Memória

Rodolfo A. Abreu

(1903 – 1966)

Prestigiado antifascista muito respeitado no Norte do País, este professor destacou-se como pedagogo e também como articulista na imprensa nacional e regional. Conferencista e escritor, defendeu os direitos da criança, promoveu a formação pedagógica da classe docente do ensino primário e bateu-se corajosamente contra a Ditadura do Estado Novo.

 

Rodolfo de Almeida Abreu nasceu em Seia, em 1903, e morreu no Porto a 8 de Outubro de 1966. Foi casado com Amélia Pais, também professora, e teve duas filhas: Helena Abreu, pintora e professora e Lucília Abreu, professora. Era tio de António Almeida Santos.

Promoveu a formação pedagógica

Foi em Seia que começou por exercer o magistério, mantendo uma actividade cívica constante. Escrevia regularmente artigos de opinião no jornal A Voz da Serra, assinando-os com o pseudónimo de «João Livre». Eram artigos de formação política de índole progressista, que versavam frequentemente temas de Educação – num esforço permanente de consciencialização do Povo – o que o levou a ser perseguido pela polícia política e acusado de fomentar ideias revolucionárias e anti-religiosas. Contou sempre com a solidariedade popular e, sobretudo, de colegas, mas em 1932 acabou por pedir a transferência para o Porto e, a partir daí, estendeu a sua colaboração a outros órgãos da imprensa regional e local, entre os quais o Notícias de Gouveia, O Povo, O Correio, O Combate, o República (de que foi um colaborador assíduo) e o Diário de Coimbra. Pugnava, então, pela defesa do professorado do Magistério Primário, considerando que era uma classe que o Estado Novo degradava; e denunciava a demagogia das reformas educativas do Salazarismo. Divulgou, pela palavra e pela acção, o documento «Nova Declaração dos Direitos da Criança».

No princípio da década de 40, Rodolfo Abreu já participava activamente no movimento de oposição democrática ao regime do Estado Novo.

Em 1949 apoiou a candidatura de Norton de Matos à presidência da República.

Foi preso pela PIDE em 11 de Abril de 1950, acusado de pertencer ao Partido Comunista Português. Durante a prisão escreveu um diário, «Diário de Prisão», depois completado com o «Diário de Julgamento». Julgado em tribunal plenário, contou com a defesa clarividente e corajosa do advogado António Macedo, tendo sido libertado após meses de cárcere e, depois, reintegrado na função pública.

Em 1958 apoiou a candidatura de Humberto Delgado à presidência da República.

Foi amigo e camarada de personalidades como Ruy Luís Gomes, Virgínia Moura, Óscar Lopes, Armando de Castro, Raul de Castro, Aquilino Ribeiro, Papiniano Carlos, Amândio Silva, Carlos Cal Brandão, Orlando Juncal, Viriato Moura, Corino de Andrade.

Defendeu os direitos da criança

Como pedagogo desenvolveu várias actividades em prol da inovação pedagógica no Ensino Primário, sendo autor da brochura “Em Defesa do Desenho Expressivo da Criança” (Livraria Divulgação, Porto, 1960), uma obra que teve, então, grande repercussão na didáctica do desenho.

Foi um dos mais dinâmicos sócios fundadores da Cooperativa SEM – Sociedade Editora do Norte, lançando aí a ideia de uma Universidade Popular.

Foi membro activo da Casa da Beira-Alta no Porto e da Casa Museu Abel Salazar, a cujas direcções pertenceu.

«Indomável beirão da Serra da Estrela»

Durante muitos anos, antes do 25 de Abril de 1974 (mas também depois), por ocasião da data da sua morte, os mais destacados oposicionistas do Porto promoviam romagens à sua campa no Cemitério de Paranhos, para evocarem o nome e a obra do ilustre professor. Era uma cerimónia de afirmação antifascista, essa que ocorria regularmente por ocasião do dia 8 de Outubro. Na presença de muitos amigos e populares, algumas figuras da Resistência (tais como Óscar Lopes, António Macedo, Guedes Pinheiro e Flávio Martins) depositavam ramos de flores na sua campa e proferiam discursos, enaltecendo o carácter, a generosidade, o espírito racionalista e solidário, e a lucidez crítica de Rodolfo Abreu, considerado um «indomável beirão da Serra da Estrela»[1].

Depois do 25 de Abril a Câmara Municipal do Porto deu o seu nome a uma rua daquela cidade.

 


O primeiro dia, no DIÁRIO DE PRISÃO

Dia 11 de Abril de 1950

Tive, na véspera, oito horas de trabalho fatigante, daquele trabalho que só um professor primário conhece a medida. Descansava ainda pelas sete horas, quando a minha mulher ouviu a velha criada a dizer para alguém: “os senhores venham às nove horas que o senhor professor está ainda a descansar…”

Os agentes deviam ter-se rido da ingenuidade da Teresa. “Cinquenta e cinco anos que eu tenho e nunca vi uma coisa assim! Entrarem em casa àquela hora e sem pedirem licença!” – exclamou depois.

Um homem mal encarado (era o Pinto Soares) entra no meu quarto, sem o menor respeito pelo ambiente íntimo dum casal e convida-me a levantar. Entretanto, começa uma minuciosa busca em toda a casa, enquanto outro agente me acompanhava ao quarto de banho.

A minha mulher chorava e acusava a polícia da grosseria praticada ao mesmo tempo que os avisava de que sabia usarem de violências. Fez-se ouvir uma ameaça da parte do chefe de brigada, mas não produziu efeito porque minha mulher respondeu que de tal fama se não livravam.

Minha filha Lucília, mais serena, acompanha o Puga ao andar superior, onde tudo revolve e põe em desordem.

É-me permitido tomar o pequeno almoço, o que teve um paladar diferente dos outros dias. Entretanto, encontrava-me imperturbável. E lá vou eu num enorme carro, bem guardado por sete agentes. Tanta gente armada para um homem indefeso. (…)

 

 

 

[1] Das notícias, nos jornais da época, dessas romagens de saudade, destacamos a realizada no 2º aniversário da sua morte (1968), que contou com uma centena e meia de pessoas (um número muito elevado, tendo em conta a repressão a que ficavam sujeitas nestas iniciativas), e na qual Óscar Lopes foi o principal orador; encontramos também especial referência a uma outra, essa após o 25 de Abril de 74, de cuja comissão promotora fizeram parte, entre muitos outros, Ruy Luís Gomes, Virgínia Moura, Lobão Vital, Óscar Lopes e José Morgado.

Dados biográficos

Biografia em co-autoria de Helena Pato e Francisco Abreu Pessegueiro, neto deste resistente antifascista. Escrita a partir de alguns dados biográficos facultados por FAP e de diversas notícias da imprensa da época. As fotografias anexadas em comentários foram facultadas pelo referido neto.

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/rodolfo-a-abreu/

As tropas americanas libertaram realmente Mauthausen?

A história da “libertação de Mauthausen” por tropas dos EUA em 1945 não é só mal contada. Omite também que essa libertação – que certamente não teria sido possível sem as sucessivas derrotas das forças nazis, em particular perante o Exército Vermelho – teve uma intervenção determinante da resistência antifascista organizada no interior do campo, com um papel particularmente destacado dos comunistas espanhóis aí detidos.

Gostaste do que leste?

Divulga o endereço[2] deste texto e o de odiario.info[3] entre os teus amigos e conhecidos

            

Bela iniciativa

Uma nova e incontornável
página WEB sobre Garcia Lorca
aqui

«(...)Con fotografías cedidas en muchos casos por la fundación que representa a la familia del poeta, la web permite establecer "un viaje de ida y vuelta" a través de los numerosos recursos culturales y turísticos. Es precisamente esa vertiente turística y de promoción del patrimonio la que puso en valor José Entrena, presidente de la Diputación Provincial de Granada, durante la presentación del proyecto. Un labor que, en palabras del político socialista, tiene una “enorme trascendencia” pues abre el universo de Lorca “a millones de personas” y, de paso,permitirá dar “a conocer la provincia [de Granada] que tanto amó y que tanto le debe” al poeta. Además de una completa biografía y otra sección dedicada a la obra de García Lorca, dividida esta a su vez en su impronta literaria, musical y filmográfica,la web dispone de un índice alfabético con cerca de un centenar de personas relacionados con el poeta y datos útiles que incluyen museos, tours y una agenda actualizada de eventos.(...)»
(aqui)

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

Assinalar vitória sobre o nazi-fascismo e defender a Paz

Ao evocar o Dia da Vitória, o CPPC alerta para ameaças e perigos na actual situação internacional, vincando a premência do combate ao regresso de valores «fascizantes, neocoloniais e belicistas».

Soldados soviéticos com prisioneiros que acabaram de libertar no campo de extermínio de AuschwitzCréditos / hindustantimes.com

Neste 9 de Maio de 2019, em que se assinala o 74.º aniversário da vitória sobre o nazi-fascismo na Segunda Guerra Mundial, o Conselho Português para a Paz e Cooperação (CPPC) chama a atenção para a actual situação internacional, «em que se multiplicam focos de ingerência e conflito», e sendo crescente a tensão que as potências ocidentais – EUA, União Europeia e NATO – promovem «face à Federação Russa e à China, de consequências imprevisíveis».

Numa nota, o CPPC destaca a necessidade de mobilizar vontades em torno da defesa da Paz, do desarmamento, da dissolução da NATO, do fim das bases militares estrangeiras, da corrida aos armamentos e das armas nucleares e de outras de destruição massiva.

Sublinha, igualmente, a necessidade de defender o fim das ingerências e agressões externas, bem como o respeito pela soberania dos estados e pelos princípios consagrados na Carta das Nações Unidas, na Constituição da República Portuguesa e nos valores da Revolução de Abril – «é este o caminho que interessa à Humanidade», declara o CPPC.

Valorizar os que resistiram e contribuir para que não se repita a barbárie

Ao assinalar a vitória sobre o nazi-fascismo na Segunda Guerra Mundial, para a qual o Exército Vermelho e a União Soviética deram um contributo decisivo, o CPPC reafirma «a sua determinação em prosseguir e intensificar a acção de esclarecimento e mobilização da opinião pública», de modo «que nunca se venha a repetir barbárie semelhante, que causou cerca de 50 milhões de mortos».

O organismo português de defesa da paz sublinha ainda que a valorização dos que «resistiram, deram a liberdade e a própria vida para pôr fim à guerra, para libertar os povos do horror nazi-fascista» não pode passar ao lado dos «avanços alcançados no pós-guerra pelos povos da Europa e do mundo nos seus direitos sociais, laborais e políticos», nomeadamente ao nível da saúde, da educação, do trabalho, da protecção social, da igualdade entre homens e mulheres, e da possibilidade de «decidirem soberanamente do seu destino, pondo fim aos impérios coloniais».

«Todos quantos defendem a paz, a liberdade, os direitos democráticos, a soberania, a solidariedade» são confrontados, perante a evocação da vitória sobre o nazi-fascismo, com a premência de combater o «regresso de valores retrógrados, fascizantes, neocoloniais e belicistas», afirma o CPPC, que encara a Paz como «valor essencial para garantir o bem-estar, o desenvolvimento, a felicidade e a própria vida humana no planeta».

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/assinalar-vitoria-sobre-o-nazi-fascismo-e-defender-paz

Pete Seeger: De que lado você está?

Esta canção, gravada por Pete Seeger em 1940, virou hino da luta sindical nos Estados Unidos. E mantém sua atualidade nas lutas atuais, inclusive no Brasil, quase 90 anos depois de sua composição pela ativista Florence Reece. 

Pete Seeger – que teria completado cem anos no início deste mês (em 3 de maio) – foi um cantor intimamente ligado à luta popular. As canções que gravou não apenas tinham como tema a luta dos trabalhadores, mas muitas vezes surgiram dela. Como a canção Which Side Are You On? (De que lado você está?), que ele gravou em 1940 e se tornou uma espécie de hino da luta sindical nos Estados Unidos. 

Which Side Are You On? foi composta em 1931, pela poeta, militante e escritora popular Florence Reece (1900-1986), que era filha e esposa de mineiros de carvão no Kentucky (EUA). Ela a compôs durante a greve conhecida como a Guerra do Condado de Harlan. Seu marido, Sam Reece, era um dos líderes da United Mine Workers (Sindicato dos Mineiros) em Harlan County, Kentucky, sendo um dos dirigentes da greve. 

Num certo dia, para intimidá-lo, a repressão – comandada pelo xerife J. H. Blair (citado na música como chefe de bandidos) – invadiu a casa dos Reece, mas Sam já não estava lá. Naquela noite, Florence escreveu a música (no verso de um calendário de parede!) que ficaria famosa. Ela foi coletada em 1937 pelo folclorista Alan Lomax, parceiro de Pete Seeger, que a gravou em 1940. 

A letra, com a autenticidade da voz que vem diretamente da luta operária, exige a tomada de posição na luta contra a opressão, e sua atualidade é renovada em nossos dias, quase 90 anos após sua criação por Florence Reeve. Ela diz, com clareza: 

“De que lado você está?”

Venham todos vocês bons trabalhadores,
trago boas notícias para vocês 
de que o bom e velho sindicato 
veio aqui para ficar. [Refrão:] De que lado você está?
de que lado você está?
de que lado você está?
de que lado você está? Meu pai era mineiro
e eu sou filho de um mineiro
e vou ficar com o sindicato
até que todas as batalhas sejam vencidas. [Refrão] Eles dizem que no condado de Harlan 
não há neutralidade;
você vai ser um sindicalista
ou um bandido de J. H. Blair. [Refrão] Oh trabalhadores, vocês aguentam?
Oh me diga como podem.
Você vai ser uma péssima sarna
ou será um homem? [Refrão] Não fure [a greve] para os patrões,
não ouça suas mentiras.
Nós, gente pobre, não temos chance 
a não ser que nos organizemos. [Refrão]

 

“Which Side Are You On?”

Come all of you good workers,
good news to you I’ll tell
of how the good old union
has come in here to dwell. [Chorus:] Which side are you on?
which side are you on?
which side are you on?
which side are you on? My daddy was a miner
and I’m a miner’s son,
and I’ll stick with the union
’til every battle’s won. [Chorus] They say in Harlan County
there are no neutrals there;
you’ll either be a union man,
or a thug for J. H. Blair. [Chorus] Oh workers can you stand it?
Oh tell me how you can.
Will you be a lousy scab
or will you be a man? [Chorus] Don’t scab for the bosses,
don’t listen to their lies.
Us poor folks haven’t got a chance
unless we organize. [Chorus]

 

 


Texto em português do Brasil


 

https://www.jornaltornado.pt/pete-seeger-de-que-lado-voce-esta/

A «ALMOÇARADA» NA TRAFARIA

Domingo, 7 de Maio de 1944. «O 1º batalhão da Brigada Naval da Legião Portuguesa, acampado desde ontem na mata da Trafaria, terminou hoje o seu exercício de campo. Esta manhã, depois da alvorada e da missa campal, com a presença do sr. comandante Henrique Tenreiro, efectuou-se um exercício de progressão na praia entre a Cova do Vapor e a Trafaria.
Partia-se da hipótese que os legionários tinham levado a cabo um desembarque naquela zona, onde encontraram resistência. O exercício, dirigido pelo comandante do 1º batalhão, 1º tenente Horácio de Carvalho, desenvolveu-se normalmente e o batalhão, utilizando todos os serviços de transmissões, fez a sua progressão até ao local do acampamento.
Ás 13 e 30 realizou-se, á sombra do pinhal, um almoço de confraternização, a que presidiu o sr. comandante Henrique Tenreiro e com as presenças dos srs. capitão de mar e guerra Alberto dos Santos e major Nascimento, Chefe de Estado Maior da Brigada Naval, bem como de muitos oficiais, graduados, etc.
Aos brindes, usou da palavra o sr. comandante Henrique Tenreiro, que pronunciou um caloroso discurso, entrecortado de grandes aplausos.
Começou por lembrar que o sr. comandante Alberto dos Santos, grande amigo da Brigada Naval, completava hoje 70 anos, passando por isso à reforma, motivo pelo qual traçou o seu elogio.
Continuando, o sr. comandante Tenreiro afirmou que, "certos da vitória de Salazar, os legionários continuam unidos e prontos a obedecer-lhe à primeira voz".
Acentuou que a união da Brigada Naval tem sido timbre daquela corporação, sendo necessário que continue a sê-lo enquanto Salazar assim o entender.
Terminou lembrando aos legionários navais, que, sendo eles soldados da Revolução Nacional, cumpre-lhes manter cabeças ao alto, fé em Deus e na política do Estado Novo.
O sr. major Carlos Nascimento, chefe de Estado Maior da Legião, exaltou depois o espírito de unidade e a força espiritual e material dos legionários, afirmando que o comandante Henrique Tenreiro tinha na Brigada Naval um dos grande expoentes do seu espírito de grande organizador.
Por último, o sr. comandante Alberto dos Santos agradeceu as palavras que lhe tinham sido dirigidas e incitou os legionários a cumprirem sempre os seus deveres.
O batalhão regressou a Lisboa ao fim da tarde
O que acabaram de ler é a transcrição completa da notícia. Num Mundo então em guerra, esta história de umas manobras navais na outra banda quase parece uma paródia provocatória. Do outro lado do Mundo fuzileiros navais americanos arriscavam e perdiam a vida em operações anfíbias que por cá eram encenadas com a seriedade de um piquenique de fim de semana: uma noite de acampamento, seguida de alvorada e missa, com uma passeata entre duas praias para apanhar a brisa do mar e abrir o apetite para o almoço, servido à sombra dos pinheiros, a que se seguiu uma sequência de discursos para ajudar a digestão. Houvesse ele invasão e a Pátria estava salva graças ao 1º batalhão da Brigada Naval da Legião Portuguesa.

 

Veja o original em 'Herdeiro de Aécio' na seguinte ligação::

http://herdeirodeaecio.blogspot.com/2019/05/a-almocarada-na-trafaria.html

PARECE QUE NEM O PASSADO É COMO NOS QUEREM CONTAR QUE FOI

Há poucos dias foi notícia que a taxa de desemprego nos Estados Unidos havia descido para índices como não havia noticia desde 1969. A satisfação da Administração Trump é compreensível e notória. Mas a questão aqui são as suas queixas recorrentes de que a comunicação social não dá valor a esses sucessos da sua governação, o que, sendo verdadeiro, não é nada de novo. Se regressarmos a 1969, o tal ano de referência da taxa de desemprego, aquilo que podemos encontrar de referências noticiosas sobre os Estados Unidos na edição de há precisamente 50 anos do Diário de Lisboa é um «acentuar da contestação», apesar de naquele país se estarem a registar taxas de emprego como nunca mais se voltariam a ocorrer nos 50 anos seguintes... Parece que o passado não é como nos querem contar que foi... Ou então, está-se a fechar o ciclo da moda que, há cerca de 25 anos, estabeleceu que tudo em política tinha a ver com economia («It's the economy, stupid!»). Não tem. Nunca teve. E com os tempos que se vivem na América de Trump é  facílimo perceber isso.  

 

Veja o original em 'Herdeiro de Aécio' na seguinte ligação::

http://herdeirodeaecio.blogspot.com/2019/05/parece-que-nem-o-passado-e-como-nos.html

Contra a desmemória

Abaixo-assinado de 71 professores da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra relacionado com um infeliz episódio ocorrido durante as festividades de Queima das Fritas. Sendo um dos signatários, entendo que não devo juntar aqui a minha opinião mais pessoal, que darei noutros lugares. Todavia, uma vez que este post servirá também para memória futura, junto três notas objetivas: 1) o episódio em si constou de uma paródia do Holocausto, servindo-se ademais da simbologia de um comboio, que deveria ser integrada no habitual cortejo da festividade; 2) os 71 professores signatários foram aqueles que foi possível reunir em menos de 48 horas durante uma semana que é de interrupção das aulas, outros transmitiram entretanto o seu apoio a este documento; 3) alguns professores entenderam não assinar, o que estava, naturalmente, no seu direito; uma pequena minoria procurou demover colegas de o fazer, o que não pode deixar de ficar registado. [Relembro: este comentário é estritamente pessoal e não vincula os signatários do documento que a seguir se transcreve.]

 


MEMÓRIA E RESPONSABILIDADE
Abaixo-assinado

A utilização da palavra “Alcoholocausto”, no cortejo da Queima das Fitas de 2019, pelo carro dos alunos fitados de História não veio a concretizar-se, após acordo com a direção da Faculdade de Letras. Aparentemente, no entanto, os/as responsáveis mantiveram-se convictos/as da justeza da sua opção inicial, uma vez que afixaram no carro alusões a uma “censura” e à existência de uma “polícia académica”, apresentando-se alguns/mas participantes com uma mordaça. Também o panfleto distribuído a lembrar o dia 27 de Janeiro como dia da memória do Holocausto faz alusão a um extermínio “com o intuito de desembaraçar a sociedade alemã e a Europa de inúmeras comunidades sociais”, formulação que ou revela profunda ignorância ou denuncia uma total indisponibilidade para referir com rigor os factos históricos.

Apesar da não afixação no carro do nome inicialmente escolhido, este caso não pode passar sob silêncio e, muito menos, pode ser encarado como um simples episódio sem relevância. Importa, assim, clarificar o seguinte:

  1. Holocausto” é uma palavra que remete, sem subterfúgios, para o maior crime contra a humanidade alguma vez cometido, o extermínio genocida de mais de seis milhões de judeus, ciganos e outros grupos pelo regime nacional-socialista. Este genocídio fez-se em nome de uma ideologia racista e foi planificado e organizado de forma minuciosa e eficiente por uma máquina implacável posta em movimento por toda a Europa sob o domínio nazi. Não pode nunca perder-se de vista que, por detrás da generalidade do conceito, estão homens, mulheres e crianças inocentes, vidas que, criminosamente, não puderam ser vividas. É a enormidade do crime e a lembrança concreta dessas vidas não vividas que nos impõe aquilo a que Primo Levi, sobrevivente de Auschwitz, chamou o dever da memória. Este dever é imprescritível, isto é, não caduca, por maior que vá sendo a distância temporal. No caso vertente, a incorporação do símbolo de um comboio no grafismo utilizado pelos fitados de História não deixa a mínima dúvida sobre a intencionalidade da alusão contida no nome do carro – os vagões de gado que atravessaram toda a Europa transportando, em condições infra-humanas, as vítimas destinadas ao extermínio são um dos símbolos mais poderosos do genocídio. Estamos, pois, perante uma violação grosseira do dever de memória e perante uma ofensa gravíssima à memória das vítimas.
  2. Contrariamente ao que alegam os/as organizadores/as do carro, há limites para a liberdade de expressão, assim, como há limites para o uso da sátira e do humor. Limites que estão consignados na lei, mas que, antes de serem de ordem jurídica, radicam num conceito elementar de responsabilidade ética individual. O mais óbvio desses limites atinge-se quando estão a ser feridos direitos que pertencem legitimamente a outros. Nem tudo pode ser objeto de sátira: para além dos critérios óbvios do bom gosto, a sátira constitui um modo de discurso que carece sempre de uma legitimação ética. É lícito e desejável transformar uma pessoa ou uma instituição em objeto de riso quando se trata de defender valores substanciais através da denúncia de atos censuráveis praticados por essas pessoas ou instituições. Não é lícito fazê-lo quando a forma da crítica passa inteiramente ao lado do que se pretendia criticar e viola gratuitamente a dignidade humana. Neste caso, a dignidade humana de vítimas para sempre silenciadas. Quem assim procede torna-se, implicitamente, cúmplice dos crimes cometidos e não poderá, em nenhuma circunstância, furtar-se a esta responsabilidade. E muito menos poderá, quando confrontado com a indignidade da sua posição, arrogar-se a posição de vítima de um qualquer ato de “censura”.
  3. A situação criada é ainda agravada pelo facto de, presentemente, circularem com insistência em todo o mundo teses negacionistas, rejeitando a própria existência histórica do Holocausto. É particularmente grave que sejam estudantes universitários de História a colaborar numa lógica de banalização que os aproxima, objetivamente, do negacionismo.

Os/as abaixo-assinados/as, docentes da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, sentem-se profundamente envergonhados e amargurados pela imagem que, com a sua ignominiosa escolha inicial, o grupo de promotores do carro “Alcoholocausto” projetou de si próprio, nos órgãos de comunicação e em outras redes em que defendeu o seu projeto, enquanto grupo de finalistas do curso de História, implicando, ao mesmo tempo, a Faculdade e a Universidade a que pertence. Mas, mais do que isso, entendem ser seu imperativo de consciência, em nome do princípio fundamental de humanidade imposto pela memória das vítimas, trazer a público uma firme posição de inteiro repúdio e total rejeição.

Coimbra, 7 de Maio de 2019
Adriana Bebiano, Ana Cristina Araújo, Ana Paula Arnaut, Anabela Fernandes, António Campar, António Manuel Rebelo, António Sousa Ribeiro, Carlos Ascenso André, Carlos Reis, Carmen Soares, Catarina Caldeira Martins, Clara Keating, Claudete Oliveira Moreira, Claudia Ascher, Conceição Carapinha, Cornelia Plag, Cristina Robalo Cordeiro, Diogo Ferrer, Domingos Jesus da Cruz, Fátima Velez de Castro, Fernando Matos de Oliveira, Frederico Lourenço, Graça Capinha, Inês Amaral, Isabel Paiva, Isabel Pereira, Isabel Santos, Jacinta Matos, Jens Liebich, Joana Antunes, João Domingues, João Figueiredo, João Gouveia Monteiro, João Maria André, João Muralha, João Nuno Corrêa-Cardoso, John Havelda, José Luís Brandão, Judite Carecho, Katharina Baab, Luca Antonio Dimuccio, Lúcio Cunha, M. Conceição Lopes, Manuel Portela, Margarida Miranda, Maria Beatriz Marques, Maria de Fátima Gil, Maria do Céu Fialho, Maria Isabel Caldeira, Maria João Silveirinha, Maria João Simões, Maria José Canelo, Maria Luísa Portocarrero, Marta Anacleto, Norberto Santos, Paula Barata Dias, Paula Santana, Paulo Nossa, Paulo Silva Pereira, Pires Laranjeira, Raquel Vilaça, Rita Marnoto, Rogério Paulo Madeira, Rosário Ferreira, Rosário Neto Mariano, Rui Bebiano, Rui Ferreira, Rui Manuel Afonso Mateus, Rui Pereira, Rute Soares, Sara Sousa

Ver original em 'A Terceira Noite' na seguinte ligação:

http://www.aterceiranoite.org/2019/05/08/contra-a-desmemoria/

A crise académica de 1969, a greve e outras greves e crises

(Por Carlos Esperança, 06/05/2019)

Quando em 17 de abril de 1969 não foi concedida a palavra ao presidente da Associação Académica de Coimbra, Alberto Martins, que a solicitara numa cerimónia académica, presidida pelo lacaio de Salazar, Américo Tomás, abateu-se a repressão policial contra os estudantes. Seguiram-se a greve e a falta aos exames pelos alunos que contestaram a ditadura e acabaram presos e mobilizados para a guerra colonial, que lhes interrompeu os cursos.

 

Neste ano, a pretexto do cinquentenário, tem vindo a ser comemorada a data – e bem –, na homenagem que é devida, pela coragem, aos que ousaram desafiar a ditadura e a sua feroz repressão enquanto ainda andam por aí os que, por convicção fascista, traíram.

Pela importância do movimento académico na luta contra o fascismo, compreende-se a omissão das lutas dos trabalhadores e oposicionistas, em geral, e dos comunistas e anarquistas, em particular, vítimas de ainda maior e mais violenta repressão.

Lamento, na evocação da crise de 1969, o facto de não ter sido utilizada para associar, na recordação desta corajosa luta académica, as que a precederam. Já não digo que se recuasse à heroica luta da greve de 1907 contra a ditadura de João Franco, mas a todas as que desgastaram o consulado salazarista.

Em 1962, a crise académica, começada em Lisboa, foi um dos principais momentos da luta dos estudantes universitários portugueses contra a ditadura. O I Encontro Nacional de Estudantes acabou por se realizar em Coimbra e os dirigentes da AAC acabaram na prisão e no exílio com a feroz repressão a ser exercida sobre todos, desta vez incluindo, pela primeira vez, alunas que foram presas na PIDE de Coimbra, por não haver cadeias políticas para mulheres.

O futebol, instrumento de alienação do salazarismo, teve momentos épicos através do clube de futebol da AAC (a Académica) cujos atletas eram estudantes universitários e que arriscaram o que para muitos era o único recurso para um curso superior.

Seria ingratidão não aludir à corajosa luta dos estudantes-atletas no final da taça de 1969 que, em solidariedade com os dirigentes expulsos da Universidade, depois de negadas sucessivas formas de manifestação de luto académico, no Jamor, acabaram a empunhar cartazes que passaram de mão em mão pelos jogadores e acabaram a circular entre os do clube adversário, galvanizados pelos estudantes de Coimbra, num desafio à ditadura.

Finalmente, por ser um episódio quase desconhecido e de grande relevância cívica, deve ser lembrado que os jogadores da Académica, já em 1967, na disputa do Troféu cidade do México, homenagearam Simão Bolívar em cujo monumento depuseram uma coroa de flores. A equipa, acompanhada pelo grande jornalista e democrata Carlos Pinhão, viu o ato ficar perpetuado no jornal “A Bola”, então um baluarte da democracia que, perante a desatenção da censura, perpetuou o nobre ato democrático.

Por gentileza de um dos participantes deste feito, que nunca mais seria alheio à defesa da democracia, aqui fica o recorte que a ignorância do censor, sobre a figura de Simão Bolívar, deixou passar nas páginas honradas do jornal desportivo.

(Ler legenda – foto canto inferior esquerdo)

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

AS ELEIÇÕES PARA OS PRIMEIROS PARLAMENTOS REGIONAIS ESCOCÊS E GALÊS

6 de Maio de 1999. Realizam-se eleições simultâneas para os primeiros parlamentos da Escócia e do País de Gales. Se, de há muito, todos nos havíamos habituado à existência de selecções de futebol ou de rugby distintas da inglesa (abaixo), a verdade é que a existência de uma câmara representativa local é um fenómeno com apenas vinte anos.

 

Veja o original em 'Herdeiro de Aécio' na seguinte ligação::

http://herdeirodeaecio.blogspot.com/2019/05/as-eleicoes-para-os-primeiros.html

A nossa memória colectiva

Chegamos ao 45º aniversário do 25 de Abril e ainda não podemos parar de falar em fascismo. Nas nossas vidas parece um carma…

Mário de Carvalho disse, numa apresentação deste livro: Que “vão emergindo sinais de ressurgência dos fascismos e das tiranias. Que pressentimos o fascismo ou os seus pressupostos a tomar vulto e a rondar por aí. Por enquanto sob diversas capas, disfarces e pretextos”. É isto mesmo, se bem que tudo indique que, em Portugal, estaremos longe de, a breve prazo, vermos chegar ao poder, por via eleitoral, uma extrema-direita fascista, ou «racista, machista e xenófoba», como vem sucedendo na Europa e aconteceu no Brasil. Mas é realmente preocupante a degeneração das democracias, a que vimos assistindo, estimulada pelo exemplo da governação ultra reaccionária e grotesca de Trump.

Nós por cá, respaldados por uma Constituição que é o nosso maior património político, continuamos a ter as amplas liberdades por que lutámos; podemos falar, protestar, reivindicar, organizar; temos sindicatos livres, o direito à greve e eleições democráticas. Mas vemos que os fascistas tentam pôr a cabeça de fora, ensaiam estratégias de investida e tudo aconselha redobrada atenção. Como lembrou, há tempo, a escritora Lídia Jorge: «Desde o início dos anos 90 que os teóricos da comunicação do grotesco anunciavam que aí viriam tempos em que as populações poderiam eleger como líderes figuras bizarras, aparentadas com os cómicos, os palhaços, os furiosos, fundamentalistas de ideias fixas e outros gestos arrebatados. Essas previsões deprimentes ainda estão longe de se generalizar, mas o que até agora já aconteceu, dentro e fora da Europa, aconselha reconsideração».

Não me levem, pois, a mal que, nesta sessão, eu me refira a algo que se prende com o conteúdo do meu livro e também com as celebrações de Abril: a nossa memória (colectiva) do fascismo.

É uma abordagem que não tem quaisquer pretensões de análise política, claro.

I – “Cumpra-se Abril!”

Sigo com preocupação o despudor com que, no nosso país, já vão aparecendo na cena política, propostas xenófobas, populistas, em oposição a princípios civilizacionais básicos, pelos quais nos batemos e conquistámos. Vozes que não têm o menor respeito por direitos humanos, que dávamos como adquiridos nas últimas décadas.

As redes sociais,neste contexto, são campo fértil para lançar sementes reaccionárias. Lembro-me do caminho feito com êxito, nesses meios, pelos presidentes dos Estados Unidos e no Brasil, e muito recentemente em Espanha, pelo partido VOX… Tenho a percepção de que não podemos descansar. Os inimigos perigosos dos valores democráticos – apoiados ou não por forças internacionais – estejam mais organizados ou pouco organizados, por cá não envergam coletes amarelos, andam por muito perto de nós. E se antes surgiam encobertos pelo anonimato, agora, cada vez mais, se exprimem às claras, ganhando algum terreno, ao abrigo de direitos constitucionais, nomeadamente da liberdade de expressão.

Não podemos iludir-nos com o facto de haver um batalhão de pessoas que, connosco, rejeitam e repudiam retrocessos civilizacionais, que são propalados por essa gente, um pouco por todo o mundo. Em Portugal, vemo-los avançar em alguns tabuleiros do jogo democrático, serem acolhidos pela Comunicação Social em debates, e concorrer a eleições. Do nosso lado, o lado das forças progressistas, se queremos encarar de frente essa horda populista, desmobilizar-lhes as audiências, só há, quanto a mim, um caminho profícuo: ir à raiz do problema, atacando as carências sociais que contribuem para os seus avanços.

Porém, que não seja com mezinhas aqui e ali, nem com xaropes de feira ou antibióticos, como vem sendo feito, mas com cirurgias de ponta, que extirpem a malignidade endémica. É caso para dizer “Cumpra-se Abril!”. Precavermo-nos contra as investidas fascizantes impõe que a formação humanista e científica dos portugueses comece cedo, nas escolas, e desde a primeira infância – Para que o egoísmo, a estupidez e as crendices não venham a alastrar, em adultos, como manchas de óleo. A Educação não pode ser subestimada. A Cultura tem que subir no ranking das prioridades, deixando de ser a parente pobre nos orçamentos.

Precavermo-nos contra a oferta populista exige a ponderação de medidas políticas corajosas que, sem perda de tempo, reduzam as abissais diferenças de rendimentos, geradoras de enorme descontentamento. Exige que se vá além da diminuição da taxa de desemprego e se estimulem condições para a segurança no emprego. Exige que não se fique pelos cuidados de saúde gratuitos, já assegurados pelo SNS, que o Estado garanta a prestação de assistência médica de qualidade, e que possamos contar com ela na hora em que dela carecemos. Exige que o direito à habitação volte urgentemente à agenda das prioridades do poder legislativo e autárquico.

E se dou ênfase às preocupações que enunciei, é porque não me saem da cabeça os muitos jovens com vidas super desgastantes, ou separados da família nuclear, agora já não pela guerra colonial, mas para poderem sobreviver; e é também porque me aflige ver a minha geração, tantos anos depois da Revolução, ainda sem a dignidade que nos foi prometida no Programa do MFA, em que constava (cito): «Uma nova política social para o aumento progressivo, mas acelerado, da qualidade da vida de todos os Portugueses».



Arquivo Centro de Documentação 25 de Abril / Universidade de Coimbra


Dantes, eu tinha alguma dificuldade em entender a razão por que os mais pobres dos pobres votavam na direita; mas actualmente, quando vemos cidadãos (em elevada percentagem dos eleitores) com grande descrença nos políticos e a afastarem-se da política partidária de forma que parece irreversível, receamos que a oferta fácil, de cariz populista, em período eleitoral, possa ganhar adeptos entre os mais insatisfeitos, aqueles que são mais penalizados na vida do dia-a-dia. Jovens e idosos despolitizados são presas fáceis. O desespero leva ao voto de protesto contra o sistema partidário e à adesão (cega, ignorante) a vozes desorganizadas.

Contra o populismo político e também sindical –  e ele existe! – precisamos, como de pão para a boca, de novas linguagens na comunicação de mensagens de teor político e sindical. Necessitamos de políticos e de dirigentes respeitados, com discursos claros, sem arrogância, próximos dos cidadãos e sem um fraseado herdado de um passado que deus tem, que pouco entra em ouvidos do século XXI. Actualmente, na comunicação com os cidadãos, a forma usada na mensagem pode ser tão determinante nas escolhas, como as medidas que se propõem. A profilaxia do populismo exige-nos tudo isto e pede aos cidadãos mais conscientes dos perigos, uma maior intervenção e persistência nos combates – por exemplo, não se podem deixar lugares vazios em iniciativas plurais, apenas porque não se gosta de A ou de B. As redes sociais têm que ser encaradas, também, como um campo de informação e de desmontagem de falsidades.

Não podemos deixar de ir a jogo nesse campo da Comunicação Social que é “super-privilegiado” pelo populismo. Foi pensando nisso que eu optei por dar horas do meu dia ao trabalho militante antifascista, em dois espaços do facebook, contribuindo para que “Fascismo Nunca Mais!”

Fascismo Nunca Mais!

II – Conhecer para rejeitar

2O conhecimento do que foi o fascismo não é uma vacina, mas não duvido de que o estudo da Ditadura do Estado Novo, que deveria ter lugar no âmbito do ensino, é relevante na tomada de consciência dos jovens, com vista a escolhas democráticas e ao repúdio de propostas fascizantes, com ou sem roupagens dissimuladoras. Contribui para que eles, de olhos abertos, aprendam a identificar traços e malefícios de uma ditadura, e possam vir a recusá-los em propostas que lhes sejam apresentadas. Conhecer é condição indispensável para rejeitar. (No Brasil, verificou-se que as novas gerações não tinham a menor ideia do que havia sido a ditadura militar). Por isso, vemos com alguma preocupação a abordagem dos “fascismos”, tal como está prevista no ensino das crianças e jovens.

A disciplina de História, no Ensino Básico, é indubitavelmente um dos espaços curriculares com maior vocação para enquadrar actividades, projectos e estudos com esse objectivo. Porém, mudam os ministros, ajustam-se os programas e a perspectiva mantém-se desoladora. Isto é, o chamado «Estado Novo» cabe numas escassas linhas, diluídas em extensos programas. Dizem-me que será esse o motivo pelo qual somente alguns professores se dispõem a tratar este tema, e que o fazem quase sempre por imperativo de cidadania. Todavia, verificamos que ainda são raras as escolas que não assinalam o dia da Revolução. E se festa há, seria bom que ela fosse aproveitada para transmitir Memória…

Digo isto, porque a tal propósito, tenho a impressão de que faz falta uma visão mais objectiva e menos romântica do “25 de Abril”. Depois de dezenas de anos de festividades,para festejar o dia da grande Festa, talvez tenha chegado o tempo de uma pedagogia política, que traga para primeiro plano, nessas celebrações, a memória da Ditadura; que transporte as novas gerações, ainda que por escassas horas, para o terreno de uma realidade, que foi vivida e terrivelmente sofrida pelos seus antepassados.


Guerra Colonial (1961- 1974)

Discordo profundamente da imagem da Revolução de Abril, que vem sendo transmitida às crianças e aos jovens, confinando-a a uma versão “super light” da libertação, com fotografias redutoras de um golpe militar – que brotou do chão em Lisboa, no Largo do Carmo – com Salgueiro Maia de megafone na mão e umas centenas de lisboetas empoleirados em árvores, todos a aguardar a saída de umas criaturas que nunca se vêem e que hoje já poucos sabem quem foram… Com mais umas quantas fotos icónicas de tanques, cobertos de populares ou engalanados com cravos, está desenhado o glorioso dia.

Manifestações de júbilo, cravos vermelhos, tanques e um herói militar ficarão a assinalar para sempre, e muito bem, o dia da Revolução. Mas interroguem-se os miúdos quando, nas escolas, estão a festejar a data. «Por que aconteceu a Revolução»? Riem-se e encolhem os ombros. Pergunte-se-lhes «O que foi o fascismo»? Riem-se porque desconhecem. E, na melhor das hipóteses, ouvimos uma curta frase «Era o que existia antes do dia dos cravos». Não se pode esconder dos miúdos o que realmente se festeja.

Nessas celebrações, conte-se-lhes que se comemora o fim de um regime de miséria, em que se vivia permanentemente com medo, com uma cruel repressão, e uma guerra colonial onde muitos perderam a vida. Diga-se-lhes que o 25 de Abril chegou na sequência de dezenas de anos de lutas. Que milhares de cidadãos, durante 48 anos, arriscaram tudo, incluindo a vida, em nome de um mesmo ideal: conquistar a Democracia. Diga-se-lhes que houve cerca de 30 mil patriotas que passaram pelas mãos da polícia política. Que numa guerra colonial de 14 anos, tombaram em África 10 mil portugueses, por obstinação dos governos de Salazar e de Marcelo Caetano, que teimaram em ir contra os ventos da História, recusando dar a independência àqueles povos, mantidos sob domínio colonial/fascista. A meu ver, a guerra colonial, o Tarrafale a PIDE deveriam constituir, «temas obrigatórios», nas celebrações escolares da Revolução.


Campo do Tarrafal

Mas este vazio, este apagamento do regime fascista não acontece apenas nas escolas! Se repararem, esteja a esquerda ou a direita no poder, o derrube do regime fascista é oficialmente assinalado, com mais ou menos cravos e com discursos mais assim ou mais assado, mas cujo conteúdo nunca se afasta da actualidade. Sobre o regime deposto, das bocas dos nossos representantes políticos, ouvimos pouco mais do que duas ou três “frases feitas”, referentes ao chamado Estado Novo.

III – Houve 40 anos de apagamento do passado

Até há relativamente pouco tempo, a memória do passado vinha a ser metodicamente apagada e deturpada, sem o contraponto de quem resistiu, e com o recato de quem investigou. Não me repugna, pois, ouvir criaturas da minha idade ou idades próximas, em loas ao Salazar. É natural, era expectável – esses são os que sempre apoiaram o ditador, só escutavam as suas mensagens políticas, mais a palavra do regedor da freguesia e a do padre, e tinham fé nos três.

Não aderiam a nada da Oposição e acobardavam-se. Vieram para a rua na onda gigante de Maio de 1974 e foram certamente uma pobre gente vítima do regime, mas sempre num silêncio cúmplice com ele. Não contámos nunca com essa gente na Resistência e os danos que agora causam são limitados no tempo… Outra coisa, bem diferente – e essa, sim, me inquieta como cidadã – é a ignorância do passado, com que alguns, nascidos ou criados em Democracia, seguem indiferentes nas suas vidinhas, ou persuadidos de que o regime fascista não passou de uma dramatização fantasiosa nossa – mulheres e homens que se opuseram ao regime.

Talvez tivesse sido diferente se alguns dos que assim pensam tivessem contactado com testemunhos simples e variados de resistentes, nas televisões, nas escolas e nas autarquias.Houve 40 anos de apagamento do passado e de um quase silêncio sobre o execrável regime fascista – e teremos de reconhecer que poucos estarão isentos dessa responsabilidade.

O período histórico em que alguns de nós vivemos, durante parte ou grande parte da nossa vida, [Chame-se-lhe ditadura do Estado Novo, ou regime fascista – para este efeito pouco importa], dificilmente se explica aos que agora crescem em Democracia. É verdade: às vezes contamos, eles ficam de boca aberta e desconfiam que exageramos. Tal espanto também se deve ao facto de, durante muito tempo, nós termos como que repousado do fascismo. Instalámo-nos a saborear a Democracia ou a aproveitá-la para novas batalhas. Fizemos demasiado silêncio sobre as nossas vidas, sobre o sofrimento, o medo, a pobreza. E errámos ao sacudir para as escolas essa competência, nomeadamente para os professores de História.

Hoje arcamos com uma significativa parte da responsabilidade pelo desconhecimento que grassa acerca da tal NOITE MAIS LONGA DE TODAS AS NOITES. Competia-nos espalhar o nosso testemunho: aos filhos, aos netos, aos alunos, aos vizinhos, nas Escolas, ao País. Porque a Memória colou-se a nós e nunca deixou de estar (sofridamente) viva nas vítimas.

Errámos ao fechá-la nos círculos de amigos. Confiámos no papel do Estado. E, no entanto, ela devia ter unido os antifascistas das gerações sobreviventes, numa causa comum de preservação dessa Memória, responsabilizando as entidades públicas que tinham e têm a obrigação de a defender. Devíamos ter cuidado melhor da divulgação da memória colectiva, buscando testemunhos na gente anónima que resistiu. Assim não tem acontecido, e já se perdeu uma grande parte da memória sem nomes,dessa outra Resistência que se estendeu, corajosa, pelo país fora, durante décadas. Nas organizações pró-memória militam umas escassas dezenas de resistentes. Entretanto, fora de portas, ainda há para descobrir uma Resistência sem rostos, praticamente desconhecida.

IV – Preservação da memória

Porém, já reparámos que, de há poucos anos para cá, a memória histórica da Ditadura tornou-se um assunto muito mais presente na sociedade portuguesa: no quotidiano da informação, da vida social, cultural e mesmo política. Do que posso chamar o meu ângulo de visão (muita idade, muita atenção e alguma experiência), assisto a uma dinâmica viva, em crescendo, na divulgação da Resistência à Ditadura do Estado Novo e vejo-a transitar para um plano superior de combate empenhado ao esquecimento.

Por um lado (e, provavelmente, não por acaso…), ultimamente ela merece um maior empenhamento, por parte dos diversos poderes públicos. No centro de Lisboa, conseguiu-se, finalmente, um «Memorial aos Presos e Perseguidos Políticos», (acompanhado de um extraordinário site), que foi inaugurado no dia 25 de Abril. Em Peniche, acaba de ser inaugurada a primeira fase de um «Museu Nacional da Liberdade e da Resistência». O Museu do Aljube, em Lisboa, tem uma actividade de grande impacto, quer junto das escolas, quer dos turistas, encontrando-se entre os 10 museus mais vistos no nosso País.


«Memorial aos Presos e Perseguidos Políticos»

A inauguração do Memorial em Lisboa,
Fotografias de Artur Pinto


Por outro lado, tem vindo a ser frequentemente assinaladas na Comunicação Social (Imprensa e TVs) efemérides de grandes combates do período fascista; há figuras de democratas e acontecimentos da história da Oposição que vêm suscitando uma especial apetência, quer por parte da Comunicação Social, quer nos espaços da criação cultural. Durante décadas, na comunicação social e nas redes sociais, as referências ao regime fascista, às lutas da Oposição e aos seus actores, apareciam isoladas. Algo mudou.

Mais recentemente (já antes das presentes celebrações do 45º aniversário), vimos registado iniciativas constantes neste campo: mais entrevistas e artigos em jornais; mais livros e programas de radio, com testemunhos sobre exílios, sobre repressão e torturas; muitos relatos de vidas no Estado Novo, de miséria impensável; inúmeros testemunhos de mortes e deserções na Guerra colonial, antes praticamente ignoradas. Há escritores e cineastas, das novas gerações, a abordarem temas relacionados com a dureza do fascismo em Portugal, e frequentemente com excelente qualidade.

Não posso deixar de dizer que, em minha opinião, as redes sociais tiveram e têm, neste aspecto, um papel quase impulsionador: nesses espaços proliferam recordações sofridas de vítimas do regime, que derrubando barreiras pessoais – psicológicas e sociais –  se multiplicam, encadeando-se em posts e comentários, acabando por revelar retratos de vida com inquestionável valor histórico. Há cidadãos anónimos, com um passado de luta até agora praticamente desconhecido, que começam a aceder à Torre do Tombo e, depois, não hesitam em partilhar, na net, registos e documentos.

Em suma, também há mais iniciativas individuais que alimentam a Memória da Resistência – Talvez porque o maior afastamento temporal do regime de Ditadura dá a estas gerações uma distanciação psicológica que lhes permite, agora mais facilmente, falar, escrever, partilhar ou doar documentos (ou valiosos espólios), até aqui guardados a sete chaves e que muitas vezes pareciam ser materiais condenados ao desaparecimento. [Provavelmente, em alguns casos terão valor incalculável para a História, noutros são importante património de cidadania legado à família].

Às vezes, dá-me a impressão, a mim distante das universidades, que estas começaram a gerar mais investigação sobre o regime da Ditadura e a implementar partilha deste género de conhecimento, a um maior ritmo. No contacto pessoal com investigadores, fica-nos a ideia de que, passo a passo, vem sendo acrescentada História à História da LONGA NOITE (até há pouco tempo quase limitada à versão oficial herdada do Estado Novo). Parece-nos assistir, nos meios da investigação histórica, a uma dinâmica jovem, cada vez maior, na partilha e debate de matéria deste período: raro é o dia em que não somos surpreendidos por iniciativas, como debates, conferências, congressos e homenagens, realizadas nas diferentes academias. Que reconfortante para quem esteve ligado às lutas e sofreu a repressão!

Acredito que só através de um constante entrelaçar, na acção, das universidades com as “associações de memória”, os movimentos de cidadãos pró-memória e os diferentes poderes públicos, pode ser assegurada a preservação da memória. Defendo (perdoem-me a pretensão…) que devia haver o hábito de mais parcerias com este objectivo, e também com empresas dispostas a financiar projectos. [Ainda há grande relutância em encarar esta perspectiva, mas eu, pessoalmente, vejo-a como imprescindível, desde que não colida com princípios de ética da memória].

Entretanto, a divulgação do que vivemos, do que passou por nós, por perto de nós, pelas nossas mãos, tem, em meu entender, uma importância fulcral, quer para a História, quer para a nossa Democracia. Ocorre-me que urge colher, junto dos resistentes, as suas memórias – o passado de cada um de nós é único. São vozes vivas da ditadura e, muito ou pouco o que tenham sofrido, falarão como ninguém dos medos, do obscurantismo e da pobreza com que contactaram. Já há quem vá fazendo essa recolha e com uma persistência digna de registo [O Museu do Aljube, em Lisboa, é apenas um exemplo disso e admirável], mas tenho por aconselhável que esse trabalho seja, não só alargado a gente pouco ou nada conhecida nos media, como impulsionado a um maior ritmo [Somos cada vez menos os poucos ainda disponíveis…].

Depois de nós, daqueles que, em jovens, tivemos algum papel na Resistência, perfilam-se hoje outros jovens, a quem caberá um outro papel, igualmente determinante do futuro. Nestas celebrações de Revolução, não tenho parado de pensar que, se não queremos o regresso do fascismo ou ver degradada a tessitura do regime democrático nascido há 45 anos, há que abrir os projectos políticos a jovens que possam não se encontrar alinhados partidariamente. Fazem muita falta! Temos de poder contar com essa gente nova, despolitizada. Procure-se, através deles, integrar novos anseios sociais e culturais. Mobilizem-se para o vasto campo da cidadania aqueles que, com a cabeça e o coração limpos de preconceitos, se têm mantido à margem da acção política, mas aspiram a uma sociedade de igualdade e justiça, coincidente ou não com aquele modelo em que nós acreditávamos na idade deles. Sem esses jovens – aqueles que, na sua maior parte, não têm a menor ideia do que nós vivemos sob a ditadura fascista – não enfrentaremos a ameaça fascista. E, muito menos, seremos capazes de prosseguir o trajecto para a Democracia plena.

V – Tenebrosa ditadura

Escrevi estas memórias da Ditadura – que evocam «A NOITE MAIS LONGA DE TODAS AS NOITES» – a pensar naqueles que desconhecem o que realmente foram esses longuíssimos anos – jovens e menos jovens, que tiveram a felicidade de nascer ou crescer em Democracia. Talvez um testemunho na primeira pessoa, com uma narrativa simples, os ajude a acreditar que o regime em que vivíamos antes da Revolução, frequentemente referido pela designação de «regime autoritário do Estado Novo», era de facto uma tenebrosa ditadura. Não vou referir-me ao livro: gostava que o lessem. Direi apenas isto: escrevê-lo foi, ao mesmo tempo, terrivelmente sofrido, muito entusiasmante e apaixonadamente obsessivo. É um testemunho e, melhor ou pior, ficou-me a sensação de um dever cumprido. Se já leram o livro, agradeço-vos. Se ainda o vão ler, sugiro que o leiam devagarinho – sobretudo aos leitores da minha geração, que queiram ir interrompendo, fechando os olhos e, por momentos, lembrar-se da nossa juventude.



Na verdade, os que nos encontramos hoje aqui, continuamos a ser uma família, e haja o que houver, seja qual for o caminho que cada um de nós segue para chegar ao modelo de sociedade que defende, sei que estaremos sempre juntos nos combates contra o fascismo.

Santarém, 30 Abril 2019

[Comemorações do 25 Abril em Santarém. Centro Cultural Regional de Santarém – Fórum Mário Viegas]

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/a-nossa-memoria-colectiva/

Peniche: Memorial homenageia presos políticos

«Alto significado político e justiça histórica», assim caracterizou Domingos Abrantes, na presença de António Costa, a inauguração do Memorial em homenagem aos presos políticos do Forte de Peniche.

Inauguração do Memorial em Homenagem aos Presos Políticos, na Fortaleza de PenicheCréditosCarlos Barroso / LUSA

O primeiro-ministro, António Costa, e Domingos Abrantes, ex-preso político em Peniche e actual membro do Conselho de Estado, intervieram, ao fim da tarde deste dia 25 de Abril, na inauguração do Memorial em homenagem aos presos políticos do Forte de Peniche e da exposição «Por Teu Livre Pensamento».

Um acto público com a participação de largas centenas de pessoas, nomeadamente ex-presos políticos e familiares, incluido militares de Abril e personalidades de diversos quadrantes políticos, deputados, membros do Governo, autarcas, dirigentes sindicais e das associações militares.

A inauguração do monumento deu-se ao som do hino nacional entoado pelo Coral Stella Maris, de Peniche, após o que se iniciaram as intervenções.

Na intervenção de abertura, Domingos Abrantes referiu que esta inauguração se destina «a perpetuar o nome e a memória dos mais de 2500 presos aqui encarcerados ao longo de 40 anos», sublinhando que se tratava de «gente com rosto, seres comuns: operários, camponeses, pescadores, militares, religiosos, estudantes e intelectuais. Portugueses, africanos e indianos, pessoas de opções ideológicas diferentes, mas todos irmanados na causa comum contra o fascismo. Todos obreiros da liberdade».

Domingos Abrantes, depois de lembrar que este momento marca também «o início da primeira fase da instalação do Museu Nacional da Resistência e da Liberdade», chamou a atenção para «tantos anos de políticas de esquecimento do que foi a opressão fascista e a luta pela liberdade», nomeadamente em relação aos manuais escolares, onde, «de ano para ano, vão desaparecendo as referências à ditadura e à sua natureza, assim como à resistência» e à destruição «de um após outro dos principais símbolos da repressão fascista, da tortura e do assassínio».

O primeiro-ministro, António Costa, alguns membros do Governo e outras personalidades ouvem as explicações do antigo preso político Domingos Abrantes CréditosCarlos Barroso / LUSA

Depois de referir que as paredes do Forte de Peniche não falam só de violências e de privação da liberdade, mas falam também de exemplos de coragem, de firmes convicções, «de audaciosas fugas, que foram pesadas derrotas para o regime e vitórias de toda a oposição democrática», Domingos Abrantes alertou para «os tempos preocupantes e incertos que vivemos», considerando que «o fascismo não está morto e não se combate com gritos de alma», antes exige medidas concretas «para que o sacrifício de tantas vidas não tenha sido em vão».

A finalizar, António Costa revisitou o dia 25 de Abril de 1974, a «extinção da PIDE, da Legião», para relembrar as «intermináveis horas de espera dos presos de Peniche, os últimos a serem libertados». O primeiro-ministro sublinhou a «consistência da coragem dos presos neste lugar sinistro», como «testemunhas de acusação e heróis da luta contra a ditadura».

Tendo evocado presos do Tarrafal, do Aljube e de Caxias, e destacado o papel dos militares de Abril, o primeiro-ministro disse ainda que, «em nome do futuro do 25 de Abril, nunca se poderá esquecer o passado de resistência dos que sacrificaram família, património, liberdade e a própria vida», símbolos da «nossa homenagem e exemplos de luta».

Este acto público ficará completo no próximo sábado, dia 27, data em que se assinala os 45 anos da libertação dos últimos presos políticos com uma festa popular no Largo da Fortaleza, com a participação de Gisela João, Fernando Tordo, Coro Lopes Graça e intervenções de Domingos Abrantes e Graça Fonseca, ministra da Cultura.

Da concessão ao museu

Recorde-se que a notícia sobre a proposta do Governo de concessionar o Forte de Peniche a privados em conjunto com outros monumentos históricos, por um período entre 30 e 50 anos, para o desenvolvimento de unidades hoteleiras e turísticas gerou uma forte indignação por parte de democratas antifascistas, nomeadamente de ex-presos políticos, por considerarem que a sua privatização constituiria um atentado à democracia e à violação do dever de qualquer governo de honrar a memória de quem deu a própria vida em defesa da liberdade. Chegaram mesmo a afirmar que a transformação do Forte de Peniche numa unidade hoteleira, a partir da qual os turistas teriam uma vista privilegiada para o Atlântico, constituiria um insulto à memória dos que aí estiveram detidos e nem o mar conseguiam ver.

O secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, cumprimenta Domingos Abrantes durante a inauguração do Memorial em Homenagem aos Presos Políticos CréditosCarlos Barroso / LUSA

Na sequência dessa atitude do Governo, foi lançada uma petição, que rapidamente obteve 5 mil assinaturas, exigindo que a Fortaleza de Peniche se mantivesse como património nacional. A petição foi entregue no dia 5 de Outubro na Assembleia da República com nomes de diversos quadrantes político-ideológicos e de variadas áreas da vida política, cultural e social nacional.

Uma iniciativa que acabou por ter eco no Governo, que, a 27 de Abril de 2017, realizou, simbolicamente, a reunião semanal do Conselho de Ministros no Forte de Peniche, no dia em que se assinalavam 43 anos da libertação dos últimos presos políticos daquela cadeia de alta segurança do regime fascista.

Uma reunião no final da qual foi anunciada a instalação, naquele local, de um «museu nacional dedicado à luta pela liberdade e pela democracia». Aliás, por proposta do PCP, o Orçamento do Estado para 2017 já previa a concretização, por parte do Governo, de um plano urgente de intervenção na Fortaleza de Peniche, com a previsão de investimento de 3,5 milhões de euros e o apoio dos programas Centro 2020 e Portugal 2020, envolvendo a conservação e restauro da fortaleza e os custos da primeira fase de instalação do museu.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/nacional/peniche-memorial-homenageia-presos-politicos

AS COMEMORAÇÕES “OFICIAIS” DO 17 DE ABRIL DE 1969

O SEU A SEU DONO

Resultado de imagem para 17 DE ABRIL DE 1969

Pelo que se lê nos jornais e se vê nas televisões parece haver uma tentativa de filiar a Crise Académica de 69 (Coimbra) no Partido Socialista ou, pior ainda, uma tentativa de apropriação por elementos do Partido Socialista do movimento estudantil simbolizado no “17 de Abril”.

Sem meias palavras, nada mais falso. Essa tentativa mais ou menos velada mais ou menos ostensiva de reescrever a história pode, na actual conjuntura política, com o apoio acrítico ou a pura ignorância dos meios de comunicação, ter algum êxito, mas jamais terá a força suficiente para historicamente se impor.

Antes de mais, nem Partido Socialista havia em 1969. O que havia era a ASP, Acção Socialista Portuguesa, fundada em Novembro de 1964, em Genebra, por Mário Soares, Tito de Morais e Ramos da Costa.

Assim sendo, a filiação de qualquer movimento estudantil ou político da época no actual Partido Socialista só seria legítima se aqueles ou parte daqueles que então actuaram se identificassem com a acção política de Mário Soares ou das organizações políticas por ele dirigidas, visto ele ser, indiscutivelmente, mais até do que depois do 25 de Abril, a figura mais visível desse sector da oposição democrática.

Mário Soares, desterrado para S. Tomé por deliberação do Conselho de Ministros presidido por Salazar, tinha regressado em Novembro de 1968 cerca de um mês e meio depois da tomada de posse de Marcello Caetano. Logo a seguir a este regresso, um núcleo da ASP (Associação Socialista Portuguesa) de Coimbra, constituído por um ou dois estudantes (Luís Filipe Madeira e um outro) e apoiantes históricos de Mário Soares na região, como António Arnaut, António Campos e Fernando Valle, organizou em Coimbra, no ambiente restrito de uma República – “Os Cágados” –, uma sessão com Mário Soares para falar sobre o desterro em S. Tomé, o seu regresso e a situação política do país.

No ambiente agitado do meio estudantil que então já se vivia em Coimbra, a presença de Soares e as suas intervenções n’ “Os Cágados” não tiveram praticamente nenhum impacto político entre os estudantes, tal era o distanciamento da juventude oposicionista ao “socialismo” de Soares e seus amigos. Aliás, esse encontro não terá corrido nada bem a Soares, apesar de apadrinhado por alguns notáveis vultos da intelectualidade coimbrã, como o professor Paulo Quintela e outros. Não apenas por Mário Soares não captar nenhuma simpatia entre a juventude de então, mas também por o seu regresso do desterro, tão próximo da tomada de posse de Marcello, ter levantado uma onda de boatos sobre a sua futura acção futura política que, por mais injustos que fossem, o prejudicavam seriamente. O mesmo distanciamento se notou, aliás, meses mais tarde no II Congresso Republicano de Aveiro (Maio de 69) no qual a intervenção de Soares, centrada na exigência de cumprimento do art.º 8.º da Constituição (1933), foi acolhida com muita frieza. Posteriormente, em Outubro de 1969, na campanha eleitoral para as legislativas – as primeiras da era marcelista -, Soares quebrou a unidade oposicionista, apresentando em quatro distritos (Lisboa, Porto, Braga e Castelo Branco) listas da CEUD (Comissão Eleitoral de Unidade Democrática) apoiadas pela ASP, que recolheram uma ínfima parcela dos votos da oposição democrática. Isto apesar de durante a campanha eleitoral Soares se ter esforçado por marcar inequivocamente todas as diferenças (Comício de Entrecampos, no - posteriormente chamado - Teatro Vasco Santana) que o distinguiam (a ele e aos apoiantes do seu movimento) da CDE (Comissão Democrática Eleitoral), movimento unitário da oposição democrática, por ele considerado de inspiração comunista, não obstante nele participarem activamente e em lugares de grande destaque alguns daqueles que mais tarde ocuparam lugares de grande relevo no Partido Socialista, como, por exemplo, Jorge Sampaio. Soares, porém, mantinha-se fiel, como aliás sempre se manteve, mesmo depois do 25 de Abril, a uma transição do fascismo para a democracia segundo os princípios e os valores inscritos no “Programa para a Democratização da República”, apresentado em 1961 pela velha guarda republicana.

Isto apenas para lembrar que aquele que cerca de quatro anos mais tarde (1973) viria a ser o “primeiro” fundador do Partido Socialista e dois anos depois (1975) o líder do partido mais votado em eleições livres não gozava na década de 60 da simpatia da maior parte dos portugueses e era mesmo olhado com relativa hostilidade pela juventude estudantil antifascista. Aliás, é nossa profunda convicção que a popularidade e as vitórias eleitorais que Soares veio a obter na liderança do Partido Socialista não se deveram maioritariamente a uma frente antifascista com passado de luta contra a ditadura ou de simples distanciamento político face a esta mas a uma forte corrente anticomunista que Soares soube habilmente aproveitar e até instrumentalizar a partir de tudo o que à esquerda do Partido Socialista se estava passando durante a Revolução. E muito do que se passava, ou melhor, muitos dos que foram responsáveis pelo que se passou acabaram, anos mais tarde, depois da “normalização” e já regenerados, por integrar as fileiras do Partido Socialista

Voltemos de novo à questão da filiação, depois desta resumida digressão pela história mais recente do sector da oposição democrática protagonizada por Mário Soares. As direcções da Associação Académica de Coimbra na década de 60, dominadas pela esquerda estudantil (e foram cinco – 1960/61; 1961/62; 1963/64; 1964/65; e 1968/69 -, tantas quantas as eleições que o fascismo permitiu), resultaram todas elas de uma frente antifascista patrocinada pelo Conselho das Repúblicas, apoiada pela maioria dos estudantes, e eram integradas por estudantes oposicionistas com várias sensibilidades políticas, entre os quais se contavam dirigentes que mais tarde - uma, duas ou até três décadas - se notabilizaram como importantes personalidades do Partido Socialista. Porém, nenhum deles ou quase nenhum deles (para prevenir uma pequena falha de memória), então se assumiu como ligado à ASP ou especificamente a Soares. Essa não era uma ligação recomendável, digam agora o que disserem. Nem a linha de Soares, completamente desfasada do tempo e da época que então se viviam, granjeava qualquer simpatia entre as jovens gerações antifascistas.

Entre os dirigentes acima referidos, com ligações posteriores ao Partido Socialista, podem contar-se em 1960/61, data em que nem a ASP existia, o presidente da AAC, Carlos Candal, mais tarde membro fundador do PS e destacado dirigente; em 1963/64, António Correia de Campos, presidente eleito não homologado pelas autoridades académicas, tendo em sua substituição assumido a presidência Joaquim Antero Romero Magalhães, ambos, mais tarde (década de 70), membros do Partido Socialista, tendo o primeiro assumido cargos políticos de relevo; em1968/69, já no marcelismo, a lista eleita com uma vitória retumbante sobre a direita, proveniente de uma coligação patrocinada pelo Conselho das Repúblicas, como aliás todas as anteriores da década de 60, era composta por elementos do PCP (Osvaldo de Castro e Fernanda Bernarda) e elementos da esquerda independente com significativas nuances entre si – Celso Cruzeiro, ligado a um pensamento da nova esquerda, porventura próximo do que mais tarde veio a ser o MES da via mais radical; Alberto Martins e Matos Pereira, não marxistas, de uma linha mais moderada, também eles mais tarde membros do Partido Socialista, mas sem nenhuma ligação conhecida à época à ASP ou ao socialismo soarista” e José Gil, antifascista, como os demais, da esquerda independente.

Escusado será dizer que dezenas de outros estudantes, dirigentes associativos ou com grande intervenção no movimento estudantil não tinham nem nunca tiveram qualquer ligação ao Partido Socialista ou aos seus antecedentes mais próximos, como a ASP. E outros houve que então pertenciam ao Partido Comunista e que muito mais tarde vieram a aderir ao Partido Socialista, o que igualmente coloca sua acção política como dirigentes estudantis fora de qualquer filiação no actual Partido Socialista.

Relativamente a 1969, que é a questão que aqui nos interessa analisar mais em pormenor, é preciso que se diga que, fora da estrutura dirigente institucional, com influência directa na enorme movimentação estudantil então em curso, difícil era saber qual o mais moderado, o mesmo é dizer sem qualquer ligação, por remota que fosse ao pensamento socialista da ASP ou ao “socialismo” de Soares. Aliás, é a estas estruturas inorgânicas que se deve a “recepção” e as “despedidas” a Thomaz e à sua comitiva na inauguração do Edifício das Matemáticas em 17 de Abril; é à Junta dos Delegados de Ciências que se deve a exigência de usar da palavra no acto de inauguração daquele edifício, sob ameaça de o fazerem eles próprios se as estruturas institucionais se recusassem, como ainda em 17 de Abril deste ano José Cavalheiro recordou numa comemoração realizada em Coimbra; são essas mesmas estruturas inorgânicas, apoiadas por milhares de estudantes, que exigem a greve a exames, que protagonizam, enfim, tudo aquilo que num movimento desta dimensão não obedece, nem pode obedecer, a esquemas previamente delineados.

Quer isto dizer que as estruturas institucionais não desempenharam qualquer papel de relevo na crise de 69? Não, não quer. Elas tiveram antes de mais o mérito de saber (podemos dizê-lo sem medo das palavras) acompanhar e enquadrar, sem a trair, a vontade contestatária dos estudantes nas suas múltiplas exigências e protestos. E souberam também tomar as iniciativas que o curso dos acontecimentos ia exigindo no dia-a-dia para manter viva, actuante e interventiva a chama da contestação.

Mais difícil será dizer o mesmo quanto ao modo como tudo terminou alguns meses mais tarde. Aí já desligados da presença e da força contestária das massas estudantis, cometeram-se erros irremediáveis, como Celso Cruzeiro, numa manifestação de grande honestidade intelectual hoje reconhece sem reservas - “Um grave erro que o movimento cometeu”, diz Celso.

De facto a ida a Belém, para cumprimentar Thomaz e ratificar com a sua presença “tudo o que os seus professores houverem por bem declarar sobre o seu caso”, não podia deixar de ser interpretada como uma vexatória capitulação, como a imprensa da época, obviamente dominada pela censura, não deixou de sublinhar. Só com extrema benevolência e idêntico grau de ingenuidade se pode considerar que a ida a Belém constituiu “uma derrota do Governo, das autoridades e até de Marcello Caetano”, como diz Alberto Martins. 

Estes escritos, é bom frisá-lo, não têm em vista pôr em causa o mérito dos que tiveram a honra e a coragem de dirigir o movimento associativo estudantil. Bem pelo contrário, a todos eles devemos, tanto os que foram seus contemporâneos como os vindouros, o contributo indispensável à formação de uma escola democrática, inclusiva, que muito contribuiu para que hoje tenhamos um país completamente diferente, para muito melhor, daquele que a nossa juventude estudantil conheceu. 

O nosso propósito é outro. E é bom que o clarifiquemos para evitar equívocos. O nosso propósito é lembrar que o que se passou não pode ser individual ou associativamente apropriado, seja por partidos políticos ou outras associações, menosprezando o genuíno entusiasmo e a inventividade com que milhares de estudantes participaram numa luta que têm como sua e da qual, a justo título, se orgulham como um marco inesquecível da sua passagem pela universidade. E é igualmente o de lembrar que, para além das estruturas dirigentes institucionais clássicas, outras havia mais inorgânicas mas não menos interventivas com dirigentes consensualizados pelos estudantes pelo papel que foram desempenhando no decorrer da crise.

Há 20 anos, nas comemorações que então tiveram lugar em Coimbra, tivemos oportunidade, por carta, de sublinhar ao Presidente Jorge Sampaio, que nelas igualmente participou, a multiplicidade de actores deste importante movimento bem como o papel insubstituível dos milhares de estudantes anónimos que nele participaram e que foram a razão da sua força e perenidade. Esse sim, aqueles que, acima de todos os outros, convém homenagear e não esquecer!

Ver o original em Politeia (clique aqui)

«A conquista da liberdade é inseparável da resistência»

No dia em que assinalam os 45 anos do 25 de Abril e se inaugura a primeira fase do Museu Nacional da Resistência e da Liberdade no Forte de Peniche, o AbrilAbril foi à conversa com Domingos Abrantes.

Forte de Peniche / URAPCréditos
Nos próximos dias 25 e 27 de Abril, quando celebramos 45 anos da Revolução de Abril e também da libertação dos presos políticos de Peniche, assistimos a uma vitória da defesa da memória sobre tendências de branqueamento e apagamento do fascismo. O que significa a inauguração da primeira fase do Museu Nacional da Resistência e da Liberdade, no Forte de Peniche?

Era para haver apenas uma cerimónia, mas, por razões de agenda do primeiro-ministro, a inauguração da primeira fase do Museu Nacional da Resistência e da Liberdade do Forte do Peniche passou a ser feita em dois momentos. No dia 25 a cerimónia oficial, com as entidades formativas e outras entidades, convidados e ex-presos. E dia 27 aquilo a que se pode chamar uma inauguração popular.

Este acontecimento tem um enorme significado político e histórico. Desde logo, porque passaram 45 anos e apesar de ter sido decidido em 1976 que haveria, em Peniche, um Museu da República e da Liberdade, passaram 20 governos sem que este facto tenha acontecido.

Daí a importância da inauguração da primeira fase do museu, com a inauguração do memorial aos 2510 presos que por ali passaram. É uma justa homenagem à participação do povo de Peniche na luta pela liberdade. Aliás, é uma terra que teve um número significativo de presos, que também lá vão estar com os seus nomes, as suas biografias e retratos.

Domingos Abrantes / JOÃO RELVAS/LUSA

É um acontecimento que, repito, não se trata ainda da inauguração do Museu. Trata-se da fase inicial, que tem uma exposição que nos dá uma imagem dos futuros conteúdos a integrar o museu. Hoje vemos luz ao fundo do túnel. Pensamos que este caminho é irreversível e que finalmente se abriu a possibilidade de haver uma coisa que já faltava.

Um Museu Nacional da Resistência e da Liberdade, que faz associação entre estas duas questões: a conquista da liberdade é inseparável da resistência. Independentemente do mérito que os militares tiveram no derrube da ditadura, que é inegável e não devemos esquecer, isso não teria acontecido sem a longa resistência de mais de 48 anos de luta, pela qual o povo português pagou um muito elevado preço, com milhares de presos, torturados e assassinados.

Desde a primeira hora que a URAP e muitos democratas e antifascistas se insurgiram contra a opção de concessão do Forte de Peniche para fins hoteleiros. Como descreve o início de todo este processo, desde a notícia de que se visava concessionar o Forte de Peniche até ao anúncio pelo ministro da Cultura, da retirada da Fortaleza de Peniche do programa Revive?

Como é sabido, esteve no horizonte e quase a concretizar-se um atentado à democracia. Um projecto de destruir as instalações da cadeia que funcionaram na Fortaleza de Peniche, para a transformar num hotel de charme. O facto de se ter pensado já em si coloca enormes interrogações. Ainda mais grave é que se tratava de destruir o símbolo mais odioso do sistema carcerário no continente. E era praticamente o último símbolo. Tinham desaparecido a sede e a escola da PIDE, Caxias, Porto, Angra do Heroísmo, os tribunais plenários. É o último grande símbolo da existência da repressão fascista.

«Um Museu Nacional da Resistência e da Liberdade, que faz associação entre estas duas questões: a conquista da liberdade é inseparável da resistência.»

Conseguiu-se, felizmente, reverter essa situação. Houve um sobressalto das forças democráticas e antifascistas, que se mobilizaram. A URAP teve aqui um papel importantíssimo com uma petição com 5 milhares de assinaturas.

Com esta decisão, de certo modo, conseguiram-se duas conquistas. Uma foi a própria preservação daquele monumento da repressão fascista e, simultaneamente, um local muito adequado – que aliás já se dizia no decreto de 1976 – para a instalação do Museu Nacional da Resistência.

Estão previstas partes museológica, arquivística, de consulta e documental. Trata-se de um museu cujo objectivo fundamental é não deixar esquecer que o fascismo existiu. E que o conhecimento sobre o que foi o fascismo e como a liberdade foi conquistada possa passar para as novas gerações. É um instrumento de pedagogia democrática e de valores da liberdade, sem o qual não é possível preservar a liberdade conquistada em 1974.

Como vê a influência do actual quadro político na concretização do Forte de Peniche como memorial?

Não podemos esquecer que foi este Governo que tomou a decisão. Mas esta política de silêncio e de apagamento da memória não é só dos governos de direita. Passaram 20 governos de várias composições com PS, PSD e CDS.

Há um facto histórico: este passo foi dado com este Governo e neste quadro político concreto e isso não é pouco. É muito difícil imaginar que um governo de direita recuava neste aspecto. Antes pelo contrário.

Como vê, num mundo onde surgem muitas forças anti-democráticas, neo-fascistas e de extrema-direita, com particular incidência em alguns países europeus, que em Portugal se verifique esta valorização da memória, com participação popular?

A instalação definitiva do Museu no Forte de Peniche tem ainda um outro significado quando em vários países do mundo e, nomeadamente na Europa, se assiste à resistência em sublinhar os símbolos da apologia fascista. É o caso de Vale dos Caídos [em Espanha] e outros.

É diferente a memória da repressão fascista dos símbolos de propaganda fascista, como no caso da Polónia, em que tudo o que é nome de revolucionários está a ser apagado, sendo recuperados símbolos do fascismo e nazis.

Ora bem, isto vai ao arrepio dessa corrente e é curioso que as entrevistas que se têm dado e a divulgação sobre a decisão de se criar o Museu da Resistência e da Liberdade em Peniche têm causado grande entusiasmo em Espanha e no Brasil, entre outros países. Precisamente porque consideram que esta decisão é um apoio à sua própria luta contra o ressurgimento de tendências fascistas e fascizantes, que hoje é uma ameaça muito séria.

«Se não houver uma pedagogia de formação democrática, criamos uma sociedade muito permeável àqueles que precisamente sonham em aniquilar os valores da liberdade.»

Portanto, falar do fascismo e do que ele significou de opressão, obscurantismo e miséria, para os jovens é falar de um mundo que não conhecem e até têm muitas dificuldades em imaginar que isto se passou assim. Se não houver uma pedagogia de formação democrática, criamos uma sociedade muito permeável àqueles que precisamente sonham em aniquilar os valores da liberdade.

Fez parte da Comissão de Instalação dos Conteúdos e da Apresentação Museológica que elaborou e entregou ao ministro da Cultura, aquando dos 44 anos da libertação dos presos políticos, um guião com os conteúdos para o Museu Nacional da Resistência e da Liberdade. Como avalia este trabalho?

Quanto aos conteúdos, o museu vai ter documentos da resistência e documentos do fascismo, documentos que mostram o que é o fascismo. Além do memorial, com os nomes dos 2510 presos que somam dezenas de milhares de anos de privação da liberdade, quando estiver definitivamente instalado, terá um mural dedicado aos mártires.

O fascismo não teve só presos. Infelizmente, teve também muitos antifascistas assassinados nas ruas, nos campos, em luta, torturados até à morte na PIDE, no Campo de Concentração do Tarrafal. O museu vai integrar um memorial à memória aos mártires e que são aqueles que lutaram pela liberdade e não tiveram a felicidade de a ver.

A nossa população conhece muitos nomes de gente muito diversa, artistas, futebolistas, etc. Mas muito poucos conhecem aqueles que deram a vida para que o nosso povo viva em liberdade. Isso já em si coloca um problema. É um dever democrático carregar a memória dessa gente. Sem essa luta a gente não tinha liberdade. O memorial vai preencher essa justiça de não esquecer esses nomes.

Os conteúdos vão ter uma base cronológica. Como nasceu o fascismo, como se implantou, que o fascismo não nasceu de geração espontânea, teve um caminho. As medidas que tomou, a filosofia, a ideologia, os crimes que cometeu, mas também quem foram as classes beneficiadas. Fala-se muito da PIDE, do Estado, de Salazar. Mas nunca se fala de que o fascismo existiu para beneficiar os agrários, os grandes grupos económicos e financeiros. Sem esses, a base social do fascismo não teria existido.

É um Museu da Resistência e da Liberdade, não é um Museu sobre o 25 de Abril. Isso é outra coisa que terá de haver e que alguns militares reivindicam, com razão. O 25 de Abril é corolário da resistência, é o dia da liberdade.

O museu terá também, e já nesta fase terá alguns aspectos, sobre as cadeias, que eram naturalmente um lugar de sofrimento, repressão e humilhação, mas que foram também lugares de muitas lutas contra a repressão, contra a barbaridade dos carcereiros e pela dignidade dos presos. E as próprias fugas, houve muitas fugas das cadeias, algumas mais célebres, outras menos célebres. Não se podem pôr todas ao nível de Caxias e de Peniche, como a do Dias Lourenço, que teve um carácter espectacular, mas houve muitas outras que não foram pouco importantes e que foram grandes derrotas para o fascismo.

Por último, para futuro, o que diria às crianças e jovens portugueses se lhes pudesse falar desta questão?

Eu tenho alguma experiência, porque eu e a Conceição Matos já fomos porventura a umas cem escolas, já falámos para muitos milhares de jovens. É curioso que, a princípio, quando começámos a ir às escolas, havia algum espanto quando dizíamos que no fascismo se matavam pessoas, que se espancavam, mas havia jovens ainda com memória, pois, sendo crianças, tinham pais ou avós que conheciam ou até familiares ou vizinhos envolvidos.

Depois isso foi-se esbatendo. Começaram a aparecer uns miúdos que só conheciam «o meu avô». E agora raramente se encontra um jovem que tenha relações familiares directas. E percebe-se, são 45 anos, um pai que tenha hoje 45 anos não tinha nascido e não viveu no fascismo.

«É um dever democrático carregar a memória dessa gente. Sem essa luta a gente não tinha liberdade.»

Falamos de jovens para quem «a liberdade é como respirar». Não lhes passa pela cabeça, e até acham absurdo, que expressões de sentimentos de rapazes e raparigas nas escolas e coisas tão elementares como manifestações afectivas fossem proibidas. Para eles é uma coisa estranhíssima, às vezes até ficam a pensar se não é «tanga». Uma vez, um miúdo perguntou-me se aquilo não eram umas «galgas», tal era o absurdo. Não podiam andar de mão dada, não podia haver rapazes e raparigas na mesma escola, não podiam ir ao cinema ver os filmes que queriam, nem podiam ouvir as cantigas que queriam. Para eles é uma coisa difícil de encaixar. Uma coisa tão absurda, tão obscurantista...

Mas não se trata só de falar do passado, nem incutir nos miúdos um grau de cultura só sobre o passado. Trata-se também de os estimular na defesa da liberdade e de aprender a dizer «nunca mais!».

 

domingos abrantes

Nasceu em 1936 em Vila Franca de Xira. Operário, membro do Partido Comunista Português desde 1954 e seu funcionário desde 1956.

Foi funcionário do MUD Juvenil e pertenceu à sua Comissão Central.

Foi preso político durante 11 anos, nove dos quais no Forte de Peniche, tendo participado na fuga de Caxias em 1961.

Foi membro da Comissão Política e do Secretariado do Comité Central do PCP.

Foi membro do Comité Central do PCP de 1963 a 2012.

Foi deputado à Assembleia da República de 1976 a 1991.

É membro do Conselho de Estado.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/nacional/conquista-da-liberdade-e-inseparavel-da-resistencia

Portugal | 25 de Abril: sempre!

Rui Sá* | Jornal de Notícias | opinião

Tive a oportunidade, há um ano, de recordar, aqui, como foi o meu 25 de Abril de 1974. Sendo certo que, a partir desse, mais 45 se seguiram. Comemorados, sempre, com alegria e a consciência de que é data que só se pode comemorar e que as lamentações de rumos tomados e de expectativas frustradas não se deve ao 25 de Abril mas sim àquilo que, coletivamente, fizemos com a liberdade que então conquistámos.

E, de todos os 25 de Abril que comemorei, há um que ficou mais presente na minha memória e que, não tenho dúvidas, contribuiu para aquilo que, passados estes anos, sou, do ponto de vista político e humano. Como é sabido, em 1975 e em 1976, o 25 de Abril comemorou-se de uma forma diferente, mas também festiva. Nesses dois anos, a data coincidiu com as primeiras eleições livres prometidas pelo MFA: em 1975, para a Assembleia Constituinte e, em 1976, para a Assembleia da República. Não houve, assim, as habituais comemorações, embora recorde que, no dia 24 à noite, o povo saiu à rua para comemorar a efeméride. Foi, assim, em 1977 que se comemorou, sem o formalismo e a responsabilidade dos atos eleitorais, o 25 de Abril. Com inúmeras comemorações espalhadas por todos os sítios, promovidas por coletividades, associações de moradores, sindicatos e com a espontaneidade que ainda se vivia nesses tempos (recordo uma frase de um meu irmão, regressado à cidade do Porto por essa altura, de que "parecia o S. João", com tantas festas espalhadas por todos os recantos). Pois nesse dia 24, à noite, comemorei, no estádio do INATEL, a chegada do 25 de Abril. Sendo que as comemorações passaram pela projeção, ao ar livre, do filme "Chove em Santiago" sobre o golpe de Pinochet que derrubou o legítimo Governo de Unidade Popular presidido por Salvador Allende. Tinha, na altura, 13 anos, e esse filme, assistido ao lado de amigos da mesma idade e num ambiente de fraternidade e de fervor democrático, marcou-me para a vida, consolidando a incipiente predisposição para uma opção política que hoje se mantém. Não sei quem organizou essa iniciativa, mas fico-lhes eternamente grato por terem contribuído para essa opção....


Seguiram-se muitos mais 25 de Abril, passados em vários locais e com diferentes responsabilidades e estados de espírito. Impressionando que, passados tantos anos e com a maior parte da população nascida após o 25 de Abril, continuem a ser muitos aqueles que não abdicam de comemorar esta data maior da nossa História.

Apesar dos sinais preocupantes que surgem em Portugal, na Europa e no Mundo, de que aqueles que em 25 de abril derrotámos, estão aí, defendendo, como sempre, mas agora à luz do dia, a intolerância, o ódio e a violência gratuita. O que exige maior mobilização para comemorar Abril!

*Engenheiro

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/04/portugal-25-de-abril-sempre.html

Presos políticos homenageados em mural na Fortaleza de Peniche

Domingos Abrantes e José Pedro Soares são dois dos 2400 presos que passaram pela cadeia política da Fortaleza de Peniche, que figuram num mural a ser inaugurado no dia 25 de Abril, pelo primeiro-ministro e a ministra da Cultura.

José Pedro Soares, um dos últimos cinquenta presos da cadeia de Peniche, a serem libertados na madrugada de 27 de abril de 1974, e Domingos Abrantes, o sobrevivente que mais anos - nove - esteve detido em Peniche, têm bem presente na memória as torturas sofridas e as dificuldades diárias de um preso político durante a ditadura.
"Havia meia hora para as refeições e 20 horas de isolamento" nas celas individuais, lembra Domingos Abrantes, que foi transferido para Peniche após a célebre fuga do ex-dirigente comunista Álvaro Cunhal, em 1960, e por isso aí foi vítima do "regime opressivo mais terrível".

"Até preferia a vida celular à vida numa cela comum, porque era difícil, devido aos problemas humanos de cada um".


Com os vidros da janela da cela ofuscados, sem se poderem deitar durante o dia, o tempo de reclusão era passado a ler, a dar passos pela cela e a ouvir os barulhos do exterior: "O mar a bater na falésia, os barcos a partir e o barulho das gaivotas quando chegavam cheios de peixe, as portas da prisão a abrir e a fechar, os mais de 40 apitos diários dos guardas ao levantar, deitar e às refeições, o farol em dias de nevoeiro e os dias de festa", descrevem.

"Voltar agora em liberdade a este espaço é diferente, mas ainda nos custa, porque foi um local onde estivemos encarcerados num tempo muito difícil e isso nunca é bom de recordar", diz à Lusa José Pedro Soares, durante uma visita às obras que decorrem na Fortaleza, para a instalação do Museu Nacional da Resistência e da Liberdade.

Em Peniche, o ex-preso cumpriu cerca de um ano dos três e meio a que tinha sido condenado, e descreveu com detalhe as torturas a que foi sujeito, na prisão de Caxias, durante os longos 21 dias de interrogatório, que fizeram dele o "preso mais torturado", diz emocionado.

"Arranjaram umas mortalhas, eu escrevi as histórias todas numas folhinhas, enrolei aquilo tudo, cortei os cigarros a meio e, no fundo do pacote dos cigarros, pus lá tudo. No meu aniversário, na sala comum, levava na mão os cigarros, apesar de ter sido revistado. Como o meu irmão fumava dos mesmos cigarros, troquei o maço com ele", conta José Pedro Soares.

Nos interrogatórios, em que apenas dormiu uma noite, recorda, "diziam que só saía para o cemitério se não falasse". E José Pedro "nunca falou", ao ponto de os seus "pés não caberem nos sapatos, ficar todo negro de tanto soco e puxão de cabelos e urinar sangue".

O seu relato ecoou no estrangeiro, ao ser noticiado por uma rádio na Checoslováquia e, apesar de a notícia ter sido ouvida e transcrita pela PIDE (a polícia política portuguesa, Polícia Internacional de Defesa do Estado), contribuiu para aumentar o movimento de apoio aos presos políticos" e "dividiu" o fascismo.

"A luta dos próprios presos e das famílias melhorou. Já conseguíamos circular no pavilhão durante o dia e recolher à cela à noite, já tínhamos televisão", exemplifica.

Numa passagem do ano, quando as medidas eram menos restritivas, os presos escreveram e encenaram uma peça de teatro, designada "A fuga do fascista", em que uma das personagens, Popov, era um inspetor encarregado de recapturar os presos que tinham fugido e que usava 'palavras caras' em português, como 'nefelibata'.

"O guarda ouviu e virou-se a dizer que não podíamos falar estrangeiro. O colega, que era professor de português, disse ao guarda que era português correto e o guarda respondeu que, se era português, era calão e também não se podia falar calão", lembra Domingos Abrantes, acrescentando que "a festa de ano novo acabou" com "todos fechados nas celas".

Lusa | Notícias ao Minuto

 

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Portugal | Últimos presos da cadeia de Peniche celebram 45 anos da libertação

José Pedro Soares estava entre os 50 presos da cadeia da Fortaleza de Peniche, aquando do 25 de Abril de 1974, que foram libertados dois dias depois, uma data que é celebrada no próximo sábado, passados 45 anos.

"Noutros dias, os que saíam da cadeia só tinham a família e uns amigos à espera e, naquele dia, tínhamos uma multidão que abriu um corredor, batia palmas e cantava as cantigas da libertação da altura", recorda José Pedro Soares, enquanto visita as obras a decorrer na fortaleza, para instalar o Museu Nacional da Resistência e da Liberdade.

Na manhã do 25 de Abril de 1974, lembra, um grupo de presos, do qual fez parte, juntou-se na sala de convívio da cadeia para ver televisão, e estranhou o facto de o ecrã estar "escuro e ouvir-se apenas música sinfónica".

Poucas horas depois, chamaram todos os companheiros e assistiram pela televisão à leitura de um documento do Movimento das Forças Armadas, que "dava já indicação da tomada de vários pontos" no país pelos militares, assim como as reportagens ao longo do dia.

"Percebemos que tinha havido um levantamento militar popular", concluiu.


As notícias levaram os presos a falar com os guardas e com a direção da cadeia. "Inicialmente estavam atrapalhados, começaram a receber-nos com uma simpatia extraordinária e a dizer que eram funcionários públicos e que tinham servido uns, mas serviriam outros".

Nesse mesmo dia, uma guarnição militar vinda de Viseu, do Regimento de Infantaria N.º 14, tentou tomar a Fortaleza de Peniche, contou, mas "a cadeia não se rendeu e só no outro dia, um outro grupo de militares de Lisboa tratou da sua libertação".

José Pedro Soares recorda à Lusa que todos os presos disseram que "ou saíam todos ou não saía ninguém".

Numa altura em que as condições prisionais já tinham melhorado, e quando faltava menos de um ano para cumprir a pena de três e meio de prisão a que fora condenado, José Pedro Soares e os restantes presos foram, por fim, libertados, às primeiras horas do dia 27 de abril, após a libertação dos presos de Caxias.

José Pedro foi para casa, onde "praticamente todas as pessoas da terra" lhe bateram à porta para o saudar.

Durante o dia 27 de abril de 1974, as primeiras horas de liberdade foram dedicadas a dar comícios nas oficinas de material aeronáutico em Alverca, onde trabalhava, antes de ter sido detido, com mais cinco mil trabalhadores.

"Passei por todas as secções da empresa e, sempre que passava, parava tudo e tinha de fazer um comício. A alegria era imensa", lembra à Lusa.

Lusa | em Notícias ao Minuto | Foto: © Wikimedia Commons

 

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https://paginaglobal.blogspot.com/2019/04/portugal-ultimos-presos-da-cadeia-de.html

A IRLANDA DO NORTE À BEIRA DA GUERRA CIVIL

21 de Abril de 1969. A Irlanda do Norte era dada como estando «à beira da guerra civil». Na semana anterior, a causa dos católicos recebera um poderoso impulso moral por causa da vitória de uma jovem radical de 22 anos chamada Bernardette Devlin na eleição intercalar do círculo de Mid-Ulster, que fora até aí ocupado por um deputado unionista protestante. Fora uma eleição renhidamente disputada com a participação de mais de 91,5% dos eleitores registados*. Bernardette Devlin tornava-se a mais jovem deputada eleita para o Parlamento Britânico, e a sua figura mostrava ter um grande potencial para que ela se transformasse num ícone da causa nacionalista católica irlandesa e da defesa dos direitos civis da comunidade católica da Irlanda do Norte. Como reacção a uma situação política muito tensa e como noticiava o jornal «Tropas britânicas encontravam-se hoje de prevenção para guardar instalações importantes na Irlanda do Norte, após 36 horas de desordens em que mais de 250 pessoas ficaram feridas. Nove dos postos de correio de Belfast, atacados com bombas de gasolina, encontravam-se ainda a arder às primeiras horas da manhã de hoje, e aumentavam os receios nesta cidade de que se registassem mais desordens durante o dia.» A convocação dos militares não pôs fim à crise. Devlin não se tornou na nova Pasionaria da causa nacionalista irlandesa, culpa talvez do seu radicalismo. Mas o titulo da notícia anuncia-se profético porque a Irlanda do Norte iria entrar, a partir de Agosto daquele ano, numa verdadeira guerra civil. As imagens dos anos que se seguiram (estas abaixo são de quatro anos depois, em Abril de 1973), mostram um ambiente de país em que os habitantes dos bairros católicos parecem estar sob ocupação estrangeira.
* Em Portugal só houve uma taxa de participação semelhante nas eleições de 25 de Abril de 1975.

MEMORIAL AOS PRESOS E PERSEGUIDOS POLÍTICOS (1926 - 1974) [II] || INAUGURAÇÃO 25 DE ABRIL 2019

* MEMORIAL AOS PRESOS E PERSEGUIDOS POLÍTICOS (1926 - 1974) *
"HONRA À MEMÓRIA DOS QUE SE BATERAM PELA LIBERDADE"
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INAUGURAÇÃO || 25 DE ABRIL DE 2019 
LISBOA || 14 HORAS || METRO BAIXA - CHIADO 
Primeiros quatro minutos de um filme que poderá ser visto num dos televisores do Memorial [Via Joana Lopes].

Ver original em 'Silêncios e Memórias' na seguinte ligação:

http://silenciosememorias.blogspot.com/2019/04/2113-memorial-aos-presos-e-perseguidos.html

A CRISE ACADÉMICA DE 1969

UMA PERSPECTIVA

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A crise de 69 como qualquer outro movimento social, estudantil ou não, não nasceu do nada nem aconteceu por inspiração de uma iluminada vanguarda de dirigentes. A crise de 69 insere-se antes de mais no movimento associativo estudantil da segunda metade do século XX, cujos contornos e conteúdos foram variando com o tempo e os contextos, desde a luta, em 1956, contra o Decreto-Lei 40 900, muito heterogénea, por força da integração de elementos politicamente muito diferenciados, principalmente pelos reflexos do decreto na secção de futebol da Associação Académica de Coimbra; passando pelas vitórias eleitorais de 1960/61 e 1961/62, que marcaram um tempo novo condizente com a década então iniciada e o afastamento, que se manteve durante toda a década, da direita da direcção da AAC, afastamento que culminou com a crise de 62, a prisão e a expulsão de muitos estudantes de todas as universidades ou apenas da Universidade de Coimbra ou de Lisboa, o encerramento da Associação Académica, até à sua reabertura em 1963, e as vitórias eleitorais de 1963/64 e de 1964/65, que o Governo breve se encarregou de jugular mediante uma repressão sem igual desde a II Guerra Mundial, encerrando por tempo indeterminado a AAC, em 1965, prendendo inúmeros estudantes em Coimbra e em Lisboa, expulsando durante vários anos de todas as universidades dirigentes associativos, mobilizando para o serviço militar centenas de estudantes em todas as universidades e empurrando por essas mesmas razões dezenas de outros para o exílio.

Falar da crise de 69 sem ter em conta história mais próxima do movimento associativo e sem a integrar no contexto sócio-político em que ela própria ocorreu será sempre uma explicação amputada de elementos essenciais à sua compreensão.

Passemos agora ao contexto sócio-político da crise de 69. Três anos tinham passado desde o encerramento da Associação, desde as expulsões dos dirigentes académicos e menos de um ano depois da investidura de Marcello Caetano como Chefe do Governo por incapacidade física de Salazar. Marcello Caetano, um homem do Estado Novo desde a primeira hora, era alguém que Salazar teve quase sempre por perto, principalmente quando dele necessitava ou a correlação de forças no seio do partido único o exigia, quer para contrabalançar certas correntes a que Salazar recusava conceder hegemonia, quer pelo peso dentro da União Nacional dos que, desde a Ordem Nova, sempre se mantiveram fieis a Marcello. Mas nunca foi um homem em quem Salazar confiasse completamente, se é que alguma vez confiou em alguém como seu par, presente ou, hipoteticamente, futuro.

Marcello, por força deste relativo e hábil distanciamento a que Salazar sempre o votou, soube disso tirar excelente partido, deixando que à sua volta se criassem algumas lendas, que rapidamente se desvaneceram pouco depois de se ter visto investido nas responsabilidades políticas de sucessor do velho ditador, mas que enquanto duraram serviram o efeito pretendido.

Em primeiro lugar, a lenda de que era um homem com tendências liberais, muito alimentada por um séquito de ex-alunos devotos que sempre apostaram na ascensão de Marcello ao poder supremo do pais como meio, quanto mais não fosse, de na repartição das benesses do poder algo lhes poder caber – lenda que o próprio Marcello fez questão de manter quando na tomada de posse aludiu a algumas “liberdades que se desejaria ver restauradas”; depois, a ideia de que era um homem com especial sensibilidade para os problemas estudantis – por ter discordado da intervenção da polícia na Universidade de Lisboa em 1962 e se ter demitido do cargo de Reitor; e, finalmente, até sobre a Guerra Colonial corriam rumores, atestados por pessoas merecedoras de todo o crédito, de que Marcello tinha dificuldade em aceitar que a juventude portuguesa continuasse a ser sacrificada numa guerra aparentemente sem solução. E sobre tudo isto, para dar mais credibilidade às lendas, a oposição ostensiva e sem rodeios, logo em 69, que os duros do regime, velhos e jovens (em Coimbra os da Cidadela, por exemplo) lhe moveram por o considerarem um fraco e um sucessor incapaz de garantir a continuidade e a riqueza da herança recebida.

Tudo isto fez com que Marcello Caetano fosse visto, por largos sectores da oposição, como um homem diferente de Salazar de quem algo, por pouco que fosse, haveria a esperar. Estava criado no subconsciente colectivo um novo clima político que o próprio crescimento económico ajudava a credibilizar, apesar de a acção política quotidiana o desmentir. Importante, porém, para as grandes movimentações colectivas não é tanto o que realmente está a acontecer, mas o que as pessoas entendem ou acham o que está a acontecer. É isso que as impulsiona ou não para a acção, é isso que lhes dá ou tira força.

Assim, a chegada de Marcello ao poder deu força e potenciou um profundo descontentamento contra o autoritarismo reinante, a ausência de liberdade e uma forte vontade de viver um tempo semelhante ao que se estava vivendo noutros países. A década de 60, é bom não esquecê-lo, simboliza o apogeu da social-democracia na Europa e até na América e, não obstante, é nesses países – França, Alemanha, Itália, Estados Unidos - que as revoltas estudantis são mais violentas, a contestação ao regime é aparentemente mais profunda e onde os ventos libertários sopram com mais força, sempre apoiados doutrinariamente em revoluções distantes de que verdadeiramente só se conheciam as palavras de ordem!

Assim, o marcelismo, apesar de ser o contrário do que as lendas apregoavam, não deixava de ser também uma caricatura do salazarismo e isso fez com que "almas antes muito aprisionadas” pelo terror da repressão mais facilmente se tivessem libertado e estivessem predispostas a participar numa luta que seguramente não teria, no plano individual e colectivo, como consequência retaliações tão gravosas e violentas como as que em 65 tiveram lugar

A isto acresce, na caracterização do contexto sócio-político reinante, a guerra colonial, a ostracização a que o pais estava internacionalmente votado, o sacrifício sem retorno de gerações de jovens que viam o seu futuro imediato comprometido ou a própria vida, pela participação forçada numa guerra distante, conduzida em condições adversas e que tendia a eternizar-se por ser uma peleja militar sem saída levada a cabo num contexto de um conflito politicamente insolúvel.

Não ter isto em conta na interpretação da crise de 69 ou fazer comparações com o que se passou antes, nomeadamente em 65, num contexto político-social muito diferente, só pode levar a interpretações defeituosas e pouco esclarecedoras do que realmente aconteceu.

Em 65, a repressão exercida sobre os estudantes não teve paralelo com nenhuma outra dessa década. Os estudantes foram impiedosamente expulsos de todas as universidades, foram presos, outros exilaram-se para não serem presos e outros ainda foram compulsivamente incorporados no serviço militar (Janeiro de 65), a meio do curso, contra os procedimentos habituais, em número nunca visto nem antes nem depois.

Igualmente errado será supor, independentemente dos seus méritos, que foi a clarividência política dos dirigente associativos de então – e muitos eram – o sinal distintivo e impulsionador de um movimento de grandes dimensões, concretizado sem medo e em permanente espírito de festa, como tão bem ilustra a banda desenhada do Carlinhos Santarém. Essa é uma ideia redutora que deixa escapar o que de mais genuíno e espontâneo se passou em Coimbra durante cerca de três meses

A crise de 69 aconteceu nessa data e não antes, não por haver dirigentes académicos que souberam conduzir a luta com uma arte política que faltou aos anteriores, mas por as condições serem então muitíssimo diferentes das que antes existiram. Não está em causa o mérito nem o desempenho dos múltiplos dirigentes associativos de 69, nem estas palavras têm em vista contestar a sua actuação junto dos múltiplos sectores do movimento que com eles mais se identificavam, mas apenas inserir essa actuação no verdadeiro contexto da época, no qual a espontaneidade estudantil desempenhou um papel determinante.

Estes dois factores, o marcelismo e a guerra colonial, aliados a um cheiro a Maio 68, é que são as verdadeiras causas do que se passou em 69.

A guerra colonial em 69 já desempenhava um papel muito diferente do que tinha desempenhado antes, tanto junto dos estudantes como da sociedade em geral. Apesar de contestada de início, ou até antes de verdadeiramente começar a sério, no seio do próprio regime, muito por força da oposição americana ao colonialismo português, a guerra colonial adquiriu logo a seguir um generalizado apoio patriótico – “Angola é nossa”, “para África rapidamente e em força”, “só temos de chorar os mortos se os vivos os não merecerem” - foram algumas das muitas palavras de ordem que mobilizaram a sociedade portuguesa e ajudaram a criar uma forte ilusão de generalizado apoio ao Governo e ao regime que tão enfraquecidos haviam saído das eleições presidenciais de 58. Em 69 já se percebia que a vitória militar não passava de uma ilusão, que o conflito político que o regime encerrava no seu próprio ventre era insolúvel, que o colonialismo qualquer que fosse o seu nome ou o seu disfarce não tinha saída e que a recusa da juventude em participar na guerra era uma verdade que o exílio e a emigração de milhares de jovens portugueses diariamente exibiam e confirmavam.

Foi este contexto-sócio político que permitiu que os estudantes tivessem participado em massa no movimento estudantil e tivessem desempenhado um papel dinamizador que obrigou os dirigentes a acompanhá-los nas suas aspirações sob pena de ficarem completamente isolados

Além disto, é preciso também dizer, para não adulterarmos o que se passou, que a crise de 69 é uma espécie de confederação de movimentos, com vários polos dirigentes, e uma grande, enorme, espontaneidade estudantil.

A prova de que no seu subconsciente as pessoas intuíam estar a viver um tempo diferente do que antes conheceram, não está apenas no facto de muitos dos que em 69 participaram na luta, já lá estarem antes, sem participação activa nas lutas académicas dessas épocas, mas principalmente no facto de esta crise ter terminado como se sabe, ou seja, em termos que não têm paralelo com nenhuma outra ocorrida durante o fascismo, sendo necessário recuar até ao século XIX ou ao começo da República para encontrar algo semelhante.

Finalmente, a tentativa de filiar o 25 de Abril na crise académica de Coimbra de 1969 é algo que não faz o menor sentido, não apenas porque o movimento estudantil ficou praticamente circunscrito à universidade e a uma parte da cidade – a mais afectada pela suspensão da Queima das Fitas – sem desempenhar no contexto nacional qualquer papel dinamizador de um movimento social em larga escala, que não existiu, mas também por ser incompreensível para o comum dos mortais a razão de ser do protesto dos estudantes. Lembro a este respeito a confidência que o saudoso Vítor Campos num programa de televisão realizado já muito depois do 25 de Abril sobre a crise académica de 69, a propósito de um episódio ocorrido no Jamor antes de iniciada a final da Taça de Portugal, entre o Benfica e a Académica, em que esta, obedecendo ao luto académico, entrou em campo de luto, tendo esse facto suscitado a perplexidade de um jogador do Benfica (Simões) que antes do jogo se iniciar lhe perguntou; “Ó Vítor, vocês estão de luto por quem?”, tendo este respondido: “No fim do jogo, explico-te”.

Portanto, em vez de se tentar encontrar uma filiação que não existe, mais correcto nos parece dizer que a crise académica de 69 tem a sua génese em causas não muito diferentes das que mais tarde, potenciadas pelo passar dos anos, originaram o 25 de Abril

Certamente que os ganhos de um movimento associativo estudantil bem como das sucessivas crises que factores conjunturais potenciaram não se avaliam, no quadro da luta antifascista, apenas em função dos resultados imediatos alcançados face às reivindicações específicas de cada uma dessas épocas, mas antes pelo efeito geral obtido, nomeadamente o desgaste  da ditadura e pelos efeitos que esse mesmo movimento acaba por deixar nos milhares que nela participaram depois de terem deixado a universidade.

A frequência estudantil de uma qualquer escola, a universidade, por exemplo, é, adaptando as palavras de Heráclito, algo em movimento, permanente, constante, porém nunca a mesma. Assim, mais importante que os efeitos de uma determinada luta para a frequência estudantil dessa escola são os efeitos que dessa mesma luta perduram naqueles que nela participaram. E neste sentido é indiscutível que os efeitos do movimento associativo de 69 se fizeram sentir nos anos subsequentes da ditadura tanto nas diversas actividades profissionais desses licenciados, como nas forças armadas, cá ou África, já que praticamente todos foram mobilizados para o serviço militar e, obviamente, no 25 de Abril.

Por esta específica natureza do movimento estudantil é que as lutas académicas contra a ditadura fascista teriam sempre de ter mais em conta os seus efeitos directos e indirectos  sobre a ditadura do que os resultados académicos alcançados e essa também a razão por que no movimento estudantil perde sentido a preparação de uma luta a longo prazo. Como preparar uma luta a longo prazo com uma população estudantil permanentemente flutuante?

Finalmente, não seria justo nesta evocação dos 50 anos do 17 de Abril não referir aquele que do nosso ponto de vista foi o grande herói do movimento associativo de 69, um herói colectivo, a quem em última análise se deve tudo o que de inovador, espontâneo e inesperado se passou – o Estudante de Coimbra!

De referir também os que individualmente mais se notabilizaram na luta estudantil contra a ditadura fascista, começando pelos que, tendo marcado assinalada presença noutras épocas do movimento associativo, eram ainda estudantes em 1969, como é o caso de José Barros Moura, João Amaral, já falecidos, e Rui Namorado. De referir igualmente o papel importantíssimo desempenhado em 69 por Osvaldo de Castro, Fernanda da Bernarda e Francisco  Sardo, todos falecidos; e depois os nomes incontornáveis de Alberto Martins (que passará à História como o homem que interpelou publicamente Américo Thomaz), Celso Cruzeiro, José Matos Pereira, José Gil, Carlos Baptista e Fernando Catroga, entre tantos outros!

Ver o original em Politeia (clique aqui)

«Crise de 69»: celebrar e compreender

Evocam-se neste Abril cinquenta anos sobre a «Crise Académica de 1969» em Coimbra. Os seus acontecimentos podem ser hoje encarados de três formas diferentes: duas mais voltadas para a celebração, uma terceira ocupada com a compreensão histórica. A primeira contém o testemunho dos que a viveram, retomando com orgulho e nostalgia uma parte memorável das suas vidas e o contributo maior dado à luta pela democracia. A segunda, a ser vista com alguns cuidados, é ocupada com perspetivas parciais ou equívocas, por vezes associadas à manipulação utilitária e institucional da memória. A terceira forma é preenchida por olhares retrospetivos e compreensivos sobre o acontecimento e a sua época.

Perceber a «Crise» requer, em primeiro lugar, conhecer o seu contexto, e não apenas os factos que em Abril de 1969 a projetaram. Desde logo, observando a mudança sociológica do ambiente universitário, onde crescia a presença da classe média e das mulheres. Depois a expansão da cidade, com um timbre cada vez mais cosmopolita e urbano. Crucial foi também a influência política da «abertura marcelista», notória entre 1969 e 1971 (e logo de seguida infletida), com maior flexibilidade da censura e uma moderação provisória nos processos da repressão. Importante também foi a presença de uma cultura política de oposição ao regime, em crescimento desde as eleições de 1958, e de uma diversificação das suas correntes, com uma grande influência política e vivencial do marxismo e do existencialismo. Indispensável também a entrada no meio universitário da atitude hedonista, libertária e inconformista dos anos 60, associada em boa parte à nova cultura juvenil de matriz anglo-saxónica. Para além da importância da vida estudantil pautada por uma cultura de debate, informada e crítica, que em Coimbra incorporava a atividade dos organismos da AAC e envolvia a sociabilidade dos cafés e das repúblicas, enquanto a cultura da «sociedade académica tradicional» tendia a desaparecer.

Em segundo lugar, a evocação da «Crise» alimenta certos mitos, que não resistem a uma abordagem histórica capaz de ultrapassar a volátil e ardilosa memória pessoal. Desde logo, uma falsa ideia de unidade, pois os cerca de 9.500 estudantes distribuíam-se por uma paisagem diversa: muitos de oposição (comunistas, socialistas, católicos progressistas, alguns «contestas», situados mais à esquerda, sobretudo trotskistas e situacionistas, e ainda nacionalistas africanos), alguns de direita ou extrema-direita, e muitos não-ativistas, ou mesmo indiferentes, que rondariam a metade da população estudantil. Deteta-se igualmente uma ideia imperfeita sobre a dinamização do movimento: a Direção da AAC foi importante, sem dúvida, mas foram-no também o Conselho de Repúblicas, a organização estudantil nas faculdades e organismos «conspirativos» de coordenação do movimento ou de intervenção política. É mais verdadeiro dizer que, tendo protagonistas, a «Crise» foi vivida sobretudo em coletivo e de uma forma muito plural. Ao mesmo tempo, é incorreta a ligação habitual entre o Maio de 68 e o episódio de 69, pois a caraterização e as formas do movimento de Coimbra são totalmente diversas, sobretudo no que respeita à cultura organizativa, aos métodos de luta e aos objetivos (os verdadeiros ecos só chegarão por volta de 1971). Importa ainda recordar que a luta contra a Guerra Colonial e pelo derrube do regime não estava inscrita nas palavras de ordem e objetivos do movimento, embora se encontrasse nas preocupações e expectativas de muitos dos que nele participaram.

Em terceiro lugar, a observação compreensiva da «Crise» permite destacar aspetos que a particularizam. Desde logo, recordar que ela entronca num processo de organização da luta estudantil, aberto em 1961 com a eleição da lista democrática presidida por Carlos Candal, e prolongado até ao 25 de Abril, com «picos» próprios em 1962, 1965, 1969 e 1972-73. De notar também o confronto teórico e prático então travado entre os adeptos de um «movimento associativo», mais corporativo ou reivindicativo, e um «movimento estudantil», cada vez mais politizado. A «Crise de 69» representou, de facto, um momento de viragem entre a preponderância do primeiro e a instalação do segundo, com uma radicalização acentuada a partir de 1971-1972 com o endurecimento do regime, a entrada em cena do tema-tabu da guerra e o encerramento compulsivo pela polícia da Associação Académica. Foi devido a esta que em Coimbra a luta estudantil se centrou então ainda mais nas faculdades e na atividade clandestina, com larga influência da União dos Estudantes Comunistas, criada em março de 1972, e de uma extrema-esquerda hiperativa e em crescimento, apoiada sobretudo em organizações maoistas e trotskistas. Neste contexto, aliás, a repressão estudantil foi muito agravada, tornando-se frequente a prisão, a tortura, o julgamento sumário e o envio para a guerra de grande número de ativistas. Elementar ainda para a evolução do movimento foi a presença e o ativismo das mulheres: muito acontecera desde a época da polémica «Carta a uma jovem portuguesa», publicada em 1961, onde se sugeria a simples possibilidade de uma vida associativa para as raparigas, até chegar à centralidade de muitas delas, embora ainda não ao protagonismo, nas vésperas do 25 de Abril. Neste campo, a «Crise» foi importantíssimo momento de viragem.

O movimento de 1969 representou, pois, um momento de viragem na luta estudantil. E um espaço de enorme importância e de ousadia no combate pelo fim da ditadura, tendo abalado o regime caduco do Estado Novo e servido de exemplo para o país. Serviu ainda como uma importante escola de democracia para muitos jovens ativistas, cidadãos e cidadãs, que nas suas peripécias ganharam, para além de uma maior consciência oposicionista, a experiência do jogo democrático. Materializada no comprometimento cívico e político, partidário ou não, que tiveram no pós-25 de Abril.

Eleições na AAC em Fevereiro de 1969. Fotografia de Carlos Valente (Arquivo do CD25Abril)
Publicado no Diário As Beiras de 19/4/2019. Versão ligeiramente revista.

Ver original em 'A Terceira Noite' na seguinte ligação:

http://www.aterceiranoite.org/2019/04/19ise-de-69-celebrar-e-compreender/

NOTÍCIAS TÍPICAS DA ÉPOCA DAS GRANDES CONSPIRAÇÕES

16 de Abril de 1929. A Ditadura Militar ainda não completara três anos de existência e o governo era presidido pelo coronel Vicente de Freitas. A opinião pública ainda não se desabituara das grandes conspirações seguidas de furtivas movimentações de tropas que precipitavam mais uma permuta dos figurantes no poder. E os jornais compraziam-se em alimentar essa opinião pública com os relatos de tudo o que, mesmo vagamente, o evocasse. Assim acontecia com esta edição do Diário de Lisboa de há precisamente noventa anos que, sob o título de Ordem Pública, puxava para título as declarações do tenente-coronel (Ernesto Durval) Pestana Lopes, assegurando que não prendera nenhum general. Compreenda-se a importância do esclarecimento: se a conspiração tivesse envolvido um general, a "coisa" havia sido mais séria... Mas não, embora haja que reconhecer que as Polícias tinham andado activas ao longo do dia, publicando nada menos que três notas a propósito:
A primeira nota refere-se um boato segundo o qual o sr. tenente-coronel Pestana Lopes, director das Polícias, ia ser nomeado governador de Macau. Declara a Polícia: que o lugar nem está vago, nem tem probabilidades de vagar; que ainda que se desse a vaga, era quase certo que o sr. tenente-coronel não fosse convidado; e que ainda que o convite fosse feito, não o aceitaria.
A segunda nota alude aos boatos referentes a uma conspiração monárquica, e está redigida nos termos seguintes: «Correndo o boato, evidentemente no intuito de desnortear a opinião sinceramente republicana de que há elementos monárquicos que activamente conspiram no intuito do restabelecimento do regime deposto, o Governo desmente categoricamente tal boato, pois nada consta a esse respeito na Polícia de Informações. Mas ainda que tal boato fosse verdadeiro, nenhum receio poderia haver, porquanto o Governo, apoiado no Exército e na Marinha, garante que combaterá intransigentemente qualquer movimento de carácter político, seja qual for a cor da bandeira que pretendam arvorar.» (...)
A terceira nota é a que se refere a uma conspiração que a Polícia de Informações descobriu e inutilizou. E por isso merece ser transcrita na íntegra: «A Polícia de Informações do ministério do Interior tem nestes últimos dias efectuado muitas prisões, entre elas a do engenheiro António Maria da Silva, o qual se acha seriamente comprometido num movimento revolucionário que esta polícia acaba de inutilizar por completo. O sr. dr. Daniel Rodrigues, que a polícia pretendeu prender na sua residência e na Caixa Geral de Depósitos, evadiu-se, bem como o sr. dr. Domingos Pereira, andando a mesma polícia em sua perseguição.» (...)
Afinal, o conteúdo da notícia desmentia a sugestão do seu título, e a inexistência de um general era apenas uma mera questão de (falta de) requinte entre as conspirações em curso... Vê-se por aqui que, a técnica de enfatizar o desmentido do acessório, para não corroborar o essencial, é antiga como o caraças! De Pestana Lopes, que aqui se percebe ser um dos pilares do regime (e que, por isso, a outra facção de regime queria mandar para Macau), consta que era um dos mais pertinazes inimigos de Salazar, que já era então ministro das Finanças. Mas essa é toda uma outra história...

 

Veja o original em 'Herdeiro de Aécio' na seguinte ligação::

http://herdeirodeaecio.blogspot.com/2019/04/noticias-tipicas-da-epoca-das-grandes.html

APRESENTAÇÃO de “A NOITE QUE MUDOU A REVOLUÇÃO DE ABRIL – A Assembleia Militar de 11 de Março de 1975” – coordenação de CARLOS DE ALMEIDA CONTREIRAS – SEGUNDA-FEIRA, 22 de ABRIL, às 18 horas, na ASSOCIAÇÃO 25 de ABRIL, Rua da MISERICÓRDIA, 95, LISBOA.

A CARTA DE FRANKLIN ROOSEVELT PARA ADOLF HITLER

14 de Abril de 1939. Por causa da tensão internacional, o presidente norte-americano envia uma carta de 7 páginas ao chanceler alemão. A História demonstrou o quanto a iniciativa de apaziguamento se revelou infrutífera. Mais do que isso e como se pode ver no video depois da carta, Adolf Hitler aproveitou-se da carta para, para além de recusar a proposta, fazer troça pública e ostensivamente do gesto de Franklin Roosevelt.
Sua Excelência Adolf Hitler
Chanceler do Reich Alemão
Berlim (Alemanha)
Com certeza que se apercebeu que, por todo o Mundo, centenas de milhões de seres humanos vivem hoje no receio constante de uma nova guerra ou mesmo de uma série de guerras.
A existência deste receio – e a possibilidade desse conflito – são uma preocupação do povo dos Estados Unidos em nome do qual falo, tal como a devem ser a dos povos de outras Nações de todo o Hemisfério Ocidental. Todos eles sabem que qualquer grande guerra, mesmo que se cinja a outros continentes, repercutir-se-á sobre eles, quer durante a sua existência, quer em consequências para as gerações vindouras.
Por causa do facto de, após as tensões agudas que o Mundo viveu nas últimas semanas, parecer existir agora um momento de relaxe – não existem movimentações de tropas em curso – este será momento oportuno para eu lhe enviar esta mensagem.
Em ocasião prévia, dirigi-me a si em defesa da resolução dos problemas políticos, económicos e sociais por métodos pacíficos e sem o recurso às armas.
Mas a evolução dos acontecimentos parece ter feito regressar a ameaça das armas. Se a ameaça persistir, parece inevitável que uma boa parte do Mundo caminhará para uma ruína comum. Todo o Mundo, Nações vencedoras e vencidas e neutrais, sofrerão. Recuso-me a acreditar que o Mundo esteja, necessariamente, preso a esse destino. Pelo contrário, parece-me claro que os líderes das grandes Nações têm o poder de libertar os seus povos de um desastre quando se parece impor. É igualmente claro que, no seu próprio íntimo, os próprios povos aspiram a que desapareçam os seus medos.
Todavia, é infelizmente necessário tomar em consideração os factos recentes.
Três Nações da Europa e uma de África viram a sua existência como países independentes terminada. Um vasto território de uma outra Nação independente no Extremo Oriente é ocupado por um Estado vizinho. Relatos, que confiamos não sejam verdadeiros, apontam para que outros actos de agressão se prevêem ainda contra outras Nações independentes. É claro que o Mundo se encaminha para um momento de desfecho catastrófico a não ser que se encontre uma maneira mais racional de conduzir os acontecimentos.
O senhor tem afirmado repetidamente que o senhor e o povo alemão não deseja a guerra. Se isso for verdade, não há necessidade que haja qualquer guerra.
Não há nada que possa persuadir os povos da Terra que qualquer governo tem o direito ou a necessidade de infligir as consequências de uma guerra no seu ou noutro povo com excepção da óbvia situação de auto-defesa.
Ao afirmar isto, nós, Americanos, dizemo-lo sem ser por egoísmo ou medo ou fraqueza. Se o fazemos agora é empregando a voz da força e da amizade pela Humanidade. Continua a ser para mim claro que os problemas internacionais podem ser resolvidos à mesa das negociações.
Não é por isso argumento em prol da discussão pacífica que um das partes assuma que, a não ser que receba garantias prévias que o desfecho seja a seu contento, não deporá as suas armas. Nas mesas de negociações, como nos tribunais, é necessário que as duas partes participem na discussão de boa fé, assumindo que haverá vantagens recíprocas; e é costume e necessário que as armas sejam deixadas à porta do local das negociações.
Estou convencido que a causa da Paz Mundial receberia um grande reforço se as Nações de todo o Mundo recebessem uma declaração franca sobre as políticas actuais e futuras dos Governos.
Porque os Estados Unidos, como uma das Nações do Hemisfério Ocidental, não está envolvido directamente nas controvérsias que apareceram na Europa, confio que o senhor esteja disposto a me fazer uma declaração desse teor, como chefe de uma Nação bem afastada da Europa, para que eu possa, agindo unicamente com as responsabilidades e obrigações de um intermediário amistoso, possa transmitir essa declaração a outras Nações por ora apreensivas com o curso que a política do seu Governo possa vir a tomar.
Está na disposição de assegurar que as suas forças armadas não atacarão ou invadirão o território ou as possessões das seguintes Nações independentes: Finlândia, Estónia, Letónia, Lituânia, Suécia, Noruega, Dinamarca, Países Baixos, Bélgica, Grão Bretanha e Irlanda, França, Portugal, Espanha, Suíça, Liechtenstein, Luxemburgo, Polónia, Hungria, Roménia, Jugoslávia, Rússia, Bulgária, Grécia, Turquia, Iraque, as Arábias, Síria, Palestina, Egipto e Irão?
Essa garantia teria que claramente se aplicar não apenas ao momento presente como também a um futuro suficientemente distante para criar a oportunidade para trabalhar por métodos pacíficos para uma Paz mais duradoura. Sugiro por isso que a aplicação da palavra “futuro” seja entendida para um período mínimo de não-agressão assegurada de dez anos, até a um quarto de século, se nos atrevermos a pensar a tal distância prospectiva.
Se uma tal garantia for dada pelos seu Governo, eu transmiti-la-ei de imediato aos Governos das Nações que acima mencionei e questionarei de imediato, como estou razoavelmente seguro que acontecerá, se cada uma daquelas Nações estará disposta a dar-lhe a mesma garantia, reciprocamente.
Será o tipo de gesto que trará um alívio imediato a todo o Mundo.
Proponho que, a acontecer, dois problemas essenciais venham a ser discutidos no ambiente distendido resultante, e nessas discussões o Governo dos Estados Unidos terá muito gosto em participar.
As discussões a que me refiro relacionam-se com a forma mais imediata e efectiva para que os povos do Mundo se possam aliviar do fardo do rearmamento que está progressivamente a levá-los para um desastre económico. Em simultâneo, o Governo dos Estados Unidos estaria preparado para tomar parte em discussões para uma forma mais prática de criar vias mais amplas para o comércio internacional, com o objectivo de que todas as Nações do Mundo possam ser capazes de comprar e vender no mercado mundial assim como assegurarem os meios de obterem os materiais e produtos para uma vida económica pacífica.
Ao mesmo tempo, aqueles outros Governos para além do dos Estados Unidos e que estejam directamente interessados podiam desenvolver as suas próprias discussões políticas no que respeita aquilo que considerassem necessário e conveniente.
Reconhecemos os problemas complexos do Mundo que afectam toda a Humanidade, mas sabemos que o estudo e a discussão dos mesmos se deve realizar num ambiente de Paz. O Ambiente de Paz não pode existir se as negociações forem eclipsadas pela ameaça da força ou o receio da guerra.
Creio que não interpretará mal o espírito de franqueza desta missiva. Os chefes dos grandes Governos nesta hora crucial são literalmente responsáveis pelo destino da Humanidade nos anos mais próximos. Não podem falhar na audição das orações dos seus povos para que se protejam do previsível caos da guerra. A História os tornará responsáveis pela vida e felicidade de todos, até aos mais humildes.
Espero que a sua resposta faça com que seja possível que a Humanidade perca o medo r recupere a segurança por muitos anos.
Uma mensagem similar foi endereçada ao Chefe do Governo Italiano.
Franklin. D. Roosevelt
Porque é importante hoje em dia, invocar a carta e ver o vídeo da resposta de Hitler? Para constatar o quanto os protagonistas da situação internacional podem mudar tanto em oitenta anos: se pensarmos numa política externa vocacionada para o bullyinge o fanfarronismo, pensamos de imediato no actual sucessor de Roosevelt, Donald J. Trump; mas se pensarmos numa figura prestigiada e ponderada da cena internacional, uma das figuras que mais facilmente nos ocorre será a longínqua sucessora de Hitler, Angela Merkel...

 

Veja o original em 'Herdeiro de Aécio' na seguinte ligação::

http://herdeirodeaecio.blogspot.com/2019/04/a-carta-de-franklin-roosevelt-para.html

Ramiro Moreira – o operacional das execuções de políticos de esquerda

Poucos recordam um temível vingador que assassinou portugueses de esquerda, especialmente militantes do PCP.

Não se pode dizer que matou apenas quando as posições se extremaram, continuou a fazê-lo depois de estabilizada a democracia, gratuitamente, apenas por vingança contra a esquerda, com a ajuda da Igreja. Só se negou a pôr uma bomba em Fátima, um desejo dos seus correligionários, para acusarem do crime os comunistas, suspeitos do costume.

Não lhe faltaram, depois, apoios e empregos bem remunerados. Ficaram na sombra os cúmplices e foi premiado o executor.

É de salientar que Sá Carneiro obrigou Ramiro Moreira, o militante número 7, a sair do PSD, depois de ter sabido dos seus crimes. Ou saía por si ou seria expulso. Não quis um assassino no PSD.

Cavaco e Passos Coelho teriam tomado igual atitude? Sá Carneiro era igual.

Mais uma vez, exumo dos textos, que escrevi ao longo dos anos, este cadáver da direita que há de andar por aí a gozar a reforma dourada do emprego em Espanha e, depois, em Portugal.

Para que a memória não se perca.

 

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Delgado foi como Assange: escondido numa embaixada para fugir às autoridades

Uma criada soprou ao general que a PIDE o queria prender. Humberto Delgado pediu de imediato ajuda ao embaixador do Brasil em Lisboa para o acolher e assim poder continuar a sua luta contra o regime de Salazar. O neto do general, Frederico Delgado Rosa, autor de “Humberto Delgado. Biografia do General Sem Medo”, deixa ao Expresso um depoimento sobre esses dias do seu avô
Quando se fala no “caso Delgado” pensa-se logo no assassinato de Humberto Delgado pela PIDE em 1965, mas no ano de 1959 houve outro “caso Delgado” que foi justamente o asilo de Humberto Delgado na embaixada do Brasil em Lisboa.
Tudo começou porque chegou-lhe a informação de que a PIDE o ia apanhar através de uma criada que ouvira isso da boca de uma figura da polícia política. Ao saber disso, ele reuniu-se com os seus correlegionários e com a família também. Assim, na iminência de se ver preso pela PIDE - o que estava completamente fora de aceitação pela sua parte, porque ele queria continuar o combate contra o regime de Salazar e a respetiva revolta armada -, pediu asilo ao embaixador Álvaro Lins, uma grande figura da história do Brasil e também da literatura brasileira, e foi acolhido de imediato na sua residência.

Curiosamente, a embaixada ficava justamente ao lado da sede da PIDE, na rua António Maria Cardoso, em Lisboa. É extremamente irónico que o perseguido pela PIDE ficasse tão perto da própria sede da PIDE. E, aliás, a embaixatriz Heloísa Lins cedo lhe relatou que ouvia durante a noite os gritos dos torturados pela PIDE e que se queixara disso às autoridades mas nunca obtivera resposta. A única que lhe tinham dado é que ela estava equivocada e que esses barulhos eram dos elétricos a chiarem nas calhas e, portanto, não eram gritos humanos...


Durante esses meses em que esteve refugiado na embaixada do Brasil, em Lisboa, Humberto Delgado era diariamente visitado pela sua mulher e pelas suas filhas, que tinham obrigatoriamente de passar ao lado da PIDE. E esse jogo de gato e do rato, de pressão psicológica de ter de estar a passar diariamente ao lado da PIDE e dos seus esbirros, teve, claro, uma componente pessoal bastante forte. Como se eles [da PIDE] estivessem sempre a dizer “isto está por dias para nós o apanharmos”.

Foi um braço de ferro muito grande entre janeiro e abril de 1959, porque obviamente que o regime de Salazar fazia de tudo para ele sair da embaixada sem passar a imagem de que era um perseguido político. Claro que Humberto Delgado não queria sair da embaixada se não fosse com as garantias de que a seguir ia para o Brasil. O regime tentou de tudo para demonstrar que não o perseguia e que ele não corria qualquer perigo.

No decurso desses três meses aconteceu a famosa mas malograda revolta da Sé - as pessoas esquecem-se que foi uma tentativa de ‘golpe delgadista’ contra o regime encabeçada por oficiais e civis em contacto com Humberto Delgado. Mas infelizmente essa revolta não prosseguiu porque houve fugas de informação e um controlo tão apertado sobre os oficiais envolvidos que impossibilitou qualquer hipótese de poder avançar.

Com os holofotes do mundo sobre este caso de Humberto Delgado, levou muito tempo até se encontrar uma solução entre os dois países. Acabou por se solucionar através da intervenção do jornalista brasileiro João Dantas, diretor do Diário de Notícias do Rio de Janeiro, que veio a Portugal e serviu de intermediário entre as duas nações.

Para a situação ser resolvida sem ser o embaixador a levar Humberto Delgado debaixo do seu braço até o aeroporto, digamos que foi o João Dantes que assumiu essa responsabilidade pela calada da noite. E assim Humberto Delgado partiu para o Brasil, onde aterrou no dia do Tiradentes, um feriado nacional celebrado a 21 de abril.

Na verdade, o embaixador Álvaro Lins agiu por sua conta e soube lidar com este impasse diplomático porque o Presidente do Brasil [Juscelino Kubitschek] não queria ficar de mal com o Portugal de Salazar.

O meu avô ficou eternamente grato ao embaixador Álvaro Lins e à sua esposa Heloísa. Humberto Delgado viveu exilado no Brasil entre 1959 e 1964. E foram anos sem dúvida complicados porque ele continuou a preparar ações revolucionárias contra o regime português que culminaram na revolta de Beja, que foi igualmente malograda na passagem de ano de 1961 para 1962. Isto passou-se no rescaldo da sua entrada clandestina em Portugal: entrou e saiu do país e a PIDE carimbou-lhe o passaporte, ou seja, a polícia que o queria prender permitiu que ele entrasse e saísse do país. Este facto ridicularizou o regime aos olhos do mundo.
Expresso | Frederico Delgado Rosa (depoimento recolhido por Bernardo Mendonça

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/04/portugal-quando-delgado-foi-como.html

A EUROPA DE PREVENÇÃO

Há oitenta anos e na sequência da invasão italiana da Albânia, as notícias eram que os exércitos de toda a Europa haviam entrado de prevenção, atitude acompanhada de proclamações destinadas a auditores específicos. Note-se a página abaixo do Diário de Lisboa de 10 de Abril de 1939, em que as curiosidades maiores são a ausência de referências à Alemanha entre os países mencionados, ao mesmo tempo que o destaque principia em países que lhe são fronteiriços e que se sentirão mais directamente ameaçados por essa mesma Alemanha, como serão os casos da Holanda e da Suíça. Sem se nomear expressamente qualquer país, percebia-se claramente de onde seriam de esperar as perturbações ao status quo internacional.

 

Veja o original em 'Herdeiro de Aécio' na seguinte ligação::

http://herdeirodeaecio.blogspot.com/2019/04/a-europa-de-prevencao.html

31 de março de 1964 – uma história encharcada de sangue

Nada há a comemorar em 31 de março, mas é preciso lembrar o sacrifício de democratas, patriotas e progressistas, para que nunca mais se repita.

No dia 31 de março, os democratas, patriotas e progressistas não tem o que comemorar, mas muito a lembrar, em termos de ataques à democracia, direitos humanos e soberania nacional. Na verdade, até mesmo em sua comemoração do golpe que levou os generais ao poder, a ditadura mentiu para o país – a ação militar contra Goulart começou na madrugada de 31 de março, tomou corpo no dia 1º de abril e depôs o presidente no dia 2 de abril. Mas o dia 1º de abril é, mundialmente, o dia da mentira…

A pretensão do capitão-presidente Jair Bolsonaro de voltar a comemorar a data do golpe de estado de 1964 despertou forte resistência de vários setores democráticos, no judiciário, no Ministério Público Federal e entre centenas de juristas. Em nota divulgada nesta terça-feira (26) a Procuradoria Federal dos Direitos Cidadão (ligada ao Ministério Público Federal) classificou a pretensão de Bolsonaro como crime de responsabilidade.

“O apoio de um presidente da República ou altas autoridades [à comemoração do golpe de 1964 – nota da Redação] seria, também, crime de responsabilidade (artigo 85 da Constituição, e Lei n° 1.079, de 1950). As alegadas motivações do golpe – de acirrada disputa narrativa – são absolutamente irrelevantes para justificar o movimento de derrubada inconstitucional de um governo democrático, em qualquer hipótese e contexto”,

diz a nota. 
Stuart Angel

Não há o que comemorar, mas há tantos heróis a lembrar! Carlos Lamarca, Carlos Marighela, Maurício Grabois e as dezenas de moças e rapazes que lutaram no Araguaia, Pedro Pomar e os que foram assassinados na Chacina da Lapa, Davi Capistrano e seus companheiros de direção do PCB, mortos de maneira sistemática pela repressão. Há os que foram simplesmente esmagados sob a tortura, como Carlos Nicolau Danielli (em 30 de dezembro de 1972, aos 44 anos de idade), Wladimir Herzog, em 25 de outubro de 1975 (tinha 38 anos), ou Manoel Fiel Filho (em 17 de janeiro de 1976, aos 49 anos).

Há vários símbolos da luta democrática contra a ditadura militar de 1964. Um deles é a história do revolucionário Stuart Angel, que militava no Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR8). Ele foi preso e torturado na Base Aérea do Galeão (Rio de Janeiro), sendo assassinado em circunstâncias particularmente bárbaras, em 14 de junho de 1971 (tinha somente 25 anos): teve a boca amarrada ao escapamento de um jipe militar e foi arrastado pelo pátio, morrendo em consequência.

Sua esposa, Sônia de Moraes Angel, militante da Aliança Libertadora Nacional (ALN), foi presa, torturada e assassinada a tiros no DOI/CODI de São Paulo, em 30 de novembro de 1973 – tinha 27 anos de idade. 

Se eu aparecer morta, por acidente ou outro meio, terá sido obra dos assassinos do meu amado filho”

Zuzu Angel

E sua mãe, a estilista Zuzu Angel, enfrentou, corajosamente, a ditadura exigindo a devolução do corpo de seu filho, dado como desaparecido. Ela foi assassinada num acidente de carro no Rio de Janeiro, em 14 de abril de 1976 (tinha 54 anos de idade), certamente cometido por agentes da repressão: alguns dias antes, ela deixara com o compositor Chico Buarque de Hollanda um bilhete para ser divulgado se algo acontecesse a ela, onde dizia: “Se eu aparecer morta, por acidente ou outro meio, terá sido obra dos assassinos do meu amado filho”. Chico Buarque a homenageou numa canção que lembra a luta das mulheres contra a ferocidade assassina da ditadura, “Angélica”, onde cantou:

Angélica

Quem é essa mulher
Que canta sempre esse lamento?
Só queria lembrar o tormento
Que fez o meu filho suspirar”.

Chico Buarque

A Comissão Nacional da Verdade (CNV), que desde 16 de maio de 2012 investigou os crimes da ditadura, contabilizou 434 assassinatos e desaparecimentos de militantes que se opunham à ditadura. Mas a Comissão alerta que este número pode ser muito maior pois só inclui aqueles sobre os quais há alguma informação. Deixa de fora, por exemplo, a ação da repressão contra camponeses. A Comissão de Mortos e Desaparecidos e a Comissão de Anistia supõem que o número de vítimas da repressão no campo seja superior a 1196. 

A história da repressão da ditadura de 1964 está encharcada de sangue. O número de suas vítimas é enorme. Aquilo que mais fortemente se recorda sobre a ditadura é o sangue derramado por democratas, patriotas e progressistas. Havia uma política de Estado de extermínio físico de opositores, que partia do centro da ditadura, a presidência da República.

O general Ernesto Geisel, que ocupou a presidência da República entre 1974 e 1979, admitiu essa barbaridade numa entrevista publicada no livro “Ernesto Geisel”, de 1999, organizado pelos historiadores Maria Celina de Araújo e Celso Castro. Nela, ele admite o assassinato de opositores políticos. O problema para ele não era a existência da repressão nem a tortura e a violação dos direitos humanos. Um exemplo são suas instruções ao general Dilermando (que era comandante do então II Exército, em São Paulo) sobre as ações que resultaram na Chacina da Lapa contra o PCdoB, em 16 de dezembro de 1976. Ele o orientou para que evitasse “excessos. Se ele tivesse que montar alguma operação armada, uma operação contra comunistas atuantes, que analisasse adequadamente, para verificar se tinha fundamento. Evidentemente, eu não ia tolher sua liberdade de ação.” E comentou a versão de Dilermando dizendo:

“Sempre se procurou acompanhar e conhecer o que o Partido [Comunista do Brasil] fazia, qual era a sua ação, como ele se conduzia, o que estava produzindo, qual era seu grau de periculosidade”.

E prosseguiu:

“o Dilermando, já no comando do II Exército, atuou em São Paulo sobre uma grande reunião dos chefes comunistas. A questão não era mais a força que eles tinham, mas não podíamos deixar o comunismo recrudescer. Fizemos tudo para evitar um recrudescimento das ações comunistas.” 

Chacina da Lapa

A política de extermínio físico dos opositores ficou demonstrada mais uma vez com a publicação, em maio de 2018, de um documento do serviço de espionagem dos EUA, a CIA, que relata uma reunião, no Palácio do Planalto, logo no início do governo Geisel (o memorando é de 11 de abril de 1974) da qual participaram Geisel e os generais João Figueiredo (que viria a ser o sucessor de Geisel na presidência), Milton Tavares de Souza e Confúcio Dantas de Paula Avelino. Nela, o general Ernesto Geisel, então presidente da República, fora informado do assassínio de 104 opositores da ditadura no governo anterior, com autorização de seu antecessor, o general Emílio Garrastazu Médici. E Geisel autorizou que se continuasse com aquela política oficial de extermínio de “subversivos”. 

A história da ditadura de 1964 é um longo relato de desprezo à democracia, desrespeito aos direitos humanos, proibição da liberdade de pensamento e expressão, censura aos meios de comunicação, contra a liberdade de ação e organização dos trabalhadores e sindicatos, repressão à liberdade de organização partidária. Do Brasil alinhado, de maneira automática e subordinada às exigências dos EUA a pretexto de, como queria o ideólogo da ditadura, o general Golbery do Couto e Silva, não cair na esfera da influência comunista sinalizada pela União Soviética e pela China Popular.

Os brasileiros não podem esquecer os crimes contra a democracia, a soberania nacional e os direitos humanos cometidos pela ditadura militar de 1964. 

Um levantamento feito pelo professor Fernando Altmeyer, da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), com base, entre outras fontes, em dados da Comissão Nacional da Verdade e do livro Brasil, Nunca Mais, traz números impressionantes. Assegura que 500.000 pessoas foram investigadas, 200.000 presas (50.000 nos meses iniciais da ditadura, entre março e agosto de 1964). Houve 11.000 acusados em julgamentos de auditorias militares, sendo 5.000 condenados. Relaciona 10.000 torturados somente no DOI-CODI de São Paulo – que entre 1970 e 1974 foi comandado pelo coronel torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, homenageado publicamente por Bolsonaro – entre as quais 40 crianças presas e torturadas. Cita também 8.300 vítimas indígenas, 1.196 camponeses atingidos pela repressão; 10.000 pessoas exiladas. Houve a cassação de 4.882 mandatos eletivos; 1.202 sindicatos sofreram intervenção; 248 estudantes foram expulsos de universidades com base no decreto 477; 128 brasileiros e 2 estrangeiros foram banidos; 49 juízes foram expurgados (três foram do Supremo Tribunal Federal).

No dia 31 de março não há nada a comemorar, mas é preciso refrescar a memória dos brasileiros.


Texto em português do Brasil


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/31-de-marco-de-1964-uma-historia-encharcada-de-sangue/

As três ignorâncias contra a democracia

(Boaventura Sousa Santos, in Outras Palavras, 15/03/2019)

Escrevi há muito que qualquer sistema de conhecimentos é igualmente um sistema de desconhecimentos. Para onde quer que se orientem os objetivos, os instrumentos e as metodologias para conhecer uma dada realidade, nunca se conhece tudo a respeito dela e fica igualmente por conhecer qualquer outra realidade distinta da que tivemos por objetivo conhecer. Por isso, e como bem viu Nicolau de Cusa, quanto mais sabemos mais sabemos que não sabemos. Mas mesmo o conhecimento que temos da realidade que julgamos conhecer não é o único existente e pode rivalizar com muitos outros, eventualmente mais correntes ou difundidos. Dois exemplos ajudam. Numa escola diversa em termos étnico-culturais, o professor ensina que a terra urbana ou rural é um bem imóvel que pertence ao seu proprietário e que este, em geral, pode dispor dela como quiser.

Uma jovem indígena levanta o braço, perplexa, e exclama: “professor, na minha comunidade a terra não nos pertence, nós é que pertencemos à terra”. Para esta jovem, a terra é Mãe Terra, fonte de vida, origem de tudo o que somos. É, por isso, indisponível. Durante um processo eleitoral numa dada circunscrição de uma cidade europeia, onde é majoritária a população roma (vulgo, cigana), as seções de voto identificam individualmente os eleitores recenseados. No dia das eleições, a comunidade roma apresenta-se em bloco nos lugares de votação reivindicando que o seu voto é coletivo porque coletiva foi a deliberação de votar num certo sentido ou candidato. Para os roma não existem vontades políticas individuais autônomas em relação às do clã ou família. Estes dois exemplos mostram que estamos em presença de duas concepções de natureza (e propriedade), num caso, e de duas concepções de democracia, no outro.

O primeiro modo de produção de ignorância (chamemos-lhe Modo 1) reside precisamente em atribuir exclusivamente a um modo de conhecimento o monopólio do conhecimento verdadeiro e rigoroso e desprezar todos os outros como variantes de ignorância, quer se trate de opiniões subjetivas, superstições ou atavismos. Este modo de produção de ignorância continua a ser o mais importante, sobretudo desde que a cultura eurocêntrica (um certo entendimento dela) tomou contato aprofundado com culturas extra-europeias, especialmente a partir da expansão colonial moderna. A partir do século XVII, a ciência moderna consolidou-se como tendo o monopólio do conhecimento rigoroso. Tudo o que está para além ou fora dele é ignorância. Não é este o lugar para voltar a um tema que tanto me tem ocupado. Direi apenas que o Modo 1produz um tipo de ignorância: a ignorância arrogante, a ignorância de quem não sabe que há outros modos de conhecimento com outros critérios de rigor e tem poder para impor a sua ignorância como a única verdade.

O segundo modo de produção de ignorância (Modo 2) consiste na produção coletiva de amnésia, de esquecimento. Este modo de produção tem sido frequentemente ativado nos últimos cinquenta anos, sobretudo em países que passaram por longos períodos de conflito social violento. Esses conflitos tiveram causas profundas: gravíssima desigualdade socioeconômica; apartheid baseado em discriminação étnico-racial, cultural, religiosa; concentração de terra e consequente luta pela reforma agrária; reivindicação do direito à autodeterminação de territórios ancestrais ou com forte identidade social e cultural, etc. Estes conflitos, que muitas vezes se traduziriam em guerras prolongadas, civis ou outras, produziram milhões de vítimas – entre mortos, desaparecidos, exilados e internamente deslocados. Para além das partes em conflito, houve sempre outros atores internacionais presentes e interessados no desenrolar do conflito; a sua intervenção tanto conduziu ao agravamento do conflito como (menos frequentemente) ao seu término. Em alguns poucos casos houve um vencedor e um vencido inequívocos. Foi esse o caso do conflito entre o nazismo e os países democráticos. Na maioria dos casos, porém, tende a ser questionável se houve ou não vencedores e vencidos, sobretudo quando a parte supostamente vencida impôs condições mais ou menos drásticas para aceitar o fim do conflito (veja-se o caso da ditadura brasileira que dominou o país entre 1964 e 1985).

Em ambos os casos, terminado o conflito, inicia-se o pós-conflito, um período que visa reconstruir o país e consolidar a paz. Nesse processo participam com destaque as comissões de verdade, justiça e reconciliação, muitas vezes como componentes de um sistema mais amplo que inclui a justiça transicional e a identificação e apoio às vítimas. São disso exemplo a Coreia do Sul, Argentina, Guatemala, África do Sul, ex-Iugoslávia, Timor-Leste, Peru, Ruanda, Serra Leoa, Colômbia, Chile, Guatemala, Brasil. Na maioria dos processos pós-conflito, forças diferentes militaram por razões diferentes para que a verdade não fosse plenamente conhecida. Quer porque a verdade era demasiado dolorosa, quer porque obrigaria a uma profunda mudança do sistema econômico ou político (desde a redistribuição de terra ao reconhecimento da autonomia territorial e a um novo sistema jurídico-administrativo e político). Por qualquer destas razões, preferiu-se a paz (podre?) à justiça, a amnésia e o esquecimento à memória, à história e à dignidade. Assim se produziu uma ignorância indolente.

Modo 3 de produção de ignorância consiste na produção ativa e consciente de ignorância por via da produção massiva de conhecimentos de cuja falsidade os produtores estão plenamente conscientes.Modo 3 produz conhecimento falso para bloquear a emergência do conhecimento verdadeiro a partir do qual seria possível superar a ignorância. É este o domínio das fake news. Ao contrário dos Modos 1 e 2, a ignorância não é aqui um subproduto da produção. É o produto principal e a sua razão de ser. Os exemplos, infelizmente, não faltam: a negação do aquecimento global; os imigrantes e refugiados como agentes de crime organizado e ameaça à segurança da Europa ou dos EUA; a distribuição de armas à população civil como o melhor meio de combater a criminalidade; as políticas de proteção social das classes mais vulneráveis como forma de comunismo; a conspiração gay para destruir os bons costumes; a Venezuela ou Cuba como ameaças à segurança dos EUA; etc., etc.

Os três modos de produção produzem três tipos diferentes de ignorância, estão articulados e acarretam consequências distintas para a democracias. O Modo 1 produz uma ignorância arrogante, abissal, que é simultaneamente radical e invisível na medida em que o monopólio do conhecimento dominante é generalizadamente aceito. As verdades que não cabem na verdade monopolista não existem e tão-pouco existem as populações que as subscrevem. Abre-se assim um campo imenso para a sociologia das ausências. Foi por isso que o genocídio dos povos indígenas e o epistemicídio dos seus conhecimentos (passe o pleonasmo) andaram de mãos dadas. O Modo 2 produz a ignorância indolente que se satisfaz superficialmente e que, por isso, permanece como ferida que arde sem se ver. É a ignorância-frustração que sucede à verdade-expectativa. Uma ignorância que bloqueia uma possibilidade e uma oportunidade emancipadoras que estiveram próximas, que eram realistas e, que, além disso, eram merecidas, pelo menos na opinião de vastos setores da população. Esta ignorância sugere uma sociologia das emergências, da emergência de uma sociedade que se afirma reconciliada consigo mesma, com base em justiça social, histórica, étnico-cultural, sexual. O Modo 3 cria uma ignorância malévola, corrosiva e, tal como um cancro, dificilmente controlável, na medida em que as redes sociais têm um papel crucial na sua proliferação. Esta ignorância está para além da ausência e da emergência. Esta ignorância é a prefiguração da estase, a imobilidade que estrutura a vertigem do tempo imediato.

Os três modos de produção e as respectivas ignorâncias que produzem não existem na sociedade de modo isolado. Articulam-se e potenciam-se por via das articulações que os tornam mais eficazes. Assim, a ignorância arrogante produzida pelo Modo 1 (monopólio da verdade) facilita paradoxalmente a proliferação da arrogância malévola produzida pelo Modo 3 (falsidade como verdade alternativa).

É que uma sociedade saturada pela fé no monopólio da verdade científica torna-se mais vulnerável a qualquer falsidade que se apresente como verdade alternativa usando os mesmos mecanismos da fé.

Por sua vez, a ignorância indolente produzida pelo Modo 2(amnésia, esquecimento) desarma vastos setores da população para combater a ignorância produzida quer pelo Modo 1, quer pelo Modo 3.

A ignorância arrogante é uma das principais causas da ignorância indolente, ou seja, da facilidade com que se esquece, normaliza e banaliza um passado de morte de inocentes, de sofrimento injusto, de pilhagens convertidas em exercícios de propriedade, de corpos de mulheres e de crianças violentados como objetos de guerra. Quando a ignorância arrogante se complementa com a ignorância malévola, a ignorância indolente torna-se tão invisível que é praticamente impossível de erradicar.

O impacto destes três tipos principais de ignorância nas democracias do nosso tempo é convergente, embora diferenciado. Todas estas ignorâncias contribuem para produzir democracia de baixa intensidade. A ignorância arrogante torna impossível a democracia intercultural e plurinacional, na medida em que outros saberes e modos de vida e de deliberação são impedidos de contribuir para o aprofundamento democrático; e faz com que vastos setores da população não se sintam representados pelos seus representantes e nem sequer participem nos processos eleitorais de raiz liberal. A ignorância indolente retira da deliberação democrática decisões sobre justiça social histórica, sexual, e descolonizadora, sem as quais a prática democrática é vista por vastas camadas da população como um jogo de elites, uma disputa interna entre os vencedores dos conflitos históricos. Mas a ignorância malévola é a mais antidemocrática de todas. Sabemos que as deliberações democráticas são tomadas com base em fatos, percepções e opiniões. Ora a ignorância malévola priva a democracia dos fatos e, ao fazê-lo, converte a boa fé dos que dela são vítimas em figurantes ou jogadores ingênuos num jogo perverso onde sempre perdem e, mais do que isso, se auto-infligem a derrota.


Fonte aqui.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Lia Viegas

(1931 – 2016)

Lutadora antifascista e feminista, advogada e poetisa, tornou-se conhecida pela sua actividade na defesa dos direitos das mulheres e, durante o fascismo, destacou-se como advogada de presos políticos nos Tribunais Plenários.

Mulher calorosa e de grande generosidade.

Lutadora antifascista e feminista

Lia Viegas

Marília Viegas (Lia) nasceu em Faro em 5 de Abril de 1931, e morreu na mesma cidade em 27 de Dezembro de 2016.

Licenciou-se em Direito na Universidade Clássica de Lisboa e exerceu notariado e advocacia em Macau, Angola e Lisboa.

Foi uma das raras mulheres que durante o regime do Estado Novo, corajosamente, aceitou defender presos políticos nos tribunais plenários[1].

Ao longo da vida defendeu gratuitamente muitas dezenas de mulheres que necessitavam de apoio jurídico para fazer valer os seus direitos[2].

Nos anos que se seguiram ao 25 de Abril de 1974, participou activamente nos movimentos de despenalização do aborto, quando este era ilegal e ocorria de forma clandestina, provocando a morte ou problemas de saúde graves em muitas mulheres.

Defensora dos direitos das mulheres

Um dos momentos mais marcantes do percurso de Lia Viegas foi a sua participação como advogada de defesa de Maria Antónia Palla num julgamento, em 1979. Esta jornalista enfrentou um processo-crime na sequência da transmissão pela RTP, em Maio de 1976, de um programa da sua autoria sobre o aborto e Lia Viegas aceitou defendê-la[3]. O processo contra a jornalista atravessou fronteiras, o julgamento gerou um forte movimento de solidariedade [que criou condições para que, daí em diante, a despenalização do aborto passasse a fazer parte da agenda política do país] e Maria Antónia Palla foi absolvida, em Junho de 1979.

Lia Viegas

Nesta notícia de A Capital sobre o julgamento lê-se:

“Maria Antónia Palla é defendida pela drª Lia Viegas (…)”.

Edição de 26 de maio de 1979

ARQUIVO A CAPITAL

Enquanto activista feminista, Lia Viegas foi uma das fundadoras do Movimento de Libertação das Mulheres (MLM), teve actividade no Movimento Democrático das Mulheres (MDM)[4] e, mais tarde, pertenceu à União das Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR). É autora do livro “A Constituição e a Condição da Mulher”, publicado um ano depois do 25 de Abril de 1974.

Advogada e poetisa

Cedo se interessou pela Literatura, tendo escrito o seu primeiro poema aos 16 anos. Em 1954 foi incluída na Antologia Prémio Almeida Garrett, do Ateneu Comercial do Porto. Colaborou em diversos jornais e revista literárias, nomeadamente no suplemento Artes e Letras do Diário de Notícias. Em 1975 publicou uma monografia sobre A Constituição e a Condição da Mulher.

Além da advocacia, da actividade política e como feminista, é autora de vários livros de poesia. Foi também colaboradora de diversos jornais e revistas, entre os quais o suplemento “Artes e Letras” do “Diário de Lisboa” e a revista “Mulheres” (títulos já desaparecidos).

Poesia

Lia Viegas

Obras de poesia:

  • Náufragos na Ilha, Editora Soc. Expansão Cultural, 1971;
  • A Pulso o Horizonte, Editora Ulmeiro, 1985;
  • Árvore de Fogo, Hugin Editores, 2001

Ai de mim minhas mãos revolvem a terra que dá pão

Ai de mim minhas mãos revolvem a terra que dá pão
Estou comprometida desde o início
Voluntariamente enlaçada na cadeia de montagem
A compasso a horário a calendário
“Robot” manipulado com esforço
Ai de mim ouço
A passarada cujo destino é o céu
Dentro de mim rasgando cegamente
Os caminhos com se houvesse
Possível prometida permitida
Uma porta que desse
Para o infinito

Lia Viegas
In, Náufragos na Ilha

[1]

Marília Viegas foi das raras mulheres que defenderam presos políticos nos Tribunais Plenários fascistas, durante a ditadura do Estado Novo. Em Janeiro de 2014, os cerca de 150 abnegados advogados foram homenageados por iniciativa Movimento Não Apaguem a Memória (NAM), em sessão na Assembleia da República [que contou com a colaboração da Ordem dos Advogados e da Comissão de Liberdades, Direitos e Garantias da Assembleia da República, e a presença de quase todos os advogados ainda vivos]. Marília Viegas colaborou na organização dessa iniciativa” – Helena Pato (então presidente do NAM).

[2] “Foi uma mulher extraordinária na defesa dos direitos das mulheres, tendo dado apoio jurídico em muitos casos de forma gratuita” – Manuela Tavares, que a entrevistou para o seu livro sobre o movimento feminista em Portugal “Feminismos: Percursos e Desafios”.

[3] Numa série de programas feita em parceria com a jornalista Antónia de Sousa, “Nome-Mulher”, o episódio dedicado à questão do aborto defendendo a sua legalização, levou Maria Antónia Palla a julgamento. [“As reacções não se fizeram esperar por parte da Ordem dos Médicos e das forças mais conservadoras (…) Foi instaurado um processo crime e o início do julgamento veio a verificar-se em maio de 1979”]. – Manuela Tavares in “Feminismos: Percursos e Desafios”. 

Maria Antónia Palla, em testemunho a Manuela Goucha Soares [Expresso, 28/12/2016], fala de LV como uma mulher extremamente generosa e recorda que o advogado que a assistia desistira na véspera da primeira audiência e que, em choque, ela fora aconselhada a contactar LV, pois que só uma mulher iria defendê-la num caso como aquele. LV aceitou de imediato.

[4] Lia Viegas foi membro do Conselho Nacional do Movimento Democrático das Mulheres (MDM), eleita em 1977, reeleita em 1980 e em 1984.

Dados biográficos


Os campos de concentração franquistas: “reeducação”, escravatura e morte

Um dos trunfos do actual ressurgimento do fascismo são os muitos anos de ocultação e branqueamento dos crimes dos regimes fascistas, nomeadamente os perpetrados na Europa dos anos 30 e 40. É por isso útil e necessário rememorar todos aspectos concretos desse cortejo de horrores, como é o caso dos campos de concentração do franquismo.

A imagem da bandeira franquista ondeando do outro lado da fronteira causou-lhe profunda preocupação. Nunca antes a contemplara tão de perto. Após dois anos e meio combatendo nas fileiras do Exército Republicano, da pesada derrota e de sete meses de exílio na França, Luis Ortiz (falecido esta quinta-feira 7 de Março, aos 102 anos) estava determinado a voltar para casa naquele ano de 1939. A sua mãe havia sondado em Bilbao pessoas próximas do novo regime. Todos lhe asseguraram que se o filho voltasse ninguém o incomodaria, já que não havia qualquer acusação contra ele. O relatório materno gerou mais confiança nele do que as promessas feitas pelas autoridades espanholas e francesas. Luis nunca tinha acreditado inteiramente na mensagem repetida pelo sistema sonoro dos campos de concentração gauleses de Septfonds e de Gurs, em que tinha compartilhado o cativeiro com milhares de compatriotas: “Voltai ao vosso país. Ninguém tem que temer na Espanha de Franco, desde que não tenha as mãos manchadas de sangue”.

Já não era hora de recuar. Luis foi em frente e atravessou tranquilamente a ponte de Hendaia. “Irún estava cheio de guardas civis e falangistas. Não demoraram nem um minuto a prender-me.” Momentos depois, entrava como prisioneiro no campo de concentração próximo, instalado na fábrica de chocolates Elgorriaga. Começou aí um périplo que o levaria a passar por outros dois campos de concentração e por um batalhão de trabalhadores escravos. Luis Ortiz foi mais um dos quase um milhão de espanhóis vítimas de um sistema que começou a organizar-se após a sublevação contra a Segunda República.

Os generais golpistas demoraram 24 horas para abrir o primeiro campo de concentração oficial do franquismo. O local escolhido foi uma velha fortaleza do século XVII no coração do protectorado espanhol em Marrocos. Entre 18 e 19 de Julho de 1936, dezenas de militares que tinham permanecido leais à ordem constitucional, membros de organizações republicanas, funcionários públicos, jornalistas e professores começaram a ser confinados na cidadela de Zeluan. Todos eles eram, de certa forma, afortunados. Apenas na primeira noite da sublevação os golpistas tinham fuzilado 189 pessoas em Ceuta, Melila e no território do protectorado. Um dia depois, Franco oficializou essa prática repressiva. Através de uma ordem, pediu aos seus companheiros de rebelião que organizassem “campos de concentração com os elementos perturbadores” os quais deveriam de empregar “em obras públicas, separados da população”.
Antes do final de Julho abriram as suas portas os campos de El Mogote, a 10 quilômetros de Tetouan, e La Isleta, em Las Palmas de Gran Canaria. Em Malhorca, o comandante militar publicou na imprensa uma nota oficial: “Firme, humanitária e severa, a Espanha resgatada em defesa dos seus filhos leais, não poderá ter com os traidores outra atitude senão encerrá-los em campos de concentração. Não será cruel porque será cristã, mas também não será estúpida porque deixou de acreditar no parlamentarismo liberalóide. Saibam-no todos e especialmente os senhoritos comunistas de cabaré: há vagas em campos de concentração e picaretas, pás e enxadas disponíveis nas suas arrecadações”. Seguiram os passos das Baleares todos e cada um dos territórios em que o golpe de Estado ganhou rapidamente: Galiza, Navarra, zonas de Castela Velha e Andaluzia … “Criaremos campos de concentração para vagabundos e delinquentes políticos; para maçons e judeus; para os inimigos da Pátria, do Pão e da Justiça,” anunciava ameaçadoramente a Falange de Cádis na capa do seu jornal Águilas.

Metodicamente, as áreas conquistadas pelos exércitos franquistas foram semeadas com campos de concentração. Os seus inquilinos eram maioritariamente prisioneiros de guerra capturados na frente. Também passaram por eles todo o tipo de presos políticos: altos responsáveis da Administração, militantes de partidos políticos e sindicatos, até mulheres cujo único crime era ser esposa, mãe ou filha de um combatente republicano. A Andaluzia foi a região que albergou um maior número de recintos, 51. Seguiram-se a Comunidade Valenciana, com 41; Castilla-La Mancha, com 38, e Castilla y León, com 24. Houve um total de 286 campos de concentração oficiais abertos entre 1936 e 1939 que pudemos documentar. Alguns, como a praça de touros de Valência ou o campo de futebol do velho Chamartín, em Madrid, embora reunissem milhares de prisioneiros, funcionaram apenas durante alguns dias. A maioria operou durante anos, como o de Miranda de Ebro (Burgos), o de mais longa duração do franquismo, que fechou as suas portas em 1947.

Ao contrário do meticuloso sistema dos nazis, o sistema espanhol foi pouco homogéneo. Embora em Julho de 1937 Franco tenha criado a Inspecção dos Campos de Concentração de Prisioneiros (ICCP) para centralizar o controlo desses recintos, a improvisação, o caos organizativo e as disputas entre generais causaram enormes diferenças. As condições de vida variavam dependendo da província, do comandante militar encarregado da região ou do oficial designado para o dirigir. As possibilidades de sobrevivência aumentavam se o chefe impedia a entrada de falangistas que iam à caça ao homem e desciam se era um corrupto e desviava para o seu bolso parte do dinheiro que devia gastar com a alimentação. Apesar das diferenças, todos cumpriram uma missão principal: selecionar os cativos. O Generalíssimo não queria que um único fosse libertado sem ter sido investigado e depurado. Longe de respeitar os seus direitos como prisioneiros de guerra, a Espanha “nacional” não os considerava membros de um exército mas, como o verbalizou o próprio ICCP, “uma horda de assassinos e foragidos”.

Para determinar o seu suposto grau de criminalidade, os cativos foram submetidos a complexos processos de classificação nos quais solicitaram relatórios aos alcaides, guardas civis e sacerdotes das suas localidades de origem. Sofreram duríssimos interrogatórios que em muitas ocasiões terminaram com a morte. Luis Ortiz testemunhou esse tipo de prática no campo de concentração da Universidade de Deusto, em Bilbao: “Como sabia escrever à máquina, fui designado para os escritórios. Tomava nota do que os prisioneiros declaravam. Quando não gostavam das respostas, davam-lhes com um pau nos rins. Uma e outra vez. Os interrogatórios eram extremamente duros”.

Depois de reunir todas as informações, as comissões dividiam-nos basicamente em três grupos: Inimigos considerados irrecuperáveis, que eram submetidos a julgamentos sumários onde foram condenados à morte ou a longas penas de prisão em cárceres imundos; os que, apesar de contrários ao novo regime, se estimava que poderia ser “reeducados” e, finalmente, os considerados “afectos”, que eram incorporados no exército franquista ou postos em uma liberdade que seria sempre condicional, sob a eterna vigilância das autoridades civis e militares.

Os campos serviram também como local de extermínio e de “reeducação”: os cativos pereceriam de fome, de frio e de doenças causadas pelas deploráveis condições higiénicas e quase total ausência de assistência sanitária; centenas de homens foram levados à força por grupos de falangistas, guardas civis ou comandos paramilitares que, com a cumplicidade dos comandantes militares, os assassinaram em qualquer vala. À medida que a guerra avançava, esses “passeios” seriam substituídos ou complementados pelos assassínios “legais”: execuções levadas a cabo após conselhos de guerra que mal duravam uma hora e que em muitas ocasiões eram realizados nos próprios campos. No campo instalado no convento de Camposancos, em A Guarda (Pontevedra), os acusados eram julgados em grupos de até 30 pessoas. Os seus advogados eram militares franquistas que costumavam limitar-se a confirmar a gravidade das acusações.

Para Franco era claro que aqueles que sobrevivessem aos campos deveriam sair deles “reformados”. Os prisioneiros de San Marcos, em León, receberam um pequeno livro no qual tentavam doutrina-los sobre religião, política e conceitos morais. Nele dizia-se: “Nós aspiramos a que alguns de vós saiam (…) espiritual e patrioticamente mudados; outros, com estes sentimentos reactivados, e todos, vendo que cuidámos de mostrar-lhes o bem e a verdade “. Esse “bem” e essa “verdade” foram inculcados através de um cruel processo de desumanização. Os cativos foram despojados de seus pertences, tosquiados à máquina zero e incorporados num grupo humano impessoal que se movia ao toque da corneta e a golpes de moca. Na maioria dos campos havia também duas palestras diárias de doutrinação sobre temas com títulos eloquentes: “Erros do marxismo”. Criminalidade prevalecente antes de 18 de Julho. Os objectivos do judaísmo, da maçonaria e do marxismo. Porque assume o exército a tarefa de salvar a pátria. O conceito da Espanha imperial “.

A Igreja desempenhou um papel fundamental na “reeducação”. A assistência à missa era obrigatória, e a comunhão, conveniente para agradar aos guardiões. Os chefes dos campos consideraram o maior sucesso conseguir a conversão dos presos. Tal como redigiu o tenente-coronel Cagigao, responsável militar do campo de concentração de El Burgo de Osma (Soria), num relatório apresentado a Franco: “Magnífico espetáculo! Imagem impressionante de uma majestade [sic] e grandeza que só pode ser visto na Espanha do Caudillo, o de 3.082 prisioneiros ajoelhados com as mãos cruzadas e deslocando-se no meio deles 10 sacerdotes distribuindo a sagrada comunhão”.

Os campos de concentração também nasceram com o objetivo de aproveitar os prisioneiros como mão-de-obra escrava. Nas Ilhas Baleares, nas Ilhas Canárias e no protectorado de Marrocos, estes recintos foram, durante o conflito, centros de trabalhos forçados para a construção de infraestruturas e fortificações. Em Maiorca, os detidos dos campos de Pollensa, San Juan de Campos, Manacor e Sóller construíram mais de 100 quilómetros de estradas. Na Península a situação foi menos homogénea. No início da guerra, os cativos eram usados ​​arbitrariamente. Generais, oficiais, alcaides, falangistas e particulares afectos aos golpistas empregavam-nos em todos os tipos de tarefas: escavar trincheiras, reconstruir pontes, reabilitar aldeias destruídas. Em 1937, com o nascimento do ICCP, o trabalho escravo começou a ser sistematizado. Franco regulamentou naquele ano por decreto o que ele definiu como o “direito-obrigação” ao trabalho dos seus cativos. E, passo a passo, foi surgindo o sistema de exploração laboral dos prisioneiros e presos políticos.

Nos chamados batalhões de trabalhadores chegaram a ser explorados, simultaneamente, entre 90.000 e 100.000 pessoas em mais de uma centena de empresas dispersas pela geografia nacional. Funcionaram até 1940. A partir desse momento, o trabalho escravo foi garantido forçando os homens em idade militar que não haviam lutado nas fileiras franquistas a fazer a mal chamada “mili de Franco”. Destes, aqueles que eram reconhecidos como afectos ao Movimento ingressavam no exército regular. O resto ia parar aos chamados Batalhões Disciplinares de Soldados Trabalhadores, que assumiram o trabalho dos batalhões de trabalhadores, ou foram destinados a realizar fortificações nos Pirenéus, no Campo de Gibraltar e nas costas espanhola face a uma possível entrada do país na Segunda Guerra Mundial. Entre 1940 e 1942, 47.000 homens trabalharam anualmente nesses batalhões. Continuaram operacionais até 1948 algumas dessas unidades, formadas por republicanos que iam saindo da prisão após serem indultados ou a cumprirem integralmente as suas sentenças.

A perpetuação do modelo de prisioneiros escravos foi realizada através do Patrocínio de Redenção de Penas pelo Trabalho, organismo controlado pelo Ministério da Justiça e exterior ao sistema dos campos de concentração. Nas suas unidades integraram-se presos políticos e comuns que viam reduzida a sua pena e recebiam um salário até 30 vezes inferior ao de um operário livre. O patronato geriu desde 1938 até 1970 meia dúzia de agrupamentos de colónias penais militarizadas e centenas de destacamentos penais, como os que trabalharam na secagem de pântanos e na construção de monumentos como o Vale dos Caídos.

Os prisioneiros que conseguiram sobreviver nunca obtiveram total liberdade. Durante anos tiveram de apresentar-se periodicamente ao quartel da Guarda Civil e estiveram sujeitos a um regime de vigilância. Ao sair dos campos, descobriram que haviam perdido os seus empregos, seus negócios e, em muitos casos, todos os seus bens. A depuração ideológica nos setores público e privado foi sistemática. Luis Ortiz sofreu na sua própria carne: “Fui libertado em 1943. A minha esposa trabalhava numa fábrica de baterias e ganhava uma miséria. Vivíamos num apartamento dos que hoje chamamos apartamentos jangada. As empresas precisavam de pessoas, mas apenas contratavam aqueles que se tinham destacado no exército franquista. Antes de começar a trabalhar numa empresa era necessário apresentar um formulário de aceitação carimbado pelo sindicato vertical. Ias à sede do sindicato, eles olhavam para os antecedentes, diziam que eras desafecto e não o selavam ”. Luis só conseguiu o selo depois de subornar um dos chefes do sindicato: “Tive que pagar-lhe 5.000 pesetas. 5.000 pesetas do ano de 1943! Mobilizei metade de Bilbao para pedir dinheiro emprestado”.

Como muitos dos homens e mulheres que passaram pelos campos de concentração de Franco, Luis Ortiz enfrentou sua nova vida em semiliberdade, entre o medo e o silêncio. Trabalhou durante 34 anos na empresa Uralita, onde se aposentou em 1977, o mesmo ano em que votou nas primeiras eleições livres realizadas em Espanha desde 1936. Só muitos anos após a morte do ditador decidiu contar a sua história. Nesta quinta-feira, 7 de março, faleceu com 102 anos num hospital em Bilbao. Dias antes partilhou o seu testemunho: “Durante muito tempo só era conhecido o que o franquismo quis contar sobre nós. O importante agora é que se saiba a verdade. Eu estive calado mais de 40 anos, mas agora estou embalado. Conheces aquele personagem famoso que queria morrer com as botas calçadas? Pois é assim que quero morrer. É assim que vou morrer “.

Fonte: https://elpais.com/elpais/2019/03/04/eps/1551726594_395569.html

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References

  1. ^ endereço (www.odiario.info)
  2. ^ odiario.info (odiario.info)

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José Craveirinha

(1922 – 2003)

Cidadão da Resistência antifascista, moçambicano, esteve preso durante 4 anos por lutar contra o colonialismo na sua pátria.

Escritor de poemas e contos, homem de extraordinária humildade, gostava de se dizer aprendiz de poeta[1]. Em 1991 foi-lhe atribuído o Prémio Camões, o mais importante prémio literário da língua portuguesa, sublinhando a criatividade do poeta. Por ser uma figura mítica moçambicana e tutelar da jovem literatura, o governo moçambicano, por altura do seu 80º aniversário, consagrou 2002 como “O ano de José Craveirinha”. Traduzido em diversas línguas, o seu nome é uma referência da lusofonia e da cultura africana.

José Craveirinha foi também um prestigiado desportista.

Homem de extraordinária humildade

José Craveirinha nasceu a 28 de maio de 1922, em Lourenço Marques (Maputo), e faleceu a 6 de Fevereiro de 2003 em Joanesburgo, África do Sul. A sua família partiu para Moçambique em 1908, e José Craveirinha iria nascer no bairro da Mafalala e estudar na escola «Primeiro de Janeiro». Filho de um algarvio de Aljezur que fazia versos, aos 8 anos de idade José Craveirinha recitava Camões. Ainda adolescente, começou a frequentar a Associação Africana. Pelos vinte anos iniciou a sua carreira como jornalista no “O Brado Africano”, e a partir daí colaborou em diversos órgãos de informação, em Moçambique.

Fez campanha contra o racismo no Jornal Notícias, onde trabalhava. Teve um papel importante na vida da Associação Africana, na década de 50, e foi seu presidente. Em 1958, começou a trabalhar, também, na Imprensa Nacional, mas continuou no Notícias até à fundação do jornal A Tribuna, em 1962.

Entre 1964 e 1968, José Craveirinha esteve preso pela PIDE. Militante da FRELIMO, envolvido na luta pela independência de Moçambique, já era poeta publicado quando a PIDE o acusou de actividades subversivas e o mandou para a prisão durante 4 anos. Aí conhece o pintor Malangatana e um outro poeta, Rui Nogar, seu conterrâneo.

Como jornalista, colaborou nos periódicos moçambicanos O Brado Africano, Notícias, Tribuna, Notícias da Tarde, Voz de Moçambique, Notícias da Beira, Diário de Moçambique e Voz Africana. Utilizou os seguintes pseudónimos: Mário Vieira, J.C., J. Cravo, José Cravo, Jesuíno Cravo e Abílio Cossa.

Foi o primeiro presidente da Mesa da Assembleia Geral da Associação dos Escritores Moçambicanos, entre 1982 e 1987.

A obra literária

Iniciou-se cedo na escrita literária, mas a sua poesia demorou a ser publicada. Em Lisboa, a primeira obra a surgir foi Xigubo, em 1964, editada pela Casa dos Estudantes do Império. A partir de determinada altura, a consciência política do autor passou a reflectir-se em obras como O Grito e O Tambor.

A sua obra é fortemente marcada por um carácter popular e moçambicano. José Craveirinha assume na poesia a sua oposição ao colonialismo e ao regime de Salazar. Juntamente com Noémia de Sousa[2], sua companheira, sua musa inspiradora e também ela poeta, criou o movimento Negritude, influenciado pelo neo-realismo português. A exaltação dos valores africanos contra o racismo da metrópole era o ponto comum das suas produções intelectuais.

Os seus tempos de cárcere serão recordados em Cela 1, livro de poesia lançado em 1980, dezasseis anos depois de o ter escrito.

Publicou:

  • Xigubo. Lisboa, Casa dos Estudantes do Império, 1964. 2.ª ed. Maputo, Instituto Nacional do Livro e do Disco, 1980;
  • Cantico a un dio di Catrame (bilingue português/italiano). Milão, Lerici, 1966 (trad. e prefácio Joyce Lussu);
  • Karingana ua karingana. Lourenço Marques, Académica, 1974. 2.ª ed., Maputo, Instituto Nacional do Livro e do Disco, 1982;
  • Cela 1. Maputo, Instituto Nacional do Livro e do Disco, 1980;
  • Maria. Lisboa, África Literatura Arte e Cultura, 1988;
  • Izbranoe. Moscovo, Molodoya Gvardiya, 1984 (em língua russa);
  • Hamina e outros contos, 1997.

“Vila Borghesi e Outros Poemas de Viagem” e “Tâmaras Azedas de Beirute”, obras inéditas do poeta, foram lançadas em 2003, em Maputo, assinalando os 90 anos do poeta.

Autobiografia de José Craveirinha

«Nasci a primeira vez em 28 de Maio de 1922. Isto num domingo. hamaram-me Sontinho, diminutivo de Sonto. Isto por parte da minha mãe, claro. Por parte do meu pai, fiquei José. Aonde? Na Av. do Zichacha entre o Alto Maé e como quem vai para o Xipamanine. Bairros de quem? Bairros de pobres. Nasci a segunda vez quando me fizeram descobrir que era mulato. A seguir fui nascendo à medida das circunstâncias impostas pelos outros. Quando o meu pai foi de vez, tive outro pai: o seu irmão. E a partir de cada nascimento eu tinha a felicidade de ver um problema a menos e um dilema a mais. Por isso, muito cedo, a terra natal em termos de Pátria e de opção. Quando a minha mãe foi de vez, outra mãe: Moçambique. A opção por causa do meu pai branco e da minha mãe negra. Nasci ainda mais uma vez no jornal “O Brado Africano”. No mesmo em que também nasceram Rui de Noronha e Noémia de Sousa. Muito desporto marcou-me o corpo e o espírito. Esforço, competição, vitória e derrota, sacrifício até à exaustão. Temperado por tudo isso. Talvez por causa do meu pai, mais agnóstico do que ateu. Talvez por causa do meu pai, encontrando no Amor a sublimação de tudo. Mesmo da Pátria. Ou antes: principalmente da Pátria. Por causa da minha mãe só resignação. Uma luta incessante comigo próprio.

Autodidacta. Minha grande aventura: ser pai. Depois eu casado. Mas casado quando quis. E como quis. Escrever poemas, o meu refúgio, o meu país também. Uma necessidade angustiosa e urgente de ser cidadão desse país, muitas vezes altas horas da noite.»

Prémios e Condecorações

Em Portugal, foi-lhe atribuído o Prémio Camões (1991), tornando-se o primeiro autor africano galardoado com este prémio. Em 1997, Jorge Sampaio distinguiu-o com a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique de Portugal.

Antes tinha recebido diversos prémios e galardões, dos quais destacamos:

  • Prémio Cidade de Lourenço Marques (1959);
  • Prémio Reinaldo Ferreira do Centro de Arte e Cultura da Beira (1961);
  • Prémio de Ensaio do Centro de Arte e Cultura da Beira (1961);
  • Prémio Alexandre Dáskalos da Casa dos Estudantes do Império, Lisboa, Portugal (1962);
  • Prémio Nacional de Poesia de Itália (1975);
  • Prémio Lotus da Associação de Escritores Afro-Asiáticos (1983);
  • Medalha Nachingwea do Governo de Moçambique (1985);
  • Medalha de Mérito da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, Brasil (1987).

Em sua homenagem, a Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), em parceria com a HCB (Hidroeléctrica de Cahora Bassa), instituiu em 2003, o Prémio José Craveirinha de Literatura.

Vice-presidente do Fundo Bibliográfico de Língua Portuguesa, escritor galardoado com o prémio “Vida Literária” da Associação de Escritores Moçambicanos, foi homenageado no dia 28 de maio de 2002, na sequência da iniciativa do governo moçambicano em consagrar o ano de 2002 a José Craveirinha.

[1] Na entrevista que concedeu à rádio pública portuguesa, em 1989, confessava que ainda não se adaptara à ideia de que era um escritor. Tinha 67 anos, muitos livros publicados e uma longa lista de distinções. Faltavam dois anos para receber o Prémio Camões.

[1] Noémia de Sousa (1926 – 2002) – ver biografia em Antifascistas da Resistência.


Dados biográficos


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/jose-craveirinha/

A ELEIÇÃO DE PIO XII

2 de Março de 1939. Em três votações, que duraram dia e meio, o Cardeal Eugénio Pacelli (1876-1958) era eleito e proclamado como o novo Papa Pio XII. E dava-se a coincidência de, nesse mesmo dia, o eleito completar 63 anos. Foi o conclave - eleições para Papa - mais rápido do Século XX e, já escolhido como Secretário de Estado pelo seu antecessor, Pio XI, pode dizer-se que o novo Papa funcionara não apenas como anfitrião como, no processo eleitoral, jogara, por assim dizer, em casa... Daí a rapidez da decisão. Tempos longínquos aqueles de há oitenta anos, em que os assuntos da Igreja eram escusos (como haviam sido desde sempre), mas não envolviam a questão do encobrimento da pedofilia.

 

Veja o original em 'Herdeiro de Aécio' na seguinte ligação::

http://herdeirodeaecio.blogspot.com/2019/03/a-eleicao-de-pio-xii.html

Mário de Carvalho e o perigo da «reactivação do nazismo»

Mário de Carvalho e o perigo da «reactivação do nazismo»
Andava eu naquela labuta conhecida da procura da notícia, para a candonga costumada, trazendo para este meu espaço textos que outros vão escrevendo, quando tropeço no título "Não se deve perder de vista um mundo mais justo e solidário" e onde o escritor alerta para as «tremendas transformações» que o mundo está a sofrer, em que se assiste à recuperação de pontos de vista que se pensavam «completamente ultrapassados». Trata-se, como pode (e deve) ler aqui, de um enquadramento a um anúncio querido (mais um livro). Para além de ter eu encontrado este modo em divulgá-lo e porque às tantas ele refere ter sido criado numa família de ideais republicanos, que nunca o quis ver vestido, quando aluno do Liceu Gil Vicente, em Lisboa, com a farda da Mocidade Portuguesa, organização juvenil da ditadura de Salazar, de pronto me ocorreu aquele outro texto seu, por mim aqui citado:
Eu nunca fui obrigado a fazer a saudação fascista aos «meus superiores». Eu nunca andei fardado com um uniforme verde e amarelo de S de Salazar à cintura. Eu nunca marchei, em ordem unida, aos sábados, com outros miúdos, no meio de cânticos e brados militares. Eu nunca vi os colegas mais velhos serem levados para a «mílícia», para fazerem manejo de arma com a Mauser. Eu nunca fui arregimentado, dias e dias, para gigantescos festivais de ginástica no Estádio do Jamor. Eu nunca assisti ao histerismo generalizado em torno do «Senhor Presidente do Conselho», nem ao servilismo sabujo para com o «venerando Chefe do Estado». Eu nunca fui sujeito ao culto do «Chefe», «chefe de turma», «chefe de quina», «chefe dos contínuos», «chefe da esquadra», «chefe do Estado». Eu nunca fui obrigado a ouvir discursos sobre «Deus, Pátria e Família». Eu nunca ouvi gritar: «quem manda? Salazar, Salazar, Salazar». Eu nunca tive manuais escolares que ironizassem com «os pretos» e com «as raças inferiores». Eu nunca me apercebi do «dia da Raça». Eu nunca ouvi louvar a acção dos «Viriatos» na Guerra de Espanha. Eu nunca fui obrigado a ler textos escolares que convidassem à resignação, à pobreza e ao conformismo; Eu nunca fui pressionado para me converter ao catolicismo e me «baptizar». Eu nunca fui em grupos levar géneros a pobres, politicamente seleccionados, porque era mesmo assim. Eu nunca assisti á miséria fétida dos hospitais dos indigentes. Eu nunca vi os meus pais inquietados e em susto. Eu nunca tive que esconder livros e papéis em casa de vizinhos ou amigos. Eu nunca assisti à apreensão dos livros do meu pai. Eu nunca soube de uma cadeia escura chamada o Aljube em que os presos eram sepultados vivos em «curros». Eu nunca convivi com alguém que tivesse penado no Tarrafal. Eu nunca soube de gente pobre espancada, vilipendiada e perseguida e nunca vi gente simples do campo a ser humilhada e insultada. Eu nunca vi o meu pai preso e nunca fui impedido de o visitar durante dias a fio enquanto ele estava «no sono». Eu nunca fui interpelado e ameaçado por guardas quando olhava, de fora, para as grades da cadeia. Eu nunca fui capturado no castelo de S. Jorge por um legionário, por estar a falar inglês sem ser «intréprete oficial». Eu nunca fui conduzido à força a uma cave, no mesmo castelo, em que havia fardas verdes e cães pastores alemães. Eu nunca vi homens e mulheres a sofrer na cadeia da vila por não quererem trabalhar de sol a sol. Eu nunca soube de alentejanos presos, às ranchadas, por se encontrarem a cantar na rua. Eu nunca assisti a umas eleições falsificadas, nunca vi uma manifestação espontânea ser reprimida por cavalaria à sabrada; eu nunca senti os tiros a chicotearem pelas paredes de Lisboa, em Alfama, durante o Primeiro de Maio. Eu nunca assisti a um comício interrompido, um colóquio desconvocado, uma sessão de cinema proibida. Eu nunca presenciei a invasão dum cineclube de jovens com roubo de ficheiros, gente ameaçada, cartazes arrancados. Eu nunca soube do assalto à Sociedade Portuguesa de Escritores, da prisão dos seus dirigentes. Eu nunca soube da lei do silêncio e da damnatio memoriae que impendia sobre os mais prestigiados intelectuais do meu país. Eu nunca fui confrontado quotidianamente com propaganda do estado corporativo e nunca tive de sofrer as campanhas de mentalização de locutores, escribas e comentadores da Rádio e da Televisão. Eu nunca me dei conta de que houvesse censura à imprensa e livros proibidos. Eu nunca ouvi dizer que tinha havido gente assassinada nas ruas, nos caminhos e nas cadeias. Eu nunca baixei a voz num café, para falar com o companheiro do lado. Eu nunca tive de me preocupar com aquele homem encostado ali à esquina. Eu nunca sofri nenhuma carga policial por reclamar «autonomia» universitária. Eu nunca vi amigos e colegas de cabeça aberta pelas coronhas policiais. Eu nunca fui levado pela polícia, num autocarro, para o Governo Civil de Lisboa por indicação de um reitor celerado. Eu nunca vi o meu pai ser julgado por um tribunal de três juízes carrascos por fazer parte do «organismo das cooperativas», do PCP, com alguns comerciantes da Baixa, contabilistas, vendedores e outros tenebrosos subversivos. Eu nunca fui sistematicamente seguido por brigadas que utilizavam um certo Volkswagen verde. Eu nunca tive o meu telefone vigiado. Eu nunca fui impedido de ler o que me apetecia, falar quando me ocorria, ver os filmes e as peças de teatro que queria. Eu nunca fui proibido de viajar para o estrangeiro. Eu nunca fui expressamente bloqueado em concursos de acesso à função pública. Eu nunca vi a minha vida devassada, nem a minha correspondência apreendida. Eu nunca fui precedido pela informação de que não «oferecia garantias de colaborar na realização dos fins superiores do Estado». Eu nunca fui objecto de comunicações «a bem da nação». Eu nunca fui preso. Eu nunca tive o serviço militar ilegalmente interrompido por uma polícia civil. Eu nunca fui julgado e condenado a dois anos de cadeia por actividades que seriam perfeitamente quotidianas e normais noutro país qualquer; Eu nunca estive onze dias e onze noites, alternados, impedido de dormir, e a ser quotidianamente insultado e ameaçado. Eu nunca tive alucinações, nunca tombei de cansaço. Eu nunca conheci as prisões de Caxias e de Peniche. Eu nunca me dei conta, aí, de alguém que tivesse sido perseguido, espancado e privado do sono. Eu nunca estive destinado à Companhia Disciplinar de Penamacor. Eu nunca tive de fugir clandestinamente do país. Eu nunca vivi num regime de partido único. Eu nunca tive a infelicidade de conhecer o fascismo.
Mário de Carvalho - in "DENEGAÇÃO POR ANÁFORA MERENCÓRIA"

Ver original em 'Conversa Avinagrada' (aqui)

Revisitar António Sérgio

Revisitar António Sérgio
Em 1939, na revista Seara Nova, António Sérgio (1883-1969) defende o seguinte: “transformar a moral pela economia e a economia pela moral, actuando nas duas ao mesmo tempo, e pela acção recíproca de uma em outra: eis o objetivo”. Quase vinte anos depois, Sérgio retomaria esta ideia de economia moral, sempre a propósito do seu projeto cooperativista de socialização da economia: “é um aperfeiçoamento económico da sociedade que se funda no aperfeiçoamento moral dos indivíduos e um movimento de educação moral que toma por instrumentos as necessidades económicas dos homens”. Amanhã, pela minha parte e do José Castro Caldas, debateremos esta versão portuguesa das utopias que se querem reais, comparando-a quer com a tradição da economia política liberal que ousou entrar nas fábricas, a de um certo John Stuart Mill, quer com a tradição da economia moral de matriz socialista, encarnada por Karl Polanyi.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

ODiario.info » A emancipação da mulher é a conquista da igualdade

Há 150 anos, a 26 de Fevereiro de 1869, nascia Nadiéjda Konstant Ínovna Krúpskaia. Pedagoga, militante revolucionária, uma das pioneiras da luta pela emancipação feminina na Rússia soviética. Em homenagem a essa figura excepcional de comunista odiario.info publica esta interessantíssima reflexão, datada por primeiros anos do século XX.

No relatório da Comissão para a Educação Popular de São Petersburgo no ano de 1908, um dos especialistas, ao emitir um parecer sobre o ensino de bordado, diz:

Acerca dos bordados, devo atestar com a mais profunda alegria que em quase todas as escolas mistas eles eram apreciados não apenas por meninas, mas por meninos, e os últimos desempenhavam essa tarefa com tanto gosto que em algumas escolas seus resultados superavam o das meninas, por exemplo, na costura e no trançado.

Esse trecho do relatório supracitado foi inserido na edição de Dezembro do ano passado do boletim de educação, na seção de crônicas; o autor da crônica expressa certa dúvida quanto à utilidade de se ensinar meninos a costurar.

Gostaria de dizer algumas palavras sobre esse tema.

Antes de tudo, colocarei a questão de forma mais geral: deve-se ensinar aos meninos aqueles trabalhos que até então eram considerados exclusivamente femininos, como costurar, cozinhar, lavar, cuidar de crianças etc.?

Na sociedade contemporânea, a vida familiar está ligada – e isso provavelmente continuará assim por muito tempo – a uma série de pequenos cuidados que se relacionam com a concretização de afazeres domésticos isolados. A futura reformulação da produção e a alteração das condições da vida em sociedade introduzirão significativas mudanças nesse âmbito, mas enquanto a vida familiar estiver ligada a tarefas como cozinhar o almoço, limpar a casa, remendar o uniforme, educar os filhos etc., todo esse trabalho recairá integralmente sobre a mulher.

Nas famílias que possuem meios, esse trabalho cabe a uma empregada contratada: cozinheira, faxineira, babá. A mulher de posses liberta-se de tais tarefas, encarregando outra mulher que não tem, ela mesma, chance de se libertar. De uma forma ou de outra, todo o trabalho doméstico recai exclusivamente sobre a mulher. No meio operário, o marido às vezes contribui com a esposa nos afazeres. A necessidade o obriga. Ao retornar do trabalho, nos feriados, nos dias de folga, o trabalhador por vezes vai até a mercearia, varre o chão e cuida das crianças. É claro, nem sempre e nem todos fazem isso; além do mais, muitos nem sequer sabem fazê-lo (costurar, lavar), e a esposa, que às vezes também passa o dia trabalhando fora de casa, quando volta, põe-se a lavar roupa, a limpar o chão e fica até tarde da noite costurando, quando o marido há muito está dormindo. Mas se entre os trabalhadores às vezes ocorre de o marido ajudar a esposa com o trabalho doméstico, nas assim chamadas famílias da intelligentsia, por mais desprovidas que sejam, o homem nunca participa desse serviço, deixando que a esposa faça suas “coisas de mulher” da maneira como ela sabe. Um “intelligent” limpando o chão ou remendando a roupa branca seria alvo de gozação de todos à sua volta.

Na imprensa burguesa (em especial do Ocidente), fala-se muito que o trabalho doméstico é um campo no qual a mulher pode empregar suas forças de maneira mais produtiva. A pessoa só cria algo verdadeiramente grandioso atuando na esfera que melhor corresponde à sua individualidade, e os pequenos cuidados domésticos são os mais apropriados à individualidade da mulher. Ela deve se preocupar em ser uma dona de casa exemplar, e não se esforçar para deixar a vida familiar nem concorrer com o homem no campo do trabalho intelectual. Não se trata de desprezar a função de tirar o pó e remendar meias-calças; são tarefas que merecem todo respeito e de forma alguma desprezo.

A hipocrisia desse discurso é evidente, uma vez que os homens que saem por aí anunciando seu grande respeito pelo trabalho doméstico jamais se rebaixam a efetivamente realizá-lo. Por quê? Pois, no fundo de sua alma, desprezam essa tarefa, consideram-na coisa de seres menos evoluídos, possuidores de necessidades mais simplórias.

Todas essas conversas sobre a mulher ser “naturalmente predestinada” à execução dos afazeres domésticos são bobagens semelhantes ao discurso que, na época, os donos de escravos faziam sobre estes serem “naturalmente predestinados” à condição de escravos.

Em essência, não há nada no trabalho doméstico que faça com que ele seja uma ocupação mais adequada para a individualidade da mulher do que para a do homem. Certos trabalhos que exigem grande força física estão acima da capacidade das mulheres, mas por que o homem não pode realizar afazeres domésticos junto com a esposa? A questão não é que esse trabalho seja inerente à esfera das mulheres, mas sim que o marido precisa trabalhar durante a maior parte do tempo fora de casa para garantir o sustento. Enquanto isso acontecer, haverá algum fundamento para que as tarefas de casa sejam realizadas exclusivamente pelas forças femininas. Mas, à medida que a mulher é cada vez mais forçada a também se dedicar a assegurar seu ganha-pão, os afazeres domésticos tomam um tempo adicional, e não é justo que os homens não contribuam para a sua realização. Da mesma forma, se a profissão do marido permite que ele tenha muito tempo livre, não é justo que ele considere indigno se dedicar ao trabalho doméstico em pé de igualdade com a esposa.

A escola livre luta contra todos os preconceitos que arruínam a vida das pessoas. O preconceito de que a tarefa doméstica é digna apenas de seres com necessidades menores abala a relação entre homens e mulheres, introduzindo nela um princípio de desigualdade. Tal preconceito não martirizou apenas uma mulher, não gerou alienação e discórdia em apenas uma família. A escola livre é uma ardente defensora da educação conjunta, uma vez que considera que o trabalho coletivo e as condições iguais de desenvolvimento favorecem a compreensão mútua e a aproximação espiritual dos jovens de ambos os sexos e, assim, servem de garantia para relações saudáveis entre homens e mulheres. A partir desse ponto de vista, a escola livre, ao ensinar trabalhos manuais, não deve diferenciar crianças de sexos distintos. É preciso que meninos e meninas aprendam da mesma forma a fazer todo o necessário no trabalho doméstico e não se considerem indignos de realizá-lo.

Quem já observou crianças sabe que na primeira infância os meninos se dispõem com tanto gosto quanto as meninas a ajudar a mãe a cozinhar, a lavar a louça e a realizar quaisquer tarefas domésticas. Isso parece tão interessante! Mas, em geral, desde os primeiros anos começa a haver uma diferenciação no interior da família. As meninas recebem a incumbência de lavar as xícaras, de arrumar a mesa, enquanto para os meninos dizem: “O que você está fazendo aqui na cozinha? Por acaso isso é coisa de homem?”. As meninas são presenteadas com bonecas e louças; os meninos, com trens e soldadinhos. Na idade escolar, eles já aprenderam em suficiente medida a desprezar “as meninas” e suas tarefas. É verdade que esse desprezo ainda é muito superficial e, se a escola seguir outra abordagem, essa depreciação por “coisas de mulher” rapidamente desaparecerá. Com tais objetivos, é preciso ensinar aos meninos, juntamente com as meninas, a costurar, a fazer crochê, a remendar a roupa branca, ou seja, tudo aquilo sem o qual não se pode viver e cujo desconhecimento torna a pessoa impotente e dependente de outros. Se essa aprendizagem ocorrer como se deve, há razões para pensar que os meninos a realizem com prazer, como se pode observar no exemplo das escolas de Petersburgo (é característico que esse experimento tenha sido realizado em escolas mistas). Sendo assim, é preciso encarregar alternadamente as próprias crianças (sem separação do trabalho entre meninos e meninas) da tarefa de preparar o café da manhã coletivo, de lavar a louça, de arrumar as salas, de limpá-las etc. O desejo de ser útil, de realizar bem a função que lhe foi atribuída, o entusiasmo pelo trabalho farão com que o menino logo se esqueça do seu desdém pelas “coisas de mulher”.

É claro que seria ridículo esperar grandes consequências de se ensinar “coisas de mulher” aos meninos, mas trata-se de um daqueles detalhes que compõem o espírito geral da escola e aos quais é preciso atentar.

Publicado originalmente em Svobódnoie Vozpitánie/Свободное воспитание [Educação Livre], n. 10, 19091910. A tradução é de Priscila Marques e integra a antologia A revolução das mulheres: emancipação feminina na Rússia soviética, organizada por Graziela Schneider.

Fonte: https://blogdaboitempo.com.br/2019/02/26/krupskaia-versus-damares-deve-se-ensinar-coisas-de-mulher-aos-meninos/

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References

  1. ^ endereço (www.odiario.info)
  2. ^ odiario.info (odiario.info)

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José Afonso (1929-1987).

Não se separa um homem inteiro, 
das partes e facetas que lhe dão a dimensão. 
Não se separa o andarilho, dos trilhos percorridos. 
Não se separa o professor, dos seres a quem deu saberes. 
Não se separa o cantor, dos seus cantos. 
Não se separa o poeta, dos poemas que nós dizemos.
Não se separa o criador, da obra criada. 
Não se separa o resistente, da luta travada. 
Não se separa o sonhador, da utopia sonhada. 
Não se separa a razão, da alma. 
E quando tal se separa, o homem parte. 
E omite-se a inteira memória de um homem digno.
Rogério Pereira
(reeditado)

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Portugal: Um livro contra o silêncio sobre a guerra colonial

As vivências e os efeitos traumáticos da guerra colonial continuam a ser um assunto tabu em Portugal. Contrao silêncio, o psicólogo Vasco Luís Curado acaba de lançar um livro com memórias de horror, sofrimento e perda.
Há poucos ex-combatentes portugueses que aceitam falar dos traumas da guerra nas antigas colónias em África, nomeadamente nas frentes de Angola, Moçambique e Guiné-Bissau. São memórias de momentos traumáticos, que muitos evitam recordar ou tornar público. Mas Vasco Bastos, hoje com 71 anos de idade, fá-lo sem tabu.
O soldado do então Batalhão 2909 da Companhia de Cavalaria 2690 revela à DW África um dos mais dramáticos acontecimentos ocorridos durante a missão que cumpriu no norte de Angola, na região dos Dembos, província do Bengo, entre 1970 e 1972.
"Fomos apanhados em várias emboscadas e [houve] uma que me traumatizou, a mim e não só", conta o ex-combatente. "Íamos a passar, entretanto fomos apanhados por uma mina que estava num trilho. O rapaz, que era ali do Fundão [município do distrito de Castelo Branco, centro de Portugal], passou também, mas ao passar ele pisou aquilo... Desapareceu!"
"Era no meio de uma mata densa, durante a noite", explica emocionado. "Aquilo foi um traumatismo danado. No fundo da mata densa, não tínhamos nada! E tivemos que andar a apanhar os bocadinhos dele para depois o transportar até a uma clareira. Apanhar os bocados do corpo do homem, senhor…!"
Um assunto tabu
Hoje, passados mais de 40 anos, Vasco Bastos é um dos antigos militares do exército colonial português assistido social e psicologicamente pela APOIAR - Associação de Apoio aos Ex-combatentes Vítimas do Stress de Guerra, criada em 1994.
De 15 em 15 dias, participa numa sessão de terapia de ajuda mútua.
Graças ao apoio prestado pela associação, a sua vida modificou e tem sabido gerir os efeitos dos traumas da guerra, que também afetaram familiares. No entanto, confessa, as vivências daquele período negro não se dissipam com facilidade.
"Para mim, está sempre presente. Ainda cá está e há-de morrer comigo", diz Vasco Bastos.
Na qualidade de psicólogo clínico, Vasco Luís Curado - português nascido em Angola e que viajou de Luanda para Lisboa na ponte aérea de 1975 - recolheu dos seus pacientes, sob anonimato, várias memórias estilhaçadas sobre a guerra colonial. Confirma que há ainda muitas marcas de traumas da guerra.
"Há, mas não em todos", afirma. "A maioria dos estudos aponta que 15% dos combatentes terão sintomas de stress pós-traumático ou alguma alteração psicológica provocada por acontecimentos traumáticos de guerra. Portanto, não são sequer a maioria." Ao todo, nos 13 anos de guerra, quase um milhão de portugueses foram mobilizados.
Por várias razões, a guerra colonial ainda constitui um tabu na sociedade portuguesa, reconhece Luís Curado. "Porque o próprio combatente tem relutância em se expor. Não sente que a população em geral o compreenda", diz o psicólogo. "A guerra ou o serviço militar obrigatório em cenário de guerra retira o indivíduo do seu meio natural de vida, e as experiências que ele ali acumula só podem ser partilhadas pelos camaradas, por outros que passaram pelo mesmo. Agora, a sociedade em geral tem dificuldade em lidar com isso."
Brandos costumes? "Obviamente que não"
A vontade que a sociedade tem de esquecer o passado colonial e a violência usada nesse passado é outro fator apontado pelo psicólogo. "Porque, apesar de ter havido [a revolução do] 25 de Abril, ainda persiste entre nós aquela mentira salazarista de que somos um povo de brandos costumes. Obviamente que não somos. Como é que se constrói um Império que dura séculos em vários continentes com brandura?! Não é com brandura que isso acontece. É com violência."
"Como nós não queremos olhar para a nossa violência, a violência portuguesa está recalcada", acrescenta Luís Curado. "Porque queremos formar de nós uma ideia de brandura, de colonizador especial, é inconveniente que estes combatentes nos venham relembrar a violência que existiu no Império e na manutenção das colónias."
Contra o silêncio, Luís Curado decidiu dar voz a 48 soldados portugueses que combateram em Angola, Guiné-Bissau e Moçambique. São relatos que revelam diferentes episódios, tormentas e experiências, vividos entre 1961 e 1974, agora narrados no livro "Declarações de Guerra - Histórias em carne viva da Guerra Colonial".
Desta forma, o autor pretende contribuir "para um reconhecimento impedido por divisões profundas na sociedade portuguesa, mais interessada na integração na Europa do que no seu passado colonial".
João Carlos (Lisboa) | Deutsche Welle

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/02/portugal-um-livro-contra-o-silencio.html

Arnaldo Matos encontra a Ceifeira

(José Pacheco Pereira, in Público, 23/02/2019)

JPP

Pacheco Pereira

A intransigência pública do MRPP não o impedia de ter capacidade para conversar e conspirar com organizações e grupos bem longe da extrema-esquerda. Arnaldo de Matos tinha aí um papel decisivo.


Não há nada como morrer para passar de besta a sábio, e este é um velho hábito português típico de um país que, não respeitando nada, está sempre pronto para o salamaleque fúnebre. Presumo que aqui no PÚBLICO acrescento este “ruído” a várias páginas celebratórias, e por isso hesitei em escrevê-las. Mas a alternativa não era brilhante, e aqui vai. Arnaldo Matos veria com ironia a sucessão de elogios fúnebres que está a receber. Passou, morrendo, para a galeria da “situação”, ou seja, dos perversos políticos que mandam nesta nação que o “povo” populista, representado por intelectuais com o mesmo adjectivo, verbera. Mas deixemos as asneiras, e tentemos falar do homem, do percurso e do tempo que começa agora a encerrar-se por obra da Ceifeira.

Arnaldo Matos foi um activo militante do movimento estudantil que se destacou não só na sua escola, a Faculdade de Direito, mas no movimento federativo, particularmente nas chamadas “reuniões interculturais” e nos seminários de estudos associativos. Com o seu nome escreveu sobre a “cultura universitária”, em conjunto com Eduardo Prado Coelho, Jorge Veludo, Hélder Costa e outros. Destacava-se pelas suas qualidades de orador e pela escrita. Mas, a breve prazo, deixou de poder ter “legalidade” e mergulhou na vida clandestina.

O maoísmo do MRPP era total: das palavras de ordem — “fogo” sobre isto e aquilo, do “quartel-general” ao “revisionismo” e ao “neo-revisionismo”, etc. —, das gravuras copiadas dos chineses com os operários portugueses de olhos em bico, dos títulos dos jornais aos murais. Só o MRPP intitularia um jornal clandestino Yenan e colocaria o próprio Arnaldo Matos e o general Eanes naqueles grupos em marcha decidida para a frente, bandeiras e fuzis, em perfeita hierarquia de soldados, operários, camponeses e pequena burguesia revolucionária, a caminho do comunismo. O MRPP tornou-se icónico, hoje dir-se-ia viral, com as suas imagens, palavras e cores, que identificavam de imediato a organização. O MRPP foi por excelência o produtor do folclore da revolução dos anos 70 a 80.

A agressividade política do MRPP levou-o a ter um papel no incremento de acções de rua de confronto directo com a polícia antes do 25 de Abril e a começar a ter presos. Depois do 25 de Abril, entrou em choque com o MFA, tendo sido a única organização que foi sujeita a uma prisão em massa por parte dos militares no poder, com a preciosa ajuda do PCP, que os considerava “contra-revolucionários” e agentes da CIA. Arnaldo Matos foi igualmente preso e gerou um grande movimento exigindo a sua libertação.

O MRPP detinha nesses anos do PREC uma considerável influência política, na contestação a novos envios de soldados para as colónias, na influência sobre a Fretilin, na acção em certos sindicatos, e na peculiar posição que assumiu que o colocou próximo do PS e de um grupo de militares ligados a Eanes, na resistência ao PCP e às outras organizações da extrema–esquerda, como a UDP. A intransigência pública do MRPP não o impedia de ter capacidade para conversar e conspirar com organizações e grupos bem longe da extrema-esquerda. Arnaldo Matos tinha aí um papel decisivo.

Outro aspecto muito sui generis do MRPP era o modo bem pouco leninista como se entrava e saía da organização, como foi o exemplo do próprio Arnaldo Matos, que, em luta pela “linha vermelha” contra a “linha negra”, se afastou da organização, sempre com uma pertença ambígua. Dedicou-se durante longos anos à sua profissão de advogado num grande escritório de advogados, para voltar recentemente de novo ao MRPP, envolvido numa luta fratricida e excessiva com Garcia Pereira. Arnaldo Matos escreveu coisas inomináveis, quase obscenas, sobre os seus adversários, usando o pseudónimo de “Espártaco”, e a violência dos textos marcou os seus últimos anos de vida.

Contrariamente ao que se diz por aí, eu nunca fui membro do MRPP, uma daquelas falsidades que nunca morrem nas redes sociais, mas tinha relações cordiais com o Arnaldo Matos. Ainda há poucos meses encontrei-me com ele na sede do MRPP para recolher documentação para o Arquivo Ephemera, que ele sempre ofereceu. Ele atacou-me no Twitter por causa da inexistente censura a Mapplethorpe em Serralves, mas estes ataques, quase todos os ataques, fazem parte do lado para onde eu durmo melhor. Mas eu sei muito bem como tudo na história acaba por repousar, maldades e bondades. Eu não queria estar no Inferno quando chegar o camarada Espártaco. O Diabo que se cuide.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

José Afonso não é uma estátua. Celebremos por fim a sua música

(In Expresso Diário, 23/02/2019)

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Ferido desde a infância, esforçava-se por ser justo, sofria de insónias e, com ou sem dinheiro, perseguido ou não, sonhava dia e noite com música – toda a música, da Beira Baixa a Moçambique. No dia em que passam 32 anos sobre a sua morte, voltamos a José Afonso: o dos discos e o humano.


Quando em 1968 José Afonso entrou nos estúdios da RDP, no Monte da Virgem, Gaia, para gravar aquele que seria o seu segundo LP e primeiro pela Orfeu, Cantares do Andarilho, estaria muito possivelmente longe de imaginar que aquele punhado de canções iria pôr em marcha duas revoluções: uma de ordem musical, rompendo com tudo o que havia para trás na música portuguesa, outra de ordem política, visto a sua obra ter servido de bandeira de contestação ao antigo regime.

Na realidade ele tinha preocupações mais prementes e pragmáticas: conseguir simplesmente gravar. «Ele era muito nervoso», conta hoje Arnaldo Trindade, fundador da Orfeu, «e quando ia gravar o disco notou que se tinha esquecido dos comprimidos para os nervos. Começou a andar dum lado para o outro a dizer ‘Não vou gravar, não vou gravar’. Foi aí que o Adriano [Correia de Oliveira, dos maiores baladeiros portugueses e amigo pessoal de Afonso] lhe disse para tirar os sapatos e desatou a dar-lhe pancadas nos pés para lhe tirar a tensão, uma coisa que ele tinha aprendido no karaté, salvo erro. E funcionou: o Zeca gravou e cantou que foi uma maravilha».

O episódio é simultaneamente caricato e comovente mas traz ao de cima uma dimensão humana mais palpável que a da imagem icónica que o tempo impôs a José Afonso. Nos vinte e cinco anos que decorreram desde a sua morte, a 23 de fevereiro de 1987, José Afonso tornou-se lentamente na figura icónica da luta pela liberdade. É inteiramente merecido que o seja. O problema é que, como assinalam Arnaldo Trindade, Vitorino, Carlos Guerreiro, Júlio Pereira e o sobrinho João Afonso, a iconografia se sobrepôs a tudo o resto, ensombrando o fundamental: a complexidade (e espantosa análise social) que as suas palavras retratavam; o lado humano, de dúvida e angústia; e, pior ainda, a música. Porque José Afonso era, antes de mais, um músico possuído pelo génio, daqueles que «não podiam ser inventados», como diz Trindade.

Talvez agora, no momento em que a Orfeu reedita a obra que José Afonso lá gravou [reportamo-nos a 2012, altura em que este artigo foi publicado na revista BLITZ] e que constitui o grosso da sua produção, já seja possível voltar a falar de José Afonso enquanto homem e músico, um homem que a geração nascida depois da década de 70 desconhece, um ser com feridas fundas de infância, à conta de uma trágica história de separação dos pais, hipocondríaco, que sofria de insónias e precisava, como conta Carlos Guerreiro, dos Gaiteiros de Lisboa, da esposa Zélia para o transportar por Lisboa, um ser constantemente em conflito consigo mesmo, a pôr em causa a forma mais justa de atuar; esse homem também jaz, hoje, na sombra das homenagens e dos cravos.

Isto não implica desmerecer por completo a iconografia. Arnaldo Trindade lembra que Afonso «sabia que era um ídolo desde que “Os Vampiros” saiu». “Os Vampiros”, até hoje uma das canções emblemáticas de José Afonso, foi editado originalmente em single em 1963 e constitui, juntamente com “Menino do Bairro Negro”, a primeira incursão pela canção política. Até então, José Afonso dedicara-se exclusivamente ao fado coimbrão, de que era um exímio praticante, tendo gravado alguns singles do género.

José Afonso na adolescência

             José Afonso na adolescência

Eles comem tudo

É nessas canções que José Afonso promove uma rutura com a música da época e inicia o seu caminho: larga a guitarra portuguesa, abandona o cantar fadista (ainda que tenham restado marcas) e começa, numa primeira fase, a recuperar o legado do cancioneiro português (mormente a música da Beira Baixa), como é verificável ouvindo os três primeiros LPs que gravou, Baladas e Canções (1964), Cantares do Andarilho e também um pouco em Contos Velhos, Rumos Novos (1969), sendo este último já ele próprio um disco de rutura face aos dois anteriores, antecipando o que se seguiria na década de 1970. Também começa aí a usar as suas próprias palavras, em vez dos poemas populares, como era de tradição com o fado coimbrão.

Quem ouvir hoje as primeiras canções isoladas que gravou, bem como esse par de LPs iniciais, assentes apenas em voz e guitarra clássica, pode ter dificuldade em perceber em que sentido é que são discos de rutura ao ponto de Rui Pato, o guitarrista que acompanhou Afonso até 1969, afirmar hoje que «o primeiro LP [Baladas e Canções] acaba por ser inócuo». Ainda assim, Pato assinala que Baladas e Canções «foi importante na medida em que rompeu com a tradição de Coimbra e trouxe à música portuguesa um modo diferente, sob o ponto de vista musical e harmónico».

Pato deixa bem claras as diferenças entre o que havia antes de José Afonso e o que José Afonso fez: «Quem tiver memória, lembra-se que a canção portuguesa ia do fado tradicional ao nacional-cançonetismo da Maria José Valério e do Tony de Matos. Era isto que se ouvia na Emissora Nacional [a única rádio da altura] e que as pessoas ouviam e conheciam; não havia muito mais na música portuguesa. Toda a estrutura musical das Baladas não tem nada a ver com o ambiente das cançonetas e é completamente diferente da forma do fado».

Pato, que hoje é médico em Coimbra, não tem a mínima dúvida que num país profundamente conservador, que vivia sob um regime ditatorial, as canções dos primeiros discos constituem «um corte radical, ao ponto de em Coimbra as Baladas não serem bem vistas. Em Lisboa ainda nem sequer tinha surgido gente que introduzisse novos poemas nas canções». Pato conclui: «O Zeca, quando aparece, é uma verdadeira pedrada no charco».

Há uma razão para Pato chamar «inócuo» a Baladas e Canções: apesar de ser o primeiro LP e de ter sido editado em 1964, um ano depois do single “Os Vampiros”, não é propriamente um disco de corpo inteiro, antes a reunião das primeiras experiências que Afonso fizera fora do fado, e que editara em EPs e singles. “Os Vampiros”, por exemplo, foi gravado depois, mesmo tendo saído antes. E constitui, sem dúvida, um avanço musical e lírico face ao que se encontra no LP de 1964. «Os problemas de repressão», conta o guitarrista, «começaram por causa de “Menino do Bairro Negro” [outra canção editada em single antes do primeiro LP]. Depois, “Os Vampiros” tornou-se o hino da Rádio Argel [onde se encontravam vários dissidentes políticos perseguidos pelo regime]». Há quem afirme que a Pide proibiu “Os Vampiros”, mas isto não é claro: Arnaldo Trindade, que não editou essa canção, e reportando-se apenas ao que foi lançado sob o selo que comandava, afirma que «se dizia que os discos eram proibidos, mas é mentira: eram censurados nas rádios mas nunca estiveram fora do mercado». Essa censura criou «uma espécie de aura à volta de Zeca», diz Arnaldo, «ao ponto de Cantares do Andarilho ter vendido muito bem».

Não há dúvida que “Os Vampiros”, com o seu ataque violento ao sistema económico, tornou Afonso em alguém a ter em conta. Segundo Pato, «os núcleos de esquerda começaram a chamar o Zeca para cantar em reuniões de trabalhadores e de estudantes: a música do Zeca estava a servir de fermento». É difícil quantificar quantas pessoas terão ouvido a canção na altura, mas percebe-se quão longe ia o alcance daquela canção ao ouvir Vitorino, que mais tarde viria a gravar com José Afonso e atuar com ele ao vivo, contar a história de como se conheceram: «Isto passou-se em 1967. Eu estava em Tavira, na ropa, e fui ver um concerto intitulado “Dr José Afonso canta Baladas de Coimbra” na Casa de Pescadores de Olhão. Foi a primeira vez que o vi, não podia perder a oportunidade». Se um tropa nascido no Redondo sabia da existência do Dr. José Afonso, quantos mais saberiam? A continuação da história é também altamente reveladora do modus operandide José Afonso: «ele estava com dificuldade em afinar a guitarra e eu ofereci-me para a afinar. Ficámos amigos».

A amizade levou Vitorino a passar férias com a família Afonso na Fuzeta, de onde era natural Zélia, a segunda mulher de José Afonso. Foi aí que começaram «a cantar juntos, em simples brincadeira», o que redundou em parceria musical. Isto aconteceu dezenas de vezes na carreira: acabar a convidar músicos para tocar ou cantar em discos seus após uma (ou muitas) noite(s) de cantorias. A amizade, dizem todos, era-lhe fundamental.

Foi também assim que Rui Pato acabou a tocar nos discos de José Afonso. «Eu conheci-o através do meu pai», recorda hoje. «Ele um dia foi ter com os amigos à Brasileira [café coimbrão frequentado por estudantes e licenciados], muito entusiasmado com umas novidades musicais. Tinha feito umas canções, mas não era fado, e para mostrar aquela nova modalidade precisava de uma viola. E o meu pai lembrou-se que eu tinha uma viola, pelo que foram todos para minha casa e foi então que o conheci. Eu estava sentado nas escadas, ele apresentou as suas primeiras canções e ia tocando muito mal – sempre foi mau guitarrista. Tocava uma nota e dizia “e depois isto vai para aqui e depois vai para ali”. E eu pedi para apresentar alguns acompanhamentos em contraponto à maneira como ele estava a tocar, que era muito básica. Ele gostou e começou a dizer ao meu pai: “o miúdo é que me vai acompanhar”. E foi assim que nasceu a nossa relação».

O simples facto de ter escolhido um garoto de 16 anos como seu acompanhante em disco diz bem da abertura de espírito de José Afonso. Na prática, foi assim que nasceram “Menino do Bairro Negro” e “Os Vampiros”. «Trabalhar com ele era fácil, dava-me completa liberdade», recorda Pato. «Ele apresentava-me o esboço da canção e depois eu organizava-a do princípio ao fim». Será este, aliás, o esquema de trabalho de José Afonso com os seus futuros parceiros musicais de discos subsequentes. E já então havia uma particular obsessão: «a grande preocupação dele era a parte rítmica, aí era muito rigoroso».

Ter uma carreira musical, naquela altura, era complicado. Para mais quando o cartão-de-visita era uma canção como “Os Vampiros”, com o seu refrão assombrado, que tanto desagradava ao regime: «eles comem tudo e não deixam nada». De 1962, quando Pato e José Afonso iniciam a colaboração musical, até 1964, quando o último emigra para Moçambique, a «carreira» vive ao sabor da colocação de José Afonso como professor. «Ele dava aulas pelo país fora e eu ia ter com ele para ensaiar», recorda Pato. Desde que se licenciou e até 1964, lecionou em Mangualde, Aljustrel, Lagos, Faro e Alcobaça; daí o «andarilho».

«Havia muita dificuldade em fazer concertos», lembra Pato. «Tinha de se enganar os governos-civis, dizendo que íamos tocar fados de Coimbra: à tarde tínhamos de lhes tocar dois ou fados de demonstração, e depois tocávamos outra coisa à noite. Começou a haver medo de chamar o Zeca para concertos, porque podia haver pancadaria com a polícia, em particular em zonas como a Baixa da Banheira».

A assinar contrato com a Orfeu, de Arnaldo Trindade (à esquerda)

A assinar contrato com a Orfeu, de Arnaldo Trindade (à esquerda)

Uma editora chamada Orfeu

José Afonso torna-se um homem marcado, os problemas financeiros acumulam-se e depois de lançar Baladas e Canções vai para Moçambique. Tinha vivido em África, em Angola, dos três aos oito anos, e ficara sempre marcado pelo continente. No período em que permanece em Moçambique, de 1964 a 1967, corresponde-se com Rui Pato, e conta que anda a fazer «coisas com música africana, com a qual estava muito entusiasmado. Fazia teatro e música em agremiações de negros». Rapidamente se envolve com movimentos políticos locais, o que lhe vale, novamente, o opróbrio, regressando a Portugal no final de 1967, mais propriamente a Setúbal.

Sem poder ensinar, vira-se definitivamente para a música. É aí que vem em seu auxílio Adriano Correia de Oliveira. É ele que revela Afonso a Arnaldo Trindade, como este recorda: «O Adriano trouxe-me uma maqueta do Zeca com acompanhamento à guitarra acústica. Pensei: ‘isto é tão bonito’. Era o Cantares do Andarilho, que para mim ainda é das melhores coisas que ele tem; ele chamava àquilo a sua fase contemplativa. Pensei de imediato que, apesar de ninguém o querer editar por motivos políticos, tinha de arriscar».

Trindade ofereceu a Afonso «o mesmo contrato que tinha oferecido a Adriano: um salário mensal em troco de um disco por ano, cujos direitos de autor eram pagos à parte». Mais tarde, Afonso levaria para a Orfeu Sérgio Godinho, Fausto, Vitorino ou Francisco Fanhais, tudo gente que gravou nos seus discos antes de prosseguir uma carreira a solo.

A história de Trindade é exemplar do que era a época: quando começou a Orfeu tinha apenas «19 ou 20 anos», diz. O dinheiro vinha do pai, que era «o representante em Portugal da Philco, uma subsidiária da Philips com linha de televisão e frigoríficos». Trindade era um estudante de engenharia interessado pelas artes na década de 1950; chegou a conhecer Teixeira de Pascoaes. Igualmente apaixonado por música, queria fazer uma editora e começou por juntar os seus dois amores lançando discos de poetas a ler a sua poesia: Torga, Régio, Sophia de Mello Breyner, Eugénio de Andrade, etc. «Eles não percebiam porque é que eu os queria gravar. Tive de lhes explicar que em França o Sartre e o Cocteau já faziam isto há muito».

Era, a todos os títulos, um homem sofisticado e, rapidamente, começou a gravar vários tipos de música: «grupos amadores de jazz, de ingleses e alemães que viviam no Porto, gente como Pedro Osório e os Pop Five, um trio chamado Los Paraguaios, o Conjunto António Mafra, a fadista Maria da Fé». A seguir começou a gravar música folclórica: «os grupos folclóricos eram produções muito baratas e por isso davam dinheiro».

Depois passou para os fados de Coimbra, com Adriano, e foi assim que José Afonso lhe chegou. E também este lhe deu dinheiro: «o Cantares do Andarilhovendeu bem». Apesar disto, Afonso sempre se queixou de falta de dinheiro e, por vezes, os amigos juntavam-se para o ajudar (como fizeram ao comprar-lhe um carro, num peditório organizado por Carlos do Carmo). As versões diferem: Arnaldo Trindade diz que José Afonso tinha «o melhor contrato» da Orfeu, «equiparável ao de qualquer grande artista português».

Carlos Guerreiro diz que se lembra de José Afonso sempre sem dinheiro. E que, depois do 25 de Abril, quando começou a tocar muito lá fora, no final dos concertos «dizia sempre que tinha discos para vender porque a editora não lhe vendia os discos». Uma canção de Cantares do Andarilho, em particular, tornou-se rapidamente um marco: “Vejam Bem”. Pelo que Trindade aumentou o orçamento para o disco seguinte: «Com o José Afonso posso garantir que não só lhe melhorámos o contrato várias vezes como aumentámos sempre o orçamento para as gravações». Isto poderá explicar o aumento do número de músicos usados em Contos Velhos, Rumos Novos, em que se começam a usar mais acompanhamentos além da guitarra.

Rui Pato conta que foi Afonso quem teve a ideia de experimentar «arranjos com marimbas, harmónicas, trompa», sendo que as marimbas denunciam, desde logo, influência africana. Também usa cavaquinho, insistindo na sua recuperação na música popular portuguesa, e recorre a poemas de gente recente, como Ary dos Santos e Luís de Andrade; as palavras deste resultaram na magnífica “Era de Noite e Levaram”, uma denúncia das prisões aleatórias da polícia política.

O próprio José Afonso foi vítima dessas prisões e foi na última delas, em Caxias, que compôs “Era Um Redondo Vocábulo”, incluído no álbum Venham Mais Cinco, de 1973. Uma boa parte desse disco foi escrito na prisão não se percebe como, mas Afonso saiu cá para fora com as melodias na cabeça. O clima da época era pesado, com «constantes concertos clandestinos que acabavam em prisões», segundo conta Vitorino. «Andávamos sempre com dinheiro no bolso para fugir do país a qualquer altura», acrescenta.

José Afonso aos microfones do Rádio Clube Português

José Afonso aos microfones do Rádio Clube Português

De Woody Guthrie a Debussy

Em finais da década de 60, início da de 70, Trindade já tinha percebido que tinha em mãos um sujeito superior. Admirava-lhe a cultura musical, que «ia do Woody Guthrie ao Debussy, passando por canto gregoriano, que adorava». Curiosamente, Rui Pato diz que nunca trocou discos com Afonso. «Não estou a dizer que ele não tivesse um gira-discos. Mas nunca vi nenhum nas casas que lhe conheci», afirma. Segundo Trindade, uma boa parte do folclore «foi buscá-lo ao Giacometti: o Zeca quis conhecê-lo e aprendeu muito com ele».

Por outro lado, assevera, Afonso era efetivamente «um andarilho, andava por toda a parte, viveu em imensos sítios, ia às terrinhas, falava com as velhinhas, ouvia-as cantar e tinha uma memória musical impressionante». Júlio Pereira, multiinstrumentista e colaborador frequente, corrobora esta ideia afiançando que viu muitas vezes «o Zeca apanhar as melodias nas terras ouvindo as pessoas cantar; memorizava tudo e aquilo voltava, de forma diferente, já dele».

Segundo o sobrinho João Afonso, também músico, havia outra influência marcante no conhecimento da música popular, mas desta feita associada a algo potencialmente mais trágico. O tio Filomeno, com quem José viveu a partir dos oito anos, em Belmonte, onde Filomeno era presidente da Câmara. «Era salazarista, mas se bem me recordo foi ele que lhe ensinou a cantar, que lhe passou as canções populares e por isso ele tinha simpatia por esse tio». A separação dos pais marcou muito José Afonso: o pai era procurador da República e foi colocado em Angola, era José Afonso ainda bebé. Depois Afonso voltou para Belmonte e em 1939 «os pais e a irmã foram para Timor, por causa do emprego do pai. Entretanto começou a II Guerra Mundial e eles foram capturados pelos japoneses. Pensou-se que tinham morrido. O meu tio pensou que tinha perdido pais e irmã durante quatro anos. Mesmo depois de saber que estavam vivos só voltou a vê-los passados mais três anos».

No total, foram sete anos de separação que poderão muito bem ter criado na criança uma espécie de sintonia para com os mais desfavorecidos. Exemplos concretos podem ser encontrados em canções como “Teresa Torga”, de Com as Minhas Tamanquinhas, de 1976. Carlos Guerreiro, o líder dos Gaiteiros de Lisboa, que nunca chegou a gravar em discos de José Afonso (ou gravou, mas as canções não entraram e permanecem por editar), mas começou a tocar com ele em 1976, numa altura em que Afonso já fazia digressões constantes lá fora, conta a história dessa canção: «Era uma mulher que já tinha sido conhecida e um dia despiu-se no meio da rua, já não recordo porquê. Houve um fotógrafo que em vez de a ajudar resolveu fotografá-la e ele ficou horas a pensar nisso, achava isso incorreto. Acabava por exorcizar isso em canção».

Vitorino concorda que «essa separação [face aos pais] o desequilibrou muito. Marcou-o para a vida. Passou o resto da vida a rodear-se de pessoas. Tinha pânico de estar sozinho». Vitorino está convencido de que essa estupenda canção que é “Cantigas do Maio”, do álbum homónimo de 1971, é uma premonição de morte: «Morrer antes da mãe, uma ideia que sempre o obcecou». A palavra exata para recordar a letra encontra-se na própria letra: amargura.

Minha mãe quando eu morrer
Ai chore por quem muito amargou
Para então dizer ao mundo
Ai Deus mo deu Ai Deus mo levou

Também não será excessivo ver nessa separação a fonte da ansiedade e hipocondria que o acometeram até morrer. Pese embora a maior parte das pessoas o visse apenas como «inquieto», no dizer de João Afonso. «Nessa época não se usavam termos como ansiedade», diz.

A sua educação, no entanto, foi, pelas descrições a que temos acesso, privilegiada em termos de leituras. Júlio Pereira, que o encontrará mais à frente, confirma esta erudição: «Íamos em digressão com ele, entrávamos em qualquer cidade da Europa e ele começava a contar a história da cidade, dos edifícios. Eram autênticas aulas». Guerreiro corrobora esta ideia: «As digressões naquele tempo eram diferentes, tínhamos mais tempo. Pelo que íamos ver museus, ver igrejas, e ele contava a história daquilo tudo».

Arnaldo Trindade descreve-o como «um pouco snob intelectualmente. Não era uma pessoa simples, embora soubesse ser simples». Carlos Guerreiro diz que Afonso, com os seus problemas de insónias, aproveitava as noites para ler. Trindade também se recorda do leitor compulsivo: «Era um tipo muito, muito lido, que tinha os García Marquez antes de serem traduzidos» e que além da erudição era um homem atento: em finais da década de 1960, José Afonso «tinha consciência do que estava a acontecer no mundo, do Maio de 68 francês ao Vietname, passando pelas lutas sociais nos EUA e pelas revoluções comunistas por esse mundo fora. Estava a par de tudo». Pelo que os discos foram-se tornando «mais politizados» mas também «mais literários». «Naquela altura, devido ao regime, ele tinha de encontrar metáforas para o que queria dizer. Muita da beleza daquelas canções reside nessa subjetividade».

De qualquer modo, vendiam. Ao ponto de, em 1970, Trindade o ter mandado para os estúdios Pye, em Londres, para gravar o que viria a ser Traz Outro Amigo Também. Rui Pato não o pôde acompanhar devido a problemas políticos e é difícil perceber exatamente como o disco foi feito. Os dois violas do disco estão incontactáveis. Gilberto Gil aparece nos créditos como assistente, mas é dúbia a sua participação, a avaliar pelo relato de Arnaldo Trindade: «O Zeca tinha acabado de gravar o disco e fomos beber para comemorar. Depois, estávamos a passear em Hyde Park quando, segundo as notas do meu diário, apareceram o Gilberto Gil e o Caetano Veloso», que na altura estavam no exílio em Londres.

Trindade diz que ambos tinham ouvido os primeiros discos de Afonso e «tinham uma imensa admiração» por ele. Os outros músicos com quem falámos confirmam o encontro e a admiração, embora os pormenores sejam mais vagos, visto não terem estado presentes no encontro.

José Afonso em meados dos anos 70

José Afonso em meados dos anos 70

Modo de fazer

De qualquer modo este é, segundo João Afonso, «o disco em que começa a aparecer África» na música do seu tio, África que foi mais uma das influências que o marcaram. Pode notar-se essa influência logo na canção “Carta a Miguel Djé-Djé”: este era «um empregado de Zeca em Moçambique, com quem passava horas a tocar. O Zeca, por causa do trabalho, mudou de residência para outra zona do país e teve de despedi-lo. E um dia, sem aviso, estava o Zeca em Lourenço Marques e o Djé-Djé apareceu-lhe à porta de casa com uma vassoura e a guitarra». Segundo Guerreiro, era difícil arrancar-lhe histórias, mas esta era uma que o comovia imenso.

Não é fácil para quem não é etnomusicólogo dizer exatamente o que é africano na obra, mas João Afonso avança logo com uma ideia: «o uso de certas palavras que não são palavras, são apenas vocábulos, que ele usa de forma lúdica, a brincar com as suas potencialidades», como se pode notar numa canção como “Ailé Ailé”, de Coro dos Tribunais, de 1975. E, acrescenta, com graça, «nos taninaninôs [referência à canção “O País Vai de Carrinho”] dele». Esse disco, note-se, conta ainda com uma canção como “Lá no Xepangara” que, segundo Vitorino, «é um mercado em Lourenço Marques». A obsessão era tanta com conseguir o som certo que, segundo Vitorino (que participou nesse disco tocando órgão Moog), «o Zeca mandou vir uma cantora soul inglesa para cantar esses coros».

Carlos Guerreiro tem mais pormenores que aclaram como é que a cabeça de José Afonso funcionava em termos africanos. Segundo Guerreiro, «era um tipo profundamente despistado. Os ensaios podiam durar horas mas ele estava sempre a sair para telefonar ou comer uma bucha». No entanto, havia uma matéria com a qual era implacável: «com o ritmo era extremamente rigoroso. Se eu não conseguia o balanço que ele queria, e é mais essa a palavra, balanço, chateava-me até eu conseguir».

Diz Guerreiro que José Afonso tinha uma teoria a que ninguém ligava, mas que fazia um certo sentido: «ele achava que havia uma ligação entre África e a música da Beira. Musicalmente não faz muito sentido, mas ao nível de usar as palavras como brincadeira rítmica talvez haja parecenças, embora não heranças diretas».

Trindade achou o disco de 1970 uma obra-prima, a começar pelo tema-título e passando por coisas como “Canto Moço”. Entusiasmado, o editor pediu novo disco e não olhou a meios: mandou Afonso para o estúdio Le Château d’ Hérouville, em Paris. «Era o melhor estúdio da Europa. Na véspera tinham estado lá os Rolling Stones [na realidade foram os Grateful Dead e depois seriam os Pink Floyd]». A «brincadeira» custou-lhe uns astronómicos «mil contos». «Houve retorno», diz, «porque dali saiu o “Grândola, Vila Morena”».

Todos são unânimes em reconhecer que o aumento do orçamento para os discos foi fundamental: deu mais tempo para gravar, mais músicos e, neste caso, um produtor, José Mário Branco. João Afonso acrescenta que «a possibilidade de trazer músicos como o Yório [a partir de 1973], que tocava à moda brasileira, ou do Fausto, que era muito africano, entre estrangeiros espanhóis ou franceses, trouxe outras cores à música de José Afonso».

Não foi possível falar com José Mário Branco (ausente do país) nem com Fausto, que mais tarde veio a produzir José Afonso, dois elementos fulcrais na obra Afonsina. Mas a Orfeu teve a delicadeza de ceder algumas das declarações que José Mário Branco prestou ao jornalista Gonçalo Frota, e que estarão incluídas nos libretos das reedições. «Que eu me lembre, não me pôs grandes condicionantes», diz José Mário, que funcionou como diretor musical, o que faz sentido, se tivermos em conta que todos os músicos que trabalharam com ele dizem que era muito aberto às suas contribuições. No entanto, havia uma exceção: ele tinha «alguma prevenção contra a eletrificação do som dos discos». Preferia ter «sons nobres: as cordas, os sopros, as percussões, sim, mas sem tomadas por perto».

Sabemos um pouco mais acerca de como decorria a parceria entre José Afonso e José Mário nesse disco de 1971 e no de 1973, Venham Mais Cinco, através das histórias que o primeiro contou. Segundo Guerreiro, «ele tinha uma espécie de mnemónica, de grafia musical que tinha inventado, e mostrava ao José Mário que tinha de deslindar aquilo. Era do género: a primeira nota, depois sobe, sobe, a seguir desce». Guerreiro diz que Afonso também tinha por norma «ideias acerca dos instrumentos a usar», o que bate certo com as declarações de José Mário Branco. Na versão de Vitorino «os arranjos eram cantados ao produtor; pelo menos com o José Mário foi assim». Vitorino diz que José Mário Branco «apontava os arranjos e organizava-os meticulosamente», o que faz sentido para quem já viu as fichas que José Mário Branco faz para cada gravação de disco (por exemplo, para um disco de Camané é capaz de ter tabelas chamadas «Impacto Emocional», onde se incluem pormenores como a respiração ouvir-se ou não).

Mas há mais um pormenor, e é fundamental: José Afonso, desde talvez 1968 ou 1969, tinha um gravador que, segundo Júlio Pereira, «levava para toda a parte», o que Guerreiro, Vitorino, João Afonso e Arnaldo Trindade confirmam. O gravador servia-lhe para tudo: desde gravar pequenas melodias, até canções completas, harmonias. Gravava uma coisa, depois outra, uma terceira e a seguir ouvia de novo e arranjava uma harmonia para a primeira melodia, um arranjo para a segunda, etc. De certo modo era como se as canções estivessem em esquisso nessas cassetes.

Carlos Guerreiro lembra-se de estar numa casa de banho, durante uma digressão pelo norte de Espanha, em 1976 ou 77, quando na porta ao lado ouve uma voz a trautear «tururu turu turu». Era José Afonso enfiado na casa de banho a gravar uma melodia que lhe tinha aparecido. Doutra vez, em Setúbal, interrompeu um jantar para ir à casa de banho com o gravador na mão. «Voltou todo ufano, com a sua melodiazinha».

Júlio Pereira também tem histórias dessas. «Estávamos em Vigo, julgo que em 1978, íamos a passar debaixo de uma ponte e o Zeca de súbito mandou-me subir ao hotel para ir buscar o gravador, de que se tinha esquecido. Eu fui e quando voltei ele fez uma canção ali mesmo: era o “Achegate a Mim, Maruxa” [de Fura-Fura, 1979]». Uma nota: a letra dessa canção é popular, mas a melodia é toda de José Afonso. João Afonso realça o trabalho «absolutamente vanguardista» que o tio fez com a tradição: «Pegava numa melodia popular e usava uma parte, e depois inventava o resto e punha como letra um poema moderno, ou usava uma lengalenga popular e mudava a música».

Sabemos portanto que em Cantigas do Maio e Venham Mais Cinco, entre as suas pautas improvisadas que mostrava a José Mário, as indicações que dava sobre que instrumentos usar e as melodias principais que levava, José Afonso já ia para estúdio com linhas de orientação bastante razoáveis que cabia aos músicos preencher. Sabemos que em Eu Vou Ser Como a Toupeira(de onde saíram canções como “A Morte Saiu à Rua”, “O Avô Cavernoso” ou “No Comboio Descendente”) já tinha o gravador para mostrar as melodias e as harmonias que imaginara para cada melodia. Mas como é que as coisas realmente aconteciam, por exemplo, nesse magnífico disco que é Coro dos Tribunais, de 1974, produzido por Fausto? Vitorino, que está nesse disco, bem como em Com as Minhas Tamanquinhas, dá uma ideia: «Para já, tinha-se o tempo que fosse necessário. Se fosse preciso um mês ficava-se um mês a gravar. Bons tempos. E ficava-se em bons hotéis». Vitorino afirma que «os arranjos desse disco são em parte do Fausto», o que faz sentido a cada escuta. Mas também «havia arranjos que ele ditava, cantando».

Contudo, e apesar das muitas melodias e harmonias que levava, bem como do seu apurado sentido de ritmo, José Afonso precisava efetivamente de músicos e tempo para experimentar. Diz Vitorino: «Quando entrávamos em estúdio as músicas estavam mal acabadas. Como ele não sabia música tínhamos de interpretar o que ele queria». Afonso podia dizer «e se puséssemos umas palmas nesta música?», mas também podia ser um músico a fazer uma proposta de arranjo ou o produtor a fazer uma definição, a que depois se retiravam e acrescentavam coisas.

Mas há uma história que Júlio Pereira, que começa a gravar com José Afonso em “Índios da Meia-Praia”, do disco Com as Minhas Tamanquinhas (em que aparece um Joaquim Barreiros a tocar acordeão, que mais tarde se tornaria figura popular ao diminuir o nome para Quim), conta que sendo praticamente um detalhe é elucidativa do génio. «Já não me lembro de que canção estávamos a gravar nem para que disco, mas o Zeca sentia que faltava alguma coisa. Ouvia e ouvia a canção até que se virou para mim e disse: “havia uma coisa que vi umas mulheres fazerem em África: tinham uns chocalhos presos nas pernas e nos braços e dançavam e o som era muito cheio”. Experimentámos e lembro-me de resultar. Foi já no fim da carreira».

Além de ser um melodista de exceção, que sabia intuitivamente que ritmo queria e como dividir cada sílaba, era isto que trazia para as suas canções e que as tornavam únicas; algo difícil, de facto, de explicar numa pauta e talvez uma das razões pelas quais José Afonso permanece um mistério, e que levou a que «as pessoas se tenham esquecido dele enquanto músico», segundo diz Júlio Pereira, secundado pelos restantes.

José Afonso (à direita) com Vitorino, Adriano Correia de Oliveira e Fausto (esq-dta)

José Afonso (à direita) com Vitorino, Adriano Correia de Oliveira e Fausto (esq-dta)

O «Zeca político»

Há, talvez, outra razão: a ascensão do «Zeca político». A partir de 1974 ele foi ajustando contas, deixando sair um lado mais amargo, dentro e fora das canções, como é notório em temas como “Tenho um Primo Convexo” (que era sobre um primo de que não gostava) ou “Como se Faz um Canalha” (sobre Aventino Teixeira, que Afonso considerava que tinha traído a causa da esquerda); e tornou-se mais radical politicamente, o que é notório em temas como “Os Fantoches de Kissinger” e “Alípio de Freitas” de Com as Minhas Tamanquinhas. A segunda é um bom exemplo do político e posteriormente mitificado: graças à canção salvou-se a vida a Alípio de Freitas, preso no Brasil durante a ditadura militar; o embaixador português procurou-o e conseguiu a sua libertação. Apesar dessa radicalização, José Afonso nunca integrou nenhum partido político.

Guerreiro lembra o que o músico dizia em entrevistas: «o meu Comité Central sou eu», numa alusão a um certo distanciamento do Partido Comunista. Arnaldo Trindade refere que «ele não se sentia muito próximo do PC», porém «tornou-se próximo da LUAR», um grupo político que intentou a luta armada.

De acordo com Vitorino, «quando começou a haver violência, ele afastou-se, era um pacifista». Ainda assim, apoiou a candidatura de Otelo a Presidente da República (e Otelo não era um menino do coro). A radicalização do discurso acabou por ter efeitos paradoxais: por um lado, tornou-o um ícone; por outro, as vendas pós-1974 caíram. «Depois do PREC», conta Trindade, «as pessoas não queriam mais mata-e esfola. Os tempos tinham mudado. Muitos dos que lhe compravam os discos não concordavam com ele politicamente, porque ele foi-se radicalizando. Também se perdeu o lirismo metafórico dos primeiros discos».

Começa então a tocar lá fora, acompanhado por gente mais nova, como Guerreiro ou Júlio Pereira. Passaram por países como Espanha (que o adorava), França, Itália, Bélgica, Holanda, Alemanha e com muito mais sucesso do que o que tinha conseguido quando foi tocar ao Brasil, em 1971, na companhia de Paulo de Carvalho: «Era um festival de música mais pop e não foi bem recebido», conta Trindade. Mas foi-o na Europa. Em parte por causa do 25 de abril: «Os europeus queriam conhecer o que se fazia no país que tinha saído da ditadura e tinha estado tantos anos fechado», diz Vitorino.

Mas também porque os seus concertos eram entusiásticos. Guerreiro diz não ter «a mínima dúvida de que o Zeca foi, juntamente com a Amália e o Paredes o grande embaixador de Portugal lá fora durante anos». Júlio Pereira corrobora a ideia e acrescenta que «é um crime que nunca se tenha falado cá dentro dos êxitos que o Zeca alcançou lá fora. Os espanhóis, então, amavam-no».

Talvez Trindade tivesse razão: o país tinha mudado e as pessoas queriam iogurteiras em vez de discurso, caixilhos de alumínio em vez de fúria. Depois de 1976 fez ainda três discos para a Orfeu: Enquanto Há Força (78), Fura-Fura(79) e Fados de Coimbra (81), um estranho regresso ao início, concebido quando já estava doente (embora não se saiba exatamente quando começou a doença, Guerreiro e Pereira, olhando para trás, têm ideia de que por volta de 1977, 1978, o músico começou a ter problemas físicos constantes, como falta de força nos braços).

Fura-Fura, tendo ainda grandes canções, é pouco homogéneo, porque os arranjos se dividem entre José Afonso, Júlio Pereira e os Trovante. Enquanto Há Força, dirigido por Fausto, que co-compõe aqui e ali, é de outra cepa. Afonso ainda se reergueu, após a saída da Orfeu e há quem defenda que Como Se Fora Seu Filho e Galinhas do Mato (em que cantarola as melodias e em que Júlio Pereira e José Mário Branco, entre outros, tocam, gravam e dirigem cantores e instrumentistas) estão entre os seus discos mais inventivos. Mas José Afonso era já um mito e aos mitos não se pede que progridam e arrisquem, mas sim que sejam consensuais, e para isso era preciso não ser ouvido. No fundo não o foi mais: como sublinham todos, foi usado como bandeira da liberdade, visto como património exclusivo da esquerda, o que não é correto: Pedro Ayres de Magalhães é fanático de José Afonso, Manuel Fúria, ex-líder d’Os Golpes, fez uma versão de “Tenho Barcos, Tenho Remos”. Mas, à conta da mitologia, o interminável talento foi esquecido.

«Estamos a falar de um dos maiores génios da segunda metade do século XX», diz Júlio Pereira. «Não se criava um Zeca por mais que se tentasse», diz Trindade. Os elogios continuam. Hoje, mais apaziguados, menos motivados pela ideologia, ou talvez apenas mais distantes, podemos admirar apenas a música e as palavras e perceber que Zeca, afinal de contas, era um homem.

Originalmente publicado na BLITZ de junho de 2012

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Manuel Guedes

(1909-1983)

Corajoso combatente antifascista, destacado dirigente comunista, vítima da maior repressão das ditadura de Salazar e Franco, Manuel Guedes era um homem com uma enorme simplicidade, grande cultura, e sempre disponível para aprender com os mais novos e dar testemunho de vidas heróicas de outros.

Manuel Guedes

Gostava de pessoas e de livros, fossem estes sobre pedagogia, ciência, política, ou literatura. Morreu com 73 anos, 20 dos quais passados nas prisões fascistas, em Portugal e Espanha.

Corajoso combatente antifascista

Órfão de pai e mãe, Manuel Guedes, nasceu a 14 de Dezembro de 1909, foi internado no Asilo Maria Pia com apenas oito anos, depois de passar inúmeras dificuldades. Aí permaneceu até se alistar como voluntário na Marinha, aos 17 anos.

O golpe de 28 de Maio ocorrera pouco tempo antes e Manuel Guedes assistiu de perto à fascização das Forças Armadas, às primeiras revoltas contra a ditadura e às perseguições aos militares antifascistas. Tomou então contacto com a corrente republicana e antifascista que mantinha na Armada uma forte presença.Terá sido toda esta vivência que o levou a aderir ao PCP em Agosto de 1931. Pouco depois, era já um dos principais dinamizadores da criação da «Organização Revolucionária da Armada» (ORA) e, até à «revolta dos marinheiros» de Setembro de 1936, manteve uma intensa actividade de agitação e propaganda[1]. O jornal da ORA, O Marinheiro Vermelho, do qual Manuel Guedes foi um dos redactores, terá chegado a editar 1500 exemplares.


Grupo de presos da Revolta dos Marinheiros (1936)

Houve doze mortos, 208 presos e demitidos (dos quais 30 marinheiros ainda antes da eclosão da revolta). Foram condenados 82 dos revoltosos: 44 foram enviados para Angra do Heroísmo, 4 para Peniche e 34 integraram o conjunto dos primeiros 152 presos que seguiram para o Campo de Concentração do Tarrafal em Cabo Verde. A fotografia, partilhada pelo historiador João Esteves no Grupo Fascismo Nunca Mais, foi associada a um texto escrito por Ricardo Machaqueiro para a revista do Expresso em 16/09/1995.

Em Julho de 1933 é preso pela primeira vez, na tipografia que editava este jornal. Julgado pelo Tribunal Militar Especial, foi condenado a 18 meses de prisão. Cumprida a pena, foi libertado (Janeiro de 1935) e imediatamente expulso da Armada.

Vítima das ditaduras de Salazar e Franco

Regressa à actividade clandestina, integra a Comissão Central de Organização do PCP, sob a orientação de Bento Gonçalves, mas por pouco tempo, pois seria novamente preso em Abril desse mesmo ano (1935) numa reunião da ORA e levado a julgamento. Em Maio de 1936, quando decorria o julgamento, numa das deslocações ao Tribunal para 4ª e última sessão, aproveitou uma oportunidade e evadiu-se. Foi então encarregado pelo partido comunista de tarefas em Espanha, mas ao entrar no país vizinho, juntamente com Joaquim Pires Jorge, foi detido em Valência de Alcântara, por falta de documentação e posse de arma. Ficam ambos presos em Cáceres, assistem à tomada da cidade pelos fascistas de Franco e, depois de viverem na iminência de serem fuzilados pelas tropas franquistas que ocuparam a cadeia, são condenados a 28 meses de prisão.


Entregue pela polícia franquista à PVDE em 14 Novembro de 1938, fica preso até Julho de 1940

Encarcerado durante mais de dois anos naquela cidade espanhola, em difíceis condições, Manuel Guedes assiste aos inúmeros crimes dos fascistas de Franco. Cumprida a pena, é entregue em Portugal à Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE) em 14 de Novembro de 1938, e fica preso até Julho de 1940.

Destacado dirigente comunista

Manuel Guedes pouco tempo ficou em liberdade: voltou à luta clandestina. Participante destacado da reorganização do Partido [de 1940/41], passou a integrar o Secretariado, juntamente com Álvaro Cunhal e José Gregório.

No IV Congresso do PCP, realizado em 1946 (onde seriam definidas as linhas fundamentais do caminho para o derrube do fascismo e os princípios orgânicos do centralismo democrático), Manuel Guedes é novamente eleito para o Comité Central e permanece no Secretariado até 1951. Ao longo de toda essa década, acompanha e dirige poderosas lutas, entre as quais as greves de 1942 e 1943 e as batalhas eleitorais de 1945 e 1949[2].


Prisão de 1952

Preso novamente em Maio de 1952, Manuel Guedes é julgado e condenado a quatro anos de prisão, mas as medidas de segurança levam-no a permanecer encarcerado durante 13 anos, só sendo libertado em Março de 1965.

Reintegrado na Marinha

Depois do 25 de Abril, Manuel Guedes foi reintegrado na Marinha (todos os marinheiros o foram) e exerceu a profissão de revisor tipográfico.

Escreveu o livro «Memórias de um preso político português na cadeia de Cáceres durante a guerra civil de Espanha».

Continuando a militar no PCP, acabaria por falecer em Março de 1983 – tinha 73 anos, 20 dos quais passados na prisão.

Em 2009, o PCP promoveu, em Lisboa, uma iniciativa de celebração do centenário do seu nascimento e disponibilizou na Internet, além do jornal clandestino «O Marinheiro Vermelho», a «Exposição Manuel Guedes».


O Marinheiro Vermelho


Fotos de prisão: 1938, 1952 e 1965

[1] A Revolta dos Marinheiros de 1936 saldou-se por doze mortos, 208 presos e demitidos (dos quais 30 marinheiros ainda antes da eclosão da revolta). Foram condenados 82 dos revoltosos: 44 foram enviados para o Forte de Angra do Heroísmo, 4 para o Forte de Peniche e 34 integraram o conjunto dos primeiros 152 presos que seguiram para o Campo de Concentração do Tarrafal, em Cabo Verde. Muitos deles foram condenados a penas entre os 16 e os 20 anos, que cumpriram naquelas prisões.

A eclosão da revolta deu-se no dia 8 de Setembro de 1936, integrando marinheiros da Organização Revolucionária da Armada, e surgiu num contexto de grande afirmação da ditadura fascista de Salazar ( no primeiro semestre desse ano), correspondendo aos ecos internacionais do momento. A ORA- Organização Revolucionária da Armada, uma organização associada ao Partido Comunista Português, decidiu levar a cabo um processo reivindicativo contra as arbitrariedades cometidas no seio da Armada portuguesa e coube aos sectores inferiores da hierarquia da Marinha (centenas de grumetes e primeiros marinheiros) essa iniciativa, envolvendo-se numa revolta nos navios Dão, Afonso de Albuquerque e Bartolomeu Dias. Os marinheiros pretendiam dirigir um ultimato a Salazar no sentido de os seus direitos serem satisfeitos, de serem terminadas as perseguições e libertados os presos políticos, e tinham como projecto colocar os navios a salvo fora da barra e usar o poder de fogo das embarcações. Após algumas horas, a revolta foi debelada pelo regime fascista que antecipadamente teve acesso aos planos dos revoltosos, conseguindo desactivar o potencial bélico das embarcações. Ordenou o seu bombardeamento a partir dos Fortes de Almada e do Alto do Duque, atingindo violentamente os navios Dão e Afonso de Albuquerque.

[2] Em Dezembro de 1943, nasceu o Movimento de Unidade Nacional Anti-Fascista (MUNAF), fundado num momento de viragem na Segunda Guerra Mundial a favor dos aliados e contra o nazismo e o fascismo. No MUNAF estavam representados, entre outros, o Partido Republicano Português, a União Socialista, o Partido Comunista Português, a Maçonaria, o grupo da Seara Nova, católicos, monárquicos e anarquistas.

Em 1945, com a derrota do nazi/fascismo, Salazar foi forçado a fazer algumas mudanças que parecessem “democráticas”, nomeadamente a promoção de simulacros de eleições. Para se preparar para as “eleições”, a oposição decidiu substituir o MUNAF pelo Movimento de Unidade Democrática (MUD), uma organização política legal, que rapidamente recebeu grande apoio popular e conseguiu agrupar muitos oposicionistas, principalmente intelectuais e cidadãos das profissões liberais. O MUD não tardou a ser dissolvido pelo regime (Janeiro de 1948), mas muitos dos seus membros integraram-se na «Comissão de apoio à candidatura do general Norton de Matos à Presidência da República», em Abril de 1948. Nessa altura muitos oposicionistas foram perseguidos e obrigados à clandestinidade e ao exílio. [O único partido político organizado e actuante naquela época era o Partido Comunista Português, fundado em 1921].


Dados biográficos


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/manuel-guedes/

CENAS DO OCASO DE UM DITADOR

5 de Fevereiro de 1969. Salazar abandonava a clínica onde estivera internado durante os últimos cinco meses. O velho ditador deixara de ser notícia. Só as edições mais tardias dos jornais daquele dia publicavam uma muito breve notícia a respeito do assunto. Apesar do antigo presidente regressar à sua residência oficial de São Bento, no entretanto, o poder e as consequentes disputas à sua volta haviam migrado para outro lado. A edição do dia seguinte dos jornais nada tinham a acrescentar à breve nota que se vê abaixo.

Veja o original em 'Herdeiro de Aécio' na seguinte ligação::

http://herdeirodeaecio.blogspot.com/2019/02/cenas-do-ocaso-de-um-ditador.html

Armando Bacelar

(1919 – 1998)

Cidadão de elevado carácter, prestigiado e activo militante na Resistência contra o regime fascista, foi candidato da Oposição Democrática pelo distrito do Porto, nas eleições de 1961, 1965 e 1969. Advogado com grande notoriedade, defendeu presos políticos nos Tribunais Plenários, tendo sido, ele próprio, preso e julgado por diversas vezes. 

Homem multifacetado com intensa actividade também no campo das Letras, deixou a sua escrita dispersa por inúmeras publicações. Exerceu a advocacia em Famalicão até se mudar para o Porto em 1952, mas manteve também o escritório na sua terra natal, até 1974.

Cidadão de elevado carácter

Armando Bacelar

Armando Filipe Cerejeira Pereira nasceu no lugar de Santo Adrião, Vila Nova de Famalicão, a 25 de Setembro de 1919 e faleceu a 2 de Setembro de 1998. Casou com Elisa Amado Bacelar (1916 – 2001), uma importante activista do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas e da Associação Feminina Portuguesa para a Paz [quer em Coimbra quer, posteriormente, no Porto], que veio a ter, também ela, importante actividade na Resistência. O casal teve três filhos: Manuela, Rui e Eva.

Ainda estudante liceal em Braga, Armando Bacelar foi com um colega, José Manuel Videira Pires, director do quinzenário académico Alma Nova [de que se publicaram quatro números, entre Outubro de 1935 e Janeiro de 1936]. Já aluno de Direito na Universidade de Coimbra, onde se licenciou, fez parte do Bloco Académico Anti-Fascista. Desenvolveu então uma contínua actividade política e colaborou em jornais como Via Latina e Estrela do Minho.

Em 1941, durante o primeiro período do Curso de Oficiais Milicianos, em Mafra, deslocava-se com frequência a Lisboa para encontros clandestinos com membros do Partido Comunista [como Pedro Soares e Fernando Piteira Santos], a fim de trabalhar na reorganização daquele partido, que então decorria. Nesses anos tinha relações próximas com alguns dos escritores e artistas que viriam a destacar-se no movimento neo-realista. Com muitos deles, colaborava no semanário O Diabo, no quinzenário Sol Nascente, de cuja redacção em Coimbra fez parte, e no mensário Pensamento, do Porto, o órgão (do que restava) das estruturas do Partido Socialista.

Elisa Amado Bacelar, a companheira de toda a vida de Armando Bacelar

Todos esses jornais viriam a ser suspensos por ordem dos serviços de Censura, mantendo-se apenas a publicação da Seara Nova, as páginas literárias dos jornais de província [estas assumindo especial importância durante a Ditadura], e ainda O Comércio do Porto, cujo suplemento literário – Comércio dos Novos – A. Bacelar dirigiu em 1939. Foi um dos iniciadores, como crítico e articulista, do movimento neo-realista e pertenceu à comissão que seleccionou os textos da colecção poética Novo Cancioneiro, lançada em Coimbra, em 1940, por Fernando Namora. Criou, em 1941, com José Ferreira Gomes, os Cadernos de Cultura Socialista, que eram dactilografados e enviados pelo correio (clandestinamente).

Prestigiado e activo militante na Resistência contra o regime fascista

[Fotografia de Armando Bacelar facultada por Eva Bacelar]

Em 1942 passou a militar no MUNAF e chegou a organizar, no Regimento de Infantaria 8, de Braga, onde prestava serviço como oficial miliciano, um «Campo Anti-fascista de Combate» [que esteve prestes a integrar um movimento insurreccional entretanto desconvocado].

Foi membro do Partido Comunista Português desde 1938 até 1954. Em 1945 ligou-se ao MUD, de cuja comissão concelhia foi presidente, tendo participado nos comícios desse movimento em Famalicão e em Braga. Depois da dissolução do MUD, foi um dos promotores do movimento de apoio à candidatura do general Norton de Matos à Presidência da República (1949), tendo sido vice-presidente da respectiva comissão distrital de Braga. A sua intensa actividade na redacção, distribuição e afixação de panfletos e cartazes valeu-lhe a instauração de dois processos-crime (que acabaram por não ser julgados). Nesse mesmo ano de 1949, foi um dos fundadores do Movimento Nacional Democrático que, em 1951 iria apoiar e colaborar na campanha para a candidatura de Ruy Luís Gomes à Presidência da República.

Em Março de 1957, foi um dos primeiros dos 72 advogados de Lisboa e do Porto que assinaram uma representação ao ministro da Presidência pedindo um «inquérito à PIDE». Em 1957 e 1958 colaborou, nos distritos do Porto e Braga, nas campanhas eleitorais, integrando a comissão distrital do Porto da candidatura do general Humberto Delgado à Presidência da República. 

Em 1961, aderiu à Frente Patriótica de Libertação Nacional, com sede em Argel, em cujas actividades teve papel relevante, redigindo manifestos e outros documentos e participando em encontros com elementos vindos clandestinamente do estrangeiro.

Em 1969, foi um dos autores do projecto de unidade democrática que ficou conhecido por Plataforma de Acção Comum ou «Plataforma de S. Pedro de Moel», com vista à unidade da oposição nas eleições legislativas desse ano[2]. Foi candidato da CDE pelo Porto, em 1969, e depois, participou activamente no Movimento das Comissões Eleitorais Democráticas (MDP-CDE), fundado após aquelas eleições. Abandonou este movimento em 1973, ano em que foi um dos fundadores do Partido Socialista, de que viria a ser dirigente.


Comício Comemorativo do 31 de Janeiro, em 1974, no Porto. No uso da palavra, Armando Bacelar. A polícia está na sala e, por isso, Horácio Guimarães encontra-se por perto e Macedo Varela atento ao que pudesse acontecer.
(Foto de Sérgio Valente)

Participou nos congressos oposicionistas de Aveiro, realizados em 1956 e em 1973, tendo apresentado no primeiro uma tese intitulada «O Processo Político em Portugal».

Advogado com grande notoriedade

Como advogado defendeu réus em vários julgamentos políticos nos Tribunais Plenários de Lisboa e do Porto, tendo sido, ele mesmo, ali julgado e absolvido, por duas vezes, em 1949 e em 1960. Entre 1947 e 1963, foi várias vezes detido, sob a acusação de pertencer ao Partido Comunista e de actividades contra a segurança do Estado. Em Novembro de 1958, o motivo da prisão foi outro: era acusado – juntamente com outros advogados – de pretender atentar contra o bom nome de Portugal, por ser advogado de Maria Ângela Vidal Campos que lhe passara procuração e pretendia apresentar queixa nas Nações Unidas contra o Estado português e contra a PIDE, devido às condições em que se encontrava detida.

Foi eleito para a delegação da Ordem dos Advogados em Vila Nova de Famalicão (31 de Outubro de 1957) e foi delegado às assembleias-gerais entre 1963 e 1968. Participou no I Congresso dos Advogados Portugueses, realizado em Lisboa em 1972. Membro do conselho geral da Ordem, entre 1972 e 1974, foi, nessa qualidade, delegado à reunião da conferência da Associação Internacional dos Juristas Democráticos (AIJD), realizada em Paris, em Janeiro de 1974, e dedicada aos trabalhadores migrantes da Europa Ocidental. Entre 1986 e 1989 foi membro do Conselho Superior da Magistratura. 

Publicou alguns trabalhos de carácter jurídico, como Um Caso Grave de Prepotência Administrativa (1959), Dois Limites à Faculdade de Contratar sobre Estado de Pessoas (1966) e «Ossos do Ofício…ou do que um advogado não está livre (1966)».

Homem multifacetado

Como escritor, participou activamente na imprensa e nas revistas literárias ligadas ao Neo-Realismo[1], tal como é o caso Alma Académica (Porto), Alma Nova (Braga), Comércio dos Novos/O Comércio da Póvoa de Varzim (Póvoa de Varzim) – dirigiu estes dois últimos títulos enquanto ainda jovem estudante – Da Gente Moça//O Trabalho (Viseu), O Diabo (Lisboa), Do Espírito Literário/Ecos do Sul (Vila Real de St.º António), A Ideia Livre (Anadia), Independência de Águeda (Águeda), Nova Luz (Coimbra), Pensamento (Porto), Síntese (Coimbra), Sol Nascente (Porto, Coimbra), O Trabalho (Viseu), Vértice (Coimbra), entre outros títulos.

Na recepção oferecida a Jorge Amado

Na recepção que foi oferecida, em Lisboa, a Jorge Amado pelas Publicações Europa-América, em 1966. Da esquerda para a direita: Armando Bacelar, Alves Redol, Urbano Tavares Rodrigues, Ferreira de Castro, Zélia Gattai, Jorge Amado, Álvaro Salema, Alexandre Cabral, Manuel Alpedrinha e pessoa não identificada.

(Foto de António Redol)

Crítico literário da revista Vértice, colaborou também em diversos jornais, como Notícias de Famalicão, República, Diário de Notícias e Diário de Lisboa. Escreveu com os seguintes pseudónimos: Carlos Relvas, Eugénio Bastos Freire, Raul Sequeira, Aníbal Borges de Castro e Inês Gouveia. No semanário Estrela do Minho publicou crónicas sobre temas femininos, sob o pseudónimo de Inês Gouveia, o mesmo com que assinou, no número único do jornal Nova Luz (Janeiro de 1942), um artigo que causou na época sensação: A Mulher perante os Biólogos. Usou, aliás, outros pseudónimos, na sua colaboração com diversos jornais e revistas os seguintes pseudónimos: Carlos Relvas (O Trabalho/Gente Moça, Sol Nascente, O Diabo, Pensamento, Vértice, Ecos do Sul/O Espírito Literário, Ideia Livre/Gente Moça), Eugénio Bastos Freire (Pensamento), Aníbal Borges de Castro (Síntese), Raul Sequeira (Síntese, A Mocidade) e Fausto Ribas (Pensamento, Síntese), entre outros.

Depois do 25 de Abril

Participação Política

Foi deputado do PS à Assembleia Constituinte (1975) e à I Assembleia da República (1976-1980) e foi subsecretário de Estado da Administração Judiciária (e, depois, da Justiça, quando o nome do departamento foi alterado) em todos os governos provisórios, excepto o quinto, em que o Partido Socialista não participou. Foi ministro dos Assuntos Sociais no I Governo Constitucional (Julho de 1976-Janeiro de 1978).


Legalização do Partido Socialista no Supremo Tribunal de Justiça, em Fevereiro de 1975. Distinguem-se Alberto Arons de Carvalho, Vasco da Gama Fernandes, Armando Bacelar, Mário Sottomayor Cardia, Abrantes Mendes, Secretário do ST J e Mário Soares.
(foto de casacomum.org)

Em Novembro de 1992, participou nas II Jornadas de História Local (1892-1992), que se realizaram em Vila Nova de Famalicão e nas quais apresentou um extensa comunicação intitulada Memória de Tempos Idos, sobre a oposição democrática entre 1926 e 1945.

Manteve sempre a sua colaboração na imprensa diária, designadamente na República, no Diário de Noticias e no Diário de Lisboa. Foi, com Lino Lima, autor do catálogo da exposição Testemunhos de Luta pela Liberdade, promovida pelo município famalicense em 1992. No mesmo ano, organizou o catálogo de outra exposição promovida pelo mesmo município, intitulada A Oposição Democrática em Vila Nova de Famalicão; e, em 1996, foi autor do catálogo e do roteiro da exposição que decorreu, por iniciativa da Câmara Municipal de Matosinhos, na Casa-Museu Abel Salazar, intitulada Entre a realidade e a utopia: o neo-realismo literário português.

Foi um dos sócios fundadores da Associação Cultural do Museu do Neo-Realismo, inaugurado em 2007.

Homenagem

Foi distinguido em 1996 pelo então Presidente da República Jorge Sampaio com a Grã-Cruz da Ordem do Infante, tendo sido também distinguido pela Câmara Municipal de V. N. de Famalicão com a Medalha de Ouro do Município. No mesmo ano, a Biblioteca Municipal Camilo Castelo Branco organizou a exposição «Armando Bacelar e Lino Lima: testemunhos de luta pela liberdade», baseada essencialmente no espólio doado pela família de Bacelar à mesma instituição pública famalicense. [Parte importante do seu espólio encontra-se na Biblioteca de Vila Nova de Famalicão].

Foi um dos cerca de 120 advogados dos presos políticos da ditadura do Estado Novo, que foram homenageados na Assembleia da República, em Janeiro de 2014, pelo Movimento Cívico Não Apaguem a Memória.

[1] A propósito da problemática de Bacelar enquanto teórico do Neo-Realismo ver, por exemplo, Carlos Reis – O Discurso Ideológico do Neo-Realismo Português. Coimbra: Almedina, 1983; Textos Teóricos do Neo-Realismo Português. Apresent. Crítica, sel., notas e sugestões de leitura Carlos Reis. Lisboa: Editorial Comunicação, 1981; Armando Bacelar – (Pre)Textos: Armando Bacelar, Teórico do Neo-Realismo? (Nota explicativa, sel., notas e indicações bibliográficas Amadeu Gonçalves; Introd. José Manuel Mendes).

[2] Na sequência da Convenção e do II Congresso Republicano, representantes distritais dos vários sectores da Oposição Democrática, do Continente e Ilhas reúnem-se em S. Pedro de Moel e aprovam uma “Plataforma de Acção Comum” em que se formulam princípios e reivindicações essenciais da Oposição nos vários planos da actividade política, social e cultural. A Oposição reunida decide, igualmente, participar no próximo acto eleitoral apresentando candidaturas em todos os círculos, sendo para tal constituída uma “Comissão coordenadora das actividades eleitorais”. [A unidade acaba por ser rompida e surgem duas listas em Lisboa, Porto e Braga: CDE e CEUD].

Dados biográficos

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Canto Geral, de Pablo Neruda

A história da América Latina passa por essas páginas a partir da visão de mundo e da sensibilidade do poeta.

“Devolva o Neruda que você me tomou e nunca leu”, diz a belíssima canção de Chico Buarque de Hollanda e Francis Hime.

Na internet é possível encontrar debates sobre o porquê de o livro de Neruda ter sido citado na disputa de separação de um casal; sobre a dor de quem pede, em tom magoado, o livro de volta; sobre a insinuação de que o livro não foi valorizado ou compreendido por quem o tomou emprestado etc. Porém, não seria desperdício indagar também qual o título do livro que o magoado amante pede de volta à amada de quem se separa.

A obra de Pablo Neruda, cuja relevância foi reconhecida com a premiação do Nobel de literatura em 1971, é extensa. De modo que só haveria um modo se saber exatamente a que título Chico Buarque e Francis Hime se referem.

Seria a Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada? Ou seria a Cem Sonetos de Amor? Ou seria ainda a Canto Geral? Qualquer que seja a obra, desde que a amada decida não restituir, o prejuízo será considerável.

Como o objeto desta resenha é o Canto Geral de Neruda, ela, a resenha, corporativistamente pode considerar, a título de hipótese, que o alvo da discórdia é mesmo este magnífico volume de poemas de amor pela América Latina e por seu povo.

Se a amada o tomou emprestado e não o leu mesmo – como lamenta a canção –, não sabe o que perdeu. Nessa condição, se vier a nunca restituí-lo, o agravo será ainda maior, pois sequer há a consciência da extensão do dano causado ao ex-namorado.

A canção termina antes que o dilema se resolva, quer entre os amantes, quer para os fãs dos dois músicos que, privados do título do livro citado em meio à discórdia, se veem forçados a tecer hipóteses sobre a obra de Neruda e sobre as imponderáveis razões do coração.

A tradução de Paulo Mendes Campos para este Canto Geral franqueia ao leitor um mergulho sem par na linguagem virtuosa desse poeta chileno que, nessa obra, aventura-se por tempos geológicos e históricos, em meio a uma geografia soberba em vegetação, em fauna, em minério e em sacrifícios:

“Todo o inverno, toda a batalha,
todos os ninhos do molhado ferro,
em tua firmeza atravessada de aragem,
em tua cidade silvestre se levantaram. O cárcere renegado das pedras,
os fios submersos do espinho
fazem de tua aramada cabeleira
um pavilhão de sombras minerais.”

(“XIII. Araucária – Canto Geral do Chile”)

Em Canto Geral, o abundante vocabulário a descrever vida e chão, personagens e intenções, e a narração, a recompor fatos históricos, se embaraçam num exuberante entrelaçamento de raízes, troncos, galhos, folhas, planícies, montanhas, heróis, traidores…

O som e o ritmo dos versos embalam a audição e projetam na retina do leitor paisagens monumentais e cenas de contornos e volumes quase palpáveis, nas quais os dramas humanos se configuram e nas quais a água e o sangue jorram das cordilheiras e dos homens com igual generosidade.

A história da América Latina passa por essas páginas a partir da visão de mundo e da sensibilidade do poeta. Cotejar o que ele diz nesse Canto Geral com livros de história ou com conteúdos da internet é uma atividade instigante. Será que o poeta exagerou em algo?

Fonte: Neruda, Pablo. Canto Geral. Trad. Paulo Mendes Campos. 14 ed. Rio de Janeiro, Ed. Bertrand Brasil, 2008. 


por Jeosafá Fernandez, Doutor em Letras pela USP e Pesquisador colaborador do Depto. de História da USP. Tem, entre seus mais de 50 títulos, O jovem Mandela, O jovem Malcolm X e o ciclo de romances paulistanos Era uma vez no meu bairro (Zonas Norte, Sul, Leste e Oeste)   | Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado

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Revolta de 31 de Janeiro celebrada no Porto

O memorável episódio, precursor da implantação do regime republicano em Portugal, é lembrado na passagem do 128.º aniversário da sua eclosão. Após o 25 de Abril, é também o Dia Nacional do Sargento.

Gravura de Louis Tinayre (1861-1941) representando o ataque, pela Guarda Municipal, ao edifício da Câmara Municipal do Porto em poder dos revoltosos, durante a Revolta Republicana do 31 de Janeiro de 1891, no Porto.Créditos / Wikimedia Commons

A revolta republicana ocorrida a 31 de Janeiro de 1891 no Porto será celebrada naquela cidade do Norte com uma sessão-debate organizada pelo Núcleo do Porto da Associação Conquistas da Revolução (ACR), segundo comunicado emitido por este.

A iniciativa, que assinala a passagem do 128.º aniversário da efeméride realiza-se amanhã, dia 31, pelas 18h, na Cooperativa Unicepe (Praça Carlos Alberto, 128). As intervenções principais estarão a cargo do jornalista Júlio Roldão e de Lima Coelho, director do jornal O Sargento, órgão da Associação Nacional de Sargentos, segundo comunicado do Núcleo do Porto da ACR.

A Associação Conquistas da Revolução tem por objectivo «preservar, divulgar e promover o apoio dos cidadãos aos valores e ideais da Revolução, iniciada em 25 de Abril de 1974» e cultivar «o espírito revolucionário e a consciência social progressista».

O 31 de Janeiro, símbolo da coragem contra a opressão

A Revolta de 31 de Janeiro de 1891 foi o primeiro movimento revolucionário que teve por objectivo a implantação do regime republicano em Portugal – o qual se viria a firmar vitorioso em 5 de Outubro de 1910.

Realizada por soldados e populares cuja maioria ficou no anonimato – veja-se, no jornal republicano Vanguarda, de 24 de Março de 1891, uma lista de presos em que, de muitos, a condenação refere apenas o nome próprio – aos quais se reuniram algumas figuras gradas da oposição republicana, a acção revolucionária ficou também conhecida como «revolta dos sargentos», devido ao importante papel desempenhado por estes na sublevação dos quartéis.

Ao fracasso seguiu-se uma forte repressão, com centenas de militares e civis condenados à prisão e ao degredo em África, em penas que atingiram os quinze anos. Numerosos foram os fugitivos obrigados a exilar-se.

Os detidos tiveram um comportamento exemplar perante o tribunal de guerra que os julgou. Hélder Pacheco, escritor e investigador das tradições e da cultura popular portuense, lembrou, em artigo publicado no JN de 1 de Fevereiro de 2001, as desassombradas palavras de alguns réus e o «notável discurso de defesa apresentado perante o 2.º Conselho de Guerra pelo advogado José Alberto de Sousa Couto». Vale a pena recordar, para memória dos nossos dias, essas palavras.

O actor Miguel Verdial, que intentara revolucionar o Regimento de Infantaria 18 e que, de uma das janelas dos Paços do Concelho, anunciara a composição do governo provisório republicano, declarou aos seus juízes: «o primeiro dos tribunais, para o homem que se estima, é o da própria consciência». Este valente, influenciado pelas ideias de Antero de Quental e simpatizante da I Internacional, que viria a evadir-se do degredo angolano a que a monarquia o condenara, deixou semente humana dos seus feitos: foi pai de Mem Verdial, figura de relevo da oposição democrática ao salazarismo, e Sérgio Godinho, que tão bem tem cantado a vida, o amor e a liberdade, é seu bisneto.

De Manuel Pereira da Costa ouviu-se: «Sou português e hei-de morrer português. Sou republicano e hei-de morrer republicano. Fui preso por perfilhar estas ideias; honro-me disso». E termine-se aqui com o desafio de João Nunes (seria o primeiro-sargento João Nunes Folgado, de Infantaria 10, reintegrado no Exército Português, com outros companheiros, na sessão do Parlamento republicano de 20 de Junho de 1913?) aos seus juízes: «Mais vale o cárcere com a consciência tranquila, do que a liberdade com remorsos. Mais felizes são os vencidos de 31 de Janeiro do que os membros do Conselho de Guerra de Leixões». Quem sabe se não esteve esta frase na origem da proclamação orgulhosa inscrita no monumento que, em 1897, foi erguido no Cemitério Prado do Repouso, em homenagem aos revolucionários do 31 de Janeiro: «aos vencidos»!

Do discurso do advogado José Alberto de Sousa Couto disse Hélder Pacheco tratar-se «de um texto brilhante, que o futuro veio confirmar». Respigue-se, do mesmo, três parágrafos, um no qual defende das calúnias do acusador militar aqueles que «ousaram sair de uma apatia que agrilhoava à mísera obscuridade e infortúnio a nossa existência de povo», outro em que dá conta da adesão entusiástica dos portuenses, e um terceiro em que remete para a história o julgamento justo dos intervenientes:

— Havemos de horrorizar-nos perante a abnegação de tantos homens que se inspiraram nos males da pátria e aos quais movia um esforço digno dela?

— E que vos direi do aplauso do povo? Não o sabeis, por ventura? Não chegaram aos vossos ouvidos os ecos desse entusiasmo? Não é certo que no Campo da Regeneração o povo fraternizou com o exército, cooperando com ele junto ao quartel de Infantaria 18? Não é certo que na Rua do Almada se encheram as janelas de gente, aplaudindo o desfilar das forças? Não é certo que a Praça de D. Pedro parecia uma manhã de festival, de jubileu, onde reinava a maior alegria no rosto de todos?

— Por tão acumuladas razões vós haveis de ser clementíssimos para tantos infelizes. E que razão há para o não serdes? Vós julgais, mas a História vos julgará...

31 de janeiro
 
Panfleto da Oposiçãao Democrática apelando à comemoração do 31 de Janeiro (n.a., s.d.). Créditos

O deflagrar do movimento no Porto não foi um acaso: as tradições democráticas e liberais da cidade facilitaram um temporão desenvolvimento do movimento republicano na cidade. Vitoriosa enfim a República, em 1910, nesse mesmo ano os portuenses renomearam a Rua de Santo António – que a multidão subira em festa antes de ser detida e fuzilada pelas espingardas da Guarda Municipal – como Rua 31 de Janeiro, em memória dos insurrectos.

Após o golpe militar de 1926, o fascismo não pôde suportar um nome que lembrava uma autêntica revolta popular. Em 1940 a rua voltou ao nome de Santo António, mas não conseguiu fazer esquecer aos democratas, republicanos e antifascistas, a corajosa luta de populares e soldados em 1891. A comemoração do 31 de Janeiro, apesar das fortes medidas repressivas com que o regime cercou a data, foi sempre um momento de luta da oposição a Salazar e Caetano.

Com o 25 de Abril de 1974, o regime democrático saído da Revolução de Abril, reverteu a medida salazarista e os portuenses voltaram a ter a sua Rua 31 de Janeiro.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/cultura/revolta-de-31-de-janeiro-celebrada-no-porto

Os tribunais políticos da ditadura – Recordar é alertar

Basta a passagem de uma geração para apagar a memória da repressão, esquecer o que foi a ditadura e desprezar o salto que o País deu na educação, saúde, riqueza e liberdade.
Comparar qualquer democracia, por pior que seja, a uma ditadura, por mais branda que se afigure, é uma iniquidade intolerável.

Às vezes penso que apenas as vítimas recordam ainda os medos do passado, o pesadelo da guerra colonial, a fome, o analfabetismo, o poder discricionário da polícia política ou o simulacro de justiça que faziam os Tribunais Plenários onde não faltaram juízes que se sentiam honrados pelo convite para tão infamantes funções.

Eram homens sem decoro, biltres com toga, homúnculos investidos em julgadores, que desviavam o olhar e riam, quando, nas audiências, os pides agrediam democratas, réus do delito de opinião e da luta pela democracia.

Encontrei o despacho de um dos mais sinistros magistrados desses tempos ominosos, de uma criatura que terá ficado impune, ele e outros crápulas sem remorsos, hoje defuntos. Para o desembargador Morgado Florindo terá sido o último, na manhã do 25 de Abril, antes do julgamento que ia ter lugar, depois de um telefonema direto que fez à DGS:

«Tendo a Direcção-Geral de Segurança comunicado telefonicamente a impossibilidade de assegurar a condução dos réus a este tribunal, devido ao Movimento das Forças Armadas, adio “sine-die” o julgamento».

Não foi a Pide que lhe comunicou, como cobardemente escreveu o biltre, foi ele que, na sua subserviência, se informou.

Em homenagem a uma vítima abatida a tiro pela Pide, na Rua dos Lusíadas, ilustro este texto com um desenho seu, escultor José Dias Coelho.

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2019/01/os-tribunais-politicos-da-ditadura.html

Ontem na SIC

J. M. Júdice e o seu
regresso à juventude fascista
Ontem em debate com Francisco Louçã na SIC, José Miguel Júdice resmungou que no tempo de Salazar havia mais liberdade do que há hoje na Venezuela. Como não pretendo gastar cera nova com tão ruim defunto, recomendo apenas a leitura deste meu post de 2014 que julgo explicar o título lá em cima.

ler aqui

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

João Vaz de Amorim

(1880 – 1962)

Cidadão republicano e antifascista, um dos raros padres que, corajosamente, se distanciaram da cumplicidade da hierarquia da Igreja Católica com o Estado Novo.

Conhecido como «literato e paladino da Democracia», este sacerdote de origem humilde é recordado por quem o conheceu como «personalidade invulgar», caracterizada pela sua bondade, pela vocação cristã, pelo seu inabalável amor à República e pela erudição no campo das letras e da investigação histórica e arqueológica. Em 1949, foi candidato na lista da Oposição em Vila Real, mas não foi aceite [sob o pretexto oficial de que não fora possível obter a sua certidão de eleitor, facto que ele mais tarde desmentiria].


João Vaz de Amorim nasceu em Vilarinho das Paranheiras, no concelho de Chaves, onde também veio a falecer. Fotografia de Vilarinho de Paranheiras (aldeia situada a 2 km de Vidago e a 15 km de Chaves)

João Baptista Vaz de Amorim, celebrizado na literatura com o pseudónimo de João da Ribeira, nasceu em Vilarinho das Paranheiras, aldeia do concelho de Chaves, onde também veio a falecer. Foi uma das principais referências morais e intelectuais do seu tempo em Trás-os-Montes.

No concelho de Valpaços há memória da grandeza do Padre João Baptista Vaz de Amorim, e gratidão pela simpatia que ele manifestou e inspirou por essas terras, como sacerdote e erudito, bem como pela árdua e exemplar luta que travou, enquanto ali viveu, contra o temível regime ditatorial do Estado Novo.

Sacerdote de origem humilde

Quando o seu pai faleceu, João Vaz de Amorim contava apenas dois anos de idade e passou a viver com a mãe e a irmã na residência de seu tio materno, José Caetano de Amorim, em Friões, pároco desta aldeia do concelho de Valpaços. Terá sido junto deste sacerdote que Vaz de Amorim fez a instrução primária.

Tendo sido pároco de Loivos (Chaves), e em Bouçoais (Valpaços) mais tarde regressou à sua terra natal, Vilarinho das Paranheiras, que paroquiou até ao fim da sua vida

Após o exame de admissão ao liceu em Bragança e os primeiros estudos secundários em Valpaços, foi encorajado a prosseguir os estudos secundários no Colégio de S. Joaquim, em Chaves, antes de ingressar no liceu-seminário de Guimarães. Aí fez os 4.º e o 5.º anos de Humanidades e, nos dois anos seguintes, os estudos no ramo das Ciências obtendo também aprovação nesta área. Com 16 anos, concluíra os cursos de Humanidades e de Ciências quando foi convidado a leccionar naquele colégio. Nessa altura havia já tomado a decisão de entrar para o Seminário de Braga onde, em 1901, se ordenou sacerdote com a idade de 21 anos. Coube-lhe então paroquiar uma aldeia do concelho de Valpaços, a aldeia de Padrela. Foi no decurso destas funções que recebeu a boa nova da implantação da República em Portugal, República pela qual revelou desde a sua juventude, em Chaves, uma ardorosa e incessante paixão.

Bondade e vocação cristã

Pouco tempo depois decide emigrar para o Brasil onde exerceu funções junto do arcebispo de S. Paulo. Essa decisão tomada pelo Padre João de Amorim tem sido alvo de controvérsia, havendo quem a interprete como consequência do desencanto do pároco perante os excessos de anticlericalismo cometidos pelos republicanos da 1ª República e que resultaram na prisão dos seus colegas[1]. Mas há também quem julgue que a sua precipitada partida para o Brasil fora motivada «por razões pessoais e nunca porque se desse mal com o regime implantado» . Não tardou, porém, a regressar a Portugal.

Ermidas, freguesia de Bouçoais, onde Vaz Amorim foi pároco

Tendo sido pároco de Loivos, no concelho de Chaves, durante 23 anos, e em Bouçoais (onde se manteve por mais um longo período, que tem sido considerado como o mais próspero da sua vida nas áreas da investigação histórica e arqueológica e da produção literária), mais tarde regressou à sua terra natal, Vilarinho das Paranheiras, que paroquiou até ao fim da sua vida.

Inabalável amor à República

Assumiu sempre publicamente as suas convicções políticas de democrata e republicano. A coragem com que o Padre João Baptista Vaz de Amorim se bateu em defesa da Democracia e contra a ditadura do Estado Novo, é frequentemente evocada pelos seus biógrafos e referida em trabalhos científicos na área da história política em Portugal deste modo:

João Baptista Vaz de Amorim foi um dos pioneiros dessa mole de transmontanos valpacenses que, destemidamente, tomou a dianteira no alinhamento pela oposição ao regime ditatorial instituído»

Em 1958, já com 78 anos, coerente com a sua ideia política de sempre, presidiu em Chaves ao jantar de homenagem ao General Humberto Delgado. Quiseram então um grupo de amigos festejar os seus 80 anos, colocando junto à velha casa de Vilarinho das Paranheiras onde havia nascido, uma lápide de homenagem, penhor de amizade e adoração dos seus conterrâneos e que testemunhasse aos futuros o valor e dignidade daquele homem. Não o consentiu o Governador Civil da época e nada mais foi possível que uma modesta visita de poucos, dos muitos que gostariam de demonstrar-lhe quanto sentiam e admiravam a sua magnífica lição. Dois anos depois, em 1962, o Padre João Vaz de Amorim faleceu.

Sessão de campanha eleitoral de Humberto Delgado, no Cine-Teatro de Chaves, a 22 de Maio de 1958

Com a casa de espectáculos completamente esgotada, e decorada com as cores da bandeira nacional, a multidão não se cansou de aclamar o General, e de dar vivas a Portugal, à Republica e à Liberdade. A mesa, presidida pelo General, Delgado, tinha a ladeá-lo o Padre João Vaz Amorim, entre outros velhos republicanos

Foram muitas as dificuldades com que depararam os seus amigos quando se propuseram homenageá-lo, ainda em vida, pelos «serviços prestados na propagação dos valores cristãos, da cultura e da democracia» na própria aldeia onde ele havia nascido[2].

Só em 1974, livres de quaisquer peias, foi possível, finalmente, colocar essa lápide adiada a realçar publicamente a esplêndida lição desse homem, exemplo de uma vida nobilíssima como sacerdote e erudito, nunca esquecida dos ideais da República. A assinalar a sua grandeza humana existe actualmente uma lápide e uma rua como seu nome na sua terra natal e uma outra em Chaves[3].

Erudição no campo das letras e da investigação

João Vaz de Amorim

Dedicado à investigação e à publicação de importantes apontamentos históricos, arqueológicos e políticos, o Padre Amorim, em virtude da sua paixão pela Arqueologia, a História e Heráldica, é considerado como «figura tão rara e sábia como seu Mestre» (assim ele se referia ao Abade de Baçal).

Deixou um vasto legado de trabalhos repartidos em diversas publicações, quer durante a sua estada no Brasil, quer posteriormente em Portugal. Ali, movido pelo seu amor à Pátria e leal como sempre ao ideário republicado democrático, publicou a “Voz de Portugal” e a “Pátria”; em Portugal, na imprensa regional transmontana, e com o pseudónimo de “João da Ribeira” divulgou apontamentos. No “Comércio de Chaves” – entre 1939 e 1947, os vários artigos que compõem a sua obra “Por Montes e Vales… Terras de Monforte e Montenegro” – no “Almanaque de Lembranças de Chaves”, no “Mensageiro de Bragança” e no “Vilarrialense”. Publicou alguns livros, entre os quais, “Pelos Montados da Serra”, e trabalhos sobre Arqueologia, nomeadamente ”Na Citânia de Briteiros: uma pedra enigmática?” (1952).

[1]

Dera-se, entretanto, a implantação da República e ele não tolera a prisão de padres, seus colegas. Por causa dessa sua postura emigra para o Brasil, assumindo funções junto do Bispo de S. Paulo. Mas a pedido da mãe regressa a Portugal e é colocado em Loivos, onde esteve 23 anos, como Pároco. Depois a seu pedido foi colocado na freguesia de Bouçoais e aqui se dedica à investigação histórico arqueológica, publicando artigos sobre diversas matérias, nos jornais e revistas da época, quase sempre assinados com o pseudónimo de João da Ribeira.»

In 1 volume do Dicionário dos mais ilustres Trasmontanos e Alto Durienses, Editora Cidade Berço.

[2] Em 1960, por interferência da PIDE, foi anulada a preparação de uma homenagem dos «transmontanos liberais ao padre João Baptista Vaz de Amorim».

[3] Referência a JVA na introdução a uma edição (em sua memória) da Revista “Aquae Flaviae”.


Dados biográficos


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/joao-vaz-de-amorim/

Salazar e a Maçonaria: uma estória mais velha que “o Diabo”

O jornal “O Diabo” descobriu, para manchete desta semana, uma estória de “toda a gente” conhecida e com a provecta idade de coisa de um século: Bissaia Barreto, um grande amigo pessoal de Salazar e seu médico de confiança, era maçon! Oh, diacho…

A capa de “o Diabo”…

Maçon e destacado obreiro da “Loja”, poderiam acrescentar. Mas, se quiserem entrar por aí, os jornalistas de “O Diabo” têm à sua espera grandes surpresas. E, essas, não, não são do conhecimento de “toda a gente”. Sem esgotar a matéria, aqui lhes deixamos algumas pistas.

Quem foi, pessoalmente, a casa de Salazar convencê-lo a vir para o Governo como ministro das Finanças, foi um alto dirigente da Maçonaria, líder do golpe de Estado de 28 de Maio de 1926 e com quem Salazar se solidarizou quando esse dirigente foi afastado por Gomes da Costa.

E foi um dos escassíssimos ministros que abandonaram o governo em solidariedade com o almirante Mendes Cabeçadas. Enquanto o general Gomes da Costa esteve à frente do governo, Salazar manteve-se afastado, por terras de Coimbra, e só depois do golpe palaciano do general Carmona ter afastado Gomes da Costa – exilando-o para os Açores – é que aceita regressar ao ministério das Finanças. E, de novo, pela mão de um maçon: o próprio general Carmona.

Reunião do Governo a 7 Junho 1926. Vários maçons sentados a esta mesa presidida por alto responsável do GOL e Presidente da República, almirante Mendes Cabeçadas. A 12 Junho, Salazar já aqui se sentará…

Vários dos seus colaboradores directos – alguns mesmo nas funções de chefe de gabinete – eram maçons. E, durante décadas, maçons foram presidentes da Assembleia Nacional… Salazar sabia-o? Pelo menos, nem sempre o terá sabido… Esses maçons estavam lá apenas para o assessorar ou estavam a executar uma estratégia de containment? É sabido (pelo menos, por algumas pessoas ainda vivas) que Salazar sempre se queixou, na intimidade, da falta de amizade e até de apreço pessoal que lhe votava o general Carmona…

General Carmona a fuzilar Salazar com o olhar…

Um Carmona que, à revelia de qualquer membro dos seus governos, sempre controlou, com homens da sua confiança pessoal e política, os aparelhos de informação e de segurança: Até colocou Delgado a “conter” a Legião Portuguesa e Galvão a dirigir e orientar a nóvel Emissora Nacional (homens que após a morte de Carmona se revoltarão contra a o “novo rumo” de Salazar…). Pela área da segurança se chega  ao caso caricato do homem a quem a propaganda da área do PCP apelidou de “o Anjo Negro de Salazar” (e a quem os “files” da americana OSS chamam “Jimmy” e identificam como um colaborador precioso em operações americanas de “deception”…).

Esse homem (oriundo do grupo do fundador da República, o carbonário almirante Machado dos Santos, líder da Alta Venda e que Carmona agracia com a Grã-Cruz da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito, a título póstumo, a 4 de Setembro de 1926), o capitão Agostinho Lourenço é uma das peças decisivas do dispositivo de comando, controlo e containment montado pelo general Carmona e é também amigo de um alto dirigente da Maçonaria e interlocutor privilegiado da Grande Loja Unida de Inglaterra em Lisboa.

Cap. Agostinho Lourenço (fardado) e Ramon Nonato de La Fério (de óculos), em cerimónia republicana, 1931.

Em resumo, Salazar esteve sempre de tal modo rodeado de maçons que até já houve quem (desafiando qualquer réstia de bom senso e sem sombra de prova aceitável…) se atrevesse a declará-lo um “iniciado”… Enfim, “o Diabo” abriu uma caixinha da Pândora e até poderia agora, nesta matéria, passar da “estória” para a “história”. Mas isso são já “outros quinhentos”!

Salazar, o Maçon, by Costa Pimenta (magistrado e investigador da Universidade de Lisboa)

Exclusivo Tornado / IntelNomics


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Coimbra, 1969 e depois

A história dos últimos anos daoposição ao Estado Novo não pode ser feita sem ter em conta o movimentoestudantil e, dentro deste, sem mencionar os acontecimentos que tiveram lugarem Coimbra durante a «crise académica» vivida entre Abril e Julho de 1969. A perfazeragora meio século, esta configurou um momento crítico da vida portuguesadaquela época, marcando para sempre o país, a cidade, a sua universidade e quema viveu. Tendo sucedido numa fase de relativa abertura do regime – em plena«primavera marcelista», um tempo de esperanças rapidamente goradas –,representou, para toda uma geração de universitários, uma parte inesquecíveldas suas biografias pessoais e uma escola de política e de democracia. Ao mesmotempo, ajudou a sacudir um sistema político decrépito que cinco anos depoisiria ruir com estrondo.

É preciso, no entanto,reconhecer que a «crise de 69» não foi, de modo algum, um começo ou o fim depercurso. Quem conhece a história da sociedade estudantil coimbrã – e existemhoje já muitos e bem fundamentados estudos sobre o seu trajeto, para além das memóriaspessoais disponíveis –, sabe que ele começara muito antes. Estava presente jána intervençãp disruptiva da Geração de 70 e depois na atividade do movimentorepublicano, vindo de seguida a preencher um importante papel nas longasdécadas de oposição à ditadura e a Salazar. Particularmente a partir de 1961-1962,foram surgindo e impondo-se no meio estudantil formas práticas de resistênciapolítica, social e cultural, apoiadas na oposição organizada, mas também naafirmação de uma nova voz juvenil, cosmopolita e plural, emergente na culturainconformista dos «anos sessenta». Esta foi ampliando as fileiras democráticas,estando na origem do ambiente social efervescente que gerou e alimentou a«crise».

Ocorria então a transformação gradual de uma atividade estudantil sobretudo associativa e reivindicativa, mas ainda algo corporativa, numa outra, já na forma de movimento, que passou a exigências de natureza mais ambiciosa e mais assumidamente política, voltadas para a contestação do próprio regime. Foi isto que de seguida aconteceu em Coimbra com a forte politização do movimento desenvolvida a partir de 1971. Foi entre este ano e o 25 de Abril de 1974 que se ergueu um movimento de contestação, agora assumida e frontal, do regime e da Guerra Colonial, envolvendo setores que iam dos católicos progressistas e do PCP a uma hiperativa esquerda radical e libertária, que finalmente chegaram os ecos culturais e políticos do Maio de 68, que se operou uma rápida revolução nos costumes, gostos e práticas culturais, que se construiu um movimento estudantil diversificado e cada vez mais poderoso, com uma presença crescente das mulheres e uma aproximação ao movimento operário, apesar dos esforços do regime ao fechar o edifício da Associação Académica e ao agravar dramaticamente a repressão sobre os estudantes, muitos espancados pela polícia, muitos presos pela PIDE e torturados.

A«crise de 69» constituiu, por isso, um momento de transição e viragem. Por umlado, teve ainda uma natureza reformista, apostada em exigências vagas erelativamente «suaves», como o direito das organizações estudantis a seremouvidas em matérias do seu interesse e a defesa de um ensino menos rígido, menoselitista e mais adequado a um país em mudança. Por outro, permitiu umapolitização que abriu as portas à radicalização dos anos que se seguiram e contribuiupara a queda do regime. Por isso, é falsa a mitografia da «crise de 69» que aapresenta como momento isolado e único. Mas é justa a sua interpretação como tempode consciencialização política de numerosos estudantes e professores, bem como demuitos habitantes da cidade e do país que viram na bravura de tantos rapazes eraparigas de Coimbra capazes de pôr os interesses pessoais ao serviço docoletivo, o sinal de que, como lembrava Thetimes they are a-changin’, acanção de Bob Dylan saída em 1964, os tempos estavam a mudar.

Fotografia: Assembleia Magna nos jardins da AAC em Maio de 1969, por Fernando Marques «Formidável». Artigo publicado no Diário As Beiras de 26/1/2019

Ver original em 'A Terceira Noite' na seguinte ligação:

http://www.aterceiranoite.org/2019/01/26/coimbra-1969-e-depois/

Tempo dos Filipes, tempo do PREC

filipes

Durante o Estado Novo, o passado de Portugal ensinado na primária – nas antigas terceira e quarta classes – era muitíssimo simplificado, embora contivesse uma pesada carga de ideologia. Os conteúdos eram apenas de natureza heróica, épica ou sagrada, e na forma tudo era limitado aos factos mais básicos, dispostos numa cronologia linear que seguia ano após ano a mera ordem das dinastias e dos reis. Terminava em 1910, naturalmente, e depois dava um salto até 1926 e à emergência de Salazar. A Primeira República desaparecia assim, apresentada, tal como os anos que se haviam seguido à Revolução de 1820, como a era «do gato e do rato». Uma permanente e insana balbúrdia que era preciso apagar.

O período de subordinação à coroa instalada em Madrid que decorreu entre 1580 e 1640 – legítima, aliás, à luz dos princípios de transmissão dinástica então em vigor – era chamado de «dinastia dos Filipes» e tratado, literalmente, em menos de um minuto. E só na Faculdade me apercebi de que, afinal, o «tempo dos Filipes» correspondeu a uma das fases mais dinâmicas da história portuguesa, sobretudo nos planos cultural, económico, militar e de gestão do Império. Tenho a certeza de que ainda hoje isto soará estranho a muitos portugueses, mas se têm dúvidas procurem informar-se, pois são relativamente fáceis de encontrar as obras sobre o período de Diogo Ramada Curto, Fernando Bouza Álvarez ou mesmo Joaquim Veríssimo Serrão.

25abril

A direita tem procurado disseminar a mesma imagem negativa a propósito do 25 de Abril, olhado como mero golpe militar, e do «biénio revolucionário», o PREC de 1974-1975, como uma era de anarquia, desatino e perseguições. Muitos dos seus partidários, sem conhecerem uma linha completa da história do período, divulgam essa imagem, na ignorância de que, tendo sido de facto um tempo conturbado – não existem revoluções sem conflitos – foi-o também de viragem, conquista de direitos, abertura cultural, dinâmica social, reconhecimento da inevitável descolonização e visibilização de Portugal no mundo. De preparação para a democracia que hoje somos e da qual se procuram servir.

Ver original em 'A Terceira Noite' na seguinte ligação:

http://www.aterceiranoite.org/2019/01/22/tempo-dos-filipes-tempo-do-prec/

Ary dos Santos

(1937 – 1984)

Militante da Resistência, José Carlos Ary dos Santos foi, até ao fim, a voz e a palavra conjugadas num raro e inato talento. Poeta criativo, expressivo, um poderoso inventor de metáforas e de imagens que ficaram no território dos afectos e dos combates contra o fascismo.

Tornou-se conhecido do grande público como um dos mais talentosos poetas da sua geração e, durante a Ditadura, contribuiu para a renovação da música ligeira portuguesa, através dos poemas, que considerava serem a sua maneira de falar ao povo[1]. «A sua importância para a poesia moderna portuguesa é inegável, não só por ser um cidadão-poeta empenhado desde sempre na transformação social, o que adquire expressão maior pós 25 de Abril, como na renovação do fado, a canção típica da sua bem amada cidade Lisboa». Apropriou-se da linguagem popular e recuperou-a para uma linguagem erudita da poesia[2].

A vida

Filho mais velho do médico Carlos Ary dos Santos e de Maria Bárbara de Castro Pereira, José Carlos Pereira Ary dos Santos nasceu em Lisboa, a 7 de Dezembro de 1937, numa família aristocrata da alta burguesia[3]. Iniciou a instrução no Colégio Infante Sagres mas, (expulso por “mau comportamento”) transitou para o Instituto Nuno Álvares, um colégio interno em Santo Tirso. Mais tarde, regressou aos estudos em Lisboa, no Colégio São João de Brito, no Lumiar. Apesar de não ter terminado nenhum curso superior frequentou as faculdades de Direito e de Letras de Lisboa.
Ary dos Santos inicia-se muito cedo na escrita de poesia. Após a morte da mãe foram publicados, pela mão de familiares, alguns dos seus poemas. Tinha 14 anos e viria a rejeitar esse livro (“Asas”), considerando-o de fraca qualidade, mas não tardou, porém, a revelar-se como poeta, ao ser incluído na Antologia do Prémio Almeida Garrett, em 1954 (ladeando com nomes consagrados da poesia portuguesa).

Pela mesma altura, aos 16 anos, incompatibilizado com o pai, abandonou a casa da família e, para assegurar o sustento económico, exerce as mais variadas actividades, desde vendedor de máquinas de pastilhas elásticas a paquete na Sociedade Nacional de Fósforos ou escriturário no Casino Estoril. Em 1958 Ary dos Santos inicia uma carreira profissional na área da publicidade, onde irá ter bastante êxito, fruto da enorme criatividade que revela em “slogans” publicitários que ficaram na memória dessa geração.

Ary dos Santos inicia a actividade política em 1969, integrando a CDE de Lisboa. Publicitário com uma imaginação prodigiosa, foi então um dos autores dos cartazes da campanha eleitoral das CDEs [com destaque para algumas expressões, tais como “No teu voto a força do povo”], elementos determinantes na mobilização popular conseguida nessa altura. A partir daí, apoia pessoas e causas com uma generosidade que verá reconhecida, afirma-se contra a Ditadura e, a par da intervenção como poeta, desenvolve intensa actividade de militante da Resistência, deslocando-se por todo o país para se integrar em espectáculos da Oposição, declamando poesia. Após o 25 de Abril entra para o PCP, partido em que militará até à morte, servindo-o como poeta, com coragem e humildade, derramando assiduamente poesia, em comícios ou em sessões políticas da esquerda[4].Torna-se um activo dinamizador cultural da esquerda, percorrendo o país de lés a lés. Notabilizou-se então como declamador. [Gravou um duplo álbum contendo O Sermão de Santo António aos Peixes, do Padre António Vieira].

Homossexual assumido, viveu praticamente toda a sua vida no nº 23 da Rua da Saudade, um histórico lugar de encontro de intelectuais progressistas, amigas e amigos do poeta, e de gente ligada ao mundo da canção e da música. 

José Carlos Ary dos Santos era um homem de causas, generoso e excessivo, temperamento que não foi alheio à sua morte prematura. Faleceu a 18 de Janeiro de 1984, vítima de uma cirrose e foi sepultado no cemitério do alto de São João.

A obra. Os poemas. A voz. A memória de Ary

A sua estreia literária (efectiva) dá-se em 1963 com a publicação do livro de poemas “A liturgia do sangue”. No ano seguinte é editado o “Tempo da lenda das amendoeiras” e o poema “Azul existe” que será representado no Tivoli, no Teatro da Estufa Fria e na RTP.

Depois, ao longo da carreira, Ary dos Santos foi publicando livros de poemas, como:

  • “Adereços, endereços”, em 1965;
  • “Insofrimento in sofrimento”, em 1969;
  • “Fotos-grafias”, um livro que foi apreendido pela PIDE, em 1971;
  • “Resumo”, em 1973;
  • “As Portas que Abril Abriu”, em 1975;
  • “O Sangue das Palavras”, em 1979;
  • “20 Anos de Poesia”, em 1983. 

As extraordinárias capacidades criativas de Ary dos Santos estiveram patentes numa área que, cedo, lhe logrou grande sucesso e popularidade junto do grande público: a de autor de poemas de canções e fados, editados em disco e apresentados repetidamente na rádio e na televisão, bem como em espectáculos por todo o país. Autor de mais de 600 poemas para canções, colaborava assiduamente com vários compositores, de que se destacam Nuno Nazareth Fernandes e Fernando Tordo, mas também Alain Oulman, José Mário Branco, Paulo de Carvalho e António Victorino de Almeida.

A sua ligação ao fado foi iniciada com José Manuel Osório, editando disco, em 1967, o poema “Desespero” [publicado no livro “Liturgia de Sangue”, 1963]. Posteriormente, escreverá para vários fadistas, tendo colaborações muito regulares com Amália Rodrigues e Carlos do Carmo[5]. Representativos do grau de popularidade, que os poemas de Ary dos Santos atingiam junto do grande público, são os temas “Estrela da Tarde”, “Lisboa, Menina e Moça” ou “Os Putos”, interpretados por Carlos do Carmo, com músicas de Fernando Tordo e Paulo de Carvalho. O seu nome ficou ligado para sempre a um disco de Carlos do Carmo, que marcou a História do Fado, o LP “Um Homem na Cidade”, de 1977, inteiramente concebido com poemas de Ary dos Santos. [O mesmo formato será aplicado no álbum “Um Homem no País”, editado em 1984, também com as letras do poeta, musicadas por vários compositores]. Com Fernando Tordo escreveu mais de 100 poemas, destinados a canções do músico; e o duo Tordo/Ary continua a ser, até hoje, um dos mais notáveis da História da música ligeira portuguesa.

À data da sua morte tinha em preparação um livro de poemas intitulado As Palavras das Cantigas, que foi publicado pelas Edições Avante, em 1989, (com coordenação de Ruben de Carvalho); e, também, uma autobiografia romanceada a que pretendia dar o título de “Estrada da Luz – Rua da Saudade”. Ainda em 1984 foi lançada a obra VIII Sonetos de Ary dos Santos, com um estudo sobre o autor, de Manuel Gusmão e planeamento gráfico de Rogério Ribeiro, no decorrer de uma sessão na Sociedade Portuguesa de Autores, da qual o autor era membro. Em 1988, Fernando Tordo editou o disco O Menino Ary dos Santos, com os poemas escritos por Ary dos Santos na sua infância. Em 1994, foi editada “Obra Poética”, uma colectânea dos seus poemas.

Edições discográficas

A teatralidade patente na sua voz vibrante encontra-se registada em várias edições discográficas, onde se apresenta como declamador. O seu primeiro disco, “Ary por si próprio” data de 1970. No ano seguinte participa no LP “Cantigas de Amigos”, juntamente com Natália Correia e Amália Rodrigues. Em 1974 surge “Poesia Política”, em 1975 “Llanto para Afonso Sastre y Todos”, em 1977 “Bandeira Comunista”, em 1979 “Ary por Ary” e, no ano seguinte, “Ary 80” [que seria reeditado em CD em 1999].

Homenagens

A 4 de Outubro de 2004 foi feito Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique a título póstumo.

O seu nome foi atribuído a um largo do Bairro de Alfama, e descerrada uma lápide evocativa na fachada da sua casa, na Rua da Saudade, onde viveu praticamente toda a sua vida; foi também dado o seu nome a uma rua em Benfica, no Bairro das Pedralvas (Lisboa).

Em 2009, Mafalda Arnauth, Susana Félix, Viviane e Luanda Cozetti dão voz ao álbum de tributo Rua da Saudade – canções de Ary dos Santos.

Em 5 de Outubro de 2013, a Associação Conquistas da Revolução levou a cabo, na Voz do Operário, em Lisboa, uma sessão pública de homenagem ao poeta, com o espectáculo «As Portas que Abril Abriu – Homenagem ao Poeta da Revolução», uma homenagem integrada nas comemorações do 40.º aniversário do 25 de Abril.

Em 2014, trinta anos depois da sua morte, foi homenageado na Festa do Avante, num espectáculo-Café-Concerto.

Hoje, o poeta é conhecido e reconhecido por muitos como “poeta do povo” e a sua obra permanece na memória da geração da Revolução. Muitos dos grandes cantores o interpretaram e, ainda hoje, surgem novas vozes a cantá-lo[6].

[1] Escreveu poemas de 4 canções vencedoras do Festival RTP da Canção, apuradas para representarem Portugal no Festival Eurovisão da Canção: Desfolhada Portuguesa (1969), com interpretação de Simone de Oliveira, Menina do Alto da Serra (1971), interpretada por Tonicha, Tourada (1973), interpretada por Fernando Tordo e Portugal no Coração (1977), interpretada pelo grupo Os Amigos. São de suas autorias canções intemporais, como Estrela da Tarde, Cavalo à Solta, Lisboa Menina e Moça, O amigo que eu canto, Café, Dizer Que Sim à Vida, Rock Chock, Meu amigo está longe. Estas canções foram interpretadas por cantores como Fernando Tordo, Carlos do Carmo, Mariza, Amália Rodrigues, Mafalda Arnauth e Paulo de Carvalho.

[2]

São raros os poetas que conseguem o ritmo encantatório, quase alucinado que imprime aos seus versos. Ler Ary no silêncio das páginas acaba sempre por acordar a sua poderosa voz de declamador em que sabia como poucos enfatizar a oralidade omnipresente na sua poesia escrita para ser dita ou cantada. (…) Uma poesia viril, uma voz indomada e indomável, como bem escreveu Baptista-Bastos».

Manuel Augusto Araújo, Praça do Bocage

in ARY, o POETA do POVO e da REVOLUÇÃO

[3] Além de José Carlos, o casal teve mais duas filhas, Maria do Rosário e Maria Isabel, e um outro filho, Diogo. Quando era ainda adolescente a sua mãe morre e o pai volta a casar. Dessa relação nasce a sua meia-irmã Ana Maria.

[4]

Sensível até ao desatar das lágrimas, um sátiro que usava com destreza e originalidade o verbo para despir na praça os hipócritas, os sabujos e deixar à mostra o cetim estiraçado da moral burguesa. (,,,) Com a clareza efabulatória das palavras que a sua voz potente purificava e o guindaram próximo e amado do povo, com a inquietação das nossas mais fundas interrogações existenciais: a raiva, a ternura, o combate, a ironia, a solidão e o amor levados a limites de exaltação e acerto sintáctico como raros poetas entre nós conseguiram expressar com igual mestria e vigor, argúcia narrativa e assertiva evidência»

Domingos Lobo, “O poeta que Abril nos deu”

in O poeta que Abril nos deu

[5] A convite de Alain Oulman escreve, em 1968, o poema “Meu amor meu amor” para ser interpretado por Amália Rodrigues. Seguiram-se temas como “Amêndoa Amarga”, “Alfama”, “Rosa Vermelha”, “O Meu é Teu” e “O Meu Amigo está Longe”.

Ainda no âmbito da sua criação de poemas interpretados por fadistas, Ary dos Santos escreverá “Adagio”, em 1973, para a música “Adagio” do compositor Albinoni, a qual foi interpretada por Teresa Silva Carvalho; “Meu Corpo”, em 1974, para o repertório de Beatriz da Conceição; o poema “Roseira, botão de gente”, interpretado por Vasco Rafael na revista “Ó da Guarda”, de 1977; o tema “O País”, de 1981, cantado por Tony de Matos; e os temas “Mãe Solteira”, “Fado Mulher”, “Os Pinheiros” e “A Cidade”, escritos no início da década de 1980 para a fadista Maria Armanda.

[6] Desde Fernando Tordo, Simone de Oliveira, Tonicha, Paulo de Carvalho, Carlos do Carmo, Amália Rodrigues, Maria Armanda, Teresa Silva Carvalho, Vasco Rafael, entre outros, até aos mais recentes como Susana Félix, Viviane, Mário Barradas, Vanessa Silva e Katia Guerreiro.


Dados biográficos

«ARY, o POETA do POVO e da REVOLUÇÃO», Manuel Augusto Araújo, 
in https://pracadobocage.wordpress.com/…/ary-o-poeta-do-povo-…/
Domingos Lobo, “O poeta que Abril nos deu”, inhttp://www.avante.pt/pt/2095/temas/128677/
https://pt.wikipedia.org/wiki/Ary_dos_Santos
http://www.museudofado.pt/personalidades/detalhes.php?id=276
http://www.avante.pt/pt/2078/nacional/127119/
http://www.avante.pt/pt/2095/temas/128677/
http://www.citi.pt/…/li…/poesia/ary_dos_santos/ary_biog.html
https://toponimialisboa.wordpress.com/…/ary-dos-santos-da-…/


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/ary-dos-santos/

Uma efeméride que merece ser sempre evocada

No pós-25 de abril de 1974 era obrigatória a recordação da revolta dos operários da Marinha Grande, quando se chegava a este dia 18 de janeiro. Oitenta e cinco anos depois não vi qualquer referência à efeméride na comunicação social, apesar de se ter tratado de data fundamental no combate à ditadura e demonstrativa da capacidade de, em certas alturas, as dinâmicas sociais conterem em si o potencial de suscitarem alterações qualitativas nos rumos da História.
Não foi o caso, porque as forças ao serviço do salazarismo conseguiram derrotar as aspirações dos que intentaram antecipar em quarenta anos o advento da Democracia, mas seria justo, que se continuassem a celebrar os seus participantes como verdadeiros heróis que foram. Ate porque andamos necessitados de exemplos de gente de coragem, do tipo de antes quebrar que torcer, porque avulta internacionalmente uma cultura de cobardia, traduzida em tantos movimentos fascistas ou deles aparentados, porque outra coisa não são os nacionalistas, os populistas ou os tontos coletes amarelos...

 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/01/uma-efemeride-que-merece-ser-sempre.html

Quem Matou Rosa Luxemburg?

Passaram em 15 de Janeiro 100 anos sobre o assassínio de Rosa Luxemburg e Karl Liebknecht. Publicamos em sua memória dois textos que recordam o contexto histórico desse crime. E também quanto desse crime se projectou na história futura da Alemanha.

A história política alemã do século passado pode ser lida como o relato de um crime. Um assassínio político que antecipou um genocídio. Mas para isso foi necessário em primeiro lugar esmagar a esperança de uma revolução,.

Em 15 de Janeiro de 1919, Rosa Luxemburg e Karl Liebknecht foram presos no apartamento onde estavam escondidos e levados para a sede da Cavalaria de Guarda dos Freikorps (forças paramilitares) no aristocrático hotel Éden. Conta uma testemunha que Luxemburg colocou alguns livros numa maleta, pensando que a esperava uma nova temporada na cadeia. Poucas horas depois, o capitão Waldemar Pabst comunicava por telefone com o ministro do Exército do Reich, o social-democrata Gustav Noske, para pedir instruções sobre como proceder com tão importantes prisioneiros. Havia dias que a imprensa lançava ameaças e insultos contra “Rosa, a sanguinária”, líder da Liga Spartacus e do recém-fundado Partido Comunista Alemão (KPD).

Os social-democratas estavam no poder desde a demissão do Kaiser. O levantamento dos marinheiros e trabalhadores de Kiel tinha sido o impulso inicial de uma série de insurreições locais que culminaram com uma greve geral em Berlim em 9 de Novembro. Nesse dia, o social-democrata Phillipp Scheidemann proclamava a República alemã de uma janela do Reichstag. Poucas horas mais tarde, Karl Liebknecht – prematuramente - anunciou da varanda do Palácio a criação da República Socialista Livre da Alemanha. Vivia-se uma situação de poder dual, com a formação de conselhos de operários e soldados, seguindo o exemplo russo. Para evitar que fora esse o caminho, em 10 de Novembro, o governo chegou a um acordo com o Estado-Maior alemão: o objetivo era conter a revolução e liquidar os spartaquistas, a sua ala mais radical. “Odeio a revolução tanto como a peste!” havia declarado Friedrich Ebert.

Após sua conversa com Gustav Noske, o capitão Pabst deu ordens e o tenente Vogel comandou a execução. Rosa Luxemburgo foi arrastado pelas escadas abaixo, com pontapés e socos no estômago. Quando cruzou a porta, o soldado Otto Runge quebrou-lhe o crânio com a coronha da espingarda. Agonizante, meteram-na num carro onde o oficial Hermann Souchon lhe deu um tiro final na têmpora. O seu corpo foi lançado no Landwehrkanal onde quatro meses depois apareceu a flutuar. Karl Liebknecht havia sido fuzilado algumas horas antes num parque das proximidades. A primeira versão “oficial” foi que tinham sido assassinados por uma “multidão” furiosa quando tentavam escapar. Mas o logro não resistiu a uma investigação mínima. Leo Jogiches, que tinha sido companheiro de Rosa Luxemburgo durante muitos anos e dirigente da Liga Spartaquista, investigou e denunciou os responsáveis pelo assassínio. Em 19 de Março de 1919 Leo Jogiches foi morto na prisão “tentando escapar”; milhares de spartaquistas e de operários revolucionários foram mortos nos meses seguintes. O cineasta alemão teste Klaus Gietinger prova todos esses factos num rigoroso trabalho de investigação que é pela primeira vez publicado em Inglês este ano pela editorial Verso.

Em 1962, o capitão Pabst fez alarde da sua responsabilidade no assassínio dos dirigentes revolucionários: “Eu participei, naquela altura (Janeiro de 1919), numa reunião do KPD, durante a qual falaram Karl Liebknecht e Rosa Luxemburg. Fiquei com a impressão de que os dois eram os líderes espirituais da revolução, e decidi fazer com que fossem mortos. Foram capturados por minha ordem. Alguém tinha que tomar a decisão de ir para além da perspectiva legal … Não foi fácil tomar a decisão de fazer desaparecer os dois … Ainda defendo a ideia de que esta decisão é também totalmente justificável do ponto de vista teológico e moral”.

Pabst contou apenas o que a cobarde social-democracia não se atreveu a confessar. O capitão voltou a assumir um papel preponderante durante o golpe de Estado de Kapp (Kapp-Putsch) em 1920. Mais tarde, colaborou na organização de grupos paramilitares da ultradireita na Áustria. Embora nunca se tenha inscrito no partido nazi, fez parte de grupos de extrema-direita até sua morte em 1970. Nunca foi julgado pelos seus crimes.

Sabemos já que matou Rosa Luxemburg. A questão mais importante agora é o porquê. Rosa Luxemburg e Karl Liebknecht tinham-se oposto à traição da social-democracia que apoiou no Reichstag os créditos de guerra, em 4 de Agosto de 1914. O Partido Social-Democrata alemão tinha-se tornado a mais poderosa organização da Segunda Internacional: um bloco de 110 parlamentares, mais de 4 milhões de votos, 90 jornais próprios, numerosas associações juvenis e de mulheres. Mas este monumental dispositivo foi colocado à disposição do Império Alemão quando a guerra começou, justificando com a ideia de “defesa nacional” que os trabalhadores alemães se matassem nas trincheiras com os franceses.

Luxemburg e Liebknecht representavam a luta contra a guerra imperialista, o combate contra o militarismo alemão, a denuncia das capitulações da social-democracia, a defesa da revolução russa e a ala mais resoluta da revolução alemã. Como Karl Liebknecht escreveu em 15 de Janeiro de 1919, poucas horas antes de morrer:

“Spartacus” significa fogo e espírito, significa alma e coração, significa vontade e acção a favor da revolução proletária. “Spartacus” significa toda a necessidade e desejo de felicidade, significa toda a determinação de luta do proletariado com consciência de classe. «Spartacus» significa socialismo e revolução mundial.

Esse desejo de felicidade ressurgiu na Alemanha em 1921 e em 1923. A história dessas tentativas revolucionárias foi tornada invisível pela historiografia, mas a esperança de um mundo novo renasceu das cinzas uma e outra vez no coração da Europa Ocidental. Só depois de sucessivas derrotas, em grande parte devido ao papel conservador desempenhado pelas grandes organizações operárias como a social-democracia poderia impor-se o nazismo.

Quando Rosa Luxemburgo escreveu em 1916 a Brochura de Junius sobre o dilema “socialismo ou barbárie”, a barbárie fazia-se carne nos dramáticos cartões postais da Primeira Guerra Mundial. Ela não podia imaginar o horror que estava por vir.

Fonte: https://ctxt.es/es/20190109/Politica/23896/Josefina-L-Martinez-Rosa-Luxemburg-politica-Alemania-Karl-Liebknecht-Otto-Runge.htm?fbclid=IwAR0ZgG9ng2mS42I_Eo8KCIYX5vsxBkIyDAQV2wCNPlQ_AZ99ywktnn-Xddc

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References

  1. ^ endereço (www.odiario.info)
  2. ^ odiario.info (odiario.info)

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O mito da sublevação spartaquista

Logo em 1919, uma Comissão parlamentar de inquérito desmontou a falsidade das acusações que procuravam justificar o assassínio de Rosa Luxemburg e de Karl Liebknecht e a ilegalização do DKP. Mas o relatório foi abafado. E ainda hoje a verdade não é inteiramente reconhecida.

Em 19 de Março de 1919, a Assembleia Constituinte prussiana eleita após a Revolução de Novembro criou a Comissão de Inquérito para Determinar as Causas e Progressão da Agitação em Berlim e outras Zonas da Prússia no Ano de 1919. Nos meses seguintes, os 21 membros da comissão entrevistaram dezenas de testemunhas enquanto percorriam montanhas de documentos. Em Julho de 1919, ficara estabelecido que os comunistas não haviam provocado, e muito menos dirigido, as revoltas de Janeiro. Em vez disso, os chamados delegados revolucionários e a seção de Berlim do Partido Social-Democrata Independente (USPD) eram no essencial os responsáveis por ambos.

Os Delegados revolucionários eram na maioria sindicalistas que desde 1916 vinham tramando nos arsenais de Berlim o derrube da monarquia, e que em 9 de Novembro de 1918 lançaram as massas nas ruas. A maioria dos Delegados Revolucionários eram membros do USPD, mas queriam preservar sua autonomia em relação à direção do partido. Com o desencadeamento da revolução, converteram-se em candidatos à disputa do poder em Berlim.

Os comunistas viram-se simplesmente envolvidos nos levantamentos, conclusão que não poderia satisfazer nenhum dos membros da Comissão. Um veredicto público sobre o que realmente acontecera em Janeiro de 1919 teria tornado muito mais difícil justificar por que fora proibido o Partido Comunista e ilegalizado os seus membros desde Março de 1919.

Apesar de todos os seus floreados retóricos, o Comité de Investigação não pôde evitar a seguinte conclusão (embora evitassem incorporá-la nas chamadas Recomendações):

“No domingo seguinte a esses acontecimentos os Delegados Revolucionários e seus homens de confiança reuniram-se novamente […] e decidiram convocar uma greve geral com a finalidade de desencadear um ataque frontal contra o governo. Parece ter sido decisivo nisto o envolvimento de [Heinrich] Dörrenbach [1888-1919] na decisão da divisão Volksmarine e da maioria das tropas regulares da guarnição de Berlim para apoiar esta acção, e no facto de que eles se ter juntado gente de Spandau e Frankfurt. […] É verdade que tanto os independentes e os comunistas desempenharam um papel destacado na acção, e também que tanto os independentes como os comunistas terem advertido contra ela. Assim, por exemplo, Rosa Luxemburg parece ter reprovado o plano por completo, e o Comité Central do Partido Social-Democrata Independente da Alemanha ter explicitamente declarado em anúncio posterior de que não manifestava solidariedade com o projecto liderado pela seção de Berlim do Partido Social Democrata Independente da Alemanha e a Liga Spartacus, juntamente com os Delegados Revolucionários, dos quais por seu lado 60 pertenciam ao Partido Social-Democrata Independente e pouco mais de dez do Partido Comunista da Alemanha. É verdade que os dirigentes intelectuais do movimento eram Karl Liebknecht, Georg Ledebour, Emil Eichhorn e Dorrenbach. Isso não quer dizer que tivessem empenhado muito tempo planeando esta acção em 5 de Janeiro em concreto, ou que tivessem sido os únicos que em 4 ou 5 de Janeiro que saudaram o assalto mais calorosamente. Dito isto, foram estes homens que acreditavam que os deputados do povo da maioria socialista ocupavam ilegalmente os seus lugares e que a violência era necessária.”

O Relatório da Comissão de Inquérito está datado de 8 de Fevereiro de 1921, no meio do recesso parlamentar da Prússia: a Assembleia Constituinte fora dissolvida em 14 de Janeiro de 1921 depois de completar o seu trabalho, e o Parlamento prussiano foi eleito em conformidade com a nova lei em 20 de Fevereiro de 1921. A imunidade dos novos parlamentares foi suspensa até então, permitindo à polícia persegui-los.

O relatório não foi entregue a ninguém, mas foi impresso palavra por palavra, na totalidade, no volume 15 da Recompilação de Materiais Impressos da Assembleia Constituinte da Prússia em algum momento de 1921. Como muitas vezes aconteceu com essas compilações, os seus conteúdos não eram complementados com dados bibliográficos. Assim, as tentativas de investigar a Comissão de Investigação sem o auxílio de suportes bibliográficos têm sido em vão.

Os historiadores depararam-se com este material impresso ao longo dos últimos quase cem anos, mas até hoje nenhum os valorizou seriamente. Embora historiadores de importância, como Heinrich August Winkler, tenham rejeitado a lenda do Levantamento Spartaquista sob a direcção da “Rosa Sanguinária” desde 1984, essa lenda continua a ser activamente difundida.

Fonte: Rosa Luxemburg Stiftung, 3 de Janeiro 2019
http://www.sinpermiso.info/textos/rosa-luxemburgo-a-100-anos-de-su-asesinato

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References

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  2. ^ odiario.info (odiario.info)

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António Fonseca Ferreira

Morreu António Fonseca Ferreira. Para quem nos anos noventa começasse a ter interesse pela questão da habitação em Portugal, procurando relacionar a evolução das políticas com a produção e ocupação de alojamentos e as transformações económicas e acumulação capitalista, encontrava em «Por uma nova política de habitação» (1987) uma espécie de porta de entrada para o conhecimento do setor. Num tempo em que era ainda escassa a produção científica sobre a questão do alojamento em Portugal (num reflexo da crónica subalternização da habitação face às políticas de educação e saúde), a obra mapeava pistas de pesquisa e integrava, tanto de um ponto de vista temporal como analítico, referências em regra dispersas e fragmentadas. Por tudo isto, talvez não seja exagero considerar tratar-se do primeiro ensaio de economia política da habitação escrito em Portugal. Com a criação, em meados dos anos oitenta, da revista «Sociedade e Território», de que é fundador, Fonseca Ferreira contribuiria para congregar reflexões sobre as questões do alojamento, urbanismo e política de cidades ou os processos de planeamento local e regional, aliando a produção de conhecimento a um intenso ativismo social e político. Engenheiro civil de formação, António Fonseca Ferreira exerceu funções de docência (ISCTE e Universidade Atlântica) e, entre outras, de Presidente da Comissão de Coordenação da Região de Lisboa e Vale do Tejo (1998 a 2009), Director Municipal e Assessor do Presidente da Câmara Municipal de Lisboa (Jorge Sampaio) e Director de Serviços no Fundo de Fomento da Habitação. Em 1993, Fonseca Ferreira coordenou a elaboração do «Livro Branco sobre a Política de Habitação em Portugal», apresentado e debatido no Encontro Nacional de Habitação, que contribuiria para obrigar o executivo de Cavaco Silva a responder às carências habitacionais persistentes nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, rompendo assim a narrativa governamental, que projetava Portugal como um «oásis» situado «no pelotão da frente» europeu.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

O fascismo por ele mesmo: António Salazar

Sob o poder salazarista, Portugal perseguiu opositores, torturou civis nas colónias portuguesas e fechou fronteiras até a década de 1950, quando o regime já entrava em crise
Opera Mundi publica, nesta semana, um especial sobre fascismo - contado pelos próprios fascistas. São discursos e entrevistas de Adolf Hitler (Alemanha), António Salazar (Portugal), Francisco Franco (Espanha), Rafael Videla (Argentina), Benito Mussolini (Itália), Emílio Garrastazu Médici (Brasil) e Philippe Pétain (França) que mostram como estas figuras pensavam as sociedades que governavam e justificavam os atos de seus regimes.
António de Oliveira Salazar(1889-1979), nasceu em Santa Comba Dão, Portugal, em uma família simples de trabalhadores rurais. Na juventude, fez seu primeiro contato com os estudos de ciências econômicas e financeiras, até, em 1914, ingressar no curso de Direito na Universidade de Coimbra. Próximo a assuntos políticos, foi eleito deputado em 1921, no momento em que a república vivia um período de instabilidade. Em 1926, Portugal sofre um golpe militar que põe fim ao governo republicano e Salazar assume a pasta das Finanças. Em 1932 o regime chega ao fim e o Salazar assume como primeiro ministro, cargo que viria a ocupar por 36 anos, durante o período denominado Estado Novo Português. 
Assim que assumiu, o ditador estabeleceu uma nova Constituição e determinou a legalidade de um único partido. Sob o poder salazarista, Portugal perseguiu opositores, torturou civis nas colônias portuguesas e fechou fronteiras até a década de 1950, quando o regime já entrava em crise. A partir dos anos 1960, a reação das colônias ao domínio português encabeça a derrocada do Estado Novo, quando Lisboa perde territórios reconquistados pela Índia e enfrenta uma série de conflitos de independência em Angola e Moçambique. Salazar deixa o cargo em 1968 após sofrer um derrame. Com a ditadura em franco enfraquecimento, morre dois anos depois, sendo sucedido por Marcelo Caetano, que conduziu o governo em declínio até a Revolução dos Cravos, em 1974, que encerrou os 48 anos de ditadura, restabeleceu o pluripartidarismo e acabou com o instrumento de repressão do antigo governo.
Três anos antes de deixar a política por problemas de saúde, após anos de liderança autoritária e com o regime próximo do fim, Salazar discursou durante a posse da Comissão Executiva da União Nacional, em 18 de Fevereiro de 1965. Em uma espécie de panorama de seu governo,  o discurso "Erros e Fracassos na era política" reafirma a natureza fascista dos ideais salazaristas. 
Erros e fracassos da era política(18/02/1965)
Meus Senhores:
Tomou posse nova Comissão Executiva da União Nacional e eu dispenso‑me de louvar os que saem e de apresentar os que entram. Embora coisa devida e justa sabe-se que é sempre assim, o que tira às palavras parte do seu valor. Peço‑lhes por isso desculpa que me será concedida, havendo coisas de alguma importância a dizer.
I
A reorganização faz-se num ano crucial da vida política, não porque terminem as guerras do Ultramar, pois que os inimigos que as fazem e os que as sustentam, declaram, quererem continuar a perturbar a vida e o trabalho alheios; não porque tenha de haver eleições de deputados; ainda que relevantes como são sempre; mas especialmente porque novo corpo eleitoral tem de reunir-se para escolha do chefe do Estado e de toda a Nação portuguesa. Seja qual for a evolução dos acontecimentos, não pode haver dúvida de que é nos sete anos a seguir que por imperativos naturais ou políticos se não pode fugir a opções delicadas, e, embora não forçosamente a revisões, à reflexão ponderada do regime em vigor. E é nas mãos do chefe do Estado que virão a pesar as maiores dificuldades e da sua consciência que dependerão as mais graves decisões.
O que é um regime político? Um regime político é a definição dos órgãos da soberania, do modo como se constituem, participam do poder e colaboram para o bem comum da sociedade civil. É também a enumeração daqueles direitos que as leis hão de respeitar no homem e, no nosso caso, ainda a enunciação de princípios morais, sociais e econômicos que se julgam úteis para dar estabilidade à vida do conjunto humano e imprimir à vida nacional uma finalidade. O que quer dizer que um regime pode ser também uma política e não apenas uma constituição. O nosso é uma coisa e outra.
Ora nós quisemos dar ao país, assolado pelas devastações da sua anarquia, um regime novo; mas muitos dos nossos homens públicos, educados na filosofia política do século XIX, têm-nos considerado sempre um governo à espera de eleições “livres” para uma “assembleia constituinte” que vote “nova Constituição” e com ela garanta ao povo “todas as felicidades”. De modo que se verifica o seguinte: abolidas neste País as instituições tradicionais, não se encontra de 1820 a 1926, através das Constituições, Carta Constitucional e Atos Adicionais à Carta, entre revoluções, golpes de Estado, ditaduras ou vida constitucional, não se encontra regime, dizia, de que possa afirmar-se ter vivido ao menos os quarenta anos que para o ano perfaremos. Ao mesmo tempo, nenhum foi tão estável, tão pacífico e eficiente como o atual. E daí provir o absurdo de o provisório ser mais duradouro que o definitivo e o temporário mais estável que o consagrado para a eternidade.
A mim o que mais me admira é não se haver estudado a razão desta sorte de contrassenso. A vida das sociedades humanas está sujeita a evolução, embora mais lenta do que geralmente se cuida, quando atentamos nas suas estruturas fundamentais. Acontece, sim, que à superfície de vez em quando se levantam ondas que mais chamaríamos modas ou efervescências de opinião, destinadas a cair e a acalmar-se, se não se lhes dá a razão de ser da própria vida política, como tem sido muitas vezes o caso. De modo que o essencial é descobrir as linhas mestras da vida nacional que possam adaptar-se, sem se quebrarem, às contingências dos tempos, e definir a orientação que se lhes há de imprimir, e muitas vezes não é mais que a linha de continuidade de um sentimento coletivo. Assim os regimes se firmam e perduram na medida em que refletem os homens e as Nações - tão diversas umas das outras! - perfilham as aspirações comuns e suprem mesmo deficiências da coletividade.
Se a experiência vale alguma coisa, devíamos tirar daqui uma ilação. A força pode fazer revoluções, mas não pode só por si mantê-las sem o apoio da consciência nacional. A ideia de que a Nação está hoje cloroformizada pelo medo ou por uma espécie de avitaminose política é incompatível com o entusiasmo e a confiança com que se bate em três territórios ultramarinos. Mais correto é pensar que, independentemente dos governantes, sujeitos a deslizes e deficiências na orientação dos negócios públicos, se encontrou uma fórmula conforme ao modo de ser da coletividade e que a todos permite viver em paz e progredir. É de aconselhar que não se substitua enquanto se revelar eficaz e esteja confiada a quem na mais alta magistratura a possa defender e fazer cumprir.
Estas considerações deviam bastar para serenar os ânimos inquietos, exageradamente preocupados com as eleições de deputados que este ano se hão de também realizar.
A União Nacional apresentará, como de costume, as suas listas e é de crer que elementos políticos de oposição ao regime, depois de alguns terem aproveitado o período eleitoral na criação de um clima subversivo, também apelem para o sufrágio popular. Mas terão aqui dificuldades, porque representam o passado, e este, se infeliz, não dá garantias suficientes de aliciar o crédito público. Alguns poderão apresentar-se conto a radiosa esperança do futuro, mas também estes têm “passado”, ainda que fora de Portugal, e o comunismo é neste País tão antinacional e anticristão que uma Nação que se bate a defender a sua integridade territorial e moral não o apoia, não o suporta, não pode reconhecê-lo dos seus.
Não há mesmo possibilidade de as oposições gizarem programas para o futuro imediato, salvo o que nós próprios temos definido já. Há poucos dias tive a oportunidade de ler o documento em que numerosos democratas solicitavam autorização para a celebração, de prever ruidosa, - do 31 de janeiro na cidade do Porto. Na exposição faz-se acerada crítica da Administração e do Governo, apontando os vários problemas em que a atuação ou se verificava errada, ou claramente deficiente. E os autores não tiveram trabalho a documentar os seus assertos, pois se limitaram, para cada assunto, a citar as passagens correspondentes de discursos proferidos na Assembleia Nacional. Nós conhecemos os riscos das transcrições fora do contexto, mas posso glosar o facto em meu proveito. Há anos já o Doutor Marcelo Caetano, então ministro da Presidência, fazia notar encontrarem-se mais diferenças ideológicas entre os membros do Governo do que algumas vezes entre representantes de partidos diferentes. Foi exata a observação e o facto apontado que a confirma quer dizer duas coisas: a primeira é que, salvaguardada a unidade no essencial, não nos afrontam as correntes de pensamento que se manifestem acerca dos problemas nacionais e das suas possíveis soluções; a segunda é que entre nós o deputado é livre a discutir e a votar, o que não acontece nos regimes partidários, em que a disciplina não pode deixar de ser considerada fator essencial à coesão das forças políticas. Por isso, do outro lado do regime, os que pretendem combater-nos não dispõem de grandes possibilidades.
II
Apesar de confiante na experiência e conhecimentos das pessoas mais diretamente encarregadas da ação política, não quero deixar de referir-me à atmosfera mundial e doméstica em que a mesma se desenvolverá.
Vivemos uma época que, apesar de uma verdadeira explosão científica e correspondente progresso em numerosos sectores da vida, se apresenta excessivamente perturbada na consciência dos homens e dos povos. Esta perturbação resulta de se terem rompido, com a Segunda Grande Guerra, numerosos equilíbrios sobre que assentavam a vida social e as relações dos Estados, e também das ideias admitidas para a criação da sociedade futura. O mal vem, portanto, dos factos e das situações criadas e também dos erros de julgamento e de pensar que nos invadiram e constituem veneno corrosivo da ação.
Hitler prometia com a sua vitória a paz para mil anos; perdida a guerra, veio prometê-la a ONU, tanto no seu ideário como no jogo das suas engrenagens, para prazo indefinido. Pois está sendo difícil encontrar lugar na terra onde não alastrem guerras e conflitos de toda a ordem. Ou não soubemos estabelecer e garantir a paz ou estamos equivocados quando a pensamos para sempre possível entre os homens e as Nações.
Aumentam extraordinariamente no mundo, com o trabalho e os recursos da técnica, os produtos para as necessidades do homem; talvez pudéssemos dizer que para todos bastariam, em nível modesto de vida. Pois a pobreza parece apertar cada vez mais aflitivamente os homens e há miséria por toda a parte, mesmo no seio dos países mais desenvolvidos e ricos. E assim parece que ou nos extraviamos no supérfluo em detrimento do necessário ou o nosso coração se perde nos seus anseios de generosidade e não descobre a fórmula de distribuição de bens que acabe coara os pobres na terra - se é possível acabarem na terra os pobres.
Nos povos estabilizados de velha civilização, nos povos que diríamos a caminho de um equilíbrio sadio ou nos que iniciam a vida como Estados independentes, repetem-se sem descanso as invocações democráticas, os apelos à liberdade e à igualdade dos homens, à soberania do povo, à omnipotência justiceira e criadora do voto, à outorga deste até ao limite extremo de “um a cada cabeça”. Pois no funcionamento das instituições políticas, assistimos ao mesmo tempo ao envelhecimento dos princípios que foram dogmas para nossos avós, e depois de século e meio de domínio nos legam uma sociedade moral e politicamente degradada. Ao aconselhar, quase diríamos, ao impor a todos os povos essas instituições e princípios, ou nos enganamos sobre o absoluto do seu valor ou nos iludimos sobre a precariedade das soluções que se encontraram para os realizar. Isto é, depois de milênios o homem conclui não saber governar-se nem poder governar-se sem respeitar o primado da autoridade e da justiça. Ora estas limitam, só porque existem, a liberdade e a igualdade; e da trilogia revolucionária de 89 a única invocação que parecia realizável na sua plenitude - a fraternidade será sacrificada ao egoísmo dos homens e ao materialismo da vida.
Todos terão notado entrar-se numa época em, que a política está a ser dirigida pela economia. E, ainda que estejamos no começo da sua influência, já deslizes se notam de profunda repercussão na vida das Nações. Está generalizada a ideia, que supomos errada, de que todas as sociedades humanas podem, começar o seu desenvolvimento econômico pela industrialização e que o grau de industrialização atingível é igual em todos os povos. Errou-se na avaliação dos capitais disponíveis para o desenvolvimento do mundo e nalgumas partes se houve de voltar atrás em programas ambiciosos de créditos e subsídios, para não se alterar a estabilidade econômica e financeira dos países doadores. Errou-se ao considerar que a economia se pode basear não no trabalho próprio, não na técnica própria ou importada, mas na generosidade alheia e em outros valores morais para que incessantemente se apela. A luz que intensamente se projeta na vida material, no desenvolvimento econômico, nos aumentos indefinidos dos níveis de vida vai deixar na obscuridade toda a parte espiritual do homem, do que me parece dever esperar-se o tempo materialista por excelência, a época dos povos ricos sem alma.
Disse que a economia tende a dirigir a política; mas a técnica, essa, quer substituí-la. Ora, sendo a política indispensável ao governo dos povos, o facto só pode verificar-se se a técnica for em si mesma uma política. Pergunto se é. O avanço das ciências aplicadas aos processos de trabalho abriu à produção e ao funcionamento dos serviços larguíssimas perspectivas. Isso é bem, pelas facilidades que cria e a maior produtividade que dá ao trabalho, e representa um benefício inestimável, dados os aumentos da população e a crescente complexidade da vida. É duvidoso que possa ir além disto; é sobretudo pernicioso que se tenda a converter o homem em engrenagem da própria técnica, que é para onde se caminha. Até aqui a política definia o que devia fazer-se; a técnica ensinava como se devia fazer. Mas se à técnica, conduzida pela ambição do desenvolvimento econômico, mediante o aumento da produção, cabe pronunciar-se sobre a ordem das realizações e sobre a orientação da vida social, é ela também competente para traçar uma política, e nós sabemos bem que ideologia em tais termos a inspira. Tem de salvar-se o homem, da tentação do abismo. Ele continuará a apresentar-se-nos como ser moral por excelência, embora com necessidades materiais, o que significa haver outro mundo, dever haver outro mundo para além daquele que a técnica e a economia podem criar.
Um dos fenômenos mais embaraçantes do mundo de hoje é a crise do direito internacional que uns observam como herança da sua civilização e outros desprezam para se instalarem, a seu gosto na terra. O alargamento da comunidade internacional não devia ter-se processado à margem da preparação dos Estados para aceitarem e cumprirem as normas que regulam por consenso geral ou por convenção expressa a vida de relação entre as nações; mas seguiu-se orientação oposta com o princípio da universalidade de todas as organizações internacionais, como se o registo de admissão equivalesse à garantia de observância das normas que as regulam, o que está demonstrado não ser exato. A Organização das Nações Unidas tem feito - pecaminosamente - o máximo por condescender com práticas aberrantes e até com a defesa de supostos interesses de muitos países irrequietos e ambiciosos contra os legítimos direitos de outros. Apesar disso, o desequilíbrio das situações apontadas é de tal ordem que nós o podemos ver na base dos numerosos conflitos que se espraiam pelo mundo. O princípio de que nas épocas de crise a lei internacional é para cada Estado a que serve o seu interesse, sem respeito pelo direito alheio, lançou-nos no caminho das grandes confusões e dos máximos perigos.
Nesta ligeira referência a factos e erros da nossa era que a tornam desassossegada e infeliz, não podemos esquecer o maior de todos - a África em fogo.
O nosso ministro dos Negócios Estrangeiros tem feito numerosas exposições sobre a política externa nas quais os problemas de África e do Ultramar português têm tido o merecido relevo. Eu próprio me recordo de haver exposto com alguma largueza o enquadramento da nossa política ultramarina tanto na evolução contemporânea de África como no nosso direito constitucional e na política interna. Não me repetirei; atualizarei apenas as situações, referindo-me aos factos mais recentes.
Malgrado os esforços da Organização da Unidade Africana, são cada vez mais vincadas as divisões e incompatibilidades que uns aos outros opõem os países daquele Continente. Vários ao sul do Equador dão mostras de não confiar no desinteresse dos árabes que se propõem conduzi-los. Por outro lado, estes e alguns outros pretendem chefiar a revolução africana, não já e apenas no sentido da independência dos territórios coloniais, mas no da adoção de uma política, ideológica e economicamente sustentada pelo bloco comunista. A revolução de Zanzibar e a formação da União com o Tanganica cavaram urna brecha difícil de colmatar. Particularmente por ali, mas também pela costa ocidental, entram as ideias, os homens, as armas que se propõem atingir o coração de África, para o domínio comunista desta.
Como nenhum país africano tem ao presente desenvolvimento econômico e social que permita a realização do comunismo, o apoio do referido bloco representará sobretudo a substituição das posições ocidentais, no que respeita à Europa, e um perigo para a independência da África no que respeita àquele Continente. O chamado socialismo africano não pode ser mais no nosso tempo que a expropriação e em muitos casos a espoliação dos bens, meios de trabalho e empreendimentos que os europeus ali fizeram surgir. O racismo negro, no que tem de irredutível cora a presença do branco, pode ser visto como a explosão duma incompatibilidade étnica, um desagravo ou um desforço, mas, aos olhos de muitos agitadores, é também uma operação econômica, aliás fracamente reprodutiva pela dificuldade de organizar o trabalho e manter o nível da produção com, elementos locais.
Assim as nações europeias que cederam as posições políticas mas entendiam que, apesar de tudo, lhes seria possível continuar a guiar os povos africanos independentes, pela superioridade da técnica, pela força do capital emprestado ou gratuitamente cedido, pelo brilho da cultura, têm de haver-se agora com concorrentes difíceis e estranhos ao Continente africano que, além de implicações econômicas e políticas, comprometem a obra ali empreendida.
Há semanas a esta parte elementos subversivos vindos do Tanganica, diretamente ou através do Malawi, romperam em Moçambique com as ações anunciadas de sabotagens e morticínios dos portugueses negros. Tentam que os casos da Guiné e de Angola se repitam ali com o auxílio e colaboração do Tanganica, embora até ao presente sem intensidade comparável aos primeiros, porque nos encontraram preparados e atentos. Constituindo aquele território um Estado membro da Comunidade britânica, somos levados a crer que a Inglaterra, sem falar em obrigações de alianças, entende não estar em condições de dizer uma palavra de moderação a um membro da Comunidade que se comporta tão ao arrepio da correção jurídica e política devida a Estados vizinhos. Em compensação a defesa contra ataques, protegidos nos países de onde partem, começa a ser aceite pelas potências, como comportamento normal e inteiramente justificado.
Este o teor em que vai o mundo e é dentro deste quadro que havemos de defender os territórios nacionais. É uma pena que os três milhões e meio de contos gastos anualmente nesta defesa, além dos muitos centos de milhares que as grandes Províncias despendem com o mesmo fim, não possam ser aplicados aqui e lá em estradas, portos, escolas, hospitais, aproveitamento de terras, instalação de indústrias ou exploração de minas. Com tais somas se podia fazer a relativa felicidade de muita gente em vez de lhe perturbar e sacrificar a vida, alimentando a - vaidade de ideólogos ou de aventureiros que um dia sonharam com impérios afinal inacessíveis às suas ambições.
Estas importâncias assim gastas nas províncias ultramarinas não serão mal-empregadas? O problema não pode pôr-se-nos assim, mas só em face da imperiosidade do dever político e das possibilidades nacionais. O cumprimento do dever não tem de ser contabilizado; as possibilidades são as do nosso trabalho que, se tiver de ser mais penoso e longo, o será sem hesitações.
Sei que em espíritos fracos o inimigo instila um veneno subtil com afirmar que estes problemas não têm solução militar e só política e que todo o prolongamento da luta é ruinoso para a Fazenda e inútil para a Nação. Eu responderei que o terrorismo que somos obrigados a combater não é a explosão do sentimento de povos que, não, fazendo parte de uma nação, conscientemente aspirem à independência, mas tão-só de elementos subversivos, estranhos na sua generalidade aos territórios, pagos por potências estrangeiras, para fins da sua própria política. Como elementos alheios à coletividade nacional estiolar-se-ão no momento de lhes ser recusado o território em que se organizam, e treinam, o apoio político recebido e os subsídios cru armas e dinheiro. De modo que a tal solução política, se não prevê a desintegração nacional (que todos fingem repelir), não se encontra em nós próprios mas nos países vizinhos, aos quais, pelos meios ao nosso alcance, possamos ir fazendo compreender melhor os seus deveres de Estados responsáveis para conosco e para com uma pobre gente que estupidamente se faz sacrificar a interesses alheios. Mas neste entendimento a defesa militar é o único meio de chegar à solução política que no fundo é a ordem nos territórios e o progresso pacífico das populações, como o vínhamos prosseguindo.
Vamos em quatro anos de lutas e ganhou-se alguma coisa com o dinheiro do povo, o sangue dos soldados, as lágrimas das mães? Pois atrevo-me a responder que sim. No plano internacional, começou por condenar-se sem remissão a posição portuguesa; passou depois a duvidar-se da validade das teses que se lhe opunham e acabaram muitos dos homens mais responsáveis por vir a reconhecer que Portugal se bate afinal não só para firmar um direito seu, mas para defender princípios e interesses comuns a todo o Ocidente. No plano africano, quatro anos de sacrifícios deram tempo a que se esclarecesse melhor o problema das províncias ultramarinas portuguesas, a diversidade das instituições criadas em séculos naquele Continente e os ganhos ou perdas, em todo o caso as dificuldades que a independência, tão ambicionada por poucos, trouxe a todos os mais e os dirigentes não sabem ainda como resolver. Assim, bastantes povos africanos nos parecem mais compreensivos das realidades e mais moderados de atitudes. Eis o ganho positivo desta batalha em que - os portugueses europeus e africanos combatemos sem espetáculo e sem alianças, orgulhosamente sós.
III
Agora umas palavras sobre o ambiente político interno que adivinho denso e carregado de dúvidas e preocupações. Eu compreendo isso e, ao aflorar certas causas da perturbação mundial, de algum modo e em parte o explico também. Devido a jogo inextricável de interdependências, uma parte da vida da Nação sofre as pressões externas - doutrinárias, econômicas ou políticas - a que não tens possibilidade de esquivar-se. E assim, correndo mal os tempos no mundo, difícil seria que pudessem correr aqui inteiramente bem. Mas, além disso, temos causas privativas de mal-estar.
Enfrentamos guerras no Ultramar que não se sustentam nem hão-de vencer sem sacrifícios de sangue e de dinheiro. Por isso os impostos tiveram de ser agravados e é ainda possível que, nas vastas reformas publicadas, algumas incidências não realizem a justiça e por isso mesmo não correspondam à vontade do legislador.
Uma série de maus anos agrícolas havia de saldar-se por perdas vultosas tanto para o proprietário da terra como para o agricultor. Atravessamos um ano excepcionalmente seco que prenuncia, a continuar assim, urra estio sem águas de rega e graves dificuldades no abastecimento para o próprio consumo corrente. A indústria, que trabalha ao abrigo das irregularidades climatéricas, tem-se multiplicado e progredido satisfatoriamente, mas, devido ao excesso de população que trabalha nos campos, o progresso daquela não beneficia proporcionalmente os homens da terra que se refugiara na emigração, aliás em desordem muitas vezes e em excesso injustificado, originando crises de mão-de-obra em vastos setores rurais. O abastecimento público tem podido manter-se em termos quase normais, mas muitos preços têm subido, com os correspondentes gravames para as economias mais débeis.
Quando estes fenómenos se verificam e nestas proporções, a população tem a tendência para intensificar e acelerar pressões no sentido de ver aumentadas as remunerações do trabalho, pensando esquivar-se às dificuldades comuns. A experiência largamente vivida pelos povos é a da inutilidade ou nocividade desses remédios, porque as altas salariais se refletem nos preços e estes no valor da moeda, tudo voltando ao começo. A obra de maior vulto realizada pelos Ministros das Finanças dos últimos quarenta anos foi exatamente conseguir manter o equilíbrio financeiro e a estabilidade monetária, que estão na base do nosso progresso e é necessário conservar para podermos subsistir; e por esse motivo, salvo nos casos de ajustamentos impostos por imperiosa justiça, não devemos aceder à onda de aparentes facilidades que aliviam o dia de hoje, comprometendo o futuro. A mim se me afigura especialmente absurdo que, tendo como Nação, de fazer face a maiores despesas, queiramos sempre, na imitação desequilibrada de modas alheias, ganhar mais e desejemos ao mesmo tempo trabalhar menos.
Durante a última grande guerra me aconteceu algumas vezes receber altas personalidades britânicas para negócios graves, e notar-lhes o fato velho, coçado, fimbriado nas mangas. Chegava a comover-me observar esses sinais de pobreza que não havia pejo em mostrar, porque representavam afinal o sacrifício conscientemente feito ao fim supremo da luta em que a sua nação se empenhara. Sei que não estamos em termos comparáveis e talvez por essa razão não vemos isso aqui, antes em certos casos o espetáculo da riqueza que se alardeia e quase afronta pelo exagero com que se manifesta. Por mim desejaria que fôssemos mais modestos e, sobretudo nestes momentos de crise, mais discretos também.
O facto de ter-se anunciado e começado a executar um plano que se chamou de reconversão agrária, alertou a muitos, porque não foram inteiramente compreendidos os fins, os métodos, as cautelas a ter na longa transição: nada, a não ser a incompreensão, devia causar receios ao nosso meio agrícola. Eu sou um rural e, embora em situação diferente, vivi duas guerras, uma em que interviemos ativamente nos quadros de uma aliança, outra em que não batalhamos, mas houvemos que organizar a defesa nos quatro cantos do mundo. Daí vem compreender o campo e conhecer as necessidades vitais que o campo tem de satisfazer. Independentemente do que se possa chamar a poesia campestre, que atrai os sorrisos um tanto desdenhosos da economia industrial, por mim, e se tivesse de haver competição, continuaria a preferir a agricultura à indústria; mas se quereis ser ricos não chegareis lá pela agricultura, ainda que progressiva, e industrializada, neste País de solos pobres e climas vários. A terra é humilde, tanto que se deixa a cada momento pisar; o trabalho da terra é humilde, porque o homem a cultiva, humildemente debruçado sobre as leivas; o fruto do trabalho ria terra é pobre porque está rio início de um ciclo de operações comerciais ou industriais destinadas a valorizá-lo ou a enriquecê-lo. Assim a faina agrícola, sujeita à torreira do sol ou à impertinência das chuvas, é acima de tudo uma vocação de pobreza; mas o seu orgulho vem de que só ela alimenta o homem e lhe permite viver. Quando se governa um país, e se nos deparam os mercados difíceis, os mares impraticáveis, as bocas famintas sem saber de onde há-de vir um bocado de pão, a terra pobre, a terra humilde sobe então à culminância dos heroísmos desconhecidos e dos valores inestimáveis.
Ao afirmar-se a necessidade de corrigir o fácies agrícola do País, alargando a floresta às serras nuas e aos campos que cobrimos de searas pobres, não se pensou em desertar da cerealicultura, mas na possibilidade de ter searas mais rendosas ou culturas mais ricas noutros terrenos e deixar ao mesmo tempo que as árvores cresçam onde o trigo não grada. Deste modo mais intensa florestação do País não significa a diminuição das culturas, o êxodo dos trabalhadores, o abandono do pão que cultivamos, aliás, sem grandes condições para isso, e teremos de pagar, mesmo se caro, como quem paga um seguro de guerra.
Tem-se falado muito nos defeitos da nossa estrutura agrária, que são evidentes e mais evidentes se tornarão a todos os interessados na medida em que pudermos corrigi-los. Mas, talvez por não termos bem definido os termos da questão fundamental que é a relação da cultura com a propriedade, houve sobressaltos injustificados, pois logo se enxergaram repercussões na pequena horta familiar ou na herdade extensa de bem equilibrada cultura. Isso nasceu do amor à terra que gira no sangue das nossas veias, mas não se justificava nem em face das intenções nem de quaisquer providências tomadas.
Grandes e pequenas coisas se têm acumulado a empecer-nos o caminho, umas apenas na imaginação sobressaltada, outras nos factos reais da vida. Mas o que houver, que rever-se há-de sê-lo, não na precipitação, mas na calma do nosso melhor entendimento.
IV
Compreende-se bem que, neste emaranhado de problemas e de soluções possíveis, de adversidades que nos chovem como castigo do céu e de dificuldades nascidas da política mundial, seja fácil criar aqui dentro ambientes de dúvida e de perturbação. Disse que uma parte da vida nacional flui das interdependências externas; mas outra parte, a mais importante e grave, somos nós a determiná-la, a tomar dela a responsabilidade plena. E um povo que toma, diante de, si mesmo e à face dos imperativos da sua história, a decisão viril de resistir, porque sabe que precisa de resistir para sobreviver, há-de tirar desta mesma decisão as forças necessárias para enfrentar as dificuldades. Penso assim que o Ultramar não pode ser para nós fonte de desânimos, mas, ao contrário, do mais sadio optimismo.
Além dos portugueses de África que combatem nas fileiras ou defendem portuguesmente naquelas terras as suas aldeias e lavras, teremos já entre nós dezenas de milhares de homens e, não sei quando, centenas de milhares que viveram nos matos, se arriscaram nos mares e nas selvas, jogaram a vida pela Pátria e viram no Ultramar projetada a Nação na sua verdadeira grandeza. Que podem significar para estes homens umas oposições que conspiram com o comunismo em, Paris ou em Argel para lhe entregar Portugal, ou aquelas, mais moderadas embora, que se limitam a ver se podem conquistar o poder, sabendo todos, pela imprecisão da sua linguagem, que perder a batalha aqui ou lá é tudo a mesma coisa? E não estaremos nós à altura dos que se batem, não só por eles e por nós, mas pela justiça que nos assiste e pelo bem dos povos a que nos devotamos?
Quando a União Indiana se apossou de Goa, o que internacionalmente se concluiu foi que obteve minas ricas de ferro e manganês e ficara com um porto como não havia outro em todas as suas costas; e parece não ter acudido à mente de ninguém que havia ali também, uma alma e uma cultura indo-portuguesa, amorosa criação de quatro séculos e meio de trabalhos e sacrifícios. Pois por este motivo já quase não trabalham as minas, nem se desenvolve o porto de Mormugão; e a União Indiana, para aumentar de uma polegada o seu imenso território, forjou, cravando-o no seu seio, mais um fator de divisão na profunda divisão que a agita. Nunca houve tantos portugueses nem tão elevado sentimento português em Goa a enfrentar autoridades tirânicas, no mesmo território que a hipocrisia de muitos diz “libertado da opressão” portuguesa.
Esta lição que o mundo agora colhe do nosso sofrimento, não queremos que levianamente a tire dos outros territórios que constituem a Nação portuguesa. Mas este não querer tem um segredo que é sabermos bem, porque nos batemos, isto é, as razões da nossa luta nacional.
Humildemente confesso não ter conseguido em tantos anos duas coisas que aliás se me afiguravam essenciais: convencer os governos de que precisavam de um apoio político para a sua ação e de que esse apoio só podia advir-lhes da União Nacional; convencer a União Nacional de que a formação política não pode ser abandonada a acasos de leituras ou de influências familiares mas a uma doutrinação sistemática e persistente.
Em face de nós só dois agrupamentos levam na devida conta a formação dos seus adeptos - a Igreja e o comunismo. Embora, conforme a frase de Tertuliano, a alma humana seja naturalmente cristã, desde sempre entendeu a Igreja não poder existir sem uma doutrinação ativa que ilustrasse os entendimentos no dogma, e afeiçoasse as consciências às práticas da sua moral. Assim a Igreja pode cristianizar a nação e pode até cristianizar o Estado; e parece-me dever ficar por aí, pois não pode substituir este nem conduzir os negócios daquela na ordem material ou profana. E se, esquecendo amargas experiências históricas, se sentisse tentada a intervir na ação política, não devia fazê-lo, porque, à medida que vemos materializar-se a vida, se torna mais e mais absorvente a missão espiritual da Igreja.
O comunismo que também quer ser à sua moda religião, trabalha como uma igreja, doutrinando e formando os seus adeptos, com largueza de meios e base científica dignos da melhor escola, mas tão eficientes que, sendo a doutrina comunista antinatural, mesmo contra a natureza consegue fiéis que se lhe entregam inteiramente e por ela morrem, se necessário.
Na carência a que me referi e no que é essencial, o que nos tem valido é o fundo ainda consistente da lusitanidade, as lições da história e o exemplo dos seus valores, a sã tradição de nossos maiores que os acontecimentos políticos dos últimos séculos não conseguiram obliterar. Mas para conquistar uma adesão firme, formar um soldado de uma causa desinteressada, granjear-lhe a dedicação incondicional, é precisa a ação constante de uma doutrinação esclarecida. Quando o inimigo sentiu que organizações nossas podiam ser o fermento duma nova sociedade ou forças de estabilização necessária na época agitada em que se tem vívido, logo iniciou a campanha necessária ao seu descrédito. E muito bem, diante da nossa indecisão, porque ele sabia o que lhe convinha e nós dávamos provas de ignorar o de que tínhamos necessidade.
Pois bem, se o Centro de Estudos Políticos que existe aqui fizer irradiar de si a luz que ilumine, o calor que aqueça sobretudo as almas jovens, naturalmente generosas e sedentas, nós podemos estar certos de que não serão abalados os alicerces nem com eles o futuro desta Nação.

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2019/01/o-fascismo-por-ele-mesmo-antonio-salazar.html

MUDAM-SE OS TEMPOS, MUDAM-SE AS VONTADES

Há uns precisos (e preciosos) quarenta anos a separar os dois textos supra. O antifascista João Espada, que vemos como impulsionador de uma «comissão para a defesa da liberdade de informação» (em 1979) tornou-se, com os anos, num imensamente diferente João (Carlos) Espada, «conversador civilizado» e «re-descobridor das boas tradições demo-liberais» (para 2019). Confesso que, quando a canção de José Mário Branco se tornou um hit na sequência imediata do 25 de Abril (1974), não me apercebi então de como era perene e profundo o ensinamento contido no soneto de Camões, e de como seria capaz de se vir a virar no futuro com mordacidade revolucionária contra tantos dos revolucionários daquela altura...

Veja o original em 'Herdeiro de Aécio' na seguinte ligação::

http://herdeirodeaecio.blogspot.com/2019/01/mudam-se-os-tempos-mudam-se-as-vontades.html

O fascismo por ele mesmo: Adolf Hitler

Nesta entrevista ao jornal Liberty, em 1932, Hitler diz: 'Nos meus planos para o Estado alemão, não haverá lugar para os estrangeiros, os perdulários, os usurários, os especuladores ou qualquer um que não seja capaz de fazer um trabalho produtivo'
Opera Mundi publica, nesta semana, um especial sobre fascismo - contado pelos próprios fascistas. São discursos e entrevistas de Adolf Hitler (Alemanha), António Salazar (Portugal), Francisco Franco (Espanha), Rafael Videla (Argentina), Benito Mussolini (Itália), Emílio Garrastazu Médici (Brasil) e Philippe Pétain (França) que mostram como estas figuras pensavam as sociedades que governavam e justificavam os atos de seus regimes.
Adolf Hitler (1889-1945), o ditador alemão, nasceu na Áustria, filho de um oficial de alfândega. Ainda estudante, sonhava em se tornar arquiteto ou pintor – mas seu insucesso acadêmico o levou à política. Com a Primeira Guerra Mundial deflagrada, ele se alistou no Exército da Baviera. Condecorado por heroísmo, Hitler terminou os combates na condição de inválido: atingido por um ataque de gás, perdeu parte de sua visão. Frustrado com a derrota bélica, atribuída por ele aos judeus e aos socialistas, fundou o Partido Alemão Nacional-Socialista dos Trabalhadores. Em 1923, participou do putsch da cervejaria de Munique, numa tentativa de golpe de Estado contra o governo republicano da Baviera. Encarcerado durante nove meses, Hitler aproveitou esse período para ditar seu credo político, o Mein Kampf (Minha Luta), para Rudolf Hess. Depois de sua libertação, ele começou a atrair o interesse popular para as ideias nazistas, manipulando a paranoia antissemita, utilizando recursos de propaganda e construindo uma coalizão de trabalhadores, empresários e senhores do campo. Em 1933, um ano depois de ter sido derrotado nas eleições presidenciais, foi nomeado chanceler da Alemanha. Novas eleições gerais foram convocadas e o partido de Hitler chegou ao poder. Hitler se suicidou com sua amante, Eva Braun, em 1945, quando as tropas russas se preparavam para invadir seu bunker em Berlim, nos derradeiros dias da Segunda Guerra.
George Sylvester Viereck já havia entrevistado Adolf Hitler em 1923, quando ele ainda era um obscuro personagem da vida política europeia. Naquela oportunidade, Viereck anotou: “Este homem, se sobreviver, fará história, para o bem ou para o mal”.
Quando eu dominar a Alemanha, vou pôr fim ao bolchevismo em nosso país e às homenagens a ele no exterior.” Adolf Hitler bebeu todo o conteúdo da xícara como se não fosse chá, mas o sangue dos bolcheviques.
“O bolchevismo”, continuou o chefe dos camisas-marrons, dos fascistas alemães, olhando-me ameaçador, “é a nossa grande ameaça. Quando o bolchevismo na Alemanha estiver morto, setenta milhões de pessoas voltarão ao poder. A França deve toda a força que tem não aos seus exércitos, mas às forças do bolchevismo e à dissensão entre nós. O Tratado de Versalhes e o Tratado de Saint-Germain sobrevivem graças ao bolchevismo na Alemanha. O Tratado de Paz e o bolchevismo são cabeças do mesmo monstro. Temos que decapitá-las.”
Quando Adolf Hitler anunciou esse programa, o advento do Terceiro Reich ainda parecia distante. Com o tempo, o poder de Hitler foi crescendo a cada eleição. Embora incapaz de tirar Hindenburg da presidência, Hitler, no momento, lidera o maior partido da Alemanha. A não ser que Hindenburg instaure medidas ditatoriais ou que os acontecimentos tomem um rumo inesperado e frustrem todas as atuais previsões, o partido de Hitler conquistará o Reichstag e dominará o governo. Hitler não lutou contra Hindenburg, mas contra o chanceler Brüning. Será difícil para o sucessor de Brüning manter-se no poder sem o apoio dos nacional-socialistas.
Muitos dos que votaram em Hindenburg estavam, no íntimo, do lado de Hitler, mas um senso de lealdade arraigado impeliu-os, entretanto, a votar no velho marechal-de-campo. A não ser que um novo líder apareça do dia para a noite, não há ninguém na Alemanha, com exceção de Hindenburg, capaz de derrotar Hitler – e Hindenburg tem 85 anos! Só o tempo, a obstinação da luta francesa contra Hitler, algum erro cometido por ele próprio ou uma dissensão nas fileiras do partido pode privá-lo da oportunidade de desempenhar o papel de Mussolini da Alemanha.
O Primeiro Império alemão chegou ao fim quando Napoleão forçou o imperador austríaco a renunciar à coroa imperial. O Segundo Império terminou quando Guilherme II, a conselho de Hindenburg, procurou refúgio na Holanda. O Terceiro Império está emergindo aos poucos, mas com firmeza, embora talvez dispense cetros e coroas.
Encontrei Hitler não em seu quartel-general, a Casa Marrom em Munique, mas no seu próprio lar – a residência de um almirante reformado da Marinha alemã. Discutimos o destino da Alemanha bebendo chá.
“Por que”, perguntei a Hitler, “o senhor se diz um nacional-socialista, já que o programa do seu partido é a própria antítese do que geralmente se acredita ser o socialismo?”
“O socialismo”, replicou agressivo, deixando de lado a xícara de chá, “é a ciência de lidar com o bem-estar geral. O comunismo não é o socialismo. O marxismo não é o socialismo. Os marxistas roubaram o termo e confundiram seu significado. Vou tirar o socialismo dos socialistas. “O socialismo é uma antiga instituição ariana e alemã. Nossos ancestrais alemães tinham algumas terras em comum. Cultivavama ideia do bem-estar geral. O marxismo não tem direito de se disfarçar de socialismo. O socialismo, diferentemente do marxismo, não repudia a propriedade privada. Diferentemente do marxismo, ele não envolve a negação da personalidade e é patriótico. Poderíamos ter chamado nosso partido de Partido Liberal. Preferimos chamá-lo de Nacional-Socialista. Não somos internacionalistas. Nosso socialismo é nacional. Exigimos o atendimento das justas reivindicações das classes produtivas pelo Estado com base na solidariedade racial. Para nós, o Estado e a raça são um só.”
O próprio Hitler não é um alemão puro. Os cabelos escuros denunciam a presença de algum ancestral alpino. Durante anos, ele se recusou a ser fotografado. Era parte de sua estratégia – ser conhecido apenas pelos amigos para que, em um momento de crise, pudesse aparecer em qualquer lugar sem ser descoberto. Hoje em dia, ele não poderia mais passar despercebido pela mais obscura das aldeias da Alemanha. Sua aparência cria um contraste estranho com a agressividade de suas opiniões. Nenhum outro reformista de maneiras tão suaves afundou um navio do Estado ou cortou gargantas na política.
“Quais são os princípios fundamentais da sua plataforma?”, continuei meu interrogatório. “Acreditamos em uma mente sã em um corpo são. A nação tem que ser sadia para que a alma também o seja. Saúde moral e física são sinônimos.” “Mussolini”, interrompi, “disse-me a mesma coisa.”
Hitler sorriu. “Os bairros miseráveis”, acrescentou, “são responsáveis por nove décimos, e o álcool, por um décimo de toda a depravação humana. Nenhum homem saudável é marxista. Os homens saudáveis reconhecem o valor da personalidade. Lutamos contra as forças da desgraça e da degeneração. Se fizermos uma comparação, a Baviera é saudável porque não está completamente industrializada. No entanto, toda a Alemanha, incluindo a Baviera, está condenada à industrialização intensiva pelo tamanho reduzido do nosso território. Se quisermos salvar a Alemanha, temos que nos assegurar de que os fazendeiros continuem fiéis à terra. Para tanto, eles precisam ter espaço para respirar e para trabalhar.”
“Onde o senhor encontrará espaço para trabalhar?”
“Precisamos manter nossas colônias e expandir em direção ao leste. Houve um tempo em que podíamos dividir o domínio do mundo com a Inglaterra. Agora, só podemos expandir-nos em direção ao leste. O Báltico é necessariamente um lago alemão.”
“A Alemanha”, perguntei, “não poderia reconquistar o mundo do ponto de vista econômico sem expandir seu território?”
Hitler moveu a cabeça, negando com veemência.
“O imperialismo econômico, assim como o imperialismo militar, depende de poder. Não pode haver comércio mundial em larga escala sem poder mundial. Nosso povo não aprendeu a pensar em termos de poder e comércio mundiais. Entretanto, a Alemanha não pode expandir o seu comércio e o seu território até reconquistar o que perdeu e encontrar-se.
“Estamos na mesma situação de um homem que perde a casa em um incêndio. Ele precisa ter um teto antes de entregar-se a planos mais ambiciosos. Conseguimos criar um abrigo de emergência que nos mantinha protegidos da chuva. Não estávamos preparados para o granizo. Entretanto, infortúnios caíram sobre nós. A Alemanha vive sob uma verdadeira tempestade de catástrofes nacionais, morais e econômicas.
“Nosso sistema partidário desmoralizado é um sintoma de nossa desgraça. As maiorias parlamentares flutuam ao sabor do vento. O governo parlamentarista abre as portas para o bolchevismo.”
“O senhor não é a favor de uma aliança com a União Soviética como alguns militares são, não é verdade?”
Hitler esquivou-se de uma resposta direta a essa pergunta. Há pouco tempo, ele esquivou-se outra vez quando o Liberty pediu que respondesse à declaração de Trótski de que a tomada do poder por Hitler na Alemanha envolveria uma batalha de vida ou morte entre a Europa, liderada pela Alemanha, e a Rússia Soviética. Hitler talvez não tenha interesse em atacar o bolchevismo na Rússia. Talvez ele até mesmo considere uma aliança com o bolchevismo como a última cartada se estiver perdendo o jogo. Se, como ele insinuou certa vez, o capitalismo recusar-se a reconhecer que os nacional-socialistas são a última trincheira da propriedade privada, se o capital impedir a luta deles, a Alemanha pode ser obrigada a jogar-se nos braços tentadores da Rússia Soviética. Mas ele está determinado a não permitir que o bolchevismo se estabeleça na Alemanha.
No passado, ele respondeu com cuidado as tentativas de negociação do chanceler Brüning e de outros que desejavam formar uma frente política unida. Não é provável que o mesmo ocorra no momento, em vista do crescimento constante dos votos dos nacional-socialistas. Hitler estará propenso a fazer acordos sobre quaisquer princípios básicos com outros partidos.
“As alianças políticas das quais depende uma frente unida”, observou Hitler, “são muito instáveis. Elas tornam quase impossível uma política claramente definida. Vejo, por toda parte, o caminho tortuoso dos acordos e concessões. Nossas forças construtivas são detidas pela tirania dos números. Cometemos o erro de aplicar a aritmética e a mecânica do mundo econômico ao modo de vida. Somos ameaçados pelo constante crescimento dos números e abandonos dos ideais. Meros números não têm importância.”
“Mas vamos supor que a França faça retaliações contra o senhor, invadindo suas terras mais uma vez. Ela já invadiu o Ruhr. Poderia invadi-lo de novo.”
“Não importa”, respondeu Hitler exaltado. “Quantos quilômetros quadrados os inimigos podem ocupar se o espírito nacional estiver vigilante? Dez milhões de alemães livres, prontos para morrer para que o país sobreviva, são mais fortes do que cinquenta milhões cuja força de vontade está paralisada e cuja consciência de raça está infectada por estrangeiros.
“Queremos uma Alemanha maior, que una todas as tribos germânicas. Mas a nossa salvação pode começar em uma pequena região. Mesmo se tivéssemos apenas dez acres de terra, mas estivéssemos determinados a defendê-los com nossas próprias vidas, os dez acres iriam se tornar o foco da regeneração. Nossos trabalhadores têm duas almas: uma é alemã e a outra é marxista. Temos que acordar a alma alemã. Temos que extirpar o tumor do marxismo. O marxismo e o germanismo são antíteses.
“Nos meus planos para o Estado alemão, não haverá lugar para os estrangeiros, os perdulários, os usurários, os especuladores ou qualquer um que não seja capaz de fazer um trabalho produtivo.”
Hitler franziu o cenho ameaçador. Sua voz dominou a sala. Ouvimos um barulho na porta. Seus seguidores, que estão sempre por perto como guarda-costas, lembraram ao líder o seu compromisso de falar em uma reunião.
Hitler bebeu o chá às pressas e levantou-se.
George Sylvester Viareck | Opera Mundi
(*) Esta entrevista foi publicada no livro 'A Arte da entrevista' (Editora Boitempo, 2004), organizado por Fábio Altman e com ilustrações de Cássio Loredano. As traduções são de Inês Antonia Lohbauer, Maria dos Anjos Santos Rouch e Rosanne Pousada. O texto se encontra entre as páginas 129 e 133.
 
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2019/01/o-fascismo-por-ele-mesmo-adolf-hitler.html

OS «SAUDOSOS» DISCURSOS DE ANO NOVO DO ALMIRANTE AMÉRICO THOMAZ

2 de Janeiro de 1969. Enterrado numa das páginas mais discretas do interior da edição do Diário de Lisboa repousa a pièce de résistance do discurso de Ano Novo que fora pronunciado no dia anterior pelo presidente da República, almirante Américo Thomaz, nessa altura devidamente transmitida pela rádio e pela televisão e que agora era reproduzido pelos jornais. O aspecto da página (que hoje qualificaríamos por wall of text de apresentação desencorajante) transmite a essência, o interesse e a vivacidade da comunicação presidencial, para mais vinda de um locutor que todos reconheciam fraco, tanto na forma, quanto no conteúdo. Cinquenta anos passados, já são poucos os que têm memória de como os discursos de época desta época eram insuportavelmente chatos.

 

Veja o original em 'Herdeiro de Aécio' na seguinte ligação::

http://herdeirodeaecio.blogspot.com/2019/01/o-saudosos-discursos-de-ano-novo-do.html

Feliciano Falcão

(1911 – 1988)

Personalidade íntegra de republicano, médico de profissão, era muito respeitado no concelho de Portalegre, onde nasceu e onde viveu grande parte da sua vida.

Figura destacada da Resistência e do meio intelectual portalegrense, é lembrado por muitos que o conheceram pessoalmente e outros, que aprenderam a respeitar o seu nome pelo que dele ouviram contar. Participou activamente em todas as campanhas eleitorais pela Oposição, fossem legislativas ou presidenciais, desde 1947 até 1974.

Formação pessoal e académica

Nasceu na Ribeira de Nisa, Portalegre, a 7 de Setembro de 1911 e faleceu na Alemanha a 17 de Agosto de 1988.

Aos 15 anos entrou para Escola Industrial de Portalegre, a fim de fazer o curso de serralheiro mecânico e, no ano seguinte, foi eleito secretário do conselho fiscal da Liga da Mocidade Republicana, agrupamento cultural e político criado por Jaime Cortesão. Em 1928 foi indicado para representar a escola numa recepção ao general Carmona, mas recusou e só acabou por aceitar por ser ameaçado de expulsão. Completou nesse ano o 5.º ano do liceu e o curso de serralheiro mecânico e, depois, prosseguiu os estudos em Santarém. Completado o curso liceal, matriculou-se em Medicina na Universidade de Coimbra, mas decidiu prosseguir o curso no Porto e, a partir do 3.º ano, em Lisboa, onde se formou. Fez também o curso de Medicina Sanitária no Instituto Superior de Higiene Dr. Ricardo Jorge. Depois, fixou-se em Castelo de Vide, onde foi médico municipal. 

Professor na Escola Industrial de Portalegre, foi médico municipal no concelho de Portalegre, entre 1939 e 1944, e médico da Casa do Povo de Alegrete entre 1942 e 1944). Depois, pediu licença ilimitada para se dedicar ao laboratório de análises clínicas que montara em Portalegre, para o que se especializara no Hospital de Santa Marta (1944-1946).

Activa participação cívica

Aderiu ao MUD em 1947 e a sua actividade política fez com que fosse excluído do concurso para assistente da Faculdade de Medicina de Lisboa e não tivesse sido aceite no Hospital da Misericórdia de Portalegre. Foi um dos fundadores do Cineclube de Portalegre e proferiu diversas conferências sobre temas culturais. 

Participou activamente em todas as campanhas eleitorais pela Oposição, fossem legislativas ou presidenciais, desde 1947. Nos anos 60 fez parte da Acção Democrato-Social. Foi candidato suplente da CDE, por Portalegre, nas eleições de 1969. 


Cartazes das eleições presidenciais, 1949


Colaborou na organização do 3º Congresso da Oposição Democrática, que se realizou em Aveiro, em 1973. 

Em Novembro de 1973, foi director-interino e director do semanário A Rabeca, onde colaboram nomes como Nuno Teotónio Pereira e Fernando Mascarenhas. Chegou a militar no PCP. 

“A pessoa mais culta de Portalegre”

Frequentava a Tertúlia do Central, em Portalegre, onde, em torno de José Régio, confraternizavam personalidades de reconhecido valor no campo da cultura, como Arsénio da Ressurreição, Firmino Crespo, Renato Torres, João Tavares, Ventura Reis, entre muitos outros e por onde passaram David Mourão Ferreira, Eugénio Lisboa, Ruy Serrão, quando aqui prestaram serviço militar e José Maria Rodrigues da Silva que aqui foi subdelegado do INTP. Feliciano Falcão era então considerado por muitos como “a pessoa mais culta de Portalegre, com uma bagagem cultural muito vasta, abrangendo os ramos mais diversificados, que abordava com fluência de linguagem, capacidade de expressão, e exprimindo sempre profundos conhecimentos”.

Depois do 25 de Abril afastou-se da actividade política partidária.
Em Portalegre foi atribuído o seu nome a uma rua.

Feliciano Falcão, Memória Viva

E o meu pai sorria e o seu sorriso era sempre doce. As suas sobrancelhas grossas e despenteadas elevavam-se ligeiramente, na face direita surgia uma covinha prolongada e o seu riso era interrompido, mas ele continuava alegre. Gostava muito de o olhar, porque, mesmo quando o meu pai estava sério, nunca tinha um ar sombrio ou impenetrável. Havia sempre uma luzinha a brilhar nos seus olhos, que nos incitava a falar, a fazer perguntas. E havia sempre tempo, disponibilidade e um gesto terno que nos arrastava na descoberta de um novo diálogo»

In Feliciano Falcão, Memória Viva, António Ventura, Edições Colibri, C. M. de Portalegre, 2003, ISBN 972-772-440-X


Dados biográficos


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/feliciano-falcao/

TEMPOS DE SALAZAR

 

(Virgínia da Silva Veiga, 28/12/2018)

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(Se pensam que já não há saudosistas do ditador e dos tempos da ditadura, desenganem-se. Esta “pérola” foi publicada em 26/12/2018:

“A Direita portuguesa tem enjeitado Salazar, mas deveria integrá-lo no seu pensamento, na sua ordem ideológica. O país real ainda se revê em Salazar, apesar de as esquerdas afirmarem repetidamente os óbvios e inventados defeitos do ditador, numa lavagem ao cérebro que não tem fim.” (Ver aqui).

Ou seja, quanto mais os tempos são de descontentamento larvar, terreno propício ao florescer dos populismos de todos os matizes, mais os saudosistas saem da toca.

Comentário da Estátua de Sal, 28/12/2018)


Agora querem uma manifestação em memória de Salazar. Acho bem. Em matéria de presidentes há portugueses que adoram múmias. Não sendo original, é bonito.

Para recordarmos tempos em que uma percentagem de Portugal vivia à luz da vela e, logo, não tinha frigoríficos nem televisores. Água canalizada? Casas de banho? Para quê se havia uma fonte lá na aldeia e uma retrete ao fundo do quintal?

Também era bonito ver crianças descalças, a escrever em lousas, a trabalhar em idade escolar ou entregues aos soldados americanos das Lages para poderem ter que comer. E as raparigas? Essas, as que vinham dos confins das aldeias, sem estradas nem transportes, para chorar a distância das famílias, em tempos em que servir alguém era emprego de luxo mesmo que o rendimento fosse comer os restos na cozinha dos patrões.

Chique, chique, era então ver a malta a pagar a passadores para dar o salto para França, para a Venezuela, mas pela calada da noite, montes fora, passando a Espanha, porque de outro modo ia tudo preso. Se não levasse um tiro, claro. A emigração era proibida porque era precisa malta de olhos fechados e mãos abertas, que trabalhasse muito e pedisse pouco. Ir lá para fora era diminuir o contingente, era, sobretudo, mostrar-lhes que havia outro mundo.

E os monopólios? Que lindos eram os monopólios portugueses num globo que já então se abria à concorrência!

Que saudades da guerra colonial, dos filhos que as mães portuguesas por lá perderam, dos aerogramas que enviavam às famílias, essa espécie de postais, feitos ao propósito das notícias que as rádios e as televisões estavam proibidas de dar, ditados às senhoras da Cruz Vermelha porque os mais dos soldados não sabiam ler nem escrever, mas “estavam bem graças a Deus”.

E tudo caladinho, pois claro, que piar traz à memória a anedota dos pássaros dentro da dita, cuja palavra não digo.

Gosto da ideia. Sobretudo gosto que seja propalada no Facebook. Porque então os mais dos portugueses, se houvesse tal coisa em tempos de Salazar, nem podiam participar porque eram analfabetos. Voltássemos, aliás, aos tempos do homem de Santa Comba e era o descalabro nas ações do Zuckerberg, não havia Facebook para ninguém porque isso da liberdade de expressão não dava para ter um livro lá por casa quanto mais uma porta aberta ao mundo.

Perguntem lá aos organizadores como é que fariam para divulgar as convocatórias, sem Facebook, sendo proibida a distribuição de panfletos e os ajuntamentos.

E apreendiam tudo, os desgraçados! Até romances. Ah, pois é!

Primeiro meteu-se na cabeça destes novos organizadores da confusão que Portugal é a França. Agora andam a inventar o estilo espanhol, uma trapalhada escusada por mexerem no túmulo de Franco.

Em matéria de saudosismos ou de mexer no que está no sítio e sossegado, também era bom lembrar àqueles outros que o Carmona também já morreu e é para estar sossegado.
Quando é que alguém ensina a essa gente que isto é Portugal e que quem olha para trás só vê passado?

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Um Herói da Resistência

19 de Dezembro de 1961: Assassinato de José Dias Coelho pela PIDE, no Tribunal Militar (1977).

No dia 19 de Dezembro de 1961, o réu e os seus colegas Manuel Lavado e Pedro Ferreira, todos então agentes da Polícia Internacional e de Defesa do Estado, foram encarregados pelo chefe da respectiva brigada José Gonçalves, de localizarem e prenderem um indivíduo, JOSÉ ANTÓNIO DIAS COELHO, então militante na clandestinidade do Partido Comunista Português.

Para tal efeito, o réu e os referidos seus colegas foram transportados de automóvel à Rua dos Lusíadas desta cidade de Lisboa, onde, por volta das 19 horas, se colocaram a cerca de 100 metros uns dos outros, aguardando a vinda do referido indivíduo que calculavam passar por essa altura pela dita rua».

José Dias Coelho (1923-1961)

A Sentença do Tribunal Militar Territorial de Lisboa, de 5 de Janeiro de 1977

(Excertos)

[Integralmente publicada na revista “Sub Judice – Justiça e Sociedade”, n.º 25, Abril/Junho 2003, pp. 117-123, e reproduzida, juntamente com a acta da audiência de julgamento, no blogue “Malomil”, publicação de 13/3/2014 – A morte saiu à rua.

A – LIBELO ACUSATÓRIO:

“O Exmo. Promotor de Justiça junto deste Tribunal acusa o réu ANTÓNIO DOMINGUES, casado, ex-agente de 1.ª classe da extinta Direcção-Gera1 de Segurança, de 44 anos de idade, filho de Manuel Domingues e de Belarmina Esteves, natural de Gave, Melgaço, e ora preso no Forte de Caxias, de ter cometido um crime previsto e punido pelo artº 349º do Código Penal, concorrendo as agravantes 11.ª (espera), 19.ª (noite), 25.ª (especial obrigação) e 28.ª (arma) do artº 34º do mesmo diploma, porquanto, no dia 19 de Dezembro de 1961, os então agentes da PIDE ANTÓNIO DOMINGUES, MANUEL LAVADO e PEDRO FERREIRA, identificados nos autos, foram encarregados pelo então chefe de brigada da mesma Polícia JOSÉ GONÇALVES, de localizar e prender JOSÉ ANTÓNIO DIAS COELHO, também identificado nos autos e militante do Partido Comunista Português.

Para tal efeito, deslocaram-se à zona da Rua dos Lusíadas, desta cidade de Lisboa, onde se colocaram já de noite, cerca das 19 horas, a cerca de 100 metros uns dos outros, aguardando a vinda do referido JOSÉ ANTÓNIO DIAS COELHO.

Tendo este passado pela Rua dos Lusíadas cerca das 20 horas e tendo-se apercebido ali da presença dos referidos agentes, começou a correr pela referida Rua dos Lusíadas, derivando depois para a Rua da Creche no sentido do Largo do Calvário.

Em sua perseguição correram os agentes referidos.

Já na Rua da Creche, sensivelmente em frente do nº 30 de polícia, foi o JOSÉ ANTÓNIO DIAS COELHO agarrado pelo agente MANUEL LAVADO.

Entretanto, chegou junto dele o réu que desfechou dois tiros de pistola marca «Star» calibre 7,65 mm, examinada nos autos e que lhe estava distribuída, sobre o referido JOSÉ ANTÓNIO DIAS COELHO.

Um dos tiros disparados veio a atingir o agente MANUEL LAVADO na manga da gabardina, casaco e camisola do braço direito e quase ao nível do ombro, sem contudo o atingir.

O outro tiro atingiu a vítima JOSÉ ANTÓNIO DIAS COELHO, na região esternal, provocando-lhe as lesões descritas no relatório da autópsia, junto aos autos, as quais foram causa necessária da sua morte.

O projéctil perfurou o esterno, por onde entrou, dirigido de diante para trás e um pouco da esquerda para a direita e perfurou ainda, no seu trajecto, a cartilagem da 5.ª costela esquerda, o saco pericárdico, o coração, produzindo hemopericárdio, hemotorax esquerdo, edema pulmonar, indo-se alojar sob a pleura visceral donde foi retirado, sendo a morte de JOSÉ ANTÓNIO DIAS COELHO devida a hemorragia consecutiva e perfuração traumática do coração (relatório da autópsia de fls. 63 e seguintes).

O réu disparou a referida arma com o cano encostado ou quase encostado à roupa da vítima DIAS COELHO.

Na verdade, no forro da gabardina, na face anterior, que a vítima vestia, encontraram-se partículas de pólvora resultantes do disparo.

O réu quis matar o JOSÉ ANTÓNIO DIAS COELHO e tinha perfeito conhecimento do seu acto. (…)”

B – DEFESA DO RÉU:

“Defende-se o réu pela forma constante da sua contestação escrita junta ao processo, a qual se dá por reproduzida para todos os efeitos legais:

Alega, em síntese, que, na data indicada, o réu tropeçou e caiu, saltando-se lhe a pistola que levava enfiada na cintura.

E foi ao recuperar a arma que ela se disparou acidentalmente e por uma só vez, indo a respectiva bala atravessar a manga da gabardina do MANUEL LAVADO e atingir a vítima.

Assim, dado que o disparo foi fortuito, o réu não cometeu, em relação ao processo principal, qualquer crime, não ter tido a intenção de matar ou ferir a vítima.”

(…)

José Dias Coelho in A morte saiu à rua

C – FACTOS DADOS POR PROVADOS PELO TRIBUNAL

“Discutida a causa, o Tribunal, por unanimidade, considerou provado o seguinte:

No dia 19 de Dezembro de 1961, o réu e os seus colegas Manuel Lavado e Pedro Ferreira, todos então agentes da Polícia Internacional e de Defesa do Estado, foram encarregados pelo chefe da respectiva brigada José Gonçalves, de localizarem e prenderem um indivíduo, JOSÉ ANTÓNIO DIAS COELHO, então militante na clandestinidade do Partido Comunista Português.

Para tal efeito, o réu e os referidos seus colegas foram transportados de automóvel à Rua dos Lusíadas desta cidade de Lisboa, onde, por volta das 19 horas, se colocaram a cerca de 100 metros uns dos outros, aguardando a vinda do referido indivíduo que calculavam passar por essa altura pela dita rua.

Esta via desenvolve-se a descer no sentido mais ou menos Norte-Sul, sendo atravessada perpendicularmente pelas ruas Leão de Oliveira e da Creche.

Os mencionados agentes distribuíram-se de forma a que o Pedro Ferreira ficasse para cima da Rua Leão de Oliveira, o réu à esquina da Rua da Creche e o Lavado a meia distância entre os dois, todos no passeio do lado poente da rua dos Lusíadas.

Cerca das 20 horas, a vítima aproximou-se do local e entrou numa leitaria então situada na Rua dos Lusíadas, um pouco a norte do local onde se encontrava o Pedro Ferreira.

Este avisou os seus colegas, reunindo-se todos no sítio onde se tinha colocado o Manuel Lavado.

Logo após, a vítima saiu da leitaria e desceu a Rua dos Lusíadas, pelo passeio do lado poente.

Quando a vítima se aproximou do réu e seus companheiros, o réu mandou o Pedro Ferreira buscar o automóvel da P.I.D.E. que se encontrava a certa distância com o respectivo motorista, tendo o Pedro Ferreira começado a subir a rua.

Entretanto, o Dias Coelho, apercebendo-se da presença no local de agentes da P.I.D.E., gritou: «Pide, Pide», começando a correr pela referida Rua dos Lusíadas, no sentido da Rua da Creche e, chegado ao cruzamento respectivo, derivou para esta rua, no sentido do Largo do Calvário.

Em sua perseguição, correram o réu e o Manuel Lavado.

Já na Rua da Creche, um pouco abaixo do prédio com o nº 30 de polícia e no passeio do lado sul, foi o Dias Coelho agarrado por um braço pelo Manuel Lavado, facto que levou aquele a voltar-se, ficando em posição oblíqua a este.

Simultaneamente, chegou junto da vítima o réu que, em andamento, disparou sucessivamente dois tiros com a pistola de marca «Star», calibre 7,65 mm, examinada a fls. 48, que lhe estava distribuída e entretanto empunhara, em direcção ao JOSÉ ANTÓNIO DIAS COELHO.

O primeiro destes tiros foi disparado a distância não exactamente determinada mas superior a meio metro, tendo-se perdido o respectivo projéctil cuja trajectória e localização posterior não foi possível serem apuradas.

O segundo tiro foi disparado estando a arma muito próxima da roupa da vítima, tendo o respectivo projéctil atingido o Dias Coelho na região esternal, provocando-lhe as lesões descritas no relatório da autópsia de fls. 64 e seguintes, as quais necessariamente lhe produziram a morte.

A bala perfurou o esterno e, dirigindo-se de diante para trás e um pouco da direita para a esquerda, perfurou ainda no seu trajecto a cartilagem da 5.ª costela esquerda, o saco pericárdico e o coração, produzindo hemopericárdio, hemotorax esquerdo e edema pulmonar, indo alojar-se sob a pleura visceral donde foi retirada.

A morte da vítima foi devida a hemorragia consecutiva e perfuração traumática do coração.

Na face anterior do forro da gabardina que a vítima então envergava encontraram-se partículas de pólvora.

O réu disparou voluntariamente os citados tiros com intenção de ferir o DIAS COELHO e evitar assim que ele se escapasse, frustando-se a missão de que o réu estava encarregado.

(…)

Após ter sido ferida, a vítima foi amparada pelo réu e pelo Lavado, sendo transportada de seguida ao Hospital da CUF, de táxi.

Neste hospital foram ministrados socorros ao DIAS COELHO que, no entanto, faleceu cerca das 20 horas e 40 minutos do referido dia.

Nessa noite, a vítima foi transportada para a morgue e ali registada como «pessoa cuja identidade se desconhece».

O réu confessou espontaneamente que tinha disparado o tiro que atingiu a vítima e os demais factos até então ocorridos, embora negasse a voluntariedade do disparo.

O réu tinha bom comportamento anteriormente aos referidos factos (A circunstância do exercício do cargo de agente da P.I.D.E. ser hoje punido, não significa, no entender do Tribunal, por si só, perda de bom comportamento). O réu possui vários louvores.

O réu disparou sobre a vítima com o propósito de evitar que esta fugisse e assim se frustasse a missão de que ele réu fora investido.

(…)

Não se provaram quaisquer outros factos, nomeadamente que o réu tivesse querido matar a vítima ou que ao disparar os tiros, tivesse desejado ou previsto tal morte, que ocorreu independentemente da sua intenção.
Também se não provou que qualquer dos projécteis disparados pelo réu tivesse atravessado a manga da gabardina ou outra peça da roupa envergada pelo Manuel Lavado, que o réu e os seus colegas tivessem a missão de identificar a vítima ou que a sinalética deste lhes fosse fornecida, que o réu e os seus companheiros ignorassem ou conhecessem a identidade da pessoa a prender, (…) que o réu tivesse tropeçado, desequilibrado, cambaleado ou caído ou ainda que se tivesse ferido na palma da mão, que a arma do réu tivesse saltado por virtude da queda deste, que o réu tivesse procurado recuperar a mesma arma ou que esta se tivesse disparado acidentalmente (…)”

José Dias Coelho in A morte saiu à rua

D – QUALIFICAÇÃO JURÍDICA DOS FACTOS

“É evidente, em face dos mesmos factos, que se não provou ter o réu cometido o crime previsto e punido pelo artº 349º do Código Penal, de que vinha acusado no processo principal, pois igualmente se não provou que ele tivesse agido com intenção de matar a vítima, elemento essencial do referido crime.

Também se não provou que o réu tivesse previsto, desejado ou aceite a morte da vítima, pelo que nem sequer se pode ponderar a hipótese de dolo eventual que a doutrina e a jurisprudência têm quase pacificamente aceite e igualado, para efeitos de enquadramento legal, ao dolo directo.

Porém, é igualmente nítido que, tendo o réu disparado voluntariamente um tiro em direcção ao Dias Coelho, com intenção de o ferir, sendo tal tiro causa necessária da sua morte, tal facto constitui ofensa corporal que produz a morte ou homicídio preter-intencional integrando o crime previsto e punido pelo artº 361º, § único, do Código Penal, para o qual se faz a necessária convolação.

E – MEDIDA DA PENA

“A favor do réu provaram-se as atenuantes do bom comportamento anterior, da confissão parcial dos factos, de possuir vários louvores e de ter agido com o propósito de evitar ver frustrada a missão de que estava encarregado, circunstâncias respectivamente 1.ª e 23.ª, esta por três vezes, do artº 39º do mencionado Código.

Ponderadas as agravantes e as atenuantes, naquelas se considerando a agravação ordenada pelo referido artº 361º § único e a acumulação de actos ilícitos, atendendo a que o réu agiu com dolo pouco intenso e que tem personalidade normal, entende o Tribunal que a pena correspondente a este crime se deve graduar um pouco abaixo da metade da sua duração máxima.

(…)

Pelo exposto, o Tribuna1, por unanimidade, julga as acusações procedentes e provadas, sendo a do processo principal nos termos expostos de convolação, pelo que, ponderado o disposto no artº 84º do Código Penal (…) condena o réu ANTÓNIO DOMINGUES, como autor material de um crime previsto e punido pelo artº 361º, § único, do Código Penal (…) [na pena] de três (3) anos e nove (9) meses de prisão maior (…).

(…)

De harmonia com o artº 3º do Dec.-Lei nº 729/75, de 22 de Dezembro, declara-se (…) perdoado ao réu (…) noventa (90) dias de prisão maior.

Ele terá assim de cumprir três (3) anos e seis (6) meses de prisão maior no total, sendo levado em conta na totalidade a prisão preventiva sofrida.”

Esta decisão suscitou profunda indignação nos meios jurídicos. Na verdade, surgia como absolutamente inaceitável que o réu, ao disparar consciente e voluntariamente uma arma de fogo encostada ao esterno da vítima, perfurando-lhe o coração, não quisesse nem sequer previsse como possível que desse disparo r