como seus peões. Contudo, eles fazem parte do povo; pertencem à mais comum das pessoas. No final, eles receberão o mesmo tratamento que as pessoas – serão torturados e mortos quando não forem mais necessários, ou quando não se comportem da maneira que os neofascistas pretendem.

Então, Caros Homens e Mulheres do Exército – por que não prevenir tais riscos e ficar ao lado das pessoas desde o começo? – Todo o sistema, criminoso e falso, entraria em colapso se não tivesse a proteção da polícia e dos militares. Vocês, queridos Homens e Mulheres, formam a Polícia e os Militares, vocês têm o poder e a obrigação moral de apoiar o povo, e não defender governantes cruéis, elitistas e criminosos – à la Macri, Bolsonaro, Piñera, Duque, Macron, May. e Merkel. E há muitos mais da mesma estirpe.

Um dos primeiros sinais do que viria a acontecer em toda a América Latina para depois se espalhar pelo mundo ocidental, foi a “falsa eleição” de Macri, em 2015, na Argentina. Alguns de nós viram isso chegando e escrevemos sobre o assunto. Nós fomos ignorados, até ridicularizados. Foi-nos dito que não entendemos o processo democrático. Sim certo. Entretanto, a tendência para a direita, para um estado permanente de emergência, uma Lei Marcial de facto, tornou-se irreversível. A França incorporou o estado permanente de emergência na sua Constituição. Militares e Polícias armados são presença constante em toda Paris e nas principais cidades de França.

Existem poucas, muito poucas exceções restantes na América Latina, e na verdade, em todo o mundo ocidental.

E vamos fazer o que pudermos para salvá-los do bulldozer do fascismo.


(O autor, Peter Koenig é economista e foi funcionário do Banco Mundial. Trabalhou em todo o mundo, no campo do meio ambiente e recursos hídricos. Escreve regularmente para Global Research, ICH, Voice of Russia, Ria Novosti e outras páginas internet. É autor de Implosion – An Economic Thriller about War, Environmental Destruction and Corporate Greed – romance-reportagem baseado em 30 anos de experiências do Banco Mundial em todo o mundo.)


Fonte aqui

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Marcha atrás – O Mercosul não existe

A decisão do presidente brasileiro Jair Bolsonaro de retirar o brasão do Mercosul dos passaportes nacionais – movimento contrário ao que se vem praticando há anos na Europa, onde o símbolo da UE vem gravado nos passaportes de cada país membro, contribuindo assim para gerar um sentimento de comunidade – expressa bem o forte sentimento nacionalista de que está imbuída a nova direcção política do país.

Um gesto simbólico que não deixará de ser interpretado pelos outros membros do Mercosul – Argentina, Uruguai e Paraguai – como um sinal mais do desinteresse do Brasil em aprofundar a cooperação e a integração regionais.

É o culminar de um estado de espírito muito presente em certos círculos de Brasília, que tendem a ver no Mercosul mais um entrave do que um estímulo ao desenvolvimento do país.

É pena que assim seja, mas a verdade é que a integração regional está praticamente parada e é possível apontar muitos exemplos da falta de políticas conjuntas nas mais variadas áreas.

Dos dois casos que vivenciámos pessoalmente ilustram bem essa situação. Na primeira tentativa que fizemos de entrar no Uruguai por estrada, a partir do Brasil, fomos barrados porque Montevidéu não aceita os carros em circulação no Brasil, exigindo um registo especial.

Mais recentemente, tendo esquecido o meu velho relógio no controle de segurança do aeroporto da capital uruguaia, pedi a um amigo que conheci pelo Facebook – o português Carlos Fernandes, há anos radicado no Uruguai – que fosse lá, levantasse o relógio e o enviasse pelo correio. Até aí, tudo bem. O pior foi o resto. Quando o relógio chegou a Brasília, a Alfândega brasileira taxou-o duas vezes – uma em nome da Federação e a outra em nome do Estado de entrada (São Paulo)!!! Conclusão – valia mais ter esquecido o velho relógio e comprado um novo…

Por estes dois episódios banais vê-se bem em que nível estão a liberdade de circulação de pessoas e bens, que deveriam ser o básico de qualquer projecto de união.

Por vezes criticamos muito – e com razão – a UE pelas suas insuficiências, em particular no que respeita às políticas sociais e o claro distanciamento arrogante das suas elites burocráticas sediadas em Bruxelas.

Mas, meu Deus!: ser confrontados de novo com as barreiras nacionais do tipo daquelas que vivenciámos ao transitar entre o Brasil e o Uruguai, NÃO, MIL VEZES NÃO!

O eventual regresso aos nacionalismos europeus não nos traria nada de bom – como se pode ver já pelos exemplos da Europa de Leste e agora também da Itália. Mais atenção aos interesses nacionais, mais consideração pelos parlamentos nacionais, mais políticas sociais, sim; mas regresso ao passado das barreiras alfandegárias, decididamente não. Bendita União Europeia, pelo que já se conseguiu de cooperação alargada em tantos domínios!

Decididamente, precisamos de mais Europa, não menos!


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/marcha-atras-o-mercosul-nao-existe/

O Mercosul não existe… E é pena!

A decisão do presidente brasileiro Jair Bolsonaro de retirar o brasão do Mercosul dos passaportes nacionais – movimento contrário ao que se vem praticando há anos na Europa, onde o símbolo da UE vem gravado nos passaportes de cada país membro, contribuindo assim para gerar um sentimento de comunidade – expressa bem o forte sentimento nacionalista de que está imbuída a nova direcção política do país.

Um gesto simbólico que não deixará de ser interpretado pelos outros membros do Mercosul – Argentina, Uruguai e Paraguai – como um sinal mais do desinteresse do Brasil em aprofundar a cooperação e a integração regionais.

É o culminar de um estado de espírito muito presente em certos círculos de Brasília, que tendem a ver no Mercosul mais um entrave do que um estímulo ao desenvolvimento do país.

É pena que assim seja, mas a verdade é que a integração regional está praticamente parada e é possível apontar muitos exemplos da falta de políticas conjuntas nas mais variadas áreas.

Dois casos que vivenciámos pessoalmente ilustram bem essa situação. Na primeira tentativa que fizemos de entrar no Uruguai por estrada, a partir do Brasil, fomos barrados porque Montevidéu não aceita os carros em circulação no Brasil, exigindo um registo especial.

Mais recentemente, tendo esquecido o meu velho relógio no controle de segurança do aeroporto da capital uruguaia, pedi a um amigo que conheci pelo Facebook – o português Carlos Fernandes, há anos radicado no Uruguai – que fosse lá, levantasse o relógio e o enviasse pelo correio. Até aí, tudo bem. O pior foi o resto. Quando o relógio chegou a Brasília, a Alfândega brasileira taxou-o duas vezes – uma em nome da Federação e a outra em nome do Estado de entrada (São Paulo)!!! Conclusão – valia mais ter esquecido o velho relógio e comprado um novo…

Por estes dois episódios banais vê-se bem em que nível estão a liberdade de circulação de pessoas e bens, que deveriam ser o básico de qualquer projecto de união.

Por vezes criticamos muito – e com razão – a UE pelas suas insuficiências, em particular no que respeita às políticas sociais e o claro distanciamento arrogante das suas elites burocráticas sediadas em Bruxelas.

Mas, meu Deus!: ser confrontados de novo com as barreiras nacionais do tipo daquelas que vivenciámos ao transitar entre o Brasil e o Uruguai, NÃO, MIL VEZES NÃO!

O eventual regresso aos nacionalismos europeus não nos traria nada de bom – como se pode ver já pelos exemplos da Europa de Leste e agora também da Itália. Mais atenção aos interesses nacionais, mais consideração pelos parlamentos nacionais, mais políticas sociais, sim; mas regresso ao passado das barreiras alfandegárias, decididamente não. Bendita União Europeia, pelo que já se conseguiu de cooperação alargada em tantos domínios!

Decididamente, precisamos de mais Europa, não menos! E, já agora, de mais Mercosul, não menos!


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/o-mercosul-nao-existe-e-e-pena/

«Quintal das traseiras» a ferro e fogo

Os EUA parecem ter pressa em juntar à guerra económica e à conspiração interna uma agressão militar formal contra a Venezuela. Podem continuar a ressuscitar a velha “doutrina Monroe”, mas talvez se enganem se julgarem que o seu “quintal das traseiras” ainda é o mesmo de há cem anos.

A guerra conduzida pelos Estados Unidos contra a Venezuela está em marcha. Independentemente dos contornos militares que vier a assumir, o pretexto político já foi definido – a suposta «ilegitimidade» do novo mandato de Nicolás Maduro[1] –, os encontros conspirativos regionais sucedem-se e as provocações belicistas também[2], enquanto as pressões diplomáticas se intensificam. Porém, nem tudo poderá correr de feição para os promotores da agressão: a juntar à disponibilidade da Venezuela para resistir ganha forma a possibilidade de a Rússia vir a estabelecer uma base aeronaval permanente em zona insular do território venezuelano.

A velha doutrina de Washington sobre o domínio «do quintal das traseiras» – as Américas Central e do Sul – reactivada a partir de 2008 com uma série de golpes políticos e diplomáticos, sob fundo militar, parece caminhar sobre rodas. Uns atrás dos outros, os governos latino-americanos que opuseram a soberania à subserviência desaparecem do mapa e os seus sucessores representam agora postos avançados contra os que falta abater: a «troika da tirania», definição estabelecida em Washington para englobar Venezuela, Nicarágua e Cuba; e a Bolívia, que aguarda novo assalto.

A partir do momento em que se completou no Brasil o processo golpista iniciado em 2016 e os novos dirigentes do país mostraram, em curtos dias, absoluta disponibilidade para se assumirem como servos coloniais, a guerra contra os países renitentes vai sendo afinada, tendo como próximo objectivo a Venezuela.

A escolha nada tem de surpreendente, trata-se do país que tem referenciadas as principais reservas de hidrocarbonetos do mundo, superiores às da própria Arábia Saudita, circunstância que, em Washington e arredores, é absolutamente incompatível com uma política de soberania nacional.

Conspiração em Brasília e Bogotá

Viajando pelo «quintal» para abençoar a posse de Jair Bolsonaro, o secretário de Estado norte-americano e ex-patrão da CIA, Michael Pompeo, concentrou-se em activas reuniões de bastidores.

Com o novo presidente brasileiro estabeleceu os próximos passos do que será a «luta contra os regimes autoritários de Venezuela e Cuba». Antes ainda de serem empossados, os novos dirigentes brasileiros tinham multiplicado sinais dando conta da sua vontade de desempenharem um papel principal numa intervenção contra a Venezuela. O vice-presidente e general Hamilton Mourão (1) terá exagerado até no entusiasmo, pelo menos em termos de timing, oferecendo-se para enviar «uma força de paz» com destino a Caracas.

A seguir, Pompeo viajou para Bogotá, Colômbia, ao encontro de outro chefe fascista, Iván Duque, com quem delineou o «isolamento diplomático» da Venezuela.

Kerch reproduzido na Guiana

Por essa altura, primeiros dias de Janeiro, estava em desenvolvimento uma provocação no terreno, aliás a fazer lembrar metodologicamente a que foi tentada pelo fascismo ucraniano contra a Rússia, em 25 de Novembro, no Estreito de Kerch.

Em 22 de Dezembro de 2018, a Marinha venezuelana vira-se forçada a expulsar das suas águas territoriais dois navios ao serviço da Exxon Mobil[3], o principal fornecedor de combustíveis do Pentágono, que ali faziam prospecção de hidrocarbonetos sem terem sido convidados.

Essa atitude de Caracas em defesa da soberania venezuelana foi qualificada, em 4 de Janeiro, como «uma provocação da Venezuela que põe em causa a segurança colectiva», no artigo 9º da declaração resultante da reunião do chamado Grupo de Lima, a etapa seguinte do périplo de Pompeo.

Os membros do Grupo de Lima, uma entidade informal constituída por fiéis seguidores regionais das estratégias delineadas por Washington, assumiram esta posição partindo do princípio de que os intrometidos navios estariam em actividade em águas territoriais disputadas entre a Guiana (ex-Guiana Britânica) e a Venezuela.

Existe, na verdade, uma indefinição de estatuto relativa a um território florestal não habitado de 160 mil quilómetros quadrados (2) e que resultou do facto de os colonizadores britânicos e espanhóis não terem estabelecido esse sector de fronteira entre as Guianas Britânica e Espanhola, hoje território venezuelano.

O contencioso esteve praticamente congelado entre o século XIX e 2015 – houve um acordo que deixou o assunto entre parêntesis em Genebra, em 1966 – até que surgiram indícios fortes da existência de hidrocarbonetos nas águas territoriais correspondentes a essa zona por definir.

Porém, em 9 de Janeiro, a Vice-presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez (3) provou, durante uma conferência de imprensa de âmbito internacional,[4] que os navios da Exxon Mobil não estavam em águas disputadas, mas sim em águas venezuelanas na foz do rio Orenoco. Delcy Rodríguez apresentou várias provas: a posição exacta em que se encontravam os navios, reveladas por um dos capitães durante conversações com a Marinha venezuelana; o qual admitiu ainda possuir apenas uma autorização escrita do governo da Guiana, que aliás fora derrubado na véspera através de um estranho episódio: o deputado governamental que assegurava a maioria votou contra o executivo[5] numa moção de censura e a seguir fugiu do país, refugiando-se no Canadá[6].

O Governo venezuelano exigiu então[7], na sequência da apresentação destas provas, que o Grupo de Lima retirasse o artigo 9º do seu comunicado, o que acabou por acontecer, embora com votos contrários do governo fascista paraguaio e, significativamente, do Canadá.

Doutrina hipócrita

Apesar desse recuo, o Grupo de Lima, regido por Pompeo, deixou estabelecida a sua doutrina agressiva contra a Venezuela ao postular a «ilegitimidade» do novo mandato de Maduro, porque resultante de eleições que não devem ser consideradas por terem tido 54% de abstenções, alegadamente devido a um boicote por sectores da oposição fascista dirigida de Washington.

Ora as abstenções de 54% são comuns nas eleições presidenciais norte-americanas, mesmo sem que haja, como houve na Venezuela, ameaças contra votantes, sabotagem de meios de transporte e outras situações anómalas.

E 54% foi a abstenção ocorrida, semanas antes, nas eleições que entronizaram Sebastián Piñera, discípulo de Pinochet, como presidente do Chile. Sensivelmente na mesma ocasião foi detectada mais uma gigantesca fraude na eleição de Juan Hernández nas Honduras, de tal modo que os Estados Unidos e a própria e domesticada Organização dos Estados Americanos (OEA) demoraram mais de um mês a reconhecê-la.

E que dizer do Brasil, onde as eleições presidenciais se realizaram depois de encarcerado e impedido de concorrer o candidato que, segundo as sondagens, tinha a eleição praticamente assegurada?

A «ilegitimidade» de Maduro, estabelecida apesar da coexistência de cenários deste tipo, vai ser, doravante, o combustível das acções de guerra contra a Venezuela.

Eis que se fala da Rússia

Não é novidade que a campanha contra a Venezuela tem um contexto mais abrangente. Os Estados Unidos confirmam-no ao colectivizarem os objectivos, de modo a englobarem também Cuba, a Nicarágua, a Bolívia, Estados que não prescindem da sua soberania e seguem caminhos próprios de desenvolvimento.

Não se trata apenas, porém, de abater regimes insubmissos. A estratégia global dos Estados Unidos e aliados implica o reforço de mecanismos de dominação de âmbito militar regional que desencorajem a formação de governos independentes e com pouca vocação para acatar as ordens emanadas do Norte. A intensa actividade do Comando Sul (SouthCom) do Pentágono, a reactivação da Quarta Esquadra norte-americana, os exercícios militares gigantescos e provocatórios são sinais permanentes a fazer lembrar que a guerra está em marcha.

Além disso, o Reino Unido prepara-se para juntar à ocupação militar das Malvinas argentinas a criação, a breve prazo, de uma base aeronaval na região das Caraíbas. Provavelmente na Guiana, admitindo-se que a ebulição política em que este país mergulhou, em 21 de Dezembro, não seja desenquadrada desse objectivo de Londres – e que o Canadá tenha ajudado.

No contexto geral, porém, também é certo que os países que apostam na soberania política e económica, como a Venezuela, têm diversificado as suas relações com nações e regiões de outros continentes. Pelo que os interesses dos Estados Unidos e aliados no «quintal das traseiras» de Washington não são os únicos no terreno. Outros foram sendo estabelecidos, oriundos de outras regiões.

As relações entre Caracas e Moscovo têm-se aprofundado[8], do mesmo modo que as da Venezuela com a China[9]. Não sendo de ignorar também o volume de investimento que Pequim tenciona fazer num novo canal interoceânico, alternativo ao do Panamá, a abrir na Nicarágua.

Além disso, como é de conhecimento geral, a relação de forças mundial está em mudança significativa – a própria supremacia militar é hoje muito mais repartida.

Daí que esteja a ganhar forma a possibilidade de a Rússia vir a construir uma base aeronaval na ilha de Orchila, em território da Venezuela (4), a mesma onde o presidente Hugo Chávez esteve encarcerado durante algumas horas, em 2002, enquanto decorria a tentativa de golpe de Estado coordenada pela administração de George W. Bush.

Uma base na qual Moscovo encara a possibilidade de estacionar bombardeiros estratégicos[10], o que traz à memória as angústias vividas pelo establishment de Washington por ocasião da chamada «crise dos mísseis» em Cuba, em 1962.

Pelo que, por muitas razões, e mais esta, uma guerra na América Latina iniciada com uma agressão dos Estados Unidos e colónias contra a Venezuela soberana pode não ser uma simples e vingativa degola de inocentes (5).

Notas
(1) O general Hamilton Mourão[11] (1953), conhecido maçon, representa uma poderosa corrente reaccionária entre os militares brasileiros. É filho do general de divisão com o mesmo nome que participou no golpe pró-americano de 1964, ajudando a instaurar a famigerada ditadura militar brasileira[12]. Tem-se distinguido pelas suas opiniões ultra-reaccionárias. Em Setembro de 2017, durante uma palestra[13] numa loja maçónica da capital do Brasil, ameaçou uma nova intervenção dos militares na política brasileira. Foi passado à reserva[14] mas manteve-se como porta-voz da corrente reaccionária militar e é o homem-forte dos militares por trás do ex-capitão Bolsonaro.

(2) Trata-se do território conhecido como Guayana Esequiba[15], ou El Esequibo, reclamado pela Venezuela[16] (privilegiando meios pacíficos e de diálogo[17] entre as partes) como parte integrante do seu território desde o Acordo de Genebra[18], em 17 de Fevereiro de 1966 (o texto integral do acordo pode ser lido aqui[19]), decisão que a Guiana disputa[20]. A recomendação do Secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, para levar o assunto ao Tribunal Internacional de Justiça, «esquecendo» o Acordo de Genebra, foram firmemente rejeitadas pela Venezuela[21].

(3) Delcy Rodríguez[22] (1969), que tem desempenhado altos cargos na República Bolivariana de Venezuela desde o Presidente Hugo Chávez, é filha de Jorge Antonio Rodríguez[23] (1942-1976), revolucionário barbaramente torturado e assassinado pela polícia secreta venezuelana em 1976[24], durante a presidência de Carlos Andrés Pérez.

(4) A Constituição venezuelana proíbe o estabelecimento de bases militares estrangeiras no seu território, mas a Rússia e a Venezuela parecem ter encontrado uma solução satisfatória para a presença, nesta ilha das Caraíbas, de bombardeiros de longo alcance capazes de atingir solo norte-americano. Segundo a RT News, citando uma fonte não-oficial, «os bombardeiros russos poderiam ser deslocados para a ilha de uma forma rotativa em vez de estarem permanentemente estacionados[25]» na mesma.

(5) Segundo a Telesur, o governo russo avisou os Estados Unidos[26] contra os resultados «catastróficos» de um empreendimento militar contra a Venezuela. «Avisamos as “cabeças quentes” de Washington contra tais tentações, declarou o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros russo em conferência de imprensa do passado dia 9 de Janeiro.

Fonte: https://www.abrilabril.pt/internacional/quintal-das-traseiras-ferro-e-fogo[27]

Divulga o endereço[28] deste texto e o de odiario.info[29] entre os teus amigos e conhecidos

References

  1. ^ a suposta «ilegitimidade» do novo mandato de Nicolás Maduro (misionverdad.com)
  2. ^ provocações belicistas também (www.abrilabril.pt)
  3. ^ ao serviço da Exxon Mobil (misionverdad.com)
  4. ^ durante uma conferência de imprensa de âmbito internacional, (albaciudad.org)
  5. ^ o deputado governamental que assegurava a maioria votou contra o executivo (fox17.com)
  6. ^ e a seguir fugiu do país, refugiando-se no Canadá (newsroom.gy)
  7. ^ O Governo venezuelano exigiu então (www.abrilabril.pt)
  8. ^ As relações entre Caracas e Moscovo têm-se aprofundado (www.radiomundial.com.ve)
  9. ^ as da Venezuela com a China (www.radiomundial.com.ve)
  10. ^ bombardeiros estratégicos (www.rt.com)
  11. ^ general Hamilton Mourão (pt.wikipedia.org)
  12. ^ É filho do general de divisão com o mesmo nome que participou no golpe pró-americano de 1964, ajudando a instaurar a famigerada ditadura militar brasileira (www.mintpressnews.com)
  13. ^ Em Setembro de 2017, durante uma palestra (www.alainet.org)
  14. ^ Foi passado à reserva (www.cartacapital.com.br)
  15. ^ Guayana Esequiba (es.wikipedia.org)
  16. ^ El Esequibo, reclamado pela Venezuela (www.telesurtv.net)
  17. ^ meios pacíficos e de diálogo (mundo.sputniknews.com)
  18. ^ Acordo de Genebra (es.wikipedia.org)
  19. ^ aqui (www.consulvenevigo.es)
  20. ^ que a Guiana disputa (www.contrapunto.com)
  21. ^ foram firmemente rejeitadas pela Venezuela (mundo.sputniknews.com)
  22. ^ Delcy Rodríguez (es.wikipedia.org)
  23. ^ Jorge Antonio Rodríguez (es.wikipedia.org)
  24. ^ barbaramente torturado e assassinado pela polícia secreta venezuelana em 1976 (www.radiomundial.com.ve)
  25. ^ os bombardeiros russos poderiam ser deslocados para a ilha de uma forma rotativa em vez de estarem permanentemente estacionados (www.rt.com)
  26. ^ o governo russo avisou os Estados Unidos (www.telesurenglish.net)
  27. ^ https://www.abrilabril.pt/internacional/quintal-das-traseiras-ferro-e-fogo (www.abrilabril.pt)
  28. ^ endereço (www.odiario.info)
  29. ^ odiario.info (odiario.info)

Leia original aqui

Pobreza extrema aumenta na América Latina

Cerca de 62 milhões de latino-americanos (10,2% da população) viviam em pobreza extrema em 2017, revelou esta terça-feira a Comissão Económica para a América Latina e as Caraíbas, em Santiago do Chile.

De acordo com o Panorama Social da América Latina 2018, há 184 milhões de pessoas em situação de pobreza, 62 milhões das quais em pobreza extremaCréditos / viajejet.com

De acordo com o «Panorama Social da América Latina 2018», tornado público na capital chilena por Alicia Bárcena, directora-geral da Comissão Económica para a América Latina e as Caraíbas (CEPAL, um organismo das Nações Unidas), a percentagem de população em situação de pobreza extrema na região é a mais elevada desde 2008.

Já o indicador relativo à taxa geral de pobreza manteve-se estável no ano referido, no conjunto dos 18 países que são estudados no relatório, por comparação com 2016, depois dos aumentos registados em 2015 e 2016.

Em conferência de imprensa, Alicia Bárcena disse que, em 2017, 184 milhões de pessoas viviam em situação de pobreza (30,2% da população da região), acrescentando que a expectativa da CEPAL é de que, em 2018, esse número seja reduzido em dois milhões. No entanto, o organismo regional da ONU estima que, nesse ano, o número de indivíduos a viver em pobreza extrema aumentou um milhão, passando para 63 milhões.

Analisando e comentando estes dados, Bárcena destacou «os avanços importantes alcançados na região entre a década passada e meados da actual», mas alertou para «os retrocessos registados a partir de 2015, sobretudo no que respeita à pobreza extrema».

40% dos trabalhadores auferem salários abaixo do salário mínimo

O documento revela que cerca 40% da população empregada da América Latina aufere salários inferiores ao salário mínimo estabelecido no seu país e que essa proporção é muito mais elevada entre as mulheres (48,7%) e os jovens dos 15 aos 24 anos (55,9%).

Outro dado referido pelo «Panorama Social» é que a incidência da pobreza é 20% superior nas áreas rurais, por comparação com as cidades, sendo que as crianças e os jovens, as mulheres e as populações indígenas são os mais atingidos.

Ao analisar os países que mais conseguiram reduzir a pobreza no período 2012-2017, o relatório conclui que no Chile, em El Salvador e na República Dominicana o aumento do rendimento do trabalho nos lares foi o que mais contribuiu para essa diminuição. Já na Costa Rica, no Panamá e no Uruguai os factores decisivos para a redução da pobreza foi o aumento da protecção social prestada às famílias com menores recursos.

Tendo em conta a situação analisada e os desafios que ela coloca, Alicia Bárcena defendeu que «os governos devem promover políticas públicas complementares de protecção social e de inclusão no mercado de trabalho», bem como de melhor redistribuição em termos de rendimentos.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/pobreza-extrema-aumenta-na-america-latina

Boaventura: Adeus ao futuro?

Revolta dos escravos no Haiti. Revolução cubana. Levante zapatista. Muitas viradas de ano foram marcadas por fatos que sacudiram a velha ordem e convocaram a esperança. Regridiremos agora aos Bolsonaros?
Boaventura de Sousa Santos | Outras Palavras
Os começos do ano são propícios a augúrios de tempo novo, tanto no plano individual como no coletivo. De tempos a tempos, esses augúrios traduzem-se em atos concretos de transformação social que rompem de modo dramático com o status quo. Entre muitas outras, destaco três ações inaugurais que ocorreram em 1 de janeiro e tiveram um impacto transcendente no mundo moderno. Em 1 de Janeiro de 1804, os escravos do Haiti declararam a independência da que era ao tempo uma das mais lucrativas colônias da França, responsável pela produção de cerca de 40% do açúcar então consumido no mundo. Da única revolta de escravos bem sucedida nascia a primeira nação negra independente do mundo, o primeiro país independente da América Latina. Com a independência do Haiti o movimento para a abolição da escravatura ganhou um novo e decisivo ímpeto e o seu impacto no pensamento político europeu foi importante, nomeadamente na filosofia política de Hegel. Mas, como se tratava de uma nação negra e de ex-escravos, a importância deste feito tem sido negada pela história eurocêntrica das grandes revoluções modernas. Os haitianos pagaram um preço altíssimo pela ousadia: foram asfixiados por uma dívida injusta, que só viria a ser liquidada em 1947. O Haiti foi o primeiro país a conhecer as consequências fatais da austeridade imposta pelo capital financeiro global de que ainda hoje é vítima.
No dia 1 de Janeiro de 1959, o ditador Fulgêncio Batista era deposto em Havana. Nascia a revolução cubana liderada por Fidel Castro. A escassos quilômetros do país capitalista mais poderoso do mundo emergia um governo revolucionário que se propunha levar a cabo um projeto de país nos antípodas do big brother do norte, um projeto socialista muito consciente da sua novidade e especificidade históricas, inicialmente tão distante do capitalismo norte-americano como do comunismo soviético. Tal como Lênin quarenta anos antes, os revolucionários cubanos tinham a consciência de que o pleno êxito da revolução dependia da capacidade de o impulso revolucionário alastrar a outros países. No caso de Cuba, os países latino-americanos eram os mais próximos. Pouco tempo depois da revolução, Fidel Castro enviou o jovem revolucionário francês, Regis Debray, a vários países do continente para auscultar o modo como a revolução cubana estava a ser recebida. O relatório elaborado por Debray é um documento de extraordinária relevância para os tempos de hoje. Mostra que os partidos de esquerda latino americanos continuavam muito divididos a respeito do que se passara em Cuba e que os partidos comunistas, em especial, mantinham uma enorme distância e mesmo suspeita em relação ao “populismo” de Fidel. Pelo contrário, as forças de direita do continente, bem conscientes do perigo que a revolução cubana representava, estavam a organizar o contra-ataque; fortaleciam os aparelhos militares e tentavam promover políticas sociais compensatórias com o apoio ativo dos EUA. Em Março de 1961, John Kennedy anunciava um plano de cooperação com a América Latina, a realizar em dez anos, cuja retórica visava neutralizar a atração que a revolução cubana estava a gerar entre as classes populares do continente: “Transformemos de novo o continente americano num amplo cadinho de ideias e esforços revolucionários, uma homenagem ao poder das energias criadoras de homens e mulheres livres e um exemplo para todo o mundo de como a liberdade e o progresso caminham de mãos dadas”. A expansão da revolução cubana não ocorreu como se previa e sacrificou, no processo, um dos seus mais brilhantes lideres: Che Guevara. Mas a solidariedade internacional de Cuba com as causas dos oprimidos ainda está por contar. Desde o papel que teve na consolidação da independência de Angola, na independência da Namíbia e no fim do apartheid na África do Sul até aos milhares de médicos cubanos espalhados pelas mais remotas regiões do mundo (mais recentemente no Brasil), onde nunca antes tinham chegado os cuidados médicos. Sessenta anos depois, Cuba continua a afirmar-se num contexto internacional hostil, orgulha-se de alguns dos melhores indicadores sociais do mundo (saúde, educação, esperança de vida, mortalidade infantil) mas falhou até agora na acomodação do dissenso e na implantação de um sistema democrático de tipo novo. No plano econômico ousa, mais uma vez, o que parece impossível: consolidar um modelo de desenvolvimento que combine a desestatização da economia com o não agravamento da desigualdade social.
Em 1 de Janeiro de 1994 o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) insurgiu-se no estado de Chiapas, no sudeste do México, por via de um levantamento militar que ocupou vários municípios da região. A luta dos povos indígenas mexicanos contra a opressão, o abandono e a humilhação irrompia nos noticiários nacionais e internacionais, precisamente no dia em que o governo do México celebrava a assinatura do tratado de livre comércio com os EUA e o Canadá (NAFTA, seu acrônimo inglês) com a proclamada ilusão de, com isso, se ter juntado ao clube dos países desenvolvidos. Durante um breve período de doze dias houve vários enfrentamentos entre a guerrilha indígena e o exército mexicano, findos os quais os zapatistas renunciaram à luta armada e iniciaram um vasto e inovador processo de luta política, tanto a nível nacional como internacional. Daí em diante, a narrativa política e as práticas do EZLN passaram a ser uma referência incontornável no imaginário das lutas sociais na América Latina e dos jovens progressistas em outras partes do mundo. O porta-voz do EZLN, o sub-comandante Marcos, ele próprio não indígena, afirmou-se rapidamente como um ativista-intelectual de tipo novo, com um discurso que combinava as aspirações revolucionárias da revolução cubana, entretanto descoloridas, com uma linguagem libertária e de radicalização dos direitos humanos, uma narrativa de esquerda extra-institucional que substituía a obsessão da tomada do poder pela transformação do mundo num mundo libertário, justo e plural “onde caberiam muitos mundos”. Um dos aspectos mais inovadores dos zapatistas foi o caráter territorial e performativo das suas iniciativas políticas, a aposta em transformar os municípios zapatistas da Selva de Lacandona em exemplos práticos do que hoje podia prefigurar as sociedades emancipadoras do futuro. Vinte e cinco anos depois, o EZLN enfrenta o desafio de concitar um amplo apoio para sua política de distanciamento e suspeição em relação ao novo presidente do México, António Lopes Obrador, eleito por uma vasta maioria do povo mexicano com uma proposta que pretende inaugurar uma política de centro-esquerda sem precedentes no México pós-revolução de 1910.
Estes três acontecimentos pretenderam inaugurar novos futuros a partir de rupturas drásticas com o passado. De diferentes formas, apontavam para um futuro emancipador, mais livre de opressão e de injustiça. Qualquer que seja o modo como os avaliamos com o benefício da posterioridade do presente, não restam dúvidas de que eles alimentaram as aspirações libertadoras das populações empobrecidas e vulneráveis, vítimas da opressão e da discriminação. Haveria lugar para um acontecimento deste tipo em 1 de Janeiro deste ano? Especulo que não, dada a onda reacionária que o mundo atravessa. Pelo contrário, houve vasta oportunidade para momentos inaugurais de sentido contrário, reinaugurações de um passado que se julgava superado. O mais característico acontecimento deste tipo foi o empossamento do presidente Jair Bolsonaro do Brasil. A sua chegada ao poder significa o retrocesso civilizacional a um passado anterior à revolução francesa de 1789, ao mundo político e ideológico que se opunha ferozmente aos três princípios estrelares da revolução: igualdade, liberdade e fraternidade. Da revolução triunfante nasceram três famílias políticas que passaram a dominar o ideário da modernidade: os conservadores, os liberais e os socialistas. Divergiam no ritmo e conteúdo das mudanças, mas nenhum deles punha em causa os princípios fundadores da nova política. A todos se opunham os reacionários, que não aceitavam tais princípios e queriam ressuscitar a sociedade pré-revolucionária, hierárquica, elitista e desigual por mandato de deus ou da natureza. Eram totalmente hostis à ideia de democracia, que consideravam um regime perigoso e subversivo. Dada a cartografia política pós-revolucionária que espacializou as três famílias democráticas em esquerda, centro e direita, os reacionários foram relegados para as margens mais remotas do mapa político onde só crescem ervas daninhas: a extrema-direita. Apesar de deslegitimada, a extrema-direita nunca desapareceu totalmente porque os imperativos do capitalismo, do colonialismo e do hetero-patriarcado, quer diretamente quer através de qualquer religião ao seu serviço, recorreram à extrema-direita sempre que a vigência dos três princípios se revelou um empecilho perigoso. Esse recurso nem sempre foi fácil porque a ele se opuseram com êxito as diferentes famílias políticas democráticas. Quando esta oposição não teve êxito, foi a própria democracia que foi posta em causa, encostada à parede da alternativa entre ser totalmente eliminada ou ser desfigurada até ao ponto de ser irreconhecível. Bolsonaro, um neo-fascista confesso, admirador da ditadura e defensor da eliminação física dos dissidentes políticos, representa, por agora, a segunda opção.
 
Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OUTROS QUINHENTOS

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2019/01/boaventura-adeus-ao-futuro.html

A inauguração do passado

Os começos do ano são propícios a augúrios de tempo novo, tanto no plano individual como no coletivo. De tempos a tempos, esses augúrios traduzem-se em atos concretos de transformação social que rompem de modo dramático com o status quo.

Entre muitas outras, destaco três ações inaugurais que ocorreram em 1 de Janeiro e tiveram um impacto transcendente no mundo moderno. Em 1 de Janeiro de 1804, os escravos do Haiti declararam a independência da que era ao tempo uma das mais lucrativas colônias da França, responsável pela produção de cerca de 40% do açúcar então consumido no mundo.

Da única revolta de escravos bem sucedida nascia a primeira nação negra independente do mundo, o primeiro país independente da América Latina. Com a independência do Haiti o movimento para a abolição da escravatura ganhou um novo e decisivo ímpeto e o seu impacto no pensamento político europeu foi importante, nomeadamente na filosofia política de Hegel. Mas, como se tratava de uma nação negra e de ex-escravos, a importância deste feito tem sido negada pela história eurocêntrica das grandes revoluções modernas.

Os haitianos pagaram um preço altíssimo pela ousadia: foram asfixiados por uma dívida injusta, que só viria a ser liquidada em 1947. O Haiti foi o primeiro país a conhecer as consequências fatais da austeridade imposta pelo capital financeiro global de que ainda hoje é vítima.

No dia 1 de Janeiro de 1959, o ditador Fulgêncio Batista era deposto em Havana. Nascia a revolução cubana liderada por Fidel Castro. A escassos quilômetros do país capitalista mais poderoso do mundo emergia um governo revolucionário que se propunha levar a cabo um projeto de país nos antípodas do big brother do norte, um projeto socialista muito consciente da sua novidade e especificidade históricas, inicialmente tão distante do capitalismo norte-americano como do comunismo soviético.

Tal como Lenine quarenta anos antes, os revolucionários cubanos tinham a consciência de que o pleno êxito da revolução dependia da capacidade de o impulso revolucionário se alastrar a outros países. No caso de Cuba, os países latino-americanos eram os mais próximos. Pouco tempo depois da revolução, Fidel Castro enviou o jovem revolucionário francês, Regis Debray, a vários países do continente para auscultar o modo como a revolução cubana estava a ser recebida.

O relatório elaborado por Debray é um documento de extraordinária relevância para os tempos de hoje. Mostra que os partidos de esquerda latino-americanos continuavam muito divididos a respeito do que se passara em Cuba e que os partidos comunistas, em especial, mantinham uma enorme distância e mesmo suspeita em relação ao “populismo” de Fidel.

Pelo contrário, as forças de direita do continente, bem conscientes do perigo que a revolução cubana representava, estavam a organizar o contra-ataque; fortaleciam os aparelhos militares e tentavam promover políticas sociais compensatórias com o apoio ativo dos EUA.

Em Março de 1961, John Kennedy anunciava um plano de cooperação com a América Latina, a se realizar em dez anos, cuja retórica visava neutralizar a atração que a revolução cubana estava a gerar entre as classes populares do continente: “Transformemos de novo o continente americano num amplo cadinho de ideias e esforços revolucionários, uma homenagem ao poder das energias criadoras de homens e mulheres livres e um exemplo para todo o mundo de como a liberdade e o progresso caminham de mãos dadas”.

A expansão da revolução cubana não ocorreu como se previa e sacrificou, no processo, um dos seus mais brilhantes líderes: Che Guevara. Mas a solidariedade internacional de Cuba com as causas dos oprimidos ainda está por contar.

Desde o papel que teve na consolidação da independência de Angola, na independência da Namíbia e no fim do apartheid na África do Sul até aos milhares de médicos cubanos espalhados pelas mais remotas regiões do mundo (mais recentemente no Brasil), onde nunca antes tinham chegado os cuidados médicos. Sessenta anos depois, Cuba continua a afirmar-se num contexto internacional hostil, orgulha-se de alguns dos melhores indicadores sociais do mundo (saúde, educação, esperança de vida, mortalidade infantil), mas falhou até agora na acomodação do dissenso e na implantação de um sistema democrático de tipo novo.

No plano econômico ousa, mais uma vez, o que parece impossível: consolidar um modelo de desenvolvimento que combine a desestatização da economia com o não agravamento da desigualdade social.

Em 1 de Janeiro de 1994 o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) insurgiu-se no estado de Chiapas, no sudeste do México, por via de um levantamento militar que ocupou vários municípios da região. A luta dos povos indígenas mexicanos contra a opressão, o abandono e a humilhação irrompia nos noticiários nacionais e internacionais, precisamente no dia em que o governo do México celebrava a assinatura do tratado de livre comércio com os EUA e o Canadá (NAFTA, seu acrônimo inglês) com a proclamada ilusão de, com isso, se ter juntado ao clube dos países desenvolvidos.

Durante um breve período de doze dias houve vários enfrentamentos entre a guerrilha indígena e o exército mexicano, findos os quais os zapatistas renunciaram à luta armada e iniciaram um vasto e inovador processo de luta política, tanto a nível nacional como internacional. Daí em diante, a narrativa política e as práticas do EZLN passaram a ser uma referência incontornável no imaginário das lutas sociais na América Latina e dos jovens progressistas em outras partes do mundo.

O porta-voz do EZLN, o sub-comandante Marcos, ele próprio não indígena, afirmou-se rapidamente como um activista-intelectual de tipo novo, com um discurso que combinava as aspirações revolucionárias da revolução cubana, entretanto descoloridas, com uma linguagem libertária e de radicalização dos direitos humanos, uma narrativa de esquerda extra-institucional que substituía a obsessão da tomada do poder pela transformação do mundo num mundo libertário, justo e plural “onde caberiam muitos mundos”.

Um dos aspectos mais inovadores dos zapatistas foi o carácter territorial e performativo das suas iniciativas políticas, a aposta em transformar os municípios zapatistas da Selva de Lacandona em exemplos práticos do que hoje podia prefigurar as sociedades emancipadoras do futuro. Vinte e cinco anos depois, o EZLN enfrenta o desafio de concitar um amplo apoio para a sua política de distanciamento e suspeição em relação ao novo presidente do México, António Lopes Obrador, eleito por uma vasta maioria do povo mexicano com uma proposta que pretende inaugurar uma política de centro-esquerda sem precedentes no México pós-revolução de 1910.

Estes três acontecimentos pretenderam inaugurar novos futuros a partir de rupturas drásticas com o passado. De diferentes formas, apontavam para um futuro emancipador, mais livre de opressão e de injustiça. Qualquer que seja o modo como os avaliamos com o benefício da posterioridade do presente, não restam dúvidas de que eles alimentaram as aspirações libertadoras das populações empobrecidas e vulneráveis, vítimas da opressão e da discriminação.

Haveria lugar para um acontecimento deste tipo em 1 de Janeiro deste ano? Especulo que não, dada a onda reacionária que o mundo atravessa. Pelo contrário, houve vasta oportunidade para momentos inaugurais de sentido contrário, re-inaugurações de um passado que se julgava superado.

O mais característico acontecimento deste tipo foi o empossamento do presidente Jair Bolsonaro do Brasil. A sua chegada ao poder significa o retrocesso civilizacional a um passado anterior à Revolução Francesa de 1789, ao mundo político e ideológico que se opunha ferozmente aos três princípios estrelares da revolução: igualdade, liberdade e fraternidade.

Da revolução triunfante nasceram três famílias políticas que passaram a dominar o ideário da modernidade: os conservadores, os liberais e os socialistas. Divergiam no ritmo e conteúdo das mudanças, mas nenhum deles punha em causa os princípios fundadores da nova política. A todos se opunham os reacionários, que não aceitavam tais princípios e queriam ressuscitar a sociedade pré-revolucionária, hierárquica, elitista e desigual por mandato de deus ou da natureza. Eram totalmente hostis à ideia de democracia, que consideravam um regime perigoso e subversivo.

Dada a cartografia política pós-revolucionária que espacializou as três famílias democráticas em esquerda, centro e direita, os reacionários foram relegados para as margens mais remotas do mapa político onde só crescem ervas daninhas: a extrema-direita.

Apesar de deslegitimada, a extrema-direita nunca desapareceu totalmente porque os imperativos do capitalismo, do colonialismo e do hetero-patriarcado, quer diretamente quer através de qualquer religião ao seu serviço, recorreram à extrema-direita sempre que a vigência dos três princípios se revelou um empecilho perigoso. Esse recurso nem sempre foi fácil porque a ele se opuseram com êxito as diferentes famílias políticas democráticas.

Quando esta oposição não teve êxito, foi a própria democracia que foi posta em causa, encostada à parede da alternativa entre ser totalmente eliminada ou ser desfigurada até ao ponto de ser irreconhecível. Bolsonaro, um neo-fascista confesso, admirador da ditadura e defensor da eliminação física dos dissidentes políticos, representa, por agora, a segunda opção.


Por Boaventura Sousa Santos, Sociólogo, Director do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra  | Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Sul21 / Tornado


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/a-inauguracao-do-passado/

Repudiamos a ofensiva do Grupo de Lima contra a Venezuela; apoiamos a luta do povo venezuelano pela soberania e a paz

O Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz) repudia veementemente a contínua ofensiva dos países do Grupo de Lima, alinhados à agenda do imperialismo estadunidense, contra a República Bolivariana da Venezuela. Em nota de 4 de janeiro, os membros do grupo, à exceção do México, declararam não reconhecer o governo do presidente Nicolás Maduro, legitimamente reeleito pelo povo venezuelano nas eleições de 2018.

venezuela-anti-imperialista-1024x516

As forças democráticas e da paz e de todo o mundo têm condenado o cerco midiático, político e econômico orquestrado pela oligarquia nacional e regional e pelos Estados Unidos contra o governo da Venezuela. Tal conluio visa fazer descarrilar a revolução bolivariana, desestabilizar o país e enfraquecer a soberania venezuelana precipitando uma “mudança de regime”, ou seja, um repugnante golpe de estado.

Entre os países signatários da ultrajante declaração, onde ainda ousam demandar que o presidente Maduro ignore o voto que o povo venezuelano lhe concedeu para assumir novo mandato nesta quinta-feira (10), estão aqueles governados por forças antidemocráticas e antipopulares sem legitimidade para se arrogar o papel de defensores da democracia venezuelana.

Ademais de o pretexto ser reconhecimento da ingerência direta nos assuntos do país irmão, governos como o do Brasil, antes sob o mando do golpista Michel Temer e agora sob o do autoritário e ofensivo Jair Bolsonaro, alimentam a crise na Venezuela e buscam inflar a polarização, agravando a situação que tem como vítima direta o povo venezuelano.

Também são impactados os esforços de cooperação e os princípios de amizade e respeito mútuo com que até recentemente governos progressistas buscavam consolidar uma integração regional solidária e soberana, independente do jugo dos Estados Unidos.

Exigimos o fim das medidas ofensivas como as sanções e demais medidas de desestabilização que causam sofrimento ao aguerrido povo venezuelano e dificultam os esforços do governo e das forças democráticas no país para resolver a crise.

Reafirmamos nosso repúdio à posição do governo Bolsonaro e aliados no Grupo de Lima, em posição agressiva diametralmente oposta aos princípios reforçados na Proclamação da América Latina e Caribe como Zona de Paz pela Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos (CELAC) na cúpula de 2014. O compromisso com tal proclamação requer o respeito à soberania das nações para a consolidação de relações de cooperação e amizade na região.

Tirem as mãos da Venezuela!
Viva a luta do povo venezuelano em defesa da sua soberania!
Pela paz e a solidariedade entre os povos da América Latina e Caribe!

Direção Nacional – CEBRAPAZ
09 de janeiro de 2019

Leia o original em CEBRAPAZ (clique aqui)

Declaração do Grupo de Lima

JPEG - 35.4 kb

Os governos de Argentina, Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, Costa Rica, Guatemala, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Santa Lúcia, ante o início, em 10 de janeiro de 2019, do mandato presidencial ilegítimo do regime de Nicolás Maduro (2019-2025) na Venezuela, expressam o seguinte:

1. Reiteram que o processo eleitoral realizado na Venezuela em 20 de maio de 2018 carece de legitimidade por não haver contado com a participação de todos os atores políticos venezuelanos, nem com a presença de observadores internacionais independentes, nem com garantias e padrões necessários a um processo livre, justo e transparente. Consequentemente, não reconhecem a legitimidade do novo mandato presidencial do regime de Nicolás Maduro, que terá início em 10 de janeiro de 2019.

2. Ratificam seu total respaldo e reconhecimento à Assembleia Nacional, legitimamente eleita em 6 de dezembro de 2015, como o órgão constitucional democraticamente eleito na Venezuela.

3. Instam Nicolás Maduro a não assumir a presidência em 10 de janeiro de 2019, a respeitar as competências da Assembleia Nacional e transferir-lhe, temporariamente, o exercício do Poder Executivo até que novas eleições presidenciais democráticas sejam realizadas.

4. Enfatizam a importância do respeito à integridade, à autonomia e à independência do Tribunal Superior de Justiça legitimamente constituído, de acordo com a Constituição venezuelana, para a plena vigência do estado de direito naquele país.

5. Reafirmam sua firme e inequívoca condenação à ruptura da ordem constitucional e do estado de direito na Venezuela, observando que somente por meio da rápida e plena restauração da democracia e do respeito aos direitos humanos, será possível dedicar-se às causas da crise política, econômica, social e humanitária que atravessa esse país.

6. Expressam sua convicção de que a solução da crise política na Venezuela cabe aos venezuelanos e, portanto, reiteram sua determinação permanente em apoiar as iniciativas políticas e diplomáticas que levem à restauração da ordem constitucional, da democracia e do estado de direito naquele país, por meio da condução de um novo processo eleitoral com garantias democráticas.

7. Manifestam sua determinação em continuar promovendo iniciativas em foros multilaterais, em particular na Organização dos Estados Americanos e no Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, a fim de contribuir para o restabelecimento da ordem democrática e do respeito aos direitos humanos na Venezuela.

8. Instam todos os países membros da OEA a reafirmar seu apoio à Carta da OEA e à Carta Democrática Interamericana, a fim de contribuir para o restabelecimento da ordem democrática na Venezuela.

9. Condenam qualquer provocação ou desdobramento militar que ameace a paz e a segurança na região. Conclamam o regime de Nicolás Maduro e as Forças Armadas venezuelanas a desistirem de ações que violem os direitos soberanos de seus vizinhos. Nesse sentido, expressam sua profunda preocupação com a interceptação, em 22 de dezembro de 2018, de um navio de pesquisa sísmica por parte da Marinha venezuelana dentro da zona econômica exclusiva da República Cooperativa da Guiana.

10. Reiteram sua profunda preocupação com a grave crise política e humanitária na Venezuela, que resultou no êxodo em massa de migrantes e requerentes de asilo oriundos daquele país, como resultado de atos e políticas antidemocráticas, opressoras e ditatoriais praticados pelo regime de Nicolás Maduro, que só pode ser resolvida por meio do pleno restabelecimento da ordem democrática e do respeito aos direitos humanos. Também renovam seu compromisso, na medida de suas possibilidades, de continuar prestando assistência aos migrantes procedentes da Venezuela, bem como de promover e desenvolver iniciativas de coordenação regional em resposta a essa crise. Nesse sentido, saúdam a inclusão da crise de migrantes e refugiados da Venezuela, pela primeira vez, no Apelo Humanitário Global da ONU para 2019, bem como a nomeação do representante conjunto da OIM e do ACNUR.

11. Expressam sua preocupação com o impacto sobre a economia e a segurança dos países da região causado pela crise política na Venezuela.

12. Instam o regime venezuelano a permitir a imediata entrada de assistência humanitária dirigida ao povo da Venezuela, a fim de evitar o agravamento da crise humanitária e de saúde pública naquele país e seus efeitos transnacionais.

13. Acordam as seguintes medidas:

A. Reavaliar o status ou o nível de suas relações diplomáticas com a Venezuela, com base na restauração da democracia e da ordem constitucional naquele país, e a necessidade de proteger seus nacionais e seus interesses.

B. Nos termos permitidos por suas leis internas, impedir a entrada de altos funcionários do regime venezuelano no território dos países do Grupo Lima; elaborar listas de pessoas físicas e jurídicas com as quais entidades financeiras e bancárias de seus países não devem operar ou devem realizar especial verificação de antecedentes, impedir seu acesso ao sistema financeiro e, se necessário, congelar seus fundos e outros ativos ou recursos econômicos.

C. Avaliar, com critérios restritivos, a concessão de empréstimos ao regime de Nicolás Maduro nos organismos financeiros internacionais e regionais de que fazem parte.

D. Suspender a cooperação militar com o regime de Nicolás Maduro, incluindo a transferência de armas à luz dos artigos 6 e 7 do Tratado sobre o Comércio de Armas, bem como avaliar as autorizações de sobrevoo das aeronaves militares venezuelanas em casos de assistência humanitária.

E. Intensificar os contatos com países não membros do Grupo de Lima, a fim de mantê-los informados sobre as ações do Grupo, sobre a gravidade da situação na Venezuela e sobre a necessidade de trabalhar em conjunto para o restabelecimento da democracia naquele país.

F. Com relação ao pedido feito por Argentina, Canadá, Colômbia, Chile, Paraguai e Peru ao Tribunal Penal Internacional para que se investigue o cometimento de possíveis crimes contra a humanidade na Venezuela, instar outros países a apoiar a solicitação e, ao Escritório do Procurador do Tribunal Penal Internacional, a executar com celeridade os procedimentos correspondentes.

G. Instar outros membros da comunidade internacional a adotar medidas semelhantes às acordadas pelo Grupo de Lima contra o regime de Nicolás Maduro para a restauração da democracia.

Ver original na 'Rede Voltaire'



México não assina declaração do Grupo de Lima pedindo renúncia de Maduro

O Governo do México decidiu não apoiar a declaração Grupo Lima sobre a Venezuela em respeito à "autodeterminação dos povos". A posição foi apresentada pelo subsecretário Maximiliano Reyes Zúñiga, encarregado da América Latina e o Caribe da chancelaria mexicana.

"O Governo do México, seguindo fielmente os seus princípios constitucionais de política externa, irá se abster de emitir qualquer decisão sobre a legitimidade do governo venezuelano. A autodeterminação e a não-intervenção são princípios constitucionais que o México deve seguir", disse Zúñiga na reunião do Grupo Lima de acordo com um comunicado do Ministério das Relações Exteriores do México.

Zúñiga participou da reunião de chanceleres do grupo, realizada na capital peruana, ao invés do ministro das Relações Exteriores, Marcelo Ebrard.

Ele acrescentou que "a promoção do diálogo entre as partes para encontrar uma solução pacífica para a situação na Venezuela continuará a ser uma prioridade da política externa do México, portanto, desta vez o México não irá acompanhar o texto agora está sendo discutido".


No entanto, Zúñiga disse aos chanceleres que o México "reitera a sua preocupação com a dinâmica que alterou a paz e a prosperidade do povo venezuelano e a situação relativa ao respeito pelos direitos humanos que existe".

Na declaração desta sexta-feira (4) do Grupo Lima, os 13 países signatários indicam que não reconhecem a legitimidade do novo mandato presidencial de Nicolás Maduro na Venezuela.

Os governos do Peru, Argentina, Brasil, Canadá, Colômbia, Costa Rica, Chile, Guatemala, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Santa Lúcia pediram a Maduro não assumir a presidência da Venezuela em 10 de janeiro e transferir o Poder Executivo à Assembleia Nacional (parlamento unicameral com uma maioria de oposição) até que novas eleições democráticas sejam realizadas.

O México foi o único país membro do Grupo Lima que não assinou a declaração.

O Grupo de Lima também expressou sua "profunda preocupação com o êxodo em massa de migrantes e requerentes de asilo resultante da grave crise política e humanitária naquele país".


Da mesma forma, os países signatários anunciaram que vão reavaliar suas relações diplomáticas com a Venezuela, "em função da restauração da democracia e da ordem constitucional naquele país".

Eles também concordaram em impedir a entrada em seus territórios aos altos funcionários do governo venezuelano e estabelecer sanções financeiras a indivíduos e empresas ligadas ao Executivo desse país.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019010513048566-mexico-grupo-de-lima-declaracao-nao-assina-venezuela/

A «Casa de Papel» * em versão latino-americana

Alfredo Serrano MancillaA impressão massiva de dinheiro pelos bancos centrais dos EUA, UE, Japão e Grã-Bretanha funciona como mais um mecanismo de dominação económica sobre países que não têm esse privilégio, amarrando-os a um endividamento sem fim à vista.

Na última década, Estados Unidos, União Europeia, Inglaterra e Japão imprimiram o equivalente a dez milhares de milhões de dólares. Os seus respectivos bancos centrais puseram a maquineta de imprimir notas a toda a velocidade. A Reserva Federal dos Estados Unidos duplicou o seu volume entre 2008 e 2014 e depois continuou a imprimir, embora a um ritmo algo inferior. O Banco Central Europeu duplicou o seu entre 2015 e 2017. O Banco do Japão começou a incrementar o ritmo de impressão a partir de 2013 e hoje em dia o seu volume impresso tem quase o mesmo tamanho que a sua economia. No caso do Banco de Inglaterra, o seu volume multiplicou por 15 em termos de Produto Interno Bruto.

E com tanto dinheiro pelo mundo, com este excesso de liquidez global, faz sentido fazer-se esta dupla pregunta a partir de uma perspectiva latino-americana: 1) ¿serviu isto para melhorar a economia? 2) ¿quem foram os afortunados que ficaram com boa parte dessa quantidade ingente de notas impressas? Neste caso, na realidade, ao contrário do que ocorre na famosa serie “La Casa de Papel”, os ganhadores não são os cidadãos da rua. Nem tão pouco há tiros nem reféns. Mas há sim um outro método, não baseado num roubo como tal, mas sim numa vigarice milimetricamente planificada.

A sequência é a seguinte. Primeiro, o já referido: imprimem-se notas em barda que, de imediato, são emprestadas na sua maioria à grande banca a uma taxa de juro ridícula, em muitas ocasiões próxima de 0%, ou inclusivamente com taxa de juro real negativa. A justificação foi que havia que “salvar” a banca, considerada “demasiado grande para cair”. De modo que lhes foi oferecido dinheiro. Literalmente a custo zero.

Segundo, a banca demasiado grande para cair, já salva, e com o saco cheio, tinha o grande objectivo de emprestar esse dinheiro sobrante a economias periféricas, como as latino-americanas, desejosas de nutrir-se de novo capital. Este empréstimo em segunda instância não seria já a taxa zero ou a um juro muito baixo, mas era feito a uma taxa de juro mais elevada, garantindo-se assim um negócio redondo.

Há um terceiro passo: identificar aonde foi parar este dinheiro que recentemente aterrou em algumas economias latino-americanas. Chegados a este ponto, o importante antes de tudo é reter um dado claro: este “novo dinheiro” não se orientou para actividades económicas produtivas nem para a economia real. De cada 10 dólares novos, 9 terminaram em actividades financeiras, especulativas e ociosas. Então, ¿qual foi o destino do dinheiro conseguido através destes novos empréstimos? Em muitos países, como são os casos de Colômbia e México, foi empregue em pagar dívidas anteriores. Na Argentina a situação foi outra devido a que Macri recebeu um país desendividado. De modo que os dólares novos se colocaram em modo de livre oferta à disposição de quem pudesse compra-los. E assim foi: os dólares acabaram na sua grande maioria nas mãos de uns poucos fundos de investimento e da mesma banca que havia previamente emprestado os dólares; houve também dólares para bancos locais e para outros actores económicos de alto escalão (especialmente, o que na Argentina se chama o “campo”); e o resto, uma percentagem ridícula, para uma maioria que não tinha pesos suficientes para os comprar ao novo tipo de cambio depois das desvalorizações.

E é assim que chegamos ao quarto capítulo desta serie. Agora é a altura em que o mundo financeiro esfrega as mãos. ¿Porquê? Porque ainda restam muitos mais dólares para emprestar. Dez milhares de milhões de dólares são muitos dólares e não foram todos gastos na primeira fase. Com tudo o que resta por colocar, agora é o turno do FMI, que chega com os bolsos cheios de dinheiro impresso pelas maquinetas dos seus bancos centrais com uma única missão: emprestar de novo para que o país cancele a sua dívida, quer dizer, devolva o que pediu anteriormente emprestado. E assim a dívida externa vai-se constituindo em divida eterna.

Dado o domínio actual do capitalismo neoliberal, impede-se que o dinheiro novo, o que se consegue por empréstimo, seja usado para a economia real. Isto provoca que as economias latino-americanas, que se inserem no mundo pelos canais regulares, acabem sumamente endividadas, com uma economia real cada vez mais raquítica e ineficiente. O grande boom global de impressão monetária é um factor condicionante do crescente endividamento externo latino-americano, que determina para o futuro um modelo de desenvolvimento dependente, financeirizado e improdutivo e, em consequência, con uma procura interna cada vez mais débil.

«La Casa de Papel» em versão latino-americana tem um final diametralmente oposto ao que ocorre na serie. Na ficção, o dinheiro fica com um grupo de gente anónima, mas na realidade o caudal impresso vai parar à conta de resultados de uns quantos bancos à custa das economias da região. Veremos o que sucede na próxima temporada.

*«La Casa de Papel» é uma série espanhola de televisão, cujo enredo se centra num grupo de ladrões que se encerram na Casa Nacional da Moeda de Espanha. Presume-se que no decurso dos episódios imprimem papel moeda.

Fonte: http://www.resumenlatinoamericano.org/2018/12/12/economia-la-casa-de-papel-en-version-latinoamericana/

Divulga o endereço[1] deste texto e o de odiario.info[2] entre os teus amigos e conhecidos

References

  1. ^ endereço (www.odiario.info)
  2. ^ odiario.info (odiario.info)

Leia original aqui

Na Bolívia, improvável êxito

Evo Morales confraterniza com líderes indígenas. Superar a dicotomia entre trabalhador X indígena foi uma das marcas da criação política do presidente

Abalada na América do Sul, a onda de esquerda permanece viva no mais frágil dos países que dela participaram. Não é por acaso

Por Santiago Mayor | Tradução: Danilo Costa N. A. Leite

Em janeiro de 2006, pela primeira vez na história da Bolívia, um presidente indígena assumia o governo. Evo Morales Ayma, dirigente sindical cocalero (movimento de proteção à folha de coca como símbolo da cultura boliviana), tinha triunfado alguns meses antes com mais de 50% dos votos em uma eleição sem precedentes.

Sua vitória inscreveu-se na onda progressista e de esquerda que chegou aos governos da América Latina durante os primeiros anos do século XXI. Naquele momento já ocupavam a presidência Hugo Chávez na Venezuela, Lula no Brasil, Néstor Kirchner na Argentina e Tabaré Vásquez no Uruguai. Alguns meses depois se somaria Daniel Ortega na Nicarágua e no ano de 2007 Rafael Correa no Equador.

Apesar disso, comparada a seus pares, com exceção do caso uruguaio provavelmente, a Bolívia conseguiu se consolidar como um modelo social, político e econômico estável que não sofreu com as crises econômicas e políticas da Venezuela ou Nicarágua, nem perdeu seu governo por meio de golpes de Estado e ‘impeachments’ – como ocorreu no Brasil, Honduras e Paraguai – ou de eleições, como na Argentina. Qual é o motivo de tal excepcionalidade?

Estatísticas contundentes

Segundo dados do Banco Mundial, em 2006 o Produto Interno Bruto (PIB) boliviano era de 11.452 milhões de dólares. Em 2017 o número havia aumentado mais de três vezes chegando a 37.509 milhões. No mesmo período, a renda per capita anual passou de 1.120 para 3.130 dólares e a expectativa de vida subiu de 64 para 71 anos. O Instituto Nacional de Estatísticas (INE) do país, por sua vez, afirma que a pobreza baixou de 59,9%, quando Evo Morales assumiu, para 36,4% no ano passado.

Por outro lado, como nota o pesquisador e mestre em Desenvolvimento Econômico e Sustentabilidade, Sergio Martín-Carrillo, a Bolívia “foi o país sul-americano que experimentou o maior crescimento econômico, mantendo inclusive um ritmo acima do patamar de 4%, apesar do contexto de debilidade que a região vive desde 2015”. Isso foi acompanhado por uma queda constante da inflação, que passou de 12% em 2007, a menos de 2% em 2018 até o momento.

Tais resultados se sustentaram com uma política que contradiz os postulados neoliberais que hoje inspiram os governos dos países vizinhos como Argentina, Chile, Paraguai ou o presidente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro.

As razões

O sociólogo e escritor boliviano Antonio Abal enumerou em conversa com a reportagem “os eixos do crescimento contínuo da economia da Bolívia”.

Na sua visão, trata-se de uma política baseada em “nacionalizações de setores estratégicos, como as comunicações, os hidrocarbonetos e a mineração”; o redirecionamento dos recursos estatais, “sobretudo, para a infraestrutura produtiva”; o “fortalecimento do mercado interno”; uma política monetária de “valorização da moeda nacional”, ou seja, uma “desdolarização da economia”; e finalmente um investimento forte nos processos industriais como os do “lítio, de laticínios, têxteis, etc e fomento à pequena e média empresa, com facilidades em termos de acesso ao crédito”.

O vice-presidente do país, Álvaro García Linera, exprimiu opinião no mesmo sentido em entrevista ao jornal argentino Página 12, onde explicou o que, para ele, são os quatro fatores principais desse êxito econômico.

Em primeiro lugar, que o Estado controle como proprietário os principais setores geradores de excedente econômico: hidrocarbonetos, eletricidade e telecomunicações. Por outro lado, que leve a cabo uma redistribuição da riqueza, “mas de uma maneira sustentável”, de forma que “os processos de reconhecimento e ascensão social dos setores subalternos populares e indígenas tenham sustentabilidade ao longo do tempo”.

Em terceiro lugar, assim como Abal, sustenta que se deve “fortalecer o mercado interno” e, por último, a “articulação entre o capital bancário e o produtivo, o que implica que 60% da poupança dos bancos se dirija ao setor produtivo, gerando mão-de-obra”.

Políticas públicas de redistribuição

A isso se soma uma série de programas sociais que acompanharam a melhora econômica e que foram dispositivos que garantiram a redistribuição da riqueza. Nesse sentido, Martin-Carrillo listou três dos programas que considera mais importantes: o Bolsa Juancito Pinto (Bono Juancito Pinto), o Renta Dignidade e o Bolsa Juana Azurduy (Bono Juana Azurduy).

O primeiro deles foi lançado durante o primeiro ano de governo e visa que meninos e meninas cumpram sua trajetória na escola. Ele prevê um aporte de 200 bolivianos (29 dólares) a estudantes de escolas públicas em troca de um mínimo de 80% de frequência às aulas. Durante 2018, houve 2.221.000 de estudantes beneficiados graças a essa iniciativa. O resultado foi que entre 2006 e 2017 o abandono escolar no ensino fundamental caiu de 6,5% para 1,8% e no ensino médio de 8,5% para 4%.

Por sua vez, o Renda Dignidade (Renta Dignidad), vigente desde 2007, mira a população idosa –  com 60 anos ou mais – e prevê 250 bolivianos (36 dólares) para pessoas com aposentadoria por tempo de serviço e 300 bolivianos (43 dólares) para pessoas sem aposentadoria por tempo de serviço. 

Finalmente, o Bolsa Juana Azurduy, que está dirigido tanto a gestantes, para as quais estipula a condição de que realizem quatro exames pré-natais, parto em instituição de saúde e acompanhamento pós-parto, bem como a crianças, condicionado a 12 exames completos de saúde a cada dois meses.

Houve também uma política agressiva de incremento do Salário Mínimo Nacional, que em 2005 equivalia a 440  bolivianos (ou 57 dólares naquele momento) e chegando hoje a 2.060 (298 dólares). Ainda assim, este ano, devido ao crescimento econômico, segundo o informe da Agência Boliviana de Informação, o Executivo se dispôs a pagar o bônus duplo a todos os trabalhadores públicos e privados.

Um processo com debates e tensões

Para além de sua situação atual, os governos do Movimento ao Socialismo (Movimiento al Socialismo – MAS) não estão livres de percalços, alguns dos quais muito sérios. O ponto mais tenso talvez ocorreu no ano de 2008, quando a chamada “Meia Lua”, que incluía quatro departamentos orientais do país, tentou se emancipar do resto do território, por meio da ação de setores da direita boliviana que contavam com o apoio escamoteado dos EUA. 

Não obstante, com o respaldo da União das Nações Sul-americanas (Unasur), tal crise pôde ser superada e poucos meses depois avançava o processo de proclamação da nova Constituição no começo de 2009. Essa Carta Magna declarou o caráter “Plurinacional” do Estado, reconhecendo na lei máxima do país os povos originários historicamente negados. Evo Morales passou a encarnar assim, não somente simbólica como também institucionalmente, a ascensão definitiva dos setores marginalizados durantes séculos da política nacional.

Ainda que para Abal não se possa “falar de etapas, senão de uma aplicação persistente de um modelo econômico”, a partir daqui já se pode analisar o aprofundamento de alguns aspectos. Trata-se de um ponto de inflexão, a partir do qual se começa a falar em “socialismo comunitário”, o que o sociólogo define como “uma abordagem teórica da aplicação do marxismo e de suas categorias para compreender as lógicas dos ‘ayllus’ (comunidades)”, que como muitos autores indicaram, mantiveram estruturas de “comunismo primitivo” ou comunitárias, contrárias à propriedade privada e à acumulação individual.

Por outro lado, García Linera sustenta que, uma vez superada a ofensiva da direita, abriu-se um novo momento na revolução boliviana que ele chamou de “tensões criativas”. Ou seja, debates interiores ao processo que o fazem avançar.

A respeito disso, Abal garante que nos movimentos sociais duas tendências político-ideológicas convivem: “uma sindical, centrada nas reivindicações setoriais, e outra revolucionária, como parte do processo de mudança e parte do governo”. É na disputa entre essas duas visões que se dão as tensões criativas que, de seu ponto de vista, são “a dialética do movimento da consciência de classe”.

A lógica “centrada no operário”, segundo o sociólogo, não consegue compreender completamente “a outra lógica organizativa e ideológica dos povos originários”. E ele a atribui a uma contradição estimulada durante décadas de opor “índios e operários” e que “foi patrocinada em uma etapa do nacionalismo revolucionário (1952-1985)”. 

Finalmente, o analista aponta que “o vínculo potente se encontra entre o governo e os movimentos sociais”, onde “o grande articulador do bloco é, sem dúvida, Evo Morales, e não somente como instrumento político”. Como outra face dessa moeda, Estado e movimentos sociais “ainda estão distantes”, porque o último (sic) “mantem uma matriz colonial não superada”.

Uma revolução com futuro

Ainda que os processos políticos nacionais dificilmente possam sobreviver por muito tempo isoladamente contando somente com forças internas, o país conta ainda com aliados no continente. Para além de eventuais conflitos, há Venezuela, Nicarágua e também Cuba, país com os quais integra a Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América (Alba). Cabe recordar que, com a colaboração de Havana, em 2008 todo território boliviano foi declarado “livre do analfabetismo”.

Por outro lado, apesar do tropeço sofrido no referendo em começos de 2016, que impediu Morales de voltar a se apresentar nas eleições presidenciais de 2019, isso foi ao final autorizado pelo Tribunal Supremo. Com sua candidatura e uma direita por enquanto dividida, a continuidade do processo parece estar assegurada. 

Por último, porém não menos importante, García Linera realizou um prognóstico no recente Fórum Mundial de Pensamento Crítico, ocorrido em Buenos Aires, segundo o qual os governos conservadores da região durarão pouco tempo e logo virá um novo auge progressista e de esquerda.

“Estamos enfrentando uma onda conservadora neoliberal que tem dois limites intrínsecos: é fossilizada e é em si mesma contraditória”, apontou. E detalhou que nesses países estão se “repetindo as receitas que fracassaram vinte anos atrás”, o que demonstra como “não tem inventividade, nem tem criatividade e nem tem esperança”.

“O neoliberalismo atual mobiliza somente ódios e ressentimentos”, por sua vez. O que redunda em dizer que “está baseado na negatividade e não em proposições. Não na esperança em médio prazo, senão na recusa emotiva de curto prazo. E isso tem patas curtas”, completou o vice-presidente boliviano. 

Por isso, com otimismo, sentenciou: “Em vez de viver uma longa noite neoliberal, viveremos uma curta noite de verão neoliberal. E neste momento cabe a nós reconhecer o que fizemos bem, reconhecer o que fizemos mal e nos prepararmos”. “A esquerda tem que voltar a se preparar para tomar o poder nos próximos anos no continente”, concluiu.

Publicaido originalmente em RT

Ver o original em 'Outras Palavras' na seguinte ligação:

https://outraspalavras.net/mundo/america-latina/na-bolivia-improvavel-exito/

 

Filho de Bolsonaro coordena em Washington ataques contra Cuba e Venezuela

Sergio Alejandro GómezA eleição do candidato neofascista no Brasil irá repercutir-se num acréscimo da agressividade imperialista contra os regimes progressistas na América Latina e contra a Cuba revolucionária. Os EUA esperam de Bolsonaro que seja um digno sucessor dos bárbaros ditadores que mantiveram o domínio sobre o seu «pátio das traseiras».

 


 

O presidente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro, encomendou a seu filho a tarefa de subordinar a política exterior da nação sul-americana aos interesses dos Estados Unidos, em especial nos temas relacionados com Cuba e Venezuela.

Eduardo Bolsonaro, senador pelo estado rico de São Paulo, viajou no início desta semana a Washington como enviado do seu pai junto do Departamento de Estado, do Departamento do Tesouro e do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca, informou o diário O Globo.

Durante os seus encontros com funcionários de segunda e terceira linha em Washington, Bolsonaro Jr. mostrou-se especialmente interessado em assinar um acordo com os Estados Unidos para aumentar a perseguição financeira contra Havana e Caracas.

Segundo O Globo, o senador disse que há instrumentos de investigação dentro da chamada Convenção de Palermo contra o crime organizado que o Brasil poderia usar contra ambos países.

A judicialização da política foi a principal estratégia da direita brasileira para retirar do caminho os seus rivais , como foi o caso do líder do Partido dos Trabalhadores (PT), Luiz Inácio Lula da Silva, que era favorito em todas as sondagens para as passadas eleições presidenciais, mas não pôde apresentar-se devido ao cerco com que o sistema judicial o envolveu.

Segundo se depreende das declarações de Bolsonaro, o plano do novo governo, uma vez que assuma o mandato em Brasília no próximo 1º de Janeiro, será a “internacionalização” das técnicas que permitiram destituir a mandataria eleita, Dilma Rousseff, e depois retirar Lula de jogo mediante artimanhas legais.

O Brasil está a estudar alianças com o governo estado-unidense com esse propósito, disse Bolsonaro Jr.

Adiantou inclusivamente que as accões contra Cuba e Venezuela serão coordenadas pelo Ministério da Justiça, a cargo de Sérgio Moro, o polémico Juiz que converteu as investigações de corrupção do caso Lava Jato em uma caça às bruxas contra os dirigentes do PT.

“Existem diversos instrumentos que o Brasil durante anos, de maneira intencional, não tomou a sério. São instrumentos que estão disponíveis. O Juiz Sergio Moro sabe mais do que ninguém sobre lavagem de capitais, combate ao crime organizado, Convenção de Palermo. E junto com a equipa do embaixador Ernesto Araújo, tem muito a fazer nessa área”, disse o senador no Twitter.

Bolsonaro filho sugeriu também que as investigações da Operação Lava Jato, que até agora eram encabeçadas por Moro, poderiam ser usadas para apontar possíveis activos venezuelanos e cubanos no Brasil.

O enviado do presidente eleito de Brasil foi recebido em Washington pelo secretário-geral da OEA, Luis Almagro.

Almagro é o ponta de lança de Washington contra os governos progressistas na América Latina e desde que assumiu a chefia da OEA recrudesceram os ataques contra los governos que não correspondem aos interesses norte-americanos.

Bolsonaro Jr. também se reuniu com a subsecretaria adjunta do Hemisfério Ocidental do Departamento de Estado, Kim Breier, e funcionários do Conselho de Defesa Nacional.

“Falamos principalmente do primeiro passo que o Brasil está dando de seguir junto aos Estados Unidos em temas internacionais“, disse o senador a repórteres enquanto saía do American Enterprise Institute.

A viagem aos Estados Unidos ocorre em vésperas da chegada ao Rio de Janeiro do polémico conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos John Bolton, que se reunirá com Jair Bolsonaro na próxima sexta-feira.

“Feliz por receber a visita do conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, o senhor John Bolton, na próxima semana; seguro de que teremos uma conversação produtiva e positiva em favor das nossas nações”, escreveu no Twitter o líder ultradireitista.

O actual assessor de Segurança Nacional de Trump foi subsecretario de Estado e depois Embaixador na ONU do governo de George W. Bush. Em ambos os cargos destacou-se pelas suas posturas ultraconservadoras e agressividade contra países soberanos.

Esteve também entre os que asseguraram a existência de armas de destruição massiva no Iraque, o que levou Washington em 2003 a uma guerra que custou milhares de milhões de dólares e deixou um número de mortos que alguns calculam superior ao milhão, sobretudo população local.

Os laços deste personagem com a ultradireita de origem cubana da Florida são conhecidos, tal como o seu historial de provocações e agressões contra a Maior das Antilhas.

A mais conhecida das suas loucuras contra Cuba foi um discurso no ano de 2002 em que declarou Havana como parte do “Eixo del mal”, o grupo de países que podia ser “bombardeado em qualquer momento” pelo governo de Bush.

Tanto o presidente eleito de Brasil como o seu filho compartilham com Bolton algumas das suas ideias mais extremistas.

Bolsonaro pai defendeu a ditadura militar brasileira durante a campanha e o seu filho ameaçou com ilegalizar alguns partidos políticos no Brasil.

Embora o novo governo brasileiro de ultradireita não tenha tomado posse, as ameaças e provocações do presidente eleito provocaram já a saída dos médicos cubanos do programa Más Médicos, o que deixará de imediato cerca de 30 milhões de pessoas sem cobertura de saúde.

De acordo com O Globo, Bolsonaro Jr. recebeu uma felicitação das autoridades estado-unidenses por demolir o programa em que participaram mais de 20 mil médicos da Maior das Antilhas e graças ao qual foram levadas a cabo mais de 100 milhões de consultas médicas.

Fonte:http://www.cubadebate.cu/especiales/2018/11/27/hijo-de-bolsonaro-coordina-en-washington-ataques-contra-cuba-y-venezuela/#.W_6K7GieTIV

Leia original aqui

Fórum reunirá líderes da esquerda ibero-americana em Buenos Aires

Líderes da esquerda ibero-americana participam a partir de hoje (19), em Buenos Aires, no Fórum Mundial do Pensamento Crítico, um contraponto à cúpula do G20 que decorrerá também na capital argentina nos dias 30 de novembro e 01 de dezembro. O evento contará com mais de 200 convidados, entre ex-Presidentes, intelectuais e líderes de movimentos sociais que debaterão o futuro da democracia, ameaçada pela desigualdade social e pelo reforço da extrema-direita.

Organizado pelo Conselho Latino-americano de Ciências Sociais (CLACSO), o evento decorrerá entre os dias 19 e 23, mas os dois primeiros concentrarão intervenções de líderes como os ex-Presidentes Dilma Roussef (Brasil), José Mujica (Uruguai), e Cristina Kirchner (Argentina). Os candidatos derrotados nas recentes eleições na Colômbia (Gustavo Petro) e Brasil (Fernando Haddad, Manuela D’ávila e Guilherme Boulos) também deverão participar. Ainda sob o impacto da eleição de Jair Bolsonaro para presidir o Brasil, os líderes ibero-americanos participarão em painéis como “América Latina: medo, esperança, utopia” ou “Brasil, a esperança vencerá o medo”.

Nomes importantes da esquerda, como o líder espanhol do Podemos, Pablo Iglesias, ou o ex-Presidente da Colômbia, Ernesto Samper, juntamente com acadêmicos de dezenas de países também darão a sua contribuição aos problemas globais e contemporâneos.

O sociólogo português Boaventura de Sousa Santos participará nos debates “A igualdade explicada pelo 1% mais rico da humanidade”, “Um diálogo de saberes entre África, Ásia e América Latina” e “Pensar os desafios globais a partir da América Latina”. De Portugal também estará presente o ex-reitor da Universidade de Lisboa e candidato presidencial, António Sampaio da Nóvoa, que participa no debate sobre o desafio para as universidades públicas em “Conhecimento, Verdade e Justiça Social: qual será o futuro para a Universidade?”.

Autocrítica

O líder social argentino e consultor do Conselho Pontifício de Justiça e Paz, Juan Grabois, conhecido como “amigo do papa”, também estará presente ao Fórum. ”Acredito que um fórum do pensamento crítico tem de ser crítico e autocrítico. Não gosto dos fóruns de lamentos coletivos, de catarse. Neste momento, o campo popular progressista latino-americano necessita pensar, criticamente, a sua própria prática e não o exercício ritual da crítica à prática do rival”, disse Grabois à Lusa, agência pública de notícias de Portugal.

Para o sociólogo e cientista político chileno, Patricio Navia, Bolsonaro é “o inimigo favorito para os líderes de esquerda da América Latina” e a sua vitória pode ajudar a unificar a esquerda contra o mal maior. “A esquerda está triste porque perdeu no Brasil, mas está feliz porque Bolsonaro é o estereótipo da direita autoritária, desrespeitosa, homofóbica, violenta e racista. Com um inimigo assim, a esquerda espera ter vantagens eleitorais”, explica à Lusa Patricio Navia, da Universidade de Diego Portales e da New York University.

Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/forum-reunira-lideres-da-esquerda-ibero-americana-em-buenos-aires/

El Salvador e o aborto

El Salvador não é um país, é uma reserva do catolicismo jurássico que contamina todas as instituições, subverte os direitos da mulher e indigna os humanistas.

Em El Salvador o aborto espontâneo pode conduzir a severas penas de prisão e não há perigo de vida da mãe, malformação do feto ou violação da mulher que faça tremer a mão de um juiz ou inquiete a consciência dos legisladores. Desde 1998 a lei não permite exceções que evitem a violência da pena.

Se o aborto fosse masculino talvez fosse um sacramento; assim, é mais um anátema para a difícil condição da mulher, frequentemente pobre, rural e pouco instruída.

Em 11 de outubro de 2017 a justiça confirmou a sentença de 30 anos para Evelyn Cruz, de 19 anos, num caso manipulado por organismos que procuravam legalizar o aborto no país.

Uma jovem, Imelda Cortez, cujos testes provaram ter um défice cognitivo e emocional, está em risco de enfrentar 20 anos de prisão depois de tentar abortar um bebé concebido na sequência de várias violações, desde os 12 anos, por parte do seu padrasto. A vítima desconhecia que estava grávida e, depois de ter passado uma semana no hospital e dar à luz a criança que, aliás, sobreviveu, seguiu para a prisão.

A saúde reprodutiva da mulher é indiferente ao clero reacionário de El Salvador, o clero cuja influência nos órgãos do poder e nos resultados eleitorais é decisiva. Uma tentativa de aborto, no caso de a mulher chegar a um hospital para salvar a vida, é habitualmente denunciada e entregue à justiça pelos próprios médicos.

El Salvador é um dos cinco países com proibição total do aborto, com Nicarágua, Chile, Honduras e República Dominicana a acompanharem a violência e o anacronismo legal. A lei antiaborto é das mais violentas do mundo, levando a que as mulheres que sofrem abortos espontâneos se possam tornar suspeitas de terem induzido um aborto, e poderem ser presas por assassinato.

Em El salvador parece ter sobrevivido a misoginia e a Inquisição como pesada herança da evangelização espanhola. Por lá ficou a língua, a violência e a fé, sendo a primeira o único património a merecer respeito.

 

 

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2018/11/el-salvador-e-o-aborto.html

No «processo Berta Cárceres» haverá «culpados, mas não justiça»

Os presumíveis autores materiais do assassinato da líder indígena hondurenha estão no banco dos réus, 2 anos e meio após o crime. Para a família de Berta, os verdadeiros responsáveis ficarão impunes.

Berta CáceresCréditos / goldmanprize.org

Co-fundadora do Conselho Cívico das Organizações Populares e Indígenas das Honduras (Copinh), Berta Cárceres opôs-se, com firmeza e ao longo de vários anos, ao projecto hidroeléctrico Agua Zarca, da empresa Desa, pelas graves consequências que traria para o seu povo.

Figura pública premiada pela sua tenacidade na defesa do meio ambiente, tanto ela como a sua família foram alvo de inúmeras ameaças, a tal ponto que os seus quatro filhos tiveram de sair do país. Acabaria por ser assassinada na madrugada de 2 para 3 de Março de 2016, em sua casa, em La Esperanza, no departamento ocidental de Intibucá.

Desde o passado dia 20 de Outubro, estão no banco dos réus os oito presumíveis autores materiais do seu assassinato, incluindo um alto cargo da Desa, a empresa por trás do projecto Agua Zarca, ao qual Berta Cáceres se opunha.

À BBC World, os familiares da dirigente indígena disseram estar convencidos de que o julgamento será célere e de que haverá condenações, mas alertando que tal «não é garantia de justiça».

«Vai haver condenações, sem dúvida, porque isso interessa ao Estado», disse à BBC Berta Zúñiga, uma das filhas da ambientalista hondurenha assassinada em 2016. Acrescentou, no entanto, que «serão penas leves, o resultado de um processo superficial que não vai lançar luz sobre o que verdadeiramente se passou».

Preocupação com um «processo-farsa»

Para Zúñiga, o risco não é apenas de que as eventuais penas possam ser facilmente revertidas noutras instâncias, mas o de que a actuação judicial possa comprometer a futura acusação dos verdadeiros autores intelectuais do assassinato.

A decisão recente de retirar do processo os representantes legais das vítimas – os familiares de Cáceres e do defensor do meio ambiente mexicano Gustavo Castro, ferido a tiro no mesmo atentado – fez aumentar ainda mais as suspeitas de que «as autoridades não querem investigar o caso a fundo», até às últimas consequências.


Este é um dos últimos exemplos de muitos choques entre as vítimas e as diversas instâncias do sistema judicial das Honduras, um país onde a elevada criminalidade goza também de elevados níveis de impunidade.

A situação foi denunciada por organizações de defesa dos direitos humanos e vários outros organismos, que, ao longo do tempo, se juntaram ao apelo da família de Berta e do Copinh em defesa da verdade e da justiça, e à denúncia de que a investigação tem sido obscurecida por uma densa teia de interesses políticos e económicos, com a conivência do Ministério Público (MP).

Os representantes das vítimas chegaram a acusar o MP de «falta de diligência» e de procurar criar obstáculos à justiça, na medida em que, entre outras coisas, se recusou a partilhar informação – mesmo contra ordens expressas de um tribunal.

Os choques da justiça com o Copinh também foram evidentes – porque a organização que Berta Cáceres liderou incomoda e, tal como outros movimentos populares hondurenhos, continua a ser alvo de perseguição e criminalização.

A dirigente do povo Lenca integra-se numa extensa lista de líderes indígenas, camponeses, defensores dos direitos humanos e ambientais assassinados no país centro-americano. Por ocasião do primeiro aniversário do assassinato de Cáceres, o Copinh lembrava, em comunicado, que «já houve muitos e muitas outras Bertas».

Ver original em 'AbrilAbril' (aqui)

Eleição de Bolsonaro sinaliza racha na integração da América Latina

Jair Bolsonaro (PSL) foi eleito presidente do Brasil neste domingo (28). O representante da extrema-direita já havia anunciado em seu plano de governo que não tem interesse em manter e fortalecer os mecanismos de integração regional da América Latina. Ontem, apenas os presidentes da Argentina, Chile, Paraguai e Peru o cumprimentaram pela eleição, o que mostra enfraquecimento no processo que foi construído ao longo das últimas duas décadas na região.

Com a Argentina sob a maior crise econômica dos últimos quinze anos, Maurício Macri felicitou Bolsonaro “pelo triunfo no Brasil” e disse que espera uma boa relação entre os dois países para o “bem estar de argentinos e brasileiros”.

Em mais de uma ocasião, Bolsonaro atacou o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, país com o qual o Brasil cultivou boas relações nos últimos anos principalmente pela questão estratégica econômica, uma vez que se trata da segunda maior reserva de petróleo do mundo.

O Peru também passa atualmente por uma crise política grave após o presidente eleito, Pedro Pablo Kuczynski, renunciar ao cargo. O atual chefe de Estado, Martín Vizcarra, cumprimentou Bolsonaro.

Desejo os maiores êxitos em sua gestão. Expresso minha disposição de trabalhar juntos para aprofundar nossa fraterna relação bilateral”.  
Martín Vizcarra

Já no Paraguai, que sofreu um golpe de Estado anos antes do Brasil, em 2012, quando o presidente Fernando Lugo foi deposto, Mário Abdo Benítez também demonstrou interesse em trabalhar com Bolsonaro pela integração das nações. Os dois países compartilham a usina hidrelétrica de Itaipu Binacional, a maior do mundo em geração de energia. Para o povo paraguaio, é fundamental que capitão da reserva esteja disposto a manter uma negociação amigável com relação à questão energética.

Queremos trabalhar juntos por democracias mais sólidas na região, com instituições fortalecidas e sempre buscando a prosperidade de nossos povos”.
Benitez em sua conta no Twitter

Do Chile, Sebastián Piñera também usou o Twitter para enviar felicitações a Bolsonaro.

Felicito ao povo brasileiro por uma limpa e democrática eleição. Felicito a Jair Bolsonaro por seu grande triunfo eleitoral. O convido a visitar o Chile e estou seguro de que trabalharemos com vontade, força e visão de futuro em favor do bem-estar de nossos povos”. 
Sebastián Piñera

A direita chilena se mostrou muito empolgada com a eleição de Bolsonaro nos últimos meses. O guru econômico do capitão da reserva, Paulo Guedes, é um dos Chicago Boys, economista formado na Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, com base nos princípios neoliberais.

Os Chicago Boys foram os responsáveis pela implementação do neoliberalismo no Chile durante a ditadura de Augusto Pinochet (1973 – 1990), agenda que até hoje prejudica a população chilena, principalmente os mais pobres.

No Brasil, Guedes tem a intenção de priorizar o mercado em detrimento das áreas sociais e deve aplicar uma política tão dura quanto foram os anos de chumbo chilenos. O país até hoje não conquistou educação pública gratuita integral, o sistema de transporte, a água e a previdência social são privatizados. Há pouco mais de dois anos o sistema previdenciário privado fez explodir uma crise econômica ao não ter orçamento para pagar as pensões a todos os contribuintes.

Por Mariana Serafini  |  Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/eleicao-de-bolsonaro-sinaliza-racha-na-integracao-da-america-latina/

A ordem é exterminar a esquerda com vocação de poder, denuncia Correa

Lula está preso, Cristina Kirchner sofre perseguição judicial e espetacularização da imprensa argentina e Rafael Correa – que partiu para a Bélgica após deixar a presidência do Equador – tem uma ordem de extradição batendo à porta. Para o ex-presidente equatoriano, está claro que o projeto é “exterminar a esquerda” na América Latina. O método desta vez é a lawfare, ou seja, a guerra jurídica contra os líderes progressistas.


Após deixar a presidência do Equador, Rafael Correa voltou a viver na Bélgica com a esposa Anne Malherbe, onde por muitos anos foi professor universitário. De seu apartamento de 4 cômodos na pequena cidade de Lovaina la Nueva, o ex-presidente trabalha em seu novo livro sobre a situação política latino-americana e observa com uma lupa o avanço da guerra jurídica sobre o continente.

O método “Lava Jato” de acusações com provas inconsistentes, “delações premiadas” e espetacularização dos processos jurídicos feita pela mídia hegemônica não acontece só no Brasil. Na Argentina e no Equador a fórmula é a mesma, e a tendência é que se estenda para outros países onde o campo progressista tem ampla aceitação popular.

Rafael Correa tem uma ordem de prisão contra ele no Equador e não pretende voltar ao país até que a situação se resolva. É acusado pelo sequestro de um parlamentar equatoriano na Colômbia em 2012, que ficou detido por algumas horas no país vizinho. A responsabilidade cai sobre o ex-presidente porque ao exercer o mais alto cargo da República, ele é o comandante máximo das Forças Armadas. Uma ação inconsistente, mas que serve de munição para a imprensa hegemônica atacar o legado de dez anos de governo que reduziu a desigualdade e promoveu a inclusão social no país através do projeto chamado Revolução Cidadã.


Rafael Correa em seu apartamento na Bélgica, com seu gato Dobi, que o acompanha nas noites de pesquisa para o novo livro


Para Correa está claro que se trata de um plano executado pelas oligarquias locais, mas orquestrado pelo interesse norte-americano para manter o controle da região. “Pode estar seguro de que a CIA atua com as embaixadas. A decisão é exterminar a esquerda. Não vão permitir que se repita outra época de ouro na América Latina: 90 milhões de pessoas saíram da pobreza. Agora já regressaram novamente 20 milhões. Estão dispostos a tudo. A ordem é exterminar a esquerda com vocação de poder. Não a esquerda tonta, do ‘tudo ou nada’. Mas a esquerda de Lula, Cristina, Chávez, Correa, que planejamos o sistema. Vão tratar de exterminar fisicamente também. Não se enganem, não é exagero”.

O Brasil no xadrez continental

Correa se diz um “otimista por natureza” e espera que Jair Bolsonaro (PSL) não vença as eleições no Brasil, o país com a maior economia e maior espaço territorial do continente. Acredita que os 20 milhões de brasileiros que não votaram possam mudar o resultado do quadro político no próximo dia 28.

Entretanto, se o candidato do PSL chegar ao Planalto, o ex-presidente equatoriano diz que pode haver uma reação continental em busca do “humanismo” e, desta forma, uma nova onda progressista, como aconteceu na década passada.

“Se Bolsonaro ganhar, como quando George W. Bush venceu nos Estados Unidos, pode despertar os governos progressistas da América Latina. Será tão elementar seu governo que pode provocar uma reação favorável para retomar a via do humanismo”. 
Rafael Correa

Ainda assim, um governo de Bolsonaro seria mais desastroso para o Brasil que Donald Trump tem sido para os Estados Unidos. Na visão de Correa, o extremista brasileiro pode ser comparado a Rogerio Duterte, líder conservador e autoritário das Filipinas que impulsiona a ferro e fogo uma “guerra às drogas” no país. “Nem Trump fala a favor da ditadura, da tortura, da desaparição de 39 mil pessoas”, denuncia.

Erros da esquerda e o crescimento das igrejas neopentecostais

O ex-presidente equatoriano não vê com bons olhos o foco da esquerda em pautas transversais como a legalização do aborto ou o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Não por moralismo, mas por acreditar que, infelizmente, o “continente mais desigual do planeta” ainda precisa se concentrar em questões que ele considera mais urgentes, como a pobreza, a fome e a segurança pública. Para ele, quando a esquerda se concentra em agendas que não estão ligadas diretamente à vida da população comum, acaba perdendo espaço e este foi ocupado pelas igrejas neopentecostais.

Para mim, a questão social no continente mais desigual do planeta é a primeira questão moral. Antes de começarmos a discutir estas coisas que estão na fronteira do debate (aborto, por exemplo), discutamos coisas evidentes como a desigualdade de direitos. Além disso, é evidente a insatisfação das pessoas com temas que a esquerda nunca fala por purismo, como a segurança pública. Por que a esquerda não enfrentou mais claramente este problema? É uma falta de habilidade política. No Equador enfrentamos e temos o sistema de segurança integrado mais avançado da América Latina”.
Rafael Correa

Quando a população não encontrou nas propostas da esquerda uma resposta para suas angústias sociais, buscou em outra fonte e quem ocupou este espaço foram as igrejas evangélicas, acredita Correa.

“Quando as pessoas se assustam com certas posturas buscam outra coisa e quando veem que não há perspectivas de mudança, se deixam convencer de que as coisas são assim e encontram refúgio nas igrejas”. 
Rafael Correa

Apesar do cenário nebuloso, Correa é um otimista e acredita ser possível mudar a situação do continente em curto prazo. “Sem demora, começaremos a recuperar o muito que retrocedemos”.

Por Mariana Serafini  |  Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV (com informações do Página/12) / Tornado

<

Ver artigo original em "O TORNADO"

Os ovos da serpente também estão incubados no Uruguai

A direita uruguaia continua apostando em uma estratégia para impor no imaginário coletivo a sensação de mal-estar e insegurança, para poder justificar depois qualquer tipo de intervenção externa: diplomática, política, militar ou de inteligência, devido à dificuldade em derrubar o bloco centro-esquerdista da Frente Ampla do governo.

A ideia agora é reinventar o fantasma do terrorismo, com uma teoria conspirativa de que o promotor argentino Alberto Nisman teria sido assassinado por uma célula iraniana do Hezbollah, com contatos na Venezuela e bases na Tríplice Fronteira (Brasil Argentina e Paraguai) e no Uruguai (em Montevideo), segundo (supostamente) os serviços de inteligência estadunidenses. Será um esquete do humorista argentino Peter Capusotto ou a trama de uma dessas horríveis séries da Netflix, que tenta ser complexa e termina sendo apenas um pastelão mal contado? Não, quem promove essa narrativa é a deputada uruguaia opositora Graciela Bianchi.

Destas declarações, surge a pergunta: por que os serviços de inteligência dos Estados Unidos dariam informação a uma deputada da oposição de um país onde não aconteceu a morte? Desde quando ela tem essa informação? Por que a apresentou aos meios de comunicação e não à Justiça? Sem dúvida, ela tinha um objetivo: gerar medo na população.

Mas, quem é Graciela Bianchi? Deputada do parlamento eleita com um discurso de “defensora da República”, se trata de uma ex-frenteamplista, conhecida por seu tom prepotente e ressentido, que terminou ingressando no Partido Nacional há pouco tempo. Seu papel, tanto no Parlamento quanto nas redes sociais, tem sido vergonhoso, como mostram suas declarações públicas.

Já foi flagrada dormindo durante uma sessão parlamentar e publicando enraivecidos manifestos nas redes sociais, com uma redação surpreendente para quem já foi uma diretora de escola secundária pública.

Mas isso não é somente um delírio e não visa o mero espetáculo político. É uma estratégia para gerar um contínuo mal-estar na população. Cultivar a sensação de insegurança para logo justificar qualquer tipo de intervenção estrangeira. Desta forma, o Estado de exceção volta a ser regra. Bianchi derrapou de forma atroz e até a cúpula do seu partido não lhe deu crédito, mas conseguiu gerar na população o efeito desejado.

O dano já está feito, e já se observa como surgem conspirações terroristas no seio da sociedade uruguaia. Bianchi não está sozinha, a direita tem um leque de opções para derrotar a Frente Ampla na eleição de 2019:

  • Verónica Alonso (Partido Nacional), líder da bancada contra a “ideologia de gênero” e a favor de um só tipo de família convencional, junto com pastores evangélicos e fanáticos religiosos associados a movimentos regionais que se posicionam sobre o tema.
  • Carlos Lafigliola (Partido Nacional), ultraconservador em termos de direitos civis, que quer acabar com a Lei do Aborto impulsada pelo governo de Mujica, entre outras.
  • Jorge Larrañaga (Partido Nacional), líder da campanha “viver sem medo”, a favor do uso dos militares na segurança pública – embora ele mesmo afirme não viver com medo no Uruguai.
  • Luis Alberto Aparicio Alejandro “Cuquito” Lacalle Pou (Partido Nacional), que aproveita o fato de liderar as pesquisas internas do seu partido, mostra uma imagem de moderado, mas é conservador no âmbito social e liberal no econômico. Não votou a favor dos projetos de lei importantes para os trabalhadores, tampouco apoiou os das minorias que sempre são discriminadas.
  • Edgardo Novick (Partido da Gente), um empresário que paga salários miseráveis em suas lojas comerciais. É um antimujiquista e sua campanha é sustentada por sua fortuna, já que carece de ideias.
  • Ernesto Talvi (Partido Colorado), associado internacional à Rede Atlas. Um visionário que, no final do Século XX, fez previsões positivas sobre o futuro econômico do Uruguai, e três anos depois o país padeceu a pior crise de sua história. A Rede Atlas acaba de desembarcar no Uruguai através do movimento Ação Republicana, encabeçado pela guatemalteca Gloria Álvarez.

Como brinde, está o caso do presidente do Centro Militar, coronel Silva Valiente, que fez fortes declarações contra a comunidade LGBT, ao melhor estilo Jair Bolsonaro, e também afirmou que o Uruguai não teve uma ditadura militar, reivindicando uma homenagem ao ex-presidente de fato, o general Gregorio “Goyo” Álvarez. Ademais, disse que o candidato ultradireitista à Presidência do Brasil merece o seu respeito: “temos que ser tolerantes com Bolsonaro”.

Embriagados de conjuntura

Assim está o panorama. É assustador imaginar os efeitos que podem ter no país os exemplos dos Bolsonaro, dos Trump, que parecem seres vindos de outra realidade, de uma ficção. Ficamos em choque diante do obsceno de algumas declarações, mas não percebemos as pequenas mostras cotidianas que nos deixam sem reação: o taxista que pede pena de morte, o colega de trabalho que quer o fim dos sindicatos, o chefe que assedia uma colega, o vizinho que defende a morte dos indigentes.

Todas estas pistas nos conduzem à bestialidade, mas nós caminhamos com a cabeça abaixada, relativizando um sentido comum fascista, até começar a escutar o golpe das angústias no peito. Como diz o pensador português Boaventura de Sousa Santos, vivemos em sociedades politicamente democráticas e socialmente fascistas, e este é um fenômeno que vem crescendo.

O Uruguai não será uma exceção dentro da região. A estratégia é continental, vem sendo gerada há décadas, e orquestrada no norte. O Uruguai não é uma potência mundial, mas o interesse que desperta nos planos imperialistas demonstra que cada território deve ser disputado, e que o inimigo é implacável.

Vemos disputas partidárias que começam a perder a forma tradicional. As batalhas eleitorais passam a enfrentar dois tipos de projetos: o ajuste, a repressão e o fascismo por um lado, e por outro a democracia – com todos os seus defeitos, mas democracia enfim. Ou como definiu o cientista político estadunidense Robert Dahl, uma “poliarquia”, já que não existem as democracias perfeitas.

O mundo de alguns poucos, onde a desigualdade e a miséria serão cada vez maiores, contra um mundo onde caibam as grandes maiorias. E ali se visualizará claramente quem luta com e para o povo.

Os partidos políticos poderão deixar de existir, os Estados-nação também. As formas e as disputas conjunturais podem mudar. Mas enquanto não arrancarmos da raiz este sistema, a disputa será sempre entre os de baixo contra os de cima. “Se as barbas de seu vizinho você vê arder, organize-se e ao fascismo ajude a varrer”, respondem os universitários uruguaios.

Por Nicolás Centurión, Estudante de Psicologia da Universidade da República do Uruguai. Analista associado ao Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE) |  Texto em português do Brasil  |  Tradução: Victor Farinelli

Exclusivo Editorial PV / Tornado

<

Ver artigo original em "O TORNADO"

El Salvador celebra os 14 anos da implementação da Missão Milagre

Medardo González, secretário-geral da FMLN, destacou a Missão Milagre como exemplo de integração latino-americana, lembrando que «devolveu a vista e a esperança a milhares de salvadorenhos».

Tendo começado na Venezuela, a Missão Milagre chega hoje a dezenas de países na América Latina, Caraíbas, África e ÁsiaCréditos / misionmilagro.gob.ve

Num acto que ontem decorreu em Planes de Renderos, o dirigente da Frente Farabundo Martí para a Libertação Nacional (FMLN) sublinhou a importância e o impacto social de um programa oftalmológico criado há 14 anos e logo em 2004 implementado em El Salvador.

Na ocasião, González salientou também a solidariedade dos líderes revolucionários Fidel Castro e Hugo Chávez, que fizeram questão de promover a saúde oftalmológica entre as camadas populacionais mais pobres e marginalizadas do país centro-americano.

«O nosso agradecimento a todos os trabalhadores da saúde que apoiaram este grande programa, exemplo da solidariedade de países irmãos como Venezuela e Cuba», afirmou Medardo González no acto celebrado em Planes de Renderos, onde lembrou os avanços alcançados durante os governos da Frente no que respeita à diminuição da pobreza, à alfabetização e à reforma da saúde pública em El Salvador.

Fez ainda questão de valorizar o trabalho dos mais de 235 voluntários da rede que percorre os territórios do país e presta atendimento a pessoas com problemas oftalmológicos nos diversos centros da Missão Milagre, como o hospital Santa Gertrudis.

Neste centro hospitalar, localizado no departamento de San Vicente, será aberta em breve uma segunda instalação cirúrgica, de modo a aumentar para 7500 as operações anuais de cataratas e pterígio, além do serviço de retina, informa a Prensa Latina.

Em Maio último, o trabalho da equipa cubana no Hospital Santa Gertrudris passou a ser complementado com a chegada de uma brigada itinerante oftalmológica da Venezuela, que realiza consultas e operações cirúrgicas nos hospitais San Rafael e Santa Ana.

A chegada desta brigada foi acordada no âmbito de um protocolo firmado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros salvadorenho e a Embaixada venezuelana no país.

Defender os mais pobres, aprofundar a unidade da América Latina

A Misión Milagro nasceu a 8 de Julho de 2004, por iniciativa dos governos de Cuba e da Venezuela, tendo como propósito ajudar pessoas com baixos rendimentos a resolver diversas patologias oculares. Faz parte do plano de integração da América Latina e dos programas que visam alcançar a unidade entre os povos da Aliança Bolivariana para as Américas (ALBA), refere a VTV.

O grande investimento de Cuba na área da Saúde e o alto nível de desenvolvimento que patenteia neste sector permitiram que, em conjunto com a Venezuela, milhares de latino-americanos tenham sido operados em países como El Salvador, Guatemala, Equador, Colômbia, Costa Rica, Venezuela, Bolívia, Argentina e República Dominicana.

Para além disso, o programa também tem sido aplicado a países fora deste âmbito geográfico, nomeadamente em África e na Ásia.

Ver original em 'AbrilAbril' (aqui)

Trabalho especial: Venezuelanos imigrantes, capítulo América Latina. Mitos e realidades (Parte II)

Ana Cristina BrachoPublicamos a segunda parte do trabalho editado por Misión Verdad sobre a questão da emigração na Venezuela. No conjunto, uma importante fonte de informação sobre a instrumentalização deste fenómeno, em particular no caso de países receptores que integram a plataforma de intervenção internacional contra a Venezuela comandada pelos EUA.

Nota da redacção [de Misión Verdad): apresentamos a segunda parte do trabalho especial de Ana Cristina Bracho sobre o fenómeno migratório venezuelano, um texto onde aborda os mitos construídos à volta desta situação, o seu uso político, as suas comparações com outros cenários similares do passado recente e, sobretudo, a análise a como se têm comportado os países receptores, na sua totalidade adstritos às plataformas de intervenção internacional contra a Venezuela. Tal como na primeira parte, a continuação deste trabalho especial comenta com rigor e exactidão a que corresponde a migração venezuelana, bem como a sua instrumentalização para fazer avançar agendas bélicas contra territórios adversos aos Estados Unidos. A migração vem-se constituindo como um aspecto central na ordenação do cenário de conflitualidade contra a Venezuela. São estas as referências e as coordenadas desse novamente perigoso momento em que nos encontramos.


 

Na primeira parte deste estudo caracterizamos algumas noções que consideramos básicas. Tais como que a Venezuela é um país onde existe uma população imigrante considerável e as diferenças relativas ao que o Direito confere às pessoas que se encontram em território estrangeiro.

Também referimos alguns dados para contextualizar nos quais incluímos as alterações das políticas regionais que derivam da destruição dos fóruns multilaterais latino-americanos ou da exclusão da Venezuela deles, bem como a dimensão económica que a situação tem.

Prometemos que complementaríamos o referido texto com uma segunda parte onde veríamos a situação em alguns países para onde se têm dirigido venezuelanos e venezuelanas, o que cumpriremos em seguida.

Brasil

A República Federativa do Brasil, com 202 milhões de habitantes, é o sexto país mais povoado do mundo, embora o seu grande território tenha um baixo índice de densidade populacional. Segundo informado por El País, de Espanha, em 2015, “o Brasil é um país extremamente fechado para os imigrantes… os estrangeiros representam apenas 0,3% da população, um número historicamente insignificante. A média mundial está em 3%”.

Uma das causas pela qual esse país não se torna atractivo é a dificuldade que os estrangeiros têm em conseguir trabalho e a visão dos nacionais sobre a imigração; assim, segundo a mesma fonte, “73,7% dos brasileiros estão a favor da vinda de estrangeiros com alta qualificação profissional, enquanto 74,3% não querem que cheguem imigrantes sem documentação”.

A Venezuela tem uma ampla fronteira terrestre que não tem significativas separações naturais com o Brasil, segundo o disposto no Tratado de limites e navegação fluvial de 5 de Maio de 1859, ratificado pelo Protocolo de 1929. No presente é possível atravessá-la através do acesso viário que une as populações d nossa Santa Elena de Uairén com a brasileira Pacaraima (Roraima, Brasil).

Tal como no caso da fronteira com a Colômbia, Santa Elena de Uairén e as zonas aldeãs são um dos pontos nos quais se pratica o contrabando de extracção de gasolina, agravado pela realidade mineira e seus próprios contrabandos que marcam a vida no estado Bolívar. De igual modo, existem na zona fronteiriça comunidades originárias que preexistem à demarcação e se deslocam continuamente entre os dois territórios. É este o status dos Geral (ñengatú), dos cinco subgrupos que conformam o povo pemón, os xiarian, aritamis, yanami, arawakos, yekuana, curripaco, baniva e baré.

Em termos políticos, o Brasil é um dos países latino-americanos que sofreu uma violenta viragem à direita quando, mediante o uso do lawfare, se depôs uma presidente constitucional e se instalou uma ditadura que responde aos interesses de Washington. Uma vez ocorrido isto, as relações entre os dois Estados mudaram radicalmente, sendo o governo de Michel Temer um dos integrantes do Grupo de Lima e um dos promotores da saída da Venezuela do Mercosur.

Neste quadro desapareceram da realidade os acordos Chávez-Lula que contemplavam ideias de desenvolvimento conjunto da região fronteiriça, com investimentos binacionais para a exploração petroleira, a energia eléctrica e promovendo a relação fraterna entre o estado venezuelano de Bolívar e o brasileiro de Roraima.

Segundo informação do jornal El Mundo, datada de 25 de Agosto de 2018, “entre 2017 e o que vai de 2018 chegaram ao Brasil algo mais de 127 mil migrantes, mas 69 mil já se foram em busca de outros destinos”, referindo o sítio que o papel do Brasil na crise é secundário porque referem que não é um “destino prioritário” para os venezuelanos.

A presença de venezuelanos no Brasil, especificamente no estado de Roraima, tem sido objecto de uma grande campanha mediática. Na qual organismos como o ACNUR destacam a instalação de campos de refugiados e surgiram personagens que capitalizam o espaço de solidariedade que não foi manifestado pelos brasileiros. É este o caso do “padre Jesús”, cuja acção servindo comida aos venezuelanos tem sido referida pela imprensa.

Os migrantes económicos encontram-se focalizados em Roraima, o que gerou um conflito jurídico de cada vez que “as autoridades locais criticam que Governo destine mais esforços a receber os venezuelanos do que a cuidar da gente de Roraima, e atribuem aos imigrantes o aumento da criminalidade, uma retórica que alimenta a tensão nas ruas”. O que se traduziu numa solicitação judicial para fechar a fronteira que não vingou e à qual a administração brasileira respondeu assegurando que as Forças Armadas estão à disposição do governo local para garantir a paz nas ruas.

A associação finalmente realizada entre os venezuelanos e a delinquência, ou que a sua presença dificulta que o estado de Roraima atenda devidamente a população brasileira, serviu de caldo de cultura para que se verificassem actos violentos de rejeição aos venezuelanos, despojando-os dos seus haveres quando foram expulsos e queimando os seus bens, em 18 de Agosto de 2018.

Um acto muito similar tinha-se produzido no mês de Março de 2018, quando “pelo menos 300 pessoas entraram na escola onde estavam a viver os 50 venezuelanos para destruir alguns pertences, deitando fogo a outros e os expulsaram, deixando atrás os seus haveres e alimentos entre os que se encontravam vários pacotes de farinha que foram rasgados e espalhados pelo local”.

Referindo um dos brasileiros entrevistados depois do sucedido que “não aguentamos mais a sua presença (dos venezuelanos), queremos que as autoridades façam algo, há muitos roubos na nossa cidade”.
No quadro desta tensão, o mandatário brasileiro de facto, Michel Temer, prestou declarações à imprensa em 26 de Agosto de 2018, referindo que se opõe à possibilidade de que as fronteiras sejam fechadas aos venezuelanos, e recordou que o Brasil é apenas um país de passagem da população emigrante.

Tal como referiu Europa Press: “Temer explicou que 60% dos 127 mil venezuelanos que cruzaram a fronteira já saíram de território brasileiro em direcção a outros países, e destacou as acções realizadas pelo governo federal para enviar para outros estados os milhares de venezuelanos que se encontram em Roraima”, referindo finalmente que fizeram chegar a Roraima bens para assegurar a alimentação e os serviços de que necessitam os venezuelanos que se encontram na referida zona.

Chile

De acordo com os resultados do Censo Nacional de 2017, Chile tem uma população de pouco mais de 17 milhões de habitantes. Ao contrário do Brasil, as relações da Revolução Bolivariana com o Chile não superaram, mesmo nos seus melhores momentos, o limiar da cortesia. Desde os conflitos do ano 2002, existe uma população de venezuelanos politicamente identificados como contrários ao governo no Chile, sem que tenhamos uma estimativa da sua dimensão naquela época.

Um dado que resulta de interesse é que a Venezuela figurou, depois de México e Cuba, entre os destinos predilectos dos chilenos que saíram do seu país no quadro da ditadura militar, chegando a estabelecer na Venezuela uma colonia de 80 mil pessoas, a que há que agregar os profissionais que tinham chegado antes com a esperança de trabalhar para as petroleiras.

Segundo uma nota de Janeiro deste ano, reside no Chile um total de 30 mil venezuelanos. A Policia de Investigações reportou que em 2017 ingressaram 164 mil 866 cidadãos desse país, um aumento de 90% relativamente a 2016. Segundo o Departamento de Estrangeiros e Migração (DEM) do Ministério do Interior, entre 2005 e 2017 foram outorgados um total de 20 mil 362 permanências definitivas e 111 mil 339 visas temporários a estrangeiros provenientes da Venezuela. O que não elucida com segurança sobre a dimensão real da comunidade já que, segundo a mesma fonte, mais de 56 mil venezuelanos saíram do Chile ou regressaram à Venezuela.
Ao visitar portais dedicados a promover o Chile como destino, alguns deles administrados por venezuelanos, observa-se que mostram o país como uma economia estável, com um sistema de transporte aceitável e um sector terciário amplamente desenvolvido.

Outros sítios web asseguram que Santiago é a cidade “mais habitável da América Latina depois da capital da Argentina, Buenos Aires. Por seu lado, a revista International Living integrou o Chile no Índice de Qualidade de Vida do ano 2011, colocando o país no lugar 60 entre 192 países e na terceira posição entre países da América do Sul”.

Com estas afirmações e uma presença tão importante na publicidade que recebe, via televisão “pay-per-view” na Venezuela, parece que o Chile é um país que se apresenta como um dos destinos que a população que emigra selecciona.

Visto do Chile, mantém-se a informação de que o país austral se converteu num lugar atraente para a imigração de pessoas provenientes da Argentina, Equador, Colômbia, Bolívia, Uruguai e Venezuela, referindo-se além disso que num recente relatório denominado “Conjuntura Económica en América Latina y el Caribe”, da Comissão Económica para a América Latina (CEPAL) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT), assinalam que o Chile emergiu como o país em que mais cresceu proporcionalmente a imigração na América Latina.
Neste contexto, desde Agosto de 2017, surgiu no Chile a iniciativa de criar um registo nacional de estrangeiros, fixar um catálogo de motivos que impeçam o seu ingresso e um estrito controlo de licenças de trabalho, com o fim de evitar o afluxo de pessoas. Sendo que nesta data, o departamento de Estrangeiros estimava que nos primeiros seis meses daquele ano tinham ingressado no país mais de 44 mil haitianos.

Do mesmo modo, verificou-se um forte incremento de imigração dominicana, colombiana e venezuelana, somando-se à histórica vinda de pessoas de Bolívia e Peru. Isto indicava que no momento Chile contava oficialmente com meio milhão de residentes estrangeiros, cerca de 3% da sua população.

Como medida desta natureza, o presidente do Chile, Sebastián Piñera, anunciou em 9 de Abril a criação de um Visa de Responsabilidade Democrática para os venezuelanos que desejem permanecer neste país. Esta medida foi criticada por alguns sectores chilenos que consideraram tratar-se de uma medida discriminatória que evidenciava a pouca solidariedade do governo em relação aos que se deslocavam para o Chile em busca de uma oportunidade.

A este respeito, ao lado desse país próspero que é promovido, existe uma realidade com a qual se deparam os imigrantes que entram num país onde a educação está privatizada, existem diferentes escalões salariais para homens e mulheres, e que não se caracteriza pela abertura para com os estrangeiros.
Um grupo deles nunca consegue ingressar no Chile; assim. Por serem considerados pelas referidas autoridades como migrantes económicos e não como refugiados ou asilados foram devolvidas 8.425 pessoas que tentaram ingressar no Chile nos primeiros dez meses de 2017. A maior parte dos rejeitados eram colombianos, e o segundo grupo mais numeroso era de venezuelanos, que atingiu um total de 1.838 cidadãos que não puderam ingressar no Chile.

Relativamente às condições daqueles que ingressaram, nem sempre foram as que esperavam. Isto ficou reflectido num estudo realizado em 2017 pela Fundación Nuevas Contingencias Sociales (Chile), que determinou que 41% dos migrantes inquiridos declarou ter sofrido discriminação “sem motivo aparente”, com destaque para comentários acerca de que “vêm a tirar-nos o trabalho”, e serem apontados como delinquentes ou pela cor da sua pele.

Por seu lado, os chilenos inquiridos revelaram que 47% pensa que a população imigrante traz “doenças novas ou algumas já erradicadas”, enquanto 35% opina que a população “vem tirar o emprego aos chilenos” e outros 35% aponta que os imigrantes “são sujos e não cuidam do meio ambiente”.

Neste mesmo espírito, cujas características correspondem ao que temos referido como “aporofobia”, devemos incorporar a mais recente postura assumida pelo presidente chileno, que twiteou em 23 de Agosto de 2018, que “em matéria de Migração a nossa política é clara: receber aqueles que respeitam as nossas leis e vêm iniciar uma melhor vida contribuindo honestamente. E não deixar entrar ou expulsar aqueles que entram ilegalmente e têm antecedentes criminais ou cometem delito no nosso país”.

Equador

Com 16 milhões de habitantes em apenas uma área de 283 561 km², trata-se do quarto país mais pequeno do subcontinente. A sua economia dolarizada bem como as fluidas relações diplomáticas que até há muito pouco manteve com a Venezuela, fixaram o Equador no imaginário dos emigrantes. De igual forma, o seu governo vinha executando programas de captação de profissionais, principalmente professores, para fortalecer as suas universidades, e era um dos destinos que exigiam menos requisitos para ingressar, permanecer e trabalhar.

Do mesmo modo, no quadro da cooperação que caracterizou as relações que a Revolução Cidadã manteve com a Revolução Bolivariana, no Equador estava vigente um sistema especial para os bolivarianos, denominado Estatuto permanente Equador Venezuela (12 XI) que outorgava um visa de um ano, renovável uma vez, contabilizados desde a sua emissão se o outorgou uma Coordinación Zonal ou se foi outorgado num consulado equatoriano a partir do ingresso do estrangeiro no Equador. Este regime, menos gravoso e destinado a aumentar as relações entre os países, foi acordado pelos então chanceleres Ricardo Patiño e Nicolás Maduro Moros, em 2010.

Segundo o disposto na página web do Ministério do Interior equatoriano, aos sul-americanos não é requerido terem passaporte para entrar no Equador mas apenas apresentar a sua cédula ou documento nacional de identidade. Este regime foi objecto de controvérsias, todas as vezes em que nos últimos meses o governo equatoriano quis agravar as condições de ingresso dos venezuelanos no seu território, ordenando num primeiro momento a apresentação do passaporte, o que foi revogado por um tribunal de Quito por o considerar uma violação dos direitos humanos.

Esta decisão, tornada pública em 25 de agosto de 2018, vai coincidir com a declaração presidencial de que a sua decisão de abandonar a Alianza Bolivariana para los Pueblos de Nuestra América (ALBA) foi motivada pela existência de fluxos migratórios originados na Venezuela, e significa que não se voltará a aplicar o regime de cooperação entre os dois Estados e que aos venezuelanos se exigirá, em lugar do passaporte, a apresentação.

Enquanto estas controvérsias jurídicas ocorriam, as câmaras de televisão centraram-se nas fronteiras com Equador, onde foi reportado que havia venezuelanos encalhados esperando que uma decisão diferente, que lhes seria favorável, fosse adoptada. Ao mesmo tempo que na Venezuela se tornou viral um vídeo que documentava um abuso policial cometido contra um venezuelano no Equador.

Peru

A República de Peru é o terceiro maior país da América do Sul. Segundo o último censo, datado de 2016, o país tem 31,77 milhões de habitantes. Com uma história política marcada pela instabilidade e a violência, é um dos países com maior número de emigrantes da região, que foi estimado num estudo do INEI, referido por El Comercio, segundo o qual entre 1990 e 2012 mais de 2 milhões e 500 mil peruanos emigraram do país.

Nesse período, 31,4% dos emigrantes peruanos viveram nos Estados Unidos, 15,4% em Espanha, 14,3% na Argentina, 10,2% em Itália, 9,5% no Chile, 4,1% no Japão e 3,7% na Venezuela; 11,5% em outros países.

Segundo títulos do mesmo portal, mais de 100 mil pessoas pediram refúgio no Peru, e praticamente todas elas provêem da Venezuela. Devendo destacar-se que no conteúdo da nota se precisa que nem todas essas solicitações são de refúgio em sentido jurídico, mas que muitas correspondem a migrantes económicos. A situação em que se encontram os venezuelanos no Peru tem sido avaliada - inclusivamente pela Defensoría del Pueblo num comunicado emitido a 25 de Agosto de 2018 - como contraria aos direitos humanos, na medida em que os nossos compatriotas são discriminados e vítimas de actos xenofóbicos.
Ao analisar as causas pelas quais a emigração venezuelana se dirigiu para o Peru, parece importante recordar que, em Setembro de 2017, Lima ofereceu aos profissionais venezuelanos outorgar-lhes uma licença temporária de permanência (PTP); agora serão também reconhecidos os seus títulos universitários sem necessidade de trâmites legais, o que constitui um evidente estímulo para a população universitária que espera obter maiores rendimentos económicos.

Ao mesmo tempo que caía o governo de Pedro Pablo Kuczynski Godard, o tratamento mediático que tem vindo a ser dado à Venezuela no Peru é sumamente contrastante pois, na medida em que se insiste numa “crise humanitária” e política provocada pelo governo de Caracas, se associa abertamente a comunidade venezuelana que chega ao país com a delinquência. Sem dúvida que o ponto de ebulição disto se deu em Agosto do presente ano, quando foram detidos em Lima membros do grupo musical “El Tren de Aragua”.

Para estabelecer essa associação, a imprensa não poupa em historias fantasiosas tais como afirmar que “Nicolás Maduro estaria a incentivar a criminalidade venezuelana no Peru”, segundo a elucubração de Sabrina Martín em 31 de Julho de 2018 para o meio Panam Post, ou as declarações de Mauro Medina, ministro do Interior peruano que em 8 de Agosto afirmou que, através da solidariedade, “se infiltram por aí algumas pessoas que estão vinculadas a delitos”. Podendo ver-se como a imprensa recolhia já desde o início do ano opiniões que sustentam que “a crise do Peru piorou por causa dos venezuelanos”.

Neste contexto, o governo de Martín Vizcarra deu a conhecer em 25 de Agosto de 2018 que exigiria passaporte aos venezolanos que chegam à sua fronteira, só exceptuando desse requisito casos que considere de carácter humanitário como crianças que estejam acompanhadas por seus pais, mulheres grávidas ou idosos. Justificando a medida com que está a receber uma massiva imigração que chega diariamente da Venezuela, com uma média de 3 mil chegadas diárias pelo posto fronteiriço de Tumbes, na fronteira com Equador.

Estes movimentos que agora fecham as portas contrastam com os actos de promoção do Peru, em especial como destino para crianças não acompanhadas como se deu durante o ano de 2017, de que recordaremos a denúncia realizada no sábado 16 de Dezembro por funcionários do Servicio Autónomo de Identificación, Migración y Extranjería (SAIME) e o Fiscal 1° do estado Vargas, de terem conseguido deter uma operação que pretendia extrair 130 crianças venezuelanas desde Maquieta com destino ao Aeroporto Internacional Jorge Chávez de Lima.

O corredor humanitário

Enquanto Equador e Peru adoptam medidas que restringem a entrada e permanência de venezuelanos no seu território, puseram em marcha um “corredor humanitário” para acelerar a deslocação de venezuelanos que se dirigiam para o Peru.
Esta acção foi empreendida uma vez que foram publicadas as iniciativas tendentes a limitar a presença venezuelana no Equador e antes de serem endurecidos, horas depois, os requisitos no Peru, o que expõe os venezuelanos em trânsito a uma situação de uma gravidade sem precedentes, pois encontram-se de forma ilegal esperando chegar a outro Estado, no qual muitos não poderão tão-pouco ingressar.

¿Para que serve isto?

Uma leitura apressada desta situação poderia fazer-nos concluir que a população que ingressa é demasiado numerosa, o que não corresponde com os imigrantes a que estes países aspiravam quando tomaram medidas para facilitar o ingresso aos venezuelanos. Para isso serve-nos a leitura de Adela Cortina.

Poderíamos também observar que houve mudanças políticas nos países que modificaram a sua atitude, ainda que o Brasil nunca se tenha caracterizado por nos dar calorosas boas-vindas.

Contudo, considero que isto obviaria coisas especialmente relevantes, algumas das quais foram postas a claro por Serge Halimi, Dominique Vidal e Henri Male no ensaio “A opinião trabalha-se. Os media e as guerras “justas” de Kosovo, Afeganistão e Iraque”. Ali, quando analisam como se justificou a guerra de Kosovo, os autores afirmam que um dos recursos para demonstrar a necessidade de uma guerra foi a existência de deslocados desesperados.

Assim assinalam que para convencer o mundo da necessidade da guerra primeiro “mostraram uma mulher, um homem, um menino branco. Mostraram uma pequena menina de cinco anos que sofria. Na realidade, não era a cor da pele nem as lágrimas o que importava, mas sim captar o desespero. Necessitavam de projectar gente deportada sofrendo diante de nós, porque nós somos muito bondosos”.

Reacções da Venezuela

A sorte de uma pessoa ao estabelecer-se num país estrangeiro dependerá de muitos factores. Por isso é particularmente perigoso fazer generalizações nesta matéria. Certamente, em todos estes países existem venezuelanos - geralmente com recursos económicos, domínio de línguas estrangeiras e alta graduação profissional - que terão uma vida próspera, alheia a estes males que enfrentam aqueles que de forma extremadamente precária chegam a países com a esperança que a televisão lhes oferece ou o exemplo remoto de um conhecido a quem as coisas correram muito bem.

Existirão outros que, inclusivamente se este não é o seu caso e se deparam com trabalhos precários, sem cobertura hospitalar e algum grau de irregularidade, se sentirão mais tranquilos ou felizes do que estando na Venezuela, pois para eles o país tornou-se numa espécie de inferno. Relativamente a eles, as obrigações nacionais esgotam-se no estabelecido no quadro da protecção consular, onde vemos por exemplo que Caracas anunciou que está a remeter os passaportes que estavam em atraso.

Quanto ao resto, constituído principalmente por migrantes económicos e vítimas desta guerra económica que destruiu a capacidade aquisitiva do salario, arrastando com ela a auto-estima de muitos, o Governo Bolivariano elaborou o Plano de Regresso à Pátria para chamar a que regressem aqueles que saíram.

De igual forma, observa-se como o Executivo venezuelano está disposto a proteger as nossas populações emigrantes quando, pelo menos no caso dos que o solicitaram em Trinidad y Tobago e agora desde o Peru, tomou as medidas necessárias para que retornem a Venezuela.

Fonte:http://misionverdad.com/opinion/venezolanos-inmigrantes-capitulo-latinoamerica-mitos-propaganda-y-realidad-y-ii

 

 

References

  1. ^ endereço (www.odiario.info)
  2. ^ odiario.info (odiario.info)

Leia original aqui

Secretário-Geral da OEA não descarta uma intervenção militar na Venezuela

Luis Almagro, secretario general de la OEA
© REUTERS / Ueslei Marcelino

O Secretário-Geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), Luis Almagro, disse que uma intervenção militar na Venezuela não deve ser descartada como uma alternativa para superar a situação política e econômica do país.

"Quanto à intervenção militar para derrubar Nicolás Maduro, não devemos descartar nenhuma opção", disse Almagro ao correspondente do diário colombiano El Tiempo.

Almagro destacou que o "regime" de Maduro "está perpetrando crimes contra a humanidade (e) violações dos direitos humanos" na Venezuela, além de gerar "o sofrimento do povo no êxodo induzido que está impulsionando".

No entanto, ele disse que antes de pensar em intervenção militar, "as ações diplomáticas devem estar em primeiro lugar".

Almagro liderou nesta sexta-feira em Cúcuta, na Colômbia, uma comissão da OEA encarregada de elaborar um relatório que incluirá uma definição de mecanismos de cooperação que poderiam ser destinados à Colômbia como país receptor dos imigrantes venezuelanos.

A Colômbia é o primeiro lugar visitado pela equipe técnica da OEA que também viajará para as fronteiras de outros países anfitriões de imigrantes venezuelanos, como Peru, Equador e Brasil.

Almagro chegou à Colômbia na quarta-feira, onde também se reuniu com o presidente colombiano Ivan Duque. Na sexta-feira, o Secretário-Geral viajou para a área de fronteira, juntamente com o ministro do Exterior da Colômbia, Carlos Holmes Trujillo, e o Diretor para as Américas da ONG Human Rights Watch (HRW), José Manuel Vivanco, bem como representantes de agências estatais colombianas.

"Chegamos em Cúcuta para rever a situação humanitária, porque esta região é um reflexo de mentiras do regime", disse Almagro.

Durante a visita da comissão a Cúcuta, o governador do departamento de Norte de Santander (nordeste), William Villamizar, revelou que ao longo dos 2.200 quilômetros de fronteira entre os dois países passaram cerca de 20 milhões de venezuelanos nos últimos cinco anos. Destes, três milhões permaneceram no país.

O número contrasta com o anunciado há algumas semanas pela estatal Colômbia Migração, que afirma que cerca de 1,3 milhão de venezuelanos permanecem no país, entre legais e ilegais.

Ver o original me 'Sputnik Brasil' na sequinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2018091412212720-oea-almagro-intervencao-militar-venezuela/

Salvador Allende: uma recordação e um ensinamento

Atilio BoronPassa quase meio século sobre a eleição de Salvador Allende para a Presidência do Chile. A tragédia em que terminou o governo da Unidade Popular não deve fazer esquecer que esse momento abriu caminho ao “ciclo de esquerda” que, anos mais tarde, marcou a América Latina e o Caribe. Tal como não deve fazer esquecer que os moldes da bárbara conspiração imperialista postos em prática no Chile permanecem vigentes, como o comprovam as actuais situações na Venezuela e Nicarágua e os golpes já levados a cabo em outros países.

Días atrás, a 4 de Setembro para ser mais preciso, cumpriram-se 48 anos sobre o triunfo de Salvador Allende nas eleições presidenciais do Chile de 1970. Com a passagem dos anos comprova-se, dolorosamente, que a sua figura não colheu a valorização que merece mesmo dentro de alguns sectores da esquerda, dentro e fora do Chile. Em vez de honrar a figura do presidente-mártir e a sua obra muitos associaram-se irreflectidamente às críticas que o consenso neoliberal dominante formulou à sua gestão, sem oferecer uma análise alternativa que tivesse em conta as dificilíssimas, extremadamente adversas condições que rodearam o seu acesso a La Moneda e todo o seu labor de governo. O advento da “democracia de baixa intensidade” no Chile pós-Pinochet - produto de uma sobrevalorizada transição cujas limitações económicas, sociais e políticas são hoje evidentes - corrigiu só em parte a subestimação que a figura de Allende e o governo da Unidade Popular tinha sofrido. Não obstante, depois de quase trinta anos de uma decepcionante transição que acentuou as desigualdades da sociedade chilena e a sua dependência externa as coisas começam a mudar e, afortunadamente, registam-se numerosas tentativas de revalorizar o seu fértil legado.

Trata-se de um acto de estrita justiça porque, como o temos manifestado em mais de uma ocasião, Allende foi o precursor do “ciclo de esquerda” que abalou a América Latina (e o sistema interamericano) até aos seus alicerces a partir de finais do século passado. As experiências vividas na Venezuela com Hugo Chávez, no Equador com Rafael Correa, na Bolívia com Evo Morales em que se recuperaram os recursos naturais têm no governo de Allende um luminoso precedente na nacionalização da grande mineração do cobre em mãos de oligopólios norte-americanos, na nacionalização da banca, a expropriação dos principais conglomerados industriais e a reforma agraria. Tendo em conta as condições dessa época, começos dos anos setenta, o que o governo da UP fez foi uma proeza num país rodeado de ditaduras de direita e atacado com sanha pelos EUA.

De estrita justiça, dizíamos, porque Allende foi um homem extraordinário da Nossa América. Um socialista sem renúncias, um anti-imperialista sem concessões, um latino americanista exemplar. Quando Cuba padecia de um isolamento quase completo e o Che iniciava a sua última campanha na Bolívia Allende assumiu nada menos que a presidência da Organização Latino-americana de Solidariedade (OLAS) para apoiar a Ilha rebelde e o Comandante Heróico. Era então Senador pelo seu partido, e foram já então muitas as vozes que se levantaram para o censurar pelo seu incondicional apoio à ilha caribenha e à insurgência que brotava não só em Bolívia pela mão do Che como também em quase toda a América Latina. Eu vivia nesses anos no Chile e fui testemunha da campanha de difamações, agressões, insultos e escárnio que foi descarregado contra ele. O diário El Mercurio, uma das expressões mais indignas do jornalismo latino-americano – na realidade, não é jornalismo mas propaganda e nada mais – atacava-o diariamente nas suas páginas políticas e nas suas opiniões editoriais, invariavelmente acompanhadas por uma caricatura que reproduzia o líder socialista como o rei (K) do baralho de cartas, na metade superior empunhando uma metralhadora e segurando a sineta do Senado na metade inferior. A mensagem era claríssima: Allende não era senão um guerrilheiro castrista que tinha envergado a pele de cordeiro de um democrata e que enganava chilenas e chilenos a partir da sua posição no Senado.
Este era também o diagnóstico da CIA, que cedo detectou o perigo que representava a sua figura para os interesses dos EUA. Já na campanha presidencial de 1964 a agencia tinha mobilizado grandes recursos para impedir o possível triunfo da coligação de esquerda que o propunha para o cargo. Documentos recentemente desclassificados demonstram que destinou para tais fins 2.6 milhões de dólares para financiar a campanha de Eduardo Frei, paladino da Democracia Cristã e da malfadada “Revolución en Libertad” que se propunha como alternativa à Revolução Cubana. E outros 3 milhões para financiar uma campanha de terror, em que a figura do dirigente socialista era apresentada como a de um monstro que enviaria crianças chilenas estudar em Cuba ou na URSS e acusações do mesmo estilo. No total, uns 45 milhões de dólares se os computamos ao seu valor actual [1]

Do anteriormente dito decorrem com meridiana clareza as razões pelas quais Washington se opôs desde a própria noite de 4 de Setembro de 1970 à possibilidade de que Allende assumisse a presidência da república. Tinha triunfado na eleição popular mas, ao não alcançar a maioria absoluta necessitava de ser ratificado como presidente pelo voto do Pleno do Congresso. A sua vitória era um resultado inaceitável em plena contra-ofensiva imperial, e o dinheiro investido para frustrar a chegada de Allende a La Moneda foi muito mais que o canalizado para a anterior eleição, embora ainda não exista um consenso acerca do montante exacto. Os EUA encaminhavam-se para uma derrota inapelável no Vietnam e tinham saturado o continente com ditaduras militares. Allende era um grito de guerra contra o império e para Washington isto era totalmente inadmissível. Havia que acabar com ele de qualquer maneira.

Segundo a documentação da CIA, em 15 de Setembro de 1970, poucos dias depois das eleições, o Presidente Richard Nixon convocou Henry Kissinger, Conselheiro de Segurança Nacional; Richard Helms, Director da CIA e William Colby, seu Director Adjunto, e o Procurador-Geral John Mitchell para uma reunião na Sala Oval da Casa Branca a fim de elaborar la política a seguir em relação às más novas procedentes do Chile. Colby escreveu nas suas notas que “Nixon estava furioso” porque estava convencido que uma presidência de Allende potenciaria a disseminação da revolução comunista preconizada por Fidel Castro não só no Chile como no resto da América Latina. [2] Propôs nessa reunião impedir que Allende fosse ratificado pelo Congresso e desse início à sua presidência. Por seu lado, a mensagem recebida por Helms expressava com claridade a visceral mistura de ódio e raiva que o triunfo de Allende provocava num personagem do calibre de Nixon. Segundo Helms, as suas instruções foram as seguintes: “há uma possibilidade em 10, talvez, mas salvem o Chile”; “vale a pena a despesa”; “não envolver a embaixada”; “não se preocupar com os riscos implicados na operação”; “destinar 10 milhões de dólares para começar, e mais se for necessário fazer um trabalho a tempo inteiro”; “Mandemos os melhores homens que tenhamos.”; “No imediato, façam com que a economia grite. Nem uma porca nem um parafuso para o Chile;” “Quero um plano de acção em 48 horas.” [3]

E foi isso o que ocorreu, desde o assassínio do general constitucionalista René Schneider até ao recrutamento de grupos paramilitares cujas acções terroristas eram atribuídas a fantasmagóricas brigadas de esquerda, as mesmas que a imprensa canalha da época, com El Mercurio à cabeça, propagava com fervor para alimentar a crença de que o triunfo da Unidade Popular era sinónimo de caos, destruição e morte no Chile. Mas a intervenção dos EUA contemplava também pressões diplomáticas, o desabastecimiento programado de artigos de primeira necessidade para fomentar o mau-humor da população, a organização de sectores médios para lutar contra o governo (caso do grémio de camionistas, entre os mais importantes) e a canalização de enormes recursos para financiar os revoltosos e atrair a oficialidade militar à causa do golpe.

Se observamos o panorama actual da América Latina e do Caribe veremos que pouco ou nada mudou. Por isso é necessário voltar a estudar minuciosamente o ocorrido no Chile de Allende. A actuação do imperialismo nos países de Nuestra América, e especialmente na vanguarda formada pelos países da ALBA-TCP, não difere hoje das mesmas orientações que a CIA e as outras agências do governo estado-unidense aplicaram com brutal selvajaria no Chile de Allende. Seria ingénuo pensar que hoje, na Sala Oval da Casa Branca, Donald Trump convoque os seus assessores para elaborar estratégias políticas diferentes das utilizadas para derrubar e causar a morte de Allende. O manual de operações da CIA e outras agências de inteligência do governo dos EUA para fazer frente às resistências que se levantam contra o imperialismo e para derrubar governos dignos, que não se ajoelham ante as ordens da Casa Branca, não mudou muito nos últimos cinquenta anos. Isto é verdade como o estamos vendo nos casos de Venezuela e Nicarágua. Informações inquestionáveis demonstram a estreita vinculação entre as lideranças da oposição nesses dois países e os mais sórdidos representantes da direita neofascista nos EUA.

O que diz respeito à oposição venezuelana é já largamente conhecido. Mas dados muito recentes demonstram também a íntima vinculação existente entre os radicalizados opositores de Daniel Ortega e os organismos de inteligência e fontes financeiras da direita em Washington. [4] Que aqueles que se opõem ao sandinismo não tenham incómodo algum em fotografar-se com personagens tão inapresentáveis do el ponto de vista da democracia como Ted Cruz, Marco Rubio e Ileana Ros-Lehtinen, personagens da mafia anticastrista de Miami, lança uma mancha insanável sobre os supostos democratas nicaraguenses. Se realmente quisessem a democracia no seu país, como propalam aos gritos, jamais deveriam ter acorrido ao convite daqueles terroristas amparados pelo Congresso e por sucessivos governos dos EUA.

Como dizia o canto de Violeta Parra, “o leão é sanguinário em todas as gerações.” O império não muda. No seu inexorável processo de decadência e decomposição tornar-se-á cada vez mais violento e criminoso. Hoje, a quase meio século da grande jornada que o Chile iniciou pela mão de Salvador Allende, não esqueçamos as lições que nos deixa a sua passagem pelo governo e não baixemos a guarda - ¡nem por um segundo! - ante tão perverso e incorrigível inimigo, quaisquer que sejam os seus gestos, retóricas ou personagens que o representem. E tenhamos em conta que aqueles que acorrem à Roma americana para procurar apoio diplomático, cobertura mediática, dinheiro e armas para derrubar os seus governos jamais poderão dar nascimento a algo de bom nos seus países.

Notas:
1- Ver, para maior detalhe, os seguintes documentos (a) «Chile 1964: CIA Covert Support in Frei Election Detailed». The National Security Archive, https://nsarchive2.gwu.edu/news/20040925/index.htm; (b) «Foreign Relations of the United States, 1964-1968, Document 269». U.S. Department of State: Office of the Historian. United States Department of State; (c) «Foreign Relations of the United States, 1964-1968, Document 254». Office of the Historian, Bureau of Public Affairs, United States Department of State, 5 de Maio de 1964.
2- Ver (https://www.cia.gov/library/center-for-the-study-of-intelligence/csi-publications/csi-studies/studies/vol47no3/article03.html)
3- Uma informação muito detalhada sobre estes projectos do governo norte-americano para desestabilizar e derrubar governos adversários, não só o caso do Chile, encontra-se em US Congress, Senate, Alleged Assassination Plots Involving Foreign Leaders, Interim Report of the Select Committee to Study Government Operations with Respect to Intelligence Activities, 94th Congress, 2nd Session, (Washington, DC: US Government Printing Office, 20 November 1975). As referências à orientação definida por Nixon encontram-se na página 227 deste volume.
4- Ver a ampla e demolidora informação que este link proporciona: http://kontrainfo.com/demuestran-que-la-cia-esta-detras-del-intento-de-golpe-en-nicaragua-usando-a-grupos-de-ultraizquierda/

Texto completo em: https://www.lahaine.org/salvador-allende-un-recordatorio-y

Divulga o endereço[1] deste texto e o de odiario.info[2] entre os teus amigos e conhecidos

References

  1. ^ endereço (www.odiario.info)
  2. ^ odiario.info (odiario.info)

Leia original aqui

Argentina: crise, falsa saída e contágio

Fuga de capitais é grave e reflete desajustes da economia global. Mas governo Macri submete-se aos “remédios” do FMI e ataca direitos sociais, para “proteger” investidores externos

Por Mark Weisbrot, em entrevista a Greg Wilpert, no Democracy Now | Tradução: Inês Castilho

Nos últimos dias, a crise econômica na Argentina está se tornando cada vez mais séria. Semana passada, o presidente Maurício Macri anunciou um novo aumento nas taxas de juros do país, elevando-as a 60% — as mais altas do mundo. A medida visa deter a fuga de capitais e o declínio da moeda argentina. O peso já caiu mais de 50% desde o começo do ano, e despencou mais uma vez no início da semana. Macri planeja também aumentar os impostos sobre exportação e introduzir medidas de austeridade ainda mais duras do que as já introduzidas este ano. O ministro das Finanças do país, Nicolas Dujovne, descreveu assim seu plano:

“Vamos economizar mais 6 bilhões de dólares, que não teremos de financiar no mercado, e em 2020 vamos ter um superávit primário de 1% do PIB, o que economizará outros 5,2 bilhões de dólares.”

A Argentina anunciou também que irá pedir ao FMI o desembolso imediato de uma linha de crédito de 50 bilhões de dólares, que foi aprovada em maio passado  um dos maiores empréstimos desse tipo na história do FMI. Enquanto isso, a população tem ido às ruas para protestar contra a dura austeridade e crescente inflação do país. Por exemplo, manifestantes tiveram um confronto com a polícia semana passada, num protesto contra demissões no setor público.

Vamos começar pelos mais recentes anúncios de Macri sobre política econômica: aumento da taxa de juros e dos impostos de exportação, e introdução de medidas de austeridade ainda mais duras. Qual a justificativa dessas políticas, para o governo?

A justificativa é restaurar a confiança dos mercados. E isso é especificado no acordo com o FMI que eles assinaram em junho. A ideia é que essas medidas garantirão aos mercados que o governo não vai continuar a não fazer nada que abale a confiança, particularmente dos investidores estrangeiros, já que a dívida externa tornou-se enorme desde que Macri assumiu o cargo.

Quais são os efeitos mais prováveis dessas políticas, no curto e longo prazo, deixando de lado se vão realmente aumentar a confiança na economia?

O efeito da austeridade, no curto prazo, é encolher ainda mais a economia. E isso é típico  na verdade, uma solução típica do FMI para uma conta corrente deficitária. Déficit em conta corrente é basicamente o déficit comercial somado a outros empréstimos anuais que o país está utilizando, tomados no resto do mundo. Eles hoje têm um alto déficit em conta corrente. Se você encolhe a economia com a austeridade, irá reduzir as importações. E essa é uma maneira de reduzir o comércio e o déficit em conta corrente. Não é um bom caminho, em geral, e significa que o povo irá sofrer mais. O desemprego já subiu cerca de 2 pontos percentuais desde que Macri assumiu o governo. De modo que as medidas serão muito desconfortável para a população. É uma das razões por que você vê as pessoas se manifestando nas ruas.

Na verdade, além de tentar reduzir as importações, parece que eles estariam também reduzindo as exportações com esse imposto. Você não diria isso?

Não, acho que os impostos sobre exportação estão corretos. Essa é uma boa fonte de renda para o governo, e penso que Macri não deveria é ter reduzido esses tributos, ao assumir o governo. Mas o problema é mesmo que o governo emprestou tanto dinheiro. De 63 bilhões de dólares, a dívida do governo central foi para mais de 140 bilhões. Não havia razões para isso. Também queimaram rapidamente as reservas do banco central.

Isso é parte do que está gerando a crise. E era desnecessário, porque eles poderiam, ao contrário, ter tomado empréstimos domésticos. Vale lembrar que a ex-presidente Cristina Kirchner deixou uma dívida externa muito, muito pequena em relação à economia do país. Isso é importante porque esse governo — e parte da mídia e das pessoas que o apoiam — estão tentando culpar o governo anterior pela crise atual. De fato, os Kirchners [Cristina e Nestor, presidente que a antecedeu] deixaram alguns desequilíbrios. Claro, Macri teve que liquidar a dívida dos fundos abutres, remover alguns dos controles de capital e permitir que a taxa de câmbio flutuasse. Foram medidas positivas. Mas as causas da crise estão nos empréstimos externos e no desperdício de bilhões de dólares tentando defender a moeda, enquanto ela estava caindo. Todo esse dinheiro foi desperdiçado e somado à dívida externa.

Vamos aprofundar isso um pouco mais. Como o peso perdeu tanto valor? Você mencionou, é claro, os empréstimos – mas como Macri de repente acaba nessa crise financeira que ele de fato não encontrou ao assumir o governo?

Ele tornou as coisas muito piores, penso, principalmente pelo endividamento externo. E também, é claro, a austeridade dói. Mas acho que o pior é que ele agora está aprisionado numa armadilha. Com o acordo do FMI amarrou-se à “austeridade”. Agora, os investidores sabem que a economia não vai melhorar tão cedo. Então, ele está tentando construir confiança no mercado, mas, como vimos na zona do euro, isso geralmente tem o efeito contrário.

Então agora podemos esperar anda mais “austeridade”, e uma queda ainda maior na economia argentina, ao menos no médio prazo?

É o que parece, com certeza. E penso que serão forçados a manter o erro, já que o FMI vai monitorá-los a cada trimestre, para desembolsar as parcelas do empréstimo. Isso não significa que a economia não poderá recuperar-se, a uma certa altura. Mas no curto prazo as coisas parecem bem ruins.

Essa situação tem algumas semelhanças com o que aconteceu nos anos 1990. Eles tiveram quatro anos de depressão, e ficaram inadimplentes com suas dívidas. Agora, não há depressão. A economia está desacelerando, provavelmente terão uma recessão. Mas a semelhança é que estão presos a esse programa, e tentando construir confiança nos mercados, mas tudo o que fazem na verdade só piora a situação.

E há uma outra semelhança, que a maioria das pessoas notou, e penso que é muito importante. Macri apresenta uma série de desculpas para o que aconteceu, dizendo que a culpa não é sua. Numa destas alegações, ele tem razão. É o recente aumento das taxas de juros pelo Federal Reserve [banco central dos EUA]. Isso é semelhante ao que aconteceu entre 1994 e 1997, quando o Fed elevou as taxas de juros e espalhou crises pelo mundo. Começaram no México, espalharam-se pela Argentina e se converteram na crise financeira da Ásia, que começou em 97. Desdobraram-se em crises na Rússia e no Brasil. Isso é realmente um grande fator, e mostra o quão poderoso é o Federal Reserve e sua influência nos países em desenvolvimento. Algo que ele não leva em conta, é claro, quando decide sua política monetária.

Recordo também de como a Turquia, por exemplo, está agora enfrentando uma crise, em parte, causada pelo aumento da taxa de juros do Fed.

Sim. São exemplos de como países que os investidores consideram vulneráveis – se são ou não é outra história – sofrerão um impacto, e terão crises financeiras. E às vezes simplesmente porque os “mercados” decidem que devem fugir.

 

Ver o original em 'Outras Palavras' na seguinte ligação:

https://outraspalavras.net/mundo/america-latina/argentina-crise-falsa-saida-e-contagio/

 

Moncada denuncia ameaças dos EUA a Maduro caso se desloque às Nações Unidas

O diplomata venezuelano acusou ainda Carlos Trujillo, embaixador dos EUA na Organização de Estados Americanos, de ter pedido a países do Grupo de Lima que ataquem militarmente a Venezuela.

A maioria dos venezuelanos rejeita o intervencionismo norte-americano no paísCréditos / Alba Ciudad

Samuel Moncada, representante da Venezuela junto das Nações Unidas (ONU), recorreu esta segunda-feira à conta oficial de Twitter do Ministério dos Negócios Estrangeiros do seu país (@CancilleriaVE) para denunciar as ameaças de Carlos Trujillo à «integridade física» do presidente da República Bolivariana da Venezuela, Nicolás Maduro.

«É incrível que, depois de um atentado frustrado, o representante dos Estados Unidos na Organização de Estados Americanos (OEA), Carlos Trujillo, declare que o presidente Nicolás Maduro "está a arriscar-se ao vir a Nova Iorque", para assistir à 73.ª Assembleia Geral da ONU», lê-se na conta do Ministério venezuelano dos Negócios Estrangeiros.

«O Senhor Trujillo quebrou todos os parâmetros», disse Moncada numa entrevista à TeleSur, em que qualificou as declarações do diplomata norte-americano como «inauditas e repudiáveis», «criminosas e violadoras do direito internacional».

Lembrando que «o grupo terrorista que levou a cabo o atentado frustrado no passado dia 4 de Agosto está protegido em território norte-americano», Samuel Moncada sublinhou que a administração dos EUA está obrigada, na sua qualidade de Estado-anfitrião, a garantir aos chefes de Estado e de governo o acesso em segurança às instalações das Nações Unidas.

«Quando um chefe de Estado vai às Nações Unidas, não vai aos EUA, mas a um território da ONU, e os EUA estão obrigados a garantir a sua segurança e da sua comitiva», frisou.

Instigar a guerra contra a Venezuela

Na entrevista à TeleSur, o diplomata venzuelano acusou ainda os EUA de promoverem uma guerra «entre latino-americanos». «Os Estados Unidos instigam a guerra, financiam a guerra, equipam a guerra, beneficiam com a guerra e vão querer aparecer como os salvadores humanitários», alertou Moncada.

De acordo com o diplomata, isto ficou evidente esta segunda-feira, numa sessão da OEA, no decorrer da qual Carlos Trujillo, embaixador norte-americano junto do organismo regional, instou «os governos da Colômbia, do Chile, do Brasil e do Peru – que agridem fortemente a Revolução Bolivariana – a atacar a Venezuela», informa a AVN.

«Os Estados Unidos querem a guerra, mas entre latino-americanos, que nós, latino-americanos, nos matemos uns aos outros», denunciou, acrescentando que foi por isso que Trujillo pediu abertamente aos países referidos que «tomem a decisão difícil de atacar abertamente a Venezuela».

Ver original em 'AbrilAbril' (aqui)

Boaventura: Excessos do Judiciário podem destruir sistema democrático

“Todas as pessoas são a favor da luta contra a corrupção, mas a corrupção não pode ser a única luta do Judiciário em nenhum país, não pode estar separada da legitimidade, de princípios fundamentais e da defesa do sistema democrático, porque levada ao excesso dessa forma pode contribuir para a destruição do sistema democrático”, avalia o sociólogo Boaventura de Sousa Santos, apontando os riscos para o país de um cenário no qual não se distinguem os poderes da República.

Paradoxalmente, aquele que seria o mais autônomo entre eles é quem mais depende do poder político. “Nessa medida, é muito fácil criar o ódio, sobretudo quando temos uma televisão midiática extremamente monopolizada, com os brasileiros passando quatro a cinco horas por dia vendo esses programas, no sentido de demonizar os políticos em geral e a democracia”, aponta. “Quando se demoniza a democracia, vem esse populismo, de extrema direta, e o Bolsonaro é exatamente uma expressão disso, uma consequência indireta da Lava Jato ou, se quiser, da forma como foi conduzida, e portanto há que viver com essa realidade.”

Na entrevista exclusiva concedida à RBA, em meio ao 24º Seminário Internacional de Ciências Criminais, Boaventura traça um panorama das transformações pelas quais passaram a América Latina e o Brasil desde o início dos anos 2000, com a emergência de movimentos e governos progressistas que tiveram de enfrentar a resistência da direita e a interferência de atores externos. “A direita ganharia mais facilmente as eleições de 2018 se não tivesse ocorrido o golpe. Portanto eles devem pensar duas vezes no custo político em que se envolveram, mas aqui há muitos agentes internacionais por trás deles que permitiram toda essa impaciência para destruir o ‘perigo petista’.

Confira abaixo os principais trechos da primeira parte da entrevista.

Entrevista

A América Latina no início dos anos 2000 e o Fórum Social Mundial

Era um momento de muita esperança neste continente, o governo Chávez tinha de alguma maneira inaugurado em 1998 uma certa renovação, havia um grande fermento que vinha e que resultava diretamente, no caso da Argentina e do Brasil, dos próprios processos de democratização que tinham ocorrido nos vinte anos anteriores. Começam os movimentos, nos anos 1980, quando surge o MST e, portanto, esses movimentos, muito fortes, vão dar uma ideia de que este continente era um continente de esperança, depois de tanto martírio, de tanta guerra e tantas ditaduras, morte e violência.

E realmente essa esperança estava de alguma maneira bem fundamentada, porque havia uma riqueza dos movimentos sociais, basta ver que era o único continente onde começava a se falar de alguma maneira do socialismo do século XXI, não se falava disso em nenhuma outra parte do mundo fora da América Latina. O Fórum Social Mundial surge justamente nesse contexto e nesse caldo que aponta para fortalecimento da luta da esquerda. Muitos dos governos progressistas que vieram a surgir na América Latina devem alguma coisa à mobilização do Fórum Social Mundial. Lembro de Fernando Lugo, antes de ser presidente, que veio do Paraguai de ônibus porque não tinham dinheiro para pagar a passagem.

Portanto, houve realmente uma mobilização muito grande. Em 2003 temos o Lula no governo, um momento de muita esperança em geral, mas não apenas ao nível dos partidos e dos governos, mas dos movimentos sociais que continuaram muito fortes, com alianças intercontinentais, inclusive a que nós temos hoje, por exemplo, com a Via Campesina ou a Marcha Mundial das Mulheres, que nasceram e se fortaleceram acima de tudo no Fórum Social Mundial. Também foi um momento enorme para interconhecimento, para o movimento indígena, por exemplo, que praticamente nem se conheciam uns aos outros na América Latina e dentro do próprio Brasil.

Os governos progressistas e o recuo

O que aconteceu, entretanto, é que os governos progressistas chegaram e uma corrente de esquerda de muitos intelectuais aqui da América Latina, com os quais devo dizer que não estou totalmente de acordo, fazem uma distinção entre progressivismo e esquerda, isto é, os governos eram progressistas, mas não eram de esquerda. Penso que essa distinção não faz muito sentido, eram de esquerda e se equivocaram, e obviamente cometeram erros. Eram progressistas, mas não reacionários, que é o que se opõe, e eram de esquerda e não de direita. Por que essa distinção começa a ser feita? Porque realmente é o sinal do desespero e de frustração, porque foi um continente que criou grande expectavas e numa década as expectativas transformaram-se em frustrações.

Como é que se transformam tão rapidamente? Por erros obviamente internos dos próprios governos progressistas e por uma influência externa que é o imperialismo norte-americano, muito claramente, sobretudo a partir de 2009. Havia uma situação muito específica naquela altura e tempo, de crescimento do mercado internacional das matérias primas provocado pelo impulso e desenvolvimento da China, com uma rentabilidade enorme para os países que as produziam. O Brasil era um deles, outros países da América Latina também, como a Argentina. Houve aqui um ambiente extraordinário que permitiu uma dinâmica social orientada por estes governos, que vinham de movimentos sociais e tinham uma política muito semelhante à da social-democracia europeia – era assim que o Lula designava seu governo, como social-democracia à latino-americana, lamentando aliás que os europeus a estivessem abandonando.

Tudo isso era possível para aquela conjuntura, mas sem se tocar na matriz econômica, na estrutura de classe e no modelo de desenvolvimento. Sem tocar no modelo financeiro e midiático. Isso fez com que a certa altura os próprios movimentos sociais começassem a sentir uma grande frustração. Em outros países, como no caso da Bolívia, houve uma divisão total entre os movimentos, como no caso equatoriano.

Influência dos Estados Unidos

Mas há também uma intervenção externa que começa a ter lugar sobretudo a partir de 2009, com o golpe das Honduras, e não foi antes porque o Estados Unidos estavam completamente envolvidos desde 2003 na guerra do Iraque e, portanto, haviam se esquecido praticamente da sua política na América Latina por estarem ligados ao Oriente Médio. A essa altura, em 2009, começam a olhar outra vez para o continente e a ver que o que estava surgindo aqui uma dinâmica autonomista que se opunha em causa ao princípio fundamental de toda a diplomacia e domínio norte-americanos, que se resumem a uma expressão: acesso aos recursos naturais.

Estavam a surgir aqui muitas coisas e um dos casos mais graves era obviamente o Brasil, na medida em que o país hegemonizava aqui na América Latina, não só pela sua dimensão, mas também pelo fato de ser um membro importante dos Brics. Portanto, estava a ser uma alternativa que entrava em linha de confrontação com o dólar, unindo Rússia, China, Brasil, Índia e África do Sul.

Como não havia nesse momento, digamos, a ameaça comunista – era difícil de se inventar agora, como se inventaram antes as ditaduras por haver a Revolução Cubana – passam a se fazer golpes institucionais usando o Judiciário. Já se fazia, há décadas, grandes investimentos no Ministério Público, por parte da CIA e das organizações. Estudei isso por conta do caso colombiano no qual, para se fazer a tal luta contra a corrupção, contra a guerrilha, se fez um Judiciário musculoso, muito agressivo, inquisitorial e nada respeitoso em relação aos processos em nome da luta contra as drogas e contra o terror.

Esse modelo começou a dar esses frutos em 2009/2012, pulou para o Paraguai e depois chegamos em 2016. O que se passou no Brasil desde então não se pode explicar sem exatamente analisar essa necessidade de se liquidar, neutralizar qualquer política de autonomia no continente, garantindo o acesso (dos EUA) aos recursos naturais. Obviamente, o imperialismo norte-americano é uma coisa muito diferente do imperialismo de antes, não é apenas a CIA ou os militares como a gente pensa, mas uma série de organizações, muitas vezes privadas, financiadas pelos irmãos Koch. Estes são realmente os grandes potencializadores das políticas conservadoras nos Estados Unidos, de extrema direita mesmo, mais conservadora, que tem outras ramificações. A Atlas (Foundation), que é um reduto importante, onde está o Instituto Milllenium, Instituto Mises e muitos outros institutos que estão em funcionamento no Brasil e que fizeram com que hoje os valores de direita fossem quase “chiques”.

Os custos políticos para a direita

Portanto, houve eventos internos e uma interferência externa que levaram à situação em que o Brasil se encontra hoje, uma situação muito complexa, precisamente por ser no país que sediou o Fórum Social Mundial. Ainda hoje muita gente me pergunta, no mundo, enquanto estou fazendo minhas palestras, como foi possível neste país tantos retrocessos em tão pouco tempo, e de uma maneira tão violenta e com tão pouca resistência. E realmente assim foi. Penso que os movimentos sociais já estavam de alguma maneira desmobilizados, por diferentes razões, como os que pensavam que já não era necessária mobilização social porque o governo era amigo, e outros que tinham sido hostilizados pelo governo e que portanto não estavam em pé de guerra para defender as suas reivindicações.

Estão acordando agora. Os retrocessos que se cometeram nos últimos dois anos foram de tal ordem que transformaram esse político genial que é Lula da Silva em um mártir, e os lados, digamos, mais frágeis e críticos dos seus governos não podem se discutir hoje. O que é também problemático, penso que devemos fazer uma discussão desses erros, até porque o tipo de governo que ele fez não se pode reproduzir no futuro.

A direita ganharia mais facilmente as eleições de 2018 se não tivesse ocorrido o golpe. Portanto eles devem pensar duas vezes no custo político em que se envolveram, mas aqui há muitos atores internacionais por trás deles que permitiram toda essa impaciência para destruir o “perigo petista”.

Os poderes que se confundem

Nós temos vários candidatos de esquerda e vários candidatos de direta neste momento, mas a simetria termina aqui. Sempre digo que a direta está fragmentada até o segundo turno, dando uma aparência de fragmentação exatamente para garantir que haja apenas candidatos de seu campo no segundo turno. No segundo turno, ela será brutal em liquidar aquilo que não quiser, e vai fazer com todos os instrumentos e toda força que tem.

Quando se adota o instrumento da delação premiada como um pressuposto de verdade quase absoluta, esse risco é real …

Pode o jogo sair das mãos (da direita), porque há muito atores no jogo brasileiro, o populismo está aí, o Bolsonaro é o exemplo, mas ele responde não só a uma política de grande descrédito da democracia levada a cabo muitas vezes pelas próprias instituições democráticas. Todas as pessoas são a favor da luta contra a corrupção, mas a corrupção não pode ser a única luta do Judiciário em nenhum país, não pode estar separada da legitimidade, de princípios fundamentais e da defesa do sistema democrático, porque levada ao excesso dessa forma pode contribuir para a destruição do próprio sistema democrático. E é esse o risco que corremos nesse momento, porque qualquer político que tenha o seu nome associado em uma delação, que tenha sido feita sem nenhuma prova, tem o seu currículo obviamente manchado e a sua carreira comprometida.

Nessa medida, é muito fácil criar o ódio, sobretudo quando temos uma televisão midiática extremamente monopolizada, com os brasileiros passando quatro a cinco horas por dia vendo esses programas, no sentido de demonizar os políticos em geral e a democracia. Quando se demoniza a democracia, vem esse populismo, de extrema direta, e o Bolsonaro é exatamente uma expressão disso, uma consequência indireta da Lava Jato ou, se quiser, da forma como foi conduzida, e portanto há que viver com essa realidade.

Os mercados querem um candidato de direita, não tem que ser o Bolsonaro, provavelmente pode ser ele na medida em que apoie a liberalização, privatização de tudo, como quer o Instituto Millenium e o Mises, a ala mais conversadora da direita. Um Alckmin provavelmente acabará por fazer mais ou menos a mesma coisa.

Isso é feito pelo interesse internacional, obviamente que não foi algo impensado, foi tudo calculadíssimo para que isso se desse e provavelmente pode até ter êxito. Só que nunca tem êxito completo porque a sociedade felizmente tem outras dinâmicas, a sociedade começa a mover-se, as pessoas começam a fazer comparações sobre como era nos “terríveis tempos do Lula”. Como é que se vive hoje? Começam a fazer comparações, “ah, mas esse senhor não foi que o nos pintaram” e, portanto, as pessoas começam a acordar, e isso começa a notar-se já, na opinião pública.

Quem defende a democracia é a esquerda

Tenho defendido que nesse momento em que vivemos é a esquerda que tem que defender a democracia, e não a direita. E não é só aqui, penso isso na Europa. Porque a direita se vendeu de tal maneira aos interesses do neoliberalismo que não tem capacidade, mesmo que queira, para poder impor alguma regra ao capitalismo. Se não houver regras ao capitalismo é o capitalismo que impõe regras, situação em que nos encontramos neste momento.

A esquerda, até porque perdeu realmente a vertente revolucionária, perdeu a vertente comunista, digamos assim, de uma alternativa total, hoje garante a democracia em todo o mundo. É dela que eu espero isso, acho que a direta está totalmente deslegitimada. A direta brasileira é golpista, quer dizer, não consigo identificar no Brasil ninguém genuinamente de direita, com uma política de direita que tenha sido contra o golpe, que tenha visto as limitações da Lava Jato e esses perigos. Isto é, colocados a democracia e o interesse republicano acima do interesse partidário. Não, porque é uma sociedade de extração colonial, que realmente continua com muitos vieses colonialistas, oligárquicos, em que sempre privatizaram o Estado, onde o Executivo, o Legislativo e o Judiciário praticamente não se distinguem uns dos outros.

Com o Judiciário mais autônomo do mundo, nenhum outro que eu conheço entre os grandes países do mundo tem o controle do próprio orçamento como tem o vosso Judiciário e, no entanto, acaba sendo o mais dependente do poder político. Isto é muito estranho, o candidato que vier a ganhar tem que tirar as lições do passado. Se for um candidato de esquerda tem que ter muito realismo, porque houve muita destruição nesse processo e é preciso nesse momento neutralizar algumas destas contrarreformas que foram feitas, por exemplo, o Teto de Gastos, obviamente um suicídio social, um absurdo.

Só isso vai levar muito tempo. Um governo de esquerda vai tentar em um primeiro momento minimizar os danos já causados, não vai ter nenhuma possibilidade de poder avançar com as políticas que nós podíamos ter avançado no início da primeira década do milênio, a reforma política, reforma da mídia e a reforma tributária, que era fundamental. Vai, acima de tudo, reduzir os riscos e começar a partir daí a criar condições para uma outra hegemonia, que a meu entender pode e tem que passar pela unidade da esquerda, e eventualmente, quem sabe, o surgimento de mais algum partido de esquerda. O Brasil, sendo um país com muitos movimentos sociais, não tem nenhum partido de movimentos como existe em outros países, por exemplo, na Espanha, com o Podemos. Aqui, os partidos sempre ficaram relativamente tentando ser os proprietários dos movimentos, mas os movimentos não pertencem a ninguém e, portanto, eles próprios podem sair organizados.

Esquerda confrontacional

Se for um governo de esquerda, eu mesmo apoiarei enquanto for reconhecidamente de esquerda, e não vou entrar nestas distinções se “é de esquerda” ou “é progressista” porque isso não faz muito sentido. Acho que vai ser uma política de realismo numa primeira fase, para começar a ver se há forças para atravessar esse cenário internacional de crises, no qual o mercado financeiro tem um controle como nunca havia tido antes.

Portanto, se não se tirar dos ricos, não haverá nada para dar aos pobres. E isso pode ser o fim de qualquer expectativa nova em um governo de esquerda. Será necessário tirar dos ricos, a única maneira ou, digamos, mais simples que se pode fazer, é a via tributária. Uma política tributária nova que finalmente permita que se faça aquilo que a democracia pensava, quem tem mais paga mais, quem tem menos paga menos. Estamos em uma situação absolutamente inversa.

Mas o realismo não é cedência, o realismo vai ser confrontacional, porque foram muito agressivos e realmente, não vão abrir mão daquilo que já quiseram fazer. Até agora não conseguiram abrir mão da Previdência, que é a mãe de todas as reformas, mas conseguiram no caso do pré-sal, que já está profundamente minado. Aquilo que se puder fazer será de enfrentamento, não tenho dúvidas.

Nós criamos um momento de tão baixa intensidade de democracia que, aqui no Brasil, qualquer medida, por pequena que seja no sentido contrário, será confrontacional, não vai ser uma política de alianças. E, portanto, se um governo de esquerda pensar em alianças nesse momento, vai ser traído em um segundo momento. E não é preciso esperar por um Temer, vai ser uma coisa muito mais grotesca e mais rápida. Vão ter que aprender que não há e não vai haver uma conciliação de classes nos próximos tempos porque a direita mostrou que efetivamente isso não é um arranjo de conjuntura, ela quer continuar a ter o poder todo nas mãos, o poder político, econômico e social.

Por Glauco Faria | Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV (RBA) / Tornado

<

Ver artigo original em "O TORNADO"

A Operação Condor e o momento político brasileiro

Revisito as fotografias sobre a Operação Condor de João Pina, que estiveram expostas no Torreão Ocidental do Terreiro do Paço, entretanto publicadas em livro pela Tinta-da-china, e o imprescindível livro de Eric Nepomuceno chamado «A Memória de todos nós» [ pdf A memória de todos nós Editora Record (2015) (744 KB) ]. Ambos dedicaram-se à abordagem da terrível tragédia que se abateu sobre os povos latino-americanos durante os anos de chumbo em que as ditaduras militares decidiram combater o comunismo à custa de uma sucessão ininterrupta de torturas e assassinatos. A coordenação de toda essa conspiração partiu da Escola das Américas, que a CIA organizou no Panamá, mas há que não esquecer os especialistas militares franceses e israelitas que, igualmente, andaram a ensinar como subjugar «subversivos».
Quando corporizo as imagens desse tempo de terror encontro duas possíveis nas vivências passadas: a ordem para a adoção de ritmo rápido e sem olhares curiosos para lá dos muros da Escola de Mecânicos da Armada, quando se queria alcançar o centro de Buenos Aires a partir do cais onde atracavam os navios de cruzeiros. Os cartazes eram elucidativos: uma atitude mais suspeita poderia ser punida com um tiro sem aviso prévio. E, no entanto Raul Alfonsin já estava a concluir o mandato enquanto primeiro presidente pos-ditadura, avizinhando-se a campanha eleitoral, que levaria Carlos Menem a suceder-lhe.
A recordação dessa experiência inclui o estremecimento interior por saber que dentro desses muros, tinham sido mortos tantos dos que as mães da Praça de março ainda procuravam resgatar do esquecimento exigindo punição exemplar para quem os assassinara.
Compensa, de alguma forma, saber que esse sinistro espaço militar foi, entretanto, convertido em Museu de Evocação das vítimas da ditadura, tendo sido inaugurado por quem nele nascera enquanto filho de uma das logo assassinadas após o parto.
A outra imagem é também do período de transição da ditadura para uma forma condicionada de Democracia. Aconteceu-me em Valparaíso, quando Pinochet já se vira derrotado no referendo, que julgara incapaz de o remover do poder e quando o presidente entretanto eleito, Patricio Aylwin, ainda não fora empossado. O meu cirandar pela zona ribeirinha da cidade - não me arrisquei aosbarrios altos - foi acompanhado por sucessivas patrulhas militares que, a cada esquina, vigiavam os movimentos de todos quantos por ali circulavam. Embora a ditadura tivesse sido derrotada, a pressão dos seus agentes continuava a ser ostensiva.
Desde então, nalguns dos países abarcados pela Operação Condor, a justiça veio a repercutir-se nos assassinos e torturadores, mesmo que tarde e a más horas. No entanto, seja na Argentina ou no Chile, o nome dos chefes militares desses anos negros, está agora manchado, poucos havendo que insistam em os considerar heróis.
Não aconteceu o mesmo com o Brasil. Pelo contrário: a associação do capital, do sistema de Justiça e da imprensa (Rede Globo, revista Veja, Folha de S. Paulo, etc.) nunca permitiu que o reequacionamento dos crimes da ditadura entre 1964 e 1985 fosse feito. Pelo contrário é comum viajar-se pelo país e encontrar quartéis militares com o nome dos sucessivos ditadores, que se sucederam no poder nesse período. Assim se explica o golpe de Estado concretizado contra Dilma, a conspiração para inculpar e manter Lula na prisão, impedindo-o de recuperar a Presidência, e a promoção do tenebroso Bolsonaro enquanto herdeiro desse passado até agora livre da merecida condenação.
O que aí acontecerá nos próximos meses é imprevisível porque, entre um recauchutado regime militar e o regresso à ordem constitucional com um presidente livremente eleito - Lula -, não será fácil prever qual a que se revelará vitoriosa. De qualquer forma confirma-se a velha lição de Edmund Burke sobre a possibilidade de repetir os erros do passado, quando se esquecem as lições da História. Os políticos brasileiros que, nos últimos trinta anos, pactuaram com um manto de silêncio sobre o sucedido nas duas décadas anteriores, foram cúmplices ativos do atual desastre, e porventura da tragédia, que se seguirá.

 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2018/08/a-operacao-condor-e-o-momento-politico.html

A grande traição no Equador

Lenin Moreno, ao centro, em cerimônia militar: o presidente da restauração conservadora

Ex-chanceler explica: o presidente, Lenin Moreno, foi eleito para continuar a revolução popular de Rafael Correa. Mas ao invés disso a está desmantelando

Guillaume Long, entrevistado por PabloVivanco, na Jacobin| Tradução: Inês Castilho

Em pouco mais de um ano, a paisagem política no Equador mudou dramaticamente. Por mais de uma década, a Revolução Cidadã iniciada com Rafael Correa deu grandes passos na redução da pobreza e desigualdade, inclusive tirando da rua e colocando na escola centenas de milhares de crianças, ao mesmo tempo em que aumentava significativamente a classe média equatoriana. O país também alcançou estabilidade política e social, depois dos anos de agitação que se seguiram à crise bancária de 1998.

Contudo, a Revolução Cidadã não se deu sem detratores e contradições, incluindo discussões e protestos sobre direitos reprodutivos, indústria extrativa e, mais recentemente, escândalos de corrupção envolvendo figuras-chave do governo. Apesar disso, nas eleições de 2017 o Equador parecia ter resistido à tendência de vitória da direita em toda a América Latina. O candidato da Aliança PAIS de Correa, Lenin Moreno, foi eleito numa plataforma de continuidade – mas começam a surgir sinais de uma divergência iminente. Moreno e Correa são agora inimigos ferozes, com o governo de Moreno procurando prender seu ex-aliado como fez com o último vice-presidente de Correa, Jorge Glas. A Aliança PAIS  separou-se e os aliados de Correa ainda não foram autorizados a registrar um novo partido.

O governo de Moreno aliou-se também com forças políticas da direita para aprovar medidas significativas de “austeridade” e liberalização, enquanto muda a política externa do país para uma disposição amistosa com os EUA. A mudança espetacular – que Correa considerou “traição” ou “golpe” – deixou muita gente perplexa.

Guillaume Long (na foto abaixo) foi o último ministro das Relações Exteriores de Correa. Foi também o líder de assuntos internacionais da Aliança PAIS, e encabeçou os esforços para criar um amplo espaço aos partidos de esquerda latino-americanos convocando a Cúpula de Progressistas da América Latina (ELAP). Falou longamente à Jacobin sobre o que acontece no Equador e o estado da esquerda na região.

As reformas politico-econômicas que, surpreendentemente, foram iniciadas por Lenin Moreno, assim como o rompimento ocorrido na dirigente Aliança PAIS, são exemplos das mudanças tectônicas que estão acontecendo na política do país. O que explica o abandono da lealdade e da plataforma eleitoral de Lenin e seus partidários, muitos dos quais haviam apoiado Correa e a Revolução Cidadã?

Há vários fatores internos, o primeiro, é claro, sendo a escolha do sucessor de Correa, pelo próprio Correa, um erro significativo. Entendo que nasceu de boas intenções, quando Correa decidiu não concorrer novamente.

Esse deveria ser um movimento muito democrático. Era provável que Correa vencesse, por outro lado Lenin lutou para vencer, mas venceu com os votos de Correa. Se fizermos uma análise rigorosa do voto a Moreno em 2017, veremos que foi basicamente dos bastiões de apoio popular ao Correísmo.

Mas a ideia era ter alguém que fosse mais de centro, porque tivemos muitas políticas polarizadoras, particularmente em 2015, com um inesperado imposto sobre terras e heranças, que não existia antes. A direita mobilizou-se intensamente e pensamos que alguém como Lenin Moreno, um caráter benevolente que prezava o diálogo, institucionalizaria as coisas. Talvez Correa pudesse até mesmo voltar, quatro anos depois, com uma agenda mais radical, e continuar a transformação.

Mas penso também que foram cometidos vários erros pelos governos de Correa, em particular nos últimos anos. Isso deu mais poder a Lenin, porque havia uma noção de que Correa criava muito conflito. Os erros foram mais estéticos que estruturais, e fizeram de Lenin não apenas um herdeiro de Correa, mas uma alternativa viável para setores que não demonstravam simpatia por Correa.

Quando Moreno afastou-se de Correa, nos primeiros meses, ele capitalizou esse gesto com pessoas que estavam fartas do estilo polarizador de Correa governar. Particularmente nas classes médias, havia um sentimento de que era tempo para um tipo de governo muito mais ecumênico, que pudesse ouvir, que fosse menos conflitivo. Claro, isso foi usado como plataforma para a recuperação do poder e para colocar um fim em todos os tipos de política, inclusive políticas redistributivas de que as elites discordavam.

Claro que houve também fatores exógenos. Os dois últimos anos de governo de Correa foram muito difíceis. Em 2014, a quebra das commodities afetou a economia muito seriamente. Isso significa que, ao invés de terminar seu mandato em alta, Correa terminou na baixa. Agora, paradoxalmente, eu diria que seu melhor governo foi entre 2014 e 2017, quando ele surfou na queda das commodities de forma muito inteligente. O Equador é o único país do seu tipo que não enfrentou uma grande crise por causa da queda das commodities.

Houve também um terremoto, o que contribuiu com o crescimento negativo, fatores de todo tipo. O Equador acertou em muitas coisas: manejou para sair da recessão por meio de investimentos antiausteridade, derrotando o neoliberalismo, demonstrando que a austeridade não funciona nos bons tempos, e funciona ainda menos quando os tempos são difíceis.

Mas as pessoas sentiram que houve uma desaceleração na economia, as coisas ficaram mais duras, ficaram difíceis. Isso permitiu que Lenin viesse com uma agenda de mudanças, mas mudanças que viraram as costas para as reformas, para a transformação, a redistribuição, e retornaram a um estilo conservador de governar, que implica muito menos polarização com as elites.

Nesse processo, Lenin ganhou o apoio da mídia. De repente havia essa enorme hegemonia reconstruída em torno de sua figura, o que lhe permitiu consolidar-se politicamente.

Então, por que as pessoas do projeto político de Correa acompanham Lenin? O governo de Correa sempre foi muito heterogêneo, diria que do Partido Comunista até o centro-direita, era amplo. Havia setores empresariais, mas também movimentos sociais, sindicatos, o Partido Comunista, o Partido Socialista e a Aliança PAIS, que é como um partido de massas, e dentro do PAIS há muitas facções.

Isso significava que a esquerda estava representada em sua totalidade. Correa era radical em certos aspectos, mas em outros era menos radical, incluindo aí seu catolicismo profundamente arraigado, que era problemático para certos setores de seu governo. Alguns desses setores viu Moreno como alguém mais secular.

Naquele momento havia a possibilidade de que Moreno se abriria para algumas dessas frentes, certas reformas de gênero, direitos sexuais e reprodutivos. Agora sabemos que isso não aconteceu. Poderíamos examinar algumas dessas acusações contra Correa, porque eu diria que, com a grande exceção do aborto, nas outras frentes o Equador deu importantes saltos nas questões de gênero e LGBT.

Mas havia uma percepção, em certos setores da esquerda, de que Moreno seria mais progressista nesses temas. Que talvez perdêssemos algum radicalismo no fronte econômico, mas ganhássemos em políticas identitárias.

Não aconteceu, mas esta é a razão pela qual eles o apoiaram.

Parece paradoxal que, por um lado, a situação atual resulte da fraqueza de Correa e de seu governo; mas por outro, ele poderia provavelmente vencer a eleição. Diante disso, como descreveria o estado da esquerda e da Revolução Cidadã no Equador, hoje?

Gostaria que a política fosse menos contraditória, porque as duas coisas são verdadeiras. Penso que Correa teria vencido, mas penso também que foi muito fácil montar uma plataforma anti-Correa. Havia dois amplos setores da sociedade – um que teria votado em Correa e outro que não teria votado em Correa. Penso que Moreno conseguiu eleger-se com uma metade, mas governa com a outra.

Eu diria que a esquerda é quase inexistente hoje, no governo. Aqueles setores que uniram-se ao governo de Moreno pouco a pouco se deram conta de que ele tinha uma agenda liberal, fundamentalmente. Estamos agora vendo todas essas leis entrar em vigor, basicamente trazendo um novo tipo de ajuste estrutural que se afasta do modelo de desenvolvimento que Correa e seu governo implementaram.

Agora todos os ministérios-chave estão nas mãos, não somente da direita, mas da linha dura, incluindo os conselheiros-chave do opositor de Moreno nas eleições de 2017. O novo ministro das finanças foi conselheiro financeiro na campanha eleitoral do opositor de Moreno.

Então, a esquerda ocupa postos marginais no governo do Equador. Tivemos outra demissão semana passada. Ele tinha as mãos amarradas. Houve algumas dúvidas se Moreno ainda podia ser considerado de esquerda, logo nos primeiros meses, inclusive internacionalmente. Mas penso que agora há consenso em todo lugar, inclusive fora do Equador, de que Moreno não constituiu um governo de esquerda e que, de todos as formas possíveis, economicamente, geopoliticamente, em termos de política exterior, é um giro conservador.

Onde está a esquerda? Na oposição. Alguns poucos pequenos partidos estão acompanhando Moreno, mas todos os outros estão hoje na oposição.

O que é incrível é a própria Aliança PAIS. Ela foi fundada por Correa, depois expropriada por Moreno, quando foram expulsas todas as pessoas-chave, os fundadores. Agora, é uma casca vazia. O PAIS foi durante anos o maior partido no Equador e no entanto desmoronou, porque está dividido, tanto em sua expressão parlamentar quanto entre os que permanecem leais a Correa e os que se vendem a Moreno, mas também em sua expressão de base. Nas comunidades de base, onde há menos interesses, menos salários envolvidos, menos poder e menos dinheiro para ser distribuido ao redor, obviamente, uma grande maioria dos apoiadores do PAIS permaneceu leal a Correa.

Isso significa que eles agora estão sem partido, porque o governo de Moreno e as instituições controladas por ele impediram Correa de criar um novo partido.

Moreno conseguiu controlar o PAIS, mas o partido agora é insignificante. Perdeu a maioria no Congresso, não por meio de votos, mas por causa de todos aqueles parlamentares que deixaram o partido. E assim Moreno perdeu a maioria e, perdendo a maioria, teve também que abraçar a direita, porque a única maneira de governar é com essa aliança, que o está pressionando a fazer ajustes estruturais neoliberais.

Assim, a esquerda está na oposição, obviamente dividida numa miríade de diferentes expressões, mas cada vez mais unida contra a virada neoliberal.

Há correistas inveterados, há correistas críticos. Algumas pessoas que eram muito favoráveis a suas políticas socioeconômicas e sua política externa, que fez nascer o Estado-nação soberano, foram críticos de outras coisas, por exemplo, a questão do aborto. Há diferentes tipos de correísmo, e há também a esquerda não correísta. Esta é mais marginal e menor, mas existe e agora estamos vendo pessoas fazendo oposição de esquerda a Correa, incluindo pessoas agressivamente anti-Correa que agora são agressivamente anti-Moreno. Então, a esquerda está se reconfigurando.

Você mencionou uma esquerda anti-Correa que está se voltando contra Moreno. A quem está se referindo?

A esquerda anti-Correa sempre foi pequena e de elite. O único setor não-elitista foi o movimento indígena CONAIE, em declínio acelerado, que, infelizmente, cogovernado  por Lucio Gutierrez , vem decaindo. Ainda há alguns remanescentes indígenas, mas nunca foram importantes em termos eleitorais.

Depois há outro tipo de esquerda hard que se denomina maoista, embora eu pense que não tem nada de maoista nela. Está ligada aos sindicatos e ao relacionamento clientelista com o estado. Eram chamados Movimento Popular Democrático e agora são Unidade Popular. Sempre fizeram oposição a Correa, porque ele obviamente limpou os sindicatos e suas relações com o estado.

Não são contra Moreno porque ele lhes deu um grande espaço nos estados, de modo a não ter problemas.

Outros setores da esquerda, particularmente a esquerda liberal, certas elites, estão começando a tornar-se mais críticas. Pode-se,  por exemplo, ver acadêmicos e economistas de esquerda, que pensavam que Correa não era suficientemente radical, que sempre faziam críticas à esquerda a Correa, sendo agora ainda mais críticos de Moreno.

Voce vê a “traição” de Lenin como alguma coisa que foi se desenvolvendo, produto de um processo de divergência, ou pensa que houve algo mais nefasto envolvido?

Ninguém esperava que Moreno fosse idêntico a Correa, nem esperaríamos que obedecesse a Correa ou fosse seu fantoche. Qualquer pessoa eleita legitimamente deveria ter seu próprio programa de governo e isso era o que todos esperávamos. O que desejávamos, em vários sentidos.

Mas uma coisa é dizer “vou ser meu próprio homem, não uma marionete”, e outra bem diferente é implementar políticas que são exatamente contrárias às que ofereceu às pessoas em sua campanha política. Moreno está implementando o programa e promessas de seu opositor na campanha. Ele até disse diante das câmeras, em tom de brincadeira, que “estava meio que odiando” as pessoas que votaram nele.

Verdadeiros líderes democráticos devem estar conscientes de que são representantes da nação, da totalidade do eleitorado, e não somente daqueles eleitores que votaram nele, mas isso é muito diferente de dizer “estou começado a preferir as pessoas que votaram contra mim”.

Isso é contrário à ideia que há por trás da democracia representativa, de que você tem um programa, faz promessas e então, se é eleito, implementa esse programa. Se não o faz, o que está na verdade dizendo é que está mentindo, que mentiu durante a campanha, que seu programa foi uma mentira, suas promessas foram uma mentira.

Não se pode dizer, como Moreno, “sou a favor da Revolução Cidadã, o que fizemos é realmente importante em termos de nossa soberania, em termos de justiça e redistribuição social” e depois se aproximar dos Estados Unidos, querer expulsar Julian Assange da embaixada, aderir à Aliança do Pacífico, colocar um fim ao processo de paz entre o Exército de Libertação Nacional (ELN) e o governo colombiano no Equador e implementar um agressivo programa de ajuste estrutural neoliberal.

Não se trata apenas de rivalidade pessoal entre dois líderes. Isso é algo maior, que tem consequências geopolíticas. É algo que foi encorajado e celebrado pelas elites do Equador, pelas elites da América Latina e pelas elites dos EUA. Penso que os Estados Unidos estão felizes, pode-se ver isso pela satisfação do embaixador dos EUA em todas as fotos, em cada evento ministerial que é organizado no Equador. Ele aparece com um largo sorriso. Está muito claro, penso, o que está acontecendo geopoliticamente.

Até que ponto foi premeditado ou foi se desdobrando é algo a ser analisado além da retórica política. Os historiadores deverão examinar com rigor se havia um plano desde o início, com envolvimento internacional, inclusive, ou se os Estados Unidos surfaram na onda e deram mais incentivos.

Mas estou absolutamente certo de que esse não é um evento inocente – é parte de um projeto mais amplo, que busca não só colocar um fim nos governos esquerdistas da América Latina, como também enlamear seu legado. Nesse sentido, o governo Moreno insere-se no TINA (There Is No Alternative) – “não há alternativa”– o tipo de fatalismo neoliberal de que medidas anti-austeridade, ou governos de esquerda não podem ter sucesso na América Latina. Isso é o que está em jogo, de fato.

A lama que foi atirada em Correa está tentando mudar o julgamento da história, mas penso que não vão conseguir. Há muitos de nós resistindo, as pessoas têm memória.

Regionalmente, as coisas também mudaram muito nos últimos anos. Não apenas em termos de resultados eleitorais, mas também questões persistentes em torno das contradições que surgiram com a entrada da esquerda no poder. Ao lado do seu papel como ministro do exterior, você liderou várias iniciativas políticas para o PAIS. Que lições a esquerda do continente pode tirar dessas experiências de governo?

Devíamos aprender com nossos erros, evidentemente. O projeto de Correa era criar um estado-nação moderno, num contexto muito pré-moderno. O Equador é, sob vários pontos de vista, um dos estados mais pré-modernos da América do Sul. Correa criou um estado-nação mais estável e moderno, com redistribuição de renda. O Equador tem muito a ensinar à América Latina e à esquerda, foi bem sucedido, economicamente viável – que é a crítica sempre feita à esquerda.

O modelo econômico era interessante em termos de redistribuição, de redução de desigualdade, numa parte do mundo que é a mais desigual. Foi um sucesso também em termos de seus projetos internacionais: soberania, integração e inserção estratégica num mundo multipolar. Esses são os sucessos, mas há coisas em que foi menos bem sucedido.

Penso que hoje é difícil ter um projeto de esquerda  sem uma postura mais radical sobre feminismo, particularmente no contexto latino-americano. Também porque o norte global tenta erigir um pedestal dizendo que o sul global ainda é pré-moderno numa série de aspectos.

Sabemos, é claro, que essas questões tendem a avançar com a modernidade, a urbanização e a alfabetização, não se pode separá-las. E tivemos sucesso em alguns aspectos, como por exemplo a representação das mulheres na política. Tivemos um parlamento com muito mais mulheres como representantes legislativas do que a maioria das democracias europeias. Mas penso que a revolução deveria ser não somente social e econômica, deveria também ser feminista, e isso é algo que precisamos fazer.

A simplificação da questão ambiental também é uma ferramenta do imperialismo. Muitos dos problemas ambientais de países latino-americanos, tais como os enfrentados pelo Equador, devem-se em primeiro lugar à ausência da modernidade. Assim, se na Amazônia não há cidades organizadas, com um bom sistema de esgoto, e todo o lixo vai parar nos rios  o que é típico de estados fracos, uma consequência do neoliberalismo , isso acaba prejudicando mais o meio ambiente do que políticas desenvolvimentistas, frequentemente condenadas.

Há um mito de que fomos vítimas, mas é também verdade que poderíamos ter feito mais para assegurar que nosso desenvolvimento fosse amigável ao meio ambiente. Também poderíamos ter feito mais para mobilizar politicamente a questão ambiental, e criar os tipos certos de aliança política para criar consenso hegemônico sobre os direitos da natureza, que nós consagramos em nossa constituição.

Então, em gênero, direitos reprodutivos, direitos LGBT e meio ambiente, que são as grandes questões do século 21, deveríamos ter feito mais.

No governo Correa havia em geral muita consideração com os bens comuns globais, bens públicos, todas essas coisas com que era necessário lidar em nível internacional, e não apenas superficialmente, com um discurso estilo ONG “a natureza é bela”, sem pensar em termos estruturais e sistêmicos.

Há dois tipos de redistribuição. A primeira é o tipo de redistribuição nacional, em que se redistribui recursos para o povo mais pobre, e que é o grande problema da América Latina, por causa de nossas desigualdades. Mas há o outro tipo de redistribuição, entre países ricos e pobres, e que não se pode fazer por decreto ou política pública. Tem de ser feita pela mudança da matriz improdutiva e seu papel na divisão internacional do trabalho. Essa é a única maneira, porque não há um governo global para promover essa redistribuição.

É onde Correa era forte, onde o Equador era forte. Dez anos não são suficientes para mudar a matriz produtiva, mas a visão esteva sempre voltada para a educação, a educação superior, ciência e tecnologia, energia, desenvolvimento de novos setores. Não apenas usar o dinheiro que recebíamos do petróleo ou outras fontes para redistribuir, mas para investir uma quantia significativa na transformação da economia para a redistribuição global.

Isso é algo que, penso, o Equador pode trazer para a esquerda latino-americana, porque fala-se muito sobre redistribuição doméstica mas muito pouco sobre redistribuição internacional.

Precisamos unir a esquerda e superar nossas diferenças. É sempre mais fácil superar as diferenças estando na oposição do que fazê-lo sendo governo, porque quando você está governando, faz coisas que dividem as pessoas. Mas quando está na oposição, é muito mais fácil encontrar o que Laclau costumava denominar significantes vazios, que fazem uma plataforma ampla e antioligárquica. E peso que, da próxima vez que estivermos no governo, devemos nos esforçar para ter menos divisões do que tivemos neste momento, e tentar manter essa plataforma.

Ver o original em 'Outras Palavras' na seguinte ligação:

https://outraspalavras.net/mundo/america-latina/a-grande-traicao-no-equador/

 

Colômbia ataca a Venezuela e anuncia saída da Unasul

Iván Duque informou que o seu país está de saída da Unasul. Para a jornalista Stella Calloni, a ofensiva contra a integração regional era «previsível» e responde a uma agenda traçada por Washington.

Sede da Unasul, em Quito (Equador)Créditos / corape.org.ec

O presidente da Colômbia, Iván Duque, anunciou esta segunda-feira a saída oficial do seu país da União das Nações Sul-americanas (Unasul), tendo afirmado que o ministro colombiano dos Negócios Estrangeiros, Carlos Holmes, enviou uma carta oficial ao organismo regional em que denuncia o seu tratado constitutivo e na qual comunica que a saída da Colômbia se efectivará no espaço de seis meses.

Ao explicar a decisão de retirar a Colômbia da Unasul, o presidente colombiano, acusou o organismo de ter sido criado para «fraturar o sistema interamericano» e de «servir como trunfo para os propósitos de uma ditadura», aludindo à República Bolivariana da Venezuela, segundo refere a RT.

Em linha com Miami, Washington e Bruxelas, Duque, candidato da extrema-direita que recentemente sucedeu a Santos como presidente da Colômbia, acusou ainda a Unasul de ter estado calada face à «forma brutal como o governo de Nicolás Maduro trata os cidadãos», não garantindo «as liberdades» dos venezuelanos.

Recorde-se que Maduro alertou em diversas ocasiões para a cooperação de Bogotá com Washington na ofensiva contra a Venezuela. Recentemente, acusou o governo colombiano de estar envolvido no atentado contra a sua pessoa, perpetrado em Caracas a 4 de Agosto último.

Há algumas semanas, Carlos Holmes tinha dito que estava num «processo de consultas» com países como a Argentina, o Peru e o Chile, que supostamente teriam intenções de «seguir o mesmo rumo», de acordo com a RT.

Esses três países integram o grupo de seis – os outros são o Brasil, o Paraguai e a Colômbia – que, em Abril deste ano, anunciaram a suspensão temporária nos trabalhos da Unasul, alegando problemas estruturais e internos no organismo, mas a manobra foi entendida como uma ofensiva lançada pela direita contra o bloco e a integração regional.

A Unasul foi criada em 2008 como um espaço de concertação com o propósito de construir uma unidade e uma cidadania sul-americanas, bem como o de reforçar a presença do bloco regional no cenário internacional.

Entrevistada pela TeleSur, a jornalista argentina Stella Calloni sublinhou a importância da Unasul como espaço de integração e resistência na região, mas considerou previsível a ofensiva em curso, considerando que responde a uma agenda traçada por Washington.

Ver original em 'AbrilAbril' (aqui)

Nicaraguenses regressam à «normalidade», mas continuam a exigir justiça

Avança a reconstrução de infra-estruturas destruídas nos três meses de agitação golpista, que provocou 198 mortos no país centro-americano. As vítimas do terrorismo exigem «reparação e justiça».

A maioria dos nicaraguenses defende a pazCréditos / Twitter

Milhares de pessoas voltaram a manifestar-se, este sábado, na capital do país, Manágua, para exigir justiça e reparação para as vítimas da violência que marcou a intentona golpista, provocada pela extrema-direita, com apoio financeiro norte-americano.

Entre a Praça das Vitórias e a Avenida de Bolívar a Chávez, os manifestantes exigiram também «castigo» para os autores dos crimes que conduziram à morte de 198 pessoas, entre 18 de Abril e 25 de Julho, de acordo com números oficiais referidos pela Prensa Latina.

«Famílias, estudantes, docentes, trabalhadores e povo em geral exigiram respeito pelos direitos humanos, justiça e reparação para os assassinados, sequestrados, torturados, violados, feridos, e os que perderam os seus seres queridos, casas e meios de subsistência durante os últimos meses», precisa a mesma fonte, que refere que as acções deste género – para reclamar paz, justiça e reparação para as vítimas – se têm intensificado nas últimas semanas.

A jornada de mobilização, também marcada pela reivindicação da paz e pelo apoio à Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), serviu ainda para assinalar o 38.º aniversário da Cruzada Nacional de Alfabetização «Heróis e Mártires pela Libertação da Nicarágua», que permitiu reduzir a taxa de analfabetismo herdada da ditadura de Somoza, superior a 50%, para perto de 10%.

«O país regressa à normalidade»

«A Nicarágua regressa à paz e à normalidade, depois de ter estado praticamente três meses submetida às acções de vandalismo perpetradas por grupos violentos», disse esta segunda-feira Bettina Rodríguez, embaixadora do país centro-americano na República Dominicana.

Em declarações à Prensa Latina, a diplomata sublinhou que o governo nicaraguense está a levar a cabo uma série de medidas e trabalhos que não visam conduzir o país «ao seu estado inicial (isso é difícil, depois de tudo o que se passou)», mas que têm por objectivo fazer com que «as populações possam realizar a sua vida quotidiana».

Neste sentido – explicou –, «estão a ser realizados encontros com as populações para aferir as suas necessidades em cada localidade e, dentro do possível, encontrar soluções para os problemas».

Ao nível da reconstrução do país, Rodríguez referiu os esforços efectuados na rede viária, muito danificada pela violência dos últimos meses, destacou a recuperação das infra-estruturas no sector do turismo – cerca de 70% já estão em condições de prestar atendimento aos visitantes – e classificou como «muito importante» o início das aulas nos níveis primário e secundário em todo o país.

Tentativa de golpe e mais de três meses de violência

O país centro-americano foi palco de acções de terrorismo e de grande violência nas ruas durante mais de três meses, promovidos por grupos da oposição de direita, segundo denunciou o governo de Daniel Ortega.

Os protestos, que visavam alegadamente a reforma da Segurança Social, prosseguiram e intensificaram-se mesmo depois da sua revogação, levando o governo sandinista a denunciar os propósitos políticos subjacentes ao «caos nas ruas».

No entender dos sandinistas e de vários analistas internacionais, tratou-se apenas de um pretexto para pôr em marcha um plano orientado a partir dos EUA com o propósito de desestabilizar o país e provocar a queda do governo.

Ver original em 'AbrilAbril' (aqui)

Direita abre espaço para presença militar dos EUA na América Latina

Recentemente o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que 2018 é o “ano das Américas” e deixou claro seu interesse em ampliar a influência norte-americana nos países latinos. Só este ano já passaram pelo continente sul-americano o vice-presidente Mike Pence, os secretários de Estado, e de Defesa, Rex Tillerson e James Mattis, respectivamente, e o representante do Departamento de Estado, Thomas Shannon.

Esta presença norte-americana – não à toa – se dá através dos governos de direita que assumiram o poder nos últimos anos dispostos a fazer do continente, novamente, um aliado subserviente dos EUA. A mudança do cenário na América Latina, após uma década de hegemonia do ciclo progressista, começou com o golpe de Estado no Paraguai em 2012, seguida da eleição de Maurício Macri na Argentina em 2015, o golpe no Brasil no ano seguinte e a traição de Lenín Moreno à Revolução Cidadã no Equador, mais recentemente.

Brasil, Argentina e Equador são os três países que mais abriram espaço para a presença militar dos EUA no continente nos últimos tempos. Estes acordos se dão através de negociações comerciais, investimentos externos e cooperação entre as Forças Armadas locais e o Departamento de Segurança norte-americano.

Se o governo de Correa se destacou pela altivez ao enfrentar a política ingerencista norte-americana, Lenín faz agora exatamente o contrário. Nos anos de Revolução Cidadã a USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional) deixou o Equador após 5 décadas de atividade; foi fechada a base militar norte-americana do território equatoriano, assim como a Unidade de Investigações Especiais dos EUA. Fora isso, o pequeno país andino enfrentou o gigante do Norte ao dar asilo político ao jornalista Julian Assange em sua embaixada em Londres, na Inglaterra.

Lenín Moreno foi eleito para ser a continuação do projeto de Rafael Correa, mas não demorou em trair os princípios da Revolução Cidadã e mudar a agenda política do país à direita. Com esta guinada, abriu o Equador para parcerias militares e deixou de lado a soberania na política externa ao ameaçar dar fim ao asilo de Assange.

Além disso, firmou um Acordo em Cooperação de Segurança com os EUA, aceitou doação de equipamento policial, começou um projeto de cooperação de segurança, anunciou o retorno do país às manobras militares dirigidas pelo Departamento de Segurança norte-americano no continente e a criação de um escritório de cooperação com a Secretaria Nacional de Inteligência.
Uma mudança parecida acontece na Argentina. Se os governos de Néstor (2003 – 2007) e Cristina Kirchner (2007- 2015) foram marcados pela resistência à presença norte-americana no país, Macri não demorou em entregar novamente o território de bandeja a Trump.

Em apenas dois anos, o presidente argentino reativou bases de presença militar norte-americana na Patagônia e negociou outros pontos estratégicos como a região da fronteira com o Brasil, na província de Missiones. Fora isso, firmou acordos entre a Comissão Nacional de Atividades Espaciais argentina e a Nasa, para esta atuar no Ushuaia; e criou um Centro de Fusão de Inteligência a fim de fornecer informações a diferentes agências de segurança norte-americanas.

Sob o pretexto de combater o narcotráfico e o terrorismo, aceitou assistência dos EUA para patrulhar as fronteiras do país que agora voltam a ser militarizadas, medida que fere a Constituição argentina.

Além destas mudanças da política externa no Equador e na Argentina, o governo de Michel Temer também ampliou os diálogos bilaterais com o Departamento de Segurança norte-americano em diversas áreas. Une-se a isto, o fato de que a Colômbia nunca deixou de ser um aliado estratégico para os interesses dos EUA e com a vitória de Iván Duque estará ainda mais exposta à ingerência. Assim, parece que, de fato, este é o “ano das Américas”. O que Washington passa por cima da soberania recuperada durante o auge do ciclo progressista para invadir a América Latina e se instalar em regiões estratégicas como a Amazônia e a Patagônia e controlar nossas fronteiras.

Por Mariana Serafini | Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV (Com informações do Centro Estratégico Latino-Americano de Geopolítica) / Tornado

<

Ver artigo original em "O TORNADO"

A Venezuela que não será vista nas televisões

Simon de BeerUm belga faz uma viagem turística à Venezuela. Mas o estado de espírito de férias não o torna indiferente a uma realidade bem diferente da que os grandes media querem fazer passar. Abre os olhos e ouvidos para conhecer as pessoas num país que está a mudar, atravessando grandes dificuldades económicas e a constante ingerência e ameaça do imperialismo e dos seus cúmplices. Uma Venezuela tão livre que, num sector inteiramente privado como o do turismo, os guias turísticos têm carta-branca para mentir sobre o seu próprio país.


 

Primeira observação: as conquistas da revolução bolivariana são impressionantes
Falamos muito pouco e é uma pena. Na menor aldeia remota há uma escola pública totalmente gratuita (equipamentos e refeições incluídas para crianças). O analfabetismo foi erradicado e a Venezuela é actualmente o quinto país do mundo com a maior taxa de académicos. Em todos os lugares as pessoas usam orgulhosamente o fichário colorido da Venezuela, recebido na escola ou na universidade.
Um sistema de saúde - totalmente gratuito - cobre todo o país. Em uma pequena ilha de 2000 habitantes onde passamos alguns dias, há um mini-hospital, com dentista, ginecologista e até um pequeno laboratório. “Todo cuidado é gratuito “, lê-se em seis idiomas na entrada. Tendo ambos contraído um vírus perigoso, fomos recebidos a um domingo, sem marcação e sem esperar, e sem pagar um centavo apesar de sermos estrangeiros. “Na Venezuela a saúde é um direito garantido constitucionalmente “, explicou orgulhosamente a enfermeira que cuidou de nós.
Caracas, a capital, tem um metro moderno e… gratuito (uma boa lição para aqueles que afirmam que tornar mais barato o transporte público em Bruxelas é impossível). Centenas de milhares de unidades de habitação social foram lá construídas. Favelas inteiras foram literalmente transformadas em moradias. Pudemos visitar um bairro totalmente novo, inaugurado no ano passado. Em todo o país, estamos a falar de 2 milhões de novos lares desde 2012.
A nível democrático, também foram feitos grandes progressos. As pessoas reapropriam-se literalmente da política. Comités de vizinhança foram criados em todos os lugares para lidar com questões locais. As pessoas estão sempre satisfeitas em discutir política. “Antes de Chávez, vivíamos numa democracia de fachada “, explicou um taxista. Antes de acrescentar: “Mas também tem que conversar com outras pessoas, para formar a sua própria opinião.”
Os nativos deixaram de ser considerados cidadãos de segunda classe.” Chávez trouxe-nos o direito ao trabalho e o direito à educação “, disse um membro de uma comunidade indígena na região de Canaima. ” Antes, simplesmente não tínhamos qualquer direito.”

As pessoas estão a passar por uma crise muito difícil
Graças à política social do governo, às lojas sociais, às cantinas, à medicina gratuita, etc., as pessoas não vivem na miséria e não morrem de fome, como regularmente lemos nos nossos meios de comunicação (esse é o caso em outros países da América Latina). No entanto, não podemos negar que os tempos são difíceis. O poder de compra é consideravelmente limitado. Os preços estão a subir constantemente e a moeda está a perder valor apesar dos aumentos salariais regulares. Que é uma dor de cabeça real de base quotidiana.
A origem desse problema vem dos grandes grupos privados, que ainda controlam a maior parte da economia, e que durante quatro anos travaram uma guerra económica muito dura contra a Venezuela. Um pouco como foi o caso em 1973 contra o Chile de Allende.
Isso também se deve ao facto de a economia da Venezuela continuar muito dependente do petróleo e estar a lutar para desenvolver um sector produtivo nacional e independente. Este é obviamente um dos grandes desafios do governo.
Como resultado, mesmo que o actual presidente Maduro continue a ser muito popular - como as últimas eleições mostram - uma parte do povo é seduzida pelo discurso da oposição de direita, que está a surfar um certo nível de descontentamento e espera voltar ao poder.

E a então a oposição?
Muitas vezes ouvimos nos nossos media que a Venezuela é uma ditadura, onde a oposição é amordaçada. Algumas horas no local provam directamente o contrário. 90% dos canais de TV estão nas mãos da oposição. Todos os dias há críticas ao governo. As pessoas expressam-se livremente (gostam de discutir, quaisquer que sejam as suas opiniões). Os circuitos turísticos são amplamente dominados pela oposição. E não hesitam em dizer-vos todo o mal que pensam de Chávez e Maduro, com uma má-fé por vezes desconcertante.
Alguns pequenos trechos seleccionados das nossas conversas:
” Antes vivíamos num bairro apenas com pessoas decentes, bem-educadas. Mas o governo construiu habitações sociais e agora há pessoas pobres no bairro. Nós deixámos de estar seguros. Se o governo pedir, eles atacar-nos-ão à pedrada. Veja como penduram as suas roupas nas janelas! Não são civilizados. ”
“Antes vivíamos num país com valores. Houve meritocracia. Hoje todos podem ir para a universidade e ter um emprego. O resultado é o nivelamento por baixo. ”
” Antes de Chávez, vivíamos bem. Encontrávamos tudo o que queríamos nas lojas. Podia escolher-se entre 10 marcas para cada produto. O país não conhecia a crise.”
NB: antes de Chávez, havia uma taxa de pobreza de 80% … Essa taxa caiu para 26% em 2014 (antes da crise actual).
Em suma, o que está a acontecer na Venezuela não é sobre “democracia”, como lemos nos nossos media. A grande maioria das pessoas nunca desfrutou de tanta liberdade como hoje (política, educacional, social e económica, cultural e outras).
O que está a acontecer na Venezuela é um conflito entre duas categorias sociais opostas: as pessoas de um lado, os privilegiados ricos do outro lado.
As pessoas que tentam levantar a cabeça depois de décadas de miséria, procurando o seu próprio caminho para o progresso social. Os ricos, apoiados por multinacionais estrangeiras e pelos Estados Unidos, que se recusam a ver fugir os seus velhos privilégios. Eles não suportam ver a riqueza colossal da Venezuela entrar em programas sociais em vez de no seu bolso. E estão prontos para fazer seja o que for para derrubar o governo.
Pela minha parte, sem idealização, a Venezuela continua sendo uma inspiração para aqueles que repetem incansavelmente que não podemos investir em habitação social, desenvolver o transporte público ou baixar os custos de educação e formação e da medicina. Embora nem tudo seja perfeito, a Venezuela mostra-nos à sua maneira que outras escolhas são possíveis. E por isso mesmo, merece a pena fazer um desvio e passar por esse país.

Fonte: https://www.investigaction.net