• Ladrões de Bicicletas (João Rodrigues)

Pios tardios


João Vieira Pereira afiançou ontem que “reformas estruturais no dicionário do eixo franco-alemão querem sempre dizer uma coisa: a subjugação da economia e das empresas portuguesas a um alegado superior interesse desenhado a regra e esquadro num gabinete europeu onde qualquer ideologia é esmagada pelos grandes lóbis empresariais”.

O que dizer perante este diagnóstico do director do Expresso?

Em primeiro lugar, tarde piaste.

Em segundo lugar, a lógica geopolítica, que se traduz numa dependência externa acrescida, deve ser complementada com a da classe sempre que falamos de UE. Esta lógica traduz-se numa redução dos direitos laborais, do salário directo e indirecto. Este é outro dos significados das tais reformas estruturais no dicionário da UE. O exemplo da TAP, mobilizado por Pereira, vai ser realmente um bom estudo de caso do cruzamento destas duas lógicas, dado o espectro da tutela de Bruxelas a condicionar tudo. Pagamos e não mandamos para lá da banca?

Em terceiro lugar, confirma-se que a mudança de escala nunca é neutra do ponto de vista político-ideológico. Se há tantos ou mais lobistas empresariais em Bruxelas do que em Washington, a ideologia que aí domina também é a do neoliberalismo, neste caso do reforço do mercado único. Em momentos que não são excepcionais, decretados pelas grandes potências e pelo grande capital que tem país de origem, o neoliberalismo transmuta-se de forma transparente em Estado de bem-estar empresarial, mas de facto o capital das periferias beneficia menos disso, como se vê pelo montante dos apoios, em percentagem do PIB, por comparação com o centro. E daí a tendência do capital periférico para uma trajectória medíocre, procurando vulnerabilizar mais quem trabalha, através de alterações regressivas nas regras do jogo de classes.

Entretanto, as duas lógicas são mais ou menos claras no artigo de Pedro Santos Guerreiro no mesmo Expresso de ontem. Contando com a desmemória dos leitores que não leram o estudo sobre os jornalistas da troika, garante que sempre sovou “sem grande piedade os ‘alemães’”. Seja como for, agora até elogia Merkel com metáforas imperiais. Afiança que “não serão as vítimas da crise a aplaudirem o dinheiro, mas os que lhe sobreviverem”, que “não serão os mortos na economia, mas os vivos a saudarem o dinheiro de Bruxelas”. A destruição será, uma vez mais, muito pouco criativa, dado o lugar que nos cabe na divisão europeia do trabalho.

Digo a Guerreiro o seguinte: prescindia destes fundos em troca da devolução dos instrumentos de política económica perdidos. Afinal de contas, vista de Portugal, a UE esteve associada na maior parte da sua história, que começa em Maastricht, à divergência económica, à quebra do investimento, ao endividamento externo crescente e logo a uma punção dos nossos rendimentos superior a qualquer transferência. A livre circulação de capitais, decretada a partir de 1992, e a fuga aos impostos assim facilitada também ajudaram na punção.

Mas a ideia de Bruxelas-Berlim sempre foi a de garantir que existe um bloco social mínimo na periferia que continua a aplaudir esta dependência cada vez maior. E pode contar ainda hoje com todas as direitas e com a esquerda brâmane, com uma intelectualidade que nem precisa de muito para entoar loas à chamada Europa, como se vê.

Dada a extensão da crise, no entanto, pode ser que os mortos na economia decidam lutar colectivamente pela vida, pode ser que estas lutas não fiquem circunscritas a segmentos minoritários do mundo do trabalho. Pode ser. Seja como for, a lutas terão sempre de cruzar a questão nacional e a questão social, em nome de um projecto de desenvolvimento para o país.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

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