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Parasita se passa na Coréia do Sul, mas poderia ser aqui ou em qualquer lugar

Parasita” é um soco no estômago. Logo na primeira cena o filme diz a que vem: está ali na tela uma família vivendo claramente em condições insalubres, num apartamento que é um porão, com pouca luz, pouca ventilação, pouco espaço.

Mas o que os desespera logo nesta primeira cena é o fato de a vizinha ter mudado a senha do wifi e todos ficarem de repente sem internet, ainda mais marginalizados do que já são. A perda da internet parece lhes roubar o pouco de sentimento de cidadania, de possibilidade de existência que lhes resta, inclusive pelo whatsapp ser o meio pelo qual eles são chamados para fazerem alguns bicos e assim manterem seus corpos nessa espécie de sobrevida.

E digo aqui corpos porque a questão humana como corpo presente, como corpo político, como corpo sensível, como corpo bioquímico, como corpo oculto permeia todo o filme. Somos corpos, em todos os sentidos, nos envolvendo com a história que aqueles corpos nos contam. Uma história que pinica, acicata, incomoda, e nos traz a dimensão desta claustrofobia do mundo digitalizado que avança e tropeça no infame binômio produção/consumismo ao qual, como humanidade, temos nos submetido como animais dóceis e bem adestrados, e nisso perdendo justamente a nossa humanidade.

Saí do cinema calada, ruminando, com o estômago contraído pela pancada recebida. Uma pancada benfazeja, dessas que nos acordam do sonambulismo no qual vivemos.

O filme é sul-coreano, mas poderia ser aqui, poderia ser em qualquer lugar. Poderia ser nos Estados Unidos, o país cuja academia de cinema concedeu ontem o Oscar de melhor filme a “Parasita”, talvez por reconhecer ser este tudo, menos um filme que se possa chamar de estrangeiro. “Parasita”, ao final, é um filme que nos levanta o tapete e mostra a sujeira cada vez mais impossível de esconder deste American way of life, que reproduz-se pelo mundo.

A cereja do bolo? Os discursos em coreano do diretor nas quatro vezes em que subiu ao palco, dizendo ao mundo, e, contrariando” Baby” de Caetano, que não precisamos falar inglês.

 


por Bárbara Caldas, Escritora, autora do livro O apartamento de Baixo, foi Conselheira de Cultura do Estado do Rio de Janeiro e representou a Cadeia Criativa do Livro na elaboração do Plano Estadual do Livro, Leitura e Bibliotecas do RJ | Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial Rádio Peão Brasil / Tornado

Ver original no jornal 'TORNADO' na seguinte ligação:

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