Juventude

Um festival de “jabardices” e hipocrisia na Queima das Fitas

(Pacheco Pereira, in Público, 11/05/2019)

Vale a pena ir ao Jornal de Notícias e ao PÚBLICO para ver em detalhe o festival de “jabardices” que são as festas das Queimas das Fitas. Neste caso é a do Porto, mas todas as outras, em particular a de Coimbra, são iguais. A Queima das Fitas é um evento da praxe, está associado à mesma cultura estudantil das “jabardices” da praxe.

 

Em vários casos ligados à praxe, nos últimos anos, houve de tudo, violações, vandalismo, todos os abusos do catálogo, feridos e mortos. Não é um exclusivo português. Casos muito semelhantes aos que agora geraram mais este escândalo sazonal são comuns, por exemplo, nas “fraternidades” americanas.

No escândalo deste ano encontram-se os ingredientes habituais: bebida, droga, sexo e vídeos. Há um outro ingrediente que devia ser colocado a par destes: negócio. Na verdade circula muito dinheiro na praxe e na Queima, e dirigentes académicos e os seus amigos ganham bastante nestes dias. Há nepotismo, colaboração com empresas de bebidas, venda de publicidade, há mil e um negócios que nunca foram escrutinados. Já para não falar dos negócios ilegais como tráfico de droga que também tem aqui muitos fornecedores e muitos clientes.

Negócio, bebida, droga, sexo e vídeos como pano de fundo das “jabardices” naturais numa cultura do vazio e voyeurismo, que vai muito para além dos estudantes. Tudo isto conta com uma enorme complacência da sociedade, que só tem paralelo com a violência organizada das claques de futebol, trazidas por uma operação militar-policial para os estádios como um bando de mastins que precisam de açaimo. A sociedade, a começar pelos paizinhos e mãezinhas dos meninos e das meninas, fecha os olhos para este festival de abusos da praxe, que faz explodir qualquer lista de causas “politicamente correctas”.

O que é interessante é ver o habitual cortejo de intelectuais que explicam as claques, os carnavais e as saturnálias como uma natural catarse social, mas ao mesmo tempo se preocupam muito com a violência de género, com o racismo, com o sexismo, etc. Meus caros amigos, tirem daí o sentido: não há futebol sem violência, não há Queima nem praxe sem sexismo nem violência de género. Está inscrito no ADN da coisa. Se querem acabar com um têm que acabar com o outro. E convém não esquecer que ambos são um bom negócio.

Mas há pior e mais socialmente perverso. O pior é a hipocrisia gigantesca que acompanha os eventos dos escândalos: este ano, a circulação de uns vídeos na rede de raparigas alcoolizadas ou não a exibirem-se sexualmente para ganhar uns shots numas barracas. As barracas estão lá desde o início, as tabelas de actos por shot também, e duvido que, se não fossem os vídeos – tão inevitáveis hoje como a lei da gravidade –,​ não haveria escândalo. Houve por isso, diz pomposa a Federação Académica do Porto (FAP), que não sabe que estas coisas acontecem no seu quintal, “atentados à dignidade da pessoa humana”.

O comunicado da FAP e alguns comentários de especialistas são exemplos desta gigantesca hipocrisia. Diz a FAP que encerrou “temporariamente” três barracas por promoverem condutas que não são “os valores que estão imputados à Queima das Fitas do Porto”. Deixem-me rir. A FAP depois resvala, está aliás mais preocupada com os vídeos que lhe estragaram a festa do que com os actos: “Depois de observar a captação de imagens de comportamentos indevidos (na sua grande maioria até mesmo indignos)”, a FAP decidiu ainda “proibir que tais situações continuem a acontecer” e decidiu que “todas as barraquinhas que o fizerem serão devidamente sancionadas”.

E fez um acordo para haver um Ponto Lilás onde vão estar pessoas de diferentes organizações, prontas a “prevenir situações de violência sexual”, gerido por um conjunto de organizações muito típicas da galáxia “politicamente correcta”: Kosmicare, o Sexism Free Night, Uni+, Eir Porto e Associação Plano i. Isto chama-se fazer o mal e depois a caramunha, ou seja, dar para os dois peditórios antagónicos ao mesmo tempo.

Se os actos do escândalo sazonal deste ano fossem individuais – cada um faz o que quer desde que não incomode os outros –,​ não vou rasgar as vestes da moral. Querem beber, f… e exibir-se, para outros ganharem dinheiro, muito bem. Mas façam-no longe dos locais públicos e sem dinheiro público, e não obriguem os contribuintes a pagar os custos dos excessos.

Agora não me venham com a propaganda do “valor” deste tipo de actividades colectivas, porque sendo colectivas são uma questão social, económica, cultural e política. E aqui não está em causa qualquer moralismo, mas a defesa de alguma sanidade pública que as democracias e a liberdade precisam.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Expectativa de alívio para os estudantes que não possam pagar propinas

Esta terça-feira passou na Comissão de Educação e Ciência uma proposta que impede a nulidade de actos académicos em virtude de falta de pagamento de propinas. Espera-se aprovação final já esta sexta-feira.

O valor das propinas tem sido apontado pelos estudantes como uma das barreiras à frequência do Ensino SuperiorCréditosAssociação de Estudantes da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

Uma iniciativa do PCP que prevê o fim de consequências nefastas para os estudantes, como a nulidade de actos académicos em razão da falta ou atraso no pagamento de prestações de propinas, foi aprovada ontem, em sede de especialidade na Comissão de Educação e Ciência, na AR. Prevê-se que para além dos comunistas, PS, BE, e PEV dêem o seu aval ao texto final já na próxima sexta-feira.

O actual regime de financiamento do Ensino Superior determina que aos estudantes possa ser aplicado como consequência do não pagamento de propinas a «nulidade de todos os actos curriculares praticados no ano lectivo a que o incumprimento da obrigação se reporta» e, ainda, que as matrículas e as inscrições anuais possam ser suspensas, assim como os estudantes possam ser privados do acesso aos apoios sociais.

Esta realidade, há muito contestada pelos estudantes, implica que as condições socioeconómicas determinem o percurso académico de cada aluno e dificultem que os mesmos consigam superar as suas dificuldades, designadamente pelas limitações no acesso aos apoios sociais.

A proposta, a ser aprovada, permitirá aos estudantes não perderem o percurso académico realizado por motivos de insuficiência económica que impossibilite o pagamento das propinas.

O grupo parlamentar comunista considera que a medida é um passo importante no combate ao abandono escolar e à exclusão de estudantes por falta de recursos socioeconómicos. No preâmbulo da proposta lê-se que «o PCP defende que os estudantes do Ensino Superior não podem ser punidos na sua vida académica simplesmente porque não têm dinheiro para pagar o que lhes é exigido a título de propina. O Ensino Superior é um direito, não é um negócio».

O PCP relembrou ainda que só a eliminação das propinas pode garantir o direito dos estudantes aos mais elevados graus de ensino e que continuará a batalhar pela redução geral dos custos de frequência.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/nacional/expectativa-de-alivio-para-os-estudantes-que-nao-possam-pagar-propinas

Jovens trabalhadores manifestam-se quinta-feira contra a precariedade

Sob o lema «Não somos descartáveis», trabalhadores de todo o País são esperados esta quinta-feira, em Lisboa, para a manifestação nacional da Interjovem contra a precariedade e os baixos salários.

CGTP-IN demonstrou o seu «profundo repúdio» ao recente acordo do Governo com patrões e a UGTCréditosMARIO CRUZ / LUSA

Com autocarros confirmados de todos os distritos do País, a Interjovem (CGTP-IN) promete para amanhã uma grande manifestação nacional, trazendo para as ruas as lutas que se desenvolvem nas empresas e locais de trabalho. O protesto parte às 15h do Rossio em direcção à Assembleia da República.

Para além de assinalar o Dia Nacional da Juventude, o protesto tem como objectivo contestar a enorme precariedade sentida pelos jovens nos seus locais de trabalho e que se reflecta nos baixos salaŕios e falta de estabilidade, decorrente dos vínculos precários e horários desregulados.

Em comunicado, a Interjovem afirma que milhares de jovens, por via reivindicativa e da «luta organizada ​​​​​​nos sindicatos da CGTP-IN», têm passado a efectivos nas suas empresas. Todavia, a estrutura denuncia que «o Governo minoritário do PS» quer aprovar alterações à lei laboral que legitimam e aprofundam a precariedade.

A proposta do Governo, decorrente do acordo assinado com patrões e a UGT, prevê o alargamento do período experimental para 180 dias; a introdução do banco de horas grupal, que oferece 150 horas de trabalho gratuito aos patrões; a generalização dos contratos de muita curta duração a todos os sectores, estendidos de 15 para 35 dias.

Por outro lado, a Interjovem sublinha que o Executivo do PS mantém as «normas gravosas» do Código do Trabalho, como a caducidade da contratação colectiva, usada pelos patrões para chantagear e retirar de direitos, e a não reposição do tratamento mais favorável ao trabalhador.

1 milhão e 200 mil trabalhadores têm vínculos precários

Em comunicado, a CGTP-IN afirma que a precariedade é neste momento o principal problema e flagelo da juventude, tendo impactos profundos no desemprego, na instabilidade e na vida pessoal, responsável ainda pela baixa natalidade e os problemas demográficos com que o País se confronta.

Citando dados do Fundo de Compensação do Trabalho, a Intersindical sublinha que 55% do emprego criado entre 2016 e 2018 foi através de vínculos precários. Entre os jovens, «a precariedade atinge 41,5% dos menores de 35 anos e, entre estes, são as mulheres as mais afectadas, sendo a taxa de incidência das jovens trabalhadoras com menos de 25 anos de 66%».

A CGTP-IN frisa ainda que «muito do emprego criado é também mal pago», sendo que 40% dos novos postos de trabalho em 2018 tinham o salário mínimo nacional. Nesse sentido, a estrutura volta a frisar que a recente subida foi insuficiente, tendo à altura defendido os 650 euros para todos, seja no público ou no privado.

Por outro lado, denuncia que, nas empresas de trabalho temporário, as principais beneficiárias pelo flagelo, a precariedade «atinge a quase totalidade dos trabalhadores, os salários são baixos, mas a facturação cresceu mais de 50% desde 2013», com estas empresas a atingirem lucros recorde nos últimos anos​​​​​​.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/trabalho/jovens-trabalhadores-manifestam-se-quinta-feira-contra-precariedade

FRATERNIZAR – Três eleições num só ano – DELEGARMOS, OU DECIDIRMOS RELIGADOS? – por MÁRIO DE OLIVEIRA

 

Bem se pode dizer que 2019 é o ano de todas as eleições. Para o Parlamento europeu. Para o da Região Autónoma da Madeira. Para o Parlamento Nacional. Estamos à porta da terceira dezena de anos do século XXI, mas continuamos com modelos e institucionais de todo o tipo que herdamos de gerações antepassadas. Quando a Política ainda podia influenciar a importante área da Economia-e-Finanças. E o medo do ‘inferno’ continha potenciais prevaricadores. Felizmente, esses tempos, com laivos de Idade Média, já se foram e não voltam mais. E, se voltam, é sob outros nomes e outras máscaras, que não as dos nossos antepassados.

O facto e demasiado óbvio, só não o é para os dirigentes dos múltiplos institucionais do Poder. Agarrados ao ‘osso’ dos privilégios, são incapazes de ceder o lugar às novas gerações. Fazem tudo, isso sim, para as integrar nos velhos institucionais, sem se aperceberem que para gerações novas, institucionais novos. Ou assim, ou os ‘demónios’ de velhos e novos ‘ismos’ entrarão depressa em acção. Ao menos, não culpemos as novas gerações. Culpemos as mais velhas, por não largarem o ‘osso’ dos privilégios e do comando. Esta é a hora de desistirem do leme a favor das gerações recém-chegadas à maioridade e colocarem-se humildemente na posição de discípulos delas. Inclusive, deixar-se surpreender com a sua capacidade de iniciativa, de inovação e de vanguarda.

Neste ano de todas as eleições, uma das muitas grandes questões com que estamos confrontados é, Delegamos através do voto, ou decidimos nós próprios religados uns aos outros? Pode, em dado momento da história, ter sido um avanço a institucionalização da chamada democracia partidária. Houve vantagens, na altura, à mistura com desvantagens. No início só se viam vantagens. Das desvantagens, de tão secundárias, nem se falava, como fazemos com os medicamentos. Sabemos que os efeitos secundários estão lá. Mas nem por isso deixamos de os tomar, pelos benefícios que nos causam. Porém, passaram já várias gerações sobre esse início. Até mudamos de século e de milénio. Será que nem tão relevantes mudanças nos levam a perceber que é mais do que tempo de abandonarmos velhos institucionais e confiarmos às gerações mais recentes a criação de outros, mais em conformidade com estes novos tempos?

Quem nasceu no ano 2000 completa agora19 anos. Passa a responder pelos actos que pratica, pelas decisões que toma. Já não é aos pais delas, deles que vamos pedir responsabilidades e contas. É directamente a elas, a eles. Podem continuar a viver em casa dos pais, mas já não são os pais que decidem das vidas delas, deles. Se já é assim na vida civil, não deverá ser assim na vida política? É mais do que saudável que quem acaba de chegar à maioridade, se interrogue, perante cada um destes três actos eleitorais, todos determinantes para o seu amanhã e o amanhã dos seus filhos. Delegar através do voto, ou decidir?, é a questão. Para cúmulo, nesta altura da evolução social, delegar através do voto é confiar a decisão a quem já carrega anos do século XX e do segundo milénio, quando então tudo passava pelas mãos de quem tinha de decidir.

Somos já de um tempo em que muito do que é decisivo para os nossos hoje e amanhã não passa mais pelas nossas mãos, mas pelas máquinas. A uma velocidade que as gerações mais velhas não conseguem sequer acompanhar. Ou temos a humildade de dar voz e vez às novas gerações, a começar pela recém-chegada à maioridade, ou estão criadas as condições para velhos e novos ‘ismos’ ganharem corpo e conduzirem os nossos destinos para onde não queremos ir. Este é o tempo de decidirmos nós próprios religados uns aos outros. Não de delegarmos noutros através do voto. Continuar a delegar noutros, em vez de decidirmos nós próprios religados uns aos outros é renunciar a sermos seres humanos e povos com voz e vez. Sem dúvida, a pior das catástrofes!

 

www.jornalfraternizar.pt

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2019/01/20/fraternizar-tres-eleicoes-num-so-ano-delegarmos-ou-decidirmos-religados-por-mario-de-oliveira/

A "ACESSORA"

js001
Quando uma personagem política declara no seu currículo que foi assessora na área das Políticas Públicas Autárquicas só porque abichouuns euros por conta de um lugar de boy só pode estar a gozar connosco. Segundo esta lógica a senhora da limpeza da NASA ainda coloca no currículo que é especialista na manutenção de aviões.
Os sucessivos casos envolvendo gente das escolas das jotas começam a enjoar e é lamentável que na base de uma candidatura à liderança de uma juventude partidária esteja um currículo com falsidades. que roçam o imbecil Como também roça o miserável que tudo isto venha a público pelos piores motivos, já porque com camaradas de partido que fazem queixas crimes como estratégia de luta o melhor é mesmo mudar de partido.
Tudo isto enoja e é tempo de os partidos deixarem de prestar preciosas ajudas à extrema-direita, os líderes dos grandes partidos têm de meter na cabeça que ao assentarem a sua ascensão interna em gente que precisa de expedientes para subir na vida estão destruindo a democracia. Primeiro foi a escolha desastrosa do secretário-geral do PSD, depois o país soube das faltas encobertas com o sistema de ponto via login na rede da AR, agora sabemos desta pequena da JS.
Num país onde os jovens mais qualificados são forçados a emigrar temos uma seita de jotas, alguns com quase quarenta anos, a viver de esquemas e ainda conseguem converter esses esquemas e importantes capítulos do currículo. Enquanto um português que falte ao trabalho tem uma falta injustificada, mete um dia de férias ou perde um dia de ordenado alguns deputados pedem, ao colega que entre o PC.
São aqueles que mais proveito tiram da existência da democracia que acabam por mais contribuir para a destruir, dando motivos para que as instituições democráticas sejam difamadas. No caso desta rapariga a sua falha curricular é facilmente corrigida, basta substituir “assessora” por “acessora” ou “ascensorista”, ela não assessorou nada nem ninguém, limitou-se a ter acesso a um ordenado fácil com direito a enriquecimento curricular.

Ver original em 'O Jumento' (aqui)

«Os baixos salários e a precariedade são para acabar!»

Num dia em que a CGTP-IN trouxe a Lisboa dezenas de milhares de trabalhadores oriundos de todo o País, o AbrilAbril falou com três jovens, que protestam contra a precariedade e os baixos salários.

Segundo dados da CGTP-IN, a precariedade em Portugal atinge hoje mais de 22% dos trabalhadores de todas as idades, é cada mais abrangente e particularmente grave entre os mais jovens. Uma realidade que se expressa não só em baixos salários mas também numa vida repleta de insegurança e em horários desgastantes.

«Mais de 42% dos jovens com menos de 35 anos têm vínculos precários, sendo as jovens trabalhadoras as principais visadas (mais de 44%), sobretudo as com menos de 25 anos (mais de 71% face a 62% entre os jovens trabalhadores da mesma idade)», lê-se no documento.

Eduardo Veríssimo é trabalhador no call center da NOS, em Lisboa, e diz estar nesta situação há cerca de três anos. Ao AbrilAbrilrelata que as condições de trabalho são «de uma precariedade autêntica».

«É de facto a definição da palavra. Nós temos, relativamente à malta antiga, cerca de quatro a cinco pessoas numa sala com 200 pessoas novas. Há uma constante rotatividade do pessoal que garante diariamente o funcionamento dos serviços. A empresa não dá a possibilidade aos trabalhadores de atingirem os seus objectivos de vida», frisou.

Por outro lado, Eduardo Veríssimo afirma que, apesar de «ser a empresa que é», os  «salários são baixos», havendo «um constante recurso ao salário mínimo, que é inadmissível para as funções que asseguramos».

O jovem trabalhador salientou ainda estar surpreendido com o ambiente em redor: «uma manifestação bastante forte, com muita gente. Como estamos a ver, o Marquês está bastante cheio e esperamos que a mensagem seja transmitida. É urgente uma mudança efectiva na vida das pessoas», reiterou.

«Um trabalho completamente precário»

Um outro jovem com quem falámos foi Dinis Lourenço, que é monitor de ATL numa escola primária e jardim de infância, há mais de um ano.

«Tenho um trabalho completamente precário, estou a recibos verdes e não tenho grande expectativa de deixar de estar. Tenho colegas que estão há quatro anos no local de trabalho na mesma situação, não os passam a contrato. E com salários baixos», só recebendo 11 meses por ano.

Dinis Lourenço

«É um trabalho a recibos verdes e não tenho um contrato, ou seja, não tenho direito aos subsídios de férias, se estou doente e não posso ir trabalhar não recebo, portanto sem qualquer protecção social», frisou, acrescentando que «são muitas horas de trabalho, com horários desregulados. Eu, por exemplo, trabalho duas horas, depois tenho três horas de intervalo e mais duas de trabalho. Isto cinco dias por semana, o que é insustentável».

Dinis Lourenço considera que o seu caso nem é o pior, salientando que há «colegas com filhos, com famílias para sustentar e estão na mesma situação que eu. Isto leva a um desgaste muito grande, numa profissão que é muito importante. Estamos a lidar com crianças».

«Não deixa de ser uma situação muita injusta, onde os meus colegas não têm tempo para os próprios filhos, quando passam o dia a cuidar dos filhos de outras pessoas», sublinhou.

«Estamos sempre numa situação limite, é desgastante»

Já Ana Cruz, uma jovem trabalhadora, explica que está na Zara há 16 anos e que o trabalho na loja não é pêra-doce.

«São ritmos de trabalho alucinantes, cada vez mais intensos e acham que temos de ser polivalentes, temos de fazer tudo. Muitas das vezes temos tão poucas pesssoas de serviço, acabamos a fazer o nosso trabalho e o de mais duas pessoas. Estamos sempre numa situação limite, é desgastante», reiterou.

Perante tal situação, Ana Cruz realçou que não é fácil gerir a vida pessoal com o trabalho, em grande parte devido aos «horários desregulados. As pessoas não sabem quando podem marcar uma consulta porque não têm a certeza se vão estar de folga ou não, especialmente os part-time». 

Ana Cruz

«Senuma semana têm folga à terça e quinta-feira, na próxima já têm à segunda e sexta-feira. Nunca sabem quando vão ter folga para a semana, oshorários saem tarde e a más horas», afirmou a trabalhadora, que explicou ser mãe e que tem «enorme dificuldade em conciliar avida profissional com a familiar. Eu, como mãe, se tiver que sairmais cedo, porque o meu filho tem febre, é muito complicado».

Sendo uma trabalhadora com maior experiência, Ana Cruz realça que ao longo dos anos têm-se deparado com uma realidade de trabalho «extremamente difícil e precária», e deu exemplos de situações de outros jovens.

«Trabalham um ano e meio, vão-se embora e depois voltam a ser contratados por mais uns meses. Não ficam efectivos porque são mandados embora e depois voltam a ser contratados a prazo outra vez. Há muitos trabalhadores precários e um fluxo grande, há muita gente nova a entrar e a sair», explicou.

Além disso, afirma que «os salários são baixos» e «há muita discriminação no que toca ao subsídio de alimentação. Conheço colegas da Zara que recebem 7,5 euros e em Setúbal pagam dois euros mas trabalhamos todos para a mesma marca».

A jovem trabalhadora deixa um alerta: «espero que as empresas começem a abrir bem os olhos, porque isto não é sustentável. As próprias pessoas não aguentam serem sujeitas uma vida toda a estas condições, isto tem de mudar».

Tópico

Ver original em 'AbrilAbril' (aqui)

"A Juventude não está com..."

Não resisti a apresentar algumas linhas de um discurso que Mário Soares, então com 21 anos, jovem comunista, fez numa sessão pública do Movimento de Unidade Democrática, na sala da colectidade Voz do Operário,a 30 de Novembro de 1946. Uma sessão que se realizou, poucos dias depois de uma conferência da União Nacional, partido único do regime fascista, em que diversos oradores suscitaram a questão de que o regime estava a perder a juventude. "Onde está a juventude adolescente que não a encontro nos quadros da União Nacional?" Ou: "Estamos a perder gerações, por falta de orientações e organização que amanhã nos farão falta e perder a Universidade é perder o futuro".  Pegando neste facto, Soares desenvolveu o tema A Juventude não está com o Estado NovoDizia então Mário Soares:
"Em primeiro lugar, um reparo. A Juventude não é a Universidade. Poderíamos até dizer que, com a selecção material a que se procede, a Universidade é muito pouco expressiva da Juventude portuguesa. As propinas quintuplicaram, o que quer dizer que aos filhos das classes médias e sobretudo aos filhos das mais vastas camadas da população portuguesa está vedado o acesso ao ensino superior. Os estudantes universitários, na sua maioria, são os favorecidos da fortuna - jovens que têm uma situação de privilégio em relação aos outros jovens. Na Conferência da União Nacional teme-se perder a Universidade: que dizer então dos outros sectores da Juventude? Para ter uma ideia exacta das precárias condições de vida da juventude portuguesa é necessário integrarmo-nos em toda a política económica do Governo (...) e saber do nível de vida do nosso povo em geral. Mas a situação no que respeita à Juventude agrava-se: dado que a mão-de-obra juvenil, como aliás a feminina, é utilizada a baixos preços - como forma de concorrência e de novas explorações. A fórmula a trabalho igual, salário igual não tem sentido entre nós. Os sindicatos e as casas do povo não reconhecem aos jovens com menos de 18 anos direito de admissão - não beneficiam, portanto das caixas sindicais ou de previdência. Contratos colectivos estabelecem salários mínimos a partir de 4 escudos. Nestas condições - e conhecido o índice de analfabetismo do nosso país - como pode a Juventude trabalhadora estar com o Estado Novo? Nenhum dos seus problemas centrais foi resolvido ou equacionado. Decorrente do baixo nível de vida está a falta de preparação técnica e cultural, a inexistência de orientação profissional segundo as capacidades e não segundo o dinheiro, a impossibilidade de fundação dum lar. Não há possibilidade de protecção à família, sem mistificações, enquanto aos jovens não for dado fundarem o seu próprio lar. Não há possibilidade duma educação cívica séria - de arrancar os jovens à taberna e ao vício - enquanto a instrução não for obrigatória e facilitada para todos, enquanto existir um divórcio entre a escola e a vida, e o ensino não for concretizado e ligado ao moderno desenvolvimento técnico. (...). É este o triste quadro em que se move a grande maioria da nossa Juventude.
        

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

LOGO4 vert01
A Plataforma Cascais - movimento cívico é um grupo aberto de cidadãos, autónomo de quaisquer interesses económicos, religiosos ou partidários.
Todas as publicações deste site refletem apenas as opiniões dos seus autores e não responsabilizam a PC-mc
exceto quando expressamente assinadas por esta.
 

SSL Certificate
SSL Certificate