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Pompeo confirma visita à América do Sul com foco na Venezuela

Secretário de Estado dos EUA Mike Pompeo
© AP Photo / Phil Nijhuis

O secretário de Estado dos Estados Unidos, Mike Pompeo, confirmou viagem à América Central e do Sul para reforçar esforços em relação à Venezuela, Cuba e Nicarágua.

A viagem está prevista para acontecer ao longo do final de semana para apoiar os povos desses países "na luta pela liberdade e pela democracia", declarou o porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Morgan Ortagus. Pompeo passará por Argentina, Equador, México e El Salvador.

A agenda nos países prevê a participação de Pompeo em Buenos Aires na 2º encontro Ministerial de Contraterrorismo do Hemisfério Ocidental. O secretário norte-americano se contratá com o presidente da Argentina, Maurício Macri, com o ministro das Relações Exteriores do Chile, Teodoro Ribera, assim como o chanceler de Bahamas, Darren Henfield.

No México, no domingo (21), Pompeo se encontrará com o Ministério das Relações Exteriores local, Marcelo Ebrand, com o objetivo de discutir imigração ilegal, e o acordo comercial entre EUA, Canadá e México, disse Ortagus.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019071614222403-pompeo-confirma-visita-a-america-do-sul-com-foco-na-venezuela/

Chomsky mergulha na estratégia de Trump

Para o intelectual dissidente, há uma lógica brutal na aparente loucura do presidente. Reeleger-se, tirando proveito do declínio do debate público nos EUA; e liderar a direita global — único caminho para manter a supremacia de Washington
Entrevista a C.J. Polychroniou no Truthout | Outras Palavras | Tradução: Inês Castilho
Não é tarefa fácil dar sentido à política exterior atual dos EUA. Trump é violentamente imprevisível e desprovido de qualquer tipo de coerência em sua visão das relações internacionais, parecendo acreditar que só se exige “a arte de negociar” para transformar “inimigos” em amigos. Entretanto, desde sua ascensão ao poder, o fim da hegemonia dos EUA tornou-se visível.
Na entrevista exclusiva a seguir, Noam Chomsky – um dos críticos mais sagazes da política exterior dos EUA no pós-guerra – ilumina esta política, inclusive as relações de Trump com os líderes da Coreia do Norte, Rússia e China, assim como o chamado “Plano de Paz do Oriente Médio” deles.
Em 2016, Trump chamou a política exterior dos EUA de “um desastre completo e total”, alegando que os governos anteriores na era pós-Guerra Fria eram guiados por expectativas irrealistas que prejudicaram os interesses nacionais do país. Desde que assumiu, ele tirou Washington de uma série de acordos internacionais, exigiu que nações aliadas paguem por proteção e buscou promover os interesses econômicos dos EUA por meio de tarifas e protecionismo. Essas ações levaram muitos analistas a falar numa nova era das relações norte-americanas com o mundo. Qual a sua visão disso tudo?

Um dos comentários mais pertinentes que vi sobre a política exterior de Trump é de um artigo do The New Republic escrito por David Roth, editor de um blog de esportes: “O espetáculo de analistas e líderes de opinião analisando as ações de um homem sem competência ou capacidade de análise é uma sátira corrosiva – menos por causa de quanto essa análise falhou do que por causa de quão é deslocada. Não há nada para analisar, nenhum significado oculto ou elisões táticas ou uma lenta campanha estratégica”.

Isso parece preciso. Trata-se de um homem, afinal, que descarta a informação e análises de seu enorme sistema de “inteligência” em favor do que ocorre no programa Fox e Friends, onde todos lhe dizem o quanto o amam. Com todo o ceticismo devido à “inteligência”, é pura loucura.

E isso continua, de modo quase surreal. Na recente conferência do G20, perguntaram a Trump sobre a declaração de Putin, de que o liberalismo do Ocidente está obsoleto. Trump deve ter pensado que estava falando sobre a Califórnia: liberalismo a oeste... “Putin vê o que está acontecendo. E eu suponho, se você vê o que se passa em Los Angeles, é tão triste; e o que está acontecendo em São Francisco e algumas outras cidades governadas por um grupo extraordinário de pessoas à esquerda”.

Perguntaram-lhe por que só os EUA estão se recusando a se juntar ao G20 no compromisso de enfrentar o aquecimento global. Respondeu elogiando a qualidade do ar e da água dos EUA, aparentemente não entender a diferença.

É difícil encontrar um comentário sobre política exterior que destoe dessa norma impressionante. Os esforços para enxergar uma estratégia global coerente parecem levar a uma espécie de sátira ácida.

Não que não haja política coerente. Há uma política que emerge do caos – o tipo que poderíamos esperar de um homem egoísta que tem um princípio: Eu! A consequência é que qualquer tratado ou acordo conseguido pelos seus predecessores (particularmente o desprezado Obama) é o pior negócio da história, que será substituído pelo Grande Negócio da História, feito pelo negociador mais bem-sucedido de todos os tempos e maior presidente norte-americano. Da mesma forma, qualquer outra ação realizada no passado foi equivocada e prejudicou os EUA, mas será corrigida pelo “gênio resistente”, agora encarregado de defender o país daqueles que o estão enganando e atacando por todos os lados.

Não faz diferença quais serão as consequências – terríveis, decentes, indiferentes – desde que as imagens sejam preservadas.

Pode-se lembrar que um presidente que recebe esse retrato do mundo da Fox and Friends não é um fenômeno inteiramente novo. Há quarenta anos, um predecessor reverenciado (Ronald Reagan) aprendia sobre o mundo com os filmes e estava tão encantado que até acreditou ter participado da libertação dos campos de concentração nazistas (mesmo não saindo da Califórnia).

Tudo isso nos diz alguma coisa sobre a política moderna. Mas Trump não pode ser comparado a Reagan, não mais do que a farsa pode ser comparada à tragédia, parafraseando Marx.

É compreensível que a farsa esconda o ridículo, e sem dúvida há gente saboreando a próxima foto de Trump com o possível premiê britânico, Boris Johnson, defendendo a civilização anglo-americana. Mas, para o mundo, é terrivelmente sério: desde o risco de destruição ambiental e crescentes ameaças de uma guerra nuclear terminal até uma longa lista de outros crimes e horrores.

A crise de política externa mais perigosa no curto prazo é o conflito com o Irã, considerado a fonte oficial de todo o mal. O Irã precisaria acabar com sua “agressão” e tornar-se um “país normal” – como a Arábia Saudita, que está fazendo rápido progresso no mundo de fantasia de Trump, inclusive “um ótimo trabalho na Arábia Saudita do ponto de vista das mulheres”, explicou ele no G20.

As acusações contra o Irã ressoam através das câmaras de eco da mídia com pouco esforço para aferir a validade das “denúncias” – que dificilmente resistem a análise. O que quer que se pense sobre o comportamento internacional iraniano, Teerã não tem a mínima condição de competir com Washington para ver quem se enquadra melhor como “Estado vilão”.

No mundo real, o unilateralismo dos EUA destruiu um acordo nuclear (chamado de JCPOA) que ia bem, com acusações absurdas não aceitas por virtualmente ninguém com um mínimo de credibilidade. Além disso, impôs sanções extremamente duras, destinadas a punir o povo iraniano e minar sua economia. O governo dos EUA usa também seu enorme poder econômico, incluindo controle virtual do sistema financeiro internacional, para obrigar os outros a obedecer aos ditames de Washington. Nada disso tem a menor legitimidade – e o mesmo é verdade no caso de Cuba e de outros. O mundo pode protestar. Em novembro passado, a Assembleia Geral da ONU condenou outra vez o embargo dos EUA contra Cuba, por 189 a 2 (só os EUA e Israel votaram contra a resolução). Mas em vão. A estranha ideia dos fundadores do país, de que se deve “digno respeito às opiniões da humanidade” desapareceu há muito e os dolorosos gemidos do mundo passam em silêncio.

Há muito mais a dizer sobre o recurso, pelos EUA, a sanções com alcance extraterritorial, para punir populações. É uma forma de “excepcionalismo norte-americano” que encontra seu lugar naquilo que Nick Turse chamou de “o sistema de sofrimento norte-americano” quando expôs, de forma devastadora, o assalto dos EUA à população civil do Vietnã do Sul. O direito de se engajar nessa prática perversa é aceito como normal no sistema doutrinário dos EUA, com pouco esforço para analisar os verdadeiros motivos em cada caso, a legitimidade de tais políticas ou mesmo a sua legalidade. São assuntos sem a menor relevância.

Em relação ao Irã, no sistema doutrinário da mídia governamental, a única questão que surge é se a vítima irá responder de alguma maneira, talvez “violando” o acordo que os EUA demoliram, talvez com algum outro ato. E se esta vítima responde, obviamente irá merecer punição brutal.

Segundo a mídia e os funcionários dos EUA, o Irã “viola” acordos. Os EUA meramente “retiram-se” deles. A postura é uma reminiscência do comentário do grande escritor anarquista e ativista dos Wobblies, T-Bone Slim: “somente os pobres infringem as leis – os ricos esquivam-se delas”.

Os analistas tentam duramente detectar alguma grande estratégia por trás do assalto dos EUA ao Irã. É outro exercício de inutilidade. É fácil perceber os objetivos dos criminosos que estão em volta de Trump. Para Mike Pompeo e John Bolton, o objetivo é esmagar os hereges – de uma distância segura, de modo a não gerar custos. E danem-se as consequências. O próprio Trump parece ver isso de forma bem diferente. Quem sabe se ele de fato cancelou um ataque militar por causa de sua compaixão por 150 possíveis vítimas? A única evidência vem de uma fonte que não é famosa por sua credibilidade. Mas parece claro que ele não quer uma guerra, o que estragaria os jogos que tanto aprecia, e prejudicaria suas perspectivas eleitorais. É muito melhor chegar às eleições enfrentando a ameaça cósmica de um inimigo mau, que apenas um Líder Corajoso poderá deter — não algum daqueles “democratas fracotes” e, certamente, nenhuma “mera” mulher. Reagan também agarrou-se a esse princípio quando enfrentou com força a ameaça da Nicarágua, amarrando suas botas de caubói, avisando que as tropas nicaraguenses estavam a apenas dois dias de distância de Harlingen, no Texas, e declarando emergência nacional por causa da “extraordinária ameaça” à segurança e à sobrevivência dos EUA.

O histórico do conflito com o Irã tem fatos inenarráveis. A alegada ameaça das armas nucleares iranianas pode ser prontamente superada com a aceitação da demanda dos Estados Árabes, do Irã e praticamente do mundo inteiro, de estabelecer uma zona livre de armamentos no Oriente Médio, uma política diante da qual os EUA e o Reino Unidos têm uma obrigação especial, e que os EUA bloqueiam regularmente – por razões que não chegam a ser obscuras. Se Washington reconhecesse oficialmente a existência do arsenal nuclear de Israel, o enorme fluxo de ajuda a Tel Aviv seria ilegal sob a lei norte-americana. Por isso, é claro, as armas de destruição em massa de Israel não podem ser objeto de inspeção.

E as tarifas, então? O “homem das tarifas” nos diz que elas estão destinadas a promover os interesses econômicos dos EUA. Se ele acredita nisso ou não, ou se dá importância, não temos a menor ideia. Pronunciamentos políticos raramente podem ser tomados por seu valor de face, e Trump não é notório por sua sinceridade e credibilidade.

Há, para dizer caridosamente, escassos indícios para Trump gabar-se de que suas tarifas estão forçando a China a despejar “bilhões de dólares” no Departamento do Tesouro. “Nunca tivemos 10 cent vindos para nosso Tesouro” sob os governos anteriores, explicou ele. “Agora estão chegando bilhões”. No mundo real, os custos das tarifas são pagos não pela China, mas pelas empresas norte-americanas (que podem escolher compensá-las com a redução de salários) e consumidores, sobrecarregados com um imposto altamente regressivo, que recai principalmente entre os menos abastados. Em suma, as tarifas de Trump são mais uma de suas políticas para prejudicar trabalhadores e pobres.

É verdade, contudo, que estão envolvidos “bilhões”. Um estudo do Banco Central (Fed) de Nova York em parceria com as universidades de Princeton e Columbia estima que as empresas e consumidores norte-americanos pagaram US$ 3 bilhões por mês em impostos adicionais por causa da taxação sobre produtos chineses e sobre alumínio e aço provenientes de outros lugares do mundo – além do US$ 1,4 bilhão que custou a empresas norte-americanas a perda de eficiência, em 2018.

A guerra tarifária contra a China pode levar montadoras de automóveis a mudar suas operações da China para o Vietnã e outros países com custos de mão-de-obra ainda mais baixos. Mas, para a economia dos EUA a decisão mais típica é a da Apple, alguns dias atrás, de mudara montagem de computadores Mac Pro do Texas para a China.

A guerra de tarifas de Trump parece relacionada principalmente à política doméstica, elaborada de olho na próxima eleição. Ele tem de convencer de algum modo sua base de eleitores de que é a pessoa que protege os agoniados norte-americanos, que estão sofrendo o “massacre” causados por seus predecessores – o que é até bem real para muitos deles, como dramaticamente ilustrado pela impressionante queda da expectativa de vida dos americanos em idade de trabalho, atribuída a “mortes de desespero”, um fenômeno desconhecido em sociedades desenvolvidas. O truque de Trump é acenar para um grande clube de seguidores e ameaçar outros com terríveis ameaças, para que que parem de torturar seu pobre país e concordem em “jogar de forma justa”. Quando tiramos isso tudo da frente, nos deparamos com outro quadro, como no caso da nefasta ameaça do Irã. Mas o que importa para o jogo é a “realidade alternativa” que os conspiradores estão inventando.
Com pouco sucesso. É um erro subestimar Trump. Ele é um demagogo e manipulador esperto, que está conseguindo manter a fidelidade das multidões de adoradores, crentes de que luta por eles, contra as odiadas elites, e ao mesmo tempo assegurar que o principal eleitorado republicano, extremamente rico e com poder corporativo, vá muito bem, apesar de algumas queixas. Estão, de fato, saindo-se como bandidos com a ajuda de Trump e seus associados.

É notável ver como uma realidade alternativa é efetivamente criada. O caso do Irã é típico, mas os sucessos são muito maiores. Considere a acusação de que “a China está nos matando”, roubando nossos empregos, junto com os “ladrões mexicanos”. Como a China está nos matando? A China tinha uma arma na cabeça de Tim Cook, o CEO da Apple, obrigando-o a acabar com o último vestígio de produção dos computadores Apple nos EUA? Ou a Boeing, GM, Microsoft, ou qualquer um dos outros que mudaram a produção para a China? Ou as decisões foram tomadas por banqueiros e investidores nas salas de reunião corporativas de Nova York e Chicago? Se é assim, a solução é mostrar os punhos para a China ou mudar o modo de tomar decisões nos EUA – transferindo-as para os trabalhadores e comunidades, dando a eles um papel substancial, como sugeriria a teoria democrática? Parece uma questão bastante óbvia. Estranhamente, ela não é levantada, enquanto o mantra oficial se mantém imperturbável.

Fala-se que a China impõe condições desiguais aos investidores, demandando transferência de tecnologia. Talvez. Se à Apple e às outras não agradam essas condições, elas estão livres para não investir na China. Adoradores da livre empresa e do mercado certamente concordariam.

Outra acusação é de que a China está perseguindo injustamente uma política industrial que subsidie indústrias favorecidas. Se sim, os líderes políticos e analistas dos EUA deveriam estar aplaudindo. De acordo com as doutrinas econômicas que professam, a China está prejudicando sua economia, ao desprezar o modelo de desenvolvimento supostamente ideal, do livre mercado, contribuindo assim com a hegemonia norte-americana. Qual é o problema?

O que parece ser uma acusação mais crível é que a China está violando o regime de direitos de propriedade intelectual (TRIPS) definido na Organização Mundial de Comércio. Suponhamos que sim. Várias questões surgem. Quem ganha, quem perde? Em grande medida, os consumidores norte-americanos ganham, enquanto a Big Farma, a Microsoft e outras garantiram direitos de patente exorbitantes e sem precedentes, sob TRIPS, que sofrem alguma redução em seus lucros enormes. 

Isso nos leva a uma outra questão: o regime TRIPS é legítimo? Foi, é verdade, estabelecido por um acordo interestatal. Mas quem tomou aquelas decisões? O público sequer sabia do que estava acontecendo. Dificilmente. Os mal denominados “acordos de livre mercado” são mais adequadamente descritos como acordos de direitos dos investidores, com frequência de pouca relação com o mercado em qualquer sentido significativo. Não por acaso, servem aos interesses de quem os concebe — os grandes investidores.

Outros elementos das queixas de que “a China está nos matando” fazem sentido. É abertamente manifesta a preocupação de que o progresso chinês deve deixar os EUA pra trás – por exemplo, de que a tecnologia Huawei, mais barata e superior, pode dar a eles uma “injusta vantagem”no estabelecimento de redes 5G. É claro que deve ser detida, argumentam as autoridades dos EUA, juntamente com o desenvolvimento econômico chinês em geral. Suas preocupações são reminiscentes dos anos 80, quando as técnicas superiores de fabricação japonesas estavam minando as empresas ineficientes dos EUA, e o governo Reagan teve de intervir para bloquear as importações japonesas por meio de “restrições voluntárias às exportações”. No caso, “voluntário” significa “concordo ou concordo”…

Há boas razões para concordar que a visão dos “especialistas” que buscam detectar uma grande estratégia por trás das travessuras de Trump é “a mais pura sátira corrosiva”. Mas há uma estratégia. E está funcionando bastante bem.

Um dos objetivos declarados de Trump, por trás de seu entendimento da diplomacia, é “transformar inimigos em amigos”. Há alguma evidência de que ele está perseguindo esse objetivo diplomático? Tenho em mente, em particular, os casos da Coreia do Norte e da Rússia.

Nesse caso, o objetivo declarado parece real. Ele provoca o ridículo e amarga condenação em todo o espectro político dominante. Mas quaisquer que sejam os motivos de Trump, a política geral faz algum sentido.

Declaração Panmunjom das duas Coreias, em abril de 2018, foi um evento altamente significativo. Ele falava sobre os países continuarem em busca de relações amigáveis e de eventual desnuclearização “por acordo mútuo”, sem a interferência externa que no passado frequentemente minou o que pareciam iniciativas promissoras: as repetidas interferências dos EUA, como mostram os registros históricos. Nessa declaração e acordos relacionados, pela primeira vez as duas Coreias definiram calendários específicos e tomaram medidas concretas e promissoras para a redução das tensões e o desarmamento – processos que deveriam ser bem-vindos e apoiados.

Para seu crédito, Trump aderiu amplamente ao requisito das duas Coreias. Seu recente encontro com o presidente norte-coreano Kim na zona desmilitarizada, o cruzamento simbólico de fronteiras, e possíveis acordos provisórios são passos que, com boa vontade, podem ter consequências salutares. Podem facilitar esforços das duas Coreias para prosseguir no difícil caminho em direção a uma acomodação e podem oferecer uma maneira de aliviar as sanções que estão bloqueando a ajuda terrivelmente necessária ao Norte e contribuindo com uma grande crise humanitária por lá. Tudo isso pode enfurecer comentaristas de todo o espectro político. Mas se há uma maneira melhor de trazer paz à península e dar passos em direção à desnunclearização e à reforma interna da ditadura norte-coreana, ninguém ainda nos informou sobre ela.

A Rússia de Putin não precisa ser transformada numa “amiga”, mas relações cooperativas com ela são um pré-requisito para a sobrevivência.

O histórico de Trump nesta questão é controverso. A Revisão de Postura Nuclear (Nuclear Posture Review – fevereiro de 2018) apresenta ameaças muito severas, ampliadas pela decisão inacreditável de levar adiante o desenvolvimento de armas hipersônicas. Os adversários estão fazendo o mesmo. A abordagem certa é a da diplomacia e negociações para prevenir um caminho suicida, mas não há nenhum sinal disso. O mesmo é verdade quanto ao Tratado INF negociado por Reagan e Gorbachev, que reduziu significativamente os riscos de uma guerra terminal.
Cada lado reclama que o outro está violando o tratado. A abordagem correta é fazer uma análise investigativa neutra das reclamações e negociar o fim dessas violações à medida em que são descobertas. A pior abordagem é deixar o tratado, como estão fazendo os EUA, seguidos pela Rússia. As mesmas considerações valem para o outro grande tratado de controle de armas, o New Start.Em todo o caso, parece que John Bolton, consistente em sua perversidade, conseguiu bloquear o progresso e empurrar a política em direções extremamente sinistras.

Qual a sua análise sobre o plano do governo Trump para o Oriente Médio? E quão instrumental é o papel de seu genro, Jared Kushner, nisso?

Presumo que Kushner é o principal arquiteto, como se noticia. O que foi divulgado até aqui é bastante simples e consistente com as políticas anteriores do governo que autorizaram a tomada das colinas de Golan por Israel e o desenvolvimento da Grande Jerusalém, todas violando as ordens do Conselho de Segurança da ONU (apoiadas na época pelos EUA). Ao mesmo tempo, a escassa ajuda dos EUA aos palestinos foi encerrada com o argumento de que eles não agradecem educadamente ao patrão quando mina seus direitos mais elementares.

O plano Kushner leva isso adiante. Deve-se garantir a Israel os melhores votos por sua liderança expansionista. Os palestinos devem ser excluídos dos fundos de desenvolvimento fornecidos por outros (não pelos EUA). A essência do “Acordo do Século” de Trump-Kushner foi captadade modo sucinto pelo embaixador israelense na ONU Danny Danon, no The New York Times: os palestinos deveriam perceber que o jogo acabou e “se render”. Então pode haver paz, outro triunfo do “grande negociador”.

Neste caso há um objetivo estratégico subjacente: consolidar a aliança de Estados reacionários (as monarquias do petróleo, Egito, Israel) como base do poder dos EUA na região. Isso de modo algum é novidade, embora as variantes anteriores tinham de certo modo diferentes formas e fossem menos visíveis do que hoje.

Esses objetivos estão dentro de uma estratégia mais ampla de formar uma aliança global reacionária sob a tutela dos EUA, incluindo “democracias não-liberais” da Europa Oriental (Orbán da Hungria, etc.) e o grotesco Jair Bolsonaro do Brasil, que, entre outras virtudes, compartilha com Trump a dedicação em minar perspectivas de um ambiente em que se possa viver, quando abre a Amazônia à exploração de seus amigos do agronegócio e da mineração. Essa é uma estratégia natural para o atual partido Republicano de Trump-McConnell, bem integrado à extrema-direita no espectro internacional, muito além dos partidos “populistas” de direita europeus, que até há pouco eram considerados franjas desprezíveis.
Sem lhe pedir que desempenhe o papel de Cassandra, como pensa que a história irá avaliar a posição de Trump sobre mudanças climáticas, que é de longe o maior desafio global que o mundo enfrenta?
Tomo emprestada a frase de Wittgenstein,com um pequeno ajuste, “aquilo que não se pode falar educadamente, é preciso silenciar”.
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Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/07/chomsky-mergulha-na-estrategia-de-trump.html

Trump sobre publicações racistas: 'muitas pessoas concordam comigo'

Presidente dos EUA Donald Trump na cúpula do G20 em Osaka, Japão
© REUTERS / Kevin Lamarque

Em meio a críticas generalizadas, o presidente Donald Trump renovou nesta segunda-feira (15) sua postura beligerante e pediu que que quatro congressistas negras deixem os Estados Unidos.

Satisfeito em jogar com parte do eleitorado que apoia suas publicações no Twitter, que foram classificados como racistas, Trump deixou claro que não hesitará em explorar divisões raciais novamente. 

"Não me preocupa porque muitas pessoas concordam comigo", disse Trump na Casa Branca. "Muitas pessoas adoram, a propósito."

O episódio mostra que Trump está disposto a apostar na retórica incendiária sobre questões de raça e imigração para preservar sua base política na eleição de 2020.

Trump afirmou no Twitter que congressistas que "odeiam nosso país" podem voltar a seus países que são uma "catástrofe total e completa". Seus comentários foram dirigidos à quatro congressistas: as deputadas Ilhan Omar, de Minnesota, Alexandria Ocasio-Cortez, de Nova York, Ayanna Pressley, de Massachusetts, e Rashida Tlaib, de Michigan. Todas elas são cidadãs dos EUA e três delas nasceram em solo estadunidense. 

"Se você não está feliz nos EUA, se você está reclamando o tempo todo, você pode sair, você pode sair agora", afirmou Trump.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019071514220638-trump-sobre-publicacoes-racistas-muitas-pessoas-concordam-comigo/

Trump sanciona restrições a conteúdo estrangeiro em produtos dos EUA

Presidente dos EUA, Donald Trump, durante na Cúpula do G20 em Osaka, no Japão
© Sputnik / Ilia Pitalev

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, através de ordem executiva emitida nesta segunda-feira (15), aumentou significativamente as restrições ao conteúdo estrangeiro em produtos norte-americanos.

"Atualmente, um produto pode ser 50% estrangeiro, e ainda conta como fabricado nos EUA. Calcule isso. Em apenas alguns instantes, assinarei uma ordem executiva que aumentará esses padrões em até 75% e mais, para que os produtos domésticos tenham 75% de produtos americanos e 95% em produtos como ferro e aço", disse Trump em um discurso sobre na Casa Branca.

Na ordem executiva, o presidente dos EUA disse que o objetivo da medida é fazer cumprir o Buy American Act em sua máxima extensão legal.

O Buy American Act é de 1933 e exige que as agências do governo federal dos EUA adquiram materiais domésticos se os produtos finais forem destinados ao uso público.

A legislação também define que essas compras aconteçam sob a condição de que quantidades razoáveis do produto em questão ​​estiverem disponíveis nos EUA, de acordo com o Escritório Governamental de Prestação de Contas (GAO, na sigla em inglês).

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019071514220558-trump-sanciona-restricoes-a-conteudo-estrangeiro-em-produtos-dos-eua/

Ainda sobre as razões que estão na base dos focos de tensão entre a China e os Estados Unidos – “O iminente conflito de 100 anos entre os EUA e a China”, por Martin Wolf

Tensão Import Export

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

 

O iminente conflito de 100 anos entre os EUA e a China

A luta inútil de Donald Trump pela dominação está cada vez mais a ser enquadrado como um jogo de soma nula

 

Martin Wolf 2 Por Martin Wolf

The looming 100-year US-China conflict, publicado por FTimes em 4 de junho de 2019 (aqui)

Reeditado por Gonzallo Rafo (aqui)

Ainda China EUA 1 O iminente conflito de 100 anos entre os EUA e a China 1

 

O desaparecimento da União Soviética deixou um grande vazio. A “guerra do terror” foi um substituto inadequado. Mas a China marca todas as casas. Para os EUA, pode ser o inimigo ideológico, militar e económico de que muitos precisam. Aqui está finalmente um oponente que vale a pena. Essa foi a principal conclusão que retirei das reuniões de Bilderberg deste ano. A rivalidade generalizada com a China está a tornar-se um princípio organizador das políticas económica, externa e de segurança dos EUA.

Que este seja o princípio organizador de Donald Trump é uma questão menos importante. O Presidente dos EUA tem os instintos de um nacionalista e protecionista. Outros fornecem tanto o enquadramento como os pormenores. O objetivo é o domínio dos EUA. O meio é o controle sobre a China, ou a separação da China. Quem acredita que uma ordem multilateral baseada em regras, a nossa economia globalizada, ou mesmo relações internacionais harmoniosas, são suscetíveis de sobreviver a este conflito está iludido.

O espantoso livro branco sobre o conflito comercial, publicado no domingo pela China, é uma prova disso mesmo. O facto – para mim, deprimente – é que, em muitos pontos, as posições chinesas são corretas. O foco dos EUA nos desequilíbrios bilaterais é economicamente analfabetismo puro. A opinião de que o roubo de propriedade intelectual causou enormes prejuízos aos EUA é questionável. A proposta de que a China violou grosseiramente os seus compromissos ao abrigo do seu acordo de adesão de 2001 à Organização Mundial do Comércio é extremamente exagerada.

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Acusar a China de fazer batota é hipócrita quando quase todas as medidas de política comercial tomadas pela administração Trump violam as regras da OMC, facto implicitamente reconhecido pela sua determinação em destruir o sistema de resolução de litígios. A posição negocial dos EUA em relação à China é a de que “o poder faz o correto”. Isto é particularmente verdadeiro quando se insiste que os chineses aceitam o papel dos EUA como juiz, júri e executor do acordo.

Um litígio sobre as condições de abertura do mercado ou de proteção da propriedade intelectual pode ser resolvido através de uma negociação cuidadosa. Tal solução poderia até mesmo ajudar a China, uma vez que aliviaria a mão pesada do Estado e promoveria uma reforma orientada para o mercado. Mas as questões são agora demasiado incómodas para uma tal resolução. Isso deve-se, em parte, ao amargo fracasso das negociações. Ainda mais porque o debate nos Estados Unidos se centra cada vez mais na questão de saber se a integração com a economia chinesa dirigida pelo Estado chinês é desejável. O receio em relação à Huawei centra-se na segurança nacional e na autonomia tecnológica. O comércio liberal é cada vez mais visto como “comércio com o inimigo”.

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Está a emergir um enquadramento das relações com a China como um conflito de soma zero. Comentários recentes de Kiron Skinner, diretor de planeamento de políticas do Departamento de Estado dos EUA (um cargo que já foi ocupado pelo estratega da guerra fria George Kennan) são reveladores. A rivalidade com Pequim, sugeriu ela num fórum organizado pela New America, é “uma luta com uma civilização realmente diferente e uma ideologia diferente, e os Estados Unidos nunca tiveram isso antes”. Acrescentou que esta seria “a primeira vez que teríamos uma grande potência concorrente que não é caucasiana”. A guerra com o Japão está esquecida. Mas a grande questão é o facto de ela enquadrar este conflito como uma guerra civilizacional e racial e, portanto, como um conflito insolúvel. Isto pode não ser acidental. Ela continua no seu posto.

Outros apresentam o conflito como um conflito sobre a ideologia e o poder. Aqueles que dão relevo à questão da ideologia, destacam a retórica marxista do presidente Xi Jinping e o papel reforçado do partido comunista. Aqueles que dão relevo à questão do poder destacam o crescente poder económico da China. Ambas as perspetivas sugerem um conflito perpétuo.

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Este é o desenvolvimento geopolítico mais importante da nossa era. Não menos importante, forçará cada vez mais todos os outros a tomar partido ou a lutar arduamente pela neutralidade. Mas não é apenas importante. É perigoso. Arrisca-se a transformar uma relação gerível, embora controversa, num conflito abrangente, sem qualquer razão válida.

A ideologia da China não é uma ameaça à democracia liberal como a da União Soviética. Os demagogos de direita são muito mais perigosos. É quase certo que um esforço para travar a ascensão económica e tecnológica da China fracassará. Pior ainda, fomentará uma hostilidade profunda no povo chinês. A longo prazo, as exigências de um povo cada vez mais próspero e instruído no que respeita ao controlo das suas vidas poderão ainda vir a ganhar. Mas isso é muito menos provável se a ascensão natural da China for ameaçada. Além disso, a ascensão da China não é uma causa importante de mal-estar ocidental. Isso reflete muito mais a indiferença e a incompetência das elites a Ocidente. O que é visto como roubo de propriedade intelectual reflete, em grande parte, a inevitável tentativa de uma economia em ascensão de dominar as tecnologias da atualidade. Acima de tudo, uma tentativa de preservar a dominação de 4% da humanidade sobre o resto é ilegítima.

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Isto não significa, certamente, aceitar tudo o que a China faz ou diz. Pelo contrário, a melhor maneira de o Ocidente lidar com a China é insistir nos valores respeitadores da liberdade, da democracia, do multilateralismo baseado em regras e da cooperação global. No passado, estas ideias fizeram com que muitos em todo o mundo apoiassem os EUA. Ainda hoje cativam muitos chineses. É perfeitamente possível defender estas ideias, insistir muito mais fortemente nelas, ao mesmo tempo que se coopera com uma China em ascensão onde isso é essencial, como na proteção do ambiente natural, do comércio e da paz.

Ainda China EUA 1 O iminente conflito de 100 anos entre os EUA e a China 6

 

Uma mistura de concorrência e cooperação é o caminho certo a seguir. Uma tal abordagem na gestão da ascensão da China deve incluir uma cooperação estreita com os aliados que partilham das mesmas ideias e um tratamento respeitoso da China. A tragédia do que está a acontecer agora é que a administração está simultaneamente a lançar um conflito entre as duas potências, atacando os seus aliados e destruindo as instituições da ordem liderada pelos EUA no pós-guerra. O ataque de hoje à China é a guerra errada, travada da forma errada, no terreno errado. Infelizmente, é aqui que estamos agora.

 

 

 

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2019/07/15/ainda-sobre-as-razoes-que-estao-na-base-dos-focos-de-tensao-entre-a-china-e-os-estados-unidos-o-iminente-conflito-de-100-anos-entre-os-eua-e-a-china-por-martin-wolf/

Casa Branca, de tolerância, ou…

Casa Branca, Casa Assombrada, Casa de Tolerância, Casa das Bonecas ou casa mal frequentada?
Da Casa Branca emana todo o comportamento universal e, a media, com estes truques procura esconder os crimes no Iraque, Síria, Líbia and so on.
É dos jornais:
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 image L'Apollonide, souvenirs de maison Close (França 2011).  image
imageNo salão oval a “Estagiária Monica Lewinsky e sua "relação imprópria" com Bill Clinton.” Imprópria!...
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E há quem rasteje perante esta gente e a dê como exemplo…

Ver o original em As palavras são armas (clique aqui)

Os Irmãos Muçulmanos como auxiliares do Pentágono

Thierry Meyssan*

Prosseguimos a publicação do livro de Thierry Meyssan, «Sous nos yeux» (Sobos Nossos Olhos). Neste episódio, ele descreve como a organização terrorista dos Irmãos Muçulmanos foi integrada no Pentágono. Ela foi ligada às redes anti-Soviéticas constituídas com antigos nazis durante a Guerra Fria.

Este artigo é extraído do livro Sob os nossos olhos. Ver oÍndice dos assuntos.

5— Os islamistas nas mãos do Pentágono

No início dos anos 90, o Pentágono decide incorporar os islamistas —que até aí estavam unicamente na dependência da CIA— às suas operações. É a Operação Gládio B, em referência aos Serviços Secretos da OTAN na Europa (Gládio A [1]).

Durante uma década, todos os chefes islamistas —aí incluídos Osama Bin Laden e Ayman al-Zawahiri— se deslocam a bordo de aviões da US Air Force (Força Aérea americana). O Reino Unido, a Turquia e o Azerbaijão participam na operação [2]. Por conseguinte, os islamistas —que até aí eram combatentes da sombra— são agora «publicamente» integrados nas Forças da Otan.

A Arábia Saudita que é ao mesmo tempo um Estado e propriedade privada dos Saud— torna-se oficialmente a instituição responsável pela gestão do islamismo mundial. O Rei proclama uma Lei Fundamental, em 1992, segundo a qual «O Estado protege a fé islâmica e aplica a Charia. Impõe o Bem e combate o Mal. Cumpre os deveres do Islão (...) A defesa do islamismo, da sociedade e da pátria muçulmana é o dever de todo o súbdito do Rei».

Em 1993, Carlos, o Príncipe de Gales, coloca o Oxford Center for Islamic Studies sob o seu patrocínio, enquanto o Chefe dos Serviços Secretos sauditas, o Príncipe Turki, toma a direcção do mesmo.

Londres torna-se abertamente o centro nevrálgico da Gládio B, a tal ponto que se fala de «Londonistan» («Londristão»-ndT) [3]. Sob a égide da Liga Islâmica Mundial, os Irmãos Muçulmanos árabes e a Jamaat-i-Islami paquistanesa criam uma quantidade de associações culturais e religiosas ligadas à mesquita de Finsbury Park. Este dispositivo irá permitir recrutar inúmeros kamikazes, desde aqueles que irão atacar a escola russa de Beslan até Richard Reid, o «Shoe bomber». O Londristão inclui, em especial, inúmeros média, editoras, jornais (al-Hayat e Asharq al-Awsat —ambos dirigidos por filhos do actual Rei Salman da Arábia—) e televisões (o grupo MBC do Príncipe Walid bin Talal emite uma vintena de canais), que não são destinados à diáspora muçulmana no Reino Unido, mas, sim com emissões dirigidas ao mundo árabe; tendo o acordo entre os Islamistas e a Arábia Saudita sido estendido ao Reino Unido –-total liberdade de acção, mas interdição de ingerência na política interna. Este conglomerado emprega vários milhares de pessoas e movimenta gigantescas quantias de dinheiro. Ele irá permanecer aberto até aos atentados de 11 de Setembro de 2001, quando se tornará impossível aos Britânicos continuar a justificar a sua existência.

Abu Mussab, «O Sírio» —um sobrevivente do golpe de Estado abortado de Hama, tornado agente de ligação entre Bin Laden e o Grupo Islâmico Armado (GIA) argelino— teoriza a «jiade descentralizada». No seu Appel à la résistance islamique mondiale, ele coloca em termos islâmicos a já bem conhecida doutrina da «estratégia da tensão». Trata-se de provocar as autoridades para suscitar uma terrível repressão que levará o povo a revoltar-se contra elas. Esta teoria fora já utilizada pelas redes Gládio da CIA /OTAN ao manipular a extrema-esquerda europeia nos anos 70-80 (Grupo Baader-Meinhof, Brigadas Vermelhas, Action Directe). É claro que estava fora de questão que esta estratégia vencesse e a CIA/OTAN sabiam que não havia nenhuma chance de êxito —ela jamais fora bem sucedida, fosse onde fosse—, pretendia sim utilizar a reacção repressiva do Estado para colocar os seus homens no Poder. «O Sírio» designa a Europa —e, claramente, nunca os Estados Unidos— como o próximo campo de batalha dos islamistas. Em 1995, ele foge de França após os atentados desse ano. Dois anos mais tarde, cria em Madrid e no Londristão o Islamic Conflict Studies Bureau, dentro do modelo da Aginter Press, que a CIA tinha criado em Lisboa durante os anos 60-70. As duas estruturas superam-se na organização de atentados de falsa-bandeira (desde o atribuído à extrema-esquerda na Piazza Fontana, em 1969, até aos atribuídos aos muçulmanos em Londres, em 2005).
Simultaneamente, os Irmãos elaboram um vasto programa de formação de líderes árabes pró-EU. O Líbio Mahmoud Jibril El-Warfally, professor na Universidade de Pittsburg, ensina-os a falar de forma «politicamente correcta». Assim, ele forma emires e generais da Arábia Saudita, do Barém, do Egipto, dos Emirados, da Jordânia, do Kuwait, de Marrocos e da Tunísia (mas também de Singapura). Misturando princípios de Relações Públicas e estudo dos relatórios do Banco Mundial, os piores ditadores são agora capazes de falar, sem se rir, dos seus ideais democráticos bem como do seu profundo respeito pelos Direitos do Homem.

A guerra contra a Argélia transborda para a França. Jacques Chirac e o seu Ministro do Interior, Charles Pasqua, interrompem o apoio de Paris aos Irmãos Muçulmanos e tratam mesmo de interditar os livros de Yussef al-Qaradawi (o pregador da Irmandade). Para eles trata-se de manter a presença francesa no Magrebe que os Britânicos querem riscar do mapa. O Grupo Islâmico Armado (GIA) toma como reféns os passageiros do vôo da Air France Argel-Paris (1994), faz explodir bombas no RER, e em diversos pontos da capital (1995), e planeia um gigantesco atentado —que será impedido— aquando do Campeonato do Mundo de futebol (1998), incluindo a queda de um avião sobre uma central eléctrica nuclear. Em todos os episódios, os suspeitos, que conseguem escapar, encontram asilo no Londristão.
A guerra da Bósnia-Herzegovina começa em 1992 [4]. A ordens de Washington, os Serviços Secretos paquistaneses (ISI), sempre apoiados financeiramente pela Arábia Saudita, enviam 90.000 homens para participar nela contra os Sérvios (apoiados por Moscovo). Osama Bin Laden recebe um passaporte diplomático bósnio e torna-se conselheiro militar do Presidente Alija Izetbegović (de quem o Norte-americano Richard Perle é conselheiro diplomático e o Francês Bernard-Henri Lévy, conselheiro de imprensa). Ele monta a Legião Árabe com antigos combatentes do Afeganistão e arranja financiamento da Liga Islâmica Mundial. Por reflexo comunitário, ou em competição com a Arábia Saudita, a República Islâmica do Irão vai também em socorro dos muçulmanos da Bósnia. Em perfeita combinação com o Pentágono, ela envia várias centenas de Guardas da Revolução e uma unidade do Hezbolla libanês. Acima de tudo, fornece o essencial das armas utilizadas pelo Exército bósnio.

Os Serviços Secretos russos, que infiltraram o campo de Bin Laden, constatam que toda a burocracia da Legião Árabe é redigida em inglês e que a Legião recebe as suas ordens directamente da OTAN. Após a guerra, um Tribunal Internacional especial é criado. Este processou inúmeros combatentes por crimes de guerra, mas nenhum membro da Legião Árabe.
Após três anos de calma, a guerra entre muçulmanos e ortodoxos reacende-se na ex-Jugoslávia, no Kosovo desta vez. O Exército de Libertação do Kosovo (UÇK) é formado a partir de grupos mafiosos treinados em combate pelas Forças Especiais Alemãs (KSK) na base turca de Incirlik. Os Albaneses e os Jugoslavos muçulmanos têm uma cultura Naqchbandie. Hakan Fidan, o futuro chefe dos Serviços Secretos turcos, é o oficial de ligação entre a OTAN e a Turquia. Os veteranos da Legião Árabe integram o UÇK, do qual uma brigada é comandada por um dos irmãos de Ayman al-Zawahiri. Este destrói sistematicamente as igrejas e os mosteiros ortodoxos, e caça os cristãos.
Em 1995, revivendo a tradição dos assassinatos políticos, Osama Bin Laden tenta eliminar o Presidente egípcio, Hosni Mubarak. Ele volta a tentar no ano seguinte com o Guia líbio, Muammar Kaddafi. Este segundo atentado é financiado, pela soma de £ 100.000 libras, pelos Serviços Secretos britânicos que querem punir o apoio líbio à resistência irlandesa [5]. Azaradamente a operação falha. Vários oficiais líbios fogem para o Reino Unido. Entre eles, Ramadan Abidi, cujo filho será encarregado anos mais tarde, sempre pelos serviços britânicos, de realizar um atentado em Manchester. A Líbia transmite provas à Interpol e emite o primeiro mandato de prisão internacional contra o próprio Osama Bin Laden, o qual continua a manter um escritório de relações públicas no Londristão.

Em 1998, a Comissão Árabe dos Direitos Humanos é fundada em Paris. Ela é financiada pela NED. O seu presidente é o Tunisino Moncef Marzouki, e o seu porta-voz o Sírio Haytham Manna. O seu objectivo é defender os Irmãos Muçulmanos que foram presos nos diferentes países árabes, por causa das suas actividades terroristas. Marzouki é um médico de esquerda que trabalha com eles há longo tempo. Manna é um escritor que gere os investimentos de Hassan al-Turabi e dos Irmãos sudaneses na Europa. Quando Manna se retira, a sua companheira mantêm-se como directora da associação. Ele é substituído pelo Argelino Rachid Mesli, que é advogado e é, nomeadamente, o de Abassi Madani e dos Irmãos argelinos.
Em 1999 (ou seja, após a guerra do Kosovo e a tomada do Poder pelos islamistas em Grozny), Zbigniew Brzeziński funda com uma coorte de neo-conservadores o American Committee for Peace in Chechnya (Comité americano para a paz na Tchechénia). Se a primeira guerra na Tchechénia fora um assunto interno russo, no qual alguns islamistas se tinham imiscuído, a segunda visa a criação do Emirado Islâmico da Ichquéria. Brzeziński, que preparava esta operação há vários anos, tenta reproduzir a experiência afegã.

Os jiadistas tchechenos, como Chamil Bassaïev, não foram treinados no Sudão por Bin Laden, mas, sim no Afeganistão pelos Talibã. Durante toda a guerra, beneficiam do apoio «humanitário» da Millî Görüş turca de Necmettin Erbakan e Recep Tayyip Erdoğan e da «IHH - Direitos do homem e Liberdades». Esta Associação turca foi criada na Alemanha sob o nome de Internationale Humanitäre Hilfe (IHH). Em seguida, estes jiadistas organizarão várias grandes operações : nomeadamente contra o Teatro de Moscovo (2002, 170 mortos, 700 feridos), contra uma escola de Beslan (2004, 385 mortos, 783 feridos) e contra a cidade de Naltchik (2005, 128 mortos e 115 feridos). Após o massacre de Beslan e a morte do líder jiadista Chamil Bassaïev, a Milli Görüş e a IHH organizam, na mesquita de Fatih de Istambul, enormes exéquias sem o corpo mas com dezenas de milhares de militantes.
Durante este período, três atentados importantes são atribuídos à Alcaida. No entanto, por muito importantes que estas operações sejam, elas representam um falhanço para os islamistas, os quais, por um lado, são integrados no seio da OTAN e se veem simultaneamente despromovidos para o nível de terroristas anti-americanos. 

-- Em 1996, um camião armadilhado faz explodir uma torre de oito andares em Khobar, na Arábia Saudita, matando 19 soldados dos EUA. Primeiro atribuído à Alcaida, a responsabilidade do atentado é transferida para cima do Irão, depois finalmente para ninguém. 

-- Em 1998, duas bombas explodem diante das embaixadas norte-americanas em Nairobi (Quénia) e Dar-es-Salam (Tanzânia), matando 298 africanos —mas nenhum Norte-americano— e ferindo mais de 4.500 pessoas. Estes atentados são reivindicados por um misterioso Exército Islâmico de Libertação dos Lugares Santos. Segundo as autoridades dos EU, eles teriam sido cometidos por membros da Jiade Islâmicaegípcia em retorsão pela extradição de quatro dos seus membros. Ora, as mesmas autoridades acusam Osama Bin Laden de ser o comanditário e o FBI emite —por fim— um mandado de prisão internacional contra ele.

-- Em 2000, uma embarcação suicida explode contra o costado do destróier USS Cole fundeado em Áden (Iémene). O atentado é reivindicado pela Alcaida na Península Arábica (AQPA), mas um tribunal norte-americano tornará responsável o Sudão.

Estes atentados ocorrem enquanto a colaboração entre Washington e os Islamistas continua. Assim, Osama bin Laden, conservou o seu escritório no Londristão até 1999. Situado no bairro de Wembley, o Advice and Reformation Committee (ARC) visa, ao mesmo tempo, difundir as declarações de Bin Laden e cobrir as actividades logísticas da Alcaida, inclusive em matéria de recrutamento, de pagamentos e de aquisição de materiais. Entre os seus colaboradores em Londres encontra-se o saudita Khaled al-Fawwaz e os egípcios Adel Abdel Bary e Ibrahim Eidarous, três homens que são alvo de mandados de detenção internacionais, mas que, no entanto, receberam asilo político no Reino Unido. É na mais perfeita legalidade, em Londres, que o escritório de Bin Laden publicará, em Fevereiro de 1998, o seu célebre Apelo à Jiade contra os Judeus e os Cruzados. Gravemente doente dos rins, Bin Laden é hospitalizado, em Agosto de 2001, no hospital Americano do Dubai. Um chefe de Estado do Golfo confirmou-me tê-lo ido visitar ao seu quarto, onde a sua segurança era garantida pela CIA.

6— A fusão das duas « Gládio » e a preparação do Daesh

Dentro da mesma lógica, a Administração Bush torna os Islamistas responsáveis pelos brutais atentados que ocorrem a 11 de Setembro de 2001 nos Estados Unidos. A versão oficial impõe-se embora ela comporte numerosas incoerências. O Secretário da Justiça assegura que os aviões foram sequestrados por islamistas, muito embora segundo as companhias de aviação nenhum dos suspeitos tenha estado a bordo. O Departamento da Defesa publicará um vídeo no qual Bin Laden reivindica os atentados, quando o próprio os tinha rejeitado publicamente e os peritos em reconhecimento facial e vocal afirmam que o homem do vídeo não é Bin Laden.

Seja como for, estes acontecimentos servem de pretexto a Washington e a Londres para lançar a «Guerra sem fim» e atacar os seus antigos aliados, os Talibã no Afeganistão, e o Iraque de Saddam Hussein.
Muito embora ele já sofresse de insuficiência renal crónica, Osama Bin Laden apenas sucumbe à sua doença a 15 de Dezembro de 2001 como resultado de um síndrome de Marfan. Um representante do MI6 assiste às suas exéquias no Afeganistão. Posteriormente, vários sósias, mais ou menos parecidos, irão manter o seu simulacro vivo, dos quais um será assassinado por Omar Sheikh, em 2005, segundo a Primeiro-ministro paquistanesa Benazir Bhuto.

Em Agosto de 2002, o MI6 organiza uma conferência da Irmandade Muçulmana sobre o tema «a Síria para todos». Aí, os oradores desenvolvem a ideia que a Síria estaria a ser oprimida pela seita dos Alauítas e que apenas os Irmãos Muçulmanos garantiriam uma genuína igualdade.

Após Sayyed Qutb e Abu Mussab, «o Sírio», os Islamistas dotam-se de um novo estratega, Abu Bakr Naji. Em 2004, este personagem, que parece nunca ter existido, publica um livro na Internet, A Gestão da Barbárie, uma teoria do caos [6]. Embora alguns autores tenham acreditado reconhecer o estilo de um autor egípcio, parece que a obra foi escrita em inglês, depois enriquecida com citações corânicas supérfluas e traduzido para árabe. A «Barbárie» no título do livro, não designa o recurso ao terror, mas, sim o retorno ao estado da natureza antes da civilização ter criado o Estado. Trata-se de fazer regressar a Humanidade ao ponto onde «o homem é um lobo do homem». A estratégia do caos desenrola-se em três fases: 

-- Primeira, desmoralizar e esgotar o Estado atacando nos seus flancos menos bem protegidos. Escolhem-se portanto alvos secundários, muitas vezes sem interesse, mas fáceis de destruir e separados. Tratar-se-á de dar a impressão de um levantamento generalizado, de uma revolução.

-- Em segundo lugar, assim que o Estado se tiver retirado dos subúrbios e dos campos, conquistar certas zonas e administrá-las. Impor a Charia para marcar a passagem a uma nova forma de Estado. Durante este período, serão estabelecidas alianças com todos aqueles que se opõem ao Poder, e que não se deixará de armar. Irá conduzir-se então uma guerra de posições.

-- Em terceiro lugar, proclamar o Estado Islâmico.

Este tratado transpira ciência militar contemporânea. Ele dá uma enorme importância às operações psicológicas, nomeadamente à utilização da violência mediática. Na prática, esta estratégia nada tem a ver com uma revolução, mas com a conquista de um país por potências exteriores, já que ela pressupõe um investimento maciço. Como sempre na literatura subversiva, o mais interessante reside naquilo que não é dito ou apenas é mencionado de passagem: 

-- a preparação das populações para que elas acolham os jiadistas supõe a construção prévia de uma rede de mesquitas e de obras sociais, tal como foi feito na Argélia antes da guerra «civil». 

-- para serem postas em marcha, as primeiras operações militares necessitam de armas que é preciso importar de antemão. Sobretudo, em seguida, os jiadistas não terão nenhum meio para obter armas e ainda menos munições. Portanto, eles terão que ser apoiados a partir do exterior. 

-- A administração das zonas conquistadas supõe que se disponha de quadros formados previamente, como os dos exércitos regulares encarregados de «reconstruir Estados». 

-- Finalmente a guerra de posições supõe a construção de vastíssimas infra-estruturas que necessitarão de uma grande quantidade de materiais, de engenheiros e de arquitectos.

De facto, o reclamar a autoria desta obra atesta que os islamistas entendem continuar a jogar um papel militar por conta de potências exteriores, só que desta vez em grandíssima escala.

Em 2006, os Britânicos pedem ao Emir Ahmad do Catar para colocar o seu canal de televisão pan-árabe, Al-Jazeera, ao serviço dos Irmãos Muçulmanos [7]. O Líbio Mahmoud Jibril, que treinou a família real a falar em linguagem democrática, é encarregue de introduzir, passo a passo, os seus Irmãos no canal e de criar canais em línguas estrangeiras (inglês e, a seguir, bósnio e turco), assim como um canal para as crianças. O pregador Yusuf al-Qaradawi torna-se «conselheiro religioso» da Al-Jazeera. É claro, o canal irá transmitir e validar as gravações de áudio ou os vídeos dos «Osama Bin Laden».

No mesmo período, as tropas dos EUA no Iraque tem que fazer face a uma revolta que se generaliza. Depois de terem sido derrotados pela rapidez e pela brutalidade da invasão (técnica do «choque e pavor»), os Iraquianos organizam a sua resistência. O Embaixador norte-americano em Bagdade, depois Director da Inteligência Nacional, John Negroponte, propõe-se vencê-los pela divisão e virando a sua raiva contra si próprios, quer dizer transformar a Resistência à ocupação em guerra civil. Perito em operações secretas, ele participou, nomeadamente, na Operação Fénix no Vietname, montando depois a guerra civil civil em El Salvador e a operação Irão-Contras na Nicarágua, e levou ao colapso a rebelião no Chiapas mexicano. Negroponte chama um dos homens em que se apoiou em El Salvador, o Coronel James Steele. Confia-lhe a tarefa de criar milícias iraquianas de xiitas contra os sunitas e sunitas contra os xiitas. Quanto à milícia sunita, Steele recorre aos Islamistas. A partir da Alcaida no Iraque, ele arma uma coligação tribal, o Emirado islâmico no Iraque (futuro Daesh) sob cobertura da polícia especial («Brigada dos Lobos»). Para aterrorizar as vítimas e as suas famílias, ele treina o Emirado na tortura, segundo os métodos da Escola das Américas (School of América) e da Political Warfare Cadres Academy de Taiwan, onde ensinou. Em poucos meses, um novo horror abate-se sobre os Iraquianos e divide-os segundo a sua confissão religiosa. Em seguida, assim que o General David Petraeus assumir o comando das tropas norte-americanas no país, irá designar o Coronel James H. Coffman para trabalhar com Steele e lhe fornecer relatórios sobre a operação, enquanto Brett H. McGurk dará conta directamente ao Presidente. Os principais chefes do Emirado Islâmico são recrutados no campo de concentração de Bucca, mas são objecto de preparação na prisão de Abu Ghraib, segundo os métodos de «lavagem ao cérebro» dos professores Albert D. Biderman e Martin Seligman [8]. Tudo é supervisionado desde Washington pelo Secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, de quem Steele depende directamente.

Em 2007, Washington informa a Irmandade que vai derrubar os regimes laicos do Médio-Oriente Alargado, incluindo os dos Estados aliados, e que ela se deve preparar para exercer o Poder. A CIA organiza alianças entre os Irmãos e partidos, ou personalidades laicas, de todos os Estados da região. Simultaneamente, ela liga os dois ramos da «Gládio» tecendo laços entre os grupos nazis ocidentais e os grupos islamistas orientais.

Estas iniciativas de aliança são às vezes inconclusivas, como, por exemplo, aquando da «Conferência Nacional da Oposição Líbia», em Londres, onde os Irmãos não conseguem federar à sua volta senão o Grupo Islâmico Combatente na Líbia (Alcaida na Líbia) e a Irmandade wahhabita Senussi. A plataforma programática prevê restabelecer a monarquia e fazer do Islão a religião do Estado. Mais convincente é a constituição da Frente da Salvação Nacional, em Berlim, que oficializa a união dos Irmãos com o antigo Vice-presidente baathista sírio Abdel Halim Khaddam.
A 8 de Maio de 2007, em Ternopol (oeste da Ucrânia), grupúsculos nazis e islamistas criam uma Frente anti-imperialista para lutar contra a Rússia. Organizações da Lituânia, da Polónia, da Ucrânia e da Rússia participam nela, entre as quais os separatistas Islamistas da Crimeia, da Adigueia, do Daguestão, da Inguchia, da Cabardino-Balcária, da Carachai-Cerquéssia, da Ossétia, da Chechénia. Não podendo viajar para lá devido as sanções internacionais impostas contra ele, Dokou Umarov —que aboliu a República da Chechénia e proclamou o Emirado Islâmico da Ichquéria—, fez ler a sua proclamação. A Frente é presidida pelo nazi Dmytro Yarosh, o qual se tornará durante o golpe de Estado de Kiev, em Fevereiro de 2014, Secretário-adjunto do Conselho de Segurança Nacional da Ucrânia.

No Líbano, em Maio-Junho de 2007, o Exército nacional empreende o cerco do campo palestino de Nahr el-Bared depois de membros da Fatah al-Islam se terem lá entrincheirado. Os combates duram 32 dias e custam a vida a 76 soldados, dos quais uma trintena são decapitados.
Em 2010, a Irmandade organiza a Flotilha da Liberdadeatravés da IHH. Oficialmente trata-se de desafiar o embargo israelita e de levar assistência humanitária aos habitantes de Gaza [9]. Na realidade, o principal barco desta frota muda de bandeira durante a travessia e prossegue sob pavilhão turco. Numerosos espiões misturam-se com os militantes não-violentos participando na expedição, entre os quais um agente irlandês da CIA, Mahdi al-Harati. Caindo na armadilha que lhe estende os Estados Unidos, o Primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, ordena o assalto aos barcos, em águas internacionais, provocando 10 mortos e 54 feridos. O mundo inteiro condena esse acto de pirataria sob o olhar sarcástico da Casa Branca. Israel, que fornecia armas aos jiadistas no Afeganistão e apoiou a criação do Hamas contra a OLP de Yasser Arafat, virara-se contra os Islamistas em 2008 e bombardeou-os, assim como à população de Gaza. Netanyahu paga assim, desta maneira, a operação «Chumbo Endurecido» que levou a cabo, junto com a Arábia Saudita, contra a opinião da Casa Branca. No fim, os passageiros da Flotilha são libertados por Israel. A imprensa turca mostra então o Primeiro-ministro Recep Tayyip Erdoğan visitando Mahdi al-Harati num hospital. (Continua …)

Thierry Meyssan* | Voltaire.net.org | Tradução Alva

*Intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: Sous nos yeux. Du 11-Septembre à Donald Trump. Outra obras : L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación(Monte Ávila Editores, 2008).

 

 

Notas:

[1] NATO’s secret armies: operation Gladio and terrorism in Western Europe, Daniele Ganser, Foreword by Dr. John Prados, Frank Cass/Routledge (2005).
[2] Classified Woman: The Sibel Edmonds Story : A Memoir, Sibel Edmonds (2012).
[3] Londonistan, Melanie Phillips, Encounter Books (2006).
[4] Wie der Dschihad nach Europa kam, Jürgen Elsässer, NP Verlag (2005); Intelligence and the war in Bosnia 1992-1995: The role of the intelligence and security services, Nederlands Instituut voor Oologsdocumentatie (2010). Al-Qaida’s Jihad in Europe: The Afghan-Bosnian Network, Evan Kohlmann, Berg (2011).
[6] The Management of Savagery: The Most Critical Stage Through Which the Umma Will Pass, Abu Bakr Naji, Harvard University (2006).
[7] «Wadah Khanfar, Al-Jazeera y el triunfo de la propaganda televisiva », por Thierry Meyssan, Red Voltaire , 27 de septiembre de 2011.
[8] “O Segredo de Guantanamo”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Odnako(Rússia) , Rede Voltaire, 10 de Setembro de 2014.
[9] «Flotilla de la Libertad: el detalle que Netanyahu no conocía», por Thierry Meyssan, Red Voltaire , 11 de junio de 2010.

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/07/os-irmaos-muculmanos-como-auxiliares-do.html

'Vandalismo diplomático': Trump teria abandonado acordo com Irã por 'inveja' de Obama

Barack Obama e Donald Trump conversam com a imprensa durante reunião na Casa Branca, em Washington, 10 de novembro de 2016
© AP Photo / Pablo Martinez Monsivais

O embaixador britânico em Washington acredita que Donald Trump abandonou o acordo nuclear com o Irã, porque foi associado a seu antecessor, Barack Obama, segundo documentos vazados publicados neste sábado (13).

"O governo está determinado a um ato de vandalismo diplomático, aparentemente por razões ideológicas e de personalidade - foi o acordo de Obama", escreveu o embaixador Kim Darroch em um telegrama diplomático em maio de 2018.

O telegrama foi incluído em um segundo lote de relatórios vazados publicados pelo jornal Mail on Sunday, o primeiro dos quais causou a renúncia de Darroch no começo da semana. Separadamente, o jornal Sunday Times informou que uma investigação do governo sobre o vazamento identificou um funcionário público como responsável.

Trabalhando com autoridades do Centro Nacional de Segurança Cibernética, parte da agência de espionagem GCHQ e do MI6, a investigação se baseou em um suspeito que tinha acesso a arquivos históricos do Ministério do Exterior, destacou o jornal.

Os primeiros relatos vazados de autoria de Darroch foram publicados no final de semana passado, provocando grandes turbulências entre o Reino Unido e seu aliado mais próximo. O embaixador teria descrito a Casa Branca como "inepta", levando Trump a afirmar que o embaixador era um "tolo pomposo" com quem ele não iria mais lidar.

Darroch renunciou na quarta-feira, dizendo que agora é "impossível" fazer o seu trabalho.

Em maio de 2018, o então ministro britânico de Relações Exteriores Boris Johnson foi a Washington para tentar convencer Trump a não abandonar o acordo com o Irã. Em um telegrama enviado depois, Darroch supostamente indicou que havia divisões na equipe de Trump sobre a decisão, e criticou a Casa Branca por falta de estratégia de longo prazo.

Boris Johnson em Moscou.
© Sputnik / Alexey Filipov
Boris Johnson em Moscou.

"Eles não podem articular nenhuma estratégia de 'dia seguinte'; e os contatos com o Departamento de Estado nesta manhã não sugerem nenhum tipo de plano para alcançar parceiros e aliados, seja na Europa ou na região", escreveu ele.

Ele relatou que o secretário de Estado Mike Pompeo, durante suas conversas com Johnson, "fez algum distanciamento sutil conversando sobre 'a decisão do presidente'". O jornal informou que, de acordo com Darroch, Pompeo também sugeriu que ele tentou, mas não conseguiu "vender" um texto revisado para Trump.

Em 2015, Estados Unidos, China, Reino Unido, França, Rússia e Alemanha assinaram um acordo com o Irã para limitar seu programa nuclear em troca de um levantamento parcial das sanções econômicas internacionais.

Trump há muito criticou o acordo e retirou os Estados Unidos em 8 de maio de 2018.

Assim como uma investigação do governo sobre os vazamentos, a polícia também está investigando uma potencial violação da Lei dos Segredos Oficiais.

A Polícia Metropolitana de Londres provocou uma condenação generalizada neste sábado, após uma advertência aos jornalistas de que a publicação de documentos vazados poderia ser uma questão criminal.

Johnson, que agora está na corrida para suceder Theresa May como primeiro-ministro, disse que os meios de acusação teriam um "efeito inibidor no debate público".

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https://br.sputniknews.com/americas/2019071414207769-trump-obama-acordo-ira-inveja/

Rússia, China, Irã e Venezuela usarão criptomoedas para desafiar EUA, diz relatório

Logótipos de moedas criptográficas de Bitcoin, Litecoin e Ethereum (imagem de arquivo)
© Sputnik / Evgeny Biyatov

Os adversários geopolíticos dos EUA estão implantando a tecnologia blockchain para combater o poder financeiro americano, afirma o novo relatório da Fundação Americana para Defesa da Democracia (FDD).

Com a adoção de moedas digitais por todo o mundo, estão em andamento esforços para construir novos sistemas de transferência de dinheiro que funcionem fora da infraestrutura bancária convencional, escreveu a FDD em uma análise abrangente divulgada na quinta-feira (11).

O relatório ressalta que os governos da Rússia, China, Irã e Venezuela estão experimentando a tecnologia que sustenta o mercado de criptografia.

Esses países estão priorizando a tecnologia blockchain como "componente-chave de seus esforços para combater o poder financeiro dos EUA".

"A Rússia, o Irã e a Venezuela iniciaram experimentos de tecnologia blockchain, que seus líderes encaram como ferramentas para compensar o poder coercitivo financeiro dos EUA e aumentar a resistência às sanções. A China também desconfia do poder financeiro dos EUA e da constante ameaça de sanções contra as autoridades chinesas", diz-se o estudo.

Sistemas alternativos

De acordo com o documento, os esforços das quatro nações vão além da mera tentativa de contornar as sanções, pois "buscam reduzir o poder das sanções unilaterais e multilaterais através do desenvolvimento de sistemas alternativos de pagamento para o comércio global".

Os autores do relatório observaram que a posição de influência dos EUA não é necessariamente permanente.

"A tecnologia criou um caminho potencial para sistemas alternativos de transferência de valores financeiros fora do controle dos EUA", escreve-se no estudo.

"O calendário pode ser de duas a três décadas, mas esses atores estão desenvolvendo os elementos de construção agora. Eles imaginam um mundo em que a tecnologia das criptomoedas os ajude a ofuscar o poder financeiro dos EUA, da mesma forma que o dólar uma vez ofuscou a libra britânica", finaliza a FDD.

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Câmara dos Deputados dos EUA aprova emenda que proíbe Trump de atacar Irã sem aprovação do Congresso

Prédio do Congresso dos EUA em Washington
© AP Photo / Susan Walsh

A Câmara dos Representantes dos EUA aprovou uma emenda que proíbe o presidente Donald Trump de lançar qualquer ataque ao Irã sem autorização prévia do Congresso.

A emenda, incluída na Lei de Autorização de Defesa Nacional de 733 bilhões de dólares, foi votada a favor por 251 legisladores e contra 170, segundo o jornal USA Today.

"Nenhum fundo federal pode ser usado para qualquer uso de força militar dentro ou contra o Irã, a menos que o Congresso tenha declarado guerra ou promulgado uma autorização estatutária específica para tal uso de força militar ", diz a emenda proposta pelos representantes Matt Gaetz do Partido Republicano e Ro Khanna do Partido Democrata.

A medida foi comemorada por organizações não-governamentais que se opõem a uma escalada da guerra com o Irã.

"Somos gratos que os membros da Câmara dos Representantes deram esse passo importante, que deve ser incluído no texto final da autorização de gastos com defesa. O Congresso deve continuar usando todos os instrumentos à sua disposição para bloquear definitivamente a marcha em direção à guerra. Presidente] Donald Trump e [Conselheiro Nacional de Segurança] John Bolton ", diz um comunicado conjunto assinado por diversas organizações.

No mês passado, Washington estava prestes a lançar um bombardeio contra o Irã depois que Teerã derrubou um avião militar dos EUA.

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https://br.sputniknews.com/americas/2019071214200203-camara-dos-deputados-dos-eua-aprova-emenda-que-proibe-trump-de-atacar-ira-sem-aprovacao-do/

O papel dos EUA nos protestos em Honk Kong

trump pompeo boltonOs meios de comunicação têm enchido páginas e ecrãs com os protestos de massas em Hong Kong, realmente gigantescos. O alvo, quer dos manifestantes, quer da propaganda dominante, é obviamente a China. Na origem, está uma alteração legal que permitiria a extradição para a China continental de pessoas acusadas de crimes. O clamor levantado a pretexto dos “direitos humanos” mascara a tentativa, por parte do Ocidente, com relevo para os EUA e o Reino Unido, de manter Hong Kong quanto possível fora da soberania chinesa. A isto não é alheia a guerra política e económica que os EUA desencadearam contra a China. É o que denuncia a seguinte declaração do International Action Centre (EUA).

Ajudas ou intervenções dos EUA nunca protegeram direitos humanos ou democracia

O imperialismo norte-americano é o maior inimigo dos povos que lutam por um futuro com dignidade, soberania e plenos direitos humanos. Wall Street e o capital financeiro mantêm o seu domínio no mundo através da ameaça de mais de 800 bases militares em territórios estrangeiros, porta-aviões, golpes constantes, assassinatos, ataques de drones e fome causada por sanções impostas a mais de 30 países ao redor do mundo.

Wall Street também usa o poder “suave” do National Endowment for Democracy (NED, Dotação Nacional para a Democracia) para financiar milhares de organizações não-governamentais, partidos políticos reaccionários e alianças com ditadores corruptos em todo o mundo.

Lembremos que, por meio do NED, os EUA financiaram tentativas de golpe, muitas vezes envolvendo componentes de protesto de massas, nas Honduras, Nicarágua, Venezuela, Haiti, Ucrânia e Síria. Qualquer movimento tem o potencial de atrair muitas pessoas progressistas bem-intencionadas, muitas vezes com queixas legítimas cujos interesses não são os da liderança do movimento. Mas a ajuda e as intervenções dos EUA nunca protegeram os direitos humanos ou a democracia.

Os recentes protestos de massas que abalam Hong Kong— contra uma proposta de modificação das leis de extradição — obrigam a olhar mais fundo, e a perguntar que forças estão por trás do movimento e quem dele beneficia.

Antecedentes

A Grã-Bretanha roubou Hong Kong à China no final da primeira Guerra do Ópio em 1842. As Guerras do Ópio impuseram o tráfico de ópio, tratados desiguais e ocupação colonial. Cem anos de pilhagem imperialista, empobreceram e mantiveram a China subdesenvolvida.

A vitória da revolução em 1949 mudou radicalmente a China e iniciou os esforços para construir o socialismo. Mas durante 30 anos, de 1949 a 1979, a China foi completamente cercada, bloqueada e sancionada pelos EUA e pelos países imperialistas ocidentais.

Em 1979, a partir da “reforma e abertura” iniciada com Deng Xiaoping, a China fez concessões ao mercado capitalista. Isso deu à China acesso a alguma tecnologia e capitais do mundo industrializado, mas foi um acordo com o diabo, fortalecendo a classe capitalista na China.

Hong Kong foi devolvida à China em 1997 sob o princípio “um país, dois sistemas” que preservou grande parte do sistema legal/judicial colonial britânico.

Hong Kong é um centro do capital financeiro mundial. É profundamente hostil às medidas sociais que, na China continental, tiraram centenas de milhões de pessoas da pobreza extrema e proporcionaram altos padrões de cuidados de saúde, educação e infra-estruturas modernas.

O capital financeiro fez fortes incursões na China. Hong Kong é a base de operações do Ocidente, incentivando o crescimento de uma classe capitalista na China que ameaça as bases do socialismo. Hoje a China é uma sociedade profundamente contraditória, caracterizada pela luta entre uma classe capitalista renascida e as aspirações dos trabalhadores e camponeses chineses de manter e expandir a economia planificada.

É no contexto dessa luta, bem como do crescente cerco militar dos EUA e da guerra comercial contra a China, que os actuais protestos em Hong Kong devem ser compreendidos. As forças do capital financeiro em Hong Kong e os seus aliados nos EUA e na Europa querem afastar Hong Kong da China para que possa funcionar como um posto avançado económico e político na região.

Isso significa limitar a integração legal e política com a China, tanto quanto possível. Para esse fim, os EUA forneceram amplo apoio político, financeiro e propagandístico aos protestos.

Factos sobre os protestos

Várias organizações membros da Frente Civil de Direitos Humanos, a coligação por trás dos recentes protestos, recebem ou receberam financiamento do NED. Entre elas, o Instituto de Gestão de Recursos Humanos de Hong Kong, a Confederação de Sindicatos de Hong Kong, a Associação de Jornalistas de Hong Kong, o Partido Cívico, o Partido Trabalhista e o Partido Democrático.

Mais de 37.000 ONGs, com dezenas de milhares de funcionários, estão registadas em Hong Kong, muitas das quais recebem financiamento dos EUA e da Europa.

Martin Lee, fundador do Partido Democrata, que faz parte da Frente Civil de Direitos Humanos, reuniu-se com o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, durante os protestos, e recebeu deste o pleno apoio aos protestos. Se os protestos tivessem de facto uma finalidade progressista, não seriam apoiados pela liderança reaccionária do imperialismo norte-americano — a mesma força que tenta levar a cabo um golpe na Venezuela, ameaça a Coreia do Norte e procura iniciar uma guerra com o Irão.

O sistema legal/judicial independente de Hong Kong é uma relíquia do colonialismo britânico. Em nenhum outro lugar do mundo uma cidade tem leis independentes de extradição, com autoridade acima da de um país soberano. (**)

Apesar de décadas de financiamento multimilionário do Ocidente, Hong Kong tem uma taxa de pobreza de 20% (23,1% para crianças), comparada com menos de 1% na China continental. Nos últimos 20 anos, a pobreza em Hong Kong permaneceu alta, enquanto a China continental tirou incontáveis milhões de pessoas da pobreza.

Os recentes protestos, tal como os de 2014, não levantaram essa questão. Os protestos foram dirigidos contra a liderança de Hong Kong, ligada à China continental, ignorando as ligações aos EUA dos bancos e dos capitalistas ultra-ricos sediados em Hong Kong, que claramente não demonstram interesse em responder aos problemas da pobreza ou outras necessidades de primeira importância.

Os EUA afirmam estar preocupados com a liberdade de expressão e extradições com motivações políticas, enquanto pressionam para a extradição de Julian Assange por expor os crimes do imperialismo norte-americano.

Os meios de comunicação nos EUA e na Europa têm divulgado entusiasticamente os protestos em Hong Kong, em contraste com a escassa cobertura, muitas vezes negativa, dos protestos de massas em Gaza, Honduras, Sudão, Iémen, França ou a recente greve geral no Brasil. A diferença na cobertura mediática revela a diferença das forças que estão por trás dos protestos e que deles beneficiam.

O imperialismo norte-americano tem uma longa história de “revoluções coloridas”, em que protestos com um verniz progressista e até revolucionário são usados como cobertura para uma agenda reaccionária pró-EUA. É o caso da aliança entre o imperialismo norte-americano e as forças do capital financeiro mundial em Hong Kong, contra a liderança política e a soberania chinesa.

———

(*) O International Action Center (iacenter.org) é um associação de activistas fundada em 1992 pelo antigo Procurador-Geral dos EUA Ramsey Clark. Apoia movimentos anti-imperialistas em todo o mundo e opõe-se às intervenções militares dos EUA em quaisquer circunstâncias. Texto traduzido e adaptado pelo MV.

(**) A questão não se põe apenas em relação à China. Também Taiwan tem um contencioso recente com Hong Kong a este respeito, a propósito de um indivíduo que assassinou uma mulher em Taiwan e se refugiou em Hong Kong para escapar à Justiça. Um dos argumentos da alteração legal pretendida pela China é precisamente evitar que a legislação actual faça da ex-colónia uma espécie de off-shore do crime.

Ver o original em 'Mudar de Vida' (clique aqui)

Qual é sua cidadania mesmo?

Qual é sua cidadania mesmo?

EUA não vão parar de conter os cidadãos norte-americanos e distingui-los dos estrangeiros que não têm direito de votar nas eleições.

Segundo o presidente dos EUA, Donald Trump, as autoridades precisam saber a quantidade de cidadãos e estrangeiros que moram nos EUA. "Não vamos desistir da questão da cidadania", disse Trump em comunicado à imprensa, notando que "isso é extremamente necessário para construir uma política razoável".

Na semana passada, a Suprema Corte dos EUA bloqueou a proposta, insistida pelo presidente Trump, de adicionar ao formulário demográfico a questão "cidadania". Segundo especialistas, o adicionamento da questão "cidadania" pode provocar a situação em que muitas pessoas não serão computadas porque terão medo de reconhecer a ausência da cidadania dos EUA.

Depois de tanto querer incluir a questão "cidadania" no censo, Trump acabou desistindo da ideia.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/charges/2019071214195906-qual-e-sua-cidadania-mesmo/

Militares norte-americanos afirmam que guerras dos EUA não valeram a pena

A maioria da população norte-americana, bem como os veteranos das campanhas militares, concorda que as guerras do Afeganistão e do Iraque não valeram a pena.

Segundo uma pesquisa divulgada nesta quarta-feira (10), mais de 60% dos veteranos norte-americanos entrevistados afirmaram que a guerra do Iraque não valeu a pena, considerando os custos para os EUA.

O mesmo afirmaram 62% da população. A guerra do Afeganistão foi reprovada por 59% da população, tanto civis quanto militares.

"Os veteranos que serviram no Iraque ou no Afeganistão não apoiam essas guerras mais do que aqueles que não serviram nessas guerras", afirma a pesquisa.

Entretanto, as opiniões variam consideravelmente por filiação partidária, ou seja, os veteranos republicanos apoiam mais as campanhas militares do que os ex-militares democratas.

Assim, 46% dos veteranos republicanos afirmam que a guerra no Afeganistão valeu a pena, contra 26% dos democratas.

Forças dos EUA no Afeganistão
Forças dos EUA no Afeganistão

Já quanto à campanha dos EUA na Síria, 42% dos veteranos afirmaram que se justificou, enquanto 55% discordam. Em relação aos civis, 58% da população acha que a guerra na Síria não valeu a pena.

"Entre os veteranos, esses pontos de vista são consistentes durante seu tempo de serviço e relativamente ao posto e experiência de combate. Os veteranos republicanos são consideravelmente mais propensos do que os democratas a confirmar que a campanha na Síria valeu a pena", aponta o estudo.

A pesquisa foi realizada entre maio e junho com base em entrevistas de 1.284 veteranos de guerra norte-americanos e 1.087 civis adultos.

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https://br.sputniknews.com/americas/2019071214192787-militares-norte-americanos-afirmam-que-guerras-dos-eua-nao-valeram-a-pena/

A patrulha de fronteira é a SS dos EUA

Depois de décadas cultivando uma cultura de abusos violentos e racistas, a Customs and Border Protection – CBP (Alfândega e Proteção de Fronteiras) não pode ser vista apenas como um trabalho a mais. Como a SS de Hitler, deve ser vista não como um lugar onde pessoas boas fazem coisas ruins, mas onde pessoas ruins fazem coisas ruins.

 

por Aaron Freedman

Nestas últimas semanas, a mídia foi está tomada pelo debate sobre o uso da expressão “campo de concentração” pela deputada socialista Alexandria Ocasio-Cortez para descrever as instalações onde são internadas as pessoas que buscam asilo na fronteira sul dos EUA. Os críticos dizem que essa terminologia é um insulto aos judeus e aos nossos antepassados que foram assassinados no Holocausto. Para outros (como eu) “campo de concentração” – que originalmente descrevia a horrível internação de sul-africanos pelos britânicos durante a guerra dos Boers – é uma descrição terrivelmente adequada dos abusos cometidos na fronteira.

Nesta semana, o uso da expressão “campo de concentração” tem se mostrado mais verdadeiro do que nunca, após a vigilância do Departamento de Segurança Interna compartilhar fotos de uma superlotação desumana, descrita como “uma bomba-relógio”, e uma delegação de deputados, incluindo Alexandria Ocasio-Cortez, à fronteira relatar o abuso físico e psicológico dos detidos, incluindo ordens de guardas para beber água do banheiro.

No entanto, mesmo com esse abuso desumano, a administração Trump ainda insiste que as condições nesses campos de concentração são consequência da falta de dinheiro. Nos dê mais dinheiro, e nós teremos mais colchões, diz.

Mas nos últimos dias, o pouco crédito que a narrativa oficial tinha se evaporou após a divulgação do bombástico relatório da “ProPublica” sobre um grupo do Facebook de extrema-direita, formado por atuais e ex-agentes da Customs and Border Protection – CBP (Alfândega e Proteção de Fronteiras, que administra os campos).

Há detalhes repugnantes: chamados de “Sou 10-15” – código da Patrulha de Fronteira para “estrangeiros sob custódia” – os agentes brincaram sobre a morte de um imigrante detido pela CBP, discutiram como jogar burritos em deputados latinos do Congresso em visita aos acampamentos, e chegaram a compartilhar imagens vulgares que mostram Ocasio-Cortez em atos sexuais com um imigrante detido e o Presidente Trump.

Este não é um grupo marginal – possui cerca de 9.500 membros (a força total da CBP é de cerca de vinte mil agentes) e, como relata a revista virtual “Politico”, há três anos é conhecido pela liderança da Patrulha de Fronteira. Aquela não é apenas uma conversa inofensiva: durante a visita dos deputados democratas à fronteira, agentes da CBP foram abertamente hostis a eles, inclusive tomando seus celulares e câmeras.

Em resposta, Alexandria Ocasio-Cortez chamou a CBP de “uma agência desonesta”. Eu vou além: a CBP é a SS dos EUA.

Esta não é uma comparação que faço com leveza. As SS, claro, eram os paramilitares do Partido Nazista; havia exigências ideológicas em sua formação, para supervisionar e executar alguns dos piores crimes do nazismo. Incluía, em particular, os supervisores dos campos de concentração e morte, o SS-Totenkopfverbände (SS-TV) – literalmente, “Unidades da Cabeça da Morte”.

Como um judeu cuja família foi assassinada no Holocausto, eu me sinto especialmente responsável por isso, tomando as lições históricas daquela época e aplicando-as a este momento urgente.

Há uma razão pela qual a SS administrou os campos nazistas: eles eram os verdadeiros crentes. Desde a construção do primeiro campo de concentração, em Dachau, em março de 1933, apenas os paramilitares nazistas ideologicamente puros e confiáveis eram usados para supervisioná-los. Dado o seu papel crucial no abuso e assassinato de inimigos raciais, pessoas LGBT, “inimigos do Reich” (incluindo comunistas e socialistas) e “asociais” (incluindo pacifistas e falsários), esses campos tinham que ser administrados por aqueles que acreditavam na desumanização de suas vítimas.

“Desumanizar” pode ser a melhor palavra para descrever as ações dos oficiais da CBP. Em todos os níveis – desde a equipe superior que envia imigrantes para campos de concentração em vez de abrigos abertos, aos policiais que fazem piadas sobre pessoas que morrem na prisão, até os guardas que intencionalmente atormentam os detidos – a CBP é uma agência cuja essência é a desumanização dos imigrantes.

E isso não é novidade: a violência dos agentes da CBP é difundida há muito tempo. Como Daniel Denvir contou recentemente:

Reclamações de abuso foram tão desenfreadas em 1980 que dois agentes hispânicos foram enviados à paisana, vestidos como trabalhadores mexicanos, para checar o posto de controle de San Clemente na I-5. O resultado: os agentes supostamente espancaram seus colegas disfarçados com uma cadeira e uma lanterna – e foram acusados de espancar outros, incluindo um cidadão de quinze anos de idade.”
Daniel Denvir

Relatos como este foram corroborados por antigos e atuais oficiais da Patrulha da Fronteira que acusam uma cultura difundida de crueldade. Como disse uma ex-agente da CBP, Jenn Budd, “a crueldade é o ponto. . . É ensinada na academia e reforçada pela gerência. Quando Budd tentou relatar o comportamento abusivo à CBP, foi atropelada por um agente no estacionamento.

É claro que a CBP não está exterminando pessoas aos milhões. E os EUA não são um estado fascista. Mas meu ponto é enfatizar que, após décadas alimentando uma cultura de abuso violento e racista, a CBP não pode ser vista apenas como um trabalho a mais. Como as SS, deve ser vista não como um lugar onde pessoas boas fazem coisas ruins (como muitos historiadores sugerem que a Wehrmacht nazista tenha sido), mas onde pessoas ruins fazem coisas ruins. É podre até o núcleo.

Entre os relatos sobre a Patrulha da Fronteira, um dos mais arrepiantes foi feito por Daniel Denvir:

O que parece diferente agora é que havia também, recentemente, em 1994, expressões frequentes de ambivalência. Agentes que disseram coisas como: Muitas vezes sentei e me perguntei: estou fazendo a coisa certa? . . . Eu acho que estas pessoas são apenas pobres tentando alimentar suas famílias. Se meu pensamento está certo – que nos últimos anos os agentes da Patrulha de Fronteira se tornaram ainda mais cruéis e racistas – isso se deve a décadas de políticos travando uma guerra bipartidária. Isso demonizou os migrantes ilegais e os transformou em uma ameaça econômica, criminosa, terrorista e existencial.”
Daniel Denvir

A SS foi valorizada por Hitler por treinar seus membros para serem totalmente não-ambivalentes sobre as atrocidades que cometiam. Com a Patrulha da Fronteira se tornando igual, e aplicando semelhante compromisso ideológico de direita para supervisionar campos de concentração desumanizantes e assassinos, a esquerda deve chamar a agência pelo que ela é: a SS dos EUA.


por Aaron Freedman, Escritor; mora no Brooklyn, Nova York  | Texto em português do Brasil, com tradução de José Carlos Ruy

Exclusivo Editorial PV (Fonte: Jacobin)/ Tornado


 

 

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EUA podem ultrapassar limite da dívida pública mais cedo do que previsto, alertam analistas

Presidente dos EUA, Donald Trump, durante na Cúpula do G20 em Osaka, no Japão
© Sputnik / Ilia Pitalev

Em início de setembro, Washington pode enfrentar a inadimplência devido a receitas fiscais muito baixas, relatou Bloomberg citando um relatório do Centro de Política Bipartidária (BPC).

O BPC disse na segunda-feira (8) que há um "risco significativo" de os EUA ultrapassarem o seu limite de dívida pública no início de setembro, a menos que o Congresso atue.

O organismo reviu a sua previsão anterior de que a data em que Washington deixaria de cumprir as obrigações de pagamento se situaria entre outubro e novembro.

O Departamento do Tesouro dos EUA tem usado as chamadas medidas extraordinárias para cumprir as obrigações da dívida desde 2 de março, quando Washington atingiu seu limite máximo de endividamento.

A razão para isso foi uma receita tributária muito baixa, que aumentou apenas 3% em relação ao ano passado, em vez dos 6% esperados.

Cumprimento das obrigações de crédito

A Bloomberg também informa que a câmara baixa do parlamento americano entrará em recesso em 26 de julho, mas que a questão do aumento do limite da dívida pública ainda não foi levantada.

O chefe do departamento de política econômica do BPC, Shai Akabas, disse que o governo não deve deixar Washington no final do mês sem aumentar o teto da dívida.

De acordo com ele, caso contrário, Washington estará se arriscando a não cumprir as suas obrigações de crédito.

"Isso está colocando um risco imprudente na fé e no crédito dos EUA", disse ele.

No início de 2019, pela primeira vez na história, a dívida nacional dos EUA ultrapassou a marca de US$ 22 trilhões (R$ 83 trilhões).

Além disso, durante o ano fiscal de 2018, o défice orçamental dos Estados Unidos aumentou 17%, para US$ 779 bilhões (R$ 2,9 trilhões). Está previsto que ultrapasse a marca do trilhão de dólares até 2020.

A dívida pública deverá continuar a acelerar o crescimento, uma vez que as despesas públicas estão fora de controle.

Recordes históricos de dívida

Em junho, o Escritório de Orçamento do Congresso dos EUA (CBO) previu que a dívida federal dos EUA continuará subindo drasticamente nos próximos 30 anos , devendo alcançar 144% do PIB em 2049.

Prevê-se que o endividamento continue crescendo em um trilhão de dólares anualmente ao longo da próxima década devido ao pagamento das aposentadorias e às despesas com cuidados médicos dos aposentados da geração "baby boomer".

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China encontra nova 'arma' para contra-atacar norte-americanos

Bandeira americana e chinesa
© AFP 2019 / Wang Zhao

As autoridades chinesas alertam seus cidadãos que pretendem viajar aos EUA para avaliarem os prós e contras antes de tomar a decisão.

O Ministério das Relações Exteriores da China, em conjunto com o da Cultura e Turismo, publicaram recentemente advertências sobre os perigos que os chineses podem enfrentar nos EUA, como violência e roubos nas ruas, entre outras coisas.

Além disso, emitiu uma advertência semelhante àqueles que pretendem estudar nas universidades norte-americanas.

Com o início da guerra comercial entre os dois países, os estudantes chineses reclamaram das dificuldades em obter o visto norte-americano, sendo que alguns foram até impedidos de completar o curso, pois não conseguiram renovar seus vistos.

Isso porque, em outubro do ano passado, a Administração de Trump emitiu instruções às embaixadas norte-americanas para endurecerem a política de vistos para os estudantes chineses, principalmente para aqueles que estudam tecnologias.

No entanto, recentemente, em Osaka, o líder norte-americano assegurou que os EUA querem mais estudantes chineses em suas universidades, afirmando que ele ainda espera que os chineses permaneçam nos EUA após concluírem seus estudos.

Bandeiras na praça da Paz Celestial (Tiananmen). Foto de arquivo.
© AFP 2019 / WANG ZHAO
A praça da Paz Celestial (Tiananmen), em Pequim, é a principal praça da China e a terceira maior praça no mundo.

Isso poderia significar um degelo nas relações entre os dois países. Por outro lado, Trump é movido por ideias puramente pragmáticas. A China é o maior provedor de estudantes estrangeiros para as universidades norte-americanas, que cobram valores altos. Sendo assim, perder uma fonte de ingressos estáveis terá um grande impacto, comentou Wang Xiaofeng, do Centro de Investigação dos EUA da Universidade de Fudan, com sede em Xangai.

"Primeiramente, a América é um ponto de atração para os estudantes da China. (....) Nos últimos anos, o número de chineses que vão aos Estados Unidos para estudar tem vindo a aumentar progressivamente", disse Wang Xiaofeng.

"Uma pessoa que vai a um acampamento de verão por um período curto paga vários milhares ou mesmo dezenas de milhares de dólares; e aqueles que vão para estudar por um período longo, pagam entre 50.000 e 80.000 dólares por ano. Há muitos destes estudantes", ressalta o especialista.

"Sendo assim, nesta área, os EUA possuem um claro superávit no comércio com a China. Depois da advertência emitida pelas autoridades chinesas, a indústria turística norte-americana, supostamente receberá muito menos ingressos", alertou.

Para muitos países, os turistas chineses são o motor mais potente do crescimento econômico. É estimado que o fluxo turístico proveniente da China possa chegar a 200 milhões de pessoas até 2020.

Bandeira dos EUA junto a emblema nacional da China (foto de arquivo)
© AP Photo / Andy Wong
Bandeira dos EUA junto a emblema nacional da China (foto de arquivo)

"A China é um grande mercado para os EUA. No entanto, a indústria turística dos EUA não depende tanto da China [...]. Além disso, alguns cidadãos chineses planejaram suas vidas para estudar nos EUA, e não mudarão tudo agora. De fato, houve casos de ataques armados nos EUA, inclusive nos campus universitários. Além disso, foram os EUA que reforçaram os controles para os cidadãos chineses, então, a advertência é como uma represália", opinou o especialista.

Segundo o Escritório Nacional de Turismo e Viagens dos EUA, em 2018, o número de turistas chineses no país caiu 5,7 %.

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Trump parabeniza EUA por levar Copa do Mundo; capitã afirmou que não visitará Casa Branca

Presidente dos EUA Donald Trump na cúpula do G20 em Osaka
© REUTERS / Kazuhiro Nogi / Pool

O presidente Donald Trump parabenizou a equipe feminina dos EUA por ganhar a Copa do Mundo, dizendo que o país está "orgulhoso de todas vocês".

"Parabéns ao time de futebol feminino dos EUA por ter vencido a Copa do Mundo! Jogo ótimo e emocionante", escreveu Trump no Twitter.

Os EUA derrotaram a Holanda por 2 a 0 com um pênalti convertido por Megan Rapinoe e outro golo de Rose Lavelle na final em Lyon.

Rapinoe havia prometido ficar em casa se Trump convidar a equipe para a Casa Branca, e ela pediu que suas companheiras de equipe se juntassem a ela para protestar contra as políticas e o caráter do presidente.

Trump respondeu no Twitter que "Megan nunca deve desrespeitar nosso país, a Casa Branca ou a nossa bandeira, especialmente porque muito tem sido feito por ela e pela equipe".

As equipes esportivas campeãs dos EUA são tradicionalmente homenageadas com um convite para a Casa Branca, embora Trump tenha, às vezes, revogado convites após alguns esportistas o criticarem

Entre as equipes que recusaram a oferta estão o Golden State Warriors, da NBA, e os vencedores do Super Bowl do ano passado, os Philadelphia Eagles, da NFL.

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Trump usa 4 de julho para fazer ameaças e recebe críticas

Uma demonstração militar como não há memória. Este ano, as comemorações do 4 de Julho nos Estados Unidos vão muito para além do tradicional fogo de artifício e churrasco.

 

Uma data que ocorre num pico de tensão com o governo iraniano. O presidente dos Estados Unidos avisa o Irão que deve ter cuidado com as ações – uma resposta ao anuncio do presidente Rouhani de que vão exercer a quota de urânio enriquecido.

Há quem diga que Donald Trump ficou tão impressionado com os desfiles do 14 de julho no ano passado em Paris, que os usou como inspiração este ano em Washington.

Uma parada militar que pode ser também uma resposta à Coreia do Norte, que depois do último encontro entre Trump e Kim Jong-un veio dizer que os Estados Unidos estão “empenhados em atos hostis”, apesar de um recente acordo entre os dois países para retomar as negociações nucleares.

Esta residente na capital diz que é contra “gastar dinheiro dos contribuintes num evento que só alimenta o ego de um narcisista”.

Natural da Florida, este norte-americano afirma que “gostava de ver o presidente cingir-se à comemoração da independência”.

Vozes que se juntam aos críticos que acusam Donald Trump de tomar de assalto um dia tradicionalmente apartidário.


Texto original em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado


 

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Há rasgões demais no muro de Trump

Há rasgões demais no muro de Trump

Enquanto Trump fortalece o muro na fronteira com o México, mexicanos atravessam com mais frequência fronteira norte-americana pelo norte.

Um funcionário mexicano da cidade da Oaxaca, que preferiu manter anonimato, relatou à Sputnik como seus conhecidos utilizam o sistema de vistos eletrônicos canadense (eTA), introduzido em 2016 para cidadãos mexicanos, para entrar no território do Canadá e provar sorte um uma floresta perto da fronteira.

Presidente dos EUA está seguro de que o muro na fronteira com o México é a única forma de deter a imigração ilegal dos países da América Latina.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/charges/2019070314159824-ha-rasgoes-demais-no-muro-de-trump/

Conselheira presidencial

Desde Novembro passado, os EUA cortaram 700 milhões de dólares de ajudas que se destinavam a combater a epidemia de Ébola na África Central e a apoiar a desminagem de países do sudeste da Ásia, nomeadamente os que foram vítimas das agressões norte-americanas das décadas de 60-70. O corte seguiu-se à publicação no Washigton Post de um artigo louvando a acção do governo de Trump contra o tráfico de seres humanos e condenando os países que, na óptica dos EUA, “não fazem o suficiente” para o combater.
O artigo era assinado por Ivanka Trump, filha do presidente e conselheira superior da Casa Branca.
No próprio dia da publicação do artigo, foi divulgado um memorando presidencial que determinou os cortes das ajudas.
Com este trabalho combinado, a família Trump despe de véus a “ajuda humanitária” dos EUA, facto que só clarifica a relação política do imperialismo norte-americano com o chamado Terceiro Mundo.

Ver o original em 'Mudar de Vida' (clique aqui)

Vontade de superioridade dos EUA arruína relações internacionais, dizem analistas

Cúpula do G20 em Osaka, Japão
© REUTERS / Kevin Lamarque

Donald Trump disse muitas coisas boas da Rússia, China e Coreia do Norte durante a cúpula do G20. Mas hão há garantia que ele não anuncie na próxima semana em um tweet que mudou sua opinião, disseram analistas à RT.

"Os resultados são sempre bons quando o presidente Trump se encontra com líderes mundiais, seja Putin, Xi Jinping ou o norte-coreano [Kim Jong-un]", comentou o analista político Andre Vltchek à RT, falando no final do encontro em Osaka, notando que, contudo, daqui a uma semana ou um mês Trump poderia acordar e tuitar algo sobre a Venezuela ou Coreia do Norte que contradiz completamente suas palavras anteriores.

"Houve muita teatralidade" no G20, disse Paul Ingram, diretor executivo do Conselho Britânico-Americano de Informações sobre Segurança.

"Donald Trump esteve falando muitas coisas que eram claramente destinadas para fazer manchetes. Mas o que está realmente acontecendo por baixo, ninguém sabe."

Independentemente do caminho que o líder dos EUA escolher a seguir, é muito importante que Moscou e Washington falem, especialmente sobre questões tão importantes como o controle de armamentos, disse Ingram. Como os EUA já se retiraram do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF) e estão considerando abandonar o Novo START (Tratado de Redução de Armas Estratégicas), "é provável que possamos ter facilmente a instalação de novos mísseis nucleares na Europa, o que está aterrorizando muitos países europeus no momento".

Trump, ao sair desses acordos marcantes de não-proliferação nuclear, mostra que "não há consciência na cabeça do presidente dos EUA sobre quanto esforço é necessário para negociar esses tratados", acrescentou.

Após a retirada do INF, "eu não sei até onde a Rússia ainda pode confiar nos EUA", alertou Vltchek.

"Obviamente, a Rússia não tem outra escolha senão fazer o seu melhor, para o bem do seu próprio povo e para o bem do mundo, para forçar os EUA a negociar."

Vltchek acredita que "a coisa mais importante agora é manter Donald Trump otimista por pelo menos um ano, até ocorrer o próximo 'grande' encontro entre ele e Putin em 9 de maio de 2020." Durante o G20, Vladimir Putin convidou seu colega americano a ir a Moscou para as celebrações do Dia da Vitória na próxima primavera, e Trump supostamente "respondeu positivamente" à ideia.

Líderes do G20 em Osaka, Japão
© REUTERS / Kevin Lamarque
Líderes do G20 em Osaka, Japão

 

Entretanto, em Osaka Trump declarou novamente sua disposição de resolver o impasse entre os EUA e a Coreia, dizendo mesmo que queria se encontrar com Kim na zona desmilitarizada entre o sul e o norte da península. O acordo coreano "demanda mais do que relações pessoais entre [Trump e Kim]", advertiu Ingram, observando que o processo precisa do "entendimento dos caminhos que levam um país como a Coreia do Norte a adquirir armas nucleares".

O comportamento de Washington nas negociações coreanas é o mesmo que impede a resolução de outras disputas em todo o mundo, enfatizou Vltchek. "Todas as portas estão abertas – da Rússia, da China, da Coreia do Norte [...] seus líderes estão dispostos a negociar. São sempre os EUA que recuam e começam a pressionar para obter sua superioridade econômica ou – eu odeio usar a palavra – pelos seus interesses imperialistas."

"A diplomacia é muito melhor do que a guerra ou o conflito [...] mas por trás da retórica estão sempre interesses nacionais", apontou o analista político Andrew Leung. As aspirações de Washington, Moscou e Pequim são diferentes, então o "terreno comum [deve ser encontrado], mas é claro que a administração Trump acredita que a América tem força dominante em muitas frentes e está preparada para usar essa força para empurrar o envelope para 'America first'."

"Usando como trunfo esse tipo de atitude em que o forte dita as políticas e o fraco tem simplesmente que obedecer, não é bem aceito por muitos outros países", advertiu Leung.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/opiniao/2019063014140435-vontade-de-superioridade-dos-eua-arruina-relacoes-internacionais-dizem-analistas/

Trump recua: tecnológicas americanas podem vender à Huawei

A cimeira dos G20 no Japão foi o cenário escolhido pelo presidente dos EUA para anunciar o que já se previa: as empresas americanas podem continuar a vender produtos à Huawei, como exigiram a Trump.

Logótipo da Huawei num edifício de Kuala Lumpur, Malásia, a 17 de Junho de 2019. A maioria dos países do Sudeste Asiático, como a Malásia, Singapura ou a Tailândia, ignoraram a chamada «Guerra Fria 5G» dos EUA contra a Huawei.CréditosEPA/FAZRY ISMAIL / LUSA

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/trump-recua-tecnologicas-americanas-podem-vender-huawei

Rosto de «plano de paz» americano indignado com aproveitamento

O palestiniano cuja imagem foi usada por Washington sem autorização para publicitar o chamado «Acordo do século» para o Médio-Oriente está indignado por ser utilizado num plano que fere a Palestina.

O agricultor palestiniano Abu al-Rub e a filha, numa fotografia da USAID usada no sítio web da Casa Branca, Washington DC, para promover o plano «Paz para a Prosperidade», também conhecido por «Acordo do Século» para o Médio-Oriente. Foto de arquivo.CréditosUSAID / Casa Branca

Um agricultor palestiniano de Qabatiya, localidade a sul de Jenin, na Cisjordânia ocupada ilegalmente por Israel, ficou surprendido e indignado ao saber que imagens suas e da sua família foram usadas pelo governo norte-americano para promover a conferência económica «Paz para a Prosperidade», realizada no Bahrein entre 24 e 26 de Junho para apresentar o chamado «Acordo do Século», apresentado pelos EUA como um «plano de paz definitiva» para o Médio-Oriente.

O plantador de morangos Osama Abu al-Rub declarou ao Middle East Eye (MEE) que está «insultado e irritado» por ter sido usado para promover um «projecto político perigoso», que vê como «destinado a liquidar a causa palestina». O agricultor, de 52 anos, garantiu que ninguém pediu sua permissão para reutilizar as imagens na página da Casa Branca.

Abu al-Rub declarou estar «muito aborrecido com a publicação das fotos», acrescentando ter «vergonha deste projecto», sendo «impossível aceitá-lo ou ser uma de suas ferramentas». Ao MME o agricultor disse partilhar da rejeição geral, entre os palestinianos, pelo «acordo» proposto por Donald Trump, e acreditar que «ninguém está autorizado a desistir de um só grão de areia da Palestina».

«Recuso-me a negociar a terra da Palestina»

oSAMA aBU AL-rUB

Abu al-Rub comparou o «acordo do século» com o Acordo Sykes-Picot de 1916, um tratado secreto anglo-francês que dividiu o Médio-Oriente em esferas de influência dos dois países e ao abrigo do qual os britânicos ocuparam a Palestina: «desde o Acordo Sykes-Picot até hoje, nós, os palestinos, temos estado sujeitos a políticas semelhantes [de ocupação]», afirmou, «mas a nossa firmeza e existência continuada na terra que é nossa fará falhar com todas as conspirações tecidas contra nós e contra a nossa causa».

O «rei dos morangos» e a propaganda

As fotografias usadas pelo governo norte-americano foram retiradas de uma reportagem da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) de 2013, descrevendo o apoio ao negócio de morangos de Abu al-Rub – designado por aquela organização como o «rei dos morangos».

A descrição do caso de Osama Abu al-Rub pela USAID assemelha-se às narrativas de êxito habituais no discurso de formação profissional por parte das instituições que o ministram.

«Osama começou a cultivar morangos há seis anos, da maneira tradicional», dizia-se na reportagem da USAID. «Plantou seus morangos no chão, onde eles ficavam susceptíveis aos caprichos da natureza – más condições do solo, pragas e imprecisão da irrigação». E, claro, «os seus rendimentos não eram por aí além», porque «os seus morangos não eram assim tão deliciosos».

«ninguém está autorizado a desistir de um só grão de areia da Palestina»

OSAMA ABU AL-RUB

Como resultado do apoio da USAID, Abu al-Rub construiu estufas, começou a pendurar os morangueiros acima do chão e a usar uma «irrigação computadorizada». E a reportagem afirmava que «graças ao seu novos conhecimentos e tecnologias, o negócio de morangos de Osama está florescente. A sua quinta é um modelo para a próxima geração de agricultores e agrónomos palestinianos».

O problema é que a narrativa da USAID não corresponde bem à realidade.

Um já então bem sucedido negócio

Osama Abu al-Rub confirmou ao MEE que a sua exploração já era um negócio bem sucedido antes de receber «um apoio limitado» da USAID. O agricultor tinha começado a plantar morangos, «de maneiras que não eram utilizadas até aí na Palestina» em 2008, em pouco mais de um acre de terra. No ano seguinte plantou e colheu dois acres de terra e foi expandindo o negócio até atingir 18-20 acres em 2013.

Nesse ano recebeu a visita de uma equipa da USAID que queria conhecer a sua experiência no desenvolvimento da produção de morangos e apresentar-lhe tecnologia que poderia ser usada para melhorar as condições de crescimento do morango. Os técnicos da USAID informaram-no da existência de um projecto para aumentar o cultivo de morangos na Cisjordânia, de que ele poderia beneficiar.

Abu al-Rub não aceitou o financiamento americano antes de consultar o Ministério da Agricultura da Palestina e de se assegurar que o mesmo não exigia a aceitação de condições por vezes impostas aos receptores de ajuda, como renunciarem à participação em organizações políticas consideradas terroristas pelos EUA ou a proibição e participação em acções políticas.

E se a USAID o apoiou em 2013 fornecendo equipamentos tecnológicos no valor de 150 mil shekels (41700 USD), Abu al-Rub no mesmo ano investiu do seu bolso 250 mil shekels (70000 USD). O apoio da USAID terminou nesse ano e não voltou a ser concedido.

Em Fevereiro de 2019 a USAID anunciou cessar todo o financiamento de projectos na Cisjordânia e em Gaza, de acordo com uma decisão do governo de Washington de retirar aos palestinianos e às organizações que os auxiliam o apoio financeiro dos EUA.

Os jornalistas do MEE quiseram fotografar Osama Abu al-Rub, mas este não autorizou que o fizessem. Tornou-se um homem prudente. Na sua opinião, os americanos usaram este «pequeno e simples projecto [económico] para promover um projecto político perigoso». Sente-se «muito insultado e irritado com isso» e rejeita totalmente essa manipulação.

Não compreende porque o escolheram a ele: foi apenas «um dos milhares de palestinos que receberam financiamento com a aprovação das instituições da Autoridade Palestina».

Os repórteres do MEE colocaram à USAID e ao governo dos EUA a questão da utilização indevida, para o folheto da conferência «Paz para a Prosperidade», das imagens do agricultor palestiniano e da sua família. Um porta-voz da primeira instituição recusou-se a comentar. Aguardam resposta da segunda.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/rosto-de-plano-de-paz-americano-indignado-com-aproveitamento

Tiffany Cabán, uma socialista rumo à promotoria em Nova York

Nos EUA, os socialistas prometem avançar eleitoralmente. Desta vez, foi a defensora pública Tiffany Cabán, que venceu, nesta terça-feira (25), as primárias democratas no Queens, distrito de Nova York, e poderá se tornar promotora pública. Ela defende uma plataforma que pretende, entre outras coisas, mudar a política de encarceramento que prejudica sobretudo trabalhadores, pobres, negros e hispânicos.

Tiffany Cabán venceu, nesta terça-feira (25), as primárias democratas para a promotoria distrital no Condado de Queens. Com quase 40% dos votos Cabán levou a dianteira em numa disputa acirrada, que teve a participação de seis candidatos – com uma plataforma socialista na maior cidade dos EUA. Sua principal concorrente, Melinda Katz, está no páreo até que os restantes 3.400 boletins de voto sejam apurados. Mas tudo indica que Cabán terminará em vantagem com mais de mil votos à frente.

Com 31 anos de idade, Tiffany Cabán é filha de uma família de trabalhadores de origem porto-riquenha – seu pai é mecânico de elevadores e sua mãe cuida de crianças. Sua vitória iminente poderá ser o terceiro grande êxito eleitoral socialista em Nova York em pouco menos de um ano – a lista inclui as recentes vitórias de Alexandria Ocasio-Cortez e da senadora Julia Salazar.

A campanha de Tiffany Cabán teve a participação intensa de militantes da sessão novaiorquina da DSA (Democratic Socialists of America). Em seu discurso de vitória na noite desta terça-feira (25), Cabán enfatizou seu programa socialista: defendemos, disse, “descriminalizar a pobreza, acabar com o encarceramento em massa, proteger nossas comunidades formadas por imigrantes. Quero ser clara: nada é mais importante para mim do que a segurança de todas as pessoas. Vamos investir na melhoria e estabilidade da vida”.

Para ela, a “segurança de todas as pessoas” significa abordar problemas sistêmicos sem recorrer a medidas policialescas. “Não se pode separar nossa justiça criminal de questões como moradia, saúde e educação. Simplesmente não se pode”, insistiu. Seu plano é usar o orçamento participativo para reinvestir o “valor de US $ 100 milhões em dinheiro de confisco” mantido pelo escritório da promotoria nos bairros de trabalhadores no Queens.

A análise socialista de Cabán sobre a redução do crime vem de sua própria experiência como defensora pública, base de sua campanha focada na justiça antirracista com uma mensagem clara de luta de classes. Cabán defende acabar com o hábito do pagamento de fiança em dinheiro; não aceita a criminalização da pobreza (como o pulo de catracas no metrô de Nova York), quer acabar com a guerra contra as drogas e as profissionais do sexo (parte de seu programa que teve forte repercussão na mídia), e também desmilitarizar a polícia. Quer criar um orçamento participativo para a promotoria pública e atuar em defesa dos trabalhadores vítimas de patrões hiper-exploradores.

A campanha de Cabán elevou a expectativa dos nova-iorquinos ao demonstrar que sua vida poderia ser melhor com mudanças no sistema de justiça criminal; que o despotismo dos proprietários e chefes não precisa ser tolerado; e que as pessoas não deveriam ter de ir para a cadeia por não poder pagar multas judiciais. E acabar com a criminalização da de pobreza e priorizar o processo contra proprietários e patrões abusivos e exploradores. Sua mensagem é simples: a favor dos pobres e contra os abusos dos ricos.

Essa mensagem foi forte na campanha eleitoral. Militantes da DSA (Democratic Socialists of America) treinaram voluntários ressaltando aspectos como o absurdo de acusar quem salta catracas do metrô enquanto proprietários em todo o Queens negam ilegalmente aos inquilinos aquecimento durante o inverno.

Como promotora distrital, Cabán terá o poder de implantar uma visão mais democrática. Sob o capitalismo, as prisões são ferramentas usadas pela classe dominante para impor seu mando. Mais obviamente, o encarceramento é usado para enriquecer empreiteiros privados e empresas prisionais e fornecer mão-de-obra quase escrava ao governo e às grandes companhias. Também servem como locais de detenção para aqueles que a ordem capitalista decidiu que não são importantes e não merecem apoio social.

Nos EUA, o encarceramento tem sido usado para reforçar o apoio a políticos reacionários por meio da disseminação racista do medo e da retórica “dura contra o crime” – sem mencionar que as pessoas encarceradas estão sujeitas a algumas das condições mais desumanas imagináveis. A reforma da justiça criminal e, em última análise, a mudança do sistema prisional, é central para qualquer programa socialista.

Os negros e latinos são 56% dos presos, apesar de serem apenas 28% da população total. Pessoas de cor também são desproporcionalmente vítimas de violência policial e assassinatos, e a polícia rotineiramente aterroriza comunidades de imigrantes de cor. O objetivo dos socialistas, portanto, é a mudança da polícia e das prisões em sua forma atual. Como promotora distrital, Cabán poderá aplicar o poder do Estado contra o encarceramento em massa e a militarização da polícia.

Cabán não só pode trazer mudanças radicais para os mais de 2,3 milhões de moradores do Queens – cuja população tem enorme diversidade étnica –, mas também tem potencial para mudar a política de justiça criminal a nível nacional. A visão de Cabán para a justiça criminal reuniu uma ampla coalizão de grupos comunitários da classe trabalhadora, que reúne ativistas e militantes democráticos e populares, como o Working Families Party (WFP, Partido das Famílias Trabalhadoras), entre outras organizações.

E, sobretudo, os Socialistas Democratas da América (DSA), o primeiro a apoiar Cabán e espinha dorsal de sua campanha. Ela também é apoiada pelo Real Justice PAC (Comitê de Ação Política da Justiça Real), que é ligado a Bernie Sanders e cujo objetivo é eleger promotores reformista comprometidos em combater o racismo estrutural e defender as comunidades contra o abuso do poder do Estado.

Os socialistas não foram os únicos envolvidos na campanha, mas tiveram nela um papel crucial. Os eventos patrocinados pela DSA foram responsáveis por milhares das assinaturas necessárias para levar Cabán à votação. Dezenas de militantes da DSA dedicaram muito tempo à campanha em todo o Queens, principalmente nos últimos dias antes da votação. Visitaram quase 70 mil residências em apenas quatro dias.

Cabán reconheceu esse esforço em seu discurso de vitória, dizendo que “o WFP e a DSA foram o motor desta campanha”. Cabán agradeceu: “As pessoas que se organizaram para a nossa campanha são algumas das mais gentis, generosas e trabalhadoras que você poderia encontrar.” Em resposta, a sala explodiu em gritos de “DSA!” durante o discurso de Cabán.

Uma coalizão de ativistas da classe operária e socialistas construiu a campanha de Cabán. É uma coalizão que não venceria há apenas alguns anos – mas que vence em todo o país. “Eles disseram que não poderíamos vencer, mas conseguimos”, disse Cabán na noite desta terça-feira (25), após a declaração de sua vitória.


Texto em português do Brasil | Parte das informações deste artigo foi extraída do artigo é “Tiffany Cabán, a Socialist in the District Attorney’s Office”, de Oren Schweitzer, publicado no Jacobin


 

 

Os Estados Unidos devem ter um excedente comercial?, por Michael Pettis

Tensão Import Export

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

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As análises sobre as razões que estão na base dos focos de tensão entre a China e os Estados Unidos, conforme publicámos na série que concluímos há dias atrás (ver aqui) geralmente elencam a guerra comercial como uma das principais questões que estão em causa.

Muito resumidamente: do ponto de vista oficial (e não só) dos Estados Unidos o levantamento de barreiras às importações chinesas (via aumento das taxas aduaneiras) contribuiria para diminuir o défice comercial, e consequentemente da balança corrente, que os Estados Unidos apresentam desde há muitos anos, e por via dessa redução aumentaria o investimento produtivo, bem como o emprego, dentro dos Estados Unidos. Neste mesmo sentido, se integra a política de cortes nos impostos de Trump, que levando a um aumento da poupança dos americanos, em particular dos mais ricos levaria a um aumento do investimento, que conduziria a uma melhoria da economia, que assim escorreria (trickle down) para todos os americanos.

Ora, os dois textos que publicamos hoje e amanhã – “Porque é que a dívida dos Estados Unidos vai continuar a aumentar” e “Os Estados Unidos devem ter um excedente comercial?” – assinados por um dos mais relevantes especialistas da Macroeconomia da Economia Aberta, Michael Pettis, analisam aprofundadamente o problema do desequilíbrio comercial dos EUA, e vêm colocar o problema em termos muito, ou mesmo radicalmente diferentes daqueles que nos são apresentados pelos economistas do mainstream e pelos meios de comunicação dominantes.

É uma abordagem a contracorrente da opinião popular tanto do agrado dos grandes media e, por vezes, como o autor refere em diversos momentos, contraintuitiva para uma grande maioria de economistas. É uma abordagem que além do uso das igualdades fundamentais da macroeconomia em economia aberta, considera o contexto e as condições da economia mundial, e dos Estados Unidos em particular.

A propósito desta questão do défice comercial, gostaria de chamar a atenção do leitor para a opinião muito difundida de que para baixarem o seu défice comercial seria necessário os americanos pouparem mais, porque consomem demasiado. Michael Pettis em texto editado neste blog em 5 e 6 de novembro de 2018, intitulado O défice comercial dos EUA não é provocado pelo baixo nível de poupança nos EUA (aqui e aqui) analisa criticamente, e muito lucidamente, o erro de perspetiva a que pode conduzir uma análise mecanicista da aritmética de base da balança de pagamentos. Como diz Michael Pettis, em jeito de conclusão,

“Se tenho razão, então não é certo que os Estados Unidos tenham um défice da balança corrente porque os americanos poupam muito pouco. É exatamente o contrário: os americanos economizam muito pouco porque os Estados Unidos têm um défice de balança corrente ou porque têm um excedente na balança de capital: as entradas de capital estrangeiro deprimem automaticamente a poupança americana.”

Os dois textos que agora publicamos são textos cuja compreensão exige uma leitura atenta, apesar do elevado nível pedagógico dos mesmos. Vale a pena lê-los, vale a pena confrontá-los com a economia dita do mainstream e claramente o que aqui se escreve e demonstra de uma forma rigorosa, daí o cuidado na sua leitura, não tem nada a ver com o que os economistas do mainstream e os os media,  jornais ou televisão, nos dizem, nos explicam.

Para facilitar a leitura dos textos de Michael Pettis relembramos a problemática das igualdades fundamentais da macroeconomia em economia aberta em nota anexa a cada um dos textos deste autor.

JM

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Os Estados Unidos devem ter um excedente comercial?

michael pettis Por MICHAEL PETTIS

Publicado por Carnegie Michael Pettis em 4 de março de 2019 (Original aqui)

OS ESTADOS UNIDOS DEVIAM SER UMA ECONOMIA COM EXCEDENTE
AS POUPANÇAS SÃO UMA FUNÇÃO DA DISTRIBUIÇÃO DE RENDIMENTOS
COMO É QUE AS MUDANÇAS DE RENDIMENTO GERAM DESEQUILÍBRIOS COMERCIAIS
A RIQUEZA ESCORRE DOS MAIS RICOS PARA AS PESSOAS COMUNS?
COMO É QUE A DESIGUALDADE DE RENDIMENTOS NOS EUA AFETA A SUA BALANÇA DE PAGAMENTOS?
OS DESEQUILÍBRIOS GLOBAIS PODEM GERAR OS DESEQUILÍBRIOS AMERICANOS
DISTORÇÕES DA BALANÇA DE CAPITAL

 

Embora a teoria tradicional do comércio internacional considere que as economias altamente avançadas com setores financeiros sofisticados, como os Estados Unidos, devem geralmente apresentar excedentes comerciais, o país tem mantido persistentes e, muitas vezes, grandes défices comerciais durante cinco décadas. Isto só pode ser uma consequência de distorções económicas globais significativas.

Geralmente há uma diferença substancial entre o que escrevo na minha newsletter e o que escrevo neste blog, com a newsletter a ser geralmente mais técnica e focada nos mercados financeiros chineses e globais. Neste texto, no entanto, eu quis utilizar um excerto de uma antiga newsletter sobre a razão pela qual os Estados Unidos têm um défice comercial quando deveria normalmente ter um excedente comercial. Esta é uma peça a juntar ao meu texto de  7 de fevereiro de 2019, intitulado  “Porque razão a dívida dos EUA deve continuar a aumentar” (aqui) .

Este ensaio surgiu originalmente de uma conversa que tive há vários meses com Matt Klein, do site Barrons, durante a sua visita a Pequim. Klein é um dos poucos analistas que entendem o modo como as mudanças na dinâmica do comércio nas últimas décadas tornaram grande parte do debate atual sobre comércio pelo menos parcialmente obsoleto. Numa discussão com alguns de meus alunos da Universidade de Pequim, ele ressaltou que, segundo a teoria tradicional do comércio internacional, os Estados Unidos normalmente deveriam ter excedentes comerciais e, no entanto, o país, em vez disso, tem tido grandes déficits durante quase cinco décadas. Isto devia ser surpreendente, argumentou ele, e, no mínimo, sugere fortemente a existência de distorções no sistema de comércio global.

Ele tem razão, é claro, e ocorreu-me que trabalhar com as razões pode ser uma forma interessante de entender os desequilíbrios comerciais e as suas fontes. Em vários textos recentes debrucei-me sobre esta abordagem ao comércio a partir de diferentes ângulos (por exemplo, aqui, aqui e aqui), e portanto haverá alguma sobreposição entre este texto e os anteriores. Peço desculpas aos meus leitores regulares por esta repetição, mas a razão que me leva a discutir este tema de muitos ângulos diferentes é porque os economistas tradicionais sobre comércio internacional parecem geralmente entender mal a dinâmica comercial atual.

Por exemplo, como discuti num texto publicado em maio de 2017, (aqui) é quase um artigo de fé entre economistas que o défice orçamental dos EUA contribui substancialmente para o défice comercial dos EUA [1] , e talvez seja até a sua causa. Mas esta afirmação só é verdadeira sob certas condições, que infelizmente a maioria dos economistas raramente se preocupa em especificar. Se o fizessem, provavelmente veriam que essas condições já não se mantêm hoje; e uma vez que entendamos que os Estados Unidos têm pouco controlo sobre a sua taxa de poupança interna, veremos que o défice orçamental dos EUA não é uma causa do défice comercial dos EUA tanto quanto é uma sua consequência.

Isto contraria tão fortemente o pensamento convencional entre os economistas do pensamento económico dominante que tem que ser repetido muitas vezes até que eles o considerem. Assim, com o meu pedido de desculpas aos leitores regulares por tanta repetição, neste texto quero abordar o tema argumentando que o facto de os Estados Unidos terem mantido grandes défices comerciais durante várias décadas é suficientemente surpreendente para exigir alguma explicação.


OS ESTADOS UNIDOS DEVIAM SER UMA ECONOMIA COM EXCEDENTE

Porque é que Klein pensou que os Estados Unidos teriam excedentes comerciais num sistema global aberto em que o comércio e os fluxos de capital são impulsionados principalmente pelos fundamentais da economia? A razão é que o investimento deve normalmente fluir de economias avançadas com altos níveis de capital, tecnologia e know-how de gestão para economias menos desenvolvidas que precisam desses recursos, e de facto esse tem sido o caso em grande parte da história moderna.

As economias avançadas – ou seja, economias maduras, abundantes em capital e de crescimento lento – deveriam ter atrás de si muitas décadas de investimento em stock de capital de alta qualidade, pelo que as suas atuais necessidades de investimento são relativamente baixas. Além disso, com os seus altos níveis de rendimento e sistemas financeiros sofisticados, as suas poupanças deviam ser relativamente altas. Por estas razões, as poupanças deveriam normalmente ser desviadas destas economias avançadas para países em desenvolvimento de crescimento mais rápido, onde o capital é relativamente escasso, o investimento é mais rentável e onde faltam recursos institucionais e tecnológicos.

Como maior e mais avançada economia do mundo, e de longe com os mercados financeiros mais sofisticados, os Estados Unidos seriam normalmente um exportador líquido de capital e tecnologia para as economias menos desenvolvidas: deveriam ter em média um défice na balança de capital e o seu simétrico, um excedente na balança corrente. Isso é exatamente o que o Reino Unido fez no final do século XIX, talvez o análogo mais próximo dos Estados Unidos de hoje. Além disso, essa tendência de gerar excedentes devia ser ainda mais exacerbada pelo alto nível de desigualdade de rendimento de que os Estados Unidos atualmente sofrem – o mais alto desde o final da década de 1920, quando os Estados Unidos, não por coincidência, tiveram os maiores excedentes comerciais da história.

Porquê? Porque a desigualdade de rendimento na sua forma mais simples pode ser pensada como uma distribuição de rendimento de baixos aforradores para altos aforradores. Esta desigualdade faz com que as famílias comuns e mais pobres, que são os sectores mais consumidores da economia, tenham uma percentagem desproporcionadamente baixa do rendimento total em relação aos ricos, que, em média, consomem uma percentagem mais baixa do seu rendimento. A desigualdade de rendimento, por outras palavras, força a aumentar o que os economistas chamam de poupança ex-ante do país (a poupança que as famílias planeiam fazer no início de um período de tempo) e, como parte do mesmo processo, reduz a parte do rendimento gasta em consumo.


AS POUPANÇAS SÃO UMA FUNÇÃO DA DISTRIBUIÇÃO DE RENDIMENTOS

Isto não se aplica apenas à desigualdade de rendimentos. Qualquer condição ou política que cause uma transferência de rendimento de um qualquer sector da economia para um outro pode afetar as quotas de poupança e de consumo da economia. Considere a tabela abaixo, que divide uma economia em seis sectores, e descreve cada sector em termos de que percentagem do seu rendimento é poupado ou consumido (todo o rendimento é, por definição, poupado ou consumido). À medida que o rendimento é deslocado de um sector para outro, as diferentes tendências dos dois sectores para poupar ou consumir os seus rendimentos irão alterar a taxa de poupança global da economia.

SETOR

TENDÊNCIA DE POUPANÇA

Famílias ricas

Consomem uma pequena parcela do seu rendimento e poupam, correspondentemente, uma larga parcela do seu rendimento
Famílias comuns (mais velhos)

Consomem uma larga parcela do seu rendimento e poupam uma pequena parcela do seu rendimento

Famílias comuns (mais novos) Provavelmente consomem uma parcela do seu rendimento mais elevada que as famílias comuns mais velhas e poupam uma menor parcela
Empresas

Não consomem, mas poupam, todo o seu rendimento, que é ou investido ou distribuído pelos seus acionistas

Administrações locais

Provavelmente consomem uma pequena parcela em nome dos seus cidadãos e poupam uma larga parcela

Governo Central

Provavelmente consomem uma pequena parcela em nome dos seus cidadãos e poupam uma mais larga parcela

A economia poderia ainda ser subdividida em setores adicionais com diferentes propensões de poupança, mas a divisão acima deveria ser suficiente para deixar claro que a poupança de um país reflete principalmente a forma como o rendimento é distribuído. Note-se a implicação. As poupanças num país geralmente não sobem porque os cidadãos desse país decidem subitamente tornar-se mais económicos, nem as poupanças diminuem porque os cidadãos se tornam subitamente mais esbanjadores. As poupanças sobem e descem principalmente à medida que o rendimento é deslocado entre grupos e sectores com diferentes tendências de poupança.

Um exemplo de como isto ocorre seria útil para explicar o processo global. Entre os exemplos recentes contam-se as reformas Hartz 2003-2005 na Alemanha, após as quais o crescimento salarial alemão abrandou acentuadamente em relação ao crescimento do PIB, enquanto os lucros das empresas explodiram. Isto equivale a uma transferência de rendimento dos trabalhadores e das famílias comuns, que consomem uma grande parte do seu rendimento e poupam uma parte reduzida, para as empresas, que efetivamente poupam tudo isto. Quando esta transferência ocorreu, as poupanças alemãs dispararam. A imprensa respondeu expressando admiração pela forma como a cultura alemã adora a poupança, mas o aumento da poupança alemã realmente não teve quase nada a ver com uma inclinação cultural para a poupança.

Teve a ver com a mudança de rendimentos dos trabalhadores para as empresas. Em qualquer país, sempre que a parte dos lucros das empresas no PIB aumenta em detrimento da parte das famílias, a taxa de poupança nacional ex ante aumenta automaticamente. Foi esta transferência que, em última análise, impulsionou o enorme aumento subsequente do excedente comercial alemão. Por outras palavras, contrariamente à opinião popular, o excedente comercial da Alemanha não reflete o facto de os trabalhadores alemães serem trabalhadores esforçados e poupados (embora provavelmente o sejam, como aliás a maioria dos trabalhadores em todo o lado). O excedente comercial alemão também não indica que os americanos, como o Comissário responsável pelo orçamento da UE, Günther Oettinger, explicou estupidamente, gostam mais dos automóveis alemães do que os alemães gostam dos automóveis americanos. É sobretudo o resultado de uma reforma que permitiu que as empresas alemãs lucrassem à custa dos trabalhadores alemães.

A partir da tabela acima, é fácil perceber porque é que a desigualdade de rendimentos também força as poupanças ex-ante, e fá-lo da mesma forma. A desigualdade na repartição representa efetivamente uma transferência de rendimento de um setor de baixa poupança para um setor de alta poupança – ou seja, das famílias comuns para os ricos.


COMO É QUE AS MUDANÇAS DE RENDIMENTO GERAM DESEQUILÍBRIOS COMERCIAIS

Estes tipos de transferências de riqueza dentro de uma economia estão entre os principais determinantes da balança de pagamentos de um país – as suas balanças corrente e de capital. Isto não se deve apenas à forma como essas transferências afetam a poupança ex ante, mas também à forma como podem afetar o investimento (o que, juntamente com a conta de capital, determina como é que essas transferências afetam a poupança ex post – o montante real da poupança).

Um país que poupa mais do que investe deve exportar esse saldo. Isso é mostrado nas seguintes identidades contabilísticas:

  • PIB = Consumo + Poupança, e também
  • PIB = Consumo + Investimento + Excedente da Balança de Capital, e então
  • Consumo + Poupança = Consumo+ Investimento + Excedente da Balança de Capital, e porque
  • Excedente da Balança de Capital = Défice da Balança de Transações Correntes, e então
  • Défice da Balança de Transações Correntes = Investimento -Poupança, ou, o que é a mesma coisa,
  • Excedente da Balança de Capital = Poupança – Investimento

É por isso que o efeito das transferências de rendimento é mais complicado do que se poderia supor à partida. A maioria dos economistas assume que o menor consumo criado pela desigualdade de rendimento é compensado por um maior investimento, ou pensam que é pelo menos parcialmente compensado por um maior investimento; isto porque assumem que um maior investimento é o resultado de uma maior disponibilidade de poupança a custos mais baixos. [2]

Mas o impacto da poupança adicional no investimento varia muito de economia para economia. Numa economia cujas necessidades substanciais de investimento não foram satisfeitas devido à escassez de capital a taxas de juro elevadas – principalmente nas economias em desenvolvimento – o aumento da poupança é suscetível de ser satisfeito com um equivalente aumento do investimento ou, dito de outra forma, a redução do consumo é suscetível de ser satisfeita com um equivalente aumento do investimento. Nesses casos, a desigualdade de rendimento teria pouco ou nenhum impacto líquido sobre a balança corrente ou de capital.

Os Estados Unidos, evidentemente, não são um país em desenvolvimento. Hoje, os investidores americanos podem facilmente aceder ao capital às taxas mais baixas da história, e no entanto poucos parecem interessados em levantar dinheiro para investir na economia. O investimento nos Estados Unidos não parece estar limitado pela escassez de poupanças. Ainda assim, a maioria dos economistas assumiria que a maior disponibilidade de capital a custos mais baixos causaria pelo menos algum aumento no investimento doméstico, embora não tanto quanto o aumento da poupança (ou, para relacionar isso novamente com o consumo, a redução no consumo ligada ao aumento da poupança provavelmente será acompanhada por um menor aumento no investimento).

Nesses casos, quando a desigualdade de rendimento nos Estados Unidos aumenta a diferença entre poupança e investimento – ou seja, se ela faz com que a poupança suba mais do que o investimento – o défice da balança de capital e o excedente comercial (ou da balança de transações correntes) devem aumentar automaticamente. Como economia avançada, os Estados Unidos deviam normalmente apresentar um excedente comercial, ou seja, este excedente devia aumentar devido ao aumento da desigualdade de rendimento.


A RIQUEZA ESCORRE DOS MAIS RICOS PARA AS PESSOAS COMUNS?

E, no entanto, o país tem um défice comercial. Antes de explicar porquê, quero fazer novamente uma digressão para discutir, nesta e na próxima secção, o que penso ser outra consequência importante mas mal compreendida da desigualdade de rendimentos em economias avançadas como os Estados Unidos. O que determina o impacto total da crescente desigualdade de rendimentos na balança comercial não é apenas a forma como esta desigualdade afeta a poupança, mas também como afeta o investimento.

O argumento que se ouve geralmente é que forçar a poupança ex ante é positivo para o investimento porque, mesmo em economias onde a poupança já é abundante e onde as taxas de juro são baixas, reduz o custo do financiamento, ainda que marginalmente. Se as empresas podem contrair empréstimos a uma taxa mais baixa do que antes, o argumento é que há sempre alguma oportunidade de investimento produtivo que só se torna rentável a este novo e mais baixo custo de empréstimo, e por isso isto deve (segundo o pensamento dominante) levar a mais investimento. Mais mais investimento, é claro, deve levar a mais crescimento a longo prazo.

Este é o argumento básico por trás da economia da oferta, e é a justificação implícita para os cortes fiscais de 2017 do Presidente Donald Trump. A maioria dos economistas concorda que os níveis de investimento nos Estados Unidos são baixos e que o país cresceria mais rapidamente a longo prazo se as empresas pudessem ser encorajadas a investir mais. Dado que uma das formas mais eficientes de impulsionar o investimento é, presumivelmente, disponibilizar mais capital para as empresas a custos mais baixos, os proponentes deste ponto de vista afirmam que os cortes fiscais para os ricos acabarão por beneficiar o resto do país à medida que a riqueza adicional gerada pelo investimento mais elevado se difunde pela economia, escorrendo dos mais ricos para as pessoas comuns.

Podem as políticas da oferta que resultam em maior desigualdade de rendimento deixar, não obstante, um país em melhor situação? Acontece que a resposta, mais uma vez, depende da disponibilidade relativa de poupança na economia. Num ambiente de escassez de capital, tipicamente o caso das economias em desenvolvimento, políticas que forçam a taxa de poupança interna podem resultar em um aumento substancial (até mesmo equivalente) do investimento interno para cada unidade de redução do consumo. Nesses casos, o gasto total permanece inalterado (menor consumo é acompanhado de maior investimento); a economia cresce mais rapidamente do que nunca no curto prazo, ao mesmo tempo em que se torna mais rica no longo prazo.

Isso não é necessariamente o caso, porém, num ambiente de abundância de capital, uma condição que se aplica à maioria das economias avançadas de hoje. Nesses casos, a maioria dos economistas concordaria que cada redução unitária do consumo é suscetível de ser acompanhada por um menor aumento do investimento, o que significa que, no curto prazo, a procura total diminui.

Isto significa que, embora as políticas da oferta possam reduzir o crescimento nos Estados Unidos no curto prazo, pois causam uma queda na procura total (já que o menor consumo só é parcialmente compensado pelo maior investimento), desde que pelo menos parte da redução do consumo seja compensada por um aumento no investimento produtivo, ainda é possível argumentar que o país está melhor no longo prazo porque o investimento aumenta a capacidade produtiva. Nesses cenários, os ricos beneficiam imediatamente dos cortes de impostos que foram estabelecidos para os ricos, enquanto o resto da sociedade só eventualmente poderá beneficiar. É assim que é suposto a riqueza escorrer para as pessoas comuns.


COMO É QUE A DESIGUALDADE DE RENDIMENTOS NOS EUA AFETA A SUA BALANÇA DE PAGAMENTOS?

Mas – e isto é o que pode parecer contraintuitivo para a maioria dos economistas – pode ser um erro assumir que as condições que forçam o aumento da taxa de poupança ex-ante devem sempre levar a algum investimento adicional. Há condições em que tais condições podem, na verdade, levar a menos investimento; isto é especialmente provável que seja verdade hoje em dia na maioria das economias avançadas.

Tudo o que é necessário, em termos gerais, é que a totalidade ou a maior parte do investimento se enquadre numa de duas categorias. A primeira categoria consiste em projetos cujo valor não é sensível a alterações marginais da procura, talvez porque provoquem aumentos de produtividade muito evidentes e significativos, ou porque a economia sofre de um subinvestimento significativo. A segunda categoria consiste em projetos cujo valor varia em função das mudanças futuras esperadas na procura. Eu analiso esta questão discuto este tópico mais aprofundadamente na seção “Onde é que este argumento pode estar errado?” de um meu texto anterior (aqui). Eu mostro nesse texto que em economias como a dos Estados Unidos, onde a rentabilidade da maioria dos investimentos é uma função de mudanças na procura (a segunda categoria) e não função do custo do empréstimo (a primeira categoria), o aumento da desigualdade de rendimento e de maior poupança ex-ante podem resultar em menos investimento e não em mais investimento.

A questão é que a desigualdade de rendimento nos EUA poderia aumentar a diferença entre poupança e investimento em ainda mais do que poderíamos supor de outra forma. Não só faz com que as poupanças dos ricos aumentem mais rapidamente do que o investimento, como também pode fazer com que o investimento diminua. Isto não é apenas teoria. O aumento do peso da poupança no PIB alemão após as reformas de Hartz foi acompanhado por uma redução do peso do investimento em vez do esperado aumento. E embora seja muito cedo para fazer a mesma afirmação sobre os cortes nos impostos de Trump de dezembro de 2017, que deveriam impulsionar o investimento através do aumento da poupança, até agora eles parecem não ter feito nada disso (como noticiava a Reuters em janeiro de 2019: $1.5 milhões de milhões de cortes de impostos nos Estados Unidos não têm um impacto importante nos planos de investimento das empresas: inquérito).

Seja como for, quer o investimento realmente diminua ou simplesmente cresça mais lentamente do que o declínio do consumo, num sistema fechado como a economia global, a poupança e o investimento são, por definição, iguais. Isto implica que, em qualquer país, se uma política faz com que a poupança numa parte da economia aumente e o investimento aumente mais lentamente, ou mesmo diminua, o desequilíbrio interno entre poupança e investimento pode ser resolvido de uma (ou alguma combinação) de apenas duas formas:

  1. A poupança excedentária pode ser exportada, sob a forma de défices da balança de capital, juntamente com os correspondentes excedentes da balança comercial e da balança corrente.
  2. Algo mais deve acontecer para que a poupança em outra parte da economia caia, então no agregado não há aumento líquido da poupança.

É evidente que a primeira destas duas condições não se aplica aos Estados Unidos. O país não tem qualquer controlo sobre a sua capacidade de importar ou exportar poupanças. A sua conta de capital é largamente determinada no estrangeiro.

Porquê? Como os Estados Unidos têm mercados de capitais profundos, completamente abertos e altamente flexíveis e uma governança muito forte, o país acaba por absorver grande parte do excesso de poupança do resto do mundo – grosso modo 40-50% da soma dos défices das balanças de capital do estrangeiro nos últimos anos – cuja extensão só é parcialmente determinada pelas condições ou políticas internas dos EUA. Enquanto os Estados Unidos mantiverem um excedente na balança de capital, e enquanto esse excedente for determinado pelas condições e políticas externas que o país em grande parte não pode controlar, os Estados Unidos não podem ser um exportador líquido de qualquer excesso de poupança acumulado através do seu alto nível de desigualdade de rendimento.

Isto significa que a segunda condição deve aplicar-se. Não se trata de uma proposta teórica, mas de uma identidade contabilística que não pode ser quebrada: se os Estados Unidos não podem exportar o excesso de poupança sobre o investimento, não podem ter esse excesso de poupança.

Assim sendo, algo mais deve acontecer para que a poupança em outra parte da economia dos EUA caia o suficiente para absorver a soma do excesso de poupança dos EUA causado pela desigualdade de rendimento e pelo excesso de poupança externa importada para os Estados Unidos. Esta tem sido a parte mais difícil de entender, até mesmo para os especialistas em comércio, mas há muitas maneiras pelas quais as condições que impulsionam as poupanças em uma parte da economia dos EUA podem levá-las baixar em outros lugares. Analiso algumas dessas maneiras na seção “O que é que reduz a poupança?” do meu texto publicado anteriormente.


OS DESEQUILÍBRIOS GLOBAIS PODEM GERAR OS DESEQUILÍBRIOS AMERICANOS

O que tudo isto significa é que, de uma forma ou de outra, as distorções (seja na economia dos EUA ou no exterior), transformaram os Estados Unidos do que deveria ter sido uma economia de excedente razoavelmente persistente na maior economia deficitária do mundo. Como já expliquei anteriormente (nomeadamente aqui, aqui), em última instância os Estados Unidos devem responder às distorções criadas pelos fluxos líquidos de capital, e ao consequente défice na balança corrente, com mais desemprego ou com mais dívida. Isso explica a relação real entre o défice orçamental e o défice na balança de transações corrente : para que os Estados Unidos evitem um maior desemprego, ou o governo dos EUA deve passar a ter um défice orçamental  ou as autoridades dos EUA, incluindo a Reserva Federal, devem criar condições sob as quais os americanos privados (principalmente as famílias) tenham défices e elevem os níveis de dívida nos Estados Unidos.

A extensão da distorção pode ser enorme. Assumindo que os Estados Unidos deviam normalmente registar um excedente da balança de transações corrente de cerca de 2-3% do PIB, em linha com o de outros países ricos exportadores de capital e substancialmente inferior ao excedente do Reino Unido no final do século XIX, o défice da balança corrente americana de cerca de 3% do PIB implica uma distorção igual a 5-6% do PIB dos EUA, ou seja, um valor muito elevado de 1 a 1,5% do PIB mundial. Isto sugere que, embora os Estados Unidos atualmente absorvam 40-50% dos défices das balanças de transações correntes do mundo, isso significa que podem estar a absorver até dois terços de todo o excesso de poupança mundial.

Assim, a resposta à pergunta original sobre porque é que os Estados Unidos não são um país com excedente comercial como seria esperado que fosse, mas devido aos seus mercados de capitais profundos, flexíveis, bem governados e completamente abertos, num mundo com excesso de poupança e procura insuficiente, os Estados Unidos absorvem então uma parcela substancial do excesso de poupança do exterior. Estas poupanças, por sua vez, criam distorções na economia americana, que por sua vez forçam à redução das poupanças dos EUA e fazem com que os Estados Unidos tenham os maiores défices comerciais do mundo.

Os Estados Unidos não são completamente impotentes nesta questão. As políticas e condições dos EUA podem ter algum efeito sobre a quantidade de poupanças excedentes externas, e um efeito algo maior sobre a medida em que essas poupanças são exportadas para os Estados Unidos, mas esses efeitos podem ser contraintuitivos. Por exemplo, se Washington reduzisse o défice orçamental dos EUA, e se um défice orçamental menor aumentasse a atratividade dos Estados Unidos como destino de investimento, os fluxos externos líquidos no país poderiam realmente aumentar. Isto significaria que um menor défice orçamental poderia, paradoxalmente, resultar num maior défice na balança de transações corrente, contradizendo diretamente a visão de muitos economistas para os quais é um artigo de fé que défices orçamentais mais baixos devem resultar em menores défices na balança corrente.

Nas condições atuais, no entanto, a capacidade dos Estados Unidos de controlar a quantidade de poupança excedente externa que é investida no país é muito limitada. Desde que tenha uma balança de capital totalmente aberta, o défice na balança de transações corrente dos EUA é um fator remanescente, refletindo principalmente fatores externos. Na medida em que a quantidade de poupança excedentária no resto do mundo é determinada, parcial ou principalmente, pelas condições e políticas externas, os Estados Unidos não podem controlar ou gerir o seu défice da balança corrente enquanto não gerirem a sua balança de capital.


DISTORÇÕES DA BALANÇA DE CAPITAL

A propósito, isto não é apenas um problema para os Estados Unidos. É também um problema para o Reino Unido e para as outras economias anglo-saxónicas com mercados de capitais largamente semelhantes e igualmente abertos, todas elas com tendência a apresentar défices persistentes desde a década de 1970, contrariamente à teoria comercial tradicional. Isso também foi um problema para países como a Espanha e outros países europeus “periféricos” nos anos que antecederam a crise de 2008-2009, cujas condições monetárias os deixaram abertos às exportações de capitais de grandes países excedentários da Europa, principalmente da Alemanha. Finalmente, também pode ser um problema para os países em desenvolvimento durante períodos de grande expansão de liquidez global, especialmente na medida em que não conseguem controlar os enormes fluxos de entrada de liquidez que tipicamente afligem os países em desenvolvimento durante esses períodos.

Os Estados Unidos têm vindo a registar défices comerciais há tanto tempo que nos esquecemos de como isso é estranho e, se pensarmos bem, tendemos simplesmente a ignorar o problema e considerá-lo uma consequência do esbanjamento americano. Mas mesmo que o esbanjamento fosse realmente um problema, num mundo de comércio global que funciona bem, se um país como os Estados Unidos tivesse défices, depois de um tempo relativamente curto esses défices forçariam mudanças (principalmente monetárias, mas também estruturais) na economia dos EUA que eliminariam esses mesmos défices. Os défices comerciais persistentes dos EUA não são naturais, e tem que haver uma razão para que eles existam

Além disso, esses défices comerciais americanos forçam os Estados Unidos a aceitar um aumento do desemprego ou um aumento mais rápido da dívida. Se o país quiser escapar dessa condição, os Estados Unidos devem reduzir o seu défice comercial com o mundo, mas não abordando o défice comercial diretamente através de tarifas ou quotas de importação. Em vez disso, os Estados Unidos devem enfrentar diretamente as entradas estrangeiras de capital, talvez taxando-as.

Para que conste, em setembro de 2019, a Yale University Press publicará um livro em que eu e meu co-autor defendemos que essas distorções não devem ser vistas tanto como representando conflitos entre países quanto como conflitos entre classes económicas. A guerra comercial, por outras palavras, é realmente uma forma disfarçada de guerra de classes, mas falaremos mais sobre isso em setembro.

 

NOTAS

[1] Tecnicamente, ao longo deste texto, deveria referir-me à balança corrente e não à balança comercial, mas esta última é normalmente a principal componente da primeira e absorve a maior parte, se não a totalidade, da variação. Embora seja tecnicamente incorreto, tratarei geralmente a balança comercial como intermutável com a balança corrente.

[2] Fui informado por um leitor há um ano que alguns dos seus amigos, economistas académicos, rejeitaram esta abordagem sobre a poupança e o investimento com o fundamento de que esta análise se baseia na abordagem da teoria de fundos emprestáveis para a criação monetária, uma teoria horrivelmente fora de moda, mais do que sobre a criação endógena do dinheiro, ou Moderna Teoria Monetária.

Isso só indica o quão confusos muitos economistas estão sobre o significado e as implicações da MMT, e sobre a criação de dinheiro de forma mais geral. A poupança, ou melhor, os depósitos, segundo a MMT, não são exógenos ao sistema bancário e distribuídos pelos bancos sob a forma de empréstimos, como normalmente se pensa (embora ninguém pense assim), mas sim endógenos porque são criados por empréstimos bancários.

Mas isto é um significado completamente diferente de poupança. É poupança monetária (ou seja, depósitos bancários) e não poupança real. No quadro de poupança-investimento aqui utilizado, poupança é simplesmente a quantidade de bens e serviços produzidos pela economia que não são consumidos. O investimento é necessariamente limitado, por definição, pela quantidade de poupança disponível. O quadro de poupança-investimento não tem nada a ver com fundos emprestáveis, dinheiro endógeno ou com qualquer outra teoria de criação de moeda. Trata-se da classificação de bens e serviços reais. No caso de uma economia que produz três unidades de um dado bem específico, se consome dois deles, não pode então investir mais duas unidades desse bem, pela simples razão de que só lhe resta uma unidade, e isto é independente de dinheiro ser ou não criado pelos bancos ou simplesmente distribuído por eles.

_________________________________

Nota técnica

A presente nota tem apenas como objetivo relembrar as relações macroeconómicas fundamentais para uma mais fácil leitura dos textos de Michael Pettis.

Vejamos algumas identidades contabilísticas das contas nacionais no âmbito da economia aberta:

Igualdade contabilística:

Y + M = C + I + G + X

onde:

Y é o Rendimento criado, M o valor das Importações, C o Consumo das famílias, I o Investimento, G a Despesa Pública e X o valor das exportações. Do lado esquerdo da igualdade temos os recursos disponíveis e do lado direito temos as suas utilizações.

Por seu lado, uma parte do Rendimento criado é gasto em Consumo (C), outra constitui a Poupança privada (Spriv,), que pode ser Poupança das Famílias (Sfam) e Poupança das Empresas (Semp) e uma terceira parcela é utilizado no pagamento de Impostos ao Estado (T). Donde, por definição, temos:

Y = C + Sfam+ Semp + T = C + Spriv + T

Y + M = C + Spriv + T + M

Como, por definição, os recursos disponíveis são os recursos utilizados temos:

Y + M = C + Spriv + T + M = C + I + G + X

Eliminando C nesta relação temos:

Spriv + T + M = I + G + X

Daqui obtemos como expressão para a Balança de Bens e Serviços, X-M:

X – M = Spriv – I + (T – G)

Repare-se, porém, que (T-G) representa a Poupança do Estado (Sest) que é, por sua vez, o simétrico do Défice Público (Dest), uma vez que este não é nada mais nada menos do que a Poupança negativa do Estado, ou seja:

T – G = – (G – T) = – Dest

Daqui tiramos que a Poupança total do país (Stot) é expressa por

Stot =Spriv – Dest

e então a expressão da Balança de Bens e Serviços vem:

X – M = Stot– I

Como sublinha Michael Pettis:

Stot =Sfam + Semp + Sest

E porque o Défice Público é simplesmente o valor negativo da Poupança do Estado, então:

Stot =Sfam + Semp – Dest

Combinando as duas identidades ficamos com:

X – M = Sfam + Semp – Dest – I = Stot– I

Ora, o lado esquerdo é imagem do valor da igualdade do lado direito, por definição, sem nos preocuparmos com as questões da causalidade. Daqui tiramos que um saldo positivo da Balança de Bens e Serviços tem como contrapartida um excedente da Poupança Total. O significado é curioso: todos estes valores são imagem de produção realizada e de produção vendida. Neste caso, se Stot> I  significa que há uma parte do rendimento obtido com a venda da produção que não foi investida localmente e, portanto, foi colocada no estrangeiro. Corresponde a uma saída líquida de capital do país para o exterior. Vejamos o mesmo problema pelo lado esquerdo da desigualdade. Se Stot> I então X – M > 0 e isto significa que aumentam os nossos ativos sobre o estrangeiro, ou seja, significa uma saída de capital. Neste caso, ao nível da Balança de Pagamentos, o saldo positivo da Balança de Bens e Serviços, tem como contrapartida, uma saída líquida de capital e a Balança de Capital vem então negativa e do mesmo montante em que a Balança de Bens e Serviços vem positiva.

Inversamente, admita-se agora Stot< I. Neste caso, o país poupou menos do que investiu. Como é isso possível? Só há uma possibilidade: importando capital. Com efeito a Poupança local foi toda investida, mas como Stot< I  investiu-se mais do que o que restou da produção depois de deduzido o que foi consumido. Isto implica automaticamente que se importaram bens em quantidade superior ao que se exportou e é essa diferença que constitui o acréscimo de investimento face ao que a produção nacional deixou disponível para investir localmente. A Balança de Bens e Serviços vem então negativa, mas como acabámos de dizer, isto significa então uma entrada de capital do exterior e com a Balança de Pagamentos equilibrada, por definição, ao défice da Balança de Bens e Serviços do país corresponde um excedente da sua Balança de Capital e exatamente do mesmo montante do défice.

É apenas isto que se pode deduzir das relações fundamentais da macroeconomia em economia aberta. Uma outra coisa completamente diferente é discutir a causalidade nestas relações, mas isso ultrapassa o âmbito da presente nota que tem apenas como objetivo relembrar as relações macroeconómicas fundamentais para uma mais fácil leitura dos textos de Michael Pettis.

JM

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2019/06/28/ainda-sobre-as-razoes-que-estao-na-base-dos-focos-de-tensao-entre-a-china-e-os-estados-unidos-os-estados-unidos-devem-ter-um-excedente-comercial-por-michael-pettis/

EUA não estariam dispostos a assinar acordo comercial 'justo' com China, segundo relatos

O presidente dos EUA, Donald Trump, e o presidente da China, Xi Jinping (foto de arquivo)
© REUTERS / Carlos Barria

A China espera que as negociações do G20, que ocorre nesta semana, resultem em um acordo comercial justo, entretanto, isso pode não acontecer.

Isso devido ao fato de que os EUA não apresentaram qualquer interesse em formar um acordo justo com a China. O representante de Comércio dos EUA, Robert Lighthizer, havia afirmado durante conversas com a contraparte chinesa, que não haverá um acordo "justo", segundo fonte ligada ao assunto.

Donald Trump e Xi Jinping durante a reunião bilateral na cimeira do G20 em Buenos Aires
© AP Photo / Pablo Martinez Monsivais
Donald Trump e Xi Jinping durante a reunião bilateral na cimeira do G20 em Buenos Aires

Outras duas fontes informaram à CNBC que Lighthizer rejeitou a proposta chinesa de que qualquer acordo comercial deveria ser "justo".

"O texto deve se justo e expressar termos aceitáveis pelo povo chinês e não minar a soberania e dignidade do país", afirmou o vice-primeiro-ministro chinês.

As autoridades do país asiático esperam resolver algumas questões pendentes durante a cúpula do G20. Entre as prioridades estará o assunto relacionado à proibição da venda de tecnologia norte-americana para a Huawei, além da retirada de todas as tarifas atuais e a aceitação de um menor volume de compras de produtos norte-americanos, segundo relatos de pessoas conhecedoras da situação.

Na quarta-feira (28), o presidente norte-americano, Donald Trump, afirmou que gostaria de assinar um acordo, mas com os mesmos termos atuais.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/economia/2019062814130295-eua-nao-estariam-dispostos-a-assinar-acordo-comercial-justo-com-china-segundo-relatos/

Desnuclearização na corda bamba após um ano da cúpula Kim-Trump

(Prensa Latina) Há um ano e um dia o encontro histórico do presidente estadunidense, Donald Trump, e o líder da República Democrática da Coreia(RPDC), Kim Jong Un, indicava um caminho para a desnuclearização da península coreana; mas, essa ideia está hoje numa corda bamba.

Ao concluir a cúpula de 12 de junho de 2018 celebrada em Singapura ambos os presidentes se comprometeram a estabelecerem novas relações, consoante com o desejo de paz e prosperidade de seus povos; enquanto, seu segundo encontro, não mês passado de fevereiro no Vietnã, acabou sem que os dirigentes conseguirem se compreenderem.

Embora em Singapura todo parecia que se resolveriam as discrepâncias, em Hanoi se enfrentaram duas formas de abordar ou desarmamento nuclear, por um lado Washington exige ou processo completo e verificável, cabelo outro, Pyonyang pede garantias e menos sanções econômicas.

Trump e sua equipe atribuíram ou fracasso dessa segunda cúpula à suposta exigência coreana de que se eliminassem todas as sanções, quando na verdade, ou que Kim pediu foi um levantamento ou afastamento parcial das punições em favor da população e a economia de seu país.

As medidas unilaterais são ou centro da questão, porque Washington mantém sua política de pressão internacional ao tempo que desconhece vos passados efetivos dá República Popular Democrática da Coreia para a desnuclearização, como ou fechamento de Punggye-ri.

Neste cenário resulta válido recordar que Pyongyang se viu obrigado a desenvolver seu programa nuclear defensivo, mas, sobretudo dissuasivo, face a política agressiva de Washington e seus aliados.

A Casa Branca pretende que a RPDC entregue em bandeja de prata, mas para os coreanos é difícil negociar com quem não deseja dar nada em troca.

Desde fevereiro as tensões voltaram, vos diálogos se encontram em um ponto morto e Kim teve que lhe recordar a Trump sua existência e seu potencial com ou lançamento de mísseis de curto atinja em maio passado, um fato minimizado cabelo governante republicano.

Não meio do distanciamento, ou líder da RPDC enviou um sinal de distensão em uma carta ao presidente estadunidense da qual não se revelou ou conteúdo, mas, o próprio chefe de Estado norte-americano a qualificou de bonita e cálida.

Após ou fracasso parece que voltarão as negociações e até um possível terceiro encontro de alto nível, embora, analistas apontam que ainda assim é muito difícil negociar um trato justo porque os estadunidenses não aceitarão uma RPDC com armamento nuclear e a outra parte não renunciará ao seu potencial defensivo que, afinal, é sua única garantia.

Enquanto isso, Pyongyang advertiu que ‘a paciência da RPDC tem um limite’, conforme publicou nesta semana KCNA, a agência de notícias do país asiático, e acrescentou: ‘Agora é o momento de que Estados Unidos recue na sua política hostil’.

Na prática, um ano depois do histórico primeiro encontro entre um presidente estadunidense e um presidente da Coreia Democrática, a imposição de sanções à RPDC e a prepotência de Washington e seus aliados, impedem a ensejada desnuclearização acordada nesse intercâmbio há 365 dias.

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/06/desnuclearizacao-na-corda-bamba-apos-um.html

Insistência dos EUA em fechar portas estaria aumentando independência chinesa?

Presidente norte-americano Donald Trump e presidente chinês Xi Jinping
© REUTERS / Carlos Barria

A guerra comercial afeta o setor tecnológico de ambos os países, mas também leva a China a depender cada vez menos dos EUA.

Como sabemos, a guerra comercial entre a China e os EUA se intensificou quando os norte-americanos decidiram elevar as taxas sobre os produtos chineses, além de incluir a empresa chinesa Huawei em sua lista negra, impedindo a compra, por parte da empresa, de peças e componentes de fabricantes norte-americanos.

Essa guerra comercial afeta diretamente o setor tecnológico de ambos os países, mas também mostra que a China depende cada vez menos dos EUA, afirma o portal Bloomberg.

Os fabricantes chineses de produtos tecnológicos dependiam dos EUA no que se refere à produção de processadores, chips e semicondutores. As empresas norte-americanas Intel e Nvidia dominam o mercado de processadores.

O fabrico de chips para a tecnologia de celulares é outro setor em que a China utiliza tecnologias dos EUA. Os produtores de smartphones como Xiaomi, Lenovo, Oppo e Vivo dependem dos produtos da Qualcomm californiana.

Por sua vez, a Huawei apresentou seu próprio chip baseado no projeto da empresa ARM Holdings, sediada no Reino Unido. No entanto, o fabricante britânico anunciou que seus produtos faziam parte da lista norte-americana e que os chineses não os poderiam utilizar.

Um logotipo da Huawei é exibido em uma loja de eletrônicos em Hong Kong.
Um logotipo da Huawei é exibido em uma loja de eletrônicos em Hong Kong.

Perante as dificuldades, a Huawei está cada vez mais independente e já produz ao menos 68% de seus próprios processadores e modens. Mesmo assim, a Huawei tem sido um comprador ativo de chips norte-americanos para computadores.

Além disso, os computadores com o sistema operacional Windows da Microsoft continuam sendo os mais populares entre os chineses.
Já com relação aos smartphones, nem todos os serviços da Apple funcionam na China, Entretanto, a empresa norte-americana oferece muito empregos, pois fabrica grande parte de seus produtos no país asiático.

Por outro lado, os fabricantes chineses não dependem muito do sistema operacional Android, desenvolvido pela Google, já que na própria China utilizam o sistema sem os serviços da empresa norte-americana, necessitando do suporte da Google apenas para o resto do mundo.

Com relação aos outros setores, pode-se dizer que a China é praticamente independente, já que tem seus próprios serviços de nuvem, buscadores, redes sociais e serviços de comércio eletrônico.

No caso dos serviços de e-commerce, a norte-americana Amazon não chega a 1% do mercado chinês, setor que é dominado pela chinesa Alibaba e JD.com.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/economia/2019062514115488-insistencia-dos-eua-em-fechar-portas-estaria-aumentando-independencia-chinesa/

Jornal revela desenvolvimento de 'planos clandestinos' dos EUA para conter Irã

Emblema da CIA em sua sede em Langley, Virgínia, EUA
© AP Photo / Carolyn Kaster

Oficiais da inteligência e militares dos EUA estão trabalhando em "planos adicionais clandestinos" para combater a agressão iraniana no golfo Pérsico, informa mídia.

Segundo o jornal The New York Times, os planos impulsionados pela Casa Branca visariam desenvolver novas opções para ajudar a deter Teerã sem escalar as tensões ao ponto de uma guerra convencional. Além disso, de acordo com oficiais dos EUA, a Casa Branca solicitou que militares e agentes de serviços secretos fornecessem opções para operações que fossem coerentes com as operações do Irã.

The New York Times indica que os oficiais não forneceram detalhes das operações que a Casa Branca está considerando, mas, de acordo com o jornal, podem ser inclusos ataques cibernéticos, operações secretas clandestinas para desativar barcos que os EUA afirmam que foram usados por Teerã em ataque a navios, bem como operações dentro do Irã para fomentar grande agitação.

Segundo o jornal, a CIA há muito tempo vem desenvolvendo planos "para responder às provocações do Irã". Vale destacar que foi noticiado anteriormente que o presidente dos EUA, Donald Trump, autorizou operações cibernéticas ofensivas nos sistemas de computadores do Irã, que são usados para controlar o lançamento de mísseis. Os ataques cibernéticos foram iniciados na noite de quinta-feira (20) pelo Comando Cibernético dos EUA.

Agravamento das relações

A nova onda de agravamento das relações entre o Irã e os EUA aconteceu quando o Corpo de Guardiões da revolução Islâmica (IRGC) afirmou ter derrubado um drone Northrop Grumman RQ-4 Global Hawk dos EUA que teria invadido seu espaço aéreo na província de Hormozgan, perto do estreito de Ormuz.

EUA não negaram que um dos seus drones foi derrubado, mas deram outras informações. Segundo a NBC News, o Comando Central das Forças Armadas dos EUA (CENTCOM) negou que o seu drone tinha invadido o espaço aéreo iraniano alegando que não havia drones americanos no espaço aéreo do país. "Nenhum drone americano estava operando no espaço aéreo iraniano", afirmou o porta-voz do CENTCOM, capitão Bill Urban.

Washington acusa Teerã de ter atacado dois petroleiros nas proximidades do estreito de Ormuz. Após o episódio, o presidente dos EUA, Donald Trump, decidiu enviar mais 1.000 soldados para o Oriente Médio.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/oriente_medio_africa/2019062414109064-jornal-revela-desenvolvimento-planos-clandestinos-eua-conter-ira/

A estratégia dos EUA para a "mudança de regime" na Rússia

por Ollie Richardson

Numa admissão muito oportuna considerando o tema do meu último artigo – as relações internacionais do século XXI e a tomada de decisões –, o chefe do Serviço de Inteligência Estrangeira da Rússia, Sergey Naryshkin, apontou para um método de baixo risco de guerra "híbrida" e mencionou um exemplo específico em que ele está a ser implementado. A RT informou o seguinte em 18 de Junho (ênfase minha):

"Os serviços secretos ocidentais estão a aperfeiçoar ferramentas clandestinas que são concebidas para enfraquecer países tal como os vírus enfraquecem corpos", disse o chefe da inteligência russa. Esta espécie de guerra é utilizada actualmente na Venezuela.

A crítica proveio de Sergey Naryshkin, que dirige a agência de inteligência estrangeira da Rússia, SVR. Ele afirmou que espiões estão constantemente a melhorar a ferramenta usada para desfazer-se de governos que o Ocidente não gosta.

"Estamos a falar acerca da criação de um algoritmo universal para conduzir operações de influência clandestina de maneira contínua e em escala global ", disse ele. Segundo o funcionário, esse trabalho clandestino "nunca pára e tem como alvo não apenas inimigos, mas também amigos e poderes neutros nos tempos de paz, de crise e de guerra".

'Isto pode ser comparado à acção de um vírus; podem passar décadas a destruir um organismo humano sem sintomas e, uma vez diagnosticado, muitas vezes é demasiado tarde para tratá-lo.

Os métodos utilizados para influenciar e desestabilizar outras nações incluem a criação de estruturas orientadas em rede que podem operar sob uma premissa de activismo público, arte, ciência, religião ou extremismo, disse o responsável russo. Depois de colectar dados sobre as linhas de fracturação numa sociedade-alvo, estas estruturas são utilizadas para atacar aqueles pontos fracos num ataque sincronizado, esmagando a capacidade do país para responder às crises.

Simultaneamente, os perpetradores propalam uma narrativa através dos media locais e globais e das redes sociais afirmando que a única maneira de resolver problemas é substituir o governo da nação vítima por um outro, possivelmente com um apoio externo directo.

"Podemos observar este cenário a ser implementado na Venezuela ", disse Naryshkin.

Os EUA estão actualmente a tentar substituir o presidente eleito da Venezuela, Nicolas Maduro, por outra pessoa, Juan Guaido, ao qual Washington reconheceu como o chefe legítimo da nação sul-americana.

Entre outros, os EUA respaldam a sua proposta com sanções económicas contra a Venezuela e uma maciça campanha diplomática e mediática em apoio ao pretendente. As tentativas de Guaido de realmente tomar o poder em Caracas têm sido fúteis até agora.

O chefe da inteligência russa falava num fórum de segurança internacional em Ufa, na Rússia, que é hospedado pelo Conselho Nacional de Segurança da Rússia. O evento é destinado a funcionários directamente envolvidos na elaboração de políticas sobre questões de segurança. Quase 120 nações participam do encontro deste ano. "

Começarei por dizer que Naryshkin poderia revelar muito mais se quisesse, mas por razões óbvias limita-se a apresentar uma tese abstracta – que a RT "por coincidência" retransmitiu – como uma espécie de sinal para as agências de inteligência ocidentais de que o espaço de manobra da Rússia no âmbito da informação não se limita apenas a publicar "notícias".

De modo superficial, pode parecer que ele está apenas a descrever um golpe de estado banal, em que um Estado interfere nos assuntos internos de outro Estado com o objectivo de derrubar o governo e levar ao poder um círculo político mais amistoso. Se alguém preferir tópicos simplistas e digeríveis, então pode parar de ler aqui – nada de novo sob o sol!

No entanto, aquilo a que o chefe do Serviço de Inteligência Estrangeiro da Rússia está a aludir é uma matéria muito mais complexa e densa. Como a história tem mostrado, o golpe de Estado tradicional, semelhante aos que têm sido vistos na região do MENA [Médio Oriente e Norte de África] e na América do Sul durante décadas, não é o mesmo que o golpe de estado que se desenrolou, por exemplo, na Ucrânia em 2014. Por que?

O precursor da "revolução colorida"

A principal razão é porque o Ocidente tem trabalhado durante décadas na ocupação de terras e matérias-primas dos países do MENA. Se estes países podem ser considerados tribalistas em termos de estrutura e objectivos, então à primeira vista a Europa pós-Segunda Guerra Mundial é muito mais "desenvolvida" e "civilizada". Pus estas palavras entre aspas porque são as frases genéricas que organizações como a ONU utilizam quando descrevem o que os países do MENA deveriam aspirar para se tornarem "mais democráticos" e "progressistas" a fim de "combaterem a pobreza" e tornarem-se "prósperos". Por outras palavras, os países do MENA em geral não são tão tecnologicamente avançados quanto estados-nação modernos com "democracias" liberais. Isso não é um insulto aos MENA; é simplesmente um fato observável com base nas consequências da colonização. Portanto, o esquema para conquistar o território MENA é mais directo do que seria para conquistar, por exemplo, a Europa Oriental. Há um líder, há um pequeno círculo de elites ricas, há um exército (lealistas armados) e há agricultores / trabalhadores manuais. Os colonizadores anglo-saxônicos conseguiram conquistar as terras muito antes de as nações vítima poderem subir a escada da investigação científica e, assim, obterem formas cada vez mais eficazes de se defenderem.

No caso dos índios nativos, os ingleses já possuíam armas básicas, assim, os arcos e flechas dos primeiros eram inferiores. No caso da África, notórios colonizadores (que incluem os britânicos) chegaram com as mesmas armas e enfrentaram apenas lanças e outras armas relativamente primitivas. Por isso quase todo o continente africano foi tão facilmente subjugado. A diferença entre a colonização em geral e um golpe de Estado pode ser vista mais visivelmente depois de a CIA ser formada: derrubar um "ditador" torna-se tão simples quanto literalmente comprar o exército (tal como o Reino Unido foi pioneiro no uso de piratas), o que permite ao Ocidente capitalista que cuide dos negócios e utilize seus recursos de media para descrever outro projecto "democrático", "pacífico" e "bem-sucedido". Logo que um líder consegue chegar ao poder e tem como objectivo desafiar esta subjugação (Gaddafi é o exemplo mais recente no MENA, mas também há Patrice Lumumba e Thomas Sankara), eles experimentam o mesmo problema – são simplesmente dominados pelo colonizador tecnologicamente mais avançado.

Quando se trata de golpes de Estado no espaço pós-soviético, o jogo é diferente. Durante mais de 60 anos a URSS conseguiu repelir a influência dos "livres" (capitalistas) anglo-saxões – graças a um foco na investigação científica e portanto nas tecnologias nucleares – e criar uma União fortemente coesa baseada numa história e cultura comuns. No Ocidente, os governos disseram aos seus cidadãos que "daquele lado da cortina eles são 'totalitários'", enquanto que, na realidade, a América & Companhia lutavam para influenciar a sociedade soviética e não queria que seus próprios cidadãos vissem que no sistema soviético de governação todos tinham alguma coisa, ao invés de apenas algumas pessoas terem tudo (capitalismo). Por outras palavras, a URSS foi capaz de se defender contra o método do golpe de Estado tradicional.

Devido ao facto de que a URSS era um território desenvolvido e tinha estruturas políticas muito mais complexas do que as de um país africano médio, não era tão simples como enviar Thomas Lawrence ou Sidney Reilly e ludibriar chefões locais para assinarem acordos em que essencialmente renunciam a direitos de propriedade de matérias-primas. E também é importante ter em mente que as agências de inteligência soviéticas combatiam a CIA muito antes de 1991 . A mudança dos tempos simplesmente obrigou o Ocidente a actualizar o manual de golpes de estado antes que o país-alvo progredisse ao longo da linha de desenvolvimento científico e estabelecesse um mecanismo de defesa que tecnologicamente está 20 anos à frente das ferramentas subversivas dos EUA.

Não sendo fisicamente capaz de intimidar a URSS o suficiente para que se submetesse à sua vontade, uma vez que esta tinha armas nucleares, o Tio Sam percebeu que era muito mais sábio e seguro explodi-la a partir de dentro. Neste artigo não quero desviar demasiado do tópico central, portanto não apresentarei uma massa de pormenores sobre como os Estados Unidos conseguiram penetrar a URSS e injectar suas ideias liberais por toda a sociedade, mas um bom exemplo rápido que posso dar é o do envio de roupas / moda americanas para portos soviéticos, como Odessa. Hoje isso pode ser chamado de "soft power", mas na época em causa tais coisas serviam para convencer pessoas de que o individualismo poderia proporcionar uma vida mais frutífera do que o colectivismo.

O golpe de estado de 2014 na Ucrânia utilizou um plano actualizado baseado no modelo usado para desmantelar a União Soviética (e desencadear a crise constitucional de 1993). Quando a URSS entrou em colapso em 1991, a Ucrânia encontrou-se na posição de ser a herdeira mais rica do legado soviético: sua infraestrutura, medicina, educação, forças armadas, etc. eram as melhores da região. As coisas começaram a complicar-se por volta de 2004, quando a interferência da América começou a atingir novos patamares na época do "multi-vectorial" Kuchma , mas a Ucrânia de 2014 sob Yanukovych a flutuava e nadava confortavelmente. Numa tentativa de derrubar Putin antes de a Rússia se aproximar ainda mais da China, se fortalecesse e formasse a espinha dorsal do emergente bloco euro-asiático, os EUA planeiam romper o equilíbrio na Ucrânia e violentamente arrancá-la para longe da nação russa. Mas o problema para a América era "como fazer com que esse processo parecesse orgânico? Afinal de contas, simplesmente invadir a Ucrânia com o Exército dos EUA resultaria na liquidação dos próprios Estados Unidos da América".

Não vou gastar o precioso espaço deste artigo contando o que aconteceu em 2013/2014 na Ucrânia, pois já criei um ficheiro dedicado a ele, mas creio que o vídeo abaixo – John Tefft em 2013 a preparar o terreno em Donetsk para o que estava prestes a acontecer – encapsula muito bem a essência: ONGs dos EUA fizeram uma lavagem cerebral na sociedade para flertar com o liberalismo e sua nociva "democracia", semelhante àquele vírus de que falou Sergey Naryshkin ; são constituídas formações militantes locais na Galícia (principal exemplo: "Setor Direita") e capturam edifícios administrativos na Ucrânia Ocidental, antes de finalmente serem transportados a Kiev para a "revolução" de Fevereiro.

 

"Revolução colorida 2.0"

O que realmente quero focar é o modelo de golpe de Estado que está sendo implantado pela America & Companhia em 2019. Até agora, podemos dizer que existem 3 versões da tecnologia do golpe de Estado (estou a ser deliberadamente simplista e utilizo nomes e descrições provisórias, pois ainda estou a investigar esse tópico):

1. Golpe de Estado tradicional – um golpe simples e esmagador, eficaz contra o chamado "terceiro mundo" (exemplos: Laos, Guatemala, Zaire);
2. "Revolução colorida" – sequestrar temporariamente a "sociedade civil", eficaz contra estados mais tecnologicamente refinados, mas não superpotências (exemplos: Egipto, Síria, Ucrânia "independente");
3. Sondagem algorítmica (pode ser considerada como "revolução colorida 2.0") – tomada do controle sobre a nação desde o início, eficaz contra aliados de superpotências nucleares pós-2015, quando os Acordos de Minsk foram assinados e os jactos russos aterraram na base aérea de Hmeymim na Síria (exemplos: Venezuela, Hong Kong, Rússia, Sérvia).

Antes de começar a elaborar a versão nº 3, respeitante à guerra pós-síria (enfatizo que a Rússia terminou a guerra em 2015 – tudo o que aconteceu depois disso está logo atrás da cortina de negociações referente aos próximos 50 ou mais anos de ordem mundial), é necessário apresentar algumas das razões pelas quais a versão nº 2 já não funciona:

  • Campanhas de hashtags (palavras-chave) nos media sociais como aquelas vistas durante a "revolução" da Irmandade Muçulmana no Egipto não têm mais o mesmo efeito devido à mobilização exponencialmente crescente de utilizadores de media sociais anti-golpe ("pró-Rússia" / "pró-Assad" / "pró-Maduro" / "Pro-Nasrallah");
  • Tornou-se muito difícil manter a estética da operação limpa de modo sistemático – os "Capacetes Brancos" podem fazer algo que desacredite sua alegada autenticidade; o porta-voz da Rada [parlamento ucraniano] pode afirmar que "Hitler era um grande líder"; uma figura sénior do Qatar pode admitir ao vivo na TV que o Qatar financiou grupos militantes para remover Assad; Bana pode acabar com um tweet; um vídeo pode aparecer mostrando um líder "FSA" a ler um roteiro em frente a um produtor americano, etc;
  • A popularidade dos media de referência está a tornar-se cada vez menor (para não mencionar o efeito da campanha de RP de "fake news" de Trump) e a popularidade tanto dos media estatais não-ocidentais (RT, Sputnik, Press TV, Telesur, etc) quanto dos media independente (ou aparentemente independentes) está a crescer exponencialmente;
  • Os sítios web e os aplicativos de media social alternativos tornaram-se populares entre os falantes de inglês (VKontakte, Telegram, Instagram, Gab, Snapchat, etc);
  • A Eurásia foi capaz de estudar o comportamento passado tanto dos media tradicionais quanto dos utilizadores de media social do Ocidente, o que permitiu refinar os recursos que tinham e até mesmo criar novos e especializados;
  • A existência de jornalistas independentes e anti-golpistas que estão preparados para viajar entre diferentes teatros (por exemplo, Síria e Venezuela) e revelar o padrão dos métodos de "mudança de regime" do Ocidente.
  • O enfraquecimento do efeito de difamação de expressões como "anti-semitismo" devido ao efeito da acumulação de informações acerca dos crimes israelenses em Gaza e na Cisjordânia;
  • O fortalecimento geral da Eurásia e o declínio do Ocidente liberal (e as oportunidades que ele tem de violar o direito internacional em consequência) fazem com que os cidadãos da primeira não tenham razão para acreditar que este último seja o paraíso que pretende ser;
  • etc.

Por outras palavras, a realidade geopolítica que temos hoje não é a mesma que víamos antes do envolvimento da Rússia na Síria – o tabuleiro de xadrez com apostas mais elevadas no grande jogo. Lições foram aprendidas com o passado e decorreu tempo suficiente para mudanças serem calculadas e implementadas. Hoje, as superpotências são obrigadas a investir exponencialmente mais recursos em tecnologias (daí a razão pela qual a Rússia quer investir fortemente no sector da IA), uma vez que entender as tecnologias do inimigo é a diferença entre elas terem ou não êxito em penetrarem a sociedade. E não é uma coincidência que Naryshkin comece a utilizar termos como "vírus". Mas o que ele realmente quer dizer? Quais são as diferenças de concepção entre uma "revolução colorida" regular e o que hoje estamos a ver, por exemplo, na Venezuela?

Em primeiro lugar, uma "revolução colorida" é concebida para sequestrar a "sociedade civil" durante um período de vários meses (menos de 6), obter o apoio das elites e tem como objectivo colocar o líder alvo diante de duas más escolhas – uma armadilha: se sufocar protestos isso significa ser retratado pelas ONGs do Ocidente como um "ditador" e assim o Ocidente não corre o risco de receber um golpe de informação na sua retaguarda (se a sociedade ocidental não concordar com algo que o governo está a fazer, um o adversário pode explorar o facto e perturbar a situação socio-econômica de um ou muitos países ocidentais); se não reprimir os protestos isso significa simplesmente entregar o poder. Isto explica o que aconteceu a Viktor Yanukovich – ele não deu ordens à Berkut [polícia ucraniana] para dispersar Maidan por receio de ficar permanentemente estigmatizado nos media ocidentais, assim Joe Biden e seu bando de golpistas, depois de um bocado de teatro de franco-atiradores a fim de manter vivos os protestos, tomou a Rada. Perda-perda. Neste cenário, a Rússia não podia fazer nada uma vez que a) os ucranianos e suas elites são em última análise culpados pelo flerte com o Ocidente, e b) Yanukovych optou pela opção passiva e assim a única coisa que Moscovo podia fazer era rapidamente prever as consequências e andar vários passos à frente dos EUA (daí os supercomputadores que sabiam acerca da guerra na Jugoslávia). O resultado? Os Acordos de Minsk e a condução do projeto "anti-Rússia" dos EUA a um beco sem saída.

Em segundo lugar, uma "revolução colorida" sequestra o descontentamento social momentâneo em relação a um assunto em particular, incha-o e a seguir descarrega-o de uma maneira muito focalizada. O descontentamento precisa ser alimentado financeiramente e, portanto, pode-se deixar extingui-lo se os planos mudarem. Deveria ser notado que a sociedade-alvo já deve mostrar sinais de fragmentação: o trabalho para gradualmente arrancar a Ucrânia do seio da Rússia (desde o colapso da URSS) estava em andamento há décadas e ao longo do tempo Kiev sucumbiu ao veneno bandeirista do ocidente. Assim, o golpe de 2014 simplesmente trouxe à superfície o que estivera a fermentar por baixo desde os tempos da batalha do NKVD com a OUN-UPA . O caso sírio é muito parecido – o wahhabismo esteve a mordiscar o Levante durante décadas . É claro que os laços entre Hafez / Bashar al-Assad e a Rússia/URSS existem há mais de 30 anos, mas não se pode dizer que os dois países tiveram um relacionamento mais baseado no pragmatismo.

Em terceiro lugar, uma "revolução colorida" envolve a criação de um holograma informacional que proverbialmente flutua acima do território alvo, criando uma linha do tempo paralela (exemplo: a bandeira verde / negra / branca do mandato francês como a bandeira síria actual, e o Comité Superior de Negociações como o real governo da Síria reconhecido pela ONU – ambos são fraudes, naturalmente, mas permitiram que membros da NATO bombardeassem a Síria sem qualquer indignação da opinião pública ocidental), mas começa a desvanecer-se tão logo o equilíbrio de forças no terreno da guerra inclina-se a favor do alvo (nem mesmo a máquina mediática dos EUA pode vender a narrativa de que o Leste de Aleppo ainda não foi recapturado por Assad).

Em quarto lugar, uma "revolução colorida" não visa reprogramar todas as camadas da sociedade não-elitista em todas as regiões do país – ela tem como o objectivo apenas introduzir ideias liberais e manter o apoio tanto daqueles que já sofreram lavagem cerebral quanto daqueles que sucumbem a inculcação. Aqueles que eram anti-liberais antes permanecerão anti-liberais após o golpe e, portanto, representam uma ameaça para o regime fantoche. A Ucrânia é um excelente exemplo disto, pois a profundidade da linha de divisão histórica entre a Novorossiya e a Galicia pôde ser superada com alguns cookies e US$5 mil milhões em dinheiro de ONGs.

A versão nº 3 do golpe de Estado, à qual neste artigo refiro-me como "sondagem algorítmica", é portanto concebida para: verificar-se durante um período de tempo mais longo; ser alimentada a expensas do governo alvo e ligar várias fontes de descontentamento social; ser capaz de funcionar em condições em que não há uma guerra existente no terreno e a probabilidade de haver alguma no futuro é baixa; reprogramar a consciência nacional e ligar todas as camadas da sociedade tão geograficamente distantes e tão vastas quanto possível; dar passos em direcção ao sucesso, mesmo que as elites permaneçam fiéis ao líder alvo.

Em situações em que o aparelho de segurança do alvo é o mesmo, se não melhor, do que o do beligerante; onde o nível médio de confiança da sociedade no líder é o mesmo, se não superior ao do beligerante; e onde as capacidades de defesa do alvo combinam, se não dominam, as capacidades ofensivas do beligerante; torna-se demasiado arriscado para o beligerante tentar o esquema da "revolução colorida", uma vez que um fracasso pode comprometer quaisquer tentativas de golpe de estado – o líder do golpe pode ser detido e pode abrir a boca e dizer quem lhe deu ordens e o que eram elas, bem como qualquer informação valiosa de inteligência. O fracassado golpe na Turquia em 2016 foi o sinal de alerta para Washington de que a tecnologia habitual da "revolução colorida" não funcionaria no espaço euro-asiático "multipolar" (pista: a Turquia recebeu informações de aliados que frustraram o golpe).

Na Venezuela, os EUA estão a rever sua tecnologia de golpe de estado em tempo real. Há sinais da tecnologia da "revolução colorida": um líder da oposição fantoche que apela a protestos de rua; a expressão "o regime de Maduro"; a imposição de sanções para dar a ilusão de que o governo venezuelano está a esfaimar o seu próprio povo; até mesmo declarações como "todas as opções estão na mesa", o que é uma maneira amistosa de RP de dizer que não há opções. Há também alguns débeis sinais de "sondagem algorítmica": a transferência de activos nos Estados Unidos pertencentes ao Estado venezuelano para as mãos de Juan Guaido; o arrastamento do golpe de estado (ele está em curso há muito mais de 6 meses); não haver guerra civil no país e é improvável que haja alguma no futuro próximo, apesar da presença de ONGs dos EUA no país.

Contudo, a tentativa inicial de "revolução colorida" fracassou porque a Rússia e a China – superpotências nucleares – ajudaram Caracas a resistir à tempestade e a manter unida a sociedade. Posteriormente, a companhia petrolífera estatal venezuelana, PDVSA, transferiu seus activos para Moscovo, a Rússia enviou bem educados homens com fardas verdes para acalmar os EUA, tanto Moscovo como a China enviaram ajuda humanitária para o povo sancionado do país, e Juan Guaido foi exposto tanto que até seu namorado rico Richard Branson foi obrigado a deitá-lo abaixo:

 

A Virgin demarca-se da corrup

Mas neste exemplo, tal como em relação à guerra síria, a Rússia não precisa fazer muito trabalho informativo para justificar seu envolvimento, simplesmente porque os laços entre Caracas e Moscovo já existiam antes de o tandem Bolton-Pompeo chegar ao poder. Além disso. de qualquer modo a Rússia estaria a actuar dentro do direito internacional. Ou seja, a porta foi batida na cara da CIA e, para reabri-la, a única opção da América é ou remover as armas nucleares da Rússia (e, para isso, o S-400 deve ser removido da equação) ou reformular a sociedade venezuelana no nível das bases.

A versão de golpe de Estado "revolução colorida" ainda funciona menos na Rússia de Putin. Ele conseguiu construir um sistema que não deixa buracos para os ratos da CIA (por exemplo, sucessores de Gorbachev, Yeltsin ou outros notórios sabotadores liberais). Alguns podem chamar isto de "autoritário"; outros podem chamá-lo de resistente a golpe de estado.

O assassinato de Boris Nemtsov orquestrado pela CIA serviu como um balão de ensaio, para saber se o esquema ucraniano pode ser repetido (morte [s] de tiroteios —> protestos e confrontos com a imposição da lei —> presidente alvo foge). O objectivo era reunir pessoas suficientes em Moscovo para uma "marcha em memória de Nemtsov" e replicar o que aconteceu na Praça da Independência em Kiev, mas desta vez do lado de fora do Kremlin (quão conveniente para fotógrafos propagandistas – ele foi morto na ponte junto ao Kremlin!).

 

Não houve pessoas suficientes e as agências de segurança conseguiram bloquear o caminho para o Kremlin. O senador russo Evgeny Federov fez um trabalho fantástico ao explicar isso com mais pormenores:

 

O experimento seguinte foi a carta Navalny no período que antecedeu a eleição presidencial de 2018. Recomendo aprofundar o estudo do material encontrado aqui para mais pormenores acerca disso. Em resumo, a CIA tentou utilizar a imagem de crianças a serem presas pela [polícia] OMON durante protestos não sancionados a fim de abalar a sociedade russa. O resultado? Putin tornou a manifestação ilegal e, é claro, os propagandistas ocidentais puseram-se a berrar "repressão". Putin ganhou a eleição de qualquer modo, na presença de observadores internacionais também.

Avançando rapidamente para a mais recente provocação (no momento em que escrevo) – o caso de Ivan Golunov, que trabalha para a agência propagandista liberal Meduza – vemos coisas familiares: um quinto-coluna é utilizado como um aríete concebido para abalar a sociedade e remover o mau "ditador". Uma marcha não sancionada de "Golunov é um herói" ocorreu no dia 12 de Junho e a análise da filmagem mostra que não ela nada a ver com jornalismo e tudo sobre colocar Putin sob uma luz desfavorável. A multidão chega a cantar "Rússia sem Putin" e um palhaço contratado deu à mensagem um aspecto visual.
foto?

Evgeny Federov observou que o clube de Golunov recusou a oferta do governo de realizar uma manifestação sancionada em 16 de junho, pois os EUA precisavam de imagens de "jornalistas e activistas inocentes" a serem detidos pelo "mau" OMON. A declaração de Federov na íntegra:

"Não há dúvida de que é uma tentativa de interferir. Tanto o Departamento de Estado dos EUA quanto Bruxelas fizeram declarações oficiais sobre este assunto. Eles incluíram suas forças e nós os conhecemos bem, muitos dos participantes da manifestação ilegal são bem conhecidos por nós. A partir das fotos nos furgões da polícia, você pode recordar que essas forças saíram repetidamente antes. Pessoalmente, eu os vi na Praça Pushkin, quando Navalny os levou ali.

Estas são forças estrangeiras óbvias, a quinta coluna no território da Rússia, eles se tornaram activos em 12 de Junho. Para eles, apenas precisavam de uma razão, mas a razão já desapareceu, Golunov foi libertado, mas eles pouco se importam. A equipe chegou, o dinheiro foi recebido e eles precisam dar-lhe- uso. As acções dos manifestantes estão ligadas ao sistema geral de sacudir a situação que é praticado no Ocidente, primariamente nos EUA. É suficiente ver como os eventos foram preparados na Ucrânia, na Geórgia, na Moldávia, como eles foram preparados em centenas de outros países através de intervenção estrangeira utilizando o método da tecnologia laranja.

Tudo acontece sempre da mesma maneira em toda parte. Primeiramente, uma vítima sagrada é seleccionada, então grupos comprovados que pouco se importam com a causa são utilizados. O principal para eles é que o desempenho seja contra a Rússia e em apoio de manipuladores estrangeiros. O mesmo esquema funciona na Rússia quanto à colecta de lixo e em Ekaterinburg . Não importa qual seja o motivo, o mais importante é continuar a abalar a situação. E enfatizo que os americanos conseguiram fazer isso muitas vezes. No segundo escalão, eles habitualmente envolvem separatistas e isto também está a ser preparado na Rússia. "

 

'.

Assim, em vez de realizar uma marcha sancionada no dia 16 de Junho, houve um evento de "apoio a Golunov".O comparecimento a este comício foi patético. Como diz Federov, Putin neutralizou a bomba de Golunov, libertando o "jornalista" e sacrificando alguns generais da polícia. É claro, os ataques da media social seguiram o mesmo roteiro que os protestos e prisões não autorizadas de Navalny (não se vê indignação contra a detenção de Kirill Vyshinsky, naturalmente):

Os media da quinta coluna russa em uníssono começaram a promover a campanha das ONGs "Eu/Nós Somos Golunov". Jornais do Reino Unido apresentaram a situação como Putin "recuando" e alegaram que "a imprensa independente é assediada, o que na realidade significa que o FSB não deixa a quinta coluna respirar. Houve também tentativas ( exemplo ) de estender o modelo Golunov a outras "prisões ilegais". E a cereja em cima do bolo é que o palhaço Navalny esteve presente na marcha não sancionada de Golunov:

Há, é claro, outros exemplos de agitação instigada pelos EUA na sociedade russa – variando de igrejas em Ekaterinburg às pensões de reforma – mas todos eles mostram os mesmos traços de uma "revolução colorida" e deparam-se com o mesmo problema: Putin está um passo à frente deles .

Para abreviar uma história longa, após a guerra da Síria a aplicação pela América de sua tecnologia da "revolução colorida" é inadequada quando se trata de derrubar líderes de superpotências nucleares ou líderes dos países seus aliados. Não é apenas a Eurásia que é alvo desses ataques – Trump também ataca a UE [ exemplo e exemplo ] – também os estados individuais qualificados, para utilizar a expressão de Naryshkin, como "potências amigas e neutrais em tempos de paz, crise e guerra". E considerando a actividade da Rússia e da China na África hoje, esta inadequação pode significar que os países do "terceiro mundo" que antes foram arrasados pelo método mais básico de capturar o poder estatal podem começar a escapar da rede de colonização e desfrutar a protecção oferecida pela "contraprova algorítmica" da Rússia. Afinal de contas, basicamente é isso que a Venezuela está a fazer e é a única razão pela qual Maduro, tal como Assad, ainda está no poder.

Por que utilizo a palavra "algorítmico"?

Se nos recordamos, no meu artigo anterior apresentei a ideia de que a tomada de decisões de política externa de superpotências nucleares está a ser assistida por supercomputadores, simplesmente porque o modo como nos comunicamos e enviamos/recebemos dados está a tornar-se exponencialmente mais rápido e o cérebro humano não é capaz de processar tais dados a essa velocidade. Devido a esta rapidez de comunicação, isso significa que um estado pode infringir a soberania de outro estado (tanto digitalmente como fisicamente), assestar um golpe e retirar-se para uma relativa segurança antes de o alvo ter tempo para responder adequadamente. Assim, a implantação do S-400 permitiu à Rússia estabelecer certas regras nas relações internacionais que: a) diminuíssem a pressão sobre as armas nucleares russas – a dissuasão de todas as dissuasões; e b) exercessem pressão sobre os EUA de tal forma que Washington actualmente – e provavelmente nos próximos 25 anos, pelo menos – não tem como contestar.

Então, entendemos a partir directamente da descrição acima que, como em qualquer sistema, pode haver latência/defasagem (latency/lag) quando se trata de responder. Mencionei no passado como a Rússia foi apanhada de surpresa com a primeira bandeira falsa dos "Capacetes Brancos" (Ghouta em 2013, a qual foi concebida para comprar tempo para os jihadistas), uma vez que foi utilizada uma tecnologia de media nunca foi vista antes. A segunda bandeira falsa – Khan Shaykhun – teve muito menos êxito pois a Rússia já havia posicionado seus jactos, foi capaz de aprender com a falsa bandeira anterior e portanto ajustou seu algoritmo (ver meu artigo anterior, especialmente a secção acerca da desinformação mediática com equações complexas) e desenvolveu uma campanha mediática contrária . A terceira bandeira falsa – Duma [parlamento] – foi mesmo mais do que um fracasso .

O objectivo do adversário é superar o rival no espaço da informação global através de uma media coordenada e campanha no terreno (cunhada por alguns como "guerra de quarta geração"). Os "Capacetes Brancos" têm de filmar a bandeira falsa e as agências têm de espalhar as imagens falsas em paralelo, coordenando-as com os tópicos diários gerais de tal modo que o consumidor sinta que o seu serviço de notícias regular "confiável" é o mesmo de sempre – porque a última coisa que um governo neoliberal quer é que os seus súbditos comecem a pensar gente do governo está a patrocinar a Al Qaeda. Por outras palavras, quanto maiores as apostas geopolíticas, mais tecnologicamente refinados são os métodos usados no espaço da informação.

Neste caso, não se trata apenas da velocidade de um ataque "híbrido", mas também da sua composição. Pode-se ter o algoritmo informacional "input—> processamento—> output" mais rápido, mas ele é inútil se não puder proporcionar ângulos de ataque múltiplos.

Aqui está um diagrama muito abstracto (apressado) que fiz só para ilustrar este ponto. O círculo negro representa um ponto designado no tempo, quando todos os recursos da media papagueiam em sincronia "Assad gaseou o seu próprio povo". O objectivo da América é coordenar o maior número possível de "informações de ataques químicos", fazendo com que pareçam "críveis". As setas vermelhas representam o contra-ataque da Rússia, que impedirá o círculo negro de crescer (o Ocidente de empregar mais recursos de media/ONGs para disseminar a desinformação) ou avançar (o Ocidente utilizar a mesma quantidade de recursos, mas relatando "actualizações" ao longo do tempo). Foi assim que a tentativa de executar uma quarta bandeira falsa foi negada – ver exemplos aqui , aqui , aqui e aqui . Como mencionei em outro artigo , esta mesma táctica preventiva foi muito usada no Donbass para travar a pressão agressiva exercida pelos EUA. É claro que o mapa não é o território, e o diagrama abaixo não representa literalmente como funciona o supercomputador do Ministério da Defesa russo.

 

Diagrama.

O leitor pode estar a pensar "Você disse que a Síria era exemplo de uma 'revolução colorida', não de 'sondagem algorítmica', então por que usá-la como exemplo?" A resposta é: a Síria não é uma superpotência nuclear e, portanto, a "tecnologia da revolução colorida (embora incrementalmente melhorada ao longo dos muitos anos da guerra) funcionou. No caso da Rússia, a tecnologia "revolução colorida" não funciona, ponto final. Por isso, a única opção dos EUA é tentar injectar este "vírus", como o chama Naryshkin. Assim, o objectivo da América é invadir o espaço de informação russo sem que as autoridades russas tenham tempo para repelir ataques. Quando encarado de uma perspectiva gestáltica, a América teria assim uma presença permanente no espaço de informação russo, uma vez que no momento em que a Rússia tapasse um buraco, outra pancada teria sido dada de outro ângulo.

Navalny, Golunov, o Centro de Yeltsin, RBK, Kommersant, Novaya Gazeta, Meduza, Roizman, Kasparov, Kasyanov, Gorbachev, Solzhenitsyn – a América certamente tem muitos recursos à sua disposição, mas todos eles sofrem do mesmo problema: eles são concebidos para fazer os povos ocidentais odiarem o mundo russo (duvido que os russos se importem com o que ratos como Jeremy Hunt pensam), mas eles não abalam perceptivelmente a situação interna na Rússia. E afinal de contas, são os próprios russos que determinam a legitimidade do governo russo, não Blogs do Joe em Coventry. Em consequência, a única esperança dos Estados Unidos quanto a paralisar o legado de Putin é criar uma identidade russa fantasma que possa desencadear uma guerra civil. Isto é tópico para um outro artigo, mas o leitor amigo da Rússia não deve começar a perder o sono de imediato, pois estou a falar acerca de processos que precisam de 10 a 20 anos antes de podermos começar a julgar se a tecnologia de golpe de Estado dos EUA adaptou-se ou não às necessidades da CIA.

Uma coisa é certa: na medida em que o Estado russo for viável e auto-suficiente, a inquietação social permanecerá para Washington apenas um sonho erótico, não uma realidade. E não está excluído que a situação socio-económica dentro dos Estados Unidos e/ou da UE ceda antes que qualquer algoritmo ianque começar a envenenar as raízes do Estado russo. Afinal, a América tem uma retaguarda, a Rússia também tem recursos de disseminação de informação e o S-400 não vai embora. E que espécie de tecnologia tem a China? Imagine se supercomputadores russos e chineses estiverem interconectados? Realmente não, porque eu não quero provocar dor de cabeça no leitor!

19/Junho/2019

A versão em inglês encontra-se em
thesaker.is/understanding-americas-regime-change-strategy-in-russia/

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/russia/guerra_hibrida_19jun19.html

Trump admite não se importar com opinião da Europa sobre acordo nuclear com Irã

Presidente dos EUA, Donald Trump, lança campanha de reeleição 2020 em Orlando, Flórida, em 18 de junho de 2019
© AP Photo / Evan Vucci

O presidente dos EUA, Donald Trump, admitiu que não se importa com a opinião da Europa sobre o acordo nuclear do Irã.

Ele repetiu mais uma vez que os "EUA se preocupam com a Europa", que a protegem no âmbito da OTAN, enquanto a União Europeia beneficiou de vantagens no comércio com os EUA.

"A mim não me importam os europeus. Eles queriam ganhar muito dinheiro com isso", disse o presidente norte-americano durante uma entrevista ao canal televisivo NBC.

"Eu não me importo que a Europa esteja nisto. A Europa também quer fazer um acordo", acrescentou Trump.

O presidente dos EUA disse também ter a certeza de que Teerã violou os termos do acordo nuclear, conhecido como Plano Conjunto de Ação Integral (JCPOA). "Eu penso que eles violaram o acordo. Eu acho que eles estão fazendo algo nos locais onde não nos deixaram inspecionar", ressaltou Donald Trump.

A tensão entre Teerã e Washington aumentou após a saída unilateral dos EUA do acordo nuclear, em maio de 2018. Desde então, as relações bilaterais se deterioraram bastante, com a aplicação de sanções por parte dos EUA contra o Irã.

Em maio deste ano, o Irã anunciou que deixaria de cumprir parcialmente seus compromissos do acordo nuclear e deu à Europa um prazo de 60 dias para que resolvesse os problemas surgidos com as sanções e garantisse os interesses de Teerã.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/oriente_medio_africa/2019062314106342-trump-admite-nao-se-importar-com-opiniao-da-europa-sobre-acordo-nuclear-com-ira/

Made in Vietnam ou Made in China? Gigante asiático arruma maneira de contornar sanções dos EUA

Contêineres no porto de águas profundas de Yangshan, parte da Zona Franca de Xangai.
© REUTERS / Aly Song

Em 2015, a China lançou o projeto ambicioso Made in China 2025, que visa mudar a imagem do país como fabricante de produtos baratos e de baixa qualidade, bem como transformar o rótulo em um símbolo de orgulho nacional até 2025.

No entanto, a guerra comercial com os EUA forçou alguns exportadores do país asiático a se livrarem da marca com a indicação de origem para evitar serem taxados ao atravessar a fronteira dos EUA, de acordo com a edição Observer.

O governo vietnamita identificou dezenas de certificados falsos de Made in Vietnam em diferentes setores, da agricultura ao aço, produzidos por empresas chinesas, na tentativa de contornar as tarifas dos EUA.

Da mesma forma, Hanói afirmou que alguns exportadores chineses haviam desviado ilegalmente encomendas para o Vietnã depois de a administração Trump ter aumentado as tarifas sobre os produtos chineses de 10% para 25%. De acordo com os dados da alfândega, o contraplacado chinês tem sido enviado para os Estados Unidos através de uma empresa vietnamita.

Segundo o governo do Vietnã, os funcionários da alfândega estão reforçando a supervisão e a inspeção dos bens para reprimir a prática. Além disso, foram aumentadas as sanções pelas fraudes comerciais.

"O Vietnã está preocupado com a possibilidade de ser punido pelos EUA por permitir que os produtos chineses rotulados erradamente cruzem a fronteira dos Estados Unidos", disse Do Van Sinh, representante do comitê econômico da Assembleia Nacional do Vietnã.

O porquê do aumento das exportações

Acredita-se que a mudança de rota dos exportadores chineses e a falsa rotulagem são responsáveis por um aumento drástico nas exportações do Vietnã para os EUA.

No primeiro trimestre de 2019, as exportações vietnamitas para os Estados Unidos aumentaram 40%, enquanto as da China diminuíram 14%, segundo os dados do Escritório de Censos dos EUA.

Porém, as remessas questionáveis provavelmente representam uma parte "relativamente pequena" das exportações totais da China para os EUA, apontou Rahul Kapoor, analista da Bloomberg Intelligence em Singapura. "Sempre haverá fugas e trabalho para evitar as tarifas, mas não vemos isso como um fenômeno generalizado", acrescentou.

Inicialmente, Washington elevou para 25% as tarifas sobre produtos importados chineses no valor de US$ 200 bilhões, a fim de reduzir o déficit comercial. Em resposta, a China elevou igualmente as suas tarifas para 25%, aplicadas a 5.000 produtos dos EUA, no valor de US$ 60 bilhões.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/economia/2019062314104167-vietna-china-contornar-sancoes-eua/

Riríamos com vontade se o ridículo não fosse tão perigoso

Sobre a iminente guerra entre os EUA e o Irão Donald Trump deu-nos, uma vez mais, prova do seu estilo bufão com a diferença de, nas cortes medievais, o bobo troçar do próprio rei, sucede ragora o contrário: ter o soberano a vestir a apatetada vestimenta do  palhaço.

 

Se quando houve que invadir o Iraque de Saddam Hussein ainda se arranjaram fotografias de satélite a mostrarem as famosas «armas de destruição maciça» o melhor que agora se conseguiu foi um conveniente passaporte iraniano «encontrado» junto a um dos petroleiros atingidos por uma mina. E se Dabliú Bush conseguiu o coro de Blair, Barroso e Aznar, agora Trump ficou a falar sozinho se descontarmos o fantasma acoitado em Downing Street e Netanyahu, que haverá quem julgue estar por trás dos incidentes no Golfo de Omão.

 

Em suma se John Bolton e Mark Pompeo, responsáveis pelas «provas» de 2002 muito se esforçaram para levar Trump a repetir a receita de então, viram-se agora travados por gente mais sensata do Pentágono, que aprenderam alguma coisa com os mortos americanos enterrados à conta da «normalização democrática» do Iraque e duvidam do sucesso de novos desvarios.

 

Façamos votos de que, enquanto não recebe ordem de despejo da Casa Branca, Trump continue a ser retido por quem ainda possui algum pingo de lucidez na sua execrável Administração.

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/06/ririamos-com-vontade-se-o-ridiculo-nao.html

Trump e o Irão ou o adiamento do projeto do conselheiro de Segurança Nacional, John Bolton,

É preciso ser demasiado ingénuo ou excessivamente tolo para acreditar que Trump teria cancelado o ataque ao Irão porque morreriam 150 pessoas, e é demasiado perigoso ficar tranquilo com a capacidade do imprevisível PR da maior potência mundial para decidir a invasão de um país, com catastróficas consequências globais.

É tão pueril a desculpa de Trump para suspender a agressão como idiota a fanfarronice do ayatollah Khamenei a acusá-lo de salvar um avião dos EUA com 35 pessoas a bordo.
A acreditar na informação ou contrainformação, esteve tudo preparado para a tragédia e nada assegurado para que não venha a acontecer. Imaginar uma tal agressão em curso e suspensa porque, entretanto, Trump perguntou quantas pessoas iam morrer, é juntar um pesadelo com a mais idiota das desculpas.

Pela primeira vez na história dos EUA, Trump tem a rara faculdade de não distinguir os aliados dos adversários, tratando-os a todos como inimigos, ameaçando uns e outros e impondo condições a todos. Comporta-se como um dono de escravos, anterior a 1863, quando Abraham Lincoln a aboliu nos EUA, mas a diferença entre a grandeza épica e ética do 16.º presidente dos EUA e a deste tosco e amoral PR é incomensurável.

A União Europeia, onde ainda se preservam normas de decoro e um módico de respeito pelos tratados, vê-se confrontada com o poderoso biltre que a trata como protetorado e lhe exige obediência política, económica e geoestratégica.

Uma situação destas nunca tinha acontecido. A Europa sofreu invasões catastróficas ao longo da sua História, mas é a primeira vez que é humilhada por um país colonizado por europeus que julgávamos integrados no mesmo espaço civilizacional e na partilha dos mesmos valores éticos e democráticos. Para já, o anúncio da invasão ao Irão foi também uma advertência à UE para colaborar no boicote ao petróleo iraniano.

O maior favor que a União Europeia pode fazer a este biltre é desintegrar-se. Ele ajuda.

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2019/06/trump-e-o-irao-ou-o-adiamento-do.html

Porque razão os Estados Unidos perderiam uma guerra comercial com a China. Por Anatole Kaletsky

Tensão EUA China 0

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

19. Porque razão os Estados Unidos perderiam uma guerra comercial com a China

Anatole Kaletsky Por Anatole Kaletsky

Publicado por Project syndicate, em 21 de setembro de 2018 (aqui)

Republicado por Gonzallo Rafo em 16 de outubro de 2018 (aqui)

19 Porque razão os Estados Unidos perderiam uma guerra comercial com a China 1

A gestão keynesiana da procura é um melhor guia do que a vantagem comparativa para neutralizar o conflito entre os Estados Unidos e a China. Em princípio, a China pode evitar qualquer dano causado pelas tarifas aduaneiras dos Estados Unidos simplesmente respondendo com um estímulo keynesiano em grande escala.

 

Londres- Os Estados Unidos não podem ganhar a sua guerra das tarifas aduaneiras contra a China, diga ou faça o que quer que seja o Presidente Trump nos meses que se seguem. Trump pensa que tem a vantagem neste conflito, porque a economia americana é forte e porque os políticos de ambos os partidos – republicano e democrata – apoiam o objetivo estratégico de frustrar a ascensão da China e preservar o domínio global dos EUA.

Mas, ironicamente, esta aparente fortaleza é a fraqueza fatal de Trump. Aplicando o princípio das artes marciais de redirecionar a força que o opositor coloca sobre ela, a China pode facilmente ganhar a guerra das tarifas, ou pelo menos impor a Trump um empate.

Desde os tempos de Ricardo que os economistas argumentam que restringir as importações reduz o bem-estar dos consumidores e dificulta o crescimento da produtividade. Mas não é essa a principal razão pela qual Trump será forçado a ceder na guerra comercial. Para avaliar as respetivas forças no conflito entre estas duas potências, há um outro princípio económico – pouco invocado para explicar a futilidade da ameaça das tarifas de Trump – muito mais importante do que o conceito ricardiano de vantagens comparativas: a gestão keynesiana da procura.

Embora não haja dúvida de que as vantagens comparadas influenciam o bem-estar económico a longo prazo, o que determinará qual dos dois países se verá mais pressionado a pedir a paz comercial nos próximos meses serão as condições da procura. E de acordo com este critério, as tarifas de Trump são claramente prejudiciais aos Estados Unidos, mas não farão nenhuma mossa na China.

De um ponto de vista keynesiano, o resultado de uma guerra comercial depende principalmente de se os concorrentes estão em recessão ou se estão perante uma procura agregada relativamente elevada. Numa recessão, as tarifas podem estimular a atividade económica e o emprego, embora ao preço de uma menor eficiência a longo prazo. Mas numa economia que opera ao nível do seu PIB potencial ou próximo, como é claramente o caso dos EUA agora, as tarifas só vão aumentar os preços e adicionar pressão ascendente sobre as taxas de juros.

Ao nível agregado, as empresas americanas não conseguirão encontrar trabalhadores dispostos a trabalhar por salários baixos para substituir os bens importados chineses; e mesmo aquelas poucas empresas que encontram nas tarifas uma força motriz para concorrerem contra as importações vindas da China teriam que aumentar os salários e construir mais fábricas, que contribuiriam para a pressão ascendente na inflação e nas taxas de juro. Dado a falta de capacidade excedentária, os investimentos novos e a contratação necessários para substituir os bens chineses seriam prejudiciais a outras decisões empresariais que eram mais rentáveis antes da guerra das tarifas com a China. Assim, a menos que as empresas americanas tenham a certeza de que as tarifas continuarão por muitos anos, elas não vão investir ou contratar mais trabalhadores para concorrerem com os produtos chineses.

Assumindo que as empresas chinesas estão bem informadas e conscientes disso, elas não vão reduzir os seus preços de exportação para absorver o custo das tarifas dos EUA. Isso vai forçar os importadores a pagar tarifas e a deslocarem o custo para os consumidores (o que irá acrescentar pressão sobre a inflação) ou para os acionistas, reduzindo os lucros.

Assim, as tarifas não serão uma “punição” para a China, como Trump parece acreditar, mas prejudicará primeiramente os consumidores e empresários americanos, como se fosse um aumento de imposto sobre as vendas.

Mas suponhamos que as tarifas podem excluir alguns produtos chineses do mercado americano. De onde é que viriam os substitutos importados ao preço que vêm da China?

Na maioria dos casos, a resposta é: de outras economias emergentes. Alguns bens de gama baixa, tais como sapatos e brinquedos, serão comprados no Vietnam ou na Índia. A montagem final de alguns equipamentos eletrónicos e industriais pode ser deslocada para a Coreia do Sul ou México. Alguns fornecedores japoneses e europeus podem substituir os fabricantes chineses de produtos de alta qualidade. Assim, numa medida muito limitada em que as tarifas possam ser “punitivas” para a China, o efeito sobre os outros mercados emergentes e sobre a economia global não será um “contágio” nocivo, mas sim um ligeiro estímulo à procura, resultante da substituição das exportações chinesas para os Estados Unidos.

É verdade que os exportadores chineses podem sofrer perdas ligeiras quando outros produtores se aproveitarem das nossas tarifas para substituí-los no nosso mercado. Mas utilizando a gestão da procura para compensar a perda de exportações para os EUA, a China pode anular qualquer efeito sobre o crescimento, o emprego e sobre os lucros das empresas. Nesse sentido, o governo já começou a estimular o consumo local e o investimento através da expansão monetária e da redução de impostos.

Mas as medidas de estímulo da China foram até agora cautelosas, tendo em conta o impacto negligenciável que as tarifas dos EUA têm sobre as exportações chinesas. Entretanto, se os sinais de um enfraquecimento das exportações começarem a aparecer, a China pode e deve compensar a perda com medidas adicionais para estimular a procura interna; em princípio, bastaria aplicar um estímulo keynesiano em larga escala para evitar qualquer dano decorrente de tarifas. Mas será que o governo chinês quer fazê-lo?

É neste ponto onde, paradoxalmente, o apoio bipartidário nos Estados Unidos a uma “política de contenção” em relação à China se vira contra Trump. Até agora, os dirigentes chineses têm sido relutantes em recorrer abertamente à aplicação de estímulos sobre a procura como uma arma na guerra comercial, devido ao forte compromisso assumido pelo presidente Xi Jinping de limitar o crescimento da dívida da China e de reformar o setor bancário.

Mas não há qualquer dúvida que esses argumentos da política financeira contra a implementação de uma política keynesiana são irrelevantes agora, uma vez que os Estados Unidos apresentaram a batalha tarifária de Trump como a primeira escaramuça de uma guerra fria geopolítica. É simplesmente impensável que Xi venha a dar mais prioridade à gestão dos problemas do crédito do que ganhar a guerra das tarifas e assim demonstrar a futilidade da estratégia americana de contenção da China.

Isto levanta a questão de saber como é que Trump reagirá quando as suas tarifas começarem a prejudicar as empresas e os eleitores americanos, enquanto que a China e o resto do mundo não estarão a ser atingidos por elas. A resposta provável é que Trump seguirá o precedente dos seus conflitos com a Coreia do Norte, a União Europeia e o México: proporá um “acordo” que não consegue alcançar os seus declarados objetivos, mas que lhe permitirá vangloriar-se de uma “vitória” e justificar a beligerância verbal que excita os seus apoiantes.

A técnica retórica surpreendentemente bem-sucedida de Trump de “começar a gritar e acabar a mostrar a bandeira branca” ajuda a explicar a coerente incoerência da sua política externa. A guerra comercial EUA-China é suscetível de nos oferecer o próximo exemplo disso mesmo.

 

________________________________

O autor: Anatole Kaletsky é economista-chefe e co-presidente da Gavekal Dragonomics. Ex-colunista do Times of London, do International New York Times e do Financial Times, é o autor de Capitalism 4.0, The Birth of a New Economy, que antecipou muitas das transformações pós-crise da economia global. O seu livro de 1985, Costs of Default, tornou-se uma cartilha influente para os governos latino-americanos e asiáticos negociando incumprimentos e reestruturações com os bancos e o FMI.

 

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2019/06/13/sobre-as-razoes-que-estao-na-base-dos-focos-de-tensao-entre-a-china-e-os-estados-unidos-19-porque-razao-os-estados-unidos-perderiam-uma-guerra-comercial-com-a-china-por-anatole-kaletsky/

Importações norte-americanas de petróleo venezuelano estão no nível zero por 3 semanas consecutivas

Um barco-patrulha venezuelano passa pelo petroleiro Kim Jacob carregando 1 milhão de barris de petróleo bruto no estado oriental de Anzoátegui, na Venezuela.
© AP Photo / El Nuevo Dia,Omar Perez

A crise política na Venezuela tem se agravado desde o início deste ano, quando o líder da oposição Juan Guaidó se autoproclamou presidente interino do país.

Caracas tem acusado Washington de tentar orquestrar um golpe de Estado para assumir o controle dos vastos recursos energéticos que o país latino-americano possui.

As importações norte-americanas de petróleo venezuelano estão no nível zero já há 3 semanas consecutivas, segundo dados do relatório semanal da Agência de Informação Energética.


O relatório nota como comparação que, no período homólogo do ano passado, os EUA importavam 663.000 barris de petróleo da Venezuela por dia.

Esta já é a terceira paragem absoluta desde janeiro. Em março, os EUA suspenderam todas as importações de petróleo venezuelano por um período de 3 semanas. No mês de maio, as importações estiveram no nível zero por 2 semanas.

Washington introduziu sanções contra a empresa petrolífera estatal da Venezuela PDVSA no fim de janeiro deste ano, se apoderando de ativos da empresa no estrangeiro no valor de cerca US$ 7 biliões, incluindo uma rede de postos de gás da empresa filial Citgo.

O Departamento do Tesouro dos EUA proibiu as empresas norte-americanas de fazerem negócios com a estatal venezuelana sob pena de sanções adicionais.

Washington criou também um fundo de reserva para financiar a oposição com o dinheiro apreendido da empresa estatal PDVSA.

Recentemente, o presidente venezuelano acusou a oposição de ter roubado as receitas provenientes do petróleo que pertencem ao povo venezuelano.

As sanções e, na prática, o embargo tiveram forte impacto nas exportações de petróleo venezuelano, e levaram Caracas a procurar mercados alternativos e a assinar acordos de cooperação com outros países.


No início do ano, segundo a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEC, na sigla em inglês), as exportações de petróleo da Venezuela caíram de 1,4 milhões de barris por dia, antes de os EUA terem imposto as sanções em janeiro, para 800.000 barris por dia em abril.

Na semana passada, o ministro do Petróleo da Venezuela, Manuel Quevedo, disse que a empresa estatal PDVSA irá abrir um escritório em Moscou no fim deste mês.

A Venezuela possui uma das maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, com cerca de 90% das receitas do país a serem provenientes da venda deste combustível.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019061314051253-importacoes-norte-americanas-de-petroleo-venezuelano-estao-no-nivel-zero-por-3-semanas-consecutivas/

Trump mostra por acaso acordo 'secreto' entre EUA e México (FOTOS)

Um colaborador do jornal Washington Post conseguiu fotografar e decifrar parcialmente o acordo "secreto" entre os EUA e o México que o presidente norte-americano mostrou de longe aos jornalistas.

O repórter Jabin Botsford, do jornal Washington Post, tirou uma foto do documento dobrado e lá se consegue ler algumas coisas.

Anteriormente, Donald Trump afirmou que a parte principal do acordo com o México ainda não tinha sido publicada.

​"O governo do México tomará todas as medidas necessárias no âmbito da legislação interna para pôr em vigor o acordo com vista a garantir que o acordo entre em vigor dentro de 45 dias."

Mas o chanceler mexicano Marcelo Ebrard o desmentiu, dizendo que as condições do acordo foram reveladas na semana passada.

 

EXCLUSIVO: Está visível no documento de Trump: "tal acordo seria... obrigações legais interiores e internacionais das partes, um empenho no âmbito do qual cada parte aceitaria o retorno e processamento das reivindicações de estatuto de refugiado, de cidadãos de terceiros países que tenham atravessado esse território dessa parte do acordo"

Mais tarde na terça-feira (11), Ebrard confirmou que o México pode voltar à discussão da proposta norte-americana sobre um "terceiro país seguro" para os refugiados, caso as medidas próprias desse país para prevenir a migração para os EUA não sejam eficazes.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019061214047754-trump-mostra-por-acaso-acordo-secreto-entre-eua-e-mexico-fotos/

Sobre as razões que estão na base dos focos de tensão entre a China e os Estados Unidos – 18. Um saco de correspondência picante sobre a China. Por John Mauldin

Tensão EUA China 0

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

18. Um saco de correspondência picante sobre a China

john mauldin Por John Mauldin

Publicado por mauldin economics logo em 12 de outubro de 2018 (texto original aqui)

18 Um saco de correspondência picante sobre a China 1

Um aspeto estranho de quem escreve é de que nunca sabemos antecipadamente o que vai excitar os leitores. Já escrevi textos que eu pensava serem muito provocadores e tive principalmente como reação leves bocejos.

O texto da semana passada sobre défice comercial gerou algumas reações bem acesas. A resposta foi imediata e, em muitos casos, bastante apaixonada em ambas as direções. Recebi emails de velhos amigos e leitores de longa data dizendo-me que era o meu melhor texto desde há anos para cá. Outros diziam que eu tinha perdido o sentido das coisas e me tinha passado para o mundo do não sentido. De facto, a minha inteira série da China gerou muitas respostas. Evidentemente, passei por cima das menos relevantes.

Eu sempre apreciei que haja reações aos meus textos mesmo quando são negativas. A nossa equipa recolhe as reações dos media sociais, os tópicos dos comentários no nosso site, nos e-mails, e provavelmente por outras vias igualmente que desconheço. Eles produzem um curto relatório com estas informações e distribuem-no pela equipa. Quando esses textos são recebidos na meu e-mail dou-lhes a prioridade máxima e leio-os todos. Aprendo sempre bastante. Há um número surpreendente de pessoas inteligentes e de exposições bem articuladas que leem os meus textos. Por isso, hoje, vou apresentar alguns comentários dos meus leitores que me foram enviados desde semanas recentes e, a partir daí, tentarei explicar alguns dos meus pontos de vista que não tenham ficado claros.

Sendo certo que é quase sempre perigoso fazer associações apressadas, as respostas geralmente dividem-se em “John, o senhor disse-o claramente e eu desejo que muita gente leia este seu texto,” e em “John, o senhor simplesmente não compreende o perigo que a China representa, seja geopoliticamente seja em termos comerciais, e temos que parar com a batota que eles fazem”.

Como eu leio as respostas, percebi que o meu texto não tinha todas os matizes que eu pensava ter colocado. Além disso, eu precisava de afinar algumas das minhas ideias. Para não nos alongarmos muito, vou ignorar os comentários positivos e concentrar-me apenas em alguns (de muitos) que são contra as ideias por mim expostas. Eu escolhi alguns (poucos) exemplos, porque uma visita correta sobre as tarifas daria para escrever um livro completo.

Devo aqui referir que apresentamos mais ligeiramente alguns destes textos por uma questão de maior clareza. Posta esta nota, avancemos pois.

Práticas predatórias

Aqui está Lawrence Brady respondendo ao texto sobre O défice comercial não é o bicho-papão.

Em termos puramente económicos, eu não poderia estar mais de acordo consigo. No entanto, há um jogo muito mais importante que está aqui a decorrer e que substitui a discussão posta somente em termos de PIB.

Em condições equitativas de concorrência, a especialização é a maneira mais eficaz de criar oportunidades e de minimizar custos. Neste caso, o desafio é tanto mais importante quanto não existe nenhuma lei internacional antitrust Sherman que impeça a monopolização e o controle eventual de todos os aspetos da cadeia global de abastecimento.

As práticas predatórias da China com padrões de produção não regulamentados/espionagem industrial e violação de protocolos de segurança dos Estados Unidos são indicativos de guerra económica. Evidentemente, melhor do que a alternativa de ações nucleares ou de armas convencionais, os resultados podem ser os mesmos, se se deixasse de verificar esta situação.

Assim, eu penso que nós precisamos de olhar para além das relações da importação/exportação e das reservas em divisas. Trata-se de uma guerra fria por outros meios ditando um novo paradigma na análise.

John: A nota de Lawrence representa a de muitas outras pessoas que disseram compreender os défices comerciais, mas pensam que a China é uma ameaça única que merece uma resposta mais forte.

Como já disse muitas vezes, eu concordo com isso. Não disse que a China é irrepreensível, nem disse que os Estados Unidos devem ignorar as práticas comerciais desleais da China. Eu disse que as tarifas não são a resposta certa para o défice comercial, pois que este não é um grande problema e seria um ainda um problema muito menor se resolvêssemos as outras questões que Lawrence menciona. A questão é como fazer isso.

Permitam-me reformular e realçar o seguinte: a utilização de tarifas para reduzir o défice comercial é economicamente irracional. Não vai funcionar. As tarifas têm as suas utilizações, uma vez ou outra, mas são perigosas se utilizadas de forma fortuita ou em circunstâncias erradas. Eu não sou contra as tarifas enquanto tais, mas sou contra as tarifas como uma arma contra “o défice comercial.” O que não é um problema, pelo menos se estamos a falar dos Estados Unidos e se a moeda de referência ou de reserva é a nossa. Especialmente para nós se temos o dólar como a moeda de reserva no mundo.

Suponho que as tarifas cuidadosamente orientadas poderiam ser parte da resposta aos problemas que Lawrence descreve, mas isso não é o que os EUA estão a fazer. Estamos, na verdade, a atirar munições de artilharia {pesada] em alvos de papel. É peça pesada e emocionalmente satisfatória, mas não atinge o alvo real. Também atinge muitos transeuntes inocentes que por acaso se encontram na área.

Parte do problema real que está aqui em jogo é que China começa a utilizar um livro de regras diferente. A Organização Mundial do Comércio permite que os Estados membros se definam a si-mesmos como países “em desenvolvimento”. É um pouco como um teste de livro aberto onde se sabe as perguntas de antemão, mas que alguns outros estudantes têm que estudar. As regras da OMC dão aos países em desenvolvimento, como a China se considera, certos direitos adicionais. (Explicar-vos isto levar-nos-ia longe e para terrenos muito áridos: se quer saber mais consulte aqui.)

Será a China um país em desenvolvimento? Isso é complicado. Muito do seu vasto e empobrecido interior e do seu extremo ocidente, seguramente não são “desenvolvidos”. Mas a costa oriental rica e algumas centenas de milhas para o interior é tão desenvolvida como muitos países ocidentais. Então, a China é realmente as duas coisas.

O leitor poderia dizer o mesmo sobre os EUA, já agora. Nova York e San Francisco (e Dallas!) são cidades de classe mundial, enquanto partes de Appalachia, Maine, e do Sul rural são relativamente tão pouco desenvolvidas quanto algumas das regiões mais pobres da China. Os EUA deveriam considerar-se a si-mesmo um país em desenvolvimento e reivindicar uma proteção da OMC? Talvez devesse ser o caso se usarmos o padrão chinês. Por esse padrão, cada país é um país em desenvolvimento uma vez que a distribuição de rendimento varia de região para região.

O que realmente precisamos é que a China admita que já não merece as mesmas proteções que outros países verdadeiramente em desenvolvimento recebem da OMC. Pequim quer ser uma grande potência? Bem. Vista-se como adulto e pode ter um lugar na mesa dos adultos.

Na minha opinião, as tarifas não são o caminho para forçar a China a tomar este rumo. As tarifas são um instrumento grosseiro numa situação que precisa de mais subtileza. A estratégia americana parece dirigida a fazer Xi Jinping sentir-se tão duramente atacado que se vai render e fazer o que Trump lhe diz para fazer. Isso nunca vai acontecer. Xi pode ser Presidente até ao fim da sua vida, mas há ainda restrições políticas que ele tem de respeitar.

Se as tarifas não funcionarem, o que é que irá funcionar? Negociações pacientes, metódicas e privadas em aliança com os outros países aos quais as práticas da China estão a prejudicar. A Europa e o resto do mundo têm as mesmas questões. Isso levaria tempo, mas acho que se tem uma probabilidade muito melhor de sucesso. As tarifas só devem ser utilizadas como último recurso.

Melhor ainda, evitaria o dano que as tarifas já estão a começar a impor. O que nos leva à próxima carta…

Discurso de guerra

Joann Middlestead escreve:

O problema não é económico. O problema com a China é o roubo da propriedade intelectual – e o facto de que SE a guerra rebentar nós poderíamos encontrarmo-nos como os Estados do Sul contra os do Norte, que tinham todas as instalações da indústria transformadora que lhe permitira de ganhar a guerra.

Como a China se torna mais e mais modernizada e mais e mais competitiva, eles irão tentar ser a superpotência do Mundo (e que não haja aqui nenhuma dúvida). Assim, os EUA precisam de fazer regressar a casa os empregos que deslocalizaram, ou seja, precisam de relocalizar as indústrias entretanto externalizadas, com a capacidade industrial que nos permita ganhar a guerra utilizando os nossos recursos e a capacidade de alimentar e vestir o população quando a guerra estiver a decorrer.

John: Como disse acima, eu concordo com Joann no que se refere à propriedade intelectual. No entanto, quero delicadamente discutir o discurso sobre a guerra.

Primeiramente, a China não tem nenhum interesse em começar uma guerra com os Estados Unidos. Se por algum azar as coisas correrem mal, esta guerra não se pareceria em nada com a Guerra da Secessão nos EUA ou mesmo com a Segunda Guerra mundial. Aconteceria principalmente no ciberespaço e no espaço sideral. A nossa base da indústria transformadora interna não estaria tão em vantagem como estava há um ou dois séculos. Aqueles que pensam assim são parecidos com aqueles generais que estão a fazer a sua última guerra.

Alimentar a população também não é problema. Os Estados Unidos são um exportador líquido de bens alimentares. Podemos ter que viver sem alguns manjares (embora não me ocorra o que é que me poderia vir a faltar), mas não vamos morrer de fome sem importações.

Mas o que realmente me incomoda sobre a nota de Joann (e muitos outros como ele) é essa vontade casual de ir para a guerra – seja guerra comercial ou um conflito militar. A guerra destrói as pessoas de ambos os lados. Devemos fazer tudo o que pudermos para a evitar.

Uma guerra comercial completa com a China não significaria simplesmente que teríamos de apertar os nossos cintos. Estaríamos a sacrificar grandes partes de nossa própria economia e população, estaríamos a paralisar empresas inteiras e até mesmo indústrias.

Está aqui uma carta de Gavekal que mostra a dependência das empresas dos semicondutores dos Estados Unidos das vendas da China.

18 Um saco de correspondência picante sobre a China 2

Algumas destas companhias morrerão se nós cortarmos o comércio com a China ou se a China aplicar tarifas similares. A maioria dessas empresas tem concorrentes muito sofisticados em outros países. Estas nossas empresas vão perder as suas posições nos mercados abertos e eventualmente deixarem a sua atividade, os seus trabalhadores vão perder os seus empregos e o valor das suas ações vai cair a pique podendo cair até zero. Inúmeras pequenas empresas que as abastecem de produtos intermediários irão à falência.

Só esse choque pode forçar a nossa economia para uma situação de recessão e os preços das ações para uma situação de mercado de tendência à baixa, mas haverá muitos outros setores que seriam igualmente muito atingidos.

Muitos falcões comerciais que querem correr esse risco parecem ignorar os seus custos. Eles estão errados e, dadas as nossas outras tensões sociais, temo uma catástrofe se escolhermos assumir isso por nós mesmos.

Se o leitor discordar, deixe-me perguntar-lhe isto: o que é que está disposto a perder? Será que a China vale a pena perder o seu emprego ou passar a ter os seus impostos a subirem e os seus rendimentos a descerem? Se você possui uma atividade empresarial, acha que será capaz de encontrar fontes internas para tudo o que precisa para a sua atividade? E ter de pagar preços mais elevados que não pode transpor para os seus clientes, porque eles vão estar também em graves dificuldades?

Tudo isso é desnecessário. Nós podemos obter o que nós queremos da China sem impor uma tal destruição e sofrimento. Mas exigirá uma estratégia de negociação diferente da que temos vimos a fazer até agora.

Controlo de qualidade

David Oldham escreve:

A China parece estar a inundar o mundo com produtos que têm uma qualidade de lixo, ou então será que só enviam esse lixo para o Reino Unido? Quase tudo o que está marcado como “Made in China” é de extrema baixa qualidade, com exceção dos produtos da Apple, que eu suponho estarem sujeitos aos inspetores de controle de qualidade da Apple. Este é um problema real no Reino Unido, especialmente onde a segurança é um importante fator- barcos e peças de montagem, por exemplo.

Eu creio que uma grande parte dos bens chineses exportados para o Reino Unido acabam por ser reenviados para a China para reciclagem. Eu questiono-me se todo o plástico destinado a tratamento de reciclagem não acabe ele por ser colocado nos nossos oceanos. Eu tenho uma visão muito diferente da China do que o senhor, John Maudling. Para mim, eles são uma gigantesca praga pública.

John: Eu concordo em parte com o que diz, David. Certamente, muitas das exportações da China para o Ocidente são de baixa qualidade ou até mesmo falsificadas. Isso faz parte das reformas da propriedade intelectual que o governo Trump está a exigir. É um problema sério, como diz.

Eu discordaria que “quase tudo” que são exportações de China é de baixa qualidade. O governo tem estado agressivamente a forçar as empresas (estatais ou equivalentes) a fabricarem produtos mais sofisticados. Eles têm pouca escolha, na verdade. Outros países asiáticos e africanos estão rapidamente a tomar parte do mercado nos segmentos de fabrico relativamente simples, porque os seus custos de trabalho são muito mais baixos do que a China. Isso irá continuar.

Isso leva-me a uma questão que o meu amigo Andy Kessler levantou tão bem no Wall Street Journal na semana passada. Não é realmente desejável estar a querer produzir todos os produtos de baixo valor acrescentado nos EUA. Como ele disse:

Essa é a falácia da guerra tarifária de hoje com a China: destina-se a salvar empregos, mas acaba por destruir os melhores. Até agora, sente-se que todas as importações chinesas com exceção dos iPhones, é sujeita a tarifas em virtude do seção 301. Como o Presidente Trump disse em fevereiro, “Eu quero trazer a indústria siderúrgica de volta para o nosso país. Se para isso é necessário aplicar tarifas, apliquem-se então tarifas, de acordo? Talvez isso vá custar um pouco mais, mas vamos ter empregos”.

Mas nem todos os empregos são igualmente desejáveis. São os lucros, não as vendas, que criam riqueza. Devemos investir ao longo do tecido de produtividade. Empregos em nome do emprego, destrói a riqueza. Salvar Detroit foi um erro. Devem as sapatilhas Nike realmente serem fabricadas em Oregon?

Devíamos ler uma página do livro do PlayBook para Singapura de Lee Kuan Yew e pensar sobre que trabalhos e empresas servem melhor os interesses americanos. Singapura foi uma vez uma nação de cadeias de montagem e de fabricantes de T-shirt. Mas ao longo do tempo, Singapura avançou na cadeia alimentar das atividades empresariais e agora está entre os mais avançados.

Ironicamente, algum trabalho têxtil está a regressar aos EUA, mas é automatizado e traz relativamente poucos empregos. Formalmente, trabalhos de montagem e de fabrico de mão-de-obra intensiva estão a voltar para os EUA, mas os empregos, salários e lucros estão mais acima na escala.

Destino manifesto

Jeffrey Ho escreve:

Acabei o meu período de férias de um mês a viajar pela China. Foram 2500 quilómetros de viagem através da China ocidental. Os sinais de um boom económico estão visíveis por todo o lado. Embora ainda não haja cidades de nível 1 ou 2 na zona ocidental (somente duas cidades ocidentais, Lanzhou e Urumqi, são consideradas de nível 3), até mesmo as cidades pequenas de um milhão ou menos contam agora com estações de comboio ou de autocarros modernas e aeroportos que rivalizam ou ultrapassam mesmo o melhor do que há na América.

Uma fortíssima expansão da construção é evidente através da clássica Rota da seda. As cidades pequenas que não tinham visto a construção de um edifício novo desde há 50 a 100 anos estão agora a ser reconstruídas com os elevados condomínios modernos exatamente ao lado da parte velha de cada uma dessas cidades. O que eles mais têm nas províncias de Gansu, Qinghai, e Xinjiang é espaço. Xinjiang, a província mais ocidental, é 3 vezes a área da França.

Gansu, outrora uma zona muito atrasada e empobrecida, que era na sua maior parte deserto, é agora parte de uma China profunda verdejante com técnicas modernas de irrigação, com uma agricultura modernizada e em que se conseguiu regular e controlar as águas do Rio Amarelo. Para se ter uma melhor perspetiva, Lanzhou, a capital da província de Gansu, é o centro geográfico da China. Isto significa que com a engenharia moderna e o progresso na agricultura se transformou grande parte do deserto em terra produtiva, e que a China está agora a começar a concretizar o seu Destino Manifesto.

A viagem em comboio de alta velocidade foi quase uma monótona. Como passageiro não se poderia sentir que se estava a viajar a mais de 200 kms hora através do deserto exceto se olharmos para o indicador LED dentro da carruagem. Os outros passageiros estavam todos sentados nos seus lugares marcados sem ninguém deitado nos corredores, sem nenhum produto agrícola ou animais vivos, e o único incómodo talvez tenha sido o facto do condutor incessantemente vir certificar-se que a bagagem colocada na bagageira acima de nós estava perfeitamente no lugar. Se há um sinal de que a China alcançou a sua maior aspiração de ser uma Nação do Primeiro Mundo, é este indicador.

John: Obrigado Jeffrey pelo seu relato feito a partir da própria China. Primeiro deixe-me dizer que fiquei invejoso da sua viagem. Quem me dera poder ter um mês para poder fazer o mesmo. Ou talvez eu deva tomar a decisão e ter um mês para fazer o mesmo. Eu gosto especialmente do que diz sobre sobre as “pequenas” cidades de um milhão ou menos! Embora não tenha viajado nos comboios chineses, eu andei por toda a Europa de comboio. A velocidade e o conforto são quase inimagináveis para a maioria dos americanos. Não compreendo porque é que insistimos em andar de avião ou de automóvel para todo o lado. Eu prefiro, de longe, os comboios quando temos essa possibilidade disponível.

Mais interessante, talvez, é a ideia de que o desenvolvimento de Leste a Oeste da China espelha o “destino manifesto”, ideia que levou os Estados Unidos a expandir-se no mesmo sentido e por razões similares: terra abundante, barata e recursos naturais. Uma diferença é que nós tínhamos um oceano a esperar-nos do outro lado, enquanto a China tem montanhas e desertos. No entanto, os projetos inseridos no Projeto Uma Cintura, uma Estrada (One Belt, One Road) estão a abrir o lado ocidental da China de uma forma que é muito parecida com o facto de que o Pacífico deu os EUA novos mercados de exportação.

E como o Projeto Uma Cintura, uma Estrada se estende para os mercados europeus e, literalmente, para todo o continente eurasiano, este irá inevitavelmente atrair investimento, talentos empreendedores, e ainda mais construção e infraestruturas. O potencial de crescimento é assombroso.

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O autor: John Mauldin: reputado especialista financeiro, com mais de 30 anos de experiência em informação sobre risco financeiro. Editor da e-newsletter Thoughts from the Frontline, um dos primeiros boletins informativos semanais proporcionando aos investidores informação e orientação livre e imparcial. É presidente da Millennium Wave Advisors, empresa de consultoria de investimentos. É também presidente de Mauldin Economics. Autor de Bull’s Eye Investing: Targeting Real Returns in a Smoke and Mirrors Market, Endgame: The End of the Debt Supercycle and How It Changes Everything, Code Red: How to Protect Your Savings from the Coming Crisis, A Great Leap Forward?: Making Sense of China’s Cooling Credit Boom, Technological Transformation, High Stakes Rebalancing, Geopolitical Rise, & Reserve Currency Dream, Just One Thing: Twelve of the World’s Best Investors Reveal the One Strategy You Can’t Overlook e The Little Book of Bull’s Eye Investing: Finding Value, Generating Absolute Returns and Controlling Risk in Turbulent Markets.

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2019/06/12/sobre-as-razoes-que-estao-na-base-dos-focos-de-tensao-entre-a-china-e-os-estados-unidos-18-um-saco-de-correspondencia-picante-sobre-a-china-por-john-mauldin/

Estados Unidos vendem armas para sauditas para 'prevenir que China e Rússia ocupem este vácuo'

Secretário interino de Defesa dos EUA, Patrick Shanahan
© AP Photo / Jacquelyn Martin

Os Estados Unidos estão empenhados em fornecer armas à Arábia Saudita e aos Emirados Árabes Unidos como parte de um esforço para evitar que a China ou a Rússia preencham este vácuo, disse o secretário de Defesa dos EUA, Patrick Shanahan a repórteres durante encontro com o homólogo georgiano.

"A situação com a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos é: como podemos fornecer-lhes as vendas militares para se defenderem? E realmente o coração de tudo isso está sendo responsivo neste ambiente de alta ameaça e, secundariamente, se eles não comprarem dos Estados Unidos, dos quais somos um parceiro muito forte, então, por razões de segurança, precisam ir para a China ou para a Rússia", disse Shanahan na terça-feira.

Na semana passada, a Comissão de Relações Exteriores do Senado disse em um comunicado que seus membros apresentarão 22 resoluções separadas para bloquear o acordo de armas do governo Trump com a Arábia Saudita - e com os Emirados Árabes Unidos - e reafirmar o papel do Congresso de aprovar governos estrangeiros.


Os senadores disseram que a maneira pela qual o governo Trump avançou com a venda de armas é sem precedentes e está em desacordo com a prática e cooperação de longa data entre o Congresso e o Executivo.

Os Estados Unidos têm um pacote de armas de US $ 8,1 bilhões concluído com a Arábia Saudita, que inclui 120 mil bombas guiadas com precisão, suporte para caças F-15 da Arábia Saudita, morteiros, mísseis antitanques e rifles calibre .50.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/mundo/2019061114044263-estados-unidos-armas-para-sauditas-china-e-russia/

Trump contra China e a loucura de uma guerra comercial

Mais uma vez Washington e Pequim se castigam mutuamente com sobretaxas. Para os chineses, porém, não há muito mais opções de retaliação, e no fim das contas o mundo todo pagará o prejuízo, opina Henrik Böhme.
Preservativos, perfume, vinho, pianos, violinos e tequila: a lista das mercadorias americanas a que os chineses querem impor sobretaxas já deixa claro que eles estão em desvantagem. Mais uma vez, eles estudaram tudo o que podem tarifar, chegando a um total de 60 bilhões de dólares.

Para Donald Trump é fácil retaliar, pois as últimas tarifas impostas por ele chegaram a 200 bilhões de dólares. E a Casa Branca já está considerando encarecer drasticamente todas as demais importações da China. Pequim não tem mais como reagir, a não ser aumentando as sobretaxas, mas não com novas sanções. Então, o que está por vir?

De início, os chineses endureceram o tom em relação aos Estados Unidos: "Depois não digam que não avisamos vocês", foi a manchete de um artigo do jornal do Partido Comunista sobre a possível falta de terras raras, matéria-prima sem a qual não há indústria de alta tecnologia, smartphones, nem automóveis. Nesse ponto, os EUA são extremamente dependentes da China, pois de lá vem 80% das terras raras que utilizam.

A agência de notícias estatal Xinhua adotou o tom belicoso: em sua história, a República Popular da China "nunca abaixou a cabeça nem temeu ninguém". Sua nova resposta é uma "lista negra" própria, com as firmas estrangeiras "não confiáveis". Soa tudo muito drástico, a questão é se será capaz de amedrontar um Donald Trump.

E no entanto, o presidente chinês, Xi Jinping, é seu melhor amigo, assim como o ditador da Coreia do Norte, Kim Jong-un. Só que no momento o conflito está tão avançado, que será difícil tirar a carroça do atoleiro. Para tal, dificilmente bastará o encontro planejado para o fim de junho, no âmbito da cúpula do G20 em Osaka, Japão.

Pois o homem forte da China jamais concederá o que se exige dele – uma verdadeira abertura de mercado, renúncia ao roubo de know-how econômico, etc.: isso colocaria em risco a meta declarada de Xi, de transformar seu país na potência mundial número um.

Então será que a China vai tirar sua próxima arma do armário? Afinal, ela é a maior credora dos EUA, nos cofres de seu banco central estão mais de 1 trilhão de dólares em títulos públicos americanos. Pois aquela que ainda é a maior economia do mundo vive de empréstimos e dependendo de que outros financiem sua prosperidade.

Será que a China vai parar de comprar os títulos americanos? Ou até mesmo colocar no mercado o seu contingente? Isso seria concebível, mas não inteligente. Embora recentemente ela tenha por várias vezes vendido títulos americanos, foi sempre com a finalidade de respaldar a economia doméstica, que sem dúvida sofre mais com a guerra comercial do que os Estados Unidos.

Se o banco central chinês colocasse no mercado um grande volume de títulos americanos, o valor destes cairia drasticamente, e o maior afetado seria quem detém o maior número dos papéis – que é, justamente, a própria China.

Restaria a guerra monetária. Há muito irrita os chineses o fato de o dólar ser a moeda de referência mundial. Os americanos, por sua vez, acusam-nos de debilitar artificialmente a própria moeda, o yuan. Embora isso não seja fácil de provar, tampouco é fácil alterar a questão da moeda de referência. Aqui há outras partes interessadas, já que 60% das reservas do mundo são em dólar, em grande parte graças à China, com suas compras de enormes quantidades de títulos públicos dos EUA.

No momento, pelo menos, os únicos capazes de enfraquecer o dólar são os próprios americanos. Quando a conjuntura do país começar a sofrer, quando o efeito dos benefícios fiscais de Trump se esgotar, aí o banco central americano terá que imprimir mais dinheiro, enfraquecendo o dólar.

O resultado é uma situação complicada, sem solução à vista, até porque Trump acaba de reacender com o México um conflito comercial que se acreditava estar pacificado. No fim das contas, os danos com que a economia mundial já arca deverão afetar a todos. No fim, quem paga o pato, como sempre, são os trabalhadores e funcionários, consumidores e contribuintes.
Henrik Böhme | Deutsche Welle | opinião

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/06/trump-contra-china-e-loucura-de-uma.html

Sobre as razões que estão na base dos focos de tensão entre a China e os Estados Unidos – 17. O défice comercial não é o bicho-papão. Por John Mauldin

Tensão EUA China 0

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Sem com isso retirar a importância e a excelência da análise de John Mauldin, não podemos deixar de chamar a atenção do leitor para a questão de que para baixarem o seu défice comercial seria necessário os americanos pouparem mais, porque consomem demasiado. Michael Pettis em texto editado neste blog em 5 e 6 de novembro de 2018, intitulado O défice comercial dos EUA não é provocado pelo baixo nível de poupança nos EUA (aqui e aqui) analisa criticamente, e muito lucidamente, o erro de perspetiva a que pode conduzir uma análise mecanicista da aritmética de base da balança de pagamentos. Como diz Michael Pettis, em jeito de conclusão,

“Se tenho razão, então não é certo que os Estados Unidos tenham um défice da balança corrente porque os americanos poupam muito pouco. É exatamente o contrário: os americanos economizam muito pouco porque os Estados Unidos têm um défice de balança corrente ou porque têm um excedente na balança de capital: as entradas de capital estrangeiro deprimem automaticamente a poupança americana.”

JM

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17. O défice comercial não é o bicho-papão

john mauldin Por John Mauldin

Publicado por mauldin economics logo em 5 de outubro de 2018 (texto original aqui)

17 O défice comercial não é o bichopapão 1

Tenho que confessar uma coisa: eu tenho um enorme défice comercial. Não é com a China nem com o México, mas com a Amazon. Eu compro todo o tipo de bens à Amazon e Jeff Bezos [fundador e presidente da Amazon] ainda tem que gastar um cêntimo comigo. Não é justo.

Parece ridículo? Isso é exatamente o que é. Totalmente absurdo. Eu gosto da Amazon. Estou feliz com os itens que a empresa me envia vindos do estrangeiro e (eu presumo) a Amazon está feliz por receber o meu dinheiro. Ganhamos ambos com isso.

O mesmo tipo de relacionamento existe entre os EUA e a China, embora com algumas reviravoltas que discutiremos abaixo. Isso não quer dizer que a China seja um menino de coro da política comercial, mas o défice comercial não é o problema-chave. Tentar “consertá-lo” não vai levar a conseguir o que queremos e pode ter sérios efeitos colaterais.

Os défices comerciais ou excedentes não são maus nem bons. São uma característica natural das economias que já largaram a troca direta e que estão situadas no quadro da chamada divisão internacional do trabalho… por outras palavras, um sinal do sucesso. Para certos países, há momentos em que os défices comerciais simplesmente não fazem nenhuma diferença. E há momentos em que podem ser devastadores. Tudo depende do excedente da balança corrente, um conceito de que iremos falar mais abaixo, e/ou se a moeda do país tem estatuto de moeda de reserva. Não é difícil de entender, então vamos avançar.

Nada a temer

O Presidente Trump parece pensar que o país com um défice comercial automaticamente está a “perder” a favor do país que tem um excedente. Eu suspeito que esta sua visão das relações económicas internacionais vem da forma como ele dirigiu os seus negócios e da sua compreensão da dívida, mas as duas coisas não são idênticas, e até que ele compreenda que vamos falar sobre conceitos estúpidos como guerras comerciais e tarifas. Gostaria que os assessores dele o ensinassem.

Uma coisa que os leitores parecem apreciar nos meus textos é que eu tento tornar a informação complexa em informação simples, acessível. Hoje, vou tentar tornar mais simples uma coisa já de si bem simples.

Primeiro, simplesmente usar a palavra “défice” em conjunto com a expressão comércio internacional soa a má coisa para a grande maioria das pessoas. Todos nós sabemos que um défice nas nossas finanças pessoais significa que gastamos mais do que ganhamos, o que é mau.  E assim nós igualamos esse tipo de défice com a ideia de défice comercial. Isto faz um grande tema político e uma maravilhosa demagogia. Os défices comerciais e o populismo andaram sempre juntos durante séculos.

 

O que é um défice comercial?

Vamos fazer uma pausa aqui e definir os nossos termos. Um défice comercial ocorre quando a nação X compra mais bens e serviços (em valor) à nação Y do que Y compra à nação X. Neste exemplo, X tem um défice comercial com Y e Y tem um idêntico excedente comercial com X.

E isto funciona para com todos os outros países com os quais temos um défice comercial com ou excedente comercial. Nós compramos os bens deles e eles ficam com os nossos dólares.

Isto não é mal nenhum. Na verdade, é indiscutivelmente melhor para o lado dos EUA, porque a China (e todos os outros) aceitam a nossa moeda como pagamento, em vez de exigirem que obtenhamos renminbis para pagar a fatura. Os EUA podem fazer isso porque temos a moeda de reserva do mundo. É o que o ministro das Finanças francês (e mais tarde presidente) Valéry Giscard d’Estaing qualificou com desprezo de “privilégio exorbitante” na década de 1960, quando a França exigiu ouro em troca dos seus dólares. Isso levou Nixon a fechar a janela de ouro e terminou com o sistema de Bretton Woods. Isto parecia dramático, mas o dólar ainda era a moeda de reserva do mundo. Toda a gente ainda o queria.

D’Estaing e o seu presidente De Gaulle estavam certos: ser a moeda de reserva do mundo é um privilégio exorbitante. Pode-se argumentar que mais tarde o Japão teve privilégios semelhantes. A Europa e a zona euro e, até certo ponto, o Reino Unido também o têm, não na medida dos EUA, mas basicamente pelas mesmas razões. Eles também têm excedentes da balança corrente, o que significa que o dinheiro está a fluir de retorno para os seus países.

Isto remonta à doutrina da “vantagem comparativa” de David Ricardo que ele publicou em 1817. Tal como as pessoas, as nações têm talento assim como fraquezas. Todos estarão em melhor situação se todos fizermos as coisas que sabemos fazer melhor. Se China pode produzir algo a um custo mais baixo do que nós o podemos produzir nós mesmos, então ambos os países ganham se nós deixarmos que o façam.

Reconhecidamente, surgem problemas quando as vantagens relativas mudam. Talvez o vosso país seja realmente bom a produzir um determinado produto que uma nova tecnologia importada torna obsoleto. Isso não é bom para os trabalhadores cujos empregos desaparecem, embora os consumidores tenham agora acesso a um produto melhor e a um preço mais baixo. Mas, isso não é uma razão para aplicar tarifas ou medidas de proteção. Isto significa simplesmente que o país importador precisa de requalificar os seus trabalhadores e ajudá-los na transição para um trabalho diferente.

Matemática do Comércio Internacional

Agora vamos rever algumas matemáticas simples. Quase todos os economistas do mundo aceitam esta equação básica que expressa o PIB de cada país: Y = C + I + G + (X – M). Nesta igualdade Y representa o PIB do país, C representa o consumo, I representa os investimentos, G representa as despesas públicas e (X-M) representa as exportações menos importações, ou seja, (X-M) representa a balança comercial (exportações menos importações). Esta igualdade é chamada de identidade contabilística. Da mesma forma que 2 + 2 = 4, uma identidade contabilística é sempre e em toda a parte verdadeira.

Se o objetivo é reduzir ou eliminar o défice comercial dos EUA com a China (ou com qualquer outro país), serão as tarifas uma boa ferramenta para alcançar esse objetivo? Não, porque tarifas não afetam as causas subjacentes ao referido défice. Os défices comerciais não existem porque as importações dos EUA sejam demasiadas, mas porque os americanos consomem muito e economizam muito pouco.

Agora, se aceitarmos que a equação acima está correta, com algum rearranjo dos símbolos podemos apresentar a mesma equação de uma forma diferente. Continua ainda a ser uma identidade contabilística, como explica Steve Hanke. (O leitor pode ter que ler isto duas ou três vezes.)

Na contabilidade do rendimento nacional, podemos derivar da identidade anterior uma outra expressão que continua também a ser uma identidade. E esta é a chave para a compreensão do défice comercial.

(Importações – Exportações)≡ (Investimento – Poupança) + (Despesa pública – Impostos)

Tendo em conta esta identidade, que se mantém como identidade, o défice comercial é igual à diferença entre investimento do setor privado menos as poupanças, mais a diferença entre despesa pública e receitas fiscais. Assim, a contrapartida do défice comercial é a soma do défice do setor privado e do défice público l (federal + estadual e administração local). O défice comercial dos EUA, portanto, é apenas a imagem espelhada do que está a acontecer na economia nacional dos EUA. Se a despesa nos EUA ultrapassa os rendimentos criados, o que é o caso, as despesas adicionais serão constituídas, materializadas por um excesso de importações sobre as exportações (leia-se: por um défice comercial).

Isto é simplesmente matemática. Uma vez que os americanos consomem coletivamente mais do que produzem ou investem, a diferença deve vir de algures e essa diferença não cai do ar. (Contrair um empréstimo não ajuda em nada a resolver o problema porque o dinheiro emprestado em si-mesmo tem que vir de poupanças.) A única maneira de resolver a equação é importar o excesso de despesa, ou seja, ter um défice comercial.

Além disso, o défice comercial necessita de um excedente igual e de compensação na balança corrente. Tal como um indivíduo tem que receber o seu dinheiro de algures para poder gastar. Isto funciona da mesma forma para os países e significa que os estrangeiros têm de comprar coisas nos EUA, como seja bens imobiliários ou ações de empresas, ou as empresas dos EUA. investem o seu dinheiro no exterior e transferem os lucros para os Estados Unidos. Isto torna o défice comercial igual ao excedente da balança corrente.

Se o leitor não gosta deste resultado, pode modificá-lo por alguma combinação de redução do consumo e de poupanças mais elevadas. As recessões têm esse efeito, por isso são uma boa maneira de reduzir o défice comercial. A correlação inversa entre desemprego e défices comerciais é muito elevada. Mas penso que ninguém iria querer uma recessão apenas para se livrar do défice comercial. (Por favor, note a ironia.)

Ora, existem meios através dos quais o governo poderia incentivar um mais baixo consumo e poupanças mais elevadas, mas isso significaria uma mudança dramática do estilo de vida para muitos, se não para a maioria dos americanos. Teríamos que nos tornar mais como o Japão, por exemplo, onde as pessoas tendem a economizar uma parcela maior dos seus rendimentos e a viver mais frugalmente.

Uma vez que, como sabemos, milhões de americanos têm pouco excedente de rendimento para pouparem e já levam uma vida bastante frugal, é difícil ver que possa dar-se por aqui qualquer mudança, pelo menos por estes tempos mais próximos. Então a matemática diz-nos que vamos ter um défice comercial com alguém. Não tem que ser necessariamente com a China, mas a nossa economia não está feita para ser um exportador líquido. Nós podemos comprar as nossas T-shirt ao Vietnam ou no Paquistão em vez da China mas isso é, ainda assim, um défice comercial.

Porque é não podemos fazer T-shirts nos EUA? Porque elas nos vão custar mais, o que significa que os consumidores vão comprar menos, o que significa uma economia menor, com menos empregos. Eu sei que isto é contraintuitivo, mas isto é apenas a realidade de um mundo que Ricardo descreveu.

Mas a existência de um défice comercial, quando se pode viver com ele, também tem vantagens. Esta é a razão pela qual o dólar americano é a moeda de reserva do mundo. Nós “exportamos” enormes quantidades de “verdinhas” [notas de dólar] ao exterior para pagar todas as coisas que importamos. Os nossos parceiros comerciais têm de aceitá-los (em oposição a qualquer outra moeda), porque os EUA são um grande cliente. Nós temos na mão o grande bastão.

Melhor ainda, todos esses dólares, em última análise, voltam para os Estados Unidos porque eles são de uso limitado para os estrangeiros a quem nós os impomos. Os investidores chineses utilizam-nos para comprarem os nossos títulos do Tesouro ou outras compras. O dinheiro flui para outros países e empresas e, finalmente, volta para os EUA. A sua adicional procura leva o nosso Tesouro a ir aos mercados obter fundos a taxas mais baixas do que de outra maneira o poderia conseguir. Na verdade, o défice comercial subsidia a nossa dívida pública (que é muito alta, mas isso é outro assunto).

Assim, vemos que os défices comerciais não são necessariamente maus, mas isso não é tudo. Mesmo que nos quiséssemos livrar do défice comercial, não é claro que o pudéssemos fazer – sem que pelo menos se criem alguns efeitos colaterais sérios. Martin Wolf disse-o muito bem no Financial Times na semana passada.

Os economistas sérios, voltando a Adam Smith, insistiriam que procurar um excedente com todo e qualquer parceiro comercial não é “ganhar”. É um absurdo. Isto não é sequer mercantilismo inteligente, que se concentraria no saldo global. No entanto, particularmente com o livre movimento de capitais, o equilíbrio global é um objetivo tolo e que a política comercial nunca pode alcançar. É incrível que essas tão primitivas ideias determinem o comportamento do país mais sofisticado da terra.

A posição de Martin Wolf é bem vista. Se o equilíbrio da balança comercial de um país é uma coisa boa, isso depende muito das circunstâncias. Eles não são automaticamente bons ou maus. O défice comercial dos EUA é útil, como já descrevi, mas na Grécia, há alguns anos, foi altamente desastroso. O défice comercial interno dos países do Sul da zona euro para com a Alemanha (e com outros países europeus altamente produtivos) permitiu a estes países da periferia da zona euro acumular uma enorme dívida governamental, privada e de empresas, dívida esta que estes países não poderiam pagar. A Grécia foi apenas o primeiro país e a Itália está a preparar-se para ser agora o próximo.

Num mundo normal, quando a Grécia usava os dracmas, o valor da sua moeda teria descido e teria levado a que os cidadãos gregos fizessem menos importações. O que realmente aconteceu foi que toda a dívida se tornou exigível, forçando a imposição de uma fortíssima austeridade como uma espécie de desvalorização-sombra. Isto foi simplesmente brutal.

O excedente comercial correspondente da Alemanha com outros países da UE também não é necessariamente uma coisa excelente. Observe que no gráfico abaixo, a Alemanha é o terceiro maior exportador do mundo. A Alemanha não poderia fazê-lo com uma moeda forte como o Franco suíço. Isso funciona apenas porque está na zona euro com economias mais fracas. Um Volkswagen ou Mercedes-Benz valorizado em marcos alemães que custaria 50% mais não seria competitivo a uma escala global. A Alemanha vai aprender isso de maneira bem mais difícil antes de tudo isto acabar.

 

A criar uma crise

O que é curioso é que as mesmas pessoas que querem reduzir o défice comercial, muitas vezes se preocupam com a hipótese de o dólar perder o seu estatuto de moeda de reserva. Isso pode muito bem acontecer de qualquer maneira em algum momento de um futuro ainda distante, mas procurar reduzir o défice comercial só irá acelerá-lo.

O facto é que ao concordar em ser a moeda de reserva do mundo, e essencialmente fazendo com que a Reserva Federal seja o Banco central do mundo, nós concordamos em fornecer dólares para o resto do mundo para que eles possam funcionar como moeda internacional. Os Estados Unidos fizeram um trabalho notável ao terem funcionado com défices comerciais e fornecerem liquidez ao mundo. É o que meu amigo Paul McCulley chama de “responsavelmente irresponsável”. Se nós não tivéssemos fornecido esses dólares, o mundo encontraria uma outra moeda para poder com ela negociar e os EUA perderiam o privilégio exorbitante e as suas vantagens.

Já vimos as fases iniciais deste processo. Entre as tarifas relativamente pequenas que já estão em vigor e o medo do que mais está para vir, o dólar americano tem-se estado a valorizar contra outras moedas. (A política de contenção do FED tem algo a ver com isso, também.) Isto é exatamente uma questão de oferta e procura. A oferta de dólares fora dos EUA está a reduzir-se, tornando cada dólar mais valioso.

As consequências não são boas para os EUA. Por um lado, um dólar mais forte torna as exportações mais caras e incentiva os estrangeiros a procurarem alternativas aos bens produzidos nos Estados Unidos. Esse é o caso, mesmo sem as tarifas de retaliação que governos estrangeiros estão a colocar sobre muitas exportações americanas. Pior, o dólar mais forte penaliza todos os exportadores americanos, não apenas aqueles que são suficientemente azarados para serem atingidos pela aplicação das tarifas.

A outra consequência é ainda mais assustadora. Os governos e as empresas estrangeiras, particularmente as dos países emergentes de economia de mercado, devem milhões de milhões em dívida expressa em dólares. O dólar a aumentar de valor está a tornar mais caro pagar essas dívidas. Os governos e os bancos centrais estão a tomar medidas heroicas para os ajudar, mas não podem fazer grande coisa. Eventualmente, alguns entrarão em incumprimento. Então teremos uma crise monetária à moda antiga num mundo muito mais interligado e alavancado do que era em 1998.

Exatamente como é que isso se vai desenrolar, ou quando, não é claro. Mas há a possibilidade muito real de que isso pode acontecer. O génio está fora da garrafa e rodopiando por aí enquanto decide onde deve atacar. Nós vamos conseguir o que desejamos e não vamos gostar.

O fim do jogo, como eu escrevi, será o grande Recomeço, onde a dívida dos governos de todo o mundo, além de todos os seus passivos do governo não financiados e as pensões prometidas e os cuidados de saúde supostamente garantidos vão ser “resolvidos”, e, infelizmente, isso irá acontecer no meio de uma crise.

Conflito intensificado

O acordo da semana passada para rever e renomear o NAFTA, embora positivo, está a ser erroneamente interpretado como uma redução das tensões comerciais. Não vejo as coisas dessa forma, de modo nenhum. O novo acordo ainda necessita de aprovação legislativa por todos os três países o que corre o risco de não se verificar. As forças de oposição já estão a entrar em ação, agora que estas têm um texto real contra o qual podem atacar.

Mas o problema mais importante é que isto permite que Trump concentre as baterias sobre a China. Se o leitor se recorda, as minhas fontes de Camp Kotok dizem-me que as revisões do NAFTA, uma vez terminadas, permitiriam a Trump forçar a China para se chegar a um acordo antes das eleições intercalares. Isso parece ser o que está a acontecer.

Arthur Kroeber da Gavekal assinalou num seu texto desta semana que “as forças que no terreno estão disponíveis para lutar contra a China são, de longe, muito mais fortes, e as rédeas sobre elas muito mais fracas, do que no caso no NAFTA e das escaramuças transatlânticas”. Igualmente indica que as empresas americanas. com exposição à China são apanhadas no meio e não tentam lutar contra a Casa Branca. Kroeber também destacou a informação dada no relatório de Axios de que a administração Trump está a planear uma grande campanha contra a China nas próximas semanas. Isso significa que a calma que os mercados estão atualmente a sentir pode não durar muito tempo.

Falando de Gavekal, eu tenho que dizer que a sua investigação tem sido um dos meus melhores recursos durante anos para estar ao corrente de tudo isto. Ninguém conhece a Asia como a equipe Gavekal. Todas as manhãs recebo um, dois ou três e-mails com todas os seus últimos trabalhos sobre a economia mundial, China, divisas, bancos centrais, taxas de juros, e muito mais. É tudo espantosamente útil. Eu gostaria de poder partilhar tudo com os meus leitores, mas é um serviço muito caro que se destina a instituições e a gabinetes de estudo.

Contudo, eu partilho algumas das melhores análises de Gavekal com os meus leitores de Over My Shoulder. Ultimamente, têm-me enviado tanta e tão boa informação que eu perguntei a Louis se podíamos dispor de um especial “Gavekal Week” e trabalhar o material disponível diariamente.  Ele concordou graciosamente e faremos isso na próxima semana, de 8 a 12 de Outubro.

Por exemplo, no nosso blog na área Over My Shoulder iremos ter o Gavekal Dragonomics China Inc., o relatório anual de 2018. Este surpreendente Chartbook esboça tendências chaves no setor empresarial da China. Aí aprofunda-se as diferenças entre empresas estatais e empresas cotadas privadas, descendo ao detalhe da análise setorial para mostrar os diferentes impactos da guerra comercial e de outras políticas. É inestimável se queremos compreender o que é que está a acontecer realmente em China.

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O autor: John Mauldin: reputado especialista financeiro, com mais de 30 anos de experiência em informação sobre risco financeiro. Editor da e-newsletter Thoughts from the Frontline, um dos primeiros boletins informativos semanais proporcionando aos investidores informação e orientação livre e imparcial. É presidente da Millennium Wave Advisors, empresa de consultoria de investimentos. É também presidente de Mauldin Economics. Autor de Bull’s Eye Investing: Targeting Real Returns in a Smoke and Mirrors Market, Endgame: The End of the Debt Supercycle and How It Changes Everything, Code Red: How to Protect Your Savings from the Coming Crisis, A Great Leap Forward?: Making Sense of China’s Cooling Credit Boom, Technological Transformation, High Stakes Rebalancing, Geopolitical Rise, & Reserve Currency Dream, Just One Thing: Twelve of the World’s Best Investors Reveal the One Strategy You Can’t Overlook e The Little Book of Bull’s Eye Investing: Finding Value, Generating Absolute Returns and Controlling Risk in Turbulent Markets.

 

 

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2019/06/11/sobre-as-razoes-que-estao-na-base-dos-focos-de-tensao-entre-a-china-e-os-estados-unidos-17-o-defice-comercial-nao-e-o-bicho-papao-por-john-mauldin/

Quais são as consequências da proibição da gigante chinesa Huawei para os EUA?

Logotipo da empresa chinesa Huawei (imagem de arquivo)
© Sputnik / Kirill Kallinikov

Uma série de consequências está avançando a todo o vapor devido à proibição implementada pela Administração Trump contra a gigante chinesa das telecomunicações Huawei, alertam analistas.

Após a proibição pelo presidente dos EUA, Donald Trump, do uso de equipamentos de telecomunicações fabricados por empresas consideradas "uma ameaça à segurança nacional", um relatório indica que o Google, que já vetou o Android para a Huawei, alertou o governo que a proibição desta empresa chinesa efetivamente coloca a segurança do país em perigo, pois a obriga a desenvolver seu próprio software que poderia ser mais suscetível a invasões.

Na opinião do colunista John Detrixhe da Quartz, a proibição por parte do Facebook da pré-instalação de seus aplicativos, incluindo o WhatsApp e o Instagram, em celulares Huawei, resultaria em prejuízo, pois isso privaria as empresas americanas de usar os dispositivos chineses para coletar dados e vender publicidade em todo o mundo.


Huawei
© AP Photo / Mark Schiefelbein, File

Além disso, Detrixhe destaca que essa medida americana se traduziria em perdas para os fabricantes de semicondutores dos EUA devido ao veto contra a segunda maior empresa a nível mundial no mercado móvel, uma vez que essa proibição afetaria o fornecimento de hardware para a Huawei, forçando-a armazenar chips e outros componentes e a aumentar o desenvolvimento de alternativas.

Para o analista Jeremy Horwitz, do site Venture Beat, as empresas americanas não só perderiam receita da gigante chinesa, mas também de outras empresas estrangeiras.

O jornalista explica que, se a Huawei vier a produzir os componentes de que precisa por conta própria, a empresa poderia vendê-los a terceiros a preços mais acessíveis em comparação com as empresas americanas.

Uma ampla gama de empresas sofreria globalmente com o precedente da Huawei, incluindo a Apple, que depende de empresas chinesas como a FoxConn para fabricar seus dispositivos.


Como exemplo, o especialista Talha bin Hamid refere que, se a empresa chinesa deixar de fabricar componentes para o iPhone, mudar a produção para qualquer outro local do planeta resultaria em custos mais elevados para a Apple.

A retaliação à gigante chinesa também abrandaria a implementação da nova tecnologia 5G em todo o mundo, o que poderia se refletir na suspensão do desenvolvimento de veículos de condução automática, que dependem da implementação dessa tecnologia, na qual a Huawei está atualmente na vanguarda, de acordo com os analistas.

Horwitz acredita que Washington "ataca empresas individuais para forçar resultados políticos", afirmando que a situação em torno de Huawei se tornará uma "enorme mina terrestre" para a diplomacia norte-americana.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/opiniao/2019060914030362-quais-consequencias-proibicao-da-gigante-chinesa-huawei-para-eua/

China diz que negociações com os EUA não acabaram e aponta 3 pontos de discórdia

Presidente dos EUA, Donald Trump e o líder chinês Xi Jinping, durante negociações entre EUA e China no G20, na Argentina
© REUTERS / Kevin Lamarque

O principal negociador comercial da China, Liu He, disse nesta sexta-feira em Washington que as negociações comerciais com os EUA continuariam em Pequim após dois dias de negociações e um aumento de tarifa nos EUA.

"As negociações não foram interrompidas, mas, ao contrário, isso é apenas uma reviravolta normal nas negociações entre os dois países", declarou Liu à mídia chinesa.

"Ambos os lados concordam que se reunirão novamente em Pequim no futuro e continuarão impulsionando as negociações", prosseguiu ele, sem dar uma data.


Embora Liu tenha considerado os dois dias de conversações nos EUA "produtivos", ele destacou que as diferenças continuam existindo.

"Temos um consenso em muitas áreas, mas para falar francamente, há áreas em que temos diferenças e acreditamos que elas dizem respeito a grandes princípios", explicou. "Todo país tem princípios importantes e não faremos concessões em questões de princípio".

De acordo com a mídia estatal chinesa, três principais diferenças permanecem nas negociações comerciais entre Pequim e Washington.

O Diário Oficial do Povo do Partido Comunista e a agência de notícias oficial Xinhua disseram que, além do aumento das tarifas adicionais, as diferenças se concentraram nas compras comerciais e em um texto "equilibrado" para qualquer acordo comercial.

"A China nunca cederá à pressão máxima do lado dos EUA e não comprometerá as questões de princípio. A China deixou claro a necessidade de eliminar todas as tarifas adicionais para retomar o comércio bilateral normal", informou o Diário do Povo.

"A China claramente exige que os números das aquisições comerciais sejam realistas. O texto deve ser equilibrado e expresso em termos aceitáveis para o povo chinês e não prejudicar a soberania e a dignidade do país", acrescentou.


A Xinhua, que relatou as mesmas três diferenças, disse que remover todas as tarifas adicionais era a "demanda comum" dos negócios e da agricultura dos EUA, e que ambos os países precisavam demonstrar mais paciência e perseverança para superar as dificuldades.

O presidente dos EUA, Donald Trump, ordenou nesta sexta-feira ao representante comercial dos EUA que inicie o processo de aumento de tarifas sobre todas as importações remanescentes da China, com o valor dos produtos sujeitos a nova rodada de tarifas em aproximadamente US$ 300 bilhões.

Os EUA já intensificaram sua guerra tarifária com a China na sexta-feira, aumentando as arrecadações de US$ 200 bilhões em mercadorias chinesas em meio a conversas de última hora para resgatar um acordo comercial.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/asia_oceania/2019051113857814-china-pontos-negociacao-eua/

Trump ordena aumento de tarifas contra a China e valor chega a US$ 300 bilhões

Bandeiras dos EUA e China (imagem de arquivo)
© AP Photo / Andy Wong

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ordenou que as tarifas sejam cobradas em todas as importações remanescentes da China, que somam cerca de US$ 300 bilhões, disse o representante de Comércio dos EUA, Robert Lighthizer, em comunicado.

"O presidente também ordenou que começássemos o processo de aumentar as tarifas de praticamente todas as importações remanescentes sobre produtos da China, que são avaliadas em aproximadamente US$ 300 bilhões", disse Lighthizer nesta sexta-feira (10).


No começo do dia, ele acrescentou, os Estados Unidos aumentaram as tarifas de 10% para 25% em cerca de US$ 200 bilhões em importações chinesas.

O vice-premiê chinês, Liu He, que lidera a comissão chinesa na negociação comercial com os Estados Unidos, afirmou em entrevista à CCTV nesta sexta-feira (10) que a China responderá às ações dos EUA.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/asia_oceania/2019051013857370-donald-trump-china-comercio-tarifas-importacao/

China se diz forçada a retaliar aumento de tarifas dos EUA

O vice-primeiro-ministro da China, Liu He, afirmou nesta-sexta-feira (10) que Pequim será forçada a retaliar o aumento de tarifas anunciado pelos Estados Unidos. Liu He é responsável por lideras as negociações bilaterais de comércio entre os países.

Mais cedo nesta mesma data, uma nova rodada de tarifas de comércio foi efetivada pelos EUA. Com isso, um total de US$ 200 bilhões em produtos chineses foi tarifado, aumentando de 10% para 25%.


"Se os Estados Unidos aumentarem suas tarifas, nós teremos que responder a isso também. Claro, esperamos que os Estados Unidos barrem a medida. Então, a China também irá aderir a essa posição. Um dos lados não pode demonstrar indefinidamente", disse o político chinês em uma entrevista para a emissora chinesa CCTV após as negociações em Washington.

O vice-premiê insistiu que a China era contra o aumento de tarifas de comércio entre os países.

Nós acreditamos que [o aumento de tarifas] não é benéfico nem para os Estados Unidos nem para a China nem para ninguém. Ainda, isso não ajuda a resolver questões comerciais e econômicas", ressaltou Liu.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/economia/2019051013857327-china-eua-comercio-tarifas/

Nova espiral da guerra comercial sino-americana: após tarifas, Pequim promete retaliar

Notas yuan e dólares dos EUA são vistos em uma mesa em Yichang, província de Hubei, na China central em 14 de agosto de 2015
© AFP 2019 / STR

A partir de 10 de maio as tarifas norte-americanas sobre uma série de produtos chineses foram elevadas de 10% para 25%, em um valor de 200 bilhões de dólares. O especialista Pavel Kudryavtsev explica como o conflito comercial entre as duas maiores economias pode afetar a economia global.

As autoridades americanas decidiram aumentar as tarifas sobre uma série de produtos chineses no valor de 200 bilhões de dólares (R$ 890 bilhões) de 10% para 25%, incluindo produtos químicos, materiais de construção, mobiliário e alguns artigos eletrônicos. A medida entrou em vigor hoje (10).


O Ministério do Comércio da China sublinhou que "lamenta profundamente" o aumento das tarifas sobre as suas exportações e que não tem outro remédio senão tomar contramedidas a esse respeito.

"A China lamenta-o profundamente. Temos que tomar contramedidas necessárias", lê-se no comunicado do Ministério.

Ao mesmo tempo, o ministério expressou sua esperança de que ambos países trabalhem juntos para resolver os problemas existentes através da "cooperação e consultas".

É de assinalar que, há dez dias, Washington e Pequim anunciaram um “progresso significativo”, mas na quinta-feira (10) os EUA decidiram aumentar as tarifas em resposta à alegada violação de compromissos pela China.

"Desde 2017, a China e os EUA estão tentando resolver disputas econômicas, tendo desde então sido introduzidas diversas novas tarifas, bem como anunciados preparativos e fracassos das negociações. É evidente que notícias desse tipo sempre causam volatilidade nos mercados e discussões massivas", sublinhou o representante da Câmara de Comércio e Indústria da Rússia na Ásia Oriental, Pavel Kudryavtsev, acrescentando que não espera que o conflito possa levar a uma catástrofe econômica global.


Segundo Kudryavtsev, "na prática a cooperação econômica se baseia em laços comerciais e de investimentos de longo prazo e é bastante difícil os destruir".

Em meados de abril, a mídia informou que os EUA e a China planejavam realizar uma nova rodada de negociações e esperavam fechar um acordo comercial final no fim de maio ou no início de junho.

Pequim e Washington se envolveram em uma disputa comercial desde março de 2018 quando o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou que os EUA imporiam tarifas de 25% sobre uma série de produtos chineses, em uma tentativa de reduzir o déficit comercial entre EUA e China. Desde então, os dois países adotaram uma série de tarifas protecionistas.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/economia/2019051013852332-nova-espiral-da-guerra-comercial-sino-americana-apos-tarifas-pequim-promete-retaliar/

A Arte da Guerra A locomotiva USA da despesa militar mundial

Segundo o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz, de Estocolmo (SIPRI), em cada mês do ano passado, os Estados Unidos desperdiçaram 250 dólares por cada cidadão.

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A despesa militar mundial – segundo as estimativas publicadas pelo SIPRI [1], em 29 de Abril - ultrapassaram os 1.800 biliões de dólares, em 2018, com um aumento em termos reais de 76% em relação a 1998. De acordo com esta estimativa, a cada minuto gasta-se cerca de 3,5 milhões de dólares em armas e exércitos em todo o mundo. Em primeiro lugar estão os Estados Unidos com uma despesa, em 2018, de 649 biliões. Este número representa o orçamento do Pentágono, incluindo operações militares no estrangeiro, mas não a totalidade da despesa militar dos EUA.

De facto, juntam-se outros elementos de carácter militar.
- O Departamento dos Assuntos dos Veteranos, que é responsável pelo pessoal militar aposentado, teve um orçamento de 180 biliões de dólares, em 2018.
- A comunidade dos Serviços Secretos, composta de 17 agências (entre as quais a mais famosa é a CIA), declara um orçamento de 81,5 biliões, que, no entanto, é só a ponta do iceberg dos gastos reais para operações secretas.
- O Departamento de Segurança Interna gastou 70 biliões em 2018, sobretudo para “proteger, com o serviço secreto, a nossa infraestrutura financeira e os nossos dirigentes mais destacados”.
- O Departamento de Energia gastou 14 biliões, correspondendo a metade de seu orçamento, para manter e modernizar o arsenal nuclear.

Tendo em conta estes e outros assuntos, a despesa militar dos EUA, em 2018, chega a cerca de 1 trilião de dólares. Como despesa per capita, é equivalente a 3.000 (três mil) dólares por habitante dos Estados Unidos.

A despesa militar é a causa primordial do déficit federal, que subiu para 1 trilião e em aumento acentuado. Juntamente com outros factores, ela faz crescer a dívida pública dos EUA, que em 2019, subiu para mais de 22 biliões de dólares, com juros anuais de 390 biliões, que dobrarão em 2025. Esse sistema é baseado na hegemonia do dólar, cujo valor é determinado não pela capacidade económica real dos EUA, mas, pelo facto de que é a principal moeda das reservas cambiais e dos preços das matérias primas internacionais. Isto permite que a Federal Reserve imprima milhares de biliões de dólares com os quais a colossal dívida pública dos EUA é financiada através de obrigações e outros títulos emitidos pelo Tesouro.

Visto que a China, a Rússia e outros países questionam a hegemonia do dólar - e com ela, a ordem económica e política dominada pelo Ocidente - os Estados Unidos jogam cada vez mais a carta da guerra, investindo 25% de seu orçamento federal na máquina de guerra mais cara do mundo. A despesa militar dos Estados Unidos têm um efeito impulsionador sobre as dos outros países, que, no entanto, permanecem em níveis muito mais baixos.

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- A despesa da China é estimada pelo SIPRI em 250 biliões de dólares, em 2018, embora o número oficial fornecido por Pequim seja de 175.
- A despesa da Rússia é estimada em 61 biliões, mais de 10 vezes menor do que nos EUA (comparada apenas com o orçamento do Pentágono).
- De acordo com as mesmas regras, sete países da NATO - EUA, França, Grã-Bretanha, Alemanha, Itália, Canadá e Turquia - respondem juntos por cerca de metade das despesas militares do mundo.
- A despesa militar italiana, que subiu em 2018 de 13º para o 11º lugar no mundo, é estimada pelo SIPRI em 27,8 biliões de dólares.

Assim, a estimativa é substancialmente confirmada, incluindo outros assuntos além do orçamento da Defesa, que os gastos militares italianos totalizam 25 biliões de euros por ano, em alta. Isto significa que, num ano, se gasta já hoje o equivalente (de acordo com as previsões) a quatro anos de renda da cidadania. .Seguindo as pegadas dos EUA, foi decidido agora um forte aumento posterior. Agora, a maior “renda da cidadania” é a da guerra.


[1] Trends in world military expenditure, 2018, Nan Tian, Aude Fleurant, Alexandra Kuimova, Pieter D. Wezeman, Siemon T. Wezeman, Stockholm International Peace Research Institute, April 29, 2019.



Ver original na 'Rede Voltaire'



Trump estende a mão a Cuba

 

Depois de ter tentado, em vão, desestabilizar a Venezuela, o Presidente Donald Trump propôs, em 2 de Maio, na Fox Business, uma abertura económica em Cuba se ela retirasse as suas tropas da República Bolivariana.

Nos últimos cinco meses, a Administração Trump evoca a presença de 300.000 soldados cubanos na Venezuela, entre os quais 25.000 nos Serviços de Inteligência. É, sempre segundo a Administração Trump, esta pressão que impediria 90% dos militares venezuelanos de apoiar o autoproclamado presidente Juan Guaidó.

Na realidade, qualquer pessoa que tenha visitado o país pode constatar que apenas a proteção próxima do Presidente da República, ou seja, menos de cinquenta pessoas, está confiada a Cubanos. Jamais houve tropas cubanas na Venezuela, tal como Havana muitas vezes repetiu. Como sempre, por força da repetição, a propaganda torna-se tão evidente para todos que nos perguntamos se os Estados Unidos são ainda capazes de distinguir o que fingem da realidade.

No decurso dos últimos meses, os Estados Unidos limitaram as transferências de divisas entre os emigrantes cubanos e a ilha. Também anunciaram a entrada em vigor das sanções em relação a firmas do Canadá e da União Europeia, adoptadas em 1996, mas continuamente adiadas.

A abertura económica dos EUA permitiria encontrar um responsável pelo fracasso do golpe de Estado de Juan Guaidó e voltar à razão com Cuba.

Ver original na 'Rede Voltaire'



Autoridades venezuelanas responsabilizam EUA por morte de criança hospitalizada

Delcy Rodríguez e Jorge Arreaga denunciaram que as acções ilegais impostas pelos EUA contra a Venezuela são responsáveis pela morte de uma criança que aguardava por um transplante de medula óssea.

O bloquieo económico imposto pelos EUA à Venezuela provocou a morte de uma criança, facto classificado por Jorge Arreaza como «acção criminosa e desumana»Créditos / chile.embajada.gob.ve

Além da administração norte-americana, a vice-presidente executiva da Venezuela, Delcy Rodríguez, acusou ainda a extrema-direita venezuelana. No Twitter, Rodríguez escreveu esta terça-feira que «a administração dos EUA e os seus golpistas na Venezuela são responsáveis directos pela morte deste menino! Roubaram a CITGO [filial norte-americana da Petróleos de Venezuela (PDVSA)] para satisfazer os seus mesquinhos anseios imperiais e eliminaram nobres programas sociais para ajudar crianças no mundo concebidos no socialismo bolivariano».

Antes, pronunciou-se o ministro dos Negócios Estrangeiros, Jorge Arreaza, que sublinhou o facto de as acções ilegais e unilaterais promovidas pelos Estados Unidos – através do bloqueio económico e financeiro imposto à Venezuela – estarem a provocar sofrimento ao povo venezuelano, sendo isso uma medida para concretizar uma mudança de governo no país.

O bloqueio económico e financeiro imposto pelos EUA à Venezuela tirou a vida a um menino de seis anos que necessitava de um trasplante de medula óssea, informou Arreaza, que classificou o facto como uma «acção criminosa e desumana».

«Andamos há semanas a denunciar que crianças como Giovanny podiam falecer devido ao bloqueio dos EUA. Reafirmo, sem descontextualizações jornalísticas: gerar sofrimento e dor através de um bloqueio económico para mudar um governo pela força é um acto criminoso e desumano», escreveu Arreaza na sua conta de Twitter.

Giovanny Figuera, o menino que morreu, fazia parte da lista de crianças venezuelanas que esperam por um trasplante e por medicamentos especializados, que são adquiridos através de um programa que é levado a cabo pela Petróleos de Venezuela, empresa estatal que é alvo das investidas do embargo económico decretado pela administração de Donald Trump.

Em meados de Abril, o governo da Venezuela alertou a comunidade internacional para o «impacto criminoso» gerado pelas sanções coercitivas e ilegais de Washington contra a empresa estatal PDVSA, que financia inúmeros programas sociais e acordos na área da saúde, que prestam atendimento aos seus trabalhadores e ao povo venezuelano.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/autoridades-venezuelanas-responsabilizam-eua-por-morte-de-crianca-hospitalizada

Museu de Auschwitz acha peças com estampa de campo de concentração em site americano

Foto da placa no portão principal do antigo campo de concentração e extermínio nazista alemão Auschwitz
© REUTERS / Pawel Ulatowski

O Museu de Auschwitz-Birkenau, que fica na Polônia, onde antes de encontrava o campo de concentração nazista da Segunda Guerra Mundial, ficou indignado com o fato de um site americano vender minissaias e almofadas com estampa de uma época macabra.

Dentre os produtos oferecidos pelo site americano Redbubble, havia, por exemplo, uma minissaia com estampa de um crematório e uma almofada com estampa das vias férreas que levavam os prisioneiros para Auschwitz.

Você realmente acredita que vender produtos como almofadas, minissaias e bolsas com imagens de Auschwitz, um local de enorme tragédia humana onde mais de 1,1 milhão de pessoas foram assassinadas, é aceitável? Isso é bastante assustador e desrespeitoso

Redbubble também explicou no Twitter que os usuários independentes podem usar seu serviço para oferecer produtos com suas fotos. No entanto, a empresa concordou que tais produtos não deveriam aparecer em suas páginas.

"Obrigado por trazer isso para nossa atenção. A natureza deste conteúdo é inaceitável e não está alinhada às nossas Orientações comunitárias. Estamos tomando medidas urgentes para remover esses e outros itens semelhantes."


Alguns dos produtos que causaram ressentimento no museu foram retirados do site. No entanto, o Museu de Auschwitz chamou a atenção para outro produto, uma camiseta com a inscrição "O Doutor Holocausto quer que você tenha barba".

Auschwitz-Birkenau (na cidade polonesa de Auschwitz) era o maior e mais antigo campo de concentração nazista, por isso se tornou um dos principais símbolos do Holocausto. Cerca de 1,4 milhões de pessoas, das quais cerca de 1,1 milhão eram judeus, morreram em Auschwitz entre 1941 e 1945. O campo foi libertado em 27 de Janeiro de 1945 pelo Exército da União Soviética. Em 1947, um museu foi criado no local do antigo campo de concentração nazista Auschwitz-Birkenau.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/mundo_insolito/2019050813836139-museu-auschwitz-acha-pecas-estampa-campo-concentracao-site-americano-fotos/

PARECE QUE NEM O PASSADO É COMO NOS QUEREM CONTAR QUE FOI

Há poucos dias foi notícia que a taxa de desemprego nos Estados Unidos havia descido para índices como não havia noticia desde 1969. A satisfação da Administração Trump é compreensível e notória. Mas a questão aqui são as suas queixas recorrentes de que a comunicação social não dá valor a esses sucessos da sua governação, o que, sendo verdadeiro, não é nada de novo. Se regressarmos a 1969, o tal ano de referência da taxa de desemprego, aquilo que podemos encontrar de referências noticiosas sobre os Estados Unidos na edição de há precisamente 50 anos do Diário de Lisboa é um «acentuar da contestação», apesar de naquele país se estarem a registar taxas de emprego como nunca mais se voltariam a ocorrer nos 50 anos seguintes... Parece que o passado não é como nos querem contar que foi... Ou então, está-se a fechar o ciclo da moda que, há cerca de 25 anos, estabeleceu que tudo em política tinha a ver com economia («It's the economy, stupid!»). Não tem. Nunca teve. E com os tempos que se vivem na América de Trump é  facílimo perceber isso.  

 

Veja o original em 'Herdeiro de Aécio' na seguinte ligação::

http://herdeirodeaecio.blogspot.com/2019/05/parece-que-nem-o-passado-e-como-nos.html

Os EUA precisam desesperadamente de um novo secretário de Estado

por Paul Craig Roberts

O instigador da guerra ignorante, disfarçado de secretário de Estado americano, deveria ser preso pela sua imitação de funcionário do governo americano. Mike Pompeo não pode ser secretário de Estado dos EUA, porque nem mesmo Donald Trump nomearia um idiota para essa alta posição, visto que ele pensa que o Artigo 2 da Constituição dá ao presidente, autoridade para declarar a guerra e invadir outros países.

Eis o que disse, o estúpido impostor Pompeo: "O Presidente tem toda a autoridade que lhe é conferida pelo Artigo 2 e estou muito confiante de que qualquer acção que tomemos na Venezuela será legítima”. Foi a resposta dada por Pompeo quando inquirido sobre a possibilidade de o Presidente Trump intervir na luta pelo poder desse país sem a aprovação do Congresso. www.rt.com/usa/458433-venezuela-military-invasion-lawful-pompeo/ É claro que não é "a luta pelo poder desse país". É o esforço de Washington para derrubar a Revolução Bolivariana e recuperar o controlo sobre os recursos da Venezuela.

Pompeo é duplamente idiota. A Constituição dos EUA dá o poder de declarar guerra apenas ao Congresso. Além do mais, de acordo com as leis de Nuremberg estabelecidas pelo governo dos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial, é crime de guerra cometer agressão, que é o que seria a intervenção militar dos EUA na Venezuela.

Eu deveria ter dito que Pompeo é triplamente idiota, porque afirma que os países que defendem diplomaticamente o governo democraticamente eleito da Venezuela estão "a interferir no direito do povo venezuelano de restaurar a sua própria democracia". Alguém deveria dizer ao idiota Pompeo que foram o povo venezuelano e as forças armadas venezuelanas, que recusaram o suborno e as ameaças financeiras de Washington, que estão a apoiar a democracia venezuelana, e não Washington, cujo golpe fracassado pode ser secundado por outra invasão que será outro crime de guerra levado a cabo por Washington.

Lavrov e Putin, no passado, consideraram ser difícil usar a sua autoridade para impedir mais agressões ilegais de crimes de guerra de Washington. Lavrov é demasiado civilizado para dialogar com um neonazi como Pompeo.

Putin deveria enviar Shoigu para lidar com Pompeo. O tempo para conversas educadas e que aceitam tudo, já passou. O que está em jogo, é um país e o seu povo.

Esperemos que a Rússia e a China não permitam outra Líbia.

Alguém precisa informar a RT sobre o conteúdo a Constituição dos EUA. A RT informou incorrectamente que: "O Artigo 2 da Constituição dos Estados Unidos concede ao Presidente o direito de declarar a guerra e agir como Comandante Chefe das Forças Armadas do país". Um disparate absoluto!

05/Maio/2019

O original encontra-se em www.paulcraigroberts.org/... e a tradução de Maria Luísa de Vasconcellos em paulcraigrobertstranslations.blogspot.com/...

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/eua/roberts_05mai19.html

UM EX-PRESIDENTE (JIMMY CARTER) DOS ESTADOS-UNIDOS VAI CONTRA TODA A ELITE DO PAÍS – de SPUTNIK NEWS – enviado por CAMILO JOSEPH

OBRIGADO A SPUTNIK NEWS E A CAMILO JOSEPH

 

https://mundo.sputniknews.com/america_del_norte/201904201086821080-jimmy-carter-critica-politica-belica-de-eeuu/

Un expresidente de EEUU va contra toda la élite del país – Sputnik Mundo – mundo.sputniknews.com El único presidente de Estados Unidos en completar su mandato sin guerras, ataques militares u ocupaciones ha llamado a su país “la nación más guerrera de la historia del mundo”. mundo.sputniknews.com

 

El único presidente de Estados Unidos en completar su mandato sin guerras, ataques militares u ocupaciones ha llamado a su país “la nación más guerrera de la historia del mundo”.

Durante un discurso en la escuela dominical de la Iglesia Bautista Maranatha en Plains, Georgia, Jimmy Carter, el 39º presidente de Estados Unidos, habló sobre una reciente conversación que ha tenido con Donald Trump, el actual mandatario del país, sobre China. De acuerdo con Carter, Trump le dijo que estaba particularmente preocupado por cómo el país asiático se está “adelantando” a EEUU.

 

Clique no link abaixo para ler a continuação:

https://mundo.sputniknews.com/america_del_norte/201904201086821080-jimmy-carter-critica-politica-belica-de-eeuu/

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2019/05/07/um-ex-presidente-jimmy-carter-dos-estados-unidos-vai-contra-toda-a-elite-do-pais-de-sputnik-news-enviado-por-camilo-joseph/

Trump diz que apoia '100%' as ações de Israel na Faixa de Gaza

File Photo of Rockets Exploding Over Israel
© AP Photo / Adel Hana

O presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou no domingo (5) que apoia totalmente as ações de Israel na Faixa de Gaza em meio ao aumento da tensão entre Israel e Hamas na região.

"Mais uma vez, Israel enfrenta uma série de ataques com foguetes pelos grupos terroristas Hamas e Jihad Islâmica. Apoiamos Israel 100% em sua defesa de seus cidadãos […]", disse o presidente dos EUA no Twitter.

Trump também se dirigiu ao povo da Faixa de Gaza.

"Para o povo de Gaza — esses atos terroristas contra Israel não lhe trarão nada além de mais miséria. Acabem com a violência e trabalhem em prol da paz — isso pode acontecer!", escreveu Trump.

A tensão regional na Faixa de Gaza aumentou a partir do sábado (4), após Israel ter detectado lançamentos de foguetes contra seu território. Alegando que os ataques foram lançados de a Faixa de Gaza, Israel realizou ataques de retaliação.

​De acordo com informações da mídia, ao menos 24 palestinos foram mortos no final de semana, incluindo uma mulher grávida e seu bebê, enquanto 4 israelenses também morreram no mesmo período.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/oriente_medio_africa/2019050613815904-donald-trump-faixa-de-gaza-acoes-israel-palestina/

A expansão armamentista e a derrocada da paz

Gasto militar dos EUA volta a crescer e já é semelhante ao PIB da Holanda ou Suíça. Alta deflagra corrida global às armas. Para completar, tratados de paz estão ameaçados de extinção

Carlos Torralba, no El País Brasil | Outras Palavras | Imagem: Ted Aljib (AFP)
O gasto militar dos EUA subiu no ano passado pela primeira vez desde 2010. A Administração de Donald Trump elevou o investimento em Defesa em 4,6% com relação ao ano anterior, chegando a 649 milhões de dólares (2,56 bilhões de reais), ou 36% do total mundial, que cresceu até seu máximo histórico. Washington e seu rival estratégico, a China, somam pela primeira vez mais de metade do investimento global em Defesa, segundo os dados publicados nesta segunda-feira pelo Instituto Internacional de Estocolmo para a Pesquisa da Paz (SIPRI).

Desde sua chegada à Casa Branca, em 2016, Donald Trump nunca ocultou sua intenção de fortalecer ainda mais a supremacia militar dos Estados Unidos sobre seus dois principais rivais geoestratégicos, a China e a Rússia. Os drásticos cortes do republicano em meio ambiente, cooperação internacional e ajudas contra a pobreza energética lhe permitiram reforçar sua musculatura militar, com 39 bilhões de dólares a mais que no ano anterior.

Apesar do incremento, o gasto de Washington em Defesa ainda é 19% inferior ao que era em 2010, embora o contexto na época fosse diferente: os Estados Unidos estavam totalmente envolvidos nas guerras do Afeganistão e Iraque, com dezenas de milhares de soldados mobilizados. Hoje contam com um contingente muito reduzido no Afeganistão e várias centenas de assessores militares na Síria e Iraque. Trump reiterou seu interesse em reduzir ao mínimo a presença de tropas norte-americanas nessas zonas de conflito.

“O aumento do gasto dos EUA responde mais a uma estratégia de dissuasão do que às exigências atuais de suas operações no exterior”, diz por telefone Aude Fleurant, pesquisadora do SIPRI. A especialista prognostica que, salvo em caso de “catástrofe financeira”, Trump aumentará o gasto em Defesa a cada ano de sua presidência, apesar dos obstáculos representados pelo déficit público e a perda do controle da Câmara de Deputados, que voltou em novembro às mãos democratas após oito anos de domínio republicano.


A aquisição de armamento de fabricação nacional é a principal explicação para o aumento do orçamento de Defesa dos EUA. Com um Exército de quase 1,4 milhão de homens e mulheres, uma ligeira alta salarial também repercutiu no custo anual. A maior potência mundial mantém mais de 800 bases militares no exterior, distribuídas por mais de 40 países aliados.

Trump ordenou também que seja criado “o quanto antes” um ramo do Exército dedicado ao espaço — “Que garanta o domínio norte-americano do cosmos” —, que deverá receber dezenas de bilhões de dólares desde seu primeiro ano. O republicano também herdou da Administração de Barack Obama a ideia de modernizar o arsenal atômico, um projeto que segundo os especialistas custaria cerca de três trilhões de dólares em um prazo de 30 anos.

Washington se retirou em fevereiro do Tratado de Forças Nucleares Intermediárias (INF, na sigla em inglês), um acordo de desarmamento alcançado durante a Guerra Fria. Moscou respondeu de maneira simétrica no dia seguinte. Na corda-bamba ficou o New START, outro tratado bilateral crucial que limita o número de ogivas nucleares da Rússia e Estados Unidos. O pacto termina em 2021 e, por enquanto, não há reflexos de que nenhum dos dois países planeje ampliá-lo.

Fleurant considera que a perda de mecanismos de controle armamentista entre as grandes potências provocará o aumento do gasto para desenvolver novos armamentos.

Além da acentuada desconfiança entre os EUA e a Rússia, cabe acrescentar que a China nunca participou desses tratados de controle armamentista, o que provocava receios tanto em Washington como em Moscou. O gigante asiático multiplicou por 15 seu gasto militar desde os anos oitenta, com aumentos anuais há 25 anos consecutivos. Em 2018, elevou-o em 5%, chegando a um quarto de trilhão de dólares. E desde que se converteu, em 2008, no segundo maior investidor mundial em Defesa, Pequim atribuiu a cada ano em torno de 2% de seu PIB ao reforço da sua capacidade militar.

Os Estados Unidos, a Rússia e a China competem pelo desenvolvimento de novos armamentos como os mísseis hipersônicos, que tornariam ineficientes os atuais sistemas de defesa. Diferentemente de Washington e Pequim, Moscou reduziu no ano passado seu gasto militar em 3,5%, embora Fleurant explique a redução pelo investimento extraordinário feito entre 2010 e 2015 para modernizar seu armamento. Por isso, a especialista acredita que o investimento russo crescerá em curto prazo, apesar das dificuldades econômicas que arrasta há anos por causa da queda do preço dos hidrocarbonetos e das sanções ocidentais.

Arábia Saudita, por sua vez, se manteve como o terceiro maior investidor mundial em Defesa, além de ser o principal importador mundial de armamentos. O Reino do Deserto — que lidera a intervenção militar no Iêmen — destinou no ano passado 8,8% de seu PIB à Defesa, a percentagem mais alta entre todos os países analisados.

Em termos gerais, o gasto militar mundial cresceu 2,6% e superou 1,8 trilhão de dólares, atingindo o máximo histórico desde que existem cifras consideradas confiáveis (1988). Os dados do SIPRI não incluem alguns Estados com investimentos notáveis em Defesa, como a Coreia do Norte, a Síria, a Eritreia e os Emirados Árabes Unidos.

Aumentos na OTAN refletem receio com a Rússia

Os 29 membros da OTAN aumentaram conjuntamente seu gasto militar em 7% (249 bilhões de reais) em 2018 com relação ao ano anterior. França, Reino Unido, Alemanha, Itália e Espanha tornaram a elevar moderadamente seu gasto nos últimos anos depois dos fortes cortes que se seguiram à crise financeira de 2008.

Entretanto, são alguns dos membros mais recentes os que mais incrementaram seu investimento. Romênia, Bulgária, Lituânia e Letônia aumentaram seu gasto militar em torno de 20%; a Polônia, em 10%. “Não há um fator único, mas a inquietação que a Rússia provoca nesta zona é o principal”, diz por e-mail Nan Tian, pesquisador do SIPRI. Nan considera que a pressão que Trump exerce para que os sócios europeus elevem seu gasto em Defesa não foi determinante.

A Turquia também aumentou o gasto, 24%. “Está em plena modernização do Exército, e suas operações militares contra os curdos implicam um custo extra muito elevado”, afirma Nan.
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Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/05/a-expansao-armamentista-e-derrocada-da.html

Trump contradiz declarações de Pompeo e Bolton sobre Venezuela após conversa com Putin

Presidente dos EUA, Donald Trump, e seu homólogo russo, Vladimir Putin, durante a reunião em Helsinque, Finlândia
© Sputnik / Aleksei Nikolsky

O presidente dos EUA Donald Trump parece contradizer as declarações de seus altos funcionários sobre o "envolvimento" russo na Venezuela após uma conversa telefônica com o presidente russo Vladimir Putin realizada em 3 de maio.

"Conversamos sobre muitas coisas. A Venezuela foi um dos temas. E ele [Vladimir Putin] não tem interesse de modo algum em se envolver na Venezuela, além de querer ver algo positivo acontecer com a Venezuela. E eu sinto o mesmo", disse Trump falando com jornalistas em Washington na sexta-feira (3) durante uma reunião com o primeiro-ministro eslovaco.

Segundo Trump, os EUA queriam ajudar a Venezuela “em uma base humanitária", inclusive com a entrega de alimentos e água para a população "faminta" do país. "Acho que tive uma conversa muito positiva com o presidente Putin sobre a Venezuela", disse Trump.

As declarações de Trump parecem estar em desacordo com as alegações anteriores de vários de seus principais funcionários, incluindo o secretário de Estado Mike Pompeo e o conselheiro de Segurança Nacional, John Bolton, sobre a alegada "interferência" russa na Venezuela.


Durante uma prolongada conversa telefônica nesta sexta-feira (3), presidente dos EUA, Donald Trump, e seu colega russo, Vladimir Putin, discutiram a situação na Venezuela, informou a Casa Branca.

Na quarta-feira (1), Pompeo falou por telefone com o chanceler russo, Sergei Lavrov, tendo dito que a Rússia não deveria "interferir" no país latino-americano. Lavrov chamou as acusações de envolvimento russo nos assuntos venezuelanos de "bastante surrealistas" e disse que a "posição de princípio" da Rússia era "nunca interferir nos assuntos dos outros países".

Bolton, por sua vez, avisou os países "de fora do Hemisfério Ocidental" para que não instalem forças militares na Venezuela e confirmou que a Doutrina Monroe, adotada por Washington no final do século XIX, continua a ser seguida pelos dirigentes do seu país.


A crise na Venezuela se agravou em 30 de abril, quando o líder da oposição venezuelana, Juan Guaidó, que se autoproclamou presidente interino do país, lançou a chamada Operação Liberdade para retirar Nicolás Maduro do poder. Em um vídeo publicado no Twitter, Guaidó aparece ao lado de militares e do líder oposicionista Leopoldo López, que estava preso desde 2014 e foi libertado pelos rebeldes, na base aérea de La Carlota, em Caracas. Guaidó pediu uma "luta não violenta", disse ter os militares do seu lado e afirmou que "o momento é agora".

Segundo o ministro venezuelano da Defesa, Vladimir Padrino López, as Forças Armadas da Venezuela continuam sendo completamente fiéis às autoridades legítimas.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019050413809278-trump-contradiz-declaracoes-de-pompeo-e-bolton-sobre-venezuela-apos-conversa-com-putin/

Deputados dos EUA aprovam acordo de Paris, mas Trump prepara veto

Congresso dos EUA
© East News / UPI Photo/eyevine

A Câmara dos Deputados dos EUA aprovou nesta quinta-feira (2) um projeto de lei para anular a ação do presidente Donald Trump e manter os Estados Unidos no Acordo de Paris, ao que a Casa Branca já emitiu uma ameaça de veto.

A Câmara aprovou a lei de Ação climática Imediata com 231 votos a favor e 190 contra, determinando que o presidente "desenvolva um plano para os Estados Unidos cumprirem sua contribuição determinada nacionalmente sob o Acordo de Paris", por uma votação de 231 a 190.


"Hoje enviamos uma mensagem ao presidente, ao povo americano e ao mundo de que reconhecemos a seriedade da crise climática e que pretendemos fazer a nossa parte para enfrentá-la. Hoje enviamos a mensagem: ainda estamos dentro [do acordo]", disse o congressista Frank Palone, presidente do Comitê de Energia da Câmara, após a aprovação do projeto na.

A nova lei estipula que nenhum fundo federal pode ser gasto ou alocado de qualquer forma para promover a retirada dos EUA do Acordo de Paris.

O projeto agora vai Senado e enfrenta uma maioria republicana hostil. A expectativa é de que o projeto não consiga atingir uma maioria de dois terços nas duas câmaras do Congresso, a quantidade de votos exigida para anular um veto presidencial.

No dia 1º de junho de 2017, o presidente Donald Trump anunciou sua intenção de retirar os Estados Unidos do Acordo de Paris. Sob os termos desse tratado, os EUA devem deixar o acordo a partir de 4 de novembro de 2020.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019050213798416-acordo-paris-eua-trump-aquecimento-global-acordo-de-paris/

Congressista americana culpa sanções dos EUA por 'devastação' na Venezuela

A deputada norte-americana Ilhan Omar, do Partido Democrata, responsabilizou em parte as sanções impostas pelos Estados Unidos à Venezuela pela situação de caos instalada no país sul-americano.

Em entrevista ao Democracy Now!, Omar, que representa os eleitores do estado do Minnesota, afirmou que tais medidas, além de prejudicar os venezuelanos, também não atendem aos interesses dos EUA. 

"Ilhan Omar fala contra as sanções dos EUA e apoio bipartidário para a mudança de regime na Venezuela."

​"Muitas das políticas que implementamos meio que ajudaram a levar a Venezuela à devastação", disse ela.

De acordo com a congressista, os norte-americanos prepararam o cenário ao qual "estamos chegando hoje", que, para ela, não traz benefícios a ninguém.

"Esse bullying em particular e o uso de sanções para eventualmente intervir e fazer mudanças de regime realmente não ajudam as pessoas de países como a Venezuela, e certamente não ajudam e não são do interesse dos Estados Unidos."

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019050213797779-sancoes-americanas-venezuela/

EUA enfrentarão país 'duro de matar' na América Latina, diz americanista

A operação dos EUA na América Latina poderia ter uma "chance histórica" de aumentar a aprovação do presidente norte-americano Donald Trump na véspera das eleições, escreveu The Wall Street Journal.

Recentemente, o colunista do The Wall Street Journal, Walter Russell Mead, escreveu que a derrota do presidente da Venezuela Nicolás Maduro teria sido um grande sucesso para os EUA, mas o apoio da Rússia à Venezuela atrapalhou o plano estadunidense.


O cientista político americanista da Academia de Ciência da Rússia, Konstantin Blokhin, em entrevista ao serviço russo da Rádio Sputnik, disse acreditar que a derrota de Maduro poderia ter sido apresentada pela administração Trump como sua maior conquista da política externa, recordando que houve "vitórias hipotéticas" dos EUA sobre Daesh (grupo terrorista proibido na Rússia e em uma série de países) ou a última cúpula com o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un.

"Golpe na Venezuela seria recebido pelos Estados Unidos como um 'princípio dominó', vindo a ser esperada uma sequência com Cuba, Nicarágua etc. Mas dificilmente isso aconteceria, porque, mesmo não falando sobre Venezuela, os cubanos, por exemplo, pode-se dizer que, a um nível genético, já se acostumaram com uma vida de sanções e de pressão inacreditável dos EUA. Cuba é [um país] 'duro de matar' para EUA."

O americanista reforça que as nações da "América latina, veem que a Rússia e a China se mostram interessadas no continente e concluem que não estão 'abandonadas' à mercê dos EUA e que elas não são mais 'quintal' dos Estados Unidos".


O que, para o cientista político, significa apoio moral da Rússia. Blokhin sublinhou que a "política de ultimatos" norte-americana vai somente afastar América Latrina dos EUA.

Na quarta-feira (17), o secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, anunciou que, a partir do dia 2 de maio, vai ser anulada uma antiga proibição a ações civis de cidadãos norte-americanos contra empresas estrangeiras que usam propriedades confiscadas pelo governo cubano desde a revolução de 1959 de Fidel castro.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/opiniao/2019042513755519-eua-enfrenta-pais-duro-matar-amrica-latina/

'Levante as sanções e peça desculpas se quiser conversar', diz líder iraniano aos EUA

Hassan Rouhani, presidente do Irã
© AP Photo / Vahid Salemi

Os EUA devem primeiro suspender as sanções e pedir desculpas, se quiserem se sentar para as negociações, afirmou o presidente do Irã, Hassan Rouhani, depois que Washington intensificou a "pressão máxima" sobre Teerã.

"A negociação só é possível se todas as sanções forem levantadas, eles peçam desculpas por suas ações ilegais e exista respeito mútuo", disse Rouhani nesta quarta-feira.


Ele afirmou que Teerã está aberto a negociações com Washington, mas os EUA simplesmente "não estão prontos para qualquer diálogo" e só procuram "subjugar o povo do Irã".

O líder supremo do Irã, Ali Khamenei, declarou que o país vai impedir qualquer tentativa dos EUA de bloquear seu comércio de petróleo.

"Os esforços dos EUA para boicotar a venda do petróleo do Irã não os levarão a lugar nenhum. Vamos exportar nosso petróleo tanto quanto precisamos e pretendemos. Eles devem saber que sua medida hostil não ficará sem resposta. A nação não fica ociosa diante de animosidades", escreveu no Twitter.

A advertência veio depois que o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, anunciou que Washington deixaria de emitir uma isenção de sanções para os compradores de petróleo iraniano. Isso foi feito como parte da campanha para aplicar "pressão máxima" sobre Teerã, disse ele.

"A pressão máxima sobre o regime iraniano significa pressão máxima. É por isso que os EUA não farão exceções aos importadores de petróleo iraniano. O mercado global de petróleo continua bem abastecido. Estamos confiantes de que permanecerá estável à medida que as jurisdições se afastarem do petróleo iraniano", comentou.

Os dois Estados permanecem em um impasse diplomático depois que o presidente Donald Trump retirou unilateralmente os EUA do Plano de Ação Integral Conjunto (JCPOA) no programa nuclear iraniano no ano passado. Os EUA então re-impuseram sanções aos setores energético e bancário do Irã.

O Irã criticou as sanções como ilegais segundo a lei internacional e prometeu retaliar se Washington tomar medidas para atacar seu carregamento de petróleo.

No início deste mês, os EUA listaram o Corpo de Guardas da Revolução Islâmica (IRGC) do Irã como uma "organização terrorista". Teerã respondeu do mesmo modo fazendo o mesmo com o Comando Central dos EUA (Centcom).

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/oriente_medio_africa/2019042413749577-ira-negociacao-eua/

Construindo diplomacia com porta-aviões

Construindo diplomacia com porta-aviões

O embaixador dos EUA na Rússia, John Huntsman, ameaçou Moscou com dois porta-aviões norte-americanos posicionados no mar Mediterrâneo.

Segundo ele, cada embarcação representa "cem mil toneladas de diplomacia internacional" e "demonstra para a Rússia que, se ela realmente espera melhorar a relação com os EUA, tem que parar com as atividades desestabilizadoras em todo o mundo".

Dois grupos de porta-aviões da Marinha dos EUA iniciaram operações conjuntas na região em 23 de abril. No total, das manobras participam 130 aviões, dez navios, inclusive porta-aviões USS Abraham Lincoln e USS John C. Stennis.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/charges/2019042413749420-diplomacia-porta-avioes-russia-eua-huntsman/

Raríssimo: Quando a “Patroa” da CIA Fala em Público…

É um acontecimento que só pela sua raridade já merece destaque.

CIA Director Gina Haspel Speaks at Auburn University:

“(…) Over the past year, our leadership team has taken steps to improve CIA’s ability to tackle the many challenges we face. And our efforts are beginning to pay off.

For starters, we’ve devoted more time, money, and creativity to our effort against some our nation’s toughest adversaries.

Our Russia and Iran investment has been strengthened after years of falling behind our justifiably heavy emphasis on counterterrorism in the wake of 9/11. Groups like ISIS and al-Qa‘ida remain squarely in our sights, but we’re honing our focus and resources on nation-state rivals.

Additionally, we’re applying cutting-edge technologies and tradecraft to allow us to react more quickly to global developments—like targeting a terrorist organization wherever it arises and before it spreads.

We’re making great strides with our foreign partners—those ties are stronger than ever. And let me tell you ….”

 

Here’s a link to her written comments posted by the CIA:

CIA Director Gina Haspel Speaks at Auburn University

 


Exclusivo Tornado / IntelNomics


Julian Assange e a agenda para a Guerra Global

A perseguição dos EUA a Julian Assange tem uma justificação fundamental: a prática política, económica e militar da maior potência imperialista só pode ser defendida mentindo, silenciando e falsificando toda a informação. O que Wikileaks fez e continua a fazer é desmascarar essa colossal ocultação de sucessivos crimes contra a humanidade.

Introdução

Durante quase uma década Washington tentou silenciar, prender e eliminar o mais destacado jornalista de investigação do mundo, Julian Assange (JA) e a sua equipa de colaboradores no Wilkileaks (WL).

Nunca os media de massa foram tão desacreditados por documentos oficiais que contradizem directamente a propaganda oficial, verbalizada por líderes políticos e papagueada por “líderes” jornalísticos.

Washington está particularmente empenhado em capturar JA porque as suas revelações tiveram um impacto particularmente poderoso sobre o público dos EUA, os críticos políticos, os media alternativos e grupos de direitos humanos, operando a sua viragem contra as guerras dos EUA no Médio Oriente, Sul da Ásia, África e América Latina.

Discutiremos o que JA e WL realizaram e porquê o gume particularmente afiado da sua reportagem perturbou o governo.

Vamos depois discutir os conflitos “em curso” e o fracasso da Casa Branca em conseguir uma vitória decisiva, como factores que levaram Washington a intensificar os seus esforços para fazer de JA um “exemplo” para outros jornalistas - exigindo que eles se “moldem” ou paguem as consequências, incluindo a prisão.

1
Contexto para as revelações públicas (Whistleblowing)

No final de uma década de guerra, a oposição ao envolvimento dos EUA no Iraque e no Afeganistão tinha-se alargado a sectores do establishment militar e civil. Foram divulgados documentos e os críticos foram encorajados a disponibilizar relatórios revelando crimes de guerra e o custo em vidas humanas. WL, sob a liderança de Assange, foram os destinatários de centenas de milhares de documentos que provinham de analistas militares, empreiteiros e detentores de cargos civis desgostados das mentiras oficiais e dos media de massas que perpetravam e davam cobertura a crimes de guerra.

Como as guerras se arrastavam, e novas guerras foram lançadas na Líbia e na Síria e os congressistas liberais estavam impotentes e não estavam dispostos a expor as mentiras dos regimes Obama/Clinton e as falsificações que acompanharam o assassínio do Presidente Kadhafi, Wilkileaks e JA divulgaram documentos que revelaram como os EUA planearam, implementaram e fabricaram Guerras Humanitárias para “salvar as pessoas”… bombardeando-as!

As principais redes de comunicação e a imprensa de prestígio seguiam a linha oficial, mas os documentos WL desacreditaram-nos.

O Pentágono, a CIA, a Presidência e os seus apoiantes no Congresso entraram em pânico – à medida que as suas atividades secretas vinham à tona.

Recorreram a várias acções desesperadas, todas direccionadas a silenciar a liberdade de expressão. Acusaram de “espionagem” os jornalistas de investigação – “que trabalhavam para a Rússia ou para os terroristas islâmicos” ou que eram simplesmente “traidores por dinheiro”.

2

À medida que a mensagem WL ganhava legitimidade, Washington voltou-se para o sistema judiciário em busca de sentenças para amordaçar os seus críticos. A liberdade de expressão foi criminalizada. Mas WL continuou. Novos e mais críticos denunciantes entraram em cena; Chelsea Manning, Edward Snowden, William Binney e outros disponibilizaram novas evidências devastadoras das grosseiras distorções e fabricações sobre mortes de civis por parte de Washington.

Aos olhos do Pentágono Julian Assange era O Inimigo porque se recusou a ser comprado ou intimidado. WL despertou com sucesso a desconfiança nos meios de comunicação de massa e a desconfiança nas notícias de guerra oficiais difundidas entre o público.

O Pentágono, a Casa Branca e o aparelho dos serviços de informações procuraram os espiões “internos” que disponibilizavam documentos a WL. A prisão de Julian Assange foi colocada na crença de que a “decapitação” do líder intimidaria outros jornalistas de investigação. JA fugiu para salvar a vida, e procurou e recebeu asilo na Embaixada do Equador no Reino Unido.

Depois de sete anos de pressão, os EUA conseguiram que o Presidente equatoriano Lenin Moreno violasse a constituição do seu próprio país e permitisse que a polícia britânica detivesse JS, o prendesse e preparasse a sua extradição para Washington, onde o regime encontrará o quadro judicial apropriado para o condenar à prisão perpétua ou … pior.

Conclusão

Os crimes de guerra cometidos por Washington são de tal dimensão que corroeram o passivo e submisso ethos dos seus funcionários públicos; tendo perdido a confiança, o governo sustenta-se em ameaças, expulsões e processos crime.

3

Os jornalistas de investigação estão sob pressão por parte do coro de prostitutas de imprensa e enfrentam processos crime
Liberdade de expressão hoje significa “liberdade” para obedecer ao Estado.

O julgamento que se segue de Julian Assange é mais do que sobre a liberdade de expressão. É sobre a capacidade de Washington de prosseguir guerras globais, aplicar sanções ilegais contra países independentes e recrutar Estados vassalos sem oposição. Washington, sem a consciência do público, poderá iniciar guerras comerciais e difamar impunemente os concorrentes .

Uma vez silenciados e/ou presos os delatores, vale tudo.
No período actual muitos jornalistas perderam a capacidade de falar a verdade ao poder, e jovens redactores que buscam oportunidades e modelos a seguir enfrentam a ameaça da censura hierarquicamente imposta por meio de punições. A Casa Branca procura converter o país numa câmara de eco das mentiras das guerras “humanitárias” e golpes “democráticos”.

O governo dos EUA prossegue hoje uma guerra contra a Venezuela. O Tesouro rapina os seus recursos e riquezas e o Estado nomeia o seu presidente em nome de “valores democráticos”.

O regime de Trump está a matar à fome o povo da Venezuela para o submeter, em nome de uma missão humanitária, enredo que apenas é contestado por poucos jornalistas nos meios de comunicação alternativos.

Washington prende JA para garantir que os crimes contra a Venezuela prosseguirão impunemente.

Fonte: https://petras.lahaine.org/julian-assange-and-the-agenda-for/

Divulga o endereço[1] deste texto e o de odiario.info[2] entre os teus amigos e conhecidos

References

  1. ^ endereço (www.odiario.info)
  2. ^ odiario.info (odiario.info)

Ver o original em ODiario.info (clique aqui)

Sim, houve colaboração com os russos. Sim, houve obstrução à Justiça

(Pacheco Pereira, in Público, 20/04/2019)

Pacheco Pereira

 

Já me queixei disto e vou-me queixar outra vez: eu sou vítima do Trump. Sou vítima do Trump, porque a política americana desde 2016 é a mais interessante do mundo, a mais importante de seguir, a mais perigosa do mundo. Aquela em que melhor se pode perceber o que é o carisma, o que é a política pós-pós-moderna, a criatividade perversa, a degeneração interior da democracia, os mecanismos científicos de manipulação das massas na época das “redes sociais”, a autodestruição de um grande partido nacional pelo medo e pela gula, a tentativa de governar em autocracia, sem respeito pela separação de poderes, sem limites do “executivo”, a hipocrisia religiosa dos zelotas face ao poder, o ódio e o ridículo como instrumentos para rebaixar o adversário, o papel da violência sugerida e incentivada para destruir os laços sociais de vida em comum, a arregimentação dos “nossos” contra os “deles”, a relativização absoluta da verdade, a mentira e o abandono dos factos numa linguagem ficcional de slogans e propaganda. George Orwell deveria conhecer Trump para escrever um segundo 1984.

Eis o catálogo. Como é que se pode esperar que eu encontre qualquer forma de interesse nas vicissitudes políticas caseiras, feitas de palha e nada, este disse, aquele não disse, este fez um inuendo, aquele fez um contra-inuendo, esta fez um ataque a coisa nenhuma, aquele defendeu-se com uma mão-cheia de nada e por aí adiante? Não devia, mas não consigo. Chega Trump e o seu reino do mal e, com a diferença de horas, lá se vai a noite e a madrugada.

Agora, é esse documento fabuloso que é o relatório Mueller, pelo menos na parte que foi divulgada, com páginas cheias de linhas grossas a negro. Por detrás dessas linhas podem ter a certeza que há muito mais e mais importantes coisas que virão a ser conhecidas. Estamos mais no princípio do que no fim. Mas vale a pena ler tudo, é mesmo daqueles documentos que prendem a atenção e a leitura sem parar, muito melhor do que qualquer ficção política.

Com a mesma pressa e ligeireza analítica com que nos primeiros dias se desvalorizou a vitória democrática no Congresso, antes de se perceber que tudo mudara, agora ficamos umas semanas com a síntese mentirosa do procurador Barr a desvalorizar o relatório e as salvas de vitória com o mantra de Trump do “no collusion, no obstruction”, nenhuma das coisas confirmadas pelo relatório nestes termos propagandísticos. Pelo contrário, houve extensa colaboração com os russos, aquilo a que hoje se chama “sinergias”, mas não houve provas suficientes para a acusação de um crime. No entanto, vários colaboradores próximos de Trump vão para a cadeia exactamente por terem mentido sobre os seus contactos com os russos. Coincidências. É só esperar que um dia se abra o arquivo do GRU e do FSB, para então as partes encaixarem entre si. E se Trump lhes escapar, os russos são meninos para fazer “fugas” selectivamente. Nós sabemos e Trump também sabe.

E houve obstrução, que Mueller atira para cima do Congresso, sabendo muito bem que já será o novo Congresso democrático a decidir. O elo fraco da resistência a Trump é o Partido Democrático, e não é certo o que vai acontecer. Mas basta ler o relatório para se perceber a continuada tentativa de Trump de impedir as investigações, e Mueller escreve, preto no branco, que não pode exonerar o Presidente dessa acusação.

Depois, há os detalhes, imensos detalhes. Os detalhes são onde habita o Diabo, e aqui é uma confraria de diabos inteira que fica à solta. O relatório Mueller será sempre, por isso, um documento singular para um tratado que precisa de ser escrito nos nossos dias intitulado “Como Se Destrói Uma Democracia por Dentro”. Claro que há muito precedentes, havia inconsistências legais, definições do poder executivo ambíguas, contradições, patologias da democracia americana, que são todas anteriores a Trump. Mas Trump usou-as todas em seu proveito para instituir uma presidência autocrática, acolitada por uma espécie de grand guignol, uma administração de gnomos maldosos, dirigida, moldada, dominada, por uma personagem carismática completamente amoral, capaz de fazer tudo o que acha que pode fazer sem pensar duas vezes.

É um erro considerar que Trump é um epifenómeno que passará depressa, uma anomalia que o “sistema” engolirá nas próximas eleições. A palavra carisma é muito mal usada por cá, mas é mesmo isso que Trump é, carismático, um tipo intuitivo, criador, poiético, que revelou mais do que ninguém as fragilidades da democracia no século XXI.

Mas o relatório Mueller faz-lhe muita mossa. Não era preciso ser um génio da análise para se perceber que vinha aí uma gigantesca pedra feita de detalhes e contexto que caía em cima de Trump, de Barr, de Pence, de Jared, de Ivanka, dos “trumpinhos”, de Sarah Sanders, de Kellyanne, e dos propagandistas da Fox News, Hannity, Tucker, e do partido da vergonha, os republicanos. Eles vivem na lama, e se calhar gostam dos salpicos, mas a pedra vem a caminho e é grande.

E a pedra vai-se dissolver aos poucos, com cada detalhe fazendo o seu caminho “revelador”, viral, moldando a cabeça das pessoas, umas (talvez poucas) mudando-lhes a opinião, outras mobilizando-as para a necessidade da “resistência”, e outras, talvez a maioria, dando-lhes consciência do perigo por que o país está a passar com este homem à frente. Por isso mesmo, Trump tinha razão quando disse sobre esta investigação: “I’m fucked.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

EUA | A geração millennial renova os sindicatos

Sindicalismo dá mostras de vitalidade no centro do sistema. Jovens que ficaram de fora do “sonho de consumo” impulsionam onda de protestos e greves, desde 2018. Eles já não querem apenas salários melhores — querem voz na política

Rôney Rodrigues | Outras Palavras
Trump propagandeia que é o responsável por um boom económico “sem precedentes” nos EUA. O problema é que muitas trabalhadoras e trabalhadores não estão recebendo nenhum pedaço desse grande “bolo de prosperidade” – se é que ele existe. Decidiram, então, lutar por seus direitos, um fato insólito dado o frágil sistema de direitos trabalhistas estadunidense. Por isso, o ano passado foi histórico para os EUA, representando uma efervescência sindical depois de um refluxo de quase cinco décadas.

Afinal, desde a metade dos anos 1970, começou-se uma fase de implantação de políticas neoliberais: além de privatizações e desregulamentações, uma nova organização do trabalho: fragmentação e terceirizações, acompanhadas da transferência de fábricas para regiões com menos sindicatos e legislação trabalhista. Cresceram, também, os macjobs: empregos temporários e precários, sem direitos e sem benefícios e mal remunerados que exploram a força de trabalho principalmente de jovens, mulheres e imigrantes.


Mas vamos recapitular esse intenso 2018 trabalhista dos EUA. Professores de dez estados paralisaram suas atividades reivindicando melhorias na educação pública. Em Los Angeles, foram 300 mil, numa mobilização ruidosa, que tomou as ruas por várias semanas e repercutiu em todo o país. O movimento Fight for $15, que exige que o salário mínimo federal seja aumentado para 15 dólares por hora, ganhou força nas ruas. Milhares de funcionários do Google entraram em greve contra o comportamento inadequado de alguns executivos, acusados de assédio sexual. Funcionários da rede hoteleira Marriott realizaram, conjuntamente, greve em vários estados por melhores salários e condições de trabalho. O Black Lives Matter, movimento organizado contra a violência sofrida pela população negra, também está fortalecido e participou de vários atos pelos direitos civis. A Amazon desistiu de construir uma sede em Nova York, fato motivado, em grande parte, por uma série de denúncias contra suas práticas antissindicais.

As grandes empresas parecem estrangular os trabalhadores – e apesar, ou justamente por isso, cresce o apoio ao movimento sindical. E quem está liderando essa aparente mudança no cenário político dos EUA é justamente uma das faixas mais exploradas em trabalhos estilo macjobs: jovens com menos de 35 anos, a conhecida Geração Millennials.

A nova cara dos sindicatos

Essa “juventude sindicalista” é composta, geralmente, por trabalhadores recém-ingressados no mercado com dívidas estudantis, empregos instáveis e com alugueis caríssimos para pagar no final do mês. Eles não veem outra opção a não ser buscar ferramentas institucionais, como os sindicatos, para reivindicar melhores condições de trabalho e de vida. De acordo com o Bureau of Labor Statistics dos EUA, de 2016 para 2017, aumentou em 400 mil o número de novos sindicalizados com menos de 35 anos, enquanto na faixa etária superior a essa se manteve estável. No entanto, a taxa geral de adesão aos sindicatos estadunidenses está caindo com o passar dos anos.

De acordo com Steven Pitts, professor de trabalho da Universidade da Califórnia, em entrevista para o Quartz at Work, três fatores podem explicar essa mudança na composição dos sindicatos.

1-Algumas indústrias dos EUA com forte taxa de sindicalização, como de empresas manufatureiras e de mineração, estão se contraindo. “Se uma fábrica de aço for desligada”, afirma Pitts, “não são apenas os empregos perdidos. Você também perde muitos sindicalistas ” — alguns com décadas de ação e experiência.

2- Os jovens não se lembram das décadas de 1970 e 1980, quando os sindicatos foram demonizados na imprensa pelas grandes empresas e pelos políticos, acusados de “matar empregos”, “fachada para gângsters” ou “antro de imigrantes”. Logo, não se contaminaram por esse discurso conservador. O professor também vê um paralelo entre a ascensão dos sindicatos e o ressurgimento do socialismo.

3-Trabalhadores de setores não tradicionais, principalmente de serviços ligados a tecnologia, começam a formar seus próprios sindicatos. Promovem comunicação direta com os jovens, por meio de encontros presenciais e mídias digitais. Junto com a perda do poder de compra, nos últimos anos, este diálogo amplia a adesão sindical.

O professor Pitts acredita, no entanto, que o aumento da filiação sindical também é motivado pelo aumento da oferta de empregos: em 2018, os EUA tiveram uma das mais baixas taxas de desemprego em 50 anos, ao mesmo tempo em que não houve um significativo aumento do salário real – e os custos de vida, como em saúde, educação e habitação, aumentaram muito. Ou seja: mais pessoas empregadas com baixos salários resulta em uma maior taxa de sindicalização.

Quais as estratégias de luta dos sindicatos?

Quando Trump paralisou as atividades do setor público estadunidense como chantagem para que o Congresso aprovasse um financiamento para a construção de um muro na fronteira com o México, Sara Nelson, presidente da Associação de Comissários de Bordo, uma das mais conhecidas lideranças trabalhistas do país, defendeu arduamente que se realizasse uma greve geral contra a política orçamentária do presidente, o que agitou a militância sindical e os funcionários públicos federais. A Associação de Educação de Professores de Milwaukee (MTEA) – que sempre se manteve distante dos sindicatos e, muitas vezes, até entrando em choques com a população negra estadunidense que atendia – recentemente reinventou-se. Quando o ex-governador de Wisconsin, Soctt Walker, lançou um violento ataque às negociações coletivas dos professores, aproximou-se da comunidade para promover uma visão igualitária e uma educação inclusiva, inspirando outros professores em todo o país.

O que há em comum entre esses dois episódios, e os vários protestos de 2018, é a aposta que a luta sindical deveria ser feita também na esfera política, com negociações em setores mais amplos da economia (ao contrário de antes, onde eram limitadas e fragmentadas por estado, cidade ou empresa).

Nelson Lichtenstein, professor de história da Universidade da Califórnia, entrevistado para um especial da revista Dissent, analisa: os trabalhadores entenderam que, se o capital está articulado sem fronteiras, eles também deveriam fazer o mesmo. O desafio de agora, segundo ele, é construir um poder opositivo e ativo em uma sociedade dominada pelo capital. Afinal, a cada dia, é consenso entre os lideres sindicais que uma reforma da legislação trabalhista estadunidenses é fundamental não somente para corrigir o regime de trabalho e emprego precários, mas também como forma de combater a desigualdade econômica e política no país.

Há um crescente consenso entre os líderes sindicais de esquerda, acadêmicos e especialistas em políticas públicas: a reforma da lei trabalhista fundamental é necessária não apenas para corrigir um regime de trabalho e emprego quebrado, mas também para lidar com a desigualdade econômica e política.

Ruth Milkman, socióloga do trabalho, também em entrevista ao Dissent, destaca que durante muitos anos era recorrente culpar os imigrantes pela precarização do trabalho nos EUA – uma estratégia diversionista já sacada pelo movimento sindical, com exceções na construção civil. Segundo ela, mesmo relativamente enfraquecidos, os sindicatos continuam como o maior contrapeso organizacional ao poder do capital – e essa renovação promovida pelos jovens millennials pode ser um componente crucial para a própria renovação da esquerda estadunidense.

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Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/04/eua-geracao-millennial-renova-os.html

“Collapse”, análise da crise estrutural

Escrito por um colaborador de Bill Clinton, homem há várias décadas ligado Partido Democrata, embora bastante crítico de Obama, o acabado de publicar “Collapse” defende a tese de que só um “assertive democratic idealism” pode salvar o mundo de um colapso total.

Douglas E. Schoen começa por estabelecer que as elites de governo deram a primazia aos seus próprios interesses em detrimento do interesse colectivo. Em resultado, a presidência de Obama foi uma “downward spiral”, incapaz de responder aos desafios que a situação colocava, tanto no plano interno como no externo.

Exemplo dessa incapacidade de Obama é o “ruinous nuclear deal with Iran” que “has all but guaranteed Tehran will become a nuclear power”. No plano interno, Schoen destaca a “growing income inequality” e as “failing schools”… Em consequência, “the public has grown increasingly disgusted with elite institutions, especially government, but also business and the media”.

É esta perda de confiança na elite política reinante, nos seus media e nas instituições em geral que leva à ascensão e triunfo de Trump: “the problems and trends that led to Trump’s shock emergence have been festering for years…”. Mais explícito ainda: “Trump’s rise would not have been possible without the loss of trust in government and institutions.”

E pergunta final, será Trump, então, o homem certo no lugar e no tempo certos? Poderá Trump proporcionar a liderança que a América tanto precisa? Schoen tem dúvidas e dá uma resposta ambígua: “Pelo menos por enquanto, tudo se resume a Donald Trump. Ele está pronto para isso? Quererá ele sê-lo? As respostas a estas perguntas dir-nos-ão muita coisa.”

“Collapse: A World in Crisis and the Urgency of American Leadership”,

by Douglas E. Schoen – March, 2019

“Collapse” takes stock of a volatile and threatening international environment by looking at some of the underlying causes and flashpoints―the principal one being the failure of institutions and elites to respond to their constituencies and address the problems of our age.

This is a problem spanning the increased polarization that bred nationalist and populist movements, the continued failure of Western leaders to come up with effective strategies for combating authoritarian rivals like Russia and China, and the ongoing Islamist threat. 

Schoen makes clear that the indispensable ingredient for any constructive path forward is effective, engaged, and committed American leadership. This is discussed through the lens of the failed models of President Trump’s two recent predecessors, which reflected, respectively, an uncritical embrace of American power―lacking strategic insight and proportion―and an uncritical abandonment of American leadership that suggested an abject view of the U.S. moral example in the world. Instead, Schoen posits assertive democratic idealism―an embrace of U.S. moral leadership around the world but in ways that remain leavened by realism and a guiding understanding of our national interest. Whether President Trump can deliver on such a vision remains to be seen.

Editorial Reviews

At a moment when chaos and disequilibrium seem to define politics and statecraft around the globe, Schoen has given us not only a way to understand how we got here, but also a prescription for how we find our way back to a more perfect union and a calmer world. A seasoned veteran of political combat, he has advised presidents, prime ministers, governors, and mayors for decades. In his newest book, Collapse, he gives us a roadmap for a new north star for global stability.

During these anxious times, Schoen helps us imagine a path toward a more hopeful future. Part professor, part hardnosed political adviser, Schoen is the perfect tutor at the perfect time.”

 

Richard Plepler, Chairman and Chief Executive Officer of HBO

 

This is a bracing, authoritative, and lucid account of the geopolitical crisis that is now afoot in the world and the need for clear-sighted, moral American leadership on the world stage. Schoen explains in an engaging, highly readable manner how the twentieth-century international alliances and pillars of Western democracy have been eroded―and surveys the rising threats posed by authoritarianism, extremist Islam, and other challenges.

However, he does not succumb to defeatism; instead he appeals for a new type of American leadership known as ‘assertive democratic idealism,’ arguing that this could and should be supported by Democrats and Republicans alike. At a time when so much of the debate about domestic and global politics is deeply polarized, this vision of ‘assertive democratic idealism’ offers a welcome bipartisan call to arms, in the cause of common-sense policy making―and is precisely the type of sensible, clear-headed analysis which is so badly needed in Washington today.”

 

Gillian Tett, U.S. Managing Editor, the Financial Times

 

A remarkably comprehensive analysis of the challenges―internal and external―that we face today. Schoen is able to write intelligently about domestic and international issues alike, weaving them into one worrisome picture of the world. But Schoen ends up, like the man he worked for, Bill Clinton, optimistic about America’s ability to help the world out of the gloom and into broader sunlit uplands. Well worth reading.”

 

Fareed Zakaria, author of The Post-American World

 

Douglas E. Schoen has been one of the most influential Democratic campaign consultants for more than 40 years. A founding partner and principal strategist for Penn, Schoen & Berland, he is widely recognized as one of the co-inventors of overnight polling. His political clients include former New York City mayor Michael Bloomberg and President Bill Clinton, and his corporate clients include AOL Time Warner, Procter & Gamble, and AT&T. Internationally, he has worked for the heads of state of over 15 countries.

He is the author of multiple books; his newest, America in the Age of Trump, was published in the summer of 2017. Schoen is a regular contributor to the Wall Street Journal, the Washington Post, and various other newspaper and online publications, as well as Fox News. He is based in New York City.


Exclusivo Tornado / IntelNomics


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/collapse-analise-da-crise-estrutural/

A União Europeia ameaça acionar a OMC contra os Estados Unidos

 

Os Estados Unidos se preparam para aplicar o título III da Lei Helms-Burton (Cuban Liberty and Democratic Solidarity (Libertad) Act of 1996) autorizando os cidadãos dos EUA a reivindicar propriedades apreendidas em Cuba aquando da Revolução de 1959, 60 anos atrás.

Este dispositivo poderia declarar 200.000 reclamações como admissíveis.

Na realidade, as apreensões feitas por Cuba foram todas indenizadas (indemnizadas-pt) quando os proprietários apresentaram o pedido. No entanto, as grandes famílias que se haviam exilado nos Estados Unidos não aceitaram a Revolução, tentaram derrubar as novas autoridades e não reclamaram, em consequência, suas indenizações.

Se este dispositivo (validado pelo Presidente Bill Clinton) entrar em vigor, ele afetaria particularmente as cadeias de hotéis espanholas que possuem dois terços dos quartos em Cuba. Os antigos proprietários, que obtiveram a cidadania dos EUA, poderiam processar perante a Justiça dos EUA os investidores europeus e eventualmente confiscar seus bens em compensação.

Em 1996, a União Europeia e o domínio britânico do Canadá negociaram com o Presidente Clinton uma isenção da Lei Burton-Helms. Ela era renovada a cada seis meses desde então. A Administração Trump anunciou, em Janeiro, encurtar este período para 45 dias renováveis. Ela se prepara hoje para revogar definitivamente esta derrogação.

Segundo o El País, que teve acesso ao documento, a Alta Representante da União Europeia, Federica Mogerhini, escreveu ao governo dos Estados Unidos para indicar-lhe que, se isso acontecesse, ela acionaria a Organização Mundial do Comércio (OMC) [1]. Essa atuação, por seu turno, provocaria eventos em cascata, nomeadamente a apreensão, por recíproca, de ativos norte-americanos na União.

A entrada de uma queixa da União Europeia contra os Estados Unidos perante a OMC poderia, além disso, abrir reivindicações de todas as sociedades que sofreram bloqueios unilaterais de Washington com relação a terceiros países (o Irã, por exemplo).

Por sua vez, o Canadá realizou várias reuniões com o Secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, para expressar-lhe suas preocupações.


[1] «Bruselas amenaza a EE UU con represalias si reactiva el castigo a los inversores europeos en Cuba», Bernardo de Miguel y Amanda Mars, El País, 17 de Abril de 2019.



Ver original na 'Rede Voltaire'



Eles matam em nome de Washington

Rio, Cabul, Manila, Soweto, Chicago: “guerra às drogas” foi imposta em toda a parte, apesar de seu notável fracasso. EUA usam redes de tráfico para golpes e assassinatos. Felizmente, cresce oposição ao proibicionismo. Vencerá, no Brasil?

Alfred W. McCoy | Outras Palavras | Tradução: Inês Castilho e Simone Paz
Vivemos num tempo de mudanças, em que as pessoas questionam velhos pressupostos e buscando novas direções. Contudo, há no debate atual sobre cuidados de saúde, justiça social e segurança nas fronteiras uma questão negligenciada que deve estar no topo da agenda de todos, dos Socialistas Democráticos aos republicanos ultra-liberais: a mais longa guerra dos Estados Unidos. Não é a feita contra Afeganistão – é a “guerra às drogas”.

Por mais de um século, os EUA têm trabalhado por meio da ONU (e sua predecessora, a Liga das Nações) para construir um duro regime de proibição global às drogas. Ele tem como base leis draconianas, aplicadas por meio de policiamento generalizado, e resulta em encarceramento em massa. Nos últimos cinquenta anos, os EUA também travaram sua própria “guerra às drogas”, que complicou sua política externa, comprometeu sua democracia eleitoral e contribuiu para a desigualdade social. Talvez tenha finalmente chegado a hora de avaliar os danos que tudo isso causou e considerar alternativas.


Embora eu tenha sinalizado pela primeira vez, num livro de 1972, que a CIA tentou abafar o comércio de heroína no Sudeste Asiático, custou a maior parte da minha vida compreender como os complexos caminhos da guerra às drogas deste país, do Afeganistão à Colômbia, da fronteira com o México ao centro de Chicago, moldaram a sociedade norte-americana. No verão passado, o diretor francês de um documentário me entrevistou durante sete horas sobre a história das drogas ilícitas. Conforme íamos do século XVII até o presente, e da Ásia até a América, vi-me tentando responder a pergunta que não quer calar: o que, de fato, me ensinaram 50 anos de observação, além de alguns fatos aleatórios, sobre o caráter do tráfico ilícito de drogas?

Num sentido mais amplo, o último meio século acabou por me ensinar que as drogas não são apenas “tóxicos”; os traficantes não são apenas “bandidos”, e os usuários não são apenas “viciados” (isto é, outsiders inconsequentes). As drogas ilícitas são grandes commodities globais que continuam a influenciar a política dos EUA, nacional e internacionalmente. E as guerras contra as drogas criam lucrativos submundos secretos, nos quais essas mesmas substâncias florescem e se tornam ainda mais lucrativas. A ONU estimou uma vez que o tráfego transnacional, que fornecia drogas a 4,2% da população adulta do mundo, era uma indústria de US$ 400 bilhões, o equivalente a 8% do comércio global.

Por vias que poucos parecem entender, as drogas ilícitas tiveram uma profunda influência nos Estados Unidos modernos, moldando sua política internacional, suas eleições nacionais e suas relações sociais domésticas. No entanto, o sentimento de que as drogas ilícitas pertencem a um baixo mundo marginalizado tornou a política de drogas dos EUA algo relacionado apenas à aplicação da lei – não à saúde, à educação ou ao desenvolvimento urbano.

Durante esse processo de reflexão, voltei a três conversas que tive lá atrás, em 1971, quando era um estudante de graduação de 26 anos pesquisando meu primeiro livro,The Politics of Heroin: CIA Complicity in the Global Drug Trade (A política da heroína: cumplicidade da CIA no comércio global de drogas). No decorrer de uma odisseia de 18 meses em torno do planeta, encontrei três homens, profundamente envolvidos nas guerras às drogas, cujas palavras eu era então muito jovem para compreender completamente.

O primeiro é Lucien Conein, um “lendário” agente da CIA cuja carreira secreta ia de paraquedista no Vietnã do Norte, em 1945, para treinar guerrilheiros comunistas com Ho Chi Minh, até a organização do golpe da CIA que matou o presidente vietnamita do Sul Ngo Dinh Diem, em 1963. No curso de nossa entrevista, em sua modesta casa perto da sede da CIA em Langley, Virginia (EUA), ele expôs exatamente como os agentes da CIA, assim como tantos mafiosos da Córsega, praticavam as “artes clandestinas” de conduzir operações complexas fora dos limites da sociedade civil, e como essas “artes” eram, na verdade, o coração e a alma das operações secretas – assim como do tráfico de drogas.

O segundo é o coronel Roger Trinquier, cuja vida no submundo de drogas da França foi desde o comando de paraquedistas nas montanhas de cultivo de ópio do Vietnã, durante a primeira guerra da Indochina, no início dos anos 50, até servir como representante do general Jacques Massu em sua campanha de assassinato e tortura na Batalha de Argel, em 1957. Durante a entrevista em seu elegante apartamento em Paris, Trinquier explicou como ajudou a financiar suas próprias operações de paraquedista por meio do tráfico ilícito de ópio na Indochina. Ao sair daquela entrevista, senti-me quase esmagado pela aura de onipotência nietzscheana que Trinquier claramente adquirira em seus muitos anos nesse reino sombrio de drogas e morte.

Meu último mentor no tema das drogas foi Tom Tripodi, um agente secreto que treinou exilados cubanos na Flórida para a invasão da Baía dos Porcos pela CIA em 1961 e, no final dos anos 1970, infiltrou-se nas redes mafiosas da Sicília para a Agência de Repressão às Drogas dos EUA. Em 1971, ele apareceu na frente da porta da minha casa em New Haven, Connecticut, identificou-se como agente sênior da secretaria de Narcóticos do departamento do Tesouro e insistiu que a secretaria estava preocupada com o meu futuro livro. Bastante hesitante, mostrei-lhe apenas algumas páginas de rascunho do meu manuscrito de A política da heroína (The Politics of Heroin) e ele prontamente ofereceu-se a me ajudar a torná-lo o mais preciso possível. Nas visitas seguintes, eu lhe passaria os capítulos e ele se sentaria numa cadeira de balanço, mangas da camisa arregaçadas, o revólver no coldre de ombro, rabiscando correções e contando histórias notáveis sobre o tráfico de drogas. Como aquela, do tempo em que a secretaria descobriu que a inteligência francesa estava protegendo os cartéis da Córsega que contrabandeavam heroína para a cidade de Nova York. Muito mais importante, porém, através dele compreendi como alianças ad hoc entre traficantes criminosos e a CIA ajudaram a agência e o tráfico de drogas a prosperar, regularmente.

Olhando pra trás, posso agora ver como cada um daqueles agentes veteranos descreviam-me um universo político clandestino, um submundo secreto no qual agentes governamentais, militares e traficantes de drogas estavam livres dos limites da sociedade civil e empoderados para formar exércitos secretos, derrubar governos e até mesmo, talvez, assassinar um presidente estrangeiro.

Em seu núcleo duro, esse submundo era então, e continua sendo hoje, um reino político invisível habitado por atores criminosos e praticantes das “artes clandestinas” de Conein. Para dar uma noção de escala desse meio social, em 1997 as Nações Unidas informaram que cartéis transnacionais do crime tinham 3,3 milhões de membros, que traficavam drogas, armas, seres humanos e espécies animais em risco de extinção, em todo o mundo. Entretanto, durante a Guerra Fria todo os grandes poderes – Grã Bretanha, França, União Soviética e Estados Unidos – implantaram serviços clandestinos expandidos no mundo inteiro, tornando as operações secretas uma faceta central do poder geopolítico. O fim da Guerra Fria não mudou em nada essa realidade.

Por mais de um século, Estados e Impérios usaram seus poderes expandidos para campanhas morais de proibição que transformaram, de tempos em tempos, o álcool, o jogo, o tabaco e, acima de tudo, as drogas num comércio ilícito que gera dinheiro suficiente para sustentar esses mundos inferiores secretos.

Drogas e política externa norte-americana

A influência das drogas ilícitas na política externa dos EUA esteve evidente, entre 1979 e 2019, no fracasso abissal de suas infindáveis guerras no Afeganistão. Durante um período de 40 anos, duas intervenções norte-americanas naquele país criaram todas as condições para esse tipo de submundo secreto. Enquanto mobilizava fundamentalistas islâmicos para combater a ocupação soviética daquele país, nos anos 80, aCIA tolerava o tráfico de ópio por seus aliados mujahedinafegãos, ao mesmo tempo em que os armava para uma guerra de guerrilha que devastaria o campo, destruindo a agricultura convencional e o pastoreio.

Na década seguinte ao fim da intervenção das superpotências, em 1989, uma guerra civil devastadora e o governo do Talibã aumentaram a dependência do país em relação às drogas, ampliando a produção de ópio de 250 toneladas em 1979 a 4.600 toneladas em 1999. Esse aumento dramático transformou o Afeganistão de um país de economia agrícola diversificada no primeiro do mundo em monocultura de ópio – isto é, completamente dependente de drogas ilícitas para exportação, emprego e impostos. Essa dependência ficou demonstrada em 2000, quando o Talibã baniu o ópio, numa tentativa de reconhecimento diplomático, e reduziu a produção para 185 toneladas. A economia rural implodiu e seu regime entrou em colapso quando, em outubro de 2001, caíram as primeiras bombas dos EUA.

Para dizer o mínimo, a invasão e ocupação dos EUA em 2001-2002 falhou completamente ao lidar com a situação das drogas no país. De início, para tomar a capital — Kabul, controlada pelos Talibãs, a CIA mobilizou os líderes da Aliança do Norte, que há muito dominavam o comércio de drogas no nordeste do Afeganistão, bem como os senhores da guerra pashtuns,ativos como contrabandistas de drogas, na parte sudeste do país. No processo, criaram uma política pós-guerra ideal para a expansão do cultivo de ópio.

Embora a produção tenha aumentado nos três primeiros anos da ocupação dos EUA, Washington permaneceu de olhos fechados, resistindo a qualquer coisa que pudesse enfraquecer as operações militares contra os guerrilheiros do Talibã. Testemunha do fracasso desta política, a Pesquisa do Ópio no Afeganistão da ONU, de 2007, informou que a colheita naquele ano atingira um recorde de 8,2 mil toneladas, gerando 53% do produto interno bruto do país e representando 93% do suprimento desta droga do mundo.

Quando uma única commodity representa mais da metade da economia de uma nação, todo mundo – funcionários, rebeldes, comerciantes e traficantes – está direta ou indiretamente implicado. Em 2016, o New York Times informou que tanto rebeldes Talibãs quanto funcionários provinciais que se opunham a eles estavam envolvidos na luta pelo controle do lucrativo tráfico de drogas na província de Helmand, fonte de quase metade do ópio do país. Um ano depois, a colheita atingiu um recorde de 9 mil toneladas, o que, de acordo com o comando dos EUA, forneceu 60% dos recursos necessários ao sustento do Talibã. Desesperados para cortar esse financiamento, os comandantes norte-americanos enviaram caças F-22 e B-52 para destruir os laboratórios de heroína da insurgência em Helmand – causando danos irrelevantes a um punhado de laboratórios e revelando a impotência, mesmo dos armamentos mais poderosos, contra o poder social do submundo secreto das drogas.

Com a produção descontrolada de ópio sustentando a resistência talibã nos últimos 17 anos, e capaz de fazê-lo por mais 17, aúnica estratégia de saída dos EUA parece agora restaurar os rebeldes no poder, num governo de coalizão – uma política equivalente a admitir a derrota em suas longas intervenções militares e em sua ainda menos bem sucedida guerra às drogas.

Os Sumos Sacerdotes da proibição

Na última metade de século, a sempre mal-sucedida guerra às drogas dos Estados Unidos encontrou um servo cúmplice nas Nações Unidas, cuja postura duvidosa quando se trata de políticas sobre drogas, contrasta drasticamente com o seu trabalho auspicioso em questões como mudança climática e manutenção da paz.

Em 1997, o diretor de Controle de Drogas das Nações Unidas, Pino Arlacchi, decretou um programa de dez anos de duração, para erradicar todas as plantações ilícitas de coca e ópio do planeta, começando pelo Afeganistão. Um década depois, seu sucessor, Antonio Maria Costa, encobrindo essa derrota, anunciou no Relatório Mundial de Drogas da ONU de 2007, que “o controle das drogas está funcionando e que o problema mundial das drogas está sendo reprimido”. Enquanto líderes das Nações Unidas faziam promessas pomposas sobre a proibição das drogas, a produção mundial do ópio ilegal cresceu 10 vezes, de 1,2 mil toneladas em 1971 – ano em que começou oficialmente a guerra estadunidense às drogas – para um recorde de 10,5 mil toneladas em 2017.

Esse abismo entre uma retórica triunfal e a triste realidade, pede a gritos uma explicação. O crescimento da produção do ópio ilícito em 10 vezes é resultado de uma dinâmica de mercado que eu chamo de “o estímulo da proibição”. Basicamente, a proibição é a pré-condição necessária para a existência de um comércio global de narcóticos, gerando tanto senhores das drogas regionais, como cartéis transnacionais que controlam este vasto comércio. É evidente que a proibição garante a existência e o conforto desses cartéis criminosos, os quais, para evitar uma interdição, estão sempre mudando e desenvolvendo suas rotas de contrabando, hierarquias e mecanismos, estimulando uma proliferação mundial do tráfico e do consumo, enquanto asseguram que o submundo das drogas continue a crescer.

Procurando proibir drogas viciantes, os combatentes às drogas dos Estados Unidos e das Nações Unidas agem como se a mobilização por uma repressão forçada pudesse, de fato, reduzir o tráfico de drogas, graças a uma suposta inelasticidade ou aos limites da produção global de narcóticos. Entretanto, na prática, quando a proibição reduz as produções de ópio de alguma região (Burma ou Tailândia), os preços mundiais sobem, levando traficantes e produtores a vender seus estoques, antigos agricultores a plantar mais, e novas áreas (Colômbia) a se iniciar na produção. Resumindo: tal repressão, geralmente, só faz o consumo crescer. Por exemplo, se apreensões de drogas fazem os preços na rua aumentarem, os consumidores viciados irão manter seus hábitos cortando outras despesas (alimentação, aluguel) ou aumentando sua renda, vendendo drogas a novos usuários, e assim expandindo o comércio.

Em vez de reduzir o tráfico, na realidade, a guerra às drogas ajudou a estimular esse crescimento de dez vezes da produção mundial de ópio e o surto paralelo de usuários de heroína – de apenas 68 mil, no ano de 1970, para 886 mil, em 2017.

Ao atacar o fornecimento, evitando sempre enfrentar o consumo, a guerra às drogas dos EUA e das Nações Unidas, vem procurando uma “solução” que desafia a inabalável lei de oferta e demanda. O resultado: Washington e sua guerra às drogas foram da derrota ao desastre, nos últimos 50 anos.

A repressão doméstica às drogas “ilícitas”

Todavia, esta guerra às drogas possui um inacreditável poder de permanência. Tem persistido apesar de décadas de fracassos, devido a uma lógica partidária subjacente. Em 1973, quando o presidente Richard Nixon ainda combatia as drogas na Turquia e na Tailândia, o governador republicano de Nova York, Nelson Rockefeller, promulgou as infames “Leis de Drogas Rockefeller” (Rockefeller Drug Laws), as quais incluíam sanções obrigatórias – desde 15 anos de cadeia até prisão perpétua, a partir da posse de apenas pouco mais de 100 gramas de narcóticos.

Enquanto a polícia varria as ruas do centro da cidade de infratores de menor nível, as sentenças anuais de prisões em Nova York, por crimes relacionados com drogas, passaram de apenas 470, em 1970, para um pico de 8.500, em 1999. Os negros correspondiam a 90% dos encarcerados. As prisões estaduais de Nova York passaram a concentrar um número nunca antes imaginável, de 73 mil pessoas. Nos anos 80, o presidente Ronald Reagan, um republicano conservador, tirou a poeira da campanha antidrogas de Rockefeller, aplicando-a de forma interna intensamente, chamando-a de uma “cruzada nacional” contra as drogas e acrescentando penas federais draconianas para o uso pessoal das substâncias e o tráfico de pequena escala.

Nos 50 anos anteriores, a população carcerária dos EUA permaneceu extraordinariamente estável, apenas 110 presos para cada 100 mil pessoas. Porém, a nova guerra às drogas dobrou o número de presidiários, de 370 mil em 1981, para 713 mil em 1989. Com as leis antidrogas da era Reagan e a legislação estadual paralela, o número de presos chegou a 2,3 milhões em 2008, elevando a taxa de encarceramento do país para o assustador número de 751 prisioneiros em cada 100 mil cidadãos. Vale lembrar: 51% dos que se encontram em penitenciárias federais foram detidos por infrações ligadas a drogas.

Tal encarceramento em massa levou também a uma significativa perda de direitos, dando início a uma tendência que faria com que, em 2012, 6 milhões de pessoas tivessem seu voto negado, incluindo 8% de toda a população de afro-americanos em idade de votar, um eleitorado que havia se tornado majoritariamente democrata há mais de meio século. Somado a isso, este regime carcerário concentrou suas populações prisionais, incluindo guardas e outros trabalhadores penitenciários, nos distritos rurais conservadores do país, criando algo semelhante aos recentes “distritos podres” do Partido Republicano.

Por exemplo, consideremos o 21º Distrito de Nova York,, que abarca a região das Adirondacks e, ao norte, o enclave entre estados, com uma ampla floresta. O distrito abriga 14 prisões estaduais, que englobam 16 mil presidiários, 5 mil empregados e 8 mil membros de suas famílias — fazendo deles, coletivamente, o distrito que mais emprega gente e a presença política mais decisiva. Acrescentando as 13 mil pessoas (aproximadamente) das tropas nas proximidades de Fort Drum, temos um sólido bloco conservador de 26 mil votantes (e 16 mil não-votantes), ou a maior força política, num distrito onde apenas 240 mil residentes realmente votam. Não é de surpreender que a congressista republicana em exercício tenha sobrevivido à onda democrata de 2018, ganhando facilmente, com 56% dos votos. (Por isso, nunca diga que a guerra às drogas não teve efeito).

Os republicanos de Reagan tiveram tanto sucesso na concepção dessa política partidária de drogas como um dever moral, que dois de seus sucessores liberais democratas, Bill Clinton e Barack Obama, evitaram qualquer tipo de reforma séria da mesma. Em vez de uma mudança sistêmica, Obama absolveu cerca de 1.700 condenados, um punhado insignificante entre os milhares de prisioneiros ainda encarcerados por crimes não-violentos, relacionados a drogas.

Enquanto a paralisia partidária continua barrando as mudanças no plano federalo, os estados — obrigados a lidar com os crescentes custos do encarceramento — têm começado lentamente a reduzir suas populações prisionais. Numa enquete de votação, em novembro de 2018, por exemplo, a Flórida, onde as eleições presidenciais de 2000 foram decididas por apenas 537 cédulas, votou a favor da restituição dos direitos eleitorais dos 1,4 milhões de criminosos, que incluem 400 mil afro-americanos. No entanto, assim que o plebiscito passou, os legisladores republicanos da Flórida tentaram desesperadamente inverter essa derrota, exigindo que os mesmos criminosos pagassem suas multas e custos judiciais, antes de ver restituídos seus direitos eleitorais.

A guerra às drogas não só influencia as políticas estadunidenses de várias maneiras negativas, mas também vem reformulando a sociedade americana — e não pra melhor. O papel surpreendente da distribuição ilícita de drogas no que se refere à organização da vida, dentro de algumas das maiores cidades do país, veio à tona num cuidadoso estudo feito por um pesquisador da Universidade de Chicago, que teve acesso aos registros financeiros de uma quadrilha que atua nos bairros empobrecidos de moradia popular de Southside, em Chicago. Eledescobriu que, em 2005, a Black Ganster Discipline Nation (em tradução livre, “Nação da Disciplina do Gânster Negro”), conhecida como GD, tinha cerca de 120 chefes, que empregavam 5.300 homens jovens, predominantemente como traficantes de rua. Ainda reunia outros 20 mil membros aspirantes a esses cargos. Enquanto o chefe de cada uma das centenas de equipes da gangue ganhava cerca de 100 mil dólares por ano, seus três oficiais ganhavam apenas US$7 por hora; seus 50 traficantes de rua, somente US$ 3,30 por hora, e seus milhares de outros integrantes trabalhavam como aprendizes não-remunerados, disputando os espaços de estreia cada vez que um traficante de rua era morto — um destino ao qual um em cada quatro está fadado.

O que isso tudo significa? No empobrecido centro das cidades, com oportunidades de emprego limitadas, esta gangue fornecia empregos com alto risco de mortalidade, por uma remuneração próxima à do salário mínimo (na época, US$5,15 por hora), sendo que, em bairros mais ricos, seus iguais ganhariam o mesmo, em trabalhos muito mais seguros — no McDonald’s, por exemplo.

Ademais, com aproximadamente 25 mil membros em Southside Chicago, o GD proporcionava estrutura social para os jovens na instável faixa de idade entre os 16 e os 30 anos. Minimizava a violência casual, os pequenos delitos, e ajudava Chicago a manter o seu brilho de centro de negócios de classe mundial. Enquanto não existirem educação e empregos suficientes nas cidades, o mercado de drogas ilegal continuará a preencher as lacunas, com trabalhos que envolvem um alto custo de violência, adição, encarceramento e mais vidas arruinadas de modo geral.

O fim da proibição das drogas

Enquanto o esforço global pela proibição entra em seu segundo século, testemunhamos duas tendências opostas. A própria ideia de um regime de proibição alcançou um crescendo de violência, não apenas no Afeganistão mas também, mais recentemente, no Sudeste da Ásia. Isso demonstrou o fracasso da estratégia de guerra e repressão às drogas. Em 2003, o primeiro ministro da Tailândia, Thaksin Shinawatra, lançou uma campanha contra o abuso de metanfetaminas que levou a polícia a praticar 2,275 assassinatos extrajudiciais em apenas três meses. Levando esta lógica coercitiva a suas últimas instâncias, Rodrigo Duterte ordenou, em seu primeiro dia como presidente das Filipinas, um ataque contra o tráfico de drogas que desde então provocou 1,3 milhão de detenções de comerciantes e usuários, 86 mil prisões e cerca de20,000 corpos atirados às ruas das cidades em todo o país. Ainda assim, o uso de drogas segue profundamente enraizado nas favelas de Bangkok e Manila

No outro lado da balança, o movimento de redução de danos, liderado por médicos e ativistas da comunidade está trabalhando lentamente, em todo o mundo, para desafiar o regime proibicionista. Com um plebiscito, em 1996, os eleitores da Califórnia, por exemplo, iniciaram uma trilha, legalizando as vendas de marijuana médica. Em 2018, Oklahoma tornava-se o 30º estado norte-americano a fazê-lo. Após iniciativas de Colorado e Washington em 2012, oito outros estados já descriminalizaram o uso recreativo da droga, a mais difundida de todas as substâncias “ilícitas”.

Atingido por uma disparada no abuso de heroína, nos anos 1980, o governo de Portugal primeiro reagiu com repressão — a qual, com em qualquer parte do planeta, foi incapaz de estancar o processo, tanto crime quanto disseminação do consumo. Aos poucos, uma rede de médicos em todo o país adotou medidas de redução de riscos que resultaram num êxito avassalador e comprovados. Depois de duas décadas de tentativas, Portugal descriminalizou, em 2001, a posse de todas as drogas ilegais, substituindo o encarceramento pelo aconselhamento e alcançando uma queda sustentada nas infecções por HIV e hepatite.

Projetando esta experiência no futuro, parece provável que medidas de redução de danos serão adotadas pouco a pouco, nacional ou localmente, em todo o planeta, enquanto diversas guerras contra as drogas, infinitas e sem êxito, serão interrompidas ou abandonadas. Talvez algum dia, uma cúpula de legisladores do Partido Republicano dos EUA, em alguma sala de conferências revestida de carvalho, em Washington, e uma renca de burocratas da ONU, em seu quartel-general envidraçado em Viena, serão os únicos apóstolos rezando o desacreditado mantra da proibição às drogas.

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Política externa em tempos de submissão

Por que as relações internacionais são decisivas também para superar nossas fragilidades internas. Como o atrelamento aos EUA, proposto por Bolsonaro, fere o país. Qual o caminho para alternativas | por Samuel Pinheiro Guimarães

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Política dos EUA sobre propriedades em Cuba ameaça laços com UE

Governo Trump decide ativar dispositivo de lei que permite ações contra empresas estrangeiras que usam propriedades confiscadas em Cuba. Medida abre caminho para novas tensões com aliados europeus.
O governo do presidente americano Donald Trump decidiu aumentar a pressão contra Cuba ao permitir que cidadãos dos Estados Unidos processem empresas europeias que usam propriedades confiscadas durante a Revolução Cubana.
A grande mudança política prepara o terreno para novas disputas econômicas entre EUA e a Europa e marca um novo endurecimento na política de Washington para pressionar Havana devido ao apoio ao cubano ao governo de Nicolás Maduro, da Venezuela.

O conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, John Bolton, anunciará a mudança política durante um discurso nesta quarta-feira (17/04) em Miami, onde residem milhares de exilados e imigrantes cubanos. No discurso, Bolton também anunciará novas sanções contra Venezuela e Nicarágua, dois aliados esquerdistas da Cuba comunista.


Lei Helms-Burton

A decisão dos EUA de encerrar duas décadas de isenção – parte da Lei Helms-Burton, de 1996 – pode expor empresas americanas, europeias e canadenses a bilhões de dólares em ações judiciais e minar as tentativas de Cuba de atrair mais investimentos estrangeiros. O país caribenho passa por uma crise econômica, em parte devido a cortes acentuados nos subsídios de petróleo venezuelano.

O Título 3º da Lei Helms-Burton deu a americanos que fugiram de Cuba o direito de entrar com ações legais nos tribunais americanos contra empresas, em sua maioria europeias, que estariam operando a partir de propriedades que Cuba nacionalizou após a revolução de 1959.

Além de suspender a isenção, o governo Trump decidiu começar a aplicar o Título 4º da Lei Helms-Burton, que exige a recusa de visto americano para aqueles que "confiscarem ou 'traficarem' bens confiscados em Cuba reivindicados por cidadãos americanos".

Desde Bill Clinton, todos os presidentes dos EUA adiaram a ativação do Título 3º por preocupações de que a legislação provocaria disputas comerciais com aliados e uma série de ações judiciais em tribunais americanos que poderiam impedir qualquer acordo futuro com Havana sobre as propriedades nacionalizadas.

Cuba afirmou que reembolsaria os donos das propriedades nacionalizadas, mas somente se fosse ressarcida em bilhões de dólares em danos causados por um embargo comercial de seis décadas dos Estados Unidos.

UE alerta para disputa comercial

A União Europeia (UE), o maior parceiro comercial de Cuba, alertou para a possibilidade de desafiar os Estados Unidos na Organização Mundial do Comércio (OMC), caso Washington tente interferir nos laços comerciais entre Estados soberanos.

O enviado da União Europeia a Havana, Alberto Navarro, disse a repórteres que o bloco comunitário europeu "condena veementemente" a medida adotada pelo governo Trump. "Isso criará ainda mais confusão para os investimentos estrangeiros, que estão ajudando a criar empregos e prosperidade em Cuba", afirmou.

Em meio a disputas comerciais entre Washington e Bruxelas, o anúncio do governo Trump representa o mais novo atrito entre os EUA e seus aliados europeus, após a saída americana do acordo climático de Paris e do acordo nuclear com o Irã de 2015.

A Europa apoiou os Estados Unidos na pressão ao governo Maduro, mas iniciar uma batalha comercial e atingir a frágil economia cubana pode levar Washington a perder o apoio de importantes aliados europeus, como a Espanha.

Americanos linha-dura ignoram aliados

William LeoGrande, especialista em América Latina e professor da Universidade Americana em Washington, disse que os intervencionistas linha-dura do governo Trump adotaram uma política de mudança de regime para a Venezuela e Cuba.

"Eles esperam que, ao derrubar o governo venezuelano e cortar as exportações de petróleo para Cuba, eles possam provocar uma crise econômica em Cuba, que também causaria um colapso político", afirmou LeoGrande em entrevista à DW.

Segundo o especialista, a política do governo Trump tem como objetivo "afugentar empreiteiros e investidores estrangeiros, deixando Cuba sem capital necessário para o crescimento de sua economia e agravando sua crise econômica".

A Europa pressionou Washington a não suspender as isenções à Lei Helms-Burton, o que exporia empresas estrangeiras a processos judiciais em solo americano.

"Aparentemente, as preocupações da UE serão ignoradas, apesar dos esforços do bloco para ajudar a resolver a crise na Venezuela", disse LeoGrande. "É mais um exemplo do unilateralismo e desprezo do governo Trump pelos aliados tradicionais."

As relações entre Estados Unidos e Cuba se deterioram no governo Trump, após uma reaproximação histórica sob o governo de Barack Obama, quando os dois países restabeleceram relações diplomáticas, no fim de 2014.
Chase Winter (pv) | Deutsche Welle
Memória: Cuba, bordel dos EUA
Antes da revolução, Cuba era, para muitos americanos, sinónimo de jogos de azar, casas noturnas e outros tipos de entretenimento – como um jantar no Havana Yacht Club (foto). "Cuba era o bordel dos EUA", definiu mais tarde o cientista político americano Karl E. Meyer. Para a população, a ditadura de Fulgencio Batista, no entanto, significava principalmente estagnação, desemprego e pobreza.


 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

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Cuba reafirma soberania e independência face à «mentira e ameaças» dos EUA

O governo de Cuba pediu à comunidade internacional e aos norte-americanos que travem a escalada agressiva da Casa Branca, que aposta no recrudescimento do bloqueio económico imposto ao país caribenho.

Cartaz em Cuba contra o bloqueio imposto ao país pelos EUACréditos / RT

Numa declaração emitida ontem à noite pelo Governo Revolucionário, Cuba qualificou como «irracional» a política de hostilidade da administração de Donald Trump, tendo lembrado o isolamento internacional dos Estados Unidos no que respeita ao cerco que impõe à maior das ilhas das Antilhas há quase seis décadas.

«Os estados-membros das Nações Unidas, com toda razão ano após ano, reclamam de forma quase unânime o fim desta guerra económica», lê-se no documento com que o governo de Cuba respondeu às novas medidas de Washington, ontem anunciadas, para vergar Havana.

O secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, anunciou a activação do Título III da Lei Helms-Burton – uma iniciativa aprovada em 1996 e que visa levar à mudança de regime em Cuba, sobretudo por via da asfixia económica, colocando-o baixo tutela colonial.

Com a activação anunciada, os EUA autorizam a apresentação de processos judiciais em tribunais norte-americanos contra entidades cubanas e estrangeiras fora da jurisdicção dos EUA. Nno Twitter, Pompeo escreveu que, a partir de 2 de Maio, cidadãos norte-americanos podem abrir processos judiciais contra pessoas que negoceiem em «bens confiscados pelo regime cubano» – entenda-se «nacionalizados» pelo governo revolucionário de Cuba –, numa tentativa de travar o investimentoi estrangeiro no país caribenho.

O anúncio da activação desta «cláusula» gerou o repúdio quase imediato do Canadá e da União Europeia (UE), uma vez que parte substancial do investimento estrangeiro em Cuba é proveniente do país norte-americano e de estados-membros da UE.

Para além disso, o Conselheiro de Segurança Nacional, John Bolton, divulgou outras medidas restritivas para enfraquecer a economia de Cuba, voltando a limitar o envio de remessas dos cubanos residentes nos Estados Unidos para os seus familiares na Ilha, restringindo ainda mais as viagens de cidadãos norte-americanos a Cuba e anunciando mais sanções financeiras. A Nicarágua e a Venezuela também foram alvo do endurecimento das sanções impostas pelos EUA.

Recurso «à mentira e à chantagem», como de costume

Na declaração divulgada pelo Granma, o governo cubano acusa a administração norte-americana de pretender «justificar as suas acções, como já é hábito, com a mentira e a chantagem», nomeadamente no que respeita às relações bilaterais entre a Ilha e a República Bolivariana da Venezuela.

A este propósito, o documento afirma que «deve ficar claro que as calúnias dos EUA se apoiam numa completa e deliberada mentira», e que o país que «mantém mais de 250 mil soldados em 800 bases militares no estrangeiro» tem «provas mais que suficientes para saber que Cuba não tem tropas nem participa em operações militares de segurança na Venezuela».

O governo cubano sublinha que «nenhuma ameaça de represália», nenhum «ultimato ou chatangem» irão «alterar a conduta internacionalista» do país, do mesmo modo que não fizeram quando «Cuba apoiava os movimentos de libertação em África» e «os EUA apoiavam o ignominioso regime do apartheid».

Quando passam 58 anos sobre a Invasão da Baía dos Porcos e sobre «a primeira derrota do imperialismo na América», Cuba reafirma que «a sua soberania, independência e compromisso com a causa dos povos da América Latina e das Caraíbas não são negociáveis».

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/cuba-reafirma-soberania-e-independencia-face-mentira-e-ameacas-dos-eua

Mueller: 'Encontros entre equipe de Trump e Rússia são insuficientes para provar conluio'

O ex-diretor do FBI Robert Mueller, o conselheiro especial sondando a interferência russa na eleição de 2016, deixa o Capitólio após uma reunião a portas fechadas em Washington. (Arquivo)
© AP Photo / Andrew Harnik

O Departamento de Justiça dos EUA divulgou há pouco o relatório da investigação conduzida pelo procurador especial Robert Mueller sobre suposto conluio entre Trumo e a Rússia. Documento tem quase 450 páginas divididas em dois volumes.

De acordo com o relatório redigido por Mueller, investigadores "identificaram numerosos contatos entre conselheiros de campanha e nacionais russos afiliados ao governo durante a campanha e após a eleição", conforme citou o The New York Times. 


Nem todos os encontros tiveram natureza política, porém. Segundo Mueller, conforme citado pelo jornal, russos também procuraram representantes do presidente para lidar com assuntos comerciais. O procurador se disse incapaz de determinar que tais contatos configuram algum tipo de conluio ou conspiração ilegal.

Mueller detalha no documento alguns destes encontros. O texto detalha que o contato de Trump com a Rússia começou antes do início oficial da campanha, quando Trump assinou uma carta de intenções que previa a construção de uma Trump Tower em Moscou. O então advogado pessoal do bilionário, Michael Cohen, teria enviado um e-mail para tratar do assunto com o hoje secretário de imprensa do presidente Vladimir Putin, Dmitry Peskov.

Um advogado russo também teria se encontrado com membros da equipe de campanha do republicano — incluindo o genro de Trump, Jared Kushner, o filho Trump Jr. e o coordenador de campanha, Paul Manafort, e ofereceu "documentos e informações oficiais que incriminariam Hillary". O caso já havia sido noticiado pela imprensa americana e Mueller não encontrou evidências de que o suposto advogado agia em nome do governo russo.


O texto também traz relatos de esforços empreendidos pela equipe de Donald Trump em atrasar, atacar ou atrapalhar a investigação de Mueller. O procurador especial, porém, se disse incapaz de decidir se o presidente atuou para obstruir a justiça, já que atos como a demissão do ex-diretor do FBI, James Comey, fazia parte de suas atribuições presidenciais.

Autoridades russas contestam as alegações desde 2016, acusando a classe política e a imprensa norte-americana de justificar a derrota de Hillary Clinton com uma mentira, além de usar o caso para  desviar a atenção do público de casos reais de fraude eleitoral e corrupção.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019041813710416-russia-trump-encontros-mueller/

Os EUA e a mudança de regime na Venezuela

A conspiração imperialista contra a Venezuela utiliza um amplo leque de meios: militares, económicos, mediáticos, políticos, culturais. É uma guerra de “quarta geração.” Criou e preparou os seus próprios fantoches. Inflige ao povo venezuelano todas as dificuldades e violências. Mas essa constante agressão, que teve início ainda Chávez não tinha assumido o poder, ainda não quebrou a resistência bolivariana, que exige e merece toda a solidariedade do mundo.

No quadro de uma guerra global de classes de expansionista e agressiva nos últimos 20 anos, durante quatro presidências sucessivas de democratas e republicanos na Casa Branca: William Clinton, George W. Bush, Barack Obama e Donald Trump, a diplomacia de guerra dos EUA tem vindo a impulsionar uma política de mudança de regime na Venezuela contra os governos constitucionais e legítimos de Hugo Chávez e Nicolas Maduro.

Acções abertas e clandestinas dos EUA inscrevem-se na dominação de espectro completo, um conceito concebido pelo Pentágono antes dos ataques terroristas de 11 de Setembro de 2001, que envolve uma política combinada, em que as componentes militar, política, económica, jurídica/para-institucional, mediática e cultural têm objectivos comuns e complementares. Uma vez que o âmbito é geográfico, espacial, social e cultural, para impor a dominação é necessário fabricar o consentimento. Ou seja, colocar na sociedade determinados sentidos comuns que, de tanto repetidos, se incorporam no imaginário colectivo e introduzem, como única, a visão de mundo do poder hegemónico. Isso implica o treino e manipulação ideológica (doutrinação) de um grupo e/ou uma opinião pública legitimadoras do modelo.

São chave para a fabricação de consenso as imagens e narrativa dos meios de comunicação de massa, com os seus mitos, meias verdades, mentiras e falsidades. Apelando à psicologia de massas e à propaganda negra impõem na sociedade a cultura do medo. A fabricação social do temor inclui a construção de inimigos internos.
Manuais do Pentágono atribuem grande importância à luta ideológica no campo da informação e ao papel dos meios de comunicação e redes sociais (Internet e telefones móveis) como armas estratégicas e políticas para gerar violência e caos planificado. Um desses documentos indica que as guerras modernas têm lugar em espaços que vão para além dos simples elementos físicos do campo de batalha. Um dos mais importantes são os meios nos quais ocorrerá a disputa da narrativa. A percepção é tão importante para o seu sucesso quanto o próprio evento. No final do dia, a percepção do que aconteceu é mais importante do que o que realmente aconteceu.

A percepção pode ser criada com base em uma notícia falsa e ser imposta às massas por meio de campanhas de operações psicológicas nos media e/ou nas redes de Internet (guerra social em rede), ou através de grupos de reflexão (Think-tank), centros académicos, fundações, ONGs e intelectuais orgânicos, a partir de matrizes de opinião elaboradas por especialistas em informações e militares. As campanhas de intoxicação (des)informativa exploram preconceitos e vulnerabilidades psicológicas, económicas e políticas da população de um país objectivo, e gerem um guião propagandístico desestabilizador, com eixo em denúncias de corrupção e repressão, rotulando o regime de turno como uma ditadura e acenando como bandeiras a defesa dos direitos humanos, a liberdade de imprensa e a ajuda humanitária.

Antes de Hugo Chávez chegar ao Governo em 2 de Fevereiro de 1999 já tinha sido começada a construir a sua lenda negra, e os meios de comunicação hegemónicos classistas e racistas venezuelanos referiam-se a ele como El Mono Chávez, Gorila rojo, um negro em Miraflores, e aos seus seguidores chamaram hordas chavistas.

Depois, e a par de a Agência Central de Inteligência (CIA) criar a organização sérvia Otpor (Resistência) e treinar os seus membros nas técnicas do golpe suave com o objectivo de derrubar Slobodan Milosevic na ex-Jugoslávia, foi sendo forjado o golpe de Estado de 2002 na Venezuela. Como parte de uma guerra não convencional e assimétrica de quarta de geração, utilizou a Internet e os meios de comunicação de massa (Venevision, Globovision, Rádio Caracas Televisión e entre outros os jornais Tal Cual, El Nacional e El universal), para promover matrizes de opinião antichavistas e projectar informação manipulada, distorcida e falsificada, com a intenção de desacreditar o governo bolivariano.

Fracassado o golpe, o lockout (bloqueio patronal) de corporações empresariais da Venezuela agrupados em Fedecámaras e Conindustria, e a sabotagem da gerontocracia da PDVSA (entidade petroleira estatal). Em 24 de Março de 2004, testemunhando perante o Comitê de Serviços Armados da Câmara dos Representantes dos EUA, o general James T. Hill, chefe do Comando Sul do Pentágono, cunhou a designação de populismo radical em clara referência a Hugo Chávez. O termo foi de imediato usado com fins de propaganda maciça e foi adaptado no México a Andrés Manuel Lopez Obrador, o messias tropical (E. Krauze dixit).

Em Dezembro seguinte triunfava a revolução laranja de factura norte-americana na Ucrânia e, em 2005, com financiamento do Washington, eram enviados para o Centro de Acção e Estratégias Não Violentas Aplicadas (lona), da Universidade de Belgrado, na Sérvia, cinco líderes estudantis da Venezuela para formação nas políticas de mudança de regime segundo as técnicas insurreccionais das revoluções coloridas e golpes suaves de Gene Sharp. Entre eles figuravam Yon Goicoechea, Freddy Guevara e Juan Guaidó.

A combinação das técnicas de uma revolução colorida (golpe suave) com as da guerra não convencional (golpe duro), mergulhou Venezuela numa guerra híbrida
Desde 2005, a partir da experiência acumulada após os erros tácticos cometidos no breve espaço de tempo decorrido desde a chegada de Hugo Chávez ao governo: golpe de Estado, lockout patronal, sabotagem petroleira, guerra mediática e outros ardis desestabilizadores para uma mudança de regime na Venezuela, a Agência Central de inteligência e o Pentágono tinham no terreno, não obstante, os recursos humanos necessários para desenvolver uma guerra híbrida contra a revolução bolivariana: a combinação de manifestações de massas estudantis para uma revolução colorida (golpe suave) com milícias armadas para uma guerra não convencional (golpe duro).

Dois anos mais tarde, Yon Goicoechea, Freddy Guevara, Carlos Graffe, David Smolansky e Juan Guaidó, os estudantes treinados na Sérvia e autonomeados de Geração de 2007, eram elogiados pelo então embaixador dos EUA em Caracas, William Brownfield, como líderes emergentes que desafiavam o chavismo.

Até então, os cinco activistas e outros estudantes também recrutados na Universidade Católica Andrés Bello - cujo reitor era o jesuíta Luis Ugalde, uma das principais fontes dos libelos antichavistas de Enrique Krauze - tinham assistido aos cursos de formação em mudança de regime de Gene Sharp no Instituto Fletcher na Universidade Tufts, em Boston, EUA.

O movimento estudantil tinha reunido fundos do Instituto Cato dos irmãos Koch em Washington, DC, do Institute for Open Society de George Soros, da Fundação Konrad Adenauer do partido democrata-cristão alemão (da senhora Merkel) e da Fundação FAES, do neofranquista José María Aznar, e eram os quadros que deviam impulsionar na Venezuela a chamada revolução calêndula, similar das revoluções rosa (Geórgia, 2003), laranja (Ucrânia, 2004) e tulipa (Quirguistão, 2005).

Com essa tarefa, Goicoechea, Guevara, Guaidó et al participaram em 2007 nas violentas manifestações de rua (guarimbas) antigovernamentais a pretexto da não-renovação da concessão de espaço radioeléctrico a Radio Caracas Television (RCTV), por esgotamento do seu prazo legal (essa estação privada tinha participado activamente no golpe de Estado de 2002, apelando inclusivamente ao assassínio de Hugo Chávez em clara violação da Constituição).

Nessa conjuntura o movimento estudantil mãos brancas levou às ruas venezuelanas as tácticas indirectas do paradoxal caos sistémico organizado e dirigido pelo Instituto Albert Einstein de Gene Sharp e o grupo Otpor usando mesmo um logotipo semelhante ao da organização sérvia, que incluía a palavra Resistência e uma mão (símbolo também usado por Felipe Calderon na sua campanha eleitoral de 2006 contra Andrés Manuel López Obrador, sob o lema AMLO, um perigo para o México).

Com outro elemento relacionado com todas as revoluções de cores: a guerra de quarta geração, que inclui como armas operacionais e estratégicas acções psicológicas clandestinas e campanhas de (des)informação televisionadas, bem como a guerra social em rede (via plataformas como Facebook e Twitter ) como a forma mais eficiente de disseminar e viralizar a mensagem para a administração das percepções e o controlo invisível da sociedade-alvo.

Perante os reiterados fracassos dos seus planos desestabilizadores, em Novembro de 2010, já com Barack Obama na Casa Branca e com a bênção do ex-embaixador dos EUA em Caracas, Otto Reich - perito do reaganismo em propaganda negra e implicado no tráfico de cocaína do escândalo Irangate para financiar a contra nicaraguense adversa ao governo sandinista -, círculos dos serviços de informações dos EUA organizaram uma reunião de activistas estudantis venezuelanos num hotel na Cidade do México.

Nesse encontro, denominado Fiesta Mexicana, participaram membros da Geração 2007 (Goicoechea, Guevara, Smolansky, Guaidó) e dirigentes estudantis como Gaby Arellano, Daniel Ceballos e Amilcar Fernandez, além de dois generais aposentados. Da reunião, que contou com o apoio político do ex-presidente do México, Vicente Fox, surgiu um plano para derrubar o presidente Chávez gerando o caos através de prolongados espasmos de violência de rua.

Com o objectivo de gerar um golpe suave na Venezuela, a conspiração Fiesta Mexicana seria combinada a partir de 2012 com o desenvolvimento de uma infraestrutura de apoio clandestino e toda formação de um grupo subversivo capaz de realizar uma guerra de guerrilha (rural e urbana), executar acções terroristas e sabotagens estratégicas contra as forças do governo e infraestruturas críticas, difundir propaganda, traficar contrabando e reunir informações, de acordo com o manual de guerra não convencional do Pentágono (Special Forces Unconventional Warfare, também conhecido como TC 18-01).

A partir de então a combinação das técnicas de uma revolução colorida (golpe suave) com as da guerra não convencional (golpe duro), mergulhou a Venezuela numa guerra híbrida até aos dias de hoje, cujo objectivo é fragmentar o Estado e derrubar o governo constitucional e legítimo de Nicolás Maduro. Com a Casa Branca (primeiro Obama, depois Trump) exercendo a liderança velada.

Fonte: https://www.lahaine.org/mundo.php/eeuu-y-el-cambio-de
https://www.lahaine.org/mundo.php/eeuu-y-el-cambio-de-1

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References

  1. ^ endereço (www.odiario.info)
  2. ^ odiario.info (odiario.info)

Ver o original em ODiario.info (clique aqui)

Guerra comercial entre EUA e China pode estar chegando ao fim

Bandeiras chinesas e norte-americanas
© AP Photo / Ng Han Guan, Pool

Estados Unidos e China planejam realizar uma nova rodada de negociações ainda este mês e esperam fechar um acordo no final de maio ou no início de junho, informou a imprensa dos EUA nesta quarta-feira.

Os dois lados criaram um cronograma de reuniões que esperam concluir com uma cerimônia formal de assinatura em 27 de maio, informou o The Wall Street Journal, citando fontes familiarizadas com o assunto.


O plano é que o representante de Comércio dos EUA, Robert Lighthizer, viaje a Pequim na semana de 29 de abril, antes da visita do vice-primeiro-ministro da China, Liu He, a Washington em 6 de maio.

As negociações visam refinar a redação de um acordo comercial final que seria assinado pelo presidente dos EUA, Donald Trump, e pelo presidente chinês, Xi Jinping.

O jornal observou, no entanto, que as autoridades americanas e chinesas já haviam perdido os próprios prazos para a conclusão de um acordo.

O presidente dos EUA, Donald Trump, em 4 de abril, após se reunir com Liu He na Casa Branca, disse que esperava fechar um acordo comercial com a China dentro de quatro semanas.

Pequim e Washington se envolveram em uma disputa comercial desde junho, quando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou que os EUA imporiam tarifas de 25 por cento sobre produtos chineses, no valor de US $ 50 bilhões, numa tentativa de reduzir o déficit comercial entre EUA e China. Desde então, os dois países adotaram uma série de tarifas protecionistas e conduzem uma verdadeira "guerra comercial" que, aparentemente, pode estar chegando ao fim.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/asia_oceania/2019041713703998-guerra-comercial-eua-china-fim/

Trump veta resolução do Congresso que determina a saída dos EUA da guerra do Iêmen

O presidente dos EUA, Donald Trump, com o rei saudita Salman bin Abdulaziz Al Saud em Riad, Arábia Saudita, em 21 de maio de 2017
© REUTERS / Jonathan Ernst

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse em uma carta ao Senado que vetou medida aprovada pelo Congresso para acabar com o envolvimento americano na guerra liderada pelos sauditas no Iêmen.

"Estou devolvendo sem minha aprovação, a S.J. Res. 7, uma resolução conjunta que pretende obrigar o presidente a retirar as Forças Armadas dos Estados Unidos do conflito ou de ações contra a República do Iêmen", escreveu Trump na terça-feira. "Esta resolução é uma tentativa desnecessária e perigosa de enfraquecer minhas autoridades constitucionais, pondo em risco a vida dos cidadãos americanos e bravos membros em serviço, tanto hoje como no futuro", completa o texto.

Esta foi a segunda vez desde o início do mandato em 2017 em que Trump usou o poder de veto para rejeitar uma resolução do Congresso. Anteriormente, ele barrou uma medida que revogava sua declaração de emergência nacional na fronteira dos EUA com o México. A questão acabou judicializada.

A coalizão liderada pela Arábia Saudita está envolvida na guerra civil no Iêmen desde março de 2015, quando começou a realizar ataques aéreos contra os rebeldes armados Houthi a pedido do então presidente iemenita Abd Rabbuh Mansur Hadi.


Os combates contavam com apoio aéreo e contratos armamentistas com os EUA, mas congressistas republicanos e democratas decidiram encerrar a ajuda após o assassinato do jornalista Jamal Khashoggi na embaixada saudita em Ancara. A Inteligência dos EUA e a relatoria especial da ONU sobre execuções extrajudiciais, sumárias ou arbitrárias acusam o príncipe herdeiro, Mohammad bin Salman de encomendar a morte de Khashoggi. Riad nega.

A guerra civil do Iêmen já matou mais de 7 mil mortes e deixou 20 milhões de pessoas no Iêmen em estado de urgente assistência humanitária, de acordo com estimativas da ONU.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019041613696457-eua-guerra-iemen-arabia-saudita/

Prefeito de NY agradece cancelamento de Museu e diz que Bolsonaro é racista e perigoso

Prefeito de Nova York Bill de Blasio
© REUTERS / Carlo Allegri

O prefeito de Nova York, Bill de Blasio, comentou nesta terça-feira a decisão do Museu de História Natural de Nova York de cancelar jantar em homenagem ao presidente brasileiro Jair Bolsonaro (PSL).

"Jair Bolsonaro é um homem perigoso. Seu racismo visível, homofobia e decisões destrutivas terão um impacto devastador no futuro do nosso planeta. Em nome da nossa cidade, obrigado Museu de História Natural de Nova York por cancelar este evento", escreveu Blasio no Twitter.


O Museu recusou sediar o jantar Câmara de Comercio Brasil-EUA em homenagem a Bolsonaro e disse que o evento foi anunciado sem que a instituição soubesse quem seria o homenageado. O Museu de História Natural afirmou que o evento não "reflete a posição do museu de que há uma necessidade urgente de conservar a Amazônia, que tem profundas implicações para a diversidade biológica, as comunidades indígenas, mudança climática e o futuro da saúde do nosso planeta."

Já o prefeito de Nova York havia criticado Bolsonaro antes do Museu definir que o jantar seria cancelado e voltou a carga nesta terça.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/brasil/2019041613695870-prefeito-nova-york-museu-jantar-bolsonaro-racista/

EXEMPLO DE UMA NOTÍCIA PERFEITAMENTE INÚTIL

O que torna esta notícia acima merdosa não tem nada a ver com o facto de ela se mostrar favorável à candidatura de Donald Trump. Tem a ver com o facto de ser publicada sem que haja qualquer esforço do(s) autor(es) em lhe dar um contexto, já que é óbvio que o leitor médio não tem qualquer ideia de grandeza do que será uma capacidade de arrecadação de fundos bem sucedida numa campanha presidencial.E já agora, ele(s) também não.
Vai daí, o que é publicado é apenas a ressonância da propaganda da campanha para a reeleição do presidente. Por acaso, o tema da capacidade para a angariação de fundos até tem sido promovido na América, como se vê pela notícia abaixo, datada do princípio deste mês, em que o New York Timesse dedica ao mesmo exercício do que acima faz o SAPO24, só que, nesse caso, o jornal americano o faz em prol do candidato democrata Bernie Sanders (no mesmo estilo opaco e merdoso, acentue-se).
Tudo o que se lê a tal respeito tem que ser visto em perspectiva, a tal perspectiva que os jornalistas se esquecem sempre de adicionar. No caso, o primeiro aspecto é que os 18 milhões angariados por Sanders têm que ser comparados com os 30 milhões de Trump depois de tomar em conta que Sanders é apenas um dos mais de vinte candidatos presidenciais do lado do partido democrata, enquanto que, até agora e como é tradicional, ninguém a sério se apresentou do lado republicano para disputar as primárias com o inquilino da Casa Branca.
Ou seja, Sanders é apenas um dos receptores de fundos de um dos lados, enquanto do outro existe um monopólio e é sabendo disso que se percebe que a diferença não é assim tão grande. O SAPO24 não se esqueceu de nos explicar isso - porque não foi à procura de contexto, nem falou de Sanders sequer!
Como também se esqueceu de explicar de como os milhões que refere são apenas uma gota de água no que vai ser gasto nas campanhas: há quase quatro anos, em Agosto de 2015 e ainda a eleição presidencial estava a mais de um ano de distância, e o número de que se falava já nessa altura era de 250 milhões!
E aí, por sinal, Donald Trump nem aparecia em lugar de destaque entre os candidatos, numa demonstração que, apesar do dinheiro dar sempre jeito, o desfecho desta competição vai ser entre votos nas urnas e não entre notas de dólar nas carteiras. Teria ficado bem ao SAPO24 enfatizar isso. Enfim, que tal teria sido pegar na peça de propaganda da candidatura de Donald Trump e, em vez de só a traduzir, aproveitá-la para escrever uma verdadeira notícia?...

Veja o original em 'Herdeiro de Aécio' na seguinte ligação::

http://herdeirodeaecio.blogspot.com/2019/04/exemplo-de-uma-noticia-perfeitamente.html

EUA x Venezuela – definição de insanidade

A hipocrisia dos liberais do establishment estadunidense beira à insanidade, como se vê entre os que defendem a intervenção de Trump contra Maduro, na Venezuela. 

Há oito anos, em março de 2011, estes liberais aplaudiram quando o governo Obama depôs um autocrata na Líbia. Prometiam um novo governo de paz e estabilidade, mas o resultado foi desordem e caos, a destruição do país. Agora querem fazer o mesmo na Venezuela.

Desde março de 2011 a intervenção militar dos EUA, sob o manto da Otan, agiu para derrubar aquilo que chamavam de tirania de Muamar Gaddafi. Foi uma intervenção violenta e sangrenta.

Entretanto, analistas do establishment liberal nos EUA a apoiaram, a pretexto de levar o país ao que chamam de democracia. 

Por algum tempo, a aventura ilegal de Obama na Líbia, em 2011, sem autorização do Congresso dos EUA, foi considerada um exemplo do conceito de “poder inteligente” do então presidente. Contudo, quase todas as notícias importantes sobre a Líbia após a invasão e a derrubada de Gaddafi – desde a maneira como o país se tornou um ponto de partida para a violência extremista em outros lugares da região, até o surgimento de mercados de escravos ou seu status de refúgio seguro para o Estado Islâmico – servem como lição de por que derrubar um governo estrangeiro faz mais mal do que bem.

A pior parte é que muitos dos que aplaudiram ou até mesmo orquestraram o apoio a esse desastre não parecem ter aprendido a lição – pelo menos é o que se vê por suas posições sobre a Venezuela.

Por exemplo, o âncora da CNN Fareed Zakaria, especialista em assuntos internacionais do establishment centrista. Em 2011, ele viu a intervenção de Obama na Líbia como uma “oportunidade poderosa” para mudar a imagem dos EUA no Oriente Médio. A sobrevivência de Gaddafi “seria uma humilhação para Washington”, argumentou. “Portanto, os EUA devem seguir seus esforços para tirar Gaddafi do poder”, escreveu. “Se os líbios solicitarem assistência militar, Washington deve seguir nessa direção.”

Os desdobramentos da ação militar dos EUA provaram que Zakaria estava completamente errado. A desventura na Líbia não fez nada para melhorar a posição dos EUA no Oriente Médio — de fato, grandes maiorias no mundo árabe não concordam que o país norte-americano contribuía para a paz e estabilidade na região, e por ampla margem viram a intervenção dos EUA como responsável pela desestabilização e por causar conflitos no país. 

Outras previsões de Zakaria também foram erradas. Longe de ser a “melhor maneira de impedir a Al-Qaeda de transformar a Líbia em uma área de força”, como ele previu, a derrubada e assassinato de Gaddafi trouxe extremistas violentos para a Líbia.

Mas Zakaria, menos de duas semanas atrás, manifestou seu apoio à tentativa de Trump de intervir militarmente na Venezuela. 

Depois de invocar a doutrina Monroe, Zakaria perguntou: “será que a Venezuela será o momento em que Trump finalmente termina seu apaziguamento?”, referindo-se às alegadas relações de Trump com o primeiro-ministro russo Vladimir Putin. 

Zakaria não é o único comentarista do establishment liberal que quer Maduro fora do poder. Tem a companhia de Lawrence Korb, que foi Secretário de Defesa d