Geoestratégia

Um mundo sem fronteiras? – Boaventura

Brutal paradoxo: os mesmos que exigem “liberdade” para o dinheiro e as redes sociais empenham-se em construir muros que segregam os “não-seres”. Mas até nestes linhas de exclusão brota resistência — talvez, desesperada esperança…

Boaventura de Sousa Santos | Outras Palavras

Vivemos num tempo de abolição de fronteiras ou num tempo de construção de fronteiras? Se tivermos em conta dois dos poderes ou instrumentos que mais minuciosamente governam as nossa vidas – o capital financeiro e a internet – é inescapável a conclusão de que vivemos num mundo sem fronteiras. Qualquer tentativa de qualquer dos 195 Estados que existem no mundo para regular estes poderes será tida como ridícula. No atual contexto internacional, a avaliação não será muito diferente, se a regulação for levada a cabo por conjuntos de Estados, por mais ominoso que seja o provável desenlace da falta de regulação. Por outro lado, se tivermos em conta a incessante construção ou reafirmação de muros fronteiriços, facilmente concluímos que, pelo contrário, nunca as fronteiras foram tão mobilizadas para delimitar pertenças e criar exclusões. Os muros entre os EUA e o México, entre Israel e a Palestina, entre a Hungria e a Sérvia, entre a Crimeia e a Ucrânia, entre Marrocos e o povo saharaui, entre Marrocos e Melila/Ceuta aí estão a afirmar o dramático impacto das fronteiras nas oportunidades de vida daqueles que as procuram atravessar.

Esta ambivalência ou dualidade do nosso tempo não é nova. Para nos restringirmos ao mundo ocidental, podemos dizer que ela existe desde o século XV, no momento em que a expansão transatlântica europeia obriga a vincar os poderes gêmeos de eliminar e de criar fronteiras. O Tratado de Tordesilhas de 1494 regulava a liberdade marítima dos reinos de Portugal e de Castela, ao mesmo tempo que excluía os outros países do comércio oceânico, o mare clausum. Quando, em 1604, lhe contrapõe a doutrina do mare liberum, Hugo Grotiustem tem em vista disputar as fronteiras existentes para as substituir por outras, mais condizentes com as aspirações da emergente Holanda. Na mesma lógica de conveniências, Francisco de Vitória, ao mesmo tempo que defendia a soberania dos países ibéricos, defendia que o direito de livre comércio se sobrepunha a qualquer pretensão de soberania dos povos das Américas.


Desde o Renascimento do século XV até ao Iluminismo do século XVIII vai-se afirmando a universalidade sem fronteiras da humanidade e do conhecimento, ao mesmo tempo que se vão vincando as fronteiras entre civilizados e selvagens, entre colonizadores e colonizados, entre livres e escravos, entre homens e mulheres, entre brancos e negros. Immanuel Kant advoga a ideia do Estado universal, berço de todo o cosmopolitismo eurocêntrico, um século depois de a Europa se ter retalhado entre países soberanos no Tratado de Vestefália de 1648. Foi essa a única forma de garantir a coexistência pacífica entre poderes e religiões que se tinham guerreado de modo bárbaro na guerra dos trinta anos, onde morreu um milhão de pessoas. Um século depois de Kant, as potências europeias, apostadas em garantir a expansão sem limites do capitalismo emergente, reúnem-se em Berlim para desenhar as fronteiras na partilha de África, sem que obviamente os africanos sejam ouvidos. O relato poderia continuar com a instabilidade crônica das fronteiras da Europa de Leste e dos Balcãs e a massiva deslocação forçada de populações decorrente do colapso do império Otomano. Por sua vez, nos nossos dias, o espaço Schengen ilustra bem como o mesmo poder pode simultaneamente eliminar e criar fronteiras. Enquanto, para os europeus incluídos, este espaço tornou as fronteiras internas num antiquado impedimento felizmente superado, para os não-europeus, as fronteiras externas tornaram-se uma montanha opaca e burocrática, quando não um pesadelo kafkiano.

Todas as situações conduziriam à mesma conclusão: as fronteiras são instrumentais e são sempre expressão do poder de quem as define. Por sua vez, a violação das fronteiras ou é expressão de um poder emergente que se pretende sobrepor ao poder existente, ou é expressão daqueles que, sem terem poder para redefinir ou eliminar as fronteiras, as atravessam sem autorização de quem as controla.

Sendo instrumentais, as fronteiras são muito mais que linhas divisórias geopolíticas. São formas de sociabilidade, exploração de novas possibilidades, momentos dramáticos de travessia, experiências de vida fronteiriça, linhas abissais de exclusão entre ser e não ser, muros de separação entre a humanidade e a sub-humanidade, tempos-espaços de exercício de poder arbitrário e violento. Neste domínio, o que melhor caracteriza o nosso tempo é a diversidade de experiências de fronteira, a aceleração dos processos sociais, políticos e culturais que erigem e derrubam fronteiras, a valorização epistemológica do viver e pensar fronteiriços e os modos de resistência contra fronteiras consideradas arbitrárias ou injustas.

Vejamos algumas situações paradigmáticas. A travessia das fronteiras tanto pode ser uma experiência banal, quase irrelevante, como uma experiência violenta, degradante, em que a única banalidade é a do horror quotidiano. Do primeiro caso são paradigmáticas as travessias quotidianas, para comércio e convivialidade, das comunidades africanas que foram separadas por fronteiras arbitrárias depois da Conferência de Berlim em 1894-95; dos povos indígenas da Amazónia que têm parentes dos dois lados da fronteira dos vários países amazónicos; ou das “gentes da raia” entre Portugal e a Espanha (sobretudo na Galiza). No segundo caso, há que distinguir entre travessias quotidianas e de duplo sentido e as travessias singulares ou as experiências reiteradas e frustradas das travessias imaginadas, umas e outras como de sentido único. Das primeiras são paradigmáticas as travessias quotidianas dos palestinos a caminho do trabalho em Israel, através dos infames check-points, onde podem passar horas ou não passar, em qualquer caso vítimas do mesmo poder violento, arbitrário e totalmente opaco. Das segundas são paradigmáticas as travessias logradas ou frustradas dos milhares de emigrantes, ou melhor, de fugitivos da fome, da miséria, das guerras e das mudanças climáticas que atravessam a América Central a caminho dos EUA, ou naufragam no Mediterrâneo ao cruzá-lo a caminho da Europa. Nestas travessias, as temporalidades históricas tanto se dramatizam como perdem sentido. Estes peregrinos da deserança moderna, capitalista, colonial e patriarcal, fogem para o futuro ou fogem do futuro? Vêm do passado ou vão para o passado? São filhos da espoliação colonial que tentam libertar-se da devastação que ela criou ou são projetos de carne jovem para reescravizar, desta vez nos interiores das fachadas das avenidas do glamour metropolitano, e já não nos campos de extermínio nas plantações das colónias?

A sociabilidade de fronteira tanto pode resultar do exercício permanente de deslocação das fronteiras, como da vida suspensa junto a fronteiras fixas e bloqueadas, muros de cimento ou redes de arame farpado. No primeiro caso, a fronteira é definida e deslocada por quem tem poder para tal. É paradigmática a experiência de pioneiros, bandeirantes, emigrantes que, ao longo dos séculos de expansão colonial, foram invadindo e colonizando os territórios dos povos nativos. Por ter acontecido num contexto supostamente pós-colonial, a experiência do far westnorte-americano é particularmente reveladora da linha abissal que a fronteira vai desenhando entre as zonas de ser e a zonas de não ser, como diria Frantz Fanon. Do lado de cá da linha, sempre em movimento, está a sociabilidade dos pioneiros, uma sociabilidade de tipo novo caracterizada pelo uso seletivo e instrumental das tradições e a sua mistura com a criatividade das invenções de convivência que o novo contexto exigia, pela pluralidade de poderes e hierarquias débeis entre os diferentes grupos de pioneiros, pela fluidez das relações sociais e a promiscuidades entre estranhos e íntimos. Do outro lado da linha estão os índios, os donos do território, que os pioneiros convertem em seres inferiores, indignos de tanta abundância, obstáculos ao progresso, a serem superados com a inexorável conquista do Oeste. De um lado da fronteira, a convivência, do outro, a violência. A matriz moderna da construção paralela de humanidade e de desumanidade tem aqui uma das suas mais dramáticas e violentas ilustrações.

Por sua vez, a sociabilidade das fronteiras bloqueadas está hoje bem presente nos campos de internamento de refugiados que se vão multiplicando em vários países europeus e em países associados para o efeito, como é o caso da Turquia. São, na verdade, campos de concentração dos novos presos políticos do nosso tempo, os presos políticos do capitalismo, do colonialismo e do patriarcado, populações consideradas descartáveis ou sobrantes para estas três formas de dominação moderna que hoje parecem mais agressivas que nunca.

As fronteiras são as feridas incuráveis e expostas de um mundo sem fronteiras. O único motivo de esperança que elas nos permitem é a emergência de movimentos e associações de jovens que se rebelam contra as fronteiras e se solidarizam ativamente com as lutas dos migrantes e refugiados. Não praticam ajuda humanitária, envolvem-se nas suas lutas, facilitam a comunicação entre os migrantes, exploram meios legais e ilegais de os libertar destas infames prisões. Estes jovens constituem a melhor manifestação da desesperada esperança do nosso tempo.

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Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/05/um-mundo-sem-fronteiras-boaventura.html

Análise: no mundo há várias 'linhas de frente' onde se sente o 'bafo' de Washington

Militares norte-americanos
© AFP 2019 / Nikolay Doychinov

O analista Andrei Suzdaltsev revelou, em entrevista ao serviço russo da Rádio Sputnik, sua opinião que a visita do chanceler da Venezuela a Moscou foi muito oportuna.

Caracas apela a Washington que dialogue e respeite o direito internacional, informou a chancelaria da Venezuela no final do encontro entre os chanceleres russo e venezuelano.


O analista e professor da Escola Superior da Economia russa Andrei Suzdaltsev partilha o mesmo ponto de vista em relação à situação, em entrevista ao serviço russo da Rádio Sputnik

Podemos ver que uma abordagem por parte dos EUA direcionada ao diálogo para resolver a crise na Venezuela não tem a ver com esta administração estadunidense, opina o analista.

"No mundo há várias 'linhas de frente' quentes onde se sente o 'bafo' de Washington. Além da Venezuela, elas são a Síria, Ucrânia, etc. Em todas essas direções os EUA não mostram vontade de se sentarem à mesa das negociações e buscarem algum tipo de compromisso", disse Andrei Suzdaltsev.

A administração do presidente norte-americano se verificou ser incapaz de atuar no palco internacional, afirmou o analista.

"Há muitas campanhas de propaganda, 'demonstrações da força', [os EUA] enviam constantemente forças de porta-aviões para todo o mundo, mas ainda nenhum problema foi resolvido", declarou ele.


A administração dos EUA conta abertamente com que o líder da oposição venezuelana Juan Guaidó encabece o país, afastando o presidente legitimo Nicolás Maduro, considera Andrei Suzdaltsev.

Ele revela sua opinião que a visita a Moscou do chefe da chancelaria da Venezuela foi muito oportuna, porque ela recordou a Washington que sua política é contraproducente.

"Esse encontro em Moscou com o ministro das Relações Exteriores da Venezuela, que teve lugar um dia antes do encontro do chanceler russo, Sergei Lavrov, com o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, foi muito oportuno, especialmente depois das tentativas de realizar um golpe de Estado na Venezuela", concluiu o analista Andrei Suzdaltsev.

O encontro entre Lavrov e Pompeo tem lugar em 6 de maio, na Finlândia.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/opiniao/2019050613820511-analise-mundo-varias-linhas-frente-sente-bafo-washington/

ODiario.info » O Sri Lanka no Grande Jogo dos EUA e da Índia contra a China

Os recentes atentados no Sri Lanka ganham um significado especial se se considerar a importância geopolítica do país, e as disputas de influência na zona. Um processo em que a ingerência e a conspiração por parte dos EUA se exercem num tabuleiro particularmente volátil, perigoso e complexo

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References

  1. ^ endereço (www.odiario.info)
  2. ^ odiario.info (odiario.info)

Ver o original em ODiario.info (clique aqui)

Por que cada vez mais países retiram reservas de ouro dos EUA?

Barras de ouro (imagem de arquivo)
© AP Photo / Michael Probst

Durante décadas, muitos países guardaram suas reservas de ouro nos EUA. Porém, a situação está mudando. No ano passado vários países, incluindo a Turquia, Alemanha e Holanda, retiraram seu ouro armazenado nos EUA e outros Estados estão considerando a mesma ideia.

A colunista da Sputnik Natalia Dembinskaya revelou que ainda há uma década cerca de 60 países guardavam suas reservas de ouro nos EUA, principalmente para garantir a segurança das suas reservas em caso de uma guerra e para aumentar a liquidez, porque os maiores negócios com ouro são realizados na Bolsa de Mercadorias de Nova York (NYMEX).

Guardar o ouro nos EUA permitia reduzir gastos de transporte, que são muito altos no caso de metais preciosos devido a seguros caros, e os Estados decidem pagar esses custos apenas em uma situação econômica ou política excepcional. O fato de que em 2018 a Turquia, a Alemanha e a Holanda retiraram seu ouro armazenado nos EUA e que a Itália está considerando essa medida significa que essa situação poderia estar chegando.


Além disso, nos últimos tempos têm aumentando as dúvidas sobre se os EUA guardam o ouro dos outros países adequadamente.

Segundo o Departamento do Tesouro americano, os EUA continuam guardando 261 milhões de onças de ouro. No entanto, pela última vez a auditoria dessas reservas foi realizada nos anos de 1960. Depois disso, todas as tentativas de realizar uma nova inspeção foram bloqueadas pelo Congresso, afirma Dembinskaya.

Há quem suponha que os americanos usam o ouro estrangeiro em seus próprios interesses: alugam-no aos bancos que operam com ele no mercando para controlar o preço do metal precioso.

"Isso levanta uma questão: se Washington está pronto para devolver em qualquer momento o ouro que não pertence aos EUA. Para não arriscar, cada vez mais países retiram o seu ouro", explicou a analista.

A vaga de retiradas começou em 2012, quando a Venezuela decidiu retirar dos EUA todas as 160 toneladas do seu ouro no valor de nove bilhões de dólares. Naquela época, o presidente Hugo Chávez declarou que é necessário fazer regressar os lingotes à Venezuela para não se tornarem reféns e em um meio de pressão de Washington. Essa previsão do presidente venezuelano se tornou realidade em 2018: o Banco da Inglaterra recusou ao presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, um pedido para entregar 1,2 bilhão de dólares em barras de ouro.


Em 2014 o Banco Central da Holanda retirou de Nova York 20% das suas reservas de ouro (naquela época 50% das reservas holandesas estavam guardadas nos EUA), argumentando que guardar metade das reservas de ouro no mesmo lugar é imprudente e inadequado. Entretanto, os analistas estão certos: o país continua retirando seu ouro dos EUA para não depender das ações imprevisíveis do presidente dos EUA, Donald Trump.

O Deutsche Bundesbank, banco central da Alemanha, também lançou um programa de retirada do seu ouro dos EUA em 2012. Além disso, em abril de 2018, a Turquia retirou 27,8 toneladas de seu ouro guardado nos EUA.

Segundo Dembinskaya, as razões de refluxo do ouro estrangeiro das caixas-fortes americanas são evidentes: o aumento das taxas de juro nos EUA, a pressão contra euro e outras moedas, o aumento dos riscos geopolíticos e as guerras comerciais desencadeadas por Washington.

Em meio a isso, a economia global está tentando reduzir sua dependência do dólar americano e aposta no ouro como um ativo seguro, e já não o confia aos EUA: Washington, que usa a pressão financeira cada vez mais frequentemente, poderia simplesmente congelar os ativos dos países "indesejáveis" para os EUA.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/economia/2019042413748043-por-que-cada-vez-mais-paises-retiram-reservas-ouro-eua/

«OS CÃES LADRAM; A CARAVANA PASSA...»

                              China’s Belt and Road Continues to Win Over Europe While Technocrats Scream and Howl

https://www.strategic-culture.org/news/2019/04/20/china-belt-road-continues-win-over-europe-while-technocrats-scream-howl.html
Enquanto as forças militaristas dos EUA e da NATO e seus lacaios continuam a gabar-se da sua «força», conduzindo guerra após guerra, sanção após sanção, sob os mais variados e falsos pretextos, a comunidade das «Novas Rotas da Seda» vai-se alargando, nos seus projectos e nas suas adesões, em particular de países da Europa Central. Uma cimeira 16+1, reuniu 16 chefes de estado europeus com a China, no passado dia 12 de Abril.  Antes, no passado dia 26 de Março, houve a adesão da Itália (3ª economia da Eurolândia, a seguir à Alemanha e França) às Novas Rotas da Seda.  No final de Abril, haverá a segunda cimeira das Novas Rotas da Seda [second Belt and Road Summit ], que terá lugar em Pequim e envolverá 126 nações.
É um facto que estes desenvolvimentos estão a moldar o futuro imediato e longínquo do mundo. Porém, a media corporativa, subserviente, não dá o devido destaque, menoriza, distorce, ou simplesmente oculta aquilo que desagrada aos seus patrões dos grandes conglomerados mediáticos, associados à banca e negócios, incluindo os mafiosos partidos ditos «de poder».
Se quisermos saber o que realmente importa, em termos globais, não temos outro remédio senão nos socorrermos, ou da media dos países do Oriente, ou da media alternativa, confinada a uma mão cheia de sites na Internet.

É esta a «liberdade de informação», que os potentados que monopolizam o poder, reservam aos seus cidadãos no «Ocidente».  Por isso mesmo, eles podem continuar (durante quanto tempo?) a manter as aparências. Mas, a cidadania terá de acordar e ver que as «democracias liberais» se transformaram em regimes destituídos da liberdade de informar ou ser informado.  Querem inclusive fazer-nos crer que «democracia» seja sinónimo de estados policiais, bélicos, opressores, uma evolução prevista pelo genial Orwell. Nestes regimes, apenas resta a «liberdade», vazia, de depor um voto na urna, de tantos em tantos anos, para eleger A ou B ou C, todos eles lacaios das grandes corporações...

Ver o original em 'Manuel Banet' (clique aqui)

A estratégia do Caos Encaminhado

A estratégia do Caos Encaminhado
Manlio Dinucci*

Como um cilindro compressor, os Estados Unidos e a NATO alastram pelo mundo a estratégia Rumsfeld/Cebrowski de destruicão das estruturas estatais dos países não integrados na globalização económica. Para concretizá-la, usam os europeus aos quais fazem crer numa alegada “ameaça russa”. Ao fazê-lo, incorrem o risco de provocar uma guerra generalizada.

Tudo contra todos: é a imagem mediática do caos que se alarga à mancha de petróleo na costa sul do Mediterrâneo, da Líbia à Síria. Uma situação perante a qual até Washington parece impotente. Na realidade, Washington não é um aprendiz de feiticeiro incapaz de controlar as forças postas em movimento. É o centro motor de uma estratégia - a do caos - que, ao demolir Estados inteiros, provoca uma reação em cadeia de conflitos a serem utilizados de acordo com o critério antigo - “dividir para reinar”.

Tendo saído vitoriosos da Guerra Fria, em 1991, os USA autoproclamaram-se “o único Estado com uma força, uma escala e uma influência, em todas as dimensões - política, económica e militar - verdadeiramente global”, propondo-se “impedir que qualquer poder hostil domine uma região - Europa Ocidental, Ásia Oriental, o território da antiga União Soviética e o Sudoeste Asiático (Médio Oriente) - cujos recursos seriam suficientes para criar uma potência global”. Desde então, os EUA e a NATO sob o seu comando, fragmentaram ou demoliram com a guerra, um após outro, os Estados considerados obstáculos ao plano de domínio global - Iraque, Jugoslávia, Afeganistão, Líbia, Síria e outros - enquanto mais alguns (entre os quais o Irão e a Venezuela) ainda estão na sua mira.


Nessa mesma estratégia está incluído o golpe de Estado na Ucrânia, sob direcção USA/NATO, com o fim de provocar na Europa, uma nova Guerra Fria, a fim de isolar a Rússia e fortalecer a influência dos Estados Unidos na Europa.

Enquanto a atenção político-mediática se concentra no conflito na Líbia, deixa-se na sombra o cenário cada vez mais ameaçador da escalada da NATO contra a Rússia. A reunião dos 29 Ministros dos Negócios Estrangeiros, convocada em 4 de Abril, em Washington, para celebrar o 70º aniversário da NATO, reiterou, sem qualquer prova, que “a Rússia viola o Tratado INF, instalando, na Europa, novos mísseis com capacidades nucleares”.

Uma semana depois, em 11 de Abril, a NATO anunciou que neste verão haverá uma “actualização” do sistema USA Aegis de “defesa antimíssil”, instalado em Deveselu, na Roménia, assegurando que a mesma actualização “não oferece nenhuma capacidade ofensiva ao sistema”. Este sistema, instalado na Roménia e na Polónia e a bordo de navios, pode lançar não só mísseis interceptores, como também mísseis nucleares.

Moscovo advertiu que, se os EUA instalarem mísseis nucleares na Europa, a Rússia distribuirá no seu território, mísseis idênticos apontados para as bases europeias. Consequentemente, aumentam as despesas para a “defesa” da NATO: os orçamentos militares dos aliados europeus e do Canadá, aumentarão até 2020, para 100 biliões de dólares.

Os Ministros dos Negócios Estrangeiros da NATO, reunidos em Washington, em 4 de Abril, comprometeram-se em particular, a “enfrentar as acções agressivas da Rússia na região do Mar Negro”, estabelecendo “novas medidas de apoio aos nossos parceiros chegados, a Geórgia e a Ucrânia”. No dia seguinte, dezenas de navios e caça bombardeiros dos Estados Unidos, Canadá, Grécia, Holanda, Turquia, Roménia e Bulgária iniciaram um exercício de guerra naval da NATO, perto das águas territoriais russas, usando os portos de Odessa (Ucrânia) e Poti (Geórgia).

Ao mesmo tempo, mais de 50 caça bombardeiros dos Estados Unidos, Alemanha, Grã-Bretanha, França e Holanda, decolando de um aeroporto holandês e reabastecidos em voo, exercitavam-se em “missões aéreas ofensivas atacando alvos em terra ou no mar”. Por sua vez, bombardeiros italianos Eurofighter serão enviados pela NATO, para patrulhar novamente a região do Báltico contra a “ameaça” dos aviões russos.

A corda está cada vez mais tensa e pode quebrar-se (ou ser quebrada) a qualquer momento, arrastando-nos para um caos muito mais perigoso do que o da Líbia.

Na imagem: O Presidente romeno, Klaus Iohannis, declara abertas as manobras dos exercícios de fogos reais da NATO “Sea Shield 2019”.

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/04/a-estrategia-do-caos-encaminhado.html

SÍNDROMA DE CORPO INERTE

1- A contraofensiva da hegemonia unipolar ao sabor do “the americans first” ciosa do papel do petrodólar, manifesta-se a pleno vapor e à escala global, no momento em que os Estados Unidos passam a 1º produtor mundial de petróleo e gaz de xisto.
Neste momento, com todos os instrumentos em progressão (diplomáticos, de inteligência, no âmbito do seu relativo domínio nas novas tecnologias e consolidando o “lobby” energético-armamentista que tradicionalmente suporta os republicanos) os Estados Unidos pretendem ser o mais evidente “reitor” das tão frágeis quão subservientes articulações de relacionamento internacional em função das aptidões hegemónicas...
Capitalismo produtivo, proteccionismo e um novo vigor vinculativo do sistema de choque brutal e influência, constituem eixos de acção no âmbito da hegemonia unipolar, versão Donald Trump e isso conduziu, mais que antes, à simplificação entre contrários, numa confrontação entre dois grupos de contingência: Estados Unidos – China.
A versão de capitalismo financeiro transnacional está em recuo, salvo em relação ao papel dos que accionam o terrorismo e o caos em algumas regiões pontuais do globo, como o caso dos redutos de resistência nas Américas (Cuba, Venezuela e Nicarágua).
Essa “simplificada” redundância coroa em função das contramedidas dos Estados Unidos em curso, a visão da contradição hegemonia unipolar versus multilateralismo!

 
No caudal das opções, ninguém escapa à feroz batalhada IIIª Guerra Mundial, duma forma ou de outra, a começar pelos imperativos sistemas de vassalagem dum lado e de persuasiva integração articulada do outro…
Mesmo assim, o capim vai sendo pisado pelos dois elefantes, provocando por vezes dramáticas alterações de curso, como é por exemplo o caso angolano, na ultraperiferia e na “reserva de matérias-primas e mão-de-obra barata” a que é remetida África!...
2- Os países que albergam bases estado-unidenses, de acordo com o presidente Donad Trump, vão passar a pagar os “bons serviços” da protecção hegemónica, algo que trará elevados custos às componentes europeias da NATO, a alguns países latino-americanos e ao Japão.
Quem se aninhar à protecção, terá de pagá-la e os “caloteiros” serão penalizados, conforme os “avisos à navegação” de acordo com a recém-inaugurada fórmula “Cost Plus 50”...
Trata-se de mobilizar recursos em jeito de contraofensiva, em torno da pirâmide estrutural do projecto hegemónico, de forma a prevenir a persuasão chinesa das “novas rotas da seda” que se vão estendendo por dentro do supercontinente euroasiático desde os portos chineses do Pacífico, até aos portos da costa atlântica da União Europeia.
Nessa mobilização de recursos pelo prisma do Presidente de turno nos Estados Unidos, é inevitável o salto da indústria armamentista, ela própria conectada às indústrias energéticas, que providenciará a aplicação acelerada de novas “aliciantes”, tendo em conta os impactos das novas tecnologias, aumentando os gastos nas novas armas e conceitos militares, refazendo arsenais quando o mundo tanto necessita de construir civilizadamente a paz e o respeito inadiável para com o planeta.
As tensões na Europa do Leste, em particular entre o Báltico e o Mar Negro com fulcro continental na Ucrânia, estão na ordem do dia…
Os Estados Unidos procuram inviabilizar no Báltico o projecto Nord Stream 2, colocando em cheque a Alemanha, tentando persuadir ao mesmo tempo a venda de seu petróleo e do seu gaz, a serem transportados por navios num serviço costa-a-costa por dentro do dilecto espaço físico-geográfico da NATO, o Atlântico Norte.
Os Estados Unidos aumentam a pressão do petrodólar sobre o euro, de forma a procurar reforçar as duas moedas sincronizando-as em torno de projectos estritamente comuns…
Os Estados Unidos reforçam o papel de charneira da Polónia, dos países bálticos (Estónia, Letónia e Lituânia) e da Ucrânia, mobilizando os vassalos da NATO em função da manobra que implica a concentração de unidades estratégicas junto às fronteiras com a Federação Russa, tida como ariete ocidental das transcontinentais novas rotas da seda…
Os Estados Unidos alimentam um contencioso especial de manobras e veladas pressões para com a Turquia, atraída para o campo multilateral a ponto de cometer o “sacrilégio” de adquirir armamento russo de quarta geração, rompendo com os cânones da NATO…
Os Estados Unidos impulsionam seus meios no Iémen, desde a coligação em torno da Arábia Saudita, até à Al Qaeda, por que se é obrigado a transigir no Golfo Pérsico (agora face à aproximação do Iraque ao Irão), pretende que o Mar Vermelho continue a ser um “mare nostrum”…
Os Estados Unidos aumentam a sua presença reorganizando suas forças e suas bases na Europa do Leste, Médio Oriente Alargado (onde o Irão tende a ser um dos alvos principais para o apêndice fulcral que constitui Israel reforçado pelas monarquias arábicas sunitas wahabitas)…
… e mesmo assim os Estados Unidos estão em vias de se retirar do Afeganistão, quando a Ásia Central baldeia a favor das novas rotas da seda…
3- No extremo oriente e África a manobra está também convulsiva:
A China reforça aceleradamente o seu potencial militar e de intervenção nos mares e regiões circundantes…
A China joga procurando diluir o contencioso radical entre o Paquistão e a Índia no Caxemira, quando apesar de tudo os dois estados passaram a ser membros activos da Organização de Cooperação de Shangai.
A China atrai à sua causa o Japão e a Coreia do Sul, países industrializados com capacidades de expansão nas suas conexões de relacionamento económico internacional, que não vão poder recusar, por causa da dinâmica de suas opções, participação nas novas rotas da seda, apesar das âncoras que os Estados Unidos lhes colocaram desde a IIª Guerra Mundial e Guerra da Coreia…
A China, abrandando o potencial de sua presença na ultraperiferia que é África, começa a investir na Síria, no Irão e no Iraque, reforçando as conexões a sul das novas rotas da seda, alargando a amplitude dos projectos já em curso na Ásia Central e Sibéria, (neste caso no miolo geoestratégico da Federação Russa, entre o leste e o oeste)…
A China cria a sua primeira base militar geoestratégica, no Djibouti, à entrada do Mar Vermelho e acesso à passagem do Suez, no Egipto, de forma a reforçar a vigilância sobre as conexões marítimas das novas rotas da seda entre o Índico Norte e o Mediterrâneo Oriental…
A China acaba de queimar os últimos cartuchos dos homens-de-mão que controlavam os clãs coloniais “híbridos” de Macau e de Hong Kong em África, (entre eles Sam Pa cuja visibilidade maior, por via do China International Found, foi em Angola), de forma a começar a estender os interesses de suas poderosas empresas estatais que numa primeira fase se começaram a implicar na África Oriental (Etiópia, Djibouti, Quénia e Tanzâna), em dircção ao miolo do continente (Grandes Lagos, Republica Democrática do Congo e Zâmbia)…
4- Nas Américas a batalha acende-se.
A administração de Donald Trump está a mobilizar as oligarquias tradicionais latino-americanas da Doutrina Monroe e procura isolar os focos que procuravam integração e articulação, como Cuba, Venezuela e Nicarágua, em manobras de contingência geométrica e intensidade variável, mas procurando bloquear, comprimir ou isolar, onde não conseguem vencer…
De facto a potencialidade de novas rotas da seda conectando o México ao Cabo Horn nunca existiram e as novas rotas da seda idealizadas pelo comandante Hugo Chavez, conectando em projectos articulados e integração a Venezuela ao Cabo Horn, foram guardadas nos baús, face à sua ofensiva…
O projecto do novo canal na Nicarágua enfrenta obstáculos de toda a ordem, alguns deles inesperados, tornando-se em mais um projecto protelado nas Américas…
Mesmo na ultraperiferia que são os pequenos estados insulares das Caraíbas, os termos da pressão dos Estados Unidos tornaram-se arrogantes nos exercícios que são distendidos em Porto Rico e no Haiti, tal como aliás em relação à América Central…
Os Estados Unidos tiram partido do que estão brutalmente a realizar contra as iniciativas energéticas lançadas pelo Comandante Hugo Chavez (PDVSA, CITGO, PETROCARIBE e sistema hidroeléctrico venezuelano em rede), sabendo que as conexões integradoras bolivaianas são inteligentes linhas resistentes aos projectos da hegemonia…
Nas Américas os BRICS sofreram violação com a eleição do fantoche Bolsonaro no Brasil e o multilateralismo está obrigado a uma porfiada e resoluta defensiva, desde a Bolívia a Cuba, comprimidas que também estão as organizações que compõem o sistema social progressista nas Américas, com uma única resposta em contrapartida: o México, que renunciou ao neoliberalismo e sente os efeitos na fronteira comum com os Estados Unidos, fronteira essa alvo das medidas de barragem em desespero de causa, do âmbito do “the americans first”…
5- Mesmo na ultraperiferia africana as coisas não se passam pacificamente em termos geoestratégicos e a comprovar estão vários casos dramáticos: Sahel, Sudão e… Angola… com uma África do Sul, a única componente africana dos BRICS, a constituir-se num caso aparte ainda que secundário em relação à dinâmica de tensões nas rotas marítimas internacionais…
Na África do Norte, a Líbia não mais se recuperou e a Argélia entrou numa fase de incertezas de prognóstico reservado, enquanto o Egipto garante aos Estado Unidos, desde que os militares voltaram ao poder, uma fluência inteligente adequada, tendo em conta o carácter do canal do Suez…
No Sahel após a destruição da Jamahiriya Árabe Líbia em 2011, distenderam-se as linhas de disseminação fundamentalistas-sunitas-wahabitas do Senegal à Somália…
O AFRICOM multiplica, face a essas redes muito móveis, as suas pequenas articulações operativas em jeito de resposta, mantendo a pressão“soft” duma guerra psicológica manipulada e cada vez mais abrangente, com “parceiros africanos” impotentes e sem melhor alternativa, ao mesmo tempo que contribui para a defesa das raras infraestruturas geoestratégicas dos seus vassalos europeus, como acontece com o urânio da AREVA no neocolonizado Níger (Agadez)…
Na África do Oeste (Sahel adentro), a neocolonial “FrançAfrique” é peça fundamental nos parâmetros da hegemonia unipolar em África, controlando sobretudo um sistema económico e financeiro de padrão neocolonizado que interessa às conexões da NATO com o AFRICOM, expostas aliás recentemente, ainda que de forma breve e acintosa, por alguns membros do governo italiano…
Os interesses económicos e financeiros da França são em África de tal maneira poderosos e de tendência aglutinadora que o seu feudo se estende ao poder do Paribas sobre as redes de bancos comerciais europeus, africanos e até estado-unidenses, em matéria de transacções energéticas no continente e dele para fora…
O Sudão pagou o preço da resistência: foi dividido e agora está absorvido pelo caudal de interesses das monarquias arábicas e de Israel, fornecendo contingentes para a guerra no Iémen, ainda que espreite a viabilidade de outras janelas, como aconteceu recentemente na Síria…
A região produtora de petróleo tornou-se “independente”, fraccionando o Sudão em desrespeito aos postulados da Conferência de Berlim, enquanto a saída para o mar do petróleo para exportação é feito pelo Norte, via Porto Sudão, no Mar Vermelho, pressionando com esse fracionamento os interesses chineses…
Em Angola se acabaram os efeitos perniciosos dos “lóbis” interconectados de Macau e Hong Kong, de tipologia social-democrata, a China entrou em perda precisamente na altura do alinhamento angolano até agora sem melhores alternativas, com o capitalismo produtivo segundo Donald Trump, que está a aproveitar a ofensiva contra a corrupção que foi sobretudo implantada no âmbito do capitalismo financeiro transnacional que as administrações democratas neoliberais, particularmente a de Barack Hussein Obama, injectaram previamente desde antes do Acordo de Bicesse a 31 de Maio de 1991, desde Março de 1986, há 33 anos…
Não foi por mero acaso que a saída do Presidente José Eduardo dos Santos e a entrada do Presidente João Lourenço, foi um processo contemporâneo às tensas transformações internas nos Estados Unidos (entrada do republicano Donald Trump, protecionista e reitor do capitalismo produtivo e a saída do democrata Obama, reitor do capitalismo financeiro transnacional, neoliberal e interessado directo na expansão de caos, terrorismo e desagregação a fim de, com isso, abrir espaço aos interesses transnacionais)…
A “reconversão” angolana está a ser feita com visibilidade “dramática”, não sendo transparente na sua profundidade e nela nos seus enredos humanos, ou seja na profundidade dos nexos dos interesses económicos e financeiros, tendo em conta que, apesar de estar inserida numa ultraperiferia, Angola continua a ser uma peça importante em relação ao fornecimento das matérias-primas e alvo de ferozes disputas das potências geoestratégicas com ementas tão diferenciadas (hegemonia unipolar versus multilateralismo), o que passa já por tensões internas nas suas elites, quase sempre em “circuitofechado”…
A intensidade do jogo que está a ser feitos sobre o capim em que se tornou Angola enquanto órfão dum socialismo que não houve, com todo o tipo de ingerências e manipulações que aproveitam as portas escancaradas do país, esbate-se na forja do projecto de criação duma elite angolana que tende a evoluir para a construção duma oligarquia, ainda que tudo isso esteja ainda longe de atingir maturação…
Neste momento o processo angolano tende a afastar-se do multilateralismo e enquadrar os processos da hegemonia unipolar, o que é decorrente da deriva do processo histórico interno, de há 33 anos a esta parte…
O papel adjacente e “transversal” de inteligência económica e financeira de Portugal, nutrindo processos de assimilação que advêm desde o tempo do tráfico de escravos por via da arregimentação de clãs e famílias “afins”, vão procurando alinhar no comprometimento dessas elites que em parte são compostas de famílias “tradicionais” aptas aos circuitos do poder desde então instalado em Luanda (desde os tempos das feitorias transformadas em portos de embarque de escravos na costa ocidental africana)…
Sobre os laços que vêm de longa a avassalada luso-ingerência sócio cultural, o regime oligárquico português trabalha como poucas ingerências para além da inteligência económica, na formatação mental dos angolanos e na superestrutura ideológica afeita às conveniências das patrocinadoras aristocracia financeira mundial e avassalada social-democracia portuguesa, ela própria constituída em regime desde o 25 de Novembro de 1975, ambas em níveis distintos, mas aptas à permissibilidade de “correias de transmissão” da NATO, da União Europeia e do AFRICOM…
Compreendem-se bem os silêncios, por exemplo em relação às prementes necessidades de renascimento africano, em relação à antropologia e à história das raízes transatlânticas do movimento de libertação desde a revolução dos escravos do Haiti (as elites angolanas são particularmente avessas ao conhecimento sobre o Haiti) e em relação à minha proposta de geoestratégia para um desenvolvimento sustentável com fulcro na região central das grandes nascentes…
6- Com toda a sensibilidade do sul, sobretudo África manifesta o síndroma de corpo inerte própria de capim exposto às elefantinas tensões globais contemporâneas entre a hegemonia unipolar e o multilateralismo e não é por acaso que não surge qualquer manifestação de novas rotas da seda por dentro do seu miolo… tudo se passa à ilharga e África até parece um contingente que não existe, sobrevivendo de tragédia em tragédia em profunda crise existencial!
Mesmo as poucas iniciativas infraestruturais estão desgarradas, sem força de integração e articulação, ainda que estejam inseridas em regiões como a da SADC, onde a África do Sul continua a gerir mais os interesses próprios no âmbito do “lóbi” dos minerais e cartel dos diamantes, assim como os dum quadro internacional alargado no Atlântico Sul e Índico Sul remotos, até à Antártida!...
As atávicas “missões internacionais” da África do Sul são visões contemporâneas da velha trilha da British South Africa Company, sob o génio de Cecil John Rhodes (“do Cabo ao Cairo”), pelo que nem com a entrada nos BRICS o poder económico e financeiro eminentemente elitista e indexado ao “loby” dos minerais e ao cartel dos diamantes, mudou de feição no que a África diz respeito…
O fenómeno Botswana comprova-o, como se comprova os raios de influência que fluem persuasivamente a partir desse Botswana enquanto plataforma, para uma região de expansão com 519.000 km2, que conforma desde já o KAZA-TFCA (Kavango Zambezi Trans Frontier Conservation Area), com os olhos nas kimberlites angolanas que se espalham mais a norte, incluindo as kimberlites que existem no solo onde se travaram alguns dos cruciais confrontos no âmbito da batalha decisiva do Cuito Cuanavale, em que o “apartheid” foi vencido, soçobrando em todos os seus projectos desumanos e ambições até se eclipsar…
As imensas dificuldades das elites africanas actuarem sobre as raízes de suas crises existenciais profundas, estão muitas delas a descoberto, conferindo noção às ambiguidades, fragilidades e vulnerabilidades tropicalizadas (próprias de relógios e motores a dois tempos) dum tal sistema democrático-representativo nas condições de elites que disputam espaço nas conjunturas duma ultraperiferia…
Os equilíbrios globais estão cada vez mais longe de ser alcançados e as tensões no sentido da barbárie sobrepõem-se ao que, no quadro duma lógica com sentido de vida se poderia já hoje estar a realizar para a afirmação duma civilização global!
Face a um cada vez mais próximo abismo, cujos sinais são a cadência de fenómenos naturais radicalizados e cada vez mais radicalizados actos de barbárie humana, face a uma África que, conforme testemunhava Agostinho Neto, continua hoje a parecer “um corpo inerte onde cada abutre vem depenicar o seu pedaço”, a consciência crítica de que me animo permite-me avisar, ainda que minha sobrevivência o tenha sido sempre bem no âmago do síndroma de corpo inerte: amanhã será tarde demais!
Martinho Júnior - Luanda, 22 de Março de 2019, dia mundial da água
Imagem: … sendo água, vida, há um caldo que se entorna…

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/03/sindroma-de-corpo-inerte.html

Fim da “Pax Americana”… Que se Segue?

Coisas que os economistas não perceberam, não percebem e nem parece que consigam alguma vez vir a perceber …

… mas que, no entanto, são simples, como muito bem demonstra o nosso velho amigo Peter Zeihan nas linhas abaixo.

“What the Americans have done in the post-World War II era is to vastly expand continuity via the global Order. Instead of specialization and interaction being limited to the internal affairs of individual nations, the Americans imposed security on the global system. Think of Europe, a place where dozens of ethnicities have fought wars with one another for millennia. (…) The civilizational process is reaching for its ultimate, optimal peak. But “optimal” is not the same thing as “natural.” The Americans deliberately forced the Order into existence to fight the Cold War. The Americans have a deep continuity and large economies of scale without the Order, but the global system is wholly artificial. Making matters worse, the Order does not and cannot maintain itself. Someone must pay the bill to keep it going, and the American right, the American left, and the American center have lost interest and are all arguing for a more constrained American role in the wider world. No one else has the spare economic heft or the large market or the globe-spanning naval capacity to force an Order. Break the global continuity and everything that makes our world work quickly cracks apart…”

O sistema da “pax americana”, criado pelos Estados Unidos e seus aliados vencedores da II Guerra Mundial, no pós-1945, está esgotado e mostra-se impotente para responder aos desafios que a evolução das realidades, nestas primeiras duas décadas do século XXI, já lhe colocou e lhe continua a criar todos os dias. Donald Trump foi apenas o miúdo que gritou que o rei ia nu quando toda a gente lhe elogiava as vestes…

A grande questão, a mãe de todas as questões, é saber o que se segue a esta “pax americana”.

Ao modelo saído da vitória na II Guerra, segue-se novo modelo de “pax americana” (com o primado da potência marítima e, portanto, do comércio aberto e da circulação livre, da liberdade e da democracia, como desde o tempo de Péricles e da potência marítima de Atenas se começaram a entender) ou, pelo contrário, segue-se outra coisa, como, por exemplo, um modelo de domínio imperial de potência continental, cujas características estão nos antípodas das que são próprias das potências marítimas?

O jogo a decorrer é esse…


Exclusivo Tornado / IntelNomics


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/fim-da-pax-americana-que-se-segue/

Olhar um pouco mais além

A concretização do Brexit, sob qualquer das formas que possa vir a assumir, a par com a decisão da administração de Donald Trump de cortar com uma série de tratados e acordos internacionais parecem claros sinais de ruptura com um modelo de organização internacional que orientou o Mundo do pós-guerra.

Aquele Mundo onde os EUA assumiram um papel de hegemonia com o Acordo de Bretton-Woods, reforçado após a Queda do Muro de Berlim e a implosão da URSS, mas que parece agora de uma extremamente curta duração (quase tão curta como a do Reich que derrotou e pretendia durar mil anos) e ainda maior instabilidade.

Esta sensação de instabilidade é aliás sintoma do desaparecimento gradual de todos os laços da estabilidade conhecida no Mundo do pós-guerra (organizações internacionais, tratados, alianças, etc.), de que a denúncia do tratado INF (Intermediate-Range Nuclear Forces) entre russos e americanos é apenas um exemplo. Visto como um sinal de potencial confronto leste-oeste, merece ser observado com maior detalhe, tanto mais que o primeiro gesto de crítica ao acordo surgiu de Moscovo e o principal visado na nova situação pode bem ser uma China que, mantida fora daquele acordo, disso mesmo beneficiou no seu processo de armamento, ou até uma Europa que deverá perder os “benefícios” do chapéu-de-chuva nuclear norte-americano e enfrentar as suas próprias (e específicas) necessidades de defesa e de projecção de força.

Num período em que se questionam os próprios fundamentos do paradigma mundial, aceleram-se as inevitáveis convulsões ao nível dos sistemas financeiro, monetário, democrático e de governança e enquanto nos aproximamos do ponto de não retorno continua a fazer-se sentir a ausência das lideranças esclarecidas que orientem o processo.

Assistimos a isso mesmo na denúncia americana do Acordo de Paris para o combate às alterações climáticas ou na questão venezuelana, com as ameaças de uma invasão norte-americana para desapear Nicolas Maduro do poder no que será a contrapartida para uma Síria abandonada aos russos, naquela que poderá ter sido uma tentativa (mais  uma…) para levar turcos e iranianos a um acordo com sauditas e israelitas para construir um projecto de paz no Médio Oriente; assistimos também a avanços e recuos naquela que foi a fracassada tentativa norte-americana de projectar os sauditas para a liderança regional e para um acordo de paz na região que está agora a culminar com a perda do controle saudita na guerra do Iémen, onde até já o moderado regime marroquino (tradicional aliado saudita) abandonou a coligação sunita que tem combatido a facção iemenita dos houthis.

Noutras latitudes temos a promessa de paz coreana, apesar da mais recente Cimeira entre Trump e Kim ter terminado abruptamente e sem acordo, que entregará o controlo da região a russos e chineses, quando as negociações ditas comerciais entre estes e americanos devem estar a incluir outras realidades como princípios de co-governança e partilha do Mundo, acabando por se transformar numa espécie de Yalta 2, o recente acto terrorista na fronteira indo-paquistanesa na Caxemira que aumenta os riscos de guerra indo-paquistanesa (duas potências nucleares deixam a guerra à distância de um erro de cálculo) e reforça o estigma internacional contra os muçulmanos enquanto esquece as provocações e perseguições do BJP (o partido nacionalista do primeiro-ministro Narendra Modi) que procura beneficiar do atentado nas próximas eleições através de uma clivagem religiosa que polarize o eleitorado, ou o Brexit que obrigará à redefinição dos princípios de cooperação entre os estados europeus que poderá criar a oportunidade para que estes encontrem novas margens de actuação, como indica o exemplo do recém criado INSTEX (o Instrument Support of Trade Exchanges é o novo mecanismo de pagamentos internacionais criado, em finais de Janeiro deste ano, pela Alemanha, França e Reino Unido para assegurar o comércio com o Irão) que além de afrontar a decisão norte-americana de aplicar sanções económicas ao Irão ainda revela a capacidade dos países europeus verem além do Brexit.

Estas boas notícias não eliminam, porém, os pontos de fricção que persistem na UE, como o movimento dos “coletes amarelos”, a crise diplomática franco-italiana a eles ligada ou a delicada situação catalã, que serão até sintoma dos próprios tempos de transição, mas um sintoma onde germinam as agendas radicais dos “populistas” e as agendas de segurança das tecnocracias que podem acabar com a Europa de liberdades que conhecemos.

Apesar de continuarem por abordar as delicadas questões da regulamentação financeira e da liquidação dos offshores, também nesta área surgem sinais de mudança que poderão contribuir para a resolução de alguns dos seus crónicos problemas, como sejam as criptomoedas; isto apesar das dúvidas e dos riscos a elas associados, embora até já o FMI fale nos novos ventos da digitalização, e toda a revolução que poderão trazer as fintech (empresas de inovação tecnológica nos serviços financeiros) com a promessa de simplificação de alguns dos serviços burocráticos e caros disponibilizados pelos bancos, passando a resolver tudo numa empresa muito mais prática, rápida, barata e descomplicada.

A tudo isto a imprensa ocidental pouca atenção tem prestado, continuando mais preocupada em julgar e criticar que em informar e explicar as questões complexas e as políticas enfrentadas pelas nossas sociedades e pelos seus líderes.

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/olhar-um-pouco-mais-alem/

EUA são ultrapassados pela China e vêem Rússia se aproximar em ranking de liderança global

Presidente chinês Xi Jinping e presidente russo Vladimir Putin visitam exposição no âmbito do Fórum Econômico Oriental em Vladivostok, na Rússia
© Sputnik / Mikhael Klimentyev

O mundo tem mais confiança nos líderes da China do que no presidente Donald Trump, enquanto a Rússia está agora empatada com os Estados Unidos em termos de liderança global, mostrou uma nova pesquisa publicada nesta quinta-feira (28).

A pesquisa Gallup "Rating World Leaders: 2019" descobriu que a confiança nos líderes da China ultrapassou os EUA em 2018, com uma liderança de índice médio de aprovação de 34%. É a maior pontuação de Pequim desde 2009, observou a Gallup.

Enquanto isso, o índice de aprovação da Rússia subiram para 30% em 2018, acima dos 27% registrados no ano anterior. Dessa forma, pela primeira vez, Moscou está quase em pé de igualdade com Washington, segundo a pesquisa.


A visão da liderança dos EUA se estabilizou depois de cair para um recorde de baixa de 30% em 2017, o primeiro ano da presidência de Trump. De acordo com a pesquisa, a média do índice de aprovação global da liderança dos EUA em 133 países e áreas permaneceu estável em 31% em 2018.

"Como o equilíbrio global do soft power continua mudando, pode ser ainda mais difícil para os EUA combater essa influência e permanecer relevante na segunda metade da presidência de Trump, a menos que a administração possa solucionar algumas das dúvidas que parceiros e aliados dos EUA têm sobre o seu compromisso", disse a Gallup.

Pelo segundo ano consecutivo, a Alemanha permaneceu como a potência global mais bem cotada. No entanto, o índice de aprovação do país caiu para 39% em 2018, a primeira pontuação abaixo de 40% desde 2009.

A Gallup entrevistou 1.000 pessoas em cada um dos 133 países para avaliar as opiniões globais sobre a China, a Alemanha, a Rússia e os EUA.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/asia_oceania/2019022813408004-eua-china-russia-geopolitica/

Entre guerra mundial e outro mundo possível

Estudo sugere: capitalismo ingressou em fase desintegradora: caos político e desastres ambientais ampliam riscos de grande conflito global. Mas é também a brecha para sacudir estruturas que parecem eternas

Nafeez Ahmed | Outras Palavras | Tradução: Marianna Braghini

Um economista sênior da Comissão Europeia alertou que uma Terceira Guerra Mundial é “extremamente possível” nos próximos anos, dada a desintegração do capitalismo global.

Em um artigo (“From Integrated Capitalism to Disintegrating Capitalism. Scenarios of a Third World War”) publicado mês passado [19/1], o Professor Gerhard Hanappi afirmou que desde o crash financeiro de 2008, aeconomia global tem se distanciado de um capitalismo “integrado” e caminhado para uma mudança “desintegradora” marcada pelos mesmos tipos de tendências que precederam as guerras mundiais anteriores.

Hanappi é professor do Instituto para Modelos Matemáticos em Economia da Universidade de Tecnologia de Viena. Ele também compõe o comitê de administração do grupo de especialização em Riscos Sistêmicos na rede de pesquisas sobre Cooperação Europeia em Ciência e Tecnologia, financiada pela União Européia.


Em seu novo artigo, Hanappi conclui que as condições globais carregam inquietantes paralelos com tendências anteriores à eclosão da I e II Guerras Mundiais. Os sinais-chaves de que podemos estar escorregando para um terceiro conflito global incluem, segundo ele:

o aumento inexorável de gastos militares;

as democracias tornando-se Estados policiais crescentemente autoritários;

o aumento de tensões geopolíticas entre grandes potências;

o ressurgimento do populismo entre a esquerda e a direita;

a derrocada e enfraquecimento de instituições globais estabelecidas que governam o capitalismo transnacional;

a ampliação implacável de desigualdades globais.

Estas tendências, algumas das quais eram visíveis no preâmbulo das guerras mundiais, estão reaparecendo de novas formas. Hanappi argumenta que a característica definitiva do período atual é uma transição de uma forma mais antiga de “capitalismo integrado” para uma nova forma de “capitalismo desintegrado”, cujos aspectos mais visíveis emergiram após a crise financeira de 2008.

Na maior parte do século XX, ele diz, o capitalismo global estava em um caminho de “integração” rumo a concentrações maiores de riqueza transnacional. Isso foi interrompido pelos surtos de nacionalismo violento envolvendo as duas guerras mundiais. Depois disso, uma nova forma de “capitalismo integrado” emergiu, baseado em um quadro institucional que permitiu que países industrializados evitassem uma guerra mundial por 70 anos.

O sistema está agora entrando em um período de desintegração. Anteriormente, fraturas dentre o sistema entre ricos e pobres eram superadas “distribuindo um pouco dos ganhos do tremendo aumento dos frutos da divisão global do trabalho às classes trabalhadoras mais ricas nestas nações.” Similarmente, tensões internacionais eram dissipadas por meio de estruturas de governança global e acordos para a regulação do capitalismo.

Mas desde a crise financeira de 2008, a distribuição de riqueza piorou, com o poder de compra das classes médias e trabalhadoras declinando enquanto a riqueza se torna ainda mais concentrada.

O crescimento nos centros ocidentais de capital transnacional está mais vagaroso, na medida em que os antes sacrossantos acordos de comércio internacional estão sendo rasgados. Isso contribuiu para uma reversão ao nacionalismo em que estruturas globais e transnacionais são rejeitadas e os “estrangeiros” demonizados. À medida em que o capital global continua a se desintegrar, estas pressões ampliam-se, particularmente enquanto sua justificativa interna depende cada vez mais em intensificar a competição com rivais externos.

Enquanto o capitalismo integrado dependeu de estruturas institucionais transnacionais que permitiram “exploração estável em nível nacional”, Hanappi argumenta que o “capitalismo em desintegração” vê esta estrutura desagregar-se entre EUA, Europa, Rússia e China, cada qual buscando novas formas de subordinação hierárquica dos trabalhadores.

O capitalismo em desintegração, ele explica, irá recorrer cada vez mais a “poderes coercitivos diretos apoiados por novas tecnologias informacionais” para suprimir tensões internas, bem como uma maior propensão a hostilidades internacionais: “O novo império autoritário demanda confrontação de uns contra os outros, para justificar sua própria estrutura interna de comando inflexível.”

Conflito de Grandes Potências

Hanappi explora três cenários potenciais sobre como um novo conflito global poderia se desencadear. Em seu primeiro cenário, ele explora a prospecção de uma guerra entre as três potências militares mais proeminentes: EUA, Rússia e China.

Todas as três viveram grande aumento dos gastos militares desde o colapso da União Soviética. Uma redução, no caso dos EUA, a partir de 2011, foi revertida sob Trump; a Rússia manteve o aumento e as despesas chinesas crescem rapidamente. Os três países também viveram uma deriva autoritária.

Com base na teoria dos jogos, Hanappi argumenta que o cálculo de que nenhum destes países seria capaz de “ganhar” uma guerra mundial pode estar mudando percepções das lideranças destes países. Segundo uma estimativa, a China tem a maior probabilidade de sobrevivência num conflito global (52%), seguida pelos EUA (30%) e Rússia (18%). Esse cálculo sugere que, das três potências, a China pode ser a que está mais inclinada a ampliar atividades militares hostis diretas que desafiem seus rivais, se perceber uma ameaça direta ao que vê como seus interesses legítimos.

EUA e Rússia, em contraste, podem transferir o foco de suas atividades militares para ações mais encobertas, indiretas e terceirizadas. No caso dos EUA, Hanappi aponta:
“… a estratégia militar de Trump parece incluir a possibilidade de delegar parte da responsabilidade operacional local para vassalos próximos, que recebem apoio maciço de armamentos dos EUA — por exemplo a Arábia Saudita e Israel, no Oriente Médio. A Turquia, um dos braços mais fortes da OTAN na área, é um caso especial. Ela parece ter sido autorizada a destruir um Estado emergente da população curda, o que estaria mais próximo do estilo europeu de governança.”
Há sinais crescentes da intensificação de tensões entre as grandes potências, o que poderia explodir devido a um acidente ou uma provocação imprevista, em um conflito global que ninguém quer.

A guerra comercial entre EUA e China está acelerando, enquanto ambas potências disputam sobre segredos de tecnologia e discutem acerca da crescente presença militar da China no Mar da China Meridional. Enquanto isso, a expansão massiva de Trump da marinha e força aérea dos EUA aponta para a preparação de um grande conflito com China e Rússia.

EUA e Rússia abandonaram um importante acordo nuclear, estabelecido desde a Guerra Fria, abrindo caminho para uma corrida armamentista nuclear. A Coréia do Norte permanece disposta a manter seu programa nuclear em andamento, enquanto o desmantelamento de Trump do acordo nuclear com o Irã desincentiva este país a se desarmar e a relatar sua situação militar exata.

No ano passado, um estudo estatístico da frequencia de grandes guerras na história humana avaliou que os 70 anos da chamada “grande paz” não são um fenômeno comum, sugerindo um período de paz sem precedentes. O estudo concluiu que não havia razão para acreditar que o período de 70 anos não abriria espaço para uma outra grande guerra.

Pequenas guerras, contágio global

O segundo cenário de Hanappi explora a prospecção de uma série de “pequenas guerras civis em diversos países.” Os ingredientes para tal cenário estão enraizados no ressurgimento do populismo nos campos da esquerda e da direita. “Ambas variantes – às vezes implicitamente, outras explicitamente – referem-se a uma forma de Estado histórico nacional passado que se propõem a restaurar,” pensa Hanappi.

Enquanto o populismo de direita remete aos regimes autoritários e racistas estabelecidos na Alemanha e Itália na década de 1930, o populismo de esquerda anseia por retornar ao modelo de “capitalismo integrado” das primeires três décadas após a Segunda Guerra Mundial, o qual combateu a desigualdade inerente ao capitalismo por meio da “rede social” do chamado “estado de bem estar”, bem como de várias formas de intervenção estatal na economia, ainda que num regime de indústria privada.

O problema é que este “capitalismo integrado” já está enredado em suas próprias contradições internas, o que impulsiona a entrada num período de desintegração.

Isso coloca o populismo de esquerda em uma posição sistematicamente mais fraca, pois o populismo de direita pode apontar para os múltiplos fracassos do “capitalismo integrado”: o fracasso em “superar os antagonismos de classe” e o fracasso em “cumprir a promessa de uma vida substancialmente melhor para a maioria das pessoas.” De acordo com Hanappi:
“Os defensores de uma economia integrada são forçados a experimentar novas formas de organização nacional. Formas mais participativas de organização democrática levam mais tempo e, com múltiplos grupos sociais envolvidos, isso pode enfraquecer movimentos diante do populismo de direita. Além disso, a visão de um capitalismo integrado é afetada pelo fato de que muitas pessoas ainda se lembram de sua crise, enquanto a canção da glória nacional que o populismo de direita canta refere-se a um distante passado imaginado, que ninguém jamais viveu”.
Neste contexto, ele argumenta, há potencial para que irrompam guerras civis nacionais entre ramos paramilitares de direita e movimentos de esquerda, num contexto em que ambas as correntes movimento poderiam assumir o poder do Estado e entrar em conflito com a oposição.

Hanappi alerta para a possibilidade de um efeito de “contágio” regional ou global, se estas irrupções ocorrem dentro de uma escala de tempo similar. Nesse cenário:

“A mobilidade fluida de agentes políticos nacionais, os criadores de movimentos populistas, choca-se com a rigidez das terríveis restrições econômicas globais. Este é o acidente que provoca guerras locais. ”

Insurgência global dos pobres

O terceiro cenário de Hanappi sugere que nos próximos anos, o mundo tende a encarar uma série “movimentos de independência” e “anti imperialistas”, “protestos de massa pró-reformas estruturais, contra governos nacionais” e “insurreições armadas” ou “insurgências” associadas à duas ideologias em particular, “marxismo” e “islamismo”.

De acordo com Hanappi, a plausibilidade desse cenário pode ser encontrada nas “trajetórias profundamente divergentes de bem-estar das partes pobres e de regiões ricas da economia mundial”.

Embora o PIB tenha continuado a crescer globalmente, nas últimas três décadas, as desigualdades de renda e riqueza ampliaram-se em quase todos os países, e tendem a se acentuar ainda mais. Se esse ciclo continuar, é possível uma sintonia de rebeliõpes entre os três bilhões mais pobres, estimulada pela interconectividade das comunicações na era do smartphone.

Hanappi argumenta que, na realidade, as condições globais tornam uma combinação desses três cenários mais provável do que a prevalência de apenas um deles. Ele afirma: “O capitalismo em desintegração não é uma profecia. Sua época já chegou e ele molda a vida cotidiana. O desaparecimento do capitalismo integrado também não é uma previsão. O capitalismo em desintegração dissolve o capitalismo, mas para isso é preciso primeiro destruir o capitalismo integrado, seu antecessor imediato”.

A característica distintiva do capitalismo em desintegração é a sua tendência para estabelecer “restrições nacionalistas e racistas” destinadas a excluir “o que seus líderes definem como uma minoria inferior”, a fim de proteger a acumulação de capital para uma identidade nacional estreita e paroquialmente definida. Antigas instituições capitalistas integradas são abandonadas e novas estruturas de governança mais coercitivas são introduzidas.

Neste contexto, Hanappi conclui que uma terceira guerra mundial “não necessariamente” irá acontecer, mas expressa uma “probabilidade assustadoramente alta”. Evitá-la, ele sugere, requer a adoção de estratégias de contra-ofensiva efetivas, como o movimento de paz global.

Para além da desintegração: o que vem depois?

O diagnóstico de Hanappi é perspicaz, mas em ultima instancia, limitado devido ao seu foco direcionado em economia. Em sua análise falta qualquer referência à crise biofísica que leva à desintegração do capitalismo global: aos fluxos ecológicos e energéticos pelo quais as economias capitalistas funcionam – e portanto os limites naturais (os limites planetários) que estão sendo violados.

Entretanto, sua concepção de “capitalismo em desintegração” — que produz maior propensão ao conflito violento – adere bem a um conceito ecológico mais amplo, do declínio civilizacional, explorado em um recente artigo da geógrafa norte americana Stephanie Wakefield, publicado no periódico Resilience.

Wakefield chama atenção ao trabalho pioneiro de CS Holling, um ecologista de sistemas que argumentou que os ecossistemas naturais tendem a acompanhar um “ciclo adaptativo” consistindo em duas fases, “um loop para frente de crescimento e estabilidade e um loop para trás de liberação e reorganização”.

Ela aponta que enquanto o trabalho de Holling estava focado no estudo de ecossistemas locais e regionais, ainda permanecia a questão de se a ideia do “loop para trás” poderia ser aplicado em uma escala planetária, para entender a dinâmica da transição civilizacional: “Estamos nós em um ‘profundo loop para trás’ que apresenta as mesmas oportunidades e crises que os estudos de loops regionais que descrevemos?”, ele perguntou em 2004.

Wakefield explora a ideia do “loop para trás” do Antropoceno, assinalando uma mudança de fase em que uma ordem, estrutura e sistema de valores particulares, abrangendo a relação da humanidade com a Terra, experimenta uma profunda ruptura e declínio:
“As alegações do domínio humano sobre o mundo estão sendo varridas pela elevação dos mares e pelas tempestades sem precedentes, enquanto os diagnósticos terminais da civilização ocidental proliferam tão rapidamente quanto as fantasias do fim.”
Nesta nova fase, há um paralelo entre a escalada de crises ambientais e a intensificação da ruptura política.
“A lista de pontos de ruptura induzidos por fatores antropogênicos cresce: colapso da pesca; perda de biodiversidade; derretimento das calotas polares e a elevação dos mares; concentrações de CO² atingindo 350 partes por milhão (ppm) e agora 400 ppm; entradas de nitrogênio antropogênico; acidificação dos oceanos e branqueamento de recifes de coral; desmatamento … Mas igualmente e junto com esses processos, desde 2011 também estamos em uma era de tumultos, revoluções, experimentos locais e movimentos sociais que podem parecer insanos, mas são muito reais. “
Mas o paralelo entre a disrupção politica e ambiental não é nenhum acidente. Na verdade, é uma característica fundamental do que Wakefield chama de “loop para trás do Antropoceno”, uma fase de declínio sistêmico que vê o desfiamento da antiga ordem – mas que simultaneamente abre possibilidades para a emergência de um novo sistema.

“Em resumo, uma coisa pareceria clara: nós não estamos mais em um loop para a frente,” escreve Wakefield.

“No loop para frente havia o ‘espaço seguro operacional’ do Antropoceno…este mundo complexo, não linear, de pós-verdade, de fragmentação, fratura, dissolução e transfiguração é o que proponho chamarmos de loop para trás do Antropoceno.”

O loop para frente, então, seria equivalente ao ápice do “capitalismo integrado” de Hanapper, que emergiu após a Segunda Guerra Mundial e continuou a evoluir por meio da ‘era de ouro’ do crescimento neoliberal, de 1980 ao início dos anos 2000.

Desde então, cada vez mais testemunhamos a erupção das contradições internas neste ‘loop para frente’ do capitalismo integrado, na forma de uma trajetória de desintegração que desencadeia o “loop para trás” do declínio sistêmico civilizacional:

“O loop para trás é nosso presente, o momento de nomear o Antropoceno (como um fracasso), no qual o passado (o loop para frente) não desapareceu, como pontos atrás de uma linha, mas está surgindo de formas imprevisíveis no presente. ”

A fase de desintegração do capitalismo, portanto, faz parte de um “ciclo adaptativo” mais amplo de capital global que agora se encontra à beira de um colapso prolongado. E, no entanto, adotar essa lente do sistema além do pensamento econométrico em uma estrutura ecológica mais profunda nos permite ver mais do que apenas a destruição da velha ordem em jogo, mas, nesse mesmo processo, o surgimento de possibilidades sem precedentes para um novo ‘loop para frente’’:

“Há um conjunto de benefícios em enxergar o Antropoceno através das lentes do ciclo adaptativo, e em particular em ver nosso limiar “atual” de terrenos acidentados, e de modos desconcertados de conhecer e ser como um loop para trás”, sugere Wakefield. “O principal deles é a capacidade de ver o Antropoceno não como um fim trágico ou como um mundo de ruínas, mas uma fase caótica em que novas possibilidades estão presente e o futuro mais aberto do que normalmente imaginamos”.

O reposicionamento de Wakefield sobre condição humana no âmbito do “loop para trás” abre espaço para visualizá-la como parte de uma série histórica mais longa de ciclos civilizacionais de declínio e renovação, nos quais a tarefa diante de nós é abraçar nosso papel em ativar e ampliar as possibilidades para renovação.

Isso significa ir muito além dos modelos convencionais de ‘loop para frente’ de resiliência – transformando as estruturas políticas e econômicas existentes, rompidas, em modelos de resiliência que visem reinventar e redesenhar a nós mesmos e a nossas estruturas:
“Em vez de aceitar o fim da ação humana – e de nos imaginar como vítimas ou administradores do ‘loop para trás’ – afirmo que existe outra possibilidade: decidirmos por nós mesmo, localmente e de maneiras diversas, onde e como habitar o loop para trás”. Habitar requer mais do que “lutar contra ou viver com medo”. Requer um grau de aceitação, achar o próprio lugar no processo: “ser familiar, confortável e envolvido… Um ato cotidiano e habitual, livre, de criação e construção.”
E isso requer reconhecer que estamos nos movendo em um terreno fundamentalmente e desconhecido, o que só pode ser feito dispensando velhos “modos de pensamento e ação do loop anterior.”

No loop para trás, tudo está em aberto – não apenas infraestruturas antigas, mas também ideologias políticas e realidades filosóficas assumidas. E assim, para responder à fase de desintegração do capitalismo e à ameaça de uma guerra global, é preciso irmos além de antigos modelos como a ideia de um “movimento global de paz”. Precisamos de espírito e práticas inteiramente novos e comprometidos com o surgimento de um novo mundo:
“O que o loop para trás nos sugere é que o Antropoceno é agora um momento para explorar de fundamentos do pensar e do agir – e nos abrir para as possibilidades oferecidas aqui e agora. Esse é um espaço operacional “inseguro” porque já ultrapassamos os limites, mas também porque não há projetos transcendentes, confiança ou garantias: a única coisa a fazer é nos tornarmos criadores de novos valores e novas respostas.“
O trabalho de Wakefield nos lembra que, enquanto os perigos de uma terceira guerra mundial estão aumentando no ciclo Antropocênico do capitalismo em desintegração, as oportunidades de renovação, reorganização e reavivamento também emergem rapidamente.

Elas precisam ser compreendidas e assumidas, quer uma nova guerra ecloda ou não. Mais que isso, precisamos trabalhar para soar o alarme, incansavelmente, em todos os níveis, para despertar a consciência sobre a mudança de fase em que nos encontramos como espécie. O que quer que emerja, ao final, não será o fim — estamos diante do alvorecer desconhecido de um novo começo.

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Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/02/entre-guerra-mundial-e-outro-mundo.html

Excerto do Vladimir Putin Discurso na Assembleia Federal Russa

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Colegas, a Rússia tem sido e será sempre, um Estado soberano e independente. Isso é um dado adquirido, uma verdade. Sê-lo-á sempre ou, simplesmente, deixará de existir. Devemos compreendê-lo claramente. Sem soberania, a Rússia não pode ser um Estado. Alguns países podem fazê-lo, mas não a Rússia.

Construir relações com a Rússia significa trabalhar em conjunto para encontrar soluções para os assuntos mais complexos, em vez de tentar impor soluções. Não fazemos segredo sobre as nossas prioridades na política externa. Elas incluem o fortalecimento da confiança, o combate às ameaças globais, promoção de cooperação na economia e no comércio, educação, cultura, ciência e tecnologia, bem como facilitar o contacto entre as pessoas. Esses princípios advogam o nosso trabalho na ONU, na Comunidade de Estados Independentes, bem como no Grupo dos 20, nos BRICS e na Organização de Cooperação de Xangai.

Acreditamos na importância de promover uma cooperação mais estreita e essencial no interior do Estado da União da Rússia e da Bielorrússia, incluindo na política externa e na coordenação económica. Juntamente com nossos parceiros de integração dentro da União Económica Eurasiática, continuaremos a criar mercados comuns e esforços de disseminação. O que inclui estabelecer decisões para coordenar as actividades da EAEU com a iniciativa ‘Belt and Road’ da China, em direcção a uma parceria eurasiática mais alargada.

Actualmente, as relações iguais e mutuamente benéficas da Rússia com a China, agem como um factor importante de estabilidade nos assuntos internacionais e em termos de segurança euroasiática, oferecendo um modelo de cooperação económica produtiva. A Rússia valoriza a realização do potencial de parceria estratégica privilegiada especial com a Índia. Continuaremos a promover o diálogo político e a cooperação económica com o Japão. A Rússia está pronta para trabalhar com o Japão na procura de termos mutuamente aceitáveis para a assinatura de um tratado de paz. Pretendemos promover laços mais profundos com a Associação das Nações do Sudeste Asiático.

Também esperamos que a União Europeia e os principais países europeus finalmente tomem as medidas necessárias para regressar às relações políticas e económicas normais com a Rússia. Os povos desses países estão ansiosos por cooperar com a Rússia, incluindo as corporações, bem como pequenas e médias empresas e empresas europeias em geral. Escusado será dizer que isso serviria aos nossos interesses comuns.

A retirada unilateral dos EUA do Tratado INF é a questão mais urgente e mais discutida nas relações russo-americanas. Por esse motivo é que sou obrigado a falar sobre este assunto com mais detalhes. De facto, ocorreram mudanças preocupantes no mundo, desde que o Tratado foi assinado, em 1987. Muitos países desenvolveram e continuam a desenvolver estas armas, mas a Rússia ou os EUA não o fizeram – limitamo-nos, a esse respeito, por livre e espontânea vontade. Compreensivelmente, esse estado de coisas levanta questões. Os nossos parceiros americanos deveriam tê-lo dito com honestidade, em vez de fazerem acusações forjadas contra a Rússia, para justificar a sua retirada unilateral do Tratado.

Teria sido melhor se tivessem feito o que fizeram em 2002, quando abandonaram o Tratado ABM e o fizeram, aberta e honestamente. Se foi bom ou mau, é outro assunto. Penso que foi mau, mas eles fizeram-no e é o que aconteceu. Desta vez, também deveriam ter feito o mesmo. O que é que eles estão, realmente, a fazer? Primeiro, violam tudo, depois procuram desculpas e acusam a outra parte de ser culpada. Mas também estão a mobilizar os seus Estados satélites que são cautelosos, mas ainda fazem barulho em apoio aos EUA. Ao princípio, os americanos começaram a desenvolver e a usar mísseis de médio alcance, designando-os como “mísseis alvo” para defesa anti-mísseis. Depois, começaram a instalar sistemas de lançamento universal Mk-41, que podem possibilitar o uso de combate ofensivo dos Tomahawk, mísseis de cruzeiro de médio alcance.

Estou a falar sobre este assunto e a usar o meu tempo e o vosso, porque temos de responder às acusações que nos são feitas. Mas tendo feito tudo o que acabei de descrever, os americanos ignoraram, completamente, as disposições previstas pelos Artigos 4 e 6 do Tratado INF. De acordo com a Cláusula 1, do Artigo VI (estou a citar): “Cada Parte eliminará todos os mísseis de alcance intermédio e os lançadores de tais mísseis… de modo que… nenhum desses mísseis e lançadores… será possuído por nenhuma das Partes”. O parágrafo 1 do Artigo VI estabelece que (e passo a citar): “Após a entrada em vigor do Tratado e posteriormente, nenhuma das Partes poderá produzir ou testar em voo, qualquer míssil de alcance intermédio ou produzir quaisquer estágios ou lançadores de tais mísseis”. Fim da cotação.

Ao utilizar mísseis-alvo de médio alcance e ao instalar lançadores na Roménia e na Polónia que são adequados para o lançamento de mísseis de cruzeiro Tomahawk, os EUA violaram abertamente essas cláusulas do Tratado. Eles fizeram-no há algum tempo. Esses lançadores já estão estacionados na Roménia e nada acontece. Parece que nada está a acontecer. Isso é mesmo estranho. Não é completamente estranho para nós, mas as pessoas devem ser capazes de ver e compreender.

Como é que estamos a avaliar a situação neste contexto? Já disse e quero repetir: a Rússia não pretende - e isto é muito importante, estou a repeti-lo de propósito - a Rússia não pretende ser a primeira a colocar esses mísseis na Europa. Se eles realmente forem construídos e instalados no continente europeu, e os Estados Unidos têm planos para fazê-lo, pelo menos não ouvimos o contrário, irá exacerbar dramaticamente a situação de segurança internacional e criará uma séria ameaça à Rússia, porque alguns deles mísseis podem chegar a Moscovo em apenas 10 a 12 minutos. É uma ameaça muito perigosa para nós. Neste caso, seremos forçados, gostaria de salientar, seremos forçados a responder com acções idênticas ou assimétricas. O que é que isto significa?

Estou a dizê-lo, directa e abertamente, agora, para que ninguém possa culpar-nos mais tarde, para que fique claro para todos, com antecedência, o que está a ser dito aqui. A Rússia será forçada a criar e instalar armas que possam ser usadas, não apenas nas áreas onde somos ameaçados directamente, mas também nas áreas que contenham centros de tomada de decisão para os sistemas de mísseis que nos ameaçam.

O que é importante a este respeito? Há alguma informação nova. Estas armas corresponderão totalmente às ameaças dirigidas contra a Rússia nas suas especificações técnicas, incluindo os tempos de vôo para esses centros de tomada de decisão.

Sabemos como fazê-lo e accionaremos esses planos imediatamente, logo que as ameaças para nós se tornarem reais. Não creio que precisemos de mais nenhuma exacerbação irresponsável da situação internacional actual. Não queremos fazê-lo.

O que é que gostaria de acrescentar? Os nossos colegas americanos já tentaram obter superioridade militar absoluta com o seu projecto global de defesa antimíssil. Eles precisam não ter mais ilusões. A nossa resposta será sempre eficiente e eficaz.

O trabalho sobre protótipos promissores e sistemas de armas sobre os quais falei no meu discurso do ano passado, continua conforme programado e sem interrupções. Lançamos a produção em série do sistema Avangard, que já mencionei hoje. Como foi planeado, este ano, o primeiro regimento de Tropas de Mísseis Estratégicos será equipado com o Avangard. O míssil intercontinental super-pesado Sarmat, de potência sem precedentes, está a ser submetido a uma série de testes. A arma laser Peresvet e os sistemas de aviação equipados com mísseis balísticos hipersónicos Kinzhal, deram prova das suas características únicas durante as missões de alerta de teste e combate, enquanto o pessoal aprendia a manobrá-los. No próximo mês de Dezembro, todos os mísseis Peresvet fornecidos às Forças Armadas serão colocados em alerta. Continuaremos a expandir a infraestrutura dos interceptores do MiG-31,com capacidade de transportar mísseis Kinzhal. O míssil de cruzeiro nuclear Burevestnik de alcance ilimitado e o veículo submarino não tripulado nuclear Poseidon, de alcance ilimitado, estão a ser submetidos a testes, com sucesso.

Neste contexto, gostaria de fazer uma declaração importante. Não o anunciamos antes, mas podemos dizer hoje que, nesta primavera, será lançado o primeiro submarino movido a energia nuclear transportando este veículo não tripulado. O trabalho está a prosseguir como foi planeado.

Hoje também penso que posso informar-vos, oficialmente, sobre outra inovação promissora. Como se podem recordar, da última vez eu disse que tínhamos algo mais para mostrar, mas era um pouco cedo para fazê-lo. Então vou revelar, pouco a pouco, o que mais temos na manga. Outra inovação promissora, que está a ser desenvolvida com sucesso, de acordo com o planeado, é o Tsirkon, um míssil hipersónico que pode atingir velocidades de aproximadamente Mach 9 e atingir um alvo a mais de 1.000 km de distância, tanto debaixo d’água quanto no solo. Pode ser lançado a partir da água, de navios de superfície e de submarinos, incluindo aqueles que foram desenvolvidos e construídos para transportar mísseis Kalibr de alta precisão, o que significa que, para nós, não existe custo adicional.

Numa nota relacionada, quero ressaltar que, para a defesa dos interesses nacionais da Rússia, dois ou três anos antes do cronograma estabelecido pelo programa estatal de armamentos, a Marinha Russa receberá sete novos submarinos polivalentes e a construção começará com cinco embarcações projectadas para oceano aberto. Dezasseis embarcações suplementares desta classe, entrarão em serviço na Marinha Russa, até 2027.

Para concluir, sobre a retirada unilateral dos EUA do Tratado sobre a Eliminação de Mísseis de Alcance Intermédio e de Curto Alcance, aqui está o que eu gostaria de dizer: A política dos EUA em relação à Rússia, nos últimos anos, dificilmente pode ser considerada amigável. Os interesses legítimos da Rússia estão a ser ignorados, há campanhas constantes contra a Rússia e cada vez mais sanções, que são ilegais nos termos do Direito Internacional e são impostas sem nenhum motivo. Deixem-me salientar que não fizemos nada para provocar estas sanções. A arquitetura de segurança internacional que tomou forma nas últimas décadas está a ser completa e unilateralmente desmantelada, ao mesmo tempo que refere a Rússia, como sendo, práticamente, a principal ameaça contra os EUA.

Deixem-me dizer abertamente que isso não é verdade. A Rússia quer ter relações sólidas, iguais e amistosas com os EUA. A Rússia não está a ameaçar ninguém e tudo o que fazemos em termos de segurança, é simplesmente uma resposta, o que significa que as nossas ações são defensivas. Não estamos interessados em confrontos e não o queremos, especialmente com um poder global como os Estados Unidos da América. No entanto, parece que nossos parceiros não percebem a profundidade e o ritmo das mudanças em todo o mundo e para onde estão indo. Eles continuam com a sua política destrutiva e claramente equivocada. O que, dificilmente, vai ao encontro dos interesses dos próprios EUA. Mas, não cabe a nós, decidirmos.

Podemos ver que estamos a lidar com pessoas pró-activas e talentosas, mas dentro da elite, há também muitas pessoas que têm uma fé excessiva no seu excepcionalismo e supremacia sobre o resto do mundo. Claro que têm o direito de pensar o que quiserem. Mas eles sabem contar? Provavelmente, sim. Então, deixem que eles calculem o alcance e a velocidade dos nossos futuros sistemas de armas. É tudo o que pedimos: primeiro façam as contas e depois, tomem as decisões que criem novas ameaças perigosas para o nosso país. Escusado será dizer que estas decisões levarão a Rússia a responder a fim de garantir a sua segurança de forma fiável e incondicional.

Já disse e vou repetir: Estamos prontos para entabular conversações sobre desarmamento, mas jamais iremos bater a uma porta fechada. Esperaremos até que os nossos parceiros estejam preparados e conscientes da necessidade de dialogar sobre este assunto.

Continuamos a desenvolver as nossas Forças Armadas e melhorar a intensidade e a qualidade de treino de combate, em parte, usando a experiência que adquirimos na operação anti-terrorista na Síria. Foi adquirida muita experiência por praticamente todos os comandantes das Forças Terrestres, pelas forças de operações secretas e pela polícia militar, pelas tripulações dos navios de guerra, pelo exército, pela aviação táctica, estratégica e de transporte militar.

Gostaria de salientar, novamente, que precisamos de paz para um desenvolvimento sustentável a longo prazo. Os nossos esforços para aumentar a nossa capacidade de defesa têm, apenas, um propósito: garantir a segurança deste país e dos nossos cidadãos, para que ninguém sequer pensar em nos pressionar ou lançar uma agressão contra nós.

Colegas, estamos perante metas ambiciosas. Estamos a abordar soluções de maneira sistemática e consistente, a construir um modelo de desenvolvimento socio-económico que nos permitirá assegurar as melhores condições para a auto-realização da nossa gente e, assim, fornecer respostas adequadas aos desafios de um mundo que está a mudar rapidamente, e estamos a preservar a Rússia como uma civilização e com identidade própria, enraizada em tradições seculares e na cultura do nosso povo, dos nossos valores e costumes. Claro que só seremos capazes de alcançar os nossos objectivos, combinando os nossos esforços, juntamente com uma sociedade unida, se todos nós, todos os cidadãos da Rússia, estivermos dispostos a ter sucesso em empreendimentos específicos.

Tal solidariedade na luta pela mudança é sempre a escolha deliberada das pessoas. Elas fazem essa escolha quando compreendem que o desenvolvimento nacional depende delas, dos resultados do seu trabalho, quando o desejo de serem necessárias e úteis goza de apoio, quando todos encontram um trabalho por vocação com o qual se sentem felizes e o que é mais importante, quando existe justiça e um vasto espaço de liberdade e igualdade de oportunidades de trabalho, estudo, iniciativa e inovação.

Esses parâmetros para desenvolver descobertas não podem ser traduzidos em números ou indicadores, mas são estas coisas - uma sociedade unificada, pessoas envolvidas nos negócios do seu país e uma confiança comum no nosso poder - que desempenham o papel principal para alcançar o sucesso. E, se for necessário, alcançaremos esse sucesso de qualquer maneira.

Grato pela vossa atenção.





Ver original na 'Rede Voltaire'



A hegemonia unipolar retorna em força ao quintal traseiro da América…

… Em força?
1- Ainda como um grande camaleão, a massa bruta instrumental da hegemonia unipolar, no âmbito duma administração republicana de Donald Trump aglutinadora do esforço capitalista alicerçado na produção nacional, faz toque a rebate sob o slogan “the americans first”, concentrando-se todavia, em termos de relacionamentos internacionais, em geoestratégias indexadas aos seus interesses no quintal traseiro da América, por manifestas insuficiências de geoestratégia noutras partes no mundo e na hora das mudanças de orientação suscitadas pelo quadro da nova Presidência dos Estados Unidos.
Um atoleiro de vícios e de armadilhas manifestam-se na hora dessa mudança do capitalismo financeiro transnacional para o capitalismo produtivo nacional, em especial na Europa e na Ásia e o próprio presidente Donald Trump é refém de muitos desses vícios e armadilhas, longe de levar por diante o “the americans first”.
De facto os Estados Unidos, seus aliados-vassalos da NATO, assim como os vassalos da América Latina (na Organização dos Estados Americanos e no Grupo de Lima), ainda não fizeram um balanço sério da derrota no Médio Oriente Alargado e sobretudo na Síria e no Afeganistão, pressupondo que na América Latina estarão a salvo para persistir na hegemonia unipolar!
Seria um momento propício à reflexão, isolada ou colectivamente, mas a força bruta de que são herdeiros e a vitalidade das transnacionais ávidas das riquezas de outros, é má conselheira.
À escala global o capitalismo triunfante e quase solitário nas suas práticas, esmerou-se em vários percursos e as economias de mercado derivam desses percursos agora com duas visões distintas: por um lado a visão da hegemonia unipolar, com o domínio em concentrado nas mãos da aristocracia financeira mundial servida por seu cortejo de oligarquias e elites e por outro um emergente universo multilateral, que resulta da sua intestina contradição, a que se juntam os raros países que possuem uma substantiva visão alternativa de orientação socialista, concentrados na América Latina.
Os Estados Unidos, apesar das mais de 800 bases militares espalhadas pelo globo e as centenas de missões e operações em vivo curso por terra, ar e mar (uma das últimas conhecidas foi por estes dias no Gabão), não possuem mais, claramente, geoestratégias coerentes, particularmente no imenso continente Euroasiático, tal foi a influência nociva e auto destruidora das transnacionais que estimularam as portas abertas neoliberais, as alianças malparadas com o sionismo dos falcões do “apartheid” e a densidade negativa das monarquias arábicas sunitas-wahabitas vocacionadas por via de suas próprias opções à disseminação do caos, do terrorismo e da desagregação indexadas aos Irmãos Muçulmanos e seus derivados.
A mudança dos paradigmas energéticos, numa altura em que é o próprio planeta a estar em risco, influi também nas transnacionais, obrigadas a reconversões, em especial as tradicionais petroleiras anglo-saxónicas do poderoso clã Rockefeller.
Isso é visivelmente sensível na convulsão que se generalizou no Médio Oriente Alargado, mas também sensível na sensação de perda geoestratégica em relação a toda a Eurásia.
As transnacionais para dominarem sob o rótulo da hegemonia unipolar, adoptaram com esses aliados a ementa da divisão (dividir para melhor reinar) e da subversão, uma ementa aliás desde sempre utilizada, fixando-se e obrigando os Estados Unidos a fixarem-se nos empenhos contraditórios entre artificiosos bons e maus de contingência, num processo de ingerências e manipulações que sem remissão levaram à incoerência e à asfixia geoestratégica na Eurásia, particularmente no campo de batalha em que se tornaram o Iraque e a Síria, às portas dum maltratado “aliado” como a Turquia.
Uma luta com o fito de, por via duma hegemonia unipolar, dar cada vez mais lucros, gera o pântano das ilusões inconciliáveis!
O cerco à Rússia e à China, particularmente nas linhas terrestres, foi feito com um padrão de abcessos no Báltico, no Mar Negro, no Cáucaso, no Médio Oriente Alargado e no AfPaq, mas esses abcessos, minados pelo jogo sistemático da exploração das contradições, afastaram-se duma ordem tácita inicial substantiva, resvalando para as miragens pantanosas da desordem, do caos, do terrorismo e da desagregação que vão acabando por apagar a energia das próprias forças, começando a minar os alicerces da própria NATO.
Essa é também uma das razões profundas do “Brexit” e das derivas neofascistas na e à volta da União Europeia!
Enquanto isso, a Rússia, a China e a Índia, instrumentalizaram suas opções por via de tão amplas quão atractivas geoestratégias económicas em busca de consensos que se impõem por si sem perder coerência nos vínculos que possibilitam criar e nas pressionantes disputas em função de sua expansão, como acontece sintomaticamente no cronicamente desarticulado Médio Oriente Alargado.
A substituição do esforço oficial da “coligação” para um esforço tutelado pelas mãos privadas desencadeadas pela e a partir da aristocracia financeira mundial, feito numa altura em que a especulação financeira acompanhava os procedimentos económicos, político-diplomáticos, de inteligência e os militares, conduziu a pantanosas derrotas ainda que as transnacionais obtivessem imensos lucros, em particular aquelas transnacionais que davam corpo aos sistemas de armamento, da energia e da exploração mineral, fundamentos dos “lobbies” democrata e republicano.
A barbárie multiplicou-se em tantas barbaridades que minou o seu próprio chão de coerência!
Têm sido essas ilusões de óptica que têm conduzido à mentira e às “fake news” de que os media controlados pela aristocracia financeira mundial são campeões!...
Esse rei vai de tal maneira nu, que o próprio presidente Donald Trump não se coíbe de chamar a atenção para essas“fake news”, ainda que o faça à maneira dos interesses e das conveniências do capitalismo nacional que o colocou no poder!
2- É em África e na América Latina onde as geoestratégias dos Estados Unidos nos seus relacionamentos externos perderam menos coerência (em termos da visão da aristocracia financeira mundial) também por que sujeitas a menos caos, terrorismo, desagregação e desgaste autoinfligido no engodo do cerco à Rússia e à China, ou por que esses universos humanos são culturalmente mais simplificados em seus estágios de desenvolvimento e de auto afirmação.
Desse modo garantem ainda, ao mesmo tempo, seus próprios sistemas de alianças formados por complexas formatações“tradicionais” de vassalagem, que assimilaram com outra fluência os contraditórios tácitos próprios dum neocolonialismo que em algumas regiões sucedeu-se sem meios-termos ao colonialismo (por exemplo no Oeste de África, no Sahel e um pouco na África Central, por via do papel inteligente pacientemente elaborado a partir das “redes Foccard” da “FrançAfrique”).
Em África a instrumentalização do AFRICOM e da NATO, tendo vínculos preparados com muito mais à vontade (e livres das mais incisivas contramedidas directas russas e chinesas como acontece na Eurásia) sobretudo com o concurso da França, da Grã-Bretanha e da Itália (antigas potências coloniais carregadas de experiências “no terreno”) está a produzir capacidades neocoloniais quase ilimitadas, inteligentemente camufladas, persuasivas e tanto quanto o possível recorrendo às culturas garantes de “soft power” e assimilação, numa rede de difícil percepção, até pelos estímulos que cria e recria nos termos do delineamento e acção da guerra psicológica de baixa intensidade em tempo de disseminação de democracias representativas e seus conteúdos próprios das sociedades de consumo inscritas nos mercados globais.
O neocolonialismo deita mão mais que nunca ao consumismo gerado nas democracias representativas, formatando em conformidade a mentalidade humana de sua inteira conveniência e obstruindo assim a formação da consciência cidadã e das potencialidades de sua capacidade crítica, participativa e de protagonismo.
Na América Latina o arrumar dos processos de domínio é também ainda possível nesse plasma que tanto tem a ver com o passado da barbárie do capitalismo transnacional, refazendo a Doutrina Monroe em função do recurso às novas tecnologias instrumentalizadas em novos jogos úteis que até permitem manter funções típicas e objectivos do capitalismo neoliberal apesar do “the americans first”.
Na inércia que o anima, o poder retrógrado manifesta-se de tal modo que na contradição estão aqueles que abriram janelas na direcção do socialismo, a fim de os obrigar a fechar!
A riquíssima Venezuela tornou-se pois um alvo dilecto a tomar e os episódios nesse sentido vão-se sucedendo a ponto de, precisamente na mesma altura da tomada de posse no seu segundo mandato do presidente Nicolas Maduro, a transnacional EXXON-Mobil fazer mais uma provocação em mares nacionais, dando azo à manifestação hostil na Organização dos Estados Americanos, da própria administração republicana de Donald Trump e do Grupo de Lima, fieis representantes sociopolíticos da transnacional conformada pelo clã Rockefeller.
Na América Latina, identificados os parâmetros antropológicos e culturais que estão longe de ser tão complexos como na Eurásia, ou em África, as opções possuem outras ementas contraditórias, menos intensas e enfáticas, vindas detrás e disponibilizadas “sobre carris” em sincronizadas vias do jogo entre um poder iluminado por um capitalismo produtivo nacional e um capitalismo financeiro transnacional.
A influência multilateral, por via da Rússia, da China, ou até mesmo dum Irão, ou duma Turquia que não fazem parte dos BRICS (será que agora o Brasil ainda é componente?), ainda que se faça sentir, não tem a mesma intensidade como acontece na Eurásia.
O empertigamento da Doutrina Monroe atiçada pelos interesses transnacionais anglo-saxónicos, levará os emergentes a um esforço combinado, que já está minimamente em curso, mas que inexoravelmente se vai intensificar, em prol da defesa da independência, da soberania e da democracia participativa e protagonista da Venezuela.
Na América Latina por outro lado, não se fazem sentir os enlaces retrógrados das alianças da “civilização judaico-cristã ocidental”, sob a égide anglo-saxónica com as alianças das monarquias arábicas e suas ideologias fundamentalistas religiosas, mas aqueles que integram a corrente da Teologia da Libertação assumem um papel não negligenciável nas lutas sociais contrariando essas correntes do domínio, algo que o actual Vaticano reflecte.
Por outro lado o Irão enquanto vítima dos jogos do clã Rockefeller via transnacionais, está a surgir ciente da necessidade das alianças para fazer face à hegemonia unipolar inspirada na voracidade dos interesses das transnacionais petroleiras anglo-saxónicas.
Por essa razão os preceitos religiosos judaico-cristãos aptos à radicalização medram com facilidade e fluência particularmente entre algumas elites e oligarquias nacionais barricadas contra a participação e o protagonismo, tornando-se possível recriar por via deles fundamentalismo sublimados propiciados pelos processos democrático-representativos, em especial onde o campo das alienações pôde ser subtilmente trabalhado com todo o à vontade pelos vínculos múltiplos da hegemonia unipolar, inclusive em áreas inovadoras como a da justiça (?) brasileira, explorando subtis êxitos anteriores.
O recurso ao padrão redutor das democracias representativas alimenta o carácter do domínio que começa a pertencer ao passado de barbárie, quando a civilização resulta mais que nunca na integração de articulações formuladas a partir de amplas participações e de protagonismos capazes de chegar aos consensos vocacionados para o futuro.
Sem recorrer em todos os casos ao choque neoliberal (conforme o exemplo de 1973 no Chile), os mesmos objectivos para serem alcançados pela hegemonia unipolar que ainda se manifesta na América recorreram a terapias neoliberais muito antes do aparecimento do “produto sublimado” como o recém-inaugurado modelo tisnado de fascismo de Bolsonaro, pois“as raposas já estavam no galinheiro”, ou a ser paulatinamente introduzidas nele, de há cerca de duas décadas a esta parte.
A hegemonia unipolar no quintal traseiro propiciado desde os tempos iniciais da Doutrina Monroe pode ter atingido o zénite, mas a partir da derrota noutras paragens, já está também a perder sua capacidade geoestratégica na América por que é também retrógrada nesse quintal, apesar dos disfarces, das ilusões e da falsa representatividade que ostenta e dissemina como propaganda duma força e duma energia que já não tem.
3- Aqueles que lutam por abrir as janelas socialistas na América Latina estão aparentemente a ficar confinados em seus espaços físico-geográficos, apesar das suas fontes de inspiração que advêm da luta contra a escravatura e o colonialismo, apesar do plasma humano das suas opções quantas vezes criativas, um plasma que possui capacidade de mobilização cívico-militar, assim como poder anímico de resistência e de sustentação na tentativa de alcançar a plataforma consolidada da lógica com sentido de vida garante de civilização e futuro face à barbárie.
O manancial do exercício de domínio hegemónico unipolar está aparentemente ainda a ganhar preponderância na América Latina, contrariando os povos que possuem uma consciência crítica alternativa, vocação sociocultural e vocação ideológica e psicológica para a mobilização e a resistência, capazes de contramedidas de resposta que estão vitoriosamente em vigor.
Há neste momento um arsenal de medidas “em crescendo” que estão a ser tomadas pela administração de Donald Trump que neste caso não excluem as opções do capitalismo financeiro transnacional ao contrário do que acontece na Eurásia, visando três fulcros alternativos de resistência popular: Cuba, Venezuela, Nicarágua e, por tabela, as organizações internacionais onde sua acção se faz melhor sentir.
Ainda que não tenham conseguido vencer os propósitos alternativos desses componentes-chave da ALBA (Alternativa Bolivariana para os Povos da América), os Estados Unidos sob a égide de Donald Trump procuram estruturalmente bloqueá-los e fixá-los a fim de eles não inspirarem, no seu ponto de vista não “contaminarem”, outros povos e sociedades latino-americanas e a fim de não deixarem que eles possam livremente aprofundar as suas próprias opções.
Desconhecem a dialética e são incapazes de amadurecer na atenção devida ao estudo das contradições.
A “luta contra o comunismo” no vasto campo de manobra latino-americano, segundo a perspectiva da mentalidade formatada pelos interesses hegemónicos da aristocracia financeira mundial estruturalistas, está a fazer sentido emergindo até das alienações no caso do subcontinente que é o Brasil, cuja independência foi assumida através de suas próprias elites travestidas de origem monárquica e não através de luta armada dos substractos humanos mais decisivos de sua sociedade.
Essas correntes estão prontas para se voltar à adopção, agora também com o recurso às novas tecnologias, dos bárbaros parâmetros da Doutrina Monroe, procurando “repetir a dose” fechadas a outra capacidade criativa aberta aos actos de civilização de que a humanidade e o planeta tanto carecem…
As ideologias e práticas judaico-cristãs “iluminam” esses pressupostos e procuram obstinada e brutalmente romper caminho com recurso a opções radicalizadas e de natureza fascizante, neocolonial nos termos de vassalagem ao poder dominante que sopra do norte e prontas a preencher brechas no “cerco à Venezuela” e miná-la nem que seja como recurso às “revoluções coloridas”…
É a visão propiciada pela vasta experiência das redes “stay behind” da NATO e do “Le Cercle”, adaptadas ao agenciamento de vastos sectores das oligarquias nacionais e de outras elites latino-americanas, que se movem já em desespero de mau agoiro em proveito da hegemonia unipolar nesse mais simplificado tabuleiro.
Lançada a subversão da ementa bárbara contra a Venezuela por via sociopolítica, económica, financeira e ideológica (com recurso à guerra psicológica constante), restou agora à hegemonia unipolar montar o bloqueio físico-geográfico que já está em curso desde o aumento da intensidade da pressão a partir dos últimos processos eleitorais e manobras dignas dos golpes de estado em muitas configurações da América Latina, com a expressão em sentido contrário do México.
Ao bloqueio possível, com o agenciamento dum parlamento que a decadente hegemonia considera ser uma brecha na aliança cívico-militar venezuelana mas é um artefacto retrógrado que tem que ver com o passado, a tentativa de rejeitar a eleição do presidente Nicolas Maduro poderá servir para desencadear outra onda mais de sangrenta oposição nas ruas, conforme à aprendizagem que foi feita com as “revoluções coloridas”.
A Venezuela Socialista Bolivariana está a ser sujeita a tentativas de golpe de estado, umas atrás das outras, cada uma com sua própria justificação, ementa e enredo, precisamente no país onde tem havido mais processos eleitorais no globo e onde os ganhos populares têm sido consolidados…
Nessa conjuntura, a transparência de sua revolução tem conseguido capacidade criativa para as respostas, por que a Venezuela além do mais não está só e os emergentes que a apoiam estimulam os rasgos em direcção aos processos de vitórias que têm sido obtidas com recurso à dialética face ao estruturalismo retrógrado da hegemonia unipolar e seus cortejos de agenciamentos e vassalagens transnacionais.
De há dois anos a esta parte, os Estados Unidos não põem de parte a possibilidade duma agressão militar e por isso vão preparando os cenários em redor da Venezuela a fim de organizar as capacidades para tal, recorrendo tanto quanto o possível aos seus vassalos na OEA e Grupo de Lima…
Ao grupo de Lima, à OEA, à Colômbia e até à Guiana por causa dum litígio territorial antigo, os Estados Unidos vão juntar agora, após a eleição de Bolsonaro, uma outra posição do Brasil, que se poderá associar às iniciativas que se vão levando a cabo a caminho da agressão!
Cuba Revolucionária, a Venezuela Socialista e Bolivariana, a Nicarágua Sandinista, vão ser alvo da implementação de ainda mais medidas de bloqueio, subversão e desestabilização ao longo deste e dos próximos anos, haja ou não impeachment do exercício do presidente Donald Trump, enquanto a hegemonia unipolar procura consolidar os processos de domínio no resto da América, sem a consciência que dos traumas daí advenientes novas contradições irão inexoravelmente fermentar e as respostas têm agora cada vez mais razões e fundamentos para “dar a volta por cima”!
Uma coisa é certa, não tendo feito suficiente balanço das derrotas no Médio Oriente Alargado em função dos conceitos estruturalistas que lhe são inerentes, as ementas de caos, de desagregação e de subversão que estão em curso na América Latina, acentuarão a derrota internacional dos Estados Unidos, agora começando a estar remetidos a um dos seus últimos redutos!
Martinho Júnior - Luanda, 10 de Janeiro de 2019
Imagens:
- O capitalismo financeiro transnacional é uma fórmula de hegemonia unipolar apta a enredar o mundo em benefício de poucas mãos dominantes, em benefício da aristocracia financeira mundial;
- A Doutrina Monroe abriu e abre caminho aos apetites dominantes no seguimento da expansão, por parte dos Estados Unidos em relação a todos os estados latino-americanos;
- Grupo de Lima instrumento de vassalagem que corrobora os contemporâneos propósitos da Doutrina Monroe;
- Segundo mandato do presidente Nicolas Maduro reafirma a independência, a soberania, o aprofundamento da democracia e a justeza do bolivarianismo na América;
- Mapa do incidente com navios de pesquisa ao serviço da EXXON-Mobil do clã Rockefeller, um dos clãs de há muito implicado na prossecução da Doutrina Monroe na América.

Expansão da OTAN na Europa é uma 'relíquia da Guerra Fria', diz Putin

Presidente russo, Vladimir Putin, parabenizando os cidadãos russos pelo Ano Novo
© Sputnik / Mikhail Kliementiev

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, disse em entrevista à imprensa sérvia publicada nesta quarta-feira (horário local) que a Rússia não quer uma nova corrida armamentista.

"Não vamos fechar os olhos ao desdobramento de mísseis de cruzeiro dos EUA [na Europa] e sua ameaça direta à nossa segurança. Teremos que tomar medidas eficazes de retaliação. Mas como país responsável e sensato, a Rússia não está interessada em uma nova corrida armamentista", afirmou.

Segundo o presidente russo, Moscou enviou em dezembro a Washington algumas propostas sobre a manutenção do Tratado INF. Além disso, Putin destacou que a Rússia está pronta para um diálogo sério com os Estados Unidos sobre toda a agenda estratégica.

No entanto, os Estados Unidos parecem ter uma política de "desmantelamento" em relação ao controle global de armas, acrescentou o presidente russo.

Durante a entrevista aos meios de comunicação sérvios, Putin também instou os parceiros ocidentais a estabelecer um diálogo baseado nos princípios do direito internacional. Segundo Putin, essa é a chave para manter intacta a paz global e a estabilidade regional.


Putin também enfatizou que a expansão da OTAN na Europa é uma estratégia destrutiva, acrescentando que essa política é "uma relíquia da Guerra Fria". Segundo o presidente, a Aliança está atualmente tentando fortalecer sua posição nos Bálcãs.

Putin falou com os jornais sérvios antes de sua viagem ao país dos Bálcãs. Ele disse que a decisão da Sérvia de se aproximar da União Europeia não impediria a "cooperação multifacetada" entre Moscou e Belgrado.

"Nós respeitamos a decisão do governo sérvio de aderir à UE e, ao contrário dos parceiros ocidentais, não estamos forçando Belgrado a escolher entre a Rússia e a UE", ponderou.

"Temos fornecido [a Sérvia] equipamentos e armas militares e auxiliando na sua manutenção… Continuaremos desenvolvendo esta cooperação técnico-militar", prometeu o presidente russo.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/russia/2019011513118001-expansao-otan-putin/

Polícias eleitorais ou as duas faces da mesma moeda

As fake news e as novelas das supostas ingerências externas em actos eleitorais são o pretexto para a criação de corpos transnacionais de polícia eleitoral e o reforço do neoliberalismo como fascismo social.
José Goulão | AbrilAbril | opinião
A par da convergência dos populismos e neofascismos para as muitas campanhas eleitorais que aí vêm no plano internacional, está também em campo uma variante aglutinadora que contribui para replicar, mais coisa menos coisa, as eleições presidenciais norte-americanas de 2016. Incluindo aquilo a que o mainstream parece reduzir a política de hoje: as fake news e as novelas das supostas ingerências externas em actos eleitorais. Tudo a funcionar como nevoeiro para disfarçar o grande objectivo em jogo: reforçar o neoliberalismo como fascismo social – com mais ou menos fascismo político.
Chama-se Comissão Transatlântica para a Integridade Eleitoral, funciona no âmbito de uma denominada Aliança para as Democracias, com sede em Copenhaga e, entre muitas outras coisas, afirma dedicar-se a combater as informações falsas e as interferências externas em eleições; para isso, parte do princípio de que nenhum dos lados do Atlântico está verdadeiramente preparado para os riscos que ameaçam os cerca de 20 actos eleitorais que se realizam até 2020. Entre as notáveis e recomendáveis figuras que desempenham estas missões estão membros das administrações Bush e Obama, um ex-secretário geral da NATO e um organizador de esquadrões da morte na América Latina, além de José María Aznar e Tony Blair.
A Comissão Transatlântica para a Integridade Eleitoral diz que nasceu para acabar com a desinformação e as interferências estrangeiras em actos eleitorais norte-americanos, latino-americanos e europeus. Junta políticos no activo, ex-presidentes, vice-presidentes e vários ministros de vários países, jornalistas, apresentadores e editores de alto gabarito, algumas fundações, homens de negócios e também figuras de proa de impérios tecnológicos globais como o Facebook e a Microsoft, além de instituições indubitavelmente sintonizadas pela CIA, como o Conselho do Atlântico.
Esta comissão define-se a si mesma como «bi-partidária», entendendo-se por isso não apenas a formatação política norte-americana mas também o tradicional «arco da governação» do regime globalista neoliberal, isto é, os sociais-democratas liberais e a direita da área do Partido Republicano/Partido Popular Europeu.
O seu objectivo central está plasmado na panóplia de discursos e declarações proferidos e aprovadas na primeira «Cimeira das Democracias», realizada em 22 de Junho de 2018 em Copenhaga: combater tudo o que perturbe «o livre desenvolvimento das democracias em todo o mundo e a instauração de mercados livres». A cimeira nasceu das iniciativas do ex-secretário geral da NATO Anders Fogh Rasmussen e do vice-presidente de Obama, Joseph Biden. As notas finais do encontro foram redigidas por Tony Blair, acusado no seu país de ter mentido para provocar a invasão do Iraque; e que já discursara anteriormente, tal como o ex-chefe do governo espanhol, o neofranquista José María Aznar, que participou na encenação da mesma mentira feita em Março de 2003 na Cimeira das Lages, nos Açores.
Combater a interferência interferindo
Monitorar os riscos eleitorais que vão sendo detectados, de modo a ajudar os países a identificar as vulnerabilidades que facilitam as ingerências eleitorais externas, é uma das linhas de acção da Comissão Transatlântica, que promete disponibilizar soluções tecnológicas «contra a desinformação» e ferramentas baseadas em inteligência artificial que sejam «destrutivas em relação a conteúdos falsos», além de reduzirem as possibilidades de intromissão externa.
Segundo os apuramentos feitos pela Cimeira das Democracias, na sequência de actividades de monitorização, 80% das intromissões externas em eleições são de origem russa, como ficou provado, segundo a Comissão Transatlântica, nas eleições presidenciais norte-americanas de 2016, nos Balcãs e também no México, em 2018.
Embora não haja qualquer alusão ao que se passou no Brasil de Bolsonaro, sabe a Comissão Transatlântica que as eleições mexicanas ganhas pelo progressista e anti-neoliberal Lopez Obrador foram alvo de ingerências do Irão, da Venezuela e, claro, da Rússia.
E sabe ainda que, nos Balcãs, casos graves envolvendo igualmente Moscovo foram detectados no referendo sobre a mudança de nome na Antiga República Jugoslava da Macedónia e que abriu a porta às futuras integrações do território na União Europeia e na NATO.
Ora o que também está absolutamente comprovado – mas fora do âmbito de acção da Comissão Transatlântica – é que tanto o referendo macedónio como as recentes eleições gerais da Bósnia-Herzegovina decorreram sob comando directo dos embaixadores dos Estados Unidos e dos representantes locais da União Europeia, passando inclusivamente pela compra de votos de deputados para obtenção, por via parlamentar, do que não foi possível pelo caminho referendário. Terão sido estas acções inseridas já no âmbito da «monitorização» montada pela Comissão Transatlântica? Nada obsta, tanto mais que um dos objectivos expresso por esta é estar «um passo à frente dos acontecimentos», onde cabe perfeitamente o princípio de combater a interferência interferindo por antecipação.
Convergência no fascismo ucraniano
«Trabalhar com empresas tecnológicas na criação de ferramentas inovadoras para combater a desinformação e os conteúdos falsos» é um dos mandamentos de topo da Comissão Transatlântica para a Integridade Territorial, no âmbito da Aliança das Democracias.
Por isso, na lista de nomes sonantes que dão corpo a estas novas instituições supranacionais é possível encontrar, a par de famosos leitores de telepontos na ABC e na CNN e da editora do Bild, o expoente dos tablóides europeus, um dos mais graduados directores da Microsoft na Europa, John Frank, e também Richard Allan, vice-presidente da divisão de Soluções Políticas Globais do Facebook. Tendo já sido detectadas actividades desta catedral das redes sociais pouco compatíveis com a liberdade de expressão, a democracia e o equilíbrio eleitoral, não será difícil prever agora uma dinâmica reforçada no combate às chamadas fake news, tendo no horizonte as eleições até 2020, a começar pelas europeias de Maio próximo. Chegados a este ponto fica a faltar saber como vão as novas ferramentas distinguir entre conteúdos falsos ou aqueles que apenas contradizem democraticamente quem as manipula. Os famosos algoritmos estarão fiavelmente ensinados para distinguir o que é verdadeiro do que é falso ou é apenas contraditório?
Sabemos que a extrema-direita e o neofascismo, arrebanhados atrás da figura carismática de Steve Bannon, o homem que fez de Trump presidente dos Estados Unidos e de Bolsonaro presidente do Brasil, trabalham activamente nas estratégias para próximas eleições na Europa e Américas.
A Comissão Transatlântica, dentro da Aliança das Democracias, surge igualmente a marcar terreno na área do neoliberalismo, parecendo contrapor o globalismo do chamado «Partido de Davos» – o classicismo neoliberal que tem prevalecido – a uma ortodoxia do regime que vai beber às suas raízes em Pinochet e ao fascismo chileno.
Mas se este pode ser confundido com a figura de Steve Bannon, não é difícil encontrar almas gémeas na Comissão Transatlântica como Michael Churtoff, secretário para a segurança interna na administração de George W. Bush e, sobretudo, o inigualável John Negroponte, há muito defendendo a democracia com Reagan, Bush pai e filho, Clinton, Obama, Trump e até como embaixador na ONU. Esteve na saga dos «combatentes da liberdade» apoiando terroristas como os da Unita, somozistas na Nicarágua, Mujahidines e al-Qaida, sem esquecer os métodos de falsificação de eleições, designadamente nas Honduras, de que houve novo exemplo bem recentemente. O mesmo Negroponte que não hesitou em coordenar a formação e actuação de esquadrões da morte na América Latina, enquanto embaixador dos Estados Unidos, quando a sua «democracia» estava supostamente em perigo, mesmo que fosse através de eleições livres e democráticas. Agora reencontramo-lo disponibilizando inesgotáveis recursos à Comissão Transatlântica para a Integridade Eleitoral, sendo legítimo supor que a sua cartilha democrática, tão testada e aplicada, apenas se reforçou, não se alterou.
Pelo que não é surpresa observar as hostes de Bannon e Biden, Rasmussen e Negroponte – erigidas em polícias eleitorais – convergindo na figura de Porochenko nesta nova fase para reforço da institucionalização do fascismo ucraniano, nas eleições presidenciais de Março.
Será talvez difícil apurar qual das polícias, ou se foram ambas, recorreu à ferramenta nada inovadora da provocação no Estreito de Kerch, no passado dia 25 de Novembro, que permitiu ao presidente Porochenko declarar a lei marcial para se posicionar como favorito inquestionável. Ele que não passava dos 8% antes do conveniente «incidente». Não tenhamos dúvidas, porém, de que as próximas eleições ucranianas, decorrentes de um estado de excepção e organizados por metade de um país que impõe o terror militar fascista a outra metade, encaixa tanto no figurino «democrático» do «Partido dos Populistas» de Steve Bannon como no do «Partido de Davos» de Blair, Aznar, Biden e Negroponte, mais esquadrão da morte, menos esquadrão da morte. Donde não nos será difícil ter uma ideia dos critérios que vão seleccionar a informação expurgada de toda a desinformação e falsidade a servir aos eleitores envolvidos na escolha de duas dezenas de governos, parlamentos e presidentes em pouco mais de 12 meses.
Para estes corpos transnacionais de polícia eleitoral, com as suas divergências, que não são de fundo – longe disso – o que vai jogar-se é somente a manutenção do sistema de exploração garantido pelo capitalismo selvagem, o neoliberalismo económico, o fascismo social. Mais ou menos fascismo político, isso depende apenas do doseamento de meios para obter o mesmo fim.
Na verdade, estes campos são fáceis de identificar. Assim as pessoas queiram vê-los e combatê-los.

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2019/01/policias-eleitorais-ou-as-duas-faces-da.html

Metamorfose

Retomamos aqui o editorial do Al-Watan em que Thierry Meyssan apresenta aos leitores sírios a retirada das tropas dos EUA do seu país. Este artigo contem várias informações que foram ignoradas pelos média ocidentais e lançam luz sobre a maneira como a decisão foi tomada pelo Presidente Trump, com os seus aliados sauditas e catarianos, e seus parceiros russos.


 

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A Síria fora transformada em campo de batalha pelas nações do mundo inteiro. Aí, os Estados Unidos e a Rússia confrontavam-se. A 20 de Dezembro de 2018, Washington decidiu retirar-se sem compensação.

Esta data irá contar na história mundial como a mais importante desde 26 de Dezembro de 1991 (dissolução da URSS). Durante 27 anos, o mundo foi unipolar. Os Estados Unidos eram a primeira potência económica e militar. Eram os maestros exclusivos dos acontecimentos.

Há três anos, perderam o seu estatuto económico e foram ultrapassados pela China. Depois, perderam o seu estatuto de primeira potência militar convencional face à Rússia. Acabam, agora, de perder o de primeira potência militar nuclear face às armas hipersónicas russas.

O Presidente Trump e o General Mattis cumpriram as promessas de retirar o apoio do seu país aos jiadistas, assim como a de retirar as suas tropas de combate tanto da Síria como do Afeganistão. No entanto, para Mattis o fim da Coligação anti-Daesh (E.I.), reunindo 73 nações em torno dos Estados Unidos, prefigura a dissolução da OTAN. Enquanto soldado, ele não pode aceitar o risco de ser privado de alianças. Pelo contrário, o Presidente Trump afirma que a decadência dos Estados Unidos já não permite manter seja que guerra for. Segundo ele, é impossível continuar comandar os aliados e a urgência é recuperar a economia dos EUA.

A decisão do Presidente Trump foi maduramente reflectida.

Ela segue-se à viagem a Damasco do Vice Primeiro-ministro Yuri Borisov. No seu país, ele dirige o complexo militar-industrial. Dispõe para isso de um orçamento especial, que escapa a qualquer controle ocidental e não figura no orçamento oficial de Estado. Está organizado de acordo com as condições da reconstrução e das relações económicas futuras, unicamente em rublos e a partir de um banco especial, fora do alcance do dólar.

Esta decisão também se segue à visita a Damasco de um chefe de Estado árabe, Omar al-Bashir. O Presidente do Sudão representava, ao mesmo tempo, os seus homólogos norte-americano, saudita e catari. Assim que ele informou o Presidente Trump do resultado da sua entrevista com o Presidente Bashar al-Assad, foi feito o anúncio da retirada militar dos EUA.

Foi considerado um plano de reintegração dos combatentes curdos no Exército Árabe Sírio com a ajuda do Irão. O que passaria por uma intervenção da principal milícia xiita iraquiana.

Simultaneamente, o acordo (deal-ndT) do século não foi anunciado, mas já está a ser posto em marcha. O Hamas não combaterá mais contra Israel, antes será agora financiado por ele, via Catar. A monarquia hachemita terá que aceitar reinar sobre os Palestinianos mesmo correndo o risco de por eles ser derrubada. O regime de apartheid de Telavive deverá conhecer, nos próximos anos, a mesma sorte que o de Pretória.

O mundo não evolui como nós o havíamos imaginado: de um sistema unipolar para um sistema multipolar. Certo, existe de um lado a união eurasiática russo-chinesa, mas já não há mais Ocidente. Subitamente, cada Estado da OTAN reencontra a sua independência. É provável que alguns venham a tomar iniciativas, convencidos em saber o que devem fazer. É até possível que se envolvam, novamente, em guerras entre eles.

Tudo o que havíamos aprendido do mundo acabou. Uma nova era começa.

Thierry Meyssan



Ver original na 'Rede Voltaire'



Analista: não se deve acreditar nas declarações dos EUA relacionadas a 'pontos quentes'

Veículos blindados norte-americanos na Síria
© AP Photo / Hussein Malla

As relações da Rússia com a Turquia e o Irã na Síria não se deteriorarão devido à retirada das tropas norte-americanas do território sírio, afirmou o cientista político Aleksandr Perendzhiev à Sputnik.

Anteriormente, o coronel aposentado do Exército dos EUA, Douglas MacGregor, declarou que a retirada das tropas norte-americanas da Síria seria um "passo astuto" para que a Rússia entre em conflito com seus aliados na região.


"A Rússia e seus aliados na Síria não se confrontarão depois da retirada das tropas dos EUA. Essa declaração sobre confronto é um desejo peculiar em relação à Rússia […] A simples retirada das tropas norte-americanas do território da Síria não é suficiente para que isso aconteça", comentou Perendzhiev.

Ele observou que a declaração do coronel aposentado americano expõe os EUA como "palhaços na arena internacional" e é difundida para provocar uma reação dos países que estão em solo sírio em relação a questões do direito internacional.

"A declaração de MacGregor é surpreendente, porque não está claro o motivo de dizer ao mundo inteiro que as ações dos EUA para retirar tropas da Síria são um 'passo astuto', revelando assim segredos militares e estatais […] Não se deve acreditar nos EUA, especialmente, em declarações em relação a pontos quentes", conclui.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/opiniao/2019010413045954-eua-declaracoes-retirada-tropas-siria/

Nova guerra fria e ameaças iminentes

John PilgerNesta notável entrevista com dois jornalistas indianos, John Pilger traça uma visão de conjunto da ofensiva dos EUA e dos seus aliados no Médio Oriente, na Ásia e na América Latina. Uma experiência pessoal iniciada na guerra do Vietname e que prossegue até aos dias de hoje, exemplo da forma como um jornalismo esclarecido e progressista pode ser um poderoso aliado da luta dos povos.


 

O seu recente documentário, The Coming War on China, mostra como os Estados Unidos estão em guerra com a China. Pode explicar o mecanismo dessa guerra secreta? Acha que a Ásia-Pacífico será a próxima região de intervenção imperialista? Como ocorrerá essa intervenção e quais serão as consequências?

É uma “guerra secreta” apenas porque a nossa percepção é moldada para ignorar a realidade. Em 2010, a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, viajou a Manila e incumbiu o recém-inaugurado presidente filipino, Benigno Aquino, de tomar posição contra a China pela sua ocupação das Ilhas Spratly e de aceitar a presença de cinco bases de Marines dos EUA. Manila entendia-se bem com Pequim, tendo negociado empréstimos bonificados para infraestruturas das quais necessitava muito. Aquino fez o que lhe foi dito e aceitou que uma equipa jurídica liderada pelos EUA contestasse as reivindicações territoriais da China no Tribunal de Arbitragem da ONU em Haia. O tribunal concluiu que a China não tinha qualquer jurisdição sobre as ilhas; um julgamento que a China categoricamente rejeitou. Foi uma pequena vitória numa campanha de propaganda americana visando retratar a China mais como territorialmente rapace do que como defensiva na sua própria região. O motivo foi o crescente receio da elite de segurança nacional/militar/mediática dos EUA de ter deixado de ser a potência dominante no mundo.

No ano seguinte, em 2011, o presidente Obama declarou uma “viragem para a China”. Isso marcou a transferência da maioria das forças navais e aéreas dos EUA para a região da Ásia-Pacífico, o maior movimento de equipamentos militares desde a Segunda Guerra Mundial. O novo inimigo de Washington - ou melhor, um inimigo de novo - era a China, que atingira extraordinários patamares económicos em menos de uma geração.

Os Estados Unidos têm há muito tempo uma série de bases em torno da China, da Austrália às ilhas do Pacífico, passando pelo Japão, Coreia e Eurásia. Estas estão em vias de ser reforçadas e modernizadas. Quase metade da rede global dos EUA, que conta mais de 800 bases, cerca a China “como o laço corredio perfeito”, disse um responsável do Departamento de Estado. Sob o pretexto do “direito à liberdade de navegação”, navios de baixo calado dos EUA entram nas águas chinesas. Os drones americanos sobrevoam o território chinês. A ilha japonesa de Okinawa é uma vasta base americana, com os seus contingentes preparados para um ataque à China. Na ilha coreana de Jeju, os mísseis da classe Aegis são apontados a Xangai, a 640 quilômetros de distância. A provocação é constante.

Em 3 de outubro, pela primeira vez desde a Guerra Fria, os Estados Unidos ameaçaram abertamente atacar a Rússia, a aliada mais próxima da China, com quem a China tem um pacto de defesa mútua. Os media interessaram-se pouco pela questão. A China está a armar-se rapidamente; de acordo com a literatura especializada, Pequim mudou sua postura nuclear, passando de um alerta baixo para um alerta alto.

Pessoas como Noam Chomsky dizem que o império americano está em declínio. Pensa realmente isso? Nos últimos tempos, vimos os Estados Unidos tentarem chegar a um acordo com a Coreia do Norte; antes, eles tentaram reestabelecer relações diplomáticas com Cuba. O que indicam esses episódios? Acha que o mundo se está a diversificar?

O império americano enquanto ideia pode estar em declínio, a ideia de uma única potência dominante e a dolarização da economia mundial, mas o poder militar dos EUA nunca foi tão ameaçador. Uma nova guerra fria conduz ao isolamento dos Estados Unidos e é um perigo para todos nós. No início do século XXI, Norman Mailer [jornalista e romancista norte-americano] escreveu que o poder americano havia entrado em uma era “pré-fascista”. Outros sugeriram que já estamos lá.

Disse que um dos triunfos do século XXI em matéria de relações públicas foi o slogan de Obama “a mudança em que acreditamos”. Disse também que a campanha mundial de assassínios de Obama foi sem dúvida a mais dispendiosa campanha de terrorismo desde o 11 de Setembro de 2001. Por que foi tão duro com Obama, que ganhou o Prêmio Nobel da Paz? Que acha de Donald Trump e da sua presidência?

Eu não fui duro com Obama. Foi Obama quem foi duro com grande parte da humanidade, ao contrário da sua muitas vezes absurda imagem mediática. Obama foi um dos mais violentos presidentes americanos. Lançou ou apoiou sete guerras e deixou o poder sem que nenhuma delas fosse resolvida: um recorde. Durante o seu último ano como presidente, em 2016, lançou 26.171 bombas, segundo o Conselho de Relações Exteriores. É uma estatística interessante; trata-se de três bombas a cada hora, 24 horas por dia, principalmente sobre civis. A técnica de bombardeamento adoptada por Obama foi o assassínio por meio de drones. Todas as terças-feiras, relatava o New York Times, ele escolhia os nomes daqueles que iriam morrer num “programa” de execuções extrajudiciais. Todos os homens em idade militar no Iémen e nas fronteiras do Paquistão eram considerados inteiramente como animais. Ele multiplicou as operações das forças especiais dos EUA no mundo, especialmente em África. Juntamente com a França e a Grã-Bretanha ele e sua secretária de Estado, Hillary Clinton, destruíram a Líbia como Estado moderno com o falso e familiar pretexto de que o seu líder estava prestes a cometer um massacre de “inocentes”. Isso conduziu directamente ao crescimento dos medievalistas Daesh [ou Estado Islâmico] e uma vaga de emigração de África para a Europa. Ele derrubou o presidente democraticamente eleito da Ucrânia e instalou um regime abertamente apoiado pelo fascismo - como uma provocação deliberada à Rússia.

A concessão do Prêmio Nobel da Paz a Obama foi uma impostura. Em 2009, esteve no centro de Praga e prometeu aí ajudar a criar um mundo “livre de armas nucleares”. Na verdade, aumentou o número de ogivas nucleares americanas e autorizou um programa de construção nuclear de longo prazo de US$ 1 milhar de milhões. Processou mais denunciantes, reveladores da verdade, do que todos os presidentes dos EUA juntos. O seu principal sucesso, pode dizer-foi pôr fim ao movimento antiguerra norte-americano. Os manifestantes regressaram a casa dando crédito às mensagens de ‘esperança’ e ‘paz’ de Obama, e começaram a acreditar nisso. A única diferença de Obama foi ter sido o primeiro presidente negro na terra da escravidão. Em quase todos os outros aspectos, ele era apenas outro presidente americano cuja constante afirmação era que os Estados Unidos eram “a única nação indispensável”, o que presumia que outras nações eram dispensáveis.

Talvez a inteligência de Obama residisse na imagem que Obama e outros fabricaram e cultivaram com sucesso. Donald Trump também pode ser descrito como apenas outro presidente americano (violento). O que o distingue é que ele é uma caricatura. Muitos membros da elite americana detestam Trump, não por causa de seu comportamento pessoal, mas por causa de um embaraço muito mais profundo; ele é a imagem crua da América, sem a máscara.

O seu filme The War on Democracy documenta o golpe de Estado orquestrado pelos Estados Unidos contra Hugo Chávez, que se opunha ao imperialismo, com a ajuda da burguesia de direita e capitalista da Venezuela. Isso não era novo para a maioria dos países latino-americanos. Hoje, porém, vemos cada vez mais países do continente resistindo ao imperialismo americano. Fora de Cuba e da Venezuela, os governos de esquerda estão no poder em países como a Bolívia e o Equador. Qual é o significado disso? Hoje em dia, também ouvimos histórias de ofensivas de direita em países como a Venezuela e o Brasil. Como avalia o actual cenário político latino-americano?

Eu não concordo que “mais e mais países [na América Latina] estejam a resistir ao imperialismo dos EUA”. Pode ter sido verdade quando Hugo Chávez ainda estava vivo; mas mesmo então, os Estados Unidos nunca desistiram da sua influência no continente. Hoje, há apenas Bolívia, Nicarágua e, claro, Venezuela, a Venezuela em luta pela sobrevivência. A maior parte da América Latina está de volta à influência de Washington, especialmente o Brasil. O Equador, anteriormente esclarecido, é outro exemplo eloquente. O governo obsequioso de Lénine Moreno convidou a tropas norte-americanas a voltarem e ameaçou abandonar Julian Assange. A opressão económica do FMI está novamente a prejudicar a Argentina. Versões do Consenso de Washington, conhecido como neoliberalismo, dominam quase todo o continente. Cuba está calma, o que é compreensível.

Nos últimos anos, vimos denunciantes como Julian Assange e Edward Snowden revelarem documentos confidenciais que mostravam como funciona o sistema de poder. Notará que o WikiLeaks não fez nada mais do que ‘The New York Times’ e ‘The Washington Post’ tinham feito num celebrado passado – revelaram a verdade sobre guerras de rapina e as maquinações de uma elite corrupta.

Disse que “o WikiLeaks é um marco no jornalismo”. Qual é a importância dessas revelações? O que é que elas nos ensinam?

O WikiLeaks fez muito mais do que o New York Times e o Washington Post com todos os louros que estes têm. Nenhum jornal conseguiu igualar - ou chegar perto - os segredos e mentiras do poder que Assange e Snowden revelaram. O facto de os dois homens serem fugitivos testemunha o recuo das democracias liberais em relação aos princípios da liberdade e da justiça. Porque é o WikiLeaks um marco no jornalismo? Porque as suas revelações nos disseram, com 100% de precisão, como e porquê uma grande parte do mundo é dividida e dirigida.

Como analisa a evolução do panorama dos media na era digital? Por um lado, a Internet abriu uma vasta via de espaço livre ou de plataforma independente. A Internet oferece um espaço contra-narrativo, ao qual os grandes media corporativos não prestam atenção. Mas, por outro lado, grandes monopólios digitais controlam o espaço digital. Como vê a situação? Quais são os desafios a enfrentar?

Os desafios estão à altura da nossa permissividade. Os dados digitais são a nova corrida ao ouro do capitalismo; A vigilância digital é o novo adversário da democracia. Ambos diferem apenas em forma e escala das inúmeras formas de poder a que as pessoas tiveram que resistir desde o início da história. Hoje, todos nós temos um pé no mundo digital; temos a Internet, que é o poder. A maneira como desenvolvemos esse poder, em vez de o banalizar, depende da nossa disposição de adoptar princípios intemporais de resistência.

Está envolvido em reportagens de guerra há mais de cinco décadas. Cobriu a maioria das grandes guerras, incluindo a Guerra do Vietname, a guerra no Iraque e a guerra no Afeganistão. Um certo número de países pratica uma política de armamento crescente como política econômica. O papel das grandes empresas de venda armas também é importante. O que é a economia política da guerra?

A economia política da guerra na era moderna é a economia política dos Estados Unidos. Os Estados Unidos privam cerca de 80 milhões dos seus cidadãos de cuidados de saúde adequados e gastam quase 60% do seu orçamento discricionário federal na preparação para a guerra. A Índia também tem uma economia de guerra. Em 2018, a Índia ficou entre os cinco países que mais gastaram no campo militar, com um orçamento militar de US $63,9 milhares de milhões, o que supera o da França. Quase metade do orçamento nacional é dedicado a gastos militares. Quando fui à Índia pela primeira vez, descobri outro mundo dentro de bases militares, habitado por pessoas saudáveis e bem nutridas, com água potável e crianças educadas. No exterior dessas bolhas magníficas, a Índia conta mais crianças subnutridas do que qualquer outro país do mundo.

Síndroma do Vietname

A Guerra do Vietname foi um dos capítulos mais sangrentos e mortíferos do pós-guerra. Começou as suas reportagens de guerra no Vietname. Esta foi a primeira guerra televisionada. A Guerra do Vietname é a história do massacre de mais de três milhões de pessoas. Poderia falar-nos do horror que viu no Vietname? Qual foi o papel dos media ocidentais no Vietname? Recentemente, captou a tentativa de reescrever a história da Guerra do Vietname em manuais escolares norte-americanos. A própria recordação do Vietname assombra o Estado mais poderoso do mundo?

Não tenho certeza de que “assombrar” seja a palavra certa. O que incomoda os apologistas americanos é que o exército de ‘nação indispensável’ foi expulso da Ásia por uma nação de camponeses, que ela sofreu uma derrota humilhante. Desde então, eles têm procurado um ‘melhor resultado’, reescrevendo o que chamaram de ’síndrome do Vietname’, um eufemismo para o embaraço prolongado causado por uma catástrofe.

A série de documentários épico de Ken Burns para a Public Broadcasting em 2017 começou com a seguinte declaração: ‘A guerra foi desencadeada de boa-fé por pessoas honestas como resultado de mal-entendidos fatais, do excesso de confiança dos norte-americanos e dos mal-entendidos da guerra fria”. A desonestidade desta declaração ignora os muitos falsos pretextos que levaram à invasão do Vietname, como o “incidente” do golfo de Tonquim em 1964. Não houve boa-fé. A fé era podre e cancerosa e mais de quatro milhões de pessoas morreram.

Vi algo do sofrimento: o facto de o comandante norte-americano, general William Westmoreland, ter tomado por alvo civis a quem chamava “baratas”. No delta do Mekong, após um bombardeamento, havia um cheiro de napalm e árvores petrificadas enfeitadas com pedaços de corpos. Também testemunhei heroísmo. Em 1975, encontrei a única sobrevivente de uma bateria antiaérea vietnamita, todas adolescentes; estava ajoelhada diante dos novos túmulos de seus camaradas.

O terrorismo é o produto dos Estados

Questionou a guerra dos EUA contra o terrorismo como um exemplo de hipocrisia e de duplicidade. Porque diz isso? Se assim for, a questão é de saber como parar o terrorismo. Até que ponto a ameaça do terrorismo é um desafio para uma vida moderna e cívica?

A grande maioria do terrorismo é o produto dos Estados. O Iémen é actualmente vítima de incessantes actos de terrorismo por parte do Estado saudita, que patrocinou outras formas de terrorismo, nomeadamente os ataques de 11 de Setembro. A “guerra contra o terrorismo” lançada em 2001pelo presidente dos EUA, George W. Bush, foi na verdade, uma guerra de terror, matando milhões de pessoas, na sua maioria muçulmanos. Estados poderosos, como os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, tornaram o terrorismo uma arma “estratégica”; o apoio ao jihadismo na Líbia e na Síria é um exemplo notável disso. A conclusão é ou deveria ser óbvia: quando os governos pararem de promover o terrorismo, os ataques sangrentos nas suas próprias cidades provavelmente acabarão.

Disse que os Estados Unidos têm ao mesmo tempo “bons terroristas” e “maus terroristas”. Quem são os bons e os maus terroristas da América?

A designação pode mudar sem aviso prévio. Actualmente, os sauditas são “bons terroristas”; na verdade, nem são chamados de terroristas. Os extremos terroristas maus - Al Qaeda - são agora bons terroristas que lutam ao lado dos Estados Unidos na sua longa guerra contra os xiitas. Historicamente, os curdos sempre foram ao mesmo tempo bons e maus terroristas; no Iraque, os curdos eram bons; na Turquia, eram maus. A designação assentava em eles estarem ou não lutando contra o mais recente inimigo dos Estados Unidos.

Nas últimas décadas do século XX, o mundo viu a região da Ásia Ocidental tornar-se o ponto quente da intervenção ocidental. Depois de 11 de Setembro de 2001, essa intervenção tomou a forma de duas guerras: a guerra no Afeganistão e a guerra no Iraque. A islamofobia atingiu novos picos no Ocidente. A teoria do choque de civilizações encontrou campeões na máquina estatal, sendo George Bush o melhor exemplo. Como situa historicamente os interesses ocidentais no Médio Oriente e a ascensão da islamofobia no Ocidente?

Recomendo o trabalho do historiador britânico Mark Curtis, cujo livro pdf Secret Affairs (5.22 MB) relata a estreita relação entre o estado britânico e o islamismo extremista. O que está claro é que organizações como Daesh e Al-Qaeda eram o produto dos governos imperiais ocidentais.

No Afeganistão, os mujahidin poderiam ter permanecido uma influência tribal se não fosse a Operação Ciclone, um plano liderado pelos Estados Unidos para transformar o Islão extremista numa força que expulsaria a União Soviética e derrubaria o estado soviético. O que o Ocidente temia no Médio Oriente era o que Gamal Abdel Nasser, no Egipto, chamava “pan-arabismo”. Temia que os povos árabes se desembaraçassem das cadeias do tribalismo e do feudalismo e controlassem e desenvolvessem os seus próprios recursos. Por esta razão, o único governo progressista no Afeganistão foi declarado “comunista” e destruído. Pela mesma razão, os palestinos são mantidos num estado de opressão interminável.

Com os Estados Unidos reconhecendo Jerusalém como capital de Israel em 9 de Dezembro de 2017, o sofrimento e o medo dos palestinos aumentaram. Como disse, eles são refugiados no seu próprio território. Descreveu a agressão contra a Palestina como a ocupação militar mais longa da história moderna. poderia dizer-nos algo mais sobre a questão palestina? Quais são os interesses estratégicos e geopolíticos dos Estados Unidos na região? Qual é o caminho para ser feita justiça aos palestinos?

Um dos principais objectivos dos Estados Unidos é manter o Oriente Médio num estado de incerteza, instável e dividido por guerras tribais. John Bolton, o conselheiro de segurança nacional dos EUA, disse-o com grande satisfação. Foi assim que os britânicos controlaram a região. O centro de concepção dessa “política” é Israel, um anacronismo imperial imposto ao Médio Oriente quando o mundo se descolonizava. Como o historiador israelita folder Ilan Pappe documenta no seu último livro , Israel foi concebido como uma prisão para seus povos autóctones, os palestinos. Toda a hipocrisia ocidental reside em Israel. Bashar al-Assad é designado como um monstro, mas Benjamin Netanyahu, um monstro supremo, goza de impunidade para controlar os palestinos e, em grande medida, o Congresso dos EUA, a Casa Branca e as Câmaras do Parlamento em Londres.

Essa impunidade manifestou-se recentemente quando Jeremy Corbyn, o líder trabalhista britânico que pode ser o próximo primeiro-ministro britânico, foi alvo de uma campanha inteiramente falsa que o difama como antissemita. Em vez de a rejeitar com desprezo, Corbyn curvou-se a ela e traiu os seus muitos anos de apoio aos direitos dos palestinos aceitando uma definição de sionismo que negava a Israel o seu verdadeiro estatuto de estado racista. No momento em que escrevo, os soldados israelitas massacram regularmente palestinos em Gaza, incluindo crianças. Desde março [2018], 77 palestinos desarmados tiveram que ser amputados, incluindo 14 crianças; 12 ficaram paralisadas por toda a vida após serem baleados nas costas. Nem um único israelita ficou ferido.

Aquilo a que chamamos globalização é, na verdade, o capitalismo neoliberal. Provavelmente expôs a primeira experiência do programa de ajustamento estrutural na Indonésia na década de 1960. Diz que não há diferença entre a implacável intervenção do capital internacional nos mercados estrangeiros hoje e os de antes, quando eram apoiados por canhoneiras. Como jornalista familiarizado com o funcionamento do Estado profundo, poderia falar-nos sobre a evolução das experiências econômicas neoliberais? Como funciona isso hoje em dia?

O neoliberalismo é uma extensão do que antes era chamado monetarismo, as duas versões exóticas ou extremas do capitalismo dominante. No Ocidente, sob a liderança de Margaret Thatcher e Ronald Reagan e seus homólogos europeus, foi declarada uma “sociedade a dois terços”. O terço superior seria enriquecido e pagaria pouco ou nenhum imposto. O terço médio seria “ambicioso”, alguns de entre eles seriam “bem-sucedidos” num mundo impiedosamente competitivo e outros ficariam irrevogavelmente endividados. O terço inferior seria abandonado ou ser-lhe-ia oferecido um empobrecimento estável em troca da sua obediência. A relação entre as pessoas e o Estado mudaria de benigna para maligna. Uma nova classe de gestores educados no espírito empresarial dos Estados Unidos, com a sua própria “cultura” e vocabulário, supervisionaria a conversão da social-democracia numa autocracia de empresa. O “debate” público, gerido por meios de comunicação totalmente integrados, seria dominado por “políticas de identidade”, todas as noções de classe banidas como “falsidades”. Falsos demônios estrangeiros (liderados pela Rússia, seguidos de perto pela China) seriam designados como “inimigos necessários”.

A unidade europeia é propaganda

A experiência da União Europeia foi saudada como um sinal de unidade dos europeus e um modelo na era pós-socialista. Mas o Brexit foi um grande golpe que atingiu essa propaganda. Qual é o seu ponto de vista sobre a UE? Como analisa o Brexit e reivindicações semelhantes?

A União Europeia é basicamente um cartel. Não há ‘livre comércio’. Existem regras de exclusividade estabelecidas e controladas pelos bancos centrais, principalmente o banco central alemão, com benefícios para os membros mais fracos, nomeadamente o movimento transfronteiriço de mão-de-obra, embora isso seja agora posto em causa. O objectivo central da UE é a proteção e o fortalecimento do poder econômico dos mais fortes. Bruxelas é uma burocracia centralizada; a democracia é mínima. A “unidade europeia” de que você fala é propaganda, promovida por aqueles que mais recebem da UE. O esmagamento da Grécia é uma lição que a maioria dos britânicos parece ter entendido.

O seu trabalho concentra-se em quem controla o destino da humanidade, de que forma nações poderosas, grandes empresas, a burguesia, lobbies poderosos fazem as leis e regras do mundo. A democracia parece ser a vítima disso. Apesar disso, temos histórias inspiradoras em todo o mundo sobre a resistência contra essas forças poderosas. É optimista, e optimista no que diz espeito a um mundo melhor?

Existem forças inspiradoras de resistência em muitos países, incluindo a Índia. Desde a minha primeira reportagem na Índia, na década de 1960, emocionou-me o desejo das pessoas comuns, especialmente dos agricultores, de defender a justiça na sua vida. A recente grande marcha [de 23 de Setembro a 2 de Outubro] de 50.000 agricultores de [Haridwar] em Uttar Pradesh, em Nova Deli, era típica. Disciplinados, políticos e engenhosos, eles têm muito a ensinar àqueles de nós que no Ocidente que imaginam que o protesto consiste em gozar com Trump ou assinar uma petição dirigida ao deputado da sua zona. Quando o governo de Deli permitiu que a polícia atacasse os fazendeiros no aniversário de Mahatma Gandhi, eles reagiram. A promessa política de saber onde seus movimentos podem conduzir talvez seja o mais notável registo revolucionário do mundo hoje. Eles representam a luta dos povos e da agricultura em todo o mundo contra os bulldozer neoliberais do ‘desenvolvimento urbano’: o roubo do espaço humano e sua conversão numa mercadoria grotesca e lucrativa. O facto de os governos indianos não terem reagido aos suicídios de mais de 300.000 agricultores é uma tragédia histórica, mas pode ser revertida a qualquer momento. De certo modo, os agricultores indianos representam-nos a todos. Como Vandana Shiva escreve, a sua difícil situação e a sua resistência constituem uma advertência: a menos que a segurança sobre a terra, a segurança sobre as sementes e a agricultura pertençam ao povo, a colonização dos campos do mundo por gente como a Monsanto é uma ameaça tão séria para a existência humana quanto as alterações climáticas. Claro que as pessoas nunca estão paradas. Eles “levantar-se-ão como um leão depois de dormir …’, como Percy Bysshe Shelley escreveu … Quando a resistência não é visível, é ainda uma ’semente sob a neve’. Nunca conheci tanta sensibilização do público como hoje, mas reina também a confusão. O “populismo” dos ocidentais, tantas vezes deturpado como reaccionário, exprima ao mesmo tempo a disposição de resistir e uma desorientação sobre como o fazer. Isso vai mudar. O que nunca muda é o medo dos poderosos do poder das pessoas comuns.

O tipo de jornalismo que pratica é realmente um desafio, e difícil. Através de seus documentários, artigos e outros trabalhos jornalísticos, questionou os Estados mais poderosos do mundo e suas fraudes democráticas. O que moldou o seu ponto de vista para se tornar uma voz dissidente no jornalismo? Quais são as suas influências e o que é que o mantém atento?

Hoje, a maioria dos jornalistas estabelecidos são estafetas do poder. Não são o “mainstream”, que é uma palavra orwelliana. Um mainstream real tolera a dissidência, não a censura. O que é que moldou o meu ponto de vista? O facto de relatar a luta das sociedades pelo mundo fora, incluindo os seus triunfos, por mínimos que sejam, continua sendo uma influência duradoura. Ou talvez essas influências tenham início cedo na vida. “Apoiamos os oprimidos”, disse-me minha mãe um dia, quando eu era pequeno. Eu gosto disso.

John Pilger

Entrevista com Jipson John e Jitheesh P.M., membros do Tricontinental: Institute for Social Research e que contribuem para várias publicações nacionais e internacionais, incluindo The Indian Express, o The Wire e o Montly Review. Podem ser contactados em jipsonjohn10@gmail.com e jitheeshpm91@gmail.com.

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Leia original aqui

Capitalismo, reconversão, e continuidade da barbárie

1- Como um grande camaleão, na viragem de 2018 para 2019 o capitalismo globalizante assume “dramaticamente” a reconversão para um novo formato geoestratégico com muitos conteúdos e contornos ainda por definir, em função da perspectiva de suas tensões internas e contradições internacionais, sem renunciar ao carácter bárbaro que lhe é intrínseco na persistência da esteira feudal que nutre sua própria essência expansionista e imperialista.
A administração republicana de Donald Trump toca a rebate em relação à hegemonia unipolar nos termos em que ela foi parida e estimulada pelo capitalismo financeiro transnacional, reflectindo decisões que ao arrepiarem no caminho global do caos, do terrorismo e da desagregação, impõem-se por via de medidas proteccionstas que mechem com a profundidade das placas tectónicas socioculturais da complexa sociedade estado-unidense, assim como em relação aos relacionamentos internacionais, num momento em que a IIIª Guerra Mundial “de baixa intensidade” se dilui num plasma de imprevisibilidade.
O presidente Trump iniciou um processo de tensas transformações, ao colocar em primeiro lugar a necessidade de se adoptarem nos Estados Unidos as práticas protecionistas agora já em curso, sem as quais e segundo a sua interpretação, estariam destinados a esvaírem-se nos desgastes implicados quer nas iniciativas do capitalismo neoliberal transnacional que foi semeado desde o final do que tem sido considerado de período da Guerra Fria, quer em função do carácter privado da Reserva Federal que desde a 1ª metade do século XX começou a corresponder às estratégias dominantes e hegemónicas da aristocracia financeira mundial.
O Presidente Donald Trump e a máquina que o apoia, não pretendem ser mais reféns desse capitalismo financeiro transnacional irresponsável perante a humanidade e também perante o próprio eleitorado estado-unidense, mas refugia-se num ciclo conservador de difícil compatibilidade com outras sensibilidades internas e externas, em especial em relação ao espaço das Américas, onde os cânones da Doutrina Monroe ressurgem envoltos nas roupagens contemporâneas de lesa-democracia.
A nível interno, o regresso a casa das capacidades e do poder financeiro das transnacionais que ocuparam o espaço da hegemonia unipolar e agora estão, forçosamente ou não, à procura de reconversão nos próprios Estados Unidos, está a activar o vulcão sociocultural e sociopolítico meio adormecido, herdado ao longo dum processo histórico expansionista e sangrento, substancialmente desde a IIª Guerra Mundial (os Estados Unidos, que se lembre sempre, foram os únicos a, até hoje, fazerem uso de armas atómicas sobre as cidades, no caso de Hiroshima e Nagasaki, no Japão).
Desde a sua origem que os Estados Unidos se vocacionaram nos processos de expansão, acabando por se tornar assim num império hegemónico unipolar, arrogante, sangrento e despótico no dobrar do século XX para o século XXI, mas agora os Estados Unidos começaram a ser obrigados ao movimento inverso, no sentido do recuo e da regressão, algo a que nunca se haviam antes habituado nos termos dos interesses da aristocracia financeira mundial, assim como das suas oligarquias e elites vassalas espalhadas pelo mundo e sobretudo pela Europa, América Latina e África...
2- O Partido Republicano apresenta tensões internas resultantes dessa deriva “contra natura”, mas as contradições sociopolíticas principais (entre a corrente que se propõe ao proteccionismo e os vícios do capitalismo neoliberal globalizante) resultam da confrontação com o criminoso papel servil que os Democratas desempenharam (e em muitos aspectos continuam a desempenhar) ao serviço do capitalismo financeiro transnacional, ele próprio corresponsável pelo contraditório crescimento meteórico da emergência chinesa, (tida agora como estando a trilhar já o caminho destinado à primeira potência económica global), como corresponsável pela tendência em direcção à exaustão financeira do papel-moeda correspondente ao petrodólar, esgotado nos labirintos de caos, de terrorismo e de desagregação semeados a partir dos enlaces derivados com e a partir do 11 de Setembro de 2001, enlaces que tiveram antecedente na formulação do Tratado de Quincy a 14 de Fevereiro de 1945, no imediato seguimento do encontro entre os aliados vencedores da IIª Guerra Mundial, em Ialta.
Há analistas que alertam para o risco duma convulsão interna nos Estados Unidos e em termos de relacionamentos internacionais, os sinais vão evidenciando a insustentabilidade da manutenção das geoestratégias erráticas das transnacionais da hegemonia unipolar no imenso continente euroasiático, apesar das crispações em torno da Rússia e da China, assim como nos oceanos e mares que lhes são próximos.
Nos subterrâneos dos relacionamentos, há cada vez mais países que vão abandonando o petrodólar nos seus negócios bilaterais e até multilaterais, deixando com isso de alimentar o monstro, apesar das sanções a que se sujeitam.
Esses países adoptaram o crescimento de suas reservas indexadas ao padrão ouro, que lhes permite também a, em função de suas riquezas naturais, criar cripto-moedas a fim de melhor salvaguardar a precária independência e soberania (como o caso da Venezuela socialista e Bolivariana).  
Abandonando o Tratado Trans Pacífico, saindo militarmente da Síria, ou reduzindo o seu contingente militar no Afeganistão, os Estados Unidos pela voz do Presidente Donald Trump renunciam em ser “os polícias do mundo”, apesar de ainda manterem mais de 800 bases espalhadas pelo planeta, apesar de suas naves de guerra sulcarem todos os oceanos e mares, apesar das ameaças ao Irão, ou à Venezuela Socialista e Bolivariana, apesar de continuarem a ser o maior vendedor de armas à escala global.
As capacidades geoestratégicas dos Estados Unidos na Eurásia estão todavia obsoletas e impotentes, face à pujança por um lado do “Belt and Road” da iniciativa chinesa, ligando Vladivostock a Londres, por outro face ao surgimento das armas hipersónicas russas e da panóplia de meios militares aparentemente vetustos, a que se adaptaram as mais avançadas tecnologias militares que se possam imaginar, do lado da Rússia e, pouco a pouco, também da China.
A Rússia ludibriou a capacidade de inteligência dos Estados Unidos e dos seus vassalos, ao reutilizar equipamentos navais, aéreos e terrestres da segunda metade do seculos XX, transformados em armas de vanguarda com as novas tecnologias desenvolvidas pelos engenheiros de suas Academias forjadas a partir do imenso mérito soviético.
Com inteligência e um “know how” incomparável, a Rússia é desde logo eficiente nas economias que faz ao vocacionar-se para o reaproveitamento de armas com aparência de obsoletas, mas que agora garantem uma superioridade geoestratégica abissal.
O presidente Putin, apesar de jogar em tantos tabuleiros à volta das imensas fronteiras terrestres e marítimas da Rússia, com mestria e subtileza diplomática responde com nervos de aço e contenção, tirando partido da superioridade tão dificilmente alcançada desde os tempos de traição, desde Gorbatchov e Ieltsin.
Na Síria não houve apenas uma vitória, houve a afirmação de sua capacidade dissuasora, sempre acima da fasquia que as potências retrógradas foram apresentando “no terreno”, por mais manipulados e contraditórios que se apresentassem os seus “jogos”, mantendo sempre aberta a janela no caminho da paz.
Na Síria houve também a previsão do assalto ao Mar Negro, cuja batalha se desenvolve à volta da tensão ucraniana tornada neofascista e neonazi após o “colorido” golpe de estado da praça Maidan.
Os vassalos dos Estados Unidos com rótulo de aliados na NATO, estão confundidos apesar dos tambores de guerra na Ucrânia, mais confundidos ainda quando uma das maiores forças armadas europeias componentes, a da Turquia,“dança com os ursos”, eternos alvos de sua propaganda irresponsável e agora apanhada em contra pé!
3- Até onde irá a retracção dos Estados Unidos, quando agora as suas esquadras navais se tornaram ridículas latas à mercê das enormes vantagens geoestratégicas russas, quando o carnaval de suas iniciativas sangrentas, motivadas pelas mais insaciáveis transnacionais, é posto a nu com a acumulação de derrotas, quando seu poder financeiro com base no petrodólar fica impotente e inútil, quando as bolsas começam a tremer esbatendo-se na orgia dos seus esgotados horizontes?
Até que ponto o investimento anunciado às pressas no sentido de se criarem armas hipersónicas, vai colmatar o deficit geoestratégico face à Rússia nos próximos dez anos?
Julgam que nos próximos dez anos a Rússia que demonstrou tanta clarividência e pujança em relação ao seu armamento, vai ficar estática, à espera que os Estados Unidos se recomponham?
Alguns candidatam-se ainda a serem artífices de “bons ofícios” na miragem do império anglo-saxónico, como a Grã-Bretanha que quer aumentar o número de suas bases “além-mar” a começar nas Caraíbas, juntando-se aos arsenais da ocasião que procuram cercar a Venezuela, Cuba e a Nicarágua.
Com a eclosão do exercício do novo presidente Obrador no México, que contramedidas se poderão equacionar bem na fronteira sul dos Estados Unidos?
Em época de retracção os Estados Unidos pretendem veladamente que outros preencham papeis que antes a si se reservava, o que aumenta a imprevisibilidade, os riscos e os movimentos erráticos também propiciados pelo disseminado arsenal “informal” de novas tecnologias.
O complexo enredo da guerra psicológica confunde-se com o emprego de operações que vão desde as de falsa bandeira com emprego de armas químicas, ou de drones, aos assassinatos selectivos, provocando caos, terrorismo e desagregação, aumentando a vulnerabilidade dos estados mais subdesenvolvidos da Terra.
O mundo bárbaro distende-se evocando ainda a “civilização judaico-cristã ocidental” ancorada nos fundamentalismos cristãos de ordem feudal, conforme às últimas eleições no Brasil, ou em nacionalismos rampantes tisnados de neofascismo e neonazismo, como na Ucrânia.
Entre os islâmicos, a Arábia Saudita atiça a espiral fundamentalista sunita-wahabita dos irmãos muçulmanos, conjugando veladamente esforços nesse sentido com os falcões de Israel.
África tem sido uma das diletas vítimas dessa espiral, que aproveita os enredos contraditórios da dialética entre as populações dos maiores desertos quentes do globo e as das ricas regiões tropicais, para melhor disseminar caos, terrorismo e desagregação, abrindo espaço ao neocolonialismo.
Chegou o ano de 2019 e muitas surpresas estão por surgir a curto e médio prazos, com uma NATO obsoleta, confundida e minada pelos nacionalismos alienados da Europa, com um comando cada vez mais ciente que a hegemonia unipolar está em estado malparado, em vias duma doença crónica irreversível.
Um mundo multipolar se vai desenhando a partir das convulsões que compõem a IIIª Guerra Mundial não declarada mas evidente, abrindo-se o caminho em terrenos quantas vezes fumegantes às integrações e articulações ainda que sem vislumbre consolidado duma paz duradoura, sem vislumbre da afirmação peremptória de civilização que a humanidade e o planeta tanto precisam!
O pré-aviso sobre uma hecatombe nuclear nunca foi tão sério como agora, no âmbito dessa IIIª Guerra Mundial que fermenta em relativamente “baixa intensidade” e em distendida “geometria variável” multiplicando os escombros, o vazio e as migrações forçadas… até quando?
Martinho Júnior - Luanda, 1 de Janeiro de 2019.
Imagens – três quadros de salvador Dali:
Metamorfose de Narciso;
O grande masturbador;
A face da guerra.
 
 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2019/01/capitalismo-reconversao-e-continuidade.html

Análise: como Ocidente destruiu relações com Rússia

Interceptor de mísseis lançado do cruzador USS Lake Erie da Marinha dos EUA perto do Havaí
© AFP 2018 / Marinha dos EUA

As ações dos EUA e seus aliados levaram a uma crise nas relações entre o Ocidente e a Rússia, mas Moscou apenas está respondendo à agressão contra si, escreveu na revista The American Conservative o especialista em política de segurança Ted Carpenter.

"Quando os historiadores estudam as primeiras décadas da assim chamada era depois da Guerra Fria, eles, provavelmente, olham surpreendidos para a política absurda e provocadora dos EUA e seus aliados da OTAN em relação à Rússia", escreveu o autor do artigo.

As numerosas ações mal pensadas do Ocidente levaram ao início da nova Guerra Fria, com tendências nos últimos tempos para virar uma guerra "quente", assinala.

Neste momento existe a possibilidade de evitar tal desenvolvimento dos acontecimentos, no entanto, o comportamento das elites norte-americanas depois do recente "incidente insignificante" no estreito de Kerch indica que não foram tiradas as conclusões necessárias dos seus erros. Ao contrário, parece que os americanos são prestes a reforçar a sua política dura contra Moscou, opina o especialista.


Imprevisibilidade da trajetória de voo do novo sistema Avangard, deve-se à sua alta capacidade de manobrar e neutralizar todos os sistemas de defesa antiaérea
© Sputnik / Ministério da Defesa da Federação da Rússia

A política de três administrações dos EUA em relação à Rússia foi imprevidente, segundo Carpenter. Os países da OTAN "organizaram uma série de provocações", apesar de Moscou não conduzir uma política agressiva que pudesse explicar tais passos do Ocidente, afirma o autor.

Além disso, o desejo de desafiar a Rússia tem apenas aumentado, o que é confirmado pela tensão de hoje relacionada ao incidente no estreito de Kerch, segundo Carpenter. "Neste caso, o Ocidente é retratado erroneamente como um jogador passivo, apenas reagindo às circunstâncias, como se as iniciativas da OTAN nunca tivessem sido provocadoras, pouco pensadas ou agressivas", afirma ele.

Porém, na realidade é mais justo dizer que são as ações de Moscou que representam uma resposta às iniciativas agressivas do Ocidente, ressalta.

De acordo com Carpenter, também é errado falar que a responsabilidade pelo agravamento das relações entre o Ocidente e o Leste é da Rússia por causa dos acontecimentos na Geórgia em 2008 e na Ucrânia em 2014, como dizem os norte-americanos. Os problemas começaram antes — o alargamento da OTAN e a indiferença perante os interesses russos nos Bálcãs deterioraram as relações amistosas, disse ele.

Os países da OTAN tratam Moscou como inimigo, e agora surge um perigo sério de que a Rússia possa se tornar mesmo um inimigo, conclui Carpenter.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/mundo/2018123013017660-analise-ocidente-relacoes-russia-destruir/

Nove hipóteses sobre a (não) saída do Exército dos EUA da Síria

Nazanín ArmanianO anúncio feito por Trump de que os EUA iriam retirar todas as suas tropas da Síria vale o que vale. A estratégia dos EUA na região é de aumentar a ingerência e a ocupação militar, não de a reduzir. Este artigo coloca várias interessantes hipóteses de interpretação.


 

“Uma vez que derrotamos o ISIS na Síria, as tropas voltarão para casa”. Algo como isto disse o presidente Trump em 19 de Dezembro, provocando um terremoto político. Os neocons acusam-no de cometer um erro colossal que pode levar a outro 11-S, de entregar a Síria ao Irão e à Rússia ou de traição dos aliados curdos.

Obviamente, os EUA não derrotaram o ISIS, porque:

1) O “Jihadismo” é uma criatura do Pentágono[1], Israel e Reino Unido, como foi confirmado pelo ex-funcionário da NSA Edward Snowden ou pelo The New York Times (24 de Março de 2013), que revelou que a CIA havia enviado toneladas de equipamento militar para os rebeldes via países árabes e Turquia;

2) A luta contra o ISIS é travada pela Rússia, o exército sírio, as milícias do Irão e os curdos, não pelos EUA;

3) Pelo menos 2,5 milhões de sírios são ainda reféns dos terroristas em diferentes regiões do país;

4) Milhares de “jihadistas”, depois de cumprir sua missão (que foi demolir o Estado sírio) foram transferidos pela CIA para Arco de Crises na Ásia Central[2] e Oriental para continuar actuando como paramilitares NATO nos países estratégicos. É por isso que Israel já deixou de os armar na Síria[3].

Algumas hipóteses

Como os EUA nunca retiraram voluntariamente as suas tropas de nenhum país, aqui se adiantam algumas ideias possíveis:

A) Que se trata uma notícia falsa. A “missão cumprida” de Trump na Síria soa à de George W. Bush em 2003, quando anunciou a destruição total do Iraque imperialista e derrubou o seu presidente legítimo Saddam Hussein: 15 anos depois as tropas ainda estão lá. Obama também se gabou em 2011 de matar o demônio Bin Laden (melhor dizendo, o seu fantasma) declarando o fim do Mal, embora em 2014 tenha ressuscitado o terrorismo na Síria, para justificar outra agressão militar contra outro país estratégico. Se é verdade que Trump repatria os seus soldados uma vez “cumprida a missão”, o que fazem eles no Japão ou na Alemanha 74 anos após o fim da Primeira Guerra Mundial? Por que não desmantela as cerca de 800 bases militares semeadas pelo planeta? Em 5 de Outubro do ano passado, John Bolton, o (ainda) conselheiro de Segurança Donald Trump dizia que a ameaça terrorista na Síria é “mais complexa do que nunca” e que os EUA vão permanecer ali indefinidamente. Quem mente e por quê? Os EUA já possuem umas de 20 bases e instalações militares na Síria. É ingênuo pensar que irão perder de boa-vontade essa conquista na Eurásia. Diz o Fact Checker’s database, um detector de mentiras dos discursos de Trump, que até Novembro de 2018 o presidente havia dito 7.546 mentiras.

B) Que se trate de uma suspensão temporária, enquanto durar a ofensiva turca na cidade árabe de Manbich na Síria para “libertar” os curdos. Trump, que ordenou a saída da Síria para todos os funcionários do Departamento de Estado no prazo de 24 horas, apoia o ataque enquanto salva os seus soldados de serem apanhados no fogo cruzado (e também uma possível retaliação do Irão se Israel cumpre as suas ameaças e ataca o Líbano). Assim, Trump acaba com a autonomia curda e crise “desnecessário” que o Pentágono provocou com a Turquia utilizando os curdos e, de caminho, lança uma armadilha ao exército sírio, confrontando-o com os turcos para defender a sua terra. Era este o preço que Erdogan tinha colocado sobre a cabeça do príncipe Mohammed Bin Salman (o autor nada intelectual do crime sobre Khashoggi) exigindo também o levantamento das sanções contra o Catar e a expulsão do teólogo opositor Fethullah Gulen, residente nos EUA. Em troca, Erdogan renovaria os seus compromissos com a NATO, pagaria os 3.500 milhões de dólares pelo o sistema de defesa da Patrio, e outros milhões mais pelos F35, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos - que, de acordo com o jornal turco Yenisafak tinham enviado tropas para a região curda da Síria -, deixará de apoiar Rojava e congelará os milhões que ia destinar-lhes. O anúncio do cessar-fogo no Iémen é outra das medidas de Washington para lavar a cara dos sauditas.

C) Uma medida eleitoralista, precisamente antes do Natal, como prenda às famílias dos militares que fazem parte da sua base social e um gesto com impacto depois de perder as eleições parlamentares de Novembro. Integra-se nesta linha o destinar de milhares de milhões de dólares para um absurdo e cruel muro na fronteira com o México.

D) Uma tática de desvio de atenções. Trump enfrenta um ano judicial muito complicado, com várias investigações sobre o Caso Mueller, a Fundação Trump e “Russiagate”. Não é de descartar, por outro lado, que com o mesmo objetivo, recorra a uma guerra como cortina de fumo.

E) Deslocar os projectores para o Irão:
• Após duas décadas de ausência, os EUA voltam a enviar o porta-aviões nuclear John C. Stennis para o Golfo Pérsico, enquanto reforçam a sua presença na base militar que possuem na cidade curda iraquiana de Erbil, na fronteira com o Irão. Por outro lado, é possível que Trump, ao excluir oito países das sanções que impôs sobre o petróleo iraniano, tenha querido demonstrar que o embargo não tem sido eficaz para deter o “terrorismo iraniano” e tenha querido puni-lo militarmente, embora de momento prefira apertar o torniquete económico em torno do pescoço dos iranianos para sejam eles a acabar com a República Islâmica.
• Trump demitiu o secretário da Defesa, o general Mattis, o último defensor do acordo nuclear com o Irão e de relações cordiais com a China, que se opusera a que qualquer primeira viagem ao exterior do presidente fosse à Arábia e a Israel.
• A nomeação de Yossi Cohen como novo diretor de Mossad: ele é um fanático anti-iraniano, perito em operações secretas no exterior.

F) Privatizar as guerras: Outro dos motivos da “renúncia” de Mattis foi a sua insatisfação com Trump por delegar as “missões” militares do Pentágono a empresas privadas, que mancham a imagem dos EUA e procuram apenas maximizar os lucros privados. O Constellis Group (ex-Blackwater) que foi acusado de torturas no Iraque, celebra a sua queda: deste modo 8000 “contratados” substituiriam cerca de 23.000 soldados da NATO no Afeganistão, por exemplo. Além disso, a formação de cerca de 40.000 homens curdo-árabes das Forças Democráticas Sírias (FDS) pelo Pentágono, ou o projeto “NATO árabe” vai no mesmo sentido: os EUA dirigirão as operações militares usando as suas armas avançadas e os seus conselheiros e o dinheiro e a carne para canhão serão colocados por outros.

G) Entregar a direção da guerra síria à NATO: Turquia e França retirarão uma carga de cima dos Estados Unidos, e ao permanecerem atolados neste conflito deixarão de ser contestatários face a Trump. Além disso, assim os EUA repartirão com os aliados o ódio sentido pelos povos da região contra o país que só nas últimas duas décadas destruiu a vida de quase 100 milhões de pessoas.

H) Fazer de Madman, provocando caos e nervosismo na Síria para que o exército dos EUA venha a ser convidado a ocupar “legalmente” o país, a mesma tática usada por Obama em 2009 retirando parte das suas tropas ilegais do Iraque para em seguida enviar mais 3.000 soldados a pedido do primeiro-ministro Nuri al Maliki. Assim, além de agradecer, pagam a manutenção dos ocupantes. Trump mostra deste modo o seu descontentamento para com Israel por ter contratado duas empresas chinesas que administrarão os portos de Haifa e Ashdod (como parte da Nova Rota da Seda), em vez de acolher a Marinha dos EUA.

I) Que a Arábia Saudita e o Qatar, afetados pela queda dos preços do petróleo, não podem continuar a financiar as tropas na Síria, que não tenham cumpriram o “encargo” de acabar com Assad e expulsar o Irão.

***

A guerra contra o terrorismo é uma patranha a que o complexo industrial-militar não vai renunciar. A ameaça contra os EUA e seus aliados é zero, enquanto o imperialismo precisa de recursos naturais e mais mercados: a batalha pelos últimos barris de petróleo está apenas a começar. Como a decisão de Trump é mais pessoal do que uma nova estratégia dos EUA, ela pode ser corrigida, matizada ou revogada.

Nazanín Armanian 

 

Fonte: https://blogs.publico.es/puntoyseguido/5376/nueve-hipotesis-sobre-la-no-salida-del-ejercito-de-eeuu-de-siria/

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References

  1. ^ “Jihadismo” é uma criatura do Pentágono (blogs.publico.es)
  2. ^ Arco de Crises na Ásia Central (blogs.publico.es)
  3. ^ Israel já deixou de os armar na Síria (blogs.publico.es)
  4. ^ endereço (www.odiario.info)
  5. ^ odiario.info (odiario.info)

Leia original aqui

O Gás Que Muda o Jogo no Mediterrâneo Oriental

Geopolítica da Energia. Um trabalho de análise geopolítica do Prof. Giuseppe Gagliano.

Visto de Itália: Um trabalho de análise geopolítica do nosso amigo Prof. Giuseppe Gagliano, presidente do Centro Studi Strategici Carlo de Cristoforis e líder da escola italiana de inteligência económica, sobre as consequências geopolíticas e geoeconómicas da “irrupção” do gás no Mediterrâneo Oriental.

Si gioca sul gas la partita del Mediterraneo orientale

Giuseppe Gagliano | 22 dicembre 2018

Roma, 22 dic – In Europa, le questioni legate al gas sono particolarmente esasperate a causa della volontà di dipendere meno dalle risorse del gas russo. In effetti, l’emergere di nuovi esportatori di gas con cui negoziare, rappresenta una grande opportunità per diversi attori, in particolare gli stati o le compagnie petrolifere.

Mapa – Geopolítica do Gás no Mediterrâneo Oriental

La scoperta di nuovi giacimenti di gas in Israele, aggiunta al potenziale energetico dell’Egitto e alle ambizioni turche, suggerisce che il Mediterraneo sia ora un grande teatro per il gioco energetico. Sebbene i depositi del nostro bacino naturale siano lontani dal rappresentare la maggior parte delle risorse di gas del mondo, la loro ubicazione solleva questioni geopolitiche di rilievo. Possiamo vedere che il gas, una fonte di energia e opportunità, è diventato una nuova fonte di tensione. Molto probabilmente si giocherà il dominio dell’energia tra Israele ed Egitto, aprendo una nuova fase di sviluppo nella regione ma determinando anche nuove rivalità e lotte di potere. I nuovi giacimenti di gas scoperti in Israele stanno infatti contrastando l’apparente dominio energetico del Cairo, che aveva cominciato a emergere. Ancora più sorprendente, anche se l’Egitto era un importante produttore di gas, un contratto presentato come “storico” è stato firmato tra l’Egitto e Israele, con il secondoche ora si posiziona come nuovo fornitore dei primi. Quest’ultimo ha visto diminuire il proprio potenziale di leader a causa dell’aumento del fabbisogno energetico legato a una crescita demografica significativa e all’esplosione del consumo di energia. È quindi paradossale notare che i due attori che si contenderanno in futuro per il dominio del mercato del gas sono, per il momento, in una fase di cooperazione.

Tuttavia, questo accordo sembra essere la bozza di strategie specifiche per entrambi i paesi. Da un lato, le buone relazioni con Israele e il contratto siglato, potrebbe consentire all’Egitto sia di incrementare la propria politica commerciale sia di risparmiare tempo per sviluppare il proprio mercato del gas in seguito alla scoperta del deposito Zohr nel 2015. Con questa importante nuova fonte di gas, l’Egitto prima o poi troverà il percorso dell’indipendenza energetica.

Dall’altra parte, Israele deve fare i conti con l’assenza, sul suo territorio, di infrastrutture adatte. Le risorse di gas implicano infatti installazioni specifiche e costose. La domanda interna, non importa quanto sia forte, non può essere sufficiente per finanziare questi investimenti: la sfida è quella di trovare nuovo sbocchi. Per Israele, un accordo con l’Egitto è l’occasione per ottenere risultati tangibili, generare una significativa domanda estera e quindi ravvivare la speranza di dominare il mercato prima che l’Egitto riprenda il sopravvento.

È utile ricordare che in precedenza esisteva un contratto tra Israele ed Egitto, quando l’Egitto era indipendente in termini energetici e si posizionava come un potente esportatore di gas. Tuttavia, questo contratto non aveva resistito alle tensioni tra i due stati: le loro relazioni erano state indebolite dal rovesciamento dei Rais, nonché dalle operazioni di sabotaggio del gasdotto. Anche l’Egitto considerava questo contratto troppo vantaggioso per Israele.

La questione principale è stabilire insomma se Israele e l’Egitto possono andare oltre le loro differenze storiche e le loro rivalità. Piuttosto che un vero disgelo nei rapporti tra i due paesi, sembra più appropriato parlare di strategie di sviluppo individuali per la leadership energetica nel Mediterraneo. Questo elemento è tanto più vero in quanto le principali differenze di percezione tra Israele ed Egitto sembrano preesistere. Se Israele parla di un contratto storico e sembra intimamente convinto che questa alleanza sarà la chiave del successo, l’Egitto è più misurato e cauto riguardo all’accordo. Quest’ultimo potrebbe benissimo essere rotto, non essendo considerato ufficiale. Tutto dipenderà dai benefici che sarà in grado di portare. Pertanto, questi diversi punti di vista, simboli di divergenze di lunga data tra i due attori, costituiscono una potenziale fonte di ulteriore tensione e sottolineano la natura destabilizzante delle risorse energetiche, o almeno la loro gestione.

Il problema delle partnership con gli stati oltre il Mediterraneo sta anche facendo rivivere le tensioni. Allo stato attuale, tutto sembra indicare che l’Europa favorirà l’Egitto per le sue importazioni: una relazione del Parlamento europeo nel 2017 (elaborata dalla Direzione generale per le politiche estere) afferma che “l’Egitto sembra detenere la chiave per il futuro del gas nel Mediterraneo orientale”.

Oltre alle infrastrutture che lo rendono più competitivo, l’Egitto sembra concentrare più risorse di Israele, soprattutto in termini di confini. L’Egitto ha fissato le frontiere, dove Israele non è ancora d’accordo con il Libano sui suoi confini terrestri e marittimi. Sembra quindi molto più facile negoziare con l’Egitto. Tuttavia, l’Europa ha deciso di concludere accordi separati con l’Egitto e Israele: mentre questa strategia può servire gli interessi europei, costituisce tuttavia un nuovo elemento di disturbo nelle relazioni tra i due stati mantenendo una concorrenza fra di loro.

Tutti questi nuovi elementi portano alla conclusione che non è sempre vero pensare che lo sviluppo economico di una regione consentirà di regolare le tensioni geopolitiche. La prova consiste proprio nell’osservare che il successo del gas di alcuni paesi sta creando ancora più tensioni e rivalità. Le questioni legate al gas nel Mediterraneo non riguardano solo Israele e l’Egitto, ma sono anche collegate ad altri attori regionali o internazionali. In primo luogo, la questione del dominio dell’energia non sarà risolta senza l’irruzione della Turchia nelle strategie locali. Erdogan desidera da tempo trasformare la Turchia in un centro energetico, un’ambizione che compete con le aspirazioni dell’Egitto. La Turchia ha già dimostrato di poter agire per impedire lo sviluppo di altri stati della zona che potrebbero costituire una potenziale minaccia per la sua leadership (come ha dimostrato con Cipro). È quindi possibile pensare che la Turchia non permetterà a Israele di diventare uno dei principali attori del gas nella regione, il che non può che rafforzare le tensioni.

Oltre la Turchia, non dobbiamo dimenticare il ruolo svolto dai maggiori gruppi petroliferi nella regione: l’Eni ha scoperto i grandi giacimenti egiziani, il contratto tra Israele ed Egitto è stato firmato dalla compagnia egiziana Dolphinus e da un consorzio israelo-americano (Delek e Noble Energy). Ciò che questi esempi dimostrano è che gruppi come l’Eni hanno compreso le questioni in gioco nel Mediterraneo, che saranno decisive per il futuro energetico della regione e del mondo. A questa influenza delle grandi aziende, si può aggiungere anche la presenza, sempre in filigrana, degli Stati Uniti, che non intende rimanere passiva nella regione allo scopo di ostacolare le ambizioni russe o cinesi che hanno legami sempre più stretti con Ankara. In ogni caso, la sfida per Israele, l’Egitto e altri attori regionali sarà quella di essere i più competitivi possibili al fine di continuare ad attirare l’interesse degli attori chiave dell’energia per la regione. Ciò che è importante sottolineareè che anche la lotta per il dominio dell’energia nel Mediterraneo è destinata ad aumentare ulteriormente la volatilità geopolitica della regione.

Giuseppe Gagliano

Si gioca sul gas la partita del Mediterraneo orientale


Exclusivo Tornado / IntelNomics


Quando os elefantes lutam

(Alexandre Abreu, in Expresso Diário, 20/12/2018) 

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Os economistas e especialistas em relações internacionais dividem-se quanto à questão de até que ponto é que a hegemonia norte-americana se encontra em declínio. Seguramente, os Estados Unidos da América continuam a ser a maior economia mundial em termos absolutos, controlam a infraestrutura do sistema financeiro internacional, emitem a moeda-base do sistema global, exercem uma enorme influência cultural sobre o resto do planeta e possuem um poderio militar sem rival. Além do mais, a economia norte-americana encontra-se neste momento a viver um dos mais longos períodos de expansão da sua História e a taxa de desemprego encontra-se no nível mais baixo dos últimos cinquenta anos.

Porém, o conceito de hegemonia é necessariamente relacional. A questão não é se os EUA se encontram num processo de declínio absoluto, mas se o seu poder relativo tem vindo a ser erodido ao ponto de podermos desde já antecipar uma transição hegemónica. E para isso é inevitável que olhemos para a China e para o fulgurante crescimento da sua economia e da sua influência externa.

A China tem vindo a crescer economicamente ao ponto de ir em breve ultrapassar em termos absolutos a dimensão da economia norte-americana, tem construído gradualmente um conjunto de estruturas institucionais de apoio a essa expansão (dos BRICS ao Fórum de Cooperação China-África e do Banco Asiático de Investimento em Infraestruturas à Iniciativa “Uma Faixa, uma Rota”) e tem adoptado uma política muito forte de empréstimos externos e aquisição de activos por todo o mundo, incluindo em países do Sul da Europa como Portugal. Não há dúvida que o seu poder global é crescente e, nalgumas regiões como África ou o Sudeste Asiático, rivaliza claramente com a influência norte-americana. A abertura em 2017 da primeira base militar chinesa no estrangeiro no Djibouti, junto à entrada do Mar Vermelho, constituiu um momento particularmente significativo.

Xi Jinping tem asseverado – ainda há poucos dias o fez novamente, num discurso pelos quarenta anos do início das reformas de Deng Xiaoping – que a China não pretende disputar a hegemonia global. No contexto da actual rejeição do multilateralismo por parte da liderança norte-americana, tem até assumido o papel de defensora de uma ordem internacional multilateral e baseada em regras, o que não deixa de denotar uma brilhante capacidade de aproveitamento da oportunidade para aumentar o seu próprio “soft power”.

Porém, independentemente das intenções de uns e outros serem mais ou menos pacíficas, a expansão global da influência chinesa implica materialmente uma probabilidade cada vez maior de ocorrência de confrontos entre interesses chineses e norte-americanos em diferentes pontos do globo. De forma para já relativamente circunscrita e por “procuração” através de agentes locais (como no Sudão ou no Mar do Sul da China), estas colisões de interesses estão já a ocorrer e vão tender a intensificar-se à medida que a China continuar a alargar a sua influência.

Para a maioria dos teóricos das transições hegemónicas, os períodos de declínio de uma potência hegemónica e de afirmação crescente de uma ou mais potências rivais são tendencialmente períodos de instabilidade e conflitualidade acrescidas no sistema internacional. A natureza inter-imperialista dos confrontos de interesses entre a anterior potência hegemónica (a Grã-Bretanha) e as potências emergentes à época (EUA, Alemanha e Japão) é certamente uma parte importante da explicação para o período de turbulência global e conflito generalizado entre 1914 e 1945.

A forma como terá lugar a erosão da hegemonia norte-americana e a ascensão da China será uma das grandes questões para a paz e para o futuro da humanidade neste Século XXI. Como afirma o provérbio africano, quando os elefantes lutam a erva sofre.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

ATRACÇÃO GEOESTRATÉGICA

 

A prioridade na atenção conferida pela Rússia à Turquia, é uma força de atracção geoestratégica que concorrerá para fortalecer os programas em curso inseridos na nova Rota da Seda e contribuirá para a decadência dos Estados Unidos e da NATO no Médio Oriente e na Ásia Central, influindo na evolução da situação no miolo continental euro-asiático.
1- Depois das últimas reuniões, a tripartida entre a Rússia, a Turquia e o Irão (cimeira de Teherão de 9 de Setembro de 2018) e a bilateral entre a Rússia e a Turquia (cimeira de Sochi, a 17 de Setembro de 2018), dando sequência à Convenção sobre o Mar Cáspio, assinada na cidade cazaque de Aktau a 12 de Agosto de 2018 pela Rússia, o Irão, o Azerbeijão, o Turcomenistão e o Cazaquistão, continuam a ser dados passos que reforçam a geoestratégia impulsionadora da construção da nova Rota da Seda que se distende do Pacífico ao Atlântico e tem como pontos muito sensíveis as dinâmicas inscritas na Ásia Central e no Médio Oriente.
Em Sochi, na Rússia, conforme divulga a Rede Voltaire de 18 de Setembro corrente no artigo “A batalha de Idlib é adiada”(http://www.voltairenet.org/article203026.html), “Vladimir Putin e Recep Tayyip Erdoğan assinaram, antes de tudo, acordos de cooperação económica a respeito da construção do gasoduto Turkish Stream e da central nuclear civil de Akkuyu, acordos particularmente bem-aceites por Ankara, cuja economia acaba de desmoronar brutalmente” face às fustigadoras medidas do aliado Estados Unidos sob a orientação da administração de Donald Trump.
Essa iniciativa contribui para o fortalecimento e sustentabilidade dos planos da nova Rota da Seda, tal como a Convenção sobre o Mar Cáspio, em duas regiões críticas para a sua construção, no Médio Oriente e na Ásia Central, o que significa que a manobra da atracção turca, ao se tornar prioritária e de primeira grandeza, neste momento subordina tudo o demais, inclusive o contencioso de Idlib na Síria e quaisquer outras abordagens sobre a Síria, atirando a coligação sob a égide dos Estados Unidos para um mero sinal periférico, desvalorizado e decadente.
A geoestratégia inscrita na nova Rota da Seda está já a esbater e a atirar para um segundo plano toda a confrontação militar no terreno, inclusive em relação às acções de Israel, do Reino Unido, da França e dos Estados Unidos, dentro ou fora da coligação com os árabes. sunitas e wahabitas.

O próprio “timing” da reunião bilateral de Sochi é disso esclarecedor: só depois da assinatura das iniciativas económicas geoestratégicas que socorrem a Turquia face às emergências impostas pelos Estados Unidos, se passou à discussão relativa às questões militares operacionais correntes sobre a Síria e Idlib:
“Será estabelecida, em 5 de Outubro, uma linha de demarcação entre a zona jihadista e o resto da Síria. Esta zona desmilitarizada estará sob a responsabilidade conjunta da Rússia e da Turquia. As tropas turcas deveriam recuar alguns quilómetros dentro da actual zona, de modo a deixar os sírios libertar a autoestrada que liga Damasco a Alepo.
Assim, a Rússia afasta a Turquia dos ocidentais, evita colocar o seu aliado sírio em perigo e continua a libertação de seu território sem ter de envolver-se em combates”…

2- O derrube do avião de reconhecimento IL-20, cujo carácter operacional se inscreve numa provocadora manobra de guerra psicológica por parte dos falcões israelitas, franceses e seus pares, eles próprios também periféricos que procuram obstruir a construção da nova Rota da Seda, é colocada pelo Presidente Putin, um notável estratega, precisamente no seu lugar, malgrado a radiografia contundente do Ministério da Defesa da Rússia sobre o incidente.
A geostratégia para a construção da nova Rota da Seda exige que em paz as portas se mantenham sempre abertas para a integração de novos participantes nela, em função do seu notável poder de atracção enquanto espinha-dorsal para a economia euro-asiática do século XXI e, se a Turquia está neste momento na primeira linha das opções da manobra de atracção, Israel tem em aberto essa oportunidade, algo que em nome da paz geoestratégica vai confundir, mas também inibir, o carácter de suas intervenções militares e dos seus aliados.
Nesse sentido a provocação que levou ao derrube do avião de reconhecimento russo IL-20 e à morte de seus 15 ocupantes militares, teve da parte do estratega Putin a interpretação adequada, ainda que medidas de retaliação persuasivas e inibidoras desse tipo de provocações estejam necessariamente a ser tomadas.

A constante busca por um ambiente de paz que será sempre necessária para levar por diante a geoestratégia da construção da nova Rota da Seda, continua a ter ainda um preço elevado na Síria, mas as provocações, sendo um sinal de desespero, demonstram quanto os “estrategas” ocidentais e seus aliados, entre eles os falcões de Israel, não passam de rasantes pardais, face à visão de águia do Presidente Putin e daqueles que estão empenhados no universo mutipolar emergente.
A visão geoestratégica com largos horizontes civilizacionais ávidos de futuro, não se perturba com provocações que são elas próprias um desespero que remete para a barbárie do passado!
Haverá melhor forma de convencer a Turquia, na ânsia resoluta da construção dum universo multipolar, sobre a necessidade de ruptura com a NATO e seu contraditoriamente insustentável absurdo hegemónico e unipolar?
Martinho Júnior - Luanda, 24 de Setembro de 2018
Ilustrações:
Linhas de orientação geoestratégica da nova Rota da Seda;
Cimeira de Teherão a 9 de Setembro de 2018:
A Síria retalhada;
Mapa da região de Idlib;
Derrube do avião de reconhecimento russo IL-20 a17 de Setembro de 2018.
Minhas intervenções de 2018 sobre a Síria:
IMPÉRIO DA HEGEMONIA UNIPOLAR ESTÁ A SOFRER REVESES GEOESTRATÉGICOS NO MÉDIO ORIENTE! – http://paginaglobal.blogspot.pt/2018/05/imperio-da-hegemonia-unipolar-esta.html:
ROJAVA, UMA EMBRULHADA À MEDIDA DOS ALUCINADOS LABIRINTOS DE TRUMP! – http://paginaglobal.blogspot.pt/2018/01/rojava-uma-embrulhada-medida-dos.html;
Algumas consultas:
A Nova Rota da Seda passará pela Síria – http://www.orientemidia.org/a-nova-rota-da-seda-passara-pela-siria/;
La iniciativa de la Franja y la Ruta requiere un ambiente pacífico y estable – https://mundo.sputniknews.com/economia/201705141069147786-china-foro-economico/;
La cumbre de Teherán: un paso más para el establecimiento de la paz en Siria – https://mundo.sputniknews.com/orientemedio/201809091081842427-cumbre-teheran-paso-para-establecimiento-paz-siria/;
A guerra contra a Síria, ou de como se falsifica a história – http://paginaglobal.blogspot.com/2018/03/a-guerra-contra-siria-ou-de-como-se.html;
Putin y Erdogan acuerdan crear una zona desmilitarizada cerca de Idlib – https://actualidad.rt.com/video/289510-putin-erdogan-crear-zona-desmilitarizada-idlib;
A batalha de Idlib é adiada – (http://www.voltairenet.org/article203026.html);
A batalha de Idleb que Washington, Paris & Londres querem impedir –  https://www.resistir.info/moriente/idlib_27ago18.html;
As reivindicações ocidentais sobre a Síria – http://www.voltairenet.org/article203003.html;
Declaração de Princípios para o Pequeno Grupo da Síria – http://www.voltairenet.org/article202994.html;
Ejército sirio descubre pruebas de apoyo israelí a terroristas – http://www.hispantv.com/noticias/siria/364514/israel-apoyo-terroristas-extremistas-golan;
Fragata francesa dispara mísseis a partir do Mediterrâneo – https://br.sputniknews.com/oriente_medio_africa/2018091712231166-misseis-fragata-franca/;
La 'teoría del todo' sobre el derribo del Il-20 ruso en las costas sirias – https://mundo.sputniknews.com/blogs/201809211082147964-sobre-derribo-avion-ruso-en-siria/;
Israel provocou de forma consciente situação perigosa no céu sobre Síria, opina analista – https://br.sputniknews.com/oriente_medio_africa/2018092412282907-israel-siria-il-20-especialista-culpa-aviao-russo/;
Rússia: novos dados indicam claramente que Israel é culpado por derrubada do avião Il-20 – https://br.sputniknews.com/russia/2018092412286062-russia-siria-il-20-defesa/;
Síria com S-300 russos deixará caças israelenses só espiando – https://br.sputniknews.com/charges/2018092412284278-siria-cacas-israel-abate-il20/.
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