• Arnaldo Xarim in 'O TORNADO'
  • Mundo

Recessões e soluções – Parte I

À medida que as bolsas de valores oscilam ao sabor dos movimentos especulativos, o grande foco da imprensa financeira é sobre a hipótese de uma nova recessão global estar a formar-se.

Os analistas financeiros procuram indicadores económicos ou financeiros que possam orientá-los e o favorito é a “curva invertida do rendimento de títulos” (“inverted bond yield curve“), que avalia a diferença entre a taxa de juro anual dos títulos de curto e de longo prazo.

Normalmente a curva das taxas de juros para títulos com maturidades crescentes é ascendente, o que traduz a expectativa de obter uma taxa de juro mais alta nos empréstimos de maior maturidade. Mas, por vezes, no mercado secundário o rendimento dos títulos a dez anos fica abaixo dos de dois anos ou mesmo de três meses, obtendo-se assim uma curva de juros invertida.

Esta situação ocorre quando os grandes investidores em activos financeiros (bancos, fundos de pensões, empresas e fundos de investimento) antecipando uma evolução desfavorável das economias não querem continuar a manter acções ou títulos de empresas nas suas carteiras (ou seja, investir ou emprestar dinheiro), preferindo no seu lugar activos mais seguros, como as obrigações de dívida pública. A maior procura por títulos de dívida pública vai fazer subir o seu preço no mercado e uma vez que estes são títulos de dívida fixa (o governo paga sempre o mesmo juro desde a emissão até à maturidade) à subida do preço corresponde uma redução no respectivo rendimento e ao fenómeno da inversão da curva de rendimento.

Evidências empíricas mostram que sempre que isso acontece por um período suficientemente longo, cerca de um ano, segue-se uma recessão económica.

A fiabilidade desta ligação directa entre uma inversão sustentada da curva de rendimentos e a aproximação de uma recessão é questionável pois tudo o que significará é que os investidores estão com medo da recessão, mas podem estar errados. Se olharmos, porém, para a experiência nos mercados de capitais, onde é bem conhecido o efeito de mimetismo que inúmeras vezes transforma os receios em realidades catastróficas, pode bem acontecer que o sentimento negativo se generalize facilitando a tão receada recessão, mesmo quando existem indicadores, como o diferencial entre os yields das obrigações empresariais norte-americanas, que apontam em sentido inverso.

Outra perspectiva é a apresentada por Myron Scholes (Nobel em 1997) e Ash Alankar num artigo publicado na Bloomberg onde referem que:

 
[e]mbora a forma anormal da curva das obrigações do Tesouro exija atenção, anos de flexibilização monetária criaram um conjunto único de circunstâncias, dificultando concluir com certeza que a inversão inevitavelmente significa recessão pendente» para concluírem que «umas vezes, a história diz-nos muito para nos ajudar a prever o futuro, outras vezes diz-nos pouco. Neste caso, pode não ser prudente dar muito peso às experiências recentes».
 
 
 

Deixando a esfera financeira e olhando para indicadores da economia real, como o da evolução do PIB, constata-se que entre os países do G7 o crescimento económico está a tender a rapidamente para zero; com excepção da Índia (7,4%), China (6%), Indonésia (5,1%), que embora desacelerando registam taxas de crescimento decentes e dos EUA, com um crescimento de 2,3%, os restantes apresentam: Canadá (1,3%), França (1,3%), Japão (1,2%) Reino Unido (1,2%), Rússia (0,9%), Brasil (0,5%), Alemanha (0,4%), Itália (0,0), México (-0,7%), Turquia (-2,6%) e Argentina (-5,8%). Dados que revelam que vivemos já uma recessão no sector industrial e que apenas sectores de serviços – como a saúde, a educação e o turismo, que em última análise dependem da vitalidade dos sectores produtivos da economia para manterem as suas vendas e os seus lucros – estão a sustentar a economia mundial.

Outro sinal positivo será o facto de muitas economias registarem situações de pleno emprego (pelo menos nas estatísticas oficiais), mas este resulta dos baixos salários e do aumento da precariedade dos postos de trabalho, com destaque para o trabalho a tempo parcial e por conta própria, factores que além de contribuírem para uma situação de empobrecimento generalizado e para a redução das taxas de poupança das famílias, tornam insustentável o recurso ao endividamento, por mais reduzidas que sejam as taxas de juro. E elas estão historicamente baixas, a ponto de já haver títulos de dívida pública com taxas de juro negativas (casos da Dinamarca e da Alemanha, país onde a dívida com maturidades entre os 2 e os 30 anos têm taxas de juros negativas), facto apenas explicável por os investidores recearem uma recessão global que provoque um colapso nos mercados de acções e de outros activos financeiros com maior risco.

Mas talvez a questão mais importante nem seja saber se estamos ou não muito próximo de mais uma recessão, há muito que as teorias dos ciclos económicos nos dizem que as crises são parte destes e características das economias de mercado, mas sim a de saber o que fazer quando ela surgir.

 

 

 

 

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/recessoes-e-solucoes-parte-i/

Artigos relacionados

Aumento do Salário Mínimo Nacional
Aumento do Salário Mínimo Nacional A falácia conveniente sobre o desemprego.     Contrariamente ao debitado em retórica de... 31 views Fri, 06 Dec 2019, 12:19:42
Voltámos aos lugares onde já estivemos...
Voltámos aos lugares onde já estivemos... Estão a ver ali... aquele... o engravatado... com o logotipo ARTV estampado mesmo em cima do nariz? Pois é, sou eu... 28 views Thu, 05 Dec 2019, 00:23:53
PIB é ilusão perversa, diz Nobel de Economia
PIB é ilusão perversa, diz Nobel de Economia     O mal-estar social alastra-se, o colapso da Natureza avança e a democracia declina. Se ainda assim o... 37 views Thu, 28 Nov 2019, 15:43:47
O Espelho da situação
O Espelho da situação Na semana passada o Institute of International Finance ( IIF) enviou aos seus membros um relatórioem que apontava :“... 32 views Thu, 28 Nov 2019, 01:05:58
Programa de Governo na área da saúde não responde às necessidades do p...
Programa de Governo na área da saúde não responde às necessidades do p... Esta é a segunda parte de um estudo com o título “O agravamento das dificuldades do SNS, a falta de medidas no pro... 50 views Wed, 13 Nov 2019, 14:52:23
Deus salve a rainha | A destruição do Império Britânico pelos EUA
Deus salve a rainha | A destruição do Império Britânico pelos EUA     Larry Romanoff | Global Research    Essa é uma parte pouco conhecida e nunca discutida d... 51 views Fri, 08 Nov 2019, 16:44:03

Economia política, Crise

  • Criado em .
  • Visualizações: 31

Comentários (0)

There are no comments posted here yet

Deixe os seus comentários

  1. Posting comment as a guest. Sign up or login to your account.
0 Characters
Anexos (0 / 5)
Share Your Location

Últimos posts

Itens com Pin
Atividades Recentes
  • Vasco Graça updated his profile
    Publicação sobre moderação
    Item de fluxo publicado com sucesso. Item passa a ser visível no seu fluxo.
Aqui ainda não existem atividades
LOGO4 vert01
A Plataforma Cascais - movimento cívico é um grupo aberto de cidadãos, autónomo de quaisquer interesses económicos, religiosos ou partidários.
Todas as publicações deste site refletem apenas as opiniões dos seus autores e não responsabilizam a PC-mc
exceto quando expressamente assinadas por esta.
 

SSL Certificate
SSL Certificate