• in 'Estátua de Sal'

PS cai, PSD resiste. Só o Chega ganharia com novas eleições

(David Dinis, in Expresso, 15/02/2020)

Se tivéssemos hoje eleições antecipadas não seria um dia bom para António Costa: na sondagem Expresso/SIC, o Partido Socialista cai para o registo mais baixo do último ano, 33%. Na prática, é uma queda de 3,3 pontos face aos 36,3% que o PS obteve nas legislativas de outubro. Mas são também menos nove pontos face à intenção de voto que o PS chegou a atingir em setembro, durante a pré-campanha eleitoral. Consequência: como o PSD mantém a sua intenção de voto nos 28% (em outubro teve 27,8%), isto significa que o PS está, agora, apenas com cinco pontos de vantagem face aos sociais-democratas.

Não é fácil, pela sondagem, encontrar as razões para a descida dos socialistas — que, embora ainda dentro da margem de erro (de 3,5%), é a mais significativa deste inquérito. Isto porque António Costa mantém a sua popularidade estável desde há um ano, a estratégia orçamental de conseguir um excedente sai validada (ver texto nestas páginas) e até a avaliação ao Governo melhorou: 57% dizem que está a fazer um trabalho bom ou muito bom, contra 34% que o veem de forma negativa. No balanço, são mais sete pontos positivos do que antes das legislativas (10 se contarmos com a descida das respostas negativas).

O PS não cresce, mas os inquiridos aprovam o excedente orçamental e a situação económica

Os dados da aprovação do Governo são tão positivos que ultrapassam o somatório das intenções de voto dos partidos que permitiram a aprovação do Orçamento de 2020. Dito de outra forma: PS, Bloco, PCP, PAN e Joacine (Livre), juntos, teriam 54%, menos três pontos do que a aprovação do trabalho do Executivo. O que pode encontrar explicação por este outro dado: o Governo merece a avaliação positiva de 85% dos simpatizantes do PS, mas também de 25% dos simpatizantes do PSD, um em cada quatro dos inquiridos. Mesmo assim, o facto é este: a aprovação do Governo, neste caso, não se traduz em intenção de votos para o PS.

MESES DIFÍCEIS, OUTROS PELA FRENTE

A verdade é que, nestes quatro meses depois das legislativas, o Governo não tem conseguido dominar a agenda política: Costa anunciou a intenção de fazer um grande acordo de concertação sobre a subida dos salários, mas as negociações arrastam-se na concertação social sem avanços concretos; a agenda legislativa do Executivo praticamente parou; as centrais sindicais, UGT e CGTP, reforçaram a luta e fizeram novas greves; a ‘geringonça’ ficou sem papel passado e o primeiro Orçamento da legislatura acabou por ter um susto de última hora, com PSD e Bloco a unirem forças para tentar forçar uma baixa do IVA da luz. Não conseguiram, mas o aviso ficou.

Pela frente, Costa pode ter mais um problema: a saída pré-anunciada de Mário Centeno do Governo, um ministro com índices de popularidade e aprovação que ultrapassam, até, os dos líderes partidários na oposição. Se o PS cai com Centeno, como será sem ele?

PSD RESISTE, CHEGA SOBE, DIREITA LONGE

Visto assim, parecem boas notícias para Rui Rio — cuja reeleição em diretas no PSD coincidiu com o trabalho de campo deste inquérito. Mas, na verdade, se as legislativas fossem hoje Rui Rio estaria muito longe de poder governar. É que o PSD fica estável nos 28% que conseguiu em outubro e, somadas as intenções de voto, a direita consegue apenas 40%. O cenário é pior ainda quando quem ganha força neste inquérito é o Chega — que, no congresso do PSD, sobretudo depois de um discurso do vice-presidente Nuno Morais Sarmento, surgiu como um aliado possível caso seja preciso uma maioria parlamentar.

Mas este é mesmo o indicador que mais muda nestes quatro meses: de acordo com o inquérito ISCTE/ICS, o partido de André Ventura é já o quinto partido com mais intenções de voto atingindo os 6%, muito acima dos 1,3% das legislativas, acima do CDS (que se mantém nos 4%) e até do PAN (que se mantém nos 3% com que elegeu quatro deputados).



Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

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