• António Fernandes, em Braga in 'O TORNADO'
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Ensaio sobre o desespero da classe média – III, IV e V

O Virar do Século

Com o virar do século a “mãe” de todas as revoluções – a revolução industrial – é confrontada com a necessidade em se modernizar para responder com eficácia às necessidades da nova Ordem Mundial das Sociedades Civilizadas em que o conhecimento cresceu exponencialmente em função dos progressos da Humanidade no domínio de literacia individual necessária ao manuseamento das novas tecnologias e aos equipamentos que as Civilizações foram desenvolvendo, acrescentando sempre mais saber e conhecimento a cada cidadão comum.

Ora, é esta condição, a de o saber, passar a ser comum que, dispensa uma classe intermédia, propiciando um cenário em que a correlação das forças sociais nacionais e internacionais fica fora de controlo com enfoque no Continente Europeu onde as fissuras existentes são já de difícil solução, extinta que está a ser a classe média, em completo desnorte, serve-se de todos os meios que tem ao seu dispor para reagir sem que, em concreto, saiba muito bem contra o quê ou quem.

Condição que divide, nas sociedades modernas e civilizadas, o espectro social em dois segmentos: Os detentores da riqueza e, os que manuseiam os mecanismos geradores dessa mesma riqueza.

Uma nova conjuntura que surge na organização social cujas consequências são imprevisíveis, mas que importa reter as consequências.

Importa por isso perceber as verdadeiras raízes de onde rebentam os rebentos nefastos para a estabilidade social nacional e internacional que através de práticas discutíveis chegam ao exercício do poder de onde emanam diretrizes para que se construa legislação de proteção aos interesses que efetivamente estão por detrás da sua trajetória social e política.

Importa por isso olhar o caminho percorrido e em que circunstancias o foi, para que não sobrem muitas dúvidas sobre porque é que, de facto, a classe média, está desesperada.
Desde logo porque:

  1. perdeu o protagonismo social que detinha;
  2. perdeu estatuto social;
  3. perdeu poder de compra diferenciado;
  4. foi encostada aos pobres da atualidade;
  5. é tratada como classe dominada;

No entanto, ainda detém o efetivo poder de manipular a opinião publica em domínios de massas. Mais concretamente:

  • as crenças;
  • a comunicação social;
  •  as organizações sociais de classe;
  • as organizações sociais de cariz político partidário;
  • as organizações de claques desportivas;
  • as redes sociais;
  • outros

Poder de que não descartam com facilidade o uso, porque as grandes transformações políticas e sociais que o conceito 4.0 preconiza, ainda não são exequíveis globalmente.

Sendo que, a sua implementação setorial já é prática corrente nas normas comunitárias de orientação política estratégica para todos os parceiros que constituem a União Europeia com a consequente projeção global implícita ao funcionamento orgânico e organizado das sociedades modernas e, do futuro.

A que acrescem o descontentamento popular generalizado em setores nevrálgicos como o são:

  • a precariedade laboral;
  • o desemprego qualificado;
  • o desemprego de longa duração;
  • o desemprego em idade tida pela indústria como improdutiva;
  • a habitação para os jovens;
  • os índices de natalidade;
  • a desertificação;
  • os surtos de emigrantes;
  • as alterações climáticas;
  • a elevada carga fiscal sobre os já parcos rendimentos de todos os cidadãos;
  • outros;

Um conjunto alargado de motivos que incentivam um clima social de ódio crescente onde o fulcro central não é a melhoria das condições de vida sempre reclamadas pelas classes sociais subjugadas, mas tão só, um processo intestino de autorregulação na sobreposição social em que as soluções são complexas em virtude de fatores que ultrapassam uma só classe em vias de extinção pela ordem natural da modernização das sociedades e dos progressos já referidos mas que não aceita o rumo História como condição.

O Novo Paradigma

O proletariado e o campesinato não tiveram qualquer problema em ultrapassar as alterações na organização social ao verem as grilhetas da pobreza aliviar a pressão extinguindo a sua condição menor, melhoradas que foram as suas condições de vida e que, os coloca em igualdade de estatuto social ativo, salvo na remuneração da mão de obra que se inverteu ao potenciar massa salarial superior para a mão de obra indiferenciada por haver menos oferta o que não acontece com a mão de obra qualificada onde a oferta é superior à procura num mercado onde as regras da economia continuam a privilegiar o binómio oferta/procura.

Resulta deste novo paradigma a linearidade relativa ao montante do pagamento ao assalariado fornecedor de mão de obra qualificada, por ser menor a oferta de emprego, uma vez que a automação e a automatização dos procedimentos e da produção tem vindo a alastrar exponencialmente em todo o tecido empresarial privado e publico o que obriga a uma reconversão nos processos de formação intelectual dos indivíduos e da sociedade no seu todo de forma a que a mente Humana se reja por uma nova ordem mundial naquilo que toca à distribuição quantitativa e qualitativa da riqueza produzida, assim como, a sustentabilidade e o equilíbrio das espécies em presença, de forma a assegurar os recursos primários que lhe são indispensáveis.

Esta nova conjuntura internacional tem provocado o êxodo nos Países subdesenvolvidos e a estagnação económica e de desenvolvimento nos Países desenvolvidos. Nomeadamente na Europa.

A dispensa da mão de obra objetivando o crescimento do lucro líquido da exploração implica o aumento da produção e do consumo havendo para isso a necessidade política de munir com recursos económicos os consumidores. O que não está a acontecer.

Aquilo que pode vir a acontecer é o crescimento e implementação tentacular de fatores de desordem publica a saber:

  • corrupção;
  • acesso, uso e violação de bancos de dados diversos;
  • criminalidade de colarinho branco;
  • fraude, evasão fiscal e outros neste domínio;
  • o narcotráfico;
  • o comércio de Seres Humanos;
  • a criminalidade violenta;
  • a pequena criminalidade não violenta, mas que perturba a estabilidade social e a segurança de pessoas e bens;
  • outros;

Uma vasta lista de procedimentos ilegais em que o crime compensa e por essa via, os “sinais exteriores de riqueza”, transformam esta charneira social em um segmento com posses acima da média, umas.

De efetivo poder social, outras.

Que, pela posse e capacidade financeira, assumem rosto de classe média também, num universo de valores de referência que caraterizam e distinguem os indivíduos uns dos outros.

Conclusões

Conclui-se assim que a classe média sempre ocupou um lugar de destaque privilegiado na História das Civilizações ao longo dos tempos e que não aceita ser subalternizada numa postura em que perde o poder de coordenação da organização estrutural e económica das Sociedades Civilizadas passando a ser um simples elo de articulação social sem benesses ou benefícios acrescidos num contexto global de tratamento igual em função e mesmo entre funções distintas.

Adivinha-se por isso uma batalha fratricida no seio daquela que já deixou de ser uma classe intermediária organizada a mando, para ser uma classe marginal espartilhada, mas que ainda domina.

Uma batalha intermédia num estádio Histórico incomum que resulta da evolução da organização e da qualidade de vida das pessoas em função do conhecimento e do saber acumulado que permite ao Homem do futuro desfrutar da vida em detrimento daqueles que foram os paradigmas estilizados: competitividade e sucesso.

Conclusões:

  1. O poder financeiro perdeu o controlo do poder político minado pela classe média que se tenta impor não olhando a meios.
  2. A classe média não tem dimensão intelectual no discernimento do momento Histórico que atravessamos em que a sua extinção é o obvio.
  3. A era do conhecimento já dita novas regras de regulação e organização social.
  4. A construção da História é uma batalha estoica para um novo ciclo em que o escalonamento social igualitário é uma nova realidade.
  5. O interesse financeiro nunca foi efetivamente poder porque declinou na classe média essa função.
  6. O interesse financeiro é um interesse parasitário.
Primeira parte

Por opção do autor, este artigo respeita o AO90


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/ensaio-sobre-o-desespero-da-classe-media-iii-iv-e-v/

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