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Um fundador do Facebook defende o seu desmantelamento


Vários leitores costumam mandar-nos contribuições para aqui serem divulgadas. Chegou-nos de um leitor esta notícia da Lusa:

Cofundador da Facebook defende desmantelamento da empresa
O desmantelamento da empresa Facebook foi recomendado na quinta-feira por uma das suas principais figuras, o cofundador Chris Hughes, num longo artigo de opinião, em que também defende o seu controlo apertado.
Hughes, que fundou esta empresa de redes sociais com Mark Zuckerberg há 15 anos num dormitório da Universidade de Harvard, escreveu no New York Times: “É a altura de desmantelar a Facebook”, separando a rede social, que é a sua atividade original, das aplicações Instagram e WhatsApp, que entretanto adquiriu.
No seu texto, Chris Hughes, que saiu da empresa e garante ter vendido a sua posição em 2012, criticou diretamente Zuckerberg, que acusou de ter sacrificado a proteção da vida privada dos utilizadores em benefício do clique e de ter eliminado a concorrência sem estado de alma.
O texto, muito longo, é acompanhado de uma fotografia dos dois, com rostos juvenis, no ‘campus’ da universidade em 2004.
“É um ser humano. Mas é a sua humanidade que torna o seu poder, fora de controlo, tão problemático”, escreveu Hughes, sobre o seu antigo colega.
Mark Zuckerberg “criou um leviatã que elimina o espírito de empresa e restringe a escolha dos consumidores”, acusou Hughes, que agora é membro do Projeto de Segurança Económica (Economic Security Project), que defende a instauração de um rendimento mínimo de existência nos Estados Unidos da América, e do Roosevelt Institute.
Na sua opinião, Zuckerberg pode decidir, por seu livre arbítrio, alterar os algoritmos da Facebook, para modificar o que os utilizadores veem no seu fio de atualidade ou os parâmetros de proteção de vida privada.
“Estou em cólera pela prioridade que deu ao crescimento, negligenciando a segurança e o civismo para ganhar a corrida aos cliques”, lamentou, afirmando que “o governo deve responsabilizar Mark” por esta situação.
Para Chris Hughes, a Facebook tornou-se um monopólio que convém desmantelar “no mais curto espaço de tempo”: reguladores e eleitos devem tratar rapidamente deste dossiê com, se for preciso, a ameaça de um processo antimonopólio nos tribunais.
E acrescentou: “Desmantelar a Facebook não é suficiente. Precisamos de uma nova agência, encarregada pelo Congresso de regular as empresas tecnológicas”.
Hughes junta-se assim a outros críticos virulentos, como George Soros, que ataca com frequência a Facebook e outras empresas da internet, que também descreve como “monopólios cada vez mais potentes”.
Hughes junta-se também à senadora democrata Elizabeth Warren, candidata democrata às eleições presidenciais de 2020, que propôs recentemente “desmantelar estes monopólios” e que considerou hoje, na rede social Twitter, que Chris Hughes tinha “razão”.
Já muito criticada por não ter antecipado as manipulações políticas orquestradas pela sua rede – em particular, durante a campanha presidencial norte-americana em 2016 –, a Facebook é também atacada pela gestão dos dados pessoais dos seus utilizadores, desde o escândalo Cambridge Analytica em 2018.
MadreMedia / Lusa 2019-5-10 https://24.sapo.pt/atualidade/artigos/cofundador-da-facebook-defende-desmantelamento-da-empresa

 

Ver original em 'De Rerum Natura' na seguinte ligação::

http://dererummundi.blogspot.com/2019/05/um-fundador-do-facebook-defende-o-seu.html

TRUMP E OS TRUMPINHOS

Não sei quem as encomenda, nem sei se quem as encomenda fica satisfeito com este produto final, mas, a verdade é que fico com a sensação que o impacto destas notícias acaba por gerar em quem as lê mais antipatias do que os receios que intentará gerar. Os funcionários das Necessidades esticar-se-ão (talvez) em sentido, tal o tom grosso da voz dos Estados Unidos nas chancelarias, mas até os cromos da direita nacionalista das redes sociais (que desconfio nem desgostarem do estilo Trump...) remexer-se-ão desconfortados com tanta exibição gratuita de despotismo, humilhando ostensivamente os outros. Contudo, e apesar de ser desagradável e humilhante de se assistir, até é interessante ver o estilo intimidatório do actual ocupante da Casa Branca a reproduzir-se, imitado pelos titulares das embaixadas dos Estados Unidos que ele espalhou pelo Mundo. Só para que os cépticos constatem que não é inócuo que se empregue aquele estilo campanudo. Há o Trump e com ele aparecem os trumpinhos.

Se escrevo todo este preâmbulo é porque, ao contrário do que se deduzirá da mensagem acima veiculada pelo Observador, o mesmo problema da rede 5G da Huawei se tem vindo a colocar no Reino Unido. Embora o problema seja para levar muito a sério, não dei por que o embaixador dos USA em Londres se lembrasse de fazer ameaças do mesmo estilo das feitas por cá. Noutros países (mais...) europeus, por exemplo em França e na Alemanha a decisão ainda está embrulhada. De qualquer modo, suponho que o mais assisado será que a decisão portuguesa venha a tomar em conta as opções desses seus parceiros. Aquilo que se está a assistir é a uma guerra comercial das antigas, e a controvérsia, mais do que envolvendo a nova tecnologia das redes móveis (5G), tem a ver com a nacionalidade de um dos competidores mais aguerridos, a Huawei chinesa. Para criarem obstáculos aos chineses, os norte-americanos já arranjaram de tudo o que puderam para lhes emerdar a vida: até pediram ao Canadá para que prendessem a CFO daquela empresa por fraude(...).
A pedra de toque do discurso americano alertando-nos contra a Huawei é a questão da segurança. É um assunto sério, que aliás tenho visto a ser encarado com essa mesma seriedade pelas autoridades da União Europeia, a preocupação com a possibilidade de que os chineses através da Huawei viessem a dispor de um trampolim privilegiado para a intercepção das telecomunicações móveis na Europa. O que borra a pintura, é ouvirmos essas preocupações quando expressas por americanos. É que mesmo o passar do tempo não nos deixa esquecer outros tempos, em que as tecnologias tinham menos Gs e os operadores se chamavam Vodafone, e se descobriam escândalos em que todo o governo grego e o topo do aparelho de segurança da Grécia haviam estado sob escuta por ocasião da realização dos Jogos Olímpicos de 2004. E esse é apenas um exemplo, devidamente abafado na altura para que não desse em nada. Outro mais recente, que já deve ter envolvido um G mais elevado do que o anterior, foi a descoberta que, durante mais de dez anos, os americanos haviam estado a escutar as conversas de telemóvel de Angela Merkel!

Creio que ninguém gosta de ser espiado por quem quer que seja, e também não pelos chineses, mas o senhor embaixador americano que tenha juízo. A última e única vez em que Portugal foi publicamente «afectado pela partilha de informação secreta» foi em 1975, envolveu o bloqueio dos Estados Unidos mas também o de todos os outros nossos aliados da NATO e, sobretudo, todos os portugueses (os comunistas que eram suspeitos de se chibarem e todos os outros) percebiam porquê.

Veja o original em 'Herdeiro de Aécio' na seguinte ligação::

http://herdeirodeaecio.blogspot.com/2019/05/trump-e-os-trumpinhos.html

CIA acusa Huawei de ser financiada por autoridades governamentais chinesas

Equipe de segurança próximo a logo da Huawei durante lançamento do MateBook em Pequim.
© AP Photo / Mark Schiefelbein

A Agência Central de Inteligência dos EUA acusou a gigante de tecnologia chinesa de ser patrocinada por autoridades do país, informou o jornal The New York Times neste sábado.

A agência de inteligência norte-americana acredita que Huawei seja financiada pelo Exército de Libertação do Povo Chinês, pela Comissão de Segurança Nacional e por uma terceira filial da rede de inteligência estatal chinesa, informou o Times.

O jornal também disse, citando uma fonte de inteligência dos EUA, que o Ministério de Segurança do Estado da China endossou o patrocínio estatal da companhia.


O relatório foi divulgado no início do mês passado. Na ocasião, o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, alertou que Washington pode abandonar a cooperação com alguns "parceiros estratégicos importantes" que usam os sistemas da Huawei, que além de celulares é a líder em desenvolvimento de estruturas de redes 5G no mundo.

Acusações de ligação entre a Huawei e o governo chinês circulam desde o ano passado. Autoridades suspeitam que a empresa não só agia segundo os interesses de Pequim, como também chegou a espionar outros países para a China. Austrália, Japão, Nova Zelândia e Estados Unidos proibiram a gigante de telecomunicações de participar de licitações, alegando questões de segurança. Vários outros países disseram que também estavam preocupados com as atividades da Huawei.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/asia_oceania/2019042013722748-cia-huawei-china-financiamento/

Pequeno guia para abandonar o Google

Pequeno guia para abandonar o Google
Roteiro para sair do labirinto de uma das mega-corporações tecnológicas. Ela já provou incontáveis vezes não merecer nossa confiança – mas julgamos estar presos, por não ver alternativas. Elas existem
Gabriela Leite | Outras Palavras | Imagem:  Pawell Kuczynski
Há alguns anos, viralizou um meme com dois porquinhos surpresos com sua vida grátis na fazenda. Abaixo, uma eloquente comparação com a rede social mais famosa do planeta: se não está pagando para usar, é porque é você quem está sendo vendido. De fato, a lógica da internet seguiu esse caminho. Foi uma bruta transformação: um espaço de gigante potencial de liberdade e troca de conhecimento foi engolido por grandes empresas que controlam os dados de seus usuários, vendem sua atenção, manipulam seu humor, delatam sua rotina para agências de inteligência, intensificam o hiperindividualismo, influenciam eleições… Tudo isso num regime de oligopólio, cujos integrantes aniquilam (ou engolem) qualquer iniciativa que desafie sua hegemonia.


Pequeno guia para abandonar o Google
Mas como fugir? O jornalista Nithin Coca contou, no Medium, sua experiência em deixar de usar todos os produtos de uma dessas brutamontes tecnológicas: a Google. Conta que, a princípio, era um grande fã da empresa, que sempre aparecia com um novo serviço genial — e gratuito. Ora, se não chegamos ao ponto de ir ao abate, após habitar esse confortável curral, certamente já pagamos a conta com nossos dados, nossa privacidade, nossa liberdade. Nithin passou a perceber que deixamos de adotar os serviços do Google porque são os melhores, mas porque parece não haver alternativas.

Mas há: várias iniciativas resistem, muitas delas ainda com o enorme benefício de proteger suas informações — afinal a ideia não é sair do Google e migrar para a Microsoft ou a Apple, veja bem. Vamos a algumas das alternativas.

Primeiro, bem, a busca. Duckduckgo já é conhecido por muitos, mas ele também cita o Startpage. Nenhum dos dois coleta seus dados ou cria um perfil de consumo para indicar as marcas “certas”. Para substituir o navegador Chrome, fácil: o Firefox. Muito conhecido, bem mais rápido, é mantido por uma fundação sem fins lucrativos que luta pela liberdade e privacidade na internet. Se seu problema é a localização, também já pode abandonar Google Maps e Waze. Para o computador, ele indica o HereWeGo, para celular, o Maps.mePara substituir o Gmail, escolheu o ProtonMail, um servidor que se preocupa tanto com segurança quanto com a facilidade de uso. Vale a pena ver a lista completa: há opções para o Hangouts, o Google Drive, e até sistemas operacionais que substituem o Android, nos celulares.

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Google encerra conselho de ética em inteligência artificial após uma semana de atividades

Escritório da Google na Suiça.
© AP Photo / Keystone, Walter Bier, file

O Google confirmou nesta quinta-feira (4) que desmobilizou um painel consultivo de ética em inteligência artificial, recentemente montado, em meio a controvérsias sobre seus membros.

O fim do Conselho Consultivo Externo de Tecnologia Avançada (ATEAC na sigla em inglês) ocorre poucos dias depois que um grupo de funcionários do Google lançou uma campanha pública contra a presença do presidente da organização conservadora Heritage Foundation entre seus membros.


Outro membro do conselho já havia renunciado, e a inclusão de um executivo de uma companhia de drone reacendeu as preocupações sobre potenciais usos militares da inteligência artificial, segundo o site de notícias Vox, que primeiro informou sobre o desmantelamento do conselho.

"Ficou claro que no ambiente atual, o ATEAC não pode funcionar como queríamos", disse o Google à AFP. "Então, estamos terminando o conselho e voltando à prancheta."

O Google acrescentou que buscaria formas alternativas de coletar informações externas sobre o uso responsável da inteligência artificial.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/sociedade/2019040513616783-google-encerra-conselho-etica-inteligencia-artificial/

A tecnologia como falsa vilã para os trabalhadores

As verdadeiras causas de problemas como desemprego e baixos salários são políticas.

Paul Krugman, o famoso Prêmio Nobel de Economia, escreve em sua coluna no jornal norte-americano The New York Times, reproduzida pela Folha de S. Paulo, sobre o impacto do avanço tecnológico no emprego e no salário. Segundo ele, a ideia de que as máquinas estão roubando os bons empregos, ou mesmo os empregos em geral, deve ser discutida no âmbito das políticas públicas. 

Por Krugman, boa parte da agitação por um sistema de renda básica universal vem da crença de que os empregos se tornarão ainda mais escassos, quando o apocalipse dos robôs varrer a economia. “Assim, me parece uma boa ideia apontar que, nesse caso, aquilo que todo mundo sabe não é verdade”, afirma. 

Paul Krugman, Prémio Nobel de Economia

Previsões são difíceis, especialmente sobre o futuro, e pode ser que os robôs realmente venham a roubar todos os nossos empregos, um dia desses, mas a automação simplesmente não tem papel importante na história do que aconteceu com os trabalhadores dos Estados Unidos nos últimos 40 anos, diz ele. “Temos um grande problema — mas ele tem pouco a ver com tecnologia e muito a ver com política e poder”, destaca.

Krugman propõe um recuo no tempo para perguntar o que exatamente é um robô. “É claro que ele não precisa ser parecido com C3-PO, e nem rolar pelo mundo dizendo ‘exterminar! Exterminar!’ Do ponto de vista econômico, um robô é qualquer coisa que use a tecnologia para executar trabalhos antes executados por seres humanos”, comenta. E os robôs, nesse sentido, vêm transformando a economia literalmente há séculos, avalia. “David Ricardo, um dos pais fundadores da economia, escreveu sobre os efeitos desordenadores da maquinaria já em 1821!”, afirmou. 

Hoje em dia, quando as pessoas falam sobre o apocalipse robô, em geral não pensam em coisas como a mineração a céu aberto, ou a remoção do topo de montanhas para exploração de minérios. Mas essas tecnologias transformaram radicalmente a mineração de carvão. A produção de carvão quase dobrou entre 1950 e 2000 (só começou a cair alguns anos atrás), mas o número de pessoas empregadas pelo setor carvoeiro dos Estados Unidos caiu de 470 mil para menos de 80 mil”.

Paul Krugman

Desordenamento tecnológico

Ele propõe considerar também o caso do transporte de cargas em contêineres. “Os estivadores costumavam ser parte importante do cenário nas grandes cidades portuárias. Mas embora o comércio mundial tenha disparado, da década de 1970 em diante, o número de trabalhadores americanos empregados no “tratamento de carga marítima” caiu em dois terços”, informa.

Assim, o desordenamento tecnológico não é um fenômeno novo, de acordo com ele.

Mas será que podemos dizer que está se acelerando? Os dados dizem que não. Se robôs realmente estivessem substituindo trabalhadores em escala maciça, a expectativa seria de que a quantidade de coisas produzidas por trabalhador remanescente – a produtividade do trabalho – disparasse. Na verdade, a produtividade cresceu muito mais rápido da metade da de 1990 à metade da década de 2000 do que de lá para cá”.

Paul Krugman

Assim, diz Krugman, a mudança tecnológica é história velha. O que mudou é que os trabalhadores não vêm compartilhando de seus frutos. “Não estou dizendo que lidar com a mudança tenha sido fácil, em qualquer momento. O declínio do emprego na mineração de carvão teve efeitos devastadores sobre muitas famílias, e boa parte do território que costumava produzir carvão nunca se recuperou. A perda de trabalhos braçais nas cidades portuárias certamente contribuiu para a crise social urbana das décadas de 1970 e 1980”, recordou.

Salário mínimo nos Estados Unidos

Mas, segundo ele, embora o progresso tecnológico sempre tenha deixado vítimas, até os anos 1970 o crescimento da produtividade se traduzia em alta de salários para a maioria dos trabalhadores. “Essa conexão se rompeu, e não foram os robôs que causaram o rompimento”, alerta. “Qual foi a causa? Existe consenso crescente, embora não completo, entre os economistas de que um fator chave para a estagnação dos salários foi a perda de poder de negociação dos trabalhadores — um declínio cujas raízes são em última análise políticas.”

Uma causa óbvia é que o salário mínimo federal dos Estados Unidos, considerada a inflação, caiu em um terço nos últimos 50 anos, enquanto a produtividade dos trabalhadores aumentava em 150%, equaciona.

Essa divergência aconteceu por motivos políticos, pura e simplesmente. O declínio dos sindicatos, que representavam um quarto dos trabalhadores dos Estados Unidos em 1973 mas hoje só representam 6% deles, pode não ter causas políticas evidentes”.

Paul Krugman

Mas outros países não sofreram declínios parecidos, segundo Krugman. “No Canadá, a proporção de trabalhadores sindicalizados hoje equivale à dos Estados Unidos em 1973; nos países nórdicos, os sindicatos representam dois terços das forças de trabalho. O que fez dos Estados Unidos uma exceção é o ambiente político fortemente hostil à organização dos trabalhadores e altamente favorável aos empregadores determinados a destruir os sindicatos”, informa.

Declínio dos sindicatos

E o declínio dos sindicatos fez uma enorme diferença, nas contas de Krugman. “Veja o caso dos caminhoneiros: no passado, dirigir caminhões era um bom emprego, mas agora o salário é um terço mais baixo do que na década de 1970, e as condições de trabalho são terríveis. O que causou essa mudança? O esvaziamento dos sindicatos é grande parte da história. E esses fatores facilmente quantificáveis são apenas indicadores de um viés sustentado de antagonismo aos trabalhadores em nossa política”, afirma.

Segundo ele, essa constatação reconduz à questão de por que se fala tanto sobre robôs. “A resposta, eu proporia, é que essa é uma forma de desviar a atenção — uma maneira de evitar admitir que nosso sistema é distorcido em desfavor dos trabalhadores, da mesma maneira que falar de uma ‘lacuna de capacitações’ sempre foi uma forma de desviar a atenção quanto a más políticas que promovem alto desemprego”, destaca.

Para Krugman, os progressistas, mais que qualquer outro grupo, não deveriam se deixar enredar por esse fatalismo fácil. “Os trabalhadores americanos poderiam, e deveriam, estar recebendo um tratamento muito melhor. E se isso não acontece, a falha não está em nossos robôs, mas em nossos líderes políticos”, conclui.


Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/a-tecnologia-como-falsa-vila-para-os-trabalhadores/

Por que melhores cérebros da China estão deixando EUA e voltando a casa?

Sede da empresa de busca chinesa Baidu
© AFP 2019 / Greg Baker

O engenheiro principal que liderava o desenvolvimento da inteligência artificial no Facebook deixou o gigante estadunidense para trabalhar na Alibaba.

Jia Yangqing trabalhará para a academia DAMO (Academy for Discovery, Adventure, Momentum and Outlook), divisão da Alibaba responsável pelo desenvolvimento de alta tecnologia, inclusive a inteligência artificial (IA). Graduado pela Universidade de Tsinghua (uma das mais prestigiosas na China), Jia Yangqing é considerado um dos melhores especialistas em IA no mundo.

Até há pouco tempo, o Vale do Silício nos EUA era um polo de atração para os melhores engenheiros do mundo, inclusive chineses. Segundo o LinkedIn, há cerca de 1,9 milhão de especialistas em tecnologia informática no mundo. Os EUA contam com 850.000 deles, enquanto a China tem apenas 50.000.

Os engenheiros e cientistas chineses buscam educação e emprego nos Estados Unidos, mas, segundo a última tendência, os melhores especialistas em TI estão se mudando para a China. Assim, o cientistas Andrew Ng de origem chinesa passou da Google para a Baidu; Li Kaifu deixou a Google para criar o seu próprio fundo de investimento na China e assim por diante.

A China está se convertendo em um lugar mais prometedor para os cientistas e engenheiros que o Vale do Silício devido ao fato de quase ter alcançado os EUA no seu desenvolvimento tecnológico, disse à Sputnik China Li Kai, especialista da Universidade de Finanças de Shanxi.

"A economia chinesa está crescendo há quase 40 anos, a produção está aumentando rapidamente e a diferença com os países ocidentais é cada vez menor. Em algumas áreas já estamos caminhando junto com os EUA, por exemplo, na inteligência artificial ou nas redes 5G", explicou o especialista.

Em segundo lugar, a China não sente falta de investimentos, enquanto os EUA estão vivendo perdas de capital, transferência de produção e outros problemas. Algumas tecnologias de vanguarda (por exemplo, automóveis autopropulsados) devem se desenvolver simultaneamente com as indústrias tradicionais, mas nos EUA, no contexto da pós-industrialização, alguns setores tradicionais foram eliminados, segundo Li Kai.

Além disso, a China gasta muito dinheiro para atrair especialistas talentosos, investe em investigação e desenvolvimento, tornando-se muito atrativa para os cientistas estrangeiros. Muitos chineses que estudaram no exterior depois voltam a casa.

Segundo o especialista, a política do governo chinês também contribui para atrair os especialistas. As autoridades entendem que é impossível que o país se torne líder mundial em inteligência artificial até 2030 sem criar incentivos administrativos para atrair talentos de todo o mundo.

Os gigantes tecnológicos, tais como a Alibaba, Baidu ou Tencent, também recebem apoio a nível estatal, o que permite não poupar dinheiro para se expandir no exterior, nem para atrair especialistas das empresas concorrentes estrangeiras. Podem oferecer até um milhão de dólares por ano a um cientista de alto nível para trabalhar na China.


Estas medidas ajudam a China a dar um salto tecnológico e os EUA começaram a se preocupar por perder o título de líder mundial em progresso tecnológico.

Por outro lado, Washington e Pequim podem cooperar nesse âmbito, já que cada país tem as suas vantagens competitivas, que podem se juntar para o melhor desenvolvimento conjunto, opina o especialista chinês.

"De fato, nas indústrias de alta tecnologia, a China e os EUA podem se complementar e cooperar. Os EUA são fortes em investigação fundamental e a China — na investigação aplicada. Por isso, existe um grande potencial de cooperação entre eles. A China percebe rapidamente onde aplicar melhor a tecnologia e como fazer dinheiro com ela; já os fundos que daí resultam podem ser investidos na investigação fundamental. No entanto, as guerras comerciais e tecnológicas não criam uma atmosfera favorável para a cooperação", assinalou ele.

Embora a administração de Trump esteja pensando em impor restrições às exportações de alta tecnologia da China e peça às empresas europeias para se absterem de cooperar com o gigante asiático na criação de redes 5G, as empresas privadas procuram unir forças para desenvolver estas tecnologias.

Por exemplo, a Baidu tem três laboratórios de investigação nos EUA. Outro gigante chinês da esfera, o Tencent, abriu um centro de investigações de inteligência artificial em Seattle, EUA. A Google está estabelecendo uma empresa similar em Pequim.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/ciencia_tecnologia/2019032313543934-china-eua-especialistas-ti-investimentos-desenvolvimento/

Alemanha barra lançamento de criptomoeda

Bitcoin e uma nota de dólar, imagem ilustrativa
© Sputnik / Yevgeny Biyatov

A Autoridade Federal de Supervisão Financeira da Alemanha, conhecida como BaFin, impediu que uma empresa levantasse dinheiro emitindo uma nova criptomoeda, disse uma fonte familiarizada com o assunto à AFP nesta quarta-feira (20).

A decisão afetou a startup alemã Rise, que queria levantar US$ 120 milhões para financiar sua máquina de inteligência artificial que opera no mercado de ações.

Em troca, os financiadores teriam recebido tokens digitais como parte da chamada "oferta inicial de moeda" (ICO) — um termo que joga com o rótulo mais tradicional de uma oferta pública inicial (IPO).

A BaFin se recusou a comentar quando contatada pela AFP.

A Rise, em seu site, conclama clientes em potencial a "investir como um bilionário".

Seu aplicativo permite que os usuários negociem ações, opções de compra, índices e criptomoedas — com a empresa alegando que sua tecnologia de inteligência artificial gera retornos muito maiores do que os investimentos clássicos.


Mas a promessa da empresa de retornos massivos — até 675% em cinco anos — atraiu o olhar crítico das autoridades alemãs.

Em dezembro de 2018, a empresa alemã de criptomoedas Envion quebrou. Cerca de 30 mil pessoas haviam investido US$ 100 milhões nela.

Quem coloca dinheiro em uma oferta inicial de moedas deve "estar preparado para perder todo o seu investimento", alertou a BaFin em comunicado no final de 2017, quando a febre do Bitcoin — a mais conhecida criptomoeda — estava no auge.

Os preços caíram no setor logo depois, controlando a atmosfera da corrida ao ouro em torno da iniciativa.

Enquanto isso, a morte súbita do jovem presidente da canadense QuadrigaCX no início de fevereiro — levando ao seu túmulo a senha para US$ 180 milhões em moedas digitais dos clientes — ressaltou novamente os riscos.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/economia/2019022013351009-alemanha-barra-criptomoeda/

CARTA DE BRAGA – “smartphones e sobrancelhas”

António M. Oliveira

Achei uma palavra nova!

Vai ser a minha palavra do ano para 2019! Creio ter também direito a uma só para mim e escolhi esta por ser curta, sonora, difícil de esquecer e fácil de dizer!

Nomofobia

Diz o digital Priberam, o dicionário de mais fácil acesso, ser ‘o medo causado pela possibilidade de ficar sem contacto através do telemóvel

Até tem derivados, nomófobo ou nomofóbico, que mudam de género se lhe trocarmos a última vogal, sem ser necessário escrever

o’ 

com tinta azul e

a

com tinta rosa!

Tais alarvidades não chegaram ainda à isenta aridez do dicionário, com também não chegaram aos núcleos de investigadores dos institutos e universidades que estão a analisar os perigos e prejuízos provocados por esta demolidora e açambarcante dependência.

Alguns dos estudos trazem conclusões, às vezes dolorosas, de casos mais ou menos dramáticos, mas outros alertam para danos basicamente mentais, como transtornos de ansiedade e maior fragilidade depressiva, levando a ampliar a dificuldade de concentração.

Também são os estes os mais facilmente recusados por ninguém os querer levar a sério, como é notório neste comentário ‘quem é que quer saber de um pouco menos ou de um pouco mais de concentração neste mundo meio maluco em que vivemos?

E, umas linhas mais abaixo, mais duas perguntas também incomodativas ‘quem quer saber do agravamento da saúde mental de alguém, neste império da imagem, do culto ao corpo, ao físico e à juventude?’ e ‘Quem quer saber da ansiedade quando ela pode ser controlada pelo número de ‘likes’ num tweet com trinta letras? Não há paciência para pensar nisso!’

 

Outros estudos apontam para o isolamento e para a solidão daquele que nunca larga o telemóvel nem no banho, ou daquele que sempre se esquece de olhar em volta, mas convive com a rapidez dos relacionamentos aceitando bem a precaridade da vida e também a ajudar este mundo a mergulhar bem fundo na ‘modernidade líquida’ referida por Bauman, onde só se dedica tempo às pessoas com quem se pode conectar.

É uma das consequências da era digital que nos transforma em dependentes psicológicos de lugares imaginários através de vinculações e encontros, uma virtualidade a recusar aparentemente o facto de sermos seres sociais e interdependentes, existindo só devido à (e pela) relação com o ‘outro’.

Mas é ridículo e até motivo de troça falar disto hoje a um nomófabo pois, afirma-se num dos tais estudos ‘uma minúscula informação a dizer que o uso excessivo do smartphone seria uma das causas da queda das sobrancelhas, seria mil vezes mais efectiva do que um argumento razoável para acabar com tal dependência

Escusam de franzir o sobrolho, encolhendo as ditas! Basta olhar em volta! É mesmo assim!

‘Beber café poupa as sobrancelhas’

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2019/01/30/carta-de-braga-smartphones-e-sobrancelhas-por-antonio-oliveira/

Escolas inovem porque a "educação é a base da economia",

Não será difícil perceber que a "mudança", a "inovação" que está a ser implementada nos sistemas de ensino por entidades como o Bando Mundial (BM), a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) e a União Europeia (UE) tem uma relação estreita com a economia mundial (desenhada para beneficiar uma parte da população em detrimento da outra parte).
Imagem retirada daqui
E não será difícil perceber porque isso é reconhecido abertamente: "a educação é a base da nossa economia", diz um tal Phil McKinney, que se apresenta como especialista em inovação e tecnologia (ver aqui). Não é, porém, nada inovador nesta declaração: ela está em todo o lado, sem procurar muito, poderia citar aqui uns quantos outros nomes.
Mas já que estou a falar desse especialista (que não o é em educação), detenho-me na sua página online(subscrita por diversas empresas de medicamentos, de diversão, de tecnologia...) Há um texto que, pela proximidade com o discurso que apresenta a próxima conferência da OCDE “Innovation in education: What has changed in the classroom in the past decade?", vale a pena ler. O título desse texto é Innovation in the classroom: why education needs to be more innovative e no essencial diz o seguinte (a tradução não é integral)
"O que aprendemos na escola e como aprendemos determina a pessoa em que nos tornamos mas também o nosso sucesso ao longo da vida: como resolvemos problemas, como trabalhamos com os outros e como olhamos para o mundo à nossa volta. 
Na actual economia de inovação, a educação torna-se particularmente importante para o desenvolvimento da próxima geração, que terá de ser inovadora e criativa. 
Existe, porém, uma lacuna significativa entre o que pode ser a educação e o que muitos estudantes estão a aprender. Isto compreende-se porque a implementação de ideias inovadoras é, em geral, lenta no campo educativo.Assim, muitos educadores ainda usam métodos antigos, que se revelam cada vez mais ineficazes. 
Usar métodos inovadores no ensino de modo a promover o pensamento inovador nos alunos e levá-los a reconhecer os seus benefícios é muito diferente de "encher" as suas cabeças, é levá-los e ter apaixonarem-se pela aprendizagem, fazendo-os ter consciências das ferramentas que lhes serão necessárias para terem sucesso na economia. 
Entre esses métodos estão as "tecnologia na sala de aula", que, além de proporcionarem um acesso rápido ao conhecimento, facilitam a comunicação e a colaboração, tornando a aprendizagem interessante e envolvente, especialmente para as novas gerações, já nativa-digital, desenvolvendo também competências tecnológicas. 
Porque a tecnologia, por si só, não estimula a inovação na sala de aula, é preciso usá-la de maneiras inovadoras, de que exemplos os "robots-professores" ou os dados recolhidos em "perfis de alunos".
No que respeita aos "perfis", assim como as empresas usam os dados para avaliar os resultados das campanhas de marketingou para obter informações sobre seu público, os educadores podem usar dados de aprendizagem para determinar a eficácia dos métodos de ensino e obter uma informação pormenorizada dos pontos fortes e fracos dos alunos no sentido de escolher aquilo de que precisam para terem sucesso. Esses dados também podem ajudar as escolas a avaliar a eficácia e o desempenho dos professores. 
A inovação não é importante apenas para as empresas, a educação beneficia ainda mais com ela, sobretudo se ela for introduzida na sala de aula. Assim, os educadores podem ter um enorme impacto no futuro do nosso mundo."
 

Ver original em 'De Rerum Natura' na seguinte ligação::

http://dererummundi.blogspot.com/2019/01/inovem-porque-educacao-e-base-da.html

Trivialidades sobre o futuro do trabalho

A CIP quis mostrar quão preocupada está com a eliminação de muitos milhares de empregos por causa do uso intensivo da automação, e particularmente da robótica. Vai daí encomendou um estudo ontem apresentado ao som de bandas e fanfarras com muitos balões e fitinhas a esvoaçarem virtualmente entre os convivas. Ao governo não emitiu convite porque, de acordo com o Saraiva, seu mandão, e em tom de Diácono Remédios, «não havia nexexidade». E, no entanto, lá «brilhava» na primeira fila esse putativo candidato à liderança laranja (Pedro Duarte), que é a reserva de Marcelo Rebelo de Sousa para retomar o controlo do partido que foi ( e é!) o seu.
O que o tal estudo diz não comporta qualquer novidade. É necessária mais formação, blá-blá-blá. É preciso que o governo pague essa requalificação, blá-blá-blá. Importa que os patrões possam despedir mais facilmente quem se torna prescindível com os novos meios de produção, e sem terem de arcar com quaisquer custos, blá-blá-blá.
No «Público» recordava-se oportunamente uma frase do escritor francês Jean Paulhan que, décadas atrás, dizia: “as máquinas parecem ter sido inventadas para nos poupar de fadigas, mas todos os trabalhadores trabalham muito mais desde que se servem delas.”
E o busílis da questão está mesmo aí, no facto dos patrões quererem aumentar os lucros com menor recurso à mão-de-obra em vez de distribuírem o trabalho manual existente por mais trabalhadores, que receberiam o mesmo por horários de trabalho mais aligeirados. E que anseiam por reduzir as prestações sociais em vez de se verem sujeitos à justa contribuição decorrente de descontarem em função dos seus lucros e não pelo volume de massa salarial, que paguem. Salvaguardando-se obviamente que não mantenham a capacidade para escaparem com esses lucros para paraísos fiscais, claro.
Em suma a CIP fez o diagnóstico do futuro do trabalho nas próximas décadas, mas preparando-se para as orientar de forma a que se salvaguardem os seus interesses. Precisamente o oposto do que mais importa a quem não integra (nem quer integrar!) a sua interesseira corte!

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/01/trivialidades-sobre-o-futuro-do-trabalho.html

“OK, Google: deflagre a III Guerra Mundial”

EUA preparam a hiperguerra: armas autônomas e decisões de ataque (inclusive nuclear) tomadas por máquinas, em vez de humanos. Quais as consequências. Como China e Rússia responderão.
Michal T. Klare, em Tom Dispatch| Traduzido por Marianna Braghini e Felipe Calabrez
Nada é mais certo de que o lançamento de armas atómicas poderia provocar um holocausto nuclear. O presidente norte-americano John F. Kennedy deparou-se com tal momento durante a Crise dos Mísseis de Cuba em 1962. Depois de pressentir o resultado catastrófico de um confronto nuclear entre EUA e União Soviética, ele chegou à conclusão que as potências atómicas deveriam impor barreiras ao uso precipitado uso de tal armamento. Entre as medidas, ele e outros líderes globais adotaram diretrizes, requerendo que funcionários de alto nível, não apenas militares, tivessem um papel em qualquer decisão de lançamento de armas atômicas.
O risco existia antes e, claro, perdura. E como! Como a inteligência artificial, (IA) exerce um papel cada vez maior em assuntos militares — aliás, em toda nossa vida — o papel dos humanos, mesmo em uma decisão do uso nuclear, tende a ser progressivamente minimizado. Aliás, em algum futuro mundo saturado de IA, este papel poderia desaparecer completamente, deixando que as máquinas determinem o futuro da humanidade.
Isso não é uma conjectura qualquer, baseada em filmes de ficção científica ou narrativas distópicas. É bem real, aqui e agora ou ao menos aqui e em breve. Quando o Departamento de Defesa dos EUA — o Pentágono — e o comando militar de outras grandes potências olham para o futuro, o que eles vêem é um campo de batalha altamente disputado — alguns chamaram de um ambiente de hiperguerra [hyperwar] — com vastos enxames de armas robóticas guiadas por IA, que se enfrentarão em uma velocidade superior ao que os comandantes militares conseguem acompanhar no curso de uma batalha. Em tal momento, pensa-se, os comandantes podem cada vez mais ser forçados a depender de máquinas, nunca antes tão “inteligentes”, para tomar decisões sobre qual armamento deve ser utilizado, quando e onde. A princípio, isso pode não se estender para armas nucleares, mas à medida em que a velocidade da batalha aumenta e as fronteiras entre estas e o armamento convencional se reduzem, pode ser impossível prevenir a automação até mesmo na tomada de decisão de lançamento de armas nucleares.
A “minimização da tomada de decisão por humanos” terá profundas implicações para o futuro dos combates. Tal resultado só pode crescer, à medida em  que a força militar dos EUA se realinhar, transformar de uma organização voltada para guerras assimétricas e contra-terrorismo para outras, voltada ao combate direto contra China e Rússia. Essa mudança foi demandada pelo Departamento de Defesa em sua Estratégia de Segurança Nacional (National Security Strategy,) em dezembro de 2017. Em vez de se focar maioritariamente em armamento e táticas voltadas ao combate de insurgentes mal armados em conflitos perpétuos de pequena escala, o poder militar americano está sendo redesenhado para combater as bem equipadas forças russas e chinesas em diversas dimensões (céu, mar, terra, espaço, ciberespaço) e envolvendo sistemas de múltiplos ataques (tanques, aviões, mísseis, foguetes) e operando com mínima supervisão humana.
“O principal efeito/resultado de todas estas capacidades, quando articuladas, será uma inovação que a guerra jamais viu antes: a minimização das tomadas de decisão por humanos na vasta maioria de processos tradicionalmente requeridos para promover uma guerra,” observaram o General dos Marines, John Allen, e o empreendedor de AI, Amir Hussain. “Nesta era próxima era da hiperguerra, veremos humanos provendo insumos amplos e de alto nível, enquanto as máquinas realizam o planeamento, execução e adaptação à realidade das missões, e retiram o fardo de milhares de decisões individuais sem nenhum insumo adicional.
“O principal efeito/resultado de todas estas capacidades, quando articuladas, será uma inovação que a guerra jamais viu antes: a minimização das tomadas de decisão por humanos na vasta maioria de processos tradicionalmente requeridos para promover uma guerra,” observou o General dos Marines, John Allen, e o empreendedor de IA, Amir Hussain. “Nesta era próxima da hiperguerra [hyperwar], veremos humanos provendo insumos amplos e de alto nível, enquanto as máquinas realizam o planeamento, execução e adaptação à realidade das missões, e retiram o fardo de milhares de decisões individuais sem nenhum benefício adicional.
A “minimização da tomada de decisão por humanos” terá profundas implicações para o futuro do combate. Geralmente, líderes nacionais buscam controlar o ritmo e a direção da batalha para assegurar o melhor desfecho possível, mesmo que isso signifique cessar o conflito para evitar maiores perdas ou prevenir um desastre humanitário. Máquinas, ou até mesmo máquinas inteligentes, são provavelmente incapazes de avaliar o contexto social e político do combate. Ativá-las pode muito bem desembocar em situações que se agravam descontroladamente.
Podem passar anos, talvez décadas, antes que as máquinas substituam o papel dos humanos em decisões militares sérias, mas este tempo está no horizonte. Quando se trata de controle do sistema de armamentos por IA, como afirmou o secretário de Defesa dos EUA, Jim Mattis, em uma entrevista recente: “No futuro próximo, haverá um elemento humano significativo. Talvez por dez anos, talvez por quinze. Mas não por cem.”
Por que Inteligência Artificial?
Mesmo cinco anos atrás, havia poucos no establishment militar que davam atenção ao papel de IA ou da robótica quando se tratava de grandes operações de combate. Sim, aeronaves pilotadas remotamente (RPA), ou drones, foram amplamente usadas na África e Grande Oriente Médio para caçar combatentes inimigos. Mas são operações largamente auxiliares (e as vezes da CIA), que visam aliviar pressão nos comandos dos EUA e forças aliadas, lançadas contra bandos dispersos de extremistas violentos. Além disso, os RPA’s de hoje são ainda controladas por operadores humanos, mesmo de suas remotas localizações e fazem pouco uso de sistemas de ataque e de identificação de humanos providos de IA. No futuro, no entanto, espera-se que estes sistemas povoem grande parte de qualquer espaço de batalha, substituindo humanos em muitos ou mesmo na maioria das funções de combate.
Para acelerar esta transformação, o departamento de Defesa já está gastando centenas de milhões de dólares em pesquisas relacionadas a IA. “Não podemos esperar sucesso nas lutas de amanhã com o pensamento, armamento ou equipamento de ontem,” disse o secretário Mattis ao Congresso, em abril. Para assegurar uma contínua supremacia militar, ele adicionou, o Pentágono teria que focar mais em “investimento em inovação tecnológica para aumentar letalidade, incluindo pesquisas de avançados sistemas autónomos, inteligência artificial e hiperbólicos.”
Por que a repentina ênfase em IA e robótica? Tudo começa, é claro, com o surpreendente progresso feito pela comunidade tecnológica — muito dela assentada no Vale do Silício, Califórnia — no aprimoramento de IA e sua aplicação em múltiplas funções, incluindo identificação de imagens e reconhecimento de voz. Uma dessas aplicações, a Alexa Voice Services, é o sistema de computação por trás do alto falante inteligente da Amazon, que pode usar a Internet não só para executar, mas interpretar seus comandos. (“Alexa, toque música clássica.” “Alexa, me diga a previsão do tempo de hoje.” “Alexa, ligue as luzes.”) Outro tipo de aplicação são os veículos autónomos, que talvez revolucionem o transporte.
Inteligência Artificial é uma tecnologia omni-uso, empregável para tudo, explicam analistas do Congressional Research Service, uma agência apartidária de informação, “ao passo em que tem o potencial de ser virtualmente integrada a tudo”. É também uma tecnologia de uso dual que pode ser aplicada apropriadamente tanto para propósitos militares como para civis. Carros autónomos, por exemplo, dependem de algoritmos especializados para processar informação de qualquer matriz de sensores monitorizando condições de tráfego, e então decidir por qual rota seguir, quando mudar de faixa e assim por diante. A mesma tecnologia, e versões reconfiguradas dos mesmos algoritmos, um dia serão aplicadas para tanques autónomos soltos no campo de batalha. Similarmente, um dia, aeronaves drone — sem operadores humanos em localidades distantes — serão capazes de analisar um campo de batalha para alvos determinados (tanques, sistemas de radar, combatentes), determinando que aquilo que “vê” está de fato em sua lista de alvos, e “decidindo” lançar um míssil sobre a pessoa ou objeto.
Não é necessário um cérebro particularmente ágil para entender por que oficiais do Pentágono buscariam se munir com tal tecnologia. Eles acham que ela lhes dará uma considerável vantagem em futuras guerras. Qualquer conflito de grande escala entre EUA, China ou Rússia (ou ambas) seria, para dizer o mínimo, extremamente violento, com possivelmente centenas de navios de guerra e muitos milhares de aeronaves e veículos armados. Em tal ambiente, a velocidade na tomada de decisão, desdobramento e envolvimento será, sem dúvidas, um importante acessório. Num futuro de armamentos super inteligentes, precisamente guiados, quem atirar primeiro terá uma melhor chance de sucesso, ou até mesmo sobrevivência, do que um adversário que só consegue atirar devagar. Humanos podem se mover rapidamente em tais situações quando forçados a fazê-lo, mas as máquinas futuras irão agir muito mais rápido, além de acompanhar mais variáveis do campo de batalha.
Como o General Paul Selva, vice-diretor do Grupo Conjunto de Comando dos EUA, disse ao Congresso de seu país, em 2017, “é muito convincente quando se obseva as capacidades que a inteligência artificial pode trazer para a velocidade e precisão dos comandos e controle, e as capacidades que a robótica avançada pode trazer para um campo de batalha complexo, particularmente de interação entre máquinas no espaço e ciberespaço, onde velocidade é a essência.”
Além de buscar a exploração de IA no desenvolvimento de seu próprio armamento, os oficiais militares dos EUA estão intensamente conscientes de que seus principais adversários também estão avançando no armamento de IA e robótica, buscando novas maneiras de superar as vantagens norte-americanas em armamento convencional. De acordo com o Congressional Research Service, por exemplo, a China está investindo pesado no desenvolvimento de inteligência artificial e sua aplicação para propósitos militares. Apesar de não ter a base tecnologica nem da China nem dos EUA, a Rússia esta similarmente correndo para desenvolver IA e robótica. Qualquer liderança significativa da Rússia ou China em tais tecnologias emergentes, que podem ameaçar a superioridade militares dos EUA, seria intolerável para o Pentágono.
Não é surpreendente então, na tendência das corridas armamentistas passadas (desde o desenvolvimento de navios de guerra pré I Guerra Mundial ao armamento nuclar da Guerra Fria), que uma “corrida armamentista pela IA” esteja a caminho, com os EUA, China, Rússia e outras nações (incluindo Grã-Bretanha, Israel e Coreia do Sul) buscando ganhar uma vantagem significativa no armamento da inteligência artificial e robótica. Oficiais do Pentágono regularmente citam o avanço da China em IA quando buscam financiamento do Congresso aos seus projetos, assim como oficiais militares chineses ou russos sem dúvida citam os norte-americanos para financiar seus próprios projetos nacionais. Na corrida armamentista clássica, essa dinâmica já está acelerando o ritmo de desenvolvimento de sistemas operados por IA e assegurando sua predominância na futura guerra.
Comando e Controle
No ritmo em que se desdobra essa guerra armamentista, a inteligência artificial será aplicada a todo aspecto da guerra, de logística e vigilância até identificação de alvos e gerência de batalhas. Veículos robóticos acompanharão tropas no campo de batalha, carregando suprimentos e atirando contra posições inimigas. Enxames de drones armados irão atacar tanques inimigos, radares e centros de comando. Veículos submarinos não tripulados (UUV) irão perseguir submarinos inimigos e navios na superfície. No início do combate, todos estes instrumentos serão, sem dúvidas, controlados por humanos. Ao passo em que se intensifica o combate, entretanto, a comunicação entre as sedes e linhas de frente pode muito bem ser perdida, e tais sistemas irão, de acordo com cenários militares que já estão sendo escritos, agir por si mesmos, com o poder de tomar ações letais sem nova intervenção humana.
A maior parte do debate sobre a aplicação de IA e seu futuro campo de batalha focou na moralidade de empoderar máquinas totalmente autónomas — às vezes chamadas de robôs assassinos” — com a capacidade de tomar decisões de vida ou morte por si mesmas, ou se o uso de tais sistemas violaria a legislação de guerra e o direito humanitário internacional. Tais convicções requerem que os promotores da guerra sejam capazes de distinguir entre combatentes e civis no campo de batalha e poupar danos a estes últimos na maior extensão possível. Defensores da nova tecnologia alegam que máquinas irão se tornar inteligentes o suficiente para realizar tais distinções por elas mesmas, enquanto oponentes insistem que elas jamais irão se provar capazes de realizar tais distinções no calor da batalha e seriam incapazes de demonstrar compaixão quando apropriado. Um conjunto de organizações de direitos humanos e organizações humanitárias lançou a Campanha para Parar Robôs Assassinos, com o objetivos de obter um banimento internacional do desenvolvimento de sistemas bélicos integralmente autónomos.
Ao mesmo tempo, um debate de consequências provavelmente mais importantes está emergindo no meio militar sobre a aplicação de IA no sistemas de comando e controle (CC) – isto é, para que os oficiais superiores comuniquem as principais ordens às suas tropas. Generais e almirantes sempre buscam maximizar a confiabilidade dos sistemas CC para garantir que suas intenções estratégicas sejam cumpridas da forma mais completa possível. Na era atual, tais sistemas são profundamente dependentes de sistemas seguros de comunicação por rádio e satélite que se estendem da sede até as linhas de frente. Entretanto, os estrategistas temem que, em um futuro ambiente de hiper-guerra, tais sistemas possam ser bloqueados ou degradados, assim como a velocidade dos combates comece a exceder a capacidade dos comandantes de receber relatórios de campo de batalha, processar os dados e despachar pedidos em tempo hábil. Considere isso como uma definição funcional do infame nevoeiro da guerra multiplicado pela inteligência artificial – com a derrota como um resultado provável. A resposta para tal dilema para muitos oficiais militares: deixar que as máquinas assumam esses sistemas também. Como um relatório do Serviço de Pesquisa do Congresso dos EUA sustenta, no futuro, “os algoritmos de inteligência artificial podem fornecer aos comandantes cursos de ação viáveis ​​baseados na análise em tempo real do espaço de batalha, o que permitiria uma adaptação mais rápida aos eventos que se desdobram”.
E algum dia, é claro, é possível imaginar que as mentes por trás de tal decisão deixarão de ser humanas. Os dados recebidos dos sistemas de informação do campo de batalha seriam canalizados para processadores de IA focados na avaliação de ameaças iminentes e, dadas as limitações de tempo envolvidas, executando o que eles consideram as melhores opções sem instruções humanas.
Oficiais do Pentágono negam que busquem qualquer um desses propósitos em sua pesquisa relacionada à IA. Eles reconhecem, no entanto, que podem pelo menos imaginar um futuro em que outros países delegam a tomada de decisões às máquinas e os EUA não veem outra opção senão seguir o exemplo, para não perder o terreno estratégico. “Não delegaremos autoridade letal a uma máquina para tomar uma decisão”, disse Robert Scharre, subsecretário de Defesa Robert Work, do Centro para uma Nova Segurança Americana em uma entrevista de 2016. Mas ele acrescentou a advertência usual: no futuro, “podemos nos colocar contra um concorrente que está mais disposto a delegar autoridade às máquinas do que nós e quando a competição se desenrolar, teremos que tomar decisões sobre como competir. “
“A decisão do juízo final”
A suposição na maioria desses cenários é a de que os EUA e seus aliados estarão engajados em uma guerra convencional contra a China e/ou Rússia. Tenhamos em mente então que que a própria natureza de uma futura hiperguerra promovida por IA só aumentaria o risco de que conflitos convencionais pudessem cruzar um limiar que nunca foi atravessado antes: uma guerra nuclear real entre dois Estados nucleares. E, caso isso aconteça, esses sistemas CC com tecnologia IA poderão, mais cedo ou mais tarde, encontrar-se em posição de lançar armas atômicas.
Tal perigo surge da convergência de múltiplos avanços na tecnologia: não apenas IA e robótica, mas o desenvolvimento de capacidades de ataque convencionais como mísseis hiperbólicos capazes de voar a cinco ou mais vezes a velocidade do som, canhões eletromagnéticos e lasers de alta energia. Tais armas, embora não nucleares, quando combinadas com sistemas de identificação de alvos e vigilância de IA, poderiam até atacar as armas de retaliação de um inimigo, ameaçando assim eliminar sua capacidade de lançar uma resposta a qualquer ataque nuclear. Dado tal cenário de “use-os ou perca-os”, qualquer potência pode estar inclinada a não esperar, mas a lançar suas armas nucleares ao primeiro sinal de possível ataque, ou mesmo, temendo perda de controle em um engajamento incerto e acelerado, delegar autoridade de lançamento para suas máquinas. E uma vez que isso acontecesse, poderia ser quase impossível impedir uma nova escalada.
Surge então a questão: as máquinas tomariam melhores decisões que os humanos em tal situação? Elas certamente são capazes de processar grandes quantidades de informação em breves períodos de tempo e pesar os prós e contras de ações alternativas de uma maneira completamente sem emoção. Mas as máquinas também cometem erros militares e, acima de tudo, carecem da capacidade de refletir sobre uma situação e concluir: parem com essa loucura. Nenhuma vantagem de batalha vale a aniquilação humana global.
Como Paul Scharre pontuou em Army of None, um novo livro sobre IA e guerra, “Humanos não são perfeitos, mas eles podem criar empatia pelos seus oponentes e enxergar o quadro maior. Ao contrário deles, armas autónomas não teriam capacidade de compreender as consequências de suas ações, nem a capacidade de se afastar da beira da guerra.
Então, talvez devêssemos pensar duas vezes antes de dar à futura versão militarizada do Alexa o poder de lançar um Armagedon provocado por uma máquina.
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Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2019/01/ok-google-deflagre-iii-guerra-mundial.html

Fake world – The era of ‘inversion’ arrives

8th January 2019 / Global
Fake world - The era of 'inversion' arrives

By TruePublica: Last November a scam was uncovered in the USA. The US Justice Department unsealed indictments against eight people accused of fleecing advertisers of $36 million in one of the largest digital ad-fraud operations ever uncovered. But it should be noted that this is just one internet scam of thousands that have become so ubiquitous to our world, that a global tech giant described it as a point of inversion. That inversion has just arrived.

  • YouTube algorithms for detecting bots overwhelmed and now confused with what is human activity
  • The Internet is now about 50 per cent non-human activity
  • Even artificial-intelligence personal assistants,” like Facebook’s “M,” to help tech companies appear to possess cutting-edge AI is fake.
  • Fake images now routinely believed to be real, but ‘real’ images routinely believed to be fake in the wake of the Inversion

Intelligencer reported the indictments by saying that:  “Hucksters infected 1.7 million computers with malware that remotely directed traffic to “spoofed” websites — “empty websites designed for bot traffic” that served up a video ad purchased from one of the internet’s vast programmatic ad-exchanges, but that were designed, according to the indictments, “to fool advertisers into thinking that an impression of their ad was served on a premium publisher site,” like that of Vogue or The Economist. Views, meanwhile, were faked by malware-infected computers withmarvellously sophisticated techniques to imitate humans: bots “faked clicks, mouse movements, and social network login information to masquerade as engaged human consumers.” Some were sent to browse the internet to gather tracking cookies from other websites, just as a human visitor would have done through regular behaviour. Fake people with fake cookies and fake social-media accounts, fake-moving their fake cursors, fake-clicking on fake websites — the fraudsters had essentially created a simulacrum of the internet, where the only real things were the ads.”

If the general public thought the internet was full of fake news, now the corporations themselves have become victims too. So, just how bad are things getting for individuals when corporations themselves are being conned and fleeced?

The Times reported this year, a full half of YouTube traffic was “bots masquerading as people.”

This was so high that YouTube employees feared of having reached an inflection point after which YouTube’s systems for detecting fraudulent traffic would begin to regard bot traffic as real and human traffic as fake. They called this hypothetical event “the Inversion.”

Today, the point of ‘inversion’ seems to have arrived and is no longer hypothetical.

Some studies suggest there are over three billion social media users in the world, many of whom maintain accounts on multiple platforms. The total number of social media accounts may be several times that, making the task of sorting out people from commercial, political, and general trolling accounts an almost impossible task.

The CEO of TwitterAudit says – “we’ve analyzed tens of millions of Twitter users over the past six years. We’ve tuned our algorithm to recognize bot patterns distinguish fake accounts from real accounts. Based on our data we would estimate that 40-60% of Twitter accounts represent real people. About 50% are not real then. Twitter says it’s half that.

It is known from various studies that less than 60 per cent of web traffic on the internet is human – the point of inversion has almost arrived here as well.

Now that we know about half of what we see on the internet is no longer human generated, the entire world is now becoming so fake we’re finding it hard to work out what is right or real. That the internet itself has now reached this ‘inversion’ point and there seems no way of going back should be concerning.

As we are all well aware by now this fake world is now badly affecting society. According to figures published last July, those seeking help for conditions such as depression and anxiety showed a sharp increase and was a third up on two years before that. Now, nearly ten per cent of the entire youth population of Britain suffers from serious mental health conditions and a third of 15-18 years olds suffer mental health problems. The problem is the fake world we live in.

Facebook, the world’s biggest personal data-gathering organisation got caught out in a court case recently by overstating how much time users were spending on its adverts by up to 900 per cent. Facebook admitted it was between 25 and 60 per cent. It’s not surprising advertisers were angry.

The Times also reported that you can buy 5,000 YouTube views (30 seconds of a video counts as a view) for as low as $15, making us the viewers think everyone else was watching it, so, therefore, you should too. That’s 41 hours of views for a few bucks. The people who paid that $15 are led to believe that the views they purchase come from real people but they come from bots. So no-one wins. Except the scammers of course.

Click farms can have hundreds of mobile phones stacked in rows with operators paid to click on paid for content to inflate views

On some platforms, video views and app downloads can be forged in lucrative industrial counterfeiting operations.

The Intelligencer report shows video of Chinese click farms with hundreds of mobile phones stacked in rows and desktop pc’s filling rooms with paid operators clicking away non-stop on content they are being paid to inflate. It’s really quite surreal, but that’s the ironic truth about it in the firat place.

However,  nowhere I’ve come across so far does it get as stupid as this though:

“Not only do we have bots masquerading as humans and humans masquerading as other humans, but also sometimes humans masquerading as bots, pretending to be “artificial-intelligence personal assistants,” like Facebook’s “M,” in order to help tech companies appear to possess cutting-edge AI.”

Then there’s another scam just to confuse us further. The Atlantic reportsthat non-CGI human influencers are posting fake sponsored content — that is, content meant to look like content that is meant to look authentic, for free — to attract attention from brand reps, who, they hope, will pay them real money.

Advertisers are now leaving these ‘influencers’ in droves because of this mindless scamming and looking to advertise on sites like TruePublica. We don’t have fake subscribers, fake views, news or propaganda and other nonsense. We don’t use cookies to track visitors and we don’t deploy the use of bots to create a false image of interest. That’s the point – it’s authentic. And now we get dozens of offers to add links into made up stories for money – all of which, we refuse because the advertisers will say anything to sell their stuff.

Again, Intelligencer reports that – “Earlier this year, the writer and artist Jenny Odell began to look into an Amazon reseller that had bought goods from other Amazon resellers and resold them, again on Amazon, at higher prices. Odell discovered an elaborate network of fake price-gouging and copyright-stealing businesses connected to the cultlike Evangelical church whose followers resurrected Newsweek in 2013 as a zombie search-engine-optimized spam farm. She also visited a strange bookstore operated by the resellers in San Francisco and found a stunted concrete reproduction of the dazzlingly phoney storefronts she’d encountered on Amazon, arranged haphazardly with best-selling books, plastic tchotchkes, and beauty products apparently bought from wholesalers. “At some point, I began to feel like I was in a dream,” she wrote. “Or that I was half-awake, unable to distinguish the virtual from the real, the local from the global, a product from a Photoshop image, the sincere from the insincere.”

And whilst many of us may have heard the term ‘deep-faking’ – even this has gone on another stage and is an invention that will further destroy what is left of reality or more importantly – trust. A recent academic paper from researchers at the graphics-card company Nvidia demonstrates a technique used to create images of computer-generated “human” faces that look shockingly like photographs of real people. Soon, you won’t be able to tell who is real at all.

What will happen is that ‘fake’ images will routinely be believed to be real, but ‘real’ images routinely believed to be fake — simply because, in the wake of the Inversion, who’ll be able to tell the difference?

The world’s biggest search engine itself has now inverted. Not only is a very large proportion of its traffic fake or non-human, but Google is also getting a reputation for being the worlds biggest censorship engine as well. It has recently confirmed it will start operations in China. That can only mean one thing. Censorship. So, if they are happy doing that in China why not at the behest of any other government.

Facebook has been found to have a meeting with just seven people every two weeks. Apparently, they decide what the narrative is and therefore what you will see through their algorithms. This is an organisation now fighting political fires with governments all over the world. It has lost complete control of itself.

At TruePublica our Facebook and Twitter pages rapidly grew to about 2,500. Then miraculously they stopped growing. We gain about 15 new likes a week and lose about 14 a week on each platform – every week. That is unless we pay to unlock the algorithm and allow more people to join us. Which we don’t.

Democracy has been inverted too. It has become corrupted by those with grossly outsized influence of narrow interests at the expense of everyone else. Less than a quarter of people believe that politicians work in the best interests of the nation in Britain and America. In Britain, it reached just 17 per cent in 2017 and still heading south. Voters have been so frustrated with their own lack of influence over political decisions made in their name that the public in Britain voted against the status quo. They did the same in America, Italy, Austria and other European countries. Now we have Brexit, Trump and the rise of the far right-wing all over the Western world. Social democracy is being unstitched by data-mining systems and shady companies like Cambridge Analytica. Social media, videos, memes, political campaigns using known military applications are being used on civilian populations – all these accusations are true – the information they delivered was not.

After a few years of these new manipulative social media systems that rely on dopamine driven loops, somehow, being fake online is better than being real. It’s depressing looking at social media or the internet today because about half, probably more, of the content is about misrepresentation and distortion, not the truth or reality.

In the Western world, the younger generations prefer to live as fake people in a fake world, with fake ‘friends’ accepting fake clicks and views as some sort of online proof of their existence. The internet creates a place where people use masks to disguise who they are and it is dangerous; they don’t merely hide but transform who they really are into something else. They become little more than who they wish to impersonate.

The authenticity of the world we live in is rapidly disappearing – the tipping point is here, right now. In reality, it is about staying true to what you believe, not about the image you want to project. This is how we form our closest personal relationships in real life and they are being dramatically eroded in favour of the phoney.

Not even the corporations who brought this fake world in the first place can work out who is fake any more and are now searching for ways to reach real people. Perhaps it is time for everyone else to do the same.


Ver o original em "TruePublica" (clique aqui)

Adira à nova moda: implante um "microship". É tão fácil e rápido como fazer um piercing!

Numa notícia da Euronewsde ontem, passada na RTP, dizia-se que a implantação de microchips no corpo humano é, agora, além de uma questão de comodidade, de funcionalidade, de utilidade, uma questão de moda.
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Imagem recolhida aqui.
Na breve notícia  não se percebeu nenhum sobressalto na voz muito técnica de quem a leu, não se deu conta de nenhuma interrogação da parte de qualquer entidade e também não se introduziu nenhum comentário especializado. Apenas a declaração inequívoca e airosa de que o apetrecho garante destaque social, o que se torna tanto mais convincente por ser ilustrada com gente sorridente, jovem e bela.
.
É moda, sublinho, na Europa, continente onde a escolaridade obrigatória anda pelos dez anos ou mais, onde se tem acesso fácil a livros, jornais, internet.Acresce que tanto os implantadores como os implantados parecem ser de um nível cultural, académico e social médio ou acima disso. Estes dois aspectos tornam ainda mais desconcertante a ausência de um toque de apreensão por parte dessas pessoas, já nem falo em crítica... É certo que os microchips também ganham adeptos na América, do Norte e do Sul, e na Oceania, mas é da Europa que me centro.

Parece que Estocolmo, com todo o seu conforto material, é, neste final de 2018, a cidade como mais "microchipados": o número, que vai para 4.000, subiu rapidamente nos últimos meses e espera-se que assim continue.

Abrir portas, usar computadores e impressoras, substituir bilhetes de transportes públicos, fazer pagamentos da mais diversa ordem, substituindo o cartão bancário, e monitorizar o funcionamento do corpo a todo o momento estão entre as grandes e maravilhosas vantagens apontadas aos microchips, além que não são caros e certas empresas têm a "amabilidade" de os oferecer. 

Há outros argumentos mobilizadores, talvez ainda mais potentes. Quem resiste a estes dois: "é como colocar um piercing", "não ter o microchip é estar ultrapassado"?

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Textos consultados: aquiaquiaquiaqui e aqui
Textos que escrevi antes sobre oassunto:"Tecnologia e dignidade. Aplicação de microchips em pessoas"aqui, aqui, aqui e aqui.

Ver original em 'De Rerum Natura' na seguinte ligação::

http://dererummundi.blogspot.com/2018/12/adira-nova-moda-implante-um-micoship-e.html

Steve Jobs: Por que ele criou seus filhos sem iPads?

Algum tempo atrás, a mídia divulgou que Steve Jobs proibiu seus filhos de usar algumas de suas maiores criações, como o iPad e o iPhone.

“O que Steve Jobs tem para impedir que seus filhos usem essas ferramentas tecnológicas?”

Em uma entrevista de 2010, Nick Bilton, jornalista do New York Times, perguntou a Jobs: “Seus filhos devem amar seus iPads, certo?”. E Jobs respondeu: “Eles não os usaram; Nós limitamos a quantidade de tecnologia que as crianças podem usar em casa “.

“Aqueles que são loucos o suficiente para acreditar que podem mudar o mundo são aqueles que fazem isso.”

-Steve Jobs-

A razão pela qual Steve Jobs não deixou seus filhos usarem iPads

O criador de uma das tecnologias mais solicitadas foi um dos poucos que conseguiram enxergar o perigo do uso constante.

Muitos de nós imaginamos que a casa de Jobs devia ser um paraíso tecnológico, repleto de telas sensíveis ao toque e sensores, onde cada membro da família possuia seu próprio iPhone e iPad.

Mas o fato é que um grande número de executivos de negócios no Vale do Silício limita o tempo que seus filhos usam monitores de computador, telefones ou tablets. Jobs fez o mesmo.

Abusar de tecnologia pode levar ao vício

Um exemplo é o caso de Chris Anderson, o criador da empresa 3D Robotics, o criador de “Drones” e a pessoa que reconheceu que ele experimentou os perigos da tecnologia. Como resultado, ele limita o acesso de seus filhos a isso. “Eu experimentei isso e não quero que meus filhos passem pela mesma coisa”, disse Anderson em uma entrevista.

O coautor do Twitter, Evan Williams, admite que prefere que seus filhos cresçam com livros em vez de iPads. Ele e sua esposa Sara compram centenas de livros impressos que interessam a seus filhos e os colocam em casa.

Já foi descoberto que o abuso de tecnologia pode tornar certas pessoas dependentes de dispositivos eletrônicos. Existem também riscos de conteúdo negativo e violento. É interessante como nos desenvolvemos socialmente em relação a isso: em vez da TV, os pais agora escolhem truques para distrair as crianças e os iPads são responsáveis pelo aprendizado.

O lado positivo do uso de ferramentas tecnológicas

Não podemos negar que existem muitas aplicações e ferramentas que podem nos fazer simular e desenvolver inteligência hoje. O lado “sombrio” tem a ver com a ideia de mudar lentamente o contato humano com a tecnologia.

Se eu perguntasse sobre sua opinião sobre isso, você provavelmente responderia que pode parecer radical remover o contato com a tecnologia. E isso é algo que não é razoável, dado o mundo em que vivemos. Talvez isso levaria ao isolamento social entre as crianças.

Mas essa tendência entre os pais que escolheram optar pela tecnologia nos faz refletir. Especialmente considerando a facilidade com que nossos filhos poderiam ter acesso a isso.

Talvez o mais benéfico e inteligente tenha a ver com a limitação do uso desses aparelhos. Usar antigos truques para distrair e educar as crianças ainda pode ser mais saudável.

“Não deixe que o ruído das opiniões de outras pessoas diminua sua voz interior.”

-Steve Jobs-

Ver original em 'Pensar Contemporâneo' na seguinte ligação::

https://www.pensarcontemporaneo.com/steve-jobs-por-que-ele-criou-seus-filhos-sem-ipads/

Inteligência Artificial para quem?

 

Em benefício de um punhado de mega-empresas, máquinas estão sendo treinadas para substituir humanos, multiplicar preconceitos e segregações, invadir a privacidade e atentar contra a democracia

Por Hazel Henderson | Tradução: Marianna Braghini

Os humanos estamos no absurdo estágio em nossa evolução tecnológico em que parece que abandonamos nosso bom senso. Bilhões são gastos por governos, corporações e investidores no treino de algoritmos de computadores (ou seja, programas de computador) na atual e insana corrida para criar as chamadas inteligências “artificiais”, largamente anunciadas como “AI”. Enquanto isso, o treinamento de nossas crianças e seus cérebros (já superiores aos algoritmos de computador) é sub-financiado; as escolas estão dilapidadas, instaladas em condições precárias, frequentemente em áreas poluídas enquanto os professores são mal pagos e precisam de maior respeito. Como nossas prioridades tornaram-se tão enviesadas?

Na realidade, não há nada de artificial nos algoritmos ou sua inteligência: o termo AI é uma mistificação! O termo que descreve a realidade é “Aprendizado de máquina treinadas por humanos”, na atual e insana luta para treinar estes algoritmos a mimetizar inteligência humana e funcionamento cerebral. Na revista de tecnologiaWired, de outubro de 2018, uma cientista pioneira da computação, Fei-Fei LI, palestra numa audiência do Congresso dos EUA e sublinha esta verdade. Ela diz que “humanos treinam estes algorítmos” e fala a respeito dos erros horrendos que estas máquinas fazem ao “des-identificar” pessoas. Emprega o termo “entra preconceito – sai preconceito” [bias in – bias out], para atualizar o velho ditado de computadores, “entra lixo – sai lixo” [garbage in – garbage outo].

A professora LI descreveu como estamos cedendo nossa autoridade a estes algoritmos para julgar quem é contratado, quem irá para a prisão, quem pode conseguir um empréstimo, uma hipoteca ou boas taxas de seguro — e como estas máquinas codificam nosso comportamento, mudam as regras e nossas vidas. Li está agora de volta à Universidade de Stanford, depois de passar um tempo como especialista em ética na Google, e lançou uma fundação para promover a verdade sobre AI, já que ela própria sente-se responsável por seu papel, ao inventar alguns destes algoritmos. Celebrada como uma pioneira neste campo, LI diz que “Não há nada de artificial na AI. Ela é inspirada por pessoas, é criada por pessoas e — mais importante — ela impacta pessoas”.

Como as mega empresas de tecnologia invadem nossa cultura e programas, no mundo inteiro, com seus valores de curto-prazismo e obcecados por dinheiro? A lógica parace ser: “mova-se rápido e quebre as coisas”; rompa os atuais sistemas; corra para multiplicar e sacar dinheiro, por meio de uma oferta pública de ações na Bolsa (IPO). Estes valores são discutidos por duas figuras do meio, em detalhes chocantes. Antonio G. Martinez escreveu “Chaos Monkeys” (2016); Emily Chang, da Bloomberg, em “Brotopia” (2018). Estes autores explicam em profundidade como o treinamento destes algoritmos está tão errado, pois subconscientemente mimetiza empreendedores — principalmente homens, misóginos, frequentemente brancos, e suas tecnologias, monopolizados por um viés mercadológico e suas fantasias quase sempre adolescentes e ultra-liberais.

Também explorei tudo isso em meu artigo “The Future of Democracy Challenged in the Digital Age”, [“O futuro da democracia questionado pela era digital”], de outubro de 2018. Descrevo todas estas questões com a tomada, pela Inteligência Artificial, de múltiplos setores econômicos — desde a indústria, transporte, educação, comércio, mídia, lei, medicina, agricultura, aos bancos, agências de seguro e de financiamento. Enquanto muitos destes setores tornaram-se mais eficientes e lucráveis para seus acionistas, minha conclusão em“The Idiocy of Things”, critica a conexão de todos os eletrodomésticos nas chamadassmart homes como nociva e como invasão de privacidade. Apelo para que os humanos reassumam o controle dos computadores e setores da Ciênca da Informação. Estão super-financiados e super-remunerados. Focam-se, muito frequentemente, em eficiência corporativa e redução de custos, dirigidos pelas taxas de lucro exigidas por Wall Street.

Reivindico uma extensão da legislação inglesa, datada de 1215, que instituiu o “habeas corpus”, afirmando que humanos são donos de seus próprios corpos. Esta extensão deveria abranger a posse de nossos cérebros e toda a informação que geramos, em um atualizado “habeas corpus de informação”. Desde maio de 2018, a legislação europeia ratificou isso com a General Data Protection Regulation (Regulação para Proteção Geral dos Dados, ou GDPR, em inglês). Ela busca assegurar que os indivíduos, ao usar plataformas de redes sociais, ou qualquer outro sistema social, detenham efetivamente a propriedade de todos seus dados pessoais.

Nesse sentido, algumas leis estão começando a enfrentar o uso desumano de seres humanos, que emprega nossas habilidades, adquiridas com esforço, para treinar algoritmos que depois nos substituem! Em seguida, os treinadores dos algoritmos de computador empregam pessoas desempregadas, forçadas a sobreviver na “economia de bicos”, em sites como o Mechanical Turk e Task Rabbit, e pagam o mínimo para a alimentação de dados que treinam estes algoritmos!

O cientista Jaron Lanier, em  “Ten Arguments for Deleting Your Social Media Accounts Now” [“Dez argumentos para deletar suas contas nas redes sociais agora”], de 2018, mostra como estas redes estão nos manipulando com algoritmos para arquitetar mudanças em nosso comportamento. Chamam nossa atenção comclickbaitse conteúdos que estimulam nossas emoções, medos e raiva, explorando algumas divisões de nossa sociedade para nos manter em seus sites. Isso ajuda a dirigir anúncios de venda, seus gigantescos lucros, em veloz crescimento global. É hora de repensar tudo isso, para além dos lúgubres alarmes feitos por Bill Gates, Elon Musk e o falecido Stephen Hawking. Segundo estes, os algoritmos, que estamos treinando, em breve assumirão o controle e poderão nos ferir e matar, como fez HAL no filme “2001”.

Por que, então, gastamos montanhas de dinheiro para treinar máquinas enquanto sub-investimos em nossas crianças, professores e escolas? Treinar o cérebro das crianças deve se tornar prioridade! Em vez de treinar máquinas para sequestrar nossa atenção e vender nossos dados pessoais para marketeiros em troca de lucro, deveríamos reorientar nossos fundos e triplicar os esforços para treinar e pagar professores, melhorar escolas e currículos pedagógicos incluindo cursos de responsabilidade civil, justiça, valores comunitários, liberdade mediante “habeas corpus” (mulheres também são donas de seus próprios corpos!) e como ética e confiança são a base de todos os mercados e sociedades.

Por que fazer esforços muito dispendiosos para aumentar a capacidade de aprendizagem das máquinas? Por que  ensinar algoritmos a reconhecer faces humanas, guiar drones assassinos, falsificar imagens de vídeo e modificar ainda mais nosso comportamento e capturar nosso olhar comclickbaits, planejando e distribuindo conteúdo que enraivece e indigna — apronfundando a divisão entre os seres humanos e desmantelando as democracias?

Precisamos enfrentar as ambições de Big Brother dos novos oligopólios tecnológicos. Como um sábio cientista da NASA nos lembrou em 1965 sobre os valores humanos, seguindo “O Uso Humano dos Seres Humanos”(1950) deNorbert Weiner: “O Humano (sic) é o sistema de computador de menor custo, não-linear, capaz de servir a todos os propósitos; e pode ser produzido em massa, por trabalho não qualificado” [1] É tempo de bom senso!

Hazel Hendersoné fundadora da Ethical Markets Media e produtora de sua série de TV. Mundialmente reconhecida, ela é futurista, economista evolucionária, colunista reproduzida em diversos países consultora em desenvolvimento sustentável e autora de “Além da Globalização”, “The Axiom”, “Ethical Markets: Growing the Green Economy(2006)” e outros oito livros.

[1] , citado na Foreign Affairs, edição Julho-Agosto, 2015, p. 11.

Publicado originalmente em Other News

Ver o original em 'Outras Palavras' na seguinte ligação:

https://outraspalavras.net/capa/inteligencia-artificial-para-quem/

 

Bosch reforça unidades de Braga, Aveiro e Ovar com mais 200 engenheiros

bosch

A multinacional alemã vai criar uma unidade de Investigação e Desenvolvimento (I&D) de ferramentas elétricas em Portugal que estará em pleno funcionamento no próximo ano, avança a edição de hoje do Jornal Económico. Até ao final de 2019, serão contratados 200 engenheiros para as unidades de Ovar, Braga e Aveiro, estando a empresa à procura de perfis especializados nas áreas de software, eletrónica, hardware, mecânica, física, entre outras.

Em declarações ao jornal, António Pereira, administrador da Bosch em Ovar, considerou que “é um passo muito importante na I&D em Portugal e que contribuirá positivamente para que Ovar faça parte do leque de regiões do país atrativas para o desenvolvimento de tecnologia do futuro. Algo que pesou na decisão de trazer essa equipa para Portugal foi a nossa capacidade de trabalho, flexibilidade e criatividade”.

Em 2017, a Bosch foi responsável pela criação de 480 novos empregos, aumentando o total de trabalhadores em Portugal para 4450. No ano passado, o grupo alemão investiu em Portugal 84 milhões de euros, especialmente na expansão das fábricas de Aveiro, Ovar e Braga.

Ver original aqui

A guerra dos metais raros

A face oculta da transição energética e da digitalização

José Ferrer [*]

O livro La guerre des métaux rares: La face cachée de la transition énergétique et numérique [1] , de Guillaume Pitron, jornalista francês colaborador de Le Monde Diplomatique, é de leitura fácil e revela uma grande contradição dos nossos dias: a) Proclama-se, com o aval de numerosos Chefes de Estado e de Governo que, por causa do chamado aquecimento global, temos de abandonar rapidamente os combustíveis fósseis, substituindo-os por tecnologias energéticas verdes, também ditas renováveis ou limpas. Estas hão-de ser crescentemente conseguidas e bem aproveitadas com o aprofundamento da digitalização nos mais variados campos da economia, mas isto só se consegue actualmente com o indispensável concurso dos chamados metais raros. "A cada aplicação verde o seu metal raro" (p. 36). b) A contradição reside em que os metais raros são relativamente escassos na crosta terrestre, dando-se a triste circunstância adicional de a sua extracção e refinação serem processos duplamente problemáticos do ponto de vista energético e ambiental. A inferência é inevitável e G. Pitron não se inibe de a expor: a mutação tecnológica que se pretende impor não resolve a questão ambiental em causa. Esta passa sobretudo pela alteração dos locais de ocorrência da poluição. Compreender-se-á assim o apelo que o autor insere no epílogo do livro: paremos para pensar, uma vez que a revolução industrial, técnica e social que é preciso realizar há-de passar pela revolução das consciências. Ou seja, digamos que, para o autor, o ambientalismo ainda não se livrou do seu estádio infantil, já que proclama objectivos, vias e políticas nem sempre coerentes entre si e, portanto, não sustentáveis a vários títulos. É interessante notar que esta tese fundamental do livro é formulada por um autor que 

i) Aparentemente, aceitou (e parece continuar a aceitar a maioria de) os mandamentos da cartilha ambientalista,
ii) Em particular, não mostra qualquer dúvida acerca da teoria do alegado aquecimento global gerado pela emissão antropogénica dos gases com efeito de estufa,
iii) Parece acreditar em que a questão ambiental irá ter solução no quadro do capitalismo (chega a usar a expressão"capitalisme vert", (p. 17),
iv) A sua França há-de recuperar posições perdidas no cotejo internacional, incluindo na segurança militar. Assim se perceberá porque sequer tem uma palavra de questionamento sobre a legitimidade de se impor a países economicamente atrasados caminhos diferentes dos seguidos pelos países desenvolvidos, como manda a Agenda Ambiental dominante, vide o Acordo de Paris, de 2015. 
G. Pitron foi construindo a sua tese a partir do que se foi apercebendo acerca das limitações na disponibilidade de metais raros [2] e, em particular, dos metais chamados terras raras (sobretudo lantanídeos). A exemplo de milhões de pessoas, Pitron não terá estudado a ciência química senão a nível muito elementar [3] . Em particular, jamais terá tido, antes de trabalhar para este livro, a possibilidade de se aproximar da série de problemas que a extracção mineira e as metalurgias colocam do ponto de vista de economia da produção industrial, da poluição [4] e da demanda energética [5] . Tópicos que, manifestamente, lhe criaram um certo espanto à medida que foi viajando pelo mundo, visitando minas e outras instalações industriais, tendo pesquisado durante "seis anos" sobre o assunto "em doze países" (p. 23). Assim foi descobrindo que, diversamente do que teria antes pensado, aquelas agudas questões são descuradas no discurso ambientalista bem como por parte de dirigentes políticos os mais variados, incluindo da sua aparentemente venerada União Europeia. Não se pense que G. Pitron se tornou num engenheiro, mas seria injusto não enfatizar o esforço que empreendeu, em relato que pode ser muito útil a quem também tenha a curiosidade sobre muitas das especificidades técnicas e económicas em causa na obtenção, refinação e aplicação dos metais, e suas reciclagens. O autor não enjeita a utilidade dos metais há muito usados – ferro, ouro, prata, cobre, chumbo, alumínio – mas, justamente, chama a atenção para as "fabulosas propriedades magnéticas e químicas" (p.15) dos metais raros, crescentemente usados desde a década de 70 do século passado. Procura que tenderá ainda a crescer, a verificar-se a intensificação das suas aplicações. As torres eólicas, os painéis solares, as novas baterias eléctricas, os telemóveis, os computadores (cada vez mais usados em crescentes aplicações), etc, dependem da utilização de metais raros. A lista das afectações é enorme:"Robótica, inteligência artificial, hospital digital, segurança cibernética, biotecnologias médicas, objectos conectados, nanoelectrónica, viaturas sem condutor..." (p. 26). Ou seja, o "mundo novo" de que se tem falado afunda-nos numa"nova dependência, ainda mais forte" do que a de energias fósseis (p.26). Há razões para lhes chamar raros: enquanto tem sido fácil encontrar minérios de ferro com teores metálicos da ordem de 60% (ou seja, 1,67kg de minério contém 1kg de ferro), o autor sublinha, por exemplo, serem precisas "oito toneladas e meia (cerca de 8500kg) de minério para produzir um quilograma de vanádio... e mil e duzentas toneladas (cerca de 1 200 000 kg) por um infeliz quilograma dum metal ainda mais raro, o lutécio (terra rara)" (p.16). O autor debruça-se sobre o balanço ecológico de vários sectores (painéis solares, veículos eléctricos, redes eléctricas "inteligentes"), sobre as tremendas dificuldades ainda existentes na reciclagem de metais raros, para concluir que as tecnologias verdes, em geral, não são mais vantajosas do que as tradicionais em termos ambientais e energéticos. Até o são menos em certos aspectos (pp. 57-85), embora nesse balanço inclua a emissão de dióxido de carbono, como se este não fosse o gás da vida. Mas G. Pitron não se interessa apenas por esse tipo de questões. Pelo contrário, não esconde o seu grande incómodo quando observa o papel ímpar que cabe à República Popular da China (que recorrentemente trata por "Império do Meio") na questão dos metais raros, em particular quanto às terras raras. Cinco capítulos do livro são, em especial, dedicados a esta problemática, incluindo uma particular atenção à questão dos mísseis inteligentes, área em que "o Ocidente" se encontra vulnerável. Observação que contrasta com a perspectiva que terá antes partilhado de que a adopção das energias renováveis e da digitalização permitiria reforçar a "soberania energética" dos Estados membros da União Europeia ao tornar esta"menos dependente dos hidrocarbonetos russos, qatares e sauditas" (p.20). Pitron enfatiza o facto de a China estar a tirar crescente partido de dispor da maior parte das reservas e de vir subindo na cadeia de valor da utilização das terras raras. Para a mesma potência, os ímanes de terras raras são muito mais pequenos que os ímanes de ferrite, lembra (p. 144). Alarma-o facto, confronta-o com os correlativos erros estratégicos que tanto a França como os EUA cometeram quando permitiram o encerramento de unidades industriais do sector, em alerta que lhe parecerá importante para apelar a um repensar da guerra pelos metais raros que se desenha no mundo. O autor enfatiza as questões económica e industrial, a ecológica, mas também a de segurança militar e geopolítica com este afunilamento que as chamadas novas tecnologias verdes encerram com a dependência da China. Os "... equipamentos mais sofisticados dos exércitos ocidentais (robôs, armas cibernéticas, aviões de combate, como o caça americano... F35)" também dependem , "em parte, da boa vontade da China". Daí a previsão de "uma guerra entre os EUA e a China no mar da China meridional" (p.25). Aqui chegado, o autor, sem se afastar da confusão corrente entre ambiente e clima, distancia-se não obstante do ambientalismo no que respeita a esta produção material. Lembra que em França se passou já do lamentável "NIMBY" [6] ao incrível "BANANA" [7] , propondo, por isso, a abertura de minas e a produção em França e no Ocidente. Nesta linha, embora em nota de rodapé (p. 23), o autor comenta que o Acordo de Paris sobre as alterações climáticas não contém uma única vez as palavras "metais", "minérios" e "matérias-primas". Eloquente, sem dúvida. A obra de G. Pitron, como já se terá entendido, não esgota todas as questões fulcrais dos problemas, e das suas diversas facetas, que se colocam – em particular, quanto à energia. Não esquecer que já se esgotaram muitas reservas dos combustíveis fósseis (a UE não se esquece disso, embora passe o tempo a falar do dióxido de carbono). Entretanto, o livro ilustra muitos dos problemas que o ambientalismo em voga desconhece ou minimiza. 

[1] Guillaume Pitron, La guerre des métaux rares: La face cachée de la transition energétique et numérique , Éditions Les Liens Qui Libèrent, 2018, 295 p., ISBN 9791020905741.
[2] Além das terras raras, como metais raros o autor cita os metais pesados (ou de densidade muito superior à densidade da água): vanádio, germânio, grupo da platina – ruténio, ródio, paládio, ósmio, irídio e platina –, tungsténio, antimónio, rénio e, como metal leve, o berílio (p.16). Inclui erradamente também o espato-flúor, que é um mineral de flúor, um não metal, importante para a separação de isótopos de urânio.
[3] Ver nota de rodapé anterior.
[4] Inerente, por exemplo, à utilização de reagentes ácidos indispensáveis em certos processos metalúrgicos, mas venenosos para os humanos e muitas outras formas de vida.
[5] Não se pense que estas actividades se têm mantido indiferentes à inovação tecnológica, pelo contrário. A natureza das ligações químicas, por exemplo, impõe limites inultrapassáveis no consumo energético. Isso se verifica quando destruímos certas ligações químicas a fim de isolarmos um dado metal presente na natureza sob a forma de um composto químico.
[6] NIMBY: Not In My BackYard.
[7] BANANA: Build Absolutely Nothing Anywhere Near Anything. Ver também: 
 pt.wikipedia.org/wiki/Terra-rara  [*] Engenheiro químico.  Esta resenha encontra-se em http://resistir.info/ 

Controlar os alunos e os professores sem os controlar!?

No ano passado um leitor do De Rerum Natura mandou-me, em comentário, notícia do franco desenvolvimento e uso de tecnologia de reconhecimento facial para identificar o nível de atenção dos alunos em sala de aula (aqui). Transcrevo o argumento que percebi ser usado em defesa dessa tecnologia e o que, na altura, escrevi,
Argumento: o professor deve perceber a variação da atenção e do interesse dos alunos ao longo da aula para reajustar procedimentos, que devem ser diferenciados. 
Este argumento, estando certo, não justifica o meio. Espera-se que o professor, sempre que detecte um aspecto relevante no funcionamento da aula, procure superá-lo, mas no quadro da relação pedagógica, nunca usando um meio invasivo, no caso, do corpo do aluno. Um meio que desrespeita a pessoa que é e que, além disso, não lhe ensina o que significa ser-se humano. 
Em Portugal, numa universidade, no âmbito de um projecto científico-tecnológico desenvolve-se"uma aplicação sobre o sistema operativo Android para apoio à aprendizagem". Uma equipa especializada em sistemas inteligentes, apoiada em investigação realizada na Alemanha e nos EUA, está a aperfeiçoar um sistema "destinado monitorizar o foco [não a atenção] de cada um dos estudantes ao longo de uma aula". Para tanto, “calcula a pose da cabeça de cada pessoa utilizando um conjunto de características retiradas da face [movimentos da cabeça, detecção do olhar], previamente detetada na imagem, por forma a estimar para onde estão a olhar” (aqui). No jornal onlinedessa universidade diz-se o seguinte:
"O trabalho permitirá ao professor, por exemplo, perceber em que partes da aula não conseguiu prender o olhar dos alunos e corrigir, na aula seguinte, a prestação (...). Em relação aos alunos, podem perceber em que partes da aula estiveram mais distraídos e que matérias lecionadas terão de estudar mais. [É] uma ferramenta para melhorar a performancede estudantes e professores.
O sistema engloba uma câmara instalada na sala que transmite para um servidordescritores de imagem, ou seja, números extraídos das imagens, como é o caso, por exemplo, dos ângulos de orientação do tronco e da cabeça. 
É de salientar que as imagens da plateia são eliminadas logo depois desse processamento, que dura milésimos de segundo. A natureza dos dados torna impossível estabelecer uma ligação entre um qualquer descritor e uma determinada pessoa presente na plateia, salvaguardando a privacidade e garantindo o anonimato. No final, tudo o que o sistema faculta é informação puramente estatística. 
Para além das aulas, [o sistema poderá ser usado em] congressos, palestras ou em qualquer outro tipo de acontecimento com público e oradores. 
Um dos responsável pelo projecto explicou à jornalista Clara Viana do Público(aqui) que a solicitação foi feita pela universidade e que não se pretende de modo algum controlar os estudantes. É uma explicação desconcertante: uma universidade fazer tal pedido e nela ser concebido um sistema de controlo que se afirma não servir para controlar. Fez notar também a sua apreensão em relação à viabilidade de aplicação do sistema em virtude das normas e lei de protecção de dados, o que implica sempre o consentimento informado dos estudantes, dado tratar-se de dados do foro biométrico, categorizados como dados sensíveis. Esperemos que em situações como esta tais normas e leis prevaleçam e que a educação ética dos estudantes se manifeste.

Ver original em 'De Rerum Natura' na seguinte ligação::

http://dererummundi.blogspot.com/2018/11/controlar-os-alunos-e-os-professores.html

“O ambiente digital está alterando nosso cérebro de forma inédita”, diz neurologista britânica

As facilidades e inovações trazidas pela era digital conquistaram adeptos de diversa gerações.

Mas, talvez haja numa proporção semelhante um grande número de críticos da internet, apontando os problemas da vida em rede.

Entre entusiastas e opositores da internet, no entanto, nem sempre há embasamento científico para o que é defendido.

Susan Greenfield, neurocientista britânica e pesquisadora sênior da Universidade de Oxford, estuda a psicologia do cérebro por um viés multidisciplinar.

Para ela, as tecnologias digitais afetaram nosso cérebro da mesma forma que qualquer elemento de interação que faça parte do nosso cotidiano.

O que a pesquisadora aponta de mais crítico é a forma como nossa vida em rede mudou a formação de nossa identidade, tornando-a dependente da visão das outras pessoas.

Segundo Greenfield, isso altera a forma como nos relacionamos com os outros e a distribuição do nosso tempo para determinadas atividades.

A internet afeta o cérebro?

Todos estão interessados em saber como as tecnologias digitais, especialmente a internet, afetam o cérebro. A primeira coisa a saber é que viver afeta o cérebro. O cérebro muda a todo instante de nossas vidas.

Tudo que é feito durante o dia vai afetar o cérebro. A razão disso é que o cérebro humano se desenvolveu para se adaptar ao ambiente, não importando qual fosse esse ambiente. É interessante notar que agora o ambiente é muito diferente, de maneira sem precedentes.

Como a imersão num ambiente virtual pode afetar o cérebro?

Há várias perguntas diferentes a serem respondidas. Eu acho que há três grupos abrangentes.

O primeiro é o impacto das redes sociais na identidade e nos relacionamentos.

O segundo é o impacto dos videogames na atenção, agressividade e dependência. E o terceiro é sobre o impacto dos programas de busca no modo como diferenciamos informação de conhecimento, como aprendemos de verdade. É claro que há muitos estudos que ainda precisam ser feitos, mas certamente há cada vez mais evidências sobre aspectos positivos e negativos.

Por exemplo, já foi demonstrado que jogar videogames pode ser similar a fazer um teste de QI. Pode ser que o aumento de QI visto em alguns testes aconteça graças à repetição de uma certa habilidade ao jogar videogames.

Agora, só porque vemos um aumento de QI em quem joga videogames não quer dizer que haja um aumento de criatividade ou capacidade de escrita. Também se sabe, por alguns estudos, e por exames de imagem, que os videogames aumentam áreas do cérebro que liberam dopamina. Também sabemos que, em casos extremos, nos quais as pessoas gastam até 10 horas por dia na frente da tela, existe uma forte correlação com anormalidades em exames cerebrais.

Como costumamos dizer, uma andorinha só não faz verão. Então é importante fazer mais estudos. Isto não é definitivo, em se tratando de ciência nada é definitivo, por isso é importante começar a fazer pesquisa básica porque, até agora, está claro que coisas boas e coisas ruins estão acontecendo de um modo que não haviam acontecido em gerações passadas.

Existe um limite de tempo seguro para navegar na internet?

É claro que muitos pais já me perguntaram: ‘com que frequência meus filhos devem usar a internet? Até quando é seguro?’

O que acontece na Inglaterra, acho que aqui também, é que alguns pais falam para os filhos ‘façam uma pausa a cada 10 minutos’. Mas eu não conheço ninguém que no meio do jogo pensa ‘está na hora da minha pausa de 10 minutos’.

Minha sugestão é agradar as crianças, em vez de dizer ‘você só vai jogar por uma ou duas horas, ou você simplesmente não pode jogar.’ Não seria melhor se a criança decidisse sozinha que não quer jogar? E por que eles fariam isso? Porque o que você vai oferecer a ele é muito mais excitante, muito mais agradável, muito mais interessante do que esse jogo.

É um desafio, mas o que temos que fazer é tentar pensar em maneiras, não tentar negar a tecnologia. Nós podemos, na nossa sociedade maravilhosa, com toda essa tecnologia, com todas as oportunidades que temos, dar aos nossos filhos um mundo tridimensional interessante para viver.

Há quem associe o aumento da incidência do transtorno de déficit de atenção e da hiperatividade (TDAH) ao uso da internet pelas crianças. Essa ligação faz sentido?

Está havendo um crescimento alarmante de TDAH. Sabemos que a prescrição de drogas como ritalina, usadas para TDAH, triplicaram, quadruplicaram nos últimos 10 anos.

É claro que isso é muito. A condição pode estar sendo mais diagnosticada ou pode ser que os médicos estejam prescrevendo mais os remédios. Há, porém, outro fator importante: a causa pode ser as tecnologias digitais.

Por que culpar a internet e não a TV, por exemplo?

Algumas pessoas dizem que a TV é a mesma coisa que a internet. Mas já se mostrou que não é o caso. Há uma grande diferença para o que fazemos na internet, que é altamente interativa e também tende a ser mais estimulante.

Nós também sabemos que, quando se joga videogame, uma substância química no cérebro relacionada com o estímulo, chamada dopamina , é liberada. O que é interessante é que, quando se toma ritalina, a dopamina também é liberada.

Então, agora as pessoas estão pensando que talvez as crianças estejam viciadas em videogames. E estão medicando essas crianças porque elas teriam TDAH, e estão fazendo, embora não façam ideia, com que haja mais dopamina no cérebro.

Então, certamente há uma ligação entre TDAH e videogames, mas precisamos entender mais sobre os mecanismos cerebrais para entender como isso funciona.

Como a senhora acha que a geração atual será no futuro?

É interessante pensar no caráter, nas aptidões da próxima geração, os cidadãos da metade do século 21. Eu acho que haverá coisas boas e coisas ruins. Imagino que talvez eles tenham um QI maior e uma boa memória.

Acho também que eles correrão menos riscos que nossa geração – isso pode ser tanto bom quanto ruim. Por um lado, ninguém quer pessoas que nunca se arriscam, que são excessivamente precavidas, mas, por outro lado, também não queremos pessoas inconsequentes.

Infelizmente, também acho que essa geração terá um senso de identidade mais frágil, menos empatia, menos concentração, e podem ser mais dependentes ao viver o “aqui e agora” em vez de ter um passado, presente e futuro. Talvez eles fiquem mais presos ao presente.

Por que o senso de identidade seria menor?

Até recentemente, em muitas partes do mundo, os seres humanos tinham preocupações mais imediatas, como sobreviver, se manter aquecido, não ter dor, não viver com medo e ter onde se abrigar.

Essas questões eram as mais importantes quando se era um adulto. Mas agora a tecnologia, em sociedades mais privilegiadas, como o Brasil e a Grã-Bretanha, está permitindo que a população, pela primeira vez na história, viva muito mais e tenha uma vida saudável.

Uma criança tem, agora, uma em três chances de viver mais de 100 anos. Então o que fazer com esse tempo? Essa é uma pergunta que não se fazia no passado porque as pessoas morriam de doenças ou estavam preocupadas com outras coisas. Mas agora é factível presumir que as pessoas não saberão o que fazer com a segunda metade de suas vidas, após seus filhos estarem criados. Se elas estiverem saudáveis, em forma, mentalmente ágeis, não poderão simplesmente jogar golfe todo dia, ou sudoku.

Acho que uma das grandes questões para eles será fazer perguntas que tradicionalmente apenas adolescentes fazem: “Quem sou eu? Qual é o sentido da vida? Para onde estou indo? Qual o propósito disso tudo?” Na minha opinião, isto pode ajudar a explicar por que, de uma maneira engraçada, Facebook e Twitter são tão populares.

Por quê?

As pessoas têm um senso integral de identidade. De repente elas se sentem importantes porque gente ao redor do mundo está se comunicando com elas, comentando o que elas disseram.

Então, este tipo de pessoa, que no passado vivia em uma comunidade local, e tinha uma identidade dentro daquela cultura, dentro daquele país, agora tem uma presença global, mas que é construída externamente.

Não é real. É como em uma ocasião na qual estava em um café da manhã com Nick Clegg (vice-primeiro-ministro da Grã-Bretanha) e tinha uma mulher perto de mim tão ocupada contando a todo mundo que ela estava tendo um café da manhã com Nick Clegg que nem conseguiu prestar atenção ao que ele estava dizendo. Ela só ficava tuitando o tempo todo: “café da manhã com Nick Clegg”.

Eu vi um filme com duas meninas conversando dentro de um carro e uma pergunta para a outra: “Como você se sente dentro deste carro?” Ela não responde “estou triste” ou feliz ou animada, nada disso. Ela diz: “o carro é digno de um post no Facebook.”

Por que isso é preocupante?

A partir disso eu infiro que as pessoas estão construindo uma identidade no ciberespaço que em boa parte é formada pela visão das outras pessoas. Existe um site chamado KLOUT. Se você entrar nesse site, ele te diz o quão importante você é, te dá um número chamado Klout Score. Klout, em inglês, significa importante. As pessoas pagam para ver qual é a sua pontuação e para aumentá-la.

Eu acho interessante essa tendência de que mesmo que você sinta-se muito importante, muito conectada, você se sente insegura, tenha baixa autoestima, sinta-se constantemente inadequada.

Existe um livro muito bom escrito por Sherry Turkle chamado Alone Together – Why We Expect More From Technology and Less From Each Other (algo como “Juntos sozinhos – Por que esperamos mais da tecnologia e menos de cada um de nós”, lançado em janeiro, ainda sem editora no Brasil). Ela disse: “bizarramente, quanto mais conectado você está, mais você está isolado.”

Hoje, entretanto, a maior parte das pessoas continua levando suas vidas normalmente, fora do ciberespaço, e apenas uma pequena parte dentro dele. Isso se inverterá no futuro?

A maioria das pessoas dirá que, se tirarmos um instantâneo da sociedade hoje, um monte de pessoas está vivendo normalmente e feliz em três dimensões. Elas têm amizades saudáveis e gostam de estar no Facebook e no Twitter.

Com certeza, é apenas uma minoria de pessoas que gastam até 10 horas por dia em frente do computador. Porém eu acho esse tipo de argumento problemático porque é solipsista – você está argumentando a partir do seu ponto de vista. Já falei várias vezes com jornalistas, que geralmente são de meia-idade e de classe média, e dizem que usam isso e aquilo e é fantástico.

Às vezes, sou criticada porque não estou no Facebook, não estou no Twitter, e mesmo assim estou comentando a respeito. Eu respondo que, mesmo se eu estivesse me divertindo muito no Facebook, isso não quer dizer que todos sejam como eu ou que vão usar do mesmo modo que eu uso, ou que vão ter o mesmo tipo de amizades que eu tenho.

O uso então é exagerado?

Eu acho que precisamos olhar para as estatísticas em vez de apenas levar em conta as impressões pessoais ou os meios de comunicação.

De acordo com as estatísticas, os chamados nativos digitais, gente que nasceu após 1990, apresentam níveis de uso alarmantes.

Por exemplo, um estudo americano, de 2010, mostrou que mais da metade dos adolescentes entre 13 e 17 anos estavam gastando mais de 30 horas por semana na internet.

O que me chama atenção não são as 30 horas, mas o que vai além disso. Isso significa pelo menos quatro ou cinco horas por dia em frente ao computador.

O problema com isso é que, não importando o quão fantásticas ou benéficas sejam as redes sociais – vamos dizer que sejam 100% maravilhosas – ainda são quatro ou cinco horas por dia não andando na praia, não dando um abraço em alguém, não sentindo o sol no rosto, não subindo em uma árvore, não fazendo todas as coisas que as crianças costumavam fazer.

Acho que devemos prestar atenção a essa questão. Acho também que podemos comparar o que acontece hoje com o momento dos anos 50 quando as pessoas começaram a mostrar uma relação entre o câncer e o cigarro.

A indústria do tabaco foi hostil a essa descoberta, tentou negar e insistir que fumar não era viciante. E se você tem um grupo de pessoas se divertindo e outro grupo fazendo dinheiro com isso, esse é um círculo perfeito. A primeira coisa a fazer quando pensamos na relação entre os jovens e a internet é reconhecer que talvez aí exista um problema.

Não se trata de excesso de zelo?

Existem outras questões também. Há uma grande diferença entre os chamados “imigrantes digitais”, pessoas como eu e possivelmente pessoas como as que estão lendo essa entrevista e que tiveram uma educação convencional, cresceram lendo livros, tendo relações apropriadas, em três dimensões, e as crianças que estão crescendo agora, recebendo um comando evolucionário para se adaptar ao meio ambiente.

Se esse ambiente é incessantemente o ciberespaço, elas não vão aprender como olhar alguém nos olhos, elas não vão aprender a interpretar tons de voz ou a linguagem corporal.

Elas não vão aprender como é quando se toca alguém, se tem um contato físico. O que significa que, se alguém ficar cara a cara com alguém no mundo real será mais desagradável, mais agressivo, então as pessoas vão preferir se comunicar por meio das telas.

Já é o caso da Grã-Bretanha, não sei como é aqui no Brasil. Escritórios se tornaram locais bastante silenciosos, porque, em vez de conversarem entre si, as pessoas preferem enviar mensagens.

Outro problema que, acho eu, mostra uma tendência, é um fantástico aplicativo – é fantástico que as pessoas paguem por isso. São dois, na verdade. Um deles se chama Self Control (Auto controle). O outro se chama Freedom (Liberdade). Você paga para que eles não o deixem usar a internet obsessivamente. Eles desligam seu computador a cada 50 minutos ou a cada hora.

Por que as pessoas deveriam pagar por algo que elas mesmas poderiam fazer facilmente, a menos que estejam obcecadas ou tenham se tornado dependentes?

Eu posso chegar para você e dizer que tenho uma maneira brilhante de ganhar dinheiro: você me paga para eu desligar seu computador para você. Você vai me dizer que estou louca.

(de Veja via Fronteira do Pensamento)

Ver original em 'Pensar Contemporâneo' na seguinte ligação::

https://www.pensarcontemporaneo.com/susan-greenfield-ambiente-digital/

A promessa e o perigo da Neuro-Tech

O nosso mundo está a passar por uma enorme mudança social, política, económica e tecnológica. Navegar nessa mudança exige que façamos as perguntas certas e atendamos às necessidades humanas mais profundas.

A promessa e o perigo da Neuro-Tech

Traços alterados levam tempo, mas estados alterados saudáveis podem ajudar-nos a deixar de ser impulsionados pela ansiedade, stress e medo, de acordo com cientistas que se apresentaram na Transformative Technology Conference no Silicon Valley, em 9 e 10 de Novembro. Tecnologia relacionada ao bem-estar e mindfulness ajudam-nos a sentir menos medo, nervoso, ansiedade, cansaço e tédio? A tecnologia pode ajudar-nos a ser movidos por relacionamentos e valores saudáveis (propósitos) em vez de nos alienar? Vários participantes comentaram que a tecnologia emergente que foi discutida nesta conferência tem o potencial de libertar ou aprisionar as mentes do futuro.

Tudo depende de discussões sobre as implicações e padrões éticos antes que as tecnologias proliferem numa sociedade desprevenida. Você está pronto para encefalogramas sem fio (EEG) que podem detectar se um controlador de tráfego aéreo está com sono (ou se um trabalhador está distraído)? A modulação ultrassónica, leve e eléctrica da atenção, do aprendizado e do humor pode aliviar os sintomas do Parkinson, melhorar a aprendizagem e a meditação – poderia ser mal utilizado para manipular e sedar as pessoas? Poderia a realidade virtual se transformar num ópio imersivo das massas? Essas tecnologias já estão aqui. Estamos preparados?

O fim da cara de póquer

Quanta privacidade pode haver, se você não pode esconder a actividade das suas ondas cerebrais? Se sensores térmicos, eléctrico e químicos podem revelar seus sentimentos? Como os sensores e a inteligência artificial calculam o big data, os corpos humanos podem tornar-nos parte na Internet das Coisas. O que vamos desistir em nome da conveniência? A tecnologia empática que pode reconhecer seu humor e melhorar a plasticidade cerebral ou aprender com personalização individual é uma grande promessa, se estiver sob o nosso controle. Se for controlado por grandes corporações e estados totalitários, a história será bem diferente.

Dispositivos que, de alguma forma, sabem mais sobre nós do que nós, estão chegando muito em breve. Eles vão reconhecer quando o seu cérebro está trabalhando mais, detectando a dilatação da pupila. A análise química da sua respiração indicará a tensão muscular. Nossos espaços serão optimizados para nossas escolhas ou nossas escolhas serão ainda mais afectadas pelo meio ambiente? Patches de sensor corticóide como aqueles desenvolvidos na Universidade de Stanford podem detectar os nossos níveis de stress, enquanto a estimulação do nervo vago pela orelha pode aliviá-lo ou nos tornar mais resistentes ao stress com o tempo.

Além disso, Peter Freer teria desenvolvido um EEG remoto ou um neuromonitor sem contacto. Na prática, isso significa que as pessoas agora podem medir ondas cerebrais a até 20 centímetros do cérebro – mesmo sem você saber,  já que não requer sondas e fios. Os empregadores monitorizarão o nível de atenção de seu trabalhador e deduzirão seu pagamento quando não estiverem realizando um alto nível? Poderia impedir acidentes no sector de transporte monitorizando a atenção ou o nível de alerta de trabalhadores cansados ou distraídos? Os trabalhadores e os motoristas serão completamente substituídos pela tecnologia, o que significa que versões simples do EEG podem simplesmente se tornar mais acessíveis e abrangentes para melhorar a experiência humana? Só o tempo irá dizer.

Cardio-Neurofeedback e AI

Deborah Rozman, do Instituto HeartMath, discutiu a variabilidade da frequência cardíaca como uma medida de bem-estar e levantou a possibilidade de uma pessoa “elevar” o bem-estar de um grupo através de uma espécie de influência ressonante e sincronização coerente dos campos electromagnético do coração. Os participantes puderam “conhecer” Sofia, o robô de inteligência artificial (AI) da Hanson Robotics, que foi recentemente concedido “cidadania” pela Arábia Saudita. Houve uma palestra da SingularityNET Foundation defendendo a descentralização da AI para evitar que ela fosse controlada por qualquer uma das partes. Houve demonstrações interessantes de como a tecnologia como Sofia pode reconhecer expressões faciais e até orientar a meditação.

O nervo que viaja

Houve várias apresentações científicas sobre estimulação (para melhorar ou bloquear aspectos de partes da função cerebral). Estes incluíram a estimulação do nervo vago (VNS) por startups como Bodhi NeuroTech e eQuillity. Os geradores de pulso tratam a epilepsia, com 33% de chance de redução de 50% ou mais dos episódios epilépticos. A VNS, em um estudo, reduziu a gordura corporal em porcos e recuperou 75% das células cerebrais do córtex afectadas por um derrame em ratos. Também foi observado que a experiência mais o estímulo alcançou maior neuro-plasticidade ou melhor capacidade de aprender e mudar o comportamento.

Efeitos foram notados para depressão. Em vez de usar produtos invasivos e caros, agora é possível obter estimulação através do ouvido (ramo auricular do nervo vago). VNS diminui a frequência cardíaca, aumenta a variabilidade da frequência cardíaca da VFC, aumenta os sentimentos de calma e facilita o ensino de habilidades críticas – em um estudo, ajudou a reabilitar bebês prematuros aprendendo a se alimentar). Quando comparado com a intervenção comportamental ou práticas meditativas, parecia melhorar a experiência (ver – “supercharge your zen” – artigo sobre meditação assistida por tecnologia). Ultrassonografia, Luz e Estimulação ElétricaJay Sanguineti de Alchemas descreveu como a estimulação baseada em ultra-som nos permite alcançar áreas mais profundas do cérebro. Ao atingir a rede de modo padrão, pode haver diminuição da activação em actividade referencial.Esta abordagem pode silenciar o córtex cingulado posterior (PCC) com menos vibração e senso de unidade com o ambiente.

O Dr. Sanjay Manchanda, da Universidade do Novo México, demonstrou como se pode alcançar estados mais elevados de consciência com transferência de energia de baixo A luz infravermelha próxima parece ser ainda mais efectiva em reparar, restaurar e melhorar o cérebro. Um dos produtos, o Vielight, usa LEDs infravermelhos de 600-1000 nm com pulsos de 10 e 40 Hz. O neurogamma tem sido usado em 40 Hz para aliviar os sintomas de TEPT e declínio cognitivo, melhorar o aprendizado e melhorar a comunicação entre as regiões cerebrais (aumento das ondas cerebrais gama em repouso e durante a mediação). Uma unidade destinava-se a estimular as ondas cerebrais gama utilizando múltiplos de 40 Hz (harmónicos) entre 40 e 200 Hz, com resultados empolgantes, especialmente entre meditadores experientes. As pessoas relataram menos conversas mentais, maior calma, sensação de presença e conexão.

Monitoramento Paciente Remoto

Até recentemente, era difícil para os médicos nos EUA prescreverem sistemas tecnológicos transformadores. Mudanças na lei dos EUA agora visam facilitar o monitoramento remoto do paciente, fornecendo códigos facturáveis para o reembolso do seguro Medicare. Uma empresa que se beneficiará com esse desenvolvimento é a Spire, conhecida pelo pendente de monitor de respiração Pebble, que está disponível nas Apple Stores. Mede a respiração e avalia o stress e a ansiedade por meio de um pendente.

Agora, a Spire está lançando tags de saúde para adicionar roupas (aproximadamente US $ 150 / aa). Podem ser executados por um período de dois anos e podem suportar lavadora e secadora. É possível usar a natureza viciante dos jogos de um mero esquema de ganhar dinheiro para ajudar as pessoas? Alguns criadores de jogos com remorso estão criando jogos enganosamente simples, emparelhados com intervenções comportamentais para melhorar o bem-estar. Por exemplo, o jogo Uplift apresenta balões de ar quente que levam as pessoas a reconhecer palavras associadas a estados emocionais positivos.

O interior: A nova selva

O pesquisador Dr. Pablo Paredes brincou que, se você quiser encontrar um humano, deve procurar uma cadeira. O americano médio gasta 60 minutos por dia no carro (90 minutos na área da baía de San Francisco). Ele apresentou seu abrangente laboratório de bem-estar para ajudar a tornar os espaços internos e nos veículos mais saudáveis. Ele também observou que as pessoas esquecem, ficam entediadas e quebram as coisas, então o trans tech deve ser mantido o mais simples possível. E se a sua cadeira pudesse detectar stress e tensão e cutucá-lo a se mover e mudar seu humor? Será que a realidade virtual pode ser usada para tornar os passeios longos menos stressantes e até aliviar o enjoo? Muitas pessoas estão sobrecarregadas, cansadas, com raiva, acima do peso, distraídas, tristes, infelizes, isoladas (1: 4 americanos sofrem de algum tipo de distúrbio psicológico). A gestão do stress é responsável por 60-80% das consultas médicas, mas apenas 3% recebem tratamento de controle do stress. Os EUA estão lidando com um vício em opiáceos epidérmicos.

Parte do problema poderia ser que os seres humanos não evoluíram para o interior – poderíamos fugir dos leões, mas não podemos fugir do nosso chefe ou engarrafamentos. Nós gastamos 87% do tempo dentro de casa e em veículos (“o novo selvagem” – veja: robert sapolsky – por que as zebras não têm úlceras). Muitas terapias ou sistemas descrevem eficácia (taxas de conclusão bem-sucedida). No entanto, a eficiência (responsável pelo atrito) é tipicamente fraca (menos de 1%). No futuro, podemos manter as pessoas saudáveis com a precisão da saúde através de ambientes mais inteligentes e saudáveis (casas, escritórios e transportes) que não exigem muita participação activa. A sociedade poderia conseguir isso por meio de sensores simples, subtis, envolventes, não-obstrutivos e intervenções subtis.

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/a-promessa-e-o-perigo-da-neuro-tech/

Rússia e Portugal fecham acordo sobre segurança cibernética

Chanceler russo Sergei Lavrov se encontra com seu homólogo português, Augusto Santos Silva, em Lisboa, em 24 de novembro de 2018
© REUTERS / RAFAEL MARCHANTE

Neste sábado (24), durante encontro em Lisboa, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, fechou acordo com o chanceler de Portugal, Augusto Santos Silva, para consultas políticas entre os países que ambos representam.

O chanceler russo chamou o acordo com Portugal sobre consultas na área de segurança cibernética de "um modelo para países que estão se afastando de uma discussão profissional sobre o assunto".


Mais cedo neste sábado (24), Lavrov e o chanceler português assinaram um memorando de entendimento entre os países que garantirá consultas políticas mútuas.

Segundo as palavras de Lavrov, o memorando inclui um acordo para consultas regulares entre os países e também em temas como o combate ao terrorismo.

"Nós acolhemos fortemente a abordagem de nossos amigos portugueses, pois, para compreender o que está acontecendo no ciberespaço, nós temos que manter contatos profissionais contantes", afirmou o chanceler português.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2018112412755833-russia-portugal-seguranca-cibernetica-lavrov/

Os ultra-ricos preparam um mundo pós-humano

Uma elite ínfima – porém poderosa ao extremo – crê que o planeta tornou-se inviável e quer isolar-se após o “Evento”. O que isso revela sobre a grande crise civilizatória em que mergulhamos
Douglas Rushkoff *| Outras Palavras | Tradução: Inês Castilho
No ano passado, fui convidado a fazer conferência num resort superluxuoso para um público que, imaginei, seria de aproximadamente cem banqueiros de investimento. Era de longe a maior remuneração que jamais me foi oferecida por uma palestra – metade do meu salário anual como professor – tudo para fornecer algumas dicas sobre o tema “o futuro da tecnologia”.

Nunca gostei de falar sobre o futuro. A sessão de perguntas e respostas sempre acaba mais como um jogo de salão, em que me pedem para opinar sobre as últimas tendências da tecnologia como se fossem dicas precisas para potenciais investimentos: blockchain, impressão 3D, CRISPR. As audiências raramente estão interessadas em aprender sobre essas tecnologias ou sobre seus impactos potenciais, além da escolha binária entre investir nelas ou não. Mas o dinheiro chama; por isso, entrei no show.

Ao chegar, fui introduzido no que ma pareceu ser a sala reservada principal. Mas, ao invés de receber um microfone ou ser conduzido a um palco, simplesmente me sentei numa mesa redonda e minha audiência começou a chegar: cinco sujeitos super-ricos – sim, todos homens – do alto escalão do mundo dos fundos hedge. Depois de um pouco de conversa, percebi que eles não tinham interesse nas informações que eu havia preparado sobre o futuro da tecnologia. Haviam preparado suas próprias perguntas.
Começavam com aparente ingenuidade. Ethereum ou Bitcoin? A computação quântica é real? Mas, lenta e seguramente, concentraram-se em suas verdadeiras preocupações.

Qual região seria menos impactada pela crise climática que vem aí: Nova Zelândia ou Alasca? O Google está realmente construindo um “lar” para o cérebro de Ray Kurzweil e sua consciência viverá durante a transição, ou ele morrerá e renascerá inteiramente novo? Finalmente, o executivo-chefe de uma corretora explicou que havia quase concluído a construção de seu próprio sistema subterrâneo de abrigo e perguntou: “Como faço para manter a autoridade sobre minha força de segurança após o evento?”

O Evento. Esse era o eufemismo que usavam para o desastre ambiental, a agitação social, a explosão nuclear, o vírus incontrolável ou os hackers-robôs que destroem tudo.

Essa única pergunta os ocupou pelo resto do tempo. Sabiam que guardas armados viriam para proteger seus complexos das multidões enfurecidas. Mas como pagariam os guardas, já que o dinheiro não teria valor? O que evitaria que os guardas escolhessem os próprios líderes? Os bilionários consideravam usar fechaduras de combinação especial que só eles conheciam para guardar sua provisão de comida. Ou fazer com que os guardas usassem colares disciplinares de algum tipo, em troca de sua sobrevivência. Ou talvez construir robôs para servir de guardas e trabalhadores – se essa tecnologia fosse desenvolvida a tempo.

Foi quando me bateu. Para esses senhores, essa era uma conversa sobre o futuro da tecnologia. Seguindo as dicas de Elon Muskcolonizando Marte, Peter Thiel revertendo o processo de envelhecimento, ou Sam Altman e Ray Kurzweil inserindo suas mentes em supercomputadores, eles estavam se preparando para um futuro digital que tinha muito menos a ver com tornar o mundo um lugar melhor, do que com transcender inteiramente a condição humana e isolar-se do perigo hoje real das mudanças climáticas, aumento do nível do mar, migrações em massa, pandemias globais, pânico e esgotamento de recursos. Para eles, o futuro da tecnologia tem a ver com uma única coisa: escapar.

Não há nada de errado com avaliações loucamente otimistas de como a tecnologia pode beneficiar a sociedade humana. Mas o movimento atual de uma utopia pós-humana é outra coisa. É menos uma visão da migração da humanidade para um novo estado do ser do que uma busca de transcender tudo o que é humano: corpo, interdependência, compaixão, vulnerabilidade, complexidade. Como filósofos da tecnologia vêm apontando há anos, a visão transhumanista reduz muito facilmente toda a realidade a dados, concluindo que “ humanos não passam de objetos processadores de informação”.

É uma redução da evolução humana a um videogame em que alguém vence encontrando a saída de emergência e deixando alguns de seus melhores amigos pelo caminho. Serão Musk, Bezos, Thiel… Zuckerberg? Esses bilionários são os vencedores presumíveis da economia digital – o mesmo cenário de sobrevivência do mais apto que alimenta a maior parte dessa especulação.

Claro que nem sempre foi assim. Houve um breve momento, no início dos anos 1990, em que o futuro digital parecia aberto a nossa invenção. A tecnologia estava se tornando um playground para a contracultura, que via nela a oportunidade de criar um futuro mais inclusivo, igualitário e pró-humano. Mas os interesses de lucro do establishment viram somente novos potenciais para a velha exploração, e muitos tecnólogos foram seduzidos pelos unicórnios das bolsas de valores. O futuro digital passou a ser compreendido mais como ações futuras ou mercadorias futuras – algo a ser previsto e em que apostar. Assim, quase todos os discursos, artigos, estudos, documentários ou documentos técnicos eram considerados relevantes apenas na medida em que apontavam para um símbolo de corporação global. O futuro tornou-se menos uma coisa que criamos através de nossas escolhas ou esperanças pela humanidade, do que um cenário predestinado no qual apostamos com nosso capital de risco, mas ao qual chegamos passivamente.

Isso liberou todo mundo das implicações morais de suas atividades. O desenvolvimento da tecnologia tornou-se menos uma história de florescimento coletivo do que de sobrevivência pessoal. Pior, como vim aaprender, chamar atenção para isso era ser involuntariamente considerado um inimigo do mercado ou um rabugento antitecnológico.

A esta altura, o invés de tecer considerações éticas sobre empobrecer ou explorar muitos, em nome de poucos, a maioria dos acadêmicos, jornalistas e escritores de ficção científica passou a se dedicar a enigmas muito mais abstratos e fantasiosos: é justo um operador nos mercados financeiros usar drogas inteligentes? As crianças devem receber implantes para línguas estrangeiras? Queremos que veículos autônomos priorizem a vida dos pedestres, em detrimento dos passageiros? Devem as primeiras colônias de Marte ser administradas como democracias? Mudar meu DNA prejudica minha identidade? Os robôs devem ter direitos?

Fazer esse tipo de pergunta, embora filosoficamente divertido, é um substituto pobre para o exame dos verdadeiros dilemas morais associados ao desenvolvimento tecnológico desenfreado, em nome do capitalismo corporativo. As plataformas digitais já tornaram um mercado explorador e extrativista (pense na Walmart), em um sucessor ainda mais desumanizador (pense na Amazon). A maioria de nós tornou-se consciente desse lado sombrio na forma de empregos automatizados, trabalho temporário e o fim do varejo local.

Porém, os impactos mais devastadores desse capitalismo digital que avança recaem sobre o meio ambiente e os pobres do mundo. A produção de alguns de nossos computadores e smartphones ainda usa redes de trabalho escravo. Essas práticas estão tão profundamente arraigadas que uma empresa chamada Fairphone, fundada  a partir do zero para produzir e comercializar telefones éticos, verificou que era impossível. (Agora o fundador da empresa se refere a seus produtos como telefones “mais justos”)…

Enquanto isso, a mineração de metais raros e o descarte de nossas tecnologias altamente digitais destroem habitats humanos, substituindo-os por depósitos de lixo tóxico — recolhido por crianças camponesas e suas famílias, que vendem materiais utilizáveis de volta aos fabricantes.

Essa externalização — “fora da vista, fora da mente” — da pobreza e do veneno não desaparece apenas porque cobrimos nossos olhos com óculos de realidade virtual e ficamos imersos numa realidade alternativa. Quanto mais ignoramos as repercussões sociais, econômicas e ambientais, mais elas se tornam problemáticas. Isso, por sua vez, motiva ainda mais privação, mais isolacionismo e fantasia apocalíptica – e tecnologias e planos de negócios mais concebidos em desespero. O ciclo se retroalimenta.

Quanto mais comprometidos estamos com essa visão de mundo, mais passamos a ver os seres humanos como problema e a tecnologia como solução. A própria essência do que significa ser humano é tratada menos como uma característica do que como defeito intrínseco, um bug. As tecnologias são declaradas neutras, a despeito dos preconceitos nelas incorporados. Quaisquer que sejam os comportamentos ruins que induzam em nós, eles seriam apenas um reflexo de nosso próprio núcleo corrompido. É como se alguma selvageria humana inata fosse a culpada pelos nossos problemas. Assim como a ineficiência de um mercado de táxi local pode ser “resolvida” com um aplicativo que leva motoristas humanos à falência, as incômodas incoerências da psiqué humana podem ser corrigidas com um upgrade digital ou genético.

Em última análise, segundo a ortodoxia tecnosolucionista, o futuro humano chega ao climax se inserir nossa consciência num computador ou, talvez anda melhor, aceitar que a própria tecnologia é nossa sucessora na evolução. Como os membros de um culto gnóstico, ansiamos por entrar na próxima fase transcendente de nosso desenvolvimento, eliminando nossos corpos e deixando-os para trás junto com nossos pecados e problemas.

Nossos filmes e programas de televisão encenam essas fantasias por nós. Seriados de zumbis mostram um pós-apocalipse em que as pessoas não são melhores que os mortos-vivos – e parecem conhecê-los. Pior, esses filmes convidam os espectadores a imaginar o futuro como uma batalha de soma zero entre os humanos remanescentes, onde a sobrevivência de um grupo depende da morte de outro. Mesmo Westworld – baseado num romance de ficção científica em que robôs correm descontroladamente – encerrou sua segunda temporada com a revelação definitiva: os seres humanos são mais simples e previsíveis do que as inteligências artificiais que criamos. Os robôs aprendem que cada um de nós pode ser reduzido a apenas algumas linhas de código e que somos incapazes de fazer escolhas intencionais. Caramba, naquela série até mesmo os robôs querem escapar dos limites de seus corpos e passar o resto de suas vidas numa simulação de computador.

A ginástica mental requerida por essa profunda inversão de papéis entre humanos e máquinas depende do pressuposto subjacente de que os humanos são péssimos . Vamos mudá-los ou nos afastar deles para sempre.

Então, temos bilionários da tecnologia lançando carros elétricos ao espaço – como se isso simbolizasse algo mais que a capacidade de um bilionário promover-se na corporação. E se poucas pessoas conseguem escapar e de alguma forma sobreviver numa bolha em Marte – a despeito de nossa incapacidade de manter tal bolha até mesmo aqui na Terra, em qualquer dos dois testes multibilionários feitos na Biosfera – o resultado será menos a continuação da diáspora humana que um salva-vidas para a elite.

Quando os financistas de fundos hedge perguntaram sobre a melhor maneira de manter a autoridade sobre suas forças de segurança depois do evento, sugeri que sua melhor aposta seria tratar muito bem essas pessoas, desde já. Deviam envolver-se com suas equipes de segurança como se estas fossem formadas por membros de suas próprias famílias. E quanto mais eles pudessem expandir esse espírito de inclusão para o resto de suas práticas de negócios, gerenciamento da cadeia de suprimentos, esforços de sustentabilidade e distribuição de riqueza, menor a chance de haver um evento, em primeiro lugar. Toda essa magia tecnológica poderia ser aplicada desde já, para fins menos românticos, porém muito mais coletivos.

Eles ficaram pasmos com meu otimismo, mas na verdade não o aceitaram. Não estavam interessados em como evitar uma calamidade; estavam convencidos que já fomos longe demais. Apesar de toda a sua riqueza e poder, não acreditam que possam afetar o futuro. Estão simplesmente aceitando o mais sombrio de todos os cenários e, em seguida, trazendo todo o dinheiro e tecnologia que podem usar para isolar-se – especialmente se não conseguirem um lugar no foguete para Marte.

Felizmente, aqueles de nós sem dinheiro para considerar a negação de nossa própria humanidade têm disponíveis opções muito melhores. Não precisamos usar a tecnologia de modo tão antissocial e atomizante. Podemos nos tornar os consumidores e perfis individuais em que nossos dispositivos e plataformas desejam nos transformar, ou podemos nos lembrar que o humano verdadeiramente evoluído não caminha sozinho.

Ser humano não tem a ver com sobrevivência ou saída individual. É um esporte coletivo. Seja qual for o futuro dos humanos, será de todos nós.
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*Douglas Rushkoff is the author of the upcoming book Team Human (W.W. Norton, January 2019) and host of the TeamHuman.fm podcast.

LEIA TAMBÉM NO PG

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2018/11/os-ultra-ricos-preparam-um-mundo-pos.html

O novo salto global da desigualdade

Na sequência do artigo intitulado “Os ultra-ricos preparam um mundo pós-humano”, agora publicado e que pode ler ou talvez já tenha lido, decidimos no PG fazer a reposição deste, também retirado do Outras Palavras, onde foi publicado em 16.01.2017, que recomendamos leia a seguir. Afinal tudo está interligado e é útil que chegue ao seu conhecimento.(PG)

Políticas de “austeridade” ampliam concentração de riqueza. Oxfam denuncia: agora, oito homens já têm mais que a metade dos habitantes do planeta. Mas há alternativas

Oxfam | Outras Palavras | Imagem: Sara Distin

Estamos criando condições para recuperar o país e voltar a crescer, diz o presidente Michel Temer – e repetem os jornais – a cada medida adotada para reduzir o investimento social, eliminar direitos previdenciários, “simplificar” as exigências das leis trabalhistas e, supostamente, “equilibrar” as contas públicas. Exatamente como Temer agem, desde a crise de 2008, quase todos os governantes do mundo. “Austeridade”, “ajustes fiscais”, “apertar os cintos” tornaram-se conceitos dominantes no jargão politico e econômico da última década. Qual foi o resultado?

Um relatório que acaba de ser divulgado pela organização internacional Oxfam – voltada ao estudo e denúncia da desigualdade – revela. Tais políticas permitiram que apenas oito homens possum a mesma riqueza que os 3,6 bilhões de pessoas que compõem a metade mais pobre da humanidade. O documento Uma economia humana para os 99% mostra que a diferença entre ricos e pobres aumenta a cada edição do estudo, numa velocidade muito maior do que a prevista. Os 50% mais pobres da população mundial detêm menos de 0,25% da riqueza global líquida. Nesse grupo, cerca de 3 bilhões de pessoas vivem abaixo da “linha ética de pobreza” definida pela riqueza que permitiria que as pessoas tivessem uma expectativa de vida normal de pouco mais de 70 anos.

“O relatório detalha como os grandes negócios e os indivíduos que mais detêm a riqueza mundial estão se alimentando da crise econômica, pagando menos impostos, reduzindo salários e usando seu poder para influenciar a política em seus países”, afirma Katia Maia, diretora executiva da Oxfam no Brasil.

Os números da desigualdade foram extraídos do documento Credit Suisse Wealth Report 2016. (Veja link abaixo.) Segundo a organização, 1 em cada 10 pessoas no mundo sobrevive com menos de US $ 2 por dia. No outro extremo, a ONG prevê que o mundo produzirá seu primeiro trilhardário em apenas 25 anos. Sozinho, esse indivíduo deterá uma fortuna tão alta que, se ele quisesse gastá-la, seria necessário consumir US$ 1 milhão todos os dias, por 2.738 anos, para acabar com tamanha quantia em dinheiro. O discurso da Oxfam em Davos também mostrará que 7 de cada 10 pessoas vivem em países cuja taxa de desigualdade aumentou nos últimos 30 anos. “Entre 1988 e 2011, os rendimentos dos 10% mais pobres aumentaram em média apenas 65 dólares (US$ 3 por ano), enquanto os rendimentos dos 10% mais ricos cresceram uma média de 11.800 dólares – ou 182 vezes mais”, aponta o documento.
“A desigualdade está mantendo milhões de pessoas na pobreza, fragmentando nossas sociedades e minando nossas democracias. É ultrajante que tão poucas pessoas detenham tanto enquanto tantas outras sofrem com a falta de acesso a serviços básicos, como saúde e educação”, reforça Katia Maia.

O relatório destaca ainda a situação das mulheres que, muitas vezes empregadas em cargos com menores salários, assumem uma quantidade desproporcional de tarefas em relação à remuneração recebida. O próprio relatório do Fórum Econômico Mundial (2016) sobre as disparidades de gênero estima que serão necessários 170 anos para que as mulheres recebam salários equivalentes aos dos homens. Segundo o texto, as mulheres ganham de 31 a75% menos do que os homens no mundo.

A sonegação de impostos, o uso de paraísos fiscais e a influência política dos super-ricos para assegurar benefícios aos setores onde mantêm seus investimentos são outros destaques do documento da Oxfam.

Oxfam é uma confederação internacional de 20 organizações que trabalham em mais de 90 países, incluindo o Brasil, com o intuito de construir um futuro livre das desigualdades e da injustiça causada pela pobreza. Uma das características centrais de seu estudo é a postura não-contemplativa. A organização está empenhada em buscar alternativas que permitam construir “uma economia para os 99%”. Eis, a seguir, algumas de suas propostas para tanto.

Uma Economia Humana para os 99%

Outras conclusões do Relatório da Oxfam (Davos, 2017)

Desde 2015, o 1% mais rico detinha mais riqueza que o resto do planeta.i

Atualmente, oito homens detêm a mesma riqueza que a metade mais pobre do mundo.ii

Ao longo dos próximos 20 anos, 500 pessoas passarão mais de US$ 2,1 trilhões para seus herdeiros – uma soma mais alta que o PIB da Índia, um país que tem 1,2 bilhão de habitantes.iii

A renda dos 10% mais pobres aumentou em menos de US$ 65 entre 1988 e 2011, enquanto a dos 10% mais ricos aumentou 11.800 dólares – 182 vezes mais.iv

Um diretor executivo de qualquer empresa do índice FTSE-100 ganha o mesmo em um ano que 10.000 pessoas que trabalham em fábricas de vestuário em Bangladesh.v

Nos Estados Unidos, uma pesquisa recente realizada pelo economista Thomas Pickety revela que, nos últimos 30 anos, a renda dos 50% mais pobres permaneceu inalterada, enquanto a do 1% mais rico aumentou 300%.vi

No Vietnã, o homem mais rico do país ganha mais em um dia do que a pessoa mais pobre ganha em dez anos.vii

Uma em cada nove pessoas no mundo ainda dorme com fomeviii.

O Banco Mundial deixou claro que, sem redobrar seus esforços para combater a desigualdade, as lideranças mundiais não alcançarão seu objetivo de erradicar a pobreza extrema até 2030.ix

Os lucros das 10 maiores empresas do mundo somam uma receita superior à dos 180 países mais pobres juntos.x

O diretor executivo da maior empresa de informática da Índia ganha 416 vezes mais que um funcionário médio da mesma empresa.xi

Na década de 1980, produtores de cacau ficavam com 18% do valor de uma barra de chocolate – atualmente, ficam com apenas 6%.xii

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que 21 milhões de pessoas são trabalhadores forçados que geram cerca de US$ 150 bilhões em lucros para empresas anualmente.xiii

As maiores empresas de vestuário do mundo têm ligação com fábricas de fiação de algodão na Índia que usam trabalho forçado de meninas rotineiramente.xiv

Embora as fortunas de alguns bilionários possam ser atribuídas ao seu trabalho duro e talento, a análise da Oxfam para esse grupo indica que um terço do patrimônio dos bilionários do mundo tem origem em riqueza herdada, enquanto 43% podem ser atribuídos ao favorecimento ou nepotismo.xv

Mulheres e jovens são particularmente mais vulneráveis ao trabalho precário: as atividades profissionais de dois em cada três jovens trabalhadores na maioria dos países de baixa renda consistem em trabalho vulnerável por conta própria ou trabalho familiar não remunerado.xvi

Nos países da OCDE, cerca de metade de todos os trabalhadores temporários tem menos de 30 anos de idade e quase 40% dos jovens trabalhadores estão envolvidos em atividades profissionais fora do padrão, como em trabalho por empreitada ou temporário ou empregos involuntários em tempo parcial.xvii

A edição de 2016 do relatório anual do Fórum Econômico Mundial sobre as disparidades de gênero revela que a participação econômica de mulheres ficou ainda mais baixa no ano passado e estima que serão necessários 170 anos para que as mulheres recebam salários equivalentes aos dos homens.xviii

Sugestões da Oxfam para uma economia mais humana
1. Governos que trabalhem para os 99%
2. Incentivo à cooperação entre os países
3. Modelos de empresas com melhor distribuição de benefícios
4. Tributação justa à extrema riqueza
5. Igualdade de gênero na economia humana
6. Tecnologia a serviço dos 99%
7. Fomento às energias renováveis
8. Valorização e mensuração do progresso humano

Links:
Credit Suisse Wealth Report 2016 –
Bilionários da Forbes –
Notas
iiCálculos da Oxfam baseados na riqueza dos indivíduos mais ricos segundo a lista anual de bilionários da Forbes e a riqueza dos 50% mais pobres segundo o relatório Global Wealth Databook do Banco Credit Suisse (2016)
iiiUBS Billionaire’s Report de setembro de 2016 http://uhnw-greatwealth.ubs.com/media/8616/billionaires-report-2016.pdf
ivD. Hardoon, S. Ayele, e Fuetes Nieva, R., (2016), “Uma Economia para o 1%”. Oxford: Oxfam. http://policy-practice.oxfam.org.uk/publications/an-economy-for-the-1-how-privilege-and-power-in-the-economy-drive-extreme-inequ-592643 Versão em português disponível em https://www.oxfam.org.br/noticias/relatorio_davos_2016
vCálculos da Ergon Associates baseados em dados sobre os salários de diretores-presidentes estimados pelo High Pay Centre e os pacotes médios de benefícios oferecidos a trabalhadores.
viiNguyen Tran Lam. (2017, no prelo), “Even It Up: How to tackle inequality in Vietnam”. Oxfam.
viiiO Programa Mundial de Alimentos estima que 795 milhões de pessoas no mundo não têm comida suficiente para levar uma ativa saudável. Isso é cerca de uma em cada nove pessoas na terra. https://www.wfp.org/hunger/stats
ixBanco Mundial (2016), “Poverty and Shared Prosperity 2016: Taking on Inequality”, Washington DC: Banco Mundial doi:10.1596/978-1-4648-0958-3. http://www.worldbank.org/en/publication/poverty-and-shared-prosperity
xGlobal Justice Now. “Corporations vs governments revenues: 2015 data”. http://www.globaljustice.org.uk/sites/default/files/files/resources/corporations_vs_governments_final.pdf
xiM. Karnik. (6 de Julho de 2015). “Some Indian CEOs make more than 400 times what their employees are paid”. Site da Quartz India. http://qz.com/445350/heres-how-much-indian-ceos-make-compared-to-the-median-employee-salary/
xiiiProtocolo da OIT relativo à Convenção sobre o Trabalho Forçado de 2014. http://www.ilo.org/dyn/normlex/en/f?p=NORMLEXPUB:12100:0::NO::P12100_ILO_CODE:P029
xivAs empresas implicadas em um estudo realizado em 2012 pela ONG Anti-Slavery International intitulado “Slavery on the High Street: Forced labour in the manufacture of garments for international brands” incluem Asda-Walmart (Reino Unido/Estados Unidos), Bestseller (dinamarquesa), C&A (alemã/belga), H&M (sueca), Gap (americana), Inditex (espanhola), Marks and Spencer (Reino Unido), Mothercare (Reino Unido) e Tesco (Reino Unido) http://www.antislavery.org/includes/documents/cm_docs/2012/s/1_slavery_on_the_high_street_june_2012_final.pdf
xvD. Jacobs. (2015). “Extreme Wealth Is Not Merited”. Documento para Discussão da Oxfam. https://www.oxfam.org/en/research/extreme-wealth-not-merited
xviOIT (2015). “Global Employment Trends for Youth 2015”. pág. 49.
xviiOCDE (2015), “In It together: Why Less Inequality Benefits All”. Paris: OECD Publishing. DOI: http://dx.doi.org/10.1787/9789264235120-en
xviiiWorld Economic Forum. (2016). ‘The Global Gender Gap Report’. http://www3.weforum.org/docs/GGGR16/WEF_Global_Gender_Gap_Report_2016.pdf

Na imagem de topo: Rio Bhuriganga, em Dhaka (Bangladesh), destruído pelo despejo de resíduos industriais. A cidade é uma das que mais cresce no mundo e abriga transnacionais têxteis atraídas para lá por salários baixos e ausência de direitos sociais. É o caso da Zara, cujo fundador é um dos 8 homens mais ricos do mundo

LEIA O ARTIGO ANTERIOR NO PG

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2018/11/o-novo-salto-global-da-desigualdade.html

Bitcoin: mais um esquema de pirâmide financeira ou milagre para os pobres?

Com a desvalorização do bitcoin, o Departamento de Justiça dos EUA está investigando se a valorização épica do ano passado da moeda digital foi influenciada pela manipulação de comerciantes no token Tether, informa Bloomberg.

Enquanto procuradores federais norte-americanos abriram investigação criminal sobre moedas digitais no mês passado, suspeitas aterraram recentemente sobre um esquema envolvendo bitcoin, a plataforma que permite criação de ativos usando o blockchain do bitcoin — Tether — e a corretora de moedas digitais Bitfinex na movimentação de preços ilegal, de acordo com três pessoas familiares ao caso, que falaram com a agência.


De acordo com a Bloomberg, a direção da Bitfinex é a mesma da Tether Ltd., uma companhia sediada em Hong Kong que cria criptomoeda homônima. Quando novas moedas entram no mercado, elas são lançadas principalmente na Bitfinex.

O jornalista Viktor Marakhovsky escreveu em seu artigo para a Sputnik que o preço do bitcoin tem sido superestimado nos últimos anos.
Para argumentar seu raciocínio, o autor cita a publicação da Forbes sobre as nove razões que levariam o bitcoin a atingir US$ 100.000 por moeda o até mesmo ultrapassar este valor em 2018.

"É dizer que no fim deste ano a famosa criptomoeda teria que custar aproximadamente 22 vezes mais do que custa atualmente [uns US$ 4.563]", afirma Marakhovsky, que descreve moedas digitais como parte de um fenômeno maior conhecido como "salto tecnológico para os pobres".


Este "salto" sempre foi promovido como o método mais inovador para os "pobres", que, contando com poucos recursos e gastando pouco, tentam conseguir o que somente ricos alcançam.

No entanto, o autor admite que a desvalorização atual das criptomoedas pode trazer uma valorização e esquentamento do mercado digital, fazendo com que os responsáveis pela recuperação se aproveitem e recebam dinheiro dos investidores em massa.

"Como consequência, haverá um desperdício colossal de eletricidade para mineração de criptomoedas, que poderia ser usada na Síria. Teremos um grupo limitado de pessoas anônimas que amassarão grandes fortunas seguindo a histeria da moda e milhões de perdedores que perderão seu dinheiro ou de seus pais. Ou seja, vai ficar como geralmente fica depois de uma pirâmide financeira."


Para o jornalista, "cedo ou tarde, os pobres pagarão direta ou indiretamente por esta baratice vertiginosa. […] Os pobres com seus recursos e com fé em milagres são a fonte de aproveitamento mais limitada", adiciona.

Os ricos, ao contrário, são pessoas menos crédulas: eles sempre analisam quanto podem perder e como podem recuperar seu dinheiro. Por isso, preferem investir em esferas menos místicas, como a indústria do petróleo, diamantes, transporte de cargas e gasodutos.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/opiniao/2018112212734818-bitcoin-esquema-de-piramide-financeira-milagre-pobres/

NÓS, OS PEQUENOS DEUSES

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Chegámos ao cúmulo da contradição capitalista. A contradição não significa que ele esteja em vésperas de se desmoronar. Com efeito, não é um regime ou um edifício que se poderia simplesmente derrubar ou desmontar, mas antes um modo de produção, algo que penetra em todos os «poros» da sociedade. 

Seria um trabalho gigantesco e completamente fora das minhas forças retraçar a história da humanidade desde os seus primórdios, até aos nossos dias. Outros o fizeram e seus grandes frescos tornaram-se obsoletos, em pouco tempo. Aliás, assiste-se hoje à constante renovação de conceitos e noções na História, em particular da História dos povos sem escrita, mas igualmente em novas abordagens do passado mais recente. 

Porém, tento através de um olhar de biólogo, esclarecer alguns aspectos da questão. 

O fenómeno antropológico mais notório, na minha perspectiva, é a sobre-dimensão da intervenção humana nos ecossistemas. 

Ela teve efeitos catastróficos já desde muito cedo, nos tempos do Neolítico, em que imensas florestas foram simplesmente queimadas para dar lugar a solos agrícolas. No entanto, a tendência depredadora acentuou-se nos últimos cem ou duzentos anos, por comparação com os dez ou doze mil anos desde o neolítico. Houve uma real transformação em todos os ecossistemas e no ecossistema planetário. O fenómeno atingiu um novo patamar, em que os mecanismos essenciais para a renovação e equilíbrios naturais deixam de funcionar. 

Por outras palavras, assiste-se a uma catástrofe de grandes dimensões e gravidade para a própria existência da humanidade enquanto tal, para a existência de civilização. 

Mas isso deixa indiferentes grandes e pequenos, poderosos e humildes, mesmo que - no fundo - saibam isso. 

Escudam-se numa atitude fatalista - «é assim, é verdade, mas nada de significativo podemos fazer para inverter a marcha» - ou numa denegação - «haverá sempre saída, uma transformação pela tecnologia, que resolverá esses problemas». Ambas as atitudes mentais fornecem um alibi para as pessoas continuarem a consumir e a sacrificar ao deus do dinheiro a melhor parte das suas vidas.  

A existência de uma enorme força entrópica, destruidora, devido à actividade humana, tem sido expulsada para as margens do sistema. O sistema não nos parece entrópico, pois nele estamos banhados e visto que a entropia aumenta, não no nosso entorno imediato, mas nas margens. Por margens, aqui, entenda-se os ecossistemas naturais e o seu funcionamento cada vez mais defeituoso, ao ponto de que certas partes experimentam degradações irreversíveis; extinção de espécies  em escala semelhante à de outras grandes extinções geológicas, a contaminação dos oceanos e dos solos com todo o tipo de poluentes, pondo em risco a manutenção da própria vida em geral... 

Mas também, o caos/entropia tem sido relegado para uma marginalização dos humanos nas sociedades; a indiferença do chamado «Primeiro Mundo» à crescente pauperização nos «Terceiro e Quarto Mundos». Na própria periferia das sociedades ditas afluentes, reproduz-me esse fenómeno, um número crescente de pessoas que não têm o suficiente para sustentar uma vida digna, cujas vidas foram destroçadas pelo desemprego, violência social e moral, com seu cortejo de sequelas, alcoolismo, drogas, etc... Estas pessoas são simplesmente «ignoradas», enquanto as restantes continuam nas suas actividades, no seu quotidiano. 

No próprio interior dos indivíduos esconde-se o medo, o medo de ser excluído, de não corresponder ao padrão de exigência que se impõe a todos, através da norma social não escrita. Observa-se, além do crescimento das neuroses e psicoses, o que não pode deixar de ser visto como novas patologias sociais, com a criação e reforço de todo um conjunto de reflexos ou padrões comportamentais: 

- A excessiva preocupação com a estética pessoal, a formatação mental completa por imersão em «lixo informativo», em videojogos que mergulham as pessoas em universos ficcionais, uso aditivo e compulsivo de telemóveis, etc. Estas novas patologias, somam-se às «tradicionais», frequentemente, num mesmo indivíduo.

Em tal sociedade, o «ecossistema interno» dos indivíduos, à imagem do ecossistema exterior em que estão inseridos, acaba por se tornar disfuncional, em todos os planos: na psique, nos afectos, na mente, na razão, no senso moral, na ética..

A mais vulgar reacção, quando as pessoas se apercebem de que «qualquer coisa vai mal» é apelarem para um sistema de explicação mítica global, seja ele duma religião organizada no sentido tradicional ou outro sistema de crenças sem explícita referência ao divino, como sejam as ideologias. Assim, libertam-se de uma parte das suas angústias, mas à custa da sua auto-determinação, da sua capacidade de examinar livre e maduramente as causas dos males que as afligem.

As pessoas, cujas vidas se tornaram horrivelmente solitárias e depressivas, vão procurar satisfação e protecção em grupos «tribais»: por exemplo, os grupos de adeptos dos clubes de futebol (as claques), onde partilham símbolos, mitos, cerimónias religiosas, comportamentos ritualizados, etc.  
Mas também se pode verificar noutras tribos urbanas, desde os grupos de afinidade partilhando espaços e um modo de vida alternativo, até aos gangs de delinquentes, ou grupos de treino para-militar neo-nazis...

Todas estas pseudo-respostas, evidentemente, são afinal uma tentativa das pessoas, não completamente consciente, de superar  simbolicamente o que há de disfuncional em suas vidas, no seu sentir e pensar.

Há uma evidência que todos os poderes se esforçam por ocultar: é que são justamente  as condições dessa violência na sociedade, que permitem a continuidade e o reforço da exploração. 

Os fenómenos, individuais ou sociais, acima mencionados, são consequência dessa tal violência social surda, dessa exclusão dum estatuto de cidadania real e da dignidade humana na sua plenitude, para milhões de indivíduos. 

O medo é o principal factor «organizador» desta sociedade. 

As pessoas encontram-se - sem perceberem porquê, nem como - isoladas, sem vínculos, sem trabalho regular, sem reais hipóteses de melhorar.  

A escola tem como função fazer com que a maioria se resigne a essa marginalização, tem como função criar o fracasso, o insucesso. A interiorização do fracasso é condição para a manutenção das desigualdades sociais, para a imposição da exploração.

Leia original aqui

ASSASSINATO PREMEDITADO DE ASSANGE?

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Que esta época seja das mais contrárias à liberdade de informar e ser informado tem realmente uma forte confirmação em todo o percurso da perseguição contra Julian Assange, «culpado» afinal de revelar os podres, os segredos, que os poderosos pretendiam esconder das massas, de fazer afinal o que os jornalistas profissionais fizeram em tempos idos e deixaram de fazer, após serem (quase todos) incorporados na máquina de triturar cérebros e vontades chamada «mainstream media».

Uma imprudência acidental da máquina judiciária dos EUA permitiu desvendar a acusação secreta contra Assange e Wikileaks, que «justificaria» a sua extradição, entrega e condenação a um pseudo-aparelho de justiça tão enviesado como a Inquisição da Igreja Católica, em tempos de cruzadas contra os heréticos e os «marranos»...

 Leia-se « U.S. Optimistic It Will Soon Prosecute WikiLeaks Founder Julian Assange»:

http://www.informationclearinghouse.info/50615.htm[1] e também, «Trump Quietly Orders Elimination of Assange» :
http://www.informationclearinghouse.info/50620.htm[2]

A tentativa de calar - por todos os meios possíveis - Wikileaks e Julian Assange, não esmoreceu nem um pouco. Esperam simplesmente que o crime seja feito sem que levante a suspeita na opinião pública de que se tratou de um deliberado e continuado atentado à sua vida, à sua integridade física e mental. 

Por isso, é muito importante divulgar, por todos os meios ao nosso alcance, estes factos. Não é apenas a vida e liberdade de Assange que estão em jogo, mas sim a de toda a liberdade de informar e ser informado. 

Se eles conseguirem os seus intentos terão ganho, pelo menos provisoriamente, e nós, os cidadãos em geral, no mundo inteiro, teremos perdido, mais uma vez. Por isso quero ter esperança de que as pessoas serão suficientemente lúcidas para desmascarar, denunciar, esta profunda injustiça, esta perseguição cruel contra um homem que não cometeu nada mais, afinal, senão o «crime» de informar sobre os crimes e desvarios dos poderosos.

References

  1. ^ http://www.informationclearinghouse.info/50615.htm (www.informationclearinghouse.info)
  2. ^ http://www.informationclearinghouse.info/50620.htm (www.informationclearinghouse.info)

Leia original aqui

Alertas pertinentes

A leitura marxista da evolução da História ensina-nos que os sistemas políticos acompanham os desenvolvimentos das tecnologias. O capitalismo nunca teria tomado a sua forma conhecida sem os meios de transporte, que facilitaram a transação de mercadorias, permitindo a ascensão da burguesia enquanto classe social, e o comunismo não seria exequível sem a Revolução Industrial, geradora do proletariado.
Agora que as vertentes possíveis do primeiro daqueles sistemas - ora na de índole fascista, ora nas suas expressões liberais - dão mostras de não terem soluções para o futuro, e que um modelo falhado de comunismo desapareceu com a queda do muro de Berlim, olhamos para o futuro e vemos uma nova revolução tecnológica a avançar descontroladamente a um ritmo diário, sem que se lhe crie regulação nem estabelecimento de limites.
Será certa a alteração substancial da forma de entender política nas décadas vindouras, mas, como hoje defende Manuel Carvalho da Silva na coluna de opinião no «Jornal de Notícias», “as pessoas não podem ser peças de mecanismos que não controlam”. Sobretudo, quando a recente Web Summit foi palco de alertas por alguns dos oradores—mormente Antonio Guterres - quanto aos riscos decorrentes da implementação acrítica de tais inovações, mormente nas de utilização militar.
Se as novas tecnologias devem melhorar-nos a qualidade de vida, não nos deve condenar a uma ditadura de algoritmos traduzida em desemprego para quase todos e no despoletar de guerras sem sequer obrigar à ponderação de quem carrega no botão detonador.

 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2018/11/a-leitura-marxista-da-evolucao-da.html

A tinderização do espírito crítico

A minha mais recente crónica publicada ontem no Repórter Sombra.

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Estamos na era da informação rápida, da Internet, da acessibilidade quase imediata a todos os conteúdos possíveis e imaginários com a facilidade de sacar de umsmartphone do bolso e fazer uma pesquisa ou aceder a uma aplicação. A tecnologia permite facilidades e pequenos luxos como ir ao banco às duas da manhã, falar com a família do outro lado do mundo a custo quase zero, encomendar livros, queijo e detergentes enquanto estamos numa viagem de comboio entre casa e o trabalho ou criar afinidades e amizades com pessoas do outro lado do monitor, na rua abaixo ou do outro lado do mundo. Contudo, com o poder de alcance quase ilimitado da Internet e o imediatismo e potencial de dispersão das tecnologias, chegou também uma vasta panóplia de fenómenos perturbadores, para usar um eufemismo.

 

O potencial de dispersão de conteúdos digitais passíveis de ganhar destaque de forma exponencial (ou “viralizar”) é notável, nomeadamente através das redes sociais. A facilidade de expressão e de acesso veio democratizar o espaço anteriormente reservado apenas para uma elite privilegiada e poderosa e isso é extraordinário e uma das maiores virtudes destas novas formas de comunicação. A visibilidade possibilitada a todas as opiniões, teorias, correntes e contra-culturas marginais pode ser bastante positiva, uma vez que a verdade é que escasseiam os meios de comunicação idóneos, fiáveis, sérios, abrangentes e, convenhamos, que não estejam a soldo de uma agenda política neoliberal, centralista e que serve os propósitos dos poderes instaurados. É preciso procurar, muitas vezes em nichos específicos, sem expressão popular ou comercial de monta, mas as alternativas existem. Isto é válido tanto para informação noticiosa quanto para grupos de interesses específicos que jamais chegariam aomainstream (do ambientalismo anticapitalista a talentos literários sem meios de autopromoção).

 

Contudo, com este recém-descoberto poder de influência ao alcance do comum mortal e, sobretudo, a que o comum mortal se torna susceptível, surge também a possibilidade de disseminação de conteúdos que representam perigos sérios, por propagarem falsidades com impacto social e político, teorias sem credibilidade científica ou apenas enormes embustes, alimentados pela ignorância e pelo ódio. Sem o efeito de megafone universal da Internet, teriam osanti-vaxxers ganho expressão suficiente para colocarem riscos sérios à saúde pública, com o despertar epidémico de doenças que estavam quase totalmente erradicadas há umas décadas? E os crentes na “terra plana” e as pseudociências (homeopatias, medicinas quânticas e afins) e os negacionistas das alterações climáticas e os criacionistas que querem a religião equiparada à ciência nas salas de aulas? O crescimento de movimentos de extrema-direita, um pouco por todo o mundo, teria dimensão suficiente para eleger democraticamente quem quer acabar com a democracia?

 

Desde os inócuos apócrifos de autores sobejamente conhecidos, às abjectas "fake news" criadas intencionalmente para deturpar a opinião pública num sentido que está longe da inocência, ou desde a idolatria de famosos que tantas vezes o são sem talento outro do que o de angariar seguidores, visualizações,likes e afins à elevação de analfabetos funcionais aos cargos mais poderosos do mundo, o fenómeno está disseminado. E o perigo, esse é assustadoramente real, actual e alastra como fogo, enquanto os mais informados e razoáveis se mantêm a observar passivamente, boquiabertos de incredulidade de como podemos ter chegado ao expoente máximo da acrisia generalizada. Encolhendo os ombros porque não há argumentos para contrapôr pensamentos sem qualquer substrato, alucinações baseadas em coisa nenhuma. Virando costas porque a discussão se torna tão imbecil que “não vale a pena” perder tempo.


A popularidade exponenciada pela tecnologia dos
social media cria heróis e vilões, constrói presidentes e culpados universais, uns na antítese dos outros, em extremos opostos, e na ânsia da simplificação, da análise imediata para consumo rápido, reduz os factos (reais ou “alternativos”) a memes, ahashtags e chavões. Como se só existissem duas opções, como se só as oposições absolutas tivessem lugar neste modo de raciocínio simplório, como se tudo fosse redutível ao preto e ao branco, sem matizes de complexidade ou profundidade. A esta bipolarização simplista e inconsequente só me ocorre comparar o Tinder: análise à queima-roupa, às aparências, ao que é visível à superfície, ou melhor, ao que nos querem mostrar, e daí segue o veredicto: sim ou não,swipe à esquerda ou à direita, serve ou não serve. Olhemos em redor e vejamos se não é estatinderização de tudo que alimenta celeumas, escândalos, polémicas, opiniões populares e ódios. Em toda e qualquer clivagem ou onda de indignação da opinião pública a regra parece ser a escolha binária, contra ou a favor, embate de opostos. Noite ou dia, vai ou racha, ganhar ou ficar em último, santo ou criminoso, republicanos ou democratas, Brexit sim ou não, Haddad e PT ou qualquer coisa que seja anti-PT, ainda que seja o fascismo. Vale tudo até e além da mentira descabida para criar um falso sentido de escolha única e o caminho mais fácil e eficaz é a diabolização dos opositores, é a força do medo e do ódio, é o incitamento à eliminação dos que não são semelhantes ou ameaçam os privilégios próprios. Não falo contra a radicalização de posições, que a aversão aos extremos, tão válidos como qualquer posição intermédia, é frequentemente ignorância ou medo. Falo de assumir a complexidade dos temas, de debater com sensatez e sem negar e respeitar a existência de todos os naipes de opções, matizes e posições ambíguas, de conhecer a verdade, que é material e objectiva, e pensar sobre ela antes de tomar posição.

 

A validação da idoneidade dos veículos de informação tornou-se acessória. Se há umas décadas a falácia consistia em alguma coisa aparecer escrita num jornal ou divulgada na rádio para se tornar verdade perante o escrutínio do grande público, hoje em dia esse lugar parece ter sido substituído pela internet. É imperativo aguçar o espírito crítico para a validação de tudo o que se vê publicado e é necessário educar para a verdade, para questionar as fontes, para unir os pontos, para apurar os factos antes de cuspir veredictos inflamados pela indignação. É preciso aprender a ver, mais do que a olhar; a não julgar os livros pelas capas; a não aceitar ou rejeitar tacitamente pelo que é aparente e superficial. É preciso conhecer por dentro as coisas e pessoas antes do fanatismo e da rejeição, é preciso explicar, debater, argumentar, interrogar. É preciso ousar sair da caverna de onde só se conhecem sombras e enfrentar a luz, perder o medo que nos empurra e se nenhum dos caminhos que vemos nos servir, encher o peito de fôlego fresco e trilhar um caminho novo.

 

Ver original em 'Ventania' na seguinte ligação:

https://ventania.blogs.sapo.pt/a-tinderizacao-do-espirito-critico-1287525

"Cansei-me... rendo-me..."

Leonardo Haberkorn, jornalista e escritor, era professor numa universidade de Montevideo. Corre na internet um artigo seu publicado em papel com o título "Me cansé... me rindo...", onde declara ter deixado o ensino, que antes o apaixonava, e explica porquê.
Tomámos a liberdade de o traduzir, pois, por certo, ele tocará muitos professores e directores de escolas portuguesas. Desejável é que tocasse instâncias superiores e a sociedade.
"Depois de muitos e muitos anos, hoje dei a última aula na Universidade. 
Cansei-me de lutar contra os telemóveis, contra o whatsapp e contra o facebook. Ganharam-me. Rendo-me. Atiro a toalha ao chão. 
Cansei-me de falar de assuntos que me apaixonam perante jovens que não conseguem desviar a vista do telemóvel que não pára de receber selfies.
Claro que nem todos são assim. Mas cada vez são mais. 
Até há três ou quatro anos a advertência para deixar o telemóvel de lado durante 90 minutos, ainda que fosse só para não serem mal-educados, ainda tinha algum efeito.
Agora não. Pode ser que seja eu, que me desgastei demasiado no combate. Ou que esteja a fazer algo mal.
Mas há algo certo: muitos desses jovens não têm consciência do efeito ofensivo e doloroso do que fazem. Além disso, cada vez é mais difícil explicar como funciona o jornalismo a pessoas que o não consomem nem vêem sentido em estar informadas. 
Esta semana foi tratado o tema Venezuela. Só uma estudante entre 20 conseguiu explicar o básico do conflito. O muito básico. O resto não fazia a mais pequena ideia. Perguntei-lhes (...) o que se passa na Síria? Silêncio. Que partido é mais liberal ou que está mais à 'esquerda' nos Estados Unidos, os democratas ou os republicanos? Silêncio. Sabem quem é Vargas Llosa? Sim! 
Alguém leu algum dos seus livros? Não, ninguém! Lamento que os jovens não possam deixar o telemóvel, nem na aula. Levar pessoas tão desinformadas para o jornalismo é complicado. 
É como ensinar botânica a alguém que vem de um planeta onde não existem vegetais. Num exercício em que deviam sair para procurar uma notícia na rua, uma estudante regressou com a notícia de que se vendiam, ainda, jornais e revista na rua.
Chega um momento em que ser jornalista é colocar-se na posição do contra. Porque está treinado a pôr-se no lugar do outro, cultiva a empatia como ferramenta básica de trabalho. 
E então vê que estes jovens, que continuam a ter inteligência, simpatia e afabilidade, foram enganados, a culpa não é só deles. Que a incultura, o desinteresse e a alienação não nasceram com eles.
Que lhes foram matando a curiosidade e que, com cada professor que deixou de lhes corrigir as faltas de ortografia, os ensinaram que tudo é mais ou menos o mesmo. Então, quando compreendemos que eles também são vítimas, quase sem darmos conta vamos baixando a guarda. 
E o mau é aprovado como medíocre e o medíocre passa por bom, e o bom, as poucas vezes que acontece, celebra-se como se fosse brilhante. Não quero fazer parte deste círculo perverso. Nunca fui assim e não serei assim. 
O que faço sempre fiz questão de o fazer bem. O melhor possível. E não suporto o desinteresse face a cada pergunta que faço e para a qual a resposta é o silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. 
Eles queriam que a aula terminasse. 
Eu também."
M. Helena Damião e Isaltina Martins

Ver original em 'De Rerum Natura' na seguinte ligação::

http://dererummundi.blogspot.com/2018/11/cansei-me-rendo-me.html

A Web Summit, o poder do algoritmo e o fascismo

 
O martelo é, como sabido, uma ferramenta. E é de multiusos. Poucos o usam para aquilo que não está talhado (salvo uma martelada num dedo, por qualquer menos dextra habilidade ao pregar um prego).
A web é, como sabido, também, uma ferramenta. E é, também, de multiusos. Muitos a usam para aquilo que não está talhada.  Um bom algoritmo dá para tudo, até para condicionar mercados, alterar comportamentos de consumo, condicionar a cultura, promover uma marca ou um produto. Se o produto a vender for um presidente, a web terá o poder de o fazer eleger.
Nesta web summit não se falará disso, apenas se falará do algoritmo. 

Ver original em 'Conversa Avinagrada' (aqui)

Uma escola portuguesa sem telemóveis

Os directores escolares e os professores, no quadro da sua autonomia profissional, não podendo, em princípio, deixar de seguir as directrizes da tutela, têm o dever de tomar as decisões que beneficiam os alunos. A sua responsabilidade primeira é para com eles, pugnando pela sua instrução e também pela sua formação, isto no que é específico da educação formal.

Essa autonomia não é de agora, ou de finais do século passado, quando se viu amplamente afirmada. De facto, mesmo em tempos mais sombrios, ela não abandonou o espírito de muitos.

Os sistemas de ensino funcionam porque há directores e professores que, não obstante as políticas educativas (que, em geral, estão longe de o ser; em vez delas e fazendo-se passar por elas, encontramos interesses vários), insistem no seu dever.

Digo isto a propósito de uma decisão que a Escola EB23 de Lourosa, Santa Maria da Feira, tomou recentemente: à semelhança do que se passa em França neste ano lectivo, por determinação do Ministro da Educação, proibiu o uso de telemóveis em todo o recinto escolar, não só nas salas de aulas mas também nos recreios.

Deixo os leitores com parte do texto que António Duarte escreveu sobre o assunto no seu blogue Escola Portuguesa:
"Quem leva o aparelho para a escola tem de o entregar ao professor no início da primeira aula, só o recebendo de volta ao final do dia de escola.O que motivou a aplicação desta medida foi uma constatação que já todos os professores fizeram: as crianças e jovens interagem muito pouco nos recreios escolares, passando a maior parte do tempo entretidos com os telemóveis. E perante isto surgiu a ideia radical: recuperar, banindo o uso dos aparelhos electrónicos, o convívio, as brincadeiras e os jogos típicos dos intervalos escolares.No início, houve algumas resistências. Foi preciso firmeza – e aplicar alguns castigos – para que todos percebessem que a tolerância zero aos telemóveis era mesmo para cumprir. Mas agora, lendo a reportagem do JN, fica a ideia de que todos – alunos, pais, professores – parecem sentir-se agradados com a nova situação."
Continuar a ler aqui.

Ver original em 'De Rerum Natura' na seguinte ligação::

http://dererummundi.blogspot.com/2018/11/um-escola-portuguesa-sem-telemoveis.html

Um manual de segurança digital para tempos sombrios

(Anarco Esporte Fino, in Resistir, 23/10/2018)

seguranca_digital

Nas últimas semanas, desde que a catástrofe Bolsonaro se consolidou no horizonte, diversas pessoas me procuraram para pedir dicas de segurança — e como tenho um longo histórico de ameaças recebidas por conta do meu trabalho tive que aprender uma coisa ou outra sobre como me proteger ao longo dos anos. Ainda, a invasão do grupo “Mulheres contra Bolsonaro” no Facebook me parece uma prova clara de que esse medo não é infundado.

Bem, para aqueles que estão engajados no ativismo digital a recomendação mais óbvia é a de que nunca utilizem seus nomes pessoais nas redes sociais, evitem ao máximo divulgar informações que possam lhes identificar, fotos, descrições da sua rotina pessoal, endereços que frequenta, etc… — “lives” que informem aos usuários a sua localização nem pensar.

Outro ponto fundamental, utilizem sistemas seguros para navegar na internet. Eu não diria nem para migrarem para o Linux (apesar de recomendar MUITO que o façam — voltaremos ao ponto), mas só de trocar do IE (Internet Explorer) pelo Firefox ou Waterfox já ajuda um pouco. Diria para evitar o Chrome, sobretudo após a notícia de que 17 extensões de VPN (Virtual Private Network) permitem o vazamento de dados DNS de usuários .

Fundamental: no Firefox (ou Chrome e Opera), utilizem as seguintes extensões

HTTPS Everywhere : ativa automaticamente o Hyper Text Transfer Protocol Secure —protocolo de transferência de hipertexto seguro.

Privacy Badger : Bloqueia anúncios e impede que sites rastreiem onde você está e o tipo de conteúdo que você visualiza na web.

uBlock Origin : Bloqueia anúncios de maneira eficaz e sem consumo excessivo de memória

Cookie AutoDelete : deleta automaticamente os cookies dos sites. Cookies são arquivos de textos utilizados pelos servidores para armazenar suas preferências como usuário.

Decentraleyes : Protege o usuário de rastreamento feito através de conteúdo acessado em sites.
Aqui vocês podem encontrar algumas dicas adicionais: https://www.privacytools.io/

E aqui vocês podem testar a segurança do seu browser: https://panopticlick.eff.org/

Por fim, recomendo MUITO que troquem o Windows por um sistema operacional mais seguro (Linux ou MacOs, com a diferença fundamental de que o primeiro é totalmente de graça, assim como seus programas). Sobre o Linux especificamente, estamos falando de um sistema operacional virtualmente imune a vírus e trojans (formas amplamente utilizadas para hackear um computador). Distribuições (“versões” do Linux) como Ubuntu , Mint ouManjaro são extremamente simples de se usar (mais até do que o Windows em vários contextos), completas e muito mais seguras. Aqui há um bom tutorial sobre como instalar o Ubuntu (mas que serve para a maioria das distribuições Linux).

No celular é importante que desabilitem as funções de instalar apps de “fontes desconhecidas” e “localização”. A exemplo dos computadores, recomendo que mudem o browser de navegação, utilizem o Brave ou Firefox Focus. Da mesma maneira que recomendei a substituição do Windows (e do MacOs) pelo Linux nos desktops, aqui recomendo que substituam o Android por outros sistemas, como o CopperheadOs (mais recomendável), LineageOS ou o Eelo (essa ainda em fase de testes). A instalação é um pouco mais complexa do que o Linux, mas nada de outro mundo.Aqui há um bom tutorial de como instalar o LineageOS .

Finalizando: recomendo que utilizem o Signal para enviar e receber mensagens (ele, inclusive, substitui o SMS); migrem do GMAIL para alguma plataforma criptografada, como o Protonmail ou — meu preferido — Tutanota . De fato, evitem ao máximo usar qualquer serviço da Google, inclusive seu mecanismo de busca.

É isso e que Oxalá nos proteja.

 

 

Fonte aqui

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Cuidado: revelada nova vulnerabilidade perigosa nos documentos de Word

Microsoft Windows 10
© REUTERS / Mike Segar

Uma equipe de pesquisadores em segurança cibernética da organização Cymulate detectou novo modo de contaminar computadores dos usuários através de vídeos, incorporados em arquivos do Microsoft Word, segundo site da organização.

O ataque é realizado nos seguintes passos: incorporação de um vídeo a um documento do Word, edição do arquivo XML — document.xml e substituição do link do vídeo por outro que dá oportunidade do hacker invadir a máquina pelo gerenciador de downloads do Internet Explorer.


Especialistas da Cymulate conseguiram criar arquivo perigoso para mostrar vulnerabilidade. Segundo eles, não foi difícil mudar parâmetro embeddedHtml dentro do arquivo XML, onde é possível trocar o código inicial por qualquer outro.

Ao abrir documentos do Microsoft Word infectados, os sistemas de segurança não avisam sobre perigo possível.

A equipe de pesquisadores ressaltou ser ainda impossível liquidar completamente o problema, sugerindo que usuários bloqueiem documentos de texto que contêm vídeos.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/ciencia_tecnologia/2018102912546021-cuidado-documentos-vulnerabilidadre-word-videos-hackers/

Bolsonaro/Fake News | Brasil: o maior crime eleitoral de sempre

Nas redes sociais as chamadas “fake news” vão desde a montagem de fotografias, à publicação de pseudo-estatíticas, passando por truncagem de vídeos ou criação de sites aparentemente noticiosos

Brasil está a viver o maior crimee´leitoral de sempre via redes sociais. Só agora é que se começa a perceber a verdeira dimensão da “bolha” criada nos últimos três anos pela militância pró-Bolsonaro”, afirma João Nuno Martins, coordenador de uma equipa que monitoriza os grupos pró-bolsonaro no WhatsApp com o objetivo de os denunciar à justiça.

“É uma forma de ativismo e de acção política, no fundo é exercer cidadania”, explica o produtor artístico que divide o seu tempo entre Lisboa e o Rio de Janeiro. Salienta que o grupo que coordena “não tem qualquer ligação a partidos políticos”. Depois da produção musical em Portugal, João Nuno Martins alargou o seu campo de acção na área de produção artística e capitalizou a experiência com colaborações com o colectivo brasileiro MidiaNinja, entre outros. Um “abrir de horizontes” que o levou a criar o FrontFiles.com, um plataforma global de apoio ao jornalismo independente, com material editorial de imagens, vídeo e ilustração.

“É apenas a ponta do icebergue o caso de empresários a financiarem ilegalmente campanhas no WhatsApp pró-Bolsonaro revelado pelo Folha de São Paulo na semana passada" acrescenta. O ativista lembra os contactos entre Flávio Bolsonaro – filho do candidato - e Steve Bannon, o estratega da campanha ou a entrada da Cambridge Analytica no Brasil, com um dos diretores a dizer que era possível eleger deputados quase a 100% com recurso às redes sociais.

Nas redes sociais as chamadas “fake news” vão desde a montagem de fotografias, à publicação de pseudo-estatíticas, passando por truncagem de vídeos ou criação de sites aparentemente noticiosos, por exemplo. (ver exemplos aqui) 
Para João Nuno Martins, dentro das redes sociais, o WhatsApp é a ferramenta mais poderosa. “Criam-se grupos privados onde só se entra por convite, com o que se geram bolhas pró-Bolsonaro que se mantiveram desconhecidas até agora. Uma espécie de realidade alternativa”, explica. As redes sociais são alimentadas por máquinas e por um “exército de voluntários” que revela grandes conhecimentos tecnológicos e de produção de conteúdos.

“Identicamos os 'bot' (robots que difundem informações falsas sem intervenção humana) e os números associados a contas reais com 'fake news. Arquivamos o histórico de chat, imprimimos as conversas, e compilamos as notícias falsas”, afirma.

“O material recolhido é depois encaminhado por advogados para a Procuradoria Geral da República, para juízes do Tribunal Superior Eleitoral e do Supremo Tribunal Federal para os induzir a abrir investigações”, acrescenta.

A disseminação de notícias falsas e a difamação são considerados crime pela legislação brasileira. O financiamento empresarial de campanhas eleitorais nas redes sociais é igualmente crime pois está proibido desde 2015, data a partir da qual candidatos e partidos apenas podem contar com fundos públicos para as suas campanhas eleitorais.

CÉLULA E INFILTRADOS

“O nosso grupo é composto por pessoas que não se conhecem umas à outras. Somos uma espécie de “célula”. Nasceu espontaneamente através de grupos de esquerda, ganhou dimensão e começámos a planear estratégias”, afirma. A equipa cooordenada pelo produtor artístico tem atualmente 48 pessoas que monitorizam a atividade de mais de 500 grupos de apoiantes do candidato de extrema-direita.

Ao infiltrarem-se num grupo pró-Bolosnaro, os ativistas assumem várias identidades. Com base na cartilha pregada por Jair Bolsonaro, assumem a pele de militantes de ultra-direita, defendendo a esterilização dos pobres, o fim das regalias das empregadas domésticas ou apelando para a liberalização do uso de armas, por exemplo. Outros, assumem-se como eleitores indecisos que querem consolidar a sua escolha nas urnas. “O objetivo é o de estimular o debate e, se possível, tentar alterar a percepção das pessoas face ao radicalismo do candidato e virar votos. Por vezes o debate aquece de tal forma, que as pessoas assustam-se e saem do grupo”.

João Nuno Martins exemplifica com experiências pessoais como ter-se passado por empresário num grupo de camionistas e “o único patrão presente tornou-se logo sindicalista", chegando a pedir ao ativista no “chat" privado para “moderar o discurso para não afastar as pessoas”.

João Nuno Martins sabe da existência de pelo menos duas dezenas de grupos a funcionarem com objetivos iguais aos do seus. “Existem também uma multidão de “solitários” empenhado na descoberta de notícias falsas”, acrescenta.

REDES SOCIAIS FERVEM NO BRASIL

“Empresários bancam campanha contra o PT” foi o título da manchete de sexta-feira passada do Folha de São Paulo, com pacotes de mensagens a serem comprados a 12 milhões de reais (cerca de 2,8 milhões de euros). O caso revelado pelo Folha levou a Procuradora-geral da República, Raquel Dodge a pedir à Polícia Federal para investigar as empresas.

O candidato do Partido dos Trabalhadores (PT), Fernando Haddad em conjunto com os partidos que o apoiam entraram também com ações junto da justiça eleitoral e do próprio Supremo Tribunal Federal a pedir a impugnação da candidatura de Jair Bolsonaro. Pouco satisfeito com a situação, o candidato de extrema-direita ameaçou esta semana que irá cortar o financiamento federal ao jornal se for eleito e são conhecidas ameaças a vários jornalistas.

O WhatsApp anunciou entretanto que fechou centenas de milhares de contas falsas no Brasil, mas que não é exequível aplicar mais filtros tecnológicos a menos de uma semana das eleições.

Já o Facebook, proprietário do WhatsApp, anunciou a criação de uma “sala de guerra” para combater a disseminação de notícias falsas no Brasil e anunciou ter fechado mais de 500 perfis e páginas falsas. Antes da reportagem do Folha sobre o WhatsApp, a imprensa brasileira tinha revelado que o crescimento do apoio a Jair Bolsonaro na primeira volta coincidiu com o roubo dos dados de mais de 43 milhões de utilizadores do Facebook.
Hélder C. Martins | Expresso
 
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2018/10/bolsonarofake-news-brasil-o-maior-crime.html

LISBON VALLEY

(Dieter Dellinger, 27/10/2018)

websumit

 

Segundo o Expresso Economia:

– A GOOGLE quer criar um centro tecnológico em Lisboa, empregando cerca de 500 pessoas e vai aproveitar o Web Summit para fazer os primeiros contactos.

– CISCO e o Governo português assinaram um memorando de entendimento para transformar Portugal numa nação digital com inovação e cibersegurança.

– MERCEDES-BENZ vai abrir no verão de 2019 o seu maior centro digital na Europa, a localizar no Beato para fornecer soluções tecnológicas para clientes do Mundo inteiro. Devem empregar, pelo menos, 125 programadores no departamento de camiões que já abriu um hub tecnológico que vai empregar 30 especialistas. Saliente-se que a fábrica de camiões da Mitsubishi no Tramagal pertence à Mercedes Trucks.

– BMW juntou-se à tecnológica portuguesa “Critical Software” numa parceria entre as áreas de mobilidade e engenharia de software para desenvolver aplicações para desenvolver o carro do futuro.

– VOLKSWAGEN decidiu criar em Lisboa um novo centro de desenvolvimento de software para o departamento da MAN Trucks and Bus, contratando 300 especialistas, sendo na maioria engenheiros e programadores de design.

– ZALANDO, plataforma de moda e lifestyle, abriu um centro tecnológico internacional em Lisboa. O terceiro fora da Alemanha. Até 2020 querem empregar 150 especialistas.

– AMAZON abriu em Setembro a plataforma na nuvem (cloud) para apoiar em Portugal os clientes na transição para esta nova tecnologia.

e muitas mais pequenas e médias tecnológicas estão a instalar-se em Portugal.

Um engenheiro informático alemão disse-me que o Estado português está muito mais avançado que o alemão na informática. Curiosamente, a revista “Der Spiegel” veio esta semana criticar o governo da Merkel de ter feito muito pouco pela informatização dos serviços públicos.

O Web Summit injetou 500 milhões de euros nas duas edições realizadas em Lisboa, esperando-se muito mais na próxima, já que Portugal ficou conhecido como um centro do futuro tecnológico europeu, tendo os nomes sonantes da indústria alemã estado a contribuir muito para isso.

Só na edição de 2017, entraram nos cofres do Estado 70 milhões de euros em receitas do IVA. Nessa edição estiveram em Lisboa 1500 investidores.

LSBON VALLEY é já uma realidade.I

 

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Dentro das redes do fascismo: duas semanas entre os grupos de WhatsApp de eleitores do Bolsonaro

(Sebástian Valdomir, in Resistir, 23/10/2018)

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– Ingressar nos grupos de WhatsApp e Telegram de Bolsonaro não é difícil. Sobretudo nos que foram ativados para o segundo turno e que tiveram como eixo a agitação digital nos estados e cidades do Nordeste do país, onde o candidato perdeu contra Fernando Haddad no primeiro turno.


Faltando poucos dias para o segundo turno das eleições no Brasil, foram conhecidos alguns detalhes da estratégia e funcionamento dos grupos de mensagens digitais da campanha de Jair Bolsonaro. O tema já vinha sendo abordado por analistas políticos e comunicacionais como uma peça relevante da sua campanha, mas sem maiores repercussões. Na semana passada, o The New York Times publicou uma coluna sobre o funcionamento da divulgação massiva de conteúdos falsos por grupos de mensagens, e finalmente, na quinta-feira (18/10), o diário Folha de São Paulo deu cobertura à conexão entre as empresas e o financiamento da estratégia de divulgação de notícias falsas contra o adversário de Bolsonaro, o petista Fernando Haddad.

Chamar a atenção sobre esse tema agora não é menos importante, mas a reação da sociedade e da Justiça sobre o fato em si acontece tarde demais, sobretudo porque se trata de uma estratégia que vem sendo implementada há pelo menos três anos.

Ingressar nos grupos de WhatsApp e Telegram de Bolsonaro não é difícil. Sobretudo nos que foram ativados para o segundo turno e que tiveram como eixo a agitação digital nos estados e cidades do Nordeste do país, onde o candidato perdeu contra Fernando Haddad no primeiro turno.

Um dos grupos onde entrei no WhatsApp foi criado em janeiro de 2017, ou seja, um ano e meio antes do início da campanha. Outro grupo, desta vez no Telegram, teve uma média de 8,4 mil mensagens diárias, com 3,5 mil membros estáveis. A partir dos resultados do primeiro turno, no dia 7 de outubro, quando se confirmou que o Nordeste foi a região onde mais houve resistência a Bolsonaro, foi possível monitorar pelo menos 26 grupos de WhatsApp, atendendo diferentes estados e pontos urbanos dessa região. Como o WhatsApp tem um limite relativamente pequeno de integrantes por grupo, os ativistas os segmentaram até gerar centenas de novos grupos. Ademais, passaram a empregar o Telegram, que permite armar mega grupos com milhares de usuários.

É importante entender que a etapa de rápida massificação da estratégia de mensagens de Bolsonaro está bastante adiantada, em comparação com a implementação da estratégia. Tudo indica que o início do trabalho de geração de conteúdos deveria ser simultâneo ao das mobilizações de 2015, seguindo paralelamente o processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, as investigações da Operação Lava Jato, a greve dos caminhoneiros, entre outros acontecimentos.

Ou seja, primeiro houve um aproveitamento dos grupos de mensagens teoricamente “não políticos”, mas que estavam fortemente ativados em demandas ou campanhas de mobilização contra o governo, para transmitir um discurso de insatisfação generalizada com a política. Uma vez instalado o processo eleitoral, a “migração” desses grupos “não políticos” a grupos de apoio a Bolsonaro foi quase instantânea.

Ilustração de Ramiro Alonso.A estratégia rendeu bons resultados. Após o ataque que o candidato sofreu em Juiz de Fora, ele não participou mais em atividades urbanas. Se considera, também que ele quase não teve presença no horário eleitoral na televisão aberta. Comparando o seu rendimento no primeiro turno ao de Geraldo Alckmin, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), que tinha o maior tempo em minutos do horário eleitoral e ficou com pouco mais de 4% dos votos, o contraste não pode ser mais chocante. A decisão de não utilizar a mediação dos canais tradicionais para transmitir sua mensagem gerou inúmeros benefícios ao candidato do Partido Social Liberal (PSL). Mas para que isso fosse possível, esses dispositivos tiveram que ser desenvolvidos com muito tempo de antecedência, até o momento específico das eleições.

O pior é que seja fake? 

O noticiário do Brasil nos últimos dias conta como esses canais foram utilizados para disseminar conteúdos falsos e fake news . Entretanto, o maior problema não é esse. Em geral, a esquerda – e também os especialistas de comunicação política, os acadêmicos e os jornalistas – não têm muita certeza sobre onde radica a questão mais grave. Uma análise do funcionamento dos diferentes tipos de mensagens pode dar algumas pistas, mas é preciso ter clareza sobre o fato de que isso somente não proporciona maior informação sobre o que está por trás da estrutura de emissores, receptores e mensagens.

Os grupos vistos nas últimas semanas são sobretudo espaços de agitação e difusão de memes, vídeos variados (que vão desde os tópicos clássicos do “marxismo cultural” à Escola de Frankfurt, da psicanálise até conselhos sobre “sobrevivência urbana”) e propagação de consignas. Uma pequena parte das mensagens se referem a postagens mais “clássicas”, com comentários ou análises de uma matéria, da campanha em geral, das propostas dos candidatos, etc. Alguns grupos especializados em debates evitam os vídeos e as imagens e se centram em polir frases para os diferentes temas da campanha eleitoral, e em como rebater argumentos de outras pessoas.

Entre as centenas de mensagens diárias, podem ser identificados padrões de organização bastante simples, assim como as tarefas que cumprem alguns usuários que deixam de ser simples aderentes. Com relação ao primeiro, os grupos normalmente amplificam as mensagens do tipo “missão do dia”, que indicam alguma ação digital concreta para realizar de forma bastante simples e automática, depois que a mensagem chega. Por exemplo, uma delas consistia em entrar no site do Senado e clicar na opção de “plebiscitar a revogação do Estatuto de Desarmamento”. O resultado, poucas horas depois, foi meio milhão de votos pela opção “sim”. E dessa forma, muitas outras “missões” foram realizadas, como reenviar vídeos aos contatos particulares, intervir em discussões no Twitter ou no Facebook, hostilizar algum analista “do outro lado”.

Ilustração de Ramiro Alonso.As mensagens geralmente são muito simples, e tratam de temas simples. Entretanto, o conteúdo não é o importante, e sim a rapidez com a que geram respostas aos temas do dia, e nos momentos exatos. Outro aspecto importante é que quase nenhum caso tem a ver com construir argumentos para uma discussão racional, e sim defender a ênfase na repetição, na instantaneidade e nas respostas pré-elaboradas, o que indica uma lógica instrumental, mas não comunicativa.

O fato em si termina constituindo um fato comunicativo, mas não a lógica por trás do funcionamento destes dispositivos de resposta rápida. O mais correto não é aquilo que é mais divulgado ou aceito. Mensagens absurdas – quando não diretamente grotescas – dão lugar a múltiplas respostas e reações que preparam os usuários para eventuais interações quando são reenviadas a outros grupos que funcionam na periferia da política (grupos familiares, de amigos, no trabalho, etc).

Não existe possibilidade alguma de estabelecer um canal de diálogo por fora de toda essa racionalidade instrumental. Muitos vídeos começam falando em “reconhecer o direito de cada um eleger seu candidato”, para logo dar lugar a uma sequência de frases sobre que “optar por Haddad é dar o voto a um palhaço que defende bandidos e, por isso, quem o defende é outro bandido”, ou gay, ou puta, ou cínico, nos tons mais depreciativos e insultantes possíveis. O interesse maior não é convencer o outro, e sim derrotá-los. Tudo isso em 15 segundos de tensão e aceleração total.

A questão não é discutir o que é verdadeiro e o que é falso, e sim definir entre a aceitação e o ódio. O importante é que a máquina funcione e não tanto o que ela vai produzir se funcionar.

Embora Bolsonaro não possa se jactar de sua produtividade ao longo de sua carreira como parlamentar, em junho de 2017 ele apresentou dois projetos relacionados ao uso do WhatsApp. Um deles era uma emenda constitucional que visava incluir um inciso ao artigo 102, indicando que o uso dos serviços de mensagens só poderia ser limitado por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), e não por juízes de primeira ou segunda instância.

Frear um dispositivo tecnológico pontual não resolverá o problema, porque, como se sabe, existem vários outros para cumprir a mesma função. O estudo das mensagens analisadas pelo The New York Times estimava que 56% dos conteúdos mais compartilhados eram falsos. Colocar ênfase em um conteúdo particular, seja ele falso ou não, pouco ajudará a modificar a essência do problema.

Ilustração de Ramiro Alonso.Houve fraude, há fraude, haverá fraude 

Chama a atenção como os apoiadores e membros do “movimento” concordam com a ideia de que todo o sistema político, o conjunto dos setores políticos e diferentes instituições – incluindo o TSE – estão contra Bolsonaro. Engana-se quem pensa que há críticas somente aos chamados “esquerdopatas” – esquerdistas ligados Partido dos Trabalhadores (PT), ao Partido Comunista ou a Lula, no Uruguai, o termo que se assemelha é o de “focas”, com o qual se procura ridiculizar os militantes da Frente Ampla –, pois também se vê ataques a figuras de partidos tradicionais da centro-direita brasileira, como Fernando Henrique Cardoso e José Serra. Outros focos de crítica são a cobertura que fazem de Bolsonaro nos meios de imprensa escrita (sobretudo o diário Folha de São Paulo), a Rede Globo de televisão e a Igreja Católica.

Este leque termina impregnando tudo com um sentido épico, criando a sensação de que se trata de uma heroica rebelião contra o status quo . A interação não deixa de ser um trânsito entre a tragédia, baixarias repugnantes e caricaturas de debates extremamente sérios. Armas, aborto, anticomunismo fervente, o reconhecimento de direitos para pessoas LGBT, tudo isso passa pelo filtro de um sentido de urgência, de um “não dá mais para aguentar isso”, eloquente mas não necessariamente verossímil.

Mais fingido ainda é o faz de conta para aceitar como verdadeira a teoria de que “se Bolsonaro não ganhar será somente por fraude do PT”, e não pela unificação de todo um espectro democrático para frear o fascismo. O Brasil parece ser um país alegre demais para aceitar uma polarização desse nível, mas está expressando, desta forma, que se não acontecer uma vitória de Bolsonaro, o caos será a tônica do dia seguinte.

Nos diferentes grupos, a reação às matérias mencionadas acima foi de reforçar a antologia: o bolsonarismo inquietando os meios mais influentes do mundo. Definitivamente, terminou reforçando o mecanismo de “todos contra nós” e a ideia de que, com os celulares como única ferramenta, “o povo está bancando a campanha do capitão”.

O resultado do segundo turno não alterará o fundamental dessas vias comunicacionais de uma porção significativa da sociedade brasileira. Tampouco alterará a composição do Congresso. Depois de tudo, as corporações mais importantes da estrutura econômica e social do Brasil reforçaram sua presença no Parlamento. As bancadas religiosas, militares, de ex-policiais e do agronegócio poderão impor sua agenda ao próximo governo sem grandes dificuldades. Projetos como o regime penal para menores infratores, a liberação do porte de armas, o fim de demarcação de terras para comunidades indígenas, negras e pequenos camponeses, poderão ser impostos como moeda de troca entre o próximo Executivo e o Congresso.

Nos grupos, esses temas são abordados da forma mais superficial possível, e inclusive se nota uma marginalidade de temas econômicos e trabalhistas entre milhares de mensagens cruzadas. Ninguém fala da crise econômica ou do corte do gasto para políticas sociais, ou da reforma trabalhista implantada pelo governo de Michel Temer.

Talvez seja cedo demais para afirmar que as redes sociais mudaram a política para sempre, tal como disse recentemente José Roberto de Toledo, um jornalista da Revista Piauí, quando disse que “o WhatsApp é o cemitério da democracia”. O que parece estar claro é que tentar conter o impacto agora não tem muito sentido. Inclusive, falar deste tema neste momento da campanha pode ter um efeito casca de banana para o que resta do sistema político democrático.

Aliás, como se fosse uma macabra saudação de boas-vindas ao mundo do bolsonarismo, outros temas muito importantes que foram denunciados nesta semana ficaram em segundo plano, como o fato publicado pela revistaCarta Capital há duas semanas, sobre a espionagem realizada por um setor da inteligência do Exército contra a campanha de Fernando Haddad.

Alguns exemplos de mensagens dos grupos de Bolsonaro:

“Começou a repressão no WhatsApp! Começou a censura geral na internet, Flávio Bolsonaro está proibido de utilizar a rede! Seu número 552199548-9280 está proibido de se registrar no WhatsApp. Divulguem”.

“É assim, gente, eles estão apelando a tudo. Meu Deus, isso é alarmante. Regime totalitário é o que já vivemos!”.

“Os comunistas petistas e psolistas revelam sua vocação para a censura e o cerceamento das liberdades individuais”.

“Fascismo mata? Sim. Racismo mata? Sim. Machismo mata? Sim. Homofobia mata? Sim. Xenofobia mata? Sim. Mas a sua ignorância disfarçada de pseudo intelectualidade histórica como justificativa para votar no partido de bandidos mata muito mais”.

“Solicitar o bloqueio do WhatsApp foi a maior estupidez eleitoral da história política brasileira. #VaiSerBurroAssimNaVenezuela”.

“Amigos, precisamos de gente neste grupo para recrutar novos bolsonaristas @haddadvsbolsonaro”.

“Vídeo DENÚNCIA GRAVÍSSIMA!! PT planeja armar um atentado contra Haddad na véspera das eleições. Este é o novo golpe do PT. https://deusacimadetodos.com/”;.

“Para interagir com pessoas na busca de conhecimentos e habilidades de sobrevivência urbana e rural, com a chegada do possível CAOS se a ESQUERDA ganhar a eleição de forma fraudulenta, ingressar ao grupo”.

“Grupo de WhatsApp para denúncias: (43) 99644-9099. Envie vídeos e fotos de abusos políticos em sua paróquia! – Reenviem este vídeo para que todas as pessoas que forem à missa pelo Dia de Nossa Senhora da Aparecida denunciem os padres e bispos que fizerem campanha para o PT”.

“Atenção, católicos, denunciem padres que usem a maquinária da Igreja para falar de política. Filmar o fato é importante para realizar a denúncia”.

“Quando você pensa que o PT já não tem mais nada o que roubar, eles vão e roubam as cores da campanha do Bolsonaro”.

“Feliz Dia da Criança, especialmente àquelas que vão nascer. Aqui nós não abortamos o futuro de uma nação”.

“Será que Trump virá à posse do Bolsonaro?”.

“Hoje eu acabei (com argumentos) com um colega que disse que Bolsonaro era racista. Ele se baseou naquela entrevista no CQC, respondendo a pergunta capciosa da Preta Gil. Argumentei que Bolsonaro pediu a gravação original para provar que o programa havia manipulado a ordem das respostas. Que Deus nos abençoe nesta luta que enfrentamos”.

“Patriotas! Vamos a garantir um governo anticomunista em 2019. No dia da eleição, vote e permaneça próximo ao local de votação até a difusão dos resultados. Estejam preparados para ter que parar indefinidamente o país, todas as 5570 cidades. Bolsonaro só não será o vencedor destas eleições se houver fraude. Resistência Patriótica Brasileira. Deus, Família e Pátria com Ordem e Progresso”.

“O inferno está diante dos seus olhos: LU(la)CI(ro)FER(nando). E vai reinar sobre nós de você permitir”.

“Querem instituir o Dia da Marielle. Se Bolsonaro tivesse morrido, nós também deveríamos exigir o Dia do Bolsonaro. Ele sim merece, ela não. Só por ser negra, pobre e da favela. Pobre não, era vereadora e ganhava bem”.

“Haddad tem que entender que o Brasil quer o Bolsonaro e que nada do que ele faça vai mudar isso. Só culpa as redes sociais, sendo que por trás das redes sociais existe uma pessoa, um eleitor, um ser humano querendo mudanças. Meu sonho é encontrar o Haddad na minha frente…”.

 

 

Fonte aqui

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Aplicativo Google News está tirando dinheiro dos usuários da forma mais discreta

Um número impressionante de usuários do Google News está reclamando que o aplicativo consome gigabytes de dados quando posto em segundo plano.

As queixas são remetidas ao fórum de suporte do Google

Segundo um dos usuários, o serviço "queimou" imperceptivelmente mais de 12 gigabytes de tráfego móvel enquanto o Wi-Fi estava desligado. Por causa disso, ele teve que pagar à operadora US$ 75 (R$ 277,1) apesar de a função "baixar por Wi-Fi" estar ativada nas configurações do smartphone para não baixar arquivos pesados usando dados móveis.


Outros usuários encontraram um problema semelhante. Uma das vítimas contou que o Google News, em segundo plano, havia gastado mais de 24 gigabytes de tráfego móvel, o que causou uma dívida de US$ 385 (R$ 1,4 mil).

As primeiras revisões do problema surgiram ainda em junho deste ano. Dois meses depois, o Google prometeu resolver a situação. No entanto, os usuários ainda reclamam da atividade em segundo plano do Google News. 

O portal de notícias e mídia on-line The Verge informou que a única solução para o problema é remover completamente o aplicativo. Jornalistas recorreram ao Google para obter esclarecimentos, mas funcionários da empresa não responderam à solicitação.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na sequinte ligação::

https://br.sputniknews.com/ciencia_tecnologia/2018102412508194-aplicativo-google-news-rouba-usuarios-celular/

Bolsonaro presidente? Será, certamente!

Quando há dez dias atrás a RTP entrou na campanha a favor de Bolsonaro, o filho do candidato, ao ser entrevistado, foi claro: "meu pai será o primeiro Presidente brasileiro a ser eleito pela internet". Ele sabia o que o jornal "A Folha de São Paulo" hoje veio confirmar: a toda a hora centenas de milhões de mensagens anti-PT estão chegando, via whatsapp, ao eleitorado.
De nada adianta ter o legado de 13 anos do PT melhorado a situação do povo brasileiro e dado ao Brasil, como nação, outro crédito. Em 2016, a BBC Brasil procurou especialistas e levantou 6 indicadores internacionais para entender o legado dos governos do PT, até ao processo de impeachment, que afastou Dilma. No que foi apurado, o Brasil melhorou em 4 e não regrediu em 2... mas que adianta?
Diz-se que a mentira tem a perna curta, mas com Bolsonaro ela usa andarilho, a passada é larga e ninguém a agarra.

Ver original em 'Conversa Avinagrada' (aqui)

Flávio Bolsonaro é banido do WhatsApp por 'comportamento de spam'

Candidato à presidência do Brasil, Jair Bolsonaro (PSL), vota no Rio de Janeiro junto ao seu filho Flávio, em 7 de outubro de 2018
© AP Photo / Silvia Izquierdo

O senador eleito do Rio de Janeiro Flávio Bolsonaro (PSL) informou que foi banido do WhatsApp nesta sexta-feira (19). A informação foi publicada pelo próprio político em seu Twitter. Segundo Flávio, ele estava em "milhares de grupos".

O WhatsApp baniu Flávio por seu "comportamento de spam", segundo comunicado da empresa obtido pelo O Globo

Cerca de uma hora e meia depois de publicar sobre seu banimento, Flávio voltou ao Twitter para dizer que o episódio ocorreu "dias atrás" e que ele já havia sido desbloqueado. 

Após a Folha de S. Paulo publicar que empresários favoráveis ao presidenciável Jair Bolsonaro (PSL) pagaram até R$ 12 milhões para promover uma campanha contra o PT no WhatApp, o aplicativo tomou o centro do debate nas eleições. A prática seria um crime eleitoral porque a doação empresarial está proibida por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF).

A denúncia do jornal paulista repercutiu em veículos internacionais. Ela foi no notícia no britânico The Guardian e no The New York Times.  

Bolsonaro diz que a acusação é uma "fake news".


Ainda de acordo com a Folha, o WhatsApp enviou notificações nesta sexta para as empresas Quickmobile, Yacows, Croc services e SMS Market para que elas parem de comercializar o envio de mensagens em massa.

A companhia também baniu números associados a essas agências. 

O envio de mensagens no WhatsApp não é crime, desde que os contatos utilizados sejam do próprio partido político. Utilizar bases de dados de terceiros, com outros números, é crime.  

 

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na sequinte ligação::

https://br.sputniknews.com/brasil/2018101912479588-flavio-bolsonaro-banido-whatsapp-grupos/

Folha descobre no WhatsApp segredo ilegal da campanha Bolsonaro

O domínio dos recursos digitais nesta campanha eleitoral trouxe uma enorme vantagem a Jair Bolsonaro e ao seu partido, o PSL. A equipe de campanha centrou fogo em repassar milhões de mensagens por WhatsApp. A imensa maioria baseada em mentiras, as chamadas Fake News.

Mas essa prática ultrapassou o limite do oportunismo, avançando para uma que a legislação eleitoral classifica como criminosa. Isso foi denunciado hoje, 18, pela Folha de S. PauloO jornal descobriu um esquema de empresários bancando ilegalmente campanhas anti-PT usando o WhatsApp. A investigação do jornal aponta:

Empresas estão comprando pacotes de disparos em massa de mensagens contra o PT no WhatsApp e preparam uma grande operação na semana anterior ao segundo turno. A prática é ilegal, pois se trata de doação de campanha por empresas, vedada pela legislação eleitoral, e não declarada. A Folha apurou que cada contrato chega a R$ 12 milhões e, entre as empresas compradoras, está a Havan. Os contratos são para disparos de centenas de milhões de mensagens.”

Segundo a Folha, as empresas compram pacotes de “disparo em massa”. E “usam a base de usuários do próprio candidato ou bases vendidas por agências de estratégia digital. Isso também é ilegal, pois a legislação eleitoral proíbe compra de base de terceiros, só permitindo o uso das listas de apoiadores do próprio candidato (números cedidos de forma voluntária).”

Uma das agências envolvidas nos disparos em massa de mensagens, conforme o noticiado, dribla as proibições do WhatsApp utilizando números de celular de fora do Brasil.

A Folha apurou com ex-funcionários e clientes que o serviço da AM4 não se restringe a isso. Uma das ferramentas usadas pela campanha de Bolsonaro é a geração de números estrangeiros automaticamente por sites como o TextNow.

Funcionários e voluntários dispõem de dezenas de números assim, que usam para administrar grupos ou participar deles. Com códigos de área de outros países, esses administradores escapam dos filtros de spam e das limitações impostas pelo WhatsApp —o máximo de 256 participantes em cada grupo e o repasse automático de uma mesma mensagem para até 20 pessoas ou grupos.

Os mesmos administradores também usam algoritmos que segmentam os membros dos grupos entre apoiadores, detratores e neutros, e, desta maneira, conseguem customizar de forma mais eficiente o tipo de conteúdo que enviam.”

Texto original em português do Brasil | Traduzido por Língua Geral

Exclusivo Editorial Rádio Peão Brasil / Tornado

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Ver artigo original em "O TORNADO"

Google não! Que serviços se pode usar para proteger melhor dados pessoais?

Logo of Google on the front door of the new Google European tech center in Zurich, Switzerland
© AP Photo / Keystone, Walter Bier, file

Após vários escândalos em torno das falhas da corporação Google na área de segurança informacional, o que levou inclusive a grande vazamento de dados, o gigante de IT é frequentemente acusado em espionar internautas via seus dados pessoais.

Contudo, nem sempre é fácil se livrar dos produtos da Google que enraizaram em nosso cotidiano. Buscando alternativas, o portal russo RusBase compilou uma lista de serviços e plataformas que contam com uma melhor proteção de dados tendo, entretanto, uma interface cômoda.


O serviço se posiciona como um browser que não monitora ações dos internautas, tendo como missão "estabelecer um novo padrão de confiança on-line".

Diferentemente do Google, que utiliza os dados recolhidos sobre usuários para personalizar a busca e oferecer publicidade, este serviço não tem publicidade nenhuma e não recolhe dados, sendo que todos os resultados de busca na web são iguais para todos.

Navegador Firefox

Inicialmente, a Mozilla criou o Firefox com o lema "Internet para pessoas, não para lucro". O navegador permite acionar a proteção contra monitoramento e bloquear os trackers de publicidade. Além disso, segundo seus desenvolvedores, o Firefox consome 30% menos memória operativa que o Chrome.

O portal russo mencionou também, entre outros browsers seguros em relação a dados do usuário, o Vivaldi e o Tor Browser, completamente anônimo.

 


 

Ao contrário do Gmail, que com ajuda da Inteligência Artificial e análise de correspondência até pode adivinhar palavras seguintes e completar as frases, o FastMail encara com mais seriedade a proteção de confidencialidade, permitindo aos usuários "gerenciar sua escolha no que tem a ver com a recolha e uso das informações" sobre eles.

Entretanto, conforme sua política de privacidade, o serviço recolhe algumas informações e pode entregá-las a terceiros, enquanto explica a ausência de criptografia fim-a-fim pela "impossibilidade" de assegurá-la a 100%. Após 30 dias de uso gratuito, o serviço passa a cobrar pagamento.

A autora da matéria mencionou também uma alternativa completamente gratuita com criptografia fim-a-fim ProtonMail da empresa Proton Technologies AG, sediada na Suíça.

Messenger Telegram

Diferentemente do Hangouts, o serviço protege de melhor forma os dados pessoais, contando com bate-papos secretos com criptografia fim-a-fim, mensagens que se autodestroem, armazenamento de dados em nuvens, e assim por diante.

Contudo, como a maioria dos messengers, o Telegram requer a ligação do número de celular e autorização via código de SMS. Outra opção é o serviço Signal com código aberto e criptografia de todas as mensagens e chamadas.

Plataforma Quip

Esta plataforma paga permite trabalhar com documentos eletrônicos, tabelas, slides e discutir todos os detalhes com os participantes de sua equipe em um bate-papo incorporado em cada arquivo, algo que permite diminuir o uso do e-mail.

Em sua declaração de confidencialidade, o Quip dá a entender que "poderia" entregar algumas informações recolhidas sobre usuários a terceiros.

Outra opção, segundo a matéria, é utilizar a plataforma Notion, que além das versões pagas tem uma gratuita, limitada em tamanho de arquivos.

Aplicativo de análise Matomo

Serviço gratuito com o código inicial aberto ajuda a acompanhar o tráfego de sites, conversão, baixadas, bem como analisar os indicadores de comércio eletrônico.

Diferentemente do Google Analytics, a plataforma proporciona pleno controle sobre os dados do usuário, que estão guardados no servidor dele, sem entregar informações sobre o comportamento dos usuários no site às empresas publicitárias. Outra alternativa popular, segundo o portal, é o Yandex Metrica, que permite avaliar a frequência de usuários no site, monitorar a conversão e até obter vídeos de ações de internautas individuais, se comprometendo, contudo, a manter todas as informações confidenciais e não as entregar a terceiros, exceto a empresas do mesmo grupo do Yandex.

Dropbox

Embora o serviço proporcione menos espaço que o Google Drive, em termos de proteção de dados pessoais o Dropbox recebeu em 2017 a mais alta avaliação no ranking da Fundação Fronteira Eletrônica. Conforme sua política de confidencialidade, o Dropbox compromete-se a notificar seus clientes quando e como as autoridades públicas solicitam informações sobre eles.

Vimeo

O serviço possui uma privacidade aperfeiçoada, bem como vídeos sem publicidade. O usuário pode fazer um conteúdo exclusivo compartilhando-o somente com quem ele quiser. O serviço dispõe de uma versão paga e outra gratuita.

OpenStreetMap

Essa plataforma tem um código aberto, sendo que os desenvolvedores podem utilizar o serviço para fins lucrativos e não lucrativos completamente de graça.

Outra opção proposta pelo portal é o serviço HERE WeGo, que conta com mapas e navegador, cujo aplicativo para celulares também opera em modo off-line.

Unsplash

O Unsplash proporciona acesso gratuito a um banco de quase meio milhão de fotos de alta resolução, que podem ser usadas tanto para fins pessoais como comerciais.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na sequinte ligação::

https://br.sputniknews.com/ciencia_tecnologia/2018101812472639-google-dados-pessoais-vazamento-seguranca-cibernetica-alternativas/

Os «polícias» da net

Este artigo suscita questões seriíssimas que não podem continuar a ser ignoradas pela República.
Há um espaço de comunicação pública  (ainda que através de um programa que constitui um negócio de uma entidade privada) o qual é objeto de uma censura sistemática onde se promove a delação como comportamento 'desejável'.
Claro que tudo isto está construído em nome do "bom" objetivo de preservar os cidadãos de ofensas à sua sensibilidade e até aos eu equilíbrio psicológico (obviamente ninguém quer ser confrontado com vídeos de decapitações ou de pedófilia).
Mas trata-se objetivamente de uma política massiva de censura incontrolada que não pode continuar a ser exercida à margem dos poderes democráticos.
Há todas as razões para acreditar que, à sombra das justificações dadas pelo Facebook , há hoje censura inconstitucional que procura calar as opiniões cívicas, políticas e outras que não são do agrado dos donos do Facebook. Não faltam testemunhos e exemplos que o atestam.
Estamos iniludivelmente perante uma ofensiva contra a liberdade de expressão que não pode ser deixada ao critério dos gestores do 'mercado'.
Cada vez mais a luta pela liberdade e contra o fascismo vai passando por aqui.
Nada vai ser feito ? O poder do 'facebook' já faz calar as instituições da democracia portuguesa ? Comentário à seguinte notícia:
Há alguns dias divulguei aqui um vídeo sobre as condições em que, nas Filipinas, milhares de pessoas são contratadas para «limparem» a net e em que contextos terríveis e traumáticos trabalham. Alguém me disse então, no Facebook, que isso também existe em Portugal. Aqui fica a confirmação:

Entrevistámos um polícia do Facebook em Portugal que impediu coisas horríveis na rede social

Há 500 pessoas a trabalhar em Lisboa para controlar a plataforma. Pedofilia, suicídios, terrorismo, decapitações, elas apanham de tudo.


 

É um verdadeiro encontro às cegas aquele que temos com o ex-polícia do Facebook — o nome não é oficial, mas até agora poucas pessoas sabiam sequer que existia um escritório em Lisboa onde 500 pessoas faziam o controlo das redes, tomando decisões sobre os conteúdos que foram denunciados pelos utilizadores. Quando chegamos ao Parque das Nações, em Lisboa, não sabemos como é a pessoa que vamos entrevistar, ou sequer que idade tem. Apenas que tem uma história para nos contar.

Com cerca de 40 anos, este lisboeta prefere não se identificar porque sabe que poderá ser sujeito a um processo judicial se o fizer. O trabalho que desempenhou enquanto polícia do Facebook é altamente confidencial, tanto que a ordem era desligar os computadores sempre que entravam estranhos ao serviço.

Ignorar, eliminar ou reportar às autoridades. Foram estas as três decisões que teve de tomar sobre milhões de publicações que analisou enquanto esteve neste cargo. Primeiro começou com difamações, depois partiu para a pedofilia. Decapitações. Assassinatos. O trabalho tornou-se de tal forma duro que o ex-polícia das redes sociais acabou no hospital — tinha medo de fazer mal à família.

Como é que começou a trabalhar numa empresa que faz o controle de segurança do Facebook?
Estava desempregado na altura — dá-me jeito não dizer quando foi. Andava à procura de emprego na internet e descobri uma coisa muito engraçada (e isto é uma indicação para as pessoas perceberem como é que podem chegar ao Facebook) que foi um anúncio para gestor de conteúdos. Mandei o meu currículo e passados 15 minutos recebi uma chamada de uma empresa de trabalho temporário. Queriam muito fazer uma entrevista.

Quando é que se realizou a entrevista?
Dois dias depois. Fui à entrevista e eles perguntaram-me quem é que eu era, o que é que fazia. Comecei a fazer perguntas sobre o cargo, gestor de conteúdos, e eles vieram-me com uma conversa do “cliente”. Havia um cliente.

Foi a primeira vez que vi uma pessoa a passar da vida para a morte, mas pior do que isso foi quando chegou à medula espinhal. Como era muito rijo, não conseguia. Teve de estar ali a serrar. Para mim foi demais.”

Que tipo de perguntas é que lhe fizeram?
Perguntaram-me o que é que eu achava sobre assuntos como pedofilia, terrorismo, violação, pornografia, discurso de ódio, ameaças, tráfico de armas. Antes de me deixarem responder, disseram: “Há de concordar que são coisas que não ficam bem na internet, e há de concordar que é preciso limpar a web desse tipo de assuntos”. Eu respondi que sim, que havia assuntos que convinha limpar da internet.

Disseram-me que estavam a gostar de mim e perguntaram-me que línguas é que sabia falar. “Falo bastante bem inglês e francês, desenrasco-me no italiano”. Contei uma história em inglês de umas férias que passei em Londres, em francês falei de umas férias que passei em Paris e em italiano disse algumas coisas, uma vez que era uma coisa mais básica. Eles disseram-me que de facto tinha um leque de valências bastante interessante. “Vamos entrar em contacto consigo mais tarde”.

Nunca revelaram qual era o nome do cliente?
Não, era só “o cliente”.

Mas perguntou qual era?
Perguntei, mas eles disseram que naquela altura era apenas o “cliente”.

Com que sensação é que ficou daquela primeira entrevista?
Perguntei-me se teria de ver temas como pedofilia e terrorismo, e agir perante isso. Foi a sensação com que fiquei. Passados dois dias ligaram-me a dizer que tinham gostado muito de mim, que me encaixava no perfil e que iria a uma segunda entrevista já com o cliente.

E foi para uma segunda entrevista.
Fui a uma empresa em Lisboa, que eu não sabia mas que já era o cliente. Explico-lhe por dois motivos porque é que não posso identificar o local: por um lado porque saí a bem, e tenho uma relação de agradecimento; e por outro não quero colocar em causa as pessoas que estão lá a trabalhar. Já vai perceber porquê daqui a pouco.

Portanto, fui lá e fizeram-me uma entrevista em português, inglês, espanhol, uns toques de italiano. Perguntaram-me coisas específicas da política de cada país, percebendo que eu me safava bem. Durou 20 minutos. No final, disseram: “Vamos recomendar-te para vires para cá trabalhar. Fazes parte do perfil. Daqui a duas semanas começas, mas devo desde já dizer uma coisa importante: o emprego não está garantido.”

Como assim?
“Só ficas se passares num exame com 100 perguntas, no qual tu tens de ter 80% de respostas certas, só aí é que passarás à prática e trabalharás com ‘o cliente'”. Foi a segunda vez que ouvi a palavra “cliente”. Respondi-lhes que sim. Passado duas semanas lá estava eu na empresa e, quando me apercebi, tinha voltado à faculdade e estava numa turma de 20 pessoas.

Todos portugueses?
Eram de inúmeros países, havia poucos portugueses. Por isso mesmo — na altura não percebi, hoje faz todo o sentido —, as línguas maternas dentro da empresa para as pessoas comunicarem eram, em primeiro lugar, o inglês; o espanhol, muito também; o italiano; e o francês. Mas sobretudo o inglês, por motivos óbvios.

Aulas durante duas semanas — e um teste com 100 perguntas

Como eram as aulas?
Eu como aluno bem-comportado fui para a cadeira da frente. Deram-me um caderno e uma caneta, que mais tarde vim a saber que jamais poderia levar para casa. Porquê? Porque nessas aulas a empresa me deu uma série de informações sensíveis que ficaram naquele caderno que nunca mais vi. Tudo o que sei tenho na cabeça. Começámos a ter aulas sobre o cliente, e rapidamente chegámos à conclusão de que o cliente era o Facebook.

Mas isso não foi assumido.
Isso foi assumido passado uma semana, não foi logo. Entretanto nós cruzávamo-nos com outras pessoas nos corredores, que estavam mais à frente, portanto fomo-nos apercebendo disso. Começámos a ter aulas sobre a forma de gerir a plataforma, como eles chamam, ou a rede. Tivemos aulas de discurso de ódio, sobretudo contra negros, minorias étnicas.

Em que é que consistiam esses discursos?
Por exemplo discursos racistas, que se ouvem muitos nos Estados Unidos.

Ouviam esses discursos?
Eram citações. Por exemplo, do Ku Klux Klan — o Facebook não quer esse género de discursos, procura que haja ali uma certa paz na rede. Portanto, tivemos de apreender uma série de políticas de Facebook para que, quando estivéssemos à frente do computador, com o feed de notícias, conseguíssemos identificá-los.

Então e como era o trabalho exatamente?
Nós recebíamos três coisas no computador: texto, foto e vídeo. Para cada situação, era preciso decidir se ignorávamos; apagávamos; ou remetíamos para a polícia se fosse caso disso. Mas tinha de tomar uma decisão. Para os principiantes, o ideal era tomar 1.500 decisões por dia. De preferência certas. Obviamente que havia uma pessoa acima que depois discutia se foram certas ou não, mas o ideal era ter 100%. Podia falhar, é óbvio que podia falhar, mas o ideal era ter 100%.

Porquê 100%?
Era preciso acertar porque o Facebook não quer que aconteça uma coisa que se chama overdeleting, que é apagar aquilo tudo. As pessoas não ficam satisfeitas com isso, não ia ficar nada na rede, não havia Facebook.

Voltemos às aulas.
Tivemos aulas interessantíssimas. Sobre pornografia, discurso de ódio, terrorismo — foi a minha preferida; não pode haver incitações ao terrorismo no Facebook. Não pode haver bandeiras do estado islâmico porque é uma incitação ao terrorismo. Mas há uma coisa fantástica, que infelizmente nunca me aconteceu porque estamos num país calmo, mas o mercado do Oriente, mais chegado à Síria ou Índia, pode apanhar de facto mensagens subliminares de terrorismo e relatá-las às autoridades. Acho que é possível fazer a diferença. E uma das coisas que nós aprendemos nas aulas é que podemos fazer a diferença.

Estas aulas serviam então para vos ajudar a tomar depois as decisões certas.
Sim, exatamente. Depois fizemos vários testes, não decisivos para o trabalho, mas para eles irem percebendo a nossa sensibilidade. Aparecia um texto e foto, três ou quatro decisões e nós escolhíamos. Durante duas semanas foi assim.

Era normal ver pessoas na casa de banho a desabafarem, porque era o único sítio onde podiam.”

Qual era o horário de trabalho?
Nessas semanas entrava às 9 e saía às 18 horas. Mas algo ia mudar. Deixe-me referir também que não eram permitidos telemóveis, algo que se viria a verificar na prática. Era normal ver pessoas na casa de banho a desabafarem, porque era o único sítio onde podiam.

Deixavam os telemóveis à porta?
Não, podíamos ter na bolsa, junto à carteira. Até podia estar ao nosso lado, não podia era ser usado. Isto porque eles receiam fugas de informação, nomeadamente através de fotografias. Bastava uma foto e acontecia uma coisa que eles não gostam muito que é security break [falha na segurança]. Era um problema.

Ao fim dessas duas semanas veio o exame de 100 perguntas. Estava com algum receio, mas tive 90%, portanto passei. Deram-me as boas-vindas à plataforma e comecei a trabalhar dois dias depois, já no sistema, e a ter a possibilidade de tomar decisões e de condicionar a vida das pessoas. Porque foi isso que fiz,  fui um polícia do Facebook. É assim que me sinto.

O dia a dia de um polícia do Facebook

Como era o local de trabalho?
Era um escritório, com um computador à frente e 500 pessoas ao lado. Tínhamos todas as políticas do Facebook connosco, para tomarmos as decisões certas. Aquilo está extremamente bem feito, com todas as justificações. Por muito que diga “isto é estúpido, isto é infantil, não concordo”, numa das mil justificações do Facebook há de ter a resposta para a decisão que está a tomar.

No edifício havia várias cadeiras reclináveis para podermos relaxar e até dormitar um pouco. Fora da área de trabalho tínhamos mesas de matraquilhos, dardos e muitos livros.

500 pessoas?
Só em Portugal. Quando falei com os meus amigos, eles diziam-me: “Então mas não é a máquina que apaga aquilo?”. Nunca se lembraram que há uma pessoa por trás que tem de tomar decisões.

Voltando ao escritório. Era só o computador e as políticas do Facebook.
No computador, não podíamos ter cadernos.

E os telemóveis?
Nada, zero. Aquilo era tão secreto que se entrasse uma senhora da limpeza, tínhamos ordens para desligar o ecrã. Se entrasse um senhor para tratar da canalização, a mesma coisa. São outsiders, pessoas que não têm nada que ver com aquilo. Não podem ter acesso, não podem ver nada.

Como foram os primeiros dias de trabalho?
Quem começa tem um acompanhamento de pessoas mais experientes, que dão dicas e tentam levar-nos à resposta certa. Nas primeiras duas semanas tive esse acompanhamento, depois fiquei por minha conta. Há sempre vários superiores, que depois dizem a percentagem de resposta certas e erradas.

E se erraram?
O mal está feito, bloqueaste eventualmente a pessoa. Mas na próxima vais ter de tomar a decisão certa.

Parece ser tudo muito subjetivo, não haver situações certas ou erradas, é tudo com base em convicções.
Correto, decisão certa ou errada na opinião deles.

Vocês só agiam perante conteúdos que tinham sido denunciados?
Sim. E aí tinha de perceber se a denúncia fazia sentido ou não. Começámos por ter um feed muito simples, com injúrias, de algumas brincadeiras de ameaças, coisas softs. No início era só ignorar, ignorar, ignorar. Era importante chegar às 1.500 decisões por dia. Mas havia quem fizesse cinco mil. Eu nas 1.500 já não estava mal.

Trabalhava em que horário?
Havia três horários diferentes: das 7 às 16 horas; 16 às 22 horas; e 22 às 7 horas. São 24 horas ininterruptas. Eu fiz os três horários, eram rotativos — duas semanas num, duas semanas noutro, duas semanas noutro.

E quanto é que ganhava?
À volta de 680€.

Como era o ambiente entre as pessoas?
Era ótimo. Havia uma enorme entreajuda — às vezes tinha três ou quatro pessoas a ajudarem-me a tomar uma decisão. Eles tinham também outra norma que seguiam à risca (eu pelo menos seguia): quando saíamos do trabalho, íamos todos beber uma cerveja e falar de outras coisas. Era mesmo um ritual engraçado.

Nos momentos de convívio falavam sobre o que faziam?
Por muito que quiséssemos, era expressamente proibido. Tanto que conheço pessoas que foram repreendidas por outros administradores-executivos da empresa que os ouviram e lhes pediram para não voltarem a fazer aquilo. A mesma coisa foi pedida nos transportes públicos, que as pessoas que utilizavam os mesmos transportes públicos não falassem sobre o trabalho.

 

Continua. Integral na seguinte ligação:

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Leia original aqui

Assange revela a maior ameaça à humanidade

Último vídeo antes de lhe serem cortados os contactos com o mundo

Antes de ficar isolado de quase todos os meios de comunicação com o mundo exterior em março, Julian Assange, o fundador da WikiLeaks, que se mantém na Embaixada do Equador, em Londres, partilhou a sua opinião sobre as ameaças que a humanidade enfrenta em relação ao progresso da Inteligência Artificial e à proteção de dados. Um dos mais famosos denunciantes do mundo, Julian Assange, procurado pelos EUA por revelar documentos confidenciais no seu site WikiLeaks, sobre a guerra do Iraque durante quase dez anos, prevê um cenário sombrio que é "muito instável quanto à civilização tecnológica", afirmando que "não durará muito" por causa da rápida competição no mundo interligado. "Pode produzir inteligências artificiais muito robustas que podem estar alinhadas com estados. Já vemos isso nos Estados Unidos e na China… essas duas potências vão conquistar todo o mercado. A rápida competição entre elas, com o apoio dos estados por detrás delas e a exacerbação da competição comercial por intermédio da competição geopolítica conduzirão ao desejo incontrolável do crescimento da capacidade da inteligência artificial, que levará a um conflito muito grave ou estupidificante. É essa a maior ameaça", disse num vídeo, gravado antes de ser boicotado totalmente, e publicado pelos organizadores do World Ethical Data Forum , em Barcelona. Segundo o fundador da WikiLeaks, "essa competição geopolítica, aproveitada pelas maiores empresas de inteligência artificial" está preparada "para acelerar um processo que os seres humanos já não conseguem controlar". "As instituições [humanas] são criadas para a competição, e ao aumentarem de tamanho e de domínio do mercado, etc., agarram todas as vantagens que podem e vão continuar a acelerar a competição. Tudo o que produzem contém esse ADN. É para aí que caminhamos e é essa a grave ameaça aos seres humanos, em geral, e a todos os negócios. Talvez a resposta a essa ameaça seja as pessoas compreenderem a segurança informática, segurança informática ofensiva", disse Assange na entrevista. A capacidade emergente de grandes entidades e empresas privadas para continuar a reunir dados maciços das pessoas, juntamente com a aplicação da Inteligência Artificial (IA) também tem desempenhado um papel significativo. Com a Google, o Baidu, o Tencent, a Amazon e o Facebook "praticamente a recolher os conhecimentos da humanidade, quando comunicamos uns com os outros", este modelo clássico, chamado "capitalismo de vigilância" é agora diferente. "É uma mudança económica muito importante e muito grave. Ou seja, agarrar no modelo de capitalismo de vigilância e transformá-lo num modelo que ainda não tem nome, um "modelo IA" e usar este vasto reservatório para treinar inteligências artificiais de diversos tipos. Isto substituirá não só setores intermédios – a maior parte das coisas que fazemos na Internet, em certo sentido, é uma intermediação mais eficaz — mas controlará o setor dos transportes, ou criará setores totalmente novos", afirmou Assange. Assange também alertou para a crescente vulnerabilidade dos dados pessoais, que são cada vez mais visados e roubados por criminosos. Além disso, as pessoas têm de negociar a sua relação com todas as principais potências mundiais desde tenra idade. Só "muito poucas pessoas capazes tecnicamente conseguem viver à margem", o que "cheira um pouco a totalitarismo", é a opinião de Assange. "Esta geração está a nascer agora… é a última geração livre. Mal acabam de nascer, imediatamente, ou no prazo de um ano, ficam conhecidos a nível global. A identidade deles, de uma forma ou de outra – em consequência da idiotice dos pais, que publicam o nome e as fotos no Facebook ou em consequência das aplicações de seguros ou do passaporte – torna-se conhecida de todas as principais potências mundiais. É uma situação muito diferente da anterior", afirmou no vídeo. 
21/Setembro/2018

 
Esta notícia encontra-se em http://resistir.info/ 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2018/10/assange-revela-maior-ameaca-humanidade.html

Revelado novo modo de hackear contas do WhatsApp sem sabedoria especial

WhatsApp
© Sputnik / Natalia Seliverstova

A Agência Nacional de Segurança Cibernética de Israel precaveu usuários do WhatsApp sobre nova tecnologia que rouba contas, comunicou o portal ZDNet.

Nos últimos anos, o país vem enfrentando mais e mais casos de invasão de contas do WhatsApp pelo correio de voz, um serviço concedido pela maioria das operadoras.

Para acessar o correio de voz, é necessário saber o código PIN de quatro caracteres. Quando não se muda a senha padrão da conta, ela permanece sendo 0000 ou 1234, facilitando a invasão de hackers.


O esquema é o seguinte: o hacker instala o WhatsApp em seu smartphone e tenta entrar em uma conta já ligada a um certo número. A entrada no aplicativo é confirma por SMS com senha. Se isso não acontecer (por exemplo, o proprietário da conta não percebe a mensagem no celular e não vê notificação), outro modo de verificação é ativado.

Nesse caso, a senha é enviada para o correio de voz do número. Basta entrar no correio de voz da vítima, utilizando a senha, que muitas vezes não é trocada e permanece sendo uma das citadas acima.

A seguir, o novo usuário liga a autenticação de dois fatores, tornando impossível para a vítima conseguir sua conta de volta, comunicou o portal ZDNet.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na sequinte ligação::

https://br.sputniknews.com/sociedade/2018100512375777-whatsapp-hackear-roubar-contas-correio-voz/

Bloqueada no Whatsapp, Dilma desiste de criar outra conta no aplicativo

Dilma Rousseff
Cadu Gomes/Fotos Públicas

Após ter a conta do seu aplicativo de Whatsapp bloqueada, ex-presidente do Brasil, Dilma Rousseff, que está na disputa por uma das vagas do Senado por Minas Gerais, desistiu de criar uma outra conta para se comunicar com seus eleitores.


 Presidente Dilma Rousseff durante entrevista no Palácio da Alvorada

Em informação passada para a Sputnik Brasil pela assessoria de Dilma, como já está em reta final de campanha, a candidata desistiu de dar continuidade a iniciativa chamada #DilmaZAP.

Nesta quarta-feira (3), Dilma Rousseff denunciou que o aplicativo WhatsApp encerrou a conta que havia sido aberta para servir como um canal de comunicação com os eleitores brasileiros como uma estratégia de campanha ao Senado.

A ex-presidente brasileira em sua conta no Twitter escreveu e postou um vídeo dizendo que "vamos continuar nossa conversa sobre como barrar o golpe e como fazer o Brasil e Minas avançarem mais".

 

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na sequinte ligação::

https://br.sputniknews.com/noticias-eleicoes-2018-brasil/2018100412367059-bloqueada-whatsapp-dilma-conta-aplicativo/

Péssima notícia para quem usa iPhone: tutorial ensina como acessar contatos dos outros

A falha de segurança no novo sistema operacional iOS 12, lançado recentemente, promove acesso aos contatos do celular sem precisar saber o código de desbloqueio do smartphone.

No dia 26 de setembro foi publicado um tutorial no YouTube, pelo canal Videosdebarraquito, ensinando como hackear o atual sistema operacional do iPhone iOS 12 usando a assistente de voz Siri.


Nas explicações do vídeo, é ensinado como ter acesso a informações sobre contatos armazenados pelo dispositivo sem saber seu código de desbloqueio, sendo necessário apenas saber o número do celular.

Primeiro é preciso ativar a função VoiceOver da Siri comandando para fazer uma chamada, que deve ser cancelada e, em seguida, escolher a opção de responder com uma mensagem.

Desse modo, é possível abrir a lista telefônica do aparelho e acessar os contatos.

O problema foi encontrado no novo sistema operacional iOS 12 lançado setembro, no mesmo mês em que foram apresentados os três novos modelos do smartphone.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na sequinte ligação::

https://br.sputniknews.com/ciencia_tecnologia/2018100212345030-tutorial-ensina-acessar-contatos-outros-iphone/

Revelado novo aplicativo que rouba dinheiro de usuários

Homem segurando um smartphone (imagem referencial)
© Fotolia / Marek Yuralaits

Pesquisador em segurança cibernética Lukas Stefanko descobriu que o aplicativo QRecorder, que grava ligações telefônicas, foi programado para roubar milhares de euros das contas bancárias de usuários na Europa, comunicou o site BleepingComputer.

Baixado mais de 10.000 vezes, o QRecorder, além de escanear o smartphone, estava monitorando aplicativos bancários, segundo BleepingComputer.

Assim que instalado, o aplicativo pedia permissão para cobrir outros aplicativos na interface, sendo capaz de capturar códigos de autenticação de dois fatores recebidos por SMS e de controlar o que o usuário vê na tela.


Lukas Stefanko afirmou que como o gravador de áudio estava funcionando como esperado, as vítimas não tinham motivos para suspeitar das atividades criminosas. Em 24 horas após a instalação, as instruções eram enviadas para o aplicativo, dentre elas escaneamento do smartphone quando aplicativos bancários estivessem sido usados.

Todas as vezes que um aplicativo bancário era aberto, o trojan o cobria com uma tela plishing (forma de fraude criada especificamente para roubar identidade) para coletar credenciais de login e passá-las para os ladrões.

Algumas vítimas na Europa perderam milhares de euros de suas contas bancárias.

O aplicativo conta com um arsenal de interfaces falsas de bancos alemães, tchecos, poloneses e austríacos (Raiffeisen Bank, AirBank, Oberbank, Bank Austria, ING, CSOB e outros). A polícia tcheca já avisou habitantes locais do risco ligado ao QRecorder.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na sequinte ligação::

https://br.sputniknews.com/sociedade/2018092812316603-aplicativo-roubo-dinheiro-usuario-conta-bancaria/

Nova atualização do Google Chrome coloca privacidade de seus usuários em risco

O pesquisador de segurança e criptografia Matthew Green descobriu um novo recurso não anunciado no Google Chrome que autoriza automaticamente os usuários sem seu conhecimento, comunicou o especialista em seu blog.

Segundo Green, se os usuários acessarem qualquer um dos serviços do Google, incluindo o YouTube ou o Gmail, eles serão automaticamente autorizados no navegador. 


Isso permitirá sincronizar os dados dos usuários entre o Google Chrome e outros produtos da empresa, assim como transferir todo o histórico de visitas aos servidores do gigante tecnológico. Green acredita que essas alterações ameaçam a privacidade dos usuários que utilizam o navegador do Google.

Anteriormente, os desenvolvedores permitiam que os usuários do Chrome navegassem em páginas da web sem fazer login na conta pessoal do Google. As pessoas que usavam esse navegador não precisavam se preocupar que o histórico de suas visualizações fosse divulgado na página pessoal ou aos servidores do Google. Para evitar isso, os usuários precisavam fazer login no Chrome e concordar com a sincronização de dados entre o navegador e outros serviços do Google, informa o The Business Insider.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na sequinte ligação::

https://br.sputniknews.com/ciencia_tecnologia/2018092612297048-atualizacao-google-chrome-privacidade-usuarios-navegador/

Ex-presidente-executivo do Google prevê divisão da Internet em duas

Internet
CC BY 2.0 / Pixabay

O ex-CEO da Google, Eric Schmidt, afirmou durante um evento privado em São Francisco que a Internet se dividirá em duas na próxima década: uma controlada pelos EUA e outra pela China, segundo o canal CNBC.

O comentário de Schmidt veio após o economista Tyler Cowen lhe ter perguntado se, nos próximos 10-15 anos, a Internet poderia se fragmentar em três ou quatro sub-redes com regulações diferentes e acesso limitado.

"Acredito que o cenário mais provável por enquanto não é uma fragmentação, mas uma bifurcação em uma Internet controlada pela China e outra não chinesa, controlada pelos EUA", respondeu o ex-CEO.

Para Schmidt, a mudança se deverá ao fato de a Internet chinesa e as empresas do país que operam na web estarem se desenvolvendo de "forma fenomenal", constituindo uma grande parte do PIB da China.

"Se olharmos para a China, e eu estive lá recentemente, a escala das empresas e dos serviços que estão sendo criados, a riqueza que está sendo gerada, é fenomenal. A quota-parte da Internet chinesa no PIB do país, que é um número grande, é maior que nos EUA", disse, citado pelo canal.

Segundo Schmidt, os chineses não são apenas "bons na Internet", mas, com o processo atual de globalização, eles conseguem "jogar" na área e acredita que o mundo ainda verá uma "liderança fantástica" do gigante asiático em produção de bens e serviços.

"Há uma real ameaça de que, junto com aqueles produtos e serviços, venha um regime de liderança diferente, com censura, controles etc.", ressaltou o ex-diretor executivo da Google.

Como exemplo, Eric Schmidt citou a iniciativa chinesa Um Cinturão, Uma Rota que envolve 60 países, sendo muito possível que estes países comecem a usar infraestrutura chinesa, perdendo parte de sua liberdade.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na sequinte ligação::

https://br.sputniknews.com/ciencia_tecnologia/2018092512290249-ceo-google-internete-divisao-eua-china/

RSS, para uma internet livre novamente

Domínio das mega-plataformas e de seus algorítmos tornou a rede monótona, segregada e iracunda. Mas a disputa não está perdida — e uma ferramenta simples pode ser muito libertadora

Por Victor Wolffenbüttel,da coluna do BaixaCultura

Em março de 2017, o criador da internet, Tim Berners-Lee, publicou um texto no jornal inglês The Guardian, referente ao aniversário de 28 anos do protocolo web inventado por ele, o World Wide Web, principal forma de utilizar a internet até hoje — e que a maioria de nós, usuários comuns, tratamos como “a” internet. No seu texto, Barnes-Lee é sucinto: ele está preocupado com três coisas na rede moderna. Não há declarações de amor ou histórias de superação brega no seu artigo. A internet está com problemas, e precisa de respostas. Os três desafios na rede atual, segundo ele, são: a) como o usuário perdeu controle de seus próprios dados pessoais; b) como é fácil espalhar informações falsas na web; e c) falta de transparência na propaganda política.

Eu poderia traduzir todo o texto numa tacada só, mas vou me conter e utilizar apenas um parágrafo de referência para onde quero chegar. Sobre a desinformação na web, o criador da coisa toda diz (tradução livre):

“Hoje, a maioria das pessoas encontra notícias e informações na web através de algumas redes sociais e buscadores. Esses sites faturam mais quando clicamos nos links que nos mostram, e eles escolhem o que nos mostrar através de algoritmos que aprendem com nossas informações pessoais, as quais eles coletam constantemente. O resultado é que esses sites nos mostram conteúdo que acham que nós vamos clicar — ou seja, desinformação e notícias falsas, as quais são surpreendentes, chocantes ou feitas para atrair nosso interesse, podem se propagar como um incêndio.”

A preocupação de Tim Bernes-Lee quanto à desinformação e aos algoritmos das redes sociais não é nova, e tem sido amplamente divulgada. O processo de adquirir informações está passando por alterações que afetam profundamente o jornalismo e a mídia como um todo. Na verdade, o jornalismo vem sofrendo mudanças drásticase questionamentos sobre seu modelo de negócios. Dentro dessa preocupação geral e do cenário caótico, escrevo para propor uma ajuda ao usuário.

A internet através do tempo

Nesses 28 de existência da internet, muitos hábitos e muitas ferramentas já foram tendência, e os usuários mais antigos devem lembrar de uma tonelada desses. Para o brasileiro que estava lá quando tudo começou por aqui, aquele que usava internet discada durante a madrugada porque era de graça e acordava todo mundo em casa porque o barulho do modem era insano, podemos citar o Netscape, Cadê e o ICQ como ferramentas comuns. Depois, se estabeleceram Google, Orkut, Youtube, Kazaa, MSN, Fotolog, MySpace, Blogger, WordPress, os portais Uol e Terra, por exemplo. Hoje, nossas ferramentas, chamadas “aplicativos”, são Facebook, Twitter, Instagram, Whatsapp, Telegram, Snapchat, Tumblr, Medium, Netflix.

(É claro que essa linha do tempo de sites e serviços não ficou extremamente precisa, cada usuário conheceu alguma ferramenta a algum tempo, e pode haver questionamentos — um amigo meu ainda usa o ICQ no seu ambiente profissional, por exemplo. É claro que também esqueci um monte de outras saudosas aplicações, mas isso não vem ao caso.)

A tendência gritante entre os serviços citados é a transformação do acesso: o computador vem sendo abandonado. O navegador utilizado, seja ele o Firefox, Chrome, Opera ou Safari, não é mais necessário para acessar nenhum dos aplicativos listados por último. O abandono do desktop e dos browsers aponta para uma das novas tendências da internet: o cercamento do usuário. Tirando aquelas pessoas que trabalham na frente do computador e têm tempo livre para surfar na web e pesquisar páginas à vontade, quantos hoje em dia têm uma lista de sites favoritos? O usuário tem acessado suas informações pelos mesmos aplicativos e redes sociais. Se você não tem o aplicativo da Folha ou do Globo ou de qualquer outro grande jornal no celular, eu duvido que se informe por outro meio que não o Twitter ou Facebook. E a sua visão das notícias está condicionada a um algoritmo muito mais poderoso que a antiga disposição das informações nos cadernos dos jornais.

Pós-introdução: redescobrindo uma ferramenta

A partir desse ponto, eu poderia começar a direcionar o texto para qualquer um dos aspectos mencionados por Tim Bernes-Lee no seu alerta de aniversário, os quais indicam uma internet prejudicada e prejudicial para o usuário comum: compartilhamento involuntário dos dados pessoais e privados; alienamento do usuário através de algoritmos que podem simplesmente apagar um assunto ou uma pessoa da sua vida; centralização da forma de obter informação; propaganda política disfarçada de informação; etc., etc. Mas o meu interesse nesse assunto todo é apresentar uma ferramenta (spoilers estão no título do texto), e fazer o leitor entender por que ela pode ser útil nesse mundo preocupante em que estamos. Quando eu digo preocupante, quero dizer, capaz de fazer um magnata sem nenhum preparo, intolerante e conservador ser eleito presidente do país mais poderoso do mundo.

O uso dessa ferramenta ajuda a evitar que casos como o de Myamar, um país asiático que mudou de um regime ditatorial para uma democracia há poucos anos, se tornem cada vez mais comuns. O Buzzfeed News fez uma matéria impressionante mostrando a inclusão digital do povo do pequeno país. Essa inclusão — feita através do acesso total da internet de uma hora pra outra  — é integralmente baseada no Facebook (alguns usuários acreditam que “internet” e “Facebook” são a mesma coisa, deixando de aproveitar a vastidão de conteúdo online), e os novos hábitos virtuais da população têm aumentado a intolerância religiosa do país.

Não estou me referindo a um produto de uma nova startup que vai salvar o mundo. Não é um app que você baixa e milagrosamente muda a rotina da sua vida. É um recurso que está disponível na internet há muito tempo e que nunca foi muito popular, mas que se mostra poderosíssimo num mundo de algoritmos pré-definidos com critérios secretos de exibição de resultados. Do que eu estou falando? Do RSS. Às vezes chamado de feed, ou feed RSS, ou Atom, etc.

Em termos técnicos e práticos, o que é RSS

RSS é uma sindicação web. Sindicação é um termo oriundo da televisão, e uma prática muito comum em países como os Estados Unidos, onde canais de TV locais compram e vendem programas para exibição ao vivo e/ou gravada de outros canais em outras localidades. Qualquer ferramenta de sindicação web, então, seria uma adaptação disso: um meio de reproduzir o conteúdo lançado por um site através de outro site ou outro programa, enfim. A sigla RSS significa Really Simple Syndication, ou seja, “Sindicação Realmente Simples”.

Muitos desenvolvedores trabalharam nessa ferramenta desde seu surgimento. Ela começou por iniciativa de alguns técnicos do falecido navegador Netscape, que lançaram a versão 0.9. Depois que o browser foi comprado pela AOL, o projeto foi deixado de lado, mas outros programadores continuaram aprimorando a sindicação, até ela chegar na versão 2.0 em 2005, na qual se mantém até hoje. A história do RSS é cheia de personagens e conflitos por direitos autorais. Por ter sido um trabalho abraçado pela web e desenvolvido abertamente durante algum tempo, os técnicos da Netscape tiveram problemas quando quiseram registrá-lo como propriedade intelectual, especialmente depois de ter abandonado a ideia na versão 0.9.

(Para quem quiser ler toda a história, está disponível na Wikipédia em português.)

Em termos de programação, o RSS é o que e os programadores chamam de “dialeto” dentro da linguagem XML (eXtensible Markup Language), a qual é utilizada para vários fins de organização de páginas. Olhando um arquivo XML puro, ele parece com HTML, exceto que podem ser criados novos dialetos e cada dialeto pode possuir diversas tags — daí o “eXtensível” no nome. RSS é então um arquivo em linguagem XML que é disponibilizado e atualizado automaticamente pelo site que o gera. Ele está disponível na maioria dos sites como uma página própria, a qual é facilmente acessível através do famosos ícone do RSS:

Resumindo tecnicidades em termos simples, RSS é um arquivo que se atualiza sempre que o site atualiza também. Qual o interesse nisso? Arquivos em linguagem XML não foram feitos para serem consumidos diretamente por humanos, mas sim interpretados por outras aplicações que então disponibilizam a versão final para as pessoas. O RSS se torna realmente interessante quando utilizado junto aos chamados leitores ou agregadores.

Como era a aparência do agregador mais famoso de todos, o Google Reader, antes dele ser extinto

Através dos agregadores, o usuário pode se inscrever nos seus sites favoritos e acompanhá-los diretamente pelo leitor de feeds. Todas as atualizações aparecerão lá diariamente e o usuário não precisa visitar a homepage. A princípio, pode parecer pouco interessante para quem acessa a homepage de apenas um site, por exemplo, o G1. Mas mesmo para esse usuário, é melhor utilizar o leitor de feed, pois não agride visualmente, não distorce as manchetes, e não tem publicidade. Texto puro, organizado para leitura no agregador, separado em postagens, classificados apenas em “lidos” ou “não lidos”.

O RSS torna-se realmente interessante para quem gosta de acompanhar mais de uma página na web. Ele te dá o poder de concentrar todos os sites em só um e poder decidir se quer ler certo texto ou não, de forma simples!! Todo o conteúdo é listado verticalmente, tornando-se uma questão de escolha intelectual pura do leitor. Apesar de absurdamente simples, vou descrever um pequeno tutorial para começar a utilizar um agregador RSS e como adicionar os feeds.

Utilizando RSS: introdução aos agregadores

Basicamente, o que deve ser feito é baixar ou criar uma conta online em algum agregador de RSS. Existem centenas pela internet. Antigamente, essa função era praticamente monopolizada pelo Google Reader, um dos melhores leitores de feed que já houve, especialmente pela sua função social de compartilhar os textos lidos com outros usuários através de um verdadeiro Facebook de textos. Porém, o Google Reader foi descontinuado pelo Google devido à baixa popularidade (a quantidade de produtos do Google que foram abandonados por popularidade, independente de quão boa a ideia era, assusta).

Um dos agregadores mais populares hoje em dia é o feedly, o qual adicionou uma penca de funções nos últimos anos, as quais, pra mim, só afastaram o usuário comum. Logo que o Reader acabou, eu tentei utilizá-lo, mas a bagunça visual me fez desistir. Outro feed conhecido é o The Old Reader, o qual se propõe a ser exatamente igual ao antigo Google Reader (o nome diz tudo), mas, pelo menos nas vezes em que tentei usar, pareceu extremamente instável e lento. Atualmente, utilizo o Digg Reader — depois de muitas tentativas com softwares baixados ou clientes de email (sim, é possível ler feeds de sites usando o Outlook, por exemplo). Não lembro como descobri que o Digg tinha um agregador, mas é esse que recomendo, por estar utilizando há mais tempo — mais tempo até do que usei o Google Reader. O aplicativo para celular também é muito simples, e permite leituras agradáveis dentro do possível (ler no celular nunca vai ser agradável). É possível se inscrever usando email ou alguma conta já registrada no Google, Facebook ou Twitter.

O Digg Reader é a minha recomendação pessoal, mas existem outros milhões de agregadores por aí. A configuração pode demorar um pouco mais, mas não é nenhum bicho de sete cabeças.

Utilizando RSS: catando links para feeds 

Baixado o software ou inscrito no site, a segunda etapa é procurar o feed dos seus sites favoritos. Provavelmente, o famoso botão de RSS vai estar bem no alto ou bem embaixo do site, junto com os ícones de Facebook, Twitter e etc. Clique nesse botão, ele vai te direcionar para a página do arquivo XML. Copie o link da URL. Geralmente, ele se parece com http://[site].com/feed ou http://[site].com/rss ou algo do tipo, mas isso não é uma regra. Entre no seu agregador favorito e vá em alguma coisa parecida com “adicionar feed RSS” ou “inscrever-se em RSS” e cole o link lá. Pronto, você já está inscrito. A partir de agora, sempre que o site atualizar, o feed vai automaticamente carregar o texto no seu agregador. Ele estará disponível exatamente como no site, sem precisar sair do leitor.

Em alguns agregadores, está incorporado uma ferramenta de pesquisa de feeds, o que é ótimo, porque aí você não precisa procurar o link no site. Só digite o nome do site na busca, e ele vai providenciar o feed. O que pode acontecer é o site não possuir RSS. O G1, por exemplo, não tem. Nesse caso, recomendo começar a ler outro site, porque esse não está conforme os bons hábitos da internet, o que me leva a outro ponto: o feed não é só uma ferramenta qualquer, ele é histórico para a web.

O RSS está por toda a internet e só você não viu

Antigamente, redes sociais como Twitter e Facebook geravam RSS para cada um dos perfis na rede. Era excelente, porque você poderia seguir as pessoas que você gostava sem nem mesmo possuir conta na rede social. Se adicionasse o link no seu agregador, todos os tuítes da pessoa apareceriam como atualizações, por exemplo. A função foi descontinuada pelas grandes redes. Hoje em dia, existem sites, como Queryfeed, que substituem a função nativa e geram os feeds de perfis. Um excelente incentivo para abandonar as redes e continuar acompanhando as páginas de interesse. Sites de torrent como Pirate Bay disponibilizam o link de RSS de todo o site, o que leva a uma prática interessante para os usuários: baixar automaticamente arquivos a partir do momento em que o feed atualiza com seus links magnéticos. Você pode se inscrever no link da sua série favorita e baixar os episódios assim que foram disponibilizados, por exemplo. Os clientes de torrent possuem agregadores de feed que são utilizados especificamente para essa prática, conhecida como Broadcatching.

Por fim, o melhor exemplo do poder do RSS na internet e da sua influência na história da rede são os podcasts. O conceito de podcast é exclusivamente baseado no uso de RSS para disponibilizar um arquivo de áudio baixável. Os podcasts feitos em site de streaming como Youtube e Soundcloud se proliferaram nos últimos anos, mas nenhum deles, se fosse catalogado, seria um podcast segundo o conceito original. Conforme definido pelo escritor Warren Ellis em sua newsletter [tradução livre], “Um podcast é um arquivo de áudio que um programa de podcasts pode capturar e baixar para um dispositivo. Um arquivo no Mixcloud ou Soundcloud não é um podcast”. É claro que o conceito original pouco importa para o sucesso desses programas, e até acredito que quem está fazendo audioblogs no Youtube hoje deve ter mais sucesso do que a maioria de podcasts perdidos em blogs, buscando alguns assinantes no seu feed que é baixado por aplicativos de celular. A importância da definição de podcast, nesse caso, é mais histórica que tecnológica: em 2004, não existia streaming, e o download automático do seu programa favorito era como a assinatura do seu jornal ou revista favoritas, que chegavam — esse verbo cada vez mais no passado — direto na sua casa.

O RSS é político

Sei que citar exemplos de torrent (uma tecnologia que, apesar de revolucionária, tem sido deixada de lado pela comodidade do streaming) e podcasts (um tipo de conteúdo que sempre foi marginal, com poucos exemplos de verdadeiro sucesso) pode parecer pouco mercadológico para o produto que estou tentando vender — e hoje em dia tudo tem que ser observado dentro de uma perspectiva do marketing. Mas não peço desculpas, porque a lógica é contrária: antes da internet, a criação de conteúdo e a informação eram amplamente monopolizadas. O interesse das massas era facilmente direcionado conforme o conteúdo exposto pela mídia através dos meios de comunicação. Com o surgimento da rede, abriu-se o espaço necessário para buscar novas fontes de informação, controle pessoal do que se consome e liberdade de pensamento. O relato mais preciso sobre a transformação da web foi feita pelo documentarista Adam Curtis no seu filme mais recente, HyperNormalisation [tradução livre]:

A internet atraiu as pessoas porque era hipnotizante. Era um lugar onde você poderia explorar e se perder da forma que quisesse. Mas através da tela, como num espelho de duas vias, agentes estavam te assistindo e prevendo e guiando a sua mão no mouse. […] Com o aumento na quantidade de dados obtidos pelos sistemas online, novas formas de controle começaram a surgir. As redes sociais criaram filtros, algoritmos complexos que observavam o que o indivíduo gostava, e os serviam com mais disso. No processo, os usuários começaram a ser atraídos, sem notar, para bolhas que os isolavam de enormes quantidades de outras informações. Eles só viam e ouviam o que gostavam. E o feed de notícias, cada vez mais, excluía qualquer coisa que poderia mudar seu ponto de vista pré-existente.

O controle vem sendo retomado por grandes grupos. Em um celular de usuário comum, o sistema operacional, o navegador, o buscador e o canal de vídeos (para dizer o mínimo) são todos da mesma empresa, o Google. Além disso, o Whatsapp, o Facebook, o Instagram e o Messenger são todos também da mesma empresa. Por isso, o uso de RSS, apesar de parecer datado, é essencial retomarmos as rédeas do consumo de informação, descentralizar e desalgoritmizar nossa internet. A comodidade tem nos levado para o mesmo lugar em que estávamos antes, mas o grande ponto da rede é não ser cômoda: é aproveitar a oferta máxima de conteúdo que pode existir para fazer o que você quer, e não deixar que algumas empresas te indiquem o caminho.

Ver o original em 'Outras Palavras' na seguinte ligação:

https://outraspalavras.net/destaques/rss-para-uma-internet-livre-novamente/

Google confessa entrega não autorizada de dados dos usuários a terceiros

Página do Google em tablet (foto de arquivo)
© AFP 2018 / Damien Meyer

Representantes do Google confirmaram que dados de usuários estão disponíveis para desenvolvedores de aplicativos externos, de acordo com a Reuters.

Segundo a política de privacidade do Google, os usuários devem ser informados pelas empresas sobre a coleta e processamento de seus dados, porém, as extensões de publicidade no Gmail, assim como os e-mails, coletam informações sobre as pessoas, cita a agência de notícias.

Além disso, autoridades americanas descobriram que nem todos os desenvolvedores informam seus a consumidores quando leem correspondências ou quando transmitem dados deles a terceiros.

Senadores dos EUA solicitaram ao Google que enviasse uma lista de empresas violadoras, e a única resposta foi que a companhia usa verificações automáticas e relatórios de pesquisadores de segurança.

Em audiência marcada para o dia 26 de setembro, serão discutidas as questões referentes aos dados de segurança entre os senadores e representantes do Google, Apple, AT&T e Twitter.

Anteriormente, tornou-se conhecido o fato sobre o acordo entre Google e MasterCard, onde o sistema de pagamento forneceu durante anos dados de pagamento dos usuários à empresa de IT em questão. Desse modo, o Google Analytics determinava a eficácia da publicidade.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na sequinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2018092412285129-google-confessa-entrega-nao-autorizada-dados-usuarios-terceiros/

Os empregados de limpeza da net

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Se têm 40 minutos, e se são do tempo em que os animais já não falavam mas os portugueses ainda percebiam francês, dediquem-nos a esta reportagem, feita com enorme precaução e sigilo sobre os milhares de pessoas que, em Manila, nas Filipinas, fazem a limpeza da web. São empresas subcontratadas pelas grandes empresas da web nossas conhecidas incluindo, naturalmente, Facebook. Um funcionário experimentado chega a visualizar 25 mil imagens por dia, das quais uma parte significativa é eliminada: decapitações, atrocidades, terrorismo (de 37 organizações deve ser tudo eliminado), pornografia, sexo, etc. seguindo o guião que cada uma das empresas fornece. Não podem dizer o que fazem, o que ganham, onde trabalham. Muitos desistem e ficarão com sequelas psicológicas ou mesmo psiquiátricas para toda a vida.
Este trabalho é feito por denúncias e há milhões por dia. Eventualmente por meio de busca. 
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Leia original aqui

A segunda pele: o telemóvel

(António Guerreiro, in Público, 21/09/2018)

Guerreiro

António Guerreiro

O Liceu San Benedetto, da cidade italiana de Piacenza decidiu fazer uma experiência radical: banir os telemóveis do início ao fim de cada dia de aulas, incluindo os intervalos. À entrada da primeira aula de cada dia, os alunos são obrigados a introduzir os seus telemóveis numa bolsa que os bloqueia completamente. Nenhuma utilização clandestina é possível porque nenhum aluno detém o código de abertura da bolsa.

Entrevistados por uma televisão italiana, alguns alunos mais condescendentes falam da experiência como um castigo benévolo que lhes é infligido e que consiste, diz um deles, “em fazê-los sentir fora do mundo”. Mas outros há que parecem ecoar as palavras de Kurtz, em O Coração das Trevas: “The horror, the horror”. É o caso de uma rapariga que diz que é “uma das piores torturas”, uma coisa “terrificante” que não deseja a ninguém. 

Devemos salientar: estamos em Itália, o paraíso do telefonino. Mas hoje, para onde quer que orientemos o radar, só uma pequena minoria consegue não se sentir fortemente afectada pela privação do telemóvel. Já não é um aparelho que se tem ou não se tem: é um “instrumento absoluto” que, na sua ausência, nos faz sentir em estado de privação.

Quem, nos anos 90 do século passado, experimentou viajar de comboio de Munique para o Norte da Itália, ficava pasmado com um contraste gritante: após a paragem na primeira estação italiana, em Bolzano, acabava-se a tranquilidade e instaurava-se o casino italiano. Na altura, grande parte dos alemães ou ainda não tinha telemóvel ou achava que tal objecto não era para ser usado despudoradamente, diante dos outros passageiros da carruagem.

Hoje, quer se entre em Itália pelos Alpes suíços, quer se entre pelos Alpes austríacos, as fronteiras já são muito menos marcadas. E certamente que do outro lado há pedagogos e directores de escolas a olhar muito interessados para a experiência italiana.

Logo após o aparecimento do telefonino, Umberto Eco escreveu uma das suas crónicas a desvalorizá-lo, a mostrar que a comunicação instantânea permitida pelo telemóvel servia motivos fúteis e nenhuma questão de vida ou de morte estava aí em jogo. Alguns anos depois, reviu e corrigiu essa crónica e formulava deste modo a questão: “Podemos ainda viver sem telemóvel”? Podemos, claro, mas entretanto muita coisa mudou na nossa vida e sentimos que se abre um abismo aos nossos pés quando colocamos a hipótese de voltar à era antes do telemóvel.

Quando reescreveu essa crónica, já outro italiano, um filósofo bem conhecido, Maurizio Ferraris, tinha escrito o seu tratado de Ontologia del telefonino. Assim reza o subtítulo de um livro de 2011, que se chama Dove sei? (onde estás?) e é ilustrado com a foto de um judeu a pôr um telemóvel colado ao muro das lamentações.

Para Ferraris (que entretanto se tornou um dos filósofos mais polémicos em Itália por causa de um “manifesto do novo realismo”), o telemóvel é um objecto filosoficamente interessante, ao ponto de suscitar uma ontologia, na medida em que a pergunta pertinente para o telefone fixo, “Quem é?” passou a ser, para o telemóvel, “onde estás?”.

Do outro lado, sabemos sempre quem é, a não ser que o telemóvel tenha sido roubado, porque o aparelho é quase como uma impressão digital. O que não sabemos é onde está: pode estar em qualquer parte do mundo, inclusivamente a poucos metros de nós, tão acessível por via vocal como pelas ondas que dão instantaneamente a volta ao mundo para regressarem quase ao ponto de partida.

Outra transformação radical: não podemos ignorar que alguém nos telefonou, deixou de ser possível dizer que não sabíamos de nada. Agora, se não respondemos, temos de arcar com a responsabilidade do nosso silêncio.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Bruxelas cria escritório especial para monitoramento da 'ameaça russa' na internet

Ilustração, código binário
© REUTERS / Kacper Pempel

O Serviço de Informação Geral e Segurança da Bélgica criou um escritório para monitorar as ameaças cibernéticas russas e chinesas, informou a Comissão Parlamentar de Defesa do país em um relatório.

A sessão do Comitê de Defesa ocorreu em junho, mas o relatório sobre os resultados da sessão foi divulgado nesta sexta-feira.

"Quanto à ciber-ameaça russa, o Serviço de Informações Gerais e Segurança do Ministério da Defesa contratou um funcionário encarregado de um grupo de trabalho não permanente… As atividades da China também estão sendo monitoradas", disse o representante do serviço ao comitê, segundo o relatório.

Além disso, Bruxelas desenvolveu um plano para recrutar especialistas civis e militares para fortalecer a segurança cibernética do país, que será submetido à consideração do Ministro da Defesa em breve, de acordo com o relatório.

A Rússia tem sido repetidamente acusada de realizar ataques cibernéticos. Moscou, no entanto, refuta as acusações. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, disse que o Ocidente não possui argumentos para suas alegações infundadas.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na sequinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2018091412212747-bruxelas-escritorio-ameaca-russa-internet/

Realidade Interna: para além da realidade virtual e da realidade aumentada

Augment Reality (AR ou Realidade Aumentada) é a tecnologia que sobrepõe informação digital sobre a nossa visão natural.

Com a AR, um turista pode ver o nome e história de um monumento durante a sua visita. A informação pode ser projectada através de um dispositivo inteligente, nos seus óculos, em lentes de contacto avançadas, e num dia até poderá ser feito através de um mini-projectores, hologramas ou interfaces biológicas.

O comum hoje, é apontar a câmara de uma tablet ou smartphone e ver informações, imagens, e efeitos adicionais sobrepostos. É a base de projectos de arte, ferramentas técnicas e jogos como o famoso Pokémon Go. Com AR, é possível olhar para um terreno vazio através de um ecrã, e visualizar um prédio novo.

Além do AR, já existe a realidade virtual (VR). Aqui, desligamos dos nossos arredores e fazemos uma imersão multi-sensorial numa outra realidade digital. É possível caminhar num salão vazio mas pensar que estamos em Roma, numa nave espacial ou até dentro de um jogo. Também podemos simular situações para treinar uma profissão ou desporto e até para enfrentar e superar um medo. Existe a preocupação que poderá ser uma forma de alienação intensa da realidade e dos relacionamentos reais.

Existe, no entanto, uma terceira vertente que podemos chamar de Realidade Interna ou Consciencial (IR ou Internal Reality; CR ou Consciousness Reality). Nesta tendência, a tecnologia facilita o acesso à informação que vem de dentro de cada um: o sub-consciente, os sinais biológicos, as memórias, as emoções, a imaginação, a intuição, os sonhos e outros estados alterados da consciência.

Até certo ponto, trata-se de aumentar a realidade, mas a fonte é mentalmente interna e não digital. Também podemos pensar a cerca do nosso microcosmo mental como um tipo de realidade virtual da consciência. No entanto, embora possa produzir uma imersão profunda, acabamos sempre por abrir os olhos e retornar à realidade quotidiana.

Com a Realidade Interna, é possível reduzir a dor, ansiedade e stress através de estados alterados e mindfulness. Também é possível simular situações com sonhos lúcidos, por exemplo, que aumentam a nossa capacidade de resolver problemas com criatividade (insight), estudos indicam. Numa economia onde a inovação e rapport tem mais valor que sempre, num mundo que precisa de novas e mais conscientes formas de pensar e agir, a Realidade Interna pode ajudar a encontrar inspiração para ideias novas e auto-consciência e bem-estar interno para desenvolver a ética e relacionar melhor com os demais.

Ver artigo original em "O TORNADO"

CDS em teletrabalho

"Este país não é para velhos", dos irmãos Cohen
Não há nada mais flexível do que fazer coincidir - no tempo e no espaço - a vida em família e o emprego. Exagero? Foi essa crua flexibilidade que encontrei em 1987, quando estive em Felgueiras (no norte do país), pelo jornal Diário de Lisboa, com o repórter José António Cerejo, em busca do trabalho infantil, que oficialmente o Governo Cavaco Silva dizia não existir (ver as reportagens aqui e aqui). Aí, partes da produção de calçado eram autonomizadas da fábrica, executadas em casa dos operários, por toda a família. Todos cosiam sapatos, noite adentro ("o dia não tem horas e a noite não tem cancelas", dizia-se), pagos à peça por angariadores (que ficavam com uma percentagem), sem descontos para a Segurança Social, para no dia seguinte alguém da fábrica os vir buscar em sacos, para que fossem introduzidos na fase seguinte. Todos comiam e trabalhavam juntos, até dormiam no posto de trabalho que era a sua casa. Só que as crianças não iam à escola nem os operários domésticos descansavam devidamente. Já nem se fala de pagamento adequado. Vem isto a propósito de uma iniciativa legal do mais "moderno" dirigente do CDS, Adolfo Mesquita Nunes, vice-presidente de Assunção Cristas, que quer mexer de novo na legislação laboral. Mas isso não prejudica o investimento? Não, porque quando é o CDS a mexer é aperfeiçoamento, mas quando são "as esquerda encostadas" já é instabilidade... Agora, o CDS quer "flexibilizar" o teletrabalho. Mas para quê? Diz Mesquita Nunes ao Público:
“Há uma enorme rigidez no regime do trabalho a partir de casa”, defende Mesquita Nunes, sublinhando que ela é “tão grande que nem sequer permite que um trabalhador possa combinar, num dia ou numa semana, trabalho na empresa e trabalho em casa”. Actualmente, em Portugal, “o teletrabalho só pode ser a tempo inteiro”, pelo que a pessoa “ou trabalha a partir de casa durante todo o horário ou no local de trabalho durante o tempo todo”.
Parece razoável. Mas a ideia peca de várias formas. Primeiro, numa relação laboral não é o trabalhador quem define os termos da prestação do trabalho. A relação é demasiado desigual para isso. Por alguma razão o Código do Trabalho tentou proteger ao máximo eventuais flexibilidades patronais. Segundo, se a intenção do CDS é apenas essa, nem seria preciso mudar a lei. Bastava fazer um contrato colectivo de trabalho nas actividades a que se destina. Mas esse é outro problema para o CDS...  Terceiro, a quem se dirige esta medida? Partindo dos dados do INE relativos ao 2º trimestre de 2018, dirigir-se-á aos 1,3 milhões que trabalham ao serão? Aos 530 mil que trabalham de noite? Aos 2 milhões que trabalham ao sábado? Aos 1,1 milhões que trabalham ao domingo? Aos 939 mil que trabalham mais do que 40 horas semanais? Não parece. Para esses, que cada vez são mais, conciliar a a vida familiar com o trabalho será cada vez mais difícil. Mas essa não é a preocupação. A julgar pelas palavras de Mesquita Nunes, a nova medida destinar-se-ia apenas ao pessoal que já está em regime de teletrabalho. Mas são quantos? Não se sabe oficialmente. São tão poucos que os dados do INE nem especificam esse tipo de contrato. Segundo a informação do Fundo de Compensação do Trabalho, que regista a caracterização dos novos contratos, assinados desde a retoma do emprego em 2013, o teletrabalho representa quase 0% - repito, 0% - dos contratos assinados desde 2013 e vigentes até ao início de 2017. Ao todo, tinham sido 40 contratos a tempo parcial (!) e uma centena e meiaa tempo completo! Mas por incrível que pareça são esses os contratos com remunerações médias mais elevadas face à média dos contratos. Portanto, para quê então tanto entusiamo por uma medida que se aplica, para já, a tão poucas pessoas? É uma prioridade do momento?
Que situações concretas tem em mente Mesquita Nunes? A que tipo de empregos se aplica? Ao trabalho de escritórios de advogados? Ao das firmas de consultoria? Aos novos investigadores académicos que irão ter brevemente um contrato de trabalho? A jornalistas desejosos de sair da redacção? O CDS fez um estudo de impacto desta medida? É esta uma das medidas estruturaisdo CDS? Faz parte de uma nova visão para o país? Ou pretende arranjar pequeníssimos casos para continuar a aparecer, com a preguiçosa cobertura dos jornais de referência (como foi o caso do Público), sempre suscitando a famigerada flexibilidade laboral,que já nem o patronato a defende como tal? Talvez o CDS queira ir mais longe e alargar o regime de trabalho a funções até agora tidas como clássicas. Numa newsletter de um escritório de advogados, já se fala que as funções de telemarketing(vulgo call-centers) poderá ser feita em regime de teletrabalho. Outras funções poderiam ser passadas para fora das empresas e para o universo da esfera pessoal dos trabalhadores. Na internet, encontram-se muitos elogios de grandes companhias ao teletrabalho como forma de "promoverem a mudança cultural e a diversidade no ambiente de trabalho" (caso da Repsol). Sobretudo, quando se acentuam as tendências de esvaziamento dos centros das cidades. As ideias são velhas. Têm décadas e não são essas que irão resolver o nosso problema estratégico. Mas vende-se a ideia na mesma porque faz parte do choque. Primeiro, grita-se que vem aí a robotização. E depois eleva-se o teletrabalho a novo normal. Trabalho em casa, isolados, a olhar para as paredes e para o gato, diante de um monitor com uma câmara. Tudo sem revoltas, nem greves. Entre isso e coser sapatos em 1987, pelo menos nessa altura ainda havia fábricas... Talvez Mesquita Nunes esteja a prever bem. Quem sabe? Mas está seguramente no lado errado do que deve ser uma sociedade.   

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Julia Reda sobre liberdade na internet

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Dia 12 de setembro, na próxima semana, é votada no plenário do Parlamento Europeu, pela segunda vez, a proposta de diretiva sobre os direitos de autor, apresentada em 2016 pela Comissão Europeia (CE), o órgão executivo da União Europeia e único com poder para propor nova legislação. A “proposta de diretiva sobre o direito de autor num Mercado Único Digital” vem emendar duas outras, em vigor desde 1995 e 2001. Na altura, não existia ainda Facebook, Youtube, Twitter, e a Wikipédia tinha sido fundada uns meses antes.

Com esta nova reforma, a CE pretende “adaptar [o direito de autor] a novas realidades”, tendo em conta que “a evolução das tecnologias digitais mudou a maneira como as obras e outras criações protegidas são criadas, produzidas, distribuídas e exploradas”. Julia Reda, eurodeputada ao Parlamento Europeu (PE) pelo Partido Pirata Alemão e vice-presidente do Grupo dos Verdes/Aliança Livre Europeia, diz que “a ideia por detrás da reforma dos direitos de autor era boa mas, infelizmente, muitas das propostas iriam tornar o problema ainda maior”.

A diretiva é extensa, mas são dois os artigos contra os quais a deputada, que é relatora-sombra da proposta (relatores-sombra são deputados apontados por diferentes grupos políticos com o objetivo de apresentarem emendas que expressem as suas visões políticas em relação a cada proposta a ser discutida), e centenas de outros movimentos mais se expressaram:

  • Artigo 11.º, cria um novo direito conexo para empresas de média que lhes permitirá, por exemplo, reclamar remuneração a empresas como a Google ou o Facebook, ou qualquer outra plataforma que faça distribuição de notícias, por exibirem pequenos resumos ou excertos da notícia – como, por exemplo, o título -, o que, segundo a eurodeputada, é um ataque a um princípio fundamental da internet: o direito a linkar.
  • Artigo 13.º, torna plataformas com conteúdo gerado pelos utilizadores legalmente responsáveis por infrações que o conteúdo carregado pelos mesmos possa cometer. Isso, diz Julia Reda, fará com que plataformas como o Youtube, Wikipédia, entre outras, sejam obrigadas a criar filtros que automaticamente bloqueiem conteúdos que aparentem violar os direitos de autor. Visto que esses filtros não são, hoje em dia, precisos o suficiente, “é muito perigoso e pode levar à censura”.

A 5 de julho, a proposta foi votada no plenário do PE, pela primeira vez, mas foi rejeitada por 318 deputados (com 278 votos a favor e 31 abstenções). Assim, o texto voltou a ser trabalhado até 5 de setembro, data em que as e os parlamentares podiam apresentar alterações à proposta. Dia 12, as emendas serão votadas e o texto final será, depois, levado aos “triálogos”, uma série de reuniões, à porta fechada, onde representantes do Parlamento Europeu, da Comissão Europeia e do Conselho da União Europeia tentam chegar a um texto final com o qual tanto o PE, como o Conselho, concordem. O texto final será, mais tarde, novamente votado pelo parlamento.

Na passada segunda-feira, três de setembro, fomos a Bruxelas, Bélgica, ao Parlamento Europeu, entrevistar Julia Reda, sobre a diretiva que este mês se discute e sobre os próximos passos no processo legislativo.

Texto e entrevista: Ricardo Esteves Ribeiro

Preparação: Ricardo Esteves Ribeiro e Tomás Pereira

Transcrição, tradução e legendagem: Bernardo Afonso e Frederico Raposo

Som: Bernardo Afonso

Vídeo: Ricardo Esteves Ribeiro

Acreditamos que o papel do jornalismo é escrutinar a democracia: questionar as decisões tomadas, responsabilizar os representantes. Falar dos temas de que poucos falam, ouvir quem tem menos voz, contas as histórias que não são contadas. Se acreditas no mesmo e queres continuar a ouvir as nossas entrevistas, reportagens e séries documentais, podes contribuiraqui.

Veja o o original em 'Fumaça' na seguinte ligação:

https://fumaca.pt/julia-reda-sobre-liberdade-na-internet/

Celulares, capitalismo e obsolescência programada

Mina de coltão, na República Democrática do Congo. Do minério, extraído em condições desumanas,  obtêm-se nióbio e tântalo, essenciais para os condutores de centenas de milhões de smartphones produzidos a cada ano

Como reunir, em cada aparelho, alguns dos metais mais raros do planeta — cuidando para que a devastação resultante converta-se rapidamente em desperdício

Por Patrick Byrne e Karen Hudson-Edwards | Tradução: Inês Castilho

Algo como cinco bilhões de pessoas, em todo o mundo, usarão um celular em 2020. Cada aparelho é feito de muitos metais preciosos, sem os quais não seriam possíveis vários de seus principais recursos tecnológicos. Alguns, como o ouro, nos são familiares. Outros, como o térbio, são menos conhecidos.

A mineração desses metais é uma atividade que está na base da moderna economia global. Mas seu custo ambiental pode ser enorme, provavelmente muito maior do que temos consciência. Vamos conhecer alguns desses metais-chave, o que fazem, e o custo ambiental de retirá-los do solo.

Derramamento catastrófico de rejeitos

Ferro (20%), alumínio (14%) e cobre (7%) são os três metais mais  comumente usados em seu celular. O ferro é utilizado nos alto-falantes e microfones, e nas molduras de aço inoxidável. O alumínio é uma alternativa leve ao aço inoxidável, também usado na fabricação do forte vidro das telas dos smartphones. O cobre é utilizado na fiação elétrica.

Contudo, enormes volumes de resíduos, líquidos e sólidos (denominados “rejeitos”), são produzidos quando da extração desses metais. Normalmente, os rejeitos das minas são armazenados em vastas estruturas de captação, que chegam a ter vários quilômetros quadrados de área. Catastróficos derramamentos de rejeitos de mineração alertam para o perigo dos métodos inadequados de construção e da negligência no monitoramento da segurança das minas.

O maior desastre já registrado ocorreu em novembro de 2015, quando o rompimento de uma barragem numa mina de ferro em Minas Gerais, no Brasil, provocou o derramamento de 62 milhões de metros cúbicos (o suficiente para encher 23 mil piscinas olímpicas) de rejeitos ricos em ferro no Rio Doce. A lama inundou as cidades locais e matou 19 pessoas, atravessando 650 km até alcançar o Oceano Atlântico, 17 dias depois.

Mas esse é só um dos 40 derramamentos de rejeitos de mineração ocorridos na década passada, com impactos de longo prazo  ainda desconhecidos na saúde humana e no meio ambiente. Uma coisa, porém, está clara. Conforme aumenta nossa sede por tecnologia, aumentam em número e tamanho as barragens de rejeitos da mineração, assim como o seu risco de rompimento.

Destruição do ecossistema

Ouro e estanho são comuns em celulares. Mas a mineração desses metais é responsável por grande devastação ecológica, da Amazônia peruana às ilhas tropicais da Indonésia. A mineração do ouro, usado nos celulares principalmente para fazer conectores e fios, é uma das principais causas do desmatamento da Amazônia. Além disso, sua extração da terra gera resíduos com alto teor de cianeto e mercúrio – substâncias altamente tóxicas que podem contaminar a água potável e os peixes, com sérias consequências para a saúde humana.

O estanho é usado como elemento para solda em eletrônica. O óxido de índio-estanho é aplicado às telas de celulares como um revestimento fino, transparente e condutor, que oferece a funcionalidade de tela sensível ao toque. Os mares que cilrcundam as ilhas Bangka e Belitung, na Indonésia, fornecem cerca de um terço do suprimento mundial. No entanto, a dragagem em grande escala de areia rica em estanho, retirada do fundo do mar, destruiu o precioso ecossistema de corais, e o declínio da indústria pesqueira gerou problemas econômicos e sociais no país.

Lugar mais poluído do planeta?

O que torna seu celular inteligente? São os chamados elementos de terras-raras – um grupo de 17 metais com nomes estranhos, tais como o praseodímio, que são extraídos principalmente na China, na Rússia e na Austrália.

Frequentemente apelidados de “metais tecnológicos”, os terras-raras são fundamentais para o design e a função dos smartphones. Os cristalinos alto-falantes, os microfones e a vibração dos celulares só são possíveis devido aos diminutos, porém potentes motores e ímãs fabricados com neodímio, disprósio e praseodímio. O térbio e o disprósio também são usados para produzir as cores vibrantes de uma tela de smartphone.

A extração de terras-raras é um negócio difícil e sujo, envolvendo o uso dos ácidos sulfúrico e fluorídrico, e a produção de grandes quantidades de resíduos altamente tóxicos. Talvez o exemplo mais perturbador sobre o custo ambiental de nossa sede por celulares seja o “lago mundial do lixo tecnológico” em Baotou, na China. Criado em 1958, esse lago artificial recolhe o lodo tóxico das operações de processamento de terras-raras.

Os valiosos metais usados na fabricação de celulares são um recurso finito. Estimativas recentes indicam que nos próximos 20 a 50 anos não teremos mais alguns dos metais terras-raras – o que nos leva a pensar se ainda haverá celulares por aí. Reduzir o impacto ambiental do seu uso exige que os fabricantes aumentem a vida útil dos produtos, tornem a reciclagem mais direta e reduzam os impactos ambientais causados pela busca desses metais. Em todo o mundo, as empresas de mineração afirmam ter feito avanços em extração mais sustentável. Mas também nós, como consumidores, precisamos considerar os celulares menos como um objeto descartável e mais como um recurso precioso, que carrega enorme peso ambiental.

 

Ver o original em 'Outras Palavras' na seguinte ligação:

https://outraspalavras.net/capa/celulares-obsolescencia-programada-e-sociedade-inviavel/

 

Máquinas digitais: hora de desconectar?

Douglas Rushkoff, um dos grandes teóricos do mundo digital, adverte: redes sociais mobilizam nosso lado réptil- primitivo, paraque troquemos a política pelo consumo

Entrevista a Juan Iñigo Ibánez| Imagem: MC Escher

“Para o Facebook somos o produto, não o cliente”, repete o teórico da mídia estadunidense Douglas Rushkoff desde 2011. Embora o episódio Cambridge Analytica e o comparecimento de Mark Zuckerberg perante o Senado norte-americano tenham abalado a opinião pública, o que realmente chamou a atenção deste escritor e documentarista de 57 anos foi “como as pessoas ficaram surpresas”. “O plano de negócios do Facebook – assegura ele, falando do subúrbio novaiorquinho de Hastings-on-Hudson, onde reside – sempre foi extrair dados da atividade das pessoas, para vendê-los em seguida”. [ pdf Throwing Rocks at the Google Bus How Growth Became the Enemy of Prosperity Portfolio (2016) (1.88 MB) ]

As críticas do professor de Teoria dos Meios e Economia Digital da Universidade do Estado de Nova York à empresa de Mark Zuckerberg podem ser estendidas também à maioria das grandes companhias fundadas em tempos de economia digital. Em seu último livro, Throwing Rocks at the Google Bus: How Growth Became the Enemy of Prosperity [Atirando pedras no ônibus do Google: como o crescimento converteu-se no inimigo da prosperidade], editado pela Penguin Books nos Estados Unidos, o teórico de meios argumenta que empresas como Amazon, Netflix ou iTunes acabando utilizando a rede – que a seu ver prometia ser mais uma ferramenta de utilidade pública que uma plataforma comercial – para reviver as piores práticas do capitalismo industrial — agora, porém, “funcionando com esteroides digitais”.

Pioneiro e entusiasta da cibercultura, participante do movimento Occupy Wall Street e ativista da democracia de código aberto, Rshkoff é doutor em Novos Meios e Cultura Digital pela Universidade de Utrecht (Holanda).

Em 2013, o MIT – Massachusetts Institute of Tecnology, o incluiu – junto com Niall Ferguson e Steven Pinker – entre os dez intelectuais mais influentes do mundo. Considerado por muitos o mais fiel herdeiro das ideias de Marshall McLuhan e Neil Postman, é o responsável por cunhar termos como “nativos digitais”, “meios virais” e “moeda social”. Eis sua entrevista.

Como se explica o mea-culpa realizado por Mark Zuckerberg perante o Senado norte-americano, ao assumir a falta de maior responsabilidade sobre o modelo de negócios do Facebook?

Os jovens desenvolvedores abandonam a escola para iniciar suas empresas, com pouco ou nenhum conhecimento dos impactos políticos e sociais dos produtos que querem construir. Zuckerberg afirmou que não tinha ideia de que sua plataforma afetaria nossa sociedade e nossas eleições da maneira como fizeram. Se ele conhecesse algo sobre a economia política dos meios, não seria tão ignorante. Mas o Facebook é dirigido por alguém que só se formou na escola secundária.

No ano passado, o Facebook revelou os países que mais usaram sua nova modalidade de “interações” e o México se encontrava em primeiro lugar, em nível mundial. Como se relacionam as “interações” e as “curtidas” com o uso que a empresa poderia estar fazendo de nossos dados?

O Facebook usa a “aprendizagem automática” para determinar o que funciona e o que não funciona com você. Quanto mais informação tenham sobre você, maior a precisão com que poderão prever e manipular seu comportamento. Os botões de interação são como um dispositivo de votação instantâneo. São como um “grupo focal” mecânico. Estão fazendo as perguntas que lhe faria um psicólogo que tentasse hipnotizá-la.

No início de 2014 ficamos sabendo que o Facebook havia comprado a patente para desenvolver as lentes de realidade virutal Oculus VR. Em 2016, a empresa lançou seu primeiro protótipo. Qual sua opinião sobre uma empresa acusada de negociar com os dados dos usuários excursionar pelo campo da realidade virtual?

O Facebook quase perdeu a plataforma de telefones inteligentes. Chegaram aos telefones muito tarde, e muitos temiam que a companhia não os alcançasse. Ao comprar a Oculus Rift, asseguram-se de que, se a realidade virtual converter-se num grande negócio (embora eu creia que isso não ocorrerá), então estarão participando da corrida.

Mas eles ainda não sabem o que fazer com isso. Talvez jogos. O que é certo é que criarão um entorno muito mais controlado para manipular as pessoas, e poderão observar muitas dessas decisões insignificantes que tomamos costumeiramente. Obterão muita informação sobre nossas formas de movimentar-nos através desses entornos.

Que tipos de medida os governos devem tomar para controlar o que empresas como o Facebook poderiam fazer, através da realidade virtual, com nossos dados? Ainda dá tempo de regular isso?

A Europa é melhor nisso do que a América do Norte. Nos Estados Unidos acredita-se que impedir uma corporação de fazer algo é como dizer a Deus que se cale. O mercado é a sabedoria do universo, que se expressa nos assuntos humanos. Controlar uma empresa é considerado uma afronta à natureza.

O problema com a regulação é que as empresas que supostamente estão reguladas são com frequência as que terminam escrevendo as regras. E as escrevem de modo a garantir seus próprios monopólios. Creio que o mais fácil é converter as plataformas tecnológicas mais gigantescas – as que todos usam – em bens públicos.

Em seu último livro, Throwing Rocks at the Google Bus, você afirma que a Amazon proporciona o exemplo mais claro de como – contrariamente ao sonho da economia colaborativa que muitos imaginaram ser possível no início da internet – os velhos valores corporativos foram amplificados graças à rede. Que tipos de prática as grandes empresas surgidas em tempos de economia digital, como a Amazon, executaram?

Elas destroem as empresas com que trabalham. Exploram seus trabalhadores, conhecidos como os “turcos mecânicos” da Amazon. Pagam uma ninharia para que façam o trabalho com os computadores, inclusive porque não têm como denunciar, se quem os contrata decide não pagar. Exercem o controle do monopsônio [também chamado “monopólio do comprador”] para pagar menos e exigir mais. Não ajudam as pequenas empresas a intercambiar valor entre elas. Convertem-se na única plataforma e aproveitam seu monopólio para expulsar as pequenas empresas do negócio. É uma má estratégia a longo prazo, porque se ninguém tem dinheiro, não podem gastá-lo na Amazon.

Como a Amazon afetou a indústria do livro?

O que a Amazon fez de mais notável foi prejudicar editores e autores. Pagam por livro menos que as livrarias normais. Preferem perder dinheiro com a venda de livros para que as outras livrarias se arruinem. É um conceito difícil de entender: venderão livros abaixo do custo com o objetivo de fazer com que outras livrarias fechem. Não lhes importa o ganho de seus livros. Querem ser um monopólio. E assim, quando forem os livreiros mais importantes do mundo, poderão finalmente impor suas condições aos editores. Podem estabelecer preços, controlar a distribuição e cortar da lista de livros os que não estejam de acordo com eles. É muito assustador, na verdade. O plano, a longo prazo, é que todos os autores trabalhem diretamente para a Amazon. É o que já propõem, de fato, a alguns escritores.

Você mencionou numa entrevista anterior que empresas como a Uber estão realmente usando seus motoristas como “pesquisadores de desenvolvimento”, e assim preparam o terreno para o negócio real: treinar o algoritmo para as viagens que os veículos automatizados farão no futuro…

Ao longo da história da humanidade, e certamente desde a era industrial, as novas tecnologias fazem com que certas habilidades humanas tornem-se obsoletas. Então, as pessoas procuram outro trabalho. Agora mesmo está ocorrendo em múltiplos setores: alimentos, medicamentos, educação, transportes, recursos, energia e inclusive entretenimento e arte.

O importante a ser lembrado, ao analisar esses problemas, é enxergar o que as empresas de fato pretendem ao excluir o trabalho humano. É realmente mais barato? É melhor? Não. Simplesmente elimina os humanos da equação. A longo prazo, a consequência disso é que não sobrarão seres humanos para comprar os bens e serviços.

Em 1988, Isaac Asimov previu, numa entrevista à BBC, que graças aos computadores, em poucos anos, cada pessoa seria capaz de aprender em seu próprio ritmo, de forma autodidata e durante toda a vida. Você crê que, em certa medida, isso se cumpriu?

Sim e não. A rede oferece enormes possibilidades educativas, desde a Wikipedia até o aprendizado a distância. Mas elas certamente não representam a cultura em rede dominante hoje em dia. E em muitos casos está sendo utilizada para minar o impacto mais subversivo e verdadeiramente humano da educação. Uma aula ou uma biblioteca digital online oferece uma grande oportunidade a quem não as teve antes, mas também prescinde do fator humano: o intercâmbio vivo de ideias e valores. Um bibliotecário humano é muito mais que uma base de dados.

Todos tinham os mesmos pensamentos otimistas sobre a televisão logo que ela apareceu. Ia ser a grande educadora. Supunha-se que em particular a televisão a cabo desencadearia uma nova revolução na educação. Contudo, nada disso aconteceu. Nenhuma mídia promoverá valores por si mesma. Ela só pode expressar os valores daqueles que a estão desenvolvendo. Neste momento, esses são os valores dos especuladores, razão pela qual as soluções educativas que vemos se desenvolvendo são as que têm modelos de negócios ampliáveis.

Há alguns dias, o New York Times voltou a publicar um artigo sobre a tendência, entre os executivos do Google, de inscrever seus filhos em escolas Waldorf. Parece que ali aprendem a tecer, interagem com a natureza, mas sobretudo não é permitido que se exponham a monitores e são proibidos de usar gadgets. O que isso revela a você?

Escrevi sobre isso há anos, quando as pessoas sequer acreditavam que fosse verdade. Para mim, significa que são hipócritas. Como os executivos de televisão e publicidade dos anos 1980, que não deixavam seus filhos ver televisão. É porque sabem que esses meios foram intencionalmente desenhados para frustrar a cognição, fazer com que as pessoas tenham medo, sejam burras e sintam-se sós e desesperadas. Isso não é teoria da conspiração. Os designers de interfaces das principais empresas tecnológicas do Vale do Silício estudam “captologia” em Stanford. Leem livros sobre o funcionamento das máquinas caça níqueis de Las Vegas para desenhar algoritmos que viciem.

As tecnologias digitais estão desenhadas especificamente para viciar, criar comportamentos obsessivos e fazer com que as pessoas prefiram as experiências digitais às reais. Os que fazem esse trabalho sabem que muito ruim e insano, e com razão querem proteger suas famílias dos possíveis danos.

Algumas pessoas apontam a simplicidade moralista, a agressividade e a irritação diante de opiniões contrárias que as pessoas demonstram na internet. Há alguma relação entre a forma como essas plataformas foram configuradas e a ascensão online, nos últimos anos, de grupos como ultra-direita [alt-right] nos Estados Unidos?

Essas plataformas foram concebidas para provocar respostas simplistas, impulsivas e primitivas — subreptícias. Estas são menos reflexivas que as reações dos mamíferos, e muito menos que as das comunidades de humanos.

Nossas emoções e condutas mais humanas provêm de uma parte do cérebro chamada neocortex. É a parte que as plataformas digitais tratam de evitar a todo custo. A captologia é a ciência de driblar o neocórtex e chegar diretamente no tronco do encéfalo. Essa é a parte que diz “matar ou morrer”. Se essa é a parte do cérebro que está ativa online, ela fomentará esse tipo de comportamento primitivo.

Você incluiu os efeitos das tecnologias digitais no conceito de “choque de presente”. Como se poderia vincular essa ideia a nossa propensão a crer em fake news e pós-verdade?

Minha ideia de “choque do presente” se referia à ênfase que as tecnologias digitais aplicam ao momento presente. Mas não ao presente real, e sim a uma instantaneidade e avalanche de dados e escolhas que fazem com que pareça que temos de estar alertas o tempo inteiro. É muito desorientador. Isso nos leva a desejar algo familiar. Qualquer coisa com uma forma familiar, seja ou não verdadeira. Odiamos o caos. Preferiríamos que uma pessoa malvada governasse o mundo a que ninguém o governasse. Isso é mais familiar e seguro.

No ano passado, veio a público a notícia de que o governo mexicano estava usando o software Pegasus para espionar jornalistas através de seus telefones celulares. Que potencial têm esses aparatos para intrometer-se em nossa privacidade?

Nossos dispositivos têm capacidade de conseguir acesso total a nossas vidas. Tudo. E não somente as coisas que você sabe sobre si mesmo, que tipo de sexo gosta, como se masturba, que drogas usa, mas também as coisas que não sabe sobre si. Essa é a parte mais perigosa. Podem usar macrodados (Big Data) para saber o que provavelmente fará no futuro. Eles sabem, antes de você, se ficará doente, se se divorciará, se mudará de sexo… qualquer coisa.

A única coisa que impede as empresas de explorar essa capacidade é o medo da lei ou seu sentido ético. Mas até o momento não as vejo preocupadas com nenhum desse aspectos.

Frequentemente nos chegam notícias de novos protótipos robóticos que fazem piruetas e se movem com incrível agilidade por terrenos acidentados. Qual é, na sua opinião, a característica humana que os robôs nunca poderão adquirir ou imitar?

É precisamente esse o tema de dois dos meus livros, de modo que talvez possa responder um pouco mais brevemente. Que significa ser humano? Podemos ver isso da perspectiva da consciência, da inteligência, da biologia, da espiritualidade, da arte ou do amor? Em que diferem os humanos dos animais em cada um desses aspectos, como diferem dos computadores? Como você pode ver, é um grande conjunto de problemas.

Penso haver uma diferença entre informática e pensamento. Creio que os computadores podem resolver muitos dos problemas que um cérebro humano pode resolver, mas não creio que sejam conscientes de que estão resolvendo os problemas, do mesmo modo que uma pá não sabe que está cavando. Então, quando decidimos substituir a humanidade por computadores, temos que perguntar: por que se incomodar, se as máquinas nem sabem que estão lá?

No início dos anos 1990, em São Francisco, você foi testemunha de como surgiu a cultura rave, junto com o otimismo tecno e a espiritualidade psicodélica. A promessa parecia ser de que a tecnologia e os valores do humanismo se uniriam, numa simbiose promissora. Como crê que poderíamos voltar ao ethos original desse renascimento digital, sem que ele implique um retiro perpétuo nas montanhas ou o ingresso numa espécie de idade pré-digital?

O mais provável é que façamos isso por necessidade. Simplesmente seremos pobres demais para participar desta sociedade industrial digital. Precisaremos de casa e comida, e para isso teremos de voltar a aprender os conceitos básicos. Isso nos fará trabalhar com nossas mãos e com as outras pessoas. Aprenderemos a trabalhar juntos. Olharmo-nos nos olhos, tomar decisões juntos e colaborar.

A outra possibilidade é que a geração que cresce agora simplesmente compreenda que os humanos estão à beira da extinção, e que a sobrevivência requer desconectar-se dessas máquinas, acabar com a escravidão adotada para fabricá-las e romper com o controle mental que nos liga a elas.

Que papel teriam os artistas e os humanistas nesse renascimento digital?

Os artistas rompem mitos. Ao admitir que o que fazem é artifício, revelam o artifício à sua volta. Seu papel sempre foi explorar o significado de nossa existência: romper as ilusões que se colocam no caminho, sejam elas o medo, o mercado, a dominação ou as leis. A arte pode ajudar a nos demonstrar que os humanos são especiais, inexplicáveis e dignos de existir. Que há neste mundo algo além do valor utilitário. Que o mundo é mais complexo do que aquilo que nossos cálculos algum dia resolverão. Penso que os humanistas são os que tentam convencer-nos de que nossa arte realmente possui essa capacidade. Essa arte verdadeira é mais que entretenimento ou cuidados paliativos. Essa arte é o caminho a seguir.

Ver o original em 'Outras Palavras' na seguinte ligação:

https://outraspalavras.net/capa/maquinas-digitais-hora-de-desconectar/

 

Internet: o curiosíssimo pacote cubano

Na ilha, o acesso à rede é precário — mas a criatividade, enorme. Por isso, um imenso volume de publicações e softwares, renovado semanalmente, circula por todo o país

Por Leonardo Foletto, editor do site Baixa Cultura

Quatro anos atrás hospedei em minha casa por alguns dias um programador cubano, que veio a Porto Alegre para um evento internacional de software livre, o FISL. Ele aproveitou a ocasião também para acompanhar alguns jogos da Copa do Mundo de 2014; depois de Porto Alegre, andou por várias outras cidades do Brasil, inclusive esteve no Rio de Janeiro quando ocorreu a final, aquele Alemanha X Argentina vencido pela primeira com um gol na prorrogação. Trouxe uma mala grande, carregada com roupas para uma estada longa e também com algumas lembranças de seu país, entre elas algumas garrafas de rum para presentear seus anfitriões. Festeiro e alegre como boa parte dos cubanos que conheci, adorava sair pra dançar à noite; nos “aquecimentos” em nossa casa, ensinava a fazer mojitos com o rum que trouxe, completados com açúcar, água com gás e muita “hierbabuena” – hortelã em espanhol.

Além da bagagem física, ele também carregava uma bagagem considerável de arquivos em seu HD. Compartilhava com quem quisesse seu acervo: mais de 10 GB de música e outros tantos de filmes cubanos. Ainda que tivessem alguns clássicos de fácil circulação na internet, boa parte era material raro de conseguir, músicas e filmes que não estão no YouTube ou em outro serviço de streaming, e que talvez só seja encontrado na internet em clubes de download via torrent, ainda os melhores espaços para se baixar qualquer coisa na rede. O fato da velocidade de conexão em Cuba ser muito lenta torna bem mais difícil o compartilhamento de arquivos online e na “nuvem”, um dos motivos pelos quais nosso amigo programador usou constantemente nossa (meia boca) internet, à época de 15 MB de velocidade de transmissão de dados, para baixar os mais diversos arquivos enquanto esteve em casa.

Soube depois, conversando com ele, que carregar arquivos digitais em pastas (em pendrives, HDs, etc) para compartilhar é um hábito comum em Cuba, onde a rede é acessado por uma minoria do país: algumas estimativas internacionais falam em 5% de pessoas com acesso na ilha em casa, enquanto que a “Oficina Nacional de Estadística de Cuba” disse que, em 2014, eram 27% de pessoas com acesso. Mesmo para estes 5%, o acesso ainda é lento e caro: na maioria das casas, a velocidade é 56 kbits, como nos velhos modens dos anos 1990, e há restrições de horas (a de meu amigo cubano, por exemplo, é de 30h por mês). Há zonas de wifi públicas presentes em algumas das principais cidades cubanas e cybercafés públicos, mas ambos são caros: dados de 2016 dizem que a primeira saía em torno de US$2 dólares por hora e o segundo entre US$6 e 10 por hora – sendo que o salário médio no país gira em torno de U$$20 mensais. As torres de dados para telefonia móvel estão sendo implantadas e, por enquanto, o acesso ocorre apenas para algumas pessoas do governo ou de (poucas) instituições privadas, segundo me contou o programador da ilha. Mas a tendência é que isso mude nos próximos anos.

TEXTO-MEIO

A realidade de pouca e lenta conexão na ilha ajudou a manter por lá o hábito do compartilhamento físico, offline, de arquivos dos mais variados. Um dos principais arquivos digitais compartilhados da ilha é o chamado “El Paquete Semanal“, um pacote de quase 1 TB (contendo entre 15 e 18 mil arquivos) distribuídos toda semana ao redor do país com softwares, esportes, telenovelas, desenhos animados, mangás, películas, videogames, músicas, revistas e muito outros conteúdos que a internet traz. “É a melhor maneira de estar atualizado offline” me disse, meses depois, o amigo cubano.

São dois os modos mais comuns de receber o material de “El Paquete”. O primeiro é pagar entre U$1 e U$2 (ou CUC, o peso convertible cubano, usado mais por turistas — diferente do CUP, o peso cubano usado no dia a dia). Recebe-se em casa, toda semana (segunda ou terça, dependendo da cidade), alguma pessoa com os arquivos em HDs portáteis ou em memórias flashs (cartões de memórias de máquinas fotográficas, por exemplo). Cada um copia para seu próprio computador o que escolher. A outra forma é comprar nas mais diversas lojas pelo país, especialmente a de aparelhos para smartphones, que revendem para outros clientes. Daí o conteúdo espalha de mão em mão, tal qual um arquivo na internet, mas offline.

No site de “El Paquete” é possível ver uma lista detalhada dos arquivos de cada semana, divididos por pastas e sub-pastas; na da segunda semana de março de 2018, por exemplo, havia 5 GB de documentários, curtas, novelas e longas cubanos em “Cinemateca Cubana”; quase 4 GB de aplicações para Android e Iphone em “Aplicaciones para Móviles”; 20 GB em “Música MP3 2018”, com sub-pastas como “Top UK 40 Singles”, “Unreleased Puerto Rico”, “Temas de Estreno Internacionales”, “Top de Febrero”, entre outras; 30 GB de séries de países de língua inglesa em “Series en Transmision”, de “Outlander” a “Grey’s Anatomy”, de Law & Order” a “Arquivo X”; 4 GB de revistas em inglês e espanhol, atualizadas semanalmente; entre muitos outros arquivos – lembrando que é quase 1 TB, a capacidade média de boa parte dos HDs que vêm nos computadores portáteis hoje vendidos. [Para atualização, confira aqui o pacote de hoje, 27/8]

Além destes, “El Paquete” traz também os arquivos de um mercado digital chamado Revolico, que funciona de modo semelhante ao Craigslist: as pessoas compram e vendem todo tipo de coisas, de bicicletas à aulas de matemática, incluindo o próprio acesso à Internet a um preço com desconto. É considerado o principal espaço de classificados de Cuba, mas tem uma particularidade: é oficialmente bloqueado na ilha desde 2007, quando foi começado por expatriados cubanos na Espanha. Ainda assim, alguns conseguem acessar porque os fundadores do site criaram uma série de servidores proxy, soluções de DNS, endereços web privados e espelhos que mantêm o site no ar em Cuba – há, inclusive, seções inteiras sobre o como acessar o site no próprio Revolico.

Os que não conseguem, que são a maioria dos usuários, baixam os arquivos de “El Paquete” e depois usam offline. Uma vez baixado do pacote, Revolico pode ser navegado normalmente em um navegador da Web, de modo que você poderá entrar em contato com os vendedores a partir de um telefonema, assim como faria se encontrasse o anúncio em um jornal. Em uma reportagem da Vice de 2015, um artista cubano que vive em Havana e consome o “El Paquete” diz que o Revolico é conhecido por todos no país, e é essencial para muita gente.

Não há informação precisa sobre quantos pacotes são distribuídos semanalmente. Até pouco tempo atrás, não se conhecia publicamente os distribuidores dos pacotes. Muitos perguntam como, semanalmente, é possível baixar 1 TB de arquivos com a conexão lenta que existe em Cuba; alguns já especulam que ele vem diretamente dos Estados Unidos. Neste vídeo, produzido em 2015 pela CiberCubaTV, “El Transportador”, conhecido como criador de “El Paquete”, dá mais detalhes de como funciona o esquema.

A realidade de uma internet lenta e de pouca penetração não explica sozinha, claro, a escala e o alcance de “El Paquete”. No início dos 1970, cerca de dez anos após a revolução cubana e a nacionalização dos meios de comunicação social, uma economia baseada no aluguel de material de entretenimento começou a florescer em escala na ilha. Com o desenvolvimento de novas mídias, o comércio se adaptou: passou de revistas para as fitas de vídeo VHS e Betacam, depois CDs, VCDs e DVDs e hoje os HDs e pendrives. O Pacote Semanal é o resultado do desenvolvimento gradual dessas redes por mais de quatro décadas.


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Ver o original em 'Outras Palavras' na seguinte ligação:

https://outraspalavras.net/mundo/america-latina/internet-o-curiosissimo-pacote-cubano/

 

Toda a gente mente

«A verdade é que toda a gente mente. Nos inquéritos, em entrevistas e nas restantes formas de expressar opinião sobre os mais diversos assuntos. Mentimos aos amigos, aos namorados, aos médicos, aos sondageiros e a nós próprios. Mas se, até recentemente, mentíamos correndo poucos riscos de sermos apanhados, agora, com a utilização que damos aos motores de buscas, somos facilmente apanhados pela verdade. E esta é, em muitos aspetos, bem diferente do que imaginamos ou desejamos. É esta a asserção de partida do estimulante livro do analista de dados Seth Stephens-Davidowitz, “Everybody Lies”. A chave do livro está, aliás, no subtítulo: “O que a internet nos pode dizer sobre quem na realidade somos”.
Se, até recentemente, o conhecimento sobre os nossos comportamentos sociais, políticos ou a nossa psique assentava em estudos qualitativos com pequenas amostras e métodos indiciários ou análises quantitativas, mas cuja validade dependia sempre da forma como quem era inquirido respondia, com a big data vivemos uma verdadeira revolução coperniciana. O Google, por exemplo, foi criado para facilitar o acesso à informação, mas transformou-se num repositório infindável de conhecimento sobre quem de facto somos. Isto porque revelamos nas nossas buscas aspetos que não contamos de forma franca a mais ninguém.
Explorando as buscas no Google, mas, também, em motores de busca de pornografia, assim como o que é revelado nos perfis nas redes sociais, a título de exemplo, Stephens-Davidowitz confirma preconceitos e desafia mitos arreigados sobre posicionamentos políticos (os estudos de opinião davam a vitória a Hillary, mas bastaria ter atentado nas buscas com pressupostos racistas para antecipar a vitória de Trump nas circunscrições decisivas); sobre preferências clubísticas (um preditor de quem apoiamos em adulto é a equipa que venceu no ano em que completámos oito anos); ou sobre sexualidade (os fãs de Judy Garland no Facebook têm forte inclinação por sites gay e as mulheres são particularmente propensas a vídeos com sexo violento).
O propósito de Stephens-Davidowitz é suportar com evidência apelativa e contraintuitiva que a big data abre uma porta radicalmente nova para o conhecimento de quem somos, revelando uma sociedade diferente da propalada nos media e por académicos. Mas se este admirável mundo novo do conhecimento deve ser encarado com ceticismo (a forma como os algoritmos, ao restringirem as nossas escolhas e margens de liberdade, são, de facto, armas de destruição em massa), acaba, também, por demonstrar que as grandes hipóteses aventadas pelos mais marcantes pensadores sociais, sobre as determinantes materiais dos nossos comportamentos (Marx), o poder, a sexualidade e a infância (Foucault e Freud) ou a ação social (Weber e Durkheim) revelam-se bastante robustas, mesmo perante novas e insondáveis revelações.»
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Leia original aqui

O Fórum Económico Mundial alerta que a “Inteligência Artificial” pode desestabilizar o sistema financeiro

Um tema inédito em odiario.info: informações sobre a crescente utilização de processos de automatização electrónica capazes de auto-aprendizagem e de serviços “em nuvem” poderiam tornar mais vulnerável o mundo financeiro. O capital fictício assume um novo espaço virtual, e os especialistas do WEF receiam os ciber-riscos que daí decorrem. O capitalismo incorpora as mais avançadas tecnologias em termos de tal complexidade que colocam o risco de um colapso. Não é uma má perspectiva.

A Inteligência Artificial (IA) irá reconfigurar o mundo da finança no decurso da próxima década através da automatização do investimento e de outros serviços – mas poderá também introduzir preocupantes debilidades sistemáticas e riscos, segundo um novo relatório[1] do Fórum Económico Mundial (WEF).

Compilado através de entrevistas com dezenas de destacados peritos financeiros e dirigentes industriais, o relatório conclui que a inteligência artificial irá provocar rupturas na indústria ao permitir que quem a adopte mais cedo supere estrategicamente os seus competidores. Sugere também que a tecnologia irá criar produtos mais convenientes para consumidores, tais como ferramentas sofisticadas para a gestão de finanças e investimentos.

Mas, de forma mais relevante, o relatório aponta o potencial de as grandes instituições financeiras construírem serviços baseados em meios electrónicos com capacidade de auto-aprendizagem que vivem “na nuvem” e podem ser acedidos por outras instituições.

“As dinâmicas de meios electrónicos com auto-aprendizagem criam um forte incentivo para o escritório de apoio em rede,” diz o principal autor do relatório, Jesse McWaters, que chefia a AI no Projecto de Serviços Financeiros do WEF. “Um mundo mais em rede é mais vulnerável a riscos de ciber-segurança, e cria também riscos de concentração.”

Por outras palavras, sistemas financeiros que incorporam auto-aprendizagem por automação electrónica e são acedidas através da “nuvem” por muitas instituições diferentes podem surgir como um apetitoso alvo para hackers, e um ponto nodal de falha sistémica.

Wall Street está já a adoptar com rapidez a auto-aprendizagem por meios electrónicos, a tecnologia no centro do boom da IA. As empresas financeiras têm em geral um grande volume de dados e muito incentivo para inovar. “Hedge funds” e bancos estão a contratar investigadores em AI o mais rapidamente que conseguem, e a industria financeira está a ensaiar em grande a automatização do escritório de apoio. A automatização do comércio de alta frequência criou já riscos sistémicos, como ficou visível em numerosos eventos de comércio fora de controlo[2] ou “crashes-relâmpago” em anos recentes.

Andrew Lo[3], professor na Sloan School of Management do MIT, investiga o tema do risco sistémico no sistema financeiro, e alertou já[4] para que o sistema no seu conjunto pode estar vulnerável em resultado da sua própria complexidade.

O relatório do WEF levanta também outras questões. Diz que as grandes empresas tecnológicas irão ter a oportunidade de se inserir na finança, frequentemente através de associações com empresas financeiras[5] , devido tanto à sua especialização em IA como ao acesso de que dispõem de dados dos consumidores.

McWaters diz ainda que à medida que a IA se torna mais amplamente utilizada na finança, será necessário tomar em consideração outros assuntos tais como os algoritmos concebidos de forma distorcida, que possam exercer uma discriminação contra certos grupos de pessoas. As empresas financeiras não deveriam também estar muito ansiosas em simplesmente substituir pessoal, diz McWaters. Tal como o relatório sugere, as aptidões humanas permanecerão importantes mesmo quando a automatização se tornar mais generalizada.

Fonte: https://www.technologyreview.com/s/611890/the-world-economic-forum-warns-that-ai-may-destabilize-the-financial-system/?utm_source=MIT+Technology+Review&utm_campaign=c1db7c6a43-weekly_roundup_2018-08-16_edit&utm_medium=email&utm_term=0_997ed6f472-c1db7c6a43-154826429&goal=0_997ed6f472-c1db7c6a43-154826429&mc_cid=c1db7c6a43&mc_eid=d1762c0ec8[6]

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