António Costa, um socialista com fortes preocupações capitalistas

(Elisabete Miranda, in Expresso Curto, 17/09/2019)

 

Bom dia. A julgar pelas análises políticas, o aguardado duelo de ontem entre António Costa e Rui Rio acabou sem vencedores claros nem derrotados óbvios. Há quem considere que houve um empate, quem ache que António Costa não ganhou mas também não perdeu, e quem não tenha dúvidas de que o líder social-democrata dominou em várias frentes. Da interceção destas três opiniões, Rui Rio pode até ter-se saído ligeiramente melhor, mas sem fôlego para abalar o favoritismo do PS e perturbar o curso da campanha (na dúvida, tire as teimas e ajuíze por si).

Rui Rio saiu favorecido pelo estilo, ao apresentar-se emotivo frente a um António Costa glaciar, e politicamente incorreto por oposição a um primeiro-ministro calculista (por exemplo no caso das críticas ao Ministério Público e aos julgamentos na praça pública). Tentou desmontar a magia das “contas certas” e relativizar os méritos do Governo nos resultados económicos (a propósito, vale a pena recuperar estes gráficos), deu o braço a torcer quando encurralado por António Costa e ensaiou um discurso ideologicamente mais próximo do seu eleitorado tradicional.

Fê-lo quando defendeu as parcerias público-privadas (PPP) na saúde, a urgência de reduzir o peso do Estado na economia, a baixa acentuada da carga fiscal, calibrada entre o curto prazo (famílias) e o longo prazo (empresas) ou quando vitimizou a iniciativa privada, esmagada por burocracia e custos de contexto.

Rui Rio falou ao coração da direita, mas António Costa já ocupou parte desse espaço. Embora não prometa choques fiscais, o primeiro-ministro concede uma nova ronda de descidas de impostos para a abrangente e indefinida “classe média” portuguesa, apostou forte numa agenda de digitalização e simplificação administrativa, e, no início da legislatura tratou logo de entabular um longo e promissor namoro com a classe empresarial.

Em 2016, mal tinha aquecido a cadeira, o primeiro-ministro já deixava cair uma das suas mais arrojadas promessas eleitorais: um imposto sobre heranças superiores a um milhão de euros. Pouco tempo depois travou o imposto sobre fortunas reclamado pelos parceiros à esquerda e reciclou-o num (mais inócuo) imposto sobre o grande património imobiliário (AIMI). Inviabilizou medidas mais musculadas contra o negócio do trabalho temporário. Convidou destacados empresários da praça a proporem um cardápio de instrumentos de ajuda à capitalização e financiamento das empresas, o que lhe valeu a tal menção honrosa da Comissão Europeia, que ontem exibiu no debate. Não beliscou o regime de residentes não habituais (o que pretende transformar Portugal na Florida da Europa), apesar dos embaraços diplomáticos e de pressões dentro do seu próprio Governo. Desbloqueou o impasse dos ativos por impostos diferidos na banca. E ainda deu corpo a uma promessa de Passos Coelho e lançou as SIGI, um novo tipo de sociedades imobiliárias pelas quais o mercado há muito suspirava.

Com tamanho curriculum não admira o rasgado elogio que em janeiro a presidente da bolsa de Lisboa lhe fez aqui no Expresso ao dizer que “desde que Miguel Cadilhe foi ministro das Finanças nunca tivemos um Governo com uma iniciativa tão estruturada relativamente ao mercado”. Nem espanta que os empresários se acotovelem para ouvi-lo e lhe façam juras de fidelidade.

Por muitos choques fiscais que prometa aos empresários, não é certo que Rui Rio lhes consiga falar mais ao bolso nem dar maiores garantias de estabilidade.

Afinal, António Costa revelou-se um socialista com fortes preocupações capitalistas e tem quatro anos com provas dadas.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

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