• Francisco Seixas da Costa in "duas ou três coisas"

Nakhchivan


Quando entrei naquele quarto de hotel em Nakhchivan, daqueles que têm um aspeto que nos leva a hesitar em vir a utilizar a roupa da cama, tive um rebate de consciência. Dei comigo a pensar que vários dos embaixadores junto da Unesco, que tinham ido comigo de Paris a um congresso a Baku, no Azerbaijão, haviam sido por mim convencidos àquela aventura que era fazer uma surtida a Nakhchivan.
Comecemos pelo princípio. O Azerbaijão organizava, nesse ano de 2012, um congresso em torno de uma temática que já não recordo. Decidi participar, confesso, porque, desde as descrições de Calouste Gulbenkian, tinha uma forte curiosidade em ir a Baku. Havia pago do meu bolso a hospedagem, sendo a viagem, desde Paris, oferecida pelo governo local, dada a minha qualidade de “key note speaker” convidado, num dos painéis.
Na papelada que, à chegada, nos foi entregue, vinha uma oferta: o governo azeri dava-nos a escolher uma de duas viagens de dois dias, no final do congresso. As alternativas eram uma ida de autocarro ao Azerbaijão profundo, com comezainas, folclore e visitas culturais, ou uma ida de avião a Nakhchivan. Qualquer das deslocações só se faria se houvesse um quorum mínimo de participantes.
Dos meus colegas, fui logo o que mais “puxei” pela deslocação a Nakhchivan. Porquê? Porque aquela tinha sido uma das mais misteriosas repúblicas soviéticas, com uma história muito curiosa, que sempre justificara um estatuto institucional muito atípico. Como bem atípica ainda se mantinha a situação do território nestes dias.
O Nakhchivan - de que muitos dos leitores nunca terão ouvido falar e que duvido algum tenham visitado - é um território autónomo do Azerbaijão, tão “autónomo”, nos dias de hoje, que não tem qualquer ligação por terra com o resto do país. Trata-se de um enclave isolado, com uma curta fronteira de menos de 10 km com a Turquia, outra com o Irão, uma outra com a Arménia, tendo o território do Nagorno-Karabakh (disputado pelo Azerbaijão e pela Arménia) a tapar-lhe o acesso ao resto do Azerbaijão. Esta é uma área “neutralizada” pela disputa territorial, tendo aí já havido uma guerra muito mortífera, sendo palco de regulares incidentes armados. Para lá chegar é, pois, necessário ir de avião, pedindo os azeris de empréstimo o espaço aéreo iraniano, dado que tentar voar sobre o Nagorno-Karabakh ou sobre o seu arqui-inimigo, a Arménia, seria um suicídio garantido. Por todas estas razões, pode perceber-se que uma ida àquele bizarro destino não era uma coisa cómoda para alguns.
Muitos dos meus colegas inclinavam-se para aceitar o convite para o passeio sereno, de autocarro, pelo território, oportunidade para comprar tapetes e fazer belas fotografias. Fui eu, numa noite de conversa, quem conseguiu juntar um grupo que tornara aquela ida a Nakhchivan possível. Invoquei a História e também, confesso, inventei histórias que lá os convenceram.
Daí a minha preocupação culposa: o hotel era sinistro, a comida pouco menos, todo ambiente parecia de um filme soviético dos anos 50, com uma coreografia teatral a envolver aquela que devia ser uma rara visita de uma delegação de estrangeiros. Havia por ali umas lojas “fake”, com coisas para um turismo que manifestamente não existia, salvo para aquele grupo de maduros, de várias nacionalidades, que o embaixador português conseguira arrebanhar, para poder concretizar o objetivo de uma ida a um local que o seu vício por lugares estranhos motivava.
A cidade de Nakhchivan, capital do território do mesmo nome, não é muito grande. Foi-nos proposto um passeio de autocarro. Eu trazia de Paris um raro guia com um mapa da cidade e, com base nele, comecei por pedir para passarmos junto da mesquita iraniana. Assisti a uma conversa embaraçada entre o guia, que falava um péssimo inglês, e o motorista, tendo ambos concluído que... não sabiam onde era! Eu expliquei: “Eu indico. Vai-se por esta avenida abaixo, corta-se na 3ª rua à esquerda e a mesquita fica numa praça ao fundo”. Qual quê! Nova conversa, concluída pela recusa absoluta, com o argumento definitivo: a zona estava vedada, por obras. Pois...
E lá fomos, como é de regra nestes regimes, apenas aos locais a que eles nos queriam levar. Desde logo, para grande excitação de alguns dos meus colegas, àquilo que se diz ser o tumulo de Noé. Três anos mais tarde, fui de Lisboa a um congresso na Arménia e, perto da capital, Ierevan, lá fui ver ... os restos da Arca de Noé. Noé está muito presente no Cáucaso no Norte, sempre ligado ao monte Ararat, que ali prepondera na paisagem!
O ponto alto da visita seria, no entanto, a ida ao museu em honra de Heydar Aliyev, o filho mais ilustre de Nakhchivan, presidente do Azerbaijão por uma década, pai do atual líder. A visita foi longa, com uma explicação detalhada da vida da fugura, desde o berço à morte. A certo ponto, a guia do museu esclareceu mesmo que fora Aliyev quem “livrara o Azerbaijão do comunismo”.
Um diplomata, ainda por cima convidado, deve conter-se, mas a minha irritação foi mais forte do que eu: “Mas o presidente Aliyev não foi membro do Soviete Supremo da URSS?”. Aliyev havia sido muito mais do que isso: foi uma figura destacada do KGB e da governação em Moscovo. O seu conflito foi mesmo com a “perestroika” de Gorbachev, isto é, com quem quis “democratizar” o comunismo.
A guia sorria, perdida, não sabendo o que fazer: não ousava contraditar-me, mas a minha questão estava fora do seu roteiro. Recordo-me que as minhas colegas do Omã e da Albânia, duas boas amigas, imploraram, em voz baixa, que eu não embaraçasse a senhora e eu lá “deixei cair” os meus preciosismos históricos. E a visita prosseguiu.
Não vou maçar quem aqui me lê com muitos mais detalhes dessa viagem, que também incluiu uma longa deslocação à fronteira iraniana, junto da qual havia uma espetacular mina de sal, transformada em clínica para doenças pulmonares.
A noite acabou, divertida, com uma refeição bem regada a vodka, de regra naquelas paragens. No final, um responsável local, com ar de autoridade política, aproximou-se de mim e disse, num tom cujo sentido não era de leitura unívoca: “Já vimos que é bastante interessado pela nossa terra. Esperamos vê-lo por cá de novo. Nessa altura, poderá ir ver a mesquita iraniana. E até o levaremos a muitos outros lugares, que nem imagina que temos, para os estrangeiros curiosos...” A conversa acabou por ali. Desafiar ditaduras pode ter um preço.
Para o que me importa, nesse dia fui a Nakhchivan. Como costumava dizer alguém que já tive como amigo: “Você gosta de fazer “vezinhos” em várias coisas bizarras, pelo mundo”. É verdade. Cada um é como é.

Ver original em "duas ou três coisas" (aqui)

Artigos relacionados

Angola | Dia Mundial da População: Famílias crescem sem controlo no Bi...
Angola | Dia Mundial da População: Famílias crescem sem controlo no Bi... Este sábado, assinalou-se a data que marca os esforços da ONU pelo desenvolvimento sustentável através do planeame... 0 views Mon, 30 Nov -1, 00:00:00
Angola | UM PEQUENO PASSO NA DIRECÇÃO DA MUDANÇA DE PARADIGMA
Angola | UM PEQUENO PASSO NA DIRECÇÃO DA MUDANÇA DE PARADIGMA Martinho Júnior, Luanda“Orelacionamento dos factores físico-geográfico-ambientais com os factores humanos em Ango... 0 views Mon, 30 Nov -1, 00:00:00
Uma crise é uma bela oportunidade
Uma crise é uma bela oportunidade Na década de 90, Mandela enfrentou as farmacêuticas violando as patentes dos medicamentos antissida. Precisamos de... 0 views Mon, 30 Nov -1, 00:00:00
O velho e o novo
O velho e o novo «Acrise consiste precisamente no facto de que o velho está a morrer e o novo ainda não pode nascer. Nesse interregno... 1 views Mon, 30 Nov -1, 00:00:00
Encontro imaginário com Kirk Douglas, Antero de Quental e Louella Pars...
Encontro imaginário com Kirk Douglas, Antero de Quental e Louella Pars... Novo Encontro Imaginário no local do costume, A Barraca. As personagens são com Kirk Douglas, Antero de Qu... 0 views Mon, 30 Nov -1, 00:00:00
Sérgio Ninguém, o pescoço na navalha
Sérgio Ninguém, o pescoço na navalha Eufeme Poesia12 Julho, 2020Yvette Centeno Transparece, na elegância de um cin... 0 views Mon, 30 Nov -1, 00:00:00
  • Criado em .

Comentários (0)

There are no comments posted here yet

Deixe os seus comentários

  1. Posting comment as a guest. Sign up or login to your account.
0 Characters
Anexos (0 / 5)
Share Your Location

Publicações mais recentes

Últimos posts (Cascais)

Itens com Pin
    Atividades Recentes
    Aqui ainda não existem atividades

    Últimos posts (País e Mundo)

    Itens com Pin
      Atividades Recentes
      • LEGALIZAÇÃO DAS CASAS DE PROSTITUIÇÃO

        Um debate que provavelmente vai ganhar dimensão.
        Legalização da prostituição - petição apresentada na A.R
        Gravação da reunião na Assembleia da República
        0
        0
        0
        0
        0
        0
        Publicação sobre moderação
        Item de fluxo publicado com sucesso. Item passa a ser visível no seu fluxo.
      • Homicidal Cops Caught On Police Radio
        #TheJimmyDoreShow
        Homicidal Cops Caught On Police Radio
        42 219 visualizações
        •05/06/2020
        0
        0
        0
        0
        0
        0
        Publicação sobre moderação
        Item de fluxo publicado com sucesso. Item passa a ser visível no seu fluxo.
      Aqui ainda não existem atividades
      LOGO4 vert01
      A Plataforma Cascais - movimento cívico é um grupo aberto de cidadãos, autónomo de quaisquer interesses económicos, religiosos ou partidários.
      Todas as publicações deste site refletem apenas as opiniões dos seus autores e não responsabilizam a PC-mc
      exceto quando expressamente assinadas por esta.
       

      SSL Certificate
      SSL Certificate