MRS

Silêncios interesseiros

Filme: "Este país não é para velhos", Cohen
Se há uma coisa boa que teve a anunciada "crise" governamental foi ter gerado o silêncio de Marcelo. Marcelo diz que esteve mais de uma semana calado porque "tudo o que dissesse limitava a liberdade". A sua liberdade de decisão quanto ao eventual diploma sobre o tempo de serviço dos professores. Na verdade, Marcelo esteve fortemente envolvido no tema da "crise" quando - fruto do seu destempero e hiper-actividade inconstitucional, que o faz sentir-se invulnerável - pressionou o governo a negociar mais com os sindicatos. E quando a "crise" rebentou, atingiu-o em cheio no peito. Por isso, Marcelo quis ficar quieto, fingindo-se morto, antes que tudo lhe caísse em cima, como caiu em cima de Rui Rio e de Assunção Cristas. Cristas falou e perdeu. Rui Rio tentou o silêncio, mas não conseguiu. Marcelo hibernou e a coisa passou. Agora, com o tema do SIRESP e sobre a possibilidade de nacionalização ou de aquisição por parte do Estado de posição majoritária no seu capital, Marcelo mantém-se igualmente calado. E diz que não fala por ser... um processo em curso e sensível. Na verdade, trata-se de um tema que lhe é caro - os incêndios - e sobre o qual Marcelo interveio tanto e tão repetidamente... Mas há bem pouco tempo, Marcelo fartou-se de intervir - e mal! - sobre a Lei de Bases da Saúde e, esse também, era "um processo em curso e sensível". Noutro tema - sobre a contratação pública de familiares - até interveio raiando a inconstitucionalidade, quando quis propor leis ao governo sobre o seu gabinete! Qual é o critério?  Eis a resposta dada por Marcelo Rebelo de Sousa:
“Quem intervém muitas vezes, não intervém por uma mania, por um estilo, por uma obsessão. Intervém por uma necessidade, e quando entende que a necessidade impõe estar calado uma semana, duas semanas, três semanas, tão depressa está calado como fala todos os dias”,explicou o chefe de Estado. E num ano marcado por três eleições Marcelo Rebelo de Sousa avisa: “Os portugueses têm de se habituar”porque o silêncio “pode repetir-se”.
Pois claro que pode! Agora só falta esclarecer qual foi a "necessidade" de intervir tantas vezes sobre a Lei de Bases da Saúde e a "necessidade"de nada dizer sobre SIRESP ou sobre os múltiplos casos laborais que lhe batem à porta e aos quais Marcelo se esquiva a dizer uma palavra. E qual a "necessidade"de, ao mesmo tempo, lhe ser tão fácil telefonar às apresentadoras Cristina Ferreira e Fátima Lopes, se não será mais esta faceta populista de um Presidente que condena os populismos... Resta a esperança de que Marcelo tenha retirado a ilação "necessária": a sua intervenção não deve entroncar na estratégia política de certas formações e interesses. E muito menos ter um papel inconstitucional de intervir no sentido de alterar os "processos em curso" de elaboração das leis. Nem que seja porque há momentos em que o podem matar politicamente.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

A minha «fake new»

PR vai ser nomeado
assessor jurídico do Governo
 
Por mim, já comecei a escrever um rascunho de proposta de lei que impeça um órgão de soberania de contratar outro órgão de soberania.
O parágrafo anterior é obviamente uma mentira porque eu tomo Xanax.

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

DAS PALAVRAS AOS ACTOS

DAS PALAVRAS AOS ACTOS

1- Na Europa que continua a ser constante prova de ambiguidade, de cinismo e de hipocrisia, na Europa partícipe de ingerência e manipulação nos continentes a sul, na Europa que não reconhece sequer sua velada participação nas práticas de conspiração que tanto caos, terrorismo e desagregação têm disseminado nos Balcãs, no Cáucaso, no Médio Oriente Alargado e em África, particularmente  desde o início da década de noventa do século XX, na Europa cuja visão é a visão exclusivista de suas oligarquias económicas e financeiras, o multilateralismo é uma opção de dois pesos e duas medidas, sem coerência a não ser a identificada com os interesses que “democraticamente” se assumem sobre a cabeça dos povos!
O poder do mercado neoliberal usa os conceitos e as palavras nessa visão antropocêntrica que corresponde aos interesses exclusivistas das escalonadas oligarquias e das elites afins e, quando se estabelecem “parcerias” a sul, esbatem-se as prementes necessidades sejam elas quais forem, mas em particular as da solidariedade e justiça social reitoras do ambiente de paz social com que toda a humanidade se deveria reger, pondo em causa os equilíbrios em direcção aos quais é premente um constante impulso, a fim de melhor distribuir a riqueza e a fim de se alcançar maior felicidade e bem-estar para todos os povos da Terra.
O deus-mercado é uma barbaridade nesse sentido, mas os poderosos escolhem e medem bem as palavras e conceitos de sua própria conveniência para o mascarar, sabendo que os media de que são donos são-lhes de feição “global”, pelo que aqueles que possuem consciência crítica e estão mobilizados numa lógica com sentido de vida, devem-se obrigar sempre em contínuas radiografias sobre o estado dos relacionamentos internacionais em época de globalização, a medir a distância (e a coerência) entre o que está sobre a mesa: os conceitos, as palavras e os actos.
2- Vem esta introdução a propósito da longa entrevista que o presidente português deu ao Jornal de Angola, segundo a publicação de 6 de Março e sob o título “Relações seguem uma linha contínua que não vai parar para o futuro”, em particular no que diz respeito à interpretação e prática de multilateralismo e num momento em que se podem comparar as posições do estado português em relação aos países a sul, mais concretamente no que diz respeito a Angola e à Venezuela, com pano de fundo no Brasil e na CPLP.
O presidente português diz que há “convergência nos domínios do multilateralismo, valorização do direito internacional, dos direitos humanos, do papel das organizações internacionais, da importância das migrações, papel dos oceanos, da atenção às alterações climáticas”…
Os conceitos e as palavras que exprimiu, devem ser confrontadas com as práticas dum país que é fundador e activo participante da NATO, organização militar e de inteligência supranacional e desde a sua fundação sob comando do Pentágono, que agora se distende entre o Afeganistão e a Colômbia com todo o sul à mercê!
De facto Portugal tem obrigações perante a União Europeia da qual faz parte a partir do que passou a ser estimulado pelas suas oligarquia e elite nacional desde o 25 de Novembro de 1975 e tem obrigações perante a NATO transatlântica, no quadro da qual assume, além do mais, o asseguramento do seu próprio espaço marítimo e insular.
Essas obrigações estão por dentro das “filtragens” que faz nos seus relacionamentos a sul e por causa delas, expõe a graus de geometria variável em termos de ambiguidade, de cinismo e de hipocrisia, em especial quando elas obrigam a adoptar dois pesos e duas medidas conforme se demonstra comparativamente face à Venezuela e a Angola, por razões que se devem inventariar.
Quer na Venezuela, quer em Angola, há migrações portuguesas e luso-descendentes a ter em conta e, quando há radicalização dos processos políticos em resultado duma globalização tão inquinada como a posta em prática pelo poder que os Estados Unidos exercem particularmente sobre a NATO e seu sistema tentacular de vassalagens com correias de transmissão, as posições do regime da oligarquia portuguesa tendem a corresponder não levando em consideração os cuidados de respeito e solidariedade que deveriam garantir um relacionamento mais saudável com suas próprias comunidades migrantes e luso-descendentes, por tabela com os estados onde eles se situam, por via duma não ingerência garante de busca de consensos, de diálogo, de paz e de aprofundamento da democracia.
Isso acontece apesar de a nível internacional haver exemplos de não ingerência e rejeição de qualquer tipo de manipulação, como acontece com o México…
Ao invés disso, em consonância com os procedimentos históricos e antropológicos que se arrastam desde o passado, o regime oligárquico de Lisboa assume de facto e de forma contínua a defesa das oligarquias, a sua, aquelas que são parte integrante das opções que respondem à hegemonia unipolar contra os interesses e aspirações legítimas do povo bolivariano e em Angola a favor dum projecto de oligarquia que entendem estar em construção, conforme aos seus preceitos de “inteligência económica” que começam no “carácter modelar” dos tentáculos bancários que trouxeram para a latitude de Luanda sobretudo após Bicesse e 2002… que são parte da raiz dos problemas de corrupção que os angolanos estoicamente enfrentam, ainda que a maior parte deles não o reconheçam!...
3- O regime oligárquico de Lisboa começou por alinhar no reconhecimento do deputado Juan Guaidó como “presidente interino” da Venezuela no seguimento de sua auto proclamação instigada pela administração do presidente estado-unidense Donald Trump, alinhou em seguida no ultimato da União Europeia à Venezuela Bolivariana, que a obrigava a eleições segundo seu próprio “timing” e compulsivo critério, depois perante o espectro duma guerra de consequências tanto ou mais devastadoras da que ainda continua no Médio Oriente Alargado, recua em intimidade com o grupo de Lima mas sem baixar a pressão que caracteriza a estafa de sua ingerência em termos de inteligência, para a não-aceitação ambígua duma agressão militar… tudo isso em nome da democracia e pelos vistos do “multilateralismo” que vigora nas suas interesseiras cabeças, ao nível do que “promove” a Organização Não Governamental CANVAS, onde pelos vistos também aprendeu!...
Ao mesmo tempo, com a candura liberal que lhe é sob o ponto de vista sociopolítico “geneticamente” peculiar, a figura presidencial desse regime vem a Angola em pleno carnaval, dando previamente uma entrevista prévia ao Jornal de Angola cujo sentido geral e institucional é, com toda a ambiguidade dum aparentemente escrupuloso exercício, no sentido oposto, até nas apreciações emocionais que faz, não podendo contudo esconder os dois pesos e as duas medidas que na prática assume entre as palavras e os actos, ainda que face a dois países que em comum contam com uma expressiva comunidade portuguesa migrante e expressiva quantidade de luso-descendentes.
4- Perante esse tipo de evidências, entendo eu que em época de tão inquinada globalização neoliberal, ao assumir-se a advocacia dos povos do sul e tendo em conta o longo percurso do movimento de libertação nos dois lados do Atlântico Sul, essa ambiguidade cosmopolita deve ser colocado sob a mira de nossos olhos, por que pela sua natureza não deixa de ser a continuidade dum plasmado processo de há vários séculos a esta parte, desde quando sob o cândido rótulo da dilatação da fé e do império, afinal de facto se enveredava, em nome da “ocidental civilização” e em África, por uma cultura escravocrata e colonial, cujas consequências em muitas regiões, em especial onde a situação insular além do mais implica isolamento físico e geográfico, se fazem ainda sentir penosamente em múltiplos e traumáticos rescaldos até aos nossos dias.
É evidente que o “deus do mercado neoliberal” se preocupa, evocando a malabarística perfídia do “Fim da história”conforme Francis Fukuyama, não só em apagar todas pistas que puder, mas também na lavagem cerebral das multidões contemporâneas, em função dos interesses e conveniências da aristocracia financeira mundial e de suas agenciadas oligarquias e elites.
A legítima afirmação histórica e antropológica a que nos obriga o sul, não pode deixar passar em branco a lástima em relação àqueles que, investidos de poder representativo, em nome da democracia, não podem resistir à erosão, quando há dois pesos e duas medidas, ou seja tanta disparidade e incongruência entre suas próprias palavras e os seus actos!
Martinho Júnior - Luanda, 7 de Março de 2019
Imagem: presidente algum deveria ser malabarista…

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/03/das-palavras-aos-actos.html

Mas que intimidade!

(Por Estátua de Sal, 22/02/2019)

cavaca_marcelo

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, cumprimenta bastonária da Ordem dos Enfermeiros, Ana Rita Cavaco

Diz a última sondagem conhecida que a popularidade de Marcelo está em queda. Não é de estranhar. Marcelo está perder o sentido da pouca equidistância que ainda tinha, e para ele, a campanha eleitoral também já começou, substituindo-se à oposição. Cada vez vai descaindo, numa rampa inclinada imparável para o lado direito do espectro político de onde, na realidade, nunca saiu.

Se a oposição é frouxa e não tem discurso credível nem projecto alternativo viável – a não ser as birras infantis da Dra. Assunção -, Marcelo passou a não se coibir de mostrar a face – indo para além das selfies politicamente inodoras -, e passando a ocupar o lugar de líder da oposição.

Assim, todos os temas que no momento são dor de cabeça para o Governo, acabam por ter na sombra o conforto mais ou menos mediático do presidente. Contudo, no que toca ao dossier da Lei de Bases da Saúde – que a ser votada com o apoio da esquerda parlamentar irá causar um rombo de milhões nos interesses privados que se movimentam na área da saúde -, a actuação de Marcelo tem sido descaradamente parcial, ficando claro que os seus amigos não são os pobres que ele beija como Judas beijou Cristo, mas sim os grupos económicos que fazem da saúde um negócio milionário.

Mas o despudor de Marcelo atingiu ontem o zénite quando em público deliberadamente fez questão de dar toda a cobertura à conduta da Bastonária da Ordem dos Enfermeiros e à sua greve ilegítima e assassina (ver aqui ). Uma vergonha a adicionar ao telefonema que dirigiu ao enfermeiro que decidiu entrar em greve de fome, tentando assim manifestar a sua oposição à requisição civil decretada – e bem -,  pelo governo.

A foto acima devia fazer corar o Presidente da República. Tanto mimo, tanta meiguice, tanto langor no olhar e no sorriso de Ana Rita Cavaco, em público e em frente às câmaras, levam-me a inquirir até que ponto poderá levar o seu desvelo carinhoso se for recebida por Marcelo, a sós em audiência privada.

Marcelo diz que não fala da greve dos enfermeiros antes que o Tribunal se pronuncie sobre a contestação que os dois sindicatos responsáveis pela greve às cirurgias apresentaram. De facto, nem é preciso falar. Uma imagem vale mais que mil palavras. Depois desta imagem não é preciso dizer mais nada, tudo está dito. Marcelo está ao lado de Ana Rita Cavaco no ataque ao SNS, e estará também ao lado dos privados no ataque ao SNS no caso da contenda com a ADSE.

Como Marcelo tanto preza a sua popularidade – que devido a estas atitudes só pode cair ainda mais já que os portugueses estão (segundo sondagens) largamente ao lado do governo na sua disputa com os enfermeiros -, só estando em jogo uma parada alta é que ele terá decidido colar-se sem rebuço a estas manobras contra o SNS.

Sim, a parada é alta. É a saúde de milhares de portugueses, sobretudo dos mais desvalidos e carenciados. Mas para Marcelo, e para os seus amigos da direita, não é a saúde de milhares de cidadãos que conta, mas sim os milhares de euros que temem que deixem de entrar nas suas contas bancárias.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

(Conquanto não se torne num hábito) hoje até digo bem de Marcelo

Dois recuos, e uma posição digna de elogio, é o que se pode aferir da prestação de Marcelo Rebelo de Sousa no regresso aos écrãs da antiga equipa de comentadores da «Quadratura do Círculo».
Dos dois recuos, um é positivo, o outro é-o menos. O primeiro teve a ver com o que fará, quando lhe chegar o pedido de promulgação da Lei de Bases da Saúde, aprovada no Parlamento. Se anteriormente, afirmara-se disposto a vetá-la se não tivesse o ámen do seu Partido, agora, perante a forte probabilidade de uma derrota no confronto direto com António Costa e com a esquerda parlamentar, deu o dito pelo não dito, condicionando a decisão ao que for o seu conteúdo.
Não nos iludamos quanto à possibilidade de ter havido na sua consciência uma mudança de posição: ele mantem-se ideologicamente igual a quem foi no passado, quando votou contra a existência do Serviço Nacional de Saúde. Mas, tendo pesado os prós e os contras, concluiu ser preferível o seguimento da regra “se não podes combatê-los, junta-te a eles”.
O recuo menos positivo teve a ver com o implícito arrependimento de ter visitado o Bairro Jamaica sem ter dado prévio colinho aos polícias. Sobretudo, quando aquele arauto da honra da corporação (e conhecido por ter sido o organizador de mediático organizador de ação de apoio a Passos Coelho, na fase de pré-campanha das eleições legislativas de 2011!) veio proclamar-se indignado num tom desrespeitoso para com o criticado. Se o gesto de Marcelo fora importante para combater a cultura de racismo, que ganhara dimensões inaceitáveis nas gentes das direitas e nalguns polícias, mormente nos infiltrados pelos neofascistas, para aí polarizarem os conflitos acomodáveis nas suas intenções, esse passo atrás só pode qualificar-se de lamentável. O benefício imediato do gesto vê-se agora prejudicado pelo gáudio do contestatário por lhe ter sido dada imerecido crédito.
Redimiu-se, porém, com a posição firme contra a greve dos enfermeiros, que considerou intolerável. Se a generalidade da população portuguesa está contra uma campanha política, que põe em causa a saúde dos que mais carecem ser assistidos, a opinião de Marcelo poderá ter inclinado para essa posição maioritária os que ainda duvidavam da legitimidade do governo para ter decretado a requisição civil. Mesmo que se tenha visto depois, no «Eixo do Mal», um dos opinadores de serviço recorrer a uma ínvia argumentação para tentar justificar o injustificável, convenhamos que, para o bem e par ao mal, os que possam ser influenciados por Marcelo são bem mais do que quem porfia em dar crédito a Pedro Marques Lopes.

 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/02/conquanto-nao-se-torne-num-habito-hoje.html

1979: Quando Marcelo se marimbava para o SNS

Deu brado, a declaração de Marcelo Rebelo de Sousa (MRS) de que vetaria uma Lei de Bases da Saúde, mesmo sem a ler, se fosse apenas votada à esquerda. Esta estapafúrdia declaração vinda de um professor universitário apenas espantará quem acha que MRS é uma pessoa preocupada com a substância dos problemas. Mas para ele, a saúde dos portugueses é um pormenor; o que é essencial é saber quem ganha no jogo esquerda-direita (a direita, na sua opinião, deve ganhar). Aliás, numa recente entrevista à agência Lusa, MRS separou os "mundos" existentes no actual debate sobre a Lei de Bases a partir de uma igualmente simplista e redutora. Disse ele:
Há “duas maneiras de ver o problema” no SNS: com “flexibilidade na forma como é gerido” ou de “maneira mais fixista”.  
Pode parecer chocante, mas esta visão curta dos problemas não é de agora, nem é novidade em MRS. Há cerca de 40 anos, em 1979, quando o SNS foi aprovado no Parlamento como forma de dar mais saúde aos portugueses, MRS era director-adjunto do principal jornal nacional (Expresso). E, mais uma vez, o assunto passou-lhe ao lado. Folheie-se o jornal dessa altura. A página 2 do semanário era sempre sua, para estender a sua "Análise Política". Na página 3, aparecia sempre a "Figura da Semana", escolhida geralmente por MRS. Ao longo de 1979, MRS não gastou uma linha - uma que fosse! - sobre o SNS ou a saúde dos portugueses. O próprio corpo do jornal nunca abordou o assunto, à excepção da crónica parlamentar, que não era da sua autoria. E muitas das vezes o SNS foi completamente secundarizado face a outros assuntos. E se não foi sobre a saúde, sobre o que escreveu MRS nesse primeiro semestre preparatório da votação no Parlamento do SNS? Escreveu sobre a descolonização, o PCP, o PSD, o Governo de Mota Pinto, a crise política, os candidatos presidenciais, a descolonização (outra vez!), o regresso de António Champalimaud, a Europa, o PS, o Brasil, novamente o Brasil (Marcelo deve ter ido ao Brasil e refere-se à chamada revolução de 1964 sem nunca mencionar o golpe militar), o congresso do PS (omitindo António Arnaut, que protanizou - segundo o repórter do próprio jornal - a segunda intervenção mais ovacionada!), os três anos da Constituição, a crise da direita (dividida e com MRS a forçar uma concertação de esforços), a crise da direita nas confederações patronais e na UGT ("a CAP atravessa crise visível e parece paralisada, dividida; a UGT ressente-se da divisão no PSD, atrofia-se à nascença; a CIP permanece em debate constante das suas diversas correntes"), a amnistia aos militares do 11 de Março e do 25 de Novembro, o discurso de Ramalho Eanes no 25 de Abril, as jogadas de Sá Carneiro, a crise entre Sá Carneiro e Eanes, a "frente eleitoral" (escolhendo Freitas do Amaral para figura da semana).
Na semana de Junho em que os deputados votaram o SNS, Marcelo escreveu sobre... o 13 de Maio em Fátima. "A Igreja Católica é uma força social indesmentível, (...) resta saber se tem consciência da situação actual do repto que se encontra lançado". Não lembra ao diabo. Em Julho, com a criação da Aliança Democrática (entre PSD/CDS/PPM), MRS parece feliz: "Este acordo pode ajudar a clarificar as opções eleitorais dos portugueses (...) nada mais frustrante para o eleitorado do que concluir que o seu voto não escolhe o Governo. (...) Se o bloco não se desunir, a maioria governamental pós-eleitoral será provavelmente diferente da actual". Mas a questão da Saúde em Portugal era então assim tão irrelevante? Visivelmente para MRS, sim. Mas para os portugueses, era crucial. Era mesmo um caso de vida ou de morte. Em cada dia. Veja-se como.
MRS podia, como fez António Arnaut ou o deputado da UDP Acácio Barreiros no debate sobre o SNS (17/5/1979) - que se aconselha  ler na íntegra! - alinhar os sinais do descalabro: Taxa de mortalidade infantil, 35 por 1000 nados-vivos; Partos sem assistência -15%; Taxa de mortalidade por doenças infecto-contagiosas, parasitárias e entéricas - 22 por 100000; Casas sem esgoto - 40 %; População com abastecimento de água através de poços - 32%; População sem recolha de lixos urbanos - 61 %; Médicos de clínica geral - 92,5 % no litoral do País, contra 7,5 % no interior; Médicos especialistas - 93,7 % na região litoral (81 % só em Lisboa, Porto e Coimbra), contra 6,3 % no interior; Enfermeiros - 83,8 % no litoral e 16,2 % no resto do País; Consumo de medicamentos (1976) - 80% para o litoral e 20 % para o interior. MRS podia ter se ofendido e cruzado armas com António Arnaut quando, nessa sessão do Parlamento, citou o panorama desgraçado do povo português e a indiferença dos privilegiados:
É esta pungente realidade que os inimigos do SNS fingem ignorar, por cobardia moral e indiferença política. Todo os dias os jornais se fazem eco de casos dramáticos, verdadeiramente intoleráveis numa sociedade civilizada e inadmissíveis para qualquer pessoa minimamente sensível ao sofrimento alheio.
MRS que lia jornais por dever de ofício, podia - tal como hoje - pensar antes na vida dos outros. Ser "minimamente sensível ao sofrimento alheio". Podia ter se lembrado do que vira, dias antes, ao ouvir Arnaut citar notícias atrás de notícias: 
Pessoas que morrem par falta de recursos ou de assistência médica, outras que aguardam meses por um exame ou uma cama no hospital. Há casos insólitos de o aviso para a consulta ou internamento chegar depois do falecimento do doente! Ainda recentemente a imprensa relatou um caso de uma mulher de Fornos de Algodres - o próprio presidente da Câmara mo confirmou - que teve o filho debaixo de uma árvore, porque o hospital, ali ao lado, estava fechado! Tenho aqui à mão recortes de jornais, recolhidos ao acaso, que referem situações verdadeiramente «exemplares» e talvez «eventualmente chocantes» para alguns dos Srs. Deputados:
Septuagenária morre à porta do hospital - recusaram-lhe assistência (Comércio do Porto, de 11 de Março de 1978); Entrar no Banco do S. José é passar a «Porta do Inferno» (A Capital, de 7 de Junho de 1978); De três hospitais para a Mitra, por mais incrível que pareça. Estranha e insólita odisseia de uma sexagenária, que fraturou um braço, relatada pelo Diário de Noticias, que do Hospital de Setúbal passou para o Sanatório de Outão, daqui para S. José, depois os familiares perderam-lhe o rasto e, com o auxílio da Polícia Judiciária, vieram a encontrá-la na Mitra! É esta a «radiografia do nosso desespero» para usar a feliz expressão do Diário Popular, que serviu de título a uma recente reportagem sobre o Hospital de S. José. Vamos deixar que tudo continue na mesma? Vamos permitir que subsista o fosso em cujos águas turvas chafurdam os tubarões, entre os privilegiados da sorte e os deserdados da fortuna, entre os pobres e os ricos, entre a cidade e o campo?
MRS podia ter se sentido ferido pelo insulto - de quem vive "em águas turvas" onde "chafurdam os tubarões" - e ter dado a mão ao projecto «A Social-Democracia em Portugal», dos social-democratas independentes como Sérvulo Correia, em que se sublinhava que 
"Atingiu-se esta situação porque, além das referidas carências sócio-políticas gerais, o regime anterior não foi capaz de estruturar um serviço eficiente e universal de cuidados de saúde, voltado sobretudo para uma medicina preventiva, e porque no sector da medicina curativa criou condições, favoráveis ao desenvolvimento de uma actividade profissional individualista, fundamentalmente ao serviço das camadas privilegiadas da população, em detrimento de uma medicina institucional organizada"  MRS podia ter sentido o apelo do jornalista para o real em bruto traçado por Sérvulo Correia quando afirmou no Parlamento: 
"No meu círculo"de Castelo Branco, "a mortalidade infantil foi, em 1975. de 41 por mil (...) a mortalidade materna foi, em 1975, de 0,70 por mil (...) os partos sem assistência foram, em 1975, de 16,5 %" (...) Como explicaria eu essa inacreditável estratégia aos cinco filhos de uma senhora recentemente falecida, esvaindo-se em sangue por acidente pós-parto, enquanto transportada, sem o tratamento recomendável, do Hospital de Alpedrinha para o do Fundão e daqui para o da Covilhã? (...) Como a explicaria eu aos meus eleitores de Oleiros, mais habituados a não ter do que a ter médico no seu município? Como explicaria aos meus eleitores da Sertã(...) privados de um centro de análises clínicas no seu hospital? Como a explicaria aos meus eleitores da Covilhã(...) obrigados a fazer bichas de madrugada no centro de saúde e cujo velho hospital não responde às necessidades? Como a explicaria aos meus eleitores de Idanha-a-Nova (...), em cujo hospital as camas não tinham ainda há bem pouco tempo colchões decentes? Como a explicaria aos meus eleitores de Penamacor cuja maternidade não funciona por falta de parteira? Como a explicaria a todos os meus eleitores do distrito de Castelo Branco cujo moderno hospital distrital espera há tanto tempo os especialistas de que necessita para dar pleno rendimento às suas instalações e equipamento?
Nada! Absolutamente nada! Nas suas crónicas, nas páginas do seu jornal, não há nada sobre essa realidade. Tudo lhe passou ao largo, nada move as suas ideias senão a macro-estrutura da política, os jogos palacianos, talvez porque, possivelmente, não era essa a sua realidade. Tal como hoje. A atitude do MRS era, aliás, geminada à do PSD. O debate sobre a criação progressiva do SNS começara há um ano com o II Governo Constitucional (PS, apoiado pelo CDS), envolvendo todas as classes na saúde e na sociedade. António Arnaut era o ministro dos Assuntos Sociais e afirmou taxativamente no Parlamento que o projecto fora torpedado pelo CDS, ao provocar a queda do Governo e afundando com ele o projecto do SNS que estava agendado para ser votado a 12/7/1978. O PS recolocou o SNS no debate parlamentar, de 19/12/1978. 
"Descrevi então,"afirmou Arnaut, "o panorama angustiante do sector, apontei factos e números, indiquei os vários modelos-tipo de serviços de saúde, rejeitando tanto o colectivista como o liberal e convencionado. Esclareci que a saúde é um conceito amplo, verdadeiramente revolucionário, ligado à concretização dos demais direitos sociais, por isso que, para além da ausência da doença, visa a obtenção de uma situação de «bem-estar» físico e social. (...) A direita parlamentar - e os seus órgãos de propaganda - procuraram apenas lançar a confusão, deturpar os factos, iludir a realidade. A vocação da direita é denegrir e não construir, conservar ou recuperar e não inovar (...) A direita tem medo da verdade porque sempre viveu da mentira. (...) A direita é o passado, com o seu rol infamante de tropelias, de exploração e opóbrio. A direita é o simulacro das caixas, o submundo dos grandes hospitais, a chaga das Mitras, a fraude da medicina comercializada, o formulário das multinacionais..."(Aplausos do PS, do PCP, da UDP e dos Deputados independentes Brás Pinto, Lopes Cardoso, Vital Rodrigues e Aires Rodrigues)
Em Junho de 1979, havia vários projectos no Parlamento. O projecto do PS (assinado à cabeça por António Arnault e que o PCP, social-democratas independentes e UDP apoiavam); o projecto do CDS - apenas sobre carreiras médicas e administrativas... -  que seguia de perto as ideias da Ordem dos Médicos, presidida por António Gentil Martins, defendendo - tal como hoje - um «sistema de saúde» assente fundamentalmente na contratação entre o Estado e a medicina privada. O PSD estava contra o SNS e chegou a ter inicialmente um projecto alternativo (com financiamento público e complementado com um seguro de saúde), mas não o levou avante. O governo Mota Pinto - que esperava ganhar as eleições em 1980 - achava que, fosse qual fosse o projecto votado no Parlamento, seria capaz de o modificar na fase de regulamentação... 
Esta temática aparece no meio - no meio! - de um artigo a 3 colunas na página 3, local habitual da crónica parlamentar (Expresso, 10/5/1979), da autoria do Pedro d'Anunciação. O PSD dava piruetas entre projectos inconciliáveis: "Embora não subscrevamos nenhum daqueles projectos, quanto a nós qualquer um deles apresenta ideias muito válidas e estamos convencidos que, na sua análise conjunta, poderá resultar um diploma realista",disse o ministro dos Assuntos Sociais Pereira Magro (Expresso, 10/2/1979). Que ideias válidas eram essas? Nada se dizia, nem importava. Pouco importavam igualmente as clivagens que o SNS suscitava.
No início de Março de 1979, realizou-se o 3º Congresso do PS, no Pavilhão dos Desportos em Lisboa. Foi um congresso de combate contra o governo Mota Pinto. Arnaut foi - segundo o repórter do Expresso- "a principal bandeira de identidade da esquerda do partido", em que o SNS aparecia como referência socialista. "SNS" foi a sigla gritada entusiasticamente pelos delegados ao congresso e militantes presentes. Por diversas vezes.
"António Arnaut, num típico discurso de comício lançou o repto emocional a um partido recuperando ainda mais os traumatismos de uma experiência governativa marcadamente conservadora"(Expresso, 10/3/1979).
Curioso frisar que nessa altura - como agora - a questão essencial era a obrigatoriedade da exclusividade dos profissionais do SNS. O jornalista estabelece uma ligação do bastonário da Ordem dos Médicos ao PSD, o que leva Gentil Martins a escrever ao director, a desmenti-lo:..."o projecto do SNS que defendo só por feliz coincidência poderia ser semelhante a algum dos projectos apresentados na AR e dos quais me alheio"(carta publicada a 9/6/1979).   Ao contrário de MRS, que manifestava o seu vazio de ideias, os social-democratas independentes tinham uma visão crítica do assunto. Defendiam "a criação de um sistema integrado - o Serviço Nacional de Saúde - que permita e fomente a socialização dos cuidados médicos em Portugal, garantindo o acesso igualitário de todos à medicina preventiva, curativa e de reabilitação". Mas apontavam "gradualmente para a existência paralela e em plano de igual dignidade das duas soluções" -pública e privada - "com cobertura apenas parcial dos gastos em caso de recurso à medicina privada". "A dedicação exclusiva do médico constituiria regime excepcional, proibindo-se, no entanto, as sobreposições de tempos de serviço e o atendimento dos mesmos doentes pelos mesmos médicos no sector estadual e no sector privado e restringindo-se ao máximo as acumulações de serviço no âmbito do sector estadual". Mas nesse capítulo, parte do PS estava - como agora - com a direita: 
"Sectores importantes do PS reagiram com desagrado à falta de maleabilidade de António Arnaut, o qual teria impedido que o referido projecto fosse aprovado com o voto favorável dos social-democratas independentes"(Expresso, 16/6/1979). Na semana em que o SNS foi aprovado no Parlamento, esta referência aparece a meio da crónica parlamentar. O jornalista escreve: "Diploma extremamente polémico e contestado pela Ordem dos Médicos, o SNS só será exequível dentro de cinco a dez anos".
O tal debate sobre os projectos, realizado a 17/5/1979 foi dos mais esclarecedores. O PSD já defendia então a "liberdade de escolha do médico", "a melhor articulação possível entre o sector estatal e o sector privado", convictos de que a "presença clara e inequívoca de que a estatização generalizada não é a medida adequada à necessária rendibilidade dos serviços e profissionais de saúde". Era defendido como "imperativo de extrema urgência, a existência ou manutenção de um numerus clausus, dado que o débito anual de técnicos terá de obedecer às reais necessidades e capacidade de absorção do País". Era a forma de manter um mercado médico protegido, independentemente das necessidades do país. Um dos oradores do PSD chegou a enfatizar m defesa do "mercado": "Considera o Partido Socialista viável a colectivização da medicina num país que aponta para uma economia de mercado? (...)não entende o Partido Socialista que dos termos do artigo 23.º do seu projecto, resulta a introdução de uma forma de contrôle que aponta claramente para formas populistas, ineficazes e demagógicas? (...)entende ou não o Partido Socialista que o contrôle estatal resulta rigidamente do estipulado nos artigos 31.º, 32.º e seguintes? (...)considera o Partido Socialista que existe qualquer viabilidade, eficaz e social, para o sector privado em convergência com o sector estatal, como preconiza o artigo 52.º do seu projecto? Não será antes a sua progressiva liquidação, ao contrário do que tem sido afirmado?" Uma ideia que foi contestada sibilinamente por António Arnaut no seu discurso final de debate que enumerou os diversos pontos da proposta da criação do SNS (participação dos utentes, articulação com o sector privado, estatuto do pessoal):
"Os que tanto falam na liberdade de escolha do médico escamoteiam a realidade actual, pois tal direito está drasticamente limitado por razões económicas e geográficas, só existindo para os ricos ou para aqueles que vivem em grandes centros. (...) Traduz-se, afinal, em termos práticos, na liberdade de o médico escolher ou seleccionar os seus doentes e não de o doente poder consultar o médico da sua preferência. (...) O Partido Socialista quer a liberdade para todos, a saúde .para todos! Esse é o verdadeiro sentido da socialização da Medicina que os mal intencionados querem confundir com estatização. (...)
..."Sem tal carreira - que existe para todos os funcionários públicos - não poderia assegurar-se a cobertura médica e hospitalar de todo o País. Esta é uma das razões por que são inadmissíveis os modelos da «medicina convencionada» ou do «Seguro-Saúde» que manteriam os médicos nos seus consultórios das áreas urbanas, sobretudo dos grandes centros, em prejuízo da mancha negra do resto do País. No futuro, todos os profissionais que desejem ingressar no Serviço Nacional de Saúde, terão de sujeitar-se ao regime de carreira.
 
Pelo PS, o deputado Gomes Carneiro foi contundente:
"Agora o que não compreendemos é como é que o PSD vem defender o sector privado, se existir um serviço público de saúde capaz, real, competentemente apetrechado e com capacidade técnica suficiente para satisfazer as necessidades das populações no domínio da saúde. Será que o PSD pretende que seja o Estado a pagar a medicina privada?" 
Quarenta anos depois está à vista que sim, que o projecto sempre foi esse. E quanto ao SNS, foi acabando por ser subfinanciado, desarticulado, sangrado e capturado pelos diversos serviços privados, em que os responsáveis pelo Estado "preferem" deixar a apodrecer máquinas e serviços, para serem "forçados" a recorrer aos servidos privados que os vendem, fixando o preço que querem, pago pelo Orçamento de Estado e sempre com a pressão de que as dívidas do sector da Saúde se acumulam, sem serem pagas. A ideia era clara, tal como Arnaut a colocou: 
O SNS não impede a existência paralela ou mesmo concorrencial de actividades privadas no sector da saúde. O que se pretende é garantir à população o acesso pronto e eficiente aos serviços de saúde do Estado. Trata-se, afinal, de o Estado cumprir a «obrigação social» a que está adstrito. Por isso, o campo de actuação da medicina liberal dependerá da maior ou menor eficiência e aceitação dos serviços públicos. De qualquer modo, o seu papel será relevante. (...) Admitimos, pois, como resulta do n.º 2 do artigo 15.º, o recurso dos utentes a entidades ligadas contratualmente ao SNS no caso de impossibilidade de resposta da rede oficial, e até, excepcionalmente, um reembolso directo. Fora dos casos previstos naquela norma, admitimos realisticamente o recurso a entidades privadas que tenham contrato com o SNS, mas o reembolso não poderá representar, neste caso, acréscimo de despesas para o Estado. Assim se concilia o interesse dos utentes, salvaguardando, quanto possível, a sua liberdade de escolha, com os princípios da universalidade e generalidade do SNS. Como disse atrás, a socialização não é a estatização e o que nos preocupa são os interesses dos utentes, únicos destinatários do Serviço Nacional de Saúde. É à luz destes interesses - e não de quaisquer outros - que nos devemos nortear.
Já após a aprovação do SNS, a direita mobilizou-se para que o debate na especialidade esbatesse as fronteiras entre a prática pública e a privada. Mas a questão era sempre minimalisticamente tratada pelo Expresso e sempre de forma depreciativa para o SNS: 

A divisão era entre "os que colocam fronteiras mais vincadas entre a medicina privada e as estruturas estatizadas do SNS"(Expresso, 16/6/1979).
Apenas em Junho, já após a sua aprovação pela Assembleia da República, é que o Expressoaflora a questão, no meio de um artigo e apenas por causa da possível criação de uma plataforma política dos socialistas.
"O SNS e alterações recentemente introduzidas na Lei de Bases da Reforma Agrária têm sido os principais obstáculos à definição de uma plataforma política - e consequentemente a um projecto de Governo entre o PS e os social-democratas independentes" (1ª página, 16/6/1979)
Em Agosto de 1979, a Ordem dos Médicos organiza uma greve ilegal dos médicos, em defesa do fim da exclusividade. Segundo o jornal Expresso, a 23/5/1979, o governo Mota Pinto aprovara o Estatudo do Médico. O governo dera o projecto a ler ao bastonário da Ordem dos Médicos que sugerira modificações, nomeadamente "a possibilidade de os médicos poderem acumular empregos qu pretenderem, horários de trabalho individuais, de modo a facilitar acumulações, incluir todo o tempo de serviço, seja em que regime de trabalho for, para a contagem para a aposentação". Estas alterações modificaram o documento original e as páginas não apareceram rubricadas pelo ministro Pereira Magro, que "não concordara com as alterações". Mota Pinto recebe Gentil Martins, dois dias antes de abandonar o Governo, e Gentil Martins insiste em mais umas modificações. Na véspera de sair, novo encontro, desta vez com o chefe de gabinete, dando conta de que apenas duas das reivindicações não tinham sido acolhidas: indexação salarial automática e classificação numa letra abaixo do pretendido. De resto, ficavam com um estatuto que mais nenhuma classe tinha, levando os serviços do MAS a considerar como impossívis de aplicar (ler mais no artigo que vem acima na foto). O diploma vai assim para Ramalho Eanes assinar. E criou problemas. Os médicos hostilizam formas de luta.  E em Setembro,  MRS escolhe Gentil Martins para a figura da semana, tecendo elogios políticos ao presidente da Ordem dos Médicos, pelas cedências do governo ao Estatuto do Médico - contra "o sindicato considerado conotado com o PCP e que há muito contesta a implantação da Aliança Democrática no seio da ordem dos Médicos" (Expresso, 1/9/1979). Mas nunca, nunca mesmo, se menciona o fundo da questão. Não é isso que interessa a MRS. Nunca foi. A sua vida era outra.  E hoje?

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Portugal | A outra face da Presidência

Manuel Carvalho da Silva* | Jornal de Notícias | opinião
O presidente da República (PR), que surpreendeu grande parte dos portugueses pela forma descomplexada com que acomodou a solução governativa que havia horrorizado o seu predecessor, pelo estilo pouco convencional com que tem exercido o cargo e, ainda, pela desenvoltura com que se pronuncia diariamente sobre assuntos que são da competência de outros órgãos de soberania, volta a surpreender com pronunciamentos e decisões que parecem revelar uma outra face da Presidência, até agora pouco exposta.
Neste texto vou referir-me apenas a posições assumidas pelo PR a respeito da proposta de Lei de Bases da Saúde, e à decisão de nomear o comentador João Miguel Tavares para a presidência da Comissão das Comemorações do próximo 10 de Junho.
Começo pela Lei de Bases. Pode o presidente estabelecer que partidos devem votar favoravelmente uma lei? Está atribuído às escolhas do PR o dom de garantir a uma lei a credibilidade a adequação e a perenidade necessárias? Não. Compete à Assembleia da República (AR) propor (ou acolher propostas do Governo), discutir e aprovar as leis de acordo com o que a Constituição consagra. E não há forças políticas ou deputados de primeira e de segunda.
Pode o PR anunciar o veto a uma lei, antes de estar discutida? Não. Porque ao fazê-lo exerce pressão ilegítima sobre a AR e oferece o poder de veto a forças que ele posiciona para o poderem usar. O anúncio que o presidente fez configura-se como perigosa birra política ou chantagem. É comum ouvi-lo responder (e bem) a jornalistas que lhe perguntam o que vai fazer com a lei A ou B: "não sei, porque ainda não me chegou e só depois é que a analisarei e me pronunciarei". Por que razão neste caso se nega tão frontalmente?
A matéria é muito importante para os portugueses. O PR deve dar-lhe atenção e tem o direito de exercer a sua magistratura de influência junto do Governo, dos partidos e de outros atores. Mas nos parâmetros constitucionais. Se esta sua chantagem vingasse, iniciar-se-ia um caminho de revisões da Constituição à la carte, a partir das agendas e desejos de presidentes. Por isso deve ser rechaçada sem hesitações e a AR tem meios para o fazer.
A Lei de Bases em vigor foi aprovada em 1990 apenas pelo PSD e pelo CDS. Ela, no geral, permitiu garantir saúde aos portugueses mas, ao longo destes 28 anos, perdeu estabilidade e tornou-se instrumento crescente do depauperamento e sangria do SNS, a favor dos chorudos negócios privados com a saúde.
As posições do PR surgem num contexto que não pode ser ignorado: i) há fortes pressões e chantagens sobre o SNS - algumas camufladas por problemas que o Governo já devia ter resolvido - visando dar campo e força ao setor privado; ii) o CDS afirma esse objetivo e o PSD quer "incentivar o privado"; iii) o presidente, talvez por inspiração divina surgida no Panamá, já introduziu o chipe da (possível) segunda legislatura; iv) a Direita e o centrão de interesses clamam contra a possibilidade (direito e dever) de a atual maioria política, agora ou no futuro, encetar reformas estruturais.
Passemos ao 10 de Junho. Estranhou a muitos a nomeação de João Miguel Tavares (JMT) para presidir àquela Comissão. A estranheza começa a ter substância. JMT fez leituras sobre condecorados do passado e descobriu (artigo, "Público" 31/01) que o mais condecorado de todos se chama Marcelino da Mata e é negro. Daí deduz, com alguns acrescentos patéticos de outrem, que toma como seus, por exemplo, que Portugal não é um país racista. JMT ignora verdades que o incomodam, ao mesmo tempo que amplia e manipula factos e mentiras para sustentar os seus propósitos. Transforma a personagem Marcelino da Mata quase em exemplo.
Cumpri 40 meses de serviço militar obrigatório, 26 dos quais na guerra colonial. Ouvi contar façanhas desse sujeito e de outros do mesmo calibre: alguns dos seus atos configuram-se como crimes de guerra. De JMT pode esperar-se esta surpresa entusiástica por aquela figura ter recebido tantas condecorações entre 1966 e 1973, jamais que estranhe o facto de o militar mais condecorado hoje não ser nenhum dos muitos, honrados e generosos, Capitães de Abril.
Esta nomeação não lembrava ao Diabo e coincide com expressões da outra face da Presidência.
* Investigador e professor universitário

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2019/02/portugal-outra-face-da-presidencia.html

O percurso estonteante de Marcelo até ao céu

«Um homem é sempre um homem, seja na sua mais simples cidadania ou no exercício da mais alta magistratura. Tem sempre atrás dele um percurso que marca a sua personalidade. A coerência é uma qualidade que distingue aquele que apresenta uma marca indelével daqueloutro que se apresenta aos concidadãos girando em função dos interesses circunstanciais.
Trump, por exemplo, adverte que as suas declarações não são para ser levadas à letra, o seu significado é diferente daquilo que semanticamente se encontra na declaração.
Quando um homem diz, na sua qualidade de mais alto magistrado da nação, que se recandidatará ao cargo que exerce por ser aquele que está em melhores condições para receber o Papa, entra no caminho, tantas vezes condenado nos Evangelhos, da mais pura hipocrisia.
Na verdade, como se pode saber que homem estará em melhores condições para receber o Papa?
O Papa é chefe de Estado e é, segundo o catolicismo, o representante de Deus na Terra.
Vindo como chefe de Estado, o que importa é o que as relações entre os dois Estados saiam reforçadas. Ninguém acreditará que o Presidente da República portuguesa não receba da melhor maneira o chefe de Estado do Vaticano.
Se fosse possível imaginar o Papa em Portugal apenas como mais um católico, quem poderia dizer, sem soberba, quem seria o melhor para receber Francisco? Aquele que mais pudesse oferecer ou quem desse o que tinha, como a viúva referida nos Evangelhos que depositou na caixa das esmolas as duas moedas menos valiosas, mas que eram as únicas que tinha?
Em 2022 realizar-se-ão em Portugal as Jornadas Mundiais da Juventude Católica com a presença do Papa, que serão seguramente enquadradas nas excelentes relações existentes entre Portugal e o Vaticano. Serão um enorme evento, mas não deixarão de ser para o Estado português um acontecimento de caráter religioso. No entanto, a presença de tantas centenas de milhares de jovens e do próprio Papa terá um elevadíssimo significado e, como tal, será devidamente encarado.
A afirmação de Marcelo quanto à sua recandidatura, no momento do anúncio do país escolhido para acolher as Jornadas de 2022, constitui uma argumentação rasteira que exigiria, face à importância do evento, uma outra elevação de espírito.
É algo, em termos de honestidade intelectual, que raia a pouca vergonha, pois o que Marcelo está a querer dar a entender é que ele é o único capaz de receber o Papa... Marcelo confunde o seu beatismo católico com o cargo de PR, o que é muito grave. Habituou os portugueses, ao longo da sua vida política, aos mais estonteantes ziguezagues, ao sim e ao não sobre a mesma realidade, chegando, o ano passado, a fazer depender a sua recandidatura do modo como o Governo resolveria as falhas do Estado... O que lhe chega ao toutiço, às vezes, sai cá para fora.
O facto de Marcelo ser católico não lhe dá nem lhe retira qualquer vantagem quando reunir enquanto chefe de Estado com outro chefe de Estado, neste caso o do Vaticano, e o PR de Portugal deverá pautar a sua conduta nos exatos termos de artigo 41.º da CRP, designadamente o n.º 4: ”(...) As igrejas e outras comunidades religiosas estão separadas do Estado e são livres na sua organização”...
Para receber como deve ser recebido o Papa, não é preciso que venha ao de cima a confissão religiosa do chefe de Estado português, basta atentar no modo como Mário Soares, Jorge Sampaio e Cavaco Silva os receberam.
Proclamar ser candidato a PR pelas razões expostas é algo muito feio, que convoca o que de mais primário pode haver em quem professa a religião católica e disso quer tirar vantagem.
Só a perda da noção da realidade material do mundo em que vive, substituindo-o por outro mundo virtual, onde o que se passa na cabeça de Marcelo é apenas realidade populista, capaz de o lançar num mergulho no Tejo ou numa viagem de camião, explica o destempero beático de sua Excelência o Sr. Presidente da República.
Um homem capaz das mais variadas artimanhas para continuar a ser o que sempre foi é a marca indelével de Marcelo.»
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Venham beatos e geeks, mas deixem a religião fora da política

Sou ateu, laico, republicano e socialista. Mas nada me move contra a Igreja Católica. Nem contra as outras, desde que tenham mais de 500 anos para lhes conhecermos bem as manhas. Os meus amigos até se divertem com o que acham ser a minha lenta caminhada para Roma. Sou de uma família ateia, parte de ascendência judia, e isso dá-me o desprendimento de quem nada tem para resolver com o seu passado.
Como anda o mundo até tenho uma certa simpatia pela existência de comunidades de fé que não permitam que as pessoas com menor formação moral se entreguem ao individualismo sem norte. E como o que vejo crescer, como alternativa, são igrejas de autoajuda, lideradas por semianalfabetos que fazem da fé um mero negócio – pelo menos de forma mais desbragada do que as igrejas tradicionais –, prefiro a velha Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR). Segura e previsível. Ainda mais agora que tem um Papa admirável. Não fosse acreditarem em Deus e terem uma certa tendência para se meterem na vida das pessoas, até me convertia. Ou seja, quando deixarem de ser uma igreja e católicos contem comigo.
Deve ser por esta minha atual bonomia com a ICAR que não me choca nada que Marcelo tenha ido ao Panamá para ficar com os louros das Jornadas Mundiais da Juventude de 2022. Se a fé nas startups traz miúdos imberbes para gastarem dinheiro em Lisboa, contribuindo para a economia nacional, não vejo porque uma fé mais antiga não possa dar o seu contributo. Um milhão de jovens beatos não é pior do que milhares de jovens geeks. Religião por religião, sempre prefiro as do livro às do tablet.
A única coisa que realmente me incomoda é Marcelo Rebelo de Sousa ter decidido associar a sua recandidatura a um momento religioso, através de um intimista “saio daqui com uma grande vontade de, se Deus me der saúde e se eu achar que sou a melhor hipótese para Portugal, me recandidatar”. Uma coisa é ir em peregrinação ao Panamá para sacar mais um evento para a nação – é a nossa especialidade. Outra, um pouco diferente, é associar uma decisão política a um ato de fé e uma recandidatura a um momento religioso.
Agora que todo o país se converteu ao politicamente correto, propondo extradições e despedimentos por causa do uso do vernáculo, não quero parecer excessivamente picuinhas. Mas, parecendo que não, anda por cá uma malta que não é católica. E diz que somos cidadãos. Quando Marcelo disse que ia ser o Presidente de todos os portugueses pensávamos estar incluídos. Não estou propriamente zangado. Mas se desse para separar a política da religião, os não católicos, que ainda são uma boa parte da população, agradeciam.
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Marcelo, fé, política e foguetes

«Em 17 de Outubro de 2017 Marcelo disse que a resolução dos problemas que levaram aos trágicos incêndios desse ano seria "um teste decisivo ao cumprimento do mandato". Na prática, o Presidente colocou na capacidade do Governo de resolver todas as falhas do Estado que conduziram à tragédia o alfa e o ómega da sua recandidatura a Belém.
Depois de ter subido a pressão sobre o Governo a este nível estratosférico, Marcelo vem agora anunciar, na prática, que voltará a apresentar-se a eleições. Só que agora há uma diminuição brusca das condições: para o Presidente da República se recandidatar, a condição, como para qualquer coisa da vida, é "ter saúde" e a outra é "saber que não há ninguém em melhores condições para receber o Papa". Entramos num nível quando "ser a melhor pessoa em condições para receber o Papa" se torna um activo eleitoral.
É extraordinária a falta de memória que o Presidente agora mostra da "anterior condição", exposta numa comunicação ao país em Outubro de 2017 e repetida numa entrevista ao PÚBLICO em 8 de Maio de 2018. Há menos de um ano, "se tudo corresse mal outra vez", Marcelo não se recandidataria a Belém. Depois de pôr a repetição do seu mandato dependente da resolução do problema dos fogos, o Presidente agora embarca numa euforia de uma festa católica para anunciar os portugueses que receber o Papa, isso sim, torna-se decisivo.
Está Marcelo agora a ser populista ou já estava quando pôs a condição de não se repetirem os fogos de 2017? Está certamente a ser contraditório ou, pelo menos, esquecido. E nem católicos nem laicos se revêem na instrumentalização de um acontecimento religioso para fazer a pré-abertura da corrida Belém 2021.
Paulo Portas costumava justificar o amplo uso que fazia de uma certa retórica nas margens do panfleto anti-imigração com o argumento de que não podia haver nenhum partido à direita do CDS. De certa forma, ao ir buscar esses temas - como o combate ao antigo rendimento mínimo garantido - tentaria afastar o fantasma do nascimento de um partido de extrema-direita.
Marcelo, que tanto tem zurzido o crescimento dos populismos, parece pensar o mesmo. Uma espécie de "fiquem sossegados, portugueses. O populismo sou eu e ninguém me vai bater neste campo. Eu encolho o espaço disponível". Deve ser mais ou menos isto.»
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Artigo 34º da Concordata: Marcelo reeleito em 2021 para receber o papa

«O Presidente da República português, Marcelo Rebelo de Sousa, afirmou este sábado que sai da Cidade do Panamá, onde permanece até domingo para participar nas Jornadas Mundiais da Juventude (JMJ), com “uma grande vontade” de se recandidatar.


 

“Saio daqui — e amanhã [domingo] admito que mais — com uma grande vontade de, se Deus me der saúde e se eu achar que sou a melhor hipótese para Portugal, com uma grande vontade de me recandidatar”, afirmou Marcelo Rebelo de Sousa.

Questionado sobre o que o faz ter dúvidas, o Presidente português adiantou: “Tenho de ter saúde e tenho de ver se não há ninguém em melhores condições para receber o papa”.

O Presidente português disse ter conversado “várias vezes” com o papa na missa que Francisco presidiu na Cidade do Panamá e à qual Marcelo Rebelo de Sousa participou, concretizando-se o terceiro momento em que os dois chefes de Estado estiveram.

"À entrada reconheceu-me logo e recordámos quando estivemos juntos, nomeadamente em Fátima”, afirmou aos jornalistas o chefe de Estado após a celebração, na basílica catedral Santa Maria la Antigua, no âmbito das Jornadas Mundiais da Juventude que decorrem até domingo na capital do Panamá.

Já no final, o papa Francisco contou-lhe uma história “muito curiosa”, relatou Marcelo Rebelo de Sousa. "À saída disse que tinha tido uma troca de correspondência com o arcebispo Tolentino [Mendonça] sobre dois artigos relativos a Santo António e, a certa altura, nessa troca de correspondência, dizia-se ‘Santo António de Pádua’ e ele acrescentou, ‘de Lisboa, não é de Pádua, de Lisboa’”.

Esse foi o terceiro momento em que o chefe de Estado português esteve com o papa Francisco.

Em 17 de março de 2016, oito dias após ter tomado posse, o Presidente da República viajou para Roma, naquela que foi a sua primeira deslocação oficial ao estrangeiro.

Então, Marcelo Rebelo de Sousa, assumidamente católico praticante, justificou a escolha do Vaticano: “Trata-se do reconhecimento perante a entidade que foi a primeira a reconhecer Portugal como Estado independente”.»

Fonte

Leia o original em "Aspirina B" (clique aqui)

O PR e o Panamá

(Carlos Esperança, 26/01/2019)

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Quando li que o PR estava no Panamá, pensei que o dom da ubiquidade, atributo de um frade português que a mitologia católica colocou em Pádua e em Lisboa, à mesma hora, no mesmo dia, se repetia agora com Marcelo.

Dado que fujo dos telejornais, para preservar alguma sanidade mental, resolvi consultar o sítio da PR onde, de facto, estava anunciada a deslocação do PR ao Panamá para as XXXIV Jornadas Mundiais da Juventude.

A deslocação a festivais da juventude, de onde o julgava arredado pela idade, levou-me a indagar o que iria fazer ali o PR e a surpresa tornou-se azedume e a deslocação motivo de censura. Não foi procurar os papéis do Panamá que, noutros países, levaram pessoas à prisão, foi participar numa Via Sacra com os jovens, numa missa e assistir à bênção das obras de restauro de um edifício pio.

Se foi a expensas próprias, em merecidas férias, só me cabe respeitar a devota intenção, mas se foi em viagem de Estado fico com a vaga sensação de que desprezou o País laico que representa, num atentado à ética republicana e à neutralidade do Estado em questões religiosas.

Portugal elegeu um PR, não colocou em Belém, apesar do nome do palácio, uma figura do presépio, o sacristão que voa para as missas em vários continentes, um devoto, ruído pela fé, com um tropismo especial para beijar o anel do seu homólogo do Vaticano.

O encontro com jovens peregrinos portugueses não legitima a despesa e abre um grave precedente para encontros com jovens amantes do remo, do berlinde, da Música Pop, da vela, do andebol, do Rock ou da bisca lambida, sem necessidade de se ajoelhar na missa que o Papa Francisco vai dizer no exercício da sua profissão.

É natural que do encontro com o PR do Panamá, Juan Carlos Varela, resultem grandes vantagens para Portugal, mas podia aproveitar quando ele não estivesse ocupado com a receção ao chefe de Estado do Vaticano.

Marcelo, nesta fé que o devora, fere a laicidade e reduz-se a presidente dos portugueses amigos da hóstia e da missa. Parece o enviado da Conferência Episcopal Portuguesa.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Incontinência ou vampirismo?

MRS Televisao

As funções do Presidente da República estão bem definidas nos artigos 120º a 140º da Constituição da República. O que vale dizer que não podem ser inventadas, segundo o gosto de cada íncola do Palácio de Belém.
No quadro político-constitucional o Presidente da República não tem poderes executivos.
Nomeia o Primeiro-Ministro. Pode demitir o governo, dissolver a Assembleia da República e presidir ao Conselho de Ministros, sob proposta do Primeiro-Ministro.
Por isso, o Presidente da República deve deixar o governo governar e só intervir caso considere uma situação verdadeiramente anómala, tanto mais quanto o governo responde perante a Assembleia da República, de onde lhe vem a legitimidade democrática. Tal não significa que não se pronuncie sobre a vida política.
Quando o PR se afirma no exercício do seu mandato opinando sobre as matérias que estão em discussão na ordem do dia, ultrapassando os próprios titulares governamentais, cria distorções no equilíbrio dos vários poderes.
A tendência de aparecer, sobretudo na televisão, todos os dias, muitas vezes para dar conta da sua preocupação com assuntos que não há ninguém de bom senso que não esteja preocupado, cheira a vampirismo político.
Marcelo não pode desconhecer que a vida dos camionistas é dura. A ninguém passará pela cabeça que a vida profissional de um mineiro não é dura. E o mesmo se dirá dos homens que trabalham no fundo das pedreiras. A vida de um padeiro ou de um homem da limpeza das ruas ou das fossas não é pera doce, ou a de um piloto de aviões, pelo grau de responsabilidade.
O Presidente só conhecerá a verdadeira natureza de cada profissão mais dura se passar a fazer uma viagem com um camionista, se descer à mina durante um dia de trabalho, se “pilotar” um avião com um comandante, se passar um dia com um varredor das ruas ou com um limpador de fossas? E só saberá se os coletes amarelos mobilizam muita gente passando na manifestação, sendo notícia? E passando no estabelecimento prisional de Lisboa na altura de protestos quando há notícias em direto?
Quando Marcelo apanha boleia com um camionista alegadamente para chamar a atenção para a dureza da profissão ter-se-á apercebido de quantas profissões estarão em lista de espera? E se se apercebeu vai passar dias, meses e anos (até às próximas eleições) a fazer de conta que é enfermeiro, padeiro, mineiro, trolha, piloto, limpa chaminés, pintor de carros?
O titular do cargo de Presidente da República alertou na sua mensagem natalícia para o perigo do que designou populismo ou posturas eleitoralistas dos partidos, não havendo ninguém que não concorde com a ideia que numa campanha eleitoral a tendência é para facilitar as promessas, sendo certo e seguro que há alguns a prometer que batem todos os recordes …
Marcelo não está a prometer preocupações a mais, bem tendo consciência plena que cabe ao governo tratar do desgaste de cada profissão? Que pretende Marcelo? Levar a cabo um levantamento socioprofissional de cada profissão? Um levantamento sociológico? Ou ser notícia?
É intrigante esta atafona de Marcelo por aparecer diariamente a manifestar as suas preocupações. Não seria mais indicado que nas reuniões com António Costa exercesse com grano salis a sua magistratura de influência? Corre o risco de se banalizar a tal ponto que ninguém se importará com mais um mergulho ou mais uma preocupação ou mais um acompanhamento em direto de qualquer desgraça.
Entre uma rainha, como a da Inglaterra, que quase não fala e um Presidente que não se cala, a virtude está apenas na ida às urnas para eleger o Presidente; talvez, por isso, esta loquacidade marcelina.

Ver original em ' O Chocalho' na seguinte ligação:

https://ochocalho.com/2019/01/26/incontinencia-ou-vampirismo/

10 de Junho

Quando se soube ontem que o presidente da República tinha designado João Miguel Tavares para presidir à comissão das comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, foram mutos os que brincaram com a dita designação. Passadas umas horas, penso que é bom deixar de rir.
Podemos não dar importância à celebração em causa, mas Marcelo Rebelo de Sousa parece dar-lhe. E se queria sublinhar a importância da comunicação social (porque não?), não se entende os motivos da sua escolha. Não estão aqui em causa opções de esquerda ou de direita, já que há muitos e bons jornalistas em ambas, mas que João Miguel Tavares não é um deles parece ser de consenso largamente generalizado.
Marcelo é culto e inteligente e os motivos para esta escolha restarão insondáveis. Mas eu, que nunca alinhei na teoria segundo a qual o facto de ele ser popular nos defende da entrada do populismo em Portugal, vejo nesta designação «popularucha» uma espécie de provocação e ofensa, sobretudo para os bons profissionais dos órgãos de comunicação social, que tanto precisam de apoio.
Marcelo é perigoso. E há anos que penso, e que escrevo, que só engana menos do que o algodão aqueles que querem ser enganados.
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Leia original aqui

A nomeação

(José Gabriel, 23/01/2019)

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(Portugal, e Camões mereciam melhor sorte, não sendo entregues a um charlatão, a um caluniador direitola sem qualquer currículo digno de louvor. Mas, para Marcelo, este é o tipo de escriba que o país precisa e deve ser destacado.

Mais uma vergonhosa mancha no percurso do “selfie made man”. Já não chegava o beija-mão ao Bolsonaro, agora acrescenta uma vénia a este sacripanta. A Estátua aposta que, não tarda muito,  Marcelo ainda vai tirar uma selfie com o André Ventura, senão mesmo com o Mário Machado.

Comentário da Estátua, 24/01/2019)


Então Marcelo Rebelo de Sousa nomeou João Miguel Tavares para presidir às comemorações do 10 de Junho (Ver notícia aqui).

Acidentalmente, ao tentar confirmar esta notícia – na qual não queria acreditar – topei com o sorridente agraciado ao lado de Rui Ramos, historiador (à sua muito particular maneira). Pensei que, com o popular Emplastro ao lado estaria completa uma boa equipa. Depois, com algum embaraço, admito, achei que estava a ser injusto para este último o qual, para lá das suas obsessivas aparições televisivas, nunca fez mal a ninguém. Marcelo, com esta nomeação, leva a cabo o seu propósito de não deixar vazios espaços que o populismo possa preencher. Ele, – e os seus amigos -, tratam disso. Preenchem que se fartam.

O Dia de Camões tem sido presidido por ilustres figuras. Nem sempre consensuais, mas todas com inquestionáveis habilitações – designadamente académicas. Todos nos lembramos de Jorge de Sena, João Caraça, Sobrinho Simões, Onésimo Almeida e outros.

Finalmente – e, quiçá, pela primeira vez – as comemorações serão presididas por alguém que poderá não fazer ideia de quem são e o que fazem ou fizeram estes seus antecessores.

É o triunfo do comentadorismo rasca, do lixo televisivo e jornalístico! Parece que a intenção de Marcelo é trazer para a ordem do dia os problemas da comunicação social. A escolha de João Miguel Tavares evidencia o que o presidente dela espera.

Aguardamos agora, com natural ansiedade, dados sobre quem se encarregará da animação cultural. Quim Barreiros, Tony Carreira ou o Avô Cantigas? E, espero, nas artes plásticas não serão esquecidos os trabalhos em cerâmica produzidos nas Caldas da Rainha. É preciso manter o nível!

Adenda (com o perdão do nosso Luís Vaz…):

Busque Marcelo novas artes, novo engenho,
para lixar-me, e novas esquivanças;
que não pode tirar me as esperanças,
que mal me tirará o que eu não tenho.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

10 de Junho? Vai ser assim

Marcelo a exceder todas as nossas possíveis expectativas. E fica aqui um recorte da página da Presidência para não se pensar que é Imprensa Falsa ou notícia do Inimigo Público.
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Leia original aqui

Marcelo surfista na crista do canhão da TVI bateu Macnamara

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Na mensagem de Ano Novo Marcelo convocou os portugueses a participarem nas eleições que se vão realizar este ano, destacando o seu significado mais profundo em termos de escolhas para o futuro.
De facto, em 2019 realizar-se-ão três atos eleitorais. Seria adequado, dado que as próximas são já em maio, que os partidos políticos, os media e os portugueses estivessem minimamente interessados nos programas e ou propostas dos que serão candidatos. Ainda mais incentivados pelo vibrante apelo do PR.
Os portugueses, no início deste ano, já tinham sido sacudidos da sua letargia decorrente das festas natalícias por uma tempestade de ideias que jorraram da entrevista da TVI a Mário Machado, especialista em mecenato, e da esperada e desesperada estreia na SIC do programa da Cristina Ferreira, após as suas férias de sumptuoso luxo nas Maldivas.
A nossa Lady Di escolheu para a glamorosa estreia o inebriante Luís Filipe Vieira que se apresentou bem-disposto a jogar à bisca com a senhora.
E para que ninguém tivesse dúvidas acerca da importância daquele conclave a dois, juntou-se via telefone Marcelo que intervalou no meio de uma reunião para desejar as maiores felicidades à fugitiva da TVI.
Em boa verdade qualquer reunião (salvo se outros forem os regulamentos) é passível de um intervalo.
Aceita-se assim que Marcelo intervale. Como não fuma, dado o seu frenesim, aceita-se também, em ano com três eleições, que ele, na esteira da sua mensagem de Ano Novo, entre nas discussões relevantes, não tivesse deixado sozinhos os dois grandes pensadores da manhã da SIC.
O programa foi marcado por uma revelação totalmente inesperada – a promessa de Luís Filipe Vieira de ter um novo treinador que poderia ser Mourinho que só o soube pela imprensa. Explicou a mágoa pelos lenços brancos e, qual adivinho, augurou que os benfiquistas ainda se vão arrepender de ele (Vieira) ter mandado o Vitória para as areias quentes da Arábia Saudita. E deixou implícita a sua recusa em tornar definitiva a escolha provisória.
No outro canal Luís Goucha bem se tinha esfarrapado para passar a perna à Cristina ,tendo levado para o seu “programa” Mário Machado, conhecida personalidade do mundo da bondade, repleto de condecorações conferidas nas prisões por onde passou dada as opiniões controversas de sua autoria.
O ano tinha terminado (lembram-se?) com Marcelo a alertar para os perigos das disputas eleitoralistas e populistas, e começou o novo com o apelo ao debate sereno e cívico para defender o regime democrático.
Ora aqui estamos nós entre a SIC, TVI, RTP e CMTV ungidos por grandes debates acerca das condições em que os portugueses vivem, a importância do Parlamento europeu, as consequências do Brexit, o futuro da geringonça e as escolhas da Madeira.
O que vale o anúncio de três ou quatro novas estações de metro em comparação com a nova cláusula de rescisão de Eder Militão? Ainda se António Costa seguisse o conselho de Assunção Cristas e mandasse abrir vinte novas estações de metro…Resta-nos a saga da luta mortal entre Montenegro(nome de espadachim) e Rio, o conciliador.
Razão tinha Marcelo na sua mensagem…“Debatam tudo, com liberdade… Podemos e devemos ter a ambição de dar mais credibilidade, mais transparência, mais verdade às nossas instituições políticas. Para que a confiança tenha razões acrescidas para se afirmar… “Et voilá, os grandes debates em curso, animados pelo mais alto magistrado da nação, mostram que a SIC, a TVI, a RTP e a CMTV, estão atentas. E daí esperar que continuem a levar grandes figuras aos seus écrans, muito futebol, a vida sexual e luxuosa dos famosos e seus escândalos, a explicação dos crimes, e muitos beijinhos de felicidades. Sem televisão os portugueses não saberiam escolher. Sem Marcelo que seria do surf? Bem hajam no país de tantos basbaques.

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Ciúmes

(Por Estátua de Sal, 10/01/2018)

ciumes na presidencia

Imagem in Blog 77 Colinas

Se pensavam que as afirmações mais polémicas e  virais dos últimos dias terão sido proferidas pelo Trump, pelo Bolsonaro ou por outro qualquer lunático no poder, desenganem-se. Vieram de um escritor francês que ousou dizer-se incapaz de gostar das  mulheres de cinquenta anos, preferindo as mais novas (ver entrevista aqui).

Não sendo tal opinião inédita ao longo da História, nem sequer inédita ao nível da literatura, não percebi muito bem qual a razão para tanta polémica. Afinal, eu até tinha um amigo – psiquiatra de profissão, já falecido -, que dizia, meio jocoso, meio cínico, que depois dos dezasseis anos as mulheres são todas velhas, e tentava fundamentar a blague,para espanto dos auditores, com uma lista de dados fisiológicos que debitava do alto da sua autoridade médica. Para já não falar da atracção que muitos sentem pelas muito jovenstendência retratada por Vladmir Nabokov no polémico romance, Lolita, envolto durante muitos anos numa névoa de escândalo e por isso censurado.

Mas que relação haverá entre o desassombrado escritor e o Professor Marcelo, além do facto de Marcelo ter também, nos últimos dias, sido o centro de uma polémica aguda, depois de ter entrado em directo, via telefone, no novo programa de Cristina Ferreira na SIC?

É que, Marcelo trocou a Tia Judite já cinquentona  – mas com quem mantinha uma evidente cumplicidade, criada ao longo de anos de convívio dominical no seu espaço de comentário na TVI -, pela Cristina Ferreira, agora na SIC, muito mais viçosa e apelativa.

A Tia Judite deve estar mesmo despeitada, ciúme à flor da pele, e o despeito e o ciúme são coisa grave nos humanos, e nas mulheres, talvez ainda, coisa mais séria.

Escusam, pois, de tentar encontrar fundamentos políticos, enredos maquiavélicos, amizades reatadas com o Dr. Balsemão, ou outras quaisquer outras motivações arrevesadas para explicar o telefonema de Marcelo para a Cristina.

A explicação é mais prosaica. Contrariamente ao Macron – que se baba pelas cinquentonas -, o Marcelo é da escola do Yann Moix, o tal escritor francês e são as mais novas que o desinquietam.

Isto é, a Judite já está entradota, demasiado pintalgada, a tentar esconder que está a perder o viço, enquanto a Cristina está esplendorosa e criativa propondo-se aumentar com denodo a sua conta bancária e de passagem a do Dr. Balsemão.  É a vida.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

A falta de gravitas de um inveterado populista

Durante a campanha presidencial, que levaria Marcelo Rebelo de Sousa a ocupar o cargo de mais alto magistrado da nação, uma das previsões que fazia era a da sua evidente falta de gravitas correspondendo esta a uma conduta enobrecedora da função e não a da sua descaracterização como se fosse mais uma a acumular-se-lhe no currículo enquanto professor universitário, jornalista ou comentador televisivo. O presidente não deve ser um sujeito comum, que se faz passar por bonacheirão para manter elevados níveis de popularidade, porque, em situações de crise, mais não conseguirá fazer do que carpir lágrimas abraçado aos desgraçados, ou lançar culpas para ombros alheios, traço de personalidade que lhe é, aliás, bem costumeiro. Pior ainda não deve parecer estar com o governo em tudo quanto este efetivamente faz de positivo pelo país e pelos cidadãos - como se nisso tivesse tido qualquer intervenção! - e se apresse a criticá-lo viperinamente em todas as ocasiões difíceis em que a herança de negligências passadas vem recair sobre quem sobre elas pouca responsabilidade tem.
O candidato que apoiei - António Sampaio da Nóvoa - tinha essa capacidade de inspirar confiança na forma como analisava a realidade para além da grelha de trivialidades e da fértil intriga, que Marcelo sempre personificou, e como visionava o futuro do país muito para além do que lhe ditavam as aparências do presente.
Infelizmente o país ficou a perder com a escolha que fez e daí se explique, afinal, que tenhamos como presidente quem considera Jair Bolsonaro como um «irmão» ou quem diz interromper uma reunião importante para telefonar a uma apresentadora televisiva ao sabê-la estreante no canal para onde se mudou a troco de avultado prémio.
Falso crítico do populismo, Marcelo é-o diariamente, desde que se levanta até que se deita, e por isso não vê óbice em tomar essas atitudes e muitas outras, que se vêm acumulando em lamentável sucessão nestes quase três anos de mandato.

 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/01/a-falta-de-gravitas-de-um-inveterado.html

Senhor Presidente, não havia necessidade

(Anselmo Crespo, TSF.PT, 07/01/2019)

marcelo cristina

Não havia necessidade mas ele está em todas – Imagem in BLOG 77 Colinas

Tenho o maior respeito por Marcelo Rebelo de Sousa. Pelo professor, pelo político, pelo comunicador, e, mais recentemente, pelo Presidente da República. Tenho elogiado várias vezes o papel importante que ele tem tido desde que chegou ao Palácio de Belém. Durante a tragédia dos incêndios em 2017, no caso do assalto a Tancos e na forma como tem exercido a sua magistratura de influência junto do Governo, da Assembleia da República e do País.

Nunca me juntei aos que o criticam pelo estilo mais popular – ou popularucho, conforme os casos. Pelo contrário. Acho que ele percebeu cedo que o país precisava de um Presidente diferente no conteúdo, mas, sobretudo, na forma. E ninguém melhor que Marcelo para interpretar e saber equilibrar-se nesse limbo da política, que tanto pode atirar para níveis de popularidade avassaladores como pode fazer cair no ridículo e no descrédito.

A popularidade tem sido, de resto, a principal arma política de Marcelo Rebelo de Sousa. Deu-lhe, até hoje, o crédito de que precisava para poder “demitir” uma ministra em direto na televisão. Para forçar o Governo a fazer o que não queria. Para evitar males maiores na manifestação dos coletes amarelos em Portugal. Isto só para citar alguns exemplos.

Admito que a omnipresença do Presidente primeiro estranha-se, depois entranha-se. Mas a verdade é que esta estratégia do Presidente da República tem produzido resultados positivos, para o país e, claro, também para ele. Aristóteles dizia que a função principal da política era atender aos interesses dos cidadãos e Marcelo – ainda que nem sempre isento de erros – tem-no feito.

Mas há um lado de superstar – que as suas participações televisivas terão exponenciado – que confesso que me faz alguma confusão. Não porque Marcelo Rebelo de Sousa não tenha todo o direito de o cultivar. Mas porque ao Presidente da República cabe também um papel institucional, que se perde de cada vez que o banaliza.

O telefonema para o programa de Cristina Ferreira, esta semana, está longe de ser uma coisa inédita. Em fevereiro de 2017, Marcelo já tinha pegado no telefone para dar os parabéns ao diretor da Rádio Comercial, em direto. Fátima Lopes agradeceu-lhe, também em direto, o telefonema que recebeu depois do divórcio. A diferença, desta vez, é o contexto e só por isso decidi escrever este texto. A chamada para Cristina Ferreira surge depois de o programa concorrente – apresentado por Manuel Luís Goucha – ter levado a estúdio um criminoso fascista chamado Mário Machado, provocando com isso uma polémica daquelas boas, que dão audiência. Falem bem ou falem mal, mas falem. E, sobretudo, vejam.

Ao tomar a iniciativa de ligar para Cristina Ferreira para lhe desejar boa sorte para o novo programa, o Presidente da República não só entrou nesta guerra de audiências, como permitiu que daqui se extraíssem conclusões – porventura erróneas – de que o mais alto magistrado da nação estaria, indiretamente, a tomar posição sobre o convite que a TVI fez a Mário Machado.

Marcelo veio, entretanto, explicar que quis compensar a apresentadora da SIC por não lhe ter dado uma entrevista, como havia feito com Manuel Luís Goucha há umas semanas. Mas a explicação é, em si mesma, a prova de que não devia ter feito aquela chamada. É, em primeiro lugar, a demonstração de que muita gente não compreende como é que um Presidente da República se presta a este papel. Em segundo lugar, porque o país e o Presidente têm assuntos muito mais importantes com se preocupar do que perder tempo com explicações sobre telefonemas para programas de entretenimento.

E, por fim, porque Marcelo Rebelo de Sousa pode e deve fazer as chamadas que quiser, dar os parabéns, desejar boa sorte, feliz Natal ou fazer votos de bom ano a quem quiser que ninguém tem nada a ver com isso. Mas sempre que opta por não o fazer em privado, mas em direto, é o Presidente da República que o está a fazer. Por muita popularidade que isso lhe granjeie, não havia necessidade.

Confesso que não consigo evitar algum sentimento de vergonha, que não alheia, ou não fosse Marcelo o Presidente de todos os portugueses.


Fonte aqui

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Bolsonaro, seu irmão? Ele mesmo?

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A ideia de Marcelo ir à tomada de posse de Bolsonaro podia ser boa, mas foi péssima. Bastou passar dois ou três dias para ver que, apesar da “irmandade”, a ida foi um espalhanço monumental, uma daqueles falhanços que não é do Estado, mas sim exclusivamente do detentor do mais alto cargo político em Portugal.
Marcelo está habituado a lidar com o que se pode chamar uma agenda de superficialidades: aparecer preocupado com as situações alarmantes; rejubilante com as vitórias desportivas; ternurento com os infelizes; insinuante com os desafios eleitorais; superdesportivo a dar mergulhos em praias marítimas e fluviais; e sempre, sempre pronto para dar afeto, um primor, o special one…
A vontade de transformar vinte minutos (o tempo que o capitão Presidente lhe concedeu) numa vitória diplomática é um absurdo gritante. Houve um quinto tema – a visita de Bolsonaro a Portugal (que duvido que se concretize).
Ora vinte minutos, onde tratou de cinco temas- a comunidade portuguesa no Brasil, a comunidade brasileira em Portugal, as relações entre Portugal e Brasil a CPLP e a visita a Portugal de Bolsonaro, a dividir por cinco temas dá quatro minutos, o que significará que cada Presidente deverá ter falado entre dois minutos por tema, caso algum deles não se tenha remetido ao silêncio …
Ora esta reunião …”formal e substancialmente boa entre irmãos”… não pode deixar de ser vista, em termos meramente político-diplomáticos como um espalhanço monumental e daí a necessidade de Marcelo substituir factos por uma conclusão.
O que disseram (se é que disseram) é segredo, mas em todo o caso o mais importante foi a tentativa frustrada de Marcelo arengar que não podia ser melhor, chegando ao cúmulo de se lembrar que as reuniões entre irmãos são rápidas… talvez pairasse já na sua inteligência política o falhanço da ida assistir à indecorosa tomada de posse do Brasil por parte de Bolsonaro e seus capangas e que tresandava às alfurjas do fascismo.
Se dúvidas houvesse dissiparam-se, pois ainda Marcelo mal tinha aterrado em Lisboa e Bolsonaro dava o tiro de partida para a caça às bruxas no aparelho do Estado, os simpatizantes de partidos de esquerda vão ser despedidos … assim, por serem de esquerda. Os apoiantes da ditadura podem ficar, não são políticos. Os filhos vestem azul e as filhas rosa.
Salazar na sua odienta perseguição aos comunistas instituiu uma famigerada fórmula para assegurar a tal educação limpa, sem ideologia, que consistia na última pergunta aos candidatos a professores: Qual a razão do erro do comunismo? A resposta: o comunismo está errado devido ao egocentrismo da criança…
Ora como se vê esta é a educação limpa, sem vestígios de ideologia, que vigorou em Portugal nos tempos de Salazar e que Bolsonaro quer ressuscitar.
Ainda não se tinha recomposto da viagem e, no Brasil, Bolsonaro atacava os tribunais de Trabalho porque o cavernícola entende que para o trabalhador não há direitos laborais.
Quem se mete aos sorrisos com candidatos a ditadores fica mal visto. E se lhe chama irmão…
Como pôde Marcelo, Presidente de uma República laica, democrática, considerar irmão Bolsonaro que coloca Deus, no plano institucional, acima da Constituição, e tem no seu governo éne evangélicos, como um verdadeiro jiadista evangélico? E que acha que cada brasileiro deve ter duas armas? E que não houve ditadura no Brasil, nem tortura… Que falhanço, meu irmão.

Ver original em ' O Chocalho' na seguinte ligação:

https://ochocalho.com/2019/01/08/bolsonaro-seu-irmao-ele-mesmo/

Quem é mais famoso: A Cristina ou o Marcelo?

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Todo o mundo sabe o quanto Marcelo se sente atraído pelos famosos, talvez porque tenha aceite o desfio introspectivo de se considerar o mais famosos de todos os famosos.
Tem parecenças com a Cristina Ferreira nos pinchos que dão; nos guinchos ganha ela.Nos pinchos ganha ele, apesar da idade.Ele está em todo olado a toda hora. Omnipresente.Cristina é mais de ir para paraísos de luxo e que ela entende deverem ser mostrado na suas contas. No fundo ela pensa que se não os mostrar ela não esteve lá. Só esteve porque os exibiu…É um modo de ser.
Uma famosa para o ser tem de exibir e exibir.
Pensemos em grande e interroguemo-nos: Que seria dos portugueses se a famosa da Malveira não mostrasse o luxuoso quarto onde dormiu nas Malvinas? Uma pasmaceira.
Marcelo não pode competir a esse nível. Já teve uns tiques com o Tio Ricardo Salgado a caminho das terras de Vera Cruz. Agora o mundo da presidência requer outra arte. Tem de ganhar nos afetos, nas preocupações e nas surpresas.
Quem havia de imaginar que Sua Excelência, o Senhor Presidente da República, ligaria de cima da sua “potestas” para dizer:- Olá Cristina, sabe quem fala? É o Marcelo, o Presidente, não me esqueci de si, e para que o Goucha não pense que o mar é só água, aqui estou eu a ligar para a SIC. Para mim SIC e TVI sempre. Aliás já avisei o país que lhe liguei, esteja descansadinha. Eu bem vejo a sua emoção; dê um abraço ao Filipe Vieira e já agora transmita-lhe se faz favor que um dia destes apareço na Catedral para lhe dar um abraço e ao barbas.Beijinhos, olhe diga-lhe que é melhor ao pé da Estátua do King.
Marcelo é quem é e não se imagina noutro lugar que não seja na primeira fila à frente, o mais famoso.Congemina a cada instante o instante que se segue; não falha.Ninguém o segura. Nada o detém. Nem o lado escuro da Lua. Já se ofereceu ao Presidente chinês para tripular a próxima nave.

Ver original em ' O Chocalho' na seguinte ligação:

https://ochocalho.com/2019/01/07/quem-e-mais-famoso-a-cristina-ou-o-marcelo/

Deus deve estar zangado

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 05/01/2019)

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1 Custa-me muito, como cidadão do país de que Marcelo Rebelo de Sousa é Presidente, olhar para a fotografia em que ele está em “fraternal confraternização” com o novo Presidente brasileiro, o Messias Bolsonaro. Sim, eu sei… já lá vou, adiante e em baixo. Mas não era preciso exagerar, não era preciso que o nosso Presidente viesse com a lengalenga do “tom fraternal” e do “encontro de irmãos”. Bolsonaro não é meu irmão, o Brasil é que é.

E se bem que ele represente legitimamente o Brasil, visto que foi eleito para tal, não é nesse Brasil que eu encontro o país irmão que me habituei a amar. Assim como o Brasil não reconheceria como país irmão um Portugal presidido por um Mário Machado. Este Presidente brasileiro é o homem que se tornou conhecido porque ao votar o impeachment da sua antecessora, Dilma Rousseff (por uma suposta irregularidade na execução orçamental, transformada pela oposição em crime constitucional), o fez em homenagem ao coronel da polícia política que na ditadura militar a havia torturado. Uma coisa é representar um país, outra coisa é merecer representá-lo. Não foi por acaso que, tirando o fascista húngaro Viktor Orbán, Marcelo foi o único chefe de Estado ou de Governo europeu presente em Brasília, na posse do Presidente do 7º país do mundo.

Não passou assim tanto tempo para que os portugueses não reconheçam um fascista quando o ouvem falar e quando observam os sinais e os rituais de que se rodeia. Honra lhe seja feita, Bolsonaro não disfarçou coisa alguma: no seu discurso de posse disse exactamente ao que vinha, as suas ameaças foram claras, o seu instinto de ódio e perseguição, em nome de Deus e da “cultura judaico-cristã”, foi tão óbvio que não há disfarce possível. Antes assim: mais tarde, num futuro que só por sorte não será tenebroso, ninguém poderá dizer que foi ao engano. Não é por ser evangélico, por repetir à exaustão o mantra de “Deus acima de todos”, que o fascismo se torna cristão. Pinochet, Franco, Salazar eram todos devotos católicos e também eles gostavam de invocar o nome de Deus em vão — que, como se sabe, é pecado que brada aos céus. Não é por esgrimir a fé contra as “ideologias” — isto é, contra as ideias, contra a liberdade de pensamento — que o programa político de Bolsonaro deixa de ter a sua própria e sinistra ideologia. E é por isso que o ministro da Educação, indicado directamente pelos evangélicos, tem como tarefa limpar “o lixo ideológico” das escolas e servir às criancinhas a fé evangélica — esse embuste religioso inventado à medida de um país com largas camadas da população semianalfabeta. Se isto não é todo um programa político e ideológico, em tudo semelhante ao das madraças islâmicas, é só porque há quem o não queira ver.

2 Quando, na manhã seguinte à posse do Presidente brasileiro, Marcelo se sentou com ele, já Bolsonaro dera andamento, na própria noite da posse, a um dos mais controversos projectos do seu Governo: começar aos poucos a roubar as terras indígenas na Amazónia para as entregar aos fazendeiros de gado e cereais. É parte da política dos três B, que é a essência do seu programa e a raiz da composição do seu Governo. O B da bíblia já acima falei; o B da bala virá já de seguida com a legalização da posse de armas, um grande negócio para os respectivos fabricantes e vendedores; e o B do boi é o projecto de ocupação da Amazónia, liderado pela ministra da Agricultura, saída da bancada dos “ruralistas”. Neste campo, a primeira medida foi a extinção na práctica da FUNAI, a Fundação Nacional do Índio, um organismo governamental que geria há 50 anos todas as terras que a Constituição brasileira reserva para ocupação exclusiva dos povos indígenas e todos os assuntos relativos a eles, passando a integrar as terras e as competências na alçada do Ministério da Agricultura; ou seja, entregando-os na boca do lobo. A justificação do Presidente é que a FUNAI e as ONG presentes no terreno não faziam mais do que roubar. Pois agora, que é de temer que os índios e o próprio ar que respiramos venham a ser roubados a sério, sinto o dever de testemunhar que foi graças à FUNAI que, 30 anos atrás, pude passar uma semana com uma equipa de filmagem da RTP entre uma tribo dos Caiapós, inclusive disponibilizando-nos uma avioneta, que nos depositou e foi buscar no meio da selva. E o tipo da FUNAI que lá estava a roubá-los era um jovem advogado de boas famílias do Rio de Janeiro, que ali vivia, longe de tudo o que era o seu mundo de origem e em condições terríveis, porque se tinha apaixonado pela causa dos índios da Amazónia. Suponho que doravante seja muito difícil, senão impossível, a qualquer jornalista estrangeiro viver a experiência incrível que eu vivi. E isso, temo também, é apenas parte de muitas outras coisas que se podem perder daqui para a frente e sem as quais o Brasil pode ser um país elogiado por Trump, por Orbán ou por Netanyahu. Mas não será o mesmo Brasil.

3Pois, foi o povo que escolheu. E o povo é soberano — para o bem e para o mal, para meu gosto ou para meu desgosto. Porque a democracia é o único sistema político em que o cavalo de Tróia pode concorrer nas urnas e, eventualmente, destruí-la por dentro e com as suas armas. Mas, por favor, não me venham dizer que de um lado estão os intelectuais, os artistas e a imprensa e do outro lado está o povo. E, então, onde é que isso é motivo para celebrar? Onde é que isso deu bons resultados?

4 É discutível se Marcelo deveria ou não ter ido a Brasília. Consigo perceber e aceitar relutantemente os argumentos a favor da viagem. Relutantemente, mas enfim. O problema está no enfim: porque Marcelo, sem nunca o fazer ostensivamente, conduz uma agenda de visitas externas e convites internos que, mesmo se em concertação ou tacitamente aceite pelo Governo, é demasiado “à Marcelo”, demasiado frenética e às vezes talvez pouco ponderada. Não descansou enquanto não pendurou no cinto os ten big — do Papa a Trump, da Rainha de Inglaterra ao Presidente de França, muitas vezes dando a sensação de que, mais do que esperar por um convite, se fazia convidado. Mas, não contente com isso, ele vai e logo convida, pondo toda a gente — os portugueses, pelo menos — perante o facto consumado. Por isso, quando o vi avançar para Brasília, temi que mais uma vez ele não se contivesse sem convidar Bolsonaro para nos visitar oficialmente. Dito e feito: não resistiu. E, ao fazê-lo, é bem possível que o seu voluntarismo nos tenha arranjado um sarilho diplomático. De facto, há fundadas razões para prever que Bolsonaro seja mal recebido em Portugal, ao nível da rua e ao nível das instituições. Ao nível da rua porque, como disse, passou ainda pouco tempo para que uma parte substancial dos portugueses aceite tranquilamente ver um fascista desfilar com honras de Estado pelas ruas do país. Ao nível institucional porque basta pensar no que poderá suceder na Assembleia da República: se se achar mais prudente não o levar à Assembleia, será um insulto para ele; se for e sair maltratado, insulto será; se for ele a cancelar, vem a dar no mesmo, é o reconhecimento de que não é bem-vindo. Seja qual for o desfecho, não me parece que, como dizem os brasileiros, Bolsonaro seja homem de levar desaforo para casa. E o que acontecerá então às “fraternas” relações luso-brasileiras? Será que Marcelo pensou nisso ou achou que a sua popularidade tudo consegue ultrapassar?


Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Quando se manda no EStado e se atiram as culpas para costas alheias

Uma das notícias de hoje foi a da morte de seis passageiros de um comboio dinamarquês atingidos por objeto desprendido de outro com que se cruzara na travessia de uma ponte.
Não se viu aparecer o rei em pontas de pés a sugerir a culpa do Estado como forma de, cobardemente, imputar manhosamente a culpa ao primeiro-ministro.
Sorte teve António Costa em que o caso não tenha ocorrido em Portugal, porque logo teria Marcelo, em tom condoído, a sacudir a água do capote - ele que é o Chefe do referido Estado - a endossar-lhe rival a responsabilidade pelo sucedido, esperando ver-se logo acompanhado pelo coro de Cristas e de Rio, que se lhe colam o mais possível por nada mais terem que replicar.
E ainda há quem não acredite na preocupação doselfieman em atacar o governo sempre que para tal encontra ocasião! Raramente com alguma razão, quase sempre manipulando a verdade para que a pareça ter.

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/01/quando-se-manda-no-estado-e-se-atiram.html

Por quanto tempo perdurarão os efeitos das papas e bolos?

Através da sua habitual mediadora de mensagens no «Expresso» (Ângela Silva), Marcelo Rebelo de Sousa lamentou-se de não vir a ter tanto sossego quanto esperaria de um ano eleitoral como o de 2019, quando a assertividade do governo para com as exigências corporativas tenderia a ser maior. Como sempre Marcelo quer aparentar dizer uma coisa, mas significar realmente outra. Hábil no exercício de manipulação das mentes alheias, ele está a confirmar o que as esquerdas podem dele esperar: um intervencionismo político constante para dificultar tanto quanto possível a maioria absoluta do PS e, ainda de acréscimo dificultar uma maioria de esquerda. O que ele quis dizer foi precisamente isso: um presidente da República costuma adotar um justificadolow profilnos anos eleitorais, mas avisa, desde já, não estar disposto a fazê-lo.
E, de facto, como poderia Marcelo deixar de ser Marcelo se não vê óbice em acusar os partidos por estarem demasiado precocemente em campanha eleitoral, apesar de, desde o primeiro dia em que tomou posse ele nunca ter feito outra coisa?
De hoje, há também a referir o artigo de Rui Tavares no «Público» em que o historiador dá-nos a conhecer uma Lei, dita de Sayre, segundo a qual“em qualquer debate a intensidade dos sentimentos é inversamente proporcional à relevância dos valores em causa”.Por isso mesmo, se nos dermos ao trabalho de folhearmos jornais com dois ou três meses de atraso, constataremos facilmente quão irrelevantes se tornaram questões nessa altura tidas como de grande impacto emocional no imaginário coletivo dos seus leitores. Com Marcelo acontece muito isso: nada de importante resulta da sua multiplicação deselfiese de abraços, nada o país ou os seus cidadãos ganham com essa permanente gestão de imagem de um presidente, que se quer fazer passar por simpático ou inteligente, e esconde na sua mente a perfídia com que ajusta as suas estratégias de acordo com a fria análise dos seus objetivos. Que são evidentes, quando ele lamenta que o orçamento não tivesse contemplado reduções de impostos para os patrões ou ameaçado vetar a Lei de Bases da Saúde se não vier a contemporizar com os lautos negócios dos interesses privados. Mas tudo aponta para que, multiplicando-se em intervenções sibilinas, Marcelo continue a enganar os tolos com substitutos das papas e bolos.
 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2018/12/por-quanto-tempo-perdurarao-os-efeitos.html

Um populismo, que serve para defender os interesses dos do costume

Um antigo colega de liceu costuma ficar muito irritado quando aqui vou elencando as razões para considerar que Marcelo Rebelo de Sousa é um péssimo presidente, e que os portugueses nada lhe têm a agradecer pelas evidentes melhorias na sua qualidade de vida nos últimos três anos - apenas mérito do governo e dos partidos da maioria parlamentar! - masapesar do que o inquilino de Belém vem fazendo para o impedir.
- Lá estás tu com a tua obsessão com o Marcelo! - costuma dizer-me.
O que tenho contra Marcelo não é apenas ter privado o país de ter como seu superior representante uma personalidade com as características cívicas e intelectuais de António Sampaio da Nóvoa. Se a Primeira República teve em Manuel Teixeira Gomes um exemplo de como o país maltrata os seus melhores expoentes, a que agora vivemos desperdiçou a oportunidade de contar com o atual embaixador na UNESCO.
Razões maiores me tem dado Marcelo nos últimos dias para execrar-lhe os atos e confirmar o que aqui tenho reiterado: não só dele não saiu qualquer proposta que contribuísse para melhorar a governação e ter efeito concreto na vida de quem quer que seja - pela função não tinha que o fazer, mas não tem de agir como se isso lhe estivesse nas competências! - como também vem demonstrando a razão de se ter candidatado e ganho a Presidência da República: não está no cargo para fazer o que quer que seja, mas paranão deixar que o decidido pelo governo possa colidir com os interesses de quem o tem como sua marioneta.
Quando avisa o governo que não promulgará a nova Lei de Bases da Saúde se ela beliscar os lucros dos grupos económicos, que dela fazem indecoroso negócio, atua inequivocamente em prol dos grupos Mello, Luz, Lusíadas ou Trofa. E o escândalo até é maior, porque nem esperou pela discussão do novo diploma na Assembleia da República para definir, extemporaneamente, qual a linha vermelha a não querer ver ultrapassada.
O mesmo se passou agora com a questão da composição do Conselho Superior da Magistratura. A autonomia dos juízes até seria um valor inquestionável se não tivessem ocorrido dois factos, que a tornam problemática: não só essa classe profissional prescindiu objetivamente de ser respeitada como órgão de soberania ao reivindicar direitos sindicais, como deixou de se assumir como, em tantas sentenças, fiel da balança entre os argumentos da defesa e os da acusação, colando-se acriticamente a esta última. Para os cidadãos portugueses a judicialização da política é um perigo tão grave quanto o da financeirização da sua economia. E, no entanto, quando Rui Rio e Jorge Lacão tentaram devolver alguma transparência ao órgão superior de gestão e disciplina dos juízes, logo Marcelo botou faladura para manter as coisas tal qual estão, e que tão bem têm servido os interesses de políticos de direita muito justamente suspeitos em casos de corrupção.
Para cumprir esse papel de defesa dos interesses dos que anseiam por melhor explorarem os portugueses e limitar-lhes os direitos fundamentais, Marcelo usa e abusa do comportamento populista, distribuindo beijos, abraços eselfies.
É nesse sentido que se compreende o encontro de ontem com os camionistas de uma associação fascistoide, que teriam dado sinais de colaborarem com a arruaça prevista para amanhã.
Ao «Expresso» um tal Fernando Frazão, que parece dirigir esse gangue, reconhece ter tentado há pouco tempo impedir a entrada em Lisboa pelo lado de Alverca, contando para tal com a promessa de quatro mil colegas e, afinal, só dezasseis compareceram ao chamamento. Provavelmente os que ontem se juntaram a Marcelo numa comezaina, que serviu os propósitos de quem deles se fez convidado. Ocorre, pois, perguntar: porque terá Marcelo querido dar-lhes tal publicidade? A leitura é óbvia: adivinhando o fracasso da programada assuada, Marcelo aproveitou para dar a impressão de ser ele quem tem o poder para travar os protestos contra o governo.
Os incautos, como aquele antigo condiscípulo de que falei no início, pensarão: lá esteve o Marcelo a dar uma mãozinha ao António Costa para que as coisas não se agravem contra ele. Quando, na realidade, repetindo a conduta maquiavélica que lhe é própria, Marcelo quererá aparentar apoio a um governo, cuja ação tudo faz por sabotar.

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2018/12/um-populismo-que-serve-para-defender-os.html

Marcelo convidou Cavaco para um funeral nos EUA

(Carlos Esperança, 05/12/2018)

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“O antigo Presidente da República, Prof. Doutor Aníbal Cavaco Silva, representa amanhã [quarta-feira] Portugal em Washington, nas cerimónias fúnebres do antigo Presidente Estados Unidos da América, George H. W. Bush, a convite do Presidente da República e com o acordo do governo”, referiu ontem uma nota no site da PR portuguesa.

Todos sabemos que, sem concordância do Governo, que tem a exclusiva competência da política externa, não era possível o convite. Aliás, não vai representar Portugal, mas o Governo, e ninguém, melhor do que a múmia para fazer de gato-pingado num funeral.

Penso que é mais um ato de humor de Marcelo para compensar o constrangimento de se ter deixado babar, em público, na presença do presidente chinês.

O azougado PR que, no dia em que o substituiu, lhe atribuiu o mais alto grau da Ordem da Liberdade, um ato de humor que só tem paralelo na Universidade de Goa, quando o elevou a ‘Doctor Honoris Causa’… em Literatura, acertou no convidado.

O doutorado levou tão a sério o doutoramento em Literatura que não mais parou de publicar ‘Roteiros’ e ensaios políticos sobre as quintas-feiras e outros dias.

É de crer que Cavaco esteja hoje nos EUA e decerto não fará mau lugar junto do morto. Depois regressa ao sarcófago onde redige memórias que ninguém pode comprovar, e a que alguém há de corrigir a ortografia e a sintaxe.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

O topete de querer avisar quem passa bem sem tretas dessas!

Pela chinfrineira, que os seus apoiantes terão produzido à porta do tribunal do Barreiro, Bruno de Carvalho contará ainda - no juízo de Marcelo Rebelo de Sousa - com uma apreciável base social de apoio.
No reino das aparências e dasselfiesem que o titular do cargo de Presidente da República se move, tanto basta para que se seja popular. Que importa se, daqui a umas semanas, mais alguns dos arguidos do caso das agressões de Alcochete deem com a língua nos dentes e ele volte à cadeia, se sai agora como herói da intimação judicial a que foi sujeito?
Marcelo mandou o seu altifalante favorito no «Expresso» (Ângela Silva) «avisar» - e o termo escolhido foi mesmo esse! - António Costa e Rui Rio quanto a terem ou não apoio real junto dos eleitores. Com essa jogada de manipulação mediática ele pretende não só equiparar o primeiro-ministro com o líder da oposição, como pôr-se um degrau acima deles. Marcelo quer-se pôr de cátedra a chumbar os que pretende tratar como alunos, usando a mesma discricionariedade já sua conhecida, quando integrou o painel de examinadores, que chumbou Saldanha Sanches, quando o reconhecido melhor especialista em Direito Fiscal se lhe submeteu na prova de doutoramento. A ignomínia de quem participou nesse nefando chumbo, pouco tempo antes da sua vítima sucumbir a um cancro, nunca foi devidamente denunciada.
Mas existe alguma possibilidade de se equiparar António Costa com Rui Rio ou com o próprio Marcelo? Claro que não!
O primeiro-ministro tem exercido uma governação, que melhorou significativamente a qualidade de vida da grande maioria dos portugueses e lhes deu esperança em melhor futuro, depois de quatro anos de deriva direitista marcada por cortes de rendimentos e de direitos. Ao contrário dele Rio não tem mostrado nem projeto para o país, nem capacidade de apresentação de medidas concretas, que se revelem melhores do que as implementadas. Pelo contrário o universo laranja lembra aquela imagem dos lusitanos que, no dizer de um chefe romano nem se governam, nem se deixam governar.
Marcelo, pelo seu lado, já leva trinta e dois meses de presidência e nada fez de assinalável. Se questionarmos os seus mais entusiásticos apoiantes para que nos apontem uma única decisão que seja, capaz de se revelar emblemática de uma magistratura exemplar, o que têm para nos elucidar? Que deu muitos beijinhos a criancinhas e a velhinhas? Que se fez fotografar um pouco por todo o lado? Que vetou leis, de que ninguém se lembra quais foram e promulgou a grande maioria das que lhe puseram à frente para assinar?
Quem merece uma base social de apoio maioritária entre os eleitores é António Costa e a maioria parlamentar, que lhe tem permitido mudar o país para melhor. Marcelo apenas explora a manipulação e a razão de ser dos jornais e televisões cujos proprietários querem desfazer o que de bom tem sido feito, para alimentar a imagem falsa de ser um político que mereça ser respeitado.
 
 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2018/11/o-topete-de-querer-avisar-quem-passa.html

Marcelo manda recado a Costa, a Rio e aos outros: “Comecem a pensar na verosimilhança da vossa base de apoio político”

(Ângela Silva, in Expresso Diário, 14/11/2018)

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(Com a comunicação social entupida pela novela do Bruno de Carvalho, se tomou banho, se é terrorista ou se fez a barba para se apresentar ao juiz, Marcelo falou para os peixes, qual Santo António. Mas falou mesmo e mandou recados à esquerda e à direita.

Algumas das frases são meias cabalísticas, mas nada como recorrer a quem, nos últimos tempos, tem tido o privilégio de fazer as “interpretações autênticas” do pensamento e das manobras de Marcelo. Refiro-me à cronista Ângela Silva do Expresso que assina este texto. 

Também eu faço a minha leitura dos “recados” de Marcelo mas não irei desenvolver agora o tema. A seu tempo o farei em texto próprio.

Comentário da Estátua, 14/11/2018)


De tempos a tempos, Marcelo Rebelo de Sousa salta do (seu) falar de todos os dias, em que multiplica mensagens a propósito de quase tudo, para um discurso de fundo destinado a deixar rasto. Foi isso que o Presidente fez terça-feira, em Porto de Mós, onde foi convidado pela Fundação Batalha de Aljubarrota para falar sobre “Portugal Independente – A partir da sua história, que futuro desejável para Portugal?”.

Cenário e tema não podiam ser mais inspiradores e o Presidente da República não facilitou no desafio que lançou a toda a classe política. “A nossa vocação histórica tem uma oportunidade única na fase que atravessamos e se a perdermos não teremos outra no futuro mais próximo”, afirmou. Com Portugal a liderar nas Nações Unidas, a presidir no Eurogrupo e a confirmar a sua vocação de “plataforma intercultural”, Marcelo – que em três anos não parou na cena externa – aponta uma “óbvia prioridade nacional”: agarrar a “tal oportunidade única”, que na sua opinião exige aos partidos “clareza dos propósitos e das propostas”, “sensatez e realismo”. Neste capítulo, o discurso da Batalha deixou recados.

RECADO PARA TODOS: “NÃO COMPETE AO PR ESCOLHER MODELOS DE GOVERNAÇÃO”

Marcelo lembrou que o país está a seis meses do primeiro ato eleitoral (as europeias) de um ciclo que termina com as legislativas daqui a 11 meses e lembrou que não lhe compete a ele, como chefe de Estado, “escolher propostas ou modelos de governação”.

Aqui, o recado parece ser antes de mais para Pedro Santana Lopes, que há 15 dias disse ao Expresso que “Costa e Marcelo vão ter de dizer se preferem o PS a governar com o BE”. Mas, na verdade, o que o Presidente disse foi que quem definirá o próximo xadrez governativo são os partidos e o peso político com que consigam sair das próximas eleições.

O desafio que Santana Lopes lhe lançou não é desprovido de sentido – se o PS ganhar as eleições sem maioria, se António Costa decidir virar-se para o BE e/ou o PCP e se o centro direita conseguir somar uma maioria alternativa, o Presidente da República ganha poder de decisão. Mas Marcelo prefere espicaçar os partidos a pedalarem para conquistar o poder que lhes permita deixar claro quem pode e deve governar.

FOTO PAULO NOVAIS / LUSA

RECADO PARA CATARINA E ASSUNÇÃO: “VEROSIMILHANÇA …”

Marcelo considera que os partidos “devem começar a pensar seriamente em três realidades inadiáveis: clareza dos propósitos e das propostas; verosimilhança da solidez da sua base de apoio político – para que as propostas não fiquem apenas como meras intenções sem capacidade de ser poder; e rapidez na transmissão das mensagens”.

Aqui, o Presidente quer o jogo se comece a aclarar o mais cedo possível por forma a que os eleitores fiquem em melhores condições de escolher em quem votar. E Marcelo parece espicaçar os excessos de confiança dos partidos mais pequenos que, à exceção do PCP, se posicionam como estando definitivamente em trânsito de partidos mais ou menos secundários para partidos de poder. Depois do congresso do CDS, de onde Assunção Cristas saiu como assumida candidata a primeira-ministra, foi agora a vez de Catarina Martins sair da Convenção do BE com o slogan lançado pelo seu antecessor Francisco Louçã, segundo o qual a meta do Bloco é “o infinito e mais além”. Marcelo pede “verosimilhança”. O que significa isso de concreto em termos de soluções de Governo pós-2019?

RECADO PARA RUI RIO: “SE FALTAR À CHAMADA, NÃO SE QUEIXE”

Marcelo Rebelo de Sousa não se referiu diretamente a nenhum líder nem a nenhum partido, mas há um parágrafo do seu discurso na Batalha que se não é para o líder do PSD, que continua sem descolar nas sondagens a ponto de poder beliscar o PS, não se percebe para quem seja.

“Quem se atrasar ou faltar mesmo à chamada para o encontro com os portugueses não se poderá queixar do destino nem da penosidade do recomeço da caminhada nos idos mais próximos”, afirmou o Presidente. Há três anos a reclamar uma alternativa “clara e forte” ao Governo das esquerdas, Marcelo Rebelo de Sousa carrega agora nas tintas: se não conseguir afirmar-se em 2019, não venha depois lamentar-se de ter que recomeçar a caminhada. Aqui, o destinatário é duplo: Rui Rio e o PSD.

RECADO PARA O GOVERNO: “SACRIFICOU INVESTIMENTO PÚBLICO ESTRUTURANTE”

Ao Governo, o Presidente da República pede “sensatez e realismo”. Olhando “para o que vão ser os tempos imediatos na Europa e no mundo”, Marcelo conclui que “resultam da natureza das coisas”. Ou seja, com a economia a desacelerar a nível internacional, o PR avisa que os próximos tempos “aconselham, no mínimo, mais crescimento económico e, para tanto mais, condições propícias a investimento e exportações”.

Marcelo põe a tónica na vertente que a política económica seguida por António Costa (prioridade ao consumo interno) menos acautelou. E chega a criticar a opção do Governo quando afirma que ao querer conjugar o rigor orçamental com políticas corretoras de assimetrias sociais e ao aliar a procura de maior protagonismo das exportações com a manutenção do incentivo ao consumo interno, a consequência foi: “sacrifício ou adiamento de algum investimento público estruturante”

Aos jovens presentes na Batalha, Marcelo Rebelo de Sousa deixou a mensagem simplificada: “Importa olhar mais para o estrutural e não apenas para o dia a dia”. O que implica “saber o que se quer e o que cumpre fazer”. Ouviram?

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

"Por qué no te callas", Marcelo?

Paulo Baldaia* | Jornal de Notícias | opinião

Anda uma determinada Direita, com agrado do Governo, a tentar entalar o presidente da República no caso de Tancos e Marcelo a responder a toda a hora. O chefe de Estado não percebe que os seus "amigos" dessa Direita inorgânica, constituída por uma dúzia de colunistas e uns distintos empresários que a financiam, já sabem como o podem apanhar. Só precisam de pôr a circular umas "fake news", envolvendo o comandante supremo das Forças Armadas, para que ele nunca mais se cale. E, como ele se sente na obrigação de responder até que já mais ninguém fale do assunto, o assunto nunca sai da agenda.

Já sem ter nada de novo para dizer sobre o tema, o presidente garante que não o calam. Ora Marcelo é exatamente quem tem menos para dizer, porque ele foi o único que nunca desvalorizou o roubo das armas. Está nos arquivos da Internet a prova de que o presidente sempre quis tudo investigado "doa a quem doer", porque "se há responsabilidades, tem de haver responsáveis". Vezes sem conta, quando já ninguém, nem políticos, nem jornalistas, se pareciam interessar pelo tema, foi Marcelo quem veio lembrar que não nos podemos esquecer que os criminosos ainda não foram apanhados.

E o que pensar de um canal de televisão com obrigações de serviço público que lança a tese de que Belém sabia de tudo? "Estranho que quem queira atribuir o que quer seja a qualquer cidadão o tenha feito sem ouvir o cidadão em causa. É o mínimo". No caso, o cidadão é o presidente de todos os portugueses. E sim, o jornalismo vive tempos difíceis. "Não deixes que a verdade te estrague uma boa história", era uma exceção de um jornal que já faliu, agora é a regra de um negócio que ameaça falir. Todos vimos nascer esta caça ao Marcelo, assente na lógica da batata. Se o chefe de gabinete do ministro da Defesa sabia, Azeredo tinha de saber. Se o ministro sabia, o chefe do Governo também soube. Se Costa sabia, Marcelo ficou a saber. Eu até acho que, sendo o presidente um católico praticante, e se sabia de tudo, Tancos tem todo o ar de ser o terceiro segredo de Fátima. Investiguem!

* Jornalista

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2018/11/por-que-no-te-callas-marcelo.html

O SURFISTA

“Marcelo homenageia Mandela ao discursar na ONU”.
E como poderia ser de outro modo? É bonito, cai bem. O Professor adapta os discursos ao sabor das assembleias. Na ONU, o Presidente diz o que todos esperam ouvir. Referiu a passagem de Mandela por Lisboa, e forçosamente pensou em Cavaco Silva, seu companheiro de partido, que votou contra a libertação de Nelson Mandela.
Mas há imagens sãs, puras, verdadeiras, que os marcelos deste mundo não conseguem digerir, nem conseguirão apagar. Esta é a expressão viva que a todos enaltece e, que é obrigatório recordar. Sempre!
Salvo no Funchal, onde recentemente foi inaugurado um “Memorial a Mandela”, não há uma estátua, um busto, uma avenida, rua, praça, jardim, travessa ou beco que assinale personalidade tão marcante no doloroso caminho da libertação da humanidade.
Os afetos do Presidente são muitos, diversos e efémeros, Mandela ficará para o próximo evento.
Ah! Esqueci, o Rossio tornou-se "Praça Nelson Mandela" por um dia.“A praça do Rossio, em Lisboa, transformou-se hoje em Praça Nelson Mandela por um dia, iniciativa que visa assinalar o 95.º aniversário do ex-presidente sul-africano”

Leia original em

Fidelidade aproveita veto de Marcelo para fechar venda de casas

A Fidelidade está a aproveitar o veto da lei que reforçava o direito de preferência dos seus inquilinos para concretizar a venda de algumas das cerca de 2000 casa que negociou com a Apollo.

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, na sessão solene comemorativa dos 44 anos da Revolução de Abril na Assembleia da República, em Lisboa. 25 de Abril de 2018CréditosAntónio Cotrim / Agência LUSA

As escrituras da venda de alguns dos 277 imóveis que a Fidelidade decidiu vender ao fundo de investimento norte-americano Apollo já estão assinadas, escreve o Jornal de Negócios na sua edição de hoje.

A seguradora privatizada pelo anterior governo do PSD e do CDS-PP só espera concretizar a alienação de todo o seu património imobiliários, integrado por cerca de 2000 fracções, até ao final do ano. O avanço do processo só foi possível pelo veto do Presidente da República à lei que reforçava o direito de preferência dos arrendatários no caso destas vendas em bloco.

A Fidelidade notificou os seus inquilinos que podiam exercer o direito de preferência face ao negócio com a Apollo, de acordo com a lei. Mas estes só podiam concretizá-lo em relação a todo o patrimonio envolvido no negócios, o que, na prática, o tornou proibitivo.

A aprovação da alteração legislativa foi acelerada precisamente para proteger os inquilinos da Fidelidade, alguns dos quais já receberam notificações da empresa no sentido de terminar os contratos. O veto de Marcelo, que o assumiu como político, veio pôr em risco essa intenção.

Ver original em 'AbrilAbril' (aqui)

 A Justiça e o combate à corrupção – Reflexão sobre o frívolo e o sério

(Carlos Esperança, 30/08/2018)

campanhas

O País sente-se indignado com as suspeitas de desonestidade na aplicação dos dinheiros destinados às vítimas de Pedrógão e o aparente oportunismo de quem terá usufruído de benefícios ilegítimos, mas é animador saber que o Ministério Público está a investigar o destino de dinheiros que o Estado e os privados deram a quem não tinha recursos e aos que, tendo-os, não fizeram os seguros que deviam. Sendo eticamente grave, espero que as suspeitas se provem e que a justiça atue, quer em relação às verbas destinadas à autarquia, quer nas mais substanciais, que foram endossadas à Misericórdia.

O PR, sempre atento, disse que as alegadas irregularidades já tinham sido referidas em julho, devido a uma reportagem da revista Visão e, agora de novo abordadas na TVI e no JN, espera que “se entre no próximo ano com isto esclarecido”.

Aliás, já o caso das borlas a um ministro, para o futebol, foi logo investigado, apesar de ser uma bagatela penal, mas viu-se que a Justiça não dorme. Nem o PR.

No JN do passado dia 28, além de outros autarcas merece destaque o anterior presidente da Câmara de Benavente, que vai ser julgado, a partir de 5/9, acusado de corrupção e prevaricação, por ter recebido dois borregos de um promotor imobiliário, um no natal de 2009 e outro no de 2010. O país fica mais tranquilo e, decerto, o PR não deixará de perguntar pelos borregos, se tiver acesso à comunicação social para fazer declarações.

Não menosprezo os delitos referidos, só me preocupa que o PR não se pronuncie sobre o BES, BPN, BPP, Banif e as privatizações ruinosas do anterior governo, talvez por não conhecer, por exemplo, Ricardo Salgado ou Oliveira e Costa.

Podia dar uma ajudinha, referindo que aguarda o resultado da investigação ao alegado desvio de muitos milhões de euros por Marco António, Luís Filipe Meneses, Hermínio Loureiro, Agostinho Branquinho, Virgílio Macedo e Valentim Loureiro, investigados pela Visão, sobre os quais paira um absoluto silêncio em toda a comunicação social e na PGR, e o PR ainda não se pronunciou.

Bem, pelo menos que não fique impune o alegado corrupto e prevaricador que em anos seguidos atingiu o cúmulo jurídico, digo, gastronómico, de 2 borregos. E era do PCP!

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Marcelo – os incêndios e pulsão por dar bicadas ao Governo. Pergunto: com intervenções destas o seu público alvo são as meninas das nails?

(In Blog, Um Jeito Manso, 12/08/2018)

No outro dia fui à cabeleireira. Enquanto esperava a minha vez, estive sentada perto da bancada onde a técnica de nails, uma jovem com ar de teenager e que vim a saber, no decurso da conversa, que tem vinte e seis anos, produzia a sua arte nas unhas de uma outra, idêntica, com vinte e oito anos. Conheciam-se, não sei se apenas dali, e tratavam-se por tu e por ‘amiga’

A cliente, que vinha com umas longas unhas em rosa e azul às florzinhas, queria mudar a cor para fúcsia acentuado com ousadas variantes para ficar a condizer com a roupa que ia vestir nessa noite, na festa de anos do namorado. A técnica usada foi a do gélinho (e coloquei o acento no e para se perceber que não se diz com e fechado mas bem aberto). Relatava a cliente a propósito do namorado: 'Andava há dias a mandar bocas e eu, tipo, como não sou parva, apanhei-as todas. Um dia dizia, amor, tipo, aquela tshirt não é gira?, outro dia dizia amor, tipo aqueles ténis ali não são bué da giros? e eu, tipo tá bem, já tou a perceber tudo mas fiz-me despercebida, tá bem, tá, amor, mas esses ténis não são tipo os que a tua mãe te deu tipo o ano passado e que nunca usas? e ele, não, amor, não tás bem a ver, tipo a sola é bué de diferente. E eu, tipo a disfarçar, Ah, tá bem, para não dizer, Ok, tou a perceber, tipo não precisas dizer mais.' E a das nails: 'Eu disfarçava e dizia tipo atão porque é que não compras tu?' e a cliente desatava-se a rir, 'À segunda boca da tshirt, achas que não disse, amor, tipo não queres ir comprar a seguir ao cinema? e ele, bué d'atrapalhado, não, mor, deixa'. Concluíu a artista das nails 'Miga, são todos assim, não crescem, são bué de crianças'. A outra riu, maternal, madura. 'E isso mesmo, amiga, tipo o que vale é que a gente topa-os logo'.
 
 
A seguir passaram para o capítulo da psicologia. Contou a cliente que, quando sairam da praia, se sentaram num banco a sacudir a areia dos pés e estava lá uma outra ao telemóvel, a falar muito alto, a discutir com o ex, que queria mais dinheiro, que o que ele dava não chegava para comprar as coisas que o menino queria. 'Amiga, tipo não tás bem a ver, falava dos ténis, da playstation, das prendas para as festas de anos dos amigos, chorava, muito alto, uma discussão que se ouvia a milhas. E o meu namorado disse: amor, tipo a gaja deve ser mas é parva, está aqui a falar tipo pa toda a gente ouvir. E eu disse, amor, mas tamém ela tem razão, tipo os putos saem bué da caros.Mas ele disse, amor, nao é isso, é o estrilho que a gaja tá aqui a dar. E eu tive que lhe dar razão, não sei se tás bem a ver. A técnica das nails concluíu, toda ela sabedoria: 'Gostam muito de dar nas vistas. Tipo podia falar mas não dar nas vistas' A cliente disse: 'É isso, amiga. Tipo tive que dar razão ao meu namorado. Não sei se tás bem a ver'.
 
E durante o tempo que eu lá estive a conversa seguiu ininterruptamente neste registo. Falaram da irmã de uma, do gato da outra, de um amigo do namorado de uma, de uma vizinha de outra. Criticaram, opinaram, decretaram. E juro que nada do que aqui escrevi é ficção. Se pequei foi por defeito, por falta de mestria na tradução escrita daquela vivaz oralidade.
 
Este parece ser o público alvo de Marcelo quando critica o Governo a propósito dos incêndios.
 
Marcelo não critica quem, apesar dos mil avisos do Governo, não tem cuidado ou civismo e, por negligência ou intencionalidade, provoca os incêndios. Marcelo também não critica "a chamada lei do eucalipto livre, aprovada pela então ministra da Agricultura Assunção Cristas em 2013, abriu portas à plantação intensiva em qualquer parte, sem autorização nem aviso prévio". 
 
Não. Marcelo, tal como as meninas das nails que se ocupam afanosamente da espuma do que um e outro diz, critica António Costa por dizer que felizmente não se perderam vidas humanas ou que, se não se tivesse tido cuidado com as matas, os incêndios poderiam ter sido ainda piores. 
 
Em vez de fazer coro com António Costa, Marcelo cede ao impulso de agradar às mariazinhas fúteis, às virgens esquentadas e às beatas aflitas (de ambos os sexos, note-se) que pululam nas bancas de nails, nas redes sociais e nas SICs desta vida.
 
Se por vezes elogio Marcelo -- e fá-lo-ei sempre que ache que ele está a trabalhar bem -- não posso deixar de lamentar a cedência ao populismo que lhe corre nas veias. Não é com remoques disparatados que ele ajuda a população a ser mais exigente ou mais informada. Querer ser um presidente próximo do povo não deve ser sinónimo de se colar à baixa argumentação das meninas das nails que falam sobre tudo e sobre nada sem pensarem nem por um segundo no que dizem.
 
Marcelo tem uma ânsia doentia pela omnipresença e um apelo sôfrego pelo protagonismo e, ainda por cima, continua a ser um comentador compulsivo. E às vezes os excessos fazem com que a coisa lhe corra mal. Colar-se à emoção exacerbada que resulta de uma paisagem ardida e de bens perdidos e calar-se em relação a incendiários, a práticas gananciosas, negligentes ou incúrias não é a melhor forma de ser Presidente, ainda por cima quando se põe do lado oposto ao de um Governo que faz um trabalho sério na prevenção e no combate aos incêndios.
 

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Marcelo e dress code

Não tenho esquisitices neste domínio. Já me habituei a ver e ouvir Marcelo em traje de banho a falar como presidente da República, dia após dia, e, se aparecer assim na Sala das Bicas, em Belém, já acharei normal.
Mas espero que nunca mais critiquem os xanatos dos Mujicas deste mundo.
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Leia original aqui

Marcelo foi à Volta

JF1 7888Marcelo foi à Volta e voltou à natação. No caso da Volta apareceu-nos casa adentro, sorridente, a comentar a vitória do ciclista do Porto W52, Raúl Alarcon. Fantástico.Fiquei à espera para ver se Marcelo espetaria dois beijos, um em cada bochecha do feliz galego. Conteve-se. Sim, conteve-se; o calor, que não o calo, explicará o contimento do mais alto magistrado da nação.
Poderá haver quem não compreenda esta súbita atração de Marcelo pelo ciclismo, mas ele explicou a uma velhinha de Figueró dos Vinhos que era uma coisa de família; um seu bisavô gostava de pedalar e daí ele achar que no seu gene estar inscrita essa caracteristica e era a explicação que tinha para o caso.
Por falar em família, Marcelo nao fez como São Tomaz, virou-se para Santana e de forma muito subtil defendeu que não se abandona a família, que é coisa feia. Ele próprio, pai e filho do PPD/PSD nunca o nem em ferias deixa de ser presidente da republica marcelo rebelo de sousa troca o algarve pelas praias fluviaisabandonou, nunca não, suspendeu a sua ligação à família. Suspendeu. Ele ligou para Pedro Passos e deve ter dito – vou suspender os meus passos para aí. Vão todos para Belém. E assim fez ele. Santana, ao que consta, disse, quem o ouvir comentar o comentário, grande coisa fez ele, era o que eu fazia se me apoiassem na família e fosse parar a Belém que é uma parte da minha identidade em matéria de ambições; já fui Presidente do Sporting, não vejo que não pudesse ser de Portugal. Aliás, falei deste assunto muitas vezes com Sá Carneiro e se Deus quisesse até podia ter-se dado caso e então sim eu suspendia-me sim senhor.
Consta que depois daquele brutal esforço ou antevendo-o, Marcelo, em férias, lado a lado com as voltas da Volta, foi surpreendido por éne jornalistas, sobretudo das televisões a dar uns mergulhos nas praias fluviais de localidades atingidas por fogos o ano passado. Imagino o sacrifício do nosso Presidente para dar umas braçadas, só no desempenho de altas funçoes é que o imaginamos a nadar…
Pode haver quem não compreenda esta atração pela Volta porque não tem ADN na família para a pedalada e para suspender a família, nunca abandoná-la. Só ele.

Ver original em ' O Chocalho': https://ochocalho.com/2018/08/08/marcelo-foi-a-volta/

Marcelo e a lei dos despejos

(Carlos Esperança, 04/08/2018)

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Com o risco de errar, limito-me a manifestar perplexidade pelo teor da nota divulgada no site da Presidência, em que o PR devolve, sem promulgação, o diploma apresentado pelo Bloco de Esquerda ao parlamento, por “duas razões específicas”:

1 – O “facto de, tal como se encontra redigida [a lei], a preferência poder ser invocada não apenas pelos inquilinos para defenderem o seu direito à habitação, mas também por inquilinos com atividades de outra natureza, nomeadamente empresarial”.

2 – Não estarem indicados “os critérios de avaliação para o exercício do direito de preferência, que existia em versão anterior do diploma”.

Não é o facto de o projeto de lei ter os votos a favor do PS, BE, PCP, PEV e PAN ou os votos contra do PSD e CDS, que faz boa ou má a posição do PR. Aliás, se a votação se repetir, é obrigado a promulgar (se estou errado, haja um jurista que me corrija, e não é esse o ponto importante).

Entendo que os inquilinos de casa de habitação e empresários, devem ter sempre direito de preferência na compra, por exercerem importante vigilância sobre preços simulados. Protegem os interesses fiscais do Estado e evitam as numerosas burlas que o lesam.

Não sei que interesses defendia a direita e não compreendo a decisão do PR que parece exercer o exótico direito de pernada. Este é um caso em que a unanimidade se impunha, a menos que a direita quisesse defender os empresários, pois não acredito nos votos do PSD e CDS para defesa dos inquilinos nem nos da esquerda para os prejudicar.

O PR é impoluto e incapaz de cumplicidade em assuntos que lesem o Estado, mas, a ter sido assessorado pelo seu assessor jurídico Nogueira de Brito, sócio de firma que presta serviços a fundos imobiliários (MLGTS), que tem clientes com interesses no setor, pode ter tomado uma opção infeliz ( Ver aqui)

A ser verdade o que li, não duvidarei da honestidade do PR, mas da parcialidade do seu assessor.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Marcelo e o PPD/PSD

O presidente da República de todos os portugueses a propósito da saída de Santana Lopes do PSD. «"Foi uma opção que ele fez, uma opção drástica, uma mudança de vida drástica, tendo sido uma figura importante do partido", disse Marcelo sobre Santana, acrescentando a sua opinião sobre o ato de desfiliação. "Tenho a filiação suspensa, mas para mim o partido é uma família e não se muda de família. Mas tenho grandes amigos que pensam o contrário e mudam de partido".»
Eles que tratem destes assuntos lá nas famílias deles.
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Leia original aqui

As promiscuidades de Marcelo com os especuladores imobiliários

Anteontem estava à espera da resolução de um problema burocrático quando me surpreendi com a confissão pró-marcelista de pessoa amiga, que sei eleitora socialista e cujo primogénito é até militante no mesmo partido. Em pessoas menos definidas politicamente ainda admito, que a ilusão peloselfieman persista, mas em quem optou por escolha mais à esquerda, é-me difícil aceitá-lo. Daí que a minha reação não tenha tido a diplomacia, que a situação mereceria. No entanto, Marcelo tudo tem feito para ver desmistificada a sua personalidade calculista e perversa, como quando terá vitimado o próprio Paulo Portas, quando este ainda dirigia o «Independente».
No caso do veto à legislação parlamentar, que acautelava o interesse dos inquilinos nos casos da especulação imobiliária, que permite a venda em bloco de edifícios facilitando o inopinado despejo daqueles, Marcelo atuou em consonância com os que, furtivamente, tinham dias antes utilizado o caso Ricardo Robles para criar o clima favorável a este desfecho. Mas agora sabe-se mais: o assessor do presidente, que lhe terá preparado a fundamentação do veto é sócio da sociedade de advogados, que representa a Fidelidade, precisamente a seguradora pertencente aos chineses da Fosun, que se prepara para fazer um negócio chorudo antes que a Assembleia da República tenha tempo bastante para contrariar o veto presidencial e voltar a impor a legislação, que proteja os interesses dos inquilinos.
Nesse sentido caberá perguntar a Joana Marques Vidal se esta promiscuidade entre os serviços da Presidência da República e as empresas diretamente beneficiadas pelo seu veto não merece ser investigada pela vantagem colhida pelos clientes do referido assessor com tal decisão? Ou, uma vez mais, a Procuradoria Geral da República continua a analisar ilícitos quando as suspeitas recaiam sobre quem é de esquerda, continuando a deixar os vigaristas e especuladores das direitas a prosseguirem alegremente as suas negociatas sem que ninguém os incomode?
O «Expresso» traz, igualmente, outra marcelice, que urge ser denunciada. Habitual conviva dos portugueses mais endinheirados, de quem colhia, entre outros benefícios, convites para férias faustosas, Marcelo chegou a Belém com o propósito de abreviar tão rapidamente quanto possível o governo das esquerdas. Precisava para tal de um líder laranja, que lhe servisse de cúmplice, já que Cristas, por mais peixeirada que organize, nunca passa da dimensão de líder de pequeno partido para o qual um pequeno autocarro basta para transportar o seu grupo parlamentar. Deu oxigénio a Passos, porventura a acreditar que o pacto com o Diabo surtisse efeito, mas nem com a ajuda dos incendiários de 2017, a pujança da solução governativa perdeu gás. Rio sempre lhe terá parecido um patinho feio, mas esteve uns meses na posição de «ver para crer», expectante que improváveis fatores influenciassem favoravelmente os seus desígnios. Agora, enquanto foi assumindo para as televisões, que a recandidatura a novo mandato é questão ainda por decidir (lembremo-nos que na campanha eleitoral para as eleições de 2016, ele afirmara bastar-lhe um único!), procura agir ativamente na transformação do seu partido para procurar que António Costa não consiga cumprir mais uma legislatura à frente da renovada maioria parlamentar. Por isso faz avançar Pedro Duarte, o diretor da sua campanha presidencial, e quase por certo o seu lugar-tenente mais próximo, para que corra com Rui Rio, congregue os apoios financeiros das maiores empresas do país, conte com o entusiasmo dos altifalantes disfarçados de jornalistas nas televisões e nos jornais e pareça apresentar uma alternativa nova, que seduza o eleitorado com a facilidade com que ele próprio o ludibriou.
O semanário de Balsemão anuncia esse golpe palaciano em curso com o maior dos entusiasmos. Espero que essa pessoa amiga e outras que se assemelhem não se mostrem tão permeáveis a tão estrondosa manipulação como o demonstraram quando permitiram que o filho e afilhado de figurões da Ditadura viesse sentar-se numa cadeira, que nunca deveria ter sido sua.

A mão por detrás dos afectos

Marcelo Rebelo de Sousa resolveu devolver à Assembleia da República um decreto que tinha por finalidade garantir aos arrendatários o direito de preferência em caso de compra dos imóveis por inteiro. Tudo isto surge numa altura em que decorre um negócio que, caso a lei venha a entrar efectivamente em vigor, pode ficar em risco: trata-se da operação de venda de 277 imóveis da companhia de seguros Fidelidade a um fundo de investimento norte-americano (Apollo), operação na qual a Fidelidade se tem negado a dar a devida preferência a cada um dos inquilinos sobre a respectiva fracção. Enquanto a lei vai, volta e não entra em vigor, lá vão folgando as costas, dando tempo precioso à consumação da negociata.

O presidente tem à sua mão um conjunto de sapientíssimos conselheiros. Esses assessores “técnicos” determinam ou influenciam, naturalmente, as decisões a tomar, pois é para isso que lá estão. O problema coloca-se quando um desses conselheiros aparenta ter, directa ou indirectamente, interesses óbvios na opção tomada. Para este caso concreto, a mão que se esconde por detrás dos afectos é, segundo o Jornal Económico, Miguel Nogueira de Brito. De acordo com o artigo, o conselheiro de Marcelo «é sócio da sociedade de advogados Morais Leitão, Galvão Teles, Soares da Silva & Associados (MLGTS), a qual tem como clientes sociedades de investimento como a Apollo Global Management ou a Oaktree Capital, entre outras gestoras de fundos de investimento imobiliário».

Confrontado pelos jornalistas acerca do hipotético conflito de interesses, Marcelo respondeu à questão de forma contraditória, apressada, esquiva e leviana. Não negando a intervenção de Nogueira de Brito, justificou-se dizendo ter-se tratado de uma “decisão solitária” e por razões “políticas”. Foi uma espécie de "ele aconselhou mas eu não liguei ao conselho". Ele "disse mas foi como se não tivesse dito". Qualquer coisa como "é proibido, mas pode-se fazer". A razão “política”, onde cabe tudo e um par de botas, é invocada para selar a impertinência da dúvida. E se isso pode bastar à oficialidade, não pode de modo algum silenciar quem ousa – e bem – questionar.

Não há afecto, «dab» ou dancinha patética que disfarce a urgência do escrutínio. Há um grande negócio entre colossos financeiros prestes a concretizar-se penalizando o elo mais fraco, que são os inquilinos. Se tal se concretizar durante o tempo que vai demorar até à aprovação do decreto, a negociata passa a ter o patrocínio oficioso de Belém. E Marcelo, como qualquer outro agente político, tem de ser responsabilizado pelo que faz, pelo que não faz ou pelo que deixa fazer.

Ver original em 'Manifesto 74' na seguinte ligação:

http://manifesto74.blogspot.com/2018/08/a-mao-por-detras-dos-afectos.html

A bola passou para Marcelo: será escorpião ou quem aparenta não ser?

Agora que já não conseguem fazer pontaria à lei, que Marcelo tem para promulgar, dado que a sua vítima colateral (Ricardo Robles) os privou do alvo com que se banquetearam nos últimos dias, os especuladores imobiliários apostados no prolongamento da tripa-forra de que têm beneficiado optaram por outra estratégia soprando para os jornais do costume a tese sobre o provável veto presidencial. Recorde-se que o diploma parlamentar, aprovado pela esquerda, dá direitos a inquilinos, que a lei de Cristas havia negado, dificultando os despejos até agora verificados com uma intensidade revoltante.
Será Marcelo o escorpião da fábula, incapaz de negar a sua natureza, facilitando a vida ao negócio imoral, que a seguradora Fidelidade prepara e outros especuladores pretendem imitar na sua senda? Ou, pelo contrário, revelará um pingo de decência, que respeite a vontade maioritária da Assembleia da República e dê algum oxigénio às muitas famílias ameaçadas de se verem postas na rua por quem apenas tem como fito o mais obsceno lucro?
Cá estaremos para, nos próximos dias, voltar a denunciar Marcelo pelo que é, ou elogiá-lo por quanto aparenta não ser. Quanto a Robles é merecido o reconhecimento por, no momento adequado, ter deixado a falar sozinhos os que tanto costumam pregar contra a imoralidade alheia, quando os sabemos cúmplices, ou ativos cultores, de comportamentos bem mais pecaminosos.

Veja o original em 'Ventos Semeados':  https://ventossemeados.blogspot.com/2018/07/a-bola-passou-para-marcelo-sera.html

Portugal | Haverá limites para Marcelo?

Pedro Ivo Carvalho | Jornal de Notícias | opinião
Pode uma imagem definir um homem? E pode uma imagem definir um político? E se esse político for uma projeção constante de imagens, de milhares de fotogramas difusos, em distintos contextos, sem critério de importância, quantidade inesgotável e qualidade ocasional? Até onde vai, ou pode ir, o ascendente mediático de Marcelo Rebelo de Sousa? Haverá limites para a sua ubiquidade? E, acima de tudo, quererá o presidente da República impor travões a si próprio, quando essa convergência com o quotidiano lhe tem granjeado tantos lucros? Como se define, hoje, este homem multiplicado?
Já nos habituámos a tudo em Marcelo. Quando ele desmaiou, há dias, num pico de calor, sentimos um aperto no peito como se tivesse sido com um tio ou um primo. Alguém que está ao nosso redor todos os dias.
A normalização da sua comparência ajuda a tolerar até as excentricidades. Mesmo quando o presidente da República de Portugal se transforma num comentador dos jogos da seleção no Mundial de futebol. Em direto nas televisões. Meia dúzia de minutos depois da partida terminar. Marcelo alimenta-se dos momentos de união nacional com o mesmo talento com que o faz nas tragédias coletivas. É a bandeira à janela da nação efusiva e o antidepressivo que ameniza os ciclos negros.
Os portugueses elegeram um homem que se transformou numa entidade. Mas esse homem-entidade que, há uns meses, numa madrugada fria, se sentou no chão com um sem-abrigo - no que resultou, porventura, na mais poderosa imagem do alcance social da Presidência - não pode querer ser sempre um cidadão comum. Porque não é. A humanização cunhada no cargo é uma virtude que decorre da sua natureza. Só que o exagero que se tornou vulgar elimina as distâncias necessárias.
Marcelo precisa todos os dias de Portugal. Não é líquido que Portugal precise todos os dias de Marcelo.
* Subdiretor do JN

Ver o original em 'Página Global': http://paginaglobal.blogspot.com/2018/06/portugal-havera-limites-para-marcelo.html

As férias de Marcelo

O incansável Marcelo que todos conhecemos, cansou-se finalmente de alguma coisa. Durante muitos anos a fio passou as suas férias nos iates de luxo pagos por Ricardo Salgado ou em ilhas paradisíacas no Brasil propriedade do seu antigo amigo Fernando Henriques Cardoso.

Agora com Ricardo Salgado caído em desgraça e com Termo de Identidade e Residência e Fernando Henriques Cardoso envolvido nos escândalos de corrupção da Odebrecht Marcelo opta pela via da simplicidade e, qual Papa Francisco que preferiu a cruz de ferro à  de ouro usada por Bento XVI, vai a banhos para as termas do Cartaxo, terra afamada pelas suas águas.

A qualidade que eu mais aprecio em Marcelo e noutros políticos é não serem hipócritas nem fariseus. Ye, Ye, Ye, Ye, sem-abrigo é que é!

Ver artigo original em "O TORNADO"

Marcelo outra vez

Dantes dava notas,
agora dá prazos
Pretender que se resolvam em 5 anos problemas que se agravaram exponencialmente nos últimos 50 anos é não estar a perceber a dimensão, o caráter estrutural e a complexidade da questão. A prioridade à vontade é uma coisa boa. Já o voluntarismo não o é, sendo apenas a antecâmara de desesperantes frustações.

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

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