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ANJOS E DEMÓNIOS | NOTÍCIAS DO BLOQUEIO

 À semelhança do que aconteceu, há anos, com a lei da despenalização do aborto, de novo se levantam machados de guerra, bandeiras e cruzes ao alto, clamores de missas à escala do país, ideias em estado de sítio, porque a Assembleia da República vai votar esta quinta-feira quatro projectos de lei (do PS, do BE, do PEV e do PAN) sobre a morte medicamente assistida. Sabe-se que o critério comum aos projectos é de carácter restritivo, mas o que prevalece na discussão pública, para muitos, é que se trata de uma lei para matar gente.

Os debates à portuguesa são, quase sempre, de via reduzida. Impera o berro e a emoção, faz-se tábua rasa da racionalidade dos argumentos – de um e de outro lado – e faz-se crer que a lei, a ser aprovada – há quem proponha referendo – será uma espécie de revólver de trazer por casa ou da instalação de “abafadores” nos hospitais públicos, que os privados são imunes a estes pecados, graças a Deus ou aos cifrões.

Qualquer pessoa terá dúvidas em matéria tão limite, que exclusivamente é do foro íntimo de cada um. Teria sido bom que não andassem por aí a deitar gasolina para a fogueira e se procurasse a elevação de um diálogo esclarecido e pedagógico sobre a bondade dos projectos a votar, em vez de se apregoar que são obra do demónio, e o diabo tem muita força!

Deve anotar-se que, nestes contextos da política – e é apenas de política que se trata – há sempre uma dose brutal de hipocrisia. Há piedosas criaturas que se inquietam com a morte assistida, mas são pura e simplesmente indiferentes aos que morrem na solidão das desigualdades, sem qualquer tipo de assistência, à margem de tudo e de todos. Faz-me lembrar o título de um belo livro do escritor Rui Nunes: “Dobrarão os sinos por aqueles que morrem como gado?”

 É preciso ter a noção de que país falamos. Que é preciso apostar amplamente nos cuidados paliativos, ninguém duvida. Numa sociedade envelhecida, o quotidiano dos idosos é feito muitas vezes de ausência de humanidade e de dignidade. E essa falta de dimensão humana é tida quase sempre por banalidade. “Em 2018, havia em Portugal 2,2 milhões de pessoas em risco de pobreza ou exclusão social. Além de 1,8 milhões em pobreza relativa, havia 615 mil que viviam em privação material severa e 532 mil em agregados com intensidade laboral per capita muito reduzida”, segundo o INE. E isto, apesar da inclusão operada pela pela política do Rendimento Mínimo Garantido. Quantas histórias de abandono? Quantas histórias de desespero? Quantas histórias de suicídios porque a vida há muito chegara ao fim da linha?

Têm todos muito bons sentimentos, como no poema de Sophia, "não gostam de matar galinhas/ mas gostam de comer galinhas"... Causa espanto, quando os ouvimos falar nos limites da dor e do sofrimento, sabendo todos, como sabemos, que isso é muito fácil: a única dor suportável é a dos outros. Depois, a hipocrisia não tem limites. Dou um exemplo: a dr.ª Manuela Ferreira Leite foi uma das personalidades que assinou uma petição pública a exigir referendo para a morte medicamente assistida. Muito bem. Só que a antiga líder do PSD, em 2012, num programa de televisão, defendeu que os doentes, com mais de 70 anos, não deviam ter direito a diálise. Se quisessem sobreviver, pagassem… Se não, morte não medicamente assistida!

Segunda-Feira, 17 de Fevereiro


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