México

Quem tem medo de Alfredo Jalife?

 

A web e a imprensa mexicana se inflamaram por causa do Professor Alfredo Jalife-Rahme, que nós publicamos há quinze anos.

De acordo com uma carta aberta ao Chefe de Estado, Andrés Manuel López Obrador (AMLO), de 120 intelectuais de extrema-direita neoliberal (incluindo o ex-Promotor Morales Lechuga, corrompido por El Chapo, e o ex-Chanceler Castañeda Gutman do conselho de administração do Stanford Bank, ligado ao Cartel do Golfo), Alfredo Jalife seria uma personalidade «pregando um discurso de ódio» de quem ele não deveria aproximar-se, acima de tudo.

O canal do YouTube Jalife-Rahme, criado em 2013, é assistido por mais de 200.000 inscritos e suas conferências mensais são vistas por quase um milhão de internautas.

Alfredo Jalife é um médico, membro fundador da Associação Internacional de Médicos para a Prevenção da Guerra Nuclear, que recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 1985. Ele é agora professor de geopolítica na UNAM (Universidade Nacional Autônoma do México) e colunista em vários jornais, entre os quais o mais lido em língua espanhola (castelhano- ndT) no mundo, La Jornada. Ele é incontestavelmente reputado como o melhor geopolitólogo da América Latina.

Seus laços com o novo Presidente mexicano são conhecidos de todos. Andrés Manuel López Obrador prefaciou sua obra La desnacionalización de Pemex (Orfila, 2009), revelando o modo como os Estados Unidos assumiram o controle do petróleo mexicano e obtiveram, assim, a autossuficiência em matéria de energia.

A posição de Jalife sobre a privatização da eletricidade, valeu a sua esposa ser ameaçada de morte, de revólver na mão, por três guarda-costas do antigo Chanceler (Ministro-pt) Jorge Castañeda Gutman (o homem de George Soros no México), durante o governo de Vicente Fox. O México é o país do mundo onde, nos últimos anos, os assassinatos políticos foram mais frequentes.

O Professor Jalife-Rahme é conhecido por ter denunciado inúmeros escândalos de corrupção, entre outros, incluindo aqueles envolvendo vários bancos israelenses (israelitas-pt) ou comunitários, como o grupo financeiro MIFEL. É sua atividade para defender a probidade pública que lhe vale hoje a acusação de pregador de ódio.

O Presidente Andrés Manuel López Obrador (AMLO) declarou a seu respeito que é uma «pessoa muito boa» (muy buena persona).





Ver original na 'Rede Voltaire'



Mais um golpe em marcha

O Império não pode permitir que um homem da estatura de Andrés Manuel López Obrador liberte do seu jugo um povo com uma cultura tão própria e, tão genuína que o esmaga.

Crime de lesa Império
Neste 1º de Maio AMLO anunciou um documento histórico, a publicação no Diário Oficial da reforma laboral.
“A democracia e a liberdade não tinham chegado ao mundo do trabalho”
E O NEOLIBERALISMO TAMBÉM NÃO TINHA SIDO POSTO EM CAUSA image
BASTARAM CEM DIAS DE GOVERNO DE UM PRESIDENTE DIGNO PARA QUE O IMPÉRIO SE FIZESSE OUVIR EXIGINDO A SUA RENÚNCIA.

Ver o original em As palavras são armas (clique aqui)

AMLO responde Trump: 'não vamos cair em nenhuma provocação'

Andrés Manuel López Obrador, presidente de México
© AP Photo / Marco Ugarte

O presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, conhecido como AMLO, disse nesta quarta-feira estar a par das queixas do presidente dos EUA, Donald Trump, e prometeu analisar a situação na fronteira entre os dois países.

Nesta quarta-feira, Donald Trump afirmou em sua conta no Twitter que tropas mexicanas ameaçaram com armas os membros da Guarda Nacional norte-americana. Por esse motivo, o presidente norte-americano afirmou que pretende enviar "soldados armados" para a fronteira com o México.

"Vamos analisar esse incidente, vamos levar em conta o que ele (Trump) está indicando, e vamos agir de acordo com a lei, dentro da estrutura da nossa soberania, mas o mais importante é dizer que não vamos lutar com o governo dos Estados Unidos ", disse López Obrador durante uma entrevista coletiva, ao comentar as declarações do seu colega dos Estados Unidos.

"Não vamos cair em nenhuma provocação. Digo ao presidente Donald Trump que queremos manter um relacionamento respeitoso e amigável com seu governo", acrescentou AMLO.


Segundo o presidente do México, o mais importante é manter "uma relação de respeito mútuo e de cooperação para o desenvolvimento".

"Assim como temos feito por vários meses, vamos continuar a agir para manter relações cordiais e positivas com o Governo e o povo dos Estados Unidos", destacou o chefe de Estado.

O governo de Donald Trump está realizando uma campanha de combate à imigração ilegal do território mexicano, e tem ameaçado fechar a fronteira sul ou impor tarifas sobre carros mexicanos importados para o país.

Uma das principais promessas eleitorais de Trump foi a construção de um muro na fronteira com o México.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019042413748906-amlo-trump-eua-mexico-fronteira/

Presidente mexicano promete 'instituto Robin Hood' para beneficiar o povo

Presidential candidate Andres Manuel Lopez Obrador, of the MORENA party, shows his ballot to the press before casting it during general elections in Mexico City, Sunday, July 1, 2018. Sunday’s elections for posts at every level of government are Mexico’s largest ever and have become a referendum on corruption, graft and other tricks used to divert taxpayer money to officials’ pockets and empty those of the country’s poor
© AP Photo / Moises Castillo

O presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, disse nesta segunda-feira que irá criar um instituto para devolver para "o povo" tudo o que for confiscado junto ao crime organizado e por atos de corrupção.

Obrador, que chegou ao poder capitalizando sobre o cansaço dos mexicanos pela corrupção generalizada, afirmou que um mecanismo para que a Procuradoria-Geral do país possa confiscar e liberar rapidamente os bens oriundos de crimes.

Assim, seria possível alocar os recursos provenientes de tais confiscos em escolas, hospitais ou asilos que precisam de investimentos.

"Vai ser um instituto, um Robin Hood, um Chucho 'El Roto' [apelido de Jesus Arriaga], mas contra os corruptos", ponderou Obrador em sua conferência de imprensa diária, referindo-se ao ladrão do folclore inglês que roubou os nobres para dar os oprimidos e um ladrão lendário mexicano do século XIX que ajudava os mais pobres.


A extinção de domínio é um mecanismo pelo qual o Estado pode perseguir os ativos de origem ilícita e declarar a perda do direito de mesma titularidade.

Obrador, que assumiu o cargo em dezembro 2018 para um período de seis anos, elevou a luta contra a corrupção como seu lema de governo e muitas vezes repetiu que esse crime não é tolerado, garantindo que ninguém apontado por possível corrupção pode trabalhar em sua administração.

O novo instituto vai depender do Ministério das Finanças, mas vai operar de forma independente e autônoma, completou o presidente mexicano.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019041513687787-mexico-robin-hood/

ODiario.info » Zapata nos tempos da “Quarta Transformação”

A reescrita da história tem sempre em vista um objectivo actual. É assim que no México de hoje o poder prossegue a velha linha de associar todos os participantes na revolução democrático-burguesa de 1910, metendo no mesmo saco revolucionários como Emiliano Zapata e homens que traíram a revolução como Francisco Madero.

Embora López Obrador insista em que lidera uma mudança de regime a verdade é que faz tudo pela restauração do velho regime, aquele que conhecemos como o governo PRI, ou seja, o que emergiu da revolução democrático-burguesa de 1910.
Por mais de 70 anos, o principal apoio da dominação estatal da burguesia foi a ideologia da Revolução Mexicana, uma posição política que postula que a Unidade Nacional é a força que permite o progresso do México. Em tal posição parte-se de uma versão da história em que o importante é a independência e soberania, e que no futuro esse objectivo unifica as diferentes classes acima dos antagonismos, ou seja apelando sempre à conciliação interclassista para explicar o passado e agir no presente e no futuro. Por isso é-lhes necessário coloca dentro do mesmo processo e com os mesmos fins Zapata e Villa juntamente com Madero, Carranza, Obregon, Calles e Cárdenas, ainda que, como sabemos, na guerra civil de 1910-1919 expressassem diferentes interesses de classe, e embora tenham lutado contra um inimigo comum (Porfirio Díaz e depois Victoriano Huerta) lutaram também entre si, porque tinham objectivos irreconciliáveis.
Lopez Obrador apoia-se nessa visão da história, e tem os mesmos fins que a burguesia do regime anterior que diz negar mas que restaura a cada passo: apaziguar o conflito socioclassista e oferecer a paz social como principal garantia aos monopólios para um período de estabilidade e de lucros.
Passa em 10 de Abril 100 anos sobre o assassínio em Chinameca de Emiliano Zapata, chefe político e militar do Exército Libertador do Sul, expressão do campesinato e dos povos indígenas e uma das alas radicais da revolução democrático-burguesa. O governo de López Obrador procura institucionalizar esse acontecimento para integrar Zapata no panteão da Unidade Nacional. Mas é também sabido que López Obrador reivindica Madero como um de seus principais exemplos.
Quando se tratava de derrubar a ditadura de Porfirio Diaz, instalada por mais de três décadas, todas as forças de oposição reconheceram a chefia de Francisco I, Madero, mas uma vez que este chegou à presidência da República o exercício do governo demonstrou que não expressava uma mudança social e começaram os desacordos, pois eram necessárias mudanças profundas para deixar para trás o México Bárbaro, onde a terra estava concentrada num punhado de proprietários de terras e as condições de trabalho da classe operária eram asfixiantes, os grandes problemas nacionais exigiam soluções radicais e não a saída moderada de Madero, que procurava mudar tudo sem mudar nada. E uma das forças que confrontou Madero foi a do zapatismo, e Madero enviou o exército para o combater.
Os revolucionários sulistas foram condenados, inclusivamente por outras forças revolucionárias que pensavam que havia que dar algum tempo a Madero, mas proclamaram o Plano de Ayala para o derrubar. ..”e tal como levantámos as nossas armas para o elevar ao poder, agora voltamo-las contra ele por faltar aos seus compromissos com o povo mexicano e de ter traído a revolução iniciada por ele: Não somos pessoalistas, somos partidários de princípios e não de homens.”
Ignorar as profundas contradições entre Madero e Zapata e procurar integrá-los numa única visão significa trair os ideais revolucionários do zapatismo.
Que López Obrador escolha Madero e deixe Zapata em paz. Porque López Obrador, tal como Madero, as forças revolucionárias e rebeldes do presente confrontam-nos, e as que ainda estão na dúvida, pouco a pouco irão ver que interesses representa.
Insistimos, não se esqueça, o Plano de Ayala foi proclamada em 28 de Novembro de 1911, e foi-o contra Madero, quando este era já presidente, porque a luta não era apenas contra a ditadura, mas também contra os fracos que prometem mudanças e acabam impedindo-as .
Reivindicar e procurar institucionalizar o zapatismo enquanto se impulsiona o Projecto Integral Morelos, as ZEE, o Comboio Maya, o T-MEC, aproxima-os mais de Guajardo mesmo que proclamem que 2019 é o ano de Emiliano Zapata. López Obrador alinha com os que executaram Zapata em 10 de Abril de 1919.

Pável Blanco Cabrera é o Primeiro Secretário do Comité Central do Partido Comunista do México

Fonte: http://www.rebelion.org/noticia.php?id=254651

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References

  1. ^ endereço (www.odiario.info)
  2. ^ odiario.info (odiario.info)

Ver o original em ODiario.info (clique aqui)

México não assina declaração do Grupo de Lima pedindo renúncia de Maduro

O Governo do México decidiu não apoiar a declaração Grupo Lima sobre a Venezuela em respeito à "autodeterminação dos povos". A posição foi apresentada pelo subsecretário Maximiliano Reyes Zúñiga, encarregado da América Latina e o Caribe da chancelaria mexicana.

"O Governo do México, seguindo fielmente os seus princípios constitucionais de política externa, irá se abster de emitir qualquer decisão sobre a legitimidade do governo venezuelano. A autodeterminação e a não-intervenção são princípios constitucionais que o México deve seguir", disse Zúñiga na reunião do Grupo Lima de acordo com um comunicado do Ministério das Relações Exteriores do México.

Zúñiga participou da reunião de chanceleres do grupo, realizada na capital peruana, ao invés do ministro das Relações Exteriores, Marcelo Ebrard.

Ele acrescentou que "a promoção do diálogo entre as partes para encontrar uma solução pacífica para a situação na Venezuela continuará a ser uma prioridade da política externa do México, portanto, desta vez o México não irá acompanhar o texto agora está sendo discutido".


No entanto, Zúñiga disse aos chanceleres que o México "reitera a sua preocupação com a dinâmica que alterou a paz e a prosperidade do povo venezuelano e a situação relativa ao respeito pelos direitos humanos que existe".

Na declaração desta sexta-feira (4) do Grupo Lima, os 13 países signatários indicam que não reconhecem a legitimidade do novo mandato presidencial de Nicolás Maduro na Venezuela.

Os governos do Peru, Argentina, Brasil, Canadá, Colômbia, Costa Rica, Chile, Guatemala, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Santa Lúcia pediram a Maduro não assumir a presidência da Venezuela em 10 de janeiro e transferir o Poder Executivo à Assembleia Nacional (parlamento unicameral com uma maioria de oposição) até que novas eleições democráticas sejam realizadas.

O México foi o único país membro do Grupo Lima que não assinou a declaração.

O Grupo de Lima também expressou sua "profunda preocupação com o êxodo em massa de migrantes e requerentes de asilo resultante da grave crise política e humanitária naquele país".


Da mesma forma, os países signatários anunciaram que vão reavaliar suas relações diplomáticas com a Venezuela, "em função da restauração da democracia e da ordem constitucional naquele país".

Eles também concordaram em impedir a entrada em seus territórios aos altos funcionários do governo venezuelano e estabelecer sanções financeiras a indivíduos e empresas ligadas ao Executivo desse país.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019010513048566-mexico-grupo-de-lima-declaracao-nao-assina-venezuela/

Presidente do México promete aumentar produção de petróleo estatal em 45% até 2025

Logo da Pemex
© AFP 2018 / Omar Torres

O presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, afirmou neste sábado (15) que pretende aumentar a produção de petróleo da estatal Pemex em 45% antes de 2025.

A meta, segundo ele, é produzir 2,4 milhões de barris ao dia, ante o 1,65 milhão de barris produzidos diariamente hoje. Anteriormente, López Obrador já havia dito que planeja investir 75 bilhões de pesos (US$ 3,65 bilhões) na Pemex.


A companhia passa por dificuldades para conseguir recursos adicionais devido a altos impostos, roubos de combustíveis e outras ineficiências.

López Obrador descreveu seu plano de "resgatar" a indústria de petróleo como "realista" e reiterou a promessa de mover a sede da Pemex da capital para a Ciudad del Carmen.

O presidente mexicano assumiu o cargo no primeiro dia de dezembro deste ano. 

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2018121512915934-mexico-obrador-promete-aumentar-producao-petroleo-45-pemex/

Um grande passo em frente

Ler (aqui) e mais (aqui)
Cidade do México
12 de dezembro de 2018
AMLO (Andrés Manuel López Obrador) não prometeu decretar o socialismo, prometeu sim, reformas sociais que estão a ser cumpridas, e não são de subestimar.
Pedindo o apoio de pais e professores, - não podemos avançar sem o vosso apoio - fez descer à Câmara de Deputados, um dos seus compromissos: Ensino gratuito a todos os níveis educativos.
López Obrador reiterou o seu compromisso para que todos os jovens possam cursar o bacharelato e ingressar na universidade, assegurando que os professores nunca mais serão ofendidos.

Leia original em "As Palavras São Armas" (clique aqui)

“Com o povo tudo, sem o povo nada”

López Obrador e um discurso memorável:

“Com o povo tudo, sem o povo nada”

«Não deixemos de nos encontrar: mantenhamos sempre a comunicação. Não haverá divórcio entre povo e governo. Eu necessito de vós, porque como dizia Juárez “com o povo tudo, sem o povo nada”. Não me deixem só, porque sem vós não valho nada, ou quase nada. Sem o povo, os conservadores facilmente me subjugariam. Peço o vosso apoio, porque reitero o compromisso de não vos enganar; antes morto que trair-vos.»

Leia original em "As Palavras São Armas" (clique aqui)

MÉXICO ROMPE COM O NEOLIBERALISMO

O discurso de Lopez Obrador no dia 1 de Dezembro marca uma ruptura com o neoliberalismo que devastou o México nas últimas décadas. Pronunciado na Praça do Zocalo, na presença de dezenas de milhares de pessoas e durante mais de duas horas, o novo presidente mexicano reafirmou as suas ideias quanto à regeneração do México, ao combate à corrupção e à governação junto com o povo e não contra ele. 

Das 100 medidas que preconizou, algumas são simbólicas (venda do avião presidencial, entrega do palácio à comunidade;...), outras sociais (duplicação do salário-mínimo; redução dos altos salários e aumento dos baixos na função pública; publicação na Internet das folhas de pagamento com as remunerações de todos os funcionários do Estado, inclusive o presidente;...) e outras ainda que podem ser caracterizadas como nacional-desenvolvimentistas (ferrovia Maia no sul do México a ligar o Pacífico ao Atlântico; aumento da produção de petróleo sem recorrer ao capital estrangeiro; incentivos fiscais para criar um "filtro" junto à fronteira com os EUA, numa faixa de 5 km, a fim de instalar ali indústrias que absorvam mão-de-obra e dissuadam os paisanos a transpô-la para o lado estado-unidense; proibição de sementes transgénicas;...). 

O tom do seu discurso foi sincero e até emotivo, mas não falou em nacionalizações nem mencionou o socialismo. A sua tarefa será ciclópica num país devastado por 30 anos de neoliberalismo e corroido pelo narcotráfico. Se Lopez Obrador conseguir cumprir a metade das suas 100 medidas fará uma obra notabilíssima.

Resistir.info

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2018/12/mexico-rompe-com-o-neoliberalismo.html

México: Os projectos e os desafios da esquerda

Laila Porras [*]

Pela primeira vez na História recente, e depois de trinta anos de neoliberalismo, a esquerda [NR]chegou ao poder em 1 de Dezembro de 2018, depois de vencer as eleições presidenciais em Julho passado com 53% dos votos. O movimento político criado por Andrés Manuel López Obrador (AMLO), chamado MORENA (Movimiento de Regeneración Nacional), obteve uma vitória esmagadora, não só com a eleição presidencial, mas também com a maioria absoluta em ambas as câmaras, e com a vitória de cinco governadores, da qual (a vitória) mais importante é a da Cidade do México, ganha por uma mulher, Claudia Scheimbaum. Num país assolado pela violência e com metade da população a viver abaixo da linha da pobreza, com desigualdades insustentáveis, corrupção endémica e uma impunidade, que faz com que mais de 90% dos delitos não sejam assinalados, devido à falta de confiança nas instituições judiciais, a chegada da esquerda neste país, está repleta de esperança e de imensas expectativas. AMLO, como os mexicanos costumam chamar a este lutador de longa data (é necessário recordar que esta é a terceira vez que ele concorre às eleições, incluindo a de 2006, que foi muito contestada por suspeitas de fraude) elaborou durante anos, um programa governamental detalhado, designado como "a 4ª transformação" do país. No entanto, será confrontado com enormes desafios e com fortes pressões internas e externas.
Os grandes projectos AMLO – grande conhecedor da História do seu país – inscreveu "a quarta transformação" na longa história da vida política do México. Trata-se, acima de tudo, de um projecto de fundar novamente a política do Estado mexicano através do saneamento e da reconstrução do tecido institucional [1] . Uma grande reforma da constituição actual está prevista com a proposta de novas leis e instituições para combater a corrupção e melhorar o sistema de justiça. Por exemplo, incriminar como delitos graves os casos de corrupção, criar uma nova guarda nacional, redigir uma "constituição moral", perdoar e amnistiar aqueles que cometeram crimes de fraude e corrupção no passado; libertar as pessoas que cometeram delitos menores e despenalizar certas drogas. "A quarta transformação" é, igualmente, um projecto de modernização económica do país, com propostas de grandes obras de infraestrutura e transporte, tais como o desenvolvimento dos transportes ferroviários, especialmente no sudeste do país (a região mais atrasada), a criação de refinarias e um forte impulso à agricultura. Mas é, também, um projecto de solidariedade social e de ajuda aos mais pobres: espera-se um forte apoio, principalmente, aos jovens e aos idosos através de vários programas de bolsas de estudo e pensões sociais, bem como a criação de universidades (uma centena!) e hospitais. Por outro lado, AMLO pretende reduzir significativamente as desigualdades: já reduziu para metade, o salário do presidente e já foi aprovada uma lei que proibe qualquer funcionário público de ganhar mais do que o presidente. É preciso saber que, no México, o país campeão das desigualdades, alguns juízes do Supremo Tribunal de Justiça ganham cerca de 25 mil euros por mês... Os deputados de Morena estão a estudar uma a proposta de lei para aumentar, de maneira radical, o salário mínimo para que fique acima do limiar de pobreza actual. É necessário saber que o salário mínimo perdeu mais de 70% do seu valor real desde a década de 1970 e que ele representa 20% do salário médio, ou seja, em termos relativos, essa relação é a menor, não apenas nos países da OCDE, mas também nos países da América Latina. Uma das principais propostas "da quarta transformação" diz respeito à maneira de governar com o objectivo de estabelecer uma "democracia participativa". Deseja usar as modalidades de "referendo" e de "consultas populares" para os assuntos mais importantes e já realizou duas consultas públicas (uma sobre o cancelamento do projecto do novo aeroporto na Cidade do México, voltaremos a este assunto); e a segunda modalidade com 10 perguntas à população sobre propostas governamentais, incluindo um projecto de um comboio no sudeste do país; a modernização portuária; a reflorestação de parte do país; a construção de uma refinaria; a duplicação das pensões sociais para os idosos; a criação de um sistema de bolsas de estudo para milhões de jovens; um sistema de saúde gratuito para todos; bem como o acesso gratuito à internet em todo o país. Não é de surpreender que o resultado dessa consulta tenha dado origem a mais de 90% de respostas positivas. Os seus apoiantes vêem nessa prática uma revolução na maneira de governar para avançar em direcção a uma "verdadeira democracia participativa"; os seus adversários pensam que é uma política populista e denunciam uma "prática demagógica". Os desafios e as pressões  O presidente eleito tomará posse no sábado, 1 de Dezembro de 2018 (depois de cinco longos meses de espera), no entanto, ele tem estado tão activo que os comentadores consideram que o seu discurso, nesse dia, será a sua primeira avaliação de governo! Com efeito, vários assuntos foram abordados e discutidos, o mais controverso foi, provavelmente, o cancelamento do projecto do novo aeroporto da Cidade do México (NAICM), projecto que ele já havia criticado enquanto era candidato. A construção do novo aeroporto era um exemplo perfeito de absurdo ecológico e económico, beneficiando apenas um pequeno grupo de empresários da oligarquia, em detrimento da grande maioria dos mexicanos. Representantes das comunidades afectadas, geólogos e outros cientistas, bem como activistas ambientais, denunciaram a construção do NAICM e sublinharam que este projecto estava a provocar um ecocídio de dimensões extraordinárias. Andrés Manuel López Obrador decidiu realizar um referendo nacional, apesar das imensas críticas dos jornalistas próximos do poder e das organizações patronais. O "Não" ganhou, maioritariamente, essa consulta pública, o que não foi surpresa para ninguém, dado o nível de confronto social que o projecto gerou. Portanto, ele decidiu cancelar o projecto. No mesmo dia, o peso perdeu o seu valor, as agências de rating internacionais baixaram a categoria do país e foi observada uma fuga de capital. Seguiu-se uma avalanche de críticas da parte dos jornalistas e intelectuais próximos ao regime em funções, apelidando-o de retrógrado e até de "ditador". AMLO está consciente de que o seu programa vai contra o estatuto económico e financeiro e também conhece muito bem, o poder económico dos seus adversários. O caso do aeroporto é o mais falado, mas já houve outras cenas de conflito com a burguesia financeira nacional e internacional. Por exemplo, um projecto de lei lançado pelo seu partido já está a ser discutido no Congresso, para regulamentar os serviços dos bancos para os clientes - é bem sabido que, no México, os mesmos serviços bancários são muito mais caros do que os oferecidos pelas mesmas filiais dos bancos, em Espanha, para dar um exemplo. No mesmo dia, logo após essa notícia, observou-se outra desvalorização do peso. No entanto, não podemos esquecer que ele convenceu uma grande parte da comunidade empresarial a apoiá-lo no seu projecto, não apenas pequenos e médios empresários, mas também alguns líderes de grandes empresas como Alfonso Romo, empresário multimilionário no norte do país (Monterrey), que possui uma empresa 'holding' nos sectores das finanças, seguros e biotecnologia e, agora, é um conselheiro pessoal. Por esta razão, recusa-se criticar certos elementos do modelo económico neoliberal. Por exemplo, disse repetidamente, que nenhuma mudança seria feita no sistema tributário, que é amplamente favorável ao grande capital; continua a dizer que o equilíbrio das contas públicas é uma meta do governo e que nem o défice nem a dívida aumentarão no decurso do seu governo. Resta saber se essas declarações são mais uma estratégia para chegar e consolidar-se no poder com o apoio da classe média superior e conservadora, ou se está convencido de que os recursos económicos libertados pela luta contra a corrupção, bem como "a austeridade dentro do governo", serão suficientes para lançar este grande projecto nacional sem tocar em algumas fundações do modelo neoliberal. No entanto, é difícil acreditar que esta grande transformação do país, e especialmente a redução estrutural da desigualdade, seria possível sem mudar a estrutura da arrecadação de impostos - as receitas fiscais em percentagem do PIB estão agora entre as mais baixas da América Latina: 17% contra 32% no Brasil. Outro grande desafio é o relacionamento com os Estados Unidos: de facto, AMLO enfrenta uma nova configuração política desde a chegada de Donald Trump, que pretende continuar a renegociação do Tratado de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA ing./ALENA fr.). É quase certo que, independentemente do poder de negociação dos países, a tendência será em direcção a mais protecionismo. Parte da classe empresarial que se beneficiou enormemente com o NAFTA (agora conhecido como T-MEC) será, certamente, afectada (incluindo as indústrias de alta tecnologia, como a indústria automóvel, a aeroespacial e a electrónica). Mas como o desenvolvimento proposto por AMLO é um desenvolvimento baseado no aumento do padrão de vida da população e numa distribuição da riqueza mais equitativa, na autosuficiência alimentar, no aumento significativo dos salários, este desenvolvimento é consequentemente baseado na expansão do mercado interno. A renegociação do acordo de livre comércio pode, portanto, ser vista como uma oportunidade para essa mudança de estratégia do modelo neoliberal baseado no crescimento do sector da exportação para um modelo baseado no crescimento do mercado interno; seria também uma oportunidade de alargar as relações com seus vizinhos do sul e com outros parceiros comerciais. O segundo índice delicado nas relações com o seu vizinho do norte, é a gestão da crise migratória. De facto, milhares de pessoas da América Central decidiram juntar-se e caminhar em direcção aos Estados Unidos, através do México. "A caravana migrante" é composta por homens, mulheres e crianças que fogem à miséria e à violência nos seus países e procuram chegar aos Estados Unidos. Trump já enviou tropas para a fronteira e ameaçou o governo mexicano para parar a caravana ou fechar a fronteira. AMLO disse que os migrantes poderiam ficar no México e que encontrariam trabalho. É preciso dizer que o número de migrantes (cerca de dez mil) representa apenas uma pequena percentagem da população mexicana e, portanto, é verdade que os migrantes poderiam ser albergados no país. No entanto, uma parte significativa dessas pessoas não quer ficar no México por razões diferentes (os seus familiares já estão nos Estados Unidos, ou por desconfiarem do governo mexicano, etc). Por outro lado, um sector da sociedade mexicana manifesta a sua preocupação e descontentamento (chegando mesmo a posições radicais, racistas e xenófobas contra os migrantes) sobre a proposta de AMLO, dados os graves problemas de pobreza e de emprego, no país. Além do mais, não devemos esquecer que 53% das pessoas votaram em AMLO e esperam uma verdadeira mudança de curso e seria arriscado decepcioná-las. A pressão social interna é muito forte: de uma parte, vindo dos mais pobres -Os povos indígenas, por exemplo, que estão cada vez mais conscientes dos seus direitos, cada vez mais bem organizados e que travam uma batalha constante contra o governo vigente – até 1 de Dezembro – (e portanto, contra o modelo neoliberal) pela preservação do seu habitat, pelos seus costumes e pelo acesso a uma vida melhor; por outro lado, podemos falar sobre questões que atravessam toda a sociedade, uma sociedade que está cansada da violência, da insegurança económica e social, da corrupção e da impunidade, e que aguarda de AMLO, uma resposta concreta e soluções reais e a curto prazo. Com efeito, houve mais de 200 mil mortes violentas e 30 mil pessoas desaparecidas, na última década. O caso paradigmático é provavelmente o de 43 alunos desaparecidos, em 2014, no estado de Guerrero (com forte suspeita de assassinato e envolvimento conjunto do governo local, polícia, forças armadas e de um monopólio de droga). Mas, infelizmente, não é um caso isolado, é um exemplo entre milhares de outros: femicídios, assassinatos de jornalistas e activistas sociais, etc., que representam a prova da decomposição política, institucional e social do país. Uma fragilidade grave  Andrés Manuel López Obrador representa, hoje, uma grande esperança, especialmente, em duas frentes: a nível nacional, mostrou, ao chegar ao poder pela via democrática, que as grandes mudanças políticas podem ser construídas de maneira não violenta. Por outro lado, na América Latina, uma perspectiva optimista foi aberta em 1 de Julho e o México é visto como um refúgio de ideias progressistas neste continente que mudou a cor política, numa década, com os governos reaccionários e da direita na Argentina, no Chile e no Brasil, para não citar senão as principais economias. Mas os desafios e pressões que AMLO enfrenta são imensos. Não nos esqueçamos das palavras de Maquiavel: "Não há empreendimento mais difícil, mais duvidoso ou mais perigoso do que o de querer introduzir novas leis". As lições do caso brasileiro, que passou no espaço de uma década, da esquerda progressista nos anos 2000, para um governo de extrema-direita, devem alertar o novo governo mexicano e dar-lhe algumas pistas de reflexão sobre essa fragilidade. Conhecedor da "realpolitik", AMLO sabe muito bem que os seus inimigos desconfiam enormemente do seu novo governo e que eles têm um poder económico não desprezível, e tenta aliviar as tensões fazendo concessões como a criação de um Conselho de Empreendedores que o ajudariam a tomar decisões (comissão formada por uma parte da oligarquia); ou adiando decisões difíceis "por um período de três anos" como a proposta de mudança no sistema tributário ou a mudança nos objectivos do banco central (para incluir o pleno emprego e o crescimento e não, apenas, a estabilidade dos preços). Consciente da necessidade de uma aliança estratégica com os militares, reuniu todas as forças armadas e fez um discurso memorável para convidá-los a participar deste grande projecto de transformação nacional. É claro que este tipo de decisões é amplamente criticado por alguns intelectuais e jornalistas de esquerda e até mesmo por organizações internacionais de direitos humanos (Amnistia Internacional) que alertaram em particular sobre o fracasso das políticas destinadas a outorgar mais poder aos militares para liderar a luta contra o tráfico de estupefacientes (no México e noutros países). Andrés Manuel López Obrador, no entanto, deixou perceber muito claramente aos poderes reais que, hoje, ele é o Presidente: no dia da declaração do cancelamento do projecto do aeroporto, ele afirmou que não era "um jarrão decorativo", e mestre na manipulação de símbolos, podia-se ver sobre a sua secretária um livro cujo título era: Quem comanda aqui? 

01/Dezembro/2018

[NR] Seria mais rigoroso dizer "social-democracia" ao invés da caracterização genérica de "esquerda" utilizada pela autora. [1] As primeiras transformações referem-se aos três principais movimentos da História do México: o movimento de independência do país, entre 1810 e 1821, o movimento de "Reforma" em meados do século XIX, liderado por Benito Juárez, quando aconteceu a separação entre a Igreja e o Estado e, finalmente, o movimento de Revolução, no início do século XX, que extinguiu a ditadura de Porfirio Díaz. [*] Economista, investigadora associada ao LADYSS-Université Paris Diderot, Paris 7. Ver também: 
Foto Marco Pelaez / La Jornada
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2018/12/mexico-os-projectos-e-os-desafios-da.html

Será o Presidente mexicano, Enrique Peña Nieto, o líder do cartel de Sinaloa?

Na abertura do julgamento de «El Chapo» nos Estados Unidos, seu advogado disse que seu cliente não era o verdadeiro líder do cartel de Sinaloa. É «El Mayo» [foto] (o que ninguém contesta no México), que vive abertamente sob a proteção do Presidente do México, Enrique Peña Nieto.

Esta versão dos fatos, que surpreendeu o tribunal, nada tem de original. É uma hipótese frequentemente evocada pelos Mexicanos. Mas existem outras.

Toda a economia mexicana é baseada no comércio ilegal de drogas, que constitui, sem dúvida, a principal fonte de renda. No decurso dos últimos quinze anos, mais de 200.000 pessoas foram mortas, ou desapareceram, como resultado da guerra entre os cartéis ou da guerra contra eles. É, pois, impossível atuar na política sem ser apoiado por um ou outro cartel.

Esta situação só pode terminar com a liberação (liberalização-pt) de todo o mercado de drogas, como aconteceu no passado.

 

Ver original na 'Rede Voltaire'

México: o enigmático caminho de Lopez Obrador

Novo presidente assume em dezembro. Sua campanha foi claramente à esquerda; sua vitória um feito histórico. Mas por que ele fala tão pouco em integração latino-americana?

Por Immanuel Wallerstein | Tradução: Inês Castilho

Em 1º de julho de 2018, Andrés Manuel López Obrador, conhecido como AMLO por causa de suas iniciais, foi eleito presidente do México por uma margem expressiva. Recebeu 53% dos votos. Seus oponentes mais próximos foram Ricardo Anaya (do PAN), com 22%, e José Antonio Meade (do PRI), com 16%. Além do mais, sua aliança partidária, Morena, conquistou a maioria das cadeiras do legislativo.

Sua vitória foi comparada à de Lula no Brasil e à de Jeremy Corbyn, como líder trabalhista na Grã Bretanha. Mas Lula não chegou nem perto de ter a maioria dos votos, e sua ampla aliança partidária incluía grupos reacionários. Corbyn ainda está lutando para manter o controle do Partido Trabalhista britânico e, mesmo que tenha sucesso, enfrenta uma eleição difícil.

Ao contrário, AMLO tem provavelmente a vitória com maior margem jamais alcançada por qualquer candidato numa eleição multipartidária relativamente honesta. Ele não terá problemas em permanecer no poder no único período de seis anos permitido pela constituição mexicana.

Então, por que apenas dois vivas? Uma olhada na história do México irá esclarecer minha reserva. A chamada Revolução Mexicana de 1910 derrubou um regime opressivo e muito antidemocrático, razão pela qual é vista como o início do Estado moderno no México. Contudo, não resultou em paz e estabilidade relativas. Muito pelo contrário! As duas décadas que se seguiram a ela assistiram a lutas constantes e violentas entre várias milícias armadas, nenhuma das quais foi capaz de prevalecer.

No entanto, em seguida ao assassinato do principal candidato à presidência, um arranjo de facto foi capaz de trazer certo grau de estabilidade e uma grande redução da violência. O partido que garantiu essa relativa estabilidade passou por mudanças de nome e a certa altura tornou-se o Partido Revolucionário Institucional, ou PRI.

O sistema desenvolvido pelo PRI baseou-se na exigência constitucional de uma eleição, em 1º de julho, a cada seis anos. O presidente em exercício poderia ter apenas um mandato. Seu sucessor era escolhido por uma negociação de bastidores entre os líderes do PRI. A eleição era, na verdade, uma formalidade. Com exceção de um período politicamente radical, de 1936 a 1942, o sistema PRI de eleições arranjadas resultou em governos com elites altamente corruptas e que tinham pouco a oferecer ao terço ou metade da população na base da pirâmide.

O sistema PRI levou a um grande descontentamento popular. Isso gerou o surgimento, no final do século vinte, de um grande desafiante, o Partido Acción Nacional (PAN). O PAN foi construído numa base católica, que reagia ao programa fortemente anticlerical do PRI e do México.

O PAN venceu as eleições de 2000, pondo assim um ponto final ao monopólio do PRI na presidência. Além do PRI e do PAN surgiu também um partido social-democrata denominado Partido de la Revolución Democrática (PRD). O México havia se tornado, agora, um país de eleições competitivas. Que diferença fez isso? Não muita.

AMLO concorreu como candidato do PRD em 2012, mas perdeu a maioria por fraude. Ele lutou duramente contra o “falso” vencedor, mas com pouco apoio do PRD. Agora, AMLO construiu sua luta pelo poder rejeitando os três partidos principais.

Por que não foi igualmente trapaceado em 2018? O governo PRI de 2012-2018 usou de extrema violência contra a oposição. Mataram estudantes que protestavam. Isto levou a revoltas generalizadas da população, o que tornou impossível fraudar os resultados mais uma vez.

AMLO lançou um programa verdadeiramente de esquerda. Sua plataforma previa um aumento significativo na distribuição de renda para grandes massas de pobres. Defendeu o fim das chamadas pensiones, pelas quais enormes somas eram pagas aos ex-presidentes. Ao contrário, AMLO advogava pensiones para os pobres. Nesse sentido, seu programa era semelhante ao de Lula, com seu Bolsa Família e seu Fome Zero. A diferença é que AMLO não pode ser expulso do poder, como Lula foi.

AMLO chama sua proposta de nini (nem nem), para aqueles que não são nem estudantes nem trabalhadores, e que constituem um grupo muito amplo de jovens. Propõe pagamentos para eles sobreviverem enquanto forem capacitados, em programas governamentais, e se tornem aptos a conseguir um emprego.

A esquerda latino-americana aclamou a eleição de AMLO, vendo em sua vitória uma possibilidade de reavivar a chamada maré rosa na América Latina, que sofreu muitos reveses na última década. Os Estados Unidos estão claramente preocupados e infelizes. Trump já está tentando cooptar AMLO.

Eu também saúdo a vitória de AMLO. Mas me preocupo com o fato de que, ao contrário de Lula, ele mostrou pouco interesse em tornar-se um líder latino-americano, e não somente mexicano. Neste momento ele ocupa uma posição muito forte no México, mas ninguém é impermeável a contrapressões. Ele não pode, realmente, dar conta disso sozinho. Precisa da esquerda latino-americana, exatamente como esta precisa dele. Vamos ver como navegará nas negociações sobre o Nafta.

Finalmente, como todos os líderes populares que lutaram muito e obtiveram sucesso ao alcançar o poder, eu me pergunto o quanto ele reflete sobre as limitações de ser uma figura carismática. Muita autoconfiança tem sido a razão da queda de muitos líderes populistas de esquerda. AMLO também não mostrou, no passado, muita tolerância com aqueles que questionam a prudência de algumas coisas que ele faz.

Então, dois vivas sim – altos, com esperanças pelo melhor.

 

Ver o original em 'Outras Palavras' na seguinte ligação:

https://outraspalavras.net/mundo/america-latina/mexico-o-enigmatico-caminho-de-lopez-obrador/

 

Obrador: México crescerá e virará uma potência econômica

O presidente eleito e ainda não empossado do México, López Obrador, disse que o México crescerá e virará uma potência econômica. Assim, “ninguém ameaçara o México com muros e militarização da fronteira”.

“O México vai se tornar uma potência e vai mudar a correlação de forças. Ninguém vai ficar ameaçando fechar as fronteiras, ou militarizá-las”, Obrador, que assume a presidência no dia 1º de dezembro.

Isso será possível porque o país crescerá e criará empregos”.
López Obrador

Recentemente, Trump disse no Twitter que uma das razões por que os Estados Unidos precisam de uma fronteira mais segura é o número recorde de homicídios no México em 2017.

Trump chegou à Casa Branca com a promessa de deportar milhões de indocumentados e levantar um novo muro fronteiriço com o México para evitar a chegada de migrantes sem documentação regular.

As declarações ajudaram a gerar a pior crise diplomática em décadas entre os Estados Unidos e seu vizinho do sul.

Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV (AFP) / Tornado

 

Ver artigo original em "O TORNADO"

Familiares de Ayotzinapa exigem verdade e justiça imparcial

Pais dos 43 estudantes desaparecidos em Setembro de 2014 pediram ao Supremo Tribunal que resista às pressões do executivo ainda em funções e se pronuncie a favor da criação de uma Comissão da Verdade.

Os pais dos jovens desaparecidos de Ayotzinapa exigem imparcialidade ao Supremo Tribunal face ao governo de Peña NietoCréditos / ADN Político

Na conferência de imprensa que deram esta quarta-feira, os familiares dos 43 estudantes de Ayotzinapa, desaparecidos em Iguala (estado de Guerrero), voltaram a acusar o governo de Enrique Peña Nieto de dificultar a investigação sobre o paradeiro do seus filhos e avisaram-no de que «não há-de escapar à Justiça».

Ao novo presidente eleito do México, Andrés Manuel López Obrador, lembram-lhe que assumiu com eles o compromisso de apoiar a Comissão da Verdade, bem como as linhas de investigação estabelecidas pelo Grupo Interdisciplinar de Especialistas Independentes (GIEI).

Exigiram ainda ao Supremo Tribunal mexicano que seja imparcial e autónomo no momento de decidir se se deve constituir uma Comissão da Verdade sobre Ayotzinapa.

O caso chegou ao Supremo depois de, recentemente, um tribunal federal ter acolhido a argumentação da Procuradoria-Geral da República (PGR) e revertido a sentença favorável à criação da Comissão da Verdade sobre o caso de Ayotzinapa, proferida por outro tribunal em 4 de Junho último.

De acordo com o tribunal federal, a sentença anterior violava o pressuposto de que só o Ministério Público tem competências para investigar crimes, pelo que declarou a «impossibilidade jurídica» da criação da Comissão da Verdade.

Esta seria liderada por representantes das vítimas e da Comissão Nacional dos Direitos Humanos (CNDH), que, segundo revelou a TeleSur, teriam a seu cargo a direcção da investigação, em conjunto com a PGR e o Ministério Público.

Na sentença que, no início de Junho, decretou a criação da Comissão, o tribunal afirmava ter encontrado provas de que a investigação do caso de Ayotzinapa, por parte da PGR, «não foi rápida, eficaz, independente ou imparcial».

A decisão judicial que reverteu esta sentença foi muito mal recebida pelos pais dos jovens desaparecidos, que ontem disseram esperar uma atitude diferente da parte do Supremo.

«Pedimos ao Supremo Tribunal que faça o seu trabalho com imparcialidade sobre o caso Ayotzinapa (…) que tenha coragem suficiente, que não se deixe comprar, que faça o seu trabalho, porque queremos saber onde estão os nossos filhos», disse Blanca Nava, mãe de um dos estudantes, citada pelo ADN Político.

Os pais dos jovens lembraram ainda que estão há 46 meses à procura dos seus filhos. «É uma vergonha que tenham passado 46 meses sem sabermos a verdade», disse ainda Blanca Nava.

Os 43 de Ayotzinapa

Foi há quase quatro anos que 43 estudantes da Escola Normal Rural Raúl Isidro Burgos, em Ayotzinapa, desapareceram em Iguala, no estado mexicano de Guerrero. Desde então, os familiares dos desaparecidos exigiram respostas ao governo de Peña Nieto, que foi acusado de silenciar o caso, ocultar elementos e dificultar as investigações independentes, num contexto geral de violência e impunidade.

Isso mesmo foi apontado no documento sobre a violência no México, elaborado em 2015 pelo relator especial das Nações Unidas contra a tortura, Juan E. Méndez.

Quase 16 mil assassinatos no primeiro semestre

Com 15 973 pessoas assassinadas nos primeiros seis meses e uma taxa de 11,01 casos de homicídios por 100 mil habitantes, o México está a viver o ano mais violento de que há registo.

Os dados relativos ao primeiro semestre de 2018, divulgados recentemente pelo Secretariado Executivo do Sistema Nacional de Segurança Pública (SESNSP), apontam para uma média diária de 88,7 homícidios.

Comparando com iguais períodos de 2015 para cá, a taxa de homicídios dolosos tem vindo sempre a aumentar: se, nos primeiros seis meses de 2015, essa taxa foi de 6,3 casos por cada 100 mil habitantes, em 2016 subiu para 7,4 casos e, em 2017, para os 9,6.

Os assassinatos de mulheres triplicaram nos últimos três anos, refere o Animal Político. Desde 2015, ano em que se começou a registar o número de mulheres vítimas de homicídios dolosos, o aumento tem sido constante.

No primeiro semestre desse ano foram registados 184 casos, enquanto no período compreendindo entre Janeiro e Junho deste ano já se registaram 402 vítimas.

Ver original em 'AbrilAbril' (aqui)

Sobre o resultado das eleições presidenciais no México: recomposição da hegemonia burguesa

reformAs eleições no México têm sido acompanhadas por algumas apreciações que atribuem ao seu resultado uma mudança no panorama político daquele país. Daí a grande oportunidade que tem apresentarmos a avaliação dos comunistas mexicanos. Não têm ilusões sobre o novo governo. Mas avaliam positivamente os muitos milhões que votaram nele, cuja vontade de mudança real não pode ser nem desmobilizada nem desencorajada.



O cômputo das eleições federais deu como resultado o triunfo presidencial de Andrés Manuel López Obrador e uma maioria nas câmaras de deputados e senadores da coligação que o apoiou, que também obtém maioria no governo da Cidade de México e na maioria dos governos estatais que se encontravam em disputa.

O resultado da votação popular está em concordância com a eleição que já tinham previamente efectuado a maioria dos monopólios no México, expressando o seu apoio de diferentes formas, e que ao longo da campanha eleitoral foram integrando os seus representantes, inclusive os monopólios de meios de comunicação Televisa e TV Azteca – anteriormente seus adversários e agora promotores da sua figura-, nesta coligação. Os grupos económicos e seus quadros políticos estão representados nas diferentes equipas que López Obrador foi apresentando, incluído o seu Gabinete: é claro, sem subterfúgios, que o poder dos monopólios está assegurado, que a ditadura de classe da burguesia continuará.

Com um discurso demagógico, com a velha receita – utilizada anteriormente desde 1936 até 1982 pelo PNR-PRM-PRI - da unidade nacional, ou seja, colocar-se acima dos antagonismos socio-classistas, assumir-se como uma opção interclassista que representa por igual explorados e exploradores, ricos y pobres, burgueses e proletários, López Obrador catalisou o mal-estar gerado por 36 anos de políticas de choque privatizadoras que reduziram ao mínimo os direitos sociais, sindicais, democráticos. A gestão neoliberal dos governos de Miguel de la Madrid, Carlos Salinas, Ernesto Zedillo, Vicente Fox, Felipe Calderón e Enrique Peña Nieto, em conjunto responsável pela destruição das terras comunais (ejido), pelo despojo de terras, a destruição da educação pública e da segurança social, a privatização das empresas estatais, o empobrecimento acelerado da população que chegou aos 53 milhões, o aumento massivo dos emigrantes, o retrocesso constante do salario face ao aumento incessante do cabaz básico e o custo de vida, o desemprego, e também a violência generalizada desencadeada na chamada guerra contra o narcotráfico, que se estende já por mais de dez anos, com saldo de mais de 200.000 mortos e desaparecidos;

Este cúmulo de agravos gerou uma latente insubmissão operária e popular, com diferentes manifestações nos últimos anos. Contudo, isto foi temporariamente controlado sob as ilusões de uma mudança da coligação obradorista. Mas a aspiração de solucionar os problemas essenciais da classe operária e dos sectores populares será defraudada; pois da mesma forma que no seu Projecto Alternativo de Nação, seus discursos e opiniões, suas alianças, já como Presidente Eleito López Obrador ratificou as medidas que definem um claro contorno ao seu Sexénio: autonomia do BANXICO, disciplina financeira e fiscal, respeito pelos compromissos com os bancos e organismos financeiros internacionais, e nenhuma expropriação ou confiscação. Também confirmou que a sua luta contra a pobreza se baseará em paliativos, em medidas assistencialistas à velhice, aos deficientes e bolsas para os estudantes. O que o coloca na situação de quem quer atender com aspirinas um cancro em fase terminal. Não é casual que a garantia que avança em primeiro lugar é a liberdade empresarial, um selo distintivo do projecto de classe que representa.

Outro elemento demagógico do discurso de Obrador é que resolvendo o problema da corrupção se resolvem os grandes problemas nacionais. Mais ainda, López Obrador considera que a corrupção é a base da “desigualdade económica e social”. Insistindo nesta ideia em contraposição ao argumento científico de que a raiz do problema é a exploração do trabalho assalariado e a apropriação privada da riqueza socialmente produzida, ele sustenta como uma inovação teórica de sua criação que a corrupção é a raiz dos problemas do México. Com honestidade e austeridade poderá branquear, maquilhar o capitalismo, mas nenhum problema terá solução enquanto no conflito capital/trabalho a balança se incline pelo lucro e a acumulação a favor da burguesia. Atenuar os problemas, apagar o fogo, aplicar controlo de danos, é a tarefa com que se compromete López Obrador, para assim garantir a estabilidade do sistema num período de turbulências, desmobilizando aqueles que votaram por uma mudança e procurando um refluxo de largo alcance na luta social.

Outro assunto doutrinal que não podemos passar por alto é a sua concepção sobre o Estado e suas funções, reivindicando a ideologia burguesa da Revolução Mexicana do Estado acima das classes sociais, como expressão representativa da cidadania, de “ricos e pobres”. Essa fórmula já serviu anteriormente à burguesia para governar e construir consensos sociais, ou seja, identificar os explorados com os interesses dos seus exploradores.
Uma ideia que se reforça com o triunfo de Obrador é a da “transição democrática”. Na voz das centrais empresariais, dos seus escribas e órgãos, a ilusão de que o poder estatal exercido sobre os trabalhadores dimana do próprio povo tem a sua “demonstração” numa terceira mudança de Partido que determine a composição do gabinete e exerça o poder executivo. O Partido, o governo, a gestão mudaram, mas o Estado não. Este discurso esconde o facto de que independentemente da mudança de Partido as próprias Centrais empresariais concentram o poder económico, e que através desse poder económico determinam a realidade do país. Menção ainda a que dirigem através de uma miríada de quadros colocados ou cooptados por eles as funções do poder estatal, que este Estado não tomará medidas que substancialmente se oponham aos seus interesses e que sem afectar os seus interesses é impossível a melhoria para as condições de existência dos trabalhadores. Por exemplo, para além do entorno honesto do mandatário em questão, ¿O que ocorrerá com uma manifestação palpável como o facto de o IMSS ou o INFONAVIT aceitarem que as empresas reportem salários mais baixos que os reais? ¿Esta corrupção vai extirpar-se por decisão do executivo?

Sob essas concepções, tomando em conta a experiencia histórica e as leis do capitalismo, será necessário para garantir a “liberdade empresarial”, para cumprir os seus acordos com os monopólios e segundo o seu critério interclassista convocar pactos ou acordos operário-patronais, em que a classe operária terá que apertar o cinto para que o capital maximize os seus lucros. Segundo essas concepções, recuperar os direitos laborais e sociais não é prioritário e são reivindicações que devem ir para o arquivo. O PCM lutará juntamente com os trabalhadores por derrubar a reforma laboral aprovada pelo Pacto por México em 2012.

Carlos Salinas e López Obrador coincidiram em que é a hora da reconciliação nacional, e como um sucesso inédito aplaudido pela opinião pública, os candidatos Meade e Anaya reconheceram pronta e graciosamente o triunfo de Obrador. ¿De que se trata nesta pantomima? Em primeiro lugar, que as disputas interburguesas se dirimem por agora em quadros institucionais, e de que é hora de cerrar filas para superar a crise económica e de dominação. Essas reacções não são uma surpresa para os comunistas, que anteriormente às eleições na nossa Conferencia Política expressamos que a burguesia tinha já escolhido permitir um governo da nova social-democracia para administrar os seus interesses e para superar os conflitos que enfrenta. O mal-estar, a inconformidade, as condições objectivas de fome, desemprego, miséria, exploração, insalubridade, baixos salários, emigração, feminicidios e centenas de milhares de mortos, tiveram expressões que demonstram que existe uma disposição da classe operária e dos sectores populares de ir mais além: os protestos por Ayotzinapa, os protestos contra o gasolinazo, as centenas de conflitos que confirmam uma invariável e crescente tendência para a insubmissão. E esse é um dos significados da eleição de Obrador, a recomposição da hegemonia burguesa, conseguindo que uma parte importante da vontade popular identifique erroneamente os seus interesses com os dos seus opressores e exploradores, com a mediação da nova social-democracia, que a partir de agora assume a nova etapa da junta que administra os interesses do capital no nosso país: o Estado mexicano. Não se trata de uma derrota do “sistema político” por parte de AMLO é, pelo contrário, a sua tábua de salvação com a unidade nacional e a reconciliação nacional, que na realidade significa proteger a legalidade burguesa e o sistema de partidos actual ante a deslegitimação e o ódio que tinham granjeado.

Tomamos nota de que uma franja dos sectores populares decide pela primeira vez expressar-se politicamente; vários milhões que não tendo outra opção nos boletins de voto decidem exercer pela primeira vez o voto, participar de alguma maneira na vida política. Não é nosso interesse que desiludidos regressem ao apoliticismo. Somada a boa parte da massa de votantes em Obrador, expressam hoje assim uma vontade de mudança e manifestam que estão fartos, sem assumirem necessariamente o projecto de Obrador. Temos o dever de explicar massivamente a proposta comunista do poder operário como saída objectiva e necessária para os grandes problemas nacionais. Sobre essa franja de população proletária declaramos abertamente que o nosso interesse radica em que não se imobilize, que ultrapasse o pórtico da participação política e prossiga em frente com a luta por impor os seus interesses em conjunto com a classe operária.

Da mesma manera que contra Peña Nieto, a nossa luta prosseguirá contra o Estado burguês continuado no governo de López Obrador. Apelamos aos trabalhadores:

• A lutar por reconquistar os contratos colectivos, a restabelecer pela via dos factos o direito à greve, o direito à sindicalização, à escala móvel de salários, a pôr fim aos impostos sobre o trabalho. A reverter a reforma laboral e a reforma educativa.
• A lutar por pôr fim ao sindicalismo subserviente, a terminar com as cacicagens no movimento operário, à sindicalização massiva, a unidade sindical, a reconstrução do movimento operário a partir de posições classistas.
• A lutar por recuperar aposentações e pensões dignas, e pôr fim às nefastas Afores. A fortalecer a segurança social.
• A lutar pela garantia por parte do Estado de habitação, segurança social e saúde para todos os trabalhadores, formais e informais.
• A lutar pela expropriação de todos os bens mal adquiridos, resultados do processo privatizador, e pelo controlo operário nos meios de produção concentrados. Pela nacionalização da banca, do comércio exterior, e pelo controlo de câmbios.
• A lutar pela extirpação de raiz de toda a rede económica e política base da indústria do narcotráfico, que assassina, faz desaparecer e destrói as famílias operarias.
• A lutar por romper com o TLCAN e com todo acordo com o FMI, BM.
• A lutar por cancelar a dívida externa.
• A exigir a apresentação com vida dos normalistas de Ayotzinapa e os milhares de desaparecidos, e castigo aos culpados, o que passa necessariamente por castigo a Peña Nieto e Ángel Aguirre, bem como os responsáveis por terem delegado no governo de Guerrero. Por justiça face a todos os crimes do Estado cometidos nas últimas décadas.
• A lutar pela defesa incondicional dos migrantes centro-americanos no México e mexicanos nos Estados Unidos.
• Pela unidade da classe operária com objectivos e bandeiras políticas independentes para configurar uma poderosa frente anticapitalista e antimonopolista pelo derrubamento do capitalismo, pelo poder operário e o socialismo-comunismo.

O Partido Comunista de México, reiterando a sua independência face a qualquer opção burguesa, refutando o engano de que se esteja produzindo uma mudança à esquerda, lutará cada dia pelos objectivos e interesses da classe operária, sem nenhuma ilusão no governo de Obrador.
Esta primeira análise sobre o novo governo será aprofundada no XVII Pleno do nosso Comité Central a reunir-se em breve e no nosso VI Congresso que se realizará na Cidade de México nos dias 3, 4 e 5 de Agosto.

¡Proletários de todos os países, uni-vos!

A Comissão Política del Comité Central

 

References

  1. ^ endereço (www.odiario.info)
  2. ^ odiario.info (odiario.info)

Leia original aqui

"a liberdade não se conquista de joelhos"

O professor Carlos Pedro Guillermo era Secretário-Geral de Educação Indigena da União Nacional dos Trabalhadores da Educação (SNTE-CNTE) algures no México, foi assassinado a golpes de machado quando se dirigia para casa com a sua mulher.
É um crime de rotina que a foto esclarece.

Leia original em

Que viva México!

País derrota, nas urnas, globalização sem esperança e maré conservadora que varre América Latina. Mas que poderá Lopez Obrador frente à ditadura dos mercados?
Antonio Martins | Outras Palavras | Vídeo: Gabriela Leite
Infeliz no jogo, o México está feliz na política – ou, pelo menos, cheio de esperanças e desafios. Na Rússia, sua seleção de futebol foi eliminada pela brasileira. Mas numa disputa mais crucial – na qual se define o que virá após a crise civilizatória em que estamos mergulhados – o cenário é outro. Quase 25 anos depois de afundarem numa globalização sem democracia, os mexicanos jogaram, no domingo (1º/7), um pequeno grão na máquina. Num pleito presidencial claramente plebiscitário, Lopez Obrador, o candidato do Movimento de Regeneração Nacional (Morena), foi eleito presidente da República, com mais de 53% dos votos. Criado há apenas quatro anos, o Morena lidera uma coalizão (Juntos faremos História) que parece prestes a obter maioria na Câmara e Senado. Uma mulher – Cláudia Sheinbaum – foi eleita pela primeira vez para governar a capital.
Mas há inúmeras dúvidas. Derrotada, a ditadura dos mercados vinga-se. Como Lopez Obrador enfrentará um sistema que apequenou o poder dos Estados, diante das transnacionais e das instituições financeiras – e que exige dos governantes rendição sem meios termos? Vítima de suas próprias ambiguidades, ele cederá? Será destroçado? Ou se somará a uma busca por alternativas que se espalha pelo mundo, mas para a qual ainda não há projeto claro?
II.
Pouco presente no cenário geopolítico atual – e por isso, pouco notado, pelas novas gerações – o México foi grande centro de turbulências e transformações, num passado relativamente recente. Em 1910, sete anos antes da Rússia, o país abriu a grande série de revoluções anti-oligárquicas do século passado, ao derrotar pelas armas uma longa ditadura e instaurar um governo popular tumultuado e contraditório. Embora traído, o movimento – que teve entre seus heróis Emiliano Zapata – deixou sementes. Em 1934, um de seus herdeiros, o general Lázaro Cárdenas, elegeu-se presidente. Liderou um governo nacionalista e popular, que mudou a face do país. Expropriou os latifúndios, distribuiu terra aos camponeses, estatizou o petróleo – grande riqueza nacional –, assegurou o voto das mulheres, resgatou direitos indígenas e liderou uma reforma educacional que instituiu o ensino laico.
O impacto e popularidade destas transformações asseguraram ao partido de Cárdenas – Partido da Revolução Mexicana (PRM) – hegemonia por 71 anos na vida política do México. Mas o ímpeto transformador do presidente arrefeceu ao longo dos mandatos de seus sucessores, até se transformar em caricatura. O México urbanizou-se e industrializou-se. Mas o próprio PRM trocou seu nome para Partido Revolucionário Institucional (PRI) e filiou-se, embora com ressalvas importantes, à ordem internacional comandada por seu vizinho do norte.
No fim do século, começam os sobressaltos que levarão à encruzilhada atual. Em 1983, uma grande alta das taxas internacionais de juros, comandada pelos Estados Unidos, impede o México de continuar rolando sua dívida externa. O FMI intervém. O PRI, conformado, aceita abrir mão das políticas que o ligavam às maiorias. O presidente Miguel de la Madrid comanda um enorme corte de gastos sociais e uma série de contra-reformas que eliminam direitos. O país também negocia a adesão à “Nafta”, uma zona de “livre” comércio com os Estados Unidos e o Canadá. No dia exato em que ela entra em vigor (1º/1/1994), eclode, em Chiapas, a revolta zapatista. Ela sugerirá que a a História não acabou, ao contrário do que diziam os teóricos do neoliberalism então vitorioso. Também projetará o subcomandante Marcos como portador de uma nova esperança anticapitalista.
III.
Lopez Obrador, o novo presidente, expressa, à sua maneira, uma das vertentes da resistência mexicana ao sistema. Não é um radical: seria tolo compará-lo com Marcos ou os zapatistas. Filho de pequenos comerciantes no estado sulista (e pobre) de Tabasco, estudou Ciência Política na Universidade Nacional Autônomia (a legendária UNAM) onde se formou, em 1976. No mesmo ano, aos 23, ingressou no PRI – a época, a meio caminho entre as grandes reformas de Cárdenas e a deriva neoliberal. Em 89, tornou-se um dissidente. Inconformado com as adesão do partido às políticas duras do capitalismo, foi um dos fundadores do PRD, Partido da Revolução Democrática. Repetirá o mesmo gesto em 2014, quando deixará um PRD adormecido e burocratizado para fundar o Morena. Carismático e impetuoso (um “Messias Tropical”, ao olhar sarcástico da revista britânica Economist), Obrador elege-se prefeito da Cidade do México em 2000.
A partir de então, sua ambiguidade manifesta-se mais claramente. Numa metrópole marcada por desigualdade e precarização, lança um conjunto de programas sociais em favor dos mais pobres, dos idosos, dos descapacitados. Ao mesmo tempo, lidera um programa de “recuperação” do centro histórico da cidade marcado, segundo os críticos, pela gentrificação. Para tocá-lo, estabelece parceria com o grupo empresarial do Carlos Slim, desde então um dos homens mais ricos do mundo. Para enfrentar a violência urbana, sua opção é pedir a Rudy Giuliani, ex-prefeito de Nova York um plano baseado nas políticas discriminatórias de “tolerância zero”. Em 2006, quando deixa a prefeitura para disputar a Presidência, tem 84% de aprovação popular – mais do dobro de seu percentual de eleitores.
Em 2006, terminam no México as sete décadas de ambiguidade do PRI. Mas Lopez Obrador (PRD) é derrotado nas eleições presidenciais por Felipe Calderón, do PAN, de direita. As suspeitas de fraude são múltiplas. Obrador não reconhece o resultado e lidera, por meses, a ocupação do Zócalo, a praça mais central e importante da capital. Para alguns, este movimento influenciará, mais tarde, o Occupy Wall Street. A atitude despertará, para sempre, a desconfiança do establishment. Como lidar com um político que pode, a qualquer momento, ser sensível às pressões de sua base e insurgir-se contra as regras da ditadura financeira?
IV.
As duas décadas e meia passadas desde a adesão do México ao Nafta desfiguram o pais. O Norte, onde as empresas estadunidensess instalam maquiladoras para tirar proveito da mão de obra barata, prospera – mas a riqueza concentra-se em cada vez menos mãos. O resto do país patina na pobreza. As contra-reformas desestruturam o mercado de trabalho e empurram milhões de mexicanos – especialmente jovens – para os Estados Unidos, em busca de condições de vida menos miseráveis. A produção camponesa, que marcava por séculos a paisagem do país, declina. Mesmo o milho, produto nacional típico, passa a ser importado do corn belt norte-americano, onde agricultores capitalizados recebem subsídios do Estado.
Os dois últimos governos – de Felipe Calderón (PAN) e de Enrique Peña Nieto (de um PRI já completamente desfigurado) completam as contra-reformas. Em 2013, uma delas permite às transnacionais petroleiras explorar o petróleo mexicano. Junto com a pobreza, vem a violência – e a tentativa fracassada de combatê-la por meios militares. Desde 1995, ordens executivas, sem respaldo na Constituição, convocam o Exército e a Marinha a participar de atividades de segurança pública.
O crime, ao invés de regredir, conquista novos soldados. Tropas de elite das Forças Armadas bandeiam-se e ajudam a formar grupos criminosos – o Cartel do Golfo, Os Zetas. Crimes como a chacina de Ayotzinapa (2014), em que 43 estudantes foram executados, multiplicam-se. Em 2018, após um quarto de século de neoliberalismo e militarização, a sociedade mexicana está esgotada – e o sistema político, exaurido.
V.
Em muitos aspectos, Lopez Obrador assemelha-se a um Lula. Ele rejeita conflitos. Sua abordagem dos grandes problemas mexicanos é sempre conciliatória. Por anos crítico do Nafta, ele diz agora que não pretende mais questionar o acordo. Fala em “austeridade fiscal” e em “não aumentar impostos”, num país de sistema tributário tão injusto quanto o brasileiro. Em oposição à “guerra às drogas”, propôs, durante a campanha, anistiar os presos que cometeram pequenos delitos. Diante da reação irada da mídia, recuou.
Ainda assim, este homem propenso à conciliação foi rejeitado e é temido pelo sistema – porque não abre mão de algumas ideias simples. Num país cansado de uma casta política autossuficiente e autista, quer reduzir os vencimentos e vantagens dos ocupantes de postos públicos mais altos (inclusive o seu mesmo), para elevar os salários dos servidores públicos que atuam na ponta. Pretende dobrar o valor das aposentadorias – contrariando toda a lógica que recomenda privatizá-las. Quer abrir as universidades públicas a todos os mexicanos. Fala em submeter a entrega do petróleo a um referendo popular. Vislumbra a chance de reindustrilizar o México, começando pela construção de novas refinarias de petróleo. Talvez a verdade e a simplicidade deste programa, que pode se compreendido por cada mexicano, tenham lhe dado a vitória, num país de 120 milhões de habitantes e PIB entre o da França e o da Itália.
Lopez Obrador será capaz de cumpri-lo? Dias depois de sua eleição, a mídia corporativa das grandes praças do mundo duvida. “Ele terá de atrair capitais estrangeiros, ou tornará a situação do povo ainda mais dura que a atual”, escreveu o New York Times. Em meio à crise civilizatória, nada está assegurado. Oxalá Obrador e sua leve rebeldia sejam capazes de teimar, de resistir e sustentar, de abrir caminhos. Este mínimo será muito, na tempestade que atravessamos.
* Antonio Martins é Editor do Outras Palavras

López Obrador e o poder real

Carlos FazioLópez Obrador foi eleito para a presidência do México. O seu partido (Juntos Haremos História) ganhou 31 dos 32 estados do país. Tão significativo como essa vitória é o facto de, desde Junho, destacadas personalidades da administração Trump e jornais norte-americanos o virem hostilizando ou apresentando como um “esquerdista”. Mas, se se mantiver fiel às suas declarações de mudança e quiser que elas avancem, as maiorias eleitorais não bastarão face à poderosíssima e criminosa oligarquia e ao vizinho do norte. Só um povo mobilizado e em movimento, preparado para um duro e prolongado combate, poderá concretizar tal resultado.


 

Ontem, primeiro de Julho, milhões de mexicanos foram votar, e se não houve uma monumental fraude de Estado, Andrés Manuel López Obrador (AMLO) será o próximo presidente da República. A não ocorrer nada de extraordinário no período de transição, no primeiro de Dezembro próximo AMLO deverá assumir o governo. Mas durante esse lapso, e ainda mais além do médio prazo, o poder continuará estando nas mãos da classe capitalista -transnacional.

É previsível também que, a partir deste 2 de Julho, o bloco de poder (a plutonomia, Citigroup dixit), incluindo os seus media hegemónicos (Televisa e Tv Azteca, de Azcárraga e Salinas Pliego, ambos megamilionários da lista Forbes), e seus operadores nas estruturas governamentais (o Congresso, o aparelho judicial, etecetera), escalarão a insurgência plutocrática procurando ampliar os seus privilégios e garantir os seus interesses de classe, e para continuar potenciando a correlação de forças em seu favor.

Para além do ruido das campanhas, o processo eleitoral decorreu sob o signo da militarização e da paramilitarização de vastos espaços da geografia nacional, e de uma guerra social de extermínio (necropolítica) que elevou os níveis de violência homicida a limites nunca vistos no México moderno, semelhantes aos de um país em guerra (naturalizando-se em vésperas das votações o assassínio de candidatos a cargos de eleição ¬popular).

Como recordou Gilberto López y Rivas em La Jornada, esse conflito armado não reconhecido é a dimensão repressiva do que William I. Robinson denomina acumulação militarizada, cuja finalidade é a ocupação e recolonização integral de vastos territórios rurais e urbanos para o saque e despojo dos recursos geoestratégicos, mediante uma violência exponencial e de espectro completo que é característica da actual configuração do capitalismo; o conflito e a repressão como meio de acumulação da ¬plutonomia.

Para isso a classe dominante fez aprovar a Lei de Segurança Interna. E está latente, para ratificação no Senado, a iniciativa de Deputados de retirar judicialmente do lugar o presidente da República; a denominada estratégia de lawfare aplicada a Dilma Rousseff e Lula da Silva no Brasil, que implica o uso da lei como arma para perseguir e destruir um adversário político pela via parlamentar e/ou judicial; uma variante dos golpes suaves de manufactura estadunidense que poderia reverter contra AMLO.

A esse respeito, e para além da sua viragem ao centro e o redesenho do seu programa de transição reformista − capitalista, democrático e nacional, com grandes concessões ao bloco de poder dominante −, a chegada de López Obrador ao governo poderia implicar, em princípio, uma perda de velocidade ou uma pausa para respirar (Galeano dixit) na tendência do incrementado fim de ciclo progressista e restauração da direita neoliberal na América Latina.

O impulso de uma nova forma de Estado social, sem ruptura frontal com o Consenso de Washington, significará, não obstante, uma mudança na correlação de forças regionais e terá tremendo impacto nos povos latino-americanos. Por isso não é de modo nenhum inocente – ou simplesmente centrada no aprofundamento das políticas de mudança de regime em Venezuela e Nicarágua− o recente périplo neomonroísta do vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence, por Brasil, Equador e Guatemala.

Justifica-se recordar o invulgarmente crítico editorial do Washington Post de 18 de Junho, que assumiu como suficientemente credíveis os nexos de colaboradores próximos de López Obrador com os governos de Cuba e Venezuela, e as declarações do senador republicano John McCain, apontando AMLO como um possível presidente esquerdista anti estadunidense e as do actual chefe de gabinete da administração Trump, general (retirado) John Kelly, que afirmou que López Obrador não seria bom para os Estados Unidos nem para o México.

Segundo assessores de política exterior de AMLO, o seu governo colocará perante Washington a defesa intransigente da soberania nacional; fará a revisão do quadro da cooperação policial, militar e de segurança (DEA, CIA, ICI, Pentágono, etecetera) e, sob a premissa de que a emigração não é um crime, incrementará a protecção dos compatriotas irregulares, como se fosse uma procuradoria ante os tribunais dos Estados Unidos. Também reverá os contratos petroleiros e de obras públicas. O que sem dúvida trará fortes confrontações com a Casa Branca e a plutocracia internacional.

Como disse Ilán Semo, no México a Presidência da República encerra potencialidades simbólicas insuspeitadas; uma espécie de carisma institucional. Não importa quem a ocupe, inclusivamente um inepto (pensemos em Vicente Fox), o cargo transmite-lhe uma aura: é o Presidente. Depois da Independência, da Reforma e da Revolução Mexicana, AMLO quer passar à historia como o homem da quarta transformação. Mas para isso é necessária uma mudança de regime e impulsionar grandes saltos na consciência política dos sectores populares; sem um povo organizado e mobilizado visando um projecto de mudança radical e profundo, não há carisma que chegue.

Fonte: http://www.jornada.com.mx/2018/07/02/opinion/027a1pol[1]

References

  1. ^ http://www.jornada.com.mx/2018/07/02/opinion/027a1pol (www.jornada.com.mx)
  2. ^ endereço (www.odiario.info)
  3. ^ odiario.info (odiario.info)

Leia original aqui

Obrador

Ao refletir sobre a vitória de López Obrador nas eleições presidenciais mexicanas, veio-me à memória um livro do jornalista francês Marcel Niedergang, publicado nos anos 60, intitulado “As vinte Américas Latinas”. À época, ele ajudou bastante a minha geração a entender, simultaneamente, a heterogeneidade e as similitudes entre os países do centro e sul do continente americano.
Nenhum deles tem a extraordinária complexidade do Brasil, de onde estou a enviar esta crónica. Mas recordo ter ficado para sempre com a sensação de que, no mundo latino-americano, raros são os Estados que apresentam desafios da dimensão daqueles que o México há muito suporta, a que a sua geografia também não é alheia.
Fortemente dualista no plano social, o México tem uma história riquíssima, mas convulsa. Usufrui de uma democracia que acabou corporizada num modelo político-partidário que, tendo ajudado a construir um país, não conseguiu ultrapassar contrastes sociais que acabaram por se cristalizar. Nos dias de hoje, gerou uma sociedade onde, lado a lado com bolsas de excelência, persistem fenómenos de violência extrema, regiões raptadas à autoridade do Estado, áreas onde impera a criminalidade organizada, frequentemente ligada ao narcotráfico. A corrupção, a instrumentalização de setores da vida pública por grupos de interesses ilegítimos, acumulou tensões que acabaram por fazer romper a malha política em que, por décadas, o país parecia ter-se habituado a viver.
López Obrador é um velho “routier” da política mexicana. Como Lula, no Brasil, conseguiu ascender ao poder, após várias tentativas frustradas. Também ele, tal como o antigo presidente brasileiro, carrega consigo um formidável capital de esperança, a vontade de regenerar um país cansado dos vícios da política tradicional. Homem sem mácula de suspeição de compromissos patrimonialistas, prometeu a felicidade a um país sedento de desenvolvimento que atenue a endémica pobreza, que ataque as profundas desigualdades e, em especial, que consiga pôr cobro à insegurança – pública, económica e social - que hoje instabiliza a existência de milhões dos seus compatriotas. O seu estilo pessoal, espartano mas tido por populista, assusta alguns, pelo que será o seu realismo que vai estar sob atento teste.
Um dia, Porfírio Díaz, um longínquo antecessor de Obrador no cargo presidencial, caraterizou assim a tragédia do seu país: “Pobre México! Tan lejos de Diós y tan cerca de los Estados Unidos”. E nem ele suspeitava que iria surgir um Trump...

Ver original em "duas ou três coisas" (aqui)

Não há alternativa

O The Guardian apoda o vencedor das eleições presidenciais mexicanas, André Manuel López Obrador, de “nacionalista de esquerda”. O que é crítica para uns, é elogio para outros: lá como cá, as questões nacional e social não podem nunca deixar de ser concretamente articuladas; cá como lá, é preciso reconquistar margem de manobra para políticas nacionais de desenvolvimento, o que passa no mínimo por renegociar os acordos de comércio dito livre. A esquerda que pode ganhar é a que quer aprender a falar a língua nacional-popular.
Apesar de todos os obstáculos colocados numa sociedade brutalmente desigual e violenta, demasiado próxima dos EUA, com um Estado fragilizado pela corrupção ou pelos efeitos da NAFTA, e de alguns compromissos duvidosos com forças sociais e políticas duvidosas, a sua eleição à terceira tentativa é uma excelente notícia para as classes subalternas, ainda para mais num contexto geral, latino-americano, de recuo das forças da esquerda nacional-popular. Esta esquerda pode também recuar, mas é a única que pode avançar.
Num artigo informativo no Le monde diplomatique do mês passado, René Lambert resumia o estado mexicano das coisas, usando uma fórmula de aplicação mais geral perante o poder: “a tentação da esperança”. Não há alternativa a essa tentação.
 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Obrador vence eleições. México vira à Esquerda quase 90 anos depois

Andrés Manuel López Obrador prometeu acabar com a corrupção e a impunidade no país e anunciou mesmo que vai dobrar as pensões para idosos logo no primeiro dia do executivo.
Foi presidente da câmara da cidade do México e consegue levar o país a virar à Esquerda depois de quase 90 anos de governos de Direita. Andrés Manuel López Obrador, também conhecido pelas iniciais AMLO, chega à presidência depois de ter sido candidato às eleições de 2006 e 2012. À terceira foi mesmo de vez, depois de se apresentar como um candidato antissistema.
No discurso de vitória, Obrador relembrou que vai combater a corrupção e reduzir a violência. Fala mesmo de "mudanças de fundo".
"As mudanças serão profundas, mas ocorrerão de acordo com a ordem legal estabelecida. Haverá liberdade comercial, liberdade de expressão, de associação e de crenças. Em matéria económica, será respeitada a autonomia do Banco do México. O novo governo manterá disciplina financeira e fiscal e serão reconhecidos os compromissos contraídos com empresas e bancos nacionais e estrangeiros", garantiu.
Durante a campanha o líder do MORENA, o Movimento Regeneração Nacional, prometeu reduzir gastos do Estado, aumentar o investimento e garante que vai colocar Donald Trump no seu lugar.
Prometeu vender o avião presidencial, transformar a residência oficial do presidente num centro cultural, assegurou uma redução dos salários dos altos funcionários da administração e anunciou esta madrugada uma medida inesperada: vai dobrar as pensões para idosos logo no primeiro dia do executivo.
De acordo com o Instituto Nacional Eleitoral Andrés Obrador conseguiu cerca de 53% dos votos, mas as contagens ainda decorrem. Ainda assim, é uma vitória histórica. Obrador fica bem à frente dos candidatos José Antonio Meade, do Partido Revolucionário Institucional, de Ricardo Anaya, da coligação do Partido Ação Nacional e do Partido da Revolução Democrática, e Jaime Rodriguez, o independente conhecido como 'El Bronco'.
As eleições ficam marcadas pelo assassinato de uma ativista política do Partido dos Trabalhadores, pouco antes da abertura das urnas.
A campanha eleitoral foi considerada por vários analistas como a mais violenta da história do país, marcada pela morte de pelo menos 145 políticos ou ativistas e 48 candidatos.
O Partido Revolucionário Institucional (PRI) chegou ao poder em 1929 e só em 2000 perdeu as eleições para o Partido da Ação Nacional (PAN), também de Direita. Em 2012, o PRI reconquistou o lugar, com Enrique Peña Nieto como presidente. Agora, é a vez do MORENA, com López Obrador aos comandos.
Sara de Melo Rocha | TSF | Foto: Carlos Jasso/Reuters

Ver o original em 'Página Global':   http://paginaglobal.blogspot.com/2018/07/obrador-vence-eleicoes-mexico-vira.html

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