Ambiente

Incêndios na Amazónia brasileira batem recorde de 13 anos em junho

01/07/2020
 

O Brasil registou 2.248 focos de incêndio na Amazónia em junho deste ano, a maior taxa registada para aquele mês desde 2007, informaram hoje fontes oficiais.

Dados recolhidos pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), órgão governamental que faz a monitorização da destruição da Amazónia no Brasil, indicaram uma subida de 19,57% nos focos de incêndios apenas em junho.

Entre maio e junho, nos dois primeiros meses da estação seca na maior floresta tropical do planeta, as imagens de satélite detetaram um total de 3.077 incêndios, 12,5% a mais do que nos mesmos meses do ano passado, segundo o INPE.

As organizações ambientais que atuam no país têm denunciado o aumento de incêndios florestais durante a estação seca na amazónia brasileira, que geralmente dura até setembro, após altas taxas de desflorestação atingirem a região no ano passado.

Numa nota publicada hoje em seu ‘site’, a Greenpeace frisou que mesmo com a deslocação de agentes do Exército brasileiro para a região, as queimadas na Amazónia registaram o maior número de focos de calor em junho, desde 2007.

A organização não-governamental mencionou que depois de muitas críticas o Governo liderado pelo Presidente Jair Bolsonaro autorizou o emprego das Forças Armadas na Amazónia, mas esta resposta tem sido ineficiente para solucionar o problema das queimadas.

“Enquanto isso, órgão ambientais [do Brasil] que atuam de forma estratégica, com experiência e apoiados na ciência, vêm sofrendo redução drástica de autonomia, pessoal e orçamento, impactando fortemente suas operações de fiscalização, fundamentais para o combate da desflorestação”, frisou a Greenpeace.

Ver o original em 'Plataforma Media' na seguinte ligação:

https://www.plataformamedia.com/2020/07/01/incendios-na-amazonia-brasileira-batem-recorde-de-13-anos-em-junho/

Amanhã, videoconferência Práxis/Zero: «Emergência Climática»

«Um novo contrato social e ambiental é preciso. É para isso indispensável a convergência e integração da questão social e da questão ambiental, a junção das forças e dos ativismos destes dois mundos, do trabalho e da ecologia. O trabalho digno e o emprego com direitos e a proteção do ambiente são dimensões inseparáveis na defesa da nossa casa comum e do nosso futuro coletivo. Identificar os problemas e obstáculos e contribuir para a construção de um caminho e de uma agenda comum é o nosso objetivo».

Promovido pela Práxis e pela Zero, realiza-se amanhã o debate com transmissão em direto, a partir das 21h00. O painel de oradores convidados conta com Francisco Ferreira, Luísa Schmidt, Paulo Pedroso e Ricardo Paes Mamede, participando no painel de ativistas das organizações convidadas Alexandre Cortes (SINDEL), Joanaz de Melo (GEOTA), João Camargo (Climáximo), José Costa (SPGL), Mafalda Brilhante (Precários Inflexíveis) e Pedro Santos (Sindicato dos Jornalistas). Henrique de Sousa (Práxis) encerra a sessão.

 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Segundo incidente em 5 dias. Castelo Branco quer encerramento definitivo da central nuclear de Almaraz

Frobles / Wikimedia

Central de energia nuclear Almaraz, Cáceres (Espanha)

A Assembleia Municipal de Castelo Branco aprovou esta segunda-feira por unanimidade uma moção, que pede ao Governo português uma intervenção junto do Estado espanhol e das instituições europeias para o encerramento definitivo da central nuclear espanhola de Almaraz.

 

Na moção apresentada e subscrita por todas as bancadas com representação na Assembleia Municipal de Castelo Branco (PS, PSD, CDS-PP, BE e CDU), os deputados municipais realçam que a central nuclear de Almaraz, em Espanha, “registou nos últimos cinco dias dois incidentes“.

Face aos últimos incidentes verificados em Almaraz, os deputados municipais entendem que a central nuclear espanhola “representa um risco para o meio ambiente e para todos os cidadãos”.

E, neste sentido, solicitam ao Governo português “todas as iniciativas necessárias junto do Estado espanhol e das instituições europeias no sentido do encerramento definitivo daquela central nuclear, não sendo autorizada nova prorrogação do seu prazo de funcionamento”.

Os subscritores do documento realçam que o fecho da central tem vindo a ser prorrogado, tendo o Conselho de Segurança Nuclear espanhol autorizado este ano o funcionamento de Almaraz até outubro de 2028, cabendo a autorização definitiva ao Governo espanhol.

“Já anteriormente a Assembleia Municipal de Castelo Branco se manifestou pelo encerramento da central nuclear, designadamente em 2016”, lê-se no documento. A moção vai ser remetida ao primeiro-ministro, Presidente da Assembleia da República e aos grupos parlamentares.

A central nuclear de Almaraz, em Espanha, registou um incidente às 3h33 de sábado, no reator da unidade II, sem que haja registo de impactos no meio ambiente ou nos trabalhadores.

O anúncio foi feito pelo próprio Conselho de Segurança Nuclear (CSN) espanhol, através de um comunicado. “O evento não teve impacto nos trabalhadores, no público ou no meio ambiente. Com as informações disponíveis até o momento, o incidente é classificado como nível 0 provisório na Escala Internacional de Eventos Nucleares (INES)”, sustentou.

Em cinco dias, este foi o segundo incidente registado na central nuclear de Almaraz, depois de, no dia 22, às 20h15 ter sido registado outro incidente. Desta vez, a unidade I foi interrompida automaticamente como resultado da ação da proteção de turbinas originárias do gerador elétrico.

A unidade I estava em processo de carregamento, com 51% de energia e, segundo a informação dos proprietários da central ao CSN, não se registaram impactos nos trabalhadores ou no meio ambiente.

A central de Almaraz está situada junto ao rio Tejo e faz fronteira com os distritos portugueses de Castelo Branco e Portalegre, sendo Vila Velha de Ródão a primeira povoação portuguesa banhada pelo Tejo depois de o rio entrar em Portugal.

Em operação desde 1981 (operação comercial desde 1983), a central está implantada numa zona de risco sísmico e apenas a 110 quilómetros em linha reta da fronteira portuguesa.

Os proprietários da central de Almaraz são a Iberdrola (53%), a Endesa (36%) e a Naturgy (11%).

// Lusa

 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/segundo-incidente-5-dias-almaraz-castelo-branco-332565

Portugal | Conservação da natureza?!

Catarino, inventor de dúbios interesses públicos
 
Rui Sá | Jornal de Notícias | opinião

O Despacho n.0º 5161/2020, de 24 de abril, do secretário de Estado da Conservação da Natureza, das Florestas e do Ordenamento do Território, para além de pôr a nu estranhas prioridades em matéria de conservação da natureza, fica na história do centralismo atávico em que o país vive!

Uma empresa pretende construir residências privadas para estudantes na cidade do Porto. Para o efeito solicita o abate de 31 sobreiros adultos. Pois o secretário de Estado que tem por missão a "conservação da natureza", apesar de reconhecer "o valor ecológico elevado" desse núcleo de sobreiros, autoriza o seu abate com argumentos que bradam aos céus! Atribui ao empreendimento um "relevante interesse público, económico e social", que "vai mitigar a grave falta de oferta de alojamento para estudantes a que acresce a criação de postos de trabalho diretos e indiretos, e o crescimento sustentado das universidades na cidade do Porto". Diz, ainda, que não existem "alternativas válidas à sua localização"...

Pelo que autoriza o abate dos sobreiros, condicionado a uma contrapartida: a plantação de sobreiros no território do município de... Torre de Moncorvo!

Esqueceu-se foi de perguntar previamente a opinião da Câmara do Porto. De saber quantos projetos estão em curso na cidade com o mesmo objetivo (e são muitos). De ter em conta que a Administração Central possui inúmeros imóveis abandonados que poderiam servir para residências universitárias públicas. Decidindo, em nome de uma risível utilidade pública de um empreendimento privado, autorizar o abate de sobreiros num perímetro urbano, substituindo-as por sobreiros a plantar a 190 km!

Esteve por isso bem a Assembleia Municipal do Porto a condenar, por proposta da CDU, este vergonhoso ato.

*Engenheiro

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/06/portugal-conservacao-da-natureza.html

Almaraz, a central nuclear espanhola que ameaça de catástrofe Portugal

 
 

A discussão já tem barbas brancas. A central de Almaraz é um perigo constante que ameaça espanhóis e portugueses em redor. Acresce a possível contaminação radioactiva do rio Tejo e se assim alguma vez acontecer a radioatividade viajará através das águas do rio que desemboca no Atlântico a seguir a se espraiar em Lisboa, a foz. 


Sobre o assunto os governos portugueses têm sido complacentes perante o absolutismo dos governos espanhóis. A central nuclear já devia ter sido desativada, é a opinião de imensos ambientalistas, mas continua ativa apesar de se arrastar no tempo a sua existência, de avaria em avaria. Até quando? De ameaça em ameaça até à contaminação radioativa final?

Do Diário de Notícias, a propósito, trazemos a notícia em baixo, que consideramos de interesse de todos que vivem paredes meias com o rio Tejo, assim como às cidades fronteiriças próximas da localização da referida central, Castelo Branco e Portalegre e localidades desses distritos. (PG)
 
Espanha. Central nuclear de Almaraz sofre segundo incidente em cinco dias
 
A central nuclear de Almaraz, em Espanha, registou um incidente às 03:33 de sábado, no reator da unidade II, sem que haja registo de impactos no meio ambiente ou nos trabalhadores, anunciou o Conselho de Segurança Nuclear (CSN).
 
CSN explica, num comunicado a que a Lusa teve hoje acesso, que foi notificado pelo proprietário da central nuclear de Almaraz do incidente registado às 03:33 de sábado, no reator da unidade II, que se desligou automaticamente.
 
"O evento não teve impacto nos trabalhadores, no público ou no meio ambiente. Com as informações disponíveis até ao momento, o incidente é classificado como nível 0 provisório na Escala Internacional de Eventos Nucleares (INES)", sustenta o CSN.
 
Em cinco dias, este é o segundo incidente registado na central nuclear de Almaraz.

 
No dia 22 de junho, às 20:15, a unidade I foi interrompida automaticamente como resultado da ação da proteção de turbinas originárias do gerador elétrico.
 
A unidade I estava em processo de carregamento, com 51% de energia e, segundo a informação dos proprietários da central ao CSN, não se registaram impactos nos trabalhadores ou no meio ambiente.
 
A central de Almaraz está situada junto ao rio Tejo e faz fronteira com os distritos portugueses de Castelo Branco e Portalegre, sendo Vila Velha de Ródão a primeira povoação portuguesa banhada pelo Tejo depois de o rio entrar em Portugal.
 
Em operação desde 1981 (operação comercial desde 1983), a central está implantada numa zona de risco sísmico e apenas a 110 quilómetros em linha reta da fronteira portuguesa.
 
Os proprietários da central de Almaraz são a Iberdrola (53%), a Endesa (36%) e a Naturgy (11%).

Diário de Notícias | Lusa
 
Imagem: A central de Almaraz está situada junto ao Tejo e faz fronteira com os distritos de Castelo Branco e Portalegre / © Orlando Almeida / Global Imagens

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/06/almaraz-central-nuclear-espanhola-que.html

É preciso cuidar dos prados marinhos essenciais

Plataforma - 28/06/2020
 
 

O Dia Mundial dos Oceanos, no passado 8 de junho, celebrou os mares e os recursos abundantes que ajudam a sustentar a Terra. Alguns recursos e ecossistemas, como as plantas (ou ervas) marinhas (seagrasses, em inglês), os mangais e os recifes de coral, são poderosas soluções baseadas na natureza que podem ajudar a enfrentar as mudanças climáticas e a promover o desenvolvimento sustentável.

Um texto distribuído pelas Nações Unidas a propósito da data lembra que as plantas marinhas, por exemplo, são encontradas em águas rasas em cerca de 159 países de todos os continentes, excluindo a Antártica, as quais purificam a água do mar, servem de viveiro para diversos peixes e apoiam a biodiversidade.

Segundo o relatório “Out of the Blue: O Valor das Plantas Marinhas para o Meio Ambiente e as Pessoas”, lançado este mês pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), o sedimento desses habitats é uma das reservas de carbono mais eficientes do planeta.

O relatório descreve as ervas marinhas como “pulmões” e “engenheiros ecos sistémicos” marinhos, e defende o valor desses habitats, fornecendo recomendações sobre como devem ser protegidos e geridos.

Um hectare de plantas marinhas pode abrigar até 40 mil peixes e 50 milhões de pequenos invertebrados, como caranguejos, ostras e mexilhões. Além disso, este tipo de flora marítima também apoia cerca de 20 por cento das principais áreas pesqueiras do mundo e contribuem para o sustento de quase três mil milhões de pessoas.

“É hora de melhorar o perfil desses ecossistemas subestimados e destacar as diversas formas com que as ervas marinhas podem ajudar a resolver os maiores desafios ambientais”, disse o Representante Permanente das Nações Unidas e Embaixador das Mudanças Climáticas da República das Seychelles, Ronald Jumeau.

O desenvolvimento costeiro, o crescimento populacional, o aumento da poluição e as mudanças climáticas são uma ameaça para as ervas marinhas, como se observa no Golfo do México, no Mar do Caribe e no Norte do Brasil.

Contudo, segundo o relatório O Estado dos Habitats Marinhos Costeiros no Caribe (The State of Nearshore Marine Habitats in the Wider Caribbean, em inglês), esses fatores não afetam apenas os prados de plantas marinhas, mas também os recifes de coral e os mangais, característicos dos ecossistemas costeiros da região.

Esses habitats trabalham juntos para capturar e armazenar carbono. As ervas marinhas ajudam os mangais, protegendo-os das ondas, enquanto os mangais protegem os leitos de ervas marinhas do excesso de nutrientes e sedimentos.

“O complexo de recifes de coral, mangais e ervas marinhas foi descrito como um dos sistemas mais bio diversos e produtivos do mundo, com fortes interligações entre si” e juntos, beneficiam muitas comunidades e países costeiros adjacentes, disse Ileana Lopez-Galvez, ligada aos Programas da Secretaria da Convenção de Cartagena.

Também existem esforços em andamento para proteger estes ecossistemas fora do Caribe. O PNUMA e respetivos parceiros lançaram recentemente um manual com orientações para projetos comunitários de conservação de plantas marinhas.

Ver o original em 'Plataforma Media' na seguinte ligação:

https://www.plataformamedia.com/2020/06/28/e-preciso-cuidar-dos-prados-marinhos-essenciais/

Privatização: passa boi, passa boiada, mas não passa água

O território brasileiro abriga, sozinho, 20% da água de todo mundo. Ainda assim, neste país, pátria de 211 milhões de pessoas, aproximadamente 35 milhões não têm acesso à água tratada, e 100 milhões vivem sem acesso à coleta e ao tratamento de esgoto. Dados como estes, que demonstram que metade do Brasil do século 21 vive ainda no 19, foram usados como desculpa nesta semana para a aprovação do marco legal do saneamento básico no Senado, por 65 votos contra 13. 

O projeto, que agora segue para sanção presidencial, facilita a privatização do serviço de água e esgoto, e extingue o atual modelo de contrato entre companhias estaduais e municípios, os chamados contratos de programa. Assim, para que determinado município feche um contrato para a prestação do serviço, obrigatoriamente terá de fazer licitações em que competirão empresas públicas e privadas – atualmente é possível fazê-las, mas não é obrigatório. “O que nos preocupa muito é que de fato essa concepção do projeto corre o risco de desestruturar as companhias estaduais de saneamento, com o setor privado se interessando mais pelas cidades grandes, pelas cidades ricas, e vamos ficar com o Estado sem a possibilidade de aplicar de maneira mais ampla o subsídio cruzado, que permite que cidades maiores, cidades mais ricas, apoiem o serviço das cidades menores”, diz Marcos Montenegro, coordenador do Observatório Nacional dos Direitos à Água e ao Saneamento (ONDAS). Ele cita o exemplo do Tocantins: “Lá há um caso muito significativo, porque o Estado vendeu o controle acionário da companhia estadual e uma empresa privada assumiu todos os municípios, mas devolveu os menores ao Estado, para que ele resolvesse o problema dos municípios que são menos rentáveis.”

Outro ponto levantado para a aprovação do projeto foi a pandemia do coronavírus, que para alguns senadores demonstra os perigos da falta de saneamento e a urgência de expansão do atendimento à população. “Essa utilização da pandemia é um escracho, um deboche. Todos os exemplos internacionais dão conta de que a privatização dificultou o acesso à água e ao tratamento esgoto, porque houve elevação de tarifas”, responde o deputado federal Glauber Braga (PSOL-RJ). Ele relembra o caso de sua cidade natal, Nova Friburgo, onde a distribuição da água e esgotamento sanitário foi concedida à empresa privada norte-americana no final da década de 90. “Com o aumento de preço da conta de água, essa empresa deixa de realizar os investimentos, porque as pessoas não pagavam a conta, que foi lá pra cima, e a empresa dizia que tinha um ‘desequilíbrio econômico-financeiro’ porque não se arrecadou aquilo que se pretendia”, diz. “Por um ano ficamos como? Conta cara e investimentos não realizados.”

Água e saneamento no mundo: público ou privado?

Uma pesquisa de 2017, intitulada “Mapa das Remunicipalizações”, realizada por onze organizações, dá conta de 267 casos de “remunicipalização” ou “reestatização” de sistemas de água e esgoto no mundo num intervalo de 17 anos. O aumento das tarifas, promessas não cumpridas e falta de transparência depois das privatizações são alguns dos efeitos que a pesquisadora Satoko Kishimotoapontou como razões para a decisão de reestatizar. A tendência foi observada em cidades como Berlim, Paris, Budapeste, Buenos Aires e La Paz. 

De acordo com Kishimoto, um outro problema é que a reversão das privatizações costuma acarretar custos para o Estado. “Quando as autoridades locais entram em conflito com uma companhia, vemos batalhas judiciais sem fim. Em geral, as empresas podem mobilizar muito mais recursos, enquanto o poder público tem recursos limitados, e muitas vezes depende de dinheiro proveniente de impostos para enfrentar o processo”, diz. Ela cita ainda o caso de Berlim, onde metade do sistema hídrico foi privatizado em 1999. Depois de um referendo em 2011, a privatização foi revertida, em 2013 – mas com um custo de 1,3 bilhão de euros ao Estado. “É um caso muito interessante, porque a iniciativa popular conseguiu motivar a desprivatização. Mas isso gerou uma grande dívida para o Estado, que vai ser paga pela população ao longo de 30 anos.”

Esse custo é também lembrado por Marcos Montenegro, do ONDAS: “Essas medidas têm um custo social na sua implementação, e um custo social à posteriori, no seu desmonte, para uma política que seja mais democrática. Infelizmente esse quadro é o quadro que decorre no saneamento da prevalência da política neoliberal no País. Em vários países do mundo essa política já foi criticada, em especial nessa situação de pandemia – mesmo governos que tinham o credo neoliberal como sua cartilha estão revendo essa posição para o enfrentamento da pandemia.” Ele destaca que, no caso de privatizações, muitas das companhias que acabam por ganhar as licitações não são companhias de água e saneamento, mas fundos de pensão e de investimentos. “Não estão preocupadas em aumentar a cobertura.”

Um caso interessante é o do Chile. No país, de 1875 até o começo da década de 1980, o saneamento e distribuição de água permaneceu majoritariamente nas mãos do Estado, que garantiu níveis crescentes de distribuição e saneamento. A partir dos anos 80, é adotado um sistema misto, em que mais empresas estatais são criadas e continuam provendo os serviços, mas a participação privada acionária é permitida. O desenvolvimento da infraestrutura em todo o período aumentou a cobertura de água e esgoto, ainda que, a partir de 1980, às custas de grandes aumentos tarifários. No final da década de 90, quando 95% do fornecimento de água e sistema de esgoto era público, a cobertura era de 99,3% e 91,6% respectivamente. É a partir daí que um processo de privatização mais amplo é realizado, com vistas a aumentar o nível de tratamento de água – ponto em que a lucratividade era maior e os investimentos eram menores -, sem se preocupar com fornecimento e esgotamento, que já tinha uma infra-estrutura básica. 

Em um longo trabalho sobre o tema, os pesquisadores María Angélica Alegría Calvo e Eugenio Celedón Cariola avaliaram que as privatizações no Chile ocorrem em uma realidade bastante diferente da do Brasil. “As empresas puderam conectar de uma só vez todos os usuários [à água], o que tem uma altíssima rentabilidade, e é diferente de quando as empresas nascem do zero e têm de fazer todos os investimentos.” Em seu trabalho, notam também que “as informações demonstram que aqueles investimentos que são menos rentáveis foram sendo deixados de lado, como investimentos de substituição” depois das privatizações.

No país também prevalece uma grande variação nas tarifas de acordo com a região – mas as tarifas mais altas não significam apoio às regiões mais pobres. No geral, de acordo com a Superintendência de Serviços Sanitários do país (SISS), nas regiões mais populosas os serviços são mais baratos, enquanto as menos populosas – que costumam ser as mais distantes e mais empobrecidas – as tarifas são mais caras. Há também nessas regiões graves problemas de abastecimento.Um estudo publicado neste ano pela Fundação Amulén chamado “Seca no Chile: a brecha mais profunda”, demonstra que as regiões em que prevalece a falta de água potável são as regiões mais pobres do país. Em janeiro desse ano,quando Ministério de Obras Públicas do país decretou 88 comunas como zonas de escassez hídrica, o Senado chileno analisou um projeto que visava declarar a água como bem de uso público. 24 senadores votaram a favor, e 12 contra (todos da coalizão do presidente Sebastián Piñera,Chile Vamos), mas a matéria não foi aprovada porque necessitava de ⅔ dos votos.

68% do mercado da água chileno está nas mãos de quatro empresas privadas; outros 25% estão em mãos de oito empresas concessionadas (que têm o direito à exploração das concessões, mas não controlam os ativos diretamente); 5% do mercado está com a única empresa estatal ainda existente (no município de Maipú) e outros 2% do mercado estão em mãos de pequenas empresas. Isso demonstra que a privatização não necessariamente significa a maior concorrência – ele pode significar, pelo contrário, a monopolização e a formação de cartéis.

Estado e investimento

De acordo com o senador Tasso Jereissati, relator do marco legal do saneamento no Senado, para que o acesso ao saneamento e à água fosse universalizado no país seriam necessários investimentos entre 500 bilhões e 700 bilhões de reais. Com a abertura para o capital privado, a expectativa do marco legal é que esses investimentos sejam feitos pela iniciativa privada, com o fim de universalizar o acesso a água e esgoto até 2033. Ainda de acordo com o marco, caso as empresas não consigam fazê-lo até esse ano, terão a possibilidade de estender o prazo por mais sete anos. Tomando a maior previsão de investimentos – 700 bilhões – e o menor prazo – 13 anos – seria necessário um investimento de cerca de 58 bilhões/ano.

Para Marcos Montenegro, da ONDAS, a universalização dependerá da disponibilidade de recursos estatais para o financiamento, ainda que seja feita por empresas privadas. “O principal, que precisamos ter claro, é que o déficit atual tem uma cara: e essa é a da população mais pobre, que vive nas periferias da cidade, em pequenas cidades isoladas e no campo. Esse tipo de déficit as empresas privadas não têm vocação a atender, porque é uma população que tem dificuldade para pagar o custo do serviço. Precisaria garantir recursos do Estado para que isso pudesse acontecer”, diz. “Em muitos lugares nós temos problemas mais complexos do que simplesmente instalar a rede de água e esgoto. Em locais como a Baixada Fluminense, por exemplo, onde há problemas de alagamentos e inundações frequentes, nós temos situações onde o não-equacionamento da drenagem não vai permitir que o esgoto sanitário funcione adequadamente. Então é uma questão mais complexa, que o tratamento do saneamento como negócio não vai resolver”.

Para o deputado federal Glauber Braga (PSOL-RJ), essa é uma das razões pela qual a universalização pode ser tocada pelo Estado. “Por que não fazer um grande programa nacional público de investimento e de liberação de recursos por parte dos bancos públicos brasileiros? Não existe nenhuma vedação para que as empresas privadas ou as estatais de outros países que venham a assumir o setor de água e de saneamento no Brasil façam empréstimos com os bancos públicos brasileiros. Se essas empresas ou estatais de outros países podem, por que esses empréstimos para ampliação, com metas de universalização, não podem ser feitos para as estatais brasileiras? Podem, mas aí tem que ter vontade política e um projeto de desenvolvimento voltado para isso.” 

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Cientistas analisaram plástico que esteve mais de 20 anos no oceano. Resultados são desoladores

Um novo estudo mostra que, mesmo depois de estarem mais de 20 anos no oceano, os plásticos comuns mostram muitos poucos sinais de degradação.

 

De acordo com o site Science Alert, os investigadores responsáveis pelo estudo analisaram duas amostras de plástico – um recipiente para comida e uma lata de Coca-Cola embrulhada num saco de plástico – recuperadas a 4150 metros abaixo da superfície do Oceano Pacífico.

Graças ao código e ao nome da marca no recipiente, e ao facto de a lata de refrigerante fazer parte de uma edição limitada, a equipa conseguiu datar os itens entre 1988 e 1996.

Ao executar uma análise química e bacteriana destes objetos, os cientistas perceberam que “nem o saco, nem o recipiente mostraram sinais de fragmentação ou degradação”, explica o biogeoquímico Stefan Krause, do instituto de pesquisa GEOMAR, na Alemanha.

Além disso, a equipa também notou que, embora o recipiente e o saco tivessem formas diferentes e fossem feitos de diferentes tipos de plásticos, o impacto sobre as bactérias circundantes foi o mesmo – a diversidade microbiana era muito menor no plástico do que nos sedimentos do fundo do mar.

Enquanto o trabalho em lidar com este problema continua – mais de 60% dos detritos flutuantes no oceano são plásticos –, o próximo passo para esta equipa é um projeto que analisa com maior detalhe onde acaba o plástico descartado no oceano.

O estudo foi publicado, no dia 11 de junho, na revista científica Scientific Reports.

ZAP //

 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/plastico-mais-de-20-anos-no-oceano-331333

Glifosato leva Bayer a pagar indemnizações de 11 mil milhões de dólares

 

A Bayer comprometeu-se a indemnizar, em mais de 10,9 mil milhões de dólares, as milhares de pessoas que o processaram nos Estados Unidos, devido ao herbicida glifosato.

 

O grupo químico e farmacêutico alemão Bayer vai indemnizar grande parte dos milhares de pessoas que o processaram nos EUA, devido ao herbicida glifosato, em mais de 10,9 mil milhões de dólares (9,7 mil milhões de euros). A informação foi divulgada pela imprensa alemã e na base do caso estão as acusações ao glifosato de ter efeitos cancerígenos.

Segundo a estação televisiva pública ARD, que cita fontes da empresa, o acordo resolve cerca de três quartos das mais de 125 mil queixas apresentadas contra o conglomerado alemão, das quais só uma parte tinha chegado ao circuito judicial.

Dos 11 mil milhões de dólares que a Bayer se compromete a pagar, cerca de 10% (1,25 mil milhões) estão reservados para processos futuros, com a imprensa alemã a estimar que ainda existam 30 mil casos por resolver.

Na base da disputa estão as alegações de que o polémico herbicida Roundup, que contém glifosato e foi adquirido pela Bayer em 2018, é cancerígeno. Vários tribunais deram por provada a correlação entre o uso do glifosato e os casos de cancro.

A vaga de processos contra a Bayer chegou às bolsas, com o presidente do grupo, Werner Baumann, a ser o alvo de fortes críticas, apesar de o conglomerado químico desmentir que o herbicida, comprado à Monsanto, seja prejudicial para a saúde. Esta mesma defesa do glifosato foi feita pelo Governo do Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Ao comentar a situação, segundo o diário Frankfurter Allgemeine, Baumann afirmou: “É o passo adequado no momento adequado para acabar com a incerteza durante um largo período de tempo”.

ZAP // Lusa

 

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https://zap.aeiou.pt/glifosato-bayer-pagar-indemnizacoes-331731

Amianto vai ser retirado de 578 escolas. Quercus diz que não chega para cumprir a lei

 

A lista das escolas onde o amianto vai ser retirado, ao abrigo de um programa que custará 60 milhões e será financiado por verbas comunitárias, inclui 578 estabelecimentos de ensino.

 

A Quercus considera que a divulgação da lista das 578 escolas onde o amianto vai ser retirado é um passo na erradicação desta substância em Portugal, mas insuficiente pois não cumpre toda a legislação.

Em comunicado, os ambientalistas lembram que, além das escolas, a legislação portuguesa obriga à identificação da totalidade de edifícios, equipamentos e infraestruturas públicas e privadas que contenham amianto.

“Este ‘levantamento’ deverá incluir uma totalidade de procedimentos, os quais desconhecemos que estejam concluídos, nomeadamente a identificação de todos os materiais e equipamentos com amianto, promoção de análises a concentrações de fibras respiráveis, avaliação do risco de exposição dos trabalhadores e ocupantes dos edifícios ao amianto, sinalização das situações prioritárias com a definição de medidas para prevenir ou minimizar a exposição, com a emissão de um plano de ação”, afirma a associação.

A Quercus – Associação Portuguesa de Conservação da Natureza lembra que a legislação obriga a identificar todos os materiais e equipamentos contendo amianto e frisa que, no caso das escolas, “foram incorporadas fibras de amianto em outros materiais para além das coberturas em fibrocimento, como pavimentos, tubagens, juntas de dilatação, bem como outras tipologias de coberturas”.

“Tememos que esta listagem não reflita a totalidade dos materiais. Aliás, está indiciado na atual listagem que vão ser intervencionadas as ‘estruturas’, palavra que nos deixa a dúvida se não estarão apenas a referir as coberturas em fibrocimento”, sublinha.

A SOS AMIANTO da Quercus frisa que o amianto não foi utilizado apenas em escolas e que “existem outros edifícios e infraestruturas, como comboios, barcos, hospitais, centros de saúde, museus, escritórios e empresas (…), que também incorporaram estas fibras”.

A associação lembra que desde 2012 que pede a publicação desta listagem, que considera “de extrema importância para o acompanhamento da situação em Portugal”.

“Apesar de comprovado o risco das fibras de amianto e a sua relação entre a sua exposição e o desenvolvimento de cancro (mesotelioma, cancro do pulmão, cancro do ovário, cancro da laringe ou cancro do estômago), levando a que fosse considerado ‘prioritário’ pelo Comité Económico e Social Europeu, em Portugal continuamos a desconhecer onde foi utilizado e se existe exposição, apesar da obrigação para a sua identificação nos locais de trabalho”, refere a associação.

A associação também recorda que o amianto teve uma utilização comum, que vai desde as condutas aos depósitos e tanques para fornecimento e armazenamento de água, passando por coberturas, revestimentos de tetos e paredes, chaminés, pavimentos, armários, casas pré-fabricadas, tubagens para ventilação, fitas de estore e eletrodomésticos.

A lista das escolas onde o amianto vai ser removido, ao abrigo de um programa que custará 60 milhões e será financiado por verbas comunitárias, inclui 578 estabelecimentos de ensino.

De acordo com o despacho publicado, na terça-feira, em Diário da República, das 578 escolas distribuídas pelas cinco NUTS II de Portugal continental, 218 ficam no Norte e 163 na Área Metropolitana de Lisboa. Há ainda 107 escolas no Centro (NUTS II), 59 no Alentejo e 31 no Algarve.

As escolas incluídas neste programa são da rede pública da educação pré-escolar, do ensino básico e do ensino secundário.

Este programa para erradicar o amianto nas escolas foi anunciado no início do mês, aproveitando o encerramento dos estabelecimentos de ensino devido à pandemia de covid-19.

// Lusa

 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/lista-escolas-amianto-retirado-331736

578 escolas com amianto

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Foi finalmente publicada em Diário da República a lista das 578 escolas com infraestruturas contendo amianto que aguardam, há anos, a sua remoção.

«De acordo com o despacho conjunto do ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, e da ministra da Coesão Territorial, Ana Abrunhosa, das 578 escolas distribuídas pelas cinco NUTS II de Portugal continental, 218 ficam no Norte e 163 na Área Metropolitana de Lisboa. Há ainda 107 escolas no Centro (NUTS II), 59 no Alentejo e 31 no Algarve.

As escolas incluídas neste programa são da rede pública da educação pré-escolar, do ensino básico e do ensino secundário.» (in Publico)

O número surpreende pela sua dimensão e espera-se agora que, sem mais delongas e subterfúgios, o problema, que se arrasta há demasiado tempo, encontre finalmente solução. Afinal de contas, haverá até financiamento comunitário para as empreitadas, o que põe de lado a eterna desculpa da falta de dinheiro.

Há, ainda assim, dois pontos pouco abonatórios da seriedade e do sentido de responsabilidade com que o Governo encarou este problema. Primeiro, o facto de estarmos perante um grave problema de saúde pública, que o Governo reconhece, desde 2017, como uma prioridade de actuação, mas permitiu que se fosse arrastando no tempo, colocando em risco a saúde e a vida de centenas de milhares de alunos, professores e funcionários expostos diariamente aos efeitos potencialmente cancerígenos da degradação das fibras de amianto.

Em segundo lugar, não sejamos hipócritas: o Governo quer agora arrancar com este programa – o próprio primeiro-ministro o reconhece – não por causa de uma súbita preocupação com a salubridade dos espaços escolares, mas porque se espera que as empreitadas de construção civil a adjudicar por todo o país dinamizem as economias locais, ajudando a absorver o desemprego galopante…

 

Mudança climática é tão urgente quanto coronavírus, diz Greta

Ativista diz que mundo precisa aprender com lições do coronavírus para tratar mudanças climáticas da mesma forma

Isso significa que o mundo deveria agir “com a força necessária”, afirma a ativista climática sueca de 17 anos em entrevista exclusiva à BBC News.

Ela diz achar que nenhum “plano de recuperação ‘verde'” resolverá a crise sozinho.

E que o mundo está passando agora por um “ponto de inflexão social” sobre o clima e questões como o Black Lives Matter.

Leia mais em Folha de S. Paulo.

Ver o original em 'Plataforma Media' na seguinte ligação:

https://www.plataformamedia.com/2020/06/23/mudanca-climatica-e-tao-urgente-quanto-coronavirus-diz-greta-thunberg/

Portugal pode ser o novo Qatar da Europa

(Comentário:
O anúncio de 'milagres' económicos em Portugal costumam abundar quando se anteveem financiamentos comunitários mais significativos. Habitualmente essas promessas altissonantes acabam por redundar em chorudas negociatas, por vezes de contornos muito duvidosos, para exclusivo enriquecimento de muito poucos. )

 

O Presidente Associação Portuguesa de Energias Renováveis (APREN) acredita que “Portugal tem condições para passar de um país energeticamente pobre à luz dos combustíveis fósseis, a um país energeticamente rico à luz das renováveis”. 

Com recursos renováveis “muito mais abundantes” do que o resto da Europa, se somada a energia eólica e solar, Portugal tem condições para criar um hub da indústria e transformar-se no Qatar deste continente, defende Pedro Amaral Jorge em declarações ao Dinheiro Vivo.

“Em vez de termos petróleo, temos todos os recursos renováveis combinados, juntamente com capacidade de armazenamento e produção de hidrogénio verde”, adianta.

Para o novo líder da APREN, a captação de investimento é vital, mas obriga a resolver algumas questões pendentes, designadamente ao nível da simplificação dos processos e dos licenciamentos, para evitar a morosidade atual.

“A política energética tem-se demonstrado estável, é preciso que a política fiscal esteja também alinhada para dar visibilidade a longo prazo aos investidores, de modo que isso se reflita em custos de capital mais baratos e em prazos de financiamento mais alargados”, aponta. 

Além disso, acrescenta, é preciso trabalhar também na disponibilização da rede de transporte e de distribuição, porque a “capilaridade da geração renovável para ser ligada à rede vai aumentar”, bem como é necessário “facilitar o enquadramento legal do autoconsumo, das comunidades de energia e do autoconsumo coletivo”.

Tudo isto sem esquecer a temática da produção de hidrogénio. “Vimos, nos leilões de 2019, os preços de geração da eletricidade renovável na casa do 20 euros [por megawatt hora] e isso posiciona Portugal para ser um produtor de hidrogénio verde claramente na frente da Europa e pode ajudar à captação investimento”, considera o presidente da APREN, lembrando que a transição verde foi eleita pelo Eurogrupo como um dos pilares fundamentais da retoma económica pós covid-19, a par da digitalização da economia.

O Qatar está a aplicar políticas de investimento em tecnologias de desenvolvimento sustentável, financiadas pela exploração de grandes reservas de gás e petróleo existentes no país. A aposta é ter um futuro alicerçado em energias limpas.

Ver o original em 'Plataforma Media' na seguinte ligação:

https://www.plataformamedia.com/2020/06/21/portugal-pode-ser-o-novo-qatar-da-europa/

Queimadas e pandemia projetam cenário de desastre na Amazônia

Um estudo indica que há uma área equivalente a três cidades de São Paulo ameaçada pelos incêndios florestais.

 

 

As maiores taxas de desmatamento da última década na Amazônia foram registradas no ano passado. Mas 2020 pode ser ainda pior. Um estudo do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) indica que há uma área desmatada de pelo menos 4.500 quilômetros quadrados que pode ser queimada este ano. Quatro estados concentram 88% dessa área: Pará (com 42%) dos 4,5 mil km2, Mato Grosso (23%), Rondônia (13%) e Amazonas (10%). “Se tudo virar fumaça, a região pode enfrentar estado de calamidade pública na saúde devido a sobreposição de queimadas com pandemia de Covid-19, o que sobrecarregará ainda mais a rede saúde já em colapso nos atendimentos à população”, diz o estudo.

“Coibir as queimadas e o desmatamento neste ano, além de uma ação de proteção ambiental, é também uma medida de saúde”, afirma um dos autores do estudo, o pesquisador Paulo Moutinho, doutor em Ecologia e membro do Ipam. A preocupação reflete os dados do ano passado, quando os municípios que mais queimaram na Amazônia viram o ar ficar 53% mais poluído, em média, em relação a 2018.

Moutinho destaca que “uma não ação dos poderes públicos na prevenção do desmatamento e das queimadas poderá representar perdas de vidas humanas para além das previstas com a pandemia”. “Precaução é a palavra chave agora”, conclui Moutinho.

“Durante a temporada de fogo, extensas áreas da Amazônia têm qualidade do ar pior que no centro da cidade de São Paulo devido às queimadas. Isso tem forte efeito na saúde, especialmente em crianças e idosos, que são as populações mais vulneráveis”, explicou o físico Paulo Artaxo, da Universidade de São Paulo (USP), que colaborou com o trabalho.

“Como a poluição das queimadas viaja por milhares de quilômetros, comunidades isoladas de índios respiram esta atmosfera insalubre, que é muito acima dos padrões de qualidade do ar da Organização Mundial da Saúde”.

Paulo Moutinho, durante debate em Manaus promovido pela Amazônia Real (Foto: Alberto César Araújo/2017)

O estudo do Ipam indica que cerca de 45% da área desmatada em 2019 ainda não foi queimada A área geográfica é equivalente a três vezes o tamanho da cidade de São Paulo.

Para a diretora de Ciência do Ipam, Ane Alencar, que também assina a nota técnica do estudo, as autoridades ambientais precisam ser “muito assertivas” no combate ao desmatamento ilegal e às queimadas. “Se isso não acontecer, temos chances de ter uma pressão muito grande no sistema de saúde da Amazônia e levá-lo, de fato, ao colapso”, explica ela.

Mapa IPAM

O pesquisador Paulo Moutinho alerta para a possibilidade de um “desastre” nos sistemas de saúde se os desmatamentos e as queimadas não forem controlados a tempo. “Precaução é a palavra-chave agora”, aconselha Moutinho. Mas o problema é que os sinais dados pelo governo federal estimula, na ponta, a destruição florestal.  Em 22 de abril, em reunião ministerial com o presidente Jair Bolsonaro, o próprio ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, afirmou que é preciso aproveitar a pandemia para “passar a boiada”.

Pelos cálculos dos cientistas, se o ritmo acelerado de desmatamento continuar nos próximos meses, um total de quase 9 mil quilômetros quadrados poderá virar cinzas, já que a época mais intensa de derrubada e queima se inicia agora, com a chegada do período seco na região. “Se pelo menos metade dessas áreas queimarem, teremos um cenário pior do que o que tivemos ano passado”, acrescenta o documento.

Mapa do desmatamento elaborado pelo IPAM

 

Queimadas sobem 38% no Acre

Os focos de calor, que são os dados capturados por satélite, já ultrapassam os registrados em 2019, no estado do Acre. Até segunda-feira (8), ocorreram 61 focos de queimadas, ante 44 no mesmo período de 2019 – um aumento de 38%. Pelos dados oficiais, o Acre registrou 6.802 focos de queimadas no ano passado. No mesmo ano, o número de queimadas urbanas foi de 6.867, segundo o Corpo de Bombeiros.

Queimadas no Acre em setembro de 2019 (Fotos: Katie Maehler / Mídia NINJA) [CC-BY-NC]

“Não sei o que é mais difícil o controle das queimadas ou da pandemia. Todos os anos nós passamos por dificuldades, mas a população continua queimando”, afirma o porta-voz do Corpo de Bombeiros do Acre, major Cláudio Falcão. Ele explica que só em Rio Branco, capital do estado, foram registrados 999 incêndios ambientais até domingo (7). No mesmo período do ano passado, o número era de 544, o que representa um aumento de 84%. Em todo o estado do Acre, já foram contabilizadas 1.086 queimadas urbanas.

“Infelizmente, temos registrados um aumento de queimadas urbanas e rurais. E isso faz com que o sistema de saúde se sobrecarregue ainda mais porque começam a aparecer doenças respiratórias. Vamos ter um problema muito sério”, prevê Falcão. Embora já exista um plano de contingência em curso, a pandemia fez com que ações presenciais e preventivas fossem retraídas por conta das restrições do isolamento social. “É preciso conscientização da população e intensificação dos órgãos de fiscalização para podermos diminuir essa situação”.

De acordo com o Laboratório de Geoprocessamento Aplicado ao Meio Ambiente da Universidade Federal do Acre (Ufac), em 2019 foram mais de 175 mil hectares queimados. Os municípios que mais queimaram foram Sena Madureira, Rio Branco, Feijó, Tarauacá e Brasiléia. Pelo menos 1.700 hectares foram afetados pelas queimadas ocorridas na região do Alto Acre. Inclusive parte importante dos incêndios florestais ocorreram na Resex Chico Mendes e Terras indígenas.

 

A lógica destrutiva das queimadas

Na história da destruição florestal na Amazônia, após o desmatamento acontece uma queimada. “Ninguém vai gastar dinheiro para derrubar vários hectares de floresta para depois não usar essa área, mesmo que seja para especulação. Essa área vai ser queimada”, explica a pesquisadora Ane Alencar. Assim, sempre que a taxa de desmatamento cresce na Amazônia, há uma relação direta com o aumento de focos de calor. “Foi o que vimos acontecer em 2019 e, infelizmente, se nada for feito, é o que deveremos ver em 2020, já que a derrubada continua num ritmo elevado”, acrescenta a pesquisadora do Ipam, Ane Alencar.

Queimadas no Parna Jamanxim, em Novo Progresso, no Pará, em 24 de agosto de 2019 (Foto: Victor Moriyama/Greenpeace)

Os 4.500 quilômetros quadrados apontados pelo Ipam equivalem a três vezes a área da cidade de São Paulo. De acordo com a Nota Técnica, a situação no Pará é a mais grave, pois concentra 42% do total desmatado no período analisado. Em seguida, vem o Mato Grosso, com 23%; Rondônia, com 13%; e Amazonas, com 10%.

As queimadas aumentam a quantidade de fumaça no ar, transportando material particulado fino, os chamados aerossóis. Nas áreas mais atingidas pelas nuvens poluidoras, há uma explosão de pacientes que procuram o atendimento médico com agravamento de doenças respiratórias. No entanto, desde março, os sistema de saúde estão sobrecarregados com os casos de covid-19, e três estados da Amazônia estão entre os que registram o maior número de casos da doença no Brasil.

Segundo o estudo, até o final de maio de 2020, o Brasil contabilizava 29.314 óbitos, sendo que 20% destes ocorreram na região Norte, que também registra a maior taxa de incidência (584,6) e de mortalidade (30,9) por 100 mil habitantes e, na época, contava com 107.752 casos confirmados, ou 20% do total nacional.

“No Amazonas, no Pará e em Mato Grosso, mais de 20% das pessoas moram em áreas que exigem um deslocamento de até quatro horas para chegar ao município mais próximo com condições de atendimento em casos graves de covid-19. As pequenas e médias cidades, se atingidas simultaneamente por fumaça das queimadas e infecções pelo novo coronavírus, tendem a não conseguir absorver a necessidade da população”, diz a nota técnica.

 

Áreas mais críticas

“É fundamental que o poder público, como os governos federal e estaduais, ajam de forma integrada. Nosso estudo, inclusive, indica onde estão essas áreas que foram derrubadas e não queimadas”, diz Paulo Moutinho. Para o Ipam, o monitoramento deve ser prioritário nos Estados do Acre, Pará e Amazonas, que possuem grandes áreas críticas.

Trator em área de desmatamento ilegal em São Félix do Xingu, no Pará, em 2012 (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

No Pará, há “um arco de fogo que liga a região de Altamira e São Félix do Xingu, com destaque para as terras indígenas Itauna-Itatá, Apiterewa e Trincheira-Bacajá, e mais a Área de Proteção Ambiental (APA) Triunfo do Xingu”. O estudo aponta como áreas mais críticas a região ao longo da rodovia Transamazônica (BR-230) de Altamira a Rurópolis, com destaque para a Terra Indígena Cachoeira Seca, também faz parte das áreas críticas apontadas pelo Ipam, assim como Novo Progresso e Castelo dos Sonhos, com destaque para Floresta Nacional Jamanxim, e o Baixo Amazonas.

No Acre, os municípios ao redor de Rio Branco e ao longo das rodovias BR-364, com destaque para Bujari e Sena Madureira, e BR-317, nas cidades de Senador Guiomar, Capixaba e Xapuri, são os mais ameaçados pelas queimadas e incêndios florestais. E no Amazonas, o Ipam aponta como mais preocupantes os municípios localizados no sul do Estado, onde há forte pressão da agropecuária e retirada de madeira: Apuí e Nova Aripuanã, ao longo da Transamazônica, e Boca do Acre, na divisa com o Acre.

Caracaraí e Rorainópolis, no estado de Roraima, Colniza, Cotriguaçu, Aripuanã, Apiacás, Marcelândia, União do Sul e regiões a oeste do Parque Indígena do Xingu, no Mato Grosso, e a capital Porto Velho, em Rondônia, também estão ameaçadas pelas queimadas.

 

Alta no desmatamento em 2019

Nesta terça-feira (9), o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) divulgou a taxa de desmatamento do Prodes, que apontou uma alta de 34,4% na devastação da Floresta Amazônica entre o período de agosto de 2018 e julho de 2019 em comparação ao mesmo período de 2017 e 2018. Foram desmatados 10.129 quilômetros quadrados – a maior taxa desde o ano de 2008, que foi de 12.911 quilômetros quadrados.

Desmatamento na TI Pirititi, em 2019 (Foto: Ibama)


por Izabel Santos e Bruna Melo, Amazônia Real  |   Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado


 

 
 
 
 
 
 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/queimadas-e-pandemia-projetam-cenario-de-desastre-na-amazonia/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=queimadas-e-pandemia-projetam-cenario-de-desastre-na-amazonia

Câmara de Almada asfalta duna na Fonte da Telha 

O Município avançou com uma obra de nivelamento e asfaltamento de uma duna primária na Fonte da Telha que, apesar do aval da APA, contraria as directivas ambientais e de ordenamento do território.

Créditos / Almadense

As obras de requalificação do acesso à praia, que incluem o alcatroamento de um acesso em terra batida, localizado em duna primária, na envolvente da Área de Paisagem Protegida da Arriba Fóssil da Costa de Caparica, provocaram uma onda de indignação.

No plano local, os eleitos da CDU na Câmara de Almada endereçaram um conjunto de questões à presidente Inês de Medeiros (PS), onde perguntam por que é que a solução adoptada «não foi a que havia sido aceite como menos impactante – a continuação do calcetamento, em calçada grossa, já realizado nos acessos a Norte da Fonte da Telha».

Os vereadores indagam ainda se a intervenção foi articulada com autoridades competentes na gestão ambiental do território, designadamente a Agência Portuguesa do Ambiente (APA), e que medidas foram tomadas de forma a salvaguardar o equilíbrio ambiental daquela área sensível com este asfaltamento.

Tendo em conta que «desde sempre foi entendimento das várias entidades» com responsabilidade de preservação ambiental, como a Autoridade Marítima ou o Instituto da Conservação da Natureza (ICN), que «os acessos dentro da localidade da Fonte da Telha não podem ser pavimentados, pois aquele é um território ambientalmente sensível, em zona dunar, e que a sua impermeabilização constitui um crime ambiental», o PCP enviou várias perguntas ao ministro do Ambiente e da Acção Climática.

Que medidas estão a ser tomadas para assegurar o cumprimento da lei e defender o equilíbrio ambiental daquela área sensível foi uma das questões colocadas a João Pedro Matos Fernandes.

Também o partido ecologista «Os Verdes» deu entrada de uma pergunta na Assembleia da República, na qual confronta o Governo sobre a intervenção «com recurso a material betuminoso à base de hidrocarbonetos (alcatrão), que levanta sérias dúvidas quanto à sua permeabilidade, como a zona requer, e muito menos enquadrada numa requalificação equilibrada tal como exigido».

Apesar de todos os instrumentos de ordenamento do território e ambientais interditarem qualquer intervenção desta natureza que, tal como salientam alguns ambientalistas, torna a zona ainda mais vulnerável, a obra foi aprovada pelo Governo, através da APA, que entretanto emitiu um comunicado inusitado. 

Segundo a agência, o projecto em causa «pretende promover e valorizar a praia da Fonte da Telha, designadamente o acesso viário à orla costeira, bem como a contenção das áreas de estacionamento desordenado e abusivo».

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/local/camara-de-almada-asfalta-duna-na-fonte-da-telha

Descarga ilegal de poluentes atinge areal e águas da praia de Carcavelos

Por Redação
14 junho 2020
A praia de Carcavelos foi palco, nas últimas horas, de uma descarga de poluentes, que atingiu o areal e as águas, provocando o afastamento de banhistas.
 
Não é a primeira vez que estas descargas são registadas em Carcavelos.
 
Ainda não é conhecida a origem das descargas registadas nas últimas horas.
 
A verdade é que as águas sujas que atingiram o areal em direção ao mar exalavam um cheiro nauseabundo, insuportável, que criou um grande mau estar entre os banhistas, muitos dos quais acabaram por abandonar a praia.
 
Entretanto, a Câmara Municipal de Cascais, em comunicado, informou tratar-se de "um fluxo anormal de água" com tonalidade escura e odor, proveniente de uma descarga ilegal na ribeira".
 
O município anuncia, ainda, que no terreno, a avaliar a situação, estão equipas especializadas, constituídas por uma patrulha do Núcleo de Proteção Ambiental da GNR, Polícia Municipal e Serviço Municipal de Proteção Civil de Cascais e Águas Tejo Atlântico, que estão a trabalhar em articulação com a Autoridade Marítima Nacional.
 
"As autoridades, conclui o comunicado, estão a apurar a responsabilidade da descarga".
 
 
 
 
 
 
 

Ver o original em "CASCAIS24" na seguinte ligação::

https://www.cascais24.pt/p/blog-page_2971.html

Desmatamento na Amazônia em maio chega a 829 km2, maior extensão em 5 anos

Alertas de desmatamento na Amazônia Legal sobem 26% em seis meses...

Rio de Janeiro, 12 jun (Xinhua) -- Os alertas sobre o desmatamento da Amazônia brasileira alcançaram um recorde de 829 km2 em maio, o maior para o mês desde agosto de 2015, quando a devastação da floresta começou a ser medida.

Segundo revelou o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o desmatamento da Amazônia aumentou em 91 km2 em comparação com maio do ano passado.

Levando em conta o período entre agosto de 2019 e maio de 2020, a perda de floresta aumentou 78%, até chegar a 6.498,8 km2. A temporada amazônica vai de agosto a julho do ano seguinte, para incluir as temporadas tanto de chuva como de seca.

Os dados foram revelados pelo sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter) e alertam para uma tendência de aumento na taxa oficial de devastação da floresta amazônica. No período anterior se chegou a um recorde de 10.129 km2 de floresta destruída.

O Deter é um sistema do governo federal criado para orientar as ações de controle e vigilância na Amazônia. O sistema, por satélite, analisa áreas de 25 hectares e indica onde há indícios de uma mudança no uso da terra.

Um estudo recente do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) alertou que o desmatamento este ano pode chegar aos 11.900 km2 se o ritmo de maio, junho e julho segue a média histórica.

Ver original em "XINHUA Português" na ligação seguinte:

http://portuguese.xinhuanet.com/2020-06/13/c_139136252.htm

É oficial. O plástico está, literalmente, a cair do céu

 

Micropartículas detetadas no ar são consistentes com as que se acumulam no tecido pulmonar. O plástico já domina os quatro cantos do planeta (chega mesmo aos locais mais remotos) e nem os cientistas queriam acreditar nos resultados recolhidos.

Que os oceanos estão carregados de toneladas de plástico, ameaçando peixes, aves e espécies marinhas, já não é novidade. Mas e se lhe dissermos que, na verdade, está a chover plástico e não existe um único recanto no planeta onde ele não consiga chegar?

Um novo estudo publicado na revista Science conclui que a poluição gerada pelo plástico está, literalmente, em todo o lado. No ar que respiramos, a viajar ao sabor do vento e a cair do céu. Janice Brahney, cientista da Universidade de Utah que liderou a investigação, avança que, a cada ano, chovem mais de mil toneladas de micropartículas de plástico em parques nacionais e zonas selvagens do oeste americano. Número que representa entre 123 e 300 milhões de garrafas plásticas. “É mesmo muito irritante pensar nisto”, reconheceu, em declarações ao jornal The New York Times.

Leia mais em Jornal de Notícias

Ver o original em 'Plataforma Media' na seguinte ligação:

https://www.plataformamedia.com/2020/06/12/e-oficial-o-plastico-esta-literalmente-a-cair-do-ceu/

DENÚNCIA PELO RESSURGIMENTO DA POLUIÇÃO QUE CONTINUA A ASSOLAR O RIO TEJO

Tejo_do_Castelo_Almourol

O rio Tejo visto do castelo de Almourol

 

 

 

O proTEJO – Movimento pelo Tejo denunciou hoje, dia 1 de junho de 2020, ao Senhor Ministro do Ambiente e da Ação Climática, João Pedro Matos Fernandes, ao Senhor Presidente da Comissão Parlamentar de Ambiente, Energia e Ordenamento do Território, José Maria Cardoso, ao Senhor Presidente da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), Nuno Lacasta, e ao Senhor Inspetor-Geral da Inspeção-Geral da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território (IGAMAOT), José Brito e Silva, a preocupante vaga de poluição que voltou a assolar o troço principal do rio Tejo.
Desde dezembro de 2019 até ao presente momento que as águas negras poluídas voltaram ao rio Tejo a partir da zona de Vila Velha de Rodão num ressurgimento de focos de poluição que em tudo se assemelham aos incidentes de poluição que ocorreram entre 2015 e 2018, conforme vídeos abaixo em informação adicional, estendendo-se para jusante de Abrantes, tendo este movimento de cidadania apresentado por este motivo várias denúncias aos Serviço de Proteção da Natureza e do Ambiente (SEPNA) da GNR.
 
 
 
Lembramos que, no seguimento do incidente de poluição ocorrido a 24 de janeiro de 2018 em Abrantes, o Senhor Presidente da APA, Nuno Lacasta, afirmou que a análise das amostras de água recolhidas tinha permitido detetar que “os níveis de fibras de celulose – que representam a totalidade da matéria vegetal presente – estavam 5.000 vezes acima do nível recomendado”.
Conforme noticiou a comunicação social nessa ocasião “Apesar de responsabilizar todas as indústrias da pasta de papel, a montante das albufeiras de Fratel e Belver e a montante de Abrantes, pela situação denunciada no passado dia 24, Nuno Lacasta, presidente da APA, não indica a que empresas se refere. No entanto, confirmou que a Celtejo é responsável por 90% das descargas deste tipo de indústrias que chega ao rio naquela região.”
Neste sentido pretendemos obter resposta quanto à origem desta poluição e saber se as novas licenças de rejeição de efluentes emitidas estão a ser cumpridas, nomeadamente, a da empresa Celtejo, no sentido de adequar as condições de descarga do efluente tendo em atenção as condições de qualidade e quantidade das águas do rio Tejo e, tal como definido nas licenças, utilizando de forma eficaz os três regimes de funcionamento da ETAR: em período de estiagem, em período húmido e em período excecional definido em função das condições meteorológicas e/ou das condicionantes quantitativas e qualitativas do meio recetor.
Conforme já referimos, os efeitos destes incidentes de poluição persistem há mais de uma semana pelo que se observa o requisito necessário para a adoção do período excecional mais restritivo das condições de descarga do efluente tendo em atenção as condições de qualidade e quantidade do meio recetor, que deve ser imposta mediante notificação da Agência Portuguesa do Ambiente.
Mediante os fatos apresentados, o proTEJO requereu a estas entidades o seguinte:
a) Ao Senhor Ministro do Ambiente e da Ação Climática que determine à Agência Portuguesa do Ambiente e à IGAMAOT a tomada de medidas para eliminar o ressurgimento de focos de poluição no rio Tejo que em tudo se assemelham aos incidentes de poluição que ocorreram entre 2015 e 2018;
b) À Comissão Parlamentar do Ambiente que solicite audições com o senhor Ministro do Ambiente e da Ação Climática, o Senhor Presidente da Agência Portuguesa do Ambiente e o Senhor Inspetor-Geral da Inspeção-Geral da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território com objetivo de apurar quais as medidas que estão a ser tomadas para eliminar o ressurgimento de focos de poluição, que no passado recente o Governo considerou como eliminados, e se estão a ser cumpridas as novas licenças de rejeição de águas residuais passadas aos agentes económicos;
c) À Agência Portuguesa do Ambiente e à IGAMAOT que acionem os meios de fiscalização necessários à identificação da origem dos focos de poluição no rio Tejo e tomem as ações necessárias à sua eliminação, bem como procedam à responsabilização dos agentes poluidores;
d) À Agência Portuguesa do Ambiente que informe se estão a ser cumpridas as novas licenças de rejeição de águas residuais passadas aos agentes económicos, nomeadamente, à empresa Celtejo, e que tome medidas para se adequarem as condições de descarga de efluentes às condições de qualidade e quantidade da água do rio Tejo, tal como definido nas licenças, utilizando de forma eficaz os três regimes de funcionamento da ETAR: em período de estiagem, em período húmido e em período excecional definido em função das condições meteorológicas e/ou das condicionantes quantitativas e qualitativas do meio recetor.
 
Bacia do Tejo, 1 de junho de 2020

 

Informação adicional:

 
TEJO COM CAUDAL MUITO REDUZIDO E ÁGUAS ESCURAS – 30 MAIO 2020
 
RIO TEJO IMAGENS DO TRAVESSÃO DO PEGO E ORTIGA – MAÇÃO – 28 MAIO 2020
 
RIO TEJO CONTINUA COM CAUDAL MUITO REDUZIDO E COM ÁGUAS ESCURAS – 24 DE MAIO DE 2020
 
RIO TEJO ÁGUAS CASTANHAS E CAUDAL MUITO REDUZIDO – 22 DE MAIO DE 2020
 
RIO TEJO COM ÁGUAS ESCURAS – 16 DE MAIO DE 2020
 
TEJO ÁGUAS CASTANHAS – 13 MAIO 2020
 
RIO TEJO COM ÁGUAS SUJAS “CACHÃO CAI BODES” – 12 MAIO 2020
 
RIO TEJO BASTANTE NEGRO – ESTAÇÃO DE ORTIGA – MAÇÃO – 6 DE MAIO DE 2020
 
POLUIÇÃO RIO TEJO – 11 FEVEREIRO 2020
 
RIO TEJO COM ÁGUAS CASTANHAS – ABRANTES – 13 DE JANEIRO DE 2020
 
RIO TEJO BRANCO EM ABRANTES – 13 DE JANEIRO DE 2020
 
RIO TEJO COM CAUDAL MUITO REDUZIDO – 6 DE JANEIRO DE 2020
 
 
 
 
 

 

 

 

Leia esta carta aberta no sítio do Movimento pelo Tejo clicando em:

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/06/09/protejo-movimento-pelo-tejo-nota-de-imprensa-carta-aberta-denuncia-pelo-ressurgimento-da-poluicao-que-continua-a-assolar-o-rio-tejo/

Dia Mundial dos Oceanos: estão em crise e não podem esperar

Os problemas são causados pelo ser humano, que também será determinante para a solução dos mesmos. O futuro, dizem os especialistas, terá de passar por uma economia azul. E esse futuro tem de ser já

8 de junho. Hoje é o Dia Mundial dos Oceanos, que começou a ser comemorado apenas em 1992. Salienta-se o apenas pelo facto de vivermos num planeta literalmente azul, dado que os oceanos e mares cobrem mais de 70% da Terra. Em 2020 ainda há muito por explorar nos e dos Oceanos, mas, e como diz o velho ditado que há males que vêm por bem, ironicamente a pandemia do Covid-19 poderá fazer mudar mentalidades.

Este vírus, que nos começou a atacar há seis meses deu tempo ao mundo para para e pensar. De facto, são os oceanos que nos alimentam, regulam o nosso clima e geram a maior parte do oxigénio que respiramos. Mas é também uma realidade que não os tratamos bem, vejam-se as mais de oito milhões de toneladas de resíduos plásticos que acabam no fundo dos oceanos e as alterações climáticas, que danificam os recifes de coral e outros ecossistemas fundamentais. Como se pode travar isto? A resposta poderá ser uma economia azul.

“A geração azul é como o que necessário para mudarmos a nossa relação com o oceano. Torna-se imprescindível uma relação diferente com a natureza, não basta resolver o problema através de políticas públicas e de ambiente. Sabemos que o que tem causado todos estes impactos na natureza é a nossa economia e o modelo de desenvolvimento económico. É importante explicar às pessoas que a crise dos oceanos não é um problema para as baleias e para os peixinhos, é para nós, que dependemos deles para vivermos, mas enquanto animais terrestres não temos essa perceção”, considera Tiago Pitta e Cunha, presidente da Fundação Oceano Azul.

Mas para que os problemas dos oceanos possam ser solucionados o trabalho tem de começar a ser feito bem cedo, com os mais jovens. Neste momento há planos para tentar resolver os problemas imediatos, mas o ideal é que no futuro esses problemas deixem de existir. Para tal, contudo, as crianças que irão viver esse futuro têm de ser ensinadas desde cedo a proteger os oceanos.

As crianças, por exemplo, desconhecem totalmente que dependemos dos oceanos para vivermos. E nesse sentido, a Fundação Oceano Azul tem desenvolvido um programa para lhes dar consciência da importância dos mesmos. Chama-se Educar para uma Geração Azul, sem precedentes na Europa e no Mundo, e já somos considerados o país mais avançado em literacia azul por causa desse mesmo programa. Ele consiste em formar todos os professores do primeiro ciclo, para ensinarem as crianças da importância dos oceanos e ensinar com este tema inserido nas disciplinas curriculares. Com isso desejamos que os jovens sejam mais responsáveis e mais conscientes”, referiu Tiago Pitta e Cunha.

É importante explicar às pessoas que a crise dos oceanos não é um problema para as baleias e para os peixinhos, é para nós, que dependemos deles para vivermos

Os problemas imediatos a resolver

Discutir os problemas dos oceanos seria um tema para muitas horas, dias ou anos, dada a degradação ao segundo dos mesmos. A culpa, já ninguém tem dúvidas, é nossa, do ser humano. Mas discutir não basta, há que acelerar decisões, porque os oceanos não podem esperar por respostas muito mais tempo.

“A crise dos oceanos é profunda, mais do que pensamos. A questão dos plásticos tornou-se uma questão mediática nos últimos anos e isso é positivo porque levou as pessoas a sintetizarem-se nos oceanos, mas a verdade é que temos muitos outros assuntos problemáticos relacionados com os oceanos. A começar pelo facto de continuarmos a poluir as zonas costeiras dos mesmos, um fenómeno que se chama de eutrofização, que é a descarga de excesso de nutrientes, provenientes dos nossos sistemas de saneamento urbanos, que acabam por remover o oxigénio das zonas costeiras”, explica o presidente da Fundação Oceano Azul, dando também exemplos simples do que realmente está a acontecer nos mares.

“Hoje em dia um dos grandes problemas dos oceanos, que foi um sistema de gestão de oxigénio para o planeta, é que já têm zonas mortas, que se multiplicam cada vez mais. Vou dar um exemplo, o do espadarte, que é um predador formidável, que pesca entre a superfície e mil metros de profundidade e hoje em dia, em certos locais, já não consegue passar de 100 ou 150 metros, porque já não tem oxigénio. O oxigénio é uma questão que nos preocupa muito, metade do oxigénio que respiramos provem dos oceanos”, afirmou.

O oxigénio, ou a falta dele, é assim um dos problemas imediatos mais graves. Mas neste dia mundial dos oceanos importa ensinar ao mundo que há mais e urgentes de serem resolvidos.

Neste momento há uma extinção maciça de espécies, a biodiversidade dos oceanos está a baixar, tanto pela poluição como pela sobrepesca, que remove muita da biomassa dos oceanos. E isso é muito preocupante porque os oceanos dependem muito dessa biomassa para existirem saudáveis, os oceanos são um fenómeno bioquímico e a parte biológica depende da biomassa e se essa é delapidada há um grande desequilíbrio na parte biológica dos oceanos. E se já provocámos um desequilíbrio na parte química com a acidificação dos oceanos com a acumulação dos gases de efeito de estufa, então o problema começa a ser complicado”, explicou Tiago Pitta e Cunha, que nas duas últimas décadas tem trabalhado na área das políticas do oceano, enquanto legislador nas Nações Unidas, no Governo de Portugal e na Comissão Europeia.

O espadarte, que é um predador formidável, que pesca entre a superfície e mil metros de profundidade e hoje em dia, em certos locais, já não consegue passar de 100 ou 150 metros, porque já não tem oxigénio

Identificados problemas como a falta de oxigénio e a baixa da biodiversidade, há outro que o antigo conselheiro do Presidente da República para assuntos de ambiente, ciência e mar identifica: a temperatura dos oceanos:

“É um dos mais preocupantes e de maior dificuldade de resolução, dado que mais de 90% do excesso de calor gerado pelo aquecimento global é absorvido pelo oceano. Ou seja, se não fosse o oceano, nós já não teríamos condições de sobrevivência por causa do aumento da temperatura atmosférica. Mas o que acontece é que como os oceanos estão a aquecer, isso está a alterá-los profundamente e uma das causas diretas é o desaparecimento dos corais, que são organismos fundamentais para a sobrevivência dos oceanos, respondem por 25 a 30% da biodiversidade dos oceanos, da variedade de formas de vida. O desaparecimento dos corais vai ser altamente dramático, com ele irá perder-se um quarto de toda a biodiversidade dos oceanos”.

A ajuda inesperada da pandemia de Covid-19

A pandemia e mais concretamente o isolamento social trouxeram uma mudança positiva nas nossas rotinas e que teve consequências ambientais, também elas muito positivas. O ar está mais limpo e os oceanos e mares também. Não há, por isso, dúvidas que somos nós, o ser humano, que tanto impacto causamos na natureza.

“Passámos a pescar menos, tivemos menos navios no mar, há menos CO2 no ar, as cidades estão menos poluídas. Há várias lições que se tiram do que nos aconteceu, que era algo impensável. Uma é que precisamos de ouvir mais os cientistas e a ciência, se os tivéssemos ouvido seguramente não teríamos tido os comportamentos que levaram o vírus a passar do reino animal para a espécie humana; depois percebemos que devemos perder as ilusões que somos a espécie eleita, que está acima das outras espécies, que não pertence ao ecossistema natural, que vive independentemente das outras espécies, porque estamos eternamente ligados à natureza”, considerou o especialista em assuntos de oceanos, manifestando-se também esperançado que as pessoas continuarão a ter novos tipos de comportamento devido ao Covid-19.

O confinamento ajudou a reduzir os níveis de poluição por todo o mundo, como provam estas imagens de Veneza, em Itália, e de Pequim, na China

“Esta pandemia vai acelerar todas as tendências que já estavam em formação. Uma das coisas que aconteceu nos últimos anos, e a partir de 2015, do Acordo de Paris para as alterações climáticas, foi um aumento enorme da consciencialização e da responsabilização, não apenas dos Estados, mas individual. Com a pandemia noto ainda mais as pessoas a quererem mudar para aquele modo de ação direta, a apanhar lixos nas praias, a fazerem hortas de produtos biológicos, etc, veio acelerar as tais tendências. Há outra coisa importante, no debate do ambiente e das alterações climáticas havia sempre aquelas tendências, aqueles grupos, aquelas personalidades que contestavam o facto de haver a relação causa efeito com a atividade e a economia humana. Agora ficou visível a olho nu que se tirarmos o pé do acelerador, se encostarmos à berma também damos a volta e se a nossa economia o fizer, também. A natureza é permanentemente suprimida pela nossa aceleração económica”, disse Tiago Pitta e Cunha, encontrando, contudo, um ponto negativo no impacto do Covid-19 em matérias de oceanos:

“Este era o super ano dos oceanos, com várias conferências e encontros sobre o tema. Uma delas, das mais importantes, seria a semana da Conferência dos Oceanos das Nações Unidas, que teria decorrido em Lisboa na passada semana.”.

Ver o original em 'Plataforma Media' na seguinte ligação:

https://www.plataformamedia.com/2020/06/dia-mundial-dos-oceanos-estao-em-crise-e-nao-podem-esperar/

Chefe da ONU pede ao mundo inteiro que mude rumo do meio ambiente

António Guterres alerta para o perigo das alterações climáticas na...

Nações Unidas, 5 jun (Xinhua) -- O secretário-geral da ONU, António Guterres, pediu na sexta-feira ao mundo inteiro que mude o rumo do meio ambiente.

"Estamos prejudicando o mundo natural, em nosso próprio detrimento", disse ele em uma mensagem no Dia Mundial do Meio Ambiente, no dia 5 de junho.

"Precisamos que toda a nossa comunidade global mude o rumo. Vamos repensar o que compramos e usamos, adotar hábitos sustentáveis, agricultura e modelos de negócios, proteger os espaços e a vida selvagem que restam, nos comprometer com um futuro sustentável e resiliente".

A degradação do habitat e a perda de biodiversidade estão se acelerando. A ruptura climática está piorando. Incêndios, inundações, secas e tempestades são mais frequentes e prejudiciais. Os oceanos estão se aquecendo e acidificando, destruindo os ecossistemas de corais, observou Guterres.

"E agora, um novo coronavírus está enfurecido, minando a saúde e os meios de subsistência. Para cuidar da humanidade, precisamos cuidar da natureza", afirmou ele. "Enquanto trabalhamos uma melhor recuperação, vamos colocar a natureza onde ela pertence, no centro de nossas decisões".

Ver original em "XINHUA Português" na ligação seguinte:

http://portuguese.xinhuanet.com/2020-06/07/c_139120473.htm

Dia Mundial dos Oceanos assinala importância da inovação

 

O Dia Mundial dos Oceanos assinala-se hoje sob o lema “inovação para um oceano sustentável” e pretende lembrar a importância dos oceanos na vida dos cidadãos e na preservação do planeta.

Criado pela ONU e escolhido o 08 de junho para assinalar a conferência da ONU sobre ambiente que decorreu no Rio de Janeiro, Brasil, em 1992 (Conferência do Rio), a data é hoje assinalada com colóquios e conferências, um pouco por todo o mundo.

Em Portugal, divulgada pela internet, decorre uma palestra organizada pelo Centro de Comunicação dos Oceanos, com o apoio da UNESCO e da Comissão Oceanográfica Intergovernamental.

A propósito da efeméride a associação ambientalista ANP/WWF e a Fundação Oceano Azul emitiram uma declaração conjunta na qual defendem que os oceanos devem ser considerados na recuperação económica após a pandemia de covid-19, destacando que essa recuperação deve ter em conta a proteção e recuperação da vida marinha, a transição para uma economia circular e sustentável, e um reforço do papel de liderança de Portugal na agenda internacional dos oceanos.

As duas entidades, salientam na declaração conjunta que Portugal tem de olhar para o oceano além de documentos estratégicos e discursos, “incluindo-o nas suas opções político-económicas, nomeadamente no plano de relançamento da economia portuguesa”.

Em entrevista à Agência Lusa, o ministro do Mar, Ricardo Serrão Santos, assegurou que a agenda da descarbonização, a recuperação de ecossistemas, como as pradarias marinhas, ou os planos em curso sobre áreas marinhas protegidas vão manter-se, apesar da crise provocada pela covid-19.

E disse que ainda este ano vão aumentar para o dobro as áreas marinhas protegidas em Portugal.

O aumento das áreas marinhas protegidas já tinha de resto sido pedido pela associação ambientalista Zero, num comunicado a propósito da efeméride, no qual considera ainda como prioridade para a sustentabilidade dos oceanos a redução do plástico e uma melhor escolha no peixe consumido.

“Os oceanos enfrentam uma ameaça enorme e crescente pelas mais de oito mil milhões de toneladas de plástico que chegam ao meio marinho a partir de fontes terrestres todos os anos. Tal equivale a despejar um camião de lixo cheio de plástico nos oceanos a cada minuto”, lembra a associação.

Ver o original em 'Plataforma Media' na seguinte ligação:

https://www.plataformamedia.com/2020/06/dia-mundial-dos-oceanos-assinala-importancia-da-inovacao-para-a-sustentabilidade/

Covid, racismo, Amazónia e economia. Falta-me o ar.

(Daniel Deusdado, in Diário de Notícias, 05/06/2020)

1. O ar. A invisibilidade do oxigénio complica tudo. Se George Floyd estivesse a esvair-se em sangue durante 8 minutos, o imbecil que o sufocava talvez não tivesse continuado a esmagá-lo. Mas a Floyd “só” faltava o ar, e o ar é invisível.

Na covid-19 a falta de ar é a diferença entre a vida e a morte. Por isso os ventiladores são o luxo do primeiro mundo.
Na Amazónia, na Indonésia ou em qualquer outro ponto de mundo incluindo Portugal, as árvores são abatidas para dar lugar permanente a todo o tipo de interesses superiores. É invisível quando uma fábrica de oxigénio fecha. Trabalhava durante o dia, gratuitamente, para nos oferecer ar, madeira ou frutos. Mas corta-se, e com ela morrem milhões de organismos que tornariam a nossa vida mais respirável.
O oxigénio deixou de ser um direito humano básico. Depende de quem respira, onde, e quem ganha com isso.
A espiral de loucura normal em que vegetamos tem nome: “Supremacia”. Sobre os outros. Sobre a natureza. Sobre o futuro. Martin Luther King disse aquilo que é definitivo sobre a questão racial na América. No fim da escravatura deram aos negros a liberdade e a fome. Enquanto os emigrantes brancos receberam as terras do “midwest” para as povoarem, os negros receberam nada. E assim continuam.
Foram arrastados de África para América como escravos e ainda hoje a grande maioria não saiu da pobreza.
Mesmo no “país das oportunidades” é preciso saber-se o suficiente para se conseguir aproveitá-las.
Os negros não acedem à educação e ao trabalho de forma proporcionalmente igual, apesar de até ter havido já um negro na Casa Branca. As suas condições de vida (a hipertensão, obesidade, diabetes) têm-se mostrado fatais na mortalidade covid-19. Vivem em guetos. Enchem as prisões com pequena criminalidade e com isso perdem o direito de voto. Têm a esperança de vida mais baixa da América.
Até um dia.

2.
George Floyd morreu sem ar porque era negro e o ar dos negros é um problema menor. A humanidade encaminha-se para um colapso semelhante, ditado pelas alterações climáticas. A Natureza diz: “Falta-me o ar”. Mas o nosso joelho continua lá, a apertar. Estamos nos “8 minutos”. Bastam mais uns segundos.
A Austrália, no último Verão, teve calor a mais, as florestas arderam como nunca, faltou o ar a humanos e morreram mil milhões de seres vivos que não têm voz.
O octogenário Jorge Paiva, professor de Biologia da Universidade de Coimbra, diz duas coisas que não podemos esquecer nunca: a presença do ser humano gerou o abate de 80% das árvores existentes na Terra. As atuais 20% que restam começam a ser manifestamente insuficientes para aguentar a poluição que geramos diariamente. Queremos sustentar uma humanidade, a caminhar para um recorde de 10 mil milhões de humanos, com o mais baixo contingente vegetal que o planeta conheceu. Em rarefação de oxigénio, como vemos frequentemente em muitas cidades.
A covid mostrou-nos as unidades de cuidados intensivos. O estertor da falta de ar. O oxigénio químico, caro, essencial: claro, a vida humana não tem preço, é inalienável.
Apesar disso, o garante da vida de cada ser humano – um conjunto de árvores integrada num ecossistema biodiverso e autóctone – é todos os dias alienável. Mas como, se cada floresta biodiversa deveria ser património inalienável da Humanidade? Condição absoluta para existirmos!
Zero de proteção e defesa dessas fábricas de vida, todos os dias, em tantos pontos do mundo. Corta. Cai. Caem, aos milhares, as nossas mães. Ouvem a dor? E a voz? “Falta-me o ar”.
Isto é sobretudo importante para nós, em Portugal, onde fazemos de conta que monoculturas são floresta, mesmo que respeitem a biodiversidade e especificidade de cada solo.
Temos contínuos vegetais que são autoestradas de fogo, num planeta cada vez mais quente. Ou seja, esta florestas não são árvores+ecossistemas. São fábricas vegetais de poluição. Que emitem toneladas brutais de dióxido de carbono em incêndios cada vez mais frequentes. São representadas por uma indústria poderosa com lobbying milionário. Aliás, estamos já em Junho de 2020: onde está o imposto sobre as celuloses? Nada. “Complexo”, dizem eles.

3.
A demência supremacista humana é isto: um ambiente natural sistematicamente subalternizado em função de uma exploração dos recursos até à absoluta exaustão. Ou até que tudo corra muito mal.
A Natureza absorve os impactos, sim. Mas quando eles transbordam, são exponenciais.
Com estas crises esmagadoras, estamos a mudar? Não.
Milhões e milhões de toneladas de plásticos passaram a ser produzidos para nos proteger da covid.
Milhões de milhões de litros de lixívias passaram a ser despejados por todo o lado, para desinfetar a hipótese remota de haver covid “sobrevivente” nas ruas. Vão parar aos rios e mares.
A gestão dos lixos e outros resíduos está transformada numa catástrofe ambiental, por dificuldade e risco de triagem. A incineração de toneladas de plásticos altamente poluidores aumentou brutalmente. E isso compromete cada vez mais, e de novo, a nossa outra fábrica de oxigénio: os oceanos.
As imagens divulgadas esta semana pelo The Guardian Austrália sobre a degradação dos corais de recife brancos, agora castanhos, são uma catástrofe cuja regeneração é provavelmente impossível.
Tudo isto é realmente muito difícil. Mas sejamos honestos: paramos o mundo para nos salvarmos da covid. No entanto, não somos capazes de mudar de vida para aproveitarmos a última oportunidade de impedir o colapso natural que temos à frente dos olhos.
Respirar. Eis, afinal, o que desempata entre a vida e a morte. A covid-19 eliminou o nosso último alibi. Não há otimismo nem tecnologia futurista que garanta um ventilador para cada habitante da Terra. O direito ao oxigénio tem de ser incluído na Declaração Universal dos Direitos do Homem.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

O eucalipto, Portas , Cristas e a Navigater pós pandemia

NOVA04

Tudo ligado, tudo boa gente que só querem um bom futuro para o país
NA Nova School of Business and Economics  ,Nova SBE em Carcavelos pode ler se no seu sitio :

“Um novo estilo de vida      O novo campus tira proveito do sol português e convida os alunos a estarem ao ar livre sempre que quiserem. O espaço aberto incentiva a aplicação de novas abordagens de ensino, mais focadas na colaboração entre os alunos.” 

 António Redondo o novo Presidente executivo da Navigater num seminário online organizado pela Nova SBE dedicado à internacionalização e exportação no pós-pandemia criticou as políticas que vieram determinar a redução da área de eucalipto no país e  disse  que “a complexidade do sistema fiscal não ajuda as empresas” e criticou ainda os custos da energia, frisando que em Portugal “a indústria paga um custo da energia superior aos concorrentes no estrangeiro”. Apontou ainda o dedo aos custos com pessoal, considerando que foi feito “um trabalho de flexibilização da mão de obra , interessante, mas nos últimos anos deixou-se cair esse trabalho”. “É necessário voltar a olhar para ele.

Frisou também que “sem seguros de crédito não vai haver exportação”, lamentando que “sempre que há uma crise as seguradoras procuram retirar coberturas, o que limita a exportação”.
Na conferência da Nova SBE participaram ainda Paulo Portas, Luís Castro Henriques, presidente da AICEP, e Carlos Moreira da Silva, antigo chairman da BA Glass.
Paulo Portas, professor da Nova SBE, defendeu que o país tem de “recuperar capacidade exportadora”, salientando que “alguém tem de por termo à paralisia dos seguros de crédito à exportação”. Por sua vez Carlos Moreira da Silva frisou a necessidade de as empresas terem balanços fortes, defendendo que haja incentivos para isso, mas também o fim do IRC.
                                                Lembrar:
 
A The Navigator Company (ex-Grupo Portucel Soporcel) dedica-se ao fabrico e comercialização de papel em Portugal. 
É dono de uma grande área florestal e é mundialmente conhecido pelo seu produto para impressoras Navigator. É um grupo empresarial que se dedica ao fabrico de papel, sendo totalmente autónomo (Madeira, pasta e papel). Tem a capacidade de produzir mais de um milhão de toneladas de matéria prima (pasta) e posteriormente papel por ano. 80,84% da empresa pertence ao conglomerado português Semapa1991, que opera essencialmente em três sectores: pasta e papel; cimento; e ambiente.
A empresa foi fundada em 1991 e tem três subsidiárias, a Portucel na área de papel e celulose, Secil, que produz cimentos e outros derivados e a Etsa que atua na gestão de produtos de origem animal.
                     O Bloco Central das Negociatas
 A Cimpor e a Secil,cuja privatização tinha sido iniciada por Cavaco Silva , foi continuada por Guterres.  A venda da Portucel à Semapa foi, feita por Durão Barroso, uma privatização confusa e questionada . Belmiro também esteve interessado Em 14 de Novembro de 2006 o Diário de Noticias noticiava . “A maior empresa ibérica de produção de pasta de papel e de papéis finos não revestidos é a primeira grande companhia nacionalizada a regressar totalmente às mãos de privados. O Estado, que noutras ocasiões tem preferido manter uma posição accionista mais ou menos relevante, saiu ontem da Portucel, num processo de privatização que demorou 11 anos a concretizar-se.”

 

O consumo e a sobrevivência do Planeta

Campo magnético da Terra está se movendo mais rápido do que o...
Há muito que os recursos do Planeta vão sendo consumidos cada vez mais cedo, em cada ano, e não há uma única medida para inverter esta situação, que só pode conduzir à catástrofe.
Segundo os cálculos da organização “Global Footprint Network”, os recursos para este ano ter-se-iam esgotado ontem, se todos os países consumissem como a média dos portugueses. (Jornal Económico com Lusa, 24 de maio 2020)

Vale a pena refletir sobre estes dados, habituados a comparar Portugal com os escassos países mais ricos, e ignorando, com indiferença, os milhares de milhões de pessoas que morrem de subnutrição, sem contar as vítimas das guerras pela apropriação de matérias-primas que asseguram o bem-estar dos países mais ricos.

Em primeiro lugar, o que está em causa é a inviabilidade do Planeta, a caminho de 8 mil milhões de pessoas e com capacidade de sustentar menos de 3 mil milhões. Depois vem o fosso abissal que separa os países ricos dos países pobres e, dentro de cada um, o que separa pessoas ricas e pessoas pobres.

Não é preciso ser génio para ver a insustentabilidade do atual modelo económico, ainda que não se conheça outro melhor, e, sobretudo, a absoluta irresponsabilidade com que as pessoas se habituaram a tomar os coelhos como modelo da perpetuação da espécie.

Tomando o caso de Portugal, dado que é normal responsabilizar o Mundo ou a alegada vontade divina pelas tragédias, podemos concluir que estamos a consumir recursos dos nossos filhos e netos, indiferentes à herança que lhes deixamos.

A transição da sociedade de consumo, que assegura postos de trabalho e a subsistência dos que hoje vivem, para uma sociedade onde vivam e sejam felizes os que couberem, é o desafio que a Humanidade enfrenta. Não é uma utopia, é uma necessidade absoluta.

Quem seriamente pensa no ar, na água, nos alimentos, na saúde e na sobrevivência dos que não pediram para vir e a quem, levianamente, gastamos hoje o que lhes vai faltar? A bomba demográfica parece não assustar ninguém, mas os vírus ou as bactérias podem ser a mixomatose dos humanos, capaz de adequar a população aos recursos planetários.

Dificilmente alguém sonhará com um planeta alternativo, mas é surpreendente como se viva sem respeito pelo ambiente, sem solidariedade com os outros nem mesmo com os que gerámos.

O Planeta pode existir ainda durante alguns milhares de milhões de anos, mas o homem poderá ser dos próximos animais a extinguir-se.

 

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2020/05/o-consumo-e-sobrevivencia-do-planeta.html

Quem foi que disse que nada será como dantes?

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 23/05/2020)

1 Eu fui um deles: eu fui um dos que tive uma esperança, ainda que ténue, de que tivéssemos aprendido alguma coisa com esta lição. Mas ainda nem vemos o fim do pesadelo nem alcançámos todas as suas consequências e já se percebeu que quem manda nisto — no mundo, no planeta, neste “capitalismo que mata”, como disse o Papa Francisco — pretende fazer tudo igual, mas ainda mais depressa e pior, se possível.

 

As Bolsas animam-se com a retoma económica na China, puxada a todo o gás pelas centrais a carvão; a Amazónia, escondida temporariamente dos satélites pelas nuvens e pela pandemia à solta em terras do Brasil, aumentou em 171% a área desflorestada em Abril, em comparação com igual mês de 2019 (529 km2 a menos de floresta tropical); e na Europa, sob pressão das companhias aéreas, Bruxelas abandonou qualquer veleidade de limitar a lotação dos aviões, um dos mais intensos poluidores atmosféricos e um dos mais eficazes focos de propagação do vírus.

Entre nós, muito se escreveu e falou sobre um regresso ao campo e à pequena agricultura familiar e biológica, cujos benefícios e atractividade o confinamento forçado tinha permitido redescobrir, e também se escutaram juras de revisão do modelo de turismo assente nas multidões e na destruição de habitats naturais: quase me vieram lágrimas aos olhos com esses textos lindos, comoventes, inesperados. Pois, aí está: a agricultura que é apoiada, financiada por dinheiros europeus e aquela por onde vagueiam exércitos de trabalhadores asiáticos semiescravos é a agricultura superintensiva, predadora da terra e esbanjadora de água.

<span class="creditofoto">ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO</span>
ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

O olival já transbordou do Alqueva e pode ver-se em faixas da A2, a caminho do Algarve, ou na Barragem do Maranhão, onde antes se nadava e fazia remo e que agora está coberta de uma espuma Oliveira da Serra, vinda dos fertilizantes que era suposto serem biodegradáveis. Mas ao Alqueva também já chegou o amendoal intensivo, que, depois de ter secado as terras da Califórnia, procura países do Terceiro Mundo que não defendam a sua água e ainda subsidiem os seus predadores — e não há muitos. Na Costa Vicentina, temos as estufas dos frutos vermelhos intensivos, onde só o dito Parque Natural é nosso, tudo o resto é estrangeiro: os donos, os trabalhadores, os frutos. No Algarve, enfim, ao abacate, esse fruto que entrou na moda via ceviche e que é tão português e tão amigo da pouca água que lá há, veio agora juntar-se apressadamente, no Sotavento e por via covid, a cultura intensiva dos laranjais: a montante da A22, terraplena-se a toda a força, planta-se aos milhares e abrem-se furos como se ali debaixo corressem rios, entretanto secando a jusante as pequenas hortas e culturas dos agricultores locais. E, mais para baixo e para poente, a Lone Star (sim, a do Novo Banco) prepara-se para começar aquilo a que o dirigente da Almargem Luís Brás chamou, adequadamente, “um projecto do século passado, desajustado ao presente e ignorando o futuro”: trata-se (eu adoro esta linguagem dos arquitectos a soldo dos patos-bravos) de “uma peça arquitectónica integrada num parque ambiental que inclui mais de 6o hectares de zonas húmidas”. Trocando por miúdos ou por milhões: trata-se de construir uma “cidade lacustre”, no pesadelo que já é Vilamoura, acrescentando-lhe mais 2400 camas e para tal desviando a ribeira de Quarteira e criando um ninho de criação de mosquitos numa zona onde recentemente foram detectados focos de doenças causadas pelos mosquitos e que estavam há muito desactivadas. Em tempos de pandemia, com tanto que se tem dito e escrito sobre os vírus causados pela agressões à biodiversidade dos ecossistemas, é caso para dizer que não podia haver projecto mais actual e mais integrado no ar do tempo!

Tudo isto suponho que seja apoiado pelo Turismo, sei que é financiado e acarinhado pela Agricultura e, como habitualmente, passa tudo ao lado daquele senhor que tem como alcunha ministro do Ambiente. Como é que nada poderá não ser como dantes?

2 Procurem no Google a Villa de São Paulo, no Estoril. Trata-se de um palacete em óptimo estado de conservação, que aparece descrito como o melhor espaço de Portugal para um estrangeiro se vir casar. Tem três andares, servidos por elevador interno, 14 quartos, diversas cozinhas, salas e salões e um enorme terraço com piscina em cima do mar e com acesso directo à praia, ali em baixo. Não vale menos de 10 milhões de euros, a preço de ocasião. Mas o Novo Banco vendeu-o por 3 milhões, integrado num pacote que envolvia também um terreno em Alverca, um prédio no Chiado e uma quinta em Sintra — tudo representado por um crédito de 17,4 milhões, mas que o banco vendeu por 5,7 (um desconto de 67%) ao “Rei dos Frangos”, o maior accionista privado do Benfica, de cujo presidente é sócio e amigo (e o qual, por sua vez e através das suas empresas, é dos maiores devedores do NB). São créditos destes (quantos — dezenas, centenas?) que o NB não “consegue” cobrar e que se vê “obrigado” a vender com descontos de 70%, que depois regista como imparidades e de que apresenta a factura para pagamento aos contribuintes. Mas isto é só a superfície do negócio. Quem sabe, escavando mais fundo, se não se descobre ainda petróleo debaixo disto tudo? Como no Texas, de onde eles vieram.

3 Há quem, interna e externamente, não suporte o Presidente francês, mas Emmanuel Macron tem provado ser o mais euro­peísta e menos chauvinista Presidente francês desde há muito tempo — além do facto, apenas interno, de ter quase toda a razão no conflito contra os “coletes amarelos”, defensores de privilégios geracionais insustentáveis. Macron teve a perseverança necessária para convencer Angela Merkel a dar o passo decisivo e, enfim, sem as dizer, a pronunciar as palavras mágicas: dívida europeia mutualizada. E de quem mais pode para quem mais precisa, tal como ensinou Marx. Fazendo-o através do Orçamento da União, ela contorna internamente a questão jurídica levantada pelo Tribunal Constitucional Alemão junto do BCE — e a que este faria bem em nem sequer responder. Nada pode ainda ser dado como adquirido, mas o peso da Alemanha deve ser suficiente para forçar a mão aos renitentes austríacos, suecos e dinamarqueses. Isso deixaria a Holanda isolada contra 26 e com a agravante de já gozar da má fama de ser o vazadouro fiscal onde as empresas dos outros pagam impostos que eram devidos nos países de origem.

4 A questão da atribuição da nacio­nalidade aos judeus sefarditas expulsos daqui no reinado de D. Manuel e a mando dos seus sogros, os Reis Católicos espanhóis, Fernando e Isabel, é muito mais interessante do que comecei por supor — embora, aparentemente, não venha a mobilizar mais do que alguns escassos milhares de pedidos. Ou talvez não, se, com a alteração proposta na lei, não for necessário qualquer período de residência antes de se pedir a nacionalidade portuguesa.

O meu interesse começa na curiosidade de saber como é que se fará prova de uma descendência que remonta há mais de 500 anos e quem é que irá apreciar tais provas. Depois, há uma questão de timing diplomático: o momento em que Portugal se prepara para reconhecer a nacionalidade aos judeus que daqui expulsou há cinco séculos é o momento em que Israel se prepara para anexar a Cisjordânia aos palestinianos, assim consumando um longo processo, iniciado com o regresso à Terra Prometida, politicamente sustentado também na expulsão de que se reclamavam vítimas há dois mil anos. E, uma vez regressados, foi o que se sabe: guerra após guerra, colonato a colonato, Israel foi roubando a Palestina aos palestinianos, estando agora na iminência de abocanhar o último pedaço que lhe interessa. Felizmente, dessa ameaça estamos livres, mas, se há alguma moral nestas coisas da geopolítica, cabe lembrar isto aos futuros novos portugueses.

Mas o que me chamou a atenção para a questão foi o excelente texto do Henrique Monteiro no Expresso online (“O antissemitismo à solta”). Tem ele toda a razão quando enaltece o povo judeu, os seus 120 prémios Nobel, os seus extraordinários músicos (e escritores e etc.). Tem ainda toda a razão quando afirma, na esteira de vários historiadores, que a expulsão dos judeus, além de um acto de perseguição religiosa, hoje intolerável, foi um acto altamente prejudicial para Portugal, em vários aspectos. Aliás, os judeus daqui expulsos não tiveram muita sorte, pois voltaram a cruzar-se connosco no Brasil, para onde foram na expedição holandesa celebrizada por Maurício de Nassau, com o objectivo de nos roubar o comércio do açúcar, e de onde acabaram todos expulsos, 40 anos depois, por uma decisiva aliança de portugueses, espanhóis, índios e negros. E, de terra em terra, de exílio em exílio, como é sua sina, acabaram eles, saídos 150 anos antes de Portugal, por ir fundar mais a norte a cidade de New Amsterdam, a que hoje chamamos Nova Iorque.

Porém, onde a argumentação a favor da sua nacionalidade me parece insuficiente é quando ela tem como único título de legitimação o facto de terem sido expulsos daqui há mais de 500 anos. De acordo com esse princípio, raros devem ser os povos que não teriam também o poder de baralhar as leis de nacionalidade estabelecidas por esse mundo fora. A começar logo aqui: muito anos antes de expulsarmos os judeus já tínhamos expulsado os mouros, que aqui haviam chegado 600 anos antes de Portugal existir, quando Tarik atravessou o estreito. Os mesmos Reis Católicos expulsaram-nos definitivamente de Espanha em 1492 e nós quase dois séculos e meio antes, quando D. Afonso III conquistou o Algarve e estabeleceu as fronteiras definitivas de Portugal. O que diría­mos agora se, invocando o mesmo princípio que os judeus sefarditas, os mauritânios (presumo que a população inteira…) nos batessem à porta a pedir a nacionalidade?

Eu sou a favor de um país diverso e misturado. Mas não de uma identidade nacional completamente descaracterizada, ao sabor de vistos gold ou direitos de antiguidade tão antigos que já perderam há muito qualquer relação com o país que hoje somos. Por isso, acho que aos clássicos jus soli e jus sanguini, como fundamentos da nacionalidade, se deve acrescentar a aquisição por efeito de residência — efectiva, actual e continuada durante um certo período —, a qual, a par do conhecimento da língua, garante a tal relação entre um cidadão e o seu país. Mas não mais do que essas vias.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Greta critica postura de Salles em reunião: 'Nosso futuro é um jogo para eles'

© AP Photo / Arisson Marinho

Após divulgação de falas do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, em reunião com Jair Bolsonaro, a ativista sueca Greta Thunberg criticou sua postura: "Imagina as coisas que falam longe das câmeras"

Em reunião ministerial realizada no dia 22 de abril, que teve sigilo liberado na sexta-feira (23), Salles afirmou que era preciso aproveitar a epidemia da COVID-19 para afrouxar regras ambientais no Brasil. 

Pelo Twitter, Greta publicou uma tradução para o inglês de parte da declaração do ministro do Meio Ambiente, e complementou: "Apenas imagine as coisas que eles falam longe das câmeras... Nosso futuro comum é somente um jogo para eles". 

Além disso, ela puxou a hashtag #SalvemAAmazônia, escrita em português. Em 2019, Greta Thunberg criticou o assassinato de indígenas no Brasil e foi chamada de "pirralha" pelo presidente. 

 

"É preciso ter um esforço nosso enquanto estamos nesse momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa, porque só se fala em COVID". Apenas imagine as coisas que eles falam longe das câmeras... Nosso futuro comum é somente um jogo para eles

Na reunião, Salles diz que é preciso "ter um esforço nosso aqui enquanto estamos nesse momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa, porque só fala de COVID, e ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas". 

"De Iphan [Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional], de Ministério da Agricultura, de Ministério de Meio Ambiente, de ministério disso, de ministério daquilo. Agora é hora de unir esforços pra dar de baciada a simplificação", acrescentou Salles, que desde que assumiu o cargo é muito criticado por entidades ambientais. 

O conteúdo da reunião foi liberado por Celso de Mello, ministro do Supremo Tribunal Federal, como parte de inquérito instaurado para investigar suposta interferência de Jair Bolsonaro na Polícia Federal.

Após a divulgação do vídeo, Salles usou o Twitter para se defender, afirmando que sempre apoiou "desburocratizar e simplificar normas" para promover o "desenvolvimento sustentável no Brasil". 

 

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/brasil/2020052315616692-greta-critica-postura-de-salles-em-reuniao-nosso-futuro-e-um-jogo-para-eles/

Bandeira Azul em 360 praias. Cascais continua de fora

Bandeira Azul em 360 praias. Cascais continua de fora

A Bandeira Azul vai ser hasteada este ano em 360 praias fluviais e costeiras, mais oito do que em 2019, anunciou hoje a coordenação nacional do Programa Bandeira Azul, que pede responsabilidade aos veraneantes no regresso ao mar.

As distinções deste ano, hoje apresentadas em conferência de imprensa no Aquário Vasco da Gama, em Oeiras, contemplam 322 praias costeiras, mais cinco do que em 2019, e 38 fluviais, mais três do que no ano passado.

As praias estão distribuídas pelo Algarve (87), Norte (76), Tejo (57), Centro (46), Alentejo (36), Açores (42) e Madeira (16).

Devido à pandemia da covid-19, o tema deste ano é: “De volta ao mar, com a atitude de mudar”.

Quanto a regulamentos de segurança, José Archer, da Associação Bandeira Azul, realçou que cabe às entidades responsáveis pela praia, pela marina ou pela embarcação galardoada implementar as regras extraordinárias no seu espaço.

“Quando há Bandeira Azul, e enquanto estiver hasteada, é seguro frequentar”, afirmou, salientado que a fruição destes espaços públicos vai depender da responsabilidade de cada um.

José Archer salientou ainda que a diversidade das praias é imensa e que quando se fala em medidas de adaptação às regras significa que as autoridades locais têm de adaptar as recomendações gerais à realidade local.

Fonte: Lusa

 

Ver original em 'Portal CASCAIS' na seguinte ligação:

https://www.portalcascais.pt/sociedade/lifestyle/bandeira-azul-em-360-praias-cascais-continua-de-fora/

Pesquisa revela impacto climático causado pelos testes nucleares da Guerra Fria

Explosão nuclear (imagem de arquivo)
© Depositphotos / Curraheeshutter

Nova pesquisa sugere que os inúmeros testes de armas nucleares realizados em meio à corrida armamentista da Guerra Fria podem ter tido um impacto profundo nos padrões meteorológicos de todo o planeta.

Cientistas compararam as alterações diárias da carga elétrica que flui através das nuvens após a "liberação da radioatividade artificial" desencadeada por explosões nucleares, ou seja, para determinar como os testes de bombas afetaram as precipitações.

Foram avaliados dados coletados entre 1962 e 1964, na época da Crise dos Mísseis de Cuba, durante a qual os Estados Unidos e a antiga União Soviética realizaram centenas de testes de bombas, e descobriu-se que em dias com maior radioatividade, as chuvas aumentaram 24% em média, e as nuvens foram "oticamente espessadas".

"Ao estudar a radioatividade liberada pelos testes de armas da Guerra Fria, os cientistas da época aprenderam sobre os padrões de circulação atmosférica. Agora, reutilizamos esses dados para examinar o efeito das chuvas", disse Giles Harrison, principal autor do estudo e professor de física atmosférica na Universidade de Reading (Reino Unido).

Alteração dos padrões climáticos

A atmosfera politicamente carregada da Guerra Fria levou a uma corrida armamentista nuclear e a uma ansiedade mundial. Décadas depois, essa nuvem global acabou fornecendo uma maneira única de estudar como a carga elétrica afeta a chuva.

Mesmo tendo sido realizadas em áreas remotas do mundo, como desertos e ilhas desabitadas, as explosões de bombas nucleares ionizaram a atmosfera e geraram uma carga elétrica que poderia alterar os padrões climáticos a milhares de quilômetros dos locais de teste, descobriram os pesquisadores.

Primeira explosão nuclear submarina na URSS e a primeira explosão nuclear em Novaya Zemlya, 21 de setembro de 1955
© Foto / Forças Armadas Soviéticas
Primeira explosão nuclear submarina na URSS e a primeira explosão nuclear em Novaya Zemlya, 21 de setembro de 1955

Cerca de 2.058 bombas nucleares foram detonadas em todo o planeta desde o primeiro teste bem-sucedido em 1945.

Os resultados da pesquisa foram publicados na revista Physical Review Letters.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/ciencia_tecnologia/2020051415579204-pesquisa-revela-impacto-climatico-causado-pelos-testes-nucleares-da-guerra-fria/

Diversos lugares da Terra alcançam temperaturas perigosas para vida, diz estudo

Leito seco do lago Penuelas, no Chile (imagem referencial)
© AFP 2020 / MARTIN BERNETTI

Cientistas americanos apontaram que a temperatura do ar teria passado do nível crítico para os seres humanos antes do previsto por modelos climatológicos em diversas partes do mundo.

Em condições normais, a temperatura do corpo humano oscila os 36,8 °C podendo manter tal nível quando a temperatura sobre a pele não ultrapassa os 35 °C.

Para lidar com o calor em excesso, o organismo começa a transpirar, medida usada para refrescar o corpo.

Contudo, tal estratégia do corpo possui um ponto limite que uma vez ultrapassado reduz sua eficácia.

Cientistas acreditam que tal limite seja os 35 °C segundo a temperatura de bulbo úmido, medida de calor que mostra as propriedades físicas de um sistema constituído pela evaporação da água no ar.

Temperaturas perigosas

Para entender melhor o assunto, cientistas americanos fizeram um estudo para prognosticar quando a temperatura do ar pode superar o nível crítico e também mortal para a humanidade, publicou a revista Science Advances.

Os resultados mostraram que os territórios ao sul da Ásia e Oriente Médio podiam superá-lo regularmente no terceiro quarto deste século.

Além disso, por diversas vezes tal medição alcançou os 31 °C e 33 °C em escala global, sendo que duas estações climáticas reportaram múltiplas vezes em um só dia temperaturas de bulbo úmido acima dos 35 °C.

Tal fenômeno, que pode passar a tolerância do corpo humano, na maior parte das vezes aconteceu entre uma e duas horas.

"Estas tendências ressaltam a magnitude das mudanças que têm tido lugar até esta data como resultado do aquecimento global", escreveram os autores do estudo.

Além da Ásia e do Oriente Médio, tal fato já foi observado no golfo do México, e deverá também ser observado em regiões subtropicais.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/ciencia_tecnologia/2020051115566815-diversos-lugares-da-terra-alcancam-temperaturas-perigosas-para-vida-diz-estudo/

A Covid 19, o verde e os negócios…

[Sob este título genérico publicamos um artigo da RT-France sobre a “unidade” de líderes políticos (ministros, eurodeputados, ecologistas e centristas) e empresariais, de grupos de reflexão e ONG em prol de uma designada recuperação verde na Europa pós-crise sanitária e económica e uma análise da conceituada historiadora francesa Annie Lacroix-Riz]

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Canfin, Jadot, Berger, L'Oréal, Coca-Cola... Todos unidos por uma “recuperação verde europeia” ?

RT-France – com AFP

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© JOHN THYS Source: AFP

Pascal Canfin (à esquerda), presidente da Comissão do Ambiente, Saúde Pública

e Segurança Alimentar do Parlamento Europeu, em setembro de 2019

Ministros, eurodeputados, ecologistas e centristas, ONG e líderes empresariais – cerca de 180 signatários – advogam, num fórum publicado em vários média europeus, uma “aliança europeia para uma recuperação verde” pós-crise sanitária.

Por iniciativa do Presidente da Comissão do Ambiente do Parlamento Europeu, Pascal Canfin (ex-EELV [sigla de Europe Écologie-Les Vertes], agora LREM [sigla de La Republique En Marche!], que pertence ao grupo europeu Renew Europe [Renovar a Europa], centristas e liberais), cerca de 180 líderes políticos, dirigentes empresariais, grupos de reflexão e ONG apelam a uma “aliança europeia para uma recuperação verde”, no final da crise sanitária e económica da Covid-19. A sua ambição: “Construir uma reflexão partilhada sobre os planos de investimento verde pós-crise” e “participar na construção de planos de recuperação e transformação”.

A aliança compromete-se a propor as soluções de investimento necessárias e alinhadas com os compromissos climáticos para recuperar a economia, após a crise”, explicam, em particular, os signatários.

Se recuperarmos a economia na direção errada, iremos ainda mais rapidamente contra o muro da crise climática”.

O artigo foi publicado no Le Monde (França), La Libre Belgique, Corriere della Sera (Itália), Público (Portugal), SEM (Eslováquia), Politico e El Diario (Espanha).

Das multinacionais aos eurodeputados ecologistas, chama a atenção o leque dos signatários. Entre eles figuram, designadamente:

79 eurodeputados dos grupos do Parlamento Europeu Renew Europe, Verdes/ALE (a que pertencem a Europa Ecológica-Os Verdes – Yannick Jadot é um dos signatários), S&D (social-democratas) e PPE (direita);

. 37 patrões e altos responsáveis de empresas, incluindo Jean-Paul Agon, CEO do Grupo L'Oréal, Torbjörn Lööf, CEO do Grupo Inter IKEA, ou Tim Brett, presidente da Unidade da Europa Ocidental da Coca-Cola;

.28 organizações de empresas da Confederação Europeia de Sindicatos (CES) [1], chefiada pelo seu líder, o francês Laurent Berger (CFDT);

. mas figuram também ministros de 11 países, incluindo a ministra francesa da Transição ecológica e solidária, Elisabeth Borne, ou o ministro luxemburguês da Economia, Franz Fayot;

. e sete ONG e seis think tanks [grupos de reflexão].

Estamos a reunir energias para uma recuperação verde

Se recuperarmos a economia na direção errada, iremos ainda mais rapidamente contra o muro da crise climática. É por isso que estamos a reunir as nossas energias para uma recuperação verde”, declarou Pascal Canfin, citado num comunicado.

Aliança contra-natura?

Nas redes sociais, muitos militantes ecologistas ou simpatizantes da esquerda radical protestaram contra essa iniciativa. Identificaram alguns signatários que são dirigentes de empresas frequentemente acusadas ​​de greenwashing [“lavagem verde”: falsa preocupação com o meio ambiente] ou, ainda, de escândalos ambientais, como a Nestlé, a Coca-Cola, a Suez, a Umicore ou a H&M. Este paradoxo e a heterogeneidade do curioso aerópago também irritaram Martine Billard, a porta-voz nacional do França Insubmissa. Ela insurgiu-se contra o “o liberalismo verde, versão LREM” e “as adaptações do sistema” que pressupunham as medidas propostas neste fórum.

[1] CES: organização sindical regional, europeia, inserida na reformista e partidária da conciliação de classes Confederação Sindical Internacional (CSI). A CGTP-IN continua filiada na CES. – NT

Fonte:  https://francais.rt.com/international/74043-canfin-jadot-berger-loreal-coca-cola-tous-unis-pour-relance-verte-europeenne, publicado em 2020/0/14, acedido em 2020/04/21

Tradução do francês de MFO

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Sobre o fórum do Sindicato Nacional do Ensino Superior – SNESUP (fórum superior)

Annie Lacroix- Riz –professora emérita de História Contemporânea, Universidade Paris VII

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Caros camaradas,

https://francais.rt.com/international/74043-canfin-jadot-berger-loreal-coca-cola-tous-unis-pour-relance-verte-europeenne

Quem pensa seriamente em “desenvolvimento sustentável” com tais pessoas? Quem pensa que vamos mudar o mundo com aqueles que dominam o mundo atual, certamente com a cumplicidade de numerosos delegados dos “de baixo”? E, quanto a ironizar sobre a velha quimera de Lénine, é bom ler as suas palavras de 1915 sobre “os Estados Unidos da Europa” num mundo imperialista: “A propósito da palavra de ordem dos Estados Unidos da Europa”. Le Social-Democrate, n ° 44, 23 de agosto de 1915. Obras, tomo 21, pp. 351-356, https://d-meeus.be/marxisme/classiques/Len21EtatsUnisDEurope.html. É como ironizar, com razão, sobre a União Sagrada que tanto dano causou, e que se nos apresenta toda fresca, com a ajuda de comparações floridas com a Grande Guerra (açougue imperialista, ousaremos lembrá-lo: Jacques Pauwels, 1914-1918, a Grande Guerra de Classes, Paris, Delga, 2016?).

Deve-se dizer que a verdadeira história da União Europeia (Aux origines du carcan européen, 1900-1960. La France sous influence allemande et américaine, Paris, Delga - Le temps des cerises, reedição aumentada, 2016), deu total razão ao velho Lénine, tudo se passando como ele disse, substituindo “o colonialismo” por “neocolonialismo”.

Não falo da lenda dourada da “Europa”, cuja história académica foi forjada no modelo das Memórias de Monnet, concretizadas com fundos da CIA (perdão, “fundações filantrópicas”) da “guerra cultural” (enfim, “cultural”, no sentido muito elástico do termo, que inclui tudo): o muito reacionário Philippe de Villiers, certamente, escreveu-o em 2019, mas, antes dele, a imensa historiografia anglófona, da qual a população francesa é cuidadosamente afastada graças à obstinada não tradução. Mas atenção, mesmo a historiografia em língua francesa começa a abordar, e isso vai continuar, esta lastimável questão do financiamento da CIA, quase ilimitado, que, depois de 1948-1949, com a total colaboração de nossas autoridades e ministérios (incluindo, como é óbvio, o dos Negócios Estrangeiros), liderou com uma impressionante eficácia os nossos países, intelectuais incluídos – e, mesmo, em muito boa posição, os mais honrados tiveram nesta matéria um papel essencial de propaganda, a odiar mais do que tudo o socialismo, a URSS, os comunistas, etc. É realmente espantoso, e os “conspiradores” não estão onde suspeitamos: é em cima que eles se encontram, na França e no estrangeiro, mandatados para o duradouro engano das populações de um “mundo livre” de fronteiras muito alargadas depois de  1989...

Entre nós, reina a lenda da boa e benevolente Europa unida –, regularmente fomentada, antes, durante e entre as eleições –, do género da desta “petição” (https://francais.rt.com/international/74043-canfin-jadot-berger-loreal-coca-cola-tous-unis-pour-relance-verte-europeenne), onde o grande capital, dos CEO da L'Oréal e Renault ao ex-CEO da Unilever, notórios benfeitores ecológicos, e a imprensa desse mesmo capital acompanham os muito verdes e ecológicos campeões das privatizações (leiam, leiam as notícias!), Sr.ªs Borne (https://fr.wikipedia.org/wiki/%C3%89lisabeth_Borne) e Poirson (https://fr.wikipedia.org/wiki/Brune_Poirson), Sr. Berger, Presidente da Confederação Europeia de Sindicatos (CES) e diversos eleitos europeus, incluindo presumidos ecologistas de “esquerda”. Lenda indestrutível, e isso durará até que grau de destruição, de que a Grécia forneceu o modelo, de resto inacabado? A “Europa” pode fazer ainda melhor, vai fazê-lo, se as populações, inclusive os intelectuais, não reagirem.

Eis a lista completa dos 180 signatários do “apelo à mobilização” (em inglês, diz-se: Green Recovery [Recuperação Verde]) a favor de uma “aliança europeia para uma recuperação verde”: “Apelamos a uma aliança mundial de decisores políticos, líderes empresariais e dirigentes financeiros, de sindicatos, de ONG, de grupos de reflexão e de partes interessadas em apoiar e implementar pacotes de investimentos para a recuperação verde e da biodiversidade, que servirão de aceleradores da transição para a neutralidade climática e ecossistemas saudáveis. Comprometemo-nos a trabalhar em conjunto, a partilhar os nossos conhecimentos, a trocar a nossa experiência e a criar sinergias para concretizar as decisões de investimento de que temos necessidade”.

Somos tocados pela emoção, acima de tudo, não rimos – contudo, é claramente mais divertido e grotesco do que invocar Lénine. Eles estão na lista por ordem alfabética; não é encantador, tocante e democrático colocar chefes (de empresas, como devia ser) e os seus (sub)lugares tenentes sem respeitar a verdadeira hierarquia? Aí está o “mundo de amanhã”, “nunca mais aquilo!”, “todos juntos!”, em ordem alfabética!:  https://www.actu-environnement.com/media/pdf/news-35318-relance-verte-appel.pdf.

Note-se que o slogan dos “Estados Unidos da Europa” se tornou a grande “palavra de ordem” dos partidários, nomeadamente franceses, da “Europa” germânica, nos anos de 1930 e 1940 (os textos, declarações públicas ou arquivos são impressionantes; tenho muitos à minha disposição, desde logo do bravo Flandin [1], o homem do telegrama de felicitações a Hitler depois de Munique). Também os vou publicar no meu sítio para consulta, “Textos Europa, apoio, 2007-2009, sessão 2008-2009”, sobre um assunto elaborado por distintos historiadores europeístas (“O Academismo contra a História”, publicado de 18 a 23 de maio de 2019, Les Crises.fr, https://www.les-crises.fr/europe-lacademisme-contre-lhistoire-1-6 e https://www.les-crises.fr/europe-lacademisme-contre-lhistoire-6-6), para nos fazer expiar o terrível resultado do referendo de maio de 2005, do qual se aproxima o décimo quinto aniversário. É um pouco longa, esta série de 1923-1966, mas é, por sua vez, tão aterrorizante e instrutiva. A história, sempre a história, para iluminar o presente...

Saudações Sindicais,

Annie Lacroix-Riz

 

[1] Pierre Étienne Flandin (1889-1958) foi um político francês, várias vezes ministro da França, entre 1924-1931, e primeiro-ministro em 1934-1935 e 1940-1941. Foi ministro dos Negócios Estrangeiros do governo de Vichy e presidente da Alliance Démocratique em 1932-1950.  – NT

Fonte: enviado por mail.

Tradução do francês de MFO

 

Ver original em 'Pelo Socialismo' na seguinte ligação:

https://pelosocialismo.blogs.sapo.pt/a-covid-19-o-verde-e-os-negocios-93959

A procura incessante por areia está a alimentar uma crise mundial

 

A escassez de areia pode vir a tornar-se uma realidade e poucos são os que estão atentos a esta problema. Nem este mercado escapa à mão do crime organizado.

 

Juntamente com a água, a areia é o nosso recurso natural mais consumido. A procura global por areia e cascalho fica entre 40 e 50 mil milhões de toneladas por ano, de acordo com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), e a sua escassez é uma crise global emergente.

O mundo pode ficar sem areia se não começarmos a tratá-la como um recurso que precisa de investigação, gestão e governação.

A demanda por areia só deve aumentar. Também é necessária areia para fabricar frascos de vidro para fins médicos, usados para conter vacinas. A indústria já enfrentava escassez antes de os investigadores começarem a desenvolver uma vacina contra o coronavírus. E conflitos sobre areia estão a surgir na Flórida e em outras áreas aparentemente ricas neste recurso.

 
 

Mas a urbanização e a sua necessidade de cimento, asfalto e vidro estão a alimentar ainda mais a exploração de areia. A população urbana mundial, que deverá crescer de 4,4 mil milhões para 5,2 mil milhões até 2030, sustentará o boom global da construção, onde a areia é o principal ingrediente do betão.

À medida que o mercado de areia cresce, empreendedores, crime organizado e outros grupos emergem para lucrar, geralmente usando mão-de-obra barata e promovendo a destruição generalizada de habitats e a erosão costeira.

Economias violentas, trabalho precário

As condições de trabalho para os mineiros de areia variam bastante. No Camboja e no sudoeste da China, as minas de areia altamente mecanizadas oferecem pouco emprego local. No Nepal, minas de areia com uso intenso de mão-de-obra podem empregar centenas de pessoas. E, em Mianmar, as famílias que vivem ao longo dos rios podem estar envolvidas na recolha informal de areia nos rios.

A mineração de areia pode ser perigosa. Os mineiros podem afogar-se enquanto recolhem areia à mão debaixo de água, e centenas de mineiros, ativistas, jornalistas, policias, membros do Governo e outros foram mortos em confrontos por areia.

Um conjunto diversificado de atores, incluindo o crime organizado, está envolvido na indústria de mineração de areia. Estruturas locais como a máfia – na Índia e provavelmente em pelo menos 70 países – controlam minas e distritos inteiros de areia.

Sabemos que estes sítios são caracterizados por violência, sigilo e falta de confiança, mas a economia sombria da areia permanece amplamente desconhecida. Isto limita o nosso entendimento dos fluxos financeiros que alimentam a mineração de areia, as barreiras à regulamentação comercial e à governação da areia e os aspetos criminais das suas operações.

Emissões de carbono e perda de terra

A extração ilegal ou insustentável de areia dos ecossistemas marinhos, costeiros e de água doce levou a sérios desafios de sustentabilidade, incluindo emissões de carbono e perda de terra.

Singapura importou 80,2 milhões de toneladas de areia do Camboja entre 2007 e 2016, representando um terço das importações de areia da cidade-estado. No entanto, a maior parte deste comércio está ausente nos registos comerciais oficiais do Camboja, que registou apenas 2,77 milhões de toneladas de exportações de areia para Singapura, disfarçando a importância desta mercadoria para o desenvolvimento do país.

As demandas de infraestrutura para habitação e desenvolvimento alimentam o setor do betão, que agora contribui com 8% das emissões globais de dióxido de carbono. Isto significa que a areia, por meio do betão, está associada ao futuro do clima.

Um importante ponto de partida para mobilizar uma agenda de areia é o relatório de governação de areia do PNUMA de 2019, com foco na responsabilidade e transparência nas cadeias de valor da areia.

Mudar a forma como construímos as nossas cidades é outra parte de como enfrentamos as crises de areia e clima. Se não mudarmos os nossos hábitos e incentivarmos o desenvolvimento de “betão verde” e materiais de construção alternativos ou inovações, o mundo construído a partir da areia pode ser derrubado pelo seu próprio peso.

 
 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/procura-areia-alimentar-crise-mundial-323263

RESGATEM O PLANETA, por GEORGE MONBIOT

OBRIGADO A GEORGE MONBIOT E A THE GUARDIAN

 

Bail out the planet, por George Monbiot

Airlines and oil giants are on the brink. No government should offer them a lifeline, The Guardian, 29 de Abril de 2020

Monbiot.com, 1 de Maio de 2020

Selecção e tradução de João Machado

 

Temos a oportunidade de remodelar as nossas economias de modo a conseguir sustentar a vida sobre a Terra. Os governos deviam aproveitá-la.

Não Ressuscita. Esta etiqueta deveria ser presa às companhias de petróleo, aviação e do sector automóvel. Os governos proporcionariam apoio financeiro aos trabalhadores daquelas companhias enquanto a economia estivesse a ser reformulada no sentido de criar novos empregos noutros sectores. Só deveriam ser incentivados sectores que contribuam para a sobrevivência da humanidade e do resto do mundo vivo. As indústrias sujas seriam ou compradas e encaminhadas para tecnologias limpas, ou então encaminhadas para o que muitas vezes reclamam, mas nunca querem: deixar o mercado decidir. Noutras palavras, permitir-lhes que abram falência.

Esta é a nossa segunda grande oportunidade de fazer as coisas de maneira diferente. A primeira, em 2008, foi espectacularmente desperdiçada. Vastas quantidades de dinheiro público foram gastas para reerguer a economia velha e apodrecida, e ao mesmo tempo assegurar que a riqueza continuasse nas mãos dos abastados. Hoje, muitos governos parecem determinados a repetir este erro catastrófico.

O “mercado livre” foi desde sempre um produto da política governamental. Se as leis contra os monopólios são fracas, uns poucos de mastodontes sobrevivem, enquanto todos os demais afundam.  Se as indústrias sujas são submetidas a regras apertadas, as limpas florescem. Se não, os desregrados ganham. Mas nas nações capitalistas as empresas raras vezes têm estado tão dependentes das políticas públicas. Muitas das indústrias mais importantes, para sobreviverem,  estão actualmente inteiramente dependentes do estado. Os governos têm a indústria do petróleo à sua mercê – com centenas de milhões de barris que não conseguem vender – assim como tinham os bancos à sua mercê em 2008. Nessa altura falharam ao não usarem o seu poder para erradicarem as práticas socialmente destrutivas do sector e reconstrui-lo a partir das necessidades humanas. Hoje estão a cometer o mesmo erro.

O Banco de Inglaterra decidiu comprar dívida das companhias petrolíferas como a BP, Shell e Total.  O governo fez um empréstimo de 600 milhões de libras à easyJet, isto apesar de, há poucas semanas, a companhia tenha repartido 171 milhões de libras de dividendos: o lucro é privatizado, o rico socializado. Nos Estados Unidos, o primeiro resgate inclui 25 biliões para as companhias aéreas. O governo absorve tanto petróleo quanto for possível para as reservas estratégicas e corta nas leis contra a poluição, enquanto congela as energias renováveis. Vários países europeus estão a pensar socorrer as suas linhas aéreas e fábricas de automóveis.

Não acreditem quando vos dizem que fazem isto para vos beneficiar. Um inquérito recente da Ipsos, realizado em 14 países, sugere que, em média, 65% das pessoas querem uma recuperação verde. Por todo o lado, os eleitorados têm de se esforçar para persuadir os governos a agirem segundo os interesses do povo, mais do que segundo os interesses das corporações e bilionários que os financiam e fazem lóbis. O desafio democrático permanente é quebrar os laços entre os políticos e os sectores económicos que eles deviam estar a regular, ou, no caso actual, estar a fechar.

Mesmo quando os legisladores procuram levar à prática estas preocupações, os seus esforços são muitas vezes fracos e ingénuos. A carta dirigida há pouco tempo ao governo por um grupo de parlamentares de vários partidos no sentido de as companhias aéreas só serem resgatadas se “desenvolverem mais esforços no sentido de fazer frente à crise climática” podia ter sido escrita em 1990.  O tráfego aéreo é inerentemente poluidor.  Não existem medidas realistas que, mesmo a médio prazo, consigam fazer uma diferença significativa. Sabemos hoje que a compensação que os parlamentares pretendem não faz sentido – todos os sectores económicos têm de maximizar os cortes dos gases de estufa. Mudar esta responsabilidade de um sector para outro não resolve nada. A única reforma significativa é fazer menos voos. Pensar em algo que impeça a contração da indústria de aviação impede a redução dos seus impactos.

A pandemia dá-nos uma ideia de como é muito o que temos de fazer para conseguirmos saltar fora da nossa desastrosa trajectória. As grandes mudanças que temos feito nas nossas vidas deverão levar a um corte nas emissões globais de dióxido de carbono neste ano de apenas 5,5%. Um relatório das Nações Unidas mostra que para se ter uma probabilidade razoável de conseguir evitar um aquecimento global de 1,5º ou mais, temos de cortar as emissões em 7,6% por ano durante a próxima década. Por outras palavras, o confinamento  põe em evidência os limites da acção individual. Viajar menos ajuda, mas não é suficiente. Para se conseguir fazer os cortes necessários, precisamos de uma mudança estrutural. Isto quer dizer uma política estrutural inteiramente nova, criada e guiada pelo governo.

Governos como o do Reino Unido deveriam abandonar os seus planos de construção de estradas. Em vez de expandirem os aeroportos deveriam elaborar planos para reduzirem as faixas horárias. Deveriam implicar-se numa política explícita de deixar os combustíveis fósseis no solo.

Durante a pandemia, muitos de nós começámos a descobrir quantas das nossas viagens foram desnecessárias. A partir daí, os governos podem pensar em elaborar planos para reduzir as necessidades de deslocação, investindo em andar a pé, de bicicleta e – quando o distanciamento físico é menos necessário – transporte público. Isto significa passeios mais largos, melhores pistas para bicicleta, carreiras de autocarro para servirem as pessoas, não para darem lucro. Deveriam investir fortemente na energia verde, e com ainda mais força na redução da procura de energia no isolamento dos lares e em melhor aquecimento e iluminação. A pandemia põe à luz do dia  a necessidade de um melhor planeamento das comunidades de vizinhança, com menos espaço público para os automóveis e mais para as pessoas. Também põe à luz do dia a necessidade que temos de um tipo de segurança que nunca será proporcionado numa economia com poucos impostos e desregulamentada.

Por outras palavras, temos de nos decidir pelo caminho que muita gente já andava a pedir antes de nos cair em cima este desastre: um novo acordo verde. Mas por favor deixemos de pensar nele em termos de um pacote de estímulos. Estimulámos demasiadamente o consumo durante o século passado, e é por isso que agora temos de enfrentar o desastre ambiental. Chamemos-lhe pacote de sobrevivência, cujo objectivo é proporcionar rendimentos, distribuir riqueza e evitar catástrofes, sem alimentar um crescimento económico perpétuo. Resgatem o povo, não as corporações. Resgatem o mundo vivo, não os seus destruidores. Não desperdicemos a nossa segunda oportunidade.

 

http://www.monbiot.com

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Pode ler este artigo no original clicando em:

Bail Out the Planet

E também em:

https://www.theguardian.com/commentisfree/2020/apr/29/airlines-oil-giants-government-economy

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Nota – Traduzimos e publicámos este artigo com a autorização de George Monbiot. Conforme referimos acima, foi publicado no jornal britânico The Guardian em 29 de Abril último.  Não poderá ser republicado na imprensa antes de decorridos 3 meses sobre aquela data. Reproduzimos a seguir a mensagem de George Monbiot:

Dear João,
Many thanks for your email. You’re welcome to translate and republish the article, but please note the conditions below.

Conditions

Please note: if you republish an article in print within 3 months of publication in the Guardian then you will need to get permission from the Guardian as well. Contact link here: https://syndication.theguardian.com/contact-us/.

If it is more than three months since publication or if it will only be published online then you are free to reproduce it with my permission.  Please acknowledge where the article was first published and include a link to Guardian Unlimited www.theguardian.com and www.monbiot.com.

All good wishes, George

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/05/06/resgatem-o-planeta-por-george-monbiot/

Mudanças nos oceanos viram 'dor de cabeça' política e influenciariam as economias, dizem cientistas

Cientistas descobrem fósseis de animais marinhos de águas quentes em regiões oceânicas geladas, indicando mudanças nos oceanos que poderiam afetar a economia mundial.

O clima tem sido bastante estável nos últimos 12 mil anos, desde o fim da Era do Gelo. Tal período é mais conhecido como Holoceno, cuja estabilidade teria propiciado o desenvolvimento da humanidade.

Da mesma forma, as principais correntes marítimas se mantiveram estáveis durante este período, influenciando a vida do plâncton, peixes, aves marinhas e baleias.

Mudanças

Contudo, cada vez mais são observadas mudanças climáticas nos oceanos, de acordo com um estudo feito pela Universidade College de Londres, Reino Unido, e publicado na revista Geophysical Research Letters.

Atualmente, os recifes de corais tropicais estão ficando brancos e começam a morrer, os oceanos se tornam mais ácidos à medida que absorvem o carbono da atmosfera e várias espécies marinhas estão se deslocando em direção aos polos.

Fósseis

Para melhor compreender a situação, os cientistas buscaram evidências das mudanças na circulação oceânica através da identificação de fósseis de animais em regiões fora de seu habitat natural.

A região estudada foi o leito marinho ao sul da Islândia, o qual cobre tanto a era industrial como também os milhares de anos do Holoceno.

A profunda corrente marítima que passa pela região faz com que os sedimentos se acumulem em grandes quantidades.

Ao estudar os fósseis de diferentes épocas, os pesquisadores concluíram que a circulação oceânica no atual Atlântico Norte é diferente do que se viu nos últimos 10 mil anos.

Ao mesmo tempo, notou-se uma redução do número de espécies que formam o plâncton de água fria e o aumento de espécies de águas quentes. Isso significa que o fluxo de águas quentes está substituindo as águas frias e ricas em nutrientes.

Há mais água quente chegando ao Ártico, o que acelera o derretimento do gelo marítimo.

Problemas econômicos

Analisando as consequências diretas que as mudanças podem trazer para a humanidade, Peter T. Spooner, pesquisador e um dos autores do estudo, declarou:

"Cremos que estas mudanças também têm dado lugar a um movimento para norte de espécies de peixes importantes como a sarda, o que já está causando dores de cabeça aos políticos à medida que as diferentes nações competem pelos direitos de pesca."

Apesar da correlação que se faz com as mudanças climáticas, ainda não se sabe o que tem provocado ao certo a mudança das correntes oceânicas, mas parece que o oceano é mais sensível às modernas alterações climáticas do que se pensava anteriormente.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/ciencia_tecnologia/2020050315531976-mudancas-nos-oceanos-viram-dor-de-cabeca-politica-e-influenciariam-as-economias-dizem-cientistas/

Exploração de Lítio em Portugal

O Partido Ecologista Os Verdes considera que o governo deve recusar a celebração de contratos seja de prospeção, pesquisa ou exploração de depósitos minerais, na Argemela.

 

 

Segue comunicado, que publicamos na integra:

 

COVID -19  Não distrai Os Verdes das Pretensões de  Exploração de Lítio em Portugal

A (re) publicação do pedido de contrato de concessão da exploração de lítio e outros minerais na Serra da Argemela levou a que Os Verdes reagissem de imediato e questionassem o Ministério do Ambiente e da Ação Climática no passado dia 15 de abril (pergunta n.º 1777/XIX/1ª).

Da resposta dada pelo Ministério, o Partido Ecologista Os Verdes interpreta que o governo persiste em celebrar o contrato de conceção de exploração de depósitos de minerais antes da realização do Estudo de Impacte Ambiental (EIA) e emissão da respetiva Declaração de Impacte Ambiental. O PEV considera abusiva a atribuição de qualquer nova concessão, seja de prospeção, pesquisa ou exploração, como o caso da Argemela, sem a apresentação de um EIA, prévio pelo interessado e a sua posterior aprovação.

O pedido recentemente republicado, é justificado pela  Direção Geral de Energia e Geologia (DGEG) por entender que não seria conveniente, nem transparente dar seguimento à instrução procedimental do pedido de conceção de exploração de vários depósitos de minerais, nomeadamente de lítio, na Argemela, pela empresa PANNN Consultores Geológicos, sem uma nova audição, devido ao atraso do processo requerido há mais de 3 anos (Aviso n.º 1412/2017, de 17 de janeiro). Este atraso no processo administrativo do instrutório do requerimento, segundo o Governo, resultou de constrangimentos provocados por pedidos de esclarecimentos complementares, por parte do Estado, e com invocações da empresa quanto à opção por exploração experimental ou por concessão de exploração, tendo a empresa optado pela última.

Na resposta à pergunta do PEV, o governo referiu também que com o cumprimento das obrigações contratuais e finalização, a 02 de novembro de 2016, do contrato de prospeção e pesquisa celebrado em 2011, a empresa, de acordo com a Lei n.º 54/2015, ficou com os direitos de exploração de lítio, estanho, tântalo, nióbio, volfrâmio, rubídio, cobre, zinco, ouro, prata, césio, escândio, terras raras e pirites na área designada de Argemela, que abrange as freguesias de Coutada e de Baco (Covilhã) e Silvares e Lavacolhos (Fundão).

Tendo em conta que a empresa já detém os direitos de exploração destes minerais na Serra da Argemela, ao abrigo da Lei 54/2015, direitos que Os Verdes consideram que não devem atribuir-se antes da Avaliação de Impacte Ambiental ( AIA), a (re)publicação, nos termos da justificação da DGEG, parece que vem “atirar areia para os olhos”, e branquear a transparência e participação das populações e entidades, pois torna-se cada vez mais evidente que o contrato de concessão será assinado independentemente das preocupações, reclamações e contestação ao projeto e da existência de um EIA e  respetiva aprovação.

No entanto, embora não sendo referido pelo Ministério do Ambiente e da Ação Climática, pode estar em causa, na verdade, o expirar de alguns prazos, como a caducidade da Proposta de Definição de Âmbito (PDA) e do Estudo de Impacte Ambiental (EIA), no dia 05 de fevereiro de 2020, ou compatibilizar prazos e procedimentos à nova regulamentação da Lei 54/2015, de 22 de junho, que está neste momento a ser objeto de preparação, estando, segundo o Governo, previstas diversas ações que contemplam, entre outras medidas, novas audições e consultas.

É importante referir que, na passada segunda-feira, dia 20 de abril, a empresa PANNN Consultores de Geociências apresentou um Plano de Lavra (Resumo) do projeto mineiro da Argemela, peça de instrução do pedido de Concessão de Exploração.

A resposta do governo, para além, de referir que os prazos da consulta se encontram suspensos, enquanto perdurar o Estado de Emergência, refere ainda que todas a pronúncias ou reclamações fundamentadas derivadas da publicação do Aviso n.º 1412/2017 são analisadas e ponderadas, e que as entidades e os particulares podem voltar a pronunciar-se, quer estes tenham ou não apresentado reclamações em 2017, a resposta ao PEV torna claro que o Secretário de Estado da Energia face à pressão terá  “enrolado e manipulado” a população.

Em plena pré-campanha eleitoral, há um ano, o Secretário de Estado da Energia afirmou que o pedido de exploração experimental na Argemela seria chumbado por falta de EIA, omitindo que a exploração experimental não foi adiante por opção da própria empresa, que preferiu manter o pedido de conceção de exploração dos 403,71 ha para os depósitos de minerais, incluindo lítio.

Face aos impactos que esta exploração terá na qualidade de vida da população, devido à propagação e inalação de poeiras, ruídos, vibrações, entre outros, no ambiente com a destruição da biodiversidade e alteração da paisagem, na saúde pública e no património arqueológico, o Partido Ecologista Os Verdes considera que, o governo deve recusar a celebração de contratos seja de prospeção, pesquisa ou exploração de depósitos minerais, na Argemela, e apresentar um plano, juntamente com os municípios em causa, para a preservação da Serra da Argemela, do seu ecossistema e do seu património cultural e histórico. Estas Recomendações constam do Projeto de Resolução N.º 917/XIII/2ª, de 07 julho, apresentado pelo PEV e aprovado por unanimidade, dando origem à Resolução da Assembleia da República n.º 131/2018.

O Partido Ecologista Os Verdes

 

 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/exploracao-de-litio-em-portugal/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=exploracao-de-litio-em-portugal

Pandemia pode estar causando danos ao meio ambiente

Embora haja menos poluição no mundo, cientistas dão, pelo menos, cinco grandes motivos para preocupação com o meio ambiente, em consequência da pandemia mundial.

 

 

Imagens de lugares com menos poluição têm circulado no mundo, dando uma certa esperança de que a pandemia global do coronavírus esteja, ao menos, nos dando uma perspectiva positiva sobre suas consequências.

Imagem rara da China sem a nuvem de poluentes

Satélites observaram a diminuição de gases tóxicos sobre a China. Em todo o mundo, animais começaram a aparecer em áreas onde não tinham acesso. Os níveis de sujeira e poluição nas águas diminuíram, tornando rios translúcidos.

Mas cientistas alertam que pode não ser bem assim. E dão, pelo menos, cinco grandes motivos para isso.

Apesar da menor circulação de pessoas, da diminuição drástica das viagens, do arrefecimento da economia e da consequente diminuição das emissões de gases do efeito estufa, há pontos que afetam negativamente sobre o clima nessa situação toda.

 

A experiência histórica

Recessão econômica e conflitos armados não tiveram consequências duradouras para o meio ambiente

Primeiro, porque experiências passadas mostraram que essas diminuições pontuais não levaram a mudanças a longo prazo. O mundo já viveu grandes depressões econômicas e conflitos de proporções mundiais. Os efeitos positivos ao meio ambiente não foram duradouros.

 

A produção de resíduos

O uso de máscaras, luvas e outros materiais descartáveis aumentou a produção de lixo urbano

Em segundo lugar, porque já estamos produzindo mais lixo, principalmente hospitalar. Em Wuhan, primeiro epicentro da crise na China, por exemplo, a quantidade de lixo cresceu quatro vezes, para mais de 200 toneladas por dia. Fenómeno parecido ocorreu em outras 20 megalópoles chinesas.

O consumo residencial de alimentos, assim como a produção maior de embalagens para deliveries e serviços postais também lotam as ruas de sacos de lixo.

 

O alto consumo de energia

Terceiro: o consumo de energia nas cidades aumentou muito, porque usamos mais gás e eletricidade ficando em casa. A demanda por entretenimento e alimentação caseira não apenas produz mais lixo, como consome muita energia fóssil, hidrelétrica, termelétrica e nuclear. Países frios usarão muito mais aquecimento com as famílias em casa. Resta saber se o baixo consumo na indústria e serviços está compensado isso.

 

O aquecimento da terra

O quarto ponto é algo que parece contraditório: as partículas de poluição tem seus benefícios porque têm um efeito de escudo contra os raios do Sol. Removê-las pode fazer com que o planeta esquente mais rapidamente.

 

O abandono da agenda ambiental

E, por fim, com o coronavírus, a questão toda do aquecimento global ficou em segundo plano.

No começo de março, o Painel para Mudanças Climáticas da ONU adiou reuniões.

Assim, não está claro que benefícios ambientais podem ficar dessa pandemia, senão que a visão de um mundo diferente nos impulsione para um estilo de vida diferente.


Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado


 

 
 
 
 
 
 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/pandemia-pode-estar-causando-danos-ao-meio-ambiente/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=pandemia-pode-estar-causando-danos-ao-meio-ambiente

O oceano está a passar por uma mudança não vista há 10 mil anos

 

Mudanças na circulação oceânica podem ter causado uma mudança nos ecossistemas do Oceano Atlântico, não observada nos últimos 10.000 anos, revelou uma nova análise dos fósseis do fundo do mar.

 

Esta é a surpreendente conclusão de um novo estudo publicado, este mês, na revista Geophysical Research Letters.  O clima tem estado bastante estável nos últimos 12.000 anos desde o final da última Era Glacial, um período conhecido como Holoceno. Pensa-se que essa estabilidade é o que permitiu à civilização humana realmente avançar.

No oceano, as principais correntes também eram consideradas relativamente estáveis durante o Holoceno. Estas correntes possuem ciclos naturais, que afetam onde os organismos marinhos podem ser encontrados, incluindo plâncton, peixes, aves marinhas e baleias.

No entanto, as alterações climáticas no oceano estão a tornar-se aparentes. Os recifes de coral tropicais estão a ficar brancos, os oceanos a tornar-se mais ácidos à medida que absorvem carbono da atmosfera, e espécies como a cavala estão a mover-se em direção aos polos. Mas ainda parece haver uma visão predominante de que pouco aconteceu no oceano até agora. Nas nossas cabeças, os grandes impactos estão confinados para o futuro.

Para desafiar este ponto de vista, foi necessário procurar lugares onde os fósseis do fundo do mar não apenas cobriam a era industrial em detalhe, mas também onde se estendiam há milhares de anos. Os investigadores encontraram no fundo do mar, ao sul da Islândia, uma grande corrente marítima que faz com que os sedimentos se acumulem em grandes quantidades.

Para conseguir amostras dos fósseis, os cientistas recolheram núcleos do sedimento. O sedimento mais profundo contém os fósseis mais antigos, enquanto o sedimento de superfície contém fósseis que foram depositados nos últimos anos.

Uma das maneiras mais simples de descobrir como era o oceano no passado é contar as diferentes espécies de plâncton fóssil que podem ser encontradas em tais sedimentos. Diferentes espécies gostam de viver em diferentes condições.

Um estudo recente mostrou que as distribuições modernas de foraminíferos são diferentes do início da era industrial. As alterações climáticas já estão claramente a causar impacto.

Da mesma forma, a visão de que as correntes oceânicas modernas são como as dos últimos dois mil anos foi desafiada por um outro estudo de 2018, que mostrou que a circulação estava mais fraca nos últimos 1.500 anos.

Os efeitos da circulação incomum podem ser encontrados no Atlântico Norte. Logo ao sul da Islândia, uma redução no número de espécies de plâncton de água fria e um aumento no número de espécies de água quente mostram que as águas quentes substituíram as águas frias e ricas em nutrientes.

Mais a norte, outras evidências fósseis mostram que mais água quente está a chegar ao Ártico desde o Atlântico, provavelmente contribuindo para oderretimento do gelo do mar.

Mais a oeste, uma desaceleração na circulação significa que as águas não estão a aquecer tanto quanto seria de esperar, enquanto no extremo oeste, as quentes correntes do Golfo parecem estar deslocar-se para o norte, o que terá consequências profundas para importantes pescarias.

Ainda não sabemos o que causou estas transformações na circulação oceânica. Mas parece que o oceano é mais sensível às alterações climáticas modernas do que se pensava anteriormente, e teremos que nos adaptar.

 
 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/oceano-esta-passar-mudanca-nao-vista-ha-10-mil-anos-321712

Ecofascismo em tempo de Coronavirus

 
Asistimos a una creciente proliferación de teorías ecofascistas y eugenésicas, que cuentan con todo el apoyo de los grandes medios, puesto que son un arma importante en la guerra contra la capacidad de comprensión de la realidad, que constantemente adelanta la clase dominante contra la clase explotada. La guerra de alienación, de colonización de las mentes, es un elemento fundamental para el mantenimiento de la actual situación de profunda injusticia social y depredación contra la humanidad y el planeta. Por ello es repetida al infinito la anti-científica premisa según la cual «el humano es malo por naturaleza», el constante mantra mediatizado en todos los formatos de: «los humanos somos la peste».
 
En vez de señalar la responsabilidad del sistema socio-económico capitalista en la depredación y devastación de la naturaleza, el ecofascismo promovido por la burguesía sale a confundir para que no se identifiquen las responsabilidades concretas de tanta barbarie.Las teorías malthusianas según las cuales es mediante la eliminación de tantos humanos como sea posible, que se “salvará” el planeta, han sido abundantemente promovidas, y están hoy relacionadas con el imperialismo más racista, neocolonial y depredador, con multinacionales minero-energéticas e incluso del complejo militar-industrial, a menudo parapetadas detrás de sus fundaciones con rotulación “ecológica” (en un cinismo llevado a la máxima potencia).  Las teorías eugenésicas y otras ponzoñas pretenden suplantar la toma de consciencia sobre la realidad que nos aqueja.
La “peste” para el planeta NO son los millones de campesinos e indígenas despojados por el agroindustrial y las multinacionales extractivas, tampoco lo somos las y los trabajadores, la clase explotada en un modelo productivo aberrante que succiona nuestras vidas y hasta envenena la comida. La peste es la clase explotadora y su sistema criminal en el que un puñado acumula fortunas sobre la explotación de la clase trabajadora y sobre el saqueo del planeta. La peste es el capitalismo, sistema en el que hasta la salud es concebida como una mera “mercancía”, con las catastróficas consecuencias que podemos apreciar en nuestras propias carnes.
 
La peste es un sistema que promueve (a través de los medios masivos propiedad de grandes capitalistas) el tele-guiado consumo parasitario; un sistema que permite el crimen de la Obsolescencia Programada (envejecimiento prematuro de las cosas programado desde su misma producción, para obligar a comprar otras). La Dictadura del Capital impone la aberración que le sea necesaria para acumular fortunas, así sea convirtiendo al planeta en un basural.
 
La peste es un sistema en el que los medios de producción están en manos privadas y no en manos colectivas: si estuvieran en manos colectivas seríamos las y los trabajadores los que decidiríamos qué fabricar y cómo hacerlo, y primaría el bien de la colectividad y no el lucro de unos cuantos. Trabajaríamos en mejores condiciones y durante menos tiempo, y nos quedaría tiempo para vivir en plenitud, para estudiar y crecer emocionalmente e intelectualmente, nadie sería excluido de condiciones de vida dignas. La tecnología sería puesta al servicio de nuestra emancipación y no de nuestro sometimiento. La investigación científica se dedicaría a buscar curas para las enfermedades y no a la patraña criminal de la Obsolescencia Programada o al desarrollo de armas. La investigación científica no estaría supeditada a la voluntad de multinacionales, que impiden que salgan a la luz ciertos medicamentos que no estiman “rentables”, porque su finalidad es lucrarse sobre el sufrimiento de millones de personas. 
 
Si los medios de producción estuvieran en manos de la colectividad, la salud, la educación, la vivienda, la cultura, la armonía metabólica con nuestra madre Naturaleza, serían derechos universales efectivos, y no fuentes de lucro para un puñado, no privilegios como lo son, en los hechos, en el capitalismo. Construiríamos (por ejemplo) respiradores artificiales en suficiencia y no armas. Pero en el capitalismo las armas le son indispensables a los Estados burgueses para pertrechar a las fuerzas represivas y así reprimir la protesta social contra tanta injusticia, también le son necesarias a la burguesía para desatar sus guerras imperialistas por codicia. En el capitalismo escasean hospitales, médicos, personal sanitario, insumos, tests, equipos de protección anti-contagio, mientras que abundan fuerzas represivas hyper equipadas para reprimir y someter. Si la clase trabajadora tuviera los medios de producción, ninguna epidemia se llevaría por delante tantísimas vidas, porque decidiríamos que la sanidad es lo prioritario. Pero padecemos un sistema capitalista que todavía nos toca abolir.
 
 
El capitalismo depreda a la naturaleza y al ser humano, degradando las relaciones, normalizando la explotación, erosionando la capacidad de empatía al punto de concebir todo como “desechable”. La peste es este sistema que promueve racismo, machismo, xenofobia, individualismo, hedonismo y todo paradigma de opresión y sumisión que le es funcional a la burguesía para dividir a la clase explotada y así perpetuar la opresión de la misma. La peste es un sistema basado en la explotación, que banaliza hasta la tortura para que las prácticas que lo sustentan sean percibidas como “normales”.
 
La peste es un sistema que desata guerras imperialistas para que el capitalismo transnacional saquee los recursos de los países invadidos, provocando destrucción, muerte, éxodos poblacionales dantescos… lo que sea para agigantar los bolsillos de un puñado de criminales capitalistas. El capital viene al mundo chorreando sangre y lodo por todos los poros”[1], escribía un señor barbudo que hasta hoy buscan proscribir las burguesías, debido a su lúcida inteligencia puesta al servicio de la emancipación de los pueblos. “El descubrimiento de los yacimientos de oro y plata de América, el exterminio, la esclavización y el sepultamiento en las minas de la población aborigen, el comienzo de la conquista y el saqueo de las Indias Orientales, la conversión del continente africano en cazadero de esclavos negros: tales son los hechos que señalan los albores de la era de producción capitalista.”, escribía Marx acerca de la acumulación capitalista originaria [Ibíd.]. Sobre genocidio y despojo, sobre la barbarie de la colonización, fueron acumuladas gigantescas fortunas por la élite aristócrata y burguesa europea, a la vez que fue consolidada la burguesía esclavista en las colonias poblacionales como Estados Unidos. En la actualidad, entre las mayores fortunas del planeta se siguen encontrando los descendientes de los buitres mayúsculos de la Historia colonial, que se juntan a buitres de raigambre más reciente para proseguir el saqueo. 
 
 
El capitalismo transnacional prosigue hoy el saqueo de África, Asia y América Latina, causando genocidios y ecocidios, empobreciendo a millones de personas… Luego crea fortalezas en torno al botín saqueado por las metrópolis capitalistas (como la Unión Europea o Estados Unidos): el imperialismo quiere succionar las riquezas, pero rechaza a las personas desposeídas por su rapiña, forzándolas a trayectos migratorios de espanto y a padecer esclavitud moderna si logran llegar. Mujeres y hombres originarios de la periferia capitalista son arrinconados, por causa de unas leyes de inmigración que vulneran los derechos humanos, a padecer las peores explotaciones en los países del centro capitalista, como trabajar a destajo en el agro industrial en condiciones laborales y de vivienda infrahumanas, o como verse abocadas (en el caso de las mujeres) a la explotación aberrante que es la prostitución. Es el saqueo de los cuerpos humanos, concatenado al saqueo capitalista de los territorios. Es el funcionamiento de un sistema criminal heredero de una Historia colonial y cuyo presente es la continuidad sangrante de un sistema de clases, en el que un puñado de multimillonarios agigantan sus fortunas en base a la explotación de la clase trabajadora y al saqueo de la naturaleza.
 
La peste son los bancos y organismos usureros que cobran eternas deudas espurias a decenas de países; tan espurias como son las aberrantes “deudas” para “compensarle” a los colonizadores las “pérdidas” de sus colonias [2]. La peste son las multinacionales que envenenan ríos y destruyen ecosistemas, que se apropian fuentes de agua y cometen genocidio contra los pueblos (como las multinacionales BHP Billiton, Glencore y Anglo American que están exterminando al pueblo Wayú en Colombia… Por dar un ejemplo de miles). La peste son esas transnacionales que arrasan selvas y hacen estallar montañas enteras, transformando en muerte los verdes valles de decenas de países.
 
 
 
Es superficial y poco analítico declarar “la peste somos todos los humanos”, sin hacer distinciones de clases sociales, sin evidenciar la responsabilidad sistémica de la depredación de la naturaleza, sin identificar como responsables mayúsculas a las multinacionales que ordenan el arrasamiento de poblaciones enteras mediante masacres atroces con la finalidad de saquear los recursos (masacres que perpetran las herramientas militares y paramilitares de Estados funcionales al saqueo capitalista); es poco analítico no ponderar el carácterinducido (por la propaganda constante) del delirante comportamiento sobre-consumista. Es cegato, o malintencionado, no discernir siquiera cuestiones geopolíticas… y sin embargo las cifras hablan: si todos los habitantes del planeta consumieran como un estadounidense promedio, se necesitarían 5 planetas Tierra [3]. Entre Estados Unidos y la Unión Europea consumen el 50% de los recursos del planeta, pese a que tan solo representan el 12% de la población mundial [4]. Se observa nítidamente que el sobreconsumo de los recursos por parte de una minoría afecta a todo el planeta. Estados Unidos, Europa, Australia y Japón encabezan las regiones que mayor impacto ecológico (por habitante) le causan al planeta, debido al frenético consumismo al que es teledirigida su población. El consumo compulsivopretende inútilmente ser “compensatorio” del vacío y las frustraciones que el mismo sistema genera. Andrew Collier expresaba: “Observar a la gente en una sociedad capitalista y concluir que la naturaleza humana es egoísta, es como observar a la gente en una fábrica donde la polución está destruyendo sus pulmones y concluir que la naturaleza humana es toser”. Vemos cómo los niveles de alienación y degradación del ser humano, inherentes al sistema socio-económico depredador bajo el que vive, son cada vez más brutales. Asimismo, es cada día más brutal la depredación de los ecosistemas (y lo es pese a los paños de agua tibia que supuestamente pretenden evitarla, sin cuestionar al sistema de raíz)La depredación de la Naturaleza, la desaparición de ecosistemas y especies e incluso la proliferación a nivel pandémico de enfermedades zoonóticas son inherentes a la lógica y modelo productivo del capitalismo. 
 
“La producción capitalista distorsiona la interacción metabólica entre el ser humano y la tierra”[5]. La “fractura metabólica” causada por este sistema, entre la madre naturaleza y sus hijos humanos, es aberrante: “El hecho de que la vida física y espiritual del ser humano dependa de la naturaleza no significa otra cosa sino que la naturaleza se relaciona consigo misma, ya que el humano es una parte de ella.” escribía Marx. Y enfatizaba: “El capitalismo tiende a destruir sus dos fuentes de riqueza: la naturaleza y el ser humano”[6].
 
 
No, la “peste” no somos “los humanos”, así en abstracto y sin analizar las relaciones de producción, la geopolítica y la existencia de clases sociales en este sistema. Ese tipo de planteamientos que meten en un mismo saco a opresores y oprimidos, solamente buscan perpetuar esta barbarie. Frente al ecofascismo que promueve la burguesía, con sus teorías eugenésicas, su línea de “todos-los-seres-humanos-somos-malos” que pretende borrar las responsabilidades concretas de la clase opresora, con sus personajes hyper-mediatizados financiados por grandes multinacionales depredadoras, los pueblos alzamos la ecología que hemos alzado siempre (muchas veces incluso sin siquiera etiquetarla como tal): la ecología con conciencia de clase, la de Berta Cáceres y Chico Méndes, la de tantos militantes por la naturaleza y la justicia social, siempre en lucha contra la depredación capitalista… la de los miles que han sido asesinados por la herramienta sicarial de las transnacionales y de los miles y miles que siguen en primera línea de lucha.
Desde la clase explotada, alzando la consciencia de clase y el amor a la Tierra, somos naturaleza en lucha para tumbar a la clase explotadora y su sistema criminal.
NOTAS:
[1] Marx, El Capital, Capítulo XXIV, Acumulación Originaria
La Banque mondiale est directement impliquée dans certaines dettes coloniales, puisqu’au cours des années 1950 et 60, elle a octroyé des prêts aux puissances coloniales pour des projets permettant aux métropoles de maximiser leur exploitation de leurs colonies. Les dettes contractées auprès de la Banque par les autorités belges, anglaises et françaises pour leurs colonies ont ensuite été transférées aux pays qui accédaient à leur indépendance sans leur consentement”.
[3] Estados Unidos consumen el 30 % de los recursos mundiales, a pesar de que representan solo el 5 % de la población mundial. www.chicagotribune.com/hoyla-diadelatierra-los-10-paises-que-generan-mas-basura-en-el-mundo-20190422-story.html
5 % de la población mundial, los estadounidenses, producen tres veces más desechos que los chinos y siete más que los etíopes.www.lavozdegalicia.es/noticia/mercados/2019/09/29/humanidad-devora-tierra/0003_201909SM29P2991.htm
[4] La huella ecológica de la UE es equivalente a 2,8 planetas Tierra. La Unión Europea utiliza el 20% de los recursos naturales mundiales, pese a que demográficamente sólo representa el 7% de la población global. WWF y Global Footprint Network, informe “Vivir por encima de los límites de la naturaleza en el mundo” www.awsassets.wwf.es/downloads/wwf_overshoot_europa_esp_.pdf
[5] Concepto de la “fractura metabólica” de Marx, central para una crítica integral al capitalismo: (La producción capitalista) distorsiona la interacción metabólica entre el ser humano y la tierra. (…) La propiedad de la tierra a gran escala reduce la población agrícola a un mínimo constantemente decreciente, confrontado con un constante crecimiento de la población industrial conglomerada; de esta manera, produce las condiciones que provocan una fractura en el proceso interdependiente entre el metabolismo social y el natural.”. Para Marx: El hecho de que la vida física y espiritual del ser humano dependa de la naturaleza no significa otra cosa sino que la naturaleza se relaciona consigo misma, ya que el humano es una parte de ella.” (Marx, Manuscritos Económico-filosóficos, 1844): https://n9.cl/6s8d
[6] La industria a gran escala y la agricultura industrial van de la mano. Si ellas están originariamente distinguidas por el hecho de que la primera deja residuos y arruina a la fuerza de trabajo, y así la potencia natural del ser humano; mientras que la segunda hace lo mismo a la fuerza natural del suelo, ellas terminan vinculándose dado que el sistema industrial aplicado a la agricultura acaba por debilitar a los trabajadores, mientras que la industria provee a la agricultura con los medios para el agotamiento del suelo” (Marx). “Todo progreso de la agricultura capitalista no es solo un progreso en el arte de esquilmar al obrero, sino a la vez en el arte de esquilmar el suelo; todo avance en el acrecentamiento de la fertilidad de un periodo dado, es un avance en el agotamiento de las fuentes duraderas de esa fertilidad […] La producción capitalista sólo sabe desarrollar la técnica y la combinación del proceso social de producción socavando al mismo tiempo las dos fuentes originales de toda riqueza: la tierra y el humano” (Marx, primer tomo de “El Capital”)
 

 

 
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Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/04/23/ecofascismo-em-tempo-de-coronavirus/

UM VÍRUS, A HUMANIDADE E A TERRA

 
 
Um pequeno vírus pode ajudar-nos a dar um grande passo à frente para fundar uma nova civilização planetária ecologista, baseada na harmonia com a natureza. Ou, então, podemos continuar vivendo a fantasia do domínio sobre o planeta e continuar avançando até à próxima pandemia. E, por último, até a extinção", escreve Vandana Shiva, física, ecofeminista, ativista ambiental, defensora da soberania alimentar e fundadora do Movimento Navdanya, em artigo publicado por El Salto, 11-04-2020. A tradução é do Cepat.
 
Vandana Shiva*
 
Um pequeno vírus confinou o mundo, parou a economia global, levou embora a vida de milhares e o sustento de milhões de pessoas. Que lições podemos aprender, graças ao coronavírus, sobre a nossa espécie humana, os paradigmas económicos e tecnológicos dominantes e a terra?
 
A primeira coisa é que o confinamento nos recorda é que a terra é para todas as espécies e que quando abrimos espaço e liberamos as ruas de carros, a poluição se reduz. Os elefantes podem ter acesso às áreas residenciais de Dehradun e se banhar no Ganges, no ghat de Har Ki Pauri, em Haridwar. Um leopardo vagueia livremente em Chandigarh, a cidade projetada por Le Corbusier.
 
 A segunda lição é que esta pandemia não é um desastre natural, assim como os fenómenos climáticos extremos também não são. As epidemias emergentes, assim como a mudança climática, são antropogénicas, ou seja, causadas pelas atividades humanas.
 
Os cientistas nos avisam que ao invadir os ecossistemas florestais, destruir os habitats de muitas espécies e manipular as plantas e os animais para obter lucro económico, fomentamos o surgimento de novas doenças. Ao longo dos últimos 50 anos, apareceram 300 novos patógenos. Está escancaradamente documentado que 70% dos patógenos que afetam o ser humano, entre os quais estão o HIV, o ebola, a gripe, a síndrome respiratória do Oriente Médio (MERS, na sigla em inglês) e a síndrome respiratória aguda grave (SARS, na sigla em inglês) surgem quando os ecossistemas florestais são invadidos e os vírus se transferem de animais para pessoas. Quando se amontoam animais em fazendas industriais para maximizar os lucros, afloram novas doenças como a gripe suína e a aviária.
 
A avareza humana, que não respeita os direitos de outras espécies, nem os direitos dos membros de nossa mesma espécie, é a raiz desta pandemia e das pandemias que a seguirão. Uma economia global baseada na ilusão do crescimento ilimitado se traduz em um apetite insaciável pelos recursos planetários, o que, como consequência, se traduz em uma ilimitada transgressão dos limites do planeta, dos ecossistemas e das espécies.
 
 
 A terceira lição que o vírus nos ensina é que a emergência sanitária está relacionada com a emergência da extinção massiva de espécies. Também com a emergência climática. Ao se utilizar venenos como inseticidas e herbicidas para matar insetos e plantas é inevitável provocar uma crise de extinção. Ao queimar combustíveis que a terra fossilizou há 600 milhões de anos, transgredimos os limites planetários. A consequência é a mudança climática.
 
Os prognósticos dos cientistas estabelecem que se não frearmos esta guerra antropogénica contra a terra e as espécies que a habitam, em cem anos teremos destruído as condições que permitem aos humanos viver e prosperar. Nossa extinção será uma a mais entre as 200 que ocorrem diariamente. Iremos nos converter em uma espécie em risco de extinção pela avareza, arrogância e irresponsabilidade humanas.
 
Todas as emergências que na atualidade colocam em risco vidas têm sua origem na visão mecanicista, militarista e antropogénica dos humanos como seres à margem da natureza, como amos e senhores da terra que podem dominar, manipular e controlar outras espécies como fontes de lucro. Também têm sua origem em um modelo económico que considera os limites ecológicos e éticos como obstáculos que devem ser superados para aumentar o crescimento dos lucros empresariais.
 
Nesse modelo, não cabem os direitos da Mãe Terra, os direitos de outras espécies, os direitos humanos, nem os das gerações futuras. Durante esta crise e a recuperação após o confinamento, precisamos aprender a proteger a terra, seu clima, os direitos e os habitats das diferentes espécies, os direitos dos povos indígenas, das mulheres, dos agricultores e agricultoras e dos trabalhadores e trabalhadoras.
 
Temos que romper com a economia do lucro e o crescimento ilimitado que nos levou a uma crise de sobrevivência. Temos que aprender de uma vez por todas que somos membros da família planetária e que a verdadeira economia é a economia dos cuidados: o cuidado do planeta e o cuidado mútuo.
 
Para prevenir futuras pandemias, carestias e a perspectiva de nos tornarmos sociedades em que a vida humana não tenha valor, temos que romper com o sistema económico global que está gerando a mudança climática, a extinção de muitas espécies e a propagação de doenças mortais. O retorno ao local abre espaço para que as diferentes espécies, as diferentes culturas e as variadas economias locais se desenvolvam.
 
Temos que reduzir de maneira consciente nossa pegada ecológica para deixar recursos e espaço disponíveis para outras espécies, para o restante dos seres humanos e para as gerações futuras. A emergência sanitária e o confinamento demonstraram que quando há vontade política, é possível reverter o processo de globalização. Façamos com que esta reversão seja permanente e voltemos à produção local e de proximidade, em consonância com os princípios do swadeshi (autossuficiência) que Gandhi promulgava, ou seja, o restabelecimento da económica doméstica.
 
Nossa experiência no [movimento] Navdanya nos ensinou, ao longo de três décadas, que os sistemas de produção de policultivos locais e ecológicos são capazes de prover alimento à população sem empobrecer o solo, poluir a água e danificar a biodiversidade.
 
A riqueza da biodiversidade são as matas, os cultivos, os alimentos que consumimos, a microbiota intestinal, um fio condutor que comunica o planeta e suas diferentes espécies, também os seres humanos, por meio da saúde, não da doença.
 
Um pequeno vírus pode nos ajudar a dar um grande passo à frente para fundar uma nova civilização planetária ecologista, baseada na harmonia com a natureza. Ou, então, podemos continuar vivendo a fantasia do domínio sobre o planeta e continuar avançando até a próxima pandemia. E, por último, até a extinção.
 
A terra seguirá, connosco ou sem nós.
 
*Fonte: IHU On Line | Publicado em Pravda.ru
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/04/um-virus-humanidade-e-terra.html

O CORONAVÍRUS: A AUTO-DEFESA DA PRÓPRIA TERRA – por LEONARDO BOFF

 

leonardoboff.com, 23 de Março de 2020

 

A pandemia do coronavírus nos revela que o modo como habitamos a Casa Comum é nocivo à sua natureza. A lição que nos transmite soa: é imperioso reformatar nossa forma de viver sobre ela, enquanto planeta vivo. Ela nos está alertando que assim como estamos nos comportando não podemos continuar. Caso contrário a própria Terra irá se livrar de nós, seres excessivamente agressivos e  maléficos ao sistema-vida.

Nesse momento, face ao fato de estarmos no meio da primeira guerra global, é importante conscientizar nossa relação para com ela e a responsabilidade que temos pelo destino comum Terra viva-Humanidade.

Acompanhem-me neste raciocínio: o universo existe já há 13,7 bilhões de anos. A Terra há 4,4 bilhões. A vida há 3,8 bilhões. O ser humano há 7-8 milhões. Nós, o homo sapiens/demens atual há 100 mil anos. Todos somos formados com os mesmos elementos físico-químicos (cerca de 100) que se formaram, como numa fornalha, no interior das grandes estrelas vermelhas, por 2-3 bilhões de anos (portanto há 10-12 bilhões de anos): o universo, a Terra e nós mesmos.

A vida, provavelmente, irrompeu a partir de uma bactéria originária, mãe de todos os viventes. Acompanhou-a um número inimaginável de micro-organismos. Diz-nos Edward O.Wilson, talvez o maior biólogo vivo: só num grama de terra vivem cerca de 10 bilhões de bactérias de até 6 mil espécies diferentes (A criação: como salvar a vida na Terra, 2008, p. 26). Imaginemos a quantidade incontável desses micro-organismos, em toda a Terra, sendo que somente 5% da é visível e 95%, invisível: o reino das bactérias, fungos e vírus.

Acompanhem-me ainda: hoje é tido como um dado científico, depois de 2002, quando James Lovelock e sua equipe demonstraram perante uma comunidade científica de milhares de cientistas na Holanda, que a Terra não só possui vida sobre ela. Ela mesma é viva. Emerge como um Ente vivo, não no sentido de um organismo ou um animal, senão de um sistema que regula os elementos físico-químicos e ecológicos, como fazem os demais organismos vivos, de tal forma que se mantém vivo e continua a produzir uma miríade de formas de vida. Chamaram-na de Gaia.

Outro dado que muda nossa percepção da realidade. Na perspectiva dos astronautas seja da Lua seja das naves espaciais, assim testemunharam muitos deles, não vigora uma distinção entre Terra e Humanidade. Ambos formam uma única e complexa entidade. Conseguiu-se fazer uma foto da Terra, antes de ela penetrar no espaço sideral, fora do sistema solar: aí ela aparece, no dizer do cosmólogo Carl Sagan, apenas como ”um pálido ponto azul”. Pois, nós estamos dentro deste pálido ponto azul, como aquela porção dela, que num momento de alta complexidade, começou a sentir, a pensar, a amar e a perceber-se parte de um Todo maior. Portanto, nós, homens e mulheres, somos Terra, somos húmus (terra fértil), o Adam bíblico (terra arável) inteligente e amante.

Ocorre que nós, esquecendo que somos uma porção da própria Terra, começamos a saquear suas riquezas no solo, no subsolo, no ar, no mar e em todas as partes. Buscava-se realizar um projeto ousado de acumular o mais possível bens materiais para o desfrute humano, na verdade, para a sub-porção poderosa e já rica da humanidade. Em função desse propósito se criou a ciência e a técnica. Atacando a Terra, atacamos a nós mesmos que somos Terra. Levou-se tão longe a cobiça deste grupo pequeno de gente, que ela atualmente se sente exaurida a ponto de terem sido tocados seus limites intransponíveis. É o que chamamos tecnicamente de a Sobrecarga da Terra (the Earth overshoot). Tiramos dela mais do que pode dar. Ela não consegue repor o que lhe subtraímos. Então dá sinais de que adoeceu, perdeu seu equilíbrio dinâmico, aquecendo-se de forma crescente, formando tufões e tsunamis, nevascas nunca dantes vistas, estiagens prolongadas e inundações aterradoras. Mais ainda: liberou micro-organismos como o sars, o ebola, o dengue, a chikungunya e agora o coronavírus. São formas das mais primitivas de vida, quase no nível de nanopartículas, só detectáveis sob potentes microscópios eletrônicos. E podem dizimar o ser mais complexo que ela produziu e que é parte de si mesma, o ser humano, homem e mulher, pouco importa seu nível social.

Até agora o coronavírus não pôde ser destruído, apenas impedido de se propagar. Mas está ai produzindo uma desestabilização geral na sociedade, na economia, na política, na saúde, nos costumes, na escala de valores estabelecidos.

De repente, acordamos, assustados e perplexos: esta porção da Terra que somos nós pode desaparecer. Em outras palavras, a própria Terra se defende contra a parte rebelada e doentia dela mesma. Pode sentir-se obrigada a fazer uma ablação, como fazemos de uma perna necrosada. Só que desta vez, é toda esta porção tida por inteligente e amante, que a Terra não quer mais que lhe pertença e acabe eliminando-a.

E assim será o fim desta espécie de vida que, com sua singularidade, é uma entre milhões de outras existentes, também partes da Terra. Esta continuará girando ao redor do sol, empobrecida, até que ela faça surgir um outro ser que também é expressão dela, capaz de sensibilidade, de inteligência e de amor. Novamente se irá percorrer um longo caminho de moldagem da Casa Comum, com outras formas de convivência, esperamos, melhores que aquela que nós moldamos.

Seremos capazes de captar o sinal que o coronavírus nos está passando ou continuaremos com o mesmo propósito letal, ferindo a Terra e nos auto-ferindo para acumular irracionalmente bens materiais?

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/04/11/o-coronavirus-a-auto-defesa-da-propria-terra-por-leonardo-boff/

Poluir com impunidade. Trump suspende leis antipoluição nos EUA

 

 

A administração Trump acaba de autorizar empresas a quebrar as leis antipoluição durante a pandemia do Coronavirus. Companhias não sofrerão qualquer sanção por poluir o ar e a água.

Por: Oliver Milman e Emily Holden

A Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) suspendeu a aplicação das leis ambientais durante o atual surto de Coronavirus, sinalizando às empresas que elas não enfrentarão nenhuma sanção por poluir o ar ou a água dos americanos.

Em uma ação extraordinária que surpreendeu ex-funcionários da EPA, o governo Trump disse que não esperará o cumprimento do monitoramento e dos relatórios de rotina da poluição e não adotará penalidades pela violação dessas regras.

Os poluidores poderão ignorar as leis ambientais enquanto puderem reivindicar, de alguma forma, que essas violações foram causadas pela pandemia de Covid-19. No caso de uma ameaça iminente à saúde pública, a EPA irá transferir as investigações para os estados e “considerar as circunstâncias” sobre se deve ou não intervir.

Não há data final definida para essa retirada da aplicação.

 
Águas poluídas

 

Existe preocupação sobretudo com a poluição do ar e da água emitida por instalações industriais, localizadas em comunidades com um grande número de pessoas de baixa renda e pessoas de cor.

Andrew Wheeler, administrador da EPA, disse que o Coronavirus tornou difícil para as empresas proteger os trabalhadores e o público, ao mesmo tempo em que seguia as regras do ar e da água limpos.

 

“Esta política temporária é projetada para fornecer discrição de aplicação sob as atuais condições extraordinárias, enquanto garante que as operações da instalação continuem protegendo a saúde humana e o meio ambiente”, disse Wheeler.

A nova postura causou alvoroço entre ex-funcionários da EPA e grupos ambientais que alertam que a varredura representará um risco adicional à saúde pública em meio à pandemia.

Memorando é uma abdicação da responsabilidade da EPA

“A EPA nunca deveria renunciar ao seu direito e à sua obrigação de agir imediata e decisivamente quando houver ameaça à saúde pública, não importa qual seja o motivo”, disse Cynthia Giles, diretora executiva da EPA durante o governo Obama. “Não conheço nenhum caso em que a EPA tenha renunciado a essa autoridade fundamental, como neste memorando. Este memorando equivale a uma moratória em todo o país sobre a aplicação das leis ambientais do país e é uma abdicação da responsabilidade da EPA de proteger o público”. Uma carta enviada à EPA por Giles e vários outros defensores do meio ambiente declara que, embora possa ser “razoável em circunstâncias limitadas” relaxar certas aplicações durante a crise, a renúncia geral aos requisitos ambientais representa um perigo para o público americano.

Existe uma preocupação particular com a poluição do ar emitida por instalações industriais, localizadas predominantemente em comunidades com um grande número de pessoas de baixa renda e pessoas de cor. O Covid-19 ataca o sistema respiratório, com sua disseminação, fazendo com que os estados lutem por mais ventiladores para impedir que milhares de pessoas infectadas morram. A poluição do ar que as instalações industriais não terão que monitorar danifica o sistema respiratório, o que é especialmente perigoso para populações já em risco que também podem ser infectadas pelo Covid-19, que ataca os pulmões. “Desculpar a liberação potencial de excesso de poluentes tóxicos do ar e outras poluições que exacerbam a asma, as dificuldades respiratórias e problemas cardiovasculares em meio a uma pandemia que pode causar insuficiência respiratória é irresponsável do ponto de vista da saúde pública”, afirma a carta.

Dez refinarias já ultrapassaram os limites da lei

“Não se trata de simples exame de relatórios e de documentos”, disse Eric Schaeffer, diretor executivo do Environmental Integrity Project. “Se você está voando às cegas porque não está monitorando a poluição e o público está cego porque não as denuncia, muitos problemas que surgem quando você faz essas coisas ficam escondidos”, completou Schaeffer.

Trump e chaminés poluidoras

 

Por exemplo, as refinarias de petróleo não serão obrigadas a relatar e reduzir suas emissões carcinogênicas de benzeno. Dez refinarias, a maioria delas no Texas, já ultrapassaram largamente os limites.

O relaxamento das leis ambientais segue o lobby do Instituto Americano de Petróleo, um grupo da indústria de petróleo e gás, que enviou à EPA uma carta nesta semana pedindo a suspensão das regras que exigem reparo de equipamentos com vazamentos e monitoramento da poluição.

A decisão da EPA vai ainda mais longe do que essa solicitação, embora o regulador tenha dito que espera que as empresas cumpram as leis “onde for razoavelmente possível” e que não tolerará violações flagrantes e intencionais da lei.

No entanto, Michael Brune, diretor executivo do Sierra Club, indicou que a mudança pode ser contestada nos tribunais. “Embora pareça e possa não haver limites para as reverências que Trump e Wheeler estão dispostos a fazer para os poluidores corporativos, há um limite para o que o público permitirá”, disse Brune. “Esta ação ilegal e imprudente não será desmarcada.”

China pede maiores esforços de florestação

Escavadoras no local de projeto de florestação em Caigongtang no distrito de Chengguan, em Lhasa, capital da Região Autônoma do Tibet, sudoeste da China, em 15 de março de 2020. (Xinhua/Zhang Rufeng)

Beijing, 24 mar (Xinhua) -- A China pediu maiores esforços de florestação em meio ao surto da doença de novo coronavírus (COVID-19) para garantir que as metas de florestação sejam cumpridas este ano, de acordo com uma circular publicada pelo Gabinete Geral do Conselho de Estado.

Promover a florestação de uma maneira ativa e ordenada é uma parte importante para construir uma sociedade moderadamente próspera em todos os aspectos e realizar as metas de desenvolvimento econômico e social do 13º Plano Quinquenal. Também é uma medida importante para estimular o emprego e a renda dos mais pobres e vencer a batalha contra a pobreza, disse a circular.

As regiões com um baixo risco da epidemia da COVID-19 devem acelerar a florestação e as de risco médio devem dessincronizar as horas de trabalho para promover a florestação de um modo seguro e ordenado.

A circular pediu esforços para organizar os agricultores pobres a assumir mais trabalhos de florestação local a fim de elevar suas rendas e ajudar a erradicar a pobreza.

Ela exigiu que as autoridades locais ajustem os planos de florestação em uma maneira oportuna, façam disposições razoáveis baseadas em diferentes estações e garantam os fornecimentos suficientes de mudas.

A circular enfatizou mais esforços para implementar de forma flexível as atividades de plantação de árvore voluntária e promover a ecologização de agências governamentais, escolas, comunidades, quartéis, áreas de fábrica e de mineração, entre outros.

As autoridades em todo o país devem também melhorar a qualidade de florestação e proteger os êxitos atuais e fazer mais esforços na prevenção e controle de pestes como mariposas brancas americanas e gafanhotos do deserto, segundo a circular.

 

Ver original em "XINHUA Português" na ligação seguinte:

http://portuguese.xinhuanet.com/2020-03/24/c_138911189.htm

INDIGNAÇÃO. Rotura espalha dejetos para a rua desde há um mês

Este domingo os dejetos continuavam a correr para a via pública a poucos metros do parque entretanto selado
Por Redação
23 março 2020
Desde há cerca de um mês que dejetos domésticos correm na via pública, devido a uma rotura “em canalização de saneamento”, na rua de Malange, no Junqueiro, em Carcavelos.
A denúncia é feita a Cascais24 por uma moradora, Amélia Bonda, a qual, indignada, à semelhança de outros moradores, lamenta a falta de intervenção das entidades competentes.
“Constitui um autêntico atentado à saúde pública", acrescenta.
A rotura, no túnel da rua de Malange, entre os edifícios números 126 e 138, verifica-se a poucos metros do parque Baden Powell, cujos equipamentos desportivos foram selados há dias pela empresa municipal Cascais Ambiente, devido ao Covid19.
 
 

Ver o original em "CASCAIS24" na seguinte ligação::

https://www.cascais24.pt/p/blog-page_9815.html

E ouvem-se novamente os pássaros

De vez em quando recordo Albert Memmi, autor da frase lapidar segundo a qual o desesperado, ao não ter outra possibilidade, ri. Por isso constata que um dos sítios onde se contaram mais anedotas foi no gueto de Varsóvia, durante o cerco nazi. O exemplo serve para dar substância ao que disse um outro grande poeta, Paul Éluard, autor dos iluminados versos:au bout du chagrin/ une fenêtre ouverte,/ une fenêtre éclairée.

 

Vêm estes exemplos a propósito da constatação que outro francês, Hervé Gardette, acaba de confessar com grande satisfação: confinado em casa, mas possuidor de uma varanda no bairro da Bastilha, muito perto do bosque de Vincennes, surpreendeu-se nestes dias com o silêncio à sua porta. Nem carros a entrecruzarem-se na avenida, nem a algazarra da miudagem, nada a não ser o silêncio. Ou quase! Porque, para surpresa sua, deu consigo a ouvir a passarada, há tanto tempo ofuscada pela barulheira infernal do bulício quotidiano.

 

Numa altura em que se lamenta a redução drástica do número de aves, explicada em grande parte pela ocupação urbana dos campos, que as privam dos insetos de que se alimentam, os pássaros voltaram a estar presentes nos ouvidos desse confinado citadino. E ele confessa-se desnorteado perante o dilema: significa o regresso de algo que se perdeu ou o usufruto derradeiro de uma sensação em vias de definitiva extinção?
 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2020/03/e-ouvem-se-novamente-os-passaros.html

A urgência de uma nova narrativa para o futuro

A história é contada por Hubert Reeves num dos seus mais recentes livros: dois planetas encontram-se algures no espaço e um constata que o outro está com um aspeto sujo e malcheiroso. O que te aconteceu?, pergunta-lhe. E o outro responde ter apanhado Humanidade, como se ela constituísse doença tipo gripe ou coisa pior.

 

Cresce a consciência coletiva de nos aproximarmos de um possível apocalipse feito de uma mistura explosiva de emissões de carbono, sobrepovoamento e uso intensivo de pesticidas pela indústria agroalimentar. E alguns estudos apontam para chegarmos proximamente a temperaturas 7ºC mais elevadas do que as atuais, que tornarão inabitáveis as zonas equatoriais, o Médio Oriente, grandes extensões asiáticas e da América Latina. Milhões de pessoas terão uma de duas alternativas: deixarem-se morrer sem reagir ou encaminharem-se para o norte onde os governos e as populações tenderão a rechaça-las em nome dos preconceitos xenófobos mais ignóbeis.

 

Nos anos 70 do século passado emergiu um movimento de contestação deste rumo das coisas, que chegou a reunir mais de vinte milhões de manifestantes nos Estados Unidos. Hoje, nem nos sonhos dos ambientalistas mais otimistas uma contestação social dessa grandeza se afigura possível. De facto, com Reagan e Thatcher, ganhou asas um neoliberalismo predador, que desregulamentou todos os obstáculos ao sucesso dos negócios, e iludiu as emergentes classes médias com o acesso a um consumismo desenfreado.

 

Paradoxalmente essa afirmação do capitalismo na sua versão mais selvagem coincidiu com o fim dos Trinta Gloriosos Anos, que dera crédito a essa ideia de um crescimento imparável, quer na utilização de todos os recursos naturais, quer no aumento do PIB/habitante.

 

Os anos mais recentes desmascararam a mentira subjacente às políticas dos governos impulsionadores dessa insensatez. Os rendimentos estagnaram e até mesmo decaíram para grande parte da população, que viu as desigualdades crescerem abissalmente em relação aos que tudo têm e ambicionam acumular ainda mais capital. E chegamos a este momento histórico em que até os banqueiros e investidores reconhecem a necessidade de arrepiar caminho noutra direção... conquanto se respeitem os seus interesses instalados.

 

Alguns ingénuos avançam com propostas quixotescas, que lembram a história do colibri: no meio de um incêndio descontrolado, os outros animais viram-no a procurar água e a despeja-la, gota a gota sobre o incêndio. Surpreendido o tatu ter-lhe-á perguntado:“julgas conseguir vencer o fogo com essas gotas, que contra ele derramas?”.Ao que ele respondeu:“sei que não mas, pelo menos faço a minha parte”.

 

É essa a proposta de alguns ambientalistas: se cada um fizer um pequeno esforço algo de substantivo mudará. Só que a situação de emergência atual já não se coaduna com a decisão de, por exemplo, tomar um duche diário em vez de dois. Diariamente a água afetada mundialmente ao consumo doméstico representa 9% do total, sendo os 91% restantes consumidos pelas indústrias, nomeadamente a agroalimentar, aquela que tanto busca o lucro mediante o recurso aos pesticidas e à desflorestação das regiões tropicais.

 

Cyril Dion, que publicou recentemente um autêntico manifesto—Petit Manuel de Résistance Contemporaine - defende que a situação já não chegará a um bom porto à conta desses esforços voluntariosos dos mais conscientes. Importa mudar a narrativa sobre o estado em que hoje estamos, apontando o dedo a quem aceleradamente o causou, e tomando como nova interpretação da realidade a que já não se coaduna com os discursos dos políticos sobre os crescimentos ou sobre paliativos incapazes de obstarem a uma deriva para a tragédia coletiva.
 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2020/03/a-urgencia-de-uma-nova-narrativa-para-o.html

Floresta amazônica pode entrar em colapso antes do previsto, aponta pesquisa

O chefe indígena Kadjyre Kayapo, da etnia Krimej, observa área desmatada da Amazônia na cidade de Altamira, no Pará.
© AP Photo / Leo Correa

Grandes ecossistemas como a floresta amazônica e os recifes de coral podem entrar em colapso mais rápido do que os cientistas haviam previsto anteriormente, de acordo com estudo publicado nesta terça-feira (10).

Pesquisadores analisaram dados sobre mudanças em dezenas de ecossistemas para concluir que os recifes de coral do Caribe podem entrar em colapso em 15 anos, enquanto a floresta amazônica pode desaparecer em 50 anos - embora essa última previsão tenha sido questionada por alguns especialistas.

"As mensagens aqui são fortes. Precisamos nos preparar para mudanças nos ecossistemas do nosso planeta que são mais rápidas do que imaginávamos", disse John Dearing, professor de geografia física da Universidade de Southampton, que liderou o estudo.

Embora os ecossistemas maiores demorem mais tempo para entrar em colapso, devido ao seu tamanho, eles também podem se degradar e desaparecer de maneira mais rápida que ecossistemas menores, segundo o estudo.

Isso ocorre porque os subsistemas e habitats que compõem sistemas maiores podem parecer inicialmente mais resistentes, mas depois se deterioram muito rapidamente quando um ponto de inflexão é atingido.

A pesquisa contou com a participação de estudiosos da Escola de Estudos Orientais e Africanos e da Universidade de Bangor. O levantamento analisou 42 ecossistemas no total (4 terrestres, 25 marinhos e 13 de água doce) de diferentes tamanhos, informa a agência de notícias Reuters. 

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/ciencia_tecnologia/2020031015316581-floresta-amazonica-pode-entrar-em-colapso-antes-do-previsto-aponta-pesquisa/

Lisboa é a segunda pior capital europeia na exposição ao ruído do tráfego aéreo

 

Lisboa é a segunda pior capital europeia em termos de exposição ao ruído do tráfego aéreo, no que respeita ao indicador Lden.

 

A associação ambientalista Zero diz que Lisboa é a segunda pior capital europeia, a seguir ao Luxemburgo, em termos de exposição ao ruído do tráfego aéreo, depois de analisar um recente relatório da Agência Europeia do Ambiente (AEA).

De acordo com a análise da Zero, o relatório “Ruído Ambiental na Europa. 2020”, publicado pela AEA na quinta-feira, concluiu que Lisboa é a segunda pior capital europeia, a seguir ao Luxemburgo, em termos de exposição ao ruído do tráfego aéreo, no que respeita ao indicador Lden (média de 24 horas ponderada por períodos diurno, entardecer e noturno).

Segundo o relatório, 15% da população do município está exposta a níveis superiores a 55 decibéis (dB). Relativamente ao indicador Ln (ruído noturno entre as 23h00 e as 7h00), 10% da população encontra-se exposta a níveis superiores a 50 dB.

 
 

“As conclusões são verdadeiramente impressionantes e dramáticas. Portugal, comparativamente com os outros países da União Europeia e Reino Unido, apresenta uma situação muito desfavorável em termos de níveis de ruído identificados no quadro da legislação europeia no que respeita ao tráfego aéreo”, defende aquela associação ambientalista, em comunicado. Esta situação, diz, “sobressai em relação ao ruído dos tráfegos rodoviário e ferroviário”.

Os dados indicam também que Portugal tem cerca de 7% da população das aglomerações (onde, de acordo com a legislação europeia se incluem os municípios de Lisboa e Porto e alguns dos arredores destas duas cidades), exposta a valores superiores a 50 dB, associados exclusivamente ao tráfego aéreo.

Portugal aparece também como o país da União Europeia com maior percentagem de crianças entre os 7 e os 17 anos afetadas por problemas de leitura nas áreas afetadas por tráfego aéreo (6,8%) e, em termos absolutos, é o quinto pior país, com cerca de 7.500 crianças afetadas, destaca a Zero.

“Os dados apresentados tornam inequívoca a necessidade de urgentemente garantir a exclusão absoluta de voos noturnos, tal como previsto na Lei do Ruído, e sem quaisquer exceções após o final das obras em curso”, defende a associação, que considera “necessário discutir de forma estratégica” o futuro do aeroporto Humberto Delgado a médio prazo e inviabilizar o “contrato de permanência desta infraestrutura até ao ano de 2062”.

Em janeiro, num debate sobre o aeroporto da capital, o presidente da associação ambientalista Zero, Francisco Ferreira, já tinha alertado para o facto de a Lei do Ruído estar a ser ignorada em Lisboa e de a poluição sonora ultrapassar “em muito” os níveis permitidos devido aos aviões.

Numa audição parlamentar na Comissão de Economia, Inovação, Obras Públicas e Habitação, no dia 19 de fevereiro, o ministro das Infraestruturas rejeitou que a expansão do aeroporto de Lisboa seja para aumentar os movimentos por hora, assegurando que a ideia é pôr a infraestrutura a funcionar com fluidez, permitindo a eliminação de voos no período noturno.

Caminharmos para zero voos no período noturno” é o objetivo, afirmou o ministro Pedro Nuno Santos, referindo que esta é “uma exigência justa” do presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Fernando Medina.

ZAP // Lusa

 
 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/lisboa-segunda-pior-capital-ruido-aereo-312689

Quando a conservação da natureza dá cobertura às tecnociências mortíferas

Este artigo lança um muito importante alerta. As velhas multinacionais dos OGM e os GAFAM (Google, Apple, Facebook, Amazon, Microsoft) empenham o seu imenso poder para fazer instalar em toda a parte a biologia sintética e se apossarem da terra e dos oceanos, “libertos” da agro-pecuária e da pesca. As implicações são enormes, gravosas e imprevisíveis. Mas as organizações de conservação da natureza, a começar pela IUCN, parecem já ter sido capturadas por esses potentados.

 Françoise Degert    06.Mar.20

Está confirmado: os conservacionistas, incluindo a União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN), estendem o tapete vermelho à frente das piores tecnociências, em benefício das multinacionais e de investidores ricos

Conhecemos George Monbiot por seu amor pela natureza selvagem e pela sua aversão pela criação de animais, especialmente ovelhas, essa “praga lanosa que nos faz a gentileza de destruir o nosso campo” (). Este ex-jornalista da BBC escreve regularmente para o diário britânico The Guardian e continua a ser considerado um intelectual na comunidade da conservação da natureza. George Monbiot é um líder de opinião e seu artigo “Alimentos cultivados em laboratório vão em breve destruir a agricultura e salvar o planeta” () merece comentário.

Caldo de cultura transhumanista

Neste artigo, ele maravilha-se com alimentos sintéticos fabricados à base de terra, água e hidrogénio. Apreciou a espuma amarela, “esse caldo de cultura” que os técnicos de um laboratório de Helsínquia transformaram em crepe e que ele provou com prazer. “Tinha um gosto de crepe”, segundo ele. Graças às mais recentes descobertas da biologia, esta sopa primária serve também para fazer ovos, carne, peixe e pode mesmo extrair-se carboidratos dela. Aos seus olhos, este é o Santo Graal da alimentação humana. Não mais necessidade de agricultura e pecuária, a “comida sem terreno agrícola” salvará o planeta, a terra e os oceanos. A natureza selvagem poderá finalmente prosperar de novo na biosfera livre das actividades do mundo antigo. Enquanto espera que sejamos salvos pela tecnologia, ele recomenda prudentemente que os humanos se tornem vegetarianos (ou veganos, a coisa é algo imprecisa).

O seu artigo é interessante porque faz claramente a ligação entre a conservação da natureza e a ideologia transhumanista (a tecnologia transcenderá os humanos no sentido da sua imortalidade). Poderia também ter escrito o comunicado de imprensa da Technoprog (), uma associação francesa de transhumanistas, já que os dois escritos são muito semelhantes. Como George Monbiot, o Technoprog conclui pelos benefícios da alimentação sintética que “permitiriam limitar a criação e o abate de gado bovino, reduzir o sofrimento animal que lhe está associado, economizar água e áreas agrícolas ou reduzir o efeito de estufa”. Coincidência preocupante? Não, sabendo que essa ideologia, o transhumanismo, floresce nas start-up de Silicon Valley e nos GAFAM, que têm a ambição de mudar o mundo. O principal mérito de George Monbiot é dizer em voz alta o que está a ser tramado em voz baixa. E o que está a ser tramado entre os “Geeks” de Silicon Valley, as tecnociências, os GAFAM (Google, Apple, Facebook, Amazon, Microsoft) e suas fundações é nada menos que o desaparecimento dos agricultores e criadores de gado.

Mão-baixa sobre os recursos

A razão é simples. Os provedores de recursos naturais são a terra e os oceanos. Chegou a hora, para os gigantes das indústrias do agroalimentar, da pesca e outras, de os explorar directamente. À escala planetária, os mercados de retalho de alimentos representaram US $ 3 milhões de milhões e um rendimento de US $ 2,6 milhares de milhões para os agricultores em 2004 (a herdade atomizada). É suficiente para aguçar o apetite. Para meter a mão nesses mercados, esses gigantes e esses investidores ricos dispõem de uma vantagem de peso: a investigação tecnológica dos actores de Silicon Valley e outras start-up que florescendo um pouco por toda a parte do mundo.

Acto 1: os gigantes do agroalimentar fabricarão alimentos sintéticos para os humanos, como já fazem para animais com a ração para cães, por exemplo.
Acto 2: os mesmos estão prestes a substituir os agricultores e os criadores de gado por mão-de-obra barata, guiada pela “inteligência artificial” e as tecnologias de ponta em comunicação.
Acto 3: graças à biologia sintética, cultivaremos plantas nos nossos campos que se transformarão em borracha, chocolate ou outros e substituirão as matérias-primas industriais outrora importadas. Também se fala em tornar produtivas as terras incultas.

Os três actos estão em desenvolvimento, de forma desordenada, por vezes simultaneamente.
A fabricação do consentimento havia já começado nos anos 2000. Lembramos o calhamaço de de 500 páginas da FAO intitulado “A sombra projectada pela pecuária” (), publicada em francês em 2012 (2006 em inglês). Concluindo pela necessidade de pôr um fim à criação extensiva de gado acusada de ocupar 30% das terras do planeta, ela beneficiou da assistência esclarecida da IUCN e de investigadores do CIRAD, CIRAD que faz parte da IUCN. O seu ponto de vista foi retomado e é ainda compartilhado pelos partidários do re-selvajamento, também chamado “rewild”. A proliferação de associações de conservação da fauna selvagem, em particular dos grandes predadores, os movimentos veganos amplamente financiados por fundações americanas, há décadas que vêm manipulando a opinião pública contra a criação de animais e, principalmente, contra a criação extensiva. As motivações são hoje melhor compreendidas: lançar a confusão na alimentação humana, libertar as terras da produção de animais e da agricultura de alimentos, desenvolver novas matérias-primas graças às novas tecnologias.

Carne falsa para as classes populares

Bill Gates, Richard Branson, grandes multinacionais como Tyson Giants e Cargill, contribuíram com umas quantas dezenas de milhões de dólares em alguns anos para favorecer a criação do primeiro bife à base de proteínas in vitro. Este tipo de proteína era de particular interesse para a NASA. Em 2013, Mark Post e sua equipa (Holanda) apresentaram este “Frankenburger” em Londres. A sua produção em massa ainda requer alguns ajustes, mas o “Frankenburger” deve vir associar-se à fast food nos próximos dois anos ().

Actualmente, os bifes à base de vegetais estão em vantagem. Existem inúmeras start-ups que se lançaram nessa produção e os bifes veganos Beyond Meat (start-up norte-americana) estão nas prateleiras dos supermercados franceses desde 3 de Fevereiro. Também se encontram nos restaurantes de fast food Burger King e Mac Do, porque o alvo desse tipo de produto é uma clientela jovem, de classe média ou baixa. Os novos hábitos alimentares são moldados passo a passo, privilegiando as classes populares. E ainda não acabou: start-ups californianas congeminam há alguns anos uma dieta baseada em insectos… Porque as proteínas (), “esses tijolos do corpo constituem o nosso envelope: ossos, músculos, cabelos, unhas, pele, mas também os nossos mensageiros internos, como as hormonas, as enzimas ou os anticorpos do sistema imunitário, que nos defendem contra infecções. São essenciais para o homem porque ele não as sabe fabricar a partir de outros nutrientes, ao contrário dos glúcidos, por exemplo. Devem portanto ser obrigatoriamente fornecidas pela alimentação. Daí o novo mercado para proteínas de substituição estimado pelo JP Morgan em US $ 100 milhões de milhões em 15 anos para bifes à base de vegetais e US $ 140 milhões de milhões em 10 anos pelo Barclays para carne gerada a partir de células animais ().

Sabemos que alimentos ultraprocessados ​​multiplicam o risco de cancro. Até ao momento, nenhum estudo independente foi realizado sobre a segurança alimentar de bifes falsos. Temos que nos contentar com as garantias de George Monbiot sobre seus benefícios para a saúde e com o entusiasmo do Technoprog, que os vê como uma próxima etapa na adaptação dos seres humanos à biologia sintética, tala como fizeram ao longo de toda a sua história. …
Por detrás da ideologia transhumanista perfilam-se os apetites financeiros dos gigantes do agroalimentar e dos investidores ricos. George Monbiot e os transhumanistas ignoram que a alta tecnologia é o campo de jogos das multinacionais?

Uma agricultura subserviente à indústria

A alimentação sintética libertará terras para as matérias-primas industriais. Pneus em erva-leão, portas de carros de fibra de cânhamo ou até botas de trigo e não de borracha”: é este o programa da Ministra da Agricultura da Alemanha, Julia Klöckner, aprovada em 15 de Janeiro pelo Conselho de ministros (). De resto, não se fala já de agricultura, mas de “bioeconomia” (), a nova palavra de ordem lançada pela OCDE no início dos anos 2000 e adoptada pela Comissão Europeia. “A bioeconomia pretende substituir o petróleo pelo uso de recursos naturais ou bio-recursos, a fim de produzir bioenergia (biocombustíveis ou biocombustíveis), biomateriais (madeira, materiais compósitos) ou produtos de origem bio (bioplásticos, solventes, cosméticos, etc.) “. Ela generalizou-se a 60 países, incluindo a França. Sempre na vanguarda, o grupo AVRIL, anteriormente conhecido como SOFIPROTEOL, associou-se à Royal DSM em Julho passado para criar proteínas a partir de colza. O prefixo bio sugere já a orientação das dotações da próxima PAC (política agrícola comum) 2021-2027 para a agricultura industrial repleta de tecnologias. Obviamente, as áreas utilizadas para culturas alimentares e a criação de gado serão limitadas …

Projectada por e para a indústria, essa bioeconomia pretende ser competitiva antecipando os preços das matérias-primas. É aqui que entra em jogo o Big Data desenvolvido pelos GAFAM para planear as culturas em função do mercado. A Monsanto já não se contenta com vender pesticidas e fertilizantes. A multinacional comprou em 2013 “The Climate Corporation”, uma start-up fundada por ex-funcionários do Google, que realiza simulações climáticas de muito alta resolução. Estimado em US $ 20 milhões de milhões, o mercado de dados meteorológicos agrícolas revela-se suculento, sendo vendido a agricultores e grandes comerciantes como CARGILL e ADM (). Esta perspectiva chamou também a atenção da FNSEA, que vem experimentando a “agricultura conectada” desde 2014 em cerca de vinte explorações agrícolas (). Varrendo algumas preocupações, a presidente da FNSEA, Christiane Lambert, declarou em 26 de Outubro de 2016, em Angers, que “é necessário aceitar que a tecnologia digital nos permite agir mais rapidamente, com respostas mais adequadas e com menor impacto” ().

A robotização extrema

Em termos de impacto, as multinacionais têm a solução graças às nanotecnologias e à biossíntese. Assim, os Países Baixos decidiram reduzir a utilização de pesticidas usando-os “de maneira direcionada” (). “Quando são necessários, preferiremos substâncias de baixo risco”, explicou o governo holandês em comunicado em Abril de 2019. Uma das soluções adoptadas pelo governo é selecionar sementes particularmente resistentes usando novas técnicas de melhoramento de plantas (NTSP) modificando seu DNA. Qualificadas como organismos geneticamente modificados (OGM) pelo Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE), essas sementes caem no âmbito da directiva OGM. Neste momento ferve o debate sobre este ponto no seio da UE. A outra solução é “usar pesticidas de maneira inteligente, a fim de limitar as emissões ambientais e garantir uma produção agrícola de baixo resíduo”, segundo o comunicado. As multinacionais, como Monsanto-Bayer, Syngenta-ChemChina, propõem já a distribuição de pesticidas em nano cápsulas.

Na herdade de um futuro muito próximo, o agricultor verá a partir do seu computador portátil onde se encontram as ervas daninhas a ser removidas, as necessidades de água, fertilizantes ou pesticidas, os preços mundiais e a meteorologia. Guiará à distância o seu tractor robótico ou enviará para o terreno a sua mal paga mão-de-obra. Acabou-se o saber-fazer e a inteligência humana: o computador, os sistemas de informação geográfica (SIG), os sensores capazes de analisar as necessidades, espalhados pelos campos e ligados a um GPS (às vezes nano-sensores até para formar uma poeira inteligente), substitui-los-ão. A convergência das Nanotecnologias, Biotecnologias, Ciências da Informação e Ciências Cognitivas (NBIC) não poupa nem a criação de gado nem a piscicultura. Os nano-chips implantados nos animais detectam doenças, analisam cada um a nível genético para os selecionar, possibilitam a vigilância à distância do gado, privando-o durante longos períodos dos cuidados prestados pelos humanos.
Ajustando as nanopartículas das plantas cultivadas, poderá também produzir-se substitutos para várias matérias-primas industriais anteriormente importadas, como a borracha ou o chocolate. O que inevitavelmente arrastará uma queda nos preços mundiais de matérias-primas e produtos agrícolas.

Forçamento genético, uma arma de destruição em massa

A balbúrdia tecnológica vai muito além. A IUCN vê na biologia sintética e nas tecnologias da informação o meio para recriar espécies extintas, salvar espécies ameaçadas de extinção, estudá-las à distância … A farsa do regresso à Terra do mamute-lanoso torna possível ocultar programas incontroláveis ​​de manipulação genética projectados pelo “Gene Drive” (GD), também dito “orientação genética” ou, como os falantes de francês lhe chamam, “forçamento genético”, enquanto a IUCN fala de “Impulso genético”. É obtido seccionando o DNA, uma técnica inventada em 2012 por duas investigadoras, uma francesa, Emmanuelle Charpentier e uma norte-americana, Jennifer Doudna. Sendo mais rápida, precisa e barata, a técnica da “tesoura de corte de DNA”, também chamada CRISPR Cas9, espalhou-se como um rastilho de pólvora. Graças ao forçamento genético, a modificação de um gene torna o indivíduo modificado reproduzível. Ele interage com organismos vivos não modificados. No entanto, “essa mutação auto-amplificadora auto-replica-se e espalha-se mais rapidamente do que pela genética habitual”. “Se com os OGM clássicos a dispersão dos genes modificados devia ser evitada (…), com esses novos organismos geneticamente modificados a dispersão tornar-se-á a estratégia desejada”. O Tarjet Malaria Project, que reúne um consórcio de universidades e centros de investigação financiados em grande parte pela Fundação Bill e Melinda Gates, ambiciona modificar geneticamente os anófelis (mosquitos) para que eles deixem de ser portadores da malária. Este projecto foi experimentado sem sucesso no Brasil e nas Ilhas Cayman, onde o governo lhe pôs fim. A Fundação obviamente voltou-se para África, em particular para Burkina Faso, onde o Tarjet Malaria Project foi muito mal recebido pelas populações envolvidas, a quem fora esquecido pedir consentimento.

Porque as consequências de tal manipulação são imprevisíveis. Se se elimina um mosquito vector da malária, uma outra espécie poderá substituí-lo. Além disso, esses organismos modificados podem ser usados ​​para fins militares ao dispersar-se. O primeiro a accionar o alarme foi o chefe da CIA, James Clapper (). Num relatório desclassificado de Fevereiro de 2016 ele coloca o CRISPR Cas9 na categoria das “armas de destruição em massa”, no mesmo plano do “programa nuclear norte-coreano, das armas químicas sírias e dos mísseis russos!” ”
Mas os projectos de forçamento genético são financiados pela Agência de investigação Militar do Governo dos Estados Unidos (DARPA, Defence Advanced Research Projects Agency), a Fundação Bill e Melinda Gates, The Tata Trusts e o Open Philanthropy Project, apoiado pelo Facebook.

O IUCN, cavalo de Troia do ultraliberalismo e dos GAFAM

A Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), realizada de 13 a 29 de Novembro de 2018 em Sharm el Sheikh (COP 14), colocou a força genética na ordem do dia. Cento e cinquenta ONG’s reclamaram uma moratória. Foi-lhes recusada. A CDB contentou-se com apelar aos governos que avaliem eles próprios os riscos e obtenham o consentimento das populações locais antes de lançar organismos exterminadores. Deve dizer-se que a Fundação Gates investiu US $ 1,6 milhão numa agência de relações públicas, a Emerging Ag Inc, para exercer influência sobre a CDB. Essa agência recorreu a cientistas aderentes à causa e ao seu financiamento, cientistas cuja reputação e trabalho haviam empolados por agências de comunicação.

Bill Gates permanece empenhado em ver forçamento genético ratificado pela CBD, que se reunirá em Kunming (China) em Outubro próximo. Será a COP 15. A IUCN envolveu-se, sem que a agência de relações públicas tivesse de recorrer a cientistas amigos. Reuniu um grupo de trabalho para embelezar um relatório preparatório sobre a biologia sintética. Acontece que o grupo de trabalho que redigiu o relatório era maioritariamente composto por pessoas envolvidas no forçamento genético, muito frequentemente em evidentes conflitos de interesse. Obrigado aos canadenses do grupo ETC por alertarem o mundo sobre a composição deste grupo de trabalho. O seu documento, “Genetic Forcing Under Influence” (), fornece um histórico das decisões da IUCN e apresenta em ordem alfabética os autores favoráveis a esta nova tecnologia.
Deveríamos surpreender-nos? Não é a primeira vez que a IUCN, que prepara as convenções internacionais sobre o ambiente e os seus protocolos, estende o tapete vermelho diante das multinacionais e dos investidores ricos. Lembremos que a CDB criada em 1992, no Rio, inaugurou a privatização dos viventes por meio da propriedade intelectual estabelecida sobre a fauna, a flora e o know-how. Ou seja, dois anos antes do acordo sobre a propriedade intelectual (TRIPS), assinado em 1994 em Marrakech, com a criação da OMC (Organização Mundial do Comércio). Mais recentemente, a IUCN assinou em 2014 uma parceria com o grupo suíço Syngenta no momento em que publicava a sua avaliação sobre uma espécie de borboleta ameaçada por pesticidas. E, como por acaso, as soluções propostas pela IUCN eram idênticas às do grupo suíço. Grupo se tornou Syngenta-ChemChina desde a sua aquisição em 2017 por uma empresa chinesa.

No seu dossier temático sobre biologia sintética, datado de Maio de 2019 (), a IUCN contenta-se com propor, nas próximas negociações da CDB, “uma avaliação caso a caso”, por cientistas, governos, sociedade civil e organizações dos povos autóctones. A moratória não foi adoptada, Bill Gates está certamente aliviado. Essa proposta deveria contar com o apoio da China, onde será realizada a próxima conferência de Estados. Tanto mais que será apresentada pelo Presidente da IUCN, ZHANG Xinsheng, também chinês.

Este artigo não poderia ter sido feito sem o alerta dado pelo “Grupo ETC” sobre forçamento genético e o trabalho de investigação dessa associação canadiana. Fundado por Pat Mooney, o denunciante da geoengenharia, o grupo ETC é agora liderado por Jim Thomas. Aconselha-se vivamente a leitura dos seus relatórios, em particular “A herdade atomizada”

Site do Grupo ETC: https://www.etcgroup.org/fr

GLOSSÁRIO:
Biologia sintética: Enquanto a engenharia genética não envolve senão um ou alguns genes de cada vez, a biologia sintética cria organismos totalmente novos. Em 2003, J. Craig Venter e sua equipa de investigadores fabricou em duas semanas com sucesso um cromossoma totalmente sintético. Em 2008, o mesmo instituto anunciou a criação do primeiro genoma bacteriano dando um importante passo em direcção à vida artificial. A biologia sintética pode também apresentar sérios riscos imprevisíveis, como a criação de organismos nocivos. Uma nova arma, de algum modo. (de Conservation pour une ère nouvelle. Jeffrey A. McNeely, Susan A. Mainka, IUCN, 2009).

Conservacionistas: aqueles que querem conservar a natureza selvagem. As suas principais associações são a IUCN, o WWF, o ASPAS, a LPO etc …
Forçamento genético: a criação de organismos geneticamente modificados capazes de se reproduzir e interagir com o mundo real ou selvagem (GDO: Gene Drive Organism). Essa faculdade diferencia-os dos OGM. “Uma vez que o forçamento genético seja liberto da garrafa, ninguém descobriu realmente como voltar a introduzi-lo lá dentro”.

Nanotecnologias: manipulação da matéria à escala dos átomos e das moléculas (1 nanômetro, nm = 1 bilionésimo de metro). Não os vemos nos alimentos porque não são rotulados como tal (sumo de laranja, doces, etc …). Segundo Vyvian Howard, fundadora e redactora em chefe do Journal of nanotoxicology, o dimensão reduzida das nanopartículas aumenta sua toxicidade, porque os nanos se movem mais facilmente no organismo atravessando membranas protectoras (pele, barreira hematoencefálica, placenta).

Transhumanismo: um movimento cultural e intelectual internacional que defende o uso da ciência e da tecnologia para melhorar a condição humana, nomeadamente aumentando as capacidades físicas e mentais dos seres humanos (segundo a Wikipedia).

Para aprofundar:
- Silicon Valley a serviço do transhumanismo (por Cincinnatus) https: //cincivox.wordpress.com/2018/02/12/la-silicon-valley-au-service …
- A impostura do transhumanismo (de Danièle Tritsch e Jean Mariani)
- Google ou a revolução transhumanista via Big Data (por Eric Delbecque)
E, claro, o site da associação transhumanista francesa Technoprog

 

Ver o original em ODiario.info (clique aqui)

Terminal do Barreiro já não vai avançar. Violava as leis ambientais

 

A construção do terminal do Barreiro já não vai avançar, seguindo assim o parecer desfavorável da Agência Portuguesa do Ambiente (APA). A confirmação foi dada pelo Ministério das Infraestruturas e da Habitação em comunicado enviado às redações.

 

“A Agência Portuguesa do Ambiente emitiu recentemente uma Declaração de Impacte Ambiental (DIA) desfavorável sobre o projeto para o novo Terminal do Barreiro. O Governo respeitará essa decisão e, como tal, o Terminal do Barreiro não avançará“, lê-se no esclarecimento divulgado esta quinta-feira pelo Ministério das Infraestruturas e da Habitação.

Segundo o parecer da APA, citado pela TSF, há sedimentos contaminados com mercúrio, arsénio, zinco, cobre, chumbo e compostos orgânicos que poderiam afetar gravemente o ambiente aquático.

A construção teria impactos significativos nos sistemas ecológicos, violando o Regime jurídico da Reserva Ecológica Nacional. A APA adiantou ainda que as medidas de mitigação para resolver os problemas ambientais não seriam suficientes.

 
 

Assim, com esta decisão, aquela que seria um das maiores obras públicas previstas para os próximos anos em Portugal fica cancelada. De acordo com a revista Sábado, iriam ser investidos 500 milhões de euros na obra.

Ao contrário do que aconteceu com o projeto do aeroporto do Montijo, para o qual a APA emitiu uma Declaração de Impacte Ambiental favorável, embora condicionada – sugeriu medidas de mitigação -, neste caso, a construção foi chumbada.

ZAP //

 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/terminal-barreiro-avancar-violava-leis-ambientais-312125

No 1º ano do governo Bolsonaro, Brasil exportou milhares de carregamentos não autorizados de madeira na Amazônia

 

Reuters - O Brasil exportou durante o último ano milhares de carregamentos de madeira a partir de um porto na Amazônia sem autorização do Ibama, aumentando o risco de o material ter origem em terras desmatadas ilegalmente, disseram duas fontes com conhecimento direto do assunto à Reuters.

Depois que autoridades alfandegárias da Europa e dos Estados Unidos alertaram o Brasil sobre a questão, o presidente do Ibama, Eduardo Bim, mudou os regulamentos para acabar com as autorizações de exportação anteriormente exigidas, de acordo com um documento interno visto pela Reuters.

As mudanças feitas pelo presidente do Ibama rejeitaram uma análise técnica de cinco analistas do Ibama que argumentaram que as aprovações de exportação deveriam permanecer em vigor.

As duas fontes do Ibama, que trabalharam diretamente na inspeção de madeira e falaram sob condição de anonimato devido a preocupações com repercussões profissionais, disseram que as mudanças enfraquecem ainda mais a capacidade do Brasil de controlar a exportação de madeira desmatada ilegalmente.

O Ibama respondeu a perguntas da Reuters sobre a situação com uma descrição técnica detalhada do atual processo de exportação de madeira, sem mencionar a necessidade anterior de uma autorização separada da agência.

O Ibama se referiu às autorizações de exportação concedidas pela Receita Federal, dizendo que são concedidas somente após uma referência cruzada com um sistema nacional para supervisionar a madeira para verificar se ela é de origem legítima.

O Ibama ainda é capaz de fazer inspeções pontuais de cargas de madeira destinadas à exportação, disse o documento.

Europa financia poluidores energéticos em nome do “Clima”

Não conheço tema de política pública que seja tratado de forma mais fraudulenta do que o do ‘Clima’. Coberto por absurdos conceitos como o da ‘Justiça Climática’, teceu-se nas últimas décadas um monstruoso aparelho de dissimulação, desinformação e propaganda a coberto do qual se escondem os mais inconfessáveis interesses e em que se impedem as mais apropriadas e necessárias medidas para prevenir impactos ambientais humanos negativos conhecidos ou potenciais, por exemplo, no funcionamento do clima terrestre.

 

 

  1. A realidade e a propaganda

O protocolo de Kyoto tinha já construído a ficção de um mundo em que se confrontavam equivalentes de toneladas de carbono com emissão supostamente identificada com graus de temperatura.

Na equação assim estabelecida criava-se um direito a poluir que poderia ser vendido, tornando-se assim o mecanismo numa máquina de subvenção dos grandes emissores de gases com efeito de estufa, e de transferência dessas actividades para o mundo menos desenvolvido, transferências absurdamente isentas de qualquer mecanismo preventivo.

Apesar de a prática ter confirmado que o protocolo de Kyoto nada fez pelo clima, ou sequer pela limitação da emissão de gases com efeito de estufa, o mundo dos grandes interesses pintado de verde, a coberto de generosas e ingénuas manifestações juvenis, continuou a sua campanha tendo conseguido obter das instituições europeias um enorme pacote de subvenções eufemisticamente designado de ‘Fundo para a Transição Energética’ destinado a subsidiar os grandes poluidores.

Embora esse fundo, como todo o orçamento comunitário, esteja dependente de um acordo orçamental de todos os Estados, a Comissão Europeia resolveu adiar para as calendas gregas o orçamento agrícola, dar como facto consumado que a coesão económica e social é verbo de encher, mas pressionar para que o sistema de subvenção à indústria poluidora se transforme num dado adquirido.

  1. Chuva de milhões para a EDP e multinacionais que usam carvão em Portugal

De acordo com a imprensa, a Comissária portuguesa responsável pela coesão económica e social – de quem não se conhecem quaisquer gestos ou declarações que ressuscitem a Coesão da morte anunciada pelas propostas da Comissão – veio anunciar uma chuva de milhões para a EDP e as multinacionais que exploram as centrais a carvão em Portugal em Abrantes e em Sines.

Ressalvando embora que tudo depende do ‘acordo a ser obtido pelos Estados’ numa mal escondida pressão para que Portugal abençoe uma proposta contrária aos seus interesses, diz a Comissária que haverá 80 milhões de subvenções para essas empresas no contexto de um pacote europeu que se cifra em 7500 milhões.

Começando por aqui, convém ter em conta que o orçamento comunitário é financiado totalmente pelas contribuições dos Estados que são obtidas pelos nossos impostos, fundamentalmente, em proporção da capacidade económica de cada Estado.

Como Portugal representa 2,31% da população europeia e tem um produto per-capita de 64% da economia da EU-27, em termos financeiros, isto quer dizer que qualquer chave de repartição que dê a Portugal menos de 1,5% do orçamento comunitário se traduz numa contribuição portuguesa ao resto da economia europeia.

Ora, a crer nos números divulgados pela imprensa com origem na Comissão Europeia, Portugal vai ficar apenas com 1,1% deste fundo, ou seja, vai assim financiar o orçamento do resto da Europa e não ser financiado como demagogicamente se afirma.

Em qualquer caso, é escandaloso que se queiram financiar centrais a carvão mais do que amortizadas e mais do que obsoletas (terão quase 40 anos de actividade na data de encerramento) pertencentes a entidades privatizadas a interesses estrangeiros, no caso da EDP, em condições mais do que discutíveis, em nome do clima ou do ambiente.

O argumento de que se trata de financiar a transição dos 650 empregos que se perderão não é tão pouco credível. Em primeiro lugar porque o sistema de energias renováveis é mais mão-de-obra intensivo e irá gerar mais emprego do que o que se geraria pelo investimento em novas centrais a carvão, pelo que, não creio que haja aqui perdas. Em segundo lugar, porque mesmo se se revelasse impossível a adaptação dos trabalhadores aos novos postos de trabalho, o financiamento em mais de 100.000 euros por posto de trabalho a reciclar não tem qualquer comparação com os números praticados noutros domínios (na agricultura, nomeadamente).

Como referi na última edição do Tornado, tudo leva a crer que, contrariamente ao que nos quer fazer crer o lobby carbonífero pintado de verde, a transição energética não precisa de subsídios, porque as energias renováveis são já competitivas com as assentes em recursos fósseis.

É necessário ainda muita investigação, desenvolvimento e disseminação para determinar as melhores soluções – que podem passar pela deslocalização industrial – e para ultrapassar alguns obstáculos técnicos, mas sobretudo institucionais e políticos, como o sejam a continuação da pesada subvenção europeia à utilização de fontes fósseis de energia (ler a esse propósito a apresentação de Dörte Fouquet, com quem tive o prazer de trabalhar há dez anos).

Posto isto, o caminho está traçado e não são precisas subvenções à produção energética para num espaço relativamente curto de tempo eliminarmos a utilização de combustíveis fósseis, basta vontade política e fim da demagogia e desinformação pintada de verde.

  1. Alternativas existem

Temos de começar por uma avaliação séria e não confessional de toda a agenda ambiental. Mesmo se partirmos dos dogmas da religião climática, a verdade é que como eu referi na citada edição do Tornado, todos os dados vindos a público confirmam que a principal concentração de gás com efeito de estufa é presentemente o metano com origem biológica, ou seja, que nada tem a ver directamente com a utilização de combustíveis fósseis.

Os dados existentes apontam para que a causa mais provável deste estado de coisas seja a eutrofização da água tanto pela agricultura como por uso doméstico, eutrofização da água que tem consequências muito mais vastas do que a emissão de gases com efeitos de estufa.

Mas mesmo que esta hipótese de trabalho se não venha a revelar totalmente fundada, ou seja, mesmo que a eutrofização da água não se venha a revelar como mais importante do que a utilização de combustíveis fósseis para as emissões de gases com efeitos de estufa, está fora de questão que se trata de um factor importante.

Posto isto, a questão é que no caso da energia falta fundamentalmente vontade política para enfrentar os problemas, dado que as energias renováveis são já concorrenciais, mas na agricultura, a solução para os problemas é muito mais complexa, sendo que a pressão colocada pela extensão do modelo alimentar moderno sobre as emissões é maior do que a pressão energética convencional.

Concluo portanto dizendo que a mudança do modelo agrícola presente é um desafio muito mais difícil e urgente do que a chamada transição energética, mesmo que raciocinemos no apertado espartilho da monomania climática.

É nesse quadro que há que apreciar o adiamento da reforma agrícola e o corte selvagem de fundos, que são importantes para o rendimento dos agricultores, que nos propõe a Comissão Europeia, na mesma altura em que se dá prioridade ao financiamento da EDP e das multinacionais do carvão.

É uma opção política errada, sem base objectiva, feita na base da força dos grupos de pressão e da propaganda, sem sensibilidade para com o ambiente e sobretudo que despreza o mundo rural.

O que eu proponho é que se aumente o orçamento para a investigação, desenvolvimento e disseminação de novas soluções ambientais, não fundamentalmente para a questão energética, mas para o nexo solo-água-alimentação e para a urbanização, e que o orçamento agrícola seja direcionado para o rendimento dos agricultores e para o fomento de actividades que conjuguem eficazmente esse objectivo com o desenvolvimento sustentável.


 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/europa-financia-poluidores-energeticos-em-nome-do-clima/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=europa-financia-poluidores-energeticos-em-nome-do-clima

Brasil tem importação recorde de agrotóxicos no governo Bolsonaro

 

 

247 - O Brasil nunca importou tantos agrotóxicos como em 2019. Quase 335 mil toneladas de inseticidas, herbicidas e fungicidas desembarcaram no país de janeiro a dezembro.

Segundo reportagem do jornal Folha de S.Paulo, O volume é 16% maior do que em 2018 e é recorde para a série histórica iniciada em 1997, de acordo com dados do Ministério da Economia.

O crescimento da importação segue a expansão das vendas dos agrotóxicos, desta a reportagem.

 

Dados do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) mostram que em 2018, dado mais recente disponível, foram vendidas 549 mil toneladas de produtos em território nacional —um avanço de 1,8% em relação ao ano anterior.

Brasil importa volume recorde de agrotóxicos em 2019

Avião despeja agrotóxico em bananal de Miracatu (SP), região do Vale do Ribeira
© Folhapress / Lalo de Almeida

Ao longo do 1º ano do governo do presidente Jair Bolsonaro, o Brasil bateu recorde de importação de agrotóxicos.

Segundo publicou o jornal Folha de São Paulo, o volume chegou a quase 335 mil toneladas, incluindo inseticidas, herbicidas e fungicidas.

Dados do Ministério da Economia mostram que a importação de agrotóxicos entre janeiro e dezembro de 2019 foi, no total, 16% maior do que no mesmo período do ano anterior.

Ainda segundo o jornal, a venda doméstica de agrotóxicos também cresceu, porém os dados mais recentes são de 2018.

O governo Bolsonaro também é recordista no número de agrotóxicos liberados para uso no país. Em 2019, foram 474 novos pesticidas no Brasil, índice mais elevado em 14 anos.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/brasil/2020030115280454-brasil-importa-volume-recorde-de-agrotoxicos-em-2019/

Desenvolvimento sustentável: uma visão trabalhista. Por Brian Kohler

Seleção e tradução de Francisco Tavares

Desenvolvimento sustentável: uma visão trabalhista

Brian Kohler Por Brian Kohler, membro da União dos Trabalhadores de Comunicações, Energia e Papel do Canadá

Apresentação feita na Conferência sobre Poluentes Orgânicos Persistentes, realizada em 5 de dezembro de 1996, em Chicago, Illinois. (veraqui)

 

A verdadeira escolha não é o emprego ou o ambiente. É ambos ou nenhum dos dois.

Penso que muitas vezes não conseguimos entender as posições uns dos outros porque não tentamos colocar-nos no lugar deles. Por isso, gostaria de começar por vos pedir que se imaginem nesta situação hipotética. O exemplo é deliberadamente estereotipado – qualquer semelhança com pessoas reais é totalmente coincidência.

Imagine-se como um trabalhador numa fábrica química. Você tem um emprego estável que paga bem e vinte anos de antiguidade. Se você perder este emprego, sabe no seu coração que não vai conseguir outro igual; na verdade, terá sorte de reter metade do seu poder de compra atual e perderá a sua pensão, benefícios e a dignidade e orgulho de poder proporcionar à sua família uma vida razoavelmente confortável.

A empresa disse-lhe em reuniões que o sucesso das novas instalações de produção em construção é a única esperança de que esta fábrica permaneça aberta. Por outro lado, você também tem algumas preocupações de saúde relacionadas com a produção de certos materiais na fábrica e não sabe se confia inteiramente na gerência para proteger a sua saúde ou o seu trabalho.

Não parece haver muitas opções abertas para você. A sua compreensão de economia de produção, relações laborais e saúde ocupacional é altamente eficaz, mas a um nível prático de realizar o trabalho. Você não tem necessariamente pensado muito nos processos de tomada de decisão política ou na ética ambiental.

Um dia você chega ao trabalho para encontrar vários milhões de dólares em equipamentos de construção ociosos e algumas centenas de trabalhadores de construção em pé, sem saber o que fazer a seguir. Ouve-se dizer que um grupo ambientalista ganhou uma ordem judicial impedindo que a nova unidade de produção fosse construída. Como reagiria?

Este debate é apenas parcialmente sobre quem está certo, e quem está errado, sobre níveis de poluição tóxica ou impactos económicos. Muito mais fundamentalmente, é sobre como a sociedade vai tomar decisões sobre sustentabilidade e quem vai pagar o preço dessas decisões. Serão aqueles que têm os bolsos mais recheados ou serão aqueles que podem obter a melhor imprensa?

 

Tomando partido por ambos os lados

Àqueles que se sentem mais solidários com os activistas ambientais, eu diria o seguinte: Nós no movimento trabalhista somos os vossos melhores amigos e aliados mais fortes na busca de um futuro sustentável. Os trabalhadores têm sido os “sinal de alerta” da sociedade, e os cadáveres dos nossos irmãos e irmãs identificaram a maioria dos produtos químicos dos quais vocês estão agora a fazer campanha para livrarem o ambiente desses produtos. No entanto, se nos atacarem nos nossos locais de trabalho, se não compreenderem a questão do emprego, criarão um confronto que não poderão vencer. Vocês vão-nos forçar a uma aliança com os nossos empregadores e você, nós, a sociedade e o meio ambiente seremos todos os perdedores.

Aos que mais simpatizam com o lado do empresário, eu diria isto novamente: Nós no movimento trabalhista somos os vossos melhores amigos e aliados mais fortes na busca de um futuro sustentável. Os trabalhadores dependem do vosso sucesso económico para os nossos empregos e para o nosso futuro. Entendemos que, enquanto houver atividade industrial, haverá um impacto ambiental: Não há produção “limpa”; apenas produção “mais limpa”… a segunda lei da termodinâmica acabará por nos apanhar. No entanto, se continuarem tratar-nos como mercadorias em vez de seres humanos, se continuarem a perder empregos a cada oportunidade usando as desculpas da globalização, automação, redução de pessoal, fusões e contratações externas; se continuarem a envenenar os nossos corpos e depois lutarem contra as nossas tentativas de obter até mesmo a compensação dos trabalhadores em troca, terão que nos perdoar por sermos um pouco céticos quando prometem salvar os nossos empregos.

Na recente Convenção Nacional do Sindicato dos Trabalhadores das Comunicações, Energia e Papel do Canadá, foi aprovada uma resolução apelando para a criação de um “Programa de Transição Justa”. Se a sociedade tem de fazer algumas escolhas difíceis sobre quais atividades económicas estamos dispostos a continuar e quais estamos dispostos a renunciar, é necessário um programa de transição estruturado ou “justo”, para que os custos dessas decisões sejam compartilhados de forma justa. Pois é absolutamente claro que, sem um tal plano, as pessoas que pagarão 99% do preço da mudança serão os trabalhadores das indústrias afetadas e as comunidades que dependem dos rendimentos desses trabalhadores. O capital pode anular prejuízos, cobrar seguros em alguns casos, e reinvestir noutros lados. Os trabalhadores não têm este tipo de opções. Sem um “Programa de Transição Justa” você garante conflito, e possivelmente conflito violento. A escolha é sua.

Não há futuro para os nossos sindicatos e para os legítimos interesses dos nossos membros, jogando a nossa sorte às cegas seja com ambientalistas ou seja com empregadores. Nós temos a nossa própria perspectiva legítima. Devemos, no entanto, fazer um melhor trabalho de articulação.

Se não conseguirmos preservar o meio ambiente, enfrentaremos catástrofes globais. Por outro lado, se ignorarmos as necessidades económicas e sociais, enfrentaremos uma catástrofe de outro tipo. É claro que grandes mudanças estruturais no modo de funcionamento da sociedade e da economia devem ocorrer se quisermos avançar em direção à sustentabilidade. Estas mudanças provocarão mudanças massivas nos padrões de emprego. Os trabalhadores, as suas famílias e as suas comunidades não devem ser solicitados a suportar 100% dos custos de uma transição para a sustentabilidade.

 

O que deve um “Programa de Transição Justa” proporcionar?

  1. Proteger o poder de compra dos trabalhadores e de suas famílias.
  2. Facilitar a transição de trabalhadores deslocados ambientalmente para novos empregos.
  3. Uma redefinição, se necessário, do termo emprego para reflectir os princípios da sustentabilidade.
  4. Apoio às comunidades dependentes das indústrias em declínio.

 

Como vamos ganhar uma transição justa? Primeiro, colocando a nossa própria casa em ordem. Segundo, trabalhando dentro das organizações que já temos, às quais pertencemos ou às quais somos afiliados. Terceiro, explicando a nossa posição ao público. Quarto, educando os nossos membros, e finalmente, construindo alianças com grupos ambientais ou empregadores que aceitam o conceito de “Transição Justa” como uma condição prévia para debater qualquer questão de mudança ambiental.

 

Definição de valores

Como todos nós ainda dependemos de um sistema económico que recompensa a produção, o consumo e o crescimento sobre práticas sustentáveis, talvez tenhamos que encontrar uma forma de definir o “valor” que damos no meio ambiente, assim como às necessidades sociais. Esse valor pode ou não ser fixado em termos de dólares, mas de alguma forma deve ser um valor real na “moeda de Deus” [o dólar], se você quiser.

Os nossos governos atuais parecem não responder às preocupações ambientais e certamente às preocupações trabalhistas. No entanto, as questões ambientais são constantemente colocadas em alta nas pesquisas de opinião pública, perguntando às pessoas o que é importante para elas. Temos um problema se a indústria está a mover as políticas públicas numa direção, enquanto os ambientalistas estão a mover a opinião pública na direção oposta. Esta é uma receita para o confronto, e possivelmente uma receita violenta. Os trabalhadores são apanhados neste confronto, “simpáticos para um lado, mas dependentes do outro”.

Alguns ambientalistas são apenas alarmistas? Será que a “boa ciência” nos mostra que os nossos problemas são realmente menores? A experiência no campo da saúde ocupacional tem ensinado aos sindicalistas que quando os cientistas discordam, o pior cenário costuma ser o mais próximo da verdade. Em qualquer caso, se quisermos garantir o pior cenário, a melhor maneira de o fazer é fingir que os problemas não existem.

A teoria do desenvolvimento sustentável diz que devemos atender às “necessidades” da geração atual sem comprometer a capacidade das gerações futuras de atender às suas necessidades. “Necessidades” não significa apenas necessidades económicas e ambientais, mas inclui também necessidades sociais.

O que pedimos, fundamentalmente, é que a política pública seja definida pelo público e não apenas por aqueles que têm a melhor imprensa ou os bolsos mais recheados. O debate sobre o que entendemos exactamente por sustentabilidade é também um debate sobre o que entendemos por democracia.

Por exemplo, a sustentabilidade não significa que as preocupações económicas se sobrepõem a todas as outras. Mas também não significa que a pureza ambiental seja a única consideração quando tomamos decisões como uma sociedade. Suponha que eu descubra um medicamento que cure o cancro, ou a SIDA. Suponha que a fabricação desse medicamento criará um resíduo extremamente tóxico que eu não posso descartar, que só posso armazenar. Você acha que a sociedade me dirá para não fazer isso? Você diria?

As pessoas que estão desesperadas não estão preocupadas com o meio ambiente. Neste momento, o Canadá e os Estados Unidos têm muitas pessoas desesperadas, resultado de decisões políticas deliberadas do governo. Será que vamos dizer às pessoas e comunidades desesperadas e preocupadas que as suas fábricas, minas e moinhos devem fechar pelo bem do meio ambiente? Talvez possamos, mas só se pudermos dizer então o que vai acontecer, e o que eles vão fazer, depois. E o que acontece quando a geração e acumulação de riqueza por poucos já não produz empregos para que o resto possa ganhar uma pequena parte dessa riqueza? Talvez precisemos de algumas novas regras básicas para a sociedade, novamente sob a forma de políticas públicas estabelecidas pelo público.

Lembre-se que os nossos afiliados ganham a vida trabalhando na chamada “produção tóxica” e, portanto, este debate significa mais para nós do que apenas uma discussão académica sobre economia e meio ambiente. O funcionamento sustentável destas instalações é uma questão tão importante para nós como para qualquer outro grupo. Nós somos parte interessada, e importante, nesta questão e temos o prazer de participar no seu processo.

O planeta Terra tem sido comparado a uma nave espacial. É um ambiente finito, com recursos finitos a bordo, e sem novos suprimentos entrando.

Vou, portanto, concluir com este pensamento: Na nave espacial Terra, não há passageiros, apenas tripulação. Você, eu, todos nós – nós somos essa tripulação. Chegou a hora de tomar algumas decisões. Temos de decidir sabiamente, pois esta pode ser a nossa última oportunidade de o fazer.

 

______________________

O autor: Brian Kohler é o Diretor de Saúde, Segurança e Sustentabilidade da IndustriALL Global Union, com sede em Genebra, Suíça: uma federação global que representa cerca de 50 milhões de trabalhadores do setor de recursos e industriais em 140 países. Sindicalista toda a sua vida, Brian estudou química na Universidade Simon Fraser e na Universidade de Waterloo, no Canadá, e está actualmente a trabalhar num doutoramento em Sustentabilidade na Universidade De Montfort, no Reino Unido. Brian tem sido um activista dos trabalhadores pela saúde, segurança e ambiente durante quase 40 anos. Ele é um especialista em direitos laborais e é um pioneiro do conceito de uma Transição Justa para a sustentabilidade.

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/02/24/a-proposito-do-conceito-e-iniciativas-da-transicao-justa-5-desenvolvimento-sustentavel-uma-visao-trabalhista-por-brian-kohler/

A política de uma transição justa: evitar argumentos falaciosos. Por John Weeks

 

Seleção e tradução de Francisco Tavares

4. A política de uma transição justa: evitar argumentos falaciosos

John Weeks - II Por John Weeks

Publicado por social europe em 4 de fevereiro de 2020 (ver aqui)

 

John Weeks argumenta na nossa série “transição justa” que o seu sucesso está ligado a uma mensagem política de esperança.

 

Em Dezembro, Social Europe lançou a sua série transição justa, que transformou a discussão e o debate sobre a realização de uma União Europeia sustentável, social e económica. O artigo inicial e os que se seguiram clarificam as tarefas políticas necessárias para alcançar um sistema social equitativo, para lá da actual dependência dos métodos de produção e de distribuição.

Juntamente com propostas concretas, a discussão sobre a transição justa, porém, destacou a necessidade de descartar falácias que enfraquecem o movimento por uma sociedade sustentável. Talvez o mais debilitante politicamente é que inerente à luta por um planeta sustentável está um conflito geracional.

 

Non sequiturs [1]

Esta hipótese assenta em dois não sequiturs. A primeira afirma que a geração mais velha “roubou o futuro” da geração mais jovem pela sua inacção na política ambiental. A segunda, e implícita, é a asserção de que a geração mais velha é responsável pela crise ambiental, enquanto os jovens são as suas vítimas.

O conflito geracional é comumente usado para despolitizar questões políticas, tais como a concentração da riqueza. Tais argumentos partilham uma falha fundamental – a incapacidade de ver os seres humanos como vivendo em sociedades. Como deveria ser óbvio, em todas as sociedades os velhos já foram jovens e os jovens vão envelhecer. A ideia de que a sociedade está permanentemente dividida entre grupos etários é estática e uma variação da infame afirmação da ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher de que não existe tal coisa como a sociedade.

Também não é verdade que as questões ambientais sejam mais relevantes para os jovens do que para os mais velhos. O impacto imediato da poluição sobre a saúde dos idosos é pelo menos tão grave quanto para crianças e adolescentes, com o efeito mais evidente das doenças respiratórias, que afetam desproporcionalmente os pobres. A afirmação de divisão geracional serve como uma ficção útil para aqueles que desejam evitar enfrentar a política de construção de coligações para conseguir o resgate ambiental.

Muito mais plausível do que o argumento geracional é o elemento de classe na transição justa. Uma transição eficaz implicará necessariamente a eliminação de muitos empregos bem remunerados e qualificados, por exemplo, na produção de veículos a motor. Substituí-los por empregos verdes produtivos é essencial para a obtenção de apoio político para a transição.

Além disso, a afirmação de que a crise ambiental roubou o futuro da juventude vem de uma perspectiva singularmente de classe média. A desigualdade e a pobreza têm roubado o futuro a milhões de jovens em todo o mundo. É por isso que cada país exige uma transição justa na qual a luta pela sustentabilidade ambiental faz parte da criação de rendimentos dignos, como defende a vice-primeira-ministra espanhola Teresa Ribera. O nosso internacionalismo exige que estendamos o processo de transição justa aos países de baixo rendimento fortemente dependentes das exportações de hidrocarbonetos.

 

Interesses especiais

Estreitamente ligada à falácia do conflito geracional está uma segunda falácia – a acusação arrebatadora de que “os nossos líderes falharam connosco”. Isto deriva do sequitur seguinte de que, embora os políticos tenham tido décadas para agir, eles não conseguiram parar a deterioração ambiental. A ação efetiva sobre o meio ambiente não é uma questão de tempo. Ela requer enfrentar e superar com sucesso a oposição de interesses especiais.

Os políticos da UE que têm lutado pela justiça ambiental exigem e ganharam o apoio dos progressistas. Em vez de repreender os nossos aliados pelo que não fizeram, precisamos de construir as coligações que permitirão alcançar novos avanços. Essa tarefa envolve inspecionar e avaliar a postura dos políticos, como, por exemplo, “Labour for a Green New Deal” fez com os competidores na corrida de liderança do partido britânico.

A UE precisa de uma acção mais corajosa, e o seu próprio programa verde representa uma base sobre a qual se pode construir. Como construir a coligação entre países para uma transição justa através de um programa verde leva-me à terceira falácia.

 

Advertências directas

O medo de desastre não foi um método eficaz de reunir os eleitores do “remain” no referendo de 2016 no Reino Unido sobre a adesão à UE, nem é uma fórmula provável de sucesso para salvar o ambiente. Alguns considerarão os terríveis avisos como exageros; mais importante ainda, quando se acredita nelas as previsões de catástrofe podem provocar desespero e confusão.

Samantha Smith, diretora do Centro de Transição Justa do Congresso Sindical Internacional e parceiros, fornece o antídoto para esta falácia: substituímos o medo pela esperança, um programa “oferecendo aos trabalhadores e às comunidades esperança para o futuro”. Os políticos mais bem-sucedidos reconhecem que os cidadãos respondem à esperança em vez do medo – ninguém mais do que Franklin D Roosevelt, quatro vezes eleito presidente dos Estados Unidos.

No Outono de 1932, “FDR” fez a sua primeira corrida para a presidência com um terço da força de trabalho dos EUA desempregada e outros mais em horários curtos. Ele escolheu como sua improvável canção de campanha ‘Happy Days are Here Again’ (Dias Felizes estão aqui novamente, os céus acima estão claros novamente …). E ele ganhou com uma maioria esmagadora.

A transição justa poderia tirar uma lição de Roosevelt. Talvez pudesse escolher o sucesso de 1926 de Irving Berlin, ‘Blue Skies Smiling at Me’, oferecendo a promessa estimulante de um futuro saudável e sustentável que buscamos – ou, mais europeu e sofisticado, o primeiro movimento da Eroica de Beethoven.

 

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Nota

[1] N.T. Non sequitur é uma expressão em língua latina (traduzida para português como “não se segue”) que designa a falácia lógica na qual a conclusão não decorre das premissas; vd. https://pt.wikipedia.org/wiki/Non_sequitur

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O autor: John Weeksé coordenador do Fórum de Economia Progressista com sede em Londres e professor emérito da School of Oriental and African Studies. Ele é autor de The Debt Delusion: Living within Our Means and Other Fallacies (2019) e Economia do 1%: How Mainstream Economics Services the Rich, Obscures Reality and Distorts Policy.

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/02/23/a-proposito-do-conceito-e-iniciativas-da-transicao-justa-4-a-politica-de-uma-transicao-justa-evitar-argumentos-falaciosos-por-john-weeks/

Culturas intensivas despertam preocupações em Estremoz

A preparação de terras para a instalação de culturas intensivas em Veiros, no município de Estremoz, está a gerar preocupações entre a população quanto a eventuais impactos no ambiente e na saúde.

Olival intensivo /Vida RuralCréditos

Numa nota enviada às redacções, o PCP alerta que a população, em particular os moradores do Baldio da Eira, na freguesia alentejana de Veiros (distrito de Évora), «foi recentemente confrontada com a preparação de terras para a instalação [de] culturas intensivas a escassos metros das suas habitações».

Os comunistas consideram natural a preocupação com os eventuais «impactos na saúde, no ambiente e consequentemente na qualidade de vida», uma vez que as culturas agrícolas em regime de produção intensivo e superintensivo são conhecidas por exigirem a utilização de produtos agrotóxicos.

Neste caso, sublinha a nota, «colocam-se preocupações acrescidas quanto à defesa da saúde das pessoas, na medida em que as culturas confinam com habitações», existindo ainda preocupações quanto «à possibilidade de contaminação de aquíferos e do ar e à erosão dos solos a médio prazo».

Alertas sucessivos e questionamento

O PCP afirma ter alertado repetidamente o Governo para estas preocupações e apresentado soluções com vista à resolução dos problemas, «por via do controlo e monitorização das culturas já existentes», da «definição de regras que evitem a expansão da área dedicada a culturas intensivas e superintensivas», e da «limitação quanto à sua instalação em zonas confinantes com aglomerados populacionais ou zonas residenciais».

A nota lembra ainda que, no âmbito da discussão do Orçamento do Estado para 2020, os comunistas apresentaram duas propostas com vista ao reforço das «verbas destinadas ao estudo e monitorização deste tipo de culturas», bem como à fixação de «regras para que essa monitorização seja feita» tendo em conta a defesa da saúde e da qualidade de vida das populações e a promoção de culturas agrícolas tradicionais em regime não intensivo, «prevendo apoios com esse objectivo».

Neste sentido, os deputados comunistas na Assembleia República exigiram esclarecimentos ao Ministério da Agricultura, questionando-o, nomeadamente, sobre: a intervenção que as estruturas do Ministério tiveram no processo de instalação das culturas intensivas em Veiros; a existência de algum controlo ou estudo prévio dos impactos dessas culturas na saúde das populações e no ambiente; as medidas tomadas pelo Governo para assegurar que da prática da actividade agrícola em tais condições não resultam prejuízos para a saúde das populações ou o ambiente.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/local/culturas-intensivas-despertam-preocupacoes-em-estremoz

Portugal | Novo aeroporto: De "Pássaros não são estúpidos" a "avaliação rigorosa"

 
 
A construção desta infraestrutura voltou a estar no centro das atenções pelas consequências que poderá ter nos habitats e animais que vivem no estuário do Tejo.
 
Alberto Souto de Miranda, secretário de Estado adjunto e das Comunicações, saiu esta terça-feira em defesa do aeroporto do Montijo, num artigo de opinião divulgado no jornal Público. 
 
Ressalvando que "não há aeroportos sem impactos" e admitindo que o "risco mais sério são as colisões de aves com aviões", o responsável escreveu que "os pássaros não são estúpidos e é provável que se adaptem", sustentando que "este postulado arriscado é tão cientificamente sólido como o seu contrário: o de que eles não vão encontrar outras rotas migratórias, outras paragens estalajadeiras, como no Mouchão. Ciência sem dados comprovados não é ciência". 
 
As palavras de Alberto Souto de Miranda não passaram despercebidas no espaço público.
 
"Quem sou eu para duvidar da inteligência dos pássaros. Já quanto à lucidez de alguns titulares públicos que arriscam uma decisão destas confiando na superior “adaptação” dos ditos inteligentes com asas, enfim...", escreveu, nas redes sociais, Carlos Abreu Amorim, ex-deputado do PSD. 
 
No mesmo dia, a criação de uma petição por uma associação holandesa de defesa das aves acrescentou mais um possível entrave à construção do novo aeroporto do Montijo.
 
O abaixo-assinado, que já conta com mais de 26 mil assinaturas, opõe-se à construção da infraestrutura em nome de milhares de aves e, em particular, do maçarico-de-bico-direito - uma ave símbolo daquele país - que estarão em risco por causa da construção do aeroporto, visto que utilizam o estuário do Tejo como ponto de passagem na sua migração anual. 
 
Ora, o ministro do Ambiente, João Matos Fernandes, confrontado por jornalistas  com as queixas da associação holandesa de proteção das aves, garantiu que a avaliação de impacto ambiental do futuro aeroporto do Montijo foi "muito rigorosa" e que apresenta alternativas para a comunidade de animais que ali se encontra. 
 
O governante sublinhou que a declaração de Impacto Ambiental do Aeroporto do Montijo "foi discutida publicamente, foi discutida tecnicamente, e tem um conjunto de medidas de compensação e de minimização dos impactos ambientais" e que a avaliação "concluiu que os impactos que existem podem ser minimizados".
 
"Na parte aérea que é afetada da Reserva Natural do Estuário do Tejo ela é compensada por outras áreas que até são de maior dimensão" destinada à população de aves, nomeadamente algumas salinas na margem sul", concluiu Matos Fernandes à margem da apresentação do novo concurso de transportes da Área Metropolitana de Lisboa. 
 
Recorde-se que em 8 de janeiro de 2019, a ANA - Aeroportos de Portugal e o Estado assinaram o acordo para a expansão da capacidade aeroportuária de Lisboa, com um investimento de 1,15 mil milhões de euros até 2028 para aumentar o atual aeroporto de Lisboa e transformar a base aérea do Montijo, na margem sul do Tejo, num novo aeroporto.
 
O aeroporto do Montijo poderá ter os primeiros trabalhos no terreno já este ano, depois da emissão da Declaração de Impacto Ambiental (DIA) e da reorganização do espaço aéreo militar e após os vários avanços registados em 2019.
 
Notícias ao Minuto | Imagem: © iStock
 
 
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https://paginaglobal.blogspot.com/2020/02/portugal-novo-aeroporto-de-passaros-nao.html

Nas 105 melhores cidades na ação climática estão Sintra, Lisboa e Guimarães

A “Carbon Disclosure Project” é uma organização sem fins lucrativos, com sede no Reino Unido, que apoia investidores, empresas, cidades e regiões a gerir os impactos ambientais.

Numa lista das cidades “classe A”, as cidades que tomaram três vezes mais ações climáticas do que outras, Portugal aparece três vezes na lista das cidades líderes em ação climática e transparência.

A lista, na qual um terço das cidades são europeias, inclui outras cidades como Berlim (Alemanha), Barcelona (Espanha), Cidade do Cabo (África do Sul), Los Angeles (Estados Unidos), Cidade do México (México) ou Paris (França).

Na contagem referente a 2019 o número de cidades na Ásia-Pacífico mais do que dobrou em relação ao ano anterior.

A lista do CDP é baseada em dados de mais de 850 cidades sobre elementos como emissões, vulnerabilidades relacionadas com o clima e ações para reduzir as emissões e adaptação aos riscos. Com os resultados as cidades são classificadas de “A” a “D”.

Lisboa, por exemplo, aparece na lista “A” porque, diz o CDP, reduziu as emissões em 50% entre 2002 e 2014 e o Plano Diretor Municipal inclui um plano de hortas urbanas que aumentará as zonas verdes em quase 20%.

A capital irá construir 75 quilómetros de novos corredores “bus” e 92 quilómetros de percursos pedestres.

“A ciência do clima não deixa dúvidas que as emissões globais (de gases com efeito de estufa) têm de ser reduzidas até 2030 para limitar os efeitos da crise climática global. As cidades têm um papel crucial para enfrentar esse desafio, cobrindo apenas 2% da superfície da Terra são a fonte de 70% das emissões”, disse Kyra Appleby, diretora para a área das cidades, estados e regiões do CDP.

E acrescentou: “Estas 105 cidades estão a dar o exemplo a nível de transparência e ação que precisamos das cidades do mundo inteiro”.

Pelo mundo e entre as cidades classe “A” estão exemplos como Manchester, no Reino Unido, que está a agir para ser neutra em carbono em 2038, ou a região eThekwin, na África do Sul, que quer ter 40% das energias renováveis em 2030. Ou mesmo Petaling Jaya, na Malásia, que em 2011 lançou um esquema de impostos que premeia o baixo carbono.

 

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Guterres diz que a crise climática é o maior obstáculo para a paz mundial

André Kosters / Lusa

 

No Paquistão, o quinto país mais ameaçado pelos efeitos das mudanças climáticas, o secretário-geral das Nações Unidas destacou a questão da água como o maior perigo para o país.

 

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, disse este domingo que a crise climática é o maior obstáculo à paz mundial, durante a visita ao Paquistão, um país em conflito com a Índia por causa do uso da água.

“A crise climática é talvez o maior obstáculo à paz, estabilidade e prosperidade globais”, disse Guterres, durante uma conferência sobre desenvolvimento sustentável, no seu primeiro evento público em Islamabad, onde chegou hoje para uma visita oficial.

O Paquistão é o quinto país mais ameaçado pelos efeitos das mudanças climáticas, em particular pelo degelo, inundações e desertificação, segundo relatórios de organizações ambientais.

 
 

Além destas ameaças, Guterres destacou a questão da água como o maior perigo para o Paquistão, lembrando que 80% dos seus lençóis é destinado à agricultura, que emprega 40% da população ativa.

De resto, o problema da água tem criado tensões com a Índia, já que os dois países compartilham os leitos de seis rios, não se entendendo relativamente à gestão destes recursos hídricos.

Guterres lembrou que era o primeiro-ministro de Portugal, quando assinou com Espanha um acordo, em 1998, para gerir a água dos rios que os dois países europeus compartilham.

“Este exemplo mostra que é possível uma cooperação eficaz para resolver esse género de problemas”, explicou o secretário-geral da ONU.

António Guterres, que tem apelado para ações mais vigorosas para enfrentar a emergência climática, acrescentou que “paz, prosperidade, dignidade e direitos humanos para todas as pessoas são o objetivo do desenvolvimento sustentável”.

Guterres destacou a importância do desenvolvimento sustentável para todos os países e comunidades, já que os efeitos das mudanças climáticas não respeitam fronteiras.

“Nenhum país pode dizer que é imune aos seus efeitos (da mudança climática)”, disse o secretário-geral, lamentando que o “ritmo da mudança seja lento”, quando se procura alcançar metas de desenvolvimento sustentável.

Durante a palestra, Guterres deu o exemplo do próprio Paquistão, país pelo qual desenvolveu afinidade durante as suas muitas visitas como Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), entre 2005 e 2015.

“É injusto que o Paquistão esteja na vanguarda do impacto negativo das mudanças climáticas. O Paquistão contribuiu pouco para o problema“, disse Guterres.

Além da conferência sobre mudanças climáticas, Guterres participou numa reunião com refugiados do Afeganistão, Iémen e Tajiquistão que estão em solo paquistanês.

“A minha primeira reunião no Paquistão: gerações de refugiados afegãos que compartilharam histórias emocionantes, as suas esperanças e os seus sonhos”, escreveu o líder da ONU na sua conta da rede social Twitter.

Na segunda-feira, Guterres participará numa conferência que assinala o 40.º aniversário da chegada de refugiados afegãos ao Paquistão, estará presente no início de uma campanha de vacinação contra a poliomielite, um grave problema neste país asiático, e visitará um templo sikh aberto aos peregrinos oriundos da Índia.

// Lusa

 
 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/guterres-diz-crise-climatica-maior-obstaculo-paz-mundial-309011

Por trás da ideologia verde

– Os piores projectos das elites mundializadas

por Pierre Lévy [*]

A nova santa da religi O "Pacto verde" ("Green Deal" no jargão bruxelense) é doravante o eixo principal das instituições europeias. Ele foi apresentado por Bruxelas em Dezembro último. No dia 14 de Janeiro, a presidente da Comissão, Ursula von der Leyen precisou o financiamento, antes de ser lançada, na Primavera, uma "grande lei climática" que será imposta aos Estados membros. Estão em causa milhões de milhões de euros. Este vasto "plano de batalha ecológica" vai-se tornar, segundo a sra. Von der Leyen, a "marca de fábrica" da UE.

Naturalmente, encontram-se numerosas vozes que consideram que tudo isto não iria suficientemente longe. Outros, ou os mesmos, acusaram a Comissão de vigarice, de "parecer" converter-se à ecologia cedendo ao ar dos tempos.

O discurso ambientalista estrutura a ideologia das elites mundializadas, de que Bruxelas é um dos mais belos espécimes

Não é o caso. O discurso ambientalista estrutura em profundidade a ideologia das elites mundializadas, de que Bruxelas é um dos mais belos espécimes. Ela encontra suas raízes há várias décadas. Assim, um cenáculo saído da OCDE (organização dos países ocidentais mais ricos), conhecido sob o nome de Clube de Roma, publicou em 1972 um relatório tornado célebre intitulado "Os limites do crescimento".

Este texto foi vivamente apoiado por Sicco Mansholt, presidente da Comissão Europeia em 1972-1973. O sr. Mansholt, geralmente considerado como um dos "pais da Europa", já defendia o decrescimento.

E se houver dúvida quanto ao papel motor dos dirigentes, políticos, financeiros e oligárquicos, na promoção das teses pró clima e pró ambiente, não é proibido observar que o emblemático multimiliardário americano Michaël Bloomberg até recentemente era o representante da ONU para o clima. Ele acaba de ser substituído neste posto pelo canadiano Mark Carney, que foi presidente do Banco da Inglaterra até Janeiro de 2020. O homem tornou-se célebre pelas suas previsões apocalípticas em caso de Brexit. Ela agora tem um novo emprego para exibir seus talentos de profeta de catástrofes anunciadas mas fantasistas.

Distinguir dois planos

Convém à partida distinguir dois planos de reflexão quanto ao "aquecimento climático": por um lado, a investigação e a confrontação científica; por outro, a análise e a compreensão das questões que lhe estão ligadas: económicas, sociais, políticas, geopolíticas, democráticas, mesmo filosóficas.

O primeiro debate, sobre a realidade das ditas alterações climáticas e sobre suas possíveis causas, cabe aos próprios cientistas. Não será abordado aqui. Neste momento pode-se recordar que não há uma unanimidade entre os investigadores que estabelecesse sem contestação a existência do aquecimento de origem antrópica – a não ser que se trate todos os cientistas dissidentes como fantasistas, ignorantes ou impostores.

Um espírito racional deveria estar assustado pela omnipresença totalitária da tese dominante, tão martelada que se torna difícil sair do quadro do pensamento imposto

Em contrapartida, todos os cidadãos são perfeitamente legítimos para se inscreverem no outro debate, aqueles que tentam discernir os meandros das campanhas actuais. De resto, um espírito racional e crítico deveria ficar assustado pela omnipresença totalitária da tese dominante, pregada da manhã à noite na imprensa escrita e audiovisual, até ao ponto em que se torna difícil sair do quadro de pensamento imposto. Se se ouvir bem certos militantes ecologistas, não se estaria muito longe da execução do crime de "negacionismo climático" e mesmo das sanções penais correspondentes.

Cinco dossiers, pelo menos, podem ser evocados. Eles põem à luz a ligação intrínseca entre os interesses da oligarquia ocidental mundializada e a ideologia pró clima. Não se pode citar aqui senão os títulos de capítulo, cada um deles merecendo evidentemente desenvolvimentos mais amplos.

Primeiro dossier: o social

O primeiro poderia assim ser resumido: a sobriedade julgada necessária para "salvar o planeta" é na realidade o subterfúgio da austeridade que as forças do dinheiro entendem impor aos povos. Ela tem seus agentes, evidentemente, em numerosas sucursais da "esquerda" e por vezes é exaltada sob o nome de "sobriedade feliz". Para todos aqueles que se inquietam quanto à maneira de colmatar seu fim de mês, agita-se a ameaça do fim do mundo. O "super-consumo", inclusive de energia, é apontado a dedo com o lema: "mais vale ser melhor do que ter mais.

Será de notar que este estado de espírito não é novo na ideologia dominante. O outrora mediático jornalista François de Closets construiu o essencial da sua carreira editorial a denunciar as pessoas que desejariam "Sempre mais", título de uma da vintena de obras aparecidas desde 1970 sobre este mesmo tema.

O antagonismo entre aqueles que se angustiam quanto ao "fim do mês" e aqueles que alertam sobre o "fim do mundo" irrompeu em Novembro de 2018: o movimento dos Coletes amarelo nasceu da recusa ao tributo que o governo tentou impor sobre os combustíveis, com o fim confessado de "modificar os comportamentos".

Centenas de milhares de empregos directos estão ameaçados, em nome do enverdecimento da economia

O poder de compra de milhões de trabalhadores não está apenas ameaçado. Centenas de milhares de empregos directos estão igualmente ameaçados, em nome do enverdecimento da economia – projectado para criar outros postos de trabalho, mas mais tarde. Uma realidade que se encontra nos quatro cantos da União Europeia. Não é por acaso que a Comissão prevê um Fundo destinado especialmente a "acompanhar" os futuros trabalhadores privados do seu emprego e as futuras regiões sinistradas.

Sem dúvida não é inócuo observar que as categorias mais ameaçadas são as mais emblemáticas da força e da história operárias: mineiros (em França, encontraram outros pretextos para liquidar esta actividade anteriormente), siderurgistas, operários das indústrias química e do automóvel... Um pouco como se no inconsciente dos dominantes se tratasse de se desembaraçarem das fábricas demasiado "carbónicas"... e ao mesmo tempo das classes perigosas, sobretudo ali onde elas estão concentradas e combativas.

Segundo dossier: a geopolítica

O segundo domínio é de outra natureza. Tem a ver com uma imperícia do Todo Poderoso: este teve o mau gosto de repartir os hidrocarbonetos confiando uma grande parte aos Estados não alinhados com o Ocidente... Assim, a Rússia, o Irão, a Venezuela, para citar apenas três exemplos, são os países onde estão concentradas as maiores reservas petrolíferas e/ou gasistas.

Portanto pode-se imaginar que nas esferas dominantes, não se ficaria forçosamente descontente em que estes Estados fossem pouco a pouco privados dos recursos proporcionados pelas exportações de energia carbónica. Ao diabolizar esta última enfraquecem-se assim as posições e os meios financeiros dos adversários ou dos inimigos designados.

Terceiro dossier: a governação mundial

O terceiro dossier tem forte conotação ideológica. Repetem-nos continuamente: a catástrofe climática não pode ser combatida senão à escala mundial. Uma lenga lenga providencial para todos aqueles que militam, há décadas, por uma governação mundializada (sonho final dos poderosos) e suas declinações em grandes blocos regionais tais como a UE.

Logo, isto vem mesmo a propósito: para resolver os grandes problemas do nosso tempo, a escala dos Estados-nação estaria ultrapassada. De repente, a tese tem todas as aparências da evidência: o aquecimento não tem fronteiras, é preciso portanto esquecer as velhas ideias da soberania nacional.

Quarto dossier: a democracia

A quarta dimensão dos imperativos climáticos impostos refere-se a uma questão que não é decididamente anódino: a democracia. Pois os exemplos o mostram: as classes populares, os povos, parecem não aceitar submeter-se à doxa ambientalista, em todo o caso não suficientemente rápido para evitar as catástrofes anunciadas.

Pior, estariam prontos a punir eleitoralmente os governos demasiado zelosos em matéria de luta contra o CO2. E como estes teriam a fraqueza de temerem as reacções dos seus eleitores, as medidas necessárias – resumidas na fórmula: "é preciso mudar radicalmente nosso modo de vida" – são eternamente retardadas...

A conclusão se impõe: a democracia tornou-se um obstáculo à sobrevivência do planeta. Alguns afirmam-no abertamente. Outros, que não podem ser tão brutais, interrogam-se gravemente. Pois se a nossa sobrevivência colectiva está realmente ameaçada, a democracia deve ceder. Isto é imparável – e é sobretudo, miraculosamente, uma aurora para os poderosos do mundo, que fazem cada vez menos boa convivência com a soberania popular (a Comissão Trilateral já havia apontado os "problemas" da democracia na década de 1970 – a época do Clube de Roma).

Último dossier: a colocação em causa do progresso

Finalmente, a quinta questão é provavelmente a mais fundamental e refere-se ao progresso. Não pode passar desapercebido a ninguém que o "estilo da época" põe-no fundamentalmente. O progresso sob todas as suas dimensões – social (poder de compra, protecção social, serviços públicos...), económico (crescimento), cultural, científico, tecnológico... – seria, pode-se escolher, suspeito, culpável, arriscado ou arrogante.

Aqui e ali, interroga-se gravemente: não se teria ido demasiado longe? O dogma dominante poderia ser enunciado assim: "queira deixar o planeta no estado em que o encontrou". E para dar uma dimensão emocional suplementar ao caso, convocam-se "nossos filhos", "nossos netos" em relação aos quais arcamos com uma pesada responsabilidade. Exactamente o mesmo argumento que para a dívida...

O leque é vasto, desde os colapsólogos a defenderem abertamente o retorno à charrua (quando não ao suicídio preventivo da humanidade, único método para deixar o planeta sobreviver) até aos mais prudentes que se contentam em por em causa cada novo projecto de infraestrutura (ferroviária, rodoviária, aeroportuário, hidráulica – há sempre um castor dos pampas que é preciso salvar). Teremos nós realmente necessidade de tudo isto? murmura-se de diferentes lados.

Naturalmente, a querela entre partidários de uma visão prometéica da humanidade os defensores de uma antiga idade de ouro (que nunca existiu) não é nada nova. Mas a incapacidade progressiva do actual sistema dominante em criar riqueza (outra que não seja para os seus accionistas) tem como consequência que este sistema segregue ideologias regressivas, tal como o decrescimento, que não é senão o vestuário bio da recessão.

A concepção da relação entre o homem e a natureza é o terreno privilegiado desta evolução literalmente reaccionária. Seria preciso "preservar", "defender", "respeitar" a natureza. Pior: a ideologia dominante de agora em diante estabelece uma equivalência entre "natural" e "bom" (a nauseante abundância publicitária neste sentido o ilustra). Será preciso recordar que este culto do "natural" nem sempre foi celebrado?

Será que se mede o absurdo de semelhante injunção? A natureza regorgita de produtos tóxicos, ao passo que produtos dos mais artificiais (medicamentos, química) representam um trunfo insubstituível para o bem-estar colectivo e individual. Ainda que, evidentemente, se deva opor às poluições decorrentes da busca desenfreada de lucro – e não do progresso enquanto tal.

Não se pode conceber a epopeia da humanidade como uma sequência de combates para descobrir e inventar, para se emancipar dos "constrangimentos da natureza"?

Mais generalizadamente, não de pode conceber a epopeia humana como uma sequência de combates para descobrir e inventar, para se emancipar dos "constrangimentos da natureza"? Desde os primeiros humanos que constroem um tecto protector para se porem ao abrigo dos caprichos da natureza, à época actual onde se envia uma sonda para examinar o sol, o homem sempre procurou libertar-se dos constrangimentos para tornar possível o que era impossível.

Não tem a humanidade precisamente como característica agira contra a natureza?

Não é isto que poderia definir a humanidade? Esta última não tem como característica agir contra-natura ? A começar por esta luta milenar para repor em causa uma das principais características da natureza: a lei da selva.

Portanto, de um lado há aqueles que respeitam a natureza, em particular uma das suas constantes (ainda que não exclusiva): os mais fortes dominam os mais fracos, os predadores alimentam-se das presas. E do outro aqueles que têm no coração o combate pela igualdade – combate que decorre, se se ousa resumir, desde o levantamento dos escravos com Espártaco aos assalariados actuais em luta pelas pensões de reforma.

Ao pretenderem "salvar o planeta" das ameaças que a actividade humana, sob a forma de CO2, faria pairar sobre ele, as instituições europeias escolheram o seu campo. Temos o direito de escolher o oposto, que pretende não limitar o campo dos possíveis ao existente. Ou, pelo menos, aceitar o debate sem invectivas e sem delírios apocalípticos.

12/Fevereiro/2020

 

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/ambiente/ideologia_verde_12fev20.html

O rasto do dinheiro por trás da “nova agenda verde”

De repente a onda da nova agenda verde de medidas radicais para “parar” as mudanças climáticas tornou-se a mais recente coqueluche e até o grande potentado da globalização económica e o Fórum de Davos (Fórum Económico Mundial) deu enorme destaque ao tema, chamando até a intervir a jovem Greta Thunberg.

 

 

Quererá isto dizer que a elite económica mundial está verdadeiramente empenhada no combate às prejudiciais alterações climáticas ou apenas que já terá encontrado a via para preparar uma significativa mudança nos fluxos globais de capital, onde as grandes corporações financeiras podem continuar a lucrar; que outra coisa se poderá esperar quando assistimos ao conclave dos grandes directores de fundos de investimento de capital do mundo e dos principais banqueiros centrais do mundo?

Al Gore

No Fórum de Davos deste ano cruzaram-se Al Gore, presidente do Climate Reality Project e principal patrocinador de Greta Thunberg, Christine Lagarde, a ex-directora do FMI e actual presidente do Banco Central Europeu, Mark Carney, o ex-presidente do Banco da Inglaterra e agora consultor de mudança climática do primeiro-ministro inglês Boris Johnson, David M. Rubenstein, o influente fundador do Carlyle Group, Feike Sybesma, do gigante do agronegócio Unilever e que também é presidente-executivo do Fórum de Alto Nível de Liderança em Competitividade e Preços de Carbono do Grupo Banco Mundial, e Larry Fink, fundador e CEO do grupo de investimentos BlackRock e o mais improvável de todos os impulsionadores da nova agenda verde.

A BlackRock não é um fundo de investimento normal, antes o maior gestor de activos do mundo – gere um montante aproximado de 7 biliões de dólares (valor que é superior ao PIB conjunto de França e Alemanha, as duas maiores economias da EU), distribuído por mais de 100 países – que domina as principais bolsas mundiais e grandes accionistas das principais empresas de petróleo e das maiores empresas de carvão do mundo. Ainda assim, e no que aparenta uma completa inversão de estratégia, divulgou poucos dias antes do Fórum de Davos um boletim para os CEOs empresariais onde afirma que as alterações climáticas constituem um factor determinante nas perspectivas de longo prazo das empresas, que uma tal perspectiva começa a ser assimilada e que os riscos climáticos já estão a levar os investidores a reavaliar as principais premissas sobre os modelos de financiamento, concluindo que o risco climático é um risco de investimento e porque os mercados de capitais antecipam riscos futuros, Fink espera para breve uma realocação significativa de capital, através, nomeadamente, da constituição de carteiras de activos que substituam os investimentos nas empresas e nos sectores dos combustíveis fósseis (petróleo e carvão) e reforcem o compromisso com a sustentabilidade e a transparência nas actividades de gestão de investimentos… Perante tanta confiança e assertividade de um dos principais barões do capital transnacional quase apetece resumir, dizendo que quem não seguir as orientações do IPCC (Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas) da ONU na construção da sua carteira de activos, arrisca-se a perder dinheiro!

Greta Thunberg

Reforçando a sua recente veia ecológica, Larry Fink indica no seu boletim o TCFD (Task Force on Climate-related Financial Disclosures, ou Equipa para Divulgações Financeiras Relacionadas com o Clima) e o SASB (Sustainability Accounting Standards Board ou Conselho de Normas Contabilísticas de Sustentabilidade) como importantes fontes de informação sobre os riscos relacionados com o clima, mas revela afinal quem realmente suporta esta nova onda. O TCFD foi criado em 2015 pelo Bank for International Settlements e é presidido por Mark Carney, governador do Banco da Inglaterra e membro do conselho de Davos, ex-governador do Banco do Canadá e ex-Goldman Sachs; o TCFD, a City of London Corporation (o órgão municipal da área financeira de Londres) e o governo do Reino Unido, criaram em 2016 a Green Finance Initiative, com o objectivo de canalizar biliões de dólares para investimentos “verdes” e apresenta profundas ligações ao FSB (Financial Stability Board, entidade que monitoriza e apresenta recomendações sobre o sistema financeiro global). O já citado TCFD é presidido pelo bilionário Michael Bloomberg e inclui, além do BlackRock, o JP MorganChase, o Banco Barclays, o HSBC (Hong Kong and Shanghay Banking Corporation), a Swiss Re (a segunda maior resseguradora do mundo), o ICBC (Industrial and Commercial Bank of China), a Tata Steel, a petrolífera ENI, a Dow Chemical, o gigante da mineração australiano BHP e a Generation Investment Management de Al Gore; já o SASB, entidade que tem assessorado os grupos financeiros que direccionam o fluxo de capital global para os principais projectos de mineração de carvão e petróleo, inclui, além do BlackRock, os fundos Vanguard, Fidelity Investments, Goldman Sachs, State Street Global, Carlyle Group, Rockefeller Capital Management e vários grandes bancos como o Bank of America e o UBS.

E são estas as impolutas entidades que irão reorientar as empresas em direcção a uma economia mais verde, ajudadas certamente por outras entidades tão insuspeitas como os dirigentes dos principais bancos centrais – como é o caso do governador do Banco do Japão, Haruhiko Kuroda, que foi citado pela Reuters quando afirmou que o «…risco relacionado com o clima difere de outros riscos, pois é muito menos previsível e o seu impacto a longo prazo significa que os efeitos durarão mais do que outros riscos financeiros», ou da presidente do BCE, Christine Lagarde, quando assegurou que aquele banco lutará para cumprir uma assumida missão climática – que há algum tempo vêem incluindo os riscos ambientais nos seus discursos sobre inflação e estabilidade monetária.

Christine Lagarde

De uma forma ou outra, parece cada vez mais evidente que este impulso por uma acção climática dramática tem mais a ver com uma tentativa de justificação para uma grande reorganização da economia global do que para um modelo de energia que implique uma redução drástica dos padrões de vida globais. Isso mesmo foi já assumido por Otmar Edenhofer, o líder de um dos grupos de trabalho do Painel Intergovernamental das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, quando disse numa entrevista ao entrevista ao Neue Zürcher Zeitung, em 2010, que é preciso acabar com a ideia que a política climática internacional é uma questão ambiental, porque está é na realidade apenas um meio de redistribuição da riqueza.

E que melhor forma de o fazer senão através dos maiores controladores de dinheiro do mundo, como o BlackRock, ou com a colaboração de um centros financeiros com maior opacidade, como a City londrina?

 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

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Incêndios. Governo prevê “arrendamento forçado das terras” caso proprietários não colaborem

 

O Governo pretende reduzir a área ardida para metade e reconverter a paisagem rural em florestas. Se os proprietários não quiserem aderir a este plano, o Estado vai arrendar coercivamente as terras.

 

Os incêndios que ultrapassem a dimensão de 500 hectares vão resultar num plano de recuperação das áreas ardidas, prevendo-se que o Estado proceda ao “arrendamento forçado das terras” caso os proprietários não colaborem, avançou esta terça-feira o ministro do Ambiente.

“Será realizado um plano de recuperação e, caso os proprietários não queiram ou não o possam executar, o Estado, através da administração central ou local, procederá ao arrendamento coercivo das terras”, afirmou o ministro do Ambiente e Ação Climática, João Matos Fernandes, referindo que em 2019 se registaram 14 incêndios com área superior a 500 hectares.

Na apresentação do Plano Nacional de Gestão Integrada de Fogos Rurais, numa audição no parlamento, João Matos Fernandes destacou como grandes orientações estratégicas deste plano a valorização dos espaços rurais, “num país com seis milhões de hectares de florestas, matos e pastagens”, e a reconstrução da paisagem em mosaico, recuperando também as zonas que foram percorridas por incêndios.

 
 

“A nossa ambição passa pela reconversão de 20% da nossa paisagem rural, por forma a impedir a ocorrência de grandes incêndios, através da criação de descontinuidades na paisagem. Iremos elaborar 20 planos de paisagem durante esta década com este objetivo”, indicou, recordando que já foram alvo de planos as serras de Monchique e Silves, atingidas por um grande fogo florestal em 2018.

Neste âmbito, a ideia é “reconverter 1,2 milhões de hectares, um quinto da área ocupada por espaços florestais”, apontou o governante, considerando como fundamental envolver os proprietários e associações. “Outra meta bem definida é a da necessidade de recuperar as áreas ardidas”, reforçou João Matos Fernandes.

Com um horizonte temporal de uma década, o Plano Nacional de Gestão Integrada de Fogos Rurais prevê uma despesa total superior a seis mil milhões de euros, com um investimento expectável de 60% a ser direcionado para a prevenção e 40% para o combate, tendo como principal objetivo a redução para metade da área ardida.

“Outro grande foco deste plano é o da redução em 80% das ignições em dias de elevado risco. Nesta matéria, a vigilância, a proximidade e a informação são determinantes”, referiu o ministro do Ambiente, adiantando que um dos objetivos é reduzir em 600 mil hectares a área ardida, em 10 anos.

Com esta meta, o Governo pretende dar “um grande impulso a um Portugal com muito menos fogos, com uma nova paisagem rural, com um capital natural mais valioso e com a capacidade de sumidouro necessária”, declarou o governante.

Relativamente ao planeamento para o Sistema de Gestão Integrado de Fogos Rurais, João Matos Fernandes esclareceu que “envolve não apenas o nível nacional, mas também, e sobretudo, os níveis regional e local”, com o levantamento de necessidades em cada nível, dando-lhes “uma centralidade no desenho da ação nacional que não existia”.

“A escala do fogo não é municipal”, frisou o ministro do Ambiente, defendendo que o planeamento a um nível intermunicipal “oferece grandes ganhos, mas sem nunca perder o envolvimento das autarquias e dos agentes locais”.

Além disso, o responsável pela pasta do Ambiente destacou que o Plano Nacional de Gestão Integrada de Fogos Rurais dá uma resposta concreta ao objetivo de Portugal ser neutro em emissões carbónicas, em 2050, o que implica o aumento da capacidade de sequestro de carbono, que, entre outras condições, depende da redução para metade da área ardida em fogos rurais, em particular dos “incêndios rurais graves”.

// Lusa

 
 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/incendios-arrendamento-forcado-terras-308131

Papa defende preservação da Amazônia e cuidado com os mais pobres

Vatican News -“A Amazônia querida apresenta-se aos olhos do mundo com todo o seu esplendor, o seu drama e o seu mistério.” Assim tem início a Exortação apostólica pós-sinodal, Querida Amazônia. O Pontífice, nos primeiros pontos, (2-4) explica “o sentido desta Exortação”, rica de referências a documentos das Conferências episcopais dos países amazônicos, mas também a poesias de autores ligados à Amazônia. Francisco destaca que deseja “expressar as ressonâncias” que o Sínodo provocou nele. E esclarece que não pretende substituir nem repetir o Documento final, que convida a ler “integralmente”, fazendo votos de que toda a Igreja se deixe “enriquecer e interpelar” por este trabalho e que a Igreja na Amazônia se empenhe “na sua aplicação”. O Papa compartilha os seus “Sonhos para a Amazônia” (5-7), cujo destino deve preocupar a todos, porque esta terra também é “nossa”. Assim, formula “quatro grandes sonhos”: que a Amazônia “que lute pelos direitos dos mais pobres”, “que preserve a riqueza cultural”, que “que guarde zelosamente a sedutora beleza natural”, que, por fim, as comunidades cristãs sejam “capazes de se devotar e encarnar na Amazônia”.

O sonho social: a Igreja ao lado dos oprimidos

O primeiro capítulo de Querida Amazônia é centralizado no “Sonho social” (8). Destaca que “uma verdadeira abordagem ecológica” é também “abordagem social” e, mesmo apreciando o “bem viver” dos indígenas, adverte para o “conservacionismo”, que se preocupa somente com o meio ambiente. Com tons vibrantes, fala de “injustiça e crime” (9-14). Recorda que já Bento XVI havia denunciado “a devastação ambiental da Amazônia”. Os povos originários, afirma, sofrem uma “sujeição” seja por parte dos poderes locais, seja por parte dos poderes externos. Para o Papa, as operações econômicas que alimentam devastação, assassinato e corrupção merecem o nome de “injustiça e crime”. E com João Paulo II, reitera que a globalização não deve se tornar um novo colonialismo.

Os pobres sejam ouvidos sobre o futuro da Amazônia

Diante de tanta injustiça, o Pontífice fala que é preciso “indignar-se e pedir perdão” (15-19). Para Francisco, são necessárias “redes de solidariedade e de desenvolvimento” e pede o comprometimento de todos, inclusive dos líderes políticos. O Papa ressalta o tema do “sentido comunitário” (20-22), recordando que, para os povos amazônicos, as relações humanas “estão impregnadas pela natureza circundante”. Por isso, escreve, vivem como um verdadeiro “desenraizamento” quando são “forçados a emigrar para a cidade”. A última parte do primeiro capítulo é dedicado às “Instituições degradadas” (23-25) e ao “Diálogo social” (26-27). O Papa denuncia o mal da corrupção, que envenena o Estado e as suas instituições. E faz votos de que a Amazônia se torne “um local de diálogo social” antes de tudo “com os últimos. A voz dos pobres, exorta, deve ser “a voz mais forte” sobre a Amazônia.

O sonho cultural: cuidar do poliedro amazônico

 

O segundo capítulo é dedicado ao “sonho cultural”. Francisco esclarece que “promover a Amazônia” não significa “colonizá-la culturalmente” (28). E recorre a uma imagem que lhe é cara: “o poliedro amazônico” (29-32). É preciso combater a “colonização pós-moderna”. Para Francisco, é urgente “cuidar das raízes” (33-35). Citando Laudato si’ e Christus vivit, destaca que a “visão consumista do ser humano” tende a “a homogeneizar as culturas” e isso afeta sobretudo os jovens. A eles, o Papa pede que assumam as raízes, que recuperem “a memória danificada”.

Não a um indigenismo fechado, é preciso um encontro intercultural

A Exortação se concentra depois sobre o “encontro intercultural” (36-38). Mesmo as “culturas aparentemente mais evoluídas”, observa, podem aprender com os povos que “desenvolveram um tesouro cultural em conexão com a natureza”. A diversidade, portanto, não deve ser “uma fronteira”, mas “uma ponte”, e diz não a “um indigenismo completamente fechado”. A última parte do segundo capítulo é dedicada ao tema “culturas ameaçadas, povos em risco” (39-40). Em qualquer projeto para a Amazônia, esta é a recomendação do Papa, “é preciso assumir a perspectiva dos direitos dos povos”. Estes, acrescenta, dificilmente podem ficar ilesos se o ambiente em que nasceram e se desenvolveram “se deteriora”.

 

O sonho ecológico: unir cuidado com o meio ambiente e cuidado com as pessoas

O terceiro capítulo, “Um sonho ecológico”, é o mais relacionado com a Encíclica Laudato si’. Na introdução (41-42), destaca-se que na Amazônia existe uma relação estreita do ser humano com a natureza. Cuidar dos irmãos como o Senhor cuida de nós, reitera, “é a primeira ecologia que precisamos”. Cuidar do meio ambiente e cuidar dos pobres são “inseparáveis”. Francisco dirige depois a atenção ao “sonho feito de água” (43-46). Cita Pablo Neruda e outros poetas locais sobre a força e a beleza do Rio Amazonas. Com suas poesias, escreve, “ajudam a libertar-nos do paradigma tecnocrático e consumista que sufoca a natureza”.

Ouvir o grito da Amazônia, o desenvolvimento seja sustentável

Para o Papa, é urgente ouvir o “grito da Amazônia” (47-52). Recorda que o equilíbrio planetário depende da sua saúde. Escreve que existem fortes interesses não somente locais, mas também internacionais. A solução, portanto, não é “a internacionalização” da Amazônia; ao invés, deve crescer “a responsabilidade dos governos nacionais”. O desenvolvimento sustentável, prossegue, requer que os habitantes sejam sempre informados sobre os projetos que dizem respeito a eles e auspicia a criação de “um sistema normativo” com “limites invioláveis”. Assim, Francisco convida à “profecia da contemplação” (53-57). Ouvindo os povos originários, destaca, podemos amar a Amazônia “e não apenas usá-la”; podemos encontrar nela “um lugar teológico, um espaço onde o próprio Deus Se manifesta e chama os seus filhos”. A última parte do terceiro capítulo é centralizada na educação e hábitos ecológicos” (58-60). O Papa ressalta que a ecologia não é uma questão técnica, mas compreende sempre “um aspecto educativo”.

O sonho eclesial: desenvolver uma Igreja com rosto amazônico

O último capítulo, o mais denso, é dedicado “mais diretamente” aos pastores e aos fiéis católicos e se concentra no “sonho eclesial”. O Papa convida a “desenvolver uma Igreja com rosto amazônico” através de um “grande anúncio missionário” (61), um “anúncio indispensável na Amazônia” (62-65). Para o Santo Padre, não é suficiente levar uma “mensagem social”. Esses povos têm “direito ao anúncio do Evangelho”; do contrário, “cada estrutura eclesial transformar-se-á em mais uma ONG”. Uma parte consistente é dedicada ainda à inculturação. Retomando a Gaudium et spes, fala de “inculturação (66-69) como um processo que leva “à plenitude à luz do Evangelho” aquilo que de bom existe nas culturas amazônicas.

Uma renovada inculturação do Evangelho na Amazônia

O Papa dirige o seu olhar mais profundamente, indicando os “Caminhos de inculturação na Amazônia”. (70-74). Os valores presentes nas comunidades originárias, escreve, devem ser valorizados na evangelização. E nos dois parágrafos sucessivos se detém sobre a “inculturação social e espiritual” (75-76). O Pontífice evidencia que, diante da condição de pobreza de muitos habitantes da Amazônia, a inculturação deve ter um “timbre marcadamente social”. Ao mesmo tempo, porém, a dimensão social deve ser integrada com aquela “espiritual”.

Os Sacramentos devem ser acessíveis a todos, especialmente aos pobres

Na sequência, a Exortação indica “pontos de partida para uma santidade amazônica” (77-80), que não devem copiar “modelos doutros lugares”. Destaca que “é possível receber, de alguma forma, um símbolo indígena sem o qualificar necessariamente como idolátrico”. Pode-se valorizar, acrescenta, um mito “denso de sentido espiritual” sem necessariamente considerá-lo “um extravio pagão”. O mesmo vale para algumas festas religiosas que, não obstante necessitem de um “processo de purificação”, “contêm um significado sagrado”.

Outra passagem significativa de Querida Amazônia é sobre a inculturação da liturgia (81-84). O Pontífice constata que já o Concílio Vaticano II havia solicitado um esforço de “inculturação da liturgia nos povos indígenas”. Além disso, recorda numa nota do texto que, no Sínodo, “surgiu a proposta de se elaborar um «rito amazônico»”. Os Sacramentos, exorta, “devem ser acessíveis, sobretudo aos pobres”. A Igreja, afirma evocando a Amoris laetitia, não pode se transformar numa “alfândega”.

Bispos latino-americanos devem enviar missionários à Amazônia

Relacionado a este tema, está a “inculturação do ministério” (85-90) sobre a qual a Igreja deve dar uma resposta “corajosa”. Para o Papa, deve ser garantida “maior frequência da celebração da Eucaristia”. A propósito, reitera, é importante “determinar o que é mais específico do sacerdote”. A resposta, lê-se, está no sacramento da Ordem sacra, que habilita somente o sacerdote a presidir a Eucaristia. Portanto, como “assegurar este ministério sacerdotal” nas zonas mais remotas? Francisco exorta todos os bispos, especialmente os latino-americanos, “a ser mais generosos”, orientando os que “demonstram vocação missionária” a escolher a Amazônia e os convida a rever a formação dos presbíteros.

Favorecer um protagonismo dos leigos nas comunidades

Depois dos Sacramentos, Querida Amazonía fala das “comunidades cheias de vida” (91-98), nas quais os leigos devem assumir “responsabilidades importantes”. Para o Papa, com efeito, não se trata “apenas de facilitar uma presença maior de ministros ordenados”. Um objetivo “limitado” se não suscitar “uma nova vida nas comunidades”. São necessários, portanto, novos “serviços laicais”. Somente através de “um incisivo protagonismo dos leigos”, reitera, a Igreja poderá responder aos “desafios da Amazônia”. Para o Pontífice, os consagrados têm um lugar especial e não deixa de recordar o papel das comunidades de base, que defenderam os direitos sociais, e encoraja em especial a atividade da REPAM e dos “grupos missionários itinerantes”.

Novos espaços às mulheres, mas sem clericalizações

Francisco dedica um espaço à força e ao dom das mulheres (99-103). Reconhece que, na Amazônia, algumas comunidades se mantiveram somente “graças à presença de mulheres fortes e generosas”. Porém, adverte que não se deve reduzir a Igreja a “estruturas funcionais”. Se assim fosse, com efeito, teriam um papel somente se fosse concedido a elas acesso à Ordem sacra. Para o Pontífice, deve ser rejeitada a clericalização das mulheres, acolhendo, ao invés, a contribuição segundo o modo feminino, que prolonga “a força e a ternura de Maria”. Francisco encoraja o surgimento de novos serviços femininos, que – com um reconhecimento público dos bispos – incidam nas decisões para as comunidades.

Os cristãos devem lutar juntos para defender os pobres da Amazônia

Para o Papa, é preciso “ampliar horizontes para além dos conflitos” (104-105) e deixar-se desafiar pela Amazônia a “superar perspectivas limitadas” que “permanecem enclausuradas em aspetos parciais”. O quarto capítulo termina com o tema da “convivência ecumênica e inter-religiosa” (106-110), “encontrar espaços para dialogar e atuar juntos pelo bem comum”. “Como não lutar juntos? – questiona Francisco – Como não rezar juntos e trabalhar lado a lado para defender os pobres da Amazônia”?

Confiemos a Amazônia e os seus povos a Maria

Francisco conclui a Querida Amazônia com uma oração à Mãe da Amazônia (111). “Mãe, olhai para os pobres da Amazônia – é um trecho da sua oração –, porque o seu lar está a ser destruído por interesses mesquinhos (…) Tocai a sensibilidade dos poderosos porque, apesar de sentirmos que já é tarde, Vós nos chamais a salvar o que ainda vive”.

O sistema global a caminho do colapso financeiro e climático?

A crescente desigualdade, bem evidente na pauperização acelerada dos assalariados, e a sobrevivência do modelo económico que sustenta e que tem transformado a democracia ocidental numa espécie de catalisador duma forma moderna de escravidão económica não se pode prolongar nem servir para adiar as medidas necessárias à contenção do desgaste provocado pelo modelo de exploração desbragada dos recursos naturais.

 

 

De acordo com o Índice Multidimensional de Pobreza, publicado em meados de 2019 pela ONU, mais de um quarto da população mundial (2 mil milhões de pessoas) vive em situação de pobreza e, segundo dados do Institute of International Finance de meados do mesmo ano, o endividamento mundial subiu para 250,9 biliões de dólares (228 biliões de euros), valor que fixa um novo recorde de 320% do PIB mundial.

O que antes podia ser visto com um mar de dívidas no qual tentávamos flutuar tornou-se rapidamente num oceano de dívidas no qual arriscamos afundar-nos todos.

Esta enorme quantidade de dívida, uma imaginária riqueza de faz de conta, que o capitalismo global trata como o seu bezerro de ouro ameaça agora colapsar estruturalmente, o que não é apenas um problema para os 1% de mega ricos que ainda exercem uma influência determinante no aspecto político-económico e na própria vida colectiva. O colapso originado pela última crise reduziu milhões de trabalhadores e de antigos proprietários imobiliários a uma luta pela sobrevivência que não terminou para a maioria deles, hipocritamente associados a uma suposta recuperação económica (que apenas o foi para o factor capital) que o que conseguiu foi reduzir os salários de quem trabalha e aprofundar o processo de concentração da riqueza. Nada de profundamente diferente do que assistimos nos primórdios do capitalismo industrial, no século XIX, quando os camponeses foram empurrados dos campos para as fábricas para criarem riqueza para os seus proprietários, enriquecendo-os ao ponto de ultrapassarem a riqueza dos anteriores senhores feudais.

Agora, o capital global criou uma ínfima minoria pessoas super-ricas a ponto de apenas três bilionários norte-americanos terem tanta riqueza combinada quanto 150 milhões dos seus concidadãos, tantos são os que esperam obedientemente para ir às urnas e votar na continuação do sistema que nos dirige em direcção a mais um colapso financeiro, quase seguramente mais doloroso que o anterior. O recurso a fundos públicos para resgatar a riqueza privada salvou-a temporariamente mas não se pode permitir que tal se repita, especialmente quando se registam, um pouco por todo o lado, contestações e revoltas em consequência da degradação das condições de vida da generalidade das populações, que sentem a sua cada vez mais palpável miséria.

A aproximação de um novo potencial colapso desta economia de casino em que se transformou o capitalismo financeiro global parece cada vez mais real, mas os seus maiores malefícios ainda poderão ser evitados, mesmo que os principais defensores do sistema sintam que isso é inevitável e a sociedade, ou seja os trabalhadores assalariados, apenas terão que aprender a viver com mais austeridade e muito menos conforto. Preocupados em mudar o acessório para que no essencial tudo continue sem alterações , os poderes estabelecidos (económicos e políticos) têm contado com a colaboração dos meios de comunicação que regularmente noticiam os pequenos fait divers enquanto procuram minimizar as notícias das multidões de pessoas frustradas que da França à Nigéria ou do Líbano ao Chile se erguem, como raramente antes o fizeram, contra a autoridade e a regra que as reduziu a níveis de vida cada vez mais inferiores e degradantes.

E esse mesmo sistema está na raiz de um problema de maior alcance, reduzido ao chavão das alterações climáticas pelos mesmíssimos oportunistas que não hesitariam em usar um lança-chamas para apagar um incêndio, ou que pretendem fazer depender de um sistema de lucro privado as iniciativas para acabar com o potencial de destruição do planeta e dos seus habitantes originado pelo mesmo sistema de lucro privado. Enquanto desenvolvemos planos para limpar a trapalhada que criámos na natureza recorrendo ao mesmo sistema que lhe deu origem, muitos começam já a perceber o jogo de interesses que leva à contínua alteração das formas de combate à poluição que mais não é que uma via de alternar os titulares dos lucros assim gerados. Este é o modelo que originou lucros crescentes para uma minoria que assim ganhou poder para dominar e comercializar bens essenciais como o ar, a água, a terra, a saúde, o bem-estar, transformando tudo em mercadorias (bens transaccionáveis) que só podem ser compradas e vendidas num mercado para o qual teremos que ter os meios (riqueza) para participarmos e que aos excluídos apenas oferecerá uma alternativa: a de morrerem.

A crescente desigualdade, bem evidente na pauperização acelerada dos assalariados, e a sobrevivência do modelo económico que sustenta e que tem transformado a democracia ocidental numa espécie de catalisador duma forma moderna de escravidão económica não se pode prolongar nem servir para adiar as medidas necessárias à contenção do desgaste provocado pelo modelo de exploração desbragada dos recursos naturais. A este modelo de exploração desenfreada dos recursos globais em benefício de uma minoria terá que se contrapor (e sobrepor) outro, mais natural e racional, pensado colectivamente e globalmente, onde o lucro individual seja obrigatoriamente substituído pelo interesse geral.


 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/o-sistema-global-a-caminho-do-colapso-financeiro-e-climatico/

Verdade Envenenada: o teflon no sangue de toda a gente

(Daniel Deusdado, in Diário de Notícias, 31/01/2020)

Teflon. Bom para garantir que os alimentos não ficam colados às frigideiras e tachos quentes. Igualmente usado em alguma roupa simultaneamente quente e impermeável (tipo “gore-tex”). Faz parte da composição de alguns detergentes. E de repelente de insetos. E está em muitos plásticos e tantas outras coisas que o tornou presente no sangue de praticamente todos os norte-americanos e de centenas de milhões de pessoas por todo o mundo.

Esta é a história do PFOA-C8 – ácido perfluorooctanóico, inventado em 1945 nos Estados Unidos e cuja ingestão acumulada ao longo da vida está por determinar. Tornou-se notícia porque a primeira batalha jurídica contra o “teflon” foi finalmente vencida em 2016 por um advogado norte-americano, Robert Billot.

 

A sua saga gerou um documentário no Netflix , “The Devil We know: como a DuPont envenenou o mundo inteiro com o teflon” (infelizmente já não disponível). Recentemente o filme “Dark Waters – Verdade Envenenada”, esteve durante o mês de janeiro nas salas portuguesas (ainda permanece no Porto e Guimarães), protagonizado por Mark Ruffalo e Anne Hathaway. O caso “teflon” foi ainda narrado pelo acutilante “The Intercept”, e depois pelo “The New York Times”.

Inicialmente criado como isolante dos tanques militares, o “teflon” veio parar ao uso doméstico nos anos 60, apesar dos testes laboratoriais das empresas químicas começarem a demonstrar que o PFOA-C8 causava tumores testiculares, pancreáticos e hepáticos em ratos de laboratório.

Em consequência dos riscos para os seres humanos, a 3M desistiu da sua produção no ano 2000 quando finalmente a Agência de Proteção do Ambiente norte-americano (EPA) exigiu às empresas uma avaliação mais rigorosa dos efeitos do químico.

Mas, ao contrário da 3M, a DuPont passou a assegurar vendas estimadas em mais de mil milhões de dólares por ano com este produto, apesar de na sua linha de produção de teflon vários funcionários terem problemas de saúde graves, incluindo grávidas.

O escândalo teflon só se tornou visível depois das queixas de um produtor de gado – vizinho da DuPont, em Parkersburg, Virgínia Ocidental, – ver morrer 200 vacas ao ingerirem água do rio contaminada pela fábrica química. Em simultâneo, tanto o agricultor como a sua mulher contraíram cancros (ele já faleceu).

Depois de décadas a tentar ignorar o caso, a DuPont é confrontada pelo advogado Robert Billot (ele próprio membro de uma sociedade de advogados que trabalhava para as maiores químicas do mundo) que acaba por aceitar a defesa do agricultor envenenado e falido.

Aqui chegados: esta história é absolutamente desoladora e, ao mesmo tempo, essencial para percebermos em que mundo vivemos.

Em primeiro lugar o caso “teflon” mostra que só são proibidos no mundo inteiro os químicos que, comprovadamente, matam pessoas ou provocam danos graves na sua saúde. Até esta prova estar irrefutavelmente confirmada, estamos no território da absoluta “inovação” e onde os organismos de controlo – sejam as Agências de Proteção do Ambiente ou outros – se limitam a deixar entrar no mercado as inovações que, até prova em contrário, não tragam danos para a saúde humana. Só que essa prova surge apenas por via das vítimas – e muitas vezes já é tarde demais.

Este caso demonstra igualmente como o tempo joga a favor de quem polui ou provoca danos irreversíveis. Os mil milhões de faturação anual da DuPont com o “teflon” são astronomicamente superiores à indemnização que a empresa química acabou por pagar (670 milhões de dólares) aos 3500 casos de contaminação sanguínea verificados em Parkersburg.

Em segundo lugar, a DuPont só foi condenada porque o advogado Robert Billot conseguiu provar que a substância era danosa para os seres humanos em virtude dos estudos que a própria DuPont tinha efetuado nos anos 60 – e a que ele teve acesso por ordem judicial. Ou seja, não havia qualquer estudo público exceto o da DuPont. Aliás, se o estudo do teflon dependesse desse financiamento público, não teria havido qualquer caso porque os organismos públicos norte-americanos não os fazem em grande escala. Não havia sequer dados para provar a má-fé da empresa. Mais: casos como estes levam as grandes empresas sem responsabilidade social a não estudarem nada. Se não houver conhecimento, não pode haver má-fé. E sobretudo não haverá fugas de informação que as incrimine.

Foi pela pressão junto da opinião pública que a DuPont aceitou inicialmente pagar 70 milhões de dólares para compensar os habitantes de Parkersburg do envenenamento das águas e do ambiente da cidade.

Só que o advogado Robert Billot usou-os de uma forma inteligente: dividiu a indemnização entre todos os habitantes de Parkersburg e, em contrapartida, convidou-os a fazer análises ao sangue no momento de receberem a indemnização individual de 400 dólares. Apareceram 70 mil pessoas, crianças incluídas.

E agora repare-se: a DuPont aceitou, durante as negociações fora de tribunal, respeitar as conclusões das análises ao sangue dos habitantes e atuar em conformidade com os resultados.

Quanto tempo demoraram os resultados das análises a surgir? Sete anos.

Ao fim desta colossal espera, já o advogado estava quase falido, com a saúde desfeita e sem o respeito dos habitantes de Parkersburg. Mas os resultados eram claros: 3500 casos de contaminação em Parkersburg com PFOA-C8.

Quando finalmente chegou a hora de respeitar o acordo de mediação, a multinacional química voltou atrás e recusou negociar as indemnizações. Robert Billot teria de processar a DuPont por cada um dos 3500 casos, participar em milhares de audiências, e depois em milhares de julgamentos. Uma tarefa pura e simplesmente impossível de realizar em tempo útil para a vida destes lesados da DuPont.

Felizmente há histórias que acabam, digamos, razoavelmente. Robert Billot não desistiu. Começou por ganhar o primeiro julgamento, e depois o segundo, e a seguir o terceiro. Finalmente a DuPont percebeu que ia destruir ainda mais a sua limitada reputação e resolveu pagar 670 milhões de uma só vez a todas as vítimas. Mesmo assim pouco mais de metade do valor que faturava num só ano em teflon. E assim o caso se arrastou até 2016.

Repare-se: quase 60 anos após o conhecimento das consequências da produção e uso do PFOA-CB (teflon), finalmente a multinacional química perdeu em tribunal devido ao estoicismo de um advogado. Sem isso, esta história continuaria sem ser do conhecimento público.

Entretanto, a (nova) DowDuPont tentou alterar o PFOA-C8 pelo Gen-X mas não há certezas sobre se algo mudou do ponto de vista toxicológico. A produção, essa, mantém-se à escala global.

Outro dado importante: o PFOA-C8 ainda não entrou na lista dos “poluentes orgânicos persistentes” (conhecidos como os químicos eternos) da Convenção de Estocolmo, criada pelas Nações Unidas. O “teflon” tem sido encontrado em coisas tão diversas como resíduos industriais, carpetes resistentes a manchas ou líquidos de limpeza de carpetes, muitos tipo sde plásticos, têxteis especiais e obviamente em tachos, panelas e frigideiras. Os estudos assinalam o potencial de gerar cancro renal e testicular, problemas na tiroide e malformações nos fetos.

Em Peterburgspark, cidade onde o principal foco de contaminação surgiu, os habitantes desprezaram durante muito tempo Robert Billot e os cidadãos que o ajudavam, porque isso afetava a joia da cidade, a fábrica da DuPont, uma das melhores empresas onde se podia trabalhar.

Aina hoje continuamos a estrelar ovos, e tudo o resto, nas frigideiras e panelas com teflon. E haverá milhares de outros químicos que, em conjunto, geram uma bioacumulação no corpo humano que estarão na origem de muitos cancros de que desconhecemos a origem.

Duas perguntas: quem regula realmente a indústria química? Onde nos leva tudo isto?

 

 

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

CASCAISEA realizou a sua primeira ação pública, na praia do Abano

Foi no passado sábado, que a recém-formada associação ambiental CASCAISEA realizou oficialmente a sua primeira ação pública, na praia do Abano.

O estado do tempo e do mar, que esteve no passado fim-de-semana, não favoreceu a recolha do lixo na praia mas por questões de segurança a organização optou por um local mais acessível como é a praia do Abano.

O desafio foi mostrar e desafiar os 38 participantes a procurarem o lixo pelos vários locais da praia, debaixo das pedras e ao longo do areal.

Durante cerca de uma hora, todos os participantes estiveram a levantar pedras e a remover da praia todos os objetos poluentes que encontraram.

O objetivo não era de apanhar grandes quantidades de lixo mas mostrar a gravosa situação dos mares e sensibilizar os participantes para os problemas ambientais e da sobrevivência dos ecossistemas marinhos.

A CASCAISEA surgiu em Cascais, no verão de 2019, fundada pelo ativista ambiental Miguel Lacerda, e “promete trabalhar arduamente na defesa dos oceanos e dos ecossistemas”.

A associação não tem fins lucrativos e assume-se como uma organização altruísta, que através dos associados e apoiantes, pretende trabalhar voluntariamente, de forma coordenada, na consciencialização da proteção dos Oceanos, e do mar em Cascais, em particular.

Miguel Lacerda, cascaense, mergulhador, velejador, ativista ambiental e pioneiro nas ações de limpeza dos oceanos em Portugal.

Miguel Lacerda é mergulhador, velejador, ativista ambiental e pioneiro nas ações de limpeza dos oceanos em Portugal.

Homenageado, em 2009, com a medalha de mérito municipal pela defesa do ambiente e do meio ambiente, o mergulhador dedica grande parte da sua vida nesta missão da limpeza dos mares, onde recolhe por ano mais de 30 toneladas de lixo marinho no litoral e no fundo do mar.

O ativista ambiental pretende que as futuras gerações possam desfrutar dos oceanos tanto quanto ele.

 

Ver original em 'Portal CASCAIS' na seguinte ligação:

https://www.portalcascais.pt/sociedade/ambiente-sociedade/cascaisea-realizou-a-sua-primeira-acao-publica-na-praia-do-abano/

É lei. França começa a banir plástico descartável

Márcia de Sousa (Fonte: Sitehttps://ciclovivo.com.br/)

Em plena véspera de Natal, o governo da França publicou um decreto que marca o início da proibição do uso de plásticos descartáveis. A lei, que quase passou despercebida, já entrou em vigor no dia 1o de janeiro.

Nesta primeira fase três produtos plásticos descartáveis foram proibidos: pratos, copos e cotonetes. A partir de 2021 serão banidos também canudos e talheres. A meta é eliminar gradualmente todos os plásticos de uso único até 2040.

Canudinhos são os primeiros da lista

 

A lei, é claro, passa por um período de adaptação. As lojas que transportam os descartáveis – agora proibidos – ainda poderão vendê-los pelos próximos seis meses, desde que os mesmos tenham sido produzidos ou importados anteriormente. O decreto também isenta alguns setores até julho de 2021, tais como instalações sanitárias e no uso em transportes como trens e aviões. Produtos compostáveis, com ao menos 50% de materiais orgânicos em sua constituição, também terão isenção temporária.

Além do objetivo de retirar de circulação todos os plásticos descartáveis nas próximas duas décadas, a França tem como objetivo reciclar 100% dos plásticos até 2025. Os planos vão ao encontro das novas diretrizes propostas pela União Europeia e o caminho que segue as maiores economias do mundo. Até mesmo a China, maior produtor de plástico, anunciou que vai eliminar os descartáveis.

 
Plástico na rua

 

PLÁSTICOS DE USO ÚNICO SERÃO PROIBIDOS EM SÃO PAULO

Projeto de Lei do vereador Xexéu Tripoli foi sancionado e entra em vigor em janeiro de 2021

 

Fonte: Natasha Olsen – Site:http://www.ciclovivo.com.br

A lei que proíbe o fornecimento de plásticos de uso único na cidade de São Paulo foi sancionada pelo prefeito Bruno Covas no dia 13 de janeiro de 2020. O Projeto de Lei 01-00099/2019 é de autoria do vereador Xexéu Trípoli, do PV, e entra em vigor a partir de 01 de janeiro de 2021.

Os estabelecimentos comerciais não poderão fornecer copos, pratos, talheres, agitadores e hastes de balão. A proibição se aplica a hotéis, restaurantes, bares e padarias, entre outros. A lei também é válida para espaços para festas, clubes noturnos, salões de dança, eventos culturais e esportivos de qualquer espécie.

Em substituição aos itens que serão proibidos a partir do ano que vem, os estabelecimentos devem oferecer alternativas biodegradáveis, compostáveis ou reutilizáveis.

Estes itens ainda poderão ser vendidos em supermercados, uma vez que a venda de produtos é regulamentada pela legislação federal.

De acordo com o Trípoli, 16% dos resíduos gerados na cidade de São Paulo são compostos de plástico em suas diferentes formas. Além de diminuir o volume de resíduos plásticos, a nova lei vai incentivar a reciclagem de materiais e impulsionar a transição para uma economia circular, cujo modelo de negócio e desenvolvimento econômico é alternativo ao linear (extrair, produzir e descartar). “Precisamos pensar no reuso de todos os materiais, não apenas do plástico”, alerta o vereador.

Um mar de resíduos de plástico

 

Participação da sociedade

Para Bruno Covas, a participação dos paulistanos é fundamental. O prefeito cita a proibição dos canudos plásticos, que mesmo antes de ser regulamentada já traz impactos positivos. “Hoje praticamente não se encontram mais canudos que não sejam biodegradáveis ou de outra alternativa na cidade. Mais do que a sanção pecuniária ou a fiscalização, a lei transformou a cultura da população”, explica Covas.

Sobre os canudos, Xexéu Trípoli ressaltou que produtos oxibiodegradáveis não entram entre as substituições que devem ser aceitas. “Estes canudos se decompõem mais rápido que os de plástico convencional, mas ainda assim levam mais de 100 anos para se decompor e ao final se transformam em microplástico”, explicou o vereador.

Indústria e comércio

A Associação Brasileira da Indústria do Plástico – Abiplast emitiu um comunicado dizendo que a proibição pode trazer impactos financeiros e na geração de empregos. Ao invés da proibição, a associação sugere que o uso dos produtos de plástico de uso único seja regulamentado para garantir a reciclagem e reduzir o consumo. Segundo o comunicado, “A indústria de transformação e reciclagem de material plástico está disposta a contribuir para a construção de soluções em conjunto”.

Percival Maricato, presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) afirmou, em entrevista concedida em novembro de 2019, que os possíveis impactos negativos nas finanças dos estabelecimentos especificados no projeto de lei não incomodarão o comércio “Se tiver (impacto), será mínimo. E, como foi algo pensado para contribuir na preservação do meio ambiente, então vale. A associação é favorável”.

Lixo plástico

 

Compromisso ético

Em seu pronunciamento, o prefeito Bruno Covas afirmou que o compromisso ambiental é um compromisso ético com as futuras gerações. “A lei que proibiu os canudos plásticos preparou a população e mostra que é viável que outras leis como essa venham. Essa sanção social vem com uma mudança de padrão para evitar a explosão dos gases de efeito estufa presentes nos aterros sanitários”.

Em 2021, os estabelecimentos que forem flagrados fornecendo produtos de plástico de uso único receberão uma advertência e, a partir da segunda autuação, a multa vai de R$ 1 mil a R$ 8 mil. Existe ainda a possibilidade de fechamento do comércio, caso a lei não seja respeitada.

“Não é uma coisa nova dentro dos países ligados a questão ambiental, que trabalham para diminuir o lixo plástico no planeta. Não foi uma ideia minha, mas uma adequação”, conta Xexéu.

Para ele, apesar de não existirem estudos que mensurem o impacto da nova legislação, os efeitos serão muito positivos. “16% do lixo que vai pro aterro de São Paulo é de plástico. Dentro desses 16%, há um número enorme de plástico descartável. Não conseguimos mensurar o impacto, mas é certeza absoluta que a médio e longo prazo será enorme. Teremos uma melhora profunda na questão dos lixos descartados”, finaliza o vereador.

Deus da-vos Davos?

1500 jatos privados, helicópteros e limousines para discutir o… aquecimento climático image
 
Se as alterações climáticas faziam parte das preocupações do Fórum Económico Mundial, que teve lugar de 22 a 25 de janeiro em Davos, foi em jato privado, helicóptero e limousine que se deslocaram os grandes patrões e responsáveis políticos que nele participaram. O que nos faz acreditar que andam a gozar com o pagode.
Este ano chegaram à Confederação Helvética mais 200 jatos que o ano passado. Compreende-se: não era possível viajar de iate até aos Alpes suíços, e, os senhores do Mundo não brincam em serviço, nem esperam pelo bom vento, são eles que nos fabricam as tempestades e entretêm com a menina Greta e o catamaran milionário.
 
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Ver o original em As palavras são armas (clique aqui)

Mundo está tomando rumo da 'autodestruição', adverte economista

Armagedom, imagem referencial
© CC0 / Pixaby

O discurso predominante na sociedade capitalista está levando o mundo à "autodestruição" por impor um modelo de consumo de energia dependente de recursos naturais fósseis não renováveis, tais como petróleo, afirma o professor emérito David Barkin.

O especialista em Economia Ecológica e Solidária, David Barkin, acredita que estamos tomando o rumo da autodestruição.

"A minha previsão em relação à situação atual do mundo é que neste momento estamos seguindo rumo da autodestruição. O discurso dominante assegura que através das boas intenções das corporações, fazendo melhores práticas, o desastre climático e a destruição da biodiversidade podem ser evitados", acredita o pesquisador, que é doutor pela Universidade Yale, EUA, e vencedor do Prêmio Nacional de Economia de 1979 por análise da inflação.

Barkin discursou no Colóquio Internacional sobre "como surgem as novas ordens no Universo", mais especificamente na arte, na história e na economia. Para Barkin, "este discurso é uma ilusão que acarretaria o empobrecimento do mundo de uma forma cruel, de uma destruição segmentada do tecido social em quase todos os países do mundo".

Além disso, Barkin afirmou ser "evidente que a primeira medida viável é abandonar a utilização dos produtos energéticos mais poluentes, que são hidrocarbonetos fósseis", indagando a possibilidade de implementar o desuso de tais vias de energia.

Segundo o professor, deve-se criar "um modelo totalmente diferente da utilização de energia", que deve ser executado rapidamente para frear a proeminente autodestruição do mundo.

Diferentemente da abordagem dominante, Barkin opina que "a sociedade capitalista é incapaz de evitar danos ecológicos" e que nos dias de hoje "a prova está nos dez milhões de hectares perdidos nos incêndios na Austrália".

O professor cita como exemplo os aborígenes australianos que conhecem outras técnicas para evitar danos florestais.

Estas culturas ancestrais "desenvolveram sistemas extraordinários e diferentes durante muitas gerações, para proteger as florestas e seus recursos naturais, parecidos com as técnicas aplicadas por índios no Canadá, no México e na Amazônia".

O conhecimento ancestral dos índios está na "gestão coletiva e comunitária" de sociedades que procuram se afastar da órbita do mercado mundial, longe dos processos agroindustriais que contribuem para o consumo extrapolado de energia, característico do capitalismo, concluiu Barkin.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/sociedade/2020012515051372-mundo-esta-tomando-rumo-da-autodestruicao-adverte-economista/

Polícia Municipal aperta cerco ao transporte e abandono ilegal de entulhos

(Fotos CMCascais)
Por Redação
23 janeiro 2020
Cerca de 60 toneladas de resíduos sem controlo foram intercetados ultimamente pela Polícia Municipal de Cascais, que tem vindo a apertar o cerco ao transporte e abandono ilegal de entulhos no concelho. Os resíduos detetados eram transportados em 14 veículos. No âmbito da campanha “Diga Não ao Abandono”, a Polícia Municipal de Cascais fiscalizou nas estradas do concelho, em dezembro último, 43 veículos que transportavam resíduos de demolição e de construção.
Vinte e nove dos veículos que transportavam resíduos encontravam-se em situação legal.
No entanto, 14 outros efetuavam o transporte ilegalmente. Na defesa da salubridade e do ambiente, a Polícia Municipal de Cascais promete operações inopinadas de fiscalização na rede viária do concelho de Cascais, visando intercetar e fiscalizar veículos que transportem, sem controlo, resíduos de demolição e de construção.
 
Recorda-se que, nos últimos tempos, tem vindo a agravar-se o abandono de entulhos, à margem da Lei, em diferentes locais do concelho, alguns deles até junto a vias que atravessam localidades, e outros em terrenos privados sem conhecimento dos donos, por parte de denominados empreiteiros, subempreiteiros e biscateiros.
 
 
Multimédia
 
 

Ver o original em "CASCAIS24" na seguinte ligação::

https://www.cascais24.pt/p/blog-page_7914.html

Aeroporto em Cascais… A quem beneficia?

Luis Salgado

Os problemas subjacentes ao alargamento do aeroporto Humberto Delgado e a possibilidade da construção de um novo aeroporto civil no Montijo, aproveitando parte da base aérea lá existente, pela sua gravidade e atualidade têm suscitado as maiores preocupações quer das populações, quer de ambientalistas, por diversos motivos.

As questões de impacto ambiental em pleno estuário do Tejo, as questões do ruído elevado, acima do permitido por lei (em ambas as localizações), a possibilidade de se tratar de um investimento que irá “afundar”  decorrente das alterações climáticas, têm sido constantes nos média e têm alarmado, não só as populações, como também os eleitos e as eleitas do Bloco de Esquerda.

No entanto, não menos importante, têm sido a lenta e silenciosa transformação do Aeródromo Municipal de Cascais, em Tires, em aeroporto.

O Aeródromo Municipal de Cascais é já a quarta infraestrutura aeroportuária de maior movimento no país, conforme palavras do próprio executivo camarário.

Essa transformação tem sido feita ao arrepio dos mais basilares princípios de transparência, sem que sejam ouvidas as populações residentes nas zonas circundantes ao aeródromo, bem como as das zonas próximas afetadas pelos malefícios que decorrem de tal transformação.

As notícias públicas e publicadas sobre essa transformação são já bastantes, conforme se pode constatar em Notícia Expresso , Notícia Observador, Notícia JN, e Notícia DNoticias.

Aliás, é sabido, pois afirmado pelo Sr. Vice-presidente da Câmara de Cascais, que o aeródromo já passou a aeroporto, conforme se pode aferir pela entrevista acessível em Entrevista Publituris.

Sabemos, ainda, que o Executivo Camarário, em reunião de Câmara Municipal de Cascais do passado dia 17 de dezembro, aprovou um conjunto de medidas (pontos 18, 19 e 83da ordem de trabalhos desse dia) que levam à expansão da infraestrutura de Cascais.

Prevê-se, ainda, um plano de urbanização para a sua área circundante e com previsão de expropriações onde, aparentemente, se pretende instituir também o direito de preferência do Município na aquisição dos imóveis das áreas urbanas circundantes ao perímetro daquela infraestrutura. No entanto, verifica-se a total ausência de planos públicos disponíveis, desconhece-se a existência de qualquer estudo de impacto ambiental, estudo de ruído, ou quaisquer consultas públicas sobre a alteração que se pretende ali concretizar.

Existem diversas incongruências neste projeto, onde não há qualquer participação das populações, sendo de salientar que na referida infraestrutura ocorreram diversos acidentes, alguns deles fatais, nos últimos anos.

Agora, ainda antes da apreciação pela Assembleia Municipal, colocam em consulta publica, em surdina e sem se dar por isso, meros fragmentos do que ali pretendem fazer, escondendo sempre o verdadeiro e ultimo objetivo destas alterações… e fazem-no sem nunca conseguir, ou sequer tentar, explicar quais os benefícios para as populações residentes!

Apenas sabemos que os aviões não vão andar por cima dos céus de Cascais… Vão sim andar por cima das cabeças de quem vive entre Carcavelos e são Pedro do Estoril, de quem vive na Madorna, no Penedo, na Terplana, em São Domingos de Rana e em Manique…

Fosse por cima de quem mora na Quinta da Marinha e da Quinta da Bicuda, e então queria ver o que se diria!!!

Por isso julgo ser pertinente perguntar:

  1. Existem estudos de impacto ambiental, estudos de ruído, estudos de segurança ou outros?
  2. Qual o parecer da ANAC face a esta alteração?
  3. Porque não promoveu, ou fez promover, as consultas públicas e audições a todos e todas quantos/as venham a sofrer com o impacto de tal alteração?
  4. Como se prevê garantir a segurança de pessoas e bens quanto a uma infraestrutura inserida na malha urbana e onde, nos últimos anos, se têm verificado acidentes com frequência acima da média nacional?
  5. Quais as contrapartidas previstas para mitigar ou reduzir os danos ambientais, de aumento de poluição sonora e de poluição ambiental, decorrentes da passagem de aeródromo para aeroporto?
  6. Quais os benefícios previstos para as populações, diretos e indiretos, e em que medida?

P.S.- Foi colocada uma pergunta ao Governo sobre este tema e com as questões aqui suscitadas, nas partes em que depende do Estado Central a sua resposta.

Ver original em 'Portal Cascais' aqui

 
 
 

Veja aqui a notícia

Vai estudar, Greta…

greta-th.jpg

O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Steven Mnuchin, sugeriu hoje à ativista pelo clima Greta Thunberg que vá estudar Economia, defendendo que não é preciso deixar de utilizar combustíveis fósseis.

Ao repto do governante norte-americano poderia facilmente contrapor-se a ignorância e a insensibilidade das elites políticas e financeiras em relação ao impacto ambiental brutal e irreversível do actual capitalismo neoliberal, desregulado e hiperconsumista.

É verdade que a nossa casa comum já está a arder, como diz a activista sueca – literalmente, como é bem visível nos incêndios australianos – mas também é certo que enquanto os interesses dos donos do mundo, que querem continuar a enriquecer, não forem travados, é ilusão pensar-se que alguma coisa de substancial poderá mudar na forma como irremediavelmente vamos destruindo o único planeta que temos para viver.

Uma resposta à altura ao secretário de Estado foi dada, via Twitter, por Yanis Varoufakis:

O que diz Mnuchin, infelizmente, faz sentido. Se Greta fosse estudar economia convencional, passaria vários semestres a estudar modelos de mercados onde nem uma catástrofe climática nem uma crise económica são possíveis. É tempo de transformar tanto a economia política como a economia.

Cientistas encontram nova ameaça ao clima da Terra

Gases de efeito de estufa (imagem ilustrativa)
© Sputnik / Anton Denisov

Um grupo internacional de cientistas encontrou uma nova ameaça ao clima do planeta e aos esforços para a prevenção de uma catástrofe climática.

De acordo com o portal científico Phys.org., os cientistas detectaram que na atmosfera da Terra está subindo o nível de um gás de efeito estufa – o trifluorometano. O aumento do gás perigoso para o clima do planeta está acontecendo apesar de em 2017 a sua produção pela humanidade supostamente ter sido quase eliminada.

Uma tonelada de emissões de trifluorometano é equivalente à emissão de mais de 12 mil toneladas de gás carbónico. Esse gás quase não tem uso na indústria, mas se forma no resultado da produção de outra substância química que é usada nos sistemas de arrefecimento nos países em desenvolvimento.

Em 2015, a Índia e a China anunciaram a intenção de reduzir a emissão deste gás perigoso. Nesse contexto, em 2017 os governos dos países afirmaram que pararam quase completamente as emissões do trifluorometano.

Os cientistas esperavam que, no período entre 2015 e 2017, a concentração do gás na atmosfera começaria a diminuir. No entanto, o novo estudo revelou que a presença do gás na verdade aumentou, alcançando níveis de recorde em 2018.

Segundo os pesquisadores, a causa do aumento podem ser as emissões na China e na Índia que na verdade não realizaram com sucesso o programa da liquidação do trifluorometano como foi anunciado.

Poluição atmosférica na China.
© AFP 2019 / Partrick Kovarik
Poluição atmosférica na China.

De acordo com os especialistas, se as promessas tivessem sido realizadas, de 2015 a 2017 teria sido possível evitar o aumento do nível dos gases de efeito de estufa, o que na verdade não aconteceu.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/ciencia_tecnologia/2020012315038606-cientistas-encontram-nova-ameaca-ao-clima-da-terra/

Pacto Ecológico Europeu: nem verde, nem ecológico, nem europeu

A UE é hoje talvez o mais radical baluarte do neoliberalismo. Não seria assim de esperar que o seu Pacto Ecológico Europeu fosse outra coisa senão mais um esforço para aumentar lucros ao grande capital, embrulhado em mais uma operação de propaganda. O capitalismo não é nem nunca será “verde”.


Inês Pereira    22.Ene.20

Na década de 30 a Administração Roosevelt adoptou o New Deal1. O objectivo, nesse tempo, era salvar o capitalismo da profunda crise em que se encontrava. Recentemente, a Comissão Europeia (CE) apresentou o chamado European Green Deal, traduzido para português como Pacto Ecológico Europeu. Hoje, como ontem, o que se pretende com o tal «Pacto» é maximizar o lucro dos grandes grupos económicos, instrumentalizando justas preocupações das populações com o ambiente e explorando ainda mais os trabalhadores e os povos.
Estamos, pois, perante uma enorme acção de propaganda da União Europeia (UE), isto porque o «Pacto» proposto pela Comissão Europeia não é verde, nem é ecológico, como não são verdes, nem ecológicas, as demais políticas fundamentais que tem promovido.
Serão verdes as políticas comerciais levadas a cabo pela UE, nomeadamente os acordos de livre comércio, como são o CETA2 ou o Acordo UE com o Mercosur? Serão verdes as políticas de liberalização e de privatização do sector da energia ou do sector dos transportes? Serão verdes as políticas militaristas que encharcam com milhões de euros a tão «verde» indústria militar das grandes potências europeias?

O «Pacto» proposto pela CE é uma forma de fazer negócio com o ambiente quando, por exemplo, se pretende alargar o mercado do carbono, o negócio da compra e venda das licenças para poluir.
É uma forma de explorar os trabalhadores e os povos, promovendo impostos ditos de «verdes» – que recentemente foram rejeitados por massivas manifestações na França ou na Bélgica – e de os responsabilizar pela degradação do ambiente, quando as responsabilidades maiores estão nos grandes grupos económicos e no capitalismo.
É mais uma forma de ataque à independência e soberanias nacionais, ao sabor dos interesses das grandes potências europeias quando, por exemplo, se procuram adoptar propostas, como é o caso da revisão da Directiva da Tributação da Energia, por maioria qualificada e não por unanimidade3.

Trata-se de um plano proteccionista da produção da indústria das grandes potências europeias cujo objectivo passará certamente por salvar e maximizar os seus lucros e não proteger as pessoas, um plano alinhado com o desenvolvimento da política militarista da UE, ao integrar as políticas ambientais na Política Comum de Segurança e Defesa4.
No fundo, é uma proposta que procura baralhar toda a gente, mantendo intocáveis e transportando para o ambiente aqueles que são os pilares estruturais da UE: neoliberalismo, militarismo e federalismo5.
Sem dúvida que há uma necessidade de cooperação entre os Estados para fazer face aos desafios que se colocam no plano ambiental, no entanto não será certamente com a «liderança» da UE ou pelas suas políticas que tais desafios poderão ter uma resposta à altura.
Para dar resposta aos desafios que se colocam no plano do ambiente é necessário romper com políticas fundamentais da UE. Será necessário, por exemplo, no plano da energia recuperar o controlo público do sector energético e orientar o seu funcionamento para o bem-estar das populações, para objectivos sociais e ambientais. Serão necessárias medidas que promovam o transporte público, que assegurem a sua progressiva gratuitidade e qualidade e que contrariem a lógica do transporte individual.
É uma ilusão pensar que um «Pacto» assente numa lógica capitalista possa resolver qualquer problema ambiental e não será por a União Europeia se encharcar de tinta verde que essa passará a ser a cor das suas políticas.
Não será um capitalismo verde, um capitalismo 2.0 ou um capitalismo de última geração que salvará o ambiente. E sim, é tempo de agir, de agir organizadamente para derrotar o capitalismo, pois este não é, nem nunca será, verde.

1.Designação atribuída aos programas económicos implementados pelo presidente Franklin D. Roosevelt, entre 1933 e 1937, a fim de recuperar a economia dos EUA, depauperada pela Grande Depressão iniciada em 1929 com o crash da bolsa de Nova Iorque. Ver, a propósito, o artigo de António Avelãs Nunes «De 1929 a 2019 – o capitalismo não mudou (I)», publicado a 30 de Outubro de 2019.

2.O Acordo Económico e de Livre Comércio entre a União Europeia (UE) e o Canadá é mais conhecido pela sua sigla inglesa, CETA (Comprehensive Economic and Trade Agreement).

3.Ver p. 5 da Communication on The European Green Deal, consultável aqui.

4.Ver p. 21, ibidem.

5.Um desenvolvimento do tema pode ser lido em «Nasceu o neoliberalismo climático», de José Goulão, publicado a 4 de Outubro de 2019.

 

Fonte: https://www.abrilabril.pt/internacional/pacto-ecologico-europeu-nem-verde-nem-ecologico-nem-europeu[1]

Divulga o endereço[2] deste texto e o de odiario.info[3] entre os teus amigos e conhecidos

 

Ver o original em ODiario.info (clique aqui)

“a Austrália e a lixeira” – por ANTÓNIO OLIVEIRA

 

Os incêndios na Austrália provocaram até agora, a morte de mais de mil milhões de animais das mais variadas espécies.

Ao mesmo tempo a ciência confirma a extinção do peixe-espátula, a espécie emblemática da China, em consequência da sobrepesca e da fragmentação do seu habitat natural.

A crise da biodiversidade é uma realidade não escamoteável que se alimenta da alteração climática e que, por sua vez, a alimenta também.

Os especialistas assinalam o modelo de crescimento capitalista como o responsável primeiro de toda esta conjuntura.

Atendendo ao último relatório do Intergovernmental Platform on Biodiversity and Ecosystem Services (IPBES), a mudança do uso da terra e do mar, a sobreexploração intensiva dos recursos naturais, a alteração climática, a contaminação e a introdução de espécies invasoras, são os factores que mais contribuem para o aumento desregrado da crise actual.

E salientam os especialistas ‘o sistema capitalista, baseado em ritmos rápidos e trepidantes e no consumo«depredador e desaforado» são os elementos que estruturam esta situação de emergência ecológica em que se afundou o planeta e todas as formas de vida

E Robert Watson, presidente do IPBES, referiu na apresentação do relatório ‘a saúde dos ecossistemas de que dependemos nós e as demais espécies, deteriora-se mais rapidamente que nunca. Estamos a corroer os sustentáculos das nossas economias, formas de vida, segurança alimentar, saúde e qualidade de vida em todo o mundo

A jornalista e autora Naomi Klein, referindo a escassa rentabilidade da crise da biodiversidade, salienta que ‘o capitalismo do desastre’ leva a que as inversões financeiras se movimentem apenas para as oportunidades económicas abertas pela própria crise.

Já no ano passado, Jason Clay, vice-presidente executivo do World Wildlife Fund, a ONG que actua nas áreas da conservação, investigação e recuperação ambiental, afirmou ‘só a produção de 15 matérias-primas essenciais, é responsável pelos problemas ambientais mais prementes, a deflorestação, o uso de pesticidas e a sobreexploração pesqueira

Mais salienta que 70% do comércio internacional desses produtos é liderado por menos de 500 empresas e, nalguns casos, uma única empresa controla a quarta parte de todos o mercado, como a ‘Cargill’ no que se refere ao óleo de palma.

E a ‘Coca-Cola’ é a maior compradora de alumínio à face da terra, a maior compradora de cana do açúcar, a terceira de cítricos, a segunda de vidros e a quinta maior de café.

Não há dúvida alguma de que quando chegar a hora avaliarem as questões da sustentabilidade, a ´Coca-Cola’ é mais importante que as Nações Unidas, afirma a propósito Gerald Butts, que foi director executivo da World Wildlife Fund Canada.

Alguém deveria explicar ao mundo como alguns fulanos continuam a mandar no pequeno pedaço do universo onde vivemos, nem será preciso nomeá-los, mas por vezes lembro Julio Cortázar ‘Deve haver um lugar com uma lixeira onde estão amontoadas todas as explicações

 

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/01/22/carta-de-braga-a-australia-e-a-lixeira-por-antonio-oliveira/

Não é social e também não é verde

Lembram-se da Agenda de Lisboa na viragem do milénio? Lembram-se da intensa colonização de grande parte da social-democracia europeia pelo neoliberalismo, através de uma retórica de investimento social tributária de uma economia da oferta em versão supostamente progressista? E lembram-se do fundo de ajustamento à globalização, essa demonstração de como a integração europeia tanto ajuda o mundo do trabalho, como se viu também com as troikas e quejandos?
 

Se faço estas perguntas é porque o novo pacto verde europeu e o seu fundo para a transição têm a mesma lógica, destinada agora a cooptar também parte do movimento ecologista. Esperemos que a história não se repita. Não é por acaso que a pós-verdade tem origens europeias: não é verde, de facto.

Jornais como o Público lançaram vários mil milhões para cima dos leitores, papagueando a linha da Comissão. No caso do tal fundo de transição dita justa, estamos a falar de dinheiro fresco, à escala da UE e para meia dúzia de anos, num montante inferior ao orçamento anual do Estado português para a saúde. Rebaptizam-se depois verbas já existentes ao serviço do mais importante: parcerias público-privadas que vão até onde as engenharias financeiras de mercado as levarem para fingir que este sistema pode ser verde. Lembram-se do Plano Juncker?

O mais importante, como sempre acontece na integração europeia realmente existente, é a tentativa de encontrar soluções de mercado para problemas criados pelo mercado, o que é típico do neoliberalismo desde Milton Friedman e quejandos: no caso do ambiente, a obsessão de sempre são os opacos e ineficazes mercados de emissões.

Ao contrário do New Deal original e do Green New Deal proposto pelos social-democratas norte-americanos, o chamado pacto europeu não é proposto por um Estado, mas sim por uma organização supranacional pós-democrática que constrange, através de regras cada vez mais estúpidas, o investimento público e anula a mobilização de outros instrumentos de política pelos Estados democráticos realmente existentes, obviamente sem os substituir por nada de relevante do ponto de vista macroeconómico.

E ao contrário do New Deal original, que pressupôs naturalmente um contexto histórico desglobalizador, que é hoje de novo necessário também nesta área, a UE é o outro nome da globalização mais intensa, por via dos tratados e dos acordos comerciais sem fim, destinados a estender cada vez mais as cadeias de valor, transferindo os segmentos mais poluentes para longe e favorecendo o poluente transporte de longa distância.

 Não há mão de verde que esconda estas realidades. Ou haverá?

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

‘Nada foi feito’ diante das mudanças climáticas, diz Greta Thunberg em Davos

 

 

Rede Brasil Atual– A jovem ativista sueca Greta Thunberg afirmou nesta terça-feira (21) que é preciso fazer “muito mais” para deter as emissões de gases poluentes que contribuem para o agravamento do efeito-efeito estufa, e que os países ricos devem ajudar os países mais pobres. Ela também instou os líderes políticos e empresariais que participam do Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, a ouvirem os jovens ambientalistas sobre os destinos do mundo.

“Ninguém esperava, mas há uma maior consciência e a mudança climática virou um tema ‘quente’. Mas, sob outro ponto de vista, nada foi feito, as emissões de CO2 não diminuíram, e esse é nosso objetivo”, afirmou Greta, durante o painel intitulado “Construindo um caminho sustentável para um futuro coletivo”. Ela lidera o movimento Greve Global pelo Clima, que busca engajar jovens do mundo inteiro na luta contra o aquecimento global.

“Não sou uma pessoa que pode reclamar sobre não ser ouvida”, disse Greta, provocando risadas da plateia, mas acrescentou que a “ciência e os jovens” ainda não são “o centro da conversa”, e é preciso que passem a ser. Segundo ela, a emergência ambiental “é sobre nós e as futuras gerações e aqueles que são afetados hoje”. Ela afirmou ainda que “os países ricos devem chegar ao objetivo de zero emissão muito mais rapidamente e ajudar os países pobres”.

 

Ela também criticou a imprensa tradicional por calar-se diante dos impactos das mudanças climáticas, que atingem principalmente as populações mais vulneráveis dos países pobres. “As pessoas morrem por causa das mudanças climáticas, e uma mínima fração de grau centígrado de aquecimento já é importante. Mas não acho que tenha visto um único veículo de imprensa falar sobre isso”, afirmou.

Também participaram da discussão o ambientalista chinês Ma Jun, diretor da ONG Instituto de Assuntos Públicos e Ambientais; a geógrafa e ativista do Chade, Hindou Omarou Ibrahim, coordenadora da Associação de Mulheres Peúles e Povos Autótones do Chade (Afpat); o diretor da seguradora alemã Allianz, Oliver Bäte, e o presidente da Fundação Rockfeller, Rajiv Shah.

(Multimídia) China divulga plano para cortar uso de plásticos até 2025

 

Beijing, 20 jan (Xinhua) -- A China divulgou neste domingo um plano ambicioso para proibir ou reduzir significativamente a produção e o uso de produtos plásticos que são nocivos ao meio ambiente nos próximos cinco anos para conter a poluição.

O país proibirá ou restringirá gradualmente a produção, venda e uso de certos plásticos, ao promover suas alternativas degradáveis e de reciclagem, de acordo com um documento emitido pela Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma (CNDR) e pelo Ministério da Ecologia e do Meio Ambiente.

Segundo o texto, até 2025, a China deve controlar eficazmente a poluição plástica, reduzir substancialmente a quantia de resíduos deste material em aterros sanitários de cidades importantes, estabelecer um sistema completo de gerenciamento e avançar no desenvolvimento de produtos alternativos.

A produção e venda de talheres de espuma plástica e cotonetes plásticos de uso único serão proibidas até o final de 2020. Para produtos químicos diários que contêm microesferas plásticas, a produção será proibida em 2020 e as vendas, em 2022.

O documento também reitera as proibições de produção e uso de sacolas plásticas finas e filmes agrícolas de polietileno, bem como de produtos plásticos com resíduos hospitalares e da importação de dejetos plásticos.

O texto estabelece um calendário detalhado para os próximos cinco anos para reduzir o uso de embalagens plásticas e de pacotes descartáveis e não degradáveis.

Por exemplo, os canudos plásticos de uso único não degradáveis serão proibidos no final de 2020, enquanto os talheres plásticos descartáveis e não degradáveis serão banidos dos restaurantes nas cidades. Até o fim de 2022, esta mesma proibição será estendida aos distritos.

De acordo com o documento, até o final de 2025, o uso de talheres plásticos de uso único não degradáveis para take-out em cidades será reduzido em 30%.

Além disso, todos os hotéis e pensões devem parar de usar produtos plásticos descartáveis até 2025, enquanto os postos de serviços de entrega expressa e postais devem deixar de usar embalagens plásticas não degradáveis, fita plástica e sacos de tecido plástico descartáveis.

Ao mesmo tempo, a China incentivará o uso de materiais alternativos, como produtos não plásticos e sacos de compras degradáveis, e pede esforços para a reciclagem e eliminação de resíduos plásticos, aponta o documento.

Meng Wei, porta-voz da CNDR, disse em uma entrevista coletiva que as autoridades chinesas aumentarão o apoio à elaboração de políticas e à pesquisa científica, além de intensificar a supervisão e a aplicação da lei a esse respeito.

Os principais problemas no controle da poluição plástica serão supervisionados pelos inspetores ambientais centrais, de modo a melhorar as práticas de avaliação e responsabilidade, acrescentou.

Uma menina lança uma garrafa plástica em uma lata de lixo em Chongqing, sudoeste da China, em 4 de julho de 2019. (Xinhua/Wang Quanchao)

Ver original em "XINHUA Português" na ligação seguinte:

http://portuguese.xinhuanet.com/2020-01/20/c_138720352.htm

Aquecimento global e suas consequências: novas descobertas

 

No final de 2019, as temperaturas na Austrália marcaram recorde de média (média!) de 40,9oC. Os incêndios neste país ocorreram, apesar de importantes para a manutenção das espécies endêmicas ao bioma – algo parecido com o que ocorre em nosso Cerrado – chamaram a atenção pela proporção catastrófica, fruto da seca enorme que atinge o país, em reflexo direto das mudanças climáticas. Afinal, o aquecimento global é o vilão da história?

É importante que se entenda o aquecimento global (efeito estufa). É um fenômeno de extrema importância para a manutenção da vida, pois permite a retenção do calor na Terra. Seus principais gases, que criam uma espécie de “cobertor” ao redor do planeta (que não é plano, POR FAVOR!) são o CO2 (dióxido de Carbono) e CH4 (Metano). Qual é o problema então? Simples: a quantidade desses gases que está sendo liberada é muito maior do que a capacidade que a própria natureza tem de capturá-los de volta através de ciclos biogeoquímicos, mantendo-os em quantidade ideal na atmosfera - precisamos lembrar que os oceanos são os principais responsáveis por absorver o CO2 através do processo de fotossíntese realizado pelo fitoplâncton e algas marinhas.

Estudo divulgado pela União Internacional de Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês) durante a Conferência do Clima da ONU (COP-25), realizada em Madri, na Espanha, afirma que as mudanças climáticas, associadas a poluição por nutrientes, estão retirando o O2 (oxigênio) dos oceanos, o que indica uma ameaça direta às espécies, principalmente animais maiores – quanto maior, mais energia necessária, portanto, maior demanda por O2.

Já outro estudo divulgado na revista chinesa Advances in Atmospheric Sciences aponta que em 2019 a temperatura média dos oceanos atingiu a marca mais alta já registrada, o que pode gerar ondas de calor marinhas fatais a vida marinha e proporcionarem a formação de furacões.

Percebe-se, portanto, que as alterações climáticas, além de elevar o nível dos oceanos, têm outros efeitos sérios até então desconsiderados. Além dessa diminuição de O2, a absorção de CO2 (cerca de 33%) ocorre também nesse local, causando a morte de corais (e outros animais que dependem do cálcio para sua constituição física) pela acidificação – uma vez que o gás reage com a água e gera ácido carbônico. Consequentemente, todo ecossistema marinho é ameaçado. Um ponto importante que poucos lembram: de todo O2 atmosférico, cerca de 60% (alguns falam em até 80%) provém justamente das algas, a maioria marinhas.

Ou seja, o aquecimento global, em ritmo descontrolado como está hoje, gera uma reação em cadeia que desestabiliza e coloca em risco a sobrevivência de muitas espécies...inclusive a nossa.

 

Pesquisas realizadas na Austrália e no Reino Unido mostram que os veados-vermelhos (Cervus elaphus), que habitam uma ilha escocesa, estão nascendo em um menor intervalo de tempo – em cada década, reduzem 3 dias. Os cientistas justificam isso pelas alterações genéticas que a espécie vem sofrendo.

Ok. Mas por que isso é importante? Primeiro porque a antecipação pode influenciar no próprio comportamento dos animais, uma vez que os nascimentos sempre ocorrem em momentos adequados, como durante a presença de alimentos, por exemplo. A partir do momento em que o ambiente não seja favorável, pode comprometer essa espécie ou até mesmo as espécies vegetais das quais se alimenta. Além disso, serve de alerta, afinal, é uma espécie que evolutivamente estaria conseguindo se adaptar às mudanças climáticas, mas que todos animais – e outros seres vivos – apresentariam essa capacidade de adequação?

No caso da espécie humana, estudos recentes dos estadunidenses Alan Barreca e Jessamyn Schaller, publicados na conceituada revista Nature, também relacionam um tempo menor de gestação, o que afeta o desenvolvimento do feto, gerando problemas de saúde em bebês prematuros (asma, redução da função pulmonar, elevação do risco de derrames e ataques cardíacos), incluindo o desenvolvimento cognitivo.

 

De forma indireta, as crianças que nascem na atual conjuntura ambiental, também têm mais chances de enfrentar fome e adquirir arbovirores como dengue, zika e chikungunya, conforme indica o Relatório Internacional Lancet Countdown 2019, elaborado por 35 instituições acadêmicas do mundo todo e pelas agências da Organização das Nações Unidas (ONU). Somos, portanto, uma das espécies inaptas para tais mudanças no clima.

Quais os reais motivos desse aquecimento exagerado? Basicamente por dois motivos principais – e antrópicos: o avanço do agronegócio e a poluição do ambiente. Devem estar se indagando como isso é possível. Vamos lá.

De acordo com o Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (Seeg), as emissões de CO2 no Brasil se dão pelo desmatamento (46%) e atividades de agropecuária (24%), totalizando 68%, tornando o país o sétimo maior emissor do planeta.

Em relação a poluição, são vários os tipos, mas a principal delas diz respeito às substâncias que contaminam o ambiente e são liberadas na atmosfera. E novamente, o agronegócio tem papel fundamental nisso ao promover o uso indiscriminado dos agrotóxicos – em um ano do atual (des)governo brasileiro foram liberados 503 novos registros desses produtos, sendo 20% extremamente tóxicos e fatais para agentes polinizadores como as abelhas.

(Essa atitude é mais uma que atende os interesses das multinacionais como Bayer/Monsanto e Dow AgroSciences/Corteva, ignorando estudos e pesquisas científicas sérias).

No Brasil, a bancada do agronegócio e seus interesses escusos ditam regras que afetam diretamente o aquecimento global. A Floresta Amazônica, sendo devastada e queimada sob a tutela do (des)governo Bolsonaro, coloca em risco a própria agricultura. Isso porque ela é responsável não apenas pelo sequestro de CO2, mas pela emissão de umidade na atmosfera, a qual é carregada por correntes de ar até a região Sudeste, por exemplo. No entanto, com sua diminuição, além de não absorver o CO2, também afeta diretamente os regimes de chuva em épocas de plantio (safra), comprometendo a geração de alimentos.

Só em 2019, as áreas desmatadas na Amazônia cresceram 85% e mesmo assim, são minimizadas e até ignoradas pelo atual presidente do país.

(Vale salientar também que ao desmatar e sofrer queimadas – em uma relação direta entre as áreas – há liberação de CO2 dessa queima, afinal, imagine uma árvore de 50 anos, período no qual retirou o CO2 da atmosfera e de repente, ao ser queimada, libera todo o CO2 de uma única vez. Uma vez desmatado, o local servirá para o plantio de soja e pastagens. Pastagens que alimentam o gado, potencializando o efeito estufa, pois esses animais liberam outro importante gás, o CH4 (gás metano), cuja capacidade de retenção de calor na atmosfera é cerca de 30 vezes maior que o próprio CO2).

Paralelamente a essas arbitrariedades, resoluções da CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança) – como a recente Resolução Normativa nº24 – são tomadas na surdina para facilitar a liberação e uso de organismos geneticamente modificados (“OGMs”, também chamados de “transgênicos”). O mais curioso é que as próprias empresas detentoras da tecnologia e da produção desses OGMs – e investimentos bilionários – é que ficam responsáveis pelos estudos para comprovar o nível de risco associado aos mesmos. Ou seja, não é do interesse dessas empresas estimar o risco fielmente, colocando sob risco seus investimentos – lembremos do documento da Monsanto, publicado no livro “O mundo segundo a Monsanto”: “não podemos nos dar ao luxo de perder nem sequer um dólar em nossos negócios”)

(Recomendo a leitura do artigo Os casos envolvendo a Monsanto e outras corporações, onde falo um pouco mais sobre esse livro e suas denúncias perturbadoras)

Além de tendenciosas, tais resoluções e aparelhamento da máquina pública por pessoas ligadas a essas empresas/corporações – a chamada “porta-giratória” – escondem os danos à saúde que os OGMs causam; além de necessitarem de maios quantidade de agrotóxicos, apesar de venderem e propagandearem o oposto aquilo que a literatura científica prova. Como bem define o colaborador da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e Pela Vida e membro da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA), Leonardo Melgarejo, a RN24 promove a “falsa ideia de cientificidade em uma decisão que atende interesses políticos”.

Sendo assim, de nada adiantarmos lutar contra o aquecimento global se não condenarmos o agronegócio e seus interesses capitais. O Agro, além de tóxico, é inimigo do equilíbrio ambiental.

Montijo não é uma boa opção para novo aeroporto

A Plataforma Cívica Aeroporto BA6 – Montijo Não! alerta que a construção de um novo aeroporto deve ter em conta a defesa de opções estratégicas para o País, em articulação com a defesa do ambiente.

Créditos / Dinheiro Vivo

A Plataforma de cidadãos vem, em nota enviada à imprensa, reiterar que os interesses presentes e futuros do País devem prevalecer na decisão da construção do novo aeroporto.

O comunicado foi elaborado na sequência da audição do ministro das Infraestruturas e da Habitação, Pedro Nuno Santos, sobre o Orçamento do Estado (OE) para 2020, que reiterou a intenção de avançar com a solução de um novo aeroporto no Montijo.

Ao posicionamento do ministro, a Plataforma contrapõe com factos históricos relativos à questão, recordando que, desde 2007, «e após uma grande discussão pública e forte contestação de diversas entidades», teve de se «encontrar uma localização alternativa à Ota». E, consequentemente, houve «a decisão política, em 2010, de aceitar a localização do novo aeroporto de Lisboa em terrenos públicos do Campo de Tiro de Alcochete».

A solução de construção do novo aeroporto em Alcochete, segundo a organização, é a única que tem uma «Declaração de Impacte Ambiental decidida e aprovada», que se encontra em vigor até ao próximo dia 9 de Dezembro de 2020.

A Plataforma cívica reitera que a opção de Alcochete «só não avançou porque, na sequência da privatização da ANA, a concessionária não quis e porque o Governo aceitou essa posição, em vez de defender os interesses do País», optando por satisfazer a vontade da multinacional VINCI.

A estrutura cívica afirma que continuará a agir para que «sejam respeitados e cumpridos todos os pressupostos legais» e defendidos «os direitos e garantias dos cidadãos».

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/nacional/montijo-nao-e-uma-boa-opcao-para-novo-aeroporto

A betonização de Cascais em detrimento do ambiente

Assistimos nos últimos anos a um aumento desmesurado de betonização de Cascais por todo o lado, construção e mais construção. Um dos mais recentes empreendimento de luxo o Bayview, que contempla também o novo Hipermercado Jumbo é a imagem clara do poder que os lóbis da construção detêm em Cascais, mas não ficamos por aqui, muitos mais há para enumerar.

A Nova SBE – School Of Buisiness And Economics da UNL, a construção nos antigos terrenos onde estava implementado o Hotel Nau, o sufoco de betão imposto aos moradores da Quinta Do Barão, com as construções nos terrenos da antiga fábrica da Legrand em Carcavelos e o consequente aumento do trânsito no bairro. O Plano de Reestruturação Urbanística de Carcavelos Sul (PPERUCS) / LOTEAMENTO DA QUINTA DOS INGLESES, mega construção quase em cima da Praia de Carcavelos. Na Costa da Guia a destruição de um pulmão verde e a construção de um enorme edifício de betão, no local do antigo Hotel Paris/Sana Estoril a construção de um edifício que por pouco não ocupa a Estrada Marginal, tal é a desproporção da volumetria em relação ao hotel que foi demolido e muitos exemplos mais poderia dar.

Não posso esquecer os projectos do aumento da construção na Marina de Cascais, falando-se já na construção de um hotel de apreciável volumetria.

Muitos destes empreendimentos destruíram espaços verdes, outros impedem a construção de espaços de veraneio que poderiam servir para aumentar e melhorar os espaços verdes de lazer e o bem-estar dos muitos Cascalenses.

O ambiente, e o bem-estar das populações foi relegado para segundo plano.

Na Costa da Guia, a construção do edifício da Associação Chabad Portugal, destruiu um enorme e excelente espaço verde, motivando revolta nos moradores da área envolvente que tentaram opor-se. No entanto, o Presidente da Câmara de Cascais, Carlos Carreiras, ignorou a vontade das populações e autorizou a destruição de muitas árvores, o que revoltou muitos moradores da Costa da Guia e de toda a área envolvente.

A contestação ao PPERUCS mantém-se, é um atentado ambiental em perfeito conluio entre a Câmara de Cascais e promotores imobiliários privados, o Presidente da Câmara ignorou completamente a enorme contestação que se gerou, ignorou o interesse publico, o bem-estar das populações e a salubridade ambiental.

As constantes derrocadas das arribas entre S. Pedro do Estoril e a Praia da Parede, têm vindo a manter-se ao longo de anos, principalmente na Área Marinha Protegida das Avencas (AMPA), e na Praia da Bafureira, que se encontra “interdita” vai para dois anos e a Câmara nada faz.

A falta de vigilância na AMPA tem permitido que indivíduos munidos de espingardas de caça submarina e sem qualquer tipo de sinalização invadam partes da Área Protegida caçando/pescando peixe, moluscos e mariscos.

As ribeiras que carecem de apurada limpeza e onde ainda são despejados esgotos que vão desaguar nas praias ou perto delas, como é exemplo, a Ribeira da Praia dos Pescadores e por sua vez a Ribeira de Sassoeiros que desagua no meio da praia de Carcavelos.

O Paredão entre Cascais e a Praia da Azarujinha carece de arranjos, principalmente no pavimento e acessos, mas também de limpeza na sua generalidade.

Toda a orla costeira de Cascais carece de limpeza, quando falo da orla costeira não estou a falar só das praias, estou a falar de toda a orla costeira, locais onde se pratica pesca lúdica, miradouros e outros locais turísticos da costa de Cascais. De referir a deficiente limpeza das praias pois como muitos cascalenses vêm denunciando nas redes sociais, a limpeza é superficial o que se pode constatar se escavarmos a areia alguns centímetros, rapidamente se verifica a existência de beatas de tabaco, pequenos pedaços de plástico, cotonetes, etc.

No Guincho é hoje frequente os autocarros de turistas, quer nacionais quer estrangeiros, pararem entre a Praia da Crismina e os pesqueiros denominados Moniz, Margarida e Ponta Alta deixando para traz o lixo, nomeadamente garrafas de plástico, lenços de papel, embalagens de comida e outros.

As arribas entre o Farol do Cabo Raso e a Praia da Crismina deveriam ser locais interditos à circulação automóvel, tal não acontece e assistimos não só à destruição evidente da flora e das arribas no seu todo, como à proliferação de lixo que só é recolhido devido à boa vontade de alguns cidadãos em efectuarem esse trabalho.

As informações turísticas relativas a percursos pedestres, fauna e flora existente e normas ambientais que foram colocadas ao longo da costa, estão na sua maioria degradadas ou destruídas, deixando de cumprir a sua função servindo agora para grafitar.

Muitos mais exemplos poderiam ser elencados, quer na orla costeira quer no interior do Concelho. Facilmente se conclui que o ambiente está a ser relegado para segundo plano e o betão, os grandes negócios imobiliários avançam “de vento em popa”. É essa a vontade que quem governa em Cascais, assistimos por isso à betonização de Cascais em detrimento do ambiente.

 

António Lemos

 

Ver original em 'Portal CASCAIS' na seguinte ligação:

https://www.portalcascais.pt/comentadores-tematicos/ambiente/a-betonizacao-de-cascais-em-detrimento-do-ambiente/

FEM | Mudanças climáticas são maior risco global, indica relatório

 
 
Novo relatório do Fórum Económico Mundial mostra mudanças na percepção de risco. Se em anos anteriores problemas económicos eram considerados maiores ameaças, agora temores de colapso climático dominam.
 
Em seu 15º Relatório Global de Riscos publicado nesta quarta-feira (15/01), o Fórum Económico Mundial (FEM) afirma que, pela primeira vez desde que se começou a publicar o documento, todos os "principais riscos de longo prazo, em relação à probabilidade" são ambientais.
 
Enquanto na década anterior as crises económicas e financeiras tenham sido consideradas as mais perigosas, constatou-se que as percepções de risco se desviaram para condições climáticas extremas, desastres ambientais, perda de biodiversidade, catástrofes naturais e falha na mitigação das mudanças do clima.
 
"As mudanças climáticas são uma ameaça muito real e séria para a sociedade", afirma Alison Martin, membro do grupo de serviços financeiros Zurich Insurance Group, que ajudou a compilar a publicação, em colaboração com a empresa de consultoria Marsh & McLennan e várias universidades de renome de todo o mundo.
 
"Eventos climáticos extremos, como ondas de calor e inundações, estão se tornando mais comuns e graves, fazendo com que as comunidades enfrentem custos humanitários e económicos muitas vezes devastadores."
 
 
Sistemas multilaterais em desintegração
 
O Fórum Económico Mundial é uma organização internacional centrada na cooperação entre os setores público e privado. Ela reúne líderes empresariais, estrategistas de políticas governamentais e representantes da sociedade civil para promover discussões globais sobre questões prementes.
 
Publicado na véspera da reunião do 50º aniversário da reunião do Fórum Económico Mundial em Davos, no fim de janeiro, o relatório analisou as opiniões de mais de 750 especialistas e tomadores de decisão globais, para classificar suas maiores preocupações em termos de probabilidade e impacto.
 
Em relação aos riscos de curto prazo que a humanidade já enfrenta em 2020, três em cada quatro entrevistados mencionaram como os mais prementes: confrontos económicos, polarização política, ondas de calor extremas, destruição de ecossistemas de recursos naturais e ataques cibernéticos.
 
O FEM descreve o mundo em que vivemos como cheio de "incerteza geopolítica e geoeconómica". Poderosas forças económicas, demográficas e tecnológicas estão moldando um novo equilíbrio de poder, no qual os países vêem cada vez mais as oportunidades e desafios por meio de "lentes unilaterais".
 
Como resultado, estruturas de aliança e sistemas multilaterais ameaçam entrar em colapso, sob a pressão de "posturas nacionalistas em busca de agendas individuais e dissociação económica".
 
O presidente do Fórum Económico Mundial, Borge Brende, observou no relatório que a renovação da arquitetura dos sistemas políticos e económicos multilaterais seria "a tarefa definidora desta geração".
 
"Será um esforço monumental, mas indispensável. O Relatório Global de Riscos demonstra a dimensão dos altos riscos", escreveu Brende, acrescentando que as esperanças de que o sistema global simplesmente "se recupere" arriscariam fazer perder "oportunidades cruciais" de enfrentar problemas urgentes.
 
Estabilidade económica e coesão social
 
Em meio a um consenso global sobre política e economia desgastado, o relatório do FEM diz temer que 2020 seja marcado por confrontos económicos intensificados e polarização política doméstica.
 
Além disso, o retrocesso do crescimento económico e o aumento da desigualdade financeira elevam o risco de estagnação económica, ao mesmo tempo em que diminui o espaço de ação dos governos para estimular as economias com política monetária e fiscal.
Em meio a essa perspectiva económica sombria, o descontentamento do povo com seus líderes políticos deve aumentar, levando a mais protestos públicos, potencialmente enfraquecendo a capacidade dos governos de tomar medidas decisivas em caso de recessão. Sem estabilidade económica e social, contudo, os países poderão não ter os "recursos financeiros, o capital político ou o apoio social necessários a enfrentar os principais riscos globais".
 
Como os últimos cinco anos já foram os mais quentes já registados, prevê-se um aumento das mudanças climáticas nos próximos anos, tornando os desastres relacionados ao clima mais intensos e mais frequentes.
 
"Os impactos de curto prazo das mudanças climáticas acarretam uma emergência planetária que incluirá perda de vidas, tensões sociais e geopolíticas, assim como impactos económicos negativos", diz o relatório, acrescentando que o fracasso na mitigação e adaptação às mudanças climáticas é o risco número um em termos de impacto, e número dois quanto à probabilidade nos próximos dez anos.
 
A perda de biodiversidade – classificada como segundo risco mais impactante e terceiro mais provável para a próxima década – tem implicações críticas para a humanidade, devido ao provável colapso dos sistemas de alimentação e saúde, e as interrupções de toda a cadeia de suprimentos.
 
Fragmentação digital e assistência médica
 
Embora a tecnologia digital traga enormes benefícios económicos e sociais a grande parte da população global, os entrevistados da pesquisa do FEM dizem acreditar que o acesso desigual à internet, a falta de uma estrutura global de governação de tecnologia e a cibersegurança representam riscos significativos. Isso "impedirá que todo o potencial das tecnologias de próxima geração seja realizado", explica o relatório.
 
No campo da saúde pública, as ameaças aos sistemas existentes são vistas principalmente como advindas de "mudanças nos padrões sociais, ambientais, demográficos e tecnológicos", que podem desfazer os ganhos dramáticos em bem-estar e prosperidade.
 
Aqui o relatório identifica, como ameaças aos sistemas de saúde pública em todo o mundo, o aumento, por exemplo, de doenças cardiovasculares e mentais, assim como os custos crescentes das doenças crónicas. "À medida que os riscos à saúde existentes ressurgem e novos vêm à tona, os êxitos passados da humanidade em superar os desafios à saúde não são garantia de resultados futuros", adverte o FEM.
 
O Fórum Económico Mundial conclui sua avaliação de riscos para 2020 dizendo que "à medida que a janela de oportunidades está se fechando, são necessárias ações coordenadas rápidas e com múltiplas partes interessadas, a fim de mitigar os piores resultados."
 
Uwe Hessler (ca) | Deutsche Welle
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/01/fem-mudancas-climaticas-sao-maior-risco.html

AUSTRÁLIA | O OUTRO CRIME AMBIENTAL DA DIREITA

 
 
Ao contrário da Amazónia, a floresta seca é mais sujeita ao fogo. Mas catástrofe atual foi produzida também por um governo que nega o aquecimento global, incentiva os combustíveis fósseis e desmonta o sistema público de prevenção
 
Carolyn Kormann, no The New Yorker | Outras Palavras | Tradução: Antonio Martins
 
O atual primeiro ministro da Austrália, Scott Morrison, assumiu o posto, em agosto de 2018. Seu antecessor, Malcolm Turnbull, igualmente do Partido Liberal, era pressionado havia meses, quiçá anos, pela própria coligação de direita no poder, que reúne os partidos Liberal e Nacional. Mas o golpe final veio quando Turnbol apoiou um plano nacional de energia que, para controlar a emissão de gases de efeito estufa, teria reduzido, ainda que de forma moderada, a dependência do setor de energia em relação aos combustíveis fósseis. Numa tentativa de salvar seu mandato, na décima primeira hora, Turnbull desistiu de tornar a redução das emissões obrigatória por lei.
 
Era muito tarde. Morrison foi eleito pelos parlamentares liberais numa espécie de golpe de bastidores e logo declarou que o plano energético de Turnbull estava morto. Seu compromisso com os combustíveis fósseis já era conhecido. Em 2017, quando exercia o posto equivalente ao de ministro das Finanças [threasurer] – e a Austrália tornou-se, segundo a Agência Internacional de Energia, o maior exportador de carvão do mundo – ele levou uma pedra de carvão ao Parlamento e a apresentou a seus colegas, como se fossem alunos de escola primaria. “Isto é carvão. Não tenham medo! Não se assustem! Não vai machucar vocês”, disse. Não mencionou que a pedra havia sido laqueada, para evitar que suas mãos se sujassem…
 
 
 
O mandato de Morrison como primeiro ministro é marcado, desde então, pela recusa em admitir a relação, cientificamente confirmada, entre o uso de petróleo e carvão e a mudança climática. No final de 2018, uma seca severa e ondas de calor então inéditas fizeram dezenas de milhares de morcegos tombarem mortos do céu. Naquele ano, o Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC), descobriu, entre outros impactos terríveis, que a Grande Barreira de Coral perecerá inteiramente se o aquecimento superar 1,5ºC (já convivemos com vasta morte e branqueamento de corais). A primavera de 2019 foi a mais seca de todos os tempos na Austrália. Porém, ao invés de mudar de atitude, Morrison liderou uma política em favor dos combustíveis fósseis. Ela incluiu planos para uma nova nova usina termoelétrica a carvão e 10 milhões de dólares para um estudo destinado a ressuscitar uma outra, desativada, no estado de Queensland. O Partido Trabalhista voltou-se contra ele, defendendo uma plataforma eleitoral de maior ação climática – inclusive metas de redução de emissões efetivas. Ninguém esperava que Morrison se reelegesse; as pesquisas sugeriam que a maioria dos eleitores preocupava-se com a mudança climática. Mas um baixo comparecimento ás urnas e a apatia, devida em parte à natureza em geral instável da política australiana (nenhum primeiro ministro completa seu mandato, há mais de uma década) contribuíram para uma vitória surpreendente de Morrison, em maio de 2019. Na noite da eleição, ele disse a seus apoiantes: “Sempre acreditei em milagres”.
 
Talvez seja este o motivo para insistir que o carvão “não vai ferir vocês”, quando o mineral, obviamente, irá fazê-lo. O carvão é o combustível mais sujo e o que mais produz CO². Fechar todas as termoelétricas que o utilizam o é imperativo para limitar o aumento da temperatura global. Eliminar o carvão, especialmente em países da OCDE como a Austrália, é o primeiro passo na transição para energias renováveis. (Segundo um relatório, os países da OCDE deveriam eliminar inteiramente o uso de carvão em 2030). Há consenso científico generalizado em que o aumento das temperaturas já ocorrido – uma média global de 1,1ºC – contribuiu para a devastadora onda de incêndios na Austrália, ao criar condições ainda de ainda mais seca e calor. Mas, ainda em novembro, Morrison ameaçou criminalizar o ativismo climático, um dia depois de protestos diante de uma conferência de mineradores em Melbourne terminar em escaramuças com a polícia. “Estamos trabalhando para identificar mecanismos capazes de colocar fora da lei estas práticas, egoístas e indulgentes, que ameaçam a vida dos australianos”, disse ele…
 
Em dezembro, o país atingiu sua média de temperatura mais alta, com algumas localidades registando 46,1ºC. Estas condições logo criaram um inferno de incêndios devastadores, os quais continuam e cujo fim não está à vista. Milhares de casas já foram reduzidas a cinzas; muitos vilarejos, aniquilados; 28 pessoas morreram. A fumaça cobriu cidades. Em dezembro, a qualidade do ar em Sydney atingiu onze vezes o nível de risco; no dia do Ano Novo, na capital, Camberra, onde Morrison tem sua residência oficial de primeiro ministro, a qualidade do ar foi mais de 25 vezes pior que o nível de risco. Os moradores foram aconselhados a ficar em casa. Os incêndios mataram aproximadamente 1 bilião de animais, varrendo um terço dos koalas em New South Wales e possivelmente colocando algumas espécies perigosamente próximas à extinção – entre elas a felosa do oriente (um pássaro), o sapo corroboree e o gambá pigmeu das montanhas. Os incêndios são tão quentes, e se espalharam tanto (megaincêndios surgem quando dois fogos se encontram), que geraram seu próprio clima — inclusive incontroláveis tornados de fogo, formados quando ventos em espiral criam colunas maciças de fogo, cinzas, vapor e detritos. Área que quase nunca queimam, inclusive florestas húmidas que abrigam espécies endémicas e raras, estão em chamas. Mesmo os climatologistas australianos, cientes há anos de que o aquecimento global agravaria a severidade da estação de incêndios, estão atónitos com a escala do fogo. Virginia Young, uma estudiosa das florestas australianas, disse ao Washington Post acreditar que o país está à beira de uma “enorme mudança ecológica”.
 
O governo australiano, com Morrison no comando, não lidou bem com a crise. O primeiro ministro ignorou pedido de um grupo de ex-bomberios para um encontro na última primavera, em que pretendiam alertá-lo sobre a necessidade de mais água para o combate ao fogo. Em dezembro, a despeito do intensidade e velocidade crescentes com que muitos incêndios se espalhavam, ele tirou férias no Havaí, decidindo voltar apenas após a morte de dois bombeiros voluntários. Em seu primeiro dia após o retorno, disse a uma emissora de rádio de Sydney que ainda cogitava termoelétricas a carvão. “É preciso usar todas as fontes de energia. Sou muito agnóstico, importo-me que sejam confiáveis e baratas”. Acrescentou: “Haverá muito barulho em toda parte, mas tendo a ouvir as vozes quietas, caladas”. Ele foi repudiado em visitas a cidades destruídas, com os moradores e bombeiros recusando-se a apertar sua mão. Quando passou por Cobargo, um vilarejo chamuscado, um manifestante disse-lhe que deveria “ter vergonha de si mesmo” por “deixar o país arder”. Na última sexta-feira, dezenas de milhares de cidadãos caminharam pelas ruas para protestar contra seu governo, opor-se a novas minas de carvão – incluindo a gigante Carmichael, de propriedade do grupo indiano Adani, que o governo aprovou em junho – e para exigir políticas que reduzam as emissões causadas por fósseis. A multidão cantava: “Scomo [Scott Morrison] tem de ir embora” [Scommo has to go], enquanto avançava nas redes sociais a hashtag irónica #scottyfrommarketing, uma referência a seu passado de empresário de marketing, que inclui uma passagem como diretor da Tourism Australia.
 
 
Morrison não se sensibilizou. No domingo, depois de outro bombeiro voluntário morrer, ele deu entrevista de rádio em que chamou esta estação de incêndios e a mudança climática de “o novo normal”. Não deu indicação alguma de que mudará sua política e se engajará numa transição que supere os combustíveis fósseis. Também enfatizou a prevenção e as medidas adaptativas, para lidar com os impactos. “Não são só incêndios”, disse: “tem a ver com inundações, ciclones, secas, que terão impacto sobre muitos temas. A adaptação e a resiliência são chaves. A construção de represas, o manejo da vegetação nativa a limpeza da terra ou onde você constrói as casas são chaves”. Embora a adaptação seja de fato necessária e urgente, ela não pode, de modo algum, ser tudo o que os governos limitam-se a fazer para prevenir os piores efeitos da mudança climática.
 
Por enquanto, ao que parece, a Austrália permanecerá atada ao carvão. Na quarta-feira, Morrison disse a repórteres em Canberra: “Nosso setor de recursos é incrivelmente importante para a Austrália”. O país é o segundo maior exportador global de carvão termal (o tipo usado para produzir eletricidade), perdendo apenas para a Indonésia. Em 2018, a Austrália exportou 200 milhões de toneladas métricas, cotadas em 26 biliões de dólares, para a China, Japão e outros países do sudeste asiático. O volume está caindo vagarosamente, à medida em que a China utiliza suas fontes internas e tanto a China quanto o Japão distanciam-se do carvão. Mas a própria Austrália ainda obtém um terço de sua eletricidade de termoelétricas a carvão, o que faz dela um dos maiores emissores de CO² per capita do planeta.
 
O governo de Morrison, além disso, foi parcialmente responsável, nas conversações climáticas da ONU, em dezembro, por bloquear a negociação de políticas voltadas a combater o aquecimento global. Se países como a Austrália continuarem a agir como peso morto na transição energética, todas as adaptações que Morrison mencionou – a totalidade de sua “resposta à mudança climática” – será inconsequente. O aquecimento permanecerá e grandes extensões do continente, e do resto do planeta, irão tornar-se inabitáveis. Tragédias como os incêndios já não podem ser consideradas desastres naturais. Em 2 de janeiro, Morrison assistiu ao funeral de Geoffrey Keaton, um dos bombeiros mortos em trabalho. Numa entrevista coletiva que concedeu na sequência, ele afirmou: “Não podemos controlar os desastres naturais; o que podemos fazer é controlar nossa resposta.”
 
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Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/01/australia-o-outro-crime-ambiental-da.html

Raoni e filha de Chico Mendes promovem aliança contra política ambiental de Bolsonaro

247 - O Instituto Raoni e diversos organizações não governamentais realizam desde segunda-feira (13) um encontro com cerca de 320 indígenas de diversas etnias e estados brasileiros. A reunião divulgará nesta sexta-feira (17) uma carta aberta ao Congresso e ao Ministério Público.

As lideranças reunidas à beira do Rio Xingu, no Mato Grosso, denunciam os retrocessos nas políticas ambientais e indigenistas do governo Bolsonaro.

Ângela Mendes lembra o projeto que seu pai, o líder extrativista Chico Mendes, assassinado em 1988, desenvolveu nos anos 1980 com líderes indígenas como Ailton Krenak: a Aliança dos Povos da Floresta.

 

As informações são dos jornalistas Rubens Valente e Bruno Santos.

Controle da catástrofe incendiária na Amazônia é desmentido pelo Inpe: desmatamento aumentou 183% em dezembro

 

247 - A notícia de queda no desmatamento em 2019 pode estar no mesmo patamar de credibilidade da alardeada 'retomada econômica'. Dados do Deter (Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real), do Inpe, o desmatamento na Amazônia cresceu 183% em dezembro, em comparação ao mesmo mês de 2018.

A reportagem do jornal Folha de S. Paulo destaca que "o Deter tem a função de auxiliar as ações do Ibama no combate ao desmatamento, mas também pode ser usado para analisar as tendências de desmate. Ou seja, pode-se visualizar se a destruição da floresta está aumentando ou diminuindo. Além disso, os dados do Deter costumam subestimar os dados anuais consolidados de desmate (Prodes)."

A matéria ainda acrescenta que "segundo os dados do Inpe, o crescimento do desmatamento (sempre em comparação com os mesmos meses de anos anteriores) tem sido constante. Desde maio de 2019, os aumentos têm sido acentuados, com exceção de outubro, que apresentou crescimento menor, de cerca de 5%."

 

Lisboa, Capital Verde Europeia?

Esta semana, com pompa e circunstância, recebendo o secretário Geral das Nações Unidas, António Guterres, e o Vice-Presidente da Comissão Europeia para o Green Deal, Frans Timmermans, Lisboa consagrou-se como como a Capital Verde Europeia (2020).

Pela primeira vez uma cidade no sul da Europa recebe este galardão e os objectivos a que se propõe são genericamente positivos porém, e há um abismal porém, se olharmos estruturalmente para o que o município necessita para garantir um excedente climático, isto é ultrapassarmos a barreira da neutralidade carbónica, e o que efectivamente está a fazer está longe de garantir a acção necessária.

O município, tal como o país, continua a ignorar o facto de ainda termos taxas de consumo de bens e serviços muito acima dos limites sustentáveis da real economia, das taxas de reciclagem e de gestão ecológica de resíduos estarem longe das ideais, de se continuar a externalizar o impacto do aumento do tráfego aéreo (sem falar na expansão da Portela para o aeroporto comercial no Montijo), automóvel tal como de barcos e cruzeiros, da expansão da poluição luminosa e do crescimento das emissões de gases poluentes, tal como da poluição generalizada do lixo urbano, por exemplo com os resíduos plásticos e beatas.

Importa também alertar para a morte gradual do rio Tejo e a destruição maciça dos nossos oceanos com a sobrepesca e poluição generalizada.

Isto sem esquecer da falta de visão política para implementar soluções que estruturalmente protejam a biodiversidade e a coexistência harmoniosa de mais espécies animais e vegetais no município. Sim as metas a que se propõe Lisboa são audaciosas mas pouco se deve esperar de um executivo que mantém a mesma forma de pensar, agir e gerir os recursos que nos trouxe para este caos climático.

Dizer que Lisboa é um exemplo de cidade ecológica ou que caminha para a neutralidade carbónica, tendo o rótulo de Capital Verde Europeia, é só assumir que a metrópole está na rota para não poluir tanto como outras capitais.

Não representa, muito menos garante, que a neutralidade carbónica seja atingida, que os valores de poluição sonora, atmosférica e luminosa diminuam drasticamente, que a educação e a mobilidade sejam políticas estruturais do município, nem que as políticas de gestão de resíduos ou mesmo de preservação da biodiversidade sejam eficazes e duradouras.

Aqui, como em tantos outros exemplos, o rótulo de verde pouco significa se a Câmara PS mantiver e reforçar o paradigma de consumo exacerbado, de externalização ambiental e de crescimento contínuo.

Felizmente para o ano teremos eleições autárquicas e podemos, como cidadãos/ãs, dar mais força, através do voto, a partidos com políticas ecológicas holísticas e que tenham uma visão estrutural de como devemos implementar uma sociedade baseada na descentralização da produção, distribuição e consumo de energia e de bens alimentares, de como desenvolver PMEs que acrescentem mais valor nesta transição económica e social, de como reduzir o nosso consumo de bens e serviços, de como reforçar a integração das comunidades nas decisões políticas, de como melhorar estruturalmente a mobilidade urbana e peri-urbana, de como garantir que o turismo não externaliza os seus impactos para quem mora no território, de como projectar as construções e as políticas de habitação para todos os cidadãos e, naturalmente, de como desenvolver os municípios como espaços de coexistência entre mais espécies animais e vegetais.

Queremos cidades vivias, desenvolvidas e prósperas, não amorfas à loucura do consumismo e do crescimento pelo crescimento.

Como nota final frisar que estreou, no Cinema São Jorge, como parte da semana inaugural de Lisboa como Capital Verde Europeia, o documentário É P´ra Amanhã, que nos fala em vários episódios sobre a urgência de transitarmos para uma sociedade e economia realmente sustentável, progressista e descarbonizada mostrando alguns dos muitos exemplos positivos que já operam e se expandem em Portugal.

Francisco Guerreiro

Ver original em 'Portal CASCAIS' na seguinte ligação:

https://www.portalcascais.pt/analise-politica/francisco-guerreiro/lisboa-capital-verde-europeia/

Perigo! Agrotóxicos invadem Brasil, segundo especialista

Fazendeiro no Estado norte-americano do Nebraska faz o plantio de soja, em maio de 2019, após a Casa Branca liberar segunda rodada de subsídios
© AP Photo / Nati Harnik

O governo precisa equilibrar o interesse da indústria com a atuação dos órgãos reguladores, alega especialista, consultado pela Sputnik Brasil.

O número de licenças de defensivos agrícolas registrado em 2019 é o mais expressivo desde 2005, de acordo com monitoramento feito pela Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida, quando começou a série histórica.

Segundo o Greenpeace, desses produtos, 22 contêm ingredientes ativos que têm seu uso proibido na União Europeia. Além disso, 25 constam na lista dos produtos extrema ou altamente tóxicos à saúde humana.

Sob o governo Bolsonaro, o Brasil bateu recorde do número de agrotóxicos liberados, com 467 licenças em 2019.

Segundo a pesquisa da Anvisa – Agência Nacional de Vigilância Sanitária - 23% dos alimentos analisados têm resíduos de agrotóxicos acima do limite permitido ou proibidos para a cultura.

O governo Bolsonaro afrouxou deliberadamente o controle sobre os agrotóxicos no Brasil? Isso pode repercutir no mercado externo? Quais são os riscos para a saúde da população?

Segundo Carlos Canejo, professor de Engenharia Ambiental na Universidade Veiga de Almeida, é necessário que as regras sobre o uso de agrotóxicos sejam mais rígidas.

"O uso desses agrotóxicos causa uma significativa degradação ambiental. Ele contamina solos, rios, lençol freático. Isso vem a ocorrer porque esses agrotóxicos que são usados durante o processo de irrigação, fazem com que aconteça uma contaminação de todo o sistema de modo contínuo", alertou o especialista para Sputnik Brasil.

Desse modo, os agrotóxicos afetam uma região muito maior, do que a área, na qual são aplicados.

Por outro lado, o professor destacou que uma fiscalização mais rigorosa deve ser aplicada, uma vez que o uso de substâncias químicas no solo nem sempre é realizado de forma legal.

Canejo destacou que a legislação brasileira "não deve nada" aos países mais desenvolvidos. O problema, segundo ele, está na implementação das leis.

"A grande gama de agrotóxicos disponibilizados pelo mercado dificulta essa fiscalização. E também não temos a segurança sobre o uso humano de muitos desses agrotóxicos", ponderou o especialista.

Apesar da Anvisa realizar pesquisas sobre a segurança das substâncias químicas utilizadas no cultivo, o avanço da indústria nem sempre é acompanhado pelos órgãos governamentais.

"A gente está sujeito a problemas que devem ser melhor avaliados", alertou o professor.

Carlos Canejo avalia que, o novo governo, sem entrar em méritos políticos, buscou firmar um acordo para o avanço na "liberação de novas licenças para motivar a indústria".

"Claro que isso precisa de uma discussão mais ampla", avaliou o interlocutor da Sputnik Brasil.

A indústria agrícola é muito importante para o país, afirmou o acadêmico. No entanto, o setor precisa de mair regulação.

"A gente opera com agrotóxicos que não foram liberados em outros países...então a gente precisa refletir um pouco", declarou o entrevistado.

"O grande passivo ambiental acaba ficando no nosso país", concluiu o pesquisador.

O governo não está medindo os riscos para pode exportar mais, dessa forma. Para o cientista a resposta está na regulação e na implementação das leis já existentes, que são muito mais modernas, do que a prática do mercado.

As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/opiniao/2020011114997201-perigo-agrotoxicos-invadem-brasil-segundo-especialista/

Incêndios florestais australianos destroem vida selvagem e enormes extensões de terra devido lenta resposta do governo

Incêndio na Austrália

Por Matt Goss

 

Camberra, 9 jan (Xinhua) -- O número de mortos pelos incêndios florestais na Austrália, que começaram extraordinariamente no início de setembro, subiu para 27, com o incêndio que continua queimando.

 

Na quarta-feira, mais de 10,7 milhões de hectares de terra haviam sido queimados no país inteiro. Na manhã de quinta-feira, o governo estadual de Nova Gales do Sul (NSW) anunciou que 1.870 casas foram destruídas no estado.

 

Tanto NSW quanto Victoria declararam estado de emergência e que condições catastróficas de incêndio florestal podem persistir.

 

A fumaça dos incêndios cobriu as principais cidades da Austrália por dias seguidos e se espalhou para o leste da Nova Zelândia até a América do Sul.

 

De acordo com dados compilados pelo Fundo Mundial para a Natureza, 1,25 bilhão de animais morreram nos incêndios, muitos dos quais eram espécies icônicas da Austrália, incluindo coalas, cangurus, marsupiais e cacatuas.

 

Em resposta à crise, o primeiro-ministro australiano Scott Morrison, o tesoureiro Josh Frydenberg e o vice-primeiro-ministro Michael McCormack, estabeleceram na segunda-feira a Agência Nacional de Recuperação de Incêndios Florestais e anunciaram 2 bilhões de dólares australianos (1,37 bilhão de dólares americanos) em financiamento para esforços de socorro e recuperação.

 

O anúncio foi feito em meio a um dos meses difíceis de Morrison desde que ele se tornou primeiro-ministro em agosto de 2018.

 

Em dezembro, ele pediu desculpas depois que deixou o país para passar férias em família no Havaí, enquanto grande parte de seu estado natal, NSW, estava em chamas.

 

Desde que ele interrompeu suas férias, Morrison enfrentou uma pressão significativa para seguir políticas mais ambiciosas de mudança climática para mitigar futuras crises.

 

A Austrália se comprometeu a reduzir suas emissões de carbono em 26 a 28 por cento em relação aos níveis de 2005 até 2030, segundo o acordo climático de Paris, uma meta que Morrison disse que "protegerá o meio ambiente", além de garantir a viabilidade a longo prazo dos "empregos e meios de subsistência das pessoas".

 

A crescente pressão sobre o primeiro-ministro para tomar medidas a fim de evitar futuros incêndios chegou ao seu ápice no início de janeiro, enquanto ele passeava pela cidade afetada de Cobargo, em NSW, onde duas pessoas morreram. Morrison foi questionado por moradores locais.

 

O Escritório de Meteorologia (BOM) divulgou na quinta-feira sua Declaração Anual do Clima, revelando que 2019 foi o ano mais quente e seco da Austrália desde o início dos registros em 1900.

 

De acordo com dados do BOM, a temperatura média da Austrália em 2019 foi 1,52 graus Celsius mais quente que a média de longo prazo.

 

O total nacional de chuvas foi de 277,6 milímetros (mm), bem abaixo do recorde anterior em 1902 (o mais baixo anterior foi de 314,5 mm).

 

Andrew Gissing, especialista em gerenciamento de emergências do Centro de Pesquisa Cooperativa de Incêndios Florestais e Desastres Naturais, disse recentemente que a Austrália gasta "muito em socorro e recuperação de desastres e pouco em prevenções".

 

"Mais pessoas vivem em áreas de alto risco de incêndio, serviços de emergência são ampliados e o clima está mudando rapidamente", disse ele em um comunicado à imprensa.

 

"Crises futuras são inevitáveis. Devemos considerar a perspectiva de uma temporada monstruosa de incêndios florestais, como nunca vimos".

 

Mais de um terço da Ilha Kangaroo, na costa do sul da Austrália, foi queimada por incêndios e cerca de 25.000 coalas, metade da população da ilha, podem ter morrido.

 

Os coalas da Ilha Kangaroo são considerados essenciais para a sobrevivência a longo prazo das espécies, porque foram descobertas como livres da clamídia que afeta quase metade daqueles no continente, causando cegueira, infertilidade e morte generalizadas.

 

Chris Dickman, ecologista da Universidade de Sydney, disse na quarta-feira que 800 milhões de animais morreram apenas em NSW.

 

"Provavelmente estamos vendo como as mudanças climáticas podem parecer para outras partes do mundo nos primeiros estágios da Austrália no momento", disse ele em comunicado.

 

"É um momento muito triste".

 

 Ver original em "XINHUA Português" na ligação seguinte:

http://portuguese.xinhuanet.com/2020-01/10/c_138694748.htm

Economista previu incêndios na Austrália há uma década

David Mariuz / EPA

 

Um estudo ambiental elaborado pelo economista Ross Garnaut foi capaz de prever, há mais de dez anos, os incêndios que iriam assolar a Austrália no início de 2020, bem como os impactos que estes teriam na economia do país.

 

O relatório, datado de 2008, foi agora recuperado pelos meios de comunicação australianos. Tal como escreve o semanário Expresso, o estudo ambiental de Garnaut tentou antever os impactos que estes meses de incêndios teriam na economia australiana.

O documento alertava que as condições climáticas iria provocar “o início mais precoce da época de fogos, um fim mais tardio da mesma e uma intensidade maior dos incêndios” na Austrália, principalmente a sudeste do país.

Na prática, Garnaut vaticinou que, caso a Austrália não tomasse medidas adequadas, enfrentaria uma temporada de incêndios mais frequente e intensa até 2020. “Este efeito aumenta com o tempo, mas deve ser diretamente observável até 2020”.

Além do alerta, Garnaut deixava ainda alguns conselhos para minimizar o problema. “O risco pode ser substancialmente reduzido através de ações fortes, eficazes e precoces de todas as principais economias do mundo”, escreveu o economista.

“A Austrália precisará desempenhar a sua parte proporcional na ação global. Como um dos países mais desenvolvidos, sua parte total será relativamente grande e envolverá grandes mudanças iniciais na estrutura económica estabelecida”.

Em declarações à SBS News, Garnaut mostrou-se frustrado por não ter conseguido passar a mensagem do seu relatório. “Sinto-me triste porque foi ineficaz. Tendo-me sido dada a oportunidade de conversar com os australianos sobre esse assunto, fui incapaz de os convencer de que era do nosso interesse nacional desempenhar um papel no esforço global para mitigar a efeitos das mudanças climáticas “, afirmou.

Já à ABC, o economista recusou-se a culpar os responsáveis pelas decisões políticas, mas recordou o papel da Ciência. “Se ignoramos a Ciência ao construir uma ponte, a ponte cai (…) Se ignoramos a Ciência ao construir um avião, o avião cai”.

Segundo estimativas do Conselho de Seguradoras da Austrália (ICA), os danos causados ​​pelos incêndios na Austrália ascendem aos 700 milhões de dólares australianos (432 milhões de euros). O valor deverá subir.

Desde setembro, altura em que os primeiros fogos deflagraram, já morreram pelo menos 26 pessoas e mais de duas mil habitações estão inabitáveis.

ZAP //

 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/economista-previu-fogos-na-australia-ha-decada-301480

Especialista: combater fogo na Amazônia não basta, sem combater desmatamento

 Vista aérea de queimada na Floresta Amazônia, vista à partir da cidade de Porto Velho, capital de Rondônia.
©André Cran/Folhapress

Especialista alerta para aumento de desmatamento, acredita que o governo demorou para entrar em ação para combater o fogo na Amazônia, mas espera que o governo tenha aprendido a lição.

O INPE – Instituto Brasileiro de Pesquisas Espaciais divulgou na terça-feira números que comprovam que, entre agosto de 2018 e julho de 2019, o desmatamento da Amazônia realmente cresceu, chegando a atingir quase 10 mil km2 de floresta derrubada e representando um aumento de 39,5% em relação ao mesmo período anterior.

Segundo Ane Alencar, diretora de Ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), o Governo Federal demorou muito para agir contra o fogo na região e os novos dados já eram esperados "por conta do que aconteceu em agosto, quando uma área muito grande foi queimada pelo fogo".

Entre as causas principais, segundo a especialista, estaria o aumento do desmatamento na região.

"Entre 2018 e 2019 a gente teve um aumento do desmatamento de cerca de 30% na região. E o segundo semestre do ano [2019] já indica um aumento considerável de desmatamento, de mais de 100% inclusive, em relação ao segundo semestre do ano anterior", alegou ela para Sputnik Brasil.

Por outro lado, para entender como o fogo se comporta na Amazônia, é necessário entender as relações com as épocas de chuva e com as atividades na região.

Para e entrevistada, normalmente o fogo tem o pico no mês de setembro, e começa a reduzir, porque começa a chover. Então é esperado, quando chega novembro e dezembro, que as queimadas comecem a diminuir por conta das chuvas.

No ano passado, no entanto, foi acompanhada uma grande redução no número de foco em setembro e outubro. Isso estaria relacionado com os decretos do presidente, que autorizaram o uso do exército no combate ao fogo, instauraram moratória do uso de fogo na região até 24 de outubro.

"Claramente, depois de 24 de outubro, o número de focos começa a ter uma tendência de aumento. Isso se traduziu num aumento significativo no número de focos de fogo em novembro, comparado ao ano passado, e também em dezembro", explicou Ane Alencar.

Para a especialista, o governo demorou muito para reagir, e agora está colhendo os frutos de sua inação e até negação.

"Se o governo federal tivesse reagido positivamente aos números do INPE sobre desmatamento em julho, com certeza não teríamos um número tão alto de queimadas no ano passado. Teve uma displicência do Governo Federal de renegar o aumento do desmatamento num momento crucial", alertou a diretora do IPAM.

Ela lembra que o governo começou a agir somente após a repercussão internacional dos incêndios na região e, mesmo assim, a contragosto e com muita "negação".

Ane Alencar destacou que os decretos presidenciais foram muito positivos no combate ao fogo, mas espera que o governo tenha aprendido a lição e aja com mais antecedência no futuro e que também ataque o desmatamento ilegal.

"É a hora de aprender com o que aconteceu em 2019. É a hora do governo focar no incentivo de redução de desmatamento. De investir em estratégias para descobrir desmatamento ilegal, queimada ilegal", concluiu a especialista.

As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/opiniao/2020010914986002-especialista-combater-fogo-na-amazonia-nao-basta-sem-combater-desmatamento/

Somos todos muito verdes, mas...

 
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Não somos propriamente excepção quando advogamos a urgência de mudarmos de vida a fim de evitar os piores cenários. De resto, nenhum partido político, em Portugal, se coloca do lado dos negacionistas.
Todavia, quando chega a altura de mostrar trabalho ficamos muito aquém do necessário. Um bom exemplo prende-se com o sector dos transportes. Apostou-se fortemente na construção de auto-estradas e desinvestiu-se na ferrovia, factos também sobejamente conhecidos. O mais surpreendente, porém, é em pleno século XXI, 2020, os transportes colectivos (geralmente públicos) continuarem a ser um parente paupérrimo de um pais que não conhece uma estratégia há largas décadas.
Ora, esta é uma incongruência inaceitável. Os transportes colectivos são indispensáveis para qualquer estratégia que se enquadre neste contexto de urgência climática e o que país tem é um interior que não sabe sequer o que são transportes públicos e um litoral, sobretudo as áreas metropolitanas, com transportes decrépitos, insuficientes em número e mais do que lotados - um cenário verdadeiramente de terceiro mundo.

Ver o original em 'Triunfo da Razão' na seguinte ligação:

http://triunfo-da-razao.blogspot.com/2020/01/somos-todos-muito-verdes-mas.html

Obras do aeroporto de Lisboa avançam sem avaliação de impacto ambiental

A associação Zero adianta que as obras de expansão têm como objetivo um aumento da atividade aeroportuária, que terá impactos na qualidade do ar, ruído ou pressão sobre as infraestruturas.

 

A organização ambientalista Zero considera que o processo de expansão do aeroporto de Lisboa é “absolutamente inacreditável” do ponto de vista regulatório e político, e alerta para a falta de uma Avaliação de Impacto Ambiental (AIA).

Em comunicado, a associação considera “inacreditável a incapacidade das entidades regulatórias de fazerem cumprir a legislação”, no dia em que começam obras de expansão (saídas rápidas das pistas) do Aeroporto Humberto Delgado que implicam a suspensão de voos noturnos.

Quando as obras estiverem prontas haverá um aumento da atividade aeroportuária em Lisboa, que terá impactos significativos em áreas como a qualidade do ar, ruído ou pressão sobre as infraestruturas, diz a Zero no comunicado, concluindo que é incompreensível que não tenha sido feito uma AIA.

 
 

“Estas obras terão como efeito imediato o aumento potencial do número de movimentos, pelo que o seu efeito cumulativo no ambiente e na qualidade de vida das populações deveria ser avaliado”, explica a associação ambientalista.

Para a Zero, as obras “incluem-se obviamente na estratégia de expansão do Aeroporto Humberto Delgado, estando-se perante um estratagema absolutamente inaceitável de fragmentação de projetos e de obras com o intuito de se contornar a obrigatoriedade de um processo de AIA”.

A Zero revela no comunicado que a Autoridade Nacional de Aviação Civil (ANAC) a informou em 16 de dezembro que as obras que agora começam estão previstas no ‘Masterplan’ “de expansão do aeroporto”.

Os ambientalistas consideram portanto que os impactos ambientais decorrentes das obras de expansão devem ser avaliados e deve ser permitida a participação da população e recordam que já em 2004 o Tribunal de Justiça da União Europeia tinha determinado que as obras num aeroporto que tenham como objetivo o aumento significativo da sua capacidade, mesmo que não incluam alterações na pista, devem ser objeto de uma AIA e que outras diretrizes da Comissão Europeia vão no mesmo sentido.

“As obras de expansão no Aeroporto Humberto Delgado já anunciadas, que incluem o alargamento do estacionamento para aviões e a construção de um novo hangar para os militares e entidades oficiais, novos acessos rodoviários e a reformulação de toda a circulação em torno do aeroporto, e também a ampliação do espaço de check-in de passageiros, requerem um procedimento próprio de Avaliação de Impacto Ambiental”, afirma.

A organização alerta ainda que o plano de expansão da ANA-Aeroportos de Portugal ainda em vigor nada refere sobre qualquer projeto de expansão do aeroporto de Lisboa, que a Agência Portuguesa do Ambiente (APA), como autoridade nacional de Avaliação de Impacto Ambiental, não responde aos ofícios da Zero e também não exigiu qualquer avaliação, e que não existe um Plano de Ação para o Ruído que assegure o cumprimento dos valores-limite legislados.

// Lusa

 
 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/aeroporto-lisboa-sem-impacto-ambiental-300739

Os desabafos de um otimista obrigado a moderar-se

Os fogos na Austrália alcançaram uma dimensão tal, que os bombeiros já se confessam impotentes - e incompetentes! - para os combaterem. Não surpreende, pois, que o primeiro-ministro tenha sido declaradopersona non grata nos sítios onde procurou tirarselfies e distribuir abraços junto dos que tudo perderam. É que ninguém esquece o seu descarado negacionismo a respeito das alterações climáticas, refutando as evidências científicas com o mesmo tom acintoso do seu amigo Trump. Nem tão pouco se ignoram as suas ligações aos interesses mineiros australianos, particularmente os relacionados com a extração do carvão. E, cereja em cima do bolo!, não há quem não se indigne com a decisão de partir de férias com a família para o Hawai deixando para trás vastas extensões do país a serem destruídas pelo fogo.

 

Nas mais recentes eleições legislativas ele ganhara-as contra a maioria das previsões, que o davam como condenado a ser punido eleitoralmente pelos seus dislates. Agora, muitos dos que nele apostaram por liderar a direita com que se identificavam, sofrem as consequências da sua opção, porque nada foi feito para precaver o que os anos anteriores já haviam prognosticado como tendo potencial para muito se agravar.

 

Em simultâneo com as intensas vagas de calor, que assolam a maior ilha da Oceânia, ocorreram as diluvianas chuvas, que puseram grande parte da população de Jacarta a enfrentar uma inundação como nunca até então conhecera. A antecipação do que implicará a subida do nível dos oceanos por efeito do aquecimento global ficou mais do que demonstrado na capital indonésia, que o respetivo governo pondera transferir para a ilha de Bornéu. Não consta que esse plano, perfeitamente sensato, tenha colhido contestação semelhante à que o nosso ministro do Ambiente conheceu quando sugeriu a deslocação de aldeias localizadas em potenciais leitos de cheia para zonas de maior cota de altitude onde possam ser poupadas aos efeitos conhecidos há cerca de duas semanas. De facto são os cientistas a calcularem em centenas de milhões os habitantes obrigados a deslocarem-se até 2025 para se livrarem das cada vez mais impressionantes inundações nas zonas ribeirinhas.

 

Surpreendente tem sido, igualmente, a vaga de frio, que está a assolar a Índia como nunca se verificara nos registos efetuados nos últimos 119 anos. Ao mesmo tempo que, na Rússia, registos colhidos em intervalo de tempo semelhante, mostram nunca ter havido um ano tão quente como o de 2019.

 

Noutras geografias os recordes de canícula vão sendo sucessivamente batidos como aconteceu em julho no deserto da Líbia onde os termómetros chegaram aos 58ºC ou nas planícies iranianas de Lut onde passaram muito para além dos 60ºC, implicando o avanço progressivo da aridez nesses territórios.

 

A falta de água doce constitui um dos mais desafiantes problemas deste século tendo em conta que só 3,5% dos 70% de água, que constitui o planeta, é efetivamente potável.

 

Para a situação mais tender para a irreversível distopia avulta o aumento demográfico, que se tornou explosivo em muitas regiões do mundo, particularmente no Médio Oriente, onde a população síria quadruplicou nos últimos sessenta anos e a iraniana triplicou em meio século. Grotesco é, por isso mesmo, o projeto faraónico em curso nos Emiratos Árabes Unidos com a construção de ilhas em forma de plameiras e onde se implantam centros comerciais, hotéis de luxo e, até mesmo, uma Trump Tower. O efeito devastador sobre os recifes coralíferos do Golfo Pérsico já estão mais do que reportados. Mas a sexta grande extinção de espécies animais não conhece fronteiras: de Moçambique chega a notícia de ter havido a redução para um terço dos 12 mil paquidermes existentes em 2009 na reserva do Niassa, porque não há quem trave a nefasta atividade dos caçadores furtivos.

 

Perante todos estes cenários até mesmo um otimista irritante como me assumo, tem dificuldade em manter essa bonomia perante um futuro, que será, sobretudo, aquele em que as minhas netas tentarão ser felizes. Ou se mudam urgentemente de políticas a nível internacional ou será pedido aos vindouros uma capacidade de resiliência muito para além do que poderíamos imaginar.

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2020/01/os-desabafos-de-um-otimista-obrigado.html

Estas são espécies declaradas extintas na última década

Organização das Nações Unidas afirmou que pelo menos um milhão de espécies podem desaparecer no futuro próximo. Cada ano elas são adicionadas em uma lista vermelha interminável.

Apesar dos esforços que muitos ambientalistas e Estados realizaram para sua conservação, muitas espécies foram declaradas extintas na última década.

A Terra poderia ser o lar de entre 5 e 10 milhões de espécies, segundo estimativas, das quais os investigadores catalogaram menos de dois milhões. Organização das Nações Unidas afirmou que pelo menos um milhão de espécies podem desaparecer.

No entanto, a situação de ameaça à sobrevivência em que estão muitas espécies também põe em perigo os ecossistemas dos quais dependemos para viver. Os cientistas estimam que as espécies estão se extinguindo 1.000 vezes mais rápido do que deveriam.

As espécies costumam se extinguir (geralmente) por culpa da atividade humana. Nós fazemos desaparecer seus habitats, introduzimos espécies invasoras que as matam, contaminamos seus espaços, as comemos ou as caçamos com outros objetivos ou prejudicamos indiretamente os lugares onde vivem através dos efeitos da mudança climática.

Estão são algumas das espécies raras que a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) declarou oficialmente extintas nos últimos 10 anos.

Hemignathus ellisianus

Se observarmos o que se passou com as espécies das ilhas havaianas, vemos que isso serve como um dos exemplos mais notáveis do perigo que correram às mãos dos humanos.

Hemignathus ellisianus
© CC0 / John Gerrard Keulemans / Wikimedia
Hemignathus ellisianus

Esta espécie era um pequeno tentilhão de bico comprido e curvo que comia insetos e néctar, mas se extinguiu devido às doenças de aves e a que os humanos limparam a floresta. A UICN declarou a espécie extinta em 2016.

Bettongia anhydra

Os cientistas que trabalham no deserto australiano recolheram um só exemplar de Bettongia anhydra, um cruzamento entre um rato e um canguru, por isso sabemos pouco sobre onde e como vivia.

Foi visto pela última vez em 1933 e provavelmente foi presa de gatos selvagens invasores e raposas invasoras. A UICN o declarou extinto em 2016.

Calathus extensicollis

O escaravelho da terra grande e predador era endémico das florestas de grande altitude do Pico, uma ilha dos Açores no Atlântico. Os naturalistas o registraram pela última vez em 1859, e desde então não foram realizados estudos exaustivos. A UICN o declarou extinto em 2018.

Contomastix lacertoides

Era um pequeno lagarto que foi encontrado uma vez em um afloramento de granito na cidade costeira uruguaia de Cabo Polônio. Os naturalistas não registaram nenhum desde 1977, e talvez tenha morrido devido à crescente perturbação humana pelo turismo durante a temporada de reprodução do lagarto.

A UICN o declarou extinto em 2016.

Dusicyon avus

Este canídeo do tamanho de um cachorro vivia nos habitats herbáceos dos pampas e da Patagônia na América do Sul.

Os arqueólogos o encontraram em tumbas que datam do segundo milênio a.C. e é possível que fosse mantido como mascote. Não está claro quando se extinguiu realmente, a datação por radiocarbono sugere que foi entre 326 e 496 anos atrás, enquanto um cachorro que corresponde com sua descrição aparece em diários do século XIX. A caça e a competição com cachorros domésticos são os prováveis culpados da extinção desta espécie, que foi adicionada à lista de espécies extintas da UICN em 2015.

Eulophia stenopetala

Os naturalistas registraram esta orquídea uma vez nas colinas secas de Butão em 1859 e ela não foi registrada desde então. A causa da extinção não está clara, mas talvez se deva ao desenvolvimento das estradas na zona. A UICN declarou a planta extinta em 2017.

Habenaria petromedusa

Esta planta com flor vivia nas ilhas de Cabo Verde e só se conhece um exemplar recolhido em 1787. Resta pouco habitat apropriado para ela, por isso a UICN a declarou extinta em 2017.

Leiolopisma ceciliae

Os cientistas só sabem desta espécie de réptil que provavelmente ela se extinguiu há pelo menos 300 anos, se não mais.

Leiolopisma ceciliae
© CC BY 3.0 / Christian Hauzar / Telfair-Skink.jpg
Leiolopisma ceciliae

A possibilidade do que poderia ter estado ao redor dos últimos 1.500 anos levou a UICN a o adicionar à lista de extinção em 2019.

Garça-noturna de Bermudas

Ossos de aves pernaltas apareceram nas ilhas Bermudas que pertenceram a uma espécie de garça que pode ter vivido nas ilhas.

Garça-noturna de Bermudas
Garça-noturna de Bermudas

No entanto, a caça e os gatos selvagens provavelmente a levaram ao seu fim. A UINC a declarou extinta em 2014.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/ciencia_tecnologia/2019123114954280-estas-sao-especies-declaradas-extintas-ultima-decada-que-nunca-mais-veremos/

2019 foi o ano do meio ambiente?

O chefe indígena Kadjyre Kayapo, da etnia Krimej, observa área desmatada da Amazônia na cidade de Altamira, no Pará.
© AP Photo / Leo Correa

Com a marcha das mudanças climáticas, o ano de 2019 foi recheado de acontecimentos que mostraram o avanço do aquecimento global e a importância da política ambiental. A Sputnik Brasil conta aqui alguns desses episódios.

Brumadinho

No Brasil, o ano começou com o acidente da Vale em Brumadinho. Em 25 de janeiro de 2019, a barragem da Mina do Feijão rompeu, causou a morte de centenas de pessoas e liberou cerca de 12 milhões de metros cúbicos de rejeitos. O material feriu o ecossistema da região e manchou o Rio Paraopeba, um dos afluentes do rio São Francisco.

Este é o segundo acidente de grandes proporções da Vale em Minas Gerais em poucos anos. Em 2015, outra barragem da mineradora rompeu em Bento Rodrigues, distrito da cidade de Mariana, e causou 19 mortes. 

"Uma coisa muito triste de se verificar é que, dentro da possível área que seria afetada pela ruptura da barragem, a Vale já sabia que estava ali o setor administrativo, o refeitório, ou seja, existia um laudo de agosto do ano passado que mostrava que a barragem estava muito insegura, da Tüv Süd, e as operações continuaram normalmente", afirma Pedro Luis Côrtes, professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental da Universidade de São Paulo (USP), em entrevista à Sputnik Brasil. 

Ainda de acordo com o especialista, o incidente foi uma "tragédia anunciada" e com efeitos graves, como o desequilíbrio da cadeia alimentar, poluição da água, dificuldade de reflorestamento, já que o rejeito cobriu o solo orgânico em que sementes poderiam germinar, entre outros fatores. 

Amazônia e óleo no Nordeste

A disparada dos incêndios e do desmatamento na Amazônia teve repercussão ambiental, nacional e internacional. De acordo com o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), o desmatamento na Amazônia Legal avançou 29,5% entre agosto de 2018 e julho de 2019, na comparação com igual período entre 2017 e 2018. Foram desmatados 9.762 km², a maior marca dos últimos 10 anos.

Este número é do sistema de monitoramento chamado de Prodes e foi divulgado em dezembro, mas levantamentos feitos em meses anteriores já demonstravam o avanço das motosserras na maior floresta tropical do mundo. O presidente Jair Bolsonaro chegou a afirmar que tinha o "sentimento" de que as cifras poderiam estar erradas.

O então presidente do INPE, Ricardo Galvão, afirmou que o presidente se comportava como se estivesse em um "botequim" e que havia tomado uma atitude "covarde". Galvão terminou afastado do cargo.

O assunto ganhou manchetes internacionais e Alemanha e Noruega suspenderam repasses de R$ 288 milhões ao Fundo Amazônia, inciativa que já investiu mais de R$ 1 bilhão na conservação da floresta nos últimos 10 anos. O presidente da França, Emmanuel Macron, levou o assunto para a cúpula do G7 e Paris colocou em xeque o acordo entre União Europeia e Mercosul.

Diante da repercussão internacional, Bolsonaro acabou assinando um decreto de Garantia da lei e da Ordem (GLO) para o uso das Forças Armadas na luta contra o fogo. 

"Na prática, o governo deu uma espécie de carta branca para todos que desejassem se apropriar de terras da União por meio de grilagem", diz Cortês. O professor da USP também avalia que Bolsonaro é "leniente" e com quem se apropria criminosamente de terras públicas.

Sobre o vazamento de óleo que atingiu centenas de localidades, todos os nove Estados do Nordeste, e chegou até o Rio de Janeiro, Cortês ressalta que a própria população tomou o problema em suas próprias mãos ao tentar limpar o estrago.

"Desde Brumadinho, passando pelas queimadas, e mais recentemente com esse derramamento de óleo, o governo sempre demorou muito para agir. No caso de Brumadinho, o Governo Federal praticamente não se manifestou. O ministro [do Meio Ambiente] Ricardo Salles pouco falou a respeito dos impactos ambientais que ocorreram na região".

Na avaliação de Cortês, Salles se sustenta no cargo, apesar de ser condenado por fraudar mapas para beneficiar mineradoras, por seu alinhamento ideológico com Bolsonaro. 

COP 25

Em dezembro, foi realizada na cidade de Madri, na Espanha, a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 25), um dos eventos mais importantes da política ambiental global e que serve para definir metas do Acordo de Paris. Apesar do avanço da perda de gelo, aumento das temperaturas e do nível do mar, o evento não produziu uma declaração final ambiciosa. 

Mesmo com um atraso de mais de um dia na publicação da declaração final, a COP 25 falhou em definir as regras do mercado de carbono que foi previsto no Acordo de Paris. A questão deverá ficar para a próxima cúpula climática da ONU, que está prevista para acontecer em Glasgow, na Escócia, em novembro de 2020.

Cortês não faz uma avaliação positiva do evento e da participação brasileira nele: "Foi outra tragédia ambiental. Saímos de uma maneira muito triste e feia dessa COP. Esse prejuízo pode inclusive se estender para outras áreas, como as exportações agrícolas brasileiras."

As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/opiniao/2019123114938815-2019-foi-o-ano-do-meio-ambiente/

Portugal | CHEIAS

 
 
Rui Sá | Jornal de Notícias | opinião
 
A propósito da tempestade Elsa e das cheias que de imediato se verificaram em Águeda, ouvi, na rádio, a jornalista a dizer, com alguma dose de inocência, que a cidade foi construída em leito de cheia (no caso do rio Águeda).
 
E digo com inocência porque temos de ter consciência que uma parte significativa das cidades se instalaram nas margens de rios, estando por isso nos respetivos leitos de cheia.
Foi um risco que os nossos antepassados correram, numa altura em que os inconvenientes das cheias eram compensados pela fonte de vida que, entre outras, constituía a existência de água potável, peixe e escoamento de resíduos. Com o seu engenho, o Homem foi procurando mitigar as consequências dessas cheias, mas sabendo, sempre, que nunca eliminava esse risco. Pelos que conheço melhor, os habitantes da Ribeira do Porto e, principalmente, de S. Pedro de Miragaia, não trocariam as suas casas por outras em que o risco de cheias fosse inexistente (e, pelos vistos, os especuladores imobiliários também não desistem da sua gula, mesmo perante esse risco...). Por isso, e com a sabedoria dos tempos, muitas das casas com entrada pelos "arcos de Miragaia" têm saída de emergência a uma cota mais elevada, pela Rua Arménia.
 
Já é profundamente lamentável que, com o que hoje se sabe, se continuem a construir edifícios em zonas de risco (sendo certo que, com as alterações climáticas, essas zonas se ampliaram e os riscos aumentaram). Recordo, quando assumi as funções de vereador do Ambiente da Câmara Municipal do Porto, que muitas pressões sofri para dar parecer favorável a empreendimentos imobiliários que nem sequer cumpriam o afastamento de 10m das margens de ribeiras do cidade! E que, como já aqui referi, votei sozinho contra a construção de um hotel na margem da ribeira da Granja, na zona de Grijó (votação antecipada porque o hotel tinha de estar pronto a tempo do Euro 2004 mas que, passados 17 anos, ainda não foi construído - mas tem direitos adquiridos como, pelo que leio, um hotel nas dunas da praia da Memória em Matosinhos!...).
 
Do mesmo modo, custa-me ficar sempre com a ideia de que a gestão do caudal das barragens não é feita com o objetivo de minimizar os riscos ou o impacto das cheias, mas sim de otimizar a produção de energia elétrica e, consequentemente, a faturação - situação que ainda torna mais evidente a necessidade de as barragens, como ativo estratégico, se deverem manter em mãos nacionais e públicas!
 
Não é, assim, possível transladar cidades e povoações. Temos é de fazer as obras que minimizem esses riscos (muitas delas há muito estudadas mas não concretizadas), impedir outras de risco e gerir os recursos colocando o interesse das pessoas à frente dos lucros das empresas.
 
*Engenheiro

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/12/portugal-cheias.html

Quercus preocupada com lançamento do concurso para prospeção de Lítio em Portugal

 
 
“O anúncio relativo a este concurso, feito ontem [sábado] pelo Sr. Ministro do Ambiente, é no entender da Quercus, reflexo de uma intenção do Governo que tem por base argumentos errados e que não correspondem à realidade do contexto internacional”, afirma a Associação Nacional de Conservação da Natureza em comunicado.
 
A Quercus manifestou hoje “enorme preocupação” com o lançamento de um concurso para prospeção de Lítio em Portugal no início de 2020, considerando que é assente em “argumentos errados” que não correspondem à realidade do contexto internacional.
 
“O anúncio relativo a este concurso, feito ontem [sábado] pelo Sr. Ministro do Ambiente, é no entender da Quercus, reflexo de uma intenção do Governo que tem por base argumentos errados e que não correspondem à realidade do contexto internacional”, afirma a Associação Nacional de Conservação da Natureza em comunicado.
 
Nesse sentido, a associação manifesta a “sua enorme preocupação” com o lançamento deste concurso, que será “seguido de uma provável exploração deste minério nos nove locais escolhidos do território nacional”.
 
Contudo, adverte, “Portugal não possui reservas de lítio em quantidades tão significativas quanto o Governo diz possuir”.
 
 
Para a Quercus, “não faz sentido o Governo continuar a insistir no modelo de autorização de licenças de prospeção de lítio em Portugal, colocando em causa o património ambiental, ecológico e a biodiversidade das regiões que atualmente estão a ser alvo desta intenção”.
 
Perante esta situação, a associação exige “uma vez mais” ao Governo que “ponha termo ao modelo de exploração de lítio” que pretende implementar no país, defendendo que é necessário “reavaliar todo este projeto de exploração insustentável”.
 
Lembra ainda que, de acordo com Serviço Geológico dos Estados Unidos, a Bolívia possui 150 vezes mais reservas de lítio que Portugal (9.000.000 toneladas), o Chile 125 vezes mais (7.500.000) e a China 53 vezes mais (3.200.000).
 
“Neste contexto, Portugal possui reservas estimadas em apenas 60.000 ton [toneladas], o que configura uma ordem de grandeza muito inferior aos restantes países avaliados”, observa.
 
A associação recorda ainda que o Governo perdeu, recentemente, o principal argumento para fomentar a instalação de minas de lítio em Portugal. “Com efeito, o Grupo Metalúrgico Avançado (AMG), com sede na Holanda, anunciou no mês passado a construção de uma refinaria de hidróxido de lítio em Zeitz, Saxônia-Anhalt, na Alemanha.
 
De acordo com a notícia do jornal eletrónico alemão electrize.net, o lítio deve ser processado de forma a que este possa ser usado em baterias de carros elétricos, prevendo-se que a refinaria esteja em pleno funcionamento dentro de dois a três anos.
 
“Este avanço por parte da Alemanha vem demonstrar que o Governo de Portugal está profundamente errado quando faz depender a oportunidade de uma refinaria de lítio em Portugal da instalação e exploração de minas de lítio em território nacional”, refere a Quercus.
 
No sábado, o ministro do Ambiente e Ação Climática mostrou-se convencido que as explorações de lítio no país possam arrancar no primeiro trimestre de 2020, após a aprovação de um decreto-lei que deixe claras “as novas exigências ambientais”.
 
“Para haver um concurso para a prospeção e depois a eventual concessão dos nove locais que estão determinados, com sendo aqueles onde há uma maior existência de lítio, tem de ser precedido de uma nova lei, para que haja um conjunto de garantias, à cabeça, nomeadamente, ambientais. Tenho, desde ontem [sexta-feira], essa nova proposta de decreto-lei”, afirmou aos jornalistas João Matos Fernandes.
 
Ressalvando que não sabe dizer qual é “o calendário da aprovação de um decreto-lei”, porque tem de ser promulgado pelo Presidente da República, o ministro disse acreditar que “até ao final do primeiro trimestre de 2020, a exploração de lítio tenha o seu início”.
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/12/quercus-preocupada-com-lancamento-do.html

Portugal | O ambiente e os temas tabu

 
 
Inês Cardoso | Jornal de Notícias | opinião
 
Conseguir uma coerência absoluta em todos os planos da vida é um desafio interminável. Por maioria de razão para as questões ambientais, que se impuseram como tema prioritário no ano que está a terminar.
 
Todos facilmente nos identificamos com a necessidade de proteger o Planeta, mas mais difícil é abdicar das viagens de avião e os especialistas em mobilidade são céticos a perspetivar alternativas nos próximos anos.
 
Ou, outro exemplo, é cómodo e simples carregar num botão e fazer compras online, mas os custos ambientais obrigam a pensar numa forma de as tornar mais sustentáveis. Os veículos elétricos são vistos como o caminho mais rápido para reduzir a poluição, mas também essa opção lança desafios energéticos, sendo difícil prever a capacidade de resposta num cenário de mudança radical dos combustíveis fósseis para os elétricos.
 
A coerência é ainda mais desafiante para quem ocupa cargos públicos. E se é louvável a honestidade com que o ministro João Matos Fernandes lança afirmações como a de que discutir a eventual deslocação de aldeias ribeirinhas não pode ser um tabu, mais questionável é o sentido de oportunidade, num momento em que as populações sofrem os efeitos das cheias e em que, como foi obrigado a esclarecer, não há qualquer plano nesse sentido.
 
A declaração é ainda mais discutível quando enquadrada com a polémica localização do futuro aeroporto do Montijo. Além dos impactos ambientais na avifauna, a infraestrutura poderá vir a ser afetada pela subida do nível médio do mar. Mesmo que a cota da pista seja elevada cinco metros, como assegura o ministro do Ambiente, nos cenários mais extremos aponta-se para o risco de ficar inundada entre 2050 e 2070. Não pode haver tabus a discutir com seriedade as consequências das alterações climáticas. Mas isso tem de valer tanto para as populações como para quem as governa. Para quem tem responsabilidades e poder de decisão.
 
*Diretora-adjunta
 
Relacionado em PG:

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