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O revolucionário João Gilberto

As novas gerações não sabem, talvez nem imaginem o que era ouvir Chega de Saudade, na Rádio Tamandaré, no Recife de 1959. Nós, meninos suburbanos, parávamos tudo diante daquela interpretação. Como aquela voz era diferente e como era familiar ao mesmo tempo!

 

Nós não tínhamos explicação, apenas suportávamos as censuras dos vizinhos, da família, ao novo modo de cantar daquela voz baixinha. E sem forças ou iluminação para responder, virávamos o rosto à procura de uma saída, que não vinha. Somente mais tarde na juventude, no tempo da ditadura, pudemos receber uma luz para a revolução que foi o disco Chega de Saudade, em 1959. Então, com o estrondoso sucesso de Tom Jobim, com Chico Buarque, Caetano Veloso, o estranho veio ficar mais claro. Tudo pareceu vir daquele esquisito. João era mais que cantor e compositor e violonista: ele era semente da nova música popular brasileira.

E mais, percebemos depois. Dele, um homem de esquerda, veio a compreensão de assimilar a tradição dos sambistas que estavam marginalizados. Dele veio um modo de reinterpretar a tradição do samba, quando deu uma nota cálida, inteligente, sensível, a Geraldo Pereira, Wilson Batista, Ari Barroso, Caymmi, entre muitos. Quem não viveu esse tempo, como pode avaliar e sentir a mudança que houve em nossa canção?

Há quem entenda a palavra repercussão como o número de gravações vendidas de uma só música. Na verdade, penso que repercussão significa o que ‘repercute’ até hoje, que é objeto fecundante, composição a gerar filhos e filhas em toda a nossa música. Nessa aproximação do conceito vivo, seria bom que os vendedores de sucessos ouvissem mil e uma vezes Chega de saudade com João Gilberto. Não seria castigo.


João Gilberto, com Caetano Veloso e Gal Costa, em 1971

O autor de hits poderia fazer pausas, como um refresco do suplício, e nos intervalos bem poderia pesquisar de Milton Nascimento a Caetano, de Chico Buarque a Gilberto Gil, de Edu Lobo a Carlos Lyra, e outros ‘menores’ imensos da nossa riquíssima Música Popular Brasileira, para saber afinal qual a música que maior repercussão teve no trabalho de todos eles até hoje. Nos limites do Brasil, Chega de Saudade repercutiu mais que a Banda dos Corações Solitários do Sargento Pimenta no mundo.

O intérprete João Gilberto, com seu modo de cantar baixinho, que a maioria em 1959 reprovava “isso é lá cantor de rádio?!”, com o seu canto que era o oposto absoluto do vozeirão de Vicente Celestino, Francisco Alves, pois no Brasil da época o maior cantor seria aquele de voz de quebrar cristais no teatro, João Gilberto foi o cara que usou para cantar a técnica do microfone, que para ser ouvido não precisaria receber brados retumbantes. Ele incorporou para a música, para a interpretação, o que jazia apenas para ser transmitido a milhões de ouvintes. Com a sua voz, ele parecia perguntar: se existe microfone, pra que gritar pra madame?

O que uma vez escrevi sobre a crônica do rádio, sobre a leitura de um texto no rádio, veio de João Gilberto. Ao se ler diante do microfone um poema, uma crônica, as palavras têm que ser desentranhadas do seu casulo escrito. Isso quer dizer que a leitura exige recursos de ator, se por isso não entendemos o mau gosto das impostações de voz artificiais, ou, supremo mal dos males, as entonações melodramáticas. O texto deve ser interpretado com a voz que não passa a impressão de interpretar. Como dizer isso? – O texto merece uma interpretação natural, que se dê em um fluxo de conversa em uma sala, como um diálogo entre duas pessoas. Ainda que fale para milhões de pessoas, o locutor se dirige a um só ouvinte. Como um João Gilberto da fala.

Com a morte do nosso maior intérprete, não se vai um modo de cantar, não se vai uma genialidade de falar novo para os corações. A sua morte não define o seu fim. Ele continua com a revolução que espalhou dos compositores às cantoras, cantores, arranjadores, a tudo enfim que faz a nossa música imensa no mundo. Quem sabe se com o seu falecimento físico poderemos ouvir mais João Gilberto no rádio? Quem sabe se neste Brasil selvagem, estúpido de Bolsonaro, de destruição das conquistas brasileiras, teremos uma pausa para a sensibilidade e um carinho no coração?

Consola, se conseguirmos esse intervalo. Mas o que eu queria mesmo era ouvir Chega de Saudade como em 1959. E sei que isso não mais será possível. Fazer o quê? Escrever estas mal traçadas linhas apenas.

 


Texto em português do Brasil


 

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/o-revolucionario-joao-gilberto/

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  • Voltaram as Festas do Mar e vale a pena ir ver alguns dos espetáculos.
    A Câmara autopropagandeia-se com elas, claro.
    Na televisão vemos um dos organizadores do evento dizer que as Festas são muito boas para a "vila" (vila é o que a aritocratoburguesia local gosta de chamar a esta terra por estultas razões que estão devidamente caracterizadas) e que não têm nenhuns custos para os munícipes.

    Duvidamos mas ele argumenta que o dinheiro vem das verbas do jogo (Casino) e dos patrocinadores. Claro...
    Voltaram as Festas do Mar e vale a pena ir ver alguns dos espetáculos.
    A Câmara autopropagandeia-se com elas, claro.
    Na televisão vemos um dos organizadores do evento dizer que as Festas são muito boas para a "vila" (vila é o que a aritocratoburguesia local gosta de chamar a esta terra por estultas razões que estão devidamente caracterizadas) e que não têm nenhuns custos para os munícipes.

    Duvidamos mas ele argumenta que o dinheiro vem das verbas do jogo (Casino) e dos patrocinadores. Claro que as verbas do jogo são verbas dos munícipes (não são um 'dinheiro de bolso' para festejos e mais o que alguns queiram) mas, mesmo assim, duvidamos. Seria bom que oposição camarária tentasse (sabemos que é muito difícil conhecer as contas da Câmara) deslindar quanto é que os cascalenses pagam efetivamente por estas Festas.


    Ao ouvir o dito organizador percebia-se que a conversa era de jotinha de carreira (não obrigatoriamente do Carreiras, entenda-se) e fomos ver.

    Bastou googlar para nos aparecer à cabeça que o Dr. Bernardo Barros é um distinto Administrador Executivo da Empresa Municipal "CASCAIS DINÂMICA" (as empresas municipais, em geral, servem para fazer o que a Câmara deixa de fazer porque é mais fácil meter os boys e girls nestas empresas, pagas pelos munícipes, do que na própria Câmara) com um currículo com muitas derivações do seu enlace camarário (do "Americas Cup World Series - Cascais" à "NOVA SBE – Intensive Management Program " passando pelo "Sailors for the Sea Portugal – Presidente" e pela "Escola Superior de Hotelaria do Estoril (ESHTE) – Membro do Conselho Geral").

    Mas o que conta verdadeiramente é que, depois de uns anitos como escuteiro já em 2006 era " Conselheiro Distrital de Lisboa da JSD" e em 2010 passou a "Conselheiro Nacional da JSD"o que, entretanto, lhe permitiu ingressar como " Secretário Político do Vereador na Câmara Municipal de Cascais" até com "representação do Vereador em atos oficiais, visitas diplomáticas e conferências".

    A partir daí foi só subir. Em 2011 já estava na " Comissão Política Distrital de Lisboa do PSD" e logo (2012) passava para "Adjunto do Vice-Presidente da Câmara Municipal de Cascais" e, simultaneamente, para "Vice-Presidente da Associação de Turismo de Cascais (Associação de direito privado)", seguindo-se, em 2015, o atual lugar de "Administrador Executivo na Cascais Dinâmica" onde organiza as Festas do Mar.

    Nada nos move contra este distintíssimo quadro da esfera camarária cascalense. Provavelmente é uma excelente pessoa e um funcionário exemplar.

    Apenas se lamenta constatar que o poder político/administrativo é cada vez mais feito destas carreiras partidarizadas e clientelares.

    Certamente que há gente competente nos Partidos do velho "Arco da Governação" (os outros ficam de fora obviamente). Mas só há quadros competentes com o cartão destes Partidos ? Não há muita gente competente que não esteja em Partido nenhum ou que opte por outros dos muitos Partidos existentes ?

    É que isto, aqui por Cascais, tresanda.
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