25Abril

Duas espinhas na garganta, ainda assim

 

Com argumentos de defesa da saúde pública, a direita (mas não só a direita) atirou-se às comemorações do 25 de Abril e do Primeiro de Maio, classificando os promotores de irresponsáveis e de “darem um sinal errado” à população quando se pede a todos que fiquem em casa.


Pouco interessou aos críticos que as regras de afastamento físico fossem respeitadas em qualquer dos casos. Tal como não lhes interessa o facto de, todos os dias, milhares de trabalhadores que permanecem em actividade se acumulem em transportes públicos escassos e em locais de trabalho sem condições de segurança sanitária.

Obviamente, o propósito não era defender a saúde de ninguém, mas aproveitar o estado de emergência para diminuir as duas datas: precisamente por serem evocações, na sua origem, populares e que demarcam a fronteira com o regime fascista. Por muito simbólicas que as comemorações sejam hoje, elas são ainda a marca de um período da nossa história recente que a burguesia de uma forma geral, e a direita especialmente, gostariam de ver apagada.

No caso do 25 de Abril, o ataque dirigiu-se à Assembleia da República, sobretudo na pessoa do seu presidente — alimentando, ironicamente, a campanha, de longa data, de bota-abaixo do parlamento, que noutras circunstâncias toda a burguesia jura defender.

O CDS lançou-se mesmo num abaixo assinado contra as comemorações (absolutamente formais e iguais às que a AR sempre tem promovido) sem outro propósito que não fosse obter publicidade fácil na sua disputa de votos com a extrema-direita. Impossibilitados os desfiles populares de todos os anos, a direita quis, não satisfeita, apagar por completo a evocação da revolta dos Capitães e, sobretudo, do movimento popular que se lhe seguiu.

Se neste caso a disputa se deu entre pares parlamentares, no que toca ao Primeiro de Maio os visados foram claramente os trabalhadores e o movimento sindical. E, tendo a UGT optado pelo “tele-trabalho”, restou como alvo a CGTP. Os argumentos, repartidos entre o cinismo e a imbecilidade, foram desde as estafadas “razões sanitárias” até à afirmação de que os actos promovidos pela CGTP “não serviram para nada”, passando pela crítica da “falta de flexibilidade” da central sindical.

Mas o argumento talvez mais definidor do estado de espírito, inquieto, da burguesia portuguesa foi este: os actos públicos da CGTP foram “um desafio à autoridade do Estado” (*). O patronato — que clama por menos Estado quando os negócios correm de feição — exige agora o máximo de Estado para o salvar da falência. E como isso só pode ser feito à custa dos trabalhadores, é preciso que a “autoridade” do Estado se afirme desde já e a cada momento.

Todo este nervosismo por uma razão só: mesmo simbolicamente, o Primeiro de Maio foi assinalado e a situação dramática que milhões de trabalhadores e de pobres vivem sob o estado de emergência foi, ainda assim, trazida a lume.

Não, a calamidade sanitária não toca a todos por igual — e essa realidade precisa de ser posta em primeiro plano, para que sejam os próprios trabalhadores a assumir o combate às violências patronais que estão em curso sob o manto do estado de emergência. Violências que serão multiplicadas amanhã quando estiver à vista em toda a sua extensão a crise económica do capitalismo, nacional e internacional, e a crise social que ele arrasta consigo.

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(*) Pedro Norton (RTP3, 1 de Maio). Membro do conselho de administração da Fundação Calouste Gulbenkian, comentador e colunista em TVs e jornais. Esteve ligado à banca de investimento, foi administrador da Sojornal e Impresa (Expresso e SIC).

Ver o original em 'Mudar de Vida' (clique aqui)

CARTA AO PAI, por CATARINA SALGUEIRO MAIA

 

Querido Pai,

Hoje envio-te esta foto que representa tanto o Ser Humano que és! Com medos mas com uma coragem maior ainda! Sabias que naquele dia tinhas uma missão e cumpriste-a da melhor maneira: de corpo e alma! Sabias que dependia de vocês o futuro de Portugal!
Escrevo-te ao som de Grândola! Escrevo-te de coração apertado! Escrevo-te a tremer!
Lutaste por nós, pelo teu País! Lutaste por tudo aquilo em que acreditavas! Lutaste para que todos pudessem sonhar! Lutaste para que esses mesmos sonhos se realizassem! Lutaste pela memória daqueles que nunca regressaram e por aqueles que iriam partir em breve!
E quando tudo terminou voltaste a casa sem pretensões! Voltaste a ser o marido, o filho, o amigo, o colega… Voltaste a vestir a farda com o mesmo orgulho com que sempre a envergaste! Mesmo quando te sentiste “castigado” sentado numa secretária nos Açores!
Hoje celebramos o que tu, o Carlos Matos Gomes, o Garcia Correia, o Vasco Lourenço e tantos outros conquistaram por nós! Hoje celebramos não só a Liberdade mas também o Amor! Hoje celebramos a vida e a luta! Hoje celebramos os sonhos!
Mas não deixaremos de lutar! Lutaremos todos os dias por todo o mundo! Lutaremos pela igualdade de direitos, lutaremos por respeito, lutaremos por dignidade! Lutaremos por manter vivo o espírito de Abril!
Hoje não sairemos a rua mas cantaremos em plenos pulmões! Hoje não haverá abraços físicos mas abraçarei com o coração! Hoje não terei cravos mas eles vivem em mim! Hoje gritarei “25 DE ABRIL SEMPRE” à janela para que a vossa luta não seja esquecida! Hoje ouvirei Grândola Vila morena vezes sem conta e chorarei porque é o símbolo da vossa Vitória e da tua partida! Hoje, mais que nunca, dou valor à liberdade com que vocês, meus Heróis, tanto lutaram!

Obrigada, Pai!! Obrigada por nunca desistires do teu País mesmo quando o teu País “desistiu” de si próprio!
Obrigada a todos os que naquela madrugada saíram e não cruzaram os braços!

Com Amor,

Catarina Mau-feitio

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/04/30/carta-ao-pai-por-catarina-salgueiro-maia/

Eu fui um Capitão de Abril, testemunho de Miguel Sobrino. Por Suso Iglesias

25deabril 2020

Seleção e tradução de Francisco Tavares

Eu fui um Capitão de Abril

Em 1974 Miguel Sobrino era estudante de sociologia em Madrid, mas levado pela vontade de lutar, viajou até Portugal e transformou-se em testemunha da Revolução dos Cravos. Quarenta anos depois, conta como se transformou em jornalista e quase em agente secreto.

 

Por Luzes-Público/ Suso IglesiasSuso Iglesias

publico es es  em 28/04/2020 (ver aqui)

Publicado originalmente em Luzes em 25/04/2020 (aqui)

 

 

Eu fui um Capitão de Abril 1

Página principal do Diário de Lisboa de 25 de abril de 1974

 

A Miguel Sobrino aconteceu-lhe o mesmo que a Portugal: não soube, não pôde, não quis ficar em casa. Assim que a Rádio Renascença começou a emitir Grândola, Vila Morena, os apelos do Movimento das Forças Armadas foram inúteis. “Fique em casa, tranquilo”, repetia o locutor da RTP vezes sem conta, lendo durante horas uma lista interminável de comunicados.

“Fiquem em casa”, diziam os altifalantes dos veículos militares nas ruas de Lisboa. Mas as pessoas só ouviam o José Afonso cantar que “o povo é que mais ordena”. E como se num Hamelin de libertação, todos saíram para as ruas, ignorando os slogans e as advertências, para as tomar, torná-las suas e para celebrar a vitória. Esse apelo, esse uivo de democracia que foi o 25 de Abril de 1974, chegou também ao galego Miguel Sobrino, então estudante de Sociologia em Madrid. Assim, movido pelo mesmo impulso de todo o Portugal, apanhou o primeiro comboio para Lisboa. E acabou por se tornar uma testemunha excepcional da Revolução dos Cravos.

Assistiu à rendição da PIDE, a temível polícia secreta do Estado Novo. Patrulhou com os tanques através do centro de Lisboa. Foi testemunha da libertação dos presos da prisão de Caxias. Participou na assembleia que, na primeira noite revolucionária, mudou o nome da Ponte António Salazar para 25 de Abril. Assistiu à chegada do exílio de Mário Soares. E ao encontro entre Cunhal e Spínola. E conviveu com o próprio José Afonso durante os primeiros dias revolucionários. Ele também apareceu nas páginas do Paris Match. E agora, quando se cumprem 40 anos, recorda os dias vermelhos da explosão dos cravos.

“Na faculdade estávamos muito sensibilizados para a questão portuguesa graças ao movimento das canções. No 25 de Abril, de manhã e como éramos muito loucos, dissemos: ‘Vamos para lá'”, recorda Sobrino, que mais tarde se tornou professor de comunicação na Universidade Complutense, onde estudou política. “Ao longo do dia, alguns dos nossos colegas perderam o interesse. O comboio partiu à noite e eu entrei sozinho. Lembro-me de me despedir da minha namorada pensando que eu não ia voltar. Eu queria juntar-me à revolução. E morrer lá se fosse preciso”, diz ele, rindo da febre da juventude.

 

Eu fui um Capitão de Abril 2

Miguel Sobrino, atualmente

 

O primeiro medo surgiu na fronteira. A travessia para Portugal, na madrugada de 26 de Abril de 1974, foi altamente suspeita. “Chegámos à fronteira. O comboio estava a ficar vazio. Na fronteira estava o controlo salazarista. Mas não houve qualquer problema. Mostrámos os passaportes e entrámos. De manhã chegámos a Lisboa”, recorda Sobrino. O rapaz, carregado de força, apresentou-se lá ao seu contacto. Era o cantor-compositor José Jorge Letria (hoje presidente da Sociedade de Autores de Portugal), irmão do famoso jornalista Joaquim Letria. “Chegavas lá com aquele romantismo, pedindo uma missão, pensando: “Quero morrer aqui”. Então disseram-me: se queres fazer alguma coisa, vai à PIDE e faz o que puderes”.

A PIDE, a Polícia Internacional e de Defesa do Estado, era a força do terror na ditadura salazarista. Era a polícia política que sequestrava e torturava os opositores. E que mantinha um controlo total da sociedade, através dos bufos, os informadores civis inseridos em cada bairro e em cada trabalho, prontos a denunciar qualquer dissidência. Por isso, não foi surpreendente que, fiéis ao regime e temendo a reacção popular, tenham sido os últimos a render-se. Entrincheirados na sua sede na Rua Antonio Maria Cardoso, tinham disparado contra a multidão durante a noite, matando quatro manifestantes. Os únicos quatro mortos da Revolução dos Cravos. Assim, na manhã seguinte, no meio de uma enorme tensão, Miguel Sobrino chegou ao epicentro da revolta.

“Nas ruas já se viam os militares com os cravos nas suas armas. E o que se podia ver era uma atmosfera de alegria. Aqueles soldados vendo como o povo os apoiava”, diz Sobrino. “Mas naquela noite houve tiroteio, houve mortos e feridos; e os da PIDE estavam lá dentro, ganhando tempo para queimar o máximo possível. Quando cheguei, as fogueiras ardiam. Sobrino pensou em fazer-se passar por jornalista: “Atravessei o cordão militar como se fosse da imprensa, com o meu cartão da faculdade de Sociologia. Como dizia “Ciencias PP y Sociología”, dizia que PP era “Imprensa”. Na casa de banho, dentro do edifício, com os pides ali, estávamos quatro tolos: eu, uma equipa da televisão sueca e mais três outros. E nós tínhamos os fuzileiros a apontarem para nós.

“Ao longo do dia houve mais tiros. Algumas explosões apanharam-me numa cabina telefónica e temi pela minha vida. Eu disse: “Minha mãe, que faço eu aqui?”, recorda. “Quando se renderam, chegavam pides detidos, alguns deles com a cabeça a sangrar, porque havia pessoas que não havia como impedi-las…”.

Depois de assistir à rendição da PIDE, Miguel Sobrino vai viver outro momento histórico. “Quando o comboio partiu com os agentes presos, subimos a um camião artilhado. E chegámos à prisão de Caxias, onde as pessoas estavam à porta, a pedir a libertação dos presos. E quando a noite chegou, eles começaram a sair”. Ele ainda se lembra da emoção do momento: “As portas abriram, e um tipo abraçou-me e começou a chorar e gritar: ‘Estou aqui metido há 19 anos!’ Todos estavam a chorar. Foi uma festa”. Mas a catarse ainda estava para vir.

“Metemo-nos num carro quando já não havia prisioneiros na cadeia… E voltámos ao centro. E eu senti algo indescritível. A Praça do Rossio, muita gente a dançar, a cantar… Era um estado de catarse e de enorme felicidade. Foi uma festa até às duas da manhã. De vez em quando, aparecia uma coluna de soldados com bandeiras vermelhas, cravos nas suas armas e pessoas a atirar-lhes flores. É incrível como um povo se sente quando acontece algo assim “, recorda Sobrino. Havia uma pressa em mudar tudo. Para exercer a liberdade. E para viver a democracia. Assim, ali mesmo, no Rossio, votaram para mudar um símbolo da ditadura: “Era meia-noite, e no centro da praça fizemos uma assembleia para mudar o nome da ponte… Já não se podia chamar Oliveira Salazar. Era necessário alterar essa situação. Enquanto as pessoas se banhavam na fonte, nós votámos. Não esperámos nem um minuto. Alguns saíram com um camião e com um pincel riscaram ‘Oliveira Salazar’ para colocar ’25 de Abril'”.

Para Miguel Sobrino, aquela noite foi a mais emocionante da Revolução: “O Rossio era milhares e milhares de pessoas a sentirem a liberdade”. No dia seguinte, o agora professor tornou-se jornalista e quase um agente secreto. Porque começou a visitar a sede da PIDE, em busca de informações confidenciais. “Como tinha o meu falso cartão de imprensa metia-me em todo o lado. Fiz várias visitas à PIDE. E saía sempre carregado de papéis. Havia restos de fogueiras, mas ainda se podiam encontrar papéis com “Top Secret” escritos por todo o lado.”

Sobrino levava tudo aos revolucionários: “Tirei material confidencial bastante duro. Mas eu não sabia o que transportava. Somente via ‘Secret’, ‘Top Secret’… Quando lhes dei os documentos, ficaram espantados: “Mas sabes o que trouxeste?”, perguntaram eles. Eram as listas de todos os bufos de Portugal”. Ali estavam os nomes dos colaboradores da polícia política, dos informadores que mandavam os seus vizinhos para o inferno.

 

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Página principal do jornal diário “República de 25 de abril de 1974

Como Sobrino estava em todo o lado, sempre a entrar sorrateiramente em momentos chave, foi uma grande ajuda para a imprensa destacada em Lisboa. “Passava-lhes informação, a jornalistas de Espanha, do Le Monde, dos grandes meios de comunicação social… Porque eu estava ali, vivendo aquilo e era uma fonte em primeira mão”, diz ele. Mas a informação que foi publicada em Espanha, ainda sob a ditadura de Franco, foi altamente manipulada. O jornal ABC tinha o título: “Golpe de Estado em Portugal”. E deixava claras as suas simpatias por Marcelo Caetano e o falecido Salazar: “A mudança de regime em Portugal foi consumada. Um longo período chegou ao fim após não poucos sucessos e êxitos económicos e sociais”. A TVE, num papel ainda mais penoso, chegou ao ponto de denunciar um surto de cólera em Portugal, alertando os galegos para não atravessarem a fronteira por razões sanitárias.

“Lembro-me do noticiário televisivo espanhol e do jornal de vómitos do Diego Carcedo. O papel que ele desempenhou na contra-revolução foi lamentável”, critica. “Depois disseram que havia uma epidemia de cólera em Portugal. Na Galiza, as pessoas foram vacinadas contra a cólera. Eles não queriam que se soubesse o que lá estava a acontecer. Não fosse que em Espanha eles quisessem o mesmo. Foi embaraçoso ouvir falar disso na Televisão Espanhola e na Rádio Nacional. Era o ano 74. Ainda governava o velho. E tinham as pessoas enganadas sobre o que se passava em Portugal.”

Sobrino ainda tinha muito que viver: “Quando tudo acalmou, decidi ir ver o José Afonso a Setúbal para lhe dar um abraço. Passei toda a tarde e toda a noite com ele. No dia seguinte foi quando o avião chegou com Cunhal e o músico José Mário Branco, que estavam no exílio. E concordámos em ir lá juntos. Estivemos até a distribuir folhetos nas ruas de Setúbal, até que o aconselharam a não se expor tanto, porque havia ameaças de morte contra ele”, recorda.

 

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No topo da imagem, Soares e Álvaro Cunhal, líder do PCP, no comício de 1 de Maio de 1974. No centro, em primeiro plano, Miguel Sobrino.

“De manhã, fomos ao encontro de Cunhal. E de lá para ver Spinola. Eu ia com o Cunhal. Chegámos à Cova da Moura e ficámos na antecâmara, enquanto eles decidiam sobre o futuro da revolução. De lá fomos para a sede de um movimento democrático… E com quem é que eu me encontro? Galvão! E eu fui apresentado a ele. Era incrível, porque ia encontrando todos os protagonistas, um após o outro”, recorda o então entusiástico jovem revolucionário.

Sobrino esteve também na chegada de Mário Soares. Ele próprio aparece numa foto na revista Paris Match com o líder do Partido Socialista ou noutra que abre caminho para Soares e Cunhal: “Eles apanharam-me nessa e noutras fotos das agências internacionais, porque eu estava lá; eu tive a sorte de viver a Revolução dos Cravos na linha de frente, como uma pessoa inconsciente”, brinca ele.

 

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O líder socialista Mário Soares é aclamado pela multidão em Abril de 1974, aquando do seu regresso do exílio em Paris. Do outro lado do carro, Miguel Sobrino (com barba).

O 1º de Maio foi a grande explosão de liberdade no país: “Foi o primeiro acto oficial após anos de ditadura e foi um dia emocionante”. Sobrino ficou sem dinheiro dias depois e não tinha bilhete de ida e volta. Foi à Embaixada de Espanha em Lisboa e pediu para ser repatriado: “Eu estava lá a dissimular: ‘Estava de passagem por aqui como turista e encontrei isto’. Um dos funcionários teve pena de mim e emprestou-me o dinheiro para comprar um bilhete de regresso”. O homem que mais tarde se tornou professor na Universidade Complutense, agora reformado, lembra-se que foi recebido de volta a Madrid quase como um herói. Todos queriam saber o seu relato dos acontecimentos. “Para nós foi um caminho a seguir. Havia que ver como era Portugal antes do dia 25 de Abril. Qualquer jovem tinha de passar cinco anos de serviço militar. E estar ao serviço das multinacionais matando negros em África”.

Hoje, quando olha para trás, lamenta que a Revolução dos Cravos tenha evoluído para o conservadorismo: “As pessoas esperavam muito, mas aquela revolução foi redireccionada”. Mas reconhece que foi “uma ruptura, não uma transição como a que houve em Espanha, onde, no final, estão os mesmos”. E Sobrino ri, emociona-se e disfruta quando se lembra desses dias revolucionários há quarenta anos atrás. Os dias em que o rapaz da Revolução dos Cravos foi testemunha em primeira mão de um momento que mudou a história. Desses acontecimentos únicos em que parece impossível ficar em casa.

 

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/04/29/eu-fui-um-capitao-de-abril-testemunho-de-miguel-sobrino-por-suso-iglesias/

O revivalismo militar e o 25 de Abril

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Car@s associad@s 
Permitam-me que comece por felicitar o meu Amigo, camarada de armas e do 25 de Abril, nosso consócio e prestigiado escritor, o Carlos Matos Gomes, por mais uma intervenção cívica, com tiro na "mouche".  
Um graaaaanndeeeee abraço de amizade e de consideração, de Abril! 
Pessoalmente, não sou frequentador das redes sociais- apesar da necessidade de conhecer bem o inimigo, ainda não consegui vencer o meu pouco jeito para navegar nessas águas -, apenas me vão chegando alguns textos aí publicados.  
Alguns, como é o caso dos que vais escrevendo, dão-me força e ânimo para fazer frente aos energúmenos que teimam em tudo falsear, ferozes adeptos das "fake news" que começaram a ser a arma dos sem vergonha que, por esse mundo fora, até têm conseguido enganar os eleitores, ascendendo ao poder nos respectivos países. (Ainda hoje lembro a minha reacção, ao ler a resposta que uma pseudo candidata à presidência dos EUA deu a quem lhe demonstrava que as suas afirmações sobre um "acontecimento" eram falsas, que nada acontecera como ela afirmara, "pois, não aconteceu  mas,... podia ter acontecido!": Só com um pano encharcado na cara!, foi então a minha reacção, utilizando uma expressão que ouvira várias vezes, em criança). 
Felizmente, e também naturalmente, que a sua mediocridade está a pôr à prova a sua incompetência, a sua incapacidade, em agir em situações mais difíceis e complicadas, como a que vivemos. Confiemos que tudo isso tenha as normais consequências e nem o uso indiscriminado de "fake news" lhes valha! 
Por cá, alguns militares portugueses consideraram ser altura de tornar público o seu apoio  aos que já ousam proclamar que é necessário um novo regime - um regime que meteria imediatamente atrás das grades, com torturas e outros maus tratos, quem ousasse ter afirmações desse género.  
Até poderiam ter arranjado como porta voz alguém que se pudesse orgulhar pelo seu passado, enquanto militar! Coitados, não devem ter ninguém nessas condições, vêem-se obrigados a recorrer a desclassificados, por isso a sua audiência é tão escassa, nomeadamente no meio militar! 
Isso, dando-nos algum conforto, reforça a nossa convicção de que não será por aí que conseguirão fazer "um 24 de Abril"!  
Porquê? Porque para o fazerem teriam de ter a capacidade, a determinação e, acima de tudo, a coragem que a nossa geração teve, para realizar a melhor e mais conseguida operação militar que alguma vez as Forças Armadas Portuguesas inscreveram na sua História! 
Acreditamos que, apesar das inqualificáveis posições políticas que o poder tem tido para com as Forças Armadas, apesar da grande descaracterização e diminuição de capacidades que isso provocou, as nossas Forças Armadas se não deixarão iludir pelos cantos das sereias e arrastar para aventuras perseguidoras de novos 28 de Maio! 
Mas, que é necessário estar alerta, é! 
Eles, Não passarão!  
Cordiais saudações e abraços de Abril 
Vasco Lourenço 
 
 Coronel-Carlos-Matos-Gomer

O 25 de Abril e os revivalistas militares 

Dos que mordem a mão de quem lhes abriu a porta 

Muito raramente escrevo sobre assuntos militares. Evito fazê-lo porque estou há anos fora do serviço ativo e desconheço os elementos essenciais que fundamentam as decisões.

 
Escrevo desta vez porque me choca a violação do princípio do respeito pelo passado entre gerações de militares, e mistificação da História que mais uma vez e a propósito das comemorações do 25 de Abril li nas redes sociais, em textos da autoria de militares retirados do serviço, mas de uma geração que cumpriu a sua carreira já depois do fim da guerra colonial e do 25 de Abril. 

A questão não é, nem era a manifestação de opinião, se em estado de emergência o Estado devia organizar uma cerimónia, nem em que moldes, direito legítimo, nem sequer a análise mais ou menos crítica do que a sociedade portuguesa e o Estado conseguiram nestes quarenta e seis anos, outro direito essencial, o que me chocou e choca foi, é, e tem sido (porque a atitude é recorrente e agrava-se, como os ataques de asma na Primavera) que o direito de critica e análise seja ardilosamente utilizado para minar os fundamentos do Estado democrático de direito e das instituições resultantes do 25 de Abril de 74, para ofender a honra de camaradas, tanto os que estiveram envolvidos no golpe de estado, como no processo político e até para com os que, ao longo dos anos, têm assumido funções de responsabilidade na política e nas chefias militares e a adulteração da História, que não tendo uma verdade assenta em factos. 

Por esta ocasião da Primavera repetem-se e intensificam-se os argumentos clássicos desses militares, reunidos num grupo ainda de aparência inorgânica que, na essência, remetem para a velha questão do tempo de oiro perdido, os bons velhos tempos (que eles não conheceram e, pelo que se lê, não estudaram, apenas vendem à comissão): antigamente havia ordem e respeito, as forças armadas e de segurança eram um motivo de orgulho e hoje não há ordem e as forças armadas e de segurança são ofendidas e desrespeitadas; antigamente os chefes, políticos e militares, eram pessoas de respeito, respeitáveis, patriotas, competentes, e hoje os militares são uns vendidos políticos e os políticos uns corruptos que arrastam Portugal pelas ruas da amargura. Por fim e como pedra de fecho, Portugal era grande e grandioso (Portugal não é um país pequeno! — com mapa de Henrique Galvão), uma Pátria que merecia o respeito do Mundo e as Forças Armadas portuguesas um corpo militar admirado pelos seus pares. Enfim, a glorificação da política colonial e de guerra do regime chefiado, primeiro por Salazar, e depois por Marcelo Caetano. Em resumo, o 25 de Abril, o ato e o regime que dele resultou, destruíram três realidades: Ordem, Glória e Colónias! Não sendo possível reconstituir o domínio colonial, a luta destes novos patriotas militares parece ser pela imposição de um Estado de Ordem, Securitário e chorar pela Glória perdida. Uma estratégia de manipulação de opinião com claros objetivos políticos . Não há nenhuma inocência nestas “opiniões”. 

Sendo um solitário, mais próximo dos lobos que das ovelhas, reconheço a lógica dos pastores dos rebanhos. 

Este discurso da antiga grandeza imperial perdida é um argumento recorrente nos restauracionistas, eles surgem no presente com solução para tudo o que os seus antecessores não conseguiram. Estivessem eles nas Forças Armadas nas décadas de 60 e 70 e outro galo teria cantado! É um recorrente azar histórico: nunca são os donos da verdade a posteriori que estão nos lugares e nos tempos certos do presente da História! 

Este discurso demagógico remete para um Portugal que nunca existiu. Alguns exemplos, o Ultimato Inglês foi uma demonstração de dissonância entre a política e os meios. As chamadas “campanhas de pacificação” após a Conferência de Berlim foram mais uma revelação de fraqueza. A campanha em Moçambique é desastrosa. As campanhas no Sul de Angola no final do século XIX, início do século XX, são reveladoras da mais chocante incapacidade. A participação de Portugal na Grande Guerra, numa apreciação que inclui políticos e militares nas três frentes, Angola, Moçambique e Flandres não é motivo para orgulho de ninguém. 

A abordagem pelo Estado Novo, o que inclui Salazar e o alto comando das Forças Armadas, da questão colonial do pós-Segunda Guerra e do Movimento Descolonizador é um conjunto de tropeções de um bando de perdidos num mundo que não entendem, de um passado de que não sabem tirar lições e, fundamentalmente, de incompetência sobre um assunto elementar em política e na estratégia: avaliar uma situação conjugando o “ambiente operacional” (no caso a situação internacional) os meios de que dispõe e os objetivos que pretende atingir. Só o sacrifício da geração que esteve no 25 de Abril permitiu prolongar a guerra e iludir o facto de os políticos da época não saberem o que fazer dela nem com ela, continuar, aliarem-se aos sul-africanos, ou negociarem com os independentistas. 

Essa geração, que é a minha, cumpriu e bateu-se como poucas ao longo da nossa História até para além dos limites razoáveis, por vezes em situações de vexame, como na Índia, ou de desprezo por parte de aliados, os EUA e a Inglaterra, que até impediram a utilização dos meios da NATO em África, aviões F 86, navios, viaturas (GMC) rádios, p.ex. A guerra irá terminar com os limitados (mas foi o que se conseguiu) caças bombardeiros portugueses Fiat G91 a serem abatidos por mísseis Strela das guerrilhas, porque os “aliados” colocavam sérias dificuldades em venderem outros mais modernos, com as forças portuguesas acusados internacionalmente de crimes de guerra e de genocídios, como os de Wiriamu! Com a população metropolitana ativa a fugir da guerra e da política do Estado Novo, centenas de milhares de emigrantes legais e clandestinos, uma parcela brutal do orçamento atribuído a despesas de guerra, 250 mil homens na idade produtiva nas Forças Armadas, proibição de os portugueses decidirem o seu futuro e, sequer, de o discutir! 

Em 1974 as forças armadas portuguesas apenas participavam em exercícios na NATO através da Armada (onde sofriam vexames da parte dos seus aliados, nomeadamente nórdicos — noruegueses e holandeses), viviam num limbo internacional de que as participações mais ou menos encobertas de apoio aos mercenários do Congo e do Biafra não acrescentavam prestígio. Forças tão desprestigiadas e tão mal equipadas que em 1961 não conseguiram recuperar um navio mercante português, o «Santa Maria», em águas internacionais! Que em 1972/73 os seus aliados mais próximos por razões de sobrevivência, a África do Sul do apartheid e a Rodésia da independência unilateral, faziam relatórios arrasadores sobre o espírito combativo, sobre a estrutura de comando das forças portuguesas em Moçambique e Angola. Entretanto a Marinha Inglesa realizava um bloqueio ao porto da Beira! (Beira Patrol) — e Portugal era formalmente aliado de Inglaterra! 

Foi a este “Estado a que isto chegou”, nas palavras de Salgueiro Maia, que uma parte dos militares, a dos melhores, desde logo pela razão elementar de terem ganho consciência da irracionalidade criminosa de uma política de guerra sem objetivo, nem fim, nem meios, uma guerra de queimar portugueses sem sentido, deu o devido e patriótico fim a 25 de Abril de 1974. O qual não devia, segundo esta franja de militares, ser comemorado! Li que a presença dos chefes de estado-maior não “dignificava as Forças Armadas”, que as envergonhava! 

Foi o 25 de Abril que retirou Portugal do grupo dos estados-pária onde se encontrava. Que permitiu restabelecer ligações sem “vergonha” com aliados europeus e americanos, mas também com países do Terceiro Mundo, com o mundo árabe (o Egito, em particular), a África (OUA), a Ásia (China e Índia, em particular), a URSS e os seus aliados. Que abriu a porta a alguns desses militares hoje tão críticos do regime democrático e tão empenhados no ataque aos seus fundamentos para terem a oportunidade de participar em missões internacionais que, sem valorização de mérito político, os levaram à antiga Jugoslávia e ao Líbano, a Timor, a Angola, Moçambique, Guiné, Marrocos (Sara), na República Centro Africana, Bolívia, Afeganistão, entre os outros espaços de conflito internacional, em missões para as quais, durante a ditadura e a guerra colonial, os militares portugueses jamais haviam merecido serem considerados elegíveis para participarem! 

Não há para estes “neo epopeicos” frustrados um ministro do regime do Estado de Direito que não seja ou tenha sido um biltre, a maioria dos generais são uns vendido. Os militar com responsabilidades no 25 de Abril são cobardes, ou traidores! Para eles, os virtuosos, a virtude do Estado e das Forças Armadas morreu a 25 de Abril de 1974! Entretanto veneram alguns “heróis do absurdo”, incapazes de perceber a razão dos seus atos. É este o discurso sublimar deste grupo de revivalistas, manipuladores da opinião. 

Na realidade e é histórico, foi o 25 de Abril que dignificou a condição dos militares portugueses. O 25 de Abril foi obra de soldados, recorrendo a Mouzinho de Albuquerque. E foi o 25 de Abril, com os seus militares e políticos, com os seus defeitos e qualidades que colocou Portugal no concerto das nações respeitáveis. 

O discurso primariamente patrioteiro — primário porque rejeita o conhecimento resultante do estudo, da investigação, da análise e patrioteiro, um termo de Eça de Queiroz, porque se refere a um conceito adulterado de pátria, tenta confundir eventuais erros de conduta, de avaliação, cometidos durante o período pós-25 de Abril de 74 e até hoje, ou de confronto de modelos de sociedade, com o erro fundamental assente na incapacidade de um regime ditatorial não só de ler a realidade, mas de ir contra ela e contra direitos fundamentais. É um discurso que pretende confundir erro, escolha, com a essência do Mal! 

São estes militares que surgem associados de forma mais ou menos insidiosa aos que proclamam que o 25 de Abril não devia ser comemorado, porque o 25 de Abril não devia ter ocorrido, que o Estado Português, através dos seus órgãos de soberania, incluindo os chefes militares, não devia estar na Assembleia da República a 25 de Abril porque há uma epidemia! Que, por redução ao absurdo, defendem a única alternativa ao 25 de Abril que seria a continuação da política colonial e de uma ditadura — não há alternativa, não era possível um Portugal colonial integrado em qualquer espaço da comunidade internacional -, que Portugal devia continuar a sofrer mortos e a espalhá-los por África, desde que fosse na guerra, a ter mortos espalhados pelos países de emigração, sem despedidas possíveis, que Portugal devia continuar a ter milhares de portugueses confinados pelo mundo, por serem emigrantes ilegais, ou desertores e não poderem regressar para verem pais ou filhos.

 

Carlos Matos Gomes

Vídeo evoca Abril em Cascais com Carreiras sozinho e de máscara na varanda dos Paços do Concelho

(Comentário:
Se quis assinalar o 25 de abril, fez bem.
E o resto fica sem comentários...)
Por Redação
26 abril 2020
A Câmara Municipal de Cascais evocou este sábado, à tarde, os 46 anos do 25 de abril com o presidente do executivo, Carlos Carreiras, sozinho e de máscara, à varanda dos Paços do Concelho, numa cerimónia simbólica captada, em vídeo, pelo canal oficial do município e publicado no Youtube.
Na praticamente deserta praça 5 de outubro, a simbólica evocação contou, ainda, com as duas canções, que serviram de senha ao movimento dos capitães: “Grândola, Vila Morena”, de Zeca Afonso, então passada na Rádio Renascença e “E Depois do Adeus”, de Paulo de Carvalho, nos Emissores Associados de Lisboa.
E, nesta celebração diferente, em Cascais, não faltou também o Hino Nacional. Recorda-se que, a pretexto da pandemia Confid19, Carlos Carreiras proibiu no concelho qualquer manifestação pública comemorativa da efeméride – atitude que dividiu opiniões e criou grande polémica.Na sua página pessoal do Facebook, o chefe do executivo afirmou: “Quero deixar BEM CLARO. Em Cascais não vou permitir que haja as normais comemorações do 25 de Abril, do 1º de Maio e do 10 Junho. Ou melhor, quem quiser comemorar comemora em casa. O Presidente da Câmara Municipal de Cascais não é irresponsável para com os seus Munícipes”.  Entretanto, no site oficial do município, Carlos Carreiras deixou uma mensagem aos cascalenses, na qual afirma que “este é o 25 de Abril mais difícil das nossas vidas”, por a liberdade ser celebrada “em confinamento”.
Carreiras acrescentou, ainda, que “a Liberdade não tem tutores” e “a democracia não é mais de uns do que de outros”.
“Abril não tem donos”, sublinhou, rematando que “no dia em que Abril tiver donos, deixará se ser Abril. E no lugar da democracia nascerá outra coisa que só remotamente pode comparar-se ao regime da liberdade”.
E, finalmente, deixou a promessa de que “para o ano, com a guerra vencida e energia redobrada, celebraremos Abril com mais vigor e força”. 
 
Veja aqui o vídeo oficial
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Abril não é neutro

 
No Movimento das Forças Armadas havia revolucionários e golpistas. Os primeiros seriam em maior número do que os segundos. Mas quando Marcello Caetano se rendeu no Carmo nada estava decidido. O golpe foi revolução pelos populares que logo naquele dia afluíram às ruas, pelo mar de gente que inundou o país no 1º de Maio, pelos milhares que levantaram barricadas no 28 de setembro e pelo ativismo incansável pela alfabetização, pela educação, pela saúde e pela educação. Foi essa movimentação cívica e política que forjou a constituição de 76 e que, pese embora os atropelos das revisões constitucionais, permanece até hoje.
Vem isto a propósito daqueles que nesta data gostam de evocar Abril como uma data neutra. Uma data onde uns militares fizeram uma coisa lá pela madrugada e a partir daí o pessoal passou a poder votar e expressar-se livremente. Nesses momentos, convém recordar que as revoluções são descontinuidades, é certo, mas que não se resumem ao dia em que sucedem. Estendem-se num longo processo de disputa que tendem a desembocar num novo momento refundacional. Para o caso português, os termos dessa refundação foram fixados na Constituição de 1976. Vale de pouco discutir quem ganhou e quem perdeu. Mas ganharam por certo aqueles que conseguiram incluir o repúdio desassombrado do fascismo (por oposição a transições ambígua, como o modelo espanhol) e que conseguiram tirar a Educação e a Saúde ao mercado, deles fazendo eixos fundamentais para a democracia que se pretendia construir. E mais: que todo este processo de disputa e participação democrática profundamente livre começou logo a 26 de abril de 74 e não em novembro de 75.

Quem forjou a revolução foi o povo, o verdadeiro sujeito histórico da data que se comemora. A 26 de Abril nada estava decidido. Tivéssemos ficado à mercê do golpismo do Spínola e do Jaime Neves e não seria para aqui que tínhamos caminhado. Não lhes devemos nada.

 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Está no coração do povo .

José Gomes Ferreira – Etc e Tal – Jornal

Está no coração do povo por mais que custe aos dominantes e a certos escribas .

REVOLUÇÃO
Conto de José Gomes Ferreira

 

Manhãzinha cedo, senti acordar-me o sopro da voz ciciada de minha mulher:
– O Fafe telefonou de Cascais, … Lisboa está cercada por tropas  – refilo, rabugento:
– Hã? (…)
Levanto-me preparado para o pesadelo de ouvir tombar pedras sobre cadáveres. Espreito através da janela. Pouca gente na rua. Apressada. Tento sintonizar a estação da Emissora Nacional. Nem um som. Em compensação o telefone vinga-se desesperadamente. Um polvo de pânico desdobra-se pelos fios. A campainha toca cada vez mais forte.
Agora é o Carlos de Oliveira.
– Está lá? Está lá? É você, Carlos? Que se passa?
Responde-me com uma pergunta qualquer do avesso.
Às oito da manhã o Rádio Clube emite um comunicado ainda pouco claro:
– Aqui, Posto de Comando das Forças Armadas. Não queremos derramar a mínima gota de sangue.
De novo o silêncio. Opressivo. De bocejo. Inútil. A olhar para o aparelho.
Custa-me a compreender que se trate de revolução. Falta-lhe o ruído, (onde acontecerá o espectáculo?), o drama, o grito. Que chatice!
A Rosália chama-me, nervosa:
– Outro comunicado na Rádio. Vem, depressa. Corro e ouço:
– Aqui o Movimento das Forças Armadas que resolveu libertar a Nação das forças que há muito a dominavam. Viva Portugal!
Também pede à policia que não resista. Mas Senhor dos Abismos!, trata-se de um golpe contra o fascismo (isto é: salazismo-caetanismo). São dez e meia e não acredito que os «ultras» não se mexam, não contra-ataquem! (…)
A poetisa Maria Amélia Neto telefona-me: «Não resisti e vim para o escritório».
Os revoltosos estão a conferenciar com o ministro do Exército. Na Rádio a canção do Zeca Afonso: Grândola, vila morena … Terra da fraternidade… O povo é quem mais ordena…
Sinto os olhos a desfazerem-se em lágrimas.
De súbito, aliás, a Rádio abre-se em notícias. O Marcelo está preso no Quartel do Carmo. A polícia e a Guarda Republicana renderam-se. O Tomás está cercado noutro quartel qualquer. E, pela primeira vez, aparece o nome do General Spínola. Novo comunicado das Forças Armadas. O Marcelo ter-se-á rendido ao ex-governador da Guiné. (Lembro-me do Salazar: «o poder não pode cair na rua»).
Abro a janela e apetece-me berrar: acabou-se! acabou-se finalmente este tenebroso e ridículo regime de sinistros Conselheiros Acácios de fumo que nos sufocou durante anos e anos de mordaças. Acabou-se. Vai recomeçar tudo.
A Maria Keil telefonou. O Chico está doente e sozinho em casa. Chora. (Nesta revolução as lágrimas são as nossas balas. Mas eu vi, eu vi, eu vi! (…)
Antes de morrer, a televisão mostrou-me um dos mais belos momentos humanos da História deste povo, onde os militares fazem revoluções para lhes restituir a liberdade: a saída dos prisioneiros políticos de Caxias.
Espectáculo de viril doçura cívica em que os presos… alguns torturados durante dias e noites sem fim…. não pronunciaram uma palavra de ódio ou de paixões de vingança.
E o telefone toca, toca, toca… Juntámos as vozes na mesma alegria. (…)
Saio de casa. E uma rapariga que não conheço, que nunca vi na vida, agarra-se a mim aos beijos.
Revolução.

 

in Poeta Militante III – Viagem do Século Vinte em mim, Lisboa, Moraes Editores, 1983
 

 

Via: FOICEBOOK https://bit.ly/2VZ23HC

 

 

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/04/27/esta-no-coracao-do-povo/

O ataque ao 25 de Abril!

Passámos o 25 de Abril sob ‘Estado de Emergência’ que nos privou de muitas das liberdades, direitos e garantias fundamentais, em especial, a da livre circulação. No mecanismo constitucional que levou a esta brutal supressão de direitos, existe uma condicionante essencial que é a da fundamentação, que não foi preenchida de forma aceitável pelo senhor Presidente da República, falha que o parlamento português nada fez para colmatar.

 

 

  1. A ausência de fundamentação

Diz o decreto presidencial que a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou uma pandemia. Mas foram várias as pandemias que foram declaradas este século pela OMS sem que ninguém se lembrasse de declarar o Estado de Emergência. Isto obviamente não serve para fundamentar o que quer que seja.

Diz também o mesmo decreto que foram vários os países europeus que declararam a restrição à liberdade e que portanto Portugal deveria fazer o mesmo. Sendo verdade que a maioria dos países europeus que nos estão mais próximos – mas não todos, nem da mesma forma – tomaram medidas semelhantes, será a mera menção deste facto algo que se possa chamar de ‘fundamentação’?

E se eu fundamentasse o meu desrespeito por normas ambientais com base no facto de que há mais gente a fazê-lo? Seria essa uma fundamentação legítima à luz da Constituição da República Portuguesa que celebramos a 25 de Abril?

Mas pior ainda, o primeiro decreto presidencial que prolonga o ‘Estado de Emergência’ salta para novas pretensas fundamentações, que vão das ‘autoridades de saúde’ terem passado à fase de mitigação (como se chavões ocos como este não necessitassem de explicação), a uma declaração citada fora de contexto da Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, sem qualquer justificação para o malabarismo argumentativo. O segundo decreto resolve saltar ainda para outra fundamentação diversa: ‘Por estas razões e tal como reconhecido pelos cientistas consultados, o Presidente da República considera que a realidade demonstra o acerto da estratégia seguida’.

Mas quais ‘cientistas consultados’? Os charlatães e profissionais do catastrofismo sem qualquer crédito científico diariamente citados na imprensa institucional? Mas que realidade demonstra o acerto da estratégia seguida? A ficção e a fantasia das declarações políticas dos nossos responsáveis?

Só uma opinião pública absolutamente alienada pelo pânico criado pelos responsáveis e ampliado pela comunicação institucional aceita passivamente barbaridades destas.

  1. O novo lápis azul

Para entender o pânico, teremos necessariamente de entender a lógica da desinformação na qual ela assenta. A primeira fase foi a de esconder a realidade, simbolizada pelo famoso tweet do director geral da OMS que, quase um mês depois de alertado por Taiwan, dizia não haver provas da transmissibilidade do vírus de pessoa a pessoa; a segunda fase foi a da criação mitológica do sucesso no combate ao vírus se fazer pela ditadura do ‘Fique em Casa’, exemplificado pelas desumanidades dos Guardas Vermelhos em Wuhan, e a terceira fase, em que nos encontramos, é a da censura a quem divirja do discurso da mentira e do pânico tornados oficiais.

Jean Dominique Michel

Sendo verdade que, numa primeira fase, as tradicionais redes geopolíticas de desinformação como a iraniana, a russa, a chinesa ou mesmo a venezuelana ocuparam o papel principal no lançamento do pânico, isso deixou rapidamente de acontecer, sendo que é a imprensa institucional ou as grandes empresas de redes sociais como o ‘Facebook’ que asseguram a prevalência da desinformação, censurando as opiniões divergentes, nomeadamente as vindas dos mais credenciados cientistas, sob o argumento de não ser conforme às directivas da OMS.

O ‘Impertinente’ – que nos tem dado alguma luz nesta matéria – entrevistou a 13 de Abril o antropólogo genebrês Jean Dominique Michel que há trinta anos se dedica à análise da política de saúde e cujas palavras me parece essencial ler para entender os desafios que enfrentamos.

Os cientistas mais reputados, como o director do Instituto Universitário Hospitalar de Marselha, classificado em primeiro lugar nos rankings internacionais da especialidade, são censurados, insultados e perseguidos pela administração, imprensa institucional ou instituições fáticas por denunciarem a mentira. Mesmo o entrevistado, viu uma petição censurada pelo gigante das petições Avaaz, por pôr em causa a desinformação.

A mentira institucional doméstica a que o antropólogo suíço se dedica procura esconder a razão pela qual este tipo de pandemia, de que tivemos vários precursores este século, mais do que prevista há muitos anos pelos especialistas, apanhou os responsáveis sem preparação na maior parte dos países europeus.

Como não podem explicar porque não há testes, porque não há equipamento protector do pessoal de saúde ou porque não há espaço nos cuidados intensivos, é-lhes mais fácil inchar os malefícios e o inesperado da presente pandemia. Como diz Michel, quase todos os anos, no Inverno, por altura dos picos gripais, há falta de espaço nos cuidados intensivos hospitalares da maior parte dos países europeus, mas como é mais fácil dizer que isto é imprevisto, assim ficamos.

Depois é claro que há também os interesses da indústria farmacêutica apostada em vender a preços astronómicos remédios que não funcionam ou a captar dinheiro para as suas vacinas. Aqui, creio que temos de ter em conta que os negócios se adaptam mais ao que está na moda do que o contrário. De outra forma, ninguém seria capaz de explicar como a indústria petrolífera – apontada sistematicamente como a responsável por todos os males – é uma das grandes vítimas colaterais da presente psicose.

A entrevista é longa e densa, e mesmo duas semanas depois continua a ser de leitura imprescindível, mas creio que é na explicação antropológica ao estabelecimento da ditadura que ela me parece mais notável.

  1. As causas antropológicas da ditadura

Sloterdijk

É neste domínio que a entrevista se revela mais importante. Jean Dominique Michel, na esteira do filósofo alemão Sloterdijk, vê na presente psicose securitária europeia a génese da cópia do modelo totalitário chinês.

Porque esta é uma das verdades que nós procuramos sistematicamente não ver, a ditadura que foi imposta por toda a Europa nos anos trinta – e foram tão ou mais escassos do que agora os países que não aderiram voluntariamente à psicose colectiva – só foi possível pela geração de uma psicose de massas que nos conduziu ao totalitarismo, e isto é particularmente verdade em Portugal. Os resistentes, os dissidentes, existiram, mas foram isso mesmo, uma pequena minoria que só em condições humanas diferentes se tornou maioritária.

As proclamações de vários dos pretensos especialistas que monopolizam a imprensa institucional que nos anunciam que nada será como antes, porque acabou a socialização, acabou a privacidade, acabou a emancipação, não estão a pensar em epidemiologia, estão a contar com o mais que provável permanecer da sombra da pandemia para moldar o nosso pensamento a um novo normal que é o da ausência de liberdade.

Para quem julga que o 25 de Abril é algo de ritual e passado, creio que é bom que comece a ver os sinais de que é essencial defender a liberdade!


 

 

 
 
 
 
 

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/o-ataque-ao-25-de-abril/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=o-ataque-ao-25-de-abril

Saudação da URAP aos portugueses e aos militares de Abril

25 abril

Portugal e o mundo entraram em 2020 enfrentando o ultramicroscópio vírus COVID-19 que conseguiu suspender a democracia e a economia global. Em 46 anos, é a primeira vez que os portugueses não celebram nas ruas a revolução de Abril.

A URAP saúda todos os portugueses no dia da Revolução dos Cravos, levada a cabo pelos capitães de Abril, que derrubou a ditadura de Marcello Caetano, sucessor de Salazar.

A URAP, em consonância com a Comissão Promotora das Manifestações do 25 de Abril, de que faz parte, apela a que todos cantemos à janela, às 15:00 do dia 25, “Grândola Vila Morena”, de Zeca Afonso, canção que com “E Depois do Adeus”, de Paulo de Carvalho, foram as senhas da revolução libertadora.

Enquanto as tropas comandadas pelo Capitão Salgueiro Maia cercavam o Quartel do Carmo, onde esteve Marcello Caetano até à sua rendição, milhares de portugueses juntaram-se no local empenhando cravos vermelhos numa manifestação de alegria.

Ao fim de 48 anos terminava a ditadura mais longa da Europa Ocidental do século XX.
Mas para isso acontecer foi preciso a luta contínua e abnegada de milhares de mulheres e homens, democratas e antifascistas, que nos campos, nas fábricas e nas cidades dia após dia lutaram pelo fim da ditadura e pela implantação de um Portugal democrático, a quem neste dia a URAP saúda.

Viva o 25 de Abril!
Viva a Liberdade!

Via: Página Inicial – União de Resistentes Antifascistas Portugueses https://bit.ly/2VGuvPD

 

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/04/26/saudacao-da-urap-aos-portugueses-e-aos-militares-de-abril/

Portugal | 25 DE ABRIL CONTRA A INVERNIA

 
 
Manuel Carvalho Da Silva* | Jornal de Notícias | opinião
 
Evoquemos e comemoremos institucionalmente e nas formas que nos for possível "o dia mais puro e limpo" da história do povo português nos últimos séculos.
 
Preparemo-nos para combates prementes. Temos consciência dos desafios difíceis que enfrentamos e sabemos que austeridade é uma palavra maldita: tanto pode significar uma virtude como (em regra) um castigo. Nas últimas semanas proliferam analistas e políticos que clamam por austeridade no que a palavra carrega de doloroso. Outros, inclusive alguns governantes, fogem da palavra de forma hesitante. Anseiam encontrar qualquer coisa parecida que não assuste.
 
Dizem-nos que nenhum governante deseja a austeridade. É uma afirmação tão falsa quanto dizer que qualquer patrão gostava de pagar melhores salários. Quando os governantes executam cortes orçamentais sabem muito bem que diminuem as condições de saúde, a proteção social, as pensões de reforma, a educação e formação, a efetividade da justiça, a capacidade de investimento. Sabem que políticas de desvalorização interna reduzem salários e direitos no trabalho, transferindo riqueza e poder do trabalho para o capital.
 
Trazer à memória dos portugueses os valores e o programa do 25 de Abril, a intervenção criadora e democrática dos trabalhadores e do povo e o percurso feito constitui um exercício político muito útil a todos os que se batem pelas liberdades e pela democracia, pela soberania, pelo desenvolvimento da sociedade. Merece uma saudação pública o presidente da Assembleia da República, que tem lembrado com muita objetividade que a emergência jamais pode suspender a democracia. Se a Assembleia da República está a funcionar, e bem, como admitir a não celebração institucional do 25 de Abril aí no Parlamento?
 
A pandemia que nos está a aprisionar é um acontecimento histórico de condições inéditas. Vão acontecer mudanças, provavelmente profundas, que serão positivas ou negativas, conforme as políticas que formos capazes de executar à escala mundial e, em particular, em cada país.
 
Democratizar é preciso porque o poder financeiro e económico se sobrepõe ao poder político representativo e a justiça também se lhe submete em muitos casos; porque em muitas empresas e serviços a democracia não passa do portão da entrada; porque as desigualdades são gritantes e as ruturas e disfunções das relações entre gerações preocupantes; porque o poder é pouco descentralizado e proliferam assimetrias.
 
A descolonização reivindicada em 1974 foi cumprida e bem geridos pela sociedade os seus duros impactos. Hoje o conceito desperta-nos para o desafio de conquistarmos mais soberania face à União Europeia e perante "os mercados". De conquistar soberania para as pessoas aprisionadas nas precariedades, nos falsos determinismos tecnológicos, na falta de tempo porque o controlo deste bem primordial nos está a ser roubado.
 
A luta pelo desenvolvimento está mais exigente. Há que reorientar a economia. Garantir a produção de bens essenciais de que precisamos e bases para se assegurar os direitos fundamentais das pessoas. Se houver coragem política os cortes orçamentais não serão uma inevitabilidade. Há soluções de monetização da despesa pública, e da própria dívida, que podem evitar o agravamento desta.
 
Travemos a invernia europeia e nacional.
 
*Investigador e professor universitário

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/04/portugal-25-de-abril-contra-invernia.html

Este homem desfilou sozinho em Lisboa...com Portugal às costas

 
 
Um homem desfilou este sábado na Avenida da Liberdade, em Lisboa, com um grande bandeira de Portugal e alguns cravos vermelhos. De fato aprumado, e com PSP na rua, para controlar o trânsito e a afluência de pessoas, o homem cumpriu a tradição de milhares no Dia da Liberdade.
 
25 de Abril de 2020 vai ficar nas páginas da História. O Parlamento teve uma presença mínima de convidados e deputados na sessão solene da efeméride durante a manhã. Muitos, por Portugal fora, responderam ao apelo de Vasco Lourenço, presidente da Associação 25 de Abril, e às 15 horas foram às varandas cantar a "Grândola Vila Morena", senha da revolução imortalizada por Zeca Afonso. A pandemia da Covid-19 explica a diferença face a outros anos.
 
 
 
Pela lente de José Sena Goulão, da Agência Lusa, um homem desfilou às 15 horas numa Avenida da Liberdade deserta, em Lisboa. Sem carros, pessoas e só com a presença de agentes da autoridade. A bandeira gigante de Portugal pinta o quadro de uma avenida vazia, mas que todos os anos se enche de milhares de pessoas para festejar a liberdade e a democracia. Este ano, a pandemia obrigou a que ficasse sem gente e cravos vermelhos.
 
Rita Neves Costa | Jornal de Notícias | Imagens: José Sena Goulão

Palavras certas

«Mesmo num contexto de Estado de Emergência, a Democracia não está suspensa. Todas as semanas temos aqui estado a trabalhar, por mandato do Povo, para aprovar leis e para fiscalizar o Governo»
Ana Catarina Mendes (Partido Socialista)

«Se há momento em que 25 de Abril não pode ser apagado, é este»
Jerónimo de Sousa (Partido Comunista Português)

«É em períodos excepcionais que mais se justifica a invocação de momentos que marcaram a nossa História»
José Luís Ferreira (Partido Ecologista 'Os Verdes')

«O que seria verdadeiramente incompreensível e civicamente vergonhoso era haver todo um país a viver este tempo de sacrifício e de entrega e a Assembleia da República demitir-se de exercer todos os seus poderes numa situação em que eles eram e são mais do que nunca imprescindíveis»
Marcelo Rebelo de Sousa (Presidente da República)

«Abril é que combate a epidemia, não é a epidemia que combate Abril. A pandemia não descontinuou a Constituição nem 'cerra as portas que Abril abriu'»
Moisés Ferreira (Bloco de Esquerda)

«Portugal não tem a democracia suspensa, tem a democracia bem presente, ao demonstrar que ela encerra, em si mesma, mecanismos de funcionamento capazes de responder com eficácia a uma circunstância única e absolutamente excepcional»
Rui Rio(Partido Social Democrata)

(via José Gusmão, com foto roubada ao José Manuel Pureza)

 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Marcelo e o 25 de Abril no Parlamento

O Presidente da República fez ontem, na cerimónia de comemoração dos 46 anos do 25 de Abril de 1974 no parlamento, um grande discurso. Foi um grande discurso, porque foi inteiramente sobre o momento que vivemos, sem fugir a nenhuma das questões que afligem o país: e isso é o melhor da política, quando o pior da política é falar de cor e salteado sobre coisas abstractas sem ligar ao que realmente está a acontecer às pessoas em cada momento. Foi um grande discurso, porque foi um discurso de adesão sem peias à democracia representativa: quando, tantas vezes, tem mostrado a face de um presidencialista para lá da Constituição, deu-se ao exercídio de uma empenhada explicação do papel da Assembleia da República na nossa democracia. Escrevi, no calor do momento, a seguinte mensagem nas redes sociais: "Na cerimónia do 25 de Abril na Assembleia da República, o PR deu o peito às balas, contra a demagogia e pelas instituições da democracia representativa. Eu, que nem sempre concordo com o PR, aqui declaro o meu respeito." Não me arrependo nem um segundo de o ter escrito. O Presidente da República deu uma resposta cabal e inteira aos que, por estes dias, falaram da cerimónia do 25 de Abril no parlamento como «"democracia celebratória" da elite oficial, à margem dos cidadãos», mostrando como sempre volta à superfície, mesmo na "elite intelectual e letrada", mesmo entre o selecto grupo dos constitucionalistas, a pulsão antiparlamentar e o desprezo pela representação (como fizeram aqueles que disseram que "aprovar leis pode ser trabalho, mas uma cerimónia comemorativa não"). Curioso é ter visto quem, na ânsia de atacar o parlamento e a cerimónia, tenha ido buscar o exemplo do Papa Francisco sózinho na Praça de S. Pedro. Queriam dizer que também os deputados deviam seguir o exemplo, assim cometendo dois erros reveladores: primeiro, mostraram não distinguir entre uma teocracia (tecnicamente, como Estado, é isso que o Vaticano é) e uma democracia representiva, onde a diversidade é essencial e se corporiza no parlamento, nunca numa única pessoa; segundo, fazem de conta que valorizam o gesto de Francisco, mas, na realidade não o entenderam: se não o entenderam como acto simbólico, também não podem entender a força simbólica de uma comemoração no parlamento. Quem não entende a carga simbólica de uma cerimónia de Estado não passa de um funcionário do pensamento cinzento. O Presidente da República ainda fez notar que há grandes diferenças entre uma democracia e uma ditadura no modo de lidar com estas situações. Falou, designadamente, na liberdade de informação. Talvez falte a alguns o registo adequado a perceber quão concreta esta questão é para o nosso país. Mas, para todos os que temos memória histórica, é notável a diferença que faz enfrentar um desafio desta dimensão em democracia e não em ditadura. Basta comparar o respeito pelas pessoas com que esta crise tem sido gerida com o absoluto desrespeito com que o governo da ditadura lidou com as vítimas das grandes cheias de 1967 no nosso país. A tentativa de usar a censura para esconder a dimensão da tragédia, que pode ter causado 700 mortes, onde 20 mil casas foram danificadas, prejuízos de mais de 17 milhões de euros a preços atuais, uma desgraça que atingiu os mais pobres, embora não tenha tocado os centros de poder. Enquanto os estudantes, do superior e do secundário, se mobilizavam como voluntários para socorrer a população, o governo de então primou pela inoperância e as forças de segurança foram usadas para perseguir os estudantes em vez de apoiarem as populações. (E Marcelo Rebelo de Sousa foi um dos estudantes que se mobilizaram nesse momento.) É usar a memória e olhar para história, e comparar, para entender a diferença que faz enfrentar os momentos difíceis da vida de um povo em ditadura ou em democracia. E, por isso, faz todo o sentido assinalar solenemente o Dia da Liberdade no parlamento, na instituição da pluralidade democrática, precisamente nestes tempos difíceis e dolorosos de pandemia. Porque tudo o que está a ser feito é mais bem feito também por vivermos em democracia, porque a democracia é algo concreto nas nossas vidas e não um ideal abstrato. (Sugiro duas leituras sobre as cheias de 1967: Cheias de 1967. A tragédia que Salazar quis esconder e Cheias de 1967: A miséria que a natureza esmagou e a ditadura encobriu .) Quero voltar, aqui, a algo que já escrevi noutro sítio, no princípio desta polémica: não acho que sejam fascistas, ou anti-democratas, todos os que estiveram contra, ou tiveram dúvidas, sobre a cerimónia do 25 de Abril na Assembleia da República. Mas creio, isso sim, que foram empurrados por duas motivações erradas: ou estavam mal informados sobre o formato da cerimónia (que sempre esteve muito longe das 700 pessoas que costumavam estar dentro daquela sala em ano normal) ou estavam a alinhar numa interpretação estreita, demasiado funcionalista, do papel do parlamento numa democracia representativa - longe dos regimes onde o parlamento é decorativo. Mas Marcelo Rebelo de Sousa explicou tudo isto muito melhor do que eu (como se pode verificar aqui: Discurso do Presidente da República na Sessão Solene Comemorativa do 46.º aniversário do 25 de Abril). Porfírio Silva, 26 de Abril de 2020

Ver original em "Machina Speculatrix" (aqui)

O outro confinamento

Opinião
Confinamento social, confinamento político: realidades a não confundir
 
No próximo dia 25 de Abril vou quebrar o confinamento social em que me encontro desde 18 de Março para estar presente na Assembleia da República por uma questão de dever, por respeito pela memória de tantas vidas sacrificadas, mas também porque é preciso dizer aos saudosistas do passado que não passarão.
 
Público 25 de Abril de 2020
 
 
O “confinamento social” repentina e inesperadamente passou a marcar o modo do viver quotidiano de grande número de portugueses e consequentemente motivo de notícias, de debates, de diversas análises. O “confinamento social”, ainda que a palavra social definidora da natureza do confinamento seja não poucas vezes suprimida, ocupa tal dimensão que parece ter-se tornado o grande problema do país e o maior dos dramas dos cidadãos.
Não se subestimam as perturbações que a situação provoca a vários níveis na vida, em particular nos idosos há muito confinados pela vida difícil e as políticas de estigmatização da própria velhice. De qualquer modo, convirá não esquecer que não há confinamento em geral, que os seus efeitos são diferenciados conforme a origem social que determina a qualidade das habitações e até a sua ausência, os equipamentos de lazer e de acesso à informação, isto é, a sua ligação à vida e ao mundo.
Para os que nasceram depois do 25 de Abril, para quem a liberdade é tão natural como respirar, a situação de confinamento social é uma grilheta dolorosa, mas qualquer semelhança com o confinamento e isolamento a que foram sujeitos dezenas de milhares de antifascistas presos é um absurdo, quer no plano do quotidiano quer no plano humano, desde logo porque os objectivos policiais eram abalar as convicções dos presos, a sua destruição.
Uso as palavras confinamento e isolamento porque, embora inseparáveis, as suas consequências eram diversas. As prisões eram espaços confinados mas eram-no muito mais o espaço, por vezes minúsculo, em que viviam os presos, além da quase ausência de equipamentos, da privação de acesso à informação e da permanente devassa da vida pessoal e até afectiva.
Dos cerca de onze anos passados nas cadeias do Aljube, Caxias e Peniche, nove desses anos passei-os em Peniche em regime celular de isolamento de mais de vinte horas diárias, num espaço de dois por três metros com uma janelas de vidros foscos, onde obviamente não havia televisão nem telemóvel e não poucas vezes se era privado de livros e jornais, e em que as refeições, momento de encontro dos presos do mesmo piso, decorriam em rigoroso silêncio, e o viver do dia-a-dia, segundo as normas, era a sua sujeição a vigilância constante. A isto, os carcereiros chamavam de regime normal que se se seguia ao período de interrogatórios e isolamento total, forma de tortura complementar das torturas físicas, uma forma de tortura, para muitos presos, a mais brutal e destruidora forma de tortura pelos efeitos no estado psíquico.
Cada preso teve a sua experiência própria e enfrentou essa realidade de modo diferenciado. Os períodos de isolamento total, no meu caso, resumem-se a cinco meses nos “curros” do Aljube, um mês numa cela de Caxias e outro mês numa cela de Peniche, e dez dias no segredo de Caxias. Nenhuma das experiências foi igual. Falar dos meses nos “curros” do Aljube é falar de se estar num buraco de cerca de um metro por dois, sem mobilidade, na obscuridade, sem meios de escrita ou de leitura, sem relógio, sem visitas ou conhecimento do que passa no exterior e de perda da própria noção do escoar do tempo. Não era pouco perturbante o estar-se à espera de se ir para os interrogatórios ou regressar num estado lastimoso para sarar feridas em condições de isolamento.
Quando refiro as três experiências diferentes é porque não havia isolamento em geral. É que estar isolado sem escrita, sem livros, sem visitas, em celas com luz, sobretudo quando se passava pelo segredo de Caxias, as celas transformavam-se quase num paraíso. O segredo era um buraco subterrâneo, sem qualquer réstia de luz, com um minúsculo respirador, sem cama, onde não chegavam sons e as movimentações se faziam às apalpadelas. A sensação era de que se tinha sido enterrado vivo. E no entanto, porque era proibido cantar, era preciso desafiar a prepotência dos carcereiros cantando.
No peso do isolamento não era indiferente a idade e a vida familiar, sobretudo quando se era preso com a companheira e nada se sabia do que se está a passar com o outro. No meu caso, a minha companheira só soube que também estava preso dois meses e meio depois. Vencer o isolamento exigia uma grande mobilização de energias, recriar mentalmente a vida exterior, pensar que lá fora a luta continuava e era preciso mostrar que a firmeza das convicções era superior à violência policial.
O isolamento, as torturas não eram só sofrimento. Eram uma luta para vencer a polícia, uma afirmação de dignidade, de confiança nos ideais. A derrota da polícia igualmente uma fonte de alegria e de bem-estar espiritual.
O 25 de Abril pôs fim a estes tempos negros. No próximo dia 25 de Abril vou quebrar o confinamento social em que me encontro desde 18 de Março para estar presente na Assembleia da República por uma questão de dever, por respeito pela memória de tantas vidas sacrificadas, mas também porque é preciso dizer aos saudosistas do passado que não passarão.

Via: O PARTIDO CENTENÁRIO https://bit.ly/354AO2q

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/04/26/o-outro-confinamento/

Sessão reduzida na AR e Grândola à janela marcam celebrações do 25 de Abril

 
 
A pandemia de Covid-19 deixa ruas vazias nas celebrações do 25 de Abril. Em todo o mundo a doença já matou mais de 193 mil pessoas e infetou quase 2,8 milhões. Em Portugal, registam-se 854 óbitos.
 
Este sábado celebra-se a Revolução de Abril de 1974 sem ações de rua e sem atividades culturais em sala, por causa da Covid-19, mas há dezenas de propostas para festejar em casa e de olhos postos nas janelas digitais.
 
A Associação 25 de Abril apela a que os portugueses não esqueçam a importância da data, que pôs fim à ditadura, e que cantem, às 15h00, "às janelas ou às varandas", a música "Grândola, Vila Morena", de José Afonso, uma das senhas históricas da revolução.
 
Pouco depois, nas várias plataformas digitais do Governo, estrear-se-á o filme "Agora Que Não Podemos Estar Juntos", criado pela Companhia Hotel Europa, a partir de um desafio que o primeiro-ministro fez aos diretores dos teatros nacionais para celebrar a revolução.
Para o filme, a Companhia Hotel Europa convidou artistas do teatro, música e dança a interpretarem testemunhos reais relacionados com a história recente do país.
 
A mais longa celebração deverá ser protagonizada pela atriz Joana Craveiro, do Teatro do Vestido, que fará uma performance teatral de 12 horas nas ruas de Lisboa e em direto para a Internet.
 
Intitulada "E naquele dia saímos para uma cidade lavada e livre", a 'performance' percorrerá alguns dos locais históricos da revolução, e será intercalada com outros momentos culturais com quatro atores e um músico.
 
Para quem está confinado em casa, a Associação Cultural e Recreativa de Tondela (ACERT) pede que se coloquem cravos nas janelas, num tributo a Celeste Caeiro, "uma cidadã comum" que há 46 anos distribuiu aquela flor pelos militares em Lisboa.
 
 
Em Santarém, uma das poucas iniciativas de rua deste dia acontecerá às 12h00 com a colocação de uma coroa de flores junto à Estátua do Capitão de Abril Salgueiro Maia, no Jardim dos Cravos.
 
De tudo o que está marcado para este dia, com transmissão pela Internet, haverá, por exemplo, uma homenagem a José Mário Branco pela sala de espetáculos Musicbox, uma atuação em dupla - à distância - dos músicos Branko e Dino D'Santiago, e o Festival Liv(r)e, com atuações na página d'A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria de nomes como Clã, Galandum Galundaina e Pedro Mestre.
 
A discoteca Lux Frágil, de portas fechadas, preparou um set de música com Rui Vargas, Tiago Miranda, Pedro Ramos e Alcides DjAl, sob o lema "Uma máscara não é uma mordaça, nunca".
 
 
O Museu do Aljube partilhará pequenos vídeos com histórias e memórias relacionadas com a revolução, e o Centro de Teatro da Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto estreará, também no Facebook, o 'web espetáculo de teatro' "Olhar fraterno - Tributo a Zeca Afonso".
 
Destaque ainda para a divulgação de um vídeo musical, no sábado, coordenado pelo Coral de Letras e pela Casa Comum da Universidade do Porto, com a participação de vários cidadãos a cantarem, individualmente, "Grândola, Vila Morena".
 
As autarquias da Marinha Grande e da Amadora transmitirão concertos gravados de Paulo de Carvalho, intérprete de "E depois do adeus", outra das senhas da revolução.
 
A galeria de arte urbana Underdogs assinalará a efeméride com uma ideia colaborativa, de projeção de imagens no espaço público.
 
O primeiro-ministro vai deixar uma mensagem alusiva às comemorações do 46º aniversário do 25 de Abril, pelas 15h30 horas, e "abrirá" aos cidadãos, através da Internet, a residência oficial de São Bento.
 
Antes, pelas 10h00, António Costa estará presente na sessão solene comemorativa do 25 de Abril na Assembleia da República, em que intervirão o presidente do parlamento, Ferro Rodrigues, os representantes dos partidos e que será encerrada com um discurso do chefe de Estado, Marcelo Rebelo de Sousa.
 
Ao contrário do que aconteceu em anos anteriores, desta vez, por causa da pandemia de Covid-19, a residência oficial do primeiro-ministro estará fechada ao público.
 
"O 25 de Abril deve ser celebrado, mesmo este 25 de Abril, tão diferente dos outros", escreveu o primeiro-ministro na sua conta pessoal na rede social Twitter.
 
TSF | Lusa

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/04/sessao-reduzida-na-ar-e-grandola-janela.html

Há 46 anos chegava a Hora da Liberdade

Por Redação
24 abril 2020
Faz este sábado 46 anos que o Estado Novo foi derrubado pelo movimento dos Capitães de abril.
Numa altura em que Portugal ainda vive o estado de emergência, devido ao Covid19 e estando interditas quaisquer manifestações públicas sobre a efeméride, resta-nos a televisão.
A RTP1 dá o pontapé de saída, à meia-noite, com o documentário “No Dia em Que…” Salgueiro Maia saiu à rua. Mostra-nos a operação que esteve na origem da Revolução dos Cravos.
Já 22 minutos depois, pelas 0h22, a RTP Memória recorda “Homens Sem Sono”, programa gravado em 1974, depois da Revolução e em que os membros do Movimento das Forças Armadas, o então brigadeiro Otelo Saraiva de Carvalho, o capitão Vasco Lourenço e o major Vítor Alves, contam a Carlos Cruz o processo de criação do movimento dos capitães.
Capitão Salgueiro Maia que tomou o Terreiro do Paço e, mais tarde, o quartel do Carmo, levando à rendição de Marcelo Caetano
Entretanto, a SIC, pelas 0h00 exibe o primeiro episódio do telefilme “A Hora da Liberdade”.
RTP1, RTP Memória e SIC são, aparentemente, os canais televisivos que neste dia histórico assinalam o 25 de abril de 1974 com séries documentais e telefilmes.
A RTP1, a partir das 10h00 de este sábado transmite em direto a sessão solene comemorativa do 46º aniversário do 25 de abril a partir da Assembleia da República e, mais tarde, pelas 16h30 exibe o filme “Capitães de Abril”, seguindo-se, à noite, a partir das 22h00 o documentário “As Armas e o Povo” e, pelas 23h45, “Retratos de Abril”.
A RTP Memória, por sua vez, transmite pelas 11h00 o 1º episódio de “Mulheres de Abril” e, pelas 15h00, o filme “Cinco Dias, Cinco Noites”, que relata a história de um jovem perseguido pelo regime de Salazar e que procura exílio. "Grândola, Vila Morena", de Zeca Afonso, e "E Depois do Adeus", de Paulo de Carvalho, foram as senhas da Liberdade passadas na madrugada de 25 abril de 1974 na Rádio Renascença e Rádio Clube Português.
 

Ver o original em "CASCAIS24" na seguinte ligação::

https://www.cascais24.pt/p/blog-page_5416.html

O que a pandemia fez adiar...

 
Ele queria estar na nossa festa, pá, com a nossa gente. 
Nós queríamos que ele, pelo tanto que nos liga, estivesse na nossa festa, com a nossa gente.
Não deu, desta. 
Dará noutra.  
A que me refiro? Lembram-se de vos ter dito que um dia daria a notícia? Pois é! A noticia está dada. Não!, a entrega do Prémio Camões -2019 não vai acontecer. 
E não vai acontecer aquilo em nos empenhámos tanto... Falámos com Bandas Filarmónicas, com as suas direcções, com maestros, reunimos pautas, propusemos temas... mas "A Banda" seria tema obrigatório. 
Estava tudo apalavrado. A data? 25 de Abril, pois claro. Só pendente o local/hora.
Não deu, desta.
Dará noutra. 
Amanhã cantarei, à janela, a Grândola
Com o coração inundado de Tanto Mar
 

Ver original em 'Conversa Avinagrada' (aqui)

Portugal | 25 de Abril – o derrube da ditadura, o primeiro dia de liberdade

 
 
46 ANOS - Revolução de 25 de Abril de 1974
Revolução de 25 de Abril, também conhecida como Revolução dos Cravos ou Revolução de Abril,[1] refere-se a um evento da história de Portugal resultante do movimento político e social, ocorrido a 25 de abril de 1974, que depôs o regime ditatorial do Estado Novo,[2] vigente desde 1933,[3] e que iniciou um processo que viria a terminar com a implantação de um regime democrático e com a entrada em vigor da nova Constituição a 25 de abril de 1976, marcada por forte orientação socialista.[4][5][6]
 
Esta ação foi liderada por um movimento militar, o Movimento das Forças Armadas (MFA), composto na sua maior parte por capitães[7] que tinham participado na Guerra Colonial e que tiveram o apoio de oficiais milicianos.[1][8] Este movimento surgiu por volta de 1973, baseando-se inicialmente em reivindicações corporativistas como a luta pelo prestígio das forças armadas,[9] acabando por atingir o regime político em vigor.[10] Com reduzido poderio militar e com uma adesão em massa da população ao movimento, a reação do regime foi praticamente inexistente e infrutífera, registando-se apenas quatro civis mortos e quarenta e cinco feridos em Lisboa, atingidos pelas balas da DGS.[11]
 
O movimento confiou a direção do País à Junta de Salvação Nacional, que assumiu os poderes dos órgãos do Estado.[12] A 15 de maio de 1974, o General António de Spínola foi nomeado Presidente da República. O cargo de primeiro-ministro seria atribuído a Adelino da Palma Carlos.[13] Seguiu-se um período de grande agitação social, política e militar conhecido como o PREC (Processo Revolucionário Em Curso), marcado por manifestações, ocupações, governos provisórios, nacionalizações[14] e confrontos militares que terminaram com o 25 de novembro de 1975.[15][16]
 
Estabilizada a conjuntura política, prosseguiram os trabalhos da Assembleia Constituinte para a nova constituição democrática, que entrou em vigor no dia 25 de abril de 1976, o mesmo dia das primeiras eleições legislativas da nova República. Na sequência destes eventos foi instituído em Portugal um feriado nacional no dia 25 de abril, denominado como "Dia da Liberdade".
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/04/portugal-25-de-abril-o-derrube-da.html

Portugal | Assim se fez uma revolução... com alguns PIDES em cuecas

A polícia política da ditadura Salazar/Caetano (PIDE/DGS), inspirada na Gestapo de Hitler, também caiu em 25 de Abril de 1974. As instalações da Rua António Maria Cardoso, no Chiado, em Lisboa, foram cercadas pelos militares de Abril e por populares. A primeira reação dos PIDES foi disparar através das janelas do edifício-sede contra portugueses que se encontravam a alguma distância mas ao alcance do poder de fogo das armas que possuíam. 
 
Para além dos assassinatos cometidos durante a ditadura pela PIDE, ainda mais seis cidadãos portugueses foram ali assassinados naquele dia por energumenos agentes daquela polícia repressora que apesar de cercada, a saber que o regime fascista havia caído, não tiveram o discernimento de se renderem aos militares de Abril, preferindo derramarem mais sangue de patriotas que simplesmente ali se deslocaram a exigirem a sua prisão e apuramento das responsabilidades dos seus crimes.
 
Pelas traseiras do edifício sede da PIDE alguns elementos conseguiram fugir. Outros foram intercetados, Na revolução esses passaram a ser identificados por PIDES EM CUECAS - revistados para ser segura a convicção de que não possuíam armamento. 
 
 
 
A complacência errónea dos militares da revolução para com os carrascos da PIDE,  torturadores e assassinos de tantos portugueses, permitiu que muitos deles escapassem sem julgamento. Alguns foram detidos mas a maioria conseguiu fugir para a vizinha Espanha, Brasil e outros países. Nem mesmo os assassinos do general Humberto Delgado sofreram os efeitos justos pelo crime de que foram protagonistas. Afinal, como muito ainda assim consideram, foi uma revolução de cravos e de bananas.
 
Também os autores dos disparos mortais sobre as derradeiras vítimas da PIDE, na António Maria Cardoso (atrás citado) foram esquecidos, com total ausência de empenho em os identificarem. Até hoje.
 
A esses, aos seis portugueses que foram ali assassinados, o esquecimento contempla a impunidade assinalada numa placa alusiva numa das paredes do local em que seus corpos caíram baleados, sem vida. Essa mesma placa foi posteriormente roubada e desaparecida nas poeiras da luta contra a repressão daqueles algozes da ditadura salazar/caetano. Da luta contra o fascismo.
 
Foi implementada, logo em Abril de 1974, a teoria dos bons e dos maus PIDE's (Polícia Internacional e Defesa do Estado), para passado poucos meses todos eles se transformarem em boas pessoas, imensos escriturários "inocentes" ou "inocentes" agentes de fronteiras... A impunidade floresceu e nem a história bem elaborada sobre a hedionda PIDE foi passada às gerações do pós-25 de Abril de 1974. O branqueamento de um dos mais longos períodos  de crimes do estado fascista continua a vigorar.
 
E assim aconteceu uma revolução florida, dos cravos.
 
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/04/portugal-assim-se-fez-uma-revolucao-com.html

A coragem venceu o medo

Futuro Museu da Resistência em Peniche atinge 50 mil visitantes em três meses

 

Havia um tempo em que o medo chegava a todo o lado, chegava aos ossos e à própria alma.

O medo tinha medo de si próprio. Quando raptava os que o enfrentavam fazia-o de noite para que se não visse a ignomínia.

O ofício do medo era infiltrar-se, entrar nas células, fazer os cidadãos vergarem-se e tomar as rédeas do destino.

Ao pé do mar, em Caxias, o forte prisão esmagava os que não tinham medo do império do medo.

A Norte de Lisboa, em Peniche, a tocar no mar, outro forte, e a dor a esbarrar no mar imenso. Detrás das grades a força das vontades indomáveis.

A ideia maligna da ditadura de enclausurar os presos frente ao mar. Sem saída. A solidão frente ao mar. E, no entanto, a esperança sempre.

O medo entranhou-se quase cinco décadas nos poros para sufocar a alma de cada um.

Medo até de dizer o que se tinha para dizer aos familiares e amigos. A palavra livre não estava autorizada, só a domesticada podia correr no ar.

O medo existia para impedir o enfrentamento com a poderosa máquina de maldade e para poder continuar a dilacerar as vontades e a todos enfiar no carreiro…

O medo, porém, tinha um mal de nascença – a coragem de quem desfraldava a esperança quotidiana.

Como foi possível esperar sem desistir e porfiar pelo tempo novo?

O medo chegava aos ossos, à alma, mas não era bastante. O medo tinha medos – para conjurar o medo da juventude despejou nas Faculdades gorilas para impor o terror.

Levou a guerra aos que muito longe não tinham já medo e impôs aos jovens de cá irem combater e servir de carne para canhão.

O medo perseguia, prendia, torturava e assassinava, tal era o desvario.

Não impediu, contudo, que no regaço do tempo nascesse fecundado pela coragem outo tempo.

Havia de vir o dia feito da longa esperança. Chegaria? Havia de chegar. Como seria? Quando? Seria uma revolta geral? Uma revolução? Como seria esse tão esperado dia? Será que seria? Seria. O tempo que prendera o tempo havia de escoar-se, secar e morrer.

Foi de madrugada que veio o dia e o novo tempo, em Lisboa. Depois correu louco o país inteiro. Abriram-se as janelas e depois as ruas. A alegria ressoou nos corações da amada pátria. Vestiu-se de olhares festivos e deslumbrantes. Foi há 46 anos, a madrugada mais longamente esperada. E o dia 25 de abril foi tudo.

 

https://www.publico.pt/2020/04/25/politica/opiniao/coragem-venceu-medo-25-abril-1913424

 

Ver original em ' O Chocalho' na seguinte ligação:

https://ochocalho.com/2020/04/25/a-coragem-venceu-o-medo/

Legado de Abril

46 anos depois

por César Príncipe

Milhões intervieram na Libertação de Portugal e do Império. Milhões foram obreiros de um Grande Abril Objectivo e interlocutores de um Imenso Abril Subjectivo. O Objectivo materializado nas transformações legislativas e institucionais, na estatização e cooperativização dos meios agro-económico-financeiros estruturantes, na dinamização do espírito colectivo e electivo, na alfabetização das praças, no terminus da guerra colonial, na independência dos Territórios Ultramarinos; o Subjectivo na mobilização do potencial crítico e criativo através de recursos ideológicos, simbólicos e comunicacionais (escrita literária, jornalística e agitpropagandística, canto, pendões, artes cénicas e murais, cartazismo, autocolantes, caartonismo). Abril fabricou durante ano e meio de produção acelerada um Imaginário Portuguese Dream. A Inteligência e a Estética Progressistas ilustraram a Revolução dos Cravos, adicionando o seu contributo a um dos momentos cimeiros, porventura ao maior definidor nacional: 1139, 1383, 1640, 1820, 1910, 1974.

Esse Abril foi há 46 anos e já não está na flor da juventude e muito há que cumprir e fazer recumprir de geração em geração, tal foi a exigência do Projecto Emancipador e Fraternizador e tantas foram as adversidades da Obra dos Capitães e do Povo Unido. Empresa cívico-militar inacabada por desavenças no seu seio e insuficiência de aliados face aos dispositivos da conjura interna e externa. Gorada ou enga(vetada) a Via Original para o Socialismo , consolidou-se o modelo liberal burguês, oficializou-se o Trespasse da Soberania e ganhou foros de modernidade o Empreendedorismo das Influências e o Contrato Anti-Social. Da parte das alas vencidas e não convencidas, mil vezes se tem juramentado: 25 de Abril Sempre. É um clamor do Fundo da História, o Mito de Eterno Retorno da Vila Morena. E assim se tem recobrado determi(nação) e representificado os Valores das Espingardas e Mãos Floridas. E assim foi avultando o contraste entre os 25: o 25 de Abril de 1974 e o 25 de Novembro de 1975. Um chamou as arraias ao protagonismo. Outro impôs a menorização das plebes. Bastará folhear a CRP: o Golpe Carlucciano congelou uma Parte Nuclear da Constituição, códice humanista sem paralelo na Europa Ocidental do séc. XX. Com óbvia desconfiança do futuro, os constituintes (uns por convicção, outros por mimética circunstancial) acharam prudente salvaguardar as Conquistas Irreversíveis, como se um sistema devoracionista respeitasse profissões de fé proletária e adquiridos civilizacionais. De resto, cindir o Movimento das Forças Armadas e o Movimento Social de Base foi meta ensaiada desde os alvores de Abril por figurantes e organizações personalistas e golpistas (direitistas, reformistas, ultra-esquerdistas).

Na verdade, se o Programa do MFA assentou em Três DDD (Democracia, Desenvolvimento, Descolonização), formulário que obteve inicial e pactuado consenso, o perfil do processo foi oscilando entre Três III (Ideais, Ideias, Interesses). Passado um curto período de adulação do vozear dos desfavorecidos, os ideais de diversas formações foram sendo reduzidos a vagas ideias e as ideias submetidas a tortuosos interesses e estes geridos pelos Terratenientes e Capitães da Indústria e da Finança e seus mediadores partidários, parlamentares e governamentais. Não foi por acaso que, na primeira revisão constitucional, o Arco dos Negócios disse ao que vinha: privilegiou a matéria económica como prioridade das prioridades. A partir daí, este comando constitucional inverteu o alinhamento: os Três Motores do Desenvolvimento (Economia Pública, Cooperativa e Privada) ficaram sob o Primado da Ordem Privada. O Grande Patronato Tradicional, que pragmática ou intimamente fez do Regime Fascista a sua Casa de Pasto e a sua Apólice de Contenção do Mundo do Trabalho e o Grande Patronato Emergente, que gradativamente capturou o regime novembrista, depressa tomaram lugar nas Campanhas das Privatizações, dos Fundos Europeus e das Novas Oportunidades.

Apesar de tudo, o 25 de Abril de regulação constitucional adaptou as trincheiras, acorrendo às emergências económicas, políticas, sociais e culturais, reeditando e reinventando as consignas das marchas da memória, o animus dos cadernos denunciativos e alternativos. No decurso de 46 anos, as tropas especiais de Abril não deixaram de exercer a cidadania no quotidiano, nos espaços de representação, nas concentrações ninguém arreda-pé, no rechaço dos superpredadores e dos seus empre(gados) de banqueteamento e branqueamento. O Corpo Indefectível da Revolução tem igualmente retardado e limitado o contágio neofascista que campeia por Europas e Américas. A Vacina 25 A tem-se revelado a nossa cerca sanitária.

25 de Abril Sempre

Afinal, que saudades guardar da Ditadura? Afinal, o que derrotámos em 25 de Abril de 1974? A Opressão, a Repressão, a Censura, a Exploração, o Subdesenvolvimento, a ausência de Rede de Águas e Esgotos no mundo rural e em áreas urbanas degradadas, o Semi-Analfabetismo, a Subnutrição Crónica, a Desassistência na Saúde e na Previdência, o Abandono da Terceira Idade, a Tragédia Agónica do Ultramar, o Drama da Emigração a Salto e o Orgulhosamente sós no Concerto das Nações. E quantos presos políticos somou a branda tirania ou autodenominado Estado Novo Salazarensis-Caetanensis? Dezenas de milhares no Continente e nos Arquipélagos dos Açores e da Madeira. Tal número não inclui detidos e abatidos nas Colónias. Os nomes e os números dos independentistas (guerrilheiros, simpatizantes ou próximos) não mereceram inumação nos Tombos do Portugal Multirracial. E na verdade, em termos de ausência de direitos, liberdades e garantias, todos os povos penavam em múltiplos degredos, fossem ou não cientes dos motivos da sua condição, da sua sujeição. O País de S & de C foi um exemplo de penitenciária global: os muros estendiam-se do Minho a Timor. E quantas sevícias e quantos assassinatos em cárceres, colónias penais e ou campos da morte lenta, à queima-roupa ou nas três frentes africanas? Só do lado português ou metropolitano, mais de 11.000 caídos. E do lado dos angolanos, moçambicanos, guineenses? Não se cuidou de estatísticas. Eram pretos. E quantos refugiados espanhóis foram acossados como reses e entregues ao paredón franquista? E quantos portugueses sofreram a infâmia, o desterro e o exílio? E quantos os exonerados da função pública e os expurgados pela esfera privada colaboracionista?

46 Abris são uma bela e robusta prova de vida.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/c_principe/abril_46.html

Portugal | Deputados: Minoria (11) do 24 de Abril contra o 25 de Abril no parlamento*

 
 
ENTREVISTA
 
Ferro Rodrigues: “Os mesmos que atacaram a cerimónia” do 25 de Abril vão dizer que “foi um fracasso porque estava pouca gente”
 
O presidente da Assembleia da República revela, em entrevista ao PÚBLICO, que o modelo das comemorações dos 46 anos do 25 de Abril lhe foi proposto pelo PSD.
 
Desvalorizando a polémica sobre o modelo das celebrações oficiais, na Assembleia da República (AR), dos 46 anos do 25 de Abril, Eduardo Ferro Rodrigues defende que “faria muito pouco sentido a AR estar ao serviço do país para votar três estados de emergência e, depois, fechar no dia 25 de Abril”. A cerimónia, preparada com a colaboração da Direcção-Geral da Saúde, respeitará o distanciamento social, mas não obrigará ninguém a usar luvas ou máscaras. Contará com menos de cem pessoas.
 
O presidente da Assembleia da República alerta ainda para os riscos, a nível “global e europeu”, para as democracias que podem resultar da crise económica e social pós-pandemia. Isto porque “as posições políticas de extrema-direita, jogando no medo e no combate às instituições democráticas, têm um largo campo de acção”.
 
Disse, no sábado, que “mais do que em qualquer outro momento o 25 de Abril tem de ser e vai ser celebrado na Assembleia da República”. A democracia portuguesa não está suspensa, logo o seu órgão vital, a AR, não entrou de quarentena. É isto que queria dizer?
É exactamente isso. Faria muito pouco sentido a AR estar ao serviço do país para votar três estados de emergência e, depois, fechar no dia 25 de Abril. Seria qualquer coisa de incompreensível para toda a gente, penso eu.
 
Defendeu, nessas declarações ao PÚBLICO, que celebrar os 46 anos do 25 de Abril é “a forma de impedir que no futuro a excepção seja glorificada como regra e realidade permanente” e de dizer que da pandemia “não sairá qualquer alternativa antidemocrática”. Existe este risco?
Não é um risco português, é um risco global e europeu, porque da pandemia já está a resultar uma crise económica. Se a crise económica não for travada e se transformar numa crise social, será uma crise social muito ampla e muito grave. E nós sabemos que, nessas circunstâncias, as posições políticas de extrema-direita, jogando no medo e no combate às instituições democráticas, têm um largo campo de acção. Portanto, é necessário demonstrar que a democracia está viva e que o Parlamento está, como o Presidente da República e como o Governo, em funções.
 
Não teme que a cerimónia do 25 de Abril, e a polémica que gerou já, seja interpretada como um luxo que os políticos se dão a si mesmos quando impõem às pessoas que fiquem em confinamento e não tenham convivência social?
Acho que isso não tem o menor sentido. Em primeiro lugar, esta cerimónia não é luxo nenhum. Eu apontei para 130 pessoas, vai ter muito menos, possivelmente à volta de cem pessoas no Parlamento.
 
 
Quantas pessoas vão ser afinal?
Há deputados que prescindiram, quer dizer, há grupos parlamentares que prescindiram...
 
O PS e o PSD.
O PS e o PSD. Haverá a possibilidade de haver um número, se calhar, inferior a 50 deputados e à volta de 25 ou 30 convidados. Portanto, está a ver que é um bocado ridículo falar em perigos para a saúde pública ou em luxo. Perigos para a saúde pública foram hoje [terça-feira] demonstrados pela Direcção-Geral da Saúde e pela directora-geral da Saúde que não existiam, depois de uma reunião que decorreu.
 
Também porque no hemiciclo é possível deixar os deputados e os convidados com distâncias de dois, três metros entre si ou mais.
Aliás, o grande problema vai ser preencher, de forma digna, esta AR, que é muito grande, como sabe, tem várias galerias e vários andares. Vai ser demonstrável facilmente, pela televisão, que todos aqueles que evocaram perigos para a saúde pública para a não realização desta cerimónia estavam equivocados ou estavam a querer manipular esta situação.
 
Mas porque não optou por manter o quórum de um quinto dos deputados com que o Parlamento está a funcionar, até por decisão sua, há mais de um mês?
Apenas por um motivo: a proposta que levei para votação, na última conferência de líderes, foi uma proposta que me surgiu pela mão do PSD e que eu, na minha posição, achei que era uma proposta que tinha todas as condições para ter um apoio generalizado. E assim foi, foi apoiada por deputados representativos de 95% dos deputados.
 
Quais foram os grupos parlamentares que se opuseram a essa proposta?
Foi apenas o do CDS e o do PAN, numa posição um bocadinho mais ambígua. E os deputados individuais, únicos, do Chega e da Iniciativa Liberal. Portanto, tudo isto junto, são quatro, mais cinco, nove, dez, onze, em 230 é fácil fazer as contas, como dizia o engenheiro Guterres.
 
Como vê o anúncio pelo líder do CDS, Francisco Rodrigues dos Santos, de que não estará presente?
Vejo com pena, porque gostava que ele estivesse presente, mas compreendo. Depois das posições que foram aqui assumidas pelo grupo parlamentar, o CDS-PP corria o risco de ser interpretado como entrando em contradição.
 
Defendeu, no sábado também, um “combate aos que promovem petições com números sem credibilidade nem controlo”, referindo-se a uma petição online para cancelamento das comemorações. Porquê?
Porque é verdade. Qual é o controle? Alguém tem algum controle? Quando é uma petição é entregue na AR, a primeira coisa que os serviços fazem é procurar ver se aquelas assinaturas correspondem a pessoas reais com os números de identificação, se não há repetições e se não são vindas de vários sites fantasmas. Que eu saiba, não entrou nenhuma petição na AR. Portanto, a inexistência de controle é uma realidade. A inexistência de credibilidade... Bom, sem controle não há credibilidade.
 
Se, efectivamente, houver uma guerra de números, são tão credíveis uns como outros, se não houver esses instrumentos de credibilidade e de controle. Julgo que, embora as decisões sobre a agenda da AR sejam tomadas na AR e de forma democrática - por 95% dos deputados foi esta decisão tomada -, há que combater aqueles que querem utilizar a internet de uma determinada maneira com os mesmos meios. Compreendo e agradeço que tenha havido uma petição alternativa. Embora, evidentemente, se chegarem aqui as duas petições, nós teremos de ver exactamente o controle de credibilidade, coisa que me parece um bocado estranha porque chegarão certamente depois do 25 de Abril.
 
Já percebemos que o espaço é amplo e os deputados e convidados vão ficar a metros de distância.
E vai haver uma coisa muito curiosa que vão ser os mesmos que atacaram a cerimónia, depois, dizerem que foi um fracasso porque estava pouca gente. Não é preciso ser mágico para ter esta expectativa.
 
Vai ser obrigatório o uso de máscaras e luvas?
Não. Mas alguma vez foi obrigatório o uso de máscaras aqui na AR? Na reunião com a Direcção-Geral de Saúde não houve nada nesse sentido.
 

*Título PG

Portugal | A POLÉMICA FORÇADA DO 25 DE ABRIL

 
 
Daniel Oliveira * | TSF | opinião
 
O 25 de Abril "não é uma festa, não é uma rave para onde vão fazer uma patuscada" e, sendo "trabalho" e havendo "condições de segurança", deve acontecer. Daniel Oliveira, no habitual espaço de opinião na TSF, considera a polémica "absurda", já que o Parlamento está "há dois meses a funcionar com comissões, deputados e votações em plenário".
 
"A sessão que está a ser preparada não é muito diferente de uma sessão normal do Parlamento" e trata-se de "menos de 130 pessoas num lugar onde há um ano estiveram 700". Daniel Oliveira sublinha que "no plenário vão estar menos pessoas do que estiveram na votação do estado de emergência e as mesmas pessoas que estão uma vez por semana" e nas galerias "poucas dezenas de pessoas espalhados por um espaço que deve ter lugar para mais de 400 pessoas".
 
Como tal, o jornalista acredita que "estão garantidas todas as indicações que DGS recomenda" e, desta forma, "seria estranho que o Parlamento funcionasse todos os dias, que o plenário reunisse uma vez por semana e apenas não o pudesse fazer no dia 25 de Abril, criando uma espécie de regime de exceção para esta data".
 
"Não sei se CDS, que foi quem levantou mais problemas, se sentiu mais seguro quando estava a votar os três estados de emergência do que se vai sentir no sábado, a não ser que o vírus distinga datas ou ordens de trabalho", ironiza.
 
 
Daniel Oliveira pega ainda no "exemplo", tantas vezes referido como argumento nesta polémica, para comparar o Parlamento com o desejado regresso às aulas dos alunos com exames nacionais. "Acho que mau exemplo seria dizer aos miúdos do 11.º e 12.º anos que devem ir para as escolas no dia 4 de maio e que os deputados, com muito mais condições de segurança, não podiam cumprir o seu dever", apontou.
 
O comentador reitera que se trata de um "dever, de trabalho", frisando que "os deputados não estão em lay-off, estão a receber o seu salário por inteiro" e "têm mais condições do que quem está, em geral, a trabalhar".
 
Sobre os populismos, Daniel Oliveira sublinhou que "as instituições não podem andar ao sopro de movimentos populistas ou de pessoas que disseram que devia ser adiado para o 25 de novembro", considerando que "quem faz esta propostas tem razões que provavelmente não são sanitárias".
 
*Texto de Inês André Figueiredo
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/04/portugal-polemica-forcada-do-25-de-abril.html

REVOLUÇÃO DE ABRIL – VALORES ESSENCIAIS À PAZ

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O Povo Português vai, mais uma vez, comemorar e defender os valores democráticos instituídos pela Revolução iniciada a 25 de Abril de 1974, um dos mais importantes acontecimentos da nossa História, semente para as profundas transformações do nosso País, abrindo as portas para os valores da liberdade, da democracia, do desenvolvimento, do progresso social, da soberania e independência nacional, da paz e da cooperação, com importantes repercussões também a nível internacional.

O 25 Abril permitiu acabar com o fascismo e a guerra colonial, responsáveis pela repressão e miséria da grande maioria da população, conquistar liberdades políticas, sociais e sindicais, incluindo os direitos das mulheres, assim como combater e mais tarde eliminar o trabalho infantil e o analfabetismo.

Via:  CPPC – Conselho Português para a Paz e Cooperação https://bit.ly/3avWrdd

 

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/04/23/revolucao-de-abril-valores-essenciais-a-paz/

Portugal | 25 de Abril na Marinha Grande com concerto online de Paulo de Carvalho

 
 
Celebrações vão contar com mensagens de profissionais de saúde e músicas de Zeca Afonso
 
O Município da Marinha Grande vai assinalar o 46.º aniversário do 25 de Abril de 1974 com uma programação musical, na qual se destaca o concerto exclusivo de Paulo de Carvalho, transmitido online.
 
"Este ano, devido à pandemia e à necessidade de distanciamento social, teremos uma celebração do 25 de Abril diferente do habitual na Marinha Grande. No entanto, nunca deixaríamos de celebrar este grande dia", afirmou a presidente da Câmara, Cidália Ferreira.
 
Do programa, que será transmitido em formato digital, haverá mensagens de profissionais de saúde, de lares e das forças de segurança sobre o 25 de Abril, músicas de Zeca Afonso e um concerto exclusivo de Paulo de Carvalho.
 
A celebração começa no dia 24, pelas 22h35, com um espetáculo da Taramela-Música Raiz Popular, com temas alusivos ao músico José Afonso.
 
Seguem-se o concerto exclusivo acompanhado ao piano de Paulo de Carvalho, a interpretação do tema "Grândola", pelo Coro Juvenil do Agrupamento de Escolas da Marinha Grande e convidados, com orientação online de João Pereira, e a interpretação do Hino Nacional, por Sónia Santos.
 
 
Cidália Ferreira vai discursar às 00:00, seguindo-se a exibição de vídeos da RTP sobre o 25 de Abril na Marinha Grande.
 
No dia 25, haverá transmissão da sessão da Assembleia Municipal evocativa do 25 de Abril, com discursos do presidente da Assembleia Municipal, da presidente da Câmara e das forças políticas com assento naquele órgão.
 
O Município da Marinha Grande também se associa ao apelo da Associação 25 de Abril para que todos cantem "Grândola Vila Morena" e o Hino Nacional, a partir das janelas de sua casa.
 
Às 16:00, decorre o concerto de Paulo de Carvalho, gravado em exclusivo na Marinha Grande.
 
Cidália Ferreira convida "todos os munícipes a assistirem online a estas comemorações para se continuar a evocar os valores conquistados pela revolução".
 
"Num momento em que estamos privados da nossa liberdade de movimentos, nunca devemos esquecer os valores do respeito pelo outro, da responsabilidade social e da união, para que possamos vencer e ultrapassar esta fase".
 
TSF | Lusa | © Pedro Rocha/Global Imagens

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2020/04/portugal-25-de-abril-na-marinha-grande.html

A AR, o 25 de Abril e a extrema-direita

(Carlos Esperança, 20/04/2020)

Anda aí uma intensa animosidade às comemorações do 25 de Abril, na A.R., o órgão da soberania que a data simbólica permitiu livre e plural. Onde, pois, se poderá, de melhor forma, celebrar a data maior do devocionário da democracia, no estado de emergência?

 

Desta vez, até há democratas a cair na teia que reacionários de diversos matizes teceram com o ódio que não cansa e a raiva que a democracia lhes causa. Os média do costume dizem que o país se dividiu, como se o deputado fascista, os 5 do CDS e a dúbia posição da IL pudessem comparar-se com restantes 223 do PS, PSD, BE, PCP e PEV (223 – 7). É preciso descaramento!

É inútil repetir mentiras e obscenidades que circulam no esgoto das redes sociais, com erros de ortografia e de sintaxe, a insultar o presidente da AR e a apelidar de gentalha os deputados de todos os partidos para se suspeitar das intenções e repudiar as mentiras.

O que dói aos répteis, obrigados a rastejar durante 46 anos, é a duração da democracia e a vitalidade da Constituição que, para decretar o estado de emergência, exigiu a maioria dos deputados, a permissão do Governo e a vontade do PR.

O que causa brotoeja e insónias aos salazaristas humilhados e fascistas das novas e velhas gerações, aos nostálgicos do “nosso Ultramar infelizmente perdido”, da ordem, que a polícia mantinha, e dos bons costumes, que a censura e o clero se encarregavam de vigiar, é a capacidade da democracia que resistiu a manifestações silenciosas, às bombas e à intensa demonização de grandes filhos da União Nacional.

A celebração do 25 de Abril, consensual entre todos os deputados democratas, obedece às regras de precaução sanitária de todas as outras reuniões com que a AR tem garantido o regular funcionamento da democracia.

“Os procedimentos foram adotados por largo consenso, tendo como pano de fundo uma proposta feita por Rui Rio ao presidente da Assembleia” [Adão Silva, Deputado do PSD]”.

Seria inaceitável que os deputados se reunissem na AR para o normal funcionamento do Parlamento, com as regras de reunião pós-pandemia, e não o fizessem para comemorar o fim da Pide, da Legião, da censura, da guerra colonial e das arbitrariedades fascistas da ditadura.

Celebrar Abril na AR é cumprir um dever dos deputados para com os heróicos capitães que nos legaram a democracia na madrugada imorredoura de Abril de 1974 e mostrar a gratidão de todo um povo, que os partidos representam.

Os democratas querem ouvir os discursos dos seus deputados a enaltecer a mais doce de todas as madrugadas, a agradecer a quem nos legou a liberdade com cravos floridos nos canos das espingardas.

A contestação é a campanha reacionária que arrasta alguns democratas, para mais tarde se lamentarem, de salazaristas que aguardavam um pretexto para atacar a democracia.

«O 25 de Abril tem de ser e vai ser comemorado na AR». Podem denegri-lo os néscios e insultá-lo os fascistas, mas Ferro Rodrigues tem razão e o povo está unido com ele.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Ironia seria fechar o Parlamento só para o 25 de Abril

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 20/04/2020)

Daniel Oliveira

As liturgias não são um capricho das instituições. São o que lhes dá continuidade, previsibilidade e confiança. Como as regras e as leis. Sem símbolos, as instituições do Estado são apenas os homens que circunstancialmente ocupam os lugares. Nunca, desde 1976, foi tão importante assinalar o 25 de Abril. E tendo sido interditas, por razões evidentes, as celebrações populares, só razões incontornáveis poderiam levar a Assembleia da República a não celebrar a data que funda a sua própria legitimidade. E o símbolo da fundação da nossa democracia é o Parlamento, não é o Presidente da República. Foi ali que se aprovou a Constituição e este foi o órgão que, ao contrário da Presidência, só funcionou de forma eleita e democrática a partir de 1974. É fundamental marcar a data para deixar claro que o Estado de Emergência não representou qualquer tipo de suspensão da democracia. Nem na prática, nem nos símbolos. Fazem bem os deputados em não ceder às polémicas do momento, mesmo que fosse esse o caminho mais fácil. Esses caminhos fáceis só criam equívocos.

A polémica absurda que daqui nasceu tem um argumento: que isto é um desrespeito pelos portugueses, tendo em conta o que lhes é exigido. A sessão solene não é comparável, como o CDS quis fazer querer de forma nada inocente, com celebrações religiosas abertas ao público. Exatamente porque não são abertas ao público, o que permite um total controlo de tudo o que ali se passa. Também não é uma festa – o termo “celebrações” parece levar algumas pessoas ao engano. É uma sessão solene em muito semelhante, quando simplificada, às várias sessões plenárias que aconteceram durante o Estado de Emergência.

Estarão, do que se sabe, 77 deputados no plenário e cerca de 40 convidados numas galerias onde cabem centenas de pessoas. Podem reduzir ainda mais os convidados, mas o que se prevê é 130 pessoas no mesmo espaço onde há um ano estiveram 700. Cumpre-se largamente as regras impostas pela DGS. Na realidade, estarão, no plenário, as mesmas pessoas que estiveram nos debates ao longo deste mês. O problema é a data?

Ninguém está a propor que a Assembleia da República funcione excecionalmente a 25 de abril. Mas há quem ache que deve fechar excecionalmente a 25 de abril. Mau exemplo seria mandar milhares de alunos dos 11º e 12º anos irem para as escolas poucos dias depois e os deputados, com muito melhores condições de segurança, não cumprirem o seu dever.

Esta polémica é absurda porque o Parlamento esteve em funcionamento diário – com funcionários, comissões e plenários –, cumprindo todas as regras, sem que isso levantasse qualquer debate. Como muitas empresas e instituições estão a funcionar. O CDS, que não surpreendentemente foi quem mais problemas levantou, sente-se seguro para votar o Estado de Emergência e não se sente seguro numa sessão solene do 25 de Abril? Ou acha que o vírus distingue a agenda de trabalhos ou é a sua sensação de segurança que depende do tema político em apreço.

Seria estranho que o Parlamento pudesse funcionar todos os dias, como funcionou, com o plenário a reunir-se para votar várias vezes o Estado de Emergência, e só não pudesse funcionar no dia 25 de abril. Ninguém está a propor que a Assembleia da República funcione excecionalmente no dia 25 de abril. Mas há quem, aproveitando a má-fé de alguns e a distração de muitos, acha que deve fechar excecionalmente no dia 25 de abril. A motivação de quem lançou a polémica só pode ser política.

Outros dizem que é um mau exemplo dado pelos deputados. Mau exemplo seria se o Parlamento pudesse funcionar todos os dias menos a 25 de abril porque alguns resolveram tentar impor um dia de exceção para esta data. Isto, no mesmíssimo momento em que se negoceia com o Patriarcado as regras para o regresso de algumas cerimónias religiosas. Mau exemplo seria se os deputados, que estão e sempre estiveram a trabalhar (como muitos outros portugueses) desistissem, naquela data, de cumprir as suas funções com todas as regras exigidas pela Direção Geral da Saúde. Mau exemplo seria mandar milhares de alunos dos 11º e 12º anos irem para as escolas (poucos dias depois, a 4 de maio) e os deputados, com muito melhores condições de segurança, não cumprirem o seu dever. Sim, o seu dever. Porque não estamos a falar de uma festa ou de um acontecimento privado. Estamos a falar de trabalho.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Eficazes bazucadas contra despeitados fachos

Ontem à noite um amigo, que assinara de manhã a petição em Homenagem ao 25 de abril, lamentava o facto de ainda a não ter visto ultrapassar em número de apoiantes a que já andava nas redes sociais há vários dias para dar substância aos que, nos telejornais, se mobilizavam contra as comemorações na Assembleia da República. Erro crasso de apreciação, porque a petição lançada por Manuel Alegre, Domingos Abrantes e Marisa Matias já conseguira nessa altura, e em poucas horas, calar os argumentos quanto à existência de uma «grande contestação» à cerimónia. No principal noticiário da SIC opivot já não se atreveu a usar o argumento da outra petição, que por usar explicitamente o termo «vergonha», poucos iludiu quanto à sua origem. Lamente-se que um dos incautos, arrastados por tão estapafúrdia tese tenha sido João Soares, que veio depois indignar-se com o facto de o chamarem «facho». Azar dele: quem não quer ser lobo não lhe veste a pele!

 

Nesta altura, mesmo que a mobilização não conduza a ultrapassar o número dos peticionários anti-25 de abril o objetivo foi alcançado. Se o outro lado da trincheira avançou com avantajada infantaria, a reação dos que se apressaram a homenagear Abril correspondeu ao efeito de meia dúzia de bazucadas, que fizeram recuar os atacantes para a sua despeitada posição defensiva.

 

Daí recomende a esse meu amigo, que esteja descansado: quando houve que contra-atacar, assim se fez acabando-se cerce com a mistificação de uma suposta grande contestação àquilo que, como Ferro Rodrigues asseverou contundentemente, deve e vai ser comemorado.
 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2020/04/eficazes-bazucadas-contra-despeitados.html

URAP Porto exibe sessões de cinema no âmbito do projecto “Do Heroísmo à Firmeza”

as ondas de abrilDuas sessões de cinema, no âmbito do projecto “Do Heroísmo à Firmeza”, decorreram por vídeo/conferência, dias 11 e 18 de Abril, organizadas pelo núcleo da URAP do Porto, com a exibição de “As Ondas de Abril” e “Poeticamente Exausto, Verticalmente Só”.

“As Ondas de Abril”, um filme de Lionel Baier, de 2013, relata a viagem de dois jornalistas da Rádio Suíça enviados a Portugal, no início de Abril de 1974, para fazerem uma reportagem sobre a ajuda suíça ao nosso país. À equipa junta-se um técnico de som, com a sua carrinha VW “pão de forma”, e um jovem português contratado para servir de intérprete.

Tudo lhes corre mal e quase dão a reportagem como perdida, quando são apanhados pela Revolução dos Cravos. No sítio certo e à hora certa, têm a oportunidade única de captar em directo e ao vivo o espírito da revolução.

Via: Página Inicial – União de Resistentes Antifascistas Portugueses https://bit.ly/2RRnw3S

 

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/04/20/urap-porto-exibe-sessoes-de-cinema-no-ambito-do-projecto-do-heroismo-a-firmeza/

25 de Abril e 1º de Maio

Neste momento em que estão ameaçados muitos milhares de postos de trabalho e há mais de 350 mil desempregados, em que um milhão de trabalhadores está em lay-off com perda de 1/3 da sua retribuição, em que mais de 300 mil estão noutras situações de enorme perda de remunerações e muitos milhares com salários em atraso, em que os direitos são atropelados pelas empresas com despedimentos ilegais, com a precariedade, com a imposição de ritmos de trabalho brutais e sem respeito pela organização dos horários de trabalho e descansos semanais, os trabalhadores e a CGTP-IN não se deixam calar e não se vão calar.

25abril02Como dissemos na nossa Declaração de 14 de Abril sobre o 1º de Maio, a CGTP-IN não irá realizar as manifestações, concentrações e desfiles.

Neste dia 1º de Maio de 2020, estaremos na rua, garantindo a protecção e o distanciamento sanitário pois preocupamo-nos com a saúde dos trabalhadores e de toda a população. Não teremos a participação de centenas de milhares de trabalhadores e de reformados que estarão solidários a partir das suas residências.

Aqueles que estarão na rua representarão todos os trabalhadores e importa dizer que este 1º de Maio não é uma mera comemoração, é uma necessidade de trazer para a rua a voz do trabalho e dos trabalhadores, da denúncia do desemprego, dos cortes de salários, da incerteza no dia de amanhã, da destruição das vidas de tantos trabalhadores e da exigência da tomada de medidas.

Hoje como sempre a CGTP-IN está na linha da frente da defesa da saúde e dos direitos dos trabalhadores, pelo emprego, pelos salários, pelos serviços públicos.

Está em curso uma campanha, levada a cabo por quem ainda não desistiu de acertar contas com o 25 de Abril e as suas conquistas e valores, com que se pretende impedir as comemorações da Revolução que devolveu aos trabalhadores e ao povo português a Liberdade, a Democracia e um vasto conjunto de valores e de direitos que continuamos a defender e a exigir que sejam cumpridos na sua totalidade.

Esta campanha está a tentar também que no 1º de Maio os trabalhadores não possam expressar a sua indignação face à situação que estão a viver, de brutal ataque ao emprego, aos salários, aos direitos consagrados na lei e na contratação colectiva.

Face a esta campanha, a CGTP-IN reafirma que, na situação provocada pelo surto epidémico que veio alterar as nossas vidas e em que são fundamentais medidas de protecção da vida e da saúde, é também imprescindível que sejam garantidos os direitos e interesses dos trabalhadores.

Assim, não aceitamos que se tente impedir a Sessão Comemorativa do 25 de Abril na Assembleia da República, sob falsos pretextos e no dia 25 de Abril às 15h cantaremos a Grândola e o Hino Nacional.

DIF/CGTP-IN
19.04.2020

Ver original aqui

# Eu Comemoro! A Mim Não Proibes!

 Eucomemoro

19 ABRIL 2020
O Presidente da Câmara de Cascais decidiu que não permite as comemorações do 25 de Abril. Num assomo de autoritarismo cancelou os eventos institucionais. Não os adaptou às exigências de saúde pública. Cancelou! Já se sabia que a pandemia poderia fazer emergir tiques de governação autoritária, mas negar as comemorações oficiais da data que marcou o fim da longa noite fascista é verdadeiramente significativo. Num aparente gesto de magnanimidade o Presidente da Câmara de Cascais ainda teve a prosápia de escrever que “quem quiser comemorar comemora em casa”. Ora, Ora… “ debaixo de telha” é permitido – onde é que já vi isto?!  Na Assembleia da República a decisão sobre as comemorações oficiais foi inequívoca. Eduardo Ferro Rodrigues, Presidente da Assembleia da República, afirmou que“celebrar o 25 de Abril é dizer que não sairá desta crise qualquer alternativa antidemocrática” e o Presidente da República esclareceu“tem que se comemorar porque a democracia não está suspensa”.  No momento em que direitos, liberdades e garantias estão em risco nas mãos daqueles que manipulam o medo e o alarmismo, quando alguns ambicionam a “perpetuidade” de medidas restritivas iniciadas durante o estado de emergência, no município em que o Presidente da Câmara cancela as comemorações que assinalam o despontar democrático de Portugal e na qual o Vice-Presidente defende a existência de vigilância/controlo populacional através de dados de telemóvel geridos por operadoras privadas,
eu afirmo:
Deixo a sugestão a todos os Cascalenses democratas e antifascistas que partilhem a imagem. 
O 25 de Abril é do Povo! Ninguém o pode proibir!
 
Outros artigos de TERESA GAGO
*Os artigos de opinião publicados são da inteira responsabilidade dos seus autores e não exprimem, necessariamente, o ponto de vista de Cascais24.

Ver o original em "CASCAIS24" na seguinte ligação::

https://www.cascais24.pt/p/normal-0-21-false-false-false-pt-x-none_84.html

Uma petição que importa assinar

Por regra não costumo assinar petições públicas, porque valorizo a capacidade de definição de prioridades dos deputados em quem confio. Por isso pressioná-los para as alterarem em função das pressões da chamada «sociedade civil» não cabe na minha conduta tanto mais que elas habitualmente coincidem com os interesses corporativos de um grupo muito específico de cidadãos, que veem nessa ferramenta uma momentânea tática para porem em causa a legitimidade do governo eleito pela maioria dos eleitores.

 

Outro agir justifica-se em relação à petição lançada por Manuel Alegre, Marisa Matias e outros proponentes para homenagear o 25 de abril, mormente através das comemorações previstas para a Assembleia da República. Na realidade essa iniciativa visa contrariar outra, oriunda de setores, que sempre detestaram a Revolução dos Cravos e tudo fazem para lhe tolherem os efeitos, sendo incompreensivelmente ecoada pelos canais de televisão para lançarem a ideia de haver uma significativa contestação ao que se passará em São Bento no próximo sábado. Para o absurdo ser maior lançaram a ilegítima comparação entre uma data que diz respeito a uma enormíssima maioria dos portugueses com uma outra, muito justamente condicionada pelas regras de saúde pública e só relevante para os crentes de uma das muitas religiões entre nós professadas por quem ainda acredita haver algum ser imaterial e superior a ditar-lhes os destinos.

 

Explica-se assim que a exceção a uma regra de comportamento pessoal se tenha alterado nesta altura e motivasse muitos dos meus amigos a replicarem o gesto de a assinarem. Importa demonstrar aos que continuam eivados da nostalgia pelo 24 de abril, que são efetivamente minoritários na sociedade portuguesa. E que terão de, a contragosto, sujeitarem-se à vontade da maioria expressa no número de deputados na Assembleia da República.

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2020/04/uma-peticao-que-importa-assinar.html

Ministra da Saúde: 25 de Abril vai ter “regras”

A ministra da Saúde pediu hoje aos portugueses um “rigoroso cumprimento” do confinamento, garantindo que as celebrações do 25 de Abril vão ter “regras” e não vão colocar em causa “o esforço coletivo” para controlar a covid-19.

“Um gesto imponderado ou uma saída desnecessária podem deitar tudo a perder [relativamente ao controlo da infeção]. Neste momento, em que todos gostaríamos de estar a viver as nossas vidas de outra forma, temos de ser muito ponderados. E não há qualquer contradição entre este dever e a sinalização de determinados dias específicos da nossa vida coletiva, porque a faremos dentro destas regras”, afirmou Marta Temido na conferência de imprensa de atualização de informação relativa à infeção pelo novo coronavírus (covid-19).

De acordo com a ministra, “nestes dias de particular dificuldade, ter boa saúde mental é, também, ter uma boa capacidade de resistir e permanecer no rigoroso cumprimento que de nós se espera, que é o isolamento até que tenhamos estabilidade [no controlo da infeção]”.

Quanto às celebrações do 25 de Abril, a ministra notou que uma coisa são as comemorações “tradicionais”, com pessoas na rua, abraçadas, e outra será o que está previsto realizar-se para assinalar a data este ano, ainda a ser detalhado e programado.

“Podem as pessoas ficar tranquilas e descansadas. De forma nenhuma deixaremos que um dia ou um gesto coloquem em causa um esforço coletivo”, assegurou.

A Assembleia da República estima que participem cerca de 130 pessoas na sessão solene do 25 de Abril entre deputados e convidados, contra os cerca de 700 do ano passado, devido às restrições impostas pela pandemia de covid-19.

Numa nota sobre a sessão solene comemorativa do 46.º aniversário do 25 de Abril de 1974, depois de questionado pela Lusa, o gabinete do presidente do parlamento, Eduardo Ferro Rodrigues, referiu na sexta-feira que o figurino habitual da cerimónia, que classifica como “um dos momentos altos da agenda parlamentar”, será “naturalmente adaptado, quer do ponto de vista organizativo, quer do ponto de vista do número de convidados, embora sem perder de vista a dignidade da cerimónia”.

Mais de 75.000 pessoas tinham assinado, ao início da tarde de hoje, uma petição ‘online’ a pedir o “cancelamento imediato” da sessão solene de comemoração do 25 de Abril na Assembleia da República.

Portugal regista hoje 714 mortos associados à covid-19, mais 27 do que no sábado, e 20.206 infetados (mais 521), indica o boletim epidemiológico divulgado hoje pela Direção-Geral da Saúde (DGS).

Comparando com os dados de sábado, em que se registavam 687 mortos, hoje constatou-se um aumento percentual de 3,9 por cento.

Relativamente ao número de casos confirmados de infeção pelo novo coronavírus, os dados da DGS revelam que há mais 521 casos do que no sábado, representando uma subida de 2,6%.

Fonte:Lusa

 

Ver original em 'Portal CASCAIS' na seguinte ligação:

https://www.portalcascais.pt/sociedade/ministra-da-saude-25-de-abril-vai-ter-regras/

Petição encabeçada por Manuel Alegre defende celebração do 25 de Abril no parlamento

 

Mais de 8.000 pessoas já assinaram uma petição online que defende a celebração do 25 de Abril no parlamento e que tem como primeiro subscritor o histórico socialista Manuel Alegre, entre outras figuras de esquerda.

“A democracia não está nem pode ser suspensa. Saudamos a homenagem que o povo e o Parlamento prestam ao 25 de Abril”, refere o texto de lançamento da petição, que pelas 08:30 de hoje contava com 8.445 assinaturas.

Além de Manuel Alegre, são apresentados como primeiros subscritores da petição Domingos Abrantes, militante do PCP e conselheiro de Estado, os antigos deputados socialistas Alberto Martinse José Vera Jardim, o fundador do BE Fernando Rosas e a eurodeputada deste partido Marisa Matias e a professora catedrática e ensaísta Isabel Alegro de Magalhães.

Esta petição surge dias depois de ter sido lançada uma outra em sentido contrário, pedindo o cancelamento das comemorações do 25 de Abril na Assembleia da República, e que conta já com mais de 65.000 assinaturas.

Em declarações ao jornal Público no sábado à noite, o histórico socialista Manuel Alegre justifica a criação da petição por considerar que “algumas pessoas estão a fazer um aproveitamento político da decisão do parlamento de mau gosto e hipócrita. No fundo não querem que se celebre o 25 de Abril“, referiu.

No sábado, também em declarações ao jornal Público, o presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, assegurou que, “mais do que em qualquer outro momento, o 25 de Abril tem de ser e vai ser celebrado” no parlamento. Celebrar o 25 de Abril é dizer que “não sairá desta crise qualquer alternativa antidemocrática“, afirmou a segunda figura do Estado.

No sábado, o líder do CDS-PP, Francisco Rodrigues dos Santos, anunciou que não irá à sessão solene do 25 de Abril no parlamento por a considerar “um péssimo exemplo para os portugueses”, devido às restrições impostas à população pela pandemia de covid-19.

Também no sábado o deputado único do Chega, André Ventura, escreveu ao presidente do parlamento, pedindo a Ferro Rodrigues que, em articulação com o Presidente da República, cancele a sessão solene comemorativa do 25 de Abril, dizendo que esta “está a gerar um enorme sentimento de revolta e indignação no povo português”.

Já a líder parlamentar do PS, Ana Catarina Mendes, em declarações à Lusa, defendeu no sábado a importância reforçada de assinalar o 25 de Abril no parlamento em período de emergência, considerando que as críticas feitas têm uma motivação “ideológica” e não de defesa da saúde pública.

Devido às restrições impostas pela pandemia, a Assembleia da República decidiu na quarta-feira realizar a sessão solene do 25 de Abril no parlamento com um terço dos deputados (77 dos 230 parlamentares) e menos convidados, com o gabinete de Ferro Rodrigues a estimar que estejam presentes cerca de 130 pessoas, contra as 700 do ano passado.

A decisão da conferência de líderes teve o apoio da maioria dos partidos: PS, PSD, BE, PCP e Verdes. O PAN defendeu o recurso à videoconferência, a Iniciativa Liberal apenas um deputado por partido, enquanto o CDS-PP – que propôs uma mensagem do Presidente da República ao país – e o Chega foram contra.

Na sexta-feira, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, reafirmou que irá participar na sessão comemorativa do 25 de Abril no parlamento, “com um número exíguo de deputados”, e do 10 de Junho, numa “cerimónia simbólica” junto ao Mosteiro dos Jerónimos.

O Presidente da República participará nas cerimónias do 25 de Abril e do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, tal como já tem referido publicamente. No 25 de Abril, nos termos definidos pela Assembleia da República, aliás com um número exíguo de deputados e meramente simbólico de convidados”, salientou o chefe de Estado, numa nota publicada no portal da Presidência da República na Internet.

// Lusa

 

Ver original em 'ZAP aeiou' na seguinte ligação:

https://zap.aeiou.pt/peticao-encabecada-manuel-alegre-defende-celebracao-do-25-abril-no-parlamento-320000

Atenção aos factos

Sobre
o 25 de Abril na AR
 
Não, não venho dizer que toda a contestação que por aí vai à celebração do 25 de Abril na AR seja fruto de ódio ao 25 de Abril pela simples razão de que infelizmente já encontrei nas redes sociais muitos democratas a partilharem dessa hostilidade à celebração.
 
 
Prefiro antes pensar que estamos perante um daqueles casos um pouco inexplicáveis de fuga aos factos.
 
Porque a verdade é que, no dia 25 de Abril, tirando os cravos e um número muito limitado de convidados, a AR vai estar exactamente como tem estado nos dias em que tem reunido ou, para ser mais exemplificativo, quando decidiu os estados de emergência, sem que ninguém tivesse contestado o seu funcionamento nos novos moldes.

E, neste contexto que ponho à honesta consideração de todos os oponentes da celebração, só venho dizer que feio sinal seria que a AR não comemorasse o 25 de Abril data maior e incomparável da nossa vida como povo e nação.
 

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

Não é festa, é luta!

 
André Ventura, uma das vozes da extrema-direita parlamentar, tem repetidamente referido a sessão solene a realizar na Assembleia da República no próximo dia 25 de Abril como uma “festa”, ridicularizando-a e procurando criar em quem o lê e ouve a ideia de uma espécie de arraial com bebidas à discrição na AR durante um período de confinamento decretado pela própria Assembleia, no quadro do chamado “Estado de Emergência”.

Ao contrário do que refere Ventura, a sessão solene não é “uma festa”, como todas as sessões que naquele espaço assinalaram o 25 de Abril desde a Revolução bem demonstram. Trata-se antes de um momento em que um órgão de soberania e cada uma das forças políticas ali representadas assinalam a mais importante data do Século XX português, e uma das mais relevantes da nossa história colectiva, posicionando-se à luz da visão que têm do significado do dia 25 de Abril de 1974 sobre os temas mais prementes do presente, aquilo que a Revolução deixou para trás e, sobretudo, aquilo que trouxe para o país ao longo destes 46 anos (quase meio-século) de democracia.

Tanto quanto se sabe, a sessão solene de 2020 sofrerá alterações face a sessões semelhantes realizados no passado, obedecendo a regras de defesa da saúde pública que aliás estão em vigor num parlamento que não fechou nem deixou de funcionar.

Será todavia interessante ouvir Ventura, se o deputado do “Chega!” decidir aparecer “na festa” que assinala o dia que é a antítese de tudo aquilo que representa, apresentar a sua visão sobre Abril, o que significou e significa num país que tem nos serviços públicos elementos estruturantes da sua democracia. Na saúde, desde logo, que ao contrário do que defende explicitamente o “Programa Político” do “Chega!”, tem no Estado aquilo a que Ventura chama “um prestador de bens e serviços”.

Poderá Ventura aproveitar o púlpito para por uma vez explicar políticas concretas do seu programa. Por exemplo, por que razão defender que a ideia de “concentrar a actuação do Estado, neste caso por intermédio do Ministério da Saúde numa função essencialmente de arbitragem, de regulação e de inspecção”. Ou quais seriam, na sua perspectiva, as consequências de um cenário desse género no combate à pandemia e na prestação de cuidados de saúde.

Pode também explicar aos milhares de trabalhadores que estão a perder o seu emprego e a ver drasticamente reduzidos os seus rendimentos por que razão o programa político do “Chega!” defende “maior flexibilização da legislação laboral a vários níveis”, “a liberalização das entradas e saídas do mercado de trabalho” e a “redução dos custos de empregabilidade”, nomeadamente no que se refere a “salários, restrições legais, horários de trabalho rígidos, difícil acesso a informação, contribuições para a segurança social e custos de despedimento”.

“Festa” seria ouvir Ventura e o “Chega!” falar do que quer para o país. É que não basta derramar indignação fingida e afunilar o discurso na zona de conforto da crónica criminal e do racismo mais ou menos disfarçado (mais menos que mais, como bem sabemos).

Ventura não gosta da Liberdade – pelo menos da Liberdade de Abril – mas já era tempo de se libertar de constrangimentos e de falar pelo menos uma vez do seu programa ultraliberal que faz corar de vergonha as propostas mais ou menos anedóticas da IL, como o “Salário Mínimo Municipal”. Estou absolutamente certo de que não ficará sem resposta, dentro e fora da AR.

Ver original em 'Manifesto 74' na seguinte ligação:

http://manifesto74.blogspot.com/2020/04/nao-e-festa-e-luta.html

Cumprir Abril - comemorações do 25 de Abril

25abril2016Comemoramos 46 anos da Revolução de Abril – o heróico levantamento militar do Movimento das Forças Armadas, logo seguido por um amplo levantamento popular, que pôs fim a 48 longos anos de obscurantismo e ditadura fascista.

Mais do que uma data, o 25 de Abril assinala o início de um processo revolucionário protagonizado pelo povo e pelos militares progressistas que realizou profundas transformações e conquistas democráticas no nosso país – conquistaram-se liberdades e garantias, direitos políticos, económicos, sociais e culturais, afirmaram-se a soberania e a independência nacionais, que foram consagrados na Constituição da República Portuguesa.

Fazemos esta evocação num momento de enorme crise, de guerra global com um inimigo invisível e traiçoeiro. Nesta guerra sem quartel, os portugueses têm tido, de uma maneira geral, um comportamento solidário e unido que, estamos convictos, é resultado direto, acima de tudo, das transformações que coletivamente fizemos na nossa sociedade, renovada com o 25 de Abril.

(...) Ver Documento

 

Ver original aqui

A «Grândola» vai cantar-se à janela

Uma vez que as habituais manifestações e celebrações populares não se realizarão, os cidadãos serão chamados a cantar a senha da revolução à janela das suas casas, para assinalar a conquista da liberdade.

25 de Abril de 2019, Avenida da Liberdade, LisboaCréditosMANUEL DE ALMEIDA / LUSA

A Comissão Promotora das Comemorações Populares do 25 de Abril apelou a todos os cidadãos confinados em casa que, pelas 15h do dia em que se comemoram os 46 anos da revolução dos cravos, se «reúnam» à janela para cantar a «Grândola, Vila Morena» e o hino nacional. 

Devido às medidas de confinamento e distanciamento social impostas pelas autoridades na sequência do surto de Covid-19, e tendo em conta as restrições impostas, as habituais manifestações populares de comemoração do Dia da Liberdade não terão lugar.

Contudo, as várias associações e organizações que promovem as comemorações chamam todos os cidadãos, «separados mas unidos», a homenagear a revolução, apelando mesmo aos que estiverem a trabalhar para que, se o puderem fazer, suspendam os trabalhos e cantem.

«Para cumprir Abril é preciso impedir que sejam os trabalhadores e as pessoas mais vulneráveis a serem as principais vítimas das nefastas consequências económicas e sociais da crise provocada pelo surto epidémico da Covid-19», pode ler-se no apelo.

Também o secretário-geral do PCP aproveitou o final de uma declaração em vídeo transmitida esta segunda-feira para pedir que, «num tempo de ruas e avenidas quase vazias», os portugueses comemorem o 25 de Abril a cantar a "Grândola, Vila Morena"» às janelas de suas casas.

No Parlamento, as celebrações deverão realizar-se em formato reduzido. A maioria dos partidos é favorável à habitual comemoração do Dia da Liberdade, ainda que com regras diferentes do habitual.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/nacional/grandola-vai-cantar-se-janela

Apelo da Comissão Promotora da Manifestação Popular do 25 de Abril

Não sendo possível a realização do Desfile na rua, a Comissão Promotora das Comemorações Populares do 25 de Abril apela a todo o País para que no dia 25 de Abril, às 15 horas:

Se faça uma pequena pausa, dentro do possível, pois não se podem parar algumas atividades (nomeadamente as de prestações de cuidados de saúde);

Os meios audiovisuais da comunicação social - Televisões, Rádios - transmitam a "Grândola, Vila Morena";
As cidadãs e os cidadãos, onde quer que se encontrem - a maioria, em casa, vá às janelas e varandas e cantem a "Grândola, Vila Morena".

 

mao cravo

Comemoramos 46 anos da Revolução de Abril – o heroico levantamento militar do Movimento das Forças Armadas, logo seguido por um amplo levantamento popular, que pôs fim a 48 longos anos de obscurantismo e ditadura fascista.

 

Mais do que uma data, o 25 de Abril assinala o início de um processo revolucionário protagonizado pelo povo e pelos militares progressistas que realizou profundas transformações e conquistas democráticas no nosso país – conquistaram-se liberdades e garantias, direitos políticos, económicos, sociais e culturais, afirmaram-se a soberania e a independência nacionais, que foram consagrados na Constituição da República Portuguesa.

Fazemos esta evocação num momento de enorme crise, de combate global com um inimigo invisível e traiçoeiro. Nesta luta, os portugueses têm tido, de uma maneira geral, um comportamento solidário e unido que, estamos convictos, é resultado direto, acima de tudo, das transformações que coletivamente fizemos na nossa sociedade, renovada com o 25 de Abril.

Neste momento, em que enfrentamos tão difícil crise, reafirmamos que para cumprir Abril se impõe continuar a lutar para acabar com múltiplas discriminações e injustiças sociais, ainda existentes, e que a pobreza, a desigualdade de género, a xenofobia e o racismo têm de ser combatidos e expurgados da nossa sociedade!

Para cumprir Abril é preciso impedir que sejam os trabalhadores e as pessoas mais vulneráveis a serem as principais vítimas das nefastas consequências económicas e sociais da crise provocada pela pandemia do COVID19 e, depois desta crise, é preciso continuar a combater políticas de retrocesso como a precarização das relações de trabalho e o aumento da exploração dos trabalhadores, a manutenção dos baixos salários, o ataque aos serviços públicos e às funções sociais do Estado que devem ser garantidos de forma universal, não deixando de defender o interesse nacional na política externa.

Para cumprir Abril, temos de ultrapassar as dificuldades do momento que vivemos não recuando na reposição e aumento de rendimentos e salários, na estabilidade laboral, no reforço dos serviços públicos, na garantia do direito à educação e à saúde, na garantia do acesso à fruição e criação cultural, nos direitos das famílias.

A calamidade que enfrentamos evidencia, uma vez mais, o valor inestimável do Serviço Nacional de Saúde como eixo estruturante do regime democrático, só possível graças à Revolução de Abril e que importa defender e reforçar, cumprindo-nos dirigir uma sentida e justa saudação a todos os profissionais de saúde pela sua abnegada dedicação à causa pública, tantas vezes com risco para a própria vida.

Comemorar Abril é convergir na defesa dos valores de Abril, na defesa da liberdade, da democracia, da reposição e conquista de direitos e rendimentos, do desenvolvimento de políticas para uma mais justa distribuição da riqueza, da construção de uma sociedade inclusiva, caminho que só é possível ultrapassando os constrangimentos impostos a um desenvolvimento nacional sustentável e soberano.

Comemorar Abril é convergir para cumprir valores da cooperação, da Paz, da solidariedade, da não ingerência e pela solução pacífica dos conflitos internacionais, afirmando a conceção universalista do Povo Português de amizade com todos os povos do mundo, e em particular, com os povos de língua oficial portuguesa.

O Mundo vai transformar-se, Portugal vai transformar-se, a nossa luta neste momento terá de ser no sentido de, vencida esta calamidade, como confiamos que vamos vencer, conseguirmos continuar a aperfeiçoar o Portugal de Abril, com mais Liberdade, com Paz, com Democracia, com Igualdade, com Justiça Social, com Solidariedade, com cidadania plena, enfim, um Portugal com cidadãs e cidadãos mais Felizes!

Este ano, para evocar estes 46 anos de Liberdade, Paz, Democracia, Solidariedade e Justiça não vamos poder manifestar-nos nas ruas, mas vamos todos juntos comemorar Abril!

Não sendo possível a realização do Desfile na rua, a Comissão Promotora das Comemorações Populares do 25 de Abril apela a todo o País para que no dia 25 de Abril, às 15 horas:

Se faça uma pequena pausa, dentro do possível, pois não se podem parar algumas atividades (nomeadamente as de prestações de cuidados de saúde);

Os meios audiovisuais da comunicação social - Televisões, Rádios - transmitam a "Grândola, Vila Morena";
As cidadãs e os cidadãos, onde quer que se encontrem - a maioria, em casa, vá às janelas e varandas e cantem a "Grândola, Vila Morena".

 

Via: Página Inicial – União de Resistentes Antifascistas Portugueses https://bit.ly/2UL0jkQ

 

Ver original em 'Abril de Novo Magazine' na seguinte ligação:

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2020/03/30/apelo-da-comissao-promotora-da-manifestacao-popular-do-25-de-abril/

Os perigos do presentismo

O presentismo é uma categoria de análise do tempo, criada pelo historiador francês François Hartog, segundo a qual passado e presente desaparecem como referentes da experiência humana, seja esta pessoal ou coletiva, dado passarem a valer apenas pela forma como são compreendidos no momento. Nestas condições, o próprio futuro desvincula-se de toda a construção utópica, sendo visto como mais do mesmo e deixando de suscitar esperança nos indivíduos e nas comunidades. Resta única e exclusivamente o presente como instância de orientação no tempo: tudo é apresentado como se passado e futuro fossem realidades incertas, que não têm lições a dar-nos, nem projetam a nossa vida para horizontes de progresso. Para os presentistas, vivemos um eterno presente e só este é real.

Dizer isto na atualidade parece um paradoxo, pois na aparência fala-se muito, como nunca se falou, do passado e do futuro. Todavia, eles não são apresentados como diferentes do mundo em que vivemos, surgindo antes como algo que hoje apenas repete o que aconteceu ou que antecipa o que pode vir a acontecer, sem que exista uma atitude crítica e uma manifestação de conhecimento em relação a acontecimentos ou a momentos do passado nos quais ocorreu uma viragem profunda. Por exemplo, das revoluções esconde-se muitas vezes a violência, a mudança das atitudes sociais que provocaram, a criação de uma nova ordem política e cultural por elas impostas. Por sua vez, dos projetos para o futuro desaparece a possibilidade de transformações profundas e duradouras,como se não fossem possíveis os momentos de significativa viragem. Passado,presente e futuro são assim colocados numa linha de continuidade, esquecendo que não é esta, mas sim a mudança profunda e acelerada, e a criação de alternativas, que fazem mover a História e que criam o novo.

Boa parte desta vertigem presentista fica a dever-se à expansão muito rápida dos meios de comunicação, aliada a muitos dos novos movimentos pela recuperação da memória socialmente partilhada. No primeiro caso, a constante e acelerada proliferação de informações sobre o passado nos jornais, na televisão ou na Internet faz com que muitas vezes este seja demasiado «normalizado», ou mesmo banalizado, não se percebendo a diferença que existe entre situações vulgares e momentos excecionais. No segundo caso, a obsessão pela memória faz com que inúmeras vezes se misture o que a tradição diz como tendo sido a realidade dos acontecimentos ocorridos noutro tempo com o que hoje realmente acontece, como se o hoje fosse uma mera repetição do ontem e um prelúdio do amanhã.

Um bom exemplo disto é a «normalização» do modo de observar o período revolucionário que Portugal viveu em 1974-1975. Quando observamos os discursos comemorativos ou aquilo que dizem os manuais escolares sobre aquele tempo, tudo parece simples, linear, como se o que aconteceu fosse apenas uma perturbação ocasional da ordem política, determinada pela iniciativa de algumas pessoas mais ousadas, e não um movimento profundo, com passado e futuro, que abalou profundamente a sociedade e marcou para sempre a vida das novas gerações. A estas é-lhes dito que vivem em democracia, sem que se lhes mostre que esta nasceu de um parto difícil e é algo que precisa ser exercido,defendido, pensado e desenvolvido todos os dias.

Neste sentido, o presentismo pode levar-nos, como está já a acontecer em vários países da Europa, a um regresso a situações de autoritarismo, intolerância e violência que no passado já causaram tantos danos e tão graves conflitos, entre eles as duas guerras mundiais e as experiências totalitárias. Falando tantas vezes em nome do passado, ou da história das nações e dos povos, os novos fascismos alimentam-se do excesso de presente, como se os direitos sociais e políticos que estruturam a vida coletiva não tivessem sido conquistados gradualmente, a pulso, com lutas e sacrifícios vividos por tantos homens e tantas mulheres ao longo de décadas ou mesmo de séculos. Como se eles fossem algo descartável da memória de um presente vivido na indiferença, sem causas e ideais mobilizadores. Este é um perigo que deve ser enfrentado, pois não podemos viver sem passado e sem futuro, sob pena de retornarmos ao estado de barbárie do qual um dia partimos.

Rui Bebiano

Fotografia: Chittakone Baccam
Publicado originalmente no Diário As Beiras de 23/2/2019
 

Ver original em 'A Terceira Noite' na seguinte ligação:

http://www.aterceiranoite.org/2019/02/23/os-perigos-do-presentismo/

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