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Voo de Paulo Rangel abatido por «fogo amigo» de autarca do PSD

O cabeça de lista do PSD sobrevoou as regiões afectadas pelos incêndios de Outubro de 2017, no centro do país. No final do dia teve de responder às duras acusações do autarca do PSD de Pampilhosa da Serra.

O cabeça de lista do Partido Social Democrata (PSD) às eleições europeias, Paulo Rangel, numa visita de helicóptero às zonas ardidas em 2017, na Lousã, a14 de Maio de 2019. CréditosJoão Porfírio/POOL / LUSA

Na terça-feira, dia 14 de Maio, a campanha de Paulo Rangel começou nos ares. O cabeça de lista do PSD sobrevoou, durante cerca de uma hora, as áreas ardidas em Outubro de 2017 no centro do país, nos concelhos de Pedrógão Grande, Pampilhosa da Serra, Oliveira do Hospital, Tábua e Lousã.

A partir de um helicóptero o candidato apontou as vastas superfícies queimadas e, em reportagem transmitida pela RTP, acusou o Governo do PS de «incompetência, descuido e incúria».

Paulo Rangel, que se fez acompanhar nesta «visita aérea» pelo presidente da Associação para o Desenvolvimento e Aerodinâmica Industrial (ADAI), Domingos Xavier Viegas, reconhecido especialista em incêndios, criticou o Governo de António Costa pela «mudança radical da organização da Protecção Civil, feita em cima da hora, e que não está ainda no terreno», pelo facto de o «caso do SIRESP estar por resolver» e a «mancha de eucalipto que está claramente a crescer», segundo a TSF.

O que parecia ser uma acção de campanha fácil e em terreno favorável terminou com o candidato a ter de jogar à defesa para responder a duras críticas, algumas provenientes do seu partido. Se as críticas do PS não o afectaram, as de José Brito, presidente da Câmara Municipal de Pampilhosa da Serra (PSD), fizeram Rangel perder a calma e, segundo o Observador, ter «o seu momento de maior irritação até agora registado pelos jornalistas, na campanha e pré-campanha».

O mesmo jornal afirma ter sido José Brito «particularmente duro» em declarações à Lusa: «Entristece-me. Em 2017, podiam ter vindo ao terreno ver o que aconteceu. Agora, vir de helicóptero, em 2019, ver o que aconteceu em 2017 é uma afronta a esta gente e dá-me vontade de gritar».

Ao Notícias de Coimbra o autarca foi mais expressivo. Depois de referir que sem «pôr aqui os pés», «não se pode defender» as regiões de «baixa densidade» [populacional], manifestou-se «completamente desapontado» com o PSD e desabafou: «era preferível não terem passado por cá, nem pelo ar, nem por terra». José Brito foi reeleito pelo PSD, em 2017, como presidente da Câmara Municipal de Pampilhosa da Serra, com cerca 78,5% dos votos, à frente do PS (13%) e da CDU (3,5%).

A táctica de aproveitamento político das vítimas dos incêndios não é original no PSD. Em Julho de 2017, após o episódio dos suicídios anunciados por Passos Coelho e desmentidos poucas horas depois, o PSD continuou a correr atrás da tragédia, com Hugo Soares, à data o seu líder parlamentar, a usar «a não publicação da lista de pessoas que perderam a vida» em Pedrógão Grande como pretexto de um debate político que horas depois, reconheceu «não fazer sentido».

Confrontado com as declarações do autarca do PSD, Rangel despachou os jornalistas com um «nem sequer dou relevância a isso, nem se justifica estarmos este tempo todo aqui». Antes, porém, conseguiu justificar a importância da visita de helicóptero «com o interesse jornalístico despertado» e tinha afirmado «basta ver todos os noticiários da uma para ver que consideram uma visita útil».

O candidato salvo pelo gongue: protecção civil, eucaliptos e SIRESP

O incidente criado por este «primado dos noticiários» sobre as vítimas dos incêndios, porém, acabou por salvar o candidato de ser interpelado sobre a posição e as responsabilidades do PSD nos tópicos que escolheu para atacar o actual governo.

Protecção civil sem recursos, floresta desprotegida

De acordo com os planos de actividades da Autoridade Nacional de Protecção Civil (ANPC), entre 2011 e 2015, as transferência do Orçamento do Estado (OE) para a entidade desceram a cada ano, passando de 82 milhões para 74 milhões ao longo do período em que o ministro Miguel Macedo (PSD) e o secretário de Estado Filipe Lobo D'Ávila (CDS-PP) dividiram a gestão da Administração Interna. Os dois partidos cortaram o financiamento directo para a entidade responsável, entre outras funções, pelo combate aos fogos, em quase 10%.

O governo do PSD/CDS-PP foi responsável pelos 20 milhões cortados ao orçamento do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) e de outras medidas que fragilizaram a capacidade de defesa da floresta e de combate aos fogos florestais, como o corte na isenção de taxas moderadoras no Serviço Nacional de Saúde aos bombeiros.

Mancha de eucalipto «claramente a crescer»?

A preocupação expressa por Paulo Rangel poderá ter sentido para efeito de «interesse jornalístico», mas a realidade das políticas levadas a cabo pelos governos do PSD e do CDS-PP não deixam margens para dúvidas: os cartéis do eucalipto dominam há décadas a floresta portuguesa, o PSD e o CDS-PP levaram-nos a limites nunca antes alcançados.

O eucalipto já era «o rei da floresta portuguesa» quando Assunção Cristas e o governo do PSD e do CDS-PP avançaram com a alteração legislativa que facilitou a utilização da espécie em detrimento de espécies autóctones. Cinco anos depois, o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), reconhecia ter sido o eucalipto a espécie utilizada em mais de 81% das acções de arborização ou rearborização autorizadas ou comunicadas àquela instituição.

Apenas com o novo quadro político resultante das eleições legislativas de 2015 o Parlamento aprovou uma alteração à «lei da liberalização do eucalipto», de Cristas, que limitou substancialmente a expansão da espécie na floresta nacional.

A espécie, originária da Austrália, representou cerca de 40% das áreas ardidas em 2017.

O PSD não está sozinho debaixo de fogo: o passado juntou-o ao PS

Quando, em 2016, a luta dos guardas-florestais começou a tornar-se pública, constatou-se que, dos cerca de 450 vigilantes das florestas existentes em 2005, restavam apenas 317, dos quais 100 em idade próxima da reforma. Na altura, estimava-se serem necessários mais 300 profissionais para vigiar as florestas e sensibilizar as populações para a prevenção dos incêndios.

Em 2018, no rescaldo de dois anos de grandes incêndios, um compreensivo artigo de Agostinho Lopes sobre políticas florestais, «Incêndios florestais e responsabilidade política», começava por lembrar ao deputado Ascenso Simões (PS) o seu tempo como secretário de Estado da Protecção Civil e secretário de Estado das Florestas (2005/2009) do Governo PS/Sócrates, e as suas «particulares responsabilidades no golpe final nos Serviços Florestais», acusando-o de uma «lavagem da política de direita agroflorestal da responsabilidade do PS» – sem que tal significasse «deixar no esquecimento as responsabilidades de PSD e CDS-PP».





Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/nacional/voo-de-paulo-rangel-abatido-por-fogo-amigo-de-autarca-do-psd

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