• in 'Estátua de Sal'

Pânico global, o vírus mais poderoso

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 26/02/2020)

Daniel Oliveira

Desconheço a gravidade que pode mesmo vir a ter o coronavírus. Sei que tem uma taxa de mortalidade de 2,3%, abaixo dos 50% da gripe das aves ou dos 10% da SARS. Mas o SARS afetou cerca de oito mil pessoas, tendo matado 774 em 29 países, o MERS afetou 2500 e matou 858 em 27 países e, a 18 de fevereiro, o COVID-19 já tinha afetado mais de 70 mil pessoas e morto 1870. Que as taxas de mortalidade aumentam nas idades mais avançadas (15% acima dos 80 anos, 8% entre os 70 e os 79) e nos casos mais críticos (aproxima-se dos 50% nos mais graves). Que a incrível rapidez e facilidade com que se está a espalhar pelo globo nos mostra que já ultrapassámos a fase em que se podia falar de contenção. Que o vírus é muitíssimo contagioso mesmo quando ainda não há sintomas. Ou seja, o coronavírus, tendo taxas de mortalidade muito mais baixas do que anteriores epidemias, está a progredir com muito mais eficácia. Em dois meses já tinha infetado dez vezes mais e matado bem mais do dobro do que o SARS em oito meses.

E a economia, que depende cada vez mais da perceção e cada vez mais da China, pode fazer ainda mais vítimas do que o vírus. Há fábricas paradas e bolsas em histeria. O pânico espalhou-se mais depressa do que o próprio vírus. Lembro-me das vacas loucas, da gripe das aves, da gripe suína. O filme foi semelhante, mas é cada vez mais intenso. Saltamos de ansiedade em ansiedade, sempre com a sensação de estar perto do fim. Nunca tivemos tanto medo, apesar de nunca termos vivido tanto tempo nem tão protegidos.

Estas epidemias são uma excelente metáfora da globalização. Vivemos num mundo em que tudo está interligado com um rapidez incontrolável. Uma crise, a mentira, a verdade, a ignorância, a cultura, a informação, a desinformação, a intolerância, o dinheiro e os vírus… nada parece poder ser contido, travado, regulado. O nosso medo cíclico é cada vez mais intenso de epidemias resulta do mais poderoso vírus deste tempo: o pânico global. Uma metáfora que nos permite explicar o tempo político em que vivemos, marcado pela ansiedade. Tudo parece à beira do abismo. E é mesmo verdade que a globalização, que nos oferece imensas coisas excelentes, traz perigos avassaladores. Agora que sentem o medo do vírus talvez possam olhar com menos altivez e mais cuidado para os medos dos outros.

Uma crise, a mentira, a verdade, a ignorância, a cultura, a informação, a desinformação, a intolerância, o dinheiro e os vírus… nada parece poder ser contido, travado, regulado. O coronavírus é uma metáfora que nos permite explicar o tempo político em que vivemos, marcado pela ansiedade

O medo do vírus não é diferente do medo do crime, do terrorismo, da perda de emprego pela concorrência desleal, do movimento livre e incontrolável de capitais, do poder económico da China cuja dependência se torna tão evidente. Tão semelhantes que o racismo, o oportunismo político e os apelos ao encerramento de fronteiras se sentiram da mesmíssima forma. Ou os apelos à intervenção dos governos. Perante isto, não se apela a um isolacionismo anacrónico, indesejável e inviável. Mas percebe-se que perante os problemas reais que nos levanta um mundo que ficou demasiado pequeno e demasiado rápido perante Estados demasiado impotentes, as frases bondosas sobre as maravilhas da globalização são inúteis e até irresponsáveis.

Para o bem e para o mal, o mundo é assim mesmo. Conseguir lidar com ele sem nos destruirmos exige imaginação, não uma fé infantil na caminhada inexorável para o progresso, feito sem fronteiras, Estados e Nações, em que tudo circula livre e sem controlo e os governos nada devem fazer. O debate tem de deixar de ser entre “nacionalistas” e “globalistas”, usando os termos pejorativos de cada lado. É sobre como lidar, regular e conter a globalização. Isto vale para os vírus, para os mercados ou para o movimento de pessoas.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

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