Extrema direita

Surge a “Internacional Neofascista”?

Santiago Abascal, líder do espanhol Vox, ao chegar em um comício no dia 24 de abril
Extrema-direita cresce na Espanha, seguindo a cartilha de Trump e Bolsonaro: discursos virulentos, redes de fake news e demagógica negação da política. Levanta-se a suspeita: haveria uma articulação internacional que financia e promove a reação conservadora mundo afora?
Anne Applebaum, no El País Brasil
Amanhece na zona rural espanhola. Um homem caminha em câmera lenta, corre e pula uma cerca. Como em um filme de Hollywood, o homem atravessa um campo de trigo enquanto roça as espigas com as mãos. Ao fundo soa uma música enquanto uma voz narra: “Se você não ri da honra porque não quer viver entre traidores… Se você anseia por novos horizontes sem desprezar suas origens… Se você mantém intacta sua honradez em tempos de corrupção…”. Nasce o sol. O homem sobe um caminho íngreme, atravessa um rio e é pego por uma tempestade. “Se você sente gratidão e orgulho por aqueles que, de uniforme, guardam o muro… Se você ama sua pátria como ama seus pais…”. A música atinge o clímax, o homem está no topo da montanha e a voz culmina: “… você saberá que está conseguindo fazer a Espanha grande outra vez”. As últimas palavras que aparecem na tela são “Fazer a Espanha grande outra vez”.

O slogan é a versão espanhola do “Make America Great Again”. O homem é Santiago Abascal, e isto, é claro, é uma propaganda do Vox, o partido político que mais cresce na Espanha. Nas eleições gerais de 2016 — o ano do vídeo —, o Vox, com seu nacionalismo espanhol de macho alfa e cinematográfico, não conquistou uma única cadeira. Pouco depois, um site espanhol publicou um artigo que perguntava: “Por que ninguém vota em Santiago Abascal?”. Mas em 28 de abril deste ano, o apoio ao Vox entre o eleitorado passou de 0% a 10%: ganhou 24 deputados no Congresso. Sua ruidosa presença na campanha eleitoral ajudou a impulsionar a participação a um de seus níveis mais altos em anos, já que os espanhóis estavam ansiosos para apoiar o Vox ou votar contra.

Como isso aconteceu e o que isso tem a ver com o caso de Donald Trump? A velocidade da explosão do Vox é, em muitos aspectos, uma história exclusivamente espanhola, marcada por uma reação nacionalista a uma crise separatista regional, pelo crescimento da polarização e da fragmentação do que costumava ser um sistema bipartidário. O colapso econômico de 2009 reduziu a confiança nos partidos políticos tradicionais e levou a uma forte reação da extrema esquerda. O Vox é o contragolpe.


No entanto, sua história também pertence a uma visão mais global e ampla das estratégias de campanhas tradicionais e digitais desenvolvida pela extrema direita europeia e pela direita alternativa norte-americana (alt-right) que agora é usada em todo o planeta. O uso das redes sociais para agudizar a polarização, os sites criados especificamente para alimentar narrativas polarizadas, os grupos privados de fanáticos que compartilham teorias da conspiração, uma linguagem que enfraquece deliberadamente a confiança em políticos e jornalistas “convencionais”: tudo isto também ajudou o partido que quer “fazer a Espanha grande outra vez” abandonar a periferia e se tornar conhecido. Ao que se deve acrescentar que conta com financiamento em parte de origem estrangeira que não lhe chega diretamente, mas é canalizado através de organizações com as quais compartilha opiniões, uma forma de financiamento político que é familiar aos norte-americanos, mas nova na Europa.

Em março e abril, pouco antes das eleições de 28 de abril, fiz algumas viagens a Madri para conversar com militantes do Vox e outras figuras, incluindo ex-líderes do PP, de centro-direita, e do PSOE, de centro-esquerda, os dois partidos que dominaram a política nacional durante três décadas desde a Transição. O sentimento na capital espanhola era um pouco como o que havia em Londres logo antes do referendo do Brexit ou como o de Washington antes da vitória de Trump. Tive uma forte sensação de déjà-vu: mais uma vez, uma classe política estava prestes a ser atingida por uma onda de ira.

No outrora previsível mundo da política espanhola, isso representa uma mudança considerável. Em 2018, jornalistas e analistas espanhóis perguntavam por que, na Espanha, ao contrário da França e da Itália, não havia partidos de extrema direita. Muitos supunham que o fantasma da ditadura de Franco, que culminou apenas nos anos setenta, era o responsável por essa “exceção espanhola”. Enquanto ninguém politicamente ativo hoje na França ou na Alemanha lembra de Vichy ou dos nazistas, uma grande quantidade de espanhóis lembra hoje do nacionalismo ostentoso de Franco, que nos comícios usava o lema “Arriba Espanha!” e, por essa razão, sempre o rejeitaram.

Mas durante o ano passado, o Vox quebrou esse tabu. Em sua conta no Twitter, Abascal publicou uma série de tuítes que começou na primavera de 2018 e continua até hoje. Cada tuíte tem um link de um vídeo ou de uma fotografia de um recinto repleto de gente. Os tuítes mais recentes têm a hashtag #EspañaViva e comentários eufóricos. Esses tuítes mais os constantes ataques do partido às “falsas” pesquisas de opinião dos meios de comunicação “parciais” tinham um propósito: fazer com que qualquer seguidor do Vox sentisse que fazia parte de um movimento enorme. Abascal fala de um “movimento patriótico de salvação da unidade nacional” e, de alguma forma, era isso.

Alimentado por separatismos

O vice-secretário do Vox, Iván Espinosa de los Monteros, vem de uma rica família da nobreza espanhola. Quando o Vox ataca “as classes dominantes”, refere-se aos meios de comunicação e às classes políticas, não à alta burguesia ou a sua classe empresarial. Ainda mais importante é o fato de que Espinosa é um usuário especialista em redes sociais, assim como sua esposa, Rocío Monasterio, que também é política do Vox.

Eu segui os dois no Twitter durante um tempo e notei o quanto eram eficientes criando espetáculo. Por meio do Twitter, Espinosa convocou um protesto público quando uma universidade de Madri, sua alma mater, cancelou uma conferência que ele faria. Monasterio acumulou milhares de likes por declarar que iria boicotar qualquer mobilização relativa ao Dia Internacional da Mulher e depois por tuitar um vídeo em que enfrentava feministas irritadas manifestando-se com imagens de mulheres e homens de mãos dadas.

Espinosa também é responsável pelas “relações internacionais” do partido, e a mensagem principal que quis me transmitir foi sobre a natureza excepcionalmente espanhola do Vox. Tomando o café da manhã em um café em Madri que, segundo disse, não fica longe de sua empresa imobiliária, afirmou que o Vox tinha muito pouco em comum com outros partidos europeus de “ultradireita”. “O Vox é frequentemente e facilmente associado a outros partidos e a coisas novas que estão acontecendo em outras partes do mundo… mas não é realmente verdade.”

Em vez disso, argumenta que o Vox surgiu em grande parte por causa do fracasso da Espanha em lidar com seus prolongados conflitos regionais. Abascal, ex-membro do Partido Popular (PP, de centro-direita), é natural do País Basco. Seu pai, também político do PP, era amplamente conhecido como alvo do ETA, o grupo terrorista basco. Por essa razão, afirma ter uma pistola Smith & Wesson consigo o tempo todo, um hábito inusual na Espanha que fez com que ganhasse o carinho de uma pequena minoria de proprietários de armas. No entanto, a crise da secessão catalã, iniciada em 2017, foi o que colocou o Vox no centro da política espanhola. José María Aznar, ex-presidente do Governo de centro-direita, me disse que o Vox era “uma consequência da inação do Governo durante o golpe de Estado da Catalunha”, e quase todos com quem falei em Madri disseram mais ou menos o mesmo.

A Catalunha é uma província rica, onde muitos dos seus habitantes falam uma língua diferente, o catalão. A região tem uma longa história e alguns velhos ressentimentos datam de vários séculos. Depois que as forças lideradas por Franco venceram a Guerra Civil e impuseram uma ditadura, qualquer indício de separatismo catalão foi severamente reprimido. Em contraste, a Constituição espanhola de 1978 concedeu a autonomia não só à Catalunha e ao País Basco, cujo movimento separatista tinha uma ala terrorista, mas a todas as comunidades espanholas. Desde então, gerou-se uma discussão constante sobre a relação entre o Governo central e as comunidades autônomas. Em 2017, o Governo regional da Catalunha, estreitamente controlado pelos separatistas, decidiu realizar um referendo sobre a independência. O Tribunal Constitucional o declarou ilegal. Uma clara maioria de catalães boicotou o referendo –um evento emocionante, arruinado pela brutalidade policial– mas os que votaram escolheram a independência.

No caos posterior, o Senado autorizou a imposição de um Governo direto sobre a Catalunha e convocou novas eleições nessa comunidade. Alguns líderes separatistas fugiram para o exílio, enquanto outros foram presos e levados a julgamento. Na Espanha se permite que advogados particulares sejam coacusadores durante os processos judiciais públicos. O Vox aproveitou essa legislação para entrar com uma ação contra os separatistas. Na prática, isso significou que, durante o julgamento público amplamente televisionado, o “advogado do Vox” e o secretário-geral do partido, Javier Ortega Smith, estiveram presentes junto aos promotores do Governo.

Para um pequeno partido que defende a unidade espanhola, se opõe à autonomia regional e quer proibir os partidos separatistas e prender o presidente catalão, é difícil pensar em uma maneira mais eficaz de evocar emoções fortes ou provocar uma forte reação contrária. Quando o Vox organizou um de seus comícios em Barcelona nesta primavera, Ortega Smith chamou o Governo catalão de “organização criminosa”. No entanto, a maioria da cobertura da mídia se concentrou nos anarquistas que atiraram pedras, queimaram barricadas e protestaram violentamente contra os visitantes “fascistas”. Em outras palavras, foi outra vitória de imagem para o Vox. Abascal tuitou uma fotografia de si mesmo consolando uma mulher que havia sido ferida nas manifestações. Espinosa fez o mesmo. Ironicamente, se mostrar como “vítimas da brutalidade” foi a mesma estratégia com a qual os separatistas catalães procuram ganhar apoio nacional e internacional.

“Não têm ideias”

A Catalunha não foi o único assunto espanhol que ajudou o Vox. Assim como outros novos partidos europeus (não necessariamente de direita), como o Movimento 5 Estrelas na Itália, o Vox selecionou uma série de assuntos subestimados cujos adeptos tinham começado a se colocar em contato e se organizar na Internet. Em geral, os movimentos políticos bem-sucedidos costumavam ter uma única ideologia. Agora, algumas vezes, combinam várias. Pensemos no processo de uma gravadora que quer criar uma nova banda pop: faz um estudo de mercado, escolhe o tipo de rostos condizentes com a pesquisa e então apresenta a banda ao público que lhe é mais favorável. Os novos partidos políticos são assim: agora se podem agrupar diferentes temas, reempacotá-los e depois comercializá-los usando o mesmo tipo de mensagens direcionadas que se sabe que funcionaram em outros lugares.

A oposição ao separatismo catalão e basco, ao feminismo e ao casamento igualitário, à imigração, especialmente a muçulmana; a ira contra a corrupção; o tédio com a política tradicional; um punhado de temas, como a propriedade de armas e a caça, com os quais algumas pessoas se importam profundamente, enquanto outras nem sabem que existem; uma pitada de apelos libertários, talento para a zombaria e um leve ar de nostalgia, embora não se saiba exatamente do quê: todos esses ingredientes foram usados para a criação do Vox. Na maior parte, esses temas pertencem ao campo da política de identidade, não ao da economia. Espinosa se refere a eles como questões que se opõem à “esquerda”, não em referência apenas ao partido de ultraesquerda marxista Podemos, mas também ao PSOE, de centro-esquerda, ao menos em sua mais recente encarnação. Especificamente, ele designa o Governo socialista que controlou a Espanha entre 2004 e 2010, sob o mandato do presidente José Luis Rodríguez Zapatero, que aprovou uma série de leis para flexibilizar as restrições sobre o aborto, o divórcio e o casamento igualitário, e para estender proteções especiais, incluindo julgamentos em tribunais especializados — que Espinosa chama de “tribunais de homens” — para as vítimas da violência doméstica. Descreve essas iniciativas como “todas as leis que Zapatero pôde conceber para atacar a família, o bastião do conservadorismo”.

Zapatero também reabriu o debate sobre o questionamento da história, aprovando uma Lei de Memória Histórica que, entre outras coisas, condenou formalmente o regime franquista e eliminou os símbolos franquistas dos espaços públicos. Isso foi uma novidade para a Espanha: durante as duas primeiras décadas depois da transição democrática, os Governos espanhóis simplesmente se esquivaram do assunto. Para o Vox, esse assunto é uma mera nuance e não uma questão fundamental, pelo menos em público. No entanto, a exigência de ter “liberdade para falar sobre a nossa história” é uma frase que Abascal usa nos comícios.

Espinosa afirma que o “extremismo” do Governo de Zapatero mais o extremismo dos separatistas, junto com o fracasso posterior da centro-direita para combatê-los, é o que justifica a posição do Vox: “Ninguém questiona a nação em outros lugares, ninguém questiona suas instituições básicas, sua bandeira, seu hino, seu presidente, suas instituições democráticas, seu Tribunal Supremo”. Espinosa ilustra seu argumento usando dois saleiros. “Olhe”, diz, colocando os dois juntos, “estas são as políticas espanholas nos anos oitenta e noventa”. E “aqui”  — coloca um garfo a várias polegadas de distância — está a Espanha atual: “Levada para a extrema esquerda. O centro e a direita não reagem, não contra-atacam. Não têm ideias”.

Esse tipo de linguagem não só enfurece os separatistas, mas também aqueles que se identificam com a centro-esquerda. Como também enfurecem as provocações do Vox. Em dezembro, antes das eleições locais na Andaluzia, Abascal postou um vídeo de si mesmo montando um cavalo, recriando a “reconquista” medieval da Espanha diante da ocupação muçulmana, ao ritmo da trilha sonora de O Senhor dos Anéis. Em outra ocasião, o partido criou um vídeo que mostrava uma notícia falsa anunciando a imposição da lei islâmica na Andaluzia e a transformação da Catedral de Córdoba em uma mesquita. Cada uma dessas ações causou uma reação contrária. Mais retuítes para o Vox, mais fúria do outro lado. Espinosa sabe disso. “Somos parte dessa polarização? Infelizmente o somos. Não estou dizendo que não…”. No entanto, do seu ponto de vista, “a esquerda” é a extremista, não o Vox.

Espinosa fala um excelente inglês — passou parte da infância nos Estados Unidos e frequentou a Escola de Negócios da Universidade de Northwestern — e, ocasionalmente, tuíta nesse idioma. Muitas vezes entrou no Twitter para atacar a cobertura da imprensa estrangeira sobre o Vox, especialmente quando compara o partido com grupos de extrema direita da França e da Itália. Uma vez felicitou ironicamente um jornalista do Guardian por sua “história politicamente correta”. Tem a mesma queixa sobre a imprensa espanhola. “Parabéns ao EL PAÍS”, escreveu recentemente, “por ser capaz de incluir as expressões ‘ultraconservador’, ‘ultranacionalista’ e ‘extrema direita’ em apenas cinco parágrafos. Goebbels os admiraria”.

A verdade é que houve inúmeros contatos entre o Vox e outros partidos políticos de “extrema direita” europeus. Em 2017, como mostra a conta do Vox no Twitter, Abascal se encontrou com Marine Le Pen, a líder francesa de extrema direita. Na véspera da eleição, ele tuitou seu agradecimento a Salvini, o líder da extrema direita italiana, por seu apoio. Abascal e Espinosa foram recentemente a Varsóvia para uma reunião com líderes do partido governista polonês, nativista [que favorece os nativos de um país] e antiplural, e Espinosa também apareceu na Conferência de Ação Política Conservadora, em Washington.

Mesmo assim, Espinosa está certo quando minimiza esses encontros públicos, considerando-os como reuniões de cortesia. As relações importantes entre o Vox e a extrema direita europeia, bem como com a alt-right norte-americana, estão se desenvolvendo em outro lugar.

“Restaurando a ordem natural”

Os nacionalistas de extrema direita ou os partidos nativistas na Europa raramente trabalhavam juntos até recentemente. Ao contrário dos sociais-democratas europeus, que sempre compartilharam uma visão de mundo, ou inclusive dos democratas-cristãos de centro esquerda europeus, que desde os anos cinquenta foram o verdadeiro motor que impulsionou a União Europeia, os partidos nacionalistas, arraigados em suas próprias histórias particulares, costumavam estar em conflito quase por definição. A extrema direita francesa nasceu dos debates sobre Vichy e a Argélia. A extrema direita italiana foi historicamente moldada pelos descendentes intelectuais de Mussolini, incluindo sua própria filha. As tentativas de confraternização sempre terminaram afundando por velhas controvérsias. A extrema direita da Itália e da Áustria, por exemplo, romperam relações recentemente depois que começaram a discutir — acaba sendo engraçado — sobre a identidade nacional do Tirol do Sul, uma província no norte da Itália onde se fala principalmente alemão.

Há pouco isso começou a mudar. A extrema direita europeia encontrou um grupo de temas com os quais todos podem estar de acordo. A oposição à imigração, especialmente muçulmana. A promoção de uma visão de mundo socialmente conservadora. Dito de outra forma: o desagrado com o casamento igualitário ou com os taxistas africanos é algo que até austríacos e italianos, em desacordo sobre a localização de sua fronteira, podem compartilhar.

Os vínculos e conexões são visíveis na Internet. Entre os que analisaram a ascensão do Vox, encontra-se uma firma de análise de dados de Madri chamada Alto Data Analytics. Especializada na aplicação de inteligência artificial na análise de dados públicos de sites como Twitter, Facebook, Instagram e YouTube, entre outras fontes, a Alto elaborou há pouco vários mapas coloridos sobre as interações dos espanhóis nas redes, com o objetivo de identificar campanhas de desinformação que buscassem distorcer as conversas digitais. Os mapas mostraram três conversas polarizadas e periféricas, ou seja, “câmaras de ressonância”, cujos membros praticamente só conversam entre si: a conversa sobre a autonomia da Catalunha, a conversa sobre a extrema esquerda e a conversa sobre o Vox.

Não foi uma surpresa, como tampouco foi descobrir que a maioria dos “usuários com atividade anormalmente alta” — bots ou pessoas reais que publicam constantemente e talvez recebendo algum pagamento por isso — faziam parte dessas três comunidades, especialmente a do Vox, que reunia mais da metade deles. Poucos dias antes das eleições, o Instituto para o Diálogo Estratégico (ISD, em inglês) — uma organização britânica que rastreia o extremismo na Internet na qual trabalho como conselheira e colaboradora — descobriu uma rede de quase 3.000 “usuários com atividade anormalmente alta”, que haviam bombardeado o Twitter no ano passado com cerca de 4,5 milhões de mensagens anti-islâmicas e pró-Vox. As origens da rede não são claras, e não se sabe quem a financia. Inicialmente, foi configurada para atacar o Governo de Nicolás Maduro na Venezuela, mas o objetivo mudou após o ataque terrorista de Barcelona em 2017. Nos últimos anos, a rede se concentra em histórias atemorizantes de imigração cuja intensidade aumenta gradualmente. Parte do conteúdo promovido são materiais extraídos de redes extremistas, e quase todos são alinhados com as mensagens publicadas pelo Vox. Em 22 e abril, por exemplo, uma semana antes das eleições espanholas, a rede postou no Twitter imagens daquilo que seus membros descreviam como uma revolta num “bairro muçulmano na França”, quando o que mostravam, na verdade, era um protesto recente contra o Governo na Argélia.

A Alto e o ISD perceberam também outra singularidade: os simpatizantes do Vox, sobretudo os “usuários com atividade anormalmente alta”, têm muitíssimas probabilidades de publicar conteúdos e materiais de um grupo de fontes muito específico: um conjunto de sites conspirativos, em geral criados pelo menos há um ano, e às vezes administrados por uma única pessoa, que publica grande quantidade de artigos e títulos muito partidários.

Curiosamente, a equipe da Alto encontrou os mesmos tipos de sites na Itália e no Brasil nos meses prévios às eleições de 2018, nos dois países. Em ambos os casos, os portais começaram a publicar material partidário — na Itália sobre a imigração, no Brasil sobre corrupção e feminismo — durante o ano prévio à votação. E serviram para alimentar e amplificar vieses ideológicos antes mesmo que fizessem parte da política convencional.

Na Espanha há meia dúzia de portais como esses, alguns profissionais e outros claramente feitos por aficionados. Alguns, de origem desconhecida, parecem ter sido criados sob medida: um dos portais mais obscuros tem exatamente o mesmo estilo e disposição que um portal brasileiro pró-Bolsonaro, quase como se ambos tivessem sido desenhados pela mesma pessoa. No dia anterior às eleições espanholas, sua notícia principal foi uma teoria conspirativa: George Soros, o judeu milionário nascido na Hungria que tem sido representado como o demônio pela extrema direita na Europa, ajudaria a orquestrar uma fraude eleitoral. Soros não era uma figura muito conhecida na Espanha até que o Vox o incluiu no debate.

Do outro lado da balança está o DigitalSevilla, que em geral informa sobre a Andaluzia, e o CasoAislado, que publica constantemente histórias sobre imigrantes e crimes. Ambos parecem administrados por equipes muito reduzidas e financiadas pelo sistema de publicidade do Google. Aparecem com muita frequência na câmara de ressonância do Vox. O dono do DigitalSevilla — segundo o EL PAÍS, um homem de 24 anos sem experiência como jornalista — produz manchetes que comparam a presidenta do Partido Socialista da Andaluzia com a “mulher malvada de Game of Thrones”, em ocasiões, conseguiu atrair mais leitores que os jornais tradicionais. Espinosa me disse que o dono do CasoAislado é “um sujeito que simpatiza conosco, um aficionado. Garanto que não pagamos para nenhum deles.”

Os norte-americanos reconhecerão sites desse tipo: funcionam de formas não muito diferentes das utilizadas pelo InfoWars e o Breitbart, os portais infames e enviesados que operaram da Macedônia durante a campanha presidencial dos Estados Unidos, e pelas páginas do Facebook criadas pela inteligência militar russa. Todos eles produzem notícias carregadas, conspirativas e polarizadoras com manchetes indignantes, prontas para serem enviadas às câmaras de ressonância. Às vezes, esses sites e as redes que os promovem na Europa trabalham de maneira coordenada. Em dezembro, as Nações Unidas reuniram os líderes mundiais para discutir a migração numa cúpula não muito pretensiosa que produziu um acordo com poucos compromissos: o Pacto Mundial para uma Migração Segura, Ordenada e Regular. O acordo recebeu pouca atenção da mídia. Mas a Alto descobriu que, na véspera da reunião, cerca de 50.000 usuários publicaram no Twitter teorias da conspiração sobre o convênio, centenas deles alternando francês, alemão, italiano e, em menor medida, espanhol e polonês. Com um funcionamento similar ao da rede espanhola que promove o Vox, esses usuários promoveram material de portais conspirativos, usando imagens idênticas, com links entre si e retuítes feitos de diversos países.

Uma rede internacional semelhante começou a operar após o incêndio da catedral de Notre Dame, em Paris. O ISD rastreou milhares de publicações de pessoas afirmando terem visto muçulmanos “comemorando” o incêndio, assim como outras de pessoas que publicavam rumores e fotos pretendendo provar que o fogo havia sido provocado. O CasoAislado montou uma publicação quase de imediato, declarando que “centenas de muçulmanos” comemoravam o incêndio, com uma imagem em que parecia que pessoas com sobrenomes árabes publicavam no Facebook emoticons sorridentes sob as fotos do incêndio. Poucas horas depois, Abascal expressou pelo Twitter seu rechaço a aquelas “centenas de muçulmanos” e usou a mesma imagem, embora vinculando-a com uma publicação do teórico da conspiração da direita alternativa dos EUA, Paul Watson. Este, por sua vez, identificou o ativista francês de extrema direita Damien Rieu como a fonte.
“Os islamistas, que querem destruir a Europa e a civilização ocidental, comemorando o incêndio de #NotreDame”, escreveu Abascal. “Levemos isso a sério antes que seja tarde.”
Esse mesmo tipo de memes e imagens se expandiram pelos grupos de seguidores do Vox no WhatsApp e no Telegram. Incluíam, por exemplo, um meme em inglês que mostrava Paris “antes de Macron” com a Notre Dame ardendo, e outra “depois de Macron” com uma mesquita em seu lugar; assim como uma notícia em vídeo — sobre outro incidente sem relação com Notre Dame — que detalhava detenções e a descoberta de um carro com bombas de gás perto do lugar do incidente. Foi o exemplo perfeito de como a alt-right, a extrema direita e o Vox propagaram a mesma mensagem ao mesmo tempo, e em múltiplos idiomas, para tentar motivar as mesmas emoções em toda a Europa, a América do Norte e outros lugares.

Esses grupos também têm conexões fora da Internet. Tendo em vista o apelo gerado pelos problemas sociais, criaram-se organizações pan-europeias que usam um modelo norte-americano de financiamento e promoção. Uma delas é a CitizenGo, fundada em Madri em 2013. A CitizenGo é o braço internacional da HazteOir.org, uma organização espanhola criada há mais de uma década. Segundo Neil Datta, secretário do Foro Parlamentar Europeu sobre População e Desenvolvimento e autor de um relatório sobre a direita cristã europeia, a CitizenGo integra uma rede maior de organizações europeias que procuram “restaurar a ordem natural”: eliminar os direitos dos homossexuais, restringir o aborto e os métodos anticoncepcionais e promover uma agenda explicitamente cristã. Essa rede compila listas de e-mails e se mantém em contato com seus seguidores. Eles dizem que chegam a nove milhões de pessoas.

Apoio internacional

O conselho da CitizenGo inclui Brian S. Brown, o cofundador norte-americano da Organização Nacional para o Casamento, e Alexey Komov, da divisão russa do Congresso Mundial de Famílias (WCF, em iglês). Komov tem sido associado ao empresário russo Konstantin Malofeev. Na prática, ele atua como vínculo entre Malofeev e a direita religiosa norte-americana. O líder da CitizenGo, Ignacio Arsuaga, aparece com frequência em eventos pan-europeus, incluindo a reunião em março do Congresso Mundial de Famílias em Verona, na Itália. De acordo com o portal do WCF, entre seus participantes estivam Salvini, ministro do Interior do Governo da Itália e líder da Liga Norte (de extrema direita), assim como um grupo de políticos húngaros, um alto sacerdote russo e até sua alteza Glória, princesa de Thurn e Taxis (aristocrata alemã).

Segundo o grupo de pesquisa não governamental OpenDemocracy, Darian Rafie, líder de uma organização norte-americana chamada ActRight, também assessora a CitizenGo e ajuda a mantê-la financeiramente. (Para contextualizar um pouco: a página do Facebook da ActRight faz piada da presidenta da Câmara dos Representantes dos EUA, Nancy Pelosi, e pergunta constantemente quanto o presidente Barack Obama pagou para matricular sua “filha maconheira” na Universidade Harvard). Rafie disse a um repórter da OpenDemocracy que tinha “arrecadado muitos fundos” para Trump. Contatos desse tipo não são incomuns: a OpenDemocracy identificou outra dezena de organizações dos EUA que financiam ou apoiam ativistas conservadores na Europa. E não só por lá: Viviana Waisman, da Women’s Link Worldwide, organização de direitos humanos e da mulher com sede em Madri, me contou que costuma se deparar com a linguagem da CitizenGo pelo mundo inteiro. Entre outras coisas, a organização popularizou a expressão “ideologia de gênero” — um termo inventado pela direita cristã e usado para descrever uma grande variedade de temas, da violência doméstica até os direitos dos homossexuais— na África e na América Latina, além da Europa.

Na Espanha, a CitizenGo ganhou fama estampando lemas provocadores em ônibus que percorrem as cidades. As mensagens irritam as pessoas e atraem muita atenção para a CitizenGo e para o Vox. As coincidências entre ambos não são um segredo: nos últimos anos, a organização entregou seu prêmio anual a Abascal, Ortega Smith e outras pessoas que agora são políticos do Vox, assim como a ativistas católicos e ao líder iliberal húngaro Viktor Orbán.

No período prévio às eleições de abril — as primeiras em que o Vox se mostrava como uma formação com chances eleitorais —, o dinheiro, a rede e o talento da CitizenGo mostraram-se muito úteis. Como já havia feito, a organização lançou a campanha “Vote em valores”. Desta vez, os ônibus foram pintados com frases que buscavam menosprezar os líderes de partidos que não fossem o Vox. O grupo criou um site com listas mostrando quais partidos estavam de acordo com seus “valores”, deixando claro que o único que tinha valores era o Vox.

Trata-se de um padrão conhecido na política norte-americana. Assim como nos EUA é possível apoiar os Comitês de Ação Política (PAC, em inglês), que geram publicidade em torno dos temas defendidos por determinados candidatos, agora os norte-americanos, os russos e a princesa de Thurn e Taxis também podem fazer doações para a CitizenGo e, assim, apoiar o Vox. Esse modelo de financiamento não tem sido muito utilizado na Europa. Na maioria dos países, o financiamento político tem limitações. Em alguns deles (não na Espanha), o financiamento externo é proibido. Um grande alvoroço foi gerado ao redor da organização The Movement, de Stephen K. Bannon, que se estabeleceu na Europa para ajudar os candidatos de extrema direita a vencer as eleições. No entanto, embora muitos europeus provavelmente não tenham percebido, os estrangeiros que querem financiar a extrema direita europeia podem fazer isso há muito tempo. O último relatório da OpenDemocracy diz que Arsuaga informou a um jornalista que o dinheiro dado ao seu grupo poderia “indiretamente” apoiar o Vox, já que “hoje” estão “totalmente alinhados”. O dinheiro que organizações como a CitizenGo gastam nas eleições importa menos que as campanhas que organizam nos meses que antecedem esses pleitos. Como disse Arsuaga ao repórter da OpenDemocracy, “ao controlar o entorno dos políticos, você acaba controlando-os também”. O que realmente importa é a batalha pelos valores nos meios de comunicação, na educação, nas instituições culturais e, acima de tudo, nas redes sociais. A Europa, incluindo os países que antes buscavam o consenso — Holanda, Alemanha e agora a Espanha — começam a se parecer mais com os EUA, onde a batalha pelos valores se transformou numa guerra aberta.

Entendendo os vínculos da extrema direita

Quando perguntei a Rafael Bardají sobre o vídeo “Fazer a Espanha grande outra vez”, ele sorriu: “Essa ideia foi minha. Foi uma espécie de piada do momento.” Bardají se uniu ao grupo dirigente do Vox pouco depois de Espinosa e Abascal. Como eles — e como a maioria no partido —, é um ex-membro do PP que acabou desiludido com o centrismo e a moderação. Trabalhou com Aznar no início dos anos 2000 e ficou conhecido como o assessor que mais pressionou para que a Espanha se unisse à invasão dos EUA ao Iraque.

Por isso é considerado “neoconservador”, embora não se saiba ao certo o que isso significa no contexto espanhol. Bardají também ganhou o apelido de Darth Vader, algo que o diverte (colocou a foto do vilão de Star Wars no Twitter). “Fazer a Espanha grande outra vez”, explica, “foi uma espécie de provocação… A intenção era irritar a esquerda um pouco mais.” Este, claro, é um conceito muito familiar. “Faça isso porque ofende o establishment.” “Humilhe os progressistas.” Um clássico sentimento breitbartiano. Sim, Bardají conhece Bannon. E os dois têm um amigo em comum. Mas Bardají acha engraçada a relevância que as pessoas dão para esse fato. Os jornalistas espanhóis, me disse, “dão a Bannon uma importância que ele não tem.”

Não está claro se Bannon, ex-diretor do Breitbart e ex-diretor de estratégia do presidente Trump, influenciou Bardají ou vice-versa. Bardají me disse que teve a oportunidade de visitar a Casa Branca logo depois da vitória de Trump. Disse-me que estava em contato com o conselheiro de Segurança Nacional Michael Flynn e com seu sucessor, H.R. McMaster, e discutiram sobre a primeira visita de Trump à OTAN, bem como sobre o discurso que faria em Varsóvia, aquele em que enfatizou a necessidade de defender o mundo cristão do islamismo radical: “A aspiração de civilizar, o modo pelo qual o Ocidente deve se defender…, estávamos completamente em sintonia”, disse-me Bardají. O número de muçulmanos espanhóis hoje é relativamente baixo — a maioria da imigração espanhola vem da América Latina — e o dos EUA é ainda menor. Mas a ideia de que a civilização cristã precisa se redefinir diante do inimigo islâmico tem, é claro, uma ressonância histórica especial na Espanha, como nos Estados Unidos pós-11 de setembro e pós-Iraque.

Há outros aspectos que revelam que o Trumpworld e o Vox são simbióticos. Bardají, que diz também conhecer Jason Greenblatt, o negociador da Administração Trump no Oriente Médio, tem laços de longa data com o Governo israelense. Bardají me disse que em 2014 organizou para o Vox a visita de um assessor de relações públicas de Israel: “Eu o trouxe da equipe que venceu as eleições para Netanyahu”. Nesse mesmo ano, o primeiro candidato derrotado do Vox para o Parlamento Europeu, Alejo Vidal-Quadras Roca, recebeu uma generosa doação — de mais de 800.000 euros, divididos entre dezenas de doações individuais — da Organização Mundial dos Mujahidin do Povo Iraniano (MEK), uma organização/culto iraniano que se opõe à República Islâmica. O MEK tem uma reputação ambígua em Washington  — foi classificado como organização terrorista em algumas ocasiões —, mas tem alguns aliados: tanto o conselheiro de Segurança Nacional John Bolton quanto o advogado de Trump Rudolph W. Giuliani fizeram discursos em seu evento anual em Paris. Esses vínculos compartilhados entre o Vox e a Administração Trump não sugerem uma conspiração, mas sim interesses e amigos em comum há anos. Mais do que qualquer outra coisa, são pessoas que veem que têm inimigos em comum e conseguiram adotar com o tempo uma visão similar do mundo. Assim como Espinosa, Bardají reconhece a polarização da política espanhola e, além disso, pensa que é algo permanente: “Estamos entrando em um período em que a política está se tornando algo mais, é uma guerra com outros meios — não queremos ser assassinados, queremos sobreviver… Acredito que agora na política quem ganha leva tudo. Não é um fenômeno exclusivo da Espanha”.

Bardají diz que, até agora, o Vox foi pequeno demais para orquestrar muita propaganda, e muito menos fazer parte de um movimento internacional: “Fomos um partido pequeno com um orçamento limitado”. Espinosa disse o mesmo, como fez Vidal-Quadras, que me disse que o dinheiro do MEK acabou quando ele deixou o partido. Foi um reconhecimento pessoal por suas lutas passadas. Não há razão para não acreditar neles.

Mas o fato é que muitos outros, na Europa e nos Estados Unidos, têm pressionado e promovido os temas que se tornaram a principal agenda do partido. Como o ex-presidente Aznar disse, o Vox é uma “consequência”, embora não apenas, do separatismo catalão. É também consequência do trumpismo, dos sites de conspiração, das campanhas digitais da alt-right e da extrema direita internacional e, especialmente, da reação conservadora que vem se desenvolvendo em todo o continente há anos.

De certo modo, é a maior das ironias: nacionalistas, antiglobalistas, pessoas céticas em relação às leis internacionais e muitas outras organizações agora trabalham juntos, rompendo fronteiras, por causas comuns. Compartilham contatos. Obtêm dinheiro dos mesmos fundos. Aprendem com os erros uns dos outros, copiam o vocabulário uns dos outros. E estão convencidos de que, juntos, algum dia, vencerão.

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Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/05/surge-internacional-neofascista.html

EUA teriam participado de plano para realojar nazistas na América, diz historiador

Medalha nazista
© Sputnik / А. Shadrin

O historiador argentino Abel Basti revelou que milhares de oficiais e líderes nazistas (incluindo o próprio Adolf Hitler) conseguiram se mudar para a América Latina e outras zonas do mundo depois da Segunda Guerra Mundial graças a um "plano" dos EUA de "absorver" o conhecimento alemão e o usar contra a União Soviética.

Abel Basti, autor de vários livros sobre o destino de Hitler após a queda do nazismo, disse à Sputnik Mundo que em 1945 houve um "pacto" entre o regime nazista e o governo dos EUA para permitir "a transferência para o Ocidente de pessoas, tecnologia, desenvolvimentos industriais e moeda" que pertenciam ao nazismo.

Em troca, os líderes do Terceiro Reich solicitaram que os EUA garantissem a "impunidade" de várias de suas figuras, começando no próprio Hitler.

Basti indicou que o objetivo dos EUA nesse acordo era aproveitar o conhecimento militar desenvolvido pelos nazistas, no âmbito da corrida armamentista que estava começando e que tinha na União Soviética seu principal concorrente.


Segundo o historiador, assim "os especialistas em guerra química, bacteriologia e mísseis", bem como "toda a rede de espionagem alemã" ficaram ao serviço de Washington no período do pós-guerra.

O processo de "transferência" das capacidades alemãs se estendeu além da década de 1950 e incluiu todo o continente americano, disse o especialista. Segundo ele, os governos dos países latino-americanos, principalmente as ditaduras militares de direita interessadas em combater o comunismo, sabem desse plano.

Basti argumentou que o plano para a reinstalação dos nazistas contemplava dois tipos de casos: os nazistas "ativos", que se reincorporavam nos exércitos ou forças especiais dos países que os recebiam, e aqueles que iniciavam uma nova vida em segredo.


Nessa última categoria, por razões óbvias, se encontrava o próprio Adolf Hitler, que segundo os trabalhos de Basti, não morreu em seu bunker em Berlim, mas conseguiu fugir para a Argentina. Com a impunidade assegurada, Hitler pôde se mover livremente em um território de mais de um milhão de hectares na Patagônia, desde Bariloche até Junín de los Andes.

Em seu próximo livro, intitulado "A Segunda Vida de Hitler", Basti promete divulgar o testemunho "da empregada que cuidou de Hitler" e revelar a história do "comandante alemão que foi seu secretário na Argentina".

A presença de vários altos cargos da Schutzstaffel no Brasil, na Bolívia, no Paraguai e no Chile, por exemplo, também teve a ver com essa "imigração" planejada dos nazistas para o continente americano, com o conhecimento da inteligência dos EUA.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019050813832991-eua-teriam-participado-de-plano-para-realojar-nazistas-na-america-diz-historiador/

Uma apresentação às lições sobre o fascismo e antifascismo

O professor Marcos Aurélio da Silva apresenta o livro ‘Nas trincheiras do ocidente: lições sobre o fascismo e antifascismo’, escrito por Gianni Fresu.

 

A obra, que se utiliza das contribuições teóricas e políticas de Gramsci e Togliatti, “nos conduz a um amplo e ao mesmo tempo rigoroso panorama não só da história do fascismo e do maior partido comunista do Ocidente (o PCI), mas também do próprio movimento comunista internacional”, segundo o apresentador.

Desvendado o fascismo e o antifascismo italiano na Itália[1]

O livro que Gianni Fresu dedica ao estudo do fascismo representa enorme contribuição para o aprofundamento dos conhecimentos sobre o tema em pelo menos dois domínios. São eles o da historiografia sobre o fascismo, que o autor percorre com apurado senso critico, fazendo ver os avanços e problemas de diferentes interpretações, e aqueles dos estudos gramscianos, especialmente favorecidos pela capacidade que demonstra o autor em relacionar o tema ao contexto histórico em que Gramsci forjou seu rico cabedal conceitual. Na verdade é mesmo a abordagem gramsciana que permite organizar as diferentes interpretações historiográficas, no mais das vezes de corte liberal, operando nelas uma espécie de superação dialética. Como realça Fresu, as interpretações liberais, inclinando-se a uma leitura fortemente reacionária, buscavam apresentar o fascismo como um simples parêntese da história européia (tese de Benedetto Croce, mas com muitos ecos fora da Itália), sempre insistindo na perda de consciência e na crise moral provocada pela Guerra, ou ainda nas mobilizações de massa e na vitória do bolchevismo (tese sustentada na historiografia alemã por Ernest Nolte). Já Gramsci, sem desprezar os elementos ideológicos revelados pela crise moral da burguesia européia, uma vez apoiado no materialismo histórico, ressalta em primeiro lugar as relações destes elementos com aqueles de fundo econômico e social. Caberia, pois, dar atenção a engenhos institucionais como o Estatuto Albertino, expressão mais acabada de uma revolução passiva e dos problemas de transformismo – vale dizer, das debilidades da classe dirigente italiana –, tão bem estudados por Gramsci nos Cadernos. Por este engenho, forjou-se um ordenamento parlamentar que, resultando em uma forte união entre o rei e o legislativo, terminou por conceder ao primeiro amplos poderes, como no exemplo da nomeação de ministros e até a dissolução do parlamento. Recorde-se que, após a encenação da marcha sobre Roma, foi Vitor Emanuel III quem nomeou Benito Mussolini chefe de governo. 

Sempre em confronto com as teses de Gramsci, é ainda a leitura liberal de Croce que é alvejada para destacar outro elemento central do fascismo. Enquanto o filósofo italiano sustenta que o regime de Mussolini não é expressão de uma única classe, aparecendo, antes, em todas as classes, Fresu recupera a ênfase de Gramsci nas camadas médias – um ponto, cabe observar, a ligar o regime italiano àquele conduzido por Hitler. Aliás, é aqui que o autor abre espaço para explorar a grande contribuição do comunista sardo, a saber, a interpretação do fascismo não apenas como um regime de coerção, mas simultaneamente apoiado no consenso, os dois núcleos centrais do conceito de hegemonia. Por este ângulo é que se pode compreender os esforços do fascismo para absorver toda uma camada de estudantes inadaptados, de oficiais de guerra sem função social, de pequenos burgueses em vias de proletarização – geralmente utilizando-se do mito da “vitória mutilada”, enunciado pelo poeta Grabriele D’Annunzio, ele que explorava a recusa dos EUA às aspirações italianas na península balcânica e na África após o fim da I Guerra. Verdadeiro chefe inicial do intervencionismo, ressalta Fresu, é de D’Annunzio que o Duce toma a retórica, as poses teatrais, as liturgias funerais e militares, a iconografia e enfim as palavras de ordem, todos meios para mobilizar e disciplinar a base de consenso do regime. E eis as relações entre consenso e militarismo, o último o eixo central do fascismo e da existência do próprio partido, mas também o seu verdadeiro ponto de chegada, a saber, uma geopolítica agressiva, inscrita em uma política externa de corte abertamente imperialista.

Certamente o consenso servia também à absorção do operariado no Estado burguês, especialmente por meio da assimilação dos organismos da sociedade civil por ele forjados, a exemplo das instituições corporativas – estruturas de associação econômica e social desenvolvidas já na década de 1920. E é aqui que Fresu nos convida a refletir criticamente acerca das interpretações sectárias predominantes na Internacional Comunista (IC) no período de 1928-34 – elas que tinham origem nas teses do Partido Comunista Alemão, então sob liderança de Ernst Thälmann. Estas interpretações se inclinavam a apresentar o fascismo como simples reação anti-proletária e, por este caminho, condenavam a socialdemocracia como mero social-fascismo. Com efeito, a leitura do texto de Fresu permite concluir que o fascismo encerrava antes um quadro bem mais complexo. Ele se apresentava como uma “ideologia sem ideologia” e, nesse sentido, não surpreende que recolhesse as mais diferentes doutrinas. Não apenas D’Annunzio e a disposição para a Guerra, mas também os economistas nacionalistas e sua ênfase nas corporações como forma de superar o conflito social; o irracionalismo e o futurismo de Marinetti, com seu niilismo de aparência inovadora, fautor de um débil programa liberal; e ainda o nacionalismo de Enrico Corradini e tese da luta entre nações proletárias e capitalistas, premissa para o emprego da trágica teoria do Lebensraum, ou “espaço vital”. (Uma teoria, como se sabe, maturada pela pena do geógrafo Friedrich Ratzel na Alemanha bismarkiana, o mesmo Ratzel que serviu de inspiração seja para o marxismo vulgarizado da II Internacional – capaz de sustentar a guerra e o colonialismo –, quanto para a escola de geopolítica alemã, expansionista e racista)[2]

Se antes dissemos que é no desenvolvimento do fascismo que ganham sentido muitas das categorias gramscianas, é preciso dizer que também a luta antifascista não pode ser bem compreendida sem o conhecimento dos textos do comunista sardo. Sem dúvida, como bem o demonstra Fresu, toda a luta de libertação e o próprio papel que aí cumpriu o Partido Comunista Italiano (PCI) se desenvolveram em estreita relação com as reflexões de Gramsci. Um fato, aliás, a pôr em questão as teses que buscam estabelecer uma descontinuidade entre as fases pré e pós-carcerária de Gramsci, e isto despeito da universalidade do seu aporte categorial – sempre a ser lido pelo critério da tradutibilidade, vale dizer, de modo a evitar os “abstracionismos mecanicistas”[3].

É ilustrativa, nesse sentido, a demonstração dos desenvolvimentos que se seguiram ao caso do deputado Giacomo Matteoti, dirigente do Partido Socialista que, ao denunciar as fraudes e a violência que envolveu a vitória de Mussolini nas eleições de 1924, fora pelo regime barbaramente assassinado. Diante da ampla reação das camadas médias e até mesmo das direções do mundo industrial e bancário, o PCI lança a proposta de uma greve geral e de um parlamento alternativo, todavia não aceita pelo conjunto dos liberais e católicos, que desejavam uma oposição apenas moral ao fascismo. A desmobilização das massas daí resultante, permitiu que Mussolini abrisse uma segunda fase do regime, instalando, a partir de outubro de 1926, uma aberta ditadura, que pôs na ilegalidade todos os seus adversários, incluindo Gramsci e diversos comunistas, conduzidos à prisão.

E é no clima de crescente tensão sucessivo ao assassinato de Matteoti que se realiza, no PCI, o famoso Congresso de Lyon (ainda em janeiro de 1926), opondo as linhas de Bordiga e Gramsci, como sabemos com desfecho vitorioso para a segunda. Como demonstra Fresu, a corrente bordiguiana nada tinha a oferecer à Resistência que se organiza a partir dos anos 30. Prendendo-se às teses dominantes na IC, ela se inclinava a apontar o reformismo, e não o fascismo, como o inimigo a derrotar, incluindo o que chamava de “fascismo intermediário”, um agrupamento de constitucionalistas, democratas e também socialdemocratas. Já a corrente de Gramsci, valorizando o debate em torno das Frentes Únicas, realizado no III (1921) e IV (1922) Congressos da IC, abria-se para a ideia leniniana vitoriosa nos anos da NEP, verbi gratia a ideia das alianças e da questão camponesa como uma questão estratégica. Ao fim e ao cabo, uma forma de evitar a negligência das diferenças entre quadro democrático e reacionário (ou fascismo). Vitoriosa em Lyon, a nova posição do PCI fora crucial para a mudança de avaliação na própria IC a partir de 1934, tendo desempenhado aí um papel importante Palmiro Togliatti – embora mesmo ele tivesse se apegado a uma espécie de impaciência revolucionária no início dos anos 30, aceitando a tese do fim da fase de estabilização relativa do capitalismo, posição quiçá compreensível à luz do contexto de isolamento dos comunistas e da própria URSS[4]. De fato, reaproximando-se da linha sustentada por outros dirigentes (Angelo Tasca, Umberto Terracini, o próprio Gramsci), Togliatti que irá abrir críticas à IC no que respeita à ausência de uma política para atrair a pequena burguesia rural e urbana, e ainda da negligência quanto à importância de defender as liberdades democráticas nas nações livres e nos países fascistizados. E é nesse sentido, ressalta Fresu, que na Itália ainda dominada por Mussolini, o mesmo Togliatti irá sustentar a inserção nos sindicatos fascistas como meio de fazer avançar a luta de massas, pondo-se mesmo a tarefa de investigar a nova política econômica do regime, encaminhada em 1927 com a “Carta del Lavoro” e o corporativismo – elementos, dadas as suas exigências de uma base de massas e de consenso passivo, a distingui-lo dos tradicionais regimes autoritários, ressalta Fresu.

Estão aí descritas as raízes da política de Frente Única, capaz de reunir comunistas, socialistas e republicanos. Ela mesma experimentada nas mais de 500 formações partigianas que, ao fim da Guerra, e diante da lentidão das forças aliadas, tomaram em suas próprias mãos a tarefa de liquidar os restos do nazifascismo, conformando uma estrutura unitária que correspondia ao “grande bloco democrata e nacional dos partidos antifascistas”, ao qual deveria integrar-se o PCI, segundo sustentava Togliatti. E, note-se, a rigor o mesmo bloco que esteve na base da construção da democracia social italiana do pós 1948, uma democracia que, enraizada na luta popular da Resistência, encaminha a superação das limitações do Estatuto Albertino por meio de uma síntese pós-liberal entre as concepções formal e substancial de justiça – respectivamente fundadas na igualdade dos cidadãos perante a lei e na superação das diferenças econômicas e sociais.

Como se vê, o livro de Gianni Fresu nos conduz a um amplo e ao mesmo tempo rigoroso panorama não só da história do fascismo e do maior partido comunista do Ocidente, mas também do próprio movimento comunista internacional e do duro contexto em que se formaram amplas legiões de militantes. Quando, no Brasil de hoje, e a despeito das particularidades do tempo, socialistas e comunistas voltam a ser alvo de movimentos obscurantistas; quando, nesta mesma formação sócio-territorial, o pouco de Estado social que se ensaiava organizar, é alvejado por um amplo arco de políticas regressivas nos mais diferentes campos da vida social, nada melhor que a publicação de uma obra como esta que o leitor agora tem em mãos, dotada de elevado rigor teórico e historiográfico, mas também, como não poderia deixar de ser, de um superior compromisso social e histórico.

 

 

[1] O título da apresentação foi dado pela redação do Portal Grabois. 

[2] Sobre Ratzel e a teoria do Lebensraum pode-se ler Lacoste, Y. A Geografia – isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra Trad. Ma C. França. São Paulo: Papiros, 1988, p. 128; e também Losurdo, D. Il revisionismo storico: problemi e miti. Roma-Bari: Laterza, 2015, pp. 301-2. Para a influência de Ratzel no marxismo da II Internacional ver Moraes, A. C. R. A antropogeografia de Ratzel. In: Ratzel – Geografia. Moraes, A. C. R. (org.) São Paulo: Ática, p. 11 (Coleção Grandes Cientistas Sociais – Coord. de Florestan Fernandes). 

[3] Gramsci, A. Quaderni del Carcere. Edizione critica dell’Istituto Gramsci. Torino: Einaudi, 1977, p. 1469.

[4] Sobre o isolamento geopolítico da URSS pode-se ler Losurdo, D. Stalin: história crítica de uma lenda negra. Rio de Janeiro: Revan, 2010, pp. 135-6.

 

Lançamento do livro ‘Nas trincheiras do ocidente: lições sobre o fascismo e antifascismo’, escrito por Gianni Fresu 

Local: Sede da Fundação Maurício Grabois (Rua Rego Freitas,192 – São Paulo) 

Data: Sexta-feira (10.05), às 19 horas 

 

 

 

 

por Marcos Aurélio da Silva, Professor da Universidade Federal de Santa Catarina  |  Texto original em Português do Brasil

Exclusivo Editorial PV (Portal Grabois) / Tornado

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/uma-apresentacao-as-licoes-sobre-o-fascismo-e-antifascismo/

Estudo revela como gigante químico dos EUA ajudou Alemanha nazista

Adolf Hitler e Rudolf Hess
© AP Photo /

Nadan Feldman, pesquisador da Universidade Hebraica de Jerusalém, revelou como uma das principais empresas químicas dos EUA e de todo o mundo, a DuPont, apoiou o regime nazista, mesmo depois do início da Segunda Guerra Mundial.

Segundo o jornal Haaretz, embora este não seja o único caso de cooperação entre a Alemanha nazista e empresas americanas, essa história se destaca por ter motivos ideológicos.


Em junho de 1941, quando Hitler tinha toda a Europa continental a seus pés e se preparava para invadir a URSS, a gigante química alemã IG Farben lançou uma fábrica para produzir borracha sintética, um material necessário para fins militares. A fábrica estava localizada perto do campo de concentração de Auschwitz e milhares de prisioneiros morreram dentro de seus muros devido às duras condições de trabalho. Após a guerra, dois altos executivos da empresa foram julgados por crimes contra a humanidade.

À primeira vista, essa história se parece a muitos outros casos sobre empresas alemãs que enriqueceram durante a guerra enquanto exploravam os prisioneiros. Mas a história da empresa IG Farben esconde ligações comerciais entre a Alemanha nazista e empresas americanas.

Nadan Feldman, que está escrevendo uma tese de doutorado na Universidade Hebraica de Jerusalém, revelou que a IG Farben forneceu seus serviços às ambições de Hitler graças a acordos de troca de tecnologia com a empresa americana DuPont.

"Alguns dos acordos assinados pelas duas empresas deram à IG Farben o conhecimento fundamental para a sua produção, permitindo que a Alemanha nazista iniciasse a guerra", explicou Feldman ao Haaretz.

Entretanto, a DuPont era apenas uma das cerca de 150 empresas estadunidenses com laços comerciais com a Alemanha nazista. Essas conexões incluíam empréstimos enormes, grandes investimentos, acordos de cartel, a construção de usinas na Alemanha e o fornecimento de enormes quantidades de material bélico.


Sabe-se que as corporações envolvidas incluíam a Standard Oil, que fornecia o combustível que a Alemanha não dispunha; a General Motors e Ford, que venderam seus veículos; a IBM e ITT, que forneceram equipamentos de comunicação; e o Union Banking, que deu grandes empréstimos para a compra de equipamentos.

Nos últimos anos, Feldman estudou os arquivos dos EUA e da Alemanha e analisou relatórios financeiros, documentos normativos e correspondência, que lançaram luz sobre o papel da DuPont, que era então a empresa de uma das famílias americanas mais ricas, nos abastecimentos à Alemanha nazista, revelando que se tratava não apenas de interesses puramente comerciais, mas também de razões ideológicas.

"A aliança entre o capitalismo americano e a Alemanha nazista ajudou Hitler a implementar um programa de armamentos sem precedentes na época e iniciar a guerra mundial", resumiu Feldman.

O pesquisador afirma que "sem a mobilização da corporação norte-americana para ajudar a Alemanha nazista, é muito duvidoso que Hitler possa ter começado a guerra, é duvidoso que tivesse conseguido reabilitar a economia alemã".


Analisando os documentos do Arquivo Nacional dos EUA, Feldman descobriu que a DuPont, em particular, continuou a manter ligações com a IG Farben mesmo depois do início da Segunda Guerra Mundial.

Assim, o último acordo entre as duas empresas foi assinado em 1940, após a ocupação da França, Holanda, Bélgica e Luxemburgo. As relações só terminaram em setembro de 1943, quando a Alemanha confiscou os ativos da DuPont com o resto das empresas americanas.

Até agora, a maioria das pesquisas relacionadas se concentrava em motivos financeiros dos laços com a Alemanha nazista, mas no caso da DuPont "o motivo principal que levou a essa colaboração foi ideológico", afirmou Feldman.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019050213796922-estudo-revela-como-gigante-quimico-dos-eua-ajudou-alemanha-nazista/

Extremista escondido com a desonestidade de fora

Depois de Nuno Melo desvalorizar a ameaça da ascensão do Vox, recusando classificá-lo como um partido de extrema-direita (ver aqui), há uma nova voz da direita portuguesa que vem a público fazer declarações inquietantes acerca do que verdadeiramente pensa sobre as eleições espanholas.
Trata-se de Joaquim Miranda Sarmento, braço-direito de Rui Rio para a área da economia e das finanças, que dedicou a sua mais recente coluna do ECO (ver aqui) a analisar as eleições do nosso parceiro ibérico. A tese central do seu texto é que Espanha mergulhará num período de grande instabilidade, porque os resultados apontam para uma coligação entre o PSOE, de Pedro Sanchez - que na linguagem elevada de Miranda Sarmento é o “o político mais sem vergonha que [se] lembra[a] de ter visto, porque tomou o poder aliando-se à extrema-esquerda e aos independentistas” - e do Unidos Podemos, de Pablo Iglesias, um perigoso radical de extrema-esquerda. A partir desta tese, discorre longamente sobre a transição espanhola, em estilo panfletário e pleno de lugares comuns, onde não faltam a defesa da superioridade da transição democrática espanhola em relação à tumultuosa revolução portuguesa e a postura reverencial em relação a Adolfo Suárez e a Felipe Gonzalez. O grande problema, segundo Miranda Sarmento, é não existirem hoje, ao contrário do passado, “líderes moderados que percebem que o mais importante é o interesse nacional e não o poder pessoal”. Como se Suarez e Gonzalez não tivessem beneficiado tremendamente da transição para o seu poder pessoal, não é? Enfim. Todo o texto mereceria ser escrutinado, mas vale a pena centrar a nossa atenção em duas passagens de conteúdo inqualificável. 1ª Passagem: “A ascensão do VOX deve preocupar-nos. Mas não menos que a ascensão há uns anos do Podemos”. Com efeito, para Miranda Sarmento, o grau de preocupação deve ser semelhante. De um lado temos o Podemos, um partido que emergiu no decurso das mobilizações contra a austeridade, o desemprego e os despejos, que se bate pelo fortalecimento do Estado Social, pela maior transparência da democracia, pelo acolhimento digno dos migrantes que chegam a Espanha e pelo combate à discriminação das minorias. Do outro temos o VOX, um partido que emerge na cena política espanhola para resgatar o imaginário franquista e para encerrar o processo em curso de exposição pública dos crimes franquistas e que possui um posicionamento hostil em relação aos imigrantes e às minorias. De um lado temos um partido inquestionavelmente democrático; do outro, temos um partido que se propõe a trazer para o século XXI o legado franquista e falangista, responsável pela prisão, tortura e morte de dezenas ou centenas de milhares de democratas. De um lado, um partido que pretende denunciar esses crimes perante a história, do outro um partido que foi criado para os encobrir. Para Miranda Sarmento, constituem a mesma ameaça. Estranha escala de equivalências a do autor. 2ª passagem: “Com Felipe Gonzalez e depois com José Maria Aznar, Espanha deu um enorme salto no seu desenvolvimento. Usou, e muito bem, a sua dimensão e os apoios comunitários para se desenvolver de uma forma extraordinária. E criar grupos económicos que nos anos 90 e no início do século XXI davam cartas a nível europeu e mundial. Mas em 2004 tudo começou a mudar. (…) Espanha elegeu em 2004 um péssimo político que ficava a milhas de Gonzalez. Zapatero deixou que a economia espanhola perdesse fulgor. Destapou velhas feridas sobre o regime anterior. Não soube, ou não quis, proteger a Monarquia dos escândalos.” Em primeiro lugar, é falso sugerir que 2004 foi um ano de viragem no padrão de crescimento económico espanhol. EM 2004, o PIB espanhol cresceu 3,2%, a que se seguiriam crescimentos 3,7%, 4,2% e 3,8% nos três anos seguintes. O ciclo favorável só viria a ser interrompido na sequência da crise internacional. Com efeito, torna-se claro que olhar 2004 como um ponto de inversão é um exercício retórico sem adesão à realidade, que serve o único propósito de tentar corroborar a narrativa de que o governo de Zapatero (PSOE) foi o responsável pela diminuição do desempenho económico de Espanha. Resta saber se o professor Miranda Sarmento considere que Zapatero é o responsável pela crise internacional que em 2008 atingiu todas as economias do mundo. Mas a gravidade da passagem vai muito além da simples adulteração dos números: o professor Miranda Sarmento reduz a explicação da crise económica espanhola a duas curiosas variáveis: o destapar “de velhas feridas sobre o regime anterior” e o facto de Zapatero não ter querido ou não ter sabido proteger a monarquia de escândalos. O professor Miranda Sarmento não reserva uma única palavra para o papel desempenhado pelo rebentar da bolha imobiliária espanhola, que pôs fim a vários anos de crescimento assente na expansão do crédito e do setor imobiliário, incentivado por uma integração europeia que incentivou os países do Sul a sustentarem o seu modelo económico em dívida contraída junto dos países do centro da Europa. Para o professor Miranda Sarmento, este fator estrutural é irrelevante. O grande problema da economia espanhola foi Zapatero ter feito um esforço – ainda que tímido, na verdade – para trazer à luz do dia os crimes do fascismo e julgar os seus responsáveis, resgatando-os da sombra a que uma transição conivente os havia votado e, assim, procurando a justiça adiada para milhares de vítimas do fascismo e para as suas famílias. Como é que isto poderá ter tido um impacto negativo no crescimento económico? – o autor não explica. Mas talvez considere julgar crimes contra os direitos humanos desincentiva o investimento. Só ele saberá. Finalmente, Zapatero seria também responsável pelo momento negativo da economia espanhola – que, como vimos, só ocorreu na cabeça do professor Miranda Sarmento – porque não soube ou não quis proteger a monarquia. Em que medida é que cabe a um chefe do executivo preservar a imagem da monarquia? Não será uma exigência que a monarquia deve colocar a ela própria? Deveria Zapatero ter ligado ao rei Juan Carlos a exortá-lo a não ir caçar furtivamente elefantes para África? E, mais uma vez: qual é o canal que tudo isto tem com o crescimento económico? 
Numa pequena coluna, Joaquim Miranda Sarmento equipara um partido neo-fascista a um partido democrático e responsabiliza a busca da verdade sobre o franquismo pela recessão espanhola que, obviamente, se deveu à crise internacional. A desonestidade intelectual não tem limites para alcançar os seus intentos. Rui Rio e a direção do PSD até podem tentar ensaiar uma imagem de moderação perante o eleitorado. Mas não podem negar que figuras sinistras se sentam à sua mesa.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Apresentação


O fascismo não cai do céu aos trambolhões. Não é um clube político fruto do ‘espírito do tempo’, ou uma ideia na moda. Não é um produto maléfico saído da psique perturbada de alguns chefes, não é a expressão de características específicas de certos povos ou etnias, em suma, não é uma aberração política e ideológica misteriosa que se abate inopinadamente, como uma pandemia, sobre o liberalismo oligárquico e as sociedades europeias do pós-Primeira Guerra Mundial. […] O grande cenário para a emergência dos fascismos na Europa é a crise do sistema liberal. […] É certo que a História nunca se repete na sua factualidade. O fascismo dos anos 20 e 30 também não. Os movimentos que, na segunda metade do século XX e no início do presente, o pretenderam mimetizar transformaram-se invariavelmente em grupos de actividades criminais ligados à violência racista, ao tráfico de armas ou de drogas; ou seja, repetem-se como farsa marginal e de delinquência, mas sem qualquer influência real na sociedade ou expressão política relevante. Não foi ali que a serpente pôs o ovo.

Fernando Rosas na contracapa de um livro que “demorou muito tempo a escrever”.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Hitler gargalhava quando o nazismo era confundido com a esquerda

O que Adolf Hitler diria do disparate de que o nazismo “é de esquerda”, como afirmam o presidente Jair Bolsonaro, o ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo, e o guru do bolsonarismo Olavo de Carvalho? Ele provavelmente iria rir alto.

De fato, gargalhar era o que Hitler e seus colegas nazistas faziam quando eram confundidos com os “vermelhos”, com quem disputaram na porrada o poder durante os turbulentos anos que antecederam o início do Terceiro Reich. Quem conta é o próprio Hitler, em “Minha Luta”, o misto de autobiografia e manifesto de ódio lançado em 1925 no qual a ideologia nazista foi consolidada.

Em um capítulo devidamente intitulado “A Luta com os Vermelhos”, Hitler narra como seu partido era muitas vezes confundido com o do seus inimigos da esquerda, principalmente pelos “burgueses comuns” que, escreveu Hitler, “ficavam muito chocados por nós termos também recorrido à simbólica cor vermelha do bolchevismo”.
Segundo ele, muitas pessoas “nos círculos nacionalistas sussurravam que éramos apenas uma variação de marxistas, talvez marxistas disfarçados ou, melhor, socialistas.” Mais do que a cor vermelha, escreveu o futuro Führer, esses “nacionalistas” pareciam preocupados com a linguagem usada pelos nazistas, que chamavam um ao outro de “camaradas”, como comunistas faziam.


Hitler afirma que a confusão – em certa medida incitada pelos próprios nazis como estratégia publicitária – era, para ele, hilária.

“Quantas boas gargalhadas demos à custa desses idiotas e poltrões burgueses, nas suas tentativas de decifrarem o enigma da nossa origem, nossas intenções e nossa finalidade! A cor vermelha de nossos cartazes foi por nós escolhida, após reflexão exata e profunda, com o fito de excitar a esquerda, de revoltá-la e induzi-la a frequentar nossas assembleias; isso tudo nem que fosse só para nos permitir entrar em contato e falar com essa gente.”

Anos depois de ter escrito o livro, Hitler usaria esse mesmo horror da “burguesia” nacionalista ao marxismo para arregimentar apoio da elite industrial alemã ao seu projeto autoritário. Uma vez empossado chanceler, em 1933, Hitler usou o incêndio no Reichstag como prova que de os comunistas estavam conspirando contra o seu governo. E, em 1934, ordenou a destruição das chamadas SA, uma facção paramilitar nazista comandada por Ernst Röhm, mais simpático às ideias comunistas. O violento expurgo, no qual centenas foram assassinados, foi apelidado de a Noite dos Longos Punhais.

O completo absurdo das declarações de Bolsonaro e companhia fica imediatamente claro para qualquer leitor mediano que tenha estômago para consultar o “Minha Luta” – proibido em vários países, mas facilmente encontrável na internet. Desde o início do livro, Hitler explicita que o anti-marxismo era, para ele, inseparável do antissemitismo e que ambos são o motivo fundante do nazismo. Em uma passagem em que explica seu processo de politização em Viena, Hitler chega a listar o primeiro antes do segundo: “Meus olhos se abriram para dois perigos, cujos nomes e significado terrível para a existência do povo alemão eu mal conhecia. Esses dois perigos eram o marxismo e o judaísmo”.

Mais do que essa imaginada conexão entre marxistas e judeus, Hitler tinha repulsa ao ideário igualitário universal comunista. Com razão, já que ele contradiz o núcleo ideológico nazista, segundo o qual a “raça” ariana seria inerentemente superior, tendo, portanto, direito sobre as demais. Como escreveu o propagandista do Reich, Joseph Goebbels, num famoso livreto de propaganda de 1926: “O marxismo, cujas teorias são fatais para os povos e raças, é exatamente o oposto do [nacional] socialismo.”

Ao longo de sua autobiografia, Hitler descreve o marxismo diversas vezes como uma doença pestilenta, uma doutrina irracional e um risco existencial à Alemanha, que deveria ser combatido e aniquilado. Diz ele:

“Nos anos de 1913 e 1914, expressei minha opinião pela primeira vez em vários círculos, alguns dos quais agora são defensores do movimento nacional socialista, de que o problema sobre como o futuro da nação alemã pode ser assegurado é o problema sobre como o marxismo pode ser exterminado”.

Depois, reafirma: “No dia em que o marxismo for quebrado na Alemanha, os grilhões que nos prendem serão esmagados para sempre”. Disse ainda, ao rememorar eventos de 1923: “A primeira tarefa em um governo verdadeiramente nacionalista era procurar e achar as forças que estivessem decididas a lutar uma guerra de aniquilação contra o marxismo e, em seguida, dar liberdade de ação a essas forças.”

Não surpreende que os marxistas tenham sido um dos primeiros grupos a ser levados para campos de concentração, nos quais foram assassinados às centenas de milhares. Nem que todos os grupos neonazistas do pós-guerra mantenham o ódio à esquerda como ponto ideológico central.

Ninguém, no Brasil ou no exterior, precisa acreditar em jornalistas ou em historiadores para saber que o nazismo se opunha frontalmente ao comunismo. Basta ler as palavras de Hitler.
Imagem: Adolf Hitler (1989-1945) sendo recebido por apoiadores em Nuremberg. em 1933. Foto: Hulton Archive/Getty Images
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Um em cada dez eleitores europeus apoia populistas de direita, diz estudo

Extremistas são grupo político que obtém maior percentual de intenção de votos em pesquisa da Fundação Bertelsmann. Maioria dos consultados prefere votar contra partidos que mais rejeita e não em seu favorito.

Cerca de 10% dos eleitores europeus pretendem apoiar partidos de extrema direita ou populistas de direita nas eleições para o Parlamento Europeu, de acordo com uma pesquisa divulgada pela Fundação Bertelsmann nesta sexta-feira (26/04).

Entre os demais eleitores, a maioria usará suas cédulas de votação para tentar barrar partidos a que se opõem em vez de apoiar um determinado grupo. Segundo os pesquisadores, esse tipo de votação "do contra" poderá beneficiar os movimentos políticos extremistas e dificultar a formação de uma maioria no Parlamento Europeu.

O estudo da Fundação Bertelsmann indica que 10,3% dos eleitores europeus devem apoiar partidos populistas de direita ou de extrema direita – o mais alto percentual de um agrupamento político. Em contraste, 6,2% dos entrevistados disseram que se identificam com a extrema esquerda ou com populistas de esquerda, e outros 4,4%, com os verdes.


Uma grande parte dos eleitores se mostrou motivada por oposição a um grupo – apenas 6,3% dos entrevistados disseram ter uma identificação positiva com um partido, e 49% nomearam um partido para o qual jamais votariam. Pouco mais da metade (52%) afirmou que jamais votaria em partidos extremistas em nenhum dos lados do espectro político.

Assim, 50,7% dos questionados disseram que jamais votariam nos liberais, enquanto 47,8% não votariam de jeito nenhum nos conservadores, ou democrata-cristãos, e 42% rejeitam as legendas de centro-esquerda e os partidos socialistas.

A pedido da Fundação Bertelsmann, o instituto de pesquisa YouGov entrevistou 23.725 eleitores em 12 países da União Europeia (UE) – dois terços de todos os europeus e três quartos dos alemães questionados afirmaram que planejam participar da eleição europeia em 26 de maio.

Os pesquisadores disseram que os eleitores que acreditam que os principais partidos pró-UE não representam mais seus interesses tendem a acolher mensagens populistas.

"Os partidos populistas conseguiram criar uma base de eleitores estável e leal num espaço de tempo relativamente curto", disse Robert Vehrkamp, um dos autores do estudo e especialista em democracia na Fundação Bertelsmann. "Mas o alto nível de rejeição [desses partidos] também mostra como seria perigoso para outros partidos imitá-los."

"Muitos cidadãos não optam mais por apoiar um partido, mas por votar contra os partidos que mais rejeitam", acrescentou Vehrkamp.

O presidente-executivo da Fundação Bertelsmann, Aart De Geus, afirmou que o sucesso dos partidos populistas em mobilizar simpatizantes significa que o comparecimento às urnas será "crucial para determinar os resultados eleitorais e o futuro da Europa".

"A mobilização do predominante centro pró-UE é um pré-requisito importante" para a criação de maiorias nos grupos de trabalho no novo Parlamento Europeu, segundo De Geus.

PV/afp/dpa | Deutsche Welle

 

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Extrema direita une forças para eleições europeias

Líderes de partidos populistas de direita europeus reúnem-se em Praga. Aliança eurocética busca formar forte bloco parlamentar nas eleições europeias no próximo mês.
Numa demonstração de união, líderes de partidos europeus de extrema direita reuniram-se em Praga nesta quinta-feira (25/04). Após forte ascensão dos movimentos contrários à União Europeia (UE) em várias partes do bloco comunitário, populistas de direita esperam alcançar no um sucesso sem precedentes nas eleições europeias do mês que vem.

A francesa Marine Le Pen, do Rassemblement National (Agrupamento Nacional), da França e o holandês Geert Wilders, líder do Partido para a Liberdade (PVV), estão entre os palestrantes, enquanto o mandatário da Liga e ministro do Interior da Itália, Matteo Salvini, contribuiu com o envio de uma mensagem em vídeo.

No comício, Le Pen defendeu a união da extrema direita e afirmou que pela primeira vez o "movimento democrático de patriotas" possibilita uma reforma na conjuntura do bloco.


"O que vemos aqui é o nascimento de uma nova harmonia europeia com partidos nacionalistas europeus unidos para oferecer a 500 milhões de europeus um no quadro de cooperação, um novo projeto e um novo impulso para o futuro", disse a política francesa ao lado de Wilders.

"A imigração deve ser travada e a ideologia islamita deve ser erradicada", insistiu Le Pen, acusando a União Europeia de supostamente "financiar uma imigração em massa, organizada e desejada".

Numa coletiva de imprensa antes do comício, tanto Le Pen quanto Wilders defenderam posturas eurocéticas. A francesa alegou que a UE não pode ser baseada "numa ideologia imposta à força" e afirmou que o globalismo e o islamismo são ameaças.

"Todos querem mais União Europeia, o que é negativo, pois isso significa menos Estados-nação", ressaltou Wilders, defendendo a criação de leis para impedir a imigração de muçulmanos no bloco.

Uma banda tcheca de extrema direita abriu o evento na praça central de Wenceslas, em Praga, que teve como anfitrião Tomio Okamura, parlamentar tcheco que dirige o partido Liberdade e Democracia Direta (SPD).

"Na quinta-feira, o SPD lançará oficialmente a campanha eleitoral da UE. Queremos mostrar que não estamos sozinhos", disse Okamura. "Pesquisas mostram que a Aliança Europeia de Pessoas e Nações [EAPN], liderada por Matteo Salvini, Marine Le Pen, pelo Partido da Liberdade da Áustria [FPÖ] e outros, tem a chance de formar um dos grupos mais fortes do Parlamento Europeu."

Partidos e agrupamentos participantes da aliança eurocética, que incluem a Alternativa para a Alemanha (AfD) e o Partido do Povo Dinamarquês, compartilham políticas contrárias a migrantes e promovem a soberania nacional e as liberdades individuais. 

O SPD, que nunca participou das eleições legislativas na União Europeia e, portanto, não possui parlamentares em Estrasburgo, defende o Czexit, a saída da República Tcheca da UE, assim como o PVV de Wilders apoia um Nexit, a saída da Holanda do bloco comunitário.

Os partidos eurocéticos receberam um impulso adicional há uma semana, quando o Partido dos Verdadeiros Finlandeses alcançou o segundo lugar nas eleições gerais da Finlândia.

Salvini, que visitou Okamura em Praga no início deste mês, recentemente convocou partidos nacionalistas espalhados pelo Parlamento Europeu para unir forças e formar uma nova aliança. Ele disse que espera que o novo bloco seja o maior do parlamento de 751 assentos, após a votação marcada para 23 a 26 de maio.

"Esses partidos chegarão lá, serão fortes, terão bons resultados nas eleições, especialmente na Itália", disse o analista político tcheco Jan Kubacek. "Mas o problema com todos esses grupos é que eles não podem realmente cooperar, pois estão muito focados em seus interesses nacionais."

Se a aliança, de fato, sair do papel após a eleição europeia, um líder terá de ser escolhido – e Le Pen e Salvini estão de olho no cargo.

"Le Pen será muito ativa no Parlamento Europeu. Ela não pode realmente mostrar seu melhor na política francesa, então ela usa o parlamento como sua segunda plataforma", disse Kubacek.

Salvini convocou uma grande reunião dos partidos anti-EU para Milão em 18 de maio, com a participação de Le Pen e Okamura.

"A reunião deve ser uma demonstração pan-europeia da capacidade das nações europeias de cooperar sem um mandado de Bruxelas, apenas com base em acordos mútuos", disse Okamura.

Le Pen, Wilder e Okamura já haviam se encontrado em Praga em dezembro de 2017 para comemorar a conquista de 22 assentos do SPD no Parlamento Tcheco naquele ano. O partido ganhou pontos com os eleitores com uma campanha anti-imigração – embora muitos migrantes tenham desprezado a República Tcheca em troca de países mais ricos, como a Alemanha – e com discurso contrário ao islã, lema-chave também para as eleições europeias.
PV/afp/ots | Deutsche Welle
Na foto: Marine Le Pen, Tomio Okamura e Geert Wilders durante encontro de partidos anti-imigração em dezembro de 2017

 

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https://paginaglobal.blogspot.com/2019/04/extrema-direita-une-forcas-para.html

FBI desclassifica documentos sobre 'fuga' de Hitler para Argentina

Ditador nazista alemão Adolf Hitler, 1938
© AFP 2019 / AFP FILES

O FBI investigou rumores sobre fuga do líder nazista, Adolf Hitler, após o cerco de Berlim em 1945, de acordo com documentos desclassificados pelo departamento federal.

De acordo com o material, que agora não é mais secreto, o líder nazista atingiu o território argentino de submarino seis meses depois de suposta morte em bunker de Berlim.


Por sua vez, no país sul-americano, Hitler teria sido recebido por seis oficiais de alto escalão argentinos que organizaram abrigo para ele em um rancho no sul dos Andes. 

De acordo com os documentos, o então diretor do FBI, Edgar Hoover, estava ciente das informações, porém, o departamento as considerou "incompletas", ressaltando que era impossível continuar as buscas de Hitler se baseando nestas informações. 

O primeiro relatório é de 21 de setembro de 1945. 

Segundo historiadores, Adolf Hitler cometeu suicídio em 30 de abril de 1945, ao atirar na cabeça.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/sociedade/2019042313737617-hitler-fuga-argentina-fbi-investigacao/

Europa em chamas

Não vou falar do incêndio de Notre Dame. Foi um acidente – dizem – e haverá a recuperação do monumento.

Quero falar de um mosteiro em Itália, dito COLLEPARDO, de um pequeno povoado de angélico nome Parisis. Acontece que esse mosteiro já é a base de uma Escola-Universidade? onde Steve Bannon vai ensinar o nazismo, o populismo e como trabalhar com mentiras, falsidades e intrigas.

Este ex-Goldamn Sachs e conselheiro do Trump assumiu descaradamente que viria ressuscitar o nazi-fascismo por toda a Europa. E por aí anda impunemente reabilitando Hitler, Mussolini, Franco, Salazar e outras figuras das trevas da II Guerra Mundial!

Em 2014 deu uma conferência dentro do Vaticano… talvez o reaparecimento da múmia Benedito anunciando que a pedofilia e os abusos sexuais se devem ao Maio de 68!!! (tanto medo dessa data!!!), e a insistência sobre a escravatura a que a comunidade Europeia submete os países, e o ataque ao € Euro clarifique o verdadeiro plano do imperialismo USA… atacar a Europa, liquidando a sua moeda e, se necessário for, criar guerras localizadas.

O que foi a destruição da Jugoslávia? um ataque a um país forte que iria integrar a comunidade!

E o ódio ao €? a defesa total do dólar. Saddam Hussein e Gaddafi foram liquidados porque queriam abandonar o dólar.

Tudo isto implica uma enorme vigilância e mobilização para as eleições Europeias que estão a ser o alvo preferencial da actual campanha nazi. Usarem a democracia para se infiltrarem, destruir o projecto do interior e… ainda por cima fazerem o sale boulot continuando a serem bem pagos… como Farage, Bolsonaro e outros capangas.

Basta de passividade. A defesa da PAZ exige mobilização e atenção permanentes.


O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/europa-em-chamas-steve-bannon-vai-ensinar-o-nazismo/

Os trafulhas, que emergem com discursos fascistas

Anuncia-se que a «coligação» fascista encabeçada pelo «gauleiter» Ventura tem mais dinheiro para investir na campanha eleitoral do que o CDS de Assunção Cristas. Razão para ficarmos, particularmente, atentos sobre quem estará por trás desse financiamento, que não seria ideia despicienda começar a ser investigado pelo Ministério Público. Porque havendo regras bem concretas sobre como se podem financiar os partidos, convém aferir se elas estarão a ser cumpridas por quem da legalidade tem tal conceção, que nem sequer conseguiu legalizar o respetivo partido no Tribunal Constitucional.

 

Identificados esses generosos investidores, poderemos compreender quais os desígnios, que lhes vão na alma para complementarem os apoios financeiros habitualmente concedidos aos outros partidos das direitas e aos vários jornais, rádios e televisões, e assim contarem com uma voz extremada, quer na assumida xenofobia, quer na despudorada defesa de valores exógenos a uma sociedade democrática.

 

Depois do que aconteceu no Brasil desde que, em 2013, se verificou um grande movimento popular contra o aumento dos preços dos transportes, que serviu de trampolim para pôr em causa a presidência de Dilma Roussef e suscitar o seuimpeachment,estamos cientes de como certas lutas, aparentemente eivadas de algum sentido de justiça, mais não são do que ensaios para o verdadeiro propósito de quem as organiza na sombra. Vide a «luta« dos camionistas de substâncias perigosas, que terá facultado oportunas ilações aos que nos anseiam bolsonarizar com os seus sinistros desígnios.

 

Não se podem ter, pois, quaisquer contemplações com o tipo de criaturas, que vão emergindo do anonimato para ganharem poses de heróis contestatários. Até porque, tal qual se vai sabendo mais do Pardal, que ganhou súbita fama na semana transata, o mais provável é merecerem o tratamento judicial de quem é imperdoável trafulha.

 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/04/os-trafulhas-que-emergem-com-discursos.html

Resultado na Finlândia mostra avanço da extrema-direita antes de eleições na Europa

O forte desempenho da extrema-direita nas eleições na Finlândia mostrou a força dos partidos anti-imigrantes em todo o continente, pouco mais de um mês antes das eleições para o Parlamento Europeu.

O Partido dos Finlandeses mais do que dobrou seus assentos sob a liderança do nacionalista Jussi Halla-aho, na votação do último domingo.

Foram necessários 17,5% dos votos, logo atrás dos social democratas, que chegaram em primeiro com 17,7% — o que pode dificultar para o líder social democrata Antti Rinne formar um governo que exclua a extrema-direita.

A extrema-direita fez novos ganhos recentemente em países da União Europeia (UE), da Estônia à Espanha, além de suas bases fortes em nações como França, Alemanha e Itália.


Os eleitores europeus devem escolher um novo Parlamento nas eleições de 23 a 26 de maio, e ganhos para a extrema-direita seriam um novo golpe para os líderes estabelecidos do bloco depois da crise causada pelo Brexit.

Identidade e imigração são a "força motriz" por trás do voto populista na Europa, avaliou o pesquisador francês Jean-Yves Camus, especialista em extrema-direita, em entrevista à Agência AFP.

"Há uma crise real da democracia representativa que está sendo desafiada pela democracia direta", pontuou.

Ele disse que Hallo-aho dirigiu seu partido em uma direção muito mais radical do que seu antecessor, Timo Soini, que se conformava mais ao modelo de um conservador nacional europeu.

"Houve radicalização dentro do Partido dos Finlandeses", acrescentou Camus.

Goran Djupsund, professor de ciência política na Universidade Abo Akademi, na Finlândia, observou que nenhum partido na eleição ultrapassou a marca de 20%: um sinal de crescente fragmentação na política.

O partido do primeiro-ministro Juha Sipila foi relegado para o quarto lugar.

"É um fenômeno que estamos compartilhando com o resto da Europa", analisou Djupsund.

'Contágio'

Após as eleições inconclusivas de março na Estônia, o primeiro-ministro Juri Ratas está em negociações de coalizão com o partido EKRE, de extrema-direira e anti-EU, e os conservadores do Isamaa para se agarrarem ao poder.

E o partido anti-imigração Vox surpreendeu observadores na Espanha no ano passado com um forte desempenho nas eleições regionais da Andaluzia, ajudando a empurrar os socialistas para fora do poder na região.

Halla-aho, uma figura de fala mansa, cuja personalidade pública calma esconde suas obras escritas, criticando severamente o Islã e a migração, ecoou seus colegas de extrema-direita em toda a Europa durante sua campanha.


Ele destacou a importância da identidade particular da Finlândia, criticou a imigração e denunciou a "histeria climática", dizendo que a pressão para parar o aquecimento global está "destruindo a economia e a indústria finlandesa".

Tais temas saíram diretamente da ideologia do partido de extrema-direita Alternativa para Alemanha (AfD), que repetidamente denuncia o preço da interrupção do aquecimento global.

O Partido dos Finlandeses poderia tornar-se aliados próximos dos líderes de extrema-direita mais conhecidos da Europa, como Matteo Salvini na Itália e Marine Le Pen na França, criando potencialmente um bloco poderoso no novo parlamento da UE.

A Frente Nacional de Le Pen (FN) foi rápida em elogiar o forte desempenho do Partido dos Finlandeses.

"Após o recente sucesso dos partidos patrióticos na Estônia e na Espanha, os ótimos resultados do Partido Finlandês confirmaram a dinâmica em nível continental em favor dos partidários de uma Europa de nações livres e orgulhosas", ponderou Nicolas Bay, Front legislador nacional no Parlamento Europeu.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

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Marine e Salvini: A Europa da Direita dura apresenta-se

Marine Le Pen, que hooje, segunda-feira, apresenta o manifesto para a “Aliança europeia das Nações”, tem um problema com uma sobrinha irrequieta e muito inspirada a brincar à “Guerra dos Tronos”…

A família é mesmo um problema, com sobrinhos assim quem é que precisa de inimigos?

Marine já convenceu homem-forte de Itália, Matteo Salvini, a aderir ao projecto de “Aliança europeia das Nações” que se propõe combater o “capitalismo nómada” com o “localismo”, combater o “livre câmbio” com o “câmbio justo”, combater os “dumpings” social e ambiental (de países estrangeiros que exportam para a Europa…) e reconciliar a economia com a ecologia. Um vasto e ambicioso programa mas também uma narrativa política capaz de mobilizar e de seduzir eleitores…

Para o Le Point,

“Marine Le Pen rêvait d’une alliance des nationalistes européens avant l’élection. Au final, si elle a su rallier Matteo Salvini, il n’y aura pas de grand front uni. Celui-ci pourrait, selon elle, arriver ensuite, “en fonction du poids des uns et des autres.” Décidée à pouvoir peser dans les débats, elle propose donc un manifeste, tiré à 5 000 exemplaires. Au coeur du projet? Le “localisme”, qu’elle oppose à un capitalisme “nomade” et veut réconcilier écologie et économie. “Il s’agit de construire un système dans lequel ce qui vient de près coûte moins cher que ce qui vient de loin et ce, afin de réindustrialiser les territoires” explique Marine Le Pen.

“Conséquence directe, selon elle, le développement du “juste échange” en opposition au “libre-échange”. “Nous considérons que le commerce ne doit pas obligatoirement passer par une recherche du moins-disant social ou environnemental. Il faut réintégrer ces exigences dans la manière dont on commerce avec l’étranger”. Autant d’arguments selon elle en faveur d’une “Alliance européenne des Nations.

Une autre définition du populisme

Si le Rassemblement national ne parvient pas encore à fédérer au niveau européen, il a aussi échappé à une liste concurrente menée par Eric Zemmour et Marion Maréchal. Comme prévu, Marine Le Pen utilise aussi cette interview au Parisien pour répondre à sa nièce. Interrogée sur leurs visions divergentes du populisme, elle se montre offensive. “Je crois qu’elle commet une erreur d’analyse sur le concept de populisme que, par ailleurs, nous n’avons pas repris à notre compte. Le populisme, ce n’est pas le fait de défendre les pauvres ou les chômeurs. Le populisme, tel que le conçoit Matteo Salvini, c’est le fait de défendre le peuple. Dans le peuple, il y a aussi les classes moyennes. Il y a même les classes supérieures. Reste que le rôle d’un dirigeant politique est d’aller au chevet de ceux qui en ont le plus besoin. C’est ça la grandeur d’un responsable politique.”

Líder nas sondagens para as próximas eleições europeias (Maio), a dirigente principal da direita dura de França parece ser o único dirigente político francês a ter sabido tirar da crise estrutural as conclusões necessárias para se apresentar como quem compreende o povo e os seus problemas e até oferece soluções políticas onde os outros apenas são capazes de apresentar pequenas medidas quantitativas… Daí que ela diga que de Macron não espera “absolument rien”.

Vivemos tempos confusos, muito confusos. E ao analisar este discurso (quase) revolucionário de Marine é bom ter presente duas coisas:

  1. Seria um erro reduzi-lo a cinismo e a simples fachada para encobrir a “verdadeira natureza” do Rassemblement national (Rassemblement… um conceito político gaulista!);
  2. Não é por acaso que boa parte das estruturas que compõem a quadrícula com que o RN cobre a França vieram (com “armas e bagagens”) do… PCF. Tal como, aliás, Salvini também vem do PCI. O próprio nome que o RN ostentava até ao ano passado Front National) se inspirava de uma estrutura “frentista” do PCF…

Exclusivo Tornado / IntelNomics


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Bisneto de Mussolini diz que fascismo na Itália é 'exagero de propaganda esquerdista'

Foto de arquivo datada de 28 de setembro de 1938 mostra o ditador italiano Benito Mussolini, à esquerda, e o líder nazista Adolf Hitler, à direita, tirada pouco antes da assinatura do Acordo de Munique, Alemanha.
© AP Photo /

O político também especulou sobre a necessidade de ação da direita na Itália, trazendo estatísticas sobre a sobre-representação dos migrantes nas taxas de criminalidade e dados da população carcerária.

O bisneto do ex-premiê fascista da Itália, Benito Mussolini, Caio Giulio Cesare Mussolini, é candidato ao Parlamento Europeu nas eleições que acontecem no mês que vem. Ele é membro de um partido de oposição nacional-conservador italiano, Irmãos de Itália, mais popular no sul do país.


Em uma entrevista por escrito com o DPA, o político de 51 anos de idade disse que estava "orgulhoso" de seu sobrenome, embora fosse "muitas vezes um fardo" para ele. Caio, porém, negou que sua campanha tenha sido inspirada por alguma nostalgia fascista, embora defenda o slogan #EscrevaMussolini (um apelo para que cidadãos escreva o sobrenome dele na cédula, como manda a lei).

No início deste mês, membros de dois partidos de direita da Itália, Casa Pound e Forza Nuova, participaram de protestos em Torre Maura, um antigo distrito de Roma, bloqueando a transferência de 70 pessoas da minoria cigana em um centro de recepção local. Segundo Cesare Mussolini, compreender tais incidentes como um indicador de novo fascismo “é um exagero de propaganda da esquerda, que não tem outros argumentos”.

Ele prosseguiu dizendo que em algumas áreas “há muito medo” dos ciganos e que esse sentimento “deve ser entendido, não demonizado”. Abordando o problema migratório de modo mais amplo, Cesare Mussolini ressaltou que “na Itália, como na Alemanha”, os migrantes tendem a fazer aumentar as estatísticas de criminalidade, além de comporem fatia considerável nos números de encarcerados.

"São estatísticas. O que não pode ser contestado", afirmou Mussolini.

O candidato do BDI foi oficial da Marinha no passado, bem como representante do Oriente Médio para a Finmeccanica, uma empresa de defesa italiana que agora é conhecida como Leonardo.


Ele se autoclassifica como “patriota” e admitiu admirar políticos como o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orban, “mas também” a chanceler alemã Angela Merkel. Para ganhar uma cadeira nas eleições de 26 de maio, ele precisará não só receber um número suficiente de votos pessoais, mas torcer que seu partido supere a cláusula de barreira nacional (atualmente fixada em 4%).

Se eleito, ele seria o segundo Mussolini a representar a Itália, depois de sua prima Alessandra. Outro membro de sua família, Rachele, é vereadora em Roma.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2019041413681160-mussolini-fascismo-italia-propaganda/

Um fascista é um fascista, é um fascista, é um fascista, é...

Imaginemos um político, que seja uma coisa híbrida, meio-André Ventura, meio-Santana Lopes. Em França essa bastardia chama-se Nicolas Dupont-Aignan, outrora dirigente dos partidos tradicionais da direita, mas, mais recentemente, a tender para a sua extrema, namorando ostensivamente com Marine Le Pen, a quem apoiou na batalha eleitoral perdida para Emanuel Macron.
O trazê-lo aqui à colação tem uma razão de ser: as direitas, sobretudo se tendem a radicalizar-se, usam e abusam das mentiras, torcem e distorcem as estatísticas para que pareçam secundar-lhes os falaciosos argumentos. Desta feita, num debate televisivo com os cabeças-de-lista dos vários partidos e movimentos às eleições europeias, o tratante proferiu uma atoarda logo desmentida em direto: que nos últimos anos tinham entrado no espaço europeu 20 milhões de novos emigrantes.
Ora a estatística, que invocou é bastante explicita quanto ao significado desse número: ele comporta, por exemplo, os portugueses, que emigraram para Inglaterra, os espanhóis que se mudaram para França, os polacos que se mudaram para a Alemanha, etc. Ou seja: a grande maioria dos 20 milhões de pessoas em causa transitaram no espaço europeu já dele provindo e nele tendo nascido.
O que Dupont procurava era suscitar o alarme quanto a uma invasão de populações não brancas, que viessem precipitar a decadência da civilização ocidental, mormente através da escandalosa miscigenação entre elas e as impolutamente alvas que nem a neve.
Por muito que se procure alguma pinga de honestidade nesse tipo de gente, ela não se vislumbra: além de indisfarçáveis fascistas, só sabem recorrer a argumentos trapaceiros para iludir quantos neles julgam ver salvadores da ameaçada cristandade.

 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/04/um-fascista-e-um-fascista-e-um-fascista.html

Fascismo na UE | Cinismo em nome da "vida familiar"

Ultradireita tenta promover sua ideologia sob o disfarce de "valores da família", como demonstrou o Congresso Mundial das Famílias em Verona. Precisamos conter esses ventos, opina Krsto Lazarevic*.
No último fim de semana de março, a cidade italiana de Verona sediou o Congresso Mundial das Famílias. Mas esse nome aparentemente inofensivo esconde o fato de que esse foi um dos maiores encontros mundiais de homofóbicos de direita, ativistas antiaborto e antifeministas, que se reuniram na Itália para investir contra muitas conquistas civilizatórias das últimas décadas.

Eles se reuniram num magnífico palácio no centro da cidade, sob os auspícios da administração municipal, que em outubro passado declarou Verona oficialmente como uma "cidade pró-vida". Embora também possa parecer algo relativamente inócuo, isso significa efetivamente tornar a vida muito difícil para as mulheres que desejam abortar.


Curiosamente, muitas das coisas ditas no Congresso Mundial das Famílias em Verona tinham pouco a ver com a vida familiar. Os participantes repetidamente questionaram a Teoria da Evolução, e um participante chegou a afirmar que os EUA não deveriam ter abolido a segregação entre brancos e negros nas escolas.

O parlamentar evangélico ucraniano Pavlo Unguryan expressou a sua esperança de que a Europa assista à ascensão de um cinturão bíblico ao longo de Itália, Romênia, Croácia, Hungria e Ucrânia.

Visivelmente, os participantes continuaram reiterando a sua crença de que as famílias são os elementos básicos da sociedade. Mas a definição de papéis familiares e de gênero pode variar – e essas diferenças são importantes.

Aqueles que pensam ser uma boa ideia obedecer cegamente a um pai autoritário também estarão inclinados a seguir cegamente um autocrata sem respeito por seu povo. A ideia que uma pessoa tem sobre a família perfeita revela, portanto, muito sobre as suas convicções políticas e se estão abertas a ideologias totalitárias.

O tema do congresso – "Vento de Mudança" – mostra que os organizadores esperam que uma rajada política de ar venha e acabe com a democracia liberal. Os participantes são contra o tipo de políticas liberais adotadas por países como Suécia, Noruega e Coreia do Sul; nações que foram relativamente bem-sucedidas na criação de sociedades mais igualitárias.

Em vez disso, esses conservadores reverenciam países como a Hungria e o Brasil, onde os governos de direita estão implementando políticas inspiradas por uma ideia anacrônica de família, ao mesmo tempo em que dificultam a vida das minorias étnicas e sexuais. A ministra húngara da Família, Katalin Novák, discursou durante a conferência. O governo Jair Bolsonaro foi representado por Angela Vidal Gandra Martins, secretária nacional da Família do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, que discursou no evento.
Rados Pejovic, do Dveri, legenda de extrema direita da Sérvia, também esteve entre os convidados da conferência. Seu partido glorifica Ratko Mladic, criminoso de guerra condenado e também conhecido como o "açougueiro da Bósnia", dizendo que o massacre de Srebrenica de 1995 – realizado sob seu comando e que deixou 8 mil muçulmanos mortos – foi necessário para "libertar" a cidade na atual Bósnia e Herzegovina. Nada mais cínico que um membro desse partido defenda publicamente santificar toda a vida humana.

Não é por acaso que esta conferência de extrema direita tenha sido realizada na Itália, apenas algumas semanas antes das eleições parlamentares europeias no final de maio. Os organizadores do encontro pretendiam demonstrar que não apenas países como a Hungria, onde a cúpula de 2017 foi realizada com o apoio do primeiro-ministro Viktor Orbán, mas também um dos membros fundadores da UE é receptivo à política autoritária de direita.

Eles querem atacar a Europa liberal a partir de dentro com o apoio da Liga, partido anti-imigração da Itália, cujo membro mais proeminente, Matteo Salvini, também participou da conferência.

A região de Vêneto, que é governada pela Liga, forneceu apoio financeiro ao Congresso Mundial das Famílias – o que significa que os contribuintes italianos colaboraram para uma conferência que atacou abertamente gays e lésbicas, e questionou a igualdade de direitos para as mulheres.

Krsto Lazarevic* | Deutsche Welle | opinião

*Krsto Lazarevic nasceu na Bósnia e Herzegovina e fugiu para a Alemanha com sua família quando criança. Hoje ele vive em Berlim, onde trabalha como jornalista e comentarista, escrevendo para vários meios de comunicação de língua alemã.

Na imagem: Ativista segura cartaz na Marcha pela Família durante evento em Veron

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/04/fascismo-na-ue-cinismo-em-nome-da-vida.html

Populistas anunciam aliança europeia de extrema direita

Após encontro em Milão, líderes da AfD, da Alemanha, e da Liga, da Itália, prometem formar novo bloco de partidos eurocéticos no Parlamento Europeu e promover mudanças radicais na UE.
Os partidos populistas de direita Alternativa para a Alemanha (AfD) e Liga, da Itália, anunciaram nesta segunda-feira (08/04) que pretendem formar um novo bloco no Parlamento Europeu junto com outras legendas eurocéticas e de extrema direita.

O novo grupo deve se chamar Aliança Europeia de Pessoas e Nações (EAPN), afirmou Jörg Meuthen, um dos líderes da AfD, em coletiva de imprensa ao lado do líder da Liga, o ministro do Interior e vice-primeiro-ministro italiano, Matteo Salvini, em Milão.

Meuthen, que também é o principal candidato da AfD para as eleições europeias de maio deste ano, afirmou que o encontro em Milão foi um "sinal de partida para algo novo". Ele viajou à Itália a convite de Salvini, que também lançou sua campanha para o Parlamento Europeu.


Meuthen enfatizou que, no futuro, os nacionalistas de direita não estariam mais fragmentados, mas unidos. O desejo do grupo é promover a concessão de mais poderes aos Estados-membros e reduzir a influência de Bruxelas.

"Queremos reformar a União Europeia (UE) e o Parlamento Europeu, sem destruí-los. Queremos trazer mudanças radicais", disse Meuthen.

Líderes dos direitistas Partido Popular Dinamarquês e Finns, da Finlândia, também participaram do encontro organizado por Salvini. A Rassemblement National (Agrupamento ou Comício Nacional, a antiga Frente Nacional), de Marine Le Pen, e o Partido da Liberdade da Áustria também devem se juntar à EAPN, embora não tenham participado da reunião desta segunda-feira.

"A ideia é deixar de ter uma Europa centralizada e comum para todos, mas devolver o poder aos parlamentos nacionais para criar uma cooperação honesta entre Estados iguais e abandonar a perigosa utopia dos Estados unidos da Europa", disse Marco Zanni, porta-voz de assuntos estrangeiros da Liga, à agência de notícias alemã DPA.

Meuthen defendeu uma "proteção poderosa" das fronteiras externas da UE e a supressão da "migração ilegal".

Na Itália, o discurso de Salvini contra a imigração ilegal e o lema de "primeiro os italianos" seduziu eleitores. Agora, ele quer conquistar com a suas ideias também as instituições europeias.

"Fazemos parte de famílias políticas distintas, mas o importante é que estamos promovendo alianças, estamos trabalhando para tornar realidade um novo sonho europeu, ainda que para alguns em Bruxelas isso seja um pesadelo", afirmou Salvini.

Atualmente, há três grupos de extrema direita e eurocéticos no Parlamento Europeu: o Europa da Liberdade e da Democracia Direta, da AfD; os Conservadores e Reformadores Europeus, que incluem o Partido Lei e Justiça (PiS), da Polônia; e o Europa das Nações e da Liberdade, da Liga e de Le Pen.

LE/dpa/afp/efe | em Deutsche Welle

Massacre em Mesquita na Nova Zelândia: Supremacia Branca e Guerras Ocidentais

O recente massacre de fiéis muçulmanos na Nova Zelândia tem aspectos particulares que suscitam perplexidade, sobretudo no que diz respeito à ausência de vigilância a um indivíduo que anunciara a intenção de o levar a cabo. Mas mais importante ainda é o ambiente geral que favorece tais crimes: se os EUA, a UE e Israel massacram muçulmanos, como não haverá indivíduos que se sintam autorizados a fazer o mesmo?

O ferimento e assassínio em massa de 97 fiéis muçulmanos em Christchurch, Nova Zelândia (NZ) ocorrido na sexta-feira, 15 de Março de 2019, tem profundas raízes ideológicas e psicológicas.
Primeiro e mais importante, os países ocidentais liderados pelo mundo anglo-americano têm estado impunemente em guerra nos últimos trinta anos matando e arrancando das suas terras milhões de muçulmanos. Comentadores nos media, porta-vozes políticos e ideólogos identificaram os muçulmanos como uma ameaça terrorista global e como alvos de uma “guerra contra o terror.” No próprio dia do massacre na Nova Zelândia Israel lançou ataques aéreos de larga escala contra cem alvos em Gaza. Israel já matou várias centenas e feriu mais de vinte mil Palestinianos desarmados em menos de dois anos. Os massacres israelitas acontecem à sexta-feira, o sábado Muçulmano.
A islamofobia é um fenómeno de massa em curso que excede em muito outros “crimes de ódio” em todo o Ocidente e permeia as instituições político-culturais judaico-cristãs.
Tendo os líderes políticos ocidentais e israelitas imposto políticas de imigração extremamente restritivas - em alguns países proibição completa de imigrantes muçulmanos. Israel dá um passo adiante, desalojando e expulsando residentes islâmicos de longa data. O assassino neozelandês seguiu claramente a prática ocidental/israelita.
Em segundo lugar, nos últimos anos, violentos rufias fascistas e da supremacia branca têm sido tolerados por todos os regimes ocidentais e são livres de propagar violentas palavras e acções antimuçulmanas. Muitos dos massacres antimuçulmanos foram antecipadamente anunciados nas chamadas redes sociais como o Twitter, que alcança milhões de seguidores.
Em terceiro lugar, enquanto as polícias locais e federais recolhem “dados” e espiam muçulmanos e cidadãos cumpridores da lei, aparentemente não incluem autoidentificados homicidas que advogam o anti-islamismo.
Tal como é o caso do recente assassino em massa da Nova Zelândia, Brenton Torrant. A polícia e os Serviços de Informações de Segurança da NZ não mantiveram ficheiro e vigilância sobre Torrant apesar da sua aberta opção pela violenta supremacia branca e por destacados suprematistas, incluindo o assassino norueguês de mais de 70 crianças-campistas, Anders Brevet.
Torrant publicou um manifesto antimuçulmano de 74 páginas, facilmente disponível para qualquer um com computador - até mesmo um polícia idiota – para não falar da totalidade as forças de segurança da Nova Zelândia.
Torrant planeou o ataque com meses de antecedência mas não estava em qualquer “lista de observados”.
Torrant não teve problema em obter uma licença de porte de arma e comprar uma dúzia de armas de alta potência, incluindo o material para dispositivos explosivos improvisados ​​(IED), que a polícia descobriu mais tarde ligado a um veículo.

Por que se atrasou a polícia?

A Mesquita Al Noor, que sofreu o maior número de mortos e feridos, está na baixa de Christchurch, a menos de 5 minutos da sede da polícia - mas a polícia levou 36 minutos a responder. O suprematista branco teve tempo para assassinar e aleijar; para deixar a mesquita e voltar ao seu carro; para recarregar e entrar novamente na mesquita; esvaziar a munição nos muçulmanos que rezavam —- usando uma versão civil de uma M16; guiar até ao Centro Islâmico Linwood e abater e mutilar vários outros fiéis muçulmanos, antes de a polícia finalmente aparecer em cena e prendê-lo.
O presidente da Câmara elogiou a polícia! Pode suspeitar-se que as autoridades eram coniventes!
O que explica a total ausência ou o falhanço das autoridades políticas e forças de segurança: a falta de investigação prévia; as demoras na hora dos crimes; e a falta de autocrítica?

A ascensão da extrema-direita antimuçulmana anti-imigrante

Os Torrents de Brenton estão a proliferar em todo o mundo e não por serem mentalmente perturbados ou psicopatas autoinduzidos. São menos produtos da ideologia da supremacia branca do que mais prováveis produtos ​​das guerras ocidentais e israelitas contra Muçulmanos – os seus líderes fornecem-lhes a lógica, os seus métodos (armas) e reivindicações de imunidade.
Os regimes ocidentais organizam ficheiros de manifestantes ambientalistas e antiguerra, mas não de suprematistas antimuçulmanos, abertamente preparando a guerra contra a “invasão” de imigrantes muçulmanos – que fogem da guerra dos EUA e da UE no Médio Oriente.
A polícia demorou meio minuto para responder ao tiroteio sobre um polícia. Não permitem que assassinos de polícias atirem, recarreguem, atirem de novo e passem para outro alvo policial. Não acredito que os atrasos sejam negligência da polícia local.
O massacre resultou do facto de as vítimas serem muçulmanas, numa mesquita.
As lágrimas e grinaldas, as orações e bandeiras após o facto não mudam nem mudarão o assassínio de pessoas muçulmanas.
Campanhas educativas para combater a islamofobia podem ajudar, se e somente se é dirigida acção efectiva do Estado contra as guerras ocidentais e israelitas contra povos e países islâmicos.
Somente quando as autoridades eleitas ocidentais deixarem de impor restrições especiais contra os chamados de “invasores” muçulmanos, os “suprematistas brancos” e seus descendentes ideológicos cessarão o recrutamento de seguidores entre cidadãos em outros aspectos normais.
Massacres em mesquitas e crimes contra muçulmanos individuais deixarão de ocorrer quando os estados imperialistas e seus governantes pararem de invadir, ocupar e desalojar países e povos islâmicos.

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References

  1. ^ endereço (www.odiario.info)
  2. ^ odiario.info (odiario.info)

Ver o original em ODiario.info (clique aqui)

Após vitória na Itália, Salvini diz que é hora da direita 'mudar a Europa' em maio

Italian Deputy Prime Minister and League leader Matteo Salvini arrives for a news conference at the Senate upper house parliament building in Rome, Italy March 8, 2019
© REUTERS / Yara Nardi

Os parceiros de coalizão do governo da Itália iniciaram lutas separadas para as eleições da União Europeia (UE) em maio, depois que as recentes eleições regionais viram uma vitória retumbante para a coalizão de direita de Matteo Salvini às custas da esquerda.

A coalizão do vice-primeiro-ministro obteve 42% das urnas na região de Basilicata, no sul do país, nas eleições locais de domingo, com 18,8% provenientes da base de partidários do partido Liga, de Salvini.


O resultado marcou o fim da administração de centro-esquerda da região principalmente agrícola pela primeira vez desde 1995.

Ele também significou um declínio acentuado no apoio local ao Movimento 5 Estrelas (M5S), cuja popularidade na Basilicata foi reduzida pela metade em relação aos 44,3% obtidos nas eleições gerais do ano passado, para pairar pouco mais de 20% após a pesquisa regional do último fim de semana.

No entanto, eles ainda continuam sendo o maior partido da região. Enquanto o M5S e a Liga são parceiros de coalizão no governo nacional, a legenda de direita se associa localmente ao Forza Italia, do ex-premiê Silvio Berlusconi, e com o partido menor dos Irmãos da Itália, com quem eles estão mais alinhados ideologicamente.

Salvini agradeceu aos eleitores por seu apoio na segunda-feira.

"OBRIGADO! A Liga triplicou seu voto em um ano, a vitória também na Basilicata! Adeus à esquerda", declarou, antes de proclamar que "agora [é hora de] mudar a Europa".

Salvini depois assegurou aos seus parceiros nacionais que ele estava feliz com a atual coalizão, observando que o apoio total à Liga e ao M5S era "ainda a maioria absoluta neste país". Ele acrescentou: "Meu oponente é o [centro-esquerda] PD [Partido Democrata]".

No entanto, a onda de apoio à Liga fora de sua base de poder no Hemisfério Norte é motivo de preocupação para seu parceiro nacional, o M5S, que também está procurando transformar a frustração dos eleitores com os partidos estabelecidos na Itália em sucesso eleitoral continuado.


Para esse fim, o M5S formou um novo grupo parlamentar com vários outros partidos reformistas da Grécia, Polônia, Croácia e Finlândia, antes das eleições da UE em maio. Luigi Di Maio, do 5 estrelas, que é o vice-primeiro-ministro da Itália, compartilhando a posição com Salvini, disse que o grupo se inspira em "criar uma nova Europa".

Evangelos Tsiobanidis, cujo partido grego Akkel se juntou à aliança, afirmou à RT que o grupo é pró-europeu, mas lutaria contra as políticas de protetorado implementadas por membros mais ricos da UE em detrimento de outros.

"Nós nos opomos à forma atual da UE. O pró-europeísmo, de fato, é a oposição à atual UE, com seu desrespeito corrupto dos interesses nacionais de todos os estados membros", avaliou.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2019032713569368-salvini-vitoria-direita/

De baixo das pedras, como as serpentes

Temos sempre a história para nos ajudar a conhecer o passado e a compreender o presente, mas a memória pessoal pode dar também uma boa ajuda. Quem tenha vivido os anos finais do Estado Novo já com alguma consciência política – felizmente ainda existem muitas pessoas nestas condições e capazes de oferecer o seu testemunho – sabe que nessa altura, em particular a partir do «período marcelista» de 1968-74, eram já pouquíssimas as pessoas com voz pública que fora dos organismos e dos círculos do poder assumiam claramente a defesa do regime. Muitas calavam-se por vergonha ou desmotivação, mas muitas também, em número cada vez maior a cada dia que passava, porque eram mesmo contra ele e desejavam que ruísse o mais depressa possível.

Logo no dia 25 de Abril de 1974, esses poucos que eram declarados defensores do Estado Novo perderam a voz e desapareceram como por um passe de mágica. Diz-se por vezes, provavelmente apenas com um pouco de exagero, que nas manifestações do primeiro 1º de Maio em liberdade não celebraram na rua a chegada da democracia só mesmo os membros do governo tombado, os agentes e informadores da PIDE, alguns salazaristas mais renitentes, os doentes acamados e os moribundos. De seguida, durante o biénio revolucionário de 1974-75, os defensores do regime desapareceram de todo: alguns emigraram para o Brasil ou para a África do Sul, outros travestiram-se de «democratas» e a maioria passou a andar calada, aceitando com amargura a derrota.

Mesmo após aquele período mais tenso e de ardorosos combates, quando a democracia representativa foi institucionalizada com a aprovação da Constituição de 1976 e foram legalizados os primeiros partidos conotados com a direita política, os fascistas inveterados, isolados ou reunidos em pequenas organizações, algumas de natureza terrorista, permaneceram ausentes da vida pública. Continuavam a existir, é certo, mas tinham medo de se assumir como tal, em parte porque a nova opinião pública democrática e a comunicação social lhes eram completamente desfavoráveis. Como as serpentes movimentavam-se sob as pedras, lutando com as crias pela sobrevivência da sua triste espécie, aparentemente sem qualquer futuro.

De repente, com a muleta oferecida pelas redes sociais sem qualquer controlo e com a complacência de boa parte da imprensa e das televisões, mas também em ligação com uma tendência internacional para o regresso dos autoritarismos – dos Estados Unidos ao Brasil, da Rússia à Hungria – eis que passaram a saltar de onde se escondiam e a emergir às claras, revelando, agora já sem quaisquer disfarces, ao que vêm. Mais: levando até ao fim, já não a antiga vontade de retorno a um ideal de pátria ou de império, que ninguém hoje consegue vislumbrar como viável ou sequer inteligível, mas com o desejo de impor uma sociedade assente no ódio, na defesa da desigualdade, no racismo, na homofobia, na perseguição da diferença, no efetivo desprezo pelos mais desprotegidos, na defesa de uma cultura passadista de ignorância e barbárie.

A esses fascistas, agora já os vemos também por cá, de tórax impante e de verbo agressivo, mostrando o rosto e as bandeiras, orgulhosos do fel que regurgitam e à espera da sua vez de chegar ao poder. Por isso ainda é mais necessário desmascará-los onde apareçam e imprescindível combatê-los sem tibiezas.

Fotografia: Climb, por Pierre Lagarde
Publicado originalmente no Diário As Beiras de 23/3/2019

Ver original em 'A Terceira Noite' na seguinte ligação:

http://www.aterceiranoite.org/2019/03/23/de-baixo-das-pedras-como-as-serpentes/

Pompeo diz que Trump pode ter sido escolhido por Deus para 'salvar o povo judeu'

Presidente dos EUA, Donald Trump, e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu
© REUTERS / Ariel Schalit/Pool

O presidente dos EUA, Donald Trump, pode ser o escolhido de Deus para salvar o povo judeu da "ameaça iraniana", declarou o secretário de Estado norte-americano Mike Pompeo em uma entrevista desconcertante com a Christian Broadcasting Network.

Especificamente, o entrevistador perguntou a Pompeo se Trump poderia ser uma versão moderna da personagem bíblica Esther, uma bela mulher escolhida para se casar com o rei persa Assuero.


Presumivelmente, a comparação não foi convidada à luz do charme feminino de Trump, mas devido ao fato de que Esther estragou os planos do principal conselheiro do rei, Haman, que queria matar todos os judeus que viviam na Pérsia.

O entrevistador afirma bastante factualmente que há um "novo Haman" no Oriente Médio que quer "erradicar o povo judeu", também conhecido como Irã, e perguntou se o presidente Trump havia sido escolhido, "como a rainha Ester", a fim de "salvar o povo judeu da ameaça iraniana?"

"Como cristão, eu certamente acredito que isso é possível", respondeu Pompeo com um sorriso. A entrevista aconteceu durante a visita de Pompeo a Jerusalém, no dia em que os judeus marcam o frustrado plano de Hamã com um feriado chamado Purim.


Além do feriado, os comentários da secretária vieram à luz do anúncio de Trump de que os EUA reconheceriam as colinas ocupadas de Golan como parte de Israel, apesar de uma resolução da ONU que condena a aquisição forçada de Tel Aviv do território.

"Estou confiante de que o Senhor está trabalhando aqui", acrescentou Pompeo, descrevendo o papel dos Estados Unidos na preservação do "Estado judeu".

Pompeo está atualmente envolvido em um giro pelo Oriente Médio que visa formar uma frente unida contra o Irã. Tendo parado no Kuwait antes de ir para Israel, ele visitará o Líbano antes de voltar aos Estados Unidos.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/oriente_medio_africa/2019032213543225-pompeo-trump-israel/

Neonazis e veteranos da Waffen-SS voltaram a marchar em Riga

Cerca de mil pessoas participaram no desfile do Dia do Legionário em homenagem aos mais de 140 mil letões que integraram unidades nazis. A diplomacia russa classificou a marcha como uma «vergonha».

Marcha do Dia do Legionário, em Riga, capital da Letónia (16 de Março de 2019)Créditos / Sputnik

O Dia do Legionário, a 16 de Março, é assinalado na Letónia desde os anos 90, para homenagear e evocar aqueles que fizeram parte da Legião da Letónia na Waffen Schutzstaffel (Tropa de Protecção Armada, mais conhecida como Waffen-SS).

A marcha deste ano, em Riga, contou com a participação de alguns veteranos legionários, que integraram a 15.ª e a 19ª divisões de Granadeiros da Waffen-SS, de apoiantes e neonazis. O evento anual, que tem sido criticado a nível internacional como uma forma de «glorificação do nazismo», também mereceu oposição interna, com alguns manifestantes a exibirem cartazes em que classificavam a Legião como uma «organização criminosa» e a lembrar que «lutaram ao lado de Hitler», segundo refere o periódico Haaretz.

A Embaixada da Rússia no país do Báltico condenou a marcha de homenagem aos legionários da Waffen-SS, que classificou como «uma vergonha». Na sua conta oficial de Twitter, a Embaixada afirmou, no sábado: «Que vergonha! Veteranos da Waffen-SS e apoiantes estão novamente a marchar com honra no centro de uma capital europeia. E isto acontece na véspera do aniversário dos 75 anos da libertação de Riga dos invasores nazis!»

Também a Embaixada da Rússia no Canadá se manifestou no Twitter contra o desfile realizado em Riga: «Veteranos da Waffen-SS nazis e apoiantes marcham desafiantes e livremente no dia 16 de Março em Riga, Letónia, recohecidos pelas autoridades como heróis nacionais. Uma realidade ignorada por muitos no Ocidente que não pode ser descartada como "propaganda do Kremlin".»

A Waffen-SS, que foi criada como um ala armada do Partido Nazi alemão, foi considerada uma organização criminosa nos julgamentos de Nuremberga, após a Segunda Guerra Mundial, pela sua ligação ao Partido Nazi e envolvimento em inúmeros crimes de guerra e contra a Humanidade.

Glorificação do nazismo e reescrita da história

A Legião da Waffen-SS da Letónia foi fundada em 1943. Muitos dos seus membros viriam a integrar depois, juntamente com combatentes da Lituânia e da Estónia, os chamados Irmãos da Floresta, que até 1953 lutaram contra as tropas soviéticas nos países bálticos.

Em Julho de 2017, a NATO publicou um vídeo que apresenta, com visível dose de heroísmo, essa guerrilha anti-soviética, sem mostrar grande preocupação pelo facto de, nessas forças, estarem integrados muitos legionários das SS nazis ou os que, nos países bálticos, haviam colaborado com as forças invasoras nazi-fascistas.

Repúdio da Rússia

Então, Maria Zakharova, porta-voz do Ministério russo dos Negócios Estrangeiros, pediu que «se veja com respeito as páginas trágicas da história e se repudie tão repugnante acção da Aliança Atlântica». Disse ainda esperar que «não seja necessário recordar os assassinatos massivos perpetrados por muitos dos membros dos Irmãos da Floresta».

Por seu lado, a representação da Rússia junto da NATO considerou que o material fílmico constitui uma nova tentativa de reescrever a história, para a colocar de acordo com os processos políticos nas ex-repúblicas socialistas do Báltico, onde prolifera o neofascismo e o nacionalismo.

Moscovo tem reafirmado a sua preocupação sobre o surgimento de grupos neonazis e acerca de políticas que glorificam colaboradores com o nazismo na Ucrânia, na Polónia e nos Estados Bálticos – países onde, refere a agência Sputnik – são frequentes as marchas em louvor de destacadas figuras fascistas.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/neonazis-e-veteranos-da-waffen-ss-voltaram-marchar-em-riga

Terrorismo de direita e racista cresce nos EUA

Membro do grupo KKK
© Foto : ANDREW CABALLERO-REYNOLDS / AFP

Os Estados Unidos vivenciam um considerável aumento de crimes de ódio e atos de terrorismo associados aos grupos que defendem a supremacia branca e neonazistas durante a última década.

Após o ataque terrorista de um supremacista branco contra fiéis muçulmanos na Nova Zelândia, nesta sexta-feira, a imprensa dos EUA apontou o também para o aumento do terrorismo doméstico praticado por grupos racistas e nacionalistas na América do Norte, informou CBS News.


Em outubro de 2018, uma igreja em Pittsburgh, na Pensilvânia, foi alvo de um ataque que matou 11 pessoas. Em Charlottesville, Virgínia, um comício contra manifestações nacionalistas terminou com três mortos, depois que um supremacista branco avançou em seu carro contra a multidão. 

Após o incidente na Nova Zelânda, mesquitas em todos os EUA tiveram sua segurança reforçada. Embora oficiais e investigadores tenham notado que não houve uma ameaça direta, as forças de segurança do país afirmaram que o extremismo de direita e o terrorismo motivado por motivos raciais parece estar aumentando nos Estados Unidos.

"Estamos vendo um aumento na propaganda", observou o vice-chefe de contraterrorismo do estado de Nova York, John Miller.

"[Grupos de ódio de direita] estão tomando emprestadas técnicas de propaganda de outros grupos terroristas", acrescentou ele, citado pela Cbsnews.com.

Ataques de nacionalistas de extrema-direita contra imigrantes na Europa aumentaram em 43% entre 2016 e 2017, enquanto nos EUA os extremistas de direita foram ligados a um mínimo de 50 assassinatos em 2018, um aumento de 35% em relação ao ano anterior, segundo a CBS News.


"Eu diria que a maior responsável por isso é propagada online. Na verdade, esta manhã, depois dos ataques [da Nova Zelândia], eu estava vendo celebrações dos ataques online nos sites de ódio anti-muçulmanos. É realmente repugnante", observou, Ibrahim Hooper, porta-voz dos Conselho Muçulmano dos Estados Unidos, citado por Msn.com.

Em fevereiro deste ano, um tenente da Guarda Costeira da ativa foi preso depois de ser apurado que ele estava guardando grande quantidade de armas para iniciar o que a supremacia branca chama de uma "guerra racial".

"Todos esses caras estão observando", alertou Fran Townsend, ex-assessora de Segurança Interna da Casa Branca.

"Eles observam a reação, eles observam as táticas daqueles que vieram antes deles. E devemos reconhecer que há um aumento no […] nacionalismo em todo o mundo", acrescentou ela, citada por Cbsnews.com.

O FBI atualmente estima estar acompanhando cerca de 900 casos de terrorismo doméstico ativo, e muitos estão relacionados aos supremacistas brancos, segundo relatos.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/opiniao/2019031613506070-supremacismo-branco-eua-online-terrorismo/

Estamos no ciclo dos patetas perigosos

Eis-nos no culminar no tempo dos patetas na política. Mas patetas perigosos, entenda-se. Porque são guiados na sombra por quem possui um sentido de humor menos atoleimado e guia-se por sinistro projeto ideológico. A sua habilidade está na repetição do que intentavam os imperadores romanos com os seus coliseus: distraem-se os incautos cidadãos com aparente diversão e prepara-se o chicote com que os fustigar, quando derem conta do logro em que terão caído, agindo no sentido da crescente contestação.
A eminência parda do Movimento 5 Estrelas em Itália, o esquivo Davide Casaleggio, que manipula Luigi Di Maio como lerda marioneta, tem uma frase elucidativa quanto ao seu pensamento:“uma formiga não deve saber como funciona o formigueiro, porque, de outro modo, todas as formigas ambicionariam desempenhar os melhores papéis e os menos fatigantes, criando um problema de coordenação”.
A metáfora denuncia-lhe o propósito totalitário de manter a grande maioria dos italianos na inconsciência da sua importância social, aperrando-os a uma máquina produtiva detida pelos patrões privados, que funcionam como uma elite plutocrata. Para consolidar essa nova forma de fascismo, Casaleggio é, de facto, o dono do 5 Estrelas, que controla através da Plataforma Rousseau, autêntico sistema nervoso do Movimento. À conta de ilusórias «modernices» como o dos contínuos referendos, através do recurso às redes sociais, para decidir tudo quanto importa ao futuro dos italianos, Casaleggio «vende» a ideia de uma falsa democracia direta, que se substituiria à representativa, que execra como sendo corrupta e dissociada dos cidadãos. Só não confessa a sua capacidade de manipular essas consultas populares, que a sua plataforma se encarregaria de distorcer no sentido de garantirem os resultados, que melhor conviessem á sua estratégia.
A vigarice é hábil e demorará a ser desmascarada como o demonstram as sondagens para as eleições europeias de maio: além de servirem de alavanca à ascensão do parceiro de coligação, ainda mais fascista na sua retórica, os responsáveis pelo 5 Estrelas ainda conseguem iludir 1/4 do eleitorado, que se dispõe a ir votar.
A leste, na Ucrânia, que foi intencionalmente desestabilizada pela CIA, com a conivência de governos europeus subservientes aos interesses, que apenas aproveitarão aos norte-americanos, as eleições de 31 de março levarão à presidência outro palerma, cujo nome é Volodomir Zelenski. Ator de comédias parvas na televisão, sabe-se teleguiado por um oligarca russo, que nele vê a oportunidade de recuperar a influência económica perdida durante o mandato do corrupto Poroshenko. Entre o que sai de cena e o que nela entra, a diferença para o povo ucraniano será idêntica à que possa separar a peste da lepra. Com o país empobrecido por causa da guerra civil, e com os oportunistas a sucederem-se na governação, adivinha-se-lhe futuro assaz problemático.

Como as cobras

Mocidade Portuguesa

Temos sempre a história para nos ajudar, mas quando a memória a acompanha torna-se ainda mais fácil recorrer ao passado. Sem modéstia: defronto o fascismo quase desde que me recordo, tendo o primeiro momento do qual tenho certeza e testemunhas ocorrido por volta dos catorze, durante um boicote de jovens alunos à receção organizada a um ministro de Salazar de visita. Isto significa cerca de uma década de combate com memória ao que restava do Estado Novo, acentuado de forma já militante e organizada a partir de 1971. Durante todo esse tempo, tirando alguns dignitários locais, parte deles da União Nacional, uns quantos pides e informadores, e mais alguns velhos salazaristas e filhos de família identificáveis, já poucos assumiam claramente a defesa do regime. Muitos por vergonha ou desmotivação, muitos também, e cada vez mais, porque eram mesmo contra ele.

Mas mesmo esses poucos, logo após a Revolução de Abril desapareceram como por um passe de mágica. Diz-se muitas vezes, talvez só com um pouco de exagero, que nas manifestações do 1º de Maio de 1974 só não celebraram na rua mesmo os fascistas mais renitentes e, é claro, os doentes acamados e os moribundos. E mesmo depois do período revolucionário, quando a democracia representativa foi institucionalizada e se desenvolveram os primeiros partidos de direita, os fascistas inveterados, ainda que sob a forma de uma extrema-direita supostamente renovada, não se viam de todo. Existiam, é claro, mas ou tinham vergonha ou tinham medo, em parte porque a opinião pública e a comunicação social lhes era completamente desfavorável. 2019 EuropeiasViviam, como é de supor, mas basicamente rastejavam sob as pedras, lutando pela sobrevivência da sua triste espécie.

Eis, porém, que, de repente, sobretudo com a muleta oferecida por um setor das redes sociais e com a complacência de boa parte da imprensa e das televisões, passaram a saltar de onde se escondiam e a surgir às claras, mostrando, agora já sem disfarces, ao que vêm. Mais: levando até ao fim, já não a antiga vontade de retorno a um ideal de pátria ou de império, que ninguém hoje consegue vislumbrar em parte alguma, salvo na cabeça de pessoas um tanto retardadas, mas o desejo de impor uma sociedade assente no ódio, na desigualdade, no racismo, na homofobia, na perseguição da diferença, no desprezo pelos mais necessitados, na defesa de uma cultura de ignorância e barbárie. E a esses, agora, já os vemos, de tórax inchado e verbo agressivo. Precisamente por isso, porque já não têm vergonha e agora os vemos e escutamos, ainda é mais necessário combatê-los.

Publicado inicialmente no Facebook

Ver original em 'A Terceira Noite' na seguinte ligação:

http://www.aterceiranoite.org/2019/03/02/como-as-cobras/

Bannon detona Mourão e diz que Flávio Bolsonaro é 'vítima do marxismo cultural'

Steve Bannon, exestratega jefe de la Casa Blanca
© AP Photo / Andrew Harnik

O ex-assessor de Donald Trump, Steve Bannon, afirmou nesta quarta-feira que o vice-presidente do Brasil, Antônio Hamilton Mourão, não tem nenhuma utilidade para o governo de Jair Bolsonaro, cujo filho estaria sendo vítima do "marxismo cultural".

As declarações de Bannon foram dadas em uma entrevista publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, na qual uma das figuras mais relevantes para a eleição de Trump para comandar a maior potência mundial rasgou elogios à família Bolsonaro.


"O Brasil tem problemas na economia e Bolsonaro vai atacá-los de forma bem diferente do socialismo passado. Você vê a tragédia na Venezuela. De forma esperta, o presidente Bolsonaro e Eduardo [Bolsonaro, deputado federal e filho de Jair] estão preparados para ajudar, mas não querem ter uma responsabilidade que o Brasil não deve ter", disse.

Questionado se a escolha do vice-presidente foi ruim, Bannon não poupou criticas a Mourão, um general da reserva do Exército Brasileiro que vem dando declarações diferentes de Bolsonaro e do chanceler Ernesto Araújo no campo da política externa.

"Não é muito útil. Pela minha experiência com Trump, quando você chega [ao poder], tem que ser o mais unificado possível […]. Ele é desagradável, pisa fora da sua linha. Bolsonaro vai fazer uma grande diferença no Brasil e devolver o país ao palco mundial, onde deve estar […]. Me parece que o vice-presidente Mourão gosta de falar muito sobre política externa. Mas, até onde sei, o presidente Bolsonaro não lhe atribuiu responsabilidades e parece que foi uma decisão sábia", avaliou.

O ex-assessor de Trump ainda deu a sua opinião sobre as investigações envolvendo o nome do senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), filho mais velho do presidente. Bannon deu a entender que o caso envolvendo o ex-assessor do senador, Fabrício Queiroz, tem as marcas do "marxismo cultural", como ele próprio viu no seu tempo ao lado do presidente dos EUA.


"Eles vêm atrás de você pelas menores coisas. O Capitão Bolsonaro e Eduardo são líderes dinâmicos no palco mundial. Por isso eles são alvos. A luta deles é contra o marxismo cultural que restou. O socialismo econômico faliu claramente. Faliu no Brasil, na Venezuela, em Cuba, é um modelo falido. Mas há ainda um marxismo cultural muito poderoso. Eles vão tentar atacar e destruir. Capitão Bolsonaro, Eduardo e a família ficarão sob intensa pressão […]. Acho que tentam criar escândalos. Disse a eles que precisam estar preparados, porque serão atacados", afirmou.

Na mesma entrevista, Bannon rasgou elogiou ao guru da família Bolsonaro, Olavo de Carvalho ("É um herói, até mesmo global, da direita") e abordou os próximos passos da organização nacionalista O Movimento, para qual o ex-assessor de Trump possui planos ambiciosos.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019020613264949-bannon-mourao-bolsonaro/

O ovo de serpente que alguns andam involuntariamente a chocar

Num muito interessante artigo no «Público» a historiadora Irene Pimentel enuncia as razões para nos inquietarmos com a crescente afirmação do ideário fascista na nossa realidade, fundamentada num canal de televisão a entrevistar um nazi-fascista ou outro a promover ativamente uma manifestação inspirada nessa mesma (falta de) cultura. E acrescenta a interpretação muito correta do jornal inglês «The Guardian», quando interpretou a agressão policial no Bairro Jamaica como o espelho de uma larvar manifestação do racismo de que estão imbuídos alguns elementos das forças policiais, capazes de dispararem balas de borracha contra quem contra eles se manifestaram em Lisboa, mas passivos, senão mesmo complacentes guardiões, dos saudosistas de Salazar, quando resolvem, igualmente, dar a cara.
As reações de quantos diabolizaram Mamadou Ba, e incensaram a polícia, revelaram a confusão de quem, nada tendo a ver com o fascismo, lhe vai servindo de caução, num fenómeno semelhante ao ocorrido na Alemanha nazi e que leva a historiadora a citar as conclusões sobre ele formuladas por Hannah Arendt: “Nos anos 60 do século XX, a filósofa judia e refugiada Hannah Arendt recorreu ao imperativo categórico kantiano, lembrando, no seu livro «Eichmann em Jerusalém», que, na Alemanha nazi, a sociedade alemã no seu conjunto sucumbiu a Hitler, num tempo em que desapareceram as máximas (morais) que determinam o comportamento social e os mandamentos da religião. Os raros seres humanos ainda capazes de distinguirem entre o bem e o mal tiveram ‘de julgar por eles próprios cada caso à medida que se apresentava, pois que não havia regra para aquilo que não tinha precedente’.”
Quando se confunde violência policial com uma mera operação de assegurar a ordem pública e se aceita como natural, que um cidadão português, nascido e criado em Portugal, não tem cabimento na sociedade plural e democrática em que exigimos viver, é essa tal serpente ilustrada num célebre filme de Ingmar Bergman, que andamos a ajudar a chocar no ovo.
 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/02/o-ovo-de-serpente-que-alguns-andam.html

Ex-assessor de Trump escolhe filho de Bolsonaro como líder de movimento mundial de direita

Eduardo Bolsonaro ao lado de Steve Bannon em Nova York
© Foto : Divulgação / Twitter Eduardo Bolsonaro

Estrategista da campanha vencedora de Donald Trump nos EUA, Steve Bannon escolheu o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente Jair Bolsonaro, para liderar O Movimento, organismo que reúne nacionalistas de direita de todo o mundo.

A informação foi publicada pelo parlamentar brasileiro em sua página no Twitter e também pelo jornal Folha de S. Paulo.

"Estou muito orgulhoso de me juntar a Steve Bannon como o líder do Movimento no Brasil, que representa as nações da América Latina", escreveu Eduardo Bolsonaro em uma postagem no Twitter.

"Trabalharemos com Bannon para resgatar a soberania de forças progressistas, globalistas e elitistas e para expandir o nacionalismo de bom senso para todos os cidadãos latino-americanos", acrescentou.

Comandado por Bannon e pelo advogado belga Mischaël Modrikamen, O Movimento apoia partidos e candidatos na Europa e em outras partes do mundo que defendam o nacionalismo, em detrimento à globalização e em favor da soberania do interesse interno ante organismos internacionais.

"É uma honra para O Movimento dar as boas-vindas a Eduardo Bolsanaro como parceiro ilustre e ao Brasil, um aliado-chave na América do Sul", disse Bannon, segundo a Folha.


"Continuamos unidos em nossa busca por uma agenda nacionalista populista para a prosperidade e soberania dos cidadãos em todo o mundo", complementou o ex-assessor de Trump, que deixou a Casa Branca poucos meses após a vitória eleitoral do magnata nos EUA.

Em março, O Movimento prevê realizar o seu primeiro congresso em Bruxelas, na Bélgica. Em uma entrevista no ano passado, Bannon sugeriu que poderia convidar Jair Bolsonaro para participar do evento.

Antes e depois da campanha vitoriosa do pai, Eduardo Bolsonaro teve encontros com Bannon nos Estados Unidos, sempre destacados por ele em suas redes sociais. O ex-estrategista de Trump, contudo, negou qualquer participação na campanha do ex-capitão do Exército Brasileiro.

Uma das primeiras metas do grupo nacionalista é apoiar e eleger um grande número de representantes nas eleições do Parlamento Europeu, que acontecem em maio.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/brasil/2019020213234719-bannon-eduardo-bolsonaro/

O próximo teste

(Um texto de alguém de direita, a roçar a extrema-direita, que ilustra o atual discurso que procura chamar para si a defesa dos excluídos da sociedade capitalista neoliberal.

Onde a esquerda (convertida ao 'centro') deixa de ser a defensora ativa e efetiva dos "que estão por baixo" é esta direita que lhe ocupa o lugar. Demagogicamente ? Claro, mas o fascismo sempre foi assim.

Comentário ao artigo seguinte)

 

(Jaime Nogueira Pinto, in Diário de Notícias, 31/01/2019)

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(Hoje a Estátua resolveu dar voz à Direita mais civilizada. De facto, Jaime Nogueira Pinto é das raríssimas vozes da direita que consegue soletrar, contar até 100 e capaz de ter um discurso minimamente articulado e que não ofenda a inteligência, ainda que dele se possa discordar.

Enquanto Nogueira Pinto sabe falar e escrever – este texto é prova disso mesmo -, a maior parte dos direitolas que pululam pelo espaço público não vai além do cacarejo e do parlar.

Para que não digam que sou um fundamentalista enviesado.

Comentário da Estátua, 01/02/2019)


A crise venezuelana é mais um sinal do novo modo confrontacional por que está a passar a sociedade internacional. A reacção constitucionalista do presidente do Parlamento, o extraordinário apoio popular que recebe e a atitude dos Estados Unidos e do Brasil reconhecendo-o, mostram que o movimento iniciado em 2016 com o Brexit e a eleição de Trump está a mudar a política.

O ano de 2018 foi marcado pelo novo paradigma que está a abalar o modelo político-económico estabelecido há um quarto de século, no final da Guerra Fria; um modelo que projectava, para todo o sempre, uma democracia de mercado globalizada e globalizante coberta intelectualmente por uma cultura progressista, materialista e hiperliberal em matéria de valores e costumes.

Em 2018, o acontecimento mais significativo desta nova vaga foi a eleição de Jair Bolsonaro como presidente do Brasil, contra a violenta hostilidade das forças sistémicas, dos grandes media e de parte substancial da classe artística e intelectual. Num desfecho mais uma vez “inesperado”, o candidato nacionalista e conservador quase venceu na primeira volta por maioria absoluta e derrotou, na segunda, o seu opositor com o “voto útil” que lhe faltava.

Em Itália, há um governo de direita nacional e identitária, coligado com populistas de esquerda. Na Mitteleuropa – Polónia, Hungria, Áustria, República Checa, Eslováquia – há governos de partidos de direita conservadora ou de direita nacionalista que, em alguns casos, governam coligados. No resto da União Europeia, com excepção da Irlanda e de Portugal, estão a emergir partidos eurocépticos e identitários, hostis à hegemonia da esquerda e ao seu breviário, mas também com reservas ao liberalismo desenfreado e ao capitalismo selvagem.

Esta vaga nacional-identitária e popular está a alterar profundamente os modelos partidários do Continente, fixados, em grande parte, entre um centro-direita conservador ou democrata-cristão e um centro-esquerda socialista ou social-democrata. Isto depois da implosão da União Soviética ter levado à redução à expressão mais simples ou mesmo ao fim dos partidos comunistas da Europa Ocidental, com excepção do PCP português.

Ora é precisamente este modelo de alternância ao centro que tem vindo a ser posto em causa. Não por maquiavélicas conspirações antidemocráticas, inspiradas por Putin ou Bannon, mas porque os valores, os princípios e os interesses deste modelo e dos seus representantes se mostram incapazes de responder aos problemas que se colocam hoje às sociedades euroamericanas.

Entre as causas desta incapacidade de resposta, está a redução da política a uma escrava da economia e a consequente globalização desregulada, na Europa e nos Estados Unidos, que atingiu as classes trabalhadoras e que chega agora às classes médias.

A edição de Novembro-Dezembro da Foreign Affairs (uma publicação do mainstream ideológico), num artigo de Kenneth Scheve e Matthew Slaugher, “How to save Globalization”, enuncia, com algum pormenor, as raízes económico-sociais da nova corrente antiglobalização nos Estados Unidos, destacando a baixa dos salários reais dos trabalhadores e dos quadros médios e a subida em flexa dos vencimentos e prémios dos altos executivos nas últimas décadas. Assim, numa sociedade de tradição igualitária e meritocrática, o salário dos “de cima” é, em média, 330 vezes superior ao dos “de baixo”; há dez anos era 300 vezes superior e há trinta não chegava a 50. As mudanças tecnológicas e as deslocalizações rápidas das empresas estão na base destas desigualdades. Numa sociedade que, desde o fim da Grande Depressão, se habituara a que os filhos viessem a viver melhor do que os pais, este agravamento da disparidade tem profundas implicações na saúde física e mental dos trabalhadores.

As “doenças do desespero” e do desemprego ou subemprego – suicídios, overdoses, alcoolismo – matam muitos destes marginalizados do mercado de trabalho (especialmente brancos não-hispânicos sem estudos superiores); ao mesmo tempo, aceleraram-se as desigualdades de nível de vida entre as grandes metrópoles e as comunidades mais pequenas. Foram, sobretudo, estes “brancos zangados” dos decadentes Estados industriais do Nordeste, do chamado Rust Belt, que deram a vitória a Trump em 2016 e com isso começaram a mudar o rumo da História do século XXI.

Trump, Bolsonaro, Salvini, Orbán sendo, por um lado, consequência de coligações negativas – anti-Hillary, anti-PT, anti-sistema -, são também sinal de um redescobrimento de valores orgânicos e identitários que ressurgem como alternativa ao fracasso dos valores individualistas e globalistas-humanitários. Vêm contradizer a filosofia do fim da História pós Guerra Fria, que proclamava a construção de uma ordem mundial apresentada como ideologicamente neutra e definitiva, uma ordem democrática e capitalista, governada pela “mão invisível” dos tratadistas de Manchester e por uma reedição do iluminismo mundializante dos filósofos franceses, acolitada por um ala de progressismo radical e relativismo absoluto.

Esta ala, que ganhou uma hegemonia artificial graças a minorias de controlo na Academia e nos media, impõe ou quer impôr a sua agenda minoritária através da legislação em matérias não-económicas, que as “direitas” do sistema secundarizam e por isso lhe entregam de mão-beijada. Perante a inércia dos “moderados”, estas políticas – como as da ideologia de género e as políticas anti-família – desencadeiam reacções também radicais de grupos religiosos identitários, como os Evangélicos – decisivos, por exemplo, para as vitórias de Trump e Bolsonaro. O tempo é agora de bipolarização, sem grande espaço para terceiras vias.

O que é interessante e parece perturbar o sistema é que estas mudanças vêm dos votos dos eleitores, do povo, e não de uma conspiração reaccionária, de um golpe militar, das manobras de uma elite qualquer. É um despertar, uma frente comum, que começou por definir-se pela negativa mas que, a pouco e pouco, vai encontrando valores alternativos.

O próximo teste vão ser as Europeias, em Maio.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Os tabuleiros de jogo da extrema-direita

O presente artigo visa, em continuação dos anteriores, alertar para alguns tabuleiros em que a extrema-direita nos “países ocidentais” (curioso o renascimento do conceito) vem procurando jogar, e discutir em que medida eles são utilizáveis em Portugal.

Numa breve enumeração vemos o questionar da legitimidade do sistema político (em relação ao nosso país já falei dos coletes cinzentos e das justificações que avançam para a introdução do sistema uninominal nas eleições para a Assembleia da República, mas está aí também de novo a questão do número de deputados), o nacionalismo e o orgulho nacional ou nacional-religioso, a insegurança, e, por si só, ou em conjugação com os já referidos, o ódio: o ódio aos costumes “desviantes”, o ódio racial ou aos estrangeiros, o ódio aos muçulmanos… potenciados estes ódios pelo medo e, por vezes, pela inveja.

Estas plataformas têm sido geralmente denunciadas como oportunistas – os que agitam estes temas não acreditarão verdadeiramente no que veiculam, mas utilizam-nos para tentar alcançar / reforçar o seu poder – e apenas em alguns casos (mas estes não devem ser menosprezados[i]) colocam na agenda o bloqueio de conquistas sociais, que esteve subjacente na altura de forma mais generalizada à onda de fascismos nos anos 1920 e 1930, ou a retirada das existentes[ii].

Os argumentos em favor de “restaurar a grandeza” de alguns dos países ocidentais parecem relevar do wishful thinking, como no caso do Brexit. Não abordarei aqui a questão dos movimentos de extrema-direita nos países árabes e em geral no mundo muçulmano (é assim que devem ser vistos a Al Queda e o Daesh), no entanto assinalo que a presente agitação anti-muçulmana nos países europeus apenas os pode reforçar e prejudicar os esforços pacificadores da Igreja Católica e a manutenção da presença histórica de comunidades cristãs em zonas como o Médio Oriente.

Excepção portuguesa?

A última grande pulsão nacionalista em Portugal, aliás canalizada pela propaganda republicana, esteve ligada à expansão colonial e ao Ultimato britânico. Com a descolonização, é pouco provável que o levantar “hoje de novo o esplendor de Portugal” e o marchar “contra os bretões”[iii] ainda que o hino fosse todas as manhãs cantado em todas as escolas e acompanhado do hastear da bandeira, venham a ser inspiradores de qualquer novo movimento. Valha-nos o futebol onde é invariavelmente entoado. No plano estritamente político, Portugal foi integrado na Europa para garantir a democracia, ou pelo menos, uma certa forma de democracia, e para beneficiar dos fundos estruturais, e a direita portuguesa pendurou-se no período da troika nas orientações comunitárias. Não me parece que nada seja de esperar daí.

Nas questões ligadas aos costumes, este país ainda hoje dado como católico foi abatendo as barreiras que afastavam ou dificultavam o divórcio, o reconhecimento das uniões de facto, a interrupção voluntária da gravidez, a união entre pessoas do mesmo sexo, no que me parece reflectir sobretudo um maior respeito pela autonomia de decisão dos outros e pela respectiva privacidade, em atitude que a experiência vem mostrando ser transversal aos vários partidos, uma vez as decisões iniciais tomadas. Mostrou-se que as “causas fracturantes” não fracturavam a opinião tanto quanto se dizia. Também não me parece que alguma coisa seja de esperar desse lado.

Já quanto às questões de segurança, estas serão sempre, em qualquer sociedade, um terreno de agitação potencial, sobretudo na medida em que possam ser tomados como responsáveis / alvo de retaliação grupos específicos. Não deixo de ver com inquietação o uso e abuso de legislação anti-terrorista em situações para a qual não terá sido inicialmente pensada, quando, por felicidade, não têm ocorrido em território português factos semelhantes aos de outros países. E fico a pensar como reagiremos se ocorrerem, e como se comportará uma economia que depende cada vez mais dos fluxos turísticos. Resistirá a “excepção portuguesa” ?

Antes de passar à questão dos grupos específicos que a extrema-direita portuguesa, orgânica ou inorgânica, tem sinalizado como alvo, anoto que em torno das políticas de legalização da entrada de imigrantes para exercício de actividades profissionais se regista habitualmente alguma controvérsia derivada da pressão sobre os salários inerente à entrada de imigrantes dispostos a aceitarem piores condições que os nacionais, respondendo-se muitas vezes que os ditos nacionais não estão dispostos a exercerem as mesmas actividades – à semelhança do padrão que noutros países permite aos emigrantes portugueses encontrarem trabalho … – ainda que atingidos pelo encerramento dos estabelecimentos em que laboram.

Impõe-se por um lado, reforçar a eficácia dos esforços de colocação dos residentes que procuram emprego, por outro lado garantir que aos imigrantes são aplicadas as normas de contratação e de remuneração legalmente estabelecidas. Se tal não for feito, facilmente se assacará aos imigrantes uma concorrência desleal que na realidade é da responsabilidade dos empregadores nacionais.

Os “Outros”

A atitude hostil de grande parte da população portuguesa em relação aos ciganos, que em rigor não podem ser “reenviados para a terra deles”, vem de há muito tempo, radica na existência de modos de vida muito diferentes, e num sentimento mais recente de que, apesar de se manterem à margem, beneficiam de apoios garantidos à generalidade da população, mas pensados para outras situações. Também se alega que estarão por vezes envolvidos enquanto famílias ou grupos em conflitos violentos com outros sectores da população e até com serviços públicos. O raramente a comunicação social identificar etnias dos participantes limita a repercussão destes acontecimentos, mas as histórias circulam independentemente da sua publicação.

Para quem desvalorize o potencial explosivo destas situações, recordo que nos últimos anos de Primeiro Ministro de Cavaco Silva, cujo Governo não era considerado como sem autoridade, se chegou a admitir a criação de milícias[iv], que mais recentemente se realizou uma vasta mobilização em defesa de um elemento da GNR [v] que fora condenado por disparo sobre um veículo do qual resultara a morte de um miúdo, e obrigado ao pagamento de uma indemnização (chegando a escrever-se que o pai tinha levado o miúdo consigo para aprender a roubar e era muito bem feito), e, nas últimas eleições municipais de Loures, a bem sucedida, em termos de votação, candidatura de André Ventura à vereação, da qual o CDS se desvinculou mas que Pedro Passos Coelho patrocinou sem problemas.

Em relação aos africanos e afro-descendentes, de cuja existência viemos a ser “recordados” pelos últimos acontecimentos, sempre direi que os países colonizadores abriram inevitavelmente a porta para os seus ex-colonizados se radicarem nas metrópoles e aí procurarem soluções de vida, uma vez que a língua e a organização profissional não lhes eram estranhas. Tal sucedeu com os países da América Latina e Espanha, com os países da Comunidade Britânica e a Grã Bretanha (apesar dos esforços de contenção desta última), com as ex-colónias francesas e a França, e também com a Itália e três das suas antigas possessões, aliás detidas por pouco tempo, a saber, a Albânia, a Eritreia e a Líbia.

Porque não haveria de suceder o mesmo com as ex-colónias portuguesas e Portugal, sendo que a potência colonizadora deveria até ter garantido livre acesso, por um lado aos cabo-verdianos, que desempenharam um papel historicamente relevante nas administrações públicas da Guiné[vi] e de Angola, por outro aos comandos guineenses e outros que se bateram a seu lado? Aliás para quem se admire de o Reino Unido e a França disporem ainda de “territórios ultramarinos” recomendo um exercício de história contra-factual: como seria a evolução de Portugal e dos seus então territórios se o regime de Salazar tivesse aceite a proposta do antigo Ministro Caeiro da Mata de atribuir a Cabo Verde o estatuto de Ilhas Adjacentes[vii], que parece ter recebido tanta atenção com a proposta formulada décadas depois por Mário Soares no sentido de ser criada, tal como existe com o Brasil, a possibilidade de dupla cidadania luso-cabo verdiana em igualdade de direitos ?

Aliás para quem se admire de o Reino Unido e a França disporem ainda de “territórios ultramarinos” recomendo um exercício de história contrafactual: como seria a evolução de Portugal e dos seus então territórios se o regime de Salazar tivesse aceite a proposta do antigo Ministro Caeiro da Mata de atribuir a Cabo Verde o estatuto de Ilhas Adjacentes[vii], que parece ter recebido tanta atenção com a proposta formulada décadas depois por Mário Soares no sentido de ser criada, tal como existe com o Brasil, a possibilidade de dupla cidadania luso-cabo verdiana em igualdade de direitos ?

Ultrapassada a necessidade sentida aquando da concretização das independências das ex-colónias de levar os interessados a escolher uma única nacionalidade, faria sentido ter desde logo restabelecido o jus solis para quem viesse a nascer em Portugal. Não o ter feito levou a que viessem a nascer no Portugal pós-independências muitos jovens, não apenas cabo-verdianos, que ficaram amarrados à nacionalidade dos pais e a uma “terra de origem” desconhecida (colocando-os numa situação semelhante à que viriam a encontrar-se numerosos açorianos deportados pelos Estados Unidos para uma “terra de origem” para eles estranha), sendo de louvar o trabalho de Rui Pena Pires e outros académicos e políticos que vieram a explicar, a bem da integração, a necessidade de alterações legislativas, que em termos práticos eram exigidas, por exemplo, pela necessidade de integrar estes “estrangeiros” no desporto federado.

Para a extrema-direita que confunde nacionalidade e cor da pele, e não se ensaia, como já mostrou, para assassinar um português com a cor da pele “errada”, esta regularização é indesejável. De qualquer forma o mais grave nas tensões recentes com estas comunidades terá sido a atitude de quem se deve relacionar institucionalmente com elas, designadamente a polícia. Infelizmente mesmo quando os Comandos desta mostram manter já um discurso civilizado e atento, nas fileiras há quem destoe. No episódio de Alfragide aqueles de quem se esperava disponibilidade para colaborem com os mediadores tomaram estes como alvos. Sem querer comentar os aspectos disciplinares e criminais desse episódio e dos mais recentes, os Comandos têm de dispor da latitude necessária, numa base funcional, para reorganizar as equipas sempre que se torne necessário.

Vir criticar o discurso da polícia, chamando a este “bosta”, e o de outras organizações (presumo que o do PCP ou da associação sindical maioritária na PSP) terá sido para Mamadou Ba um gesto natural, mas o resultado foi que o PNR, que só juntou meia dúzia de gatos para uma sua manifestação, ficou confortado com o hino à polícia aprovado na Assembleia da República sob proposta do PSD e do CDS e com os votos do PS. Felizmente o BE é de “esquerda radical” e não de ”extrema-esquerda”, se fosse desta última já teria tido de expulsar Robles e Mamadou por provocação.

Finalmente, os muçulmanos. As potências europeias colonizadoras, protectoras ou mandatárias, estiveram presentes em muitos países muçulmanos, e posteriormente acomodaram bem ou mal a imigração destes, o que também veio a suceder com a Alemanha, a Bélgica e os países do Norte da Europa. Lançam-se agora culpas ao multiculturalismo, mas não seria possível a integração pura e simples. No caso de Portugal os conflitos da Reconquista, do Norte de África e da Índia de Quinhentos não deixaram sequelas no período colonial mais recente. As comunidades muçulmanas estruturadas no território nacional são cooperantes.

O país praticamente não foi demandado directamente por refugiados e o acolhimento de refugiados recolocados por instâncias internacionais tem sido reduzido. A experiência europeia tem mostrado que as infiltrações em refugiados têm uma expressão mínima, e que a “radicalização” de jovens nascidos na Europa é a ameaça. Os jovens de origem portuguesa ou mesmo “radicalizados” em Portugal não têm actuado cá, o discurso ensaiado pela extrema-direita não tem base fáctica. Mas poderá vir a tê-la.

Há, é claro, o caso das mesquitas. Entendo que o Estado não deve financiar equipamentos religiosos. No entanto a Direcção-Geral de Equipamento Regional e Urbano comparticipou durante muitos anos a construção de Igrejas através dos Investimentos do Plano Director de Serviços no então Departamento Central de Planeamento, obriguei a inscrever esses “empreendimentos” num programa próprio, com classificação funcional autónoma. Mal deixei o lugar, em 1985, voltaram a ser camufladas como “Habitação e Urbanismo”. Essa luta compro-a, mas não exclusivamente a propósito das mesquitas e apenas com base na defesa da não-confessionalidade do Estado.

[i] Brasil e Hungria.

[ii] A grande diferença será já não existirem “frentes populares” que se oponham ao fascismo.

[iii] A aliança secular obrigou-nos a marchar contra os canhões e não contra os bretões.

[iv] As chamadas milícias de Francelos. Na mesma altura Augusto Santos Silva escrevia na sua coluna de opinião no Público sobre o cigano João Garcia.

[v] Caso Ernano, que percorreu várias instâncias judiciais.

[vi] Com a impopularidade daí decorrente entre os naturais.

[vii]José Caeiro da Mata


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/os-tabuleiros-de-jogo-da-extrema-direita/

Apelo a todos os partidos, associações e cidadãos democratas e antifascistas

Foi anunciada por Mário Machado e pela sua organização, Nova Ordem Social, uma manifestação em homenagem a António de Oliveira Salazar, um dos principais responsáveis políticos pela ditadura em Portugal .

fascis01Relembramos que Mário Machado é um antigo dirigente e fundador da Frente Nacional, uma organização de extrema-direita protofascista. Mário Machado tem um historial prolongado de crimes relacionados com a discriminação racial, ofensas à integridade física, coação, sequestro, posse ilegal de armas, difamação agravada e tentativa de extorsão. Foi condenado, em 1997, pelo envolvimento no assassinato de Alcindo Monteiro, espancado até à morte em 1995, no Bairro Alto, num ato que consideramos totalmente abjeto, bárbaro e de cunho racista, em 2007 pelos crimes de discriminação racial, sequestro e posse ilegal de armas, em 2016 por extorsão e ameaça de morte (em Tribunal, pela prática de vários crimes, tais como discriminação racial, ofensas à integridade física, coação, sequestro, posse ilegal de armas, difamação agravada e tentativa de extorsão). Depois disso, voltou a ser condenado por vários crimes de violência, sequestro, posse de arma e discriminação racial. Mário Machado mantém a retórica nacionalista e de apelo à intolerância, ódio e violência dirigida a imigrantes, afro-descendentes, ciganos e pessoas LGBTI. Atualmente é líder da organização Nova Ordem Social, organização essa que defende explicitamente uma ideologia fascista.

 

Relembramos também que, para defender os nossos valores e a Democracia, existe na nossa Constituição o número 4 do artigo 46º que consagra o princípio de não serem consentidas associações armadas nem de tipo militar, militarizadas ou paramilitares, nem organizações racistas ou que perfilhem a ideologia fascista.

 
 
 
 

Neste sentido, pedimos não só que as autoridades reajam e façam o necessário para ser respeitada a nossa Constituição e os nossos valores, mas que também respeitem quem neste país perdeu a vida, para livrar o povo de um longo período de ditadura que sujeitou o país e várias vítimas à prática de formas múltiplas de violência e cerceamento da liberdade de pensamento e expressão, usando para o efeito a perseguição, prisão e tortura. Nos momentos em que o Mário Machado se pronuncia, a título individual ou como líder do momento NOS, representando por isso a mensagem deste movimento, estão omnipresentes no seu discurso a retórica da discriminação racial, da tentativa de marginalização dos imigrantes, descritos como inimigos e responsáveis pela criminalidade, o apelo ao ódio, à intolerância e até à violência. A par disto, é também recorrente a celebração de uma figura e de um regime inequivocamente ditatorial, fazendo, explicitamente, apelo ao seu regresso e, para o efeito, afirmações incorretas (como aqui se documenta https://poligrafo.sapo.pt/politica/artigos/1735) que distorcem dados e factos históricos e branqueiam e normalizam práticas antidemocráticas e fascistas.

 

O que foi descrito acontece, com frequência, nas redes sociais e verificou-se recentemente em dois programas de ampla audiência nacional, sem que nestes estivessem devidamente asseguradas as condições para um contraditório e para a desconstrução das imprecisões que foram veiculadas. Num momento em que o risco, nacional e internacional, da ascensão de regimes fascistas e de extrema-direita é uma realidade, estes factos não podem deixar de ser olhados com preocupação e exigem a mais expressiva, ampla e séria mobilização de todxs e, principalmente, das autoridades competentes e das entidades com responsabilidade política, como de resto acontece noutros países que de forma séria se têm ocupado de lidar com este problema.

 

Não se trata aqui de atentar contra a livre expressão de Mário Machado, individualmente, ou de qualquer outra pessoa, nem do seu movimento ou de qualquer outro coletivo de cidadãos e de cidadãs. Trata-se antes de garantir que não esquecemos os anos de luta do povo pela liberdade de todxs e de garantir as condições para que estas mobilizações não aconteçam sem serem devidamente desintoxicados da prática da inverdade, distorção e branqueamento e do apelo ao ódio e à intolerância. É aqui que se traça a linha da liberdade de expressão, à luz do que está previsto na nossa constituição.

 

antifascis01Por se considerar que a manifestação planeada para o dia 1 de Fevereiro, pela NOS, a título de homenagem a António de Oliveira Salazar, é no fundo mais uma iniciativa para veicular e amplificar a prática de uma propaganda fascista e de um branqueamento e distorção da memória nacional, o que é fácil de comprovar pela vias já referidas, pede-se a todxs, partidos e associações democratas e antifascistas, a todos os cidadãos e a todas as cidadãs em Portugal, que se posicionem publicamente, contribuindo para a reposição dos factos históricos associados à figura de Salazar e ao regime da ditadura, e que não deixem passar um ataque à democracia sem reação, arriscando deixar crescer cada vez mais este perigo que já fez milhões de vítimas na Europa e está pronto para mais fazer em Portugal e pelo mundo fora.

Apelamos a todos os partidos e associações democratas e antifascistas, a todos os cidadãos em Portugal, que divulguem e assinem a petição (link em baixo), tal como que saiam para a rua contra o fascismo e o racismo, para a manifestação que terá lugar no dia 1 de Fevereiro de 2019 (serão divulgados mais informação nas redes sociais), em Lisboa, para marcar presença na rua e relembrar a todos os que esqueceram, o que era viver nestes tempos. Mas sobretudo, apelamos que estes mesmos se posicionem publicamente e não deixem passar um ataque destes sem reação, arriscando deixar crescer cada vez mais este perigo que já fez milhões de vítimas na Europa e está pronto para mais fazer em Portugal e pelo mundo fora. Nenhum democrata e antifascista pode ficar de parte e ignorar esta luta na qual a extrema-direita quer levar nosso país, com ajuda de financiamentos estrangeiros, tentando desestabilizar a nossa sociedade e chegar ao poder, voltando a tempos que achamos todos ser passado e nunca poder voltar...

 

Fascistas ! Racistas ! Não Passarão !!!

Petição : https://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT91568

 

Assinado por : Frente Unitária Antifascista e seus respetivos membros e apoiantes

 

Ver original aqui

União de Resistentes Antifascistas alerta para a ameaça da extrema-direita

Atenta ao calendário eleitoral deste ano, a União de Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP) chama a atenção para «manobras antidemocráticas que urge impedir».

Fortaleza de PenicheCréditosMário Caldeira / Agência Lusa

Num comunicado enviado às redacções, a URAP reconhece que, apesar de até agora ter passado «à margem dessas inquietações», Portugal «começa a ser afectado por um fenómeno que, em fase embrionária, experimenta a criação de uma fase de agitação social cujo carácter forçado se afigura manifesto». 

O alerta, que já foi enviado para entidades como o ministro da Administração Interna e a procuradora-geral da República, surge perante a manifestação anunciada pelo movimento do neo-nazi Mário Machado para 1 de Fevereiro, que a URAP define como «saudosistas do regime finado em Abril de 1974».

A associação admite que o calendário eleitoral deste ano, que se inicia em Maio com as eleições para o Parlamento Europeu, «é motivo de particulares movimentações políticas [...] com inevitáveis reflexos na nossa política interna», e que o poder do Estado de direito democrático tem que ser afirmado, em conformidade com o que prevê a Constituição da República. 

A URAP foi fundada a 30 de Abril de 1976 pelos antifascistas que durante a ditadura de Salazar criaram a Comissão de Socorro aos Presos Políticos. 

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/nacional/uniao-de-resistentes-antifascistas-alerta-para-ameaca-da-extrema-direita

A manipulação do «Correio da Manhã» e da SIC a encontrar eco em quem não esperava

No artigo de opinião de hoje no «Público» João Miguel Tavares assume algo, que, para espanto meu, subscrevo por inteiro: se tiver de escolher entre Mamadou Ba, que foi alvo de uma campanha soez de assassinato político nos últimos dias, e os dois energúmenos de um partido fascista, que andaram a segui-lo e a provoca-lo numa atitude de assédio inaceitável, a opção é óbvia: pôr-me-ei ao lado do assessor do Bloco de Esquerda. Porque se a sua expressão a respeito da polícia não foi a mais feliz, não podemos esquecer que os Observatórios Europeus sobre a Segurança dos cidadãos estão de olhos postos em Portugal, porque são demasiados os casos de violência perpetrada pelos seus agentes sem que as autoridades os investiguem devidamente e sancionem os culpados. O exemplo verificado uns anos atrás em Guimarães, com um homem (branco) a ser barbaramente agredido por um polícia, junto ao filho, com quem se deslocara para ver um jogo de futebol, vai-se replicando nos dias que correm, embora sem as câmaras das televisões ou ossmartphonesa testemunha-lo.
Não escamoteemos o facto de existirem infiltrados de movimentos neonazis nas polícias ou nas forças armadas. Identificá-los e expulsá-los é tarefa urgente para impedir que o veneno se propague mais do que até aqui. Porque a situação agrava-se: ao partilhar um post de Uma Página numa Rede Social em que se denunciavam asfake news espalhadas pelo «Correio da Manhã» e pela SIC sobre os rendimentos do referido Mamadou Ba, deparei-me com amigos, que considero ponderados e aparentemente dissociados de simpatias pró-neonazis, a reagirem emotivamente contra a vítima de tais notícias falsas sem se deterem um momento que fosse na razão de ser da desinformação dos dois órgãos de (des)informação social. E aí volto ao texto do escolhido por Marcelo Rebelo de Sousa para as comemorações do 10 de junho: ele tem todo o direito a manifestar o que pensa sobre violência policial, porque a liberdade de pensamento é um direito constitucional, que lhe está reconhecido. Ao invés, os fascistas que o ameaçam, o insultam, o assediam, não podem reivindicar-se de idêntico direito, porque a sua ideologia está taxativamente proibida pela nossa Lei Fundamental. Desconheço o que o Ministério Público anda a fazer a tal respeito, mas só espero que, muito rapidamente, esses defensores de ideologia criminosa sejam rapidamente confrontados com a ilegalidade dos seus atos.
Consola-me o facto de continuarem a ser tão poucos que, na manifestação por eles convocada anteontem para o Terreiro do Paço, apenas trinta tenham comparecido à chamada. Até ver, nem eles, nem os simpatizantes do Ventura, conseguirão respaldo eleitoral com o mínimo significado nas eleições deste ano. Mas, se nada for feito para esmagar a serpente enquanto está no ovo, ela sairá da casca e mostrar-se-á letal, quando muito mais dificilmente for contrariada.

 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/01/a-manipulacao-do-correio-da-manha-e-da.html

Como a ultra-direita quer dominar a Europa - Castells

Steve Bannon tira proveito da crise política e amplia sua articulação internacional. Objetivo: minar o que resta de políticas solidárias e restaurar as tradições intolerantes e retrógradas do continente.
Manuel Castells | Outras Palavras | Tradução: Marco Weissheimer, no Sul21
As eleições para o Parlamento Europeu, no dia 26 de maio, são decisivas para o projeto da integração europeia. Os ultranacionalistas em ascensão definiram como objetivo a constituição de um bloco parlamentar (um terço das cadeiras) capaz de obstruir as políticas europeias comuns que, junto com sua presença em diversos governos, possa reverter a Europa a um sistema de nações limitadas em sua colaboração a acordos específicos, sempre priorizando os interesses nacionais. Também defendem a redução drástica da imigração, o enfrentamento com o Islã em defesa da Cristandade e a restauração do patriarcado tradicional, eliminando a proteção aos direitos de homossexuais e mulheres. O que era uma tendência em toda a Europa, exemplificada na Espanha pelo Vox e por um setor do PP, está convertendo-se em um projeto coordenado. Prepara-se para esses dias, em Bruxelas, o lançamento de uma fundação denominada “O Movimento”, impulsionada por Steve Bannon, que foi estrategista de Trump, eficiente diretor de sua campanha presidencial e assessor especial na Casa Branca.
Seu enfrentamento pessoal com a família do presidente, que ele considera cheia de golpistas, o levou a ruptura com Trump e com a bilionária família Mercer, financiadora de sua empresa midiática Breitbart News, propagandista do supremacismo branco. Sem abandonar a política estadunidense, na qual ainda conta com apoios na “direita alternativa”, Bannon decidiu estender sua cruzada a Europa, aproveitando o crescimento da extrema direita e apostando em uma mobilização das nações cristãs para salvar os valores da civilização ocidental. Ele se instalou em Bruxelas, protegido pela extrema direita flamenca, em particular pelo político Mischael Modrikamen, que forneceu-lhe apoio logístico. Com isso começou sua peregrinação pelo Velho Continente para construir uma base ideológica e organizativa comum. No espaço de um ano, as adesões explícitas a seu projeto são suficientemente importantes para torná-lo crível.
Começando por Matteo Salvini, vice-presidente e homem forte do governo italiano, e Viktor Orban, o primeiro-ministro húngaro, xenófobo e anti-europeu. Além disso, tem relação próxima com Marine Le Pen e já discursou em assembleias da Frente Nacional. Ele falou também aos “coletes amarelos”, cuja mobilização foi qualificada por Salvini como “o princípio de uma nova Europa”. Na Espanha, apoia explicitamente o Vox, e já conversou com Bardaji, um de seus dirigentes, que viajou a Bruxelas para incorporar-se a esta aliança. Na Holanda conta com a cumplicidade de Geert Wilders, o dirigente xenófobo holandês cujo partido se converteu na segunda força do parlamento. Na Itália, os “Fratelli d’Italia”, formação neofascista aliada da Liga do Norte, também entrou no clube.
Naturalmente, Bannon conta com vínculos profundos na frente pró-Brexit, no Reino Unido, e, em particular, com Boris Johnson, a quem apoiou quando estava na Casa Branca. Na Alemanha, ele se reuniu com Alice Weidel, dirigente da “Alternativa pela Alemanha”, com uma projeção de 15% de votos para as eleições europeias. Também cultivou contatos com os assessores do ultranacionalista primeiro-ministro polaco, e com formações de extrema-direita na República Tcheca, Finlândia, Dinamarca, Noruega e Suécia, ainda que, nestes casos, não tenha formalizado ainda nenhuma colaboração.
O que Bannon pode oferecer? Em princípio, não financiamento, porque as leis eleitorais europeias proíbem a injeção de fundos estrangeiros nas campanhas. Sua contribuição, até agora, é sua experiência e conhecimento de sistemas tecnológicos de prospectiva e manipulação eleitoral que tão bem funcionaram nos Estados Unidos, em particular na produção de desinformação nas redes sociais. Mas, sobretudo, está construindo uma rede de contatos e de elaboração estratégica cuja efetividade provém da sinergia entre seus participantes.
O projeto de Bannon é mais ambicioso, porém, e pretende ir até o que ele acredita ser a raiz do problema: a defesa dos valores religiosos e morais da civilização judaico-cristã. Neste projeto, tem forjado alianças com o setor tradicionalista da Igreja católica e, em particular, com os poderosos cardeais Burke (EUA) e Martino (Itália), que estão liderando abertamente a rebelião doutrinal contra Francisco. A convergência entre Bannon, um católico divorciado três vezes, e o irredentismo dos cardeais tem uma expressão organizativa e territorial: o Instituto pela Dignidade Humana, criado em 2008 em Roma pelo britânico Benjamin Harnwell, ajudante do líder conservador britânico e europarlamentar Nirj Deva, bilionário católico de origem cingalesa e diretor do Bow Group, um influente think tank conservador inglês, anti-europeu e católico fundamentalista. Deva preside o comitê internacional do Instituto, cujo Conselho Assessor é dirigido pelo cardeal Burke e cujo presidente honorário é o cardeal Martino.
Em 2018, Harnwell obteve do governo italiano o aluguel por tempo indeterminado da Cartuja de Trisulti, localizada a 130 quilômetros a sudeste de Roma, monumento histórico que está sendo reabilitado para acolher programas e atividades destinadas à exaltação da Cristandade. O principal projeto do Instituto é a criação de uma Academia para o Ocidente Judaico-Cristão, acolhendo duzentos alunos que serão selecionados entre os movimentos nacionalistas europeus, a partir de 2020. Bannon, amigo do cardeal Burke desde 2016, como assessor especial do Instituto, está preparando o currículo da formação e selecionando os ativistas que receberão essa formação que será, ao mesmo tempo, religiosa, política e tecnológica.
De onde vem o dinheiro para o Instituto e, sobretudo, para “O Movimento”? Esse é um véu espesso que ainda não se conseguiu rasgar. Em relação ao Instituto, há doações do político Luca Volonte, investigado pelo recebimento de fundos do Azerbaijão. Mas é provável que Deva tenha utilizado sua rede global de negócios para apoiar seu protegido e seus amigos do Vaticano. Quanto a Bannon, ainda que ele diga que o dinheiro vem de sua fortuna pessoal, é provável que tenha tecido uma rede oculta de milionários xenófobos e racistas, que veem nele sua última esperança de supremacia.
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Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2019/01/como-ultra-direita-quer-dominar-europa.html

O que eles andaram para aqui chegar

Mas não estão sozinhos. Bastou-me ouvir alguns excertos da debate quinzenal desta manhã para ficar mais esclarecida. Está mais do que aberta a caça ao Bloco, por uns que rezam por uma maioria absoluta em cima de uma azinheira, por outros simplesmente porque sim. Ou porque não.
«Dirigentes e deputados bloquistas têm recebido nos últimos dias dezenas de mensagens com ameaças de violência física ou mesmo ameaças de morte, insultos, críticas com pendor racista, xenófobo e homofóbico. Receber este tipo de mensagens é habitual para os políticos, mas dirigentes do BE asseguram que a quantidade aumentou significativamente nos últimos meses, e, em especial, para alguns dirigentes como Joana Mortágua, Catarina Martins ou Mamadou Ba. (…)
Esta sexta-feira de manhã, por exemplo, o assessor bloquista Mamadou Ba foi seguido durante largos minutos por dois militantes do PNR que o esperavam à porta de um evento em que ia participar, em Lisboa. Mamadou conseguiu dizer que estava a sofrer "bullying" por parte dos dois homens, mas estes continuaram a segui-lo e a confrontá-lo, numa conversa em tom agressivo, de intimidação, mas sem ameaças concretas. O vídeo deste momento foi mais tarde partilhado nas redes sociais pelos próprios elementos que perseguiram o bloquista.»
O vídeo é este:
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Leia original aqui

Como morrem os Venturas?

O processo de gestão do grotesco político encerra em si mesmo um complexo paradoxo. Se, por um lado, a desvalorização do burlesco populista abre as portas à sua normalização, por outro, a opção de sobre ele nos debruçarmos acarreta o indesejável risco da sua inadvertida publicitação.
É de crer que o impasse possa ser quebrado por uma terceira via, por imperativo de consciência democrática, nomear com clareza e envergonhar sem tibiezas.
O enredo populista, em exibição um pouco por todo o mundo dito ocidental, é composto por três partes:
A mediatização da mediocridade. Em que o desafiante se dá a conhecer às massas.
A proclamação da negra virtude. Em que o ilusionista – despido das suas convicções, renegando o sistema onde nasceu, cresceu e tudo aprendeu – ergue as suas bandeiras choque, apropriando-se, das indignações mais frequentes do seu auditório.
E, por último, a prestigiação do grotesco. Em que o farsante promete, ribombante e com artificial simplicidade, implodir com o “estado a que isto chegou”, sob promessa de viagem gratuita para “coisa muito melhor e maior”.
É neste quadro que nos chega André Ventura. Homem afável no trato, instruído e de boa imagem. Atributos a que soma um raro talento de clamar ao povo, exatamente, aquilo que este deseja escutar. Um processo de radicalização e embrutecimento está em curso.
Desta perspetiva, não é de estranhar que nos traga o regresso da pena de morte e das execuções, de mão dada com o fim do estacionamento pago.
Não causa espanto que a proposta de proibição do casamento entre pessoas do mesmo género conviva com o inconstitucional desiderato da eliminação de 130 deputados.
Nem tão pouco que a discriminação étnica se assome, lado-a-lado, com insidiosa suspeita de que os mais desprotegidos desbaratam os seus apoios sociais em carros de alta cilindrada.
Todavia, desengane-se quem julga estar perante um guia estruturado de retrocesso ao obscurantismo. A supressão da Igualdade, Liberdade e Fraternidade, enquanto valores distintivos da nossa grande Nação, requer trabalho e consome tempo. Esse é um desígnio dos grandes ditadores. Os pequenos não procuram a glória, mas apenas a janela de oportunidade. A ideia, enquanto representação que se forma no espírito ou percepção intelectual, não vive na pátria do novo populismo.
Procura-se por um programa e, com sorte, talvez se encontre um papelinho, que mais não é do que a soma panfletária de desabafos vomitados no tampo de tantas mesas de café. Um cardápio desconchavado de embustes que se alimentam de meias verdades, ódios e preconceitos.
Urge compreender se, em tempos de indignação global, este exercício de imitação é mero ímpeto pessoal ou, por outro lado, encontrará aderência, patrocínio e financiamento em interesses de maior monta. Ainda não é tarde para afirmar que, por pouca que seja a sua expressão atual, cada voto por eles recolhido constitui estaca fria na nossa democracia.
Ignorado por uma certa elite intelectual, entretida nos labirintos do seu relevo social, continuará a fazer caminho. Em Itália, Espanha, no Brasil e em França, foram escritos milhares de artigos muito mais cintilantes e eloquentes do que o que ora leu. Ninguém os relevou ou partilhou e o populismo grassou.
Nesta angustiante narrativa aberta sobressai a questão: “Passarão ou não passarão?”
André Pinotes Batista
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Vem aí mais um partido

André Ventura, Presidente da comissão instaladora do «Chega» – movimento que esta manhã entregou no Tribunal Constitucional o processo de formalização enquanto partido.
(Expresso diário, 23.01.2019)
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Vox (Andaluzia) é financiado pelos Mujahedin do Povo

Segundo uma pesquisa do El País, a campanha eleitoral do partido andaluz, Vox, nas eleições europeias de 2014 foi financiada pelos Mujahedin do Povo (MEK), pelo valor de 800.000 euros [1].

O quotidiano socialista estabeleceu a via usada para a transferência de dinheiro, mas não conseguiu esclarecer o seu significado.

Os Mujahedin do Povo eram uma organização marxista iraniana nos finais da ditadura do Xá Reza Pahlevi. Progressivamente derivaram para uma seita trabalhando por conta de Israel e dos Estados Unidos contra o regime anti-imperialista dos revolucionários islâmicos.

O fundador da seita, Massoud Rajavi, fugiu para a França depois de ter organizado a matança do governo islâmico, em 28 de Junho de 1981. Ele obteve a protecção do Presidente François Mitterrand (que bombardeava secretamente o Irão) antes de ser expulso pelo Primeiro-ministro Jacques Chirac. A seita refugiou-se no Iraque (em plena guerra lançada pelo Presidente Saddam Hussein contra o Irão). Ela tornou-se a executora dos trabalhos sujos da Administração Hussein, aceitando fazer o que a Guarda Presidencial recusa. Quando os Estados Unidos derrubam o Presidente Saddam Hussein, a CIA hesita em reciclá-la. Ela especializa-se, então, em atentados contra civis no Irão e participa na campanha de assassinato dos cientistas iranianos.

Finalmente, em 2013, a Albânia aceita criar uma cidade para 3 a 4.000 deles, perto de Tirana. Aí, eles realizam hoje em dia acções de ciberataque contra os interesses iranianos. Segundo a imprensa local, a polícia albanesa não tem acesso a este campo onde os membros da seita vivem em situação de escravidão.

O investimento dos Mujahedin do Povo para apoiar Vox deve, provavelmente, ser entendido no contexto do investimento de Israel nos partidos políticos qualificados de extrema-direita na Europa. Trata-se de orientar a sua vingança já não contra os judeus, mas contra os muçulmanos.

Alejo Vidal-Quadras (à esquerda da foto), que criou Vox, em 2013, visitou, em 2009, enquanto parlamentar europeu, o campo de Ashraf (Iraque) dos Mujahedin do Povo, sob a presidência de Maryam Rajavi (à direita na foto). Ele participou em, pelo menos, dez das reuniões anuais da seita em Villepinte (França). Lá ele esteve uma vez ao lado do ex-Primeiro-ministro socialista José Luis Rodríguez Zapatero. Mais recentemente, fez par com Ruddy Giuliani e John Bolton.

Segundo o El País, a transferência de dinheiro foi organizada por Alejo Vidal-Quadras, então presidente do Vox, o qual se demitiu após o seu fracasso nas eleições europeias de 2014. Ele informara, a propósito, o seu sucessor, Santiago Abascal. Não está demonstrado que este financiamento tenha perdurado para além disso.


[1] « El exilio iraní financió el 80% de la campaña de Vox de 2014 », Joaquín Gil y José María Irujo, El País, 13 de enero de 2019.



Ver original na 'Rede Voltaire'

Idiotas com curto prazo de validade

Num artigo que hoje publicará no «i» Alfredo Barroso lembra a frase de Nelson Rodrigues, segundo o qual acabaremos por ser governados por idiotas, porque têm a força do número para sobreporem-se ao talento dos inteligentes.
Aparentemente assim ocorre nos nossos dias: gente como Trump ou Balsonaro corresponde a esse padrão de idiotas sem a mínima noção das consequências inerentes às suas impensadas decisões, que muito prejudicam os iludidos eleitores.
Há, no entanto, uma regra, que contra eles se vira mais tarde ou mais cedo: atrás de tempos, tempos vêm, gerando um ricochete letal. Quando Trump mantém a chantagem sobre a Câmara dos Representantes exigindo as verbas para o muro na fronteira do México, sem o qual sabe perder a face perante muitos dos que o elegeram, não se apercebe quanto o tempo acelera em seu desfavor: no momento certo, e a fim de se libertarem de quem para eles se tornou num estorvo, serão os próprios republicanos a darem provimento ao impeachment. Até porque Mike Pence é bem mais ponderado na missão de servir os interesses dos que confiam na Casa Branca para incrementarem os seus lucros.
Balsonaro, por seu lado, já começa a provar do veneno, que viu ser dado a Lula da Silva. A estória dos sucessivos depósitos na conta bancária de um dos filhos poderá ser uma faísca, que pegue fogo ao estopim e encurte rapidamente o seu mandato. É certo que até pode haver mais juízes federais a replicarem o que logo se apressou a agir, travando a investigação do ministério público. Mas o argumento do putativo réu já denuncia a origem mais do que duvidosa desses milhares de euros: como considera que o cargo de senador o protege, exige que as comprometedoras provas sejam destruídas. Resta ver como a imprensa brasileira reagirá ao assunto: depois de ter ativamente contribuído para assassinar Lula politicamente, e não se ter visto premiada por tal «sucesso», pode aproveitar agora para premir o gatilho e sujeitar a família Balsonaro a demolidor ataque.
Quem deu os idiotas como inevitáveis vencedores numa espécie de fim da História depressa terá de rever o seu modelo de análise dos acontecimentos.

 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/01/idiotas-com-curto-prazo-de-validade.html

Graciliano Ramos e os canalhas

Reflexões do grande escritor, já presentes em “Memórias do Cárcere” revelam similitudes entre os patifes de ontem e de hoje.

Mas não vivemos em tempo ordinário (…). 
Cada indivíduo se julga com o direito de ensinar qualquer coisa, 
surgem apóstolos de todos os feitios, 
sumiu-se o ridículo e o mundo se vai tornando inabitável 
Graciliano Ramos, Linhas Tortas

Graciliano Ramos foi a vítima mais célebre da repressão do Governo Vargas. Foi preso em Maceió no dia 3 de março de 1936, permanecendo detido sem acusação formal até o dia 13 de janeiro de 1937. Sobre este período escreveu «Memórias do Cárcere», publicado pouco depois de sua morte, faltando um capítulo que ele não teve tempo de terminar. Relendo-o hoje, percebo que mais do que uma grande obra literária e um documento fundamental sobre aquela época, «Memórias do Cárcere» é uma obra profética: fala do Brasil de hoje e do que ainda está por vir. Isto porque nesta obra Gracialiano Ramos analisou e descreveu com clareza e profundidade um conjunto de mecanismos, comportamentos e atitudes que dominaram grande parte da sociedade e das instituições do Brasil naquele período. Passada a repressão, porém, este conjunto não desapareceu, apenas submergiu. E no Brasil de hoje volta à superfície muito do que Graciliano Ramos já havia visto e denunciado, fazendo de «Memórias do Cárcere» um guia indispensável para compreender nosso próprio tempo. Separei algumas frases, poucas, de «Memórias do Cárcere», que descrevem com precisão o Brasil de hoje. Espero com isso despertar o interesse pela releitura desta obra e resgatar sua importância na luta pela democracia no Brasil.

Sobre a necessidade do capitalismo de construir uma ideologia que disfarce sua atuação e seus verdadeiros propósitos, por exemplo, Graciliano Ramos escreveu:

Se o capitalista fosse um bruto, eu o toleraria. Aflige-me é perceber nele uma inteligência, uma inteligência safada que aluga outras inteligências canalhas.

Como não ver no Brasil de hoje a atuação desta «inteligência safada» alugando outras «inteligências canalhas» no processo que levou ao golpe que derrubou a presidente eleita Dilma Rousseff, à prisão do ex-presidente Lula e, por fim, à eleição de Jair Bolsonaro? Que esta «inteligência safada» do capitalismo seja inimiga profunda da cultura e de todo o pensamento crítico é um outro fato observado por Graciliano Ramos e muito obviamente presente no Brasil da era Bolsonaro, onde abundam «inteligências canalhas» de aluguel dispostas a defender propostas como as escolas sem partido, ou a homofobia, a tortura, as ditaduras e a exterminação dos povos indígenas. Isso sem mencionar a entrega das riquezas públicas brasileiras para o capital financeiro através das privatizações. Já desde algum tempo no Brasil procura-se encarcerar o pensamento e o espírito. Sobre tudo isso Graciliano foi – e é – contundente:

O emburramento era necessário. Sem ele, como se poderiam aguentar políticos safados e generais analfabetos?

Nada mais atual. O obscurantismo pregado por certas igrejas evangélicas ligadas ao novo Presidente, a escolha de Ricardo Velez Rodriguez para o Ministério da Educação, de Damares Alves para Ministra dos Direitos Humanos e de Ernesto Araújo para as Relações Exteriores são sinais claros de que o Governo Bolsonaro está em guerra contra o pensamento e a cultura. Guerra inevitável, como bem viu Graciliano Ramos, para se levar adiante um projeto econômico profundamente elitista, anti-popular e anti-nacional.

Graciliano Ramos estava bem consciente também da extensão da opressão necessária para manter um tal regime:

É o que me atormentava. Não é o fato de ser oprimido: é saber que a opressão se erigiu em sistema.

E ele sabia que não precisaria muito para ser enquadrado como «inimigo» pelo regime – de então e de agora – e nos avisou:

Tínha-me alargado em conversas no café, dissera cobras e lagartos do fascismo, escrevera algumas histórias. Apenas. Conservara-me na superfície, nunca fizera à ordem ataque sério, realmente era um diletante

Diante da combinação de brutalidade e ignorância da repressão do governo Vargas, Graciliano chegou a pensar na possibilidade do exílio:

Imaginei-me em país distante, falando língua exótica, ocupando-me de coisas úteis, terra onde não só os patifes mandassem

Graciliano Ramos também denunciou a abjeta subserviência do Brasil da época a um outro país, a Alemanha nazista. Mas suas palavras também descrevem com clareza a subserviência, alardeada com orgulho pelo Ministro Araújo, do Brasil de hoje aos EUA, basta substituir, na frase abaixo, «ditadura ignóbil» por «Donald Trump» (ou talvez, apenas acrescentar « de Trump» depois de «ignóbil», também funciona):

A subserviência das autoridades reles a um despotismo longínquo enchia-me de tristeza e vergonha. Almas de escravos, infames; adulação torpe à ditadura ignóbil

Graciliano também observou e denunciou a deterioração do sistema legal, procedimento fundamental para o estabelecimento de um estado de repressão:

A lei fora transgredida, a lei velha e sonolenta, imóvel carrancismo exposto em duros volumes redigidos em língua morta. Em substituição a isso, impunha-se uma lei verbal e móvel, indiferente aos textos, caprichosa, sujeita a erros, interesses e paixões. E depois? Que viria depois? O caos, provavelmente

E Graciliano prossegue, escrevendo o que parece ser um comentário à atuação do Poder Judiciário de hoje:

Se os defensores da ordem a violavam, que deveríamos esperar? Confusão e ruína

Mas o pior ainda pode estar por vir. «Memórias do Cárcere» contém uma sombria profecia sobre um possível futuro deste governo:

O governo se corrompera em demasia: para aguentar-se precisava simular conjuras, grandes perigos, salvar o país enchendo as cadeias.

Desde o governo golpista de Temer já se tenta «simular conjuras, grandes perigos», inventou-se ameaças terroristas porque nada melhor que um inimigo interno para disfarçar fracassos econômicos e justificar a repressão. Este processo continua, sobretudo através da criminalização de movimentos sociais como o MST. A política econômica proposta pelo Ministro Paulo Guedes beneficia principalmente o setor financeiro e fatalmente vai aumentar os niveis de desigualdade e de pobeza. E as privatizações apenas vão entregar ao capital internacional as riquezas públicas do país, diminuindo ainda mais a possibilidade de recuperação econômica real. As forças que estão por trás da eleição deste governo não tem a menor preocupação e nem o menor compromisso com o Brasil e com o seu povo, apenas com o mercado. A combinação de despreparo, rapina, mediocridade e submissão aos interesses dos EUA, características do Governo Bolsonaro, inevitavelmente levarão ao desastre econômico e social, gerando cada vez mais resistência popular. Para o Governo, que conta com uma enorme participação de militares, só restará aumentar a repressão – sob qualquer pretexto – para manter-se no poder: «salvar o país enchendo as cadeias».


por Franklin Frederick | Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV (GGN) / Tornado


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/graciliano-ramos-e-os-canalhas/

Partido populista de direita na mira da inteligência alemã

Departamento de Proteção à Constituição da Alemanha avalia se AfD ameaça a democracia do país. Esta é primeira vez que um partido representado no Bundestag é monitorado.
O partido populista de direitaAlternativa para a Alemanha (AfD) está na mira do Departamento de Proteção à Constituição da Alemanha (BfV), o serviço de inteligência interno do país. O órgão federal classificou nesta terça-feira (15/01) o partido como um "caso a ser investigado", um estágio preliminar para um possível monitoramento oficial.
De acordo com a imprensa alemã, o presidente do BfV, Thomas Haldenwang, apresentou nesta terça-feira um estudo que serviu de base para classificar a AfD como um "caso a ser investigado". Segundo ele, existem "os primeiros indícios reais" de uma política direcionada contra a ordem fundamental liberal-democrática (conjunto de princípios que fundamentam a democracia alemã) e a Lei Fundamental (Constituição). Nesta fase, instrumentos de inteligência como agentes infiltrados ainda não podem ser usados.
O BfV ainda declarou como "casos suspeitos" (um estágio além de "caso a ser investigado") a ala nacionalista Der Flügel da AfD, organizada em torno do líder partidário do estado da Turíngia, Björn Höcke, e a organização juvenil "Junge Alternative (JA)" (Jovem Alternativa).
Esta é a primeira vez que um partido representado no Bundestag é monitorado pelo BfV.
Em "casos suspeitos", já é permitida a coleta de dados pessoais e, em casos excepcionais, o uso de recursos de inteligência. Segundo o BfV, tanto em relação à Der Flügel quanto à JA há indícios de aspirações extremistas contrárias aos princípios democráticos.
A JA é acusada de não respeitar o princípio constitucional da dignidade humana ao menosprezar outras etnias. Já a Der Flügel coloca em risco o princípio da democracia e do Estado de Direito e relativiza o nazismo, disse Haldenwang.
O órgão afirmou, no entanto, que a AfD é um "partido grande, com uma diversidade em suas declarações políticas". Por isso ainda não foi possível verificar adequadamente se os indícios encontrados são característicos dos objetivos e da orientação de todo o partido. E é exatamente isso que o BfV pretende esclarecer com a análise mais aprofundada.
O Departamento de Proteção à Constituição da Alemanha declara como "caso a ser investigado" organizações que não são claramente extremistas, mas nas quais há indícios de atividades que violam a Constituição. O órgão tem como principal função monitorar grupos que possam oferecer um risco à democracia e ao Estado de Direito na Alemanha.
Em setembro, o órgão responsável pela proteção constitucional na Turíngia havia classificado a ala estadual local da AfD como um "caso a ser investigado". As razões para a decisão incluíam a participação de Höcke numa marcha convocada após o suposto assassinato de um homem por requerentes de refúgio em Chemnitz, no leste do país.
A ala da Turíngia da AfD anunciou em meados de dezembro uma ação judicial contra um possível monitoramento oficial pelo Departamento de Proteção à Constituição da Alemanha. O partido e o grupo parlamentar entraram com uma ação no Tribunal Constitucional de Weimar contra o presidente do braço estadual do BfV na Turíngia, Stephan Kramer, e o ministro do Interior desse estado alemão, Georg Maier.
No início de novembro, a Jovem Alternativa dissolveu sua associação estadual na Baixa Saxônia depois de ter sido considerada inconstitucional pelas autoridades. Em Bremen e Baden-Württemberg, a organização juvenil é monitorada pelos departamentos estaduais de proteção constitucional.
PV/lusa/afp/dpa | em Deutsche Welle

Os “malucos” sapateiam no palco

(Eliane Brunm, 13/01/2019)

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Nas últimas décadas existiu um consenso de que, diante dos absurdos que eram ditos nas redes e em outros espaços, a melhor estratégia era não responder. Contestar pessoas claramente mal intencionadas e intelectualmente desonestas, em sua busca furiosa por fama, seria legitimá-las como interlocutor, dando crédito ao que diziam. E, assim, servir de escada para que ganhassem mais visibilidade. A frase popular que expressa essa ideia é: “Não bata palmas para maluco dançar”. A eleição de Donald Trump, de outros populistas de extrema-direita e agora de Jair Bolsonaro revelou que este foi um equívoco que vai custar muito caro.

O que se deixou de perceber é que, com a internet, os “malucos” já tinham um palco nas redes sociais e no YouTube, assim como a capacidade de multiplicá-lo sem serem perturbados no WhatsApp. As falsas teorias que inventavam eram lidas como se fossem sérias e confiáveis. Os palcos haviam mudado de lugar e os “malucos” dançaram sem serem confrontados com fatos nem incomodados por ideias. As palmas só aumentavam de volume enquanto os ilustrados torciam o nariz ou esboçavam sorrisos de superior ironia.

Os “malucos” não só dançaram, como sapatearam. Em seguida, passaram a afirmar seus pensamentos como “verdades” – e verdades únicas. O próximo passo foi conquistar o poder. Hoje os “malucos” não só ocupam os palcos mais centrais como têm o poder atômico de explodir o mundo, como Trump, ou acabar com a Amazônia, como Bolsonaro.

Se a eleição de Trump já havia exposto essa realidade, a de Bolsonaro é ainda mais emblemática. No caso de Trump, ao menos se poderia contrapor que o presidente americano é um bem sucedido homem de negócios, algo bastante valorizado no país do “faça-se a si mesmo”, frase usada para encobrir desigualdades decisivas para o destino de cada um. No caso de Bolsonaro, apesar de ele se apresentar e ser apresentado como “capitão reformado”, o presidente eleito passou os últimos 28 anos como um político profissional com pouca ou nenhuma importância para as grandes decisões do Congresso, ganhando espaço no noticiário apenas como personagem burlesco. Conseguiu se eleger sem sequer participar de debates no segundo turno – ou exatamente por isso –, porque dominava os palcos que importavam para ganhar a eleição.

Bolsonaro, que é chamado de “mito”, é um mitômano

 

Embora Bolsonaro só assuma oficialmente em janeiro, claramente o governo de Michel Temer acabou em 28 de outubro, quando o deputado se elegeu presidente. Hoje os brasileiros percebem que aquilo que parecia ser um universo paralelo, que só em situações excepcionais cruzava com o real, se tornou o que podemos chamar de realidade. O homem que já governa o Brasil, chamado de “mito” por seus seguidores, é um “mitômano”.

O que sabemos até agora é que Bolsonaro venera três figuras masculinas: Carlos Alberto Brilhante Ustra, militar e torturador da ditadura (1964-85); Olavo de Carvalho, que se apresenta como filósofo e se popularizou na internet depois de ser colunista da grande imprensa, e Donald Trump. Ustra desponta como a referência ética de Bolsonaro, Carvalho como seu guru intelectual e Trump é seu farol como líder. Por enquanto, temos uma trindade. E, neste ponto, Bolsonaro poderia interromper para afirmar que Deus acima de todos, já que Deus passou a ser um ativo na economia política que tem regido o Brasil atual.

A trindade de Bolsonaro é composta por um torturador, um guru e… Trump

 

Carlos Alberto Brilhante Ustra já foi amplamente descrito. Ele é reconhecido como torturador pela justiça brasileira e, conforme testemunhos, seria responsável por pelo menos 50 assassinatos. Como torturador, foi capaz de espancar grávidas e de levar crianças para ver o corpo destruído dos pais. Olavo de Carvalho já se manifestou contra campanhas de vacinação, isso num país que assiste a doenças consideradas erradicadas voltarem a ameaçar por baixa cobertura vacinal. Mora nos Estados Unidos desde 2005 e dá cursos de filosofia em vídeos transmitidos pela internet. Em recente entrevista à jornalista Júlia Zaremba, na Folha de S. Paulo, Carvalho assim se manifestou, ao ser perguntado sobre educação sexual nas escolas:

“Quanto mais educação sexual, mais putaria nas escolas. No fim, está ensinando criancinha a dar a bunda, chupar pica, espremer peitinho da outra em público. Acham que educação sexual está fazendo bem, mas só está fazendo mal. O Estado não tem que se meter em educação sexual de ninguém”.A credibilidade não é mais construída por uma reputação baseada em conhecimentos expostos ao debate, mas pela percepção emocional de “autenticidade”

A linguagem que o mentor intelectual do novo presidente do Brasil leva para a imprensa formal é a que rege a internet. Não há qualquer base para o que afirma, não há um único caso confirmado de que alguma criança foi ensinada na escola a “dar a bunda, chupar pica, espremer peitinho da outra em público”. Isso até hoje não existe como fato. Mas não importa. As afirmações não precisam estar enraizadas em fatos, basta serem ditas. A verdade foi convertida em autoverdade. E a credibilidade não é construída por uma reputação de conhecimentos postos à prova e expostos ao debate, mas pela percepção emocional de “autenticidade” daquele que a consome.

É “verdade” porque Olavo de Carvalho diz que é verdade o que claramente inventou. E é verdade porque, individualmente, cada seguidor de Olavo de Carvalho decidiu que é verdade. E, desde 29 de outubro, dia seguinte ao segundo turno eleitoral, é verdade também porque Olavo de Carvalho é a referência intelectual do presidente da (ainda) oitava economia do mundo.

A partir de suas autoverdades, Olavo de Carvalho indicou dois ministros do novo governo: o das Relações Exteriores, o diplomata Ernesto Araújo, e o da Educação, o colombiano radicado no Brasil Ricardo Vélez Rodríguez. Na mesma entrevista, Carvalho conta o processo pelo qual conseguiu emplacar dois ministros para governar o Brasil:

“Coloquei no Facebook, creio que coloquei também na área de mensagens do Eduardo Bolsonaro (em rede social). Foi tudo. Eu sei que o Bolsonaro lê as minhas coisas e a gente está vendo que leva bastante a sério. Eu fico muito lisonjeado com isso. (…) Sugeri esses dois simplesmente porque me ocorreu na hora”.

A conturbada escolha do ministro da Educação explicitou a forma como o novo governo já começou a operar. O primeiro indicado, Mozart Neves Ramos, diretor do Instituto Ayrton Senna, foi derrubado pelos evangélicos porque seria “esquerdista”. Em seguida, foi cogitado o procurador Guilherme Schelb, próximo do líder evangélico Silas Malafaia e defensor do “Escola Sem Partido”, projeto que busca censurar conteúdos e professores. Ao sair do encontro com Bolsonaro, Schelb fez a seguinte afirmação à imprensa:

“Eu não posso dar tarefa de casa, como tem sido feito, para criança de 8, 9 anos aprender discussão de gênero, o que é sexo grupal, como dois homens transam? O que é boquete? Isso é uma discussão de gênero, é uma violação da dignidade da criança”.

Como a autoverdade dispensa os fatos, Schelb não foi incomodado pelo inconveniente de provar o que diz. Como por exemplo: em quais escolas do país e em quantas escolas do país crianças de 8 e 9 anos estão aprendendo sobre o que é boquete e sobre como dois homens transam? Onde está a tarefa de casa em que uma criança de 8, 9 anos precisa descrever um boquete e como dois homens transam?

A sociedade é levada a acreditar que as salas de aula são uma suruba permanente enquanto o real problema é empurrado para as sombras

 

Seria preciso perguntar onde isso está acontecendo e em que proporção isso está acontecendo no país. E o procurador precisaria responder. Com provas verificadas. Mas não há necessidade de provar. Basta dizer. Qualquer coisa. E assim vai crescendo no país o número de pessoas que acreditam que o cotidiano das salas de aula brasileiras é uma suruba permanente, quando os reais problemas, o baixo salário dos professores e a comprovada baixa qualidade do ensino ministrado no Brasil, são convenientemente empurrados para as sombras.

Dito de outro modo: o problema inventado se torna mais real do que o problema que de fato existe e que condena milhões de brasileiros às consequências de uma educação falha, limitando seu acesso ao mundo e suas possibilidades de uma vida plena.

Por fim, Bolsonaro acolheu a indicação de seu guru, Olavo de Carvalho: entre as várias crenças de Vélez Rodríguez, o futuro ministro da Educação, está a de defender que 31 de março de 1964, data do golpe que deu origem a uma ditadura de 21 anos, “é um dia para ser lembrado e comemorado”. Também critica a Comissão da Verdade, que apurou as torturas, sequestros e assassinatos cometidos por agentes de Estado durante o regime de exceção: “A malfadada ‘Comissão da Verdade’ que, a meu ver, consistiu mais numa encenação para ‘omissão da verdade’, foi a iniciativa mais absurda que os petralhas tentaram impor”. Nos próximos meses, a sociedade brasileira descobrirá como será ter a área da educação comandada por alguém que frauda os fatos históricos.

O futuro chanceler acusa a esquerda de ser “antinatalista”, mas omite que seu chefe defendeu a esterilização de mulheres para combater a pobreza e o crime

 

Vélez Rodríguez foi o segundo nome emplacado por Olavo de Carvalho. O primeiro foi Ernesto Araújo. As crenças do futuro chanceler já se tornaram piada internacional. Em seu blog chamado “Metapolítica 17” (número de Bolsonaro na cédula eleitoral), criado para apoiar seu futuro chefe, Araújo afirma que mudança climática é uma “ideologia de esquerda”. Também acusa o PT e a esquerda de “criminalizar o desejo do homem pela mulher, os filmes da Disney, a carne vermelha” e “o ar-condicionado”. Chegou a escrever que o PT “quer impedir que crianças nasçam” porque, para a esquerda, “todo o bebê é um risco para o planeta porque aumentará as emissões de carbono”.

Ao empilhar falsidades, Araújo omitiu uma verdade comprovada e documentada sobre seu candidato e agora chefe: nas últimas duas décadas, Bolsonaro defendeu a esterilização de mulheres e um rígido controle de natalidade como meios para combater a pobreza e a criminalidade. Mas quem se importa com fatos quando seus seguidores acreditam em qualquer mentira que ele disser que é verdade?

O problema é que nenhuma das afirmações escritas do futuro chanceler é piada. Ao contrário. É muito sério. Primeiro, porque Bolsonaro e parte de seu entorno manipulam essas mesmas mentiras. Segundo, porque os seguidores do presidente acreditam que são verdades. Terceiro, porque elas já começam a produzir consequências. O Brasil desistiu de sediar a próxima Conferência do Clima, a COP 25, em 2019, uma distinção que o governo brasileiro pediu e, dois meses atrás, Michel Temer (MDB) comemorou. Bolsonaro afirmou ter participado desta decisão e feito uma recomendação ao seu futuro ministro, Ernesto Araújo, para evitar a realização do mais importante evento mundial do clima no Brasil.

Está em curso a sexta extinção em massa na trajetória do planeta, a primeira causada pelos humanos

 

A liderança no debate da crise climática é a única que o Brasil teria as melhores condições para disputar, por ter no seu território a maior porção da maior floresta tropical do planeta, estratégica para o controle do aquecimento global. O país é também o mais biodiverso do mundo. Entre 1970 e 2014, a humanidade já destruiu 60% de todos os mamíferos, pássaros, peixes e répteis. Desde que os humanos apareceram na Terra, já desapareceram metade das plantas. O continente sul-americano é um dos que mais rapidamente está perdendo biodiversidade. Está em curso a sexta extinção em massa, a primeira causada pelos humanos.

Até a eleição de Bolsonaro, o Brasil tinha um papel de protagonista no debate do clima e da biodiversidade, no cenário mundial. Estes são os dois maiores desafios da atualidade, porque afetam todas as outras áreas, inclusive e muito fortemente o agronegócio. Hoje, em Katowice, na Polônia, é realizada a COP 24. Graças às declarações de Bolsonaro e Araújo, o Brasil é má notícia. Como foi má notícia no final de novembro, durante a Conferência Mundial da Biodiversidade.

Ao aceitar o convite para ser o futuro chanceler, Araújo abriu uma conta no Twitter. Como seu chefe, ele quer falar diretamente com os seguidores. Recentemente, escreveu um texto defendendo que sua indicação representaria um “mandato popular” no Itamaraty. Suas crenças supostamente representariam a vontade do povo no cenário externo. Araújo tenta seguir o mesmo caminho de seu padrinho, Olavo de Carvalho. Falando diretamente com os seguidores e desqualificando qualquer mediador, como a imprensa, a academia e mesmo seus pares, Araújo não precisa provar o que diz nem ter suas afirmações confrontadas com os fatos. Fala sozinho. Mas, para isso ser legítimo, como membro de um governo populista, precisa convencer o povo que fala pelo povo. Ou que o povo fala pela sua boca.

A certa altura, escreve: “E o povo brasileiro? Vocês não se preocupam com o que o povo brasileiro vai pensar de vocês? Sabem quem é o povo brasileiro? Já viram? Já viram a moça que espera o ônibus às 4 horas da manhã para ir trabalhar, com medo de ser assaltada ou estuprada? A mulher que leva a filha doente numa cadeira de rodas precária, empurrando-a de hospital em hospital sem conseguir atendimento? O rapaz triste que vende panos no sinal debaixo do sol o dia inteiro para mal conseguir comer? A mulher que pede dinheiro para comprar remédio, mas na verdade é para comprar crack e esquecer-se um pouco da vida? O outro rapaz atravessando a rua de muletas, com uma mochila toda rasgada às costas, na qual pregou o adesivo do Bolsonaro, talvez sua esperança de dar dignidade e sentido à sua luta diária? O pai de família com uma ferida na perna que não cicatriza nunca porque ele precisa trabalhar três turnos para poder alimentar os filhos? Aí está o povo brasileiro, não está no New York Times”.

Não é porque o chanceler de Bolsonaro não acredita em aquecimento global que o planeta vai deixar de aquecer e afetar a vida de milhões de pessoas

 

Como Araújo pretende falar diretamente com “o povo”, mas numa via de mão única, em que ele fala e o povo engole, ele prefere não explicar ao povo que são os mais pobres que sofrerão o maior impacto das mudanças climáticas. As pessoas em regiões de baixa renda têm sete vezes mais chances de morrer quando expostas a riscos naturais do que populações equivalentes em regiões de alta renda. Os mais pobres também têm seis vezes mais chances de serem feridos ou de precisarem se deslocar, abandonando suas terras e casas. O Brasil tem perdido mais de 6,4 bilhões de reais por anocom eventos extremos, como tempestades e inundações, provocados por mudanças climáticas.

A crise do clima tanto reflete a desigualdade abissal do Brasil quanto a amplia. São estas mesmas pessoas que Araújo diz conhecer – e seus críticos não – as que vão sofrer mais por ter um chanceler como ele. Não é porque Araújo não acredita em aquecimento global que o planeta vai deixar de aquecer e afetar a vida de milhões também no Brasil.

Ao final do texto, o chanceler se trai. Parte do povo, aquela que discorda dele, não entende nada. O chanceler com “mandato popular” diz ao “povo” que ele precisa deixar as decisões para quem sabe e para quem estudou: “Se você repudia a ‘ideologia do PT’, mas não sabe o que ela é, desculpe, mas você não está capacitado para combatê-la e retirá-la do Itamaraty ou de onde quer que seja. Ao contrário, você está ajudando a perpetuá-la sob novas formas. Se a prioridade é extrair a ideologia de dentro do Itamaraty, não lhe parece conveniente ter um chanceler capaz de compreender a ideologia que existe dentro do Itamaraty? Alguém que estuda essa coisa nos livros, há muitos anos, e não simplesmente ouviu alguma referência num segmento do Globo Repórter?”.

Como tudo pode ser muito pior, o Brasil não tem apenas um chanceler desastroso, mas dois. Na semana passada, o presidente eleito despachou um de seus filhos, o deputado Eduardo Bolsonaro, para bajular Donald Trump, o terceiro personagem de sua trindade. Como ressaltou Matias Spektor, na Folha: “O filho chegou fazendo compromissos numa agenda cara ao governo americano —Cuba, Jerusalém, China e Venezuela. Nada pediu em troca além da deferência americana a Bolsonaro. Como Trump não respeita quem faz concessões unilaterais, a equipe de Bolsonaro desvalorizou o próprio passe. (…) Trata-se de crença irracional que ignora o gosto de Trump por arrancar concessões de seus principais parceiros a troco de nada. (…) Os americanos irão à forra”.

Como a Família Bolsonaro pretende conseguir os melhores acordos para o Brasil usando o boné de quem está do outro lado da mesa de negociações?

 

Ao cumprir agenda oficial em Washington, o filho do presidente usou um boné onde estava escrito “Trump 2020”. Talvez a maioria possa compreender como é constrangedor um representante do presidente eleito do Brasil usar um boné defendendo a reeleição do atual presidente americano. É como se o próprio Brasil estivesse usando um boné de Trump 2020. Como se espera negociar os interesses do país em boas condições a partir desta posição de subalternidade explícita, como se fosse um fã vestindo a cabeça com o nome do seu ídolo? O pai não fez melhor durante a visita ao Brasil do assessor de Trump, John Bolton. Como se fosse um subalterno, bateu continência. E não foi correspondido.

É isso. Os “malucos” estão dançando no palco e não precisam que ninguém dê palco para eles. Nem precisam das palmas de setores que acreditavam ter o monopólio dos aplausos. Ao dançar, afirmam que os fatos são “fake News” e que a ciência é “fake News”. Como estão em posições de poder, e um deles será o próximo presidente do Brasil, os jornais são obrigados a reproduzir suas falas e sua dança.

As universidades serão governadas por eles. A política científica será decidida por eles. A Escola Sem Partido pode virar lei, estabelecendo a censura com a justificativa de combater um problema que não existe. E tudo indica que o SUS poderá ser desmantelado em nome da privatização da saúde. O destino da Amazônia e de seus povos será determinado por aqueles que querem abrir a floresta para exploração.

Quando muitos creem no mesmo delírio, o que acontece com a realidade?

 

Ernesto Araújo se tornou uma piada internacional porque suas afirmações são absurdas. Elas não se sustentam quando confrontadas aos fatos. Mas, quando muitos creem no mesmo delírio, o que acontece com a realidade? Esta é uma pergunta crucial neste momento. E um desafio para o qual precisamos construir uma resposta. E rápido.

Quando já não há uma base comum de fatos a partir da qual se pode conversar, não há linguagem possível. Por exemplo: nas últimas décadas, religiosos fundamentalistas defendem que a teoria da evolução, de Charles Darwin, deveria ser ensinada nas escolas junto com o “criacionismo”, crença pela qual tudo foi criado por Deus. Segundo eles, as duas se equivalem. A questão é que essa afirmação equivale a dizer que uma cadeira e uma laranja são o mesmo. Não são.

A evolução é uma teoria científica, o criacionismo é uma crença religiosa. A primeira foi preciso provar pelo método da ciência. Mesmo se você não acreditar nela, os processos que a teoria da evolução descreve continuarão existindo e agindo. A segunda você pode acreditar ou não e jamais poderá ser provada pelo método científico. As duas não se misturam nem se comparam. Misturá-las faria com que deixássemos de compreender uma parte da Ciência que faz esse mundo funcionar – e faria também com que a dimensão mítica dos textos religiosos se perdesse naquilo que têm de mais poético.

O mesmo vale para a mudança climática provocada por ação humana. Não é uma questão de crença ou de fé. Está provado pelos melhores cientistas do mundo. É tão evidente que a maioria já pode perceber mesmo numa investigação empírica, na sua própria experiência cotidiana. Se o futuro chanceler do Brasil acredita que o aquecimento global é uma “ideologia de esquerda”, o planeta não vai deixar de aquecer por conta da sua crença. Só crianças muito pequenas acreditam que algo vai deixar de existir se elas fingirem que não existe.

Como restabelecer a linguagem, de forma que possamos ter uma base mínima comum a partir da qual possamos voltar a conversar?

 

Mas, ao tratar fatos como crença – ou como “ideologia” –, tanto Araújo como o presidente eleito podem impedir que o Brasil faça o que precisa para reduzir as emissões de CO2, as principais responsáveis pelo aquecimento global, assim como impedir que o Brasil tome medidas de adaptação ao que está por vir. Temos apenas 12 anos para impedir que o planeta aqueça mais de 1,5 graus Celsius. Se passar disso, os efeitos serão catastróficos. É grave que, nestes 12 anos, em pelo menos quatro o Brasil terá no poder pessoas que confundem fatos com crenças. Ou, para seu próprio interesse, afirmam que aquilo que é fato é a “ideologia” dos outros.

A segunda pergunta crucial neste momento é: como restabelecer a linguagem, de forma que possamos ter uma base mínima comum a partir da qual possamos voltar a conversar? Também precisamos construir uma resposta. E rápido.

A terceira é como devolver o significado às palavras. Por exemplo: uma laranja. De novo. Eu e você precisamos concordar que uma laranja é uma laranja. Se eu disser que uma laranja é uma cadeira, como vamos conversar? Podemos discutir qual qualidade de laranja é melhor, como melhorar a produção de laranjas, de que forma ampliar o acesso de todos ao consumo de laranjas etc etc, mas não podemos discutir se a laranja é uma cadeira ou uma laranja, do contrário não avançaremos em nenhuma das questões importantes sobre a laranja. Tudo o que é relevante, como seu valor nutricional e a evidência de que os mais pobres não têm possibilidade de comprar ou plantar laranjas, ficará bloqueado pelo impasse de o interlocutor insistir que a laranja é cadeira.

Não é uma questão de opinião a laranja ser laranja – e não cadeira. Também não há fatos alternativos. Há fatos. E não há alternativa de a laranja ser uma cadeira. Atualmente, porém, o truque de tratar laranjas como cadeiras para impedir o debate é amplamente utilizado.

Enquanto metade da sociedade brasileira é chamada de “comunista” sem nunca ter sido, os temas que afetam a vida das pessoas são decididos sem participação popular

 

Se as palavras são esvaziadas de significado comum, não há possibilidade de diálogo. É o que está acontecendo com a palavra “comunismo”, entre muitas outras. Não há uma base mínima de entendimento sobre o que é comunismo. Então, tudo o que os seguidores de Bolsonaro não gostam ou são estimulados a atacar é chamado de “comunismo”, assim como todos aqueles que eles consideram seus inimigos são chamados de “comunistas”.

O significado de comunismo, porém, foi quase totalmente perdido. E assim a conversa está interditada, porque o que é laranja virou cadeira para uma parte da sociedade brasileira. Enquanto metade da sociedade brasileira é chamada de “comunista” sem nunca ter sido ou querer ser, os temas que afetam diretamente a vida das pessoas estão sendo decididos sem debate nem participação popular, como, por exemplo, a reforma da previdência.

Os “malucos” que hoje dançam em todos os palcos não são tão malucos assim. Ou, se são, também parecem bem espertos. É claro que há alguns deles que acreditam que, por exemplo, crise climática é “climatismo” ou uma “ideologia de esquerda”, como diz Araújo. Mas a maioria deles sabe que afirmar isso é quase tão estúpido quanto dizer que a Terra é plana. Então, depois de fazer bastante alarme com isso, eles vão para a próxima etapa do roteiro. Qual é?

Enquanto a turma de Bolsonaro faz a dancinha da invasão estrangeira, a Amazônia vai sendo tomada por seus amigos

Afirmar que, sim, é claro que o aquecimento global é um fato, mas “os países ricos já destruíram todas as suas riquezas naturais e agora usam a crise climática para manipular países como o Brasil”. Basta acompanhar as declarações recentes de Bolsonaro e outros do seu entorno para constatar que a estratégia usada para manter os seguidores alinhados será reavivar a falsa acusação de que os indígenas e as ONGs internacionais querem tomar a Amazônia do Brasil. A mentira da ameaça à soberania nacional nunca deixou de se manter ativa na disputa da Amazônia. Mas, em tempos de WhatsApp, pode atingir muito mais gente disposta a acreditar. Já começou.

Enquanto parte dos brasileiros se distrai com a dança dos “malucos”, os ruralistas vão tentar avançar no seu propósito de abrir as terras indígenas para exploração. Não custa lembrar, mais uma vez, que as terras indígenas são de domínio da União. Os indígenas têm apenas o usufruto exclusivo sobre elas. Quando Bolsonaro compara os indígenas em reservas com “animais num zoológico” e diz que os indígenas “querem ser gente como a gente”, querem poder vender e arrendar as terras, ele não está sendo apenas racista.

Ele também está manipulando. A sua turma quer que as terras públicas sejam convertidas em terras privadas, que possam ser vendidas e arrendadas e exploradas. Enquanto fazem a dancinha da invasão estrangeira, a floresta vai sendo tomada por dentro. O nacionalismo da turma de Bolsonaro bate continência não só para os Estados Unidos, mas também para os grandes latifundiários e para as corporações e mineradoras transnacionais.

No futuro bem próximo assistiremos ao que acontece quando um delírio coletivo, construído a partir de mentiras persistentes apresentadas como verdades únicas, é confrontado com a realidade. Às vezes parece que Bolsonaro acredita que tudo vai acontecer apenas porque ele está dizendo que vai. Ele diz, depois se desdiz, aí diz que inventaram que ele disse o que disse. Em resumo: ele diz qualquer coisa e o seu oposto. Em alguns sentidos, Bolsonaro parece uma criança extasiada com o sucesso que faz no mundo dos adultos, com bonés e figurinhas de seus ídolos. Parte do seu entorno, que não é burra, acredita que pode controlar a criança mimada e voluntariosa – e convencê-la a agir conforme seus interesses. Veremos.

Em algum momento, o seguidor de Bolsonaro vai descobrir que não pode sentar na laranja – nem comer a cadeira

 

O confronto das promessas com o exercício do poder já começou. Como explicar que serão mais de 20 ministérios e não os 15 prometidos? Ou como explicar as consequências de transferir a embaixada para Jerusalém, desrespeitando parceiros comerciais importantes como os árabes? Como lidar com a China, grande importador dos produtos brasileiros, batendo continência para Trump em meio a uma guerra comercial entre as duas grandes potências? Como lidar com os impactos que tudo isso terá na economia e na vida dos mais pobres? Como justificar que postos de saúde poderão ficar sem médicos porque os cubanos foram embora e os brasileiros não querem ocupar os lugares mais difíceis e com menos estrutura? Como lidar com o possível aumento de gestações na adolescência, assim como de Aids e DSTs por falta de políticas públicas de prevenção e educação sexual nas escolas?

A realidade é irredutível. É quando o seguidor descobre que não pode sentar na laranja – nem comer a cadeira. Bolsonaro e sua turma já começaram a experimentar esse confronto. A compreensão ainda não atingiu seus seguidores. Mas atingirá.

Quem se anima com essa ideia, porém, deveria se envergonhar. Quem sofre primeiro e sofre mais numa sociedade desigual são os mais pobres. Se os “malucos” estão dançando no palco é também porque a maioria da população brasileira foi excluída da conversa mesmo na maior parte do período democrático e mesmo na maior parte dos governos do PT. Ainda que Bolsonaro tenha conseguido unir as pessoas em torno não de um projeto, mas de um afeto, o ódio, seu grande número de seguidores se sentiu parte de algo. Desde 2013 já havia ficado muito claro que havia um anseio da sociedade brasileira por maior participação.

Durante parte de sua permanência no poder, o PT também investiu mais nos afetos do que na construção de um projeto junto com as pessoas. Parou de conversar, não achou que precisasse mais das ruas e foi expulso delas em 2013. Depois da corrupção do PT no poder, e não me refiro apenas à corrupção financeira, a esquerda se mostrou incapaz de criar um projeto capaz de unir as pessoas. Isso não é culpa de Bolsonaro. Não adianta acusar o outro de ter um projeto de destruição. É preciso lidar com as próprias ruínas e apresentar um projeto de reconstrução e reinvenção do Brasil que convença as pessoas porque junto com elas.

Se alguém ainda não compreendeu, é o seguinte: para disputar uma ideia de Brasil será preciso, primeiro, ter uma ideia; segundo, convencer a maioria dos brasileiros que este é o melhor projeto para melhorar suas vidas; terceiro, tentar voltar a dançar no palco para recompor a linguagem, restabelecer a importância dos fatos e devolver substância às palavras. Não vai ser fácil.

A maior vitória de Bolsonaro é quando seu opositor fala como ele.

 

Nestas eleições, o Brasil foi esgarçado até quase rasgar. Em alguns pontos, rasgou. Talvez o maior triunfo de Bolsonaro tenha sido interditar qualquer possibilidade de diálogo. Esse processo não foi iniciado por ele nem ele é o maior responsável. Mas, sem bloquear o diálogo, Bolsonaro possivelmente não ganharia a eleição. Hoje, de um lado e outro, as pessoas só sabem desqualificar – e destruir. Aqueles que denunciam Bolsonaro não compreenderam que, ao adotar o mesmo vocabulário e a mesma sintaxe, apenas em sentido oposto, tornam-se iguais. E dão ao seu opositor a maior vitória que ele pode ter. Neste sentido, o do ódio, Bolsonaro unificou o país. Todos odeiam. Não há complemento nesta gramática. Odiar esgota-se no próprio verbo, mas o substantivo destruído é o corpo dos mais frágeis.

Quem quer resistir à redução do Brasil, em tantos sentidos, precisa primeiro resistir na linguagem. Diferenciar-se, também para poder acolher. O único jeito de voltar a conversar é voltar a conversar. Mesmo que para isso tenhamos que falar sobre laranjas e cadeiras.


Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes – o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas.
Site: desacontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebrum/ Facebook: @brumelianebrum

Fonte aqui

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Portugal | Pirosos na TV

Você, o estripador, na TV
A Opinião" de Fernanda Câncio, na Manhã TSF – em 09.01.2019
Há um corpo no chão, junto a um carro. Surgem dois polícias que o lançam, a jorrar sangue, para uma carrinha de caixa aberta, onde está já outro cadáver. Enquanto o fazem, ouvem-se aplausos e gritos: "Oh, coisa boa, valeu." "É Bolsonaro. É Bolsonaro."
O vídeo, que acaba com a imagem de poças de sangue no passeio - calçada portuguesa, por sinal - foi partilhado no Twitter, em novembro, por Alexandre Frota, então recém-eleito deputado federal pelo partido de Bolsonaro.
"Já já coletivos e ONGs + Direitos Humanos e ONU começam a dar chilique. Mas a limpeza precisa ser feita", comenta Frota, em legenda das imagens.
O tweet tem mais de 20 mil likes. Muitos comentários secundam o ex-actor porno, festejando a morte.
Mas há também quem se horrorize: "Não estou acreditando no que li!!! Não consigo ter argumentos para nada... só tristeza, tomara mesmo que exista um Deus e ele tenha misericórdia de nós..."
E quem pergunte: "Não acha que esse tipo de vídeo, assim como legenda, é ofensivo demais para ser postado por um candidato eleito que prega que irá defender a família? E as crianças que acessam isso?"
Frota não responde.
Noutros tweets, insulta, ameaça, diz palavrões. É um festival de baixeza.
Em 2015, num programa de TV, gabou-se, em risota, de ter violado uma mulher, deixando-a inconsciente. Mais tarde, alegou ter inventado a história.
Em 2018, foi condenado a pagar 10 mil euros a Chico Buarque por lhe ter chamado ladrão e a uma pena de dois anos em regime aberto por imputar a um deputado de esquerda homossexual declarações - falsas - a favor da pedofilia.
É este extraordinário ser humano que Manuel Luís Goucha terá hoje no seu programa de entretenimento, na manhã da TVI.
"As voltas que a vida dá!", dizia ontem Goucha, no Facebook, apresentando o convidado como alguém que "foi actor e concorrente de reality shows e agora é deputado".
De facto, a vida dá muitas voltas. Faço este resumo sobre Frota porque o experiente apresentador não só recebeu no seu sofá o nazi criminoso Mário Machado, como permitiu, decerto por falta de informação, que um cadastrado condenado a mais de 19 anos por crimes violentos mentisse sobre esses mesmos crimes.
Goucha, que no mesmo programa lançou uma sondagem sobre se faz falta um Salazar, ficou indignadíssimo por o acusarem de promover a extrema-direita e branquear um criminoso, anunciando até o afastamento, por "falta de confiança", de quem convidara Mário Machado. Agora, depois de um programa dedicado à questão "devem os pedófilos ser castrados?" - por acaso uma bandeira da extrema-direita -, vai ter outra jóia de rapaz de extrema-direita no seu sofá.
Não dá para perceber se a TVI resolveu fazer do seu programa para idosos um laboratório de extrema-direita, ou seja, de destruidores da democracia, ou se meteu na cabeça que isso lhe melhora as audiências; se as ideias que o director de informação diz serem "repugnantes e abjectas" surgem para a direcção de programas como a sua receita de sucesso. O ponto é que, sendo o resultado o mesmo, o objectivo não se distingue.
TSF
 

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Polícias eleitorais ou as duas faces da mesma moeda

As fake news e as novelas das supostas ingerências externas em actos eleitorais são o pretexto para a criação de corpos transnacionais de polícia eleitoral e o reforço do neoliberalismo como fascismo social.
José Goulão | AbrilAbril | opinião
A par da convergência dos populismos e neofascismos para as muitas campanhas eleitorais que aí vêm no plano internacional, está também em campo uma variante aglutinadora que contribui para replicar, mais coisa menos coisa, as eleições presidenciais norte-americanas de 2016. Incluindo aquilo a que o mainstream parece reduzir a política de hoje: as fake news e as novelas das supostas ingerências externas em actos eleitorais. Tudo a funcionar como nevoeiro para disfarçar o grande objectivo em jogo: reforçar o neoliberalismo como fascismo social – com mais ou menos fascismo político.
Chama-se Comissão Transatlântica para a Integridade Eleitoral, funciona no âmbito de uma denominada Aliança para as Democracias, com sede em Copenhaga e, entre muitas outras coisas, afirma dedicar-se a combater as informações falsas e as interferências externas em eleições; para isso, parte do princípio de que nenhum dos lados do Atlântico está verdadeiramente preparado para os riscos que ameaçam os cerca de 20 actos eleitorais que se realizam até 2020. Entre as notáveis e recomendáveis figuras que desempenham estas missões estão membros das administrações Bush e Obama, um ex-secretário geral da NATO e um organizador de esquadrões da morte na América Latina, além de José María Aznar e Tony Blair.
A Comissão Transatlântica para a Integridade Eleitoral diz que nasceu para acabar com a desinformação e as interferências estrangeiras em actos eleitorais norte-americanos, latino-americanos e europeus. Junta políticos no activo, ex-presidentes, vice-presidentes e vários ministros de vários países, jornalistas, apresentadores e editores de alto gabarito, algumas fundações, homens de negócios e também figuras de proa de impérios tecnológicos globais como o Facebook e a Microsoft, além de instituições indubitavelmente sintonizadas pela CIA, como o Conselho do Atlântico.
Esta comissão define-se a si mesma como «bi-partidária», entendendo-se por isso não apenas a formatação política norte-americana mas também o tradicional «arco da governação» do regime globalista neoliberal, isto é, os sociais-democratas liberais e a direita da área do Partido Republicano/Partido Popular Europeu.
O seu objectivo central está plasmado na panóplia de discursos e declarações proferidos e aprovadas na primeira «Cimeira das Democracias», realizada em 22 de Junho de 2018 em Copenhaga: combater tudo o que perturbe «o livre desenvolvimento das democracias em todo o mundo e a instauração de mercados livres». A cimeira nasceu das iniciativas do ex-secretário geral da NATO Anders Fogh Rasmussen e do vice-presidente de Obama, Joseph Biden. As notas finais do encontro foram redigidas por Tony Blair, acusado no seu país de ter mentido para provocar a invasão do Iraque; e que já discursara anteriormente, tal como o ex-chefe do governo espanhol, o neofranquista José María Aznar, que participou na encenação da mesma mentira feita em Março de 2003 na Cimeira das Lages, nos Açores.
Combater a interferência interferindo
Monitorar os riscos eleitorais que vão sendo detectados, de modo a ajudar os países a identificar as vulnerabilidades que facilitam as ingerências eleitorais externas, é uma das linhas de acção da Comissão Transatlântica, que promete disponibilizar soluções tecnológicas «contra a desinformação» e ferramentas baseadas em inteligência artificial que sejam «destrutivas em relação a conteúdos falsos», além de reduzirem as possibilidades de intromissão externa.
Segundo os apuramentos feitos pela Cimeira das Democracias, na sequência de actividades de monitorização, 80% das intromissões externas em eleições são de origem russa, como ficou provado, segundo a Comissão Transatlântica, nas eleições presidenciais norte-americanas de 2016, nos Balcãs e também no México, em 2018.
Embora não haja qualquer alusão ao que se passou no Brasil de Bolsonaro, sabe a Comissão Transatlântica que as eleições mexicanas ganhas pelo progressista e anti-neoliberal Lopez Obrador foram alvo de ingerências do Irão, da Venezuela e, claro, da Rússia.
E sabe ainda que, nos Balcãs, casos graves envolvendo igualmente Moscovo foram detectados no referendo sobre a mudança de nome na Antiga República Jugoslava da Macedónia e que abriu a porta às futuras integrações do território na União Europeia e na NATO.
Ora o que também está absolutamente comprovado – mas fora do âmbito de acção da Comissão Transatlântica – é que tanto o referendo macedónio como as recentes eleições gerais da Bósnia-Herzegovina decorreram sob comando directo dos embaixadores dos Estados Unidos e dos representantes locais da União Europeia, passando inclusivamente pela compra de votos de deputados para obtenção, por via parlamentar, do que não foi possível pelo caminho referendário. Terão sido estas acções inseridas já no âmbito da «monitorização» montada pela Comissão Transatlântica? Nada obsta, tanto mais que um dos objectivos expresso por esta é estar «um passo à frente dos acontecimentos», onde cabe perfeitamente o princípio de combater a interferência interferindo por antecipação.
Convergência no fascismo ucraniano
«Trabalhar com empresas tecnológicas na criação de ferramentas inovadoras para combater a desinformação e os conteúdos falsos» é um dos mandamentos de topo da Comissão Transatlântica para a Integridade Territorial, no âmbito da Aliança das Democracias.
Por isso, na lista de nomes sonantes que dão corpo a estas novas instituições supranacionais é possível encontrar, a par de famosos leitores de telepontos na ABC e na CNN e da editora do Bild, o expoente dos tablóides europeus, um dos mais graduados directores da Microsoft na Europa, John Frank, e também Richard Allan, vice-presidente da divisão de Soluções Políticas Globais do Facebook. Tendo já sido detectadas actividades desta catedral das redes sociais pouco compatíveis com a liberdade de expressão, a democracia e o equilíbrio eleitoral, não será difícil prever agora uma dinâmica reforçada no combate às chamadas fake news, tendo no horizonte as eleições até 2020, a começar pelas europeias de Maio próximo. Chegados a este ponto fica a faltar saber como vão as novas ferramentas distinguir entre conteúdos falsos ou aqueles que apenas contradizem democraticamente quem as manipula. Os famosos algoritmos estarão fiavelmente ensinados para distinguir o que é verdadeiro do que é falso ou é apenas contraditório?
Sabemos que a extrema-direita e o neofascismo, arrebanhados atrás da figura carismática de Steve Bannon, o homem que fez de Trump presidente dos Estados Unidos e de Bolsonaro presidente do Brasil, trabalham activamente nas estratégias para próximas eleições na Europa e Américas.
A Comissão Transatlântica, dentro da Aliança das Democracias, surge igualmente a marcar terreno na área do neoliberalismo, parecendo contrapor o globalismo do chamado «Partido de Davos» – o classicismo neoliberal que tem prevalecido – a uma ortodoxia do regime que vai beber às suas raízes em Pinochet e ao fascismo chileno.
Mas se este pode ser confundido com a figura de Steve Bannon, não é difícil encontrar almas gémeas na Comissão Transatlântica como Michael Churtoff, secretário para a segurança interna na administração de George W. Bush e, sobretudo, o inigualável John Negroponte, há muito defendendo a democracia com Reagan, Bush pai e filho, Clinton, Obama, Trump e até como embaixador na ONU. Esteve na saga dos «combatentes da liberdade» apoiando terroristas como os da Unita, somozistas na Nicarágua, Mujahidines e al-Qaida, sem esquecer os métodos de falsificação de eleições, designadamente nas Honduras, de que houve novo exemplo bem recentemente. O mesmo Negroponte que não hesitou em coordenar a formação e actuação de esquadrões da morte na América Latina, enquanto embaixador dos Estados Unidos, quando a sua «democracia» estava supostamente em perigo, mesmo que fosse através de eleições livres e democráticas. Agora reencontramo-lo disponibilizando inesgotáveis recursos à Comissão Transatlântica para a Integridade Eleitoral, sendo legítimo supor que a sua cartilha democrática, tão testada e aplicada, apenas se reforçou, não se alterou.
Pelo que não é surpresa observar as hostes de Bannon e Biden, Rasmussen e Negroponte – erigidas em polícias eleitorais – convergindo na figura de Porochenko nesta nova fase para reforço da institucionalização do fascismo ucraniano, nas eleições presidenciais de Março.
Será talvez difícil apurar qual das polícias, ou se foram ambas, recorreu à ferramenta nada inovadora da provocação no Estreito de Kerch, no passado dia 25 de Novembro, que permitiu ao presidente Porochenko declarar a lei marcial para se posicionar como favorito inquestionável. Ele que não passava dos 8% antes do conveniente «incidente». Não tenhamos dúvidas, porém, de que as próximas eleições ucranianas, decorrentes de um estado de excepção e organizados por metade de um país que impõe o terror militar fascista a outra metade, encaixa tanto no figurino «democrático» do «Partido dos Populistas» de Steve Bannon como no do «Partido de Davos» de Blair, Aznar, Biden e Negroponte, mais esquadrão da morte, menos esquadrão da morte. Donde não nos será difícil ter uma ideia dos critérios que vão seleccionar a informação expurgada de toda a desinformação e falsidade a servir aos eleitores envolvidos na escolha de duas dezenas de governos, parlamentos e presidentes em pouco mais de 12 meses.
Para estes corpos transnacionais de polícia eleitoral, com as suas divergências, que não são de fundo – longe disso – o que vai jogar-se é somente a manutenção do sistema de exploração garantido pelo capitalismo selvagem, o neoliberalismo económico, o fascismo social. Mais ou menos fascismo político, isso depende apenas do doseamento de meios para obter o mesmo fim.
Na verdade, estes campos são fáceis de identificar. Assim as pessoas queiram vê-los e combatê-los.

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

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O verdadeiro messianismo

Em tempos de crescimento das tendências populistas e desde a recente eleição de Jair Messias Bolsonaro como presidente do Brasil tem sido notória a propensão para associar a situação no Brasil com a que ocorreu em 1973 com o Chile, quando um golpe militar dirigido pelo general Augusto Pinochet derrubou o governo do socialista Salvador Allende, numa época em que também vigoravam outros regimes militares por toda a América Latina.

Sustentados pelo clima da Guerra Fria e na óptica de combate ao comunismo; esta situação começaria a desintegrar-se na década seguinte face ao evidente insucesso das suas políticas económicas, incapazes de assegurar o crescimento e o controlo da inflação e apenas geradoras de níveis crescentes de contestação.

As verdadeiras semelhanças entre o Chile de Pinochet e o Brasil de Bolsonaro estarão mais ao nível das políticas económicas que da orientação política (o populismo não pode ser automaticamente associado à sua forma mais extrema: o fascismo, mas deve ser encarado como fortemente potenciador). Em ambos os casos a linha comum encontra a sua origem a vários milhares de quilómetros de distância, na cidade norte-americana de Chicago e na escola económica a que Milton Friedman (Nobel da Economia em 1976) deu origem.

Tal como no Chile de Pinochet pontificaram os denominados Chicago Boys, que monopolizaram as pastas económicas ao longo de todo o período da ditadura, também agora no Brasil surge a figura do super-ministro da área económica, Paulo Guedes, concentrando as antigas pastas pastas da Fazenda, do Planeamento, do Desenvolvimento e do Comércio Exterior.

Recorde-se que os denominados Chicago Boys eram um grupo de economistas formados na Pontifícia Universidade Católica do Chile e pós-graduados na Universidade de Chicago, aos quais foi atribuída a transformação do Chile na economia latino-americana com melhor desempenho; os seus críticos, entre os quais se conta Amartya Sen – galardoado com o Prémio Nobel em 1998 – apontam-lhes a responsabilidade das políticas preconizadas para o combate à inflação no grande aumento do desemprego ou o benefício intencional das grandes empresas norte-americanas em detrimento das populações locais.

Lembre-se que ainda hoje os indefectíveis apoiantes das políticas monetaristas – agora mais conhecidos como neoliberais ou ordoliberais – continuam a acreditar que sem a sua intervenção a economia chilena teria caminhado para o colapso e que a eles se deve a situação relativamente saudável que ela veio a atravessar; é certo que com tão radicais medidas a economia chilena conheceu anos de grande crescimento, mas isso foi fundamentalmente alcançado à custa da redução dos salários e do nível de vida da esmagadora maioria da população chilena, que no final do consulado militar (Março de 1990) apresentava um quarto da população a viver abaixo do limiar de pobreza e, pasme-se, uma dívida externa várias vezes superior à de 1973.

Outra tese, defendida por pdf Peter Kornbluh no seu livro «The Pinochet File: A Declassified Dossier on Atrocity and Accountability» (13.09 MB) (The New Press, 2003), assegura que a verdadeira causa para o crescimento económico registado poderá ter sido a importante ajuda dada pela interrupção da acção norte-americana de desestabilização da economia chilena após a entrada em cena dos Chicago Boys.

O referido Paulo Guedes, também ele originário da Escola de Chicago, já anunciou a intenção de mudar o modelo económico social-democrata para reactivar a economia do país através de um programa acelerado de privatizações e controlo dos gastos públicos, segundo uma fórmula que parece claramente decalcada do chamado Consenso de Washington, que é, nem mais nem menos que a política oficial do Fundo Monetário Internacional (FMI) desde finais da década de 1980, quando foi formulada por economistas do FMI, do Banco Mundial e do Departamento do Tesouro dos EUA, segundo um texto do economista John Williamson, do International Institute for Economy. Em linhas gerais o Consenso de Washington consiste num conjunto de medidas composto por dez regras básicas:

  1. Disciplina fiscal;
  2. Redução dos gastos públicos;
  3. Reforma tributária;
  4. Livre formação das Taxas de Juro;
  5. Livre formação das Taxas de Câmbios;
  6. Abolição das barreiras comerciais (pautas aduaneiras);
  7. Eliminação de restrições ao Investimento estrangeiro directo;
  8. Privatização das empresas públicas;
  9. Desregulamentação (suavização da legislação económica e da regulamentação do trabalho);
  10. Direito à propriedade intelectual, que os técnicos do FMI transformaram no “receituário” para promover o “ajustamento macroeconómico” dos países em desenvolvimento sujeitos ao auxílio daquele Fundo.

O que ressalta da actuação dos modernos neoliberais ou dos “antigos” monetaristas é que as suas soluções para o crescimento económico sempre se têm caracterizado por resultados idênticos: crescimento das desigualdades sociais e concentração da riqueza num número cada vez menor de mega-ricos.

A implantação com sucesso de regimes sociais democratas e a sua constante deriva na tentativa de agradar aos interesses económicos (sua grande fonte de financiamento) traduziu-se numa constante suavização dos seus objectivos económico-sociais de melhor e mais equitativa distribuição da riqueza. Esta tendência a par com a transnacionalização do capital e uma quase completa liberalização na sua circulação planetária facilitaram a expansão dos conceitos monetaristas e a sua visão do funcionamento duma economia que de liberal passa rapidamente a disfuncional tal a concentração de riqueza e poder. Vimos isso na América Latina quando ela foi sujeita a um conjunto de regimes militares, que os diferentes matizes políticos e as maiores ou menores tendências fascizantes não impediram a aplicação consensual dos conceitos reformistas altamente favoráveis ao factor capital e à desregulamentação dos mercados que levaram à sua queda.

Mas esses ensinamentos foram rapidamente esquecidos e os ventos que hoje sopram, insuflados pelos efeitos da crise sistémica iniciada em 2007/2008 e por bem conduzidas campanhas de instilação do medo a tudo o que seja diferente, estão a catapultar para o Poder figuras técnica e politicamente impreparadas mas globalmente ainda mais favoráveis à agudização das desigualdades, parecendo cada vez mais claro que os movimentos populistas – de maior ou menor pendor nacionalista e liderados por egocêntricas figuras que se autoproclamam de messiânicas –, se afiguram hoje, na linha da bem conhecida e denunciada estratégia de «Choque e Pavor» (a que me referi neste artigo homónimo), como a via escolhida para aplicar o receituário económico neoliberal e aprofundar o processo de concentração da riqueza.


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/o-verdadeiro-messianismo/

A reinvenção caseira da extrema-direita

Depara-se por todo o lado comum regresso vigoroso da extrema-direita como área política e do autoritarismo como modelo de governação. A partir dos anos oitenta, quando os ideais democráticos emergentes nas duas décadas do pós-guerra começaram a recuar, tornou-se percetível que a serpente fascista não morrera. Ao invés, ela estava a crescer, sobretudo em ambientes marcados pela crise económica, pela desigualdade e pelo conflito social. Nos últimos anos, este crescimento tornou-se claro. Encontramo-la em práticas de governo ou propostas de movimentos com hipóteses de o vir a ser. Nos Estados Unidos, no Brasil, nas Filipinas, na Hungria, na Polónia, na Rússia ou na Itália,ela chegou já ao poder. Em França, na Alemanha, na Bulgária, na Finlândia ou em Espanha, configura-se como alternativa com hipóteses de a ele chegar. Em Portugal já quase não existia, mas está a ser artificialmente reinventada.

Não falamos de uma extrema-direita semelhante àquela que se afirmou entre as décadas de vinte e quarenta do século passado. O mundo mudou e existem diferenças consideráveis, tanto nas propostas quanto nos métodos. A maior delas, sem dúvida, é que enquanto nas experiências anteriores se ergueu abertamente contra a democracia, nas de hoje procura chegar ao poder usando os meios que a democracia faculta, e falando até em seu nome.A barbárie fascista reemerge por todo o lado como forma de normalidade política.

Os métodos são diversos: explora as crises económicas e a desigualdade social, invoca o terrorismo e a criminalidade, amplia e distorce as consequências dos movimentos migratórios ou de refugiados, ressuscita os fantasmas do racismo e da xenofobia, usa os preconceitos contra a igualdade de género e os direitos das minorias, serve-sedas tradições religiosas ou locais contra todas as tentativas de superar práticas sociais obsoletas. Já ideologia, não tem: apenas um vago nacionalismo,uma proposta de regresso a uma ordem hierárquica rígida e a rejeição de todas as formas de democracia, de igualdade e de diversidade social. Tudo envolvido numa linguagem populista, que ignora as lições da história e recorre demagogicamente a algumas reivindicações justas e até a setores sociais excluídos,apresentando-se mesmo como a sua voz.

Neste processo tem particular importância o papel das redes sociais e dos media. As primeiras dão voz a quem a não tinha, é verdade, mas têm possibilitado ao mesmo tempo a disseminação de notícias falsas, bem como uma manipulação da informação que usa o logro da proximidade. Já os meios de comunicação social – não todos, naturalmente, mas uma parte significativa deles – fazem-no de uma forma mais coerente e organizada. Têm sido precisamente estes a conferir a este setor a projeção que há poucos anos não tinha, puxando-o para as primeiras páginas e dando destaque às suas iniciativas e exigências.

Entre nós, esta situação tem contornos particulares. As organizações da extrema-direita são diminutas e em parte ligadas ao mundo do crime, sendo o nosso país, neste domínio, um oásis na Europa. Mas vemo-las agora amplificadas na forma como jornais e canais detelevisão lhes dão fôlego. Através de notícias desproporcionadas sobre certos movimentos (veja-se o caso dos «coletes amarelos à portuguesa»), de dados falsos sobre insegurança (quando Portugal é um dos países mais seguros do mundo), de agudização artificial de conflitos sociais que podem ser negociados (o caso dagreve dos enfermeiros é o mais notório), de branqueamento e normalização do ideário fascista (ao conceder voz pública a fascistas notórios). Através também da proliferação de realces noticiosos e de colunas de opinião onde o país, apesar da recuperação recente, é apresentado como se estivesse à beira de uma catástrofe e a carecer de soluções de natureza autoritária.

Tudo isto tem suscitado um estado de alarmismo que pode favorecer condições para a emergência demovimentos de pendor autoritário e violento, ajudando a criar e a desenvolver uma extrema-direita que até agora praticamente não existiu. Por isso, na defesa da liberdade, as instituições da democracia e os seus partidos não podem dormir,atuando nesse sentido e responsabilizando, se necessário criminalmente, quem trabalha para disseminar a mentira e o ódio, na tentativa de legitimar soluções fundadas na intolerância e na violência. Em Portugal, a democracia não pode deixar os seus piores inimigos de mãos livres.

Fotografia: Par de botas de combate. Autor não identificado.
Publicado originalmente no Diário As Beiras de 12/1/2019

Ver original em 'A Terceira Noite' na seguinte ligação:

http://www.aterceiranoite.org/2019/01/12/a-reinvencao-caseira-da-extrema-direita/

Orban elogia Bolsonaro: 'Brasil é a definição mais adequada da democracia cristã moderna'

Primeiro-ministro húngaro Viktor Orban ao lado de Jair Bolsonaro e da primeira-dama, Michelle Bolsonaro
© Foto : Reprodução / MTI

O primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orban, elogiou o presidente brasileiro Jair Bolsonaro, afirmando que o Brasil tem hoje o melhor exemplo do que é uma democracia cristã em todo o planeta.

"A definição mais adequada da democracia cristã moderna pode ser encontrada no Brasil, não na Europa", destacou Orban em declarações de uma entrevista coletiva citadas pela Agência Associated Press.


Presente na posse de Bolsonaro na semana passada, em Brasília, Orban destacou ainda que possui pontos de vista semelhantes aos do presidente do Brasil, o que "aproximou atores políticos com a mesma mentalidade, mesmo que eles vivam em continentes diferentes".

A bandeira que mais aproxima hoje Brasília de Budapeste envolve a política migratória – Bolsonaro e Orban compõem um grupo que é crítico de organismos e decisões multilaterais para lidar com imigrantes, preferindo que cada país decida como lidar com o tema.

Na mesma entrevista, o premiê húngaro reforçou que quer ver "forças anti-imigração" no comando de todas as instituições da União Europeia (UE), a alguns meses de uma importante eleição no Velho Continente: a do Parlamento Europeu, marcada para maio deste ano.

Orban se mostrou preocupado com a possibilidade da existência de duas civilizações na Europa, uma "que constrói seu futuro em uma coexistência mista islâmica e cristã", e outra na Europa Central que seria apenas cristã.


Ele prometeu trabalhar junto com os líderes de Itália e Polônia para a construção de uma "nova Europa" – ambos os países também são contrários ao acolhimento de imigrantes –, com Orban se referindo ao vice-primeiro-ministro italiano Matteo Salvini como "meu próprio herói".

Na mesma coletiva, Orban se recusou a falar sobre corrupção, a indicação de amigos para o governo e o enriquecimento de sua família. O primeiro-ministro também não abordou a falta de credenciamento para veículos de imprensa independentes do país para a entrevista.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2019011113090332-orban-bolsonaro-democracia-crista/

ERC, Mário Machado e TVI

Comunicado de imprensa do Movimento SOS Racismo sobre a deliberação da ERC relativamente ao convite de Mário Machado pela TVI.

COMUNICADO

Deliberação da Entidade Reguladora para a Comunicação (ERC) legitima o branqueamento de Mário Machado pela TVI

  1. De acordo com a Deliberação que a ERC proferiu, no que respeita às participações recebidas a propósito da emissão de 03/01/2019, do programa “Você na TV” – entrevista a Mário Machado, da TVI, foram efectuadas as seguintes recomendações genéricas:
  1. A necessidade de garantir a exposição dos diversos pontos de vista possíveis;
  2. A necessidade de garantir a efectiva representatividade dos intervenientes;
  3. A necessidade de garantir, pela escolha dos intervenientes, a qualidade da informação a transmitir;
  4. A necessidade de garantir o rigor no tratamento concedido ao tema, designadamente em matéria de contextualização, precisão e escrutínio da informação.”
  1. Não deixa de ser curioso que, deliberando que “no caso vertente, dos mesmos não se extraem factos que indiciam a prática de qualquer contra ordenação ou de crime por violação da Constituição da República Portuguesa ou de qualquer normativo em vigor.” a ERC ainda se dá ao trabalho de fazer as recomendações acima referidas.
  1. Sobre as várias questões levantadas nas participações que foram efectuadas, nos comunicados e posições assumidas por dezenas de entidades, incluindo o Sindicato dos Jornalistas e associações, a ERC entendeu que não há motivo para qualquer outra intervenção da sua parte, tecendo considerandos jurídicos quer sobre a liberdade de imprensa, quer sobre a liberdade de pessoas que já cumpriram penas pela prática de crimes e o facto de não poderem ser limitadas na sua liberdade de expressão.
  1. A este propósito, o SOS Racismo dá por reproduzido tudo quanto consta do comunicado emitido sobre esta matéria no passado dia 03 do corrente. Mas importa ainda dizer o seguinte:
  1. É óbvio que, do ponto de vista estritamentejurídico, qualquer pessoa que tenha sido condenada pela prática de crimes e que tenha cumprido a pena que lhe for aplicada, não fica, em princípio, diminuída no exercício dos seus direitos fundamentais.
  1. Mas, mantendo o dever como qualquer outro cidadão, fica obrigado a cumprir a Lei – nomeadamente, a não produzir discursos de ódio e discriminação racial.
  1. Por outro lado, a TVI, enquanto órgão de comunicação social, deve assumir, respeitar e veicular os princípios fundamentais do exercício da sua actividade, em especial, não veicular notícias falsas, não branquear crimes e não dar palco a que outros crimes sejam cometidos.
  1. Para anunciar a entrevista em causa, a TVI e os seus profissionais apresentaram Mário Machado como “autor de declarações polémicas”. Ora, Mário Machado não é apenas o “autor de declarações polémicas”; Mário Machado é o autor, condenado em Tribunal, pela prática de vários e violentos crimes, tais como discriminação racial, ofensas à integridade física, coação, sequestro, posse ilegal de armas, difamação agravada, tentativa de extorsão, entre outros. A TVI ocultou informação relevante sobre a personagem que escolheu para os seus programas.
  1. Mesmo durante os dois programas em que Mário Machado foi entrevistado, a TVI permitiu que vários dos seus crimes e condenações fossem branqueadas mostrando apenas a versão do entrevistado: Mário Machado alegou ter sido vítima de erro judicial e ter sido condenado apenas porque escreveu uns textos. Não é verdade – Mário Machado cumpriu pena de prisão pelos crimes descritos e foi libertado quando terminou de cumprir as penas de prisão a que foi condenado, crimes, esses, que não se limitam a uns “textos” que o próprio escreveu. A TVI permitiu, assim, que informação relevante sobre a personagem que escolheu para “entrevistar”, por duas vezes, mentisse sobre as suas condenações, transmitindo a ideia de que o sistema judicial e democrático português perseguiram, injustamente, um cidadão.
  1. Na rubrica “Você na TV”, Mário Machado foi entrevistado por Luís Goucha e por Bruno Caetano, que é apresentado como “repórter”. Não sabe o SOS se estes dois profissionais cumprem todos os requisitos legalmente definidos para exercerem funções de jornalistas. Contudo, quer cumpram ou não tais requisitos, não podem, nem devem promover através de uma pretensa liberdade de informação a apologia de ideais e regimes fascistas.
  1. Note-se que veio a público informação segundo a qual o Ministério Público estaria a investigar Bruno Caetano, o apelidado “repórter” das manhãs da TVI, por alegadas práticas de crimes de discriminação e de incitamento ao ódio.
  1. No programa “Você na TV”, Mário Machado afirmou que ““Há uma falta de respeito pela autoridade e pelos mais velhos de hoje em dia, em comparação com o tempo do Estado Novo (…) há uma criminalidade galopante.” O dito “repórter” Bruno Caetano corrobora a opinião de Mário Machado sobre a necessidade de um novo “Salazar” para resolver o problema de autoridade.
  1. São conhecidas as formas utilizadas pelo Fascismo para resolver problemas de “autoridade” – PIDE, censura, tortura, privação da liberdade, assassinatos. Essa era a política de Salazar, do fascismo e do Estado Novo. A TVI voltou a servir de meio para branquear, de forma activa a violência do fascismo.
  1. Acresce ainda que, considerando os últimos dados publicamente disponíveis sobre a taxa de criminalidade referentes ao ano de 2018, anunciados pelo ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, no Parlamento, Portugal é um dos países mais seguros do mundo.
  1. A 1 de Junho, as estatísticas já confirmadas apontavam para uma descida de 9,7% na criminalidade em Portugal. Apesar de os dados ainda estarem a ser sujeitos a comparações e validações, a avaliação das polícias aponta para um reforço dessa tendência de descida a atingir os 10% nos primeiros seis meses deste ano, comparativamente com igual período de 2017.
  1. O Relatório Anual de Segurança Interna de 2017, que reúne os dados referentes à criminalidade participada por oito órgãos de polícia criminal, conclui que entre 2008 e 2017 a criminalidade geral e a criminalidade violenta e grave diminuíram significativamente. A TVI, por intermédio do seu “repórter” Bruno Caetano, ao corroborar a opinião de Mário Machado sobre a “falta de autoridade”, serviu de veículo para transmitir a ideia falsa que há um problema de autoridade e criminalidade em Portugal.
  1. Perante o exposto, a questão que se coloca é se a ERC se deve ou não pronunciar sobre estes aspectos – e, do nosso ponto devista, deveria. Numa sociedade democrática, não é admissível que um órgão de comunicação social possa ser um veículo de mentiras e de branqueamento de violência, da História, do fascismo, do nazismo e do racismo.

Pelo SOS Racismo
Mamadou Ba
Joana Santos

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/erc-mario-machado-e-tvi/

A extrema-direita é um gambozino

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 09/01/2019)

Daniel

Daniel Oliveira

Foi muitíssimo interessante verificar a reação de alguma direita à ida de Mário Machado ao programa de Manuel Luís Goucha. Interessante, por ser um caso limite. Estávamos a falar de um criminoso, com sequestros, homicídios, espancamentos. Estávamos a falar do facto de tudo isso ter sido escondido dos telespectadores. Estávamos a falar de uma entrevista sem qualquer enquadramento jornalístico, feita num programa de entretenimento, entre panelas e conversas ligeiras, a um nazi muitíssimo violento. Estávamos a falar, enfim, do indefensável. E mesmo assim alguns conseguiram vir a terreiro.

Como seria de esperar, a maioria das pessoas de direita sentiram o mesmíssimo incómodo e nojo. Outras, talvez por conhecerem mal o percurso de Mário Machado, meteram um piloto automático. Foi o caso de Pacheco Pereira, que já no passado tratara Mário Machado como preso político, ignorando claramente a extensão do seu cadastro.

Não vale a pena rebater as ideias de um criminoso (quando os crimes de delito comum foram cometidos com motivações políticas) se ele conseguir fazer-se passar, na televisão, como uma pessoa apenas “polémica”. Ele ter direito a falar não é o mesmo que ele ter direito a esconder. E é por isso que aquela entrevista é inaceitável e a mesmíssima entrevista a Jaime Nogueira Pinto, também ele um saudosista do Estado Novo, não o seria. Mas Pacheco Pereira reciclou uma ideia antiga sem prestar atenção ao facto de o único objetivo de Mário Machado ser o de aparecer como um político, por mais inaceitáveis que fossem as suas posições (isso era-lhe indiferente), em vez de continuar a ser visto como um criminoso. E a TVI participou nessa farsa.

Mas mais interessantes foram os que, afastando-se das posições de Mário Machado, não se limitaram a defender o seu direito a falar. Entregaram-se aos mais ferozes ataques às pulsões censórias da esquerda, naquele velho exercício que transforma quem se opõe ao fascista no verdadeiro fascista. E que até faz um esforço para normalizar, integrar e banalizar o próprio fascista. Como não podia deixar de ser, o caso mais evidente foi o “Observador”. Na divisão de tarefas, tem sido sempre assim: o “Correio da Manhã” cria o ambiente popular que naturaliza o discurso autoritário, o “Observador” trata da legitimação intelectual. Que vai do revisionismo histórico à tentativa de destruir o cordão sanitário que manteve a direita democrática separada das suas correntes antidemocráticas.

Segundo a página da Nova Ordem Social, organização política criada pelo homem que mais tempo esteve numa prisão de alta segurança em Portugal, “o melhor artigo a retratar a entrevista de Mário Machado e o alarido que se seguiu” foi o de Helena Matos. Não vou ser eu a desmentir. E se eles se sentem tão bem com aquele artigo é boa razão para o ler com atenção.

Não vale a pena entrar num debate semântico – a que Helena Matos nunca se entrega quando fala das várias correntes marxistas ou da esquerda – sobre o fascismo. Muito menos sabendo-se que Salazar sempre teve a arte de albergar debaixo da sua asa correntes muito diferentes da direita autoritária. Umas cooptou e integrou, outras afastou, mas sempre com um enorme pragmatismo agregador. E o mesmo fez com as suas referências ideológicas e estéticas. É daquele género de preciosismos que, quando estamos a falar do que é hoje a extrema-direita, em vez de servirem o rigor servem a confusão. E é especialmente disparatado quando se fala de Mário Machado, que só não é fascista porque sempre foi neonazi. Se Helena Matos tivesse perdido cinco minutos a vasculhar o percurso da figura sabê-lo-ia. Da iconografia aos heróis, do discurso ultrarrevolucionário às referencias estéticas, é isso que ele sempre foi. Pois mesmo perante um neonazi Helena Matos consegue ver uma esquerda à caça de fantasmas, “inventando fascistas”.

Também não vale a pena explicar a Helena Matos que o principal dever de um jornalista que entrevista Mário Machado não é “conhecer os livros”, é conhecer a pessoa que está à sua frente. Mas essa parte, apesar de eu saber que Helena Matos conhece, ela prefere ignorar.

Mais do que texto, interessa-me a reação desta direita, que pretende quebrar a fronteira entre os saudosistas do Estado Novo e os democratas conservadores, entre as correntes ultraliberais na economia e autoritárias na política. Sempre que há uma polémica deste género, a reação da direita “Observador” e os seus avatares é pavloviana: se for preciso defender o indefensável, defende-se o indefensável. No início os acólitos vão estranhar, depois vão deixar que se entranhe.

Parte desta reação é estúpida. Se a esquerda está irritada, eles estão satisfeitos. Se a esquerda odeia Bolsonaro, “viva o Bolsonaro”. Se está furiosa com o Mário Machado, não dá para dizer “viva Machado” (apesar de tudo o tipo esteve preso bastantes anos por andar a espancar pessoas), mas arranja-se uma forma de transformá-lo numa vítima da fúria censória da esquerda. É uma direita que ainda se sente menorizada e tem reações em vez de posições.

Mas parte da reação é inteligente: a radicalização da direita – tentada não surpreendentemente por algumas pessoas que vêm da extrema-esquerda, como Helena Matos e José Manuel Fernandes – é fundamental para a libertar de qualquer compromisso em torno do que já foi um consenso ao centro. Os compromissos ao centro impedem a agenda económica e social que esta nova vanguarda tem em mente e que é em tudo contrária ao DNA da direita moderada portuguesa. Tentaram tomar o PSD e radicalizá-lo. É possível que voltem a tentar e para isso têm organizado um cerco como não há memória a um líder do partido. Fora disso, têm de construir o seu espaço.

Só que a radicalização da direita tem um obstáculo aborrecido: a memória. Portugal teve uma ditadura de direita de meio século e isso não é coisa que se apague com facilidade. E teve uma revolução que deixou sementes políticas e determinou todo o sistema partidário.

Para reunir, também por cá, conservadores, ultraliberais e saudosistas numa mesma frente é preciso romper um velho cordão sanitário, relativizando essa memória e criando a ideia de que a extrema-direita é uma espécie de gambozino. Não só nunca existiu, como não existe ninguém que a defenda. E de cada vez que parece que estamos mesmo perante alguém com um perfil fascista, como Bolsonaro ou o neonazi Machado, logo dizem: lá estão eles com o papão do costume. Até o mais abjeto parecer normal.

A ridicularização de qualquer receio da extrema-direita é fundamental para que um país que lhe tem uma aversão que nasce da sua história recente baixe a guarda. E só assim esta nova direita poderá integrar nas suas fileiras as correntes mais radicais e agregar todas as forças que estão à direita do consenso que aproximou durante décadas PS, PSD e CDS.

Ao contrário dos que estão mais à esquerda, que mantêm há décadas um bloco político que vale entre 10% e 20% dos votos, esta direita nunca conseguiu crescer. Porque há um preconceito enraizado e justificado em relação a tudo o que exista à direita do CDS. Ou conquistam o PSD por dentro, como Trump fez nos EUA (num sistema eleitoral e partidário incomparável), ou têm de criar o seu próprio espaço. O caminho de trumpização e bolsonarização do debate político em Portugal é um elemento estratégico para que uma nova direita ganhe fôlego contra a direita tradicional. E para isso precisa de acabar com todos os interditos, tabus, pruridos e cordões sanitários que ainda existem. Mesmo que isso ponha em perigo a democracia. É, como foi no Brasil e nos EUA, o menor dos seus problemas.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Portugal | Se o crime cabe na liberdade de expressão...

Ana Alexandra Gonçalves* | opinião
A propósito do convite da TVI de um criminoso, racista e fascista, não forçosamente por esta ordem, algumas vozes gritam "liberdade de expressão" e "politicamente correcto". Se o crime cabe no conceito de liberdade expressão, então o que é que não cabe? Racismo, homofobia e fascismo não são admitidos pela lei, importa lembrar o óbvio.
O canal de televisão, na pessoa do seu director de informação e do apresentador do programa, defende o convite enquadrando-o no aparentemente espaço infinito da liberdade de expressão. A defesa não só é desesperada como perigosa. O reconhecimento do erro e um pedido de desculpas, com destaque para aqueles que foram vítimas do criminoso em questão, colocaria um ponto final sobre o assunto. Mas não é isso que a TVI quer, certo? Afinal de contas, até má publicidade não deixa de ser publicidade e, pelo menos para alguns, esta nem sequer é má publicidade, desde logo "porque nem só a extrema-esquerda tem direito a tempo de antena", a "extrema-esquerda que está no Governo" - como se essa "extrema-esquerda" apregoasse a perseguição a minorias, a misoginia, a homofobia ou o racismo mais escabroso.
A TVI ainda vai a tempo de se retractar e de enterrar o assunto, aprendendo a lição e não mais voltando a sucumbir ao desespero em nome das audiências.
*Ana Alexandra Gonçalves | Triunfo da Razão

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2019/01/portugal-se-o-crime-cabe-na-liberdade.html

Terroristas de extrema-direita matam mais nos EUA do que jihadistas, diz estudo

Nacionalistas brancos carregam tochas na Universidade da Virgínia, às vésperas do evento Unite The Right em Charlottesville, Virgínia, EUA.
© REUTERS / Alejandro Alvarez/News2Share

Grupos de extrema-direita terroristas dos Estados Unidos, como os neonazistas e os supremacistas brancos, são mais perigosos do que militantes islâmicos, segundo pesquisa do Centro Soufan divulgada nesta quarta-feira (9).

Segundo o relatório, em 2018 grupos de extrema-direita mataram 15 pessoas nos EUA, enquanto ataques de jihadistas deixaram uma pessoa morta.

"Nos Estados Unidos, 2018 viu apenas uma morte como resultado de terrorismo ligado ao jihadismo, enquanto que terroristas de direita mataram 15 norte-americanos no mesmo ano", afirma a pesquisa.


Nacionalistas brancos carregam tochas na Universidade da Virgínia, às vésperas do evento Unite The Right em Charlottesville, Virgínia, EUA.

"Certamente, apesar de focar quase exclusivamente na ameaça apresentada por grupos terroristas inspirados pela ideologia 'bin-ladista', os EUA agora despertam para uma ameaça que esteve sob a superfície esse tempo todo — a ideologia de extrema-direita que abrange uma diversidade de grupos, incluido a Ku Klux Klan, grupos neonazistas e os assim chamados nacionalistas brancos", destrincha o texto.

Já na Europa, a questão se apresenta de forma oposta. Isso baseando-se em números disponíveis sobre ataques terroristas compilados pelo Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais, com dados de 2017.

Em 2017, a Europa sofreu o maior número de ataques terrorista ligados à ideologia jihadista em toda a história moderna.

"O número de ataques terroristas realizados, mal sucedidos e impedidos de extremistas islâmicos na Europa, cresceu 725% entre 2007 e 2017", afirma o relatório.

"Apenas na França, mais de 20 mil pessoas estão na assim chamada 'Lista S', que se refere a indivíduos supostamente vulneráveis à radicalização", expõe a publicação.

Apesar de os dados comparados serem de dois anos diferentes, as linhas gerais de tendência continuam sugerindo que a ameaça do terrorismo na Europa é qualitativamente diferente na ameaça nos EUA, afirma o estudo.

O relatório conclui que os EUA têm sido lentos ao reconhecer ou deliberadamente minimizam o crescimento da ameaça apresentada por terroristas não jihadistas, com uma resposta que até agora pode ser criticada como embaraçosa e inadequada.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/americas/2019010913076425-extrema-direita-eua-supremacistas-europa-pesquisa/

Salvini diz que a Itália vai trabalhar com a Polônia para construir uma nova Europa

Matteo Salvini, líder do partido ultranacionalista italiano Lega Nord
© Sputnik / Taras Litvinenko

O vice-primeiro-ministro da Itália, Matteo Salvini, quer que a Polônia e a Itália trabalhem juntas em uma nova Europa, declarou ele em uma entrevista coletiva em Varsóvia nesta quarta-feira.

"A Polônia e a Itália farão parte da nova primavera da Europa, o renascimento dos valores europeus", afirmou Salvini a repórteres durante uma entrevista coletiva com o ministro do Interior da Polônia, Joachim Brudzinski.

"A Europa que virá a se formar em junho (depois das eleições do Parlamento Europeu em maio) nos permitirá superar o que existe hoje e que é administrado por burocratas", acrescentou.


Já Brudzinski destacou que Varsóvia e Roma planejam conduzir um processo de reforço da fronteira externa da União Europeia (UE).

Ao lado da Hungria e da República Tcheca, Itália e Polônia possuem hoje governos destacadamente críticos à política de acolhimento capitaneada desde 2015 pelo bloco, em um movimento coordenado por Bruxelas e Berlim.

O refluxo da crise migratória, porém, vem se fazendo sentir nas urnas nos últimos anos, com o avanço de partidos e movimentos de direita na Europa, incluindo em países como Alemanha e Espanha. A mesma crise também influenciou na vitória do Brexit, referendo que decidiu pela saída do Reino Unido da UE.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/europa/2019010913073790-salvini-nova-europa/

O fascismo por ele mesmo: Francisco Franco

Em 1936, o futuro caudilho espanhol disse: 'Minha mão será firme, meu pulso não vacilará e eu procurarei alçar a Espanha ao posto que lhe corresponde conforme sua História e que ocupou em épocas passadas'
Opera Mundi publica, nesta semana, um especial sobre fascismo - contado pelos próprios fascistas. São discursos e entrevistas de Adolf Hitler (Alemanha), António Salazar (Portugal), Francisco Franco (Espanha), Rafael Videla (Argentina), Benito Mussolini (Itália), Emílio Garrastazu Médici (Brasil) e Philippe Pétain (França) que mostram como estas figuras pensavam as sociedades que governavam e justificavam os atos de seus regimes.
Francisco Franco (1892-1975) nasceu na cidade espanhola de Ferrol, região da Galícia. Desde cedo teve educação militar, estudando na Academia de Infantaria de Toledo. Durante sua jovem carreira como oficial, destacou-se em batalhas no Marrocos espanhol, onde atuou entre 1910 e 1927. Pelo prestígio conquistado nos conflitos na África, foi nomeado general de brigada.  Em 1931, começa o período republicano na Espanha, dando fim à era monárquica. Já integrante da alta cúpula do exército, Franco é imediatamente afastado, só retornando quando membros direitistas compõem um novo gabinete, em 1933. No ano seguinte, reprime violentamente operários mineiros de esquerda nas Astúrias, dando início ao que seria um período ditatorial violento. 
Já arquitetando um golpe de estado, desconhece a vitória do partido Frente Popular nas eleições. Em discurso proferido em junho de 1936, dias antes do golpe que liderou contra a República espanhola e levou o país à Guerra Civil (1936-1939), Franco busca colocar em descrédito as forças de esquerda e faz críticas ao marxismo e ao anarquismo. O ditador ainda exalta o partido Falange Espanhola Tradicionalista, que reunia partidos e movimentos que apoiavam o golpe contra a república e seria oficialmente fundado em 1937.
Pouco depois, é nomeado chefe do Estado Maior Central. A partir de 1936, estava instaurada a ditadura franquista na Espanha. Franco, que assume como chefe de estado e governo em 1938, conquista o apoio dos regimes fascistas na Alemanha e Itália, que foram essenciais para a permanência de seu regime. Outra base fundamental da ditadura espanhola foi o apoio da Igreja, que se aliou à classe militar e respaldou o discurso franquista. O regime dizimou milhares de pessoas durante os conflitos civis, torturando e perseguindo opositores, além de matar vários africanos e espanhóis resistentes nos conflitos em colônias espanholas.  Franco morre em 1975, aos 82 anos, já com as colônias em processo de independência na África e com a monarquia restaurada no país.
Amanhece na Espanha (01/06/1936)
Colocastes a Espanha em minhas mãos. Minha mão será firme, meu pulso não vacilará e eu procurarei alçar a Espanha ao posto que lhe corresponde conforme sua História e que ocupou em épocas passadas.
Uma revolução nacional transformou a fisionomia de nosso país e na Espanha Nacional foi estabelecido um novo regime que se baseia em princípios tradicionais e patriotas que são o nervo da nossa História, assim como nos princípios puros do direito, e há uma garantia efetiva para a sociedade e para as relações internacionais de todos os tipos, reinando com uma autoridade efetiva a tranquilidade e o bem-estar. Na Espanha vermelha não resta nada da legalidade pretendida; os estrangeiros mandam nos exércitos, a anarquia reina em seus campos e cidades, nenhuma das leis fundamentais da nação estão em vigor: não se respeitam nem a religião, nem a família, nem a propriedade, e as organizações anarquistas e marxistas assaltam, roubam, matam, muitas vezes com a cumplicidade do Governo.
Como o cavalo de Átila, o bolchevismo seca a erva e as cidades são somente ruínas, covardemente queimadas, e os campos são pilhagem e abandono. Mas nós saberemos reconstruir tudo. Se invocamos as grandezas da Espanha imperial é porque elas nos movem com seus ideais, seus empenhos de salvação e fundação.
Jovens
Sois a mais fiel expressão da nobreza espanhola. Vós que não possuís taras políticas, que estais totalmente limpos dos pecados que levaram a Espanha à situação caótica que sofremos, sereis os verdadeiros regeneradores da Pátria. Vós devolvereis à Espanha sua grandeza. Por isso, com toda a força de meus pulmões, grito convosco: Avante Espanha!
Não queremos uma Espanha velha e difamada. Queremos um Estado onde a pura tradição e substância daquele passado espanhol ideal se enquadre nas formas novas, vigorosas e heróicas que os jovens de hoje e de amanhã trazem nesta alvorada imperial de nosso povo.
Foram acolhidos os anseios da juventude espanhola e, assistidos pela organização da Falange Espanhola Tradicionalista e das J.O.N.S., corresponderemos aos sacrifícios de todos, formando a Espanha unida, grande e livre que levamos em nossos corações.
Reconstrução
A lei da História é que não se pode realizar nenhuma iniciativa cultural sem que se adiante a proeza das armas. Entretanto, a esta lei genérica, a Espanha soube dar uma nuance de beleza característica, pois nossos avanços nunca foram deixados ficar entre o triunfo da guerra e a ordem do trabalho na paz.
Quando, com seu exército vencedor da fadiga, Garay chega ao Río de la Plata, saca no ar a espada e planta uma árvore na terra conquistada para que, à sombra das armas, floresçam a primavera e a justiça. Movido por idênticos anseios ao ver que aqui, na terra natal, se destruía tudo o que nossos anciãos fundaram com esforço, e com a destruição material das cidades e a lei civil caída por terra, e tudo era desordem e anarquia, o Exército Espanhol, realizando prisões heroicas, sacou sua espada e, antes que termine esta guerra, ao acelerar as últimas etapas do triunfo, plantamos a árvore da justiça para o povo; para um povo que, apesar das custosas necessidades da guerra, sem o ouro roubado e esbanjado pelo inimigo, tem abundância de pão e certeza de justiça, porque o Estado, com armas, vela por ele.
Enquanto os soldados lutam e avançam na frente, o trabalhador trabalha na retaguarda, a ordem impera, a justiça atua, a cultura se estende e a produção, o comércio e a indústria se desenvolvem e prosperam. O comércio exterior prossegue, nossa moeda mantém seu crédito e o índice de vida não sofreu a menor alteração.
A Espanha se organiza dentro de um amplo conceito totalitário, mediante àquelas instituições nacionais que asseguram sua totalidade, sua unidade e sua continuidade. A implantação dos princípios mais severos de autoridade que este Movimento implica não possui justificativa de caráter militar, senão na necessidade de um funcionamento regular das energias complexas da Pátria. 
Na Espanha Nacional, vamos colocar em prática  essa política de redenção, de justiça, de engrandecimento que durante anos e anos os mais diversos programas vieram prometendo sem jamais cumprir suas promessas; as massas espanholas que se renderam à bajulação fácil do extremismo esquerdista, do socialismo e do comunismo para acabar explorados e enganados verão com clareza que é aqui, na Espanha Nacional, em nosso regime, em nosso sistema, onde a aplicação dos princípios e das normas autenticamente justas terão ampla realização. Eu quero que minha política tenha o profundo caráter popular que sempre teve na História da política da Grande Espanha. Nossa obra - minha e do meu governo - estará orientada com uma grande preocupação pelas classes populares, por essas que se têm chamado de "classes baixas", bem como pela tristeza da classe média. A vitória tem que abrir uma possibilidade de maior bem-estar e satisfação verdadeira a todos os espanhóis. Estamos lutando pelo povo da Espanha; isso não é somente uma frase, senão um propósito que levo no coração desde o primeiro dia de luta.
(*) Tradução: Lucas Estanislau

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2019/01/o-fascismo-por-ele-mesmo-francisco.html

Ele não

«Manuel Luís Goucha processou o "Cinco para a meia-noite", um programa da RTP, porque num sketch humorístico o chamaram de "apresentadora". Agora, ao entrevistar um criminoso, sem informar quem era a quem estava a ver, veio dizer que a ideologia do politicamente correto era muito perigosa. Não é o único, há muita gente que gosta do mundo quando o mundo protege da discriminação, mas só quando o protege a si. E acha que gosta do politicamente correto quando é ofendido, mas não é sensível a esse sentimento, do politicamente correto, quando os ofendidos são outros. Já não falo de mim, que fui há uns anos ao lado da minha rua abordado por Mário Machado, ameaçando-me de morte, dizendo que me cortava a cabeça. (...) Mas eu provavelmente serei, da lista que vou dizer, o menos ofendido de todos.
Acho que a família de Alcino Monteiro, que foi morto no Bairro Alto na situação em que ele esteve envolvido, mas acima de tudo as cinco pessoas que espancou nessa noite - no que ele diz ter sido "um erro judicial" - são capazes de estar um pouco ofendidas. Acho que a vítima que foi sequestrada, agredida ao soco e ao pontapé, amarrada - estou a fazer a descrição como vem no processo - pendurada numa cruz, enfiada numa banheira, queimada com cera de velas acesas, cortada em várias partes do corpo com um serrote (incluindo, se não me engano, no pénis), e torturada durante três horas e meia por Mário Machado e mais alguns, é capaz de ter ficado também um bocadinho ofendida. Como acho que ficou ofendido o outro sequestrado, dos vários que teve, que foi espancado e abandonado, em Monsanto, por Mário Machado. Como é capaz de ter ficado também ofendida aquela senhora que teria ajudado a Justiça a apanhá-lo, quando ele escreveu uma carta que dizia "Vou sair em liberdade em breve e juro pelos meus filhos que és a pessoa que mais odeio e vão-te matar à frente dos teus filhos. Juro, sua informadora de merda, que se não entregares 30 mil euros ao Joãozinho, vais pelo cano". Ou talvez a Procuradora Cândida Vilar, que foi ameaçada dentro da prisão, onde aliás Mário Machado espancou uma pessoa (o homem esteve sempre em reabilitação, sempre a ser reabilitado pela sociedade), quando ele escreveu uma carta pública, aberta (acho que nunca ninguém se tinha atrevido a tanto), a dizer aos nacionalistas para não se esquecerem do nome de Cândida Vilar para agir (e também foi condenado por isso).
Para que as pessoas possam ficar com o quadro completo sobre quem é esta pessoa "com opiniões polémicas" e que "tem direito à sua liberdade de expressão", eu vou ler o excerto de um texto que lhe é atribuído, a Mário Machado, e que está em vários sites como sendo dele, o que até hoje nunca desmentiu. (...) O texto será de 2006 ou 2007, em que diz: "O ódio é um sentimento tão nobre quanto o amor. Faz parte da nossa natureza e tudo o que vai contra a natureza é que tem que ser combatido. Vejo os nossos políticos e a comunicação social, por exemplo, mais preocupados em combater o ódio que em censurar os paneleiros, os pedófilos e afins. Adoro a confrontação física. Agarrar na escumalha e dar-lhes pontapés na cabeça, socos, sentir a adrenalina a disparar, a emoção ao fugir à polícia. Um dos anos mais felizes que tive foi o ano em que esfaqueei onze pessoas - recorde absoluto - e o sentir da faca a entrar, o inimigo a desfalecer, o seu olhar de pânico. Tudo isto em conjunto dá-me vida, recarrega-me as baterias. Adoro bater em pessoas". Este texto é-lhe atribuído até hoje, desde há bastantes anos, e ele nunca o desmentiu. Não é politicamente correto e perigoso. O que é perigoso é ignorantes, na televisão, a baterem-se por audiências e a destruir a nossa democracia. Essas pessoas é que são perigosas.
» (Daniel Oliveira, no Eixo do Mal). Na linha da análise no Eixo do Mal (que vale a pena ver na íntegra), é também de reter o editorial de Manuel Carvalho no Público de ontem (com o sugestivo título «Liberdade de expressão com chancela criminal»), onde se refere que «o problema principal da entrevista de Mário Machado à TVI é o próprio Mário Machado e o que Mário Machado pensa, o que acredita ou o que propõe é apenas um arrazoado de ideias daninhas que cabem nos limites da estupidez humana. É por isso que o que merece ser discutido em primeiro lugar nessa entrevista é o facto de alguém se ter lembrado de um homem com aquele passado criminal para dizer o que quer que seja às pessoas deste país. Se a liberdade de expressão existe para podermos ouvir o que nos incomoda ou ofende, como muito bem lembrou José Pacheco Pereira na edição de ontem, a liberdade de escolha de uma televisão existe para separar opiniões qualificadas de bestialidades, para destrinçar as virtudes republicanas dos comportamentos criminosos, para distinguir pessoas de bem de arruaceiros. (...) Ao ceder os seus ecrãs a Mário Machado, a TVI ultrapassou o risco vermelho que nos mostra o limite da tolerância em relação ao pluralismo e à liberdade de opiniões. Mário Machado tem direito à saudade do salazarismo e, desde que se abstenha de fazer a apologia da violência ou da violação da lei, pode defender a sua sinistra opinião. Mas uma televisão que professa a responsabilidade de informar e os princípios que dão forma a uma sociedade aberta e democrática não lhe deve dar palco a pretexto da liberdade de expressão para que possa amplificar o seu reles exemplo. E muito menos sem ter o cuidado de expor com toda a crueza o género de pessoa que é, o tipo de crimes que o levou à cadeia e o género de ideário extremista que propõe.»

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Bolsonaro e o fascismo

Atilio A. Boron [*]
Caracterizar o novo governo de Jair Bolsonaro como "fascista" se tornou um lugar comum. Isto, a meu ver, constitui um erro grave. O fascismo não deriva das características de um líder político, por mais que em testes de personalidade – ou nas atitudes da vida cotidiana, como no caso de Bolsonaro – se comprove um esmagador predomínio de atitudes reacionárias, fanáticas, sexistas, xenofóbicas e racistas.  Isto era medido pelos sociólogos e psicólogos sociais estadunidenses ao final da Segunda Guerra Mundial com a famosa "Escala F", na qual a letra "F" se referia ao fascismo. Pensava-se, naquele momento, e alguns ainda alimentam essa crença, que o fascismo era a cristalização, no plano do Estado e na vida política, de personalidades desengonçadas, portadoras de graves transtornos mentais, que por razões circunstanciais foram parar no poder. A intencionalidade política desta operação era óbvia: para o pensamento convencional e para as ciências sociais da época, a catástrofe do fascismo e o nazismo devia ser atribuída ao papel de alguns indivíduos: a paranoia de Hitler ou os delírios de grandeza do Mussolini.  O sistema, ou seja, o capitalismo e suas contradições, era inocente e não tinha nenhuma responsabilidade diante do Holocausto da Segunda Guerra Mundial. Descartada essa visão, há aqueles que insistem que a presença de movimentos ou inclusive partidos políticos de clara inspiração fascista inevitavelmente marcarão de modo indelével o governo de Bolsonaro. Outro erro: tampouco são eles que definem a natureza profunda de uma forma estatal como o fascismo. No primeiro peronismo dos anos 40, assim como no varguismo brasileiro, pululavam nos círculos próximos ao poder várias organizações e personagens fascistas ou fascistóides. Mas nem o peronismo nem o varguismo construíram um Estado fascista. O peronismo clássico foi, usando a conceitualização gramsciana, um caso de "cesarismo progressivo", e só observadores muito bitolados puderam caracterizá-lo como fascista devido à presença de grupos e pessoas vinculadas a essa ideologia. Eles eram fascistas, mas o governo do Perón não foi. Voltando à nossa época: Donald Trump é um fascista, falando de sua personalidade, mas o governo dos Estados Unidos não é. A partir da perspectiva do materialismo histórico, o fascismo não é definido por personalidades nem grupos. É uma forma excepcional do Estado capitalista, com características absolutamente únicas e irrepetíveis, que irrompeu quando seu modo ideal de dominação, a democracia burguesa, enfrentou uma gravíssima crise no período entre a Primeira e a Segunda Guerra mundiais. Por isso dizemos que é uma "categoria histórica" e que já não pode ser reproduzida porque as condições que tornaram possível seu surgimento desapareceram para sempre. Quais foram as condições tão especiais que demarcaram o que poderíamos chamar de "a era do fascismo", ausentes no momento atual? Em primeiro lugar, o fascismo foi a fórmula política com a qual um bloco dominante hegemonizado por uma burguesia nacional resolveu, pela via reacionária e despótica, uma crise de hegemonia causada pela inédita mobilização das classes subalternas e o aprofundamento do dissenso no interior do bloco dominante ao final da Primeira Guerra Mundial. Para completar, as burguesias na Alemanha e na Itália lutavam para conseguir um lugar na divisão do mundo colonial e enfrentavam as potências dominantes no terreno internacional, principalmente o Reino Unido e a França. O resultado: a Segunda Guerra Mundial. Hoje, na era da transnacionalização e financeirização do capital, com o predomínio das megacorporações que operam em escala mundial, a burguesia nacional descansa no cemitério das velhas classes dominantes. Seu lugar é ocupado agora por uma burguesia imperial e multinacional que subordinou e fagocitou seus congêneres nacionais (incluindo as dos países do capitalismo desenvolvido) e atua no tabuleiro mundial com uma unidade de poder que periodicamente se reúne em Davos para traçar estratégias globais de acumulação e dominação política. E sem burguesia nacional não existe regime fascista devido à ausência de seu principal protagonista. Em segundo lugar, os regimes fascistas foram radicalmente estatizantes. Não só não acreditavam em políticas liberais, como também eram abertamente contrários a elas. Sua política econômica era intervencionista, expandido as empresas públicas, protegendo as empresas nacionais do setor privado  e estabelecendo um ferrenho protecionismo no comércio exterior. Além disso, a reorganização dos aparatos estatais exigida para enfrentar as ameaçadas da insurgência popular e a discórdia entre "os de cima" projetou a proeminência da polícia política no Estado, dos serviços de inteligência e das seções de propaganda. É impossível que Bolsonaro tente algo desse tipo dada a atual estrutura e complexidade do Estado brasileiro, principalmente quando sua política econômica estará nas mãos de um "Chicago boy", que proclamou aos quatro ventos sua intenção de liberalizar a vida econômica. Em terceiro lugar, os fascismos europeus foram regimes de organização e mobilização de massas, especialmente de camadas médias. Ao mesmo tempo que perseguiam e destruíam as organizações sindicais do proletariado, enquadravam diversos movimentos das ameaçadas camadas médias e, no caso italiano, levaram estes esforços ao âmbito do trabalho, dando origem a um sindicalismo vertical e subordinado às decisões do governo. Ou seja, a vida social foi "corporativizada" e teve que obedecer às ordens ditadas "desde cima". Bolsonaro, entretanto, acentuará a despolitização – infelizmente iniciada quando o governo Lula caiu na armadilha tecnocrática e acreditou que o "ruído" da política espantaria os mercados – e aprofundará a fragmentação e atomização da sociedade brasileira, a privatização da vida pública, a volta das mulheres e homens a suas casas, seus templos e trabalhos para cumprir seus papéis tradicionais. Tudo isto se situa no oposto do fascismo. Em quarto lugar, os fascismos foram Estados raivosamente nacionalistas. Eles travaram uma batalha para redefinir, a seu favor, "a divisão do mundo", enfrentando comercial e militarmente as potências dominantes. O nacionalismo de Bolsonaro, no entanto, é uma retórica insubstancial, pura verborragia sem consequências práticas. Seu "projeto nacional" é converter o Brasil no lacaio favorito de Washington na América Latina e no Caribe, substituindo a Colômbia no desonroso posto de "Israel sul-americana". Longe de ser uma reafirmação do interesse nacional brasileiro, o bolsonarismo é o nome da tentativa, esperamos que infrutífera, da total submissão e recolonização do Brasil sob a égide dos Estados Unidos. Mas, dito tudo isto: significa que o regime de Bolsonaro se absterá de aplicar as brutais políticas repressivas que caracterizaram os fascismos europeus? De nenhum modo! Como foi dito antes, na época das ditaduras genocidas "civil-militares": estes regimes podem ser – com exceção do caso da Shoá executada por Hitler – ainda mais atrozes do que os fascismos europeus. Os trinta mil presos desaparecidos na Argentina e a generalização de formas execráveis de tortura e execução de prisioneiros ilustram a perversa maldade que esses regimes podem assumir; a excepcional taxa de detenção por cem mil habitantes que caracterizou a ditadura uruguaia não tem comparação; Gramsci sobreviveu onze anos nas masmorras do fascismo italiano e, na Argentina, teria sido lançado ao mar dias depois de sua prisão, como tantos outros. Por isso a relutância em qualificar o governo de Bolsonaro como fascista não tem a menor intenção de amenizar a imagem de um personagem surgido das cloacas da política brasileira; ou de um governo que será a fonte de enormes sofrimentos para o povo brasileiro e para toda a América Latina. Será um regime parecido com as mais sanguinárias ditaduras militares conhecidas no passado, mas não será fascista. Perseguirá, prenderá e assassinará aqueles que resistam aos seus atropelos. As liberdades serão restringidas e a cultura submetida a uma perseguição sem precedentes para erradicar a "ideologia de gênero" e qualquer variante de pensamento crítico. Toda pessoa ou organização que se oponha será alvo do seu ódio. Os sem-terra, sem-teto, os movimentos de mulheres, LGBTI, as centrais sindicais, as organizações de favelas, tudo será objeto do seu frenesi repressivo. Mas Bolsonaro não conta com todos e tropeçará em muitas resistências, ainda que inorgânicas e desorganizadas a princípio. Mas suas contradições são muitas e muito graves: o empresariado – ou a "burguesia autóctone", como diria Che, vai se opor à abertura econômica porque seria despedaçado pela competência chinesa; os militares em atividade não querem nem ouvir falar em uma incursão nas terras venezuelanas para oferecer seu sangue a uma invasão decidida por Donald Trump em função dos interesses nacionais dos Estados Unidos; e as forças populares, ainda que atualmente dispersa, não será avassalada tão facilmente. Além disso, começam a aparecer graves denúncias de corrupção contra este falso outsider da política, que esteve durante 28 anos como deputado no Congresso brasileiro, sendo testemunha ou partícipe de todos os arranjos realizados durante esses anos. Portanto, seria bom que recordasse o que ocorreu com outro inquisidor brasileiro: Fernando Collor de Mello que, como Bolsonaro, chegou nos anos 90 com o fervor de uma cruzada de restauração moral e terminou seus dias como presidente em uma fugaz passagem pelo Palácio do Planalto. Em breve saberemos qual futuro espera o novo governo, mas o prognóstico não é muito favorável e a instabilidade e turbulências estarão na ordem do dia no Brasil. É preciso estar preparado, porque a dinâmica política pode ganhar uma velocidade relâmpago e o campo popular deve poder reagir a tempo. Por isso, o objetivo desta reflexão não foi se entreter numa distinção acadêmica em torno das diversas formas de domínio despótico no capitalismo, mas contribuir com uma precisa caracterização do inimigo, sem a qual jamais poderá ser combatido verdadeiramente. E é importantíssimo derrotá-lo antes que cause demasiados danos. 
02/Janeiro/2019
[*] Cientista político, professor da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires (UBA).  O original encontra-se em www.pagina12.com.ar/165570-bolsonaro-y-el-fascismo
e a tradução em www.brasildefato.com.br/... Este artigo encontra-se em http://resistir.info/

 

 

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Não é populismo, é fascismo

Manuel Carvalho da Silva | Jornal de Notícias | opinião
É surpreendente que sociedades carregadas de injustiças e desigualdades, polarizadas em guetos, se tornem perigosas? Sociedades onde uma ínfima minoria é muita rica e manipula todos os poderes, uma grande parte é extremamente pobre e não tem voz, e no meio fica um enorme massa de seres humanos a deslizar para o lado da privação e da desesperança são sociedades em perigo. Neste contexto, será surpresa surgirem messias providenciais que, prometendo autoridade e segurança, encontram um público disponível para os apoiar e até para lhes propiciar vitórias eleitorais? Não, não é. Está a acontecer hoje o que já aconteceu no passado.
Não é preciso recorrer a eufemismos para designar este tipo de processos políticos. Anda meio mundo a falar do fenómeno do populismo e dos seus perigos, quando o que está na nossa frente são mesmo expressões do fascismo. A diferença na sua manifestação decorre das novas condições das sociedades, das formas de relacionamento, de comunicar, de agir que, aliás, até lhe potenciam camuflagens.
Deparamo-nos com expressões de fascismo como ele sempre foi. O que melhor o carateriza é velho: criminalização de opiniões críticas; opressão de classe; sobre-exploração do trabalho; submissão das mulheres; discriminação de minorias; afirmação do racismo e da xenofobia; ataque à cultura e a uma educação plural; desacreditação de livres representações coletivas que expressam os diversos interesses da sociedade; promoção de animosidades e ódios para abrir campo a um unanimismo ditatorial a que toda a estrutura e organização do Estado se devem submeter, porque pretensamente interpreta o interesse nacional; instrumentalização dos tribunais e dos sistemas de justiça; e, progressivamente, descaraterização e suspensão dos mecanismos democráticos de eleição e representação.
Nas últimas décadas têm-se vindo a gerar e a naturalizar instabilidades, precariedades e inseguranças em vez de se lhes dar combate e de assegurar o seu controlo. Até a maior parte das abordagens sobre os avanços científicos e tecnológicos é apresentada quase só nas variáveis que sustentam visões apocalíticas do futuro, exatamente para submeter os seres humanos. Ampliaram-se as disfunções e roturas nas relações entre as pessoas, as gerações, as comunidades e os povos. As apropriações indevidas da riqueza e a maior expressão do roubo a que hoje assistimos tornaram-se "legais".
A impotência perante as injustiças revolta as pessoas e atira-as para reações primárias que se tornam alimento do fascismo. Não é essa massa de indivíduos que é fascista ou vê o fascismo como solução. O que se passa é que a falta de segurança numa imensidão de situações - desde as precariedades no trabalho à insegurança pública - gera medos que isolam e acantonam as pessoas, diminuindo-lhes os ângulos de visão e de apreciação objetiva sobre o que se passa na sociedade. Qualquer cidadão, por mais esclarecido que possa ser, já experimentou esses sentimentos e bloqueios.
Temos hoje na Europa e noutros continentes dinâmicas fascistas e uma enorme condescendência perante o seu desenvolvimento. Muita boa gente atribui aos fascistas o "direito democrático" de livremente se explicarem, exprimirem e propagandearem, como se a democracia pudesse suportar tudo.
Em poucos dias, o novo presidente do Brasil e a sua equipa mostram-nos como é perigosa essa "tolerância". O que eles expressam não são meros tiques de autoritarismo ou excessos conservadores, é sim um programa fascista que estilhaça o quadro de valores e de simbologias que o Brasil conquistou e ofereceu ao Mundo após a ditadura, é a pretensão de proibir a livre expressão de ideias a que chamam "ideologia", de cilindrar os direitos dos trabalhadores e o próprio direito do trabalho, de pôr polícias a atirar para matar, supostamente bandidos, na prática tudo o que mexa em contracorrente.
Demorará algum tempo até que a maioria do povo brasileiro se dê conta da verdadeira natureza do bicho. Esperemos que não seja, desta vez, o tempo de toda uma geração, como aconteceu no passado.
Temos a responsabilidade de agir para evitar que a besta se instale no Brasil, no nosso país ou em qualquer outro.
*Investigador e professor universitário

 

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OS PRIMÓRDIOS DO PARTIDO NACIONAL SOCIALISTA DOS TRABALHADORES ALEMÃES

5 de Janeiro de 1919.
Era fundado em Munique, capital da Baviera, um pequeno partido político que foi denominado por Deutsche Arbeiter-Partei (DAP). Os seus fundadores são hoje desconhecidos: incluíam o seu primeiro presidente Anton Drexler (1884-1942, na fotografia acima), o jornalista Karl Harrer (1890-1926), o engenheiro Gottfried Feder (1883-1941) e o jornalista Dietrich Eckart (1868-1923). E a militância era pouco mais do que os fundadores, situava-se na ordem das dezenas de militantes, mas em Setembro de 1919 o DAP iria ser enriquecido com a adesão de um militante (o 55º) cujo nome já será bastante mais familiar ao leitor: Adolf Hitler (1889-1945). A presença deste último militante entre o núcleo dirigente do DAP veio a provocar uma inflexão significativa no partido. Meses depois, em Fevereiro de 1920, o DAP mudou o seu nome para NSDAP (Nationalsozialistische Deutsche Arbeiter-Partei). E em Julho de 1921, e por causa da popularidade que granjeara como orador, Adolf Hitler substituiu Anton Drexler à frente do NSDAP. O resto da ascensão do partido com o seu novo dirigente são episódios tão conhecidos, que se dispensa a sua menção nesta ocasião da celebração do centenário da organização.

Veja o original em 'Herdeiro de Aécio' na seguinte ligação::

http://herdeirodeaecio.blogspot.com/2019/01/os-primordios-do-partido-nacional.html

TVI promove fascismo, jornalistas e URAP apresentam queixa na ERC

O Sindicato dos Jornalistas e a União dos Resistentes Antifascistas Portugueses apresentaram queixa contra a promoção dada pela TVI ao fascismo luso. PCP chama ERC ao Parlamento.

CréditosAntónio Cotrim / Agência LUSA

A presença de Mário Machado na TVI, em horário nobre, para promover o fascismo e defender o regime de Salazar, despertou indignação generalizada. O dirigente neo-nazi foi convidado para ir ao programa da manhã “Você na TV”, de Manuel Luís Goucha, no âmbito da rubrica “Diga-me de sua (In)Justiça”, da responsabilidade de Bruno Caetano. Mas a TVI não se ficou por aí. Bruno Caetano afirmou em directo que «faz falta» um novo Salazar, «nomeadamente no que diz respeito à autoridade». Manuel Luís Goucha, embora contestando a afirmação, decidiu lançar um inquérito aos espectadores, no Facebook: «faz falta um Salazar»?

O Sindicato dos Jornalistas emitiu um indignado comunicado sobre o comportamento do canal televisivo e apresentou queixa contra a TVI na Entidade Reguladora da Comunicação Social (ERC), no que foi seguida pela União dos Resistentes Antifascistas (URAP). Em comunicado, esta organização antifascista afirma ter apresentado «queixa contra o canal de televisão TVI» por esta «ter difundido concepções fascizantes contrárias ao texto da Constituição da República Portuguesa».

A ERC emitiu um lacónico comunicado confirmando a recepção de «participações que visam o programa “Você na TV” emitido, no dia 3 de Janeiro de 2019, no serviço de programas TVI» queixas e que as mesmas «serão apreciadas pelos serviços [...] nos trâmites habituais», mas o grupo parlamentar do PCP anunciou já que pretende ouvir a entidade reguladora na Assembleia da República.

Os protestos continuaram, de diversos quadrantes. O ministro da Defesa, João Gomes Cravinho, classificou o comportamento da TVI como irresponsável, afirmando que «é preciso ter a noção que uma atitude destas por parte da estação em causa não é muito diferente de quem ateia incêndios pelo prazer de ver as labaredas».

Jornalistas protestam à ERC e apelam ao Parlamento

O Sindicato dos Jornalistas (SJ) não só se demarcou, em nome dos profissionais de comunicação, do comportamento da TVI, como participou da estação emissora à Entidade Reguladora da Comunicação Social (ERC). Em comunicado intitulado «Em nosso nome não!», publicado hoje na sua página o SJ considerou «inqualificável o tempo e o espaço concedido pelo canal de televisão TVI a Mário Machado, conhecido líder da extrema-direita, várias vezes condenado e preso por diversos crimes».

«Os programas “Você na TV!” e “SOS 24”, nos canais TVI e TVI24, respectivamente, deram voz a um racista explícito e um salazarista assumido, que defende o regresso de Portugal à ditadura e a quem foi dada a oportunidade de se dedicar ao branqueamento histórico, em sinal aberto e para um grande público, com pouco ou nenhum contraditório», sublinhou o SJ, acrescentando que «é fundamental que o jornalismo se exerça em defesa da democracia, sem a qual a liberdade de expressão não existiria».

No actual contexto europeu, «de crescimento da extrema-direita, do populismo e do nacionalismo, impõe que os jornalistas – a título individual, mas também os órgãos de informação, suas direcções e administrações – reflictam sobre o papel que desempenham na eliminação do racismo, da xenofobia e da discriminação – e, sobretudo, ajam em conformidade», lê-se no texto.

O SJ classifica a opção da TVI como «irresponsável» e insta o canal a parar de usar indevidamente o termo «repórter» –, dando a entender que Bruno Caetano não é jornalista com carteira profissional. O sindicato indica ir apresentar queixa contra a TVI junto do regulador, a ERC, e do legislador, a Assembleia da República, bem como pedir à Comissão da Carteira Profissional de Jornalista que avalie eventuais procedimentos disciplinares e esclareça a TVI sobre a indevida utilização da palavra «repórter».

A nota do SJ põe em relevo a a necessidade de o «entretenimento […] respeitar a Constituição da República Portuguesa». E que o facto de todos os cidadãos «terem a mesma dignidade social» e serem «iguais perante a lei», com «o direito a expor ideias», não impede o dever de «respeito pelos valores democráticos e pelos direitos humanos universalmente consagrados» o qual também deve «ser obedecido por todos». O SJ, lembra o artigo 46.º da Constituição, que não consente «organizações racistas ou que perfilhem a ideologia fascista». Por isso apela à Assembleia da República para que se pronuncie, à luz deste artigo, sobre o carácter da Nova Ordem Social, o movimento político liderado por Mário Machado, que se apresenta como «nacionalista e patriota» mas não é efectivamente, outra coisa senão uma organização neo-nazi.

«A comunicação social – os jornalistas e as direcções e administrações dos órgãos de informação – tem o dever de saber que a democracia também tem linhas vermelhas – as da sua própria preservação. Não vale tudo em busca das audiências. Muito menos usurpar e desrespeitar toda uma classe e uma ética profissionais. Em nome nosso, não!», concluiu o SJ.

PCP quer ERC no Parlamento

O grupo parlamentar do PCP quer ouvir o Conselho Regulador da ERC sobre a presença de Mário Machado na TVI, clarificando que o mesmo «pertence a uma organização criminosa que assume a sua natureza fascista e racista e que foi inclusivamente condenado a uma pena de prisão pelo homicídio de um cidadão cabo-verdiano». Os comunistas destacam a particular responsabilidade da ERC enquanto regulador da comunicação social e chamam a atenção para o facto de não ser «a primeira vez que a apologia do fascismo, de concepções racistas e de práticas criminosas tem lugar nas televisões portuguesas».

«A Assembleia da República, enquanto órgão de soberania representativo da democracia portuguesa, não deve permanecer indiferente perante estes atentados aos valores democráticos e humanistas e a ERC, enquanto entidade reguladora da comunicação, assume também particulares responsabilidades nesta matéria», escreve o PCP.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/nacional/tvi-promove-fascismo-jornalistas-e-urap-apresentam-queixa-na-erc

A ignorância de Bruno Caetano

Confesso que, até ontem, não sabia quem era Bruno Caetano. Continuo sem saber porque não acompanhei a TVI nem a TVI24 num dia que foi inteiramente dedicado à promoção do fascismo, com palco dado a um criminoso condenado, envolvido num homicídio resultante de crime de ódio. Fui, no entanto, acompanhando as redes sociais ao longo do dia. Hoje, deparo-me com um comunicado do Bruno Cateano, jornalista, ainda que, ao que parece, sem carteira profissional. O repórter do programa da manhã da TVI começa por afirmar, num comunicado, que apenas visava ouvir Mário Machado e as suas convicções sobre Salazar. Ora, caro Bruno, as convicções de Mário Machado são conhecidas de todos, há muitos anos. É um neo-nazi assumido. Deixa-me então ir, ponto por ponto, onde é que o teu comunicado é estúpido e ignorante. E, repara, faço isto partindo do princípio, benéfico para ti, que és de facto ignorante e não o fizeste de forma premeditada para agora vires fazer este papel tão ao mais triste do que aquele que fizeste ontem.
"Para que fique bem esclarecido, quando convidei o cidadão Mário Machado ficou sempre evidente que se tratava pura e simplesmente de uma entrevista que falava das convicções deste acerca de Salazar. Mário Machado criou um movimento que se chama Nova Ordem Social e vão em breve realizar uma manifestação onde dizem que vão celebrar Salazar. Tema que me levantou muitas dúvidas."

O enquadramento da entrevista na manifestação que se vai realizar é estúpido, porque todos os anos há centenas de manifestações de trabalhadores que lutam pelos seus direitos e não têm 1/100 da cobertura que, durante o dia de ontem, a TVI e a TVI24 deram a esta. Poderemos argumentar que é uma manifestação fora do comum por celebrar um ditador que deixou um legado de 48 anos de miséria, fome, guerra, assassinatos, torturas, enfim, aquelas coisas que, à partida, ninguém gosta muito, porque, parecendo que não, torna-se aborrecido uma pessoa querer comer e não ter nada, ser explorado, ser torturado e, por fim, ser assassinado. É daquelas coisas que não dá jeito nenhum. É por isso que é estúpido promovê-la, percebes?


"Não me interessa aqui responder a quem quer que seja mas sim demonstrar que não excluo ninguém. Vivemos num estado democrata e todos temos opinião. Se concordamos uns com os outros, isso já é outro assunto. Disse que fazia falta mais autoridade, sim verdade! Provavelmente exagerei quando disse que seria a autoridade do Salazar".
Vivemos numa democracia em que toda a gente tem opinião, por mais estúpida que seja. Como é o caso da tua. Estúpida e ignorante, já te explico o motivo. É estúpido, porque a liberdade de expressão não é um valor supremo e acima de todos os outros. Colide com outros direitos quando, por exemplo, contraria a Constituição da República, que proíbe, no ponto 4 do Artigo 46.º as "associações armadas nem de tipo militar, militarizadas ou paramilitares, nem organizações racistas ou que perfilhem a ideologia fascista". Ora, Bruno, o teu entrevistado pertenceu e pertence a organizações armadas, paramilitares e fascistas, como é o caso dos Hammerskins. Logo, o direito de ele ser ouvido não pode colidir com o direito à vida e à liberdade de culto, por exemplo, nem se sobrepõe aos princípios da não discriminação em função da raça, credo, género e orientação sexual. A liberdade de expressão, repito, não é um valor supremo quando colide com o único que o é de facto, que é o direito à vida.

"A verdade é que estou cansado de tanto crime. Fui mal interpretado. Ainda assim nada vos dá o direito de me ameaçar de morte ou mesmo ofender a minha pessoa e a minha família".
 
No seguimento disto, deixa-me explicar-te o seguinte. Se estás farto de tanto crime, não faz muito sentido convidares um criminoso para explicar o que quer que seja. Mário Machado é um criminoso condenado por discriminação racial, coação agravada, detenção de arma ilegal, danos e ofensa à integridade física qualificada; de difamação, ameaça e coacção a uma procuradora da República; e de posse de arma de fogo. Anteriormente, já fora condenado pelo envolvimento no assassinato de Alcino Monteiro, cidadão português de origem cabo-verdiana, espancado até à morte, em 1995, no Bairro Alto, em Lisboa. Percebes a tua estupidez? Percebes que ofender, ameaçar de morte e envolver-se em assassinatos é algo que o teu convidado já fez? Que tal é sentir na pele o mesmo que sentiram as vítimas de Mário Machado?
Convidaste um criminoso porque estás farto de tanto crime. Vamos, então à ignorância. És ignorante porque não sabes que, por exemplo, em Portugal, em 1994 havia 143 crimes de homicídio intencional, em 2016, 66. Portugal é considerado o quarto país mais pacífico do Mundo no Global Peace Index. Em 2018, o insuspeito Departamento de Estado dos EUA coloca Portugal no nível 1 de insegurança. O mais baixo. A criminalidade violenta e grave desceu 8,7% em 2017, tendo a criminalidade geral aumentado 3% devido a um aumento dos crimes de moeda falsa, incêndio florestal e burlas. Diminuíram os furtos em residência (menos 14%), em veículo motorizado (-11%), das ocorrências em meio escolar (-6,4) e da criminalidade grupal (-8.8%). Percebes a tua ignorância?
Mário Machado foi entrevistado por Manuel Luís Goucha e a maneira como o apresentador debateu é um dos exemplos de como se deve lidar com este tipo de tema. Debatendo! O contraditório é importante sempre! Porque todas as pessoas devem ter opinião, viva a democracia!
Sabes quem é que não teve direito a opinião, nem democracia, nem debate, nem contraditório? Alcindo Monteiro. Resumindo, és um imbecil ignorante. A tua sorte é que o segundo adjetivo tem remédio. O filósofo Karl Popper explica toda a imbecilidade contida nas tua afirmações de ontem e no teu post de hoje.

Ver original em 'Manifesto 74' na seguinte ligação:

http://manifesto74.blogspot.com/2019/01/a-ignorancia-de-bruno-caetano.html

O sempre justificado regresso do Operário Letrado

Com frequência costumo chamar em minha ajuda o personagem do operário letrado, concebido por Bertolt Brecht, por o sabermos com silenciadas respostas óbvias para as perguntas feitas em alta voz, incitadoras de serem respondidas por quem as ouve.
Ao quarto dia deste ano de 2019 há três, que se justificam por traduzirem algumas das singularidades deste incerto tempo, ora a pender para um lado (o do jagunço brasileiro), ora para o outro (o da maioria democrata no Capitólio de Washington).
A primeira tem a ver com Marcelo Rebelo de Sousa: mesmo entre os seus mais indefetíveis apoiantes haverá alguém capaz de encontrar a mínima justificação para ter ido a Brasília avalizar a tomada de posse de um idiota preconceituoso, tão grotesco quanto o que ainda se vai aguentando na Casa Branca? O nosso suposto presidente não se envergonha por ter-se feito fotografar com tal cromo? Nem de o ter considerado merecedor de fraterno tratamento, como se, acaso traduzido no ambiente de uma família tradicional, esse dito «irmão« não tivesse sido já despachado para o manicómio, ou no mínimo trancado à chave num quarto dos fundos enquanto se receberiam as visitas?
A segunda pergunta tem a ver com o convite de Goucha a um confesso criminoso nazi para «abrilhantar» o seu programa com as mais soezes alarvidades salazarentas. Que mais será preciso para avançar com profunda merecida barrela nas televisões, que dão tempo de antena a quem não merece, porque nenhuma liberalidade deve ser concedida a quem é contra a Liberdade? Na guerra pelas audiências não há justificação que baste para se escolher a normalização do inaceitável.
A terceira pergunta tem a ver com a réplica lusa do ministro justiceiro do jagunço: sabe-se agora que Carlos Alexandre não viu qualquer conflito de interesses em ser juiz de um caso em que o advogado de um dos réus era o ex-procurador, que lhe emprestara os famosos 10 mil euros e ainda dele os não recebera. Será que o Conselho Superior da Magistratura continuará a meter a cabeça na areia a propósito de quem tão desajustado se mostra quanto à competência para exercer funções para as quais não demonstra as imprescindíveis características éticas? O herói das direitas tem demonstrado em sucessivas ocasiões a identificação com o provérbio, que tem São Tomás como referência: considera que os outros devem comportar-se como diz, mas sem olharem para o que, manhosamente, faz...
 
 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/01/o-sempre-justificado-regresso-do.html

Manuel Goucha Salazar, para que saibas: o fascismo e o racismo não passarão

Não vi o programa, não vou ver. MM participou na execução de um negro - Alcindo Monteiro, (na foto, morto por causa da cor da sua pele, com 27 anos, em junho de 1995, espancado até à morte) - esteve detido por posse ilegal de armas, apela repetidamente ao ódio e ao racismo. De quando em vez, lá vem um órgão de comunicação social dar-lhe palco. Li uma vez uma entrevista sua e bastou-me. Bastou-me a suástica que enverga para imediatamente me reportar à célebre cena de American History X, em que um nazi (com uma estética bem parecida ao dito cujo) esmaga o crânio de um negro no lancil de um passeio. E vejam-na com atenção porque foi isto que se passou na TVI.

A cada momento há sempre alguém que tenta reabilitar a imagem deste nazi, que cria partidos atrás de partidos e de movimentos, organiza contramanifestações ilegais e se passeia como se não fosse um ser absolutamente desprezível que pratica actos que à luz da lei são ilegais. Como é ilegal dar cobertura à propagação de ideologias fascistas e nazis.

Querem ver como não estou a inventar?

Artigo 240.º - Discriminação e incitamento ao ódio e à violência

       1 - Quem:
              a) Fundar ou constituir organização ou desenvolver atividades de propaganda organizada que incitem à discriminação, ao ódio ou à violência contra pessoa ou grupo de pessoas por causa da sua raça, cor, origem étnica ou nacional, ascendência, religião, sexo, orientação sexual, identidade de género ou deficiência física ou psíquica, ou que a encorajem; ou
              b)...
             ...
       2 - Quem, publicamente, por qualquer meio destinado a divulgação, nomeadamente através da apologia, negação ou banalização grosseira de crimes de genocídio, guerra ou contra a paz e a humanidade:

              a) Provocar atos de violência contra pessoa ou grupo de pessoas por causa da sua raça, cor, origem étnica ou nacional, ascendência, religião, sexo, orientação sexual, identidade de género ou deficiência física ou psíquica;
              b) Difamar ou injuriar pessoa ou grupo de pessoas por causa da sua raça, cor, origem étnica ou nacional, ascendência, religião, sexo, orientação sexual, identidade de género ou deficiência física ou psíquica;
              c) Ameaçar pessoa ou grupo de pessoas por causa da sua raça, cor, origem étnica ou nacional, ascendência, religião, sexo, orientação sexual, identidade de género ou deficiência física ou psíquica; ou
              d) Incitar à violência ou ao ódio contra pessoa ou grupo de pessoas por causa da sua raça, cor, origem étnica ou nacional, ascendência, religião, sexo, orientação sexual, identidade de género ou deficiência física ou psíquica;
é punido com pena de prisão de 6 meses a 5 anos.»

Eu repito: "é punido com pena de prisão de 6 meses a 5 anos."
Manuel Luis Goucha não foi de modas. Levou um nazi ao seu programa, visto por milhares de pessoas, lavou-lhe a alma e ainda fez isto:
Afirma que este nazi tem ideias polémicas - ideias que levaram à execução bárbara de Alcindo Monteiro - e faz uma sondagem sobre o regresso do fascismo que matou centenas de democratas, comunistas, que mandou para o exílio socialistas, comunistas e outros democratas, que torturou outras tantas centenas, que condenou o nosso país, durante décadas, à discriminação, pobreza e à escravização colonial.
Manuel Luis Goucha, também ele, cometeu um crime -   publicamente, divulgou a apologia, negação ou banalização grosseira de crimes de genocídio, guerra ou contra a paz e a humanidade.Banalizou o racismo. Banalizou o fascismo. Relativizou a execução de um negro às mãos do nazi MM, banalizou as suas posições xenófobas e bárbaras.
A ERC já informou que estaria a investigar. E desengane-se quem acreditar que isto é um hino à liberdade de expressão. É criminoso. E não passará. 

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O fascismo por ele mesmo: António Salazar

Sob o poder salazarista, Portugal perseguiu opositores, torturou civis nas colónias portuguesas e fechou fronteiras até a década de 1950, quando o regime já entrava em crise
Opera Mundi publica, nesta semana, um especial sobre fascismo - contado pelos próprios fascistas. São discursos e entrevistas de Adolf Hitler (Alemanha), António Salazar (Portugal), Francisco Franco (Espanha), Rafael Videla (Argentina), Benito Mussolini (Itália), Emílio Garrastazu Médici (Brasil) e Philippe Pétain (França) que mostram como estas figuras pensavam as sociedades que governavam e justificavam os atos de seus regimes.
António de Oliveira Salazar(1889-1979), nasceu em Santa Comba Dão, Portugal, em uma família simples de trabalhadores rurais. Na juventude, fez seu primeiro contato com os estudos de ciências econômicas e financeiras, até, em 1914, ingressar no curso de Direito na Universidade de Coimbra. Próximo a assuntos políticos, foi eleito deputado em 1921, no momento em que a república vivia um período de instabilidade. Em 1926, Portugal sofre um golpe militar que põe fim ao governo republicano e Salazar assume a pasta das Finanças. Em 1932 o regime chega ao fim e o Salazar assume como primeiro ministro, cargo que viria a ocupar por 36 anos, durante o período denominado Estado Novo Português. 
Assim que assumiu, o ditador estabeleceu uma nova Constituição e determinou a legalidade de um único partido. Sob o poder salazarista, Portugal perseguiu opositores, torturou civis nas colônias portuguesas e fechou fronteiras até a década de 1950, quando o regime já entrava em crise. A partir dos anos 1960, a reação das colônias ao domínio português encabeça a derrocada do Estado Novo, quando Lisboa perde territórios reconquistados pela Índia e enfrenta uma série de conflitos de independência em Angola e Moçambique. Salazar deixa o cargo em 1968 após sofrer um derrame. Com a ditadura em franco enfraquecimento, morre dois anos depois, sendo sucedido por Marcelo Caetano, que conduziu o governo em declínio até a Revolução dos Cravos, em 1974, que encerrou os 48 anos de ditadura, restabeleceu o pluripartidarismo e acabou com o instrumento de repressão do antigo governo.
Três anos antes de deixar a política por problemas de saúde, após anos de liderança autoritária e com o regime próximo do fim, Salazar discursou durante a posse da Comissão Executiva da União Nacional, em 18 de Fevereiro de 1965. Em uma espécie de panorama de seu governo,  o discurso "Erros e Fracassos na era política" reafirma a natureza fascista dos ideais salazaristas. 
Erros e fracassos da era política(18/02/1965)
Meus Senhores:
Tomou posse nova Comissão Executiva da União Nacional e eu dispenso‑me de louvar os que saem e de apresentar os que entram. Embora coisa devida e justa sabe-se que é sempre assim, o que tira às palavras parte do seu valor. Peço‑lhes por isso desculpa que me será concedida, havendo coisas de alguma importância a dizer.
I
A reorganização faz-se num ano crucial da vida política, não porque terminem as guerras do Ultramar, pois que os inimigos que as fazem e os que as sustentam, declaram, quererem continuar a perturbar a vida e o trabalho alheios; não porque tenha de haver eleições de deputados; ainda que relevantes como são sempre; mas especialmente porque novo corpo eleitoral tem de reunir-se para escolha do chefe do Estado e de toda a Nação portuguesa. Seja qual for a evolução dos acontecimentos, não pode haver dúvida de que é nos sete anos a seguir que por imperativos naturais ou políticos se não pode fugir a opções delicadas, e, embora não forçosamente a revisões, à reflexão ponderada do regime em vigor. E é nas mãos do chefe do Estado que virão a pesar as maiores dificuldades e da sua consciência que dependerão as mais graves decisões.
O que é um regime político? Um regime político é a definição dos órgãos da soberania, do modo como se constituem, participam do poder e colaboram para o bem comum da sociedade civil. É também a enumeração daqueles direitos que as leis hão de respeitar no homem e, no nosso caso, ainda a enunciação de princípios morais, sociais e econômicos que se julgam úteis para dar estabilidade à vida do conjunto humano e imprimir à vida nacional uma finalidade. O que quer dizer que um regime pode ser também uma política e não apenas uma constituição. O nosso é uma coisa e outra.
Ora nós quisemos dar ao país, assolado pelas devastações da sua anarquia, um regime novo; mas muitos dos nossos homens públicos, educados na filosofia política do século XIX, têm-nos considerado sempre um governo à espera de eleições “livres” para uma “assembleia constituinte” que vote “nova Constituição” e com ela garanta ao povo “todas as felicidades”. De modo que se verifica o seguinte: abolidas neste País as instituições tradicionais, não se encontra de 1820 a 1926, através das Constituições, Carta Constitucional e Atos Adicionais à Carta, entre revoluções, golpes de Estado, ditaduras ou vida constitucional, não se encontra regime, dizia, de que possa afirmar-se ter vivido ao menos os quarenta anos que para o ano perfaremos. Ao mesmo tempo, nenhum foi tão estável, tão pacífico e eficiente como o atual. E daí provir o absurdo de o provisório ser mais duradouro que o definitivo e o temporário mais estável que o consagrado para a eternidade.
A mim o que mais me admira é não se haver estudado a razão desta sorte de contrassenso. A vida das sociedades humanas está sujeita a evolução, embora mais lenta do que geralmente se cuida, quando atentamos nas suas estruturas fundamentais. Acontece, sim, que à superfície de vez em quando se levantam ondas que mais chamaríamos modas ou efervescências de opinião, destinadas a cair e a acalmar-se, se não se lhes dá a razão de ser da própria vida política, como tem sido muitas vezes o caso. De modo que o essencial é descobrir as linhas mestras da vida nacional que possam adaptar-se, sem se quebrarem, às contingências dos tempos, e definir a orientação que se lhes há de imprimir, e muitas vezes não é mais que a linha de continuidade de um sentimento coletivo. Assim os regimes se firmam e perduram na medida em que refletem os homens e as Nações - tão diversas umas das outras! - perfilham as aspirações comuns e suprem mesmo deficiências da coletividade.
Se a experiência vale alguma coisa, devíamos tirar daqui uma ilação. A força pode fazer revoluções, mas não pode só por si mantê-las sem o apoio da consciência nacional. A ideia de que a Nação está hoje cloroformizada pelo medo ou por uma espécie de avitaminose política é incompatível com o entusiasmo e a confiança com que se bate em três territórios ultramarinos. Mais correto é pensar que, independentemente dos governantes, sujeitos a deslizes e deficiências na orientação dos negócios públicos, se encontrou uma fórmula conforme ao modo de ser da coletividade e que a todos permite viver em paz e progredir. É de aconselhar que não se substitua enquanto se revelar eficaz e esteja confiada a quem na mais alta magistratura a possa defender e fazer cumprir.
Estas considerações deviam bastar para serenar os ânimos inquietos, exageradamente preocupados com as eleições de deputados que este ano se hão de também realizar.
A União Nacional apresentará, como de costume, as suas listas e é de crer que elementos políticos de oposição ao regime, depois de alguns terem aproveitado o período eleitoral na criação de um clima subversivo, também apelem para o sufrágio popular. Mas terão aqui dificuldades, porque representam o passado, e este, se infeliz, não dá garantias suficientes de aliciar o crédito público. Alguns poderão apresentar-se conto a radiosa esperança do futuro, mas também estes têm “passado”, ainda que fora de Portugal, e o comunismo é neste País tão antinacional e anticristão que uma Nação que se bate a defender a sua integridade territorial e moral não o apoia, não o suporta, não pode reconhecê-lo dos seus.
Não há mesmo possibilidade de as oposições gizarem programas para o futuro imediato, salvo o que nós próprios temos definido já. Há poucos dias tive a oportunidade de ler o documento em que numerosos democratas solicitavam autorização para a celebração, de prever ruidosa, - do 31 de janeiro na cidade do Porto. Na exposição faz-se acerada crítica da Administração e do Governo, apontando os vários problemas em que a atuação ou se verificava errada, ou claramente deficiente. E os autores não tiveram trabalho a documentar os seus assertos, pois se limitaram, para cada assunto, a citar as passagens correspondentes de discursos proferidos na Assembleia Nacional. Nós conhecemos os riscos das transcrições fora do contexto, mas posso glosar o facto em meu proveito. Há anos já o Doutor Marcelo Caetano, então ministro da Presidência, fazia notar encontrarem-se mais diferenças ideológicas entre os membros do Governo do que algumas vezes entre representantes de partidos diferentes. Foi exata a observação e o facto apontado que a confirma quer dizer duas coisas: a primeira é que, salvaguardada a unidade no essencial, não nos afrontam as correntes de pensamento que se manifestem acerca dos problemas nacionais e das suas possíveis soluções; a segunda é que entre nós o deputado é livre a discutir e a votar, o que não acontece nos regimes partidários, em que a disciplina não pode deixar de ser considerada fator essencial à coesão das forças políticas. Por isso, do outro lado do regime, os que pretendem combater-nos não dispõem de grandes possibilidades.
II
Apesar de confiante na experiência e conhecimentos das pessoas mais diretamente encarregadas da ação política, não quero deixar de referir-me à atmosfera mundial e doméstica em que a mesma se desenvolverá.
Vivemos uma época que, apesar de uma verdadeira explosão científica e correspondente progresso em numerosos sectores da vida, se apresenta excessivamente perturbada na consciência dos homens e dos povos. Esta perturbação resulta de se terem rompido, com a Segunda Grande Guerra, numerosos equilíbrios sobre que assentavam a vida social e as relações dos Estados, e também das ideias admitidas para a criação da sociedade futura. O mal vem, portanto, dos factos e das situações criadas e também dos erros de julgamento e de pensar que nos invadiram e constituem veneno corrosivo da ação.
Hitler prometia com a sua vitória a paz para mil anos; perdida a guerra, veio prometê-la a ONU, tanto no seu ideário como no jogo das suas engrenagens, para prazo indefinido. Pois está sendo difícil encontrar lugar na terra onde não alastrem guerras e conflitos de toda a ordem. Ou não soubemos estabelecer e garantir a paz ou estamos equivocados quando a pensamos para sempre possível entre os homens e as Nações.
Aumentam extraordinariamente no mundo, com o trabalho e os recursos da técnica, os produtos para as necessidades do homem; talvez pudéssemos dizer que para todos bastariam, em nível modesto de vida. Pois a pobreza parece apertar cada vez mais aflitivamente os homens e há miséria por toda a parte, mesmo no seio dos países mais desenvolvidos e ricos. E assim parece que ou nos extraviamos no supérfluo em detrimento do necessário ou o nosso coração se perde nos seus anseios de generosidade e não descobre a fórmula de distribuição de bens que acabe coara os pobres na terra - se é possível acabarem na terra os pobres.
Nos povos estabilizados de velha civilização, nos povos que diríamos a caminho de um equilíbrio sadio ou nos que iniciam a vida como Estados independentes, repetem-se sem descanso as invocações democráticas, os apelos à liberdade e à igualdade dos homens, à soberania do povo, à omnipotência justiceira e criadora do voto, à outorga deste até ao limite extremo de “um a cada cabeça”. Pois no funcionamento das instituições políticas, assistimos ao mesmo tempo ao envelhecimento dos princípios que foram dogmas para nossos avós, e depois de século e meio de domínio nos legam uma sociedade moral e politicamente degradada. Ao aconselhar, quase diríamos, ao impor a todos os povos essas instituições e princípios, ou nos enganamos sobre o absoluto do seu valor ou nos iludimos sobre a precariedade das soluções que se encontraram para os realizar. Isto é, depois de milênios o homem conclui não saber governar-se nem poder governar-se sem respeitar o primado da autoridade e da justiça. Ora estas limitam, só porque existem, a liberdade e a igualdade; e da trilogia revolucionária de 89 a única invocação que parecia realizável na sua plenitude - a fraternidade será sacrificada ao egoísmo dos homens e ao materialismo da vida.
Todos terão notado entrar-se numa época em, que a política está a ser dirigida pela economia. E, ainda que estejamos no começo da sua influência, já deslizes se notam de profunda repercussão na vida das Nações. Está generalizada a ideia, que supomos errada, de que todas as sociedades humanas podem, começar o seu desenvolvimento econômico pela industrialização e que o grau de industrialização atingível é igual em todos os povos. Errou-se na avaliação dos capitais disponíveis para o desenvolvimento do mundo e nalgumas partes se houve de voltar atrás em programas ambiciosos de créditos e subsídios, para não se alterar a estabilidade econômica e financeira dos países doadores. Errou-se ao considerar que a economia se pode basear não no trabalho próprio, não na técnica própria ou importada, mas na generosidade alheia e em outros valores morais para que incessantemente se apela. A luz que intensamente se projeta na vida material, no desenvolvimento econômico, nos aumentos indefinidos dos níveis de vida vai deixar na obscuridade toda a parte espiritual do homem, do que me parece dever esperar-se o tempo materialista por excelência, a época dos povos ricos sem alma.
Disse que a economia tende a dirigir a política; mas a técnica, essa, quer substituí-la. Ora, sendo a política indispensável ao governo dos povos, o facto só pode verificar-se se a técnica for em si mesma uma política. Pergunto se é. O avanço das ciências aplicadas aos processos de trabalho abriu à produção e ao funcionamento dos serviços larguíssimas perspectivas. Isso é bem, pelas facilidades que cria e a maior produtividade que dá ao trabalho, e representa um benefício inestimável, dados os aumentos da população e a crescente complexidade da vida. É duvidoso que possa ir além disto; é sobretudo pernicioso que se tenda a converter o homem em engrenagem da própria técnica, que é para onde se caminha. Até aqui a política definia o que devia fazer-se; a técnica ensinava como se devia fazer. Mas se à técnica, conduzida pela ambição do desenvolvimento econômico, mediante o aumento da produção, cabe pronunciar-se sobre a ordem das realizações e sobre a orientação da vida social, é ela também competente para traçar uma política, e nós sabemos bem que ideologia em tais termos a inspira. Tem de salvar-se o homem, da tentação do abismo. Ele continuará a apresentar-se-nos como ser moral por excelência, embora com necessidades materiais, o que significa haver outro mundo, dever haver outro mundo para além daquele que a técnica e a economia podem criar.
Um dos fenômenos mais embaraçantes do mundo de hoje é a crise do direito internacional que uns observam como herança da sua civilização e outros desprezam para se instalarem, a seu gosto na terra. O alargamento da comunidade internacional não devia ter-se processado à margem da preparação dos Estados para aceitarem e cumprirem as normas que regulam por consenso geral ou por convenção expressa a vida de relação entre as nações; mas seguiu-se orientação oposta com o princípio da universalidade de todas as organizações internacionais, como se o registo de admissão equivalesse à garantia de observância das normas que as regulam, o que está demonstrado não ser exato. A Organização das Nações Unidas tem feito - pecaminosamente - o máximo por condescender com práticas aberrantes e até com a defesa de supostos interesses de muitos países irrequietos e ambiciosos contra os legítimos direitos de outros. Apesar disso, o desequilíbrio das situações apontadas é de tal ordem que nós o podemos ver na base dos numerosos conflitos que se espraiam pelo mundo. O princípio de que nas épocas de crise a lei internacional é para cada Estado a que serve o seu interesse, sem respeito pelo direito alheio, lançou-nos no caminho das grandes confusões e dos máximos perigos.
Nesta ligeira referência a factos e erros da nossa era que a tornam desassossegada e infeliz, não podemos esquecer o maior de todos - a África em fogo.
O nosso ministro dos Negócios Estrangeiros tem feito numerosas exposições sobre a política externa nas quais os problemas de África e do Ultramar português têm tido o merecido relevo. Eu próprio me recordo de haver exposto com alguma largueza o enquadramento da nossa política ultramarina tanto na evolução contemporânea de África como no nosso direito constitucional e na política interna. Não me repetirei; atualizarei apenas as situações, referindo-me aos factos mais recentes.
Malgrado os esforços da Organização da Unidade Africana, são cada vez mais vincadas as divisões e incompatibilidades que uns aos outros opõem os países daquele Continente. Vários ao sul do Equador dão mostras de não confiar no desinteresse dos árabes que se propõem conduzi-los. Por outro lado, estes e alguns outros pretendem chefiar a revolução africana, não já e apenas no sentido da independência dos territórios coloniais, mas no da adoção de uma política, ideológica e economicamente sustentada pelo bloco comunista. A revolução de Zanzibar e a formação da União com o Tanganica cavaram urna brecha difícil de colmatar. Particularmente por ali, mas também pela costa ocidental, entram as ideias, os homens, as armas que se propõem atingir o coração de África, para o domínio comunista desta.
Como nenhum país africano tem ao presente desenvolvimento econômico e social que permita a realização do comunismo, o apoio do referido bloco representará sobretudo a substituição das posições ocidentais, no que respeita à Europa, e um perigo para a independência da África no que respeita àquele Continente. O chamado socialismo africano não pode ser mais no nosso tempo que a expropriação e em muitos casos a espoliação dos bens, meios de trabalho e empreendimentos que os europeus ali fizeram surgir. O racismo negro, no que tem de irredutível cora a presença do branco, pode ser visto como a explosão duma incompatibilidade étnica, um desagravo ou um desforço, mas, aos olhos de muitos agitadores, é também uma operação econômica, aliás fracamente reprodutiva pela dificuldade de organizar o trabalho e manter o nível da produção com, elementos locais.
Assim as nações europeias que cederam as posições políticas mas entendiam que, apesar de tudo, lhes seria possível continuar a guiar os povos africanos independentes, pela superioridade da técnica, pela força do capital emprestado ou gratuitamente cedido, pelo brilho da cultura, têm de haver-se agora com concorrentes difíceis e estranhos ao Continente africano que, além de implicações econômicas e políticas, comprometem a obra ali empreendida.
Há semanas a esta parte elementos subversivos vindos do Tanganica, diretamente ou através do Malawi, romperam em Moçambique com as ações anunciadas de sabotagens e morticínios dos portugueses negros. Tentam que os casos da Guiné e de Angola se repitam ali com o auxílio e colaboração do Tanganica, embora até ao presente sem intensidade comparável aos primeiros, porque nos encontraram preparados e atentos. Constituindo aquele território um Estado membro da Comunidade britânica, somos levados a crer que a Inglaterra, sem falar em obrigações de alianças, entende não estar em condições de dizer uma palavra de moderação a um membro da Comunidade que se comporta tão ao arrepio da correção jurídica e política devida a Estados vizinhos. Em compensação a defesa contra ataques, protegidos nos países de onde partem, começa a ser aceite pelas potências, como comportamento normal e inteiramente justificado.
Este o teor em que vai o mundo e é dentro deste quadro que havemos de defender os territórios nacionais. É uma pena que os três milhões e meio de contos gastos anualmente nesta defesa, além dos muitos centos de milhares que as grandes Províncias despendem com o mesmo fim, não possam ser aplicados aqui e lá em estradas, portos, escolas, hospitais, aproveitamento de terras, instalação de indústrias ou exploração de minas. Com tais somas se podia fazer a relativa felicidade de muita gente em vez de lhe perturbar e sacrificar a vida, alimentando a - vaidade de ideólogos ou de aventureiros que um dia sonharam com impérios afinal inacessíveis às suas ambições.
Estas importâncias assim gastas nas províncias ultramarinas não serão mal-empregadas? O problema não pode pôr-se-nos assim, mas só em face da imperiosidade do dever político e das possibilidades nacionais. O cumprimento do dever não tem de ser contabilizado; as possibilidades são as do nosso trabalho que, se tiver de ser mais penoso e longo, o será sem hesitações.
Sei que em espíritos fracos o inimigo instila um veneno subtil com afirmar que estes problemas não têm solução militar e só política e que todo o prolongamento da luta é ruinoso para a Fazenda e inútil para a Nação. Eu responderei que o terrorismo que somos obrigados a combater não é a explosão do sentimento de povos que, não, fazendo parte de uma nação, conscientemente aspirem à independência, mas tão-só de elementos subversivos, estranhos na sua generalidade aos territórios, pagos por potências estrangeiras, para fins da sua própria política. Como elementos alheios à coletividade nacional estiolar-se-ão no momento de lhes ser recusado o território em que se organizam, e treinam, o apoio político recebido e os subsídios cru armas e dinheiro. De modo que a tal solução política, se não prevê a desintegração nacional (que todos fingem repelir), não se encontra em nós próprios mas nos países vizinhos, aos quais, pelos meios ao nosso alcance, possamos ir fazendo compreender melhor os seus deveres de Estados responsáveis para conosco e para com uma pobre gente que estupidamente se faz sacrificar a interesses alheios. Mas neste entendimento a defesa militar é o único meio de chegar à solução política que no fundo é a ordem nos territórios e o progresso pacífico das populações, como o vínhamos prosseguindo.
Vamos em quatro anos de lutas e ganhou-se alguma coisa com o dinheiro do povo, o sangue dos soldados, as lágrimas das mães? Pois atrevo-me a responder que sim. No plano internacional, começou por condenar-se sem remissão a posição portuguesa; passou depois a duvidar-se da validade das teses que se lhe opunham e acabaram muitos dos homens mais responsáveis por vir a reconhecer que Portugal se bate afinal não só para firmar um direito seu, mas para defender princípios e interesses comuns a todo o Ocidente. No plano africano, quatro anos de sacrifícios deram tempo a que se esclarecesse melhor o problema das províncias ultramarinas portuguesas, a diversidade das instituições criadas em séculos naquele Continente e os ganhos ou perdas, em todo o caso as dificuldades que a independência, tão ambicionada por poucos, trouxe a todos os mais e os dirigentes não sabem ainda como resolver. Assim, bastantes povos africanos nos parecem mais compreensivos das realidades e mais moderados de atitudes. Eis o ganho positivo desta batalha em que - os portugueses europeus e africanos combatemos sem espetáculo e sem alianças, orgulhosamente sós.
III
Agora umas palavras sobre o ambiente político interno que adivinho denso e carregado de dúvidas e preocupações. Eu compreendo isso e, ao aflorar certas causas da perturbação mundial, de algum modo e em parte o explico também. Devido a jogo inextricável de interdependências, uma parte da vida da Nação sofre as pressões externas - doutrinárias, econômicas ou políticas - a que não tens possibilidade de esquivar-se. E assim, correndo mal os tempos no mundo, difícil seria que pudessem correr aqui inteiramente bem. Mas, além disso, temos causas privativas de mal-estar.
Enfrentamos guerras no Ultramar que não se sustentam nem hão-de vencer sem sacrifícios de sangue e de dinheiro. Por isso os impostos tiveram de ser agravados e é ainda possível que, nas vastas reformas publicadas, algumas incidências não realizem a justiça e por isso mesmo não correspondam à vontade do legislador.
Uma série de maus anos agrícolas havia de saldar-se por perdas vultosas tanto para o proprietário da terra como para o agricultor. Atravessamos um ano excepcionalmente seco que prenuncia, a continuar assim, urra estio sem águas de rega e graves dificuldades no abastecimento para o próprio consumo corrente. A indústria, que trabalha ao abrigo das irregularidades climatéricas, tem-se multiplicado e progredido satisfatoriamente, mas, devido ao excesso de população que trabalha nos campos, o progresso daquela não beneficia proporcionalmente os homens da terra que se refugiara na emigração, aliás em desordem muitas vezes e em excesso injustificado, originando crises de mão-de-obra em vastos setores rurais. O abastecimento público tem podido manter-se em termos quase normais, mas muitos preços têm subido, com os correspondentes gravames para as economias mais débeis.
Quando estes fenómenos se verificam e nestas proporções, a população tem a tendência para intensificar e acelerar pressões no sentido de ver aumentadas as remunerações do trabalho, pensando esquivar-se às dificuldades comuns. A experiência largamente vivida pelos povos é a da inutilidade ou nocividade desses remédios, porque as altas salariais se refletem nos preços e estes no valor da moeda, tudo voltando ao começo. A obra de maior vulto realizada pelos Ministros das Finanças dos últimos quarenta anos foi exatamente conseguir manter o equilíbrio financeiro e a estabilidade monetária, que estão na base do nosso progresso e é necessário conservar para podermos subsistir; e por esse motivo, salvo nos casos de ajustamentos impostos por imperiosa justiça, não devemos aceder à onda de aparentes facilidades que aliviam o dia de hoje, comprometendo o futuro. A mim se me afigura especialmente absurdo que, tendo como Nação, de fazer face a maiores despesas, queiramos sempre, na imitação desequilibrada de modas alheias, ganhar mais e desejemos ao mesmo tempo trabalhar menos.
Durante a última grande guerra me aconteceu algumas vezes receber altas personalidades britânicas para negócios graves, e notar-lhes o fato velho, coçado, fimbriado nas mangas. Chegava a comover-me observar esses sinais de pobreza que não havia pejo em mostrar, porque representavam afinal o sacrifício conscientemente feito ao fim supremo da luta em que a sua nação se empenhara. Sei que não estamos em termos comparáveis e talvez por essa razão não vemos isso aqui, antes em certos casos o espetáculo da riqueza que se alardeia e quase afronta pelo exagero com que se manifesta. Por mim desejaria que fôssemos mais modestos e, sobretudo nestes momentos de crise, mais discretos também.
O facto de ter-se anunciado e começado a executar um plano que se chamou de reconversão agrária, alertou a muitos, porque não foram inteiramente compreendidos os fins, os métodos, as cautelas a ter na longa transição: nada, a não ser a incompreensão, devia causar receios ao nosso meio agrícola. Eu sou um rural e, embora em situação diferente, vivi duas guerras, uma em que interviemos ativamente nos quadros de uma aliança, outra em que não batalhamos, mas houvemos que organizar a defesa nos quatro cantos do mundo. Daí vem compreender o campo e conhecer as necessidades vitais que o campo tem de satisfazer. Independentemente do que se possa chamar a poesia campestre, que atrai os sorrisos um tanto desdenhosos da economia industrial, por mim, e se tivesse de haver competição, continuaria a preferir a agricultura à indústria; mas se quereis ser ricos não chegareis lá pela agricultura, ainda que progressiva, e industrializada, neste País de solos pobres e climas vários. A terra é humilde, tanto que se deixa a cada momento pisar; o trabalho da terra é humilde, porque o homem a cultiva, humildemente debruçado sobre as leivas; o fruto do trabalho ria terra é pobre porque está rio início de um ciclo de operações comerciais ou industriais destinadas a valorizá-lo ou a enriquecê-lo. Assim a faina agrícola, sujeita à torreira do sol ou à impertinência das chuvas, é acima de tudo uma vocação de pobreza; mas o seu orgulho vem de que só ela alimenta o homem e lhe permite viver. Quando se governa um país, e se nos deparam os mercados difíceis, os mares impraticáveis, as bocas famintas sem saber de onde há-de vir um bocado de pão, a terra pobre, a terra humilde sobe então à culminância dos heroísmos desconhecidos e dos valores inestimáveis.
Ao afirmar-se a necessidade de corrigir o fácies agrícola do País, alargando a floresta às serras nuas e aos campos que cobrimos de searas pobres, não se pensou em desertar da cerealicultura, mas na possibilidade de ter searas mais rendosas ou culturas mais ricas noutros terrenos e deixar ao mesmo tempo que as árvores cresçam onde o trigo não grada. Deste modo mais intensa florestação do País não significa a diminuição das culturas, o êxodo dos trabalhadores, o abandono do pão que cultivamos, aliás, sem grandes condições para isso, e teremos de pagar, mesmo se caro, como quem paga um seguro de guerra.
Tem-se falado muito nos defeitos da nossa estrutura agrária, que são evidentes e mais evidentes se tornarão a todos os interessados na medida em que pudermos corrigi-los. Mas, talvez por não termos bem definido os termos da questão fundamental que é a relação da cultura com a propriedade, houve sobressaltos injustificados, pois logo se enxergaram repercussões na pequena horta familiar ou na herdade extensa de bem equilibrada cultura. Isso nasceu do amor à terra que gira no sangue das nossas veias, mas não se justificava nem em face das intenções nem de quaisquer providências tomadas.
Grandes e pequenas coisas se têm acumulado a empecer-nos o caminho, umas apenas na imaginação sobressaltada, outras nos factos reais da vida. Mas o que houver, que rever-se há-de sê-lo, não na precipitação, mas na calma do nosso melhor entendimento.
IV
Compreende-se bem que, neste emaranhado de problemas e de soluções possíveis, de adversidades que nos chovem como castigo do céu e de dificuldades nascidas da política mundial, seja fácil criar aqui dentro ambientes de dúvida e de perturbação. Disse que uma parte da vida nacional flui das interdependências externas; mas outra parte, a mais importante e grave, somos nós a determiná-la, a tomar dela a responsabilidade plena. E um povo que toma, diante de, si mesmo e à face dos imperativos da sua história, a decisão viril de resistir, porque sabe que precisa de resistir para sobreviver, há-de tirar desta mesma decisão as forças necessárias para enfrentar as dificuldades. Penso assim que o Ultramar não pode ser para nós fonte de desânimos, mas, ao contrário, do mais sadio optimismo.
Além dos portugueses de África que combatem nas fileiras ou defendem portuguesmente naquelas terras as suas aldeias e lavras, teremos já entre nós dezenas de milhares de homens e, não sei quando, centenas de milhares que viveram nos matos, se arriscaram nos mares e nas selvas, jogaram a vida pela Pátria e viram no Ultramar projetada a Nação na sua verdadeira grandeza. Que podem significar para estes homens umas oposições que conspiram com o comunismo em, Paris ou em Argel para lhe entregar Portugal, ou aquelas, mais moderadas embora, que se limitam a ver se podem conquistar o poder, sabendo todos, pela imprecisão da sua linguagem, que perder a batalha aqui ou lá é tudo a mesma coisa? E não estaremos nós à altura dos que se batem, não só por eles e por nós, mas pela justiça que nos assiste e pelo bem dos povos a que nos devotamos?
Quando a União Indiana se apossou de Goa, o que internacionalmente se concluiu foi que obteve minas ricas de ferro e manganês e ficara com um porto como não havia outro em todas as suas costas; e parece não ter acudido à mente de ninguém que havia ali também, uma alma e uma cultura indo-portuguesa, amorosa criação de quatro séculos e meio de trabalhos e sacrifícios. Pois por este motivo já quase não trabalham as minas, nem se desenvolve o porto de Mormugão; e a União Indiana, para aumentar de uma polegada o seu imenso território, forjou, cravando-o no seu seio, mais um fator de divisão na profunda divisão que a agita. Nunca houve tantos portugueses nem tão elevado sentimento português em Goa a enfrentar autoridades tirânicas, no mesmo território que a hipocrisia de muitos diz “libertado da opressão” portuguesa.
Esta lição que o mundo agora colhe do nosso sofrimento, não queremos que levianamente a tire dos outros territórios que constituem a Nação portuguesa. Mas este não querer tem um segredo que é sabermos bem, porque nos batemos, isto é, as razões da nossa luta nacional.
Humildemente confesso não ter conseguido em tantos anos duas coisas que aliás se me afiguravam essenciais: convencer os governos de que precisavam de um apoio político para a sua ação e de que esse apoio só podia advir-lhes da União Nacional; convencer a União Nacional de que a formação política não pode ser abandonada a acasos de leituras ou de influências familiares mas a uma doutrinação sistemática e persistente.
Em face de nós só dois agrupamentos levam na devida conta a formação dos seus adeptos - a Igreja e o comunismo. Embora, conforme a frase de Tertuliano, a alma humana seja naturalmente cristã, desde sempre entendeu a Igreja não poder existir sem uma doutrinação ativa que ilustrasse os entendimentos no dogma, e afeiçoasse as consciências às práticas da sua moral. Assim a Igreja pode cristianizar a nação e pode até cristianizar o Estado; e parece-me dever ficar por aí, pois não pode substituir este nem conduzir os negócios daquela na ordem material ou profana. E se, esquecendo amargas experiências históricas, se sentisse tentada a intervir na ação política, não devia fazê-lo, porque, à medida que vemos materializar-se a vida, se torna mais e mais absorvente a missão espiritual da Igreja.
O comunismo que também quer ser à sua moda religião, trabalha como uma igreja, doutrinando e formando os seus adeptos, com largueza de meios e base científica dignos da melhor escola, mas tão eficientes que, sendo a doutrina comunista antinatural, mesmo contra a natureza consegue fiéis que se lhe entregam inteiramente e por ela morrem, se necessário.
Na carência a que me referi e no que é essencial, o que nos tem valido é o fundo ainda consistente da lusitanidade, as lições da história e o exemplo dos seus valores, a sã tradição de nossos maiores que os acontecimentos políticos dos últimos séculos não conseguiram obliterar. Mas para conquistar uma adesão firme, formar um soldado de uma causa desinteressada, granjear-lhe a dedicação incondicional, é precisa a ação constante de uma doutrinação esclarecida. Quando o inimigo sentiu que organizações nossas podiam ser o fermento duma nova sociedade ou forças de estabilização necessária na época agitada em que se tem vívido, logo iniciou a campanha necessária ao seu descrédito. E muito bem, diante da nossa indecisão, porque ele sabia o que lhe convinha e nós dávamos provas de ignorar o de que tínhamos necessidade.
Pois bem, se o Centro de Estudos Políticos que existe aqui fizer irradiar de si a luz que ilumine, o calor que aqueça sobretudo as almas jovens, naturalmente generosas e sedentas, nós podemos estar certos de que não serão abalados os alicerces nem com eles o futuro desta Nação.

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2019/01/o-fascismo-por-ele-mesmo-antonio-salazar.html

Forças de segurança invadem e vasculham gabinetes da esquerda

Um fato gravíssimo e sem precedentes na história do Brasil desde a redemocratização ocorreu durante os preparativos para a posse do presidente Jair Bolsonaro: agentes da segurança, não se sabe ainda se sob ordens diretas da equipe presidencial, invadiu e vasculhou mais de uma dezena de gabinetes parlamentares de deputados federais do PT, PCdoB e do PSOL

Pelo menos nove gabinetes de deputados federais do PT e um do PCdoB foram invadidos durante os preparativos e a posse do presidente Jair Bolsonaro (PSL) durante esta semana, em Brasília. Gabinetes de deputados do PSOL também teriam sofrido invasão mas ainda não há confirmação do número. A entrada nos gabinetes não teve a autorização dos parlamentares, das lideranças e nem mesmo do presidente da Casa, deputado Rodrigo Maia (DEM).

Em entrevista ao Brasil 247, o deputado Odair Cunha (PT-MG) contou que chegou na última quarta-feira (2) em seu gabinete e encontrou gavetas abertas e as persianas das janelas lacradas com parafusos. Para ele, isso vulnerabiliza o Congresso Nacional em nome de uma ‘histeria coletiva de segurança’.

“Sob o pretexto de você não ter ‘snipers‘ nas janelas, o que deveria ser impedido pela Polícia Legislativa, você admite que se invada gabinetes de parlamentares. Com isso, você pode inventar qualquer coisa! E a prerrogativa dos deputados? Quem garante que não colocaram ou tiraram coisas do meu gabinete?”, questiona Odair, que registrou a queixa na polícia da Câmara.


Além da invasão e do aparafusamento das janelas e persianas, mesas e gavetas dos deputados foram revistadas


Além do gabinete de Odair Cunha, foram invadidos os gabinetes do líder do partido, Paulo Pimenta (RS), e dos deputados Josias Gomes (BA); Leonardo Monteiro (MG); Luiz Couto (PB); (MG); Patrus Ananias (MG); Pepe Vargas (RS); Rejane Dias (PI) e Waldenor Pereira (BA).

Até agora, não se sabe quem foi o responsável pela invasão e pela intervenção nos gabinetes, que teria sido autorizada pela polícia legislativa, mas que não informou a mando de quem.

Em nome da liderança do PT, Paulo Pimenta cobrou da Presidência da Câmara explicações sobre a invasão aos gabinetes de parlamentares do partido.

No documento encaminhado à Presidência da Casa, Pimenta afirma que “diante da gravidade do que se relata, das imunidades e prerrogativas de que gozam cada um dos membros do Poder Legislativo e, também, da especial proteção jurídica atribuída aos escritórios profissionais (como extensão do conceito normativo de “casa”, assim considerado qualquer compartimento, não aberto ao público, onde alguém exerce profissão ou atividade), o líder da bancada quer saber o nome da autoridade que expediu a ordem de acesso aos gabinetes parlamentares; motivos para a referida ordem; e a relação de todos os gabinetes em que a ordem foi executada”.

No final da tarde desta quinta-feira (3), a deputada federal Jandira Feghali (PCdoB-RJ) comunicou que seu gabinete também foi devassado.

Indignação nas redes sociais

Vários parlamentares utilizaram suas redes sociais hoje (3) para criticar a invasão. A deputada Margarida Salomão (PT-MG) considerou o fato absolutamente inaceitável.

Deixa flagrante a impressão de que o governo poderá monitorar clandestinamente a oposição. Resta saber se a Câmara participou da invasão. Confirmada, essa ‘parceria’ é mais um risco para a democracia no País”.

Margarida Salomão (PT-MG), no Twitter

Também no Twitter, o deputado Décio Lima (PT-SC) escreveu:

Mas Bolsonaro não disse que ditadura são os governos socialistas? Que eu lembre em nenhum governo do PT se perseguiu a oposição”.

Décio Lima (PT-SC)

O deputado Leonardo Monteiro, que teve o gabinete invadido lamentou:

Usar o pretexto de segurança para invadir gabinetes parlamentar é preocupante e inaceitável. Isso fere a autonomia dos poderes e representa um desrespeito não só aos parlamentares, mas à democracia brasileira. Fizemos boletim de ocorrência para que essa invasão seja investigada!”.

Leonardo Monteiro

Absurdo. Assim reagiu o deputado Marco Maia (PT-RS), que já presidiu a Câmara.

A que ponto chegamos no Brasil! Os abusos da família Bolsonaro com os militares não têm limites. E agora Rodrigo Maia?”, cobrou em sua conta no Twitter.

Marco Maia (PT-RS)

Também pelo Twitter, a senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM) alertou para o absurdo da situação. Segundo ela, não há nenhuma:

(não há nenhuma) justificativa legal, regimental ou de qualquer natureza para tamanho ataque ao exercício parlamentar”.

Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM)

Jandira Feghali (PCdoB) também cobrou, oficialmente, explicações da presidência da Câmara. “Precedente perigoso. Sem protesto, será o primeiro de muitos”, disse a deputada em postagem no Twitter:

Gravíssimo! Gabinetes, inclusive o meu, foram violados sem comunicação ou autorização prévias. Não se sabe de quem partiu a ordem e nem a liberação para entrada. Precedente perigoso. Sem protesto, será o primeiro de muitos. Em ofício cobrei informações do presidente da Câmara. pic.twitter.com/kqNbRHwaOZ

— Jandira Feghali (@jandira_feghali) 3 de janeiro de 2019

Texto original em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/forcas-de-seguranca-invadem-e-vasculham-gabinetes-da-esquerda/

'Precisamos ter nosso Guantánamo', diz novo governador do Rio

O governador Wilson Witzel toma posse na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) .
© Foto : Tomaz Silva/Agência Brasil

O governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, defendeu nesta quinta-feira (3) que criminosos envolvidos com o tráfico de drogas e que, uma vez presos, fiquem sem direito a receber visitas e longe da civilização.

"Precisamos ter o nosso Guantánamo. É preciso colocar os terroristas em locais onde a sociedade se livre definitivamente deles", disse, segundo a Agência Brasil.


A baía de Guantánamo localiza-se ao sul da ilha de Cuba e pertence aos Estados Unidos, que mantém no local uma base naval onde se encontram presos acusados de terrorismo capturados em guerras como as do Afeganistão e do Iraque.

Diante de diversas denúncias em organismos internacionais sobre violações de direitos humanos, inclusive de práticas de torturas pesadas, o ex-presidente norte-americano Barack Obama manifestou em diversas ocasiões o desejo de fechar a Base de Guantánamo. Porém, com a vitória de Donald Trump nas eleições de 2016, os planos foram alterados e o governo decidiu destinar recursos para modernizar o local.

Witzel fez a declaração durante discurso na posse do titular da recém-criada Secretaria de Estado de Polícia Civil (Sepol), o delegado Marcus Vinícius de Almeida Braga.

Na cerimônia, que ocorreu na Cidade da Polícia, no Rio de Janeiro, Witzel disse ainda que ser favorável a uma nova legislação que aumente o tempo máximo da pena para os, que ele chamou, de "narcoterroristas", de 30 para 50 anos.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/brasil/2019010313043456-precisamos-nosso-guatanamo-diz-novo-governador-rio/

Pela remoção do lixo nazi nos expositores das livrarias

Dias atrás um amigo queixava-se, que da visita a uma das maiores livrarias lisboetas, o chocara a profusão de livros nos expositores com suásticas na capa. Por essa altura, no «Diário de Notícias», João Céu e Silva rastreava como sendo seis os títulos recentemente publicados com essa «característica», um deles declaradamente pró-nazi, os outros cinco mais comedidos quanto à suposta benignidade dos seus personagens, quer fossem reais, quer fictícios.
Recordei, então, o incómodo também sentido há uns tempos atrás, quando, numa livraria do Forum Almada, deparei com o destaque conferido ao «Mein Kampf», quando acabado de editar. Na altura fiquei-me pelo despique com um dos empregados, que alegava a liberdade dos livreiros em colocarem à venda o que quisessem, muito embora tivesse ponderado o pedido do Livro de Reclamações por considerar o abjeto/objeto como ofensivo para com parte representativa dos potenciais clientes do estabelecimento.
Não o fiz, mas penalizo-me pelo comodismo, porque é tempo de dinamizar um sentimento declaradamente antifascista no espaço público, devolvendo ao lixo aquilo que dele nunca deveria ter reemergido. Daí a relevância de número substantivo de consumidores assumirem uma postura ativa contra a atividade culturalmente terrorista, assumida por editores, distribuidores e livreiros, que fomentam a disseminação de viperinas conceções da vida em sociedade, como se elas se equivalessem, em legitimidade, com as defensoras do espírito das Luzes com as suas liberdades fundamentais consagradas na Declaração dos Direitos do Homem, essas sim dignas de enfáticas promoções.

 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/01/pela-remocao-do-lixo-nazi-nos.html

O fascismo por ele mesmo: Adolf Hitler

Nesta entrevista ao jornal Liberty, em 1932, Hitler diz: 'Nos meus planos para o Estado alemão, não haverá lugar para os estrangeiros, os perdulários, os usurários, os especuladores ou qualquer um que não seja capaz de fazer um trabalho produtivo'
Opera Mundi publica, nesta semana, um especial sobre fascismo - contado pelos próprios fascistas. São discursos e entrevistas de Adolf Hitler (Alemanha), António Salazar (Portugal), Francisco Franco (Espanha), Rafael Videla (Argentina), Benito Mussolini (Itália), Emílio Garrastazu Médici (Brasil) e Philippe Pétain (França) que mostram como estas figuras pensavam as sociedades que governavam e justificavam os atos de seus regimes.
Adolf Hitler (1889-1945), o ditador alemão, nasceu na Áustria, filho de um oficial de alfândega. Ainda estudante, sonhava em se tornar arquiteto ou pintor – mas seu insucesso acadêmico o levou à política. Com a Primeira Guerra Mundial deflagrada, ele se alistou no Exército da Baviera. Condecorado por heroísmo, Hitler terminou os combates na condição de inválido: atingido por um ataque de gás, perdeu parte de sua visão. Frustrado com a derrota bélica, atribuída por ele aos judeus e aos socialistas, fundou o Partido Alemão Nacional-Socialista dos Trabalhadores. Em 1923, participou do putsch da cervejaria de Munique, numa tentativa de golpe de Estado contra o governo republicano da Baviera. Encarcerado durante nove meses, Hitler aproveitou esse período para ditar seu credo político, o Mein Kampf (Minha Luta), para Rudolf Hess. Depois de sua libertação, ele começou a atrair o interesse popular para as ideias nazistas, manipulando a paranoia antissemita, utilizando recursos de propaganda e construindo uma coalizão de trabalhadores, empresários e senhores do campo. Em 1933, um ano depois de ter sido derrotado nas eleições presidenciais, foi nomeado chanceler da Alemanha. Novas eleições gerais foram convocadas e o partido de Hitler chegou ao poder. Hitler se suicidou com sua amante, Eva Braun, em 1945, quando as tropas russas se preparavam para invadir seu bunker em Berlim, nos derradeiros dias da Segunda Guerra.
George Sylvester Viereck já havia entrevistado Adolf Hitler em 1923, quando ele ainda era um obscuro personagem da vida política europeia. Naquela oportunidade, Viereck anotou: “Este homem, se sobreviver, fará história, para o bem ou para o mal”.
Quando eu dominar a Alemanha, vou pôr fim ao bolchevismo em nosso país e às homenagens a ele no exterior.” Adolf Hitler bebeu todo o conteúdo da xícara como se não fosse chá, mas o sangue dos bolcheviques.
“O bolchevismo”, continuou o chefe dos camisas-marrons, dos fascistas alemães, olhando-me ameaçador, “é a nossa grande ameaça. Quando o bolchevismo na Alemanha estiver morto, setenta milhões de pessoas voltarão ao poder. A França deve toda a força que tem não aos seus exércitos, mas às forças do bolchevismo e à dissensão entre nós. O Tratado de Versalhes e o Tratado de Saint-Germain sobrevivem graças ao bolchevismo na Alemanha. O Tratado de Paz e o bolchevismo são cabeças do mesmo monstro. Temos que decapitá-las.”
Quando Adolf Hitler anunciou esse programa, o advento do Terceiro Reich ainda parecia distante. Com o tempo, o poder de Hitler foi crescendo a cada eleição. Embora incapaz de tirar Hindenburg da presidência, Hitler, no momento, lidera o maior partido da Alemanha. A não ser que Hindenburg instaure medidas ditatoriais ou que os acontecimentos tomem um rumo inesperado e frustrem todas as atuais previsões, o partido de Hitler conquistará o Reichstag e dominará o governo. Hitler não lutou contra Hindenburg, mas contra o chanceler Brüning. Será difícil para o sucessor de Brüning manter-se no poder sem o apoio dos nacional-socialistas.
Muitos dos que votaram em Hindenburg estavam, no íntimo, do lado de Hitler, mas um senso de lealdade arraigado impeliu-os, entretanto, a votar no velho marechal-de-campo. A não ser que um novo líder apareça do dia para a noite, não há ninguém na Alemanha, com exceção de Hindenburg, capaz de derrotar Hitler – e Hindenburg tem 85 anos! Só o tempo, a obstinação da luta francesa contra Hitler, algum erro cometido por ele próprio ou uma dissensão nas fileiras do partido pode privá-lo da oportunidade de desempenhar o papel de Mussolini da Alemanha.
O Primeiro Império alemão chegou ao fim quando Napoleão forçou o imperador austríaco a renunciar à coroa imperial. O Segundo Império terminou quando Guilherme II, a conselho de Hindenburg, procurou refúgio na Holanda. O Terceiro Império está emergindo aos poucos, mas com firmeza, embora talvez dispense cetros e coroas.
Encontrei Hitler não em seu quartel-general, a Casa Marrom em Munique, mas no seu próprio lar – a residência de um almirante reformado da Marinha alemã. Discutimos o destino da Alemanha bebendo chá.
“Por que”, perguntei a Hitler, “o senhor se diz um nacional-socialista, já que o programa do seu partido é a própria antítese do que geralmente se acredita ser o socialismo?”
“O socialismo”, replicou agressivo, deixando de lado a xícara de chá, “é a ciência de lidar com o bem-estar geral. O comunismo não é o socialismo. O marxismo não é o socialismo. Os marxistas roubaram o termo e confundiram seu significado. Vou tirar o socialismo dos socialistas. “O socialismo é uma antiga instituição ariana e alemã. Nossos ancestrais alemães tinham algumas terras em comum. Cultivavama ideia do bem-estar geral. O marxismo não tem direito de se disfarçar de socialismo. O socialismo, diferentemente do marxismo, não repudia a propriedade privada. Diferentemente do marxismo, ele não envolve a negação da personalidade e é patriótico. Poderíamos ter chamado nosso partido de Partido Liberal. Preferimos chamá-lo de Nacional-Socialista. Não somos internacionalistas. Nosso socialismo é nacional. Exigimos o atendimento das justas reivindicações das classes produtivas pelo Estado com base na solidariedade racial. Para nós, o Estado e a raça são um só.”
O próprio Hitler não é um alemão puro. Os cabelos escuros denunciam a presença de algum ancestral alpino. Durante anos, ele se recusou a ser fotografado. Era parte de sua estratégia – ser conhecido apenas pelos amigos para que, em um momento de crise, pudesse aparecer em qualquer lugar sem ser descoberto. Hoje em dia, ele não poderia mais passar despercebido pela mais obscura das aldeias da Alemanha. Sua aparência cria um contraste estranho com a agressividade de suas opiniões. Nenhum outro reformista de maneiras tão suaves afundou um navio do Estado ou cortou gargantas na política.
“Quais são os princípios fundamentais da sua plataforma?”, continuei meu interrogatório. “Acreditamos em uma mente sã em um corpo são. A nação tem que ser sadia para que a alma também o seja. Saúde moral e física são sinônimos.” “Mussolini”, interrompi, “disse-me a mesma coisa.”
Hitler sorriu. “Os bairros miseráveis”, acrescentou, “são responsáveis por nove décimos, e o álcool, por um décimo de toda a depravação humana. Nenhum homem saudável é marxista. Os homens saudáveis reconhecem o valor da personalidade. Lutamos contra as forças da desgraça e da degeneração. Se fizermos uma comparação, a Baviera é saudável porque não está completamente industrializada. No entanto, toda a Alemanha, incluindo a Baviera, está condenada à industrialização intensiva pelo tamanho reduzido do nosso território. Se quisermos salvar a Alemanha, temos que nos assegurar de que os fazendeiros continuem fiéis à terra. Para tanto, eles precisam ter espaço para respirar e para trabalhar.”
“Onde o senhor encontrará espaço para trabalhar?”
“Precisamos manter nossas colônias e expandir em direção ao leste. Houve um tempo em que podíamos dividir o domínio do mundo com a Inglaterra. Agora, só podemos expandir-nos em direção ao leste. O Báltico é necessariamente um lago alemão.”
“A Alemanha”, perguntei, “não poderia reconquistar o mundo do ponto de vista econômico sem expandir seu território?”
Hitler moveu a cabeça, negando com veemência.
“O imperialismo econômico, assim como o imperialismo militar, depende de poder. Não pode haver comércio mundial em larga escala sem poder mundial. Nosso povo não aprendeu a pensar em termos de poder e comércio mundiais. Entretanto, a Alemanha não pode expandir o seu comércio e o seu território até reconquistar o que perdeu e encontrar-se.
“Estamos na mesma situação de um homem que perde a casa em um incêndio. Ele precisa ter um teto antes de entregar-se a planos mais ambiciosos. Conseguimos criar um abrigo de emergência que nos mantinha protegidos da chuva. Não estávamos preparados para o granizo. Entretanto, infortúnios caíram sobre nós. A Alemanha vive sob uma verdadeira tempestade de catástrofes nacionais, morais e econômicas.
“Nosso sistema partidário desmoralizado é um sintoma de nossa desgraça. As maiorias parlamentares flutuam ao sabor do vento. O governo parlamentarista abre as portas para o bolchevismo.”
“O senhor não é a favor de uma aliança com a União Soviética como alguns militares são, não é verdade?”
Hitler esquivou-se de uma resposta direta a essa pergunta. Há pouco tempo, ele esquivou-se outra vez quando o Liberty pediu que respondesse à declaração de Trótski de que a tomada do poder por Hitler na Alemanha envolveria uma batalha de vida ou morte entre a Europa, liderada pela Alemanha, e a Rússia Soviética. Hitler talvez não tenha interesse em atacar o bolchevismo na Rússia. Talvez ele até mesmo considere uma aliança com o bolchevismo como a última cartada se estiver perdendo o jogo. Se, como ele insinuou certa vez, o capitalismo recusar-se a reconhecer que os nacional-socialistas são a última trincheira da propriedade privada, se o capital impedir a luta deles, a Alemanha pode ser obrigada a jogar-se nos braços tentadores da Rússia Soviética. Mas ele está determinado a não permitir que o bolchevismo se estabeleça na Alemanha.
No passado, ele respondeu com cuidado as tentativas de negociação do chanceler Brüning e de outros que desejavam formar uma frente política unida. Não é provável que o mesmo ocorra no momento, em vista do crescimento constante dos votos dos nacional-socialistas. Hitler estará propenso a fazer acordos sobre quaisquer princípios básicos com outros partidos.
“As alianças políticas das quais depende uma frente unida”, observou Hitler, “são muito instáveis. Elas tornam quase impossível uma política claramente definida. Vejo, por toda parte, o caminho tortuoso dos acordos e concessões. Nossas forças construtivas são detidas pela tirania dos números. Cometemos o erro de aplicar a aritmética e a mecânica do mundo econômico ao modo de vida. Somos ameaçados pelo constante crescimento dos números e abandonos dos ideais. Meros números não têm importância.”
“Mas vamos supor que a França faça retaliações contra o senhor, invadindo suas terras mais uma vez. Ela já invadiu o Ruhr. Poderia invadi-lo de novo.”
“Não importa”, respondeu Hitler exaltado. “Quantos quilômetros quadrados os inimigos podem ocupar se o espírito nacional estiver vigilante? Dez milhões de alemães livres, prontos para morrer para que o país sobreviva, são mais fortes do que cinquenta milhões cuja força de vontade está paralisada e cuja consciência de raça está infectada por estrangeiros.
“Queremos uma Alemanha maior, que una todas as tribos germânicas. Mas a nossa salvação pode começar em uma pequena região. Mesmo se tivéssemos apenas dez acres de terra, mas estivéssemos determinados a defendê-los com nossas próprias vidas, os dez acres iriam se tornar o foco da regeneração. Nossos trabalhadores têm duas almas: uma é alemã e a outra é marxista. Temos que acordar a alma alemã. Temos que extirpar o tumor do marxismo. O marxismo e o germanismo são antíteses.
“Nos meus planos para o Estado alemão, não haverá lugar para os estrangeiros, os perdulários, os usurários, os especuladores ou qualquer um que não seja capaz de fazer um trabalho produtivo.”
Hitler franziu o cenho ameaçador. Sua voz dominou a sala. Ouvimos um barulho na porta. Seus seguidores, que estão sempre por perto como guarda-costas, lembraram ao líder o seu compromisso de falar em uma reunião.
Hitler bebeu o chá às pressas e levantou-se.
George Sylvester Viareck | Opera Mundi
(*) Esta entrevista foi publicada no livro 'A Arte da entrevista' (Editora Boitempo, 2004), organizado por Fábio Altman e com ilustrações de Cássio Loredano. As traduções são de Inês Antonia Lohbauer, Maria dos Anjos Santos Rouch e Rosanne Pousada. O texto se encontra entre as páginas 129 e 133.
 
 

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A extrema-direita ressuscitou e floresce

(Carlos Esperança, 01/01/2019)

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A posse de Bolsonaro, um primata abrutalhado que, após a expulsão do exército, correu como deputado, por numerosos partidos brasileiros, sem atividade legislativa, a recolher benefícios do cargo, é a cereja no bolo da demência que grassa no continente americano.

As democracias são aí exóticas, residuais ou em vias de extinção, a sul do Canadá. Basta um segundo mandato de Trump para acabar com veleidades de eleições livres em países da América Central e do Sul.

É evidente que Jair Bolsonaro não quer, não pode e não sabe governar em democracia. O Senado e o Congresso dos deputados, onde muitos estão habituados a trocar o voto por benefícios pessoais, sem ideologia e sem entusiasmo na defesa do interesse público, não lhe vão facilitar a vida.

Quem conhece a cultura de caserna do cavernícola que as redes sociais, as televisões e a influente lepra evangélica levaram ao poder, facilmente adivinha que as botas cardadas serão o seu modelo e as espingardas o apoio que solicitará. Resta saber se a tropa, com que conta, estará disposta a aventuras e terá por ele a afeição do bispo Edir Macedo.

Deixar 200 milhões de brasileiros nas mãos de um boçal sem experiência governativa, sensatez ou projeto é um perigo para a sobrevivência dos mais pobres e um incentivo à violência que a liberalização do uso de armas não deixará de estimular.

Jair Bolsonaro considera-se um enviado de Deus e tem o apoio de Trump, as orações de Duterte, o assassino das Filipinas, e ainda a ajuda de toda a extrema-direita mundial e de Israel, para além dos que pretendem a Amazónia e deter os recursos do subsolo, o que garante o aumento do PIB que o ajudará a endurecer o poder.

Francis Fukuyama enganou-se rotundamente quando previu o fim da História. Está em marcha um retrocesso que não brota apenas no continente americano, é uma mancha de óleo que alastra a todo o Planeta e já contaminou a Europa. Os inimigos da democracia e dos direitos humanos, paradoxalmente, alcançam o poder pela via democrática. Hoje, são eleitos indivíduos que eram casos de polícia e agora se tornam líderes políticos.

A tomada de posse de Bolsonaro, com coreografia pífia e desajeitada, parecia mais uma parada militar do que a substituição de um PR em democracia. A faixa presidencial lá passou do corrupto golpista, Michel Temer, para Messias Bolsonaro, que hesitou em entrar de cabeça ou com o braço à frente.

“O Brasil acima de tudo [Deutschland über alles] e Deus acima de todos”. Bolsonaro dixit.

Depois, foi o sombrio desfilar de figuras menores onde o abraço sionista de Netanyahu foi o mais demorado, e o de Marcelo, o único PR da Europa, parecia uma ida mais a um velório onde, despachados os pêsames, fugiu a ver os netos ou a esconder a vergonha.

O juiz que prendeu, investigou e condenou Lula da Silva lá fará companhia a Bolsonaro e a vários generais, indiferente à humilhação que infligiu à Justiça com a sede de poder que o devorou.

Não é um governo que o ex-capitão comanda, é uma companhia de tropa sem vergonha.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Brasil | A democracia há de morrer sem um tiro

A democracia há de morrer sem um tiro, pelo voto livre do povo e o silêncio cúmplice dos democratas
Daniel Oliveira considera que a presença dos chefes de Estado de democracias na cerimónia de possa de Bolsonaro é uma validação do fascismo.
No espaço de comentário que ocupa semanalmente na TSF, "A Opinião", Daniel Oliveira afirmou que o fascismo está bem vivo, em pleno século XXI.
"O ano de 2019 começa com a posse de um fascista", começa por afirmar Daniel Oliveira. O comentador afirma que o novo presidente brasileiro segue a linha de "todos os tiranos que chegaram ao poder pelo voto: disseram ao que vinham, mas poucos acreditaram".
Bolsonaro, que prometeu, durante a campanha, "expulsar e prender os seus adversários políticos". Que defendeu "a tortura, o fuzilamento de opositores e a execução sumária de bandidos". Que "disse que, se batermos nos nossos filhos, eles não se tornarão homossexuais".
"Foi eleito contra a corrupção, apesar de ter assumido que o partido de que fez parte recebia subornos e que ele próprio fugia a todos os impostos que podia. Foi eleito contra o clientelismo, apesar de ter dito que se quisesse contratar a sua mãe para o seu gabinete, ninguém tinha nada a ver com isso. Foi eleito pela sua fé, apesar de citar a Bíblia para defender a pena de morte. Venceu democraticamente as eleições, apesar de ter dito que nada mudaria no Brasil através do voto", constatou Daniel Oliveira.
"Os cegos dizem que Bolsonaro não é um fascista e os fascistas dizem que ele é um herói", declara. Ao homem a quem os seus apoiantes chamam de "mito", Daniel Oliveira chama "inútil fanfarrão, simulacro de macho e de militar".
Na cerimónia de posse de Jair Bolsonaro estarão 12 chefes de Estado e vários primeiros-ministros, incluindo o Presidente português, Marcelo Rebelo de Sousa. Presenças que são condenadas pelo comentador. "A companhia de democratas não transforma o fascista em democrata, apenas o normaliza", criticou Daniel Oliveira.
"É assim que a democracia há de morrer, sem um tiro: pelo voto livre do povo e o silêncio cúmplice dos democratas", atirou.
Daniel Oliveira alerta que este não é apenas um fenómeno brasileiro. "É o Brasil, é a Hungria, é a Itália, é a Polónia, são as Filipinas, são os Estados Unidos e, mais dia, menos dia, será a França", profetiza. "A maioria acredita que o fascismo não pode acontecer agora, em pleno século XXI. Só que está mesmo a acontecer, lentamente, sem que ninguém resista."
Texto: Rita Carvalho Pereira | TSF | Foto Reuters
 

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Ucrânia volta a assinalar aniversário do nascimento do fascista Bandera

Há vários anos que fascistas e nacionalistas ucranianos realizam marchas de tochas para louvar a figura do colaborador nazi. Em Dezembro, o Parlamento decretou que o dia é feriado nacional na Ucrânia.

Marcha em honra de Stepan Bandera em KievCréditos / Twitter

Milhares de pessoas participaram esta terça-feira em marchas de tochas realizadas em várias cidades da Ucrânia, promovidas por partidos de extrema-direita (Pravi Sektor e Svoboda) e organizações abertamente neonazis (C14 e Natsionalni Korpus) para assinalar o 110.º aniversário do nascimento de Stepan Bandera, líder nacionalista ucraniano e colaborador das SS nazis.

De acordo com a agência TASS, em Kiev, a mobilização, que juntou cerca de 2000 pessoas, contou com a participação de deputados do Parlamento ucraniano, militantes de forças de extrema-direita e representantes das regiões da Ucrânia.

Aso longo do trajecto, os manifestantes exibiram tochas, bandeiras nacionais e de organizações fascistas e fizeram ouvir «palavras de ordem contra a Rússia», revela a mesma fonte.

Em meados de Dezembro, o Parlamento ucraniano aprovou uma resolução sobre a comemoração de datas memoráveis e aniversários, em que se inclui o do nascimento de Stepan Bandera. O dia 1 de Janeiro passou então a ser um feriado nacional. Por seu lado a região de Lvov, no Ocidente do país, declarou 2019 como o ano de Stepan Bandera.

Bandera, colaborador nazi e herói nacional

Stepan Bandera foi um líder destacado da Organização de Nacionalistas Ucranianos, surgida no final dos anos 20 para lutar pela criação de um Estado ucraniano independente. Com esse objectivo, a sua ala militar – Exército Insurgente Ucraniano (UPA, na sigla ucraniana) – colaborou com as forças nazis, lutando contra polacos e contra o avanço do Exército Vermelho, na Segunda Guerra Mundial.

Estima-se que, entre 1943 e 1944, tenha sido responsável pela limpeza étnica de dezenas de milhares de polacos na região ocidental da Ucrânia – algo que foi reconhecido pelo Parlamento da Polónia, em 2016, como um «genocídio».

Bandera colaborou com os nazis, ajudando a recrutar e a formar unidades de «nacionalistas ucranianos» para combater os soviéticos durante a guerra. Membros do seu movimento são acusados de participar em massacres, nomeadamente de judeus, polacos, comunistas, e de participar na organização de campos de concentração nazis.

No final do conflito mundial, o UPA continuou activo, colaborando com os serviços secretos de vários países ocidentais em actividades contra a União Soviética e contra a Polónia socialista, cujo exército combateu.

Actualmente, Stepan Bandera é visto como um herói nacional da Ucrânia – um estatuto que lhe foi reconhecido em 2010 pelas autoridades do país. Em 2015, já depois do golpe fascista de Fevereiro de 2014 em Kiev, o Parlamento ucraniano passou a considerar as actividades da Organização de Nacionalistas Ucranianos e do Exército Insurgente Ucraniano como «luta pela independência da Ucrânia».

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/ucrania-volta-assinalar-aniversario-do-nascimento-do-fascista-bandera

Portugal | Um castigo que poderia ter algumas virtudes

Jorge Rocha | opinião
Falhada a arruaça dos coletes amarelos, já os mesmos mentecaptos se apressam a convocar nova algazarra tendo o culto de Salazar como motivação. A notícia fez-me recordar uma outra, com alguns dias, sobre um contumaz caçador furtivo a quem um juiz norte-americano condenou a prisão efetiva e à obrigatoriedade de ver diariamente «Bambi», o filme dos estúdios Disney em que é antológica a cena da morte da mãe do jovem protagonista.
Não sei se a receita conseguirá aos pretendidos objetivos do magistrado, mas ele terá, porventura, recordado como o protagonista da «Laranja Mecânica» mudara de comportamento depois de sujeito a tratamento similar. 
Por isso mesmo não seria mal pensado que os organizadores e participantes desse novo burburinho, fossem encarcerados em nome de uma Constituição, que proíbe explicitamente as atividades fascistas, recebendo como dose complementar a contínua visualização da série de Fernando Vendrell sobre Natália Correia, Vera Lagoa e Snu Abecassis, para entenderem quão indigente era o regime, que pretendem homenagear.
jorge rocha | Ventos Semeados

Um castigo que poderia ter algumas virtudes

Falhada a arruaça dos coletes amarelos, já os mesmos mentecaptos se apressam a convocar nova algazarra tendo o culto de Salazar como motivação. A notícia fez-me recordar uma outra, com alguns dias, sobre um contumaz caçador furtivo a quem um juiz norte-americano condenou a prisão efetiva e à obrigatoriedade de ver diariamente «Bambi», o filme dos estúdios Disney em que é antológica a cena da morte da mãe do jovem protagonista.
Não sei se a receita conseguirá aos pretendidos objetivos do magistrado, mas ele terá, porventura, recordado como o protagonista da «Laranja Mecânica» mudara de comportamento depois de sujeito a tratamento similar. Por isso mesmo não seria mal pensado que os organizadores e participantes desse novo burburinho, fossem encarcerados em nome de uma Constituição, que proíbe explicitamente as atividades fascistas, recebendo como dose complementar a contínua visualização da série de Fernando Vendrell sobre Natália Correia, Vera Lagoa e Snu Abecassis, para entenderem quão indigente era o regime, que pretendem homenagear.

 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2018/12/um-castigo-que-poderia-ter-algumas.html

TEMPOS DE SALAZAR

 

(Virgínia da Silva Veiga, 28/12/2018)

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(Se pensam que já não há saudosistas do ditador e dos tempos da ditadura, desenganem-se. Esta “pérola” foi publicada em 26/12/2018:

“A Direita portuguesa tem enjeitado Salazar, mas deveria integrá-lo no seu pensamento, na sua ordem ideológica. O país real ainda se revê em Salazar, apesar de as esquerdas afirmarem repetidamente os óbvios e inventados defeitos do ditador, numa lavagem ao cérebro que não tem fim.” (Ver aqui).

Ou seja, quanto mais os tempos são de descontentamento larvar, terreno propício ao florescer dos populismos de todos os matizes, mais os saudosistas saem da toca.

Comentário da Estátua de Sal, 28/12/2018)


Agora querem uma manifestação em memória de Salazar. Acho bem. Em matéria de presidentes há portugueses que adoram múmias. Não sendo original, é bonito.

Para recordarmos tempos em que uma percentagem de Portugal vivia à luz da vela e, logo, não tinha frigoríficos nem televisores. Água canalizada? Casas de banho? Para quê se havia uma fonte lá na aldeia e uma retrete ao fundo do quintal?

Também era bonito ver crianças descalças, a escrever em lousas, a trabalhar em idade escolar ou entregues aos soldados americanos das Lages para poderem ter que comer. E as raparigas? Essas, as que vinham dos confins das aldeias, sem estradas nem transportes, para chorar a distância das famílias, em tempos em que servir alguém era emprego de luxo mesmo que o rendimento fosse comer os restos na cozinha dos patrões.

Chique, chique, era então ver a malta a pagar a passadores para dar o salto para França, para a Venezuela, mas pela calada da noite, montes fora, passando a Espanha, porque de outro modo ia tudo preso. Se não levasse um tiro, claro. A emigração era proibida porque era precisa malta de olhos fechados e mãos abertas, que trabalhasse muito e pedisse pouco. Ir lá para fora era diminuir o contingente, era, sobretudo, mostrar-lhes que havia outro mundo.

E os monopólios? Que lindos eram os monopólios portugueses num globo que já então se abria à concorrência!

Que saudades da guerra colonial, dos filhos que as mães portuguesas por lá perderam, dos aerogramas que enviavam às famílias, essa espécie de postais, feitos ao propósito das notícias que as rádios e as televisões estavam proibidas de dar, ditados às senhoras da Cruz Vermelha porque os mais dos soldados não sabiam ler nem escrever, mas “estavam bem graças a Deus”.

E tudo caladinho, pois claro, que piar traz à memória a anedota dos pássaros dentro da dita, cuja palavra não digo.

Gosto da ideia. Sobretudo gosto que seja propalada no Facebook. Porque então os mais dos portugueses, se houvesse tal coisa em tempos de Salazar, nem podiam participar porque eram analfabetos. Voltássemos, aliás, aos tempos do homem de Santa Comba e era o descalabro nas ações do Zuckerberg, não havia Facebook para ninguém porque isso da liberdade de expressão não dava para ter um livro lá por casa quanto mais uma porta aberta ao mundo.

Perguntem lá aos organizadores como é que fariam para divulgar as convocatórias, sem Facebook, sendo proibida a distribuição de panfletos e os ajuntamentos.

E apreendiam tudo, os desgraçados! Até romances. Ah, pois é!

Primeiro meteu-se na cabeça destes novos organizadores da confusão que Portugal é a França. Agora andam a inventar o estilo espanhol, uma trapalhada escusada por mexerem no túmulo de Franco.

Em matéria de saudosismos ou de mexer no que está no sítio e sossegado, também era bom lembrar àqueles outros que o Carmona também já morreu e é para estar sossegado.
Quando é que alguém ensina a essa gente que isto é Portugal e que quem olha para trás só vê passado?

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Reflexão avulsa (de fim-de-ano) …

2019
Na verdade, a Direita manifesta-se contra as ‘elites mundiais’ (transnacionais) que o neoliberalismo tem vindo a criar, contrapondo a emergência de ‘elites nacionais’ que, no concreto, em nada diferem dos grandes lóbis internacionais, a não ser no seu circunspecto âmbito paroquial e na reduzida escala. Não é de admirar, portanto,  que o próximo presidente do Brasil, apareça sob a capa de um exacerbado nacionalismo, a proclamar um Brasil ‘primeiro e forte’. Faz parte da ‘liturgia’ da Extrema-Direita, serve para tentar consolidar o sistema (capitalista), quando varrido por crises, como é o caso.

Na realidade, a Extrema-Direita é um braço da Direita (aparentemente civilizada e moderada) para fazer o ‘trabalho sujo’ quando se agudizam as crises do capitalismo que ciclicamente se instalam, fruto das suas contradições. Apresenta-se como ‘iliberal’ quando na verdade, é visceralmente anti-social. Por essa razão, elege o socialismo (seja de que matiz for) como o inimigo figadal e a sociedade como estrutura de coesão a desmembrar para se impor. Esta é em traços largos a caminhada de Bolsonaro com a agravante de nada termos aprendido com a História. 
O relativo ‘pudor’ da Extrema-Direita contra o ‘capitalismo selvagem’ que arrebanha muita gente é isso mesmo, não passa de uma reserva mental muito fluida e transitória e a sua natureza é puramente substitutiva, para não dizer paliativa. De facto, uma das grandes preocupações da Extrema-Direita é condicionar a sociedade aprofundando uma estratificação elitista da sociedade (do tipo das ‘castas’ que justificaram ‘servidões’) e a partir daí subverter a organização social, controlando-a à custa da limitação das liberdades, a de expressão à cabeça.

 

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2018/12/reflexao-avulsa-de-fim-de-ano.html

Entre as duas mandíbulas do torno da extrema-direita

Rémy HerreraRealizou-se a 22 de Dezembro o «Acto VI» na luta dos coletes amarelos em França. Para além de particularidades que são sinal não só de organização, mas de uma organização capaz de iludir os serviços de informações, verifica-se com crescente clareza que, em vez de responder a reivindicações que Macron reconheceu já serem legítimas, a opção do poder é a da intensificação da acção de um aparelho repressivo de Estado onde a extrema-direita tem uma muito forte presença.

A quem ouvisse os representantes dos sindicatos de polícias à saída do ministério do Interior na noite de 19 de Dezembro, pareceria que «as negociações tinham sido difíceis, muito difíceis». Fica portanto a saber-se que apenas algumas horas depois disso terão sido suficientes para que tenham obtido «os mais fortes avanços salariais» na profissão desde há 20 anos. Dois dias passados sobre o «Acto V dos coletes amarelos», a 17, várias organizações sindicais da polícia nacional tinham anunciado a sua intenção de proceder a uma jornada de «comissariados fechados» na quarta-feira 19 – uma vez que o direito à greve lhes é interdito. Christophe Castaner teve de largar lastro: as remunerações dos polícias são aumentadas em 120 euros para os jovens no início da carreira e em 15º para os mais antigos; é mais do que obtiveram os seus colegas da função pública – ou seja, absolutamente nada (quando das negociações de 20 de Dezembro) – ou os coletes amarelos – quase nada (dez dias antes).

Para quem não saiba quem é Christophe Castaner, recordemos que é o actual ministro do Interior do governo remodelado em Outubro passado pelo presidente da República no seguimento da inopinada demissão do seu predecessor. Antes disso, ocupou sucessivamente as funções de secretário de Estado encarregado das Relações com o Parlamento e de porta-voz do governo de Édouard Philippe.

Para os que não sabem quem é Christophe Castaner, recordemos que é o actual ministro do Interior do governo remodelado em Outubro passado pelo presidente da República no seguimento da demissão inopinada do seu predecessor. Antes disso, ocupou sucessivamente as funções de secretário de Estado encarregue das relações com o Parlamento e de porta-voz do governo de Édouard Philippe. E antes disso? Foi chefe do partido presidencial La République en marche (a partir de Novembro de 2017, porta-voz de Emmauel Macron durante a sua campanha presidencial (em 2017) e…membro do Partido socialista (a partir de 1986). E ainda antes? Na sua juventude, Christophe Castaner foi jogador de póquer em salas de jogo clandestinas e protegido de um dos padrinhos da máfia marselhesa, alcunhado o «Grand Blond», chefe de um bando de ladrões abatido com balas de 9 mm num ajuste de contas em 2008…Procurem simplesmente em “Wikipédia”, e depois se necessário em «tradução google» para se informarem. Tudo isto apenas com o objectivo de avaliar a que nível se situam hoje em dia os nossos governantes.

É verdade que há anos que os polícias se queixam de más condições de trabalho e de remuneração. Já para não falar dos 24 milhões de horas extraordinárias que o Estado continua a não lhes pagar, ou das despesas da caixa dos acidentes de trabalho que a Segurança social tarda em reembolsar quando sucede serem feridos…A trituradora neoliberal afecta igualmente as forças da ordem. Em múltiplas ocasiões, na televisão ou na internet, polícias não identificados têm dado testemunho do seu cansaço, e para alguns do seu mal-estar face às directivas dos seus superiores (políticos) exigindo deles um endurecimento da repressão dirigida contra os coletes amarelos ou, antes, dos estudantes contestatários, dos ocupantes de «Zonas a interditar» (ZAD), dos militantes ecologistas ou dos manifestantes que se opõem à flexibilização do mercado de trabalho. As línguas desatam-se: «São os nossos amigos, nossos irmãos, parentes, crianças que nos ordenam reprimir» ouve-se da boca de polícias…

O ponto de viragem é claramente identificável: é o estado de urgência, decretado sobre todo o território nacional em Novembro de 2015 depois dos atentados terroristas que atingiram o país, que desencadeou uma aterrorizante espiral repressiva. Foi sob as pressões e ameaças dessa extrema-direita que é o Islão político desde a Al-quaeda ao Daesh que ele foi imposto ao povo francês. E foi renovado cinco vezes consecutivas. Primeira mandíbula do torno. É cero que o estado de urgência foi levantado em 2017, mas o facto é que o essencial das disposições excepcionais que ele previa passaram a ter força de lei: rusgas, interpelações preventivas, perímetros de protecção, detenções domiciliárias individuais, controlos de fronteira são de agora em diante autorizadas no quadro da lei «reforçando a segurança interna e a luta contra o terrorismo» de 30 de Outubro de 2017. Daí o desvio desse arsenal jurídico de excepção no sentido de fazer regredir as liberdades públicas em França. A ponto de nos dias de hoje os direitos de se manifestar e de exprimir as suas opiniões estarem em perigo.

Todos os que participaram recentemente em manifestações no país sabem aquilo que as organizações de defesa dos direitos do Homem, e mesmo os polícias como já dissemos, e também jornalistas quando acontece serem espancados, há meses denunciavam: muitas das intervenções das forças da ordem são desproporcionadas e excessivamente violentas. Disparos de balas de borracha à altura da cabeça, utilização frequente de granadas ensurdecedoras ou de confinamento, utilização sistemática de gases lacrimogéneos e de canhões de água contra que protesta, prática do envolvimento de grupos impedindo-os de se juntar a outros manifestantes, interpelações arbitrárias, confiscação de material médico dos «street medics» (voluntários que acompanham os percursos para tratar de feridos), intimidações, provocações gratuitas, por vezes insultos, detenção de menores…Tudo factos que chocam e inquietam os Franceses. Mas é precisamente isso que é pretendido. Para que cesse a sua revolta.

A partir dos primeiros dias da mobilização dos coletes amarelos, circulou o rumor de que eles eram manipulados pelo Rassemblement national, que se trava de um «golpe de força» teleguiado pelo partido de extrema-direita de Marine Le Pen – segunda mandíbula do torno. É essa efectivamente a linha d argumentação do ministro do Interior. «Provas»? Algumas frases xenófobas apanhadas aqui ou ali entre os manifestantes. Entre várias centenas de milhares de coletes amarelos, teria sido miraculoso não se encontrar entre eles alguns abrutalhados racistas. Daí a extrapolar, é um passo que o sr. Castaner adianta alegremente. É astucioso. Desse modo ele tenta 1) descredibilizar o conjunto dos coletes amarelos; 2) manter fora da rebelião actual os jovens suburbanos, onde é importante o peso de pessoas oriundas da imigração; e 3) confecionar para Emmanuel Macron uma imagem fictícia de baluarte contra o «fascismo».

A extrema-direita falhou até ao momento na recuperação da liderança da mobilização – e isso pela razão fundamental de que, na sua imensa maioria, o povo francês não é racista. Ora o que tem vindo a desenhar-se, discretamente, é um deslizamento do poder no sentido da extrema-direita. Sondagens indicam que mais de metade dos polícias e dos militares teriam simpatia ou votariam pelo Rassemblement national. A extrema-direita está no próprio cerne do aparelho repressivo de Estado. Aliás, ela revelou-se de novo há alguns dias numa carta-aberta anti-imigrantes subscrita por um ex-ministro da Defesa e por uma dezena de oficiais superiores das forças armadas denunciando não apenas o «pacto mundial para as migrações» adoptado sob a égide da ONU na cimeira de Marraquexe mas também «o Islão enquanto ameaça para a França».

Os cadernos reivindicativos dos coletes amarelos reclamam explicitamente que «os que pedem asilo sejam bem tratados […] devemos-lhes alojamento, segurança, alimentação, bem como educação para os menores». Sejamos portanto bem claros. Não são os coletes amarelos que são xenófobos e racistas, mas componentes cada vez mais amplas das elites francesas. Elites que não hesitarão um instante, quando chegar o pós-Macron, em confiar o poder à extrema-direita se tal se revelar necessário. Ou seja, se a sua odiosamente iníqua ordem capitalista estivesse verdadeiramente ameaçada; se o povo francês, sedento de justiça, com o coração cheio de esperanças reencontradas, proclamando a alegria de ter de novo ganho a sua dignidade, reunido na revolta e consciente da sua força, conseguisse levantar-se e tornar-se senhor de um destino colectivo solidário e progressista.

Servilmente curvado aos pés dos milionários, o presidente Macron optou por não dar resposta às expectativas profundas dos franceses, e mesmo de enveredar cada dia mais pela via da repressão. Esta «estratégia do apodrecimento» faz o jogo do Rassemblement national. Porque apesar das suas diferenças encenadas pelo media – que são diferenças de grau, não de natureza – não existe realmente descontinuidade entre a direita da alta finança, que Emmanuel Macron serve, e a extrema-direita da burguesia reaccionária de Marine Le Pen; um terrível e dramático continuum político une-os na defesa de um capitalismo agonizante. Um afirma-o neoliberal-globalizado, outro obscurantista-nacionalista, mas ambos o querem. Para além dos ódios pessoais recíprocos, interesses comuns de classe saberão em breve aproximá-los para se esforçarem para salvar o seu sistema. A todo o custo. O povo deverá encontrar em si próprio a energia para alargar as suas lutas a fim de conseguir libertar-se do mortífero torno em que o encerram as mandíbulas do monstro bicéfalo da extrema-direita: de um lado o islão político terrorista e retrógrado, do outro o chauvinismo burguês egoísta e racista. É aí que o perigo se encontra.

Entretanto, no sábado 22 de Dezembro, para o «Acto VI» da sua mobilização, os coletes amarelos puseram à prova e eficácia dos serviços de informações. Vigiados de muito perto pelos olhos o ministério do Interior, as suas redes sociais faziam apelo a uma concentração – quão simbólica – frente às vedações do castelo de Versalhes. O prefeito apressou-se a ordenar o seu encerramento e enviou igualmente a polícia de choque (CRS) para guardar as proximidades e proteger as lojas. Mas tratava-se de um engodo! Uma pequena vintena de coletes amarelos, não mais do que isso, estava presente no local na manhã de 22, para se rir da brincadeira e fazer troça das forças da ordem vidas em massa…

Na mesma altura, em Paris, o grosso dos seus camaradas vestidos de amarelo, prevenidos à última da hora de modo a conservar o efeito de surpresa, reuniam-se nas proximidades da praça da Étoile ou em volta da basílica do Sacré-Coeur no alto das encostas da Butte Montmartre, nomeadamente. E como os dispositivos de segurança parisienses se tinham gabado no decurso das semanas precedentes de serem «extremamente móveis», os grupos de coletes amarelos jogaram ao gato e ao rato com eles, fazendo-os correr todo o dia nas ruas da capital, bloqueando aqui e ali, ao acaso das suas deslocações, os eixos de circulação, sob os concertos de buzinas de automobilistas solidários, e os aplausos de turistas divertidos. Boas festas de Natal para todos em França!

Os jornais televisivos acharam por bem repetir ciclicamente os «dois acontecimentos mais importantes de 22». Um vídeo registado nos Champs-Élysées mostrando três polícias de moto atacados por uma multidão furiosa a golpes de …trotinete (se as imagens são claras)! Como se isso se assemelhasse `s iniciativas levadas a cabo nesse dia por dezenas de coletes amarelos no país! E as declarações antissemitas que um jornalista testemunhou no metro! Como se tal sintetizasse uma opinião representativa dos coletes amarelos! Felizmente que o ridículo não mata; se matasse, há muito que não existiam media na Macrónia!

Entretanto, neste 22 de Dezembro, a polícia não perdeu completamente o seu tempo. Conseguiu deter, em diferentes pontos do território, várias «figuras» particularmente activas dos coletes amarelos. É o caso de Éric Drouet, interpelado a meio do dia na zona da Madeleine em Paris e detido por «organização de forma ilícita de uma manifestação, participação num agrupamento formado tendo em vista violências ou degradações, e porte de arma proibida». A arma em questão seria um pedaço de madeira que o seu proprietário, motorista de profissão, traz sempre consigo como meio de defesa, segundo o seu advogado. Quanto ao resto, e uma vez que Éric Drouet era nacionalmente conhecido por ter apelado a «entrar no Élisée», algumas pessoas interrogam-se por que razão o ministro Édouard Philippe tinha desejado falar com ele…e o próprio presidente Macron tinha lançado, em pleno «caso Benalla» no final do passado mês de Julho, e sem que ninguém tenha percebido então a quem se dirigia: «Se estão à procura de um responsável, ele está à vossa frente! Venham procura-lo! E este responsável responde ao povo francês, ao povo soberano». Imediatamente após ser anunciada a interpelação a Éric Drouet, centenas de coletes amarelos, surgidos desse povo soberano, todos autoproclamando-se «líderes do movimento», reivindicavam a sua libertação…ou então serem presos também!

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Leia original aqui

“Há todas as razões para ter muito medo”

Entrevista com Eduardo Paz Ferreira, Professor Catedrático da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa

Inquietudes em 2019

“A nomeação do juiz Sérgio Moro para Ministro da Justiça é um enorme escândalo e um sinal do que está para vir em termos da defesa dos direitos humanos”, alerta o professor Eduardo Paz Ferreira ao acrescentar:“Depois da extraordinária figura das democracias iliberais, arriscamo-nos agora a ter as ditaduras democráticas”

Jornal Tornado: Ao reflectir sobre os acontecimentos relevantes que ocorreram na Europa e no Mundo em 2018, quais elege como os mais preocupantes?

Eduardo Paz Ferreira:Neste tempo de chumbo em que vivemos sucedem-se as más notícias e não faria sentido reter a sua totalidade. Uma delas merece, no entanto, uma especial atenção. Falo, naturalmente, da eleição presidencial brasileira que levou ao poder Bolsonaro, convicto defensor da ditadura brasileira e portador de um novo projecto ditatorial que, na sua opinião e na dos seus apoiantes, será uma democracia, porque legitimada por uma votação popular em que, apesar de alguma dúvidas que se possam colocar quanto a eventuais fraudes, não deixa de ser expressiva.

Já agora e para memória futura será de não esquecer as várias reuniões havidas em Portugal entre juristas portugueses e os magistrados brasileiros responsáveis pelo “golpe de estado judicial”»
Eduardo Paz Ferreira

Depois da extraordinária figura das democracias iliberais, arriscamo-nos agora a ter as ditaduras democráticas.

A eleição de Bolsonaro marca um passo mais no caminho encetado por Trump que é, ainda assim, uma solução com algumas diferenças.

Quais são essas diferenças?

Bolsonaro, como o presidente filipino, Dudarte, é um defensor da justiça privada e dos homicídios. Declarações e indícios vários não deixam dúvidas de que vêm aí tempos de perseguição política e brutalidade pessoal.

A tudo isto, que já é muito, junta-se a certeza do desinteresse pela pobreza, do empenho em aumentar a desigualdade e em levar por diante crimes ecológicos impensáveis, designadamente no Amazonas.

«O tempo não é mais para tacticismos e jogos de habilidade política, mas sim para uma total determinação de salvar o legado civilizacional do Estado de Direito»

Não creio que existam muitas atenuantes para a parcela do povo brasileiro que votou nesse sentido, mas ainda assim não é possível deixar de recordar a manipulação pelos media, a encenação do atentado contra Bolsonaro e, sobretudo, a politização da justiça, assente em inúmeras fraudes grosseiras e na total violação da isenção que se espera dos magistrados.

A nomeação do juiz Sérgio Moro para Ministro da Justiça é um enorme escândalo e um sinal do que está para vir em termos da defesa dos direitos humanos. Há todas as razões para ter muito medo.

Convirá não esquecer que o Brasil é um país cuja importância ultrapassa em muito outros Estados onde a ditadura ameaça ou se instalou e o peso que pode ter na América Latina, lançada numa deriva de direita.

A eleição brasileira, com as posições abjectas de Fernando Henrique Cardoso e Círio Gomes, veio recordar que na génese da subida dos regimes nazis ao poder no século passado esteve a cobardia e o oportunismo de direita democrática, que quis apanhar o comboio que lhe parecia ir triunfar.

Já agora e para memória futura será de não esquecer as várias reuniões havidas em Portugal entre juristas portugueses e os magistrados brasileiros responsáveis pelo “golpe de estado judicial”.

“A extrema-direita vai-se afirmando”

Geograficamente mais perto de nós, muitas eleições se têm sucedido com resultados terríveis. É o caso da Itália com um governo de extrema-esquerda perseguidor de emigrantes e refugiados.

Seguramente não por acaso, a poucos dias de terminar o seu “mandato”, Temer fez questão de entregar à Itália Cesar Battisti, condenado a prisão perpétua por terrorismo de esquerda nos anos 70, facto que o presidente italiano assinalou como “um testemunho significativo da amizade antiga e sólida entre o Brasil e a Itália [..]”.


«Coragem, Coragem sempre, mesmo quando tudo parece perdido, porque só a nossa desistência pode assegurar a derrota»


Entretanto, um pouco por todos os lados, a extrema-direita vai-se afirmando. Aqui mesmo ao lado, na Andaluzia, com a entrada em força do vox, no parlamento regional. Na Alemanha, com o ocaso de Merkel, acompanhado pela ascensão da extrema-direita. Uma ou outra eleição – o Luxemburgo, por exemplo – lá vão dando uma vaga esperança, até pelo reforço de posições de forças como os Verdes.

Os coletes amarelos em França e a rápida tentativa de os importar para Portugal são outro factor de preocupação pela violência subjacente e pela confusão entre uma esquerda inútil e acéfala e uma extrema-direita inteligente, determinada e com os meios financeiros.

Perante esta inquietação com o caminho trilhado por governantes e políticos, que mensagem quer deixar a quem executa, legisla, decide e julga?

Que saibam perceber quais são as linhas vermelhas que não se podem ultrapassar nem deixar ultrapassar. Que compreendam que o tempo não é mais para tacticismos e jogos de habilidade política, mas sim para uma total determinação de salvar o legado civilizacional do Estado de Direito. Que é preciso acabar com a desigualdade na distribuição da riqueza, que lança a confusão e serve àqueles que dela beneficiam. Que se descubra uma forma de falar para as populações, que elas entendam. Que se não promova quem apenas quer o mal dos povos. Coragem, Coragem sempre, mesmo quando tudo parece perdido, porque só a nossa desistência pode assegurar a derrota.

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/eduardo-paz-ferreira-2019-ha-todas-as-razoes-para-ter-muito-medo/

No reino do vale tudo, vale tudo

(Francisco Louçã, in Expresso, 22/12/2018)

LOUCA3

O que há de novo na extrema-direita é que o seu espaço político não é saudade do império, mas a globalização madrasta e as vítimas da austeridade


De surpresa em surpresa, a extrema-direita cresce na Europa. Desde Trump, esse movimento tornou-se um dos protagonistas da política. Tem base social, imaginário e tecnologia. E torna-se viável em Portugal, para choque de muitos.

EXCEÇÃO PORTUGUESA?

A extrema-direita tem entre nós uma raiz histórica, há anos houve gente suficiente para votar Salazar como a figura do século XX. Mas tentativas de fazer renascer uma política fascizante logo após a revolução de 1974, mesmo quando Spínola, Champalimaud e outros apareciam a liderar e a financiar os seus grupos armados, tinham sido goradas pela infâmia. Absorvidos pouco depois em partidos tradicionais, essa direita readaptou-se, alguns chegaram a ministros, todos fizeram pela vida. E assim foram passando os anos.

Quatro décadas depois, é uma outra extrema-direita que emerge. O que há de novo é que o seu espaço político não é saudade do império, mas a globalização madrasta; não é o delírio ideológico, mas o esvaziamento democrático. O seu impacto é entre vítimas da austeridade. E essa novidade faz sistema: esses populistas dirigem hoje uma parte maior da população mundial do que os governos dos partidos tradicionais.

Tem sido muito discutida a maravilha tecnológica que abriu as oportunidades da expansão universal a este discurso de ódio. É um facto que as redes sociais constituem uma forma notável para definir uma atmosfera em que se respire pavor e, sem esta tecnologia, a extrema-direita não conseguiria criar o seu universo próprio, e precisa dele para se tornar eleitoralmente viável. Ora, a tecnologia do discurso do ódio é eficaz se tiver quem acredite nele. A questão é que há gente para isso, alguns dos que sentem como a promessa deslumbrante de um mundo de néon abalroa a realidade do salário baixo, da filha desempregada, da biografia gasta no comboio para os subúrbios, tudo o que a austeridade agravou. Se os donos do país se exibem em desfalques, se governantes sorumbáticos explicam que cumprem ordens de uma capital distante, ou se a vida anda para trás, como se diz em bom português, esta tensão torna-se explosiva.

A MANHA DOS ‘COLETES AMARELOS’

Ora, se a esquerda não responde a esta violência estrutural e não mobiliza o povo para soluções, o espaço político é ocupado por qualquer discurso de ódio. Entra então a canalização da frustração com a invisibilidade — Macron falou de “gente que não é nada” e Clinton dos “deploráveis” — contra algum alvo vulnerável, os ciganos, as mulheres, os funcionários públicos, os homossexuais.

Em Portugal, a operação ‘coletes amarelos’ já permitiu à extrema-direita constituir listas para a campanha subterrânea pelo WhatsApp. O segundo passo é encontrar o discurso certo para assustar mas não demasiado. Com as sondagens a descobrirem que pode haver uma surpresa no terreno propício das europeias (em que Marinho e Pinto teve 7%, mesmo que logo depois desbancasse para quase nada), a extrema-direita, que já tentou no passado inúmeros protestos do “milhão” contra “os políticos”, tem pela primeira vez na sua mão a possibilidade de conjugar o ressentimento nas redes sociais com algum discurso religioso ou apocalíptico que prometa tudo e o seu contrário. Em Espanha, isto só resultou eleitoralmente quando dissidentes do principal partido da direita se apresentaram para esse discurso. Já lá estamos.

AGORA, O POVO

Para o país, a resposta é a mais difícil. A começar pelo espaço e pelo imaginário: se esta nova extrema-direita encapuzada imita a mobilização popular na rua, que a esquerda ocupe a rua de cara lavada; se promete mundos e fundos, que a esquerda consiga o mais trabalhoso. Assim, para vencer esse populismo do ódio, a disputa essencial está e estará entre a esquerda e quem impede a solução para a habitação que falta, a punição dos desvarios financeiros, o direito de quem trabalha, o rigor dos representantes e a soberania da nação.

Depois de tantos passos nestes três anos, a política vai decidir-se na disputa de mudanças estruturais que possam levar à democratização da vida. Não vale a pena esperar por algum consenso para tanto, já se sabe que de quem manda só ouviremos que o Natal é todos os dias. É com os de baixo que a esquerda ganha ou perde.


O melhor negócio do mundo

Só há no mundo um negócio melhor, dizia Isabel Vaz, então dirigente da Espírito Santo Saúde (hoje dirigente da Fosun), e é o das armas. Mas o da saúde é apetitoso. A saúde é um maná porque a procura é indiferente ao preço, dado tratar-se de uma necessidade básica: pagaríamos o que quer que fosse pelo tratamento dos nossos familiares, se não houvesse um sistema público e gratuito. E essa é a explicação para a mobilização de tantos interesses em torno da definição de uma nova Lei de Bases da Saúde.

A saúde privada não seria, aliás, um problema, se fosse de adesão estritamente voluntária, caso esse negócio não estivesse instalado a cavalo do Estado e tendo como premissa a degradação do sistema público. Essa é a particularidade do debate atual: os privados não estão a reclamar o seu direito ao negócio, que não tem qualquer limitação, podem construir os hospitais e clínicas que quiserem desde que cumpram os requisitos legais; estão a exigir que o Estado lhes pague esses hospitais ou lhes entregue os hospitais públicos. Por isso mesmo, precisam das parcerias público-privado para recrutarem pessoal médico e administradores e constituírem o seu poder onde ele tem que estar, instituindo uma renda paga pelo Estado. O exemplo de Braga é esclarecedor: os Mellos querem continuar a gerir o hospital desde que o Estado pague mais €50 mIlhões. O próximo passo seria criarem cursos privados para a formação de médicos.

BELEM1

A forma como se movem estes interesses é de antologia. O anterior ministro nomeou uma socialista que foi assessora da Espírito Santo Saúde para dirigir a comissão que proporia a nova Lei de Bases. Personalidades do PS, PSD e CDS, junto com alguns empresários da saúde, iniciaram uma campanha por uma lei que proteja o privado (um elogio a Henrique Monteiro, um dos seus signatários, por ter anunciado a sua declaração de interesses num artigo recente). E, quando o Governo apresenta outra proposta, a pressão é tal que o Presidente toma a posição inédita de anunciar a sua preferência pelo modelo de Maria de Belém (foto) e por um acordo PS-PSD (que, aliás, não foi condição para aprovação da presente Lei de Bases e é uma exigência sem fundamento constitucional).

A procissão ainda vai no adro, embora o Governo tenha escolhido um debate apressado, depois de se ter atrasado com jogos internos. Devia ter começado a preparar a sua proposta há dois anos, quando Arnaut e Semedo, cuja lei me parece adequada, lhe comunicaram a sua iniciativa. Agora, Costa apresenta a sua lei como uma recuperação do serviço público, apesar de, como revelado pelo Expresso, ter imposto na 25ª hora uma alteração essencial para proteger os privados. Então, para os defensores do serviço público, a escolha passa a ser entre umas boas frases que deixem o sistema intocado e degradado ou um plano exigente de recuperação do investimento e da estrutura do SNS, que será caro, apoiado numa lei que faça o que diz. Quem conhece os hospitais saberá escolher.


O sucesso argentino do FMI

Macri, um dos rostos da recuperação da direita na América Latina, ocupa a Presidência da Argentina desde janeiro de 2016 e, em dois anos, conseguiu fazer disparar a dívida em moeda estrangeira de 35% para 60% do PIB. Tanto bastou para uma crise de pagamentos em abril deste ano, o que o levou a pedir a intervenção do FMI.

O FMI aprovou um empréstimo de 50 mil milhões de dólares, o maior da sua história, com as condições do costume: redução da despesa primária, corte de rendimentos, corte de gastos sociais, um programa de privatizações. O sucesso estava garantido, e a organização previa em junho deste ano que em 2018 e 2019 a economia cresceria 2%. Tudo ia correr bem, a solução funciona. Quatro meses, o FMI reviu as suas próprias previsões e anuncia que espera que em dois anos o PIB regrida 6,5%, uma dura recessão. Os realistas dirão que se uma receita não funciona uma e tantas vezes, repeti-la não trará resultados diferentes.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

O plano da extrema-direita de Bannon para controlar a Europa

VÍDEO

Uma esclarecedora entrevista sobre os planos do populismo para a Europa, feita pelo The Guardian.

Steve Bannon por detrás do plano da extrema-direita para controlar a Europa.

Rightwing populists are on the rise across Europe. With European parliamentary elections approaching, they are being offered help from Donald Trump’s former chief strategist, Steve Bannon. Over the last four months, the Guardian’s Paul Lewis followed his operation in Brussels, Rome and Venice – challenging Bannon over his media hype and the legality of his intervention.

The Guardian

Um Herói da Resistência

19 de Dezembro de 1961: Assassinato de José Dias Coelho pela PIDE, no Tribunal Militar (1977).

No dia 19 de Dezembro de 1961, o réu e os seus colegas Manuel Lavado e Pedro Ferreira, todos então agentes da Polícia Internacional e de Defesa do Estado, foram encarregados pelo chefe da respectiva brigada José Gonçalves, de localizarem e prenderem um indivíduo, JOSÉ ANTÓNIO DIAS COELHO, então militante na clandestinidade do Partido Comunista Português.

Para tal efeito, o réu e os referidos seus colegas foram transportados de automóvel à Rua dos Lusíadas desta cidade de Lisboa, onde, por volta das 19 horas, se colocaram a cerca de 100 metros uns dos outros, aguardando a vinda do referido indivíduo que calculavam passar por essa altura pela dita rua».

José Dias Coelho (1923-1961)

A Sentença do Tribunal Militar Territorial de Lisboa, de 5 de Janeiro de 1977

(Excertos)

[Integralmente publicada na revista “Sub Judice – Justiça e Sociedade”, n.º 25, Abril/Junho 2003, pp. 117-123, e reproduzida, juntamente com a acta da audiência de julgamento, no blogue “Malomil”, publicação de 13/3/2014 – A morte saiu à rua.

A – LIBELO ACUSATÓRIO:

“O Exmo. Promotor de Justiça junto deste Tribunal acusa o réu ANTÓNIO DOMINGUES, casado, ex-agente de 1.ª classe da extinta Direcção-Gera1 de Segurança, de 44 anos de idade, filho de Manuel Domingues e de Belarmina Esteves, natural de Gave, Melgaço, e ora preso no Forte de Caxias, de ter cometido um crime previsto e punido pelo artº 349º do Código Penal, concorrendo as agravantes 11.ª (espera), 19.ª (noite), 25.ª (especial obrigação) e 28.ª (arma) do artº 34º do mesmo diploma, porquanto, no dia 19 de Dezembro de 1961, os então agentes da PIDE ANTÓNIO DOMINGUES, MANUEL LAVADO e PEDRO FERREIRA, identificados nos autos, foram encarregados pelo então chefe de brigada da mesma Polícia JOSÉ GONÇALVES, de localizar e prender JOSÉ ANTÓNIO DIAS COELHO, também identificado nos autos e militante do Partido Comunista Português.

Para tal efeito, deslocaram-se à zona da Rua dos Lusíadas, desta cidade de Lisboa, onde se colocaram já de noite, cerca das 19 horas, a cerca de 100 metros uns dos outros, aguardando a vinda do referido JOSÉ ANTÓNIO DIAS COELHO.

Tendo este passado pela Rua dos Lusíadas cerca das 20 horas e tendo-se apercebido ali da presença dos referidos agentes, começou a correr pela referida Rua dos Lusíadas, derivando depois para a Rua da Creche no sentido do Largo do Calvário.

Em sua perseguição correram os agentes referidos.

Já na Rua da Creche, sensivelmente em frente do nº 30 de polícia, foi o JOSÉ ANTÓNIO DIAS COELHO agarrado pelo agente MANUEL LAVADO.

Entretanto, chegou junto dele o réu que desfechou dois tiros de pistola marca «Star» calibre 7,65 mm, examinada nos autos e que lhe estava distribuída, sobre o referido JOSÉ ANTÓNIO DIAS COELHO.

Um dos tiros disparados veio a atingir o agente MANUEL LAVADO na manga da gabardina, casaco e camisola do braço direito e quase ao nível do ombro, sem contudo o atingir.

O outro tiro atingiu a vítima JOSÉ ANTÓNIO DIAS COELHO, na região esternal, provocando-lhe as lesões descritas no relatório da autópsia, junto aos autos, as quais foram causa necessária da sua morte.

O projéctil perfurou o esterno, por onde entrou, dirigido de diante para trás e um pouco da esquerda para a direita e perfurou ainda, no seu trajecto, a cartilagem da 5.ª costela esquerda, o saco pericárdico, o coração, produzindo hemopericárdio, hemotorax esquerdo, edema pulmonar, indo-se alojar sob a pleura visceral donde foi retirado, sendo a morte de JOSÉ ANTÓNIO DIAS COELHO devida a hemorragia consecutiva e perfuração traumática do coração (relatório da autópsia de fls. 63 e seguintes).

O réu disparou a referida arma com o cano encostado ou quase encostado à roupa da vítima DIAS COELHO.

Na verdade, no forro da gabardina, na face anterior, que a vítima vestia, encontraram-se partículas de pólvora resultantes do disparo.

O réu quis matar o JOSÉ ANTÓNIO DIAS COELHO e tinha perfeito conhecimento do seu acto. (…)”

B – DEFESA DO RÉU:

“Defende-se o réu pela forma constante da sua contestação escrita junta ao processo, a qual se dá por reproduzida para todos os efeitos legais:

Alega, em síntese, que, na data indicada, o réu tropeçou e caiu, saltando-se lhe a pistola que levava enfiada na cintura.

E foi ao recuperar a arma que ela se disparou acidentalmente e por uma só vez, indo a respectiva bala atravessar a manga da gabardina do MANUEL LAVADO e atingir a vítima.

Assim, dado que o disparo foi fortuito, o réu não cometeu, em relação ao processo principal, qualquer crime, não ter tido a intenção de matar ou ferir a vítima.”

(…)

José Dias Coelho in A morte saiu à rua

C – FACTOS DADOS POR PROVADOS PELO TRIBUNAL

“Discutida a causa, o Tribunal, por unanimidade, considerou provado o seguinte:

No dia 19 de Dezembro de 1961, o réu e os seus colegas Manuel Lavado e Pedro Ferreira, todos então agentes da Polícia Internacional e de Defesa do Estado, foram encarregados pelo chefe da respectiva brigada José Gonçalves, de localizarem e prenderem um indivíduo, JOSÉ ANTÓNIO DIAS COELHO, então militante na clandestinidade do Partido Comunista Português.

Para tal efeito, o réu e os referidos seus colegas foram transportados de automóvel à Rua dos Lusíadas desta cidade de Lisboa, onde, por volta das 19 horas, se colocaram a cerca de 100 metros uns dos outros, aguardando a vinda do referido indivíduo que calculavam passar por essa altura pela dita rua.

Esta via desenvolve-se a descer no sentido mais ou menos Norte-Sul, sendo atravessada perpendicularmente pelas ruas Leão de Oliveira e da Creche.

Os mencionados agentes distribuíram-se de forma a que o Pedro Ferreira ficasse para cima da Rua Leão de Oliveira, o réu à esquina da Rua da Creche e o Lavado a meia distância entre os dois, todos no passeio do lado poente da rua dos Lusíadas.

Cerca das 20 horas, a vítima aproximou-se do local e entrou numa leitaria então situada na Rua dos Lusíadas, um pouco a norte do local onde se encontrava o Pedro Ferreira.

Este avisou os seus colegas, reunindo-se todos no sítio onde se tinha colocado o Manuel Lavado.

Logo após, a vítima saiu da leitaria e desceu a Rua dos Lusíadas, pelo passeio do lado poente.

Quando a vítima se aproximou do réu e seus companheiros, o réu mandou o Pedro Ferreira buscar o automóvel da P.I.D.E. que se encontrava a certa distância com o respectivo motorista, tendo o Pedro Ferreira começado a subir a rua.

Entretanto, o Dias Coelho, apercebendo-se da presença no local de agentes da P.I.D.E., gritou: «Pide, Pide», começando a correr pela referida Rua dos Lusíadas, no sentido da Rua da Creche e, chegado ao cruzamento respectivo, derivou para esta rua, no sentido do Largo do Calvário.

Em sua perseguição, correram o réu e o Manuel Lavado.

Já na Rua da Creche, um pouco abaixo do prédio com o nº 30 de polícia e no passeio do lado sul, foi o Dias Coelho agarrado por um braço pelo Manuel Lavado, facto que levou aquele a voltar-se, ficando em posição oblíqua a este.

Simultaneamente, chegou junto da vítima o réu que, em andamento, disparou sucessivamente dois tiros com a pistola de marca «Star», calibre 7,65 mm, examinada a fls. 48, que lhe estava distribuída e entretanto empunhara, em direcção ao JOSÉ ANTÓNIO DIAS COELHO.

O primeiro destes tiros foi disparado a distância não exactamente determinada mas superior a meio metro, tendo-se perdido o respectivo projéctil cuja trajectória e localização posterior não foi possível serem apuradas.

O segundo tiro foi disparado estando a arma muito próxima da roupa da vítima, tendo o respectivo projéctil atingido o Dias Coelho na região esternal, provocando-lhe as lesões descritas no relatório da autópsia de fls. 64 e seguintes, as quais necessariamente lhe produziram a morte.

A bala perfurou o esterno e, dirigindo-se de diante para trás e um pouco da direita para a esquerda, perfurou ainda no seu trajecto a cartilagem da 5.ª costela esquerda, o saco pericárdico e o coração, produzindo hemopericárdio, hemotorax esquerdo e edema pulmonar, indo alojar-se sob a pleura visceral donde foi retirada.

A morte da vítima foi devida a hemorragia consecutiva e perfuração traumática do coração.

Na face anterior do forro da gabardina que a vítima então envergava encontraram-se partículas de pólvora.

O réu disparou voluntariamente os citados tiros com intenção de ferir o DIAS COELHO e evitar assim que ele se escapasse, frustando-se a missão de que o réu estava encarregado.

(…)

Após ter sido ferida, a vítima foi amparada pelo réu e pelo Lavado, sendo transportada de seguida ao Hospital da CUF, de táxi.

Neste hospital foram ministrados socorros ao DIAS COELHO que, no entanto, faleceu cerca das 20 horas e 40 minutos do referido dia.

Nessa noite, a vítima foi transportada para a morgue e ali registada como «pessoa cuja identidade se desconhece».

O réu confessou espontaneamente que tinha disparado o tiro que atingiu a vítima e os demais factos até então ocorridos, embora negasse a voluntariedade do disparo.

O réu tinha bom comportamento anteriormente aos referidos factos (A circunstância do exercício do cargo de agente da P.I.D.E. ser hoje punido, não significa, no entender do Tribunal, por si só, perda de bom comportamento). O réu possui vários louvores.

O réu disparou sobre a vítima com o propósito de evitar que esta fugisse e assim se frustasse a missão de que ele réu fora investido.

(…)

Não se provaram quaisquer outros factos, nomeadamente que o réu tivesse querido matar a vítima ou que ao disparar os tiros, tivesse desejado ou previsto tal morte, que ocorreu independentemente da sua intenção.
Também se não provou que qualquer dos projécteis disparados pelo réu tivesse atravessado a manga da gabardina ou outra peça da roupa envergada pelo Manuel Lavado, que o réu e os seus colegas tivessem a missão de identificar a vítima ou que a sinalética deste lhes fosse fornecida, que o réu e os seus companheiros ignorassem ou conhecessem a identidade da pessoa a prender, (…) que o réu tivesse tropeçado, desequilibrado, cambaleado ou caído ou ainda que se tivesse ferido na palma da mão, que a arma do réu tivesse saltado por virtude da queda deste, que o réu tivesse procurado recuperar a mesma arma ou que esta se tivesse disparado acidentalmente (…)”

José Dias Coelho in A morte saiu à rua

D – QUALIFICAÇÃO JURÍDICA DOS FACTOS

“É evidente, em face dos mesmos factos, que se não provou ter o réu cometido o crime previsto e punido pelo artº 349º do Código Penal, de que vinha acusado no processo principal, pois igualmente se não provou que ele tivesse agido com intenção de matar a vítima, elemento essencial do referido crime.

Também se não provou que o réu tivesse previsto, desejado ou aceite a morte da vítima, pelo que nem sequer se pode ponderar a hipótese de dolo eventual que a doutrina e a jurisprudência têm quase pacificamente aceite e igualado, para efeitos de enquadramento legal, ao dolo directo.

Porém, é igualmente nítido que, tendo o réu disparado voluntariamente um tiro em direcção ao Dias Coelho, com intenção de o ferir, sendo tal tiro causa necessária da sua morte, tal facto constitui ofensa corporal que produz a morte ou homicídio preter-intencional integrando o crime previsto e punido pelo artº 361º, § único, do Código Penal, para o qual se faz a necessária convolação.

E – MEDIDA DA PENA

“A favor do réu provaram-se as atenuantes do bom comportamento anterior, da confissão parcial dos factos, de possuir vários louvores e de ter agido com o propósito de evitar ver frustrada a missão de que estava encarregado, circunstâncias respectivamente 1.ª e 23.ª, esta por três vezes, do artº 39º do mencionado Código.

Ponderadas as agravantes e as atenuantes, naquelas se considerando a agravação ordenada pelo referido artº 361º § único e a acumulação de actos ilícitos, atendendo a que o réu agiu com dolo pouco intenso e que tem personalidade normal, entende o Tribunal que a pena correspondente a este crime se deve graduar um pouco abaixo da metade da sua duração máxima.

(…)

Pelo exposto, o Tribuna1, por unanimidade, julga as acusações procedentes e provadas, sendo a do processo principal nos termos expostos de convolação, pelo que, ponderado o disposto no artº 84º do Código Penal (…) condena o réu ANTÓNIO DOMINGUES, como autor material de um crime previsto e punido pelo artº 361º, § único, do Código Penal (…) [na pena] de três (3) anos e nove (9) meses de prisão maior (…).

(…)

De harmonia com o artº 3º do Dec.-Lei nº 729/75, de 22 de Dezembro, declara-se (…) perdoado ao réu (…) noventa (90) dias de prisão maior.

Ele terá assim de cumprir três (3) anos e seis (6) meses de prisão maior no total, sendo levado em conta na totalidade a prisão preventiva sofrida.”

Esta decisão suscitou profunda indignação nos meios jurídicos. Na verdade, surgia como absolutamente inaceitável que o réu, ao disparar consciente e voluntariamente uma arma de fogo encostada ao esterno da vítima, perfurando-lhe o coração, não quisesse nem sequer previsse como possível que desse disparo resultasse a morte. A condução num táxi do corpo agonizante da vítima para o Hospital da CUF, onde o abandonaram sem documentos de identificação, também foi considerada aceitável normal pelo Tribunal por, inacreditavelmente, os réus ignorarem a identidade da pessoa de cuja captura haviam sido encarregados. A pena irrisória foi considerada extinta pouco tempo depois atendendo ao tempo de prisão preventiva.

Com Helena Pato, via Mário Torres

Nós não sabemos, mas a PSP sabe

Vamos lá ver se nos entendemos: “Cidadãos anónimos convocam para a manifestação e a PSP reúne com promotores da iniciativa.»
A PSP reúne com os promotores dos que promovem anonimamente!
QUE TRAPALHADA É ESTA?
«Segundo a Lusa, a PSP já reuniu com os promotores das iniciativas previstas para Braga e Porto, estando agendado uma reunião com os organizadores do protesto de Lisboa.»
«Os apelos às manifestações começaram a ser feitos nas redes sociais, há cerca de três semanas, por cidadãos anónimos.»
O MEDO E A MENTIRA
O “membro do Governo” com esta afirmação mente e incita ao “protesto,” porque está mais que provado que em França, o descontentamento sem organização colheu migalhas.
O ALARME
«Executivo e polícias acreditam que o protesto terá grande adesão e temem que as manifestações possam ser infiltradas por movimentos extremistas e por criminosos comuns, que provoquem violência, destruição e roubos.»
O EXECUTIVO E A PSP DESCONHECEM OS EXTREMISTAS E OS CRIMINOSOS NÃO ESTÃO REFERENCIADOS?.
ESTAMOS BEM PROTEGIDOS!

Leia original em "As Palavras São Armas" (clique aqui)