Alemanha

Por que Alemanha estaria reorientando sua política em relação à Rússia?

A chanceler alemã Angela Merkel conversa com o presidente russo Vladimir Putin ao chegar para a cúpula da Líbia em Berlim, Alemanha, 19 de janeiro de 2020
© REUTERS / Michele Tantussi

De acordo com o acadêmico Vladimir Olenchenko, a Alemanha ressente sua "posição subordinada" ante os EUA, e que já se viram sinais desse afastamento durante a presidência de Barack Obama.

A Alemanha foi forçada a reorientar sua política externa em relação à Rússia após uma série de contradições com os EUA, afirmou Vladimir Olenchenko, pesquisador sênior do Instituto Nacional de Pesquisa de Economia Mundial e Relações Internacionais E. M. Primakov da Academia de Ciências da Rússia, em uma conversa com o canal RT.

Segundo Olenchenko, Washington não tolerará uma situação em que uma Alemanha independente seja a líder da Europa Ocidental.

"Surgiu todo um emaranhado de contradições entre os EUA e a Alemanha, desde rivalidade econômica em várias indústrias a questões como a presença de soldados americanos em solo alemão, ou a competição pelo domínio no subcontinente europeu."

"E, é claro, Washington gostaria que Berlim tivesse uma posição subordinada. Nesta situação, a Alemanha é obrigada a reorientar seu rumo de política externa, apostando na Rússia como parceira estratégica", sublinhou o especialista.

Olenchenko acrescentou que, no mês passado, a tendência de deterioração das relações entre Berlim e Washington se tornou ainda mais evidente, e as autoridades alemãs são mais propensas a declarar a necessidade de seguir uma política independente, sem olhar para trás para os EUA.

Ao mesmo tempo, relembra Olenchenko, foram observados sinais de deterioração das relações americano-alemãs também durante a presidência de Barack Obama, e que, com Donald Trump no poder, a situação só "piorou".

Anteriormente, o embaixador alemão em Moscou, Gesa Andreas von Geir, afirmou que durante a presidência alemã do Conselho da União Europeia, Berlim buscará uma cooperação mais estreita com a Rússia.

As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/opiniao/2020070215784739-por-que-alemanha-estaria-reorientando-sua-politica-em-relacao-a-russia/

UE | Documentos secretos do Bundestag e a controvérsia sobre a compra de títulos do BCE

 
 

Detjen Stephan*


Foi uma decisão aclamada pelo Tribunal Constitucional Federal Alemão no início de maio, que convidou o Banco Central Europeu a demonstrar a proporcionalidade de seu programa de compra de títulos. Agora existem documentos, mas os juízes constitucionais poderão retornar em breve ao assunto.

 

 
Uma resma de papel na sala secreta de cartões do Bundestag. Parte dos documentos é classificada como "secreta". Portanto, não deve haver público  a falar sobre eles. É o suficiente? O trabalho de esclarecimento deveria ser o passe que os juízes de Karlsruhe construíram para salvar o controverso programa de compra de títulos do BCE. Isso, pelo menos em teoria, abriu a possibilidade de neutralizar o último conflito constitucional que o Tribunal Constitucional Federal provocou com seu julgamento. Não porque os juízes alemães tenham dúvidas sobre a legalidade da política do BCE, mas porque contestaram as disposições do Tribunal de Justiça Europeu. O conflito entre os tribunais superiores, latente por anos, explodiu assim à luz do sol. Uma luta pelo poder que afeta as fundações da presidente da Comissão da UE, Ursula von der Leyen, também deixou claro neste final de semana na entrevista de rádio com a Deutschlandfunk, mais uma vez que essa luta pelo poder afeta as fundações da UE. Os ministérios das finanças de Berlim e Paris disseram nos últimos dias que uma solução está próxima. No entanto, se essa confiança não afetar nada, além do pacote de arquivos do Bundestag, isso seria enganoso. No final, se o material for suficiente, os deputados não decidirão. O juiz constitucional responsável Peter Huber explicou isso, pontualmente em correspondência com o início da inspeção no Bundestag, numa entrevista extraordinária com a FAZ. É a segunda vez, depois que o veredicto é pronunciado, que o tribunal se apresenta de maneira incomum (e no mesmo jornal) para discutir a sentença. Os juízes acompanham o recebimento da sentença na mídia Agora, o juiz declara que uma nova instância em Karlsruhe é suficiente para trazer de volta o Tribunal Constitucional Federal. "Caso contrário, ficamos de fora", alude Huber explicitamente. Não haverá escassez de atores instantâneos. Críticos de longa data do BCE, como Peter Gauweiler, ex-membro do CSU Bundestag, podem ter lido a entrevista como um convite para voltar a Karlsruhe. O trabalho de relações públicas desse juiz é tão incomum quanto todo o processo. Seria bom se o único efeito fosse oferecer material ilustrativo para seminários, teses de doutorado e teses de qualificação de toda uma geração de advogados constitucionais e de direito europeu. Na realidade, porém, contém explosivos para uma UE, cuja base jurídica está mais ameaçada do que nunca. Um tribunal que acompanha a recepção de sua sentença vive na mídia, suspeita que ele esteja pronto, neste caso, para voltar a fazer fogo.

 

 
Título original: “Streit um EZB-Anleihekäufe. Gefährliches Zündeln in den Medien ”, Dwutschlandrundfunk   (Tradução do alemão: Musso)

 

 
*Publicado em L’Antidiplomatico – Traduzido do italiano por PG

“Crise mostra necessidade de soberania europeia”, dizem Macron e Merkel na Alemanha

RFI -Emmanuel Macron foi o primeiro líder internacional a ser recebido pela chanceler alemã, Angela Merkel, após a reabertura das fronteiras, que haviam sido fechadas para combater a propagação da Covid-19. O presidente desembarcou em Meserberg, na Alemanha, praticamente na véspera de o país assumir a presidência da União Europeia (UE). No encontro, os dois destacaram a importância da coesão franco-alemã diante dos desafios futuros.

Em entrevista coletiva que reuniu os dois líderes, a anfitriã disse que estava feliz de poder receber o presidente francês. “Vivemos numa época difícil”, observou a chanceler, referindo-se à epidemia de Covid-19 e à crise econômica enfrentada pela União Europeia, e destacando que “França e Alemanha irão unir esforços e se apoiar mutuamente”.

Merkel e Macron citaram a criação do fundo de relance da economia na União Europeia como uma oportunidade para trabalharem juntos. “Queremos que a França e a Europa estejam unidas nesse desafio”, disse Merkel. “Vamos ser fortes e poderemos exercer o nosso papel no mundo”, acrescentou, citando as mudanças climáticas e a revolução digital como grandes desafios no futuro próximo.

“Essa crise terá efeito ainda por muito tempo”, completou a alemã, lembrando que a Alemanha assumirá a presidência da União Europeia em 1º de julho, ao lado de Portugal e da Eslovênia. A chanceler ainda destacou a “importância do conselho Europeu de 17 e 18 de julho”, em que os estados poderão tratar do orçamento e do plano de relance da economia.

“Depois da pandemia, o mundo será diferente do que era”, observou a chanceler alemã. “Mais do que nunca é preciso investir no futuro, nos grandes desafios como a luta contra o aquecimento global”, acrescentou, lembrando que, no outono, o bloco pretende aumentar esforços para a redução da emissão de gases de efeito estufa até 2030.

Soberania

 

Sobre a transição digital, Angela Merkel afirmou que o bloco deve trabalhar por uma “maior soberania europeia”. “Soberania digital não quer dizer que devemos ser capazes de fazer tudo, mas que é importante sabermos o que devemos conhecer”, afirmou. “Enquanto UE, devemos trabalhar nossa relação com o resto do mundo, com África e China”, citou.

De acordo com Merkel, a situação da Líbia também estava na pauta do encontro com Emmanuel Macron, onde seriam abordados, ainda, diversos assuntos bilaterais. Os dois líderes ainda têm um jantar na noite desta segunda-feira.

Emmanuel Macron começou falando aos jornalistas sobre a “transformação profunda por que a sociedade passou, o choque econômico e sanitário” a que os dois países foram submetidos, desde o último encontro com Merkel, há dois anos, na Alemanha.

 

“Durante a crise, mostramos nossa força e resiliência”, disse Macron. “Selamos um acordo histórico no dia 18 maio, que resulta não só de três semanas de discussão, mas de três anos de trabalho”, ressaltou.

Momento da verdade

Macron citou os avanços feitos sobre um orçamento comum, medida que era considerada muito difícil antes da crise sanitária. “Chegamos a um momento da verdade para a Europa, com um engajamento franco-alemão determinado e podemos fazer desse momento da verdade, um momento de sucesso”, para uma “Europa mais solidária e soberana”, disse.

Emmanuel Macron comemorou “o empréstimo comum de pelo menos € 500 bilhões de subvenções orçamentárias para as regiões mais atingidas” pela Covid-19.

Entre outros assuntos importantes a serem tratados pela Europa no futuro próximo, o presidente citou o Brexit e a relação com o Reino Unido, que deverá ser “cooperativa e justa”. De acordo com ele, “nunca poderemos aceitar que estar fora da União Europeia permita acessar nosso mercado sem respeitar nossas regras, o que seria o inverso de uma Europa soberana”.

O desafio do clima também esteve na pauta. “Devemos estar atentos para que o plano de relance Europeu e nacional respeite os objetivos de redução de emissões de gases de efeito estufa”, rumo a uma “neutralidade de carbono, até 2050”, afirmou.

O presidente francês ainda citou as propostas da convenção Cidadã do Clima, aprovadas na França, e que segundo ele “combinam com uma Europa forte, com soberania alimentar e industrial”.

“A crise acelerou a conscientização coletiva, ao revelar nossas fragilidades e, às vezes, dependência”, completou Emmanuel Macron, citando os medicamentos contra a Covid-19 fabricados, em sua maioria, fora da Europa. “Isso tudo mostra uma mudança de modelo e o fim da inocência”, disse.

A relação com a China e a presença da Europa em zonas de conflito mundial também estavam na agenda. Em conclusão, o presidente francês pediu aos cidadãos europeus que percebam a importância de o bloco estar afinado em suas ideias.

“Em outros países afetados pela Covid-19, a ajuda às empresas e aos cidadãos não foi maciça” como aconteceu na Europa. “Em muitos lugares, a epidemia foi sinônimo de suspensão da vida democrática, mas não na Europa”, reiterou o presidente, destacando o que considera um exemplo de “solidariedade e liberdade”.

Ministro alemão é pessimista sobre relações com os EUA, mesmo sem Trump no poder

Ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Heiko Maas, durante encontro em Viena, na Áustria
© REUTERS / Leonhard Foeger

Os dias da boa e velha "parceria transatlântica" com os EUA já passaram, admitiu o ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Heiko Maas, acrescentando que mesmo que os democratas retornem ao poder dificilmente trarão esses dias de volta automaticamente.

"Quem acredita que a parceria transatlântica será mais uma vez o que era com um presidente democrata subestima as mudanças estruturais", disse o ministro à agência de notícias alemã dpa, sugerindo que as relações entre os dois aliados nunca serão as mesmas, mesmo sem o atual presidente Donald Trump no comando em Washington.

Ainda assim, ele também admitiu que Berlim ainda não está pronta para desistir de sua aliança de longa data com Washington. "As relações transatlânticas são extraordinariamente importantes, permanecerão importantes e estamos trabalhando para garantir que eles tenham um futuro", destacou ele.

As relações entre os dois aliados da OTAN de fato azedaram sob a presidência de Trump a tal ponto que a mídia alemã começou a se referir a Berlim como o "adversário favorito" do líder americano. Trump repetidamente criticou Berlim por sua falha em atingir o índice de 2% das despesas de defesa sob suas obrigações da OTAN.

Presidente dos EUA, Donald Trump, e a chanceler alemã Angela Merkel, durante cerimônia em Paris, França, 11 de novembro de 2018

© AP Photo / Francois Mori
Presidente dos EUA, Donald Trump, e a chanceler alemã Angela Merkel, durante cerimônia em Paris, França, 11 de novembro de 2018

Mais recentemente, ele decidiu retirar quase 10 mil das 34.500 tropas estadunidenses atualmente estacionadas na Alemanha, acrescentando que ele não as traria de volta até que Berlim pagasse suas "delinquentes" contas da OTAN.

Washington também entrou em conflito com Berlim repetidamente sobre o destino do gasoduto russo Nord Stream 2 - um projeto apoiado pela Alemanha que os EUA aparentemente tentaram derrubar a qualquer custo.

Uma tarifa de aço de 25% e uma tarifa de alumínio de 10% que Trump impôs à União Europeia (UE) que afetou gravemente a indústria automobilística alemã também não melhoraram as relações entre os dois países, nem as ameaças de Washington de mirar carros importados com tarifas, algo que a chanceler alemã Angela Merkel chamou de "uma ameaça real à prosperidade de muitos no mundo".

Merkel também alertou que a Europa deve estar pronta para uma realidade sem os EUA como potência mundial.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2020062915772857-ministro-alemao-e-pessimista-sobre-relacoes-com-os-eua-mesmo-sem-trump-no-poder/

Europa deve se preparar para um mundo sem a liderança dos EUA, diz Angela Merkel

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Sputnik – A chanceler alemã, Angela Merkel, apelou a uma profunda reflexão sobre uma nova realidade em que os EUA possam não almejar serem os líderes do mundo.

"Crescemos com um certo entendimento de que os EUA queriam ser uma potência mundial. Se os Estados Unidos desejam se retirar deste papel por sua própria vontade, teremos que refletir sobre isso seriamente", disse Merkel.

Em uma nova entrevista para seis jornais europeus, incluindo The Guardian, a chanceler alemã também esclareceu que as tropas norte-americanas não somente ajudam a proteger os países europeus que são membros da OTAN, mas também os interesses de Washington. Contudo, prometeu continuar com o desenvolvimento das capacidades militares alemãs.

Além do mais, a chanceler acrescentou que existem "boas razões" para manter o compromisso com a OTAN e o "escudo protetor nuclear comum [europeu], mas, claramente, a Europa deve contribuir mais que durante a Guerra Fria".

Depois do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciar que reduzirá o número de tropas porque "a Alemanha é devedora em seus pagamentos à OTAN", mas que "paga à Rússia", a embaixadora alemã nos EUA, Emily Haber, respondeu que as tropas norte-americanas se encontram na Alemanha não para a proteção do país, mas para manter a segurança transatlântica.

Em setembro de 2019, Merkel afirmou que a Europa deve pensar em sua própria segurança, porque os EUA não a protegeriam "automaticamente" como fizeram durante a Guerra Fria.

As sombras do colonialismo alemão

 
 
 

Por um breve período, a Alemanha chegou a manter um dos maiores impérios coloniais do mundo. No contexto dos protestos antirracistas globais, esse cruel passado e seus protagonistas também ocupam o banco dos réus.
 
A estátua do mercador de escravos Edward Colston é atirada no porto de Bristol; em Boston, a de Cristóvão Colombo é decapitada; precavendo-se de uma destruição, os próprios governantes da Antuérpia removem uma escultura do rei Leopoldo 2º, responsabilizado pelas piores atrocidades em sua "colônia particular" do Congo.

Atualmente, símbolos coloniais são visados em todo o mundo como expressão de racismo branco. Por longos anos, ninguém se interessou por eles, mas a coisa mudou, o mais tardar, com a violenta morte do afro-americano George Floyd, por um policial branco em Minneapolis.

A Alemanha tem apenas uma breve história colonial, de 1884 ao fim da Primeira Guerra Mundial, quando teve que abrir mão de suas colônias na África, Oceania e Ásia Oriental. No entanto, em seu auge, o império colonial alemão era o quarto maior do mundo, e deixa vestígios até hoje.

Ruas e praças do país continuam ostentando os nomes de colonizadores como Carl Peters, Adolf Lüderitz ou Gustav Nachtigal. Até poucos anos atrás, o comandante das forças de proteção da África Oriental Alemã, Paul von Lettow-Vorbeck, dava nome a casernas e escolas.

Continua sendo mantida em Bad Lauterberg im Harz, Baixa Saxônia, uma estátua de Hermann von Wissmann, um dos governadores da colônia; assim como em Stendal, na Saxônia-Anhalt, está um busto de Nachtigal, que foi comissário imperial da África Ocidental Alemã.

 
A discussão sobre como encarar o passado colonial está a pleno vapor: o que se deve fazer com as estátuas, os nomes de ruas e a arte colonial saqueada que hoje estão em museus? A Alemanha deve se desculpar e pagar reparações por crimes coloniais, como a repressão brutal do levante dos hereros e dos nama no Sudoeste Africano Alemão (atual Namíbia), ou dos maji-maji na África Oriental, somando centenas de milhares de mortos? Todas essas são sombras da história colonial alemã, mesmo que já datem de mais de um século.
 
No assim chamado "Bairro Africano" de Berlim, já há anos se discute mudar os nomes de certas ruas. Há mais de dois anos, a assembleia dos deputados locais decidiu rebatizá-las com os nomes de combatentes ao domínio colonial alemão.
 
Contudo, numerosos moradores e comerciantes são contra, em muitos casos sequer por motivos políticos, mas para evitar os custos de uma mudança de endereço. Outros se apegam ao nome antigo por puro hábito.

A Iniciativa Pró-Bairro Africano propôs uma forma criativa de manter os nomes: a rua Lüderitz seria nomeada segundo a cidade homônima na Namíbia; a praça Nachtigal passaria a ser uma homenagem ao teólogo Johann Nachtigal. E desde 1986 a alameda Petersallee não recorda mais o colonialista Carl Peters, que governou com brutalidade na África Oriental, mas sim Hans Peters, membro da resistência contra o nacional-socialismo. Para alguns, assim apenas se contorna o problema. Seja como for, nada é definitivo, e a disputa prossegue.

Em Hamburgo, no terreno da antiga caserna Lettow-Vorbeck, acrescentaram-se placas explicativas aos bustos de homens como Paul von Lettow-Vorbeck e Lothar von Trotha, que participaram decisivamente para esmagar os levantes nas colônia alemãs.

Ainda não está claro que futuro terão os monumentos. Para o Senado da cidade hanseática, a questão fundamental é manter a difícil história nacional também na consciência das gerações futuras: a intenção não é glorificar nem redimir, mas sim manter sinais de advertência e memória.
Mudança em monumentos 

A associação Postkolonial vai mais longe: ativa em cerca de 20 cidades alemãs, em Hamburgo ela se empenha "por uma descolonização abrangente do espaço urbano hamburguês [...] e a apresentação da história da resistência anticolonial, assim como por uma lembrança honrosa às vítimas do colonialismo e racismo", segundo consta de seu website.

Isso inclui renomear ruas, mas a associação não almeja simplesmente apagar todos os vestígios do colonialismo. Christian Kopp, porta-voz da Postkolonial em Berlim, cogita, por exemplo, instaurar antimemoriais: para ele, apenas postar uma placas informativa crítica diante do monumento é definitivamente insuficiente.

Enquanto historiador, Jürgen Zimmerer diz ter "interesse em que monumentos sejam mantidos como fontes históricas". "No entanto, devem ser radicalmente desconstruídos e 'des-heroizados', para neutralizar sua função exaltadora – por exemplo, colocando-os deitados ou de cabeça para baixo."
 
Um exemplo de cancelamento tácito da realidade histórica é a sepultura de Lothar von Trotha, em Bonn. Com sua "ordem de extermínio", em 1904, ele esmagou cruelmente a revolta das etnias herero e nama, no Sudoeste Africano Alemão.

Alguns historiadores consideram esse o primeiro genocídio do século 20 – algo que o governo alemão até hoje não reconhece oficialmente. Entretanto, no túmulo de Von Trotha não há qualquer referência a esse passado.

No início de junho, o presidente da Namíbia, Hage Geingob, declarou em Windhuk que a Alemanha estaria agora pronta a reconhecer o genocídio e a pedir desculpas, mas do lado alemão não houve confirmação. Até agora a principal justificativa de Berlim para negar reparações tem sido a Namíbia ter se beneficiado de ampla ajuda ao desenvolvimento.

Fatos históricos através da lente atual

No geral, os partidos alemães se mostram abertos a uma abordagem crítica do passado colonial do país. Com uma clara exceção: a populista de direita Alternativa para a Alemanha (AfD).

No contexto da atual discussão sobre os memoriais, o presidente da bancada da sigla populista de direita no parlamento federal, Alexander Gauland, declarou: "Até agora só se conhecia de sistemas totalitários tais tentativas de impor uma imagem histórica limpa de todos os aspectos perturbadores." E o deputado da AfD Gottfried Curio se queixou, em vídeo do que considera tentativas da esquerda de inculcar nos alemães um "culto de culpa com a África".

Mas será válido medir figuras e épocas históricas com os critérios de hoje em dia? A resposta do historiador Jürgen Zimmerer é um decidido "sim", "caso contrário, não podemos nos distanciar de Hitler, Himmler e companhia, nem condená-los". O atual debate, porém, gira em torno de "se essas personalidades históricas se prestam como modelos a ser honrados": "E nesse ponto, nossos critérios atuais são decisivos: nós refletimos em monumentos também nossos próprios valores e percepções."

Até agora, o colonialismo alemão foi uma parte pouco observada da história. Johann Hinrich Claussen, encarregado de cultura da Igreja Luterana da Alemanha, é um dos que estão felizes por a sociedade alemã estar se ocupando do tema através de protestos.

Não é possível comparar a forma da Alemanha de lidar com monumentos às abordagens dos Estados Unidos ou no Reino Unido, admite Claussen. Contudo o colonialismo alemão está finalmente chegando à consciência pública, e aí o teólogo vê uma grande chance educativa.
 
Christoph Hasselbach (av) | Deutsche Welle | Imagem: Funcionários coloniais alemães no Togo
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/06/as-sombras-do-colonialismo-alemao.html

Surtos na Alemanha fazem disparar taxa de contágio. R é de 1,79

 

Uma série de surtos locais na Alemanha fez com que a reprodução do novo coronavírus tenha tido uma forte subida, situando-se a taxa de transmissão em 1,79, segundo os últimos dados do Instituto Robert Koch.

 

Cada 100 portadores do novo coronavírus, que causa a covid-19, contagiam, em média, 179 pessoas. A meta era manter o índice de reprodução (R) abaixo de 1.

O Instituto Robert Koch explicou que o aumento do indicador R se deve, em parte, ao facto de o número de casos ativos na Alemanha ser relativamente baixo e, por isso, todos os surtos locais têm uma forte repercussão nos cálculos.

“Não se pode concluir que haja um forte aumento dos casos a nível federal”, assumiu o Instituto Robert Koch no seu relatório diário.

O principal surto ocorreu numa indústria de carne em Gütersloh (oeste da Alemanha), onde houve mais de mil contágios. Registaram-se ainda outros surtos, um num complexo de edifícios em Göttingen (norte) e outro num edifício de Berlim.

Em Göttingen, há cerca de 700 pessoas em quarentena, algumas das quais se revelaram contra a medida e, num dos complexos que registou 120 casos de infeção, atiraram objetos aos polícias que cercam os edifícios.

Em Gütersloh, registam-se 185,9 casos semanalmente por cada 100 mil habitantes, o que supera claramente o parâmetro-chave que indica que, quando há mais de 50 novas infeções por cada 100 mil habitantes num município, se devem tomar medidas especiais.

Neste caso, o primeiro-ministro do estado federal de Renânia do Norte-Vestfália, Armin Laschet, não descartou que se tenha de decretar um confinamento para Gütersloh e arredores, embora tenha dito que, de momento, a cadeia de infeções está controlada.

Göttingen também está próximo do nível crítico com 46 novos casos por semana, por cada 100 mil habitantes.

Na Alemanha, desde o começo da pandemia, registaram-se 191.314 casos de covid-19, sendo que desses, 174.885 recuperaram e 9.057 morreram.

Atualmente, o estado federal mais afetado no país é Renânia do Norte-Vestfália, com 2.306 casos ativos (12,9 por 100 mil habitantes), devido, em grande parte, ao surto de Gütersloh. Seguido do de Baviera — o estado onde houve mais contágios desde o início da pandemia, com 48.253 — com, atualmente, 1.039 casos ativos, o que equivale a 7,9 por 100 mil habitantes.

A terra menos afetada é Mecklemburgo-Anti Pomerania (nordeste) com apenas 25 casos ativos, ou seja, 1,6 por 100 mil habitantes.

Na capital da Alemanha, Berlim, há 718 casos ativos, o equivalente a 19,7 por 100 mil habitantes.

A pandemia de covid-19 já provocou mais de 461 mil mortos e infetou mais de 8,7 milhões de pessoas em 196 países e territórios, segundo um balanço feito pela agência francesa AFP. Em Portugal, morreram 1.528 pessoas das 38.841 confirmadas como infetadas, de acordo com o boletim mais recente da Direção-Geral da Saúde.

A doença é transmitida por um novo coronavírus detetado no final de dezembro, em Wuhan, uma cidade do centro da China. Depois de a Europa ter sucedido à China como centro da pandemia em fevereiro, o continente americano é agora o que tem mais casos confirmados e mais mortes.

// Lusa

 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/surtos-na-alemanha-fazem-disparar-taxa-contagio-r-179-331164

Escândalo financeiro numa empresa financeira alemã. Por Shona Ghosh

Espuma dos dias Fraude financeira

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

O CEO da Wirecard, vítima de escândalo, demite-se após a empresa revelar o desaparecimento de 2 mil milhões de dólares, levando o seu preço por ação a afundar 80%

Shona Gosh Por Shona Ghosh

Publicado por Business Insider  em 19/06/2020 (ver aqui)

 

153 Escândalo financeiro numa empresa financeira alemã 1

Markus Braun, CEO cessante da Wirecard, assiste à conferência de imprensa sobre o balanço do prestador de serviços de pagamentos . Peter Kneffel/ Aliança de imagens através da Getty Images

 

– O Diretor Executivo da Wirecard, Markus Braun, demitiu-se subitamente na sexta-feira, quando a cotação das ações desta empresa financeira de última tecnologia (fintech), atingida pelo escândalo, caiu a pique em 80% em dois dias de transações.

– A empresa de pagamentos alemã está no centro de um enorme escândalo contabilístico, depois de ter revelado que não conseguiu detetar 1,9 mil milhões de euros em saldos de tesouraria.

– A empresa tem igualmente sido sujeita a uma investigação de longa data pelo Financial Times sobre as suas práticas contabilísticas.

– Numa declaração sumária emitida na sexta-feira, a Wirecard afirmou que Braun se demitiu com o acordo do seu conselho de administração e que o chefe do controle interno, James Freis, assumia temporariamente as funções de CEO.

– No início da sexta-feira, Braun tinha sugerido que a própria Wirecard poderia ter sido vítima de fraude.

 

 

O diretor executivo da empresa alemã de pagamentos Wirecard, vítima de um escândalo, demitiu-se subitamente na sexta-feira, após 48 horas em que a empresa revelou que tinham desaparecido quase 2 mil milhões de euros em saldos de tesouraria.

A Wirecard anunciou a saída imediata de Markus Braun numa breve declaração na sexta-feira, afirmando que o chefe do controle interno da empresa, James Freis, assumiria interinamente as funções de CEO. Freis juntou-se à Wirecard na quinta-feira para uma reunião de emergência com a administração.

A demissão da Braun é a mais recente de uma vaga de desenvolvimentos que levou à queda da cotação das ações da Wirecard em 80% ao longo de dois dias.

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A empresa, outrora muito valorizada, afirmou na quinta-feira que os seus auditores de EY [anteriormente Ernst & Young] não podiam confirmar a existência de  “provas de auditoria suficientes” sobre cerca de 1,9 mil milhões de euros, ou 2 mil milhões, nos seus saldos de caixa, afirmando efetivamente que o dinheiro tinha desaparecido.

A Wirecard disse que tinha depositado o dinheiro em dois bancos asiáticos, mas o EY disse à empresa que não conseguia localizar o dinheiro e que os documentos que pareciam ser de confirmação dos saldos eram “espúrios”.

Ambos os bancos, o Bank of the Philippine Islands e o BDO Unibank Inc, negaram publicamente qualquer tipo de relação comercial com a Wirecard, levantando novas questões sobre a existência dos 1,9 mil milhões de euros.

“O Wirecard não é um cliente do banco. O documento que alega a existência de uma conta Wirecard no BDO é um documento falsificado e que contém assinaturas falsificadas de agentes bancários”, afirmou o BDO, segundo a Reuters.

O BPI disse ainda que a Wirecard não era seu cliente. “O seu auditor externo apresentou-nos um documento que afirmava ser um cliente”. Determinámos que o documento é falso. Continuamos a investigar este assunto”.

Antes da sua demissão, Braun disse na quinta-feira não ser claro porque é que os bancos tinham descrito documentos sobre a conta do Wirecard como “espúrios”. Sugeriu ainda que a própria Wirecard poderia ter sido vítima de fraude.

“Não se pode excluir que a Wirecard AG se tenha tornado a parte lesada em caso de fraude de proporções consideráveis”, afirmou.

A Wirecard disse na quinta-feira que iria adiar a publicação dos seus resultados financeiros para 2019, que deveriam ter lugar na quinta-feira. A Wirecard adiou por três vezes a divulgação dos seus resultados financeiros desde Março.

A empresa alertou para o risco de perder 2 mil milhões de euros em empréstimos, caso não publique o seu relatório auditado até sexta-feira.

A empresa financeira alemã foi em tempos anunciada como uma empresa de alta tecnologia e valia cerca de 24,6 mil milhões de euros quando foi incluída no índice DAX, em Setembro de 2018.

A empresa vale atualmente cerca de 3,2 mil milhões de euros, ou seja, 3,6 mil milhões de dólares. A empresa foi objeto de uma investigação aprofundada pelo Financial Times em 2019 sobre as suas práticas contabilísticas, com documentos obtidos pelo jornal a parecerem indicar que a empresa inflacionou os valores das suas vendas e lucros.

O regulador financeiro da Alemanha, BaFin, está a realizar três investigações simultâneas sobre a Wirecard. O Financial Times informou na sexta-feira que dois dos maiores investidores da Wirecard, a Union Investment e a DWS, tinham ameaçado com uma ação judicial contra a empresa.

Num tweet na sexta-feira à tarde, disse Braun: “A Wirecard tem excelentes funcionários, um modelo de negócio forte, tecnologia de ponta e recursos abundantes para garantir um grande futuro”.

 

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A autora: Shona Gosh é a editora técnica do Business Insider no Reino Unido, com sede em Londres. Ela supervisiona a cobertura da equipa técnica do Reino Unido, gerindo as notícias do dia-a-dia e investigações aprofundadas. É jornalista técnica há uma década, tendo publicado no The Guardian, The Telegraph, Al Jazeera e NME.com. Antes do BI, ela foi editora de tecnologia na campanha de publicidade do Reino Unido.

Na sua qualidade de Editora Tecnológica no BI, e como repórter sénior antes disso, escreveu artigos de investigação sobre empresas como Amazon, WeWork, Deliveroo, e Snapchat. Ela aparece regularmente na BBC e na Sky News para falar sobre novidades tecnológicas de ponta, tendências e negócios.

 

 

 

 

 

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/06/20/escandalo-financeiro-numa-empresa-financeira-alema-por-shona-ghosh/

Militares dos EUA não receberam ordem para saída da Alemanha, diz general norte-americano

Secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, visita soldados norte-americanos na base de Grafenwoehr, na Alemanha, 7 de novembro de 2019
© AP Photo / Jens Meyer

Em meio a relatos que o Pentágono queria evitar a retirada de tropas anunciada por Trump, o militar norte-americano diz que ainda não recebeu ordem para o fazer.

O general norte-americano Jeffrey Harrigian afirmou em conversa com repórteres na quinta-feira (18) no Grupo de Escritores de Defesa, que não recebeu nenhuma ordem de retirada de tropas dos EUA, escreve o portal Military.com.

"Neste momento, não recebi nenhuma orientação específica que me oriente a fazer algum planejamento específico sobre isso", disse Harrigian, se referindo à Alemanha, e apontando que todas as questões sobre o assunto deveriam ser encaminhadas para a Casa Branca.

Um porta-voz do governo alemão disse na quarta-feira (17) que a Alemanha está aguardando detalhes de como o Departamento de Defesa dos EUA planeja implementar o plano de Trump de reduzir o número de tropas destacadas.

Segundo disse um colunista do Washington Post na terça-feira (16), o processo de retirada de tropas da Alemanha demoraria muito tempo, citando uma fonte anônima que acredita que o Pentágono impede a realização da ação de Trump de todas as formas possíveis.

Berlim não se surpreendeu com os eventos, observando que as atuais relações bilaterais entre Berlim e Casa Branca são "difíceis", e notando a falta de uma relação entre a administração Trump e o governo alemão.

O presidente dos EUA, Donald Trump, fez na segunda-feira (15) uma declaração sobre a redução de 9.500 soldados da Alemanha, diminuindo pela metade a presença militar norte-americana no país europeu, ao afirmar que Berlim é "delinquente nos pagamentos à OTAN" e que o país "possui bilhões da OTAN e eles sabem disso", em referência à meta de gastos de defesa da organização de pelo menos 2% do PIB contra os 1,4% de Berlim.

 

Bandeiras dos EUA e da Alemanha hasteadas na base aérea de Ramstein, na Alemanha
© AFP 2020 / Daniel Roland
Bandeiras dos EUA e da Alemanha hasteadas na base aérea de Ramstein, na Alemanha

A meta é, no entanto, um ponto contratual não vinculativo, que expirará em 2024. Trump também expressou ser contra o fato de a "Alemanha pagar bilhões de dólares à Rússia em energia, e os EUA deverem protegê-la da Rússia".

Comentando a declaração de Trump, a embaixadora alemã em Washington, Emily Haber, prometeu que "os Estados Unidos continuam sendo o principal parceiro da Alemanha" fora da União Europeia, marcando o compromisso de Berlim de manter a cooperação militar e de segurança com os Estados Unidos.

Oposição contra-ataca

Enquanto a admiministração Trump e o Pentágono decidem o destino das tropas dos EUA, legisladores norte-americanos introduziram em ambas as câmaras do Congresso um projeto de lei para impedir que o governo Trump use qualquer verba federal para uma retirada de tropas norte-americanas da Alemanha, de acordo com o texto do projeto publicado na quinta-feira (18).

A Lei para Manter os Interesses de Segurança Nacional dos Estados Unidos na Europa, apresentada por Eliot Engel, representante do estado de Nova York, e pelo senador Bob Menendez, ambos do Partido Democrata, afirma que "nenhum fundo federal está autorizado a ser apropriado ou disponibilizado para tomar qualquer medida" para:

• (1) retirar ou reduzir a presença global, incluindo a presença rotativa, membros das Forças Armadas ou funcionários civis do Departamento de Defesa na Europa;

• (2) encerrar ou de outra forma alterar o status de qualquer base ou outra instalação das Forças Armadas localizadas na Europa;

• (3) retirar ou de outra forma reduzir a presença global de ativos das Forças Armadas na Europa.

Segundo o projeto de lei, a proibição não se aplicará no caso de um governo anfitrião transmitir ao governo dos Estados Unidos um pedido por escrito para tal retirada ou outra redução.

O projeto de lei enfatizou que os Estados Unidos devem continuar mantendo e reforçando os laços bilaterais existentes com a Alemanha e manter uma forte presença militar no país "de modo a impedir novas agressões da Rússia ou de outros adversários contra os Estados Unidos e seus aliados e parceiros".

"O mais tardar 60 dias após a data da promulgação desta lei, o presidente, em consulta com o secretário de Estado, o secretário de Defesa e o presidente do Estado-Maior Conjunto, apresentarão às comissões competentes do Congresso um relatório que detalha o processo decisório utilizado para chegar à decisão de retirar membros das Forças Armadas [norte-americanas] da Alemanha, anunciada em 15 de junho de 2020", diz o documento.

Atualmente, cerca de 34.500 soldados norte-americanos estão baseados na Alemanha e mais de 30.000 civis norte-americanos e cidadãos alemães estão trabalhando nas bases militares do país.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2020061915726866-militares-dos-eua-nao-receberam-ordem-para-saida-da-alemanha-diz-general-norte-americano/

'Não basta não ser racista, temos que ser antirracistas', afirma presidente alemão

Presidente da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, durante evento em Munique
© AP Photo / Jens Meyer

O presidente alemão Frank-Walter Steinmeier instruiu seus compatriotas a eliminar todo o fanatismo subconsciente, real ou imaginário, declarando que a nação deve dar as mãos contra o racismo.

Em comentários televisionados nesta terça-feira (16), Steinmeier adotou uma postura um tanto inflexível sobre como garantir a igualdade na Alemanha.

"Não, não basta não ser racista. Temos que ser antirracistas! O racismo exige tomar uma contraposição, contra-fala, ação, crítica e - talvez o mais difícil - autocrítica, autoexame", proclamou.

O presidente alemão passou a pontificar que "o antirracismo deve ser aprendido, praticado e vivido".

Cidades da Alemanha já viram grandes manifestações antirracismo inspiradas no movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam, em tradução livre), que tiveram início nos EUA. Os comentários de Steinmeier parecem sugerir que ele deseja ver mais desses tipos de ações proativas e vocais contra o racismo.

Manifestantes se reúnem em Paris para protestar contra o racismo após a morte de George Floyd, homem negro morto pela polícia nos EUA.

© AP Photo / Thibault Camus
Manifestantes se reúnem em Paris para protestar contra o racismo após a morte de George Floyd, homem negro morto pela polícia nos EUA.

O presidente alemão está longe de ser o único líder mundial a mostrar apoio militante à campanha global destinada a erradicar o racismo em todas as suas formas.

No início de junho, o primeiro-ministro canadense Justin Trudeau se ajoelhou em solidariedade aos manifestantes do Black Lives Matter e até declarou que a discriminação no Canadá é "uma realidade vivida para muitos de nossos concidadãos".

Sentimentos semelhantes foram expressos por líderes europeus, além de governadores e prefeitos dos EUA em todo o país. Enquanto segue sendo um objetivo nobre, o "autoexame" em algumas partes do mundo já chegou a extremos, de filmes a estátuas, sendo alvo por suas conotações racistas.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2020061615717643-nao-basta-nao-ser-racista-temos-que-ser-antirracistas-afirma-presidente-alemao/

Trump anuncia retirada de 25 mil militares da Alemanha

O presidente dos EUA, Donald Trump, disse na segunda-feira que o número de tropas dos EUA destacadas na Alemanha seria reduzido para 25.000 devido aos gastos insuficientes na defesa por parte da Alemanha.

Num comunicado à imprensa, na Casa Branca, Trump confirmou que o número de soldados dos EUA na Alemanha reduziria para 25.000. “A Alemanha, como sabe, é muito delinquente nos seus pagamentos à NATO”, acrescentando que as tropas americanas não voltariam à Alemanha até pagar.

Atualmente, existem cerca de 35.000 soldados dos EUA destacados na Alemanha. O ex-embaixador dos EUA na Alemanha, Richard Grenell, disse ao jornal alemão Bild Live na semana passada que “os contribuintes americanos não têm mais vontade de pagar muito pela defesa de outros países”.

“Ainda vão haver 25.000 soldados na Alemanha, não é um número pequeno”, acrescentou. A mídia dos EUA informou no início deste mês que Trump ordenou ao Pentágono reduzir a presença militar dos EUA na Alemanha até setembro, o que criou oposições entre os legisladores dos EUA.

Na semana passada, 22 membros republicanos do Congresso alertaram Trump que uma redução significativa da força na Europa serviria os interesses da Rússia às custas da segurança nacional dos EUA.

A redução pode prejudicar ainda mais as relações entre Washington e Berlim. Os dois aliados estão em desacordo nas questões nucleares do Irão, projeto de gás Nord Stream 2, partilha da carga de defesa, entre outros.

Trump tem reclamado repetidamente que os aliados dos EUA exploraram o seu país com gastos na defesa. Em declarações aos graduados da Academia Militar dos Estados Unidos no fim de semana, Trump enfatizou que os militares dos EUA não são os polícias do mundo.

Ver o original em 'Plataforma Media' na seguinte ligação:

https://www.plataformamedia.com/2020/06/16/trump-anuncia-retirada-de-25-mil-militares-da-alemanha/

Governo alemão anuncia pacote de estímulo de 130 bilhões de euros

 
 
Merkel afirma que resposta "corajosa" é necessária para impulsionar a economia do país, abalada pela pandemia de covid-19. Medidas anunciadas incluem auxílios à indústria e às famílias e incentivos ao consumo.
 
Os partidos que integram a coligação de governo da Alemanha chegaram a um acordo no fim da noite desta quarta-feira (04/05) um pacote de estímulo de 130 bilhões de euros para ajudar na recuperação económica do país, após os efeitos gerados pela pandemia de covid-19.

O anúncio foi feito pela chanceler federal alemã, Angela Merkel, após dois dias de intensas negociações entre representantes de seu partido, a União Democrata Cristã (CDU), de sua legenda-irmã na Baviera, a União Social Cristã (CSU), e do Partido Social-Democrata (SPD).

O governo alemão vinha pressionado há semanas para encaminhar medidas de estímulo após as graves consequências da paralisação das atividades económicas do país devido à pandemia.

 
O valor do pacote de estímulo, acordado após 21 horas de negociações, excedeu expectativas que haviam circulado na imprensa, de 80 biliões de euros. Os 130 biliões, que cobrem os anos de 2020 e 2021, incluem mais de 20 novas medidas, que se somarão ao expressivo orçamento aprovado em março para ajudar o sistema de saúde e as empresas a lidar com as consequências da pandemia.

As medidas incluem biliões de euros em resgates financeiros à indústria, fundos adicionais para municípios que lidam com um grande número de desempregados e um bónus de 300 euros por criança, a serem pagos junto com outros benefícios concedidos às famílias.

Novos e maiores incentivos serão concedidos para encorajar consumidores a adquirirem automóveis, de modo a apoiar o setor automobilístico, vital para a economia do país. O benefício, porém, será válido apenas para a aquisição de carros elétricos. 

Além disso, o Imposto sobre Valor Acrescentado (IVA) será temporariamente reduzido, de 19% para 16%. As medidas também reservam 50 biliões de euros para enfrentar as mudanças climáticas, a inovação e a digitalização.

Merkel afirmou que os membros da coligação de governo se comprometeram com um programa audacioso para impulsionar o consumo, investir em inovação e aliviar o peso económico da recessão sobre os cidadãos do país.

"Está claro que tudo isso requer uma resposta corajosa", disse a chanceler. "Trata-se de garantir empregos e manter a economia em funcionamento." Segundo Merkel, um aumento no consumo é essencial para "possibilitar um futuro às próximas gerações".

Indicadores económicos apontaram um declínio acentuado no setor industrial e no consumo, após o governo impor, em março, restrições rígidas em todo o país para conter a disseminação do novo coronavírus. Muitas dessas medidas vêm sendo removidas nas últimas semanas, com a reabertura do comércio e a retomada das atividades em vários setores, ainda que com limitações e regras de distanciamento e higiene.

Segundo um estudo do instituto de pesquisas económicas IFO, a economia alemã deverá sofrer uma contração de 6,6% em 2020. Outras estimativas apontam para um recuo de dois dígitos.

No primeiro trimestre deste ano, a economia alemã recuou 2,2% em relação ao período anterior – a maior contração trimestral registada desde a crise financeira de 2008/2009 e a segunda maior desde a Reunificação do país, em 1990. O governo alemão prevê que o país enfrente neste ano a pior recessão económica do pós-guerra, com uma queda no PIB de 6,3%.

O pacote de estímulo proposto pela coligação governamental ainda precisa de ser aprovado formalmente pelo gabinete de Merkel, além de passar pelas duas casas do Parlamento, o Bundestag (câmara baixa) e o Bundesrat (câmara alta).

Deutsche Welle | RC/dpa

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/06/governo-alemao-anuncia-pacote-de.html

UE deve assumir mais responsabilidade na luta global contra a pandemia, diz Merkel

Crise do coronavírus é o maior teste da história da UE″, diz...

Berlim, 31 mai (Xinhua) -- A União Europeia (UE) deve assumir mais responsabilidade global na crise do coronavírus, declarou a chanceler alemã Angela Merkel.

Em um discurso delineando a política da Alemanha durante sua presidência rotativa da UE a partir de julho, Merkel destacou que a pandemia tem trazido enormes desafios e mudanças profundas, incluindo os planos para a Presidência do Conselho da UE, disse Merkel.

Na quarta-feira, ela disse ao Konrad Adenauer Stiftung, um think tank, que a Europa tem que "ficar mais próxima na crise" e provar a si mesma ser uma força de solidariedade, que é a única maneira de sair mais forte da pandemia.

Merkel disse que iniciativa franco-alemã para o fundo de recuperação da Europa, que chegou a 500 bilhões de euros (US$ 545 bilhões), e o investimento comum do continente em uma vacina, são todos destinados a intensificar a solidariedade europeia.

Observando que a pandemia resultará em "um agravamento de muitos problemas globais" e representará "um teste de estresse para a política externa e de segurança europeia", Merkel disse que a UE deve agir como uma âncora de estabilidade, assumir sua responsabilidade global e apoiar proativamente a cooperação multilateral baseada em regras.

Merkel revelou que as relações com a China serão o foco da política externa da UE durante a presidência alemã, com uma série de assuntos na agenda, incluindo acordos sobre investimento, mudança climática, saúde global e melhora da transparência da informação em pandemias globais.

"Todos os assuntos nas relações entre a UE e a China são bastante desafiadores e ambiciosos. Além disso, a China não é um parceiro comum", disse Merkel, observando que as diferenças entre China e UE não devem impedir os intercâmbios, o diálogo e a cooperação.

Sobre os Estados Unidos, Merkel disse se tratar do parceiro mais importante da Europa, apesar do fato de que a cooperação com os Estados Unidos estar atualmente mais difícil do que a que a Europa desejaria, em questões relativas à mudança climática, à política comercial e ao papel das organizações internacionais durante a pandemia.

"No entanto, estou convencida de que as relações transatlânticas, a cooperação e a aliança com os EUA e na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) constituirão um pilar central de nossa política externa e de segurança, e permanecerão assim."

A Europa faz parte do Ocidente político", disse Merkel, acrescentando que, se a Europa quiser se afirmar no mundo, terá que tomar as rédeas de seu destino com maior determinação, enquanto segue "agindo como um parceiro confiável dentro da comunidade ocidental de valores e de interesses compartilhados".

Ver original em "XINHUA Português" na ligação seguinte:

http://portuguese.xinhuanet.com/2020-06/01/c_139104732.htm

A independencia dos Bancos Centrais

La cour constitutionnelle de Karlsruhe donne trois mois à la BCE pour démontrer que ses achats de dettes publiques ne sont pas disproportionnés par rapport aux effets qu’ils ont sur les «actionnaires, locataires, propriétaires immobiliers, épargnants

A sentença do tribunal de Karlsruhe e a independência dos bancos centrais, por Jacques Sapir

A política monetária é muito séria para ser deixada aos bancos centrais?Lembramos a frase atribuída a Georges Clemenceau “Guerra!”É um assunto muito sério para ser confiado aos militares “.Que esta frase seja inventada ou não por um dos biógrafos de Clemenceau não muda o caso[1] .
Teria sido pronunciado em 1887 quando o Ministério, do qual o General Boulanger era o Ministro da Guerra, renunciou[2] .Mas, acima de tudo, incorpora a política que Clemenceau liderou em 1917 e 1918[3] .Sobre os méritos, o que diz?Essa guerra não se limita ao uso exclusivo de armas, táticas e arte operacional.Que envolve a mobilização de vários meios, que vão da diplomacia à economia e ao social e que, consequentemente, é uma questão de ação política.
Hoje, o problema surge claramente em outra área, devido ao atraso dos bancos centrais por vários anos na política monetária e, sobretudo, pelas consequências da epidemia de Covid. 19
É claro que a crise econômica provocada pela contenção imporá uma política monetária (e fiscal) muito ativa.Esta questão de controle político sobre os bancos centrais foi questionada, de maneira indireta, pelo Tribunal Constitucional da Alemanha, que é chamado de “tribunal de Karlsruhe” em seu julgamento de 5 de maio passado.Este julgamento é, simbolicamente, mas também politicamente, de considerável importância.

Tradução google

0. onde estamos?

A questão da monetização da dívida é urgente hoje.Do ponto de vista macroeconômico, a monetização dos estímulos fiscais é a única forma de intervenção que permite a redução da dívida.Do ponto de vista político, a monetização substitui o risco de insolvência pelo risco de inflação.Portanto, não surpreende que muitos economistas, inclusive aqueles que podem ser classificados como “ortodoxos” em termos de pensamento econômico[4] , tenham se unido a essa proposição.Alguns propõem a emissão dos chamados títulos “perpétuos”, a baixas taxas de juros[5] .Finalmente, outros, como Paul De Grauwe, insistem no papel central que o Banco Central Europeu (BCE) deve desempenhar nessa situação[6].
Isso coloca o BCE no centro das preocupações.De todas as instituições europeias, foi a primeira a reagir de forma eficaz.Vimos isso com o programa PEPP do BCE[7] .No entanto, o julgamento de 5 de maio de 2020 do tribunal constitucional alemão (o “Tribunal de Karlsruhe”) repousa, na verdade, na questão do controle político das decisões do BCE[8] .
É, portanto, claro que este aumento de poder do BCE não pode ocorrer sem um debate sobre a questão da independência dos bancos centrais e sobre a interpretação muito particular que o BCE faz dele[9] .Este último baseia-se essencialmente na capacidade de um Banco Central manter a inflação o mais baixa possível[10] .No entanto, essa independência parece ter sido posta em causa pelas consequências da epidemia[11] .

1 – O fetiche da teoria “européia” da independência dos bancos centrais

A questão da independência dos bancos centrais gerou uma imensa literatura.A realidade da eficácia dessa independência foi discutida[12] .Assim, foi posta em causa na luta contra a inflação[13] , que é, no entanto, o principal argumento geralmente defendido por aqueles a favor dessa independência[14] .Também é verdade que a definição dessa independência não é uma coisa fácil.O uso de argumentos puramente legais, pode-se falar em “independência formal” há muito tempo é favorecido[15] .
No entanto, essa abordagem foi posteriormente contestada[16] .A importância dos fatores reais nessa independência, e isso é chamado de “independênciade fato “, foi sublinhada[15] .De fato, levar em contaa independência “de fato ”, ao lado da “de jure ”, exige a construção de novos indicadores[18] que, na realidade, servem para destacar os canais formais e informais de debate entre banco central e autoridades governamentais.No entanto, o “modelo” da independência do Banco Central Europeu (BCE) desempenhou claramente um papel normativo e, às vezes, prescritivo, em muitos trabalhos[19] .       
Hoje, essa questão da independência dos bancos centrais foi, portanto, novamente solicitada com insistência antes do início da epidemia de Covid-19.Isso é demonstrado por um texto do Instituto Jacques Delors[20] .Ele observa, pelo menos na União Europeia, uma quebra no consenso que até então cercava o Banco Central Europeu[21] .De fato, a partir de 2018, um lento movimento de recuperação pelos Estados do Banco Central pôde ser detectado, como evidenciado pelo editorial de Guillaume Benoit emLes Echos, em 17 de dezembro de 2018[22] , mas também de outras fontes[ 23]  .No entanto, essa independência está consagrada nos textos constitutivos da União Europeia, como o “Protocolo sobre os Estatutos do Sistema Europeu de Bancos Centrais e do Banco Central Europeu”[24] .
No artigo 7 do protocolo de 26 de outubro de 2012, que trata da independência, está escrito da seguinte forma: Nos termos do artigo 130.o do Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia, no exercício de poderes e no desempenho das tarefas e funções que lhes são conferidas pelos Tratados e pelos presentes Estatutos, ou pelo BCE , nem um banco central nacional, nem qualquer membro dos seus órgãos de decisão podem solicitar ou aceitar instruções de instituições, organismos, gabinetes ou agências da União, dos governos dos Estados-Membros ou de qualquer outro organismo.As instituições, órgãos, gabinetes e agências da União e os governos dos Estados-Membros comprometem-se a respeitar este princípio e a não procurar influenciar os membros dos órgãos de decisão do BCE ou dos bancos centrais nacionais no desempenho dos suas missões .[25] 
A ruptura entre autoridades políticas, parlamentos ou governos e o BCE, como os bancos centrais dos estados da União Europeia, é, portanto, fortemente reafirmada.Podemos, portanto, entender por que o BCE pode parecer um “modelo” em termos de independência[26] .É uma das instituições constituintes da UE[27] .Este corte coloca, em princípio, a irresponsabilidade dos banqueiros centrais europeus em relação aos órgãos políticos.

2 – Uma visão diferente daquela que fundamenta o status do Federal Reserve nos Estados Unidos

No entanto, esta visão de independência é específica da União Europeia e, em certo sentido, herdada da fórmula utilizada peloBundesbank[28] .O Federal Reserve americano (FED ou FRS), resultante de uma história complexa e conflitante[29] , mantém uma forma de responsabilidade perante as autoridades políticas.Aqui está a declaração de James K. Galbraith à Câmara dos Deputados do Congresso dos Estados Unidos: 
« Hoje, sinto-me particularmente privilegiado, porque fui membro da equipe de 1975 a 1980 e da equipe que redigiu a Lei de Emprego Integral e Crescimento Equilibrado de Humphrey-Hawkins, de 1978. as seções de supervisão do Federal Reserve desta lei e era minha responsabilidade organizar audiências sobre a condução da política monetária durante esses anos, começando com a promulgação de H. Con.Res.133 em 1975. Deixe-me juntar à frustração por trás das contas diante de você.A Constituição dá ao Congresso o direito de “cunhar e regular seu valor”.O Congresso delega com razão o exercício desse poder, mas também mantém sua autoridade para estabelecer metas e supervisionar a execução das políticas..[30] “Ele então especifica”O objetivo da lei sobre pleno emprego e crescimento equilibrado nessa área era antes abrir um diálogo sustentado entre o Federal Reserve e o Congresso, com relatórios honestos e francos sobre as condições. objetivos e instrumentos econômicos, de perspectiva e de política em todos os momentos .[31]   
Ele vai ainda mais longe, sublinhando explicitamente a diferença fundamental entre o FRS e o BCE: ”um alto funcionário do Banco Central Europeu disse que o BCE tinha sido” totalmente fiel “ao seu mandato.Os congressistas podem não ficar felizes se o Federal Reserve disser a mesma coisa em um momento em que 25% dos americanos estão desempregados.Ao contrário do BCE, o Federal Reserve é uma agência estatutária pela qual o Congresso é responsável .[32]  
Portanto, vemos aqui que, se o Federal Reserve é realmente uma “agência”, dotada de independência de ação, isso não pode colocá-lo em contradição com o Congresso.Essa responsabilidade política em relação a este último também é uma conseqüência do “duplo mandato” do Federal Reserve, garantindo baixa inflação E pleno emprego[33] .
Este corte específico do BCE, que de fato o torna um caso especial nos bancos centrais, deve, portanto, ser explicado, porque parece relativamente novo na história econômica desde o final da Primeira Guerra Mundial.Na verdade, está enraizada no ponto de virada adotado pela teoria econômica dominante (ou “ortodoxa”) no final dos anos 70 e nos anos 80.
A credibilidade e a reputação da política monetária tornaram-se o novo centro da literatura econômica sobre questões relativas ao “banco central”[34] .De fato, se o problema teórico foi colocado, porque na prática as tradições políticas dos vários Estados permitiram várias formas nas relações entre o Banco Central e o governo, é bom porque o contexto monetário geralmente mudou com o fim Acordos de Bretton Woods[35] .De fato, essa origem pode ser buscada tanto no trabalho teórico sobre o problema da “reputação” quanto na reconstrução da história do Banco Central da Alemanha Federal, o Bundesbank.

3 – Independência à luz da experiência alemã

Uma primeira justificativa para a independência dos Bancos Centrais trabalha com o modelo de analogia: a trajetória do FRG no período pós-guerra foi um grande sucesso, o FRG possuía um Banco Central independente (odeutscher Länder, então oBundesbank ), portanto, o princípio da independência é validado.Esse raciocínio não apenas ignora os fatores não monetários do sucesso do FRG (desvalorização inicial muito forte, papel da demanda das forças de ocupação americanas[36] , fluxo de trabalho qualificado vindo da zona soviética e depois do RDA que desempenha a moderação dos salários[37] ), mas obviamente contém um problema no próprio uso que é feito dessa analogia.  
Um argumento derivado consiste em atribuir à ideologia dominante em economia na Alemanha, o ordoliberalismo, essa independência do Banco Central.Contrariamente à crença generalizada, o ordoliberalismo – o mainstream contemporâneo em uso na profissão econômica alemã e amplamente considerado como tendo moldado a nova ordem da Alemanha Ocidental chamadaSoziale Marktwirtschaft (ou economia social da mercado)[38] parece não ter tido impacto na ordem monetária emergente do país, se alguém acreditar em Jörg Bibow[39]  .Na realidade, são identificáveis ​​contradições significativas entre o postulado de independência do banco central e algumas das idéias-chave subjacentes ao Ordoliberalismo.Para entender isso, devemos retornar às circunstâncias que deram origem ao Banco Central Alemão.
De fato, essa independência parece mais ser devida ao acaso institucional do que a uma decisão política deliberada.Após a guerra e a derrota da Alemanha nazista, oBank deutscher Länder (BdL) foi criado em 1º de março de 1948. Foi o precursor doDeutsche Bundesbank que foi erguido em 1957. É geralmente considerado o resultado de um compromisso entre idéias contraditórias dos britânicos e americanos nesta área[40] .    
Diferentemente do acordo de Potsdam de agosto de 1945, que exigia que os Aliados tratassem as quatro zonas de ocupação como uma única zona econômica, os desenvolvimentos entre os setores financeiros das três zonas ocidentais rapidamente se diversificaram.Orientada pela organização centralizada do Banco da Inglaterra, a política de ocupação britânica focava na conservação do que restava do antigoReichsbank , incluindo suas estruturas centralizadas.As boas relações tradicionalmente entre o Banco da Inglaterra e oReichsbank sobreviveram à guerra[41] .Havia também um interesse mais pragmático em não destruir o que ainda poderia estar intacto ou facilmente reparável.   
O pensamento americano estava, no entanto, em direções diferentes[42] .Para garantir um enfraquecimento permanente da Alemanha totalitária derrotada, a descentralização era a principal política dos Estados Unidos.O antigoReichsbank centralizado era considerado parte do regime nazista.Em vista da estrutura descentralizada do sistema bancário da reserva federal, também parecia natural para as autoridades americanas redesenhar o cenário do banco central na Alemanha, seguindo as linhas adotadas nos Estados Unidos. 
Deve-se lembrar aqui, neste contexto que, embora o Reichsbank tenha se tornado legalmente independente do governo (mas não dos Aliados) com a Lei de Autonomia de 26 de maio de 1922 (confirmada pela Lei de 30 de agosto de 1924), isso não ocorre. não impediu o banco de cometer erros catastróficos como a hiperinflação em 1923, depois as crises bancárias e a deflação no início dos anos 30, seguidas pela era nazista.Por esse critério, parece justo dizer que a experiência anterior da Alemanha com a independência dos bancos centrais foi excepcionalmente pobre[43] .
Além disso, as idéias das potências ocupantes da época na área dos bancos centrais claramente não foram na direção de sua “independência”.Com o New Deal e o aumento da proporção da dívida pública dos Estados Unidos por causa da guerra, o sistema de reservas foi monitorado de perto pelo Tesouro até o acordo de 1951[44] .
Na Grã-Bretanha, uma estreita cooperação entre o Tesouro e o Banco da Inglaterra surgiu após setembro de 1931, e essa cooperação se tornou menos importante com a guerra.A “Velha Senhora” havia sido nacionalizada e o Tesouro deu instruções em 1946[45] .O governo francês tinha controle direto sobre o Banque de France desde a lei de 1936 e a nacionalização do banco em 1945[46] .Tudo isso não criou um contexto favorável para a independência doBank deutscher Länder (BdL)  
Por seu lado, as autoridades dos Länder alemães estavam fazendo grandes esforços para aumentar sua influência nas margens do Lander (osLandenzbanks ), mas também no próprio BdL[47] .Existe, portanto, uma inconsistência em pensar que a independência do BdL poderia ter resultado da pressão dos Aliados. 
A realidade era que o BdL não era de todo independente.Estava sob o controle das potências ocupantes, através daComissão Bancária Aliada (ABC)[48] .Isso é demonstrado pelo artigo II da Lei nº 60 do governo militar dos Estados Unidos[49] .Este texto dizia o seguinte: ”Para determinar as políticas do Banco, o Conselho de Administração está sujeito às instruções que podem ser emitidas pela Allied Banking Commission  “, de acordo com o que em 1946 o plano Dodge havia planejado anteriormente para o Länder-Union-Bank[50] .
A Comissão Bancária Aliada (ABC) foi criada em colaboração com o BdL e, na verdade, residia sob o mesmo teto.O objetivo dessa comissão era o controle dos Aliados, e não o alemão, sobre o banco.E, pelo menos no início, a CBA adotou uma abordagem prática para supervisionar o BoL, incluindo questões de pessoal, determinação e implementação de políticas e questões de supervisão.O BdL não estava apenas muito ciente disso, mas também desde o início que tinha seu vício em odiar.Curiosamente, ao promover sua própria causa e políticas, o banco não hesitou em causar conflito com a CBA.Talvez para testar até onde poderia chegar[51] .
Posteriormente, o BdL e o ABC melhoraram suas relações, os apreciaram e até tentaram mantê-lo enquanto os desenvolvimentos políticos apontavam para mudanças.Inevitavelmente, uma grande mudança ocorreu em 1949, com a criação da República Federal da Alemanha.O poder passou para oAlto Comissariado Aliado  (AHC).Consequentemente, o ABC teve que informar oAlto Comissariado Aliado  (AHC) e, em particular, seu Comitê de Finanças (FC), e deixou de exercer supervisão direta sobre o BdL.
Essa supervisão agora era de responsabilidade do Comitê de Finanças.No entanto, este último tinha um problema real de legitimidade devido à sua subordinação direta ao AHC;quanto a este último, a situação geopolítica (o bloqueio de Berlim) tendia a colocar considerações monetárias em segundo plano.As autoridades de ocupação também promoveram ativamente o novo governo alemão para continuar nesse campo a política da ACB e não deixar um vácuo político[52] .
No contexto de uma revisão do status de ocupação da Alemanha, oAlto Comissariado Aliado  enviou uma carta ao governo alemão em 1951, instando-o a estabelecer seu próprio sistema de controle sobre o BdL.No entanto, este último se acostumou ao afrouxamento da supervisão do ABC, e ela sabia como lidar com conflitos políticos de maneira inteligente dentro do governo alemão para preservar a independência de fato que adquirira devido à confusão administrativa que causou a transformação do status de ocupação e a eclosão da Guerra Fria, com sua parcela de prioridades claramente diferentes das de 1947-1948.A lei provisória de 1951 era reconhecer esse estado de coisas e estabelecer de fato a “independência”[53] .
Deve-se notar que, no pensamento ordoliberal da época, como expresso por Eucken[54] , os processos de ação devem ser deixados a critério do Banco Central, mas não a estrutura em si. essa ação, que é uma decisão política.O objetivo é criar uma “ordem monetária” que tende à estabilidade[55] .Essa concepção, portanto, parece ser bem diferente da idéia de independência dos bancos centrais, apesar de certas opiniões[56] .
A idéia de independência na realidade equivale a confiar a um órgão centralizado o desenho e a implementação da política monetária além do controle das autoridades políticas.É esta ideia que prevalece no BCE e que também está consagrada no seu estatuto.Pode-se ver, portanto, que na Alemanha parece resultar mais de circunstâncias institucionais específicas do que de outra coisa.Quanto aos seus efeitos, como escrevemos, eles não podem ser separados de outros fatores que devem ter pesado muito sobre a trajetória macroeconômica da Alemanha.

4- Independência contestada

Quaisquer que sejam as justificativas, sejam elas teóricas ou históricas, o fato de o BCE ter sido construído sobre essa ruptura radical entre o mundo dos banqueiros centrais e o dos políticos permanece.Certamente podemos explicar isso.O BCE representa uma instituição que pode ser descrita como “proto-federal” na União Europeia, que, tecnicamente, é de responsabilidade da coordenação entre as nações[57] .
Na sua constituição, e devido à ausência do ator político federal que provavelmente manterá com o BCE o tipo de relações que o Congresso dos Estados Unidos mantém com o Federal Reserve, esse corte foi óbvio como a solução mais simples.Basear o BCE em uma regra era a única solução.No entanto, o uso da regra, que aqui se assemelha à “Constituição Econômica”[58] , tem duas desvantagens.Isso coloca um problema de controle democrático, a partir do momento em que o organismo governado pela regra é retirado da ação puramente mecânica.Esse é o problema da legitimidade[59] .A segunda desvantagem é operacional: a regra limita bastante a capacidade do BCE de reagir em tempos de crise, a menos que a supere.
Podemos mostrar isso através de um exemplo histórico, a experiência infeliz da Áustria no início dos anos 1930[60] .Este país experimentou, imediatamente após a Primeira Guerra Mundial, uma grave crise hiperinflacionária[61] .Os governantes julgaram oportuno restabelecer a confiança e construir o que chamamos hoje de “reputação” da moeda austríaca, que deve incluir na nova Constituição do país a proibição do déficit orçamentário[62] .
Isso inicialmente resultou em sucesso óbvio.Aconteceu na segunda metade da década de 1920 que o sistema bancário austríaco passou por uma grave crise.Era amplamente esperado, porque o país havia herdado as maiores instituições financeiras do antigo Império Austro-Húngaro, e esses bancos estavam lutando para sobreviver em um espaço fragmentado agora[63] .O governo austríaco teve que recapitalizar a principal instituição financeira após uma crise bancária particularmente grave.Não há nada mais normal aqui.O bom funcionamento dos bancos é necessário para a credibilidade do sistema de pagamentos sem o qual não há economia de mercado.
Isso justifica uma ação do “credor de último recurso” por parte das autoridades públicas.Apenas, para tomar tal medida, o governo austríaco teve que planejar, durante o exercício orçamentário, despesas adicionais.Isso o levou a violar a Constituição.Para não provocar uma crise política, ele decidiu manter essa decisão em segredo.O segredo foi exposto, destruindo rapidamente a reputação do governo e do país no contexto da ascensão da crise de 1929 e levando a uma nova e grave crise monetária[64] .
O déficit orçamentário acordado em recapitalizar o sistema bancário austríaco era, na realidade, insignificante e bastante incapaz de induzir uma desestabilização maciça.Mas o que contava era a violação da regra, não a extensão da ofensa.Vemos aqui que, para comprar uma reputação monetária barata, as autoridades austríacas se colocaram em uma situação que os privava da capacidade de reagir diante de novas crises.Voltando à questão do “constitucionalismo econômico”, Hayek, que é a fonte da mania dessa idéia, tomou consciência, no final de sua vida, dessa contradição.Ele admitiu, em um trabalho de 1979, a necessidade de flexibilidade na tomada de decisões na área de regras econômicas[65]Caso contrário, a ordem espontânea provavelmente levaria ao caos[66] .
De fato, o BCE se desvia em grande parte de seu status original e da regra desde 2008, e em particular desde o “que for preciso” de Mario Draghi em 2012. Isso coloca problemas de legitimidade e, portanto, democracia, que são indiscutíveis[67] .Não se pode excluir certas questões do debate sem correr o risco de deslegitimar a instituição e, portanto, a prática da exclusão[68] .Esse ponto, já presente na reflexão político-jurídica do final do século XVIII[69] , foi uma das causas que levaram à Guerra Civil, devido à vontade dos Estados do Sul de excluir da debate a questão da escravidão[70] .
Portanto, a independência do BCE poderia ser contestada por um órgão jurídico?De fato, desde a década de 2010, observamos que na Alemanha o apelo à constitucionalidade, ou seja, a mobilização do Tribunal Constitucional alemão, e da direita para a esquerda, agora atua como uma válvula de segurança que autoriza a expressão de ” uma profunda insatisfação com a política transnacional de ajuda orçamentária realizada na zona do euro desde 2010[71] .De maneira mais geral, na ausência de controle político, a opção legal parece ser a única maneira de questionar a responsabilidade do BCE.
É por isso que o julgamento do tribunal constitucional alemão (também conhecido como “Tribunal de Karlsruhe”) de 5 de maio de 2020 pode, a esse respeito, provar ser histórico[72] .Esse julgamento acaba com uma deriva do Banco Central Europeu (BCE), que se estabeleceu cada vez mais como uma agência perfeitamente independente da vontade dos cidadãos.Esse julgamento levou imediatamente a uma reação do Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE)[73].Este último lembrou que tinha competência exclusiva em questões de instituições europeias.Isso está inteiramente correto, mas apenas o Tribunal de Karlsruhe tem jurisdição sobre as instituições alemãs.De fato, se o BCE não responder ao Tribunal de Karlsruhe, este poderá forçar o Bundesbank a se retirar das operações do BCE, o que significaria o fim da União Econômica e Monetária e, portanto, o fim do euro. .

5 – BCE impugnado: acórdão do Tribunal de Karlsruhe

Sobre o que é isso ?O Tribunal Constitucional alemão contestou a política monetária adotada pelo BCE, exigindo que o BCE justificasse a “proporcionalidade” de suas ações com seus objetivos, conforme definido em seu estatuto[74] .Considera que não era esse o caso no programa de compra de valores mobiliários lançado pelo BCE.Por extensão, esse julgamento poderia obviamente se estender ao “Programa de Compra de Emergência Pandêmica ” decidido após a epidemia de Covid-19 e que é vital para garantir a certos países, incluindo a Itália, condições para um bom refinanciamento de sua dívida pública.  
Os magistrados constitucionais do outro lado do Reno lembram aqui um fato óbvio: nada pode autorizar entidades criadas pela Constituição a violar essa constituição ou a ignorar o princípio fundamental da democracia.Esta é a questão da “competência de competência”.Este conceito é inerente ao federalismo.Designa o poder (soberania) para atribuir certos poderes a um detentor do poder soberano.No que diz respeito à UE, a UE não tem a competência dessa competência, ou seja, não pode dar poder[75] .Possui os únicos poderes e competências que os Estados membros lhe atribuíram / transferiram por tratado: este é o princípio da atribuição[76] .
Este ponto também foi sublinhado por um jurista pertencente à esquerda alemã[77] .Andreas Fisahn observa, portanto, na decisão de lançar em 2012 o programa detransação monetária definitiva  (OMT), o BCE tomou uma decisão sobre política econômica e não apenas sobre política monetária.Ele acrescenta: “O julgamento de Pringle do Tribunal de Justiça Europeu (TJUE)[78] , de 27 de novembro de 2012, havia estipulado que o BCE só estava autorizado a conduzir política monetária e não a sua própria política econômica.Isso é um absurdo, pois a política monetária também é sempre uma política econômica e vice-versa – a distinção é artificial.Mas a jurisprudência cria dogmas, de modo que a vontade de separar política monetária e política econômica se tornou uma premissa nunca questionada [79] .
Portanto, podemos apenas observar que a sentença proferida em 5 de maio fazia parte de uma jurisprudência constante do tribunal de Karlsruhe por vários anos.O conflito entre o Tribunal Constitucional e o BCE existe silenciosamente desde pelo menos 12 de setembro de 2012 e o julgamento, por mais favorável que seja[80] , que havia sido proferido no MES[81] .Em particular, esta decisão confirma julgamentos anteriores, indicando, contra as tendências federalistas em ação, tanto em Bruxelas quanto em Frankfurt, que a democracia só pode ser verificada dentro das estruturas nacionais.A superioridade das regras e leis nacionais sobre as diretivas européias foi mais uma vez afirmada na Alemanha durante um julgamento do Tribunal Constitucional em Karlsruhe.A sentença de 30 de junho de 2009[82] estipula de fato que, devido aos limites do processo democrático na Europa, apenas os Estados-Nação são depositários da legitimidade democrática[83] .
Além disso, o Tribunal de Karlsruhe havia tomado importantes decisões sobre a política monetária européia.O Tribunal Constitucional de Karlsruhe deveria especificar, em seu julgamento de 12 de outubro de 1993, por ocasião da ratificação do Tratado de Maastricht, que a passagem para a moeda única deveria ocorrer no âmbito de umacomunidade de estabilidade monetária : ”Essa concepção de união monetária, comunidade de estabilidade monetária, é a base do direito alemão[84] .    
Isso tem conseqüências diretas para a situação atual.O princípio do agrupamento de dívidas foi considerado inconstitucional para o Tribunal de Karlsruhe.Reafirmou isso na sentença proferida no início de setembro de 2011 em resposta a uma pergunta sobre a constitucionalidade do acordo de 21 de julho para salvar a Grécia.O Tribunal Constitucional de Karlsruhe sempre esteve mais do que reservado à constitucionalidade dos eurobonds.Da mesma forma, sempre se opôs à idéia de um hipotético financiamento monetário direto das dívidas do Estado pelo BCE[85] .
Portanto, podemos ver que a recente decisão do Tribunal de Karlsruhe faz parte da constante continuidade de sua jurisprudência.No caso da sentença de 5 de maio passado, o Tribunal de Karlsruhe começa recordando que o direito de voto previsto na Lei Básica Alemã não é um direito formal puro de escolher seus membros do parlamento, mas constitui um direito real que deve ser traduzir na capacidade de influenciar concretamente as decisões que serão aplicadas aos cidadãos.
A democracia não é, portanto, o direito de voto, mas o direito de escolher uma política a ser aplicada e apenas uma política escolhida pelos cidadãos é legítima.No entanto, o Tribunal de Karlsruhe considerou, desde um famoso acórdão de 2009[86] , que não existe “povo europeu” e que, consequentemente, ”o Parlamento Europeu não é (…) l “órgão representativo de um povo europeu soberano ” [87] .O Tribunal de Karlsruhe aponta neste julgamento de 2009 tudo o que torna a construção da comunidade um edifício contrário à democracia e, ao mesmo tempo, proíbe que uma Constituição venha a limitar este edifício que não é um estado federal – cuja possui certas características – nem um Estado unitário e que, como “organização internacional”, não pode reivindicar uma soberania comparável à dos Estados que o compõem[88] .
Em particular, o julgamento declara: “O desenvolvimento da União Européia em direção a um estado federal excederia as funções e competências dos órgãos constitucionais da República Federal da Alemanha.Somente uma lei constitucional que o povo alemão adotasse de acordo com as disposições do artigo 146 GG seria capaz de fundamentar esse grau de integração[89] .  
O Tribunal Constitucional Federal, em seu julgamento de 5 de maio de 2020, deduz disso que o Parlamento nacional deve ser reconhecido como tendo um direito de escrutínio sobre o mecanismo de tomada de decisão e que, enquanto uma lei não reconhecer esses direitos ” participação ”, o tratado não pode ser ratificado pela Alemanha.Tudo o que não emana da livre escolha dos cidadãos não é estritamente democrático e, portanto, não pode ser aplicado na Alemanha.De fato, o que o Tribunal de Karlsruhe acaba de reafirmar é o princípio da soberania do povo alemão através de suas assembléias, o Bundestag e o Bundesrat.E isso está fora do escopo do TJUE.
Portanto, entendemos o dilema das autoridades alemãs e dos líderes do BCE.As autoridades alemãs não podem contrariar uma decisão do Tribunal Constitucional, se assim o desejarem, a menos que provoque o colapso político do que a Alemanha Federal, então Alemanha reunificada, está sentando desde 1949 Os líderes do BCE podem certamente confiar no comunicado de imprensa do TJUE.
Mas, então, é mais do que provável que eles terão que enfrentar uma retirada do Bundesbank dos programas do BCE, o que – na prática – equivale a condenar o último.De fato, uma retirada explícita do Bundesbank causaria o colapso da zona do euro.Eles também podem decidir levar em consideração implicitamente o julgamento de 5 de maio de 2020, mas será necessário pôr um fim ao programa de recompra dos títulos e, assim, causar, pelo aumento das taxas de juros que resultariam dele, uma nova crise dentro da zona do euro.
Este julgamento de 5 de maio levanta, portanto, o problema da responsabilidade política do Banco Central Europeu.Obviamente, repousa na forma jurídica.Mostramos acima por que essa forma jurídica era o canal através do qual perguntas políticas eram feitas no caso do BCE.No entanto, o problema da necessária responsabilidade política do BCE se tornará uma questão central nos próximos meses.

6 – A impossibilidade de reformas no quadro da UE

O problema colocado pelo julgamento de 5, mas 2020, do tribunal constitucional alemão é, como dissemos, o da democracia.Portanto, cabe à responsabilidade do Banco Central Europeu.É, no entanto, apenas uma pedra final jogada no jardim das instituições da União Europeia.
A decisão de estabelecer o BCE como um Banco Central independente no modelo particular do “corte” deixou apenas possibilidades de rigidez absoluta (por respeito à “regra”) ou da navegação aventureira nos limites da “ status ”, mas na total ausência de controle político.Essas duas possibilidades atingiram seus limites.O da rigidez não resistiu aos vários choques exógenos que ocorreram desde 2000. O da navegação aventureira, iniciada sob o mandato de Mario Draghi, corre o risco de quebrar o recife da contestação legal do Tribunal de Justiça. Karlsruhe.
Portanto, não é surpreendente, neste contexto geral, que a questão da “democratização” da UE e do BCE tenha sido levantada há vários anos[90] .Jürgen Habermas já foi tocado por isso em um trabalho de 2011, que foi traduzido para o francês em 2012[91] .Ele observou assim: “O“ pacto pelo euro ”perpetua um erro antigo: não é juridicamente vinculativo, os acordos feitos em pequenas comissões entre chefes de estado e / ou governo são ineficazes ou antidemocráticos;devem, portanto, ser substituídos por uma institucionalização de decisões conjuntas democraticamente sem falhas .[92]  Isso o leva a considerar que o governo da zona do euro constitui uma forma de “autocracia pós-democrática”[93] .Isso o leva a esperar um fortalecimento da estrutura federal[94] , integrando-se a um sistema global que seria ”mais legal do que político[95] .  
Se seguirmos o trabalho de Antoine Vauchez, que há anos pensa na construção institucional da União Européia[96] , é uma questão de considerar que é necessário inventar uma forma verdadeiramente democrática européia e que não podemos nos contentar em transpor para a escala continental os esquemas institucionais implementados na escala dos estados-nação.No entanto, ele também observa que o papel eminentemente político assumido pelas chamadas instituições “independentes”, como o BCE, deve ser levado em consideração.[97]
Essas instituições estão escondidas atrás do véu da “técnica” e da “perícia”, um véu que contribui para legitimá-las.Esse era precisamente o argumento que eu já estava apresentando em meu trabalho de 2002[98] .Se repetirmos aqui o que Antoine Vauchez escreve, ”a autoridade adquirida pelos” independentes “é exercida em sua capacidade de produzir, em apoio de suas decisões, um conjunto de declarações científicas, dados empíricos, instrumentos e diagnósticos.Discutir apenas o produto final, sem considerar todo o enquadramento doutrinário e metodológico executado a montante, seria o mesmo que subscrever a idéia de uma “objetividade” do trabalho realizado pelos “independentes[99] . 
A questão da democratização da governança da “zona do euro” ocupa um lugar prioritário, em especial desde a crise grega de 2015[100] .Thomas Piketty observa que o BCE atua como “co-governador” da UE[101] , especialmente desde que deixou seu status inicial.No entanto, esse “co-governador” não é de forma alguma responsável perante um órgão democraticamente eleito, como é o Federal Reserve antes do Congresso.Não estaríamos na presença de um ”Tyrannus ab Exercitio ” na tipologia das formas tirânicas[102] ?   
Deve recordar-se que o Conselho Europeu (composto por Chefes de Estado e de Governo) e o Conselho (composto por Ministros dos Estados da UE) têm um equivalente para a área do euro.Estas são as “Cúpulas do Euro” e o Eurogrupo, respectivamente.Este último foi criado de facto em 1997 e reconhecido oficialmente pelo Tratado de Lisboa[103] .O Eurogrupo é agora (brevemente) mencionado no art.137 TFUE[104] .
O Protocolo nº 14 descreve suas reuniões e a eleição de seu presidente[105] .O Eurogrupo inclui apenas os Ministros da Economia e Finanças dos Estados membros da área do euro, o Presidente do Eurogrupo (eleito pelos ministros por dois mandatos de um ano e meio, renováveis ​​sem cessar), representante da Comissão Europeia e do presidente do BCE.A existência de cúpulas da zona do euro é de fato reconhecida SOMENTE pelo Tratado de Estabilidade, Coordenação e Governança da União Econômica e Monetária, denominado TSCG ou Pacto Orçamentário[106] .Este tratado é um tratado intergovernamental.
É apresentado como uma nova versão mais rigorosa do Pacto de Estabilidade e Crescimento e foi assinado em 2 de março de 2012 por todos os Estados Membros da União Europeia, exceto a República Tcheca, o Reino Unido e Croácia[107] .O pacto fiscal não faz parte do direito da UE e, portanto, a cúpula da zona do euro não faz parte do quadro institucional da UE.Nem o Eurogrupo nem a Cúpula da Zona Euro têm poder de decisão.No entanto, eles devem permitir que os Estados membros da área do euro coordenem suas posições entre si.Na prática, o Eurogrupo e as Cúpulas da Zona Euro foram, de fato, especialmente entre os anos de 2012 a 2016, importantes órgãos de tomada de decisão implícitos.
Piketty e seus três co-autores, portanto, propõem um processo de democratização da zona do euro.A principal inovação do Tratado de Democratização da Zona do Euro (ou T-Dem), prevista no artigo 2, é a criação de umaAssembléia Parlamentar específica para a zona do euro.Esta não é a primeira tentativa desse tipo[108] .Sébastien Platon então observou, em um longo comentário sobre o livro, que essa assembléia poderia constituir uma alternativa ao Parlamento Europeu[109] .No entanto, pode-se notar que esta “assembléia” não resolve a questão levantada pelo julgamento do tribunal de Karlsruhe de 2009, mencionado acima. 
Além disso ;este “pacto democrático da área do euro” deixa em aberto a questão da coordenação das relações institucionais entre esta assembléia da área do euro e os vários parlamentos nacionais, em particular no que diz respeito aos diferentes poderes de veto que estes últimos têm na implementação implementação de atos jurídicos financeiros de “resgate”.
Essas propostas enfrentam, portanto, os mesmos problemas: o peso dos mecanismos de reforma institucional na UE e a profunda divisão política que os divide.Portanto, é provável que o BCE permaneça preso nesse dilema: cumprimento da “regra” ou contestação legal.
Em teoria, seria possível uma solução pragmática: que o BCE, que opera através dos bancos centrais nacionais, delegue a este o poder de monetizar a dívida, sob o controle dos parlamentos nacionais.Mas vemos as duas armadilhas que ameaçam essa solução.Por um lado, isso colocaria em questão o dogma da independência dos bancos centrais em cada um dos diferentes países.Por outro lado, sendo o euro a moeda única para os países da UEM, os parlamentos nacionais podem ter objeções ao grau de monetização realizado pelo seu vizinho, devido ao possível impacto no euro.
Isso nos leva de volta ao problema colocado no início: que controle político e democrático é possível, por um lado, e que adaptabilidade da resposta monetária do BCE às várias situações dos diferentes países da UEM.O Instituto Bruegel, um dos centros de estudo mais influentes das instituições da União Européia, reconheceu isso: para usar sua linguagem, “um tamanho não serve para todos”[110] .
O que este instituto oferece, um núcleo de países muito mais integrado do que hoje e clubes de países satélites ao redor, é claro na direção de uma maior integração para os países do núcleo.Mas, além do fato de que essa corrida para encolher a UE provavelmente não será aceita por muitos países, ela apresenta outro problema: sua lógica é não chegar a que o “núcleo” acabe não ser composto por apenas um estado?
Aqui podemos fazer uma observação de Paul Craig sobre o Pacto Fiscal: “Se os Estados Membros não chegarem à unanimidade para a modificação [dos Tratados da UE] e não buscarem ou alcançarem seus objetivos através de uma cooperação reforçada, isso significa que 12, 15, 21 dos Estados membros poderiam fazer um tratado para alcançar os objetivos desejados e que as instituições da UE podem desempenhar um papel, enquanto os 28 estados membros não conseguiram chegar a um acordo nas instituições da UE, e pode este tratado concluído tratar de assuntos diretamente cobertos pelo Tratado de Lisboa ?[111]  ”
Podemos ver que as possibilidades de reforma interna da UE são limitadas e sujeitas à cláusula de unanimidade, que limita sua aplicação prática.Nestas condições, e diante das emergências atuais, não seria melhor dissolver a UEM e deixar para cada país a escolha dos compromissos institucionais que julgar mais capazes de atender aos seus interesses?Isto se aplica naturalmente à independência dos bancos centrais, que podemos ver claramente não pode mais ser aplicada da forma definida pelo Tratado de Maastricht e pelo Tratado da UEM.Obviamente, essa solução implicaria a dissolução do euro.
Contudo, essa solução, permitindo que cada Estado ajustasse a combinação de política orçamentária e monetária às suas necessidades, como elas teriam sido definidas no quadro legítimo de um debate nacional, permitiria aos países envolvidos encontrar um flexibilidade para reagir a choques exógenos, permitindo-lhes emergir da crise nas melhores condições possíveis.Aqui é essencial colocar a política de volta no posto de comando e parar de querer se esconder atrás de um véu de regras ilusórias.
Georges Clémenceau, portanto, estava certo: a política econômica e monetária são coisas sérias demais para serem deixadas apenas aos banqueiros centrais.

NOTAS

[2]  Este é o ministério de René Goblet, ministério conhecido como “concentração republicana” que sucedeu ao de Charles de Freycinet, no qual Boulanger já era ministro da Guerra.
[3]  Mordacq JJ.H. (Geral),diário de uma testemunha de Le Ministère Clemenceau / 1917-1920 , Paris, Plon, 1930, 4 volumes.Winock M., Clemenceau, Paris, Perrin, 2007.  
[4]  Blanchard O. e J. Pisani-Ferry, «Monetização: não entre em pânico», emVoxeu.org , 10 de abril de 2020,https://voxeu.org/article/monetisation-do-not-panic .  
[5]  Giavazzi F. e G. Tabellini, «Covid Perpetual Eurobonds» emVoxeu.org , 24 de março de 2020https://voxeu.org/article/covid-perpetual-eurobonds  
[6]  De Grauwe P., «O BCE deve financiar déficits do COVID-19», emproject-syndicate.org , 18 de março de 2020https://www.project-syndicate.org/commentary/ecb-needs-to-embrace -covid19-financial-finance-by-paul-de-grauwe-2020-03  
[8]  Bundesverfassungsgericht, asdecisões do BCE relativas ao programa de compras do setor público excedem as competências da UE , Comunicado de imprensa n.º 32/2020, de 5 de maio de 2020, data de 05 de maio de 2020, Karlsruhe, BVerfG, acórdão do Segundo Senado de 5 de maio de 2020 – 2. BvR 859/15 -, pars.(1-237),https://bit.ly/3drslK7 
[9]  De Haan J., «O Banco Central Europeu: Independência, Responsabilidade e Estratégia: Uma Revisão» inPublic Choice, vol.93, n. 3/4 (1997), pp. 395-426  
[12]  Blancheton B., «Independência do banco central em uma perspectiva histórica.Mito, lições e um novo modelo »emEconomic Modeling , Volume 52, Parte A, janeiro de 2016, páginas 101-107. 
[13]  De Haan J. e Kooi WJ, «A independência do banco central realmente importa», noJournal of Banking and Finance , vol.24, 2000, pp. 643-664. 
[14]  Cukierman A.,Estratégia do Banco Central, Credibilidade e Independência , Harvard, MIT Press, 1992. 
[15]  Forder, J. «Sobre a Avaliação e Implementação de Remédios Institucionais», emOxford Economic Paper s, vol.48, 1996, pp. 39–51.Issing, O., «Independência do Banco Central – Dimensão Econômica e Política» noNational Institute Economic Review , Vol.196, 2006, pp. 66-76  
[16]  Forder, J., Armadilhas na medição da independência e prestação de contas dos bancos centrais, Universidade de Oxford, Departamento de Economia,Documento de discussão n ° 23, 2000. 
[17]  Arnone, M., BJ Laurens, J. Segalotto e M. Sommer,Autonomia do Banco Central: Lições das Tendências Globais , Washington DC, FMI, Working Paper 88, 2007. Hayo, B. & S. Voigt, «Inflação , Independência do Banco Central e Sistema Jurídico »noJournal of Institutional and Theoretical Economics , 164 (4), pp. 751–777.  
[18]  Fouad JM, Mona, Fayed ME, Talla H., Emam A., «Uma nova visão sobre a medição da independência do banco central» noJournal of Central Banking Theory and Practice , 2019, 1, pp. 67-96. 
[19]  Pisha, A.,Índices da zona euro: um novo modelo para medir a independência do banco central , Banco da Grécia, Conferência Especial, Documento 5, 2011. Ivanović, V., «Independência financeira do banco central através do prisma do balanço» emRevista de Teoria e Prática de Bancos Centrais , vol.3, 2014, (2), pp. 37-59.  
[20]  Jaillet P., A independência dos bancos centrais, um conceito obsoleto ?, Em Paris, Jacques Delors Institute,Policy Paper n ° 246 , dezembro de 2019. 
[21]  Arnold M., «Ex-banqueiros centrais atacam a política monetária do BCE» no Financial Times, 4 de novembro de 2018,https://www.ft.com/content/71f90f42-e68f-11e9-b112-9624ec9edc59 .Voir aussi, «Schlesinger e Issing lideram ataques às políticas do BCE»,https://www.centralbanking.com/central-banks/monetary-policy/4470556/schlesinger-and-issing-lead-attack-on-ecb-policies   
[23]  Jones E., «A independência política do Banco Central Europeu em questão», 3 de julho de 2019,https://www.iiss.org/blogs/survival-blog/2019/07/political-independence-european- Banco Central 
[25]  Protocolo de 26 de outubro de 2012, op.cit, p.3)
[26]  Bezhoska, AA, «Independência do Banco Central: O Caso do Banco Nacional da República da Macedônia», noJournal of Central Banking Theory and Practice , vol.6, 2017, (3), pp. 35-65 
[27]  Ritleng D.,Independência e Legitimidade no Sistema Institucional da União Europeia , Oxford-Londres, Oxford University Press, 2016. 
[28]  Berger, H. & J. de Haan, «Um Estado no Estado: um Estudo de Evento no Bundesbank (1948–1973)» noScottish Journal of Political Economy , vol.46, 1999, (1), pp. 17–39. 
[29]  Meltzer, AHHistória do Federal Reserve, volume 2, livro 1, livro 2, 1969-1985 , Chicago, University of Chicago Press, 2009. 
[30]  Declaração do professor James K. Galbraith, Lloyd M. Bentsen, Jr. Presidente de Relações Governamentais / Empresariais, Lyndon B. Johnson School of Public Affairs, Universidade do Texas em Austin e Presidente da Association for Evolutionary Economics, à Subcomissão de Política Monetária Doméstica, Comitê de Serviços Financeiros, Câmara dos Deputados dos EUA.8 de maio de 2012, Rayburn House Office Building, US-GPO, Washington DC, 2012.https://financialservices.house.gov/uploadedfiles/hhrg-112-ba19-wstate-jgalbraith-20120508.pdf 
[31]  Declaração do professor James K. Galbraith, op.cit.
[32]  Declaração do professor James K. Galbraith, op.cit.
[34]  Barro, RJ [1986], “Reputação em um modelo de política monetária com informações incompletas” noJournal of Monetary Economics , vol.17 (1), 3-20;Alesina, A., & Tabellini, G., «Regras e discrição com políticas monetárias e fiscais não coordenadas», emEconomic Inquiry , vol.25 (4), pp.619-630, 1987. Gilles, Ph.et Bastion C., «A evolução do banco central nas últimas três décadas», orador principal, Centro de Estudos Europeus (CES), conferência internacional anual:crise da dívida europeia , CES, Kirklareli University, Kirklareli (Turquie), 17 -18 de maio de 2012.   
[35]  Aglietta M., “A independência dos bancos centrais.Lições para o Banco Central Europeu ”, naRevue d’économie Financière , n ° 22, 1992, pp.37-56, p.38 
[36]  Merritt RL, “American Influences in Occupation of Germany”, nosAnais da Academia Americana de Ciências Políticas e Sociais , vol.428, A Revolução Americana no Exterior (novembro de 1976), pp. 91-103  
[37]  Estima-se que 3,8 milhões de pessoas da Alemanha deixaram a zona soviética, depois a RDA para a FRG de 1945 a 1961, Rainer M. e U. Ralf.Migração na Alemanha: 1945-1996.In: Revista Europeia de Migrações Internacionais, vol.14, n ° 2.1998.Imigrantes e minorias étnicas no espaço político europeu.pp.173-210.A recepção de imigrantes “não alemães” realmente decolou da construção do “muro” em 1961.
[38]  Labrousse A. e Weisz J.-D.(dir.),Economia Institucional na França e Alemanha.Ordoliberalismo alemão versus Escola de Regulação Francesa , Berlim-Nova York, Julius Springer, 384 p, 2001 
[39]  Bibow J.,Investigando as origens intelectuais do regime de política macroeconômica da Eurolândia: instituições e tradições de bancos centrais na Alemanha Ocidental após a guerra , o Levy Economics Institute, Annadale on Hudson, Working Paper n ° 406, 2004. 
[40]  Adler, HA 1949. A reorganização pós-guerra do sistema bancário alemão,Quarterly 
Journal of Economics , vol.63: pp. 322-41.
[41]  Dickhaus, M., «Mãe adotiva do“ Banco que governa a Europa ”: o Bank deutscher Länder, o Banco da Inglaterra e a Allied Banking Commission», em: Bance, A. (Ed.),The Legado Cultural da Ocupação Britânica na Alemanha , Stuttgart, 1997, pp. 294-324 
[42]  Loehr, R.,Osistemabancário da Alemanha Ocidental, Washington DC, Government Printing Office, 1952.   
[43]  Giersch, H. & Lehment, H., «Política monetária: a independência faz diferença?– A experiência alemã », em ORDO, n ° 32, pp. 3-16, 1981.
[44]  Sylla, R., «A autonomia das autoridades monetárias: o caso do Federal Reserve dos EUA
System », em Toniolo.G. (Ed),Independência dos Bancos Centrais em Perspectiva Histórica , Berlim-Nova York, de Gruyter, 1988. 
[45]  Cairncross, A., «O Banco da Inglaterra: Relações com o Governo, o Civil
Service, and Parliament », em Toniolo G. (Ed),Independência dos Bancos Centrais em Perspectiva Histórica , op.cit. Voir aussi, Fjorde, J.,Banco da Inglaterra e Políticas Públicas 1941-1958 , Cambridge, Cambridge University Press, 1992.  
[46]  Bouvier, J., “O Banque de France e o Estado de 1850 até os dias atuais”, em
Toniolo (Ed),Independência dos bancos centrais em perspectiva histórica , op.cit. 
[47]  Horstmann, T., «O surgimento do Banco dos Estados Alemães como política monetária
Órgão diretor da República Federal da Alemanha, »[O Departamento do Escritório da Assembléia Geral do Diretor de Política Monetária e República da República Federal] em Riese, H. & Spahn, H.-P.(Edições)Política monetária e desenvolvimento econômico.Um simpósio , [Política monetária e desenvolvimento econômico.Un symposium] Regensburg, Transfer Verlag, 1990, pp.202-18;Lindenlaub D.,Conselho do Banco Central por cinco anos , [Il ya cinquante ans, le Banque Cantrale], Boletim Mensal, Deutsche Bundesbank, Francfort, 1998, março, p.17-31.  
[48]Alemanha, 1947-1949: The Story in Documents , Estados Unidos – Departamento de Estado, Escritório de Assuntos Públicos, Washington DC, 1950. 
[49] Voir Federal Register, Volume 15, Partie 3, US-GPO, Washigton, 1950, pp. 1052-1055.
[50]  Joseph M. Dodge foi o desenhista, com G. Colm e R. Goldsmith, da reforma monetária destinada a estabilizar a situação monetária em 1945-1946.Kindleberger CP,Uma História Financeira da Europa Ocidental , Londres-Nova York, Routledge, 1984, pp.412-413.Veja tambémAlemanha, 1947-1949: The Story in Documents , op.cit., Pp.492 e ssq.  
[51]  Dickhaus, M., «Mãe adotiva do“ Banco que governa a Europa ”: o Bank deutscher Länder, o Banco da Inglaterra e a Allied Banking Commission», op.cit., P.301
[52]  Distel, J.,O estabelecimento do sistema de bancos centrais da Alemanha Ocidental com o banco 
deutscher Länder , [O estabelecimento do sistema de bancos centrais da Alemanha Ocidental com o bancode Lander ] Tübingen, Mohr Siebeck, 2003.
[53]  Bibow J.,Investigando as origens intelectuais do regime de política macroeconômica da Eurolândia: instituições e tradições de bancos centrais na Alemanha Ocidental após a guerra , op.cit. 
[54]  Eucken, W.,Grundsätze der Wirtschaftspolitik , [Princípios de Política Econômica] Tübingen, Zurique, 1952. Agradeço aos colegas do March Bloch Center, em Berlim, por me fornecerem uma tradução deste livro. 
[55]  Rieter, H. et Schmolz, M., «As idéias do ordoliberlismo alemão 1938-45: apontando o caminho para uma nova ordem econômica», noEuropean Journal of the History of Economic Thought , Vol.1 (1), 1993, pp. 87-114. 
[56]  Voir Bernholz, P., «OrdoLiberals and the Control of the Money Supply», em A. Peacock e H. Willgerodt (eds)Neoliberais alemães e na economia social de mercado , St. Martin’s Press, Nova Iorque, 1989 . 
[57]  Ponto destacado por Aglietta M.,Zona Euro – Eclatement ou Fédération , Paris, Michalon, 2012. 
[58]  Sapir J.,Les Economistes contre la Démocratie , Paris, Albin Michel, 2002. 
[59]  Sapir J.,Soberania, Democracia, Secularismo , Paris, Michalon, 2016. 
[60]  Aguado, IG, «A Crise do Creditansalt de 1931 e o fracasso do projeto da união aduaneira austro-alemã.»NoThe Historical Journal vol.44, n. ° 1, 2001, pp. 199-221.  
[61]  Cottrell, PL, ed.,Reconstruindo os sistemas financeiros na Europa Central e Oriental, 1918-1994 , Aldershot, Scolar, 1997. Voir aussi, Eigner, P., «No Centro da Europa: Viena como um centro financeiro 1873-1913.»Em Feldman GD, Hertner P., (Edits.),Finanças e Modernização: uma perspectiva transnacional e transcontinental para os séculos XIX e XX , Associação Européia Bancária para e História Financeira.Aldershot-Burlington, Ashgate, 2008.  
[62]  Feldman, GD, «Bancos e bancos na Alemanha após a Primeira Guerra Mundial: estratégias e defesa.»Em Cassis Y., (Ed.),Finance and Financiers in European History, 1880-1960 , Cambridge-Nova York: Cambridge University Press Paris e Edições da Maison des Sciences de l’homme, 1994. 
[63]  Cottrell, PL, Cogumelos e dinossauros: Sieghart e Boden-Credit-Anstalt durante a década de 1920.»Em A. Teichova, TR Gourvish, Á.Pogány e PL CottrellUniversal Banking no século XX, Finanças, Indústria e Estado na Europa Central e do Norte , editada por Aldershot, Inglaterra-Brookfield, Edward Elgar, 1994. 
[64]  Schubert A.,The Credit-Anstalt Crisis, de 1931 , Cambridge University Press, Cambridge, 1991. 
[65]  FA Hayek,Lei, Legislação e Liberdade – vol.3 A ordem política de um povo livre , Chicago, University of Chicago Press, 1981. 
[66]  Idem, pp.41-44.
[67]  Sapir J., “A Ordem Democrática e as Aporias do liberalismo”, emModern Times , nº 610, setembro-novembro de 2000, p.309-331 
[68]  Sunstein CR, «Constituições e Democracias: um epílogo», em Elster J. & R. Slagstad,Constitucionalismo e Democracia , Cambridge University Press, Cambridge, 1993 (1988), pp. 327-356. 
[69]  Jefferson T., «Notas sobre o Estado da Virgínia», emWritngs – editado por M. Peterson , Biblioteca da América, Nova York, 1984. J. Locke,Dois Tratados de Governos , Mentor, Nova York, 1965, Livre II, cap.8)  
[70]  Holmes S., «Gag-Rules ou the policy of omission», em J. Elster e R. Slagstad,Constitucionalismo e Democracia , op.cit., Pp. 19-58. 
[71]  Burguês I., “A constitucionalização da ordem econômica.50 anos do Bundesverfassungsgericht “, emInsights sobre a economia alemã , n ° 92, julho de 2009 
[72]  «As decisões do BCE relativas ao programa de compras do setor público excedem as competências da UE», acórdão de 5 de maio de 2020, Karlsruhe,https://www.bundesverfassungsgericht.de/SharedDocs/Pressemitt 
[73]  Ver “Comunicado de imprensa” n ° 58/20, de 8 de maio de 2020, Luxemburgo.
[74]  Ver “Protocolo relativo aos estatutos do sistema europeu do Banco Central e do Banco Central Europeu”,https://www.ecb.europa.eu/ecb/legal/pdf/fr_statute_2.pdf. 
[75]  Müller-Graff PM., “Julgamento de Karlsruhe sobre o MES”, emInsights sobre a economia alemã , n ° 106 |2012, pp.5-15 
[76]  art.5, § 2 do Tratado UE.
[77]  Fisahn A., “Karlsruhe e as compras de títulos do BCE”, emMacroscop , 8 de maio de 2020,https://makoskop.eu/2020/05/karsruhe-und-die-anleihekaeufe-der-ezb/ , Texte traduit por Peter Wahl e Michele Mialane, que é o nome de mim na comunicação.  
[79]  Fisahn A., “Karlsruhe e as compras de títulos do BCE”, emMacroscop , op.cit. 
[81]  Müller-Graff PM., “Julgamento de Karlsruhe sobre o MES”, op.cit.
[83]  Ver H. Haenel, “Relatório de Informações” nº 119, Senado, Sessão Ordinária 2009-2010, Paris, 2009.
[84]  MF.Garaud,Impostures Politiques , Paris, Plon, 2010, pp.57-58. 
[85]  Este último estava contente, e não é nada, recomprar (comprar, mas com uma cláusula de recompra assinada pelo ex-titular) dos títulos de dívida dos bancos, a fim de fornecer liquidez a o último e para impedir que as taxas de juros subam muito rapidamente.Desde a primavera de 2010, portanto, resgatou 150 bilhões de títulos gregos, irlandeses, portugueses, espanhóis e italianos.
[87]  Mesmo título 143.
[88]  Bechtel MF, O julgamento de 30 de junho de 2009 do tribunal constitucional e da Europa: uma revolução legal?https://www.fondation-res-publica.org/L-arret-du-30-juin-2009-de-la-cour-constitutionnelle-et-l-Europe-une-revolution-juridique_a431.html 
[90]  Vauchez A.,Democratizing Europe , Paris, Seuil, coll.“A República das Ideias”, 2014, 112 p 
[91]  Habermas J.,Constituição da Europa , Paris, Gallimard, NRF-Essais, (2011), 2012 para a tradução em francês. 
[92]  Idem, p.69
[93]  Idem, p.14º
[94]  Idem, p.114
[95]  Idem p.125º
[96]  Vauchez A.,Union through law, A invenção de um programa institucional para a Europa , Paris, Presses de Sciences Po., 2013. 
[97]  Hoang-Ngoc, L. (Dir),Les Mystères da Troïka , Paris, edições du Croquant, 2014. 
[98]  Sapir J.,Economists against democracia , op.cit. 
[99]  Vauchez A.,Democratizing Europe , op.cit., p.86 
[100]  Ver, por exemplo, Hennete S., Piketty T., Sacriste G., Vauchez A.,Para um tratado para a democratização da Europa , Paris, Le Seuil, 2017. 
[102]  Sapir J.,Soberania, Democracia, Secularismo , op.cit. 
[104]  Este artigo contém a seguinte formulação concisa: ”Os procedimentos para reuniões entre ministros dos Estados-Membros cuja moeda é o euro são fixados pelo protocolo do Eurogrupo.  
[105] Protocole no. 14 sur l’Euro Group (Protocol no. 14).
[107]  Voir, Craig, PP, O Tratado de Estabilidade, Coordenação e Governança: Princípio, Política e Pragmatismo, emOxford Legal Studies Research Paper No. 47/2012, 2012.  
[108]  Piris JC.,O futuro da Europa: rumo a uma UE de duas velocidades?, Cambridge: Cambridge University Press, 2012. 
[109]  Platon S., «Seção Especial – Democratização da Área do Euro através de um Tratado?»In European Papers – Revista de Direito e Integração , vol.3, 2018, n.o 1. 

 

[111]  Craig P., «Tratado de Estabilidade, Coordenação e Governança: Princípio, Política e Pragmatismo», emEuropean Law Review , vol.37, n ° 3, 2012, pp. 231-248, p.239 
 

L’arrêt de la cour de Karlsruhe et l’indépendance des Banques Centrales, par Jacques Sapir

Via: FOICEBOOK https://bit.ly/2XTtXWj

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https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/06/01/a-independencia-dos-bancos-centrais/

Merkel rejeita convite de Trump para participar do G7 presencialmente

A chanceler alemã, Angela Merkel, durante uma coletiva de imprensa para falar sobre o novo coronavírus.
© AP Photo / Markus Schreiber

A chanceler alemã Angela Merkel rejeitou o convite do líder norte-americano, Donald Trump, para participar da cúpula do G7 pessoalmente. A informação foi divulgada pelo porta-voz do governo alemão, Steffen Seibert.

"A chanceler federal [Angela Merkel] aprecia o convite do presidente Trump à cúpula do G7 no final de junho em Washington. No momento, considerando a situação geral da pandemia, ela não pode confirmar sua participação pessoal ou sua viagem a Washington", disse Seibert.

A cúpula do G7 foi originalmente agendada para o período entre 10 e 12 de junho, e posteriormente foi adiada para o final de junho.

Na semana passada, Trump disse a repórteres que a reunião provavelmente ocorrerá na Casa Branca, embora parte da cúpula possa ser realizada em Camp David.

Atualmente, os Estados Unidos são o país mais afetado pela expansão da COVID-19. Até o momento, mais de 1,7 milhão de casos de coronavírus foram confirmados nos EUA, sendo que mais de 102.700 pessoas morreram.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2020053015639967-merkel-rejeita-convite-de-trump-para-participar-do-g7-presencialmente/

Na Alemanha, os primeiros recuperados já estão a perder a imunidade à covid-19

 

Passados três meses, os primeiros recuperados da Alemanha estão já a perder a imunidade à covid-19, de acordo com o médico que tratou os primeiros casos de infeção no país.

 

Clemens Wendtner, médico que tratou os primeiros casos de infeção pelo novo coronavírus na Alemanha, disse, em entrevista ao jornal espanhol El País, que tem observado “em alguns casos uma diminuição dos anticorpos neutralizadores”.

Segundo o médido, nenhum dos recuperados que ficou infetado em janeiro sofreu sequelas severas que todos os testes de anticorpos são reativos até agora. No entanto, passados três meses, “já vemos um potencial défice na imunidade”.

Questionado sobre o que isto pode significa para a saúde pública, Clemens Wendtner disse que só se saberá quão resistente é a imunidade se os recuperados voltarem a ter covid-19. No entanto, com menos anticorpos neutralizadores, há também menos proteção. “Existe um risco potencial de alguns desses pacientes serem reinfetados”, garantiu.

Segundo este médico, estes dados “importantes e procupantes” mostram que será difícil desenvolver uma vacina.

Em relação à evolução da doença nos meses de verão, Clemens Wendtner disse que o vírus deverá ter maior dificuldade em propagar-se no verão por causa dos “raios ultravioletas”. Com a chegada do outono, o frio e a humidade voltarão a aumentar o perigo de novos surtos.

As autópsias às vítimas mortais da covid-19 da Alemanha estão a revelar o comportamento do vírus no organismo humano. Além das inflamações nos pulmões, os médicos encontraram microtrombos, inflamações no fígado e nos gânglios linfáticos.

A Alemanha regista, no total, 180.458 infetados e 8.450 vítimas mortais por covid-19. O país começou o desconfinamento no início do mês, mas a taxa de contágio voltou a subir. Angela Merkel avisou que, se uma cidade registar mais de 50 novas infeções por 100 mil habitantes ao longo de sete dias, medidas mais rígidas de contenção deverão ser adotadas, afastando a possibilidade de um segundo confinamento a nível nacional.

ZAP //

 

 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/alemanha-recuperados-perder-imunidade-327227

Mais de 300 pessoas são detidas na Alemanha durante protestos contra o isolamento social

Em frente ao Reichstag, em Berlim, policiais com máscaras detém um manifestante que protestava contra as medidas de isolamento social na Alemanha durante a pandemia da COVID-19.
© REUTERS / Fabrizio Bensch

A polícia alemã prendeu cerca de 300 pessoas por violação das regras de distanciamento social durante manifestações no domingo (17), em Berlim, para protestar contra as restrições sociais impostas no país para o controle da pandemia do novo coronavírus.

"No geral, mais de 300 pessoas foram detidas e investigações sobre violações da ordem pública foram iniciadas", afirmou a polícia em comunicado, acrescentando que todas, menos duas, foram libertadas.

Ao todo, 19 manifestações foram realizadas na capital alemã, um número abaixo dos 21 protestos registrados no sábado (15). A Alemanha impôs regras sanitárias proibindo reuniões com mais de 50 pessoas, o que tem causado detenções em protestos realizados no país. Manifestações semelhantes ocorreram também no final de semana anterior.

As manifestações tiveram confrontos com a polícias, sendo que cinco policiais ficaram feridos, incluindo um policial que precisou de hospitalização.

Um manifestante é detido por policiais na Alemanha durante um protesto em Berlim em 9 de maio de 2020, em meio à pandemia da COVID-19.

© REUTERS / Christian Mang
Um manifestante é detido por policiais na Alemanha durante um protesto em Berlim em 9 de maio de 2020, em meio à pandemia da COVID-19.

Os manifestantes protestam contra o bloqueio imposto a partir de 21 de abril, quando o governo federal começou a diminuir as restrições impostas para limitar a propagação do vírus durante a pandemia. O Ministério do Interior do país alertou sobre radicais de direita que tentam usar a crise para alcançar objetivos particulares.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2020051815591904-mais-de-300-pessoas-sao-detidas-na-alemanha-durante-protestos-contra-o-isolamento-social/

Deutsche Bahn

Qualquer dia é o Deutch Bank

O grupo ferroviário pode perder entre 11 e 13,5 bilhões de euros no período 2020-2024, de acordo com um “cenário de base” desenvolvido pelo governo alemão.

O governo alemão planeia recapitalizar até vários bilhões de euros o grupo ferroviário Deutsche Bahn, do qual é o único acionista, para compensar as perdas relacionadas à pandemia de coronavrius, apurou a AFP na segunda-feira.

A Deutsche Bahn poderia receber entre “6,9 e 8,4 bilhões de euros” de Berlim para superar suas dificuldades, causadas por uma queda drástica no uso de seus comboios, de acordo com um documento de trabalho consultado pela AFP.

O grupo pode perder entre 11 e 13,5 bilhões de euros no período 2020-2024, de acordo com um “cenário de base” desenvolvido pelo governo alemão.

 

 

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/05/11/deutch-bahn/

Alemanha registra 357 casos de COVID-19 e se aproxima de 170 mil no total

Funcionários com trajes de proteção contra o coronavírus diante de um hospital na Alemanha.
© AP Photo / Klaus-Dietmar Gabbert

Nesta segunda-feira (11), a Alemanha confirmou 357 novos casos de COVID-19, todos registrados nas últimas 24 horas, segundo informou o Instituto Robert Koch.

Com os novos casos registrados, o número total de pessoas infectadas chegou a 169.575. No dia anterior, foram registrados 667 novos casos.

No mesmo período foram registrados 22 mortos, com o número de mortes relacionadas à COVID-19 chegando a 7.417 no país. No dia anterior, foram registrados 26 mortes causadas pela doença na Alemanha.

Mais de 145,6 mil pacientes com COVID-19 se recuperaram na Alemanha atualmente.

A região Baviera é a mais atingida pela doença no território alemão, com 44.368 casos confirmados. Logo em seguida vêm a região da Renânia do Norte-Vestfália, com 35.132 casos e a região de Baden-Wrttemberg, com 33.190.

A capital alemão, Berlim, registrou 6.272 casos COVID-19 desde que a pandemia chegou ao país.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2020051115565267-alemanha-registra-357-casos-de-covid-19-e-se-aproxima-de-170-mil-no-total/

A inútil grandeza das nações

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 09/05/2020)

Miguel Sousa Tavares

A Alemanha deu muito à Europa: poetas, romancistas, músicos, maestros, pintores, filósofos, estadistas, inventores, cientistas, médicos, desportistas. E a Alemanha fez muito mal à Europa: devastou-a duas vezes, do Atlântico a Moscovo, no século passado. Da primeira vez, já ninguém se lembra ou é capaz de explicar porquê, não fosse para testar a superioridades dos canhões Krupp. Da segunda vez, para vingar a rendição humilhante de Versalhes, mas também, é forçoso reconhecê-lo, para testar a crença na superioridade da raça alemã, mobilizada por um medíocre líder, mas superiormente proposta nas imagens de Leni Riefenstahl. Mas, após 1945, uma Europa destruída pela demência alemã foi generosa perante uma Alemanha vencida e igualmente destruída. Os exércitos aliados vencedores detiveram o Exército Vermelho a meio do território alemão e, numa Berlim isolada e sitiada pelos russos, montaram uma inédita e incansável ponte aérea, que permitiu que o estatuto de Berlim Ocidental livre e a República Federal Alemã pudessem viver e prosperar durante 35 anos fora da Cortina de Ferro. O Plano Marshall, dos americanos, permitiu à Alemanha, em pé de igualdade com as nações que Hitler havia ocupado e destruído, começar a reerguer-se das ruínas da guerra. Os empréstimos que então lhe foram concedidos, contendo uma cláusula que lhe permitia ir amortizando-os apenas à medida que cresciam as suas exportações, garantiu-lhe não ser sufocada pelo serviço da dívida — como, por exemplo, Portugal e a Grécia foram na crise de 2008-14 — e, simultaneamente, fundar a sua reconstrução económica no sector exportador, fazendo dela a potência que hoje é nesse campo. Ao mesmo tempo que, proibida de deter Forças Armadas, pôde canalizar todo o investimento público para a economia e o sector social, tornando-se uma das maiores potências económicas mundiais. Enfim, a criação da então Comunidade Económica Europeia, de que a RFA foi um dos seis membros fundadores, pela mão de Konrad Adenauer — que, juntamente com Willy Brandt e Helmut Schmidt, foi um dos três grandes estadistas alemães e europeus do século XX —, deu à Alemanha um mercado comum, isento de tarifas, para escoar os seus produtos.

<span class="creditofoto">ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO</span>
ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

Vem isto a propósito da infame sentença do muito venerado internamente Tribunal Constitucional alemão, de Karlsruhe, conhecida esta terça-feira. O Tribunal julgou e deu razão a uma queixa apresentada em 2015 (não estamos sós nos atrasos judiciais!) por um “clube de elite” de cerca de 2 mil juristas, economistas e outros alemães de bem com a vida que invocavam a violação do “princípio da proporcionalidade”, inscrito na Constituição alemã, pelo facto de o Banco Central Europeu ter então decidido acorrer à crise das dívidas soberanas comprando quantidades imensas destas, de modo a evitar a total falência dos Estados endividados. Foi o chamado quantitive easing, de Mario Draghi, na sequência do que também a Reserva Federal americana havia feito e que, junto com a célebre frase de Draghi (“farei tudo o que for necessário”), permitiu salvar o euro e evitar que a Europa do euro entrasse na modalidade do “salve-se quem puder”. E é claro que os alemães podiam: enquanto os juros da dívida pública portuguesa escalavam até aos 12% e os da grega até aos 20%, os da dívida alemã mantinham taxas negativas — os investidores pagavam para ter dívida alemã. Tal qual como agora, assim que foi conhecida a sentença do Tribunal Constitucional alemão: os juros de todos os países do sul da Europa, os mais endividados, deram imediatamente um salto para cima, com destaque para a Itália, enquanto os juros da Alemanha recuavam para terreno ainda mais negativo. Porque os investidores desconfiam, e provavelmente com razão, que se o Tribunal alemão põe em causa as compras de dívida do BCE feitas no passado, também irá pôr em causa as mesmas compras já anunciadas agora e já em marcha pelo mesmo BCE. Ou seja: como é assim que o casino funciona, aqueles juízes, pomposamente vestidos com um traje misto de esbirros do Tribunal do Santo Ofício e Teatro de Marionetes, estavam candidamente a ler uma sentença que tinha o dom de dar uma inestimável ajuda às empresas e à economia alemã, já de si a mais rica da Europa, ao mesmo tempo que ajudavam a tornar ainda mais insuportável a vida actual de milhares de empresas e milhões de trabalhadores que se debatem com uma situação de crise inimaginável, para a qual em nada são responsáveis. Assim é fácil, como se diz na gíria e passe o palavrão, “cagar sentenças”.

Resumindo e relembrando: a Europa, que a Alemanha destruiu duas vezes num século, foi capaz de lhe perdoar, de a salvar de cair sob a bota de Estaline e deu-lhe os recursos financeiros e as condições para se reconstruir. E a União Europeia deu-lhe o mercado que fez dela o país mais rico da Europa. Certamente que também houve muito mérito dos alemães, da sua lendária capacidade de organização, de trabalho e de resiliência.

Mas há um problema histórico com os alemães: entregues a si próprios e aos seus demónios, eles têm uma tendência para a autodestruição. Pelo contrário, em 75 anos de resgate europeu, a Alemanha viveu o seu mais longo período de paz e de prosperidade. Deve-o aos Estados Unidos, que lhe garantiram a paz, e à Europa, que lhe garantiu a prosperidade.

Mas acontece ainda que a Alemanha é membro da UE e membro do Eurogrupo e de ambas as condições tem retirado benefícios como nenhum outro. Porém, são inúmeras as ocasiões em que políticas de interesse comum ou, pelo menos, largamente maioritário, esbarram nas invocadas “impossibilidades constitucionais alemães”, de natureza económica: a Constituição não lhe permite ter inflação, não lhe permite ter défices, não lhe permite ser solidária com os outros ou consentir que instituições comunitárias, como o BCE, tomem decisões que indirectamente acabam por convocar a solidariedade financeira alemã, em violação do “princípio da proporcionalidade”. E, então, nessas ocasiões, os juízes de Karlsruhe e muitos outros alemães cujas ideias eles reflectem, esquecem-se que o seu país pertence a uma organização que reúne 25 outras nações, ligadas por algumas leis comuns, um parlamento comum, um conselho de governantes comum, uma comissão executiva comum e um tribunal comum — cujas sentenças e cuja legislação aplicável está acima das venerandas casacas vermelhas dos juízes de Karlsruhe. Se é que a Alemanha quer continuar a pertencer à União Europeia. E eu acho que quer, porque as alternativas — os Estados Unidos, de Trump, a Rússia, de Putin, ou esta China, que estamos a descobrir, assustados — não só não são atractivas, como não lhe consentiriam nada semelhante ao papel de liderança que tem na Europa.

Não esqueço que a Alemanha foi determinante na ajuda a Portugal para a estabilização da democracia a seguir ao 25 de Abril, quando Cunhal garantia a Oriana Fallaci que jamais teríamos aqui “uma democracia burguesa”. E não esqueço também que a Alemanha é hoje o maior contribuinte líquido para a UE, mas é natural que o seja porque é a nação mais rica dos 26 e porque não é do seu interesse que mercados importadores dos seus bens vão à falência. Podemos todos, aqui no sul, voltar a andar em modelos populares dos tempos de hoje, como os Seat Ibiza, os Fiat 127 e os Renault 5 de outrora, mas não creio que os alemães gostassem. É difícil explicar isto a um finlandês ou a um holandês, mas a um alemão não devia ser. Lembra-me de um jantar a que fui na embaixada alemã em Lisboa, na época da outra crise. Fiquei sentado ao lado de um alto responsável do Bundestag que, a certa altura, me perguntou, naquele tom desagradável de quem vai dar lições a um menino mal comportado e como se eu, pessoalmente, lhe devesse dinheiro:

— Mas, afinal, como é que vocês se endividaram assim?

Fazendo o meu melhor para me conter, respondi:

— Olhe, reparou nos carros que estavam lá fora, à entrada da embaixada?

— Não.

— Eu reparei: BMW, Mercedes, Audi. Foi assim, em grande parte, que nos endividámos: a comprar-vos carros e outras coisas, a crédito. Crédito vendido pelos bancos alemães aos nossos bancos. A nossa ruína é a vossa fortuna.

Não se trata de querer aplicar à Alemanha a célebre receita para a prosperidade económica de Mariana Mortágua: “Perder a vergonha de ir buscar o dinheiro onde ele está.” Aliás, nem teríamos armas para o assalto. Mas trata-se de insistir e insistir e insistir em fazer ver aos alemães que aquilo em que eles são europeus é muito melhor do que aquilo em que são apenas alemães. Como todos nós, pois esse é o projecto e o destino da União Europeia. Esse ou nenhum outro.

PS 1. Ah, grande ciganito, grande Ricardo Quaresma! Eu, como todos os portistas, sempre venerei este génio da bola, vibrei com as suas fintas, os seus golos que desafiavam a geometria, indignei-me com os truques de secretaria levados a cabo para o tirar do jogo. Mas este golaço que ele agora marcou na capoeira escancarada do galo Ventura, deixando-o no fundo das redes, depenado, esganiçado, ridículo, esbracejando de impotente réplica — ao ponto de apelar às “autoridades” que calassem quem assim o expôs à humilhação pública — este, caro Ricardo Quaresma, foi um golo de levantar o estádio!

PS 2. Foi comovente assistir à forma como o poder político assinalou o primeiro dia dedicado à Língua Portuguesa no mundo. Quatro assessores de outros tantos ministros escreveram-lhes um texto conjunto carregado daquelas banalidades patrióticas que em nada de substancial diferem das do antigamente, e logo acrescentadas por outras banalidades semelhantes de Costa e Marcelo. Mas a única homenagem e o único serviço que poderiam prestar à língua portuguesa e que é há décadas reclamado pela imensa maioria dos que, em Portugal, a utilizam e a defendem — a revogação desse vergonhoso Acordo Ortográfico de 1980, imposto à traição a todos os portugueses por um grupo de sábios desocupados — esse, como sempre, ficou adiado. Por inércia, por cobardia, por falta de visão. Mas, sobretudo, por falta de amor a esta língua maravilhosa que os nossos pais e avós nos deixaram para nos servir e para nós defendermos. Para o ano, por favor, poupem-nos a igual hipocrisia.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Justiça alemã faz ultimato de 90 dias ao BCE. Comissão Europeia reagiu

(Comentário:
Como diria um 'velho' autor quem manda na União Europeia é a Alemanha e quem manda na Alemanha é a grande burguesia alemã, donde...)
 

 

O Tribunal Constitucional alemão exigiu, esta terça-feira, ao Banco Central Europeu (BCE) para, no prazo de três meses, justificar a conformidade do seu mandato para as vastas compras de dívida, numa sentença com implicações incertas.

 

O banco central alemão será proibido de participar neste programa anti-crise, que ainda ganhou mais amplitude devido à pandemia da covid-19, se “o Conselho do BCE” falhar em demonstrar “de maneira compreensiva e substancial” “que não excedeu os tratados europeus”, decidiu a jurisdição suprema alemã.

O Tribunal Constitucional alemão pronunciou-se sobre o programa de compra de ativos do BCE e que será a base de um dos eixos de combate à pandemia de covid-19, no valor de 750 mil milhões de euros.

Os juízes de Karlsruhe pronunciam-se sobre os “Asset Purchase Programs” (APP) criados por Mario Draghi entre 2015 e 2019 depois de um grupo de dois mil queixosos, encabeçado por economistas e professores de Direito, terem dado início a este processo por duvidarem que o programa respeite a lei fundamental alemã.

Em causa pode ficar o ‘Pandemic Emergency Purchase Program‘ (PEPP), lançado pela presidente do BCE, Christine Lagarde, na sequência dos APP, um pacote de 750 mil milhões de euros de combate à crise provocada pela pandemia.

Os especialistas argumentam que a compra de ativos é ilegal por se tratar de financiamento monetário dos Estados-membros, uma vez que cada um dos bancos centrais da zona euro compra, com o apoio do BCE, dívida emitida pelos respetivos Estados.

Esta prática está proibida nos tratados europeus, mas o BCE argumenta que os bancos centrais da zona euro, ao comprar a dívida no mercado secundário, e não diretamente aos Estados-membros, não está a cometer qualquer ilegalidade.

Em 2017, o Tribunal Constitucional, assumiu ter dúvidas de que a compra de ativos fosse compatível com a proibição de financiamento monetário, reencaminhando a sentença para o Tribunal de Justiça Europeu (TJE).

O TJE pronunciou-se a favor do BCE e cabe agora à entidade máxima de justiça alemã interpretar a sentença à luz da sua Constituição.

Entretanto, Bruxelas respondeu à sentença do tribunal alemão, dando um ultimato de 90 dias ao Banco Central Europeu. A Comissão Europeia reagiu à sentença não acatandouma decisão anterior do Tribunal de Justiça da União Europeia sobre a legalidade do programa de compra de dívida pública.

De acordo com o Expresso, que cita o porta-voz da Comissão, Bruxelas considera que “independentemente da análise em detalhe da decisão de hoje do Tribunal Constitucional alemão, reafirmamos a primazia da lei da União Europeia e o facto de que as decisões do Tribunal de Justiça Europeu são vinculativas para todos os tribunais nacionais”.

Ainda segundo o diário, o BCE “está a analisar a decisão e irá comentá-la oportunamente”, adiantou fonte do banco central em Frankfurt.

ZAP // Lusa

 
 
 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/justica-alema-90-dias-bce-322736

Síria, Iémen e Irão condenam «submissão» da Alemanha a Washington e Telavive

Representantes dos governos sírio, iemenita e iraniano condenaram a decisão das autoridades alemãs de incluir o movimento de resistência libanês Hezbollah na «lista negra de organizações terroristas».

Combatentes do Hezbollah colocam bandeiras do movimento de resistência e do Líbano em Yarud Arsal, em Agosto de 2017, depois da vitória sobre o DaeshCréditos / Middle East Eye

«A República Árabe da Síria condena da forma mais veemente a decisão de Berlim de incluir o Hezbollah na lista negra», disse um representante do Ministério sírio dos Negócios Estrangeiros à agência SANA esta quinta-feira.

As declarações foram feitas depois de, nesse dia, o ministro alemão do Interior, Horst Seehofer, ter proibido a actividade daquilo que designou como «organização terrorista xiita» Hezbollah no país europeu e ter ordenado várias operações policiais contra locais alegadamente ligados ao movimento de resistência.

A medida é uma «medalha de honra», uma vez que «efectivamente reconhece o papel destacado do Hezbollah» ao afrontar «os esquemas sionistas e ocidentais na região», disse ainda à SANA o representante da diplomacia síria, sublinhando que a decisão evidencia «a submissão da Alemanha ao "sionismo mundial"».

 

A «proibição» do Hezbollah era exigida por Israel e pelos Estados Unidos. Em Dezembro último, o Parlamento alemão aprovou uma moção em que instava o governo da chanceler Angela Merkel a banir quaisquer actividades do Hezbollah em território alemão.

Antes, o Secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, tinha afirmado numa viagem à Alemanha que esperava que o país seguisse as passadas do Reino Unido – havia ilegalizado o movimento de resistência libanês em Fevereiro.

«A Alemanha adere cegamente às maquinações destrutivas de EUA e Israel»

O governo iemenita e o movimento popular Huti Ansarullah também classificaram a medida de Berlim como um sinal da sua «submissão a Washington e Telavive», informa a PressTV.

 

O Ministério da Informação do Iémen referiu-se à decisão como «injusta» e «alinhada» com os objectivos dos EUA e Israel. Por seu lado, a comissão política do Ansarullah emitiu um comunicado em que acusa a «Alemanha de aceder à vontade de norte-americanos e israelitas ao normalizar o sionismo e opor-se às nações livres que procuram resistir à tirania e arrogância globais».

Há mais de cinco anos que o Ansarullah faz frente à guerra de agressão que a coligação liderada pelos sauditas lançou contra o povo iemenita – com forte apoio ocidental, incluindo o da Alemanha, cujas empresas de armamento lucraram milhares de milhões em vendas ao valioso parceiro saudita. O movimento popular reafirmou o apoio ao Hezbollah e instou os países árabes e muçulmanos a repudiarem a decisão de Berlim.

Irão condena decisão alemã de «absoluta imprudência»

O porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Abbas Mousavi, disse que, «ao que parece, os países europeus tomam posições sem ter em conta as realidades da região da Ásia Ocidental e apoiam-se na máquina propagandística do regime sionista e do confuso governo norte-americano».

A «decisão alemã não respeita o governo e o Líbano, pois o Hezbollah faz parte do executivo e do Parlamento» desse país, afirmou Mousavi, que acusou o governo da Alemanha de mostrar uma «total imprudência» ao ir contra «uma força-chave na luta contra o grupo terrorista Daesh», refere a Prensa Latina.

O Hezbollah integra o conjunto de forças aliadas que, na Síria, combateram o terrorismo alimentado ao longo da guerra de agressão imperialista pelos EUA, as potências ocidentais, as petro-ditaduras do Golfo, a Turquia e Israel.

Logo na quinta-feira, o ministro israelita dos Negócios Estrangeiros, Israel Katz, louvou efusivamente a decisão alemã, que classificou como «muito importante», insistindo na necessidade de os outros países da UE fazerem o mesmo.

O movimento de resistência libanês goza de grande prestígio – e popularidade – no mundo árabe e fora dele, entre outros aspectos, pelo papel decisivo que teve na luta contra o terrorismo na Síria e no Médio Oriente, e por ter expulsado o todo poderoso Exército israelita do Sul do Líbano, em 2006.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/siria-iemen-e-irao-condenam-submissao-da-alemanha-washington-e-telavive

"Crise do coronavírus é o maior teste da história da UE", diz Merkel

 
 
Chanceler federal alemã afirma que pandemia representa desafio para todos os países do bloco e defende programa europeu de revitalização da economia. Merkel diz que Alemanha está pronta para fazer sua parte.
 
A chanceler federal da Alemanha, Angela Merkel, afirmou nesta segunda-feira (06/04) que a crise provocada pelo novo coronavírus é o "maior teste" enfrentado pela União Europeia (EU) desde a criação do bloco. A líder alemã comparou ainda a pandemia a uma catástrofe natural.
 
Segundo Merkel, todos os países europeus enfrentam desafios para a saúde de seus cidadãos, mas o maior teste será "mostrar que nós estamos prontos para defender nossa Europa e fortalecê-la", por meio de assistência financeira aos Estados-membros, proporcionada através de linhas de crédito já existentes ou de um fundo que foi sugerido pela Comissão Europeia, por exemplo.
 
A chanceler federal destacou que a UE necessitará de um programa de revitalização da economia. "A Alemanha está pronta para contribuir neste aspecto", ressaltou, porém, sem se referir a uma proposta defendida por Itália, França e Espanha.
 
 
Fortemente atingidos pela pandemia, a Itália, França e Espanha têm implorado à Alemanha, Áustria e Holanda para que aceitem a proposta da criação de linhas de crédito comuns a todos os países do bloco para enfrentar os impactos económicos da covid-19. Os governos conservadores do norte do continente temem, no entanto, que os planos signifiquem uma mutualização das dívidas soberanas e que seus contribuintes acabem pagando a conta por supostas extravagâncias do sul.
 
Na coletiva, Merkel afirmou ainda que não há uma data para um afrouxamento das medidas restritivas impostas na Alemanha e que elas continuam em vigor a até pelo menos 19 de abril. Segundo a chanceler, a pior situação que poderia ocorrer durante a pandemia seria o relaxamento das medidas cedo demais para depois ter que impor restrições novamente em meio a um aumento das mortes em decorrência do coronavírus.
 
Questionada sobre acusações de que os Estados Unidos estariam retendo itens médicos destinados a outros países, Merkel disse que a Alemanha, ou qualquer outro país da Europa, precisa investir na produção interna de equipamentos de proteção individual.
 
"É importante, com a experiência desta pandemia, aprendermos que precisamos de certa soberania, ou de pelo menos um pilar de produção interna", destacou Merkel.
 
Autoridades da França e da Alemanha afirmaram que os EUA estão pagando valores muito acima do preço do mercado para comprar máscaras médicas da China, maior produtora desses itens no mundo. Em alguns casos, eles estariam "roubando" contratos ao oferecer valores mais altos, mesmo depois de compradores europeus acreditarem que a compra já estava acertada, ou inclusive já terem pago por ela.
 
Merkel disse também o governo alemão deseja impor uma quarentena obrigatória de duas semanas a todos os que chegam do exterior, abrindo, no entanto, uma exceção para quem trabalha em outros países europeus, mas mora na Alemanha.
 
Deutsche Welle | CN/afp/rtr/dpa
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/04/crise-do-coronavirus-e-o-maior-teste-da.html

Alemanha adota estratégia sul-coreana no combate ao coronavírus

Funcionários com trajes de proteção contra o coronavírus diante de/junto a hospital na Alemanha
© AP Photo / Klaus-Dietmar Gabbert

Alemanha decide aplicar medidas utilizadas na Coreia do Sul para deter a pandemia do coronavírus.

Frequentemente apresentada como modelo na Europa de gestão da pandemia, a Alemanha já realiza, segundo as autoridades, entre 300 mil e 500 mil testes por semana, um ritmo mais elevado que o apresentado por seus vizinhos europeus.

O governo alemão pretende aprofundar o combate ao vírus: um documento do Ministério do Interior revelado pela agência AFP descreve uma estratégia inspirada pela Coreia do Sul, com mais de 200 mil testes por dia.

Todos os pacientes que suspeitem estar infectados pela COVID-19 devem agora realizar testes, assim como todas as pessoas suspeitas de terem tido algum contato com infectados, estipula o documento. Agora, esses exames somente são realizados em pessoas doentes e que tenham estado em contato com um paciente infectado.

O documento considera a geolocalização, utilizada por Seul, como "inevitável a longo termo" para permitir à população seguir os locais onde as pessoas infectadas se encontram.

De acordo com Lothar Wieler, responsável do Instituto Robert Koch no combate contra a pandemia na Alemanha, em entrevista ao jornal FAZ, apesar das diferenças culturais entre os dois países, "a Coreia do Sul pode ser um exemplo".

Enquanto a China dá sinais de finalmente ter superado a pior fase da pandemia, a Europa luta para estabilizar um quadro desafiador. Mundialmente, foram confirmados mais 700 mil casos.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2020033015392386-alemanha-adota-estrategia-sul-coreana-no-combate-ao-coronavirus/

Ministro alemão comete suicídio por causa da crise de coronavírus

 

Jornal GGN – É destaque na imprensa internacional, neste domingo (29), que o ministro das Finanças Thomas Schaefer, do estado de Hesse, que inclui Frankfurt, foi encontrado morto com sinais de que cometeu suicídio. As autoridades locais afirmam que o motivo foi a crise de coronavírus.

O primeiro-ministro Volker Bouffier disse que Schaefer estava “profundamente preocupado” com o impacto econômico da epidemia. A informação é da agência de notícias AFP. O site Bloomberg também noticiou o caso.

Schaefer, 54 anos, foi encontrado morto próximo a uma ferrovia no sábado. A promotoria de Wiesbaden também acredita que foi suicídio.

“Hesse abriga a capital financeira da Alemanha, Frankfurt, onde grandes credores como Deutsche Bank e Commerzbank têm sua sede. O Banco Central Europeu também está localizado em Frankfurt”, publicou o site The Straits Times.

Merkel agradece alemães na luta contra COVID-19 e anuncia confinamento até 20 de abril

Chanceler alemã, Angela Merkel, durante o discurso no congresso do partido União Democrata-Cristã em Berlim
© AP Photo / Ferdinand Ostrop

Os alemães têm cumprido amplamente as regras para impedir a propagação do novo coronavírus, disse a chanceler Angela Merkel neste sábado, enquanto os casos confirmados no país continuam a subir e a paralisação não será desfeita antes de 20 de abril.

"Quando vejo hoje como quase todo mundo mudou completamente seu comportamento, como a grande maioria de vocês realmente evita qualquer contato desnecessário, precisamente porque também pode conter um risco de infecção, simplesmente gostaria de dizer: obrigado, obrigado você do fundo do meu coração", disse Merkel em seu podcast semanal.

O número de casos confirmados de coronavírus na Alemanha aumentou para 48.582 - um aumento de 6.294 no dia anterior - e 325 pessoas morreram da doença, mostraram estatísticas do Instituto Robert Koch para doenças infecciosas neste sábado.
A Alemanha fechou escolas, lojas, restaurantes, playgrounds e instalações esportivas e muitas empresas pararam a produção para ajudar a retardar a propagação da doença.

Para mitigar os efeitos econômicos da paralisação, a Alemanha concordou com um estímulo de 750 bilhões de euros (US$ 834 bilhões) e introduziu medidas como uma flexibilização das regras de insolvência e uma moratória nos pagamentos de aluguel em determinadas circunstâncias.

A ministra da Justiça da Alemanha, Christine Lambrecht, alertou neste sábado contra os cidadãos que buscam tirar vantagem ilegítima das medidas.

Primeira foto do novo coronavírus feita com microscópio eletrônico por cientistas chineses

© Foto / Arquivo nacional de microrganismos patogênicos da China
Primeira foto do novo coronavírus feita com microscópio eletrônico por cientistas chineses
"Se as empresas financeiramente fortes agora simplesmente param de pagar seus aluguéis, isso é obsceno e inaceitável", avaliou ela em comunicado.

Empresas alemãs como a empresa de artigos esportivos Adidas, a rede de varejo de eletrônicos Media-Saturn e a varejista de calçados Deichman disseram na sexta-feira que evitariam o pagamento do aluguel depois de receberem ordem para fechar suas lojas.

As medidas de desligamento não serão relaxadas antes de pelo menos 20 de abril, disse o chefe de gabinete de Merkel, Helge Braun, à edição online de Tagesspiegel neste sábado, combatendo as crescentes críticas de que o desligamento está prejudicando a economia.

Merkel afirmou em seu podcast que não está claro quanto tempo durarão os tempos difíceis.

"Preciso pedir que você seja paciente. Infelizmente, o número diário de novas infecções ainda não nos dá motivos para relaxar as regras", esclareceu ela, acrescentando que ainda estava em quarentena em casa.

Atualmente, o número de novas infecções dobrou aproximadamente a cada 5,5 dias. Embora o número de casos tenha dobrado a cada dois dias no início da pandemia, é necessária uma taxa de aproximadamente 10 dias para garantir que o sistema de saúde não fique sobrecarregado, acrescentou.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2020032815388943-merkel-agradece-alemaes-na-luta-contra-covid-19-e-anuncia-confinamento-ate-20-de-abril/

Deputado alemão chama 'ocupação' às armas nucleares dos EUA na Alemanha

 
 
Um membro do Comitê de Relações Exteriores do Bundestag, parlamento alemão, nomeou o motivo da presença das armas nucleares norte-americanas na Alemanha.
 
"As armas não foram retiradas porque a Alemanha ainda é, de fato, um país ocupado. Os americanos usam a sua posição como acham melhor", declarou Waldemar Gerdt, deputado do Comité de Relações Exteriores, em entrevista ao canal 360.
 
Segundo o deputado, Berlim tentou remover os soldados dos Estados Unidos, mas em troca recebeu a resposta de que a presença de forças americanas no território alemão deve ser vista como um ato de confiança e cooperação amigável.
 
"Ninguém vai tirar as tropas do nada. O mundo está à beira de redefinir as suas esferas de influência. É irrealista abandonar voluntariamente a influência na Alemanha. É necessário rezar para que as forças [armas nucleares] pelo menos fiquem onde estão - em armazéns", afirmou Gerdt.
 
Para o deputado, a Europa simplesmente não quer desistir por nada, por isso todos tentam proteger seus interesses políticos, mesmo no contexto da nova pandemia de coronavírus.
 
No final de 2019, o presidente da delegação do Partido de Esquerda no Bundestag, Dietmar Barch, afirmou que os EUA deveriam retirar as armas nucleares do território da Alemanha.
 
De acordo com dados disponibilizados pela mídia, cerca de 150 armas nucleares táticas dos EUA estão armazenadas na Europa.
 
O jornal belga De Morgen escreveu que as bombas estão armazenadas em seis bases americanas e europeias: na Bélgica, Alemanha, Itália, Países Baixos e Turquia.
 
Sputnik | Imagem: © flickr.com / Herman

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https://paginaglobal.blogspot.com/2020/03/deputado-alemao-classifica-como.html

Angela Merkel em quarentena após contacto com médico infetado

 
 
Notícia é conhecida no mesmo dia em que a Alemanha impõe medidas mais restritivas aos cidadãos
 
Angela Merkel entrou em quarentena este domingo, depois de ter estado em contacto com um médico infetado com coronavírus. De acordo com uma nota emitida pelo gabinete da chanceler alemã, Merkel esteve com o profissional de saúde na última sexta-feira. Nos próximos dias deverá fazer testes para identificar se foi contagiada.
 
A notícia surge no mesmo dia em que a Alemanha adotou medidas mais restritivas para evitar a disseminação do coronavírus: as pessoas ficam agora obrigadas a manter uma distância mínima de metro e meio entre si e ficam proibidos ajuntamentos de mais de duas pessoas no espaço público.
 
Angela Merkel já disse que a pandemia de covid-19 é o maior desafio que se coloca ao país desde a II Guerra Mundial. "Não existe um desafio como este desde a reunificação alemã - não, desde a Segunda Guerra Mundial - que dependa tanto da nossa ação conjunta de solidariedade", sublinhou a chanceler num discurso ao país, na passada semana, pedindo então responsabilidade aos cidadãos - "Isto é sério e é preciso que levem isto a sério".
 
Diário de Notícias | Imagem: © EPA/ARD / POOL

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https://paginaglobal.blogspot.com/2020/03/angela-merkel-em-quarentena-apos.html

Alemanha demorou demais para reagir ao coronavírus

 
 
Em relação a outros países europeus, o governo alemão tem sido lento na resposta à pandemia. Merkel desperdiçou uma oportunidade crucial e demonstrou falta de liderança em meio à crise, opina Cristina Burack.
 
Quando a pandemia do coronavírus terminar, pois é isso que vai acontecer em algum momento, me pergunto se os países olharão para trás e calcularão quantas mortes poderiam ter sido evitadas. Como poderiam ter agido de foma mais eficiente e eficaz? Quantos avôs e avós poderiam ter sido salvos? Mães e pais? Seres queridos com problemas cardíacos ou asma?
 
Em especial, eu me pergunto o que a Alemanha vai pensar. É natural, porque eu vivo aqui. Mas também o faço por o país ter deixado uma janela de oportunidade se fechar. A chanceler federal Angela Merkel demonstrou falta de liderança em sua reação ao surto viral. A Alemanha pôde ver o aterrador avanço do vírus em Estados europeus vizinhos, avaliar seu próprio futuro, mas desperdiçou a preciosa chance de evitar acabar na mesma situação.
 
Até agora, o país teve muito menos mortes por coronavírus do que seus vizinhos. Contudo cientistas alertaram que pode haver muito mais infecções do que os cerca de 10 mil casos atualmente confirmados, devido à defasagem de 14 dias até o aparecimento dos sintomas. O consenso é que os números vão subir.
 
Embora tenha um sistema de saúde robusto, a Alemanha corre o mesmo risco que a Itália enfrentou, de ter seus serviços médicos sobrecarregados por um volume de casos desencadeado por um desaceleramento inadequado da contaminação. Não é um bom sinal o atropelamento para se preparar e estar organizado que já se viu nos hospitais e centros de exames alemães, com as cifras ainda relativamente baixas.
 
 
A Alemanha registou seu primeiro caso em 27 de janeiro, porém a primeira coletiva de imprensa de Merkel sobre o vírus só veio em 11 de março, quando a Itália já estava em seu segundo dia de estado de emergência. Ela avisou que 70% da população poderia se contagiar e, apropriadamente, sublinhou a necessidade de distância social. Na última segunda-feira (16/03), com o número de casos em ascensão, anunciou uma série de medidas restritivas acordadas com governadores estaduais, a fim de tentar reduzir a velocidade de alastramento do vírus.
 
Essas medidas, contudo, ainda estão muito aquém das adotadas nos países vizinhos, muitos dos quais decretaram estado de emergência, e a Bélgica se une a eles nesta quarta-feira. Merkel apelou aos cidadãos para permanecerem em casa, mas parece que não haverá imposição legal, embora os apelos ao senso de responsabilidade individual tenham até agora sido ignorados – como prova o burburinho usual em muitos cafés, ou as festinhas particulares sendo organizadas.
 
Deixem-me ser clara: não celebro a introdução de leis de caráter marcial. Talvez uma progressão gradativa das medidas restritivas seja necessária para evitar uma rebordosa política, sobretudo num país com uma forte corrente libertária.
 
A estrutura federal alemã é igualmente um obstáculo à gestão de crise coordenada. Diversos poderes recaem sobre os 16 estados federados, o que limita a capacidade de implementar restrições de âmbito nacional. Contudo, mesmo que Merkel não disponha do poder político para agir de que dispõe o líder de um Estado mais centralizado, como a França, agir e liderar não são a mesma coisa.
 
Merkel tem sido elogiada por manter sua a calma, marca registada, e reagir atentando para os fatos científicos. Isso merece aplauso. Porém no momento a Alemanha precisa de mais do que alguém que reage racionalmente: ela precisa de um líder proativo.
 
Teria sido mais corajoso da parte da chefe de governo quebrar seu formato de "esperar até não haver mais opção e anunciar o inevitável" e adotar medidas mais abrangentes, como uma quarentena de duas semanas. Medidas mais agressivas, introduzidas mais cedo, reduziriam o risco de o país cair num cenário de pesadelo: se ele esperar até tais medidas serem claramente necessárias, será obviamente tarde demais.
 
O único ponto em que a líder conservadora alemã agiu, mandando fechar as fronteiras com diversos países Europeus, contradiz seus apelos à solidariedade na União Europeia. Alguns especialistas em saúde igualmentre questionam a eficácia de tais medidas. A transmissão do coronavírus está ocorrendo entre colegas, vizinhos, amigos, o que precisa ser defendido é a distância de um metro, não a fronteira nacional.
 
Neste exato momento, sinto que a Alemanha está perdendo o senso de unidade nacional diante de uma crise sem precedentes. O clima geral se encontra em algum ponto entre paranóia, ignorância voluntária e fatalismo de quem deseja o melhor possível.
 
Um pouco de emoção atípica da parte de Merkel poderia ter despertado um senso de propósito nacional: estes tempos extraordinários certamente merecem um tom novo extraordinário assim, da primeira-ministra estóica como uma pedra. Em vez disso, ela se eximiu de ser proativa, e perdeu uma oportunidade crucial.
 
Cristina Burack | Deutsche Welle | opinião
 

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https://paginaglobal.blogspot.com/2020/03/alemanha-demorou-demais-para-reagir-ao.html

Coronavírus coloca economia da Alemanha em "alerta vermelho"

Por Madeline Chambers e Michael Nienaber – Repórteres da Reuters

O clima entre os investidores alemães caiu em março para níveis vistos pela última vez no início da crise financeira mundial em 2008, devido ao alarme em relação ao impacto do coronavírus sobre a maior economia da Europa, mostrou uma pesquisa nesta terça-feira.

A pesquisa mensal do instituto ZEW mostrou que o sentimento econômico entre os investidores despencou para -49,5, ante 8,7 em fevereiro. Essa foi a maior queda desde o início da pesquisa em 1991. Os economistas esperavam um recuo para -26,4.

"A economia está em alerta vermelho", disse o presidente da ZEW, Achim Wambach, em comunicado, acrescentando que especialistas em finanças esperam que a economia encolha no primeiro trimestre, com uma contração também muito provável no segundo trimestre.

Um indicador separado que mede a avaliação dos investidores sobre as condições atuais da economia diminuiu de -15,7 para -43,1. Analistas previam uma leitura de -30,0.

Para 2020 como um todo, a maioria dos investidores atualmente espera um declínio no crescimento real do PIB alemão de cerca de 1%, como resultado da pandemia, disse Wambach.

A disseminação do coronavírus acabou com as esperanças de um aumento no crescimento no primeiro trimestre, depois de sólida alta nas vendas no varejo e salto na produção industrial da Alemanha em janeiro.

Mas com o coronavírus infectando um número crescente de pessoas e levando a medidas sem precedentes para diminuir sua disseminação, autoridades disseram que o governo agora espera que o Produto Interno Bruto do país encolha este ano, o que seria a primeira contração desde a crise financeira mundial em 2009.

Bruxelas disponibiliza 80 milhões para apoiar laboratório alemão que testa vacina

 

A Comissão Europeia anunciou esta segunda-feira que vai disponibilizar até 80 milhões de euros ao laboratório alemão que está a trabalhar numa potencial vacina para o novo coronavírus, após uma alegada oferta da administração norte-americana, desmentida pela biofarmacêutica.

“A Comissão disponibilizou hoje um apoio financeiro de até 80 milhões de euros à CureVac, uma empresa inovadora de Tübingen, na Alemanha, para amplificar o desenvolvimento e produção de uma vacina contra o novo coronavírus na Europa”, informa o executivo comunitário em comunicado.

A instituição liderada por Ursula von der Leyen explica que este apoio é dado sob a forma de uma garantia da União Europeia (UE) a um empréstimo do Banco Europeu de Investimento (BEI) neste valor, no âmbito do mecanismo de financiamento de doenças infeciosas InnovFin e do programa comunitário para a investigação Horizonte 2020.

“Nesta crise de saúde pública, é de extrema importância apoiarmos os nossos principais investigadores e empresas de tecnologia. Estamos determinados a fornecer à CureVac o financiamento necessário para aumentar rapidamente o desenvolvimento e a produção de uma vacina contra o novo coronavírus”, sublinha Ursula von der Leyen, citada pela nota de imprensa.

 
 

A responsável adianta: “Estou orgulhosa por termos empresas líderes como a CureVac na UE. A casa deles é aqui, mas as suas vacinas beneficiarão todos, na Europa e fora”.

A informação foi divulgada depois de, também esta segunda-feira, a CureVac ter negado haver recebido uma oferta do Governo dos Estados Unidos para reservar a sua descoberta para os norte-americanos.

No domingo, o jornal alemão Welt am Sonntag citava fontes não identificadas do Governo alemão que asseguravam que o dono da CureVac, uma empresa farmacêutica, tinha participado numa reunião com o Presidente Donald Trump, no início do mês, tendo recebido uma generosa oferta para garantir o seu trabalho em exclusivo para os Estados Unidos.

O jornal dizia ainda que a chanceler alemã, Angela Merkel, estaria a disputar com a empresa a necessidade de a vacina, quando estiver pronta, ser igualmente utilizada na Europa, que é neste momento o principal foco da pandemia.

“Para que fique claro sobre o coronavírus: a CureVac não recebeu uma oferta do Governo dos Estados Unidos ou de entidades com ele relacionadas, antes, durante ou desde a reunião com a task-force da Casa Branca, no dia 2 de março”, escreveu na segunda-feira o diretor do laboratório alemão, na conta da empresa na rede social Twitter.

O diretor de operações da CureVac, Hans Werner Haas, disse ao jornal Tagesspiegel que a sua empresa tinha realmente participado numa reunião com o Presidente Donald Trump, mas desmentiu a versão de uma qualquer oferta para a compra dos direitos do novo produto.

O embaixador dos Estados Unidos na Alemanha, Richard Grenell, também usou a rede social Twitter para desmentir a versão do jornal Welt am Sonntag.

Antes destas mensagens no Twitter, Helge Braun, chefe da casa civil da chanceler Angela Merkel, disse ao jornal diário Bild que as autoridades alemãs tiveram um “contacto muito intenso com a CureVac, nas duas últimas semanas”, quando havia intenções de negociaçãocom os Estados Unidos. Helge Braun disse que a empresa obterá todo o apoio para desenvolver uma vacina o mais depressa possível.

Por seu lado, o ministro do Interior alemão, Horst Seehofer, afirmou que tinha ouvido “repetidamente da boca de membros do Governo” que era verdadeira a versão do interesse do Governo norte-americano. Já o ministro da Economia alemão, Peter Altmaier, vincou que “a Alemanha não está à venda”.

O coronavírus responsável pela pandemia da Covid-19 infetou cerca de 170 mil pessoas, das quais 6.850 morreram. Em Portugal há 331 pessoas infetadas e uma morte devido ao novo coronavirus que causou a epidemia. Das pessoas infetadas em todo o mundo, mais de 75 mil recuperaram da doença.

// Lusa

 
 
 

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Alemanha contra-ataca em disputa com Trump por vacina contra coronavírus

RFI -O governo da chanceler alemã Angela Merkel acusa o presidente americano Donald Trump de tentar se apropriar de um projeto de vacina contra o coronavírus desenvolvido por um laboratório da Alemanha. O país advertiu que fará o possível para que o projeto seja desenvolvido na Europa. Já o laboratório CureVac negou nesta segunda-feira (16) que tivesse tido uma oferta por parte dos Estados Unidos.

"Os pesquisadores alemães desempenham um papel de primeiro nível no desenvolvimento de medicamentos e vacinas e não podemos permitir que outros busquem a exclusividade de seus resultados", afirmou o ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Heiko nesta segunda-feira.

No domingo (15), o ministro do Interior alemão, Horst Seehofer, havia confirmado as informações publicadas pelo jornal Die Welt sobre a operação orquestrada pelo presidente americano. Donald Trump teria feito uma grande oferta financeira para assumir o controle do laboratório alemão que desenvolve a vacina.

Sheehofer anunciou que o tema será abordado nesta segunda-feira no comitê de crise criado pelo governo para organizar a luta contra a epidemia de coronavírus. Até o momento, a epidemia já infectou quase 5.000 pessoas e provocou 12 mortes na Alemanha.

Laboratório nega

No meio da disputa está o laboratório alemão CureVac, que fica em Tubingen, sudoeste do país. A empresa trabalha em uma vacina contra o COVID-19, graças a subsídios do governo alemão e afirma estar "a alguns meses" de conseguir apresentar um projeto para a validação clínica do produto.

 

De acordo com o jornal Die Welt, Trump tentou atrair os cientistas alemães que trabalham na potencial vacina ou conseguir a exclusividade do produto para seu país com um investimento na empresa. Esta vacina seria então "apenas para os Estados Unidos", declarou ao jornal uma fonte próxima ao governo alemão.

Nesta manhã, o laboratório CureVac desmentiu a informação. No domingo, um representante do governo americano havia afirmado que o assunto era "muito exagerado".

Novas medidas contra o coronavírus

 

O governo alemão baixou hoje novas medidas para frear a propagação do Covid-19 no país. A exemplo do que fez a França no último sábado (14), decidiu fechar o comércio não essencial, assim como piscinas públicas, academias de ginástica, bares, discotecas, salas de concerto, locais de cultos e até prostíbulos.

Os restaurantes são autorizados a funcionar, mas somente entre às 6h e 18h e com medidas de higiene reforçadas. Só poderão abrir normalmente supermercados, bancos, farmácias e os serviços de entrega de comida a domicílio.

As fronteiras terrestres com a Áustria, França, Luxemburgo, Dinamarca e Suíça não foram fechadas, mas tiveram seu controle reforçado a partir das 8h da manhã de hoje. Só são autorizados a entrar os trabalhadores transfronteiriços, os caminhões de mercadorias e os viajantes que atravessam a Alemanha em direção a outros países. As viagens aéreas e ferroviárias não foram, por enquanto, impactadas.

Alemanha fecha fronteiras contra pandemia

 
 
Travessia para França, Áustria e Suíça, normalmente livre como parte do Acordo de Schengen, estará sujeita a controles. Apesar de demanda elevada, setor alimentício alemão garante abastecimento.
 
Como parte dos esforços para conter a proliferação do novo coronavírus, causador da moléstia covid-19, a partir da manhã desta segunda-feira (16/03) a Alemanha fechará suas fronteiras com as vizinhas França, Áustria e Suíça. A informação partiu do jornal Bild, sendo mais tarde confirmada por fontes governamentais às agências internacionais de notícias.
 
As fronteiras nacionais para o sul e o oeste, normalmente livres, como parte do Acordo de Schengen, deverão ser fechadas a partir das 8h00. A decisão foi tomada pela chanceler federal Angela Merkel, em conjunto com ministro do Interior Horst Seehofer e os governadores dos estados alemães fronteiriços Baden-Württemberg, Sarre e Renânia-Palatinado.
 
O grupo de líderes políticos decidiu estabelecer controles reforçados e recusa de travessia em casos determinados, a fim de dar peso à medida. No entanto o transporte internacional de mercadorias será garantido, e cidadãos que vivem e trabalham entre dois países igualmente terão passe livre.
 
 
Ainda segundo o Bild, além da intenção de conter a pandemia do coronavírus, a medida visa impedir compras em massa, por cidadãos estrangeiros, para estoque de alimentos e outros artigos, que já têm causado problemas de abastecimento nas áreas próximas às fronteiras.
 
Segundo fontes do setor de alimentação, nos últimos a demanda de produtos de primeira necessidade "cresceu radicalmente" na Alemanha. No entanto não há dificuldades de abastecimento e os supermercados permanecerão abertos seis dias por semana, afirmou um porta-voz da confederação do setor BVLH, desmentindo outras versões, por exemplo, nas mídias sociais. Ele aconselhou também a fazer compras durante a semana, não deixando tudo para o sábado.
 
A agência de notícias AFP lista a Alemanha entre os países "mais atingidos pelo coronavírus", com 3.795 casos registrados e dez mortes, incluindo duas neste domingo, na Baviera.
 
Polônia fecha fronteiras
 
Na madrugada deste domingo, a Polônia já fechara suas fronteiras com a Alemanha e outros países vizinhos. A medida, também voltada à contenção da covid-19, tem resultado em congestionamentos de até sete horas nas estradas. "O afluxo é grande, porque muitos poloneses querem voltar a seu país, diante das novas regras", comentou uma porta-voz do controle de fronteiras polonês à agência de notícias DPA.
 
Ao todo, Varsóvia ordenou a introdução de controles em 58 postos de fronteira, também com a República Tcheca, Eslováquia e Lituânia. Voos e viagens ferroviárias internacionais estão igualmente suspensos.
 
Os poloneses que desejarem retornar ao país terão que passar 14 dias em quarentena, enquanto estrangeiros só poderão ingressar em casos excepcionais, aplicáveis a portadores de visto permanente, diplomatas e caminhoneiros. O tráfego de mercadorias se mantém ilimitado. O país conta 119 casos confirmados de contágio com o coronavírus, com três mortes.
 
Deutsche Welle | AV/afp,dpa,ots
 

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Coronavírus derrota o neoliberalismo: Alemanha abandona a política de deficit zero

 

247 - Quarta maior potência econômica mundial, a Alemanha, da chanceler Angela Merkel, abandonou a política do déficit zero, para ter mais dinheiro com o objetivo de combater os efeitos do coronavírus. A informação é da agência de notícias AFP. A chanceler disse na manhã desta quarta-feira que 70% da população do país europeu poderá se infectar com o a doença. O vírus provocou a morte de duas pessoas e infectou 1.296 pessoas no país europeu.

Em nível mundial, o coronavírus atingiu 109 países, matou mais de 4 mil pessoas e infectou mais de 144 mil pessoas. O surto começou na China.

"Quando o vírus está se espalhando com a população sem imunidade e sem um tratamento existente, 60% a 70% da população será infectada", afirmou ela durante uma coletiva de imprensa. "O processo (de contenção) deve se concentrar em evitar a sobrecarga do sistema de saúde freando a disseminação do vírus. É questão de ganhar tempo".

 
https://twitter.com/AttuchLeonardo/status/1237731532976074752?ref_src=twsrc%5Etfw

Milhares protestam para que Alemanha acolha mais refugiados

 
 
Alemães saem às ruas de Hamburgo e outras cidades para exigir que governo aceite receber migrantes em meio à crise na fronteira grego-turca. Manifestantes denunciam violência estatal na região e clamam: "Há espaço aqui."
 
Milhares de pessoas saíram às ruas de cidades como Berlim e Hamburgo neste sábado (07/03) em protesto contra a atitude do governo alemão diante da crise migratória que se instalou na região fronteiriça entre a Grécia e a Turquia. "Abram as fronteiras", clamam os manifestantes.
 
Os protestos ocorrem em resposta à delicada situação provocada na divisa turca com a União Europeia (UE) depois que o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, afirmou que não mais impediria os migrantes de cruzarem o limite de seu país em direção à Europa.
 
O anúncio levou milhares de refugiados – muitos do Afeganistão, Irã e Síria – para a região fronteiriça, onde forças de segurança gregas tentam impedir a todo custo a entrada desses migrantes, fazendo uso inclusive de gás lacrimogêneo e canhões de água.
 
A Alemanha, juntamente com outros países da UE, insiste que não pode acolher mais requerentes de refúgio e que a fronteira para o continente permanece fechada.
 
"Se a Europa fecha oficialmente suas fronteiras e a violência estatal contra os refugiados aumenta, todas as pessoas que defendem a solidariedade e o direito de refúgio devem ir às ruas", disse Christoph Kleine, ativista do grupo Seebrücke, que organizou o ato em Hamburgo.
 
 
 
Ao menos 5 mil pessoas estiveram presentes na manifestação na cidade no norte do país neste sábado, segundo os organizadores. A polícia fala em 3.900 manifestantes.
 
"Hamburgo tem espaço", gritavam muitos dos presentes, em referência às alegações de alguns políticos de que a Alemanha não tem espaço suficiente para acolher mais migrantes. Em cartazes, liam-se frases como "parem a guerra, não as pessoas" e "ajudem!".
 
O protesto também buscou chamar atenção para as condições cada vez mais degradantes no superlotado campo de refugiados de Moria, na ilha grega de Lesbos.
 
Segundo a médica Verena Atabay, que trabalhou em Lesbos, muitos migrantes ali vivenciaram tortura e maus-tratos, enquanto menores de idade moravam sozinhos em tendas, dormindo no frio e no molhado. "Não podemos decepcionar essas pessoas", disse ela.
 
"Tenho vergonha desta Europa", afirmou Heiko Habbe, da organização Fluchtpunkt, que presta assistência jurídica gratuita a refugiados. Segundo ele, fechar as fronteiras da UE não afasta inimigos, mas pessoas necessitadas. Habbe exige o fim da violência estatal, a dissolução do campo de Moria e um processo de concessão de refúgio mais justo aos migrantes.
 
O protesto em Hamburgo foi o maior de vários ocorridos na Alemanha neste sábado. Em Berlim, organizadores falam em 4 mil manifestantes. Também estavam planejados atos em Münster, Weimar, Ulm, Leipzig, Oldenburg e Rostock, bem como em cidades da Áustria e da Suíça.
 
As demandas dos manifestantes ecoam as de vários políticos alemães de esquerda, que pediram à chanceler federal Angela Merkel que acolha ao menos os refugiados mais vulneráveis.
 
Em comunicado conjunto neste sábado, governadores do Partido Social Democrata (SPD), incluindo os prefeitos das cidades-estados de Berlim, Hamburgo e Bremen, exigiram a criação de um "pacto de humanidade", sob o qual migrantes possam ser acolhidos e distribuídos entre as regiões.
 
"Colocando todo o cálculo político de lado, agora é hora de agir e, no mínimo, tirar pelo menos as crianças e jovens refugiados desacompanhados dessa situação", afirmou o prefeito de Berlim, o social-democrata Michael Müller.
 
Dezenas de milhares de migrantes estão tentando entrar na Grécia, um Estado-membro da UE, desde que a Turquia afirmou, em 28 de fevereiro, que não mais tentaria mantê-los em seu território, conforme foi acordado em 2016 com o bloco em troca de ajuda financeira.
 
A atitude foi vista como uma tentativa de pressionar a UE a aumentar a ajuda ao país, que abriga em torno de 3,6 milhões de refugiados sírios, ou ainda para obter o apoio europeu à campanha militar da Turquia na Síria.
 
A própria Grécia vem registrando um aumento no número de refugiados oriundos da Turquia. Em 2019, mais de 60 mil requerentes de refúgio chegaram ao país, onde os campos estão superlotados e sofrem com escassez de alimentos, roupas e medicamentos.
 
Na última quarta-feira, o Parlamento alemão rejeitou uma moção do Partido Verde para admitir 5 mil menores provenientes de campos de migrantes gregos. O ministro do Interior da Alemanha, Horst Seehofer, que adota uma postura rígida em relação a refugiados, disse que o país apenas acolheria pessoas no contexto de uma iniciativa europeia ampla.
 
Desde que Merkel abriu as fronteiras alemãs para mais de um milhão de refugiados em 2015, a migração se tornou uma das questões mais polêmicas no país, gerando uma divisão em seu partido, a União Democrata Cristã (CDU), e alimentando uma onda de extrema direita.
 
Deutsch Welle | EK/dpa/afp/epd/rtr

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Ministra da Defesa da Alemanha cobra pressão de EUA e UE contra guerra na Síria

Ministra da defesa da Alemanha, Annegret Kramp-Karrenbauer, durante a Conferência de Segurança de Munique, em 15 de fevereiro de 2020
© REUTERS / Andreas Gebert

A União Europeia e os Estados Unidos devem aumentar a pressão sobre a Rússia e a Síria a fim de encerrar a guerra na Síria, declarou a ministra da Defesa alemã, Annegret Kramp-Karrenbauer.

A declaração é parte de entrevista concedida ao jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung, publicada no sábado (29).

"A UE e os EUA devem agora aumentar a pressão sobre [o presidente sírio Bashar] Assad e [o presidente russo Vladimir] Putin para abrir caminho para um diálogo político voltado a encerrar a terrível guerra na Síria", disse a ministra no sábado.

A ministra afirmou que a situação humanitária catastrófica no país do Oriente Médio tem afetado a todos.

A declaração vem em meio ao momento de escalada do conflito na província de Idlib, no noroeste da Síria. Em particular, devido ao aumento da tensão na região desde a quinta-feira (29) depois que o grupo Hayat Tahrir al-Sham (anteriormente conhecido como Jabhat al-Nusra, organização terrorista proibida na Rússia), lançou um ataque de larga escala contra forças do governo sírio, resultando na morte de mais de 30 turcos.

O Ministério da Defesa da Rússia afirmou que as tropas turcas não deveriam ter operado ao lado de militantes.

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https://br.sputniknews.com/oriente_medio_africa/2020030115280486-ministra-da-defesa-da-alemanha-cobra-pressao-de-eua-e-ue-contra-guerra-na-siria/

Ataques nazis | "O racismo é um veneno", diz Merkel após ataques

 
 
Chanceler federal alemã condena ataques em Hanau que resultaram em 11 mortes. Procurador-geral diz que suspeito deixou mensagens de conteúdo "profundamente racista". Presidente lamenta "ato terrorista".
 
A chanceler federal alemã, Angela Merkel, condenou nesta quinta-feira (20/02) os dois ataques a tiros ocorridos na noite anterior em Hanau, no oeste do país, deixando um total de 11 mortos, incluindo o atirador.
 
"É um dia muito triste para o nosso país", afirmou Merkel, manifestando compaixão com as vítimas dos ataques e seus familiares.
 
Ela disse haver indícios de que o autor dos ataques agiu com motivação de extrema direita e racista, "por ódio contra pessoas de origem, fé ou aparência diferente". "O racismo é um veneno, o ódio é um veneno. E este veneno existe na nossa sociedade. E já foi culpado por crimes demais", afirmou.
 
O presidente da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, também lamentou o que chamou de "ato de violência terrorista".
 
"O meu profundo pesar e minha compaixão vão para as vítimas e para seus familiares. Desejo aos feridos uma rápida recuperação. Estou do lado de todas as pessoas ameaçadas pelo ódio racista. Elas não estão sozinhas", afirmou o presidente.
 
 
A Procuradoria Geral alemã assumiu a investigação dos ataques, ocorridos em bares de narguilé de Hanau, devido a seu "significado especial", e um porta-voz disse haver indícios de que o crime teve motivos xenófobos.
 
Peter Beuth, secretário estadual do Interior de Hessen, onde fica Hanau, anunciou que a Procuradoria Geral alemã investiga os assassinatos como suposto terrorismo.
 
O procurador-geral alemão, Peter Frank, afirmou que foram mortas nove pessoas de origem estrangeira. Seis outras pessoas foram feridas, uma delas, gravemente. Os investigadores agora tentam descobrir se o suposto criminoso teve apoio de cúmplices ou ajudantes. 
 
Frank afirmou que o suspeito deixou "mensagens em vídeo e uma espécie de manifesto" em seu site. No material, segundo o procurador-geral, o homem expressa "pensamentos confusos e teorias da conspiração obscuras" em que é exposta "uma perspectiva profundamente racista".
 
O suposto autor dos ataques, um alemão de 43 anos, foi encontrado morto em sua casa ao lado do corpo de sua mãe na manhã desta quinta-feira. Segundo Frank, aparentemente os dois foram mortos por tiros. Ao lado do homem, havia uma arma de fogo.
 
Segundo o tabloide Bild, o suposto autor agiu por motivos de extrema direita. O homem é um alemão, de acordo com o veículo. Ele possuía uma licença de caça, tendo permissão para portar armas legalmente. Ainda conforme o jornal, foram encontradas munições no automóvel do suspeito.
 
Os ataques ocorreram em dois bares de narguilé – também conhecido como shisha, um tipo de cachimbo de água. Policiais e veículos de imprensa informaram que os primeiros tiros foram disparados por volta das 21h (horário local) no bar Midnight, no centro da cidade. Testemunhas dizem ter ouvido cerca de oito a nove disparos.
 
Em seguida, o agressor fugiu do local em um carro escuro, segundo a polícia. Houve então um segundo ataque num outro bar de narguilé chamado Arena Bar & Café, no bairro de Kesselstadt, no oeste de Hanau.
 
Segundo a imprensa local, três pessoas foram mortas em frente ao primeiro bar, e cinco pessoas, em frente ao segundo. A polícia disse que outras cinco pessoas ficaram feridas. Durante a madrugada, uma das pessoas gravemente feridas nos ataques morreu, elevando o número de vítimas para dez.
 
Os bares de narguilé são lugares onde as pessoas se reúnem para fumar tabaco com sabor em cachimbos de água, prática associada ao Oriente Médio. Algumas das vítimas parecem ser turcas, segundo a agência de notícias Associated Press
 
"Foi uma noite terrível, que com certeza ainda permanecerá connosco por muito, muito tempo, como uma triste memória", afirmou o prefeito da cidade, Claus Kaminsky.
 
"Nossos pensamentos nesta manhã estão com as pessoas de Hanau, no meio de quem foi cometido um crime horrível", escreveu o porta-voz do governo alemão, Steffen Seibert, no Twitter.
 
O ministro alemão do Exterior, Heiko Maas, também se disse chocado com o ocorrido. "Após esta noite terrível, nossos pensamentos estão com os mortos, suas famílias e parentes. Desejamos aos feridos uma rápida recuperação", acrescentou Maas.
 
Hanau, no estado de Hesse, possui cerca de 100 mil habitantes e fica a aproximadamente 25 quilômetros de Frankfurt.
 
A Alemanha foi alvo de uma série de ataques terroristas nos últimos anos, um dos quais matou 12 pessoas em um mercado de natal no coração de Berlim em dezembro de 2016. Os ataques de extrema direita tornaram-se uma preocupação particular das autoridades alemãs.
 
Em outubro de 2019, um homem armado tentou invadir uma sinagoga na cidade de Halle, no leste alemão, durante o Yom Kippur, principal feriado judaico. Ele matou duas pessoas nas proximidades e feriu outras duas perto de uma lanchonete turca.
 
O agressor transmitiu todo o ataque ao vivo pela internet, enquanto fazia declarações misóginas e xenófobas. Ao confessar o crime, ele admitiu ter motivações antissemitas e de extrema direita.
 
Em junho passado, o político conservador Walter Lübcke foi assassinado em sua casa. O extremista de direita Stephan Ernst confessou o crime, alegando que resolveu matar o chefe do conselho administrativo do distrito de Kassel devido a seu posicionamento simpático a imigrantes e refugiados.
 
Na semana passada, a polícia prendeu 12 suspeitos de integrar uma célula terrorista de extrema direita que estaria planeando atentados contra mesquitas, políticos e refugiados em vários estados.
 
Deutsche Welle | MD/dpa/afp/ap/rtr

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Cronologia de atentados de extrema direita na Alemanha

 
 
Violência e crimes cometidos pela extrema direita são registados oficialmente no país desde 1990. Dados oficiais totalizam 94 mortos, mas analistas criticam autoridades e dizem que no mínimo 198 pessoas foram mortas.
 
Vítimas do extremismo de direita são contabilizadas na Alemanha desde a Reunificação do país, em 1990. Desde então, foram 94 mortos registados.
 
No entanto, analistas afirmam que muitos casos são registados de forma errada pelas autoridades e que o número real de vítimas é bem maior, devendo chegar a, no mínimo, 198 mortos.
 
Os crimes incluem ataques a estrangeiros, judeus, muçulmanos, adversários políticos ou governantes. Confira alguns deles:
 
Ataque a dois bares de narguilé em Hanau, em 19 de fevereiro de 2020
 
Ataques subsequentes a dois bares de narguilé em Hanau, no oeste da Alemanha, resultaram na morte de nove pessoas que estavam nos locais. Horas depois, a polícia encontrou o cadáver do provável atirador na residência dele, em Hanau. No mesmo local foi encontrado o corpo de uma mulher. Investigadores também localizaram um bilhete do suposto atirador, no qual ele reivindica a autoria do crime, e um vídeo no qual ele faz declarações racistas. Promotores federais assumiram as investigações por causa da suspeita de que se trate de um crime perpetrado pela extrema direita.
 
 
Ataque a uma sinagoga e a uma loja de kebab em Halle em 2019
 
Em 9 de outubro de 2019, o neonazista Stephan B, de Eisleben, saiu de casa com a intenção de cometer um massacre de judeus. Ele alugou um carro, o encheu de armas e explosivos feitos em casa e vestiu uma roupa militar de combate, incluindo botas e capacete. Depois de fracassar na tentativa de entrar na sinagoga, onde estavam 51 pessoas, matou a tiros uma mulher que passava em frente ao local e pouco depois atacou uma loja de kebab, matando um homem. Na fuga feriu mais duas pessoas. Ele acabou detido pela polícia. Ele registou por escrito seu ódio a judeus e negros.
 
Assassinato do chefe de governo de Kassel
 
O então chefe do governo da cidade de Kassel, Walter Lübcke, foi assassinado diante de sua residência em 2 de junho de 2019, com um tiro na cabeça. O suspeito, o extremista de direita Stephan E., era conhecido da polícia desde os anos 1990 e já havia cometido vários crimes. Em 1993, ele atacara um centro de refúgio com uma bomba artesanal. As motivações de Stephan ainda não estão claras, nem se ele teve cúmplices. Lübcke pode ter virado alvo por ter se engajado pelo acolhimento de refugiados.
 
Ataques a centros de refugiados em 2015 e 2016
 
O aumento no número de refugiados, a partir do segundo semestre de 2015, logo se tornou o assunto principal na Alemanha. Em seguida aumentaram também o número de crimes que tinham refugiados como vítimas. O ápice dos ataques a centros de refúgio foi registado em 2015 e 2016. Só neste ano foram 995 crimes registados.
 
O grupo extremista Gruppe Freital, inicialmente criado como uma milícia civil, executou ataques com explosivos contra refugiados e seus apoiantes. Em 2018, oito pessoas foram condenadas por formação de grupo terrorista.
 
Outro grupo, o Oldschool Society, foi desmantelado pelas autoridades antes da execução de atentados com material explosivo. Em 2015, membros desse grupo neonazis foram detidos em cinco cidades alemãs.
 
Ataques com faca a políticos em 2015 e 2017
 
Os ataques a políticos que ocorreram em 2015 e 2017 foram executados por pessoas que agiram sozinhas e que não tinham contato com terroristas de direita.
 
Em outubro de 2015, um extremista de direita feriu no pescoço, com uma facada, a então candidata à prefeitura de Colónia Henriette Reker. O agressor não concordava com as posições da candidata, que era conselheira municipal, sobre o acolhimento de refugiados. Reker sobreviveu por pouco e, no dia seguinte, venceu a eleição.
 
Em novembro de 2017, um homem de 56 anos colocou uma faca contra o pescoço do prefeito de Altena, Andreas Hollstein, que estava num café. O dono do estabelecimento interveio, e Hollstein sofreu apenas ferimentos leves. "Você me deixa morrendo de sede, mas traz 200 estrangeiros para a cidade", disse o agressor ao prefeito.
 
Franco A.: o falso refugiado
 
O soldado alemão Franco A. foi preso em abril de 2017 porque investigadores suspeitaram que ele planeava um atentado terrorista para colocar a culpa em refugiados sírios. Para isso, Franco A. se registou como refugiado de guerra vindo da Síria e solicitou refúgio na Alemanha.
 
Sua audiência foi em francês e conduzida por um soldado da Bundeswehr que recebera um treinamento de três semanas. Aparentemente, ele não percebeu que estava diante de um alemão que não falava árabe e que se apresentou como um cristão sírio educado num colégio francês na Síria.
 
Hoje Franco A. aguarda o julgamento do seu caso pela Justiça alemã. Franco tinha elaborado uma lista com possíveis vítimas, incluindo o hoje ministro do Exterior, Heiko Maas. O caso abriu um debate sobre a presença de extremistas de direita na Bundeswehr, as Forças Armadas da Alemanha.
 
O caso NSU
 
A organização terrorista NSU permaneceu por 13 anos despercebida. Seus integrantes Uwe Böhnhardt e Uwe Mundlos, dois neonazis conhecidos da polícia, executaram atentados e mataram nove pessoas com origem estrangeira e uma policial.
 
Em novembro de 2011, os dois se mataram diante de iminência de serem descobertos de detidos pela polícia depois de um assalto a banco. A terceira integrante do grupo, Beate Zschäpe, foi condenada à prisão perpétua em julho de 2018 por cumplicidade nos assassinatos.
 
O caso NSU também gerou um amplo debate na Alemanha, desta vez sobre a possível subestimação dos riscos do terrorismo de direita pelas autoridades e pela imprensa. Ao longo de anos, os investigadores focaram no entorno social das vítimas e ignoraram a possibilidade de se tratar de uma série de crimes de motivação xenófoba.
 
Na imprensa, o caso foi tratado como Döner-Morden (assassinatos-döner, em tradução livre) por causa da origem estrangeira das vítimas e por duas delas trabalharem em lanchonetes de kebab. Döner é o nome alemão do kebab. As abordagens dos investigadores e da imprensa foram consideradas racistas.
 
Incêndios e ataques no início dos anos 1990
 
No início dos anos 1990, neonazis puseram fogo em centros de refugiados e em casas de estrangeiros. Na época, a Alemanha debatia acaloradamente o direito de refúgio, e a violência de extrema direita alcançara um novo ponto alto. Os atos de violência deixaram vários estrangeiros feridos, por exemplo nos pogroms de Rostock-Lichtenhagen, em 1992.
 
Em Mölln, no mesmo ano, duas meninas de 10 e 14 anos e a avó delas morreram em decorrência de um incêndio criminoso na casa delas, causado por neonazis que arremessaram explosivos contra a casa delas.
 
Em maio de 1993, em Solingen, cinco mulheres e meninas de origem turca morreram num incêndio semelhante.
 
Entre 1990 e 1993, 58 pessoas foram mortas em atos violentos executados por extremistas de direita. Uma delas foi o angolano Amadeu António Kiowa, que foi brutalmente atacado por um grupo de neonazis em 24 de novembro de 1990. Jogado ao chão, Kiowa foi pisoteado na cabeça.
 
 
Peter Hille (as) | Deutsche Welle

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Ataques a tiros deixam mortos e feridos na Alemanha

Agentes da polícia alemã durante operação (arquivo)
© AP Photo / Bernd Thissen

Ao menos oito pessoas morreram e outras cinco ficaram feridas em ataques a tiros em dois bares da cidade alemã de Hanau, no estado de Hesse, nesta quarta-feira.

De acordo com a mídia local, suspeitos armados abriram fogo em um estabelecimento do centro da cidade no meio da noite, atingindo fatalmente três pessoas. Depois, se dirigiram para outro bar, em outro distrito, e mataram outras cinco. Ambos os bares são frequentados por fumantes de narguilé.

 

​Tiroteio em bar shisha de Hanau, vários mortos.

A polícia já está nos locais dos ataques com um grande contingente de agentes e helicópteros. Até agora, não há detalhes sobre o número exato de suspeitos e seu paradeiro, bem como sobre a possível motivação dos crimes.

Algumas informações de momento dão conta de que os atiradores teriam conseguido fugir e uma grande operação foi lançada a fim de capturá-los. Outras fontes dizem que pelo menos um suspeito já teria sido detido.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2020021915236305-ataques-a-tiros-deixam-mortos-e-feridos-na-alemanha/

Alemanha aprova projeto contra extremismo de direita e Merkel descarta AfD

Militantes do partido alemão Alternativa para Alemanha (AfD) protestam contra a chanceler Angela Merkel em Annaberg-Buchholz
© REUTERS / Matthias Schumann

O governo da Alemanha endossou um projeto de lei que deve fortalecer os esforços para combater o extremismo de direita e os crimes de ódio, declarou Ulrike Demmer, porta-voz do governo, nesta quarta-feira.

"O governo alemão concordou com um projeto de lei que visa fortalecer a luta contra o extremismo de direita e os crimes de ódio no futuro", comentou Demmer em entrevista coletiva.

Ainda de acordo com a porta-voz, o projeto de lei deve melhorar a implementação de medidas similares adotadas pelo governo alemão em outubro passado, após o tiroteio na sinagoga na cidade de Halle.

Em seguida, o governo ordenou que grandes redes sociais se reportassem a um departamento especial da polícia criminal sobre quaisquer ameaças de morte e incitação ao ódio. As redes que não cumprirem o pedido serão multadas.

O novo projeto de lei visa suplementar uma série de artigos existentes do código criminal. Por exemplo, a proteção contra a calúnia dos políticos locais será estendida, enquanto os trabalhadores de emergência também receberão proteção contra ameaças e violência.

O artigo sobre graus de punição será complementado por uma disposição que lista o antissemitismo como motivo criminoso – um acréscimo à legislação local que já pune crimes relacionados às manifestações nazistas no país.

Merkel descarta coalizão com a AfD

A chanceler da Alemanha, Angela Merkel.
© Sputnik / Sergei Guneev
A chanceler da Alemanha, Angela Merkel.

A chanceler alemã Angela Merkel descartou nesta quarta-feira que seus conservadores e aliados socialistas nunca uniriam forças com o espectro mais à direita da política do país, o partido Alternativa para Alemanha (AfD).

"É verdade para o partido ao qual pertenço, mas também para os outros partidos da coalizão que não trabalhamos com a AfD. Este é o resultado de nossa consideração da agenda do partido", disse ela.

Merkel, que conversou com repórteres ao lado da primeira-ministra finlandesa Sanna Marin em Berlim, evitou uma pergunta sobre se ela via uma ameaça à democracia europeia na coalizão de centro-direita da Finlândia.

A disputa sobre a extensão em que a AfD anti-imigrante pode participar da política alemã entrou em erupção depois que se alinhou ao ramo da CDU de Merkel, no estado oriental da Turíngia, para votar em um premiê liberal.

A chanceler considerou o resultado da votação imperdoável, aumentando a pressão pública sobre o chefe de estado eleito, Thomas Kemmerich, para renunciar. Assim, Turíngia está caminhando para uma nova eleição regional.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2020021915235457-alemanha-aprova-projeto-contra-extremismo-de-direita-e-merkel-descarta-afd/

Alemães saem às ruas contra a extrema-direita

 

247 -Sob o lema "Sem pacto com fascistas - nunca e em lugar nenhum", milhares de manifestantes tomaram às ruas de Erfurt, capital do estado alemão da Turíngia, contra a ascensão da extrema-direita.

De acordo com reportagem do jornal O Globo, os manifestantes empunhavam cartazes e bandeiras que diziam "Não queremos o poder a qualquer preço".

O ato foi convocado por entidades sindicais, artistas e autoridades políticas reunidos na aliança #Unteilbar (indivisível) e apoiados por movimentos como Fridays for Future e Bund.

 

As manifestações são um dos efeitos da eleição do liberal Thomas Kemmerich, no último dia 5, do Partido Liberal Democrático (FDP), governador da Turíngia, com votos dos legisladores do partido populista de direita Alternativa para a Alemanha (AfD), do FDP e da União Democrata Cristã (CDU), da chanceler federal Angela Merkel.

"Eu protesto porque a AfD está ganhando muita influência nas regiões do Leste. Eu sigo otimista, caso contrário não protestaria, mas limites foram ultrapassados. Isso não pode ser aceito", afirmou Maria Reuter, de 74 anos e moradora de Erfurt, à agência de notícias AFP.

Ver o original em 'Brasil24/7' na seguinte ligação:

https://www.brasil247.com/mundo/alemaes-saem-as-ruas-contra-a-extrema-direita

Ministro das Relações Exteriores chinês pede resposta internacional concertada à epidemia do novo coronavírus

Resultado de imagem para Wang Yi berlin

Berlim, 14 fev (Xinhua) -- O conselheiro de Estado e ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, pediu nesta quinta-feira uma resposta internacional concertada, bem como um entendimento, confiança e apoio mútuos além das fronteiras na luta contra a epidemia do novo coronavírus.

Wang deu as declarações durante uma entrevista coletiva conjunta com seu homólogo alemão, Heiko Maas, depois de participar da última rodada de diálogo estratégico China-Alemanha sobre assuntos diplomáticos e de segurança.

Desde o início do surto da epidemia, o governo chinês, com um alto senso de responsabilidade por seu povo e a comunidade internacional, tomou as medidas de prevenção e controle mais abrangentes, rigorosas e completas, afirmou ele.

Observando que a epidemia começou a ser controlada com trabalho árduo, Wang destacou que, exceto na Província de Hubei, o número total de novos casos confirmados da infecção em outras partes da China caiu por 10 dias consecutivos até a quinta-feira, com a taxa de recuperação aumentando e mais de 6.000 pacientes curados recebendo alta hospitalar.

Esses dados e fatos mostram que a epidemia está, em geral, controlável e tratável, disse o diplomata, acrescentando que, com o desenvolvimento de medicamentos eficazes, a China tem confiança total e é capaz de derrotá-la.

Desde o início da luta contra o novo coronavírus, a China adotou uma maneira aberta e transparente e cooperou com a Alemanha e outros países nos trabalhos de prevenção, apontou Wang. Os esforços chineses impediram efetivamente que o surto se espalhasse além do país, com o número de infecções fora da China representando menos de 1% das infecções no país, informou ele.

Notando que a Organização Mundial da Saúde e vários países em todo o mundo elogiaram os esforços da China, Wang assinalou que o país fez contribuições e sacrifícios para a manutenção da saúde pública global.

Quanto ao efeito da epidemia na economia, Wang disse que o impacto é temporário e que a China tentará minimizá-lo, expressando a crença de que, após o surto, a demanda do consumo reprimida será liberada rapidamente e o impulso econômico se recuperará fortemente.

Segundo ele, a China está confiante de que vai alcançar todas as metas estabelecidas para seu desenvolvimento socioeconômico este ano, concluir a construção de uma sociedade moderadamente próspera em todos os aspectos e erradicar a pobreza absoluta.

A epidemia não afetará a cooperação China-Alemanha, garantiu Wang, acrescentando que o fortalecimento da parceria bilateral em saúde e higiene trará novas oportunidades para as empresas alemãs.

Observando que a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, e Maas expressaram forte apoio à luta chinesa contra o vírus em várias ocasiões, Wang agradeceu ao governo e povo alemão por sua compreensão e ajuda.

 

Ver original em "XINHUA Português" na ligação seguinte:

http://portuguese.xinhuanet.com/2020-02/14/c_138784055.htm

Alemanha | Favorita de Merkel sai ao fim de um ano sem conseguir unir a CDU

 
Em pouco mais de um ano como líder da CDU, Annegret Kramp-Karrenbauer não conseguiu unir o maior partido da Alemanha nem levá-lo de volta às vitórias eleitorais de outrora, acabando por sucumbir a uma aliança regional com a extrema-direita.
A KK, como passou a ser conhecida, sucedeu a Angela Merkel na liderança da União Democrata-Cristã (CDU, conservadora), em dezembro de 2018, com a missão de unir o partido e vencer eleições, mas a escassa vantagem (25 votos) que obteve então sobre o adversário, o "anti-Merkel" Friedrich Merz, mostrou desde logo a enormidade dessa tarefa.
 
Se o conseguisse, era muito provável que AKK, 57 anos, sucedesse à carismática chanceler em 2021, para continuar o pesado legado político de Merkel, que foi líder da CDU 18 anos e é chanceler há 15.
 
Mas uma série de derrotas eleitorais nas europeias e regionais e persistentes críticas dentro do partido, dividido entre uma ala mais centrista e uma outra mais conservadora, foram-na afastando desse caminho.
 
A "gota de água" foi a tempestade da semana passada, em que a CDU do estado da Turíngia (leste) desafiou instruções explícitas da líder e rompeu o "cordão sanitário" contra a extrema-direita, aceitando colaborar com a Alternativa para a Alemanha (AfD).
 
A invulgar intervenção de Merkel, que, durante uma visita à África do Sul, afirmou ser "indesculpável" um partido democrático formar maioria com a extrema-direita para eleger um governador e que a situação tinha de ser revertida, acentuou a falta de autoridade de AKK no partido.
 
Fonte do partido disse hoje à Der Spiegel que AKK apontou posições ambíguas de membros da CDU relativamente à AfD ou ao partido A Esquerda (Die Linke) como razões para a demissão, reiterando a posição que assumiu desde que ascendeu à liderança de que alianças com estes partidos estavam excluídas.
 
Num claro sinal das divisões, AKK já tinha ameaçado demitir-se no congresso da CDU de novembro passado, em Leipzig (leste), onde centrou o discurso de 90 minutos nas críticas internas à sua gestão e desafiou os opositores a candidatarem-se à liderança.
 
"Se são da opinião de que o caminho que quero fazer convosco não é o caminho certo, então vamos dizê-lo claramente: vamos parar já, hoje, aqui e agora", disse nessa ocasião.
Annegret Kramp-Karrenbauer, católica, mãe de três filhos, é militante da CDU desde os 19 e tem quase 20 anos de experiência política, iniciada no estado de Sarre (oeste), onde foi chefe do governo regional (2011-2018).
 
Embora não tenha tido o apoio expresso de Angela Merkel na ascensão à liderança, era considerada a favorita da chanceler, apelidada aliás de "mini-Merkel", que lhe abriu caminho nomeando-a secretária-geral da CDU em fevereiro de 2018.
 
Em julho passado foi nomeada ministra da Defesa, sucedendo a Ursula von der Leyen, então escolhida para a presidência da Comissão Europeia, novas funções que lhe valeram críticas e elogios e foram vistas como uma tentativa de se afirmar a nível nacional e internacional.
 
Notícias ao Minuto | Lusa | Imagem: © Reuters
 

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Berlim conta quase 2 mil sem-abrigo

 
Capital alemã foi a primeira do país a realizar um censo sobre a população sem-abrigo a fim de reformular suas políticas públicas sobre o tema. Número é bem menor do que o estimado anteriormente pelas autoridades.
 
Berlim possui 1.976 sem-abrigo, segundo resultado do primeiro censo sobre esse tema realizado na Alemanha. O número divulgado nesta sexta-feira (07/02) é bem menor do que o estimado por autoridades, que variava entre 6 mil e 10 mil.
 
Batizado de "Noite da Solidariedade", o primeiro censo de sem-abrigo da capital alemã foi realizado no final de janeiro. Cerca de 2,6 mil voluntários participaram na iniciativa.
 
Divididos em grupos de três e cinco pessoas, eles percorreram mais de 600 áreas de Berlim com o objetivo de encontrar os sem-abrigo e aplicar um questionário sobre idade, nacionalidade e há quanto tempo vivem nas ruas.
 
"Agora sabemos muito mais sobre a idade dos sem-abrigo, seu género, de onde eles vêm e, pela primeira vez, há quanto tempo eles são sem-abrigo", afirmou a secretária de Integração, Trabalho e Cidadania, Elke Breitenbach.
 
 
Durante a "Noite da Solidariedade", 942 sem-abrigo foram localizados em abrigos, 807 nas ruas, 154 em estações de metro e de comboios, 42 num café que abriga os sem-abrigo durante as noites de inverno, 15 em hospitais e 12 sob custódia da polícia.
 
Cerca de um terço dos sem-abrigo encontrados em ruas de Berlim concordaram em responder ao questionário do censo. Entre os entrevistados, 55% tinham entre 30 e 49 anos, e 84% eram homens. A maioria deles, 47%, estava vivendo nas ruas há mais de três anos. Outros 23%, entre um e três anos.
 
O censo mostrou ainda que 49% dos sem-abrigo eram alemães; 39%, cidadãos de países da União Europeia; e 11%, estrangeiros de fora do bloco europeu.
 
Pouco dias antes da "Noite da Solidariedade", a iniciativa foi criticada. Uma associação de sem-abrigo considerou o censo degradante e ameaçador e duvidou sobre que uso teriam esses dados. É possível que muitos moradores de rua tenham fugido de participar no censo.
 
Segundo Berlim, as informações descobertas no levantamento servirão de base para a formulação de políticas públicas voltadas às necessidades de sem-abrigo. Atualmente, a prefeitura de Berlim investe 8,3 milhões de euros por ano em 27 projetos de ajuda aos sem-abrigo. Com as novas diretrizes, será possível abordar a questão buscando soluções direcionadas.
 
A capital alemã segue Nova York e Paris na tentativa de fazer um panorama mais preciso sobre sua população de rua. Segundo um estudo publicado em 2019 pelo Grupo Federal de Trabalho para Pessoas Sem Moradia (BAG), o número de sem-abrigo na Alemanha cresceu 4,8% em 2018, com pelo menos 678 mil pessoas sem acomodação permanente. Destas, 41 mil moravam nas ruas.
 
Entre os fatores que podem explicar esse crescimento estão a diminuição do número de moradias a preços acessíveis, cortes em programas de habitação social e a elevação dos níveis de pobreza.
 
Deutsche Welle | CN/dw/ots

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Angola e Alemanha assinam acordos nos setores de transportes e recursos minerais

 
Em visita a Luanda, chanceler federal da Alemanha, Angela Merkel, reforça interesse de cooperação com Angola em diversos setores. Presidente João Lourenço enfatiza ambiente favorável para investimentos privados alemães.
 
A chanceler federal da Alemanha Angela Merkel e o Presidente de Angola João Lourenço reforçaram as relações bilaterias entre os dois países e assinaram dois acordos de cooperação. Merkel revelou em conferência de imprensa que conversou com o Lourenço sobre a institucionalização das autarquias em Angola. 
 
"Já tivemos intercâmbio de ideias sobre as estruturas, sobre os processos de reformas, a descentralização, as autarquias. Há também uma maior responsabilidade para o desenvolvimento do país. Congratulo-me muito por darmos aqui a nossa contribuição”, disse a chanceler.
 
O direito Alemão tem forte influência no sistema jurídico angolano. Os dois países vão aperfeiçoar um programa neste domínio. Merkel convidou juristas angolanos a visitarem a Alemanha. A chanceler lembrou que além de acordos para bolsas de estudos, há programas de cooperação no domínio jurídico.
 
"Podemos aperfeiçoar esse programa com convites de juristas para irem à Alemanha e escolherem os temas de seu interesse. Também podemos fazer a ampliação de todos os conteúdos que tenham a ver com o tráfego aéreo", salientou a chanceler.
 
 
Ambiente favorável
 
O Presidente João Lourenço aproveitou a oportunidade da visita da chanceler alemã para demonstrar a intenção do Governo angolano de privilegiar o investimento privado alemão em Angola. Dez representantes de empresas de diversos setores da economia alemã integraram a comitiva de Merkel na sua agenda de apenas um dia em Luanda.
 
Executivos de empresas de setores como electrónica, telefonia, mecânica, energia solar aproveitaram para fazer contato com representantes do Governo angolano e perceber o clima para negócios no país. "Estamos a criar com algum sucesso um ambiente favorável ao investimento privado, o que pretendemos é que se privilegie o investimento privado alemão em todos aqueles domínios que sejam de interesse dos próprios investidores”, disse João Lourenço.
 
Durante a visita, foram assinados dois acordos de cooperação nas áreas de transportes e recursos minerais. O Presidente João Lourenço foi questionado sobre o "Luanda Leaks" na conferência de imprensa. Um jornalista alemão que acompanhava a visita de Merkel quis saber se Angola pretende congelar os ativos transferidos para o exterior de forma ilícita.
 
"Mais do que simplesmente congelar, nos estamos a lutar, estamos a trabalhar pela recuperação dos ativos que alguns dos nossos cidadãos indevidamente retiraram do Estado e colocaram aos serviços de outras economias, são ativos que estão a dar emprego fora de Angola, estão a servir a outras economias e não às economias angolanas”, explicou o Presidente.
 
Em relação aos resultados das reformas em curso no país, o chefe de Estado angolano fez saber que considera que já há resultados positivos. Para João Lourenço, as mudanças já seriam visíveis, mas ainda há mais por se fazer.
 
"O processo de [implementação de] reformas vai continuar, não vamos parar por aqui. Há outras coisas que não foram possível de serem feitas neste espaço de tempo, mas, no período que nos resta, com certeza, algumas reformas serão aprofundadas”, salientou o Presidente de Angola.
 
Merkel e João Lourenço presidiram a abertura do Fórum Económico Alemanha-Angola que reuniu representantes de mais de 18 empresas dos dois países.
 
Manuel Luamba (Luanda) | Deutsche Welle

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Um dia de vergonha para a Alemanha

 
Pela primeira vez os votos da populista de direita AfD decidem a eleição de um governador alemão. Quebra de tabu mostra como fraqueja a resistência contra o avanço da ultradireita, opina a editora-chefe da DW, Ines Pohl*.
 
Exatamente uma semana atrás, em 29 de janeiro de 2020, o Parlamento da Alemanha recordou as vítimas do Holocausto numa cerimónia solene. A ocasião eram os 75 anos desde a libertação do campo de extermínio de Auschwitz.
 
Num discurso pungente em Berlim, o presidente de Israel, Reuven Rivlin, exortou os alemães a jamais esquecerem e a lutarem obstinadamente contra o antissemitismo, racismo e xenofobia. Os alemães e seus partidos, frisou, teriam um dever especial de agir com consciência histórica em relação aos valores libertários e democráticos.
 
"A Alemanha não pode fracassar", foram suas palavras.
 
E exatamente uma semana mais tarde, nesta quarta-feira (05/02), ocorre isto: com a ajuda dos votos da populista de direita Alternativa para a Alemanha (AfD), o liberal-democrático Thomas Kemmerich é eleito governador do estado da Turíngia.
 
 
Uma eleição que abala o país, que é mais do que o atestado de que os políticos estaduais democratas-cristãos e liberais que fizeram essa escolha não compreenderam sua responsabilidade histórica. Uma eleição que coloca os partidos democráticos diante de uma prova de fogo, a qual poderá resultar até mesmo em eleições antecipadas para o Parlamento federal.
 
Pois na próxima semana se constatará se realmente se sustentam as palavras dos políticos de ponta alemães, de jamais formar maiorias com a AfD. Ou se no fim das contas as seduções do poder não são realmente mais fortes.
 
É fato que a presidente da União Democrata Cristã (CDU), Annegret Kramp-Karrenbauer, instou incisivamente a facção turíngia de seu partido a jamais fazer aliança com a AfD. Mas o que significa essa óbvia fraqueza?
 
O que fará a, também democrata-cristã, chanceler federal Angela Merkel, quando mandatários de seu partido procurarem se associar justamente ao líder da AfD na Turíngia, Bernd Höcke, que considera os alemães malucos por terem "plantado um monumento da vergonha" em sua capital? O que fará o parceiro da CDU na coligação federal, o Partido Social-Democrata (SPD)?
 
Esse inesquecível dia deve abalar a Alemanha até o fundo da alma. E as forças democráticas têm que mostrar agora quão sólido é seu posicionamento; o que estão prontas a arriscar para impedir que este acontecimento – até agora isolado – se transforme numa nova normalidade.
 
Há poucos dias, o presidente alemão, Frank-Walter Steinmeier, afirmou, no memorial do Holocausto Yad Vashem, em Jerusalém, que "o nacional-socialismo não caiu do céu".
 
Neste dia no início de fevereiro, na Alemanha, ficou claro que muitos alemães se esqueceram de sua história. E que as palavras de Reuven Rivlin – "A Alemanha não pode fracassar" – dizem respeito a todos nós. E que ninguém mais tem o direito de acreditar que a história jamais se repita.
 
*Ines Pohl | Deutsche Welle | opinião
 
Imagem: Liberal-democrático Thomas Kemmerich foi eleito governador da Turíngia graças a votos da ultradireita
 
 

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Mais de 130 personalidades na Alemanha exigem a libertação de Assange

 
Mais de 130 políticos, artistas e jornalistas exigiram hoje na Alemanha a "libertação imediata" de Julian Assange "por razões humanitárias e em conformidade com os princípios do estado de direito", defendendo ainda a liberdade de imprensa.
 
Numa conferência de imprensa em Berlim, o promotor desta iniciativa, o jornalista de investigação Günter Walraff, disse que o fundador do WikiLeaks "não pode esperar por um julgamento nos Estados Unidos ou um processo de extradição no Reino Unido de acordo com o estado de direito".
 
Walraff acrescentou que Assange está a ser prejudicado nos seus preparativos de defesa e lembrou que o relator especial das Nações Unidas Nils Melzer confirmou que Assange mostrava sinais de ter sido submetido a tortura psicológica.
 
O ex-ministro dos Negócios Estrangeiros da Alemanha, Sigmar Gabriel, declarou, por sua vez, que de acordo com os seus parâmetros, o Reino Unido e os Estados Unidos promovem o Estado de direito, mas que, "por razões políticas", neste caso "aparentemente não há garantia de um processo" que respeite os princípios elementares.
 
Gabriel acrescentou que não se trata de saber se Assange cometeu um crime, mas que "nas condições atuais, não pode fazer uso dos direitos elementares de qualquer acusado", isto é, "não consegue preparar-se física e mentalmente e nem com a ajuda dos seus advogados pode preparar uma defesa adequada".
 
Por isso, disse Gabriel, Assange "deve ser libertado".
 
Por outro lado, Walraff afirmou que o objetivo é fazer com que as pessoas entendam que não estão a falar apenas da defesa do próprio Assange, mas "também da defesa da liberdade de opinião e de imprensa e, consequentemente, também da própria democracia".
 
Walraff alertou que "se, ao descobrir crimes de Estado, jornalistas, denunciantes e a meios de comunicação precisarem temer a perseguição, a prisão ou até temer pelas suas vidas no futuro, o quarto poder está mais do que em perigo".
 
Entre os signatários do apelo à libertação de Assange estão dez ex-ministros, incluindo três da Justiça, disse Walraff, representantes de partidos políticos, escritores como Elfride Jelinek, Eva Menasse e Eugen Ruge e jornalistas, além de quatro organizações.
 
Assange aguarda o resultado do julgamento de extradição para os Estados Unidos num prisão de alta segurança de Londres, onde está preso desde abril do ano passado, depois de ser removido pela polícia britânica da embaixada do Equador, onde recebeu asilo por sete anos.
 
Notícias ao Minuto | Lusa
 
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Angela Merkel inicia visita oficial à África do Sul e Angola

 
 
A chanceler da Alemanha inicia hoje uma visita oficial à África do Sul e a Angola e, pela primeira vez, a migração não será o principal tema na agenda. Em Luanda, Angela Merkel espera reforçar os laços económicos.
 
Tradicionalmente, a África do Sul é o parceiro mais importante da Alemanha em África. Mas as relações azedaram durante a presidência de Jacob Zuma, que governou a África do Sul de 2009 a 2018. Desde a saída de Jacob Zuma da presidência, os dois países estão a desfrutar de uma segunda lua de mel.
 
"As relações entre a Alemanha e a África do Sul melhoraram consideravelmente desde que Cyril Ramaphosa se tornou Presidente. O número crescente de visitas mostra claramente isso", afirma a analista Melanie Müller, do Instituto Alemão de Política Internacional e de Segurança (SWP).
 
Cyril Ramaphosa veio a Berlim para uma visita de Estado em 2018 e o Presidente da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, foi ao país um mês depois. "A visita de Angela Merkel à África do Sul também é um reconhecimento de que o relacionamento melhorou", diz a especialista.
 
 
Crise económica na África do Sul
 
Na África do Sul, a chanceler Angela Merkel vai reunir-se com o Presidente Cyril Ramaphosa e as relações económicas entre os dois países devem ser o principal tema. Uma delegação de líderes empresariais alemães acompanha a chanceler nesta deslocação ao continente africano.
 
A África do Sul recebe a maior parte do investimento alemão em África. E o país - que está a enfrentar uma profunda crise económica - está à espera de mais.
 
"Uma das coisas que alimenta a desigualdade é o desemprego e a falta de acesso a oportunidades. É nesse espaço que a África do Sul deseja fomentar o envolvimento direto que realmente impulsiona ainda mais a economia", Ottilia Maunganidze, do Instituto de Estudos de Segurança, um grupo de reflexão sul-africano.
Angola quer aprofundar cooperação militar
 
Em Angola, Angela Merkel vai encontrar-se na sexta-feira (07.02) com o Presidente João Lourenço, que esteve em Berlim em 2018. O Presidente angolano afirmou repetidamente que seu Governo quer aprofundar a cooperação militar com a Alemanha. Enquanto o seu antecessor José Eduardo dos Santos esteve no poder, essa cooperação estava fora de questão para a Alemanha.
 
Durante 38 anos no poder, a família dos Santos beneficiou de muitos negócios questionáveis - como revelou recentemente a investigação jornalística "Luanda Leaks". Segundo esta investigação, Isabel dos Santos, filha do ex-Presidente José Eduardo dos Santos, terá acumulado uma fortuna através de negócios duvidosos durante o Governo do seu pai. Como resultado, a empresária angolana teve contas e bens arrestados pela Justiça e vai enfrentar um processo no país.
 
Agora, a Alemanha está interessada em laços mais estreitos com Angola, diz Melanie Müller, do Instituto Alemão de Política Internacional e de Segurança. "O relacionamento melhorou desde que João Lourenco chegou ao poder há três anos. Ele tenta lutar contra a corrupção e privilégios. Por exemplo, lançou novas medidas para limitar a influência da poderosa família dos Santos. A Alemanha reagiu positivamente a isto."
 
Os investimentos privados alemães em Angola caíram nos últimos anos. No entanto, o Governo de Angola espera que a visita da chanceler possa ajudar a reverter essa tendência. Também espera estreitar a cooperação alemã no âmbito da defesa, incluindo a compra de barcos-patrulha da Alemanha – um tema que Berlim se escusou a comentar. 
 
A chanceler Angela Merkel deve regressar à Alemanha no próximo sábado (08.02).
 
Daniel Pelz, tms | Deutsche Welle

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As ambições alemãs no Médio-Oriente Alargado

 
 
Thierry Meyssan*
 
A Alemanha pretende, 75 anos após a Segunda Guerra Mundial, se tornar novamente uma potência no cenário internacional. Ela escolheu voltar ao Próximo-Oriente Alargado. Mas, para ela é difícil e perigoso elevar-se a esse nível sem nenhuma outra experiência além da histórica.
 
De acordo com o plano redigido por Volker Perthes em 2013, a Alemanha prepara-se para substituir os soldados dos EUA no Próximo-Oriente Alargado. Ela arde de impaciência depois de ter sido privada durante 75 anos do papel internacional a que se acha com direito. É para ela uma questão de honra nacional.
 
Pretende utilizar o seu exército para estabelecer a paz seja lá onde for, ela que teve que suportar o peso das guerras perdidas do nazismo.
 
A princípio, ela esperava entrar em Damasco vitoriosa ao lado dos bravos «democratas» de Idleb. Azar ! Não passam, afinal, de jiadistas! Depois, ela esperava substituir os GI.s no Norte da Síria quando o Presidente Donald Trump anunciou, pela segunda vez, a sua retirada. Infelizmente, cedendo ao Pentágono, ele deu meia volta. Ela absteve-se de intervir durante a operação turca contra o PKK/YPG, tendo em conta a sua grande população imigrante turca e curda. Imaginou, então, encobrir as suas acções por trás de um álibi humanitário, apresentando um projecto de Resolução ao Conselho de Segurança e suscitando os vetos indignados da Rússia e da China.
 
Por isso, enviou discretamente, em Outubro de 2019, peritos para apalpar o terreno junto do Presidente egípcio, Abdel al-Fattah al-Sissi, e do Emir do Catar, Xeque Tamim bin Hamad Al-Thani. Por fim, fixou-se na Líbia e organizou, a 19 de Janeiro de 2020, a conferência de Berlim.
 
Mas isso, uma vez mais, foi como um golpe de espada na água. Os dois principais rivais, Fayez el-Sarraj e Khalifa Haftar, nem se falaram. Ora, a Chancelerina Merkel recebeu, por esta altura, o apoio unânime da sua classe dirigente para «investir na paz». O comunicado final expõe esta visão imaginária de um cessar-fogo que ninguém deseja e de um exército alemão que o faria respeitar.
 
É que não é fácil compreender o Próximo-Oriente Alargado após 75 anos de ausência, não apenas aqui, mas também do cenário internacional.
 
Talvez a Alemanha encontre uma nova ocasião com o seu aliado militar de sempre, a Turquia. O que, no entanto, não é garantido de antemão : a União Europeia tem um atraso no pagamento de 2,6 mil milhões (bilhões-br) de euros quanto ao Pacto das Migrações, revelou o Ministro turco dos Negócios Estrangeiros (Relações Exteriores-br), Mevlüt Çavuşoğlu. Berlim e Ancara não pararam de se confrontar desde a tentativa de Golpe de Estado de 2016 e do meio milhão de prisões que se lhe seguiram, entre as quais as de 59 cidadãos alemães que continuam em detenção. E confrontam-se de novo a propósito da exploração de gás no Mediterrâneo.
 
Mas também existem muitos laços históricos entre os dois países, para o melhor ou para o pior (Rudolf Höss participou no genocídio de não-muçulmanos perpetrado pelos Jovens Turcos, tendo-se tornado depois, alguns anos mais tarde, director do campo de extermínio de Auschwitz, antes de ser condenado à morte pelo Tribunal de Nuremberga). Laços humanos também uma vez que a maior comunidade turca expatriada vive na Alemanha desde a Guerra Fria. A República Federal acolheu também os líderes dos Irmãos Muçulmanos desde a tentativa de Golpe de Estado de Hama, em 1982, e dedicou-lhes um gabinete especial no Ministério dos Negócios Estrangeiros, no início da guerra contra a Síria.
 
Assim, a Chancelerina Angela Merkel viajou para Istambul para a inauguração de um novo campus da universidade germano-turca. Ela afirmou, de novo, a vontade do seu país em «ajudar» a região. Propôs, por exemplo, construir 10. 000 alojamentos para as pessoas que cheguem de Idleb. Mas, falava ela de civis ou de jiadistas?
 
Thierry Meyssan* | Voltaire.net.org | Tradução Alva | Fonte Al-Watan (Síria)
 
*Intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: Sous nos yeux. Du 11-Septembre à Donald Trump. Outra obras : L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación (Monte Ávila Editores, 2008).

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Cerca de 550 soldados alemães são classificados como 'desleais à Constituição'

Soldado alemão na base aérea da Bundeswehr em Renania-Palatinado
© AP Photo / Matthias Schrader

O serviço de inteligência da Alemanha confirmou a abertura de um novo inquérito sobre centenas de soldados alemães suspeitos de serem de "extrema-direita", em particular membros das forças especiais.

O Serviço de Contrainteligência Militar (MAD, na sigla em alemão) afirma que as forças militares alemãs estão sendo sabotadas pelo extremismo, anuncia o jornal Welt am Sonntag.

Uma investigação foi aberta sobre 550 soldados suspeitos de simpatizarem com ideologias neonazistas. A maior parte deles seriam membros de forças especiais Kommando Spezialkräfte (KSK, na sigla em alemão).

Em 2019 foram identificados 360 casos novos, segundo o MAD, que considera a situação alarmante. A KSK contaria com cinco vezes mais casos que o restante do Exército alemão. Os investigadores observaram que vários soldados possuem uma visão do mundo antidemocrática e uma falta de respeito pela constituição.

"Nosso objetivo não é somente nos livrarmos do extremismo no Exército alemão, mas também de nos libertarmos de pessoas que não sejam leais à Constituição", declarou o diretor do MAD, Christof Gramm, citado pela Deutsche Welle.

Um caso identificado em 2017 levantou as suspeitas

O MAD foi criticado em 2017 por não ter identificado a tempo o extremismo de um soldado alemão de 29 anos, que se fez passar por refugiado sírio e planejava cometer um atentado. Desta forma, ele esperava que o ataque fosse associado ao terrorismo islamista. A polícia descobriu diversas armas de guerra roubadas e artefatos explosivos na casa do soldado.

Pela primeira vez desde sua criação, o serviço de contrainteligência publicará um relatório oficial sobre suas atividades de contrainteligência militar.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/defesa/2020012715059371-cerca-de-550-soldados-alemaes-sao-classificados-como-desleais-a-constituicao/

A insustentável “espargata” da Alemanha

A Alemanha anda, já faz tempo, a flirtar com a recessão, numa infindável dança “tem-te, não caias”. Parafraseando o velho Marx, “um fantasma ameaça a Alemanha, o fantasma da recessão”.

 

 

Mas, como era antecipável, ainda há mais. Muito mais.

“There are political problems, too. Beijing has threatened Germany with retaliatory measures if Berlin bans China’s Huawei from participating in the buildout of the German 5G communication network, while Washington is implementing sanctions against the Nord Stream 2 natural gas pipeline between Russia and Germany. The United States also in October imposed tariffs of 10 percent on large civilian aircraft and 25 percent on some agricultural goods from Europe. Washington is also still holding out the threat of higher tariffs on European cars, which would disproportionately hurt Germany. Finally, it is far from clear what the future holds for the EU-U.K. trade relationship after Brexit.”

É neste cenário que Merkel foi agora passar o último fim de semana, a Moscovo, com Putin.

A Geopolitical Futures analisa a situação e coloca-a em perspectiva.


Exclusivo Tornado / IntelNomics

 
 
 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/a-insustentavel-espargata-da-alemanha/

Construção do Nord Stream 2 deve ser terminada apesar das sanções dos EUA, diz Merkel

Capacete de trabalhador do projeto Nord Stream 2, em pátio na região de Leningrado. O gasoduto deve sair da costa russa em direção à Alemanha
© Sputnik / Ilia Pitalev

A chanceler alemã Angela Merkel declarou, após seu encontro com o presidente da Rússia, Vladimir Putin, que o projeto Nord Stream 2 será benéfico não só para a Alemanha, mas também para outros países europeus.

Durante a coletiva de imprensa realizada neste sábado (11) após a reunião com Vladimir Putin, a chanceler também notou que o projeto "é muito importante" e discordou da abordagem norte-americana de impor sanções às empresas envolvidas no Nord Stream 2 (Corrente do Norte 2).

"Nós falamos, claro, sobre o projeto Nord Stream. Ele está legitimado através da nova legislação europeia, e nós precisamos de finalizá-lo. A Alemanha e outros países da Europa irão se beneficiar do Nord Stream", declarou Merkel.

Para ela, o projeto deve ser realizado, mesmo após a imposição de sanções norte-americanas.

"Esse é sobretudo um projeto econômico, o qual nós consideramos correto […] Eu considero que, depois das discussões sobre a possibilidade de se finalizar o Nord Stream 2, apesar das sanções, o lado russo apresentou um prazo, há algum atraso, mas ele pode realmente ser terminado", disse Merkel.

"Eu gostaria de repetir que, mesmo com todas as divergências políticas com os EUA […] nós continuamos apoiando o projeto, tal como antes, uma vez que trata-se essencialmente de um projeto econômico", declarou a chanceler.

O presidente russo, por sua vez, afirmou que seu país tem capacidade de finalizar a construção do gasoduto de maneira independente e que as obras devem estar concluídas, no mais tardar, no início de 2021.

Dinamarca autoriza a construção do gasoduto Nord Stream 2. Trabalhador da companhia acelera os trabalhos na região de Leningrado, Rússia
© Sputnik / Ilia Pitaev
Dinamarca autoriza a construção do gasoduto Nord Stream 2. Trabalhador da companhia acelera os trabalhos na região de Leningrado, Rússia

A chanceler alemã Angela Merkel também declarou que os países devem empreender todos os esforços para a manutenção do acordo nuclear iraniano. 

DETALHES A SEGUIR

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2020011114996556-merkel-apos-encontro-com-putin-projeto-nord-stream-2-beneficiara-muitos-paises-da-europa/

Alemanha contraria EUA e decide retirar parte de suas tropas do Iraque

Militar alemão perto do avião de reabastecimento Airbus A-310 na base aérea de Al Azraq, Jordânia, 13 de janeiro de 2018 (foto de arquivo)
© AFP 2019 / John Macdougall

A Alemanha deve retirar entre 30 e 40 dos seus 120 militares instalados no Iraque para países vizinhos na região em meio à crise diplomática entre EUA e Irã.

A Alemanha está planejando retirar uma parcela dos seus 120 militares do Iraque para os países vizinhos Jordânia e Kuwait depois que os EUA mataram o popular major-general iraniano Qassem Soleimani, e um importante líder da milícia xiita iraquiana, em um ataque aéreo em Bagdá, Iraque.

A agência de notícias dpa relatou que a ministra da Defesa, Annegret Kramp-Karrenbauer, e o ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Heiko Maas, escreveram aos legisladores que as tropas nas bases iraquianas em Bagdá e em Taji seriam "temporariamente reduzidas", com retirada de "cerca de 30 [soldados] de Taji e mais alguns de Bagdá", totalizando entre 30 e 40 soldados.

Embora a maioria das tropas alemãs esteja em outras partes do Iraque, os militares localizados em Bagdá e Taji serão imediatamente transferidos para Jordânia e Kuwait até haver "uma nova consulta" e lhes ser exigido o recomeço de treinamento. Os dois ministros alemães sublinharam continuam dialogando com o governo iraquiano sobre a continuação da missão de treinamento das tropas iraquianas.

É "um passo muito bom para dar tempo ao governo iraquiano de avaliar a situação" depois que o parlamento iraquiano pediu a retirada das tropas estrangeiras, afirmou Roderich Kiesewetter, um legislador da União Democrata-Cristã, partido da chanceler alemã Angela Merkel.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/oriente_medio_africa/2020010714979110-alemanha-contraria-eua-e-decide-retirar-parte-de-suas-tropas-do-iraque/

Alemanha suspende patrulhamento de contingente militar no Iraque

Soldados alemães entram em avião de transporte Transall C-160
© AP Photo / Jan Pitman

A Alemanha anunciou a suspensão pouco depois de o Parlamento iraquiano aprovar uma resolução pondo "fim à presença das tropas estrangeiras no solo iraquiano", bem como a proibição de "utilizar o solo, espaço aéreo ou águas".

Em meio às tensões entre Washington e Teerã, Berlim decidiu cessar o patrulhamento de suas forças militares no Iraque como parte da Coalizão Internacional Contra o Estado Islâmico (CJTFOIR, na sigla em inglês), liderada pelos EUA.

"Devido aos recentes desenvolvimentos no Iraque, o inspetor geral das Forças Armadas Unificadas da Alemanha, [Eberhard] Zorn, decidiu suspender a mudança regular do contingente dos soldados alemães da CJTFOIR", informa comunicado das Forças Armadas.

A medida foi tomada poucas horas depois de o Parlamento iraquiano aprovar a resolução pondo fim à presença das tropas estrangeiras em solo iraquiano e proibição da utilização do solo, espaço aéreo ou águas territoriais sob qualquer circunstância.

Soldados alemães em frente de veículo de trasporte de tropas Boxer depois de exercícios no sul da Alemanha, 23 de maio de 2016
© AFP 2019 / CHRISTOF STACHE
Soldados alemães em frente de veículo de trasporte de tropas Boxer depois de exercícios no sul da Alemanha, 23 de maio de 2016

No dia 2 de janeiro, um ataque aéreo eliminou o general Qassem Soleimani, líder das forças curdas da Guarda Revolucionária iraniana.

O Pentágono confirmou a autoria do ataque, realizado com mísseis sob a supervisão do presidente dos EUA, Donald Trump.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/oriente_medio_africa/2020010614974373-alemanha-suspende-patrulhamento-de-contingente-militar-no-iraque/

A era Merkel está chegando ao fim

 
 
A chanceler que atravessou sucessivas crises, sem que o país perdesse a estabilidade, vive seu ocaso. Contrariando várias previsões, ela continua no poder, como bastião em meio à desconfiança nas democracias ocidentais.
 
Uma renúncia prematura de Merkel já foi muitas vezes prevista, especialmente quando a coalizão com os social-democratas cambaleava. Mas, após mais de 14 anos, Angela Merkel ainda é chanceler. E ela quer continuar até o final do mandato. Para isso, tem apoio: apesar de todas as críticas a seu governo, uma grande maioria quer que Merkel permaneça no poder até 2021.
 
"Vocês me conhecem" é uma das frases que Merkel usou para se promover na campanha eleitoral de 2013. Significa: podem confiar em mim. A frase também mostra a força da própria Merkel no centro do debate político – e até que medida, nas eleições passadas, as campanhas foram feitas à medida da sua pessoa.
 
 
Mudanças drásticas
 
A Alemanha e o mundo há muito deixaram de ser o que eram em 2005, quando Merkel se tornou chanceler pela primeira vez. Na Alemanha, a política há décadas não era tão polarizada: em todos os estados, a populista de direita AfD está presente nos legislativos locais – no Leste, muitas vezes como a segunda força política; no Parlamento alemão, é a maior bancada de oposição. Os grandes partidos alemães, como a CDU de Merkel e o SPD, perderam enorme apoio.
 
A situação também se tornou muito mais frágil a nível internacional. "Os dias em que podíamos confiar completamente nos outros são coisa do passado", disse Merkel em 2017, quando o novo presidente dos EUA, Donald Trump, questionou o sentido da Otan. Um ano antes, uma estreita maioria dos britânicos tinha votado a favor da retirada do Reino Unido da UE.
 
Para Ralph Bollmann, biógrafo de Merkel,  a chanceler enxerga "uma crise muito grave nas democracias ocidentais". Segundo ele, o objetivo de Merkel nos últimos meses no cargo é "não deixar a Alemanha e, na medida do possível, a Europa e o mundo em caos".
 
Merkel nunca foi uma grande visionária. A diferença dela para o presidente francês, Emmanuel Macron, por exemplo, é marcante. Depois de uma série de propostas de reformas da UE, que meio que acabaram parando em Merkel, ele recentemente gerou debate com o seu comentário sobre uma "morte cerebral" da Otan.
 
A portas fechadas, muitos no próprio partido de Merkel desejam que ela se deixe contagiar pelo menos um pouco pelo desejo de liderança de Macron e, em vez de simplesmente "trabalhar" durante crises, estabeleça mais sua marca – mais alemã, no caso.
 
Entre o ódio e a esperança
 
Angela Merkel conseguiu mudar algumas coisas, começando com o fato de ela ter feito carreira num partido outrora patriarcal. Ela ainda rejeita o termo "feminista" para si mesma até hoje. "Não quero me adornar com falsos louros", explicou ela em uma entrevista ao semanário Zeit. No Parlamento alemão, a proporção de mulheres nos 14 anos de seu governo até caiu significativamente, de 42% para 31%.
 
Quando Angela Merkel diz frases como "As cotas eram importantes, mas o objetivo deve ser a paridade!", ela esconde o fato de ter bloqueado as reivindicações do seu próprio partido por uma cota femininas no Parlamento.
 
Por outro lado, ela promoveu outras mulheres na CDU: a sua sucessora designada, Annegret Kramp-Karrenbauer, a atual Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e a ministra da Agricultura, Julia Klöckner, são exemplos.
 
"Vocês me conhecem" também sugere constância. Na verdade, Merkel decide de forma flexível, sobretudo "pragmática, a partir da constelação política", como diz o seu biógrafo. Como física, ela acreditava na energia nuclear - e após o grave acidente em Fukushima, no Japão, decidiu abandonar as centrais atômicas. Ela permitiu uma abertura do casamento para casais homossexuais. E, sob o seu governo, o serviço militar obrigatório foi suspenso.
 
Mas nada foi e continua a ser tão controverso como a decisão de Merkel, em 2015, de abrir as fronteiras da Alemanha para centenas de milhares de refugiados. Os populistas de direita tentaram capitalizar a todo custo a crise migratória. Quando houve atos de violência por parte de refugiados, por exemplo, a AfD disse que eram "mortos de Merkel". Para alguns, ela se tornou uma figura odiada, para outros, ela era a salvadora do mundo ocidental. A revista Time a nomeou a Pessoa do Ano de 2015, enquanto manifestantes de extrema direita em seu próprio país pediam sua renúncia.
 
Desconfiança com sistema político 
 
Apesar de toda a polarização, Merkel ainda é um dos políticos mais populares da Alemanha, muitas vezes solitária no topo. Kramp-Karrenbauer, sua potencial sucessora, pelo contrário, está muito atrás nas sondagens. Mas Merkel conhece bem as controvérsias da sua política. Antes das recentes eleições para o Bundestag, ela deixou claro que havia ponderado bastante se realmente deveria se se candidatar a chanceler. Merkel, hoje, está se tornando figura rara nas campanhas eleitorais e se envolve cada vez menos na política do dia a dia. Hoje, ela atende, sobretudo, a compromissos no exterior.
 
O eurodeputado verde Jürgen Trittin acredita que Merkel tem um foco cada vez mais europeu: "Ela está concentrando tudo na presidência alemã do Conselho da UE" no segundo semestre de 2020, afirma.
 
Especialistas em política externa das suas próprias fileiras, como Roderich Kiesewetter, criticam o que seria a falta de uma linha clara: "Ela não tem uma estratégia que mostre de forma transparente os interesses, os pontos fortes, mas também os pontos fracos da Alemanha”, afirma. "E a Alemanha deve mostrar”, diz Kiesewetter, "como estabilizar os seus próprios parceiros no Sul, na Ucrânia, mas também no Oriente Médio".
 
No entanto, números de uma pesquisa deste ano do instituto Allensbach mostram que a confiança na política também está diminuindo em casa. Apenas 57% dos entrevistados ainda consideram a estabilidade como um dos pontos fortes da Alemanha, em comparação com 81% em 2015. E o sistema político existente é visto como uma força da República Federal em apenas 51% - em comparação com 62% de quatro anos atrás.
 
Qual vai ser o legado de Merkel? Bollmann acredita que a chanceler gostaria de se ver "como a mulher que conduziu a Alemanha através de muitas crises - crise financeira, crise do euro, crise da Ucrânia, crise dos refugiados - relativamente segura e tem preservado a estabilidade do sistema até certo ponto, além de tornar o país e o partido mais liberais, mais abertos, mas ao preço de ter agora um partido populista de direita no Bundestag, que encarna a oposição a esta mudança de valores.
 
Angela Merkel não tem muito tempo mais, e com a sua lenta retirada da política, ela está deixando claro que não quer mudar muita coisa, pelo menos não muito em termos de política interna. Em vez disso, está cada vez mais deixando o campo para Kramp-Karrenbauer.
 
Se Kramp-Karrenbauer será realmente sua sucessora parece mais questionável do que nunca, até mesmo alas da CDU estão se voltando abertamente contra ela. Mas quem quer que um dia siga os passos de Merkel até o gabinete de chanceler, seguirá grandes passos.
 
Christoph Hasselbach, Michaela Küfner, Maximiliane Koschyk, Kay-Alexander Scholz | Deutsche Welle

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Vendas de armas alemãs batem recorde, apesar de restrições e promessas

 
 
Três anos de recuo nas exportações armamentistas da Alemanha anulados em 2019, quando as vendas chegam a quase 8 biliões de euros. Alguns dos compradores estão envolvidos em conflitos como a guerra do Iémene.
 
As exportações armamentistas da Alemanha cresceram 65%, de janeiro a meados de dezembro de 2019, em comparação com 2018, alcançando um valor recorde de 7,95 biliões de euros. As cifras foram fornecidas pelo Ministério da Economia, a pedido do partido A Esquerda, e disponibilizadas à DW.
 
Elas mostram que dois dos principais "fregueses" – o Egito, em 2º lugar, e os Emirados Árabes Unidos, em 9º – foram participantes ativos da guerra do Iémene, apesar de o governo alemão ter assegurado que não mais forneceria para esses países.
 
Os documentos indicam que as exportações de armas, veículos e navios de guerra aprovadas por Berlim batem o recorde anterior, de 2015, que foi seguido por três anos consecutivos de quedas dos valores exportados. Já em meados de 2019, as licenças para exportações armamentistas excediam o total do ano anterior, que fora de 5,3 biliões de euros.
 
"O mais importante é perguntar para onde vão os armamentos bélicos, e para que países", adverte Katja Keul, porta-voz do Partido Verde para política armamentista. "E o número das exportações de armas de guerra duplicou, desde o ano passado."
 
 
As exportações mais controversas são as para os assim chamados "terceiros países", ou seja, que não são membros nem da União Europeia, nem da Otan (ou "equivalentes à Otan", como a Austrália). A parcela desse tipo de exportação caiu em relação a 2018, de 52,9% para 44,2%, mas em parte por o total vendido ter crescido. Em termos absolutos, essas vendas aumentaram em 1 bilião de euros, e cinco dos dez principais importadores são "terceiros países".
 
"Isso é, sem dúvida, surpreendente, pois o governo afirmou que está sendo mais restritivo", comenta Keul. "Se você exporta armas de guerra para países de regiões de crise, que não estão vinculados a nós por nenhum tipo de aliança, é óbvio que está desestabilizando a região." O ministro da Economia Peter Altmaier colocou a culpa do fato num enorme acúmulo de transações, devido aos meses de disputas para formar uma coligação de governo, após as eleições gerais de 2017.
 
Em sua resposta ao pedido de informações do Partido Verde, o secretário de Estado Ulrich Nussbaum repetiu uma frase conhecida dos relatórios governamentais regulares sobre exportações armamentistas: que o valor total das vendas não seria um "parâmetro adequado" para julgar a política sobre o assunto: "Mais importante é o tipo de bens e seu propósito. O governo persegue uma política de controle de exportações de armas restritivo e responsável", argumentou.
 
É fato que grandes contratos, com tempo de preparação longo – por exemplo, para submarinos ou tanques – muitas vezes distorcem os dados sobre exportações. Contudo as respostas do governo a uma moção semelhante, em novembro, mostraram que ele raramente bloqueia um negócio de armas. No período janeiro-outubro, tanto de 2018 quanto de 2019, foi negado menos de 1% dos pedidos de licenças de companhias armamentistas alemãs: 88 (de um total de 11 mil) em 2018, e 56 (de 9.900) em 2019.
 
Proibidos – mas não tanto
 
Keul também não perde muito tempo com a argumentação de que outros grandes exportadores de armas ocidentais, como Estados Unidos, França e Reino Unido, teriam menos discussão pública sobre vendas armamentistas e, portanto, controles de exportação mais fracos do que a Alemanha.
 
"Há debates nesses países também", rebate, citando a decisão de um alto tribunal britânico, em junho, tornando ilegais as vendas para a Arábia Saudita. No mês seguinte, o Congresso americano igualmente votou pelo bloqueio das exportações de armas para as nações do Golfo Pérsico – decisão posteriormente vetada pelo presidente Donald Trump.
 
A porta-voz verde lembrou, ainda, que a Alemanha tem normas menos rigorosas do que os EUA em relação aos controles de uso final, além de ser menos restritiva do que a França ao permitir que fabricantes de armas formem joint ventures.
 
O maior número de entregas de armas alemãs, alcançando 1,77 bilhão de euros, ou quase um quarto do total das licenças aprovadas, destinou-se à Hungria, seguida pelo Egito (802 milhões de euros) e os EUA (483 milhões de euros). Em Budapeste, o governo nacionalista de direita do primeiro-ministro Viktor Orbán realiza atualmente um reforço em grande escala de seus arsenais militares.
 
Berlim concordou em suspender as exportações armamentistas para países envolvidos no conflito do Iémene, como parte de um acordo de coligação fechado em 2018. Mais tarde, em seguida ao assassinato do jornalista Jamal Khashoggi, prometeu proibir todas as vendas para a Arábia Saudita. Relatórios subsequentes revelaram, porém, que em 2019 o governo federal ainda aprovou algumas transações com Riad.
 
"Essas cifras consideráveis mostram que o sistema de controle de exportações, como um todo, não está funcionando", declarou em comunicado Sevim Dagdelen, deputado federal pelo A Esquerda, autor de um dos pedidos de informações ao Ministério da Economia. "Precisamos de interdições claras para as exportações armamentistas."
 
Nik Martin, Ben Knight (av) | Deutsche Welle

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Alemanha está resvalando para a direita?

 
 
Sem dúvida que está, opina Jens Thurau. Mas é preciso ver o fenômeno no contexto de uma grande crise de legitimação da democracia. E existe também a outra Alemanha, e essa precisa dizer mais alto o que quer.
 
Quando, também em 2019, se acenderam os candelabros do Hanuca para a festa das luzes judaica, a chanceler federal alemã, Angela Merkel, emitiu uma mensagem de saudação: é um milagre, disse, que após a ruptura civilizatória do Shoá, o Holocausto, volte a haver vida judaica na Alemanha; um milagre por que "podemos ser profundamente gratos".
 
O quadro é bem outro, quando se conversa com concidadãos judaicos. Eles contam sobre agressividade crescente, que não têm mais coragem de andar pelas ruas com o quipá, a cobertura de cabeça judaica. E desde outubro gera horror o ato homicida de um jovem na cidade de Halle, que abateu a tiros dois transeuntes quaisquer, mas na verdade pretendia invadir uma sinagoga lotada, para lá cometer um assassinato em massa.
 
Após atos como esse, é grande a consternação. Políticos dizem que tal coisa não pode jamais se repetir. Por parte dos cidadãos de fé judaica, a reação é, antes, que há muito já esperavam essa perda de limites, e não se espantam com mais nada.
 
Quer dizer que a Alemanha está resvalando para a direita? Sem dúvida que está. A esperança de que a cada vez mais descarada orientação nacionalista dos populistas de direita da Alternativa para a Alemanha (AfD) fosse fazer recuar os eleitores foi destruída em todas as eleições estaduais deste ano.
 
Segundo pesquisadores, há anos existe na Alemanha um potencial de 15% a 20% dos cidadãos que estão abertos para ideologia de direita radical ou extrema. E há muito caiu o tabu social de que não se possa manifestar isso em público.
 
Muitas vezes são pequenas notícias que evidenciam a transformação gradual. Pais de uma escola da Saxônia, no Leste alemão, discordaram de seus filhos irem em excursão ao antigo campo de concentração de Buchenwald e, como preparação, ler na aula o Diário de Anne Frank. Ouvir algo assim faz subir um calafrio pela espinha.
 
Por outro lado, tudo isso se desenrola num contexto internacional, em que a Alemanha ainda faz figura relativamente boa. Na Itália um populista de direita chegou a ministro do Interior – ainda que, por enquanto, apenas temporariamente. Na Áustria, até pouco tempo atrás os populistas de direita compunham o governo federal.
 
No cerne, trata-se de uma maciça crise de legitimação das democracias ocidentais. Em meio à alta velocidade da globalização, os seres humanos perdem os alicerces e a visão do todo, e se refugiam em sonhos de um mundo compreensível, delimitado por fronteiras nacionais. Ele nunca existiu, mas parece atraente.
 
De fato, as democracias mal conseguem manter o passo com os acontecimentos, Seus processos decisórios são pesadões, os cidadãos esperam em vão por reformas verdadeiras no mundo do trabalho, na terceira idade, nos cuidados de saúde. A impotência de muitos é ainda maior por uma maioria da sociedade de fato participar do novo mundo das possibilidades digitais ilimitadas. Isso resulta numa cisão da sociedade: entre encima e embaixo, pobre e rico, digital e analógico, e, acima de tudo, entre cidade e campo.
 
O desencadeador central dessa dinâmica foi o grande número de refugiados chegados à Alemanha em 2015. Porém há muito o ressentimento contra os migrantes se alastrou, contra os estrangeiros residentes de longa data no país, contra membros da fé judaica. E, assim, como nos Estados Unidos, estabeleceu-se no país uma guerra cultural dos supostos párias contra o establishment – representado por políticos de todos os partidos, a mídia e, justamente, minorias de toda sorte, também judeus. Cada vez menos ocorre diálogo entre os grupos.
 
No palco político, o ponto decisivo será se as conservadoras União Democrata Cristã (CDU) e União Social Cristã (CSU) continuarão resistindo a formar coalizões com a AfD. Na Saxônia-Anhalt, a governista CDU está em sério embate contra o número crescente de membros de sua base que se mostram perfeitamente abertos a esse tipo de alianças. Porém populistas de direita, com alas nacionalistas que agem abertamente e numerosos nazistas em seus quadros, não podem assumir responsabilidade de governar na Alemanha!
A maioria que segue defendendo uma sociedade aberta tem que estar pronta para lutar pela democracia com mais força e, acima de tudo, com mais barulho do que no passado. As leis, Constituições e também a organização das democracias só funcionam se são mantidas vivas pela sociedade.
 
Então, será que a Alemanha está resvalando para a direita? Uma parte dela, sim, definitivamente. O que já tem claros efeitos sobre a política: uma situação como no terceiro trimestre de 2015, quando tantos cidadãos deram boas-vindas aos refugiados, parece difícil de se imaginar, hoje em dia. Mas a outra Alemanha também existe: ela só precisa dizer mais alto o que quer.
 
Jens Thurau | Deutsche Welle | opinião

Para alemães, Trump é o líder mundial mais perigoso

 
 
Quem representa a maior ameaça à paz mundial? A maioria de 2 mil entrevistados apontou para uma pessoa: o presidente dos EUA, deixando Kim e Putin para trás. Confiança em Merkel também caiu.
 
Embora tradicionalmente Washington seja um dos aliados mais próximos de Berlim, a confiança da população alemã no parceiro transatlântico erodiu-se consideravelmente sob a presidência de Donald Trump, revelou uma sondagem recente da firma de análise de dados YouGov.
 
Perguntou-se aos participantes quem é mais perigoso: se o dirigente da Coreia do Norte, Kim Jong Un, o líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, o chefe de Estado da China, Xi Jinping, seu homólogo russo, Vladimir Putin, ou Trump.
 
Para cerca de 41%, a escolha recaiu sobre o presidente americano, seguido por Kim (17%), Putin e Khamenei (ambos 8%), e, por último, Xi (7%). Mais de 2 mil cidadãos participaram da enquete encomendada pela agência de notícias DPA. A YouGov realizou uma sondagem semelhante em 2018, porém sem incluir os líderes do Irã e da China. Nela, Trump foi designado por 48%o mais perigoso de todos, à frente de Kim e Putin.
 
 
Mais confiança em Macron do que em Merkel
 
Uma outra pesquisa de fim de ano mostrou que também caiu a confiança do público alemão na chefe de governo da Alemanha, Angela Merkel, especialmente em comparação com outros líderes europeus.
 
Indagados pelo Instituto Kantar para o Grupo de Mídia Funke, 57% disseram ter um nível de confiança "um tanto alta" no presidente francês, Emmanuel Macron, enquanto a conservadora cristã alemã constou nessa posição com 53%. No outro extremo da escala, a diferença foi ainda mais pronunciada: 44% dos alemães disseram ter "muito pouca" confiança em Merkel, contra apenas 32% para Macron.
 
Na mesma enquete, Trump confirmou-se como líder menos confiável (89% com "muito pouca" confiança), atrás do presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan (86%), e o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson (71%).
 
Rebecca Staudenmaier (av) | Deutsche Welle

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Trump aprova sanções contra gasoduto entre Rússia e Alemanha

 
 
EUA alegam que obra aumentará influência de Moscovo na Europa. Críticos da punição dizem que Washington quer, na verdade, vender mais gás para os europeus. Empresa que atua no projeto anuncia suspensão de construção.
 
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou nesta sexta-feira (20/12) a lei que impõe sanções contra empresas que atuam na construção do polémico gasoduto russo Nord Stream 2, uma imensa rede de oleodutos submarinos que vem sendo instalada no fundo do Mar Báltico. As punições já haviam sido aprovadas pelo Congresso americano.
 
Contestadas pela União Europeia, as sanções foram incluídas num projeto extenso sobre os gastos com defesa que Trump assinou durante uma cerimónia numa base da força aérea na região de Washington.
 
Para justificar a punição, o governo americano alegou que o gasoduto aumentará a dependência do gás russo por parte dos europeus, e desta forma fortalece a influência de Moscovo no continente. Os EUA argumentam ainda que o Nord Stream 2 enfraquecerá nações aliadas no leste da Europa, que dependem das taxas de trânsito sobre gás russo que passa por oleodutos instalados em seus territórios.
 
Além disso, Moscovo poderá fornecer mais gás diretamente a seu principal comprador, a Alemanha, o que levanta o temor de que os russos terão mais facilidade para eventualmente pressionar outras nações que ficam na rota dos velhos gasodutos de superfície, podendo trancar os oleodutos, se quiserem.
 
 
 
As sanções visam empresas que estão construindo o Nord Stream 2, no Mar Báltico, orçado em quase 11 biliões de dólares. A medida tem como objetivo paralisar as obras – que já estão 80% concluídas – e deve provocar atritos entre os EUA e vários países europeus, em especial a Alemanha.
 
Berlim é uma das principais promotoras do projeto, que prevê dobrar a capacidade de importação de gás russo pela nação europeia sem a necessidade de que o combustível passe por nações que mantêm relações tensas com Moscovo, como a Ucrânia e a Polónia. O projeto é na verdade uma ampliação da capacidade do sistema Nord Stream 1, que funciona desde 2011, e que liga a cidade russa Ust-Luga a Greifswald, no leste alemão.
 
Ambas as casas do Congresso americano aprovaram as sanções com maioria esmagadora. Com a assinatura da lei por Trump, Washington terá 60 dias para identificar as empresas e os investidores estrangeiros envolvidos no projeto para revogar os respetivos vistos e congelar seus ativos em território americano.
 
Críticos da posição dos EUA afirma que a real intenção de Washington com a medida é vender mais gás natural liquefeito americano para os europeus.
 
Embora o gasoduto seja propriedade da estatal russa Gazprom, metade do investimento canalizado para o projeto é assegurado por cinco empresas europeias das áreas da energia e produtos químicos, como é o caso da alemã BASF, da anglo-holandesa Shell e da francesa ENGIE.
 
Uma das empresas mais afetadas pelas sanções, o grupo suíço Allseas, contratado pela Gazprom para instalar os oleodutos do Nord Stream 2, anunciou, após a assinatura de Trump, que estava suspendendo suas atividades na obra por tempo indeterminado.
 
O porta-voz do presidente russo, Vladimir Putin, disse que a medida de Washington viola o Direito Internacional, reafirmando a intenção do Kremlin de concluir o projeto, independentemente das sanções. Moscovo afirmou também que a medida impedirá que países desenvolvam suas economias. A porta-voz do Ministério do Exterior russo, Maria Zakharova, acusou Washington de promover uma "ideologia" que dificulta a competição global.
 
A União Europeia também criticou a medida e disse que a Comissão Europeia, o órgão executivo do bloco, está analisando os impactos da decisão americana. "Por questão de princípios, a UE se opõe à imposição de sanções contra empresas da Europa que conduzam negócios legítimos", afirmou um porta-voz do bloco.
 
Já a Alemanha acusou os EUA de interferência em assuntos internos. "O governo alemão rejeita essas sanções extraterritoriais", disse a porta-voz Ulrike Demmer, acrescentando que a medida é "particularmente incompreensível", tendo em vista um acordo alcançado sobre o trânsito futuro do gás russo pelo território ucraniano.
 
O Nord Stream 2 se tornou ainda mais estratégico para a Alemanha após Berlim estabelecer um abandono gradual da energia nuclear no país e estabelecer metas para a redução de emissões de CO2 e consumo de carvão. O gás natural produz 50% menos dióxido de carbono do que o carvão.
 
O gasoduto de 1.200 quilómetros de extensão deve permitir que o país dobre efetivamente o volume de gás natural que importa da Rússia. Em 2017, Berlim comprou um recorde de 53 biliões de metros cúbicos do combustível russo, cerca de 40% de seu consumo total. O sistema Nord Stream 2 é projetado para transportar até 55 biliões de metros cúbicos por ano.
 
Deutsche Welle | CN/afp/ap/dpa/lusa
 

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Alemanha desperta para o terror de direita

 
 
Extremistas de direita semeiam ódio nas ruas e na internet. Diante de seu número crescente e dos assassinatos que abalam a Alemanha, órgãos de segurança estão finalmente aprendendo a lição, opina Marcel Fürstenau.
 
A lista do terror está ficando cada vez mais longa: no estado alemão de Hessen, um suposto neonazista matou o político local Walter Lübcke; e na cidade de Halle, na Saxônia-Anhalt, um atentado fracassado à sinagoga repleta de fiéis fez duas vítimas.
 
Todos os dias, em algum lugar da Alemanha, cidadãos são insultados e agredidos devido à cor de sua pele, sua religião ou orientação sexual. O Departamento Federal para a Proteção da Constituição (BfV), serviço secreto interno alemão, classifica agora 12,7 mil extremistas de direita como de orientação violenta.
 
Em comparação: em 2011, quando foi descoberto o grupo terrorista Clandestinidade Nacional-Socialista (NSU), que cometia assassinatos em todo o país, havia apenas 9,8 mil.
Por falar da NSU: "fracasso estatal completo" foi a conclusão devastadora de uma comissão de investigação do Parlamento alemão. O foco das críticas recaiu, com razão, sobre a polícia e o BfV, que por muito tempo não quis ver qualquer motivação racista por trás da série de assassinatos e atentados, apesar das provas claras.
 
Autoridades e políticos prometeram melhorias. Mas as trocas de pessoal nas chefias dos órgãos de segurança e as mudanças organizacionais se mostraram fundamentalmente ineficazes.
 
 
As opiniões divergem quanto às razões e os responsáveis por essa ineficácia. Uma explicação é certamente a longa fixação no terrorismo de cunho islâmico. Após o atentado a um mercado de Natal de Berlim, em dezembro de 2016, as autoridades de segurança devem ter visto confirmada, sua avaliação da situação, de maneira francamente macabra. No entanto, elas têm que aceitar a acusação de negligenciar a ameaça proveniente da extrema direita.
 
No caso do serviço secreto doméstico alemão, os críticos viram uma conexão com Hans-Georg Maassen, ex-presidente do órgão, substituído em 2018. Alguns o acusaram de simpatizar com a legenda populista de direita Alternativa para a Alemanha (AfD), que descambava cada vez mais para a cena nazista e de ultradireita.
 
Fundada seis anos atrás, no início de 2019 a AfD foi parcialmente declarada pelo sucessor de Maassen, Thomas Haldenwang, como "caso suspeito" – um estágio preliminar para a vigilância pelos órgãos de inteligência.
 
O mais tardar desde essa compreensível decisão, não há mais motivo para duvidar da determinação do BfV na luta contra o extremismo de direita. Pois está claro que o serviço secreto doméstico alemão considera alguns líderes e tendências da AfD como agitadores ideológicos.
 
Finalmente lá se vão os dias em que o perigo da direita era minimizado com referências a supostos infratores individuais. "Para mim, existem agora casos individuais em demasia", aponta Haldenwang, presidente do BfV, com clareza tão digna de nota quanto atrasada.
 
No entanto, falar claramente é uma coisa, agir de acordo é outra. Mas Haldenwang merece elogios também nesse aspecto: desde meados do ano corrente, novas equipes do BfV se ocupam do extremismo de direita. Com 300 vagas adicionais no órgão de segurança, passará a ser fortalecida a expertise científica, entre outras.
 
Aparentemente também pertence ao passado a falsa consideração concedida aos extremistas de direita nas próprias fileiras do BfV. O mesmo se aplica ao Departamento Federal de Investigações Criminais (BKA), cujo presidente Holger Münch segue o mesmo caminho de seu colega da inteligência doméstica alemã.
 
Em breve, um "retrato da situação do extremismo de direita" deverá abordar todo o serviço público na Alemanha, com seus cerca de 4,7 milhões de funcionários. Isso inclui a Bundeswehr (Forças Armadas da Alemanha), que foi motivo de pavorosas manchetes em 2017, com a suposta rede extremista de direita do soldado Franco A.
 
No entanto, é um bom sinal que se ouçam, das autoridades de segurança alemãs, tons cada vez mais autocríticos. Quando a polícia e o BfV se ocupam dos próprios erros, seus esforços contra todos os inimigos da democracia soam muito mais credíveis – algo que fez falta durante muito tempo. Por vezes, os extremistas de direita deviam se sentir até encorajados diante da pouca – na pior das hipóteses, nenhuma – pressão de perseguição.
 
O ministro alemão do Interior, Horst Seehofer, responsável pela polícia e pelo serviço secreto doméstico do país, resumiu: "Era preciso ter levado isso a sério mais cedo!" Ele se referia à "trilha de sangue" iniciada pelo grupo terrorista NSU em 2000 e que infelizmente não deverá terminar com o ataque à sinagoga em Halle em 2019.
 
Mas todos estão mais atentos no setor por que ministro do Interior é politicamente responsável. As autoridades subordinadas a Seehofer estão finalmente vigilantes para com o extremismo de direita.
 
Marcel Fürstenau | Deutsche Welle | opinião

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Senado dos EUA aprova sanções contra gasoduto entre Rússia e Alemanha

 
 
Obra submarina deve dobrar capacidade de envio direto de gás russo para a Alemanha, contornando nações que mantêm relações tensas com Moscovo. Governo alemão, que apoia projeto, acusa EUA de "interferência”.
 
O Senado dos Estados Unidos aprovou na terça-feira (17/12) a imposição de sanções contra empresas que atuam na construção do polémico gasoduto russo Nord Stream 2, uma imensa rede de oleodutos submarinos que vem sendo instalada no fundo do Mar Báltico. As sanções já haviam sido aprovadas pela Câmara de Representantes americana no dia 12 de dezembro.
 
A medida tem como objetivo paralisar as obras – que já estão 80% concluídas – e deve provocar atritos entre os EUA e vários países europeus, em especial a Alemanha. Berlim é uma das principais promotoras do projeto, que prevê dobrar a capacidade de importação de gás russo pela nação europeia sem a necessidade de que o combustível passe por nações que mantêm relações tensas com Moscovo, como a Ucrânia e a Polónia.
 
O projeto é na verdade uma ampliação da capacidade do sistema Nord Stream 1, que funciona desde 2011, e que liga a cidade russa Ust-Luga a Greifswald, no leste alemão. As obras do Nord Stream 2, lideradas pela estatal russa Gazprom, são avaliadas em 10,5 biliões de dólares (43 biliões de reais).
 
 
 
As sanções passaram no Senado americano com folga, por 86 votos a 8.
 
 
Nos últimos anos, Washington vem fazendo pressão contra o projeto, argumentando que ele vai aumentar a dependência europeia em relação à Rússia e enfraquecer nações aliadas no leste da Europa, que dependem das taxas de trânsito sobre gás russo que passa por oleodutos instalados em seus territórios.
 
Além disso, Moscovo poderá fornecer mais gás diretamente a seu principal comprador, a Alemanha, o que levanta o temor de que os russos terão mais facilidade para eventualmente pressionar outras nações que ficam na rota dos velhos gasodutos de superfície, podendo trancar os oleodutos, se quiserem.
 
No entanto, críticos da posição dos EUA apontam que a real intenção de Washington é vender mais gás natural liquefeito americano para os europeus.
 
As sanções previstas pelo Senado americano prevêem que o governo dos EUA terá 60 dias para identificar empresas e indivíduos associados à construção do gasoduto. Entre as medidas que podem ser impostas estão a proibição de entrada nos EUA e bloqueio de bens e valores em solo americano. O grupo suíço Allseas, contratado pela Gazprom para instalar os oleodutos do Nord Stream 2, deve ser a empresa mais afetada pelas medidas.
 
Na semana passada, quando as sanções foram aprovadas pela Câmara dos Representantes dos EUA, o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski., que busca conter a influência russa em seu país, declarou que seu governo expressou "gratidão” pela ação dos deputados americanos. Zelenski. argumenta que o Nord Stream 2 deve privar seu país empobrecido de pelo menos 2 biliões de dólares anuais em taxas de trânsito.
 
Berlim, no entanto, reagiu com irritação. O ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Heiko Maas, denunciou a estratégia americana como "interferência estrangeira”. "Decisões sobre a política energética europeia devem ser tomadas pela Europa”, disse Maas na semana passada. "Nós rejeitamos a interferência europeia e, por uma questão de princípio, sanções extraterritoriais”.
 
Já a Câmara de Comércio Russo-Alemã declarou que o Nord Stream 2 é importante para segurança energética da Europa e pediu que os países interessados na conclusão da obra retaliem os EUA com outras sanções, que podem mirar importações de gás natural liquefeito (GNL) americano. 
 
O Nord Stream 2 se tornou ainda mais estratégico para a Alemanha após Berlim estabelecer um abandono gradual da energia nuclear no país e estabelecer metas para redução de emissões de CO2 e consumo de carvão. O gás natural produz 50% menos dióxido de carbono do que o carvão.
 
O gasoduto ampliado de 1.200 quilómetros de extensão deve permitir que o país dobre efetivamente o volume de gás natural que importa da Rússia. Em 2017, Berlim comprou um recorde de 53 biliões de metros cúbicos do combustível russo, cerca de 40% de seu consumo total. O sistema Nord Stream 2 é projetado para transportar até 55 biliões de metros cúbicos extras por ano.
 
Deutsche Welle | JPS/ots

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

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Quando a crise lhes bate à porta o défice deixa de ser um fetiche

O sistema financeiro foi salvo com sucessivas e vultosas transferências de fundos públicos e o crescimento da dívida publica que daí resultou foi vilipendiada com a falsa ideia de que os Estados viveram acima das suas possibilidades ideia que também foi  extensiva aos cidadãos para que estes aceitassem o aperto do cinto , a dita austeridade.

A  redução dos défices foi feita, à custa dos salários , das pensões e reformas , do investimento , da degradação dos serviços públicos e das privatizações de empresas altamente lucrativas.


A continuação das políticas Orçamentais contracionistas tiveram como resultado o abrandamento económico e o espectro da recessão.

A Alemanha onde esta fantasia se transformou em ortodoxia para salvar o seu sistema financeiro tem estado perto de entrar em recessão . Por isso patrões e sindicatos da industria começaram a reivindicar que se abandonasse o colete de forças do défice .

E , espanto dos espantos , numa entrevista à Suddeutsch Zeitung , Jens Weidmann , o inflexível presidente do Bundesbank , começou a temperar as suas criticas ao BCE declarando : ” não deveríamos fazer do défice zero um fétiche ” Olá !

Não seria de admirar que com o pretexto de se ter de lutar contra as alterações climáticas se viesse a abandonar de forma mais ou menos explícita a regra Orçamental do défice zero em proveito dum relançamento do investimento…



Via: FOICEBOOK http://bit.ly/2EuFu5c

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2019/12/17/quando-a-crise-lhes-bate-a-porta-o-defice-deixa-de-ser-um-fetiche/

'Interferência inadmissível': Alemanha condena sanções dos EUA por gasoduto Nord Stream 2

Dinamarca autoriza a construção do gasoduto Nord Stream 2. Trabalhador da companhia acelera os trabalhos na região de Leningrado, Rússia
© Sputnik / Ilia Pitaev

EUA aprovam legislação para impor sanções a empresas e indivíduos envolvidos na construção dos novos gasodutos Nord Stream 2. As sanções podem prejudicar o fornecimento de gás natural para a União Europeia.

O ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Heiko Maas, rejeitou os planos dos EUA de impor sanções ao gasoduto Nord Stream 2, que fornecerá gás natural para a Alemanha.

​O Comitê Econômico da Alemanha condenou as ameaças de sanções como um "insulto à soberania europeia" e "interferência inadmissível" nos assuntos internos do bloco.

"A introdução destas sanções criará pressões consideráveis nas relações transatlânticas", declarou o Comitê em comunicado.

Corrente do partido alemão A Esquerda pediu que o governo aplique retaliações, caso os Estados Unidos apliquem sanções. O partido propôs a imposição de tarifas ao gás natural liquefeito norte-americano.

"O governo deveria reagir imediatamente, usando todas as medidas diplomáticas disponíveis e medidas específicas contra a ameaça de sanções norte-americanas ao Nord Stream 2", disse o parlamentar Klaus Ernst em comunicado à imprensa.

Nesta terça-feira (10), o Congresso dos EUA acordou o orçamento de defesa para 2020, que inclui diversas medidas para "conter a Rússia", entre elas a imposição de sanções contra os gasodutos Nord Stream 2 e Corrente Turca, ambos projetados para escoar a produção russa de gás natural.

Nord Stream 2

O projeto Nord Stream 2 consiste na construção de dois gasodutos, com capacidade total de 55 bilhões de metros cúbicos de gás anuais, ligando a costa da Rússia à Alemanha através do mar Báltico. O gasoduto atravessará águas territoriais da Rússia, Finlândia, Suécia, Dinamarca e Alemanha.

A Ucrânia se opõe ao projeto, uma vez que o gás russo deixaria de passar pelo seu território. As taxas impostas ao trânsito da commodity é uma importante fonte de renda para Kiev.

Homem observa tubo de gás que faz parte do projeto Nord Stream
© AP Photo / Jens Meyer
Homem observa tubo de gás que faz parte do projeto Nord Stream

Os EUA opõem-se ao projeto por terem interesse em vender gás natural liquefeito ao lucrativo mercado europeu. Washington argumenta que o gasoduto aumenta a dependência europeia da Rússia e representa uma ameaça à segurança do Velho Continente.

O presidente da câmara de comércio Rússia-Alemanha, Matthias Shepp, acredita que a questão da dependência é "argumento falacioso" dos EUA:

"Uma visão sóbria dos fatos mostra claramente que nós [a Europa] somos menos dependentes do gás russo do que os russos são dependentes das divisas que recebem pelas exportações de gás para a Europa", disse Shepp.

De acordo com o jornal alemão DW, 627 empresas estão envolvidas na construção dos gasodutos. A russa Gazprom teria garantido que seria capaz de terminar a construção do gasoduto, mesmo se as empresas europeias precisarem se retirar do projeto:

"Nós vamos completar a construção do gasoduto de uma forma ou de outra", disse um funcionário da empresa. "As sanções, se elas vierem, apenas irão atrasar a construção e torná-la mais cara. Mas não vão inviabilizá-la", declarou.

A legislação aprovada nesta quarta-feira concede ao governo de Trump 60 dias para identificar as empresas e os indivíduos que prestam esses serviços ao projeto e permite o bloqueio de suas propriedades.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2019121214885930-interferencia-inadmissivel-alemanha-condena-sancoes-dos-eua-por-gasoduto-nord-stream-2/

Merkel expressa "profunda vergonha" durante visita a Auschwitz

Varsóvia, 6 dez (Xinhua) -- A chanceler alemã, Angela Merkel, expressou "profunda vergonha" na sexta-feira durante sua primeira visita como chanceler ao antigo campo de concentração de Auschwitz na Polônia.

 

"Sinto profunda vergonha quando penso nos crimes bárbaros cometidos aqui pelos alemães. Esses foram crimes e violações que transgrediram todas as fronteiras imagináveis", disse Merkel na ocasião do 10º aniversário da criação da Fundação Auschwitz-Birkenau, acompanhado pelo primeiro-ministro polonês, Mateusz Morawiecki.

 

Merkel ofereceu à Fundação uma doação de 60 milhões de euros do estado e dos municípios alemães que serão usados ​​para a preservação do local. A Alemanha havia doado uma quantia igual há dez anos, quando o fundo foi criado.

 

É importante "identificar claramente os autores. Devemos isso a nós mesmos e às vítimas", afirmou Merkel.

 

"Hoje podemos dizer que quem é passivo diante de mentiras históricas pode ser considerado co-autor dessas mentiras", disse Morawiecki.

 

"É por isso que hoje devemos cuidar da verdade daqueles tempos com a maior diligência", acrescentou o primeiro-ministro polonês.

 

O complexo de Auschwitz-Birkenau foi criado pela Alemanha nazista em 1940. Na época de sua libertação em 1945, as câmaras de gás de Auschwitz já haviam levado mais de um milhão de vidas.

 

Ver original em "XINHUA Português" na ligação seguinte:

http://portuguese.xinhuanet.com/2019-12/08/c_138614656.htm

Alemanha: Amadores Políticos e a Inteligência. Por Heiner Flassbeck

beco

Seleção de Júlio Marques Mota e tradução de Francisco Tavares

Alemanha: Amadores Políticos e a Inteligência

Heiner-Flassbeck Por Heiner Flassbeck

flassbeck_logo em 30 de novembro de 2019 (aqui)

Traduzido para inglês e editado por BRAVE NEW EUROPE (aqui)

 

3 Alemanha Amadores Políticos e a Inteligência 1

 

Queixarmo-nos sobre jogadores amadores na política é fácil. Fazer algo sobre isso seria o trabalho de todos aqueles que foram treinados e galardoados pelas suas contribuições inteligentes. Mas ou são demasiado valiosos, demasiado distraídos ou demasiado ideologicamente tendenciosos para criticar a política.

O SPD vai decidir na próxima semana quem irá liderar o partido no futuro, depois de os seus antecessores, Andrea Nahles e Martin Schulz, terem falhado em todos os aspetos. Olaf Scholz, que com a sua parceira dupla [Klara Geywitz] conseguiu ganhar a votação nacional entre os membros do partido, é provável que vença. Afinal, ele conseguiu ganhar cerca de 10% para si mesmo (com uma participação de 50%).

Quem quiser saber mais sobre Olaf Scholz deve ler o discurso que proferiu há alguns dias durante o debate orçamental no Bundestag (que se encontra aqui). Foi provavelmente o pior discurso proferido por um ministro das Finanças numa ocasião destas. Ele não mencionou que a Alemanha estava em recessão, nem que a Europa (pela qual ele é diretamente responsável dentro do governo) ainda está na mais difícil crise imaginável. Olaf Scholz simplesmente ignora a questão central para o ministro das Finanças: se o desenvolvimento das taxas de juros dos títulos do governo alemão (novamente em território negativo esta semana) tem algo a ver com a política de dívida do governo federal.

Na CDU, a presidente eleita há um ano na conferência do partido acaba de passar novamente com uma espécie de voto de confiança. No entanto, o discurso com o qual ela tentou convencer a convenção do partido foi tão inimaginavelmente banal (para ser encontrado aqui) que perguntamo-nos se ainda existe uma massa crítica de pessoas pensantes na CDU. Eu não quero aproximar-me muito de ninguém, mas os 80 advogados da facção do Bundestag mencionados pela AKK são obviamente um fardo enorme.

Mas a própria Angela Merkel deu um toque final à confusão. Primeiro, distinguiu-se no debate orçamental com a observação de que não se pode “ver qualquer bem em investimentos quando estes apenas causam dívidas” e depois – num triplo salto mortal mental – chegar à única justificação engenhosa para esta frase. “Se já se está endividado em tempos de taxas de juro baixas”, disse a chanceler, “não se sabe sequer o que se deve fazer em tempos de taxas de juro normais, por exemplo, mais dívida?”. É preciso ouvir esta sequência (de apenas alguns segundos) de uma chanceler federal em pleno voo (aqui) para compreender realmente o que está errado neste Estado e na Europa. Os aplausos do plenário também devem ser conscientemente registados e apreciados.

 

O declínio intelectual da política …

Nos meios de comunicação e da ciência, tal aberração mental já nem sequer é notada, porque não se tem consciência das consequências. A maioria dos nossos debates político-económicos sofrem simplesmente do facto de muitos participantes se sentirem puros intelectuais e nunca terem tentado envolver-se na política e tentarem mudar as coisas para melhor no terreno (em Berlim e Bruxelas).

Temos de imaginar a política muito em concreto, de tal modo que, no próximo Conselho Europeu, a Chanceler lance esta frase – que obviamente considera extremamente boa e importante – para a arena europeia com o mesmo fervor que no Bundestag. Quase todos os outros Chefes de Estado ficarão espantados e impressionados com esta análise económica cristalina e acenarão as suas cabeças em sinal de aprovação. Os funcionários de Ursula von der Leyen terão certamente sido informados com antecedência das conclusões da chanceler pelos funcionários da Chancelaria e terão recomendado a sua aprovação “espontânea”. Valdis Dombrovskis, Vice-Presidente da Comissão, está provavelmente entusiasmado porque ouve algo que concorda com o seu preconceito sobre as dívidas. Paolo Gentiloni, o Comissário responsável, está confuso porque sente intuitivamente que a declaração soa diferente daquilo que os seus funcionários lhe explicaram, mas prefere permanecer em silêncio porque não compreende realmente o argumento.

Christine Lagarde procurará nas suas notas de discurso uma resposta, mas provavelmente só encontrará um exemplo que soa muito diferente do que a Chanceler disse. No entanto, ela não a atirá espontaneamente, mas quando for a sua vez de o fazer depois de uma longa espera, ela irá ler as suas notas de discurso completamente. Macron vai dizer algo que também soa diferente, mas vai enfatizar a importância da cooperação franco-alemã e, assim, encobrir todas as críticas. Os Chefes de Estado e de Governo, depois de todas as suas notas terem sido lidas, rir-se-ão à medida que avançam por caminhos separados, na certeza de terem dado mais um passo em frente na Europa.

… mas também o fracasso dos intelectuais

O que é que isso nos diz? Mostra que não se pode esperar que a política altere os seus rituais, especialmente a nível europeu, e que discuta seriamente os problemas. Com uma imprensa totalmente falhada, só aqueles que conseguem ver as coisas sem preconceitos ideológicos e sabem que o Chanceler está a dizer disparates podem mudar alguma coisa. Se, no início da próxima semana, 50 a 100 economistas de toda a Europa e independentemente uns dos outros viessem a público e acusassem a Chanceler e todo o seu gabinete de grave ignorância das inter-relações económicas mais importantes, a política não poderia certamente ignorar isto.

Mas isso não vai acontecer, e as razões são óbvias. Muitos economistas que detêm cátedras universitárias simplesmente não se importam com os problemas reais dos negócios e da política. Eles mexem nos seus modelos de equilíbrio ou “verificam” esses modelos irrelevantes com sonoros métodos econométricos e abstêm-se completamente de observar e criticar a política. Outros têm que cuidar dos famosos “fundos de terceiros”, a maioria dos quais vêm da esfera política. Lá se critica a política não tão alegremente, abertamente e em voz alta, porque se é diretamente dependente de decisões políticas.

Isto aplica-se diretamente na Alemanha aos institutos de investigação, que estiveram praticamente silenciosos nas suas críticas à política através da academia, por um lado, e da sua dramática dependência do financiamento de terceiros, por outro. E há ainda as profundas clivagens ideológicas que parecem pôr um travão na crítica de muitos economistas a um chanceler da CDU. A confusão da chanceler em matéria de economia, independentemente da direção que se tome, merece ser criticada.

Quem quiser mudar estas terríveis condições deve, por um lado, trabalhar para que a pluralidade de doutrinas nas faculdades da economia e nos institutos se torne norma. Houve algum progresso do lado dos estudantes aqui, porque eles entendem cada vez mais a parcialidade da oferta económica. Só na próxima semana, sou convidado para três faculdades (Rostock, Chemnitz e Nuremberga) para apresentar e discutir novas abordagens. Do lado dos professores, no entanto, a falange dos neoliberais e dos neoclassicistas está longe de estar quebrada.

Por outro lado, a dependência das universidades e dos institutos de investigação do financiamento externo deve ser significativamente reduzida. Mas isso não basta. O financiamento direto do Estado deve também ser concebido de modo a que os institutos não corram o risco de ter de considerar interesses político-partidários ou mesmo de ter de se adaptar desde o início. Mesmo um instituto em Munique deve ser autorizado a apresentar opiniões progressistas.

 

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O autor: Heiner Flassbeck [1950 – ], economista alemão (1976 pela Universidade de Saarland), foi assistente do Professor Wolfgang Stützel em questões monetárias. Doutorado em Economia pela Universidade Livre de Berlim em julho de 1987, tendo por tese Prices, Interest and Currency Rate. On Theory of Open Economy at flexible Exchange Rates (Preise, Zins und Wechselkurs.Zur Theorie der offenen Volkswirtschaft bei flexiblen Wechselkursen). Em 2005 foi nomeado professor honorário na Universidade de Hamburgo.

A sua carreira profissional teve início no Conselho Alemão de Peritos Económicos, em Wiesbaden, entre 1976 e 1980; esteve no Ministério Federal de Economia em Bona até janeiro de 1986; entre 1988 e 1998 esteve no Instituto Alemão de Investigação Económica (DIW) em Berlim, onde trabalhou sobre mercado de trabalho e análise de ciclo de negócio e conceitos de política económica, tendo sido chefe de departamento.

Foi secretário de estado (vice-ministro) do Ministério Federal de Finanças de outubro de 1998 a abril de 1999 sendo Ministro das Finanças Oskar Lafontaine (primeiro governo Schröeder), e era responsável pelos assuntos internacionais, a UE e o FMI.

Trabalhou na UNCTAD- Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento desde 2000, onde foi Diretor da Divisão de Globalização e Estratégias de Desenvolvimento de 2003 a dezembro de 2012. Coordenador principal da equipa que preparou o relatório da UNCTAD sobre Comércio e Desenvolvimento. Desde janeiro de 2013 é Diretor de Flassbeck-Economics, uma consultora de assuntos de macroeconomia mundial (www.flassbeck-economics.com).

Autor de numerosas obras e publicações, é co-autor do manifesto mundial sobre política económica ACT NOW! publicado em 2013 na Alemanha, e são conhecidas as suas posições sobre a crise da eurozona e as suas avaliações críticas sobre as políticas prosseguidas pela UE/Troika, nomeadamente defendendo que o fraco crescimento e o desemprego massivo são resultado da falta de uma política dirigida à procura (vd. The End of Mass Unemployment, 2007, em co-autoria com Frederike Spiecker).

 

 

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2019/12/08/entre-a-crise-de-2008-e-a-que-ha-de-vir-esta-a-crise-dos-politicos-atuais-alemanha-amadores-politicos-e-a-inteligencia-por-heiner-flassbeck/

Alemanha afasta militar suspeito de fazer saudação nazista

Responsável pelo ataque já foi detido pelas autoridades, mas o motivo do crime ainda é desconhecido
© AP Photo / Gero Breloer

A ministra da Defesa da Alemanha prometeu neste domingo (1) tomar uma "ação decisiva" contra qualquer caso de radicalismo no Exército após a repercussão de que um membro da força de elite militar pode ser expulso.

"Tiramos as primeiras consequências neste caso e continuaremos a agir com a mesma severidade e a impor as mesmas consequências em todos os casos", disse Annegret Kramp-Karrenbauer durante uma visita ao Kosovo, segundo a agência de notícias AFP.

O jornal Bild am Sonntag disse que o exército está investigando secretamente um oficial da tropa de elite das Forças Armadas, conhecida como KSK, e outros dois soldados. Após o vazamento da informação, as autoridades teriam sido forçadas a exigir. 

Um dos soldados investigado foi proibido de usar o uniforme do Exército alemão enquanto o outro foi classificado como um caso suspeito.

Ambos teriam feito a saudação nazista durante uma festa privada organizada pelo militar da tropa de elite. 

A KSK é a tropa encarregado de missões sensíveis e arriscadas, incluindo operações de resgate de reféns ou ações antiterror no exterior.

No ano passado, a ministra da Defesa, Ursula von der Leyen, ordenou que os militares se purificassem de todos os elos com o passado hitlerista depois de saber que capacetes de aço e recordações do Exército da era nazista eram exibidos abertamente em um de seus quartéis.

Ela também ordenou que os quartéis ainda nomeados em homenagem a figuras da Segunda Guerra Mundial, como o marechal de campo Erwin Rommel, fossem rebatizados.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2019120114840944-alemanha-afasta-militar-suspeito-de-fazer-saudacao-nazista/

"Milícias" de extrema direita manipulam temores dos alemães

 
 
Grupos de justiceiros vêm "patrulhando" áreas de cidades alemãs que supostamente não contam com presença regular da polícia. Mas analistas apontam que os motivos dos participantes da iniciativa são mais tenebrosos.
 
Um grito rompe o silêncio de uma tarde de terça-feira em frente à Catedral de Berlim, no centro da cidade. "Ei, você!", grita Oliver Niedrich, um patrulheiro de uma milícia local, antes de perseguir duas mulheres que pediam esmolas. Ele acredita que elas são batedoras de carteiras, mas não fornece provas.
 
As mulheres fogem antes que Niedrich as apanhe. Mas a perseguição é suficiente para atrair a atenção de espectadores nervosos – e policiais que patrulham a área.
 
"Às vezes, encontramos pessoas que não gostam particularmente muito de nós", afirma Niedrich, depois de a polícia checar sua identificação e mandá-lo embora. "A polícia vem por nossa causa, mas nós não nos importamos – pelo menos eles vêm para a área."
 
Ele sabe que suas ações – incluindo a utilização de coletes vermelhos que dão um ar oficial – são tecnicamente legais, desde que não resultem na detenção de alguém ou envolvam violência.
 
 
Niedrich é um dos cerca de 20 milicianos em Berlim que fazem parte da iniciativa "patrulha cidadã". Em grupos de dois ou três, os homens vestidos com coletes vermelhos patrulham bairros na capital alemã onde pequenos delitos são frequentes.
 
A iniciativa se chama "Estabelecendo zonas de proteção" (Schafft Schutzzone, em alemão). É abreviada por "SS", o que na Alemanha traz imediatamente à mente a famosa "SS" da era nazista – organização paramilitar "Esquadrão de Proteção" (Schutzstaffel, em alemão) que perseguiu milhões de pessoas e foi diretamente responsável por genocídios. Niedrich rejeita qualquer ligação.
 
Iniciativa de extrema direita
 
A iniciativa "Estabelecendo zonas de proteção" foi lançada pelo Partido Nacional-Democrático (NPD), uma legenda de extrema direita da Alemanha que abriga vários neonazistas. A organização diz que as áreas patrulhadas são muitas vezes regiões turísticas populares, bem como aquelas que tiveram um aumento do número de imigrantes.
 
"Muita coisa mudou com o fluxo de estrangeiros", afirma Sebastian Schmidtke, vice-presidente do NPD em Berlim, que organiza a milícia. "Essa é, infelizmente, a realidade. E você não pode fechar os olhos para a realidade."
 
Schmidtke tem várias condenações penais por "incitação ao povo", um crime de ódio frequentemente aplicado em casos de negação do Holocausto e insultos raciais, religiosos ou étnicos.
 
Porém, sua declaração esbarra com os fatos: na realidade, de acordo com dados oficiais, a criminalidade está caindo de forma generalizada tanto em Berlim como em toda a Alemanha.
 
Juntamente com o fato de que a presença da polícia aumentou, os formuladores de políticas públicas e analistas estão preocupados que o número crescente de milícias em toda a Alemanha tenha objetivos mais tenebrosos do que eles deixam transparecer: intimidar os estrangeiros e manipular o medo dos alemães para obter ganhos políticos.
 
As milícias cidadãs não são um fenômeno novo na Alemanha. Após a Reunificação da Alemanha, em 1990, os governos regionais, especialmente dos novos estados rurais do leste do país, aplaudiram as iniciativas dos cidadãos para manter a paz em suas cidades.
 
Mas o fluxo de refugiados e requerentes de asilo em 2015 trouxe uma nova dinâmica à prática, afirma Berndt Wagner, criminólogo e diretor da Exit Deutschland, uma organização sem fins lucrativos que auxilia as pessoas a saírem de grupos neonazistas.
 
"As pessoas ficam inflamadas devido à perspectiva de criminalidade nas mãos de estrangeiros e um declínio das circunstâncias – apesar do fato de que a criminalidade parece ter se estabilizado", sublinha Wagner.
 
Em 2018, a criminalidade em todo o país caiu 3,5%, especialmente em relação a abusos sexuais, roubos e fraudes, de acordo com estatísticas nacionais. Só em Berlim, os casos de batidas de carteiras caíram 26,2% em 2018.
 
O número de perpetradores não alemães em Berlim mal se mexeu ao contabilizar pequenas violações da lei de imigração, e as estatísticas federais indicam que o número de policiais empregados atingiu um pico de duas décadas em 2017.
 
Dados esses números, não é a criminalidade que os alemães temem, mas sim uma sociedade diversificada, afirma Wagner. É por isso que esses grupos de milícias – que podem se reunir legalmente, mas não podem prender suspeitos se não forem atacados – atraem ideólogos de extrema direita. Alguns os veem como "equipes de limpeza" da sociedade.
 
"O NPD está entrando no espírito público para seguir suas políticas", conta Wagner.
 
"Eu realmente não me importo"
 
O primeiro subtítulo da plataforma partidária do NPD em Berlim é "o problema gerado pelos estrangeiros" e estabelece formas de fechar as fronteiras da Alemanha, impedir os imigrantes de receber empregos e benefícios sociais e preservar a identidade nacional alemã.
 
O site do partido também exibe imagens de suas patrulhas, sobrepostas com slogans como "proteja os alemães!" e "alemães ajudando alemães!". Múltiplas tentativas de dissolver ou banir o partido completamente falharam nos tribunais.
 
Mas a seção berlinense do Departamento Federal de Proteção da Constituição (BfV) – a agência de segurança interna da Alemanha – tem observado de perto as milícias do partido desde que elas começaram a se formar em 2018, confirmou um porta-voz. No início deste mês, o governo declarou que essas milícias tinham "potencial para o terrorismo de direita".
 
"É ingênuo nos comparar com terroristas", afirma Schmidtke, enquanto espera que seus colegas regressem de uma perseguição a duas mulheres de pele escura. "Estamos fazendo uma patrulha, dando uma olhada ao redor [para garantir] que a área está segura", frisa.
 
As pessoas reagem positivamente às suas patrulhas, insiste Schmidtke. De fato, pouco antes da chegada da polícia, um funcionário de um estabelecimento veio agradecer-lhes.
 
Cerca de 300 membros do partido realizam “patrulhas” em quase todos os estados alemães, afirma Schmidtke. Em Berlim, eles receberam até pedidos de pais para levar seus filhos à escola.
 
"Pessoalmente, eu não me importo como eles nos chamam", frisa Schmidtke. "Nós estamos fazendo por convicção e vemos isso como uma coisa razoável para ser feita. Se isso é 'extremismo de direita', eu realmente não me importo."
 
Mas uma aposentada de 65 anos de Berlim, que viu a cena em frente à Catedral da cidade, diz que sim. "Claro que há pessoas em todos os lugares que te querem roubar", conta Gabrielle, que se recusou a dar seu sobrenome por questões de privacidade. "Mas proteção extra para isso? Não, obrigado."
 
Mas nem todos se sentem tão seguros quanto Gabrielle. Um estudo sobre os maiores medos da sociedade alemã divulgado no início deste ano pelo Centro de Ciências Sociais de Berlim mostrou que um em cada três entrevistados temia "infiltração estrangeira" por causa do grande número de imigrantes. Mais da metade temia a criminalidade.
 
As patrulhas do grupo estão obviamente "polarizando", afirma Oliver Niedrich, um pouco sem fôlego após a sua recente perseguição. "Mas sabemos exatamente quem somos."
 
Austin Davis (fc) | Deutsche Welle

As consequências fatais da queda do muro de Berlim

– A anexao da RDA e o desaparecimento do campo socialista abriu uma extraordinária avenida para os poderosos

por Pierre Levy [*]

A anexa O ministro das Relações Exteriores alemão, num destaque publicado pelo Le Monde em 04/11/2019, falsifica e instrumentaliza a história a serviço da "unificação europeia".


 

O trigésimo aniversário da queda do Muro de Berlim, em particular na França, gerou uma profusão de homenagens emocionais, glorificação enfática e elogios de satisfação.

Neste concerto a uma voz, merece destaque a contribuição do ministro das Relações Exteriores da Alemanha, publicada pelo Le Monde. É provável que Heiko Mass não se atrevesse a publicar esse texto no seu próprio país.

Começa com uma afirmação ousada: em 9 de novembro, "nós, alemães (...), celebramos a união da Europa, que está hoje felizmente reunida", porque "essa felicidade devemos a centenas de milhares de alemães orientais que saíram às ruas" e mais geralmente a cidadãos da Europa central e oriental" que, sedentos de liberdade, derrubaram os muros arrancado a sua liberdade". E continua o ministro, "devemos (também) aos nossos amigos e parceiros da NATO", bem como a François Mitterrand e Mikhaïl Gorbachev.

Assim, para o líder social-democrata, os cidadãos que desceram em 1989 às ruas de Berlim Oriental, Dresden e outros lugares tiveram um sonho em mente: alcançar a "unificação da Europa" (e por que não também colocar Ursula Von der Leyen à frente da Comissão de Bruxelas, tal como está agora?).

Não tenho certeza de que uma tese tão grotesca pudesse ter sido publicada em Berlim. Mas, ao dirigir-se ao público francês, talvez Maas esperasse poder disfarçar a realidade com impunidade. Porque uma grande maioria dos cidadãos da RDA que protestaram durante meses em 1989 estavam a fazê-lo na esperança de reformar profundamente esse país, mas não com o objetivo de abolir o socialismo, muito menos de vir a ser anexado pela República Federal.

E foi apenas nos últimos momentos por iniciativa de Helmut Kohl da CDU (agora comprovada), o slogan "Nós somos o povo" (aspiração por mais democracia no quadro do socialismo), passou para "Somos um povo", que visava abertamente a unificação.

Mas para o ministro, não importa a realidade histórica. A única coisa que conta é o objetivo: "É para nós (os líderes alemães?) uma obrigação concluir a unificação da Europa".

Esta reescrita da história tem pelo menos um mérito: o de ilustrar o estado de espírito que impulsiona as elites ocidentais, em particular a alemã. E esse estado de espírito lembra o famoso comentário do multimilionário americano Warren Buffet em 2005: "Há uma guerra de classes, é um facto, mas é a minha classe, a classe dos ricos, que lidera esta guerra e que a vence.

Basta aqui generalizar, substituindo "classe" por "campo", e a frase ilustra perfeitamente o sentimento de triunfo experimentado pelos líderes ocidentais contra os países que tinham implementado um sistema – ainda que imperfeito – em que o CAC 40 [NT] e os dividendos pagos aos acionistas foram substituídos pela propriedade pública. E onde recessões sociais incessantes não constituíam o horizonte insuperável das sociedades.

Esse estado de espírito triunfante – que marcou os dez ou quinze anos após a queda do muro e o desaparecimento da URSS – não durou, no entanto, a eternidade sonhada pelos teóricos do fim da história e feliz globalização.

Maas e os seus amigos, agora estão a perder as ilusões: "o (laborioso) resgate do euro, as intermináveis discussões sobre o acolhimento e repartição de refugiados, tudo isso criou novas lacunas na Europa". Pior, lamenta o ministro, "com o Brexit, estamos testemunhando pela primeira vez a saída de um país da UE. E em muitos países europeus, aqueles que querem que acreditemos que menos Europa é melhor, vão de vento em popa”.

Mas, é claro, o que não funcionou com a Europa funcionará... com ainda mais a Europa: "uma coisa é certa, para sobreviver neste mundo, os europeus devem permanecer soldados", insiste Heiko Maas. A propósito, observe-se o uso da palavra "soldado". Ele poderia ter escrito "unidos" ou "juntos". Não sabemos se o seu texto foi escrito diretamente na lingua de Molière, mas o termo usado implicitamente refere-se a partes que são mantidas juntas por uma operação artificial forçada... Uma confissão inconsciente?

A realidade é que a queda do Muro de Berlim realmente criou dois tipos principais de consequências: sociais e geopolíticas. E neste ponto o autor está certo: muito além das fronteiras alemãs.

Os anos 90 desencadearam, por um lado, a maior onda de recuos sociais na Europa e no mundo. Na França, na Alemanha, na Europa Oriental e, na realidade, em todos os continentes, o que houve não foi apenas uma "reforma" imposta pela oligarquia dominante, possível apenas pela inversão cataclísmica do equilíbrio de poder a favor do capital em detrimento dos povos – privatizações, cortes na proteção social, um aumento fenomenal da desigualdade e da pobreza, limitações drásticas nos direitos dos assalariados e dos sindicatos – mas também pondo de parte a democracia (por exemplo na inversão do resultado de referendos sobre a integração europeia).

Porque o desaparecimento do campo socialista abriu uma via extraordinária para os poderosos. Numerosos sindicalistas da Alemanha ocidental (mesmo os mais anticomunistas) disseram recentemente o seguinte: antes da queda da Alemanha Oriental, a existência desta obrigava o patronato da RFA a manter um alto nível de benefícios sociais a fim de impedir que o sistema em vigor na RDA constituísse um exemplo.

A anexação deste país levantou essa hipoteca e abriu as comportas do rompimento social, começando com o questionamento dos acordos coletivos.

O desaparecimento do campo socialista teve o mesmo papel no nível mundial.

Quanto ao equilíbrio geopolítico de poder, não há necessidade de fazer um desenho. Da Jugoslávia ao Iraque, da Líbia à Síria via Iémen, Venezuela ou Costa do Marfim, as forças conhecidas como imperialistas não mais reconheceram limites.

Mas o período agora é novamente mais difícil para ambições hegemónicas. Nem a Rússia nem a China querem submeter-se a elas. Portanto, diz Maas, "precisamos de uma verdadeira união europeia de defesa, além da NATO, que possa agir de forma autónoma onde quer que seja necessária". "Defesa"? Trata-se, por exemplo, como sugerido pelo futuro Alto Reponsável da UE para a Política Externa, o atual colega espanhol (também socialista) de Maas, Josep Borrell, de ativar os “agrupamentos táticos”?

Porque o ministro não hesita em escrever: "juntos, devemos lutar pela manutenção da ordem internacional e tornar-nos o núcleo de uma aliança para o multilateralismo". Talvez seja mais preciso falar sobre uma Aliança para o multiliberalismo... Quanto ao "policiamento" internacional, a fórmula fala por si, Heiko Maas afirma que "a paz depende dessa ordem, também na Europa". Uma ameaça?

E se tudo ainda não estava ainda suficientemente claro, o autor conclui exaltando a força "que anima os europeus" quando "eles agem" como em 1989, incluindo "a força para ir além dos muros" e fronteiras, “a força para fazer respeitar os nossos valores e os nossos interesses num mundo cada vez mais autoritário".

Fazer respeitar os "valores europeus" em todo o mundo... Decididamente, somos levados a lamentar a queda do muro.

[NT] CAC 40, Cotation Assistée en Continu, é um índice bolsista que reúne as 40 maiores empresas cotadas em França.

[*] Redator chefe do mensário Ruptures

O original encontra-se em www.legrandsoir.info/...

 

 

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/alemanha/muro_nov19.html

Tudo baseado num estudo do governo alemão e sem comentários

30 anos depois.
 
«57% des Allemands de l'Est se sentent traités comme«des citoyens de seconde classe»,selon une étude menée par le gouvernement fédéral à l'occasion du trentième anniversaire de la chute du mur de Berlin. Le nombre est moins élevé chez les 18-29 ans, mais néanmoins conséquent.«En Saxe, environ 30% des jeunes se sentent délaissés,relate la sociologue Susanne Rippl.C'est beaucoup, si l'on compare cela avec le haut niveau de confiance qu'ils ont vis-à-vis de leur propre situation économique.»
aqui , aqui e aqui
na insuspeita Slate.fr
 
Ganhos médios mensais brutos
na Alemanha Oriental e Ocidental e
Taxa de alinhamento de 2005 a 2018
(clicar para aumentar)
Subvenções federais para financiamento
do desenvolvimento urbano de 1990 a 2018
(clicar para aumentar)
Investimentos por habitante na indústria
Equipamento
 
(clicar para aumentar)
Estudo oficial aqui
 

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

Como o euro ajudou a Alemanha a evitar tornar-se como o Japão. Por Martin Wolf

Espuma dos dias Alemanha e Euro

Seleção e tradução de Francisco Tavares

Como o euro ajudou a Alemanha a evitar tornar-se como o Japão

Berlim deveria estar grata por aquilo que a moeda única, e Mario Draghi, lhe deram.

Martin Wolf 2 Por Martin Wolf

Editado por The FTimes, OP Editorial, em 29/10/2019 (ver aqui)

Republicado em Gonzallo Rafo em 15/11/2019 (aqui)

42 Como o euro ajudou a Alemanha a evitar 1

 

“Pensar que dois e dois são quatro/ E nem cinco nem três/O coração do homem há muito que está dorido/ e durante muito tempo parece que esteve.”

 

Qualquer um que pensa sobre a economia precisa de recordar estas linhas do poeta inglês AE Housman. As coisas têm de fazer sentido. A questão é como.

As pessoas responsáveis pelas grandes economias não podem ignorar isto. A tragédia da zona euro, especialmente do papel da Alemanha na zona euro, é que a transição para a reflexão sobre a forma como as receitas e as despesas se agregam a nível da zona euro e a nível global não tem, até agora, ocorrido.

Isto explica, em parte, a hostilidade generalizada da Alemanha contra as políticas do Banco Central Europeu. No entanto, essas políticas não irão mudar fundamentalmente. Poderão ter de se tornar ainda mais agressivas. Se assim for, o desinteresse revelado nas demissões de três funcionários alemães do Conselho de Administração do BCE, mais recentemente Sabine Lautenschläger, e nos ataques dos decisores políticos alemães, irá agravar-se. Esta hostilidade poderia ter consequências a longo prazo, não muito diferentes das de três décadas de eurocepticismo no Reino Unido. Pode revelar-se catastrófica. A UE pode sobreviver sem o Reino Unido, mas não sem a Alemanha, o seu país central.

Receei que o euro acabasse por dividir politicamente a UE quando foi lançado há cerca de três décadas. Mas não é fácil voltar atrás. Tem de funcionar. Para os alemães, a perceção necessária tem de ser que o euro já está a funcionar em seu benefício, estabilizando a sua economia, apesar dos seus enormes excedentes de poupança.

Não pode também tornar essas poupanças excedentárias altamente remuneradoras, porque o mercado não precisa delas. Isso é o que significa estar numa “armadilha de liquidez” global, com um investimento fraco apesar das taxas de juros ultra-baixas: a poupança não é escassa, mas superabundante.

Quais são os benefícios do euro para a Alemanha? Uma resposta vem de uma comparação com a economia a que mais se assemelha: a do Japão. Ambos renasceram das cinzas da Segunda Guerra Mundial como aliados dos EUA e exportadores dinâmicos de produtos manufaturados. São a terceira e quarta maiores economias do mundo. Também têm a segunda e terceira maiores idades medianas do mundo. A taxa de fertilidade da Alemanha ocupa a 204ª posição no mundo, enquanto a do Japão ocupa a 209ª posição. Estes, então, são países de alta renda relativamente grandes e em rápido envelhecimento, com forte manufatura.

 

Os excedentes do sector privado do Japão e da Alemanha convergiram a um nível elevado

42 Como o euro ajudou a Alemanha a evitar 2

Não surpreendentemente, ambos os países também têm enormes excedentes de poupança privada em relação aos investimentos. Entre 2010 e 2017, o excedente de poupança privada sobre o investimento foi em média de cerca de 7 por cento do produto interno bruto na Alemanha e 8 por cento no Japão. Porém, a composição foi diferente: o excedente de poupança das famílias foi de 72% do excedente privado geral da Alemanha, enquanto o excedente do setor empresarial foi de 76% do excedente do Japão.

A Alemanha tem um excedente da balança de transacções correntes maior e, por isso, maiores saídas líquidas de capitais do que o Japão.

42 Como o euro ajudou a Alemanha a evitar 3

Mesmo com taxas de juro muito baixas, o investimento privado nacional ficou muito aquém da poupança privada. Em termos aritméticos, os défices orçamentais ou os fluxos de capital no exterior tiveram que absorver essas poupanças excedentes. Foi aqui que surgiu a diferença. No Japão, as saídas líquidas de capital (por definição, a imagem espelhada do excedente em conta corrente) absorveram apenas um terço do excedente privado, com o restante terminando em défices orçamentais. Na Alemanha, as saídas de capital absorveram todo o excedente privado, já que o governo também tinha excedentes orçamentais.

 

O Japão absorveu o excedente de poupança privada com enormes défices orçamentais

42 Como o euro ajudou a Alemanha a evitar 4

 

A diferença não estava na virtude orçamental alemã e no vício orçamental japonês. Em vez disso, o Japão foi compelido a atingir défices orçamentais, porque a geração e manutenção de excedentes da balança corrente de 8 por cento do PIB, que de outra forma teriam sido necessários, era impraticável: a taxa de câmbio real era demasiado instável e os parceiros estrangeiros demasiado hostis.

No entanto, a Alemanha tem uma taxa de câmbio real estável e competitiva. Cerca de 40 por cento das suas exportações de bens vão para outros países da zona euro. Aqui, a posição competitiva que a Alemanha alcançou nos primeiros anos da zona do euro ainda está, em grande parte, trancada. Além disso, a taxa de câmbio do euro reflete a competitividade de uma média ponderada dos seus utilizadores. Estes benefícios facilitaram grandemente a desejada combinação de excedentes privados, orçamentais e comerciais da Alemanha.

O euro fez que a prudência funcionasse.

 

A taxa de câmbio efetiva da Alemanha tem sido estável, enquanto a do Japão tem sido volátil

42 Como o euro ajudou a Alemanha a evitar 5

 

O que teria acontecido se a economia alemã não tivesse sido protegida pela zona euro?

O marco alemão teria certamente apreciado enormemente, desta vez num mundo de baixa inflação.

Isso teria empurrado a inflação interna alemã para baixo de zero, prejudicado a rentabilidade e o desempenho das exportações e infligido perdas às instituições financeiras alemãs, com os seus enormes ativos externos. Teria tornado impossível preservar taxas de juro nominais fortemente positivas e provavelmente impossível evitar também défices orçamentais persistentes.

Em resumo, a zona euro protegeu a Alemanha de se tornar outro Japão. Os alemães devem estar gratos pelo que o euro lhes deu, elogiar Mario Draghi, presidente cessante do BCE, pelas suas decisões corajosas para salvar o sistema da calamidade e esperar que a sua sucessora Christine Lagarde siga o exemplo.

O excedente privado da Alemanha surgiu após 2000

42 Como o euro ajudou a Alemanha a evitar 6

 

As taxas de juro das poupanças alemãs não poderiam ser significativamente mais elevadas, quer estivessem dentro ou fora da zona euro. Na economia de hoje, a única maneira dos aforradores alemães desfrutarem de maiores retornos é assumirem mais riscos.

Como país, no entanto, a Alemanha poderia ajudar a mudar o equilíbrio entre a poupança e o investimento desejados em todo o mundo. Como a economia mundial desacelera e até mesmo a economia da Alemanha mostra sinais de fraqueza, como a procura externa se atrasa, os argumentos a favor dessa medida tornam-se cada vez mais convincentes. Os formuladores de políticas na Alemanha e em outros lugares devem promover os gastos públicos e privados – sobretudo o investimento. Parecem existir enormes oportunidades. Além disso, a possibilidade de contrair empréstimos com as atuais taxas de juros de longo prazo ultra-baixas é uma bênção, não uma maldição.

Ser ambicioso. Na economia actual, é a única coisa prudente a fazer.

 

O excedente privado japonês tem sido enorme e persistente

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O autor: Martin Wolf (1946-) é um jornalista britânico que se concentra na economia. É o editor associado e comentarista-chefe de economia do Financial Times. Bibliografia: The Shifts and the Shocks: What We’ve Learned—and Have Still to Learn—from the Financial Crisis (Penguin Press 2014), Fixing Global Finance (The Johns Hopkins University Press 2008), Why Globalization Works (Yale University Press 2004), The Resistible Appeal of Fortress Europe (AEI Press 1994).

 

 

 

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2019/11/16/como-o-euro-ajudou-a-alemanha-a-evitar-tornar-se-como-o-japao-por-martin-wolf/

'Mortes aos infiéis': polícia desarma 'ataque de grandes proporções' do Daesh na Alemanha

Policiais alemães detiveram suspeitos de um ataque terrorista em Frankfurt
© REUTERS / Ralph Orlowski

Três suspeitos que juraram lealdade ao grupo terrorista Daesh foram detidos durante uma grande operação antiterrorista perto de Frankfurt, que, segundo autoridades alemãs, frustrou um grande ataque terrorista envolvendo explosivos e armas de fogo.

Mais de 170 policiais, incluindo membros de uma equipe de elite da polícia antiterrorismo chamada SEK, invadiram três apartamentos na cidade de Offenbach-am-Main na noite de terça-feira. O principal suspeito era um alemão de 24 anos de origem macedônia, enquanto seus cúmplices - dois turcos de 22 e 21 anos - foram presos durante ações separadas na mesma cidade.

O principal suspeito chegou perturbadoramente perto de preparar um ataque, disse um promotor público de Frankfurt à mídia. Ele já havia adquirido peças para fabricar explosivos caseiros e tentou comprar armas na deep web, parte da internet frequentemente usada para negócios ilegais.

Os homens, que cresceram juntos em Offenbach, parecem ter planejado um ataque na região de Rhine-Main. Eles pretendiam matar "o maior número possível de pessoas, os chamados infiéis", declarou Nadja Niesen, porta-voz do gabinete do promotor.

Embora ainda não se saiba se eles escolheram um alvo específico, a intervenção policial "ocorreu a tempo de evitar uma ameaça concreta".

Polícia isola o caminhão, que colidiu com uma feira de natal em Berlim, Alemanha
Polícia isola o caminhão, que colidiu com uma feira de natal em Berlim, Alemanha

As autoridades conseguiram rastrear os suspeitos depois que eles receberam uma denúncia de testemunhas que os viram prometer lealdade ao Daesh. Um dos homens presos tem um parente que viajou para a Síria para se juntar à organização, informou o jornal Die Welt.

A Alemanha está em alerta máximo devido ao aumento da ameaça terrorista. Em 2016, o país sofreu o ataque mais mortal, quando um tunisiano de 23 anos de idade usou um caminhão sequestrado para atingir o mercado de Natal de Berlim, matando 12 pessoas.

Os ataques ocorrem apenas um dia após a Turquia anunciar que começará a enviar militantes do Daesh da Europa de volta aos países de onde vieram. A Alemanha aguarda a chegada de 10 homens, mulheres e crianças, todos com ligações ao grupo terrorista.

A chamada repatriação desencadeou um acalorado debate sobre a possibilidade de levar ou não os combatentes capturados. No início de abril, Berlim aprovou uma lei que despojava cidadãos de sua nacionalidade alemã se lutassem no exterior por grupos terroristas conhecidos.

Enquanto isso, aqueles que podem provar sua cidadania têm o direito de retornar, disse o governo na segunda-feira, mas suspeitos de serem militantes ainda podem ser julgados depois de chegarem em casa.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2019111314772328-mortes-aos-infieis-policia-desarma-ataque-de-grandes-proporcoes-do-daesh-na-alemanha/

O Problema Alemão. Por Heiner Flassbeck

Seleção e tradução de Francisco Tavares

 

O Problema Alemão

Heiner-Flassbeck Por Heiner Flassbeck

Editado por flassbeck_logo em 4 de outubro de 2019 (ver aqui)

Originalmente editado em alemão em Makroskop

Traduzido para inglês e editado por BRAVE NEW EUROPE

41 O Problema Alemão

O mundo tem um problema com a Alemanha. Na Alemanha, porém, as pessoas estão completamente relutantes em admiti-lo. A Alemanha tornou-se um excelente exemplo de dissonância cognitiva coletiva.

Os alemães, em geral, gostariam de ser bons europeus. O problema é que gostariam de ser os melhores europeus. Mas os dois não andam juntos: Não se pode ser um bom europeu e o melhor europeu ao mesmo tempo. É a mesma história a nível mundial. Os alemães gostariam de ser cidadãos iguais do mundo, abertos, tolerantes e eloquentes. Mas, mais ainda, gostariam de ser o modelo global: protetor do clima, captador do vento, adorador do sol, âncora da estabilidade e a nação comercial mais poderosa do mundo – tudo ao mesmo tempo. A união monetária germano-alemã também foi um sucesso completo de acordo com esta medida. Quem veja as coisas de forma diferente na Alemanha Oriental não compreendeu o que os alemães ocidentais fizeram para os libertar.

Embora seja óbvio que a aspiração e a realidade são muitas vezes muito diferentes, as pessoas na Alemanha estão convencidas de que assim deve ser, pois, de outro modo, não há, pura e simplesmente, qualquer caminho a seguir. Os europeus têm de compreender que só temos em mente os seus melhores interesses. O mundo tem de compreender que nós somos os engenheiros superiores. E os Ossis (alemães orientais) têm de compreender que a nossa economia de mercado é o sistema superior. Deve-se usar o dia da reunificação alemã (3 de outubro) para pensar um pouco sobre o modo de pensar alemão (ocidental)

 

Tanto Fénix como pedagogo

A grande catástrofe começou com a União Monetária Europeia e o novo século. A Alemanha, já obcecada há anos com a ideia de ter de se mostrar no mundo com competitividade superior e condições soberbas para os investidores globais, foi relutante em integrar-se na União Monetária Europeia, mas rapidamente reconheceu o enorme potencial que esta União oferecia. O “melhor setor de baixos salários do mundo” que uma coligação vermelho-verde havia criado – combinado com uma enorme pressão política sobre os sindicatos – finalmente alcançou o sucesso num sistema de moeda única que a Alemanha sob o chanceler Helmut Kohl havia buscado em vão por 16 anos com esforços semelhantes.

E, na verdade, qual Fénix renascida das cinzas, o “doente da Europa” levantou-se e mostrou aos outros como funciona a política económica moderna. O euro era fraco, mas a Alemanha tornou-se mais forte e mais forte. Como se fossem necessárias provas, a crise financeira mundial e a crise do euro vieram, e a Fénix tornou-se a águia alemã que – através da Grécia, Espanha e Portugal – deu ao mundo inteiro uma lição de política económica e financeira adequada.

Finalmente! O ponto da história alemã tinha sido alcançado onde o povo alemão unido podia livrar-se dos fardos do passado e erguer-se para se tornar uma grande potência europeia. A Alemanha voltou a ser uma força a ter em conta. A Alemanha era o doador mais importante, a mais importante âncora de estabilidade, o mais importante parceiro comercial e, de longe, a voz mais importante quando se tratava de estabelecer a lei sobre aqueles que tinham pecado, que tinham enriquecido a crédito e que agora tinham de ser chamados à responsabilidade pelos seus erros.

Mas os tempos estão a mudar.

O êxito da operação europeia sob liderança alemã foi escasso. O único que lucrou ininterruptamente foi o próprio cirurgião. A Grécia afundou-se na miséria e, durante mais de dez anos, o resto da Europa não conseguiu libertar-se das algemas que lhe foram impostas pelo espírito alemão e pela letra dos Tratados ditados pela Alemanha. Cada vez mais vozes se erguiam perguntando como é possível que, numa união de iguais, um país tenha beneficiado permanentemente enquanto os outros continuaram a definhar. Como é que, perguntou-se, a superioridade alemã não se revelou um fenómeno temporário? Como é possível que outros tenham de fazer o mesmo que a Alemanha, quando é óbvio que nem todos os países podem fazer o mesmo?

 

Trump muda o jogo

Depois apareceu Trump. Ele disse abertamente o que muitos pensavam, mas não se atreviam a dizer: “A Alemanha é má, muito má”. Paul Krugman, em raro acordo com o presidente americano, falou recentemente sobre o mundo ter um problema alemão. Na Itália, em 2018, foi eleito um governo que foi imediatamente acusado pelos meios de comunicação alemães de ser abertamente hostil em relação à Alemanha – embora só tenha posto em palavras o que muitos em toda a Europa tinham entretanto compreendido. Até mesmo o Fundo Monetário Internacional, que tinha saudado explicitamente a presença da Alemanha como parceiro da Troika, devido à sua estrita “ditadura” de austeridade sobre a Europa, começou a compreender que a operação grega tinha sido um fracasso total.

Cada vez mais pessoas no mundo e na Europa se distanciaram deste tipo de política, especialmente porque ficou cada vez mais claro nas discussões internacionais que a insistência da Alemanha na austeridade e na libertação da dívida não era a expressão de um modelo superior, mas apenas o resultado de um mercantilismo e de uma mentalidade que faz dos países vizinhos um mendigo [1], que não pode ser imitada por nenhum país ou grupo de países da mesma dimensão e que teve consequências fatais para o comércio internacional e o euro. Mas quanto mais forte é a crítica internacional, mais incompreensível é a atitude em solo alemão. Na Alemanha, a maioria do “complexo político-mediático” ainda insiste na posição de que tudo sempre foi feito corretamente e que qualquer fracasso pode ser explicado pela teimosia ou intransigência do outro lado.

 

O BCE enquanto objeto de ódio coletivo

Mas o espinho cravado do lado da Alemanha é o BCE. Localizado no coração da Alemanha, construído com base no modelo do Deutsche Bundesbank, esta instituição e o seu presidente italiano tiveram a audácia de fazer praticamente tudo, desde 2012, o vai contra o conceito alemão de uma política monetária restritiva. O quê? Mão livre para Draghi?

Provavelmente nunca houve uma instituição internacional antes do BCE que tenha passado por tantos alemães de alto nível em tão curto período de tempo. Um a seguir ao outro, os nomeados alemães atiraram a toalha, mais recentemente Sabine Lautenschläger, a única alemã na atual Comissão Executiva. Quaisquer que tenham sido as motivações de cada indivíduo para abandonar o BCE, o simples facto de, após a crise, ninguém do país, que é infalível na sua própria perspetiva em matéria de moeda e política monetária, ter sobrevivido até agora a todo o seu mandato, faz do Banco Central Europeu o alvo de ataques furiosos e sempre novas queixas perante o Tribunal Constitucional Federal.

Só se pode explicar esta atitude em relação ao BCE em termos de isolamento intelectual na Alemanha e, talvez, de falta de competências linguísticas. Também na Alemanha se poderia ter constatado que uma Europa sem sucesso na redução do desemprego, sem sucesso na redução da dívida pública, com uma tendência deflacionista crescente e com uma fraqueza flagrante no crescimento, levanta questões cada vez mais críticas. Era evidente que um tal diagnóstico implicaria análises na própria Europa e no resto do mundo que não ignorariam o papel da Alemanha na atual situação. Além disso, é de esperar que haja poucas pessoas e políticos no resto do mundo que, no campo da economia, sejam tão influenciados por questões de fé como na Alemanha e em todo o mundo de língua alemã (incluindo, neste caso particular, os holandeses).

A atual política de taxas de juro do BCE, como Friederike Spiecker demonstra de forma muito viva e clara numa série de artigos, é o resultado do fracasso da política económica e financeira (a nível europeu e na Alemanha) desde o início da UEM. Foi porque a Alemanha acreditou que poderia ter êxito a curto e longo prazo, exercendo pressão política sobre os seus próprios salários, que o enviesamento deflacionista surgiu logo no início da UEM. Porque a Alemanha nunca admitiu, nem a si nem a ninguém, que tinha feito algo de errado, insistindo que os seus parceiros europeus deviam imitar a solução alemã – o enviesamento deflacionista reforçou-se na segunda década. Como a Alemanha já era completamente inflexível em relação à política orçamental na década de 1990 e mais tarde insistiu numa política de austeridade, a última área política que poderia ter oferecido uma saída também foi bloqueada na UEM.

 

Dogmas antigos e novas ideias

Mas tudo isto está a ser sistematicamente suprimido. Em vez de lidarem com os seus próprios erros, os cidadãos alemães estão a acumular abusos agressivos e verdadeiramente estúpidos contra o BCE e o seu Presidente, enquanto os políticos responsáveis se mantêm a uma distância segura. Na Alemanha e na Áustria, e isto é particularmente verdadeiro para os economistas que trabalham academicamente em ambos os países, nunca se reconheceu como a discussão científica internacional sobre o papel da política monetária mudou radicalmente desde o fim do monetarismo (o livro de Michael Woodford “Interest and Prices” e a discussão subsequente desempenharam certamente um papel importante).

No entanto, o BCE não pôde ignorar este facto porque a abordagem monetarista alemã (que Otmar Issing também tentou ancorar no BCE com a chamada teoria dos dois pilares) nunca forneceu uma base viável para a política monetária (nem mesmo em tempos em que o Deutsche Bundesbank era diretamente responsável pela política monetária na Alemanha e em partes da Europa após o fim de Bretton Woods). O BCE está, naturalmente, muito mais envolvido no debate internacional sobre a política monetária do que é possível imaginar na Alemanha e na sua “capital financeira” Frankfurt.

Ao contrário do Deutsche Bundesbank, o BCE – e isto é ainda mais importante – foi desde o início responsável por uma área económica vasta e relativamente fechada, na qual não fazia sentido, desde o início, confiar no mercantilismo à la Schröder e Merkel. Este é precisamente um dos pontos que, embora óbvio, nunca foi compreendido na Alemanha. No cânone económico alemão dominante, que se baseia estreitamente na teoria neoclássica do equilíbrio, não há maneira de desenvolver uma economia sozinha com sucesso. Uma pessoa “precisa” de países estrangeiros ou outros impulsos exógenos para estimular a atividade de investimento. A Europa estava e está perdida com tal abordagem.

 

A dívida e as gerações

Os alemães estão firmemente convencidos de que são um povo inteligente. Não há inventores, cientistas e filósofos alemães suficientes para o provar? No entanto, a questão é porque razão um povo tão inteligente não consegue, há décadas, compreender algumas das relações económicas mais simples.

Outro político alemão, que muitos cidadãos consideram inteligente, acaba de demonstrar que não consegue compreender uma simples relação económica. Peter Altmaier, o Ministro Federal da Economia alemão, disse as duas frases seguintes num talk show na semana passada (as suas observações em alemão aqui):

“O freio da dívida está certo… o zero negro [orçamento equilibrado] é uma conquista… Não quero incorrer em dívidas à custa das gerações futuras”.

Uma e outra vez, de Gerhard Schröder a Angela Merkel e Wolfgang Schäuble, este mantra é proferido, embora seja claramente errado. Se o Estado emitir obrigações, isto é, se assumir uma dívida adicional, estas obrigações são compradas por um banco ou por um aforrador alemão e, consequentemente, aumentam os créditos do comprador. Para a sociedade – jovem e velha – novas dívidas são contraídas pelo Estado (através da emissão de obrigações do Estado) e os compradores de obrigações têm novos créditos sobre o Estado sob a forma de títulos que duram dez, trinta ou mesmo mais anos. Tanto os créditos como as responsabilidades são herdados e, consequentemente, a posição patrimonial global da geração mais jovem permanece completamente inalterada.

Nem sequer é necessário entrar na ligação entre poupança e investimento – que não é difícil, mas um pouco mais complexa – para mostrar que esta frase sobre os encargos para as gerações está errada. E, no entanto, no século XXI, o Ministro Federal da Economia pode escapar dizendo essas coisas sem ter que se demitir no dia seguinte, por mostrar ao grande público que não tem a menor ideia sobre o assunto pelo qual é responsável.

 

Isolamento mental é o caminho para o conservadorismo económico

Também na Áustria, um jovem acaba de ganhar as eleições, que pouco mais tem a dizer do que não haverá novas dívidas contraídas sob o seu governo. “Estamos a pôr fim à política de endividamento”, pode também dizer-se abertamente na Áustria (aqui um link para uma declaração correspondente do partido de Sebastian Kurz), sem que a imprensa ou a comunidade científica façam a simples pergunta: quem deve então contrair a dívida necessária em todas as economias em que grandes grupos, como as famílias e as empresas, tentam poupar dinheiro?

Como é possível que as questões económicas sejam discutidas intelectualmente a um nível que, em qualquer outra área, seria visto como um sinal de desenvolvimento atrasado? É realmente apenas o simples facto de que os governos conservadores não são criticados pela imprensa conservadora e economistas conservadores por razões ideológicas? É porque a doutrinação com a ideologia da dona de casa suábia começa com a infância, continua na escola e na universidade, e para a maioria das pessoas nunca chega ao fim?

Há várias décadas que acompanho o debate económico. Também eu não tenho uma resposta verdadeiramente satisfatória para estas questões. Só me parece claro que os países de língua alemã, em particular, ainda sofrem com o facto de que as grandes controvérsias em torno da explicação da Grande Depressão dos anos 30 simplesmente não são debatidas por causa do Terceiro Reich e da Segunda Guerra Mundial. Nos países anglo-saxónicos, esta questão – como nenhuma outra questão antes e depois – moldou o debate económico durante duas décadas. Ali, o paradigma do funcionamento do sistema de mercado foi sempre tão abalado que ninguém poderia operar uma economia sem lidar com a potencial instabilidade do sistema de mercado. Na Alemanha e na Áustria, estas duas décadas de pesquisa económica crítica simplesmente nunca aconteceram.

Na Alemanha, nos anos 50, as pessoas estavam satisfeitas com o facto de, após o grande colapso, as coisas estarem a subir e a “economia de mercado” poder ser responsabilizada. Mesmo no início da década de 1950, quando nem Bretton Woods nem o keynesianismo na Alemanha tinham sido realmente retomados ou mesmo compreendidos (também porque objetivamente ainda não estavam totalmente compreendidos), os círculos económicos dominantes concordaram que a teoria de Keynes era apenas uma teoria de crise que simplesmente não era adequada para a vida quotidiana sem crise.

Quanto mais prevalecia o conto de fadas do “milagre económico alemão”, menos Keynes parecia ser relevante. A única história de pré-guerra interessante foi a inflação do início da década de 1920, porque se podia transformar o seu fim numa história heróica alemã. No final da Grande Depressão em meados da década de 1930, por razões compreensíveis, ninguém queria criar uma história heróica no sentido de um “New Deal”. O foco na inflação também foi bom porque depois da Segunda Guerra Mundial houve um breve surto de inflação, que Ludwig Erhard (como uma nova história heróica) rapidamente pôs fim por meio da economia de mercado e corajosos banqueiros centrais.

Para os economistas alemães foi bom, portanto, que depois dos choques da década de 1970, tenha começado a contra-revolução neoliberal e que o que a Alemanha sempre soube tenha sido finalmente “compreendido” pelo resto do mundo: tudo o que o Estado faz é mau, na realidade, o mercado governa e é apoiado por um governo eleito apenas onde é realmente necessário. A “economia”, como disse Otto Graf Lambsdorff (ex-ministro federal da Economia), “tem lugar na economia”.

Os economistas alemães encontravam-se novamente a nível mundial, de um dia para o outro, mesmo que nunca tivessem processado intelectualmente nada do que tinha acontecido entretanto. Bastava aprender um pouco de matemática simples e adquirir novos métodos econométricos com os quais testar os modelos de mercado de equilíbrio para se ter uma opinião internacional. Se esse conhecimento era relevante para a superação de problemas económicos já não interessava a ninguém.

O problema da transferência, para citar apenas um dos exemplos importantes, que estava relacionado com as indemnizações alemãs depois da Primeira Guerra Mundial e que tinha sido meticulosamente tratado por Keynes, era praticamente inaudito na Alemanha. Foi precisamente este problema que se tornou de extrema importância, tanto durante a unificação alemã como durante a crise da União Monetária Europeia. No entanto, os economistas alemães ainda não têm nada a ver com isso.

Um dos grandes paradoxos da história mundial recente é que os danos colaterais causados pela ignorância de décadas da Alemanha em relação às questões económicas tem sido sentida, até agora, sobretudo na Alemanha Oriental e na parte sul do espaço monetário europeu. Mas, como escreveu Charles Dickens: “Mais cedo ou mais tarde, haverá um dia em que as contas serão ajustadas” …

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Nota

[1] N.T. Beggar Thy Neighbour: conjunto de políticas que um país adota para enfrentar os seus males económicos que, por sua vez, agravam os problemas económicos de outros países. O termo vem do impacto da política, pois faz dos países vizinhos um mendigo. Vd. https://www.investopedia.com/terms/b/beggarthyneighbor.asp

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O autor: Heiner Flassbeck [1950 – ], economista alemão (1976 pela Universidade de Saarland), foi assistente do Professor Wolfgang Stützel em questões monetárias. Doutorado em Economia pela Universidade Livre de Berlim em julho de 1987, tendo por tese Prices, Interest and Currency Rate. On Theory of Open Economy at flexible Exchange Rates (Preise, Zins und Wechselkurs.Zur Theorie der offenen Volkswirtschaft bei flexiblen Wechselkursen). Em 2005 foi nomeado professor honorário na Universidade de Hamburgo.

A sua carreira profissional teve início no Conselho Alemão de Peritos Económicos, em Wiesbaden, entre 1976 e 1980; esteve no Ministério Federal de Economia em Bona até janeiro de 1986; entre 1988 e 1998 esteve no Instituto Alemão de Investigação Económica (DIW) em Berlim, onde trabalhou sobre mercado de trabalho e análise de ciclo de negócio e conceitos de política económica, tendo sido chefe de departamento.

Foi secretário de estado (vice-ministro) do Ministério Federal de Finanças de outubro de 1998 a abril de 1999 sendo Ministro das Finanças Oskar Lafontaine (primeiro governo Schröeder), e era responsável pelos assuntos internacionais, a UE e o FMI.

Trabalhou na UNCTAD- Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento desde 2000, onde foi Diretor da Divisão de Globalização e Estratégias de Desenvolvimento de 2003 a dezembro de 2012. Coordenador principal da equipa que preparou o relatório da UNCTAD sobre Comércio e Desenvolvimento. Desde janeiro de 2013 é Diretor de Flassbeck-Economics, uma consultora de assuntos de macroeconomia mundial (www.flassbeck-economics.com). Editor de Makroskop, https://makroskop.eu/.

Autor de numerosas obras e publicações, é co-autor do manifesto mundial sobre política económica ACT NOW! publicado em 2013 na Alemanha, e são conhecidas as suas posições sobre a crise da eurozona e as suas avaliações críticas sobre as políticas prosseguidas pela UE/Troika, nomeadamente defendendo que o fraco crescimento e o desemprego massivo não são resultado do progresso tecnológico, da globalização ou de elevados salários, mas sim da falta de uma política dirigida à procura (vd. The End of Mass Unemployment, 2007, em co-autoria com Frederike Spiecker).

 

 

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2019/11/09/o-problema-alemao-por-heiner-flassbeck/

Alemanha vê milícias como ameaça de terrorismo de extrema direita

 
 
Governo diz que verdadeiro objetivo dessas patrulhas é intimidar estrangeiros e oponentes políticos. Autoridades afirmam que tais grupos existem em quase todos os estados do país.
 
O governo da Alemanha considera as autodenominadas "milícias de cidadãos" como grupos com "potencial para terrorismo de extrema direita".
 
A afirmação do Ministério do Interior alemão, publicada nesta segunda-feira (04/11) pelo jornal Neue Osnabrücker Zeitung, faz parte de uma resposta a um questionamento da bancada parlamentar do partido A Esquerda.
 
O ministério avalia haver "evidências reais de influência ou domínio da extrema direita" em todos os grupos deste tipo conhecidos no país. O órgão alerta ser ténue a linha separando essas iniciativas do perigo representado por medidas autónomas de segurança "alheias ao monopólio estatal do uso da força ou mesmo por atos de violência".
 
Segundo o governo alemão, tal fenómeno foi tematizado oito vezes nos últimos dois anos em reuniões das autoridades do país envolvidas com prevenção ao terrorismo.
 
 
Tais grupos tentam justificar sua existência, de acordo com o Ministério do Interior alemão, alegando que as forças de segurança estatais não podem garantir segurança pública. . Entretanto, o governo alemão avalia que o verdadeiro objetivo dessas "patrulhas de extrema direita" é "intimidar estrangeiros e oponentes políticos".
 
O ministério não forneceu informações sobre quantas pessoas estão envolvidas nesses grupos. Mas de acordo com estimativas governamentais, tais formações, autodenominadas "patrulhas", estão presentes em quase todos os estados do país.
 
No começo deste ano, o extremista de direita Partido Nacional Democrático (NPD) afirmou estar promovendo patrulhamento na cidade bávara de Amberg depois que requerentes de refúgio assaltaram diversas pessoas na localidade. Autoridades locais desmentiram a informação, afirmando não haver tais grupos na cidade e que aqueles que formarem tais patrulhas poderão ser processados.
 
Autoridades alemãs vêm repetidamente alertando para o crescente risco de ataques de extremistas de direita. O conselho municipal de Dresden, no leste da Alemanha, aprovou semana passada uma resolução declarando situação de "emergência nazista", apontando crescimento de ações antidemocráticas e de extrema direita. A iniciativa visa chamar atenção para o tema e aumentar a pressão sobre políticos e sociedade civil para a promoção de mais medidas contra o extremismo de direita.
 
A violência de extrema direita voltou à tona após um ataque que ocorreu em Halle em outubro, que deixou dois mortos. O agressor, identificado como Stephen B., de 27 anos, confessou o crime e admitiu ter motivações antissemitas e de extrema direita. Na transmissão ao vivo, ele "se desculpou" repetidas vezes pelo fracasso em matar mais pessoas.
 
Deutsche Welle | MD/epd/dpa

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/11/alemanha-ve-milicias-como-ameaca-de.html

Cidade do leste alemão declara "emergência nazi"

 
 
Conselho municipal de Dresden aponta crescimento de ações antidemocráticas e de extrema direita e cobra ação de políticos e sociedade civil. Cidade é berço do movimento xenófobo Pegida.
 
A cidade de Dresden, no leste da Alemanha, aprovou uma resolução declarando situação de "emergência nazi".
 
Em uma declaração política, aprovada pelo conselho municipal na noite de quarta-feira (30/10), os vereadores observaram que "atitudes e ações antidemocráticas, antipluralistas, misantrópicas e de extrema direita, incluindo a violência em Dresden, estão ocorrendo com frequência crescente".
 
"Esta cidade tem um problema com nazistas e temos que fazer algo em relação a isso," disse Max Aschenbach, um conselheiro da legenda "O Partido”, sigla política satírica, que iniciou a medida.
 
"A política deve finalmente começar a pôr isso no ostracismo e dizer: Não, isso é inaceitável", disse ele à emissora pública local MDR.
 
 
Foi em Dresden que o movimento anti-islâmico e xenófobo Pegida começou, em 2014. Pegida é a sigla em alemão para "patriotas europeus contra a islamização do Ocidente", e o movimento organiza comícios regulares na cidade.
 
Dresden está localizada no estado da Saxónia, um reduto da Alternativa para a Alemanha (AfD), partido populista de direita que ficou em segundo lugar nas eleições estaduais em setembro.
 
Entre outras coisas, a resolução passada nesta semana convida a cidade e as organizações da sociedade civil a fortalecerem uma cultura democrática, a proteger as minorias e os direitos humanos e a ajudar as vítimas da violência de direita.
 
Apela, além disso, a um enfoque sobre "as causas e consequências do antissemitismo, do racismo e da posição de extrema direita para restaurar a confiança nas instituições democráticas e a valorização da diversidade e da solidariedade respeitosa".
 
Chase Winter | Deutsche Welle

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/11/cidade-do-leste-alemao-declara.html

A Alemanha numa encruzilhada

Jorge Bateira001

 
(1) “Um novo abrandamento económico numa economia europeia já de si pouco dinâmica pode ter como resultado o equivalente de um fósforo atirado para um barril de pólvora. Apesar da gravidade da situação, quanto às finanças públicas o Governo alemão continua a mostrar uma resistência extraordinária a qualquer enfraquecimento da sua visão de uma dona de casa suábia. Em maio de 2019, o ministro alemão das Finanças, Olaf Scholz, contemplou uma revisão do orçamento, mais cortes potenciais e a ideia de "fazer um esforço ainda maior" para evitar a recessão. Mais recentemente, reafirmou a sua posição, argumentando que mais dívida só seria necessária no caso de uma contracção semelhante à de 2008. A chanceler Angela Merkel considera a manutenção do Schwarze Null (orçamento federal sem défice) como outra "forma de sustentabilidade" e conta com o apoio do seu próprio partido e de muitos economistas conservadores alemães.” 
 
(2) “Merkel sente a ira dos alemães idosos mais severamente atingidos pelo contínuo atrito industrial. Esses alemães mais velhos estão na vanguarda das crescentes tensões sociais e políticas do país. Como observaram Alexander Roth e Guntram Wolff, do grupo de reflexão Bruegel, com sede em Bruxelas, os eleitores da direita, do partido anti-Europa Alternative für Deutschland, são predominantemente homens mais velhos, relativamente pouco instruídos, habitando em áreas não urbanas, cujos empregos industriais bem pagos estão a ser transferidos para países da Europa Oriental com salários mais baixos, ou são eliminados pela automação. No sector dos serviços, os novos postos de trabalho são cada vez mais criados com base em contratos temporários marcados pela ansiedade, com salários e benefícios reduzidos. (...) Alguns desvalorizam a actual crise económica tratando-a como temporária, causada pela necessidade de cumprir novos padrões de emissão, e pelo declínio dos níveis das águas dos rios, o que desacelerou o tráfego fluvial. No entanto, uma economia chinesa inevitavelmente mais lenta, e a obsolescência gradual da antiga estrutura industrial da Alemanha, irão pesar fortemente no crescimento alemão, o que irá deprimir o já baixo potencial de crescimento da Europa no longo prazo. O aumento contínuo da entropia política alemã irá corroer ainda mais o relutante apoio financeiro do país à Europa.”

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Cidade alemã decreta 'estado de emergência nazi'

Manifestação anti-islâmica do grupo Pegida na Alemanha
© AP Photo / Jens Meyer

Dresden, capital da região alemã da Saxônia, declarou uma resolução chamada de "estado de emergência nazi" contra movimentos de direita em meio a tensões entre locais e refugiados.

A medida foi tomada com apoio do Conselho da cidade de Dresden, leste da Alemanha, contra ideias consideradas de extrema-direita

De acordo com Max Aschenbach, vereador pelo partido esquerdista satírico Die Partei, a "cidade tem um problema nazista", conforme publicou a Al-Jazeera.

As autoridades locais estão preocupadas com atos de discriminação por parte de locais contra refugiados, enquanto as tensões entre ambos os grupos crescem em meio a casos de crimes cometidos por refugiados.

Resolução

Embora ela não se caracterize como um estado de emergência tradicional, a medida seria uma forma de reação social em frente à "inércia das autoridades políticas".

Segundo os apoiadores da medida, a resolução, que recebeu a aprovação de 39 dos 68 vereadores de Dresden, combate o antissemitismo, racismo e islamofobia na cidade.

"O 'estado de emergência' significa o colapso ou uma ameaça séria à ordem pública. Isso não é feito de maneira rudimentar. Além disso, o foco no 'extremismo de direita' não faz justiça ao que precisamos. Nós somos os guardiões da ordem básica democrática liberal e nenhuma violência, seja de que tipo de extremismo for, é compatível com isso", declarou Jan Donhauser, presidente do Grupo do Conselho de Dresden da CDU à BBC.

Pegida

Dresden é o berço do movimento anti-islâmico Pegida, o qual se opõe à presença de refugiados na Alemanha e à imigração de muçulmanos ao país.

O movimento seria fruto das insatisfações de cidadãos alemães com a grande presença de refugiados da Síria e outros países árabes.

Em 2015, o movimento atingiu o seu auge de força, reunindo 25 mil pessoas nas ruas de Dresden, conforme publicou a agência de notícias alemã Deutsche Welle.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2019110314726324-cidade-alema-decreta-estado-de-emergencia-nazi-/

A Alemanha busca envolver-se militarmente no Próximo-Oriente Alargado

 

Chegada da delegação alemã ao Cairo

A Conferência sobre Segurança de Munique organiza, nos dias 25 e 26 de Outubro, no Cairo e, nos dias 27 e 28 de Outubro, em Doha, dois seminários entre dirigentes árabes e alemães.

O Egipto está —com a Síria e a Arábia Saudita— empenhado contra os Irmãos Muçulmanos, enquanto o Catar —com a Turquia e o Irão— apoia esta sociedade secreta.

O Presidente egípcio, Abd al-Fattah al-Sissi, o seu Ministro dos Negócios Estrangeiros (Relações Exteriores-br) Sameh Hassan Shoukry, e o Secretário-geral da Liga Árabe, Ahmed Aboul-Gheit, participaram na reunião do Cairo com umas outras quarenta personalidades, entre as quais os Ministros dos Negócios Estrangeiros do Níger, do Uganda e do Djibuti.

O Emir do Catar, Xeque Tamim bin Hamad Al-Thani, o seu Ministro dos Negócios Estrangeiros, Mohammed bin Abdulrahman Al-Thani, devem participar na reunião de Doha com umas quarenta outras personalidades, entre as quais o Ministro de Negócios Estrangeiros do Irão, o Presidente do Curdistão iraquiano e o enviado especial da ONU para o Iémene, Martin Griffiths. A laureada de 2011 do Prémio Nobel da Paz, a Iemenita Tawakkol Karman, representará a Confraria dos Irmãos Muçulmanos.

O governo alemão será representado nas duas reuniões pelo Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, Niels Annen, que foi pesquisador no Fundo Marshall Alemão, depois deputado socialista.

Esta iniciativa da Conferência sobre Segurança de Munique dá-se quando ela, desde há dois anos, não havia organizado eventos fora da Alemanha e quando a Chancelerina Angela Merkel deseja aplicar as recomendações do Fundo Marshall Alemão e da Stiftung Wissenschaft Polítik : implicar-se militarmente no Médio-Oriente Alargado ao lado dos Estados Unidos.





Ver original na 'Rede Voltaire'



Werner Seelenbinder: o lutador que atacou a Alemanha nazista

Setenta e cinco anos após os nazistas o assassinarem, lembramos a vida do atleta antifascista alemão e do lutador da resistência comunista Werner Seelenbinder: por volta do meio dia de 24 de outubro de 1944, ele foi decapitado com um machado, acusado de traição ao estado nazista.

 

 

Por Ingar Solty

Na época, o forte ex-lutador olímpico pesava apenas 132 libras (cerca de 60 kg). Depois de preso por atividades de resistência, passou quase três anos e enfrentou semanas de tortura. A vida incrível de Seelenbinder, de oposição ao fascismo e defesa dos direitos dos trabalhadores, fez dele um herói nacional na ex-Alemanha Oriental.

Na República Federal da Alemanha, no entanto, seu legado foi deliberadamente enterrado, vítima do anticomunismo da Guerra Fria.

Nascido em Stettin – hoje Szczecin, Polônia – em 1904, Seelenbinder cresceu em Friedrichshain, um bairro operário no coração da “Berlim Vermelha”. Foi trabalhador em Friedrichshain e testemunhou as execuções em massa de trabalhadores e soldados revolucionários durante a greve geral revolucionária de março de 1919; viu o desemprego em massa e a fome, mas também a auto-organização e resistência da classe trabalhadora.

Sua paixão era o esporte. Quando jovem, ele ingressou nas organizações esportivas da classe trabalhadora criadas pelos partidos de trabalhadores, e se tornou um lutador de luta livre. Em 1926, foi à União Soviética para participar da “Spartakiad” – a alternativa proletária às Olimpíadas – sendo por isso excluído da liga atlética e esportiva dominada pelos social-democratas alemães.

Mesmo assim, ele fez parte de organizações esportivas do movimento operário alemão, ligando-se ao “Rotsport” (“Esporte Vermelho”) comunista.

Em 1933, esta organização comunista, e os social-democratas, sucumbiram ante o nazismo, tendo falhado em organizar uma greve como a que haviam feito em 1920, contra o “Kapp Putsch” [uma tentativa de golpe de estado da direita, em 17 de março de 1920, dirigida por Wolfgang Kapp e pelo general Walther von Lüttwit – nota da redação].

Diante da vitória de Adolf Hitler, em 1933, Seelenbinder se manteve na resistência clandestina, com outros camaradas, para combater os nazistas. O Partido Comunista, porém, o convenceu a ingressar em um clube esportivo burguês, para que pudesse continuar seu trabalho.

Foi um grande sucesso. Em 1933, Seelenbinder foi campeão alemão de luta livre e, nas celebrações públicas, se recusou a fazer a saudação a Hitler. Por isso, foi levado a um campo de concentração. Após sua libertação, foi readmitido no Campeonato Alemão de Luta Livre e se tornou campeão nacional em 1935. Contra a vontade do “Reichssportleitung” [“Liderança esportiva do Reich”], do regime nazista, ele foi autorizado a ir a Estocolmo e participar dos preparativos para os Jogos Olímpicos de 1936, que ocorreram em Berlim.

Após o esmagamento dos partidos de oposição e a introdução de leis raciais anti-semitas, os nazistas queriam usar as Olimpíadas para apresentar a Alemanha como um país limpo e bom. Em resposta a isso, Seelenbinder e o próprio Partido Comunista, na ilegalidade, fizeram um plano baseado no recebimento de uma medalha – que permitiria a ele usar a cobertura ao vivo internacional e as entrevistas com os medalhistas para denunciar os campos de concentração na Alemanha e a perseguição a comunistas, social-democratas, sindicalistas e judeus – mesmo que isso significasse tortura e morte. Mas esse plano fracassou pois Seelenbinder ficou em quarto lugar.

Manifestação em memória dos mortos em um comício antifascista no Estádio Werner-Seelenbinder, em Berlim, setembro de 1945

Seelenbinder continuou seu trabalho antifascista na resistência comunista aos nazistas. Ele se tornou parte do grupo de resistência Robert Uhrig, que tinha células comunistas ilegais em muitas fábricas em Berlim. Em 4 de fevereiro de 1942, o grupo foi traído e Seelenbinder e muitos outros foram presos. No momento de sua prisão, a lutadora da resistência comunista Erna Schmidt chegava ao seu apartamento, conforme combinado, com mais de 2.000 panfletos escondidos sob as roupas. Mas ela conseguiu convencer a Gestapo de que era apenas a faxineira e sobreviveu.

Após sua detenção, Seelenbinder foi arrastado por várias prisões da Gestapo e campos de concentração. Foi torturado por oito dias, mas resistiu e não falou. Foi então levado ao campo de trabalho de Berlim “Arbeitserziehungslager Wuhlheide”, onde o médico comunista Georg Benjamin – irmão do filósofo Walter Benjamin – estava preso. Foi aqui que Hilde Benjamin – esposa de Georg Benjamin e a primeira mulher alemã (oriental) a se tornar Secretária da Justiça – visitou secretamente Georg Benjamin, junto com seu filho Michael, que mais tarde se tornou uma das influências mais importantes no Die Linke.

Seelenbinder e outros comunistas formaram um comitê clandestino nos campos de concentração, mas seus planos de fuga foram frustrados, e ele foi deportado para a prisão de Brandemburgo-Gören, onde Seelenbinder foi executado, decapitado, em 24 de outubro de 1944.

Na manhã de sua execução, Seelenbinder escreveu sua carta de despedida para sua família: “Querido pai, irmãos, cunhada e Friedel! Chegou a hora da despedida. Durante minha prisão, passei por tudo o que um ser humano pode passar. Doença, dor física e emocional – não fui poupado de nada. Eu adoraria curtir com vocês, meus amigos e companheiros de esporte, os prazeres e as alegrias que a vida após a guerra tem a oferecer, prazeres e alegrias que agora aprecio ainda mais. Após um período terrível de sofrimento, o destino decidiu agora o contrário. E, no entanto, sei que encontrei um lugar em seus corações e no coração de tantos camaradas esportivos, onde ficarei. Esse conhecimento me deixa orgulhoso e forte e, na minha última hora, não me encontrará enfraquecido.”

De fato, ele foi desafiador até o fim: da sua cela, ele supostamente gritou para os outros prisioneiros: “Camaradas! Este é o Seelenbinder! Hoje ao meio dia seremos executados. Nós permanecemos fortes! … Hitler será derrotado. Vamos dar as boas-vindas ao Exército Vermelho!”

Após a libertação do fascismo, muitas ruas e praças da Alemanha Oriental – e uma das maiores salas de reuniões públicas – receberam o nome de Seelenbinder. Em 1975 o Werner Seelenbinder Hall foi palco da Conferência Mundial das Mulheres das Nações Unidas, dirigida por figuras como Angela Davis, Hortensia Allende, Frida Braun e Valentina Tereshkova – a primeira mulher a ser enviada ao espaço. Em 1992, o salão foi demolido e seu nome e memória apagados de muitos locais. A Guerra Fria continuou – o Ocidente e o anticomunismo haviam triunfado.

No entanto, isso não durou muito – e o nome de Seelenbinder seria salvo do esquecimento. Em 2004, o Sport Park, em Berlim, onde ele treinou para as Olimpíadas de 1936, foi renomeado como “Werner-Seelenbinder-Sportpark” e, em 2008, foi introduzido no “Hall da Fama do Esporte Alemão”. Em 2017, a organização da sociedade civil “Allende District”, em Berlim, renovou um memorial que havia desaparecido após a unificação em 1990, elogiando “O corajoso lutador contra o fascismo, o imperialismo e a guerra: Werner Seelenbinder”.

Setenta e cinco anos após a sua morte, este memorial ao lutador e ao comunista fica em frente à sede do NPD neo-nazista, como se quisesse gritar o velho slogan: “Fascismo – nunca mais!”


por Ingar Solty, Pesquisadora no Instituto de Análise Social Crítica da Fundação Rosa Luxemburgo, em Berlim | Texto em português do Brasil, com tradução de José Carlos Ruy

Exclusivo Editorial PV (Fonte: Jacobin)/ Tornado


 
 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/werner-seelenbinder-o-lutador-que-atacou-a-alemanha-nazista/

Pode o imperialismo alemão substituir o dos Estados Unidos?

 

A Ministra da Defesa alemã e Presidente da CDU, Annegret Kramp-Karrenbauer, apanhou de surpresa os seus parceiros e aliados ao propor, em 21 de Outubro de 2019, a colocação de uma força militar internacional na Síria. Só a sua mentora, a Chancelerina Angela Merkel, estava ao corrente e de imediato a apoiou.

Esse anúncio mal preparado deu lugar a declarações contraditórias: qual seria a sua legalidade? Seria uma iniciativa da União Europeia, da OTAN ou da ONU? Interpor-se-ia a Força entre os Turcos e os Curdos ou entre os Turcos e os Sírios?

Parece que após o Conselho Franco-Alemão de Defesa e Segurança de 16 de Outubro [1], a Alemanha havia decidido retomar o velho projecto enunciado no livro New Power, New Responsability. Elements of a German foreign and security policy for a changing world (Novo Poder, Nova Responsabilidade. Elementos de uma política externa e de segurança alemã para um mundo em mudança) [2]. Este documento preconiza que a OTAN delegue a gestão da Ásia Central, do Médio-Oriente e do Norte de África à União Europeia, sob liderança alemã. Esta estratégia foi discretamente inserida, em 2016, por Ursula von der Leyen no Livro Branco (Das Weißbuch-ndT) da Bundeswehr [3]. Uma outra próxima de Angela Merkel, a Srª von der Leyen, tornou-se Presidente da Comissão Europeia, onde coloca pessoal muito alemão.

A proposta de destacamento militar para a Síria, no entanto, está já obsoleta após o acordo russo-turco do dia seguinte, 22 de Outubro [4]. No entanto, ele indica a vontade de certas elites europeias em se apoderarem do papel imperial ao qual Washington está em vias de renunciar.


[1] « Communiqué conjoint du Conseil franco-allemand de défense et de sécurité », Réseau Voltaire, 16 octobre 2019.

[2] New Power, New Responsibility. Elements of a German foreign and security policy for a changing world, Stiftung Wissenschaft Politik (SWP) et the German Marshall Fund of the United States (GMF) éditeurs (2013).

[3] Das Weißbuch 2016, Bundeswehr.

[4] « Mémorandum d’accord entre la Turquie et la Fédération de Russie », Réseau Voltaire, 22 octobre 2019.



Ver original na 'Rede Voltaire'



Turquia rechaça proposta alemã de zona de segurança na Síria

Mevlut Cavusoglu
© AP Photo / Andrew Harnik

A Turquia criticou a proposta da Alemanha de criar uma zona segura internacional no norte da Síria através do chanceler turco, Mevlut Cavusoglu.

"A Turquia não considera realista a proposta da Alemanha de uma zona segura internacional na Síria", disse Cavusoglu em entrevista coletiva ao lado do ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Heiko Maas, que atualmente visita Ancara.

No início da semana, a ministra da Defesa alemã Annegret Kramp-Karrenbauer disse que proporia aos Estados membros da OTAN a criação de uma zona de segurança controlada internacionalmente, com o envolvimento da Turquia e da Rússia, no norte da Síria.

O secretário-geral da OTAN, Jens Stoltenberg, por sua vez, disse que acolheu a proposta alemã de analisar as possibilidades de uma zona de segurança internacional.

Apesar disso, Stoltenberg enfatizou que os detalhes da proposta ainda precisam ser definidos e que ainda é necessário um apoio político mais amplo.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2019102614696469-turquia-rechaca-proposta-alema-de-zona-de-seguranca-na-siria/

O Pacto Hitler-Stálin: Mito e Realidade

Em um livro extraordinário, “1939: The Alliance That Never Was and the Coming of World War II”, o historiador canadense Michael Jabara Carley descreve como, no final dos anos 30, a União Soviética repetidamente tentou, mas por fim falhou, em estabelecer um pacto de segurança mútua, em outras palavras uma aliança defensiva, com a Grã-Bretanha e a França. Esse arranjo proposto foi planejado para conter a Alemanha Nazista que, sob a liderança ditatorial de Hitler, estava agindo de forma cada vez mais agressiva, e era provável que envolvesse alguns outros países, incluindo Polônia e Checoslováquia, que tinham motivo para temer as ambições alemãs. O protagonista dessa abordagem soviética em relação às potências ocidentais foi o ministro de Relações Exteriores Maxim Litvinov.

Moscou estava ansiosa para concluir tal tratado porque os líderes soviéticos sabiam muitíssimo bem que, mais cedo ou mais tarde, Hitler pretendia atacar e destruir seu Estado. Com efeito, no “Mein Kampf“, publicado nos anos 20, ele deixava bem claro que desprezava a URSS por ser uma “Rússia governada por judeus” (Russland unter Judenherrschaft), já que era o fruto da Revolução Russa, a obra dos Bolcheviques, que supostamente não eram nada além de um bando de judeus. Além disso, nos anos 30, virtualmente todo mundo com algum interesse em relações internacionais sabia muito bem que, com a remilitarização da Alemanha, o programa de rearmamento em larga escala e mais outras violações do Tratado de Versalhes, Hitler preparava-se para uma guerra onde uma das vítimas seria a União Soviética. Isso foi demonstrado muito claramente em um estudo detalhado escrito por um importante historiador militar e cientista político, Rolf-Dieter Müller, intitulado “Der Feind steht im Osten: Hitlers geheime Pläne für einen Krieg gegen die Sowjetunion im Jahr 1939” (“O Inimigo está no Leste: os Planos Secretos de Hitler para uma Guerra Contra a União Soviética em 1939”).

Um cartaz alemão diz: “Por trás dos poderes inimigos: os judeus”.

Hitler, então, estava desenvolvendo a força militar da Alemanha e pretendia usá-la para limpar a União Soviética da face da Terra. Do ponto de vista das elites que ainda estavam dominando o poder em Londres, Paris e em todo lugar no assim chamado “mundo Ocidental”, esse era um plano que eles só podiam aprovar e desejavam encorajar e até mesmo apoiar. Por quê? Porque a União Soviética era a encarnação da temida revolução social, a fonte de inspiração e orientação para revolucionários de seus próprios países e até mesmo de suas colônias, já que os soviéticos eram também anti-imperialistas que, através da Internacional Comunista (ou a Terceira Internacional), apoiavam a luta pela independência nas colônias das potências ocidentais.

Por meio de uma intervenção armada na Rússia em 1918-1919, essas elites já haviam tentado matar o dragão da revolução que havia levantado sua cabeça por lá em 1917, mas tal projeto falhou miseravelmente. As razões para esse fiasco foram, por uma lado, a forte resistência feita pelos revolucionários russos, que desfrutaram do apoio da maioria do povo russo e de muitos outros povos do antigo Império Czarista; e, por outro, a oposição entre os próprios países intervencionistas, onde soldados e civis simpatizavam com os revolucionários Bolcheviques e fizeram o apoio valer através de manifestações, greves, e até mesmo motins. As tropas tiveram que ser retiradas de forma inglória. Os cavalheiros no poder em Londres e Paris tiveram que contentar-se e apoiar Estados antissoviéticos e antirrussos – principalmente a Polônia e os países bálticos – por toda a fronteira ocidental do antigo Império Czarista, assim erguendo um “cordão sanitário” que supostamente seria o escudo do Ocidente contra a infecção do vírus revolucionário bolchevique.

Em Londres, Paris e outras capitais da Europa Ocidental, as elites esperavam que o experimento revolucionário na União Soviética colapsasse por si próprio, mas esse cenário falhou em se desdobrar. Pelo contrário, a partir do início dos anos trinta, quando a Grande Depressão devastou o mundo capitalista, a União Soviética experimentou um tipo de revolução industrial que permitiu que a população gozasse de considerável progresso social, e o país tornou-se mais forte, não só economicamente, mas também militarmente. Como resultado disso, o “contra-sistema” que o socialismo oferecia em relação ao capitalismo – assim como a ideologia comunista – tornaram-se mais e mais atrativos aos olhos dos plebeus no Ocidente, que sofriam cada vez mais com o desemprego e a miséria. Nesse contexto, a União Soviética passou ainda mais a ser um espinheiro bem no pé das elites em Londres e Paris. Inversamente, Hitler, com seus planos para uma cruzada antissoviética, pairava como um elemento cada vez mais útil e compreensivo. Além disso, corporações e bancos, principalmente americanos, mas também britânicos e franceses, fizeram muito dinheiro ajudando a Alemanha Nazista a rearmar-se, emprestando muito do dinheiro necessário para tanto. Por fim, mas não menos importante, acreditava-se que encorajando uma cruzada alemã em direção ao Oriente, isso poderia reduzir, se não eliminar por completo, o risco de uma agressão alemã contra o Ocidente. Assim, podemos entender porque as propostas de Moscou para estabelecer uma aliança defensiva contra a Alemanha Nazista não impressionaram esses cavalheiros. Mas havia uma razão pela qual eles não podiam se dar ao luxo de rejeitar essas propostas sem mais delongas.

Após a Grande Guerra, as elites dos dois lados do Canal da Mancha foram forçadas a introduzir reformas democráticas relativamente abrangentes, por exemplo, uma considerável expansão das eleições na Grã-Bretanha. Por causa disso, tornou-se necessário levar em conta a opinião dos Trabalhistas, assim como de outras “pragas de esquerda” que povoavam as legislaturas, e, às vezes, até mesmo incluí-las em governos de coalizão. A opinião pública, e uma parte considerável da mídia, era esmagadoramente hostil a Hitler e, portanto, fortemente a favor da proposta soviética de uma aliança defensiva contra a Alemanha Nazista. As elites queriam evitar tal aliança, mas também buscavam criar a impressão de que a queriam; pelo contrário, as elites queriam encorajar Hitler a atacar a União Soviética, e até ajudá-lo a tal, mas elas precisavam garantir que as pessoas jamais se dessem conta disso. Esse dilema levou a uma trajetória política cuja função manifesta era convencer o público de que os líderes haviam aceitado a proposta soviética para uma frente comum antinazista, mas cuja função latente – em outras palavras, a função real – era apoiar os projetos antissoviéticos de Hitler: a infame “política de apaziguamento“, associada acima de tudo com o nome do primeiro-ministro inglês Neville Chamberlain e sua contraparte francesa, Édouard Daladier.

Os partidários do apaziguamento começaram a trabalhar assim que Hitler chegou ao poder na Alemanha em 1933 e deu início à preparação para a guerra, guerra essa contra a União Soviética. Já em 1935, Londres deu a Hitler uma espécie de sinal verde para seu projeto de rearmamento ao assinar com ele um tratado naval. Hitler então continuou violando todo tipo de provisões do Tratado de Versalhes, por exemplo reintroduzindo o serviço militar compulsório na Alemanha, armando a força militar alemã até os dentes, e, em 1937, anexando a Áustria. Em cada ocasião, os estadistas no poder em Londres e Paris queixaram-se e protestaram como forma de causar uma boa impressão no público, mas acabaram aceitando o fato consumado. O público foi levado a acreditar que tal indulgência era necessária para evitar uma guerra. Essa desculpa foi efetiva a princípio, já que a maioria dos britânicos e franceses não desejavam estar envolvidos em uma nova edição da mortífera Grande Guerra de 1914-1918. Por outro lado, logo ficou óbvio que tal apaziguamento fortaleceu a Alemanha militarmente e tornou Hitler cada vez mais ambicioso e exigente. Consequentemente, o público eventualmente sentiu que haviam sido feitas concessões suficientes ao ditador alemão, e nesse ponto os soviéticos, na figura de Litvinov, vieram à frente com a proposta de uma aliança anti-Hitler. Isso causou dores de cabeça para os arquitetos do apaziguamento, de quem Hitler esperava ainda mais concessões.

Cartaz de propaganda nazista em holandês diz: “A Europa avança. Sob o estandarte da SS o oeste luta contra o bolchevismo.”

Graças às concessões que já haviam sido feitas, a Alemanha Nazista estava se tornando uma grande besta militar, e em 1939 somente uma frente comum das forças ocidentais e soviéticas parecia ser capaz de contê-la, já que, em caso de guerra, a Alemanha teria de lutar em duas frentes. Sob forte pressão da opinião pública, os líderes em Londres e Paris concordaram em negociar com Moscou, mas “havia uma mosca na pomada”: a Alemanha não compartilhava nenhuma fronteira com a União Soviética, isso porque a Polônia estava prensada entre esses dois países. Oficialmente, ao menos, a Polônia era uma aliada da França, por isso era esperado que ela fizesse parte em uma aliança defensiva contra a Alemanha Nazista, mas o governo em Varsóvia era hostil em relação à União Soviética, vizinho que era considerado tão ameaçador quanto a Alemanha. A Polônia teimosamente recusou-se a autorizar o Exército Vermelho, em caso de guerra, a cruzar o território polonês como forma de batalhar contra os alemães. Londres e Paris recusaram-se a pressionar Varsóvia, e assim as negociações não resultaram em nenhum acordo.

Enquanto isso, Hitler fazia novas demandas, dessa vez em relação à Checoslováquia. Quando Praga se recusou a ceder um território chamado Sudetos, local habitado por uma minoria de falantes de língua alemã, a situação ameaçou resultar em guerra. Essa foi, de fato, uma oportunidade única para concluir uma aliança anti-Hitler com a União Soviética e a militarmente forte Checoslováquia como parceiras dos britânicos e franceses: Hitler teria enfrentado a escolha entre uma retirada humilhante e a virtualmente certa derrota em uma guerra de duas frentes. Mas isso também significava que Hitler jamais seria capaz de iniciar a cruzada antissoviética que as elites em Londres e Paris estavam esperando. É por isso que Chamberlain e Daladier não aproveitaram a crise na Checoslováquia para formar uma frente comum anti-Hitler com os soviéticos, mas, ao invés disso, correram de avião para Munique para concluir um acordo com o ditador alemão onde as terras dos Sudetos, que por acaso estavam incluídas na versão checoslovaca da linha Maginot, foram oferecidas a Hitler em uma bandeja de prata. O governo checoslovaco, que não foi sequer consultado, não teve escolha a não ser a renúncia, e os soviéticos, que haviam oferecido assistência militar a Praga, não foram convidados para essa infame reunião.

No “pacto” que concluíram com Hitler em Munique, os estadistas britânicos e franceses fizeram enormes concessões para o ditador alemão; não para manter a paz, mas desse modo eles poderiam continuar a sonhar com uma cruzada nazista contra a União Soviética. Para o povo de seus próprios países, no entanto, o acordo foi apresentado como uma solução mais sensata para uma crise que ameaçava dar início a uma guerra geral. “Paz para o nosso tempo!” foi o que Chamberlain proclamou de forma triunfante em seu retorno à Inglaterra. O que ele quis dizer era paz para seu próprio país e seus aliados, mas não para a União Soviética, cuja destruição pelas mãos dos nazistas era largamente esperada.

Na Grã-Bretanha também haviam políticos, incluindo um punhado de membros de boa-fé da elite do país, que se opuseram à política de apaziguamento de Chamberlain, como Winston Churchill. Eles não o fizeram por simpatia pela União Soviética, mas por não confiarem em Hitler e temerem que o apaziguamento poderia ser contraproducente de duas maneiras. Primeiro, a conquista da União Soviética poderia prover a Alemanha Nazista de matéria-prima virtualmente ilimitada, incluindo terra fértil, petróleo, e outras riquezas, e desse modo permitir que o Reich estabelecesse no continente europeu uma hegemonia que representaria um perigo ainda maior para a Grã-Bretanha do que foi Napoleão. Segundo, também era possível que o poder da Alemanha Nazista e as fraquezas da União Soviética fossem ambos superestimados, assim a cruzada antissoviética de Hitler poderia na verdade resultar em uma vitória soviética, resultando em uma potencial “bolchevização” da Alemanha e talvez de toda a Europa. É por isso que Churchill foi extremamente crítico em relação ao acordo concluído em Munique. Ele alegadamente havia observado que, na capital da Baviera, Chamberlain fora capaz de escolher entre a desonra e a guerra, e que ele escolheu a desonra, mas também receberia a guerra. Com seu “paz para o nosso tempo”, Chamberlain na verdade errou lamentavelmente. Apenas um ano depois, em 1939, seu país estaria envolvido em uma guerra contra uma Alemanha Nazista que, graças ao escandaloso pacto de Munique, tornara-se um inimigo ainda mais formidável.

O principal determinante da falha de negociações entre a dupla anglo-francesa e os soviéticos foi a falta de vontade tácita dos apaziguadores de concluir um acordo anti-Hitler. Um fator auxiliar foi a recusa do governo em Varsóvia em permitir a presença das tropas soviéticas em território polonês no caso de uma guerra contra a Alemanha. Isso deu a Chamberlain e Daladier um pretexto para não concluir um acordo com os soviéticos, pretexto esse necessário para satisfazer a opinião pública (mas outras desculpas também foram evocadas, por exemplo a alegada fraqueza do Exército Vermelho, o que supostamente faria da União Soviética um aliado inútil). Com relação ao papel desempenhado pelo governo Polonês neste drama, existem alguns sérios mal-entendidos. Vamos dar uma olhada neles.

Primeiramente, deve ser levado em consideração que a Polônia do entreguerras não era um país democrático, longe disso. Após seu (re)nascimento no fim da Primeira Guerra Mundial como uma democracia, não levou muito tempo até que o país se encontrasse governado com mão de ferro por um ditador militar, o general Józef Pilsudski, em nome de uma elite híbrida que representava a aristocracia, a Igreja Católica, e a burguesia. Esse regime antidemocrático continuou a governar após a morte do general em 1935, sob a chamada liderança dos “coronéis Pilsudski” cujo primus inter pares (primeiro entre iguais) era Józef Beck, o ministro de Relações Exteriores. Sua política estrangeira não refletia sentimentos calorosos em relação à Alemanha, que havia perdido uma parte de seu território para o novo Estado polonês, incluindo um “corredor” que separava a região alemã no leste da Prússia do resto do Reich; além de um atrito com Berlim por conta de Gdansk (Danzig), importante porto no mar Báltico que havia sido declarado uma cidade-estado independente pelo Tratado de Versalhes, mas era reivindicado tanto pela Polônia como pela Alemanha.

A atitude da Polônia em relação ao seu vizinho ao Leste, a União Soviética, era ainda mais hostil. Pilsudski e outros nacionalistas poloneses sonhavam com a volta do grande Império Polaco-Lituano [República das Duas Nações] dos séculos XVII e XVIII, que se estendia do mar Báltico ao Mar Negro. Ele aproveitou a revolução e a subsequente Guerra Civil na Rússia para tomar uma vasta parte do território do antigo Império Czarista durante a Guerra Polaco-Soviética de 1919-1921. Esse território, que ficou conhecido de forma imprecisa como “Polônia Oriental,” se estendia por várias centenas de quilômetros ao leste da famosa Linha Curzon que deveria ter sido a fronteira oriental do novo Estado polonês, pelo menos de acordo com as potência ocidentais que tinham sido os padrinhos da nova Polônia ao final da Grande Guerra. A região era essencialmente habitada por russos brancos e ucranianos, mas nos anos seguintes a Varsóvia buscou “polonizar” a região o quanto fosse possível, trazendo colonos poloneses. As chamas da hostilidade polonesa em relação à União Soviética também foram ventiladas pelo fato de que os soviéticos simpatizavam com os comunistas e outros plebeus da própria Polônia que se opunham ao regime aristocrático. Finalmente, a elite polonesa era antissemita e tinha abraçado o conceito de “judeu-bolchevismo”, a noção de que o comunismo e todas outras formas de marxismo eram parte de uma nefasta conspiração judaica, e que a União Soviética, o produto de um esquema revolucionário bolchevique, e portanto supostamente judaico, representava nada mais do que uma “Rússia governada por judeus.” Ainda assim, as relações com os dois poderosos vizinhos foram normalizadas o quanto possível com Pilsudski e com a conclusão de dois tratados de não-agressão, um com a União Soviética em 1932 e um com a Alemanha logo após Hitler subir ao poder, firmado em 1934.

Após a morte de Pilsudski, os líderes poloneses continuaram a sonhar com expansão territorial para as bordas da praticamente mítica “Grande Polônia” de um passado distante. Para a realização desse sonho, pareciam haver diversas possibilidades no Oriente, e particularmente na Ucrânia, parte da União Soviética que se estendia de forma convidativa entre a Polônia e o Mar Negro. Apesar das disputas com a Alemanha e uma aliança formal com a França, que contava com ajuda polaca em caso de conflito com a Alemanha, primeiro o próprio Pilsudski, e então seus sucessores, flertaram com o regime nazista na esperança de uma conquista conjunta dos territórios soviéticos. Antissemitismo era outro denominador comum dos dois regimes que armaram esquemas para livrarem-se de suas minorias judaicas, por exemplo, deportando-as para a África.

A aproximação de Varsóvia em relação a Berlim refletia a megalomania e ingenuidade dos líderes poloneses, que acreditavam que seu país era uma grande potência do mesmo calibre que a Alemanha, um país que Berlim respeitaria e trataria como um parceiro de pleno comprometimento. Os nazistas estimularam essa ilusão, já que dessa forma enfraqueceriam a aliança entre a Polônia e a França. As ambições orientais da Polônia também foram encorajadas pelo Vaticano, que esperava que dividendos consideráveis fluíssem das conquistas da Polônia católica na majoritariamente ortodoxa Ucrânia, vista como madura para a conversão ao catolicismo. É nesse contexto que um novo mito foi conjurado pela máquina de propaganda de Goebbels em colaboração com a Polônia e o Vaticano, a saber, a ficção de uma grande fome na Ucrânia orquestrada por Moscou. A ideia era poder apresentar futuras intervenções militares da Polônia e da Alemanha por lá como sendo uma ação humanitária. Esse mito foi ressuscitado durante a Guerra Fria e tornou-se o mito criador do estado independente ucraniano que emergiu das ruínas da União Soviética. Para uma visão objetiva acerca do período de fome, recomendamos os vários artigos do historiador americano Mark Tauger, um especialista em história da agricultura soviética; tais artigos foram reunidos e publicados em uma obra francesa intitulada “Famine et Transformation agricole en URSS“.

O conhecimento desse contexto nos permite entender a atitude do governo polonês durante as negociações para o estabelecimento de uma frente defensiva comum contra a Alemanha Nazista. Varsóvia obstruiu essas negociações, não por medo da União Soviética, mas ao contrário, por causa de aspirações antissoviéticas e de seu acordo concomitante com a Alemanha. A respeito disso, a elite polonesa encontrava-se no mesmo barco que as contrapartes britânica e francesa. Desse modo, também podemos entender porque, após a conclusão do Acordo de Munique, que permitiu que a Alemanha anexasse a região dos Sudetos, a Polônia pegou um pedaço da pilhagem do território checoslovaco, mais especificamente a cidade de Cieszyn (Teschen) e seus arredores. Ao descer para essa parte da Checoslováquia como uma hiena, como observou Churchill, o regime polonês revelou suas reais intenções – e sua cumplicidade com Hitler.

As concessões feitas pelos arquitetos do acordo fizeram da Alemanha Nazista ainda mais forte do que antes e deixaram Hitler mais confiante, arrogante e exigente. Após Munique, ele revelou-se longe de estar satisfeito, e, em março de 1939, violou o Acordo de Munique ocupando o restante da Checoslováquia. Na França e na Grã-Bretanha, o público estava chocado, mas as elites dominantes não fizeram nada além de expressar a esperança de que o “Herr Hitler” eventualmente passasse a ser “sensível”, isso é, começasse sua guerra contra a União Soviética. Hitler sempre teve a intenção de fazê-la, mas, antes de satisfazer os apaziguadores britânicos e franceses, ele queria extorquir mais algumas concessões deles. Afinal de contas, parecia não haver o que eles pudessem recusar a ele; além disso, tendo fortalecido ainda mais a Alemanha com suas concessões anteriores, estariam eles em uma posição de negar a Hitler aquele que era presumidamente o último favor que ele pediria? Esse pequeno favor final dizia respeito à Polônia.

Ao final de março de 1939, Hitler subitamente exigiu Gdansk, assim como algum território polonês entre a Prússia Oriental e o resto da Alemanha. Em Londres, Chamberlain e seus colegas arqui-conciliadores estavam de fato inclinados a ceder mais uma vez, mas a oposição por parte da mídia e da Câmara dos Comuns provou-se muito forte para permitir que isso acontecesse. Chamberlain então repentinamente mudou de direção, e, em março de 1931, ele formalmente – mas de forma totalmente não realista, como Churchill observou – prometeu assistência armada à Varsóvia em caso de uma agressão alemã contra a Polônia. Em abril de 1939, quando pesquisas de opinião revelaram o que todo mundo já sabia, ou seja, que quase noventa porcento da população britânica desejava uma aliança anti-Hitler ao lado da União Soviética e também da França, Chamberlain viu-se obrigado a demonstrar oficialmente um interesse na proposta soviética de estabelecer diálogos a respeito da “segurança coletiva” frente a uma ameaça alemã.

Na realidade, os partidários do apaziguamento não estavam interessados na proposta soviética, e pensaram em todo tipo de pretexto para evitar a conclusão de um acordo com um país que eles desprezavam e contra um país com quem eles secretamente simpatizavam. Foi somente em julho de 1939 que eles se declararam preparados para dar início às negociações militares, e foi somente ao fim de agosto que uma delegação franco-britânica foi enviada para Leningrado com esse propósito. Em forte contraste com a velocidade com que, um ano antes, o próprio Chamberlain (acompanhado por Daladier) correu de avião para Munique, dessa vez um time de subalternos anônimos foi enviado para a União Soviética a bordo de um lento cargueiro. Além disso, quando finalmente chegaram em Moscou, após passarem por Leningrado, no dia 11 de agosto, descobriu-se que eles não possuíam as credenciais ou a autoridade necessária para realizar tais discussões. A essa altura, os soviéticos já haviam tido desprezo o bastante, e qualquer um pode entender porque eles resolveram romper as negociações.

Enquanto isso, Berlim discretamente deu início a uma aproximação com Moscou. Por que? Hitler sentiu-se traído por Londres e Paris, que a princípio haviam feito todo tipo de concessões, mas agora lhe negavam a pequena Gdansk e ficavam ao lado da Polônia. Desse modo, Hitler já encarava a perspectiva de uma guerra contra a Polônia, que negava entregar Gdansk, e também contra a dupla franco-britânica. Para poder vencer essa guerra, o ditador alemão precisava que a União Soviética se mantivesse neutra, e para tal ele estava disposto a pagar um preço alto. Da perspectiva de Moscou, a proposta de Berlim contrastava fortemente com a atitude dos apaziguadores ocidentais, que demandavam que os soviéticos fizessem promessas obrigatórias de assistência, mas sem oferecer uma contraparte significativa. O que havia começado em maio como discussões informais entre a Alemanha e a União Soviética no contexto de negociações comerciais sem importância, discussões nas quais os soviéticos inicialmente não mostraram interesse, eventualmente se transformou em um diálogo sério envolvendo os embaixadores dos dois países e até mesmo seus ministros das Relações Exteriores, Joachim von Ribbentrop e Vyacheslav Molotov – este último substituindo Litvinov.

Um fator que teve um papel secundário, mas que não deve ser subestimado, é o fato de que, na primavera de 1939, tropas japonesas com base no norte da China invadiram o território soviético no Extremo Oriente. Eles seriam derrotados e recuariam em agosto, mas essa ameaça japonesa confrontou Moscou com a possibilidade de ter que travar uma guerra em duas frentes, a menos que fosse encontrada uma maneira de eliminar a ameaça proveniente da Alemanha Nazista. Finalmente, Moscou viu uma forma de neutralizar essa ameaça por intermédio da proposta de Berlim, refletindo seu próprio desejo de evitar uma guerra em duas frentes.

Foi somente em agosto, porém, quando os líderes soviéticos perceberam que a Grã-Bretanha e a França não pretendiam conduzir negociações de boa-fé, que o nó foi cortado e que a União Soviética assinou um pacto de não-agressão com a Alemanha Nazista, mais especificamente no dia 23 de agosto. Esse acordo foi nomeado como “Pacto Ribbentrop-Molotov”, em homenagem aos ministros das relações exteriores, mas também ficou conhecido como o “Pacto Hitler-Stálin”. A conclusão desse acordo dificilmente chegou como uma surpresa: um número de políticos e líderes militares na Grã-Bretanha e na França já haviam previsto em diversas ocasiões que a política de apaziguamento de Chamberlain e Daladier levaria Stálin “aos braços de Hitler”.

“Aos braços” é na verdade uma expressão inadequada nesse contexto, já que o pacto certamente não refletia sentimentos calorosos entre os signatários. Stálin, inclusive, recusou uma sugestão de incluir no texto algumas linhas convencionais sobre uma hipotética amizade entre os dois povos. Ademais, o acordo não era uma aliança, mas somente um pacto de não-agressão. Desse modo, foi similar a diversos outros pactos de não-agressão que foram assinados anteriormente com Hitler, por exemplo o pacto com a Polônia de 1934. Tudo se resumia a uma promessa de não atacar um ao outro e de manter relações pacíficas, uma promessa que cada lado provavelmente manteria enquanto lhes fosse conveniente. Uma cláusula secreta foi anexada ao acordo com respeito à demarcação de esferas de influência na Europa Oriental para cada um dos signatários. Essa linha correspondia mais ou menos à Linha Curzon, o que fazia da “Polônia Oriental” parte da esfera soviética de influência. O que esse arranjo teórico significava em termos práticos estava longe de ser claro, mas o pacto certamente não implicava uma partição ou amputação territorial da Polônia comparável ao destino imposto à Checoslováquia pelos britânicos e franceses no pacto que assinaram com Hitler em Munique.

O fato de a União Soviética reivindicar uma esfera de influência além de suas fronteiras é por vezes descrito como evidência de sinistras intenções expansionistas; contudo, o estabelecimento de esferas de influência, seja de forma unilateral, bilateral, ou multilateral, tem sido uma prática largamente aceita entre grandes potências e outras não tão grandes, sendo muitas vezes algo planejado com a intenção de evitar conflitos. A Doutrina Monroe, por exemplo, que “afirmou que o Novo Mundo e o Velho Mundo permaneceriam como esferas de influência distintas”, pretendia impedir novas incursões coloniais de potências europeias que poderiam levá-las aos conflito com os Estados Unidos. De forma similar, quando Churchill visitou Moscou em 1944 e ofereceu a Stálin a divisão da Península Balcânica em esferas de influência, a intenção era evitar o conflito entre seus respectivos países após o fim da guerra contra a Alemanha Nazista.

Hitler agora era capaz de atacar a Polônia sem correr o risco de ter de travar uma guerra tanto contra a União Soviética como contra a dupla franco-britânica, embora o ditador alemão tivesse bons motivos para duvidar de que Londres e Paris declarariam guerra. Sem a assistência soviética, ficou claro que nenhuma ajuda efetiva poderia ser oferecida à Polônia, de modo que não demoraria para a Alemanha derrotar o país (somente os coronéis em Varsóvia acreditavam que a Polônia era capaz de suportar a investida das poderosas hordas nazistas). Hitler sabia muito bem que os arquitetos do apaziguamento continuavam a esperar que, cedo ou tarde, ele acabaria por realizar seu desejo e destruiria a União Soviética, de maneira que estavam dispostos a fechar os olhos para sua agressão contra a Polônia. Ele também estava convencido de que os britânicos e os franceses, mesmo que declarassem guerra contra a Alemanha, não atacariam pelo lado ocidental.

O ataque alemão contra a Polônia foi iniciado em 1 de setembro de 1939. Londres e Paris ainda hesitaram alguns dias, antes de reagirem com uma declaração de guerra contra a Alemanha, mas eles acabaram não atacando o Reich no momento em que a maior parte de suas forças armadas estava invadindo a Polônia, que era o que alguns generais alemães temiam. Na verdade, os protagonistas do apaziguamento somente declararam guerra contra Hitler porque a opinião pública a demandava. Em segredo, eles esperavam que a incursão na Polônia logo terminasse; desse modo “Herr Hitler” poderia finalmente voltar sua atenção para a União Soviética. A guerra que eles travaram foi somente uma “guerra de mentira”, como seria corretamente chamada, uma farsa na qual suas tropas, que poderiam virtualmente ter marchado na Alemanha, permaneceram inativamente instaladas atrás da Linha Maginot. Hoje é quase certo que os simpatizantes de Hitler no campo francês, e, possivelmente, os apaziguadores britânicos também, fizeram saber ao ditador alemão que ele poderia usar todo o seu poder militar para acabar com a Polônia sem precisar temer um ataque das potências ocidentais (aqui nos referimos aos livros de Annie Lacroix-Riz, “Le choix de la défaite“, “Les élites françaises dans les années 1930“, e “De Munich à Vichy. L’assassinat de la 3e République“.)

Os defensores poloneses ficaram impressionados, e logo ficou óbvio que os coronéis que governavam a Polônia teriam que se render. Hitler tinha todos os motivos para acreditar que eles o fariam, e suas condições implicariam, sem dúvida, em grandes perdas territoriais, especialmente, é claro, nas regiões ocidentais do país, em sua fronteira com a Alemanha. No entanto, uma Polônia mutilada provavelmente continuaria a existir, do mesmo modo que a França, após sua rendição em junho de 1940, continuou a existir sob o disfarce da França de Vichy. Em 17 de setembro, no entanto, o governo polonês repentinamente fugiu para a vizinha Romênia, um país neutro. Ao fazer isso, o governo deixou de existir, já que, de acordo com a lei internacional, não somente os militares, mas também os membros do governo de um país em guerra, devem ser detidos ao entrar em um país neutro durante um período de hostilidades. Esse foi um ato irresponsável e até mesmo covarde, com consequências nefastas para o país. Sem um governo, a Polônia efetivamente degenerou-se em uma espécie de terra de ninguém – uma terra nullius, em terminologia jurídica – onde os conquistadores alemães poderiam fazer o que quisessem por não haver ninguém com quem negociar a respeito do destino do país derrotado.

Essa situação também deu aos soviéticos o direito de intervir. Países vizinhos podem ocupar uma potencialmente anárquica terra nullius; além disso, se os soviéticos não interviessem, os alemães iriam, sem a menor sombra de dúvida, ocupar cada centímetro quadrado da Polônia, com todas as consequências que isso implicaria. É por isso que, no mesmo 17 de setembro de 1939, o Exército Vermelho cruzou a Polônia e começou a ocupar as regiões do leste do país, a já mencionada “Polônia Oriental”. O conflito com os alemães foi evitado porque tal território era pertencente à esfera soviética de influência estabelecida no Pacto Ribbentrop-Molotov. Aqui e ali, as tropas alemãs que haviam penetrado a leste da linha de demarcação tiveram que se retirar para dar espaço aos homens do Exército Vermelho. Onde fosse que fizessem contato, os militares alemães e soviéticos se comportaram de forma adequada e seguiram o protocolo tradicional, o que, às vezes, envolvia algum tipo de cerimônia, mas jamais houve qualquer tipo de “parada da vitória” conjunta.

Como seu governo fora reduzido a fumaça, as forças armadas polonesas que continuaram a oferecer resistência foram reduzidas ao nível de irregulares, de guerrilheiros, expostas a todos os riscos associados a esse papel. A maioria das unidades do exército polonês se deixou desarmar e ser detida pelo Exército Vermelho, mas as vezes houve resistência, por exemplo, pelas tropas comandados por oficiais hostis aos soviéticos. Muitos desses oficiais haviam servido na Guerra Polaco-Soviética de 1919-1921, tendo alegadamente cometido crimes de guerra como a execução de prisioneiros. É amplamente aceito que tais homens foram liquidados pelos soviéticos em Katyn e em outros lugares (ainda que, com relação a Katyn, tenham surgido questionamentos recentemente; esse assunto foi analisado em grandes detalhes em um livro de Grover Furr, “The Mystery of the Katyn Massacre“).

Muitos soldados e oficiais poloneses foram detidos pelos soviéticos de acordo com as regras do direito internacional. Em 1941, depois que a União Soviética passou a estar envolvida na guerra, e, portanto, não mais sujeita às regras que regem a conduta dos neutros, esses homens foram transferidos para a Grã-Bretanha (pelo Irã) para participarem da guerra contra a Alemanha Nazista ao lado dos aliados ocidentais. Entre 1943 e 1945, eles dariam uma grande contribuição para a libertação de uma parte considerável da Europa Ocidental (destino muito mais trágico tiveram os militares poloneses que caíram nas mãos dos alemães). Outros que se beneficiaram da ocupação de territórios da chamada “Polônia Oriental” pelos soviéticos foram os habitantes judeus. Eles foram transferidos para o interior da União Soviética e, desse modo, escaparam do destino que os esperava se eles tivessem continuado em seus shtetls quando os alemães chegaram em 1941. Muitos sobreviveram à guerra e puderam começar uma nova vida nos Estados Unidos, Canadá e, claro, Israel.

A ocupação da “Polônia Oriental” foi realizada corretamente, isso é, de acordo com as regras do direito internacional, de modo que essa ação não constituiu um “ataque” contra a Polônia, como muitos historiadores (e políticos) têm apresentado, e certamente não foi um ataque em colaboração com o “aliado” Nazi-Alemão. A União Soviética não se tornou aliada da Alemanha Nazista por concluir um pacto de não-agressão com esta, assim como não passou a ser aliada por conta de sua ocupação da “Polônia Oriental”. Hitler teve que tolerar essa ocupação, mas ele certamente teria preferido que os soviéticos não interviessem, permitindo que ele pudesse tomar toda a Polônia. Churchill expressou publicamente sua aprovação à iniciativa soviética, principalmente porque isso impediu que os nazistas também conquistassem a Polônia. O fato de essa iniciativa não constituir um ataque, e, portanto, um ato de guerra contra a Polônia, também se mostrou claramente no fato de que a Grã-Bretanha e a França, antigos aliados da Polônia, não declararam guerra contra a União Soviética, como eles certamente deveriam fazer. E a Liga das Nações Unidas não impôs sanções à União Soviética, o que também deveria ter acontecido se tal ação fosse considerada um ataque autêntico contra um de seus membros.

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Do ponto de vista soviético, a ocupação das regiões orientais da Polônia significava a recuperação de parte de seu território que fora perdido no conflito de 1919-1921. É verdade que Moscou havia reconhecido sua perda no Tratado de Paz de Riga que pôs um fim à guerra em março de 1921, mas Moscou seguiu buscando uma oportunidade para recuperar a “Polônia Oriental”, e em 1939 essa oportunidade se materializou e foi agarrada. Pode-se estigmatizar os soviéticos por isso, mas nesse caso pode-se também estigmatizar a França, por exemplo, por recuperar a Alsácia-Lorena no fim da Primeira Guerra Mundial, já que Paris havia reconhecido sua perda de território no Tratado de Paz de Frankfurt que pôs um fim à Guerra Franco-Prussiana de 1870-1871.

Mais importante é o fato de que a ocupação – ou libertação, ou retomada, ou recuperação, ou qualquer nome que se queira dar – da “Polônia Oriental” deu à União Soviética um ativo extremamente útil que, no jargão da arquitetura militar, é chamado de “glacis“, ou seja, um espaço aberto onde um agressor pode atravessar antes de alcançar o perímetro defensivo de uma cidade ou fortaleza. Stálin sabia que, apesar do pacto, Hitler atacaria a União Soviética mais cedo ou mais tarde, e esse ataque veio a ocorrer de fato em junho de 1941. Naquele momento, Hitler teve que iniciar seu ataque de um ponto de partida muito mais distante das importantes cidades no coração da União Soviética do que teria sido o caso em 1939, quando ele já estava ansioso para iniciar o ataque. Por causa do pacto, os pontos de partida para a ofensiva nazista de 1941 estavam várias centenas de quilômetros mais a oeste, e, portanto, a uma distância muito maior de seus objetivos estratégicos nas profundezas do território soviético. Em 1941, as forças alemãs chegaram a pouca distância de Moscou, o que significa que, sem o pacto, eles certamente teriam tomado a cidade, podendo resultar na capitulação dos soviéticos.

Graças ao Pacto Ribbentrop-Molotov, a União Soviética não somente ganhou um espaço valioso, mas também um tempo valioso, a saber, o tempo extra que eles precisavam para se preparar para o ataque alemão que estava originalmente agendado para 1939, mas que foi postergado até 1941. Entre 1939 e 1941, infraestruturas de importância crucial, sobretudo as fábricas que produziam todo tipo de material de guerra, foram transferidas para o outro lado dos Montes Urais. Além disso, entre 1939 e 1940, os soviéticos tiveram a oportunidade de observar e examinar a guerra que estourava na Polônia, Europa Ocidental, e outros lugares, e assim estudar valiosas lições sobre o estilo moderno, motorizado e “rápido como um relâmpago” da ofensiva militar alemã, a blitzkrieg. Os estrategistas soviéticos aprenderam, por exemplo, que a concentração da maior parte das forças armadas para propósitos defensivos próximo da fronteira seria fatal, e que somente uma “defesa em profundidade” ofereceria a possibilidade de parar o rolo compressor nazista. Seria, entre outras coisas, graças às lições aprendidas dessa maneira que a União Soviética conseguiria – reconhecidamente com grande dificuldade – sobreviver ao ataque nazista em 1941 e eventualmente vencer a guerra contra esse poderoso adversário.

Para tornar possível a defesa de Leningrado em profundidade, uma cidade com vitais indústrias de armas, a União Soviética propôs trocar territórios com a vizinha Finlândia no outono de 1939, um arranjo que teria mudado a fronteira dos dois países, deixando a cidade soviética mais distante. A Finlândia, aliada da Alemanha Nazista, recusou, mas através da “Guerra do Inverno” de 1939-1940, Moscou finalmente conseguiu realizar essa modificação da fronteira. Por causa do conflito, entendido como uma agressão, a União Soviética foi excomungada pela Liga das Nações. Em 1941, quando os alemães, auxiliados pelos finlandeses, atacaram a União Soviética e cercaram Leningrado durante muitos anos, foi o ajuste de fronteira que permitiu a sobrevivência da cidade durante esta provação.

Não foi a União Soviética, mas a Alemanha, quem tomou a iniciativa para as negociações que eventualmente resultaram no pacto. Eles o fizeram porque esperavam obter um vantagem disso, uma vantagem temporária, porém muito importante: a neutralidade da União Soviética enquanto a Wehrmacht atacava primeiro a Polônia e depois a Europa Ocidental. Mas a Alemanha Nazista também obteve um benefício adicional do acordo comercial que fora associado ao pacto. O Reich sofria com uma penúria crônica de todo tipo de matérias-primas estratégicas, e essa situação ameaçava se tornar catastrófica quando, como era de se esperar, uma declaração de guerra britânica levasse ao bloqueio da Alemanha pela Marinha Real. Esse problema foi neutralizado pela entrega de produtos como o petróleo por parte dos soviéticos, tal como fora estipulado no acordo. Não está claro o quão cruciais essas entregas realmente foram, especialmente as entregas de petróleo: não muito importantes, de acordo com alguns historiadores; extremamente importantes, de acordo com outros. De todo modo, a Alemanha Nazista continuou a depender de uma grande quantidade de petróleo importado – principalmente através de portos da Espanha – dos Estados Unidos, pelo menos até o Tio Sam entrar na guerra em dezembro de 1941. No verão de 1941, dezenas de milhares aviões, tanques, caminhões e outras máquinas de guerra nazistas envolvidas na invasão da União Soviética ainda eram dependentes em grande parte do combustível fornecido pelos fundos de petróleo americanos.

Ainda que seja incerto o quão importante o petróleo fornecido pelos soviéticos foi para a Alemanha Nazista, é certo que o pacto exigiu que o lado alemão retribuísse fornecendo aos soviéticos uma série de produtos industriais acabados, incluindo equipamento militar de ponta, o que foi usado pelo Exército Vermelho para atualizar suas defesas contra o possível ataque alemão que eles esperavam que fosse acontecer cedo ou tarde. Esse foi um dos maiores fatores de preocupação para Hitler, que estava interessado em iniciar sua cruzada antissoviética o mais cedo possível. Ele decidiu por fazê-lo ainda que, após a queda da França, a Grã-Bretanha estivesse longe de ser levada em conta. Consequentemente, em 1941, o ditador alemão teria que enfrentar o tipo de guerra em duas frentes que ele esperava evitar em 1939 graças ao seu pacto com Moscou, dessa vez enfrentando um inimigo soviético que havia se tornado muito mais forte do que era em 1939.

Stálin assinou um pacto com Hitler porque os arquitetos do apaziguamento em Londres e Paris recusaram todas as ofertas soviéticas de formar uma frente comum contra o ditador alemão. E os apaziguadores recusaram essas ofertas porque esperavam que Hitler marchasse para o Leste e destruísse a União Soviética, um trabalho que eles procuraram facilitar ao oferecerem a ele um “trampolim” sob o disfarce do território checoslovaco. É praticamente certo que, sem o pacto, Hitler teria atacado a União Soviética em 1939. Por causa do pacto, contudo, Hitler teve que esperar dois anos antes que finalmente estivesse apto a lançar sua cruzada antissoviética. Isso deu à União Soviética tempo e espaço extras que permitiram que suas defesas fossem aperfeiçoadas o suficiente para sobreviver à investida quando Hitler finalmente enviou seus cães de guerra para o Leste em 1941. O Exército Vermelho sofreu terríveis perdas, mas eventualmente conseguiu parar a avalanche nazista. Sem esse sucesso soviético, uma conquista descrita pelo historiador Geoffrey Roberts como “o maior feito das armas na história mundial”, a Alemanha muito provavelmente venceria a guerra, já que eles teriam ganho o controle dos campos de petróleo do Cáucaso, as ricas terras agrícolas da Ucrânia, e muitas outras riquezas do vasto território dos soviéticos. Tal triunfo teria transformado a Alemanha Nazista em uma superpotência insuperável, capaz de travar guerras ainda mais longas contra qualquer um, incluindo uma aliança anglo-americana. Uma vitória contra a União Soviética teria dado à Alemanha Nazista hegemonia sobre a Europa. Hoje, no continente, a segunda língua não seria o inglês, mas o alemão, e em Paris os fashionistas iriam subir e descer os Champs-Élysées usando lederhosen(traje típico alemão).

Sem o Pacto, portanto, a libertação da Europa, incluindo a libertação da Europa Ocidental pelos americanos, britânicos, canadenses, etc., nunca teria ocorrido. A Polônia não existiria; os poloneses seriam “untermenschen”, servos dos colonos “arianos” em uma Ostland germanizada do Báltico aos Cárpatos ou até mesmo aos Urais. E um governo polonês nunca teria ordenado a destruição de monumentos honrando o Exército Vermelho, como tem sido feito recentemente, não somente porque não haveria Polônia e, portanto, um governo polonês, mas porque o Exército Vermelho nunca teria libertado a Polônia e esses monumentos nunca teriam sido erguidos.

A ideia de que o Pacto Hitler-Stálin desencadeou a Segunda Guerra Mundial é pior do que um mito, é uma mentira completa. O oposto é verdade: o pacto foi a precondição para o feliz resultado do armageddonocorrido entre 1939 e 1945, isso é, a derrota da Alemanha Nazista.

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Alemanha: Um texto final, um texto de síntese. Parte III

Regimes Monetários Internacionais e o Modelo Alemão – 3ª Parte

(Fritz W. Scharpf, 18 de Fevereiro de 2018)

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Uma produção de qualidade e diversificada

Na Alemanha, o declínio relativo da produção e do emprego no sector industrial teve início apenas depois de 1970 – mais tarde do que noutras economias industriais (ver figura 3). E embora o volume de produção tenha evidentemente continuado a aumentar, a taxa de crescimento após 1970 foi inferior à da França e da Itália, o que é atribuído principalmente ao impacto da política de estabilização rigorosa do Bundesbank no sector interno da economia. Aqui, as altas taxas de juros reais tinham restringido a procura do consumidor, o investimento e o emprego (Schettkat e Sun 2009), enquanto a sobreavaliação da taxa de câmbio nominal tinha aumentado a competitividade dos preços das importações no mercado interno (Figura 7).

Devido a essas restrições internas e à posição do governo em continuar a defender o livre comércio, a “fuga para as exportações” foi, talvez, pré-ordenada na tradição industrial alemã. De qualquer forma, o desempenho das exportações parece não ter sido notavelmente afetado pela mudança radical no regime cambial internacional de Bretton Woods para o regime de câmbios flutuantes desordenados (Figura 8). Começando no nível um pouco mais alto alcançado no final da década de 1960, a participação das exportações no PIB aumentou ao longo da década de 1970, aproximadamente em paralelo com as exportações de outras grandes economias europeias cujas moedas se tinham desvalorizado significativamente em relação ao marco alemão e cujos custos do trabalho na indústria manufatureira eram significativamente menores (Vitols 1997).

Inicialmente, esta resiliência das exportações alemãs beneficiou do facto de, ao contrário da Alemanha, a primeira resposta à crise do preço do petróleo de 1973-1974 ter sido o relançamento monetário e orçamental na maioria dos países industrializados. Outro fator foi a disposição das empresas em defender os seus mercados de exportação, atenuando o impacto do aumento das taxas de câmbio sobre os preços de exportação, em detrimento dos lucros e dos investimentos (Scharpf 1991, 131). Ao mesmo tempo, porém, a indústria exportadora alemã também começou a ajustar-se à perda de competitividade pelos preços, “movendo-se para cima” [em termos de qualidade e de produtos].

Este movimento foi facilitado pelas vantagens comparativas de uma forte tradição de engenharia, de uma mão-de-obra industrial altamente qualificada, de relações laborais geralmente cooperativas ao nível da empresa [1] e da existência de uma grande parte de pequenas e médias empresas flexíveis e orientadas para a exportação. Ao separar a negociação salarial propensa a conflitos ao nível dos sindicatos e das organizações de empregadores da co-determinação dentro das empresas, as relações industriais alemãs facilitaram as empresas relativamente industriais na estrutura económica (Bagnasco e Sabel 1995; Söllner 2014). Nestas condições, as empresas foram capazes de procurar ou defender os mercados externos, especializando-se em linhas de produtos menos sensíveis aos preços em bens de investimento e bens de consumo duradouros de alta qualidade. Com o benefício adicional da flexibilidade assistida por computador nos processos de fabricação, a indústria alemã passou da produção em massa “Fordista” para um perfil de “produção deversificada e de qualidade” (Sorge and Streeck 1988; Streeck 1991; Sorge and Streeck 2016), que permitiu que a indústria de exportação alemã de salários elevados se mantivesse até ao final dos anos 1980, não apenas na Europa e nos Estados Unidos, mas também em competição com concorrentes do Sudeste Asiático de salários mais baixos e cada vez mais especializados (Streeck 1997a).

Ao mesmo tempo, os governos fizeram o seu melhor para modernizar e efetivar as políticas que tenderiam a estabilizar o modelo de crescimento baseado na indústria. Enquanto a Alemanha não tinha uma política industrial coerente ao estilo francês, a política de investigação e tecnologia a nível nacional começou a concentrar-se na inovação de produtos e de processos no setor industrial (Hauff e Scharpf 1975), os governos ao nível dos Land usaram o estabelecimento de Fachhochschulen (escolas de engenharia abaixo do nível universitário) para fornecer capacidades académicas de investigação e de desenvolvimento orientadas para a prática, concentrando-se nas oportunidades e necessidades específicas de pequenas e médias empresas em “distritos industriais” especializados (Piore e Sabel 1984; Allen 1989; Herrigel 1993). Embora a ajuda financeira do Kreditanstalt für Wiederaufbau (KfW) fosse importante neste contexto, programas eficazes foram geralmente designados e implementados por redes “meso-corporativas” de governos locais, associações empresariais, bancos regionais, sindicatos e instituições de I&D e de formação financiadas pelo Estado (Hull e Hjern 1982; Allen 1990; Vitols 1997; Herrigel 2000). Com efeito, as políticas de infraestruturas públicas e as redes de políticas de cooperação a nível regional e local constituíam uma espécie de política industrial que apoiava a especialização da indústria germânica tanto nos segmentos menos sensíveis aos preços nos mercados de bens de investimento e de bens de consumo duradouros como em termos de “diversificação da produção e de qualidade” (Matzner e Streeck 1991; Streeck 1991; Streeck 1991). Em conjunto, estes esforços ajudaram a manter a viabilidade internacional da indústria alemã apesar de ter a sua moeda sobrevalorizada. E o declínio constante do emprego foi de facto interrompido na segunda metade da década de 1980 (Figura 9).

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Mas, embora todos os esforços se concentrassem na defesa do sector industrial, o seu sucesso relativo não conseguiu restabelecer o pleno emprego na economia. Em vez disso, as inovações na tecnologia na produção e na organização do trabalho e os requisitos mais elevados de competências na diversificação da produção e com qualidade tiveram o efeito de reduzir as oportunidades de emprego para os trabalhadores pouco qualificados na indústria alemã – e o aumento do desemprego a longo prazo (“estrutural”)[2] – aponta para o facto de estas perdas na indústria não terem sido compensadas por um aumento do emprego noutros locais. E embora o emprego global também tenha diminuído em França e na Itália durante os anos 70 e 80, houve outros países europeus cujo desempenho em termos de emprego foi muito melhor (Figura 10).

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Como se verá, os fracos resultados da Alemanha em matéria de emprego devem-se, em grande medida, a condicionalismos específicos no sector dos serviços.

Como é que o Estado-Providência está a limitar o crescimento da economia de serviços

De acordo com as grandes teorias da sociedade pós-industrial (Bell 1973; Fourastié 1949), a mudança secular do emprego da agricultura para a indústria deveria continuar com o declínio do emprego industrial, que poderá ser compensado pela ascensão da economia de serviços. Durante algum tempo, a Alemanha pareceu ser um caso desviante, pois o emprego industrial tinha-se mantido até ao final da década de 1960, quando já estava em declínio noutros lugares. Depois de 1970, porém, ficou claro que a Alemanha tinha sido apenas um país atrasado na trajetória geral da desindustrialização. E, embora as taxas de emprego na indústria alemã continuassem a ser mais elevadas do que em qualquer outro lugar, já não eram suficientes para estabilizar o emprego em geral.

No entanto, embora o declínio da indústria tenha prosseguido aproximadamente ao mesmo ritmo nas economias industriais avançadas, tal não foi, de modo algum, o caso do aumento previsto da economia de serviços. Embora o emprego de serviços tenha aumentado em todos os lugares, as trajetórias diferiram drasticamente entre as economias capitalistas avançadas – e aqui a Alemanha estava entre os extremamente atrasados (Figura 11).

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Na economia política comparativa dos diferentes Estado Providência capitalistas, a divergência do emprego no setor dos serviços é explicada pelas diferenças estruturais entre o Estado Providência dito de tipo escandinavo (ou “Social Democrata”), os anglo-americanos (ou “Liberais”) e os continentais (ou “Bismarckianos”) (Scharpf 1986; Flora 1986; Esping-Andersen 1990; Alber e Gilbert 2010).

No Estado Providência social liberal, a baixa carga tributária e a distribuição desigual de rendimento estão associadas ao crescimento de serviços privados e financiados pelo setor privado – sugerindo que as famílias de alta rendimento estão a criar empregos para os trabalhadores de serviços de baixos salários. Nos estados de bem-estar social escandinavos de alta tributação, no outro extremo, os serviços prestados pelo Estado em educação, cuidados de saúde e serviços sociais para os jovens, para as pessoas doentes e para as pessoas mais velhas expandiram-se rapidamente depois de 1960.

Em contrapartida, os Estados Providência “Bismarckianos”, incluindo a Alemanha, ainda estavam vinculados ao seu modelo original de segurança social baseada no trabalho, com transferências de dinheiro relativamente generosas e de estatuto – mantendo as transferências de dinheiro para o “ganha-pão masculino” e a sua família em casos de doença, invalidez e desemprego, e na reforma. Ao mesmo tempo, os serviços essenciais de cuidados aos jovens, doentes e idosos ainda eram prestados por mães, esposas e filhas no interior da família. Assim, o emprego nos serviços sociais financiados pelo Estado era tão baixo, ou mesmo inferior, ao dos Estados Unidos e do Reino Unido (Alber 1986; Scharpf 1986; Scharpf e Schmidt 2000; Palier e Martin 2008; Palier 2010).

Mas a relativa generosidade das transferências sociais e das pensões pressupunha um emprego a longo prazo e a tempo inteiro. Assim, o sistema foi mal concebido para a existência de uma situação de declínio do emprego normal e para um aumento da instabilidade no emprego, para a insegurança do trabalho por conta própria – e para modelos familiares que já não estavam em conformidade com o modelo de sustento da família estável. Em suma, a partir da década de 1970, a parte da população que estava bem servida pelo Estado-Providência alemão estava a diminuir sem se ter em conto o impacto das crises económicas e das mudanças societais. Ao mesmo tempo, os esforços para alargar a sua cobertura face ao declínio do emprego industrial sem alterar a sua fonte de financiamento baseada em seguros tiveram o efeito perverso de subexplorar o crescimento das oportunidades de emprego não industrial (Manow and Seils 2000).

A partir da década de 1970, a política do mercado de trabalho, bem como o seguro de desemprego e a segurança de pensão de reforma foram usados para amenizar as perdas de empregos no setor industrial e limitar o seu impacto político saliente nas estatísticas de desemprego. Assim, o número de “trabalhadores convidados” foi reduzido após 1974. Além disso, a oferta de trabalho foi reduzida através da passagem à reforma antecipada precoce e flexível – opções que tinham sido introduzidas antes da crise, mas foram ainda mais ampliadas em resposta aos interesses comuns dos empregadores e sindicatos em evitar despedimentos em massa. Estas opções facilitaram opções de saída sozialverträgliche (socialmente aceitáveis) para os trabalhadores mais velhos, combinando um período de desemprego subsidiado pelo empregador aos 59 anos (mais tarde aos 57) e com a passagem á reforma antecipada aos 60 anos, com pedidos de pensão completa. Consequentemente, a baixa no emprego global só em parte se refletiu no aumento do desemprego registado[3].

Como as condições do federalismo orçamental alemão dificultaram o financiamento dessa generosidade através de aumentos de impostos, a carga caiu principalmente sobre as contribuições para a segurança social, que estavam a aumentar continuamente, de 11,1% do PIB em 1970 para 15,6% em 1985 (IW 2013, Tabela 1). Estas contribuições – para o seguro de desemprego, o seguro de invalidez, o seguro de saúde, o seguro de cuidados de longa duração e a pensão de reforma – são geralmente pagas de forma paritária por empregadores e trabalhadores. Ao contrário dos impostos sobre o rendimento, no entanto, estas contribuições não têm um limite inferior (mas um limite superior), a estrutura é proporcional, e a incidência geral é regressiva. Por conseguinte, na série da OCDE sobre “Tributação dos salários”, a Alemanha foi (e continua a sê-lo) incluída na lista dos países com a maior “carga fiscal” sobre os baixos rendimentos salariais (OCDE 2017e). No extremo inferior da escala salarial, a carga fiscal é duas vezes mais elevada do que nos Estados anglo-americanos liberais ou na Suíça, e é quase tão elevada como na Suécia social-democrata. Em combinação com os salários de reserva proporcionados pelo nível relativamente generoso dos subsídios de desemprego relacionados com os salários, esta carga fiscal teve o efeito de retirar do mercado privado, não só na indústria, mas também nos serviços, o trabalho pouco qualificado.

Na Suécia, naturalmente, a maioria dos serviços era prestada no sector público, ao passo que a taxa de emprego ad Alemanha no sector público era ainda mais baixa do que nos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, porém, o emprego alemão nos serviços do sector privado era tão baixo como na Suécia (Scharpf 1986). Em consequência, o desemprego de longa duração e “estrutural” continuou a aumentar à medida que os trabalhadores pouco qualificados foram sendo afastados do emprego industrial intensivo e não encontraram lugar, nem no sector público nem no sector privado da economia alemã de serviços. Por outras palavras, em contraste com os Estados Sociais-Democratas e Liberais, a Alemanha e sistemas bismarckianos semelhantes estavam a caminho de proporcionar “bem-estar sem trabalho” (Hemerijck et al. 2000; Scharpf 1997; 2000).

O modelo alemão no final dos anos 80

Notoriamente, porém, nem o governo social-liberal de Helmut Schmidt, nem o de Helmut Kohl, seu sucessor conservador-liberal após 1982, fizeram da reforma estrutural de um Estado-Providência cada vez mais disfuncional e insustentável uma prioridade política. Em vez disso, a atenção política e pública permaneceu focada no fortalecimento da competitividade da indústria alemã sob a condição de moeda forte. E a partir dessa perspetiva, a Alemanha parecia ser relativamente bem-sucedida. Para as indústrias exportadoras, o SME do final da década de 1980 foi melhor do que as excessivas oscilações cambiais da década de 1970; e após a transição bem-sucedida para a diversificação da produção e com qualidade, o lento aumento das exportações industriais continuou apesar das restrições de uma moeda sobrevalorizada e dos altos salários de uma força de trabalho qualificada. Assim, enquanto a baixa do emprego industrial se estabilizou em meados da década de 80, o emprego nos serviços continuou o seu lento aumento, e mesmo a muito baixa taxa de emprego global recomeçou a aumentar um pouco (ver Figura 10).

No final da década de 1980, portanto, o modelo alemão parecia estar em relativamente boa forma. Em comparação com outras economias avançadas, o sector industrial não tinha declinado tão profundamente e parecia ter alcançado um rumo estável. Na ausência de um sector de baixos salários, a igualdade salarial era quase tão boa como na Suécia e muito melhor do que nas economias anglo-saxónicas[4]. E, em comparação com o radicalismo do lado da oferta de Thatcher e Reagan, as políticas de liberalização moderada adotadas pelo governo conservador-liberal de Kohl sob as restrições de múltiplos vetos do federalismo alemão também não pareciam pôr em questão as instituições políticas, económicas e sociais do modelo alemão (Lehmbruch et al. 1988; Zohlnhöfer 2001). Em retrospetiva, portanto, o final da década de 1980 poderia de facto ser visto como um período em que o “capitalismo alemão” e as suas instituições de uma “economia social de mercado” internacionalmente competitiva, orientada para a estabilidade, cooperativa e bastante igualitária pareciam mais atraentes em termos socioeconómicos do que muitas outras economias capitalistas avançadas. No entanto, as reformas básicas do estado de bem-estar social não estavam na agenda política.


Notas:

[1] Ao separar a negociação salarial propensa a conflitos ao nível dos sindicatos e das organizações de empregadores da co-determinação dentro das empresas, as relações industriais alemãs facilitaram a negociação relativamente cooperativa sobre a organização do trabalho e as condições de trabalho ao nível dos conselhos de gestão e dos conselhos de empresa (Streeck 1984; 1997).

[2] A proporção de pessoas em situação de desempregados de longa duração (>1 ano) no desemprego total aumentou de 10% em 1975 para 31% em 1989 (Bundesanstalt für Arbeit 1976; 1990).

[3] A medida adequada teria sido o aumento da “taxa de inatividade”, definida como a percentagem da população em idade activa que depende de transferências públicas que substituem o rendimento (Hemerijck, Manow e van Kersbergen 2000; Hemerijck e Schludi 2000), que, no entanto, não foi nem mencionada nas estatísticas oficiais nem objeto de debate público.

[4] Os dados comparativos da OCDE só estão disponíveis a partir de meados dos anos 90, quando a desigualdade salarial já estava a aumentar na Alemanha. Nessa altura, a dispersão dos salários horários a tempo inteiro (D5/D1, D9/D1 e D5/D1) na Alemanha era superior à da Suécia, mas inferior à do Reino Unido e muito inferior à dos Estados Unidos: OECD Employment Database – Earnings and Wages.http://stats.oecd.org/Index.aspx?DatasetCode=DEC_I#.

 


A quarta parte deste texto desta série será publicada amanhã, 16/10/2019, 22h


Tradução de Júlio Marques Mota – Fonte aqui

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2019/10/16/ano-de-2019-ano-de-eleicoes-europeias-parte-ii-imagens-soltas-de-uma-uniao-europeia-em-decomposicao-a-partir-de-alguns-dos-seus-estados-membros-8o-texto-alemanha-um-texto-final-um-texto-de-s-3/

Alemanha: Um texto final, um texto de síntese. Parte II

Regimes Monetários Internacionais e o Modelo Alemão – 2ª Parte

(Fritz W. Scharpf, 18 de Fevereiro de 2018)

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1949-1969: A Alemanha Ocidental sob o regime de Bretton-Woods

Na história económica da Alemanha, menos ainda do que na sua história política, o fim da Segunda Guerra Mundial não foi um “Nullpunkt”. Talvez seja necessário voltar ao último quartel do século XIX, com a sua coligação política de “ferro e centeio” (Gerschenkron 1943; Gourevitch 1986; Schonhardt-Bailey 1998), uma estrutura industrial baseada em carvão, aço, engenharia química e elétrica assente na investigação e em máquinas, e aos primórdios do estado social bismarckiano (Allen 1989a). Ou pode-se olhar para os anos de 1920, quando as fábricas de automóveis alemãs, especializadas em carros de luxo construídos à mão, tiveram de aprender a produzir em massa a partir de Henry Ford e da General Motors (Streeck 1984). E enquanto as políticas autárquicas de meados da década de 1930 poderiam ter favorecido uma reorientação das exportações para a procura interna[1], esta última foi contrariada pela crescente ênfase no rearmamento militar, já que as indústrias de consumo foram “mais duramente atingidas pelo Novo Plano — porque foram consideradas “não necessárias” ao desenvolvimento económico da Alemanha” (James 1989, 253)[2], e estes efeitos certamente ficaram mais profundamente enraizados pela expansão (e destruição limitada) das indústrias produtoras de equipamentos militares. De qualquer forma, o potencial industrial sobreviveu à guerra e ao desmantelamento do pós-guerra, e foi inicialmente adequado para produzir bens de investimento para a reconstrução interna e europeia, produtos tecnicamente exigentes para exportação, mas também bens de consumo produzidos em massa para o mercado interno.

O modelo original: Moderação salarial e restrições monetárias

Na Alemanha Ocidental, a reconstrução só pôde começar a sério no verão de 1948, quando o novo marco alemão (DM) substituiu o hiperinflacionado Reichsmark a uma taxa de 10:1, e quando os controles salariais e de preços do pós-guerra foram subitamente revogados por Ludwig Erhard. Naquela época, porém, não havia um mercado de capitais funcional para financiar os investimentos necessários para a reconstrução. Uma reforma monetária que favorecesse mais os ativos reais do que a poupança de dinheiro, regras fiscais que favoreciam grandemente os lucros retidos e políticas governamentais altamente dirigistas canalizavam o capital (incluindo os fundos de contrapartida “renováveis” da ajuda Marshall) para as áreas de estrangulamento de investimento na produção e transporte de carvão e aço ajudaram (Abelshauser 2011, 140-52; Stolper e Roskamp 1979, 395-97), mas a principal fonte de financiamento que impulsionou a reconstrução no início da década de 1950 foram os lucros reinvestidos (Abelshauser 1983, Tabela 12) gerados por acordos salariais abaixo dos aumentos da produtividade do trabalho (Wolter 1984, Tabela 2).

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Até certo ponto, a restrição salarial inicial dos sindicatos alemães – que haviam ultrapassado as divisões políticas do período entre guerras e eram agora organizados por setores industriais – é explicada pelo seu fraco poder de negociação em face do aumento do desemprego de 4,1% em 1948 para 11% em 1950, como consequência dos choques da reforma do sistema cambial e da liberalização total. Ainda mais importante foi o aumento da oferta de mão-de-obra provocado pela imigração em massa de expatriados da Europa Oriental e refugiados da Alemanha Oriental, aumentando a população da Alemanha Ocidental de 46,5 milhões em 1949 para 49,5 milhões em 1954 (Stolper e Roskamp 1979, 379). Além disso, as prioridades estratégicas dos sindicatos no início da década de 1950 foram as reformas institucionais, com foco na legislação política e na ação industrial para garantir a codeterminação e o estabelecimento de direitos autónomos de negociação coletiva (Müller-Jentsch 2011). No entanto, a efetiva contenção salarial também tinha sido uma escolha estratégica: para os trabalhadores industriais e os seus sindicatos: a criação de emprego e a reconstrução industrial pareciam ser um interesse imediatamente mais importante do que os aumentos salariais. E, na verdade, o investimento orientado para o lucro após 1948 facilitou um aumento acentuado do emprego industrial (Figura 1).

A aceitação estratégica das restrições salariais foi posteriormente reconhecida num famoso artigo de Victor Agartz (1953), na altura ainda o principal teórico da Federação Alemã dos Sindicatos (DGB)[3]. Argumentando que a reconstrução e a modernização de capacidade industrial estava, em 1953, a aproximar-se do ponto em que os padrões normais de financiamento do investimento podiam e deviam voltar a prevalecer, Agartz apelou a uma reorientação conceptual do crescimento económico orientado para a procura, que deveria ser implementada através de uma estratégia de expansão salarial (Lohnpolitik expansiva). E embora o novo conceito de Agartz não tenha sido adotado como uma estratégia sindical oficial, os salários reais aumentaram, de facto, acentuadamente após o início da década de 1950[4].( Nota 5) Assim, a procura dos consumidores também ajudou o “milagre económico” a continuar, com uma taxa média de crescimento de 6,3% e uma queda rápida do desemprego até ao final da década, enquanto o emprego total aumentou 5 milhões ou 24 por cento durante a década de 1950. Não obstante, a taxa de inflação permaneceu abaixo de 2 por cento ao longo da década (Wolter 1984). É este último que, finalmente, aponta para o papel que os regimes monetários nacionais e internacionais desempenharam no contexto do “milagre alemão”.

No plano interno, o Bank deutscher Länder (BdL) — o antecessor do Bundesbank — foi criado pelos governos militares ocidentais em 1 de Março de 1948, ou seja, mais de um ano antes da criação da República Federal em Maio de 1949 e antes do estabelecimento de um governo federal em Setembro. Foi organizado como uma empresa comum dos atuais bancos centrais dos Länder alemães ocidentais, e não como um instrumento de um governo central. Inicialmente sob controlo direto dos Aliados, o seu mandato para assegurar a estabilidade dos preços e o equilíbrio externo esteve sob pressão nos primeiros anos após a reforma monetária de 21 de Junho de 1948 (que tinha estabelecido o novo marco alemão a uma taxa de câmbio de 1: 3,33 em relação ao dólar americano). Ludwig Erhard, responsável pela administração económica da “Bizone” americano-britânica, ignorou as advertências britânicas ao anunciar o fim dos controlos de preços e salários do pós-guerra logo após a reforma monetária. O efeito inicial foi um aumento dramático dos preços internos (Abelshauser 2011, 153), que a política monetária do Banco não foi capaz de neutralizar porque os bancos comerciais estavam inicialmente bem abastecidos com dinheiro do banco central (Buchheim 1998, 134). Em vez disso, quando a libra esterlina e outras moedas europeias desvalorizaram 30,5% em relação ao dólar americano, o novo governo federal, na sua primeira reunião de gabinete após tomar posse em 20 de setembro de 1949, também pediu ao Alto Comissariado Aliado uma desvalorização do marco alemão, mas apenas em 20,6% (o que representou uma efetiva revalorização contra os concorrentes europeus) para reduzir as pressões inflacionistas (Holtfrerich 1998, 370). Como as importações também tinham sido liberalizadas em maior medida do que em qualquer outro lugar, os efeitos imediatos foram défices na balança corrente e uma grave crise na balança de pagamentos em 1949 e, em.1950, isto teve o efeito de restringir as importações necessárias para a produção industrial.

Assim, quando a política monetária finalmente entrou em vigor, uma contenção rigorosa para reduzir a procura interna também reduziu a taxa de inflação de 7,6% em 1951 para 2,1% em 1952 e para -1,7% em 1953 (Abelshauser 1983, 63-65). Ao mesmo tempo, a inflação abaixo da média estimulou as exportações alemãs. Assim, a balança corrente tornou-se excedentária em 1951 e as preocupações com a balança de pagamentos foram definitivamente ultrapassadas em 1952 (Holtferich 1998, 383). Nas palavras do presidente do BdL, essas foram as diretrizes da política monetária “mercantilista ” [5]) do Banco no início da década de 1950: “nós dependemos de exportações crescentes e estas dependem da manutenção de preços relativamente baixos e dos níveis salariais. Por outras palavras, manter os preços abaixo dos níveis do exterior é o ponto crucial dos esforços do banco central” (Vocke, 17 de maio de 1951, como citado em Holtferich [1998, 383]; tradução minha). E mesmo que, depois de meados da década de 1950, os salários reais tenham aumentado significativamente num mercado de trabalho cada vez mais apertado, as taxas de inflação permaneceram abaixo da média internacional — nunca excedendo 2 por cento até ao final da década e permanecendo abaixo dos 3 por cento até ao final do “milagre económico” em meados dos anos 60 (Statistisches Bundesamt 2011).

O período de elevado crescimento da economia ocidental alemã terminou em 1965[6]. Em retrospetiva, os principais economistas alemães (Giersch 1967; 1983; Kloten, Ketterer, e Vollmer 1985; Göbel 1988) têm geralmente atribuído o seu sucesso à combinação da política monetária orientada para a estabilidade e da moderação salarial dos sindicatos alemães. A persistência deste padrão benéfico é geralmente explicada pelo enraizamento histórico das instituições e pelos hábitos cooperativos do “corporativismo” setorial (Abelshauser 2011). Estas interpretações do lado da oferta não estão erradas, mas subestimam os efeitos do lado da procura que estas práticas internas foram capazes de alcançar durante o regime económico e monetário internacional do pós-guerra.

Beneficiando da assimetria do regime de Bretton-Woods

Sob o regime internacional do pós-guerra, o comércio entre as economias industrializadas foi gradualmente liberalizado através de uma sucessão de acordos do GATT, e estava em constante crescimento. Em contraste, a mobilidade de capital era baixa e os Estados eram livres em utilizar ou não os controles cambiais quanto aos movimentos de capital na gestão das moedas nacionais. Sob o sistema de taxas de câmbio fixas, mas ajustáveis de Bretton Woods, todas as moedas dos Estados membros estavam ligadas à moeda americana, e o próprio dólar estava ligado ao ouro à taxa de 35 dólares por onça.

Na ausência de uma câmara de compensação central, as transações internacionais eram efetuadas através dos bancos centrais, que tinham de liquidar contas mútuas através da transferência de “reservas” de ouro ou de dólares. A fim de manter as suas moedas dentro de uma largura de banda estreita de 1% em relação à taxa de câmbio oficial, os Estados eram obrigados a empregar os seus instrumentos de política interna (monetária, orçamental, regulatória) ou externa (controles de capital, controles comerciais) para influenciar as importações, exportações e fluxos de capital, a fim de estabilizar a taxa de câmbio. Os problemas de liquidez de curto prazo poderiam ser ultrapassados dos créditos do Fundo Monetário Internacional (FMI). E no caso de um “desequilíbrio fundamental”, um Estado poderia solicitar uma variação na taxa de câmbio oficial da sua moeda para evitar uma crise na balança de pagamentos (Bordo 1993; Obstfeld 1993a).

Que tais crises pudessem surgir era devido aos requisitos de ajustamento assimétrico do regime de Bretton Woods, que Keynes havia criticado e cujas propostas haviam sido rejeitadas pelo lado americano (Zoche 2015, 60-91; Ikenberry 1993, 174). Keynes tinha posto em relevo as assimetrias económicas e políticas dos ajustamentos necessários para evitar as crises de balança de pagamentos num sistema de câmbios fixos. Os Estados com défices na sua balança corrente precisariam de reduzir salários e preços (por outras palavras, alcançar a “desvalorização interna”), exigindo cortes dolorosos no emprego, salários e gastos públicos, enquanto os países com excedentes poderiam mais facilmente aumentar a procura interna, salários e preços[7]. Mas este ponto de vista de Keynes foi rejeitado, e as regras de ajustamento do regime de Bretton Woods visaram assimetricamente os Estados deficitários em situação de perigo de uma crise de balanço de pagamentos. Os excedentes externos como tal não eram uma preocupação oficial, e se a taxa de câmbio nominal de uma economia em situação de excedente estivesse a forçar o valor da sua moeda contra o limite superior da largura de banda, o seu banco central poderia facilmente corrigir a situação vendendo a sua própria moeda.

No mundo ideal da economia neoclássica, com salários e preços perfeitamente flexíveis e informação completa, não deverão ocorrer desequilíbrios persistentes (Obstfeld 1993b, 207-11). No mundo real descrito por Keynes, no entanto, os salários e os preços eram inflexíveis à baixa, e as economias com um défice comercial crónico lutariam continuamente contra as crises da balança de pagamentos. Os governos britânicos, por exemplo, tentando manter o pleno emprego e o estatuto da libra esterlina como moeda de reserva nos anos 60, foram forçados a recorrer a políticas macroeconómicas stop-go e, por vezes, a controlos de preços e salários, controlos cambiais e repetidos créditos de resgate de outros governos e do FMI, sem, no final, serem capazes de evitar a desvalorização (Obstfeld 1993b, 228-34; Bordo, MacDonald, e Oliver 2009). Na Alemanha Ocidental, pelo contrário, a contenção salarial inicial e a rápida queda da taxa de inflação permitiram que as exportações da indústria beneficiassem do aumento da procura internacional e da inflação do dólar durante a Guerra da Coreia de 1950-1953. Como consequência, a balança comercial passou a ser positiva em 1952 e permaneceu excedentária até ao final do período de Bretton Woods (Bordo 1993,55; Figura 2).

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Em teoria, é claro, mesmo numa versão mais realista do modelo neoclássio, os excedentes persistentes também não deveriam ter ocorrido sob o regime de Bretton Woods. Embora os défices persistentes possam ser plausivelmente explicados pela hipótese de preços e salários rígidos à baixa,[8] a hipótese inversa parece menos óbvia: se elevados excedentes de exportação, convertidos em moeda nacional, estão a provocar um aumento da procura interna então não há um mecanismo geral na teoria económica que impeça um movimento ascendente de preços e salários internos. Nesse caso, então, a “inflação importada” reduziria a competitividade de preços das exportações, aumentaria a procura por importações e, assim, restauraria o equilíbrio externo teoricamente esperado.

No mundo real, no entanto, o desempenho das economias nacionais sob o regime de Bretton Woods não foi moldado apenas pelo efeito agregado das interações microeconómicas que se refletem na teoria económica. De uma perspetiva mais abrangente (“economia política”), de qualquer forma, parece óbvio que os resultados também podem ser moldados pela ação estratégica de atores macroeconómicos — principalmente o governo, o banco central e talvez os sindicatos — que tentarão e, por vezes, conseguirão explorar o regime para fazer avançar os seus próprios objetivos.

Na literatura de economia política comparada, grande parte do crédito pelo excecional desempenho da economia alemã no pós-guerra é atribuído à capacidade estratégica e à racionalidade macroeconómica dos sindicatos industriais alemães, cuja vantagem comparativa foi vista como derivada da sua estrutura organizacional do pós-guerra. Ao contrário dos sindicatos franceses e italianos, eles tinham ultrapassado as divisões político-partidárias do período de Weimar; e em comparação com o Reino Unido, os seus monopólios setoriais também evitaram a concorrência salarial saltitante entre sindicatos independentes na mesma indústria ou na mesma empresa. Além disso, os dirigentes sindicais podiam geralmente contar com pessoal economicamente complacente e, através da codeterminação, estavam cientes das vendas, preços, custos e lucros nos seus respetivos sectores. De um modo geral, portanto, os acordos salariais tenderam a favorecer o emprego e o aumento dos salários reais em vez de aumentos inflacionários dos salários nominais[9]. Em comparação internacional, portanto, os sindicatos alemães não interferiram no sucesso da reconstrução económica do pós-guerra (Carlin 1994; Hetzel 2002).

Mas há poucas razões para exagerar a sua capacidade estratégica. Os sindicatos do pós-guerra atuavam num contexto macroeconómico que era determinado pelo governo e pelo banco central. O governo — ou mais precisamente Ludwig Erhard, o diretor dogmaticamente liberal (economicamente falando) da administração económica da bi-zona em 1948, e depois ministro dos Assuntos Económicos de Adenauer — tinha adotado uma série de decisões-quadro quase irreversíveis (e de alto risco) que moldaram e restringiram todas as opções políticas e económicas subsequentes. Estas incluíram a eliminação do racionamento do pós-guerra e das regulações de preços por ocasião da reforma monetária, a liberalização antecipada (e prematura) das importações e a liberalização antecipada dos movimentos de capitais e da convertibilidade da sua moeda.

Neste contexto, como já demonstrado, o banco central, com o apoio implícito dos sindicatos, conseguiu evitar uma crise da balança de pagamentos através de uma desvalorização interna. Alguns anos mais tarde, porém, quando os défices da balança de transações correntes se transformaram em excedentes externos, a estratégia mercantilista do Bundesbank de manter uma moeda algo desvalorizada enfrentou os efeitos contrários teoricamente esperados: uma vez que as receitas de exportação foram convertidas em moeda nacional, a procura interna, os preços e os salários também aumentaram. Além disso, assim que os problemas da balança de pagamentos foram ultrapassados, o governo alemão foi novamente o primeiro da Europa a liberalizar os mercados cambiais.

Com a conversibilidade do marco alemão, porém, a Alemanha enfrentava o famoso trilema teórico de Robert Mundell (1960; 1963), segundo o qual apenas dois dos três objetivos – mobilidade de capital, autonomia monetária e equilíbrio externo — poderiam ser alcançados ao mesmo tempo. Se o Banco optasse por defender a estabilidade de preços elevando as taxas de juro, o seu efeito seria contrabalançado por fluxos de capital que aumentassem a oferta interna de moeda e gerassem pressões adicionais de inflação importada[10]. Em relação a esse trilema, a prioridade do Bundesbank era clara:

Quando a escolha era entre preocupações externas e os requisitos de salvaguarda do valor interno da moeda, a prioridade do Banco nunca poderia estar em dúvida. A defesa da estabilidade de preços é de fundamental importância para o desenvolvimento económico, enquanto que outros aumentos dos influxos de capital são mais facilmente controlados e corrigidos do que uma baixa na tendência deslizante dos aumentos acelerados de preços. (Bundesbank 1960, 3; minha tradução)

Com efeito, o Banco, apoiado pelo governo, tentou “esterilizar” as entradas de capital através de regulamentações discriminatórias e combater a inflação aumentando as reservas mínimas obrigatórias e através de políticas deflacionárias de mercado aberto (Obstfeld 1993b, 220-21). No entanto, a pressão da entrada de capitais continuou, e os salários também subiram mais acentuadamente no mercado de trabalho sob tensão de mão-de-obra no final da década. Nesse ponto, o Banco estava finalmente pronto a comprometer a sua preocupação mercantilista com as exportações alemãs e apoiar uma revalorização (muito modesta) do marco alemão em 5% em março de 1961 (Holtfrerich 1998, 400-413).

Essencialmente, tínhamos, um padrão de inflação baixa, uma moeda moderadamente subvalorizada, excedentes de exportação moderados e pleno ou mesmo sobre emprego (com taxas de desemprego inferiores a 1 por cento) que continuou até 1966, quando foi interrompido por uma pequena recessão, desencadeada pela intervenção do Bundesbank contra os défices orçamentais pré-eleitorais do Governo Erhard. Uma vez que esse governo foi rapidamente substituído pela primeira “grande coligação” que incluía os sociais-democratas, a recessão foi ultrapassada por um interlúdio da concertação keynesiana. Com a cooperação hesitante do Bundesbank, o acordo combinado de expansão orçamental, contenção salarial e acomodação monetária conseguiu, de facto, restaurar a estabilidade de preços até 1967 e o sobre emprego até 1969 – embora com repercussões que serão discutidas na próxima seção.

No final da década de 1960, porém, à medida que a inflação de dólares aumentava em consequência da Guerra do Vietname, os fluxos de capitais aumentavam de tal forma que o Bundesbank voltava a atingir os limites dos seus instrumentos regulamentares e monetários de defesa da estabilidade dos preços internos contra as pressões da inflação importada. Já em setembro de 1968, portanto, juntaram-se os críticos estrangeiros e nacionais relativamente ao subvalorizado marco alemão para pedir ao governo uma reavaliação substancial da taxa de câmbio nominal. Tal como previsto anteriormente, a relutante concessão do governo de uma sobretaxa de 4% sobre as exportações e de uma redução simétrica dos impostos sobre as importações em Novembro revelou-se insuficiente (e poderia, na melhor das hipóteses, ter afetado a balança comercial, mas não os fluxos de capitais). Assim, o Banco intensificou a sua campanha de reavaliação nominal até que, imediatamente após as eleições de setembro de 1969, o novo governo social-liberal anunciou uma revalorização de 8,5%. Após um período prolongado em que a Alemanha alternou entre controle cambial de capitais e flutuação temporária, o Acordo Smithsoniano de 18 de dezembro de 1971 produziu um realinhamento monetário geral que implicou uma reavaliação adicional de 13,6% do DM/USD — a ser seguido apenas pelo fim oficial de Bretton Woods e a passagem de taxas de câmbio ligadas ao dólar para taxas de câmbio flutuantes em 14 de fevereiro de 1973.

Conclusão

Sob o regime internacional de Bretton Woods, a economia política do pós-guerra da Alemanha Ocidental beneficiou principalmente dos efeitos de interação descoordenada entre as preferências quase fixas de dois atores políticos cuja autoridade precedeu a criação da República Federal. O banco central, politicamente autónomo, de facto, foi intransigente na sua busca pela estabilidade de preços – que inicialmente justificou como o apoio mercantilista às exportações alemãs, mas manteve-se inalterado mesmo quando implicou revalorização cambial que prejudicaria as exportações. Do lado do governo, Ludwig Erhard, o pai imensamente popular do milagre económico, não só tinha desafiado a posição dos Aliados ao levantar os controles de salários e preços logo após a reforma monetária, como também, como ministro dos assuntos económicos, liberalizou o comércio e, em seguida, as transações sobre divisas e esta decisão estava muito, muito à frente de outras economias da Europa Ocidental. Em combinação, esses compromissos políticos quase dogmáticos e não estratégicos moldaram a resposta alemã às restrições e às oportunidades de Bretton Woods.

A liberalização inicial do comércio tinha aprofundado a crise da balança de pagamentos com a qual o banco central estava a debater-se no início da década de 1950, e acrescentou urgência ao seu apoio do lado da oferta à competitividade das exportações. No entanto, quando o governo também liberalizou as trocas de capitais, os excedentes de exportação produziram novos problemas para o Banco. Como era de se esperar, as receitas recebidas expandiriam a oferta interna de moeda e, se as taxas de juros fossem aumentadas para combater a inflação, os fluxos de capital exacerbariam a problema da inflação. A partir de meados da década de 1950, portanto, o Bundesbank lutou continuamente para defender a estabilidade de preços através de operações de mercado aberto e requisitos de reservas mínimas que reduziram a liquidez interna e através de medidas administrativas adicionais que impediram as entradas de capital. Na medida em que estas políticas foram bem-sucedidas, uma taxa de câmbio moderadamente subvalorizada apoiou os moderados excedentes de exportação (ver Gráfico 2). Mas quando essas defesas foram esmagadas por entradas de capitais especulativos, a prioridade do Banco era clara: para defender a estabilidade de preços, preferia querer a revalorização do DM do que aceitar os efeitos inflacionários da defesa da taxa de câmbio – o que poderia ter acontecido ao intervir nos mercados cambiais (Holtfrerich 1998, 428). Nesta perspetiva, o ideal do Banco foi alcançado com a passagem para taxas de câmbio flutuantes após o desaparecimento de Bretton Woods.

Para a economia da Alemanha Ocidental como um todo, as décadas de 1950 e 1960 foram um período de crescimento rápido e de profundas mudanças estruturais. De acordo com as grandes teorias da mudança sectorial (Fourastié 1949; Bell 1973), o emprego na agricultura diminuiu rapidamente e as perdas de postos de trabalho na agricultura foram facilmente absorvidas pelo aumento do emprego industrial, enquanto os serviços públicos e privados aumentaram a um ritmo mais lento (Scharpf 1986). Mas, embora a indústria alemã tenha continuado a expandir-se até ao final da década de 1960, foi também afetada por uma mudança estrutural maciça, que foi impulsionada principalmente pela intervenção precoce e persistente do governo na liberalização do comércio (Figura 3).

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De um modo geral, a Alemanha não tentou proteger o mercado interno contra a concorrência estrangeira, o que teve como consequência que os bens de consumo sensíveis aos preços, como calçado, têxteis, vestuário e até mesmo câmaras e outras ferragens de baixo preço, deixaram de ser fornecidos pelos produtores alemães. E, ao contrário da França e da Itália, os carros japoneses de baixo preço eram comuns nas estradas alemãs já na década de 1960 (Katzenstein 1989, 143).

Da mesma forma, o aumento da concorrência sul-coreana na produção de aço em meados da década de 1960 e da construção naval na década de 1970 foi atenuado pela racionalização e pela especialização do mercado, em vez de aumentar as barreiras às importações. Para sobreviver até mesmo no mercado interno, a indústria alemã teve de se concentrar em linhas de produtos em que as suas vantagens comparativas tradicionais — na química e na engenharia eletroeletrônica baseada seja em investigação seja na fabricação de alta qualidade, dependendo de trabalhadores qualificados e relações industriais cooperativas — fizeram a maior diferença.

Estas mudanças no perfil de produção, note-se, foram impulsionadas principalmente pela concorrência das importações no mercado interno. Embora, como vimos, a necessidade de maiores exportações tenha motivado conceitos mercantilistas do banco central no início dos anos 1950, quando os défices da balança de pagamentos tinham sido uma grande preocupação, a dimensão do setor exportador no total da economia permaneceu bastante pequeno, representando apenas 21% do PIB em 1970 — em comparação com 15% na França e 22% no Reino Unido (OCDE 2017d). Mas, é claro, a carteira de produtos que se poderia manter contra as importações no mercado interno também ajudaria a moldar o sucesso da indústria germânica nos mercados de exportação, onde elas terão beneficiado adicionalmente da vantagem de preço de uma moeda subvalorizada.


Notas:

[1] Alfred Sohn-Rethel (1987, Capítulos 3-5) apresenta um relato fascinante, baseado na observação participante em meados dos anos 30, de como o rearmamento resgatou a indústria pesada alemã (que tinha apoiado a apropriação feita pelos nazis ) mas destruiu o modelo de atividade orientado para a exportação de produtos de qualidade baseados na ciência no “campo Siemens”, incluindo “empresas como Zeiss ou Leitz ou as empresas alemãs de maquinaria” (p. 43).

[2] Da mesma forma, durante a Guerra da Coreia em 1951, o Alto Comissariado dos EUA para a Alemanha pediu a intervenção do governo na indústria alemã, para que se favorecesse a produção de produtos de defesa em vez de bens essenciais (Katzenstein 1987, 87; Abelshauser 2011, 163-66).

[3] Fiel às suas convicções socialistas, Agartz há muito que se opunha à ideia de “parceria social” e à prioridade de co-determinação dos sindicatos. Ele também manteve contatos com colegas e autoridades da República Democrática Alemã (RDA) que, no auge do anticomunismo da Guerra Fria, levaram à sua demissão do cargo de diretor do Instituto de Investigação Económica (WWI) da DGB em 1955 e, posteriormente, a uma acusação por conspiração e traição com as autoridades da RDA, de que foi absolvido (Krämer 1995).

[4] De 1950 a 1960, o índice do custo de vida aumentou de 100 para 120, enquanto os salários por hora na indústria subiram para 209

[5] O termo é utilizado por Holtfrerich (1998, 380) para descrever as políticas orçamentais e monetárias de 1951 a 1956.

[6] A economia continuou a crescer a taxas anuais acima de 5 por cento até 1965, e o pleno emprego foi mantido até 1966. Mas o crescimento diminuiu 0,1% em 1967 e o desemprego subiu de 0,7% em 1966 para 2,1% em 1967. Esta primeira recessão do pós-guerra foi causada pela intervenção do Bundesbank contra um aumento da taxa de inflação de 2,4% em 1964 para 3,3% em 1966 (Statistisches Bundesamt 2011), que foi geralmente atribuído a déficits orçamentários excessivos antes das eleições federais de 1965. A primeira recessão do pós-guerra causou um terramoto político que acabou com a chancelaria de Ludwig Erhard e substituiu a coligação de governo conservador-liberal por uma grande coligação que, pela primeira vez desde a guerra, incluiu os social-democratas no governo nacional. O resultado imediato foi o interlúdio “keynesiano” do Konzertierte Aktion de Karl Schiller que, entre 1967 e 1969, conseguiu engendrar uma brilhante recuperação da mini-recessão, mas que depois entrou em colapso numa crise, à qual me referirei mais adiante.

[7] Para satisfazer os requisitos de ajustamento simétricos, Keynes tinha proposto uma União Internacional de Compensação que iria gerir todas as transações líquidas entre os seus Estados-Membros. Seriam cobradas taxas de juros progressivas tanto para situações de défice como para excedentes acima de quotas pré-definidas; e no final de cada ano, todos os excedentes que excedessem a quota seriam confiscados. Em suma, os Estados com excedentes teriam incentivos ainda mais fortes do que os Estados deficitários para evitar e corrigir desequilíbrios substanciais de suas contas correntes (Skidelsky 2005, 20-22; Lavoie 2015).

[8] Esta explicação amplamente aceite é contestada por Maurice Obstfeld (1993b, 216), que mostra que a rigidez dos salários e dos preços não diferiu muito entre o período do padrão-ouro (quando os desequilíbrios eram raros) e o período do pós-guerra. Na sua opinião, a principal diferença é que os governos democráticos do pós-guerra vieram intervir no ajustamento dos salários e dos preços com o objetivo de manter o pleno emprego e o crescimento interno.

[9] Isso não excluiu um conflito industrial grave que, no entanto, tendia a centrar-se não nos salários, mas em mudanças de regras em toda a indústria ou em toda a economia, tais como a codeterminação, o pagamento por doença dos trabalhadores e a redução do tempo de trabalho. A única exceção foi a onda de greves ditas selvagens em 1969, o que será discutido abaixo.

[10] Na altura, a balança comercial alemã, embora deficitária face aos Estados Unidos, era excedentária face ao resto da Europa Ocidental. Assim, as entradas de divisas também reduziram as escassas reservas de outras economias europeias e geraram pressões políticas para a reflação da procura na Alemanha. (Holtfrerich 1998, 400–413).


A terceira parte deste texto desta série será publicada amanhã, 14/10/2019, 22h


Tradução de Júlio Marques Mota – Fonte aqui

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2019/10/13/ano-de-2019-ano-de-eleicoes-europeias-parte-ii-imagens-soltas-de-uma-uniao-europeia-em-decomposicao-a-partir-de-alguns-dos-seus-estados-membros-8o-texto-alemanha-um-texto-final-um-texto-de-s-2/

Alemanha: Um texto final, um texto de síntese. Parte I

Regimes Monetários Internacionais e o Modelo Alemão

(Fritz W. Scharpf, 18 de Fevereiro de 2018)

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Resumo

O fim do regime de Bretton Woods e a queda da Cortina de Ferro aprofundaram a orientação à exportação do modelo da economia alemã. No entanto, só após a entrada na União Monetária é que o aumento das exportações se transformou num persistente saldo entre as exportações e as importações, que se tornou um problema para as outras economias da zona euro. Este texto de discussão mostra porque é que o atual regime assimétrico do euro não será capaz de impor a sua transformação estrutural com base no modelo alemão.

Nem os governos alemães serão capazes de responder às exigências que aproximem os resultados económicos da economia alemã da média dos resultados económicos da zona euro. Em vez disso, é mais provável que as atuais iniciativas de partilha de riscos financeiros e fiscais transformem a União Monetária numa união de transferência.


1 Introdução: Do doente ao campeão do emprego e ao país hegemónico da zona euro

2 1949–1969: A Alemanha Ocidental sob o regime de Bretton Woods

         -O modelo original: Moderação salarial e restrições monetárias

         -Beneficiando da assimetria do regime de Bretton Woods.

         Conclusão.

3 1969-1989: Luta contra as taxas de câmbio voláteis

-A coordenação monetarista e os custos económicos das políticas de moeda forte

         -As taxas de câmbio flutuantes e a coordenação cambial

         -A produção diversificada e de qualidade

         -Como o Estado-Providência está a limitar o crescimento da economia de serviços

         – O modelo alemão no final dos anos 80

4 O modelo alemão na década de 1990: A unificação e a ascensão do capitalismo global

-Os custos da unificação

         -A queda da Cortina de Ferro: Um grande impulso para as indústrias alemãs de exportação

         – Relações laborais sob tensão

         – Restrição salarial: Um efeito do poder sindical ou fraqueza de união?

         – O modelo alemão no final dos anos 90

5 O modelo alemão: Desafiado e depois recompensado pela união monetária

– A crise do euro na Alemanha e as reformas do Estado social, 1999-2008

         – Reformas estruturais da Agenda 2010

         – A reviravolta na evolução do emprego

         – O modelo alemão na zona euro

6 Divergência da UEM ignorada e convergência imposta

– Da crise do euro a um regime euro assimétrico

         – A lógica económica da convergência assimétrica imposta

7 Convergência elusiva

– Ajustamento, mas não convergência

         – O modelo alemão – demasiado desviante para ser imitado

         – Regras simétricas para a Alemanha?

8 O modelo alemão num impasse

         – Persistência económica e imobilismo político

         – Opções europeias

         – Na tendência para uma união de transferência?


  1. Introdução: Do doente ao campeão do emprego e ao país hegemónico da zona euro

Quando a Alemanha aderiu à União Monetária em 1999 com uma taxa de câmbio ligeiramente sobrevalorizada e com um défice da balança de transações correntes, a economia estava apenas a recuperar da sua recessão pós-unificação e o desemprego começava a diminuir ligeiramente desde o seu pico de 1997. Além disso, como habitualmente, a taxa de inflação era a mais baixa da zona do euro. Nos anos seguintes, porém, o PIB per capita continuou a diminuir até 2003 e o desemprego aumentou para o valor de pico do pós-guerra de 11,3% em 2005 (OCDE 2017a; 2017b). Nos primeiros anos da União Monetária, portanto, a Alemanha era vista como o “país doente da zona euro”[1].

No entanto, em 2007, o desemprego estava a diminuir. Este dificilmente subiu novamente, mesmo na crise financeira e económica mundial de 2008-2009 e, desde então, o declínio continuou para níveis tão baixos quanto os que a Alemanha Ocidental tinha tido no final da década de 1980 (OCDE 2017b). Mais notável ainda, as taxas de emprego — que tradicionalmente oscilam abaixo da média da OCDE em torno de 65% da população em idade ativa — subiram desde então para mais de 74%, igualando ou ultrapassando os níveis de antigos campeões do emprego, como os Estados Unidos, o Reino Unido, a Holanda ou a Dinamarca (OCDE 2017c). Ao mesmo tempo, os excedentes da balança corrente e as exportações de capital levaram a um aumento acentuado da posição de investimento internacional líquida (PIIL) e a grandes excedentes nos saldos do sistema Target-2 da União Monetária Europeia. Tudo isto também se reflete no poder de negociação da Alemanha nas relações entre credores e devedores no ECOFIN e nas cimeiras europeias.

Não há dúvida de que o regime mal concebido da União Monetária tem sido uma causa tanto do declínio como da recuperação da economia alemã ao longo dos últimos 15 anos, aproximadamente. No entanto, é igualmente claro que o impacto deste regime monetário foi condicionado pela heterogeneidade das economias da zona euro. Por conseguinte, os resultados específicos não podem ser explicados sem referência às estruturas económicas e políticas existentes e aos legados e práticas políticas que estão atualmente a moldar e a limitar as respostas nacionais interdependentes ao regime monetário comum. No caso da Alemanha, as estruturas e práticas atuais são o resultado da sua co-evolução com uma sucessão de regimes monetários internacionais do pós-guerra.

O texto beneficiou muito das minhas frequentes discussões havidas ao longo da sua elaboração com Martin Höpner e dos comentários de Marina Hübner. Agradeço também a Ann-Christin Klein pela extensa pesquisa de dados e pela apresentação das figuras e tabelas.


Notas:

[1] The Economist, June 3, 1999: http://www.economist.com/node/209559 ; Dustmann et al. (2014).


A segunda parte deste texto desta série será publicada amanhã, 13/10/2019, 22h


Tradução de Júlio Marques Mota – Fonte aqui

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

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A noite em que a Alemanha perdeu o controle

Alemanha. A noite em que a Alemanha perdeu o controle

(Georg Blume e outros, 16 de Agosto de 2016)

 

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Uma selfie com a chanceler alemã  © Sean Gallup/Getty Images

 

O que acontece a seguir


Na noite de 6 de Setembro, após um fim-de-semana histórico, o Ministério do Interior austríaco anuncia que cerca de 15 000 pessoas atravessaram a fronteira húngara para a Áustria. As autoridades dizem que a maioria continuou para a Alemanha e que apenas 90 refugiados pediram asilo na Áustria.

O que inicialmente foi concebido como ajuda de emergência para alguns, em vez disso, tornou-se um acontecimento de massas.

Só a Munique, chegam diariamente vários milhares de refugiados. No fim-de-semana seguinte, uma semana após a decisão de Merkel, cerca de 20.000 recém-chegados seriam contados na Estação Central de Munique. Em resposta, o governo federal passa várias horas a considerar o encerramento  da fronteira, com a Polícia Federal a ir ao ponto  de preparar a ordem de implantação necessária. Este poderia muito bem ter sido o último momento possível para recolocar a “tampa” de Seehofer na garrafa. Ninguém sabe, no entanto, por quanto tempo a Polícia Federal teria conseguido manter o encerramento da fronteira. Em última análise, eles não são postos à prova porque Merkel decide não o fazer, deixando a fronteira aberta. Os controles, no entanto, são introduzidos.

Nas semanas seguintes, dezenas de milhares de pessoas entram na Alemanha, na sua maioria sem controlo e sem registo. O Estado perde, de facto, o controlo. Precisamente aquilo que o Governo alemão exigia constantemente da Hungria – o registo ordenado de todos os imigrantes – agora também se desmoronou aqui na Alemanha. Foi apenas em Dezembro, como a Chancelaria admite hoje, que o Estado recuperou o controlo da situação.

O partido populista de direita alemão AfD, que tinha estado no seu leito de morte política no Verão, encontraria um enorme apoio. Além disso, a desconfiança de muitos alemães em relação às instituições aumentaria e os números das sondagens de Merkel cairiam. Na noite de Ano Novo, mulheres em várias cidades alemãs são assediadas sexualmente por imigrantes e requerentes de asilo, e em Ansbach e Würzburg, refugiados cometem dois ataques motivados pelo islamismo no verão de 2016.

Ao mesmo tempo, um número sem precedentes de pessoas em todo o país dá uma ajuda. Dezenas de milhares de voluntários envolvem-se neste apoio, ajudando na distribuição de donativos e alimentos. Eles oferecem aulas de alemão – e inúmeras famílias acolhem refugiados, oferecendo-lhes alojamento  privado.

No dia 15 de setembro, Viktor Orbán anunciará o fecho  da fronteira sul do seu país. No início de novembro, a Suécia reintroduz os controlos fronteiriços em resposta à crise dos refugiados, porque o “número recorde” de refugiados que chegam representa uma “ameaça à ordem pública”. No final de janeiro de 2016, a Áustria decide um “limite máximo” para o número de refugiados que o país aceitará todos os anos, o que equivale a pôr termo à sua política de acolhimento. A 9 de maio de 2016, o chanceler austríaco Werner Faymann anuncia a sua demissão.

Será que Merkel cometeu um erro ao permitir que os refugiados na Hungria viessem para a Alemanha?

Se perguntarmos aos funcionários, gestores e políticos que estiveram envolvidos nesse fim-de-semana nas ruas, nas estações de comboio e nas equipas de ação, a resposta é quase sempre “não”.

Olhando para trás, o prefeito de Munique, Reiter, por exemplo, diz: “Considerando as imagens da estação do comboio de Budapeste, eu teria decidido naquele momento exatamente como a chanceler Merkel fez. Ainda acredito que ela tomou a decisão certa com base nas circunstâncias da época. Também não acredito que nenhuma das mensagens de Merkel ou das suas selfies amigáveis tenha inicialmente encorajado muitos refugiados a virem. Não consigo imaginar isso”.

Entretanto, Christian Kern, que desempenhou um papel decisivo na crise como diretor da companhia  ferroviária nacional austríaca ÖBB e que desde então se tornou chanceler da Áustria, disse à ZEIT numa entrevista: “Aconteceu tudo muito espontaneamente – não havia nada sobre o assunto que estivesse precisamente planeado. Tivemos de decidir em poucos minutos: Agora vamos fornecer autocarros e comboios especiais. Havia dois elementos para a decisão: Por um lado, o ato humanitário. Por outro lado, tínhamos preocupações extremamente pragmáticas: De qualquer forma, as pessoas teriam entrado pelos carris do caminho de ferro”.

Mesmo assim, não há dúvida de que foram cometidos erros. Mas quase toda gente  com quem  falar fala-lhe de um  erro diferente.

O erro de Merkel, diz um dos principais políticos alemães, foi o seu foco constante numa solução europeia comum para a questão dos refugiados, porque já tinha ficado claro, muito antes da decisão da Hungria, que os seus homólogos europeus não estavam interessados em se associarem nesta crise dos refugiados.

O nosso erro”, diz um diplomata húngaro de alto nível, “não foi termos construído a vedação”. O nosso erro foi termos demorado tanto tempo a iniciar a construção”.

Um membro do gabinete de Merkel diz que o erro de Orbán não foi ter construído uma vedação. O erro de Orbán foi ter feito uma coisa tão grande. “Há também vedações noutras partes da Europa – em Espanha, entre a Bulgária e a Turquia, entre a Grécia e a Turquia. Estas vedações não incomodam ninguém”

O relato conduzido por ZEIT e ZEIT ONLINE mostra que a decisão histórica tomada por Merkel não foi baseada em nenhum  impulso humanitário espontâneo, afeto emocional ou sentido de autoexaltação moral. Merkel teve que tomar a decisão sob pressão considerável, em apenas três horas, depois que Viktor Orbán conseguiu criar uma situação para a qual praticamente não havia alternativa.

É possível que os historiadores estabeleçam um dia que esta situação dramática só se tornou possível porque a comunicação se tinha quebrado na União Europeia, porque Bruxelas, Berlim e Budapeste estavam todos a culparem-se uns aos outros em vez de mostrarem solidariedade, porque todos insistiam que estavam certos mesmo quando a ordem pública estava em colapso.

No entanto, uma coisa pode ser dita com um grau razoável de certeza: se os refugiados não tivessem decidido, na manhã de 4 de Setembro, começar a marchar a pé da estação de Keleti, em Budapeste, até Viena, a história europeia teria sido diferente nesse fim-de-semana.

 

 


Tradução de Júlio Marques Mota – Fonte aqui

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Neonazis acusados de planear atentados vão a julgamento na Alemanha

 
 
Oito homens são suspeitos de formar uma célula terrorista e planear ataques contra militantes de esquerda e adeptos de Merkel. Agressões a estrangeiros em Chemnitz era "ensaio geral para revolução" em Berlim.
 
Começou nesta segunda-feira (30/09) em Dresden o processo contra um suposto grupo neonazis acusado de planear ataques na Alemanha. Oito homens entre 21 e 32 anos de idade são suspeitos de criar e participar de uma célula terrorista que planeava ações para provocar uma "mudança de sistema", a serem perpetradas em Berlim em 3 de outubro 2018, nos eventos de comemoração do Dia da Unidade Alemã. O julgamento, em que deverão ser ouvidas cerca de 75 testemunhas, deve durar pelo menos até abril de 2020.
 
Segundo os promotores, o grupo, autointitulado "Revolução Chemnitz", tinha como meta "exterminar" estrangeiros e rivais políticos. Em conversas na internet, a gangue teria planeado subverter a ordem democrática usando armas. No chat que levava o nome do movimento, eles pregavam contra o governo alemão e a chanceler federal Angela Merkel.
 
 
Cinco dos réus são acusados de atacar estrangeiros e um grupo de jovens em Chemnitz, em 14 de setembro de 2018, logo após uma manifestação do movimento extremista de direita Pro Chemnitz. Um iraquiano levou uma garrafada na cabeça, outro homem foi agredido fisicamente. Os investigadores afirmam que a iniciativa era uma espécie de "ensaio geral", destinado a aperfeiçoar a coordenação dos envolvidos em futuras ações da célula.
 
A principal delas previa uma "mudança de sistema" e uma "revolução com todas as consequências", a ser provocada durante os eventos de comemoração do Dia da Unidade Alemã. O "dia histórico" deveria se tornar, segundo a acusação, "um marco na história da Alemanha".
 
Para realizar a ação, os envolvidos já teriam encomendando armas de fogo. Entre os alvos, estariam "esquerdistas e zumbis da Merkel". Eram previstos também "atentados armados e letais contra aqueles considerados inimigos pelo grupo", ressaltaram os promotores.
 
Chemnitz, no Leste da Alemanha, próximo à fronteira com a República Checa, foi palco de protestos violentos de grupos neonazis em agosto e setembro de 2018, após um homem morrer esfaqueado durante uma festa pública. Um sírio condenado pelo crime, mas que recorre da sentença, e um iraquiano, que continua foragido, são considerados autores do crime em que um alemão foi morto e outro homem ficou gravemente ferido.
 
Deutsche Welle | MD/dpa/epd
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/09/neonazis-acusados-de-planear-atentados.html

Extrema direita da Alemanha arma-se cada vez mais

 
 
Ministério do Interior regista 60% mais armas apreendidas de ultradireitistas em 2018. Criação de arsenal visaria ataques a minorias e representantes do Estado, e até mesmo uma guerra civil, estima especialista.
 
Há indícios de que a extrema direita da Alemanha se esteja armando de forma crescente: durante a investigação de atos criminosos de motivação ultradireitista em 2018, foram apreendidas muito mais armas de fogo do que no ano anterior. A informação consta de uma reportagem da emissora de TV ARD, com base na resposta do Ministério do Interior a um questionamento da bancada do partido A Esquerda do parlamento.
 
Segundo o órgão, registaram-se 563 crimes de motivação direitista, entre os quais 235 delitos violentos. No curso das investigações, a polícia recolheu 1.091 armas, o que representa um incremento de 61% em relação às 676 apreensões de 2017. Entre elas encontravam-se revólveres, rifles, armas brancas e de guerra, assim como artefatos explosivos e incendiários, e atiradeiras.
 
 
Falando ao site de notícias Tagesschau.de, o especialista em extremismo de direita Matthias Quent, do Instituto de Democracia e Sociedade Civil (IDZ, na sigla em alemão), classificou a tendência como "assustadora", indicando "um maciço armamento e criação de arsenal pela cena radical de direita".
 
Os utradireitistas estariam possivelmente preparando-se para investidas contra minorias, opositores políticos e representantes do Estado: "Seu objetivo é intimidar a sociedade e expulsar grupos humanos. Partes dessa militância querem até mesmo a guerra civil", advertiu Quent.
 
Também no inquérito sobre o assassinato do governador da Hessen Walter Lübcke, conduzido pela Procuradoria Geral, com sede em Karlsruhe, foi encontrado em posse dos suspeitos um total de 46 armas de fogo.
 
O Ministério do Interior ressalva que "o exame criminal e classificação legal das armas ainda está em andamento", porém, numa sessão não oficial do Comité Interno do Bundestag (câmara baixa do parlamento alemão), no fim de setembro, um representante do Ministério Público Federal confirmou que as armas foram ocultadas de forma muito profissional.
 
No começo de junho, o então governador de Hessen, Lübcke, foi morto com um tiro na cabeça no terraço de sua residência no município de Kassel, no norte do estado. A Procuradoria Geral alemã parte do princípio que houve motivação extremista de direita. Capturado há cerca de duas semanas, o suspeito Stephan E. inicialmente apresentou uma confissão, porém mais tarde retirou-a. Ele se encontra em prisão cautelar, sob suspeita de assassinato.
 
Deutsche Welle | AV/afp,dpa,ots

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https://paginaglobal.blogspot.com/2019/09/extrema-direita-da-alemanha-arma-se.html

Alemanha aloca € 6 milhões para projetos de educação sobre história do nazismo

O governo alemão pretende alocar 6 milhões de euros (R$ 27,3 milhões) para projetos de educação geridos por 28 centros de memória e centros de arquivo de vítimas do nazismo.

"Os projetos foram escolhidos devido à abordagem inovativa e simulada. Dessa forma, os jovens podem aprender melhor a história do Nacional Socialismo e entender o link entre história, dias atuais e seu próprio mundo", afirmou a ministra alemã de Cultura e Mídia, Monika Gruetters, nesta quinta-feira. 

​A iniciativa faz parte de um programa estatal voltado para o apoio ao ensino de história. De acordo com a ministra, o governo também estaria considerando financiar projetos dedicados à história da Alemanha Oriental e do Partido Socialista Unificado da Alemanha, que governou o extinto país entre 1949 e 1990.

Liderado por Adolf Hitler, o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP), de extrema-direita, governou a Alemanha de 1933 até 1945. Durante esse período, seus membros e seguidores promoveram uma onda de terror generalizado dentro e fora do país, dando início à Segunda Guerra Mundial e cometendo inúmeras atrocidades, incluindo o genocídio organizado de judeus, comunistas, ciganos, homossexuais, deficientes e outros grupos perseguidos pelos nazistas.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2019092614565065-alemanha-aloca--6-milhoes-para-projetos-de-educacao-sobre-historia-do-nazismo/

A noite em que a Alemanha perdeu o controle – Parte I

Alemanha. A noite em que a Alemanha perdeu o controle

(Georg Blume e outros, 16 de Agosto de 2016)

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O que aconteceu no dia 4 de setembro de 2015? Que intenções, fracassos e mal-entendidos levaram a uma situação em que centenas de milhares de refugiados chegaram à Alemanha?


No primeiro fim-de-semana de setembro de 2015, o “Special” é o que lê na placa de destino num autocarro utilizado para transportar refugiados de Budapeste para a fronteira austríaca. © Leonhard Foeger / Reuters

É a manhã do primeiro de três dias que vai mudar tanto, e pelo menos uma pessoa em Berlim tem uma premonição do que está para acontecer. Um membro do governo alemão está a tomar o pequeno-almoço com um grupo de jornalistas numa sala dos fundos. Nas próximas 48 horas, diz o membro do gabinete, a Alemanha vai enfrentar um desafio como nunca antes foi visto. “As pessoas vão atravessar as fronteiras, não vão esperar mais. Eles virão pelas estradas, pelas ruas e pelas linhas de comboios .

No Iraque, circula um relatório segundo o qual a Alemanha acolhe toda a gente, diz o membro do Governo. “Muitos decidiram: Esta é a nossa oportunidade.

É sexta-feira, 4 de setembro de 2015 e tudo o que o membro do governo previu tornar-se-á realidade nas próximas horas – e muito, muito mais. Milhares de refugiados partirão a pé da estação de comboio em Budapeste, onde estão presos há dias. Vão andar horas a fio pelas autoestradas até que, mais tarde, pela noite, a chanceler alemã acabe por decidir que venham de comboio para a Alemanha.

É uma decisão importante e, como resultado, virão muitos mais refugiados do que o que era esperado. Em pouco tempo, mais de 13.000 pessoas por dia atravessarão a fronteira para a Alemanha. Até ao final do ano, o total ultrapassará 1 milhão de pessoas.

É também uma decisão controversa, uma decisão que dividirá o país – uma divisão que permanece até hoje. A fenda aberta atravessa famílias, clubes, empresas e redações: com que volume de migrantes podemos lidar? De onde vêm as pessoas que estamos a aceitar ? Há algum potencial atacante entre eles? E a nossa segurança? Acima de tudo: Angela Merkel encorajou as pessoas a virem ou teriam chegado de qualquer forma

É uma decisão histórica porque é uma decisão que divide a história em um tempo antes e um tempo depois. Aqueles três dias do início de setembro de 2015, um período que rapidamente ficou conhecido como “a abertura da fronteira de Merkel” ou mesmo “a segunda queda do Muro”, marcam um ponto de viragem na chancelaria de Merkel.

Momentos que mudam um continente inteiro não acontecem com muita frequência. Mas este é um deles.

Hoje, quase um ano depois, muitos dos que estiveram envolvidos estão a tentar minimizar a importância desse fim-de-semana. Eles estão a fazê-lo em parte para evitar perguntas desconfortáveis como: Se foi a decisão correta. Quem ou o que levou à decisão. E como é que a Alemanha estava preparada para os refugiados.

Porque apesar da premonição de pelo menos um membro do gabinete sobre o que aconteceria naquele fim de semana, o governo naquela sexta-feira de manhã estava estranhamente mal preparado. A chanceler teve uma série de aparições de rotina no seu calendário, incluindo uma visita a uma empresa, um discurso de campanha e uma celebração do aniversário do Partido. O seu chefe de gabinete, que é responsável final pela coordenação das tarefas do governo, faria sua maneira a Evian em France para participar numa conferência. O porta-voz do governo ocupava-se de negócios privados enquanto a tarde progredia antes de ir de fim de semana. E o ministro do Interior estava deitado em casa, na cama, com febre alta. Ninguém parecia ter pensado que era necessário estabelecer abrigos de emergência adicionais, arranjar autocarros ou comboios especiais ou reforçar a força policial.

Em 19 de agosto, o governo já havia aumentado o seu prognóstico quanto ao número de refugiados que esperava em 2015 para 800.000, quatro vezes mais do que no ano anterior – mas não houve nenhuma preparação adicional. Também não aconteceu nada depois que Merkel prometeu, durante a sua conferência de imprensa de verão em Berlim, em 31 de agosto, que “nós podemos fazê-lo”.

Hoje, quase um ano depois, o Governo admite que nenhum refugiado que chegou nesse fim-de-semana ou nos dias que se seguiram foi rastreado por agentes de segurança. Esta é a crónica de uma perda de controle anunciada. Para compilá-la, 12 repórteres da ZEIT e da ZEIT ONLINE espalharam-se por toda a Europa para visitar capitais de estado e albergues de refugiados, conversar com autoridades de segurança, analisar documentos confidenciais e ler relatórios de situação. O resultado é o relato mais detalhado até agora de um fim de semana que mudou radicalmente a Alemanha e a Europa. Todos os retratos são baseados nas lembranças das pessoas diretamente envolvidas.

A nossa crónica abordará os hábitos de sono do governo do Estado alemão. Também olhará para um soldado sírio que se dirige para norte. Falar-se-á de sanduíches de peru e telefonemas que nunca foram atendidos e que talvez nunca tenham sido feitos para serem atendidos. Iremos considerar as tentativas de induzir em engano e analisaremos uma vasta ilusão política.

A crónica também se concentrará na palavra “exceção” e no que ela realmente significa. E irá considerar imagens, uma e outra vez. Imagens que deveriam ser evitadas a todo o custo e imagens tão poderosas que mudaram a paisagem política.


A segunda parte deste texto será publicada amanhã, 19/09/2019, 22h


Tradução de Júlio Marques Mota – Fonte aqui

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

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Alemanha adverte contra retirada de tropas da OTAN do Afeganistão

Annegret Kramp-Karrenbauer (CDU)
© AP Photo / Michael Sohn

Neste sábado (14), a ministra da Defesa da Alemanha, Annegret Kramp-Karrebauer, alertou contra retirada de tropas da OTAN do Afeganistão.

Conforme publicado pela agência Reuters, Kramp-Karrenbauer acredita que a retirada antecipada das forças da OTAN pode fazer com o Afeganistão recue para um regime controlado pelo Talibã.

Kramp-Karrenbauer, que também lidera o partido dos democratas-cristãos, da chanceler e é vista como a próxima a se tornar chanceler do país, disse que uma retirada de tropas estrangeiras seria particularmente difícil para as mulheres afegãs.

"Estou preocupada que, se abandonarmos nossa responsabilidade [no Afeganistão], enfrentaremos imagens horríveis de mulheres sendo apedrejadas e enforcadas e de meninas que não poderão frequentar a escola e se casar", disse Kramp-Karrenbauer em uma reunião de mulheres da CDU.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, cancelou este mês uma reunião secreta que iria ocorrer com líderes do Talibã, que tinham o objetivo de dar prosseguimento às negociações para encerrar o conflito de quase 18 anos no país islâmico.

Os EUA disseram que retirariam quase 5 mil soldados do Afeganistão e fechariam cinco bases militares sob um projeto de acordo com o Talibã.

Trump cancelou as negociações depois que os insurgentes assumiram a responsabilidade por um ataque em Cabul que matou um soldado dos EUA e outras 11 pessoas.

A Alemanha tem cerca de 1,3 mil soldados no Afeganistão. Já os EUA têm cerca de 14 mil soldados no país.

Trump tem pressionado a Alemanha a cumprir um orçamento de despesa militar exigido pela OTAN de 2% da produção econômica.

A chanceler da Alemanha, Angela Merkel, disse no mês passado que estava levando o compromisso de seu governo a cumprir esse objetivo com seriedade. De acordo com os planos orçamentários atuais, a Alemanha empenha pouco mais de 1,4% da produção em defesa.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/oriente_medio_africa/2019091414517112-alemanha-adverte-contra-retirada-tropas-da-otan-do-afeganistao/

Mais da metade dos alemães vê democracia sob ameaça

 
 
Pesquisa revela que 53% dos cidadãos acreditam que o sistema democrático está em perigo na Alemanha. Quase metade aponta a extrema direita como maior ameaça. Para eleitores da AfD, por outro lado, são os migrantes.
 
Mais da metade dos alemães acredita que a democracia está em perigo no país, segundo pesquisa divulgada nesta quinta-feira (12/09) pelo instituto YouGov. A ascensão da extrema direita é a principal causa dessas preocupações.
 
Dos entrevistados, 53% concordam que a democracia está sob ameaça na Alemanha. Para 79%, a democracia é a melhor forma de governo, embora apenas 54% considerem satisfatório o atual regime democrático no país. A ideia geral de democracia é vista por 83% dos alemães como algo positivo. Entretanto, um em cada dez cidadãos a vê negativamente.
 
 
Os extremistas de direita encabeçam a lista de principais ameaças à democracia, tendo sido apontados por 47% dos entrevistados como causa de preocupação. Os populistas de direita e os migrantes aparecem empatados em segundo lugar, com 27% cada.
 
Do outro lado do espectro político, o extremismo de esquerda foi apontado por 22% dos participantes, mesmo percentual dos que veem os Estados Unidos como um perigo ao sistema democrático alemão. Os entrevistados puderam selecionar até três ameaças a partir de uma lista.
 
Cerca de dois terços dos alemães (65%) acreditam que há pouca participação da população no processo democrático. Um terço (34%) sente que seu voto tem pouco efeito.
 
Entre os partidos políticos, são os apoiadores do partido populista de direita Alternativa para a Alemanha (AfD) os que mais temem pela democracia: 79% desse grupo disseram que o sistema democrático está ameaçado.
 
Cada grupo de eleitores percebe ameaças diferentes: para os apoiadores da AfD, migrantes (54%), o governo federal (37%) e extremistas de esquerda (33%) são os maiores perigos.
 
Para os eleitores do Partido Verde, por outro lado, cuja popularidade vem aumentando com a maior conscientização ambiental entre os jovens, as principais ameaças são justamente os extremistas de direita (66%), os populistas de direita (49%) e os Estados Unidos (21%).
 
O YouGov entrevistou 2.020 pessoas entre 22 de agosto e 1º de setembro e divulgou os resultados pouco antes do Dia da Internacional da Democracia, celebrado no dia 15 deste mês.
 
Deutsche Welle | RC/dpa/epd/ots

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Eleição de prefeito* neonazi choca a Alemanha

 
 
Vereadores de siglas tradicionais, como a CDU de Merkel e o social-democrata SPD, elegeram um membro do ultranacionalista NPD para comandar vilarejo perto de Frankfurt. Lideranças partidárias pedem anulação da votação.
 
A eleição unânime do membro de um partido neonazi para prefeito de um vilarejo no estado de Hessen provocou protestos na Alemanha. Stefan Jagsch, do Partido Nacional-Democrático (NPD), recebeu o voto de todos os vereadores por ser aparentemente o único interessado no cargo.
 
A escolha do novo prefeito de Waldsiedlung, uma pequena comunidade perto de Frankfurt e que pertence ao distrito de Altenstadt, ocorreu após o então líder, membro do Partido Liberal Democrático (FDP), anunciar sua renúncia em junho. O cargo estava vago há semanas.
 
Na sessão da última quinta-feira (05/09), todos os sete vereadores presentes votaram em Jagsch para comandar o vilarejo. Entre os que deram aval ao extremista de direita estão membros da União Democrata Cristã (CDU) – legenda da chanceler federal, Angela Merkel –, do FDP e um turco-alemão do Partido Social-Democrata (SPD).
 
A eleição de Jagsch foi condenada por lideranças desses três partidos, que se recusam a trabalhar com o NPD, um partido de extrema direita que se assemelha ao comandado por Adolf Hitler na década de 1930. Os políticos pedem a anulação da votação.
 
"O SPD tem uma clara posição: não cooperamos com nazis. Nunca! Isso se aplica no nível federal, estadual e municipal", afirmou o secretário-geral do SPD, Lars Klingbeil, afirmando que a escolha não é justificável e precisa ser anulada.
 
 
O secretário-geral da CDU, Paul Ziemiak, também defendeu que a eleição seja anulada. "Estou chocado. A eleição de um membro de um partido que tem objetivos anticonstitucionais é uma vergonha", ressaltou ele ao jornal Bild.
 
O líder da bancada do FDP no Parlamento alemão, Marco Buschmann, descreveu o caso como duplamente ruim: "Primeiro porque democratas votaram em alguém como ele [Jagsch], segundo porque não havia candidatos democratas para assumir essa tarefa".
 
Lideranças regionais das legendas também se posicionaram contra a eleição do extremista de direita. "A eleição de um membro do NPD para prefeito com a participação de titulares da CDU me horroriza muito. Qualquer democrata que abre caminho para radicais num gabinete de Estado lida com seu mandato de forma irresponsável e alheia ao dever e à história", afirmou Peter Tauber, deputado estadual pela CDU em Hessen.
 
Nas ruas de Waldsiedlung, que possui cerca de 2,5 mil habitantes, os moradores parecem divididos sobre o novo prefeito. "Jagsch é muito bom. O problema é que ele pertence ao partido errado e sou contra a promoção de membros do NPD", disse Ingo Waldschmidt. Para Karl-Heinz Boller, a votação foi um erro. "Estou indignado. Isso precisa ser corrigido", afirmou.
 
O representante do SPD na câmara municipal, Ali Riza Adgas, aparentemente não viu problema em eleger um neonazi. "Eu o conheço há anos e nunca tive problema com ele", afirmou ao jornal alemão Süddeutsche Zeitung.
 
Já o vereador Nobert Szielasko, da CDU, disse que Jagsch foi eleito porque não havia nenhum outro candidato mais jovem que soubesse "usar computadores e mandar e-mails".
 
Deutsche Welle | CN/afp/rtr/ap
 
*Prefeito - Presidente da Câmara. Designação comum dada a várias funções desenvolvidas por um administrador. Para facilidade académica, visualiza-se melhor, aplicando-se definições distintas a cada caso
 

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A esquerda alemã e os desafios levantadas pelas migrações

A esquerda alemã e os desafios levantadas pelas migrações

(Peter Whal, 9 de Fevereiro de 2019)

alemanha

Desde que a Chanceler alemã suspendeu o Acordo de Dublin em Setembro de 2015, permitindo a entrada de um milhão e meio de refugiados no país durante os dezoito meses seguintes, a questão da migração desempenhou um papel espetacular na política alemã.

Havia muita especulação sobre as motivações da Merkel. Tratou-se de uma estratégia a longo prazo contra o declínio demográfico e o envelhecimento da população? Um plano para a garantia financeira das pensões? Ou foi para resolver a escassez de mão-de-obra? Ou um ataque neoliberal contra os trabalhadores, usando os migrantes para o dumping salarial  e social? Ou será que a Chanceler atuou desta forma por motivos humanistas, quase Madre Teresa dos migrantes?

Sumário

– Crise no sistema político e viragem à direita

– Aprofundamento da  crise da esquerda

– Mais do que um conflito sobre a  migração

Como mostraram as investigações sobre a noite dramática de 4-5 de setembro de 2015[1]  Merkel não tinha nenhum plano, nenhuma estratégia. Foi tão simples quanto pragmático para ela evitar imagens dramáticas de televisão, com dezenas de milhares de refugiados na estrada na fronteira entre a Áustria e a Baviera. Foi a curto prazo, para evitar stress e desentendimentos. As considerações a longo prazo não desempenharam qualquer papel na sua decisão. Isto está em perfeita sintonia com o seu estilo político geral, que ela própria descreve como “condução à vista”.

Nos primeiros meses que se seguiram a esta noite, houve uma incrível onda de solidariedade entre a população. Em todas as cidades e mesmo nas zonas rurais, os grupos de apoio aos refugiados desenvolveram-se espontaneamente. Eles assumiram grande parte do fardo sobre os ombros, que as administrações sobrecarregadas e por vezes resistentes não conseguiram suportar. Uma nova palavra foi criada: “Willkommenskultur” (cultura anfitriã).

Ao mesmo tempo, a decisão unilateral de Berlim teve enormes efeitos colaterais. Em primeiro lugar, sobre a União Europeia. Para além das fortes tendências centrífugas já existentes, foi acrescentada uma outra crise profunda entre os Estados-Membros. Ainda não está resolvida.

Depois de alguns meses, no entanto, outras consequências problemáticas também apareceram quando, na véspera de Ano Novo 2015-2016, várias centenas de mulheres foram vítimas de assédio sexual, que foi atribuído a migrantes Maghrebi frente   à Catedral de Colónia. A partir desse momento, desencadeou-se um enorme retrocesso, um voltar atrás. O governo federal implementou todo um pacote de medidas que colocaram a política de migração alemã de volta ao resto da Europa Ocidental. O número de requerentes de asilo passou de 890.000 em 2015 para 722.370 em 2016 e para  198.317 em 2017. [2] O gesto humanista de Setembro de 2015 é agora sentido  como perda de controlo- e com razão.

Crise no sistema político e viragem à direita

Entretanto, o clima político no país tinha mudado drasticamente. A cultura de acolhimentofoi colocada na defensiva e é agora marginalizada. Os problemas relacionados com a imigração em massa estão em primeiro plano no discurso público. Os desenvolvimentos em torno da migração serviram de catalisador para acelerar uma mudança geral da sociedade para a direita. A hegemonia sócio liberal que o país viveu nas últimas décadas está cada vez mais em erosão, o que está agora a ter um efeito dramático no sistema político:

– Com a AfD (“Alternativa para a Alemanha”), um partido de extrema-direita a entrar no Bundestag pela primeira vez desde o fim da guerra. Este partido  representa o maior grupo de oposição do país. Está representada em todos os parlamentos dos Länder. Na Saxónia, é mesmo o partido  mais forte. O seu tema central é a migração.

– A CDU de Merkel passou  de 40% dos votos no passado para uma média de 30%. A sua ala bávara, a CSU, perdeu a sua maioria absoluta no Parlamento de Munique após meio século de dominio. A maioria das suas perdas foram a favor da AfD e, incidentalmente, para os Liberais (FDP). Entretanto, Angela Merkel teve de se demitir do seu cargo de líder do partido e não está claro se continuará a ser chanceler até ao final da legislatura. Dentro da CDU, há um conflito agudo entre o conservadorismo iluminado representado por Merkel e a ala direita do partido. O resultado da luta é incerto.

– O SPD, o mais antigo partido social-democrata do mundo, segue a tendência de todos os social-democratas que se tornaram neoliberais: está em crise existencial. Depois de atingir 40% com Schröder em 1998, situa-se atualmente entre 14% e 18% nas sondagens . Este é o nível mais baixo desde 1887 [3] , com as maiores perdas de eleitores a favor da AfD e dos Verdes.

– Depois da AfD, os maiores vencedores destas  convulsões são os Verdes. Enquanto se situavam atrás do Partido de Esquerda (9,2%) nas eleições federais de 2017 com 8,9%, eles atualmente representam 18% a 20% nas sondagens.

– A percentagem de eleitores no Partido da Esquerda estagna entre 8% e 10%. No entanto, por trás da fachada das estatísticas há uma mudança profunda na base eleitoral. Nos novos Länder do Leste, onde o partido tradicionalmente tinha as suas fortalezas, está a perder massivamente para a AfD, enquanto ganha terreno nos centros metropolitanos do Ocidente.

    – Apenas o FDP neoliberal está relativamente estável no momento, com um percentual de votos de 8% a 10%. Nas eleições para o Parlamento Europeu, espera ganhar influência através do partido de Emmanuel Macron, que aderiu ao grupo liberal ALDE.l’Ouest.

A instabilidade do sistema político é acompanhada por uma intensificação e polarização do clima geral de opinião no país. Insegurança, polémica, incomodidade  e agressividade no debate público estão em ascensão numa ampla frente.

No entanto, é de salientar que estas perturbações não podem ser atribuídas simplesmente ao afluxo de migrantes. Eles são, acima de tudo, a expressão de problemas mais profundos que se têm estado a desenvolver desde há  muito tempo sob a capa  da estabilidade. No entanto, o debate sobre a migração realçou-os e contribuiu para a sua intensificação.

Aprofundamento  da crise da esquerda

A esquerda alemã existe. [4) É ativa, discute, publica,  organiza ações, está presente nas lutas locais e nos movimentos sociais. Se tomarmos como indicador os resultados das eleições, estes permaneceram estáveis entre 8% e 10% na última década. Ao mesmo tempo, as sondagens mostram  repetidamente que segmentos crescentes da população estão cada vez mais insatisfeitos com as condições sociais, económicas e políticas. A incerteza e os receios sobre o futuro estão a aumentar. De facto, os grandes desafios ecológicos, económicos, sociais e políticos exigem uma esquerda forte.

No entanto, a esquerda alemã ainda não conseguiu aproveitar as oportunidades decorrentes das mudanças verificadas. Por trás da fachada de estabilidade, há diferentes processos de crise. Ela está a ter dificuldade em lidar com as rápidas mudanças no capitalismo, as mudanças sociais e mentais na sociedade e a nova confusão no sistema internacional. Fica atrás da dinâmica do desenvolvimento social e a sua orientação  estratégica é opaca. O resultado é um pratica na ação feita de rotinas  que durante muito tempo escondeu  a impotência, a fragmentação e a formação de diversas correntes.

O afluxo de imigração caiu nesta situação em 2015. Ele agudizou de forma  acentuada  as contradições dentro da esquerda, e especialmente trouxe o Partido de esquerda para a beira de uma  divisão aberta. As linhas da frente cruzaram a liderança do partido. Um campo era liderado por Sahra Wagenknecht, co-presidente do grupo parlamentar do Bundestag e figura pública mais proeminente do partido. Do outro lado, Katja Kipping, co-presidente do Partido.

O partido é composto por   cinco ou seis correntes, que também são oficialmente reconhecidas como tal e formalmente constituídas. Mas o debate sobre migração levou a uma polarização binária que às vezes degenerou em agressão odiosa. Por um lado, registou-se um aumento acentuado das comparações nazis e acusações de racismo. Por outro lado, os respetivos adversários têm sido descritos como marionetes  do neoliberalismo. Por conseguinte, ambas as partes afirmam estar comprometidas com os valores fundamentais da esquerda. Nestas condições,  cada discussão é altamente carregada de efeitos que inevitavelmente os levam ao confronto e à dinâmica sectária.

O conflito irradiava para toda a esquerda, mesmo que raramente assumisse formas tão dramáticas.

Atualmente, o conflito no seio do Partido da Esquerda acalmou um pouco. A principal razão prende-se com as próximas eleições a nível de vários Länder. Especialmente no Leste, Brandeburgo, Saxónia e Turíngia, as apostas são altas. Em Brandeburgo, o partido e o SPD formam o governo, na Turíngia até o primeiro-ministro vem do partido de esquerda. Em ambos os casos, existe o risco de perder o lugar do governo e abandonar ainda mais votos para a AfD.

O que também contribui para uma redução das tensões é a redução drástica do número de migrantes. Num ompromisso no final de 2018, a posição programática básica do partido também foi alterada. No programa adotado em 2011, afirmava-se ainda: “Exigimos a abertura das fronteiras para todos. [5] Esta foi a posição inicial do campo de Kipping, que também está representado em muitos sectores da esquerda extraparlamentar. No contexto do afluxo de imigrantes em 2015 e 2016, o campo de Wagenknecht criticou esta posição como uma utopia irrealista, que não poderia ser alcançada nas condições de uma sociedade de classes.

Mais do que um conflito sobre migração

Entretanto, chegou-se a um compromisso com a fórmula que defende uma política de migração generosa e humana, livre de interesses económicos utilitários, mas, ainda assim, regulada pela política. O “sem fronteiras”, o slogan do programa para 2011, já não é mencionado. Não é certo que este compromisso se mantenha a longo prazo. Porque os problemas subjacentes ainda não estão resolvidos.

Entre estes problemas, há, em primeiro lugar, a questão da base social da esquerda. As atitudes anti-imigrantes são encontradas em maior grau em grupos subordinados da população, entre aqueles que se sentem ameaçados pela perda do seu estatuto social e que não se sentem reconhecidos pela política. Por exemplo, a proporção de sindicalistas da DGB que votam na AfD está significativamente acima da média. Estes três fenómenos aplicam-se particularmente aos alemães de Leste. . Isto explica o grande sucesso da AfD, por um lado, e as perdas da esquerda, por outro, nos novos Länder. O campo de Wagenknecht quer reconquistar, pelo menos em parte, os antigos eleitores do partido e salienta que, especialmente no domínio do emprego precário e do sector dos baixos salários, um grande número de migrantes não qualificados tornar-se-ia um concorrente dos trabalhadores locais.

No campo de Kipping, argumenta-se que é racismo opor os interesses dos trabalhadores locais  aos migrantes, e que as atitudes anti-migrante dos trabalhadores alemães devem ser combatidas de forma ofensiva como forma de racismo. Este argumento é reforçado pelo facto de que as perdas eleitorais a Leste   são parcialmente compensadas pelo ganho  de grupos jovens e instruídos nas grandes cidades a Ocidente.

A controvérsia faz parte de um quadro analítico que tem vindo a mostrar   desde há algum tempo uma divisão sócio estrutural das sociedades ocidentais em sectores ditos comunitários e cosmopolitas. Ao nível da estratégia política, isto corresponde à diferenciação entre políticas identitárias , por um lado, e política social e de classe, por outro. [6]

Naturalmente, para uma estratégia de esquerda, a consequência óbvia é combinar as duas, que é também o que está a ser tentado. Interseccionalidade é uma palavra-chave aqui. [7] Mas construir um conceito teórico é uma coisa, a sua realização prática é outra. Especialmente quando os laços com a comunidade já foram cortados, a divisão cultural é muito grande e em que ocorreu uma perda de confiança ao longo dos anos.

Para sair da  estagnação, Wagenknecht fundou um movimento extraparlamentar – “Aufstehen” (De  pé) – em setembro de 2018. Mais de 150.000 apoiantes se ligaram através da Internet. Inspira-se no movimento britânico Momentum , que desempenhou um papel decisivo na rutura do Partido Trabalhista com o neoliberalismo. A direção do  partido e muitos dos seus membros interpretaram isto como uma preparação para a fundação de um novo partido. No entanto, até agora, “Aufstehen” com dificuldade está a ir um pouco para além da sua presença na Internet.

Outra área de conflito estende-se a temas como “Heimat”[8] nação, Estado-nação, nacionalismo, soberania ou, por outro lado, internacionalismo, cosmopolitismo, europeísmo ou supranacionalismo. Isto também afeta as questões da globalização e da integração no quadro da UE. Aqui, a esquerda alemã ocupa uma posição especial em comparação com a esquerda de outros países: no contexto da história do século XX alemão, é particularmente anti-nacional e considera-se, pelo contrário, particularmente cosmopolita e internacionalista. Nos debates sobre  a migração, a corrente que defende sem fronteiras refere-se, portanto, explicitamente ao internacionalismo de esquerda. Por outro lado, uma vez que a AfD é obviamente nacionalista, muitas pessoas receiam reforçar a extrema-direita se não se posicionarem contra as fronteiras enquanto tal, o Estado-nação e a soberania. Esta atitude reflete-se também no debate sobre o futuro da UE. Uma maioria, embora em declínio, considera que o supranacionalismo da UE é, no fundo, um projeto progressista e defende o aprofundamento da integração.

Face a  todas essas questões complexas, seria necessário encontrar formas, espaços e métodos que permitissem trabalhar as diferenças de forma produtiva para evitar o agudizar  das contradições e uma rutura completa. Mas ninguém pode dizer, neste momento, se isto será bem sucedido.


Notas

[1] Un bon compte rendu en anglais, accessible par internet se trouve dans :. « The Night Germany Lost Control », Die Zeit, n° 36/2016.

[2] Bundesamtes für Migration (2019) : Migrationsbericht 2016/2017 : Zentrale Ergebnisse. Nürnberg. p. 2

[3] Com exceção, naturalmente   dos anos da Grande Guerra e do fascismo,emq eu não houve nenhumas eleições.

[4] Neste texto, a esquerda é entendida não só como o Partido de Esquerda (Die Linke), mas também como as partes dos sindicatos, da sociedade civil organizada e dos movimentos sociais que se opõem às políticas neoliberais. Isto também inclui os vestígios  da ala esquerda da social-democracia e da ala esquerda dos Verdes, embora eles sejam agora amplamente marginalizados.

 [5] Programm der Partei DIE LINKE

[6] Uma boa análise geral destes conceitos : Merkel, Wolfgang (2016) : The Political Sociology of Cosmopolitanism and Communitarianism. Dans : WZB Mitteilungen, Heft 154, Dezembro 2016. Berlin. Merkel (sem nenhuma relação com a chanceler) é diretor  do programa  de investigação  Roturas  – cosmopolitismo, communitarismo e a democracia em  Wissenschaftszentrum Berlin : https://www.wzb.eu/en/research/completed-research-programs/cosmopolitanism-and-communitarianism

[7] Ver também  : Butler, Judith (2003) : Das Unbehagen der Geschlechter, Frankfurt/M.

[8] Em francês, “pays natal” está próximo do significado alemão, sem que o traduza  completamente. Uma dimensão do Heimat é realmente a região em que nasceu e onde foi cresceu enquanto criança.  Uma vez que a Alemanha só se tornou um Estado-nação muito tarde, as particularidades regionais, dialetos, etc., duraram muito mais do que em França. Heimat, portanto, desempenha um papel mais importante na psicologia coletiva. Mas o conceito vai além do país natal  e pode ter um significado mais amplo e abstrato. Por exemplo, na obra principal do filósofo marxista Ernst Bloch, Prinzip Hoffnung, ele estabelece uma ligação entre Heimat e a utopia socialista/comunista. A obra termina com a frase: Heimat, é onde ninguém ainda  foi. O abuso do termo pelos nazis desacreditou-o. Em resposta à incerteza causada pela globalização neoliberal, o termo renasce na sociedade alemã e tornou-se um terreno contestado na luta pela hegemonia.


O Sexto texto desta série será publicado amanhã, 05/09/2019, 22h


Tradução de Júlio Marques Mota – Fonte aqui

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2019/09/04/ano-de-2019-ano-de-eleicoes-europeias-parte-ii-imagens-soltas-de-uma-uniao-europeia-em-decomposicao-a-partir-de-alguns-dos-seus-estados-membros-5o-texto-a-esquerda-alema-e-os-desafios-levantada/

A Alemanha luta por sua identidade

 
 
No aniversário da 2ª Guerra, populistas de direita obtiveram votações históricas no leste alemão. Um sinal de que a Alemanha ainda luta para definir que tipo de país deseja ser, opina a editora-chefe da DW, Ines Pohl.
 
Nas primeiras horas do dia 1° de setembro de 1939, os alemães deram início à Segunda Guerra Mundial ao atacarem a Polónia. O conflito deixou milhões de mortos, feridos, mulheres estupradas e refugiados – e um mundo que ainda sofre os efeitos da fúria destrutiva dos nazistas.
 
Exatamente 80 anos depois, um partido alemão que travou uma campanha com um programa repleto de ideias nacionalistas e teses racistas está celebrando resultados de dois dígitos. O Alternativa para a Alemanha (AfD) obteve neste domingo nos estados da Saxónia e de Brandemburgo seus melhores resultados em nível estadual  desde a fundação da legenda.
 
Em apenas alguns anos, a agremiação conseguiu deixar o papel de pequena legenda marginal para se tornar a segunda maior força nos parlamentos desses dois estados. Não é suficientemente tranquilizador que os populistas de direita não tenham sido bem-sucedidos em conquistar a primeira posição na Saxónia, como chegaram a prever algumas pesquisas.
 
 
Os grandes partidos perdem força
 
E o que isso diz sobre a Alemanha, quando em tempos de prosperidade económica e em uma paisagem política relativamente estável um partido desses consegue tanto sucesso? E o que podemos esperar quando os tempos mudarem e a Alemanha se ver envolvida na espiral de uma recessão mundial? Quais medidas estão disponíveis para prevenir o pior? O quão forte é a convicção de que na Alemanha nunca mais um partido formado em sua maioria por racistas pode assumir responsabilidades governamentais?
 
Os dois principais partidos tradicionais da Alemanha, a União Democrata-Cristã  (CDU) de Angela Merkel e o Partido Social-Democrata (SPD), obtiveram seus piores resultados na Saxónia e em Brandemburgo desde a reunificação. Na prática, isso significa que na estável Alemanha será cada vez mais difícil conseguir formar coligações de governo. Também mostra que esses dois grandes partidos populares perderam a sua velha capacidade de reunir uma grande quantidade de votos no vasto espaço que existe entre a extrema esquerda e a extrema direita. 
 
Isso ainda mostra como a Alemanha tem encontrado dificuldades para definir que tipo de país ela deseja ser. Que tipo de política de refugiados pretende levar a cabo, sem mencionar ainda as grandes questões económicas e sociais do nosso tempo? O quão soberana deve ser a Alemanha e o quão europeia?  
 
Arrogância dispensável
 
É parte da natureza da historiografia que só podemos reconhecer a posteriori o peso de um acontecimento em um determinando momento histórico e avaliar qual foi seu impacto no futuro. Nesse sentido, só podemos especular sobre como os livros de história vão abordar o 1° de setembro de 2019.
 
Mas uma coisa é certa: esses resultados vão estimular a AfD em nível nacional. Ela se tornou uma força e não vai desaparecer de um dia para o outro. Vai ser preciso que as outras legendas encontrem uma maneira de lidar com isso. Encarar o sucesso alheio com arrogância e desprezo será um erro fatal. Esses resultados demonstram de maneira brutal aos líderes políticos da Alemanha que algo não está indo bem no país e que eles devem observar e escutar com mais atenção para entender o que empurra os eleitores para os braços dos populistas.
 
No entanto, existem princípios inegociáveis que são a base da nossa responsabilidade histórica. Entre eles estão a liberdade religiosa e o direito à concessão de refúgio para pessoas em situação de emergência. E esses princípios não podem ser sacrificados, não importa o quão difícil será a formação de um governo.
 
Ines Pohl (jps) | Deutsche Welle | opinião
 
 
 

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Luta por uma Europa aberta continua 80 anos depois

 
 
A Polónia relembra as oito décadas do início da Segunda Guerra. Sobretudo os alemães têm o dever de lutar contra o nacionalismo e a xenofobia e defender as conquistas do pós-guerra, opina o jornalista Jens Thurau.
 
Há 80 anos, a Alemanha invadia a Polónia, iniciando a Segunda Guerra Mundial. E, porque as consequências do que ocorreu décadas atrás ainda afetam tantas pessoas, muitas vezes parece que acabou de acontecer.
 
Depois da guerra, a geração que viveu o conflito permaneceu, em maior parte, em silêncio. Os filhos e netos questionaram e, a muito custo e insistência, e muitas vezes muito tardiamente, se foi falado sobre todas as coisas terríveis que os alemães haviam feito com os povos vizinhos. Desde então, muito foi superado e esclarecido, mas ainda permanecem lacunas, feridas e distâncias. E elas vão ficar por muito tempo, talvez para sempre.
 
Politicamente, o período pós-guerra também não foi pacífico, visto globalmente. Quando as armas já silenciavam na Europa, os Estados Unidos jogaram a bomba atómica no Japão. Depois vieram as guerras da Coreia e do Vietname, as guerras no Oriente Médio, os regimes militares na América do Sul. Novos conflitos também eram percebidos na vizinhança direta da Europa: a Iugoslávia se desintegrou sangrentamente em suas nacionalidades; o ataque aos EUA em 11 de setembro de 2001 também atingiu fortemente a Europa. Mas, durante muito tempo após a guerra, a grande maioria desejava uma coisa acima de tudo: destruição nunca mais, nacionalismo nunca mais! A Alemanha se reconciliou com a França e com seus outros vizinhos ocidentais, Willy Brandt caiu de joelhos em Varsóvia. A União Europeia cresceu e cresceu, um projeto de paz ofensivamente intitulado dessa forma pelos políticos. O Muro de Berlim caiu, a Guerra Fria terminou e, por um breve momento, pareceu que um mundo novo e multilateral poderia realmente emergir.
 
Nelson Mandela tornou-se presidente na África do Sul. Bill Clinton veio a Berlim em 1994 e gritou para o povo: "Tudo é possível!" Sim, parecia. Os Estados da Europa Oriental aderiram à UE, como se isso fosse algo óbvio. Eles são, sim, tão europeus quanto os Estados do oeste do continente.
 
Agora, em 2019, 80 anos após o início da Segunda Guerra Mundial, é possível ver rostos amedrontados, especialmente de pessoas mais velhas. O nacionalismo está de volta, junto com campanhas difamatórias contra pessoas que vêm de outros lugares ou têm aparência diferente. Há um populista na Casa Branca e outro em Londres.
 
Os políticos sensatos lutam pelo projeto de paz da UE. Quase ninguém se atreve mais a lembrar uma das razões originais desse bloco de Estados: a Europa unificadora e sem fronteiras. Em breve, a geração jovem (se não ocorrer um milagre) experimentará o que ocorre quando um país como o Reino Unido constrói novos muros.
 
Por isso, dias de celebração, como este agora na Polónia, estão se tornando cada vez mais importantes. Mas muito mais ainda é a conversa com as poucas testemunhas oculares sobreviventes, que tiveram que testemunhar com seus próprios olhos as atrocidades inimagináveis ​​da época. O centro político cívico na Europa, especialmente na Alemanha, deve estar pronto para lutar pelas conquistas do pós-guerra, por democracia, humanidade, internacionalidade. Assim como o povo corajoso da Alemanha Oriental fez em 1989.
 
Novamente há inimigos da democracia suficientes. Eles não virão com tanques como antes, os soldados não são mais necessários para a guerra cibernética moderna, pelo menos dificilmente o são na Europa. A democracia, no entanto, só pode ser defendida de dentro, a partir do meio da sociedade. Não é verdade que os populistas, os coléricos, os agitadores estejam em maioria em toda parte. O problema é que os sensatos se calam. Acabar com isso deve ser o aprendizado, 80 anos após o início da guerra. E a lembrança pública das atrocidades daquela época faz parte disso.
 
Jens Thurau (md) | Deutsche Welle | opinião
 
 
 
 

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Por que populistas de direita são tão fortes no Leste da Alemanha

 
Três estados da antiga Alemanha Oriental vão às urnas e podem dar vitórias históricas à AfD, partido que abriga políticos com ideias racistas e extremistas. O que explica essa inclinação populista na região?
 
Sem o movimento por direitos civis da antiga República Democrática Alemã (RDA), a Alemanha seria bem diferente hoje em dia. Há 30 anos, dezenas de milhares de ativistas contribuíram para a queda do Muro de Berlim e para a reunificação de um país que esteve dividido por décadas. Cidadãos da antiga Alemanha Oriental foram às ruas por mais liberdade e direitos humanos. Agora, às vésperas de eleições em três estados do Leste, os slogans dessa época foram apropriados por outro grupo.
 
Populistas de direita da Alternativa para a Alemanha (AfD) fazem campanha com frases populares da revolução pacífica que resultou no fim da RDA, como "O Leste levanta" ou "Torne-se defensor dos direitos civis". Alemães vão às urnas para eleições parlamentares regionais nos estados da Saxônia e de Brandemburgo neste domingo (01/09), e na Turíngia no final de outubro.
 
Os slogans escolhidos pela AfD fazem referência aos anos pós-reunificação, que para muitos cidadãos da antiga Alemanha comunista foram marcados por frustação, decepção e promessas não cumpridas.
 
 
Em seu site, a AfD compara a atual Alemanha com a antiga RDA. "Quem hoje pensa diferente é tão oprimido quanto se era pela Stasi", diz o texto. O serviço secreto da Alemanha Oriental espionou opositores, intimidou dissidentes e violou massivamente os direitos civis.
 
"É como estar na RDA novamente", disse Björn Höcke, líder da ala de extrema direita do partido, que nunca viveu no Leste durante o período comunista. Höcke comanda a AfD na Turíngia e vem da Alemanha Ocidental. Mesmo assim, acha que pode dizer que "não fizemos a revolução pacífica para isso, queridos amigos".
 
Apesar de a Alemanha ser um Estado democrático de direito, essas declarações alcançam algumas pessoas. Nos três estados do Leste alemão, pesquisas indicam que os populistas de direita podem conquistar a maioria dos votos nas eleições regionais, mesmo com políticos da legenda expondo abertamente ideias de extrema direita e fazendo frequentemente comentários racistas.
 
Segundo pesquisa Emnid divulgada em meados de agosto, 24% dos eleitores do Leste alemão votariam na AfD em pleitos nacionais. Nos antigos estados da Alemanha Ocidental, esse apoio cai para 12%.
 
Sentimento de decepção
 
"Muitas pessoas da antiga RDA estão desapontadas, se sentem incompreendidas e invisíveis para a maioria da sociedade no oeste", afirma a socióloga Judith Enders. Isso se deve ao fato de que os alemães do Leste correspondem a apenas 17% da população do país. Mais importante é, no entanto, sua falta de representação na sociedade alemã como um todo, acrescenta a especialista.
 
Alemães do Leste ocupam apenas 1,7% de todos os cargos de alto escalão na economia, política e administração do país. Depois da reunificação, a elite socialista da RDA foi substituída por alemães ocidentais. Segundo Enders, esse modelo de elite continua se reproduzindo até hoje, depois de 30 anos.
 
A socióloga, que nasceu e cresceu no Leste, fundou uma iniciativa para mudar a forma de pensar sobre o termo "leste", transformando-o num conceito mais autoconfiante e ofensivo. Mas nem todos antigos cidadãos da RDA conseguem isso. "Alguns se afastam", conta Enders. Após 30 anos da reunificação, muitos ainda sentem como uma ofensa coletiva.
 
De acordo com estatísticas, alemães do Leste ganham relativamente menos do que os ocidentais. Além disso, desde a queda do Muro, centenas de milhares, principalmente jovens, deixaram os estados da antiga RDA. Os que permaneceram enfrentaram o colapso da economia da Alemanha Oriental e elevadas taxas de desemprego. Em média, a taxa de desemprego no Leste é de 6,6% atualmente, enquanto no oeste é de 4,7%.
 
ontudo, as consequências da reunificação não explicam sozinhas o sucesso eleitoral dos populistas de direita. Um estudo da Universidade de Leipzig mostrou que, no Leste, quase um em cada dois entrevistados tem certas reservas contra estrangeiros e minorias. Em toda a Alemanha, essa posição é compartilhada por uma em cada três pessoas.
 
Nos últimos anos, frequentemente o "Leste" estampou jornais com manchetes negativas, seja pelo movimento xenófobo Pegida (sigla em alemão para "Patriotas europeus contra a islamização do Ocidente"), por ataques a imigrantes ou pela onda de atos violentos da extrema direita em Chemnitz.
 
Contra a ideia do Leste como refúgio da direita
 
Muitos cidadãos da RDA se opõem à percepção do Leste como um refúgio da direita. As iniciativas "Quando, se não agora" e "Partida para o Leste" lutam contra o racismo e também buscam debater como os alemães do Leste foram percebidos durante e depois da RDA. Sob o lema "Verão da solidariedade", foram organizados nos antigos estados orientais concertos, leituras e painéis de discussão.
 
Em 24 de agosto, as duas iniciativas promoveram em Dresden a passeata #Unteilbar (Indivisível), por mais solidariedade e menos exclusão. "Nós exigimos uma clara delimitação frente ao racismo", afirmou a porta-voz do coletivo #Unteilbar, Ana-Cara Methmann.
 
Ela mora em Leipzig, na Saxônia, cidade onde o Partido Verde conquistou em maio a maioria nas eleições europeias, com 20,2%. A AfD recebeu 15,5%, o pior resultado do estado.
 
A Alemanha não está dividida apenas entre Leste e Oeste, mas também entre cidade e campo.
 
Muitas vezes são questões práticas que causam a ruptura no cotidiano das pessoas. Um ônibus que passa apenas duas vezes por dia, uma estação de trem que fica a 20 quilômetros. Methmann, que dá palestras em toda a Saxônia sobre discriminação, por exemplo, vivenciou essa situação. Segundo ela, os conservadores da CDU, que governam o estado há décadas, contribuíram para o avanço da AfD na região.
 
"As verbas para trabalho com os jovens foram reduzidas e muitos centros para jovens, fechados", afirma a porta-voz do #Unteilbar. Para ela, o melhor meio para conter o avanço da extrema direita é criando oportunidades para pessoas participarem ativamente da vida social e fortalecendo tanto indivíduos quanto iniciativas democráticas.
 
Marina Strauß (cn) | Deutsche Welle

Na foto: Candidato da AfD ao governo de Brandemburgo, Andreas Kalbitz, em evento de campanha
 
 
 
 

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