Memória

O medo como técnica

Escrito em 1946, este pedaço de um artigo de Albert Camus saído no jornal Combat tem, naturalmente, a marca do seu tempo.» Escrevi isto há sete anos, a anteceder a publicação do texto que abaixo se transcreve. Neste momento já não sei se assim é. Ressalvando a mistura verbal do «homem» e do humano – que hoje fere um tanto os nossos ouvidos – todo ele parece ter também, e muito, a marca destes dias.

«O século XVII foi o século das matemáticas, o XVIII o das ciências físicas e o XIX o da biologia. O nosso século XX é o século do medo. Dir-me-ão que o medo não é uma ciência. Mas, em primeiro lugar, a ciência é de certo modo responsável por esse medo, uma vez que os seus últimos avanços teóricos a levaram a negar-se a si mesma e porque os seus aperfeiçoamentos práticos ameaçam destruir a terra inteira. Além disso, se bem que o medo em si mesmo não possa ser considerado uma ciência, não há dúvida que é uma técnica.

O que mais impressiona no mundo em que vivemos é, desde logo e em termos gerais, que a maioria dos homens (salvo os crentes de todo o tipo) se encontram privados de futuro. Não há vida verdadeira sem a projeção de um futuro, sem expectativas de amadurecimento e de progresso. Viver contra uma parede é uma vida de cão. Pois bem, os homens da minha geração e daquela que ingressa hoje nas fábricas e nas faculdades viveram e vivem cada vez mais como cães.

Claro que não é a primeira vez que os homens deparam com um futuro materialmente fechado. Mas conseguiam romper a barreira, geralmente por via da palavra e do clamor. Recorriam a outros valores, nos quais depositavam as suas esperanças. Hoje nada já parece falar (tirando os que se repetem) porque o mundo parece conduzido por forças cegas e surdas que não ouvem as vozes da advertência, os conselhos e as súplicas. Algo em nós foi destruído pelo espetáculo dos anos que acabamos de viver. E esse algo foi aquela eterna confiança do homem que uma vez acreditou poder obter sempre reações humanas de outro homem falando com ele através da linguagem da humanidade. Vimos mentir, envilecer, matar, deportar, torturar e de cada vez que tal sucedia era impossível persuadir os que o faziam de fazê-lo, uma vez que estavam seguros de si mesmos e porque não é possível persuadir uma abstração, que é a essência da ideologia.

O grande diálogo dos homens com eles próprios acaba de cortar-se. E, naturalmente, um homem que não se pode persuadir é um homem que dá medo. Desta maneira, ao lado dos que não falavam porque o julgavam inútil, estendeu-se e continua a estender-se uma imensa conspiração do silêncio, aceite pelos que tremem e encontram sempre razões para ocultarem de si próprios que tremem. (…) «Não deveis falar da perseguição dos artistas na Rússia, porque tal é fazer o jogo da reação». «Não deveis dizer que Franco se mantém no Poder graças à ajuda dos ingleses, porque é fazer o jogo do comunismo». Bem dizia eu que o medo é uma técnica.

Entre o medo generalizado de uma guerra que todo o mundo prepara e o medo particular das ideologias homicidas, torna-se inevitável que vivamos no terror. Vivemos no terror porque já não é possível a persuasão, porque o homem foi entregue por completo à história e não pode voltar-se já para essa parte de si mesmo, tão verdadeira quanto a parte histórica, que reencontra ante a beleza do mundo e dos rostos; porque vivemos no mundo da abstração, no mundo das fábricas e das máquinas, das ideias absolutas e de um messianismo inflexível. Asfixia-nos essa gente que acredita ter a razão absoluta, seja através das suas máquinas, seja por intermédio das suas ideias. E para todos aqueles que não podem viver sem o diálogo e a amizade dos homens, este silêncio é o fim do mundo.»

Albert Camus, fragmento de «Ni victimes, ni bourreaux» («Nem vítimas, nem verdugos»), em Actuelles I – Écrits Politiques (Chroniques – 1944-1948). Tradução: R.B.

Ver original em 'A Terceira Noite' na seguinte ligação:

http://www.aterceiranoite.org/2019/07/15/o-medo-como-tecnica/

ODiario.info » O Tribunal de Recurso de Roma impôs penas a militares uruguaios, peruanos, chilenos e bolivianos envolvidos no Plano Condor

O chamado “Plano Condor” na América Latina dos anos 70 e 80 do século passado foi uma acção coordenada de terrorismo de Estado que custou a vida a dezenas de milhares de democratas em vários países. Um Tribunal italiano condenou agora os responsáveis pela morte de numerosas pessoas de origem italiana. Alguns dos criminosos morreram já, outros vivem em liberdade nos seus países. Mas a importância política destas condenações é enorme. Porque a reacção latino-americana e os seus bárbaros métodos não se circunscrevem aos anos 70 e 80 do século passado.

A Justiça italiana condenou, nesta segunda feira, a prisão perpétua 24 envolvidos na Operação Condor. Entre os condenados estão ex-chefes de Estado, ministros e figuras proeminentes dos Serviços Militares e de Segurança da Bolívia, Chile, Peru e Uruguai, acusados ​​de sequestrar e assassinar 23 cidadãos de origem italiana que viviam em países sul-americanos nas décadas de 1970 e 1980, informa a Agência Brasil.

Os familiares dos 43 Ítalo-latino-americanos (6 argentinos, 4 chilenos e 33 uruguaios) desaparecidos durante as ditaduras da década de 1970 receberam com grande satisfação e grande esperança o acórdão do Tribunal de Recurso de Roma. O tribunal condenou a prisão perpétua 24 acusados, e não apenas 8 como tinha feito a primeira instância do processo iniciado em 2015. Os condenados são na sua maioria militares chilenos, uruguaios, peruanos e bolivianos acusados ​​de ter feito desaparecer as vítimas como parte do Plano Condor, o sistema internacional que coordenava os sequestros e desaparecimentos, deslocando secretamente os sequestrados de um país para outro onde desapareciam. O Tribunal considerou-os “culpados de homicídio voluntário pluri-agravado” e para alguns deles estabeleceu também que estarão em “isolamento diurno durante dois anos”, além de pagarem os custos dos julgamentos e remunerarem os familiares em vários milhares de euros.

Alguns dos acusados ​​estão detidos nos seus próprios países, cumprindo já sentenças. O único fisicamente presente neste julgamento - embora não tenha estado presente em todas as audiências - foi o uruguaio Jorge Nestor Troccoli que vive em Itália desde há vários anos e evitou várias eventuais detenções e condenações pelo facto de ter passaporte italiano. Se as sentenças forem confirmadas pelo Supremo Tribunal, a Itália poderia solicitar a extradição dos militares, sobretudo se estiverem em liberdade nos seus países.

“Finalmente temos uma sentença que realmente nos dá justiça”, comentou a chilena María Paz Venturelli à Página12. É a sentença que esperávamos. Não sei porquê não foi possível tê-la na primeira instância. Este foi um tribunal muito atento. Espero que tudo tenha sido feito como deveria ser feito e que o Supremo Tribunal, quando for apelado, não tenha que mudar nada. ” Maria Paz, que reside na cidade de Bolonha, é filha do ex-sacerdote e professor universitário, Omar Roberto Venturelli, preso e depois desaparecido no Chile em 1973.

Cristina Mihura é uruguaia e viúva de Armando Bernardo Arnone Hernández, também uruguaio, mas sequestrada em Buenos Aires em 1975. “Estou muito emocionada - disse a este jornal -. Creio que esta sentença corrigiu a parte equivocada da sentença anterior e creio também que para os que dizem que quando chega demasiado tarde a justiça não é justiça, ao ouvir a sentença de hoje, posso dizer que eu senti que a justiça é justiça quando chega. Fiquei muito emocionada pelas vítimas de Troccoli, pelos que estão vivos, os que estão mortos, os que estão desaparecidos. Ele escapou várias vezes, mas hoje ele foi condenado. Aprecio muito o trabalho deste Tribunal porque creio que foi justo, com as provas e com a verdade “. Mihura começou a trabalhar para promover esse processo em 1999. Em 1982 tinha apresentado a primeira denúncia em Itália pelo desaparecimento do seu marido.

Nestor Gomez é o irmão da uruguaia Celica Elida Gomez Rosano que trabalhava na agência de notícias argentina Télam em Buenos Aires quando foi sequestrada em 1978. “Deu-nos um grande alívio o facto de saber que por uma vez as coisas foram levadas a sério e não deixaram livres os militares. A sentença anterior tinha-nos deixado desanimados, com medo de que deixassem livres esses bandidos “, disse ele.

Alguns réus, que haviam sido incluídos no primeiro processo, faleceram durante o julgamento ou pouco depois, pelo que não foram incluídos nesta segunda sentença. Segundo a justiça italiana, os acusados ​​e os familiares das vítimas terão o direito de recorrer uma segunda vez, mas desta vez será perante o Supremo Tribunal de Justiça e a sua decisão será a sentença final.

O acórdão do Tribunal de Recurso confirmou as condenações do primeiro julgamento em que oito pessoas (agora seis porque dois morreram) já haviam sido condenados à prisão perpétua, entre elas o boliviano Luis Arce Gómez e o peruano Francisco Morales Bermudez, presidente do Peru entre 1975 e 1980. Mas acima de tudo condenou a prisão perpétua outros 18 sobre quem em primeira instância os juízes tinham dito que o seu crime tinha prescrito. No total, os condenados são agora 24, quase todos os militares acusados ​​de crimes como sequestros, torturas, assassínios e desaparecimentos.

Entre os condenados não há nenhum militar argentino, porque a Argentina há anos vem fazendo por conta própria os julgamentos contra os militares do Plano Condor, ao contrário de outros países latino-americanos. Mas há argentinos entre os desaparecidos de origem italiana cujos casos foram tratados neste processo. Entre eles o caso de Mafalda Corinaldesi sequestrada na Argentina pelo que foi acusado o uruguaio Juan Carlos Blanco, ex-ministro das Relações Exteriores do Uruguai entre 1972 e 1976. Mas a sentença de ontem absolveu-o pelo caso de sequestro e assassínio de Corinaldesi, embora não se saiba exatamente quais os fundamentos desta decisão nem as sentenças em geral, uma vez que tribunal tem 90 dias para elaborar e apresentar oficialmente os fundamentos das suas decisões. Outros argentinos incluídos entre as vítimas incluído foram Luis Stamponi, sequestrado na Bolívia, Alejandro José Loguso Di Martino e Dora Marta Landi, sequestrados no Paraguai, e Lorenzo Ismael Viñas Gigli e Horacio Domenico Campiglia, sequestrados no Brasil.

Na manhã de hoje, antes de conhecer a sentença, os familiares de desaparecidos reunidos em Roma faltando decidiram prestar homenagem às Fossas Ardeatinas, onde em 24 de Março de 1944 foram assassinado pelos nazis 335 pessoas inocentes como retaliação por um atentado do dia anterior contra eles, que a Resistência tinha realizado no centro de Roma. “Em 24 de Março de 1944, sucedeu o massacre das Fossas Ardeatinas. Em 24 de Março de 1976 foi oficializado o massacre de 30.000 desaparecidos na Argentina e um milhão e meio de exilados” recordou Julio Frondizi, filho do professor universitário Silvio Frondizi assassinado pela Triple A em 1974. “E devo dizer, para aqueles que não o sabem, que a operação Condor nunca terminou. E prossegue”, disse Frondizi, que vive em Itália desde que o seu pai foi assassinado.

Diego Jiménez, vice-ministro da Transparência do Ministério da Justiça da Bolívia, participou na homenagem nas Fossas Ardeatinas. “O governo da Bolívia segue os processos que procuram a justiça, a construção da memória e a verdade do que implicou para a América Latina o período das ditaduras”, declarou. Particularmente o Plano Condor e suas incidências nos nossos países. Dois dos acusados ​​foram ditadores no nosso país. García Mezza, que morreu há algum tempo, e Luis Arce Gómez, que era o seu lugar-tenente. Essas pessoas representam o que o terrorismo de Estado implicou. Os crimes que cometeram foram crimes contra a humanidade e, hoje, as feridas que deixaram não estão encerradas. É por isso que fazendo o acompanhamento deste longo processo, nos sentimos com a esperança de que a sentença de hoje seja uma sentença histórica, uma sentença que faça justiça e um símbolo para a humanidade”. E acrescentou: “Se o Plano Condor continua a existir? É assim. Nós acreditamos que as forças reaccionárias que estão presentes na América Latina, privilegiando os interesses do imperialismo norte-americano, não cessaram. Embora tenha havido avanços por parte de muitos países que tiveram governos progressistas. Na América do Sul, hoje, há uma corrente muito agressiva, muito destrutiva e anti processos sociais. E isso significa que os níveis de coordenação ainda estão lá. É por isso que processos dessa natureza, que refrescam a memória do que aconteceu na América Latina, são importantes. Não podemos permitir que aconteça de novo. As novas gerações devem entender todos os danos causados ​​pelos governos ditatoriais “.


Fonte: http://www.resumenlatinoamericano.org/2019/07/09/argentina-condenan-a-perpetua-a-24-represores-sudamericanos-en-italia-por-el-plan-condor/

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References

  1. ^ endereço (www.odiario.info)
  2. ^ odiario.info (odiario.info)

Ver o original em ODiario.info (clique aqui)

“Sob os nossos olhos” (4/25)Os Irmãos Muçulmanos como auxiliares do Pentágono

Prosseguimos a publicação do livro de Thierry Meyssan, «Sous nos yeux» (Sobos Nossos Olhos). Neste episódio, ele descreve como a organização terrorista dos Irmãos Muçulmanos foi integrada no Pentágono. Ela foi ligada às redes anti-Soviéticas constituídas com antigos nazis durante a Guerra Fria.

Este artigo é extraído do livro Sob os nossos olhos.
Ver o Indíce dos assuntos.

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O Saudita Ousama Bin Laden e o seu médico pessoal, o Egípcio Ayman al-Zawahiri, publicam em 1998 «A Frente islâmica mundial contra os judeus e os cruzados». Este texto foi difundido pelo seu escritório no Londonistan ("Londristão"-ndT), o Advice and Reformation Committee. Al-Zawahiri organizou o assassínio do Presidente Sadate, depois trabalhou para os Serviços Secretos sudaneses de Hassan al-Turabi e Omar al-Bashir. Ele dirige agora a Alcaida.

5— Os islamistas nas mãos do Pentágono

No início dos anos 90, o Pentágono decide incorporar os islamistas —que até aí estavam unicamente na dependência da CIA— às suas operações. É a Operação Gládio B, em referência aos Serviços Secretos da OTAN na Europa (Gládio A [1]).

Durante uma década, todos os chefes islamistas —aí incluídos Osama Bin Laden e Ayman al-Zawahiri— se deslocam a bordo de aviões da US Air Force (Força Aérea americana). O Reino Unido, a Turquia e o Azerbaijão participam na operação [2]. Por conseguinte, os islamistas —que até aí eram combatentes da sombra— são agora «publicamente» integrados nas Forças da Otan.

A Arábia Saudita que é ao mesmo tempo um Estado e propriedade privada dos Saud— torna-se oficialmente a instituição responsável pela gestão do islamismo mundial. O Rei proclama uma Lei Fundamental, em 1992, segundo a qual «O Estado protege a fé islâmica e aplica a Charia. Impõe o Bem e combate o Mal. Cumpre os deveres do Islão (...) A defesa do islamismo, da sociedade e da pátria muçulmana é o dever de todo o súbdito do Rei».

Em 1993, Carlos, o Príncipe de Gales, coloca o Oxford Center for Islamic Studies sob o seu patrocínio, enquanto o Chefe dos Serviços Secretos sauditas, o Príncipe Turki, toma a direcção do mesmo.

Londres torna-se abertamente o centro nevrálgico da Gládio B, a tal ponto que se fala de «Londonistan» («Londristão»-ndT) [3]. Sob a égide da Liga Islâmica Mundial, os Irmãos Muçulmanos árabes e a Jamaat-i-Islami paquistanesa criam uma quantidade de associações culturais e religiosas ligadas à mesquita de Finsbury Park. Este dispositivo irá permitir recrutar inúmeros kamikazes, desde aqueles que irão atacar a escola russa de Beslan até Richard Reid, o «Shoe bomber». O Londristão inclui, em especial, inúmeros média, editoras, jornais (al-Hayat e Asharq al-Awsat —ambos dirigidos por filhos do actual Rei Salman da Arábia—) e televisões (o grupo MBC do Príncipe Walid bin Talal emite uma vintena de canais), que não são destinados à diáspora muçulmana no Reino Unido, mas, sim com emissões dirigidas ao mundo árabe; tendo o acordo entre os Islamistas e a Arábia Saudita sido estendido ao Reino Unido –-total liberdade de acção, mas interdição de ingerência na política interna. Este conglomerado emprega vários milhares de pessoas e movimenta gigantescas quantias de dinheiro. Ele irá permanecer aberto até aos atentados de 11 de Setembro de 2001, quando se tornará impossível aos Britânicos continuar a justificar a sua existência.

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Abu Mussab « o Sírio » (aqui com Osama Bin Laden) teorizou em termos islâmicos a «estratégia da tensão». Ele criou uma agência em Madrid e outra em Londres, às claras, para supervisionar os atentados na Europa.

Abu Mussab, «O Sírio» —um sobrevivente do golpe de Estado abortado de Hama, tornado agente de ligação entre Bin Laden e o Grupo Islâmico Armado (GIA) argelino— teoriza a «jiade descentralizada». No seu Appel à la résistance islamique mondiale, ele coloca em termos islâmicos a já bem conhecida doutrina da «estratégia da tensão». Trata-se de provocar as autoridades para suscitar uma terrível repressão que levará o povo a revoltar-se contra elas. Esta teoria fora já utilizada pelas redes Gládio da CIA /OTAN ao manipular a extrema-esquerda europeia nos anos 70-80 (Grupo Baader-Meinhof, Brigadas Vermelhas, Action Directe). É claro que estava fora de questão que esta estratégia vencesse e a CIA/OTAN sabiam que não havia nenhuma chance de êxito —ela jamais fora bem sucedida, fosse onde fosse—, pretendia sim utilizar a reacção repressiva do Estado para colocar os seus homens no Poder. «O Sírio» designa a Europa —e, claramente, nunca os Estados Unidos— como o próximo campo de batalha dos islamistas. Em 1995, ele foge de França após os atentados desse ano. Dois anos mais tarde, cria em Madrid e no Londristão o Islamic Conflict Studies Bureau, dentro do modelo da Aginter Press, que a CIA tinha criado em Lisboa durante os anos 60-70. As duas estruturas superam-se na organização de atentados de falsa-bandeira (desde o atribuído à extrema-esquerda na Piazza Fontana, em 1969, até aos atribuídos aos muçulmanos em Londres, em 2005).

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O assessor de comunicação dos Irmãos Muçulmanos, Mahmoud Jibril el-Warfally, treina os ditadores muçulmanos para falarem a linguagem democrática. Ele reorganizou a Al-Jazeera, depois tornou-se responsável da implantação das empresas dos EUA durante o regime Kadhafi na Líbia, e por fim dirige o derrube do próprio Kadhafi.

Simultaneamente, os Irmãos elaboram um vasto programa de formação de líderes árabes pró-EU. O Líbio Mahmoud Jibril El-Warfally, professor na Universidade de Pittsburg, ensina-os a falar de forma «politicamente correcta». Assim, ele forma emires e generais da Arábia Saudita, do Barém, do Egipto, dos Emirados, da Jordânia, do Kuwait, de Marrocos e da Tunísia (mas também de Singapura). Misturando princípios de Relações Públicas e estudo dos relatórios do Banco Mundial, os piores ditadores são agora capazes de falar, sem se rir, dos seus ideais democráticos bem como do seu profundo respeito pelos Direitos do Homem.

A guerra contra a Argélia transborda para a França. Jacques Chirac e o seu Ministro do Interior, Charles Pasqua, interrompem o apoio de Paris aos Irmãos Muçulmanos e tratam mesmo de interditar os livros de Yussef al-Qaradawi (o pregador da Irmandade). Para eles trata-se de manter a presença francesa no Magrebe que os Britânicos querem riscar do mapa. O Grupo Islâmico Armado (GIA) toma como reféns os passageiros do vôo da Air France Argel-Paris (1994), faz explodir bombas no RER, e em diversos pontos da capital (1995), e planeia um gigantesco atentado —que será impedido— aquando do Campeonato do Mundo de futebol (1998), incluindo a queda de um avião sobre uma central eléctrica nuclear. Em todos os episódios, os suspeitos, que conseguem escapar, encontram asilo no Londristão.

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Desfile da « Legião Árabe » de Osama Bin Laden para o Presidente Alija Izetbegovic na Bósnia-Herzegovina.

A guerra da Bósnia-Herzegovina começa em 1992 [4]. A ordens de Washington, os Serviços Secretos paquistaneses (ISI), sempre apoiados financeiramente pela Arábia Saudita, enviam 90.000 homens para participar nela contra os Sérvios (apoiados por Moscovo). Osama Bin Laden recebe um passaporte diplomático bósnio e torna-se conselheiro militar do Presidente Alija Izetbegović (de quem o Norte-americano Richard Perle é conselheiro diplomático e o Francês Bernard-Henri Lévy, conselheiro de imprensa). Ele monta a Legião Árabe com antigos combatentes do Afeganistão e arranja financiamento da Liga Islâmica Mundial. Por reflexo comunitário, ou em competição com a Arábia Saudita, a República Islâmica do Irão vai também em socorro dos muçulmanos da Bósnia. Em perfeita combinação com o Pentágono, ela envia várias centenas de Guardas da Revolução e uma unidade do Hezbolla libanês. Acima de tudo, fornece o essencial das armas utilizadas pelo Exército bósnio.

Os Serviços Secretos russos, que infiltraram o campo de Bin Laden, constatam que toda a burocracia da Legião Árabe é redigida em inglês e que a Legião recebe as suas ordens directamente da OTAN. Após a guerra, um Tribunal Internacional especial é criado. Este processou inúmeros combatentes por crimes de guerra, mas nenhum membro da Legião Árabe.

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O Egípcio Muhammad al-Zawahiri participou junto com o seu irmão, Ayman (actual chefe da Alcaida), no assassínio do Presidente Sadate. Também participou ao lado da OTAN nas guerras da Bósnia-Herzegovina e do Kosovo. Ele comandou também uma unidade do UÇK (Exército de Libertação do Kosovo).

Após três anos de calma, a guerra entre muçulmanos e ortodoxos reacende-se na ex-Jugoslávia, no Kosovo desta vez. O Exército de Libertação do Kosovo (UÇK) é formado a partir de grupos mafiosos treinados em combate pelas Forças Especiais Alemãs (KSK) na base turca de Incirlik. Os Albaneses e os Jugoslavos muçulmanos têm uma cultura Naqchbandie. Hakan Fidan, o futuro chefe dos Serviços Secretos turcos, é o oficial de ligação entre a OTAN e a Turquia. Os veteranos da Legião Árabe integram o UÇK, do qual uma brigada é comandada por um dos irmãos de Ayman al-Zawahiri. Este destrói sistematicamente as igrejas e os mosteiros ortodoxos, e caça os cristãos.

Em 1995, revivendo a tradição dos assassinatos políticos, Osama Bin Laden tenta eliminar o Presidente egípcio, Hosni Mubarak. Ele volta a tentar no ano seguinte com o Guia líbio, Muammar Kaddafi. Este segundo atentado é financiado, pela soma de £ 100.000 libras, pelos Serviços Secretos britânicos que querem punir o apoio líbio à resistência irlandesa [5]. Azaradamente a operação falha. Vários oficiais líbios fogem para o Reino Unido. Entre eles, Ramadan Abidi, cujo filho será encarregado anos mais tarde, sempre pelos serviços britânicos, de realizar um atentado em Manchester. A Líbia transmite provas à Interpol e emite o primeiro mandato de prisão internacional contra o próprio Osama Bin Laden, o qual continua a manter um escritório de relações públicas no Londristão.

Em 1998, a Comissão Árabe dos Direitos Humanos é fundada em Paris. Ela é financiada pela NED. O seu presidente é o Tunisino Moncef Marzouki, e o seu porta-voz o Sírio Haytham Manna. O seu objectivo é defender os Irmãos Muçulmanos que foram presos nos diferentes países árabes, por causa das suas actividades terroristas. Marzouki é um médico de esquerda que trabalha com eles há longo tempo. Manna é um escritor que gere os investimentos de Hassan al-Turabi e dos Irmãos sudaneses na Europa. Quando Manna se retira, a sua companheira mantêm-se como directora da associação. Ele é substituído pelo Argelino Rachid Mesli, que é advogado e é, nomeadamente, o de Abassi Madani e dos Irmãos argelinos.

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Filho espiritual do islamista turco Necmettin Erbakan (ao centro), Recep Tayyip Erdogan (à direita) dirigiu o seu grupo de acção secreta, a Millî Görüs. Ele organizou o encaminhamento de armas para a Tchechénia e abrigou, em Istambul, os principais emires anti-Russos

Em 1999 (ou seja, após a guerra do Kosovo e a tomada do Poder pelos islamistas em Grozny), Zbigniew Brzeziński funda com uma coorte de neo-conservadores o American Committee for Peace in Chechnya (Comité americano para a paz na Tchechénia). Se a primeira guerra na Tchechénia fora um assunto interno russo, no qual alguns islamistas se tinham imiscuído, a segunda visa a criação do Emirado Islâmico da Ichquéria. Brzeziński, que preparava esta operação há vários anos, tenta reproduzir a experiência afegã.

Os jiadistas tchechenos, como Chamil Bassaïev, não foram treinados no Sudão por Bin Laden, mas, sim no Afeganistão pelos Talibã. Durante toda a guerra, beneficiam do apoio «humanitário» da Millî Görüş turca de Necmettin Erbakan e Recep Tayyip Erdoğan e da «IHH - Direitos do homem e Liberdades». Esta Associação turca foi criada na Alemanha sob o nome de Internationale Humanitäre Hilfe (IHH). Em seguida, estes jiadistas organizarão várias grandes operações : nomeadamente contra o Teatro de Moscovo (2002, 170 mortos, 700 feridos), contra uma escola de Beslan (2004, 385 mortos, 783 feridos) e contra a cidade de Naltchik (2005, 128 mortos e 115 feridos). Após o massacre de Beslan e a morte do líder jiadista Chamil Bassaïev, a Milli Görüş e a IHH organizam, na mesquita de Fatih de Istambul, enormes exéquias sem o corpo mas com dezenas de milhares de militantes.

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Apresentado como um atentado «anti-americano», a destruição da embaixada dos Estados Unidos em Dar es-Salaam (Tanzânia), em 7 de Agosto de 1998, fez 85 feridos e 11 mortos… mas nenhuma vítima norte-americana.

Durante este período, três atentados importantes são atribuídos à Alcaida. No entanto, por muito importantes que estas operações sejam, elas representam um falhanço para os islamistas, os quais, por um lado, são integrados no seio da OTAN e se veem simultaneamente despromovidos para o nível de terroristas anti-americanos.
- Em 1996, um camião armadilhado faz explodir uma torre de oito andares em Khobar, na Arábia Saudita, matando 19 soldados dos EUA. Primeiro atribuído à Alcaida, a responsabilidade do atentado é transferida para cima do Irão, depois finalmente para ninguém.
- Em 1998, duas bombas explodem diante das embaixadas norte-americanas em Nairobi (Quénia) e Dar-es-Salam (Tanzânia), matando 298 africanos —mas nenhum Norte-americano— e ferindo mais de 4.500 pessoas. Estes atentados são reivindicados por um misterioso Exército Islâmico de Libertação dos Lugares Santos. Segundo as autoridades dos EU, eles teriam sido cometidos por membros da Jiade Islâmica egípcia em retorsão pela extradição de quatro dos seus membros. Ora, as mesmas autoridades acusam Osama Bin Laden de ser o comanditário e o FBI emite —por fim— um mandado de prisão internacional contra ele.
- Em 2000, uma embarcação suicida explode contra o costado do destróier USS Cole fundeado em Áden (Iémene). O atentado é reivindicado pela Alcaida na Península Arábica (AQPA), mas um tribunal norte-americano tornará responsável o Sudão.

Estes atentados ocorrem enquanto a colaboração entre Washington e os Islamistas continua. Assim, Osama bin Laden, conservou o seu escritório no Londristão até 1999. Situado no bairro de Wembley, o Advice and Reformation Committee (ARC) visa, ao mesmo tempo, difundir as declarações de Bin Laden e cobrir as actividades logísticas da Alcaida, inclusive em matéria de recrutamento, de pagamentos e de aquisição de materiais. Entre os seus colaboradores em Londres encontra-se o saudita Khaled al-Fawwaz e os egípcios Adel Abdel Bary e Ibrahim Eidarous, três homens que são alvo de mandados de detenção internacionais, mas que, no entanto, receberam asilo político no Reino Unido. É na mais perfeita legalidade, em Londres, que o escritório de Bin Laden publicará, em Fevereiro de 1998, o seu célebre Apelo à Jiade contra os Judeus e os Cruzados. Gravemente doente dos rins, Bin Laden é hospitalizado, em Agosto de 2001, no hospital Americano do Dubai. Um chefe de Estado do Golfo confirmou-me tê-lo ido visitar ao seu quarto, onde a sua segurança era garantida pela CIA.

6— A fusão das duas « Gládio » e a preparação do Daesh

Dentro da mesma lógica, a Administração Bush torna os Islamistas responsáveis pelos brutais atentados que ocorrem a 11 de Setembro de 2001 nos Estados Unidos. A versão oficial impõe-se embora ela comporte numerosas incoerências. O Secretário da Justiça assegura que os aviões foram sequestrados por islamistas, muito embora segundo as companhias de aviação nenhum dos suspeitos tenha estado a bordo. O Departamento da Defesa publicará um vídeo no qual Bin Laden reivindica os atentados, quando o próprio os tinha rejeitado publicamente e os peritos em reconhecimento facial e vocal afirmam que o homem do vídeo não é Bin Laden.

Seja como for, estes acontecimentos servem de pretexto a Washington e a Londres para lançar a «Guerra sem fim» e atacar os seus antigos aliados, os Talibã no Afeganistão, e o Iraque de Saddam Hussein.

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Em 11 de Setembro de 2001, Osama Bin Laden não estava em estado de dirigir a menor operação terrorista. Ele estava, à beira da morte, sob diálise no hospital militar de Rawalpindi (Paquistão).

Muito embora ele já sofresse de insuficiência renal crónica, Osama Bin Laden apenas sucumbe à sua doença a 15 de Dezembro de 2001 como resultado de um síndrome de Marfan. Um representante do MI6 assiste às suas exéquias no Afeganistão. Posteriormente, vários sósias, mais ou menos parecidos, irão manter o seu simulacro vivo, dos quais um será assassinado por Omar Sheikh, em 2005, segundo a Primeiro-ministro paquistanesa Benazir Bhuto.

Em Agosto de 2002, o MI6 organiza uma conferência da Irmandade Muçulmana sobre o tema «a Síria para todos». Aí, os oradores desenvolvem a ideia que a Síria estaria a ser oprimida pela seita dos Alauítas e que apenas os Irmãos Muçulmanos garantiriam uma genuína igualdade.

Após Sayyed Qutb e Abu Mussab, «o Sírio», os Islamistas dotam-se de um novo estratega, Abu Bakr Naji. Em 2004, este personagem, que parece nunca ter existido, publica um livro na Internet, A Gestão da Barbárie, uma teoria do caos [6]. Embora alguns autores tenham acreditado reconhecer o estilo de um autor egípcio, parece que a obra foi escrita em inglês, depois enriquecida com citações corânicas supérfluas e traduzido para árabe. A «Barbárie» no título do livro, não designa o recurso ao terror, mas, sim o retorno ao estado da natureza antes da civilização ter criado o Estado. Trata-se de fazer regressar a Humanidade ao ponto onde «o homem é um lobo do homem». A estratégia do caos desenrola-se em três fases:
- Primeira, desmoralizar e esgotar o Estado atacando nos seus flancos menos bem protegidos. Escolhem-se portanto alvos secundários, muitas vezes sem interesse, mas fáceis de destruir e separados. Tratar-se-á de dar a impressão de um levantamento generalizado, de uma revolução.
- Em segundo lugar, assim que o Estado se tiver retirado dos subúrbios e dos campos, conquistar certas zonas e administrá-las. Impor a Charia para marcar a passagem a uma nova forma de Estado. Durante este período, serão estabelecidas alianças com todos aqueles que se opõem ao Poder, e que não se deixará de armar. Irá conduzir-se então uma guerra de posições.
- Em terceiro lugar, proclamar o Estado Islâmico.

Este tratado transpira ciência militar contemporânea. Ele dá uma enorme importância às operações psicológicas, nomeadamente à utilização da violência mediática. Na prática, esta estratégia nada tem a ver com uma revolução, mas com a conquista de um país por potências exteriores, já que ela pressupõe um investimento maciço. Como sempre na literatura subversiva, o mais interessante reside naquilo que não é dito ou apenas é mencionado de passagem:
- a preparação das populações para que elas acolham os jiadistas supõe a construção prévia de uma rede de mesquitas e de obras sociais, tal como foi feito na Argélia antes da guerra «civil».
- para serem postas em marcha, as primeiras operações militares necessitam de armas que é preciso importar de antemão. Sobretudo, em seguida, os jiadistas não terão nenhum meio para obter armas e ainda menos munições. Portanto, eles terão que ser apoiados a partir do exterior.
- A administração das zonas conquistadas supõe que se disponha de quadros formados previamente, como os dos exércitos regulares encarregados de «reconstruir Estados».
- Finalmente a guerra de posições supõe a construção de vastíssimas infra-estruturas que necessitarão de uma grande quantidade de materiais, de engenheiros e de arquitectos.

De facto, o reclamar a autoria desta obra atesta que os islamistas entendem continuar a jogar um papel militar por conta de potências exteriores, só que desta vez em grandíssima escala.

Em 2006, os Britânicos pedem ao Emir Ahmad do Catar para colocar o seu canal de televisão pan-árabe, Al-Jazeera, ao serviço dos Irmãos Muçulmanos [7]. O Líbio Mahmoud Jibril, que treinou a família real a falar em linguagem democrática, é encarregue de introduzir, passo a passo, os seus Irmãos no canal e de criar canais em línguas estrangeiras (inglês e, a seguir, bósnio e turco), assim como um canal para as crianças. O pregador Yusuf al-Qaradawi torna-se «conselheiro religioso» da Al-Jazeera. É claro, o canal irá transmitir e validar as gravações de áudio ou os vídeos dos «Osama Bin Laden».

No mesmo período, as tropas dos EUA no Iraque tem que fazer face a uma revolta que se generaliza. Depois de terem sido derrotados pela rapidez e pela brutalidade da invasão (técnica do «choque e pavor»), os Iraquianos organizam a sua resistência. O Embaixador norte-americano em Bagdade, depois Director da Inteligência Nacional, John Negroponte, propõe-se vencê-los pela divisão e virando a sua raiva contra si próprios, quer dizer transformar a Resistência à ocupação em guerra civil. Perito em operações secretas, ele participou, nomeadamente, na Operação Fénix no Vietname, montando depois a guerra civil civil em El Salvador e a operação Irão-Contras na Nicarágua, e levou ao colapso a rebelião no Chiapas mexicano. Negroponte chama um dos homens em que se apoiou em El Salvador, o Coronel James Steele. Confia-lhe a tarefa de criar milícias iraquianas de xiitas contra os sunitas e sunitas contra os xiitas. Quanto à milícia sunita, Steele recorre aos Islamistas. A partir da Alcaida no Iraque, ele arma uma coligação tribal, o Emirado islâmico no Iraque (futuro Daesh) sob cobertura da polícia especial («Brigada dos Lobos»). Para aterrorizar as vítimas e as suas famílias, ele treina o Emirado na tortura, segundo os métodos da Escola das Américas (School of América) e da Political Warfare Cadres Academy de Taiwan, onde ensinou. Em poucos meses, um novo horror abate-se sobre os Iraquianos e divide-os segundo a sua confissão religiosa. Em seguida, assim que o General David Petraeus assumir o comando das tropas norte-americanas no país, irá designar o Coronel James H. Coffman para trabalhar com Steele e lhe fornecer relatórios sobre a operação, enquanto Brett H. McGurk dará conta directamente ao Presidente. Os principais chefes do Emirado Islâmico são recrutados no campo de concentração de Bucca, mas são objecto de preparação na prisão de Abu Ghraib, segundo os métodos de «lavagem ao cérebro» dos professores Albert D. Biderman e Martin Seligman [8]. Tudo é supervisionado desde Washington pelo Secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, de quem Steele depende directamente.

Em 2007, Washington informa a Irmandade que vai derrubar os regimes laicos do Médio-Oriente Alargado, incluindo os dos Estados aliados, e que ela se deve preparar para exercer o Poder. A CIA organiza alianças entre os Irmãos e partidos, ou personalidades laicas, de todos os Estados da região. Simultaneamente, ela liga os dois ramos da «Gládio» tecendo laços entre os grupos nazis ocidentais e os grupos islamistas orientais.

Estas iniciativas de aliança são às vezes inconclusivas, como, por exemplo, aquando da «Conferência Nacional da Oposição Líbia», em Londres, onde os Irmãos não conseguem federar à sua volta senão o Grupo Islâmico Combatente na Líbia (Alcaida na Líbia) e a Irmandade wahhabita Senussi. A plataforma programática prevê restabelecer a monarquia e fazer do Islão a religião do Estado. Mais convincente é a constituição da Frente da Salvação Nacional, em Berlim, que oficializa a união dos Irmãos com o antigo Vice-presidente baathista sírio Abdel Halim Khaddam.

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Dmytro Iarosh durante o Congresso da Frente anti-imperialista de Ternopol (2007). Ele vai realizar a junção entre os nazis da Gládio A e os islamistas da Gládio B, depois irá tornar-se Secretário-adjunto do Conselho de Segurança Nacional da Ucrânia após a «revolução colorida» do EuroMaidan (2014).

A 8 de Maio de 2007, em Ternopol (oeste da Ucrânia), grupúsculos nazis e islamistas criam uma Frente anti-imperialista para lutar contra a Rússia. Organizações da Lituânia, da Polónia, da Ucrânia e da Rússia participam nela, entre as quais os separatistas Islamistas da Crimeia, da Adigueia, do Daguestão, da Inguchia, da Cabardino-Balcária, da Carachai-Cerquéssia, da Ossétia, da Chechénia. Não podendo viajar para lá devido as sanções internacionais impostas contra ele, Dokou Umarov —que aboliu a República da Chechénia e proclamou o Emirado Islâmico da Ichquéria—, fez ler a sua proclamação. A Frente é presidida pelo nazi Dmytro Yarosh, o qual se tornará durante o golpe de Estado de Kiev, em Fevereiro de 2014, Secretário-adjunto do Conselho de Segurança Nacional da Ucrânia.

No Líbano, em Maio-Junho de 2007, o Exército nacional empreende o cerco do campo palestino de Nahr el-Bared depois de membros da Fatah al-Islam se terem lá entrincheirado. Os combates duram 32 dias e custam a vida a 76 soldados, dos quais uma trintena são decapitados.

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O Turco-Irlandês El Mehdi El Hamid El Hamdi dito «Mahdi Al-Harati», agente da CIA presente na Flotilha da Liberdade, abraçado pelo Presidente Erdogan que veio visitá-lo ao hospital. Em seguida, ele irá tornar-se o número 2 do Exército sírio livre.

Em 2010, a Irmandade organiza a Flotilha da Liberdade através da IHH. Oficialmente trata-se de desafiar o embargo israelita e de levar assistência humanitária aos habitantes de Gaza [9]. Na realidade, o principal barco desta frota muda de bandeira durante a travessia e prossegue sob pavilhão turco. Numerosos espiões misturam-se com os militantes não-violentos participando na expedição, entre os quais um agente irlandês da CIA, Mahdi al-Harati. Caindo na armadilha que lhe estende os Estados Unidos, o Primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, ordena o assalto aos barcos, em águas internacionais, provocando 10 mortos e 54 feridos. O mundo inteiro condena esse acto de pirataria sob o olhar sarcástico da Casa Branca. Israel, que fornecia armas aos jiadistas no Afeganistão e apoiou a criação do Hamas contra a OLP de Yasser Arafat, virara-se contra os Islamistas em 2008 e bombardeou-os, assim como à população de Gaza. Netanyahu paga assim, desta maneira, a operação «Chumbo Endurecido» que levou a cabo, junto com a Arábia Saudita, contra a opinião da Casa Branca. No fim, os passageiros da Flotilha são libertados por Israel. A imprensa turca mostra então o Primeiro-ministro Recep Tayyip Erdoğan visitando Mahdi al-Harati num hospital.

(Continua …)


[1] NATO’s secret armies: operation Gladio and terrorism in Western Europe, Daniele Ganser, Foreword by Dr. John Prados, Frank Cass/Routledge (2005).

[2] Classified Woman: The Sibel Edmonds Story : A Memoir, Sibel Edmonds (2012).

[3] Londonistan, Melanie Phillips, Encounter Books (2006).

[4] Wie der Dschihad nach Europa kam, Jürgen Elsässer, NP Verlag (2005); Intelligence and the war in Bosnia 1992-1995: The role of the intelligence and security services, Nederlands Instituut voor Oologsdocumentatie (2010). Al-Qaida’s Jihad in Europe: The Afghan-Bosnian Network, Evan Kohlmann, Berg (2011).

[5] «David Shayler: «Dejé los servicios secretos británicos cuando el MI6 decidió financiar a los socios de Osama ben Laden»», Red Voltaire , 23 de noviembre de 2005.

[6] The Management of Savagery: The Most Critical Stage Through Which the Umma Will Pass, Abu Bakr Naji, Harvard University (2006).

[7] «Wadah Khanfar, Al-Jazeera y el triunfo de la propaganda televisiva », por Thierry Meyssan, Red Voltaire , 27 de septiembre de 2011.

[8] “O Segredo de Guantanamo”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Odnako (Rússia) , Rede Voltaire, 10 de Setembro de 2014.

[9] «Flotilla de la Libertad: el detalle que Netanyahu no conocía», por Thierry Meyssan, Red Voltaire , 11 de junio de 2010.



Ver original na 'Rede Voltaire'



JANTAR DE OPOSICIONISTAS DE 20/07/1957 [I] || CONVOCATÓRIA DE 10/07/1957

* JANTAR DE OPOSICIONISTAS DE 20 DE JULHO DE 1957 || "ELEIÇÕES" PARA A ASSEMBLEIA NACIONAL DE 3 DE NOVEMBRO DE 1957 *
No âmbito das "eleições" de 3 de Novembro de 1957 para a Assembleia Nacional, um grupo de 38 prestigiados democratas antifascistas de todo o país, muitos deles já anteriormente perseguidos e presos pela Ditadura instaurada em 28 de Maio de 1926, subscreveram a convocatória para um jantar  a realizar no dia 20 de Julho, em Lisboa, sob o pretexto de se comemorar a entrada na cidade das tropas liberais em 24 de Julho de 1834.
O jantar visava reunir «o maior número possível de oposicionistas de todo o País, e de todas as tendências - sejam quais forem os seus pontos de vista actuais sobre o desenrolar da situação política», de forma a proporcionar «um debate proveitoso à volta das diferentes ideias que vão sendo formuladas em face das próximas eleições».
 
O evento realizou-se no restaurante Castanheira de Moura e terão participado "cerca de 300 pessoas de vários pontos do país" [Mário Matos e Lemos, Oposição e Eleições no Estado Novo, 2012].
 
O professor e publicista Luís da Câmara Reis [1885 - 1961], provavelmente o detentor do panfleto acima publicado pelo carimbo que nele consta, abriu os discursos para "afirmar que aquela reunião se destinava a «assentar numa atitude a tomar perante o próximo ato eleitoral e congregar os esforços de todos os antissituacionistas, fossem quais fossem as suas correntes de opinião», acrescentando que «até mesmo os monárquicos liberais seriam bem recebidos»" [Mário Matos e Lemos].
 
Intervieram, entre outros, o médico António Ferreira da Costa [1904 - 2004], que estivera degredado no Campo de Concentração do Tarrafal entre 1942 e 1944; o jornalista e libertário Artur Inês [1898 - 1968]; o advogado Artur Morgado dos Santos Silva [1879 – 1960]; o arquitecto Artur Vieira de Andrade [1913 - 2005]; o advogado marinhense José Henriques Vareda [1927 - 1989]; o advogado Lino Lima [1917 - 1999]; o advogado Manuel Campos Lima [1916 - 1996]; o advogado Manuel Sertório [Marques da Silva] [1926 - 1985]; a escritora Natália Correia [1923 - 1993]; e o estudante Silas Coutinho Cerqueira.
 
Segundo Mário Matos e Lemos, na obra Oposição e Eleições no Estado Novo, "no fim, uma moção aprovou a participação na campanha eleitoral, ficando para mais tarde a decisão de ir ou não às urnas".
 
A Oposição constituiu listas em Aveiro, Braga, Lisboa e Porto, tendo só a lista independente de Braga chegado a ir às urnas. Aveiro e Porto desistiram de se apresentar ao acto eleitoral em vésperas da sua realização e a lista de Lisboa não foi aceite sob o pretexto de ter sido entre fora do prazo. Faro também elaborou uma lista, mas não a chegou a apresentar.
 
Candidatos efectivos por Aveiro: Alfredo Ângelo Vidal Coelho de Magalhães [1919 - 1988], arquitecto; Júlio Correia da Rocha Calisto [1897 - 1973], advogado; Manuel Augusto dos Santos Pato [1918 - 1975], médico; Manuel Joaquim da Costa Pereira [1911 - 1981], advogado; Manuel Martins das Neves [1919 - 1997], professor e advogado; e Virgílio Pereira da Silva [1888 - 1963], advogado e notário.
 
Candidatos por Braga: Eduardo Pereira dos Santos [1903 - ?], comerciante; Francisco Alberto Pinto Rodrigues [1900 - ?], advogado; Guilherme Francisco Aguiar Branco [1909 - 2002], advogado; Joaquim José Resende Pereira Borges [1905 - 2005], advogado; José Justino de Amorim [1894 - ?], engenheiro agrónomo; Luís Gonzaga Vieira de Castro Caseiro [1929 - 1978], advogado; e Miguel Augusto Alves Ferreira [1878 - 1961], militar.

Candidatos por Lisboa, cuja lista foi recusada: Arlindo Augusto Pires Vicente [1906 - 1977], advogado; Domingos Martins de Carvalho [1917 - 2008], agente comercial; José Alves da Cruz Ferreira [1909 - 1988], advogado; Luís Augusto Ferreira Martins [1875 - 1967], militar na reserva; Luís da  Câmara Reis [1885 - 1961], licenciado em Direito, professor e publicista; Manuel João da Palma Carlos [1915 - 2001], advogado; Manuel Sertório de Carvalho Marques da Silva [1926 - 1985], advogado; Maria Lígia Valente da Fonseca Severino [Lília da Fonseca] [1916 - 1991], jornalista e escritora; Nikias Ribeiro Skapinakis [n. 1931], artista plástico; Óscar dos Reis Figueiredo [1924 - 2007], operário serralheiro; Rogério Gomes Lopes Ferreira[Rogério Paulo] [1927 - 1993], actor e encenador; e Rui Manuel Sequeira Cabeçadas [1928 - 1992], licenciado em Direito.

Candidatos pelo Porto: Amadeu Alves Morais [1920 - 1987], advogado; Artur de Oliveira Valença [1897 - 1978], industrial, comerciante, empresário e jornalista; Artur Morgado Ferreira dos Santos Silva [1910 - 1980], advogado; Artur Vieira de Andrade [1913 - 2005], arquitecto; Augusto César de Barros [1888 - 1973]; Jaime Alves Vilhena de Andrade [1922 - 2000], advogado; Manuel Coelho dos Santos [1927 - 2012], advogado; Mem Tinoco Verdial [1887 - 1974], engenheiro; Pedro Emiliano Veiga [1909 - 1987], licenciado em Direito e em Letras, professor; e Rodrigo Teixeira Mendes de Abreu [1908 - ?], professor e lavrador - "viria a ser identificado como informador da PIDE ainda antes do 25 de Abril" [Mário Matos e Lemos, Candidatos da Oposição à Assembleia Nacional do Estado Novo (1945 - 1973) - Um Dicionário, 2009]. 
 
A lista de Faro, que não chegou a ser apresentada, integraria: João da Silva Nobre [1878 - 1968], médico; João Diogo Marreiros Neto [1904 - 1980], advogado; Manuel de Aguiar Campos de Lima [1916 - 1996], advogado; e Zacarias da Fonseca Guerreiro [1891 - 1978], advogado e lavrador.  

[João Esteves]

Ver original em 'Silêncios e Memórias' na seguinte ligação:

http://silenciosememorias.blogspot.com/2019/07/2158-jantar-de-oposicionistas-de.html

SALAZAR VENCE A «CRISE DOS SINOS»

8 de Julho de 1929. No mês anterior, uma portaria do ministro da Justiça, Mário de Figueiredo, passara a permitir a realização de procissões e outros actos religiosos que haviam sido proibidos com a implantação da República. O documento, que veio a receber a designação simplista mas jocosa de portaria dos sinos, provocou uma reacção negativa de uma ala do governo conservadora mas anti-clerical que foi encabeçada pelo ministro da Guerra, Júlio Morais Sarmento. Do embate interno resultou uma crise governamental, que principiou com a demissão de Mário de Figueiredo, mas que encalhou na demissão solidária de Salazar, titular das Finanças que, por sinal, na altura estava internado no hospital com uma perna partida. Óscar Carmona, o presidente da República, que visitou Salazar no hospital, não a aceitou, forçando, em vez disso, a demissão colectiva do governo. Há precisamente noventa anos era notícia a resolução da crise política com a constituição de um novo governo da Ditadura (o VI), em que o presidente do ministério passava a ser o general Ivens Ferraz (na foto, acima), mas onde o destaque inteirinho do cabeçalho da notícia ia para a continuidade do titular da pasta das Finanças. Salazar ganhara o braço de ferrocom o que os observadores mais imaginativos consideravam ser os poderes sempre discretos mas sempre presentes da maçonaria.

 

Veja o original em 'Herdeiro de Aécio' na seguinte ligação::

http://herdeirodeaecio.blogspot.com/2019/07/salazar-vence-crise-dos-sinos.html

Morte do cantor João Gilberto "é uma perda para o património cultural" - vídeo

O Comité do Património da UNESCO considerou, este sábado, que a morte do cantor brasileiro João Gilberto "é uma perda para o património cultural", na reunião em que o Palácio de Mafra e o Santuário do Bom Jesus de Braga foram classificados Património Mundial.
A morte de João Gilberto "é uma perda para o património cultural" afirmou Abulfas Garayev, presidente do Comité do Património da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), no início da 43.ª reunião, que decorre em Baku, no Azerbaijão, até 10 de julho.
Os membros do comité fizeram um minuto de silêncio em sua homenagem, colocando João Gilberto "entre as pessoas que tiveram impacto na história da música".
Na reunião, o conjunto composto pelo Palácio, Basílica, Convento, Jardim do Cerco e Tapada de Mafra e o Santuário do Bom Jesus, em Braga, receberam a classificação de Património Cultural Mundial da UNESCO.
Os dois monumentos faziam parte "das 36 indicações para inscrição na Lista do Património Mundial", que estão a ser avaliadas na 43.ª Sessão do Comité do Património, Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO).
O cantor e compositor brasileiro João Gilberto, considerado um dos pais da Bossa Nova, morreu no sábado no Rio de Janeiro, Brasil, aos 88 anos, informou um dos filhos do artista.
O compositor, um dos nomes mais importantes da música brasileira, morreu em sua casa, no Rio de Janeiro, revelou o seu filho João Marcelo Gilberto, citado pelos media brasileiros.
João Marcelo Gilberto anunciou a morte do pai na rede social Facebook, enaltecendo "a sua luta nobre" e a tentativa de "manter a dignidade", apesar de ter perdido "a sua autonomia".
O cantor e compositor, considerado o precursor do género musical Bossa Nova e grande responsável pela sua disseminação pelo mundo, vivia arruinado e em solidão no Rio de Janeiro.
Derivado do samba e com influências do jazz, o estilo Bossa Nova surgiu no fim da década de 1950 pelas mãos de João Gilberto, Tom Jobim, Vinícius de Moraes e de jovens cantores e compositores da classe média do Rio de Janeiro.
O álbum que marcou o início da Bossa Nova, "Chega de saudade", foi composto por Tom Jobim (1927-1994) e Vinícius de Moraes (1913-1980). João Gilberto deu voz à versão mais conhecida da música, lançada em agosto de 1958.

Em 1961, o cantor e compositor concluiu a trilogia de álbuns que, de acordo com o portal da Globo, "apresentaram a Bossa Nova ao mundo": "Chega de saudade" (1959), "O amor, o sorriso e a flor" (1960) e "João Gilberto" (1961).
Jornal de Notícias

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/07/morte-do-cantor-joao-gilberto-e-uma.html

JOÃO GILBERTO E O MUNDO

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Às vezes, porque inscreve a doçura da fala no tempo da vida e faz da plasticidade das sonoridades uma convivialidade tão íntima que se torna companheira de jornada, a música parece-nos a mais eterna das artes.  Na verdade, todas o são, à sua medida, mas esta logo foi baptizada como divina e a mais universal de quantas existem à face da Terra. Essa sensação torna-se mais forte quando ouvimos obras dos grandes compositores, em qualquer lugar do planeta, e logo percebemos pela apoteose dos aplausos, que é linguagem comum a todos.
Dei comigo a fazer essa extensão do pensamento, quando, confrontado com a notícia da morte de João Gilberto, o compositor ia sendo revisitado e a sua narrativa biogáfica construída através das suas canções. É verdade que ele estava há anos fora de circulação -- o que acontece sempre que um compositor e intérprete da sua dimensão deixa de pisar os palcos: uma certa forma de morrer --, mas a força da sua arte há muito se tornara intemporal e vivia por cima das fronteiras furando o cinzentismo dos quotidianos.
Oiço-o, agora, como se lhe quisesse fazer uma reverência e dizer simplesmente obrigado. Escuto a Garota de Ipanema e Chega de Saudade (como ele entendia bem a língua portuguesa!), vou pelo seu universo criador, vejo um homem, com a sua viola nas mãos, começar a cantar. Então, o palco já não é palco, mas um mundo que faz corpo com a sua criação, as suas sílabas, os seus versos, a sua música, a sua bossa nova, o seu samba. Tudo, numa surpreendente doçura poética, para celebrar a vida e o amor.
Lembro-me bem de uma crónica magistral de Drummond sobre a morte de Vinicius (seu parceiro e amigo), que publiquei no "Jornal do Fundão", em que ele imaginava o poeta entrando no céu, de copo na mão e com o seu violão. Também eu, agora, fiquei a ver João Gilberto, não de copo, mas com a sua guitarra, suavemente batendo à porta do paraíso. E, talvez, como no poema de Bandeira, S. Pedro aparecesse a franquear a entrada, dizendo apenas:
-- Entre, João Gilberto! Você não precisa de pedir licença...
Domingo, 7 de Julho

Ver o original em Notícias do Bloqueio (clique aqui)

João Gilberto | Chega de saudade

Meu Deus, como a gente se divertiu, obrigada por tudo. Por prestar atenção a todas as harmonias e melodias, por amar cada momento da vida como se não houvesse amanhã, por sempre me fazer mudar todas as passagens, ou partidas, por valorizar tanto cada momento da vida. Obrigada pelo último olhar, pela última risada, por ser honesto, por ser um homem de família, por ter sido o melhor pai que alguém poderia desejar. Meu Amor, que os anjos e Mamãe te recebam, descanse em paz. Te amo”. (Bebel Gilberto)

 

Esta foi a mensagem que Bebel deixou nas redes sociais para seu pai, João Gilberto, que faleceu aos 88 anos no seu apartamento da Rua Carlos Góis, no bairro do Leblon, Rio de Janeiro, deixando-nos a todos bem mais pobres.

Baiano, João Gilberto sintetizou a música popular brasileira nos seus passos fundamentais: o ritmo, a harmonia, a técnica de canto e sobretudo a batida do violão. O seu estilo musical, apesar de revolucionário, não rompeu com a música que o antecedeu, pois João sempre gravou nos seus discos velhas composições de Ary Barroso e Dorival Caymmi, entre outros. Desde o adolescente que cantava música do rádio no altifalante da praça matriz em Juazeiro, cidade onde nasceu, ao jovem que foi para Salvador sonhando ser músico profissional, ao músico que foi para o Rio como crooner do grupo vocal Garotos da Lua, João Gilberto foi grande e único. Graças a ele, a bossa nova (termo emprestada da letra de “São Coisas Nossas”, samba de Noel Rosa de 1930) consolidou-se e a música brasileira teve portas abertas para conquistar seu lugar no mundo. A geração de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque não teria ido tão longe se não fosse a inspiração de “Chega de Saudade”, disco que João lançou em 1958. Foi no dia 10 de julho, no estúdio da Odéon, no Rio de Janeiro. João Gilberto colocou à sua frente dois microfones (um para a sua voz, outro para o violão) e gravou o que seria a versão definitiva de “Chega de Saudade”, samba de Tom Jobim e Vinicius de Moraes num estilo que, alguns meses depois, seria chamado de bossa-nova.

Com a revolucionária gravação de “Chega de Saudade”, João Gilberto dava forma e conteúdo à bossa nova, inventando um novo ritmo e uma nova forma de cantar e tocar violão. O resto é história que, como um rio com muitos afluentes, desagua no mar de nossa memória pessoal e coletiva. Com o sucesso de João revelaram-se a mestria de Antonio Carlos Jobim e do poeta Vinicius de Moraes, bem como o talento de jovens compositores como Carlos Lyra e Roberto Menescal. De 1959 a 1962, João Gilberto lançou três LP históricos e a bossa nova virou moda.

Os jovens enchiam as academias de violão de Copacabana, para aprender a nova batida e as músicas que marcavam a banda sonora da época. Nesses anos, o Brasil ganhou pela primeira vez a copa do mundo de futebol, na Suécia, e entrou num ciclo de progresso e desenvolvimento nunca visto, com a construção de Brasília em apenas quatro anos, a industrialização, a televisão, as novas estradas e fábricas: os brasileiros apaixonavam-se pelo futuro. Todos queriam surfar a onda do sucesso da bossa nova. A publicidade e a imprensa adoraram o rótulo. Kubitschek foi apelidado de “presidente bossa nova”. Surgiram o carro bossa nova, o apartamento bossa nova, o fato bossa nova, com um casaco e duas calças. Tudo virou bossa nova num Brasil deslumbrado pelo futuro.

Apesar de uma campanha recheada de sucessos, desde 2008 João foi ficando cada vez mais distante. A sua última apresentação ao vivo foi esse ano, na comemoração dos 50 anos da bossa nova. A decadência física e as questões de família, monetárias e contratuais, foram remetendo o génio para um limbo de onde só a morte o veio retirar. Desafinado na música e desafinado na vida, João Gilberto deixa-nos uma saudade imensa, pois “no peito dos desafinados também bate um coração”.

 

Vídeos

 


Por opção do autor, este artigo respeita o AO90


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/joao-gilberto-chega-de-saudade/

Morreu João Gilberto, cantor e compositor brasileiro

Aquele sobre quem Caetano Veloso disse: "Melhor do que o silêncio, só João", faleceu ontem, no Rio de Janeiro, com 88 anos.

O cantor e compositor brasileiro João Gilberto, considerado um dos pais da bossa nova, morreu hoje no Rio de Janeiro, aos 88 anos, informou um dos filhos do artista.

A morte de João Gilberto «é uma perda para o património cultural» afirmou Abulfas Garayev, presidente do Comité do Património da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), no início da 43.ª reunião, que decorre em Baku, no Azerbaijão, até 10 de Julho.

Os membros do comité fizeram um minuto de silêncio em sua homenagem, colocando João Gilberto «entre as pessoas que tiveram impacto na história da música».

João Gilberto Prado Pereira de Oliveira, nascido em Juazeiro, no estado brasileiro da Bahia, a 10 de Junho de 1931, é considerado o fundador legítimo da bossa nova, já que a sua batida de violão, à data revolucionária e inconfundível, esteve na origem da eclosão do movimento.

com Agência Lusa

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/cultura/morreu-joao-gilberto-cantor-e-compositor-brasileiro

Nos 90 anos de Zeca Afonso, preservar uma obra de interesse nacional

A Associação José Afonso (AJA) lançou recentemente uma petição para «declarar a obra de José Afonso de interesse nacional», para salvaguardar o acesso ao trabalho do artista.

Zeca Afonso faria 90 anos no próximo dia 2 de AgostoCréditos / Glosas

Numa petição online que já ultrapassa as 11 mil assinaturas, a Associação José Afonso (AJA) dirige ao Presidente da Assembleia da República e aos deputados o pedido de reconhecimento e protecção da obra do artista.

José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos, também conhecido por Zeca Afonso, foi uma figura maior da cultura portuguesa, cumprindo-se, no próximo dia 2 de Agosto, 90 anos desde o seu nascimento. A sua obra conta com o tema «Grândola, Vila Morena», sendo esta uma das duas canções-senha escolhidas pelo Movimento das Forças Armadas na madrugada do 25 de Abril de 1974.

A AJA lançou recentemente uma petição para «declarar a obra de José Afonso de interesse nacional» para tornar o acesso ao trabalho do reconhecido artista não só mais fácil, mas mesmo possível. De acordo com a AJA, «a sua obra encontra-se esgotada, sem editora que assuma a respectiva reedição, impossibilitando assim o seu acesso público». 

Esta Associação refere ainda que existe «um imbróglio jurídico, porque a Movieplay [a editora que detém os direitos comerciais da obra de José Afonso] está em situação de insolvência e não se sabe do paradeiro dos masters das músicas gravadas pelo Zeca Afonso».

Por iniciativa do PCP, foi apresentada, dia 4 de Julho, na Assembleia da República, uma recomendação ao Governo que vai no mesmo sentido, considerando «urgente preservar e divulgar a obra de José Afonso, permitindo o seu acesso a todos».

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/cultura/nos-90-anos-de-zeca-afonso-preservar-uma-obra-de-interesse-nacional

Rogério Fernandes

(1933 – 2010)

Professor, pedagogo, investigador, ensaísta e jornalista, foi um militante destacado da Resistência, que colaborou desde jovem nos movimentos da «Oposição Democrática», nunca se afastando da preocupação de questionar a Sociedade, interrogar a História e (re) pensar a Educação. Investigou, ensinou e escreveu nas áreas de História e Filosofia da Educação, organização de sistemas educativos e política educativa.

Foi sub-director e director da revista Seara Nova. Foi dirigente do Sindicato dos Professores da Grande Lisboa e Presidente do Instituto Irene Lisboa. Era um homem afável e de uma modéstia invulgar num intelectual com a sua obra e envergadura[1].

Professor, pedagogo, investigador, ensaísta…

Rogério Fernandes nasceu em Lisboa a 12 de Outubro de 1933 e faleceu na mesma cidade a 4 de Março de 2010. Na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, que frequentou de 1951 a 1955, participou no movimento estudantil e foi eleito para a «Comissão Pró-Associação». Foi nessa faculdade que se licenciou em Ciências Histórico-Filosóficas e se doutorou em Educação (História e Filosofia da Educação), tornando-se a seguir professor do Ensino Técnico e do Ensino Secundário Particular. Em 1957 regressa à Faculdade de Letras como segundo assistente de Filosofia. Porém, proibido por Salazar de leccionar, Rogério Fernandes ingressou no jornalismo (Seara Nova, Vértice, República, A Capital, O Professor) e foi então autor e co-autor de várias obras e ensaios, tradutor e consultor editorial.

Em 1962 foi, primeiro, sub-director da Seara Nova (quando Augusto Casimiro era o director) e, depois, seu director. Permanece na Seara Nova até 1967, ano em que é convidado para a redacção do vespertino A Capital, onde começa por coordenar a secção de Educação e mais tarde se torna chefe de redacção. Fez parte de comissões editoriais das revistas Inovação, O Professor, Revista Brasileira de História da Educação, entre outras.

De 1972 a 1974 foi professor do Instituto Superior de Serviço Social e do Instituto Superior de Psicologia Aplicada.

… e jornalista

Na campanha eleitoral das legislativas de 1969 apoia a CEUD de Lisboa. Nesse mesmo ano, apresenta uma comunicação no II Congresso Republicano de Aveiro, assina um Manifesto dos Escritores Oposicionistas e subscreve um abaixo-assinado de jornalistas. Em 1973 faz parte da Comissão Nacional do III Congresso da Oposição Democrática.

Durante o período marcelista apoiou os Grupos de Estudo do Pessoal Docente – uma organização ilegal que esteve na origem dos sindicatos dos professores, que iriam ser criados nos primeiros dias após a Revolução – e foi também editor da Revista O Professor (dois fortíssimos instrumentos da transmissão, a nível nacional, das reivindicações sócio profissionais dos docentes, duas estruturas muito perseguidas pelo regime).

Questionar a Sociedade, interrogar a História e (re) pensar a Educação

Entre Agosto de 1974 e Agosto de 1976, a convite do então ministro Vitorino Magalhães Godinho foi director-geral do Ensino Básico e a ele se ficaram a dever importantes reformas nesta área. Afastado do cargo em 1976, foi-lhe atribuída função de inspector-geral da Junta Nacional de Educação, que iria deixar para leccionar a disciplina de História e Ciências da Educação na Universidade de Lisboa e colaborar com a Fundação Calouste Gulbenkian. Concorreu depois para o lugar de professor associado na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Lisboa, onde veio a terminar a sua carreira já como Professor Catedrático.

Após o 25 de Abril de 1974 aderiu ao PCP[2]. Foi deputado (PCP) à Assembleia da República na III Legislatura (1983 – 1985) e na VI Legislatura (1991-1995).

O seu nome ficou ligado a diversos projectos educativos. Autor de uma vasta obra científica, Rogério Fernandes, foi voz fundamental na reflexão sobre os sistemas educativos e a formação de professores.

Foi presidente do Instituto Irene Lisboa. Já Professor Catedrático Jubilado da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Lisboa, foi professor visitante nas Universidades de São Paulo, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, na Universidade Metodista MacKenzie e na Universidade Federal de Minas Gerais. Foi coordenador do projecto Museu Vivo da Escola Primária, na cidade do Porto.

Uma das suas últimas intervenções públicas decorreu na Universidade Popular do Porto, a convite da Seara Nova, revista em que, enquanto sub-director e director, tinha tido um ímpar papel dinamizador, não só como redactor, mas também na chamada de muitos jovens intelectuais progressistas às suas páginas.

Pertenceu aos corpos sociais do Sindicato do professores SPGL, como Presidente da Mesa da Assembleia Geral, em sucessivas mandatos.

Em 2002, foi condecorado pelo Presidente da República com a Grã-Cruz da Ordem da Instrução Pública[3].

Quando morreu, em 2010, era professor catedrático (jubilado em 2003) da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Lisboa, onde continuava a trabalhar.

Homenagem a Rogério Fernandes

O voto de pesar pelo seu falecimento, da iniciativa do PCP na Assembleia da República, foi aprovado por unanimidade.

Em Outubro de 2010, a Universidade de Lisboa e a Universidade Lusófona prestaram homenagem ao emérito Professor, investigador, homem de cultura e cidadão pleno que foi Rogério Fernandes. Realizaram-se também homenagens em Famalicão, Castelo Branco e no Maranhão, por ocasião do VIII Congresso Luso-Brasileiro de História da Educação; e outras se seguiram, nomeadamente na Universidade do Porto. Também amigos, colegas, companheiros de diferentes épocas e lutas têm procurado lembrar e dar a conhecer o trabalho e o significado da acção de Rogério Fernandes[4].

 

Rogério Fernandes – Vida e Obra

Em Outubro de 2011, em Palmela, no cine-teatro S. João, foi inaugurada a exposição “Rogério Fernandes – Vida e Obra – 1933/2010”, integrada no programa da Recepção à Comunidade Educativa, promovido pela Câmara Municipal de Palmela.

 

Escreveu nas áreas de História e Filosofia da Educação

Rogério Fernandes deixou centenas de textos escritos. Em 1969 edita o seu livro de contos “Três tiros e uma Muralha”. Na sua bibliografia contam-se inúmeros ensaios e textos, tais como a intervenção proferida no 3º Congresso da Oposição Democrática (Aveiro, 1973), “A Batalha Socialista pela Democratização do Ensino”, publicado pela “Seara Nova”. Na sua obra destacamos:

  • Ensaio sobre a obra de Trindade Coelho (1961);
  • Ensino – sector em crise (1967); Situação da educação em Portugal / Rogério Fernandes (1973);
  • Aspectos do ensino na República Democrática Alemã (1976);
  • O pensamento pedagógico em Portugal (1978);
  • A pedagogia portuguesa contemporânea (1979);
  • Luís da Silva Mouzinho de Albuquerque e as reformas do ensino em 1835-1836 (1983);
  • Bernardino Machado e os problemas da instrução pública (1985);
  • O pensamento pedagógico em Portugal (1992);
  • Uma experiência de formação de adultos na 1a República: a universidade livre para educação popular, 1911-1917 (1993);
  • “Os Caminhos do ABC. Sociedade Portuguesa e o Ensino das Primeiras Letras” (Porto editora, 1994).

 

 

 

 

 

Percorreu o tempo longo da elaboração do pensamento pedagógico entrecruzado com o tempo curto das conjunturas que os actores viveram[5].

 

 

 

[1]

Do trabalho conjunto de cerca de 16 anos como orientador, consultor, coordenador de projectos, organização de livros e encontros e de escrita de artigos, permanecem vivas as suas qualidades pessoais onde prevalecia uma oralidade expressiva, por vezes provocadora, acompanhado por um fino e acutilante sentido de humor. Na sua expressão havia um quê da tradição oral, do contador de histórias que captava e encantava o interlocutor. A sua bonomia e generosidade e o seu jeito de nos provocar brincando tornavam as suas posições mais sedutoras e desbloqueadoras de monolitismos conceptuais ou de divergências organizacionais.

Dele podemos dizer que não se deixou definir pelos lugares e filiações que manteve, actuando sempre com grande independência de pensamento, sem se intimidar por qualquer tipo de autoridade. A crítica metódica a que submetia a realidade levava-o a expressar as suas ideias sem no entanto se fechar à argumentação dos que de si discordavam.»

Margarida Felgueiras, em Seara Nova nº 1715 (2011)

[2] Partido de que nunca saiu, ainda que nos últimos anos de vida se tenha mantido afastado da militância.

[3] Quando foi distinguido com a Grâ Cruz da Ordem da Instrução, confessou a amigos que se alguma condecoração achava que hipoteticamente lhe pudesse ser atribuída, a que lhe daria mais prazer, mais do que a Ordem da Liberdade, seria sem dúvida a que recebeu – a da Instrução – pois que correspondia à causa que lhe era mais cara desde a sua juventude e pela qual sempre se batera, ao longo da vida.

[4]

Durante anos e anos trabalhei com o Rogério em «O Professor» e depois numa revista da FCUL. Muito mais que um bom director, ele era um companheiro de trabalho que ajudava, ensinava, substituía, adivinhava. Profundamente conhecedor da organização e administração do ensino, como da pedagogia e da psicologia devo-lhe o que sei sobre o ensino e as escolas, Mas ainda assim, com o seu desaparecimento, perdi um irmão mais velho honesto, verdadeiro e sábio a quem não era preciso explicar para que entendesse, Quem conheceu o Rogério e a sua família não pode ser imparcial na recordação do Rogério. O Rogério era, tal e qual, o que transparece nesta fotografia; na família, no trabalho, na amizade, jornalista, chefe de redacção ou director, Doutor, Professor Dr., ou o que fosse, o Rogério era … o Rogério!»
Manuela Agostinho Nascimento

[5]

Obras como As Ideias Pedagógicas de Adolfo Coelho (1973), O pensamento pedagógico em Portugal (1978), A pedagogia portuguesa contemporânea (1979), Bernardino Machado e os problemas da Instrução Pública (1985), Bernardino Machado. O Homem, o Cientista, o Politico e o Pedagogo (2001), dão conta dessa preocupação com a estruturação de um pensamento em Portugal sobre a educação. Ensaio sobre a obra de Trindade Coelho (1961), João de Barros – Educador Republicano (1971), Cartas de António Sérgio a Álvaro Pinto (1972), O Despertar do Associativismo Docente em Portugal (1989) são exemplos do rigor da demonstração, assente na prova e baseada na análise detalhada dos testemunhos. Em Rogério Fernandes a teoria confronta-se com a realidade ou elabora-se a partir dela; não se lhe impõe, não a distorce nem a aprisiona»
Margarida Felgueiras, em Seara Nova nº 1715 (2011)

Dados biográficos


 Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/rogerio-fernandes/

O revolucionário João Gilberto

As novas gerações não sabem, talvez nem imaginem o que era ouvir Chega de Saudade, na Rádio Tamandaré, no Recife de 1959. Nós, meninos suburbanos, parávamos tudo diante daquela interpretação. Como aquela voz era diferente e como era familiar ao mesmo tempo!

 

Nós não tínhamos explicação, apenas suportávamos as censuras dos vizinhos, da família, ao novo modo de cantar daquela voz baixinha. E sem forças ou iluminação para responder, virávamos o rosto à procura de uma saída, que não vinha. Somente mais tarde na juventude, no tempo da ditadura, pudemos receber uma luz para a revolução que foi o disco Chega de Saudade, em 1959. Então, com o estrondoso sucesso de Tom Jobim, com Chico Buarque, Caetano Veloso, o estranho veio ficar mais claro. Tudo pareceu vir daquele esquisito. João era mais que cantor e compositor e violonista: ele era semente da nova música popular brasileira.

E mais, percebemos depois. Dele, um homem de esquerda, veio a compreensão de assimilar a tradição dos sambistas que estavam marginalizados. Dele veio um modo de reinterpretar a tradição do samba, quando deu uma nota cálida, inteligente, sensível, a Geraldo Pereira, Wilson Batista, Ari Barroso, Caymmi, entre muitos. Quem não viveu esse tempo, como pode avaliar e sentir a mudança que houve em nossa canção?

Há quem entenda a palavra repercussão como o número de gravações vendidas de uma só música. Na verdade, penso que repercussão significa o que ‘repercute’ até hoje, que é objeto fecundante, composição a gerar filhos e filhas em toda a nossa música. Nessa aproximação do conceito vivo, seria bom que os vendedores de sucessos ouvissem mil e uma vezes Chega de saudade com João Gilberto. Não seria castigo.


João Gilberto, com Caetano Veloso e Gal Costa, em 1971

O autor de hits poderia fazer pausas, como um refresco do suplício, e nos intervalos bem poderia pesquisar de Milton Nascimento a Caetano, de Chico Buarque a Gilberto Gil, de Edu Lobo a Carlos Lyra, e outros ‘menores’ imensos da nossa riquíssima Música Popular Brasileira, para saber afinal qual a música que maior repercussão teve no trabalho de todos eles até hoje. Nos limites do Brasil, Chega de Saudade repercutiu mais que a Banda dos Corações Solitários do Sargento Pimenta no mundo.

O intérprete João Gilberto, com seu modo de cantar baixinho, que a maioria em 1959 reprovava “isso é lá cantor de rádio?!”, com o seu canto que era o oposto absoluto do vozeirão de Vicente Celestino, Francisco Alves, pois no Brasil da época o maior cantor seria aquele de voz de quebrar cristais no teatro, João Gilberto foi o cara que usou para cantar a técnica do microfone, que para ser ouvido não precisaria receber brados retumbantes. Ele incorporou para a música, para a interpretação, o que jazia apenas para ser transmitido a milhões de ouvintes. Com a sua voz, ele parecia perguntar: se existe microfone, pra que gritar pra madame?

O que uma vez escrevi sobre a crônica do rádio, sobre a leitura de um texto no rádio, veio de João Gilberto. Ao se ler diante do microfone um poema, uma crônica, as palavras têm que ser desentranhadas do seu casulo escrito. Isso quer dizer que a leitura exige recursos de ator, se por isso não entendemos o mau gosto das impostações de voz artificiais, ou, supremo mal dos males, as entonações melodramáticas. O texto deve ser interpretado com a voz que não passa a impressão de interpretar. Como dizer isso? – O texto merece uma interpretação natural, que se dê em um fluxo de conversa em uma sala, como um diálogo entre duas pessoas. Ainda que fale para milhões de pessoas, o locutor se dirige a um só ouvinte. Como um João Gilberto da fala.

Com a morte do nosso maior intérprete, não se vai um modo de cantar, não se vai uma genialidade de falar novo para os corações. A sua morte não define o seu fim. Ele continua com a revolução que espalhou dos compositores às cantoras, cantores, arranjadores, a tudo enfim que faz a nossa música imensa no mundo. Quem sabe se com o seu falecimento físico poderemos ouvir mais João Gilberto no rádio? Quem sabe se neste Brasil selvagem, estúpido de Bolsonaro, de destruição das conquistas brasileiras, teremos uma pausa para a sensibilidade e um carinho no coração?

Consola, se conseguirmos esse intervalo. Mas o que eu queria mesmo era ouvir Chega de Saudade como em 1959. E sei que isso não mais será possível. Fazer o quê? Escrever estas mal traçadas linhas apenas.

 


Texto em português do Brasil


 

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/o-revolucionario-joao-gilberto/

“Sob os nossos olhos” (3/25)Os Irmão Muçulmanos como força de apoio do MI6 e da CIA

Prosseguimos a publicação do livro de Thierry Meyssan, «Sob os nossos Olhos». Neste episódio, ele descreve a maneira como o Presidente Jimmy Carter e o seu Conselheiro de Segurança Nacional, Zbigniew Brzezinski, usaram as capacidades terroristas dos Irmãos Muçulmanos contra os Soviéticos.

Este artigo é extraído do livro Sob os nossos olhos.
Ver o Indíce dos assuntos.

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O Conselheiro de Segurança Nacional, Zbigniew Brzezinski, imaginou utilizar os Irmãos Muçulmanos para operações terroristas contra o governo comunista afegão; o que provocou a intervenção da URSS.

3— A Irmandade ao serviço da estratégia Carter/Brzeziński

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Sir James Macqueen Craig, especialista sobre o Médio-Oriente, convenceu o Reino Unido a utilizar os Irmãos Muçulmanos para operações secretas fora do Egipto. Foi também ele quem concebeu o plano das «Primaveras Árabes» no modelo da operação realizada em 1915 por Lawrence da Arábia.

Em 1972-73, um responsável do Foreign Office —e provavelmente do MI6—, James Craig, e o embaixador britânico no Egipto, Sir Richard Beaumont, começam um intenso lóbing para que o seu país e os Estados Unidos se apoiem nos Irmãos Muçulmanos não apenas no Egipto, mas em todo o mundo muçulmano contra os Marxistas e os Nacionalistas. Sir Craig será em breve nomeado embaixador de sua Majestade na Síria, depois na Arábia, e terá ouvidos atentos na CIA. Muito mais tarde, ele será o ideólogo das «Primaveras Árabes».

Em 1977, nos Estados Unidos, Jimmy Carter é eleito Presidente. Ele designa Zbigniew Brzeziński como Conselheiro de Segurança Nacional. Este último decide utilizar o islamismo contra os Soviéticos. Dá luz verde aos Sauditas para aumentar os seus financiamentos à Liga Islâmica Mundial, organiza mudanças de regime no Paquistão, no Irão e na Síria, desestabiliza o Afeganistão e faz do acesso norte-americano ao petróleo do Médio Oriente um objectivo de segurança nacional. Finalmente, ele confia meios militares à Irmandade.

Esta estratégia é claramente explicada por Bernard Lewis aquando da reunião do Grupo de Bilderberg [1] que a OTAN organiza em Abril de 1979 na Áustria. O islamólogo anglo-israelo-americano assegura aí que os Irmãos Muçulmanos podem não só jogar um grande papel face aos Soviéticos, e provocar distúrbios internos na Ásia Central, mas, também balcanizar o Próximo-Oriente no interesse de Israel.

Contrariamente a uma ideia feita, os Irmãos não se limitaram apenas a seguir o plano Brzeziński, eles visaram mais longe e obtiveram a assistência de Riade e de Washington para formar outros ramos da Irmandade noutros países; ramos que irão dinamizar mais tarde o seu projecto. O rei da Arábia concede uma média de 5 mil milhões de dólares anuais à Liga Islâmica Mundial que estende as suas actividades a 120 países e financia guerras. A título indicativo, US $ 5 mil milhões de dólares era o equivalente ao orçamento militar da Coreia do Norte. A Liga obtém o Estatuto consultivo junto do Conselho Económico e Social da ONU e um estatuto de Observador junto da Unicef.

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O General Muhammad Zia-ul-Haq, primeiro Chefe de Estado membro dos Irmãos Muçulmanos fora do Egipto, permite aos combatentes da Irmandade dispor de uma base de retaguarda contra os comunistas afegãos.

No Paquistão, o General Muhammad Zia-ul-Haq, Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, formado em Forte Bragg nos Estados Unidos, derruba o Presidente Zulfikar Alî Bhutto e fá-lo enforcar. Membro da Jamaat-e-Islami, quer dizer da versão local da Irmandade Muçulmana, ele islamiza a sociedade. A Charia é progressivamente estabelecida –-incluindo a pena de morte por blasfémia--- e uma vasta rede de escolas islâmicas é instalada. É a primeira vez que a Irmandade está no Poder fora do Egipto.

No Irão, Brzeziński convence o Xá a sair e organiza o retorno do Imã Rouhollah Khomeini, o qual se define como um «islamista xiita». Na sua juventude, Khomeini tinha-se encontrado com Hasan el-Banna, no Cairo, em 1945, para o convencer a não alimentar o conflito sunitas/xiitas. Em seguida, ele traduziu dois livros de Sayyid Qutb. Os Irmãos e o Revolucionário iraniano concordam quanto a assuntos de sociedade, mas nada sobre as questões políticas. Brzeziński percebe o seu erro de cálculo no próprio dia da chegada do Aiatola a Teerão, porque este vai orar aos túmulos dos mártires do regime do Xá e apela ao exército para se revoltar contra o imperialismo. Brzeziński comete um segundo erro ao enviar a Força Delta socorrer os espiões norte-americanos que são feitos reféns na sua Embaixada em Teerão. Apesar de ter conseguido esconder aos olhos dos Ocidentais que os seus diplomatas eram falsos, ele mete os seus militares a ridículo com a falhada operação «Garra de Águia», e instala no Pentágono a ideia segundo a qual será preciso melhorar os meios para vencer os muçulmanos.

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O bilionário saudita Oussama Ben Laden, herói do Ocidente contra os Soviéticos.

No Afeganistão, Brzeziński põe de pé a «Operação Ciclone». Entre 17 a 35.000 Irmãos Muçulmanos, vindos de 40 países, irão bater-se contra a URSS que tinha vindo defender, a seu pedido, a República Democrática do Afeganistão do terrorismo dos Irmãos [2] –-jamais houve qualquer «invasão soviética» como alega a propaganda dos EUA---. Eles nunca ultrapassarão os 15. 000 à vez. Estes homens veem em reforço de uma Coligação de combatentes conservadores e de Irmãos Muçulmanos locais, entre os quais o pashtun Gulbuddin Hekmatyar e o tajique Ahmed Shah Massoud. Recebem o seu armamento essencialmente de Israel [3] –-oficialmente seu inimigo jurado, mas agora seu parceiro---. O conjunto destas forças é comandado a partir do Paquistão pelo General Muhammad Zia-ul-Haq, e financiado pelos Estados Unidos e Arábia Saudita. É a primeira vez que a Irmandade é usada pelos Anglo-Saxões para travar uma guerra.

Entre os combatentes presentes encontram-se os futuros responsáveis das guerras no Cáucaso, da Jamiat Islamyiah Indonésia, do grupo Abbou Sayaf nas Filipinas e, é claro, da Alcaida e do Daesh (EI). Nos Estados Unidos a operação anti-soviética é apoiada pelos Republicanos e um pequeno grupo de extrema-esquerda, os trotskistas do Social Democrats USA.

A estratégia Carter-Brzeziński representa uma mudança de escala [4]. A Arábia Saudita, que até aqui fora a financiadora dos grupos islamistas, vê-se encarregada de gerir os fundos da guerra contra os Soviéticos. O Director-geral da Inteligência saudita, o Príncipe Turki (filho do rei à época, Faisal), torna-se uma personalidade incontornável de todas as cimeiras ocidentais de Inteligência.

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O Palestino Abdallah Azzam e o Saudita Oussama Ben Laden foram treinados em Riade por Mohammad Qutb, o irmão de Sayyid Qutb. Eles dirigiram sucessivamente os combatentes dos Irmãos Muçulmanos no Afeganistão.

Sendo os problemas entre Árabes e Afegãos recorrentes, o Príncipe Turki envia primeiro o Palestino Abdullah Azzam, o «imã da Jiade», restaurar a ordem entre os Irmãos e administrar o escritório local da Liga Islâmica Mundial, depois o bilionário Ossama Bin Laden. Azzam e Bin Laden foram formados na Arábia Saudita pelo irmão de Sayyid Qutb.

Ainda durante o mandato de Carter, os Irmãos Muçulmanos empreendem uma longa campanha de terror na Síria, incluindo o assassínio de cadetes não-sunitas na Academia Militar de Alepo pela «Vanguarda Combatente». Dispõem de campos de treino na Jordânia, onde os Britânicos lhes dispensam uma formação militar. Durante estes anos de chumbo, a CIA consegue selar uma aliança entre os Irmãos Muçulmanos e o grupúsculo de ex-Comunistas de Ryad al-Turk. Este e os seus amigos, Georges Sabra e Michel Kilo, tinham rompido com Moscovo durante a guerra civil libanesa para apoiar o campo ocidental. Filiam-se no grupo trotskista norte-americano, Social Democrats USA. Os três homens redigem um manifesto no qual afirmam que os Irmãos Muçulmanos formam o novo proletariado, e que a Síria só poderá ser salva por uma intervenção militar norte-americana. Por fim, os Irmãos tentam um golpe de Estado em 1982, com o apoio do Baath iraquiano (o qual colaborava então com Washington contra o Irão) e da Arábia Saudita. Os combates que se seguiram em Hama fazem 2.000 mortos segundo o Pentágono, cerca de 40.000 segundo a Irmandade e a CIA. Posteriormente, centenas de prisioneiros são assassinados em Palmira pelo irmão do Presidente Hafez Al-Assad, Rifaat, que será demitido e forçado ao exílio em Paris quando ele tenta, por sua vez, um golpe de Estado contra o seu próprio irmão. Os trotskistas são presos, e a maioria dos Irmãos foge, quer para a Alemanha (onde reside já o antigo Guia sírio Issam al-Attar), quer para França (como Abu Mussab, o Sírio), onde o Chanceler Helmut Kohl e o Presidente François Mitterrand lhes dão asilo. Dois anos mais tarde, um escândalo rebenta no seio da Oposição, agora no exílio, no momento da partilha: 3 milhões de dólares desapareceram de um total de $ 10 milhões dados pela Liga Islâmica Mundial.

4— Para a constituição de uma Internacional da Jiade

Durante os anos 80, a Liga Islâmica Mundial recebe instruções de Washington para transformar a sociedade argelina. Durante um decénio, Riade oferece a construção de mesquitas nas aldeias. São-lhe acrescentadas sempre uma escola e um dispensário. As autoridades argelinas regozijam-se tanto mais com esta ajuda quanto elas já não conseguem garantir o acesso de todos à Saúde e à Educação. Progressivamente, as classes trabalhadoras argelinas distanciam-se de um Estado que não lhes vale de grande coisa e aproximam-se de tão generosas mesquitas.

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O Preidente Bush Sr, antigo director da CIA, toma-se de amizades pelo Embaixador saudita, o Príncipe Bandar ben Sultan ben Abdelaziz Al Saoud, que se tornará mais tarde seu homólogo, enquanto chefe dos Serviços de Inteligência do seu país. Ele considera-o como seu filho adoptivo, de onde lhe surge a alcunha de Bandar Bush.

Quando o Príncipe Fahd se torna rei da Arábia Saudita, em 1982, coloca o Príncipe Bandar (filho do Ministro da Defesa) como embaixador em Washington, cargo que ocupará durante todo o seu reinado. A sua função é dupla: por um lado, ele gere as relações saudo-americanas, por outro serve como uma interface entre o Director da Inteligência Turki e a CIA. Torna-se amigo do Vice-presidente e antigo chefe da CIA, George H. W. Bush, que o considera como seu «filho adoptivo»; depois com o Secretário da Defesa, Dick Cheney, e o futuro director da CIA, George Tenet. Ele insere-se na vida social das elites e integra tanto a seita cristã dos chefes de Estado-Maior do Pentágono, The Family, como o ultra-conservador Bohemian Club de San Francisco.

Bandar comanda os jiadistas a partir da Liga Islâmica Mundial. Ele negoceia com Londres, junto da British Aerospace, a compra de armamento para o seu Reino em troca de petróleo. Os contratos de «pato», (em árabe Al Yamamah), custarão entre 40 e 83 mil milhões de libras esterlinas a Riade, dos quais uma parte significativa será devolvida pelos Britânicos ao Príncipe.

Em 1983, o Presidente Ronald Reagan confia a Carl Gershman, o antigo líder dos Social Democrats USA, a direção da nova National Endowment for Democracy (NED) [5]. É uma agência dependente do acordo da «Cinco Olhos», camuflada em ONG. Ela é a fachada legal dos Serviços secretos australianos, britânicos, canadianos, norte-americanos e neo-zelandeses. Gershman já trabalhara com os seus camaradas trotskistas e os seus amigos dos Irmãos Muçulmanos no Líbano, na Síria e no Afeganistão. Ele põe a funcionar uma vasta rede de associações e de fundações que a CIA e o MI6 usam para apoiar a Irmandade, onde quer que seja possível. Ele reclama-se da «doutrina Kirkpatrick» : todas as alianças são correctas desde que sirvam o interesse dos Estados Unidos.

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Neste contexto, a CIA e o MI6 que haviam criado no mais aceso da Guerra Fria a Liga anti-comunista mundial (WACL), vão utilizá-la para encaminhar para o Afeganistão os fundos necessários à Jiade. Osama Bin Laden adere a esta organização que conta com vários chefes de Estado [6].

Em 1985, o Reino Unido, fiel à sua tradição de qualidade académica, dota-se de um Instituto encarregue de estudar as sociedades muçulmanas e a maneira pela qual os Irmãos as podem influenciar, o Oxford Center for Islamic Studies.

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Hassan al-Turabi e Omar al-Bashir impõem os Irmãos Muçulmanos no Sudão. No contexto particularmente sectário a atrasado do seu país, eles vão entrar em choque com a Irmandade antes de se destruírem mutuamente.

Em 1989, os Irmãos têm êxito num segundo Golpe de Estado, desta vez no Sudão em benefício do Coronel Omar al-Bashir. Ele não perde tempo a colocar o Guia local, Hassan al-Turabi, na presidência da Assembleia Nacional. Este último, numa conferência dada em Londres, anuncia que o seu país se vai tornar na base de retaguarda dos grupos islamistas do mundo inteiro.

Ainda em 1989, a Frente Islâmica da Salvação (FIS) surge na Argélia, em torno de Abassi Madani, enquanto o partido no Poder se afunda em diversos escândalos. A FIS é apoiada nas mesquitas «oferecidas» pelos Sauditas, e por conseguinte pelos Argelinos que as frequentam desde há uma década. Devido à rejeição aos dirigentes no Poder, e não por adesão à sua ideologia, ela ganha as eleições locais. Verificando o falhanço dos políticos e a impossibilidade ontológica de negociar com os islamistas, o exército dá um Golpe de Estado e anula as eleições. O país afunda-se numa longa e mortífera guerra civil da qual pouco se virá a saber. A guerrilha islamita fará mais de 150.000 vítimas. Os islamitas não hesitam em aplicar, ao mesmo tempo, punições a nível individual e colectivo, por exemplo, como quando massacram os habitantes de Ben Talha –-culpados de ter votado apesar da fátua a proibir--- e arrasam a aldeia. Como é evidente, a Argélia serve como laboratório para novas operações. Espalha-se o boato que é o exército e não os islamistas quem massacra os aldeões. Na realidade, vários altos responsáveis dos Serviços Secretos, que foram treinados nos Estados Unidos, juntam-se aos islamistas e semeiam a confusão.

Em 1991, Osama bin Laden, que voltou à Arábia Saudita como um herói da luta anti-comunista no fim da guerra do Afeganistão, oficialmente desentende-se com o Rei quando os «sururistas» se rebelam contra a monarquia. Esta insurreição, o «Despertar Islâmico», dura quatro anos e termina com a prisão dos principais líderes. Ela mostra à monarquia –-que supunha ter uma autoridade inquestionável--- que ao misturar religião e política, os Irmãos tinham criado as condições para uma revolta através das mesquitas.

É neste contexto que Osama bin Laden afirma ter proposto a ajuda de alguns milhares de veteranos combatentes do Afeganistão contra o Iraque de Saddam Husseini, mas, ó escândalo, o Rei preferira o milhão de soldados dos Estados Unidos e seus aliados. Ele parte «portanto» para o exílio, no Sudão, na realidade com a missão de retomar o controlo dos islamistas que escaparam à autoridade dos Irmãos e se tinham levantado contra a monarquia. Junto com Hassan al-Turabi, ele profere palestras populares pan-árabes e pan-islâmicas onde alicia os representantes dos movimentos islamistas e nacionalistas de cinquenta países. Trata-se de criar, ao nível dos partidos, o equivalente ao que a Arábia Saudita tinha feito com a Organização da Conferência Islâmica que reúne, essa, Estados. Os participantes ignoram que as reuniões são pagas pelos Sauditas e que os hotéis onde se realizam são monitorizados pela CIA. De Yasser Arafat ao Hezbolla libanês, todos participam nelas.

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O FBI consegue levar à condenação do BCCI, um gigantesco banco muçulmano que se tornara, com o decorrer do tempo, o banco utilizado pela CIA para as suas operações secretas, nomeadamente o financiamento da guerra no Afeganistão –-mas, também, o narcotráfico na América Latina [7]---. Quando a falência do banco é declarada, os seus pequenos clientes não são reembolsados, mas Osama bin Laden consegue recuperar $ 1,4 mil milhões de dólares para prosseguir o envolvimento dos Irmãos Muçulmanos ao serviço de Washington. A CIA movimenta então as suas actividades através do Faysal Islamic Bank e da sua filial Al-Baraka.

(Continua…)

 

[1] “O que Você ignora sobre o Grupo de Bilderberg”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Komsomolskaïa Pravda (Rússia) , Rede Voltaire, 23 de Setembro de 2012.

[2] « Brzezinski : "Oui, la CIA est entrée en Afghanistan avant les Russes …" », par Zbigniew Brzeziński, Nouvel Observateur (France) , Réseau Voltaire, 15 janvier 1998.

[3] Charlie Wilson’s War: The Extraordinary Story of How the Wildest Man in Congress and a Rogue CIA Agent Changed the History of Our Times, George Crile, Grove Press (2003).

[4] Les dollars de la terreur, Les États-Unis et les islamistes, Richard Labévière, Éditions Bernard Grasset (1999). English version: Dollars for Terror: The United States and Islam, Algora (2000).

[5] “A NED, vitrina legal da CIA”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Odnako (Rússia) , Rede Voltaire, 16 de Agosto de 2016.

[6] Inside the League: The Shocking Expose of How Terrorists, Nazis, and Latin American Death Squads Have Infiltrated the World Anti-Communist League, Scott & Jon Lee Anderson, Dodd Mead & Company éd. (1986). « La Ligue anti-communiste mondiale, une internationale du crime », par Thierry Meyssan, Réseau Voltaire, 12 mai 2004.

[7] The BCCI Affair, John Kerry & Hank Brown, US Senate (1992); Crimes of a President: New Revelations on the Conspiracy and Cover Up in the Bush and Reagan Administration, Joel Bainerman, SP Books (1992); From BCCI to ISI: The Saga of Entrapment Continues, Abid Ullah Jan, Pragmatic Publishing (2006).



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“Sob os nossos olhos” (1/25)De 11-de-Setembro a Donald Trump

Iniciamos a publicação por episódios do livro de Thierry Meyssan, «Sob os nossos Olhos». Trata-se de contar por escrito de forma ambiciosa a História dos dezoito últimos anos a partir da experiência do autor ao serviço de vários povos. Este livro não tem equivalente, e não pode ter, na medida em que nenhum outro homem participou nestes acontecimentos sucessivos na América Latina, em África e no Médio-Oriente ao lado dos governos postos em causa pelos Ocidentais.

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«Todos os Estados se devem abster de organizar, de ajudar, de fomentar, de financiar, de encorajar ou de tolerar actividades armadas subversivas ou terroristas destinadas a mudar pela violência o regime de um outro Estado, assim como de intervir nas lutas intestinas de um outro Estado» _ Resolução 2625, adoptada a 24 de Outubro de 1970 pela Assembleia Geral das Nações Unidas

Preâmbulo

Nenhum conhecimento é definitivo. A História, como qualquer outra ciência, é uma constante interrogação sobre o que se acreditava ser certo e o que, considerando novos elementos, se modifica, ou seja, é até mesmo desmentido.

Eu rejeito a escolha que nos é proposta entre o «limite da razão» e o «pensamento único» por um lado, e as emoções e a «post-verdade» por outro. Situo-me num outro plano : eu busco distinguir os factos das aparências, a verdade da propaganda. Acima de tudo, enquanto alguns homens tentarem explorar outros não creio que as relações internacionais possam ser totalmente democráticas e portanto transparentes. Por conseguinte, para lá da astúcia, por natureza é impossível interpretar com certeza os acontecimentos internacionais quando eles se dão. A verdade apenas pode vir à luz do dia com o tempo. Eu aceito a ideia de me poder enganar no imediato, mas jamais renuncio a questionar as minhas impressões e a refazê-las. Este exercício é tanto mais difícil quando o mundo experimenta guerras que nos obrigam a tomar posição sem demoras.

Pela minha parte, eu alinho no partido dos inocentes, os quais veem desconhecidos penetrar nas suas cidades e aí impor a sua lei, inocentes que ouvem as televisões internacionais repetir o mantra segundo o qual os seus dirigentes são tiranos e que devem ceder a posição aos Ocidentais, inocentes que se revoltam e são então esmagados pelas bombas da OTAN. Eu reivindico ser, ao mesmo tempo, um analista tentando analisar com objectividade e um homem que trás socorro, dentro dos seus meios, àqueles que sofrem.

Ao escrever este livro, pretendo ir ao fundo da documentação e dos testemunhos directos actuais. No entanto, ao contrário dos autores que me precederam, eu não procuro demonstrar a boa fé da política do meu país, mas antes compreender o encadear dos acontecimentos, a propósito dos quais acontece ter eu sido tanto um espectador como um interventor.

Alguns objectarão que, contrariamente a minha profissão de fé, eu busco, na realidade, justificar a minha acção e que, consciente ou inconscientemente, dou mostras de parcialidade. Espero que eles venham a participar no estabelecimento da verdade e me indiquem ou publiquem os documentos que eu ignoro.

Acontece, de facto, que o meu papel nestes acontecimentos me permitiu apreender, e verificar, numerosíssimos elementos desconhecidos do grande público, e bastantes vezes de muitos outros actores. Adquiri este conhecimento de maneira empírica. Só progressivamente é que eu compreendi a lógica dos acontecimentos.

Para permitir ao leitor seguir o meu percurso intelectual, eu não escrevi uma História Geral da Primavera Árabe, mas, sim três histórias parciais dos últimos dezoito anos, a partir de três pontos de vista diferentes : o dos Irmãos Muçulmanos, o dos sucessivos governos Franceses, e o das autoridades Norte-americanas. Para esta edição, inverti a ordem destas partes em relação às edições precedentes onde havia colocado a acção da França em primeiro lugar. Com efeito, trata-se aqui de abranger um público internacional.

Em busca do Poder, os Irmãos Muçulmanos colocaram-se ao serviço do Reino Unido e dos Estados Unidos, enquanto ponderavam sobre como atrair a França para a sua luta de domínio sobre os Povos. Perseguindo os seus próprios objectivos, os dirigentes franceses não procuraram compreender a lógica dos Irmãos Muçulmanos, nem a do seu suserano norte-americano, mas unicamente acertar nas vantagens da colonização e encher os bolsos. Apenas Washington e Londres tinham toda a informação sobre o que se passava e aquilo que preparavam.

O resultado assemelha-se pois ao das matrioskas russas: só com o desenrolar do tempo se percebe a organização dos acontecimentos que pareciam, à primeira vista, espontâneos, tais como as premissas e as conclusões de determinadas decisões.

O meu testemunho é de tal modo diferente do que os leitores terão lido ou ouvido sobre o mesmo assunto que alguns ficarão assustados com o que escrevo. Outros, pelo contrário, irão interrogar-se sobre esta gigantesca manipulação e do modo como lhe pôr um fim.

É provável que este livro, que expõe centenas de factos, inclua alguns erros que eu irei corrigindo no futuro. É possível que uma ou outra das correlações que eu saliento sejam apenas fruto do acaso, mas, seguramente, não a sua totalidade.

Inúmeras pequenas rectificações foram sendo incluídas em função de sucessivas revelações ulteriores sobre este período.

Que não restem dúvidas, os partidários do imperialismo não deixarão de me acusar de «conspiracionismo», de acordo com a sua expressão fetiche. É uma acusação gratuita que usam desde há 15 anos. Têm abusado dela desde que eu comecei a contestar a versão oficial dos atentados do 11-de-Setembro de 2001. Eles persistem na sua negação (ou mentira ?) e, claro, desmascaram-se quando apoiam publicamente a Alcaida na Líbia e na Síria ao mesmo tempo que a acusam de massacre nos Estados Unidos, na França, na Bélgica, etc.

O consenso de jornalistas e de políticos não tem mais valor do que o dos teólogos e dos astrónomos face às descobertas de Galileu. Jamais qualquer consenso permitiu estabelecer a verdade. Apenas a Razão aplicada às provas nos permite a sua aproximação.

Em última análise, uma vez os erros menores corrigidos, é a este somatório de factos que cada qual, sendo honesto, deverá responder propondo para tal uma explicação lógica e coerente.

(a continuar …)





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Rasura da memória e democracia

 

Vivemos uma inquietante vaga de rasura da memória projetada a partir do apagamento, da reescrita e da trivialização de episódios da história. Uma parte produzida de forma consciente, com objetivos políticos precisos, resultando a outra apenas da leviandade, da indiferença ou da ignorância. Por isso o vínculo entre história e memória está na ordem do dia, seja para quem aproxima estas duas categorias de representação do passado, seja para os que pretendem a sua separação. Olhar com sentido crítico e pragmatismo a relação entre ambas requer um banho de realidade.

Em 2015 duas fundações francesas de investigação divulgaram os resultados de um inquérito subordinado ao tema Mémoires à venir. Envolveu cerca de 32 mil jovens de 31 países – Austrália, Canadá, Estados Unidos, Japão, Índia, Israel, Rússia, Turquia e quase toda a Europa – com idades compreendidas entre os 16 e os 19, e visava conhecer aquilo que os cidadãos educados já neste milénio retêm dos grandes acontecimentos do século XX, com a particularidade de terem sido colocadas as mesmas questões a pessoas de regiões e culturas muito diversas. Os acontecimentos mais referenciados foram aqueles que incorporaram uma dimensão traumática: o Holocausto, as bombas atómicas sobre o Japão e as duas guerras mundiais. Dos episódios mais recentes, destacaram-se os que em 1989-1991 envolveram a queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética.

A importância conferida no inquérito a estes momentos relaciona-se com o relativo êxito das políticas de memória levadas a cabo em alguns Estados, onde com o apoio do conhecimento histórico foi possível assegurar uma relação de continuidade com o passado recente. Todavia, nem tudo nas respostas dos inquiridos foi positivo. Parte delas fez sobressair a chamada «memória negativa», ao demonstrar – sobretudo na Hungria, na Croácia, na França e na Alemanha – uma tendência para a rejeição das recordações incómodas que pode ser associada ao ressurgimento dos nacionalismos e a formas de revisão ou de negação do passado. Daí, se pretendermos impedir que a deriva de silenciamento se generalize e torne uma inevitabilidade, a necessidade de rejeitar, como perigoso logro, a separação entre memória e história, que, em nome de uma retórica «apolítica», alguns historiadores conotados com a direita se esforçam por difundir nos meios académicos e junto das novas gerações.

Quando no meio profissional da história se escuta que esta é «um saber neutro, fora da política», a reação só pode ser de assombro, pois estas afirmações ignoram debates e conclusões com oito décadas. Marc Bloch, o fundador da Escola dos Annales, torturado e fuzilado pela Gestapo, defendia já, num texto de 1941 saído em Apologie pour l’Histoire – livro ainda utilizado em universidades como introdução ao ofício de historiador – que o problema epistemológico da disciplina não é apenas de natureza científica, mas comporta também uma dimensão cívica e moral, tendo quem a pratica responsabilidade social de «prestar contas». Caio Boschi reconhece neste processo a importância instrumental da memória, que não aceita como algo inerte, frisando que «o que lembramos e o que esquecemos pode servir à libertação humana, mas também pode contribuir para a servidão, para o domínio de determinados grupos». Não podendo, nem devendo ser depreciado por quem se ocupa com a leitura do passado.

O «dever de memória» intervém aqui como instrumento da necessidade de olhar o passado traumático, estudado e transmitido pela história, enquanto algo sobre o qual, face ao sofrimento das vítimas, aos crimes dos seus algozes e às circunstâncias que os determinaram, a interpretação exclui a indiferença moral. Responsabilizando Estados, grupos e indivíduos por episódios passados, e trabalhando, como sugeriu Primo Levi, para que não se repitam no futuro. Se história não é apenas memória, se não se aceita o testemunho subjetivo como critério único e inquestionável de verdade, também não pode ignorar-se a voz silenciada dos mortos, como aconteceu com a das vítimas do Holocausto reduzidas a cinzas, ou reduzir-se o passado à lógica dos vencedores e à celebração dos grandes eventos, via segura para o apagamento de boa parte dele.

O negacionismo histórico – conceito proposto por Henry Rousso para designar a contestação da veracidade do Holocausto que desculpabiliza o regime nacional-socialista alemão – tem incorporado outras realidades incómodas: o genocídio arménio, o Holodomor ucraniano e a realidade do Gulag soviético, o extermínio dos tutsis no Ruanda ou o pesadelo imposto no Camboja pelo khmer vermelho. Mais recentemente, o escamotear da dimensão do tráfico esclavagista europeu e árabe, ou a rejeição da existência da Ditadura Militar brasileira, com o seu negro cortejo de perseguição, tortura e assassinato. Neste contexto, é obrigação do historiador com sentido do social e da equidade democrática, opor-se frontalmente a esse trabalho de negação. Porque perante o horror e o crime não pode existir imparcialidade ou indiferença. Além de que, no seu lugar de explorador, intérprete e transmissor do passado, de modo algum pode contemporizar com o silenciamento e com a mentira.

Imagem: Fotografia original de prisioneira de Auschwitz e versão a cores
Publicado originalmente na edição online do Público de 4/7/2019

Ver original em 'A Terceira Noite' na seguinte ligação:

http://www.aterceiranoite.org/2019/07/05/rasura-da-memoria-e-democracia/

Heróis de Abril - Coronel Costa Braz

Mais um bravo que parte, mais um a quem todos devemos tanto e tão pouco nos lembrámos dele. Saibamos, pelo menos, ser dignos da herança que nos legou.

Ponte Europa presta homenagem ao honradoe e corajoso militar e apresenta condolências à família e à Associação 25 de Abril.
***
Falecimento do capitão de Abril, coronel Costa Braz

Car@s  Associad@s
É com profundo pesar que vos comunicamos o falecimento do Capitão de Abril, nosso associado coronel Manuel da Costa Braz.

Militar de Abril de todas as horas, foi um dos elementos que, na conspiração, participou na redacção do documento “O Movimento, as Forças Armadas e a Nação” que viria a ser a base do Programa do MFA.

Sempre fiel aos valores de Abril, Costa Braz foi um dos militares de Abril que mais intervenção desenvolveu na área politica.

Essa atitude, sempre autónoma e independente partidariamente, que não neutra, levou-o a assumir o cargo de ministro em mais do que um Governo. Como Ministro da Administração Interna, teve o apogeu da sua acção em 1975 como principal responsável pela organização do processo eleitoral para a Assembleia Constituinte.

Evento que, sendo fundamental no projecto do MFA, se constituiria como peça essencial na constituição do regime democrático a que a Revolução dos Cravos deu origem.

Mais tarde, Manuel da Costa Braz seria escolhido para ser o primeiro Alto Comissário contra a Corrupção (cargo que não teria mais nenhum titular) e viria a ser também o primeiro Provedor de Justiça (este sim, continua em actividade).

De destacar ainda o seu papel como responsável maior, enquanto representante do Governo Português, pelos acordos em Moçambique sobre a Barragem de Cabora Bassa.

Em todos esses cargos, como em toda a sua vida, Manuel da Costa Braz foi um cidadão de primeira, exemplar militar de Abril, sempre fiel aos ideias e aos valores que nos lançaram na extraordinária epopeia da conquista da Liberdade de Portugal e dos portugueses.

Faleceu um Homem.

Portugal e a Associação 25 de Abril ficam mais pobres.

Eu, vejo partir um grande Amigo.

Aqui lhe deixamos a nossa homenagem, de muita amizade e camaradagem.

Até sempre caro Manuel

Um grande abraço

Vasco Lourenço

P.S. Ainda sem pormenores, podemos informar que o velório se realizará na Basílica da Estrela, a partir da tarde de 5ª feira, dia 4 de Julho e o funeral se realizará no dia seguinte 6ª feira de manhã, dia 5 de Julho.

António Hespanha

«António Hespanha não usava da oratória típica do professor grandiloquente. Era mesmo o contrário disso. As suas intuições mais fulgurantes ou alegações mais radicais ele apresentava-as com aquele tom de voz de quem estivesse a falar de alguma coisa simplicíssima, com enorme delicadeza mas também como se não desse enorme importância ao que acabara de expor — nem que fosse uma daquelas teorias novas ou interpretações originais por que outros dariam uma carreira inteira. Por outro lado, era aos pormenores supostamente insignificantes que ele era capaz de dar enorme importância, como se nos estivesse a passar (e estava) uma lição metodológica que era ao mesmo tempo uma mensagem ética: conheçam e estudem os temas a que toda a gente atribui imensa importância, mas não se deixem encandear por eles; acima de tudo, não se esqueçam de olhar atentamente para aquilo a que os outros não ligam. (...) Mais do que qualquer tema em particular, o que aprendíamos com Hespanha era a treinar o olhar: olhar de novo para o que pensávamos já conhecer, olhar para aquilo que outros desconsideraram, olhar de longe, olhar de perto, olhar de outra maneira. (...) Aprendemos contigo o que é aprender. Aprender não é só acumular informação: é ter afeto pelas pessoas, pelas coisas e pelas ideias. E etcetera. É isso. Não um adeus, mas um etcetera.» Rui Tavares, Não um adeus, mas um etcetera (para António Manuel Hespanha)

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

António Hespanha, 1945-2019 (in memoriam)

Quem frequenta este meu espaço sabe que nunca passei ao lado de gente impoluta, que sempre se bateu na vida por valores e por eles pagou preço imerecido. Faleceu hoje. Passo a republicar, como memória de uma sentida perda. Não minha, mas nossa.
O Professor tinha tudo preparado... 
mas não vai ser como esperava que fosse
"Para os meus alunos e colegas da Universidade Autónoma de Lisboa (UAL)
Deixei de ser professor da UA. Inesperadamente e pela calada das férias, a direção mandou-me dizer, por carta de entreposta pessoa, que punha fim à minha colaboração. As justificações apresentadas são fantasiosas e vazias, pelo que é seguro que há outras, porventura relacionadas com uma brevíssima crítica que formulei, num “Prós e contras” em que se comparava a qualidade dos setores público e privado. A propósito, referi a falta de uma política de investimento científico e académico do ensino superior privado em geral (nem sequer referi a UAL) e a consequente dependência em que isso o coloca perante o ensino público. Esta opinião é, de resto, favorável à real autonomia e a um desenvolvimento correto e sustentado das universidades privadas, como hoje está patente, pela positiva – veja-se o caso da Universidade Católica - e pela negativa. De há muito que legitimamente a tenho e a exprimo. E, nos anos em que trabalhei na UAL (mais de dez), muitos esforços fiz: para trazer à Universidade pessoas que a prestigiassem; para dar ao meu ensino a melhor qualidade possível, para o inovar; para me ocupar pessoalmente (e não por intermédio de assistentes ou de colaboradores) das tarefas de ensino e de avaliação; para promover um contacto direto com os alunos, por meio de blogues ((http://amh-hespanhol.blogspot.pt/; para o ano que vem, já tinha on line, há mais de um mês, blogs relativos às novas disciplinas, com programas e calendários: http://ua-hi-2013.blogspot.pt/, http://ua-2013-te.blogspot.pt/). De modo a que nunca se pudesse dizer que fazia ali um ensino de segunda, em relação ao que fazia na Universidade pública. Colegas e alunos reconheceram isso e disso me deram testemunhos frequentes.
Enfim, nada disto contou, perante a vontade de quem – por razões que ignoro ou prefiro ignorar – não me queria na UAL. Sei que este desfecho foi promovido apenas por alguns, que conseguiram levar avante a sua decisão. Não envolvo, por isso, nele, nem toda a direção, nem os restantes órgãos da Universidade, nem os meus Colegas de Departamentos, nem os funcionários, nem os estudantes. Creio bem que muitos destes se sentirão muito incómodos por isto acontecer, ainda que – por razões que se compreenderão – se mantenham discretos. Em algumas instituições da nossa vida pública e privada, vai sendo muito penalizador dizer-se o que se pensa, mesmo em instituições em que a verdade e a liberdade deviam estar antes de tudo, como é o caso das Universidades.
Pode ser que nos encontremos em outros lugares e que possamos retomar diálogos proveitosos e de boa memória.
Abraços amigos.
António Manuel António Hespanha"

Ver original em 'Conversa Avinagrada' (aqui)

[2157.] ANTÓNIO MANUEL HESPANHA [I] || 1945 - 2019

* ANTÓNIO MANUEL HESPANHA *
[1945 - 2019]
António Hespanha foi meu Professor de Mestrado de História dos Séculos XIX-XX no já longínquo ano lectivo de 1985-1986. Um Docente invulgar que abria horizontes (quando lhos tentavam fechar em anos difíceis e de incertezas para o seu futuro académico), proporcionava leituras multidisciplinares e transnacionais e fomentava a discussão, numa interrogação inacabada.
Mas era muito mais. Um Pedagogo preocupado com os jovens candidatos a mestres!
Já a leccionar, procurando conciliar a docência com o mestrado, chegava sistematicamente (muito) atrasado às suas aulas na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, esbaforido depois de apanhar o comboio, autocarros e de algumas caminhadas.
Nunca disse nada e, como por acaso, propôs que as aulas passassem para os sábados de manhã. Não poderia ser na instituição académica, por estar fechada nesse dia de semana, sugerindo um edifício a que todos os ex-directores gerais do Ministério da Educação ainda tinham acesso e que estava, na prática, vazio, ali para os lados da António Augusto Aguiar. As aulas passaram a decorrer na respectiva cozinha, à volta de uma mesa, sem mais atrasos deste aluno.
Mas, atento a quem o rodeava, certo dia pediu para me deslocar a sua casa. Recebido numa sala onde se trabalhava à volta de uma mesa com uma enorme tábua que, praticamente, ocupava o espaço, demonstrou preocupação com a investigação para a disciplina que ministrava: Metodologia de História Institucional e Política. Preocupação genuína que tinha toda a razão de ser, já que só durante os meses de Julho, Agosto e meados de Setembro seria possível avançar com aquela, aproveitando a interrupção lectiva.
O Verão foi, mais uma vez, passado na Biblioteca Nacional, o texto final - Legislação e Regulamentos Internos do Trabalho (1870-1910): a disciplina e regulamentação do e no trabalho como primeiro contributo para a sua organização racional e científica - entregue dentro do prazo e, um dia, cruzando-nos na Nova, informou-me, como se se tratasse de algo natural, que o tinha citado numa História do Portugal Contemporâneo.
Três "pequenos" exemplos que nunca esqueci e que me acompanham na minha própria docência junto dos mais novos.
Até sempre, Professor Hespanha!
[João Esteves]

Ver original em 'Silêncios e Memórias' na seguinte ligação:

http://silenciosememorias.blogspot.com/2019/07/2157-antonio-manuel-hespanha-i-1945-2019.html

O MUNDO DO AVESSO?

Dia 30 de Junho. De 1939 e de 1969. Nas notícias do primeiro desses dias, noticiava-se o terrorismo na Palestina. Só que as vítimas dos atentados eram árabes e os seus autores israelitas. E era sobre estes que a repressão incidia (a autoridade tutelar da Palestina era o Reino Unido). Nas notícias do segundo desses dias, os britânicos mostravam-se ansiosos por entrar para a Comunidade Económica Europeia; esperavam que a recente eleição de Georges Pompidou provocasse uma inflexão da atitude francesa que, com Charles de Gaulle, já por duas vezes vetara a admissão do Reino Unido. Que estas duas notícias são o oposto do que se passa na actualidade não restam dúvidas, mas, a tratar-se do Mundo do avesso, com israelitas a aterrorizar árabes com bombas e a serem presos, e britânicos a exercerem todas as pressões possíveis para se juntarem à Europa, qual é o avesso, qual é o direito?

Veja o original em 'Herdeiro de Aécio' na seguinte ligação::

http://herdeirodeaecio.blogspot.com/2019/06/o-mundo-do-avesso.html

“Sob os nossos olhos” (2/25) - Os Irmãos Muçulmanos como assassinos

Prosseguimos a publicação do livro de Thierry Meyssan, «Sob os nossos olhos». Neste episódio, ele descreve a criação de uma sociedade secreta egípcia, os Irmãos Muçulmanos, depois a sua recriação após a Segunda Guerra Mundial pelos Serviços Secretos britânicos. Finalmente, a utilização deste grupo pelo MI6 para proceder a assassinatos políticos nesta antiga colónia da Coroa.

Este artigo é extraído do livro Sob os nossos olhos.
Ver o Indíce dos assuntos.

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Hassan el-Banna, fundador da sociedade secreta dos Irmãos Muçulmanos. Sabe-se pouco sobre a sua história familiar, apenas que eram relojoeiros; um ofício reservado à comunidade judaica no Egipto.

As «Primaveras Árabes»,
vividas pelos Irmãos Muçulmanos

Em 1951, os Serviços Secretos anglo-saxónicos constituíram, a partir da antiga organização homónima, uma sociedade secreta política : os Irmãos Muçulmanos.
Utilizaram-nos, sucessivamente, para assassinar personalidades que lhes opunham resistência, depois, a partir de 1979, como mercenários contra os Soviéticos. No início dos anos 90, incorporaram-nos na OTAN e nos anos 2010 tentaram levá-los ao Poder nos países árabes. Os Irmãos Muçulmanos e a Ordem sufi dos Naqchbandis são financiados, à escala de 80 mil milhões de dólares anuais, pela família reinante saudita, o que os transforma num dos mais importantes exércitos do mundo. Todos os líderes jiadistas, aqui incluídos os do Daesh (E.I.), pertencem a este dispositivo militar.

1— Os Irmãos Muçulmanos Egípcios

Quatro impérios desaparecem durante a Primeira guerra mundial, o Reich alemão, o Império austro-húngaro, a Santa Rússia czarista e a Sublime Porta otomana. Os vencedores não têm o menor bom senso ao impor as suas condições aos vencidos. Assim, na Europa, o Tratado de Versalhes aplica condições terríveis à Alemanha, que torna como única responsável do conflito. No Oriente, o retalhar do Império Otomano dá para o torto : na Conferência de San Remo (1920), em conformidade com os acordos secretos de Sykes-Picot-Sazonov (1916), o Reino Unido é autorizado a estabelecer o lar judeu da Palestina, enquanto a França pode colonizar a Síria (incluindo à época o actual Líbano). No entanto, no que resta do Império Otomano, Mustafá Kemal revolta-se tanto contra o Sultão, que perdeu a guerra, como contra os Ocidentais que se apoderam do seu país. Na Conferência de Sèvres (1920), cortam o Império em pequenos pedaços para criar toda a espécie de novos Estados, entre os quais um Curdistão. A população turco-mongol da Trácia e da Anatólia revolta-se e leva Kemal ao Poder. No fim, a Conferência de Lausana (1923) traça as fronteiras actuais, renuncia a um Curdistão e organiza gigantescas transferências de população que provocam mais de meio milhão de mortos.

Mas, tal como na Alemanha onde Adolf Hitler irá contestar a sorte do seu país, do mesmo modo no Próximo-Oriente, um homem se levanta contra a nova divisão da região. Um professor egípcio funda um movimento para restaurar o Califado que os Ocidentais venceram. Este homem é Hassan el-Banna, e esta organização é a Irmandade Muçulmana (1928).

O Califa é, em princípio, o sucessor do Profeta, ao qual todos devem obediência; um título de facto muito cobiçado. Sucessivas grandes linhagens de Califas se sucederam, os Omíadas, os Abássidas, os Fatímidas e os Otomanos. O próximo Califa deveria ser aquele que se apoderasse do título, neste caso o «Guia Chefe» da Irmandade, que se veria seguramente como senhor do mundo muçulmano.

A sociedade secreta espalha-se muito rapidamente. Ela entende operar no interior do sistema para restaurar as instituições islâmicas. Os candidatos devem jurar fidelidade ao fundador sobre o Alcorão e sobre um sabre, ou sobre um revólver. O objectivo da Irmandade é exclusivamente político, mesmo se ela o expressa em termos religiosos. Jamais, Hassan el-Banna ou os seus sucessores falarão de Islão como de uma religião, ou evocarão uma espiritualidade muçulmana. Para eles, o Islão é unicamente um dogma, uma submissão a Deus, e um meio de exercício do Poder. É claro, os Egípcios que apoiam a Irmandade não o percebem assim. Eles seguem-na porque ela alega seguir a Deus.

Para Hassan el-Banna, a legitimidade de um governo não se mede pela sua representatividade tal como se estima a dos governos ocidentais, mas, antes pela sua capacidade de defender o «modo de vida islâmico», ou seja, o do Egipto otomano do século XIX. Os Irmãos jamais considerarão que o Islão tenha uma História, e que os modos de vida muçulmanos variem consideravelmente segundo as regiões e as épocas. Jamais considerarão, sequer, que o Profeta tenha revolucionado a sociedade beduína na qual vivia, e que o modo de vida descrito no Alcorão fosse apenas uma etapa fixada para estes homens. Para eles, as regras penais do Alcorão –—a Charia--- não correspondem, portanto, a uma dada situação, fixam, isso sim, leis imutáveis nas quais o Poder se pode apoiar.

O facto de a religião muçulmana ter sido muitas vezes difundida pela espada justifica para a Irmandade o uso da força. Jamais os Irmãos reconhecerão que o Islão tenha podido propagar-se também pelo exemplo. Isso não impede al-Banna e os seus Irmãos de se apresentarem a eleições –-e de perder---. Se eles condenam os partidos políticos, não é por oposição ao multipartidarismo, mas, antes porque separando a religião da política cairiam na corrupção.

A doutrina dos Irmãos Muçulmanos, é a ideologia do «islão político», em francês diz-se do «islamismo» ; uma palavra que vai levantar celeuma.

Em 1936, Hassan el-Banna, escreve ao Primeiro-ministro Mustafá el-Nahhass Pacha. Exige-lhe: - «uma reforma da legislação e a colocação de todos os tribunais sob a Charia;
- o recrutamento no seio do exército instituindo para tal um voluntariado sob a bandeira da jiade;
- a conexão dos países muçulmanos e a preparação da restauração do Califado, em aplicação da unidade exigida pelo Islão».

Durante a Segunda Guerra Mundial, a Irmandade declara-se neutral. Na realidade, ela transforma-se num serviço de Inteligência do Reich. Mas a partir da entrada na guerra dos Estados Unidos, assim que a sorte das armas parece inverter-se, ela faz um jogo duplo e faz-se financiar pelos Britânicos para lhes fornecer informações sobre o seu primeiro empregador. Ao fazer isto, a Irmandade mostra a sua total ausência de princípios e o seu puro oportunismo político.

A 24 de Fevereiro de 1945, os Irmãos tentam a sua sorte e assassinam, em plena sessão parlamentar, o Primeiro-ministro egípcio. Segue-se uma escalada de violência: uma repressão contra eles e uma série de assassinatos políticos, indo até à do novo Primeiro-ministro, a 28 de Dezembro de 1948, e em retaliação a do próprio Hassan al-Banna, a 12 de Fevereiro de 1949. Pouco tempo depois, um tribunal estabelecido pela lei marcial condena a maior parte dos Irmãos a uma pena de detenção e dissolve a sua associação.

Esta organização secreta não era mais, no fundo, que um bando de assassinos que ambicionava apoderar-se do Poder, mascarando a sua cobiça atrás do Alcorão. A sua história deveria ter terminado por ali. Mas, não foi nada disso que aconteceu.

2— A Confraria reformada pelos Anglo-Saxões e a paz separada com Israel

A capacidade da Confraria em mobilizar as pessoas e em as transformar em assassinos não deixa de intrigar as Grandes Potências.

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Contrariamente aos seus desmentidos, Sayyid Qutb era franco-mação. Ele publicou um artigo intitulado «Porque me tornei franco-mação», aparecido na revista al-Taj al-Masri (a «Coroa do Egipto»), em 23 de Abril de 1943.

Dois anos e meio após a sua dissolução, uma nova organização é formada pelos Anglo-Saxões reutilizando, para isso, o nome dos «Irmãos Muçulmanos». Aproveitando-se da prisão dos dirigentes históricos, o antigo juiz Hassan al-Hodeibi é eleito Guia-chefe. Contrariamente a uma ideia muitas vezes aceite, não há nenhuma continuidade histórica entre a antiga e a nova Irmandade. Verifica-se que uma unidade da antiga sociedade secreta, o «Aparelho Secreto», tinha sido encarregado por Hassan el-Banna de perpetrar os atentados dos quais ele negava a paternidade. Esta organização dentro da organização era tão secreta que ela não foi tocada pela dissolução da Irmandade e coloca-se agora à disposição do seu sucessor. O Guia decide repudiá-la e declara querer atingir os seus objectivos apenas de forma pacífica. É difícil estabelecer o que se passou exactamente naquele momento preciso entre os Anglo-Saxões, que queriam recriar a antiga sociedade secreta, e o Guia, o qual apenas queria recuperar sua audiência junto das massas. Em qualquer caso, o Aparelho Secreto perdurou e a autoridade do Guia apagou-se em proveito da de outros responsáveis da Irmandade, abrindo uma verdadeira guerra interna. A CIA colocou na sua direcção o franço-mação Sayyid Qtub [1], o teórico da Jiade, que o guia condenou antes de concluir um acordo com o MI6.

É impossível especificar as relações de subordinação interna entre uns e outros, por um lado porque cada ramo estrangeiro tem a sua própria autonomia e, por outro lado, porque as unidades secretas no seio da organização não dependem mais, absolutamente, nem do Guia-chefe, nem do Guia local, mas, por vezes, directamente da CIA e do MI6.

Durante o período seguinte à Segunda Guerra mundial, os Britânicos tentam organizar o mundo de maneira a mantê-lo fora do alcance dos Soviéticos. Em Setembro de 1946, em Zurique, Winston Churchill lançou a ideia dos Estados Unidos da Europa. Dentro do mesmo princípio, ele lança a Liga Árabe. Em ambos os casos, trata-se de conseguir a unidade de uma região sem a Rússia. Desde o início da Guerra Fria, os Estados Unidos da América, por seu lado, criam associações encarregadas de acompanhar este movimento em proveito próprio, o American Committee on United Europe e os American Friends of the Middle East [2]. No mundo árabe, a CIA organiza dois golpes de Estado, primeiro em favor do General Hosni Zaim em Damasco (Março de 1949), depois com os Oficiais Livres no Cairo (Julho de 1952). Trata-se de apoiar os nacionalistas que se supõe serem hostis aos comunistas. É com este estado de espírito que Washington traz ao Egipto o General SS Otto Skorzeny e ao Irão o General nazi Fazlollah Zahédi, acompanhados de centenas de antigos responsáveis da Gestapo para dirigir a luta anti-comunista. Skorzeny infelizmente modelou a polícia egípcia numa tradição de violência. Em 1963, ele escolherá a CIA e a Mossad contra Nasser. Zahédi, quanto a ele, criará a SAVAK, a mais cruel polícia política da época.

Se Hassan el-Banna tinha fixado o objectivo —tomar o Poder manipulando a religião—, Qutb definiu o meio : a jiade. Uma vez tendo os adeptos admitido a superioridade do Alcorão, podemos apoiar-nos nele para os organizar em exército e enviá-los para o combate. Qutb desenvolve uma teoria maniqueísta diferenciando o que é islamista e o que é «tenebroso». Para a CIA e o MI6, esta lavagem cerebral permite utilizar os fiéis para controlar os governos nacionalistas árabes, depois para desestabilizar as regiões muçulmanas da União Soviética. A Irmandade torna-se um inesgotável reservatório de terroristas sob o slogan : «Alá é o nosso fim. O Profeta é o nosso chefe. O Alcorão é a nossa lei. A jiade é a nossa via. O martírio, o nosso voto».

O pensamento de Qutb é racional, mas não razoável. Desenvolve uma retórica invariável Alá/Profeta/Corão/Jiade/Martírio que não permite nunca qualquer possibilidade de debate. Ele coloca a superioridade da sua lógica acima da razão humana.

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Recepção de uma delegação da sociedade secreta pelo Presidente Eisenhower na Casa Branca (23 de Setembro de 1953).

A CIA organiza um colóquio na Universidade de Princeton sobre «A situação dos muçulmanos na União Soviética». É a ocasião de receber nos Estados Unidos uma delegação dos Irmãos Muçulmanos conduzida por um dos chefes do seu ramo armado, Saïd Ramadan. No seu relatório, o oficial da CIA encarregue do acompanhamento nota que Ramadan não é um extremista religioso, antes se parece mais com um fascista ; uma maneira de sublinhar o carácter exclusivamente político dos Irmãos Muçulmanos. O colóquio concluiu com uma recepção na Casa Branca pelo Presidente Eisenhower, a 23 de Setembro de 1953. A aliança entre Washington e o jiadismo está firmada.

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(Da esquerda para a direita) Hassan el-Banna casou a sua filha com Saïd Ramadan, fazendo dele o seu sucessor. O casal dará origem a Hani (director do Centro Islâmico de Genebra) e Tariq Ramadan (que será professor titular da cadeira de estudos islâmicos contemporâneos na universidade de Oxford).

A CIA, que tinha recriado a Irmandade contra os comunistas, primeiro utilizou-a para ajudar os nacionalistas. Nesta época a Agência era representada no Médio-Oriente por anti-sionistas, saídos da classe média. Rapidamente, eles foram afastados em proveito de altos-funcionários de origem anglo-saxónica e puritana, saídos das grandes universidades e favoráveis a Israel. Washington entrou em conflito com os nacionalistas e a CIA voltou a Irmandade contra eles.

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Said Ramadan e Abdul Ala Mawdudi animaram uma emissão semanal na Rádio Paquistão, uma estação criada pelo MI6 britânico.

Said Ramadan tinha comandado alguns combatentes da Irmandade durante a breve guerra contra Israel em 1948, depois tinha ajudado Sayyid Abul Ala Maududi a criar no Paquistão a organização para-militar da Jamaat-i-Islami. Tratava-se, então, de fabricar uma identidade islâmica para os Indianos muçulmanos de modo a que eles constituam um novo Estado, o Paquistão. A Jamaat-i-Islami redigirá, aliás, a constituição paquistanesa. Ramadan desposa a filha de Hassan al-Banna e torna-se o chefe do braço armado dos novos «Irmãos Muçulmanos».

Enquanto no Egipto, tendo os Irmãos participado no golpe de Estado dos Oficiais Livres do General Mohammed Naguib –-Sayyid Qutb era o seu agente de ligação--- eles são encarregues de eliminar um dos seus líderes, Gamal Abdel Nasser, o qual entrou em conflito com Naguib. Não apenas falham, a 26 de Outubro de 1954, como Nasser toma o Poder, reprime a Irmandade e coloca Naguib sob prisão domiciliar. Sayyid Qutb será enforcado alguns anos mais tarde.

Interditos no Egipto, os Irmãos recuam para os Estados wahhabitas (Arábia Saudita, Catar e emirado de Sharjah) e para a Europa (Alemanha, França e Reino Unido, mais a neutral Suíça). Em todas as ocasiões, são acolhidos sempre como agentes ocidentais lutando contra a nascente aliança entre os Nacionalistas árabes e a União Soviética. Saïd Ramadan recebe um passaporte diplomático jordano e instala-se em Genebra, em 1958, de onde ele dirige a desestabilização do Cáucaso e da Ásia Central (ou seja o Afeganistão-Paquistão e o vale soviético de Ferghana). Ele assume o controle da Comissão para a construção de uma mesquita em Munique, o que lhe permite supervisionar quase todos os muçulmanos da Europa Ocidental. Com a ajuda do American Committe for Liberation of the Peoples of Russia (AmComLib), quer dizer da CIA, ele dispõe da Radio Liberty/Radio Free Europe, uma estação directamente financiada pelo Congresso norte-americano para difundir a ideologia da Irmandade [3].

Após a crise do Canal de Suez e a espectacular reviravolta de Nasser para o lado soviético, Washington decide apoiar sem limites os Irmãos Muçulmanos contra os Nacionalistas árabes. Um alto quadro da CIA, Miles Copeland, é encarregado –-em vão--- de selecionar na Irmandade uma personalidade que possa desempenhar no mundo árabe um papel equivalente ao do Pastor Billy Graham nos Estados Unidos. Será preciso esperar pelos anos 80 para encontrar um pregador desta envergadura, o egípcio Youssef al-Qaradawi.

Em 1961, a Irmandade estabelece uma conexão com outra sociedade secreta, a Ordem dos Naqchbandis. Trata-se de uma espécie de franco-maçonaria muçulmana misturando iniciação Sufi e política. Um dos seus teóricos indianos, Abu al-Hasan Ali al-Nadwi, publica um artigo na revista dos Irmãos. A Ordem é antiga e está presente em inúmeros países. No Iraque, o grão-mestre não é outro senão o futuro Vice-presidente Ezzat Ibrahim al-Duri. Ele apoiará a tentativa de golpe de Estado dos Irmãos na Síria, em 1982, depois a «campanha de retorno à Fé» organizada pelo Presidente Saddam Hussein, para reforçar a identidade do seu país, após o estabelecimento da área de exclusão aérea pelos Ocidentais. Na Turquia, a Ordem jogará um papel mais complexo. Ela irá incluir como responsáveis tanto Fethullah Gullen (fundador do Hizmet), como o Presidente Turgut Özal (1989-93) e o Primeiro-ministro Necmettin Erbakan (1996-97), fundador do Partido da Justiça (1961) e da Millî Görüş (1969). No Afeganistão, o antigo presidente Sibghatullah Mujaddidi (1992) foi seu grão-mestre. Na Rússia, com a ajuda do Império Otomano, a Ordem havia revoltado a Crimeia, o Usbequistão, a Tchechénia e o Daguestão, no século XIX, contra o czar. Até à queda da União Soviética, não teremos notícias deste ramo; tal como no Xinjiang chinês. A proximidade entre os Irmãos e os Naqchbandis muito raramente é estudada tendo em conta a oposição de princípios dos Islamistas à mística e às ordens Sufis em geral.

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A sede saudita da Liga Islâmica Mundial. Em 2015, o seu orçamento era superior à do Ministério saudita da Defesa. Primeiro comprador mundial de armas, a Arábia Saudita adquire armas que a Liga distribui às organizações dos Irmãos Muçulmanos e Naqchbandis.

Em 1962, a CIA encoraja a Arábia Saudita a criar a Liga Islâmica Mundial e a financiar, ao mesmo tempo, a Irmandade e a Ordem contra os nacionalistas e os comunistas [4]. Esta organização é, a principio, financiada pela Aramco (Arabian-American Oil Company). Entre a vintena dos seus membros fundadores conta-se três teóricos islamitas de que já falamos : o egípcio Saïd Ramadan, o paquistanês, Sayyid Abul Ala Mawdudi e o indiano Abu al-Hasan Ali al-Nadwi.

De facto a Arábia, que dispõe subitamente de enorme liquidez graças ao comércio do petróleo, torna-se a madrinha dos Irmãos no mundo inteiro. Em casa, a monarquia confia-lhes o sistema de ensino escolar e universitário, num país onde quase ninguém sabe ler e escrever. Os Irmãos têm de se adaptar aos seus anfitriões. Com efeito, a sua vassalagem ao rei impede-os de prestar fidelidade ao Guia-chefe. Seja como for, eles organizam-se em torno de Mohamed Qutb, o irmão de Sayyid, em duas correntes : os Irmãos sauditas de um lado e os «Sururistas», de outro. Estes últimos, que são Sauditas, ensaiam uma síntese entre a ideologia política da Irmandade e a teologia Wahhabista. Esta seita, da qual a família real é parte, defende uma interpretação do Islão extraída do pensamento beduíno, iconoclasta e anti-histórica. Até Riade dispor de petro-dólares, ela lançava anátemas às escolas muçulmanas tradicionais que, por sua vez, a consideravam como herética.

Na realidade, a política dos Irmãos e a religião Wahhabista nada têm em comum, mas são compatíveis. Salvo, que o pacto que liga a família dos Saud aos pregadores wahhabistas não pode subsistir com a Irmandade : a ideia de uma monarquia de direito divino esbarra no apetite dos Irmãos pelo Poder. É pois acordado que os Saud apoiarão os Irmãos por todo o mundo, com a condição de estes se absterem de entrar em política na Arábia.

O apoio dos wahhabitas sauditas aos Irmãos provoca uma rivalidade suplementar entre a Arábia e os dois outros Estados wahhabitas que são o Catar e o Emirado de Sharjah.

De 1962 a 1970, os Irmãos Muçulmanos participam na guerra civil do Iémene do Norte e tentam restabelecer a monarquia, ao lado da Arábia Saudita e do Reino Unido, contra os Nacionalistas árabes, o Egipto e a URSS; um conflito que prefigura o que se vai seguir durante meio século.

Em 1970, Gamal Abdel Nasser consegue estabelecer um acordo entre as facções Palestinas e o rei Hussein da Jordânia que põe um fim ao «Setembro Negro». Na noite da Cimeira da Liga Árabe que ratifica o acordo ele morre, oficialmente de ataque cardíaco, muito mais provavelmente assassinado. Nasser tinha três vice-presidentes, um de esquerda –-extremamente popular---, um centrista –-muito famoso---, e um conservador escolhido a pedido dos Estados Unidos e da Arábia Saudita: Anwar al-Sadate. Sujeito a pressões, o vice-presidente de esquerda diz-se incapaz para o cargo. O vice-presidente centrista prefere abandonar a política. Sadate é designado como candidato dos Nasseristas. Este é o drama de muitos países: o Presidente seleciona um Vice-Presidente entre os seus rivais de maneira a alargar a sua base eleitoral, mas este substitui-o quando ele morre e arrasa o seu legado.

Sadate, que havia servido o Reich durante a Segunda Guerra mundial e professa uma grande admiração pelo Führer, é um militar ultra-conservador que servia de alter-ego a Sayyid Qutb como agente de ligação entre a Irmandade e os Oficiais Livres. Logo após a sua ascensão ao Poder, ele liberta os Irmãos presos por Nasser. O «Presidente crente» é um aliado da Irmandade quanto à islamização da sociedade (a «revolução da rectificação»), mas seu rival quando pretende um proveito político. Esta relação ambígua é ilustrada pela criação de três grupos armados, que não são cisões da Irmandade mas unidades externas que lhe obedecem : o Partido da libertação islâmica, a Jiade Islâmica (do Xeque Omar Abdul Rahman) e a Excomunicação e Imigração (o «Takfir»). Todos declarando aplicar as instruções de Sayyid Qutb. Armada pelos serviços secretos, a Jiade Islâmica lança ataques contra os Cristãos coptas. Longe de acalmar a situação, «o Presidente crente» acusa os coptas de sedição e prende o seu Papa e oito dos seus bispos. Por último, Sadate intervêm na condução da Irmandade e toma posição pela Jiade Islâmica contra o Guia-chefe, que ele manda prender [5].

A instruções do Secretário de Estado, Henry Kissinger, ele convence a Síria a juntar-se ao Egipto para atacar Israel e restaurar os direitos dos Palestinianos. Em 6 de Outubro de 1973, os dois exércitos envolvem o país hebreu num movimento de pinça durante a festa do Yom Kippur. O Exército egípcio atravessa o canal do Suez, enquanto o sírio ataca a partir do planalto do Golã. No entanto, Sadate apenas utiliza parcialmente a sua cobertura anti-aérea e manda parar o seu exército a 15 km a Leste do canal, enquanto os Israelitas se precipitam sobre os Sírios, que se veem armadilhados e gritam contra o complô. Só após os reservistas israelitas mobilizados e o Exército sírio cercado pelas tropas de Ariel Sharon, é que Sadate ordena ao seu exército para retomar a progressão, depois pará-lo para negociar um cessar-fogo. Assistindo à traição egípcia, os Soviéticos que já tinham perdido um aliado com a morte de Nasser, ameaçam os Estados Unidos e exigem a paragem imediata dos combates.

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Antigo agente de ligação com Sayyid Qutb entre os «Oficiais Livres» e a Confraria, o «Presidente crente» Anuar al-Sadate devia ser proclamado «sexto califa» pelo Parlamento egípcio. Aqui, este admirador de Adolf Hitler no Knesset ao lado dos seus parceiros Golda Meïr e Shimon Peres.

Quatro anos mais tarde –-prosseguindo o plano da CIA--- o Presidente Sadate vai a Jerusalém e decide assinar uma paz separada com Israel em detrimento dos Palestinianos. Agora, a aliança entre os Irmãos e Israel está selada. Todos os Povos árabes vaiam esta traição e o Egipto é excluído da Liga Árabe, cuja sede é passada para Tunes.

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Responsável do «Aparelho secreto» dos Irmãos Muçulmanos, Ayman al-Zawahiri (actual chefe da Alcaida) organiza o assassinato do Presidente Sadate (6 de Outubro de 1981).

Washington decide virar a página, em 1981. A Jiade Islâmica é encarregue de liquidar Sadate, agora sem interesse. Ele é assassinado durante uma parada militar, quando o Parlamento se aprestava para o proclamar «Sexto Califa». Na tribuna oficial 7 pessoas são mortas e 28 feridas, mas, sentado ao lado do Presidente, o seu Vice-presidente, o General Mubarak, escapa. Prevenido, era a única pessoa na tribuna oficial a usar um colete à prova de bala. Ele sucede ao «Presidente crente» e a Liga Árabe pode agora ser repatriada para o Cairo.

(Continua …)

 

[1] “Sayyid Qutb era franco-maçom”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 1 de Junho de 2018.

[2] America’s Great Game: The CIA’s Secret Arabists and the Shaping of the Modern Middle East, Hugh Wilford, Basic Books (2013).

[3] A Mosque in Munich: Nazis, the CIA, and the Rise of the Muslim Brotherhood in the West, Ian Johnson, Houghton Mifflin Harcourt (2010).

[4] Dr. Saoud et Mr. Djihad. La diplomatie religieuse de l’Arabie saoudite, Pierre Conesa, préface d’Hubert Védrine, Robert Laffont (2016). English version: The Saudi Terror Machine: The Truth About Radical Islam and Saudi Arabia Revealed, Skyhorse (2018).

[5] Histoire secrète des Frères musulmans, Chérif Amir, préface d’Alain Chouet, Ellipses (2015).



Ver original na 'Rede Voltaire'



25 anos depois, o Parlamento condena a repressão dos protestos na Ponte 25 de Abril

A repressão levada a cabo pelo governo do PSD de Cavaco Silva sobre os manifestantes que lutavam contra o aumento das portagens foi esta sexta-feira condenada.

Créditos / Sapo24

O voto de condenação proposto pelo PCP visava condenar a «repressão de manifestantes na Ponte 25 de Abril ordenada pelo Governo autoritário do PSD», assim como prestar «solidariedade com as suas vítimas».

No voto são recordados os «protestos populares contra o aumento em 50% do valor das portagens» os quais tiveram como resposta pelo então governo uma forte repressão policial no dia 24 de Junho de 1994 a qual visou limitar, pela força, o exercício de direitos cívicos.

No voto refere-se que a violência levou o País ao «sobressalto, dezenas de detenções e feridos, entre os quais um jovem que viria a ficar paraplégico após ser atingido por uma bala». Esta última vítima, 25 anos depois, ainda «aguarda o desfecho do calvário judicial que foi obrigado a percorrer pela recusa do governo do PSD em assumir responsabilidades».

Recorde-se que na sequência desta luta, o governo PSD foi «obrigado a recuar na decisão que havia tomado e a tomar medidas de resposta às exigências das populações».

Esta luta duramente reprimida, a par de muitas outras levaram ao isolamento político e social do governo do PSD que conduziu ao fim do cavaquismo.

Ao PCP juntaram-se PS, BE, PEV e PAN para aprovação do voto, à excepção de dois deputados socialistas que votaram contra ao lado de PSD e CDS-PP, Ascenso Simões e Fernando Rocha Andrade.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/nacional/25-anos-depois-o-parlamento-condena-repressao-dos-protestos-na-ponte-25-de-abril

Derniel Sol

[Até sempre, Areosa]
Quando oiço a voz de Sérgio Godinho cantar que só quer a vida cheia quem teve a vida parada penso, inevitavelmente, naqueles que não quiseram descansar. A luz intermitente da paragem não me deixava encontrar o poema do Sarrionandia enquanto esperava o último autocarro. Às mãos, chegara-me um papel que dizia que morreu o Areosa Feio e lembrei-me do sentido de pertença. Se é verdade que não se morre quando não terminamos em nós mesmos, também é certo que 'até sempre' é a memória colectiva carregada em ombros daqueles que mesmo mortos caminham ao nosso lado.

Já me tinham dito que era irónico que a paragem se chamasse Dernier Sol. Era uma cidade sem vida e até parecia mentira que dali a algumas horas houvesse mãos cheias de trabalhadores rumo ao diário sufoco de uma existência perdida entre a casa e o trabalho. Foi quando os vi passar. Pareciam aqueles piratas que subiam o Mississipi de que falava o último livro que li do Jack London. Assaltavam as casas dos ricos com o seu exército de miseráveis. "Se eu pudesse, fazia amor com a voz da Mavis Staples", disse o mais alto, com um aspecto desengonçado, enquanto agarrava numa das pegas da grade de cervejas. O outro respondeu-lhe que o Victor Hugo escrevera um dia que o amor abre parênteses enquanto o casamento os fecha. "Uma vez, conheci um trovador cubano que se casou três vezes. Com a mesma mulher", ripostou o amigo.

Eu estava bêbedo mas vi-os. Eu sei que vi. Eles comentaram que era irónico, creio que usaram essa palavra, que as tivessem bebido todas na noite anterior para que agora as pudessem reutilizar. A sério, eu sei que parece mentira mas aconteceu mesmo. Acredita que foi assim. Eu até pensava que iam só a caminho do vidrão. Houve uma idosa sem-abrigo, aparecida sei lá donde, que lhes pediu um cigarro e disse que para ela mesmo de dia era sempre noite. Passado meia hora, ouvi estilhaços e um enorme clarão. Houve quem achasse que era manhã. Como se todos os despertadores desta merda de cidade estivessem avariados. Só se ouvia o cacarejar dos galos e as gargalhadas da velha enquanto lhe lia Sarrionandia.

"Cada cosa con su dificultad,
a veces dar un beso resulta más difícil
que poner una bomba en el cuartel general del enemigo.
Necesitamos vuestra libertad para poder continuar
juntos haciendo las cosas difíciles.
La búsqueda del cuerpo perdido de nuestro pueblo,
por ejemplo.

Necesitamos vuestra libertad, para que los que estemos libres
seamos libres,
por lo menos
en la medida en que los seres humanos podamos ser libres
con las oscuras y largas cadenas
que tenemos adheridas a nuestra carne."

Ver original em 'Manifesto 74' na seguinte ligação:

http://manifesto74.blogspot.com/2019/06/derniel-sol.html

Da Memória

DIA 15, FALAMOS

Ao longo de meses e meses temos assistido a um fenómeno imprevisto no quadro da saúde mental da população portuguesa: a memória e a sua qualidade quando algumas pessoas se sentam nas salas da Assembleia da República…

 

I

Ao longo de meses e meses temos assistido a um fenómeno imprevisto no quadro da saúde mental da população portuguesa: a memória e a sua qualidade quando algumas pessoas se sentam nas salas da Assembleia da República onde decorrem os trabalhos de Comissões Parlamentares de Inquérito. É um problema estranho e para o qual os especialistas não encontraram explicação científica. Curiosamente, nas suas pesquisas, os investigadores do fenómeno constatam que o problema afecta pessoas que, num passado muito recente, estavam a desempenhar funções profissionais de elevada responsabilidade e ocupando cargos públicos de relevo em Portugal ou até a nível internacional. Mais imprevisto e surpreendente ainda é que os os problemas evidenciados de falta de memória são absolutamente selectivos: há factos (decisões, opções, etc.) que se apagaram de forma dramática e aparentemente irreversível. Mas, as mesmas pessoas continuam a desempenhar outras funções igualmente de relevo e grande responsabilidade. Também não foi conhecido nenhum caso com evidência de que estão a ser acompanhadas por um neurologista (ou outro especialista) no sentido de se tratarem e de recuperarem desta triste condição de saúde. Sobretudo porque são pessoas que ainda terão tanto para dar e, pelo menos algumas, estão longe da idade de reforma.

II

Não sendo eu um especialista em psicologia, neurologia ou qualquer outra ciência que possa estudar o fenómeno, continuo intrigado e preocupado.

E comecei a pensar: uma pessoa normal toma uma decisão que envolve a aplicação num projecto de milhões de euros. Ou dá o seu aval a que outros recebam por empréstimo milhões de euros. Será que vai esquecer essa decisão com a facilidade como já esqueceu o que comeu ao almoço em 3 de Setembro de 2007?

Consultei vários livros em que reputados autores e cientistas explicam o funcionamento do cérebro e os mecanismos da memória. Em nenhum encontrei uma explicação ainda que parcial deste fenómeno. Portanto, estaremos perante algo de novo e que poderá gerar uma nova área de investigação ou possa ser o objecto de teses de doutoramento. Ou pode ser criada uma fundação para patrocinar esse estudo. Mas, sem a menor dúvida, temos de fazer um esforço sério para que este fenómeno seja estudado e desvendado algum mecanismo que permita a sua prevenção no futuro. A bem da saúde mental do nosso país e para que não haja mais vítimas. Sobretudo pessoas que, durante anos e anos, deram o melhor de si para gerir bancos, empresas ou ministérios. E, agora, estão completamente abandonados no infortúnio e na desgraça de não saberem o que lhes aconteceu e o que se passa com uma faculdade essencial como a memória. Estão certamente desesperados com a sua condição e, tendo recursos financeiros provavelmente limitados, estarão ansiosos e preocupados com o seu futuro: sem memória, sem emprego e sem esperança em encontrar novas oportunidades de trabalho. Há que fazer alguma coisa. É urgente.

III

Ao escrever este texto não deixei de pensar na minha avó que me ensinou: “apanha-se mais depressa um mentiroso do que um coxo”… Como estas palavras me parecem cada vez mais sábias! Se fosse viva, a minha avó talvez encontrasse com rapidez a solução para a explicação deste inusitado fenómeno. Imagino-a a analisar a situação e a dizer que estas vítimas da falta de memória não estão doentes. Não. Nada disso. Talvez apenas tenham apenas uma obscena falta de vergonha. Obrigado, avó!


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/da-memoria/

Declarar a obra de José Afonso de interesse nacional

No ano em que se comemora o nonagésimo aniversário de José Afonso, sintomaticamente ,a sua obra encontra-se esgotada, sem editora que assuma respectiva reedição, impossibilitando assim o seu acesso público.

 

A obra de José Afonso é parte incontornável do património cultural do nosso país.

Neste contexto, a Associação José Afonso divulga em Conferência de Imprensa a petição que lançou, no sentido de que a sua obra seja declarada pelo Ministério da Cultura como facto relevante desinteresse cultural.

Francisco Fanhais, Presidente da Direcção da Associação José Afonso, realiza hoje, dia 13 de Junho, uma conferência de imprensa na Sede Nacional da AJA, em Setúbal, para promover este propósito.

O objectivo

Declarar a obra de José Afonso de interesse nacional

  1. Considerando que a obra de José Afonso é referência maior da cultura musical portuguesa;
  2. Constitui património de inestimável e de inexcedível grandeza, integrando o que de mais valioso se contém na música portuguesa do séc xx;
  3. Integra a mais vivida memória do nosso passado em ditadura e do nosso renascimento em Abril na construção de democracia;
  4. Não obstante a indesmentível importância desta obra, encontram-se indisponíveis para aquisição 11 (onze) álbuns, integrando a maioria da obra de José Afonso, face à suposta dissipação de todo o património da Movieplay, perante a insolvência, encontrando-se apenas existentes no mercado discográfico 3 álbuns;
  5. Nos termos da Lei numero 107/2001, de 8 de Setembro,” integram o património cultural todos os bens que sendo testemunhos com valor de civilização ou de cultura, portadores de interesse cultural relevante, devam ser objecto de especial protecção e valorização” ((artigo 2, numero 1);
  6. A supracitada lei refere, ainda, no artigo. 2, numero 3, que o interesse cultural relevante, deve reflectir valores de memória, autenticidade, originalidade e singularidade, entre outros atributos;
  7. Prescreve de igual modo que o Estado deve, através de salvaguarda e valorização, assegurar a transmissão “de uma herança nacional cuja continuidade e enriquecimento unirá as gerações num percurso civilizacional” (artigo 3, numero 1);
  8. Atento a atrás exposto, os cidadãos abaixo assinados vêm, ao abrigo do disposto no artigo 25 da Lei numero 107/2001, de 8 de Setembro, requerer a V. Excia, a classificação da obra de José Afonso como de interesse nacional, com vista à sua protecção nos termos do artigo. 31 da mesma lei, designadamente, “a uma especial tutela do Estado”.


Petição pública – Declarar a obra de José Afonso de interesse nacional

 

 

 


 

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/declarar-a-obra-de-jose-afonso-de-interesse-nacional/

Morreu a resistente antifascista Isaura Borges Coelho

Enfermeira de profissão, Isaura Borges Coelho lutou pela democracia, liberdade e igualdade de direitos no trabalho e na vida. Faria 93 anos na próxima quinta-feira.

Isaura Borges Coelho faleceu no dia 11 de JunhoCréditos

Isaura Assunção da Silva nasceu em Portimão, a 20 de Junho de 1926, e faleceu esta terça-feira, na Parede, concelho de Cascais. Os últimos nomes viriam do historiador e companheiro de vida, António Borges Coelho.

A resistente antifascista foi presa e torturada pela PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado), devido à luta pela igualdade e conquista dos direitos das mulheres, em particular das enfermeiras.

«Num tempo em que as enfermeiras não podiam casar e eram despedidas por terem casado sem autorização, esta mulher que agora nos deixou encabeçou um abaixo-assinado a Salazar, ao Cardeal Cerejeira e ao enfermeiro-mor dos hospitais, para o qual recolheu centenas de assinaturas para exigir a liberdade de casamento para as enfermeiras», lê-se num texto de homenagem do Movimento Democrático de Mulheres (MDM). 

Na luta contra o fascismo, Isaura aderiu ao Movimento de Unidade Democrática (MUD), tendo sido presa em 1953 juntamente com outros jovens. O MDM recorda que ficou em prisão preventiva por dinamizar o «movimento das enfermeiras», sujeita ao regime de isolamento, «brutalmente espancada e arrastada pelos cabelos, na presença do seu advogado, Dr. Lopes Correia, também violentamente agredido pela PIDE».

Passou quatro anos na prisão e os maus tratos infligidos pela PIDE quase lhe tiraram a vida. Depois de ter saído da prisão, foi impedida de trabalhar nos hospitais públicos, mas com a ajuda de alguns amigos conseguiu arranjar trabalho numa clínica privada.  

O casamento com António Borges Coelho, a 4 Janeiro de 1959, aconteceu no Forte de Peniche, onde o futuro historiador esteve seis anos a cumprir pena de prisão, seis meses dos quais em total isolamento. 

Isaura Borges Coelho foi militante do PCP e delegada sindical das enfermeiras na Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa, até se reformar. O corpo estará em câmara ardente no Centro Funerário de Cascais, a partir das 18h desta quinta-feira. O funeral realiza-se na sexta-feira, às 13h30, no mesmo local.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/nacional/morreu-resistente-antifascista-isaura-borges-coelho

No Ocidente, é só mentiras

Thierry Meyssan*

Thierry Meyssan reage à comemoração do desembarque na Normandia, ao do massacre de Tiananmen e à campanha para a eleição do Parlamento Europeu. Ele salienta que os Ocidentais não cessam conscientemente de mentir e de se auto-congratular a propósito. Ora, só a Verdade liberta.

A propaganda, é um meio de propagar ideias, verdadeiras ou falsas. No entanto, mentir a si próprio é apenas não assumir os seus erros, tentar convencer-se a si mesmo de que se é perfeito, fugir para a frente.

O paroxismo desta atitude é ilustrado pela Turquia. Ela persiste na negação de ter tentado fazer desaparecer as suas minorias não-muçulmanas, em várias vagas, durante uma geração, de 1894 a1923. Os Israelitas (israelenses-br) também não são, de modo nenhum, maus. Eles, que pretendem ter criado o seu Estado para oferecer uma vida digna aos Judeus sobreviventes do extermínio pelos nazistas, quando, na realidade, Woodrow Wilson se havia já comprometido a fundar tal Estado em 1917 e quando, hoje em dia em Israel, mais de 50.000 sobreviventes dos campos da morte vivem miseravelmente abaixo do limiar da pobreza. Mas, os Ocidentais são os únicos a estabelecer consensos acerca das suas mentiras, a professá-las como verdades reveladas.

O desembarque na Normandia

Por estes dias, celebramos o 75º aniversário do desembarque na Normandia. Segundo os média (mídia-br), quase unânimes, os Aliados lançaram então a libertação da Europa do jugo nazista.

Ora, todos nós sabemos que é falso.

- O desembarque não foi obra dos Aliados, mas quase exclusivamente do Império Britânico e da Força Expedicionária norte-americana. 

- Não visava «libertar a Europa», mas correr para Berlim», a fim de arrebanhar os despojos do III Reich que poderiam ser apanhados pelos vitoriosos exércitos soviéticos. 

- Ele não foi acolhido com alegria pelos Franceses, mas, pelo contrário, com horror: Robert Jospin (o pai do antigo Primeiro-ministro Lionel Jospin) denunciou no cabeçalho do seu jornal a importação pelos Anglo-Saxões da guerra para França. Nessa altura, os Franceses enterravam os seus 20. 000 mortos, vitimados sob os bombardeamentos anglo-saxónicos, feitos unicamente como manobra de diversão do ataque. Ao mesmo tempo, uma enorme manifestação acontecia em Lyon em torno do «chefe de Estado», o ex-Marechal Philippe Pétain, para recusar o domínio anglo-saxónico. E, jamais, nunca absolutamente, o chefe da França livre, o General Charles De Gaulle, aceitou participar na mínima comemoração deste sinistro desembarque.

A História é mais complicada que os filmes de westerns. Não há os «bons» e os «maus», mas, sim homens que tentam salvar os seus próximos com mais ou menos humanidade. No máximo, evitamos as burrices de Tony Blair, o qual, aquando das comemorações do 60º aniversário, fez chiar a imprensa britânica ao pretender, no seu discurso, que o Reino Unido havia entrado na guerra para salvar os judeus da «Shoá» —mas não os ciganos do mesmo massacre, claro—. Quando a destruição dos judeus da Europa só começou, pois, após a conferência de Wansee, em 1942.

O massacre de Tiananmen

Estamos a celebrar o triste aniversário do massacre de Tiananmen. Continuamos a ler que o cruel regime imperial chinês massacrou milhares dos seus cidadãos, pacificamente reunidos na praça principal de Pequim, unicamente porque reclamavam um pouco de liberdade.

Ora, todos nós sabemos que isso é falso.

- O "sit-in" (protesto sentado- ndT) na Praça da Paz Celestial (Tienanmen) não foi uma coisa de Chineses comuns, mas de uma tentativa de golpe de Estado pelos partidários do antigo Primeiro-ministro Zhao Ziyang. 

- Dezenas de soldados foram linchados, ou queimados vivos na praça, pelos «pacíficos manifestantes» e centenas de veículos militares foram destruídos, antes de qualquer intervenção dos homens de Den Xiaoping contra eles. 

- Os especialistas dos EUA em «revoluções coloridas», entre os quais Gene Sharp, estavam presentes na praça para organizar os homens de Zhao Ziyang.

A União Europeia

Acabámos de votar para designar os deputados ao Parlamento Europeu. Durante semanas, fomos inundados de slogans que nos asseguravam que «A Europa, é a paz e a prosperidade», e que a União Europeia é o culminar do sonho europeu.
Ora, todos nós sabemos que isso é falso.

- A Europa, é um continente —«de Brest a Vladivostok», segundo a fórmula de Charles De Gaulle— e é uma cultura de abertura e de cooperação, não a União Europeia, que não passa de uma administração anti-russa, na continuidade da corrida para Berlim iniciada com o desembarque na Normandia. 

- A União Europeia, não é a paz em Chipre, mas a covardia face à ocupação militar turca. Não é a prosperidade, mas, sim, a estagnação económica quando o resto do mundo se desenvolve a toda velocidade. 

- A União Europeia não tem nenhuma relação com o sonho europeu do período de entre as duas guerras. Os nossos ancestrais ambicionavam unir os regimes políticos que servem o interesse geral —as Repúblicas, no sentido etimológico—, conforme à cultura europeia, situados quer no continente ou fora do continente. Aristide Briand defendia que a Argentina (um país de cultura europeia na América Latina) fizesse parte dela, mas não o Reino Unido (uma sociedade de classes).

Et cetera, etc...

Os Europeus caminham como cegos

Os Europeus devem distinguir o verdadeiro do falso. Podemos alegrar-nos com a queda do Hitlerismo, sem, no entanto, nos convencermos de que os Anglo-Saxões nos salvaram. Podemos denunciar a brutalidade de Den Xiaoping sem negar que, desse modo sangrento, ele salvou o seu país do regresso ao colonialismo. Podemos felicitar-nos por não ter sido dominados pela União Soviética sem, portanto, nos orgulharmos de ser os lacaios dos Anglo-Saxões.

No Ocidente, continuamos a mentir a nós próprios para mascarar os nossos actos de covardia e os nossos crimes. Depois, ficamos espantados por não conseguir resolver nenhum problema humano.

Thierry Meyssan | Voltaire.net.org | Tradução Alva

* Intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: Sous nos yeux. Du 11-Septembre à Donald Trump. Outra obras : L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación(Monte Ávila Editores, 2008).

Urge preservar a memória da resistência antifascista em Lisboa

O PCP opõe-se ao encerramento, a pretexto de obras, da Biblioteca-Museu República e Resistência, «uma das guardiãs da memória da República e da resistência antifascista» no município de Lisboa.

O PCP classifica a Biblioteca-Museu República e Resistência como «uma das guardiãs da memória da República e da resistência antifascista» em LisboaCréditosCML

Numa altura em que «se procuram trilhar caminhos e tomar decisões que prejudicam irremediavelmente este desígnio, ao pretender» encerrar a Biblioteca-Museu República e Resistência (BMRR), os eleitos do PCP na Assembleia Municipal de Lisboa (AML) defendem a necessidade de «inverter esta decisão, preservando e valorizando a memória da República e da resistência antifascista na cidade de Lisboa, dando condições a quem trabalha e aos equipamentos municipais nesta área», lê-se numa nota enviada às redacções esta sexta-feira.

A intenção da Câmara Municipal de Lisboa (CML) de «encerrar para obras» a BMRR, sob pretexto de proceder a «intervenções há muito identificadas e que durante anos não obtiveram resposta», não convence os eleitos do PCP, que entendem que as intervenções «a isso não obrigam, nem tão-pouco à saída do espólio dali para outro sítio».

«O PCP conhece e acompanha o trabalho ali feito, há muitos anos, discordando da ideia que o PS quer passar de que a BMRR é "um museu silencioso, inoperante, não-apelativo, mesmo morto"», lê-se na nota, em que se sublinha que a BMRR «continua a ser usufruída» e que «as suas obras são consultadas, tem utilizadores».

A criação, naquele espaço, de uma biblioteca de bairro como justificação para o encerramento da BMRR também não convence os comunistas, que lembram que o «espaço, projectado pelo arquitecto Keil do Amaral, foi pensado e construído para albergar aquele espólio e cumprir uma função específica, tendo ainda um mural da autoria de Maria Keil único».

Fachada da Biblioteca_museu República e Resistência, no Bairro do Rêgo, em Lisboa Créditos

Os eleitos do PCP na AML não negam «a necessidade de existir uma biblioteca de bairro, generalista», mas mostram-se igualmente convictos de que há «outros espaços, na freguesia das Avenidas Novas e no Bairro do Rêgo, em particular, onde poderá ser instalada».

Para os comunistas, este processo assume semelhanças ao do encerramento da BMRR – Espaço Grandella, em Benfica, sendo que, até hoje, não existem informações relativas ao destino dado ao seu espólio, e a CML continua sem responder ao requerimento do PCP, de 2014, «apesar das insistências ao longo dos anos».

Preservar, valorizar, divulgar a memória do passado republicano e antifascista do povo português

Os eleitos do PCP na Assembleia Municipal de Lisboa dizem aguardar com expectativa a discussão e votação da sua recomendação «Pela preservação da memória da República e da Resistência Anti-fascista pelo Município de Lisboa», na qual se solicita à CML, entre outras coisas, que informe a AML sobre os critérios que presidiram à decisão de encerramento da BMRR, sem que as obras o justifiquem.

Recomenda-se ainda a não desagregação do acervo da BMRR, bem como o envolvimento dos trabalhadores em eventuais alterações à BMRR, ouvindo as estruturas sindicais que os representam.

Defende-se, além disso, que a CML deve dotar a BMRR de meios logísticos que permitam uma maior dinamização do espaço, assim como construir e implementar um plano efectivo de preservação, valorização e divulgação, na cidade de Lisboa, da memória e de um espólio que atesta o passado republicano e de resistência antifascista do povo português.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/local/urge-preservar-memoria-da-resistencia-antifascista-em-lisboa

Rodolfo A. Abreu

(1903 – 1966)

Prestigiado antifascista muito respeitado no Norte do País, este professor destacou-se como pedagogo e também como articulista na imprensa nacional e regional. Conferencista e escritor, defendeu os direitos da criança, promoveu a formação pedagógica da classe docente do ensino primário e bateu-se corajosamente contra a Ditadura do Estado Novo.

 

Rodolfo de Almeida Abreu nasceu em Seia, em 1903, e morreu no Porto a 8 de Outubro de 1966. Foi casado com Amélia Pais, também professora, e teve duas filhas: Helena Abreu, pintora e professora e Lucília Abreu, professora. Era tio de António Almeida Santos.

Promoveu a formação pedagógica

Foi em Seia que começou por exercer o magistério, mantendo uma actividade cívica constante. Escrevia regularmente artigos de opinião no jornal A Voz da Serra, assinando-os com o pseudónimo de «João Livre». Eram artigos de formação política de índole progressista, que versavam frequentemente temas de Educação – num esforço permanente de consciencialização do Povo – o que o levou a ser perseguido pela polícia política e acusado de fomentar ideias revolucionárias e anti-religiosas. Contou sempre com a solidariedade popular e, sobretudo, de colegas, mas em 1932 acabou por pedir a transferência para o Porto e, a partir daí, estendeu a sua colaboração a outros órgãos da imprensa regional e local, entre os quais o Notícias de Gouveia, O Povo, O Correio, O Combate, o República (de que foi um colaborador assíduo) e o Diário de Coimbra. Pugnava, então, pela defesa do professorado do Magistério Primário, considerando que era uma classe que o Estado Novo degradava; e denunciava a demagogia das reformas educativas do Salazarismo. Divulgou, pela palavra e pela acção, o documento «Nova Declaração dos Direitos da Criança».

No princípio da década de 40, Rodolfo Abreu já participava activamente no movimento de oposição democrática ao regime do Estado Novo.

Em 1949 apoiou a candidatura de Norton de Matos à presidência da República.

Foi preso pela PIDE em 11 de Abril de 1950, acusado de pertencer ao Partido Comunista Português. Durante a prisão escreveu um diário, «Diário de Prisão», depois completado com o «Diário de Julgamento». Julgado em tribunal plenário, contou com a defesa clarividente e corajosa do advogado António Macedo, tendo sido libertado após meses de cárcere e, depois, reintegrado na função pública.

Em 1958 apoiou a candidatura de Humberto Delgado à presidência da República.

Foi amigo e camarada de personalidades como Ruy Luís Gomes, Virgínia Moura, Óscar Lopes, Armando de Castro, Raul de Castro, Aquilino Ribeiro, Papiniano Carlos, Amândio Silva, Carlos Cal Brandão, Orlando Juncal, Viriato Moura, Corino de Andrade.

Defendeu os direitos da criança

Como pedagogo desenvolveu várias actividades em prol da inovação pedagógica no Ensino Primário, sendo autor da brochura “Em Defesa do Desenho Expressivo da Criança” (Livraria Divulgação, Porto, 1960), uma obra que teve, então, grande repercussão na didáctica do desenho.

Foi um dos mais dinâmicos sócios fundadores da Cooperativa SEM – Sociedade Editora do Norte, lançando aí a ideia de uma Universidade Popular.

Foi membro activo da Casa da Beira-Alta no Porto e da Casa Museu Abel Salazar, a cujas direcções pertenceu.

«Indomável beirão da Serra da Estrela»

Durante muitos anos, antes do 25 de Abril de 1974 (mas também depois), por ocasião da data da sua morte, os mais destacados oposicionistas do Porto promoviam romagens à sua campa no Cemitério de Paranhos, para evocarem o nome e a obra do ilustre professor. Era uma cerimónia de afirmação antifascista, essa que ocorria regularmente por ocasião do dia 8 de Outubro. Na presença de muitos amigos e populares, algumas figuras da Resistência (tais como Óscar Lopes, António Macedo, Guedes Pinheiro e Flávio Martins) depositavam ramos de flores na sua campa e proferiam discursos, enaltecendo o carácter, a generosidade, o espírito racionalista e solidário, e a lucidez crítica de Rodolfo Abreu, considerado um «indomável beirão da Serra da Estrela»[1].

Depois do 25 de Abril a Câmara Municipal do Porto deu o seu nome a uma rua daquela cidade.

 


O primeiro dia, no DIÁRIO DE PRISÃO

Dia 11 de Abril de 1950

Tive, na véspera, oito horas de trabalho fatigante, daquele trabalho que só um professor primário conhece a medida. Descansava ainda pelas sete horas, quando a minha mulher ouviu a velha criada a dizer para alguém: “os senhores venham às nove horas que o senhor professor está ainda a descansar…”

Os agentes deviam ter-se rido da ingenuidade da Teresa. “Cinquenta e cinco anos que eu tenho e nunca vi uma coisa assim! Entrarem em casa àquela hora e sem pedirem licença!” – exclamou depois.

Um homem mal encarado (era o Pinto Soares) entra no meu quarto, sem o menor respeito pelo ambiente íntimo dum casal e convida-me a levantar. Entretanto, começa uma minuciosa busca em toda a casa, enquanto outro agente me acompanhava ao quarto de banho.

A minha mulher chorava e acusava a polícia da grosseria praticada ao mesmo tempo que os avisava de que sabia usarem de violências. Fez-se ouvir uma ameaça da parte do chefe de brigada, mas não produziu efeito porque minha mulher respondeu que de tal fama se não livravam.

Minha filha Lucília, mais serena, acompanha o Puga ao andar superior, onde tudo revolve e põe em desordem.

É-me permitido tomar o pequeno almoço, o que teve um paladar diferente dos outros dias. Entretanto, encontrava-me imperturbável. E lá vou eu num enorme carro, bem guardado por sete agentes. Tanta gente armada para um homem indefeso. (…)

 

 

 

[1] Das notícias, nos jornais da época, dessas romagens de saudade, destacamos a realizada no 2º aniversário da sua morte (1968), que contou com uma centena e meia de pessoas (um número muito elevado, tendo em conta a repressão a que ficavam sujeitas nestas iniciativas), e na qual Óscar Lopes foi o principal orador; encontramos também especial referência a uma outra, essa após o 25 de Abril de 74, de cuja comissão promotora fizeram parte, entre muitos outros, Ruy Luís Gomes, Virgínia Moura, Lobão Vital, Óscar Lopes e José Morgado.

Dados biográficos

Biografia em co-autoria de Helena Pato e Francisco Abreu Pessegueiro, neto deste resistente antifascista. Escrita a partir de alguns dados biográficos facultados por FAP e de diversas notícias da imprensa da época. As fotografias anexadas em comentários foram facultadas pelo referido neto.

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/rodolfo-a-abreu/

As tropas americanas libertaram realmente Mauthausen?

A história da “libertação de Mauthausen” por tropas dos EUA em 1945 não é só mal contada. Omite também que essa libertação – que certamente não teria sido possível sem as sucessivas derrotas das forças nazis, em particular perante o Exército Vermelho – teve uma intervenção determinante da resistência antifascista organizada no interior do campo, com um papel particularmente destacado dos comunistas espanhóis aí detidos.

Gostaste do que leste?

Divulga o endereço[2] deste texto e o de odiario.info[3] entre os teus amigos e conhecidos

            

Bela iniciativa

Uma nova e incontornável
página WEB sobre Garcia Lorca
aqui

«(...)Con fotografías cedidas en muchos casos por la fundación que representa a la familia del poeta, la web permite establecer "un viaje de ida y vuelta" a través de los numerosos recursos culturales y turísticos. Es precisamente esa vertiente turística y de promoción del patrimonio la que puso en valor José Entrena, presidente de la Diputación Provincial de Granada, durante la presentación del proyecto. Un labor que, en palabras del político socialista, tiene una “enorme trascendencia” pues abre el universo de Lorca “a millones de personas” y, de paso,permitirá dar “a conocer la provincia [de Granada] que tanto amó y que tanto le debe” al poeta. Además de una completa biografía y otra sección dedicada a la obra de García Lorca, dividida esta a su vez en su impronta literaria, musical y filmográfica,la web dispone de un índice alfabético con cerca de un centenar de personas relacionados con el poeta y datos útiles que incluyen museos, tours y una agenda actualizada de eventos.(...)»
(aqui)

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

Assinalar vitória sobre o nazi-fascismo e defender a Paz

Ao evocar o Dia da Vitória, o CPPC alerta para ameaças e perigos na actual situação internacional, vincando a premência do combate ao regresso de valores «fascizantes, neocoloniais e belicistas».

Soldados soviéticos com prisioneiros que acabaram de libertar no campo de extermínio de AuschwitzCréditos / hindustantimes.com

Neste 9 de Maio de 2019, em que se assinala o 74.º aniversário da vitória sobre o nazi-fascismo na Segunda Guerra Mundial, o Conselho Português para a Paz e Cooperação (CPPC) chama a atenção para a actual situação internacional, «em que se multiplicam focos de ingerência e conflito», e sendo crescente a tensão que as potências ocidentais – EUA, União Europeia e NATO – promovem «face à Federação Russa e à China, de consequências imprevisíveis».

Numa nota, o CPPC destaca a necessidade de mobilizar vontades em torno da defesa da Paz, do desarmamento, da dissolução da NATO, do fim das bases militares estrangeiras, da corrida aos armamentos e das armas nucleares e de outras de destruição massiva.

Sublinha, igualmente, a necessidade de defender o fim das ingerências e agressões externas, bem como o respeito pela soberania dos estados e pelos princípios consagrados na Carta das Nações Unidas, na Constituição da República Portuguesa e nos valores da Revolução de Abril – «é este o caminho que interessa à Humanidade», declara o CPPC.

Valorizar os que resistiram e contribuir para que não se repita a barbárie

Ao assinalar a vitória sobre o nazi-fascismo na Segunda Guerra Mundial, para a qual o Exército Vermelho e a União Soviética deram um contributo decisivo, o CPPC reafirma «a sua determinação em prosseguir e intensificar a acção de esclarecimento e mobilização da opinião pública», de modo «que nunca se venha a repetir barbárie semelhante, que causou cerca de 50 milhões de mortos».

O organismo português de defesa da paz sublinha ainda que a valorização dos que «resistiram, deram a liberdade e a própria vida para pôr fim à guerra, para libertar os povos do horror nazi-fascista» não pode passar ao lado dos «avanços alcançados no pós-guerra pelos povos da Europa e do mundo nos seus direitos sociais, laborais e políticos», nomeadamente ao nível da saúde, da educação, do trabalho, da protecção social, da igualdade entre homens e mulheres, e da possibilidade de «decidirem soberanamente do seu destino, pondo fim aos impérios coloniais».

«Todos quantos defendem a paz, a liberdade, os direitos democráticos, a soberania, a solidariedade» são confrontados, perante a evocação da vitória sobre o nazi-fascismo, com a premência de combater o «regresso de valores retrógrados, fascizantes, neocoloniais e belicistas», afirma o CPPC, que encara a Paz como «valor essencial para garantir o bem-estar, o desenvolvimento, a felicidade e a própria vida humana no planeta».

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/assinalar-vitoria-sobre-o-nazi-fascismo-e-defender-paz

Pete Seeger: De que lado você está?

Esta canção, gravada por Pete Seeger em 1940, virou hino da luta sindical nos Estados Unidos. E mantém sua atualidade nas lutas atuais, inclusive no Brasil, quase 90 anos depois de sua composição pela ativista Florence Reece. 

Pete Seeger – que teria completado cem anos no início deste mês (em 3 de maio) – foi um cantor intimamente ligado à luta popular. As canções que gravou não apenas tinham como tema a luta dos trabalhadores, mas muitas vezes surgiram dela. Como a canção Which Side Are You On? (De que lado você está?), que ele gravou em 1940 e se tornou uma espécie de hino da luta sindical nos Estados Unidos. 

Which Side Are You On? foi composta em 1931, pela poeta, militante e escritora popular Florence Reece (1900-1986), que era filha e esposa de mineiros de carvão no Kentucky (EUA). Ela a compôs durante a greve conhecida como a Guerra do Condado de Harlan. Seu marido, Sam Reece, era um dos líderes da United Mine Workers (Sindicato dos Mineiros) em Harlan County, Kentucky, sendo um dos dirigentes da greve. 

Num certo dia, para intimidá-lo, a repressão – comandada pelo xerife J. H. Blair (citado na música como chefe de bandidos) – invadiu a casa dos Reece, mas Sam já não estava lá. Naquela noite, Florence escreveu a música (no verso de um calendário de parede!) que ficaria famosa. Ela foi coletada em 1937 pelo folclorista Alan Lomax, parceiro de Pete Seeger, que a gravou em 1940. 

A letra, com a autenticidade da voz que vem diretamente da luta operária, exige a tomada de posição na luta contra a opressão, e sua atualidade é renovada em nossos dias, quase 90 anos após sua criação por Florence Reeve. Ela diz, com clareza: 

“De que lado você está?”

Venham todos vocês bons trabalhadores,
trago boas notícias para vocês 
de que o bom e velho sindicato 
veio aqui para ficar. [Refrão:] De que lado você está?
de que lado você está?
de que lado você está?
de que lado você está? Meu pai era mineiro
e eu sou filho de um mineiro
e vou ficar com o sindicato
até que todas as batalhas sejam vencidas. [Refrão] Eles dizem que no condado de Harlan 
não há neutralidade;
você vai ser um sindicalista
ou um bandido de J. H. Blair. [Refrão] Oh trabalhadores, vocês aguentam?
Oh me diga como podem.
Você vai ser uma péssima sarna
ou será um homem? [Refrão] Não fure [a greve] para os patrões,
não ouça suas mentiras.
Nós, gente pobre, não temos chance 
a não ser que nos organizemos. [Refrão]

 

“Which Side Are You On?”

Come all of you good workers,
good news to you I’ll tell
of how the good old union
has come in here to dwell. [Chorus:] Which side are you on?
which side are you on?
which side are you on?
which side are you on? My daddy was a miner
and I’m a miner’s son,
and I’ll stick with the union
’til every battle’s won. [Chorus] They say in Harlan County
there are no neutrals there;
you’ll either be a union man,
or a thug for J. H. Blair. [Chorus] Oh workers can you stand it?
Oh tell me how you can.
Will you be a lousy scab
or will you be a man? [Chorus] Don’t scab for the bosses,
don’t listen to their lies.
Us poor folks haven’t got a chance
unless we organize. [Chorus]

 

 


Texto em português do Brasil


 

https://www.jornaltornado.pt/pete-seeger-de-que-lado-voce-esta/

A «ALMOÇARADA» NA TRAFARIA

Domingo, 7 de Maio de 1944. «O 1º batalhão da Brigada Naval da Legião Portuguesa, acampado desde ontem na mata da Trafaria, terminou hoje o seu exercício de campo. Esta manhã, depois da alvorada e da missa campal, com a presença do sr. comandante Henrique Tenreiro, efectuou-se um exercício de progressão na praia entre a Cova do Vapor e a Trafaria.
Partia-se da hipótese que os legionários tinham levado a cabo um desembarque naquela zona, onde encontraram resistência. O exercício, dirigido pelo comandante do 1º batalhão, 1º tenente Horácio de Carvalho, desenvolveu-se normalmente e o batalhão, utilizando todos os serviços de transmissões, fez a sua progressão até ao local do acampamento.
Ás 13 e 30 realizou-se, á sombra do pinhal, um almoço de confraternização, a que presidiu o sr. comandante Henrique Tenreiro e com as presenças dos srs. capitão de mar e guerra Alberto dos Santos e major Nascimento, Chefe de Estado Maior da Brigada Naval, bem como de muitos oficiais, graduados, etc.
Aos brindes, usou da palavra o sr. comandante Henrique Tenreiro, que pronunciou um caloroso discurso, entrecortado de grandes aplausos.
Começou por lembrar que o sr. comandante Alberto dos Santos, grande amigo da Brigada Naval, completava hoje 70 anos, passando por isso à reforma, motivo pelo qual traçou o seu elogio.
Continuando, o sr. comandante Tenreiro afirmou que, "certos da vitória de Salazar, os legionários continuam unidos e prontos a obedecer-lhe à primeira voz".
Acentuou que a união da Brigada Naval tem sido timbre daquela corporação, sendo necessário que continue a sê-lo enquanto Salazar assim o entender.
Terminou lembrando aos legionários navais, que, sendo eles soldados da Revolução Nacional, cumpre-lhes manter cabeças ao alto, fé em Deus e na política do Estado Novo.
O sr. major Carlos Nascimento, chefe de Estado Maior da Legião, exaltou depois o espírito de unidade e a força espiritual e material dos legionários, afirmando que o comandante Henrique Tenreiro tinha na Brigada Naval um dos grande expoentes do seu espírito de grande organizador.
Por último, o sr. comandante Alberto dos Santos agradeceu as palavras que lhe tinham sido dirigidas e incitou os legionários a cumprirem sempre os seus deveres.
O batalhão regressou a Lisboa ao fim da tarde
O que acabaram de ler é a transcrição completa da notícia. Num Mundo então em guerra, esta história de umas manobras navais na outra banda quase parece uma paródia provocatória. Do outro lado do Mundo fuzileiros navais americanos arriscavam e perdiam a vida em operações anfíbias que por cá eram encenadas com a seriedade de um piquenique de fim de semana: uma noite de acampamento, seguida de alvorada e missa, com uma passeata entre duas praias para apanhar a brisa do mar e abrir o apetite para o almoço, servido à sombra dos pinheiros, a que se seguiu uma sequência de discursos para ajudar a digestão. Houvesse ele invasão e a Pátria estava salva graças ao 1º batalhão da Brigada Naval da Legião Portuguesa.

 

Veja o original em 'Herdeiro de Aécio' na seguinte ligação::

http://herdeirodeaecio.blogspot.com/2019/05/a-almocarada-na-trafaria.html

PARECE QUE NEM O PASSADO É COMO NOS QUEREM CONTAR QUE FOI

Há poucos dias foi notícia que a taxa de desemprego nos Estados Unidos havia descido para índices como não havia noticia desde 1969. A satisfação da Administração Trump é compreensível e notória. Mas a questão aqui são as suas queixas recorrentes de que a comunicação social não dá valor a esses sucessos da sua governação, o que, sendo verdadeiro, não é nada de novo. Se regressarmos a 1969, o tal ano de referência da taxa de desemprego, aquilo que podemos encontrar de referências noticiosas sobre os Estados Unidos na edição de há precisamente 50 anos do Diário de Lisboa é um «acentuar da contestação», apesar de naquele país se estarem a registar taxas de emprego como nunca mais se voltariam a ocorrer nos 50 anos seguintes... Parece que o passado não é como nos querem contar que foi... Ou então, está-se a fechar o ciclo da moda que, há cerca de 25 anos, estabeleceu que tudo em política tinha a ver com economia («It's the economy, stupid!»). Não tem. Nunca teve. E com os tempos que se vivem na América de Trump é  facílimo perceber isso.  

 

Veja o original em 'Herdeiro de Aécio' na seguinte ligação::

http://herdeirodeaecio.blogspot.com/2019/05/parece-que-nem-o-passado-e-como-nos.html

Contra a desmemória

Abaixo-assinado de 71 professores da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra relacionado com um infeliz episódio ocorrido durante as festividades de Queima das Fritas. Sendo um dos signatários, entendo que não devo juntar aqui a minha opinião mais pessoal, que darei noutros lugares. Todavia, uma vez que este post servirá também para memória futura, junto três notas objetivas: 1) o episódio em si constou de uma paródia do Holocausto, servindo-se ademais da simbologia de um comboio, que deveria ser integrada no habitual cortejo da festividade; 2) os 71 professores signatários foram aqueles que foi possível reunir em menos de 48 horas durante uma semana que é de interrupção das aulas, outros transmitiram entretanto o seu apoio a este documento; 3) alguns professores entenderam não assinar, o que estava, naturalmente, no seu direito; uma pequena minoria procurou demover colegas de o fazer, o que não pode deixar de ficar registado. [Relembro: este comentário é estritamente pessoal e não vincula os signatários do documento que a seguir se transcreve.]

 


MEMÓRIA E RESPONSABILIDADE
Abaixo-assinado

A utilização da palavra “Alcoholocausto”, no cortejo da Queima das Fitas de 2019, pelo carro dos alunos fitados de História não veio a concretizar-se, após acordo com a direção da Faculdade de Letras. Aparentemente, no entanto, os/as responsáveis mantiveram-se convictos/as da justeza da sua opção inicial, uma vez que afixaram no carro alusões a uma “censura” e à existência de uma “polícia académica”, apresentando-se alguns/mas participantes com uma mordaça. Também o panfleto distribuído a lembrar o dia 27 de Janeiro como dia da memória do Holocausto faz alusão a um extermínio “com o intuito de desembaraçar a sociedade alemã e a Europa de inúmeras comunidades sociais”, formulação que ou revela profunda ignorância ou denuncia uma total indisponibilidade para referir com rigor os factos históricos.

Apesar da não afixação no carro do nome inicialmente escolhido, este caso não pode passar sob silêncio e, muito menos, pode ser encarado como um simples episódio sem relevância. Importa, assim, clarificar o seguinte:

  1. Holocausto” é uma palavra que remete, sem subterfúgios, para o maior crime contra a humanidade alguma vez cometido, o extermínio genocida de mais de seis milhões de judeus, ciganos e outros grupos pelo regime nacional-socialista. Este genocídio fez-se em nome de uma ideologia racista e foi planificado e organizado de forma minuciosa e eficiente por uma máquina implacável posta em movimento por toda a Europa sob o domínio nazi. Não pode nunca perder-se de vista que, por detrás da generalidade do conceito, estão homens, mulheres e crianças inocentes, vidas que, criminosamente, não puderam ser vividas. É a enormidade do crime e a lembrança concreta dessas vidas não vividas que nos impõe aquilo a que Primo Levi, sobrevivente de Auschwitz, chamou o dever da memória. Este dever é imprescritível, isto é, não caduca, por maior que vá sendo a distância temporal. No caso vertente, a incorporação do símbolo de um comboio no grafismo utilizado pelos fitados de História não deixa a mínima dúvida sobre a intencionalidade da alusão contida no nome do carro – os vagões de gado que atravessaram toda a Europa transportando, em condições infra-humanas, as vítimas destinadas ao extermínio são um dos símbolos mais poderosos do genocídio. Estamos, pois, perante uma violação grosseira do dever de memória e perante uma ofensa gravíssima à memória das vítimas.
  2. Contrariamente ao que alegam os/as organizadores/as do carro, há limites para a liberdade de expressão, assim, como há limites para o uso da sátira e do humor. Limites que estão consignados na lei, mas que, antes de serem de ordem jurídica, radicam num conceito elementar de responsabilidade ética individual. O mais óbvio desses limites atinge-se quando estão a ser feridos direitos que pertencem legitimamente a outros. Nem tudo pode ser objeto de sátira: para além dos critérios óbvios do bom gosto, a sátira constitui um modo de discurso que carece sempre de uma legitimação ética. É lícito e desejável transformar uma pessoa ou uma instituição em objeto de riso quando se trata de defender valores substanciais através da denúncia de atos censuráveis praticados por essas pessoas ou instituições. Não é lícito fazê-lo quando a forma da crítica passa inteiramente ao lado do que se pretendia criticar e viola gratuitamente a dignidade humana. Neste caso, a dignidade humana de vítimas para sempre silenciadas. Quem assim procede torna-se, implicitamente, cúmplice dos crimes cometidos e não poderá, em nenhuma circunstância, furtar-se a esta responsabilidade. E muito menos poderá, quando confrontado com a indignidade da sua posição, arrogar-se a posição de vítima de um qualquer ato de “censura”.
  3. A situação criada é ainda agravada pelo facto de, presentemente, circularem com insistência em todo o mundo teses negacionistas, rejeitando a própria existência histórica do Holocausto. É particularmente grave que sejam estudantes universitários de História a colaborar numa lógica de banalização que os aproxima, objetivamente, do negacionismo.

Os/as abaixo-assinados/as, docentes da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, sentem-se profundamente envergonhados e amargurados pela imagem que, com a sua ignominiosa escolha inicial, o grupo de promotores do carro “Alcoholocausto” projetou de si próprio, nos órgãos de comunicação e em outras redes em que defendeu o seu projeto, enquanto grupo de finalistas do curso de História, implicando, ao mesmo tempo, a Faculdade e a Universidade a que pertence. Mas, mais do que isso, entendem ser seu imperativo de consciência, em nome do princípio fundamental de humanidade imposto pela memória das vítimas, trazer a público uma firme posição de inteiro repúdio e total rejeição.

Coimbra, 7 de Maio de 2019
Adriana Bebiano, Ana Cristina Araújo, Ana Paula Arnaut, Anabela Fernandes, António Campar, António Manuel Rebelo, António Sousa Ribeiro, Carlos Ascenso André, Carlos Reis, Carmen Soares, Catarina Caldeira Martins, Clara Keating, Claudete Oliveira Moreira, Claudia Ascher, Conceição Carapinha, Cornelia Plag, Cristina Robalo Cordeiro, Diogo Ferrer, Domingos Jesus da Cruz, Fátima Velez de Castro, Fernando Matos de Oliveira, Frederico Lourenço, Graça Capinha, Inês Amaral, Isabel Paiva, Isabel Pereira, Isabel Santos, Jacinta Matos, Jens Liebich, Joana Antunes, João Domingues, João Figueiredo, João Gouveia Monteiro, João Maria André, João Muralha, João Nuno Corrêa-Cardoso, John Havelda, José Luís Brandão, Judite Carecho, Katharina Baab, Luca Antonio Dimuccio, Lúcio Cunha, M. Conceição Lopes, Manuel Portela, Margarida Miranda, Maria Beatriz Marques, Maria de Fátima Gil, Maria do Céu Fialho, Maria Isabel Caldeira, Maria João Silveirinha, Maria João Simões, Maria José Canelo, Maria Luísa Portocarrero, Marta Anacleto, Norberto Santos, Paula Barata Dias, Paula Santana, Paulo Nossa, Paulo Silva Pereira, Pires Laranjeira, Raquel Vilaça, Rita Marnoto, Rogério Paulo Madeira, Rosário Ferreira, Rosário Neto Mariano, Rui Bebiano, Rui Ferreira, Rui Manuel Afonso Mateus, Rui Pereira, Rute Soares, Sara Sousa

Ver original em 'A Terceira Noite' na seguinte ligação:

http://www.aterceiranoite.org/2019/05/08/contra-a-desmemoria/

A crise académica de 1969, a greve e outras greves e crises

(Por Carlos Esperança, 06/05/2019)

Quando em 17 de abril de 1969 não foi concedida a palavra ao presidente da Associação Académica de Coimbra, Alberto Martins, que a solicitara numa cerimónia académica, presidida pelo lacaio de Salazar, Américo Tomás, abateu-se a repressão policial contra os estudantes. Seguiram-se a greve e a falta aos exames pelos alunos que contestaram a ditadura e acabaram presos e mobilizados para a guerra colonial, que lhes interrompeu os cursos.

 

Neste ano, a pretexto do cinquentenário, tem vindo a ser comemorada a data – e bem –, na homenagem que é devida, pela coragem, aos que ousaram desafiar a ditadura e a sua feroz repressão enquanto ainda andam por aí os que, por convicção fascista, traíram.

Pela importância do movimento académico na luta contra o fascismo, compreende-se a omissão das lutas dos trabalhadores e oposicionistas, em geral, e dos comunistas e anarquistas, em particular, vítimas de ainda maior e mais violenta repressão.

Lamento, na evocação da crise de 1969, o facto de não ter sido utilizada para associar, na recordação desta corajosa luta académica, as que a precederam. Já não digo que se recuasse à heroica luta da greve de 1907 contra a ditadura de João Franco, mas a todas as que desgastaram o consulado salazarista.

Em 1962, a crise académica, começada em Lisboa, foi um dos principais momentos da luta dos estudantes universitários portugueses contra a ditadura. O I Encontro Nacional de Estudantes acabou por se realizar em Coimbra e os dirigentes da AAC acabaram na prisão e no exílio com a feroz repressão a ser exercida sobre todos, desta vez incluindo, pela primeira vez, alunas que foram presas na PIDE de Coimbra, por não haver cadeias políticas para mulheres.

O futebol, instrumento de alienação do salazarismo, teve momentos épicos através do clube de futebol da AAC (a Académica) cujos atletas eram estudantes universitários e que arriscaram o que para muitos era o único recurso para um curso superior.

Seria ingratidão não aludir à corajosa luta dos estudantes-atletas no final da taça de 1969 que, em solidariedade com os dirigentes expulsos da Universidade, depois de negadas sucessivas formas de manifestação de luto académico, no Jamor, acabaram a empunhar cartazes que passaram de mão em mão pelos jogadores e acabaram a circular entre os do clube adversário, galvanizados pelos estudantes de Coimbra, num desafio à ditadura.

Finalmente, por ser um episódio quase desconhecido e de grande relevância cívica, deve ser lembrado que os jogadores da Académica, já em 1967, na disputa do Troféu cidade do México, homenagearam Simão Bolívar em cujo monumento depuseram uma coroa de flores. A equipa, acompanhada pelo grande jornalista e democrata Carlos Pinhão, viu o ato ficar perpetuado no jornal “A Bola”, então um baluarte da democracia que, perante a desatenção da censura, perpetuou o nobre ato democrático.

Por gentileza de um dos participantes deste feito, que nunca mais seria alheio à defesa da democracia, aqui fica o recorte que a ignorância do censor, sobre a figura de Simão Bolívar, deixou passar nas páginas honradas do jornal desportivo.

(Ler legenda – foto canto inferior esquerdo)

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

AS ELEIÇÕES PARA OS PRIMEIROS PARLAMENTOS REGIONAIS ESCOCÊS E GALÊS

6 de Maio de 1999. Realizam-se eleições simultâneas para os primeiros parlamentos da Escócia e do País de Gales. Se, de há muito, todos nos havíamos habituado à existência de selecções de futebol ou de rugby distintas da inglesa (abaixo), a verdade é que a existência de uma câmara representativa local é um fenómeno com apenas vinte anos.

 

Veja o original em 'Herdeiro de Aécio' na seguinte ligação::

http://herdeirodeaecio.blogspot.com/2019/05/as-eleicoes-para-os-primeiros.html

A nossa memória colectiva

Chegamos ao 45º aniversário do 25 de Abril e ainda não podemos parar de falar em fascismo. Nas nossas vidas parece um carma…

Mário de Carvalho disse, numa apresentação deste livro: Que “vão emergindo sinais de ressurgência dos fascismos e das tiranias. Que pressentimos o fascismo ou os seus pressupostos a tomar vulto e a rondar por aí. Por enquanto sob diversas capas, disfarces e pretextos”. É isto mesmo, se bem que tudo indique que, em Portugal, estaremos longe de, a breve prazo, vermos chegar ao poder, por via eleitoral, uma extrema-direita fascista, ou «racista, machista e xenófoba», como vem sucedendo na Europa e aconteceu no Brasil. Mas é realmente preocupante a degeneração das democracias, a que vimos assistindo, estimulada pelo exemplo da governação ultra reaccionária e grotesca de Trump.

Nós por cá, respaldados por uma Constituição que é o nosso maior património político, continuamos a ter as amplas liberdades por que lutámos; podemos falar, protestar, reivindicar, organizar; temos sindicatos livres, o direito à greve e eleições democráticas. Mas vemos que os fascistas tentam pôr a cabeça de fora, ensaiam estratégias de investida e tudo aconselha redobrada atenção. Como lembrou, há tempo, a escritora Lídia Jorge: «Desde o início dos anos 90 que os teóricos da comunicação do grotesco anunciavam que aí viriam tempos em que as populações poderiam eleger como líderes figuras bizarras, aparentadas com os cómicos, os palhaços, os furiosos, fundamentalistas de ideias fixas e outros gestos arrebatados. Essas previsões deprimentes ainda estão longe de se generalizar, mas o que até agora já aconteceu, dentro e fora da Europa, aconselha reconsideração».

Não me levem, pois, a mal que, nesta sessão, eu me refira a algo que se prende com o conteúdo do meu livro e também com as celebrações de Abril: a nossa memória (colectiva) do fascismo.

É uma abordagem que não tem quaisquer pretensões de análise política, claro.

I – “Cumpra-se Abril!”

Sigo com preocupação o despudor com que, no nosso país, já vão aparecendo na cena política, propostas xenófobas, populistas, em oposição a princípios civilizacionais básicos, pelos quais nos batemos e conquistámos. Vozes que não têm o menor respeito por direitos humanos, que dávamos como adquiridos nas últimas décadas.

As redes sociais,neste contexto, são campo fértil para lançar sementes reaccionárias. Lembro-me do caminho feito com êxito, nesses meios, pelos presidentes dos Estados Unidos e no Brasil, e muito recentemente em Espanha, pelo partido VOX… Tenho a percepção de que não podemos descansar. Os inimigos perigosos dos valores democráticos – apoiados ou não por forças internacionais – estejam mais organizados ou pouco organizados, por cá não envergam coletes amarelos, andam por muito perto de nós. E se antes surgiam encobertos pelo anonimato, agora, cada vez mais, se exprimem às claras, ganhando algum terreno, ao abrigo de direitos constitucionais, nomeadamente da liberdade de expressão.

Não podemos iludir-nos com o facto de haver um batalhão de pessoas que, connosco, rejeitam e repudiam retrocessos civilizacionais, que são propalados por essa gente, um pouco por todo o mundo. Em Portugal, vemo-los avançar em alguns tabuleiros do jogo democrático, serem acolhidos pela Comunicação Social em debates, e concorrer a eleições. Do nosso lado, o lado das forças progressistas, se queremos encarar de frente essa horda populista, desmobilizar-lhes as audiências, só há, quanto a mim, um caminho profícuo: ir à raiz do problema, atacando as carências sociais que contribuem para os seus avanços.

Porém, que não seja com mezinhas aqui e ali, nem com xaropes de feira ou antibióticos, como vem sendo feito, mas com cirurgias de ponta, que extirpem a malignidade endémica. É caso para dizer “Cumpra-se Abril!”. Precavermo-nos contra as investidas fascizantes impõe que a formação humanista e científica dos portugueses comece cedo, nas escolas, e desde a primeira infância – Para que o egoísmo, a estupidez e as crendices não venham a alastrar, em adultos, como manchas de óleo. A Educação não pode ser subestimada. A Cultura tem que subir no ranking das prioridades, deixando de ser a parente pobre nos orçamentos.

Precavermo-nos contra a oferta populista exige a ponderação de medidas políticas corajosas que, sem perda de tempo, reduzam as abissais diferenças de rendimentos, geradoras de enorme descontentamento. Exige que se vá além da diminuição da taxa de desemprego e se estimulem condições para a segurança no emprego. Exige que não se fique pelos cuidados de saúde gratuitos, já assegurados pelo SNS, que o Estado garanta a prestação de assistência médica de qualidade, e que possamos contar com ela na hora em que dela carecemos. Exige que o direito à habitação volte urgentemente à agenda das prioridades do poder legislativo e autárquico.

E se dou ênfase às preocupações que enunciei, é porque não me saem da cabeça os muitos jovens com vidas super desgastantes, ou separados da família nuclear, agora já não pela guerra colonial, mas para poderem sobreviver; e é também porque me aflige ver a minha geração, tantos anos depois da Revolução, ainda sem a dignidade que nos foi prometida no Programa do MFA, em que constava (cito): «Uma nova política social para o aumento progressivo, mas acelerado, da qualidade da vida de todos os Portugueses».



Arquivo Centro de Documentação 25 de Abril / Universidade de Coimbra


Dantes, eu tinha alguma dificuldade em entender a razão por que os mais pobres dos pobres votavam na direita; mas actualmente, quando vemos cidadãos (em elevada percentagem dos eleitores) com grande descrença nos políticos e a afastarem-se da política partidária de forma que parece irreversível, receamos que a oferta fácil, de cariz populista, em período eleitoral, possa ganhar adeptos entre os mais insatisfeitos, aqueles que são mais penalizados na vida do dia-a-dia. Jovens e idosos despolitizados são presas fáceis. O desespero leva ao voto de protesto contra o sistema partidário e à adesão (cega, ignorante) a vozes desorganizadas.

Contra o populismo político e também sindical –  e ele existe! – precisamos, como de pão para a boca, de novas linguagens na comunicação de mensagens de teor político e sindical. Necessitamos de políticos e de dirigentes respeitados, com discursos claros, sem arrogância, próximos dos cidadãos e sem um fraseado herdado de um passado que deus tem, que pouco entra em ouvidos do século XXI. Actualmente, na comunicação com os cidadãos, a forma usada na mensagem pode ser tão determinante nas escolhas, como as medidas que se propõem. A profilaxia do populismo exige-nos tudo isto e pede aos cidadãos mais conscientes dos perigos, uma maior intervenção e persistência nos combates – por exemplo, não se podem deixar lugares vazios em iniciativas plurais, apenas porque não se gosta de A ou de B. As redes sociais têm que ser encaradas, também, como um campo de informação e de desmontagem de falsidades.

Não podemos deixar de ir a jogo nesse campo da Comunicação Social que é “super-privilegiado” pelo populismo. Foi pensando nisso que eu optei por dar horas do meu dia ao trabalho militante antifascista, em dois espaços do facebook, contribuindo para que “Fascismo Nunca Mais!”

Fascismo Nunca Mais!

II – Conhecer para rejeitar

2O conhecimento do que foi o fascismo não é uma vacina, mas não duvido de que o estudo da Ditadura do Estado Novo, que deveria ter lugar no âmbito do ensino, é relevante na tomada de consciência dos jovens, com vista a escolhas democráticas e ao repúdio de propostas fascizantes, com ou sem roupagens dissimuladoras. Contribui para que eles, de olhos abertos, aprendam a identificar traços e malefícios de uma ditadura, e possam vir a recusá-los em propostas que lhes sejam apresentadas. Conhecer é condição indispensável para rejeitar. (No Brasil, verificou-se que as novas gerações não tinham a menor ideia do que havia sido a ditadura militar). Por isso, vemos com alguma preocupação a abordagem dos “fascismos”, tal como está prevista no ensino das crianças e jovens.

A disciplina de História, no Ensino Básico, é indubitavelmente um dos espaços curriculares com maior vocação para enquadrar actividades, projectos e estudos com esse objectivo. Porém, mudam os ministros, ajustam-se os programas e a perspectiva mantém-se desoladora. Isto é, o chamado «Estado Novo» cabe numas escassas linhas, diluídas em extensos programas. Dizem-me que será esse o motivo pelo qual somente alguns professores se dispõem a tratar este tema, e que o fazem quase sempre por imperativo de cidadania. Todavia, verificamos que ainda são raras as escolas que não assinalam o dia da Revolução. E se festa há, seria bom que ela fosse aproveitada para transmitir Memória…

Digo isto, porque a tal propósito, tenho a impressão de que faz falta uma visão mais objectiva e menos romântica do “25 de Abril”. Depois de dezenas de anos de festividades,para festejar o dia da grande Festa, talvez tenha chegado o tempo de uma pedagogia política, que traga para primeiro plano, nessas celebrações, a memória da Ditadura; que transporte as novas gerações, ainda que por escassas horas, para o terreno de uma realidade, que foi vivida e terrivelmente sofrida pelos seus antepassados.


Guerra Colonial (1961- 1974)

Discordo profundamente da imagem da Revolução de Abril, que vem sendo transmitida às crianças e aos jovens, confinando-a a uma versão “super light” da libertação, com fotografias redutoras de um golpe militar – que brotou do chão em Lisboa, no Largo do Carmo – com Salgueiro Maia de megafone na mão e umas centenas de lisboetas empoleirados em árvores, todos a aguardar a saída de umas criaturas que nunca se vêem e que hoje já poucos sabem quem foram… Com mais umas quantas fotos icónicas de tanques, cobertos de populares ou engalanados com cravos, está desenhado o glorioso dia.

Manifestações de júbilo, cravos vermelhos, tanques e um herói militar ficarão a assinalar para sempre, e muito bem, o dia da Revolução. Mas interroguem-se os miúdos quando, nas escolas, estão a festejar a data. «Por que aconteceu a Revolução»? Riem-se e encolhem os ombros. Pergunte-se-lhes «O que foi o fascismo»? Riem-se porque desconhecem. E, na melhor das hipóteses, ouvimos uma curta frase «Era o que existia antes do dia dos cravos». Não se pode esconder dos miúdos o que realmente se festeja.

Nessas celebrações, conte-se-lhes que se comemora o fim de um regime de miséria, em que se vivia permanentemente com medo, com uma cruel repressão, e uma guerra colonial onde muitos perderam a vida. Diga-se-lhes que o 25 de Abril chegou na sequência de dezenas de anos de lutas. Que milhares de cidadãos, durante 48 anos, arriscaram tudo, incluindo a vida, em nome de um mesmo ideal: conquistar a Democracia. Diga-se-lhes que houve cerca de 30 mil patriotas que passaram pelas mãos da polícia política. Que numa guerra colonial de 14 anos, tombaram em África 10 mil portugueses, por obstinação dos governos de Salazar e de Marcelo Caetano, que teimaram em ir contra os ventos da História, recusando dar a independência àqueles povos, mantidos sob domínio colonial/fascista. A meu ver, a guerra colonial, o Tarrafale a PIDE deveriam constituir, «temas obrigatórios», nas celebrações escolares da Revolução.


Campo do Tarrafal

Mas este vazio, este apagamento do regime fascista não acontece apenas nas escolas! Se repararem, esteja a esquerda ou a direita no poder, o derrube do regime fascista é oficialmente assinalado, com mais ou menos cravos e com discursos mais assim ou mais assado, mas cujo conteúdo nunca se afasta da actualidade. Sobre o regime deposto, das bocas dos nossos representantes políticos, ouvimos pouco mais do que duas ou três “frases feitas”, referentes ao chamado Estado Novo.

III – Houve 40 anos de apagamento do passado

Até há relativamente pouco tempo, a memória do passado vinha a ser metodicamente apagada e deturpada, sem o contraponto de quem resistiu, e com o recato de quem investigou. Não me repugna, pois, ouvir criaturas da minha idade ou idades próximas, em loas ao Salazar. É natural, era expectável – esses são os que sempre apoiaram o ditador, só escutavam as suas mensagens políticas, mais a palavra do regedor da freguesia e a do padre, e tinham fé nos três.

Não aderiam a nada da Oposição e acobardavam-se. Vieram para a rua na onda gigante de Maio de 1974 e foram certamente uma pobre gente vítima do regime, mas sempre num silêncio cúmplice com ele. Não contámos nunca com essa gente na Resistência e os danos que agora causam são limitados no tempo… Outra coisa, bem diferente – e essa, sim, me inquieta como cidadã – é a ignorância do passado, com que alguns, nascidos ou criados em Democracia, seguem indiferentes nas suas vidinhas, ou persuadidos de que o regime fascista não passou de uma dramatização fantasiosa nossa – mulheres e homens que se opuseram ao regime.

Talvez tivesse sido diferente se alguns dos que assim pensam tivessem contactado com testemunhos simples e variados de resistentes, nas televisões, nas escolas e nas autarquias.Houve 40 anos de apagamento do passado e de um quase silêncio sobre o execrável regime fascista – e teremos de reconhecer que poucos estarão isentos dessa responsabilidade.

O período histórico em que alguns de nós vivemos, durante parte ou grande parte da nossa vida, [Chame-se-lhe ditadura do Estado Novo, ou regime fascista – para este efeito pouco importa], dificilmente se explica aos que agora crescem em Democracia. É verdade: às vezes contamos, eles ficam de boca aberta e desconfiam que exageramos. Tal espanto também se deve ao facto de, durante muito tempo, nós termos como que repousado do fascismo. Instalámo-nos a saborear a Democracia ou a aproveitá-la para novas batalhas. Fizemos demasiado silêncio sobre as nossas vidas, sobre o sofrimento, o medo, a pobreza. E errámos ao sacudir para as escolas essa competência, nomeadamente para os professores de História.

Hoje arcamos com uma significativa parte da responsabilidade pelo desconhecimento que grassa acerca da tal NOITE MAIS LONGA DE TODAS AS NOITES. Competia-nos espalhar o nosso testemunho: aos filhos, aos netos, aos alunos, aos vizinhos, nas Escolas, ao País. Porque a Memória colou-se a nós e nunca deixou de estar (sofridamente) viva nas vítimas.

Errámos ao fechá-la nos círculos de amigos. Confiámos no papel do Estado. E, no entanto, ela devia ter unido os antifascistas das gerações sobreviventes, numa causa comum de preservação dessa Memória, responsabilizando as entidades públicas que tinham e têm a obrigação de a defender. Devíamos ter cuidado melhor da divulgação da memória colectiva, buscando testemunhos na gente anónima que resistiu. Assim não tem acontecido, e já se perdeu uma grande parte da memória sem nomes,dessa outra Resistência que se estendeu, corajosa, pelo país fora, durante décadas. Nas organizações pró-memória militam umas escassas dezenas de resistentes. Entretanto, fora de portas, ainda há para descobrir uma Resistência sem rostos, praticamente desconhecida.

IV – Preservação da memória

Porém, já reparámos que, de há poucos anos para cá, a memória histórica da Ditadura tornou-se um assunto muito mais presente na sociedade portuguesa: no quotidiano da informação, da vida social, cultural e mesmo política. Do que posso chamar o meu ângulo de visão (muita idade, muita atenção e alguma experiência), assisto a uma dinâmica viva, em crescendo, na divulgação da Resistência à Ditadura do Estado Novo e vejo-a transitar para um plano superior de combate empenhado ao esquecimento.

Por um lado (e, provavelmente, não por acaso…), ultimamente ela merece um maior empenhamento, por parte dos diversos poderes públicos. No centro de Lisboa, conseguiu-se, finalmente, um «Memorial aos Presos e Perseguidos Políticos», (acompanhado de um extraordinário site), que foi inaugurado no dia 25 de Abril. Em Peniche, acaba de ser inaugurada a primeira fase de um «Museu Nacional da Liberdade e da Resistência». O Museu do Aljube, em Lisboa, tem uma actividade de grande impacto, quer junto das escolas, quer dos turistas, encontrando-se entre os 10 museus mais vistos no nosso País.


«Memorial aos Presos e Perseguidos Políticos»

A inauguração do Memorial em Lisboa,
Fotografias de Artur Pinto


Por outro lado, tem vindo a ser frequentemente assinaladas na Comunicação Social (Imprensa e TVs) efemérides de grandes combates do período fascista; há figuras de democratas e acontecimentos da história da Oposição que vêm suscitando uma especial apetência, quer por parte da Comunicação Social, quer nos espaços da criação cultural. Durante décadas, na comunicação social e nas redes sociais, as referências ao regime fascista, às lutas da Oposição e aos seus actores, apareciam isoladas. Algo mudou.

Mais recentemente (já antes das presentes celebrações do 45º aniversário), vimos registado iniciativas constantes neste campo: mais entrevistas e artigos em jornais; mais livros e programas de radio, com testemunhos sobre exílios, sobre repressão e torturas; muitos relatos de vidas no Estado Novo, de miséria impensável; inúmeros testemunhos de mortes e deserções na Guerra colonial, antes praticamente ignoradas. Há escritores e cineastas, das novas gerações, a abordarem temas relacionados com a dureza do fascismo em Portugal, e frequentemente com excelente qualidade.

Não posso deixar de dizer que, em minha opinião, as redes sociais tiveram e têm, neste aspecto, um papel quase impulsionador: nesses espaços proliferam recordações sofridas de vítimas do regime, que derrubando barreiras pessoais – psicológicas e sociais –  se multiplicam, encadeando-se em posts e comentários, acabando por revelar retratos de vida com inquestionável valor histórico. Há cidadãos anónimos, com um passado de luta até agora praticamente desconhecido, que começam a aceder à Torre do Tombo e, depois, não hesitam em partilhar, na net, registos e documentos.

Em suma, também há mais iniciativas individuais que alimentam a Memória da Resistência – Talvez porque o maior afastamento temporal do regime de Ditadura dá a estas gerações uma distanciação psicológica que lhes permite, agora mais facilmente, falar, escrever, partilhar ou doar documentos (ou valiosos espólios), até aqui guardados a sete chaves e que muitas vezes pareciam ser materiais condenados ao desaparecimento. [Provavelmente, em alguns casos terão valor incalculável para a História, noutros são importante património de cidadania legado à família].

Às vezes, dá-me a impressão, a mim distante das universidades, que estas começaram a gerar mais investigação sobre o regime da Ditadura e a implementar partilha deste género de conhecimento, a um maior ritmo. No contacto pessoal com investigadores, fica-nos a ideia de que, passo a passo, vem sendo acrescentada História à História da LONGA NOITE (até há pouco tempo quase limitada à versão oficial herdada do Estado Novo). Parece-nos assistir, nos meios da investigação histórica, a uma dinâmica jovem, cada vez maior, na partilha e debate de matéria deste período: raro é o dia em que não somos surpreendidos por iniciativas, como debates, conferências, congressos e homenagens, realizadas nas diferentes academias. Que reconfortante para quem esteve ligado às lutas e sofreu a repressão!

Acredito que só através de um constante entrelaçar, na acção, das universidades com as “associações de memória”, os movimentos de cidadãos pró-memória e os diferentes poderes públicos, pode ser assegurada a preservação da memória. Defendo (perdoem-me a pretensão…) que devia haver o hábito de mais parcerias com este objectivo, e também com empresas dispostas a financiar projectos. [Ainda há grande relutância em encarar esta perspectiva, mas eu, pessoalmente, vejo-a como imprescindível, desde que não colida com princípios de ética da memória].

Entretanto, a divulgação do que vivemos, do que passou por nós, por perto de nós, pelas nossas mãos, tem, em meu entender, uma importância fulcral, quer para a História, quer para a nossa Democracia. Ocorre-me que urge colher, junto dos resistentes, as suas memórias – o passado de cada um de nós é único. São vozes vivas da ditadura e, muito ou pouco o que tenham sofrido, falarão como ninguém dos medos, do obscurantismo e da pobreza com que contactaram. Já há quem vá fazendo essa recolha e com uma persistência digna de registo [O Museu do Aljube, em Lisboa, é apenas um exemplo disso e admirável], mas tenho por aconselhável que esse trabalho seja, não só alargado a gente pouco ou nada conhecida nos media, como impulsionado a um maior ritmo [Somos cada vez menos os poucos ainda disponíveis…].

Depois de nós, daqueles que, em jovens, tivemos algum papel na Resistência, perfilam-se hoje outros jovens, a quem caberá um outro papel, igualmente determinante do futuro. Nestas celebrações de Revolução, não tenho parado de pensar que, se não queremos o regresso do fascismo ou ver degradada a tessitura do regime democrático nascido há 45 anos, há que abrir os projectos políticos a jovens que possam não se encontrar alinhados partidariamente. Fazem muita falta! Temos de poder contar com essa gente nova, despolitizada. Procure-se, através deles, integrar novos anseios sociais e culturais. Mobilizem-se para o vasto campo da cidadania aqueles que, com a cabeça e o coração limpos de preconceitos, se têm mantido à margem da acção política, mas aspiram a uma sociedade de igualdade e justiça, coincidente ou não com aquele modelo em que nós acreditávamos na idade deles. Sem esses jovens – aqueles que, na sua maior parte, não têm a menor ideia do que nós vivemos sob a ditadura fascista – não enfrentaremos a ameaça fascista. E, muito menos, seremos capazes de prosseguir o trajecto para a Democracia plena.

V – Tenebrosa ditadura

Escrevi estas memórias da Ditadura – que evocam «A NOITE MAIS LONGA DE TODAS AS NOITES» – a pensar naqueles que desconhecem o que realmente foram esses longuíssimos anos – jovens e menos jovens, que tiveram a felicidade de nascer ou crescer em Democracia. Talvez um testemunho na primeira pessoa, com uma narrativa simples, os ajude a acreditar que o regime em que vivíamos antes da Revolução, frequentemente referido pela designação de «regime autoritário do Estado Novo», era de facto uma tenebrosa ditadura. Não vou referir-me ao livro: gostava que o lessem. Direi apenas isto: escrevê-lo foi, ao mesmo tempo, terrivelmente sofrido, muito entusiasmante e apaixonadamente obsessivo. É um testemunho e, melhor ou pior, ficou-me a sensação de um dever cumprido. Se já leram o livro, agradeço-vos. Se ainda o vão ler, sugiro que o leiam devagarinho – sobretudo aos leitores da minha geração, que queiram ir interrompendo, fechando os olhos e, por momentos, lembrar-se da nossa juventude.



Na verdade, os que nos encontramos hoje aqui, continuamos a ser uma família, e haja o que houver, seja qual for o caminho que cada um de nós segue para chegar ao modelo de sociedade que defende, sei que estaremos sempre juntos nos combates contra o fascismo.

Santarém, 30 Abril 2019

[Comemorações do 25 Abril em Santarém. Centro Cultural Regional de Santarém – Fórum Mário Viegas]

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/a-nossa-memoria-colectiva/

Peniche: Memorial homenageia presos políticos

«Alto significado político e justiça histórica», assim caracterizou Domingos Abrantes, na presença de António Costa, a inauguração do Memorial em homenagem aos presos políticos do Forte de Peniche.

Inauguração do Memorial em Homenagem aos Presos Políticos, na Fortaleza de PenicheCréditosCarlos Barroso / LUSA

O primeiro-ministro, António Costa, e Domingos Abrantes, ex-preso político em Peniche e actual membro do Conselho de Estado, intervieram, ao fim da tarde deste dia 25 de Abril, na inauguração do Memorial em homenagem aos presos políticos do Forte de Peniche e da exposição «Por Teu Livre Pensamento».

Um acto público com a participação de largas centenas de pessoas, nomeadamente ex-presos políticos e familiares, incluido militares de Abril e personalidades de diversos quadrantes políticos, deputados, membros do Governo, autarcas, dirigentes sindicais e das associações militares.

A inauguração do monumento deu-se ao som do hino nacional entoado pelo Coral Stella Maris, de Peniche, após o que se iniciaram as intervenções.

Na intervenção de abertura, Domingos Abrantes referiu que esta inauguração se destina «a perpetuar o nome e a memória dos mais de 2500 presos aqui encarcerados ao longo de 40 anos», sublinhando que se tratava de «gente com rosto, seres comuns: operários, camponeses, pescadores, militares, religiosos, estudantes e intelectuais. Portugueses, africanos e indianos, pessoas de opções ideológicas diferentes, mas todos irmanados na causa comum contra o fascismo. Todos obreiros da liberdade».

Domingos Abrantes, depois de lembrar que este momento marca também «o início da primeira fase da instalação do Museu Nacional da Resistência e da Liberdade», chamou a atenção para «tantos anos de políticas de esquecimento do que foi a opressão fascista e a luta pela liberdade», nomeadamente em relação aos manuais escolares, onde, «de ano para ano, vão desaparecendo as referências à ditadura e à sua natureza, assim como à resistência» e à destruição «de um após outro dos principais símbolos da repressão fascista, da tortura e do assassínio».

O primeiro-ministro, António Costa, alguns membros do Governo e outras personalidades ouvem as explicações do antigo preso político Domingos Abrantes CréditosCarlos Barroso / LUSA

Depois de referir que as paredes do Forte de Peniche não falam só de violências e de privação da liberdade, mas falam também de exemplos de coragem, de firmes convicções, «de audaciosas fugas, que foram pesadas derrotas para o regime e vitórias de toda a oposição democrática», Domingos Abrantes alertou para «os tempos preocupantes e incertos que vivemos», considerando que «o fascismo não está morto e não se combate com gritos de alma», antes exige medidas concretas «para que o sacrifício de tantas vidas não tenha sido em vão».

A finalizar, António Costa revisitou o dia 25 de Abril de 1974, a «extinção da PIDE, da Legião», para relembrar as «intermináveis horas de espera dos presos de Peniche, os últimos a serem libertados». O primeiro-ministro sublinhou a «consistência da coragem dos presos neste lugar sinistro», como «testemunhas de acusação e heróis da luta contra a ditadura».

Tendo evocado presos do Tarrafal, do Aljube e de Caxias, e destacado o papel dos militares de Abril, o primeiro-ministro disse ainda que, «em nome do futuro do 25 de Abril, nunca se poderá esquecer o passado de resistência dos que sacrificaram família, património, liberdade e a própria vida», símbolos da «nossa homenagem e exemplos de luta».

Este acto público ficará completo no próximo sábado, dia 27, data em que se assinala os 45 anos da libertação dos últimos presos políticos com uma festa popular no Largo da Fortaleza, com a participação de Gisela João, Fernando Tordo, Coro Lopes Graça e intervenções de Domingos Abrantes e Graça Fonseca, ministra da Cultura.

Da concessão ao museu

Recorde-se que a notícia sobre a proposta do Governo de concessionar o Forte de Peniche a privados em conjunto com outros monumentos históricos, por um período entre 30 e 50 anos, para o desenvolvimento de unidades hoteleiras e turísticas gerou uma forte indignação por parte de democratas antifascistas, nomeadamente de ex-presos políticos, por considerarem que a sua privatização constituiria um atentado à democracia e à violação do dever de qualquer governo de honrar a memória de quem deu a própria vida em defesa da liberdade. Chegaram mesmo a afirmar que a transformação do Forte de Peniche numa unidade hoteleira, a partir da qual os turistas teriam uma vista privilegiada para o Atlântico, constituiria um insulto à memória dos que aí estiveram detidos e nem o mar conseguiam ver.

O secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, cumprimenta Domingos Abrantes durante a inauguração do Memorial em Homenagem aos Presos Políticos CréditosCarlos Barroso / LUSA

Na sequência dessa atitude do Governo, foi lançada uma petição, que rapidamente obteve 5 mil assinaturas, exigindo que a Fortaleza de Peniche se mantivesse como património nacional. A petição foi entregue no dia 5 de Outubro na Assembleia da República com nomes de diversos quadrantes político-ideológicos e de variadas áreas da vida política, cultural e social nacional.

Uma iniciativa que acabou por ter eco no Governo, que, a 27 de Abril de 2017, realizou, simbolicamente, a reunião semanal do Conselho de Ministros no Forte de Peniche, no dia em que se assinalavam 43 anos da libertação dos últimos presos políticos daquela cadeia de alta segurança do regime fascista.

Uma reunião no final da qual foi anunciada a instalação, naquele local, de um «museu nacional dedicado à luta pela liberdade e pela democracia». Aliás, por proposta do PCP, o Orçamento do Estado para 2017 já previa a concretização, por parte do Governo, de um plano urgente de intervenção na Fortaleza de Peniche, com a previsão de investimento de 3,5 milhões de euros e o apoio dos programas Centro 2020 e Portugal 2020, envolvendo a conservação e restauro da fortaleza e os custos da primeira fase de instalação do museu.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/nacional/peniche-memorial-homenageia-presos-politicos

AS COMEMORAÇÕES “OFICIAIS” DO 17 DE ABRIL DE 1969

O SEU A SEU DONO

Resultado de imagem para 17 DE ABRIL DE 1969

Pelo que se lê nos jornais e se vê nas televisões parece haver uma tentativa de filiar a Crise Académica de 69 (Coimbra) no Partido Socialista ou, pior ainda, uma tentativa de apropriação por elementos do Partido Socialista do movimento estudantil simbolizado no “17 de Abril”.

Sem meias palavras, nada mais falso. Essa tentativa mais ou menos velada mais ou menos ostensiva de reescrever a história pode, na actual conjuntura política, com o apoio acrítico ou a pura ignorância dos meios de comunicação, ter algum êxito, mas jamais terá a força suficiente para historicamente se impor.

Antes de mais, nem Partido Socialista havia em 1969. O que havia era a ASP, Acção Socialista Portuguesa, fundada em Novembro de 1964, em Genebra, por Mário Soares, Tito de Morais e Ramos da Costa.

Assim sendo, a filiação de qualquer movimento estudantil ou político da época no actual Partido Socialista só seria legítima se aqueles ou parte daqueles que então actuaram se identificassem com a acção política de Mário Soares ou das organizações políticas por ele dirigidas, visto ele ser, indiscutivelmente, mais até do que depois do 25 de Abril, a figura mais visível desse sector da oposição democrática.

Mário Soares, desterrado para S. Tomé por deliberação do Conselho de Ministros presidido por Salazar, tinha regressado em Novembro de 1968 cerca de um mês e meio depois da tomada de posse de Marcello Caetano. Logo a seguir a este regresso, um núcleo da ASP (Associação Socialista Portuguesa) de Coimbra, constituído por um ou dois estudantes (Luís Filipe Madeira e um outro) e apoiantes históricos de Mário Soares na região, como António Arnaut, António Campos e Fernando Valle, organizou em Coimbra, no ambiente restrito de uma República – “Os Cágados” –, uma sessão com Mário Soares para falar sobre o desterro em S. Tomé, o seu regresso e a situação política do país.

No ambiente agitado do meio estudantil que então já se vivia em Coimbra, a presença de Soares e as suas intervenções n’ “Os Cágados” não tiveram praticamente nenhum impacto político entre os estudantes, tal era o distanciamento da juventude oposicionista ao “socialismo” de Soares e seus amigos. Aliás, esse encontro não terá corrido nada bem a Soares, apesar de apadrinhado por alguns notáveis vultos da intelectualidade coimbrã, como o professor Paulo Quintela e outros. Não apenas por Mário Soares não captar nenhuma simpatia entre a juventude de então, mas também por o seu regresso do desterro, tão próximo da tomada de posse de Marcello, ter levantado uma onda de boatos sobre a sua futura acção futura política que, por mais injustos que fossem, o prejudicavam seriamente. O mesmo distanciamento se notou, aliás, meses mais tarde no II Congresso Republicano de Aveiro (Maio de 69) no qual a intervenção de Soares, centrada na exigência de cumprimento do art.º 8.º da Constituição (1933), foi acolhida com muita frieza. Posteriormente, em Outubro de 1969, na campanha eleitoral para as legislativas – as primeiras da era marcelista -, Soares quebrou a unidade oposicionista, apresentando em quatro distritos (Lisboa, Porto, Braga e Castelo Branco) listas da CEUD (Comissão Eleitoral de Unidade Democrática) apoiadas pela ASP, que recolheram uma ínfima parcela dos votos da oposição democrática. Isto apesar de durante a campanha eleitoral Soares se ter esforçado por marcar inequivocamente todas as diferenças (Comício de Entrecampos, no - posteriormente chamado - Teatro Vasco Santana) que o distinguiam (a ele e aos apoiantes do seu movimento) da CDE (Comissão Democrática Eleitoral), movimento unitário da oposição democrática, por ele considerado de inspiração comunista, não obstante nele participarem activamente e em lugares de grande destaque alguns daqueles que mais tarde ocuparam lugares de grande relevo no Partido Socialista, como, por exemplo, Jorge Sampaio. Soares, porém, mantinha-se fiel, como aliás sempre se manteve, mesmo depois do 25 de Abril, a uma transição do fascismo para a democracia segundo os princípios e os valores inscritos no “Programa para a Democratização da República”, apresentado em 1961 pela velha guarda republicana.

Isto apenas para lembrar que aquele que cerca de quatro anos mais tarde (1973) viria a ser o “primeiro” fundador do Partido Socialista e dois anos depois (1975) o líder do partido mais votado em eleições livres não gozava na década de 60 da simpatia da maior parte dos portugueses e era mesmo olhado com relativa hostilidade pela juventude estudantil antifascista. Aliás, é nossa profunda convicção que a popularidade e as vitórias eleitorais que Soares veio a obter na liderança do Partido Socialista não se deveram maioritariamente a uma frente antifascista com passado de luta contra a ditadura ou de simples distanciamento político face a esta mas a uma forte corrente anticomunista que Soares soube habilmente aproveitar e até instrumentalizar a partir de tudo o que à esquerda do Partido Socialista se estava passando durante a Revolução. E muito do que se passava, ou melhor, muitos dos que foram responsáveis pelo que se passou acabaram, anos mais tarde, depois da “normalização” e já regenerados, por integrar as fileiras do Partido Socialista

Voltemos de novo à questão da filiação, depois desta resumida digressão pela história mais recente do sector da oposição democrática protagonizada por Mário Soares. As direcções da Associação Académica de Coimbra na década de 60, dominadas pela esquerda estudantil (e foram cinco – 1960/61; 1961/62; 1963/64; 1964/65; e 1968/69 -, tantas quantas as eleições que o fascismo permitiu), resultaram todas elas de uma frente antifascista patrocinada pelo Conselho das Repúblicas, apoiada pela maioria dos estudantes, e eram integradas por estudantes oposicionistas com várias sensibilidades políticas, entre os quais se contavam dirigentes que mais tarde - uma, duas ou até três décadas - se notabilizaram como importantes personalidades do Partido Socialista. Porém, nenhum deles ou quase nenhum deles (para prevenir uma pequena falha de memória), então se assumiu como ligado à ASP ou especificamente a Soares. Essa não era uma ligação recomendável, digam agora o que disserem. Nem a linha de Soares, completamente desfasada do tempo e da época que então se viviam, granjeava qualquer simpatia entre as jovens gerações antifascistas.

Entre os dirigentes acima referidos, com ligações posteriores ao Partido Socialista, podem contar-se em 1960/61, data em que nem a ASP existia, o presidente da AAC, Carlos Candal, mais tarde membro fundador do PS e destacado dirigente; em 1963/64, António Correia de Campos, presidente eleito não homologado pelas autoridades académicas, tendo em sua substituição assumido a presidência Joaquim Antero Romero Magalhães, ambos, mais tarde (década de 70), membros do Partido Socialista, tendo o primeiro assumido cargos políticos de relevo; em1968/69, já no marcelismo, a lista eleita com uma vitória retumbante sobre a direita, proveniente de uma coligação patrocinada pelo Conselho das Repúblicas, como aliás todas as anteriores da década de 60, era composta por elementos do PCP (Osvaldo de Castro e Fernanda Bernarda) e elementos da esquerda independente com significativas nuances entre si – Celso Cruzeiro, ligado a um pensamento da nova esquerda, porventura próximo do que mais tarde veio a ser o MES da via mais radical; Alberto Martins e Matos Pereira, não marxistas, de uma linha mais moderada, também eles mais tarde membros do Partido Socialista, mas sem nenhuma ligação conhecida à época à ASP ou ao socialismo soarista” e José Gil, antifascista, como os demais, da esquerda independente.

Escusado será dizer que dezenas de outros estudantes, dirigentes associativos ou com grande intervenção no movimento estudantil não tinham nem nunca tiveram qualquer ligação ao Partido Socialista ou aos seus antecedentes mais próximos, como a ASP. E outros houve que então pertenciam ao Partido Comunista e que muito mais tarde vieram a aderir ao Partido Socialista, o que igualmente coloca sua acção política como dirigentes estudantis fora de qualquer filiação no actual Partido Socialista.

Relativamente a 1969, que é a questão que aqui nos interessa analisar mais em pormenor, é preciso que se diga que, fora da estrutura dirigente institucional, com influência directa na enorme movimentação estudantil então em curso, difícil era saber qual o mais moderado, o mesmo é dizer sem qualquer ligação, por remota que fosse ao pensamento socialista da ASP ou ao “socialismo” de Soares. Aliás, é a estas estruturas inorgânicas que se deve a “recepção” e as “despedidas” a Thomaz e à sua comitiva na inauguração do Edifício das Matemáticas em 17 de Abril; é à Junta dos Delegados de Ciências que se deve a exigência de usar da palavra no acto de inauguração daquele edifício, sob ameaça de o fazerem eles próprios se as estruturas institucionais se recusassem, como ainda em 17 de Abril deste ano José Cavalheiro recordou numa comemoração realizada em Coimbra; são essas mesmas estruturas inorgânicas, apoiadas por milhares de estudantes, que exigem a greve a exames, que protagonizam, enfim, tudo aquilo que num movimento desta dimensão não obedece, nem pode obedecer, a esquemas previamente delineados.

Quer isto dizer que as estruturas institucionais não desempenharam qualquer papel de relevo na crise de 69? Não, não quer. Elas tiveram antes de mais o mérito de saber (podemos dizê-lo sem medo das palavras) acompanhar e enquadrar, sem a trair, a vontade contestatária dos estudantes nas suas múltiplas exigências e protestos. E souberam também tomar as iniciativas que o curso dos acontecimentos ia exigindo no dia-a-dia para manter viva, actuante e interventiva a chama da contestação.

Mais difícil será dizer o mesmo quanto ao modo como tudo terminou alguns meses mais tarde. Aí já desligados da presença e da força contestária das massas estudantis, cometeram-se erros irremediáveis, como Celso Cruzeiro, numa manifestação de grande honestidade intelectual hoje reconhece sem reservas - “Um grave erro que o movimento cometeu”, diz Celso.

De facto a ida a Belém, para cumprimentar Thomaz e ratificar com a sua presença “tudo o que os seus professores houverem por bem declarar sobre o seu caso”, não podia deixar de ser interpretada como uma vexatória capitulação, como a imprensa da época, obviamente dominada pela censura, não deixou de sublinhar. Só com extrema benevolência e idêntico grau de ingenuidade se pode considerar que a ida a Belém constituiu “uma derrota do Governo, das autoridades e até de Marcello Caetano”, como diz Alberto Martins. 

Estes escritos, é bom frisá-lo, não têm em vista pôr em causa o mérito dos que tiveram a honra e a coragem de dirigir o movimento associativo estudantil. Bem pelo contrário, a todos eles devemos, tanto os que foram seus contemporâneos como os vindouros, o contributo indispensável à formação de uma escola democrática, inclusiva, que muito contribuiu para que hoje tenhamos um país completamente diferente, para muito melhor, daquele que a nossa juventude estudantil conheceu. 

O nosso propósito é outro. E é bom que o clarifiquemos para evitar equívocos. O nosso propósito é lembrar que o que se passou não pode ser individual ou associativamente apropriado, seja por partidos políticos ou outras associações, menosprezando o genuíno entusiasmo e a inventividade com que milhares de estudantes participaram numa luta que têm como sua e da qual, a justo título, se orgulham como um marco inesquecível da sua passagem pela universidade. E é igualmente o de lembrar que, para além das estruturas dirigentes institucionais clássicas, outras havia mais inorgânicas mas não menos interventivas com dirigentes consensualizados pelos estudantes pelo papel que foram desempenhando no decorrer da crise.

Há 20 anos, nas comemorações que então tiveram lugar em Coimbra, tivemos oportunidade, por carta, de sublinhar ao Presidente Jorge Sampaio, que nelas igualmente participou, a multiplicidade de actores deste importante movimento bem como o papel insubstituível dos milhares de estudantes anónimos que nele participaram e que foram a razão da sua força e perenidade. Esse sim, aqueles que, acima de todos os outros, convém homenagear e não esquecer!

Ver o original em Politeia (clique aqui)

«A conquista da liberdade é inseparável da resistência»

No dia em que assinalam os 45 anos do 25 de Abril e se inaugura a primeira fase do Museu Nacional da Resistência e da Liberdade no Forte de Peniche, o AbrilAbril foi à conversa com Domingos Abrantes.

Forte de Peniche / URAPCréditos
Nos próximos dias 25 e 27 de Abril, quando celebramos 45 anos da Revolução de Abril e também da libertação dos presos políticos de Peniche, assistimos a uma vitória da defesa da memória sobre tendências de branqueamento e apagamento do fascismo. O que significa a inauguração da primeira fase do Museu Nacional da Resistência e da Liberdade, no Forte de Peniche?

Era para haver apenas uma cerimónia, mas, por razões de agenda do primeiro-ministro, a inauguração da primeira fase do Museu Nacional da Resistência e da Liberdade do Forte do Peniche passou a ser feita em dois momentos. No dia 25 a cerimónia oficial, com as entidades formativas e outras entidades, convidados e ex-presos. E dia 27 aquilo a que se pode chamar uma inauguração popular.

Este acontecimento tem um enorme significado político e histórico. Desde logo, porque passaram 45 anos e apesar de ter sido decidido em 1976 que haveria, em Peniche, um Museu da República e da Liberdade, passaram 20 governos sem que este facto tenha acontecido.

Daí a importância da inauguração da primeira fase do museu, com a inauguração do memorial aos 2510 presos que por ali passaram. É uma justa homenagem à participação do povo de Peniche na luta pela liberdade. Aliás, é uma terra que teve um número significativo de presos, que também lá vão estar com os seus nomes, as suas biografias e retratos.

Domingos Abrantes / JOÃO RELVAS/LUSA

É um acontecimento que, repito, não se trata ainda da inauguração do Museu. Trata-se da fase inicial, que tem uma exposição que nos dá uma imagem dos futuros conteúdos a integrar o museu. Hoje vemos luz ao fundo do túnel. Pensamos que este caminho é irreversível e que finalmente se abriu a possibilidade de haver uma coisa que já faltava.

Um Museu Nacional da Resistência e da Liberdade, que faz associação entre estas duas questões: a conquista da liberdade é inseparável da resistência. Independentemente do mérito que os militares tiveram no derrube da ditadura, que é inegável e não devemos esquecer, isso não teria acontecido sem a longa resistência de mais de 48 anos de luta, pela qual o povo português pagou um muito elevado preço, com milhares de presos, torturados e assassinados.

Desde a primeira hora que a URAP e muitos democratas e antifascistas se insurgiram contra a opção de concessão do Forte de Peniche para fins hoteleiros. Como descreve o início de todo este processo, desde a notícia de que se visava concessionar o Forte de Peniche até ao anúncio pelo ministro da Cultura, da retirada da Fortaleza de Peniche do programa Revive?

Como é sabido, esteve no horizonte e quase a concretizar-se um atentado à democracia. Um projecto de destruir as instalações da cadeia que funcionaram na Fortaleza de Peniche, para a transformar num hotel de charme. O facto de se ter pensado já em si coloca enormes interrogações. Ainda mais grave é que se tratava de destruir o símbolo mais odioso do sistema carcerário no continente. E era praticamente o último símbolo. Tinham desaparecido a sede e a escola da PIDE, Caxias, Porto, Angra do Heroísmo, os tribunais plenários. É o último grande símbolo da existência da repressão fascista.

«Um Museu Nacional da Resistência e da Liberdade, que faz associação entre estas duas questões: a conquista da liberdade é inseparável da resistência.»

Conseguiu-se, felizmente, reverter essa situação. Houve um sobressalto das forças democráticas e antifascistas, que se mobilizaram. A URAP teve aqui um papel importantíssimo com uma petição com 5 milhares de assinaturas.

Com esta decisão, de certo modo, conseguiram-se duas conquistas. Uma foi a própria preservação daquele monumento da repressão fascista e, simultaneamente, um local muito adequado – que aliás já se dizia no decreto de 1976 – para a instalação do Museu Nacional da Resistência.

Estão previstas partes museológica, arquivística, de consulta e documental. Trata-se de um museu cujo objectivo fundamental é não deixar esquecer que o fascismo existiu. E que o conhecimento sobre o que foi o fascismo e como a liberdade foi conquistada possa passar para as novas gerações. É um instrumento de pedagogia democrática e de valores da liberdade, sem o qual não é possível preservar a liberdade conquistada em 1974.

Como vê a influência do actual quadro político na concretização do Forte de Peniche como memorial?

Não podemos esquecer que foi este Governo que tomou a decisão. Mas esta política de silêncio e de apagamento da memória não é só dos governos de direita. Passaram 20 governos de várias composições com PS, PSD e CDS.

Há um facto histórico: este passo foi dado com este Governo e neste quadro político concreto e isso não é pouco. É muito difícil imaginar que um governo de direita recuava neste aspecto. Antes pelo contrário.

Como vê, num mundo onde surgem muitas forças anti-democráticas, neo-fascistas e de extrema-direita, com particular incidência em alguns países europeus, que em Portugal se verifique esta valorização da memória, com participação popular?

A instalação definitiva do Museu no Forte de Peniche tem ainda um outro significado quando em vários países do mundo e, nomeadamente na Europa, se assiste à resistência em sublinhar os símbolos da apologia fascista. É o caso de Vale dos Caídos [em Espanha] e outros.

É diferente a memória da repressão fascista dos símbolos de propaganda fascista, como no caso da Polónia, em que tudo o que é nome de revolucionários está a ser apagado, sendo recuperados símbolos do fascismo e nazis.

Ora bem, isto vai ao arrepio dessa corrente e é curioso que as entrevistas que se têm dado e a divulgação sobre a decisão de se criar o Museu da Resistência e da Liberdade em Peniche têm causado grande entusiasmo em Espanha e no Brasil, entre outros países. Precisamente porque consideram que esta decisão é um apoio à sua própria luta contra o ressurgimento de tendências fascistas e fascizantes, que hoje é uma ameaça muito séria.

«Se não houver uma pedagogia de formação democrática, criamos uma sociedade muito permeável àqueles que precisamente sonham em aniquilar os valores da liberdade.»

Portanto, falar do fascismo e do que ele significou de opressão, obscurantismo e miséria, para os jovens é falar de um mundo que não conhecem e até têm muitas dificuldades em imaginar que isto se passou assim. Se não houver uma pedagogia de formação democrática, criamos uma sociedade muito permeável àqueles que precisamente sonham em aniquilar os valores da liberdade.

Fez parte da Comissão de Instalação dos Conteúdos e da Apresentação Museológica que elaborou e entregou ao ministro da Cultura, aquando dos 44 anos da libertação dos presos políticos, um guião com os conteúdos para o Museu Nacional da Resistência e da Liberdade. Como avalia este trabalho?

Quanto aos conteúdos, o museu vai ter documentos da resistência e documentos do fascismo, documentos que mostram o que é o fascismo. Além do memorial, com os nomes dos 2510 presos que somam dezenas de milhares de anos de privação da liberdade, quando estiver definitivamente instalado, terá um mural dedicado aos mártires.

O fascismo não teve só presos. Infelizmente, teve também muitos antifascistas assassinados nas ruas, nos campos, em luta, torturados até à morte na PIDE, no Campo de Concentração do Tarrafal. O museu vai integrar um memorial à memória aos mártires e que são aqueles que lutaram pela liberdade e não tiveram a felicidade de a ver.

A nossa população conhece muitos nomes de gente muito diversa, artistas, futebolistas, etc. Mas muito poucos conhecem aqueles que deram a vida para que o nosso povo viva em liberdade. Isso já em si coloca um problema. É um dever democrático carregar a memória dessa gente. Sem essa luta a gente não tinha liberdade. O memorial vai preencher essa justiça de não esquecer esses nomes.

Os conteúdos vão ter uma base cronológica. Como nasceu o fascismo, como se implantou, que o fascismo não nasceu de geração espontânea, teve um caminho. As medidas que tomou, a filosofia, a ideologia, os crimes que cometeu, mas também quem foram as classes beneficiadas. Fala-se muito da PIDE, do Estado, de Salazar. Mas nunca se fala de que o fascismo existiu para beneficiar os agrários, os grandes grupos económicos e financeiros. Sem esses, a base social do fascismo não teria existido.

É um Museu da Resistência e da Liberdade, não é um Museu sobre o 25 de Abril. Isso é outra coisa que terá de haver e que alguns militares reivindicam, com razão. O 25 de Abril é corolário da resistência, é o dia da liberdade.

O museu terá também, e já nesta fase terá alguns aspectos, sobre as cadeias, que eram naturalmente um lugar de sofrimento, repressão e humilhação, mas que foram também lugares de muitas lutas contra a repressão, contra a barbaridade dos carcereiros e pela dignidade dos presos. E as próprias fugas, houve muitas fugas das cadeias, algumas mais célebres, outras menos célebres. Não se podem pôr todas ao nível de Caxias e de Peniche, como a do Dias Lourenço, que teve um carácter espectacular, mas houve muitas outras que não foram pouco importantes e que foram grandes derrotas para o fascismo.

Por último, para futuro, o que diria às crianças e jovens portugueses se lhes pudesse falar desta questão?

Eu tenho alguma experiência, porque eu e a Conceição Matos já fomos porventura a umas cem escolas, já falámos para muitos milhares de jovens. É curioso que, a princípio, quando começámos a ir às escolas, havia algum espanto quando dizíamos que no fascismo se matavam pessoas, que se espancavam, mas havia jovens ainda com memória, pois, sendo crianças, tinham pais ou avós que conheciam ou até familiares ou vizinhos envolvidos.

Depois isso foi-se esbatendo. Começaram a aparecer uns miúdos que só conheciam «o meu avô». E agora raramente se encontra um jovem que tenha relações familiares directas. E percebe-se, são 45 anos, um pai que tenha hoje 45 anos não tinha nascido e não viveu no fascismo.

«É um dever democrático carregar a memória dessa gente. Sem essa luta a gente não tinha liberdade.»

Falamos de jovens para quem «a liberdade é como respirar». Não lhes passa pela cabeça, e até acham absurdo, que expressões de sentimentos de rapazes e raparigas nas escolas e coisas tão elementares como manifestações afectivas fossem proibidas. Para eles é uma coisa estranhíssima, às vezes até ficam a pensar se não é «tanga». Uma vez, um miúdo perguntou-me se aquilo não eram umas «galgas», tal era o absurdo. Não podiam andar de mão dada, não podia haver rapazes e raparigas na mesma escola, não podiam ir ao cinema ver os filmes que queriam, nem podiam ouvir as cantigas que queriam. Para eles é uma coisa difícil de encaixar. Uma coisa tão absurda, tão obscurantista...

Mas não se trata só de falar do passado, nem incutir nos miúdos um grau de cultura só sobre o passado. Trata-se também de os estimular na defesa da liberdade e de aprender a dizer «nunca mais!».

 

domingos abrantes

Nasceu em 1936 em Vila Franca de Xira. Operário, membro do Partido Comunista Português desde 1954 e seu funcionário desde 1956.

Foi funcionário do MUD Juvenil e pertenceu à sua Comissão Central.

Foi preso político durante 11 anos, nove dos quais no Forte de Peniche, tendo participado na fuga de Caxias em 1961.

Foi membro da Comissão Política e do Secretariado do Comité Central do PCP.

Foi membro do Comité Central do PCP de 1963 a 2012.

Foi deputado à Assembleia da República de 1976 a 1991.

É membro do Conselho de Estado.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/nacional/conquista-da-liberdade-e-inseparavel-da-resistencia

Portugal | 25 de Abril: sempre!

Rui Sá* | Jornal de Notícias | opinião

Tive a oportunidade, há um ano, de recordar, aqui, como foi o meu 25 de Abril de 1974. Sendo certo que, a partir desse, mais 45 se seguiram. Comemorados, sempre, com alegria e a consciência de que é data que só se pode comemorar e que as lamentações de rumos tomados e de expectativas frustradas não se deve ao 25 de Abril mas sim àquilo que, coletivamente, fizemos com a liberdade que então conquistámos.

E, de todos os 25 de Abril que comemorei, há um que ficou mais presente na minha memória e que, não tenho dúvidas, contribuiu para aquilo que, passados estes anos, sou, do ponto de vista político e humano. Como é sabido, em 1975 e em 1976, o 25 de Abril comemorou-se de uma forma diferente, mas também festiva. Nesses dois anos, a data coincidiu com as primeiras eleições livres prometidas pelo MFA: em 1975, para a Assembleia Constituinte e, em 1976, para a Assembleia da República. Não houve, assim, as habituais comemorações, embora recorde que, no dia 24 à noite, o povo saiu à rua para comemorar a efeméride. Foi, assim, em 1977 que se comemorou, sem o formalismo e a responsabilidade dos atos eleitorais, o 25 de Abril. Com inúmeras comemorações espalhadas por todos os sítios, promovidas por coletividades, associações de moradores, sindicatos e com a espontaneidade que ainda se vivia nesses tempos (recordo uma frase de um meu irmão, regressado à cidade do Porto por essa altura, de que "parecia o S. João", com tantas festas espalhadas por todos os recantos). Pois nesse dia 24, à noite, comemorei, no estádio do INATEL, a chegada do 25 de Abril. Sendo que as comemorações passaram pela projeção, ao ar livre, do filme "Chove em Santiago" sobre o golpe de Pinochet que derrubou o legítimo Governo de Unidade Popular presidido por Salvador Allende. Tinha, na altura, 13 anos, e esse filme, assistido ao lado de amigos da mesma idade e num ambiente de fraternidade e de fervor democrático, marcou-me para a vida, consolidando a incipiente predisposição para uma opção política que hoje se mantém. Não sei quem organizou essa iniciativa, mas fico-lhes eternamente grato por terem contribuído para essa opção....


Seguiram-se muitos mais 25 de Abril, passados em vários locais e com diferentes responsabilidades e estados de espírito. Impressionando que, passados tantos anos e com a maior parte da população nascida após o 25 de Abril, continuem a ser muitos aqueles que não abdicam de comemorar esta data maior da nossa História.

Apesar dos sinais preocupantes que surgem em Portugal, na Europa e no Mundo, de que aqueles que em 25 de abril derrotámos, estão aí, defendendo, como sempre, mas agora à luz do dia, a intolerância, o ódio e a violência gratuita. O que exige maior mobilização para comemorar Abril!

*Engenheiro

 

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Presos políticos homenageados em mural na Fortaleza de Peniche

Domingos Abrantes e José Pedro Soares são dois dos 2400 presos que passaram pela cadeia política da Fortaleza de Peniche, que figuram num mural a ser inaugurado no dia 25 de Abril, pelo primeiro-ministro e a ministra da Cultura.

José Pedro Soares, um dos últimos cinquenta presos da cadeia de Peniche, a serem libertados na madrugada de 27 de abril de 1974, e Domingos Abrantes, o sobrevivente que mais anos - nove - esteve detido em Peniche, têm bem presente na memória as torturas sofridas e as dificuldades diárias de um preso político durante a ditadura.
"Havia meia hora para as refeições e 20 horas de isolamento" nas celas individuais, lembra Domingos Abrantes, que foi transferido para Peniche após a célebre fuga do ex-dirigente comunista Álvaro Cunhal, em 1960, e por isso aí foi vítima do "regime opressivo mais terrível".

"Até preferia a vida celular à vida numa cela comum, porque era difícil, devido aos problemas humanos de cada um".


Com os vidros da janela da cela ofuscados, sem se poderem deitar durante o dia, o tempo de reclusão era passado a ler, a dar passos pela cela e a ouvir os barulhos do exterior: "O mar a bater na falésia, os barcos a partir e o barulho das gaivotas quando chegavam cheios de peixe, as portas da prisão a abrir e a fechar, os mais de 40 apitos diários dos guardas ao levantar, deitar e às refeições, o farol em dias de nevoeiro e os dias de festa", descrevem.

"Voltar agora em liberdade a este espaço é diferente, mas ainda nos custa, porque foi um local onde estivemos encarcerados num tempo muito difícil e isso nunca é bom de recordar", diz à Lusa José Pedro Soares, durante uma visita às obras que decorrem na Fortaleza, para a instalação do Museu Nacional da Resistência e da Liberdade.

Em Peniche, o ex-preso cumpriu cerca de um ano dos três e meio a que tinha sido condenado, e descreveu com detalhe as torturas a que foi sujeito, na prisão de Caxias, durante os longos 21 dias de interrogatório, que fizeram dele o "preso mais torturado", diz emocionado.

"Arranjaram umas mortalhas, eu escrevi as histórias todas numas folhinhas, enrolei aquilo tudo, cortei os cigarros a meio e, no fundo do pacote dos cigarros, pus lá tudo. No meu aniversário, na sala comum, levava na mão os cigarros, apesar de ter sido revistado. Como o meu irmão fumava dos mesmos cigarros, troquei o maço com ele", conta José Pedro Soares.

Nos interrogatórios, em que apenas dormiu uma noite, recorda, "diziam que só saía para o cemitério se não falasse". E José Pedro "nunca falou", ao ponto de os seus "pés não caberem nos sapatos, ficar todo negro de tanto soco e puxão de cabelos e urinar sangue".

O seu relato ecoou no estrangeiro, ao ser noticiado por uma rádio na Checoslováquia e, apesar de a notícia ter sido ouvida e transcrita pela PIDE (a polícia política portuguesa, Polícia Internacional de Defesa do Estado), contribuiu para aumentar o movimento de apoio aos presos políticos" e "dividiu" o fascismo.

"A luta dos próprios presos e das famílias melhorou. Já conseguíamos circular no pavilhão durante o dia e recolher à cela à noite, já tínhamos televisão", exemplifica.

Numa passagem do ano, quando as medidas eram menos restritivas, os presos escreveram e encenaram uma peça de teatro, designada "A fuga do fascista", em que uma das personagens, Popov, era um inspetor encarregado de recapturar os presos que tinham fugido e que usava 'palavras caras' em português, como 'nefelibata'.

"O guarda ouviu e virou-se a dizer que não podíamos falar estrangeiro. O colega, que era professor de português, disse ao guarda que era português correto e o guarda respondeu que, se era português, era calão e também não se podia falar calão", lembra Domingos Abrantes, acrescentando que "a festa de ano novo acabou" com "todos fechados nas celas".

Lusa | Notícias ao Minuto

 

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Portugal | Últimos presos da cadeia de Peniche celebram 45 anos da libertação

José Pedro Soares estava entre os 50 presos da cadeia da Fortaleza de Peniche, aquando do 25 de Abril de 1974, que foram libertados dois dias depois, uma data que é celebrada no próximo sábado, passados 45 anos.

"Noutros dias, os que saíam da cadeia só tinham a família e uns amigos à espera e, naquele dia, tínhamos uma multidão que abriu um corredor, batia palmas e cantava as cantigas da libertação da altura", recorda José Pedro Soares, enquanto visita as obras a decorrer na fortaleza, para instalar o Museu Nacional da Resistência e da Liberdade.

Na manhã do 25 de Abril de 1974, lembra, um grupo de presos, do qual fez parte, juntou-se na sala de convívio da cadeia para ver televisão, e estranhou o facto de o ecrã estar "escuro e ouvir-se apenas música sinfónica".

Poucas horas depois, chamaram todos os companheiros e assistiram pela televisão à leitura de um documento do Movimento das Forças Armadas, que "dava já indicação da tomada de vários pontos" no país pelos militares, assim como as reportagens ao longo do dia.

"Percebemos que tinha havido um levantamento militar popular", concluiu.


As notícias levaram os presos a falar com os guardas e com a direção da cadeia. "Inicialmente estavam atrapalhados, começaram a receber-nos com uma simpatia extraordinária e a dizer que eram funcionários públicos e que tinham servido uns, mas serviriam outros".

Nesse mesmo dia, uma guarnição militar vinda de Viseu, do Regimento de Infantaria N.º 14, tentou tomar a Fortaleza de Peniche, contou, mas "a cadeia não se rendeu e só no outro dia, um outro grupo de militares de Lisboa tratou da sua libertação".

José Pedro Soares recorda à Lusa que todos os presos disseram que "ou saíam todos ou não saía ninguém".

Numa altura em que as condições prisionais já tinham melhorado, e quando faltava menos de um ano para cumprir a pena de três e meio de prisão a que fora condenado, José Pedro Soares e os restantes presos foram, por fim, libertados, às primeiras horas do dia 27 de abril, após a libertação dos presos de Caxias.

José Pedro foi para casa, onde "praticamente todas as pessoas da terra" lhe bateram à porta para o saudar.

Durante o dia 27 de abril de 1974, as primeiras horas de liberdade foram dedicadas a dar comícios nas oficinas de material aeronáutico em Alverca, onde trabalhava, antes de ter sido detido, com mais cinco mil trabalhadores.

"Passei por todas as secções da empresa e, sempre que passava, parava tudo e tinha de fazer um comício. A alegria era imensa", lembra à Lusa.

Lusa | em Notícias ao Minuto | Foto: © Wikimedia Commons

 

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A IRLANDA DO NORTE À BEIRA DA GUERRA CIVIL

21 de Abril de 1969. A Irlanda do Norte era dada como estando «à beira da guerra civil». Na semana anterior, a causa dos católicos recebera um poderoso impulso moral por causa da vitória de uma jovem radical de 22 anos chamada Bernardette Devlin na eleição intercalar do círculo de Mid-Ulster, que fora até aí ocupado por um deputado unionista protestante. Fora uma eleição renhidamente disputada com a participação de mais de 91,5% dos eleitores registados*. Bernardette Devlin tornava-se a mais jovem deputada eleita para o Parlamento Britânico, e a sua figura mostrava ter um grande potencial para que ela se transformasse num ícone da causa nacionalista católica irlandesa e da defesa dos direitos civis da comunidade católica da Irlanda do Norte. Como reacção a uma situação política muito tensa e como noticiava o jornal «Tropas britânicas encontravam-se hoje de prevenção para guardar instalações importantes na Irlanda do Norte, após 36 horas de desordens em que mais de 250 pessoas ficaram feridas. Nove dos postos de correio de Belfast, atacados com bombas de gasolina, encontravam-se ainda a arder às primeiras horas da manhã de hoje, e aumentavam os receios nesta cidade de que se registassem mais desordens durante o dia.» A convocação dos militares não pôs fim à crise. Devlin não se tornou na nova Pasionaria da causa nacionalista irlandesa, culpa talvez do seu radicalismo. Mas o titulo da notícia anuncia-se profético porque a Irlanda do Norte iria entrar, a partir de Agosto daquele ano, numa verdadeira guerra civil. As imagens dos anos que se seguiram (estas abaixo são de quatro anos depois, em Abril de 1973), mostram um ambiente de país em que os habitantes dos bairros católicos parecem estar sob ocupação estrangeira.
* Em Portugal só houve uma taxa de participação semelhante nas eleições de 25 de Abril de 1975.

MEMORIAL AOS PRESOS E PERSEGUIDOS POLÍTICOS (1926 - 1974) [II] || INAUGURAÇÃO 25 DE ABRIL 2019

* MEMORIAL AOS PRESOS E PERSEGUIDOS POLÍTICOS (1926 - 1974) *
"HONRA À MEMÓRIA DOS QUE SE BATERAM PELA LIBERDADE"
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INAUGURAÇÃO || 25 DE ABRIL DE 2019 
LISBOA || 14 HORAS || METRO BAIXA - CHIADO 
Primeiros quatro minutos de um filme que poderá ser visto num dos televisores do Memorial [Via Joana Lopes].

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A CRISE ACADÉMICA DE 1969

UMA PERSPECTIVA

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A crise de 69 como qualquer outro movimento social, estudantil ou não, não nasceu do nada nem aconteceu por inspiração de uma iluminada vanguarda de dirigentes. A crise de 69 insere-se antes de mais no movimento associativo estudantil da segunda metade do século XX, cujos contornos e conteúdos foram variando com o tempo e os contextos, desde a luta, em 1956, contra o Decreto-Lei 40 900, muito heterogénea, por força da integração de elementos politicamente muito diferenciados, principalmente pelos reflexos do decreto na secção de futebol da Associação Académica de Coimbra; passando pelas vitórias eleitorais de 1960/61 e 1961/62, que marcaram um tempo novo condizente com a década então iniciada e o afastamento, que se manteve durante toda a década, da direita da direcção da AAC, afastamento que culminou com a crise de 62, a prisão e a expulsão de muitos estudantes de todas as universidades ou apenas da Universidade de Coimbra ou de Lisboa, o encerramento da Associação Académica, até à sua reabertura em 1963, e as vitórias eleitorais de 1963/64 e de 1964/65, que o Governo breve se encarregou de jugular mediante uma repressão sem igual desde a II Guerra Mundial, encerrando por tempo indeterminado a AAC, em 1965, prendendo inúmeros estudantes em Coimbra e em Lisboa, expulsando durante vários anos de todas as universidades dirigentes associativos, mobilizando para o serviço militar centenas de estudantes em todas as universidades e empurrando por essas mesmas razões dezenas de outros para o exílio.

Falar da crise de 69 sem ter em conta história mais próxima do movimento associativo e sem a integrar no contexto sócio-político em que ela própria ocorreu será sempre uma explicação amputada de elementos essenciais à sua compreensão.

Passemos agora ao contexto sócio-político da crise de 69. Três anos tinham passado desde o encerramento da Associação, desde as expulsões dos dirigentes académicos e menos de um ano depois da investidura de Marcello Caetano como Chefe do Governo por incapacidade física de Salazar. Marcello Caetano, um homem do Estado Novo desde a primeira hora, era alguém que Salazar teve quase sempre por perto, principalmente quando dele necessitava ou a correlação de forças no seio do partido único o exigia, quer para contrabalançar certas correntes a que Salazar recusava conceder hegemonia, quer pelo peso dentro da União Nacional dos que, desde a Ordem Nova, sempre se mantiveram fieis a Marcello. Mas nunca foi um homem em quem Salazar confiasse completamente, se é que alguma vez confiou em alguém como seu par, presente ou, hipoteticamente, futuro.

Marcello, por força deste relativo e hábil distanciamento a que Salazar sempre o votou, soube disso tirar excelente partido, deixando que à sua volta se criassem algumas lendas, que rapidamente se desvaneceram pouco depois de se ter visto investido nas responsabilidades políticas de sucessor do velho ditador, mas que enquanto duraram serviram o efeito pretendido.

Em primeiro lugar, a lenda de que era um homem com tendências liberais, muito alimentada por um séquito de ex-alunos devotos que sempre apostaram na ascensão de Marcello ao poder supremo do pais como meio, quanto mais não fosse, de na repartição das benesses do poder algo lhes poder caber – lenda que o próprio Marcello fez questão de manter quando na tomada de posse aludiu a algumas “liberdades que se desejaria ver restauradas”; depois, a ideia de que era um homem com especial sensibilidade para os problemas estudantis – por ter discordado da intervenção da polícia na Universidade de Lisboa em 1962 e se ter demitido do cargo de Reitor; e, finalmente, até sobre a Guerra Colonial corriam rumores, atestados por pessoas merecedoras de todo o crédito, de que Marcello tinha dificuldade em aceitar que a juventude portuguesa continuasse a ser sacrificada numa guerra aparentemente sem solução. E sobre tudo isto, para dar mais credibilidade às lendas, a oposição ostensiva e sem rodeios, logo em 69, que os duros do regime, velhos e jovens (em Coimbra os da Cidadela, por exemplo) lhe moveram por o considerarem um fraco e um sucessor incapaz de garantir a continuidade e a riqueza da herança recebida.

Tudo isto fez com que Marcello Caetano fosse visto, por largos sectores da oposição, como um homem diferente de Salazar de quem algo, por pouco que fosse, haveria a esperar. Estava criado no subconsciente colectivo um novo clima político que o próprio crescimento económico ajudava a credibilizar, apesar de a acção política quotidiana o desmentir. Importante, porém, para as grandes movimentações colectivas não é tanto o que realmente está a acontecer, mas o que as pessoas entendem ou acham o que está a acontecer. É isso que as impulsiona ou não para a acção, é isso que lhes dá ou tira força.

Assim, a chegada de Marcello ao poder deu força e potenciou um profundo descontentamento contra o autoritarismo reinante, a ausência de liberdade e uma forte vontade de viver um tempo semelhante ao que se estava vivendo noutros países. A década de 60, é bom não esquecê-lo, simboliza o apogeu da social-democracia na Europa e até na América e, não obstante, é nesses países – França, Alemanha, Itália, Estados Unidos - que as revoltas estudantis são mais violentas, a contestação ao regime é aparentemente mais profunda e onde os ventos libertários sopram com mais força, sempre apoiados doutrinariamente em revoluções distantes de que verdadeiramente só se conheciam as palavras de ordem!

Assim, o marcelismo, apesar de ser o contrário do que as lendas apregoavam, não deixava de ser também uma caricatura do salazarismo e isso fez com que "almas antes muito aprisionadas” pelo terror da repressão mais facilmente se tivessem libertado e estivessem predispostas a participar numa luta que seguramente não teria, no plano individual e colectivo, como consequência retaliações tão gravosas e violentas como as que em 65 tiveram lugar

A isto acresce, na caracterização do contexto sócio-político reinante, a guerra colonial, a ostracização a que o pais estava internacionalmente votado, o sacrifício sem retorno de gerações de jovens que viam o seu futuro imediato comprometido ou a própria vida, pela participação forçada numa guerra distante, conduzida em condições adversas e que tendia a eternizar-se por ser uma peleja militar sem saída levada a cabo num contexto de um conflito politicamente insolúvel.

Não ter isto em conta na interpretação da crise de 69 ou fazer comparações com o que se passou antes, nomeadamente em 65, num contexto político-social muito diferente, só pode levar a interpretações defeituosas e pouco esclarecedoras do que realmente aconteceu.

Em 65, a repressão exercida sobre os estudantes não teve paralelo com nenhuma outra dessa década. Os estudantes foram impiedosamente expulsos de todas as universidades, foram presos, outros exilaram-se para não serem presos e outros ainda foram compulsivamente incorporados no serviço militar (Janeiro de 65), a meio do curso, contra os procedimentos habituais, em número nunca visto nem antes nem depois.

Igualmente errado será supor, independentemente dos seus méritos, que foi a clarividência política dos dirigente associativos de então – e muitos eram – o sinal distintivo e impulsionador de um movimento de grandes dimensões, concretizado sem medo e em permanente espírito de festa, como tão bem ilustra a banda desenhada do Carlinhos Santarém. Essa é uma ideia redutora que deixa escapar o que de mais genuíno e espontâneo se passou em Coimbra durante cerca de três meses

A crise de 69 aconteceu nessa data e não antes, não por haver dirigentes académicos que souberam conduzir a luta com uma arte política que faltou aos anteriores, mas por as condições serem então muitíssimo diferentes das que antes existiram. Não está em causa o mérito nem o desempenho dos múltiplos dirigentes associativos de 69, nem estas palavras têm em vista contestar a sua actuação junto dos múltiplos sectores do movimento que com eles mais se identificavam, mas apenas inserir essa actuação no verdadeiro contexto da época, no qual a espontaneidade estudantil desempenhou um papel determinante.

Estes dois factores, o marcelismo e a guerra colonial, aliados a um cheiro a Maio 68, é que são as verdadeiras causas do que se passou em 69.

A guerra colonial em 69 já desempenhava um papel muito diferente do que tinha desempenhado antes, tanto junto dos estudantes como da sociedade em geral. Apesar de contestada de início, ou até antes de verdadeiramente começar a sério, no seio do próprio regime, muito por força da oposição americana ao colonialismo português, a guerra colonial adquiriu logo a seguir um generalizado apoio patriótico – “Angola é nossa”, “para África rapidamente e em força”, “só temos de chorar os mortos se os vivos os não merecerem” - foram algumas das muitas palavras de ordem que mobilizaram a sociedade portuguesa e ajudaram a criar uma forte ilusão de generalizado apoio ao Governo e ao regime que tão enfraquecidos haviam saído das eleições presidenciais de 58. Em 69 já se percebia que a vitória militar não passava de uma ilusão, que o conflito político que o regime encerrava no seu próprio ventre era insolúvel, que o colonialismo qualquer que fosse o seu nome ou o seu disfarce não tinha saída e que a recusa da juventude em participar na guerra era uma verdade que o exílio e a emigração de milhares de jovens portugueses diariamente exibiam e confirmavam.

Foi este contexto-sócio político que permitiu que os estudantes tivessem participado em massa no movimento estudantil e tivessem desempenhado um papel dinamizador que obrigou os dirigentes a acompanhá-los nas suas aspirações sob pena de ficarem completamente isolados

Além disto, é preciso também dizer, para não adulterarmos o que se passou, que a crise de 69 é uma espécie de confederação de movimentos, com vários polos dirigentes, e uma grande, enorme, espontaneidade estudantil.

A prova de que no seu subconsciente as pessoas intuíam estar a viver um tempo diferente do que antes conheceram, não está apenas no facto de muitos dos que em 69 participaram na luta, já lá estarem antes, sem participação activa nas lutas académicas dessas épocas, mas principalmente no facto de esta crise ter terminado como se sabe, ou seja, em termos que não têm paralelo com nenhuma outra ocorrida durante o fascismo, sendo necessário recuar até ao século XIX ou ao começo da República para encontrar algo semelhante.

Finalmente, a tentativa de filiar o 25 de Abril na crise académica de Coimbra de 1969 é algo que não faz o menor sentido, não apenas porque o movimento estudantil ficou praticamente circunscrito à universidade e a uma parte da cidade – a mais afectada pela suspensão da Queima das Fitas – sem desempenhar no contexto nacional qualquer papel dinamizador de um movimento social em larga escala, que não existiu, mas também por ser incompreensível para o comum dos mortais a razão de ser do protesto dos estudantes. Lembro a este respeito a confidência que o saudoso Vítor Campos num programa de televisão realizado já muito depois do 25 de Abril sobre a crise académica de 69, a propósito de um episódio ocorrido no Jamor antes de iniciada a final da Taça de Portugal, entre o Benfica e a Académica, em que esta, obedecendo ao luto académico, entrou em campo de luto, tendo esse facto suscitado a perplexidade de um jogador do Benfica (Simões) que antes do jogo se iniciar lhe perguntou; “Ó Vítor, vocês estão de luto por quem?”, tendo este respondido: “No fim do jogo, explico-te”.

Portanto, em vez de se tentar encontrar uma filiação que não existe, mais correcto nos parece dizer que a crise académica de 69 tem a sua génese em causas não muito diferentes das que mais tarde, potenciadas pelo passar dos anos, originaram o 25 de Abril

Certamente que os ganhos de um movimento associativo estudantil bem como das sucessivas crises que factores conjunturais potenciaram não se avaliam, no quadro da luta antifascista, apenas em função dos resultados imediatos alcançados face às reivindicações específicas de cada uma dessas épocas, mas antes pelo efeito geral obtido, nomeadamente o desgaste  da ditadura e pelos efeitos que esse mesmo movimento acaba por deixar nos milhares que nela participaram depois de terem deixado a universidade.

A frequência estudantil de uma qualquer escola, a universidade, por exemplo, é, adaptando as palavras de Heráclito, algo em movimento, permanente, constante, porém nunca a mesma. Assim, mais importante que os efeitos de uma determinada luta para a frequência estudantil dessa escola são os efeitos que dessa mesma luta perduram naqueles que nela participaram. E neste sentido é indiscutível que os efeitos do movimento associativo de 69 se fizeram sentir nos anos subsequentes da ditadura tanto nas diversas actividades profissionais desses licenciados, como nas forças armadas, cá ou África, já que praticamente todos foram mobilizados para o serviço militar e, obviamente, no 25 de Abril.

Por esta específica natureza do movimento estudantil é que as lutas académicas contra a ditadura fascista teriam sempre de ter mais em conta os seus efeitos directos e indirectos  sobre a ditadura do que os resultados académicos alcançados e essa também a razão por que no movimento estudantil perde sentido a preparação de uma luta a longo prazo. Como preparar uma luta a longo prazo com uma população estudantil permanentemente flutuante?

Finalmente, não seria justo nesta evocação dos 50 anos do 17 de Abril não referir aquele que do nosso ponto de vista foi o grande herói do movimento associativo de 69, um herói colectivo, a quem em última análise se deve tudo o que de inovador, espontâneo e inesperado se passou – o Estudante de Coimbra!

De referir também os que individualmente mais se notabilizaram na luta estudantil contra a ditadura fascista, começando pelos que, tendo marcado assinalada presença noutras épocas do movimento associativo, eram ainda estudantes em 1969, como é o caso de José Barros Moura, João Amaral, já falecidos, e Rui Namorado. De referir igualmente o papel importantíssimo desempenhado em 69 por Osvaldo de Castro, Fernanda da Bernarda e Francisco  Sardo, todos falecidos; e depois os nomes incontornáveis de Alberto Martins (que passará à História como o homem que interpelou publicamente Américo Thomaz), Celso Cruzeiro, José Matos Pereira, José Gil, Carlos Baptista e Fernando Catroga, entre tantos outros!

Ver o original em Politeia (clique aqui)

«Crise de 69»: celebrar e compreender

Evocam-se neste Abril cinquenta anos sobre a «Crise Académica de 1969» em Coimbra. Os seus acontecimentos podem ser hoje encarados de três formas diferentes: duas mais voltadas para a celebração, uma terceira ocupada com a compreensão histórica. A primeira contém o testemunho dos que a viveram, retomando com orgulho e nostalgia uma parte memorável das suas vidas e o contributo maior dado à luta pela democracia. A segunda, a ser vista com alguns cuidados, é ocupada com perspetivas parciais ou equívocas, por vezes associadas à manipulação utilitária e institucional da memória. A terceira forma é preenchida por olhares retrospetivos e compreensivos sobre o acontecimento e a sua época.

Perceber a «Crise» requer, em primeiro lugar, conhecer o seu contexto, e não apenas os factos que em Abril de 1969 a projetaram. Desde logo, observando a mudança sociológica do ambiente universitário, onde crescia a presença da classe média e das mulheres. Depois a expansão da cidade, com um timbre cada vez mais cosmopolita e urbano. Crucial foi também a influência política da «abertura marcelista», notória entre 1969 e 1971 (e logo de seguida infletida), com maior flexibilidade da censura e uma moderação provisória nos processos da repressão. Importante também foi a presença de uma cultura política de oposição ao regime, em crescimento desde as eleições de 1958, e de uma diversificação das suas correntes, com uma grande influência política e vivencial do marxismo e do existencialismo. Indispensável também a entrada no meio universitário da atitude hedonista, libertária e inconformista dos anos 60, associada em boa parte à nova cultura juvenil de matriz anglo-saxónica. Para além da importância da vida estudantil pautada por uma cultura de debate, informada e crítica, que em Coimbra incorporava a atividade dos organismos da AAC e envolvia a sociabilidade dos cafés e das repúblicas, enquanto a cultura da «sociedade académica tradicional» tendia a desaparecer.

Em segundo lugar, a evocação da «Crise» alimenta certos mitos, que não resistem a uma abordagem histórica capaz de ultrapassar a volátil e ardilosa memória pessoal. Desde logo, uma falsa ideia de unidade, pois os cerca de 9.500 estudantes distribuíam-se por uma paisagem diversa: muitos de oposição (comunistas, socialistas, católicos progressistas, alguns «contestas», situados mais à esquerda, sobretudo trotskistas e situacionistas, e ainda nacionalistas africanos), alguns de direita ou extrema-direita, e muitos não-ativistas, ou mesmo indiferentes, que rondariam a metade da população estudantil. Deteta-se igualmente uma ideia imperfeita sobre a dinamização do movimento: a Direção da AAC foi importante, sem dúvida, mas foram-no também o Conselho de Repúblicas, a organização estudantil nas faculdades e organismos «conspirativos» de coordenação do movimento ou de intervenção política. É mais verdadeiro dizer que, tendo protagonistas, a «Crise» foi vivida sobretudo em coletivo e de uma forma muito plural. Ao mesmo tempo, é incorreta a ligação habitual entre o Maio de 68 e o episódio de 69, pois a caraterização e as formas do movimento de Coimbra são totalmente diversas, sobretudo no que respeita à cultura organizativa, aos métodos de luta e aos objetivos (os verdadeiros ecos só chegarão por volta de 1971). Importa ainda recordar que a luta contra a Guerra Colonial e pelo derrube do regime não estava inscrita nas palavras de ordem e objetivos do movimento, embora se encontrasse nas preocupações e expectativas de muitos dos que nele participaram.

Em terceiro lugar, a observação compreensiva da «Crise» permite destacar aspetos que a particularizam. Desde logo, recordar que ela entronca num processo de organização da luta estudantil, aberto em 1961 com a eleição da lista democrática presidida por Carlos Candal, e prolongado até ao 25 de Abril, com «picos» próprios em 1962, 1965, 1969 e 1972-73. De notar também o confronto teórico e prático então travado entre os adeptos de um «movimento associativo», mais corporativo ou reivindicativo, e um «movimento estudantil», cada vez mais politizado. A «Crise de 69» representou, de facto, um momento de viragem entre a preponderância do primeiro e a instalação do segundo, com uma radicalização acentuada a partir de 1971-1972 com o endurecimento do regime, a entrada em cena do tema-tabu da guerra e o encerramento compulsivo pela polícia da Associação Académica. Foi devido a esta que em Coimbra a luta estudantil se centrou então ainda mais nas faculdades e na atividade clandestina, com larga influência da União dos Estudantes Comunistas, criada em março de 1972, e de uma extrema-esquerda hiperativa e em crescimento, apoiada sobretudo em organizações maoistas e trotskistas. Neste contexto, aliás, a repressão estudantil foi muito agravada, tornando-se frequente a prisão, a tortura, o julgamento sumário e o envio para a guerra de grande número de ativistas. Elementar ainda para a evolução do movimento foi a presença e o ativismo das mulheres: muito acontecera desde a época da polémica «Carta a uma jovem portuguesa», publicada em 1961, onde se sugeria a simples possibilidade de uma vida associativa para as raparigas, até chegar à centralidade de muitas delas, embora ainda não ao protagonismo, nas vésperas do 25 de Abril. Neste campo, a «Crise» foi importantíssimo momento de viragem.

O movimento de 1969 representou, pois, um momento de viragem na luta estudantil. E um espaço de enorme importância e de ousadia no combate pelo fim da ditadura, tendo abalado o regime caduco do Estado Novo e servido de exemplo para o país. Serviu ainda como uma importante escola de democracia para muitos jovens ativistas, cidadãos e cidadãs, que nas suas peripécias ganharam, para além de uma maior consciência oposicionista, a experiência do jogo democrático. Materializada no comprometimento cívico e político, partidário ou não, que tiveram no pós-25 de Abril.

Eleições na AAC em Fevereiro de 1969. Fotografia de Carlos Valente (Arquivo do CD25Abril)
Publicado no Diário As Beiras de 19/4/2019. Versão ligeiramente revista.

Ver original em 'A Terceira Noite' na seguinte ligação:

http://www.aterceiranoite.org/2019/04/19ise-de-69-celebrar-e-compreender/

NOTÍCIAS TÍPICAS DA ÉPOCA DAS GRANDES CONSPIRAÇÕES

16 de Abril de 1929. A Ditadura Militar ainda não completara três anos de existência e o governo era presidido pelo coronel Vicente de Freitas. A opinião pública ainda não se desabituara das grandes conspirações seguidas de furtivas movimentações de tropas que precipitavam mais uma permuta dos figurantes no poder. E os jornais compraziam-se em alimentar essa opinião pública com os relatos de tudo o que, mesmo vagamente, o evocasse. Assim acontecia com esta edição do Diário de Lisboa de há precisamente noventa anos que, sob o título de Ordem Pública, puxava para título as declarações do tenente-coronel (Ernesto Durval) Pestana Lopes, assegurando que não prendera nenhum general. Compreenda-se a importância do esclarecimento: se a conspiração tivesse envolvido um general, a "coisa" havia sido mais séria... Mas não, embora haja que reconhecer que as Polícias tinham andado activas ao longo do dia, publicando nada menos que três notas a propósito:
A primeira nota refere-se um boato segundo o qual o sr. tenente-coronel Pestana Lopes, director das Polícias, ia ser nomeado governador de Macau. Declara a Polícia: que o lugar nem está vago, nem tem probabilidades de vagar; que ainda que se desse a vaga, era quase certo que o sr. tenente-coronel não fosse convidado; e que ainda que o convite fosse feito, não o aceitaria.
A segunda nota alude aos boatos referentes a uma conspiração monárquica, e está redigida nos termos seguintes: «Correndo o boato, evidentemente no intuito de desnortear a opinião sinceramente republicana de que há elementos monárquicos que activamente conspiram no intuito do restabelecimento do regime deposto, o Governo desmente categoricamente tal boato, pois nada consta a esse respeito na Polícia de Informações. Mas ainda que tal boato fosse verdadeiro, nenhum receio poderia haver, porquanto o Governo, apoiado no Exército e na Marinha, garante que combaterá intransigentemente qualquer movimento de carácter político, seja qual for a cor da bandeira que pretendam arvorar.» (...)
A terceira nota é a que se refere a uma conspiração que a Polícia de Informações descobriu e inutilizou. E por isso merece ser transcrita na íntegra: «A Polícia de Informações do ministério do Interior tem nestes últimos dias efectuado muitas prisões, entre elas a do engenheiro António Maria da Silva, o qual se acha seriamente comprometido num movimento revolucionário que esta polícia acaba de inutilizar por completo. O sr. dr. Daniel Rodrigues, que a polícia pretendeu prender na sua residência e na Caixa Geral de Depósitos, evadiu-se, bem como o sr. dr. Domingos Pereira, andando a mesma polícia em sua perseguição.» (...)
Afinal, o conteúdo da notícia desmentia a sugestão do seu título, e a inexistência de um general era apenas uma mera questão de (falta de) requinte entre as conspirações em curso... Vê-se por aqui que, a técnica de enfatizar o desmentido do acessório, para não corroborar o essencial, é antiga como o caraças! De Pestana Lopes, que aqui se percebe ser um dos pilares do regime (e que, por isso, a outra facção de regime queria mandar para Macau), consta que era um dos mais pertinazes inimigos de Salazar, que já era então ministro das Finanças. Mas essa é toda uma outra história...

 

Veja o original em 'Herdeiro de Aécio' na seguinte ligação::

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APRESENTAÇÃO de “A NOITE QUE MUDOU A REVOLUÇÃO DE ABRIL – A Assembleia Militar de 11 de Março de 1975” – coordenação de CARLOS DE ALMEIDA CONTREIRAS – SEGUNDA-FEIRA, 22 de ABRIL, às 18 horas, na ASSOCIAÇÃO 25 de ABRIL, Rua da MISERICÓRDIA, 95, LISBOA.

A CARTA DE FRANKLIN ROOSEVELT PARA ADOLF HITLER

14 de Abril de 1939. Por causa da tensão internacional, o presidente norte-americano envia uma carta de 7 páginas ao chanceler alemão. A História demonstrou o quanto a iniciativa de apaziguamento se revelou infrutífera. Mais do que isso e como se pode ver no video depois da carta, Adolf Hitler aproveitou-se da carta para, para além de recusar a proposta, fazer troça pública e ostensivamente do gesto de Franklin Roosevelt.
Sua Excelência Adolf Hitler
Chanceler do Reich Alemão
Berlim (Alemanha)
Com certeza que se apercebeu que, por todo o Mundo, centenas de milhões de seres humanos vivem hoje no receio constante de uma nova guerra ou mesmo de uma série de guerras.
A existência deste receio – e a possibilidade desse conflito – são uma preocupação do povo dos Estados Unidos em nome do qual falo, tal como a devem ser a dos povos de outras Nações de todo o Hemisfério Ocidental. Todos eles sabem que qualquer grande guerra, mesmo que se cinja a outros continentes, repercutir-se-á sobre eles, quer durante a sua existência, quer em consequências para as gerações vindouras.
Por causa do facto de, após as tensões agudas que o Mundo viveu nas últimas semanas, parecer existir agora um momento de relaxe – não existem movimentações de tropas em curso – este será momento oportuno para eu lhe enviar esta mensagem.
Em ocasião prévia, dirigi-me a si em defesa da resolução dos problemas políticos, económicos e sociais por métodos pacíficos e sem o recurso às armas.
Mas a evolução dos acontecimentos parece ter feito regressar a ameaça das armas. Se a ameaça persistir, parece inevitável que uma boa parte do Mundo caminhará para uma ruína comum. Todo o Mundo, Nações vencedoras e vencidas e neutrais, sofrerão. Recuso-me a acreditar que o Mundo esteja, necessariamente, preso a esse destino. Pelo contrário, parece-me claro que os líderes das grandes Nações têm o poder de libertar os seus povos de um desastre quando se parece impor. É igualmente claro que, no seu próprio íntimo, os próprios povos aspiram a que desapareçam os seus medos.
Todavia, é infelizmente necessário tomar em consideração os factos recentes.
Três Nações da Europa e uma de África viram a sua existência como países independentes terminada. Um vasto território de uma outra Nação independente no Extremo Oriente é ocupado por um Estado vizinho. Relatos, que confiamos não sejam verdadeiros, apontam para que outros actos de agressão se prevêem ainda contra outras Nações independentes. É claro que o Mundo se encaminha para um momento de desfecho catastrófico a não ser que se encontre uma maneira mais racional de conduzir os acontecimentos.
O senhor tem afirmado repetidamente que o senhor e o povo alemão não deseja a guerra. Se isso for verdade, não há necessidade que haja qualquer guerra.
Não há nada que possa persuadir os povos da Terra que qualquer governo tem o direito ou a necessidade de infligir as consequências de uma guerra no seu ou noutro povo com excepção da óbvia situação de auto-defesa.
Ao afirmar isto, nós, Americanos, dizemo-lo sem ser por egoísmo ou medo ou fraqueza. Se o fazemos agora é empregando a voz da força e da amizade pela Humanidade. Continua a ser para mim claro que os problemas internacionais podem ser resolvidos à mesa das negociações.
Não é por isso argumento em prol da discussão pacífica que um das partes assuma que, a não ser que receba garantias prévias que o desfecho seja a seu contento, não deporá as suas armas. Nas mesas de negociações, como nos tribunais, é necessário que as duas partes participem na discussão de boa fé, assumindo que haverá vantagens recíprocas; e é costume e necessário que as armas sejam deixadas à porta do local das negociações.
Estou convencido que a causa da Paz Mundial receberia um grande reforço se as Nações de todo o Mundo recebessem uma declaração franca sobre as políticas actuais e futuras dos Governos.
Porque os Estados Unidos, como uma das Nações do Hemisfério Ocidental, não está envolvido directamente nas controvérsias que apareceram na Europa, confio que o senhor esteja disposto a me fazer uma declaração desse teor, como chefe de uma Nação bem afastada da Europa, para que eu possa, agindo unicamente com as responsabilidades e obrigações de um intermediário amistoso, possa transmitir essa declaração a outras Nações por ora apreensivas com o curso que a política do seu Governo possa vir a tomar.
Está na disposição de assegurar que as suas forças armadas não atacarão ou invadirão o território ou as possessões das seguintes Nações independentes: Finlândia, Estónia, Letónia, Lituânia, Suécia, Noruega, Dinamarca, Países Baixos, Bélgica, Grão Bretanha e Irlanda, França, Portugal, Espanha, Suíça, Liechtenstein, Luxemburgo, Polónia, Hungria, Roménia, Jugoslávia, Rússia, Bulgária, Grécia, Turquia, Iraque, as Arábias, Síria, Palestina, Egipto e Irão?
Essa garantia teria que claramente se aplicar não apenas ao momento presente como também a um futuro suficientemente distante para criar a oportunidade para trabalhar por métodos pacíficos para uma Paz mais duradoura. Sugiro por isso que a aplicação da palavra “futuro” seja entendida para um período mínimo de não-agressão assegurada de dez anos, até a um quarto de século, se nos atrevermos a pensar a tal distância prospectiva.
Se uma tal garantia for dada pelos seu Governo, eu transmiti-la-ei de imediato aos Governos das Nações que acima mencionei e questionarei de imediato, como estou razoavelmente seguro que acontecerá, se cada uma daquelas Nações estará disposta a dar-lhe a mesma garantia, reciprocamente.
Será o tipo de gesto que trará um alívio imediato a todo o Mundo.
Proponho que, a acontecer, dois problemas essenciais venham a ser discutidos no ambiente distendido resultante, e nessas discussões o Governo dos Estados Unidos terá muito gosto em participar.
As discussões a que me refiro relacionam-se com a forma mais imediata e efectiva para que os povos do Mundo se possam aliviar do fardo do rearmamento que está progressivamente a levá-los para um desastre económico. Em simultâneo, o Governo dos Estados Unidos estaria preparado para tomar parte em discussões para uma forma mais prática de criar vias mais amplas para o comércio internacional, com o objectivo de que todas as Nações do Mundo possam ser capazes de comprar e vender no mercado mundial assim como assegurarem os meios de obterem os materiais e produtos para uma vida económica pacífica.
Ao mesmo tempo, aqueles outros Governos para além do dos Estados Unidos e que estejam directamente interessados podiam desenvolver as suas próprias discussões políticas no que respeita aquilo que considerassem necessário e conveniente.
Reconhecemos os problemas complexos do Mundo que afectam toda a Humanidade, mas sabemos que o estudo e a discussão dos mesmos se deve realizar num ambiente de Paz. O Ambiente de Paz não pode existir se as negociações forem eclipsadas pela ameaça da força ou o receio da guerra.
Creio que não interpretará mal o espírito de franqueza desta missiva. Os chefes dos grandes Governos nesta hora crucial são literalmente responsáveis pelo destino da Humanidade nos anos mais próximos. Não podem falhar na audição das orações dos seus povos para que se protejam do previsível caos da guerra. A História os tornará responsáveis pela vida e felicidade de todos, até aos mais humildes.
Espero que a sua resposta faça com que seja possível que a Humanidade perca o medo r recupere a segurança por muitos anos.
Uma mensagem similar foi endereçada ao Chefe do Governo Italiano.
Franklin. D. Roosevelt
Porque é importante hoje em dia, invocar a carta e ver o vídeo da resposta de Hitler? Para constatar o quanto os protagonistas da situação internacional podem mudar tanto em oitenta anos: se pensarmos numa política externa vocacionada para o bullyinge o fanfarronismo, pensamos de imediato no actual sucessor de Roosevelt, Donald J. Trump; mas se pensarmos numa figura prestigiada e ponderada da cena internacional, uma das figuras que mais facilmente nos ocorre será a longínqua sucessora de Hitler, Angela Merkel...

 

Veja o original em 'Herdeiro de Aécio' na seguinte ligação::

http://herdeirodeaecio.blogspot.com/2019/04/a-carta-de-franklin-roosevelt-para.html

Ramiro Moreira – o operacional das execuções de políticos de esquerda

Poucos recordam um temível vingador que assassinou portugueses de esquerda, especialmente militantes do PCP.

Não se pode dizer que matou apenas quando as posições se extremaram, continuou a fazê-lo depois de estabilizada a democracia, gratuitamente, apenas por vingança contra a esquerda, com a ajuda da Igreja. Só se negou a pôr uma bomba em Fátima, um desejo dos seus correligionários, para acusarem do crime os comunistas, suspeitos do costume.

Não lhe faltaram, depois, apoios e empregos bem remunerados. Ficaram na sombra os cúmplices e foi premiado o executor.

É de salientar que Sá Carneiro obrigou Ramiro Moreira, o militante número 7, a sair do PSD, depois de ter sabido dos seus crimes. Ou saía por si ou seria expulso. Não quis um assassino no PSD.

Cavaco e Passos Coelho teriam tomado igual atitude? Sá Carneiro era igual.

Mais uma vez, exumo dos textos, que escrevi ao longo dos anos, este cadáver da direita que há de andar por aí a gozar a reforma dourada do emprego em Espanha e, depois, em Portugal.

Para que a memória não se perca.

 

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Delgado foi como Assange: escondido numa embaixada para fugir às autoridades

Uma criada soprou ao general que a PIDE o queria prender. Humberto Delgado pediu de imediato ajuda ao embaixador do Brasil em Lisboa para o acolher e assim poder continuar a sua luta contra o regime de Salazar. O neto do general, Frederico Delgado Rosa, autor de “Humberto Delgado. Biografia do General Sem Medo”, deixa ao Expresso um depoimento sobre esses dias do seu avô
Quando se fala no “caso Delgado” pensa-se logo no assassinato de Humberto Delgado pela PIDE em 1965, mas no ano de 1959 houve outro “caso Delgado” que foi justamente o asilo de Humberto Delgado na embaixada do Brasil em Lisboa.
Tudo começou porque chegou-lhe a informação de que a PIDE o ia apanhar através de uma criada que ouvira isso da boca de uma figura da polícia política. Ao saber disso, ele reuniu-se com os seus correlegionários e com a família também. Assim, na iminência de se ver preso pela PIDE - o que estava completamente fora de aceitação pela sua parte, porque ele queria continuar o combate contra o regime de Salazar e a respetiva revolta armada -, pediu asilo ao embaixador Álvaro Lins, uma grande figura da história do Brasil e também da literatura brasileira, e foi acolhido de imediato na sua residência.

Curiosamente, a embaixada ficava justamente ao lado da sede da PIDE, na rua António Maria Cardoso, em Lisboa. É extremamente irónico que o perseguido pela PIDE ficasse tão perto da própria sede da PIDE. E, aliás, a embaixatriz Heloísa Lins cedo lhe relatou que ouvia durante a noite os gritos dos torturados pela PIDE e que se queixara disso às autoridades mas nunca obtivera resposta. A única que lhe tinham dado é que ela estava equivocada e que esses barulhos eram dos elétricos a chiarem nas calhas e, portanto, não eram gritos humanos...


Durante esses meses em que esteve refugiado na embaixada do Brasil, em Lisboa, Humberto Delgado era diariamente visitado pela sua mulher e pelas suas filhas, que tinham obrigatoriamente de passar ao lado da PIDE. E esse jogo de gato e do rato, de pressão psicológica de ter de estar a passar diariamente ao lado da PIDE e dos seus esbirros, teve, claro, uma componente pessoal bastante forte. Como se eles [da PIDE] estivessem sempre a dizer “isto está por dias para nós o apanharmos”.

Foi um braço de ferro muito grande entre janeiro e abril de 1959, porque obviamente que o regime de Salazar fazia de tudo para ele sair da embaixada sem passar a imagem de que era um perseguido político. Claro que Humberto Delgado não queria sair da embaixada se não fosse com as garantias de que a seguir ia para o Brasil. O regime tentou de tudo para demonstrar que não o perseguia e que ele não corria qualquer perigo.

No decurso desses três meses aconteceu a famosa mas malograda revolta da Sé - as pessoas esquecem-se que foi uma tentativa de ‘golpe delgadista’ contra o regime encabeçada por oficiais e civis em contacto com Humberto Delgado. Mas infelizmente essa revolta não prosseguiu porque houve fugas de informação e um controlo tão apertado sobre os oficiais envolvidos que impossibilitou qualquer hipótese de poder avançar.

Com os holofotes do mundo sobre este caso de Humberto Delgado, levou muito tempo até se encontrar uma solução entre os dois países. Acabou por se solucionar através da intervenção do jornalista brasileiro João Dantas, diretor do Diário de Notícias do Rio de Janeiro, que veio a Portugal e serviu de intermediário entre as duas nações.

Para a situação ser resolvida sem ser o embaixador a levar Humberto Delgado debaixo do seu braço até o aeroporto, digamos que foi o João Dantes que assumiu essa responsabilidade pela calada da noite. E assim Humberto Delgado partiu para o Brasil, onde aterrou no dia do Tiradentes, um feriado nacional celebrado a 21 de abril.

Na verdade, o embaixador Álvaro Lins agiu por sua conta e soube lidar com este impasse diplomático porque o Presidente do Brasil [Juscelino Kubitschek] não queria ficar de mal com o Portugal de Salazar.

O meu avô ficou eternamente grato ao embaixador Álvaro Lins e à sua esposa Heloísa. Humberto Delgado viveu exilado no Brasil entre 1959 e 1964. E foram anos sem dúvida complicados porque ele continuou a preparar ações revolucionárias contra o regime português que culminaram na revolta de Beja, que foi igualmente malograda na passagem de ano de 1961 para 1962. Isto passou-se no rescaldo da sua entrada clandestina em Portugal: entrou e saiu do país e a PIDE carimbou-lhe o passaporte, ou seja, a polícia que o queria prender permitiu que ele entrasse e saísse do país. Este facto ridicularizou o regime aos olhos do mundo.
Expresso | Frederico Delgado Rosa (depoimento recolhido por Bernardo Mendonça

 

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https://paginaglobal.blogspot.com/2019/04/portugal-quando-delgado-foi-como.html

A EUROPA DE PREVENÇÃO

Há oitenta anos e na sequência da invasão italiana da Albânia, as notícias eram que os exércitos de toda a Europa haviam entrado de prevenção, atitude acompanhada de proclamações destinadas a auditores específicos. Note-se a página abaixo do Diário de Lisboa de 10 de Abril de 1939, em que as curiosidades maiores são a ausência de referências à Alemanha entre os países mencionados, ao mesmo tempo que o destaque principia em países que lhe são fronteiriços e que se sentirão mais directamente ameaçados por essa mesma Alemanha, como serão os casos da Holanda e da Suíça. Sem se nomear expressamente qualquer país, percebia-se claramente de onde seriam de esperar as perturbações ao status quo internacional.

 

Veja o original em 'Herdeiro de Aécio' na seguinte ligação::

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31 de março de 1964 – uma história encharcada de sangue

Nada há a comemorar em 31 de março, mas é preciso lembrar o sacrifício de democratas, patriotas e progressistas, para que nunca mais se repita.

No dia 31 de março, os democratas, patriotas e progressistas não tem o que comemorar, mas muito a lembrar, em termos de ataques à democracia, direitos humanos e soberania nacional. Na verdade, até mesmo em sua comemoração do golpe que levou os generais ao poder, a ditadura mentiu para o país – a ação militar contra Goulart começou na madrugada de 31 de março, tomou corpo no dia 1º de abril e depôs o presidente no dia 2 de abril. Mas o dia 1º de abril é, mundialmente, o dia da mentira…

A pretensão do capitão-presidente Jair Bolsonaro de voltar a comemorar a data do golpe de estado de 1964 despertou forte resistência de vários setores democráticos, no judiciário, no Ministério Público Federal e entre centenas de juristas. Em nota divulgada nesta terça-feira (26) a Procuradoria Federal dos Direitos Cidadão (ligada ao Ministério Público Federal) classificou a pretensão de Bolsonaro como crime de responsabilidade.

“O apoio de um presidente da República ou altas autoridades [à comemoração do golpe de 1964 – nota da Redação] seria, também, crime de responsabilidade (artigo 85 da Constituição, e Lei n° 1.079, de 1950). As alegadas motivações do golpe – de acirrada disputa narrativa – são absolutamente irrelevantes para justificar o movimento de derrubada inconstitucional de um governo democrático, em qualquer hipótese e contexto”,

diz a nota. 
Stuart Angel

Não há o que comemorar, mas há tantos heróis a lembrar! Carlos Lamarca, Carlos Marighela, Maurício Grabois e as dezenas de moças e rapazes que lutaram no Araguaia, Pedro Pomar e os que foram assassinados na Chacina da Lapa, Davi Capistrano e seus companheiros de direção do PCB, mortos de maneira sistemática pela repressão. Há os que foram simplesmente esmagados sob a tortura, como Carlos Nicolau Danielli (em 30 de dezembro de 1972, aos 44 anos de idade), Wladimir Herzog, em 25 de outubro de 1975 (tinha 38 anos), ou Manoel Fiel Filho (em 17 de janeiro de 1976, aos 49 anos).

Há vários símbolos da luta democrática contra a ditadura militar de 1964. Um deles é a história do revolucionário Stuart Angel, que militava no Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR8). Ele foi preso e torturado na Base Aérea do Galeão (Rio de Janeiro), sendo assassinado em circunstâncias particularmente bárbaras, em 14 de junho de 1971 (tinha somente 25 anos): teve a boca amarrada ao escapamento de um jipe militar e foi arrastado pelo pátio, morrendo em consequência.

Sua esposa, Sônia de Moraes Angel, militante da Aliança Libertadora Nacional (ALN), foi presa, torturada e assassinada a tiros no DOI/CODI de São Paulo, em 30 de novembro de 1973 – tinha 27 anos de idade. 

Se eu aparecer morta, por acidente ou outro meio, terá sido obra dos assassinos do meu amado filho”

Zuzu Angel

E sua mãe, a estilista Zuzu Angel, enfrentou, corajosamente, a ditadura exigindo a devolução do corpo de seu filho, dado como desaparecido. Ela foi assassinada num acidente de carro no Rio de Janeiro, em 14 de abril de 1976 (tinha 54 anos de idade), certamente cometido por agentes da repressão: alguns dias antes, ela deixara com o compositor Chico Buarque de Hollanda um bilhete para ser divulgado se algo acontecesse a ela, onde dizia: “Se eu aparecer morta, por acidente ou outro meio, terá sido obra dos assassinos do meu amado filho”. Chico Buarque a homenageou numa canção que lembra a luta das mulheres contra a ferocidade assassina da ditadura, “Angélica”, onde cantou:

Angélica

Quem é essa mulher
Que canta sempre esse lamento?
Só queria lembrar o tormento
Que fez o meu filho suspirar”.

Chico Buarque

A Comissão Nacional da Verdade (CNV), que desde 16 de maio de 2012 investigou os crimes da ditadura, contabilizou 434 assassinatos e desaparecimentos de militantes que se opunham à ditadura. Mas a Comissão alerta que este número pode ser muito maior pois só inclui aqueles sobre os quais há alguma informação. Deixa de fora, por exemplo, a ação da repressão contra camponeses. A Comissão de Mortos e Desaparecidos e a Comissão de Anistia supõem que o número de vítimas da repressão no campo seja superior a 1196. 

A história da repressão da ditadura de 1964 está encharcada de sangue. O número de suas vítimas é enorme. Aquilo que mais fortemente se recorda sobre a ditadura é o sangue derramado por democratas, patriotas e progressistas. Havia uma política de Estado de extermínio físico de opositores, que partia do centro da ditadura, a presidência da República.

O general Ernesto Geisel, que ocupou a presidência da República entre 1974 e 1979, admitiu essa barbaridade numa entrevista publicada no livro “Ernesto Geisel”, de 1999, organizado pelos historiadores Maria Celina de Araújo e Celso Castro. Nela, ele admite o assassinato de opositores políticos. O problema para ele não era a existência da repressão nem a tortura e a violação dos direitos humanos. Um exemplo são suas instruções ao general Dilermando (que era comandante do então II Exército, em São Paulo) sobre as ações que resultaram na Chacina da Lapa contra o PCdoB, em 16 de dezembro de 1976. Ele o orientou para que evitasse “excessos. Se ele tivesse que montar alguma operação armada, uma operação contra comunistas atuantes, que analisasse adequadamente, para verificar se tinha fundamento. Evidentemente, eu não ia tolher sua liberdade de ação.” E comentou a versão de Dilermando dizendo:

“Sempre se procurou acompanhar e conhecer o que o Partido [Comunista do Brasil] fazia, qual era a sua ação, como ele se conduzia, o que estava produzindo, qual era seu grau de periculosidade”.

E prosseguiu:

“o Dilermando, já no comando do II Exército, atuou em São Paulo sobre uma grande reunião dos chefes comunistas. A questão não era mais a força que eles tinham, mas não podíamos deixar o comunismo recrudescer. Fizemos tudo para evitar um recrudescimento das ações comunistas.” 

Chacina da Lapa

A política de extermínio físico dos opositores ficou demonstrada mais uma vez com a publicação, em maio de 2018, de um documento do serviço de espionagem dos EUA, a CIA, que relata uma reunião, no Palácio do Planalto, logo no início do governo Geisel (o memorando é de 11 de abril de 1974) da qual participaram Geisel e os generais João Figueiredo (que viria a ser o sucessor de Geisel na presidência), Milton Tavares de Souza e Confúcio Dantas de Paula Avelino. Nela, o general Ernesto Geisel, então presidente da República, fora informado do assassínio de 104 opositores da ditadura no governo anterior, com autorização de seu antecessor, o general Emílio Garrastazu Médici. E Geisel autorizou que se continuasse com aquela política oficial de extermínio de “subversivos”. 

A história da ditadura de 1964 é um longo relato de desprezo à democracia, desrespeito aos direitos humanos, proibição da liberdade de pensamento e expressão, censura aos meios de comunicação, contra a liberdade de ação e organização dos trabalhadores e sindicatos, repressão à liberdade de organização partidária. Do Brasil alinhado, de maneira automática e subordinada às exigências dos EUA a pretexto de, como queria o ideólogo da ditadura, o general Golbery do Couto e Silva, não cair na esfera da influência comunista sinalizada pela União Soviética e pela China Popular.

Os brasileiros não podem esquecer os crimes contra a democracia, a soberania nacional e os direitos humanos cometidos pela ditadura militar de 1964. 

Um levantamento feito pelo professor Fernando Altmeyer, da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), com base, entre outras fontes, em dados da Comissão Nacional da Verdade e do livro Brasil, Nunca Mais, traz números impressionantes. Assegura que 500.000 pessoas foram investigadas, 200.000 presas (50.000 nos meses iniciais da ditadura, entre março e agosto de 1964). Houve 11.000 acusados em julgamentos de auditorias militares, sendo 5.000 condenados. Relaciona 10.000 torturados somente no DOI-CODI de São Paulo – que entre 1970 e 1974 foi comandado pelo coronel torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, homenageado publicamente por Bolsonaro – entre as quais 40 crianças presas e torturadas. Cita também 8.300 vítimas indígenas, 1.196 camponeses atingidos pela repressão; 10.000 pessoas exiladas. Houve a cassação de 4.882 mandatos eletivos; 1.202 sindicatos sofreram intervenção; 248 estudantes foram expulsos de universidades com base no decreto 477; 128 brasileiros e 2 estrangeiros foram banidos; 49 juízes foram expurgados (três foram do Supremo Tribunal Federal).

No dia 31 de março não há nada a comemorar, mas é preciso refrescar a memória dos brasileiros.


Texto em português do Brasil


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/31-de-marco-de-1964-uma-historia-encharcada-de-sangue/

As três ignorâncias contra a democracia

(Boaventura Sousa Santos, in Outras Palavras, 15/03/2019)

Escrevi há muito que qualquer sistema de conhecimentos é igualmente um sistema de desconhecimentos. Para onde quer que se orientem os objetivos, os instrumentos e as metodologias para conhecer uma dada realidade, nunca se conhece tudo a respeito dela e fica igualmente por conhecer qualquer outra realidade distinta da que tivemos por objetivo conhecer. Por isso, e como bem viu Nicolau de Cusa, quanto mais sabemos mais sabemos que não sabemos. Mas mesmo o conhecimento que temos da realidade que julgamos conhecer não é o único existente e pode rivalizar com muitos outros, eventualmente mais correntes ou difundidos. Dois exemplos ajudam. Numa escola diversa em termos étnico-culturais, o professor ensina que a terra urbana ou rural é um bem imóvel que pertence ao seu proprietário e que este, em geral, pode dispor dela como quiser.

Uma jovem indígena levanta o braço, perplexa, e exclama: “professor, na minha comunidade a terra não nos pertence, nós é que pertencemos à terra”. Para esta jovem, a terra é Mãe Terra, fonte de vida, origem de tudo o que somos. É, por isso, indisponível. Durante um processo eleitoral numa dada circunscrição de uma cidade europeia, onde é majoritária a população roma (vulgo, cigana), as seções de voto identificam individualmente os eleitores recenseados. No dia das eleições, a comunidade roma apresenta-se em bloco nos lugares de votação reivindicando que o seu voto é coletivo porque coletiva foi a deliberação de votar num certo sentido ou candidato. Para os roma não existem vontades políticas individuais autônomas em relação às do clã ou família. Estes dois exemplos mostram que estamos em presença de duas concepções de natureza (e propriedade), num caso, e de duas concepções de democracia, no outro.

O primeiro modo de produção de ignorância (chamemos-lhe Modo 1) reside precisamente em atribuir exclusivamente a um modo de conhecimento o monopólio do conhecimento verdadeiro e rigoroso e desprezar todos os outros como variantes de ignorância, quer se trate de opiniões subjetivas, superstições ou atavismos. Este modo de produção de ignorância continua a ser o mais importante, sobretudo desde que a cultura eurocêntrica (um certo entendimento dela) tomou contato aprofundado com culturas extra-europeias, especialmente a partir da expansão colonial moderna. A partir do século XVII, a ciência moderna consolidou-se como tendo o monopólio do conhecimento rigoroso. Tudo o que está para além ou fora dele é ignorância. Não é este o lugar para voltar a um tema que tanto me tem ocupado. Direi apenas que o Modo 1produz um tipo de ignorância: a ignorância arrogante, a ignorância de quem não sabe que há outros modos de conhecimento com outros critérios de rigor e tem poder para impor a sua ignorância como a única verdade.

O segundo modo de produção de ignorância (Modo 2) consiste na produção coletiva de amnésia, de esquecimento. Este modo de produção tem sido frequentemente ativado nos últimos cinquenta anos, sobretudo em países que passaram por longos períodos de conflito social violento. Esses conflitos tiveram causas profundas: gravíssima desigualdade socioeconômica; apartheid baseado em discriminação étnico-racial, cultural, religiosa; concentração de terra e consequente luta pela reforma agrária; reivindicação do direito à autodeterminação de territórios ancestrais ou com forte identidade social e cultural, etc. Estes conflitos, que muitas vezes se traduziriam em guerras prolongadas, civis ou outras, produziram milhões de vítimas – entre mortos, desaparecidos, exilados e internamente deslocados. Para além das partes em conflito, houve sempre outros atores internacionais presentes e interessados no desenrolar do conflito; a sua intervenção tanto conduziu ao agravamento do conflito como (menos frequentemente) ao seu término. Em alguns poucos casos houve um vencedor e um vencido inequívocos. Foi esse o caso do conflito entre o nazismo e os países democráticos. Na maioria dos casos, porém, tende a ser questionável se houve ou não vencedores e vencidos, sobretudo quando a parte supostamente vencida impôs condições mais ou menos drásticas para aceitar o fim do conflito (veja-se o caso da ditadura brasileira que dominou o país entre 1964 e 1985).

Em ambos os casos, terminado o conflito, inicia-se o pós-conflito, um período que visa reconstruir o país e consolidar a paz. Nesse processo participam com destaque as comissões de verdade, justiça e reconciliação, muitas vezes como componentes de um sistema mais amplo que inclui a justiça transicional e a identificação e apoio às vítimas. São disso exemplo a Coreia do Sul, Argentina, Guatemala, África do Sul, ex-Iugoslávia, Timor-Leste, Peru, Ruanda, Serra Leoa, Colômbia, Chile, Guatemala, Brasil. Na maioria dos processos pós-conflito, forças diferentes militaram por razões diferentes para que a verdade não fosse plenamente conhecida. Quer porque a verdade era demasiado dolorosa, quer porque obrigaria a uma profunda mudança do sistema econômico ou político (desde a redistribuição de terra ao reconhecimento da autonomia territorial e a um novo sistema jurídico-administrativo e político). Por qualquer destas razões, preferiu-se a paz (podre?) à justiça, a amnésia e o esquecimento à memória, à história e à dignidade. Assim se produziu uma ignorância indolente.

Modo 3 de produção de ignorância consiste na produção ativa e consciente de ignorância por via da produção massiva de conhecimentos de cuja falsidade os produtores estão plenamente conscientes.Modo 3 produz conhecimento falso para bloquear a emergência do conhecimento verdadeiro a partir do qual seria possível superar a ignorância. É este o domínio das fake news. Ao contrário dos Modos 1 e 2, a ignorância não é aqui um subproduto da produção. É o produto principal e a sua razão de ser. Os exemplos, infelizmente, não faltam: a negação do aquecimento global; os imigrantes e refugiados como agentes de crime organizado e ameaça à segurança da Europa ou dos EUA; a distribuição de armas à população civil como o melhor meio de combater a criminalidade; as políticas de proteção social das classes mais vulneráveis como forma de comunismo; a conspiração gay para destruir os bons costumes; a Venezuela ou Cuba como ameaças à segurança dos EUA; etc., etc.

Os três modos de produção produzem três tipos diferentes de ignorância, estão articulados e acarretam consequências distintas para a democracias. O Modo 1 produz uma ignorância arrogante, abissal, que é simultaneamente radical e invisível na medida em que o monopólio do conhecimento dominante é generalizadamente aceito. As verdades que não cabem na verdade monopolista não existem e tão-pouco existem as populações que as subscrevem. Abre-se assim um campo imenso para a sociologia das ausências. Foi por isso que o genocídio dos povos indígenas e o epistemicídio dos seus conhecimentos (passe o pleonasmo) andaram de mãos dadas. O Modo 2 produz a ignorância indolente que se satisfaz superficialmente e que, por isso, permanece como ferida que arde sem se ver. É a ignorância-frustração que sucede à verdade-expectativa. Uma ignorância que bloqueia uma possibilidade e uma oportunidade emancipadoras que estiveram próximas, que eram realistas e, que, além disso, eram merecidas, pelo menos na opinião de vastos setores da população. Esta ignorância sugere uma sociologia das emergências, da emergência de uma sociedade que se afirma reconciliada consigo mesma, com base em justiça social, histórica, étnico-cultural, sexual. O Modo 3 cria uma ignorância malévola, corrosiva e, tal como um cancro, dificilmente controlável, na medida em que as redes sociais têm um papel crucial na sua proliferação. Esta ignorância está para além da ausência e da emergência. Esta ignorância é a prefiguração da estase, a imobilidade que estrutura a vertigem do tempo imediato.

Os três modos de produção e as respectivas ignorâncias que produzem não existem na sociedade de modo isolado. Articulam-se e potenciam-se por via das articulações que os tornam mais eficazes. Assim, a ignorância arrogante produzida pelo Modo 1 (monopólio da verdade) facilita paradoxalmente a proliferação da arrogância malévola produzida pelo Modo 3 (falsidade como verdade alternativa).

É que uma sociedade saturada pela fé no monopólio da verdade científica torna-se mais vulnerável a qualquer falsidade que se apresente como verdade alternativa usando os mesmos mecanismos da fé.

Por sua vez, a ignorância indolente produzida pelo Modo 2(amnésia, esquecimento) desarma vastos setores da população para combater a ignorância produzida quer pelo Modo 1, quer pelo Modo 3.

A ignorância arrogante é uma das principais causas da ignorância indolente, ou seja, da facilidade com que se esquece, normaliza e banaliza um passado de morte de inocentes, de sofrimento injusto, de pilhagens convertidas em exercícios de propriedade, de corpos de mulheres e de crianças violentados como objetos de guerra. Quando a ignorância arrogante se complementa com a ignorância malévola, a ignorância indolente torna-se tão invisível que é praticamente impossível de erradicar.

O impacto destes três tipos principais de ignorância nas democracias do nosso tempo é convergente, embora diferenciado. Todas estas ignorâncias contribuem para produzir democracia de baixa intensidade. A ignorância arrogante torna impossível a democracia intercultural e plurinacional, na medida em que outros saberes e modos de vida e de deliberação são impedidos de contribuir para o aprofundamento democrático; e faz com que vastos setores da população não se sintam representados pelos seus representantes e nem sequer participem nos processos eleitorais de raiz liberal. A ignorância indolente retira da deliberação democrática decisões sobre justiça social histórica, sexual, e descolonizadora, sem as quais a prática democrática é vista por vastas camadas da população como um jogo de elites, uma disputa interna entre os vencedores dos conflitos históricos. Mas a ignorância malévola é a mais antidemocrática de todas. Sabemos que as deliberações democráticas são tomadas com base em fatos, percepções e opiniões. Ora a ignorância malévola priva a democracia dos fatos e, ao fazê-lo, converte a boa fé dos que dela são vítimas em figurantes ou jogadores ingênuos num jogo perverso onde sempre perdem e, mais do que isso, se auto-infligem a derrota.


Fonte aqui.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Lia Viegas

(1931 – 2016)

Lutadora antifascista e feminista, advogada e poetisa, tornou-se conhecida pela sua actividade na defesa dos direitos das mulheres e, durante o fascismo, destacou-se como advogada de presos políticos nos Tribunais Plenários.

Mulher calorosa e de grande generosidade.

Lutadora antifascista e feminista

Lia Viegas

Marília Viegas (Lia) nasceu em Faro em 5 de Abril de 1931, e morreu na mesma cidade em 27 de Dezembro de 2016.

Licenciou-se em Direito na Universidade Clássica de Lisboa e exerceu notariado e advocacia em Macau, Angola e Lisboa.

Foi uma das raras mulheres que durante o regime do Estado Novo, corajosamente, aceitou defender presos políticos nos tribunais plenários[1].

Ao longo da vida defendeu gratuitamente muitas dezenas de mulheres que necessitavam de apoio jurídico para fazer valer os seus direitos[2].

Nos anos que se seguiram ao 25 de Abril de 1974, participou activamente nos movimentos de despenalização do aborto, quando este era ilegal e ocorria de forma clandestina, provocando a morte ou problemas de saúde graves em muitas mulheres.

Defensora dos direitos das mulheres

Um dos momentos mais marcantes do percurso de Lia Viegas foi a sua participação como advogada de defesa de Maria Antónia Palla num julgamento, em 1979. Esta jornalista enfrentou um processo-crime na sequência da transmissão pela RTP, em Maio de 1976, de um programa da sua autoria sobre o aborto e Lia Viegas aceitou defendê-la[3]. O processo contra a jornalista atravessou fronteiras, o julgamento gerou um forte movimento de solidariedade [que criou condições para que, daí em diante, a despenalização do aborto passasse a fazer parte da agenda política do país] e Maria Antónia Palla foi absolvida, em Junho de 1979.

Lia Viegas

Nesta notícia de A Capital sobre o julgamento lê-se:

“Maria Antónia Palla é defendida pela drª Lia Viegas (…)”.

Edição de 26 de maio de 1979

ARQUIVO A CAPITAL

Enquanto activista feminista, Lia Viegas foi uma das fundadoras do Movimento de Libertação das Mulheres (MLM), teve actividade no Movimento Democrático das Mulheres (MDM)[4] e, mais tarde, pertenceu à União das Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR). É autora do livro “A Constituição e a Condição da Mulher”, publicado um ano depois do 25 de Abril de 1974.

Advogada e poetisa

Cedo se interessou pela Literatura, tendo escrito o seu primeiro poema aos 16 anos. Em 1954 foi incluída na Antologia Prémio Almeida Garrett, do Ateneu Comercial do Porto. Colaborou em diversos jornais e revista literárias, nomeadamente no suplemento Artes e Letras do Diário de Notícias. Em 1975 publicou uma monografia sobre A Constituição e a Condição da Mulher.

Além da advocacia, da actividade política e como feminista, é autora de vários livros de poesia. Foi também colaboradora de diversos jornais e revistas, entre os quais o suplemento “Artes e Letras” do “Diário de Lisboa” e a revista “Mulheres” (títulos já desaparecidos).

Poesia

Lia Viegas

Obras de poesia:

  • Náufragos na Ilha, Editora Soc. Expansão Cultural, 1971;
  • A Pulso o Horizonte, Editora Ulmeiro, 1985;
  • Árvore de Fogo, Hugin Editores, 2001

Ai de mim minhas mãos revolvem a terra que dá pão

Ai de mim minhas mãos revolvem a terra que dá pão
Estou comprometida desde o início
Voluntariamente enlaçada na cadeia de montagem
A compasso a horário a calendário
“Robot” manipulado com esforço
Ai de mim ouço
A passarada cujo destino é o céu
Dentro de mim rasgando cegamente
Os caminhos com se houvesse
Possível prometida permitida
Uma porta que desse
Para o infinito

Lia Viegas
In, Náufragos na Ilha

[1]

Marília Viegas foi das raras mulheres que defenderam presos políticos nos Tribunais Plenários fascistas, durante a ditadura do Estado Novo. Em Janeiro de 2014, os cerca de 150 abnegados advogados foram homenageados por iniciativa Movimento Não Apaguem a Memória (NAM), em sessão na Assembleia da República [que contou com a colaboração da Ordem dos Advogados e da Comissão de Liberdades, Direitos e Garantias da Assembleia da República, e a presença de quase todos os advogados ainda vivos]. Marília Viegas colaborou na organização dessa iniciativa” – Helena Pato (então presidente do NAM).

[2] “Foi uma mulher extraordinária na defesa dos direitos das mulheres, tendo dado apoio jurídico em muitos casos de forma gratuita” – Manuela Tavares, que a entrevistou para o seu livro sobre o movimento feminista em Portugal “Feminismos: Percursos e Desafios”.

[3] Numa série de programas feita em parceria com a jornalista Antónia de Sousa, “Nome-Mulher”, o episódio dedicado à questão do aborto defendendo a sua legalização, levou Maria Antónia Palla a julgamento. [“As reacções não se fizeram esperar por parte da Ordem dos Médicos e das forças mais conservadoras (…) Foi instaurado um processo crime e o início do julgamento veio a verificar-se em maio de 1979”]. – Manuela Tavares in “Feminismos: Percursos e Desafios”. 

Maria Antónia Palla, em testemunho a Manuela Goucha Soares [Expresso, 28/12/2016], fala de LV como uma mulher extremamente generosa e recorda que o advogado que a assistia desistira na véspera da primeira audiência e que, em choque, ela fora aconselhada a contactar LV, pois que só uma mulher iria defendê-la num caso como aquele. LV aceitou de imediato.

[4] Lia Viegas foi membro do Conselho Nacional do Movimento Democrático das Mulheres (MDM), eleita em 1977, reeleita em 1980 e em 1984.

Dados biográficos


Os campos de concentração franquistas: “reeducação”, escravatura e morte

Um dos trunfos do actual ressurgimento do fascismo são os muitos anos de ocultação e branqueamento dos crimes dos regimes fascistas, nomeadamente os perpetrados na Europa dos anos 30 e 40. É por isso útil e necessário rememorar todos aspectos concretos desse cortejo de horrores, como é o caso dos campos de concentração do franquismo.

A imagem da bandeira franquista ondeando do outro lado da fronteira causou-lhe profunda preocupação. Nunca antes a contemplara tão de perto. Após dois anos e meio combatendo nas fileiras do Exército Republicano, da pesada derrota e de sete meses de exílio na França, Luis Ortiz (falecido esta quinta-feira 7 de Março, aos 102 anos) estava determinado a voltar para casa naquele ano de 1939. A sua mãe havia sondado em Bilbao pessoas próximas do novo regime. Todos lhe asseguraram que se o filho voltasse ninguém o incomodaria, já que não havia qualquer acusação contra ele. O relatório materno gerou mais confiança nele do que as promessas feitas pelas autoridades espanholas e francesas. Luis nunca tinha acreditado inteiramente na mensagem repetida pelo sistema sonoro dos campos de concentração gauleses de Septfonds e de Gurs, em que tinha compartilhado o cativeiro com milhares de compatriotas: “Voltai ao vosso país. Ninguém tem que temer na Espanha de Franco, desde que não tenha as mãos manchadas de sangue”.

Já não era hora de recuar. Luis foi em frente e atravessou tranquilamente a ponte de Hendaia. “Irún estava cheio de guardas civis e falangistas. Não demoraram nem um minuto a prender-me.” Momentos depois, entrava como prisioneiro no campo de concentração próximo, instalado na fábrica de chocolates Elgorriaga. Começou aí um périplo que o levaria a passar por outros dois campos de concentração e por um batalhão de trabalhadores escravos. Luis Ortiz foi mais um dos quase um milhão de espanhóis vítimas de um sistema que começou a organizar-se após a sublevação contra a Segunda República.

Os generais golpistas demoraram 24 horas para abrir o primeiro campo de concentração oficial do franquismo. O local escolhido foi uma velha fortaleza do século XVII no coração do protectorado espanhol em Marrocos. Entre 18 e 19 de Julho de 1936, dezenas de militares que tinham permanecido leais à ordem constitucional, membros de organizações republicanas, funcionários públicos, jornalistas e professores começaram a ser confinados na cidadela de Zeluan. Todos eles eram, de certa forma, afortunados. Apenas na primeira noite da sublevação os golpistas tinham fuzilado 189 pessoas em Ceuta, Melila e no território do protectorado. Um dia depois, Franco oficializou essa prática repressiva. Através de uma ordem, pediu aos seus companheiros de rebelião que organizassem “campos de concentração com os elementos perturbadores” os quais deveriam de empregar “em obras públicas, separados da população”.
Antes do final de Julho abriram as suas portas os campos de El Mogote, a 10 quilômetros de Tetouan, e La Isleta, em Las Palmas de Gran Canaria. Em Malhorca, o comandante militar publicou na imprensa uma nota oficial: “Firme, humanitária e severa, a Espanha resgatada em defesa dos seus filhos leais, não poderá ter com os traidores outra atitude senão encerrá-los em campos de concentração. Não será cruel porque será cristã, mas também não será estúpida porque deixou de acreditar no parlamentarismo liberalóide. Saibam-no todos e especialmente os senhoritos comunistas de cabaré: há vagas em campos de concentração e picaretas, pás e enxadas disponíveis nas suas arrecadações”. Seguiram os passos das Baleares todos e cada um dos territórios em que o golpe de Estado ganhou rapidamente: Galiza, Navarra, zonas de Castela Velha e Andaluzia … “Criaremos campos de concentração para vagabundos e delinquentes políticos; para maçons e judeus; para os inimigos da Pátria, do Pão e da Justiça,” anunciava ameaçadoramente a Falange de Cádis na capa do seu jornal Águilas.

Metodicamente, as áreas conquistadas pelos exércitos franquistas foram semeadas com campos de concentração. Os seus inquilinos eram maioritariamente prisioneiros de guerra capturados na frente. Também passaram por eles todo o tipo de presos políticos: altos responsáveis da Administração, militantes de partidos políticos e sindicatos, até mulheres cujo único crime era ser esposa, mãe ou filha de um combatente republicano. A Andaluzia foi a região que albergou um maior número de recintos, 51. Seguiram-se a Comunidade Valenciana, com 41; Castilla-La Mancha, com 38, e Castilla y León, com 24. Houve um total de 286 campos de concentração oficiais abertos entre 1936 e 1939 que pudemos documentar. Alguns, como a praça de touros de Valência ou o campo de futebol do velho Chamartín, em Madrid, embora reunissem milhares de prisioneiros, funcionaram apenas durante alguns dias. A maioria operou durante anos, como o de Miranda de Ebro (Burgos), o de mais longa duração do franquismo, que fechou as suas portas em 1947.

Ao contrário do meticuloso sistema dos nazis, o sistema espanhol foi pouco homogéneo. Embora em Julho de 1937 Franco tenha criado a Inspecção dos Campos de Concentração de Prisioneiros (ICCP) para centralizar o controlo desses recintos, a improvisação, o caos organizativo e as disputas entre generais causaram enormes diferenças. As condições de vida variavam dependendo da província, do comandante militar encarregado da região ou do oficial designado para o dirigir. As possibilidades de sobrevivência aumentavam se o chefe impedia a entrada de falangistas que iam à caça ao homem e desciam se era um corrupto e desviava para o seu bolso parte do dinheiro que devia gastar com a alimentação. Apesar das diferenças, todos cumpriram uma missão principal: selecionar os cativos. O Generalíssimo não queria que um único fosse libertado sem ter sido investigado e depurado. Longe de respeitar os seus direitos como prisioneiros de guerra, a Espanha “nacional” não os considerava membros de um exército mas, como o verbalizou o próprio ICCP, “uma horda de assassinos e foragidos”.

Para determinar o seu suposto grau de criminalidade, os cativos foram submetidos a complexos processos de classificação nos quais solicitaram relatórios aos alcaides, guardas civis e sacerdotes das suas localidades de origem. Sofreram duríssimos interrogatórios que em muitas ocasiões terminaram com a morte. Luis Ortiz testemunhou esse tipo de prática no campo de concentração da Universidade de Deusto, em Bilbao: “Como sabia escrever à máquina, fui designado para os escritórios. Tomava nota do que os prisioneiros declaravam. Quando não gostavam das respostas, davam-lhes com um pau nos rins. Uma e outra vez. Os interrogatórios eram extremamente duros”.

Depois de reunir todas as informações, as comissões dividiam-nos basicamente em três grupos: Inimigos considerados irrecuperáveis, que eram submetidos a julgamentos sumários onde foram condenados à morte ou a longas penas de prisão em cárceres imundos; os que, apesar de contrários ao novo regime, se estimava que poderia ser “reeducados” e, finalmente, os considerados “afectos”, que eram incorporados no exército franquista ou postos em uma liberdade que seria sempre condicional, sob a eterna vigilância das autoridades civis e militares.

Os campos serviram também como local de extermínio e de “reeducação”: os cativos pereceriam de fome, de frio e de doenças causadas pelas deploráveis condições higiénicas e quase total ausência de assistência sanitária; centenas de homens foram levados à força por grupos de falangistas, guardas civis ou comandos paramilitares que, com a cumplicidade dos comandantes militares, os assassinaram em qualquer vala. À medida que a guerra avançava, esses “passeios” seriam substituídos ou complementados pelos assassínios “legais”: execuções levadas a cabo após conselhos de guerra que mal duravam uma hora e que em muitas ocasiões eram realizados nos próprios campos. No campo instalado no convento de Camposancos, em A Guarda (Pontevedra), os acusados eram julgados em grupos de até 30 pessoas. Os seus advogados eram militares franquistas que costumavam limitar-se a confirmar a gravidade das acusações.

Para Franco era claro que aqueles que sobrevivessem aos campos deveriam sair deles “reformados”. Os prisioneiros de San Marcos, em León, receberam um pequeno livro no qual tentavam doutrina-los sobre religião, política e conceitos morais. Nele dizia-se: “Nós aspiramos a que alguns de vós saiam (…) espiritual e patrioticamente mudados; outros, com estes sentimentos reactivados, e todos, vendo que cuidámos de mostrar-lhes o bem e a verdade “. Esse “bem” e essa “verdade” foram inculcados através de um cruel processo de desumanização. Os cativos foram despojados de seus pertences, tosquiados à máquina zero e incorporados num grupo humano impessoal que se movia ao toque da corneta e a golpes de moca. Na maioria dos campos havia também duas palestras diárias de doutrinação sobre temas com títulos eloquentes: “Erros do marxismo”. Criminalidade prevalecente antes de 18 de Julho. Os objectivos do judaísmo, da maçonaria e do marxismo. Porque assume o exército a tarefa de salvar a pátria. O conceito da Espanha imperial “.

A Igreja desempenhou um papel fundamental na “reeducação”. A assistência à missa era obrigatória, e a comunhão, conveniente para agradar aos guardiões. Os chefes dos campos consideraram o maior sucesso conseguir a conversão dos presos. Tal como redigiu o tenente-coronel Cagigao, responsável militar do campo de concentração de El Burgo de Osma (Soria), num relatório apresentado a Franco: “Magnífico espetáculo! Imagem impressionante de uma majestade [sic] e grandeza que só pode ser visto na Espanha do Caudillo, o de 3.082 prisioneiros ajoelhados com as mãos cruzadas e deslocando-se no meio deles 10 sacerdotes distribuindo a sagrada comunhão”.

Os campos de concentração também nasceram com o objetivo de aproveitar os prisioneiros como mão-de-obra escrava. Nas Ilhas Baleares, nas Ilhas Canárias e no protectorado de Marrocos, estes recintos foram, durante o conflito, centros de trabalhos forçados para a construção de infraestruturas e fortificações. Em Maiorca, os detidos dos campos de Pollensa, San Juan de Campos, Manacor e Sóller construíram mais de 100 quilómetros de estradas. Na Península a situação foi menos homogénea. No início da guerra, os cativos eram usados ​​arbitrariamente. Generais, oficiais, alcaides, falangistas e particulares afectos aos golpistas empregavam-nos em todos os tipos de tarefas: escavar trincheiras, reconstruir pontes, reabilitar aldeias destruídas. Em 1937, com o nascimento do ICCP, o trabalho escravo começou a ser sistematizado. Franco regulamentou naquele ano por decreto o que ele definiu como o “direito-obrigação” ao trabalho dos seus cativos. E, passo a passo, foi surgindo o sistema de exploração laboral dos prisioneiros e presos políticos.

Nos chamados batalhões de trabalhadores chegaram a ser explorados, simultaneamente, entre 90.000 e 100.000 pessoas em mais de uma centena de empresas dispersas pela geografia nacional. Funcionaram até 1940. A partir desse momento, o trabalho escravo foi garantido forçando os homens em idade militar que não haviam lutado nas fileiras franquistas a fazer a mal chamada “mili de Franco”. Destes, aqueles que eram reconhecidos como afectos ao Movimento ingressavam no exército regular. O resto ia parar aos chamados Batalhões Disciplinares de Soldados Trabalhadores, que assumiram o trabalho dos batalhões de trabalhadores, ou foram destinados a realizar fortificações nos Pirenéus, no Campo de Gibraltar e nas costas espanhola face a uma possível entrada do país na Segunda Guerra Mundial. Entre 1940 e 1942, 47.000 homens trabalharam anualmente nesses batalhões. Continuaram operacionais até 1948 algumas dessas unidades, formadas por republicanos que iam saindo da prisão após serem indultados ou a cumprirem integralmente as suas sentenças.

A perpetuação do modelo de prisioneiros escravos foi realizada através do Patrocínio de Redenção de Penas pelo Trabalho, organismo controlado pelo Ministério da Justiça e exterior ao sistema dos campos de concentração. Nas suas unidades integraram-se presos políticos e comuns que viam reduzida a sua pena e recebiam um salário até 30 vezes inferior ao de um operário livre. O patronato geriu desde 1938 até 1970 meia dúzia de agrupamentos de colónias penais militarizadas e centenas de destacamentos penais, como os que trabalharam na secagem de pântanos e na construção de monumentos como o Vale dos Caídos.

Os prisioneiros que conseguiram sobreviver nunca obtiveram total liberdade. Durante anos tiveram de apresentar-se periodicamente ao quartel da Guarda Civil e estiveram sujeitos a um regime de vigilância. Ao sair dos campos, descobriram que haviam perdido os seus empregos, seus negócios e, em muitos casos, todos os seus bens. A depuração ideológica nos setores público e privado foi sistemática. Luis Ortiz sofreu na sua própria carne: “Fui libertado em 1943. A minha esposa trabalhava numa fábrica de baterias e ganhava uma miséria. Vivíamos num apartamento dos que hoje chamamos apartamentos jangada. As empresas precisavam de pessoas, mas apenas contratavam aqueles que se tinham destacado no exército franquista. Antes de começar a trabalhar numa empresa era necessário apresentar um formulário de aceitação carimbado pelo sindicato vertical. Ias à sede do sindicato, eles olhavam para os antecedentes, diziam que eras desafecto e não o selavam ”. Luis só conseguiu o selo depois de subornar um dos chefes do sindicato: “Tive que pagar-lhe 5.000 pesetas. 5.000 pesetas do ano de 1943! Mobilizei metade de Bilbao para pedir dinheiro emprestado”.

Como muitos dos homens e mulheres que passaram pelos campos de concentração de Franco, Luis Ortiz enfrentou sua nova vida em semiliberdade, entre o medo e o silêncio. Trabalhou durante 34 anos na empresa Uralita, onde se aposentou em 1977, o mesmo ano em que votou nas primeiras eleições livres realizadas em Espanha desde 1936. Só muitos anos após a morte do ditador decidiu contar a sua história. Nesta quinta-feira, 7 de março, faleceu com 102 anos num hospital em Bilbao. Dias antes partilhou o seu testemunho: “Durante muito tempo só era conhecido o que o franquismo quis contar sobre nós. O importante agora é que se saiba a verdade. Eu estive calado mais de 40 anos, mas agora estou embalado. Conheces aquele personagem famoso que queria morrer com as botas calçadas? Pois é assim que quero morrer. É assim que vou morrer “.

Fonte: https://elpais.com/elpais/2019/03/04/eps/1551726594_395569.html

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References

  1. ^ endereço (www.odiario.info)
  2. ^ odiario.info (odiario.info)

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José Craveirinha

(1922 – 2003)

Cidadão da Resistência antifascista, moçambicano, esteve preso durante 4 anos por lutar contra o colonialismo na sua pátria.

Escritor de poemas e contos, homem de extraordinária humildade, gostava de se dizer aprendiz de poeta[1]. Em 1991 foi-lhe atribuído o Prémio Camões, o mais importante prémio literário da língua portuguesa, sublinhando a criatividade do poeta. Por ser uma figura mítica moçambicana e tutelar da jovem literatura, o governo moçambicano, por altura do seu 80º aniversário, consagrou 2002 como “O ano de José Craveirinha”. Traduzido em diversas línguas, o seu nome é uma referência da lusofonia e da cultura africana.

José Craveirinha foi também um prestigiado desportista.

Homem de extraordinária humildade

José Craveirinha nasceu a 28 de maio de 1922, em Lourenço Marques (Maputo), e faleceu a 6 de Fevereiro de 2003 em Joanesburgo, África do Sul. A sua família partiu para Moçambique em 1908, e José Craveirinha iria nascer no bairro da Mafalala e estudar na escola «Primeiro de Janeiro». Filho de um algarvio de Aljezur que fazia versos, aos 8 anos de idade José Craveirinha recitava Camões. Ainda adolescente, começou a frequentar a Associação Africana. Pelos vinte anos iniciou a sua carreira como jornalista no “O Brado Africano”, e a partir daí colaborou em diversos órgãos de informação, em Moçambique.

Fez campanha contra o racismo no Jornal Notícias, onde trabalhava. Teve um papel importante na vida da Associação Africana, na década de 50, e foi seu presidente. Em 1958, começou a trabalhar, também, na Imprensa Nacional, mas continuou no Notícias até à fundação do jornal A Tribuna, em 1962.

Entre 1964 e 1968, José Craveirinha esteve preso pela PIDE. Militante da FRELIMO, envolvido na luta pela independência de Moçambique, já era poeta publicado quando a PIDE o acusou de actividades subversivas e o mandou para a prisão durante 4 anos. Aí conhece o pintor Malangatana e um outro poeta, Rui Nogar, seu conterrâneo.

Como jornalista, colaborou nos periódicos moçambicanos O Brado Africano, Notícias, Tribuna, Notícias da Tarde, Voz de Moçambique, Notícias da Beira, Diário de Moçambique e Voz Africana. Utilizou os seguintes pseudónimos: Mário Vieira, J.C., J. Cravo, José Cravo, Jesuíno Cravo e Abílio Cossa.

Foi o primeiro presidente da Mesa da Assembleia Geral da Associação dos Escritores Moçambicanos, entre 1982 e 1987.

A obra literária

Iniciou-se cedo na escrita literária, mas a sua poesia demorou a ser publicada. Em Lisboa, a primeira obra a surgir foi Xigubo, em 1964, editada pela Casa dos Estudantes do Império. A partir de determinada altura, a consciência política do autor passou a reflectir-se em obras como O Grito e O Tambor.

A sua obra é fortemente marcada por um carácter popular e moçambicano. José Craveirinha assume na poesia a sua oposição ao colonialismo e ao regime de Salazar. Juntamente com Noémia de Sousa[2], sua companheira, sua musa inspiradora e também ela poeta, criou o movimento Negritude, influenciado pelo neo-realismo português. A exaltação dos valores africanos contra o racismo da metrópole era o ponto comum das suas produções intelectuais.

Os seus tempos de cárcere serão recordados em Cela 1, livro de poesia lançado em 1980, dezasseis anos depois de o ter escrito.

Publicou:

  • Xigubo. Lisboa, Casa dos Estudantes do Império, 1964. 2.ª ed. Maputo, Instituto Nacional do Livro e do Disco, 1980;
  • Cantico a un dio di Catrame (bilingue português/italiano). Milão, Lerici, 1966 (trad. e prefácio Joyce Lussu);
  • Karingana ua karingana. Lourenço Marques, Académica, 1974. 2.ª ed., Maputo, Instituto Nacional do Livro e do Disco, 1982;
  • Cela 1. Maputo, Instituto Nacional do Livro e do Disco, 1980;
  • Maria. Lisboa, África Literatura Arte e Cultura, 1988;
  • Izbranoe. Moscovo, Molodoya Gvardiya, 1984 (em língua russa);
  • Hamina e outros contos, 1997.

“Vila Borghesi e Outros Poemas de Viagem” e “Tâmaras Azedas de Beirute”, obras inéditas do poeta, foram lançadas em 2003, em Maputo, assinalando os 90 anos do poeta.

Autobiografia de José Craveirinha

«Nasci a primeira vez em 28 de Maio de 1922. Isto num domingo. hamaram-me Sontinho, diminutivo de Sonto. Isto por parte da minha mãe, claro. Por parte do meu pai, fiquei José. Aonde? Na Av. do Zichacha entre o Alto Maé e como quem vai para o Xipamanine. Bairros de quem? Bairros de pobres. Nasci a segunda vez quando me fizeram descobrir que era mulato. A seguir fui nascendo à medida das circunstâncias impostas pelos outros. Quando o meu pai foi de vez, tive outro pai: o seu irmão. E a partir de cada nascimento eu tinha a felicidade de ver um problema a menos e um dilema a mais. Por isso, muito cedo, a terra natal em termos de Pátria e de opção. Quando a minha mãe foi de vez, outra mãe: Moçambique. A opção por causa do meu pai branco e da minha mãe negra. Nasci ainda mais uma vez no jornal “O Brado Africano”. No mesmo em que também nasceram Rui de Noronha e Noémia de Sousa. Muito desporto marcou-me o corpo e o espírito. Esforço, competição, vitória e derrota, sacrifício até à exaustão. Temperado por tudo isso. Talvez por causa do meu pai, mais agnóstico do que ateu. Talvez por causa do meu pai, encontrando no Amor a sublimação de tudo. Mesmo da Pátria. Ou antes: principalmente da Pátria. Por causa da minha mãe só resignação. Uma luta incessante comigo próprio.

Autodidacta. Minha grande aventura: ser pai. Depois eu casado. Mas casado quando quis. E como quis. Escrever poemas, o meu refúgio, o meu país também. Uma necessidade angustiosa e urgente de ser cidadão desse país, muitas vezes altas horas da noite.»

Prémios e Condecorações

Em Portugal, foi-lhe atribuído o Prémio Camões (1991), tornando-se o primeiro autor africano galardoado com este prémio. Em 1997, Jorge Sampaio distinguiu-o com a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique de Portugal.

Antes tinha recebido diversos prémios e galardões, dos quais destacamos:

  • Prémio Cidade de Lourenço Marques (1959);
  • Prémio Reinaldo Ferreira do Centro de Arte e Cultura da Beira (1961);
  • Prémio de Ensaio do Centro de Arte e Cultura da Beira (1961);
  • Prémio Alexandre Dáskalos da Casa dos Estudantes do Império, Lisboa, Portugal (1962);
  • Prémio Nacional de Poesia de Itália (1975);
  • Prémio Lotus da Associação de Escritores Afro-Asiáticos (1983);
  • Medalha Nachingwea do Governo de Moçambique (1985);
  • Medalha de Mérito da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, Brasil (1987).

Em sua homenagem, a Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), em parceria com a HCB (Hidroeléctrica de Cahora Bassa), instituiu em 2003, o Prémio José Craveirinha de Literatura.

Vice-presidente do Fundo Bibliográfico de Língua Portuguesa, escritor galardoado com o prémio “Vida Literária” da Associação de Escritores Moçambicanos, foi homenageado no dia 28 de maio de 2002, na sequência da iniciativa do governo moçambicano em consagrar o ano de 2002 a José Craveirinha.

[1] Na entrevista que concedeu à rádio pública portuguesa, em 1989, confessava que ainda não se adaptara à ideia de que era um escritor. Tinha 67 anos, muitos livros publicados e uma longa lista de distinções. Faltavam dois anos para receber o Prémio Camões.

[1] Noémia de Sousa (1926 – 2002) – ver biografia em Antifascistas da Resistência.


Dados biográficos


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/jose-craveirinha/

A ELEIÇÃO DE PIO XII

2 de Março de 1939. Em três votações, que duraram dia e meio, o Cardeal Eugénio Pacelli (1876-1958) era eleito e proclamado como o novo Papa Pio XII. E dava-se a coincidência de, nesse mesmo dia, o eleito completar 63 anos. Foi o conclave - eleições para Papa - mais rápido do Século XX e, já escolhido como Secretário de Estado pelo seu antecessor, Pio XI, pode dizer-se que o novo Papa funcionara não apenas como anfitrião como, no processo eleitoral, jogara, por assim dizer, em casa... Daí a rapidez da decisão. Tempos longínquos aqueles de há oitenta anos, em que os assuntos da Igreja eram escusos (como haviam sido desde sempre), mas não envolviam a questão do encobrimento da pedofilia.

 

Veja o original em 'Herdeiro de Aécio' na seguinte ligação::

http://herdeirodeaecio.blogspot.com/2019/03/a-eleicao-de-pio-xii.html

Mário de Carvalho e o perigo da «reactivação do nazismo»

Mário de Carvalho e o perigo da «reactivação do nazismo»
Andava eu naquela labuta conhecida da procura da notícia, para a candonga costumada, trazendo para este meu espaço textos que outros vão escrevendo, quando tropeço no título "Não se deve perder de vista um mundo mais justo e solidário" e onde o escritor alerta para as «tremendas transformações» que o mundo está a sofrer, em que se assiste à recuperação de pontos de vista que se pensavam «completamente ultrapassados». Trata-se, como pode (e deve) ler aqui, de um enquadramento a um anúncio querido (mais um livro). Para além de ter eu encontrado este modo em divulgá-lo e porque às tantas ele refere ter sido criado numa família de ideais republicanos, que nunca o quis ver vestido, quando aluno do Liceu Gil Vicente, em Lisboa, com a farda da Mocidade Portuguesa, organização juvenil da ditadura de Salazar, de pronto me ocorreu aquele outro texto seu, por mim aqui citado:
Eu nunca fui obrigado a fazer a saudação fascista aos «meus superiores». Eu nunca andei fardado com um uniforme verde e amarelo de S de Salazar à cintura. Eu nunca marchei, em ordem unida, aos sábados, com outros miúdos, no meio de cânticos e brados militares. Eu nunca vi os colegas mais velhos serem levados para a «mílícia», para fazerem manejo de arma com a Mauser. Eu nunca fui arregimentado, dias e dias, para gigantescos festivais de ginástica no Estádio do Jamor. Eu nunca assisti ao histerismo generalizado em torno do «Senhor Presidente do Conselho», nem ao servilismo sabujo para com o «venerando Chefe do Estado». Eu nunca fui sujeito ao culto do «Chefe», «chefe de turma», «chefe de quina», «chefe dos contínuos», «chefe da esquadra», «chefe do Estado». Eu nunca fui obrigado a ouvir discursos sobre «Deus, Pátria e Família». Eu nunca ouvi gritar: «quem manda? Salazar, Salazar, Salazar». Eu nunca tive manuais escolares que ironizassem com «os pretos» e com «as raças inferiores». Eu nunca me apercebi do «dia da Raça». Eu nunca ouvi louvar a acção dos «Viriatos» na Guerra de Espanha. Eu nunca fui obrigado a ler textos escolares que convidassem à resignação, à pobreza e ao conformismo; Eu nunca fui pressionado para me converter ao catolicismo e me «baptizar». Eu nunca fui em grupos levar géneros a pobres, politicamente seleccionados, porque era mesmo assim. Eu nunca assisti á miséria fétida dos hospitais dos indigentes. Eu nunca vi os meus pais inquietados e em susto. Eu nunca tive que esconder livros e papéis em casa de vizinhos ou amigos. Eu nunca assisti à apreensão dos livros do meu pai. Eu nunca soube de uma cadeia escura chamada o Aljube em que os presos eram sepultados vivos em «curros». Eu nunca convivi com alguém que tivesse penado no Tarrafal. Eu nunca soube de gente pobre espancada, vilipendiada e perseguida e nunca vi gente simples do campo a ser humilhada e insultada. Eu nunca vi o meu pai preso e nunca fui impedido de o visitar durante dias a fio enquanto ele estava «no sono». Eu nunca fui interpelado e ameaçado por guardas quando olhava, de fora, para as grades da cadeia. Eu nunca fui capturado no castelo de S. Jorge por um legionário, por estar a falar inglês sem ser «intréprete oficial». Eu nunca fui conduzido à força a uma cave, no mesmo castelo, em que havia fardas verdes e cães pastores alemães. Eu nunca vi homens e mulheres a sofrer na cadeia da vila por não quererem trabalhar de sol a sol. Eu nunca soube de alentejanos presos, às ranchadas, por se encontrarem a cantar na rua. Eu nunca assisti a umas eleições falsificadas, nunca vi uma manifestação espontânea ser reprimida por cavalaria à sabrada; eu nunca senti os tiros a chicotearem pelas paredes de Lisboa, em Alfama, durante o Primeiro de Maio. Eu nunca assisti a um comício interrompido, um colóquio desconvocado, uma sessão de cinema proibida. Eu nunca presenciei a invasão dum cineclube de jovens com roubo de ficheiros, gente ameaçada, cartazes arrancados. Eu nunca soube do assalto à Sociedade Portuguesa de Escritores, da prisão dos seus dirigentes. Eu nunca soube da lei do silêncio e da damnatio memoriae que impendia sobre os mais prestigiados intelectuais do meu país. Eu nunca fui confrontado quotidianamente com propaganda do estado corporativo e nunca tive de sofrer as campanhas de mentalização de locutores, escribas e comentadores da Rádio e da Televisão. Eu nunca me dei conta de que houvesse censura à imprensa e livros proibidos. Eu nunca ouvi dizer que tinha havido gente assassinada nas ruas, nos caminhos e nas cadeias. Eu nunca baixei a voz num café, para falar com o companheiro do lado. Eu nunca tive de me preocupar com aquele homem encostado ali à esquina. Eu nunca sofri nenhuma carga policial por reclamar «autonomia» universitária. Eu nunca vi amigos e colegas de cabeça aberta pelas coronhas policiais. Eu nunca fui levado pela polícia, num autocarro, para o Governo Civil de Lisboa por indicação de um reitor celerado. Eu nunca vi o meu pai ser julgado por um tribunal de três juízes carrascos por fazer parte do «organismo das cooperativas», do PCP, com alguns comerciantes da Baixa, contabilistas, vendedores e outros tenebrosos subversivos. Eu nunca fui sistematicamente seguido por brigadas que utilizavam um certo Volkswagen verde. Eu nunca tive o meu telefone vigiado. Eu nunca fui impedido de ler o que me apetecia, falar quando me ocorria, ver os filmes e as peças de teatro que queria. Eu nunca fui proibido de viajar para o estrangeiro. Eu nunca fui expressamente bloqueado em concursos de acesso à função pública. Eu nunca vi a minha vida devassada, nem a minha correspondência apreendida. Eu nunca fui precedido pela informação de que não «oferecia garantias de colaborar na realização dos fins superiores do Estado». Eu nunca fui objecto de comunicações «a bem da nação». Eu nunca fui preso. Eu nunca tive o serviço militar ilegalmente interrompido por uma polícia civil. Eu nunca fui julgado e condenado a dois anos de cadeia por actividades que seriam perfeitamente quotidianas e normais noutro país qualquer; Eu nunca estive onze dias e onze noites, alternados, impedido de dormir, e a ser quotidianamente insultado e ameaçado. Eu nunca tive alucinações, nunca tombei de cansaço. Eu nunca conheci as prisões de Caxias e de Peniche. Eu nunca me dei conta, aí, de alguém que tivesse sido perseguido, espancado e privado do sono. Eu nunca estive destinado à Companhia Disciplinar de Penamacor. Eu nunca tive de fugir clandestinamente do país. Eu nunca vivi num regime de partido único. Eu nunca tive a infelicidade de conhecer o fascismo.
Mário de Carvalho - in "DENEGAÇÃO POR ANÁFORA MERENCÓRIA"

Ver original em 'Conversa Avinagrada' (aqui)

Revisitar António Sérgio

Revisitar António Sérgio
Em 1939, na revista Seara Nova, António Sérgio (1883-1969) defende o seguinte: “transformar a moral pela economia e a economia pela moral, actuando nas duas ao mesmo tempo, e pela acção recíproca de uma em outra: eis o objetivo”. Quase vinte anos depois, Sérgio retomaria esta ideia de economia moral, sempre a propósito do seu projeto cooperativista de socialização da economia: “é um aperfeiçoamento económico da sociedade que se funda no aperfeiçoamento moral dos indivíduos e um movimento de educação moral que toma por instrumentos as necessidades económicas dos homens”. Amanhã, pela minha parte e do José Castro Caldas, debateremos esta versão portuguesa das utopias que se querem reais, comparando-a quer com a tradição da economia política liberal que ousou entrar nas fábricas, a de um certo John Stuart Mill, quer com a tradição da economia moral de matriz socialista, encarnada por Karl Polanyi.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

ODiario.info » A emancipação da mulher é a conquista da igualdade

Há 150 anos, a 26 de Fevereiro de 1869, nascia Nadiéjda Konstant Ínovna Krúpskaia. Pedagoga, militante revolucionária, uma das pioneiras da luta pela emancipação feminina na Rússia soviética. Em homenagem a essa figura excepcional de comunista odiario.info publica esta interessantíssima reflexão, datada por primeiros anos do século XX.

No relatório da Comissão para a Educação Popular de São Petersburgo no ano de 1908, um dos especialistas, ao emitir um parecer sobre o ensino de bordado, diz:

Acerca dos bordados, devo atestar com a mais profunda alegria que em quase todas as escolas mistas eles eram apreciados não apenas por meninas, mas por meninos, e os últimos desempenhavam essa tarefa com tanto gosto que em algumas escolas seus resultados superavam o das meninas, por exemplo, na costura e no trançado.

Esse trecho do relatório supracitado foi inserido na edição de Dezembro do ano passado do boletim de educação, na seção de crônicas; o autor da crônica expressa certa dúvida quanto à utilidade de se ensinar meninos a costurar.

Gostaria de dizer algumas palavras sobre esse tema.

Antes de tudo, colocarei a questão de forma mais geral: deve-se ensinar aos meninos aqueles trabalhos que até então eram considerados exclusivamente femininos, como costurar, cozinhar, lavar, cuidar de crianças etc.?

Na sociedade contemporânea, a vida familiar está ligada – e isso provavelmente continuará assim por muito tempo – a uma série de pequenos cuidados que se relacionam com a concretização de afazeres domésticos isolados. A futura reformulação da produção e a alteração das condições da vida em sociedade introduzirão significativas mudanças nesse âmbito, mas enquanto a vida familiar estiver ligada a tarefas como cozinhar o almoço, limpar a casa, remendar o uniforme, educar os filhos etc., todo esse trabalho recairá integralmente sobre a mulher.

Nas famílias que possuem meios, esse trabalho cabe a uma empregada contratada: cozinheira, faxineira, babá. A mulher de posses liberta-se de tais tarefas, encarregando outra mulher que não tem, ela mesma, chance de se libertar. De uma forma ou de outra, todo o trabalho doméstico recai exclusivamente sobre a mulher. No meio operário, o marido às vezes contribui com a esposa nos afazeres. A necessidade o obriga. Ao retornar do trabalho, nos feriados, nos dias de folga, o trabalhador por vezes vai até a mercearia, varre o chão e cuida das crianças. É claro, nem sempre e nem todos fazem isso; além do mais, muitos nem sequer sabem fazê-lo (costurar, lavar), e a esposa, que às vezes também passa o dia trabalhando fora de casa, quando volta, põe-se a lavar roupa, a limpar o chão e fica até tarde da noite costurando, quando o marido há muito está dormindo. Mas se entre os trabalhadores às vezes ocorre de o marido ajudar a esposa com o trabalho doméstico, nas assim chamadas famílias da intelligentsia, por mais desprovidas que sejam, o homem nunca participa desse serviço, deixando que a esposa faça suas “coisas de mulher” da maneira como ela sabe. Um “intelligent” limpando o chão ou remendando a roupa branca seria alvo de gozação de todos à sua volta.

Na imprensa burguesa (em especial do Ocidente), fala-se muito que o trabalho doméstico é um campo no qual a mulher pode empregar suas forças de maneira mais produtiva. A pessoa só cria algo verdadeiramente grandioso atuando na esfera que melhor corresponde à sua individualidade, e os pequenos cuidados domésticos são os mais apropriados à individualidade da mulher. Ela deve se preocupar em ser uma dona de casa exemplar, e não se esforçar para deixar a vida familiar nem concorrer com o homem no campo do trabalho intelectual. Não se trata de desprezar a função de tirar o pó e remendar meias-calças; são tarefas que merecem todo respeito e de forma alguma desprezo.

A hipocrisia desse discurso é evidente, uma vez que os homens que saem por aí anunciando seu grande respeito pelo trabalho doméstico jamais se rebaixam a efetivamente realizá-lo. Por quê? Pois, no fundo de sua alma, desprezam essa tarefa, consideram-na coisa de seres menos evoluídos, possuidores de necessidades mais simplórias.

Todas essas conversas sobre a mulher ser “naturalmente predestinada” à execução dos afazeres domésticos são bobagens semelhantes ao discurso que, na época, os donos de escravos faziam sobre estes serem “naturalmente predestinados” à condição de escravos.

Em essência, não há nada no trabalho doméstico que faça com que ele seja uma ocupação mais adequada para a individualidade da mulher do que para a do homem. Certos trabalhos que exigem grande força física estão acima da capacidade das mulheres, mas por que o homem não pode realizar afazeres domésticos junto com a esposa? A questão não é que esse trabalho seja inerente à esfera das mulheres, mas sim que o marido precisa trabalhar durante a maior parte do tempo fora de casa para garantir o sustento. Enquanto isso acontecer, haverá algum fundamento para que as tarefas de casa sejam realizadas exclusivamente pelas forças femininas. Mas, à medida que a mulher é cada vez mais forçada a também se dedicar a assegurar seu ganha-pão, os afazeres domésticos tomam um tempo adicional, e não é justo que os homens não contribuam para a sua realização. Da mesma forma, se a profissão do marido permite que ele tenha muito tempo livre, não é justo que ele considere indigno se dedicar ao trabalho doméstico em pé de igualdade com a esposa.

A escola livre luta contra todos os preconceitos que arruínam a vida das pessoas. O preconceito de que a tarefa doméstica é digna apenas de seres com necessidades menores abala a relação entre homens e mulheres, introduzindo nela um princípio de desigualdade. Tal preconceito não martirizou apenas uma mulher, não gerou alienação e discórdia em apenas uma família. A escola livre é uma ardente defensora da educação conjunta, uma vez que considera que o trabalho coletivo e as condições iguais de desenvolvimento favorecem a compreensão mútua e a aproximação espiritual dos jovens de ambos os sexos e, assim, servem de garantia para relações saudáveis entre homens e mulheres. A partir desse ponto de vista, a escola livre, ao ensinar trabalhos manuais, não deve diferenciar crianças de sexos distintos. É preciso que meninos e meninas aprendam da mesma forma a fazer todo o necessário no trabalho doméstico e não se considerem indignos de realizá-lo.

Quem já observou crianças sabe que na primeira infância os meninos se dispõem com tanto gosto quanto as meninas a ajudar a mãe a cozinhar, a lavar a louça e a realizar quaisquer tarefas domésticas. Isso parece tão interessante! Mas, em geral, desde os primeiros anos começa a haver uma diferenciação no interior da família. As meninas recebem a incumbência de lavar as xícaras, de arrumar a mesa, enquanto para os meninos dizem: “O que você está fazendo aqui na cozinha? Por acaso isso é coisa de homem?”. As meninas são presenteadas com bonecas e louças; os meninos, com trens e soldadinhos. Na idade escolar, eles já aprenderam em suficiente medida a desprezar “as meninas” e suas tarefas. É verdade que esse desprezo ainda é muito superficial e, se a escola seguir outra abordagem, essa depreciação por “coisas de mulher” rapidamente desaparecerá. Com tais objetivos, é preciso ensinar aos meninos, juntamente com as meninas, a costurar, a fazer crochê, a remendar a roupa branca, ou seja, tudo aquilo sem o qual não se pode viver e cujo desconhecimento torna a pessoa impotente e dependente de outros. Se essa aprendizagem ocorrer como se deve, há razões para pensar que os meninos a realizem com prazer, como se pode observar no exemplo das escolas de Petersburgo (é característico que esse experimento tenha sido realizado em escolas mistas). Sendo assim, é preciso encarregar alternadamente as próprias crianças (sem separação do trabalho entre meninos e meninas) da tarefa de preparar o café da manhã coletivo, de lavar a louça, de arrumar as salas, de limpá-las etc. O desejo de ser útil, de realizar bem a função que lhe foi atribuída, o entusiasmo pelo trabalho farão com que o menino logo se esqueça do seu desdém pelas “coisas de mulher”.

É claro que seria ridículo esperar grandes consequências de se ensinar “coisas de mulher” aos meninos, mas trata-se de um daqueles detalhes que compõem o espírito geral da escola e aos quais é preciso atentar.

Publicado originalmente em Svobódnoie Vozpitánie/Свободное воспитание [Educação Livre], n. 10, 19091910. A tradução é de Priscila Marques e integra a antologia A revolução das mulheres: emancipação feminina na Rússia soviética, organizada por Graziela Schneider.

Fonte: https://blogdaboitempo.com.br/2019/02/26/krupskaia-versus-damares-deve-se-ensinar-coisas-de-mulher-aos-meninos/

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References

  1. ^ endereço (www.odiario.info)
  2. ^ odiario.info (odiario.info)

Ver o original em ODiario.info (clique aqui)

José Afonso (1929-1987).

Não se separa um homem inteiro, 
das partes e facetas que lhe dão a dimensão. 
Não se separa o andarilho, dos trilhos percorridos. 
Não se separa o professor, dos seres a quem deu saberes. 
Não se separa o cantor, dos seus cantos. 
Não se separa o poeta, dos poemas que nós dizemos.
Não se separa o criador, da obra criada. 
Não se separa o resistente, da luta travada. 
Não se separa o sonhador, da utopia sonhada. 
Não se separa a razão, da alma. 
E quando tal se separa, o homem parte. 
E omite-se a inteira memória de um homem digno.
Rogério Pereira
(reeditado)

Ver original em 'Conversa Avinagrada' (aqui)

Portugal: Um livro contra o silêncio sobre a guerra colonial

As vivências e os efeitos traumáticos da guerra colonial continuam a ser um assunto tabu em Portugal. Contrao silêncio, o psicólogo Vasco Luís Curado acaba de lançar um livro com memórias de horror, sofrimento e perda.
Há poucos ex-combatentes portugueses que aceitam falar dos traumas da guerra nas antigas colónias em África, nomeadamente nas frentes de Angola, Moçambique e Guiné-Bissau. São memórias de momentos traumáticos, que muitos evitam recordar ou tornar público. Mas Vasco Bastos, hoje com 71 anos de idade, fá-lo sem tabu.
O soldado do então Batalhão 2909 da Companhia de Cavalaria 2690 revela à DW África um dos mais dramáticos acontecimentos ocorridos durante a missão que cumpriu no norte de Angola, na região dos Dembos, província do Bengo, entre 1970 e 1972.
"Fomos apanhados em várias emboscadas e [houve] uma que me traumatizou, a mim e não só", conta o ex-combatente. "Íamos a passar, entretanto fomos apanhados por uma mina que estava num trilho. O rapaz, que era ali do Fundão [município do distrito de Castelo Branco, centro de Portugal], passou também, mas ao passar ele pisou aquilo... Desapareceu!"
"Era no meio de uma mata densa, durante a noite", explica emocionado. "Aquilo foi um traumatismo danado. No fundo da mata densa, não tínhamos nada! E tivemos que andar a apanhar os bocadinhos dele para depois o transportar até a uma clareira. Apanhar os bocados do corpo do homem, senhor…!"
Um assunto tabu
Hoje, passados mais de 40 anos, Vasco Bastos é um dos antigos militares do exército colonial português assistido social e psicologicamente pela APOIAR - Associação de Apoio aos Ex-combatentes Vítimas do Stress de Guerra, criada em 1994.
De 15 em 15 dias, participa numa sessão de terapia de ajuda mútua.
Graças ao apoio prestado pela associação, a sua vida modificou e tem sabido gerir os efeitos dos traumas da guerra, que também afetaram familiares. No entanto, confessa, as vivências daquele período negro não se dissipam com facilidade.
"Para mim, está sempre presente. Ainda cá está e há-de morrer comigo", diz Vasco Bastos.
Na qualidade de psicólogo clínico, Vasco Luís Curado - português nascido em Angola e que viajou de Luanda para Lisboa na ponte aérea de 1975 - recolheu dos seus pacientes, sob anonimato, várias memórias estilhaçadas sobre a guerra colonial. Confirma que há ainda muitas marcas de traumas da guerra.
"Há, mas não em todos", afirma. "A maioria dos estudos aponta que 15% dos combatentes terão sintomas de stress pós-traumático ou alguma alteração psicológica provocada por acontecimentos traumáticos de guerra. Portanto, não são sequer a maioria." Ao todo, nos 13 anos de guerra, quase um milhão de portugueses foram mobilizados.
Por várias razões, a guerra colonial ainda constitui um tabu na sociedade portuguesa, reconhece Luís Curado. "Porque o próprio combatente tem relutância em se expor. Não sente que a população em geral o compreenda", diz o psicólogo. "A guerra ou o serviço militar obrigatório em cenário de guerra retira o indivíduo do seu meio natural de vida, e as experiências que ele ali acumula só podem ser partilhadas pelos camaradas, por outros que passaram pelo mesmo. Agora, a sociedade em geral tem dificuldade em lidar com isso."
Brandos costumes? "Obviamente que não"
A vontade que a sociedade tem de esquecer o passado colonial e a violência usada nesse passado é outro fator apontado pelo psicólogo. "Porque, apesar de ter havido [a revolução do] 25 de Abril, ainda persiste entre nós aquela mentira salazarista de que somos um povo de brandos costumes. Obviamente que não somos. Como é que se constrói um Império que dura séculos em vários continentes com brandura?! Não é com brandura que isso acontece. É com violência."
"Como nós não queremos olhar para a nossa violência, a violência portuguesa está recalcada", acrescenta Luís Curado. "Porque queremos formar de nós uma ideia de brandura, de colonizador especial, é inconveniente que estes combatentes nos venham relembrar a violência que existiu no Império e na manutenção das colónias."
Contra o silêncio, Luís Curado decidiu dar voz a 48 soldados portugueses que combateram em Angola, Guiné-Bissau e Moçambique. São relatos que revelam diferentes episódios, tormentas e experiências, vividos entre 1961 e 1974, agora narrados no livro "Declarações de Guerra - Histórias em carne viva da Guerra Colonial".
Desta forma, o autor pretende contribuir "para um reconhecimento impedido por divisões profundas na sociedade portuguesa, mais interessada na integração na Europa do que no seu passado colonial".
João Carlos (Lisboa) | Deutsche Welle

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/02/portugal-um-livro-contra-o-silencio.html

Arnaldo Matos encontra a Ceifeira

(José Pacheco Pereira, in Público, 23/02/2019)

JPP

Pacheco Pereira

A intransigência pública do MRPP não o impedia de ter capacidade para conversar e conspirar com organizações e grupos bem longe da extrema-esquerda. Arnaldo de Matos tinha aí um papel decisivo.


Não há nada como morrer para passar de besta a sábio, e este é um velho hábito português típico de um país que, não respeitando nada, está sempre pronto para o salamaleque fúnebre. Presumo que aqui no PÚBLICO acrescento este “ruído” a várias páginas celebratórias, e por isso hesitei em escrevê-las. Mas a alternativa não era brilhante, e aqui vai. Arnaldo Matos veria com ironia a sucessão de elogios fúnebres que está a receber. Passou, morrendo, para a galeria da “situação”, ou seja, dos perversos políticos que mandam nesta nação que o “povo” populista, representado por intelectuais com o mesmo adjectivo, verbera. Mas deixemos as asneiras, e tentemos falar do homem, do percurso e do tempo que começa agora a encerrar-se por obra da Ceifeira.

Arnaldo Matos foi um activo militante do movimento estudantil que se destacou não só na sua escola, a Faculdade de Direito, mas no movimento federativo, particularmente nas chamadas “reuniões interculturais” e nos seminários de estudos associativos. Com o seu nome escreveu sobre a “cultura universitária”, em conjunto com Eduardo Prado Coelho, Jorge Veludo, Hélder Costa e outros. Destacava-se pelas suas qualidades de orador e pela escrita. Mas, a breve prazo, deixou de poder ter “legalidade” e mergulhou na vida clandestina.

O maoísmo do MRPP era total: das palavras de ordem — “fogo” sobre isto e aquilo, do “quartel-general” ao “revisionismo” e ao “neo-revisionismo”, etc. —, das gravuras copiadas dos chineses com os operários portugueses de olhos em bico, dos títulos dos jornais aos murais. Só o MRPP intitularia um jornal clandestino Yenan e colocaria o próprio Arnaldo Matos e o general Eanes naqueles grupos em marcha decidida para a frente, bandeiras e fuzis, em perfeita hierarquia de soldados, operários, camponeses e pequena burguesia revolucionária, a caminho do comunismo. O MRPP tornou-se icónico, hoje dir-se-ia viral, com as suas imagens, palavras e cores, que identificavam de imediato a organização. O MRPP foi por excelência o produtor do folclore da revolução dos anos 70 a 80.

A agressividade política do MRPP levou-o a ter um papel no incremento de acções de rua de confronto directo com a polícia antes do 25 de Abril e a começar a ter presos. Depois do 25 de Abril, entrou em choque com o MFA, tendo sido a única organização que foi sujeita a uma prisão em massa por parte dos militares no poder, com a preciosa ajuda do PCP, que os considerava “contra-revolucionários” e agentes da CIA. Arnaldo Matos foi igualmente preso e gerou um grande movimento exigindo a sua libertação.

O MRPP detinha nesses anos do PREC uma considerável influência política, na contestação a novos envios de soldados para as colónias, na influência sobre a Fretilin, na acção em certos sindicatos, e na peculiar posição que assumiu que o colocou próximo do PS e de um grupo de militares ligados a Eanes, na resistência ao PCP e às outras organizações da extrema–esquerda, como a UDP. A intransigência pública do MRPP não o impedia de ter capacidade para conversar e conspirar com organizações e grupos bem longe da extrema-esquerda. Arnaldo Matos tinha aí um papel decisivo.

Outro aspecto muito sui generis do MRPP era o modo bem pouco leninista como se entrava e saía da organização, como foi o exemplo do próprio Arnaldo Matos, que, em luta pela “linha vermelha” contra a “linha negra”, se afastou da organização, sempre com uma pertença ambígua. Dedicou-se durante longos anos à sua profissão de advogado num grande escritório de advogados, para voltar recentemente de novo ao MRPP, envolvido numa luta fratricida e excessiva com Garcia Pereira. Arnaldo Matos escreveu coisas inomináveis, quase obscenas, sobre os seus adversários, usando o pseudónimo de “Espártaco”, e a violência dos textos marcou os seus últimos anos de vida.

Contrariamente ao que se diz por aí, eu nunca fui membro do MRPP, uma daquelas falsidades que nunca morrem nas redes sociais, mas tinha relações cordiais com o Arnaldo Matos. Ainda há poucos meses encontrei-me com ele na sede do MRPP para recolher documentação para o Arquivo Ephemera, que ele sempre ofereceu. Ele atacou-me no Twitter por causa da inexistente censura a Mapplethorpe em Serralves, mas estes ataques, quase todos os ataques, fazem parte do lado para onde eu durmo melhor. Mas eu sei muito bem como tudo na história acaba por repousar, maldades e bondades. Eu não queria estar no Inferno quando chegar o camarada Espártaco. O Diabo que se cuide.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)