Economia política

A dívida da China e a próxima crise financeira internacional

O colapso inesperado do Baoshang, um pequeno banco chinês da Mongólia Interior, focou subitamente a atenção na fragilidade do maior e menos conhecido sistema bancário do mundo e nos «bancos-sombra».

António Abreu | AbarilAbril | opinião

A China no centro da próxima crise das dívidas?

Em alguns meios tem circulado a ideia (para não dizer palpite) de que a elevada dívida da China em todos os sectores, no estado e governos regionais, no governo, família, etc., apontaria para que a China fosse o centro da próxima crise das dívidas mundiais.

Porém, a grandeza desta dívida não constitui o quadro completo de condições das quebras de activos. O serviço da dívida é fundamental e, por sua vez, também o são os níveis de preços e a receita das vendas de produtos que geram a receita com a qual a dívida é paga. A China demonstrou disposição e tem recursos para absorver o não cumprimento de contratos ou de obrigações dentro dos respectivos prazos.

Isto é, não é o peso da dívida que é, por si só, fundamental. É verdade que a quantidade de dívida e a qualidade dessa dívida são importantes. Mas a capacidade de «pagar» a dívida (pagando também os juros quando devidos) é igualmente crítica. E essa capacidade de «serviço» depende, por sua vez, dos activos de caixa próximos disponíveis, o que depende da manutenção dos níveis de preços e níveis de vendas (ou seja, receita) e retornos de activos de caixa próximos para efectuar os pagamentos. Os vários termos e condições associados ao serviço também podem ser críticos.

O norte-americano Dr. Jack Rasmus desenvolveu três equações em anexo no seu livro Fragilidade Sistémica na Economia Global, escrito em 2016. Elas consideram o papel da dívida em relação à capacidade de pagar a mesma e os vários termos, condições e cláusulas que podem estar associados ao serviço da dívida1.

Rasmus continua a desenvolver e a actualizar essas equações, usando a análise de dados na rede para encontrar as verdadeiras relações múltiplas entre governo, famílias, empresas, dívidas bancárias, dentro de cada um desses sectores da economia (governo, família, negócios), e o grau de causalidade entre os níveis da dívida, a qualidade da dívida, o rendimento disponível para o serviço da dívida e os termos e condições do financiamento da dívida.

Se a dívida da China é muito elevada, a da Europa é ainda superior. A dívida da China pode ser maior em termos absolutos, mas a capacidade de serviço da dívida da Europa, após oito anos de recessão dupla e crescimento quase estagnado, continua mais fraca do que a capacidade da China de garantir o serviço da dívida. E há que ter em conta também países emergentes como a Argentina, a Turquia, o Paquistão ou a Índia, que tem um problema muito sério com os seus «bancos-sombra», termo atribuído ao economista Paul McCulley2 para descrever um grande segmento de intermediação financeira, que é conduzido fora dos balanços dos bancos comerciais regulados e outras instituições depositárias, definindo os bancos-sombra como «intermediários financeiros» que realizam funções de banca «sem acesso à liquidez do banco central ou garantias de crédito do sector público».

Este mercado também prospera no ambiente financeiro de baixas taxas de juros nos grandes países industrializados, que leva os investidores a buscar rendimentos mais elevados. As capacidades do serviço da dívida podem ser ainda mais fracas do que a da Europa.

O Baoshang Bank e as causas da crise bancária na China

O colapso inesperado, no final de Maio, de um pequeno banco chinês da Mongólia Interior, o Baoshang, ocorrido de surpresa, focou subitamente a atenção na fragilidade do maior e menos conhecido sistema bancário do mundo, o da República Popular da China (RPC). Então, pela primeira vez em três décadas, o Banco Popular da China (BPC) e os reguladores bancários do Estado tomaram conta de um banco insolvente. Fizeram-no aparentemente para enviar uma mensagem aos outros bancos para que eles passassem a controlar melhor os riscos dos empréstimos que realizavam. Ao fazê-lo podem ter detonado o colapso de um dos maiores e mais obscuros sistemas bancários do mundo – os bancos regionais e locais mal regulamentados da China, às vezes chamados de bancos-sombra. Tratam-se de bancos pequenos e médios, pouco regulados, que não fazem parte da grande banca estatal.

Os activos totais dos bancos-sombra pequenos e médios da China foram estimados como aproximadamente iguais aos dos quatro grandes bancos estatais regulados, o que poderia arrastar-se numa crise generalizada. Por isso Pequim entrou tão rapidamente para conter o Baoshang. O Banco Baoshang parecia saudável, mas o choque da insolvência criou uma crescente crise de risco nos mercados de empréstimos interbancários da China, não muito diferente das fases iniciais da crise interbancária de hipotecas subprime de 2007 nos Estados Unidos. E isso forçou o BPC, o banco nacional, a injectar milhares de milhões de yuans, até este momento equivalentes a 125 milhares de milhões de dólares, e a emitir uma garantia de todos os depósitos bancários para conter os receios.

O problema é que a China assumiu um dos mais impressionantes esforços de construção e modernização da história humana em apenas mais de três décadas. Cidades inteiras, dezenas de milhares de quilómetros de via férrea de alta velocidade, portos de contentores mecanizados, como nenhuma outra nação tinha feito na sua história. E tudo em dívida. O serviço dessa dívida dependeu de uma economia cujos lucros cresceram continuamente. Se a contracção da economia começasse, as consequências seriam incalculáveis.

Agora, como a economia está claramente a desacelerar, há investimentos arriscados em todo o país que entram subitamente em insolvência e os credores olham novamente para os riscos de novos empréstimos. O sector automobilístico está em queda acentuada nos últimos meses, o mesmo acontecendo com outras indústrias. Para piorar, uma grave epidemia de Febre Suína Africana está a dizimar o elevado número de porcos da China, levando a uma inflação alimentar de quase 8%. Neste quadro, o BPC está tentando, corajosamente, evitar imprimir mais dinheiro, o que criaria mais inflação e enfraqueceria o Renminbi, podendo provocar uma nova bolha financeira.

Neste quadro não é positiva a dependência da China dos mercados financeiros globais do dólar em milhões de milhões de dólares de dívida num momento em que as receitas de exportação em dólar estão a cair mesmo antes das tarifas da guerra comercial dos EUA. Se a China estivesse isolada da economia global como na década de 1970, o Estado poderia simplesmente lidar com os problemas internamente, acabar com os empréstimos insolventes e reorganizar os bancos.

Os riscos interbancários são pouco claros. O problema com os empréstimos que estão implícitos nesses números é que os créditos emitidos pelos bancos-sombra são mal controlados e agora enfrentam o não cumprimento de contratos generalizado e falências de empréstimos de alto risco que fizeram. O colapso do Baoshang Bank subitamente voltou todos os olhos para esses riscos.

Os grandes bancos hesitam em continuar a emprestar aos pequenos bancos através do mercado interbancário, forçando as taxas de empréstimo a subir. As garantias do BPC de que o caso do Baoshang é «isolado» não são susceptíveis de tranquilizar. A Bloomberg estima que, nos primeiros quatro meses de 2019, as empresas chinesas não pagaram cerca de 5,8 milhares de milhões em títulos domésticos, mais de três vezes o valor do ano anterior3.

As autoridades de Pequim, incluindo o BPC, deixaram claro, ao longo destes meses, que querem reduzir os empréstimos arriscados emitidos por bancos-sombra locais e outros países, para controlar a situação. No entanto, não será fácil restringir os empréstimos bancários locais de risco sem provocar uma onda de falências na economia chinesa em desaceleração.

Como resultado do inesperado colapso do Baoshang, o mercado de empréstimos interbancários da China está subitamente em crise.

Dificuldade em prever a crescente instabilidade da economia global

Tal como a economia contemporânea não conseguiu prever o crash de 2008-09 e sobrestimou a breve recuperação subsequente, os economistas de hoje não estão a conseguir prever com precisão a desaceleração do crescimento económico global, a fragilidade crescente e, portanto, a crescente instabilidade na economia global. O livro de Jack Rasmus oferece uma explicação alternativa, porque a economia global está a desacelerar a longo prazo e a tornar-se mais instável.

As políticas até agora fracassaram e a próxima crise pode ser ainda pior que a de  2008-09. A fragilidade sistémica «está enraizada em nove principais tendências empíricas: desaceleração do investimento real; desvio em direcção à deflação; explosão de dinheiro, crédito e liquidez; níveis crescentes de dívida global; mudança para o investimento financeiro especulativo; reestruturação dos mercados financeiros para recompensar os rendimentos do capital; restrição dos mercados de trabalho a menores rendimentos salariais; o fracasso das políticas monetárias do Banco Central; e ineficácia das políticas fiscais».

Tudo isto resulta de fragilidades nos balanços financeiros, do consumidor e do governo, exacerbando-se mutuamente – criando uma força maciça centrípeta que desagrega e rasga o todo. Este livro esclarece como o sistema de preços em geral, e os preços dos activos financeiros em particular, se transformam em forças fundamentalmente desestabilizadoras sob condições de «fragilidade sistémica». Por isso, o sistema global, tornou-se, nas últimas décadas, dependente e até viciado em injecções maciças de liquidez, com políticas fiscais contraproducentes, exacerbando a fragilidade e a instabilidade sistémica. A incapacidade dos autores dessas políticas em compreender como mudanças fundamentais na estrutura da economia capitalista global do século XXI, em particular nas estruturas financeiras e do mercado de trabalho, tornam a economia global mais frágil sistemicamente, só podem impulsioná-la para instabilidades e crises mais profundas.

Notas:
1.Jack Rasmus, Systemic Fragility in the Global Economy, Clarity Press (2016). Rasmos é autor de outros livros sobre os EUA e a economia global, incluindo Epic Recession: Prelude to Global Depression (2010) e Obama's Economy: Recovery for the Few(2012), ambos da Pluto Press, e de um programa alternativo para a recuperação económica: An Alternative Program for Economic Recovery, Edição do autor (2011). Tem um programa semanal de rádio, Alternative Visions, na Progressive Radio Network. Jack Rasmus é conselheiro económico de Jill Stein, candidata presidencial do Partido Verde dos EUA, e integra o seu ministério «sombra» (Green Shadow Cabinet) como «presidente da Reserva Federal dos EUA». Escreve quinzenalmente para a teleSUR TV da América Latina, para a Z Magazine, Znet e outras publicações impressas e electrónicas. O seu sítio na rede é https://jackrasmus.com/.
2.Paul Allen McCulley é um economista americano e ex-director da financeira PIMCO, empresa que deixou em 2010 para aderir ao Global Interdependence Center, um think tank destinado a promover o desenvolvimento global e o comércio livre. Criou os termos «momento Minsky» e «sistema bancário paralelo», que ficaram famosos durante a crise financeira de 2007-2009. É um convidado habitual da CNBC e da Bloomberg para comentários sobre investimentos. Para os «bancos-sombra» e «sistema bancário sombra» ver as ligações em «Shadow Banking», na Bloomberg, e na entrada «Sistema bancário sombra», na Wikipédia.
3.«Banking in the Shadows», Bloomberg.

Desdolarizando o império financeiro americano

por Michael Hudson
entrevistado por Bonnie Faulkner
Michael Hudson. O imperialismo está a obter algo em troca de nada. É uma estratégia para conseguir excedente de outros países sem desempenhar um papel produtivo e sim através da criação de um sistema extractivo rentista. Uma potência imperialista obriga outros países a pagarem tributo. Naturalmente, a América não diz directamente aos outros países: &quotVocê tem de nos pagar um tributo", tal como os imperadores romanos diziam às províncias que governavam. Os diplomatas dos EUA simplesmente insistem em que outros países invistam seus influxos da balança de pagamentos e as poupanças dos seus bancos centrais em US dólares, especialmente em títulos do US Treasury. Este padrão de títulos do Tesouro transforma o sistema monetário e financeiro global num sistema tributário. É isto o que paga os custos dos gastos militares dos EUA, incluindo suas 800 bases militares espalhadas por todo o mundo.

Sou Bonnie Faulkner. Hoje no [programa] Guns and Butter temos o Dr. Michael Hudson. Apresentamos hoje a Desdolarização do império financeiro americano. O Dr. Hudson é economista e historiador. É presidente do Institute for the Study of Long-Term Economic Trend, analista financeiro da Wall Street e distinto professor investigador de teoria económica na Universidade do Missouri, Kansas City. Entre os seus livros mais recentes incluem-se ...And Forgive Them Their Debts: Lending, Foreclosure and Redemption from Bronze Age Finance to the Jubilee Year ; Killing the Host: How Financial Parasites and Debt Destroy the Global Economy e J Is for Junk Economics: A Guide to Reality in an Age of Deception . Retornamos hoje para uma discussão do livro seminal de 1972 do Dr. Hudson, Super Imperialism: The Economic Strategy of American Empire , uma crítica de como os Estados Unidos exploram economias estrangeiras através do FMI e do Banco Mundial. Discutimos como os Estados Unidos têm dominado o mundo economicamente tanto como o maior credor mundial como, posteriormente, como o maior devedor mundial. Além disso daremos uma olhadela à morte anunciada da dominação do dólar.

Bonnie Faulkner : Michael Hudson, bem-vindo de volta.

Michael Hudson : É bom estar de volta, Bonnie.

BF : Por que o presidente Trump insiste em que o Federal Reserve reduza suas taxas de juro? Creio que elas já estavam extremamente baixas. E se ficarem ainda mais baixas, que efeito teria isto?

MH : As taxas de juro estão historicamente baixas e elas têm sido mantidas baixas a fim de tentar proporcionar moeda barata para especuladores comprarem acções e títulos com o objectivo de fazerem ganhos de arbitragem. Os especuladores podem tomar emprestado a uma taxa de juro baixa para comprar uma acção que produz dividendos (e também fazer ganhos de capital) a uma taxa de retorno mais alta, ou comprando um título tal como títulos lixo corporativos que pagam taxas de juro mais altas e manter a diferença. Em suma, taxas de juro baixas são uma forma de engenharia financeira.

Trump quer que as taxas de juro sejam baixas a fim de inchar o mercado habitacional e o mercado de acções ainda mais, como se isto fosse um indicador da economia real, não apenas do sector financeiro, da economia da produção e do consumo. Para além desta preocupação interna, Trump imagina que se mantiver taxas de juro mais baixas do que aquelas na Europa a taxa de câmbio do dólar declinará. Ele pensa que isto tornará as exportações dos EUA mais competitivas em relação aos produtos estrangeiros.

Trump está a criticar o Federal Reserve por não manter taxas de juro ainda mais baixas do que as da Europa. Ele pensa que se as taxas de juro forem baixas haverá uma saída de capital deste país para comprar acções e títulos estrangeiros que pagam uma taxa de juro superior. Esta saída financeira reduzirá a taxa de câmbio do dólar. Ele acredita que isto aumentará a possibilidade de reconstruir a manufactura de exportações da América.

Este é o grande erro de cálculo neoliberal. É também a base para modelos do FMI.

Como taxas de juro baixas reduzem a taxa de câmbio do dólar, elevando preços de importação

A ideia condutora de Trump é que reduzir o valor do dólar reduzirá o custo do trabalho para o patronato. Isto é o que acontece quando uma divisa é desvalorizada. A depreciação não reduz custos que tenham um preço comum à escala mundial. Há um preço comum para o petróleo no mundo, um preço comum de matérias-primas e um preço quase comum para capital e crédito. Assim, a principal coisa que é desvalorizada quando se pressiona uma divisa para baixo é o preço do trabalho e das condições de trabalho.

Os trabalhadores são esmagados quando cai uma taxa de câmbio da divisa, porque eles têm de pagar mais pelos bens que importam. Se o dólar for para baixo contra o yuan chinês ou a divisa europeia, importações chinesas vão custar mais em dólares. Do mesmo modo as importações europeias. Isto é a lógica por trás de desvalorizações tipo "arruíno meu vizinho".

Quanto mais custarão as importações do estrangeiro depende de quão longe for a queda do dólar. Mas mesmo que ele mergulhe uns 50 por cento, mesmo que o dólar se torne uma divisa lixo como a da Argentina ou de outros países latino-americanos, isso não pode realmente aumentar as exportações manufactureiras americanas porque já não há muito trabalho americano nas fábricas. Operários conduzem táxis e trabalham na indústria de serviços ou para companhias de seguros médicos. Mesmo que você dê aos trabalhadores americanos em empresas manufactureiras todo o seu vestuário e alimento em troca de nada, eles ainda assim não podem competir com países estrangeiros porque seus custos de habitação, seus seguros médicos e seus impostos são tão altos que eles são colocados fora dos mercados mundiais. Por isso, não ajudará muito se o dólar cair 1%, 10% ou 20%. Se você não tem fábricas a funcionar e se não tem um sistema de transporte, um abastecimento de energia, e se os nossos serviços públicos e infra-estrutura estão a ser destruídos, não há nada que a manipulação da divisa possa fazer para permitir que a América reconstrua rapidamente sua indústria de exportação de manufacturas.

As companhias matrizes americanas já mudaram suas fábricas para o exterior. Elas abandonaram a América. Na medida em que Trump ou seus sucessores se abstêm de mudar este sistema – na medida em que ele dá vantagens fiscais a empresas para que se mudem para fora – não há nada que se possa fazer que restaure a indústria aqui. Mas ele está apanhado pela teoria económica lixo do Fundo Monetário Internacional, a conversa de padrão neoliberal que é transmitida à América Latina a qual pretende que se um país simplesmente reduzir mais sua taxa de câmbio ele será capaz de reduzir seus salários e padrões de vida, pagando menos ao trabalho em termos de moeda forte até um certo ponto, quando a sua pobreza e austeridade ficarem suficientemente profundas, em que ele se tornará mais competitivo.

Isto não funcionou durante cinquenta anos na América Latina. Isto tão pouco funcionou para outros países e nunca funcionou nos Estados Unidos. No século XIX a Escola Americana de Política Económica desenvolveu a doutrina da Economia de Altos Salários (revi isto no meu livro America's Protectionist Takeoff: 1815-1914 ). Eles reconheceram que se você pagar mais ao trabalho, isto é mais produtivo, pode permitir uma melhor educação e funciona melhor. Eis porque trabalho de alto salário pode vender a preço mais baixo que o trabalho "pauperizado" de baixo salário. Trump está portanto um século atrás no tempo ao acolher a ideia austeritária do FMI de que se pode simplesmente desvalorizar a divisa e reduzir salários de trabalhadores e padrões de vida em termos internacionais para tornar a economia mais lucrativa e de alguma forma "abrir o seu caminho para a saída da dívida".

O que a depreciação da divisa faz quando o dólar é desvalorizado é capacitar firmas da Wall Street a tomarem emprestado a 1% e comprarem divisas e títulos europeus que rendem 3% ou 4% ou 5%, ou acções que rendem ainda mais. A ideia condutora é fazer o que fez o Japão na década de 1990: ter taxas de juro muito baixas para aumentar o chamado carry trade. O carry trade é tomar emprestado a uma taxa de juro baixa e comprar títulos que rendem uma taxa mais alta, fazendo um ganho de arbitragem sobre a taxa de juro diferencial. Assim, Trump está a criar uma oportunidade de arbitragem para investidores da Wall Street. Ele pretende que isto é favorável ao trabalho e que pode reconstruir a manufactura. Mas isto só ajudará a esburacar a economia dos EUA, enviando moeda para outros países a fim de construí- los ao invés de investir em nós próprios. De modo que o efeito do que Trump está a fazer é o oposto do que ele diz que está fazendo.

BF : Exactamente. Qual é o sentido de conduzir o investimento para países estrangeiros, longe dos Estados Unidos?

MH : Se você for um investidor, você pode ganhar mais dinheiro com o desmantelamento da economia dos EUA. Você pode tomar emprestado a 1% e comprar um título ou uma acção que rende 3% ou 4%. Isso é a chamada arbitragem. É um almoço financeiro gratuito. O efeito deste almoço gratuito, como você diz, é erguer economias estrangeiras ou pelo menos seus mercados financeiros enquanto enfraquece a sua própria. A finança é cosmopolita, não patriótica. Ela realmente não se importa onde ganha dinheiro. A finança vai a qualquer lugar onde a taxa de retorno seja mais elevada. Essa é a dinâmica que tem estado a desindustrializar os Estados Unidos ao longo dos últimos quarenta anos.

BF : Pelo que está a dizer, parece que as políticas que Donald Trump estão levando a fazer aos Estados Unidos o que o FMI e o Banco Mundial tradicionalmente fizeram às economias estrangeiras.

MH : É o que acontece quando se desvaloriza. O sector financeiro verá que as taxas de juro estão a baixar, de modo que a taxa de câmbio do dólar também declinará. Os investidores mudarão sua moeda (ou tomarão emprestada) para euros, ouro ou yen japonês ou franco suíço cujas taxas de câmbio se espera que ascendam. Assim, está-se a oferecer uma arbitragem financeira e ganho de capital para investidores que especulam em divisas estrangeiras. Também se estará a esvaziar a economia aqui e a esmagar níveis de salário real e padrões de vida.

Porque a desvalorização não ajudará a re-industrializar a economia dos EUA

BF : Pensa que Donald Trump entende o que estáa fazer?

MH : Não creio que entenda. Penso que ele tem uma visão super-simplificada de como funciona o mundo. Ele pensa que se desvalorizarmos o dólar podemos vender a baixo preço à China e à Europa. Mas você só pode vender-lhes a baixo preço se tiver fábricas de automóveis disponíveis. Se não tiver uma fábrica, não será capaz de vender a baixo preço a fabricantes estrangeiros não importa quão baixo vá o dólar. E se não tiver um conjunto de fábricas a manufacturarem computadores e fornecedores locais já nos Estados Unidos, não vai ter capacidade de produção apta a vender a preço mais baixo à China. Acima de tudo, é preciso infraestrutura pública e habitação, educação e cuidados de saúde a preços acessíveis. Assim, a visão de Trump é uma fantasia. É como dizer: "Se tivermos algum presunto, podíamos ter algum presunto e ovos, se tivéssemos alguns ovos". Isto ignora as causas da desindustrialização da América.

Se tivéssemos aqui fabricantes de carros, computadores e outras indústrias manufactureiras desempregadas – fábricas que estavam ociosas numa economia que fosse bastante competitiva – então a desvalorização poderia fazer algum sentido. Mas os americanos simplesmente não são nem um pouco competitivos. Os custos de habitação na América são altos, assim como os custos médicos e de seguro de saúde, os impostos e salários retidos sobre o trabalho e os preços de infraestruturas básicas que de modo algum podem competir com países estrangeiros simplesmente pela manipulação da divisa.

Desde 1980 a economia dos EUA foi tornada de muito alto custo. Mas também houve um enorme esmagamento do trabalho, pela elevação dos preços que ele tem de pagar por necessidades básicas. Mesmo se os salários se elevarem, as pessoas não podem permitir-se viver tão bem como há trinta anos atrás. Uma reestruturação radical é necessária a fim de restaurar uma economia industrial de pleno emprego. Você precisa de desprivatizar, você tem de romper monopólios, você precisa da espécie de economia e reforma económica que a América teve sob Franklin Roosevelt na década de 1930. Não vejo isso a acontecer.

BF : Pensa que Donald Trump foi instalado como presidente para superintender a bancarrota dos Estados Unidos e desmantelar o Império dos EUA?

MH : Ninguém o instalou, ele instalou-se a si próprio. Não creio que a maior parte das pessoas esperasse que vencesse. Se observar as probabilidades que os corretores de apostas profissionais e os provedores de cotações davam desde o instante em que anunciou sua candidatura, a maior parte das pessoas pensava que o sonolento Jeb Bush obteria a nomeação e que Bush perderia para Hillary. Assim, houve na verdade tentativas para instalar Hillary ou Bush. Mas ninguém tentou instalar o Trump. Ele fez um drible em torno deles, por conversa directa, humor e celebridade.

Ele não tinha conselheiros que ouvisse, porque sempre foi um one-man show. E ele realmente não sabe o que está a fazer economicamente. Ele sabe como trapacear as pessoas, vitimizar fornecedores e como ganhar dinheiro no mercado imobiliário simplesmente não pagando fornecedores e pedindo emprestado a bancos e não os pagando. Mas ele nem sequer tem ideia de que não se pode administrar uma economia deste modo. Ser um mafioso imobiliário não é o mesmo que administrar uma economia inteira. Trump não tem ideia e não acho que alguém saiba como controlá-lo, excepto talvez a Fox News.

Wall Street versus a economia "real": Qual se revela mais real?

BF : O que está acontecendo com a classe dominante nos Estados Unidos? Será que alguém nas suas fileiras sabe como administrar uma economia?

MH : O problema é que administrar uma economia para ajudar o povo e elevar padrões de vida, assim como para reduzir o custo de vida e de fazer negócio, significa não administrar para ajudar a Wall Street. Se alguém souber como administrar uma economia, o sector financeiro quer mantê-lo afastado de qualquer gabinete público. A alta finança é curto-prazista, não pensa a longo prazo. Ela joga o jogo do bate e foge, não a tarefa muito mais difícil de criar uma infraestrutura para crescimento económico tangível.

Só se pode fazer uma de duas coisas: Ajudar o trabalho ou ajudar a Wall Street. Se administrar a economia significa ajudar o trabalho e melhorar padrões de vida dando melhores cuidados médicos, isto vai ser a expensas do sector financeiro e de lucros corporativos a curto prazo. Assim, a última coisa que se quer fazer é ter alguém a administrar a economia para a sua própria prosperidade ao invés dos objectivos da Wall Street.

A questão é quem vai fazer o planeamento. Serão funcionários públicos eleitos no governo ou a Wall Street? O escritório de relações públicas da Wall Street é a Universidade de Chicago. Ela afirma que um mercado livre é aquele em que ricos investidores da Wall Street e a classe financeira administram uma economia. Mas se deixar as pessoas votarem e elegerem governos democraticamente, isso é chamado de "interferência" num mercado livre. Este é o combate de Trump contra a China. Ele quer que os bancos administrem a China e disponham de um mercado livre. Ele diz que a China se tornou rica nos últimos cinquenta anos por meios injustos, com a ajuda do governo e empresas públicas. De facto, ele quer que os chineses fiquem tão ameaçados e inseguros quanto os trabalhadores americanos. Eles deveriam livrar-se dos seus transportes públicos. Deveriam livrar-se dos seus subsídios. Deveriam deixar muitas das suas empresas irem à bancarrota para que americanos pudessem comprá-las. Deveriam ter a mesma espécie de mercado livre que arruinou a economia dos EUA.

A China não quer esta espécie de mercado livre, é claro. Ela tem uma economia de mercado. Esta é realmente muito semelhante ao que os Estados Unidos foram no seu arranque industrial do século XIX, com forte subsídio governamental.

Os EUA a mudarem de estratégia monetária, dos pagamentos excedentes para o status do défice

BF : No seu trabalho seminal de 1972, Super Imperialism: The Economic Strategy of American Empire , escreveu: "Enquanto a dominação dos EUA da economia mundial se estendeu de 1920 a 1960 a partir da sua posição credora, seu controle a partir da década de 1960 teve origem na sua posição de devedora. Não só as mesas foram viradas, mas os diplomatas dos EUA descobriram que a sua influência como a maior economia devedora do mundo é tão forte quanto aquela que antes reflectia sua posição de credora líquida". Isto soa contra-intuitivo. Você poderia decompor o argumento nos seus componentes? Vamos começar de 1920 a 1960. Como os Estados Unidos conseguiram dominar a economia mundial a partir de sua posição de credor?

MH : A posição credora dos EUA começou realmente após a I Guerra Mundial, com base no dinheiro que emprestaram aos Aliados antes de se juntarem à guerra. Quando a guerra acabou, diplomatas dos EUA disseram à Inglaterra e à França para nos pagarem as armas que haviam comprado anteriormente. Mas no passado, durante séculos, os vitoriosos habitualmente perdoavam todas as dívidas entre si uma vez acabada a guerra. Pela primeira vez, a América insistiu em que os Aliados pagassem pelo apoio militar que lhe fora vendido antes se juntar a eles.

Os Aliados europeus estavam bastante devastados pela guerra e voltaram-se para a Alemanha e insistiram em reparações que rapidamente a levaram à bancarrota. A Alemanha levou à bancarrota a sua economia ao tentar pagar à Inglaterra e à França, que simplesmente enviavam o recebido para pagar os Estados Unidos. Suas balanças de pagamentos estavam em défice e suas divisas iam abaixo. Investidores americanos viram nisso uma oportunidade para comprar sua indústria. O ouro era a medida do poder, o suporte para a moeda interna e o crédito e portanto para o investimento de capital.

A América era muito mais produtiva pois não sofrera danos de guerra. Entre o fim da II Guerra Mundial e 1950, quando estalou a Guerra da Coreia, a América acumulou mais de 75 por cento do ouro monetário mundial. Os Estados Unidos tinham fortes exportações agrícolas, exportações industriais crescentes e bastante dinheiro para comprar as principais indústrias da Europa, da América Latina e de outros países.

Mas a partir de 1950, com a Guerra da Coreia, a balança de pagamentos dos EUA entrou em défice pela primeira vez. Até piorou quando o presidente Eisenhower decidiu que a América tinha de apoiar o colonialismo francês no Sudeste asiático, na Indochina francesa – Vietname e Laos. No momento em que a Guerra do Vietname escalou, na década de 1960, o dólar estava a incidir em grandes défices de balança de pagamentos. Toda semana na Wall Street observávamos a oferta de ouro descer, perder ouro para países que não estavam em guerra, como a França e a Alemanha. Eles estavam a prevalecer-se do excesso de dólares que estavam a ser gastos pelos militares americanos. Por volta de 1960 ficou claro que a América estava numa trajectória de ficar sem ouro dentro de uma década devido aos gastos de guerras além-mar.

Por fim, em Agosto de 1971, o presidente Nixon cessou de vender na bolsa de Londres e o preço subiu muito acima dos US$35 por onça [1] . A balança de pagamentos dos EUA ainda apresentava um défice profundo devido aos combates no Sudeste Asiático e alhures, o que criava um défice permanente na balança de pagamentos. O sector privado estava em equilíbrio durante os anos 1950 e 1960. A totalidade do défice era militar.

Quando a América saiu do ouro, as pessoas começaram a perguntar-se o que iria acontecer. Muitos previram um dia do juízo final económico. Estavam a perder a sua capacidade de dominar o mundo através do ouro. Mas o que eu percebi (e fui o primeiro a publicar) foi que, se os países não pudessem mais comprar e manter ouro nas suas reservas internacionais, o que é que eles iriam manter? Havia apenas um activo de que poderiam dispor: títulos do governo dos EUA, ou seja, títulos do Tesouro (Treasury bonds).

Um título do Tesouro é um empréstimo ao Tesouro dos EUA. Quando um banco central estrangeiro compra um título, ele financia o défice orçamental interno dos EUA. Assim os défices da balança de pagamentos acabam por financiar o défice orçamental interno.

O resultado é um fluxo circular de gastos militares reciclados por bancos centrais estrangeiros. Depois de 1971 os Estados Unidos continuaram a gastar militarmente no exterior e em 1974 os países da OPEP quadruplicaram o preço do petróleo. Naquele momento os Estados Unidos disseram à Arábia Saudita que podiam cobrar quanto quisesse pelo seu petróleo, mas tinha de reciclar todos os seus ganhos líquidos de dólares. Os sauditas não deveriam comprar ouro. Foi dito aos sauditas que seria um acto de guerra se não reciclassem na economia americana os dólares que recebiam pelas suas exportações de petróleo. Eles foram encorajados a comprar títulos do Tesouro dos EUA, mas também podiam comprar acções e títulos dos EUA para ajudar a impulsionar os mercados de valores aqui e ao mesmo tempo apoiarem o dólar.

Os Estados Unidos mantiveram seu próprio stock de ouro, enquanto queria que o resto do mundo mantivesse suas poupanças na forma de empréstimos aos Estados Unidos. Dessa forma o dólar não foi abaixo. Outros países que estavam a receber dólares simplesmente reciclavam-nos para comprar títulos financeiros dos EUA.

O que teria acontecido se não tivessem feito isto? Digamos que a Alemanha, França ou Japão não o tivessem feito. Se não reciclassem suas receitas em dólares de volta para a economia dos EUA, suas divisas iriam subir. As entradas de dólares pelas vendas exportadas seriam convertidas na sua divisa, aumentando a sua taxa de câmbio. Mas ao comprar títulos ou acções dos EUA, lançam o preço dos dólares de volta contra a sua própria divisa.

Assim, quando os Estados Unidos incorrem um défice de balança de pagamentos sob condições em que outros países mantém suas reservas externas em dólares, o efeito para outros países é manter estáveis as taxas de câmbio das suas divisas – principalmente através de empréstimos ao governo dos EUA. Isso dá aos Estados Unidos um benefício sem custo (a free ride). Eles podem cercar o mundo com bases militares e os dólares que isto custa são retornados aos Estados Unidos.

Imagine subscrever IOUs [2] quando você gasta numa loja ou num restaurante – mas os seus IOUs nunca serão cobrados! A loja pode dizer: "Temos um IOU de Bonnie Faulkner. Vamos mantê-lo nas nossas poupanças. Ao invés de depositá-lo no banco ou pedir o pagamento em moeda real, vamos simplesmente manter-nos a coleccionar estes IOUs de Bonnie Faulkner". As corporações chamam de "realizável" ("receivables") a tais IOUs e créditos comerciais. Agora, suponha que faça uma farra de despesas e dê à loja IOUs no valor de mil milhões de dólares. Não há como pagar esses mil milhões de dólares. Nesse caso, as lojas que recebem esses IOUs diriam: "Bem, nós realmente não queremos excluir Bonnie, porque sabemos que ela não pode pagar. Perdemos o valor das contas realizáveis no lado do activo do nosso balanço – todas estas notas promissórias que colectámos.

Isso na essência é o que países estrangeiros estão a dizer acerca da sua acumulação de dólares. A posição dos EUA é, efectivamente, de que não vamos reembolsar qualquer país estrangeiro pelos dólares que lhes devemos. Quando era secretário do Tesouro, John Connolly disse: "São nossos dólares, mas é vosso problema". Outros países têm de nos pagar ou do contrário nós os bombardearemos. A dimensão militar deste esquema é a posição dos EUA de que seria um acto de guerra se outros países não se mantivessem a gastar seus ganhos de exportações em empréstimos ou acções e títulos dos EUA.

É isto o que torna os Estados Unidos o "país excepcional". O valor da nossa divisa está baseado nas poupanças dos outros países. A moeda que eles poupam tem de ser mantida na forma de dólares ou títulos que nunca reembolsaremos, mesmo que pudéssemos.

Isto é um enorme almoço gratuito. Você poderia pensar que Donald Trump desejasse manter esta situação. Mas ele afirma que a China está a manipular a sua divisa ao reciclar seus dólares em empréstimos ao Tesouro dos EUA. O que significa isso? A China está a ganhar um bocado dólares com exportações de bens para os Estados Unidos. O que faz com estes dólares? Ela tenta fazer o que a América fez com a Europa e a América do Sul. Ela tentou comprar companhias americanas. Mas os Estados Unidos impediram-na de fazer isto, com argumentos especiosos sobre segurança nacional. O governo afirma que a nossa segurança nacional ficaria ameaçada se a China comprasse uma cadeia de postos de abastecimento de combustíveis, como ela quis fazer na Califórnia. Os Estados Unidos têm portanto um duplo padrão, afirmando que ficam ameaçados se a China comprar qualquer companhia, mas insistindo no seu direito de comprar os altos comandos de economias estrangeiras com crédito electrónico em dólares.

Isto deixa a China apenas com uma opção: comprar títulos do Tesouro dos EUA, emprestando seus ganhos de exportação ao US Treasury.

Trump está agora a conduzir outros países para fora da órbita do dólar

A China agora percebe que o Tesouro dos EUA não vai reembolsá-la. Mesmo se quisesse reciclar seus ganhos de exportação em títulos do Tesouro ou em acções e títulos ou em imobiliário dos EUA, Donald Trump agora está a dizer que não quer que a China apoie a taxa de câmbio do dólar (e mantenha baixa a sua própria taxa de câmbio) através da compra de activos dos EUA. Estamos a dizer à China para não fazer o que dissemos a outros países para fazerem durante os últimos quarenta anos: comprar títulos dos EUA. Trump acusa países de manipulação artificial da divisa se mantiverem suas reservas estrangeiras em dólares. Assim, ele está a dizer-lhes, especificamente à China, para livrar-se dos seus haveres em dólar, não mais comprar dólares com os seus ganhos de exportação.

Assim, a China está a comprar ouro. A Rússia também está a comprar ouro e grande parte do mundo está agora no processo de reverter ao padrão gold-exchange (o que significa que o ouro é utilizado para liquidar desequilíbrios de pagamentos internacionais, mas não está conectado à criação de moeda interna). Os países percebem que há uma grande vantagem no padrão gold-exchange. Existe apenas um montante limitado de ouro nos bancos centrais do mundo. Isto significa que qualquer país que trava guerras vai incidir num grande défice de balança de pagamentos e vai perder suas reservas-ouro. Assim, ressuscitar o papel do ouro pode impedir qualquer país, incluindo os Estados Unidos, de irem à guerra e sofrerem um défice militar.

A ironia disto é que Trump está a desmanchar o almoço gratuito financeiro da América – sua política de imperialismo monetário – ao dizer às províncias para cessar de reciclar seus influxos de dólares. Elas têm de desdolarizar suas economias.

O efeito disto é tornar estas economias independentes dos Estados Unidos. Trump já anunciou que não contratará chineses nos nossos sectores de TI ou deixará chineses estudarem na universidade assuntos que possam permitir-lhes rivalizarem connosco. De modo que nossas economias estão em vias de separar-se.

Com efeito, Trump tem dito que se não pudermos vencer num acordo comercial, se não pudermos fazer com que outros países percam e se tornem mais dependentes de fornecedores estado-unidenses e com preços de monopólio, então não assinaremos um acordo. Esta posição está a conduzir não só a China como também a Rússia e mesmo a Europa e outros países para fora da órbita dos EUA. O resultado final vai ser que os Estados Unidos serão isolados, sem serem capazes de manufacturar como costumavam fazê-lo. O país está a desmantelar a sua manufactura. Assim, como acabará isto?

Alguns números demográficos foram divulgados na semana passada mostrando que o meio da América está a esvazia-se. A população está a mudar-se dos estados do Centro-Oeste e montanhosos para as costas Leste e Oeste e para a costa do Golfo. Assim, as políticas de Trump estão a acelerar a desindustrialização dos Estados Unidos sem nada fazer para colocar novas forças produtivas em substituição e nem mesmo desejando que outros países invistam aqui. As montadoras automobilísticas alemãs vêem Trump a aplicar tarifas sobre o aço importado que precisam para construir carros nos Estados Unidos. Para construí-los aqui a fim de contornar as barreiras tarifárias dos EUA contra automóveis alemães e outros. Mas agora Trump não está sequer a deixá-los importar as peças de que precisam para montar estes carros nas fábricas não-sindicalizadas que construíram no Sul.

O que podem eles fazer? Talvez proponham uma troca com a General Motors e a Chrysler. Os europeus obterão as fábricas que as empresas americanas possuem na Europa e lhes darão suas fábricas americanas em permuta.

Está espécie de divisão está a verificar-se sem qualquer tentativa de tornar o trabalho americano mais competitivo através da redução dos seus custos de habitação, ou do preço dos seus seguros de saúde e cuidados médicos, ou dos seus custos de transporte ou dos custos de infraestrutura. De modo que a América está a ficar sem salvação como uma economia de altos preços num mundo nacionalista, enquanto incide num enorme défice de balança de pagamentos para suportar seus gastos militares por todo o globo.

BF : Assim, parece que quando os Estados Unidos saíram do padrão-ouro, o dólar basicamente substituiu o ouro como o principal activo no qual os governos estrangeiros podiam manter seus activos. Agora você está a dizer que, quando não havia mais padrão-ouro, se economias estrangeiras não comprassem títulos do Tesouro dos EUA, o preço das suas divisas aumentaria e os tornaria não competitivos.

MH : Sim. Imagine se os americanos tivessem de pagar cada vez mais dólares para comprar carros alemães. Haveria uma maior procura pela divisa alemã, o euro, cuja taxa de câmbio subiria. Isso estava a acontecer durante os anos 1960 e 1970, antes do euro. O único meio pelo qual a Alemanha podia manter baixo o valor do seu marco era comprar alguma coisa que custasse dólares. Ela não comprava exportações americanas, porque os EUA já estavam a fabricar e exportar cada vez menos, excepto quanto a alimentos – e a Alemanha só podia comer uma quantidade limitada de trigo e soja. Assim, a única coisa que a Alemanha podia comprar com preço em dólares eram títulos do Tesouro dos EUA. Isso impedia o marco alemão de ascender ainda mais rapidamente e mantinha a balança de pagamentos equilibrada.

O Japão tinha um problema semelhante. Os japoneses tentaram comprar imóveis nos EUA, mas não tinham qualquer ideia do que fazer com o valioso imobiliário daqui. Eles perderam mil milhões de dólares na compra do Rockefeller Center por não perceberem que o valor do edifício era separado do valor da terra e que a terra era possuída pela Universidade de Columbia. O próprio edifício estava a incidir num défice. A maior parte do valor locativo era paga ao proprietário da renda da terra. Os japoneses não tinham ideia de como funciona o imobiliário americano.

O euro é apenas uma divisa satélite do US dólar

Alguns americanos preocupam-se com a possibilidade de o euro rivalizar com o dólar. Afinal de contas, a Europa não está a desindustrializar-se. Está a mover-se em frente e a produzir melhores carros, aviões e outros produtos para exportação. Assim os Estados Unidos persuadiram políticos estrangeiros a estropiar o euro fazendo dele uma divisa de austeridade, criando tão poucos títulos governamentais que não há nenhum veículo euro suficientemente grande para países estrangeiros nele manterem suas reservas. Os EUA podem criar cada vez mais dívida em dólar incorrendo num défice orçamental. Podemos seguir políticas keynesianas incorrendo num défice para empregar mais trabalho. Mas a eurozona recusa-se a deixar seus países incorrerem num défice superior a 3% do PIB. Este nível é muito marginal em comparação com o dos Estados Unidos. E se estiver a tentar não incidir de todo em qualquer défice – e mesmo se o mantiver em menos de 3% – então estará a impor austeridade sobre o seu país, mantendo baixo o seu emprego. Estará a sufocar seu mercado interno, a cortar sua garganta ao ser incapaz de criar um rival real para o dólar. Eis porque Donald Rumsfeld chamou a Europa de zona morta e porque a única alternativa para uma divisa real é o yuan chinês. Eles estão a movimentar-se para uma área com divisa baseada no ouro juntamente com a Rússia, o Irão e outros membros da Organização de Cooperação de Shangai.

BF : A União Europeia ao não permitir países europeus dentro da eurozona incorrerem em défices de mais de 3% está basicamente cortar a sua própria garganta. Por que fariam eles uma tal coisa?

MH : Porque os responsáveis do Banco Central estão a combater uma guerra de classe. Eles consideram-se como generais financeiros no combate económico contra o trabalho, para prejudicar a classe trabalhadora, reduzir salários e ajudar o seu eleitorado político, a classe investidora rica. A Europa sempre teve uma guerra de classe mais viciosa do que os Estados Unidos. Ela nunca emergiu realmente do seu aristocrático sistema pós feudal. Seus banqueiros centrais e universidades seguem a escola do livre mercado da Universidade de Chicago, dizendo que o meio de ficar rico é tornar os seus trabalhadores mais pobres e criar um governo em que o trabalho não tenha voz. Essa é a filosofia económica da Europa e é por isso que a Europa não tem alcançado o crescimento que a China e outros países estão a experimentar.

BF : Assim, parece que desde 1971 os Estados Unidos foram capazes de dominar a economia mundial a partir de uma posição devedora.

Michael Hudson : Quando perdia ouro, de 1950 a 1971, não estavam a dominar; estavam a perder a oferta de ouro da América para a França, Alemanha, Japão e outros países. Somente quando cessou o padrão gold-exchange e os países ficaram sem alternativa para suas poupanças internacionais, excepto comprar títulos do Tesouro dos EUA ou outros títulos, os EUA foram capazes de pagar pelos seus gastos militares sem perder seu poder.

Desde 1971, a diplomacia mundial tem sido essencialmente apoiada pelo poder militar americano. Não é um mercado livre. O poder militar mantém países numa camisa de força financeira na qual os Estados Unidos podem incidir em dívida sem terem de reembolsá-la. Aos outros países que incidem em défices de pagamentos não é permitido expandirem suas economias, ou rivalizar os Estados Unidos ou mesmo melhorar padrões de vida da sua força de trabalho. Só países fora da órbita dos EUA – China e em princípio a Rússia e alguns outros países na Ásia – são capazes de aumentar seus padrões de vida e investimento de capital e tecnologia por estarem livres desta guerra de classe financeira globalizada.

BF: Em Super Imperialism você escreve que: "Pressões para criar uma Nova Ordem Económica Internacional entraram em colapso no fim da década de 1970". Estará você a dizer que outros países simplesmente abandonaram e aceitaram o imperialismo monetário americano? O que aconteceu?

MH : Contaram-me que foi suborno em grande escala. Responsáveis da administração Reagan contaram-me que simplesmente pagaram a responsáveis estrangeiros para apoiar a posição dos EUA e não uma Nova Ordem Económica Internacional. Agências dos EUA manobravam dentro da política partidária de países europeus e do Oriente Próximo para promover responsáveis pró-americanos e marginalizar aqueles que não concordassem em actuar como satélites dos EUA. Muito dinheiro esteve envolvido nessa intromissão.

Assim os Estados Unidos corromperam a política democrática por toda a Europa, Oriente Próximo e grande parte da Ásia. Isso conseguiu esterilizar a independência estrangeira nos EUA. Enquanto isso, as ideias neoliberais de Thatcher e Reagan foram promovidas ao invés da espécie de economia mista que Roosevelt e a social-democracia haviam impulsionado durante cinquenta anos.

Quem planeará economias: Administradores financeiros ou governos democráticos?

BF : Se houve pressões para criar uma Nova Ordem Económica Internacional na década de 1970, o que era esta nova ordem que se pretendia alcançar?

MH : Outros países quiseram fazer para as suas economias o que os Estados Unidos fizeram há muito para a sua própria economia: utilizar gastos deficitários do governo para construir infraestrutura, elevar padrões de vida, criar habitação e promover tributação progressiva que impedisse uma classe rentista, uma classe de latifundiários e financistas, de tomar as rédeas da administração económica. No campo financeiro, eles queriam que os governos criassem sua própria moeda, para promover o seu próprio desenvolvimento, tal como os Estados Unidos fizeram. O papel do neoliberalismo era o oposto: era promover o sector financeiro e imobiliário e os monopólios para afastar a administração económica do governo.

Assim, a questão real dos anos 1980 era acerca de quem seria o centro básico de planeamento da sociedade. Seria o sector financeiro – os bancos e accionistas dos bancos, cujo interesse está realmente nos Um Porcento que possuem a maior parte dos títulos e acções dos bancos? Ou seriam governos a tentarem subsidiar a economia para ajudar os 99 Porcento a crescerem e prosperarem? Essa era a visão social-democrata a que se opunha o Thatcherismo e o Reaganismo.

O impulso internacional para desdolarizar

BF : Foi esta pressão que bloqueou uma Nova Ordem Económica Internacional provocada pelos Estados Unidos ao saírem do padrão gold-exchange ?

MH : Não. Foi uma reacção contra a política dos EUA de apropriar-se dos altos comandos de economias estrangeiras. Os Estados Unidos querem controlar suas exportações de matérias-primas, especialmente seu petróleo e gás. Querem controlar seus sistemas financeiros, de modo a que todos os seus ganhos económicos irão para investidores estrangeiros, principalmente investidores dos EUA. Querem tornar outras economias em economias de serviço para os Estados Unidos e fazer delas uma espécie de aliança militar super-NATO que se oporá a qualquer país que não queira fazer parte da ordem global unilateral centrada nos EUA.

BF : Como é que o imperialismo monetário de hoje – super imperialismo – difere do imperialismo do passado?

MH : É uma etapa mais alta do imperialismo. O velho imperialismo era colonialismo. Você vinha e utilizava poder militar para instalar uma classe dominante cliente. Mas cada país teria a sua própria divisa. O que tornou o imperialismo "super" é que a América não tem de colonizar um outro país. Ela não tem de invadir um país ou realmente ir à guerra com ele. Tudo o que precisa é ter o país a investir suas poupanças, seus ganhos de exportação, em empréstimos ao Governo dos Estados Unidos. Isto permite aos EUA manterem suas taxas de juro baixas e permite a investidores americanos tomar emprestado de bancos americanos a taxas baixas para comprarem indústria e agricultura estrangeira que rende 10%, 15% ou mais. De modo que os investidores americanos percebem que apesar do défice da balança de pagamentos, podem emprestar esses dólares a uma taxa tão baixa de países estrangeiros – pagando apenas 1% a 3% sobre os títulos do Tesouro que mantêm – enquanto bombeiam dólares para dentro economias estrangeiras ao comprarem sua indústria, agricultura, infra-estrutura e serviços públicos, obtendo grandes ganhos de capital. A esperança é que, em breve, consigamos sair da dívida através deste esquema de almoço gratuito.

O imperialismo está a obter algo em troca de nada. É uma estratégia para obter excedente de outros países sem desempenhar um papel produtivo, mas sim pela criação de um sistema extractivo rentista. Uma potência imperialista obriga outros países a pagarem tributo. Naturalmente, a América não diz directamente aos outros países: "Você tem de nos pagar um tributo", tal como os imperadores romanos diziam às províncias que governavam. Os diplomatas dos EUA simplesmente insistem em que outros países invistam seus influxos da balança de pagamentos e as poupanças dos seus bancos centrais em US dólares, especialmente em US Treasury (IOUs). Este padrão de títulos do Tesouro transforma o sistema monetário e financeiro global num sistema de tributos.

É isto o que paga os custos dos gastos militares dos EUA, incluindo suas 800 bases militares por todo o mundo e sua legião estrangeira de combatentes do ISIS, Al Qaeda e de "revoluções coloridas" para desestabilizar países que não aderem ao sistema económico global centrado no dólar.

BF: Você escreve: "Hoje seria necessário para a Europa e a Ásia conceberem uma alternativa artificial, criada politicamente, ao dólar como um armazém internacional de valor. Isto promete tornar-se o ponto crucial de tensões políticas internacionais durante a próxima geração". Como é que o mundo romperia com este duplo padrão de dominação do dólar?

MH : Isto já está a acontecer. E Trump é um grande catalisador acelerando a partida dos hóspedes. A China e a Rússia estão a reduzir seus haveres em dólares. Eles não querem manter títulos do Tesouro americano, porque se os EUA entrarem em guerra com eles isso lhes fará o mesmo que fez ao Irão. Os EUA simplesmente manterão todo o dinheiro, não reembolsarão o investimento que a China tem efectuado em bancos dos EUA e no Tesouro. Assim, eles estão a livrar-se dos dólares que possuem. Estão a comprar ouro e a mover-se tão rápido quanto possível para serem independentes de quaisquer exportações dos EUA. Eles estão construindo suas forças armadas, para que, se os Estados Unidos tentarem ameaçá-los, possam defender-se. O mundo está a fracturar-se.

BF : O que é que países estrangeiros como a China e a Rússia estão a utilizar para comprar ouro? Estarão a comprar com dólares?

MH : Sim. Eles ganham dólares ou euros do que estão a exportar. Esta moeda vai para o banco central da China, porque os exportadores chineses querem o yuan interno para pagar aos seus trabalhadores e fornecedores. Assim, vão ao Banco da China e trocam seus dólares por yuans. O Banco da China, o banco central, decide então o que fazer com esta divisa estrangeira. Eles podem ir ao mercado aberto e comprar ouro. Ou pode gastá-la em países estrangeiros, na iniciativa Estrada da Seda para construir uma ferrovia e infraestrutura de navegação e desenvolvimento de portos para ajudar exportadores da China a integrarem sua economia com outras e finalmente com a Europa, substituindo os Estados Unidos como cliente e fornecedor. Eles encaram os Estados Unidos como uma economia moribunda.

BF : Podem os chineses construir seus projectos de infraestrutura da Estrada da Seda com dólares?

MH : Não, eles estão a livrar-se de dólares. Eles já estão a receber tão grande excedente a cada ano que apenas utilizam os dólares para comprar ouro ou alguns bens, tais como aviões Boeing, mas sobretudo alimentos e matérias-primas. Quando a China compra ferro da Austrália, por exemplo, ela vende dólares das suas reservas de moeda estrangeira e compra a divisa australiana para pagar aos australianos pelo minério de ferro importado. Ela utiliza dólares para pagar outros países que ainda fazem parte da área do dólar e ainda desejam continuar a acrescentar estes dólares às suas reservas monetárias oficiais ao invés de possuir ouro.

BF : Bem, é bastante surpreendente, Michael, que países não tenham começado a fazer isto bem mais cedo.

MH : Houve pressão política para não se retirarem do sistema de dívida em dólar. Se países actuarem de forma independente, correm o risco de serem derrubados. É preciso um governo forte para resistir à interferência americana e aos truques sujos para colocar seu próprio país em primeiro lugar, em vez de seguir conselheiros e agentes dos EUA que lhes pagam para servir a economia dos EUA ao invés da sua própria, ou para resistir à lavagem cerebral da teoria económica lixo da Universidade de Chicago.

BF : Quão distante está a morte do dólar como a divisa de reserva do mundo?
MH: O dólar já está a desacelerar. Trump faz tudo o que pode para acelerar a sua morte, ameaçando que se países estrangeiros continuarem a reciclar seus ganhos de exportação em dólares (elevando a taxa de câmbio do dólar), nós os acusaremos de manipular sua divisa. Assim, ele gostaria de acabar isso tudo até o final do seu segundo mandato em 2024.

BF: Com o que se pareceriam os Estados Unidos se o dólar já não fosse a divisa de reserva do mundo?

MH : Se continuarem a deixar a Wall Street fazer o planeamento económico, a economia dos EUA parecer-se-á como aquela da Argentina.

BF : E com o que se parece a Argentina?

MH : Uma estreita oligarquia no topo, mantendo o trabalho na base, retirando direitos do trabalho de sindicalizar-se – uma economia cujos sectores financeiro e militar venceram a guerra de classe.

BF : A China, com o seu projecto de infraestrutura da Estrada da Seda, está agora a comprar ouro no mercado aberto, tal como um certo número de outros países. Será que o sistema bancário ocidental penetrou a China? E se assim for, como você caracterizaria o sistema bancário da China?

MH : Há uma tentativa dos Estados Unidos de penetrar na China. Nos recentes acordos comerciais a China permitiu que bancos dos EUA criassem seu próprio crédito. Não estou seguro de que isso vá realmente em frente, agora que Trump está a intensificar a guerra comercial. Mas basicamente, na América, você tem bancos privados a concederem, crédito a corporações. Na China, você tem os bancos do governo a concederem os empréstimos. Isso salva a China de ter uma crise financeira do mesmo modo dos Estados Unidos.

Cerca de 12% das companhias americanas são consideradas companhias zumbi. Elas já estão insolventes, incapazes de fazer um lucro depois de pagarem seu pesado serviço de dívida. Mas os bancos ainda estão a dar-lhes crédito suficiente para permanecerem no negócio, de modo a não terem de ir à bancarrota e criar uma crise. A China não tem esse problema, porque quando indústrias e fábricas chinesas não são capazes de pagar, o Banco da China (público) pode simplesmente perdoar a dívida. Sua escolha é clara. Ou ele pode deixar companhias irem à bancarrota e serem vendidas a baixo preços a algum comprador, sobretudo americano, ou pode limpar as dívidas podres da contabilidade.

Se a China tivesse sido bastante louca para ter empréstimos estudantis que deixasse seus licenciados empobrecidos ao invés de proporcionar universidades gratuitas, o banco central da China poderia simplesmente cancelar os referidos empréstimos. Nenhum investidor perderia, porque os bancos são propriedade do governo. Sua posição é: "Se se trata de uma fábrica, não queremos que tenha de encerrá-la e desempregar seus trabalhadores. Vamos apenas cancelar parcialmente a dívida. E se os seus empregados estiverem em dificuldades, cancelamos parcialmente as suas dívidas, de modo a que possam gastar seu dinheiro em bens e serviços para ajudar a expandir nosso mercado interno".

Os bancos da América são possuídos pelos accionistas e detentores dos títulos, os quais nunca deixariam o Chase Manhattan ou o Citibank ou o Wells Fargo simplesmente perdoarem suas várias categorias de empréstimos. Esta é a razão porque a banca pública é muito mais eficiente ao nível de uma economia vasta do que bancos privados. Esta é a razão porque a banca deveria ser um serviço público e não privatizada.

BF : Pode explicar com mais pormenor como o cancelamento parcial de dívidas é bom para a economia?

MH : Bem, pense na alternativa a cancelar dívidas. Se você não cancelar parcialmente as dívidas de estudantes da América os licenciados têm de pagar tanto do serviço de dívida estudantil (agora ao governo) que não têm dinheiro suficiente para poderem comprar uma casa, não têm bastante dinheiro para se casarem, não têm dinheiro suficiente para comprar bens e serviços. Isto significa que a maior parte das pessoas que pode comprar casas são licenciados com fundos fiduciários (trust funds) – estudantes cujos pais são bastante ricos de modo a que não tivessem de recorrer a um empréstimo estudantil para pagar pela educação dos filhos. Estas famílias hereditárias são suficientemente ricas para lhes comprarem seu próprio apartamento.

Eis porque a economia americana está a polarizar-se entre pessoas que herdam bastante dinheiro para serem capazes de ter a sua própria habitação e orçamentos livres de empréstimos estudantis, a comparar com famílias que estão presas a dívidas e incidindo cada vez mais profundamente na dívida sem grandes poupanças. Esta bifurcação financeira está a tornar-nos mais pobres. Mas a teoria económica neoliberal encara isto como uma vantagem competitiva. Para eles, e para o patronato, a pobreza não é um problema a ser resolvido. É a solução para o seu próprio objectivo da lucratividade.

BF : Assim é todo este esquema de privatização, particularmente a privatização do sistema bancário e a privatização de muitas infraestruturas que está a levar os Estados Unidos à bancarrota?

MH : Sim, tal como levou a Inglaterra e outros países à bancarrota que se seguiu ao thatcherismo ou à filosofia neoliberal desde cerca de 1980.

BF : Michael Hudson, muito obrigado mais uma vez.

MH : É sempre um prazer ter estas discussões.

[1] 1 onça troy = 31,103 gramas
[2] IOUs: notas de reconhecimento de dívida ou notas promissórias (I owe you)

O áudio desta entrevista está disponível em soundcloud.com/...

O original encontra-se em thesaker.is/bonnie-faulkner-interviews-michael-hudson/

Esta entrevista encontra-se em http://resistir.info/ .

 

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/m_hudson/entrevista_11jul19.html

O enigma da sobrevivência neoliberal

Como um projeto fracassado, social e economicamente, mantém-se há 30 anos? Em parte, devido ao poder de uma minoria ínfima. Mas é preciso encontrar resposta mais profunda – e, em especial, uma saída que convença as maiorias

Robert Kuttner | Outras Palavras | Tradução: Antonio Martins
Desde o final dos anos 1970, vivemos um enorme experimento para testar a afirmação segundo a qual mercados “livres” realmente funcionam bem. Esta ressurreição ocorreu apesar do fracasso do laissez-faire, nos anos 1930, a humilhação consequente da teoria dos mercados “livres” e, em contraste, o sucesso do capitalismo regulado, durante o boom de três décadas do pós-II Guerra.

Quando o crescimento arrefeceu, nos anos 1970, a teoria econômica ultraliberal teve uma nova chance. Ela demonstrou ser muito conveniente para os conservadores, que voltaram ao poder na década seguinte. A contrarrevolução neoliberal, na teoria e na prática, reverteu ou solapou quase todos os aspectos do capitalismo regulado – a tributação progressiva, as transferências de renda em favor do bem-estar, as políticas antitruste, o empoderamento dos trabalhadores e a regulamentação dos bancos e outros grandes setores econômicos.

A premissa neoliberal sustenta que mercados “livres” podem regular a si mesmos; que o Estado tem incompetência inerente, deixa-se capturar por certos interesses e representa uma intrusão na eficiência do mercado; que, em termos da distribuição de riquezas, os resultados sancionados pelo mercado são, em essência, merecidos; e que a redistribuição cria incentivos perversos, ao punir os vencedores econômicos e recompensar os perdedores. Por isso o Estado deveria afastar-se das relações de mercado.

Nos anos 1990, mesmo a esquerda moderada havia se convertido à crença de que os objetivos de justiça social podem ser alcançados reforçando o poder dos mercados. Períodos intermitentes de governo da esquerda atrasaram, mas não reverteram a deriva rumo à doutrina e às políticas neoliberais. As alas empresariais dos partidos que compuseram esta esquerda aplaudiram.

Agora, depois de quase meio século, o veredito é claro. Virtualmente todas estas políticas fracassaram, mesmo em seus próprios termos. As empresas foram recompensadas; os impostos, cortados; a regulação, reduzida ou transferida ao setor privado. E a economia é muito mais desigual; no entanto, o crescimento econômico é muito mais lento e caótico que durante a era do capitalismo regulado. A desregulação não produziu competição salutar, mas concentração de mercado. O poder econômico produziu mudanças no poder político, por meio das quais as elites impõem regras que produzem mais concentração.

O culpado não são propriamente os “mercados” – uma força impessoal que de algum modo tornou-se descontrolada de novo. Trata-se de um caso de controle de poder por meio da manipulação da teoria. A economia regulada foi desfeita pelas elites econômicas, que refizeram as regras em seu próprio benefício. Elas patrocinaram pesadamente teóricos “amigos”, que apresentaram a mudança como algo necessário e saudável; e políticos “amigos”, que colocaram as teorias em prática.

Nos últimos anos, houve dois casos espetaculares de erros de mercado, com consequências devastadoras: a quase-depressão iniciada em 2008 e os sinais de mudança climática irreversível. O colapso econômico de 2008 foi o resultado da desregulação das finanças. Só nos EUA, custou à economia 15 trilhões de dólares e, dependendo do cálculo, muito mais que qualquer ganho de eficiência concebível, que pudesse ser creditado à inovação financeira. A teoria dos mercados “livres” presume que a inovação é necessariamente benigna. Mas muito da engenharia financeira da era desregulatória favorecia os que a adotavam, era opaca e corrupta – o oposto de um mercado eficiente e transparente.

A ameaça existencial da mudança climática global reflete a incompetência dos mercados para precificar de modo acurado as emissões de carbono e os custos crescentes da poluição. O economista britânico Nicholas Stern classificou os riscos crescentes de catástrofe climática como o maior caso de fracasso dos mercados da história. Também aqui, não é apenas o resultado de erros teóricos. O poder arraigado das indústrias extrativas e de seus aliados políticos influencia as regras e o preço de mercado do carbono. Isso é menos a “mão invisível” que uma garra. A permissão de “mercados eficientes” oferece útil cobertura.

O grande experimento neoliberal dos últimos 40 anos demonstrou que os mercados são incapazes de se autorregular. Mercados regulados pelo setor público são menos desiguais e mais eficiente. No entanto, a teoria e a influência prática do neoliberalismo avançam, porque ele é muito útil para os setores mais poderosos da sociedade – com um verniz acadêmico recobrindo o que seria, de outra forma, uma captura de poder sem disfarces. O economista político britânico Colin Crouch registrou esta anomalia num livro de título sugestivo: pdf The Strange Non-Death of Neoliberalism (1.23 MB) [“A estranha não-morte do Neoliberalismo”]. Por que o neoliberalismo não morreu? Com o autor observa, ele fracassou tanto como teoria quanto em seus resultados práticos, mas foi extremamente bem-sucedido como política de poder para as elites econômicas.

O avanço neoliberal teve outro custo calamitoso – a legitimidade democrática. À medida em que o Estado deixou de mitigar as forças de mercado, a vida cotidiana tornou-se, para as pessoas comuns, uma luta árdua. As bases de uma vida decente são evidentes – empregos e carreiras seguras, aposentadorias adequadas, atendimento à Saúde, habitação acessível, acesso à Educação sem endividamento por toda a vida. No entanto, a vida tornou-se cada vez mais fácil para as elites econômicas, cujas renda e riqueza multiplicaram-se e cuja lealdade local e à nação tornou-se mais incerta e menos segura.

Vastos setores da sociedade, em consequência, abandonaram a crença em governos realizadores e na própria democracia. Depois que o Muro de Berlim caiu, em 1989, acreditou-se que a nova era seria marcada pelo triunfo do capitalismo liberal e da democracia. Mas em poucas décadas, a segurança aparente da democracia desabou em cada vez mais países, num ecoar dos anos 1930.

Como advertiu o grande historiador da Política, Karl Polanye, quando os mercados oprimem as sociedades, os cidadãos comuns frequentemente voltam-se para os tiranos. Em regimes que se aproximam do neofascismo, clepto-capitalistas confraternizam com ditadores, minando a premissa de que capitalismo e democracia são complementares. Muitos gângsters autoritários tornam-se surpreendentemente populares ao mobilizar os nacionalismos tribais como antídoto ao cosmopolitismo capitalista.

Também vale a pena observar que neoliberalismo não é laissez-fair. Classicamente, a premissa de um “livre” mercado é a de que o Estado simplesmente se retira. É algo sem sentido, já que todos os mercados são criados por regras – fundamentalmente as que definem a propriedade, mas também as que estabelecem condições para o crédito, a dívida, as falências; as que criam patentes, marcas e propriedade intelectual; as que organizam o trabalho e tantas outras. Mesmo a desregulação exige regras. Nas palavras de Polanyi, “o laissez-faire foi planejado”…

A questão política é quem faz as regras e em benefício de quem. O neoliberalismo de Friedrich Hayek e Milton Friedman invocava os mercados “livres”, mas na prática o regime neoliberal promove regras criadas por e para os proprietários de capital privado, para manter o Estado distante da definição de regras de competição justa e dos interesses sociais. O regime tem regras para proteger os gigantes farmacêuticos do direito dos consumidores a ter acesso a genéricos. As regras de competição e propriedade intelectual são concebidas para proteger as empresas já estabelecidas. As regras de falência foram desenhadas para favorecer os credores financeiros. Hipotecas exigem regras elaboradas, escritas pelo setor financeiro e colocadas em vigor pelo Estado. As regras de patentes permitiram que o agronegócio e companhias químicas gigantescas, como a Monsanto, se apoderassem de muito da agricultura – o oposto de mercados “livres”. O setor inventou regras, exigindo que os trabalhadores e consumidores se submetessem a arbitragens obrigatórias e desistissem de um conjunto de normas e costumes.

Neoliberalismo como Teoria, Política e Poder

Vale a pena tomar um momento para desembrulhar o termo “neoliberalismo”. “Liberal” refere-se não ao oposto de conservador, mas ao liberalismo econômico clássico, também conhecido como economia dos “livre” mercados. O prefixo “neo” refere-se à reafirmação da ideia segundo a qual o modelo econômico do laissez-faire estava, ao fim das contas, correto.

Poucos proponentes destas ideias adotaram o termo neoliberal. A maior parte preferiu chamar-se de “conservadores do livre mercado”. “Neoliberal” foi um termo cunhado principalmente pelos críticos, às vezes como um termo descritivo neutro, outras como um epíteto. O uso difundiu-se na era de Margaret Thatcher e Ronald Reagan.

Para aumentar a confusão, um uso distinto, e em parte sobreposto, foi adotado nos anos 1970 pelo grupo formado em torno da revista Washington Monthlly. Eles usavam “neoliberal” para designar uma nova forma, mesmo “estatista” do liberalismo norte-americano. Mais ou menos à mesma época, o termo neoconservadores foi usado, nos Estados Unidos, para auto-descrever antigos liberais que adotavam o conservadorismo nos terrenos cultural, étnico, econômico e geopolíticos. Os neoconservadores eram neoliberais, na economia.

A partir dos anos 1970, a teoria revivida dos “livres” mercados entrelaçou-se tanto com a política conservadora quanto com investimentos significativos na produção de intelectuais acadêmicos e políticos.  Isso ocorreu não apenas nos thinktanks conservadores mais conhecidos, como  American Enterprise Institute, Heritage, Cato e Manhattan Institute, mas por meio de investimentos ousados na academia. Centros de estudos foram generosamente financiados por fundações de extrema direita como  Olin, Scaife, Bradley e outras, para promover variantes da teoria dos “livre” mercados – como as “escolhas racionais”, a “escolha pública”, as “análises de custo-benefícios”, a “maximização da importância dos acionistas”. Estas teorias colonizaram diversas disciplinas acadêmicas. Todas eram variações em torno da afirmação de que os mercados são eficientes e os Estados devem deixá-los “livres”.

Cada um destes corpos de sub-teoria apoiava-se sobre sua própria variante de ideologia neoliberal. Uma versão mais crua da teoria das vantagens comparativas foi usada não apenas para cortar tarifas de importação, mas para transformar a globalização numa ferramenta geral para desregular. A teoria de maximizar a importância dos acionistas foi empregada para dinamitar um vasto espectro de regulações financeiras e de normas em favor do direito dos trabalhadores. As análises de custo-benefícios, que enfatizavam custos e desprezavam benefícios, foram usadas para desacreditar normas de Saúde, Segurança e Ambiente. A teoria da “escolha pública”, associada ao economista Jamis Buchanan e uma vasta escola de Economia e Ciência Política, foi usada para bloquear a própria democracia, sob a premissa de que a política estava irreparavelmente contaminada pelos busca de vantagens indevidas e pelos aventureiros.

As falhas dos mercados foram desprezadas, como se fossem casos raros e especiais. As falhas do Estados eram vistas como ubíquas. Os teóricos, lobistas e funcionários atuavam lado a lado. Mas em cada caso importante em que a teoria neoliberal gerava políticas, o resultado era sucesso político e fracasso econômico.

Um exemplo: a Economia da oferta tornou-se justificativa para cortes de impostos, sob a premissa de que estes puniam o empreendimento. Supostamente, se fossem cortados – especialmente os que incidem sobre o capital e suas rendas – o estímulo resultante, sobre a atividade econômica, seria tão potente que os déficits seriam muito menores que os previstos pelas projeções econômicas “estatistas”. Nos EUA, houve seis rodadas deste experimento, dos cortes de impostos patrocinados por Jimmy Carter em 1978 à mastodôntica Lei de Cortes de Impostos e Empregos, assinada por Donald Trump em 2017. Em todos os casos, houve algum estímulo econômico, principalmente originado no impacto keynesiano sobre a demanda, mas os déficits sempre cresceram de modo significativo. Os conservadores simplesmente pararam de falar no tema. Os cortes de impostos eram, frequentemente, ineficientes e desiguais, já que inúmeras brechas dirigiam os investimento para atividades fiscalmente favorecidas, em vez de orientá-los para usos mais lógicos do ponto de vista econômicos. Dezenas das mais lucrativas corporações dos EUA deixaram de pagar impostos.

O “paradoxo antitruste” de Robert Bork, segundo o qual medidas antitruste acabavam enfraquecendo a competição, foi usado como doutrina para acompanhar inúmeras leis. Supostamente, se o Estado se afastasse, as forças de mercados iriam tornar-se mais competitivas, porque os preços de monopólio iriam suscitar inovação e novos ingressantes no mercado. Na prática, todos os setores tornaram-se mais pesadamente concentrados. As corporações estabelecidas adquiriram o hábito de comprar os inovadores ou de usar seu poder de mercado para esmagá-los. Este padrão é especialmente insidioso na economia dos monopólios de plataformas na internet, onde os gigantes como Google e Amazon usam seu poder e seu acesso muito superior aos dados dos consumidores para excluir rivais. Os mercados, também aqui, exigem regras que levem em conta muito mais que a competição supostamente “benigna”. Só governos democráticos podem estabelecer regras que estabeleçam a igualdade. E quando a democracia é inibida, governos antidemocráticos, em associação com plutocratas privados corruptos, fazem as leis.

A teoria do “capital humano”, outra variante do uso de visões neoliberais dos mercados para lidar com questões sociais, justificou a desregulamentação dos mercados de trabalho e o esmagamento dos sindicatos. Estes, assim como as leis trabalhistas, supostamente usavam seu poder para fazer com que os trabalhadores recebessem mais que seu valor de mercado. Mas a era dos salários deprimidos é acompanhada por um declínio das taxas de crescimento da produtividade. Em paralelo, alguma pessoa séria acredita que o pagamento hiperinflacionado dos magnatas financeiros que quebraram a economia reflete sua contribuição para a atividade econômica? No caso dos fundos de hedge e de private equity, as altíssimas rendas dos patrocinadores dos fundos são o resultado de capturas de riqueza e de renda dos assalariados e de outros agentes, não frutos de gerenciamento eficiente.

Uma vasta literatura critica, em detalhe, este corpo de trabalhos pseudo-acadêmicos. Muito do neoliberalismo representa a vitória da presunção sobre a evidência. Mas a teoria neoliberal sobreviveu por ser conveniente para as elites, e devido ao poder inercial do capital intelectual que havia criado. Um habitat neoliberal muito bem financiado ofereceu carreiras confortáveis para duas gerações de acadêmicos e pseudo-acadêmicos, que transitam entre a academia, os think tanks, as empresas de lobby, as páginas dos jornais, o Estado e os mercados financeiros. Ainda que a teoria tenha sido demolida tanto pela refutação acadêmica quanto pelos fatos, ela realimenta-se em instituições poderosas e aliados políticos musculados.

O fracasso prático das políticas neoliberais

A desregulação financeira é o fracasso desregulatório mais palpável do neoliberalismo, mas está longe de ser o único. A desregulação elétrica elevou, em muitos países, o poder de um oligopólio e elevou os custos para os consumidores – mas foi incapaz de oferecer oportunidades significativas para reduzir os preços. Retrocedemos de monopólios estatais regulados, com ganhos, custos, salários e proteções ao consumidor previsíveis, para oligopólios desregulados, com enorme poder de estabelecer seus próprios preços. As telecomunicações viveram processo quase idêntico de competição restrita, disparata de preços e restrições aos sindicatos.

O transporte aéreo é quase sempre apresentado como um caso exemplar, pelos defensores da desregulação, mas os resultados são, se muito, ambíguos. A desregulação produziu quebradeiras em série das empresas, muitas vezes atingindo os salários e aposentadorias dos trabalhadores. Os preços das passagens declinaram na média, nas últimas décadas, mas o público sofre com um louco mosaico de tarifas, piora dos serviços, encolhimento dos assentos e distância entre eles e penalidades exorbitantes quando é necessário fazer mudanças de horários absolutamente normais. Diversos estudos demonstraram que os preços caíram mais rapidamente nos 20 anos antes da regulamentação que no período posterior, já que a fonte principal de eficiência é a introdução de aviões que usam combustível de modo mais eficiente. As oscilações bruscas entre lucro e prejuízo das empresas reduziu a capacidade de adquirirem aviões mais econômicos e a idade média das frotas sobe.

Além da desregulação, três grandes áreas das políticas neoliberais são a privatização dos serviços públicos, o emprego de vouchers para remunerar a Educação ou Saúde prestada por particulares e o uso, para o mesmo fim, de subsídios fiscais, em vez de desembolsos diretos do Estado. Em todos os casos, estão envolvidas receitas do Estado. Por isso, estamos muito longe de um mercado “livre”. Mas a premissa é que a disciplina de mercado permite obter resultados melhores que os da prestação direta pelo Estado.

As evidências não ajudam estas afirmações. Um problema central é que os programas invariavelmente transferem muito para os intermediários privados, às custas do supostos beneficiários. Um problema relacionado é que o uso de vouchers e contratos é um convite à corrupção. É uma forma de busca de privilégios de monopólio [“rent-seeking”] diferente da que os teóricos da “escolha pública” atribuem ao Estado – mas igualmente corruta. Quase sempre, a oferta direta de serviços, pelo setor público, é muito mais transparente e sujeita a responsabilização que uma rede de contratados.

Um problema adicional é que na prática há sempre muito menos competição do que o imaginado, devido ao poder dos oligopólios e à influência política dos prestadores de serviços. Os experimentos de mercantilização para alcançar objetivos sociais não se dão em laboratórios político platônicos, onde a única meta é a eficiência. Eles ocorrem no mundo fétido da política prática, onde os prestadores estão frequentemente aliados a políticos conservadores, cujo propósito pode ser desacreditar os investimentos sociais, recompensar aliados políticos ou favorecer-se de propina direta, ou contribuições às campanhas eleitorais.

Os presídios privatizados são outro exemplo. Um punhado de enormes empresas, protegidas de escândalos, obteve a maior parte dos contratos, quase sempre por meio de influência política. Em vez de apostar mais qualidade e eficiência gerencial, lucraram desviando fundos operacionais, piorando condições que já eram deploráveis e encontravam novas formas de cobrar, dos presos, tarifas mais altas por serviços essenciais, como chamadas telefônicas. A maior parte das “economias” veio da redução dos salários e do profissionalismo dos guardas, de superlotação cada vez maior e da redução de orçamentos inadequados para alimentação e cuidados com saúde.

Um exemplo similar é a privatização das estruturas de transportes, como rodovias e mesmo parquímetros. Em muitos países e regiões, as estradas foram transferidas a concessionários privados. As autoridades que fazem o negócio ganham um impulso fiscal temporário, enquanto os usuários acabam pagando os pedágios mais altos por décadas. Os banqueiros que financiam o negócio também se apropriam de uma fatia gorda. Uma parte do dinheiro acaba dirigida a melhoras nas estradas, mas isso poderia ser feito de modo muito mais eficiente via propriedade pública direta e licitações competitivas.
(…)

À medida em que mais sistemas hospitalares e planos de saúde passam a visar lucro, investimentos maciços fluem para atividades indesejáveis como a manipulação das cobranças, a “seleção de riscos” e outras formas de burlar as regras. Sistemas semi-públicos de Saúde requerem regulação maciça para trabalhar com eficiência tolerável. Na prática, a terceirização degenera numa disputa interminável entre reguladores e gestores interessados na “eficiência” lucrativa, com as empresas privadas recorrendo aos governos para alterar as regras.

Uma vasta literatura demonstrou que instituições de ensino privadas, que recebem incentivos públicos para admitir alunos, têm resultados muito piores que escolas públicas, e são vulneráveis a múltiplas formas de manipulação e corrupção. Os proprietários destas escolas são muito hábeis para encontrar meios de excluir estudantes.
(…)

A influência neoliberal sobre a esquerda

À medida em que as teorias de “livre” mercado ressurgiram, elas foram abraçadas por muitos integrantes da esquerda moderada. Nos anos 1970, marcados por inflação, a regulação tornou-se um bode expiatório acusada de supostamente bloquear a competição salutar por preços. Alguns, como o economista Alfred Kahn, conselheiro do presidente norte-americano Jimmy Carter, apoiaram a desregulação por enxergar seus supostos méritos. Outros esquerdistas moderados defenderam as políticas neoliberais de modo oportunista, para prestar favores a setores econômicos poderosos e doadores de campanha. As políticas de mercado também foram adotadas pela esquerda moderada como medida tática para chegar a acordos com os conservadores.

Nos EUA, diversas formas de desregulação – do setor aéreo, transporte de carga e fornecimento de eletricidade começaram, nos Estados Unidos, não sob Reagan, mas sob o democrata Jimmy Carter. A desregulação financeira decolou sob outro democrata, Bill Clinton, mas só republicanos promoveram acordos comerciais que destruíram padrões sociais. As análises de custo-benefício do Escritório de Informação e Assuntos Regulatórios de Washington causaram mais danos sob Barack Obama que sob George W. Bush.

“Comando e controle” tornou-se um pejorativo geral para depreciar regulações inteligentes e eficientes. “Semelhante ao dos mercados” [“market-like”] tornou-se um conceito de moda, não apenas entre a direita, mas também nos ambientes de esquerda moderada. Cass Sunstein, que foi o czar anti-regulação no governo Obama, usa a imagem de “cutucões”, como uma alternativa “semelhante à dos mercados” e, portanto, superior, diante da regulação direta. No entanto, o impacto destes “empurrões”, salvo raras exceções, é trivial – eles só funcionam, de fato, em conjunto com processos regulatórios.

Há, de fato, certas políticas intervencionistas que utilizam incentivos de mercado para atender objetivos sociais. Mas, ao contrário do que dizem as teorias de “livre” mercado, estes incentivos exigem regulação substancial – não são uma alternativa a ela. Há muitos outros temas, como os rótulos nutricionais, informação precisa sobre empréstimos e controle das emissões de carbono em que as premissas de mercado, de um consumo informado, conduzem a regulação – mas também não a substituem. Quase todo o aumento de eficiência energética, por exemplo, são resultado de regulações obrigatórias, que exigem das frotas automotivas cumprir metas de economia. O fato de os índices de consumo serem exibidos com destaque, nos novos carros, pode ter influência modesta, mas os combustíveis estão tão depreciados que as empresas conseguem vender com sucesso automóveis muito perdulários a despeito das informações ao consumidor.

Politicamente, qualquer que fosse a lógica para a adesão da esquerda moderada às teses ultraliberais, ela se esgotou. Hoje, a direita ataca os direitos sociais e reduz os impostos dos ricos sem nenhum diálogo com seus oponentes. Também abandonou o esforço para chegar a consensos sobre políticas ambientais, combate a pobreza e serviços públicos – ou seja, quase tudo. A ideologia neoliberal cumpriu sua tarefa histórica de enfraquecer o apoio popular e intelectual à proposição segundo a qual ações afirmativas do Estado podem melhorar as vidas dos cidadãos.

Neoliberalismo e hiperglobalismo

As regras pós-1990 da globalização, apoiadas tanto pelos conservadores quanto pela esquerda moderada, são a quintessência do neoliberalismo. Na Conferência de Bretton Woods, em 1944, o uso de taxas fixas de câmbio e os controles sobre o movimento de capitais privados especulativos, mais a criação do FMI e do Banco Mundial, visam permitir que os países-membros praticassem formas de capitalismo regulado, livres das influências destrutivas e deflacionárias dos fluxos  especulativos de capitais. Quando a doutrina e o controle de poder mudaram, nos anos 1970, o FMI, o Banco Mundial e, mais tarde, a OMC (que substituiu o antigo GATT) transformaram-se no oposto ideológico. Em vez de instrumentos de apoio para as economias nacionais, eles passaram a exigir a aplicação das políticas neoliberais.

O pacote padrão do Consenso de Washington, de políticas impostas às nações em desenvolvimento incluía demandas de abertura dos mercados de capitais para as transações financeiras especulativas, o corte de impostos sobre o capital, o enfraquecimento dos gastos sociais, a redução dos direitos trabalhistas e das empresas públicas. Mas o investimento de capitais privados em nações empobrecidas demonstrou-se volátil. O resultado foram fluxos excessivos, durantes os períodos de boom e retiradas punitivas, nas fases de contração – o oposto dos capitais pacientes, de longo termo, de que estes países necessitavam e que haviam sido oferecidos pelo Banco Mundial da fase anterior. Nos momentos de contração, o FMI tipicamente impõe as exigências neoliberais de maneira ainda mais dramática, como contrapartida a seus “resgates”. Entre as medidas, estão austeridade orçamentária perversa, supostamente para restaurar a confianças dos mesmos mercados de capital altamente especulativos responsáveis pelos ciclos de boom e retração.

Dezenas de países, da América Latina ao Sudeste Asiático, afundaram neste ciclo e, em seguida, na submissão ao FMI. A Grécia ainda sofre o impacto. Depois de 1990, o hiper-globalismo também incluiu tratados comerciais cujos termos favoreceram as corporações. Tradicionalmente, as cláusulas destes acordos envolviam principalmente a redução de tarifas de importação. Os países que os assinavam eram livres para manter as medidas de regulação, o investimento público ou as políticas sociais que desejassem. Com o advento da OMC, muitas políticas, além das tarifas, foram rotuladas como “distorções do ‘livre’ comércio”. Os acordos comerciais foram usados para dar ao capital externo livre acesso a seus objetivos e para desmantelar as regulações a empresas nacionais. Tribunais especiais foram criados. Neles, as corporações estrangeiras e os investidores podiam obrigar as autoridades nacionais a abrir mão de regulação, tratada como “impeditiva ao comércio”.

O dano não se restringiu, porém, aos países em desenvolvimento. Como demonstrou um trabalho do economista Dani Rodrik, a democracia exige um espaço político. Para o bem ou para o mal, tanto este espaço quanto a cidadania são nacionais. Ao adotar o mercado global, às custas do Estado democrático, o padrão atual de hiperglobalização enfraquece deliberadamente a capacidade dos Estados para regular mercados – e enfraquece a própria democracia.

Quando os mercados funcionam?

O fracasso do neoliberalismo como política econômica e social não significa que os mercados nunca funcionem. Uma economia de comando central pode ser ainda mais irreal e perversa que uma neoliberal. A questão prática é como encontrar uma alternativa eficiente e igualitária.

A narrativa neoliberal sobre como a economia opera pressupões um mercado sem conflitos, em que os preços são estabelecidos pela oferta e demanda, e o mecanismo de preços aloca os recursos em direção a seu melhor uso, para a economia como um todo. Para que este esquema funcione como supõe a propaganda, porém, não pode haver poder de mercado. A competição deve ser plena. Vendedores e compradores precisam ter acesso, basicamente, à mesma informação. Não pode haver externalidades significativas. O século XX foi, em boa parte, a prova prática de que estas condições não descrevem a economia real. E se os mercados precificaram os produtos de modo errado, o sistema de mercado não produziu um equilíbrio eficiente e as depressões poderiam aprofundar a si mesmas em espiral descendente. Como Keynes demonstrou, apenas um aumento maciço do gasto governamental é capaz de religar os motores – mesmo quando violam, ainda que parcialmente, o estabelecimento de preços pelos mercados…

Mesmo assim, em muitos setores da economia, o processo de compra e venda é suficientemente próximo das condições ideais de competição perfeita – e o sistema de preços funcional de modo tolerável. Os supermercados, por exemplo, oferecem preços mais ou menos acurados, devido à liberdade dos consumidores e a seu conhecimento sobre as lojas da redondeza. É o mesmo com boa parte do setor de varejo. No entanto, quando se entra nos grandes setores da economia, como a Educação e a Saúde, os mercados não são suficientes. E em outros grandes setores, como a indústria farmacêutica, em que as corporações usam seu poder político para estabelecer as regras de patentes, o mercado não oferece uma saída.

O argumento essencial do neoliberalismo pode ser resumido num adesivo de para-choques: “Os mercados funcionam; os governos, não”. Se você deseja adocicar a narrativa, há alguns acréscimos: “Os mercados fortalecem a liberdade humana. E com mercados, as pessoas obtêm essencialmente aquilo que merecem”. “Alterar os resultados dos mercados é espoliar os pobres e punir os produtivos”. Estas conclusões derivam, logicamente, da premissa segundo a qual os mercados são eficientes. Milton Friedman tornou-se rico, famoso e influente por defender as diversas implicações destas premissas simples.

É muito mais difícil articular a defesa de economias complexas que a dos “livres” mercados, precisamente porque as economias complexas são complexas. A refutação exige vários parágrafos. A narrativa mais complexa sustenta que os mercados são substancialmente eficientes em alguns setores, mas estão distantes disso em muitos outros, porque as externalidades positivas e negativas, a tendência dos mercados financeiro a criar ciclos de expansão e contração, a interseção entre auto-interesse e competição, a assimetria de informação entre empresas e consumidores, a assimetria de poder entre corporações e empregados, o poder dos poderosos para burlar as regras e o fato de haver setores da vida humana (o direito ao voto, a liberdade humana e a segurança de qualquer  pessoa, por exemplo) que não deveriam ser mercantilizados.

E se os mercados não são perfeitamente eficientes, as questões redistributivas são, em parte, escolhas políticas. Algumas sociedades pagam a professores pré-escola básica o salário mínimo. Outras educam e recompensam seus profissionais. Não há nenhum salário “correto” a partir de critérios de mercado, porque a educação pré-escola básica é um bem social e o tema de como treinar e compensar os professores é uma escolha social, não uma definição de mercado. O mesmo é verdade para muitos outros serviços humanos, entre eles a Medicina. Também não é um conjunto de regras “corretas” para patentes, marcas e propriedade intelectual. Tudo isso é derivado da política – ou as normas equilibrar os interesses da inovação com os da difusão, ou são politicamente capturados pelas empresas estabelecidas.

Os governos podem, em princípio, aperfeiçoar os resultados dos mercados, por meio da regulação. Isso torna-se mais complexo devido ao risco de captura regulatória. Por isso, surge o tema da falha dos mercados versus falha da política – o que nos remete novamente à urgência de democracias fortes e governos efetivos.

Depois do Neoliberalismo

A reversão política do neoliberalismo poderá vir somente por meio de políticas e decisões práticas que demonstrem como os Estados podem servir os cidadãos de modo mais igualitário e eficiente que os mercados. Não faltam economistas dissidentes e pesquisadores políticos cujos trabalhos acadêmicos foram confirmados pelos fatos. Não precisam de mais teoria, mas de mais influência política, tanto na academia quanto nos corredores do poder. Eles poderão assessorar novos governos progressistas se estes puderem ser eleitos e se estiverem dispostos a desistir de buscar auxílio de neoliberais.

Também há algumas áreas relativamente novas que convidam à inovação política. Entre elas estão a regulação dos direitos de privacidade versus as liberdades das empresas, na era digital; como pensar na internet como um Comum; como atualizar as políticas de competição e combate aos oligopólios, quando os monopólios de plataforma exercem novas formas de poder de mercado; como modernizar as políticas de trabalho na era da economia uberizada; e o papel das políticas de Renda Cidadã, num tempo em que as máquinas substituem o trabalho humano.

O experimento neoliberal fracassado não sugere apenas, como alternativa, um capitalismo melhor regulado – mas a ação pública direta. A atividade bancária, quando exercida corretamente – em especial a provisão de crédito imobiliário – é algo muito próximo a um bem público. Poderia ter este caráter. Uma boa parte da pesquisa científica e tecnológica é feita mais honesta e eficazmente em instituições públicas do que num setor particularmente corrupto como a indústria farmacêutica. A habitação social é quase sempre melhor que os esquemas oferecidos pelo mercado. A geração de energia é mais eficiente, menos suscetível a preços de monopólio e mais aberta a políticas ambientais quando estatal. A Saúde pública é muito mais eficiente. Serviços oferecidos pelo Estado requerem supervisão das sociedades, mas esta é muito mais direta e transparente que a dança bizantina de regulação e contrarregulação.

Os outros dois benefícios da oferta direta pelo Estado são: a sociedade tem evidência direta da entrega, pelos governos, de algo de valor; e o poder da democracia para controlar os mercados é ampliado. Uma economia complexa depende, sobretudo, de uma democracia forte – ainda mais do que aquela que sucumbiu à influência corrupta das elites econômicas e dos defensores do neoliberalismo nos últimos 50 anos. O antídoto para a fábula neoliberal é a ressurreição de uma democracia suficientemente forte para domar os mercados.

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Baixar: pdf The Strange Non death of Neo liberalism (1.23 MB)

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/07/o-enigma-da-sobrevivencia-neoliberal.html

Os economistas tornaram-se parte do problema?

Alguns parágrafos que traduzi de uma entrevista ao economista holandês Servaas Storm, autor de um documento onde se argumenta que o crescimento verde é uma ilusão. Este economista (já agora, também este) deveria ser lido pelos alunos e professores que hoje reivindicam uma mudança nos curricula de economia. SS: Os economistas do clima, como os economistas em geral, tendem a esquecer que as conclusões políticas tiradas de seus modelos são tão boas, robustas e realistas quanto os pressupostos subjacentes aos modelos que usam - e esse é precisamente o problema: esses pressupostos são muitas vezes frágeis, discutíveis e/ou irrealistas. Permitam-me que refira três. Primeiro, os modelos mais conhecidos não conseguem capturar adequadamente resultados de baixa probabilidade, mas de alto impacto (catastróficos) associados ao aquecimento global descontrolado. A maioria dos modelos ignora que o aquecimento global pode tornar-se um processo cumulativo incontrolável quando determinados limites de temperatura são ultrapassados. Em segundo lugar, os modelos estimam os benefícios sociais líquidos do dinheiro gasto na ação climática e depois comparam esses benefícios com os retornos que a humanidade poderia ter obtido investindo o dinheiro em instrumentos financeiros de baixo risco, como os títulos de dívida pública. Tais exercícios implicam que os economistas do clima acreditam que os títulos do governo continuarão a produzir taxas de retorno de 3 - 3,5% ao ano, mesmo sob condições climáticas deterioradas. Isso é um pouco exagerado. Finalmente, a maioria dos modelos assume que, para financiar os investimentos necessários para ter maior bem-estar no futuro, devemos conter o nosso consumo hoje e aumentar a poupança. Esta lógica é poderosa. Apela à noção calvinista de gratificação adiada, que, segundo Max Weber, foi crucial para a Ética Protestante e para a ascensão do capitalismo empresarial. Mas é errada. As nossas economias são "economias monetárias" em que os bancos comerciais criam o dinheiro para financiar investimentos, portanto não precisamos de aumentar a poupança primeiro. Isso significa que não há um trade-off entre consumo agora e consumo no futuro, como é erroneamente assumido na economia climática.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Passos Coelho e a dívida externa

"A resposta que o governo de Passos Coelho abraçou para enfrentar os desequilíbrios externos é conhecida. Indo além da troika, fomentou uma crise generalizada, levando à redução dos rendimentos, do consumo e do investimento - e, por conseguinte, das importações. Desesperados pelo colapso da procura interna, as empresas procuraram aumentar como puderam as vendas no exterior. O forte aumento do desemprego fez reduzir a imigração e aumentar a emigração, com reflexo nas remessas líquidas. Tudo somado, passou a sair muito menos dinheiro do país e a entrar um pouco mais. Tal como no passado, o empobrecimento revelou-se um modo eficaz de evitar os desequilíbrios externos. Passos Coelho e a direita em geral não são originais em apontar os desequilíbrios externos como um problema - o que lhes é característico é a forma que escolhem para os corrigir. O Grupo de Trabalho para a Sustentabilidade da Dívida Externa, que em 2016 e 2017 reuniu deputados da actual maioria parlamentar e economistas académicos (eu fui um deles), fizeram desse um tema central da sua análise. Reconhecendo a natureza estrutural dos défices externos, fruto da dependência tecnológica e energética do país, o relatório final do Grupo de Trabalho procurou apontar vários caminhos para lidar com este problema sem recorrer às receitas da troika.  A solução de Passos Coelho para o problema estrutural do endividamento externo português é a desvalorização interna. Ou seja, a austeridade permanente, a perda de direitos e a emigração em massa. Não é uma estratégia de desenvolvimento auspiciosa. Empobrecer para não ter dívidas não é propriamente uma solução." Excerto do meu texto de hoje no DN.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Papel do US dólar como moeda de reserva está em risco

– Os demais países voltam-se para moedas internas e o ouro

por Paul Craig Roberts
entrevistado por Ekaterina Blinova

'.A política de sanções de Washington estimulou os principais actores mundiais a afastarem-se do dólar, colocando em risco o seu status como moeda de reserva, afirma o economista americano Paul Craig Roberts. Ele também explica como o Federal Reserve manipula o preço do ouro a fim de escorar o dólar.

Enquanto a administração Trump toca o tambor do "fazer a América grande outra vez" e informa acerca de um crescimento rápido do Produto Interno Bruto (PIB) e de uma taxa de desemprego em queda livre, acumulam-se nuvens no horizonte da economia dos EUA e do dólar, afirma o Dr. Paul Craig Roberts, economista americano autor de mais de uma dúzia de livros. Ele foi secretário assistente do Tesouro para Política Económica no governo do presidente Ronald Reagan.

A espinha dorsal do poder financeiro dos EUA é o status do dólar como de moeda de reserva principal , o qual permite aos EUA pagar as suas contas com a impressão da nota verde. Depois de o presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, ter desvinculado o dólar do preço do ouro, o Federal Reserve manteve durante muito tempo a ilusão de um dólar "estável" pois reduzia deliberadamente a cotação do metal amarelo, explicou o economista.

Agora, à medida que os actores globais começam a virar as costas ao dólar, mudando para moedas nacionais e utilizando o ouro como protecção (hedge) , a economia dos EUA pode deparar-se com uma pilha de grandes problemas, de acordo com o ex-responsável da administração Reagan.

Sputnik: O que está por trás das aparentes tentativas da Reserva Federal de reduzir o preço do ouro? Poderia a procura crescente por ouro afectar o valor do US dólar? Na sua opinião o dólar americano estará actualmente super-valorizado?

Paul Craig Roberts: A principal fonte do poder de Washington é o papel do dólar americano como moeda de reserva. Ser a moeda de reserva significa que há uma alta procura por transacções em dólar, para pagar as facturas de petróleo por exemplo, e que outros governos estão desejosos de manter dólares nas suas reservas. O facto de outros países estarem dispostos a acumular dólares significa que os EUA podem pagar suas contas imprimindo dinheiro.

O valor do dólar em relação às outras principais divisas, o euro, a libra britânica, o iene japonês, é manipulado dentro de uma faixa estreita. Quando o Federal Reserve começou a imprimir dinheiro (Quantitative Easing ou QE) a fim de resgatar os grandes bancos comprando seus derivativos hipotecários, os bancos centrais japonês, da UE e britânico também emitiram moeda. Uma vez que todos emitiram moeda, isto impediu que o dólar americano de declinar em termos de ienes, euros e libras.

A fim de manter esta ilusão de divisa com valor estável, apesar da emissão de moeda, o Federal Reserve tinha de impedir que o preço do ouro em dólar ascendesse. O modo como isso tem sido feito nos últimos anos é os bancos que actuam como agentes do Federal Reserve efectuarem vendas a descoberto (short sales) de ouro despejando grande número de contratos a descoberto ou "nus" no mercado futuro de ouro (Comex). A súbita aparição no espaço de tempo de um minuto ou dois, habitualmente em horas de negociação tranquilas, de um grande número de novos contratos deita abaixo o preço do ouro.

O preço do ouro é o único que não é determinado em mercados físicos onde as pessoas compram e vendem o metal físico. Em vez disso, é determinado num mercado de futuros, onde contratos a termo são liquidados em cash. Ao contrário do mercado de acções, onde um vendedor a descoberto realmente tem de cobrir a sua venda a descoberto dispondo das acções, no mercado de futuros do ouro a venda a descoberto não exige que o vendedor a descoberto tenha o ouro que está a vender. Ele, ou melhor, o grande banco, pode simplesmente imprimir contratos em papel, assim como o Federal Reserve imprime dólares, e deposita os contratos no mercado de ouro de papel.

O grande aumento na oferta de contratos de papel acresce a oferta de contratos no mercado de futuros e reduz o preço, subsidiando assim a compra real de metal físico pela redução do preço do ouro em dólar.

Os bancos que fazem estas vendas a descoberto obtêm grandes lucros. Como o choque de um grande número de descobertos reduz o preço do ouro, os fundos hedge vendem seus haveres no declínio, o que conduz os preços ainda mais para baixo. Então os bancos compram os contratos que eles venderam a um preço abaixo da cotação, fecham sua posição e contam seu lucro.

Todas as moedas ocidentais estão super-valorizadas em termos de ouro. Mais evidências são o declínio no poder de compra em termos de bens e serviços de todas as divisas ocidentais.

O papel do US dólar como divisa de reserva está em risco, porque as sanções impostas por Washington estão a afastar outros governos da utilização do dólar e do sistema financeiro ocidental. Como o papel do dólar como moeda de reserva diminui, assim o faz a procura por dólares. Quando a procura por dólares cai, também cai o seu valor de troca. O Federal Reserve pode imprimir dólares com os quais compra activos financeiros, como acções e títulos, apoiando assim seus preços, mas o Federal Reserve não pode imprimir divisas estrangeiras para comprar dólares com as mesmas.

Sputnik: Um seu artigo recente destacava que a taxa de crescimento da economia dos EUA está super-estimada pois o desemprego real é cerca de 20%, ao passo que a inflação é muito mais alta do que mostram os números oficiais. Quem é responsável por isto e quem se beneficia com as estatísticas distorcidas que não reflectem o estado real das coisas no país?

Paul Craig Roberts: Em 1995, durante o regime de Clinton, o Senado dos EUA nomeou a Comissão Consultiva para Estudar o Índice de Preços no Consumidor. A Comissão ficou conhecida como a "Comissão Boskin" devido ao professor da Universidade de Stanford que a liderou. Washington estava preocupada com os défices do orçamento federal. Os políticos gostam de culpar os défices em gastos sociais ao invés daqueles em gastos militares. Pensões de velhice da Segurança Social têm ajustamentos de custo de vida (cost-of-living adjustments, COLA) para que o poder de compra das pensões acompanhe aumentos de preços ou inflação. A Comissão Boskin argumentou que o modo como a inflação era medida exagerava-a e, portanto, o governo estava a pagar muito em COLAs.

Assim, a medida da inflação foi alterada de modo a que quando o preço de um item no índice de preços ao consumidor subisse ele era removido do índice e uma alternativa de preço mais baixo era colocada no seu lugar. Isto reduziu a taxa da inflação medida. Além disso, se o preço de um item no índice sobe, o aumento é atribuído a uma melhoria de qualidade e não é contado como inflação. Estas mudanças foram feitas apesar do facto de os consumidores experimentarem preços mais altos. A inflação simplesmente não é contada.

Ao manter baixos os gastos da Segurança Social, a mudança proporcionou mais dinheiro disponível para outras categorias do orçamento, de modo que os grupos de interesse atendidos por essas categorias foram beneficiados. Além disso, a indústria privada beneficiou-se na medida em que dispunha de mão-de-obra e outros contratos com cláusulas de custo de vida.

A Wall Street e os políticos Washington beneficiaram-se porque a sub-mensuração da inflação produziu uma maior taxa de crescimento do PIB real pela qual eles poderiam ser creditados. O Produto Interno Bruto é um número nominal baseado em preços. Para saber quanto do número do PIB é um aumento em bens e serviços reais e quanto é simplesmente o aumento dos preços devido à inflação, o número do PIB tem de ser ajustado à inflação. Por exemplo, se o PIB nominal subir 5% e os preços também aumentarem 5%, não haverá crescimento no produto real. Se o PIB subir 5% e os preços subirem 2,5%, o PIB real crescerá 2,5%. Quanto menor a inflação, maior o PIB real.

É provável que o crescimento do PIB dos EUA na última década seja, em grande parte, o resultado de aumentos de preços que as novas medições da de inflação não medem adequadamente. Assim, Washington beneficia-se da imagem ou ilusão criada pela sub-mensuração da inflação. O resto do mundo pensa que as coisas estão bem nos EUA pois a economia tem estado em expansão durante uma década.

O desemprego elevado é considerado um sinal de fracasso político. Para manter uma imagem de sucesso, o desemprego simplesmente não é contado. A menos que um desempregado tenha procurado emprego nas últimas quatro semanas anteriores à pesquisa, ele não é considerado como parte da força de trabalho e, portanto, não é contado entre os desempregados.

Sputnik: Donald Trump informa regularmente acerca de milhares de novos empregos. Ele quer dizer empregos de tempo integral bem remunerados? Será isso suficiente para consertar a situação? Será que actual crescimento do PIB nos EUA indica que a economia está de facto a prosperar?

Paul Craig Roberts: Os novos empregos, se realmente existirem, são primariamente empregos em serviços domésticos com salários baixos , cada vez mais em tempo parcial, pois empregos de meio período não têm a responsabilidade de providenciar cuidados de saúde ou benefícios de aposentação. Os empregos de alta produtividade e alto valor acrescentado, que proporcionavam um rendimento de classe média, foram transferidos para a Ásia de modo a que as corporações americanas pudessem reduzir seus custos de trabalho e aumentar seus lucros.

 

JOBS, JOBS, JOBS!  https://t.co/lWqvRNJDOW
— Donald J. Trump (@realDonaldTrump)

Sputnik: Observou que a Reserva Federal, o Tesouro e a Comissão de Valores Mobiliários poderiam intervir no mercado de acções para evitar uma queda. Como isso se alinha com o conceito de economia de mercado livre? Significa isso que os mercados norte-americano e global estão de facto sujeitos a um firme controle governamental/bancário? Como é que isso afecta o desenvolvimento económico do país?

Paul Craig Roberts: Não há mercados financeiros livres. Os mercados financeiros ocidentais e japonês são viciados (rigged) pelos bancos centrais. As compras de títulos pelos bancos centrais elevam os seus preços, reduzindo portanto as taxas de juros. Nos EUA, o Federal Reserve pode apoiar os preços das acções comprando futuros dos indexados na S&P. No Japão, o banco central realmente compra acções e agora detém uma percentagem significativa das acções japonesas. Por outras palavras, os mercados financeiros já não desempenham mais a função da "descoberta de preço".

06/Julho/2019

De Paul Craig Roberts ver também:

 

Esta entrevista encontra-se em http://resistir.info/ .

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/financas/roberts_entrev_06jul19.html

A riqueza deve infiltrar-se de baixo para cima, e não escorrer dos mais ricos para todos os outros. Por Michael Pettis

Trickle up

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

 

A riqueza deve infiltrar-se de baixo para cima, e não escorrer dos mais ricos para todos os outros

 

michael pettis Por Michael Pettis

Wealth Should Trickle Up, Not Down“,Publicado por Carnegie Michael Pettis em 19 de junho de 2019 (Original aqui)

 

A desigualdade de rendimento nos Estados Unidos dificulta o crescimento e aumenta o endividamento. Nas economias avançadas em que o investimento não é limitado pela escassez de poupança, níveis elevados de desigualdade de rendimento conduzem automaticamente a mais desemprego ou a mais dívida. Essa desigualdade mina não só a saúde da economia, mas, eventualmente, também o rendimento dos ricos.

 

Nas últimas décadas, a desigualdade de rendimento nos Estados Unidos disparou. Esta não é a primeira vez que tal acontece. Esses altos níveis de concentração de riqueza já aconteceram antes, ao longo da história dos EUA, mais notoriamente na década de 1920, mas também várias vezes no século XIX. Tal como nesses períodos anteriores, a economia de hoje parece apenas crescer quando a dívida também está rapidamente a crescer.

Isso não é uma coincidência. Em qualquer economia, a desigualdade de rendimento tende a reduzir o consumo e forçar a subida da taxa de poupança, transferindo efetivamente o rendimento daqueles que mais consomem para aqueles que mais poupam. Há momentos em que esta tendência pode ser positiva para o crescimento, mas outras vezes pode ser negativa, dependendo principalmente do facto de o investimento na economia estar ou não limitado por poupanças baixas e capital caro.

Especificamente, uma poupança mais elevada pode estimular o crescimento quando uma economia tem menos investimento do que as empresas desejam devido a uma poupança insuficiente. Nesses casos, ao pouparem rendimentos que de outra forma teriam sido consumidos, os ricos criam as poupanças mais elevadas que as empresas utilizam para estimular o investimento, levando a economia a crescer mais rapidamente e, eventualmente depois, a riqueza a espalhar-se ou difundir-se até aos trabalhadores mais pobres. Este foi o caso de grande parte da história dos EUA, quando as poupanças eram inadequadas e o investimento era limitado principalmente pelo alto custo do capital.

Contudo, para as economias em que o investimento está restringido não pela falta de poupança, mas principalmente pela fraca procura, o aumento da desigualdade de rendimento pode realmente suprimir o investimento e reduzir o crescimento através da redução do consumo. Este ponto é muito pouco reconhecido pela maioria dos economistas, mas para entender por que isso é verdade, basta ver que existem basicamente dois tipos de investimento:

  • Investimento que não é sensível a mudanças na procura. Este tipo de investimento – típico de economias em situação de subinvestimento (geralmente países em desenvolvimento) ou sectores com subinvestimento (como um novo sector tecnológico nas suas fases iniciais) em que não há investimento suficiente para satisfazer a procura existente – está limitado pelo elevado custo do capital, pelo que, quando poupanças adicionais fazem diminuir o custo do capital, as empresas aumentarão o seu investimento..
  • Investimento que é sensível a mudanças na procura. Nesses casos, típicos das economias avançadas, as empresas justificam o investimento em capacidade produtiva adicional apenas quando esperam que a procura sobre os seus produtos cresça.

Muito do investimento nos Estados Unidos é do segundo tipo [1], o que significa que se os aumentos da desigualdade de rendimento nas economias avançadas reduzirem o crescimento do consumo esperado, as empresas respondem tipicamente reduzindo o investimento. Foi provavelmente o que aconteceu na Alemanha após as reformas Hartz de 2003-2005 e o que tem acontecido nos Estados Unidos e noutras economias avançadas ao longo das últimas décadas. Devido ao fraco crescimento da procura, o investimento empresarial tem crescido mais lentamente do que a maioria dos economistas teria desejado, e mesmo assim muito dele tem ocorrido no sector da alta tecnologia (que nas suas fases iniciais é mais parecido com o primeiro tipo de investimento do que com o segundo). O crescimento da procura teria sido ainda mais fraco se o aumento da dívida das famílias e dos défices orçamentais não tivesse impulsionado o consumo.

O aparente paradoxo sob estas condições é que a crescente desigualdade de rendimento não pode aumentar a poupança total, mesmo quando aumenta a poupança dos ricos. Isto é assim porque numa economia fechada, como a economia global, a poupança, por definição, deve ser igual ao investimento, e se o investimento não aumenta, a poupança não pode aumentar.

Esta dinâmica pode também aplicar-se a economias abertas, como os Estados Unidos, em que a balança de capitais é impulsionada principalmente por decisões de investimento do estrangeiro. Dado o estatuto dos Estados Unidos como recetor automático de quase metade das poupanças excedentárias do mundo, esta condição é ainda mais estrita: a poupança deve crescer mais lentamente do que o investimento quando há um aumento do défice na balança corrente, que é em grande parte determinado pela necessidade que o resto do mundo tem de encontrar um porto seguro para suas poupanças excedentárias [2]. Como a maioria dos países ricos e alguns países em desenvolvimento não conseguem encontrar utilização produtiva para as suas poupanças, eles exportam o excesso para países como os Estados Unidos, cujos mercados financeiros profundos, flexíveis e bem administrados os tornam os melhores lugares para depositar as poupanças excedentárias.

É por isso que o investimento americano é superior à poupança americana, com a diferença entre os dois valores a ser determinada principalmente pelos investidores estrangeiros [3]. Por outras palavras, os Estados Unidos devem conciliar a tendência da desigualdade de rendimento para aumentar a poupança dos ricos com a tendência do declínio do crescimento do investimento devido à debilidade associada ao crescimento do consumo. Porque a poupança não pode aumentar mais rapidamente que o investimento – e esta é apenas uma condição contabilística básica que não pode ser violada – haver mais poupança nos ricos significa que se suprimirá necessariamente a poupança num outro setor.

De um modo geral, existem duas formas pelas quais um aumento da desigualdade de rendimentos pode suprimir a poupança algures no resto da economia:

  • Esta desigualdade pode provocar o aumento do desemprego e a contração do PIB. Neste caso, a pressão descendente sobre o consumo provocada pela desigualdade de rendimentos pode levar ao encerramento de fábricas e empresas, que devem depois despedir os trabalhadores que, por sua vez, são forçados a consumirem as suas poupanças, a desentesourar.
  • Ou pode facilitar mais dívida das famílias ou do governo para manter o crescimento do PIB. Neste caso, para combater o aumento do desemprego, o Federal Reserve pode flexibilizar as condições monetárias, e assim incentivar a dívida privada, ou Washington pode aumentar a dívida pública através da expansão do défice público. Relembremos que dívida é simplesmente poupança negativa.

Por outras palavras, sem o aumento da dívida, os Estados Unidos sofreriam um aumento do desemprego e uma economia em contração. Compreender isso torna mais fácil ver porque é que muito do pensamento económico convencional não consegue fazer a ligação óbvia entre desigualdade de rendimento, desequilíbrios da balança comercial, dívida e desemprego. Os modelos dos economistas ainda assumem implicitamente que o investimento é limitado por poupanças relativamente escassas, mas – a menos que talvez os Estados Unidos estivessem a implementar um grande programa de despesas em infraestruturas – esta hipótese já não se aplica claramente.

Esta explicação não é nova. No meio de uma extrema concentração de riqueza do final do século XIX, o economista britânico John Hobson e um contemporâneo americano chamado Charles Arthur Conant entenderam e explicaram esta dinâmica. O mesmo princípio foi sistematicamente elaborado quase quatro décadas depois, durante outro período de extrema concentração de riqueza, por John Maynard Keynes. Ao mesmo tempo, Friedrich Hayek – cujo desprezo pelos ricos não o impediu de fornecer o argumento mais rigoroso sobre o porquê, dada a distribuição desigual da capacidade de negócios, das acumulações espontâneas de riqueza serem uma condição do bom funcionamento dos mercados – justificou a acumulação de riqueza, e não a crescente concentração de riqueza, que tende a impedir a natureza disruptiva dos mercados [4]. Numa economia de mercado que funciona bem, por diferentes razões, tanto Keynes como Hayek argumentaram que o rendimento dos pobres deveria crescer mais rapidamente do que o dos ricos, e não o contrário, como tem sido o caso desde há décadas [5].

No entanto, a exposição mais perspicaz e esclarecedora, também feita na década de 1930, foi feita por outro economista conservador, Marriner Eccles, presidente do Conselho da Reserva Federal. Marriner Eccles explicou esta questão da seguinte forma nas suas memórias:

Tirando o poder de compra das mãos da massa dos consumidores, os aforradores negaram a si mesmos o tipo de procura efetiva para os seus produtos que justificaria um reinvestimento do seu capital … Foi o que nos aconteceu nos anos vinte. Mantivemos elevados níveis de emprego nesse período com a ajuda de uma expansão excecional da dívida fora do sistema bancário. Esta dívida foi proporcionada pelo grande crescimento da poupança das empresas, bem como da poupança dos particulares, particularmente nos grupos de rendimento superior, onde os impostos eram relativamente baixos.

Nos Estados Unidos da década de 1920, a invenção de novas formas de crédito ao consumo, impulsionada pela explosão das reservas de ouro, impulsionou a economia da forma que Eccles descreveu, até que a dívida deixou de poder crescer o suficiente para compensar o crescimento da poupança desencadeado pela concentração extrema da riqueza. Quando isso aconteceu, durante os três anos após o crash do mercado acionista de 1929, o aumento do desemprego substituiu o aumento da dívida como única forma de equilibrar a alta poupança dos ricos.

Como Eccles explicou no seu depoimento no Congresso em 1933:

É absolutamente impossível, como este país tem demonstrado repetidas vezes, que os ricos poupem tanto quanto têm tentado poupar, e poupem tudo o que vale a pena poupar. Eles podem manter fábricas que não estão a funcionar, e carruagens de comboio inúteis; podem manter edifícios de escritórios vazios e bancos fechados; podem conservar as provas de empréstimos externos em papel; mas, como classe, não podem conservar nada que valha a pena conservar, acima e além da quantidade que se torna lucrativa com o aumento do poder de compra dos consumidores. É do interesse dos ricos – para os proteger dos resultados da sua própria loucura – que lhes retiremos uma quantidade suficiente dos seus excedentes para que os consumidores possam consumir e as empresas possam funcionar e terem lucros. Isto não é para afundar os ricos; é para salvar os ricos.

Os Estados Unidos estão hoje na mesma posição: a dívida crescente é a única forma de equilibrar as elevadas poupanças dos ricos sem recorrer a um desemprego mais elevado. Embora as crescentes concentrações de riqueza possam criar resultados sociais e políticos adversos, elas ainda são justificadas por alguns economistas com o argumento de que, ao impulsionar a poupança, a desigualdade de rendimento leva a um maior investimento, o que por sua vez leva a um maior crescimento que eventualmente beneficia até mesmo os pobres. A questão, no entanto, é que isto só pode acontecer em condições económicas que já não se aplicam aos Estados Unidos (ou a outras economias avançadas).

Hoje, em virtude de ser a fraca procura, e não os altos custos de capital, que restringe o investimento empresarial, a desigualdade de rendimento não leva a um maior investimento. Pelo contrário, leva a um crescimento mais lento, a mais dívida e talvez até a menos investimento. Se os Estados Unidos invertessem as condições que desde o final da década de 1970 têm indiretamente incentivado a crescente desigualdade de rendimento, a economia dos EUA cresceria mais solidamente com menos dívida e, como Eccles prometeu, o crescimento acabaria por beneficiar a população em geral e acabando também por beneficiar os ricos.

________________________________________

Notas

[1] Isso não quer dizer que não haja investimento potencial do primeiro tipo nos Estados Unidos. A infraestrutura dos EUA é claramente muito pobre em alguns aspetos, e poderia ser alvo de uma modernização significativa, no mínimo. Este investimento seria necessário, independentemente da rapidez ou lentidão com que a procura crescesse. A razão pela qual muito desse investimento não está a ser feito não é porque os Estados Unidos sejam incapazes de financiar o investimento a um custo aceitável, mas sim porque considerações políticas impedem que o país o faça.

[2] O défice da balança corrente dos EUA é, por definição, igual ao seu excedente da balança de capital, que consiste no montante líquido das entradas de capital estrangeiro nos Estados Unidos. Como o país atua como o estabilizador que automaticamente equilibra a procura global de poupança com a oferta global de poupança, os Estados Unidos têm pouco controle sobre a sua conta de capital e, consequentemente, pouco controle sobre a sua taxa de poupança. Para ver como funciona esse processo de estabilização, note-se que até à década de 1970, quando a economia global estava a ser reconstruída da devastação de duas guerras mundiais, a procura global de poupança ultrapassou a oferta global e, como resultado, os Estados Unidos exportaram o excesso de poupança enquanto mantinham excedentes aparentemente permanentes na sua balança corrente. Assim que essa reconstrução ficou mais ou menos completa, e as necessidades de investimento entre as economias desenvolvidas ricas do mundo voltaram a cair em relação às suas poupanças, mais elevadas, o mundo sofreu de excesso de poupança. Como resultado, os Estados Unidos tornaram-se importadores de poupança excedentária externa, enquanto a balança corrente passou automaticamente para défices aparentemente permanentes. Isto quase que seguramente não é uma coincidência, e enquanto os estrangeiros colocarem as suas poupanças excedentárias na economia dos EUA, a sua taxa de poupança estará abaixo da sua taxa de investimento.

[3] É também por isso que um défice em expansão da balança corrente dos Estados Unidos tipicamente aumenta o desemprego ou a dívida, enquanto um défice em contração da balança corrente dos E.U. tipicamente reduz o desemprego ou a dívida. Os economistas mainstream muitas vezes têm dificuldade em compreender isto principalmente porque, geralmente sem se aperceberem, eles assumem implicitamente que as poupanças são geralmente escassas e restringem o investimento produtivo.

[4] “Devemos estar muito mais conscientes que se consideramos que um homem tem direito a uma alta recompensa material, isso, por si só, não lhe dá necessariamente direito a uma alta estima,” explicou Hayek uma vez.

[5] Com o risco de simplificação excessiva, Keynes estava interessado em compreender as tendências sistémicas para a concentração da riqueza e o seu impacto sobre a procura, enquanto Hayek se preocupava mais sobre como é que as concentrações persistentes de riqueza poderiam criar uma busca de obtenção de rendas e levar a privilégios legais e vantagens garantidas pelo governo.

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2019/07/07/a-riqueza-deve-infiltrar-se-de-baixo-para-cima-e-nao-escorrer-dos-mais-ricos-para-todos-os-outros-por-michael-pettis/

Global | O esclavagismo moderno com a cumplicidade dos políticos

Percentagem dos rendimentos do trabalho que vai para os 10% mais bem pagos. Em Portugal é cerca de 40%. (Fonte: OIT)
Existem os que consideram um exagero quando no panorama mundial - também em Portugal - fazemos referências à exploração selvagem e ao esclavagismo existente patrocinado pelos políticos e legisladores, em que são grandes grupos globais e económicos os negreiros da atualidade. A OIT, no seu estudo, agora divulgado, comprova-o mais uma vez e mostra a transparente realidade do atual esclavagismo moderno, onde os trabalhadores são as vítimas sem que os governos - ditos democráticos e humanistas - regulem as disparidades, imoralidades e injustiças que nos entram pelos olhos e conhecimento. Para além do que muito sentimos nos corpos e nas mentes. É o trabalho escravo a alastrar globalmente. E na Europa também. Sim, pois, na UE. Sim, pois, em Portugal.(PG)

Quem ganhava bem passou a ganhar mais, os que ganhavam mal passaram a ganhar menos

Um estudo da Organização Mundial do Trabalho conclui que as desigualdades entre quem ganha muito e quem ganha pouco aumentaram nos últimos anos. E, em Portugal, os trabalhadores viram diminuir a parcela dos salários no PIB
Se há 10% que recebem quase metade dos rendimentos do trabalho, aqueles que têm os salários baixos ficam apenas com 6,4% desse bolo. E cerca de 650 milhões de trabalhadores, ou seja, 20% dos que têm os salários mais baixos, ficam com menos de 1% da remuneração mundial. Aliás, os mais mal pagos precisariam de trabalhar mais de 300 anos para ganhar o mesmo que os mais bem pagos fazem num ano.
"Os mais mal pagos precisariam de trabalhar mais de 300 anos para ganhar o mesmo que os mais bem pagos fazem num ano"
A nível global, diminuiu a parte do investimento atribuído ao trabalho, de 53,7% em 2004 para 51,4 % em 2017. E, sublinha Steven Kapsos, da OIT, esta diminuição não acontece em todos os níveis salariais. "Os dados mostram que, em termos relativos, as melhorias dos ordenados mais altos são acompanhadas por perdas em todos os outros patamares", desde a classe média à classe baixa.

A parte destinada à classe média (corresponde a 60 % dos trabalhadores) recuou entre 2004 e 2017, de 44,8% para 43%, respetivamente. Já os 20% das pessoas mais bem pagas viram aumentar os seus rendimentos, de 51, 3% para 53,%.

Os maiores aumentos dos salários do topo verificaram-se na Alemanha, Indonésia, Itália, Paquistão, Reino Unido e Estados Unidos.

O Relatório Trabalho e Remuneração Salarial faz uma comparação dos salários entre 2004 e 2017, através das estatísticas da OIT, com dados de 189 países. Propõe dois novos indicadores para avaliar as tendências remuneratórias ao nível nacional, regional e mundial: o primeiro diz respeito ao peso do custo da mão-de-obra no PIB; o segundo avalia a forma como estes rendimentos são distribuídos.

Menos 11 % no PIB

Portugal é o segundo país europeu que regista a maior quebra dos salários face ao PIB, menos 11,1 % entre 2004 e 2017, só atrás da Irlanda (menos 11 %).
A Grécia, também intervencionada pelo FMI, reduziu os ordenados em 3,3 % comparativamente ao PIB. E os nossos parceiros do sul, a Espanha e a Itália, ficaram-se por uma diminuição de 2,1 % e 2,2 %, respetivamente.
E, quanto à distribuição desses rendimentos, Portugal está mais próximo dos países do Leste da Europa do que dos vizinhos. Num mapa que pinta o mundo de acordo com os valores auferidos pelos 10% que mais receberam em 2017, seria uma utopia pensar-se que estes ganhariam 10% dos rendimentos salariais. Mas o inverso deve ser combatido, defendem os responsáveis da OIT. Ou seja, que os 10 % mais bem pagos recebam metade do valor do trabalho. Portugal é um dos países europeus onde a fatia do total que os mais bem pagos levam para casa é mais alta: recebem 40% do total dos salários.
Céu Neves | Diário de Notícias

Portugal | Quando a prudência é cega

Manuel Carvalho da Silva* | Jornal de Notícias | opinião

Já ocupei este espaço com uma abordagem do significado do uso das "contas certas" como bandeira política.

O princípio das "contas certas" - que à partida identifica um objetivo individual e coletivo honroso e responsável - surge-nos, amiúde, manipulado a favor de teses que pouco têm a ver com o bem comum. Os portugueses tiveram uma dura experiência no século passado, quando Salazar transformou o equilíbrio orçamental num desígnio nacional que se sobrepunha a tudo, inclusive ao desenvolvimento da sociedade portuguesa.

Na passada semana o ministro Mário Centeno e o Governo festejaram a obtenção de mais um recorde: um excedente orçamental de 0,4% do PIB no primeiro trimestre de 2019. Será que este resultado merece ser festejado? Numa pequena parte sim, no fundamental não.
Valorize-se esforços pontuais para redução dos encargos com a dívida e tudo o que possa significar dinamismo da economia, mas não esqueçamos que há graves problemas estruturais por resolver em múltiplos setores de atividade, públicos e privados. Entretanto, a situação muito difícil do setor da saúde e de outros serviços públicos não se resolve com meias-verdades ou manipulações na interpretação de números. Mário Centeno sabe que entre os valores orçamentados e os executados na saúde, como noutras áreas, há enormes distâncias; e o que conta para resolver problemas é o que em cada serviço se consegue executar a partir dos meios humanos e financeiros disponibilizados.

Precisamos de políticas financeiras prudentes, mas não cegas. De um Ministério das Finanças cauteloso, mas não estrangulador. Contas certas não é sinónimo de orçamento excedentário. Contas certas são as que garantem, com equilíbrio, a resposta aos problemas e necessidades fundamentais das populações e desenvolvimento do país. Uma estratégia de contenção orçamental subjugada aos critérios do Programa de Estabilidade e a imposições mais que duvidosas da União Europeia pode, no imediato, ser associada ao apaziguamento dos mercados e das agências de rating, mas comporta riscos e perigos de longo prazo que até agora o Governo não quis reconhecer, apesar de serem bem visíveis e dolorosos.

Não se insista na tese de que a ação do Governo conquistou no plano internacional uma credibilidade "sem paralelo na história recente de Portugal", pois há contradições nos elogios e os resultados obtidos tiveram importantes causas externas. Não se convença os portugueses de que estamos a criar uma importante "almofada" que nos protegerá em caso de nova crise generalizada. Desde logo, ela está a sair cara de mais ao atrofiar serviços fundamentais e, uma crise generalizada dos serviços públicos fomentaria descontentamento generalizado dos cidadãos e protestos desfiliados potencialmente perigosos nos planos social e político. Além disso, uma crise forte destruiria a pretensa almofada em três tempos.

O que pode ajudar a proteger-nos são políticas que persistentemente testem os limites impostos pela União Europeia e a forma de lidar com a dívida, a utilização de todos os recursos para investimento, reforço da estrutura económica e a melhoria da matriz de desenvolvimento do país. Estes objetivos só são possíveis com robustez e eficácia do Estado.

Com prudência mal formulada estaremos condenados.

*Investigador e professor universitário

Ler relacionado em Página Global

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/07/portugal-quando-prudencia-e-cega.html

3º Encontro Anual de Economia Política

3º Encontro Anual de Economia Política
Espaço, Tempo e Economia Política
A Associação Portuguesa de Economia Política (EcPol) anuncia a chamada de comunicações para o seu 3º Encontro Anual, a ter lugar no Porto, na Católica Porto Business School da Universidade Católica Portuguesa e na Faculdade de Economia da Universidade do Porto (Escola de Inverno), entre 30 de Janeiro e 1 de Fevereiro, subordinado ao tema “Espaço, Tempo e Economia Política”. O Encontro destina-se a todos os interessados no estudo da economia, independentemente da área disciplinar. A economia é uma realidade concreta situada num contexto geográfico e histórico. Os vários contextos espácio-temporais produzem uma diversidade e riqueza cultural que não serão completamente compreendidas fora de uma perspetiva transdisciplinar que abarque não só contributos das várias ciências sociais, mas também das ciências naturais, que nos ajudam a compreender as condições materiais de cada território. Esta visão da economia contrasta com as visões segundo as quais existem modelos universais aplicáveis a qualquer contexto geográfico e histórico, tipicamente assentes na perspetiva de que a ação humana pode ser inteiramente explicada como um processo de otimização no contexto de recursos escassos com fins alternativos. O objetivo deste encontro é o de reunir contribuições que perspetivem a economia no contexto de um estudo transdisciplinar da ação humana. Aceitam-se comunicações que tratem, entre outros, os seguintes temas:
  • A economia e o contexto geográfico, histórico e político;
  • As instituições económicas;
  • A distribuição, a equidade e a reciprocidade;
  • As múltiplas escalas das economias;
  • As ideias económicas e as políticas de mudança;
  • O território e a inovação / o território e a tradição;
  • O território e a desigualdade.
Podem ser apresentadas propostas de:
1) comunicações,
2) painéis temáticos compostos por 3 ou 4 comunicações,
3) projetos de tese de doutoramento e
4) posters de dissertações de mestrado. As propostas deverão ser apresentadas na língua das comunicações, podendo-se optar pelo português ou inglês. As propostas de comunicações, projetos de tese e posters devem conter a seguinte informação: i) Nome, filiação institucional e endereço de e-mail do(s) proponente(s);
ii) Tipo de proposta (comunicação, projeto de tese ou poster);
iii) Título e 4 palavras-chave;
iv) Resumo (máx. 800 palavras); As propostas de painéis devem conter a seguinte informação: i) Nome, filiação institucional e endereço de e-mail do(s) proponente(s) do painel e dos participantes;
ii) Título da sessão e das comunicações;
iii) Resumo da sessão e das comunicações (máx. 800 palavras cada); As propostas deverão ser enviadas para o seguinte endereço: encontro2020@economiapolitica.pt Datas Importantes:
  • 16 de Setembro 2019: Data-limite para envio das propostas
  • 31 de Outubro 2019: Notificação de aceitação
  • 30 de Novembro de 2019: Inscrição e pagamento
  • 20 de Dezembro de 2019: Inscrição na Escola de Inverno, posters e projetos de doutoramento
  • 31 de Dezembro: Inscrições tardias e pagamento
Taxas de inscrição:
  • Participantes no Encontro: inscrição até 30 de Novembro
               Membros da EcPol – 40 euros
               Membros estudantes e desempregados – 20 euros
               Outros – 75 euros
  • Participantes no Encontro: inscrição até 31 de Dezembro
               Membros da EcPol – 60 euros
               Membros estudantes e desempregados – 30 euros
               Outros – 95 euros
  • Escola de Inverno, posters e projetos de doutoramento – 20 euros (gratuito para participantes com comunicação aceite)
  • Assistência – 20 euros
Comissão Científica:Conceição Soares (UCP-Porto), Joana Marques (A3S e CIES-IUL), João Ferrão (ICS-U. Lisboa), João Rodrigues (FEUC-U. Coimbra), José Rio Fernandes (FLUP-UP), Leonardo Costa (UCP-Porto), Raúl Lopes (ISCTE-IUL), Tomaz Dentinho (U. Açores) Comissão Organizadora: Francisca Guedes de Oliveira (UCP-Porto), Gonçalo Marcelo (U. Coimbra e UCP-Porto), Luís Carvalho (FEP-UP), Luísa Veloso (ISCTE-IUL), Nuno Martins (UCP-Porto), Pilar Gonzalez (FEP-UP)

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Economia: As Guerras de Trump

O parisiense L’Express descobriu esta semana as realidades da guerra económica e faz a sua ‘capa’ com tal matéria.

Como mais vale tarde do que nunca, parabéns ao semanário do português Patrick Dray (português além de francês e israelita e residente num quarto país).

Em Portugal, porém, convinha averiguar se a noção de ‘guerra económica’ continua a ser a que, há escassos anos, um ex-ministro de Cavaco apresentou numa conferência na Academia Militar e de que deu como exemplo ilustrativo um conflito comercial entre a Sagres e a Superbock…

 


Exclusivo Tornado / IntelNomics


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/economia-as-guerras-de-trump/

Misturando alhos com bugalhos

Acabo de ouvir a Presidente do IGCP (instituto que gere a dívida pública) declarar na AR que a dívida pública da Itália e do Japão não correm risco significativo nos mercados financeiros porque é sobretudo subscrita por entidades desses países. Asneira. No caso do Japão o erro é evidente. Sendo um país com soberania monetária, é irrelevante quem compra a dívida porque, no momento do vencimento, o pagamento está garantido pelo Banco do Japão. É por isso que, com mais de 200% do PIB em dívida pública, não há especulação. No caso da Itália, mesmo com uma parte importante da dívida pública subscrita por bancos italianos, tem havido especulação. Sempre que há agudização do conflito com a CE, os juros da dívida italiana sobem. Se o BCE não vier ao mercado comprar essa dívida, podem subir mesmo muito. Para além disso, no âmbito da União Bancária, está em discussão a ideia de proibir os bancos italianos de comprarem dívida do Estado. Trata-se de fragilizar ainda mais a posição do governo italiano a pretexto de proteger os bancos. Quando os títulos da dívida italiana afundarem nos mercados - se o BCE assim o decidir -, isso não afectará o balanço dos bancos italianos. Fica assim bem claro que não se podem misturar duas situações institucionalmente distintas. Uma coisa é a dívida soberana; outra coisa é a dívida em moeda estrangeira (caso do euro), qualquer que seja o seu detentor. No segundo caso, onde Portugal se inclui, a dependência dos humores dos mercados financeiros e da estratégia política do BCE é total. Nota: Também misturou dívida externa do País, essencialmente dívida privada dos bancos, com os comentários à dívida pública portuguesa. A julgar pelo que vi no telejornal, o depoimento foi tecnicamente lamentável.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

A Huawei e as bolsas de valores:Trump brinca com fogo

por Juan Torres López [*]

Quadro de Simon Renard de Saint-AndrNo capitalismo dos nossos dias germinam crises de natureza muito diferente que surgem de forma recorrente. Umas são sistémicas porque quando aparecem "contaminam" inevitavelmente todo o sistema. Assim são as crises financeiras porque afectam o dinheiro ou o crédito, sem o qual a economia não pode funcionar. Outras são estruturais, porque provém da natureza intrínseca do sistema capitalista. Exemplo: as que produzem a desigualdade decorrente da mercantilização do trabalho (que periodicamente produz crise da procura pela queda da massa salarial), ou a ambiental como consequência de mercantilizar também o uso dos recursos naturais, submetendo a natureza à ânsia do lucro. Outras são de escala e característica diferentes, produzidas por uma só causa ou por uma conjunção delas, e podem alcançar maior ou menor envergadura conforme afectem variáveis mais ou menos determinantes do funcionamento ou do equilíbrio do sistema no seu conjunto. Isso ocorreu com a crise dos anos 70 do século passado.

Como tentei demonstrar no meu livro Economía para no dejarse engañar por los economistas , estes últimos [os economistas], não costumam ser capazes de antecipar as crises e de lhes dar solução adequada. É assim porque partem de premissas falsas e porque não utilizam métodos de análise adequados para poder entende o que na realidade é a economia: um sistema complexo cujo funcionamento não se pode explicar com as ferramentas simplistas da teoria económica dominante.

Na minha opinião, esta falta de acerto está a verificar-se novamente neste momento: os economistas convencionais e as autoridades que se baseiam nas suas opiniões intuem que uma crise importante se aproxima mas estão a apontar, outra vez, para o lado equivocado. Acreditam que virá pela desaceleração da actividade que se vem verificando nos últimos meses ou como resultado de outro solavanco de volatilidade financeira, como aquele que provocou a de 2007-2008. Mas equivocam-se.

É certo que a tendência à baixa da massa salarial e a extraordinária concentração da riqueza tende a produzir uma deterioração progressiva dos mercados: diante de uma procura debilitada responde-se com redução da oferta e assim gera-se um círculo vicioso que cedo ou tarde estala em forma de crise. E também é certo que as rachaduras provocadas pela crise financeira anterior não se fecharam convenientemente, de modo que é seguro o sistema bancário mundial voltar a saltar cedo ou tarde. Mas creio que nenhum destes perigos é iminente. E outras crises, como a ambiental ou inclusive a da dívida, tão pouco é provável que proximamente produzam um efeito de colapso generalizado.

A meu ver, onde se estão a concentrar todos os riscos para produzir uma crise global de grandes dimensões a muito curto prazo é nas bolsas de valores e, portanto, no tecido empresarial que se estende por todo o planeta.

No nosso tempo as bolsas estão a converter-se numa bomba relógio por três razões que exponho a seguir, muito resumidamente.

A primeira é de carácter mais geral. As bolsas são mercados cuja função é a de proporcionar financiamento aos operadores económicos. Quando estes precisam de capital emitem títulos e os poupadores ou investidores adquirem-nos para obter a rentabilidade que a eles está associada, bem como renda variável (quando se trata de dividendos que repartem o lucro das empresas) ou fixa (quando se trata de títulos que se emitem com um juro determinado ao longo do tempo). Essa função de capitalização é fundamental e há que reconhecer que é um dos grandes êxitos do capitalismo pois permite acumular somas de capital que geralmente seria impossível que pudessem obter por si mesmos os proprietários originais ou maioritários das grandes empresas. Algo fundamental, portanto, para empreender negócios e a acumulação que precisa um sistema planetário como o nosso.

Contudo, as bolsas perderam essa função desde há muitos anos e ao invés de servirem para financiar as empresas respondem cada vez mais a uma lógica puramente especulativa que busca simplesmente aproveitar-se das mudanças de preços dos títulos e não da sua rentabilidade intrínseca. Nas bolsas actuais compram-se ou vendem-se títulos para tornar a vendê-los ou comprá-los rapidamente, ou seja, para especular com eles com um critério de curtíssimo prazo muito diferente do que exige o financiamento empresarial e produtivo.

Isto significa que as bolsas desnaturalizaram-se, que funcionam para o que não devem funcionar e isso é o que explica que se verifiquem crises de reajustamento tão frequentemente. E creio que temos diante da porta uma nova crise deste tipo, mas de grande amplitude, porque este processo de desnaturalização agudizou-se extraordinariamente e até excessivamente nos últimos tempos.

A segunda que provocou que a desnaturalização das bolsas se tenha exagerado até o ponto de estarem em vias de estalar é que as grandes empresas tem-nas utilizado para comprar suas próprias acções, umas vezes utilizando seus grandes lucros para isso e geralmente endividando-se graças às taxas de juro muito baixas. Nos últimos cinco anos, a 500 maiores empesas dos Estados Unidos realizaram esse tipo de comprar no valor de 2,9 mil milhões de dólares e em 2018 no valor de mil milhões. Essas compras (tecnicamente denominadas buy back ) foram as responsáveis pelo facto de as cotações dessas acções estarem exageradamente elevadas e que o índice S&P500 (o das 500 maiores empresas cotadas em bolsa) tenha registado uma impressionante subida de 300% desde 2009 até fins de 2018. Mais cedo que tarde, talvez agora mesmo, essas compras deixarão de se realizar e a bolsas cairão estrepitosamente, arrastando atrás de si dezenas das maiores empresas do globo.

A terceira razão que produziu a exagerada desnaturalização das bolsas é a generalização das chamadas operações de alta-frequência. Trata-se das compras e vendas de títulos de todo tipo que não realizam os seres humanos e sim algoritmos em computadores muito potentes que operam a velocidades que se torna muito difícil assimilar. Este tipo de operações já representa entre 60% e 80% de todas as que se realizam nas principais bolsas e mercados financeiros do mundo. E para que os leitores façam uma ideia do que significa operar à velocidade em que se compra e se vende hoje em dia basta um simples cálculo: imagine que se compra uma acção por 1000 euros e que se vende a 1.001 euros para que isso se faz 10 mil vezes por cada segundo, que é a velocidade a que se podem realizar essas operações (há quem diga que não 10 mil vezes e sim até milhões de vezes...). E para entender o que isto implica e o que pode supor o actuar cada vez mais rápido, considere que uma conexão à rede que seja apenas um milissegundo mais rápida que a da competição poderia aumentar os lucros de uma firma de alta velocidade nuns 100 milhões de dólares por ano.

As consequências do predomínio deste tipo de operações são muito variadas mas assinalarei só duas. Uma, que se alimentam bolhas continuamente (empréstimos estudantis, pensões, a imobiliária que não cessas, ou a mais letal da dívida...). E outra que, ainda que todos os algoritmos estejam preparados para ganhar, é materialmente impossível que todos ganhem sempre ou que todos os mercados estejam em alta permanentemente. E ambas as circunstâncias nos levam ao mesmo que disse antes: mais cedo que tarde... verificar-se-á uma queda generalizada nas bolsas. Dizem que os reguladores precisariam de dez a quinze minutos para deter uma queda instantânea, mas não creio que isso esteja sempre assegurado. E, em todo caso, pensem no que aconteceria se a queda se verificasse pouco antes do encerramento, ou se se verificasse uma após a outra.

Quando poderá acontecer algo assim? Quando se produzirá o reajuste das bolsas mundiais desnaturalizadas? Quando estalarão as bolhas? Quando provocará um caos a lógica insustentável dos algoritmos sem controle?... Não sabemos, mas o que é certo é que o fogo se propaga quando salta uma faísca e que nos últimos meses estão a acender-se várias a todo momento. A última, o ataque de Trump à Huawei. É um passo mais na guerra comercial e tecnológica e isso por si tem importância. Mas contemplo-o agora como um possível factor de desestabilização em bolsas que já estão por si muito altamente desestabilizadas, tal como acabo de explicar.

Se assim for, se provocar que comecem a cair as cotações, se se trava o buy back, se se faz estalar alguma bolha... estaremos às portas da próxima crise, de natureza e efeitos diferentes da anterior. Seu modo de difusão e suas consequências comentarei num próximo artigo. Mas por enquanto e para que este artigo termine com uma imprescindível visão de esperança, não se esqueças que, como escrevi há dias, por trás das crises há também Una gran oportunidad .

21/Maio/2019

[*] Professor da Faculdade de C. Econmicas da Universidade de Sevilha.

O original encontra-se em
www.juantorreslopez.com/huawei-y-las-bolsas-de-valores-trump-juega-con-fuego/

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/crise/lopez_21mai19.html

Os Estados Unidos devem ter um excedente comercial?, por Michael Pettis

Tensão Import Export

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

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As análises sobre as razões que estão na base dos focos de tensão entre a China e os Estados Unidos, conforme publicámos na série que concluímos há dias atrás (ver aqui) geralmente elencam a guerra comercial como uma das principais questões que estão em causa.

Muito resumidamente: do ponto de vista oficial (e não só) dos Estados Unidos o levantamento de barreiras às importações chinesas (via aumento das taxas aduaneiras) contribuiria para diminuir o défice comercial, e consequentemente da balança corrente, que os Estados Unidos apresentam desde há muitos anos, e por via dessa redução aumentaria o investimento produtivo, bem como o emprego, dentro dos Estados Unidos. Neste mesmo sentido, se integra a política de cortes nos impostos de Trump, que levando a um aumento da poupança dos americanos, em particular dos mais ricos levaria a um aumento do investimento, que conduziria a uma melhoria da economia, que assim escorreria (trickle down) para todos os americanos.

Ora, os dois textos que publicamos hoje e amanhã – “Porque é que a dívida dos Estados Unidos vai continuar a aumentar” e “Os Estados Unidos devem ter um excedente comercial?” – assinados por um dos mais relevantes especialistas da Macroeconomia da Economia Aberta, Michael Pettis, analisam aprofundadamente o problema do desequilíbrio comercial dos EUA, e vêm colocar o problema em termos muito, ou mesmo radicalmente diferentes daqueles que nos são apresentados pelos economistas do mainstream e pelos meios de comunicação dominantes.

É uma abordagem a contracorrente da opinião popular tanto do agrado dos grandes media e, por vezes, como o autor refere em diversos momentos, contraintuitiva para uma grande maioria de economistas. É uma abordagem que além do uso das igualdades fundamentais da macroeconomia em economia aberta, considera o contexto e as condições da economia mundial, e dos Estados Unidos em particular.

A propósito desta questão do défice comercial, gostaria de chamar a atenção do leitor para a opinião muito difundida de que para baixarem o seu défice comercial seria necessário os americanos pouparem mais, porque consomem demasiado. Michael Pettis em texto editado neste blog em 5 e 6 de novembro de 2018, intitulado O défice comercial dos EUA não é provocado pelo baixo nível de poupança nos EUA (aqui e aqui) analisa criticamente, e muito lucidamente, o erro de perspetiva a que pode conduzir uma análise mecanicista da aritmética de base da balança de pagamentos. Como diz Michael Pettis, em jeito de conclusão,

“Se tenho razão, então não é certo que os Estados Unidos tenham um défice da balança corrente porque os americanos poupam muito pouco. É exatamente o contrário: os americanos economizam muito pouco porque os Estados Unidos têm um défice de balança corrente ou porque têm um excedente na balança de capital: as entradas de capital estrangeiro deprimem automaticamente a poupança americana.”

Os dois textos que agora publicamos são textos cuja compreensão exige uma leitura atenta, apesar do elevado nível pedagógico dos mesmos. Vale a pena lê-los, vale a pena confrontá-los com a economia dita do mainstream e claramente o que aqui se escreve e demonstra de uma forma rigorosa, daí o cuidado na sua leitura, não tem nada a ver com o que os economistas do mainstream e os os media,  jornais ou televisão, nos dizem, nos explicam.

Para facilitar a leitura dos textos de Michael Pettis relembramos a problemática das igualdades fundamentais da macroeconomia em economia aberta em nota anexa a cada um dos textos deste autor.

JM

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Os Estados Unidos devem ter um excedente comercial?

michael pettis Por MICHAEL PETTIS

Publicado por Carnegie Michael Pettis em 4 de março de 2019 (Original aqui)

OS ESTADOS UNIDOS DEVIAM SER UMA ECONOMIA COM EXCEDENTE
AS POUPANÇAS SÃO UMA FUNÇÃO DA DISTRIBUIÇÃO DE RENDIMENTOS
COMO É QUE AS MUDANÇAS DE RENDIMENTO GERAM DESEQUILÍBRIOS COMERCIAIS
A RIQUEZA ESCORRE DOS MAIS RICOS PARA AS PESSOAS COMUNS?
COMO É QUE A DESIGUALDADE DE RENDIMENTOS NOS EUA AFETA A SUA BALANÇA DE PAGAMENTOS?
OS DESEQUILÍBRIOS GLOBAIS PODEM GERAR OS DESEQUILÍBRIOS AMERICANOS
DISTORÇÕES DA BALANÇA DE CAPITAL

 

Embora a teoria tradicional do comércio internacional considere que as economias altamente avançadas com setores financeiros sofisticados, como os Estados Unidos, devem geralmente apresentar excedentes comerciais, o país tem mantido persistentes e, muitas vezes, grandes défices comerciais durante cinco décadas. Isto só pode ser uma consequência de distorções económicas globais significativas.

Geralmente há uma diferença substancial entre o que escrevo na minha newsletter e o que escrevo neste blog, com a newsletter a ser geralmente mais técnica e focada nos mercados financeiros chineses e globais. Neste texto, no entanto, eu quis utilizar um excerto de uma antiga newsletter sobre a razão pela qual os Estados Unidos têm um défice comercial quando deveria normalmente ter um excedente comercial. Esta é uma peça a juntar ao meu texto de  7 de fevereiro de 2019, intitulado  “Porque razão a dívida dos EUA deve continuar a aumentar” (aqui) .

Este ensaio surgiu originalmente de uma conversa que tive há vários meses com Matt Klein, do site Barrons, durante a sua visita a Pequim. Klein é um dos poucos analistas que entendem o modo como as mudanças na dinâmica do comércio nas últimas décadas tornaram grande parte do debate atual sobre comércio pelo menos parcialmente obsoleto. Numa discussão com alguns de meus alunos da Universidade de Pequim, ele ressaltou que, segundo a teoria tradicional do comércio internacional, os Estados Unidos normalmente deveriam ter excedentes comerciais e, no entanto, o país, em vez disso, tem tido grandes déficits durante quase cinco décadas. Isto devia ser surpreendente, argumentou ele, e, no mínimo, sugere fortemente a existência de distorções no sistema de comércio global.

Ele tem razão, é claro, e ocorreu-me que trabalhar com as razões pode ser uma forma interessante de entender os desequilíbrios comerciais e as suas fontes. Em vários textos recentes debrucei-me sobre esta abordagem ao comércio a partir de diferentes ângulos (por exemplo, aqui, aqui e aqui), e portanto haverá alguma sobreposição entre este texto e os anteriores. Peço desculpas aos meus leitores regulares por esta repetição, mas a razão que me leva a discutir este tema de muitos ângulos diferentes é porque os economistas tradicionais sobre comércio internacional parecem geralmente entender mal a dinâmica comercial atual.

Por exemplo, como discuti num texto publicado em maio de 2017, (aqui) é quase um artigo de fé entre economistas que o défice orçamental dos EUA contribui substancialmente para o défice comercial dos EUA [1] , e talvez seja até a sua causa. Mas esta afirmação só é verdadeira sob certas condições, que infelizmente a maioria dos economistas raramente se preocupa em especificar. Se o fizessem, provavelmente veriam que essas condições já não se mantêm hoje; e uma vez que entendamos que os Estados Unidos têm pouco controlo sobre a sua taxa de poupança interna, veremos que o défice orçamental dos EUA não é uma causa do défice comercial dos EUA tanto quanto é uma sua consequência.

Isto contraria tão fortemente o pensamento convencional entre os economistas do pensamento económico dominante que tem que ser repetido muitas vezes até que eles o considerem. Assim, com o meu pedido de desculpas aos leitores regulares por tanta repetição, neste texto quero abordar o tema argumentando que o facto de os Estados Unidos terem mantido grandes défices comerciais durante várias décadas é suficientemente surpreendente para exigir alguma explicação.


OS ESTADOS UNIDOS DEVIAM SER UMA ECONOMIA COM EXCEDENTE

Porque é que Klein pensou que os Estados Unidos teriam excedentes comerciais num sistema global aberto em que o comércio e os fluxos de capital são impulsionados principalmente pelos fundamentais da economia? A razão é que o investimento deve normalmente fluir de economias avançadas com altos níveis de capital, tecnologia e know-how de gestão para economias menos desenvolvidas que precisam desses recursos, e de facto esse tem sido o caso em grande parte da história moderna.

As economias avançadas – ou seja, economias maduras, abundantes em capital e de crescimento lento – deveriam ter atrás de si muitas décadas de investimento em stock de capital de alta qualidade, pelo que as suas atuais necessidades de investimento são relativamente baixas. Além disso, com os seus altos níveis de rendimento e sistemas financeiros sofisticados, as suas poupanças deviam ser relativamente altas. Por estas razões, as poupanças deveriam normalmente ser desviadas destas economias avançadas para países em desenvolvimento de crescimento mais rápido, onde o capital é relativamente escasso, o investimento é mais rentável e onde faltam recursos institucionais e tecnológicos.

Como maior e mais avançada economia do mundo, e de longe com os mercados financeiros mais sofisticados, os Estados Unidos seriam normalmente um exportador líquido de capital e tecnologia para as economias menos desenvolvidas: deveriam ter em média um défice na balança de capital e o seu simétrico, um excedente na balança corrente. Isso é exatamente o que o Reino Unido fez no final do século XIX, talvez o análogo mais próximo dos Estados Unidos de hoje. Além disso, essa tendência de gerar excedentes devia ser ainda mais exacerbada pelo alto nível de desigualdade de rendimento de que os Estados Unidos atualmente sofrem – o mais alto desde o final da década de 1920, quando os Estados Unidos, não por coincidência, tiveram os maiores excedentes comerciais da história.

Porquê? Porque a desigualdade de rendimento na sua forma mais simples pode ser pensada como uma distribuição de rendimento de baixos aforradores para altos aforradores. Esta desigualdade faz com que as famílias comuns e mais pobres, que são os sectores mais consumidores da economia, tenham uma percentagem desproporcionadamente baixa do rendimento total em relação aos ricos, que, em média, consomem uma percentagem mais baixa do seu rendimento. A desigualdade de rendimento, por outras palavras, força a aumentar o que os economistas chamam de poupança ex-ante do país (a poupança que as famílias planeiam fazer no início de um período de tempo) e, como parte do mesmo processo, reduz a parte do rendimento gasta em consumo.


AS POUPANÇAS SÃO UMA FUNÇÃO DA DISTRIBUIÇÃO DE RENDIMENTOS

Isto não se aplica apenas à desigualdade de rendimentos. Qualquer condição ou política que cause uma transferência de rendimento de um qualquer sector da economia para um outro pode afetar as quotas de poupança e de consumo da economia. Considere a tabela abaixo, que divide uma economia em seis sectores, e descreve cada sector em termos de que percentagem do seu rendimento é poupado ou consumido (todo o rendimento é, por definição, poupado ou consumido). À medida que o rendimento é deslocado de um sector para outro, as diferentes tendências dos dois sectores para poupar ou consumir os seus rendimentos irão alterar a taxa de poupança global da economia.

SETOR

TENDÊNCIA DE POUPANÇA

Famílias ricas

Consomem uma pequena parcela do seu rendimento e poupam, correspondentemente, uma larga parcela do seu rendimento
Famílias comuns (mais velhos)

Consomem uma larga parcela do seu rendimento e poupam uma pequena parcela do seu rendimento

Famílias comuns (mais novos) Provavelmente consomem uma parcela do seu rendimento mais elevada que as famílias comuns mais velhas e poupam uma menor parcela
Empresas

Não consomem, mas poupam, todo o seu rendimento, que é ou investido ou distribuído pelos seus acionistas

Administrações locais

Provavelmente consomem uma pequena parcela em nome dos seus cidadãos e poupam uma larga parcela

Governo Central

Provavelmente consomem uma pequena parcela em nome dos seus cidadãos e poupam uma mais larga parcela

A economia poderia ainda ser subdividida em setores adicionais com diferentes propensões de poupança, mas a divisão acima deveria ser suficiente para deixar claro que a poupança de um país reflete principalmente a forma como o rendimento é distribuído. Note-se a implicação. As poupanças num país geralmente não sobem porque os cidadãos desse país decidem subitamente tornar-se mais económicos, nem as poupanças diminuem porque os cidadãos se tornam subitamente mais esbanjadores. As poupanças sobem e descem principalmente à medida que o rendimento é deslocado entre grupos e sectores com diferentes tendências de poupança.

Um exemplo de como isto ocorre seria útil para explicar o processo global. Entre os exemplos recentes contam-se as reformas Hartz 2003-2005 na Alemanha, após as quais o crescimento salarial alemão abrandou acentuadamente em relação ao crescimento do PIB, enquanto os lucros das empresas explodiram. Isto equivale a uma transferência de rendimento dos trabalhadores e das famílias comuns, que consomem uma grande parte do seu rendimento e poupam uma parte reduzida, para as empresas, que efetivamente poupam tudo isto. Quando esta transferência ocorreu, as poupanças alemãs dispararam. A imprensa respondeu expressando admiração pela forma como a cultura alemã adora a poupança, mas o aumento da poupança alemã realmente não teve quase nada a ver com uma inclinação cultural para a poupança.

Teve a ver com a mudança de rendimentos dos trabalhadores para as empresas. Em qualquer país, sempre que a parte dos lucros das empresas no PIB aumenta em detrimento da parte das famílias, a taxa de poupança nacional ex ante aumenta automaticamente. Foi esta transferência que, em última análise, impulsionou o enorme aumento subsequente do excedente comercial alemão. Por outras palavras, contrariamente à opinião popular, o excedente comercial da Alemanha não reflete o facto de os trabalhadores alemães serem trabalhadores esforçados e poupados (embora provavelmente o sejam, como aliás a maioria dos trabalhadores em todo o lado). O excedente comercial alemão também não indica que os americanos, como o Comissário responsável pelo orçamento da UE, Günther Oettinger, explicou estupidamente, gostam mais dos automóveis alemães do que os alemães gostam dos automóveis americanos. É sobretudo o resultado de uma reforma que permitiu que as empresas alemãs lucrassem à custa dos trabalhadores alemães.

A partir da tabela acima, é fácil perceber porque é que a desigualdade de rendimentos também força as poupanças ex-ante, e fá-lo da mesma forma. A desigualdade na repartição representa efetivamente uma transferência de rendimento de um setor de baixa poupança para um setor de alta poupança – ou seja, das famílias comuns para os ricos.


COMO É QUE AS MUDANÇAS DE RENDIMENTO GERAM DESEQUILÍBRIOS COMERCIAIS

Estes tipos de transferências de riqueza dentro de uma economia estão entre os principais determinantes da balança de pagamentos de um país – as suas balanças corrente e de capital. Isto não se deve apenas à forma como essas transferências afetam a poupança ex ante, mas também à forma como podem afetar o investimento (o que, juntamente com a conta de capital, determina como é que essas transferências afetam a poupança ex post – o montante real da poupança).

Um país que poupa mais do que investe deve exportar esse saldo. Isso é mostrado nas seguintes identidades contabilísticas:

  • PIB = Consumo + Poupança, e também
  • PIB = Consumo + Investimento + Excedente da Balança de Capital, e então
  • Consumo + Poupança = Consumo+ Investimento + Excedente da Balança de Capital, e porque
  • Excedente da Balança de Capital = Défice da Balança de Transações Correntes, e então
  • Défice da Balança de Transações Correntes = Investimento -Poupança, ou, o que é a mesma coisa,
  • Excedente da Balança de Capital = Poupança – Investimento

É por isso que o efeito das transferências de rendimento é mais complicado do que se poderia supor à partida. A maioria dos economistas assume que o menor consumo criado pela desigualdade de rendimento é compensado por um maior investimento, ou pensam que é pelo menos parcialmente compensado por um maior investimento; isto porque assumem que um maior investimento é o resultado de uma maior disponibilidade de poupança a custos mais baixos. [2]

Mas o impacto da poupança adicional no investimento varia muito de economia para economia. Numa economia cujas necessidades substanciais de investimento não foram satisfeitas devido à escassez de capital a taxas de juro elevadas – principalmente nas economias em desenvolvimento – o aumento da poupança é suscetível de ser satisfeito com um equivalente aumento do investimento ou, dito de outra forma, a redução do consumo é suscetível de ser satisfeita com um equivalente aumento do investimento. Nesses casos, a desigualdade de rendimento teria pouco ou nenhum impacto líquido sobre a balança corrente ou de capital.

Os Estados Unidos, evidentemente, não são um país em desenvolvimento. Hoje, os investidores americanos podem facilmente aceder ao capital às taxas mais baixas da história, e no entanto poucos parecem interessados em levantar dinheiro para investir na economia. O investimento nos Estados Unidos não parece estar limitado pela escassez de poupanças. Ainda assim, a maioria dos economistas assumiria que a maior disponibilidade de capital a custos mais baixos causaria pelo menos algum aumento no investimento doméstico, embora não tanto quanto o aumento da poupança (ou, para relacionar isso novamente com o consumo, a redução no consumo ligada ao aumento da poupança provavelmente será acompanhada por um menor aumento no investimento).

Nesses casos, quando a desigualdade de rendimento nos Estados Unidos aumenta a diferença entre poupança e investimento – ou seja, se ela faz com que a poupança suba mais do que o investimento – o défice da balança de capital e o excedente comercial (ou da balança de transações correntes) devem aumentar automaticamente. Como economia avançada, os Estados Unidos deviam normalmente apresentar um excedente comercial, ou seja, este excedente devia aumentar devido ao aumento da desigualdade de rendimento.


A RIQUEZA ESCORRE DOS MAIS RICOS PARA AS PESSOAS COMUNS?

E, no entanto, o país tem um défice comercial. Antes de explicar porquê, quero fazer novamente uma digressão para discutir, nesta e na próxima secção, o que penso ser outra consequência importante mas mal compreendida da desigualdade de rendimentos em economias avançadas como os Estados Unidos. O que determina o impacto total da crescente desigualdade de rendimentos na balança comercial não é apenas a forma como esta desigualdade afeta a poupança, mas também como afeta o investimento.

O argumento que se ouve geralmente é que forçar a poupança ex ante é positivo para o investimento porque, mesmo em economias onde a poupança já é abundante e onde as taxas de juro são baixas, reduz o custo do financiamento, ainda que marginalmente. Se as empresas podem contrair empréstimos a uma taxa mais baixa do que antes, o argumento é que há sempre alguma oportunidade de investimento produtivo que só se torna rentável a este novo e mais baixo custo de empréstimo, e por isso isto deve (segundo o pensamento dominante) levar a mais investimento. Mais mais investimento, é claro, deve levar a mais crescimento a longo prazo.

Este é o argumento básico por trás da economia da oferta, e é a justificação implícita para os cortes fiscais de 2017 do Presidente Donald Trump. A maioria dos economistas concorda que os níveis de investimento nos Estados Unidos são baixos e que o país cresceria mais rapidamente a longo prazo se as empresas pudessem ser encorajadas a investir mais. Dado que uma das formas mais eficientes de impulsionar o investimento é, presumivelmente, disponibilizar mais capital para as empresas a custos mais baixos, os proponentes deste ponto de vista afirmam que os cortes fiscais para os ricos acabarão por beneficiar o resto do país à medida que a riqueza adicional gerada pelo investimento mais elevado se difunde pela economia, escorrendo dos mais ricos para as pessoas comuns.

Podem as políticas da oferta que resultam em maior desigualdade de rendimento deixar, não obstante, um país em melhor situação? Acontece que a resposta, mais uma vez, depende da disponibilidade relativa de poupança na economia. Num ambiente de escassez de capital, tipicamente o caso das economias em desenvolvimento, políticas que forçam a taxa de poupança interna podem resultar em um aumento substancial (até mesmo equivalente) do investimento interno para cada unidade de redução do consumo. Nesses casos, o gasto total permanece inalterado (menor consumo é acompanhado de maior investimento); a economia cresce mais rapidamente do que nunca no curto prazo, ao mesmo tempo em que se torna mais rica no longo prazo.

Isso não é necessariamente o caso, porém, num ambiente de abundância de capital, uma condição que se aplica à maioria das economias avançadas de hoje. Nesses casos, a maioria dos economistas concordaria que cada redução unitária do consumo é suscetível de ser acompanhada por um menor aumento do investimento, o que significa que, no curto prazo, a procura total diminui.

Isto significa que, embora as políticas da oferta possam reduzir o crescimento nos Estados Unidos no curto prazo, pois causam uma queda na procura total (já que o menor consumo só é parcialmente compensado pelo maior investimento), desde que pelo menos parte da redução do consumo seja compensada por um aumento no investimento produtivo, ainda é possível argumentar que o país está melhor no longo prazo porque o investimento aumenta a capacidade produtiva. Nesses cenários, os ricos beneficiam imediatamente dos cortes de impostos que foram estabelecidos para os ricos, enquanto o resto da sociedade só eventualmente poderá beneficiar. É assim que é suposto a riqueza escorrer para as pessoas comuns.


COMO É QUE A DESIGUALDADE DE RENDIMENTOS NOS EUA AFETA A SUA BALANÇA DE PAGAMENTOS?

Mas – e isto é o que pode parecer contraintuitivo para a maioria dos economistas – pode ser um erro assumir que as condições que forçam o aumento da taxa de poupança ex-ante devem sempre levar a algum investimento adicional. Há condições em que tais condições podem, na verdade, levar a menos investimento; isto é especialmente provável que seja verdade hoje em dia na maioria das economias avançadas.

Tudo o que é necessário, em termos gerais, é que a totalidade ou a maior parte do investimento se enquadre numa de duas categorias. A primeira categoria consiste em projetos cujo valor não é sensível a alterações marginais da procura, talvez porque provoquem aumentos de produtividade muito evidentes e significativos, ou porque a economia sofre de um subinvestimento significativo. A segunda categoria consiste em projetos cujo valor varia em função das mudanças futuras esperadas na procura. Eu analiso esta questão discuto este tópico mais aprofundadamente na seção “Onde é que este argumento pode estar errado?” de um meu texto anterior (aqui). Eu mostro nesse texto que em economias como a dos Estados Unidos, onde a rentabilidade da maioria dos investimentos é uma função de mudanças na procura (a segunda categoria) e não função do custo do empréstimo (a primeira categoria), o aumento da desigualdade de rendimento e de maior poupança ex-ante podem resultar em menos investimento e não em mais investimento.

A questão é que a desigualdade de rendimento nos EUA poderia aumentar a diferença entre poupança e investimento em ainda mais do que poderíamos supor de outra forma. Não só faz com que as poupanças dos ricos aumentem mais rapidamente do que o investimento, como também pode fazer com que o investimento diminua. Isto não é apenas teoria. O aumento do peso da poupança no PIB alemão após as reformas de Hartz foi acompanhado por uma redução do peso do investimento em vez do esperado aumento. E embora seja muito cedo para fazer a mesma afirmação sobre os cortes nos impostos de Trump de dezembro de 2017, que deveriam impulsionar o investimento através do aumento da poupança, até agora eles parecem não ter feito nada disso (como noticiava a Reuters em janeiro de 2019: $1.5 milhões de milhões de cortes de impostos nos Estados Unidos não têm um impacto importante nos planos de investimento das empresas: inquérito).

Seja como for, quer o investimento realmente diminua ou simplesmente cresça mais lentamente do que o declínio do consumo, num sistema fechado como a economia global, a poupança e o investimento são, por definição, iguais. Isto implica que, em qualquer país, se uma política faz com que a poupança numa parte da economia aumente e o investimento aumente mais lentamente, ou mesmo diminua, o desequilíbrio interno entre poupança e investimento pode ser resolvido de uma (ou alguma combinação) de apenas duas formas:

  1. A poupança excedentária pode ser exportada, sob a forma de défices da balança de capital, juntamente com os correspondentes excedentes da balança comercial e da balança corrente.
  2. Algo mais deve acontecer para que a poupança em outra parte da economia caia, então no agregado não há aumento líquido da poupança.

É evidente que a primeira destas duas condições não se aplica aos Estados Unidos. O país não tem qualquer controlo sobre a sua capacidade de importar ou exportar poupanças. A sua conta de capital é largamente determinada no estrangeiro.

Porquê? Como os Estados Unidos têm mercados de capitais profundos, completamente abertos e altamente flexíveis e uma governança muito forte, o país acaba por absorver grande parte do excesso de poupança do resto do mundo – grosso modo 40-50% da soma dos défices das balanças de capital do estrangeiro nos últimos anos – cuja extensão só é parcialmente determinada pelas condições ou políticas internas dos EUA. Enquanto os Estados Unidos mantiverem um excedente na balança de capital, e enquanto esse excedente for determinado pelas condições e políticas externas que o país em grande parte não pode controlar, os Estados Unidos não podem ser um exportador líquido de qualquer excesso de poupança acumulado através do seu alto nível de desigualdade de rendimento.

Isto significa que a segunda condição deve aplicar-se. Não se trata de uma proposta teórica, mas de uma identidade contabilística que não pode ser quebrada: se os Estados Unidos não podem exportar o excesso de poupança sobre o investimento, não podem ter esse excesso de poupança.

Assim sendo, algo mais deve acontecer para que a poupança em outra parte da economia dos EUA caia o suficiente para absorver a soma do excesso de poupança dos EUA causado pela desigualdade de rendimento e pelo excesso de poupança externa importada para os Estados Unidos. Esta tem sido a parte mais difícil de entender, até mesmo para os especialistas em comércio, mas há muitas maneiras pelas quais as condições que impulsionam as poupanças em uma parte da economia dos EUA podem levá-las baixar em outros lugares. Analiso algumas dessas maneiras na seção “O que é que reduz a poupança?” do meu texto publicado anteriormente.


OS DESEQUILÍBRIOS GLOBAIS PODEM GERAR OS DESEQUILÍBRIOS AMERICANOS

O que tudo isto significa é que, de uma forma ou de outra, as distorções (seja na economia dos EUA ou no exterior), transformaram os Estados Unidos do que deveria ter sido uma economia de excedente razoavelmente persistente na maior economia deficitária do mundo. Como já expliquei anteriormente (nomeadamente aqui, aqui), em última instância os Estados Unidos devem responder às distorções criadas pelos fluxos líquidos de capital, e ao consequente défice na balança corrente, com mais desemprego ou com mais dívida. Isso explica a relação real entre o défice orçamental e o défice na balança de transações corrente : para que os Estados Unidos evitem um maior desemprego, ou o governo dos EUA deve passar a ter um défice orçamental  ou as autoridades dos EUA, incluindo a Reserva Federal, devem criar condições sob as quais os americanos privados (principalmente as famílias) tenham défices e elevem os níveis de dívida nos Estados Unidos.

A extensão da distorção pode ser enorme. Assumindo que os Estados Unidos deviam normalmente registar um excedente da balança de transações corrente de cerca de 2-3% do PIB, em linha com o de outros países ricos exportadores de capital e substancialmente inferior ao excedente do Reino Unido no final do século XIX, o défice da balança corrente americana de cerca de 3% do PIB implica uma distorção igual a 5-6% do PIB dos EUA, ou seja, um valor muito elevado de 1 a 1,5% do PIB mundial. Isto sugere que, embora os Estados Unidos atualmente absorvam 40-50% dos défices das balanças de transações correntes do mundo, isso significa que podem estar a absorver até dois terços de todo o excesso de poupança mundial.

Assim, a resposta à pergunta original sobre porque é que os Estados Unidos não são um país com excedente comercial como seria esperado que fosse, mas devido aos seus mercados de capitais profundos, flexíveis, bem governados e completamente abertos, num mundo com excesso de poupança e procura insuficiente, os Estados Unidos absorvem então uma parcela substancial do excesso de poupança do exterior. Estas poupanças, por sua vez, criam distorções na economia americana, que por sua vez forçam à redução das poupanças dos EUA e fazem com que os Estados Unidos tenham os maiores défices comerciais do mundo.

Os Estados Unidos não são completamente impotentes nesta questão. As políticas e condições dos EUA podem ter algum efeito sobre a quantidade de poupanças excedentes externas, e um efeito algo maior sobre a medida em que essas poupanças são exportadas para os Estados Unidos, mas esses efeitos podem ser contraintuitivos. Por exemplo, se Washington reduzisse o défice orçamental dos EUA, e se um défice orçamental menor aumentasse a atratividade dos Estados Unidos como destino de investimento, os fluxos externos líquidos no país poderiam realmente aumentar. Isto significaria que um menor défice orçamental poderia, paradoxalmente, resultar num maior défice na balança de transações corrente, contradizendo diretamente a visão de muitos economistas para os quais é um artigo de fé que défices orçamentais mais baixos devem resultar em menores défices na balança corrente.

Nas condições atuais, no entanto, a capacidade dos Estados Unidos de controlar a quantidade de poupança excedente externa que é investida no país é muito limitada. Desde que tenha uma balança de capital totalmente aberta, o défice na balança de transações corrente dos EUA é um fator remanescente, refletindo principalmente fatores externos. Na medida em que a quantidade de poupança excedentária no resto do mundo é determinada, parcial ou principalmente, pelas condições e políticas externas, os Estados Unidos não podem controlar ou gerir o seu défice da balança corrente enquanto não gerirem a sua balança de capital.


DISTORÇÕES DA BALANÇA DE CAPITAL

A propósito, isto não é apenas um problema para os Estados Unidos. É também um problema para o Reino Unido e para as outras economias anglo-saxónicas com mercados de capitais largamente semelhantes e igualmente abertos, todas elas com tendência a apresentar défices persistentes desde a década de 1970, contrariamente à teoria comercial tradicional. Isso também foi um problema para países como a Espanha e outros países europeus “periféricos” nos anos que antecederam a crise de 2008-2009, cujas condições monetárias os deixaram abertos às exportações de capitais de grandes países excedentários da Europa, principalmente da Alemanha. Finalmente, também pode ser um problema para os países em desenvolvimento durante períodos de grande expansão de liquidez global, especialmente na medida em que não conseguem controlar os enormes fluxos de entrada de liquidez que tipicamente afligem os países em desenvolvimento durante esses períodos.

Os Estados Unidos têm vindo a registar défices comerciais há tanto tempo que nos esquecemos de como isso é estranho e, se pensarmos bem, tendemos simplesmente a ignorar o problema e considerá-lo uma consequência do esbanjamento americano. Mas mesmo que o esbanjamento fosse realmente um problema, num mundo de comércio global que funciona bem, se um país como os Estados Unidos tivesse défices, depois de um tempo relativamente curto esses défices forçariam mudanças (principalmente monetárias, mas também estruturais) na economia dos EUA que eliminariam esses mesmos défices. Os défices comerciais persistentes dos EUA não são naturais, e tem que haver uma razão para que eles existam

Além disso, esses défices comerciais americanos forçam os Estados Unidos a aceitar um aumento do desemprego ou um aumento mais rápido da dívida. Se o país quiser escapar dessa condição, os Estados Unidos devem reduzir o seu défice comercial com o mundo, mas não abordando o défice comercial diretamente através de tarifas ou quotas de importação. Em vez disso, os Estados Unidos devem enfrentar diretamente as entradas estrangeiras de capital, talvez taxando-as.

Para que conste, em setembro de 2019, a Yale University Press publicará um livro em que eu e meu co-autor defendemos que essas distorções não devem ser vistas tanto como representando conflitos entre países quanto como conflitos entre classes económicas. A guerra comercial, por outras palavras, é realmente uma forma disfarçada de guerra de classes, mas falaremos mais sobre isso em setembro.

 

NOTAS

[1] Tecnicamente, ao longo deste texto, deveria referir-me à balança corrente e não à balança comercial, mas esta última é normalmente a principal componente da primeira e absorve a maior parte, se não a totalidade, da variação. Embora seja tecnicamente incorreto, tratarei geralmente a balança comercial como intermutável com a balança corrente.

[2] Fui informado por um leitor há um ano que alguns dos seus amigos, economistas académicos, rejeitaram esta abordagem sobre a poupança e o investimento com o fundamento de que esta análise se baseia na abordagem da teoria de fundos emprestáveis para a criação monetária, uma teoria horrivelmente fora de moda, mais do que sobre a criação endógena do dinheiro, ou Moderna Teoria Monetária.

Isso só indica o quão confusos muitos economistas estão sobre o significado e as implicações da MMT, e sobre a criação de dinheiro de forma mais geral. A poupança, ou melhor, os depósitos, segundo a MMT, não são exógenos ao sistema bancário e distribuídos pelos bancos sob a forma de empréstimos, como normalmente se pensa (embora ninguém pense assim), mas sim endógenos porque são criados por empréstimos bancários.

Mas isto é um significado completamente diferente de poupança. É poupança monetária (ou seja, depósitos bancários) e não poupança real. No quadro de poupança-investimento aqui utilizado, poupança é simplesmente a quantidade de bens e serviços produzidos pela economia que não são consumidos. O investimento é necessariamente limitado, por definição, pela quantidade de poupança disponível. O quadro de poupança-investimento não tem nada a ver com fundos emprestáveis, dinheiro endógeno ou com qualquer outra teoria de criação de moeda. Trata-se da classificação de bens e serviços reais. No caso de uma economia que produz três unidades de um dado bem específico, se consome dois deles, não pode então investir mais duas unidades desse bem, pela simples razão de que só lhe resta uma unidade, e isto é independente de dinheiro ser ou não criado pelos bancos ou simplesmente distribuído por eles.

_________________________________

Nota técnica

A presente nota tem apenas como objetivo relembrar as relações macroeconómicas fundamentais para uma mais fácil leitura dos textos de Michael Pettis.

Vejamos algumas identidades contabilísticas das contas nacionais no âmbito da economia aberta:

Igualdade contabilística:

Y + M = C + I + G + X

onde:

Y é o Rendimento criado, M o valor das Importações, C o Consumo das famílias, I o Investimento, G a Despesa Pública e X o valor das exportações. Do lado esquerdo da igualdade temos os recursos disponíveis e do lado direito temos as suas utilizações.

Por seu lado, uma parte do Rendimento criado é gasto em Consumo (C), outra constitui a Poupança privada (Spriv,), que pode ser Poupança das Famílias (Sfam) e Poupança das Empresas (Semp) e uma terceira parcela é utilizado no pagamento de Impostos ao Estado (T). Donde, por definição, temos:

Y = C + Sfam+ Semp + T = C + Spriv + T

Y + M = C + Spriv + T + M

Como, por definição, os recursos disponíveis são os recursos utilizados temos:

Y + M = C + Spriv + T + M = C + I + G + X

Eliminando C nesta relação temos:

Spriv + T + M = I + G + X

Daqui obtemos como expressão para a Balança de Bens e Serviços, X-M:

X – M = Spriv – I + (T – G)

Repare-se, porém, que (T-G) representa a Poupança do Estado (Sest) que é, por sua vez, o simétrico do Défice Público (Dest), uma vez que este não é nada mais nada menos do que a Poupança negativa do Estado, ou seja:

T – G = – (G – T) = – Dest

Daqui tiramos que a Poupança total do país (Stot) é expressa por

Stot =Spriv – Dest

e então a expressão da Balança de Bens e Serviços vem:

X – M = Stot– I

Como sublinha Michael Pettis:

Stot =Sfam + Semp + Sest

E porque o Défice Público é simplesmente o valor negativo da Poupança do Estado, então:

Stot =Sfam + Semp – Dest

Combinando as duas identidades ficamos com:

X – M = Sfam + Semp – Dest – I = Stot– I

Ora, o lado esquerdo é imagem do valor da igualdade do lado direito, por definição, sem nos preocuparmos com as questões da causalidade. Daqui tiramos que um saldo positivo da Balança de Bens e Serviços tem como contrapartida um excedente da Poupança Total. O significado é curioso: todos estes valores são imagem de produção realizada e de produção vendida. Neste caso, se Stot> I  significa que há uma parte do rendimento obtido com a venda da produção que não foi investida localmente e, portanto, foi colocada no estrangeiro. Corresponde a uma saída líquida de capital do país para o exterior. Vejamos o mesmo problema pelo lado esquerdo da desigualdade. Se Stot> I então X – M > 0 e isto significa que aumentam os nossos ativos sobre o estrangeiro, ou seja, significa uma saída de capital. Neste caso, ao nível da Balança de Pagamentos, o saldo positivo da Balança de Bens e Serviços, tem como contrapartida, uma saída líquida de capital e a Balança de Capital vem então negativa e do mesmo montante em que a Balança de Bens e Serviços vem positiva.

Inversamente, admita-se agora Stot< I. Neste caso, o país poupou menos do que investiu. Como é isso possível? Só há uma possibilidade: importando capital. Com efeito a Poupança local foi toda investida, mas como Stot< I  investiu-se mais do que o que restou da produção depois de deduzido o que foi consumido. Isto implica automaticamente que se importaram bens em quantidade superior ao que se exportou e é essa diferença que constitui o acréscimo de investimento face ao que a produção nacional deixou disponível para investir localmente. A Balança de Bens e Serviços vem então negativa, mas como acabámos de dizer, isto significa então uma entrada de capital do exterior e com a Balança de Pagamentos equilibrada, por definição, ao défice da Balança de Bens e Serviços do país corresponde um excedente da sua Balança de Capital e exatamente do mesmo montante do défice.

É apenas isto que se pode deduzir das relações fundamentais da macroeconomia em economia aberta. Uma outra coisa completamente diferente é discutir a causalidade nestas relações, mas isso ultrapassa o âmbito da presente nota que tem apenas como objetivo relembrar as relações macroeconómicas fundamentais para uma mais fácil leitura dos textos de Michael Pettis.

JM

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2019/06/28/ainda-sobre-as-razoes-que-estao-na-base-dos-focos-de-tensao-entre-a-china-e-os-estados-unidos-os-estados-unidos-devem-ter-um-excedente-comercial-por-michael-pettis/

Putin diz que tentativa de destruir OMC é inadmissível e defende reforma no FMI

O presidente russo, Vladimir Putin, respondendo às perguntas dos cidadãos durante a linha direta anual, 20 de junho de 2019
© Sputnik / Aleksei Nikolsky

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, descreveu como inadmissível qualquer tentativa de destruir a Organização Mundial do Comércio (OMC) e defendeu reformas no Fundo Monetário Internacional (FMI).

"Consideramos contraproducentes qualquer tentativa de destruir a OMC ou reduzir seu papel", disse Putin durante reunião informal dos líderes do BRICS à margem da Cúpula do G20, em Osaka, no Japão.

Além disso, o presidente russo pediu aos países do BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) para aumentarem o uso de suas moedas nacionais nos pagamentos internacionais.

"Parece promissor trabalhar em conjunto para adotar a prática de usar as moedas nacionais de nossos Estados em pagamentos internacionais", afirmou.

Putin também falou sobre a integração dos sistemas de pagamento dentro do BRICS, bem como a criação de um canal de comunicação independente entre os bancos nacionais.

"Contribuiria para fortalecer a resiliência dos sistemas bancários dos BRICS à influência externa", ressaltou.

A reforma do FMI, na opinião do presidente russo, é outra área em que os membros do grupo devem assumir um papel maior.

"O BRICS pode e deve adquirir um papel mais amplo no sistema financeiro global, buscar levar adiante a reforma do FMI para que as economias emergentes e as nações em desenvolvimento tenham uma influência maior no Fundo", disse.

Os cinco país do bloco representam 43% da população do planeta e geraram 22,5% do PIB global em 2015.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/russia/2019062814129025-putin-diz-que-tentativa-de-destruir-omc-e-inadmissivel-e-defende-reforma-no-fmi/

A Divida Pública obriga ao corte do Investimento?

Será a Divida Publica em Portugal um problema que justifica o corte na Despesa Publica essencial, incluindo no Investimento Público?

Neste estudo analiso, utilizando dados oficiais, a dimensão e características da Divida Pública em Portugal, assim como o seu financiamento, para seguidamente analisar os efeitos da politica de redução da divida seguida pelos sucessivos governos, incluindo o actual, politica essa que se tem baseado em fortes restrições orçamentais, as quais têm causado o corte enorme do investimento publico, a degradação dos serviços públicos fortemente sentido pela população (saúde, transportes, etc.), a quebra do investimento total e um crescimento baseado, não no aumento da riqueza criada por cada trabalhador, mas sim na incorporação de mais trabalhadores, produzindo cada um deles menos riqueza devido à diminuição do “stock de capital” (investimento) por trabalhador.

E finalmente mostro que é possível reduzir o rácio da divida pública, que se obtém dividindo a Divida Pública pelo PIB, aumentando o investimento público utilizando para isso o saldo primário obtido pelas Administrações Públicas que entre, 2016 e 2018, somaram 14.426,6 milhões €. Isso teria determinado que o investimento público neste período tivesse sido multiplicado por 2,4 vezes e maior crescimento económico sustentado.

Curiosamente poucos dias depois Olivier Blanchard, ex-economista chefe do FMI, defendeu no encontro organizado pelo BCE em Sintra o mesmo. Infelizmente, António Costa afirmou num dos comícios eleitorais do PS que o objectivo do PS para a próxima legislatura era reduzir a Divida Pública para 100%, ou seja, em 23 pontos percentuais do que o valor actual (nesta, até Março de 2019, só conseguiu reduzir em 5,5 pontos percentuais), o que, se fosse concretizado,  obrigaria a uma politica de enormes restrições e cortes de despesa pública, com muito menos investimento publico, menos trabalhadores, menos transferências do O.E. para o SNS, etc.. Parece que António Costa e Mário Centeno pretendem continuar não só com a mesmo politica mas agravá-la ainda mais, agarrados ao passado e à politica de austeridade que tem causado  um forte destruição do país como mostro também neste estudo. O próprio FMI já compreendeu o erro dessa politica, mas em Portugal parece que ainda não.

Espero que este estudo, em que utilizo apenas dados oficiais, seja um contributo para a reflexão e para o debate e que possa contribuir para formulação de uma opinião própria fundamentado dos leitores sobre esta questão tão importante para avida de todos os portugueses.

Estudo

Num recente comício eleitoral do PS, António de Costa para além de prometer mais trabalhadores para a Administração Publica, cuja grave situação a que chegou está a causar uma profunda degradação dos serviços públicos prestados aos portugueses (exs.: SNS, ADSE, Segurança Social, etc.) e aumentos nos salários destes trabalhadores que estão congelados desde 2009, maiores transferências do Orçamento do Estado para o SNS, cuja situação é critica, mais investimento público (ex. transportes públicos cuja degradação é evidente para todos os portugueses), etc. etc. (promessas não faltam), terminou o discurso afirmando que o objectivo do PS para aproxima legislatura era reduzir a divida pública para 100%.

Por ignorância ou deliberadamente esqueceu-se de dizer que, para conseguir reduzir a divida pública em cerca de 23 pontos percentuais (pois teria de passar dos actuais 123,3% para 100%) em 4 anos, quando se prevê uma abrandamento do crescimento económico em Portugal nos próximos anos, isso exigiria restrições brutais anuais na despesa pública que é incompatível com todas as promessas anteriores que fez. Basta recordar que, entre 2015 e Março de 2019, ou seja, em mais de 3 anos, a Divida Publica, para efeitos de Maastricht medida em percentagem do PIB, teve apenas uma redução de 5,5 pontos percentuais. E foi conseguida através de uma enorme degradação dos equipamentos públicos e da própria Administração Pública que carece de mais trabalhadores para disponibilizar os serviços essenciais à população e de grandes cortes nos investimentos (transportes, saúde, a educação, a segurança social, etc.).

O ritmo de aumento, a dimensão da Divida Pública e como tem sido financiada

O quadro 1, com dados do Banco de Portugal, mostra o ritmo de crescimento da Divida Pública em Portugal, a sua dimensão actual e forma como tem sido financiada.

Quadro 1 – Evolução da Divida Pública 2009/2019 e seu financiamento

Anos DIVIDA PUBLICA EM Milhões € ORIGEM DOS RECURSOS
Divida Publica
Total (Ad.
Publicas)
Divida
Pública
Maastricht
Bruta
Divida
Pública
Externa
Divida
Publica à
Banca
Externa %
da Divida
Pública
À Banca %
da Divida
Pública
Divida à
própria
Ad. Publica
(entre si)
Dez.2009 158 591 141 055 105 238 23 843 66,4% 15,0% 9,1%
Dez.2015 290 089 231 584 154 009 57 991 53,1% 20,0% 18,9%
Mar.2019 316 251 250 387 131 529 86 140 41,6% 27,2% 19,4%
2009/19 157 660 109 332 26 291 62 297 -37,3% 81,2% 114,0%
2015/19 26 162 18 803 -22 480 28 149 -21,7% 36,3% 3,0%
FONTE: Boletim Estatístico – Banco de Portugal – Dez.2012, Dez.2016, Março 2019

 

 

Entre 2009 e Março.2019, a Divida Pública em Portugal aumentou em 157.660 milhões € pois passou de 158.591 para 316.251 milhões € (em % do PIB subiu de 94,1% para 155,8%).

Se considerarmos apenas a que é considerada pela Comissão Europeia (Maastricht) ela, entre 2009 e 2019, cresceu de 141.055 milhões € para 250.387 milhões €, ou seja em 109.332 milhões €. No período do actual governo (2015 a Março.2019), a Divida Pública Total aumentou em 26.162 milhões € e a de Maastricht em 18.803 milhões €, uma parcela devido à continuação do apoio à banca, de que é exemplo o Novo Banco.

A situação em Março.2019 era a seguinte: a Divida Pública atingia 316.251 milhões € (155,8% do PIB), sendo 250.387 milhões € considerada para efeitos de Maastricht (123,3% do PIB). Deste total de Divida Pública, 131.529 milhões € (41,6%) era dívida Externa; 62.297 milhões € (27,2%) era divida à Banca, e 61.397 milhões € (19,4%) era divida às próprias Administrações Públicas (Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social, à ADSE, etc.). Uma reestruturação da divida teria de ser feitas com estas entidades, e é tarefa difícil.

Investimento Publico correspondeu apenas 66% dos juros pagos

A Divida Pública, associada à obsessão de redução rápida do défice para ZERO, seguindo os ditames de Bruxelas, está a criar graves obstáculos ao desenvolvimento do país, nomeadamente a investimentos públicos. O sacrifício do investimento público, tem sido o instrumento preferencial, mesmo pelo actual governo para reduzir o défice orçamental.

Quadro 2- Investimento público e juros pagos pela divida pública – 2009/2018

Anos AP´s-FBCF Milhões € AP´s -Juros Milhões€
2009 7 193 5 263
2010 9 536 5 218
2011 6 166 7 575
2012 4 210 8 252
2013 3 746 8 343
2014 3 462 8 481
2015 4 136 8 271
2016 2 797 7 832
2017 3 503 7 395
2018 4 032 7 056
SOMA (10 anos) 48 781 73 687
FONTE: Eurostat e INE

Entre 2009 e 2018, num período de 10 anos, as Administrações Públicas pagaram 73.687 milhões € só juros, enquanto o Investimento Público (FBCF), de todas as Administrações Publicas foi apenas 48.781 €, ou seja, correspondeu apenas a 66,2% do gasto em juros, portanto o investimento foi um dos grandes sacrificados pelos sucessivos governos com consequências dramáticas para todos os portugueses (transportes, saúde, educação).

Mas onde se torna mais clara as consequências graves da obsessão em reduzir o défice rapidamente para ZERO, para brilhar em Bruxelas, é quando comparamos o investimento publico realizado em equipamentos (hospitais, escolas, transportes, etc.) como o valor dos mesmos que se degradou pelo uso ou se inutilizaram pela idade, designado por “Consumo de Capital Fixo” que, a nível das empresas, é conhecido por amortizações. Veja-se o quadro

Quadro 3 – Investimento (FBCF) inferior ao Consumo de Capital Fixo -2011/18

Ano INVESTIMENTO PÚBLICO E CONSUMO DE CAPITAL FIXO -M€
FBCF CONSUMO CAPITAL FIXO SALDO
2011 6 139 5 161 979
2012 4 201 5187 -986
2013 3 701 5 092 -1 391
2014 3 525 5 097 -1 572
2015 4094 5248 -1 154
2016 2880 5277 -2 397
2017 3 563 5 340 -1 777
2018 3 965 5 545 -1 580
SOMA 32 069 41 947 -9 878
2016/18 10 408 16 162 -5 754
FONTE. Administrações Públicas – INE

Entre 2011 e 2018, o Investimento Público (FBCF) nem foi suficiente para compensar os equipamentos públicos que se degradaram com o uso ou se inutilizaram. Neste período o Investimento público somou apenas 32.069 milhões € e o “Consumo de Capital Fixo” atingiu 41.947 milhões €, ou seja, foi superior ao Investimento Público em 9.878 milhões €. E 5.754 milhões € (58,3% deste total) diz respeito ao período 2016/2018, ou seja, ao actual governo.

Como o investimento público é fundamental para impulsionar o investimento privado, a quebra brutal verificada a partir de 2011 no investimento publico (entre 2011 e 2018 diminuiu, em valores nominais 35,4%, mas a preços constantes, ou seja, deduzindo a inflação a redução atingiu 41%) contaminou o investimento privado e, consequentemente, o investimento total no país. Como consequência verificou-se a nível do investimento total (FBCF) no nosso país, o mesmo que o verificado em relação ao sector publico com consequências dramáticas (destruição do aparelho produtivo do país que não foi nem ampliado nem renovado quadro 4).

Quadro 4- Investimento Total (FBCF) e Consumo de Capital Fixo no país- 2011-2017

Ano FBCF Milhões € Consumo Capital Fixo Milhões € SALDO Milhões €
2011 32 452 31 429 1 023
2012 26 672 30 552 -3 880
2013 25 122 29 884 -4 762
2014 25 993 30 324 -4 331
2015 27 844 31 013 -3 169
2016 Po 28 293 31 340 -3 04
2017 Pe 31 218 32 080 -863
SOMA 197 593 216 621 -19 028
2016+2017 59 510 63 420 -3 910
FONTE : Contas Nacionais Anuais – INE

A partir de 2011, o Investimento total no país foi sempre inferior ao “Consumo de Capital Fixo”. Entre 2011 e 2017, o investimento (FBCF) somou 197.593 milhões € e o “Consumo de Capital Fixo (as amortizações) 216.621 milhões €, portanto 19.028 milhões € de equipamentos degradados ou inutilizados não foram substituídos. O aparelho produtivo do país reduziu-se ou degradou-se. E mesmo com o actual governo isso aconteceu. Em 2 anos – 2016 e 2017- o Consumo de Capital Fixo somou 63.420 milhões € e o novo investimento (FNBC) no país foi apenas de 59.510 milhões €, ou seja, menos 3.910 milhões €.

O “stock” de capital fixo por trabalhador tem diminuído em Portugal e, como consequência, a riqueza criada por trabalhador tem diminuindo também

Como consequência o valor do “Stock de capital fixo” utilizado por empregado diminuiu de uma forma continuada em Portugal, confirmando a degradação do aparelho produtivo do país

Quadro 5 – A variação do “stock” de capital fixo por empregado na U.E. e em Portugal

Stock de Capital liquido a preços de 2010
por empregado – 1000€
PT/U.E. PT/Zona
euro
Ano União Europeia
(U.E.)
Zona Euro Portugal
(PT)
2011 176,6 206,3 114,3 64,7% 55,4%
2012 179,3 209,3 118,3 66,0% 56,5%
2013 181,4 212,1 120,7 66,5% 56,9%
2014 181,0 211,9 118,0 65,2% 55,7%
2015 180,9 211,1 115,7 64,0% 54,8%
2016 180,5 209,9 113,2 62,7% 53,9%
2017 179,9 208,6 109,3 60,8% 52,4%
2018 180,0 207,7 106,8 59,3% 51,4%
2019 181,1 208,3 105,8 58,4% 50,8%
2020 182,5 209,3 105,5 57,8% 50,4%
FONTE: AMECO

A quebra no investimento determinou que, entre 2015 e 2018, o stock de capital por empregado sofresse uma redução de 7,7%, pois passou de 115.700€ para 106.800€ , e a previsão da Comissão Europeia é que continue a diminuir como revelam os dados do quadro.

Esta redução do valor dos equipamentos utilizados em média por trabalhador (desinvestimento), determinou que a produtividade aparente do trabalho, que se obtém dividindo o PIB pelo número de trabalhadores, tenha diminuído em Portugal, o que é grave.

Quadro 6-Variação anual da produtividade aparente do trabalho – 2011/2018

Ano PIB/Empregado PIB/Emprego
remunerado
Var. anual
PIB/emprego
Var. anual PIB/emp.
Remunerado
2011 36 880 € 44 204 €    
2012 36 904 € 44 547 € 0,1% 0,8%
2013 37 562 € 45 044 € 1,8% 1,1%
2014 37 370 € 44 535 € -0,5% -1,1%
2015 37 529 € 44 301 € 0,4% -0,5%
2016 37 643 € 44 111 € 0,3% -0,4%
2017 37 466 € 43 755 € -0,5% -0,8%
2018 37 398 € 43 436 € -0,2% -0,7%
FONTE: Contas Nacionais – INE

A redução do “stock de capital” por trabalhador determinou que, entre 2015 e 2018, a “produtividade aparente do trabalho”, ou seja, a riqueza criada anualmente em média por um trabalhador, medida a preços constantes de 2010, tenha diminuído 131€ por empregado (inclui o emprego remunerado e o não remunerado), sendo muito maior a redução no emprego remunerado cuja redução atingiu 865€ por trabalhador (em 2018, cada trabalhador produziu em média menos 865€ do que em 2015). Em percentagem, tem-se registado uma diminuição continuada desde 2014 (inclusive) como revelam os dados do INE do quadro 6. O crescimento económico em Portugal, ou seja, do PIB tem sido obtido através do aumento do emprego, o que tem como aspecto positivo a redução do desemprego, mas não devido ao aumento da produtividade, ou seja, da riqueza criada anualmente por cada trabalhador; muito pelo contrário, a riqueza média criada anualmente por cada trabalhador tem diminuído, o que revela que o actual crescimento económico nem é sustentável nem permite o desenvolvimento do país. Por esta razão, Portugal no lugar de convergir para a média europeia tem divergido (o PIB por habitante de Portugal em % do da U.E.28: em 2009:68,9%; e em 2018:64,9% do PIB por habitante da UE28).

A análise feita apenas com base em dados oficiais prova de uma forma clara, a nosso ver, que o estrangulamento do investimento publico, que contribui fortemente para o insuficiente investimento total, está a conduzir o país para uma situação insustentável. E isto conduz-nos novamente ao problema da divida pública e ao défice orçamental, e a sua redução, que tem sido a trave mestra de toda a politica de sucessivos governo em Portugal, a “coroa de glória” também do actual governo. Infelizmente, na legislatura que está a terminar, os partidos de esquerda que apoiaram o actual governo acabaram por pactuar com tal politica, pelo menos por omissão (aquando da discussão do Orçamento do Estado poderiam ter imposto, para o aprovar, pelo menos maiores transferências para o SNS, e mais investimento publico, mas não o fizeram).

António Costa já anunciou num dos comícios eleitorais do PS que o objectivo do PS para a próxima legislatura é a reduzir a Divida Pública de 123% do PIB para apenas 100% num período de 4 anos. Tal objectivo é só possível com cortes maiores cortes orçamentais, ou seja, muito mais do mesmo.

Será a Divida Publica um problema? Será possível reduzir a Dívida Pública e aumentar o Investimento Público fundamental para o país?

Os economistas têm firmado que se o saldo orçamental primário for zero, ou seja, se o saldo orçamental sem juros for zero, e se taxa de juro nominal for inferior à taxa de crescimento nominal da economia (PIB), como acontece actualmente, o rácio da divida, medida em % do PIB, diminui automaticamente sem custo fiscal, ou seja, sem necessidade de recorrer a mais impostos para diminuir o rácio da divida. E isto porque o aumento anual da divida resultante da soma dos juros será inferior ao crescimento anual do PIB nominal.

Quadro 7 – A redução do rácio da Divida Pública (DP(PIB) no período 2015/2018

Ano PIB
Milhões €
Divida Publica –
Maastritcht
Milhões €
Divida
Publica % do
PIB
2015 179 809 231 584 128,8%
2018 201 613 244 906 121,5%
2015-2918 21 803 13 322 – 7,3 p.p.
2015-2018-Var.% 12,1% 5,8%  
FONTE: CNAP-1995-2018-INE, Boletim Estatístico – Banco de Portugal

Entre 2015 e 2018, portanto em 3 anos, o PIB nominal em Portugal aumentou 12,1% (+21.803 milhões €) e a Divida Pública cresceu 5,8% (+13.322 milhões €, uma parcela para continuar apoiar a banca – Novo Banco), como consequência a Divida Pública em percentagem  do PIB diminuiu 5,5 pontos percentuais pois passou de 128,8% do PIB para 123,3 do PIB (quadro 7).

Entre 2016/2018, em Portugal os saldos primários orçamentais foram sempre positivos somando 14.426,6 milhões € como mostra o quadro 8.

Quadro 8- Saldo primário das Administrações Publicas na óptica da Contabilidade Nacional

Anos Receita
Orçamental
Milhões €
Despesa Orçamental
Primária (sem juros)
Milhões €
SALDO ORÇAMENTAL
PRIMÁRIO
Milhões €
2016 79 706,0 75 610,0 4 096,0
2017 83 507,0 78 688,0 4 819,0
2018 87 176,4 81 664,8 5 511,6
2019(P) 90 718,3 84 236,9 6 481,4
SOMA 341 107,7 320 199,7 20 908,0
FONTE: Relatório do Orçamento do Estado – 2017, 2018, 2019 – Ministério Finanças

Se se tivesse recorrido à divida para pagar juros, a Divida Pública de Maastricht teria aumentado no período 2015-2018 de 231.584 milhões € para 253.868 milhões €, o que significava que mesmo que os saldos primários positivos obtidos neste período – 14.426,6 milhões € – tivessem sido aplicados em investimento público (FBCF), mesmo assim a Divida Pública medida em percentagem do PIB teria diminuído de 128,8% para 125,9%, ou seja, uma redução de 2,9 pontos percentuais, pouco inferior à conseguida por Centeno/Costa com os restrições brutais que impuseram na despesa publica ( investimento publico, trabalhadores da Função Publica, SNS, Segurança Social, etc.). Mas a diminuição teria certamente maior, porque um aumento do investimento público no período de 2016/2018 de mais 14.426,6 milhões €, que somado realizado (10.408 milhões €) daria 24.834 milhões € (2,4 vezes superior) teria certamente promovido um maior crescimento económico (PIB), o que determinaria uma redução maior do rácio da divida.

Estranhamente ou não, Olivier Blanchard, ex-economista principal do FMI, portanto não suspeito de ter simpatias por politicas de esquerda, na reunião do BCE realizada em Sintra poucos dias depois da intervenção que fiz veio defender que “uma redução da divida pública é agora menos urgente do que era”, e que “os défices são necessários devendo ser usados , o máximo que for possível para investir no futuro, seja através de investimento público , seja suportando custos de reformas estruturais”, considerando mesmo que na medida que os défices primários sejam necessários para sustentar a procura eles “devem ser utilizados” . É pena que só agora Olivier Blanchard tenha descoberto isso, e que Mário Centeno e António Costa não o tenham, continuando agarrados às velhas teorias do passado da politica de austeridades para reduzir a divida pública, que tanta destruição já causou ao pais, e que se vai reflectir de uma forma dramática no futuro pelo tempo perdido para desenvolver o país e garantir melhor vida aos portugueses e pela destruição que continua a fazer, destruição essa que está ao alcance dos olhos de todos os portugueses na profunda degradação dos serviços públicos (SNS, Transportes, etc.).

Neste contexto é extremamente preocupante a declaração feita por António Costa no comício eleitoral do PS, de que o objectivo do seu partido na próxima legislatura seria reduzir o rácio actual da divida (DP/PIB) de 123,3 % para 100% do PIB, ou seja, em 23,3 pontos percentuais em apenas 4 anos (entre 2015 e 2018, reduziu apenas em 5,5 pontos percentuais), o que significa a continuação de uma politica de restrições e cortes orçamentais ainda maiores que na legislatura actual, até porque se prevê para Portugal um crescimento económico mais lento. Tal redução com tal dimensão é também incompatível com as promessas eleitorais do mesmo António Costa de aumentar o número de trabalhadores da Função Pública, de subir as suas remunerações, e de aumentar significativamente o investimento público e as transferências para o SNS. Seria mais do mesmo e de uma forma ainda mais violenta. Ou será que ele é incapaz de perceber isso, ou omite deliberadamente, o que não é bom em politica que deve ser de verdade.



 

 


 

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/a-divida-publica-obriga-ao-corte-do-investimento/

Criar campeões, sacrificar a concorrência

(Alexandre Abreu, in Expresso Diário, 13/06/2019)

Alexandre Abreu

A concentração empresarial confere economias de escala, poder de mercado e acesso a lucros extraordinários, especialmente quando está em causa uma quota de mercado substancial a uma escala continental ou global. Muitas empresas estão dispostas a praticar preços abaixo do custo para conquistar quota de mercado, suportando perdas durante largos anos se necessário, na antecipação da fase em que o seu domínio do mercado lhes permitirá recuperar esse investimento. Outra via mais direta para a conquista de poder de mercado é a fusão entre empresas existentes, particularmente quando entre si já partilham uma parte importante do mercado. Seja qual for a via, a conquista de poder de mercado é uma dimensão central do capitalismo realmente existente: a concorrência perfeita dos manuais é bastante excecional.

Tradicionalmente, os governos das economias capitalistas avançadas têm tido uma atitude ambígua em relação a estas dinâmicas de concentração. Por um lado, a noção de que os lucros monopolísticos penalizam os consumidores, incluindo outras empresas a montante a a jusante, levou historicamente ao desenvolvimento de legislação antimonopolística, incluindo a imposição do desmantelamento de empresas com poder de mercado excessivo e a penalização de práticas de cartelização. É mais frequente, porém, que o poder político promova os interesses dos grandes grupos com aspirações monopolísticas, justificando-o com uma identificação entre os interesses destes e o interesse nacional, principalmente quando em confronto com empresas rivais de outros países.

Na União Europeia, vive-se atualmente um momento de charneira no que diz respeito à tensão entre estas duas tendências. A dinamarquesa Margrethe Vestager, Comissária Europeia para a Concorrência desde 2014, tornou-se famosa pela imposição de multas avultadas a empresas como a Apple ou a Google por abuso de poder de mercado, mas também pelos vetos impostos a vários planos de mega-fusões, incluindo, nos últimos meses, as intenções de fusão da Thyssenkrupp com a Tata (no sector do aço) e da Siemens com a Alstom (nos equipamentos ferroviários). Mas a sua atuação tem vindo a criar cada vez mais inimizades junto de vários governos europeus, que têm visto bloqueada a perspetiva de consolidação de empresas “campeãs europeias” com maior capacidade de competir no mercado global e, em particular, de enfrentar a concorrência das rivais chinesas e norte-americanas.

O veto à fusão entre a alemã Siemens e a francesa Alstom no sector ferroviário, que teria dado origem à segunda maior empresa mundial de fabrico de comboios, terá irritado particularmente os governos francês e alemão. Levou também Angela Merkel e Emmanuel Macron a apelarem a uma alteração das regras europeias da concorrência no sentido de uma maior tolerância para com a concentração monopolística em nome da capacidade de concorrência face aos rivais extra-europeus. Já em fevereiro deste ano os ministros da economia francês e alemão, Bruno Lemaire e Peter Altmaier, haviam lançado um Manifesto Franco-Alemão para uma política industrial europeia para o século XXI, que incluía apelos no sentido do reforço substancial do investimento público na inovação, de maior proteção face a países terceiros e da revisão das regras da concorrência para torná-las mais permissivas. Todos pretendem que os governos nacionais, através do Conselho, possam ultrapassar os vetos da Comissão em nome do interesse nacional.

Este embate vai prosseguir nos próximos tempos e acentuar-se à medida que as empresas chinesas forem conquistando cada vez mais mercados a nível global, colidindo com as aspirações dos grupos empresariais europeus. E será surpreendente se neste contexto os mecanismos de salvaguarda da concorrência prevalecerem face às pressões crescentes no sentido da atuação política em apoio à concentração do capital. Este pode não ter pátria para algumas coisas, mas tem-na com certeza quando toca à mobilização do poder político para fazer avançar os seus interesses.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Aniquilação do dólar? Rússia estuda criação de criptomoeda respaldada em ouro

Barras de ouro (imagem de arquivo)
© Sputnik / Valery Titievsky

Uma nova proposta está sendo estudada pela Rússia de criação de uma criptomoeda respaldada por ouro, que poderia ser usada nas operações transfronteiriças com outros países.

A ideia ousada, que está sendo considerada pelo Banco Central da Rússia (CBR, na sigla em inglês), foi apresentada por Vladimir Gutenev, deputado da Duma de Estado (câmara baixa do parlamento russo).

O deputado sugeriu o início do debate para criar um meio de troca descentralizado nacional, denominado em ouro.


"Quanto às operações bilaterais, consideraremos, é claro, a proposta sobre uma criptomoeda vinculada ao ouro. Mas, na minha opinião, é mais importante desenvolver as operações em moedas nacionais", disse Elvira Nabiullina, chefe do Banco Central, ao comentar a nova proposta.

Ao contrário das moedas virtuais comuns, que não são seguras porque não são apoiadas por nada, as criptomoedas lastreadas em ouro têm seu valor atrelado a um ativo real, explica o deputado.

Para Gutenev, a nova moeda combinaria a qualidade de moeda digital com o fato de ser uma moeda estável, ou seja, ter um valor estável.

"A princípio, [o Banco Central russo] opõe-se à introdução de moedas criptografadas no nosso sistema monetário. Não vemos possibilidade de que as moedas criptografadas, de fato, cumpram a função de substitutos monetários", afirmou Nabiullina.

Contudo, a presidente da entidade bancária russa observa que o regulador poderia estudar a possibilidade de criar moedas estáveis, que tenham um ativo real por trás.


O aumento das reservas de ouro, a fim de diversificar as reservas internacionais do país e reduzir a dependência do dólar americano, tem feito parte da política nacional da Rússia, cujas reservas do metal precioso e divisas em breve atingirão US$ 500 bilhões - volume suficiente para enfrentar episódios de crise.

Em maio, o Conselho Mundial do Ouro (WGC) comunicou que Moscou liderou entre os maiores compradores mundiais de ouro no primeiro trimestre deste ano.

O relatório do conselho apontou que a Rússia acrescentou 55,3 toneladas aos seus cofres, trazendo suas vastas reservas de ouro para 2.168,3 toneladas.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/economia/2019061314051567-aniquilacao-dolar-russia-estuda-criacao-criptomoeda-respaldada-em-ouro/

À espera de nova crise: ameaças que poderiam abalar economia global

Bolsa de valores de Xangai.
© AFP 2019 / Greg Baker

A economia mundial ainda não acabou de resolver todos os problemas causados pela grande crise financeira de 2008, mas o aumento da dívida global e as vulnerabilidades econômicas estão empurrando o mundo para um novo colapso financeiro, adverte o economista russo Vladimir Mau.

Em 2018, a economia mundial cresceu a um ritmo moderado de 3,7% e a fase de crescimento já dura dez anos. Entretanto, os especialistas avisam sobre a instabilidade desse crescimento e já preveem que uma nova crise venha a abalar em breve a economia global porque o crescimento não pode ser interminável.

Em seu artigo para o portal Forbes, o proeminente economista russo Vladimir Mau sublinhou que a crise global de 2008 foi causada pelo nível sem precedentes da dívida global – que continua crescendo, tendo superado os 200 trilhões de dólares em 2018 (mais de R$ 800 trilhões). Além disso, se observa uma fraca atividade de investimento, estagnação da renda da classe média e a deflação nas economias desenvolvidas.


Entre os problemas que a economia global enfrenta o analista refere ainda a política monetária. Entre todos os bancos centrais dos países desenvolvidos, apenas o Fed americano conseguiu sair da zona das taxas de juro superbaixas, enquanto os reguladores financeiros da zona euro, do Reino Unido e do Japão continuam insistindo na política monetária expansionista, receando provocar uma recessão.

No entanto, isto priva-os do instrumento mais importante para contrariar a próxima crise - a possibilidade de flexibilização monetária. Os bancos centrais dos países desenvolvidos não têm espaço para a flexibilização monetária, enquanto a flexibilização fiscal também será extremamente difícil devido à enorme e crescente dívida pública.

Mais um ponto fraco da economia global é a perda de confianças nas instituições governamentais. As sanções, que se tornaram um elemento integrante da política global, desempenham um papel importante nesse processo: as medidas restritivas podem ser introduzidas contra qualquer país, empresa ou pessoa, o que apenas contribui para volatilidade e incerteza.

Em meio a essa situação, a economia global dá indícios de possíveis mudanças fundamentais. Segundo Mau, com o desenvolvimento das tecnologias de informação, as criptomoedas vão desempenhar um papel cada vez mais importante no sistema de finanças globais. Por exemplo, vários bancos centrais já manifestaram seu interesse em desenvolver projetos baseadas na tecnologia blockchain. Embora o desenvolvimento pleno do mercado de criptomoedas ainda possa vir a levar vários anos, esse setor é muito promissor, sublinha o analista.


Anteriormente, os analistas já avisaram que a economia mundial pode não resistir à dívida de mais de 200 trilhões de dólares e que a próxima crise poderia ser pior do que a de 2008. No final do ano passado, os economistas do Fundo Monetário Internacional (FMI) apontaram a insustentável dívida global como a principal ameaça para a economia mundial.

Na edição de abril do relatório Perspectivas da Economia Mundial, o FMI prevê um abrandamento do crescimento global em 2019 para 3,3% em comparação com os 3,5% esperados em janeiro deste ano. Os economistas do fundo sublinham que, embora se espere alguma retomada do crescimento no segundo semestre, em geral 70% da economia mundial deve desacelerar neste ano.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/economia/2019051713896817-a-espera-de-nova-crise-ameacas-que-poderiam-abalar-economia-global/

Portugal | O império dos algarismos

Manuel Carvalho da Silva | Jornal de Notícias | opinião

O "império dos algarismos", hoje tão atraente e poderoso, assenta na ideia de que todas as decisões se devem basear num mero cálculo de custos e benefícios baseado em estimativas quantificadas de ganhos e perdas, e manifesta-se de formas muito diversas.

O Governo do Partido Socialista(PS), quando teve de enfrentar as metas europeias do défice e da dívida para fazer vingar os acordos à esquerda e o que neles havia de reposição do rendimento e de direitos laborais e sociais, demonstrou que essa recuperação favorecia o crescimento e tornava menos difícil equilibrar o Orçamento do Estado. A partir do momento em que Portugal passou de "mau aluno" a "bom aluno" e o ministro das Finanças português foi cooptado para presidente do Eurogrupo, instalou-se de novo o império dos algarismos. Uma decisão passou a ser boa ou má conforme os algarismos (os critérios do pacto de estabilidade) o permitiam. Toda a discussão sobre a contagem do tempo de trabalho dos professores decorreu sob o domínio do império orçamental dos algarismos e foi inquinada por isso.

Entretanto, o rompante demissionário de António Costa no fim da semana passada - aproveitando oportunismos e descontrolo da direita - parece revelar que a prioridade é de novo "PS, só, só PS" desimpedido de parceiros que exijam governação à esquerda. O ato de António Costa e pronunciamentos de destacadas figuras do PS vão nesse sentido; e adotam uma estratégia orçamental e eleitoral assentes no cálculo do custo-benefício que tudo explica e justifica, acompanhada pela colocação de uns cidadãos contra outros.


Os algarismos são "O" argumento ou a arma que se aponta ao dissidente, nesta ocasião os professores. Acontece que os algarismos tendem a ser muito traiçoeiros: quando massajados, aconchegam-se aos desejos do massagista; quando torturados, confessam. Mário Centeno chega ao ridículo de afirmar "eu não pago aos professores com os impostos que os professores pagam", como se com o valor desses impostos, que seguramente entram nos cofres do Estado, não pudesse cobrir tanto essas como outras despesas.

Ao contrário do que afirmam o Governo e muitos fazedores de opinião, os professores não estão à espera de ser ressarcidos pelo que perderam durante o período da crise: como todos os outros trabalhadores dos setores público e privado perderam parte dos seus salários, vários subsídios de férias e de Natal, e cerca de 20 mil ficaram sem emprego.

Que preço vai o país pagar quando não tiver professores qualificados para garantir a qualidade da formação das futuras gerações? Em 2019, apenas 0,2% dos docentes têm menos de 30 anos de idade. Doze dos 21 cursos de formação de professores tiveram este ano menos de dez candidatos e os melhores alunos não querem seguir a via do ensino. Nos mais velhos há exaustão e vontade de abandono.

Desde que Cavaco Silva jogou com vários grupos profissionais, nomeadamente os professores, para obter uma maioria absoluta, que se acumulam problemas com este importantíssimo setor profissional e é evidente a necessidade de harmonizar e valorizar a sua carreira. Durante quatro anos o Governo nada fez para encontrar soluções e termina, desgraçadamente, a tratar os professores como grupo privilegiado e gastador.

*Sociólogo

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/05/portugal-o-imperio-dos-algarismos.html

O velho velho velho velho velho Portugal

(Daniel Deusdado, in Diário de Notícias, 10/05/2019)

1. A ira

 

Só é possível governar Portugal em contexto de desgraça. Salazar intuiu isto melhor que ninguém. Mal surge algum dinheiro, algum sucesso, algum progresso, gera-se imediatamente o ambiente de insurreição. Todos somos deserdados da pátria. Entra-se então na espiral que nos remete, fatalmente, para a clássica bancarrota que se repete ciclicamente na nossa história, fruto da nossa falta de escala e de sensatez.

São justos os fenómenos de rebelião? Mais que justos. São a consequência de um nível de vida sempre abaixo da média Europa – seja a pobreza a dos pobres, da classe média e dos ricos. Até os nossos milionários são pequeninos milionários.

Manter o país a funcionar (agora em moldes europeus) dá demasiado prejuízo. Manter os portugueses felizes é impossível porque a verdadeira fortuna está sempre além. Por isso, em momentos críticos, ou quando o sucesso se torna impossível, navegamos ou emigramos (na prática é a mesma coisa).

Pode prosperar-se em Portugal? Só à custa da miséria alheia (baixos salários ou fuga fiscal). E não há el dorados para escalar globalmente a pátria.

2. Vacas magras

Jorge Nascimento Rodrigues recorda-nos, no livro “Portugal na Bancarrota – Cinco Séculos de História”, que a primeira bancarrota surgiu em 1560 quando a viúva de D.João III não sabia como pagar a aventura dos Descobrimentos aos banqueiros da Flandres. Nos duzentos anos seguintes, com o ouro do Brasil, andamos de costas direitas… até chegarmos ao século XIX depauperados. Daí para a frente surgiram mais quatro falências públicas (entre 1837 e 1875). Sabemos depois o que foi o turbilhão da República ou a exceção da ditadura de boas contas e péssima vida. E finalmente as traumáticas bancarrotas do pós-25 de Abril.

Isto vai-nos ficando no sangue e nem sequer percebemos porque estamos geneticamente condicionados para voltar ao abismo. O esgotamento do modelo económico sucede em todo o lado mas, num país com pouca aptidão para a poupança ou consolidação das contas, o fim de cada ciclo é mais uma hipótese de destrambelhamento.

Há um aforismo bíblico que se aplica na íntegra a Portugal: o Faraó do Egipto teve um sonho em que as vacas magras comiam as gordas e continuavam magras. Eternamente magras.

Não temos criação de riqueza suficiente para sustentar distribuições de prosperidade baseada na pressão do voto. A equação portuguesa só consegue alterar-se quando o capital ou recursos estrangeiros afluem: foi o ouro e as especiarias há séculos, foi a mão-de-obra barata cá (ou lá, a enviar remessas com sabor a sangue, suor e lágrimas). Agora são os engenheiros baratos, o imobiliário e o turismo.

Sim, contudo, recuperamos, tal como agora. Há novas cidades, nova gastronomia e vinhos de excepção, há paisagem e a natureza que resta. Também há ainda portugueses que não tratam mal os turistas.

Este bouquet permitiu-nos chegar ao atual momento, razoavelmente saudáveis, depois de brutalmente esventrados pela dupla traição: da banca, dos seus largos critérios; e da dívida pública por via da ilimitada visão de vacas gordas. (Ou como dizia Sócrates, a dívida é eterna).

Mas como não dependemos de nós para nos mantermos à tona, logo que o afluxo exterior abranda, as contas nacionais mergulham no vermelho muito rapidamente. Lembrete: continuamos com uma dívida pública que ainda está acima dos 120 por cento do PIB e uma conta de juros tão alta que o défice subsiste – apesar do saldo primário do orçamento ser positivo.

É por isso que não conseguimos devolver os anos roubados a quase ninguém. Salvam-se apenas umas minorias caláveis com gastos baixos (os professores dos Açores, por exemplo); salvam-se os que têm muito muito muito poder e adequam a máquina legislativa para os seus interesses (ainda se lembram que o IVA para tauromaquia desceu em Janeiro?).

Como fazer justiça a todos com os impostos de apenas alguns? O populismo nasce neste “inconseguimento” sistemático.

3. A outra bancarrota

Comparar o dinheiro que se mete na banca ao que não se consegue entregar aos professores é fácil. Mas significa despejar gasolina em cima da democracia.

Sem banca um país colapsa de imediato, por mais que isto seja doloroso.

Os diferentes Governos (em todo o mundo) não salvam a banca para salvar os banqueiros ou os seus acionistas. Estes acabam (irritantemente) beneficiados por um objetivo maior: salvar o dinheiro dos cidadãos – e da economia – em geral.

Muitos desses banqueiros deviam ser proibidos de ter mais atividade na banca? Sim. Alguns mereciam prisão? Sim. Mas nada disto traz o dinheiro de volta. E só os ineficientes tribunais o podem fazer, décadas depois.

Realmente, os nossos melhores MBA, ou PhD, ou pós-pós-pós doutorados nas melhores escolas, têm tanta doutrina económica que já não vêm a realidade à frente. Têm tanta ambição pessoal, ganância nos lucros e respetivas comissões, e desejo de poder, que alienam tudo em favor da promoção pessoal.

Isto é intrinsecamente português? Não. Mas, por acaso, não resta praticamente nenhum banco português relevante, à exceção da Caixa, dada a nossa canhestrez financeira.

4. A História

Estamos reféns. Dos factos, das opiniões das redes sociais, dos pequenos-médios ou grandes lobbies, dos eternos senhores do capital financeiro, da erosão do tempo sobre os justos direitos. Assim chegaremos à ausência de avaliações nas escolas no fim do terceiro trimestre. Ou aos camiões-cisternas.

Nesta deceção intrínseca nos portugueses, apesar do maravilhoso país, a melancolia entranha-se. E a vida avança. Falham os sonhos, ficam as obrigações de manter a pátria e os direitos dos outros por via fiscal. Por isso esta tendência de resvalarmos facilmente para o conforto do autoritarismo. Tudo está bem se ninguém for beneficiado – exceto uma subterrânea oligarquia de interesses. E todos querem ser essa exceção em silêncio.

Assim foi possível viver 48 anos com a ditadura, na mais santa e transversal pobreza. E assim lá voltaremos um dia, resignados, como sempre aconteceu. Cheios de razão, de mãos a abanar, sob controlo estrangeiro.

Dolorosamente, a questão que resta é sempre a mesma: conseguimos criar mais riqueza para distribuir por todos ou ficaremos eternamente a discutir, insanamente, a fatalidade do nosso estranho modo de vida?


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

A utopia do “Trickle-Down”

Em conversas informais ou no mais responsável dos meios de comunicação, surgem regularmente referências directas ou indirectas ao chamado “trickle down economics”.

No apoio ou na crítica ao modelo de política económica seguido (ou imposto pelos “negociadores” dos programas de apoio financeiro do FMI, da UE e do BCE) na Zona Euro, está sempre implícita a discussão daquela teoria que na mais simples das suas versões se traduz na ideia que as reduções de impostos e outros benefícios fiscais de que beneficiem as grandes empresas e as famílias mais ricas, acabarão por se converter também em benefícios para os segmentos menos favorecidos do conjunto da população.

Embora a sua entrada no léxico corrente seja recente, a origem do conceito é bastante antiga e por isso mesmo são estatisticamente observáveis os efeitos práticos da sua aplicação, mesmo quando a simples observação empírica bastaria para o refutar. Sem truques nem malabarismos desnecessários basta recordar que o período áureo dos seus defensores coincidiu com a eleição de Ronald Reagan para presidência norte-americana e com a aplicação da chamada “Reaganomics” – designação pela qual ficou conhecida a política económica adoptada pelo presidente Reagan, durante a década de 80, assente nos quatro pilares da redução dos gastos públicos, da redução dos impostos sobre a renda e os ganhos de capital, da desregulação da economia e do controlo da oferta de moeda para reduzir a inflação – , ou seja, o predomínio das teorias económicas orientadas para o lado da oferta e directamente influenciadas pela teoria monetarista de Milton Friedman.

Daqui a transformar esta corrente de pensamento na espinha dorsal dos tecnocratas do FMI e do Banco Mundial e a “exportá-la” por esse mundo fora, foi apenas um pequeno passo. Aproveitando os pedidos de auxílio financeiro dos Estados em maiores dificuldades económicas, transformando aqueles princípios em condições obrigatórias, foram os Estados convertidos em presas fáceis de interesses alheios, que rapidamente os desfiguraram em estruturas economicamente dependentes do fornecimento de bens e serviços básicos.

Foi assim que assistimos durante a última geração a uma expansão forçada da globalização (com o que este conceito apresenta de mais prejudicial em termos de aculturação e de destruição de tecidos produtivos autóctones) e á difusão da ideia das enormes vantagens que adviriam para todos duma política de reduções fiscais para uma minoria que não podia deixar de gerar benefícios colectivos. Baixaram-se os impostos sobre os lucros (em especial os das grandes empresas de capitais transnacionais), sobre os rendimentos de capital (gerados nos mercados globais de acções e nos recém inventados “offshores” financeiros), liberalizaram-se mercados (eliminando barreiras alfandegárias e normas protectoras de territórios e trabalhadores) para chegarmos à situação em que os Estados, privados de receitas suficientes se viram empurrados para o recurso ao endividamento como única via para o financiamento das suas políticas.

Independentemente da qualidade destas políticas, o resultado hoje visível foi o empobrecimento geral das famílias e dos Estados (mais gravoso ainda quando o endividamento foi canalisado para investimentos de duvidosa ou nula rentabilidade económica e social), e o aproveitamento que do mesmo está a ser feito.

A lista de prejudicados já vai longa e nela se incluem Estados da América Latina, empurrados nos anos 80 e 90 do século passado pela situação de défices crónicos nas suas balanças comerciais, países do Sudoeste Asiático, empobrecidos pelo sistema de comércio mundial e pela fragilidade das suas divisas, a Rússia, economicamente devastada na sequência da desagregação da União Soviética, e por fim os países periféricos da Zona Euro.

Uma versão actualizada do trickle down surgiu numa UE onde impera a ideia de que uma austeridade expansionista – traduzida nas palavras dum dos seus campeões, Passos Coelho, como um processo de empobrecimento que nos conduzirá à riqueza – constituirá a panaceia salvadora e remissora de todos os nossos males. Asseguram-nos que um aumento selectivo de impostos (indirectos e directos sobre os assalariados), uma redução de salários (em termos efectivos e/ou através do aumento dos horários de trabalho) e de prestações sociais, tudo factores que reduzirão o rendimento disponível das famílias e a receita directa do Estado, constitui a melhor solução mas não explicam o seu evidente fracasso – bem expresso nas dificuldades que atravessa a Europa do Sul e na manutenção dos elevados níveis da sua dívida pública – nem sequer as conclusões do relatório sobre políticas fiscais apresentado pelo FMI em 2012.

Neste documento (Fiscal Monitor Update de Janeiro de 2012) concluía-se que afinal a grande preocupação dos “mercados” não é tanto a consolidação orçamental a médio prazo mas, principalmente o crescimento económico de curto prazo; resultado que valida apenas a mais lógica e elementar das preocupações de qualquer investidor: assegurar o retorno do capital investido e dos juros.

O fracasso do trickle-down confirma-se com a revelação de que os despojos do crescimento económico se têm acumulado progressivamente em direcção ao segmento dos 10% mais ricos, enquanto os restantes 90%, que até ao início dos anos 1950 acumularam 80% dos ganhos do crescimento económico, estão agora praticamente estagnados.

Do mesmo modo a redução de impostos para os mais ricos, não está a escorrer até aos mais desfavorecidos e, pior, nem sequer está a fomentar um maior crescimento económico, como o comprovam as fracas taxas de crescimento das economias ocidentais e o mostra o gráfico que compara a evolução dos lucros e do investimento nos EUA entre 1965 e 2005.

Este fenómeno, de natureza global, é regularmente comprovado por dados das mais diversas origens. Também observável na situação nacional, como é o caso de um estudo de Eugénio Rosa onde este mostra a evolução comparativa da repartição da riqueza reveladora que desde o início da crise (2007) que os ganhos do factor capital não têm deixado de crescer enquanto os do factor Trabalho têm caído de forma regular.

De um modo geral é seguro afirmar que ao encontro das pretensões dos teóricos da corrente neoconservadora e dos defensores da actuação na economia pelo lado da oferta (supply-side economics) a pressão tributária sobre as empresas diminuiu nas últimas décadas, com o recebimento de impostos das empresas em percentagem do PIB a diminuir gradualmente, e que isso tem sido acompanhado por um declínio gradual do investimento empresarial; na prática as empresas estão a distribuir uma parte crescente dos seus lucros pelos accionistas, o dinheiro está a acumular-se no topo da pirâmide social e não se notam os sinais de qualquer deslizamento até aos estratos mais desfavorecidos.

E se a situação em Portugal não é ainda pior dever-se-á ao facto das transferências sociais ainda conseguirem minimizar esse efeito.


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/a-utopia-do-trickle-down/

ODiario.info » Entre 2015 e 2018 os salários reais diminuem em Portugal

Contrariamente à ideia que o actual governo e os órgãos de comunicação social têm procurado fazer passar junto da opinião pública, o poder de compra quer das remunerações base quer do ganho médio dos trabalhadores do sector privado diminuiu entre 2015 e 2018. São os dados do Ministério do Trabalho que o confirmam.

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'Armadilha dourada': como Rússia e China estão dispostas a pôr fim à hegemonia do dólar

Barras de ouro (imagem de arquivo)
© AP Photo / Michael Probst

Os analistas americanos entenderam finalmente por que é que a Rússia e a China estão comprando cada vez mais ouro: o objetivo de Moscou e Pequim é mudar as regras na economia global e pôr fim à hegemonia do dólar. A Sputnik explica como a Rússia e a China podem estar preparando uma armadilha econômica para o Ocidente.

Segundo os dados do Conselho Mundial do Ouro (WGC, na sigla em inglês), no ano passado os bancos centrais por todo o mundo compraram 651 toneladas de ouro, ou seja, 74% mais do que em 2017 – o maior volume desde 1971, quando os EUA abandonaram o padrão ouro. Metade desse volume foi comprado pelo Banco Central russo.


Hoje o Banco Central russo dispõe de 2.112 toneladas de ouro no valor de 87 bilhões de dólares (R$ 342 bilhões). Nos últimos dez anos, a cota-parte do ouro nas reservas russas aumentou de 3,5% para 18,6%, enquanto os investimentos em títulos do Tesouro dos EUA e dólares atingiram seu ponto mínimo. Como resultado, atualmente a Rússia ocupa o quinto lugar na lista dos países com maiores reservas de ouro.

O segundo lugar entre os maiores compradores de ouro pertence à China, que dispõe de 1.853 toneladas do ouro no valor de 76 bilhões de dólares (R$ 301 bilhões), tendo aumentado significativamente suas compras de ouro no fim de 2018. Um outro grande comprador de ouro é a Índia, cujas reservas deste metal precioso cresceram no ano passado em 42 toneladas.

Além disso, a incerteza política e econômica global levaram os bancos centrais a diversificar suas reservas e a aumentar os investimentos em ativos seguros e de maior liquidez, informou o WGC.

"O ouro é a moeda mais forte do mundo, estando apenas sujeita a uma inflação natural mínima, sendo um bom seguro contra as flutuações do dólar. É um recurso altamente líquido, enquanto grandes reservas de ouro fortalecem a confiança dos investidores no rublo russo", indica o analista Ronald-Peter Stoferle ao jornal alemão Neue Zurcher Zeitung.

O ouro ganha cada vez mais importância como um seguro contra o possível calote dos EUA. Segundo o analista financeiro Bill Holter, a Rússia e a China entendem que será muito difícil para os EUA amortizar suas dívidas e, no fim de contas, a compra de títulos do Tesouro dos EUA não faz sentido.


Nesta situação, "como é que eles [a Rússia e a China] se defendem? Eles estão comprando ouro. O ouro e a prata são concorrentes diretos de qualquer papel-moeda", explica.

Os analistas estão certos de que, na situação atual, a compra de metais preciosos é a melhor estratégia tanto para os bancos centrais, como para os investidores privados.

"No mercado da dívida pública dos EUA está sendo formada a maior bolha na história. O ouro e prata estão muito subvalorizados. Por isso, agora é de apostar contra a dívida pública e comprar ativos fortes, como o ouro e a prata. Nenhum político ou chefe do Fed [banco central dos EUA] é capaz de mudar isso. Nada pode impedir o crescimento explosivo dos preços do ouro que iremos observar no futuro", explicou o corretor Gregory Mannarino.

Os maiores banco de investimento apoiam essa previsão. Segundo o Goldman Sachs, a emissão incontrolada de dólares ameaça cada vez mais a estabilidade da economia global e levará ao aumento dos preços dos ativos reais, em primeiro lugar do ouro.


Mais um fator que contribuirá para o aumento drástico dos preços do ouro é a redução de sua produção. Segundo os especialistas da Newmont Goldcorp, a produção de ouro começará a cair nos próximos anos, atingindo em 2022 o nível do início do século XXI. Alguns cientistas avisam que as reservas de ouro na Terra estarão esgotadas até 2034.

Bill Holter está certo que, na véspera do colapso dos mercados da dívida, a Rússia e a China irão comprar tanto ouro quanto possível.

"O plano ambicioso de Moscou e da China visa esgotar as reservas de ouro do Ocidente. Quando surgirem problemas com o fornecimento desse metal, a Rússia e a China conseguirão derrubar a hegemonia do Tesouro dos EUA e do dólar como moeda de reserva e estabelecerão suas regras na economia global", concluiu Holter.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/economia/2019050813832777-armadilha-dourada-como-russia-e-china-estao-dispostas-a-por-fim-a-hegemonia-do-dolar/

ODiario.info » O défice de 0;5% conseguido à custa do desenvolvimento do país e do bem-estar dos portugueses

O governo PS não se cansa de elogiar a redução do défice orçamental da forma drástica como está a ser realizada, como isso fosse o objetivo principal de toda a política governamental. Mas o “milagre Centeno” é uma ilusão, que fica desmontada se se explicar como é que essa redução foi conseguida e quais as consequências para o país e para os portugueses. Foi conseguida à custa da degradação da Administração Pública central; da redução da despesa com Saúde e Educação; de um investimento público mais do que insuficiente. E deve lembrar-se que Centeno poupou nos direitos do povo, mas poderia ter poupado muito mais se não enterrasse milhões na banca e numa dívida impossível de pagar.

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References

  1. ^ endereço (www.odiario.info)
  2. ^ odiario.info (odiario.info)

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O défice de 0;5% conseguido à custa do desenvolvimento do país e do bem-estar dos portugueses

Eugénio Rosa    04.maio.2019 
EUGENIOROSA 04O governo PS não se cansa de elogiar a redução do défice orçamental da forma drástica como está a ser realizada, como isso fosse o objetivo principal de toda a política governamental. Mas o “milagre Centeno” é uma ilusão, que fica desmontada se se explicar como é que essa redução foi conseguida e quais as consequências para o país e para os portugueses. Foi conseguida à custa da degradação da Administração Pública central; da redução da despesa com Saúde e Educação; de um investimento público mais do que insuficiente. E deve lembrar-se que Centeno poupou nos direitos do povo, mas poderia ter poupado muito mais se não enterrasse milhões na banca e numa dívida impossível de pagar.

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Capitalismo progressista – um paradoxo

por Michael Roberts [*]

Joseph Stiglitz ganhou o prêmio Nobel (Riksbank) de economia e foi economista-chefe do Banco Mundial, além de consultor da ala esquerda do Partido Trabalhista no Reino Unido. No âmbito da economia mainstream ele posiciona-se à esquerda.

Stiglitz acaba de publicar um novo livro intitulado Povo, poder e lucro: Capitalismo progressivo para uma era de descontentamento ( People, Power, and Profits: Progressive Capitalism for an Age of Discontent ), no qual proclama que "podemos salvar nosso sistema económico rompido consigo próprio". Ele está muito preocupado com a crescente desigualdade de rendimento e riqueza nas principais economias, especialmente nos EUA. "Cerca de 90% viu seu rendimento estagnar ou diminuir nos últimos 30 anos. Isto não é surpreendente, dado que os Estados Unidos têm o nível mais alto de desigualdade entre os países avançados e um dos níveis mais baixos de oportunidade – com o destino dos jovens americanos mais dependente do rendimento e educação dos seus pais do que alhures".

Como vê, [para ele] o capitalismo costumava ser "progressista" na medida em que desenvolvia a economia e elevava a condição humana, usando o conhecimento científico e a inovação; e funcionou bem, com o estado de direito e os controles democráticos dos "excessos". Mas, na década de 1980, surgiram Ronald Reagan e Margaret Thatcher e mudaram as regras , desregulamentando a economia – e agora Trump está a destruir os pesos e contrapesos. Assim, o capitalismo progressista dos anos 1960 foi destruído. Ao confiar em mercados descontrolados, a exploração e a desigualdade tornaram-se desordenadas.

"O resultado é uma economia com mais exploração – sejam práticas abusivas no sector financeiro ou no sector de tecnologia a utilizar nossos próprios dados para aproveitar-se de nós ao custo da nossa privacidade. O enfraquecimento da fiscalização anti-trust e a falha da regulamentação em manter-se a par das mudanças na nossa economia e nas inovações quanto à criação e alavancagem do poder de mercado significa que os mercados se tornaram mais concentrados e menos competitivos". (Stiglitz)

Qual é a solução de Stiglitz? "As coisas não precisam ser assim. Existe uma alternativa: o capitalismo progressivo. O capitalismo progressivo não é um oximoro; podemos de facto canalizar o poder do mercado para servir a sociedade". Você vê, não é o capitalismo que é o problema, mas os direitos adquiridos (vested interests), especialmente entre monopolistas e banqueiros. A resposta é o retorno aos dias de capitalismo administrado que Stiglitz acredita ter existido na idade de ouro das décadas de 1950 e 1960.

Como retornar à era de ouro do capitalismo progressista? Em Democracy Now, o entrevistador perguntou a Stiglitz : "deveríamos ir para o capitalismo progressista ou para o poder dos trabalhadores? Ele respondeu: "O mercado terá de desempenhar um papel importante. Então, foi por isso que quis usar a palavra "capitalismo". Mas quis sinalizar que a forma de capitalismo que temos visto nos últimos 40 anos não tem funcionado para a maior parte do povo. E é por isso que falo acerca de povo. Temos de ter capitalismo progressivo. Temos de domesticar o capitalismo e redireccioná-lo o capitalismo de modo a que sirva à nossa sociedade. Como sabe, o povo não deve servir a economia; a economia é que deve servir o nosso povo". Quando lhe perguntaram: "O capitalismo não fez sempre isso (ou seja, servir os ricos e os monopólios ao invés dos pobres e dos trabalhadores)?", Ele respondeu "Não na medida em que o tem feito".

As visões de Stiglitz são ou pura ingenuidade ou sofismas inteligentes – ou talvez ambos. Será que ele realmente pensa que houve um período em que o capitalismo beneficiou tanto trabalhadores como corporações; os ricos e os pobres? A "idade de ouro" depois de 1945 até o final da década de 1960 foi a excepção nas economias capitalistas avançadas e só para aquelas economias, não para a América Latina, a Ásia, o Médio Oriente e a África. Na maior parte do globo, aquelas décadas foram de extrema pobreza e uma batalha contra a exploração imperialista.

De qualquer modo, é um mito que nos anos 50 e 60 todos tenham ganho com o capitalismo "progressista" no Ocidente. E os ganhos obtidos em serviços públicos, o estado de bem-estar social, emprego relativamente pleno e ascensão de rendimentos foram principalmente o resultado da luta e pressão do movimento trabalhista, obrigando a concessões dos donos do capital.

E Stiglitz nunca explica por que esse supostamente capitalismo progressista regulado e democrático chegou ao fim nos anos 70, excepto ao sugerir que isso se deveu à política vil de Reagan, Thatcher etc. Mas os leitores deste blog sabem que houve uma mudança de condições objectivas a partir de meados da década de 1960, nomeadamente uma queda aguda na lucratividade do capital globalmente.

 

Isso significava que o capital já não podia mais aderir ao aumento dos rendimentos reais, mais serviços públicos e educação e saúde gratuitas, etc. Os anos de alta lucratividade que permitiam as concessões acabaram para sempre. A lucratividade é a força condutora do capitalismo, de modo que os políticos eram eleitos (tanto de direita quanto de esquerda) com o compromisso de reduzir o estado de bem-estar social e a força de trabalho; privatizar e desregulamentar. Acima de tudo, o capitalismo "progressista" teve uma série de grandes recessões (slumps) que enfraqueceram o movimento trabalhista e restauraram (em certa medida) a lucratividade.

Na verdade, Stiglitz nunca menciona as causas das recessões, excepto para sugerir que elas são devidas à crescente desigualdade: " Se tivéssemos restringido a exploração em todas as suas formas e estimulado a criação de riqueza, teríamos uma economia mais dinâmica e com menos desigualdade. Poderíamos ter contido a crise dos opióides e evitado a crise financeira de 2008". E ainda assim as quedas internacionais de 1974-5 e 1980-82 ocorreram quando a desigualdade estava no seu nível mais baixo desde o início do capitalismo industrial (segundo o gráfico de Thomas Piketty). Assim, a desigualdade crescente não foi a causa da Grande Recessão, mas o resultado de esforços para aumentar a lucratividade após a década de 80 .

 

E como voltarmos a esse "capitalismo progressista"? Stiglitz propõe regulamentação, desmantelar os "monopólios", tributação progressiva, acabar a corrupção e reforçar a regra da lei no comércio. " A prescrição decorre do diagnóstico: ela começa por reconhecer o papel vital que o estado desempenha em fazer os mercados servirem a sociedade. Precisamos de regulamentações que assegurem uma forte concorrência sem exploração abusiva, realinhando o relacionamento entre as corporações e os trabalhadores que elas empregam e os clientes a que deveriam atender. Devemos ser tão resolutos no combate ao poder de mercado quanto o sector corporativo em aumentá-lo". Estas prescrições estão na linhagem da esquerda reformista nos EUA e alhures. A senadora da esquerda democrata americana, Elizabeth Warren, fez propostas semelhantes com seu plano de "capitalismo responsável" .

O que no mundo faria os 1% do topo e os possuidores de capital muito ricos concordarem em reduzir seus ganhos a fim de obter uma economia mais igualitária e bem-sucedida? E como a regulamentação e mais igualdade tratariam com o desastre iminente que é o aquecimento global [NR] quando o capitalismo acumula avidamente sem qualquer respeito pelos recursos e viabilidade do planeta? Programas de redistribuição fazem pouco por isso. E se uma economia se torna mais igual, impediria isso futuras quedas (slumps) no capitalismo ou futuras Grandes Recessões? No passado economias mais igualitárias não evitaram estas quedas.

Ao contrário de 1949, em 2019, nenhuma das medidas "progressistas" de Stiglitz são possíveis. Na verdade, agora provavelmente a única mudança radical só é factível com o "poder dos trabalhadores" e se isso se tornasse uma realidade, poderíamos ir além de tais medidas rumo a um real controle democrático da economia, pela substituição do capitalismo, ao invés de "salvá-lo de si próprio".

27/Abril/2019

[NR] O problema real do esgotamento dos recursos (petróleo e não só) nada tem a ver com o falso problema de um suposto "aquecimento global". Ver: A impostura global . O autor foi confundido pela maciça propaganda maciça desse mito climático.

[*] Economista.

O original encontra-se em thenextrecession.wordpress.com/2019/04/27/progressive-capitalism-an-oxymoron/

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

Ver original em 'RESISTIR.INFO' na seguinte ligação:

https://resistir.info/crise/roberts_27abr19.html

Sobre o 25 de Abril comemorado, o de 1974, sobre o 25 de Abril de protesto, o de agora

(Por Júlio Marques Mota, in A Viagem dos Argonautas, 25/04/2019)

Júlio Marques Mota

Sobre o 25 de Abril de 1974, o de portas mil  que ao povo se abriram, já várias crónicas escrevi, sobre o de agora o meu protesto  é lavrado através de uma outra pessoa, Thomas Fazi, e de um outro país, a Itália, uma vez que a descrição do autor sobre este país, com as devidas adaptações, se adaptaria  à perfeição ao caso português. (Ver o texto de Fazi). https://aviagemdosargonautas.net/2019/04/25/a-crise-organica-de-italia-por-thomas-fazi/

Sobre a Itália e a Itália uma pequena síntese do que nos diz  o autor:

 

“O marxista italiano Antonio Gramsci cunhou o termo “crise orgânica” para descrever uma crise que difere das crises financeiras, económicas ou políticas “comuns”. Uma crise orgânica é uma “crise abrangente”, abrangendo a totalidade de um sistema ou ordem que, por qualquer razão, deixou der ser  capaz de gerar consenso social (em termos materiais ou ideológicos). Tal crise põe a nu contradições fundamentais no sistema que as classes dominantes não são capazes de resolver. As crises orgânicas são ao mesmo tempo económicas, políticas, sociais e ideológicas – em termos gramaticais, são crises de hegemonia – e geralmente levam à rejeição de partidos políticos estabelecidos, políticas económicas e sistemas de valores. No entanto, estas crises não levam necessariamente  ao colapso rápido da ordem dominante. Gramsci descreveu estas situações como interregna em que “o velho está a  morrer e  o novo ainda não pode nascer” e durante o qual pode aparecer “uma grande variedade de sintomas mórbidos.

Gramsci estava a falar de Itália em 1910. Um século depois, o país enfrenta outra crise orgânica. Mais especificamente, é uma crise do modelo pós-Maastricht do capitalismo italiano, inaugurado no início da década de 1990. Esse modelo, defendo, pode ser descrito como um tipo peculiar de capitalismo comprador – um termo geralmente usado no contexto do antigo sistema colonial para descrever um regime no qual as classes dominantes de um país se aliam a interesses estrangeiros em troca de um papel subordinado dentro da hierarquia dominante de poder. (…)

Como Fritz W. Scharpf, antigo director do Max Planck Institute for the Study of Societies (MPIfG), muito bem explicou  o regime do euro pode ser entendido  como um processo de “convergência estrutural forçada”, destinado a impor o modelo económico do Norte da Europa, o  de crescimento sustentado pelas exportações e  pela maximização do lucro  (modelo bem representado por países como a Alemanha e os Países Baixos),  às muito diferentes economias políticas dos países do Sul, como a Itália, que tendem a ser muito mais orientadas pela procura interna e pelos salários. Scharpf observa que “o impacto económico do atual regime do euro é fundamentalmente assimétrico. Ele encaixa-se  nas condições estruturais e nos interesses económicos das economias do norte da Europa  e entra em conflito com as condições estruturais das economias políticas do sul, que assim são condenadas  a longos períodos de declínio económico, estagnação ou baixo crescimento. (…)

Compromissos vinculativos da UE permitem que os governos implementem reformas impopulares em casa, enquanto se empenham  em ‘transferir a culpa’ para a ‘UE’, mesmo que eles próprios tenham desejado tais políticas” (sublinhado do autor).

Em lado nenhum isto é mais claro do que no caso italiano. E isso provavelmente porque a economia mista da Itália do pós-guerra, centrada no Estado, foi vista pelas elites dominantes do país como sendo particularmente incompatível com o paradigma neoliberal que surgiu na década de 1980. A Itália era vista como tendo forte necessidade de  “reformas” de longo alcance, embora nenhum consenso popular apoiasse tais políticas. Assim, Maastricht passou a ser visto por uma grande parte do establishment italiano como o meio pelo qual se iria alcançar uma transformação radical – ou neoliberalização – da economia política do país. Guido Carli, o ministro da Economia da Itália, altamente influente de 1989 a 1992, não fez segredo disso. Nas suas memórias, Carli escreveu:

“A União Europeia implica … o abandono da economia mista, o abandono do planeamento económico, a redefinição das modalidades de composição da despesa pública, a restrição dos poderes das assembleias parlamentares a favor do governo. . o repúdio do conceito de disposições sociais livres (e a subsequente reforma dos sistemas de saúde e de segurança social) . . . . a redução da presença do Estado nos sistemas financeiros e industriais . . . o abandono dos controlos de preços e das tarifas.”

É evidente que Carli entendia a União Europeia, antes de mais, como uma forma de liderar nada mais  nada menos do que a transformação total da economia italiana – uma transformação que não teria sido possível, ou teria sido extremamente difícil, sem as restrições externas autoimpostas (condicionalidade externa ) criadas primeiro por Maastricht e depois pelo euro. (…)

Capitalismo Comprador na Itália

Do ponto de vista do establishment, o facto de a UEM implicar também a desindustrialização e a “mezzogiornificação” do país – em benefício das empresas alemãs e francesas, que adquiriram um grande número de empresas (ou nelas adquiriram participações significativas) em Itália e noutros países periféricos – e a sua despromoção para um papel subordinado dentro da hierarquia de poder europeia, foi um pequeno preço a pagar pela vitória da guerra contra o trabalho no país.  Nesse sentido, o regime económico da Itália pós-Maastricht pode ser comparado a uma forma de capitalismo comprador – um regime semicolonial em que as classes dominantes do país estão essencialmente aliadas a interesses estrangeiros em troca de relações de classe internas mais favoráveis. Ironicamente, a esquerda pós-comunista desempenhou um papel crucial na legitimação da narrativa da condicionalidade externa; no início da década de 1990, a sua subordinação ideológica ao neoliberalismo era tão profunda que os  seus principais representantes tinham vindo a acreditar que a União Europeia era realmente uma oportunidade a não perder  para a Itália se juntar finalmente à família dos países “modernos” e “virtuosos”. Não é coincidência que o “tratamento de choque económico” da década de 1990 (particularmente o desmantelamento e a privatização da outrora vasta gama de indústrias estatais da Itália) tenha sido promovida, em grande parte, pelos governos de centro-esquerda.

Vemos a mesma lógica da restrição externa que está a ser  aplicada hoje. Está cada vez mais claro, por exemplo, que a chamada crise da dívida soberana de 2010-11 não foi uma resposta “natural” dos mercados à dívida pública “excessiva” da Itália, mas foi em grande parte “projetada” pelo Banco Central Europeu (BCE) para forçar os países a implementar a austeridade. (…).

A crise da dívida, combinada com a reação tardia do BCE, levou os media italianos a lançarem apelos apopléticos para se conter o défice  através de medidas de austeridade de  emergência e a lançarem  o governo “tecnocrático” de Mario Monti. (…) Como diz um relatório recente do BCE, “embora o euro seja uma moeda fiduciária, as autoridades orçamentais dos Estados-Membros do euro renunciaram à possibilidade de emitir dívida que possa ser passível de incumprimento “.

Isto dá um enorme poder ao BCE, não eleito e não responsável, que pode (e usa) os seus poderes de emissão de moeda para impor as suas próprias políticas a governos recalcitrantes (como fez na Grécia em 2015, quando cortou a sua liquidez de emergência aos bancos gregos, a fim de pôr o governo Syriza  em extrema dificuldade e forçá-lo a aceitar o terceiro memorando de resgate) ou mesmo para forçar os governos a resignarem , como fez na Itália em 2011. Como o Financial Timesreconheceu recentemente, o BCE efetivamente “forçou Silvio Berlusconi a deixar o cargo em favor de Mario Monti, não eleito”, ao fazer da sua saída  a condição prévia para um maior apoio do BCE aos títulos e bancos italianos. (…)

Essa experiência foi um lembrete revelador para a classe política italiana do pacto faustiano que tinham assinado ao aderirem à zona euro. Ao renunciarem à soberania económica do seu país, fizeram também depender a sua sobrevivência política da boa vontade de tecnocratas não eleitos. (…). Mas agora que as contradições fundamentais do sistema europeu têm estado a vir à tona, as elites políticas italianas viram-se  sem as ferramentas económicas necessárias para manter o consenso social. Como escreve Scharpf, em países como a Itália, a união monetária não implicou simplesmente enormes custos socioeconómicos, mas também teve “o efeito de destruir a legitimidade democrática do governo”.

Um corolário desta perda de legitimidade democrática é que os apelos à lógica do constrangimento externo já não têm o mesmo peso que costumavam ter. Os cidadãos – não apenas na Itália – estão cada vez menos dispostos a justificar o status quo com base em regras arbitrárias e punitivas e diktats externos, cuja natureza política (ou seja, não neutra) se torna cada vez mais evidente. (…)

À medida que cada vez mais pessoas começam a reconhecer a natureza antidemocrática e neocolonial da União Europeia, estas táticas de medo deixam de funcionar.“

Muito do que é dito neste texto de Fazi poderia ser visto através do caso português. Deixemos o leitor encontrar essas relações com a leitura integral do texto de Thomas Fazi.

O que nos cabe aqui lembrar é a posição de Centeno  e de António Costa relativamente  à Itália em que estes  assumem que Portugal é um caso exemplar de que se podem respeitar as regras de Bruxelas  e prosseguir uma política económica que nos permita sair da crise. 

Como se alguma vez fosse  possível ver que num quadro recessivo geral, uma economia como a nossa arrasada por uma austeridade selvagem aplicada intensamente durante 4 anos,  imposta exatamente por Bruxelas e aplicada pelos seus leais servidores, em que a coluna da dignidade se vergava por completo aos interesses, à mentalidade e aos objetivos da Troika, potência ocupante,  pudesse sair da crise através da aplicação de  uma politica económica austeritária, recessiva e contracíclica  como tem sido seguida por Portugal.

Aliás, num  documento oficial , vai-se ao ponto de se defender uma política austeritária, recessiva e contracíclica porque  estaríamos já a caminhar para os bons tempos e é nestes que se fazem poupanças, se corta na dívida.  Ninguém viu até hoje um país a sair da crise neste quadro e com estas políticas. Seguramente não!

Descansemos. Vêem-no Centeno, António Costa , vêem os candidatos ao Parlamento Europeu que calcorrearão  as estradas de Portugal a pregar louvores à Europa que nos massacra.  Não o vêem os trabalhadores deste país, não o vêem os professores de todos os graus de ensino, não o vêm nem os utentes nem os profissionais do Serviço Nacional de Saúde e qualquer que seja a sua especialidade no campo da saúde, não o vêem os utilizadores e os profissionais dos serviços públicos de transportes, não o vêem  os trabalhadores desprotegidos por  um Código do Trabalho que os não protege, não o vêem  todos aqueles que com formação superior lhes é oferecido trabalho precário e como tal remunerado, e podíamos continuar… Tanta gente que não vê o que a maioria dos nossos políticos dizem que vêem.

Mas os nossos políticos continuam a afirmar alto e bom som que continuam no bom caminho ao caminharem, num quadro recessivo geral na Europa e em particular em Portugal, a procurar alcançar um orçamento público equilibrado,  onde objetivamente o Estado se anula como  ator económico quando nem regulador quer ser. Desta filosofia politica central do défice zero na politica de Bruxelas, um excerto do programa de estabilidade do governo português é disso um  bom exemplo:

“A necessidade de, nesta fase, manter saldos primários positivos resulta do modo como nos últimos 25 anos foram financiadas as despesas da Administração Pública em Portugal. Entre 1995 e 2015 (Gráfico II.1.4) quase 20% dessa despesa foi financiada com dívida, através da geração de um défice das Administrações Públicas médio de 5% do PIB em cada ano. Nesta legislatura esta percentagem reduziu-se para menos de 4% (Gráfico II.1.4). Sem o impacto das medidas temporárias registou-se em 2018 um excedente. A alteração no financiamento da despesa pública verificada ao longo desta legislatura consiste numa verdadeira alteração da pressão fiscal no futuro. A totalidade da despesa pública hoje é financiada com receitas do próprio ano. Isto libertou, apenas entre 2015 e 2018 cerca de 6.000 milhões de euros anuais de impostos no futuro. Esta é a diferença entre a pressão fiscal permanente em 2015 e 2018. Em apenas três anos devolveu-se às gerações futuras o equivalente a todo o orçamento da Educação em Portugal. A pressão fiscal permanente está no valor mais baixo desde que há dados comparáveis, ou seja, desde 1995. A fatia de impostos futuros que é gasta pelos contribuintes de hoje está no seu valor mais baixo, o peso dos impostos futuros encontra-se em mínimos históricos. Assim, as gerações futuras poderão gerir as suas decisões entre consumo presente e futuro com uma liberdade que os exercícios orçamentais atuais não permitem.( o itálico é nosso)“

PROGRAMA DE ESTABILIDADE, 2019-2023.

Tudo isto nos faz lembrar um conto de Andersen  As roupas novas do Imperador  de que aqui vos deixo um excerto :

“— Mas que roupas tão bonitas! — exclamaram todos. — Como assentam bem! E que padrão! Que cores! Na realidade, é um fato sumptuoso!

— O pálio sob o qual Vossa Majestade caminhará na procissão, já está lá fora —disse o mestre de cerimónias.

— Já estou pronto! — afirmou o imperador. — Assentam-me mesmo bem as roupas!

E mais uma vez deu uma volta em frente do espelho, fingindo que estava a admirar as belas roupas.

Os camareiros que iriam segurar na cauda tactearam desajeitadamente o chão como se estivessem a levantá-la e depois fizeram de conta que seguravam nela. Também eles estavam com medo que alguém reparasse que eles não conseguiam ver nada.

E assim caminhou o imperador, em procissão debaixo do majestoso pálio. Todas as pessoas que estavam na rua e à janela exclamavam:

— Oh! Como são maravilhosas as roupas novas do imperador! Que belo manto ele leva sobre o casaco! Como lhe fica bem!

Ninguém queria que pensassem que não conseguiam ver nada, pois isso significaria que ou eram estúpidos ou incompetentes no seu trabalho. Nenhuma outra roupa do imperador tinha alguma vez sido tão gabada como esta.

— Ah! O imperador vai nu! — exclamou uma criança.

— É apenas a voz da inocência! — desculpou-se o pai da criança.

Mas as pessoas começaram a passar palavra umas às outras, acerca do que a criança tinha dito.

— O imperador vai nu! Aquela criança ali afirma que o imperador vai nu!

Par fim, já todas as pessoas gritavam:

— O imperador vai nu!

O imperador sentiu-se embaraçado, pois no fundo pensava que eles tinham razão, mas disse para si próprio:

— Tenho de manter-me firme até ao fim da procissão.

E assim prosseguiu, ainda mais emproado do que antes, e os camareiros continuaram a segurar na cauda que não existia.

Contos de Andersen, Porto, Ed. AMBAR, 2002.

Há quem veja uma coisa e há os que por interesse ou por medo veem uma outra coisa. A correspondência à situação presente parece-nos, pois, imediata.

E com isto boa leitura do texto de Fazi, uma boa comemoração do 25 de Abril de 1974 e um profundo   sentimento de revolta perante a situação de Portugal no Abril de agora,  é tudo o que vos desejo.

Coimbra, 24 de Abril de 2019


Fonte aqui


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Joseph Stiglitz diz que Trump quer voltar à lei da selva

Quando há um conflito entre dois países, eles são resolvidos no soco e vence o mais forte, criticou.

Matéria da agência de notícias EFE diz que o professor norte-americano Joseph Stiglitz, vencedor do Nobel de Economia em 2001, criticou, em uma coluna publicada pela emissora “CBNC”, os acordos comerciais dos Estados Unidos, que, segundo ele, foram injustos. Stiglitz fez reflexões que estarão em seu novo livro, intitulado pdf “People, Power and Profits: Progressive Capitalism for an Age of Discontent” (2.15 MB) (Pessoas, poder e lucros: capitalismo progressivo para uma era de descontentamento), no qual discute os problemas da globalização.

O professor afirmou que os críticos da globalização estão errados quando dizem que os acordos comerciais foram injustos com os Estados Unidos e com a Europa, um argumento repetido por Trump para conquistar votos entre eleitores de classe média que perderam renda nos últimos anos. O problema, segundo o economista, não é a injustiça, mas sim que os interesses das grandes empresas foram priorizados nesses acordos à custa dos trabalhadores dos países desenvolvidos e em desenvolvimento, gerando estagnação na renda.

“Nós, como país, não fizemos o que deveríamos para ajudar os trabalhadores contra os que prejudicava a globalização. Poderíamos ter garantido que globalização beneficiasse a todos, mas a avareza corporativa era simplesmente grande demais”, reconheceu o economista, que dá aulas na Universidade de Columbia, em Nova York. Stiglitz ainda afirmou que passou os últimos 20 anos criticando a forma como a globalização foi administrada pelos países, mas de um ângulo completamente diferente de outros analistas.

Ex-economista-chefe do Banco Mundial, o professor disse que se deu conta de que as regras do jogo global eram pensadas para favorecer os mais fortes no período em que ocupou o cargo. No entanto, Stiglitz fez questão de se distanciar das ideias de globalização defendidas por Trump. O economista defende a importância do estado de direito e de um sistema baseado na legalidade para a governança do comércio internacional contra a Lei da Selva proposta pelo presidente americano.

“Trump quer voltar à Lei da Selva: quando há um conflito entre dois países, eles são resolvidos no soco e vence o mais forte”, criticou o economista americano. Para Stiglitz, o caminho adotado por Trump visa um regime de comércio internacional que sirva aos interesses americanos, mas não compreende duas premissas essenciais. A primeira é que os demais países não participariam de um mecanismo desfavorável a eles. E a segunda é que China e Europa podem se unir contra os Estados Unidos.

Trump se equivoca ao culpar a globalização, seja por regras comerciais injustas ou por imigrantes não desejados. Mas os defensores da globalização também estão errados ao afirmar que ela não influenciou o drama da globalização e ao só culpar a tecnologia”, explicou o vencedor do Nobel de Economia.

Explicou o vencedor do Nobel de Economia, Joseph Stiglitz

 

Stiglitz também responsabilizou os cidadãos, de forma geral, por terem avaliado mal as consequências da globalização e do progresso tecnológico. “Precisamos de regras internacionais melhores e mais justas. Mas o que os EUA mais precisam é uma melhor gestão das mudanças que estão sendo trazidas pela globalização e pela tecnologia”, concluiu.

 


Texto original em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado


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Itália: o espelho da crise europeia

“A mais longa e profunda recessão na história de Itália.” Foi assim que o governador do banco central de Itália, Ignazio Visco, se referiu aos últimos tempos em Itália. Tem boas razões para o fazer, já que a Itália entrou de novo em recessão técnica – é a terceira vez nos últimos 10 anos – muito por culpa das sucessivas políticas de austeridade. Desde a crise financeira de 2007-08, o país ainda não regressou aos níveis de atividade económica do período anterior, e o PIB per capita diminuiu para mínimos das últimas duas décadas. O desemprego está longe de estar resolvido – a taxa de desemprego oficial está perto de 11%, sendo que o desemprego jovem supera os 32%. Cerca de 1 em cada 4 italianos encontram-se em risco de pobreza, o valor mais alto desde 1989. Além disso, o capital destruído, o elevado número de empresas que entraram em insolvência e o crédito malparado são entraves à recuperação e acentuam a fragilidade dos bancos italianos. No entanto, as origens da profunda crise italiana não se resumem apenas às políticas de austeridade levadas a cabo pelos governos recentes, de Monti a Renzi e Gentiloni (que saiu em junho de 2018). Num artigo recente, o economista holandês Servaas Storm analisa a evolução da economia italiana desde a assinatura do Tratado de Maastricht, em 1992, concluindo que este constitui um notável exemplo de “como destruir um país em três décadas.” A austeridade e as reformas estruturais neoliberais têm sido o traço principal da política italiana desde o início da integração europeia – o país tem sido o exemplo do excelente aluno europeu, cumprindo com zelo todas as orientações de Bruxelas. Storm começa por notar que a Itália viveu um período de convergência com países como a França ou a Alemanha entre a década de 1960 e a introdução do Tratado de Maastricht, em 1992. Mas algo mudou nos anos seguintes: “desde meados da década de 1990, a economia italiana começou a cambalear e depois a ficar para trás, à medida que todos os indicadores – rendimento por pessoa, produtividade do trabalho, investimento, quotas de mercado das exportações, etc. – entraram numa trajetória constante de declínio.” Este foi o preço pago pela integração europeia e por décadas de compromisso com a lógica austeritária da União Europeia. O compromisso com a ortodoxia económica é visível na evolução da economia italiana: registou sucessivos excedentes orçamentais primários (excluem o pagamento de juros da dívida), de 3% em média entre 1995 e 2008; no entanto, o rácio da dívida pública (% PIB) diminuiu bastante menos do que o pretendido, pelo impacto negativo dos cortes na despesa pública, investimento e transferências sociais no crescimento económico. A Itália foi o único país que alcançou excedentes primários consecutivos desde a crise financeira (em média, 1,3% entre 2008 e 2018). As declarações de Monti, segundo o qual o objetivo do governo de então era “destruir a procura doméstica através da consolidação orçamental”, demonstram a importância dada pela elite italiana à disciplina da austeridade. Storm percorre os anos da integração europeia em Itália, destacando o ataque ao poder de negociação dos trabalhadores italianos devido ao conjunto de reformas estruturais levadas a cabo até 2008, que incluem a redução drástica das proteções laborais e a facilitação da contratação temporária (a percentagem de trabalhadores temporários no emprego total quase duplicou entre 1990 e 2017, quando atingiu 18,5%). As reformas laborais foram acompanhadas pela estagnação dos salários reais, que “cresceram” a um ritmo anual médio de meros 0,35% entre 1992 e 2008. Storm salienta que a restrição eficaz dos salários italianos conseguiu atingir três objetivos de uma só vez – controlo da inflação, alguma redução do desemprego pela redução dos custos do trabalho e aumento significativo da parte dos lucros no PIB, o que indica um aumento da riqueza produzida apropriada pelos detentores de capital. Apesar de ter seguido à risca o consenso neoliberal europeu, a Itália nunca alcançou a prosperidade prometida. Nas palavras do autor, “com inflação baixa, restrição eficaz dos salários, o desemprego e o endividamento público em declínio, e o aumento da parte dos lucros no PIB, a Itália parecia lançada para um período de crescimento robusto. Isso não aconteceu. A operação foi levada a cabo com sucesso, mas o paciente morreu.” O resultado é o desastre anunciado: décadas de austeridade sufocaram a procura doméstica e travaram o “crescimento robusto” que se esperava, refletindo-se no declínio da indústria italiana, do investimento na produção nacional e nas atividades exportadoras. A redução do investimento ajuda a explicar o atraso tecnológico da Itália em relação a países como a França ou a Alemanha (menos rentabilidade dos investimentos diminui os incentivos à inovação que permitiria gerar ganhos de produtividade). Além disso, o contexto de adesão ao euro, o compromisso com as políticas de concorrência europeias que limitam a política industrial e a entrada de países como a China na OMC (que competem no comércio internacional com base em salários muito baixos) contribuíram para acentuar as fragilidades estruturais da economia italiana. Na última década, a compressão da procura interna significou o fecho de grande número de PME’s, destruição de postos de trabalho e acumulação de créditos malparados. É seguro afirmar, à semelhança do que escreveu o jornalista Matthew Lynn, que “a Itália não enfrenta uma crise bancária, mas antes uma crise do euro.” É por este motivo que Thomas Fazi se refere ao atual momento em Itália como uma “crise orgânica”, no sentido, cunhado por Gramsci, de uma profunda crise estrutural que ameaça a legitimidade da ordem social estabelecida ao expor as contradições fundamentais do sistema. Fazi descreve o modelo do capitalismo italiano pós-Maastricht como um “regime em que as classes dominantes do país se aliaram a interesses estrangeiros [da cúpula da União Europeia] em troca de um papel subordinado dentro da estrutura hierárquica de poder dominante”. A transferência de poderes dos estados para a União Europeia foi, como argumenta Fazi, promovida pelas elites nacionais como forma de desresponsabilização pelas reformas neoliberais implementadas, que passaram a ser apresentadas como “a vontade da UE”. Desta forma, a despolitização das decisões e o fraco envolvimento das populações reduziram os custos políticos das reformas que protegiam os interesses da elite italiana. A crise de hegemonia deste sistema, com o colapso financeiro de 2007-08 e a incapacidade de resposta das elites italianas e europeias, estão na base do recente terramoto político em Itália, com a erosão dos partidos tradicionais e a formação do governo de coligação entre o M5S e a Liga. Ambos os autores discutem as soluções para a armadilha do euro. Para Storm, estas terão de passar pelo abandono da austeridade, a recuperação dos rendimentos (para promover a procura) e a aposta no desenvolvimento tecnológico da estrutura produtiva, receita que se podia estender a países periféricos na UE, como Portugal. No entanto, a rutura com o consenso neoliberal não parece figurar entre os planos do novo governo italiano, cuja estratégia passa por exacerbar discursivamente um suposto confronto com as instituições europeias, que depois não se tem traduzido em mudanças de fundo concretas. Fazi recorda que, embora acusados de euroceticismo, tanto a Liga como o M5S foram rápidos a garantir a sua fidelidade à União Europeia depois das eleições. Além disso, algumas medidas limitadas de recuperação do consumo propostas pela coligação não resolverão os problemas estruturais do país. Uma coisa parece certa: a crise orgânica de Itália não se resolverá dentro do colete-de-forças do euro.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Não se deve economizar na repetição...

O facto desconfortável para muitos socialistas e liberais é que ‘nenhum contrato social e nenhum sistema de distribuição pode funcionar num quadro político aberto’ – isto é, sem fronteiras e sem regras sobre quem está dentro e sobre quem está fora.  A nação e o Estado são interdependentes. Tamir enfatiza neste contexto o conteúdo psicológico e cultural do nacionalismo – o aspecto da criação de representações geradoras de laço social. Eu enfatizaria igualmente os aspectos económicos. A nação, qualquer que seja a sua construção, requer um Estado que forneça aquilo que os economistas designam por bens públicos – educação, infra-estruturas, lei e ordem. O Estado, por seu lado, precisa da nação para lhe fornecer a legitimidade, a confiança interpessoal e um sentido de destino comum (…) Só uma pequena minoria de profissionais qualificados e de investidores endinheirados é que se pode dar ao luxo de andar pelo mundo em caça de redes sociais alargadas e de oportunidades económicas em expansão. Estes globalistas cosmopolitas (…) conseguiram sacudir as suas responsabilidades na sua nação de origem e não assumiram responsabilidades noutro lado (…) Como qualquer outra ideologia, o nacionalismo pode ser levado em direcções construtivas ou destrutivas (…) É melhor levarmos a sério a sua mensagem antes que seja demasiado tarde para combater os extremistas e para salvar o nacionalismo dos fascistas.[minha tradução] Ainda não acabei de ler o livro de Yael Tamir. Quando o tiver feito, talvez diga qualquer coisa por aqui. Por agora, quero apenas sublinhar excertos do prefácio, da autoria de Dani Rodrik, sobre a questão do nacionalismo, em linha com a posição em que tenho insistido. Trata-se, de resto, de um economista convencional ao qual se pode aplicar uma versão invertida de Frei Tomás: não faças o que ele diz do ponto de vista teórico e metodológico, mas faz o que ele faz em algumas áreas da economia política, graças ao institucionalismo, em geral, e a Karl Polanyi, em particular: do justamente famoso trilema da economia política internacional à valorização do Estado nacional, passando pela defesa de um certo tipo de populismo económico, associado a uma variegada desglobalização. Nenhum destes temas pode ser tratado de forma adequada no quadro da teoria económica convencional.    

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Euro = finança em roda livre

O Euro é uma fábrica de bolhas do imobiliário?

Snacks de economia política #12

Euro = finança em roda livre

Com a liberalização financeira, livre circulação de capitais e taxa de juro-base única, a zona euro tornou-se um excelente mercado de especulação imobiliária, uma verdadeira fábrica de crises que os cidadãos estão condenados a pagar.

 


Parceria editorial Rádio Transforma / Jornal Tornado


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https://www.jornaltornado.pt/euro-financa-em-roda-livre/

O euro, paraíso da especulação imobiliária

No âmbito dos acordos de Bretton Woods, os países impunham restrições aos movimentos de capitais, o que lhes permitia executar uma política monetária eficaz e manter alguma estabilidade da taxa de câmbio.
Com a revolução neoliberal, a ideologia e os interesses comerciais e financeiros acederam ao poder e impuseram a liberalização financeira e a livre circulação de capitais. Os anos oitenta e noventa foram esclarecedores quanto aos efeitos desta política. As crises financeiras na América Latina e na Ásia, com ondas de choque que se estenderam ao resto do mundo, mostraram o poder desestabilizador dos capitais especulativos. Jagdish Bhagwaty, um notável defensor do livre comércio, acabou por escrever um texto notável de crítica demolidora dos argumentos em defesa da livre circulação de capitais.
Joseph Stiglitz defende há muito tempo a necessidade de os países reduzirem a volatilidade do câmbio e o risco de bolhas especulativas através do controlo dos movimentos de capitais de curto prazo. Desde a mais recente crise financeira que a sua posição se tornou mais insistente (veraqui). 
O reverso da entrada de capital num país é o seu endividamento em moeda estrangeira, o que tem consequências devastadoras quando se verifica uma crise de confiança, caso em que a especulação contra a moeda produz uma desvalorização que o stock de divisas não consegue travar e, em consequência, aumenta drasticamente o serviço da dívida em moeda nacional. A Turquia é apenas um caso recente. Face às consequências da crise financeira de 2007-8, até oFMI já aceita o controlo dos movimentos de capitais como instrumento de uma política económica respeitável.
Porém, nada disto se aplica à Zona Euro. Como afirmo no vídeo, as bolhas do imobiliário que estão em crescimento na Europa, e também em Portugal, acabarão por rebentar e produzir os estragos que já conhecemos. É o preço de termos abdicado da soberania para estarmos numa zona onde o capital tem toda a liberdade para circular e especular. Toda a liberdade para sujeitar a sociedade aos seus desvarios e para impor a socialização dos estragos que produz.

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O BCE deve levar a cabo uma reviravolta nacional com os seus reinvestimentos

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

O BCE deve levar a cabo uma reviravolta nacional com os seus reinvestimentos

text 8 Marcello-Minenna Por Marcello Minenna

Publicado por Financial Times, Alphaville, em 24 de janeiro de 2019 (texto original aqui)

Este texto é de Marcello Minenna, director de Análise Quantitativa e Inovação Financeira da Consob, a entidade reguladora dos valores mobiliários italiana. Milenna considera que o principal programa de reinvestimento do BCE iria favorecer os países menos endividados – a Alemanha – a menos que o BCE introduza alguma partilha de riscos. As opiniões expressas aqui são as suas opiniões pessoais e não refletem necessariamente as opiniões da Consob.

 

Esta semana, o Conselho de Administração do Banco Central Europeu irá ter a sua primeira reunião de política desde a sua decisão de parar com o aumento das suas compras de ativos – ou seja, o “fim” da flexibilização quantitativa. De futuro, a acomodação monetária na área do euro será limitada: o banco só reinvestirá resgates de capital gerados pelos vencimentos dos títulos adquiridos no âmbito do programa. No entanto, o BCE ainda tem uma espécie de programa de investimento. Ele ainda tem que decidir onde alocar o dinheiro proveniente desses resgates.

De acordo com algumas projeções baseadas em estimativas do BCE, em 2019, o montante total de títulos soberanos envolvidos nas recompras do Euro-sistema oscilará entre 170 mil milhões de euros e 200 mil milhões de euros. Mas mais do que o valor agregado, é a distribuição destas compras entre os vários governos nacionais que importa. Isto explica porque é que os analistas e investidores olham para a futura estratégia de reinvestimento do BCE, com especial atenção para os títulos de dívida pública dos diferentes países membros.

As atuais regras de afetação do BCE favorecem os países menos endividados com maturidades mais curtas da dívida soberana – por exemplo, a Alemanha. E deixam em desvantagem os países mais endividados, que tendem a ter maturidades mais longas. O Conselho do BCE deve pôr de lado os seus atuais critérios de afetação de recursos e anunciar que, no futuro, os reinvestimentos se concentrarão nos países mais endividados e nas obrigações a muito longo prazo.

A tabela de repartição do capital é pró-cíclica, favorecendo os países com um crescimento mais forte

O BCE refere-se a uma “tabela de repartição do capital” para afetar as suas compras de obrigações a cada país membro. A tabela de repartição é igual à participação de cada banco central nacional no capital do BCE. De acordo com o artigo 29.º dos Estatutos do BCE, o banco deve rever a tabela de repartição de cinco em cinco anos para refletir a alteração na contribuição de cada Estado para o crescimento do PIB e da população da Comunidade Europeia. Nos últimos anos, ambas as variáveis apresentaram uma tendência positiva na Alemanha e nos Países Baixos e negativa nos países da zona euro do Sul. Assim, em novembro último, o Conselho do BCE atualizou a tabela de repartição do capital, com efeitos a partir de janeiro de 2019:

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A quota do Bundesbank aumentou significativamente – de 0,82%, passando de 25,57% para 26,38% (os valores foram arredondados para centésimos de ponto percentual). O mesmo aconteceu com as ações do Banco de França e do Banco Central holandês, com +0,26% e +0,16%, respetivamente. Ao mesmo tempo, a participação no capital do BCE detida pelos bancos centrais nacionais dos países periféricos (Espanha, Itália, Grécia e Portugal) diminuiu 1,6474%.

Portanto, agora, aplique essas percentagens às compras de ativos (leve em conta a exclusão da Grécia do programa de compra). O reinvestimento em títulos do governo italiano e espanhol deve diminuir em cerca de €1milhar de milhões cada um deles em 2019. Entretanto, as recompras de títulos soberanos alemães deverão aumentar 1,24 mil milhões de euros.

A própria chave do capital e o mecanismo de ajustamento são inerentemente pró-cíclicos.

A posição da Alemanha como a principal beneficiária das compras de obrigações representa uma importante vantagem. Há cerca de três anos que os Bunds gozam de rendimentos negativos, mesmo a médio e longo prazo. E quando a dívida não nos custa nada, o mundo sorri para nós. O oposto acontece em países onde os rendimentos elevados da dívida continuam a representar um fardo, especialmente se eles já estão em dificuldade .

(A chave de repartição do capital não é tudo, no entanto. Na prática, as compras históricas de QE desviaram-se da chave de capital. Em termos cumulativos, até novembro de 2018, estamos a falar de mais 7,1 mil milhões de euros de Bunds, 18,3 mil milhões de euros de Obligations Assimilables du Trésor, 15,8 mil milhões de euros de Buoni del Tesoro Poliennali e 9,7 mil milhões de euros de Bonos.)

A mudança do BCE para prazos mais curtos favoreceu a Alemanha

Por vezes, o BCE teve de lidar com a escassez. O seu programa de QE prevê limites para emitentes  e emissões, e também para o tempo máximo e mínimo de maturidade, ou seja: não há Bunds alemães suficientes para as preferências do banco. Para gerir este problema, o banco não só se desviou da chave de capital, como também atualizou as suas regras: em janeiro de 2017, o BCE reduziu a maturidade residual mínima dos títulos elegíveis de dois anos para um ano e removeu o limite mínimo da taxa da facilidade permanente de depósito.

Este duplo movimento permitiu a compra de títulos soberanos de curto prazo – especialmente os títulos alemães. A maturidade média ponderada da carteira agregada do BCE caiu de 8,55 anos em março de 2015 para 7,41 anos em novembro de 2018. A maturidade média ponderada das obrigações alemãs em carteira foi ainda mais baixa, em 6,31 anos. (Apenas as obrigações do Tesouro de Chipre e do Luxemburgo têm maturidades médias mais curtas, mas destes o BCE adquiriu apenas montantes negligenciáveis.)

Prazo médio ponderado das compras de ativos do BCE, total e países selecionados da área do euro

Devido à elevada incidência das obrigações do Estado com vencimento em 2019, a Alemanha poderá beneficiar de um bónus de mais de 4,5 mil milhões de euros em investimentos suplementares pelo Euro-sistema, em comparação com os que teria direito a receber com base na atual tabela de repartição do capital: 52,9 mil milhões de euros em vez de 48,2 mil milhões de euros. A Itália poderia receber um prémio simbólico (1,3 mil milhões de euros), a Espanha poderia enfrentar um cenário quase inalterado e a França poderia ver menos reinvestimentos do que aqueles a que teria direito de acordo com a nova tabela de repartição do capital.

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Isto poderá dificultar o cumprimento pelo BCE do seu compromisso de neutralidade do mercado, ou seja, de distribuir as compras de títulos soberanos proporcionalmente aos seus montantes em dívida, a fim de não perturbar o mecanismo de determinação dos preços no mercado de obrigações de dívida pública da área do euro. De facto, os países mais propensos a maturidades mais longas – como a Itália e a Espanha – são também os que têm direito a uma percentagem mais baixa de compras devido à chave de capital. Se o BCE decidir manter-se fiel à chave (e seguir a sua trajetória atual à medida que renova a dívida vencida), haverá quase certamente um aumento do risco de duração suportado pelos investidores privados, com o consequente aumento de algumas curvas de rendimento da Zona Euro.

Em 2018, surgiram rumores de uma reviravolta na operação do BCE, semelhante à implementada pelo sistema da Reserva Federal norte-americana entre 2011 e 2012. Tendo-se tornado incapaz de intervir nas taxas curtas, que já se situavam em zero, o Fed trocou títulos de curto prazo da sua carteira por títulos de longo prazo, acreditando que a queda dos custos de financiamento das empresas e das famílias iria desencadear tanto o investimento como o consumo.

Uma reviravolta seria muito difícil de fazer para o BCE, porque tem de atuar em 19 mercados de dívida soberana diferentes. Frankfurt efetua apenas uma pequena parte das compras diretamente, enquanto a maior parte é delegada nos bancos centrais nacionais, que compram títulos no mercado secundário emitidos pelos seus próprios governos nacionais.

Quase não existe partilha de riscos nesta arquitetura; cada banco central nacional está exposto a potenciais perdas sobre a dívida soberana do seu próprio país. E cada um desses bancos dispõe de um elevado poder discricionário quanto aos títulos a comprar, incluindo a escolha do prazo de vencimento.

Assim, após o fim das compras líquidas em 2018, o BCE terá ainda de trabalhar para garantir que os reinvestimentos serão coerentes com todas as regras de avaliação da qualidade: em alguns casos (por exemplo, neutralidade do mercado) não é fácil verificar o cumprimento efetivo pelos BCN, noutros estas regras podem entrar em conflito entre si e noutros porque a arquitetura de avaliação da qualidade já teve impactos variados em diferentes curvas de rendibilidade.

Uma revisão das regras de QE é quase inevitável.

 

Uma proposta modesta: suprimir os atuais critérios de atribuição, permitir a “reviravolta nacional”

Mas, em vez de reviravoltas nas operações específicas de cada país, o BCE deveria pôr de lado o critério da chave de capital e anunciar que, no futuro, os reinvestimentos se concentrarão nos países mais endividados: isto seria uma “reviravolta nacional”.

Isto parecer-se-ia um pouco com o programa do BCE para os mercados de títulos de dívida (SMP), que decorreu de 2010 a 2012. De acordo com esse programa, o BCE comprou alguma dívida soberana da periferia da zona euro para garantir liquidez, mas distribuiu o cupão dessa dívida entre os bancos nacionais, de acordo com a chave de capital. Ou seja: sob o SMP, o Bundesbank recebeu cerca de 30 por cento do cupão da dívida pública italiana.

No entanto, numa reviravolta nacional, o BCE devolveria os cupões sobre as suas detenções de dívida soberana ao governo nacional que os pagasse e, em seguida, eliminaria o seu limite para a vida residual dos títulos elegíveis, renovando as suas detenções de QE, através dos bancos nacionais, para o segmento de muito longo prazo da curva (20-50 anos). Desta forma, parte das dívidas públicas dos emitentes soberanos periféricos ficaria congelada nos balanços dos bancos centrais nacionais, o que aliviaria os custos de financiamento.

Um exemplo: ao vender títulos de 20-50 anos, um terço dos quais estão alocados ao reinvestimento de QE do Banco da Itália, o governo italiano poderia reduzir o seu custo da dívida. E poderia aliviar as tensões no segmento de curto-médio prazo (2-8 anos) sem ter que gastar muito mais no custo da dívida de longo prazo, precisamente graças ao apoio do resto da zona do euro.

De forma mais geral, o contexto delineado pela intervenção proposta introduziria uma partilha de riscos implícita entre os membros da Zona Euro. Como consequência, os participantes no mercado reduziriam a aversão ao risco em relação aos países mais endividados, favorecendo assim a normalização da forma e do declive das curvas de rendimentos.

 

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O autor: Marcello Minenna é Chefe da Unidade de Análise Quantitativa em Consob (a Comissão de Valores Mobiliários de Itália). Lecionou Finança Quantitativa na Universidade de Bocconi e na Escola de Pós-Graduação de Matemática Financeira em Londres. Escreve regularmente no The Wall Street Journal e no Corriere della Sera, e é membro de um grupo de consultores que apoia a análise económica do maior sindicato italiano, o CGIL.

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2019/04/15/do-plano-tecnico-ao-plano-politico-do-sistema-target-2-a-fragmentacao-financeira-da-uniao-europeia-15-o-bce-deve-levar-a-cabo-uma-reviravolta-nacional-com-os-seus-reinvestimentos-por-marcello-min/

A concentração de poder nas grandes empresas

O World Economic Outlook de Abril, apresentado esta semana pelo FMI, inclui um trabalho de dois dos seus especialistas (Federico Díez e Romain Duval) que versa sobre as consequências do crescente poder das grandes empresas.

O estudo conclui que o aumento do poder do mercado daquele tipo de empresa tem tido um impacto económico negativo razoavelmente limitado até ao momento, mas que se não for devidamente controlado, poderá prejudicar no futuro o crescimento económico, o investimento e a inovação e prejudicar os rendimentos do trabalho.

Para fundamentarem as suas conclusões recorreram ao estudo da evolução das margens – comparação entre os preços de venda e os custos de produção – observando que desde 2000 a margem média das empresas aumentou em cerca de 8% nas economias avançadas mas em menos de 2% nas economias de mercados emergentes.

Mais concretamente as empresas que alcançaram margens mais elevadas (as que se situam nos 10% do topo da distribuição) aumentaram as suas margens em mais de 30%, enquanto estas se mantiveram praticamente inalteradas para os restantes 90%; estes aumentos registaram-se especialmente entre as que usam tecnologias digitais de forma mais intensiva.

Estas empresas variam de dimensão mas são relativamente pequenas, dominam nichos de mercado e situam-se especialmente entre as que usam tecnologias digitais de forma mais intensiva. Globalmente revelam melhor desempenho, sendo em média cerca de 50% mais lucrativas, 30% mais produtivas e usam 30% a mais de activos intangíveis, como patentes ou software, do que as restantes.

Uma das explicações adiantadas pelos autores para este resultado aponta para aumento do poder de mercado das empresas mais produtivas e inovadoras em resultado da sua melhor capacidade para explorar activos intangíveis de marca, efeitos de rede e das chamadas economias de escala (redução dos custos unitários em função do aumento da produção).

Embora o digam limitado, Federico Díez e Romain Duval sempre vão afirmando que desde o início do século que ao aumento das margens tem estado associada uma redução no investimento das empresas, pois o seu maior poder de mercado permite-lhes aumentar os lucros por via da mera conjugação da subida dos preços com a redução da produção, ou com a destruição de stocks, como foi relatado nesta notícia da VISÃO.

Dizem ainda que, se as margens tivessem permanecido nos níveis de 2000, o stock actual de bens de capital seria, em média, cerca de 3% maior e o PIB, cerca de 1% maior e que a redução do investimento enfraqueceu a procura agregada o que terá contribuído para ampliar o impacto da crise financeira de 2008.

Neste século e nas economias mais avançadas o aumento do poder de mercado foi ainda responsável pela redução de cerca de 10% dos rendimentos do trabalho, o que contribuiu para uma ampliação da desigualdade na distribuição do rendimento, pois o aumento do rendimento do capital beneficia exclusivamente os segmentos de rendimento mais elevado.

Para contrariar este cenário, os próprios especialistas do FMI reconhecem a necessidade da intervenção dos governos para evitar que o crescimento do poder de mercado afecte a economia de forma mais negativa, pois o seu contínuo crescimento conduzirá a novas quedas no investimento e nos rendimentos do trabalho, podendo até reduzir a inovação, uma vez que às empresas dominantes faltarão os incentivos necessárioss para se diferenciarem dos concorrentes por via da inovação.

Numa perspectiva grata ao FMI aquela intervenção pública deve ser orientada no sentido de assegurar a igualdade de condições e favorecer a concorrência, reduzindo os encargos administrativos para as novas empresas e as barreiras ao comércio e ao investimento estrangeiro directo no sector de serviços, podendo ainda passar pelo fortalecimento da actuação dos reguladores de mercado e pela melhoria das garantias de que os direitos de propriedade intelectual incentivem mais o pioneirismo do que as pequenas inovações incrementais.

Um pouco fora do receituário habitual do FMI é a sugestão para uma reforma fiscal orientada para a tributação dos rendimentos de capital excedentes derivados do poder de mercado, e que surgindo numa altura em que estão a aumentar as preocupações com o crescimento das grandes multinacionais, especialmente de tecnológicas como a Amazon, cujos tentáculos causam perturbação em vários sectores de actividade, acaba por reforçar um pouco as preocupações daqueles que na UE têm procurado contrariar a actuação das gigantes norte-americanas e chinesas.

Quererá isto dizer que o grande impulsionador da aplicação do Consenso de Washington – conjunto de medidas composto por dez regras básicas: Disciplina fiscal; Redução dos gastos públicos; Reforma tributária; Livre formação das Taxas de Juro; Livre formação das Taxas de Câmbios; Abolição das barreiras comerciais (pautas aduaneiras); Eliminação de restrições ao investimento estrangeiro directo; Privatização das empresas públicas; Desregulamentação (afrouxamento das leis económicas e do trabalho); Direito à propriedade intelectual, que foi formulado em Novembro de 1989 por economistas do FMI, do Banco Mundial e o Departamento do Tesouro dos EUA, fundamentadas num texto do economista John Williamson, e que se tornou a política oficial do Fundo Monetário Internacional em 1990, quando passou a ser receitado” para promover o “ajustamento macroeconómico” dos países em desenvolvimento que passavam por dificuldades – está a deixar cair o dogma da livre concorrência e o princípio do “trickle down economics” – ideia defendida pelas correntes monetaristas e neoliberais, segundo a qual a concentração da riqueza nos mais abastados e com maior propensão à poupança acabará por “deslizar” até aos estratos mais desfavorecidos – ou, mais prosaicamente, os malefícios da concentração empresarial e da riqueza já começam assustar os seus próprios mentores?


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/a-concentracao-de-poder-nas-grandes-empresas/

Discutir o ensino de economia

Discutir o ensino de economia
Amanhã à tarde, Wendy Carlin, uma das coordenadoras do projeto CORE, vai estar em Portugal para apresentar as propostas de transformação do ensino e currículos dos cursos de Economia. Carlin e os seus colegas desenvolveram um manual online, de acesso livre aqui, que pretende constituir um instrumento de ensino da Economia mais abrangente e plural. Em traços gerais, embora represente algum avanço em relação aos manuais tradicionais utilizados nas faculdades (sobretudo pela relação que procura estabelecer entre a teoria e alguns exemplos empíricos), este manual não inclui de forma estruturada as várias correntes de pensamento e os principais debates da disciplina, cingindo-se na maioria dos temas à teoria neoclássica, dominante na academia e no ensino (como discutido num artigo publicado no ano passado na Review of Political Economy). Neste aspeto, o proejto não difere substancialmente do ensino atual. Amanhã discutiremos os avanços e as limitações deste projeto no ISEG, a partir das 14:30h (Anfiteatro 1, Ed. Quelhas). Fica o convite para todos e todas as interessadas.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

O que está por trás das previsões econômicas sombrias do FMI para mundo e Brasil?

O Fundo Monetário Internacional (FMI)
© AP Photo / Itsuo Inouye

Um relatório divulgado no início do abril pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) avisa que a economia global enfrentará o crescimento mais lento em dez anos. A Sputnik Explica o que está por trás de tais previsões pessimistas e como o fundo avalia a situação no Brasil.

Na recente edição do relatório Perspectivas da Economia Mundial (WEO, na sigla em inglês) o FMI prevê um abrandamento do crescimento global em 2019 para 3,3% em comparação com os 3,5% esperados em janeiro deste ano.

Levando em conta que em 2017 e 2018 a economia cresceu 3,8% e 3,6% respetivamente, podemos ver que a economia global vem desacelerando com o passar dos anos, se aproximando possivelmente de uma nova crise.

A economista-chefe do FMI, Gita Gopinath, sublinha que embora se espere alguma retomada do crescimento no segundo semestre, em geral 70% da economia mundial deve desacelerar neste ano.


Confluência de fatores negativos

Segundo o FMI, na primeira metade de 2019 na economia global se observa uma confluência de fatores que afeta as economias principais. A desaceleração da atividade econômica no segundo semestre de 2018 deve se manter na primeira metade deste ano. Na China o declínio do crescimento econômico foi causado pela combinação do agravamento das condições de regulação dos bancos e das tensões comerciais com os EUA, onde, por sua vez, a relação entre a dívida das empresas e o PIB está em níveis sem precedentes.

As previsões para a Europa também são pouco otimistas: desaceleração na zona euro, queda de confiança dos consumidores e empresários, rupturas na indústria automobilística da Alemanha e redução dos investimentos em alguns países europeus. O Brexit também poderia afetar a situação nos mercados financeiros por todo o mundo.

Quanto à América Latina, as previsões de crescimento da região são de 1,4% para 2019 e de 2,4% para 2020 — o que representa 0,6 e 0,1 pontos a menos, respectivamente, que as estimativas anteriores. A situação na Venezuela afeta o crescimento da região, cujo PIB poderia cair 25% e 10% em 2019 e 2020 respetivamente. A Argentina também deveria ter uma recessão este ano, com uma queda prevista de 1,2% no PIB.

Entretanto, o FMI deixa margens para algum otimismo: na segunda metade de 2019 podemos esperar alguns avanços nos sentimentos dos mercados financeiros globais e estabilização nos mercados emergentes, incluindo na Argentina e Turquia. É de assinalar que, segundo o fundo, a tendência positiva para os mercados emergentes e em desenvolvimento deveria se manter em 2020. Pelo contrário, o crescimento nos países desenvolvidos continua desacelerando gradualmente.

Além disso, o FMI indicou três problemas que devem ser resolvidos para garantir o crescimento econômico de longo prazo: aumento da desigualdade, queda de investimentos e protecionismo no comércio global que, de fato, estão interligados.


"Nas últimas três décadas, o preço relativo de máquinas e equipamentos caiu em todos os países, impulsionado tanto pelo aumento da produtividade no setor de bens de capital quanto pelo aumento da integração comercial. Essa queda favorece ao aumento dos investimentos reais em equipamentos, beneficiando os países em desenvolvimento. O aumento das tensões comerciais pode inverter esses declínios de preços e prejudicar os investimentos quando o investimento já é fraco, o que apenas sublinha a necessidade de resolver rapidamente as divergências comerciais", explicou Gopinath.

Situação no Brasil

Quanto ao Brasil, o FMI também reduziu suas projeções, principalmente devido ao desequilíbrio fiscal. A previsão é de crescimento de 2,1% para este ano (uma redução de 0,4 pontos percentuais em relação à estimativa feita em janeiro).

"No Brasil a principal prioridade é conter o aumento da dívida pública enquanto mantém intactos os gastos sociais. O teto de gastos introduzido em 2016, que incrementa o resultado primário em 0,5 pontos percentuais por ano, é um passo na direção certa para facilitar a consolidação fiscal", lê-se no relatório.


Além disso, o FMI destacou que, para ajudar na consolidação fiscal, "são necessárias medidas que incluem o aumento da idade das aposentadorias, a desvinculação dos reajustes do salário mínimo e dos benefícios e moderar a generosidade das pensões, particularmente para os servidores públicos".

Entretanto, em 2020 a economia poderia inverter esse caminho: se espera o crescimento de 2,5% para 2020 (aumento de 0,3 pontos percentuais em comparação com as previsões feitas em janeiro).

Em geral, o FMI considera a situação atual como um “momento delicado” para a economia global. Embora o ano 2019 não seja favorável, se os países implementarem a política econômica necessária e lidarem com as tensões comerciais, o crescimento global poderia se recuperar já em 2020. Entretanto, sem instrumentos próprios e cooperação multilateral, o mundo poderia enfrentar uma desaceleração da economia.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/sputnik_explica/2019041113655048-previsao-economico-fmi-brasil-economia-global/

Keynes neoliberal e a falácia do emprego

Tese de que ao Estado cabe o papel de criar mecanismo de caridade para os trabalhadores é mais um dos argumentos falaciosos dos defensores da “reforma” da Previdência Social.

Em sua coluna no jornal O Globo da quarta-feira (10), Merval Pereira, tido como um dos mais influentes analistas políticos da mídia, escreveu que o famoso economista John Maynard Keynes foi um autêntico liberal — ou neoliberal, como se diz hoje em dia. Ele se apoia num artigo do economista José Roberto Afonso, tido como um dos maiores especialistas em finanças públicas do país, publicado na Revista do BNDES, que trata de uma questão colateral à reforma da Previdência que se tornará crucial para desenvolvimento — o emprego.

O título da coluna — Para além do emprego — chama exatamente para essa questão. Segundo a peculiar cartilha de Merval Pereira e, segundo ele, de José Roberto Afonso, a “reforma” da Previdência é necessária, mas insuficiente para lidar com um futuro em que cada vez mais o trabalho não passará por emprego e salário. O economista ressalta, de acordo com Merval Pereira, que financiar e manter a seguridade social que tinha essas premissas — emprego e salário — é um debate crescente no mundo, que o Brasil ignora e do qual não participa.

Carteira de trabalho

O colunista assevera que até o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial já alertaram que será preciso um novo pacto social, citando José Roberto Afonso. No artigo, segundo Merval Pereira, ele volta ao economista John Maynard Keynes, que foi a base de seu doutorado na Unicamp, mas analisando aspecto que poucos conhecem: ele ajudou a estruturar o chamado estado do Bem-Estar Social, na década de 30 e 40 na Inglaterra, depois copiado pelo resto do mundo, inclusive o Brasil.

Não é possível quantificar o conhecimento sobre essa informação, mas certamente não são poucos — o chamado keynesiasimo deu base teórica ao fordismo, à social-democracia, ao New Deal do presidente norte-americano Franklin Delano Roosevalt e, dentre outras experiências históricas, a muito do que existe na legislação social brasileira. 

Mas, prossegue Merval Pereira, José Roberto Afonso lembra que a rede de proteção social adotada em meados do século passado girava em torno do emprego, formalizado no Brasil pela contratação com carteira de trabalho assinada. Empregadores e empregados contribuem sobre o valor de seus salários, que também passa a balizar os benefícios pagos no futuro (aposentadoria), ou antes, em caso de alguma intempérie (uma delas é o seguro-desemprego).

Paradigma quebrado

O economista adverte, de acordo com o colunista de O Globo, que esse paradigma está sendo quebrado pela revolução em curso, na indústria, na economia e na sociedade, que compreende, entre outros fatores, uma intensa automação do processo de trabalho, substituindo trabalhadores por robôs, a economia compartilhada e a do “bico”, com trabalhadores exercendo suas funções sem vínculo contratual, físico e temporal.

Cada vez mais, segundo o economista citado, trabalho não representará, necessariamente, emprego. Os países precisarão construir um novo pacto ou contrato, social e também econômico, para lidar com essa realidade. Ele cita, possivelmente fora de contexto histórico, que Keynes já alertava que exagerar na tributação de salários desestimularia os empregadores a contratar trabalhadores formalmente. “Qualquer semelhança com a situação no Brasil não é mera coincidência”, ressalta José Roberto Afonso, segundo Merval Pereira.

Para ele, diz o colunista, “é preciso outro arranjo. “A única certeza que se têm é que como se está, não mais ficará”, sentencia o economista, conforme a informação de Merval Pereira, complementando que José Roberto Afonso afirma que, na contramão do que os últimos governos têm feito, é fundamental fortalecer arranjos como o Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), que tem sido desidratado, “não apenas porque o desemprego vai explodir, mas porque é urgente retreinar e requalificar mão-de-obra”.

Sistema de ensino

Para ele, de acordo com o colunista, até mesmo o lado SENAI/SENAC deveria ser prestigiado. Para ele, “não é a educação que resolverá o desafio, mas habilidades”. A Organização de Cooperação para o Desenvolvimento Econômico (OCDE), que reúne os países mais desenvolvidos do mundo, que o Brasil almeja integrar, tem batido muito nessa tecla, teria lembrado o economista.

Melhorar o sistema de ensino, para conseguir colocação aos futuros trabalhadores, é fundamental, mas, para José Roberto Afonso, “será premente também mudar as qualificações de quem já está dentro do mercado de trabalho”. A rede de proteção social aos trabalhadores gira em torno do emprego, e os salários são o referencial, seja para cobrança de contribuições sociais, seja para pagamento de benefícios, como seguro-desemprego e aposentadoria.

Segundo Merval Pereira, José Roberto Afonso assegura que “essa construção será abalada pela revolução econômica e social, que passará pela automação do processo de trabalho e a expansão do trabalho independente”. A realidade nova forçará a renovação do pacto social brasileiro, de modo que o amparo ao trabalhador deverá assumir outras formas que não apenas a carteira assinada, e revisitar o esquema de financiamento aos investimentos.

Caráter contribuitivo

De acordo com o colunista, para fomentar esse debate o artigo de José Roberto Afonso resgata as lições de Keynes “para iluminar as reformas necessárias para enfrentar o futuro”. Ele chama a atenção para o fato de que quando se examinam as atividades de Keynes entre as vésperas da Segunda Guerra Mundial e os primeiros anos seguintes, “constata-se que deu grande atenção aos gastos sociais e ao orçamento público, em especial, no âmbito de suas atividades como conselheiro governamental”.

Keynes classificou como ficção o caráter contributivo do sistema, pois seria preciso custear mais do que benefícios ligados diretamente ao trabalhador. Os serviços de caráter geral (como os de saúde) e os eventuais déficits do sistema precisariam ser cobertos pelo Estado — ou, melhor, pelos contribuintes em geral e com recursos oriundos de impostos. “Como acontece hoje entre nós”, deduz Merval Pereira.

O que isso tudo significa não ficou claro. Mas é possível deduzir que o trabalhador brasileiro em geral, de agora em diante, principalmente se a “reforma” da Previdência Social for aprovada, terá de sobreviver de caridades. Ainda de acordo com Merval Pereira, um fundo composto pela arrecadação das contribuições (fixadas a cada quinquênio) custearia os serviços médicos, os benefícios de assistência (exceto para crianças) e as pensões (exceto dos ex-combatentes de guerra). 

Como não conseguiu aprovar um projeto de reforma tributária para aumentar a arrecadação, Keynes contentou-se com mudanças que reduziram a despesa pública futura, “como poderá fazer o ministro da Economia Paulo Guedes”, conclui Merval Pereira.

Grande Depressão

É preciso lembrar que em plena crise grave nos Estados Unidos, que arrastou o mundo para a mais sinistra depressão da era moderna, Keynes publicou o livro A Teoria Geral da Moeda e do Emprego, que iria alterar profundamente o modo como os governos regulariam a política econômica. Inspirado em seus ensinamentos, pouco meses após ser eleito o presidente dos Estados Unidos, Franklin Delano Roosevelt, decretou o primeiro de uma série de programas legislativos para “salvar os Estados Unidos do desemprego”.

A Lei de Recuperação da Indústria Nacional (NIRA) tinha como meta empregar milhões de trabalhadores. O compromisso da administração do New Deal era utilizar mais mão-de-obra do que materiais e máquinas e desprezar grandes investimentos de capital. Roosevelt dizia que a causa principal da Grande Depressão era que a renda dos consumidores não havia aumentado o bastante para tirar os produtos do mercado. 

A ideia básica do New Deal, segundo o historiador Benjamim Hannicutt, “era tirar dinheiro dos ricos, que tenderiam mais a acumulá-lo, e dar mais dinheiro à classe média, à classe operária e aos pobres, cuja tendência seria maior em gastá-lo, estimulando, com isso, as vendas e o crescimento econômico”.

Ex-comunista

Na Europa, o projeto social-democrata, também de base keynesiana, procurou adaptar a economia planejada à tradição comercial liberal do velho continente. Essa ideia começou a fazer água com a tática de muitos social-democratas de reavaliar suas posições políticas para agradar a um “eleitorado mais amplo”, uma posição que passou a ser chamada de neoliberalismo com discurso de esquerda. 

Na Itália, essa constatação ficou nítida: o governo do “ex-comunista” D’Alema chegou ao ponto de passar por cima de uma das mais importantes conquistas democráticas, a proibição constitucional de participação do país em guerra ofensiva, ao participar ativamente do ataque à Sérvia.

O aspecto mais importante a se ressalta, no que diz respeito aos países de regime capitalista, é o caráter antiliberal das políticas keynesianas e social-democratas. Um novo papel foi conferido ao Estado, agora concebido como agente principal da reconstrução econômica, indutor do desenvolvimento e figura central para a distribuição da riqueza produzida. 

Trabalho social

Com isso, a intervenção estatal direta e indireta foi legitimada e os valores igualitários, tais como justiça social e solidariedade, passaram a compor a agenda pública. A social-democracia, tornada reformista e keynesiana, salvou o capitalismo. Aos liberais, restou o caminho da oposição. A pequena audiência que encontraram, por décadas a fio, não os esmoreceu.

A situação do liberalismo permaneceu relativamente inalterada até meados dos anos 70, quando uma série de fatores progressivos e combinados começou a solapar o que até então permitira o êxito das ideias antiliberais. Estes fatores são, basicamente, os dois choques do petróleo, o aumento da inflação pela quebra do ciclo crescimento/distribuição de renda e a reestruturação produtiva promovida pela Terceira Revolução Industrial. 

Esta, ao diminuir a quantidade necessária de trabalho social à produção, enfraqueceu brutalmente o poder dos sindicatos — até então partícipes da estrutura social-democrata. O ressurgimento da força dos liberais também contou com a débâcle das experiências socialistas. A ascensão de líderes como Margareth Thatcher (1979) na Inglaterra e Ronald Reagan (1980) nos Estados Unidos representou, portanto, a chegada ao poder de antigos liberais oposicionistas. Isso fez com que houvesse o predomínio de uma “nova direita”, o neoliberalismo, com enorme capacidade de expandir ideologicamente sua visão de mundo.

Pensamento autoritário

No Brasil, essa ideia chegou no final dos anos 1980, nos estertores do governo do presidente José Sarney, ensaiou um passo ousado com a eleição de Fernando Collor de Mello em 1989 e se estabeleceu na “era” Fernando Henrique Cardoso (FHC). Interrompida pelo ciclo de governos dos ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, ela voltou com força com o golpe de 2016. Agora, como escreveu Merval Pereira, cabe ao ministro da Economia Paulo Guedes consolidar a sua retomada.

Ou, como escreveu o ex-ministro da área econômica na ditadura militar, Delfim Netto, em sua coluna no jornal Folha de S. Paulo também na quarta-feira (10), referindo-se à tumultuada e recente visita do ministro da Economia à Câmara dos Deputados, “a nossa esquerda, perdida, recusou, no grito, que Guedes pudesse esclarecê-la”. É a retomada do pensamento neoliberal, inclusive no seu aspecto autoritário, como se não houvesse salvação fora dos seus cânones e dogmas, com sua conhecida pretensão ditatorial a ser o pensamento único na economia.


por Osvaldo Bertolino | Texto original em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/keynes-neoliberal-e-a-falacia-do-emprego/

Brasil | Fiori: a impotência dos economistas liberais

A produção declina, o desemprego volta a crescer, os investimentos não voltarão tão cedo. Mas eles insistem na miragem “Reforma da Previdência” – como se quisessem voltar a Pinochet, aos banhos de sangue, ao fascismo de mercado

José Luís Fiori | Outras Palavras | Imagem: Salvador Dalí,O sono (1937)

“Quem diria que no começo do mandato de um governo liberal ele
iria sancionar subsídios e discutir a retomada de proteções setoriais.
Não é só a tarifa do leite, é a proteção de bens de capital”.
-Marcos Lisboa, O Globo, 18/02/2019

Súbito, fez-se o consenso, e já não é mais possível tapar o sol com a peneira: no primeiro trimestre de 2019, a economia brasileira entrou em marcha forçada na direção do colapso. Em apenas três meses, o mercado reduziu quatro vezes seguidas seu prognóstico com relação ao crescimento do PIB de 2019, que caiu de 3% para 1.8%. E tudo indica que seguirá caindo, tanto que o próprio mercado reconhece que não haverá retomada dos investimentos neste ano, qualquer que seja a circunstância. Pelo Índice de Atividade Econômica do Banco Central (o IBC-BR), a economia brasileira recuou 0,41% no mês de janeiro, enquanto a produção industrial despencava 0,8% no mesmo mês, segundo o IBGE. No acumulado do trimestre, o preço da gasolina subiu 28,3% e, no mês de março, a produção de veículos caiu 6,4% com relação a fevereiro, enquanto a capacidade ociosa da indústria química chegou a 25%, e a da economia brasileira ronda os 40%. A taxa de desemprego subiu de 11,6% para 12,4%, e o número de desempregados chegou aos 13 milhões, com aumento de um milhão em apenas três meses, numa economia que já tem 27,9 milhões de subempregados, em uma sociedade que voltou a ter 21% da sua população abaixo da linha da pobreza. Por fim, as receitas federais e o otimismo dos empresários e da população vêm caindo de forma acelerada e contínua.


Tudo isto poderia ser apenas um soluço econômico, mas não é. Na década de 2011 a2020, a taxa média esperada do crescimento anual da economia brasileira deverá ser de apenas 0,9%, segundo estudo publicado pelo IBRE, da Fundação Getúlio Vargas. Uma taxa média menor que a da década de 80, que foi de 1,6%, e por isso chamada de “década perdida”. Segundo esse mesmo estudo do IBRE/FGV, o crescimento médio desta década deverá ser o pior dos últimos 120 anos da história brasileira, implicando um empobrecimento anual dos brasileiros na ordem de 0,3% do PIB ao ano. E não há no momento a menor perspectiva de reversão deste quadro, com a taxa de investimento da economia brasileira girando em torno dos 15,5%, taxa muito inferior à do Chile ou do México, que está na casa dos 20%, e muitíssimo inferior à taxa de investimento de alguns sócios brasileiros do BRICS, como é o caso da China, que investiu 44,18% do PIB em 2018, ou mesmo da Índia, que investiu 31,4% no mesmo período, segundo dados do FMI.

Uma situação que fica ainda mais difícil para o Brasil, num momento em que o mercado mundial de bônus vem caindo, sobretudo no caso dos bônus do governo alemão e dos títulos do tesouro norte-americano, tornando os investidores internacionais cada vez mais reticentes, apesar do afrouxamento da política monetária do BCE e do FED. O economista Lawrence Summers, ex-secretário do Tesouro norte-americano, considera que a economia mundial está entrando num longo ciclo de “estagnação global”, enquanto outros economistas falam do descenso de mais um ciclo de Kondratiev, mas a consequência é a mesma: para sair do buraco nessa conjuntura internacional, o Brasil terá que contar com seus próprios recursos e estímulos, para poder crescer de maneira contínua, a taxas de 3 e 4%, em um período de pelo menos 5 a10 anos. É a única forma de absorver a capacidade ociosa e eliminar o desemprego, retomando o caminho do crescimento indispensável para que uma economia “atrasada” ou “imatura” consiga vencer sua miséria, reduzir sua desigualdade social e participar, em igualdade de condições, da competição entre as nações pela riqueza mundial.

Para enfrentar esse desafio, os economistas liberais têm uma proposta simples e recorrente: reformar a Previdência, privatizar empresas estatais e fazer reformas institucionais que abram e desregulem os mercados. Com relação à proposta de privatização da Previdência, balanço recente da Organização Internacional do Trabalho (OIT) constata que dos 30 países que fizeram a mesma reforma, entre 1981 e 2014, 18 já voltaram atrás em decorrência do fracasso de seus novos sistemas de capitalização, iguais ao que está sendo proposto no Brasil. E a própria reforma chilena, que foi concebida pelo economista José Piñera, do grupo dos Chicago Boys, e depois imposta por decreto ditatorial do General Pinochet em 1981 (ou seja, oito anos depois do golpe militar de 1973), hoje vem sendo questionada de forma cada dia mais agressiva, por uma verdadeira massa de idosos, pobres ou miseráveis, frustrados com os resultados desastrosos do novo sistema.

De qualquer maneira, independentemente do seu custo social e do seu verdadeiro impacto fiscal, o que importa destacar é que a privatização da Previdência não tem, nem nunca teve, nenhuma conexão direta com a taxa de investimento da economia, e portanto também não tem nenhuma capacidade de induzir crescimento econômico. E tudo o que os economistas liberais dizem sobre este assunto envolve uma especulação mágica e psicológica sobre as “expectativas dos investidores”, que não tem nenhuma base teórica nem evidência empírica, inclusive porque os “investidores” já podem ter perdido sua “confiança” e seu “interesse” na “sobre-oferta” mundial de reformas da Previdência. Por outro lado, a privatização das demais empresas estatais só gera recursos do tipo once for all, e não garante nenhum tipo de investimento posterior dentro da economia brasileira.

O mesmo pode ser dito com relação às demais “reformas” de que falam os economistas liberais, visando desregular e abrir os mercados. Qualquer economista, de qualquer tendência teórica, sabe que nenhuma dessas reformas irá reacender, por si mesma, o “animal spirit” dos investidores, capaz de recolocar a economia brasileira na trilha do crescimento. Deste ponto de vista, é bom olhar para a experiência recente da Argentina de Mauricio Macri, que depois de três anos adotando políticas ortodoxas e reformas liberais – incluindo a reforma da Previdência – teve um crescimento negativo do PIB de 2,5% em 2018, e tem uma previsão de queda de 3,1% para 2019. Um resultado desastroso, que se soma a uma taxa de inflação que está na casa dos 47%, com um desemprego de 9,1 % e com 32% da população argentina situada abaixo da linha de pobreza.

Nada disso, entretanto, parece atingir ou afetar a inabalável crença dos economistas liberais, no cálculo utilitário do homo economicus, na existência de mercados abertos e desregulados, e na possibilidade de separar a economia capitalista do poder do Estado. É quase impossível para um economista liberal entender e aceitar que a economia envolve relações sociais de poder, e é parte de uma luta pela riqueza entre as grandes corporações e os grandes Estados nacionais. Os economistas liberais raciocinam como se estivessem no ponto zero da história, dentro de uma economia homogênea e com atores equipotentes quando, de fato, vivem numa sociedade que já é, de partida, desigual e heterogênea, envolvendo interesses econômicos e sociais excludentes e conflitivos. E tudo isto dentro de um sistema internacional em que os grandes Estados se valem de suas economias nacionais como instrumentos na sua luta pelo poder e a riqueza internacionais.

Dentro deste pensamento abstrato e irreal dos economistas liberais, é um grande passo teórico e um avanço realista a redescoberta da teoria estatal da moeda, de Georg Knapp, com o reconhecimento da relação indissolúvel entre o poder e a moeda – mesmo quando seja necessário acrescentar ao raciocínio de Knapp que a autonomia econômica dos Estados com relação ao manejo de suas próprias moedas também depende da sua posição dentro da hierarquia mundial do poder político e militar. Mas este já seria outro assunto e outra discussão.

Por isso voltemos ao ponto central do nosso argumento quanto à impotência da resposta dos economistas liberais frente ao desafio que o Brasil está enfrentando neste final da segunda década do século XXI. Do nosso ponto de vista, como já dissemos, os economistas liberais partem de premissas teóricas que desconhecem a complexidade do mundo real, nacional e internacional, e defendem um pacote de “reformas” que não leva em conta a heterogeneidade dos interesses e as hierarquias de poder que separam e contrapõem os capitais individuais e as classes sociais e, finalmente, propõem políticas e medidas que não foram concebidas para promover o crescimento acelerado de países “atrasados” ou “imaturos”. Isso talvez ajude a entender por que os empresários e economistas liberais sejam sempre os primeiros a ser chamados, mas sejam também os primeiros a ser dispensados pelos governos brasileiros que nasceram dos golpes militares – de 24 de outubro 1930, de 19 de novembro de 1937, de 29 de outubro de 1945, de 24 de agosto de 1954 e de 31 março de 1964.

No sentido inverso, talvez também sejam essas mesmas recorrências históricas do passado que expliquem a paradoxal admiração contemporânea de alguns economistas liberais brasileiros pelo Sr. Augusto Pinochet, a figura por excelência de governante violento, ignorante e corrupto, que se dedicou durante 15 anos à eliminação física de seus adversários e de toda a atividade política dissidente do seu país. Um verdadeiro “banho de sangue” que permitiu, em última instância, que os Chicago Boys chilenos pudessem impor ditatorialmente suas políticas e reformas, por cima de 3 mil pessoas mortas e mais 20 mil chilenos torturados, em nome do regime que outro economista norte-americano, Paul Samuelson, chamou de “fascismo de mercado”.

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Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/04/brasil-fiori-impotencia-dos-economistas.html

O “compadrio” não explica a “bancarrota”

(Ricardo Paes Mamede, in DN, 09/04/2019)

Paes Mamede

A corrupção e o tráfico de influências existem mesmo em Portugal. E são um perigo para a democracia. Uma questão bem diferente é saber se as várias formas de “compadrio” (para usar a expressão de um ex-ministro que há dias fez notícia) são responsáveis pela crise que atingiu o país no início da década.

O uso indevido de recursos públicos para favorecer grupos específicos não é uma questão menor. Quando se torna recorrente, ou percepcionado como tal, corrói a confiança nas instituições e nos actores políticos, sem a qual as democracias não sobrevivem. Hoje como no passado, todos os populismos autoritários, todos os fascismos, todos os movimentos que põem em causa a democracia representativa, usam a falta de ética das elites como bandeira. Proteger as sociedades da corrupção, do nepotismo e do favorecimento ilegítimo de interesses particulares é pois fundamental para defender a democracia.

Provavelmente é isso que julgam estar a fazer pessoas como o ex-ministro Álvaro Santos Pereira, que apontam o “compadrio” como explicação para a “bancarrota” do país. O efeito, no entanto, pode ser exactamente o contrário. A corrupção não é nem suficiente nem necessária para explicar a crise portuguesa. Apresentá-la enquanto tal, como se fosse uma evidência que dispensa justificação, usando expressões sonantes sem qualquer poder analítico, é reproduzir o discurso dos populismos autoritários. Mas não ajuda a perceber como chegámos até aqui.

Faz pouco sentido falar da crise portuguesa sem considerar o contexto europeu. Quando, em 2011, Portugal recorreu a um empréstimo internacional, já a Grécia e a Irlanda tinham feito o mesmo, enquanto Espanha e Chipre o fariam pouco depois. O que estes países têm em comum – e que os distingue face aos restantes membros da zona euro – é menos o nível de corrupção (ou de dívida pública) do que o aumento da dívida externa até às vésperas da crise internacional. No caso português, tratou-se de um aumento de quase 130 mil milhões de euros entre 1996 e 2008.

A crise portuguesa é uma parte da crise mais vasta da zona euro, que resulta da acumulação de dívidas externas nos países periféricos

O grosso do aumento da dívida externa líquida nestes países decorre da explosão de crédito ao sector privado (empresas não financeiras e famílias) que se registou a partir de meados da década de noventa. Entre 1995 e 2008 o crédito bancário ao sector privado em Portugal subiu de cerca de 50% do PIB para perto de 140% (mais de metade deste aumento ocorreu até à viragem do século).

O aumento estrondoso do crédito ao sector privado em Portugal não se explica com base nas práticas fraudulentas dos bancos (que existiram, com é sabido). Explica-se pela extensa liberalização das actividades financeiras em Portugal na década de noventa, o que inclui: a privatização de quase todo o sector bancário, a desregulamentação da concessão de crédito, a liberalização dos movimentos internacionais de capitais, a entrada de bancos estrangeiros no mercado português e o forte aumento da concorrência no sector.

A liberalização financeira traduziu-se numa queda acentuada das taxas de juro. Como acontece em todas as economias com falta de capital e em rápido crescimento (como era o caso das periferias da zona euro) a queda abrupta das taxas de juro conduziu a um aumento drástico do crédito. Como acontece em todos os países com estruturas produtivas frágeis (como era o caso das periferias da zona euro) a súbita disponibilidade de crédito barato e abundante levou ao crescimento dos sectores da construção e do imobiliário. São sectores que criam muito emprego, impulsionam a procura interna, importam matérias-primas e equipamentos, mas pouco ou nada exportam – contribuindo assim para agravar a dívida externa.

Em suma, a crise portuguesa é uma parte da crise mais vasta da zona euro, que resulta da acumulação de dívidas externas nos países periféricos, que por sua vez se deve aos efeitos da liberalização financeira em economias relativamente atrasadas. É uma história comum a vários países do mundo que decidiram liberalizar de repente a finança, sem primeiro assegurar os instrumentos regulatórios para prevenir a acumulação de desequilíbrios.

Para perceber como a liberalização financeira se transformou em crise da zona euro não precisamos de invocar “compadrios”. Para explicar por que se liberalizou a finança em Portugal nos anos noventa também não. Basta lembrar a crença – então muito em voga – nas virtudes da desregulação dos mercados e a aceitação passiva das directivas europeias sobre o mercado único de capitais.

Pode até haver lugar nesta história para alguns “compadrios”. Mas não são os que o ex-ministro tem em mente.

Economista e professor do ISCTE-IUL

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Uma enorme "carga fiscal"?

Aqueles que criticam o nível das receitas fiscais em percentagem do PIB em Portugal ("carga fiscal" é a expressão usada, nada inocente) esquecem-se sempre de referir três coisas: 1. O valor das receitas do Estado sobre o PIB neste país é já muito inferior à média da zona euro (e tem vindo a diminuir nos últimos cinco anos). 2. O aumento da “carga fiscal" em 2018 é fundamentalmente explicado pelo aumento do emprego e da actividade económica (para iguais níveis de rendimento, o peso dos impostos nos rendimentos das famílias não só não aumentou na esmagadora maioria dos casos, como diminuiu em muitos deles). 3. Diminuir a “carga fiscal" implica tomar uma decisão: ou aumentar o défice, ou diminuir as despesas públicas. Qualquer das hipóteses, em princípio, é uma posição legítima. No entanto, quem quer diminuir os impostos e também o défice (como é o caso dos comentadores de direita) deveria dizer claramente onde e quanto quer cortar para diminuir a despesa do Estado (na saúde? na educação? nos apoios sociais?).

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Washington está a travar uma Guerra de Nova Dimensão contra a China e irá amargamente perdê-la

Prosseguem em todo o lado as agressões militares EUA. Mas a guerra (as guerras) que Washington tem em curso trava-se em grande medida também no plano económico. A dimensão económica que assume é o indício de um poder em acelerado declínio, cujo desespero o torna ainda mais perigoso.

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References

  1. ^ endereço (www.odiario.info)
  2. ^ odiario.info (odiario.info)

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A tecnologia como falsa vilã para os trabalhadores

As verdadeiras causas de problemas como desemprego e baixos salários são políticas.

Paul Krugman, o famoso Prêmio Nobel de Economia, escreve em sua coluna no jornal norte-americano The New York Times, reproduzida pela Folha de S. Paulo, sobre o impacto do avanço tecnológico no emprego e no salário. Segundo ele, a ideia de que as máquinas estão roubando os bons empregos, ou mesmo os empregos em geral, deve ser discutida no âmbito das políticas públicas. 

Por Krugman, boa parte da agitação por um sistema de renda básica universal vem da crença de que os empregos se tornarão ainda mais escassos, quando o apocalipse dos robôs varrer a economia. “Assim, me parece uma boa ideia apontar que, nesse caso, aquilo que todo mundo sabe não é verdade”, afirma. 

Paul Krugman, Prémio Nobel de Economia

Previsões são difíceis, especialmente sobre o futuro, e pode ser que os robôs realmente venham a roubar todos os nossos empregos, um dia desses, mas a automação simplesmente não tem papel importante na história do que aconteceu com os trabalhadores dos Estados Unidos nos últimos 40 anos, diz ele. “Temos um grande problema — mas ele tem pouco a ver com tecnologia e muito a ver com política e poder”, destaca.

Krugman propõe um recuo no tempo para perguntar o que exatamente é um robô. “É claro que ele não precisa ser parecido com C3-PO, e nem rolar pelo mundo dizendo ‘exterminar! Exterminar!’ Do ponto de vista econômico, um robô é qualquer coisa que use a tecnologia para executar trabalhos antes executados por seres humanos”, comenta. E os robôs, nesse sentido, vêm transformando a economia literalmente há séculos, avalia. “David Ricardo, um dos pais fundadores da economia, escreveu sobre os efeitos desordenadores da maquinaria já em 1821!”, afirmou. 

Hoje em dia, quando as pessoas falam sobre o apocalipse robô, em geral não pensam em coisas como a mineração a céu aberto, ou a remoção do topo de montanhas para exploração de minérios. Mas essas tecnologias transformaram radicalmente a mineração de carvão. A produção de carvão quase dobrou entre 1950 e 2000 (só começou a cair alguns anos atrás), mas o número de pessoas empregadas pelo setor carvoeiro dos Estados Unidos caiu de 470 mil para menos de 80 mil”.

Paul Krugman

Desordenamento tecnológico

Ele propõe considerar também o caso do transporte de cargas em contêineres. “Os estivadores costumavam ser parte importante do cenário nas grandes cidades portuárias. Mas embora o comércio mundial tenha disparado, da década de 1970 em diante, o número de trabalhadores americanos empregados no “tratamento de carga marítima” caiu em dois terços”, informa.

Assim, o desordenamento tecnológico não é um fenômeno novo, de acordo com ele.

Mas será que podemos dizer que está se acelerando? Os dados dizem que não. Se robôs realmente estivessem substituindo trabalhadores em escala maciça, a expectativa seria de que a quantidade de coisas produzidas por trabalhador remanescente – a produtividade do trabalho – disparasse. Na verdade, a produtividade cresceu muito mais rápido da metade da de 1990 à metade da década de 2000 do que de lá para cá”.

Paul Krugman

Assim, diz Krugman, a mudança tecnológica é história velha. O que mudou é que os trabalhadores não vêm compartilhando de seus frutos. “Não estou dizendo que lidar com a mudança tenha sido fácil, em qualquer momento. O declínio do emprego na mineração de carvão teve efeitos devastadores sobre muitas famílias, e boa parte do território que costumava produzir carvão nunca se recuperou. A perda de trabalhos braçais nas cidades portuárias certamente contribuiu para a crise social urbana das décadas de 1970 e 1980”, recordou.

Salário mínimo nos Estados Unidos

Mas, segundo ele, embora o progresso tecnológico sempre tenha deixado vítimas, até os anos 1970 o crescimento da produtividade se traduzia em alta de salários para a maioria dos trabalhadores. “Essa conexão se rompeu, e não foram os robôs que causaram o rompimento”, alerta. “Qual foi a causa? Existe consenso crescente, embora não completo, entre os economistas de que um fator chave para a estagnação dos salários foi a perda de poder de negociação dos trabalhadores — um declínio cujas raízes são em última análise políticas.”

Uma causa óbvia é que o salário mínimo federal dos Estados Unidos, considerada a inflação, caiu em um terço nos últimos 50 anos, enquanto a produtividade dos trabalhadores aumentava em 150%, equaciona.

Essa divergência aconteceu por motivos políticos, pura e simplesmente. O declínio dos sindicatos, que representavam um quarto dos trabalhadores dos Estados Unidos em 1973 mas hoje só representam 6% deles, pode não ter causas políticas evidentes”.

Paul Krugman

Mas outros países não sofreram declínios parecidos, segundo Krugman. “No Canadá, a proporção de trabalhadores sindicalizados hoje equivale à dos Estados Unidos em 1973; nos países nórdicos, os sindicatos representam dois terços das forças de trabalho. O que fez dos Estados Unidos uma exceção é o ambiente político fortemente hostil à organização dos trabalhadores e altamente favorável aos empregadores determinados a destruir os sindicatos”, informa.

Declínio dos sindicatos

E o declínio dos sindicatos fez uma enorme diferença, nas contas de Krugman. “Veja o caso dos caminhoneiros: no passado, dirigir caminhões era um bom emprego, mas agora o salário é um terço mais baixo do que na década de 1970, e as condições de trabalho são terríveis. O que causou essa mudança? O esvaziamento dos sindicatos é grande parte da história. E esses fatores facilmente quantificáveis são apenas indicadores de um viés sustentado de antagonismo aos trabalhadores em nossa política”, afirma.

Segundo ele, essa constatação reconduz à questão de por que se fala tanto sobre robôs. “A resposta, eu proporia, é que essa é uma forma de desviar a atenção — uma maneira de evitar admitir que nosso sistema é distorcido em desfavor dos trabalhadores, da mesma maneira que falar de uma ‘lacuna de capacitações’ sempre foi uma forma de desviar a atenção quanto a más políticas que promovem alto desemprego”, destaca.

Para Krugman, os progressistas, mais que qualquer outro grupo, não deveriam se deixar enredar por esse fatalismo fácil. “Os trabalhadores americanos poderiam, e deveriam, estar recebendo um tratamento muito melhor. E se isso não acontece, a falha não está em nossos robôs, mas em nossos líderes políticos”, conclui.


Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/a-tecnologia-como-falsa-vila-para-os-trabalhadores/

Jantar fora ou gastar luz em casa?

Jantar fora ou gastar luz em casa?
Ainda a propósito do IVA da restauração e do que alegadamente o «Estado perde» com essa medida - de acordo com os entusiastas da austeridade - lembrei-me há dias do comentário de João Duque ao OE de 2019. Segundo o economista, teria sido «mais eficiente não se ter mexido no IVA da restauração e baixar o IVA da eletricidade». Por quê? Porque «as pessoas para pouparem ficam em casa e em casa gasta-se eletricidade». Ou seja, segundo João Duque, com a descida do IVA o Governo beneficiou, erradamente, os «que vão jantar fora e que apagam a luz em casa». Pela sua aparente candura e simplismo, esta imagem faz lembrar uma outra, menos recente, do mesmo economista e professor universitário: aquela em que aludia a cinema e pipocas.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

A elite global

Há décadas que a literatura académica teoriza sobre a ideia de uma elite de poder globalizada e sobre o conceito de uma classe capitalista transnacional.

Esta elite do poder global funciona como uma rede não governamental de pessoas ricas e formadas na defesa dos interesses comuns de gestão, na protecção da riqueza global concentrada e orientadas para assegurar o seu crescimento contínuo. Estas elites globais de poder influenciam e usam instituições internacionais controladas por autoridades governamentais como o Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional (FMI), Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), Organização Mundial do Comércio (OMC), G-7, G-20, as quais recebem instruções e recomendações para acções de políticas de redes de organizações e associações de elite de poder global não governamentais.

Muito se tem falado nos 1% mais ricos, que compreendem mais de 36 milhões de milionários e 2.400 bilionários, que aplicam os seus excedentes de capital em empresas de gestão de investimentos como a BlackRock e o J.P Morgan Chase. Uma simples dúzia e meia dessas empresas de gestão de investimentos – as que Peter Phillips apelida de gigantes no seu livro «Giants: The Global Power Elite» – com um capital acumulado na ordem de um bilião de dólares, controlavam, em 2017, mais de 40 biliões de dólares. Esta mão cheia de empresas, com participações cruzadas entre si, são geridas por umas duas centenas de pessoas que tomam decisões sobre como e onde o capital será investido e cujo principal problema é terem mais capital para aplicar do que oportunidades de investimento seguras, o que os leva a assumir investimentos especulativos e arriscados, a fomentar o aumento dos gastos em despesas militares e na privatização do património público.

A lógica de funcionamento deste modelo de concentração da riqueza implica um sistema de crescimento obrigatório de tal modo que qualquer ligeira escassez de capital conduz a uma situação de estagnação económica que facilmente se converte em depressão, falências bancárias, colapso monetário e desemprego em massa ou não se caracterizasse o capitalismo como um sistema económico sujeito a inevitáveis ajustamentos através de contracções, recessões e depressões. Enredados no colete de forças do crescimento económico, todo-poderosos como Mark Zuckerberg (Facebook), Bill Gates (Microsoft), Jeff Bezos (Amazon), Jamie Dimon (JP Morgan) e Warren Buffett (Berkshire Hathaway) dependem permanentemente de novas oportunidades de investimento, numa espiral que os limitados recursos do planeta não comportam.

Os trabalhos de investigação desenvolvidos, como o já citado de Peter Phillips, levaram há identificação das mais importantes redes da elite do poder global e dos seus membros; estes são o núcleo duro da classe capitalista transnacional que cumpre a função unificadora, produz ou incentiva a produção das justificações ideológicas que servem os seus interesses e faz difundir através dos meios de comunicação corporativos e estabelece os termos e limites das acções a serem implementadas pelas organizações governamentais transnacionais e pelos estados-nação capitalistas.

As elites globais do poder, que dirigem as grandes corporações do mundo, sobrepõem-se até à liderança de organizações como a Comissão Trilateral ou o Conselho do Atlântico (cujo aparelho militar, a NATO, sob a capa da defesa das liberdades opera na realidade na protecção dos interesses do capital global), financiam organizações não-governamentais e fornecem instruções directas e recomendações de políticas para governos, instituições internacionais e agências de informação.

A concentração de riqueza – expressa no facto de cerca de 80% da população mundial ter um rendimento diário inferior a dez dólares e metade menos de três dólares por dia, ou, como garante a Oxfam International, que apenas 8 mega-ricos detém uma riqueza superior à de metade da população mundial – e a protecção desmesurada de que beneficiam os mais ricos está a conduzir a Humanidade a uma crise em que a pobreza, a guerra, a fome, a alienação em massa, a propaganda dos meios de comunicação e a devastação ambiental atinge níveis que ameaçam o futuro de nossa espécie. A elite dos mega-ricos está consciente da sua situação de desbragada opulência entre a multidão empobrecida e o que mais receará será uma mobilização social que conteste o seu poder monopolista e as actividades de economia especulativa que pratica a, seu bel-prazer.

A globalização colocou um novo conjunto de exigências sobre o capitalismo e obrigando a criação de mecanismos transnacionais para apoiar o crescimento contínuo do capital, o que entra em clara contradição com a ideia de estados-nação autónomos e independentes, tradicionalmente veiculada nas economias capitalistas liberais. A crise financeira de 2008 foi um reconhecimento do sistema global de capital sob ameaça, uma situação que encorajou ainda mais o abandono do conceito de estado-nação e a formação de um imperialismo global capaz de assegurar os novos requisitos da ordem mundial para a protecção do capital transnacional.

O louvável trabalho de expor esta realidade e quem com ela vem lucrando de forma imoral deve ser divulgado, mesmo quando quem o realiza reduz os seus potenciais efeitos à expectativa de levar alguns dos grandes beneficiários do modelo a arrepiar caminho e, quiçá, abdicar dos sobrelucros acumulados… por considerar que serão os únicos que podem corrigir os desequilíbrios que criaram sem grandes convulsões sociais.

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/a-elite-global/

Quando falar com um economista, tenha cuidado. Comentário a uma entrevista de Robert Barro

Este artigo foi motivado pela leitura recente de uma entrevista de Robert Barro. Antes de se passar à análise da entrevista, contudo, é necessário um pouco de contextualização sobre o percurso deste autor e as características e relevância da escola de pensamento económico que representa. Robert Barro é um dos mais distintos economistas da nova escola clássica e um dos economistas mais influentes da segunda metade do século XX. A nova escola clássica emergiu na década de 70 do século passado como contraponto intelectual à hegemonia do pensamento keynesiano. A sua ascensão foi meteórica: de mão dada com a escola dos ciclos económicos reais (real business cycles) – com quem partilha grande familiaridade de premissas e resultados - viria a triunfar, escassos anos depois, na década de 80, em alguns dos mais influentes departamentos de economia à escala global, embora o seu ascendente tenha sido mais vincado na academia americana e menos expressivo no continente europeu. Perdeu o seu lugar cimeiro ao longo da década de 90, com a consolidação do paradigma novo-keynesiano, mas ocupa ainda um lugar destacado no ensino e na investigação contemporâneas. Mesmo que parte dos seus resultados sejam hoje objeto de crítica, a sua vitória epistemológica é inegável: a teoria das expetativas racionais e os modelos de maximização com base no agente representativo subsistem como a formulação canónica dos modelos económicos convencionais, mesmo que existam esforços – sobretudo desde a crise financeira – para adicionar imperfeições ao modelo base, de modo a que reproduza mais fielmente a dinâmica efetiva do ciclo económico. A nova escola clássica assenta o seu edifício teórico num triângulo de premissas que determinam as suas prescrições de política económica: igualdade contínua entre oferta e procura em todos os mercados, expetativas racionais e a validade de um agente maximizador representativo da economia agregada. Tomadas no seu conjunto, garantem alguns dos seus resultados mais célebres: a ineficácia da política orçamental (fruto da equivalência ricardiana com expetativas racionais), a ineficácia da política monetária (se antecipada pelos agentes) e o postulado de que as flutuações económicas se devem sobretudo a choques reais (este último resultado mais herdeiro dos seus companheiros dos ciclos económicos reais). Porém, no que respeita à contextualização da entrevista, a dimensão mais importante a ter presente é a fundação teórica do mercado de trabalho feita pelos novos clássicos. Neste domínio, deve-se reter que a nova escola clássica não reconhece a existência de desemprego involuntário, já que assume que todos os mercados estão equilibrados, incluindo o mercado de trabalho. Todos os agentes que pretendem trabalhar pelo valor do salário real vigente são capazes de o fazer. O ato de trabalhar é, na verdade, apenas um ato de escolha voluntária entre o prazer (utilidade) do consumo do lazer e o sacrifício (desutilidade) da redução de trabalho. Assim, neste quadro, não existem pessoas desempregadas na aceção que comummente se costuma atribuir ao conceito. Existe apenas um conjunto de pessoas que pretende consumir lazer em vez de realizar trabalho, porque consideram que o salário real prevalecente não lhes permitirá comprar bens cuja utilidade supere a desutilidade que a escolha do trabalho implicaria. Mais: neste mundo alternativo, trabalhar ou não trabalhar não é uma decisão binária como na maioria das situações da vida real. Os agentes escolhem apenas trabalhar mais ou menos horas, não encontrando qualquer barreira institucional (nomeadamente a legal) a essa decisão. As flutuações do emprego são explicadas por choques de produtividade. Tomemos o exemplo de um choque positivo de produtividade. O choque positivo causa um aumento do salário real, aumentando o custo de oportunidade de consumir lazer, fazendo com que os agentes aumentem o número de horas trabalhadas. Este mecanismo, defendem, é o que explica a flutuação do emprego ao longo da história. De novo, todo o processo resulta da decisão livre de um agente maximizador: o desemprego não é um problema nem individual nem social. Visto por qualquer cidadão não economista, esta teoria é surpreendentemente absurda: todos sabemos que o desemprego está historicamente associado a situações de pobreza e exclusão social; todos sabemos que as pessoas não escolhem, marginalmente, se pretendem trabalhar mais ou menos uma hora em função do salário real; e, evidentemente, todos sabemos que o desemprego involuntário existe e que a incapacidade de usar plenamente o fator trabalho é uma das mais salientes e regulares características das economias capitalistas. Mas toda esta evidência não encontra relevância na discussão especializada de economia, porque o instrumentalismo é o critério epistemológico que, explícita ou implicitamente, enquadra a discussão. Isto significa que a validade de um modelo não depende da plausibilidade das suas premissas. O único critério de verificação tido como válido é a capacidade de gerar resultados que se ajustem ao comportamento das variáveis económicas na realidade. Isto é, a validade advém apenas da sua avaliação empírica. Neste plano, os novos clássicos registaram a sua mais aclamada vitória na teoria da inflação. Mas também a teoria da determinação dos salários se transformou num palco do seu alegado sucesso: a sua teoria permitia fundamentar teoricamente a regularidade empírica segundo a qual a os salários reais evoluem de forma pró-cíclica. Ou seja, que os salários tendem a acompanhar o sentido da expansão ou da contração económica. Pelo contrário, o paradigma keynesiano (na sua versão da síntese neoclássica) assume que os salários reais são contra-cíclicos, resultado que decorre de assumir uma produtividade marginal do trabalho decrescente. Terminado o enquadramento, chegamos finalmente ao objeto deste texto. No início da década de 90, Robert Barro concedeu uma entrevista aos autores do livro “A Modern Guide to Macroeconomics: An Introduction to Competing Schools of Thought”, Brian Snowdon, Howard Vane e Peter Wynarczyk. Nessa entrevista, pode encontrar-se o excerto reproduzido abaixo: Muitos críticos da nova economia clássica argumentaram que existe uma falta de suporte empírico para a existência de fortes efeitos de substituição intertemporal na oferta de trabalho. Como reage a esta crítica? Robert Barro: É difícil obter evidência direta disso, assim como é difícil obter evidência do quão sensível é o investimento ao custo de financiamento – é o mesmo tipo de problema. Assim como se pode ver que o investimento é muito sensível ao longo do ciclo económico, o fator trabalho também se move bastante. Se assumir uma perspetiva de equilíbrio e observar que o fator trabalho se está a mover, tem de pensar acerca de quais os incentivos que estão a fazer com que ele se mova. Mas conseguir evidência direta dos efeitos intertemporais é difícil, porque é difícil isolá-los O mesmo acontece com o consumo. É difícil destrinçar os efeitos intertemporais, mesmo que as pessoas estejam dispostas a acreditar que esses efeitos existem. Na verdade, isolar curvas de oferta e procura também é um exercício difícil. É um problema de identificação difícil. Este excerto chamou-me a atenção por sintetizar num exemplo breve os enviesamentos que a comunicação com economistas pode gerar, quando trazida para o espaço público. A análise da pergunta e dos pressupostos e omissões da resposta permite guiar-nos pela forma como alguns economistas gostam de publicitar os seus resultados e opiniões sem submeter a escrutínio as suas premissas. Em primeiro lugar, a pergunta tem a maior pertinência. Para que as flutuações agregadas do emprego pudessem ser explicadas exclusivamente por efeitos de substituição intertemporal entre trabalho e lazer, as elasticidades teriam de ser muito superiores às verificadas em sucessivos testes empíricos – e, mesmo esses testes, assentam em pressupostos questionáveis. A resposta de Barro a esta questão é, no mínimo, surpreendente. A maior fonte de surpresa é o facto de Barro nem sequer responder diretamente à pergunta, escusando-se de contra-argumentar. Expurgada do acessório, Barro limitou-se a dizer duas coisas: i) o efeito de substituição intertemporal da oferta de trabalho é muito difícil de avaliar empiricamente; ii) se assumirmos uma perspetiva de equilíbrio, temos de pensar os incentivos que fazem o emprego mover-se. Tudo nesta resposta é um problema. Quando alguém que assume que a veracidade dos resultados e não das premissas é o critério para avaliar o seu modelo e afirma que os aspetos empíricos do seu modelo são difíceis de medir, qual é o critério de validação que subsiste? No fundo, Barro escolhe desmerecer a evidência empírica que não lhe é conveniente (como o caso da taxa de substituição intertemporal da curva da oferta) e manter as demais que lhe convêm. Na verdade, nem parece que a sua opinião sobre a difícil estimação do conceito seja particularmente robusta – parece, sobretudo, um instrumento evasivo. Mas é no segundo elemento da resposta que se encontra o fulcro do truque de comunicação. Barro afirma que se assumirmos uma perspetiva de equilíbrio temos de considerar quais os incentivos que o fazem mover. E, embora não o afirme explicitamente, o que deixa implícito é que o único mecanismo que vê como plausível para esse movimento é a escolha microeconómica entre trabalho e lazer. O autor mantém-se inamovível na sua premissa de partida para justificar a utilização da escolha intertemporal do consumidor para explicar as flutuações de emprego. Mas, e se a premissa de partida estiver errada? Nesse caso, se a substituição intertemporal não pode ser sustentada empiricamente, toda a fundação teórica para afirmar os seus resultados se esfuma. E haverá boas razões para suspeitar de que o mercado de trabalho não está sempre em equilíbrio? A resposta é sim. Como foi referido, a incapacidade de empregar plenamente o fator trabalho é uma das mais recorrentes características das economias de mercado. As possíveis explicações para essa incapacidade são variadas. Os novos keynesianos, apesar de manterem as hipóteses do agente maximizador e das expetativas racionais, avançam um conjunto de fatores que poderiam explicar a rigidez de salários e preços e impediriam o mercado de trabalho de atingir o equilíbrio. Esses fatores vão desde o custo associado à mudança contínua de preços (menu costs), passando pelos custos de procura de trabalhadores com características específicas até à fixação de salários acima do equilíbrio, de modo a aumentar o custo de oportunidade de perder o emprego e assim estimular os trabalhadores a serem mais produtivos (salários de eficiência). Outros autores, mais próximos do pós-keynesianismo, rejeitam as expetativas racionais e o agente maximizador. Na sua perspetiva, a flexibilidade de salários e preços não garante o pleno emprego, porque despoleta efeitos que contrariam o caminho para o equilíbrio. A diminuição dos salários pode ter efeitos nocivos para a procura e despoletar efeitos perversos associados ao aumento do valor real da dívida dos agentes económicos. A taxa de juro – sendo muito influenciada pela preferência pela liquidez – não é suficiente para equilibrar o mercado de bens. Ambos os fatores podem ter um efeito colateral nas expetativas, afastando ainda mais a economia do equilíbrio. Na sua opinião, como as economias de mercado resultam da ação descentralizada de vários agentes com expetativas voláteis, é muito improvável que consigam gerar o pleno emprego dos seus recursos. Por isso, deve ser o Estado a regular a procura agregada, de modo a assegurar o pleno aproveitamento dos recursos. Para o nosso argumento o ponto relevante é que assumir que o mercado de trabalho se equilibra continuamente é uma hipótese muito pouco razoável. Assentar toda uma teoria num pressuposto tão evidentemente falso deveria ser considerado um caminho muito pouco sensato. Mas é a aí que surge a singularidade dos economistas. Em todas as ciências sociais é possível que os autores guiem o autor até um conjunto de conclusões que dependem, em grande medida, das premissas fixadas à partida, as quais, por sua vez, dependem muito do posicionamento político e moral do autor. Não há nenhum mal nisto: desde que seja mantida uma argumentação fundamentada e séria, o exercício é legítimo. Perigoso é negar que existe essa influência à partida de crenças e convicções. Na economia, porém, tudo é muito menos transparente. Tal como noutras ciências sociais, os pressupostos de partida decorrem de convicções e valores à partida dos seus autores. Contudo, ao contrário de outras ciências sociais, os economistas utilizam um exercício dedutivo formalizado – a matemática – que permite obscurecer a relação entre pressupostos e resultados. Quanto maior a complexidade da matemática utilizada, menor a capacidade de escrutínio dos passos lógicos que são dados. Muitos economistas usam o subterfúgio de pedirem aos seus ouvintes que ignorem as premissas e se foquem nos resultados que, garantem, foram extraídos a partir das mais sofisticas e inatacáveis técnicas de modelação. Tal ação permite-lhes comunicar resultados favoráveis aos seus valores com a aparência de uma falsa neutralidade científica. O processo de ação comunicacional de muitos economistas, descrito no parágrafo anterior de forma abstrata, é cabalmente replicado no caso concreto da resposta de Robert Barro. Todos os autores da nova escola clássica eram acérrimos liberais. Na sua visão do mundo, os mercados tendem para o equilíbrio e a ação de uma autoridade central – orçamental ou monetária – é mais nociva do que virtuosa. Refletindo estas convicções, os seus modelos começam por assumir a hipótese totalmente irrealista de que os mercados estão sempre em equilíbrio, o que, a par de uma paleta de premissas já referidas anteriormente, garantem resultados que vão ao encontro das suas convicções. Tal não significa desmerecer as capacidades intelectuais destes autores. Pelo contrário: os autores mais destacados da nova escola clássica são dotados de brilhantes capacidades de modelação matemática da economia. O problema é usarem o seu brilhantismo para ofuscarem a clareza do debate, negando-se a reconhecer que, aparte o sofisticado exercício de modelação, os seus resultados dependem em larga medida dos seus pressupostos e dos seus valores. Robert Barro responde implicitamente que se assumirmos que os mercados estão em equilíbrio a substituição intertemporal da oferta de trabalho é uma boa explicação, porque nem concebe abandonar o seu pressuposto de que os mercados não estão sempre em equilíbrio. Para ele, os seus valores e pressupostos não se discutem. Se a evidência empírica está contra ele, é porque está mal estimada. A realidade é que tem de se adaptar à sua conceptualização da economia e do mundo. Escolhi trazer o exemplo da resposta de Robert Barro para este artigo, porque o que podemos aprender com ela continua muito atual. Todos os dias vemos economistas em órgãos de comunicação a darem opiniões sobre temas sociais, reclamando para si um manto diáfano de grande ascetismo e neutralidade científica. Essa neutralidade pura não existe, nem é qualquer modelo matemático ou econométrico que a confere. Todos os pressupostos merecem ser discutidos e, raramente, poderá ser dada uma resposta unívoca às questões. Não existem resultados incontestáveis em ciências sociais. Por isso, da próxima vez que falar com um economista, tenha cuidado. Depois não diga que não o avisei.

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Do vício de pensar em modo austeridade

Há uns dias, o Público noticiava que, «de acordo com um relatório do Governo que acompanha a descida do IVA no sector da restauração para 13%, nos 18 meses que se sucederam à descida da taxa, a receita de IVA totalizou 619,1 milhões de euros, menos 38,4%, correspondentes a 385,3 milhões de euros, que a receita dos 18 meses anteriores». Perante a constatação, o jornal não vai de modas e puxa para título a ideia de que, com a descida da taxa de 23 para 13% em 2016, o «Estado perde» cerca de 385 milhões de euros nas receitas dos dezoito meses seguintes.
Do vício de pensar em modo austeridade
Avançando para o miolo da notícia, a história que se conta é contudo um pouco diferente. Refere-se, desde logo, o aumento do emprego no setor do alojamento e da restauração em 9,9% (mais 21 mil postos de trabalho) no segundo semestre de 2017, face ao semestre homólogo de 2016 (num ritmo que supera o do crescimento global do emprego no mesmo período, de 5,1%). Assinala-se, por outro lado, que esse aumento do emprego gerou uma receita de 289,5 milhões de euros mesmo semestre de 2017 (+14,1% face a 2016) nas contribuições para a Segurança Social e dá-se conta, por último, da quebra da despesa em prestações de desemprego, a rondar os -11,2%. Se a tudo isto se juntar o efeito no aumento do consumo, e portanto o impacto na economia, mais difícil se torna afirmar - como sugere o título da notícia - que o «Estado perdeu» com a decisão de reduzir o IVA da restauração.

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A direita que se desvanece

A direita que se desvanece
Enki Bilal
Durante o debate quinzenal, o líder da bancada social-democrata, Fernando Negrão, lembrou-se de esgrimir que o valor da dívida pública, durante a actual legislatura, subiu em 20 mil milhões de euros. E esqueceu-se de pensar que a importância de uma dívida se mede pela capacidade de a pagar (em função do PIB).  Quando confrontado com a descida desse rácio, lembrou-se de dizer que o gráfico estava... invertido!
Mas poderia ter dito que, com os actuais níveis da dívida, mesmo em função do PIB, e por causa do baixo crescimento económico, a dívida pública não é sustentável e que isso deveria abrir um verdadeiro debate nacional, o qual foi negado como importante por Passos Coelho, possivelmente porque estavam em causa os créditos externos ("as dívidas são para se pagar"). Mas para isso, Negrão teria de falar do Tratado Orçamental e das suas implicações orçamentais, dos anos malditos da troica e dos seus apoiantes em Portugal, que por acaso estavam, no início, no seu partido. E teria de propor um modelo diferente de crescimento económico, o que até agora mal se aflorou. Nem um novo papel do Estado se soube definir e PSD/CDS tinham uma maioria absoluta no Parlamento. 
Mas, para espanto de todos, não é que Negrão falou mesmo dos tempos da troica? 

Mas teve a presença de espírito de escolher as palavras: "No nosso tempo, que também foi o vosso, houve um problema de bancarrota do país que o PSD e o CDS tiveram de gerir no Governo" "Gerir" é o termo benévolo, já que o resultado foi mais do que desastroso. Cerca de um quarto da população activa desempregada, srviços públicos depauperados e desarticulados, uma emigração histórica de pessoal qualificado que ainda não foi estancada passados 10 anos sobre o início da crise económica de 2007/2008; a cristalização de um sistema de remunerações assente em baixos valores, uma desigualdade e uma pobreza instaladas. E uma fragilidade estrutural que o PSD não sabe como atacar, se não - hoje - exigir mais despesa pública, mais serviços públicos, quando há 4 anos executava programaticamente cortes da despesa, cortes nos serviços públicos. 
Por alguma razão, o PSD está nos seus níveis mais baixos de popularidade. Aliás, tal como o CDS, que não consegue descolar apesar da situação do PSD, tudoagravado com a evasão de dirigentes que, seguindo as pisadas de Paulo Portas, saíram para administrar um grupo nacional e um banco estrangeiro, ainda que isso não queira dizer nada. É possível ser uma pessoa empenhada estando no lado real da economia ou pensando nela quando se ocupa lugares políticos (vidé exemplo do deputado Telmo Correia que assinou 300 despachos na madrugada em que José Sócrates tomou posse). Resta saber se, mais tarde ou mais cedo, esta situação não levará a abrir as portas a alguma nova formação política de direita, assim o queiram as elites bem instaladas que passem a apostar - e financiar - outras experiências, como se passa em Espanha.  E não é ainda o caso da Aliança de Santana Lopes, que teve de contar os seus trocos para realizar o seu 1º Congresso. Mas o mercado parece estar aberto. 

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Mutação e metástases: uma década de crise europeia

Mutação e metástases
Excertos de um texto publicado em Esquerda.net, acessível aqui. "O euro chegou aos vinte anos sem grandes motivos para festejo. Apesar dos retratos entusiastas – Trichet, ex-presidente do BCE, descreveu o euro como um “sucesso histórico (...) em termos de credibilidade, resiliência, capacidade de adaptação, apoio popular e crescimento real”, enquanto Juncker elogiou a “prosperidade e proteção” trazida pela moeda única – a história é um pouco diferente. Mais de uma década depois da crise financeira de 2007-08, a recuperação na União Europeia tem sido dececionante, e os ténues sinais positivos nos números do crescimento económico e do emprego não têm sido acompanhados pelos salários, cuja estagnação surpreende as instituições europeias. O agravamento da desigualdade é um dos traços principais dos últimos dez anos. A conclusão do QE no final de 2018, e a consequente subida esperada das taxas de juro, poderia colocar em causa a recuperação da atividade económica na zona euro e fazer reemergir problemas que apenas foram ocultados na última década. Draghi não perdeu tempo e lançou um novo programa de estímulos monetários e facilitação do crédito aos bancos há poucos dias – “num quarto escuro, movemo-nos com passos curtos”, justificou o presidente do BCE. No entanto, os “passos curtos” não serão suficientes para evitar a recessão que se aproxima. O FMI já anunciou previsões em baixa para o crescimento em 2019, e os analistas começam a suspeitar que o abrandamento pode não ser passageiro. Os índices financeiros continuam a sugerir bolhas especulativas nos mercados de ações e obrigações (Alan Greenspan alertou há mais de um ano), e a volatilidade crescente revela o nervosismo dos investidores – prudente, o The Economist avisa que é provável que “este ano seja mais acidentado que o costume”. É por esta combinação explosiva que no seu recente livro Crashed: How a Decade of Financial Crises Changed the World, Adam Tooze afirma que “o cenário com que nos deparamos agora não é de repetição, mas de mutação e metástases”. Uma década de estagnação acentuou os desequilíbrios da Zona Euro e revelou a desorientação das elites europeias." O resto do texto pode ser lido aqui.

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VOCÊ AINDA SE LEMBRA DE QUANTO PARECEU IMPORTANTE O QUE AS AGÊNCIAS DE NOTAÇÃO PENSAVAM DAS FINANÇAS PORTUGUESAS?

Ainda se lembra daquele período em que pareceu fundamental o que as agências de notação financeira pensavam das finanças públicas portuguesas? E de como o assunto era apresentado como se essa reputação se transferisse individualmente para todos e cada um de nós? A vergonha de sermos "lixo" parecia recair em todos e cada um de nós. Os gráficos a esse respeito evidenciavam o caminho da degradação (veja-se abaixo, a inclusão dos símbolos partidários do governo em funções à data da reclassificação foi um acrescento meu). E de como a mensagem que invariavelmente se lhe seguia era que apenas o bom comportamento preconizado pelas políticas de Vítor Gaspar era o caminho da salvação?
AS AGÊNCIAS DE NOTAÇÃO PENSAVAM DAS FINANÇAS PORTUGUESAS?
Ainda se lembra? Foi assim e, por sinal, a coisa até correu bastante mal para o Passos Coelho porque Vítor Gaspar, apesar de incensado cá dentro e lá fora, se revelou um ministro assaz medíocre e a reacção das agências de rating não se quis adaptar às necessidades do ciclo político do PàF. O assunto acabou descartado do palco político e os gráficos prontamente esquecidos, já que iriam demonstrar um colossal fracasso. só mesmo eu para perversamente os ir actualizando, a mostrar aquilo que não era suposto mostrarem: que foi o nerd do Centeno a fazer aquilo que se esperava que o Gaspar, por ser nerd, fizesse. E é assim que, oito anos passados, um jornal simpático para Passos Coelho como o Observador (que, por sinal, aparecido apenas em 2014, ainda não existia nos anos mais rubros do "não há alternativa à austeridade"), de toda a forma um jornal da causa, se limita a subcontratar a agência Lusa para noticiar o que, noutras circunstâncias, seria noticiado como um espectacular salto de dois níveis no rating da dívida pública portuguesa.

Veja o original em 'Herdeiro de Aécio' na seguinte ligação::

http://herdeirodeaecio.blogspot.com/2019/03/voce-ainda-se-lembra-de-quanto-pareceu.html

No 20º aniversário do euro, a homenagem de Draghi perpetua mitos há muito rejeitados


No 20º aniversário do euro, a homenagem de Draghi perpetua mitos há muito rejeitados

(Ashoka Mody,  25 de Janeiro de 2019)

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O problema com a UE e o Euro é que se baseiam em mentiras sob a presunção de que, se repetidas com suficiente frequência, se tornarão realidade. Isto funcionou bem durante algum tempo, mas como disse Abraham Lincoln: “Você pode enganar todas as pessoas em algum momento do tempo, e algumas pessoas o tempo todo, mas  não pode enganar todas as pessoas durante todo o tempo. O número de pessoas que  pode enganar está a afundar-se   muito rapidamente.

 

Os recentes comentários comemorativos do 20.º aniversário do euro utilizaram sobretudo termos muito elevados, mas sem sentido. O Vice-Presidente da Comissão Europeia Valdis Dombrovskis, por exemplo, tweeted: “Fazer parte do euro significa  estar a fazer  parte de uma viagem comum… As nações europeias serão mais fortes se viajarem juntas. O presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, tentou um quadro de resultados económicos mais ponderado, mas ainda assim alegre. Para transmitir alegria, Draghi repetiu histórias desgastadas e desconsiderou a montagem de provas contrárias.

O mercado único precisa de uma moeda única. Não é verdade, não precisa.

O tema central de Draghi é que a união monetária foi “uma consequência necessária do mercado único [europeu]”. Apoia-se na autoridade do Prémio Nobel Robert Mundell, que afirmou que a incerteza nos movimentos das taxas de câmbio constituía uma “barreira ao comércio internacional”. A isso, acrescenta Draghi, “E a moeda única melhorou ainda mais o processo ao eliminar os custos dos pagamentos, das compensações  cambiais e da cobertura do risco cambial”.

A análise econométrica mais antiga – e, durante muito tempo, a mais influente – citada em apoio da proposição de que a incerteza cambial e os custos de  transação  entre moedas dificultaram o comércio foi um estudo realizado em 1989 por dois economistas italianos, Francesco Giavazzi e Alberto Giovannini. De facto, os autores constataram que os movimentos incertos da taxa de câmbio e os custos de transação não fizeram qualquer diferença para o volume do comércio internacional. No entanto, Giavazzi e Giovannini estavam comprometidos com a proposta que se propunham provar e afirmavam que as características económicas e políticas excecionais da Europa exigiam taxas de câmbio fixas.

A descoberta empírica de Giavazzi-Giovannini – diferente da sua conclusão preferida – não teria sido uma surpresa para Otmar Emminger, presidente do Bundesbank da Alemanha, que havia observado alguns anos antes que os exportadores se protegiam de forma rotineira e barata contra o risco cambial. Em 1993, num artigo agora clássico do Journal of Literature sobre a união monetária proposta, o economista Barry Eichengreen da Universidade da Califórnia, em Berkeley, desafiou aqueles que afirmavam que os custos de transação da conversão de moedas limitavam o comércio internacional.

Foi tudo muito rápido até ao  dia de hoje. Aqui estão as evidências. O comércio da Alemanha dentro da União Europeia cresceu mais rapidamente com três países não-euro: República Checa, Hungria e a Polónia. É apenas uma questão de tempo até que o comércio da Alemanha com estes países exceda a soma do comércio com a França e a Itália, os dois maiores países da zona euro depois da Alemanha. Portanto, não, um mercado único não precisa de uma moeda única.

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Figura 1: Os exportadores alemães desviaram as suas atenções da zona  euro. (Percentagem do total das exportações alemãs para os vários países).

Fonte: Dados do FMI aqui.

Draghi repete o persistente mantra europeu de que o risco de continuação da desvalorização da lira italiana teria dissuadido as exportações alemãs para a Itália. Bem, a evidência está à vista.  O euro fixou o valor da lira em relação ao marco alemão e os exportadores alemães perderam o interesse no mercado italiano. Draghi alega ainda que as “cadeias de valor acrescentado” – a dispersão das fases de produção intermédias pelos países – exigem uma moeda única. No entanto, as cadeias de valor acrescentado são mais extensas com os três países não pertencentes à área do euro com os quais o comércio alemão cresceu mais rapidamente.

Os defensores da união monetária podem, no entanto, argumentar que o comércio com países fora da zona euro aumentou porque esses países estão a crescer rapidamente; e, na ausência do euro, o comércio entre os países membros teria caído ainda mais rapidamente. Em poucas palavras, Andrew Rose, da Universidade da Califórnia, em Berkeley, em colaboração com outros estudiosos, criou um tremor ao afirmar que a união monetária europeia iria criar uma explosão do comércio dentro dos países membros da zona euro.

Mas a evidência econométrica de Rose não passou no “teste do cheiro”, como apontou o então governador da Reserva Federal, Ben Bernanke. Em 2004 – no quinto aniversário do balanço do euro -, Bernanke observou que a parte do comércio dentro dos países da zona do euro estava a diminuir, em vez de aumentar. Para ele, isso era motivo suficiente para recear que as estimativas da Rose não fossem credíveis.

João Santos Silva e Silvana Tenreyro, numa análise econométrica sofisticada, publicada em 2010, observaram que os países que aderiram à zona euro tinham desde  há muito tempo fortes laços comerciais históricos entre si; uma vez que esses laços foram contabilizados, a influência do euro no comércio entre os países membros foi essencialmente “zero”.

Mais tarde, o próprio Rose, num mea culpa de 2015, reconheceu que os seus estudos anteriores extrapolavam indevidamente os ganhos comerciais obtidos noutras uniões monetárias para a probabilidade da zona euro registar também um aumento do comércio interno dos Estados-Membros. Com quase 15 anos de funcionamento da zona euro, Rose concluiu que os dados eram uma zona de nevoeiro, tornando impossível qualquer afirmação definitiva. Rose admitiu, no entanto, que o euro “teve um efeito ligeiramente estimulante, na melhor das hipóteses”.

Em 2018, dois novos estudos levantaram esse nevoeiro, concluindo a tarefa econométrica que  Rose tinha deixado por acabar.  O primeiro estudo utilizou exatamente os mesmos dados alargados  que  Rose empregou e desenvolveu o seu trabalho na base das técnicas avançadas de Santos Silva e Tenreyro (uma superioridade que o próprio Rose reconheceu), e  estabeleceu, mais firmemente que antes, que o euro teve influência “zero” no comércio .

Mais notavelmente, outro estudo (documento de trabalho não datado), novamente usando o método de Santos Silva e Tenreyro, descobre que nem os membros originais da zona do euro nem os membros mais recentes negoceiam mais uns com os outros apenas porque partilham o euro. Projetando para o futuro, os autores concluem que o euro também não melhorará o comércio para outros membros. A sua  conclusão é sem rodeios: possivelmente o euro gera alguns benefícios políticos e económicos, mas “não acreditamos que uma maior integração comercial com a zona euro deva ser considerada um deles”.

A posição de Draghi evoluiu. Num discurso de novembro de 2013, ele disse de forma irresponsável: “A evidência empírica sugere que partilhar uma moeda realmente impulsionou o comércio”. Não havia então base para uma tal afirmação; a evolução das partes do comércio  era clara e o estudo de Santos Silva e Tenreyro era da última geração. Agora, na sua retrospetiva de 20 anos, Draghi distanciou-se  de fazer uma afirmação obviamente incorreta. Em vez disso, recuou para uma visão nebulosa de que o euro “protege” o mercado único. A última afirmação de Draghi – seja qual for o seu significado – não tem qualquer apoio, nem nas tendências na direção do comércio, nem na demonstração  econométrica contínua.

A soberania monetária cria mais problemas do que os que resolve, diz Draghi. Será isso  verdade?

Se os países da zona euro  pudessem definir a sua própria política monetária, eles poderiam somente abusar  dessa autonomia. Seriam responsáveis por grandes défices orçamentais e utilizariam indevidamente o banco central para financiar esses défices. Assim, a conclusão de Draghi é feita  com base no comportamento das autoridades nacionais durante os anos 70 e 80. Ele acredita que esse comportamento prejudicial teria continuado inevitavelmente.

As décadas de 1970 e 1980 foram décadas excecionais durante as quais políticas orçamentais  e monetárias irresponsáveis foram comuns em todo o mundo. Em parte, os governos reagiram aos dois aumentos dos preços do petróleo, que aumentaram as taxas de inflação a par de uma forte desaceleração do crescimento. Esse resultado macro – descrito popularmente como estagflação – provou ser um desafio político em toda a parte. O descontentamento público generalizado levou a pressões políticas para a concessão de subsídios governamentais, o que ampliou os défices  orçamentais e incentivou o financiamento monetário dos défices.

As nações ocidentais que não adotaram uma moeda única aprenderam a   disciplinarem-se. A aprendizagem  ocorreu em momentos diferentes ao longo da década de 1990 e início dos anos 2000. Nos Estados Unidos, o presidente do Fed, Paul Volcker – numa  demonstração vigorosa da independência do banco central – aumentou as taxas de juro para níveis draconianos no início da década de 1980. A inflação caiu e permaneceu relativamente baixa durante a era subsequente da Grande Moderação.

Na Europa, o Reino Unido foi o primeiro a fazer uma grande rutura com o estrangulamento das taxas de câmbio fixas. Na  “Black Wednesday”, 16 de setembro de 1992, os especuladores forçaram a libra esterlina a sair das bandas especificadas no Mecanismo de Taxas de Câmbio (MTC), concebido como um precursor da moeda única. Mas a ignomínia de ser expulso do MTC provou ser uma bênção disfarçada. Em diversas etapas, o governo britânico deu cada vez mais independência ao Banco de Inglaterra, que geriu os assuntos monetários com muito sucesso, e a Grã-Bretanha viveu anos dourados de crescimento com estabilidade. Outros países europeus passaram pelas  suas próprias dificuldades macroeconómicas e financeiras, mas também  transferiram a política monetária para bancos centrais independentes com mandatos de metas de inflação. A Suécia, no topo da escala económica, e a Polónia, no extremo inferior, estiveram entre os países que fizeram esta transição com êxito.

Em França, durante o debate sobre a ratificação do Tratado de Maastricht para a adoção da moeda única, o político conservador Philippe Séguin liderou a oposição, defendendo a manutenção do franco gerido por um banco central independente que mantivesse a inflação sob controlo. Séguin perdeu por muito pouco na sua tentativa de mudar o rumo da história francesa e europeia. Mas só porque a França e outros países europeus adotaram o euro, funcionários como Draghi não têm licença para manter viva uma visão cega e paternalista de que as nações da atual zona  euro não teriam alcançado a disciplina macroeconômica que os suecos e os polacos  alcançaram.

Na verdade, os economistas políticos Jesús Fernández-Villaverde, Luis Garicano e Tano Santos argumentaram o contrário: o euro enfraqueceu a disciplina macroeconómica. Uma política monetária comum para a zona  euro reduziu as taxas de juro muito rapidamente para países com estruturas institucionais fracas. Os governos desses países aproveitaram as taxas de juro mais baixas para aumentar as regalias fiscais de grupos politicamente favorecidos, em vez de se envolverem no negócio mais difícil de investir para aumentar as suas taxas de crescimento potencial. Longe de instilar disciplina, a moeda única  subverteu-a.

Draghi surpreendentemente não considera o benefício mais importante da soberania monetária, a capacidade de absorver grandes choques económicos por meio de depreciações da taxa de câmbio. Embora as desvalorizações contínuas para compensar a falta de crescimento da produtividade seja um caminho para o declínio económico, a depreciação para absorver choques é inequivocamente desejável. Além disso, na medida em que a depreciação da taxa de câmbio encurta o período de aflição após o choque, também ajuda a evitar recessões prolongadas, que estudos recentes sublinham que, elas sim,  minam  o potencial de crescimento a longo prazo.

Uma política agrícola comum exigia uma união monetária. Não, não é assim.

Draghi utiliza a espantosa  política agrícola comum da Europa como uma justificação para a moeda única. ”Na ausência de uma moeda única”, afirma, a compensação prometida aos agricultores precisava de ser ajustada sempre que as taxas de câmbio mudassem.

Estes ajustamentos de preços, afirma Draghi melodramaticamente , “punham  em risco a confiança no mercado” e “envenenaram as relações intracomunitárias”. Em primeiro lugar, a interpretação  da história é, no mínimo, controversa. Andre Szász, antigo banqueiro central neerlandês, no  seu brilhante pequeno livro de 1999 sobre a história da União Monetária rejeitou-a considerando que os dirigentes europeus  utilizaram esta interpretação da história para introduzir a moeda única. A  burocracia europeia utilizou fórmulas bem compreendidas, segundo Szász, para fazer os ajustamentos de preços necessários.

Mas o problema mais profundo da política agrícola europeia enquanto argumento a favor de uma moeda única é que é a própria política agrícola que constitui tão flagrantemente um problema. Os subsídios absorveram grandes montantes do escasso orçamento europeu, favoreceram os grandes agricultores em detrimento dos pequenos agricultores e protegeram a agricultura ineficiente na Europa. Quando os agricultores europeus colocaram os  seus grandes excedentes nos mercados mundiais, isto levou à baixa dos preços mundiais, o que prejudicou os agricultores das nações em desenvolvimento. A política agrícola europeia nunca teve nenhuma característica redentora e foi somente  uma criação de uma disfuncional  política económica interna. Afirmar, portanto, que era necessária uma união monetária incompleta, com os seus riscos conhecidos, para preservar a obscura política  agrícola da Europa é outro caso de manipulação por razões que justificam ex-post a criação da união monetária.

A zona euro promove a convergência económica. Não, não é verdade.

Os pais fundadores do euro tinham razão, diz Draghi, em acreditar que a “cultura de estabilidade” da moeda única promoveria um maior crescimento e emprego. Uma manifestação valiosa de tais ganhos, postula ele, seria a “convergência”, o estreitamento das diferenças de rendimento per capita entre os países membros da zona euro. Draghi reconhece que Portugal e a Grécia – sem margem para dúvidas, ele não menciona a Itália -, estagnaram e divergiram em vez de convergir. No entanto, em defesa da tese de convergência, ele aponta os países bálticos e a Eslováquia como sucessos.

Esse uso casual de “provas”  é profundamente problemático. A Eslováquia aderiu à zona do euro em 2009, a Estónia em 2011, a Letónia em 2014 e a Lituânia em 2015. Estes países estavam num  caminho de convergência impressionante muito antes de adotarem o euro, como documentado (aqui e aqui). Eles convergiram por razões bem estabelecidas na teoria tradicional do crescimento e nos resultados empíricos. A sua  forte herança de capital humano de anos sob planeamento socialista, a sua transição para economias de mercado e, especialmente após a adesão à União Europeia em 2004, o reforço do Estado de Direito e a proteção da propriedade privada, estiveram na base da sua convergência económica.

Se o argumento é que a perspectiva de que eventualmente entrar na zona euro (e no regime de taxa de câmbio fixa em que estes países trabalharam em anos anteriores) aumentou o ritmo de convergência, simplesmente diremos que não há nenhuma evidência disso. Outros países que não aderiram à zona euro e que aparentemente não têm planos a curto prazo para o fazer – a República Checa, a Hungria e a Polónia – também convergiram para padrões de vida em economias europeias de rendimento mais elevado.

O mercado único é a grande conquista da Europa. Sim, mas não a idealizemos.

O argumento contrário de que uma moeda única aumenta a divergência em vez de promover a convergência remonta aos economistas britânicos Nicholas Kaldor e Alan Walters. Ambos observaram que uma política monetária única seria muito restritiva para o país mais fraco, enfraquecendo ainda mais as suas perspectivas de crescimento a curto prazo; a mesma política monetária estimulará um maior crescimento no país mais forte. A evidência é consistente com esta visão mais pessimista. Uma vez desencadeada  a crise financeira global, a política monetária de dimensão única que não se encaixa verdadeiramente em nada  aumentou claramente a divergência económica, conforme eu documento .

Acredito nas virtudes do Mercado Único – elas não são tão grandiosas como se diz, mas são reais. Infelizmente, Draghi faz afirmações absurdas: “O mercado único foi concebido para colher os benefícios da abertura, atenuando simultaneamente os seus custos para os mais vulneráveis; para promover o crescimento, protegendo simultaneamente os cidadãos da Europa das injustiças dos mercados livres e  sem entraves”.

Independentemente das proteções sociais previstas na legislação europeia, os mais vulneráveis na Alemanha, França e Itália perderam os seus empregos na indústria transformadora ou viram os seus salários profundamente comprimidos pelos trabalhadores da Europa Oriental.

A controvérsia também se espalhou em torno dos “trabalhadores destacados”, o símbolo da assinatura de um mercado único dos serviços. Esses trabalhadores – o lendário canalizador, pedreiro e motorista de camiões polacos -, são normalmente destacados pelos seus empregadores da Europa de Leste para os países europeus mais ricos. O presidente francês Emmanuel Macron descreve os trabalhadores destacados como uma forma de “dumping social” porque eles recebem benefícios de acordo com os padrões mais baixos da Europa Oriental. Macron pressionou e conseguiu impor mais restrições aos trabalhadores destacados – e Draghi aplaude essa conquista como um esforço digno para “reduzir práticas trabalhistas injustas no mercado de trabalho”. Essa não é a visão dos governos da Europa Oriental, que insistem que as novas diretrizes restringem o livre comércio de serviços.

A verdade é que, sob o pretexto de proteger os direitos do trabalho, os governos europeus têm procurado criar  mercados de trabalho “flexíveis”, sendo a palavra “flexíveis” um eufemismo para facilitar o despedimento  de trabalhadores. Sim, o emprego aumentou porque os trabalhadores são forçados a aceitar empregos temporários e na base de  salários mais baixos.

Para se ser realista, um tal resultado reflete meramente o funcionamento mais eficiente da economia de mercado. Ainda assim, os contratos de trabalho temporários estão associados a uma menor produtividade; portanto, salários mais baixos não proporcionam nenhum impulso na competitividade. Enquanto isso, a barriga vazia de grande  número de contratos mensais, mesmo diários e horários, cria uma ansiedade que é  socialmente  insustentável.

As consequências duma falsa narrativa podem ser terríveis

Os laureados com o Nobel George Akerlof e Robert Shiller destacaram o papel crucial que as “histórias” desempenham na determinação das políticas e nos resultados económicos. Repetidas infinitamente, as histórias que contamos a nós mesmos  tornam-se a nossa força motivadora, levando-nos a ignorar resultados  contrários. Como Shiller diz mais dramaticamente, porque uma história é uma “explicação facilmente expressa dos acontecimentos”, às vezes ela  propaga-se como uma doença. Pode “tornar-se viral”. À medida que se espalha,  adverte, a história tem um “impacto económico”. Muitas vezes um impacto político mais terrível,  poderia  muito bem ter ele  acrescentado.

Para a celebração do 10.º aniversário em Junho de 2008, o ex-presidente do BCE, Jean-Claude Trichet, afirmou que o euro tinha sido extraordinariamente bem sucedido. Isto numa altura em que a zona euro já estava a sofrer de  ventos fortes e violentos. Descrevendo o discurso de Trichet, parafraseei George Orwell no meu livro EuroTragedy: Um Drama em Nove Atos. Trichet, escrevi eu, estava a narrar a história do euro como deveria ter sido e não como era.

Draghi é mais cuidadoso no  seu discurso do 20º aniversário. Reconhece que a zona euro continua a ser uma união monetária incompleta, com os riscos que lhe estão associados.

No entanto, Draghi então recita mitos antigos, mas repetidamente rejeitados, sobre as virtudes económicas do euro. E, especialmente na sua conclusão,  Draghi é incapaz de resistir à retórica política dos  seus compatriotas para descrever o seu desejo – ao invés da evolução histórica real. A união monetária, diz ele, é o símbolo “definidor” do “projeto político” europeu, que une os europeus “em liberdade, paz, democracia e prosperidade”. Esse brilho só serve para minar a credibilidade, especialmente porque as nações europeias estão mais divididas do que em qualquer outro momento desde a Segunda Guerra Mundial, e o euro tem contribuído grandemente para o aprofundamento do euroceticismo.

A união monetária, continua Draghi, foi necessária para acabar com séculos de “ditaduras, guerra e miséria”. Draghi comete tantos erros na sua análise económica  – que é até assustador observar as consequências de não perceber nada de política .


O próximo texto desta série será publicado amanhã, 17/03/2019, 22h.


Tradução de Júlio Marques Mota – Fonte aqui

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2019/03/16/em-1999-uma-crianca-nasceu-de-parto-prematuro-e-com-deformidades-congenitas-o-euro-20-anos-depois-alguns-textos-sobre-a-sua-atribulada-existencia-texto-no-9-no-20o-aniversario-do-euro-a-home/

Robots com barbas

Às vezes, dá jeito conhecer o passado para reduzir a ansiedade com que vivemos o presente. Vem esta tirada a propósito do debate recorrente e cada vez mais presente na comunicação social sobre que vida se irá viver quando as máquinas nos roubarem o trabalho. E como vamos nós poder viver - e esse é outro tema recorrente, que vem logo atrás - recebendo um rendimento universal incondicional, dado pelo Estado, com o qual teremos de pagar tudo, tudo porque já não haverá trabalho. Na verdade, nada disto é novo.   O Observatório sobre Crises e Alternativas, do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, divulgou recentemente dois estudos de José Castro Caldas e Nuno Teles sobre essa problemática que será debatida na próxima 4ªfeira em Lisboa (Ver inscrição gratuita aqui). O primeiro caderno questiona os fundamentos das narrativas mais correntes acerca do tal futuro do trabalho. Mostra que o debate académico sobre os ritmos, a direção e os impactos da inovação tecnológica sobre o emprego e o trabalho está longe de ser conclusivo. Depois de passar em revista abordagens convencionais na teoria económica, argumenta-se que, em mercados capturados por um punhado de empresas tecnológicas financeirizadas, é diminuto o incentivo à inovação promotora de ganhos significativos de produtividade. Algo que se torna particularmente visível na emergência das plataformas digitais monopolistas, ditas colaborativas, cuja principal inovação se encontra na promoção de novas formas de desqualificação e desvalorização do trabalho. No segundo caderno, aborda-se a tal invasão do espaço mediático sobre o futuro papel das máquinas. 
Nomeadamente, regressa-se aos primórdios da Revolução Industrial, relembram-se debates acalorados entre posições contrastadas que exprimiram as inquietações e as dúvidas de quem as experimentavam a partir de posições sociais diversas. Se esta leitura incentiva e espicaça a sua imaginação, apareça na próxima 4ª feira, no CIU de Lisboa,  no Picoas Plaza, pelas 17h30.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

A próxima crise monetária

Numa ou outra ocasião todas as escolas de pensamento económico se debruçaram sobre a questão dos ciclos económicos e a ocorrência de crises e as de cariz neoliberal não fogem a esta regra.

Segundo alguns membros do pensamento neoliberal mais radical – conhecidos como economistas austríacos e grandes defensores da desregulamentação dos mercados e da actividade bancária, que no extremo defendem o free banking e a emissão privada de moeda –, perante o aumento desmesurado da criação de moeda e o imparável crescimento do peso da dívida, parece agora cada vez mais seguro que a próxima crise monetária será uma questão de “quando” e não de “se”, e de expectativa no comportamento dos chamados activos de reserva perante a situação.

Como observa Chris Marcus – o autor da página ARCADIA ECONOMICS – quando destaca o interessante facto de no caso dos metais preciosos, e salvo alguns fundos que investem em ouro ou prata, poucos serão os detentores do activo mesmo em períodos de subida das cotações, apesar de se saber que a formação de bolhas nos mercados ocorre quando se regista um excesso de procura por um activo específico.

Num texto onde questiona aqueles efeitos sobre a procura de metais preciosos, observa que aquela que ainda é a economia motora mundial, os EUA, e que apresenta uma dívida superior a 22 biliões de dólares para um PIB que ainda não deverá ter alcançado os 20 biliões e uma oferta de moeda (M3, o agregado monetário que inclui a moeda em circulação, sob a forma de papel-moeda ou moeda metálica, os depósitos à vista ou a prazo, incluindo ainda os fundos de aplicação financeira e os de renda fixa de curto prazo e os títulos do governo não amortizados, e os depósitos de poupança) próxima dos 20 mil milhões de dólares, para concluir que se vive uma situação ainda mais preocupante que a de 2011 enquanto os governantes norte-americanos parecem pouco ou nada preocupados em enfrentar a questão dos défices, até que este atinja o limite dos 30 biliões de dólares e de novo se sinta a necessidade de elevar esse tecto…

…e tudo isto enquanto a cotação do ouro e, especialmente, a da prata continuam francamente abaixo dos máximos da última década.

Isto contraria a lógica de funcionamento dos mercados que dita que em épocas de enfraquecimento da moeda (excesso de endividamento e de oferta de moeda) o valor dos activos de refúgio – sendo os metais preciosos os mais seguros – deveria subir, situação que aqueles economistas justificam com o facto das cotações serem formadas, principalmente, através de contratos – e numa proporção de 1 para 500 no caso do ouro e de 1 para 250 no caso da prata –, que não dão lugar a qualquer transacção física. Mas é esta disparidade e os casos de manipulação de mercado que de quando em vez vão sendo conhecidos e onde os intervenientes asseguram que o seu modo de actuação é a norma no sector financeiro (ver aqui nesta notícia), que os economistas austríacos querem ainda menos regulado.

A esta contradição tentam responder com o argumento que, historicamente, o ouro e a prata serviram como um barómetro nas moedas fiduciárias (aquelas cuja emissão não é suportada por qualquer valor de reserva, como acontece na actualidade e ao contrário do que sucedia no tempo do padrão ouro) e à medida que estas se desvalorizam, os preços dos metais preciosos aumentam. Mas como eles próprios admitem isto pode muitas vezes ter um efeito circular e quando o os preços do ouro e da prata aumentam, mais pessoas começam a perceber que algo estará a acontecer e aumentam a procura.

Refira-se ainda que os defensores da limitação da intervenção pública nos mercados reconhecem que o aumento dos preços do ouro e da prata representa uma grande ameaça para os governos que dependem da impressão de moeda e do endividamento, mas não levantam qualquer crítica ao sistema de reserva fraccionária (prática que permite aos bancos realizarem empréstimos ou investimentos em valor muito superior ao dos depósitos sob sua guarda, na expectativa que os depositantes não levantarão todo o seu dinheiro ao mesmo tempo, desde que mantenham como reserva uma determinada fracção do valor desses depósitos), apontando apenas o facto, evidente, deste não poder ser expandido até ao infinito.

No geral a escola austríaca vê a política de criação de moeda e o endividamento excessivo (um eufemismo para apelidar a criação descontrolada de moeda pelo sistema financeiro que vigora na actualidade) na origem dos processos inflacionista e uma explicação para os ciclos económicos, esquecendo que o endividamento é consequência da necessidade premente de fazer crescer o consumo e a economia em geral e uma fonte de lucro para os bancos e para os seus accionistas.


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/a-proxima-crise-monetaria/

Caixas e copos

Caixas e coposHá duas imagens que o pessoal de direita gosta de usar quando fez comentário económico.
Uma é associar a mítica metáfora da Caixa de Pandora à despesa pública. É uma escolha perversa porque, como se recorda, a Caixa estava cheia de demónios e pragas que, quando aberta por excesso de curiosidade, deu cabo do mundo, deixando apenas no fundo a Esperança. É como associar-se à despesa pública o seu papel demoníaco para a sociedade: quem opta por gastar, perde o controlo da despesa.  Outra imagem é o seu complemento: "Um copo meio vazio é um copo meio cheio". Ou, como diria um barman, "há quem olhe para a realidade como um copo meio vazio e quem olhe para o mesmo copo como meio cheio". Ou seja, contrair a despesa pública pode ter um lado mau - dá cabo dos serviços públicos - mas tem um lado bom: dá cabo do papel do Estado e libertarecursos para as empresas investirem...     A primeira foi usada por Vítor Bento, mais uma vez para criticar a situação do Governo (no programa da RTP Tudo é Economia de 11/3/2019). E digo mais uma vez porque ao longo da sua intervenção pública, já a usou inúmeras vezes. À pergunta sobre se o Governo tem capacidade para responder à contestação social, Bento respondeu:
O governo não tem muita margem de manobra. O governo abriu a Caixa de Pandora com as promessas que fez e, no fundo, com o slogan do fim da austeridade, que agora tem dificuldade em fechar. Libertou uma série de demónios e agora não os consegue colocar na caixa novamente. A dificuldade é essa. 
Na verdade, a dificuldade do Governo está em conseguir conciliar as regras do Tratado Orçamental - que Bento e a direita aplaudem - com as promessas de virar a austeridade. E essa dificuldade é igualmente a dificuldade da direita em mostrar que o espartilho do Tratado Orçamental tem virtudes. É o cumprimento desse espartilho estúpido que está a libertar as reivindicações que podem fazer a diferença entre o Estado ter ou não ter um papel. E impedi-las em nome do Tratado Orçamental - que nem Bento nem a direita têm a coragem de o fazer - é mostrar a realidade nua e crua do actual regime: seja quem for que lá esteja, seja quem for em quem se vote, terá de fazer o mesmo. Estupidamente.
  
Mas essa questão Bento nem sem sequer a aborda. Como se fosse natural que se tenha de cumprir todo um edífício teórico - critérios de Maastricht e a necessidade de convergir rapidamente para eles - que assenta ideias erradas, assumidamente criticadas mesmo por quem está à frente do BCE. Porque o Tratado Orçamental é um dispositivo político para manter o instrumento da dívida pública como um instrumento de poder e de transferência de rendimento entre grupos sociais.
 
Pior: quando Bento é questionado se o Governo tem dinheiro para responder às reivindicações sociais, responde que o que se passa - em que o Governo se revela atrapalhado - é antes culpa sua. Primeiro, porque vendeu a ideia de que era possível virar a página da austeridade. Bento não critica a falsa promessa: critica a ideia de que não se deve virar a página da austeridade. Segundo, porque a contestação é quase partidária, própria de ano de eleições, com o fim de retirar a maioria absoluta ao PS, e não uma contestação legítima ao Tratado Orçamental, visando impedir o cerceamento de direitos. E terceiro, porque o Governo tomou opções erradas.
Obviamente que a restrição orçamental é muito forte e muito grande. Mas alguma da restrição resultou de opções políticas que foram feitas. Quando o Governo acabou com o IVA da restauração ficou com menos dinheiro para dar aos enfermeiros ou professores ou seja quem for. Portanto, fez uma escolha a favor de um sector. Quando decidiu reduzir as 40 horas para as 35 horas, ficou com menos margem para poder fazer aumentos porque tem de admitir mais pessoas. Não podemos olhar para a margem de uma manobra absoluta, como se o termos chegado aqui fosse uma inevitabilidade. (...) Isto agora é o contrapeso dessas outras opções seguidas, a meu ver erradamente - eu teria seguido prioridades diferentes.
Bento nunca disse quais teriam sido as correctas e o moderador não o questionou, porque até parece concordar com ele.    

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

O PIB deveria crescer 4%? As contas pouco sérias do Fórum para a Competitividade

O PIB deveria crescer 4%? Fórum para a Competitividade
Na nota de fevereiro do Fórum para a Competitividade (aqui), reproduzida pelo ECO (aqui), Pedro Braz Teixeira argumenta que, dada a taxa de crescimento do emprego, a economia portuguesa deveria registar uma taxa de crescimento do PIB de 4%. Na minha opinião, esta conclusão assenta em pressupostos pouco sérios. Passo a explicar a porquê. Em primeiro lugar, é preciso ter presente qual foi o quadro de raciocínio em que Pedro Braz Teixeira se moveu. Em termos estritamente formais, a produtividade do trabalho é dada pelo rácio entre o PIB e o número de trabalhadores empregados (ou o número de horas trabalhadas) e pode ser interpretada como o valor da produção média efetuada por a cada trabalhador num dado período de tempo. Assim, se, por exemplo, a produtividade do trabalho for igual a 5, isso significará que cada trabalhador dessa economia produziu, em média, bens e/ou serviços no valor de 5 unidades monetárias.
Assim, a produtividade média do trabalho pode ser expressa como:
Produtividade média do trabalho = PIB / (População Empregada)
Como se trata de um rácio, a sua taxa de crescimento pode ser decomposta na diferença da taxa de crescimento das suas componentes. Assim, a taxa de crescimento da produtividade terá de ser necessariamente igual à diferença entre a taxa de crescimento do PIB e a taxa de crescimento do emprego. Se, por facilidade, expressarmos as taxas de crescimento pela letra g, temos que: 
g_Produtividade = g_PIB– g_Emprego
Em 2018, a taxa de crescimento do emprego foi de 2,3% e a taxa de crescimento do PIB foi de 2,1%, logo a taxa de crescimento da produtividade foi de -0,2%.
g_Produtividade (-0,2%) = g_PIB (2,1%) – g_Emprego (2,3%)
Qual é o argumento de Braz Teixeira? O argumento é o seguinte: se Portugal tivesse registado um crescimento de produtividade semelhante ao de países com o seu nível de desenvolvimento, o crescimento do PIB poderia situar-se em 4%. É logo aqui que o seu argumento começa a ficar turvo – que economias são essas? O autor não explicita. De qualquer modo, para que as contas do autor sejam confirmadas, o crescimento médio da produtividade do trabalho desses países terá de ser cifrado em 1,7%. Só isso permite que a igualdade estabelecida acima seja satisfeita: 
g_Produtividade (1,7%) = g_PIB ( 4%) – g_Emprego (2,3%)
Colocado desta forma, o argumento de Braz Teixeira parece, num primeiro olhar, razoável. Tomando como dado o nível do crescimento do emprego, se a produtividade tivesse crescido ao ritmo desse grupo de países, Portugal poderia ter registado um crescimento de 4%. É o que resulta da fórmula explicada acima. Onde se encontra, então, o vício do raciocínio? 
O erro de Braz Teixeira está em assumir que o crescimento da produtividade e do emprego são variáveis independentes. Ou seja, que a evolução de uma das variáveis não tem um impacto determinante na variação da outra. 
A ausência de independência das duas variáveis torna-se evidente quando analisamos a distribuição setorial do emprego criado na economia portuguesa. 
No contexto da recuperação económica, a criação de emprego foi centrada, maioritariamente, em setores como a restauração e os serviços, onde a produtividade do trabalho se encontra abaixo da produtividade média, criando uma tendência de diminuição do seu valor global. Nestes setores – muito trabalho-intensivos – cada trabalhador produz, em média, um valor menor de produção do que noutros setores. E é aqui que reside o fulcro do contra-argumento: como se criou emprego em setores com produtividade baixa, a procura dirigida a esses setores gerou um nível de crescimento do emprego elevado. Para um dado nível de procura, é necessário empregar mais trabalhadores para gerar a produção necessária para corresponder a essa procura em setores com produtividade mais baixa do que em setores com produtividade mais elevada. 
Por outras palavras: existe um nexo de causalidade entre a produtividade média do trabalho apresentar valores baixos (no caso do ano de 2018, até decrescentes (-0,2%)) e o crescimento do emprego se ter situado em 2,3%. As duas variáveis não podem ser analisadas de forma independente. Assumindo uma procurada agregada constante dirigida à economia portuguesa, se a produtividade média do trabalho tivesse sido mais elevada, o emprego teria de ter crescido a uma taxa mais baixa. Na verdade, é o facto de o crescimento do emprego se ter centrado em setores de baixa produtividade que explica o sucesso da recuperação rápida do emprego, apesar dos níveis modestos de crescimento do PIB. Fixar uma variável e imaginar o crescimento da outra, como faz Braz Teixeira, não faz qualquer sentido. 
Duas notas finais
1. Com a explicação acima procurei apenas demonstrar que o raciocínio de Pedro Braz Teixeira em nome do Fórum para a Competitividade é destituído de fundamento. Isto não significa que o crescimento da produtividade não seja um importante objetivo de política económica e que não se possa criticar a estratégia de crescimento do emprego em setores de baixo valor acrescentado. Mas, para isso, temos de refletir sobre as causas da evolução da produtividade, que são múltiplas e nem sempre fáceis de identificar. 
Há domínios estruturais em que Portugal ainda tem um longo caminho a percorrer, como a profissionalização da gestão. Sabe-se que as qualificações dos empresários portugueses são, em média, inferiores às dos seus trabalhadores. O aumento da qualificação dos empresários – tema tabu para alguma direita que aposta na sua sacralização – poderia trazer importantes ganhos organizacionais com reflexo na produtividade. 
Mas sabe-se que a produtividade é também determinada por fatores que dependem da gestão de política económica. O aumento da produtividade tem como determinante principal a incorporação de inovações no processo produtivo, que dependem da existência de investimento. O programa de austeridade seguido no passado fez colapsar o investimento da economia portuguesa e conduziu a capacidade produtiva utilizada a níveis historicamente baixos. Isso determinou que o investimento foi não só foi baixo nos anos da crise, como permaneceu em níveis residuais nos primeiros anos da retoma, fruto da capacidade excedentária que se havia acumulado. 
Considerando fatores mais estruturais, a integração de Portugal na moeda única – e a mobilização do investimento para setores produtivos de menor valor acrescentado e para o imobiliário – também terá determinado um viés negativo para a tendência da produtividade da economia portuguesa.
Com efeito, a preocupação com a evolução da produtividade tem de ser acompanhada pela defesa de um enquadramento macroeconómico que favoreça elevados níveis de procura agregada e uma distribuição da especialização produtiva que negue a tendência assimétrica dos primeiros anos da zona euro, onde se promoveu a especialização das economias periféricas em setores com baixo valor acrescentado. Tal posição exige uma posição de reforma radical da zona euro, assente a solidariedade entre estados membros e na promoção de políticas de pleno emprego. 
A pergunta que surge é a seguinte: estarão os membros do Forum para a Competitividade dispostos a pugnar por estas reformas? A resposta é um claro não. Tudo o que o conservadorismo económico que representam tem para nos oferecer é a defesa intransigente da ortodoxia das regras da zona euro, a começar pela obsessão pelas metas do défice estrutural, critério fetiche de Joaquim Miranda Sarmento. 
O Fórum para a Competitividade, que se mostra tão preocupado com a tendência da produtividade em Portugal, só defende políticas que, na verdade, apenas irão acentuar a nossa divergência em relação aos restantes países europeus. 
2.O Fórum para a Competitividade é um espaço de confluência de economistas conservadores, contrários à atual maioria de esquerda. Não tenho nada a opor: o espaço onde escrevo (o blogue Ladrões de Bicicletas) é um espaço de opinião comprometido com a esquerda e acho importante que os economistas contribuam para o debate público sem aparências de falsa neutralidade. Mas isso não deve conflituar com a manutenção da honestidade intelectual. Na sua tentativa de desmerecer uma das mais inegáveis conquistas da atual maioria de esquerda (a retoma do emprego), o Fórum da Competitividade escolheu o caminho das contas pouco sérias. É pena.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

EMERGÊNCIA DE UM NOVO SISTEMA MUNDIAL BASEADO NO PADRÃO OURO

 comprar ouro 2

Reproduzo alguns aspectos essenciais da análise de Jim Willie, que poderão consultar na íntegra, aqui
Jim Willie começa por afirmar que a supressão do preço do ouro está a chegar ao fim. Esta supressão teve como suporte os contratos de futuros em ouro (o mesmo se passa com a prata) que são negociados, como outros derivados, nas bolsas do COMEX e da LBMA, mas que não correspondem a quase nenhum ouro subjacente. Por outras palavras, negoceiam-se títulos de compra e venda de ouro, que não desembocam na entrega do metal, mas apenas são «redimidos» em dólares. Os pedidos de entrega do ouro correspondente a contratos, têm sido - repetidas vezes - negados. Apenas grandes bancos têm - na prática - a possibilidade de obter, desta forma, o ouro físico.  Pensa-se que a proporção de contratos sobre a quantidade de ouro depositado nos cofres destas instituições, seja de cerca de 1:200 (1 onça de ouro físico para 200 onças de «ouro-papel»). Esta fraude repetida tem permitido a supressão do preço do ouro: Quando a tendência é para uma subida acentuada, os grandes bancos emitem contratos de ouro-papel (vazios, não baseados em barras de ouro subjacentes) que inundam o mercado de futuros do COMEX e LBMA, normalmente em horas de pouca movimentação, para garantir a descida mais acentuada do preço.
Segundo Willie, 3 factores se conjugam para o preço do ouro subir até valores que compensem a impressão monetária, em grande escala, que tem ocorrido.
1- O regresso do QE (Quantative Easing) ou seja, da impressão monetária não contrabalançada por retirada de divisas do mercado.  Powell deu um claro sinal de que a FED vai fazer uma «pausa» na redução/venda dos activos detidos. A imprensa financeira e Wall Street interpretaram isso como uma inversão da política de Quantitive Tightening (QT) prosseguida desde há dois anos, nos EUA. Por outro lado, os especialistas em obrigações do tesouro (treasuries) e em derivados, asseguram que a compra discreta destas pela FED tem continuado, apesar da sua proclamada retirada. Quanto à subida gradual da taxa de juro, esta ainda está muito longe de atingir a sua média histórica. A política de QE da FED foi causadora de uma grande subida do ouro, invertendo a tendência de descida, a partir do ano de 2016. Agora, existe um mercado altista no ouro, que a «pausa» no QT ou a retoma do QE, está a estimular.
2- O SGE (Shangai Gold Exchange): a bolsa do ouro de Xangai tem tido um enorme volume de transacção de ouro físico. Há uns tempos atrás, a China lançou uma nota de crédito em Yuan, como instrumento importante nas suas trocas comerciais globais, nomeadamente, com países exportadores de petróleo. Esta nota de crédito em Yuan vem substituir as «treasuries» americanas de curto e médio prazo, que têm sido utilizadas como instrumento corrente de pagamento, em trocas de grande volume.  Com a maior utilização da nota de crédito em Yuan, conjuga-se a possibilidade de converter esses yuan em ouro no SGE. Necessariamente, a bolsa de Xangai será ainda mais activa e cada vez maior número de instâncias internacionais aceitarão de bom grado esta nota de crédito. Esta nota de credito em Yuan será bem aceite, pois não terá risco e será redimível em ouro (No SGE a compra de ouro é exclusivamente feita em Yuan).
3- As directivas de Basel: Basel é onde se situa a sede do BIS (Bank of Internacional Settlements) o «banco central dos bancos centrais».  Este banco tem emitido directivas cujos bancos centrais dos vários países fazem cumprir às entidades bancárias sob sua jurisdição. Assim, segundo directiva em vigor partir de 31 de Março, os bancos comerciais vão poder constituir reservas em ouro, visto que este passa a ter o estatuto de «Tier 1» ou seja, a par do dinheiro líquido e das obrigações do tesouro.  Estas reservas, por sua vez, são muito importantes para os bancos comerciais, pois determinam a sua solidez e quais os montantes estão autorizados a emprestar.  Esta pequena mudança em relação ao ouro, está a sinalizar uma nova abordagem. O seu intuito claro é salvaguardar a sua utilização como componente do grande «reset», ou seja, da reestruturação do sistema monetário internacional.  Aliás, várias vozes próximas do FMI têm vindo a propor uma reestruturação baseada na substituição do US dólar  como moeda de reserva (uma das resultantes dos Acordos de Bretton Woods) por um cabaz  (o SDR) de moedas em proporções diversas... dólares, euros, yens, libras e yuans. Propuseram eles que este cabaz seja alargado a metais preciosos (ouro, principalmente) e até matérias-primas (petróleo, etc). 
Estão - por detrás da cortina - a cozinhar a tal transição ou «reset», mas discretamente, para não desencadearem pânico no público. Também estão a tentar uma transição que mantenha o poder dos bancos centrais e da grande banca, ou até o reforce ainda mais. 
Os leitores interessados poderão consultar vários artigos que tenho dedicado, ao longo dos anos, a estes assuntos, ver em particular:

Ver o original em 'Manuel Banet' (clique aqui)

Branqueamento ideológico

Branqueamento ideológico
Público, 27/2/2019
Deixem-me ver se eu entendo a notícia. Em vez de criar mecanismos que disciplinassem os mercados financeiros, a Comissão Europeia deixou-os à solta e, ao mesmo tempo, pressionou o governo português - e de outros países - a receber um empréstimo da troica que elevou a dívida pública para níveis incomportáveis face aos níveis de crescimento económico e à luz do Tratado Orçamental. E aplicou um programa fortemente ideológico que afundou a economia, criou uma maré de desempregados (25% da população activa), uma emigração histórica e destruição de empresas. Criou uma situação de crédito malparado como nunca se vira antes. Afectou a banca nacional, fragilizando-a ainda mais. E para quê? Para pagar os investimentos feitos pelos bancos franceses e alemães em tíulos portugueses e livrar essa banca de perdas possíveis. E aproveitar a boleia para aplicar um programa ideológico que se demonstrou desastroso. E agora temos uma situação desequilibrada? Na realidade, trata-se antes de mais um branqueamento das políticas seguidas falhadas que se pretende reformatar e replicar, em mais políticas falhadas, seguindo a mesma receita.  Nada aprendem! E fazem de nós parvos.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

A economia, o PIB e a dívida

(Por Vítor Lima, 26/02/2019)

1 – O PIB como medida de desempenho não vale nada. É muito genérico, economicista e já nos anos 30 o Kuznets que inventou o conceito chamava a atenção para as suas lacunas. Por exemplo, em Portugal a economia não contabilizada vale uns 30% do dito PIB, sem contar com os serviços reais e essenciais que o PIB nunca contemplou; por exemplo, os trabalhos domésticos, como cozinhar, a limpeza, o cuidar das crianças, tarefas que só são medidas (quando são) se efetuadas num restaurante, com a utilização de uma empresa de limpeza ou num explicador com porta aberta.

2 – Para aumentarem o PIB, os avatares de Bruxelas acrescentaram como “produtivos” os serviços sexuais das prostitutas e como investimento a aquisição de cangalhada militar. Por exemplo, a compra de uma bala de canhão, é investimento embora nada produza quer quando armazenada em Tancos ou disparada algures.

3 – O drama da dívida em geral é a sua utilidade para alimentar a volúpia financeira, as pirâmides de Ponzi que contribuem de modo decisivo para o aumento do PIB embora não satisfaçam necessidades humanas mas apenas a engorda de especuladores. Por outro lado, a dívida pública é uma forma de captura dos rendimentos futuros de uma população, endividada sem ser consultada e onerada para o seu pagamento. Cada tuga contribui, anualmente com 800 euros só com os encargos. E, pior, ninguém sabe qual a afetação real dos empréstimos contraídos pela dita República.

4 – A satisfação das necessidades de uma população é o único critério válido para que se trabalhe e, como hoje isso não é tecnicamente difícil logo se coloca a questão de se trabalhar hoje tanto ou mais do que há 100 quando as 8 h era meta a atingir. Adivinhem quem se apropria dos ganhos de produtividade. E adivinhem quem gera a volúpia consumista e fomenta o endividamento para a satisfazer. E observem o grau de idiotia de quantos passam horas a olhar para écrans de vários tamanhos, viciados em imagem corrida, a forma mais superficial e manipulável de obter informação.

5 – Voltando à dívida. Não conheço na classe política quem considere a ilegitimidade da maior parte da dívida pública. Primeiro porque foi imposta e, em segundo lugar porque não foi afeta a nada conducente ao bem-estar da plebe. Depois porque a sua reestruturação nada acrescenta, sobretudo dadas as baixas taxas de juro. E, em terceiro lugar porque ninguém sequer aventa a necessidade de um downsizing brutal nos balanços do sistema financeiro global com a eliminação da dívida ilegítima, um chamado jubileu. Há alguns anos fiz umas simulações de reestruturação da dívida que, exigiriam crescimentos de 6% no diáfano PIB.

Como o Dieter diz, e bem, (ver artigo aqui ), os sacripantas citados são meros economicistas; desconhecem as ciências sociais coisa que é comum nos ditos economistas. E que só uma abordagem da realidade que resulte da interação das várias ciências sociais fornece realismo. O que se aprende na universidade é catecismo; o do César das Neves e o outro, mais laico, baseado no empreendedorismo, na competitividade, na empregabilidade, na criação de valor e no crescimento do PIB.


PS – No blog http://grazia-tanta.blogspot.com/ há muito material sobre estas questões. Por exemplo, ver este artigo, “O economicismo ou o discurso do empobrecimento compulsivo”, aqui. 

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

A Economia na Europa

(Por Dieter Dellinger, 25/02/2019)

Duas correntes económicos debatem entre si na Alemanha, e na maior parte dos países europeus e nos EUA.

Uns dizem que é preciso aproveitar os juros baixos para investir, principalmente nos países como a Alemanha, Holanda e outros que têm saldos orçamentais altamente positivos. Na Alemanha há muitas necessidades porque as autoestradas, ferrovias, os ICE (comboios super rápidos), pontes, hospitais, etc. estão envelhecidas e há margem para reduzir os impostos das empresas e dos trabalhadores, a fim de tornar a produção alemã mais barata.

Outros dizem o contrário, apontando para o facto de as economias andarem sempre aos altos e baixos e poder surgir uma crise. Claro, muitos dizem que o medo da crise é que pode produzir a crise com uma queda nos PIBs ou uma subida mínima.

Na verdade, há algo que ninguém vê, mesmo quando está, como eu, a teclar num computador portátil ligado à Internet.

É que, o investimento feito nos últimos vinte anos em Internet e informática pessoal, hoje existente em muitos milhões de lares, tal como a fibra ótica e a automação nas fábricas, etc. foi feito sem grande crescimento da economia.

Proporcionalmente ao número de utentes e à extensão mundial de empresas como a Google, Apple, Facebook, Microsoft. Youtube, etc. o investimento é baixíssimo. Uma pequeníssima alíquota do que seria o investimento em siderurgias, fábricas de automóveis e construção civil que não faltam na Europa e no terceiro Mundo.

Muitos países, incluindo Portugal, equiparam-se com tudo, mesmo nos tempos em que o PIB não crescia. A revolução 4.0 é demasiado barata para fazer crescer economias, mas dá lucros fabulosos a alguns magnatas que andam de sapatilhas de borracha.

Por byte a queda de preços foi fenomenal nos computadores que, sem aumento de preços, já estão com discos de terabytes e os automóveis pejados de sensores e computadores de bordo não sofreram grande aumento.

Claro, há na Europa dois grupos de países, os que conseguem empréstimos a juros inferiores aos do crescimento do PIB como acontece com Portugal, Alemanha, Holanda, etc. e outros como a Itália e Grécia que ainda pagam juros a longo prazo a quase o dobro do crescimento dos seus Pibs.

Portugal está, apesar disso, numa situação intermédia com uma dívida de 103% do PIB, mas muitos economistas dizem que a dívida de Maastricht de 60% do PIB para todos não tem sentido em período de excesso de dinheiro.

Os produtos baratos da China, Índia, etc. evitaram muito investimento industrial na Europa e deram às populações a possibilidade de se abastecerem com artigos de consumo corrente acessíveis a toda a gente. Vimos que, no Bairro Jamaica, os apartamentos clandestinos com tijolo mal amanhado têm antenas parabólicas porque as empresas da Net não fazem ligações a casas ilegais e os pobres não prescindem da televisão e até de Internet.

Por outro lado, vejo no Metro e na saída das escolas crianças e adolescentes agarrados aos seus Smartphones. Infelizmente, muitos economistas não vêem nada disto porque não têm espírito científico e são homens como Cavaco, Bessa, César das Neves, etc. que não são economistas, mas sim políticos porque só lhes interessa ver o que serve para dizer bem ou mal de uns ou outros partidos.

Caro é o envelhecimento das populações. Mas o seu custo é compensado pelo custo relativamente baixo de muitos dos itens  que descrevi aqui e não pode estar em causa a redução das pensões daqueles que, o PSD, designa como “peste grisalha”, que são os sacanas, como eu, que querem continuar a teclar e a receber a sua reforma.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

A fase predatória do capitalismo

Jorge Figueiredo
Já houve tempo em que o capitalismo era uma força progressista, na medida em que avançava o nível de desenvolvimento das forças produtivas. As empresas então produziam novos bens e serviços que acrescentavam riqueza às sociedades, desenvolvendo-as. Era a fase da ascensão do capitalismo, uma outra era, antes de a queda inexorável das taxas de lucros começar a manifestar-se.  Hoje isso não é mais assim. Actualmente estamos na fase predatória do capitalismo, que é comandada pelo capital financeiro. O objectivo agora é a apropriação da riqueza existente, criada por outros. Daí a catadupa de fusões e aquisições, OPAs amistosas ou hostis, leverage buy-outs(LBOs) [1] , engenharias financeiras, etc. Nada disso pode aumentar a riqueza de um país. Tais operações significam apenas transferências de riquezas de uns (geralmente muitos) para outros (poucos). É assim que hoje mais de 80% da riqueza mundial é apropriada por 1% da população do planeta. Essa realidade é reconhecida mesmo por entidades que não põem em causa o capitalismo, como a Oxfam [2] . Assim, estamos em meio a um processo de pauperização numa escala quase universal. Pode-se dizer que se trata da fase autofágica do capitalismo pois ele já pouco desenvolve as forças produtivas e começa a predar as existentes. Será isto um modo de produção? Ou um modo de destruição? Como se processa este processo de expropriação de riquezas? Há poucos estudos empíricos acerca dos mecanismos actuais e reais de concentração [3] e centralização do capital [4] (tudo indica que na fase actual do capitalismo a última tende a predominar sobre a primeira). Uma das razões para esta ausência é a opacidade com que tais processos se realizam, o que é compreensível pois geralmente estão associados à corrupção em larga escala com conluios encobertos entre vendedores e compradores. Por isso, torna-se extremamente difícil detectar os processos reais pelos quais se verifica este autêntico roubo legal (pois sacramentado pelos poderes públicos e batalhões de juristas e contabilistas ao serviço do capital). Este é o grande o mérito do livro recente de Catherine Le Gall e Denis Robert, Les prédateurs: Des milliardaires contre les États [5] – trata-se de uma investigação empírica. Para fazê-la eles examinaram três casos de vigarices: a venda da Quick, cadeia belga de hamburguers, ao banco estatal francês; a venda da refinaria de Pasadena à Petrobrás; e a venda de uma obscura empresa mineira à Areva, poderosa empresa francesa da energia nuclear. Para isso os autores deram-se ao trabalho de examinar milhares de relatórios, balanços, demonstrações de resultados, artigos em publicações e efectuar inúmeras entrevistas com intervenientes nas referidas operações. Uma característica comum a todos os três casos é que foram lesadas empresas estatais através de maquinações cuidadosamente conduzidas. No primeiro deles, o da cadeia Quick, o lesado foi a Caisse, o banco do Estado francês. O preço de venda que os donos haviam proposto em 2004 fora de 300 milhões de euros e não encontrara comprador. Mas em 2006 a Caisse comprou-a pela quantia de 760 milhões de euros (p.156). Também caberia perguntar porque é que o maior banco estatal da França precisaria de uma cadeia de fast-food, mas ninguém respondeu a essa pergunta. O livro contém uma insinuação clara de que a operação serviu para ajudar a financiar a campanha eleitoral de Nicolas Sarkozy (p.119). O segundo caso, muito maior, foi o da refinaria de Pasadena, na Califórnia, vendida à Petrobrás em 2012 (com aprovação de Dilma Rousseff). A refinaria era uma verdadeira sucata que o seu proprietário, a Astra Oil, vendera a um grupo belga por 42,5 milhões de dólares. Mas o montante que a Petrobrás acabou por pagar foram uns incríveis 1,18 mil milhões de dólares, ou seja, um salto mortal de 1600%. A operação contou com conivências internas dentro da Petrobrás (um tal Nestor Cervero) e com pelo menos um ex alto funcionário da Petrobrás (Alberto Feilhaber) que passou a trabalhar para o outro lado. O contrato foi feito com tal habilidade e cláusulas tão diabólicas que a Petrobrás acabou por ficar presa, sem qualquer saída razoável. Para poupar pormenores, bem descritos no livro, os autores resumem assim a situação:
"A Petrobrás está de pés e mãos amarrados com um parceiro de que ela não pode se livrar a menos que pague um preço delirante. A refinaria está obsoleta, os trabalhos estão em ponto morto, as discussões com a Astra Oil são tensas. Os dirigentes da Petrobrás (enfim, aqueles que não são corrompidos) descobrem a amplitude do desastre e acreditam que ainda é tempo de encontrar uma porta de saída. Mas todas as soluções são piores umas que as outras: manter a refinaria no estado em que está provocar perdas colossais, começar trabalhos para produzir 100 mil barris por dia como previsto relançaria o conflito com a Astra, subir para 200 mil barris equivaleria a conceder uma enorme prenda à Astra. Finalmente, comprar a parte da Astra para se desembaraçar do parceiro recalcitrante custaria uma fortuna. A armadilha imaginada pela equipe belga – e por Albert [Frère]? – se fecha sobre o dinossauro Petrobrás. Não há meio de escapar. Em frente, a equipe dos belgas vê a sua presa entrar em pânico. É tempo de apresentar o grande jogo para aterrorizá-la totalmente". (p.236)
É então que a Petrobrás vai ser depenada. Num golpe de poker, a parte belga propõe-se a comprar a parte da Petrobrás na refinaria cuja gestão está paralisada devido aos diferendos entre os sócios – o que impede a empresa de se por de pé. O contrato continha uma cláusula insidiosa, aparentemente anódina. Dela se concluía que não era tanto a casa que valia caro e sim quem possuía a chave: o contrato de comercialização. A Petrobrás acaba por levar o caso à justiça americana, a qual vem a condená-la a pagar uma soma vertiginosa. Fecha-se a armadilha. As maravilhas do capitalismo actual permitem este género de operações. O terceiro caso é o da Uramin, uma empresa constituída em paraísos fiscais que na verdade é uma concha vazia. As três jazidas de urânio que ela afirma ter em África pouco ou nada valem pois não são economicamente exploráveis. A Areva, uma importante empresa estatal francesa dedicada ao nuclear, possui uma base de dados com dados de minas de todo o mundo – mas os seus geólogos e peritos não foram achados nem ouvidos acerca da aquisição desta Uramin. Mas o dossier desta casca vazia foi cuidadosamente manipulado pelos seu proprietários, através de pareceres da consultora SRK e por outros meios, a fim de dar a entender que valia muito. A presidente da Areva, Anne Lauvergeon, fora reconduzida à testa da empresa após a eleição de Nicolas Sarkozy à presidência da República. A ligeireza com que ela procedeu a operação de compra da Uramin foi estarrecedora. E mais estarrecedor ainda foi o preço estratosférico que foi pago: 2,49 mil milhões de dólares, sempre com a assistência do banco Rothschild, muito ligado a Sarkozy. Uma consultora de negócios explica a regras do jogo nos negócios de petróleo, gás e urânio: "Se eu vendo caro, muito caro, demasiado caro, eu agradeço o comprador. Sempre" (p. 263). O que estes três casos recentes têm em comum é a acção predatória do capital financeiro privado sobre empresas públicas e estatais. Isto parece confirmar uma lei geral e certamente é uma consequência da queda da taxa de lucro nas actividades produtivas da economia capitalista. O capital já não pode arrecadar os lucros "normais" a que estava habituado com a produção de mercadorias. Assim, passou a nova fase e agora dedica-se à actividade predatória de empresas produtivas – sobretudo daquelas no âmbito estatal. Os autores afloram também o caso escandaloso da fusão da empresa Gaz de France (GDF) com a privada Suez. A GDF, uma empresa pública exemplar criada após a II Guerra Mundial, foi atacada pelos predadores da Suez e acabou por fundir-se com ela. Nem a GDF nem o povo francês foram beneficiados com tal fusão, bem pelo contrário. Agora a lógica de funcionamento da empresa está voltada para o máximo lucro e não mais para prestar um serviço público e servir a população do país. É outro caso exemplar que merece ser examinado. Seria desejável que em Portugal houvesse estudos empíricos como esse para as rapinas sofridas pelo Sector Empresarial do Estado. Exemplo recente é a escandalosa privatização dos correios, a seguir transformado também no Banco CTT, com a drástica perda de qualidade de um serviço em que no passado Portugal já foi exemplar. Esta privatização, feita quando o governo Passos Coelho estava moribundo, não foi revertida pelo governo PS. As palavras privatização e corrupção constituem rimas perfeitas. 
[1] LBO: Aquisição de uma empresa essencialmente através do recurso a fundos alheios, normalmente por parte de um grupo em que se incluem alguns dos gestores da empresa-alvo.
[2] Oxfam: oxfamilibrary.openrepository.com/...
[3] Concentração de capital: Acréscimo interno do capital por acumulação e concentração da mais-valia.
[4] Centralização de capital: Um dos meios de acumulação do capital representando um processo de acréscimo do capital pelo agrupamento de vários capitais num só, pela absorção de outros capitais já existentes.
[5] Les prédateurs: Des milliardaires contre les Étas, leur rapacité face à nos lâchetés , ed. Le Cherche-Midi, 2018, 300 p., ISBN 978-2-7491-5593-7 Esta resenha encontra-se em http://resistir.info/

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2019/02/a-fase-predatoria-do-capitalismo.html

SALÁRIO MÍNIMO OU SALÁRIO MAIS BAIXO

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Rui Rio defende que o salário mínimo deve ser igual para todos, uma declaração com a qual temos de concordar, mas que tem um pequeno senão, revela um político manhoso que joga com as palavras e está usando a ignorância de alguns eleitores para ganhar votos fáceis.
No PSD há muita gente que tem por profissão político ou funcionário do partido e, portanto, é possível estabelecer qual o salário mais baixo pratica neste partido. Seguindo a lógica intelectual do merceeiro do PSD podemos identificar qual o salário mínimo praticado no PSD. Será que Rui Rio vai tornar esse dado público e voltar a defender que o salário mínimo deve ser igual para todos. É bem provável que tivesse ainda mais votos e se aplicasse esta regra a empresas estrangeiras instaladas em Portugal, então seria um verdadeiro regabofe.
Passos Coelho assentou a sua perseguição aos funcionários públicos numa falsidade, comparou a média de ordenados no Estado com os do setor privado e concluiu que no Estado ganhava-se mais. É lógico, a mesma conclusão teria um estudo que comparasse o Hospital da Luz com uma empresa de segurança ou de limpeza, quando se comparam organizações que exigem qualificações diferentes é óbvio que as que exigem maiores qualificações pagam mais.
Se Rui Rio fosse intelectualmente honesto teria de defender que para categorias idênticas os ordenados devem ser iguais. Assim, comparar-se-ia categoria profissional a categoria profissional, isto é, retinha-se o salário da categoria pior remunerada no Estado e proceder-se ia à comparação da remuneração praticada no setor privado para esta categoria. Só que se for por este caminho Rui Rio vai ter um problema grande, que é a disparidade de remunerações e de modalidades de remuneração entre o Estado e o setor privado.
Para que o debate político fosse sério não seria mau se Rui Rio fosse mais honesto na forma como usa as palavras, não invocando os valores éticos apenas quando lhe dá jeito.

Ver original em 'O Jumento' (aqui)

'Crashed': A Grande Recessão mudou o mundo em que vivemos

Há momentos de descontinuidade profunda na história das sociedades, que marcam o mundo de forma decisiva e estão condenados a ocupar um lugar de destaque na memória coletiva. A Grande Recessão de 2007-08 é certamente um desses momentos. Depois da violenta crise financeira, nada seria como dantes. É esse o tema central do recente livro de Adam Tooze, Crashed: How a Decade of Financial Crises Changed the World. Dez anos após a crise, este livro conta a história de como chegámos ao maior colapso financeiro desde 1929 e do que mudou no mundo em que vivemos desde então. O autor avisa que “a história que o livro conta é a de um descarrilamento”. Embora já muito tenha sido escrito sobre o assunto, este é um dos relatos mais informados, completos e abrangentes sobre a Grande Recessão e as suas consequências para a evolução da economia mundial e das tensões geopolíticas na última década. Poucos autores o terão conseguido fazer com a eloquência de Adam Tooze, historiador económico e professor na Universidade de Columbia. Tooze começa por recordar como os economistas previram a “crise errada”, por estarem apenas focados nos desequilíbrios comerciais entre os EUA e a China e ignorarem os riscos intrínsecos do próprio sistema financeiro. O autor parte depois para uma análise detalhada dos mecanismos financeiros complexos por detrás da crise. O detalhe e o rigor da descrição não diminuem a qualidade da escrita, que torna a leitura agradável para os leitores e as leitoras menos familiarizadas com os conceitos. A cronologia que o autor nos oferece não se resume aos principais desenvolvimentos da crise nos EUA e nos países da Europa Ocidental, mas também na Rússia, na Europa de Leste, na China e noutros países asiáticos. As diferentes respostas das autoridades nacionais e os conflitos políticos que surgiram nesse contexto ocupam uma parte substancial da discussão no livro. Nas décadas antes da crise, as diferenças nos modelos de crescimento e nas estruturas produtivas dos diferentes países originaram desequilíbrios entre países excedentários e deficitários. O afluxo de capitais dos primeiros para os segundos alimentou bolhas especulativas (no imobiliário ou nos mercados de ações) e tendências de endividamento cumulativo. O desenvolvimento extraordinário de Wall Street e dos lucros do sistema financeiro norte-americano podem ser explicáveis pela necessidade de captar capitais para financiar os défices dos EUA, oferecendo ativos de maior risco com retornos apetecíveis para os investidores. Os bancos europeus foram os principais envolvidos nestas operações financeiras de risco, tornando-se bastante dependentes do mercado financeiro norte-americano. Embora a quebra dos preços das casas e dos créditos subprime tenha sido a causa imediata da crise, Tooze recorda-nos que esta tem origem na intensificação dos laços financeiros entre os EUA e a Europa nas décadas anteriores à crise, facilitada pela vaga de desregulação do setor que permitiu aumentar significativamente o fluxo de capitais e a alavancagem dos bancos. A quebra da confiança no sistema e o consequente congelamento do crédito, do qual todos os bancos estavam dependentes, fariam ruir o castelo de cartas do sistema financeiro, provocando a recessão mais profunda desde a Grande Depressão de 1929. “Nunca antes, nem sequer na década de 1930, tínhamos assistido à iminência da implosão de um sistema tão amplo e interdependente”, escreve Tooze. A queda do Lehman Brothers, em Setembro de 2008, seria apenas o início. A crise da dívida privada foi transformada pelos políticos norte-americanos e europeus numa crise da dívida pública, através da absorção das perdas financeiras pelos Estados. No livro Austeridade: A História de uma Ideia Perigosa, Mark Blyth descreveu esta operação como o maior embuste ("bait and switch") da história contemporânea. No caso da Zona Euro, a austeridade foi o mecanismo de socialização destas perdas, passando o encargo para as populações. A agudização da crise e a generalização do desemprego foram, por isso, resultado de escolhas políticas das instituições europeias. Para Tooze, este é “um espetáculo que deve inspirar indignação. Milhões de pessoas sofreram sem nenhuma razão para isso”. Ao expor os desequilíbrios do processo de financeirização e a necessidade de recurso ao financiamento do Estado para evitar situações de insolvência dos bancos, a crise acabou também com o mito da desregulação virtuosa – como escreve o autor, esta “derrota histórica para o capitalismo” foi a única forma de salvar um sistema em falência. A política monetária expansionista da Reserva Federal norte-americana teve um papel crucial para evitar o aprofundamento da crise global, permitindo resgatar as instituições financeiras norte-americanas e oferecer liquidez aos bancos europeus. Na Zona Euro, a rigidez de Merkel e do governo alemão levou a que se opusessem a qualquer tipo de atuação contracíclica do BCE até que fosse demasiado tarde e a crise já tivesse devastado os países da periferia. Na Grécia, o país mais afetado, a taxa de desemprego jovem continua próxima de 40% (chegou a ultrapassar os 60% no pico da crise). Por outro lado, a resposta expansionista da China à crise global merece a análise de Tooze. Ameaçada pela desaceleração do comércio, que afetou as suas exportações, a China desenvolveu um plano de resposta através de um reforço significativo do investimento público (de cerca de 12,5% do PIB) aliado a uma política monetária expansionista que permitiu atingir altas taxas de crescimento e emprego, contrariando a tendência de recessão no resto do mundo. Mais de dez anos depois da crise, a política monetária das autoridades norte-americanas e europeias pode ter evitado danos ainda maiores, mas não resolveu os problemas mais profundos: o QE tem servido para procurar recuperar os ganhos do sistema financeiro, sem alterar a sua estrutura e o seu funcionamento. Além disso, a austeridade (aplicada sobretudo na Zona Euro) é responsável pela lenta recuperação destas economias e pela acentuação das desigualdades. É difícil não associar os efeitos devastadores da crise e das escolhas que foram feitas à erosão dos partidos tradicionais e à ascensão de candidatos alternativos, explorando sentimentos de revolta contra o sistema. A eleição de Trump e a ascensão dos partidos de extrema-direita por toda a Europa são exemplos desta "grande crise da modernidade", nas palavras do autor. As elites ocidentais estão a pagar o preço de sujeitarem a democracia à disciplina dos mercados financeiros.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Para virar os bancos de cabeça para cima

Velhos mitos sobre finanças estão em xeque. Movimentoscomo o Green New Deal começam a mostrar que é possível apropriar-se da moeda para distribuir riqueza e garantir serviços públicos de excelência para todos
Ann Pettifor, no site do Transnational Institute | Outras Palavras
Foi apenas uma montagem de palavras, inseridas num vídeo no final de 2018. Logo as palavras se tornaram virais. Eles ajudaram a derrubar um membro do Partido Democrata favorável a Wall Street preparado para ser o próximo líder do Congresso dos EUA. Foram proferidos por Alexandria Ocasio-Cortez. 
É uma disputa de pessoas versus dinheiro. Nós temos pessoas. Eles têm dinheiro. Uma Nova York para muitos é possível — e não são necessários cem anos. É preciso coragem política.
Ela estava certa. Não foram precisos cem anos. Bastaram um verão, coragem política, uma grande ideia — o Green New Deal – e duro. Uma nova ordem econômica subordinaria o sistema financeiro aos interesses da sociedade e do ecossistema, e ajudaria a afastar a economia de seu vício em combustíveis fósseis, argumentou Alejandria.
A grande ideia, sua coragem e trabalho duro eram tudo o que era preciso para aproveitar o poder latente: o poder do povo do Bronx.
Sua história irá sustentar o tema que se segue. O poder latente e inexplorado dos cidadãos — em países com sistemas de tributação sólidos — para responsabilizar as elites financeiras e implementar um Green New Deal. Pode ser usado para transformar a correlação de forças entre a sociedade e o setor financeiro privado. Este poder social continua desaproveitado. A classe dominante e endinheirada o reprime. Mas ele também é reprimido pela visão estreita e míope que nós, e nossos políticos, temos sobre poder econômico potencial dos cidadãos.
Para aproveitar o poder dos cidadãos é importante compreender que os contribuintes possuem capacidade de ação [orig: “agency“] sobre os mercados financeiros globais. Em todo o mundo, os contribuintes subsidiam, estimulam e enriquecem centros de poder financeiro como os da Wall Street e da City de Londres.
Os salvamentos de grandes bancos após a Grande Crise Financeira demonstraram que os cidadãos e suas instituições financiadas pelo poder público têm o poder de proteger os rentistas do capitalismo financeirizado da disciplina do “livre mercado”. Graças ao apoio e poder de fogo fornecidos por milhões de cidadãos honestos, os bancos centrais empregaram imenso poder financeiro e resgataram o sistema bancário globalizado — resultando em uma cascata de desalavancagem da dívida que poderia ter contraído a oferta monetária, o crédito e a atividade econômica e aprofundado a crise.
Graças aos contribuintes os banqueiros centrais preveniram outra Grande Depressão. Foi um grande poder empregado em nome dos cidadãos, embora sem sua autorização – ou mesmo seu conhecimento.
Para compreender e empregar esse poder financeiro no interesse da sociedade e da natureza, os cidadãos precisam entender que este poder era e é, em última instância, nosso. É o poder latente, não utilizado pelos cidadãos para defender o interesse público, mas pelos tecnocratas para defender os interesses da riqueza privada.
Dinheiro e Dívida
A razão de nossa impotência política pode ser encontrada na névoa e no mistério que cercam a criação do dinheiro e a operação do sistema monetário. Graças à negligência dos economistasem relação ao dinheiro, às dívidas e aos serviços bancários, há uma grande quantidade de mal-entendidos e confusão sobre dinheiro e o sistema financeiro.
Os argumentos giram em torno de se dinheiro é criado a partir do nada — ou se ouro ou bitcoin são dinheiro real. Se banqueiros e/ou governos podem simplesmente imprimir dinheiro ad infinitum. Ou se há limites para a impressão de dinheiro. A ignorância e a confusão provavelmente não são por acaso. Isso ajuda a proteger o setor financeiro privado do exame público: “É para seu próprio bem”, para citar o lobo no conto de fadas.
As pessoas sensatas (incluindo o Banco da Inglaterra) concordam que o dinheiro, como Joseph Schumpeter explicou, nada mais é do que uma promessa de pagamento, como em “Eu prometo pagar ao portador”. Ou seja, o dinheiro é uma construção social, baseada na confiança ou promessas de pagamento e sustentada pela lei.
Quando alguém solicita um empréstimo, o dinheiro não está no banco. Em vez disso, os bancos comerciais licenciados “criam” dinheiro toda vez que um tomador de empréstimo promete pagar. Eles abrem o crédito digitando números em um computador e (digitalmente) depositando fundos na conta do tomador. Este promete devolver o dinheiro criado pelo banqueiro. Como garantia, o mutuário oferece bens (“colateriais”), em linguagem financeira, assina um contrato e concorda em pagar juros sobre o empréstimo.
Para que a confiança no negócio seja sustentada, as instituições que criam dinheiro (bancos comerciais autorizados) são apoiados e regulados por um Banco Central com respaldo público, que emite a moeda. A regulação garante que a confiança entre o banqueiro e o devedor seja mantida.
Os banqueiros privados só podem criar dinheiro novo e operar efetivamente quando são parte de um sistema monetário — o que inclui um Banco Central. Embora os banqueiros comerciais possam criar digitalmente dinheiro novo a pedido de um tomador de empréstimo, eles não podem imprimir moeda. Apenas o Banco Central pode fazer isso. O grande poder do Banco Bentral é emitir a moeda — dólar, euro, yuan, real — em que o dinheiro novo é criado. E para ajudar a determinar o valor da moeda.
Esse poder só pode ser exercido pelos bancos centrais por causa do colateral que sustenta a moeda que eles criam. Essa garantia é composta pelas receitas fiscais dos cidadãos. Quanto mais contribuintes contribuírem com a moeda, mais sólido o sistema de cobrança de impostos, maior será o valor da moeda.
Esta noção fica mais clara se compararmos a garantia que sustenta o Federal Reserve dos EUA com o do Malawi. O banco central do Malawi, como o Federal Reserve, emite uma moeda. Mas o Malawi tem muito menos contribuintes e poder arrecadatório do que os EUA.
Graças, em grande medida, ao colonialismo e às políticas do FMI, o Malawi também carece de instituições públicas importantes: um banco central independente; um sistema sólido de coleta de impostos; um sistema para fazer cumprir contratos ou promessas de pagamento (justiça civil criminal); e um sistema contábil bem regulado para avaliar ativos e passivos. Consequentemente, a moeda do Malawi — o kwacha — tem pouco valor comparado ao dólar.
Ainda pior: devido à ausência ou fraqueza das instituições públicas, o Malawi depende do dinheiro de outras pessoas — obtido através de outros sistemas monetários. O acesso a sistemas monetários estrangeiros assume principalmente a forma de empréstimos em dólares, libras esterlinas ou ienes – que incluem condições. Embora parte do dinheiro possa beneficiar o povo do Malauí, o custo do pagamento a instituições financeiras estrangeiras invariavelmente invalida os recursos financeiros da nação, seus ativos humanos e ecológicos.
É a falta da autonomia monetária proporcionada por instituições públicas sólidas, incluindo um sistema de arrecadação de impostos, que torna cidadãos em países como o Malawi relativamente sem poder e vulneráveis a credores estrangeiros predatórios. Isso também explica como e por que os países pobres continuam dependentes e subordinados aos países ricos.
Lamentavelmente, o FMI e o Banco Mundial desencorajam ativamente os países de baixa renda a investir nas instituições públicas vitais essenciais a um sistema monetário sólido — que restauraria sua autonomia financeira e econômica.
Cidadãos em países com instituições monetárias e sistemas tributários sólidos possuem um considerável poder potencial e capacidade de agir sobre o sistema financeiro globalizado.
Os constribuintes — não os bancos — sustentam o sistema financeiro
Entender como os impostos sustentam o valor da moeda de uma nação para financiadores privados é um primeiro passo para entender o poder potencial dos cidadãos. Os especuladores e rentistas financeiros globais preferem negociar em moedas sustentadas por instituições públicas estáveis, financiadas e apoiadas por milhões de contribuintes. Embora, é claro, haja negociação em muitas moedas de mercados emergentes, os especuladores preferem manter dólares, libras esterlinas, euros e ienes. Estas moedas são apoiadas por economias fortes. Mas seu valor é, em última análise, derivado dos contribuintes — dispostos, honestos e cumpridores da lei — que fornecem as receitas que sustentam a moeda.
Os contribuintes não apenas pagam impostos diretos e indiretos todos os dias, meses ou anos. Como novos contribuintes nascem todos os dias, os cidadãos pagarão taxas por décadas no futuro. Se nossas instituições estatais financiadas publicamente permanecerem estáveis, os recém-nascidos de amanhã continuarão pagando impostos no futuro.
Para entender a duração do poder do contribuinte, vale a rever a história do sistema financeiro britânico. Em 1748, o governo britânico emitiu bônus perpétuos, que eram dívidas sem data de vencimento para pagamento, mas que pagavam juros aos credores a 3% ao ano. O governo não teve dificuldade em vender esses títulos (conhecidos como “consols“) ao público. A confiança em que o governo britânico cumpriria suas obrigações de pagar juros sobre os empréstimos de modo perpétuo – era alta. Essa confiança foi justificada, já que os juros eram pagos a cada ano até que finalmente foram resgatados, em 2015.
Nenhum outro ativo tem esse tipo de suporte seguro e de longo prazo.
A ambiciosa e manipuladora Becky Sharp, em Feira das Vaidades, um romance satírico britânico do século XIX, escrito por William Thackeray, desejou que pudesse
Trocar minha posição na sociedade e todas as minhas relações por uma quantia confortável em consoles de três por centos … pois assim foi [escreveu Thackeray] que Becky sentiu a Vaidade dos assuntos humanos, e era naqueles títulos que ela teria gostado lançar âncora.
A inveja de Becky derivava da segurança concedida àqueles com fundos suficientes para investir na dívida do governo britânico – conhecida então, e por vários séculos, como Three Per Cent Consols (abreviação de dívida consolidada, ou consolidated). Com uma herança 10 mil libras, mulheres jovens e ricas do século XIX podiam viver com a quantia de 300 libras por ano; 25 mil libras gerariam uma confortável renda de £ 750 por ano.
A dívida pública é um ativo que gera renda — assim como um imóvel comprado com o objetivo de gerar aluguel para seu dono. Mas enquanto um investidor que compra para uma casa para locação tem que suar para manter, anunciar e alugar o ativo, a dívida ganha renda sem esforço para os ricos e para os especuladores. Faz isso pagando juros, a uma determinada porcentagem por ano
Ao contrário de uma propriedade de um investidor, a dívida é leve como o ar, intangível, invisível. A única evidência de sua existência é encontrada em entradas de banco de dados, números em um balanço ou em palavras em um “título de portador”.
As diferenças não terminam aí. Um edifício ou propriedade estão sujeitos às leis da física. Pode envelhecer, desmoronar ou ser destruído. Clubes de futebol são ótimos ativos — porque os torcedores se comprometem a longo prazo, e de bom grado e regularmente pagam “rendas” ao dono do ativo, pelo privilégio de assistir a sua equipe ou pela compra de uma camiseta do clube. Mas os clubes podem perder valor caindo nas tabelas de classificação. Obras de arte — digamos, uma pintura de Rembrandt — são ativos com maior longevidade, mas também tendem a se deteriorar e, de qualquer forma, estão sujeitas aos caprichos da moda.
Não é assim com os títulos do governo de países como a Grã-Bretanha. Enquanto as dívidas soberanas podem ser inadimplentes, as dívidas seguras do governo não apodrecem com a idade, como o professor Frederick Soddy (1877-1956) explicou uma vez. Isso porque as dívidas não estão sujeitas às leis da termodinâmica, mas às leis da matemática. Como tal, a dívida produz, sem esforço, renda para os aplicadores, a taxas matemáticas. E se a dívida é a dívida pública segura de nações como a Grã-Bretanha, os EUA ou o Japão, isso pode prosseguir por longos período de tempo.
O governo inglês tem honrado suas obrigações de dívida desde 1694, sem falhas. Em um mundo de fluxos de capitais globalizados, nos quais o capital flui de uma parte do mundo para outra, o preço dos títulos do governo britânico pode subir e cair, mas sua segurança e longevidade nunca estão em questão. Isso ocorre porque o sistema é administrado pela autoridade pública, não abandonado à “mão invisível do mercado” — mas principalmente porque a maioria dos cidadãos britânicos paga regularmente e fielmente os impostos.
É a Garantia, estúpido
E para entender por que a segurança é uma questão tão importante para o setor financeiro privado, lembre-se disso: o sistema financeiro global congelou em agosto de 2007 e depois entrou em colapso. Não porque os financistas ficaram sem dinheiro. Não por causa de uma corrida aos bancos. Mas porque todos no setor — todos — perderam a confiança no valor dos ativos usados como garantia, particularmente o valor das hipotecas de propriedades sub-prime nos balanços dos bancos.
Por que isso importava? Porque o valor dos ativos sub-prime (hipotecas) tinha sido usado para alavancar quantidades excessivas de financiamento adicional através de empréstimos. Se o ativo ou a garantia contra a qual o empréstimo tinha sido oferecido não valesse nada — então a dívida provavelmente não seria paga com a venda da garantia prometida.
O colapso da confiança nos valores dos ativos (ou colaterais) levou ao colapso do sistema financeiro globalizado.
E é aí que nós, cidadãos pagadores de impostos, entramos. A garantia do cidadão, na forma de receitas fiscais, não entrou em colapso na crise. Em vez disso, as garantias públicas mantinham a autoridade dos bancos centrais e davam-lhes o poder de emitir nova moeda (liquidez) em troca de ativos de banqueiros privados. O processo foi chamado de Quantitative Easing (QE).
O apoio dos contribuintes permitiu que os banqueiros centrais socorressem Wall Street e a City de Londres. A segurança e a solidez de nossos impostos sustentaram o valor das moedas, apesar da crise. Isso foi mais evidente nos EUA. Mesmo quando a economia global despencou e a turbulência financeira aumentou, o valor do dólar subiu.
Os bancos centrais usaram a garantia oferecida pelos cidadãos para alavancar grandes quantidades de dinheiro — cerca de US$ 16 trilhões – para socorrer o sistema bancário global.
A dívida pública como presente para os financistas e rentistas
Para entender inteiramente o poder exercido pelos banqueiros centrais é importante entender que cada vez que o governo solicita um empréstimo ou emite um título, ele cria uma dívida – uma obrigação (passivo) — para o governo. Ao mesmo tempo, ao contrair empréstimos, o governo cria um ativo financeiro valioso para o setor privado.
Os governos regularmente (uma ou duas vezes por mês) convidam os financiadores privados a financiar seus títulos ou empréstimos, em troca de promessas de pagar juros anualmente, e reembolsar o principal integralmente ao final do prazo do empréstimo.
Esse processo na verdade não é diferente do de uma mulher contraindo uma hipoteca. Ela convida um banqueiro a aceitar seu “bônus” — a promessa de repagamento — respalda esta atitude com “colaterais” (as garantias) e se compromete a pagar juros anualmente e o principal integralmente ao fim do prazo do empréstimo.
Uma vez que o banqueiro comercial tenha concedido o financiamento e aceitado o bônus, a mulher tem uma obrigação (passivo) – de pagá-lo. O banqueiro, por outro lado, tem um “ativo” – o bônus ou hipoteca da mulher. Isso é valioso para o banco privado porque, ao contrário do ouro, o empréstimo gera renda para cada ano em que a mulher paga juros. É provavelmente amparado pela garantia do seu apartamento existente. Além disso, o principal em seu empréstimo provavelmente valerá mais em termos reais quando for finalmente pago.
Os governos levantam financiamento tanto do setor financeiro privado, quanto de um banco central, exatamente da mesma maneira que um devedor comum levanta dinheiro de um banco comercial. O governo promete pagar juros e oferece garantias. A diferença entre o título de um governo e a hipoteca da mulher é que um título emitido por um governo com um bom histórico de pagamento é um ativo mais valioso. Como tal, serve como garantia vital para o sistema financeiro privado.
A hipoteca da mulher também é um ativo, mas será menos valiosa porque ela pode não ter construído um bom histórico de crédito, e em alguns casos pode ser respaldada apenas uma renda (a sua própria). O Estado, ao contrário, é respaladado por um fluxo de receita de milhões de contribuintes.
Isso explica por que os títulos do governo (ou dívida do governo) são ativos extremamente valiosos para o setor financeiro privado. Eles são seguros e confiáveis. Eles geram renda (pagamento de juros) regularmente. A dívida como garantia ou ativo pode ser usada para emprestar (ou “alavancar”) financiamento adicional.
Assim como o título de uma propriedade permite que um proprietário a re-hipoteque e obtenha quantias adicionais, garantidas por essa propriedade, ativos financeiros seguros e valiosos agem como garantia para o levantar novos financiamentos. Dinheiro recém-emprestado, garantido pelo fluxo de pagamentos de juros decorrentes da dívida, pode então ser investido ou emprestado a uma taxa de retorno mais alta.
Para entender a alavancagem, pense em uma proprietária que toma 80.000 librasemprestadas com apenas £ 20.000 em capital. Ela tem um índice de alavancagem de quatro. Em outras palavras, ela tomou empresto quatro vezes o capital de seu ativo.
No momento de sua quebra, dizia-se que o banco Lehman Brothers possuía um índice de alavancagem de 44. É como ter um ativo que rende 10.000 libras por ano e, em seguida, contratar um empréstimo de 440.000 libras para fazer uma farra de apostas. De acordo com o Banco de Compensações Internacionais (BIS)k for International Settlements, os bancos de investimento de Wall Street começaram com um índice de alavancagem de 22 em 1990, que subiu para “a vertiginosa altura de 48 no pico”.
A alavancagem nessa escala é mais facilmente alcançada contra garantias que são tão seguras quanto a dívida pública. A escala de riqueza gerada seria inimaginável para um Creso dos dias de hoje.
O “Shadow Banking” e a Fábrica de Garantia
Há outro aspecto para garantias públicas seguras que não é amplamente compreendido. Trata-se das formas como são usadas no sistema financeiro paralelo (ou shadow banking), que opera na “estratosfera” financeira, além do alcance dos estados e das regulações democráticas.
As entidades para-bancárias não regulamentadas, que concentram as economias do mundo (por exemplo, fundos de gestão de ativos, fundos de pensão, companhias de seguros) mantêm imensas quantidades de dinheiro. Uma delas — a BlackRock, por exemplo — tem US$ 6 trilhões em ativos.
Essas quantias não podem ser depositadas com segurança em um banco tradicional, onde apenas uma quantia limitada é garantida pelos governos. Para proteger o valor do dinheiro, um fundo de gestão de ativos poderá, por exemplo, fazer um empréstimo temporário de dinheiro a outro que dele necessite, em troca de garantia. Essa bolsa é conhecida como um acordo de recompra ou recompra.
Como argumentou Daniela Gabor, os mercados de recompra dos EUA e da Europa, os maiores do mundo, são construídos sobre dívidas de governos. Em outras palavras, “o Estado tornou-se uma fábrica de garantia para o sistema financeiro paralelo (Shadow banking)”
Os riscos deste mercado não regulamentado para o sistema financeiro global são assustadores. Uma das razões é que, enquanto alguém operando no mundo real — digamos, um proprietário de imóvel — pode re-hipotecar apenas uma vez seu ativo ou propriedade, os gestores de bancos que atuam no sistema paralelo não regulamentado podem usar uma única unidade de garantia para re-alavancar um sem número de vezes. Manmohan Singh, do FMI, estimou que, no final de 2007, as garantias eram usadas aproximadamente três vezes para alavancar empréstimos adicionais em mercados especulativos.
É como usar o valor de um único ativo — a propriedade de alguém — para garantir empréstimos adicionais de três bancos diferentes. No mundo real da regulação financeira, os proprietários não podem fazer isso.
Se quisermos entender a história de como os ricos se tornaram imensamente, grotescamente, mais ricos em rendas capturadas, enquanto os rendimentos médios da maioria caíram em termos reais, devemos olhar para os índices de alavancagem com base em ativos públicos nos setores bancário real e no shadow banking.
Em suma, a capacidade de drenar regularmente um governo fazendo-o pagar juros e usar o ativo da dívida pública para alavancar financiamentos adicionais é a razão pela qual os bancos, especuladores financeiros, seguradoras, empresas de gestão de ativos, empresas de private equity e fundos de pensão aumentaram maciçamente seus ganhos de capital. É também por isso que aos títulos da dívida pública jamais faltam demanda. Os financiadores privados precisam muito deles.
A escassez de dívida pública e as políticas de “austeridade”
A Grande Crise Financeira (GCF) desencadeou uma fuga da dívida privada em direção à segurança proporcionada pela dívida pública — especialmente as mais seguras: a britânica, a europeia e a norte-americana.
Este enorme choque financeiro levou a uma contração maciça da oferta monetária global e ameaçou a deflação — uma queda generalizada nos preços, que por sua vez levaria a falências, desemprego e cortes salariais.
Para neutralizar essa ameaça, os bancos centrais — em nosso nome — expandiram seus balanços e, em troca de garantias recebidas do sistema financeiro privado (muitas das quais eram “tóxicas”), forneceram a este níveis extraordinários de novo crédito ou liquidez. No processo, os tecnocratas do funcionalismo público nos bancos centrais protegeram os participantes do livre mercado da bancarrota e da disciplina do mercado livre — causando um golpe considerável na ideologia liberal.
O choque da deflação exigiu uma resposta fiscal maciça. Houve uma expansão fiscal inicial, mas limitada, que levou ao que o banco Credit Suisse chamou de “fluxo de garantia segura que fez com que o dinheiro público público (Treasuries, títulos lastreados em hipotecas, agências do governo dos EUA) subisse, compensando totalmente a contração no “dinheiro sombra” privado (obrigações de empresas, títulos garantidos por ativos e hipotecas não relacionadas com agências públicas).
Como resultado da demanda em pânico por dívida pública, o preço dos títulos do governo subiu e, devido à maneira como o mercado de títulos opera, o rendimento (taxa de juros) dos títulos caiu drasticamente. A demanda por dívida pública aliviou muito os custos de empréstimos (juros) do governo.
Rapidamente, porém, políticos e autoridades do tesouro dos governos, aplaudidos por economistas ortodoxos, think tanks de direita e pela mídia, voltaram à teoria neoliberal ou ordoliberal e impuseram contração fiscal — ou “austeridade”. O investimento público — gastos do governo — foi cortado ou impedido de aumentar.
Esses padrões duplos – a expansão das finanças para o setor financeiro privado e a contração para o setor público — são intrínsecos à economia ortodoxa, mas raramente desafiados pela profissão de economista.
Como resultado, a produção de garantias do governo (dívida pública) caiu.
Desde 2010, a “austeridade”, simultânea aos congelamentos e cortes de salários, agravou a crise. O efeito dessa política econômica atrasada foi aumentar o emprego inseguro, de baixa remuneração, pouco qualificado e improdutivo, ao mesmo tempo em que reduzia os salários em todos os setores.
Nos EUA, o estímulo inicial determinado por Obama evitou a depressão mas foi insuficiente para restaurar a estabilidade a longo prazo. Ao invés disso, houve severos cortes de gastos do governo estadual e local, não houve socorro às famílias que haviam hipotecado suas casas e os salários caíram em termos reais. Entre 2009 e 2014, os salários ajustados à inflação nos EUA ficaram estacionados ou decresceram, após uma série de decisões polítias. Mais recentemente, os salários reais cresceram, mas as taxas de crescimento para a recuperação como um todo ainda estão muito atrás das taxas anuais de 2,0 a 2,2% de 1947 a 1979.
Como resultado da austeridade, a emissão de dívida pública segura diminuiu. Por que isso deveria importar? Porque a baixa oferta de dívida do governo tende a impulsionar (na verdade, “deslocar para”) a criação de dívida privada insegura, ou ativos. Esses ativos privados inseguros são usados ​​pelo sistema bancário e pelo sistema bancário “das sombras” para expandir os empréstimos e o crédito. Os bancos centrais preocupam-se, com razão, com o fato de que essa expansão do crédito sobre ativos desregulamentados e desregulados provavelmente levará a outra crise financeira.
Observando a dívida pública pelo lado errado de um telescópio
Entender o valor da dívida pública muda nossa visão sobre o assunto. Como um empréstimo obtido para um projeto que criará emprego e gerará renda, a dívida pública, se investida em atividade produtiva, é uma coisa boa. Gerará renda. Não apenas salários para os empregados; não apenas lucros para o setor privado, quando os salários são gastos em seus bens e serviços; mas também receitas fiscais. Impostos sobre as rendas das corporações e dos consumidores, usados pelo governo para pagar a dívida.
Os empréstimos e os gastos públicos são especialmente importantes depois de uma crise, quando o setor privado está fraco e não tem confiança para fazer dívidas, investir e gastar. No entanto, a maioria dos economistas das escolas de Chicago vê a dívida pública como uma ameaça à economia. Governos que não podem “equilibrar as contas” são considerados incompetentes e perseguidos pela mídia
A hostilidade à dívida pública varia, mas o medo está embutido na psiqué alemã, porque a palavra para dívida – “Schuld” – é o mesmo que a palavra para “culpa”. A frase de São Mateus — “perdoa-nos as nossas dívidas, pois perdoamos aos nossos devedores” — foi interpretado por São Lucas como “perdoa os nossos pecados como perdoamos aqueles que pecam contra nós”.
Culpa, pecado e dívida pública estão profundamente conectados, mas apenas nas mentes dos economistas, jornalistas e do público. Dívida torna-se algo bem diferente nas mentes dos financistas e rentistas. Para Wall Street e a City de Londres, a dívida pública segura da Grã-Bretanha, da Europa e dos EUA é um presente verdadeiramente impressionante e fenomenal.
Nunca é suficiente para eles.
Enquanto não compreendermos plenamente a importância da dívida pública para o setor financeiro, as corporações imensamente abastadas e globalizadas continuarão a extrair parasitariamente renda de ativos públicos; a desigualdade mundial continuará a aumentar; e nós, os muitos, ficaremos relativamente mais pobres e sem poder.
Quando um número suficiente de pessoas vier a entender esse poder oculto, descobriremos que outro mundo é realmente possível.
Esquerda e Sistema Financeiro
No coração da ideologia neoliberal — ideias compartilhadas por aqueles que o historiador econômico Quinn Slobodian define como “globalistas” — está a crença de que a participação do Estado na economia deve encolher. Além disso, os mercados privados de capital devem permanecer “livres” para vagar globalmente e sem restrições. Em outras palavras, os mercados de capitais globalizados devem ter a “liberdade” de se desvincular dos Estados do mundo e da regulação democrática.
Como explicado acima, a profunda ironia da obsessão ideológica com os mercados de capital auto-regulados, “austeridade” e o encolhimento do Estado é que os mercados financeiros privados não podem funcionar sem o apoio dos governos, seus contribuintes e a segurança da dívida pública.
O “rato tímido”, que é o setor financeiro privado, não pode operar sem a proteção do “leão que ruge”, que é o setor público, para citar Mariana Mazzucato.
Dado que os ativos públicos seguros são tão fundamentais para a estabilidade do sistema financeiro privado, por que políticos e funcionários de direita querem reduzir sua oferta? A resposta só pode ser: a ignorância, alimentada pela ideologia oposta ao papel coletivo do Estado.
Mas e a da esquerda? A Grande Crise Financeira foi recebida com choque e descrença à esquerda. Muitos economistas progressistas concentraram-se na economia doméstica e tangível — Estado, mercados, trabalho e comércio –, ignorando amplamente a economia intangível, o setor financeiro globalizado.
E muitos abraçaram a “globalização” — a capacidade de viajar amplamente e atrair dinheiro em qualquer parte do globo; a facilidade com que a globalização facilitou a importação de frutas e vegetais exóticos; smartphones baratos; e os presentinhos oferecidos pela tecnologia no sistema globalizado. Tudo isso foi recebido com entusiasmo por partidos social-democratas, que fecharam os olhos a um sistema financeiro global e desregulamentado que facilitou essas atividades, mas também criou a ameaça de desastre sistêmico.
Como resultado, a esquerda não teve uma resposta coerente ao colapso dos mercados de capitais globalizados. Durante todo o período de “austeridade”, a esquerda — tanto nos EUA quanto na Europa — viu-se em desvantagem, na defensiva diante dos governos social-democratas que haviam acumulado dívidas como resultado da Grande Crise Financeira. Os governos social-democratas endossaram o Quantitative Easing para os banqueiros e “austeridade” para a maioria. Essa abordagem garantiu sua queda e até a extinção. (O Partido Socialista Francês não existe mais como uma força política ou organização, e foi obrigado a vender sua própria sede.)
Esses fracassos enfraqueceram a capacidade da esquerda de argumentar que, em um momento de fracasso catastrófico da economia privada, o investimento público em empregos era essencial para restaurar a estabilidade social, política e econômica. Em vez disso, subsídios e ativos apoiados pelos contribuintes foram implantados pelos bancos centrais via QE para proteger os lucros privados e os ganhos de capital.
Não é de se admirar que a população tenha se revoltado.
O que Fazer?
Um primeiro dos muitos passos que devem ser dados para transformar a economia é a compreensão. As pessoas não podem agir para transformar o que não entendem.
A compreensão de como os contribuintes garantem e endossam as atividades do setor financeiro privado globalizado e desregulamentado deve ser mais difundida. Só então poderemos começar a exigir “termos e condições” para subsídios e garantias públicas — e usar esse poder para regular e subordinar o setor financeiro globalizado aos interesses da sociedade como um todo. Exigir que os ativos financeiros públicos sejam usados ​​para benefício público, não privado.
Esse entendimento é fundamental se quisermos responder à maior ameaça à segurança que a humanidade enfrenta: o colapso climático.
Armados de compreensão, precisaremos de um plano. O New Deal Verde é esse plano.
O New Deal Verde
A genialidade do New Deal Verde de Alexandria Ocasio Cortez é que ele fornece um plano amplo e abrangente para transformar a economia dos EUA e enfrentar o colapso do clima. Se os esforços do Partido Democrata norte-americano levarem a uma campanha internacionalmente coordenada para implementá-lo, o plano tem o potencial de transformar muitas economias em todo o mundo e garantir um planeta habitável no futuro.
Mas — e é um grande mas — um plano abrangente para a transformação econômica exigirá financiamento em grande escala, comparável ao de uma nação que está entrando em guerra. Nós sabemos que isso pode ser feito. Os governos sempre encontraram dinheiro para financiar guerras.
Em 1933, o plano do presidente norte-americano Franklin D. Roosevelt — o New Deal — encontrou dinheiro para uma guerra contra o desemprego e a pobreza. Seu governo fez isso revertendo a economia neoliberal e implementando a teoria e as políticas monetárias keynesianas. Ao garantir que o sistema monetário e financeiro fosse administrado por autoridades públicas, e não privadas, seu governo levantou o financiamento necessário para tirar os EUA da catástrofe econômica da Grande Depressão. O New Deal de Roosevelt não apenas criou empregos e gerou renda nacional. Ele também abordou a catástrofe ecológica que foi o Dust Bowl, popularmente conhecido pelas enormes tempestades de areia.
A implementação do New Deal foi alcançada, em primeiro lugar, porque o governo de Roosevelt tinha uma compreensão clara da natureza do dinheiro e do sistema monetário com respaldo público. Mas seu sucesso em lidar com os interesses de Wall Street deveu-se à mobilização política, organização e ação. Roosevelt teve a coragem e o lastro político para confrontar e subordinar os interesses do Wall Street aos da sociedade e do meio ambiente.
Qualquer movimento internacional para um New Deal Verde terá que reunir a mesma coragem política em muitos países no mundo. Os ativistas terão que mobilizar, organizar e agir para superar a ideologia econômica que permite que os 1% enriqueçam incrivelmente com subsídios, salvamentos e garantias apoiados pelos contribuintes — enquanto negam recursos financeiros para investimentos públicos, transformação econômica e ecológica. Os ativistas terão que descobrir, e então implantar, seu poder latente para subordinar as finanças globais aos interesses da sociedade e do ecossistema.
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Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2019/02/para-virar-os-bancos-de-cabeca-para-cima.html

Alemanha: Desesperadamente procurando um novo mas improvável «milagre económico»

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Com a publicação da sua “Industrial Strategy 2030”, Berlim revela as linhas gerais do seu novo Graal. Uma demanda que não vai ser fácil como nota a americana Geopolitical Futures.

In search of the third German economic miracle

GPF Staff  |  Feb. 4, 2019

Germany will publish a new industrial strategy tomorrow named “Industrial Strategy 2030” – mirroring China’s “Made in 2025” and Saudi Arabia’s “Vision 2040.” According to Die Welt, which received an advance copy of the report, the German government aims to boost manufacturing from 23.4 percent to 25 percent of the economy by 2030 in part by providing support for key German companies like Siemens, BMW and Deutsche Bank. The plan also identifies nine strategic sectors ranging from environmentally friendly technology to defense and aerospace equipment that will be the focus of the national strategy. Unlike China and Saudi Arabia, Germany has a track record of conceptualizing and implementing such ambitious plans, but even mighty Germany will face many obstacles before it can achieve these goals. Some of the elements, especially those aimed at boosting German industry, may also set the stage for future disagreements between …


Daily Memo: Germany’s Economy, the Philippines’ Uncertainty, Maduro’s Defiance


Exclusivo Tornado / IntelNomics


África: Geopolítica da Cerveja e Guerra Económica

Uma grande caça desenrola-se, em África, no mercado da cerveja.

Giuseppe Gagliano estabelece o mapa da geopolítica da cerveja em África e analisa a imparável guerra económica, que aí se desenvolve, pela conquista de posições e pelo controlo deste mercado que, brevemente, representará 37% do mercado mundial da cerveja.


Geopolitica della birra: i grandi produttori a caccia dell’Africa

Di Giuseppe Gagliano | 5 Febbraio 2019 

Le grandi multinazionali della birra stanno assumendo una posizione offensiva nel continente africano a danno dei produttori locali.

Infatti, secondo Deutsche Bank, il continente africano rappresenterà il 37% del volume mondiale della birra nel 2025.

I grandi giocatori contano sulle dita di una mano. Possiamo menzionare AbInBEV, il principale produttore di birra del continente, l’impero di Castel o il marchio olandese Heineken.

Come abbiamo detto poc’anzi le multinazionali hanno letteralmente spodestato i produttori locali. 

Ad esempio la Castel negli anni ’90 ha acquisito il marchio Soboa in Senegal e altre società del Camerun. Una volta acquisite, queste società vengono ristrutturate e fino a un terzo della forza lavoro viene licenziata.

Di recente, Castel ha acquistato cinque birrerie dal colosso danese Carlsberg in Malawi. 

In Burundi e in Ruanda, è stata l’olandese Heineken a posizionarsi in modo durevole.

Questa espansione economica non sarebbe possibile senza l’assenso o persino la complicità dei leader presenti in questi Paesi.

Castel, uno dei leader del mercati internazionale della birra nei paesi di lingua francese, era in rapporti con il presidente del Gabon Omar Bongo, morto nel 2009. 

La conquista dei mercati esteri non può essere fatta senza una logistica potente, un prodotto redditizio e una buona volontà da parte degli attori locali.

Heineken, ad esempio, ha bloccato con successo l’arrivo del concorrente SABMiller in Nigeria, che improvvisamente ha dovuto affrontare ogni sorta di difficoltà amministrative per quanto riguarda le autorizzazioni essenziali. 

Un modus operandi è in evidente contraddizione con la strategia di sponsorizzazione di eventi sportivi e culturali. Inoltre il sostegno che riceve attraverso il suo sostegno all’agricoltura tramite l’Ue e l’Onu non è coerente con le sue importazioni di malto dall’Egitto lontano 5.000 km dal suo birrificio ruandese. 

Al contrario, SABMiller (ora ABInBEV) si è impegnata nel 2002 a produrre una birra locale a base di sorgo ugandese. Pertanto, la società è stata in grado di adattare il prezzo del prodotto al potere d’acquisto locale. 

Altre iniziative sono state sviluppate con birre di manioca in un birrificio in Mozambico, anche sotto l’impulso di SABMiller.

In “compenso”, le tasse e gli impulsi protezionistici di alcuni Paesi africani per proteggersi dall’esterno sono andati in frantumi. Per non perdere un mercato così ampio come quello africano le multinazionali hanno posto in essere strumenti non ortodossi. 

La Heineken ha fatto appello a quasi 2.500 prostitute in Nigeria per convincere i loro clienti che la bevanda dei Paesi Bassi avrebbe dato loro migliori abilità sessuali rispetto alla concorrente Guinness.

Un‘altra modalità di azione attuata dalla Heineken,per contrastare questa volta la concorrente Castel, si è concretizzata nella alleanza siglata con il distributore CFAO in Costa d’Avorio.

Nel continente nero – e non solo – l’esistenza del libero scambio è una pura illusione. 

La conquista del mercato africano è stata conseguita – e viene conseguita – attraverso una spietata guerra economica nella quale ogni strumento lecito o meno diventa legittimo, una guerra economica nella quale ad esempio una birra come l’italiana Peroni – che era stata acquisita dalla SABMiller per poi essere rivenduta nell’aprile del 2016 alla giapponese Asti per 2,55 miliardi di euro – ha dimostrato tutta la sua debolezza economica nonostante la sua elevatissima qualità.


Geopolitica della birra: i grandi produttori a caccia dell’Africa


Giuseppe Gagliano

Exclusivo Tornado / IntelNomics


Sobre o que foi o ano de 2018, sobre os perigos que nos ameaçam em 2019 – uma pequena série de textos. 13. Porque é que a economia mundial aparece tão frágil

Devemos nós estar  preocupados nos com o estado da economia mundial? Sim: faz sempre sentido preocuparmo-nos. Isso não significa estarmos seguros de  que algo vai  correr muito mal num futuro próximo.

Porque é que a economia mundial aparece tão frágil

(Martin Wolf, 17 de Janeiro de 2019)

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Devemos nós estar  preocupados nos com o estado da economia mundial? Sim: faz sempre sentido preocuparmo-nos. Isso não significa estarmos seguros de  que algo vai  correr muito mal num futuro próximo.

Pelo contrário, a economia mundial parece estar a caminhar para uma ligeira desaceleração cíclica. De longe muito mais importante é o contexto estrutural e cíclico adverso a mais longo prazo, porque  isto torna qualquer oscilação a curto prazo muito mais perigosa.

De acordo com a Goldman Sachs, a dinâmica do crescimento económico mundial abrandou acentuadamente em 2018. A desaceleração mais significativa a nível mundial verificou-se na economia chinesa – o principal motor do crescimento mundial desde a crise financeira de 2007-2008. Mas a Alemanha e o Japão também registaram contrações económicas no terceiro trimestre do ano passado. Os mercados bolsistas também estiveram em turbulência. Em parte, tudo isto vai refletir, presumivelmente, o agravamento da percepção das perspectivas. Estes mercados em queda deverão também enfraquecer o consumo e o investimento.

Tudo isto sugere que um abrandamento cíclico está a caminho. No entanto, os analistas institucionais  não estão propriamente preocupados. A OCDE declarou em novembro último que a “expansão global atingiu o seu ponto culminante” e estima que o crescimento do produto interno bruto mundial “diminua gradualmente de 3.7 por cento em 2018 para cerca de 3.5 por cento em 2019 e 2020, em linha com o crescimento subjacente do produto potencial global”. Esta seria uma aterragem ultra-suave. As previsões de consenso corroboram esta ideia: as previsões de consenso de dezembro para o crescimento em 2019 são pouco diferentes das de há um ano atrás. As perspectivas de crescimento para os EUA estão mesmo ligeiramente melhoradas. (Ver gráficos.)

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Um ligeiro abrandamento económico dificilmente será problemático. Pelo contrário, é de esperar que aconteça. Nas economias de elevado rendimento, que ainda geram três quintos da produção mundial (a preços de mercado), a retoma cíclica é mais antiga e a capacidade excedentária tem estado a diminuir de forma  acentuada. Onde a expansão está mais avançada e o excesso de capacidade desapareceu, a política monetária foi devidamente apertada, a um ritmo muito, muito apropriado,  ao ritmo de Donald Trump. Felizmente, a inflação é ainda moderada e as taxas de juro nominais e reais são baixas. Embora os mercados bolsistas  tenham efetivamente  corrigido a sua evolução, as ações dos EUA raramente têm sido tão valorizadas quanto hoje.

Nada aqui sugere que uma grave recessão global esteja a caminho. De facto, vale a pena lembrar que, embora as economias capitalistas sempre tenham sido cíclicas, as recessões severas, especialmente as globais, são raras. Pareceria sábio, em suma, que todos “se mantivessem calmos e seguissem em frente “.

No entanto, há um senão – um grande senão. Como Ray Dalio de Bridgewater argumenta numa  nota sobre o que está a acontecer,  o ciclo de curto prazo é o menor dos nossos desafios. Há também mudanças estruturais, que ele resume em termos de tendências de diferenças de  produtividade  e do ciclo da dívida de longo prazo.

Crucialmente, estes desenvolvimentos tornaram a economia mundial frágil.
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A “produtividade” deve ser vista como uma forma abreviada de resumir as mudanças no poder económico global, o aumento da desigualdade, o colapso do emprego na indústria transformadora,  a ascensão da economia digital e os ” excedentes de poupança” das últimas décadas. O ciclo da dívida de longo prazo, que se acelerou a partir da década de 1980, foi, entre outras coisas, uma forma de gerir as consequências sociais e económicas dessas mudanças estruturais.

Essas mudanças estruturais tiveram grandes efeitos políticos: uma onda de nacionalismo e populismo, Brexit, a eleição de Trump, uma guerra comercial entre as duas economias mais importantes do mundo e uma erosão da ordem económica global liberal. O ciclo de crédito de longo prazo levou ao desfecho da desastrosa crise financeira de 2007-08. Hoje, a China, cujo ciclo de dívida de longo prazo se acelerou após a crise, também está a atingir  os limites da acumulação de dívida.

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Estas condições a longo prazo limitam significativamente qualquer otimismo que se sinta num contexto de abrandamento cíclico a curto prazo.

Uma implicação poderosa é que a margem de manobra para a resposta a uma recessão seria limitada por padrões históricos, especialmente na política monetária. Se a Reserva Federal dos EUA tivesse de dar uma resposta clássica  a uma recessão significativa, as suas taxas de curto prazo poderiam ter de ser menos 2.5 por cento. O Banco Central Europeu e o Banco do Japão teriam de ir ainda mais longe. Se o pior vier a acontecer, a  Reserva Federal e o BCE podem ser forçados a seguir o BOJ em políticas ainda mais profundamente não convencionais. Enquanto o Banco Popular da China tem mais margem de manobra, reiniciar o boom do crédito chinês acarreta riscos a longo prazo.