Economia política

À espera de nova crise: ameaças que poderiam abalar economia global

Bolsa de valores de Xangai.
© AFP 2019 / Greg Baker

A economia mundial ainda não acabou de resolver todos os problemas causados pela grande crise financeira de 2008, mas o aumento da dívida global e as vulnerabilidades econômicas estão empurrando o mundo para um novo colapso financeiro, adverte o economista russo Vladimir Mau.

Em 2018, a economia mundial cresceu a um ritmo moderado de 3,7% e a fase de crescimento já dura dez anos. Entretanto, os especialistas avisam sobre a instabilidade desse crescimento e já preveem que uma nova crise venha a abalar em breve a economia global porque o crescimento não pode ser interminável.

Em seu artigo para o portal Forbes, o proeminente economista russo Vladimir Mau sublinhou que a crise global de 2008 foi causada pelo nível sem precedentes da dívida global – que continua crescendo, tendo superado os 200 trilhões de dólares em 2018 (mais de R$ 800 trilhões). Além disso, se observa uma fraca atividade de investimento, estagnação da renda da classe média e a deflação nas economias desenvolvidas.


Entre os problemas que a economia global enfrenta o analista refere ainda a política monetária. Entre todos os bancos centrais dos países desenvolvidos, apenas o Fed americano conseguiu sair da zona das taxas de juro superbaixas, enquanto os reguladores financeiros da zona euro, do Reino Unido e do Japão continuam insistindo na política monetária expansionista, receando provocar uma recessão.

No entanto, isto priva-os do instrumento mais importante para contrariar a próxima crise - a possibilidade de flexibilização monetária. Os bancos centrais dos países desenvolvidos não têm espaço para a flexibilização monetária, enquanto a flexibilização fiscal também será extremamente difícil devido à enorme e crescente dívida pública.

Mais um ponto fraco da economia global é a perda de confianças nas instituições governamentais. As sanções, que se tornaram um elemento integrante da política global, desempenham um papel importante nesse processo: as medidas restritivas podem ser introduzidas contra qualquer país, empresa ou pessoa, o que apenas contribui para volatilidade e incerteza.

Em meio a essa situação, a economia global dá indícios de possíveis mudanças fundamentais. Segundo Mau, com o desenvolvimento das tecnologias de informação, as criptomoedas vão desempenhar um papel cada vez mais importante no sistema de finanças globais. Por exemplo, vários bancos centrais já manifestaram seu interesse em desenvolver projetos baseadas na tecnologia blockchain. Embora o desenvolvimento pleno do mercado de criptomoedas ainda possa vir a levar vários anos, esse setor é muito promissor, sublinha o analista.


Anteriormente, os analistas já avisaram que a economia mundial pode não resistir à dívida de mais de 200 trilhões de dólares e que a próxima crise poderia ser pior do que a de 2008. No final do ano passado, os economistas do Fundo Monetário Internacional (FMI) apontaram a insustentável dívida global como a principal ameaça para a economia mundial.

Na edição de abril do relatório Perspectivas da Economia Mundial, o FMI prevê um abrandamento do crescimento global em 2019 para 3,3% em comparação com os 3,5% esperados em janeiro deste ano. Os economistas do fundo sublinham que, embora se espere alguma retomada do crescimento no segundo semestre, em geral 70% da economia mundial deve desacelerar neste ano.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/economia/2019051713896817-a-espera-de-nova-crise-ameacas-que-poderiam-abalar-economia-global/

Portugal | O império dos algarismos

Manuel Carvalho da Silva | Jornal de Notícias | opinião

O "império dos algarismos", hoje tão atraente e poderoso, assenta na ideia de que todas as decisões se devem basear num mero cálculo de custos e benefícios baseado em estimativas quantificadas de ganhos e perdas, e manifesta-se de formas muito diversas.

O Governo do Partido Socialista(PS), quando teve de enfrentar as metas europeias do défice e da dívida para fazer vingar os acordos à esquerda e o que neles havia de reposição do rendimento e de direitos laborais e sociais, demonstrou que essa recuperação favorecia o crescimento e tornava menos difícil equilibrar o Orçamento do Estado. A partir do momento em que Portugal passou de "mau aluno" a "bom aluno" e o ministro das Finanças português foi cooptado para presidente do Eurogrupo, instalou-se de novo o império dos algarismos. Uma decisão passou a ser boa ou má conforme os algarismos (os critérios do pacto de estabilidade) o permitiam. Toda a discussão sobre a contagem do tempo de trabalho dos professores decorreu sob o domínio do império orçamental dos algarismos e foi inquinada por isso.

Entretanto, o rompante demissionário de António Costa no fim da semana passada - aproveitando oportunismos e descontrolo da direita - parece revelar que a prioridade é de novo "PS, só, só PS" desimpedido de parceiros que exijam governação à esquerda. O ato de António Costa e pronunciamentos de destacadas figuras do PS vão nesse sentido; e adotam uma estratégia orçamental e eleitoral assentes no cálculo do custo-benefício que tudo explica e justifica, acompanhada pela colocação de uns cidadãos contra outros.


Os algarismos são "O" argumento ou a arma que se aponta ao dissidente, nesta ocasião os professores. Acontece que os algarismos tendem a ser muito traiçoeiros: quando massajados, aconchegam-se aos desejos do massagista; quando torturados, confessam. Mário Centeno chega ao ridículo de afirmar "eu não pago aos professores com os impostos que os professores pagam", como se com o valor desses impostos, que seguramente entram nos cofres do Estado, não pudesse cobrir tanto essas como outras despesas.

Ao contrário do que afirmam o Governo e muitos fazedores de opinião, os professores não estão à espera de ser ressarcidos pelo que perderam durante o período da crise: como todos os outros trabalhadores dos setores público e privado perderam parte dos seus salários, vários subsídios de férias e de Natal, e cerca de 20 mil ficaram sem emprego.

Que preço vai o país pagar quando não tiver professores qualificados para garantir a qualidade da formação das futuras gerações? Em 2019, apenas 0,2% dos docentes têm menos de 30 anos de idade. Doze dos 21 cursos de formação de professores tiveram este ano menos de dez candidatos e os melhores alunos não querem seguir a via do ensino. Nos mais velhos há exaustão e vontade de abandono.

Desde que Cavaco Silva jogou com vários grupos profissionais, nomeadamente os professores, para obter uma maioria absoluta, que se acumulam problemas com este importantíssimo setor profissional e é evidente a necessidade de harmonizar e valorizar a sua carreira. Durante quatro anos o Governo nada fez para encontrar soluções e termina, desgraçadamente, a tratar os professores como grupo privilegiado e gastador.

*Sociólogo

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/05/portugal-o-imperio-dos-algarismos.html

O velho velho velho velho velho Portugal

(Daniel Deusdado, in Diário de Notícias, 10/05/2019)

1. A ira

 

Só é possível governar Portugal em contexto de desgraça. Salazar intuiu isto melhor que ninguém. Mal surge algum dinheiro, algum sucesso, algum progresso, gera-se imediatamente o ambiente de insurreição. Todos somos deserdados da pátria. Entra-se então na espiral que nos remete, fatalmente, para a clássica bancarrota que se repete ciclicamente na nossa história, fruto da nossa falta de escala e de sensatez.

São justos os fenómenos de rebelião? Mais que justos. São a consequência de um nível de vida sempre abaixo da média Europa – seja a pobreza a dos pobres, da classe média e dos ricos. Até os nossos milionários são pequeninos milionários.

Manter o país a funcionar (agora em moldes europeus) dá demasiado prejuízo. Manter os portugueses felizes é impossível porque a verdadeira fortuna está sempre além. Por isso, em momentos críticos, ou quando o sucesso se torna impossível, navegamos ou emigramos (na prática é a mesma coisa).

Pode prosperar-se em Portugal? Só à custa da miséria alheia (baixos salários ou fuga fiscal). E não há el dorados para escalar globalmente a pátria.

2. Vacas magras

Jorge Nascimento Rodrigues recorda-nos, no livro “Portugal na Bancarrota – Cinco Séculos de História”, que a primeira bancarrota surgiu em 1560 quando a viúva de D.João III não sabia como pagar a aventura dos Descobrimentos aos banqueiros da Flandres. Nos duzentos anos seguintes, com o ouro do Brasil, andamos de costas direitas… até chegarmos ao século XIX depauperados. Daí para a frente surgiram mais quatro falências públicas (entre 1837 e 1875). Sabemos depois o que foi o turbilhão da República ou a exceção da ditadura de boas contas e péssima vida. E finalmente as traumáticas bancarrotas do pós-25 de Abril.

Isto vai-nos ficando no sangue e nem sequer percebemos porque estamos geneticamente condicionados para voltar ao abismo. O esgotamento do modelo económico sucede em todo o lado mas, num país com pouca aptidão para a poupança ou consolidação das contas, o fim de cada ciclo é mais uma hipótese de destrambelhamento.

Há um aforismo bíblico que se aplica na íntegra a Portugal: o Faraó do Egipto teve um sonho em que as vacas magras comiam as gordas e continuavam magras. Eternamente magras.

Não temos criação de riqueza suficiente para sustentar distribuições de prosperidade baseada na pressão do voto. A equação portuguesa só consegue alterar-se quando o capital ou recursos estrangeiros afluem: foi o ouro e as especiarias há séculos, foi a mão-de-obra barata cá (ou lá, a enviar remessas com sabor a sangue, suor e lágrimas). Agora são os engenheiros baratos, o imobiliário e o turismo.

Sim, contudo, recuperamos, tal como agora. Há novas cidades, nova gastronomia e vinhos de excepção, há paisagem e a natureza que resta. Também há ainda portugueses que não tratam mal os turistas.

Este bouquet permitiu-nos chegar ao atual momento, razoavelmente saudáveis, depois de brutalmente esventrados pela dupla traição: da banca, dos seus largos critérios; e da dívida pública por via da ilimitada visão de vacas gordas. (Ou como dizia Sócrates, a dívida é eterna).

Mas como não dependemos de nós para nos mantermos à tona, logo que o afluxo exterior abranda, as contas nacionais mergulham no vermelho muito rapidamente. Lembrete: continuamos com uma dívida pública que ainda está acima dos 120 por cento do PIB e uma conta de juros tão alta que o défice subsiste – apesar do saldo primário do orçamento ser positivo.

É por isso que não conseguimos devolver os anos roubados a quase ninguém. Salvam-se apenas umas minorias caláveis com gastos baixos (os professores dos Açores, por exemplo); salvam-se os que têm muito muito muito poder e adequam a máquina legislativa para os seus interesses (ainda se lembram que o IVA para tauromaquia desceu em Janeiro?).

Como fazer justiça a todos com os impostos de apenas alguns? O populismo nasce neste “inconseguimento” sistemático.

3. A outra bancarrota

Comparar o dinheiro que se mete na banca ao que não se consegue entregar aos professores é fácil. Mas significa despejar gasolina em cima da democracia.

Sem banca um país colapsa de imediato, por mais que isto seja doloroso.

Os diferentes Governos (em todo o mundo) não salvam a banca para salvar os banqueiros ou os seus acionistas. Estes acabam (irritantemente) beneficiados por um objetivo maior: salvar o dinheiro dos cidadãos – e da economia – em geral.

Muitos desses banqueiros deviam ser proibidos de ter mais atividade na banca? Sim. Alguns mereciam prisão? Sim. Mas nada disto traz o dinheiro de volta. E só os ineficientes tribunais o podem fazer, décadas depois.

Realmente, os nossos melhores MBA, ou PhD, ou pós-pós-pós doutorados nas melhores escolas, têm tanta doutrina económica que já não vêm a realidade à frente. Têm tanta ambição pessoal, ganância nos lucros e respetivas comissões, e desejo de poder, que alienam tudo em favor da promoção pessoal.

Isto é intrinsecamente português? Não. Mas, por acaso, não resta praticamente nenhum banco português relevante, à exceção da Caixa, dada a nossa canhestrez financeira.

4. A História

Estamos reféns. Dos factos, das opiniões das redes sociais, dos pequenos-médios ou grandes lobbies, dos eternos senhores do capital financeiro, da erosão do tempo sobre os justos direitos. Assim chegaremos à ausência de avaliações nas escolas no fim do terceiro trimestre. Ou aos camiões-cisternas.

Nesta deceção intrínseca nos portugueses, apesar do maravilhoso país, a melancolia entranha-se. E a vida avança. Falham os sonhos, ficam as obrigações de manter a pátria e os direitos dos outros por via fiscal. Por isso esta tendência de resvalarmos facilmente para o conforto do autoritarismo. Tudo está bem se ninguém for beneficiado – exceto uma subterrânea oligarquia de interesses. E todos querem ser essa exceção em silêncio.

Assim foi possível viver 48 anos com a ditadura, na mais santa e transversal pobreza. E assim lá voltaremos um dia, resignados, como sempre aconteceu. Cheios de razão, de mãos a abanar, sob controlo estrangeiro.

Dolorosamente, a questão que resta é sempre a mesma: conseguimos criar mais riqueza para distribuir por todos ou ficaremos eternamente a discutir, insanamente, a fatalidade do nosso estranho modo de vida?


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

A utopia do “Trickle-Down”

Em conversas informais ou no mais responsável dos meios de comunicação, surgem regularmente referências directas ou indirectas ao chamado “trickle down economics”.

No apoio ou na crítica ao modelo de política económica seguido (ou imposto pelos “negociadores” dos programas de apoio financeiro do FMI, da UE e do BCE) na Zona Euro, está sempre implícita a discussão daquela teoria que na mais simples das suas versões se traduz na ideia que as reduções de impostos e outros benefícios fiscais de que beneficiem as grandes empresas e as famílias mais ricas, acabarão por se converter também em benefícios para os segmentos menos favorecidos do conjunto da população.

Embora a sua entrada no léxico corrente seja recente, a origem do conceito é bastante antiga e por isso mesmo são estatisticamente observáveis os efeitos práticos da sua aplicação, mesmo quando a simples observação empírica bastaria para o refutar. Sem truques nem malabarismos desnecessários basta recordar que o período áureo dos seus defensores coincidiu com a eleição de Ronald Reagan para presidência norte-americana e com a aplicação da chamada “Reaganomics” – designação pela qual ficou conhecida a política económica adoptada pelo presidente Reagan, durante a década de 80, assente nos quatro pilares da redução dos gastos públicos, da redução dos impostos sobre a renda e os ganhos de capital, da desregulação da economia e do controlo da oferta de moeda para reduzir a inflação – , ou seja, o predomínio das teorias económicas orientadas para o lado da oferta e directamente influenciadas pela teoria monetarista de Milton Friedman.

Daqui a transformar esta corrente de pensamento na espinha dorsal dos tecnocratas do FMI e do Banco Mundial e a “exportá-la” por esse mundo fora, foi apenas um pequeno passo. Aproveitando os pedidos de auxílio financeiro dos Estados em maiores dificuldades económicas, transformando aqueles princípios em condições obrigatórias, foram os Estados convertidos em presas fáceis de interesses alheios, que rapidamente os desfiguraram em estruturas economicamente dependentes do fornecimento de bens e serviços básicos.

Foi assim que assistimos durante a última geração a uma expansão forçada da globalização (com o que este conceito apresenta de mais prejudicial em termos de aculturação e de destruição de tecidos produtivos autóctones) e á difusão da ideia das enormes vantagens que adviriam para todos duma política de reduções fiscais para uma minoria que não podia deixar de gerar benefícios colectivos. Baixaram-se os impostos sobre os lucros (em especial os das grandes empresas de capitais transnacionais), sobre os rendimentos de capital (gerados nos mercados globais de acções e nos recém inventados “offshores” financeiros), liberalizaram-se mercados (eliminando barreiras alfandegárias e normas protectoras de territórios e trabalhadores) para chegarmos à situação em que os Estados, privados de receitas suficientes se viram empurrados para o recurso ao endividamento como única via para o financiamento das suas políticas.

Independentemente da qualidade destas políticas, o resultado hoje visível foi o empobrecimento geral das famílias e dos Estados (mais gravoso ainda quando o endividamento foi canalisado para investimentos de duvidosa ou nula rentabilidade económica e social), e o aproveitamento que do mesmo está a ser feito.

A lista de prejudicados já vai longa e nela se incluem Estados da América Latina, empurrados nos anos 80 e 90 do século passado pela situação de défices crónicos nas suas balanças comerciais, países do Sudoeste Asiático, empobrecidos pelo sistema de comércio mundial e pela fragilidade das suas divisas, a Rússia, economicamente devastada na sequência da desagregação da União Soviética, e por fim os países periféricos da Zona Euro.

Uma versão actualizada do trickle down surgiu numa UE onde impera a ideia de que uma austeridade expansionista – traduzida nas palavras dum dos seus campeões, Passos Coelho, como um processo de empobrecimento que nos conduzirá à riqueza – constituirá a panaceia salvadora e remissora de todos os nossos males. Asseguram-nos que um aumento selectivo de impostos (indirectos e directos sobre os assalariados), uma redução de salários (em termos efectivos e/ou através do aumento dos horários de trabalho) e de prestações sociais, tudo factores que reduzirão o rendimento disponível das famílias e a receita directa do Estado, constitui a melhor solução mas não explicam o seu evidente fracasso – bem expresso nas dificuldades que atravessa a Europa do Sul e na manutenção dos elevados níveis da sua dívida pública – nem sequer as conclusões do relatório sobre políticas fiscais apresentado pelo FMI em 2012.

Neste documento (Fiscal Monitor Update de Janeiro de 2012) concluía-se que afinal a grande preocupação dos “mercados” não é tanto a consolidação orçamental a médio prazo mas, principalmente o crescimento económico de curto prazo; resultado que valida apenas a mais lógica e elementar das preocupações de qualquer investidor: assegurar o retorno do capital investido e dos juros.

O fracasso do trickle-down confirma-se com a revelação de que os despojos do crescimento económico se têm acumulado progressivamente em direcção ao segmento dos 10% mais ricos, enquanto os restantes 90%, que até ao início dos anos 1950 acumularam 80% dos ganhos do crescimento económico, estão agora praticamente estagnados.

Do mesmo modo a redução de impostos para os mais ricos, não está a escorrer até aos mais desfavorecidos e, pior, nem sequer está a fomentar um maior crescimento económico, como o comprovam as fracas taxas de crescimento das economias ocidentais e o mostra o gráfico que compara a evolução dos lucros e do investimento nos EUA entre 1965 e 2005.

Este fenómeno, de natureza global, é regularmente comprovado por dados das mais diversas origens. Também observável na situação nacional, como é o caso de um estudo de Eugénio Rosa onde este mostra a evolução comparativa da repartição da riqueza reveladora que desde o início da crise (2007) que os ganhos do factor capital não têm deixado de crescer enquanto os do factor Trabalho têm caído de forma regular.

De um modo geral é seguro afirmar que ao encontro das pretensões dos teóricos da corrente neoconservadora e dos defensores da actuação na economia pelo lado da oferta (supply-side economics) a pressão tributária sobre as empresas diminuiu nas últimas décadas, com o recebimento de impostos das empresas em percentagem do PIB a diminuir gradualmente, e que isso tem sido acompanhado por um declínio gradual do investimento empresarial; na prática as empresas estão a distribuir uma parte crescente dos seus lucros pelos accionistas, o dinheiro está a acumular-se no topo da pirâmide social e não se notam os sinais de qualquer deslizamento até aos estratos mais desfavorecidos.

E se a situação em Portugal não é ainda pior dever-se-á ao facto das transferências sociais ainda conseguirem minimizar esse efeito.


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/a-utopia-do-trickle-down/

ODiario.info » Entre 2015 e 2018 os salários reais diminuem em Portugal

Contrariamente à ideia que o actual governo e os órgãos de comunicação social têm procurado fazer passar junto da opinião pública, o poder de compra quer das remunerações base quer do ganho médio dos trabalhadores do sector privado diminuiu entre 2015 e 2018. São os dados do Ministério do Trabalho que o confirmam.

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'Armadilha dourada': como Rússia e China estão dispostas a pôr fim à hegemonia do dólar

Barras de ouro (imagem de arquivo)
© AP Photo / Michael Probst

Os analistas americanos entenderam finalmente por que é que a Rússia e a China estão comprando cada vez mais ouro: o objetivo de Moscou e Pequim é mudar as regras na economia global e pôr fim à hegemonia do dólar. A Sputnik explica como a Rússia e a China podem estar preparando uma armadilha econômica para o Ocidente.

Segundo os dados do Conselho Mundial do Ouro (WGC, na sigla em inglês), no ano passado os bancos centrais por todo o mundo compraram 651 toneladas de ouro, ou seja, 74% mais do que em 2017 – o maior volume desde 1971, quando os EUA abandonaram o padrão ouro. Metade desse volume foi comprado pelo Banco Central russo.


Hoje o Banco Central russo dispõe de 2.112 toneladas de ouro no valor de 87 bilhões de dólares (R$ 342 bilhões). Nos últimos dez anos, a cota-parte do ouro nas reservas russas aumentou de 3,5% para 18,6%, enquanto os investimentos em títulos do Tesouro dos EUA e dólares atingiram seu ponto mínimo. Como resultado, atualmente a Rússia ocupa o quinto lugar na lista dos países com maiores reservas de ouro.

O segundo lugar entre os maiores compradores de ouro pertence à China, que dispõe de 1.853 toneladas do ouro no valor de 76 bilhões de dólares (R$ 301 bilhões), tendo aumentado significativamente suas compras de ouro no fim de 2018. Um outro grande comprador de ouro é a Índia, cujas reservas deste metal precioso cresceram no ano passado em 42 toneladas.

Além disso, a incerteza política e econômica global levaram os bancos centrais a diversificar suas reservas e a aumentar os investimentos em ativos seguros e de maior liquidez, informou o WGC.

"O ouro é a moeda mais forte do mundo, estando apenas sujeita a uma inflação natural mínima, sendo um bom seguro contra as flutuações do dólar. É um recurso altamente líquido, enquanto grandes reservas de ouro fortalecem a confiança dos investidores no rublo russo", indica o analista Ronald-Peter Stoferle ao jornal alemão Neue Zurcher Zeitung.

O ouro ganha cada vez mais importância como um seguro contra o possível calote dos EUA. Segundo o analista financeiro Bill Holter, a Rússia e a China entendem que será muito difícil para os EUA amortizar suas dívidas e, no fim de contas, a compra de títulos do Tesouro dos EUA não faz sentido.


Nesta situação, "como é que eles [a Rússia e a China] se defendem? Eles estão comprando ouro. O ouro e a prata são concorrentes diretos de qualquer papel-moeda", explica.

Os analistas estão certos de que, na situação atual, a compra de metais preciosos é a melhor estratégia tanto para os bancos centrais, como para os investidores privados.

"No mercado da dívida pública dos EUA está sendo formada a maior bolha na história. O ouro e prata estão muito subvalorizados. Por isso, agora é de apostar contra a dívida pública e comprar ativos fortes, como o ouro e a prata. Nenhum político ou chefe do Fed [banco central dos EUA] é capaz de mudar isso. Nada pode impedir o crescimento explosivo dos preços do ouro que iremos observar no futuro", explicou o corretor Gregory Mannarino.

Os maiores banco de investimento apoiam essa previsão. Segundo o Goldman Sachs, a emissão incontrolada de dólares ameaça cada vez mais a estabilidade da economia global e levará ao aumento dos preços dos ativos reais, em primeiro lugar do ouro.


Mais um fator que contribuirá para o aumento drástico dos preços do ouro é a redução de sua produção. Segundo os especialistas da Newmont Goldcorp, a produção de ouro começará a cair nos próximos anos, atingindo em 2022 o nível do início do século XXI. Alguns cientistas avisam que as reservas de ouro na Terra estarão esgotadas até 2034.

Bill Holter está certo que, na véspera do colapso dos mercados da dívida, a Rússia e a China irão comprar tanto ouro quanto possível.

"O plano ambicioso de Moscou e da China visa esgotar as reservas de ouro do Ocidente. Quando surgirem problemas com o fornecimento desse metal, a Rússia e a China conseguirão derrubar a hegemonia do Tesouro dos EUA e do dólar como moeda de reserva e estabelecerão suas regras na economia global", concluiu Holter.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/economia/2019050813832777-armadilha-dourada-como-russia-e-china-estao-dispostas-a-por-fim-a-hegemonia-do-dolar/

ODiario.info » O défice de 0;5% conseguido à custa do desenvolvimento do país e do bem-estar dos portugueses

O governo PS não se cansa de elogiar a redução do défice orçamental da forma drástica como está a ser realizada, como isso fosse o objetivo principal de toda a política governamental. Mas o “milagre Centeno” é uma ilusão, que fica desmontada se se explicar como é que essa redução foi conseguida e quais as consequências para o país e para os portugueses. Foi conseguida à custa da degradação da Administração Pública central; da redução da despesa com Saúde e Educação; de um investimento público mais do que insuficiente. E deve lembrar-se que Centeno poupou nos direitos do povo, mas poderia ter poupado muito mais se não enterrasse milhões na banca e numa dívida impossível de pagar.

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References

  1. ^ endereço (www.odiario.info)
  2. ^ odiario.info (odiario.info)

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O défice de 0;5% conseguido à custa do desenvolvimento do país e do bem-estar dos portugueses

Eugénio Rosa    04.maio.2019 
EUGENIOROSA 04O governo PS não se cansa de elogiar a redução do défice orçamental da forma drástica como está a ser realizada, como isso fosse o objetivo principal de toda a política governamental. Mas o “milagre Centeno” é uma ilusão, que fica desmontada se se explicar como é que essa redução foi conseguida e quais as consequências para o país e para os portugueses. Foi conseguida à custa da degradação da Administração Pública central; da redução da despesa com Saúde e Educação; de um investimento público mais do que insuficiente. E deve lembrar-se que Centeno poupou nos direitos do povo, mas poderia ter poupado muito mais se não enterrasse milhões na banca e numa dívida impossível de pagar.

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Sobre o 25 de Abril comemorado, o de 1974, sobre o 25 de Abril de protesto, o de agora

(Por Júlio Marques Mota, in A Viagem dos Argonautas, 25/04/2019)

Júlio Marques Mota

Sobre o 25 de Abril de 1974, o de portas mil  que ao povo se abriram, já várias crónicas escrevi, sobre o de agora o meu protesto  é lavrado através de uma outra pessoa, Thomas Fazi, e de um outro país, a Itália, uma vez que a descrição do autor sobre este país, com as devidas adaptações, se adaptaria  à perfeição ao caso português. (Ver o texto de Fazi). https://aviagemdosargonautas.net/2019/04/25/a-crise-organica-de-italia-por-thomas-fazi/

Sobre a Itália e a Itália uma pequena síntese do que nos diz  o autor:

 

“O marxista italiano Antonio Gramsci cunhou o termo “crise orgânica” para descrever uma crise que difere das crises financeiras, económicas ou políticas “comuns”. Uma crise orgânica é uma “crise abrangente”, abrangendo a totalidade de um sistema ou ordem que, por qualquer razão, deixou der ser  capaz de gerar consenso social (em termos materiais ou ideológicos). Tal crise põe a nu contradições fundamentais no sistema que as classes dominantes não são capazes de resolver. As crises orgânicas são ao mesmo tempo económicas, políticas, sociais e ideológicas – em termos gramaticais, são crises de hegemonia – e geralmente levam à rejeição de partidos políticos estabelecidos, políticas económicas e sistemas de valores. No entanto, estas crises não levam necessariamente  ao colapso rápido da ordem dominante. Gramsci descreveu estas situações como interregna em que “o velho está a  morrer e  o novo ainda não pode nascer” e durante o qual pode aparecer “uma grande variedade de sintomas mórbidos.

Gramsci estava a falar de Itália em 1910. Um século depois, o país enfrenta outra crise orgânica. Mais especificamente, é uma crise do modelo pós-Maastricht do capitalismo italiano, inaugurado no início da década de 1990. Esse modelo, defendo, pode ser descrito como um tipo peculiar de capitalismo comprador – um termo geralmente usado no contexto do antigo sistema colonial para descrever um regime no qual as classes dominantes de um país se aliam a interesses estrangeiros em troca de um papel subordinado dentro da hierarquia dominante de poder. (…)

Como Fritz W. Scharpf, antigo director do Max Planck Institute for the Study of Societies (MPIfG), muito bem explicou  o regime do euro pode ser entendido  como um processo de “convergência estrutural forçada”, destinado a impor o modelo económico do Norte da Europa, o  de crescimento sustentado pelas exportações e  pela maximização do lucro  (modelo bem representado por países como a Alemanha e os Países Baixos),  às muito diferentes economias políticas dos países do Sul, como a Itália, que tendem a ser muito mais orientadas pela procura interna e pelos salários. Scharpf observa que “o impacto económico do atual regime do euro é fundamentalmente assimétrico. Ele encaixa-se  nas condições estruturais e nos interesses económicos das economias do norte da Europa  e entra em conflito com as condições estruturais das economias políticas do sul, que assim são condenadas  a longos períodos de declínio económico, estagnação ou baixo crescimento. (…)

Compromissos vinculativos da UE permitem que os governos implementem reformas impopulares em casa, enquanto se empenham  em ‘transferir a culpa’ para a ‘UE’, mesmo que eles próprios tenham desejado tais políticas” (sublinhado do autor).

Em lado nenhum isto é mais claro do que no caso italiano. E isso provavelmente porque a economia mista da Itália do pós-guerra, centrada no Estado, foi vista pelas elites dominantes do país como sendo particularmente incompatível com o paradigma neoliberal que surgiu na década de 1980. A Itália era vista como tendo forte necessidade de  “reformas” de longo alcance, embora nenhum consenso popular apoiasse tais políticas. Assim, Maastricht passou a ser visto por uma grande parte do establishment italiano como o meio pelo qual se iria alcançar uma transformação radical – ou neoliberalização – da economia política do país. Guido Carli, o ministro da Economia da Itália, altamente influente de 1989 a 1992, não fez segredo disso. Nas suas memórias, Carli escreveu:

“A União Europeia implica … o abandono da economia mista, o abandono do planeamento económico, a redefinição das modalidades de composição da despesa pública, a restrição dos poderes das assembleias parlamentares a favor do governo. . o repúdio do conceito de disposições sociais livres (e a subsequente reforma dos sistemas de saúde e de segurança social) . . . . a redução da presença do Estado nos sistemas financeiros e industriais . . . o abandono dos controlos de preços e das tarifas.”

É evidente que Carli entendia a União Europeia, antes de mais, como uma forma de liderar nada mais  nada menos do que a transformação total da economia italiana – uma transformação que não teria sido possível, ou teria sido extremamente difícil, sem as restrições externas autoimpostas (condicionalidade externa ) criadas primeiro por Maastricht e depois pelo euro. (…)

Capitalismo Comprador na Itália

Do ponto de vista do establishment, o facto de a UEM implicar também a desindustrialização e a “mezzogiornificação” do país – em benefício das empresas alemãs e francesas, que adquiriram um grande número de empresas (ou nelas adquiriram participações significativas) em Itália e noutros países periféricos – e a sua despromoção para um papel subordinado dentro da hierarquia de poder europeia, foi um pequeno preço a pagar pela vitória da guerra contra o trabalho no país.  Nesse sentido, o regime económico da Itália pós-Maastricht pode ser comparado a uma forma de capitalismo comprador – um regime semicolonial em que as classes dominantes do país estão essencialmente aliadas a interesses estrangeiros em troca de relações de classe internas mais favoráveis. Ironicamente, a esquerda pós-comunista desempenhou um papel crucial na legitimação da narrativa da condicionalidade externa; no início da década de 1990, a sua subordinação ideológica ao neoliberalismo era tão profunda que os  seus principais representantes tinham vindo a acreditar que a União Europeia era realmente uma oportunidade a não perder  para a Itália se juntar finalmente à família dos países “modernos” e “virtuosos”. Não é coincidência que o “tratamento de choque económico” da década de 1990 (particularmente o desmantelamento e a privatização da outrora vasta gama de indústrias estatais da Itália) tenha sido promovida, em grande parte, pelos governos de centro-esquerda.

Vemos a mesma lógica da restrição externa que está a ser  aplicada hoje. Está cada vez mais claro, por exemplo, que a chamada crise da dívida soberana de 2010-11 não foi uma resposta “natural” dos mercados à dívida pública “excessiva” da Itália, mas foi em grande parte “projetada” pelo Banco Central Europeu (BCE) para forçar os países a implementar a austeridade. (…).

A crise da dívida, combinada com a reação tardia do BCE, levou os media italianos a lançarem apelos apopléticos para se conter o défice  através de medidas de austeridade de  emergência e a lançarem  o governo “tecnocrático” de Mario Monti. (…) Como diz um relatório recente do BCE, “embora o euro seja uma moeda fiduciária, as autoridades orçamentais dos Estados-Membros do euro renunciaram à possibilidade de emitir dívida que possa ser passível de incumprimento “.

Isto dá um enorme poder ao BCE, não eleito e não responsável, que pode (e usa) os seus poderes de emissão de moeda para impor as suas próprias políticas a governos recalcitrantes (como fez na Grécia em 2015, quando cortou a sua liquidez de emergência aos bancos gregos, a fim de pôr o governo Syriza  em extrema dificuldade e forçá-lo a aceitar o terceiro memorando de resgate) ou mesmo para forçar os governos a resignarem , como fez na Itália em 2011. Como o Financial Timesreconheceu recentemente, o BCE efetivamente “forçou Silvio Berlusconi a deixar o cargo em favor de Mario Monti, não eleito”, ao fazer da sua saída  a condição prévia para um maior apoio do BCE aos títulos e bancos italianos. (…)

Essa experiência foi um lembrete revelador para a classe política italiana do pacto faustiano que tinham assinado ao aderirem à zona euro. Ao renunciarem à soberania económica do seu país, fizeram também depender a sua sobrevivência política da boa vontade de tecnocratas não eleitos. (…). Mas agora que as contradições fundamentais do sistema europeu têm estado a vir à tona, as elites políticas italianas viram-se  sem as ferramentas económicas necessárias para manter o consenso social. Como escreve Scharpf, em países como a Itália, a união monetária não implicou simplesmente enormes custos socioeconómicos, mas também teve “o efeito de destruir a legitimidade democrática do governo”.

Um corolário desta perda de legitimidade democrática é que os apelos à lógica do constrangimento externo já não têm o mesmo peso que costumavam ter. Os cidadãos – não apenas na Itália – estão cada vez menos dispostos a justificar o status quo com base em regras arbitrárias e punitivas e diktats externos, cuja natureza política (ou seja, não neutra) se torna cada vez mais evidente. (…)

À medida que cada vez mais pessoas começam a reconhecer a natureza antidemocrática e neocolonial da União Europeia, estas táticas de medo deixam de funcionar.“

Muito do que é dito neste texto de Fazi poderia ser visto através do caso português. Deixemos o leitor encontrar essas relações com a leitura integral do texto de Thomas Fazi.

O que nos cabe aqui lembrar é a posição de Centeno  e de António Costa relativamente  à Itália em que estes  assumem que Portugal é um caso exemplar de que se podem respeitar as regras de Bruxelas  e prosseguir uma política económica que nos permita sair da crise. 

Como se alguma vez fosse  possível ver que num quadro recessivo geral, uma economia como a nossa arrasada por uma austeridade selvagem aplicada intensamente durante 4 anos,  imposta exatamente por Bruxelas e aplicada pelos seus leais servidores, em que a coluna da dignidade se vergava por completo aos interesses, à mentalidade e aos objetivos da Troika, potência ocupante,  pudesse sair da crise através da aplicação de  uma politica económica austeritária, recessiva e contracíclica  como tem sido seguida por Portugal.

Aliás, num  documento oficial , vai-se ao ponto de se defender uma política austeritária, recessiva e contracíclica porque  estaríamos já a caminhar para os bons tempos e é nestes que se fazem poupanças, se corta na dívida.  Ninguém viu até hoje um país a sair da crise neste quadro e com estas políticas. Seguramente não!

Descansemos. Vêem-no Centeno, António Costa , vêem os candidatos ao Parlamento Europeu que calcorrearão  as estradas de Portugal a pregar louvores à Europa que nos massacra.  Não o vêem os trabalhadores deste país, não o vêem os professores de todos os graus de ensino, não o vêm nem os utentes nem os profissionais do Serviço Nacional de Saúde e qualquer que seja a sua especialidade no campo da saúde, não o vêem os utilizadores e os profissionais dos serviços públicos de transportes, não o vêem  os trabalhadores desprotegidos por  um Código do Trabalho que os não protege, não o vêem  todos aqueles que com formação superior lhes é oferecido trabalho precário e como tal remunerado, e podíamos continuar… Tanta gente que não vê o que a maioria dos nossos políticos dizem que vêem.

Mas os nossos políticos continuam a afirmar alto e bom som que continuam no bom caminho ao caminharem, num quadro recessivo geral na Europa e em particular em Portugal, a procurar alcançar um orçamento público equilibrado,  onde objetivamente o Estado se anula como  ator económico quando nem regulador quer ser. Desta filosofia politica central do défice zero na politica de Bruxelas, um excerto do programa de estabilidade do governo português é disso um  bom exemplo:

“A necessidade de, nesta fase, manter saldos primários positivos resulta do modo como nos últimos 25 anos foram financiadas as despesas da Administração Pública em Portugal. Entre 1995 e 2015 (Gráfico II.1.4) quase 20% dessa despesa foi financiada com dívida, através da geração de um défice das Administrações Públicas médio de 5% do PIB em cada ano. Nesta legislatura esta percentagem reduziu-se para menos de 4% (Gráfico II.1.4). Sem o impacto das medidas temporárias registou-se em 2018 um excedente. A alteração no financiamento da despesa pública verificada ao longo desta legislatura consiste numa verdadeira alteração da pressão fiscal no futuro. A totalidade da despesa pública hoje é financiada com receitas do próprio ano. Isto libertou, apenas entre 2015 e 2018 cerca de 6.000 milhões de euros anuais de impostos no futuro. Esta é a diferença entre a pressão fiscal permanente em 2015 e 2018. Em apenas três anos devolveu-se às gerações futuras o equivalente a todo o orçamento da Educação em Portugal. A pressão fiscal permanente está no valor mais baixo desde que há dados comparáveis, ou seja, desde 1995. A fatia de impostos futuros que é gasta pelos contribuintes de hoje está no seu valor mais baixo, o peso dos impostos futuros encontra-se em mínimos históricos. Assim, as gerações futuras poderão gerir as suas decisões entre consumo presente e futuro com uma liberdade que os exercícios orçamentais atuais não permitem.( o itálico é nosso)“

PROGRAMA DE ESTABILIDADE, 2019-2023.

Tudo isto nos faz lembrar um conto de Andersen  As roupas novas do Imperador  de que aqui vos deixo um excerto :

“— Mas que roupas tão bonitas! — exclamaram todos. — Como assentam bem! E que padrão! Que cores! Na realidade, é um fato sumptuoso!

— O pálio sob o qual Vossa Majestade caminhará na procissão, já está lá fora —disse o mestre de cerimónias.

— Já estou pronto! — afirmou o imperador. — Assentam-me mesmo bem as roupas!

E mais uma vez deu uma volta em frente do espelho, fingindo que estava a admirar as belas roupas.

Os camareiros que iriam segurar na cauda tactearam desajeitadamente o chão como se estivessem a levantá-la e depois fizeram de conta que seguravam nela. Também eles estavam com medo que alguém reparasse que eles não conseguiam ver nada.

E assim caminhou o imperador, em procissão debaixo do majestoso pálio. Todas as pessoas que estavam na rua e à janela exclamavam:

— Oh! Como são maravilhosas as roupas novas do imperador! Que belo manto ele leva sobre o casaco! Como lhe fica bem!

Ninguém queria que pensassem que não conseguiam ver nada, pois isso significaria que ou eram estúpidos ou incompetentes no seu trabalho. Nenhuma outra roupa do imperador tinha alguma vez sido tão gabada como esta.

— Ah! O imperador vai nu! — exclamou uma criança.

— É apenas a voz da inocência! — desculpou-se o pai da criança.

Mas as pessoas começaram a passar palavra umas às outras, acerca do que a criança tinha dito.

— O imperador vai nu! Aquela criança ali afirma que o imperador vai nu!

Par fim, já todas as pessoas gritavam:

— O imperador vai nu!

O imperador sentiu-se embaraçado, pois no fundo pensava que eles tinham razão, mas disse para si próprio:

— Tenho de manter-me firme até ao fim da procissão.

E assim prosseguiu, ainda mais emproado do que antes, e os camareiros continuaram a segurar na cauda que não existia.

Contos de Andersen, Porto, Ed. AMBAR, 2002.

Há quem veja uma coisa e há os que por interesse ou por medo veem uma outra coisa. A correspondência à situação presente parece-nos, pois, imediata.

E com isto boa leitura do texto de Fazi, uma boa comemoração do 25 de Abril de 1974 e um profundo   sentimento de revolta perante a situação de Portugal no Abril de agora,  é tudo o que vos desejo.

Coimbra, 24 de Abril de 2019


Fonte aqui


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Joseph Stiglitz diz que Trump quer voltar à lei da selva

Quando há um conflito entre dois países, eles são resolvidos no soco e vence o mais forte, criticou.

Matéria da agência de notícias EFE diz que o professor norte-americano Joseph Stiglitz, vencedor do Nobel de Economia em 2001, criticou, em uma coluna publicada pela emissora “CBNC”, os acordos comerciais dos Estados Unidos, que, segundo ele, foram injustos. Stiglitz fez reflexões que estarão em seu novo livro, intitulado pdf “People, Power and Profits: Progressive Capitalism for an Age of Discontent” (2.15 MB) (Pessoas, poder e lucros: capitalismo progressivo para uma era de descontentamento), no qual discute os problemas da globalização.

O professor afirmou que os críticos da globalização estão errados quando dizem que os acordos comerciais foram injustos com os Estados Unidos e com a Europa, um argumento repetido por Trump para conquistar votos entre eleitores de classe média que perderam renda nos últimos anos. O problema, segundo o economista, não é a injustiça, mas sim que os interesses das grandes empresas foram priorizados nesses acordos à custa dos trabalhadores dos países desenvolvidos e em desenvolvimento, gerando estagnação na renda.

“Nós, como país, não fizemos o que deveríamos para ajudar os trabalhadores contra os que prejudicava a globalização. Poderíamos ter garantido que globalização beneficiasse a todos, mas a avareza corporativa era simplesmente grande demais”, reconheceu o economista, que dá aulas na Universidade de Columbia, em Nova York. Stiglitz ainda afirmou que passou os últimos 20 anos criticando a forma como a globalização foi administrada pelos países, mas de um ângulo completamente diferente de outros analistas.

Ex-economista-chefe do Banco Mundial, o professor disse que se deu conta de que as regras do jogo global eram pensadas para favorecer os mais fortes no período em que ocupou o cargo. No entanto, Stiglitz fez questão de se distanciar das ideias de globalização defendidas por Trump. O economista defende a importância do estado de direito e de um sistema baseado na legalidade para a governança do comércio internacional contra a Lei da Selva proposta pelo presidente americano.

“Trump quer voltar à Lei da Selva: quando há um conflito entre dois países, eles são resolvidos no soco e vence o mais forte”, criticou o economista americano. Para Stiglitz, o caminho adotado por Trump visa um regime de comércio internacional que sirva aos interesses americanos, mas não compreende duas premissas essenciais. A primeira é que os demais países não participariam de um mecanismo desfavorável a eles. E a segunda é que China e Europa podem se unir contra os Estados Unidos.

Trump se equivoca ao culpar a globalização, seja por regras comerciais injustas ou por imigrantes não desejados. Mas os defensores da globalização também estão errados ao afirmar que ela não influenciou o drama da globalização e ao só culpar a tecnologia”, explicou o vencedor do Nobel de Economia.

Explicou o vencedor do Nobel de Economia, Joseph Stiglitz

 

Stiglitz também responsabilizou os cidadãos, de forma geral, por terem avaliado mal as consequências da globalização e do progresso tecnológico. “Precisamos de regras internacionais melhores e mais justas. Mas o que os EUA mais precisam é uma melhor gestão das mudanças que estão sendo trazidas pela globalização e pela tecnologia”, concluiu.

 


Texto original em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado


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Itália: o espelho da crise europeia

“A mais longa e profunda recessão na história de Itália.” Foi assim que o governador do banco central de Itália, Ignazio Visco, se referiu aos últimos tempos em Itália. Tem boas razões para o fazer, já que a Itália entrou de novo em recessão técnica – é a terceira vez nos últimos 10 anos – muito por culpa das sucessivas políticas de austeridade. Desde a crise financeira de 2007-08, o país ainda não regressou aos níveis de atividade económica do período anterior, e o PIB per capita diminuiu para mínimos das últimas duas décadas. O desemprego está longe de estar resolvido – a taxa de desemprego oficial está perto de 11%, sendo que o desemprego jovem supera os 32%. Cerca de 1 em cada 4 italianos encontram-se em risco de pobreza, o valor mais alto desde 1989. Além disso, o capital destruído, o elevado número de empresas que entraram em insolvência e o crédito malparado são entraves à recuperação e acentuam a fragilidade dos bancos italianos. No entanto, as origens da profunda crise italiana não se resumem apenas às políticas de austeridade levadas a cabo pelos governos recentes, de Monti a Renzi e Gentiloni (que saiu em junho de 2018). Num artigo recente, o economista holandês Servaas Storm analisa a evolução da economia italiana desde a assinatura do Tratado de Maastricht, em 1992, concluindo que este constitui um notável exemplo de “como destruir um país em três décadas.” A austeridade e as reformas estruturais neoliberais têm sido o traço principal da política italiana desde o início da integração europeia – o país tem sido o exemplo do excelente aluno europeu, cumprindo com zelo todas as orientações de Bruxelas. Storm começa por notar que a Itália viveu um período de convergência com países como a França ou a Alemanha entre a década de 1960 e a introdução do Tratado de Maastricht, em 1992. Mas algo mudou nos anos seguintes: “desde meados da década de 1990, a economia italiana começou a cambalear e depois a ficar para trás, à medida que todos os indicadores – rendimento por pessoa, produtividade do trabalho, investimento, quotas de mercado das exportações, etc. – entraram numa trajetória constante de declínio.” Este foi o preço pago pela integração europeia e por décadas de compromisso com a lógica austeritária da União Europeia. O compromisso com a ortodoxia económica é visível na evolução da economia italiana: registou sucessivos excedentes orçamentais primários (excluem o pagamento de juros da dívida), de 3% em média entre 1995 e 2008; no entanto, o rácio da dívida pública (% PIB) diminuiu bastante menos do que o pretendido, pelo impacto negativo dos cortes na despesa pública, investimento e transferências sociais no crescimento económico. A Itália foi o único país que alcançou excedentes primários consecutivos desde a crise financeira (em média, 1,3% entre 2008 e 2018). As declarações de Monti, segundo o qual o objetivo do governo de então era “destruir a procura doméstica através da consolidação orçamental”, demonstram a importância dada pela elite italiana à disciplina da austeridade. Storm percorre os anos da integração europeia em Itália, destacando o ataque ao poder de negociação dos trabalhadores italianos devido ao conjunto de reformas estruturais levadas a cabo até 2008, que incluem a redução drástica das proteções laborais e a facilitação da contratação temporária (a percentagem de trabalhadores temporários no emprego total quase duplicou entre 1990 e 2017, quando atingiu 18,5%). As reformas laborais foram acompanhadas pela estagnação dos salários reais, que “cresceram” a um ritmo anual médio de meros 0,35% entre 1992 e 2008. Storm salienta que a restrição eficaz dos salários italianos conseguiu atingir três objetivos de uma só vez – controlo da inflação, alguma redução do desemprego pela redução dos custos do trabalho e aumento significativo da parte dos lucros no PIB, o que indica um aumento da riqueza produzida apropriada pelos detentores de capital. Apesar de ter seguido à risca o consenso neoliberal europeu, a Itália nunca alcançou a prosperidade prometida. Nas palavras do autor, “com inflação baixa, restrição eficaz dos salários, o desemprego e o endividamento público em declínio, e o aumento da parte dos lucros no PIB, a Itália parecia lançada para um período de crescimento robusto. Isso não aconteceu. A operação foi levada a cabo com sucesso, mas o paciente morreu.” O resultado é o desastre anunciado: décadas de austeridade sufocaram a procura doméstica e travaram o “crescimento robusto” que se esperava, refletindo-se no declínio da indústria italiana, do investimento na produção nacional e nas atividades exportadoras. A redução do investimento ajuda a explicar o atraso tecnológico da Itália em relação a países como a França ou a Alemanha (menos rentabilidade dos investimentos diminui os incentivos à inovação que permitiria gerar ganhos de produtividade). Além disso, o contexto de adesão ao euro, o compromisso com as políticas de concorrência europeias que limitam a política industrial e a entrada de países como a China na OMC (que competem no comércio internacional com base em salários muito baixos) contribuíram para acentuar as fragilidades estruturais da economia italiana. Na última década, a compressão da procura interna significou o fecho de grande número de PME’s, destruição de postos de trabalho e acumulação de créditos malparados. É seguro afirmar, à semelhança do que escreveu o jornalista Matthew Lynn, que “a Itália não enfrenta uma crise bancária, mas antes uma crise do euro.” É por este motivo que Thomas Fazi se refere ao atual momento em Itália como uma “crise orgânica”, no sentido, cunhado por Gramsci, de uma profunda crise estrutural que ameaça a legitimidade da ordem social estabelecida ao expor as contradições fundamentais do sistema. Fazi descreve o modelo do capitalismo italiano pós-Maastricht como um “regime em que as classes dominantes do país se aliaram a interesses estrangeiros [da cúpula da União Europeia] em troca de um papel subordinado dentro da estrutura hierárquica de poder dominante”. A transferência de poderes dos estados para a União Europeia foi, como argumenta Fazi, promovida pelas elites nacionais como forma de desresponsabilização pelas reformas neoliberais implementadas, que passaram a ser apresentadas como “a vontade da UE”. Desta forma, a despolitização das decisões e o fraco envolvimento das populações reduziram os custos políticos das reformas que protegiam os interesses da elite italiana. A crise de hegemonia deste sistema, com o colapso financeiro de 2007-08 e a incapacidade de resposta das elites italianas e europeias, estão na base do recente terramoto político em Itália, com a erosão dos partidos tradicionais e a formação do governo de coligação entre o M5S e a Liga. Ambos os autores discutem as soluções para a armadilha do euro. Para Storm, estas terão de passar pelo abandono da austeridade, a recuperação dos rendimentos (para promover a procura) e a aposta no desenvolvimento tecnológico da estrutura produtiva, receita que se podia estender a países periféricos na UE, como Portugal. No entanto, a rutura com o consenso neoliberal não parece figurar entre os planos do novo governo italiano, cuja estratégia passa por exacerbar discursivamente um suposto confronto com as instituições europeias, que depois não se tem traduzido em mudanças de fundo concretas. Fazi recorda que, embora acusados de euroceticismo, tanto a Liga como o M5S foram rápidos a garantir a sua fidelidade à União Europeia depois das eleições. Além disso, algumas medidas limitadas de recuperação do consumo propostas pela coligação não resolverão os problemas estruturais do país. Uma coisa parece certa: a crise orgânica de Itália não se resolverá dentro do colete-de-forças do euro.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Não se deve economizar na repetição...

O facto desconfortável para muitos socialistas e liberais é que ‘nenhum contrato social e nenhum sistema de distribuição pode funcionar num quadro político aberto’ – isto é, sem fronteiras e sem regras sobre quem está dentro e sobre quem está fora.  A nação e o Estado são interdependentes. Tamir enfatiza neste contexto o conteúdo psicológico e cultural do nacionalismo – o aspecto da criação de representações geradoras de laço social. Eu enfatizaria igualmente os aspectos económicos. A nação, qualquer que seja a sua construção, requer um Estado que forneça aquilo que os economistas designam por bens públicos – educação, infra-estruturas, lei e ordem. O Estado, por seu lado, precisa da nação para lhe fornecer a legitimidade, a confiança interpessoal e um sentido de destino comum (…) Só uma pequena minoria de profissionais qualificados e de investidores endinheirados é que se pode dar ao luxo de andar pelo mundo em caça de redes sociais alargadas e de oportunidades económicas em expansão. Estes globalistas cosmopolitas (…) conseguiram sacudir as suas responsabilidades na sua nação de origem e não assumiram responsabilidades noutro lado (…) Como qualquer outra ideologia, o nacionalismo pode ser levado em direcções construtivas ou destrutivas (…) É melhor levarmos a sério a sua mensagem antes que seja demasiado tarde para combater os extremistas e para salvar o nacionalismo dos fascistas.[minha tradução] Ainda não acabei de ler o livro de Yael Tamir. Quando o tiver feito, talvez diga qualquer coisa por aqui. Por agora, quero apenas sublinhar excertos do prefácio, da autoria de Dani Rodrik, sobre a questão do nacionalismo, em linha com a posição em que tenho insistido. Trata-se, de resto, de um economista convencional ao qual se pode aplicar uma versão invertida de Frei Tomás: não faças o que ele diz do ponto de vista teórico e metodológico, mas faz o que ele faz em algumas áreas da economia política, graças ao institucionalismo, em geral, e a Karl Polanyi, em particular: do justamente famoso trilema da economia política internacional à valorização do Estado nacional, passando pela defesa de um certo tipo de populismo económico, associado a uma variegada desglobalização. Nenhum destes temas pode ser tratado de forma adequada no quadro da teoria económica convencional.    

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Euro = finança em roda livre

O Euro é uma fábrica de bolhas do imobiliário?

Snacks de economia política #12

Euro = finança em roda livre

Com a liberalização financeira, livre circulação de capitais e taxa de juro-base única, a zona euro tornou-se um excelente mercado de especulação imobiliária, uma verdadeira fábrica de crises que os cidadãos estão condenados a pagar.

 


Parceria editorial Rádio Transforma / Jornal Tornado


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https://www.jornaltornado.pt/euro-financa-em-roda-livre/

O euro, paraíso da especulação imobiliária

No âmbito dos acordos de Bretton Woods, os países impunham restrições aos movimentos de capitais, o que lhes permitia executar uma política monetária eficaz e manter alguma estabilidade da taxa de câmbio.
Com a revolução neoliberal, a ideologia e os interesses comerciais e financeiros acederam ao poder e impuseram a liberalização financeira e a livre circulação de capitais. Os anos oitenta e noventa foram esclarecedores quanto aos efeitos desta política. As crises financeiras na América Latina e na Ásia, com ondas de choque que se estenderam ao resto do mundo, mostraram o poder desestabilizador dos capitais especulativos. Jagdish Bhagwaty, um notável defensor do livre comércio, acabou por escrever um texto notável de crítica demolidora dos argumentos em defesa da livre circulação de capitais.
Joseph Stiglitz defende há muito tempo a necessidade de os países reduzirem a volatilidade do câmbio e o risco de bolhas especulativas através do controlo dos movimentos de capitais de curto prazo. Desde a mais recente crise financeira que a sua posição se tornou mais insistente (veraqui). 
O reverso da entrada de capital num país é o seu endividamento em moeda estrangeira, o que tem consequências devastadoras quando se verifica uma crise de confiança, caso em que a especulação contra a moeda produz uma desvalorização que o stock de divisas não consegue travar e, em consequência, aumenta drasticamente o serviço da dívida em moeda nacional. A Turquia é apenas um caso recente. Face às consequências da crise financeira de 2007-8, até oFMI já aceita o controlo dos movimentos de capitais como instrumento de uma política económica respeitável.
Porém, nada disto se aplica à Zona Euro. Como afirmo no vídeo, as bolhas do imobiliário que estão em crescimento na Europa, e também em Portugal, acabarão por rebentar e produzir os estragos que já conhecemos. É o preço de termos abdicado da soberania para estarmos numa zona onde o capital tem toda a liberdade para circular e especular. Toda a liberdade para sujeitar a sociedade aos seus desvarios e para impor a socialização dos estragos que produz.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

O BCE deve levar a cabo uma reviravolta nacional com os seus reinvestimentos

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

O BCE deve levar a cabo uma reviravolta nacional com os seus reinvestimentos

text 8 Marcello-Minenna Por Marcello Minenna

Publicado por Financial Times, Alphaville, em 24 de janeiro de 2019 (texto original aqui)

Este texto é de Marcello Minenna, director de Análise Quantitativa e Inovação Financeira da Consob, a entidade reguladora dos valores mobiliários italiana. Milenna considera que o principal programa de reinvestimento do BCE iria favorecer os países menos endividados – a Alemanha – a menos que o BCE introduza alguma partilha de riscos. As opiniões expressas aqui são as suas opiniões pessoais e não refletem necessariamente as opiniões da Consob.

 

Esta semana, o Conselho de Administração do Banco Central Europeu irá ter a sua primeira reunião de política desde a sua decisão de parar com o aumento das suas compras de ativos – ou seja, o “fim” da flexibilização quantitativa. De futuro, a acomodação monetária na área do euro será limitada: o banco só reinvestirá resgates de capital gerados pelos vencimentos dos títulos adquiridos no âmbito do programa. No entanto, o BCE ainda tem uma espécie de programa de investimento. Ele ainda tem que decidir onde alocar o dinheiro proveniente desses resgates.

De acordo com algumas projeções baseadas em estimativas do BCE, em 2019, o montante total de títulos soberanos envolvidos nas recompras do Euro-sistema oscilará entre 170 mil milhões de euros e 200 mil milhões de euros. Mas mais do que o valor agregado, é a distribuição destas compras entre os vários governos nacionais que importa. Isto explica porque é que os analistas e investidores olham para a futura estratégia de reinvestimento do BCE, com especial atenção para os títulos de dívida pública dos diferentes países membros.

As atuais regras de afetação do BCE favorecem os países menos endividados com maturidades mais curtas da dívida soberana – por exemplo, a Alemanha. E deixam em desvantagem os países mais endividados, que tendem a ter maturidades mais longas. O Conselho do BCE deve pôr de lado os seus atuais critérios de afetação de recursos e anunciar que, no futuro, os reinvestimentos se concentrarão nos países mais endividados e nas obrigações a muito longo prazo.

A tabela de repartição do capital é pró-cíclica, favorecendo os países com um crescimento mais forte

O BCE refere-se a uma “tabela de repartição do capital” para afetar as suas compras de obrigações a cada país membro. A tabela de repartição é igual à participação de cada banco central nacional no capital do BCE. De acordo com o artigo 29.º dos Estatutos do BCE, o banco deve rever a tabela de repartição de cinco em cinco anos para refletir a alteração na contribuição de cada Estado para o crescimento do PIB e da população da Comunidade Europeia. Nos últimos anos, ambas as variáveis apresentaram uma tendência positiva na Alemanha e nos Países Baixos e negativa nos países da zona euro do Sul. Assim, em novembro último, o Conselho do BCE atualizou a tabela de repartição do capital, com efeitos a partir de janeiro de 2019:

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A quota do Bundesbank aumentou significativamente – de 0,82%, passando de 25,57% para 26,38% (os valores foram arredondados para centésimos de ponto percentual). O mesmo aconteceu com as ações do Banco de França e do Banco Central holandês, com +0,26% e +0,16%, respetivamente. Ao mesmo tempo, a participação no capital do BCE detida pelos bancos centrais nacionais dos países periféricos (Espanha, Itália, Grécia e Portugal) diminuiu 1,6474%.

Portanto, agora, aplique essas percentagens às compras de ativos (leve em conta a exclusão da Grécia do programa de compra). O reinvestimento em títulos do governo italiano e espanhol deve diminuir em cerca de €1milhar de milhões cada um deles em 2019. Entretanto, as recompras de títulos soberanos alemães deverão aumentar 1,24 mil milhões de euros.

A própria chave do capital e o mecanismo de ajustamento são inerentemente pró-cíclicos.

A posição da Alemanha como a principal beneficiária das compras de obrigações representa uma importante vantagem. Há cerca de três anos que os Bunds gozam de rendimentos negativos, mesmo a médio e longo prazo. E quando a dívida não nos custa nada, o mundo sorri para nós. O oposto acontece em países onde os rendimentos elevados da dívida continuam a representar um fardo, especialmente se eles já estão em dificuldade .

(A chave de repartição do capital não é tudo, no entanto. Na prática, as compras históricas de QE desviaram-se da chave de capital. Em termos cumulativos, até novembro de 2018, estamos a falar de mais 7,1 mil milhões de euros de Bunds, 18,3 mil milhões de euros de Obligations Assimilables du Trésor, 15,8 mil milhões de euros de Buoni del Tesoro Poliennali e 9,7 mil milhões de euros de Bonos.)

A mudança do BCE para prazos mais curtos favoreceu a Alemanha

Por vezes, o BCE teve de lidar com a escassez. O seu programa de QE prevê limites para emitentes  e emissões, e também para o tempo máximo e mínimo de maturidade, ou seja: não há Bunds alemães suficientes para as preferências do banco. Para gerir este problema, o banco não só se desviou da chave de capital, como também atualizou as suas regras: em janeiro de 2017, o BCE reduziu a maturidade residual mínima dos títulos elegíveis de dois anos para um ano e removeu o limite mínimo da taxa da facilidade permanente de depósito.

Este duplo movimento permitiu a compra de títulos soberanos de curto prazo – especialmente os títulos alemães. A maturidade média ponderada da carteira agregada do BCE caiu de 8,55 anos em março de 2015 para 7,41 anos em novembro de 2018. A maturidade média ponderada das obrigações alemãs em carteira foi ainda mais baixa, em 6,31 anos. (Apenas as obrigações do Tesouro de Chipre e do Luxemburgo têm maturidades médias mais curtas, mas destes o BCE adquiriu apenas montantes negligenciáveis.)

Prazo médio ponderado das compras de ativos do BCE, total e países selecionados da área do euro

Devido à elevada incidência das obrigações do Estado com vencimento em 2019, a Alemanha poderá beneficiar de um bónus de mais de 4,5 mil milhões de euros em investimentos suplementares pelo Euro-sistema, em comparação com os que teria direito a receber com base na atual tabela de repartição do capital: 52,9 mil milhões de euros em vez de 48,2 mil milhões de euros. A Itália poderia receber um prémio simbólico (1,3 mil milhões de euros), a Espanha poderia enfrentar um cenário quase inalterado e a França poderia ver menos reinvestimentos do que aqueles a que teria direito de acordo com a nova tabela de repartição do capital.

15 O BCE deve levar a cabo uma reviravolta nacional com os seus reinvestimentos 2.jpg

 

Isto poderá dificultar o cumprimento pelo BCE do seu compromisso de neutralidade do mercado, ou seja, de distribuir as compras de títulos soberanos proporcionalmente aos seus montantes em dívida, a fim de não perturbar o mecanismo de determinação dos preços no mercado de obrigações de dívida pública da área do euro. De facto, os países mais propensos a maturidades mais longas – como a Itália e a Espanha – são também os que têm direito a uma percentagem mais baixa de compras devido à chave de capital. Se o BCE decidir manter-se fiel à chave (e seguir a sua trajetória atual à medida que renova a dívida vencida), haverá quase certamente um aumento do risco de duração suportado pelos investidores privados, com o consequente aumento de algumas curvas de rendimento da Zona Euro.

Em 2018, surgiram rumores de uma reviravolta na operação do BCE, semelhante à implementada pelo sistema da Reserva Federal norte-americana entre 2011 e 2012. Tendo-se tornado incapaz de intervir nas taxas curtas, que já se situavam em zero, o Fed trocou títulos de curto prazo da sua carteira por títulos de longo prazo, acreditando que a queda dos custos de financiamento das empresas e das famílias iria desencadear tanto o investimento como o consumo.

Uma reviravolta seria muito difícil de fazer para o BCE, porque tem de atuar em 19 mercados de dívida soberana diferentes. Frankfurt efetua apenas uma pequena parte das compras diretamente, enquanto a maior parte é delegada nos bancos centrais nacionais, que compram títulos no mercado secundário emitidos pelos seus próprios governos nacionais.

Quase não existe partilha de riscos nesta arquitetura; cada banco central nacional está exposto a potenciais perdas sobre a dívida soberana do seu próprio país. E cada um desses bancos dispõe de um elevado poder discricionário quanto aos títulos a comprar, incluindo a escolha do prazo de vencimento.

Assim, após o fim das compras líquidas em 2018, o BCE terá ainda de trabalhar para garantir que os reinvestimentos serão coerentes com todas as regras de avaliação da qualidade: em alguns casos (por exemplo, neutralidade do mercado) não é fácil verificar o cumprimento efetivo pelos BCN, noutros estas regras podem entrar em conflito entre si e noutros porque a arquitetura de avaliação da qualidade já teve impactos variados em diferentes curvas de rendibilidade.

Uma revisão das regras de QE é quase inevitável.

 

Uma proposta modesta: suprimir os atuais critérios de atribuição, permitir a “reviravolta nacional”

Mas, em vez de reviravoltas nas operações específicas de cada país, o BCE deveria pôr de lado o critério da chave de capital e anunciar que, no futuro, os reinvestimentos se concentrarão nos países mais endividados: isto seria uma “reviravolta nacional”.

Isto parecer-se-ia um pouco com o programa do BCE para os mercados de títulos de dívida (SMP), que decorreu de 2010 a 2012. De acordo com esse programa, o BCE comprou alguma dívida soberana da periferia da zona euro para garantir liquidez, mas distribuiu o cupão dessa dívida entre os bancos nacionais, de acordo com a chave de capital. Ou seja: sob o SMP, o Bundesbank recebeu cerca de 30 por cento do cupão da dívida pública italiana.

No entanto, numa reviravolta nacional, o BCE devolveria os cupões sobre as suas detenções de dívida soberana ao governo nacional que os pagasse e, em seguida, eliminaria o seu limite para a vida residual dos títulos elegíveis, renovando as suas detenções de QE, através dos bancos nacionais, para o segmento de muito longo prazo da curva (20-50 anos). Desta forma, parte das dívidas públicas dos emitentes soberanos periféricos ficaria congelada nos balanços dos bancos centrais nacionais, o que aliviaria os custos de financiamento.

Um exemplo: ao vender títulos de 20-50 anos, um terço dos quais estão alocados ao reinvestimento de QE do Banco da Itália, o governo italiano poderia reduzir o seu custo da dívida. E poderia aliviar as tensões no segmento de curto-médio prazo (2-8 anos) sem ter que gastar muito mais no custo da dívida de longo prazo, precisamente graças ao apoio do resto da zona do euro.

De forma mais geral, o contexto delineado pela intervenção proposta introduziria uma partilha de riscos implícita entre os membros da Zona Euro. Como consequência, os participantes no mercado reduziriam a aversão ao risco em relação aos países mais endividados, favorecendo assim a normalização da forma e do declive das curvas de rendimentos.

 

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O autor: Marcello Minenna é Chefe da Unidade de Análise Quantitativa em Consob (a Comissão de Valores Mobiliários de Itália). Lecionou Finança Quantitativa na Universidade de Bocconi e na Escola de Pós-Graduação de Matemática Financeira em Londres. Escreve regularmente no The Wall Street Journal e no Corriere della Sera, e é membro de um grupo de consultores que apoia a análise económica do maior sindicato italiano, o CGIL.

 

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2019/04/15/do-plano-tecnico-ao-plano-politico-do-sistema-target-2-a-fragmentacao-financeira-da-uniao-europeia-15-o-bce-deve-levar-a-cabo-uma-reviravolta-nacional-com-os-seus-reinvestimentos-por-marcello-min/

A concentração de poder nas grandes empresas

O World Economic Outlook de Abril, apresentado esta semana pelo FMI, inclui um trabalho de dois dos seus especialistas (Federico Díez e Romain Duval) que versa sobre as consequências do crescente poder das grandes empresas.

O estudo conclui que o aumento do poder do mercado daquele tipo de empresa tem tido um impacto económico negativo razoavelmente limitado até ao momento, mas que se não for devidamente controlado, poderá prejudicar no futuro o crescimento económico, o investimento e a inovação e prejudicar os rendimentos do trabalho.

Para fundamentarem as suas conclusões recorreram ao estudo da evolução das margens – comparação entre os preços de venda e os custos de produção – observando que desde 2000 a margem média das empresas aumentou em cerca de 8% nas economias avançadas mas em menos de 2% nas economias de mercados emergentes.

Mais concretamente as empresas que alcançaram margens mais elevadas (as que se situam nos 10% do topo da distribuição) aumentaram as suas margens em mais de 30%, enquanto estas se mantiveram praticamente inalteradas para os restantes 90%; estes aumentos registaram-se especialmente entre as que usam tecnologias digitais de forma mais intensiva.

Estas empresas variam de dimensão mas são relativamente pequenas, dominam nichos de mercado e situam-se especialmente entre as que usam tecnologias digitais de forma mais intensiva. Globalmente revelam melhor desempenho, sendo em média cerca de 50% mais lucrativas, 30% mais produtivas e usam 30% a mais de activos intangíveis, como patentes ou software, do que as restantes.

Uma das explicações adiantadas pelos autores para este resultado aponta para aumento do poder de mercado das empresas mais produtivas e inovadoras em resultado da sua melhor capacidade para explorar activos intangíveis de marca, efeitos de rede e das chamadas economias de escala (redução dos custos unitários em função do aumento da produção).

Embora o digam limitado, Federico Díez e Romain Duval sempre vão afirmando que desde o início do século que ao aumento das margens tem estado associada uma redução no investimento das empresas, pois o seu maior poder de mercado permite-lhes aumentar os lucros por via da mera conjugação da subida dos preços com a redução da produção, ou com a destruição de stocks, como foi relatado nesta notícia da VISÃO.

Dizem ainda que, se as margens tivessem permanecido nos níveis de 2000, o stock actual de bens de capital seria, em média, cerca de 3% maior e o PIB, cerca de 1% maior e que a redução do investimento enfraqueceu a procura agregada o que terá contribuído para ampliar o impacto da crise financeira de 2008.

Neste século e nas economias mais avançadas o aumento do poder de mercado foi ainda responsável pela redução de cerca de 10% dos rendimentos do trabalho, o que contribuiu para uma ampliação da desigualdade na distribuição do rendimento, pois o aumento do rendimento do capital beneficia exclusivamente os segmentos de rendimento mais elevado.

Para contrariar este cenário, os próprios especialistas do FMI reconhecem a necessidade da intervenção dos governos para evitar que o crescimento do poder de mercado afecte a economia de forma mais negativa, pois o seu contínuo crescimento conduzirá a novas quedas no investimento e nos rendimentos do trabalho, podendo até reduzir a inovação, uma vez que às empresas dominantes faltarão os incentivos necessárioss para se diferenciarem dos concorrentes por via da inovação.

Numa perspectiva grata ao FMI aquela intervenção pública deve ser orientada no sentido de assegurar a igualdade de condições e favorecer a concorrência, reduzindo os encargos administrativos para as novas empresas e as barreiras ao comércio e ao investimento estrangeiro directo no sector de serviços, podendo ainda passar pelo fortalecimento da actuação dos reguladores de mercado e pela melhoria das garantias de que os direitos de propriedade intelectual incentivem mais o pioneirismo do que as pequenas inovações incrementais.

Um pouco fora do receituário habitual do FMI é a sugestão para uma reforma fiscal orientada para a tributação dos rendimentos de capital excedentes derivados do poder de mercado, e que surgindo numa altura em que estão a aumentar as preocupações com o crescimento das grandes multinacionais, especialmente de tecnológicas como a Amazon, cujos tentáculos causam perturbação em vários sectores de actividade, acaba por reforçar um pouco as preocupações daqueles que na UE têm procurado contrariar a actuação das gigantes norte-americanas e chinesas.

Quererá isto dizer que o grande impulsionador da aplicação do Consenso de Washington – conjunto de medidas composto por dez regras básicas: Disciplina fiscal; Redução dos gastos públicos; Reforma tributária; Livre formação das Taxas de Juro; Livre formação das Taxas de Câmbios; Abolição das barreiras comerciais (pautas aduaneiras); Eliminação de restrições ao investimento estrangeiro directo; Privatização das empresas públicas; Desregulamentação (afrouxamento das leis económicas e do trabalho); Direito à propriedade intelectual, que foi formulado em Novembro de 1989 por economistas do FMI, do Banco Mundial e o Departamento do Tesouro dos EUA, fundamentadas num texto do economista John Williamson, e que se tornou a política oficial do Fundo Monetário Internacional em 1990, quando passou a ser receitado” para promover o “ajustamento macroeconómico” dos países em desenvolvimento que passavam por dificuldades – está a deixar cair o dogma da livre concorrência e o princípio do “trickle down economics” – ideia defendida pelas correntes monetaristas e neoliberais, segundo a qual a concentração da riqueza nos mais abastados e com maior propensão à poupança acabará por “deslizar” até aos estratos mais desfavorecidos – ou, mais prosaicamente, os malefícios da concentração empresarial e da riqueza já começam assustar os seus próprios mentores?


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/a-concentracao-de-poder-nas-grandes-empresas/

Discutir o ensino de economia

Discutir o ensino de economia
Amanhã à tarde, Wendy Carlin, uma das coordenadoras do projeto CORE, vai estar em Portugal para apresentar as propostas de transformação do ensino e currículos dos cursos de Economia. Carlin e os seus colegas desenvolveram um manual online, de acesso livre aqui, que pretende constituir um instrumento de ensino da Economia mais abrangente e plural. Em traços gerais, embora represente algum avanço em relação aos manuais tradicionais utilizados nas faculdades (sobretudo pela relação que procura estabelecer entre a teoria e alguns exemplos empíricos), este manual não inclui de forma estruturada as várias correntes de pensamento e os principais debates da disciplina, cingindo-se na maioria dos temas à teoria neoclássica, dominante na academia e no ensino (como discutido num artigo publicado no ano passado na Review of Political Economy). Neste aspeto, o proejto não difere substancialmente do ensino atual. Amanhã discutiremos os avanços e as limitações deste projeto no ISEG, a partir das 14:30h (Anfiteatro 1, Ed. Quelhas). Fica o convite para todos e todas as interessadas.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

O que está por trás das previsões econômicas sombrias do FMI para mundo e Brasil?

O Fundo Monetário Internacional (FMI)
© AP Photo / Itsuo Inouye

Um relatório divulgado no início do abril pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) avisa que a economia global enfrentará o crescimento mais lento em dez anos. A Sputnik Explica o que está por trás de tais previsões pessimistas e como o fundo avalia a situação no Brasil.

Na recente edição do relatório Perspectivas da Economia Mundial (WEO, na sigla em inglês) o FMI prevê um abrandamento do crescimento global em 2019 para 3,3% em comparação com os 3,5% esperados em janeiro deste ano.

Levando em conta que em 2017 e 2018 a economia cresceu 3,8% e 3,6% respetivamente, podemos ver que a economia global vem desacelerando com o passar dos anos, se aproximando possivelmente de uma nova crise.

A economista-chefe do FMI, Gita Gopinath, sublinha que embora se espere alguma retomada do crescimento no segundo semestre, em geral 70% da economia mundial deve desacelerar neste ano.


Confluência de fatores negativos

Segundo o FMI, na primeira metade de 2019 na economia global se observa uma confluência de fatores que afeta as economias principais. A desaceleração da atividade econômica no segundo semestre de 2018 deve se manter na primeira metade deste ano. Na China o declínio do crescimento econômico foi causado pela combinação do agravamento das condições de regulação dos bancos e das tensões comerciais com os EUA, onde, por sua vez, a relação entre a dívida das empresas e o PIB está em níveis sem precedentes.

As previsões para a Europa também são pouco otimistas: desaceleração na zona euro, queda de confiança dos consumidores e empresários, rupturas na indústria automobilística da Alemanha e redução dos investimentos em alguns países europeus. O Brexit também poderia afetar a situação nos mercados financeiros por todo o mundo.

Quanto à América Latina, as previsões de crescimento da região são de 1,4% para 2019 e de 2,4% para 2020 — o que representa 0,6 e 0,1 pontos a menos, respectivamente, que as estimativas anteriores. A situação na Venezuela afeta o crescimento da região, cujo PIB poderia cair 25% e 10% em 2019 e 2020 respetivamente. A Argentina também deveria ter uma recessão este ano, com uma queda prevista de 1,2% no PIB.

Entretanto, o FMI deixa margens para algum otimismo: na segunda metade de 2019 podemos esperar alguns avanços nos sentimentos dos mercados financeiros globais e estabilização nos mercados emergentes, incluindo na Argentina e Turquia. É de assinalar que, segundo o fundo, a tendência positiva para os mercados emergentes e em desenvolvimento deveria se manter em 2020. Pelo contrário, o crescimento nos países desenvolvidos continua desacelerando gradualmente.

Além disso, o FMI indicou três problemas que devem ser resolvidos para garantir o crescimento econômico de longo prazo: aumento da desigualdade, queda de investimentos e protecionismo no comércio global que, de fato, estão interligados.


"Nas últimas três décadas, o preço relativo de máquinas e equipamentos caiu em todos os países, impulsionado tanto pelo aumento da produtividade no setor de bens de capital quanto pelo aumento da integração comercial. Essa queda favorece ao aumento dos investimentos reais em equipamentos, beneficiando os países em desenvolvimento. O aumento das tensões comerciais pode inverter esses declínios de preços e prejudicar os investimentos quando o investimento já é fraco, o que apenas sublinha a necessidade de resolver rapidamente as divergências comerciais", explicou Gopinath.

Situação no Brasil

Quanto ao Brasil, o FMI também reduziu suas projeções, principalmente devido ao desequilíbrio fiscal. A previsão é de crescimento de 2,1% para este ano (uma redução de 0,4 pontos percentuais em relação à estimativa feita em janeiro).

"No Brasil a principal prioridade é conter o aumento da dívida pública enquanto mantém intactos os gastos sociais. O teto de gastos introduzido em 2016, que incrementa o resultado primário em 0,5 pontos percentuais por ano, é um passo na direção certa para facilitar a consolidação fiscal", lê-se no relatório.


Além disso, o FMI destacou que, para ajudar na consolidação fiscal, "são necessárias medidas que incluem o aumento da idade das aposentadorias, a desvinculação dos reajustes do salário mínimo e dos benefícios e moderar a generosidade das pensões, particularmente para os servidores públicos".

Entretanto, em 2020 a economia poderia inverter esse caminho: se espera o crescimento de 2,5% para 2020 (aumento de 0,3 pontos percentuais em comparação com as previsões feitas em janeiro).

Em geral, o FMI considera a situação atual como um “momento delicado” para a economia global. Embora o ano 2019 não seja favorável, se os países implementarem a política econômica necessária e lidarem com as tensões comerciais, o crescimento global poderia se recuperar já em 2020. Entretanto, sem instrumentos próprios e cooperação multilateral, o mundo poderia enfrentar uma desaceleração da economia.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/sputnik_explica/2019041113655048-previsao-economico-fmi-brasil-economia-global/

Keynes neoliberal e a falácia do emprego

Tese de que ao Estado cabe o papel de criar mecanismo de caridade para os trabalhadores é mais um dos argumentos falaciosos dos defensores da “reforma” da Previdência Social.

Em sua coluna no jornal O Globo da quarta-feira (10), Merval Pereira, tido como um dos mais influentes analistas políticos da mídia, escreveu que o famoso economista John Maynard Keynes foi um autêntico liberal — ou neoliberal, como se diz hoje em dia. Ele se apoia num artigo do economista José Roberto Afonso, tido como um dos maiores especialistas em finanças públicas do país, publicado na Revista do BNDES, que trata de uma questão colateral à reforma da Previdência que se tornará crucial para desenvolvimento — o emprego.

O título da coluna — Para além do emprego — chama exatamente para essa questão. Segundo a peculiar cartilha de Merval Pereira e, segundo ele, de José Roberto Afonso, a “reforma” da Previdência é necessária, mas insuficiente para lidar com um futuro em que cada vez mais o trabalho não passará por emprego e salário. O economista ressalta, de acordo com Merval Pereira, que financiar e manter a seguridade social que tinha essas premissas — emprego e salário — é um debate crescente no mundo, que o Brasil ignora e do qual não participa.

Carteira de trabalho

O colunista assevera que até o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial já alertaram que será preciso um novo pacto social, citando José Roberto Afonso. No artigo, segundo Merval Pereira, ele volta ao economista John Maynard Keynes, que foi a base de seu doutorado na Unicamp, mas analisando aspecto que poucos conhecem: ele ajudou a estruturar o chamado estado do Bem-Estar Social, na década de 30 e 40 na Inglaterra, depois copiado pelo resto do mundo, inclusive o Brasil.

Não é possível quantificar o conhecimento sobre essa informação, mas certamente não são poucos — o chamado keynesiasimo deu base teórica ao fordismo, à social-democracia, ao New Deal do presidente norte-americano Franklin Delano Roosevalt e, dentre outras experiências históricas, a muito do que existe na legislação social brasileira. 

Mas, prossegue Merval Pereira, José Roberto Afonso lembra que a rede de proteção social adotada em meados do século passado girava em torno do emprego, formalizado no Brasil pela contratação com carteira de trabalho assinada. Empregadores e empregados contribuem sobre o valor de seus salários, que também passa a balizar os benefícios pagos no futuro (aposentadoria), ou antes, em caso de alguma intempérie (uma delas é o seguro-desemprego).

Paradigma quebrado

O economista adverte, de acordo com o colunista de O Globo, que esse paradigma está sendo quebrado pela revolução em curso, na indústria, na economia e na sociedade, que compreende, entre outros fatores, uma intensa automação do processo de trabalho, substituindo trabalhadores por robôs, a economia compartilhada e a do “bico”, com trabalhadores exercendo suas funções sem vínculo contratual, físico e temporal.

Cada vez mais, segundo o economista citado, trabalho não representará, necessariamente, emprego. Os países precisarão construir um novo pacto ou contrato, social e também econômico, para lidar com essa realidade. Ele cita, possivelmente fora de contexto histórico, que Keynes já alertava que exagerar na tributação de salários desestimularia os empregadores a contratar trabalhadores formalmente. “Qualquer semelhança com a situação no Brasil não é mera coincidência”, ressalta José Roberto Afonso, segundo Merval Pereira.

Para ele, diz o colunista, “é preciso outro arranjo. “A única certeza que se têm é que como se está, não mais ficará”, sentencia o economista, conforme a informação de Merval Pereira, complementando que José Roberto Afonso afirma que, na contramão do que os últimos governos têm feito, é fundamental fortalecer arranjos como o Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), que tem sido desidratado, “não apenas porque o desemprego vai explodir, mas porque é urgente retreinar e requalificar mão-de-obra”.

Sistema de ensino

Para ele, de acordo com o colunista, até mesmo o lado SENAI/SENAC deveria ser prestigiado. Para ele, “não é a educação que resolverá o desafio, mas habilidades”. A Organização de Cooperação para o Desenvolvimento Econômico (OCDE), que reúne os países mais desenvolvidos do mundo, que o Brasil almeja integrar, tem batido muito nessa tecla, teria lembrado o economista.

Melhorar o sistema de ensino, para conseguir colocação aos futuros trabalhadores, é fundamental, mas, para José Roberto Afonso, “será premente também mudar as qualificações de quem já está dentro do mercado de trabalho”. A rede de proteção social aos trabalhadores gira em torno do emprego, e os salários são o referencial, seja para cobrança de contribuições sociais, seja para pagamento de benefícios, como seguro-desemprego e aposentadoria.

Segundo Merval Pereira, José Roberto Afonso assegura que “essa construção será abalada pela revolução econômica e social, que passará pela automação do processo de trabalho e a expansão do trabalho independente”. A realidade nova forçará a renovação do pacto social brasileiro, de modo que o amparo ao trabalhador deverá assumir outras formas que não apenas a carteira assinada, e revisitar o esquema de financiamento aos investimentos.

Caráter contribuitivo

De acordo com o colunista, para fomentar esse debate o artigo de José Roberto Afonso resgata as lições de Keynes “para iluminar as reformas necessárias para enfrentar o futuro”. Ele chama a atenção para o fato de que quando se examinam as atividades de Keynes entre as vésperas da Segunda Guerra Mundial e os primeiros anos seguintes, “constata-se que deu grande atenção aos gastos sociais e ao orçamento público, em especial, no âmbito de suas atividades como conselheiro governamental”.

Keynes classificou como ficção o caráter contributivo do sistema, pois seria preciso custear mais do que benefícios ligados diretamente ao trabalhador. Os serviços de caráter geral (como os de saúde) e os eventuais déficits do sistema precisariam ser cobertos pelo Estado — ou, melhor, pelos contribuintes em geral e com recursos oriundos de impostos. “Como acontece hoje entre nós”, deduz Merval Pereira.

O que isso tudo significa não ficou claro. Mas é possível deduzir que o trabalhador brasileiro em geral, de agora em diante, principalmente se a “reforma” da Previdência Social for aprovada, terá de sobreviver de caridades. Ainda de acordo com Merval Pereira, um fundo composto pela arrecadação das contribuições (fixadas a cada quinquênio) custearia os serviços médicos, os benefícios de assistência (exceto para crianças) e as pensões (exceto dos ex-combatentes de guerra). 

Como não conseguiu aprovar um projeto de reforma tributária para aumentar a arrecadação, Keynes contentou-se com mudanças que reduziram a despesa pública futura, “como poderá fazer o ministro da Economia Paulo Guedes”, conclui Merval Pereira.

Grande Depressão

É preciso lembrar que em plena crise grave nos Estados Unidos, que arrastou o mundo para a mais sinistra depressão da era moderna, Keynes publicou o livro A Teoria Geral da Moeda e do Emprego, que iria alterar profundamente o modo como os governos regulariam a política econômica. Inspirado em seus ensinamentos, pouco meses após ser eleito o presidente dos Estados Unidos, Franklin Delano Roosevelt, decretou o primeiro de uma série de programas legislativos para “salvar os Estados Unidos do desemprego”.

A Lei de Recuperação da Indústria Nacional (NIRA) tinha como meta empregar milhões de trabalhadores. O compromisso da administração do New Deal era utilizar mais mão-de-obra do que materiais e máquinas e desprezar grandes investimentos de capital. Roosevelt dizia que a causa principal da Grande Depressão era que a renda dos consumidores não havia aumentado o bastante para tirar os produtos do mercado. 

A ideia básica do New Deal, segundo o historiador Benjamim Hannicutt, “era tirar dinheiro dos ricos, que tenderiam mais a acumulá-lo, e dar mais dinheiro à classe média, à classe operária e aos pobres, cuja tendência seria maior em gastá-lo, estimulando, com isso, as vendas e o crescimento econômico”.

Ex-comunista

Na Europa, o projeto social-democrata, também de base keynesiana, procurou adaptar a economia planejada à tradição comercial liberal do velho continente. Essa ideia começou a fazer água com a tática de muitos social-democratas de reavaliar suas posições políticas para agradar a um “eleitorado mais amplo”, uma posição que passou a ser chamada de neoliberalismo com discurso de esquerda. 

Na Itália, essa constatação ficou nítida: o governo do “ex-comunista” D’Alema chegou ao ponto de passar por cima de uma das mais importantes conquistas democráticas, a proibição constitucional de participação do país em guerra ofensiva, ao participar ativamente do ataque à Sérvia.

O aspecto mais importante a se ressalta, no que diz respeito aos países de regime capitalista, é o caráter antiliberal das políticas keynesianas e social-democratas. Um novo papel foi conferido ao Estado, agora concebido como agente principal da reconstrução econômica, indutor do desenvolvimento e figura central para a distribuição da riqueza produzida. 

Trabalho social

Com isso, a intervenção estatal direta e indireta foi legitimada e os valores igualitários, tais como justiça social e solidariedade, passaram a compor a agenda pública. A social-democracia, tornada reformista e keynesiana, salvou o capitalismo. Aos liberais, restou o caminho da oposição. A pequena audiência que encontraram, por décadas a fio, não os esmoreceu.

A situação do liberalismo permaneceu relativamente inalterada até meados dos anos 70, quando uma série de fatores progressivos e combinados começou a solapar o que até então permitira o êxito das ideias antiliberais. Estes fatores são, basicamente, os dois choques do petróleo, o aumento da inflação pela quebra do ciclo crescimento/distribuição de renda e a reestruturação produtiva promovida pela Terceira Revolução Industrial. 

Esta, ao diminuir a quantidade necessária de trabalho social à produção, enfraqueceu brutalmente o poder dos sindicatos — até então partícipes da estrutura social-democrata. O ressurgimento da força dos liberais também contou com a débâcle das experiências socialistas. A ascensão de líderes como Margareth Thatcher (1979) na Inglaterra e Ronald Reagan (1980) nos Estados Unidos representou, portanto, a chegada ao poder de antigos liberais oposicionistas. Isso fez com que houvesse o predomínio de uma “nova direita”, o neoliberalismo, com enorme capacidade de expandir ideologicamente sua visão de mundo.

Pensamento autoritário

No Brasil, essa ideia chegou no final dos anos 1980, nos estertores do governo do presidente José Sarney, ensaiou um passo ousado com a eleição de Fernando Collor de Mello em 1989 e se estabeleceu na “era” Fernando Henrique Cardoso (FHC). Interrompida pelo ciclo de governos dos ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, ela voltou com força com o golpe de 2016. Agora, como escreveu Merval Pereira, cabe ao ministro da Economia Paulo Guedes consolidar a sua retomada.

Ou, como escreveu o ex-ministro da área econômica na ditadura militar, Delfim Netto, em sua coluna no jornal Folha de S. Paulo também na quarta-feira (10), referindo-se à tumultuada e recente visita do ministro da Economia à Câmara dos Deputados, “a nossa esquerda, perdida, recusou, no grito, que Guedes pudesse esclarecê-la”. É a retomada do pensamento neoliberal, inclusive no seu aspecto autoritário, como se não houvesse salvação fora dos seus cânones e dogmas, com sua conhecida pretensão ditatorial a ser o pensamento único na economia.


por Osvaldo Bertolino | Texto original em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/keynes-neoliberal-e-a-falacia-do-emprego/

Brasil | Fiori: a impotência dos economistas liberais

A produção declina, o desemprego volta a crescer, os investimentos não voltarão tão cedo. Mas eles insistem na miragem “Reforma da Previdência” – como se quisessem voltar a Pinochet, aos banhos de sangue, ao fascismo de mercado

José Luís Fiori | Outras Palavras | Imagem: Salvador Dalí,O sono (1937)

“Quem diria que no começo do mandato de um governo liberal ele
iria sancionar subsídios e discutir a retomada de proteções setoriais.
Não é só a tarifa do leite, é a proteção de bens de capital”.
-Marcos Lisboa, O Globo, 18/02/2019

Súbito, fez-se o consenso, e já não é mais possível tapar o sol com a peneira: no primeiro trimestre de 2019, a economia brasileira entrou em marcha forçada na direção do colapso. Em apenas três meses, o mercado reduziu quatro vezes seguidas seu prognóstico com relação ao crescimento do PIB de 2019, que caiu de 3% para 1.8%. E tudo indica que seguirá caindo, tanto que o próprio mercado reconhece que não haverá retomada dos investimentos neste ano, qualquer que seja a circunstância. Pelo Índice de Atividade Econômica do Banco Central (o IBC-BR), a economia brasileira recuou 0,41% no mês de janeiro, enquanto a produção industrial despencava 0,8% no mesmo mês, segundo o IBGE. No acumulado do trimestre, o preço da gasolina subiu 28,3% e, no mês de março, a produção de veículos caiu 6,4% com relação a fevereiro, enquanto a capacidade ociosa da indústria química chegou a 25%, e a da economia brasileira ronda os 40%. A taxa de desemprego subiu de 11,6% para 12,4%, e o número de desempregados chegou aos 13 milhões, com aumento de um milhão em apenas três meses, numa economia que já tem 27,9 milhões de subempregados, em uma sociedade que voltou a ter 21% da sua população abaixo da linha da pobreza. Por fim, as receitas federais e o otimismo dos empresários e da população vêm caindo de forma acelerada e contínua.


Tudo isto poderia ser apenas um soluço econômico, mas não é. Na década de 2011 a2020, a taxa média esperada do crescimento anual da economia brasileira deverá ser de apenas 0,9%, segundo estudo publicado pelo IBRE, da Fundação Getúlio Vargas. Uma taxa média menor que a da década de 80, que foi de 1,6%, e por isso chamada de “década perdida”. Segundo esse mesmo estudo do IBRE/FGV, o crescimento médio desta década deverá ser o pior dos últimos 120 anos da história brasileira, implicando um empobrecimento anual dos brasileiros na ordem de 0,3% do PIB ao ano. E não há no momento a menor perspectiva de reversão deste quadro, com a taxa de investimento da economia brasileira girando em torno dos 15,5%, taxa muito inferior à do Chile ou do México, que está na casa dos 20%, e muitíssimo inferior à taxa de investimento de alguns sócios brasileiros do BRICS, como é o caso da China, que investiu 44,18% do PIB em 2018, ou mesmo da Índia, que investiu 31,4% no mesmo período, segundo dados do FMI.

Uma situação que fica ainda mais difícil para o Brasil, num momento em que o mercado mundial de bônus vem caindo, sobretudo no caso dos bônus do governo alemão e dos títulos do tesouro norte-americano, tornando os investidores internacionais cada vez mais reticentes, apesar do afrouxamento da política monetária do BCE e do FED. O economista Lawrence Summers, ex-secretário do Tesouro norte-americano, considera que a economia mundial está entrando num longo ciclo de “estagnação global”, enquanto outros economistas falam do descenso de mais um ciclo de Kondratiev, mas a consequência é a mesma: para sair do buraco nessa conjuntura internacional, o Brasil terá que contar com seus próprios recursos e estímulos, para poder crescer de maneira contínua, a taxas de 3 e 4%, em um período de pelo menos 5 a10 anos. É a única forma de absorver a capacidade ociosa e eliminar o desemprego, retomando o caminho do crescimento indispensável para que uma economia “atrasada” ou “imatura” consiga vencer sua miséria, reduzir sua desigualdade social e participar, em igualdade de condições, da competição entre as nações pela riqueza mundial.

Para enfrentar esse desafio, os economistas liberais têm uma proposta simples e recorrente: reformar a Previdência, privatizar empresas estatais e fazer reformas institucionais que abram e desregulem os mercados. Com relação à proposta de privatização da Previdência, balanço recente da Organização Internacional do Trabalho (OIT) constata que dos 30 países que fizeram a mesma reforma, entre 1981 e 2014, 18 já voltaram atrás em decorrência do fracasso de seus novos sistemas de capitalização, iguais ao que está sendo proposto no Brasil. E a própria reforma chilena, que foi concebida pelo economista José Piñera, do grupo dos Chicago Boys, e depois imposta por decreto ditatorial do General Pinochet em 1981 (ou seja, oito anos depois do golpe militar de 1973), hoje vem sendo questionada de forma cada dia mais agressiva, por uma verdadeira massa de idosos, pobres ou miseráveis, frustrados com os resultados desastrosos do novo sistema.

De qualquer maneira, independentemente do seu custo social e do seu verdadeiro impacto fiscal, o que importa destacar é que a privatização da Previdência não tem, nem nunca teve, nenhuma conexão direta com a taxa de investimento da economia, e portanto também não tem nenhuma capacidade de induzir crescimento econômico. E tudo o que os economistas liberais dizem sobre este assunto envolve uma especulação mágica e psicológica sobre as “expectativas dos investidores”, que não tem nenhuma base teórica nem evidência empírica, inclusive porque os “investidores” já podem ter perdido sua “confiança” e seu “interesse” na “sobre-oferta” mundial de reformas da Previdência. Por outro lado, a privatização das demais empresas estatais só gera recursos do tipo once for all, e não garante nenhum tipo de investimento posterior dentro da economia brasileira.

O mesmo pode ser dito com relação às demais “reformas” de que falam os economistas liberais, visando desregular e abrir os mercados. Qualquer economista, de qualquer tendência teórica, sabe que nenhuma dessas reformas irá reacender, por si mesma, o “animal spirit” dos investidores, capaz de recolocar a economia brasileira na trilha do crescimento. Deste ponto de vista, é bom olhar para a experiência recente da Argentina de Mauricio Macri, que depois de três anos adotando políticas ortodoxas e reformas liberais – incluindo a reforma da Previdência – teve um crescimento negativo do PIB de 2,5% em 2018, e tem uma previsão de queda de 3,1% para 2019. Um resultado desastroso, que se soma a uma taxa de inflação que está na casa dos 47%, com um desemprego de 9,1 % e com 32% da população argentina situada abaixo da linha de pobreza.

Nada disso, entretanto, parece atingir ou afetar a inabalável crença dos economistas liberais, no cálculo utilitário do homo economicus, na existência de mercados abertos e desregulados, e na possibilidade de separar a economia capitalista do poder do Estado. É quase impossível para um economista liberal entender e aceitar que a economia envolve relações sociais de poder, e é parte de uma luta pela riqueza entre as grandes corporações e os grandes Estados nacionais. Os economistas liberais raciocinam como se estivessem no ponto zero da história, dentro de uma economia homogênea e com atores equipotentes quando, de fato, vivem numa sociedade que já é, de partida, desigual e heterogênea, envolvendo interesses econômicos e sociais excludentes e conflitivos. E tudo isto dentro de um sistema internacional em que os grandes Estados se valem de suas economias nacionais como instrumentos na sua luta pelo poder e a riqueza internacionais.

Dentro deste pensamento abstrato e irreal dos economistas liberais, é um grande passo teórico e um avanço realista a redescoberta da teoria estatal da moeda, de Georg Knapp, com o reconhecimento da relação indissolúvel entre o poder e a moeda – mesmo quando seja necessário acrescentar ao raciocínio de Knapp que a autonomia econômica dos Estados com relação ao manejo de suas próprias moedas também depende da sua posição dentro da hierarquia mundial do poder político e militar. Mas este já seria outro assunto e outra discussão.

Por isso voltemos ao ponto central do nosso argumento quanto à impotência da resposta dos economistas liberais frente ao desafio que o Brasil está enfrentando neste final da segunda década do século XXI. Do nosso ponto de vista, como já dissemos, os economistas liberais partem de premissas teóricas que desconhecem a complexidade do mundo real, nacional e internacional, e defendem um pacote de “reformas” que não leva em conta a heterogeneidade dos interesses e as hierarquias de poder que separam e contrapõem os capitais individuais e as classes sociais e, finalmente, propõem políticas e medidas que não foram concebidas para promover o crescimento acelerado de países “atrasados” ou “imaturos”. Isso talvez ajude a entender por que os empresários e economistas liberais sejam sempre os primeiros a ser chamados, mas sejam também os primeiros a ser dispensados pelos governos brasileiros que nasceram dos golpes militares – de 24 de outubro 1930, de 19 de novembro de 1937, de 29 de outubro de 1945, de 24 de agosto de 1954 e de 31 março de 1964.

No sentido inverso, talvez também sejam essas mesmas recorrências históricas do passado que expliquem a paradoxal admiração contemporânea de alguns economistas liberais brasileiros pelo Sr. Augusto Pinochet, a figura por excelência de governante violento, ignorante e corrupto, que se dedicou durante 15 anos à eliminação física de seus adversários e de toda a atividade política dissidente do seu país. Um verdadeiro “banho de sangue” que permitiu, em última instância, que os Chicago Boys chilenos pudessem impor ditatorialmente suas políticas e reformas, por cima de 3 mil pessoas mortas e mais 20 mil chilenos torturados, em nome do regime que outro economista norte-americano, Paul Samuelson, chamou de “fascismo de mercado”.

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Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/04/brasil-fiori-impotencia-dos-economistas.html

O “compadrio” não explica a “bancarrota”

(Ricardo Paes Mamede, in DN, 09/04/2019)

Paes Mamede

A corrupção e o tráfico de influências existem mesmo em Portugal. E são um perigo para a democracia. Uma questão bem diferente é saber se as várias formas de “compadrio” (para usar a expressão de um ex-ministro que há dias fez notícia) são responsáveis pela crise que atingiu o país no início da década.

O uso indevido de recursos públicos para favorecer grupos específicos não é uma questão menor. Quando se torna recorrente, ou percepcionado como tal, corrói a confiança nas instituições e nos actores políticos, sem a qual as democracias não sobrevivem. Hoje como no passado, todos os populismos autoritários, todos os fascismos, todos os movimentos que põem em causa a democracia representativa, usam a falta de ética das elites como bandeira. Proteger as sociedades da corrupção, do nepotismo e do favorecimento ilegítimo de interesses particulares é pois fundamental para defender a democracia.

Provavelmente é isso que julgam estar a fazer pessoas como o ex-ministro Álvaro Santos Pereira, que apontam o “compadrio” como explicação para a “bancarrota” do país. O efeito, no entanto, pode ser exactamente o contrário. A corrupção não é nem suficiente nem necessária para explicar a crise portuguesa. Apresentá-la enquanto tal, como se fosse uma evidência que dispensa justificação, usando expressões sonantes sem qualquer poder analítico, é reproduzir o discurso dos populismos autoritários. Mas não ajuda a perceber como chegámos até aqui.

Faz pouco sentido falar da crise portuguesa sem considerar o contexto europeu. Quando, em 2011, Portugal recorreu a um empréstimo internacional, já a Grécia e a Irlanda tinham feito o mesmo, enquanto Espanha e Chipre o fariam pouco depois. O que estes países têm em comum – e que os distingue face aos restantes membros da zona euro – é menos o nível de corrupção (ou de dívida pública) do que o aumento da dívida externa até às vésperas da crise internacional. No caso português, tratou-se de um aumento de quase 130 mil milhões de euros entre 1996 e 2008.

A crise portuguesa é uma parte da crise mais vasta da zona euro, que resulta da acumulação de dívidas externas nos países periféricos

O grosso do aumento da dívida externa líquida nestes países decorre da explosão de crédito ao sector privado (empresas não financeiras e famílias) que se registou a partir de meados da década de noventa. Entre 1995 e 2008 o crédito bancário ao sector privado em Portugal subiu de cerca de 50% do PIB para perto de 140% (mais de metade deste aumento ocorreu até à viragem do século).

O aumento estrondoso do crédito ao sector privado em Portugal não se explica com base nas práticas fraudulentas dos bancos (que existiram, com é sabido). Explica-se pela extensa liberalização das actividades financeiras em Portugal na década de noventa, o que inclui: a privatização de quase todo o sector bancário, a desregulamentação da concessão de crédito, a liberalização dos movimentos internacionais de capitais, a entrada de bancos estrangeiros no mercado português e o forte aumento da concorrência no sector.

A liberalização financeira traduziu-se numa queda acentuada das taxas de juro. Como acontece em todas as economias com falta de capital e em rápido crescimento (como era o caso das periferias da zona euro) a queda abrupta das taxas de juro conduziu a um aumento drástico do crédito. Como acontece em todos os países com estruturas produtivas frágeis (como era o caso das periferias da zona euro) a súbita disponibilidade de crédito barato e abundante levou ao crescimento dos sectores da construção e do imobiliário. São sectores que criam muito emprego, impulsionam a procura interna, importam matérias-primas e equipamentos, mas pouco ou nada exportam – contribuindo assim para agravar a dívida externa.

Em suma, a crise portuguesa é uma parte da crise mais vasta da zona euro, que resulta da acumulação de dívidas externas nos países periféricos, que por sua vez se deve aos efeitos da liberalização financeira em economias relativamente atrasadas. É uma história comum a vários países do mundo que decidiram liberalizar de repente a finança, sem primeiro assegurar os instrumentos regulatórios para prevenir a acumulação de desequilíbrios.

Para perceber como a liberalização financeira se transformou em crise da zona euro não precisamos de invocar “compadrios”. Para explicar por que se liberalizou a finança em Portugal nos anos noventa também não. Basta lembrar a crença – então muito em voga – nas virtudes da desregulação dos mercados e a aceitação passiva das directivas europeias sobre o mercado único de capitais.

Pode até haver lugar nesta história para alguns “compadrios”. Mas não são os que o ex-ministro tem em mente.

Economista e professor do ISCTE-IUL

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Uma enorme "carga fiscal"?

Aqueles que criticam o nível das receitas fiscais em percentagem do PIB em Portugal ("carga fiscal" é a expressão usada, nada inocente) esquecem-se sempre de referir três coisas: 1. O valor das receitas do Estado sobre o PIB neste país é já muito inferior à média da zona euro (e tem vindo a diminuir nos últimos cinco anos). 2. O aumento da “carga fiscal" em 2018 é fundamentalmente explicado pelo aumento do emprego e da actividade económica (para iguais níveis de rendimento, o peso dos impostos nos rendimentos das famílias não só não aumentou na esmagadora maioria dos casos, como diminuiu em muitos deles). 3. Diminuir a “carga fiscal" implica tomar uma decisão: ou aumentar o défice, ou diminuir as despesas públicas. Qualquer das hipóteses, em princípio, é uma posição legítima. No entanto, quem quer diminuir os impostos e também o défice (como é o caso dos comentadores de direita) deveria dizer claramente onde e quanto quer cortar para diminuir a despesa do Estado (na saúde? na educação? nos apoios sociais?).

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Washington está a travar uma Guerra de Nova Dimensão contra a China e irá amargamente perdê-la

Prosseguem em todo o lado as agressões militares EUA. Mas a guerra (as guerras) que Washington tem em curso trava-se em grande medida também no plano económico. A dimensão económica que assume é o indício de um poder em acelerado declínio, cujo desespero o torna ainda mais perigoso.

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References

  1. ^ endereço (www.odiario.info)
  2. ^ odiario.info (odiario.info)

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A tecnologia como falsa vilã para os trabalhadores

As verdadeiras causas de problemas como desemprego e baixos salários são políticas.

Paul Krugman, o famoso Prêmio Nobel de Economia, escreve em sua coluna no jornal norte-americano The New York Times, reproduzida pela Folha de S. Paulo, sobre o impacto do avanço tecnológico no emprego e no salário. Segundo ele, a ideia de que as máquinas estão roubando os bons empregos, ou mesmo os empregos em geral, deve ser discutida no âmbito das políticas públicas. 

Por Krugman, boa parte da agitação por um sistema de renda básica universal vem da crença de que os empregos se tornarão ainda mais escassos, quando o apocalipse dos robôs varrer a economia. “Assim, me parece uma boa ideia apontar que, nesse caso, aquilo que todo mundo sabe não é verdade”, afirma. 

Paul Krugman, Prémio Nobel de Economia

Previsões são difíceis, especialmente sobre o futuro, e pode ser que os robôs realmente venham a roubar todos os nossos empregos, um dia desses, mas a automação simplesmente não tem papel importante na história do que aconteceu com os trabalhadores dos Estados Unidos nos últimos 40 anos, diz ele. “Temos um grande problema — mas ele tem pouco a ver com tecnologia e muito a ver com política e poder”, destaca.

Krugman propõe um recuo no tempo para perguntar o que exatamente é um robô. “É claro que ele não precisa ser parecido com C3-PO, e nem rolar pelo mundo dizendo ‘exterminar! Exterminar!’ Do ponto de vista econômico, um robô é qualquer coisa que use a tecnologia para executar trabalhos antes executados por seres humanos”, comenta. E os robôs, nesse sentido, vêm transformando a economia literalmente há séculos, avalia. “David Ricardo, um dos pais fundadores da economia, escreveu sobre os efeitos desordenadores da maquinaria já em 1821!”, afirmou. 

Hoje em dia, quando as pessoas falam sobre o apocalipse robô, em geral não pensam em coisas como a mineração a céu aberto, ou a remoção do topo de montanhas para exploração de minérios. Mas essas tecnologias transformaram radicalmente a mineração de carvão. A produção de carvão quase dobrou entre 1950 e 2000 (só começou a cair alguns anos atrás), mas o número de pessoas empregadas pelo setor carvoeiro dos Estados Unidos caiu de 470 mil para menos de 80 mil”.

Paul Krugman

Desordenamento tecnológico

Ele propõe considerar também o caso do transporte de cargas em contêineres. “Os estivadores costumavam ser parte importante do cenário nas grandes cidades portuárias. Mas embora o comércio mundial tenha disparado, da década de 1970 em diante, o número de trabalhadores americanos empregados no “tratamento de carga marítima” caiu em dois terços”, informa.

Assim, o desordenamento tecnológico não é um fenômeno novo, de acordo com ele.

Mas será que podemos dizer que está se acelerando? Os dados dizem que não. Se robôs realmente estivessem substituindo trabalhadores em escala maciça, a expectativa seria de que a quantidade de coisas produzidas por trabalhador remanescente – a produtividade do trabalho – disparasse. Na verdade, a produtividade cresceu muito mais rápido da metade da de 1990 à metade da década de 2000 do que de lá para cá”.

Paul Krugman

Assim, diz Krugman, a mudança tecnológica é história velha. O que mudou é que os trabalhadores não vêm compartilhando de seus frutos. “Não estou dizendo que lidar com a mudança tenha sido fácil, em qualquer momento. O declínio do emprego na mineração de carvão teve efeitos devastadores sobre muitas famílias, e boa parte do território que costumava produzir carvão nunca se recuperou. A perda de trabalhos braçais nas cidades portuárias certamente contribuiu para a crise social urbana das décadas de 1970 e 1980”, recordou.

Salário mínimo nos Estados Unidos

Mas, segundo ele, embora o progresso tecnológico sempre tenha deixado vítimas, até os anos 1970 o crescimento da produtividade se traduzia em alta de salários para a maioria dos trabalhadores. “Essa conexão se rompeu, e não foram os robôs que causaram o rompimento”, alerta. “Qual foi a causa? Existe consenso crescente, embora não completo, entre os economistas de que um fator chave para a estagnação dos salários foi a perda de poder de negociação dos trabalhadores — um declínio cujas raízes são em última análise políticas.”

Uma causa óbvia é que o salário mínimo federal dos Estados Unidos, considerada a inflação, caiu em um terço nos últimos 50 anos, enquanto a produtividade dos trabalhadores aumentava em 150%, equaciona.

Essa divergência aconteceu por motivos políticos, pura e simplesmente. O declínio dos sindicatos, que representavam um quarto dos trabalhadores dos Estados Unidos em 1973 mas hoje só representam 6% deles, pode não ter causas políticas evidentes”.

Paul Krugman

Mas outros países não sofreram declínios parecidos, segundo Krugman. “No Canadá, a proporção de trabalhadores sindicalizados hoje equivale à dos Estados Unidos em 1973; nos países nórdicos, os sindicatos representam dois terços das forças de trabalho. O que fez dos Estados Unidos uma exceção é o ambiente político fortemente hostil à organização dos trabalhadores e altamente favorável aos empregadores determinados a destruir os sindicatos”, informa.

Declínio dos sindicatos

E o declínio dos sindicatos fez uma enorme diferença, nas contas de Krugman. “Veja o caso dos caminhoneiros: no passado, dirigir caminhões era um bom emprego, mas agora o salário é um terço mais baixo do que na década de 1970, e as condições de trabalho são terríveis. O que causou essa mudança? O esvaziamento dos sindicatos é grande parte da história. E esses fatores facilmente quantificáveis são apenas indicadores de um viés sustentado de antagonismo aos trabalhadores em nossa política”, afirma.

Segundo ele, essa constatação reconduz à questão de por que se fala tanto sobre robôs. “A resposta, eu proporia, é que essa é uma forma de desviar a atenção — uma maneira de evitar admitir que nosso sistema é distorcido em desfavor dos trabalhadores, da mesma maneira que falar de uma ‘lacuna de capacitações’ sempre foi uma forma de desviar a atenção quanto a más políticas que promovem alto desemprego”, destaca.

Para Krugman, os progressistas, mais que qualquer outro grupo, não deveriam se deixar enredar por esse fatalismo fácil. “Os trabalhadores americanos poderiam, e deveriam, estar recebendo um tratamento muito melhor. E se isso não acontece, a falha não está em nossos robôs, mas em nossos líderes políticos”, conclui.


Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/a-tecnologia-como-falsa-vila-para-os-trabalhadores/

Jantar fora ou gastar luz em casa?

Jantar fora ou gastar luz em casa?
Ainda a propósito do IVA da restauração e do que alegadamente o «Estado perde» com essa medida - de acordo com os entusiastas da austeridade - lembrei-me há dias do comentário de João Duque ao OE de 2019. Segundo o economista, teria sido «mais eficiente não se ter mexido no IVA da restauração e baixar o IVA da eletricidade». Por quê? Porque «as pessoas para pouparem ficam em casa e em casa gasta-se eletricidade». Ou seja, segundo João Duque, com a descida do IVA o Governo beneficiou, erradamente, os «que vão jantar fora e que apagam a luz em casa». Pela sua aparente candura e simplismo, esta imagem faz lembrar uma outra, menos recente, do mesmo economista e professor universitário: aquela em que aludia a cinema e pipocas.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

A elite global

Há décadas que a literatura académica teoriza sobre a ideia de uma elite de poder globalizada e sobre o conceito de uma classe capitalista transnacional.

Esta elite do poder global funciona como uma rede não governamental de pessoas ricas e formadas na defesa dos interesses comuns de gestão, na protecção da riqueza global concentrada e orientadas para assegurar o seu crescimento contínuo. Estas elites globais de poder influenciam e usam instituições internacionais controladas por autoridades governamentais como o Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional (FMI), Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), Organização Mundial do Comércio (OMC), G-7, G-20, as quais recebem instruções e recomendações para acções de políticas de redes de organizações e associações de elite de poder global não governamentais.

Muito se tem falado nos 1% mais ricos, que compreendem mais de 36 milhões de milionários e 2.400 bilionários, que aplicam os seus excedentes de capital em empresas de gestão de investimentos como a BlackRock e o J.P Morgan Chase. Uma simples dúzia e meia dessas empresas de gestão de investimentos – as que Peter Phillips apelida de gigantes no seu livro «Giants: The Global Power Elite» – com um capital acumulado na ordem de um bilião de dólares, controlavam, em 2017, mais de 40 biliões de dólares. Esta mão cheia de empresas, com participações cruzadas entre si, são geridas por umas duas centenas de pessoas que tomam decisões sobre como e onde o capital será investido e cujo principal problema é terem mais capital para aplicar do que oportunidades de investimento seguras, o que os leva a assumir investimentos especulativos e arriscados, a fomentar o aumento dos gastos em despesas militares e na privatização do património público.

A lógica de funcionamento deste modelo de concentração da riqueza implica um sistema de crescimento obrigatório de tal modo que qualquer ligeira escassez de capital conduz a uma situação de estagnação económica que facilmente se converte em depressão, falências bancárias, colapso monetário e desemprego em massa ou não se caracterizasse o capitalismo como um sistema económico sujeito a inevitáveis ajustamentos através de contracções, recessões e depressões. Enredados no colete de forças do crescimento económico, todo-poderosos como Mark Zuckerberg (Facebook), Bill Gates (Microsoft), Jeff Bezos (Amazon), Jamie Dimon (JP Morgan) e Warren Buffett (Berkshire Hathaway) dependem permanentemente de novas oportunidades de investimento, numa espiral que os limitados recursos do planeta não comportam.

Os trabalhos de investigação desenvolvidos, como o já citado de Peter Phillips, levaram há identificação das mais importantes redes da elite do poder global e dos seus membros; estes são o núcleo duro da classe capitalista transnacional que cumpre a função unificadora, produz ou incentiva a produção das justificações ideológicas que servem os seus interesses e faz difundir através dos meios de comunicação corporativos e estabelece os termos e limites das acções a serem implementadas pelas organizações governamentais transnacionais e pelos estados-nação capitalistas.

As elites globais do poder, que dirigem as grandes corporações do mundo, sobrepõem-se até à liderança de organizações como a Comissão Trilateral ou o Conselho do Atlântico (cujo aparelho militar, a NATO, sob a capa da defesa das liberdades opera na realidade na protecção dos interesses do capital global), financiam organizações não-governamentais e fornecem instruções directas e recomendações de políticas para governos, instituições internacionais e agências de informação.

A concentração de riqueza – expressa no facto de cerca de 80% da população mundial ter um rendimento diário inferior a dez dólares e metade menos de três dólares por dia, ou, como garante a Oxfam International, que apenas 8 mega-ricos detém uma riqueza superior à de metade da população mundial – e a protecção desmesurada de que beneficiam os mais ricos está a conduzir a Humanidade a uma crise em que a pobreza, a guerra, a fome, a alienação em massa, a propaganda dos meios de comunicação e a devastação ambiental atinge níveis que ameaçam o futuro de nossa espécie. A elite dos mega-ricos está consciente da sua situação de desbragada opulência entre a multidão empobrecida e o que mais receará será uma mobilização social que conteste o seu poder monopolista e as actividades de economia especulativa que pratica a, seu bel-prazer.

A globalização colocou um novo conjunto de exigências sobre o capitalismo e obrigando a criação de mecanismos transnacionais para apoiar o crescimento contínuo do capital, o que entra em clara contradição com a ideia de estados-nação autónomos e independentes, tradicionalmente veiculada nas economias capitalistas liberais. A crise financeira de 2008 foi um reconhecimento do sistema global de capital sob ameaça, uma situação que encorajou ainda mais o abandono do conceito de estado-nação e a formação de um imperialismo global capaz de assegurar os novos requisitos da ordem mundial para a protecção do capital transnacional.

O louvável trabalho de expor esta realidade e quem com ela vem lucrando de forma imoral deve ser divulgado, mesmo quando quem o realiza reduz os seus potenciais efeitos à expectativa de levar alguns dos grandes beneficiários do modelo a arrepiar caminho e, quiçá, abdicar dos sobrelucros acumulados… por considerar que serão os únicos que podem corrigir os desequilíbrios que criaram sem grandes convulsões sociais.

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https://www.jornaltornado.pt/a-elite-global/

Quando falar com um economista, tenha cuidado. Comentário a uma entrevista de Robert Barro

Este artigo foi motivado pela leitura recente de uma entrevista de Robert Barro. Antes de se passar à análise da entrevista, contudo, é necessário um pouco de contextualização sobre o percurso deste autor e as características e relevância da escola de pensamento económico que representa. Robert Barro é um dos mais distintos economistas da nova escola clássica e um dos economistas mais influentes da segunda metade do século XX. A nova escola clássica emergiu na década de 70 do século passado como contraponto intelectual à hegemonia do pensamento keynesiano. A sua ascensão foi meteórica: de mão dada com a escola dos ciclos económicos reais (real business cycles) – com quem partilha grande familiaridade de premissas e resultados - viria a triunfar, escassos anos depois, na década de 80, em alguns dos mais influentes departamentos de economia à escala global, embora o seu ascendente tenha sido mais vincado na academia americana e menos expressivo no continente europeu. Perdeu o seu lugar cimeiro ao longo da década de 90, com a consolidação do paradigma novo-keynesiano, mas ocupa ainda um lugar destacado no ensino e na investigação contemporâneas. Mesmo que parte dos seus resultados sejam hoje objeto de crítica, a sua vitória epistemológica é inegável: a teoria das expetativas racionais e os modelos de maximização com base no agente representativo subsistem como a formulação canónica dos modelos económicos convencionais, mesmo que existam esforços – sobretudo desde a crise financeira – para adicionar imperfeições ao modelo base, de modo a que reproduza mais fielmente a dinâmica efetiva do ciclo económico. A nova escola clássica assenta o seu edifício teórico num triângulo de premissas que determinam as suas prescrições de política económica: igualdade contínua entre oferta e procura em todos os mercados, expetativas racionais e a validade de um agente maximizador representativo da economia agregada. Tomadas no seu conjunto, garantem alguns dos seus resultados mais célebres: a ineficácia da política orçamental (fruto da equivalência ricardiana com expetativas racionais), a ineficácia da política monetária (se antecipada pelos agentes) e o postulado de que as flutuações económicas se devem sobretudo a choques reais (este último resultado mais herdeiro dos seus companheiros dos ciclos económicos reais). Porém, no que respeita à contextualização da entrevista, a dimensão mais importante a ter presente é a fundação teórica do mercado de trabalho feita pelos novos clássicos. Neste domínio, deve-se reter que a nova escola clássica não reconhece a existência de desemprego involuntário, já que assume que todos os mercados estão equilibrados, incluindo o mercado de trabalho. Todos os agentes que pretendem trabalhar pelo valor do salário real vigente são capazes de o fazer. O ato de trabalhar é, na verdade, apenas um ato de escolha voluntária entre o prazer (utilidade) do consumo do lazer e o sacrifício (desutilidade) da redução de trabalho. Assim, neste quadro, não existem pessoas desempregadas na aceção que comummente se costuma atribuir ao conceito. Existe apenas um conjunto de pessoas que pretende consumir lazer em vez de realizar trabalho, porque consideram que o salário real prevalecente não lhes permitirá comprar bens cuja utilidade supere a desutilidade que a escolha do trabalho implicaria. Mais: neste mundo alternativo, trabalhar ou não trabalhar não é uma decisão binária como na maioria das situações da vida real. Os agentes escolhem apenas trabalhar mais ou menos horas, não encontrando qualquer barreira institucional (nomeadamente a legal) a essa decisão. As flutuações do emprego são explicadas por choques de produtividade. Tomemos o exemplo de um choque positivo de produtividade. O choque positivo causa um aumento do salário real, aumentando o custo de oportunidade de consumir lazer, fazendo com que os agentes aumentem o número de horas trabalhadas. Este mecanismo, defendem, é o que explica a flutuação do emprego ao longo da história. De novo, todo o processo resulta da decisão livre de um agente maximizador: o desemprego não é um problema nem individual nem social. Visto por qualquer cidadão não economista, esta teoria é surpreendentemente absurda: todos sabemos que o desemprego está historicamente associado a situações de pobreza e exclusão social; todos sabemos que as pessoas não escolhem, marginalmente, se pretendem trabalhar mais ou menos uma hora em função do salário real; e, evidentemente, todos sabemos que o desemprego involuntário existe e que a incapacidade de usar plenamente o fator trabalho é uma das mais salientes e regulares características das economias capitalistas. Mas toda esta evidência não encontra relevância na discussão especializada de economia, porque o instrumentalismo é o critério epistemológico que, explícita ou implicitamente, enquadra a discussão. Isto significa que a validade de um modelo não depende da plausibilidade das suas premissas. O único critério de verificação tido como válido é a capacidade de gerar resultados que se ajustem ao comportamento das variáveis económicas na realidade. Isto é, a validade advém apenas da sua avaliação empírica. Neste plano, os novos clássicos registaram a sua mais aclamada vitória na teoria da inflação. Mas também a teoria da determinação dos salários se transformou num palco do seu alegado sucesso: a sua teoria permitia fundamentar teoricamente a regularidade empírica segundo a qual a os salários reais evoluem de forma pró-cíclica. Ou seja, que os salários tendem a acompanhar o sentido da expansão ou da contração económica. Pelo contrário, o paradigma keynesiano (na sua versão da síntese neoclássica) assume que os salários reais são contra-cíclicos, resultado que decorre de assumir uma produtividade marginal do trabalho decrescente. Terminado o enquadramento, chegamos finalmente ao objeto deste texto. No início da década de 90, Robert Barro concedeu uma entrevista aos autores do livro “A Modern Guide to Macroeconomics: An Introduction to Competing Schools of Thought”, Brian Snowdon, Howard Vane e Peter Wynarczyk. Nessa entrevista, pode encontrar-se o excerto reproduzido abaixo: Muitos críticos da nova economia clássica argumentaram que existe uma falta de suporte empírico para a existência de fortes efeitos de substituição intertemporal na oferta de trabalho. Como reage a esta crítica? Robert Barro: É difícil obter evidência direta disso, assim como é difícil obter evidência do quão sensível é o investimento ao custo de financiamento – é o mesmo tipo de problema. Assim como se pode ver que o investimento é muito sensível ao longo do ciclo económico, o fator trabalho também se move bastante. Se assumir uma perspetiva de equilíbrio e observar que o fator trabalho se está a mover, tem de pensar acerca de quais os incentivos que estão a fazer com que ele se mova. Mas conseguir evidência direta dos efeitos intertemporais é difícil, porque é difícil isolá-los O mesmo acontece com o consumo. É difícil destrinçar os efeitos intertemporais, mesmo que as pessoas estejam dispostas a acreditar que esses efeitos existem. Na verdade, isolar curvas de oferta e procura também é um exercício difícil. É um problema de identificação difícil. Este excerto chamou-me a atenção por sintetizar num exemplo breve os enviesamentos que a comunicação com economistas pode gerar, quando trazida para o espaço público. A análise da pergunta e dos pressupostos e omissões da resposta permite guiar-nos pela forma como alguns economistas gostam de publicitar os seus resultados e opiniões sem submeter a escrutínio as suas premissas. Em primeiro lugar, a pergunta tem a maior pertinência. Para que as flutuações agregadas do emprego pudessem ser explicadas exclusivamente por efeitos de substituição intertemporal entre trabalho e lazer, as elasticidades teriam de ser muito superiores às verificadas em sucessivos testes empíricos – e, mesmo esses testes, assentam em pressupostos questionáveis. A resposta de Barro a esta questão é, no mínimo, surpreendente. A maior fonte de surpresa é o facto de Barro nem sequer responder diretamente à pergunta, escusando-se de contra-argumentar. Expurgada do acessório, Barro limitou-se a dizer duas coisas: i) o efeito de substituição intertemporal da oferta de trabalho é muito difícil de avaliar empiricamente; ii) se assumirmos uma perspetiva de equilíbrio, temos de pensar os incentivos que fazem o emprego mover-se. Tudo nesta resposta é um problema. Quando alguém que assume que a veracidade dos resultados e não das premissas é o critério para avaliar o seu modelo e afirma que os aspetos empíricos do seu modelo são difíceis de medir, qual é o critério de validação que subsiste? No fundo, Barro escolhe desmerecer a evidência empírica que não lhe é conveniente (como o caso da taxa de substituição intertemporal da curva da oferta) e manter as demais que lhe convêm. Na verdade, nem parece que a sua opinião sobre a difícil estimação do conceito seja particularmente robusta – parece, sobretudo, um instrumento evasivo. Mas é no segundo elemento da resposta que se encontra o fulcro do truque de comunicação. Barro afirma que se assumirmos uma perspetiva de equilíbrio temos de considerar quais os incentivos que o fazem mover. E, embora não o afirme explicitamente, o que deixa implícito é que o único mecanismo que vê como plausível para esse movimento é a escolha microeconómica entre trabalho e lazer. O autor mantém-se inamovível na sua premissa de partida para justificar a utilização da escolha intertemporal do consumidor para explicar as flutuações de emprego. Mas, e se a premissa de partida estiver errada? Nesse caso, se a substituição intertemporal não pode ser sustentada empiricamente, toda a fundação teórica para afirmar os seus resultados se esfuma. E haverá boas razões para suspeitar de que o mercado de trabalho não está sempre em equilíbrio? A resposta é sim. Como foi referido, a incapacidade de empregar plenamente o fator trabalho é uma das mais recorrentes características das economias de mercado. As possíveis explicações para essa incapacidade são variadas. Os novos keynesianos, apesar de manterem as hipóteses do agente maximizador e das expetativas racionais, avançam um conjunto de fatores que poderiam explicar a rigidez de salários e preços e impediriam o mercado de trabalho de atingir o equilíbrio. Esses fatores vão desde o custo associado à mudança contínua de preços (menu costs), passando pelos custos de procura de trabalhadores com características específicas até à fixação de salários acima do equilíbrio, de modo a aumentar o custo de oportunidade de perder o emprego e assim estimular os trabalhadores a serem mais produtivos (salários de eficiência). Outros autores, mais próximos do pós-keynesianismo, rejeitam as expetativas racionais e o agente maximizador. Na sua perspetiva, a flexibilidade de salários e preços não garante o pleno emprego, porque despoleta efeitos que contrariam o caminho para o equilíbrio. A diminuição dos salários pode ter efeitos nocivos para a procura e despoletar efeitos perversos associados ao aumento do valor real da dívida dos agentes económicos. A taxa de juro – sendo muito influenciada pela preferência pela liquidez – não é suficiente para equilibrar o mercado de bens. Ambos os fatores podem ter um efeito colateral nas expetativas, afastando ainda mais a economia do equilíbrio. Na sua opinião, como as economias de mercado resultam da ação descentralizada de vários agentes com expetativas voláteis, é muito improvável que consigam gerar o pleno emprego dos seus recursos. Por isso, deve ser o Estado a regular a procura agregada, de modo a assegurar o pleno aproveitamento dos recursos. Para o nosso argumento o ponto relevante é que assumir que o mercado de trabalho se equilibra continuamente é uma hipótese muito pouco razoável. Assentar toda uma teoria num pressuposto tão evidentemente falso deveria ser considerado um caminho muito pouco sensato. Mas é a aí que surge a singularidade dos economistas. Em todas as ciências sociais é possível que os autores guiem o autor até um conjunto de conclusões que dependem, em grande medida, das premissas fixadas à partida, as quais, por sua vez, dependem muito do posicionamento político e moral do autor. Não há nenhum mal nisto: desde que seja mantida uma argumentação fundamentada e séria, o exercício é legítimo. Perigoso é negar que existe essa influência à partida de crenças e convicções. Na economia, porém, tudo é muito menos transparente. Tal como noutras ciências sociais, os pressupostos de partida decorrem de convicções e valores à partida dos seus autores. Contudo, ao contrário de outras ciências sociais, os economistas utilizam um exercício dedutivo formalizado – a matemática – que permite obscurecer a relação entre pressupostos e resultados. Quanto maior a complexidade da matemática utilizada, menor a capacidade de escrutínio dos passos lógicos que são dados. Muitos economistas usam o subterfúgio de pedirem aos seus ouvintes que ignorem as premissas e se foquem nos resultados que, garantem, foram extraídos a partir das mais sofisticas e inatacáveis técnicas de modelação. Tal ação permite-lhes comunicar resultados favoráveis aos seus valores com a aparência de uma falsa neutralidade científica. O processo de ação comunicacional de muitos economistas, descrito no parágrafo anterior de forma abstrata, é cabalmente replicado no caso concreto da resposta de Robert Barro. Todos os autores da nova escola clássica eram acérrimos liberais. Na sua visão do mundo, os mercados tendem para o equilíbrio e a ação de uma autoridade central – orçamental ou monetária – é mais nociva do que virtuosa. Refletindo estas convicções, os seus modelos começam por assumir a hipótese totalmente irrealista de que os mercados estão sempre em equilíbrio, o que, a par de uma paleta de premissas já referidas anteriormente, garantem resultados que vão ao encontro das suas convicções. Tal não significa desmerecer as capacidades intelectuais destes autores. Pelo contrário: os autores mais destacados da nova escola clássica são dotados de brilhantes capacidades de modelação matemática da economia. O problema é usarem o seu brilhantismo para ofuscarem a clareza do debate, negando-se a reconhecer que, aparte o sofisticado exercício de modelação, os seus resultados dependem em larga medida dos seus pressupostos e dos seus valores. Robert Barro responde implicitamente que se assumirmos que os mercados estão em equilíbrio a substituição intertemporal da oferta de trabalho é uma boa explicação, porque nem concebe abandonar o seu pressuposto de que os mercados não estão sempre em equilíbrio. Para ele, os seus valores e pressupostos não se discutem. Se a evidência empírica está contra ele, é porque está mal estimada. A realidade é que tem de se adaptar à sua conceptualização da economia e do mundo. Escolhi trazer o exemplo da resposta de Robert Barro para este artigo, porque o que podemos aprender com ela continua muito atual. Todos os dias vemos economistas em órgãos de comunicação a darem opiniões sobre temas sociais, reclamando para si um manto diáfano de grande ascetismo e neutralidade científica. Essa neutralidade pura não existe, nem é qualquer modelo matemático ou econométrico que a confere. Todos os pressupostos merecem ser discutidos e, raramente, poderá ser dada uma resposta unívoca às questões. Não existem resultados incontestáveis em ciências sociais. Por isso, da próxima vez que falar com um economista, tenha cuidado. Depois não diga que não o avisei.

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Do vício de pensar em modo austeridade

Há uns dias, o Público noticiava que, «de acordo com um relatório do Governo que acompanha a descida do IVA no sector da restauração para 13%, nos 18 meses que se sucederam à descida da taxa, a receita de IVA totalizou 619,1 milhões de euros, menos 38,4%, correspondentes a 385,3 milhões de euros, que a receita dos 18 meses anteriores». Perante a constatação, o jornal não vai de modas e puxa para título a ideia de que, com a descida da taxa de 23 para 13% em 2016, o «Estado perde» cerca de 385 milhões de euros nas receitas dos dezoito meses seguintes.
Do vício de pensar em modo austeridade
Avançando para o miolo da notícia, a história que se conta é contudo um pouco diferente. Refere-se, desde logo, o aumento do emprego no setor do alojamento e da restauração em 9,9% (mais 21 mil postos de trabalho) no segundo semestre de 2017, face ao semestre homólogo de 2016 (num ritmo que supera o do crescimento global do emprego no mesmo período, de 5,1%). Assinala-se, por outro lado, que esse aumento do emprego gerou uma receita de 289,5 milhões de euros mesmo semestre de 2017 (+14,1% face a 2016) nas contribuições para a Segurança Social e dá-se conta, por último, da quebra da despesa em prestações de desemprego, a rondar os -11,2%. Se a tudo isto se juntar o efeito no aumento do consumo, e portanto o impacto na economia, mais difícil se torna afirmar - como sugere o título da notícia - que o «Estado perdeu» com a decisão de reduzir o IVA da restauração.

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A direita que se desvanece

A direita que se desvanece
Enki Bilal
Durante o debate quinzenal, o líder da bancada social-democrata, Fernando Negrão, lembrou-se de esgrimir que o valor da dívida pública, durante a actual legislatura, subiu em 20 mil milhões de euros. E esqueceu-se de pensar que a importância de uma dívida se mede pela capacidade de a pagar (em função do PIB).  Quando confrontado com a descida desse rácio, lembrou-se de dizer que o gráfico estava... invertido!
Mas poderia ter dito que, com os actuais níveis da dívida, mesmo em função do PIB, e por causa do baixo crescimento económico, a dívida pública não é sustentável e que isso deveria abrir um verdadeiro debate nacional, o qual foi negado como importante por Passos Coelho, possivelmente porque estavam em causa os créditos externos ("as dívidas são para se pagar"). Mas para isso, Negrão teria de falar do Tratado Orçamental e das suas implicações orçamentais, dos anos malditos da troica e dos seus apoiantes em Portugal, que por acaso estavam, no início, no seu partido. E teria de propor um modelo diferente de crescimento económico, o que até agora mal se aflorou. Nem um novo papel do Estado se soube definir e PSD/CDS tinham uma maioria absoluta no Parlamento. 
Mas, para espanto de todos, não é que Negrão falou mesmo dos tempos da troica? 

Mas teve a presença de espírito de escolher as palavras: "No nosso tempo, que também foi o vosso, houve um problema de bancarrota do país que o PSD e o CDS tiveram de gerir no Governo" "Gerir" é o termo benévolo, já que o resultado foi mais do que desastroso. Cerca de um quarto da população activa desempregada, srviços públicos depauperados e desarticulados, uma emigração histórica de pessoal qualificado que ainda não foi estancada passados 10 anos sobre o início da crise económica de 2007/2008; a cristalização de um sistema de remunerações assente em baixos valores, uma desigualdade e uma pobreza instaladas. E uma fragilidade estrutural que o PSD não sabe como atacar, se não - hoje - exigir mais despesa pública, mais serviços públicos, quando há 4 anos executava programaticamente cortes da despesa, cortes nos serviços públicos. 
Por alguma razão, o PSD está nos seus níveis mais baixos de popularidade. Aliás, tal como o CDS, que não consegue descolar apesar da situação do PSD, tudoagravado com a evasão de dirigentes que, seguindo as pisadas de Paulo Portas, saíram para administrar um grupo nacional e um banco estrangeiro, ainda que isso não queira dizer nada. É possível ser uma pessoa empenhada estando no lado real da economia ou pensando nela quando se ocupa lugares políticos (vidé exemplo do deputado Telmo Correia que assinou 300 despachos na madrugada em que José Sócrates tomou posse). Resta saber se, mais tarde ou mais cedo, esta situação não levará a abrir as portas a alguma nova formação política de direita, assim o queiram as elites bem instaladas que passem a apostar - e financiar - outras experiências, como se passa em Espanha.  E não é ainda o caso da Aliança de Santana Lopes, que teve de contar os seus trocos para realizar o seu 1º Congresso. Mas o mercado parece estar aberto. 

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Mutação e metástases: uma década de crise europeia

Mutação e metástases
Excertos de um texto publicado em Esquerda.net, acessível aqui. "O euro chegou aos vinte anos sem grandes motivos para festejo. Apesar dos retratos entusiastas – Trichet, ex-presidente do BCE, descreveu o euro como um “sucesso histórico (...) em termos de credibilidade, resiliência, capacidade de adaptação, apoio popular e crescimento real”, enquanto Juncker elogiou a “prosperidade e proteção” trazida pela moeda única – a história é um pouco diferente. Mais de uma década depois da crise financeira de 2007-08, a recuperação na União Europeia tem sido dececionante, e os ténues sinais positivos nos números do crescimento económico e do emprego não têm sido acompanhados pelos salários, cuja estagnação surpreende as instituições europeias. O agravamento da desigualdade é um dos traços principais dos últimos dez anos. A conclusão do QE no final de 2018, e a consequente subida esperada das taxas de juro, poderia colocar em causa a recuperação da atividade económica na zona euro e fazer reemergir problemas que apenas foram ocultados na última década. Draghi não perdeu tempo e lançou um novo programa de estímulos monetários e facilitação do crédito aos bancos há poucos dias – “num quarto escuro, movemo-nos com passos curtos”, justificou o presidente do BCE. No entanto, os “passos curtos” não serão suficientes para evitar a recessão que se aproxima. O FMI já anunciou previsões em baixa para o crescimento em 2019, e os analistas começam a suspeitar que o abrandamento pode não ser passageiro. Os índices financeiros continuam a sugerir bolhas especulativas nos mercados de ações e obrigações (Alan Greenspan alertou há mais de um ano), e a volatilidade crescente revela o nervosismo dos investidores – prudente, o The Economist avisa que é provável que “este ano seja mais acidentado que o costume”. É por esta combinação explosiva que no seu recente livro Crashed: How a Decade of Financial Crises Changed the World, Adam Tooze afirma que “o cenário com que nos deparamos agora não é de repetição, mas de mutação e metástases”. Uma década de estagnação acentuou os desequilíbrios da Zona Euro e revelou a desorientação das elites europeias." O resto do texto pode ser lido aqui.

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VOCÊ AINDA SE LEMBRA DE QUANTO PARECEU IMPORTANTE O QUE AS AGÊNCIAS DE NOTAÇÃO PENSAVAM DAS FINANÇAS PORTUGUESAS?

Ainda se lembra daquele período em que pareceu fundamental o que as agências de notação financeira pensavam das finanças públicas portuguesas? E de como o assunto era apresentado como se essa reputação se transferisse individualmente para todos e cada um de nós? A vergonha de sermos "lixo" parecia recair em todos e cada um de nós. Os gráficos a esse respeito evidenciavam o caminho da degradação (veja-se abaixo, a inclusão dos símbolos partidários do governo em funções à data da reclassificação foi um acrescento meu). E de como a mensagem que invariavelmente se lhe seguia era que apenas o bom comportamento preconizado pelas políticas de Vítor Gaspar era o caminho da salvação?
AS AGÊNCIAS DE NOTAÇÃO PENSAVAM DAS FINANÇAS PORTUGUESAS?
Ainda se lembra? Foi assim e, por sinal, a coisa até correu bastante mal para o Passos Coelho porque Vítor Gaspar, apesar de incensado cá dentro e lá fora, se revelou um ministro assaz medíocre e a reacção das agências de rating não se quis adaptar às necessidades do ciclo político do PàF. O assunto acabou descartado do palco político e os gráficos prontamente esquecidos, já que iriam demonstrar um colossal fracasso. só mesmo eu para perversamente os ir actualizando, a mostrar aquilo que não era suposto mostrarem: que foi o nerd do Centeno a fazer aquilo que se esperava que o Gaspar, por ser nerd, fizesse. E é assim que, oito anos passados, um jornal simpático para Passos Coelho como o Observador (que, por sinal, aparecido apenas em 2014, ainda não existia nos anos mais rubros do "não há alternativa à austeridade"), de toda a forma um jornal da causa, se limita a subcontratar a agência Lusa para noticiar o que, noutras circunstâncias, seria noticiado como um espectacular salto de dois níveis no rating da dívida pública portuguesa.

Veja o original em 'Herdeiro de Aécio' na seguinte ligação::

http://herdeirodeaecio.blogspot.com/2019/03/voce-ainda-se-lembra-de-quanto-pareceu.html

No 20º aniversário do euro, a homenagem de Draghi perpetua mitos há muito rejeitados


No 20º aniversário do euro, a homenagem de Draghi perpetua mitos há muito rejeitados

(Ashoka Mody,  25 de Janeiro de 2019)

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O problema com a UE e o Euro é que se baseiam em mentiras sob a presunção de que, se repetidas com suficiente frequência, se tornarão realidade. Isto funcionou bem durante algum tempo, mas como disse Abraham Lincoln: “Você pode enganar todas as pessoas em algum momento do tempo, e algumas pessoas o tempo todo, mas  não pode enganar todas as pessoas durante todo o tempo. O número de pessoas que  pode enganar está a afundar-se   muito rapidamente.

 

Os recentes comentários comemorativos do 20.º aniversário do euro utilizaram sobretudo termos muito elevados, mas sem sentido. O Vice-Presidente da Comissão Europeia Valdis Dombrovskis, por exemplo, tweeted: “Fazer parte do euro significa  estar a fazer  parte de uma viagem comum… As nações europeias serão mais fortes se viajarem juntas. O presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, tentou um quadro de resultados económicos mais ponderado, mas ainda assim alegre. Para transmitir alegria, Draghi repetiu histórias desgastadas e desconsiderou a montagem de provas contrárias.

O mercado único precisa de uma moeda única. Não é verdade, não precisa.

O tema central de Draghi é que a união monetária foi “uma consequência necessária do mercado único [europeu]”. Apoia-se na autoridade do Prémio Nobel Robert Mundell, que afirmou que a incerteza nos movimentos das taxas de câmbio constituía uma “barreira ao comércio internacional”. A isso, acrescenta Draghi, “E a moeda única melhorou ainda mais o processo ao eliminar os custos dos pagamentos, das compensações  cambiais e da cobertura do risco cambial”.

A análise econométrica mais antiga – e, durante muito tempo, a mais influente – citada em apoio da proposição de que a incerteza cambial e os custos de  transação  entre moedas dificultaram o comércio foi um estudo realizado em 1989 por dois economistas italianos, Francesco Giavazzi e Alberto Giovannini. De facto, os autores constataram que os movimentos incertos da taxa de câmbio e os custos de transação não fizeram qualquer diferença para o volume do comércio internacional. No entanto, Giavazzi e Giovannini estavam comprometidos com a proposta que se propunham provar e afirmavam que as características económicas e políticas excecionais da Europa exigiam taxas de câmbio fixas.

A descoberta empírica de Giavazzi-Giovannini – diferente da sua conclusão preferida – não teria sido uma surpresa para Otmar Emminger, presidente do Bundesbank da Alemanha, que havia observado alguns anos antes que os exportadores se protegiam de forma rotineira e barata contra o risco cambial. Em 1993, num artigo agora clássico do Journal of Literature sobre a união monetária proposta, o economista Barry Eichengreen da Universidade da Califórnia, em Berkeley, desafiou aqueles que afirmavam que os custos de transação da conversão de moedas limitavam o comércio internacional.

Foi tudo muito rápido até ao  dia de hoje. Aqui estão as evidências. O comércio da Alemanha dentro da União Europeia cresceu mais rapidamente com três países não-euro: República Checa, Hungria e a Polónia. É apenas uma questão de tempo até que o comércio da Alemanha com estes países exceda a soma do comércio com a França e a Itália, os dois maiores países da zona euro depois da Alemanha. Portanto, não, um mercado único não precisa de uma moeda única.

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Figura 1: Os exportadores alemães desviaram as suas atenções da zona  euro. (Percentagem do total das exportações alemãs para os vários países).

Fonte: Dados do FMI aqui.

Draghi repete o persistente mantra europeu de que o risco de continuação da desvalorização da lira italiana teria dissuadido as exportações alemãs para a Itália. Bem, a evidência está à vista.  O euro fixou o valor da lira em relação ao marco alemão e os exportadores alemães perderam o interesse no mercado italiano. Draghi alega ainda que as “cadeias de valor acrescentado” – a dispersão das fases de produção intermédias pelos países – exigem uma moeda única. No entanto, as cadeias de valor acrescentado são mais extensas com os três países não pertencentes à área do euro com os quais o comércio alemão cresceu mais rapidamente.

Os defensores da união monetária podem, no entanto, argumentar que o comércio com países fora da zona euro aumentou porque esses países estão a crescer rapidamente; e, na ausência do euro, o comércio entre os países membros teria caído ainda mais rapidamente. Em poucas palavras, Andrew Rose, da Universidade da Califórnia, em Berkeley, em colaboração com outros estudiosos, criou um tremor ao afirmar que a união monetária europeia iria criar uma explosão do comércio dentro dos países membros da zona euro.

Mas a evidência econométrica de Rose não passou no “teste do cheiro”, como apontou o então governador da Reserva Federal, Ben Bernanke. Em 2004 – no quinto aniversário do balanço do euro -, Bernanke observou que a parte do comércio dentro dos países da zona do euro estava a diminuir, em vez de aumentar. Para ele, isso era motivo suficiente para recear que as estimativas da Rose não fossem credíveis.

João Santos Silva e Silvana Tenreyro, numa análise econométrica sofisticada, publicada em 2010, observaram que os países que aderiram à zona euro tinham desde  há muito tempo fortes laços comerciais históricos entre si; uma vez que esses laços foram contabilizados, a influência do euro no comércio entre os países membros foi essencialmente “zero”.

Mais tarde, o próprio Rose, num mea culpa de 2015, reconheceu que os seus estudos anteriores extrapolavam indevidamente os ganhos comerciais obtidos noutras uniões monetárias para a probabilidade da zona euro registar também um aumento do comércio interno dos Estados-Membros. Com quase 15 anos de funcionamento da zona euro, Rose concluiu que os dados eram uma zona de nevoeiro, tornando impossível qualquer afirmação definitiva. Rose admitiu, no entanto, que o euro “teve um efeito ligeiramente estimulante, na melhor das hipóteses”.

Em 2018, dois novos estudos levantaram esse nevoeiro, concluindo a tarefa econométrica que  Rose tinha deixado por acabar.  O primeiro estudo utilizou exatamente os mesmos dados alargados  que  Rose empregou e desenvolveu o seu trabalho na base das técnicas avançadas de Santos Silva e Tenreyro (uma superioridade que o próprio Rose reconheceu), e  estabeleceu, mais firmemente que antes, que o euro teve influência “zero” no comércio .

Mais notavelmente, outro estudo (documento de trabalho não datado), novamente usando o método de Santos Silva e Tenreyro, descobre que nem os membros originais da zona do euro nem os membros mais recentes negoceiam mais uns com os outros apenas porque partilham o euro. Projetando para o futuro, os autores concluem que o euro também não melhorará o comércio para outros membros. A sua  conclusão é sem rodeios: possivelmente o euro gera alguns benefícios políticos e económicos, mas “não acreditamos que uma maior integração comercial com a zona euro deva ser considerada um deles”.

A posição de Draghi evoluiu. Num discurso de novembro de 2013, ele disse de forma irresponsável: “A evidência empírica sugere que partilhar uma moeda realmente impulsionou o comércio”. Não havia então base para uma tal afirmação; a evolução das partes do comércio  era clara e o estudo de Santos Silva e Tenreyro era da última geração. Agora, na sua retrospetiva de 20 anos, Draghi distanciou-se  de fazer uma afirmação obviamente incorreta. Em vez disso, recuou para uma visão nebulosa de que o euro “protege” o mercado único. A última afirmação de Draghi – seja qual for o seu significado – não tem qualquer apoio, nem nas tendências na direção do comércio, nem na demonstração  econométrica contínua.

A soberania monetária cria mais problemas do que os que resolve, diz Draghi. Será isso  verdade?

Se os países da zona euro  pudessem definir a sua própria política monetária, eles poderiam somente abusar  dessa autonomia. Seriam responsáveis por grandes défices orçamentais e utilizariam indevidamente o banco central para financiar esses défices. Assim, a conclusão de Draghi é feita  com base no comportamento das autoridades nacionais durante os anos 70 e 80. Ele acredita que esse comportamento prejudicial teria continuado inevitavelmente.

As décadas de 1970 e 1980 foram décadas excecionais durante as quais políticas orçamentais  e monetárias irresponsáveis foram comuns em todo o mundo. Em parte, os governos reagiram aos dois aumentos dos preços do petróleo, que aumentaram as taxas de inflação a par de uma forte desaceleração do crescimento. Esse resultado macro – descrito popularmente como estagflação – provou ser um desafio político em toda a parte. O descontentamento público generalizado levou a pressões políticas para a concessão de subsídios governamentais, o que ampliou os défices  orçamentais e incentivou o financiamento monetário dos défices.

As nações ocidentais que não adotaram uma moeda única aprenderam a   disciplinarem-se. A aprendizagem  ocorreu em momentos diferentes ao longo da década de 1990 e início dos anos 2000. Nos Estados Unidos, o presidente do Fed, Paul Volcker – numa  demonstração vigorosa da independência do banco central – aumentou as taxas de juro para níveis draconianos no início da década de 1980. A inflação caiu e permaneceu relativamente baixa durante a era subsequente da Grande Moderação.

Na Europa, o Reino Unido foi o primeiro a fazer uma grande rutura com o estrangulamento das taxas de câmbio fixas. Na  “Black Wednesday”, 16 de setembro de 1992, os especuladores forçaram a libra esterlina a sair das bandas especificadas no Mecanismo de Taxas de Câmbio (MTC), concebido como um precursor da moeda única. Mas a ignomínia de ser expulso do MTC provou ser uma bênção disfarçada. Em diversas etapas, o governo britânico deu cada vez mais independência ao Banco de Inglaterra, que geriu os assuntos monetários com muito sucesso, e a Grã-Bretanha viveu anos dourados de crescimento com estabilidade. Outros países europeus passaram pelas  suas próprias dificuldades macroeconómicas e financeiras, mas também  transferiram a política monetária para bancos centrais independentes com mandatos de metas de inflação. A Suécia, no topo da escala económica, e a Polónia, no extremo inferior, estiveram entre os países que fizeram esta transição com êxito.

Em França, durante o debate sobre a ratificação do Tratado de Maastricht para a adoção da moeda única, o político conservador Philippe Séguin liderou a oposição, defendendo a manutenção do franco gerido por um banco central independente que mantivesse a inflação sob controlo. Séguin perdeu por muito pouco na sua tentativa de mudar o rumo da história francesa e europeia. Mas só porque a França e outros países europeus adotaram o euro, funcionários como Draghi não têm licença para manter viva uma visão cega e paternalista de que as nações da atual zona  euro não teriam alcançado a disciplina macroeconômica que os suecos e os polacos  alcançaram.

Na verdade, os economistas políticos Jesús Fernández-Villaverde, Luis Garicano e Tano Santos argumentaram o contrário: o euro enfraqueceu a disciplina macroeconómica. Uma política monetária comum para a zona  euro reduziu as taxas de juro muito rapidamente para países com estruturas institucionais fracas. Os governos desses países aproveitaram as taxas de juro mais baixas para aumentar as regalias fiscais de grupos politicamente favorecidos, em vez de se envolverem no negócio mais difícil de investir para aumentar as suas taxas de crescimento potencial. Longe de instilar disciplina, a moeda única  subverteu-a.

Draghi surpreendentemente não considera o benefício mais importante da soberania monetária, a capacidade de absorver grandes choques económicos por meio de depreciações da taxa de câmbio. Embora as desvalorizações contínuas para compensar a falta de crescimento da produtividade seja um caminho para o declínio económico, a depreciação para absorver choques é inequivocamente desejável. Além disso, na medida em que a depreciação da taxa de câmbio encurta o período de aflição após o choque, também ajuda a evitar recessões prolongadas, que estudos recentes sublinham que, elas sim,  minam  o potencial de crescimento a longo prazo.

Uma política agrícola comum exigia uma união monetária. Não, não é assim.

Draghi utiliza a espantosa  política agrícola comum da Europa como uma justificação para a moeda única. ”Na ausência de uma moeda única”, afirma, a compensação prometida aos agricultores precisava de ser ajustada sempre que as taxas de câmbio mudassem.

Estes ajustamentos de preços, afirma Draghi melodramaticamente , “punham  em risco a confiança no mercado” e “envenenaram as relações intracomunitárias”. Em primeiro lugar, a interpretação  da história é, no mínimo, controversa. Andre Szász, antigo banqueiro central neerlandês, no  seu brilhante pequeno livro de 1999 sobre a história da União Monetária rejeitou-a considerando que os dirigentes europeus  utilizaram esta interpretação da história para introduzir a moeda única. A  burocracia europeia utilizou fórmulas bem compreendidas, segundo Szász, para fazer os ajustamentos de preços necessários.

Mas o problema mais profundo da política agrícola europeia enquanto argumento a favor de uma moeda única é que é a própria política agrícola que constitui tão flagrantemente um problema. Os subsídios absorveram grandes montantes do escasso orçamento europeu, favoreceram os grandes agricultores em detrimento dos pequenos agricultores e protegeram a agricultura ineficiente na Europa. Quando os agricultores europeus colocaram os  seus grandes excedentes nos mercados mundiais, isto levou à baixa dos preços mundiais, o que prejudicou os agricultores das nações em desenvolvimento. A política agrícola europeia nunca teve nenhuma característica redentora e foi somente  uma criação de uma disfuncional  política económica interna. Afirmar, portanto, que era necessária uma união monetária incompleta, com os seus riscos conhecidos, para preservar a obscura política  agrícola da Europa é outro caso de manipulação por razões que justificam ex-post a criação da união monetária.

A zona euro promove a convergência económica. Não, não é verdade.

Os pais fundadores do euro tinham razão, diz Draghi, em acreditar que a “cultura de estabilidade” da moeda única promoveria um maior crescimento e emprego. Uma manifestação valiosa de tais ganhos, postula ele, seria a “convergência”, o estreitamento das diferenças de rendimento per capita entre os países membros da zona euro. Draghi reconhece que Portugal e a Grécia – sem margem para dúvidas, ele não menciona a Itália -, estagnaram e divergiram em vez de convergir. No entanto, em defesa da tese de convergência, ele aponta os países bálticos e a Eslováquia como sucessos.

Esse uso casual de “provas”  é profundamente problemático. A Eslováquia aderiu à zona do euro em 2009, a Estónia em 2011, a Letónia em 2014 e a Lituânia em 2015. Estes países estavam num  caminho de convergência impressionante muito antes de adotarem o euro, como documentado (aqui e aqui). Eles convergiram por razões bem estabelecidas na teoria tradicional do crescimento e nos resultados empíricos. A sua  forte herança de capital humano de anos sob planeamento socialista, a sua transição para economias de mercado e, especialmente após a adesão à União Europeia em 2004, o reforço do Estado de Direito e a proteção da propriedade privada, estiveram na base da sua convergência económica.

Se o argumento é que a perspectiva de que eventualmente entrar na zona euro (e no regime de taxa de câmbio fixa em que estes países trabalharam em anos anteriores) aumentou o ritmo de convergência, simplesmente diremos que não há nenhuma evidência disso. Outros países que não aderiram à zona euro e que aparentemente não têm planos a curto prazo para o fazer – a República Checa, a Hungria e a Polónia – também convergiram para padrões de vida em economias europeias de rendimento mais elevado.

O mercado único é a grande conquista da Europa. Sim, mas não a idealizemos.

O argumento contrário de que uma moeda única aumenta a divergência em vez de promover a convergência remonta aos economistas britânicos Nicholas Kaldor e Alan Walters. Ambos observaram que uma política monetária única seria muito restritiva para o país mais fraco, enfraquecendo ainda mais as suas perspectivas de crescimento a curto prazo; a mesma política monetária estimulará um maior crescimento no país mais forte. A evidência é consistente com esta visão mais pessimista. Uma vez desencadeada  a crise financeira global, a política monetária de dimensão única que não se encaixa verdadeiramente em nada  aumentou claramente a divergência económica, conforme eu documento .

Acredito nas virtudes do Mercado Único – elas não são tão grandiosas como se diz, mas são reais. Infelizmente, Draghi faz afirmações absurdas: “O mercado único foi concebido para colher os benefícios da abertura, atenuando simultaneamente os seus custos para os mais vulneráveis; para promover o crescimento, protegendo simultaneamente os cidadãos da Europa das injustiças dos mercados livres e  sem entraves”.

Independentemente das proteções sociais previstas na legislação europeia, os mais vulneráveis na Alemanha, França e Itália perderam os seus empregos na indústria transformadora ou viram os seus salários profundamente comprimidos pelos trabalhadores da Europa Oriental.

A controvérsia também se espalhou em torno dos “trabalhadores destacados”, o símbolo da assinatura de um mercado único dos serviços. Esses trabalhadores – o lendário canalizador, pedreiro e motorista de camiões polacos -, são normalmente destacados pelos seus empregadores da Europa de Leste para os países europeus mais ricos. O presidente francês Emmanuel Macron descreve os trabalhadores destacados como uma forma de “dumping social” porque eles recebem benefícios de acordo com os padrões mais baixos da Europa Oriental. Macron pressionou e conseguiu impor mais restrições aos trabalhadores destacados – e Draghi aplaude essa conquista como um esforço digno para “reduzir práticas trabalhistas injustas no mercado de trabalho”. Essa não é a visão dos governos da Europa Oriental, que insistem que as novas diretrizes restringem o livre comércio de serviços.

A verdade é que, sob o pretexto de proteger os direitos do trabalho, os governos europeus têm procurado criar  mercados de trabalho “flexíveis”, sendo a palavra “flexíveis” um eufemismo para facilitar o despedimento  de trabalhadores. Sim, o emprego aumentou porque os trabalhadores são forçados a aceitar empregos temporários e na base de  salários mais baixos.

Para se ser realista, um tal resultado reflete meramente o funcionamento mais eficiente da economia de mercado. Ainda assim, os contratos de trabalho temporários estão associados a uma menor produtividade; portanto, salários mais baixos não proporcionam nenhum impulso na competitividade. Enquanto isso, a barriga vazia de grande  número de contratos mensais, mesmo diários e horários, cria uma ansiedade que é  socialmente  insustentável.

As consequências duma falsa narrativa podem ser terríveis

Os laureados com o Nobel George Akerlof e Robert Shiller destacaram o papel crucial que as “histórias” desempenham na determinação das políticas e nos resultados económicos. Repetidas infinitamente, as histórias que contamos a nós mesmos  tornam-se a nossa força motivadora, levando-nos a ignorar resultados  contrários. Como Shiller diz mais dramaticamente, porque uma história é uma “explicação facilmente expressa dos acontecimentos”, às vezes ela  propaga-se como uma doença. Pode “tornar-se viral”. À medida que se espalha,  adverte, a história tem um “impacto económico”. Muitas vezes um impacto político mais terrível,  poderia  muito bem ter ele  acrescentado.

Para a celebração do 10.º aniversário em Junho de 2008, o ex-presidente do BCE, Jean-Claude Trichet, afirmou que o euro tinha sido extraordinariamente bem sucedido. Isto numa altura em que a zona euro já estava a sofrer de  ventos fortes e violentos. Descrevendo o discurso de Trichet, parafraseei George Orwell no meu livro EuroTragedy: Um Drama em Nove Atos. Trichet, escrevi eu, estava a narrar a história do euro como deveria ter sido e não como era.

Draghi é mais cuidadoso no  seu discurso do 20º aniversário. Reconhece que a zona euro continua a ser uma união monetária incompleta, com os riscos que lhe estão associados.

No entanto, Draghi então recita mitos antigos, mas repetidamente rejeitados, sobre as virtudes económicas do euro. E, especialmente na sua conclusão,  Draghi é incapaz de resistir à retórica política dos  seus compatriotas para descrever o seu desejo – ao invés da evolução histórica real. A união monetária, diz ele, é o símbolo “definidor” do “projeto político” europeu, que une os europeus “em liberdade, paz, democracia e prosperidade”. Esse brilho só serve para minar a credibilidade, especialmente porque as nações europeias estão mais divididas do que em qualquer outro momento desde a Segunda Guerra Mundial, e o euro tem contribuído grandemente para o aprofundamento do euroceticismo.

A união monetária, continua Draghi, foi necessária para acabar com séculos de “ditaduras, guerra e miséria”. Draghi comete tantos erros na sua análise económica  – que é até assustador observar as consequências de não perceber nada de política .


O próximo texto desta série será publicado amanhã, 17/03/2019, 22h.


Tradução de Júlio Marques Mota – Fonte aqui

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2019/03/16/em-1999-uma-crianca-nasceu-de-parto-prematuro-e-com-deformidades-congenitas-o-euro-20-anos-depois-alguns-textos-sobre-a-sua-atribulada-existencia-texto-no-9-no-20o-aniversario-do-euro-a-home/

Robots com barbas

Às vezes, dá jeito conhecer o passado para reduzir a ansiedade com que vivemos o presente. Vem esta tirada a propósito do debate recorrente e cada vez mais presente na comunicação social sobre que vida se irá viver quando as máquinas nos roubarem o trabalho. E como vamos nós poder viver - e esse é outro tema recorrente, que vem logo atrás - recebendo um rendimento universal incondicional, dado pelo Estado, com o qual teremos de pagar tudo, tudo porque já não haverá trabalho. Na verdade, nada disto é novo.   O Observatório sobre Crises e Alternativas, do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, divulgou recentemente dois estudos de José Castro Caldas e Nuno Teles sobre essa problemática que será debatida na próxima 4ªfeira em Lisboa (Ver inscrição gratuita aqui). O primeiro caderno questiona os fundamentos das narrativas mais correntes acerca do tal futuro do trabalho. Mostra que o debate académico sobre os ritmos, a direção e os impactos da inovação tecnológica sobre o emprego e o trabalho está longe de ser conclusivo. Depois de passar em revista abordagens convencionais na teoria económica, argumenta-se que, em mercados capturados por um punhado de empresas tecnológicas financeirizadas, é diminuto o incentivo à inovação promotora de ganhos significativos de produtividade. Algo que se torna particularmente visível na emergência das plataformas digitais monopolistas, ditas colaborativas, cuja principal inovação se encontra na promoção de novas formas de desqualificação e desvalorização do trabalho. No segundo caderno, aborda-se a tal invasão do espaço mediático sobre o futuro papel das máquinas. 
Nomeadamente, regressa-se aos primórdios da Revolução Industrial, relembram-se debates acalorados entre posições contrastadas que exprimiram as inquietações e as dúvidas de quem as experimentavam a partir de posições sociais diversas. Se esta leitura incentiva e espicaça a sua imaginação, apareça na próxima 4ª feira, no CIU de Lisboa,  no Picoas Plaza, pelas 17h30.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

A próxima crise monetária

Numa ou outra ocasião todas as escolas de pensamento económico se debruçaram sobre a questão dos ciclos económicos e a ocorrência de crises e as de cariz neoliberal não fogem a esta regra.

Segundo alguns membros do pensamento neoliberal mais radical – conhecidos como economistas austríacos e grandes defensores da desregulamentação dos mercados e da actividade bancária, que no extremo defendem o free banking e a emissão privada de moeda –, perante o aumento desmesurado da criação de moeda e o imparável crescimento do peso da dívida, parece agora cada vez mais seguro que a próxima crise monetária será uma questão de “quando” e não de “se”, e de expectativa no comportamento dos chamados activos de reserva perante a situação.

Como observa Chris Marcus – o autor da página ARCADIA ECONOMICS – quando destaca o interessante facto de no caso dos metais preciosos, e salvo alguns fundos que investem em ouro ou prata, poucos serão os detentores do activo mesmo em períodos de subida das cotações, apesar de se saber que a formação de bolhas nos mercados ocorre quando se regista um excesso de procura por um activo específico.

Num texto onde questiona aqueles efeitos sobre a procura de metais preciosos, observa que aquela que ainda é a economia motora mundial, os EUA, e que apresenta uma dívida superior a 22 biliões de dólares para um PIB que ainda não deverá ter alcançado os 20 biliões e uma oferta de moeda (M3, o agregado monetário que inclui a moeda em circulação, sob a forma de papel-moeda ou moeda metálica, os depósitos à vista ou a prazo, incluindo ainda os fundos de aplicação financeira e os de renda fixa de curto prazo e os títulos do governo não amortizados, e os depósitos de poupança) próxima dos 20 mil milhões de dólares, para concluir que se vive uma situação ainda mais preocupante que a de 2011 enquanto os governantes norte-americanos parecem pouco ou nada preocupados em enfrentar a questão dos défices, até que este atinja o limite dos 30 biliões de dólares e de novo se sinta a necessidade de elevar esse tecto…

…e tudo isto enquanto a cotação do ouro e, especialmente, a da prata continuam francamente abaixo dos máximos da última década.

Isto contraria a lógica de funcionamento dos mercados que dita que em épocas de enfraquecimento da moeda (excesso de endividamento e de oferta de moeda) o valor dos activos de refúgio – sendo os metais preciosos os mais seguros – deveria subir, situação que aqueles economistas justificam com o facto das cotações serem formadas, principalmente, através de contratos – e numa proporção de 1 para 500 no caso do ouro e de 1 para 250 no caso da prata –, que não dão lugar a qualquer transacção física. Mas é esta disparidade e os casos de manipulação de mercado que de quando em vez vão sendo conhecidos e onde os intervenientes asseguram que o seu modo de actuação é a norma no sector financeiro (ver aqui nesta notícia), que os economistas austríacos querem ainda menos regulado.

A esta contradição tentam responder com o argumento que, historicamente, o ouro e a prata serviram como um barómetro nas moedas fiduciárias (aquelas cuja emissão não é suportada por qualquer valor de reserva, como acontece na actualidade e ao contrário do que sucedia no tempo do padrão ouro) e à medida que estas se desvalorizam, os preços dos metais preciosos aumentam. Mas como eles próprios admitem isto pode muitas vezes ter um efeito circular e quando o os preços do ouro e da prata aumentam, mais pessoas começam a perceber que algo estará a acontecer e aumentam a procura.

Refira-se ainda que os defensores da limitação da intervenção pública nos mercados reconhecem que o aumento dos preços do ouro e da prata representa uma grande ameaça para os governos que dependem da impressão de moeda e do endividamento, mas não levantam qualquer crítica ao sistema de reserva fraccionária (prática que permite aos bancos realizarem empréstimos ou investimentos em valor muito superior ao dos depósitos sob sua guarda, na expectativa que os depositantes não levantarão todo o seu dinheiro ao mesmo tempo, desde que mantenham como reserva uma determinada fracção do valor desses depósitos), apontando apenas o facto, evidente, deste não poder ser expandido até ao infinito.

No geral a escola austríaca vê a política de criação de moeda e o endividamento excessivo (um eufemismo para apelidar a criação descontrolada de moeda pelo sistema financeiro que vigora na actualidade) na origem dos processos inflacionista e uma explicação para os ciclos económicos, esquecendo que o endividamento é consequência da necessidade premente de fazer crescer o consumo e a economia em geral e uma fonte de lucro para os bancos e para os seus accionistas.


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/a-proxima-crise-monetaria/

Caixas e copos

Caixas e coposHá duas imagens que o pessoal de direita gosta de usar quando fez comentário económico.
Uma é associar a mítica metáfora da Caixa de Pandora à despesa pública. É uma escolha perversa porque, como se recorda, a Caixa estava cheia de demónios e pragas que, quando aberta por excesso de curiosidade, deu cabo do mundo, deixando apenas no fundo a Esperança. É como associar-se à despesa pública o seu papel demoníaco para a sociedade: quem opta por gastar, perde o controlo da despesa.  Outra imagem é o seu complemento: "Um copo meio vazio é um copo meio cheio". Ou, como diria um barman, "há quem olhe para a realidade como um copo meio vazio e quem olhe para o mesmo copo como meio cheio". Ou seja, contrair a despesa pública pode ter um lado mau - dá cabo dos serviços públicos - mas tem um lado bom: dá cabo do papel do Estado e libertarecursos para as empresas investirem...     A primeira foi usada por Vítor Bento, mais uma vez para criticar a situação do Governo (no programa da RTP Tudo é Economia de 11/3/2019). E digo mais uma vez porque ao longo da sua intervenção pública, já a usou inúmeras vezes. À pergunta sobre se o Governo tem capacidade para responder à contestação social, Bento respondeu:
O governo não tem muita margem de manobra. O governo abriu a Caixa de Pandora com as promessas que fez e, no fundo, com o slogan do fim da austeridade, que agora tem dificuldade em fechar. Libertou uma série de demónios e agora não os consegue colocar na caixa novamente. A dificuldade é essa. 
Na verdade, a dificuldade do Governo está em conseguir conciliar as regras do Tratado Orçamental - que Bento e a direita aplaudem - com as promessas de virar a austeridade. E essa dificuldade é igualmente a dificuldade da direita em mostrar que o espartilho do Tratado Orçamental tem virtudes. É o cumprimento desse espartilho estúpido que está a libertar as reivindicações que podem fazer a diferença entre o Estado ter ou não ter um papel. E impedi-las em nome do Tratado Orçamental - que nem Bento nem a direita têm a coragem de o fazer - é mostrar a realidade nua e crua do actual regime: seja quem for que lá esteja, seja quem for em quem se vote, terá de fazer o mesmo. Estupidamente.
  
Mas essa questão Bento nem sem sequer a aborda. Como se fosse natural que se tenha de cumprir todo um edífício teórico - critérios de Maastricht e a necessidade de convergir rapidamente para eles - que assenta ideias erradas, assumidamente criticadas mesmo por quem está à frente do BCE. Porque o Tratado Orçamental é um dispositivo político para manter o instrumento da dívida pública como um instrumento de poder e de transferência de rendimento entre grupos sociais.
 
Pior: quando Bento é questionado se o Governo tem dinheiro para responder às reivindicações sociais, responde que o que se passa - em que o Governo se revela atrapalhado - é antes culpa sua. Primeiro, porque vendeu a ideia de que era possível virar a página da austeridade. Bento não critica a falsa promessa: critica a ideia de que não se deve virar a página da austeridade. Segundo, porque a contestação é quase partidária, própria de ano de eleições, com o fim de retirar a maioria absoluta ao PS, e não uma contestação legítima ao Tratado Orçamental, visando impedir o cerceamento de direitos. E terceiro, porque o Governo tomou opções erradas.
Obviamente que a restrição orçamental é muito forte e muito grande. Mas alguma da restrição resultou de opções políticas que foram feitas. Quando o Governo acabou com o IVA da restauração ficou com menos dinheiro para dar aos enfermeiros ou professores ou seja quem for. Portanto, fez uma escolha a favor de um sector. Quando decidiu reduzir as 40 horas para as 35 horas, ficou com menos margem para poder fazer aumentos porque tem de admitir mais pessoas. Não podemos olhar para a margem de uma manobra absoluta, como se o termos chegado aqui fosse uma inevitabilidade. (...) Isto agora é o contrapeso dessas outras opções seguidas, a meu ver erradamente - eu teria seguido prioridades diferentes.
Bento nunca disse quais teriam sido as correctas e o moderador não o questionou, porque até parece concordar com ele.    

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

O PIB deveria crescer 4%? As contas pouco sérias do Fórum para a Competitividade

O PIB deveria crescer 4%? Fórum para a Competitividade
Na nota de fevereiro do Fórum para a Competitividade (aqui), reproduzida pelo ECO (aqui), Pedro Braz Teixeira argumenta que, dada a taxa de crescimento do emprego, a economia portuguesa deveria registar uma taxa de crescimento do PIB de 4%. Na minha opinião, esta conclusão assenta em pressupostos pouco sérios. Passo a explicar a porquê. Em primeiro lugar, é preciso ter presente qual foi o quadro de raciocínio em que Pedro Braz Teixeira se moveu. Em termos estritamente formais, a produtividade do trabalho é dada pelo rácio entre o PIB e o número de trabalhadores empregados (ou o número de horas trabalhadas) e pode ser interpretada como o valor da produção média efetuada por a cada trabalhador num dado período de tempo. Assim, se, por exemplo, a produtividade do trabalho for igual a 5, isso significará que cada trabalhador dessa economia produziu, em média, bens e/ou serviços no valor de 5 unidades monetárias.
Assim, a produtividade média do trabalho pode ser expressa como:
Produtividade média do trabalho = PIB / (População Empregada)
Como se trata de um rácio, a sua taxa de crescimento pode ser decomposta na diferença da taxa de crescimento das suas componentes. Assim, a taxa de crescimento da produtividade terá de ser necessariamente igual à diferença entre a taxa de crescimento do PIB e a taxa de crescimento do emprego. Se, por facilidade, expressarmos as taxas de crescimento pela letra g, temos que: 
g_Produtividade = g_PIB– g_Emprego
Em 2018, a taxa de crescimento do emprego foi de 2,3% e a taxa de crescimento do PIB foi de 2,1%, logo a taxa de crescimento da produtividade foi de -0,2%.
g_Produtividade (-0,2%) = g_PIB (2,1%) – g_Emprego (2,3%)
Qual é o argumento de Braz Teixeira? O argumento é o seguinte: se Portugal tivesse registado um crescimento de produtividade semelhante ao de países com o seu nível de desenvolvimento, o crescimento do PIB poderia situar-se em 4%. É logo aqui que o seu argumento começa a ficar turvo – que economias são essas? O autor não explicita. De qualquer modo, para que as contas do autor sejam confirmadas, o crescimento médio da produtividade do trabalho desses países terá de ser cifrado em 1,7%. Só isso permite que a igualdade estabelecida acima seja satisfeita: 
g_Produtividade (1,7%) = g_PIB ( 4%) – g_Emprego (2,3%)
Colocado desta forma, o argumento de Braz Teixeira parece, num primeiro olhar, razoável. Tomando como dado o nível do crescimento do emprego, se a produtividade tivesse crescido ao ritmo desse grupo de países, Portugal poderia ter registado um crescimento de 4%. É o que resulta da fórmula explicada acima. Onde se encontra, então, o vício do raciocínio? 
O erro de Braz Teixeira está em assumir que o crescimento da produtividade e do emprego são variáveis independentes. Ou seja, que a evolução de uma das variáveis não tem um impacto determinante na variação da outra. 
A ausência de independência das duas variáveis torna-se evidente quando analisamos a distribuição setorial do emprego criado na economia portuguesa. 
No contexto da recuperação económica, a criação de emprego foi centrada, maioritariamente, em setores como a restauração e os serviços, onde a produtividade do trabalho se encontra abaixo da produtividade média, criando uma tendência de diminuição do seu valor global. Nestes setores – muito trabalho-intensivos – cada trabalhador produz, em média, um valor menor de produção do que noutros setores. E é aqui que reside o fulcro do contra-argumento: como se criou emprego em setores com produtividade baixa, a procura dirigida a esses setores gerou um nível de crescimento do emprego elevado. Para um dado nível de procura, é necessário empregar mais trabalhadores para gerar a produção necessária para corresponder a essa procura em setores com produtividade mais baixa do que em setores com produtividade mais elevada. 
Por outras palavras: existe um nexo de causalidade entre a produtividade média do trabalho apresentar valores baixos (no caso do ano de 2018, até decrescentes (-0,2%)) e o crescimento do emprego se ter situado em 2,3%. As duas variáveis não podem ser analisadas de forma independente. Assumindo uma procurada agregada constante dirigida à economia portuguesa, se a produtividade média do trabalho tivesse sido mais elevada, o emprego teria de ter crescido a uma taxa mais baixa. Na verdade, é o facto de o crescimento do emprego se ter centrado em setores de baixa produtividade que explica o sucesso da recuperação rápida do emprego, apesar dos níveis modestos de crescimento do PIB. Fixar uma variável e imaginar o crescimento da outra, como faz Braz Teixeira, não faz qualquer sentido. 
Duas notas finais
1. Com a explicação acima procurei apenas demonstrar que o raciocínio de Pedro Braz Teixeira em nome do Fórum para a Competitividade é destituído de fundamento. Isto não significa que o crescimento da produtividade não seja um importante objetivo de política económica e que não se possa criticar a estratégia de crescimento do emprego em setores de baixo valor acrescentado. Mas, para isso, temos de refletir sobre as causas da evolução da produtividade, que são múltiplas e nem sempre fáceis de identificar. 
Há domínios estruturais em que Portugal ainda tem um longo caminho a percorrer, como a profissionalização da gestão. Sabe-se que as qualificações dos empresários portugueses são, em média, inferiores às dos seus trabalhadores. O aumento da qualificação dos empresários – tema tabu para alguma direita que aposta na sua sacralização – poderia trazer importantes ganhos organizacionais com reflexo na produtividade. 
Mas sabe-se que a produtividade é também determinada por fatores que dependem da gestão de política económica. O aumento da produtividade tem como determinante principal a incorporação de inovações no processo produtivo, que dependem da existência de investimento. O programa de austeridade seguido no passado fez colapsar o investimento da economia portuguesa e conduziu a capacidade produtiva utilizada a níveis historicamente baixos. Isso determinou que o investimento foi não só foi baixo nos anos da crise, como permaneceu em níveis residuais nos primeiros anos da retoma, fruto da capacidade excedentária que se havia acumulado. 
Considerando fatores mais estruturais, a integração de Portugal na moeda única – e a mobilização do investimento para setores produtivos de menor valor acrescentado e para o imobiliário – também terá determinado um viés negativo para a tendência da produtividade da economia portuguesa.
Com efeito, a preocupação com a evolução da produtividade tem de ser acompanhada pela defesa de um enquadramento macroeconómico que favoreça elevados níveis de procura agregada e uma distribuição da especialização produtiva que negue a tendência assimétrica dos primeiros anos da zona euro, onde se promoveu a especialização das economias periféricas em setores com baixo valor acrescentado. Tal posição exige uma posição de reforma radical da zona euro, assente a solidariedade entre estados membros e na promoção de políticas de pleno emprego. 
A pergunta que surge é a seguinte: estarão os membros do Forum para a Competitividade dispostos a pugnar por estas reformas? A resposta é um claro não. Tudo o que o conservadorismo económico que representam tem para nos oferecer é a defesa intransigente da ortodoxia das regras da zona euro, a começar pela obsessão pelas metas do défice estrutural, critério fetiche de Joaquim Miranda Sarmento. 
O Fórum para a Competitividade, que se mostra tão preocupado com a tendência da produtividade em Portugal, só defende políticas que, na verdade, apenas irão acentuar a nossa divergência em relação aos restantes países europeus. 
2.O Fórum para a Competitividade é um espaço de confluência de economistas conservadores, contrários à atual maioria de esquerda. Não tenho nada a opor: o espaço onde escrevo (o blogue Ladrões de Bicicletas) é um espaço de opinião comprometido com a esquerda e acho importante que os economistas contribuam para o debate público sem aparências de falsa neutralidade. Mas isso não deve conflituar com a manutenção da honestidade intelectual. Na sua tentativa de desmerecer uma das mais inegáveis conquistas da atual maioria de esquerda (a retoma do emprego), o Fórum da Competitividade escolheu o caminho das contas pouco sérias. É pena.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

EMERGÊNCIA DE UM NOVO SISTEMA MUNDIAL BASEADO NO PADRÃO OURO

 comprar ouro 2

Reproduzo alguns aspectos essenciais da análise de Jim Willie, que poderão consultar na íntegra, aqui
Jim Willie começa por afirmar que a supressão do preço do ouro está a chegar ao fim. Esta supressão teve como suporte os contratos de futuros em ouro (o mesmo se passa com a prata) que são negociados, como outros derivados, nas bolsas do COMEX e da LBMA, mas que não correspondem a quase nenhum ouro subjacente. Por outras palavras, negoceiam-se títulos de compra e venda de ouro, que não desembocam na entrega do metal, mas apenas são «redimidos» em dólares. Os pedidos de entrega do ouro correspondente a contratos, têm sido - repetidas vezes - negados. Apenas grandes bancos têm - na prática - a possibilidade de obter, desta forma, o ouro físico.  Pensa-se que a proporção de contratos sobre a quantidade de ouro depositado nos cofres destas instituições, seja de cerca de 1:200 (1 onça de ouro físico para 200 onças de «ouro-papel»). Esta fraude repetida tem permitido a supressão do preço do ouro: Quando a tendência é para uma subida acentuada, os grandes bancos emitem contratos de ouro-papel (vazios, não baseados em barras de ouro subjacentes) que inundam o mercado de futuros do COMEX e LBMA, normalmente em horas de pouca movimentação, para garantir a descida mais acentuada do preço.
Segundo Willie, 3 factores se conjugam para o preço do ouro subir até valores que compensem a impressão monetária, em grande escala, que tem ocorrido.
1- O regresso do QE (Quantative Easing) ou seja, da impressão monetária não contrabalançada por retirada de divisas do mercado.  Powell deu um claro sinal de que a FED vai fazer uma «pausa» na redução/venda dos activos detidos. A imprensa financeira e Wall Street interpretaram isso como uma inversão da política de Quantitive Tightening (QT) prosseguida desde há dois anos, nos EUA. Por outro lado, os especialistas em obrigações do tesouro (treasuries) e em derivados, asseguram que a compra discreta destas pela FED tem continuado, apesar da sua proclamada retirada. Quanto à subida gradual da taxa de juro, esta ainda está muito longe de atingir a sua média histórica. A política de QE da FED foi causadora de uma grande subida do ouro, invertendo a tendência de descida, a partir do ano de 2016. Agora, existe um mercado altista no ouro, que a «pausa» no QT ou a retoma do QE, está a estimular.
2- O SGE (Shangai Gold Exchange): a bolsa do ouro de Xangai tem tido um enorme volume de transacção de ouro físico. Há uns tempos atrás, a China lançou uma nota de crédito em Yuan, como instrumento importante nas suas trocas comerciais globais, nomeadamente, com países exportadores de petróleo. Esta nota de crédito em Yuan vem substituir as «treasuries» americanas de curto e médio prazo, que têm sido utilizadas como instrumento corrente de pagamento, em trocas de grande volume.  Com a maior utilização da nota de crédito em Yuan, conjuga-se a possibilidade de converter esses yuan em ouro no SGE. Necessariamente, a bolsa de Xangai será ainda mais activa e cada vez maior número de instâncias internacionais aceitarão de bom grado esta nota de crédito. Esta nota de credito em Yuan será bem aceite, pois não terá risco e será redimível em ouro (No SGE a compra de ouro é exclusivamente feita em Yuan).
3- As directivas de Basel: Basel é onde se situa a sede do BIS (Bank of Internacional Settlements) o «banco central dos bancos centrais».  Este banco tem emitido directivas cujos bancos centrais dos vários países fazem cumprir às entidades bancárias sob sua jurisdição. Assim, segundo directiva em vigor partir de 31 de Março, os bancos comerciais vão poder constituir reservas em ouro, visto que este passa a ter o estatuto de «Tier 1» ou seja, a par do dinheiro líquido e das obrigações do tesouro.  Estas reservas, por sua vez, são muito importantes para os bancos comerciais, pois determinam a sua solidez e quais os montantes estão autorizados a emprestar.  Esta pequena mudança em relação ao ouro, está a sinalizar uma nova abordagem. O seu intuito claro é salvaguardar a sua utilização como componente do grande «reset», ou seja, da reestruturação do sistema monetário internacional.  Aliás, várias vozes próximas do FMI têm vindo a propor uma reestruturação baseada na substituição do US dólar  como moeda de reserva (uma das resultantes dos Acordos de Bretton Woods) por um cabaz  (o SDR) de moedas em proporções diversas... dólares, euros, yens, libras e yuans. Propuseram eles que este cabaz seja alargado a metais preciosos (ouro, principalmente) e até matérias-primas (petróleo, etc). 
Estão - por detrás da cortina - a cozinhar a tal transição ou «reset», mas discretamente, para não desencadearem pânico no público. Também estão a tentar uma transição que mantenha o poder dos bancos centrais e da grande banca, ou até o reforce ainda mais. 
Os leitores interessados poderão consultar vários artigos que tenho dedicado, ao longo dos anos, a estes assuntos, ver em particular:

Ver o original em 'Manuel Banet' (clique aqui)

Branqueamento ideológico

Branqueamento ideológico
Público, 27/2/2019
Deixem-me ver se eu entendo a notícia. Em vez de criar mecanismos que disciplinassem os mercados financeiros, a Comissão Europeia deixou-os à solta e, ao mesmo tempo, pressionou o governo português - e de outros países - a receber um empréstimo da troica que elevou a dívida pública para níveis incomportáveis face aos níveis de crescimento económico e à luz do Tratado Orçamental. E aplicou um programa fortemente ideológico que afundou a economia, criou uma maré de desempregados (25% da população activa), uma emigração histórica e destruição de empresas. Criou uma situação de crédito malparado como nunca se vira antes. Afectou a banca nacional, fragilizando-a ainda mais. E para quê? Para pagar os investimentos feitos pelos bancos franceses e alemães em tíulos portugueses e livrar essa banca de perdas possíveis. E aproveitar a boleia para aplicar um programa ideológico que se demonstrou desastroso. E agora temos uma situação desequilibrada? Na realidade, trata-se antes de mais um branqueamento das políticas seguidas falhadas que se pretende reformatar e replicar, em mais políticas falhadas, seguindo a mesma receita.  Nada aprendem! E fazem de nós parvos.

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A economia, o PIB e a dívida

(Por Vítor Lima, 26/02/2019)

1 – O PIB como medida de desempenho não vale nada. É muito genérico, economicista e já nos anos 30 o Kuznets que inventou o conceito chamava a atenção para as suas lacunas. Por exemplo, em Portugal a economia não contabilizada vale uns 30% do dito PIB, sem contar com os serviços reais e essenciais que o PIB nunca contemplou; por exemplo, os trabalhos domésticos, como cozinhar, a limpeza, o cuidar das crianças, tarefas que só são medidas (quando são) se efetuadas num restaurante, com a utilização de uma empresa de limpeza ou num explicador com porta aberta.

2 – Para aumentarem o PIB, os avatares de Bruxelas acrescentaram como “produtivos” os serviços sexuais das prostitutas e como investimento a aquisição de cangalhada militar. Por exemplo, a compra de uma bala de canhão, é investimento embora nada produza quer quando armazenada em Tancos ou disparada algures.

3 – O drama da dívida em geral é a sua utilidade para alimentar a volúpia financeira, as pirâmides de Ponzi que contribuem de modo decisivo para o aumento do PIB embora não satisfaçam necessidades humanas mas apenas a engorda de especuladores. Por outro lado, a dívida pública é uma forma de captura dos rendimentos futuros de uma população, endividada sem ser consultada e onerada para o seu pagamento. Cada tuga contribui, anualmente com 800 euros só com os encargos. E, pior, ninguém sabe qual a afetação real dos empréstimos contraídos pela dita República.

4 – A satisfação das necessidades de uma população é o único critério válido para que se trabalhe e, como hoje isso não é tecnicamente difícil logo se coloca a questão de se trabalhar hoje tanto ou mais do que há 100 quando as 8 h era meta a atingir. Adivinhem quem se apropria dos ganhos de produtividade. E adivinhem quem gera a volúpia consumista e fomenta o endividamento para a satisfazer. E observem o grau de idiotia de quantos passam horas a olhar para écrans de vários tamanhos, viciados em imagem corrida, a forma mais superficial e manipulável de obter informação.

5 – Voltando à dívida. Não conheço na classe política quem considere a ilegitimidade da maior parte da dívida pública. Primeiro porque foi imposta e, em segundo lugar porque não foi afeta a nada conducente ao bem-estar da plebe. Depois porque a sua reestruturação nada acrescenta, sobretudo dadas as baixas taxas de juro. E, em terceiro lugar porque ninguém sequer aventa a necessidade de um downsizing brutal nos balanços do sistema financeiro global com a eliminação da dívida ilegítima, um chamado jubileu. Há alguns anos fiz umas simulações de reestruturação da dívida que, exigiriam crescimentos de 6% no diáfano PIB.

Como o Dieter diz, e bem, (ver artigo aqui ), os sacripantas citados são meros economicistas; desconhecem as ciências sociais coisa que é comum nos ditos economistas. E que só uma abordagem da realidade que resulte da interação das várias ciências sociais fornece realismo. O que se aprende na universidade é catecismo; o do César das Neves e o outro, mais laico, baseado no empreendedorismo, na competitividade, na empregabilidade, na criação de valor e no crescimento do PIB.


PS – No blog http://grazia-tanta.blogspot.com/ há muito material sobre estas questões. Por exemplo, ver este artigo, “O economicismo ou o discurso do empobrecimento compulsivo”, aqui. 

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A Economia na Europa

(Por Dieter Dellinger, 25/02/2019)

Duas correntes económicos debatem entre si na Alemanha, e na maior parte dos países europeus e nos EUA.

Uns dizem que é preciso aproveitar os juros baixos para investir, principalmente nos países como a Alemanha, Holanda e outros que têm saldos orçamentais altamente positivos. Na Alemanha há muitas necessidades porque as autoestradas, ferrovias, os ICE (comboios super rápidos), pontes, hospitais, etc. estão envelhecidas e há margem para reduzir os impostos das empresas e dos trabalhadores, a fim de tornar a produção alemã mais barata.

Outros dizem o contrário, apontando para o facto de as economias andarem sempre aos altos e baixos e poder surgir uma crise. Claro, muitos dizem que o medo da crise é que pode produzir a crise com uma queda nos PIBs ou uma subida mínima.

Na verdade, há algo que ninguém vê, mesmo quando está, como eu, a teclar num computador portátil ligado à Internet.

É que, o investimento feito nos últimos vinte anos em Internet e informática pessoal, hoje existente em muitos milhões de lares, tal como a fibra ótica e a automação nas fábricas, etc. foi feito sem grande crescimento da economia.

Proporcionalmente ao número de utentes e à extensão mundial de empresas como a Google, Apple, Facebook, Microsoft. Youtube, etc. o investimento é baixíssimo. Uma pequeníssima alíquota do que seria o investimento em siderurgias, fábricas de automóveis e construção civil que não faltam na Europa e no terceiro Mundo.

Muitos países, incluindo Portugal, equiparam-se com tudo, mesmo nos tempos em que o PIB não crescia. A revolução 4.0 é demasiado barata para fazer crescer economias, mas dá lucros fabulosos a alguns magnatas que andam de sapatilhas de borracha.

Por byte a queda de preços foi fenomenal nos computadores que, sem aumento de preços, já estão com discos de terabytes e os automóveis pejados de sensores e computadores de bordo não sofreram grande aumento.

Claro, há na Europa dois grupos de países, os que conseguem empréstimos a juros inferiores aos do crescimento do PIB como acontece com Portugal, Alemanha, Holanda, etc. e outros como a Itália e Grécia que ainda pagam juros a longo prazo a quase o dobro do crescimento dos seus Pibs.

Portugal está, apesar disso, numa situação intermédia com uma dívida de 103% do PIB, mas muitos economistas dizem que a dívida de Maastricht de 60% do PIB para todos não tem sentido em período de excesso de dinheiro.

Os produtos baratos da China, Índia, etc. evitaram muito investimento industrial na Europa e deram às populações a possibilidade de se abastecerem com artigos de consumo corrente acessíveis a toda a gente. Vimos que, no Bairro Jamaica, os apartamentos clandestinos com tijolo mal amanhado têm antenas parabólicas porque as empresas da Net não fazem ligações a casas ilegais e os pobres não prescindem da televisão e até de Internet.

Por outro lado, vejo no Metro e na saída das escolas crianças e adolescentes agarrados aos seus Smartphones. Infelizmente, muitos economistas não vêem nada disto porque não têm espírito científico e são homens como Cavaco, Bessa, César das Neves, etc. que não são economistas, mas sim políticos porque só lhes interessa ver o que serve para dizer bem ou mal de uns ou outros partidos.

Caro é o envelhecimento das populações. Mas o seu custo é compensado pelo custo relativamente baixo de muitos dos itens  que descrevi aqui e não pode estar em causa a redução das pensões daqueles que, o PSD, designa como “peste grisalha”, que são os sacanas, como eu, que querem continuar a teclar e a receber a sua reforma.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

A fase predatória do capitalismo

Jorge Figueiredo
Já houve tempo em que o capitalismo era uma força progressista, na medida em que avançava o nível de desenvolvimento das forças produtivas. As empresas então produziam novos bens e serviços que acrescentavam riqueza às sociedades, desenvolvendo-as. Era a fase da ascensão do capitalismo, uma outra era, antes de a queda inexorável das taxas de lucros começar a manifestar-se.  Hoje isso não é mais assim. Actualmente estamos na fase predatória do capitalismo, que é comandada pelo capital financeiro. O objectivo agora é a apropriação da riqueza existente, criada por outros. Daí a catadupa de fusões e aquisições, OPAs amistosas ou hostis, leverage buy-outs(LBOs) [1] , engenharias financeiras, etc. Nada disso pode aumentar a riqueza de um país. Tais operações significam apenas transferências de riquezas de uns (geralmente muitos) para outros (poucos). É assim que hoje mais de 80% da riqueza mundial é apropriada por 1% da população do planeta. Essa realidade é reconhecida mesmo por entidades que não põem em causa o capitalismo, como a Oxfam [2] . Assim, estamos em meio a um processo de pauperização numa escala quase universal. Pode-se dizer que se trata da fase autofágica do capitalismo pois ele já pouco desenvolve as forças produtivas e começa a predar as existentes. Será isto um modo de produção? Ou um modo de destruição? Como se processa este processo de expropriação de riquezas? Há poucos estudos empíricos acerca dos mecanismos actuais e reais de concentração [3] e centralização do capital [4] (tudo indica que na fase actual do capitalismo a última tende a predominar sobre a primeira). Uma das razões para esta ausência é a opacidade com que tais processos se realizam, o que é compreensível pois geralmente estão associados à corrupção em larga escala com conluios encobertos entre vendedores e compradores. Por isso, torna-se extremamente difícil detectar os processos reais pelos quais se verifica este autêntico roubo legal (pois sacramentado pelos poderes públicos e batalhões de juristas e contabilistas ao serviço do capital). Este é o grande o mérito do livro recente de Catherine Le Gall e Denis Robert, Les prédateurs: Des milliardaires contre les États [5] – trata-se de uma investigação empírica. Para fazê-la eles examinaram três casos de vigarices: a venda da Quick, cadeia belga de hamburguers, ao banco estatal francês; a venda da refinaria de Pasadena à Petrobrás; e a venda de uma obscura empresa mineira à Areva, poderosa empresa francesa da energia nuclear. Para isso os autores deram-se ao trabalho de examinar milhares de relatórios, balanços, demonstrações de resultados, artigos em publicações e efectuar inúmeras entrevistas com intervenientes nas referidas operações. Uma característica comum a todos os três casos é que foram lesadas empresas estatais através de maquinações cuidadosamente conduzidas. No primeiro deles, o da cadeia Quick, o lesado foi a Caisse, o banco do Estado francês. O preço de venda que os donos haviam proposto em 2004 fora de 300 milhões de euros e não encontrara comprador. Mas em 2006 a Caisse comprou-a pela quantia de 760 milhões de euros (p.156). Também caberia perguntar porque é que o maior banco estatal da França precisaria de uma cadeia de fast-food, mas ninguém respondeu a essa pergunta. O livro contém uma insinuação clara de que a operação serviu para ajudar a financiar a campanha eleitoral de Nicolas Sarkozy (p.119). O segundo caso, muito maior, foi o da refinaria de Pasadena, na Califórnia, vendida à Petrobrás em 2012 (com aprovação de Dilma Rousseff). A refinaria era uma verdadeira sucata que o seu proprietário, a Astra Oil, vendera a um grupo belga por 42,5 milhões de dólares. Mas o montante que a Petrobrás acabou por pagar foram uns incríveis 1,18 mil milhões de dólares, ou seja, um salto mortal de 1600%. A operação contou com conivências internas dentro da Petrobrás (um tal Nestor Cervero) e com pelo menos um ex alto funcionário da Petrobrás (Alberto Feilhaber) que passou a trabalhar para o outro lado. O contrato foi feito com tal habilidade e cláusulas tão diabólicas que a Petrobrás acabou por ficar presa, sem qualquer saída razoável. Para poupar pormenores, bem descritos no livro, os autores resumem assim a situação:
"A Petrobrás está de pés e mãos amarrados com um parceiro de que ela não pode se livrar a menos que pague um preço delirante. A refinaria está obsoleta, os trabalhos estão em ponto morto, as discussões com a Astra Oil são tensas. Os dirigentes da Petrobrás (enfim, aqueles que não são corrompidos) descobrem a amplitude do desastre e acreditam que ainda é tempo de encontrar uma porta de saída. Mas todas as soluções são piores umas que as outras: manter a refinaria no estado em que está provocar perdas colossais, começar trabalhos para produzir 100 mil barris por dia como previsto relançaria o conflito com a Astra, subir para 200 mil barris equivaleria a conceder uma enorme prenda à Astra. Finalmente, comprar a parte da Astra para se desembaraçar do parceiro recalcitrante custaria uma fortuna. A armadilha imaginada pela equipe belga – e por Albert [Frère]? – se fecha sobre o dinossauro Petrobrás. Não há meio de escapar. Em frente, a equipe dos belgas vê a sua presa entrar em pânico. É tempo de apresentar o grande jogo para aterrorizá-la totalmente". (p.236)
É então que a Petrobrás vai ser depenada. Num golpe de poker, a parte belga propõe-se a comprar a parte da Petrobrás na refinaria cuja gestão está paralisada devido aos diferendos entre os sócios – o que impede a empresa de se por de pé. O contrato continha uma cláusula insidiosa, aparentemente anódina. Dela se concluía que não era tanto a casa que valia caro e sim quem possuía a chave: o contrato de comercialização. A Petrobrás acaba por levar o caso à justiça americana, a qual vem a condená-la a pagar uma soma vertiginosa. Fecha-se a armadilha. As maravilhas do capitalismo actual permitem este género de operações. O terceiro caso é o da Uramin, uma empresa constituída em paraísos fiscais que na verdade é uma concha vazia. As três jazidas de urânio que ela afirma ter em África pouco ou nada valem pois não são economicamente exploráveis. A Areva, uma importante empresa estatal francesa dedicada ao nuclear, possui uma base de dados com dados de minas de todo o mundo – mas os seus geólogos e peritos não foram achados nem ouvidos acerca da aquisição desta Uramin. Mas o dossier desta casca vazia foi cuidadosamente manipulado pelos seu proprietários, através de pareceres da consultora SRK e por outros meios, a fim de dar a entender que valia muito. A presidente da Areva, Anne Lauvergeon, fora reconduzida à testa da empresa após a eleição de Nicolas Sarkozy à presidência da República. A ligeireza com que ela procedeu a operação de compra da Uramin foi estarrecedora. E mais estarrecedor ainda foi o preço estratosférico que foi pago: 2,49 mil milhões de dólares, sempre com a assistência do banco Rothschild, muito ligado a Sarkozy. Uma consultora de negócios explica a regras do jogo nos negócios de petróleo, gás e urânio: "Se eu vendo caro, muito caro, demasiado caro, eu agradeço o comprador. Sempre" (p. 263). O que estes três casos recentes têm em comum é a acção predatória do capital financeiro privado sobre empresas públicas e estatais. Isto parece confirmar uma lei geral e certamente é uma consequência da queda da taxa de lucro nas actividades produtivas da economia capitalista. O capital já não pode arrecadar os lucros "normais" a que estava habituado com a produção de mercadorias. Assim, passou a nova fase e agora dedica-se à actividade predatória de empresas produtivas – sobretudo daquelas no âmbito estatal. Os autores afloram também o caso escandaloso da fusão da empresa Gaz de France (GDF) com a privada Suez. A GDF, uma empresa pública exemplar criada após a II Guerra Mundial, foi atacada pelos predadores da Suez e acabou por fundir-se com ela. Nem a GDF nem o povo francês foram beneficiados com tal fusão, bem pelo contrário. Agora a lógica de funcionamento da empresa está voltada para o máximo lucro e não mais para prestar um serviço público e servir a população do país. É outro caso exemplar que merece ser examinado. Seria desejável que em Portugal houvesse estudos empíricos como esse para as rapinas sofridas pelo Sector Empresarial do Estado. Exemplo recente é a escandalosa privatização dos correios, a seguir transformado também no Banco CTT, com a drástica perda de qualidade de um serviço em que no passado Portugal já foi exemplar. Esta privatização, feita quando o governo Passos Coelho estava moribundo, não foi revertida pelo governo PS. As palavras privatização e corrupção constituem rimas perfeitas. 
[1] LBO: Aquisição de uma empresa essencialmente através do recurso a fundos alheios, normalmente por parte de um grupo em que se incluem alguns dos gestores da empresa-alvo.
[2] Oxfam: oxfamilibrary.openrepository.com/...
[3] Concentração de capital: Acréscimo interno do capital por acumulação e concentração da mais-valia.
[4] Centralização de capital: Um dos meios de acumulação do capital representando um processo de acréscimo do capital pelo agrupamento de vários capitais num só, pela absorção de outros capitais já existentes.
[5] Les prédateurs: Des milliardaires contre les Étas, leur rapacité face à nos lâchetés , ed. Le Cherche-Midi, 2018, 300 p., ISBN 978-2-7491-5593-7 Esta resenha encontra-se em http://resistir.info/

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2019/02/a-fase-predatoria-do-capitalismo.html

SALÁRIO MÍNIMO OU SALÁRIO MAIS BAIXO

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Rui Rio defende que o salário mínimo deve ser igual para todos, uma declaração com a qual temos de concordar, mas que tem um pequeno senão, revela um político manhoso que joga com as palavras e está usando a ignorância de alguns eleitores para ganhar votos fáceis.
No PSD há muita gente que tem por profissão político ou funcionário do partido e, portanto, é possível estabelecer qual o salário mais baixo pratica neste partido. Seguindo a lógica intelectual do merceeiro do PSD podemos identificar qual o salário mínimo praticado no PSD. Será que Rui Rio vai tornar esse dado público e voltar a defender que o salário mínimo deve ser igual para todos. É bem provável que tivesse ainda mais votos e se aplicasse esta regra a empresas estrangeiras instaladas em Portugal, então seria um verdadeiro regabofe.
Passos Coelho assentou a sua perseguição aos funcionários públicos numa falsidade, comparou a média de ordenados no Estado com os do setor privado e concluiu que no Estado ganhava-se mais. É lógico, a mesma conclusão teria um estudo que comparasse o Hospital da Luz com uma empresa de segurança ou de limpeza, quando se comparam organizações que exigem qualificações diferentes é óbvio que as que exigem maiores qualificações pagam mais.
Se Rui Rio fosse intelectualmente honesto teria de defender que para categorias idênticas os ordenados devem ser iguais. Assim, comparar-se-ia categoria profissional a categoria profissional, isto é, retinha-se o salário da categoria pior remunerada no Estado e proceder-se ia à comparação da remuneração praticada no setor privado para esta categoria. Só que se for por este caminho Rui Rio vai ter um problema grande, que é a disparidade de remunerações e de modalidades de remuneração entre o Estado e o setor privado.
Para que o debate político fosse sério não seria mau se Rui Rio fosse mais honesto na forma como usa as palavras, não invocando os valores éticos apenas quando lhe dá jeito.

Ver original em 'O Jumento' (aqui)

'Crashed': A Grande Recessão mudou o mundo em que vivemos

Há momentos de descontinuidade profunda na história das sociedades, que marcam o mundo de forma decisiva e estão condenados a ocupar um lugar de destaque na memória coletiva. A Grande Recessão de 2007-08 é certamente um desses momentos. Depois da violenta crise financeira, nada seria como dantes. É esse o tema central do recente livro de Adam Tooze, Crashed: How a Decade of Financial Crises Changed the World. Dez anos após a crise, este livro conta a história de como chegámos ao maior colapso financeiro desde 1929 e do que mudou no mundo em que vivemos desde então. O autor avisa que “a história que o livro conta é a de um descarrilamento”. Embora já muito tenha sido escrito sobre o assunto, este é um dos relatos mais informados, completos e abrangentes sobre a Grande Recessão e as suas consequências para a evolução da economia mundial e das tensões geopolíticas na última década. Poucos autores o terão conseguido fazer com a eloquência de Adam Tooze, historiador económico e professor na Universidade de Columbia. Tooze começa por recordar como os economistas previram a “crise errada”, por estarem apenas focados nos desequilíbrios comerciais entre os EUA e a China e ignorarem os riscos intrínsecos do próprio sistema financeiro. O autor parte depois para uma análise detalhada dos mecanismos financeiros complexos por detrás da crise. O detalhe e o rigor da descrição não diminuem a qualidade da escrita, que torna a leitura agradável para os leitores e as leitoras menos familiarizadas com os conceitos. A cronologia que o autor nos oferece não se resume aos principais desenvolvimentos da crise nos EUA e nos países da Europa Ocidental, mas também na Rússia, na Europa de Leste, na China e noutros países asiáticos. As diferentes respostas das autoridades nacionais e os conflitos políticos que surgiram nesse contexto ocupam uma parte substancial da discussão no livro. Nas décadas antes da crise, as diferenças nos modelos de crescimento e nas estruturas produtivas dos diferentes países originaram desequilíbrios entre países excedentários e deficitários. O afluxo de capitais dos primeiros para os segundos alimentou bolhas especulativas (no imobiliário ou nos mercados de ações) e tendências de endividamento cumulativo. O desenvolvimento extraordinário de Wall Street e dos lucros do sistema financeiro norte-americano podem ser explicáveis pela necessidade de captar capitais para financiar os défices dos EUA, oferecendo ativos de maior risco com retornos apetecíveis para os investidores. Os bancos europeus foram os principais envolvidos nestas operações financeiras de risco, tornando-se bastante dependentes do mercado financeiro norte-americano. Embora a quebra dos preços das casas e dos créditos subprime tenha sido a causa imediata da crise, Tooze recorda-nos que esta tem origem na intensificação dos laços financeiros entre os EUA e a Europa nas décadas anteriores à crise, facilitada pela vaga de desregulação do setor que permitiu aumentar significativamente o fluxo de capitais e a alavancagem dos bancos. A quebra da confiança no sistema e o consequente congelamento do crédito, do qual todos os bancos estavam dependentes, fariam ruir o castelo de cartas do sistema financeiro, provocando a recessão mais profunda desde a Grande Depressão de 1929. “Nunca antes, nem sequer na década de 1930, tínhamos assistido à iminência da implosão de um sistema tão amplo e interdependente”, escreve Tooze. A queda do Lehman Brothers, em Setembro de 2008, seria apenas o início. A crise da dívida privada foi transformada pelos políticos norte-americanos e europeus numa crise da dívida pública, através da absorção das perdas financeiras pelos Estados. No livro Austeridade: A História de uma Ideia Perigosa, Mark Blyth descreveu esta operação como o maior embuste ("bait and switch") da história contemporânea. No caso da Zona Euro, a austeridade foi o mecanismo de socialização destas perdas, passando o encargo para as populações. A agudização da crise e a generalização do desemprego foram, por isso, resultado de escolhas políticas das instituições europeias. Para Tooze, este é “um espetáculo que deve inspirar indignação. Milhões de pessoas sofreram sem nenhuma razão para isso”. Ao expor os desequilíbrios do processo de financeirização e a necessidade de recurso ao financiamento do Estado para evitar situações de insolvência dos bancos, a crise acabou também com o mito da desregulação virtuosa – como escreve o autor, esta “derrota histórica para o capitalismo” foi a única forma de salvar um sistema em falência. A política monetária expansionista da Reserva Federal norte-americana teve um papel crucial para evitar o aprofundamento da crise global, permitindo resgatar as instituições financeiras norte-americanas e oferecer liquidez aos bancos europeus. Na Zona Euro, a rigidez de Merkel e do governo alemão levou a que se opusessem a qualquer tipo de atuação contracíclica do BCE até que fosse demasiado tarde e a crise já tivesse devastado os países da periferia. Na Grécia, o país mais afetado, a taxa de desemprego jovem continua próxima de 40% (chegou a ultrapassar os 60% no pico da crise). Por outro lado, a resposta expansionista da China à crise global merece a análise de Tooze. Ameaçada pela desaceleração do comércio, que afetou as suas exportações, a China desenvolveu um plano de resposta através de um reforço significativo do investimento público (de cerca de 12,5% do PIB) aliado a uma política monetária expansionista que permitiu atingir altas taxas de crescimento e emprego, contrariando a tendência de recessão no resto do mundo. Mais de dez anos depois da crise, a política monetária das autoridades norte-americanas e europeias pode ter evitado danos ainda maiores, mas não resolveu os problemas mais profundos: o QE tem servido para procurar recuperar os ganhos do sistema financeiro, sem alterar a sua estrutura e o seu funcionamento. Além disso, a austeridade (aplicada sobretudo na Zona Euro) é responsável pela lenta recuperação destas economias e pela acentuação das desigualdades. É difícil não associar os efeitos devastadores da crise e das escolhas que foram feitas à erosão dos partidos tradicionais e à ascensão de candidatos alternativos, explorando sentimentos de revolta contra o sistema. A eleição de Trump e a ascensão dos partidos de extrema-direita por toda a Europa são exemplos desta "grande crise da modernidade", nas palavras do autor. As elites ocidentais estão a pagar o preço de sujeitarem a democracia à disciplina dos mercados financeiros.

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Para virar os bancos de cabeça para cima

Velhos mitos sobre finanças estão em xeque. Movimentoscomo o Green New Deal começam a mostrar que é possível apropriar-se da moeda para distribuir riqueza e garantir serviços públicos de excelência para todos
Ann Pettifor, no site do Transnational Institute | Outras Palavras
Foi apenas uma montagem de palavras, inseridas num vídeo no final de 2018. Logo as palavras se tornaram virais. Eles ajudaram a derrubar um membro do Partido Democrata favorável a Wall Street preparado para ser o próximo líder do Congresso dos EUA. Foram proferidos por Alexandria Ocasio-Cortez. 
É uma disputa de pessoas versus dinheiro. Nós temos pessoas. Eles têm dinheiro. Uma Nova York para muitos é possível — e não são necessários cem anos. É preciso coragem política.
Ela estava certa. Não foram precisos cem anos. Bastaram um verão, coragem política, uma grande ideia — o Green New Deal – e duro. Uma nova ordem econômica subordinaria o sistema financeiro aos interesses da sociedade e do ecossistema, e ajudaria a afastar a economia de seu vício em combustíveis fósseis, argumentou Alejandria.
A grande ideia, sua coragem e trabalho duro eram tudo o que era preciso para aproveitar o poder latente: o poder do povo do Bronx.
Sua história irá sustentar o tema que se segue. O poder latente e inexplorado dos cidadãos — em países com sistemas de tributação sólidos — para responsabilizar as elites financeiras e implementar um Green New Deal. Pode ser usado para transformar a correlação de forças entre a sociedade e o setor financeiro privado. Este poder social continua desaproveitado. A classe dominante e endinheirada o reprime. Mas ele também é reprimido pela visão estreita e míope que nós, e nossos políticos, temos sobre poder econômico potencial dos cidadãos.
Para aproveitar o poder dos cidadãos é importante compreender que os contribuintes possuem capacidade de ação [orig: “agency“] sobre os mercados financeiros globais. Em todo o mundo, os contribuintes subsidiam, estimulam e enriquecem centros de poder financeiro como os da Wall Street e da City de Londres.
Os salvamentos de grandes bancos após a Grande Crise Financeira demonstraram que os cidadãos e suas instituições financiadas pelo poder público têm o poder de proteger os rentistas do capitalismo financeirizado da disciplina do “livre mercado”. Graças ao apoio e poder de fogo fornecidos por milhões de cidadãos honestos, os bancos centrais empregaram imenso poder financeiro e resgataram o sistema bancário globalizado — resultando em uma cascata de desalavancagem da dívida que poderia ter contraído a oferta monetária, o crédito e a atividade econômica e aprofundado a crise.
Graças aos contribuintes os banqueiros centrais preveniram outra Grande Depressão. Foi um grande poder empregado em nome dos cidadãos, embora sem sua autorização – ou mesmo seu conhecimento.
Para compreender e empregar esse poder financeiro no interesse da sociedade e da natureza, os cidadãos precisam entender que este poder era e é, em última instância, nosso. É o poder latente, não utilizado pelos cidadãos para defender o interesse público, mas pelos tecnocratas para defender os interesses da riqueza privada.
Dinheiro e Dívida
A razão de nossa impotência política pode ser encontrada na névoa e no mistério que cercam a criação do dinheiro e a operação do sistema monetário. Graças à negligência dos economistasem relação ao dinheiro, às dívidas e aos serviços bancários, há uma grande quantidade de mal-entendidos e confusão sobre dinheiro e o sistema financeiro.
Os argumentos giram em torno de se dinheiro é criado a partir do nada — ou se ouro ou bitcoin são dinheiro real. Se banqueiros e/ou governos podem simplesmente imprimir dinheiro ad infinitum. Ou se há limites para a impressão de dinheiro. A ignorância e a confusão provavelmente não são por acaso. Isso ajuda a proteger o setor financeiro privado do exame público: “É para seu próprio bem”, para citar o lobo no conto de fadas.
As pessoas sensatas (incluindo o Banco da Inglaterra) concordam que o dinheiro, como Joseph Schumpeter explicou, nada mais é do que uma promessa de pagamento, como em “Eu prometo pagar ao portador”. Ou seja, o dinheiro é uma construção social, baseada na confiança ou promessas de pagamento e sustentada pela lei.
Quando alguém solicita um empréstimo, o dinheiro não está no banco. Em vez disso, os bancos comerciais licenciados “criam” dinheiro toda vez que um tomador de empréstimo promete pagar. Eles abrem o crédito digitando números em um computador e (digitalmente) depositando fundos na conta do tomador. Este promete devolver o dinheiro criado pelo banqueiro. Como garantia, o mutuário oferece bens (“colateriais”), em linguagem financeira, assina um contrato e concorda em pagar juros sobre o empréstimo.
Para que a confiança no negócio seja sustentada, as instituições que criam dinheiro (bancos comerciais autorizados) são apoiados e regulados por um Banco Central com respaldo público, que emite a moeda. A regulação garante que a confiança entre o banqueiro e o devedor seja mantida.
Os banqueiros privados só podem criar dinheiro novo e operar efetivamente quando são parte de um sistema monetário — o que inclui um Banco Central. Embora os banqueiros comerciais possam criar digitalmente dinheiro novo a pedido de um tomador de empréstimo, eles não podem imprimir moeda. Apenas o Banco Central pode fazer isso. O grande poder do Banco Bentral é emitir a moeda — dólar, euro, yuan, real — em que o dinheiro novo é criado. E para ajudar a determinar o valor da moeda.
Esse poder só pode ser exercido pelos bancos centrais por causa do colateral que sustenta a moeda que eles criam. Essa garantia é composta pelas receitas fiscais dos cidadãos. Quanto mais contribuintes contribuírem com a moeda, mais sólido o sistema de cobrança de impostos, maior será o valor da moeda.
Esta noção fica mais clara se compararmos a garantia que sustenta o Federal Reserve dos EUA com o do Malawi. O banco central do Malawi, como o Federal Reserve, emite uma moeda. Mas o Malawi tem muito menos contribuintes e poder arrecadatório do que os EUA.
Graças, em grande medida, ao colonialismo e às políticas do FMI, o Malawi também carece de instituições públicas importantes: um banco central independente; um sistema sólido de coleta de impostos; um sistema para fazer cumprir contratos ou promessas de pagamento (justiça civil criminal); e um sistema contábil bem regulado para avaliar ativos e passivos. Consequentemente, a moeda do Malawi — o kwacha — tem pouco valor comparado ao dólar.
Ainda pior: devido à ausência ou fraqueza das instituições públicas, o Malawi depende do dinheiro de outras pessoas — obtido através de outros sistemas monetários. O acesso a sistemas monetários estrangeiros assume principalmente a forma de empréstimos em dólares, libras esterlinas ou ienes – que incluem condições. Embora parte do dinheiro possa beneficiar o povo do Malauí, o custo do pagamento a instituições financeiras estrangeiras invariavelmente invalida os recursos financeiros da nação, seus ativos humanos e ecológicos.
É a falta da autonomia monetária proporcionada por instituições públicas sólidas, incluindo um sistema de arrecadação de impostos, que torna cidadãos em países como o Malawi relativamente sem poder e vulneráveis a credores estrangeiros predatórios. Isso também explica como e por que os países pobres continuam dependentes e subordinados aos países ricos.
Lamentavelmente, o FMI e o Banco Mundial desencorajam ativamente os países de baixa renda a investir nas instituições públicas vitais essenciais a um sistema monetário sólido — que restauraria sua autonomia financeira e econômica.
Cidadãos em países com instituições monetárias e sistemas tributários sólidos possuem um considerável poder potencial e capacidade de agir sobre o sistema financeiro globalizado.
Os constribuintes — não os bancos — sustentam o sistema financeiro
Entender como os impostos sustentam o valor da moeda de uma nação para financiadores privados é um primeiro passo para entender o poder potencial dos cidadãos. Os especuladores e rentistas financeiros globais preferem negociar em moedas sustentadas por instituições públicas estáveis, financiadas e apoiadas por milhões de contribuintes. Embora, é claro, haja negociação em muitas moedas de mercados emergentes, os especuladores preferem manter dólares, libras esterlinas, euros e ienes. Estas moedas são apoiadas por economias fortes. Mas seu valor é, em última análise, derivado dos contribuintes — dispostos, honestos e cumpridores da lei — que fornecem as receitas que sustentam a moeda.
Os contribuintes não apenas pagam impostos diretos e indiretos todos os dias, meses ou anos. Como novos contribuintes nascem todos os dias, os cidadãos pagarão taxas por décadas no futuro. Se nossas instituições estatais financiadas publicamente permanecerem estáveis, os recém-nascidos de amanhã continuarão pagando impostos no futuro.
Para entender a duração do poder do contribuinte, vale a rever a história do sistema financeiro britânico. Em 1748, o governo britânico emitiu bônus perpétuos, que eram dívidas sem data de vencimento para pagamento, mas que pagavam juros aos credores a 3% ao ano. O governo não teve dificuldade em vender esses títulos (conhecidos como “consols“) ao público. A confiança em que o governo britânico cumpriria suas obrigações de pagar juros sobre os empréstimos de modo perpétuo – era alta. Essa confiança foi justificada, já que os juros eram pagos a cada ano até que finalmente foram resgatados, em 2015.
Nenhum outro ativo tem esse tipo de suporte seguro e de longo prazo.
A ambiciosa e manipuladora Becky Sharp, em Feira das Vaidades, um romance satírico britânico do século XIX, escrito por William Thackeray, desejou que pudesse
Trocar minha posição na sociedade e todas as minhas relações por uma quantia confortável em consoles de três por centos … pois assim foi [escreveu Thackeray] que Becky sentiu a Vaidade dos assuntos humanos, e era naqueles títulos que ela teria gostado lançar âncora.
A inveja de Becky derivava da segurança concedida àqueles com fundos suficientes para investir na dívida do governo britânico – conhecida então, e por vários séculos, como Three Per Cent Consols (abreviação de dívida consolidada, ou consolidated). Com uma herança 10 mil libras, mulheres jovens e ricas do século XIX podiam viver com a quantia de 300 libras por ano; 25 mil libras gerariam uma confortável renda de £ 750 por ano.
A dívida pública é um ativo que gera renda — assim como um imóvel comprado com o objetivo de gerar aluguel para seu dono. Mas enquanto um investidor que compra para uma casa para locação tem que suar para manter, anunciar e alugar o ativo, a dívida ganha renda sem esforço para os ricos e para os especuladores. Faz isso pagando juros, a uma determinada porcentagem por ano
Ao contrário de uma propriedade de um investidor, a dívida é leve como o ar, intangível, invisível. A única evidência de sua existência é encontrada em entradas de banco de dados, números em um balanço ou em palavras em um “título de portador”.
As diferenças não terminam aí. Um edifício ou propriedade estão sujeitos às leis da física. Pode envelhecer, desmoronar ou ser destruído. Clubes de futebol são ótimos ativos — porque os torcedores se comprometem a longo prazo, e de bom grado e regularmente pagam “rendas” ao dono do ativo, pelo privilégio de assistir a sua equipe ou pela compra de uma camiseta do clube. Mas os clubes podem perder valor caindo nas tabelas de classificação. Obras de arte — digamos, uma pintura de Rembrandt — são ativos com maior longevidade, mas também tendem a se deteriorar e, de qualquer forma, estão sujeitas aos caprichos da moda.
Não é assim com os títulos do governo de países como a Grã-Bretanha. Enquanto as dívidas soberanas podem ser inadimplentes, as dívidas seguras do governo não apodrecem com a idade, como o professor Frederick Soddy (1877-1956) explicou uma vez. Isso porque as dívidas não estão sujeitas às leis da termodinâmica, mas às leis da matemática. Como tal, a dívida produz, sem esforço, renda para os aplicadores, a taxas matemáticas. E se a dívida é a dívida pública segura de nações como a Grã-Bretanha, os EUA ou o Japão, isso pode prosseguir por longos período de tempo.
O governo inglês tem honrado suas obrigações de dívida desde 1694, sem falhas. Em um mundo de fluxos de capitais globalizados, nos quais o capital flui de uma parte do mundo para outra, o preço dos títulos do governo britânico pode subir e cair, mas sua segurança e longevidade nunca estão em questão. Isso ocorre porque o sistema é administrado pela autoridade pública, não abandonado à “mão invisível do mercado” — mas principalmente porque a maioria dos cidadãos britânicos paga regularmente e fielmente os impostos.
É a Garantia, estúpido
E para entender por que a segurança é uma questão tão importante para o setor financeiro privado, lembre-se disso: o sistema financeiro global congelou em agosto de 2007 e depois entrou em colapso. Não porque os financistas ficaram sem dinheiro. Não por causa de uma corrida aos bancos. Mas porque todos no setor — todos — perderam a confiança no valor dos ativos usados como garantia, particularmente o valor das hipotecas de propriedades sub-prime nos balanços dos bancos.
Por que isso importava? Porque o valor dos ativos sub-prime (hipotecas) tinha sido usado para alavancar quantidades excessivas de financiamento adicional através de empréstimos. Se o ativo ou a garantia contra a qual o empréstimo tinha sido oferecido não valesse nada — então a dívida provavelmente não seria paga com a venda da garantia prometida.
O colapso da confiança nos valores dos ativos (ou colaterais) levou ao colapso do sistema financeiro globalizado.
E é aí que nós, cidadãos pagadores de impostos, entramos. A garantia do cidadão, na forma de receitas fiscais, não entrou em colapso na crise. Em vez disso, as garantias públicas mantinham a autoridade dos bancos centrais e davam-lhes o poder de emitir nova moeda (liquidez) em troca de ativos de banqueiros privados. O processo foi chamado de Quantitative Easing (QE).
O apoio dos contribuintes permitiu que os banqueiros centrais socorressem Wall Street e a City de Londres. A segurança e a solidez de nossos impostos sustentaram o valor das moedas, apesar da crise. Isso foi mais evidente nos EUA. Mesmo quando a economia global despencou e a turbulência financeira aumentou, o valor do dólar subiu.
Os bancos centrais usaram a garantia oferecida pelos cidadãos para alavancar grandes quantidades de dinheiro — cerca de US$ 16 trilhões – para socorrer o sistema bancário global.
A dívida pública como presente para os financistas e rentistas
Para entender inteiramente o poder exercido pelos banqueiros centrais é importante entender que cada vez que o governo solicita um empréstimo ou emite um título, ele cria uma dívida – uma obrigação (passivo) — para o governo. Ao mesmo tempo, ao contrair empréstimos, o governo cria um ativo financeiro valioso para o setor privado.
Os governos regularmente (uma ou duas vezes por mês) convidam os financiadores privados a financiar seus títulos ou empréstimos, em troca de promessas de pagar juros anualmente, e reembolsar o principal integralmente ao final do prazo do empréstimo.
Esse processo na verdade não é diferente do de uma mulher contraindo uma hipoteca. Ela convida um banqueiro a aceitar seu “bônus” — a promessa de repagamento — respalda esta atitude com “colaterais” (as garantias) e se compromete a pagar juros anualmente e o principal integralmente ao fim do prazo do empréstimo.
Uma vez que o banqueiro comercial tenha concedido o financiamento e aceitado o bônus, a mulher tem uma obrigação (passivo) – de pagá-lo. O banqueiro, por outro lado, tem um “ativo” – o bônus ou hipoteca da mulher. Isso é valioso para o banco privado porque, ao contrário do ouro, o empréstimo gera renda para cada ano em que a mulher paga juros. É provavelmente amparado pela garantia do seu apartamento existente. Além disso, o principal em seu empréstimo provavelmente valerá mais em termos reais quando for finalmente pago.
Os governos levantam financiamento tanto do setor financeiro privado, quanto de um banco central, exatamente da mesma maneira que um devedor comum levanta dinheiro de um banco comercial. O governo promete pagar juros e oferece garantias. A diferença entre o título de um governo e a hipoteca da mulher é que um título emitido por um governo com um bom histórico de pagamento é um ativo mais valioso. Como tal, serve como garantia vital para o sistema financeiro privado.
A hipoteca da mulher também é um ativo, mas será menos valiosa porque ela pode não ter construído um bom histórico de crédito, e em alguns casos pode ser respaldada apenas uma renda (a sua própria). O Estado, ao contrário, é respaladado por um fluxo de receita de milhões de contribuintes.
Isso explica por que os títulos do governo (ou dívida do governo) são ativos extremamente valiosos para o setor financeiro privado. Eles são seguros e confiáveis. Eles geram renda (pagamento de juros) regularmente. A dívida como garantia ou ativo pode ser usada para emprestar (ou “alavancar”) financiamento adicional.
Assim como o título de uma propriedade permite que um proprietário a re-hipoteque e obtenha quantias adicionais, garantidas por essa propriedade, ativos financeiros seguros e valiosos agem como garantia para o levantar novos financiamentos. Dinheiro recém-emprestado, garantido pelo fluxo de pagamentos de juros decorrentes da dívida, pode então ser investido ou emprestado a uma taxa de retorno mais alta.
Para entender a alavancagem, pense em uma proprietária que toma 80.000 librasemprestadas com apenas £ 20.000 em capital. Ela tem um índice de alavancagem de quatro. Em outras palavras, ela tomou empresto quatro vezes o capital de seu ativo.
No momento de sua quebra, dizia-se que o banco Lehman Brothers possuía um índice de alavancagem de 44. É como ter um ativo que rende 10.000 libras por ano e, em seguida, contratar um empréstimo de 440.000 libras para fazer uma farra de apostas. De acordo com o Banco de Compensações Internacionais (BIS)k for International Settlements, os bancos de investimento de Wall Street começaram com um índice de alavancagem de 22 em 1990, que subiu para “a vertiginosa altura de 48 no pico”.
A alavancagem nessa escala é mais facilmente alcançada contra garantias que são tão seguras quanto a dívida pública. A escala de riqueza gerada seria inimaginável para um Creso dos dias de hoje.
O “Shadow Banking” e a Fábrica de Garantia
Há outro aspecto para garantias públicas seguras que não é amplamente compreendido. Trata-se das formas como são usadas no sistema financeiro paralelo (ou shadow banking), que opera na “estratosfera” financeira, além do alcance dos estados e das regulações democráticas.
As entidades para-bancárias não regulamentadas, que concentram as economias do mundo (por exemplo, fundos de gestão de ativos, fundos de pensão, companhias de seguros) mantêm imensas quantidades de dinheiro. Uma delas — a BlackRock, por exemplo — tem US$ 6 trilhões em ativos.
Essas quantias não podem ser depositadas com segurança em um banco tradicional, onde apenas uma quantia limitada é garantida pelos governos. Para proteger o valor do dinheiro, um fundo de gestão de ativos poderá, por exemplo, fazer um empréstimo temporário de dinheiro a outro que dele necessite, em troca de garantia. Essa bolsa é conhecida como um acordo de recompra ou recompra.
Como argumentou Daniela Gabor, os mercados de recompra dos EUA e da Europa, os maiores do mundo, são construídos sobre dívidas de governos. Em outras palavras, “o Estado tornou-se uma fábrica de garantia para o sistema financeiro paralelo (Shadow banking)”
Os riscos deste mercado não regulamentado para o sistema financeiro global são assustadores. Uma das razões é que, enquanto alguém operando no mundo real — digamos, um proprietário de imóvel — pode re-hipotecar apenas uma vez seu ativo ou propriedade, os gestores de bancos que atuam no sistema paralelo não regulamentado podem usar uma única unidade de garantia para re-alavancar um sem número de vezes. Manmohan Singh, do FMI, estimou que, no final de 2007, as garantias eram usadas aproximadamente três vezes para alavancar empréstimos adicionais em mercados especulativos.
É como usar o valor de um único ativo — a propriedade de alguém — para garantir empréstimos adicionais de três bancos diferentes. No mundo real da regulação financeira, os proprietários não podem fazer isso.
Se quisermos entender a história de como os ricos se tornaram imensamente, grotescamente, mais ricos em rendas capturadas, enquanto os rendimentos médios da maioria caíram em termos reais, devemos olhar para os índices de alavancagem com base em ativos públicos nos setores bancário real e no shadow banking.
Em suma, a capacidade de drenar regularmente um governo fazendo-o pagar juros e usar o ativo da dívida pública para alavancar financiamentos adicionais é a razão pela qual os bancos, especuladores financeiros, seguradoras, empresas de gestão de ativos, empresas de private equity e fundos de pensão aumentaram maciçamente seus ganhos de capital. É também por isso que aos títulos da dívida pública jamais faltam demanda. Os financiadores privados precisam muito deles.
A escassez de dívida pública e as políticas de “austeridade”
A Grande Crise Financeira (GCF) desencadeou uma fuga da dívida privada em direção à segurança proporcionada pela dívida pública — especialmente as mais seguras: a britânica, a europeia e a norte-americana.
Este enorme choque financeiro levou a uma contração maciça da oferta monetária global e ameaçou a deflação — uma queda generalizada nos preços, que por sua vez levaria a falências, desemprego e cortes salariais.
Para neutralizar essa ameaça, os bancos centrais — em nosso nome — expandiram seus balanços e, em troca de garantias recebidas do sistema financeiro privado (muitas das quais eram “tóxicas”), forneceram a este níveis extraordinários de novo crédito ou liquidez. No processo, os tecnocratas do funcionalismo público nos bancos centrais protegeram os participantes do livre mercado da bancarrota e da disciplina do mercado livre — causando um golpe considerável na ideologia liberal.
O choque da deflação exigiu uma resposta fiscal maciça. Houve uma expansão fiscal inicial, mas limitada, que levou ao que o banco Credit Suisse chamou de “fluxo de garantia segura que fez com que o dinheiro público público (Treasuries, títulos lastreados em hipotecas, agências do governo dos EUA) subisse, compensando totalmente a contração no “dinheiro sombra” privado (obrigações de empresas, títulos garantidos por ativos e hipotecas não relacionadas com agências públicas).
Como resultado da demanda em pânico por dívida pública, o preço dos títulos do governo subiu e, devido à maneira como o mercado de títulos opera, o rendimento (taxa de juros) dos títulos caiu drasticamente. A demanda por dívida pública aliviou muito os custos de empréstimos (juros) do governo.
Rapidamente, porém, políticos e autoridades do tesouro dos governos, aplaudidos por economistas ortodoxos, think tanks de direita e pela mídia, voltaram à teoria neoliberal ou ordoliberal e impuseram contração fiscal — ou “austeridade”. O investimento público — gastos do governo — foi cortado ou impedido de aumentar.
Esses padrões duplos – a expansão das finanças para o setor financeiro privado e a contração para o setor público — são intrínsecos à economia ortodoxa, mas raramente desafiados pela profissão de economista.
Como resultado, a produção de garantias do governo (dívida pública) caiu.
Desde 2010, a “austeridade”, simultânea aos congelamentos e cortes de salários, agravou a crise. O efeito dessa política econômica atrasada foi aumentar o emprego inseguro, de baixa remuneração, pouco qualificado e improdutivo, ao mesmo tempo em que reduzia os salários em todos os setores.
Nos EUA, o estímulo inicial determinado por Obama evitou a depressão mas foi insuficiente para restaurar a estabilidade a longo prazo. Ao invés disso, houve severos cortes de gastos do governo estadual e local, não houve socorro às famílias que haviam hipotecado suas casas e os salários caíram em termos reais. Entre 2009 e 2014, os salários ajustados à inflação nos EUA ficaram estacionados ou decresceram, após uma série de decisões polítias. Mais recentemente, os salários reais cresceram, mas as taxas de crescimento para a recuperação como um todo ainda estão muito atrás das taxas anuais de 2,0 a 2,2% de 1947 a 1979.
Como resultado da austeridade, a emissão de dívida pública segura diminuiu. Por que isso deveria importar? Porque a baixa oferta de dívida do governo tende a impulsionar (na verdade, “deslocar para”) a criação de dívida privada insegura, ou ativos. Esses ativos privados inseguros são usados ​​pelo sistema bancário e pelo sistema bancário “das sombras” para expandir os empréstimos e o crédito. Os bancos centrais preocupam-se, com razão, com o fato de que essa expansão do crédito sobre ativos desregulamentados e desregulados provavelmente levará a outra crise financeira.
Observando a dívida pública pelo lado errado de um telescópio
Entender o valor da dívida pública muda nossa visão sobre o assunto. Como um empréstimo obtido para um projeto que criará emprego e gerará renda, a dívida pública, se investida em atividade produtiva, é uma coisa boa. Gerará renda. Não apenas salários para os empregados; não apenas lucros para o setor privado, quando os salários são gastos em seus bens e serviços; mas também receitas fiscais. Impostos sobre as rendas das corporações e dos consumidores, usados pelo governo para pagar a dívida.
Os empréstimos e os gastos públicos são especialmente importantes depois de uma crise, quando o setor privado está fraco e não tem confiança para fazer dívidas, investir e gastar. No entanto, a maioria dos economistas das escolas de Chicago vê a dívida pública como uma ameaça à economia. Governos que não podem “equilibrar as contas” são considerados incompetentes e perseguidos pela mídia
A hostilidade à dívida pública varia, mas o medo está embutido na psiqué alemã, porque a palavra para dívida – “Schuld” – é o mesmo que a palavra para “culpa”. A frase de São Mateus — “perdoa-nos as nossas dívidas, pois perdoamos aos nossos devedores” — foi interpretado por São Lucas como “perdoa os nossos pecados como perdoamos aqueles que pecam contra nós”.
Culpa, pecado e dívida pública estão profundamente conectados, mas apenas nas mentes dos economistas, jornalistas e do público. Dívida torna-se algo bem diferente nas mentes dos financistas e rentistas. Para Wall Street e a City de Londres, a dívida pública segura da Grã-Bretanha, da Europa e dos EUA é um presente verdadeiramente impressionante e fenomenal.
Nunca é suficiente para eles.
Enquanto não compreendermos plenamente a importância da dívida pública para o setor financeiro, as corporações imensamente abastadas e globalizadas continuarão a extrair parasitariamente renda de ativos públicos; a desigualdade mundial continuará a aumentar; e nós, os muitos, ficaremos relativamente mais pobres e sem poder.
Quando um número suficiente de pessoas vier a entender esse poder oculto, descobriremos que outro mundo é realmente possível.
Esquerda e Sistema Financeiro
No coração da ideologia neoliberal — ideias compartilhadas por aqueles que o historiador econômico Quinn Slobodian define como “globalistas” — está a crença de que a participação do Estado na economia deve encolher. Além disso, os mercados privados de capital devem permanecer “livres” para vagar globalmente e sem restrições. Em outras palavras, os mercados de capitais globalizados devem ter a “liberdade” de se desvincular dos Estados do mundo e da regulação democrática.
Como explicado acima, a profunda ironia da obsessão ideológica com os mercados de capital auto-regulados, “austeridade” e o encolhimento do Estado é que os mercados financeiros privados não podem funcionar sem o apoio dos governos, seus contribuintes e a segurança da dívida pública.
O “rato tímido”, que é o setor financeiro privado, não pode operar sem a proteção do “leão que ruge”, que é o setor público, para citar Mariana Mazzucato.
Dado que os ativos públicos seguros são tão fundamentais para a estabilidade do sistema financeiro privado, por que políticos e funcionários de direita querem reduzir sua oferta? A resposta só pode ser: a ignorância, alimentada pela ideologia oposta ao papel coletivo do Estado.
Mas e a da esquerda? A Grande Crise Financeira foi recebida com choque e descrença à esquerda. Muitos economistas progressistas concentraram-se na economia doméstica e tangível — Estado, mercados, trabalho e comércio –, ignorando amplamente a economia intangível, o setor financeiro globalizado.
E muitos abraçaram a “globalização” — a capacidade de viajar amplamente e atrair dinheiro em qualquer parte do globo; a facilidade com que a globalização facilitou a importação de frutas e vegetais exóticos; smartphones baratos; e os presentinhos oferecidos pela tecnologia no sistema globalizado. Tudo isso foi recebido com entusiasmo por partidos social-democratas, que fecharam os olhos a um sistema financeiro global e desregulamentado que facilitou essas atividades, mas também criou a ameaça de desastre sistêmico.
Como resultado, a esquerda não teve uma resposta coerente ao colapso dos mercados de capitais globalizados. Durante todo o período de “austeridade”, a esquerda — tanto nos EUA quanto na Europa — viu-se em desvantagem, na defensiva diante dos governos social-democratas que haviam acumulado dívidas como resultado da Grande Crise Financeira. Os governos social-democratas endossaram o Quantitative Easing para os banqueiros e “austeridade” para a maioria. Essa abordagem garantiu sua queda e até a extinção. (O Partido Socialista Francês não existe mais como uma força política ou organização, e foi obrigado a vender sua própria sede.)
Esses fracassos enfraqueceram a capacidade da esquerda de argumentar que, em um momento de fracasso catastrófico da economia privada, o investimento público em empregos era essencial para restaurar a estabilidade social, política e econômica. Em vez disso, subsídios e ativos apoiados pelos contribuintes foram implantados pelos bancos centrais via QE para proteger os lucros privados e os ganhos de capital.
Não é de se admirar que a população tenha se revoltado.
O que Fazer?
Um primeiro dos muitos passos que devem ser dados para transformar a economia é a compreensão. As pessoas não podem agir para transformar o que não entendem.
A compreensão de como os contribuintes garantem e endossam as atividades do setor financeiro privado globalizado e desregulamentado deve ser mais difundida. Só então poderemos começar a exigir “termos e condições” para subsídios e garantias públicas — e usar esse poder para regular e subordinar o setor financeiro globalizado aos interesses da sociedade como um todo. Exigir que os ativos financeiros públicos sejam usados ​​para benefício público, não privado.
Esse entendimento é fundamental se quisermos responder à maior ameaça à segurança que a humanidade enfrenta: o colapso climático.
Armados de compreensão, precisaremos de um plano. O New Deal Verde é esse plano.
O New Deal Verde
A genialidade do New Deal Verde de Alexandria Ocasio Cortez é que ele fornece um plano amplo e abrangente para transformar a economia dos EUA e enfrentar o colapso do clima. Se os esforços do Partido Democrata norte-americano levarem a uma campanha internacionalmente coordenada para implementá-lo, o plano tem o potencial de transformar muitas economias em todo o mundo e garantir um planeta habitável no futuro.
Mas — e é um grande mas — um plano abrangente para a transformação econômica exigirá financiamento em grande escala, comparável ao de uma nação que está entrando em guerra. Nós sabemos que isso pode ser feito. Os governos sempre encontraram dinheiro para financiar guerras.
Em 1933, o plano do presidente norte-americano Franklin D. Roosevelt — o New Deal — encontrou dinheiro para uma guerra contra o desemprego e a pobreza. Seu governo fez isso revertendo a economia neoliberal e implementando a teoria e as políticas monetárias keynesianas. Ao garantir que o sistema monetário e financeiro fosse administrado por autoridades públicas, e não privadas, seu governo levantou o financiamento necessário para tirar os EUA da catástrofe econômica da Grande Depressão. O New Deal de Roosevelt não apenas criou empregos e gerou renda nacional. Ele também abordou a catástrofe ecológica que foi o Dust Bowl, popularmente conhecido pelas enormes tempestades de areia.
A implementação do New Deal foi alcançada, em primeiro lugar, porque o governo de Roosevelt tinha uma compreensão clara da natureza do dinheiro e do sistema monetário com respaldo público. Mas seu sucesso em lidar com os interesses de Wall Street deveu-se à mobilização política, organização e ação. Roosevelt teve a coragem e o lastro político para confrontar e subordinar os interesses do Wall Street aos da sociedade e do meio ambiente.
Qualquer movimento internacional para um New Deal Verde terá que reunir a mesma coragem política em muitos países no mundo. Os ativistas terão que mobilizar, organizar e agir para superar a ideologia econômica que permite que os 1% enriqueçam incrivelmente com subsídios, salvamentos e garantias apoiados pelos contribuintes — enquanto negam recursos financeiros para investimentos públicos, transformação econômica e ecológica. Os ativistas terão que descobrir, e então implantar, seu poder latente para subordinar as finanças globais aos interesses da sociedade e do ecossistema.
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Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2019/02/para-virar-os-bancos-de-cabeca-para-cima.html

Alemanha: Desesperadamente procurando um novo mas improvável «milagre económico»

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Com a publicação da sua “Industrial Strategy 2030”, Berlim revela as linhas gerais do seu novo Graal. Uma demanda que não vai ser fácil como nota a americana Geopolitical Futures.

In search of the third German economic miracle

GPF Staff  |  Feb. 4, 2019

Germany will publish a new industrial strategy tomorrow named “Industrial Strategy 2030” – mirroring China’s “Made in 2025” and Saudi Arabia’s “Vision 2040.” According to Die Welt, which received an advance copy of the report, the German government aims to boost manufacturing from 23.4 percent to 25 percent of the economy by 2030 in part by providing support for key German companies like Siemens, BMW and Deutsche Bank. The plan also identifies nine strategic sectors ranging from environmentally friendly technology to defense and aerospace equipment that will be the focus of the national strategy. Unlike China and Saudi Arabia, Germany has a track record of conceptualizing and implementing such ambitious plans, but even mighty Germany will face many obstacles before it can achieve these goals. Some of the elements, especially those aimed at boosting German industry, may also set the stage for future disagreements between …


Daily Memo: Germany’s Economy, the Philippines’ Uncertainty, Maduro’s Defiance


Exclusivo Tornado / IntelNomics


África: Geopolítica da Cerveja e Guerra Económica

Uma grande caça desenrola-se, em África, no mercado da cerveja.

Giuseppe Gagliano estabelece o mapa da geopolítica da cerveja em África e analisa a imparável guerra económica, que aí se desenvolve, pela conquista de posições e pelo controlo deste mercado que, brevemente, representará 37% do mercado mundial da cerveja.


Geopolitica della birra: i grandi produttori a caccia dell’Africa

Di Giuseppe Gagliano | 5 Febbraio 2019 

Le grandi multinazionali della birra stanno assumendo una posizione offensiva nel continente africano a danno dei produttori locali.

Infatti, secondo Deutsche Bank, il continente africano rappresenterà il 37% del volume mondiale della birra nel 2025.

I grandi giocatori contano sulle dita di una mano. Possiamo menzionare AbInBEV, il principale produttore di birra del continente, l’impero di Castel o il marchio olandese Heineken.

Come abbiamo detto poc’anzi le multinazionali hanno letteralmente spodestato i produttori locali. 

Ad esempio la Castel negli anni ’90 ha acquisito il marchio Soboa in Senegal e altre società del Camerun. Una volta acquisite, queste società vengono ristrutturate e fino a un terzo della forza lavoro viene licenziata.

Di recente, Castel ha acquistato cinque birrerie dal colosso danese Carlsberg in Malawi. 

In Burundi e in Ruanda, è stata l’olandese Heineken a posizionarsi in modo durevole.

Questa espansione economica non sarebbe possibile senza l’assenso o persino la complicità dei leader presenti in questi Paesi.

Castel, uno dei leader del mercati internazionale della birra nei paesi di lingua francese, era in rapporti con il presidente del Gabon Omar Bongo, morto nel 2009. 

La conquista dei mercati esteri non può essere fatta senza una logistica potente, un prodotto redditizio e una buona volontà da parte degli attori locali.

Heineken, ad esempio, ha bloccato con successo l’arrivo del concorrente SABMiller in Nigeria, che improvvisamente ha dovuto affrontare ogni sorta di difficoltà amministrative per quanto riguarda le autorizzazioni essenziali. 

Un modus operandi è in evidente contraddizione con la strategia di sponsorizzazione di eventi sportivi e culturali. Inoltre il sostegno che riceve attraverso il suo sostegno all’agricoltura tramite l’Ue e l’Onu non è coerente con le sue importazioni di malto dall’Egitto lontano 5.000 km dal suo birrificio ruandese. 

Al contrario, SABMiller (ora ABInBEV) si è impegnata nel 2002 a produrre una birra locale a base di sorgo ugandese. Pertanto, la società è stata in grado di adattare il prezzo del prodotto al potere d’acquisto locale. 

Altre iniziative sono state sviluppate con birre di manioca in un birrificio in Mozambico, anche sotto l’impulso di SABMiller.

In “compenso”, le tasse e gli impulsi protezionistici di alcuni Paesi africani per proteggersi dall’esterno sono andati in frantumi. Per non perdere un mercato così ampio come quello africano le multinazionali hanno posto in essere strumenti non ortodossi. 

La Heineken ha fatto appello a quasi 2.500 prostitute in Nigeria per convincere i loro clienti che la bevanda dei Paesi Bassi avrebbe dato loro migliori abilità sessuali rispetto alla concorrente Guinness.

Un‘altra modalità di azione attuata dalla Heineken,per contrastare questa volta la concorrente Castel, si è concretizzata nella alleanza siglata con il distributore CFAO in Costa d’Avorio.

Nel continente nero – e non solo – l’esistenza del libero scambio è una pura illusione. 

La conquista del mercato africano è stata conseguita – e viene conseguita – attraverso una spietata guerra economica nella quale ogni strumento lecito o meno diventa legittimo, una guerra economica nella quale ad esempio una birra come l’italiana Peroni – che era stata acquisita dalla SABMiller per poi essere rivenduta nell’aprile del 2016 alla giapponese Asti per 2,55 miliardi di euro – ha dimostrato tutta la sua debolezza economica nonostante la sua elevatissima qualità.


Geopolitica della birra: i grandi produttori a caccia dell’Africa


Giuseppe Gagliano

Exclusivo Tornado / IntelNomics


Sobre o que foi o ano de 2018, sobre os perigos que nos ameaçam em 2019 – uma pequena série de textos. 13. Porque é que a economia mundial aparece tão frágil

Devemos nós estar  preocupados nos com o estado da economia mundial? Sim: faz sempre sentido preocuparmo-nos. Isso não significa estarmos seguros de  que algo vai  correr muito mal num futuro próximo.

Porque é que a economia mundial aparece tão frágil

(Martin Wolf, 17 de Janeiro de 2019)

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Devemos nós estar  preocupados nos com o estado da economia mundial? Sim: faz sempre sentido preocuparmo-nos. Isso não significa estarmos seguros de  que algo vai  correr muito mal num futuro próximo.

Pelo contrário, a economia mundial parece estar a caminhar para uma ligeira desaceleração cíclica. De longe muito mais importante é o contexto estrutural e cíclico adverso a mais longo prazo, porque  isto torna qualquer oscilação a curto prazo muito mais perigosa.

De acordo com a Goldman Sachs, a dinâmica do crescimento económico mundial abrandou acentuadamente em 2018. A desaceleração mais significativa a nível mundial verificou-se na economia chinesa – o principal motor do crescimento mundial desde a crise financeira de 2007-2008. Mas a Alemanha e o Japão também registaram contrações económicas no terceiro trimestre do ano passado. Os mercados bolsistas também estiveram em turbulência. Em parte, tudo isto vai refletir, presumivelmente, o agravamento da percepção das perspectivas. Estes mercados em queda deverão também enfraquecer o consumo e o investimento.

Tudo isto sugere que um abrandamento cíclico está a caminho. No entanto, os analistas institucionais  não estão propriamente preocupados. A OCDE declarou em novembro último que a “expansão global atingiu o seu ponto culminante” e estima que o crescimento do produto interno bruto mundial “diminua gradualmente de 3.7 por cento em 2018 para cerca de 3.5 por cento em 2019 e 2020, em linha com o crescimento subjacente do produto potencial global”. Esta seria uma aterragem ultra-suave. As previsões de consenso corroboram esta ideia: as previsões de consenso de dezembro para o crescimento em 2019 são pouco diferentes das de há um ano atrás. As perspectivas de crescimento para os EUA estão mesmo ligeiramente melhoradas. (Ver gráficos.)

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Um ligeiro abrandamento económico dificilmente será problemático. Pelo contrário, é de esperar que aconteça. Nas economias de elevado rendimento, que ainda geram três quintos da produção mundial (a preços de mercado), a retoma cíclica é mais antiga e a capacidade excedentária tem estado a diminuir de forma  acentuada. Onde a expansão está mais avançada e o excesso de capacidade desapareceu, a política monetária foi devidamente apertada, a um ritmo muito, muito apropriado,  ao ritmo de Donald Trump. Felizmente, a inflação é ainda moderada e as taxas de juro nominais e reais são baixas. Embora os mercados bolsistas  tenham efetivamente  corrigido a sua evolução, as ações dos EUA raramente têm sido tão valorizadas quanto hoje.

Nada aqui sugere que uma grave recessão global esteja a caminho. De facto, vale a pena lembrar que, embora as economias capitalistas sempre tenham sido cíclicas, as recessões severas, especialmente as globais, são raras. Pareceria sábio, em suma, que todos “se mantivessem calmos e seguissem em frente “.

No entanto, há um senão – um grande senão. Como Ray Dalio de Bridgewater argumenta numa  nota sobre o que está a acontecer,  o ciclo de curto prazo é o menor dos nossos desafios. Há também mudanças estruturais, que ele resume em termos de tendências de diferenças de  produtividade  e do ciclo da dívida de longo prazo.

Crucialmente, estes desenvolvimentos tornaram a economia mundial frágil.
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A “produtividade” deve ser vista como uma forma abreviada de resumir as mudanças no poder económico global, o aumento da desigualdade, o colapso do emprego na indústria transformadora,  a ascensão da economia digital e os ” excedentes de poupança” das últimas décadas. O ciclo da dívida de longo prazo, que se acelerou a partir da década de 1980, foi, entre outras coisas, uma forma de gerir as consequências sociais e económicas dessas mudanças estruturais.

Essas mudanças estruturais tiveram grandes efeitos políticos: uma onda de nacionalismo e populismo, Brexit, a eleição de Trump, uma guerra comercial entre as duas economias mais importantes do mundo e uma erosão da ordem económica global liberal. O ciclo de crédito de longo prazo levou ao desfecho da desastrosa crise financeira de 2007-08. Hoje, a China, cujo ciclo de dívida de longo prazo se acelerou após a crise, também está a atingir  os limites da acumulação de dívida.

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Estas condições a longo prazo limitam significativamente qualquer otimismo que se sinta num contexto de abrandamento cíclico a curto prazo.

Uma implicação poderosa é que a margem de manobra para a resposta a uma recessão seria limitada por padrões históricos, especialmente na política monetária. Se a Reserva Federal dos EUA tivesse de dar uma resposta clássica  a uma recessão significativa, as suas taxas de curto prazo poderiam ter de ser menos 2.5 por cento. O Banco Central Europeu e o Banco do Japão teriam de ir ainda mais longe. Se o pior vier a acontecer, a  Reserva Federal e o BCE podem ser forçados a seguir o BOJ em políticas ainda mais profundamente não convencionais. Enquanto o Banco Popular da China tem mais margem de manobra, reiniciar o boom do crédito chinês acarreta riscos a longo prazo.

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A transformação do ambiente global traz outros perigos, tanto negativos como positivos. O maior risco negativo é a impossibilidade de organizar uma resposta coordenada e eficaz a um grave abrandamento económico mundial. Um perigo obviamente positivo  advém da eventual impossibilidade  de gerir as dívidas acumuladas,   pública e privada. Outro perigo é que o colapso da ordem política global cria, por si só, graves perturbações económicas, talvez através de um colapso do comércio internacional, talvez como resultado de um  outro  qualquer  acontecimento geopolítico.

A questão com que nos devemos preocupar não é o estado do ciclo de curto prazo. É perfeitamente provável que venha a haver um abrandamento modesto e controlável, sem que daí resulte nada de muito danificado. A preocupação deve antes prender-se com o contexto em que tal abrandamento poderá ocorrer. É a instabilidade política e  das políticas, combinadas  com o esgotamento das opções seguras para a expansão do crédito, que tornariam  potencialmente tão difícil lidar com a gestão duma desaceleração a curto prazo, mesmo que limitada e natural.

Infelizmente, não existem atualmente mecanismos simples para reduzir estas fontes de fragilidade. Estas estão profundamente enraizadas e, tendo em conta os recentes desenvolvimentos políticos, é mais provável que se tornem piores do que melhores. Se querem preocupar-se, devem então preocupar-se com isso.

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Artigo original aqui

 O décimo quarto texto desta série será publicado, amanhã, 06/02/2019, 22h)


Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2019/02/06/sobre-o-que-foi-o-ano-de-2018-sobre-os-perigos-que-nos-ameacam-em-2019-uma-pequena-serie-de-textos-13-porque-e-que-a-economia-mundial-aparece-tao-fragil/

Fora do euro, há limite para os défices?

Bateira001
"Portanto, afirmações de que o aumento dos défices orçamentais ou uma expansão da moeda produzem inflação têm de ser analisadas em termos do modo como a oferta da economia responde ao aumento da procura nominal. Qualquer aceleração da procura nominal que enfrente uma restrição da oferta será inflacionista – algo que não é exclusivo da despesa pública. Para explorar esta questão, é necessário saber como responde o lado da oferta da economia. Existem apenas três opções, quando a economia recebe um aumento da procura agregada nominal (despesa): - Aumentar o produto real - isto é, aumentar a produção real de bens e serviços.
- Aumentar os preços - isto é, aumentar o nível de preços.
- Uma mistura de aumentos do produto real e de aumentos de preços. Se a expansão da procura nominal continuar a ser satisfeita pela segunda resposta do lado da oferta, então temos a inflação a ocorrer. Recomendo a leitura integral deste texto de Bill Mitchell.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Alemanha, o Perigo Maior que Ameaça a Europa

Merkel foi posta na rua pelos seus “amigos e aliados” da CDU e da CSU, o SPD encolhe todos os dias, enquanto os “Verdes” se tornam o segundo maior partido alemão e a direita dura se instala com “armas e bagagens” dentro dos muros do parlamento e espreita a sua oportunidade…

Foi você que apontou a Alemanha como modelo ou como referência (“accionista de referência”…) para a Europa? Ora, pense lá melhor…

O sistema partidário alemão implode enquanto no seu solo emergem, como cogumelos depois da chuva, “populismos”, uns mais “verdes” e outros mais “castanhos”. Mas não é só o sistema político (com Merkel já em fuga) que implode. 

Toda a narrativa corrente sobre a consistência e o dinamismo da Alemanha é uma “storytelling” montada por um eficiente dispositivo de gestão da percepção mas sem qualquer correspondência na realidade.

Limes – Sta Finendo L’Idillio Ttra Cina e Germania

George Friedman há muito que identificou a Alemanha como uma das economias mais frágeis e vulneráveis pela sua excessiva exposição ao exterior. Uma economia baseada na exportação, como a alemã ou a chinesa, construída por uma estratégia nacional-mercantilista, fica totalmente nas mãos dos seus clientes e à mercê das flutuações que o quadro geopolítico possa sofrer. 

Ora, o quadro geopolítico esteve muito estável até 2008 mas começou, desde então, a produzir terramotos e maremotos, cada vez mais preocupantes e cada vez mais frequentes, e apresentar uma crescente tendência de instabilidade global… Trump é aqui não um causador mas apenas uma consequência.

Jacques Sapir, pelo menos desde 2010, que estuda a estrutura interna da Alemanha, nos seus aspectos sócio-económicos, e considera-a desequilibrada, frágil e em vias de desindustrialização, num “processus de basculement du Made in Germany vers le Made by Germany”… 

Este processo de desindustrialização faz baixar os salários (relativamente e até mesmo em termos absolutos) pelo que, apesar dos bons números apresentados pela Alemanha, os alemães vivem cada vez pior, desde há uma boa dúzia de anos (excepto, claro, os tais do “1%” que aumentam a cada ano a parte da riqueza gerada que acaparam).

Deutsche Bank, Set. 2018

No plano financeiro, a situação da Alemanha é realmente catastrófica e constitui a maior ameaça à zona euro. Só a ladainha do “too big to fail” tem valido ao maior banco privado alemão… Já alguém escreveu mesmo que “la Deutsche Bank c’est Lehman Brothers au cube!”

Mantido artificialmente com a cabeça fora de água pelo estado alemão, o Deutsche Bank acumula perdas gigantescas e situações menos claras e mais que duvidosas. Se o mesmo se passasse em Portugal já cá tínhamos uma dúzia de troikas e uns destacamentos da wehrmacht, assessorados por umas brigadas da gestapo…

O segundo maior banco privado alemão, o Commerzbank, igualmente levado ao colo pelo estado alemão, anda desde 2008 pelas ruas da pior amargura e não consegue sair de lá. Como toda a banca privada alemã, de resto! Quanto às caixas regionais têm dois imensos privilégios: estão excluídas da supervisão do BCE e muito bem amparadas e escudadas nos governos dos ‘landers’. Portanto…

Alemanha em crise de identidade, na Limes de Janeiro 2019

Finalmente, na instância política a situação não é melhor. Para além da presente desagregação do sistema partidário, criado logo após a II Guerra, acontece que a fragilidade estrutural do estado alemão é enorme. Há mesmo quem o considere como a mais frágil estrutura política da União Europeia… passível de implosão em tempo curtíssimo.

A narrativa da “storytelling” do sucesso alemão não tem qualquer base de sustentação na realidade. A Alemanha é hoje o maior perigo que ameaça a Europa não pela sua força ou dinamismo mas sim pelas suas fraquezas e vulnerabilidades.

Harbulot – Merkel é uma morta-viva e o eixo franco-alemão é uma ilusão

Exclusivo Tornado / IntelNomics

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/alemanha-o-perigo-maior-que-ameaca-a-europa/

Discutir economia política em Coimbra

 

(Alexandre Abreu, in Expresso Diário, 31/01/2019)

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Numa visita à London School of Economics no final de 2008, pouco tempo depois da eclosão da crise financeira, a Rainha de Inglaterra perguntou com alguma candura: “Como é que ninguém viu que estávamos a caminho de uma crise?”. Na realidade, a ideia de que estava a ter lugar uma acumulação insustentável de endividamento privado, cuja deflação traria consigo provavelmente uma recessão profunda, havia sido identificada e discutida por alguns. Era sobretudo no núcleo central da ciência económica, dominada pela teoria dos mercados eficientes, pela hipótese das escolhas racionais, pela abordagem dedutiva e pelo afastamento face à realidade política, institucional e histórica concreta, que dominava um “falhanço da imaginação colectiva” que tornara inimaginável a Grande Recessão.

Este confronto da Economia com a realidade das suas insuficiências não provocou rupturas paradigmáticas ou alterações de fundo. Em muitos contextos, acentuou-se até o estreitamento disciplinar desde essa altura. Mas a crise veio tornar especialmente evidente que a economia, uma ciência jovem com um conhecimento muito imperfeito do sistema complexo que constitui o seu objecto, não pode dar-se ao luxo de dispensar o pluralismo. Se quer ter esperanças de ser relevante e contribuir para o conhecimento e actuação sobre a realidade, deve cultivar e combinar as abordagens indutiva e dedutiva, a formulação de modelos abstractos e a análise dos contextos políticos e institucionais concretos, os métodos qualitativos e quantitativos, e o diálogo permanente com a história, a geografia, a sociologia e as outras ciências sociais.

Para procurar assegurar isto mesmo, inclusive ao nível da reconfiguração dos curricula universitários, surgiram nos últimos anos em Portugal várias iniciativas. Algumas das mais interessantes, como o Colectivo Economia Sem Muros, a partir da Nova-SBE, ou o Colectivo Economia Plural, a partir do ISEG, têm sido promovidas por estudantes – naturalmente, os primeiros interessados em assegurar a relevância da sua própria formação. E foi também neste contexto que germinou a criação da Associação Portuguesa de Economia Política, fundada em Janeiro de 2017 com o objectivo de promover o pluralismo e o pensamento crítico no estudo dos processos económicos, que são processos sociais ancorados em contextos concretos.

Como afirma a Declaração de Princípios desta Associação, a Economia Política pretende contrariar o estreitamento téorico e metodológico e entender as economias na sua complexidade e especificidade institucional, histórica e geográfica. Para isso, articula os esforços não apenas de membros que são nominalmente economistas, mas de muitos outros – geógrafos, sociólogos, cientistas políticos e outros – que se interessam pelos fenómenos e processos económicos e pelas dimensões da produção e reprodução material das sociedades. Tem vindo a crescer, contando actualmente com várias centenas de membros, e a organizar seminários, escolas de verão e inverno e outras actividades destinadas aos seus membros e à sociedade em geral.

Amanhã (6.ª feira) e Sábado (1 e 2 de Fevereiro), na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, terá lugar o 2.º Encontro Anual de Economia Política organizado por esta Associação, subordinado ao tema “Democracia, Desenvolvimento, Desigualdade”. Contará com mais de uma centena de comunicações em sessões plenárias e painéis sobre sobre temas tão diversos como a economia política do trabalho, políticas públicas, desenvolvimento e direitos humanos, financeirização e crescimento, entre muitos outros. E com certeza contará com muitos debates francos e interessantes.

Apareçam. Estão todos convidados.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Rendimento Básico Universal (RBI): a armadilha de uma promessa simples

Philippe Van Parijs, professor na Universidade de Lovaina e destacado defensor do rendimento básico incondicional (RBI), esteve na semana passada em Braga num debate onde discutiu esta proposta, acompanhado pelo ministro Vieira da Silva. A ideia não é nova e já foi tema de outros textos neste blog (aqui, aquiou aqui). No entanto, porque parece continuar a captar a curiosidade e a simpatia de alguns setores da esquerda, talvez valha a pena recuperar os seus principais aspetos e problemas.
O RBI surge no debate público como proposta de resposta às mudanças tecnológicas no mundo do trabalho e à ameaça de substituição de grande parte dos empregos por máquinas. Na entrevista que concedeu ao Público, Van Parijs sugere que "o RBI é um remédio para a armadilha do desemprego criada pelo Estado social." Assim, à inevitável eliminação de grande parte dos postos de trabalho, Van Parijs propõe que devemos responder com a atribuição, por parte do Estado, de uma quantia fixa a cada cidadão, independentemente da sua condição financeira, profissional ou pessoal. No entanto, a simplicidade da ideia esconde vários problemas associados. Por um lado, a solução afasta a ideia de que o desemprego é um problema social que afeta não apenas o rendimento disponível, mas também a vida familiar e pessoal dos indivíduos, como nos mostram os estudos sobre a relação entre o desemprego e a diminuição das redes de contactos da pessoa desempregada, pela exclusão gradual dos espaços de socialização (o local de trabalho, os cafés, restaurantes, etc.). A solução proposta pelos defensores do RBI implica a eliminação do pleno emprego como objetivo central de uma sociedade democrática, desvalorizando também a importância das políticas públicas neste objetivo (aspeto discutido aqui). As contas, recordemos, já foram feitas e não enganam: em Portugal, um rendimento mensal de 750€ para todos os cidadãos significa um montante total de 105 mil milhões de euros, mais de 60% do PIB. Esta despesa não constitui um combate eficaz à pobreza pelo duplo motivo de ser direcionada para todos, e não apenas para os pobres, e por não atribuir o rendimento necessário para uma vida digna. Além disso, como exposto por Francisco Louçã, apenas seria concretizável se o Estado abdicasse de todos os outros serviços públicos e duplicasse os impostos. Não é, por isso, surpreendente que o RBI seja defendido por autores neoliberais como parte de uma estratégia de desmantelamento do Estado social e dos serviços públicos de provisão de saúde, educação, proteção social, segurança, entre outros. Sob a promessa da "defesa da liberdade individual", o que os seus defensores propõe é uma reconfiguração profunda do papel do Estado, que passa a atribuir um cheque às pessoas como contrapartida da mercadorização dos serviços essenciais ao funcionamento da sociedade. Além disso, o RBI contraria princípios constitutivos do Estado social como a universalidade e equidade no acesso a condições dignas de vida (que passam a depender da oferta privada) ou a lógica da reciprocidade organizada e inclusiva (bem visível, por exemplo, no caso do sistema de pensões). Por outro lado, a inevitabilidade do fim do emprego é uma ameaça que assenta numa ideia erradasobre as tendências de fundo do capitalismo. A história mostra-nos que as sucessivas revoluções industriais e o avanço tecnológico não eliminaram o trabalho necessário. A alterações profundas no modo de produção estão associadas mudanças na organização do trabalhado e nas qualificações necessárias, mas não a inevitabilidade do desemprego permanente. Em vez de insistir numa ideia errada, o que devemos discutir é a distribuição dos ganhos gerados pela tecnologia e o papel das políticas públicas na redistribuição da riqueza através do emprego e dos seus direitos coletivos. Uma sociedade democrática e inclusiva constrói-se com serviços públicos abrangentes, com direitos laborais robustos e com uma organização sustentável da produção (através, por exemplo, da diminuição do tempo de trabalho e da aposta na reconversão ambiental das economias). O RBI constitui, por isso, uma ideia perigosa que não contribui para enfrentar os desafios que as sociedades enfrentam. E uma ideia perigosa repetida muitas vezes não deixa de o ser. Que seja promovida pelos que pretendem aprofundar a captura de todos os espaços da vida social pelo mercado, não surpreende. Que continue a ser defendida por alguns setores da esquerda é sinal dos tempos estranhos que vivemos.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Aprender economia política

Já estão abertas as inscrições para o Doutoramento Interdisciplinar em Economia Política, que resulta de uma iniciativa conjunta do ISCTE, da FEUC e do ISEG:   “O capitalismo é um sistema socioeconómico e de poder; um sistema diversificado ao longo e em cada momento da sua história; um sistema em transformação nos seus quadros institucionais e nas suas escalas. Estudar criticamente o capitalismo é o principal objetivo do doutoramento interdisciplinar em Economia Política, em linha com uma relevante tendência internacional nas ciências sociais. Este programa valoriza particularmente a criação de conhecimento sobre o capitalismo em Portugal e sua evolução, inserindo-o nos contextos europeu e global que moldaram e moldam as suas trajetórias de convergência e de divergência. O doutoramento em Economia Política tomou forma a partir de projetos de investigação, de publicações relevantes, de experiência de formação avançada e de um longo percurso de trabalho conjunto desenvolvido em diversos planos.”

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Ler economia política


A verdade é que, notava Galbraith[nos anos cinquenta], neste quadro de patente «imperfeição» do mercado, a economia norte-americana não apenas se movia sem atrito manifesto, como dava sinais de grande pujança. Para isso, muito teria contribuído, segundo ele, a institucionalização de um processo de balanceamento e compensação do poder de monopólio e dos efeitos perversos da concentração empresarial protagonizado por um vasto conjunto de novos agentes económicos: sindicatos (capazes de impor ao patronato e aos dirigentes empresariais melhorias dos níveis de remuneração e das condições de trabalho dos assalariados); cooperativas de produtores agrícolas (determinadas a contrariar a tendência de deterioração relativa dos preços das matérias-primas e dos bens alimentares); associações de consumidores, armazenistas e retalhistas (focadas na criação de relações mais igualitárias nos circuitos de distribuição), etc. José Madureira Pinto coloca uma questão interessante no sítio do Le Monde diplomatique - edição portuguesa: Vale a pena (re)ler John Kenneth Galbraith? A resposta é inequivocamente afirmativa. Vale mesmo a pena ler a análise que a justifica.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Crédito: Criar poder de compra fictício

O crédito bancário como instrumento de criação de poder de compra fictício, de amortecimento da luta por uma repartição mais justa da riqueza e de apropriação de rendimentos do trabalho pelos banqueiros.


 

Neste estudo analiso, utilizando dados oficiais, não só o aumento explosivo do crédito bancário às famílias após a adesão de Portugal à Zona euro até 2010, que criou a ilusão de um aumento enorme de poder de compra que era fictício (entre 2002 e 20010, o crédito fácil aos particulares aumentou de 72,7 mil milhões € para 179,5 milhões €, mais que duplicou; em percentagem do Rendimento Disponível da população aumentou de 51,2% para 105%), mas também mostro que em Portugal ele é (tem sido) também um importante instrumento utilizado pelo poder económico dominante, apoiado pelo poder politico, para amortecer a luta dos trabalhadores por uma melhor distribuição da riqueza criada no país, pois funciona simultaneamente como anestésico e “garrote”.

E que com a crise esta gigantesca pirâmide de poder de compra fictício desabou, e que só resta aos trabalhadores lutar por uma distribuição mais justa da riqueza e do rendimento, luta essa que já se iniciou e se intensifica. E isto até porque quando os juros dos empréstimos, nomeadamente do crédito à habitação aumentarem (neste momento estão muito baixos), a situação de centenas de famílias trabalhadores agravar-se-á devido ao enorme endividamento das famílias portuguesas.

Estudo

Neste estudo vamos apenas analisar um aspecto do crédito bancário, o de ser um instrumento de criação de poder de compra fictício dos trabalhadores, utilizado pelo poder económico e político dominante para amortecer a sua luta visando uma melhor repartição da riqueza, e também como instrumento de apropriação de uma parcela dos rendimentos do Trabalho.

Este é um aspecto importante que é muitas vezes ignorado e que não tem merecido, a meu ver, a devida atenção e reflexão nomeadamente pelos trabalhadores e pelas suas organizações. Para que fique claro, não sou contra o crédito bancário desde que ele seja concedido e pedido de uma forma responsável, pois ele pode ser um instrumento importante de crescimento económico e desenvolvimento. Mas como em todas as coisas na vida, ele tem aspectos positivos e também negativos, que é importante não esquecer.

Nos aspectos negativos, inclui-se não só a gestão danosa e muitas vezes em beneficio próprio ou dos seus amigos de alguns administradores de bancos (tem-se ultimamente falado muito da CGD, mas uma auditoria revelaria situações muito semelhantes na Caixa Económica Montepio nos mesmos anos onde centenas de milhões € de poupanças dos associados foram delapidadas através da concessão de crédito sem análise de risco,que o Banco de Portugal conhece mas que nada fez até estes momento); repetindo, o crédito tem também aspectos negativos e um deles, que não é falado, é de ser um instrumento importante utilizado pelo poder económico e politico dominante para amortecer a luta dos trabalhadores (funciona como garrote) visando uma melhor repartição da riqueza criada por eles. É o que vamos procurar mostrar neste estudo para Portugal, utilizando dados oficiais.

O aumento da criação da riqueza em Portugal tem sido reduzida e, para além disso, uma parcela vai para o exterior e a que fica está mal distribuída

Como mostra o gráfico 1 (dados do INE), o crescimento da riqueza criada em Portugal por habitante tem sido reduzido, nomeadamente a partir de entrada na Zona do Euro.

Entre 1995 e 2002, ano em que começou a circular em Portugal o euro, o PIB por habitante (riqueza anual criada no nosso país a dividir pelo numero de habitantes), portanto em 7 anos, aumentou 20,7%, ou seja, 2,7% ao ano, pois passou de 13.615€ para 16.434€por habitante; mas entre 2002 e 2017, ou seja, em 15 anos, o PIB por habitante em Portugal aumentou apenas 5,9%, o que dá uma média de crescimento de apenas 0,38%ao ano, pois passou de 16.434€ para 17.396€. Se considerarmos o período que vai de 2008, ano de início da crise, e 2017, o crescimento do PIB por habitante foi apenas 1,19% em 9 anos (0,2%/ano).

A crescer assim, o futuro do país e dos portugueses é negro. Mas nem toda esta riqueza criada no nosso país fica em Portugal para ser repartida,embora de uma forma muito desigual como vamos também mostrar, por aqueles que vivem no nosso país. E isto porque uma parte desta escassa riqueza criada é transferida para fora do país indo beneficiar os habitantes de outros países. E isso torna-se claro quando comparamos os dados de cada ano divulgados pelo INE referentes ao PIB (riqueza criada anualmente em Portugal ) e ao RNB (riqueza de cada ano a ser distribuída pelos habitantes do nosso pais), pois conclui-se que o PIB é, em todos anos, exceptuando 1995 e 1996, superior ao RNB como mostra com clareza o gráfico 2.

Como mostra o gráfico, a partir de 1996, em todos os anos, o RNB foi sempre inferior ao PIB, isto significa que o que é distribuído pelos habitantes do nosso país em cada ano foi sempre inferior à riqueza produzida anualmente no nosso país, mesmo com o actual governo. No período 1997/2017, em 20 anos, o RNB foi inferior ao PIB em 72.738 milhões € (cerca de 50% do valor do PIB português de um ano), indo beneficiar outros países.

O agravamento da desigualdade na distribuição da riqueza criada no país num quadro de crescimento anémico e de transferência de uma parcela de riqueza criada em Portugal para o exterior

O gráfico 3 com dados do INE mostra com clareza o agravamento da desigualdade na repartição da riqueza criada no nosso pais, pois os “Ordenados e Salários” representam uma percentagem cada vez menor do Rendimento Nacional Bruto.

Segundo o INE, a parte dos “Ordenados e Salários” no Rendimento Nacional Bruto (RNB) aumentou em Portugal até 2002 (ano do inicio do euro a circular no nosso país) pois, entre 1995 e 2002, subiu de 37,3% para 39,3% do RNB, tendo diminuído de uma forma continua, com excepção de 2009, atingindo em 2016 apenas 35,3% do PIB, uma percentagem inferior mesmo à de 1995 que foi 37,3%. E tenha presente que os trabalhadores, que recebem os “Ordenados e Salários”, representam 84% da população empregada.

Durante muitos anos, o crédito fácil funcionou também em Portugal como um amortecedor de luta dos trabalhadores por uma melhor repartição da riqueza criada

O crédito a particulares, em que a parte de “leão” é crédito às famílias trabalhadoras (crédito à habitação e ao consumo) explodiu em Portugal, após a adesão do nosso país à Zona do euro como mostra o gráfico seguinte com dados do Banco de Portugal.

Entre 1999 e 2002, inicio de circulação do euro no nosso país, o crédito a particulares aumentou em 22.658 milhões €, ou seja, em 53,7%; mas entre 2002 e 2010, com a adesão à Zona euro, o crédito sobretudo às famílias aumentou em 106.774 milhões €, ou seja, em 146,8% (neste período o crédito à habitação subiu 92,6% e o crédito ao consumo + 593,4%), uma percentagem muito elevada do rendimento disponível como mostra o gráfico 5.

A explosão do crédito fácil após a entrada de Portugal na Zona euro criou a ideia falsa de um aumento de poder de compra (em 1999, o crédito correspondia apenas a 40,3% do Rendimento Disponível mas em 2009 já representava 105%) o que foi aproveitado pelo poder económico dominante, com o apoio do poder politico, para impor aos trabalhadores que se encontravam“anestesiados” com o crédito fácil, uma repartição da riqueza criada no país cada vez mais desigual, a mais desigual dos países da Zona do euro.

O crédito fácil funcionou e funciona como um importante amortecedor da luta de classes (o trabalhador sente cada vez mais o garrote dos encargos com empréstimos não entrando em lutas para não perder o dinheiro que precisa no fim do mês para pagar o crédito que pediu à banca), sendo também para os banqueiros uma fonte importante de rendimento (em 2010, cada 1% de juros correspondia 1.798 milhões de juros arrecadados pelos bancos).

Com a crise todo esta gigantesca pirâmide de poder de compra fictício desabou, e a situação actual não é mais grave porque os juros estão baixos, mas quando começarem a subir a vida será ainda mais difícil para centenas de milhares de famílias trabalhadoras. Embora com o “garrote” que representa o enorme endividamento, aos trabalhadores só resta agora a opção de lutar por uma melhor repartição da riqueza criada anualmente no país, cuja distribuição está cada vez mais desigual. E essa luta já começou.

Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/credito-criar-poder-de-compra-ficticio/

Joseph Stiglitz: riqueza nas mãos de poucos ameaça a democracia

Para o professor da Universidade de Columbia, prêmio Nobel de Economia, “as desigualdades estão crescendo em todo o mundo, e os governos de direita devem saber que, ao cortar impostos dos mais ricos, a pobreza e as injustiças aumentam”.

A reportagem é de Eugenio Occorsio, publicada em La Repubblica, 22-01-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

“Vinte e seis super-ricos detêm recursos equivalentes aos 50% mais pobres da humanidade? Isso me entristece, mas infelizmente não me surpreende. É uma tendência progressiva, irrefreável: no ano passado, o segundo desses dados era igual a não mais de 47%.” Joseph Stiglitz, economista da Universidade de Columbia em Nova York, lê os dados desanimadores da Oxfam e compartilha a definição sintética da organização inglesa, com sede em Nairóbi: “out of control”, uma deriva fora de controle.

Quem continua considerando os Estados Unidos como um modelo deveria refletir a respeito: essa curva dos acontecimentos tem a sua raiz justamente nos Estados Unidos.”

Stiglitz, depois de ganhar o Prêmio Nobel em 2001 pelos seus estudos sobre as “assimetrias” informativas que influenciam os mercados, começando pelo acionário (como as existentes entre gestores e “pessoas comuns”), dedica-se há muitos anos à pesquisa sobre as desigualdade e sobre os seus efeitos devastadores em termos de desenvolvimento social e bem-estar coletivo: “As injustiças sociais chegaram a tal ponto que ameaçam a democracia em todo o mundo”.

Entrevista

Por que, professor? Devido à violência que cada vez mais frequentemente explode a partir dos movimentos de protesto, como os Coletes Amarelos na França?

Não só. As formas de ataque à democracia estão mais sofisticadas, mais sutis. Tomemos novamente os Estados Unidos: entre nós, a ameaça assume o aspecto de manipulação dos colégios eleitorais, há quem fale até de fraude, e, em geral, de sujeição psicológica dos cidadãos diante dos ricos. É como se eles tivessem que mandar à força, e não só no local de trabalho. Eu chamo isso de “capitalismo gerencial”.

E os próprios gestores ganham centenas de vezes mais do que os seus empregados?

Infelizmente é assim. Não há como corrigir essa tendência. Pense-se no Dodd-Frank Act, a reforma do sistema bancário promulgada em 2010 para que não se repetissem os excessos e as distorções que levaram à crise financeira de 2008. Ela fixava limites muito precisos sobre as retribuições dos diretores-executivos, começando por aqueles dos bancos. Especialmente em termos de transparência, de modo que os acionistas tivessem bem claro o que aquele diretor ganharia. Pois bem, o lobby dos super-ricos, apoiados pelos melhores advogados, conseguiu não respeitar nunca essa disposição, a pisoteá-la no momento da emanação dos regulamentos de implementação, em suma, a não aceitar limites ao seu poder econômico. O princípio do “say and pay” dos acionistas, fala e paga, foi totalmente desatendido. Mas, para muitos, as desigualdades representam uma verdadeira tragédia coletiva: basta pensar no aspecto mais inquietante, o da saúde.

Devido às carências na assistência universal?

Não só. A chocante tragédia dos países pobres está debaixo dos olhos do mundo inteiro. Mas ainda estamos falando dos Estados Unidos, país onde, para além das meras estatísticas sobre o PIB, existem 20 milhões de pobres, dos quais entre cinco e dez milhões em pobreza absoluta: os republicanos agora no poder conseguiram desmantelar, senão tudo, uma boa parte do Obamacare. Agora, 13 milhões de norte-americanos estão novamente desprovidos de assistência gratuita. Tudo isso ditado pelas grandes empresas. Mas queremos falar de impostos? A reforma fiscal de Trump reduziu as alíquotas para as empresas, o que soa como uma ajuda aos amigos do presidente, mas até poderia ser aceitável porque muitas empresas voltaram a investir. Mas ela não aumentou para os indivíduos ricos, como a lógica exigiria, e, em vez disso, aumentou para a classe média. Resultado: um empobrecimento brutal e generalizado.

O senhor cita os Estados Unidos, mas as desigualdades não são apenas um problema norte-americano, pelo contrário.

É claro, tornaram-se uma constante em boa parte do mundo. E uma tragédia coletiva sem precedentes nos países emergentes. A Grã-Bretanha está alinhada com o modelo estadunidense, a Alemanha está um pouco melhor. Só a Austrália, país que eu aprendi a conhecer, conseguiu introduzir normas rigorosas e a fazer com que sejam respeitadas, temperando o enorme poder econômico dos capitães da indústria.

E a Itália?

Sinceramente, eu não estudei bem as dinâmicas italianas. Mas lhe digo uma regra geral. Os governos, especialmente aqueles que tendem à direita, e são cada vez mais no mundo, deveriam ter cuidado: não é verdade que taxando menos os ricos os benefícios recaem depois sobre a população. O contrário é verdade, ou seja, frequentemente, mais desregulamentação – e ainda mais quando o sistema financeiro é preponderante em relação com a economia real – leva a mais desigualdades e, portanto, a mais pobreza e injustiças.

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Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado


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A caminho de mais um desastre financeiro mundial? 2

Parece cada vez mais óbvio que um grande desastre financeiro mundial não é apenas provável, mas praticamente inevitável. Não apenas devido ao modo de funcionamento das principais economias mundiais, mas devido ao próprio sistema financeiro ocidental que elas integram.

Muito à semelhança da crise espoletada em 2007 pelo subprime norte-americano, a próxima será de natureza global, afectando todos os aspectos da vida e todas as pessoas que vivem no planeta.

Caminhamos assim para uma economia insustentável, que se por um lado é incrivelmente produtiva e geradora de ganhos para uma pequena minoria pelo outro aumenta a miséria da vasta maioria, e a culpa de semelhante assimetria é principalmente do sistema financeiro baseado na usura.

O que agravou a situação

Tudo piorou com o fim do sistema padrão-ouro – que vigorou até ao final da I Guerra Mundial e no qual o valor das moedas era suportado pelas reservas em ouro detidas pelos respectivos bancos centrais, ainda que na sua fase final apenas fosse aplicável à libra inglesa – e a sua substituição ao abrigo dos Acordos de Bretton Woods (conferência que em 1944 reuniu as potências vencedoras da II Guerra Mundial para definir as regras a aplicar às relações comerciais e financeiras entre os países mais industrializados da época) pelo padrão dólar-ouro – sistema segundo o qual o dólar americano seria convertível em ouro e funcionaria como moeda de pagamentos internacionais – para culminar no início da década de 1970 com a declaração unilateral do fim da sua convertibilidade pela administração Nixon. A partir desse momento toda a moeda passou a ser pura e simplesmente fiduciária.

Outra consequência desta situação é que o sistema financeiro passou a poder criar moeda quase sem limitações, processo que ficou ainda mais fácil com a progressiva implantação dos princípios da liberalização e da desregulamentação da actividade financeira que culminaria, nos EUA dos finais de 1999, com a abolição do Glass-Steagal Act (lei que datava da administração de Franklin Roosevelt e do seu New Deal e impedia a fusão entre bancos de investimentos e bancos comerciais) pela administração Clinton.

Todo isto decorre no último quartel do século XX, com a eleição de Ronald Reagan e a ascensão dos teóricos monetaristas e neoliberais, coincidindo com a aceleração do processo de deslocalização – com os empregos fabris a serem transferidos para o terceiro mundo – e de privatização de empresas públicas. Este movimento, que também ficou conhecido como “Reaganomics”, teve deste lado do Atlântico o seu expoente com o “Tatcherismo” (do nome da primeira-ministra britânica, Margaret Tatcher, e representava a sua visão do liberalismo clássico monetarista), e que chegou a ser ensaiado na Rússia após a queda do Muro de Berlim e a implosão da União Soviética.

Escancaradas as portas ao dinheiro fictício (fase em que a moeda não tem qualquer valor real), estabelecidas as condições para que os bancos pudessem criar moeda através da mera concessão de crédito e criadas as condições políticas para a generalização do processo de deslocalização da produção, estavam reunidas as condições para a ascensão dos grandes bancos de investimento e das empresas de private equity (de que são principal exemplo a Goldman Sachs e o Carlyle Group), que se especializaram na alavancagem de crédito usado para a compra integral de empresas, ao despedimento de trabalhadores, a venda de activos e a transferência do remanescente para o exterior; tudo sob a égide de dirigentes políticos caracterizados por serem incompetentes ou seus fiéis servidores.

Confrontados com o crescimento do desemprego e com a quebra na actividade económica (o desemprego e os baixos salários geram um poder de compra cada vez menor) os banqueiros mantiveram o sistema em funcionamento através de sucessivas bolhas especulativas e respectivos resgates públicos. Assim tivemos mais recentemente a bolha das “dot.com”, a bolha imobiliária (subprime) e o “Quantitative Easing”, que paradoxalmente é uma admissão tácita dos malefícios da usura, pois a distribuição de dinheiro a rodos entre os bancos equivale a um processo de perdão de dívidas, mas limitado como foi às transacções entre bancos centrais e bancos comerciais não beneficiou a população em geral e assim, os mutuários ordinários ainda se vêem obrigados a pagar juros sobre empréstimos enquanto pouco ou nada recebem pelos seus próprios depósitos bancários.

E não temos alternativa?

Nesta, como noutras questões, há sempre alternativa. Assim é que em diferentes momentos foram utilizadas outras vias para criar moeda e pô-la em circulação; desde o processo de pilhagem do ouro das civilizações centro-americanas (século XVI) à grande corrida ao ouro californiano (século XIX), ou à emissão artificial de moeda, de que são exemplo os “greenbacks” usados durante a Guerra Civil Americana, até à mais recente distribuição de dividendos através do Alaska Permanent Fund que desde 1982 distribui anualmente pelos habitantes daquele estado norte-americano o produto dos royaltiesderivados da exploração dos recursos naturais da região.

A estes exemplos pode ainda somar-se o movimento que defende a atribuição de uma renda garantida básica para todos os cidadãos, que consiste, no essencial, em implementar uma forma de remuneração distribuída pelo Estado a cada membro da sociedade, independentemente da sua situação financeira, familiar ou profissional, e suficiente para permitir a satisfação das necessidades básicas, no pressuposto que o direito a uma existência digna é idêntico a outros direitos básicos como a saúde, a educação e o trabalho; a favor deste conceito (também designado por Rendimento Cidadão) são enunciados factores como o de contribuir para o aumento da natalidade (por permitir maior dedicação aos filhos), combater o abandono escolar (tantas vezes ditado pela necessidade de complementar o rendimento familiar) e uma simplificação dos sistemas de segurança social eliminando regimes como o do Abono de Família e do Subsídio de Desemprego, a par de outras prestações sociais como o nosso, tantas vezes polémico, Rendimento Social de Inserção.

São naturalmente escassas as opiniões na comunicação social que denunciam a tragédia em que se converteu um sistema financeiro global suportado na mera criação de crédito; prefere-se manter o silêncio em torno de um processo de autodestruição ou até da destruição do planeta, através do apoio a intermináveis guerras justificadas em “mudanças de regime” ou de mudanças climáticas e poluição química provocadas pelo homem, do que confrontar os dirigentes do sistema financeiro que governa a sociedade.

Estes dirigentes estão no comando de todos os governos ocidentais, do complexo militar-industrial, da informação e dos meios de comunicação e manipulam acontecimentos para atemorizar toda agente, como fizeram com o 11 de Setembro, ou destruindo nações inteiras como sucedeu com a Jugoslávia, o Iraque, a Líbia e agora a Síria e a Venezuela; tudo para manter em funcionamento um sistema corrupto e autofágico que procura escamotear os malefícios derivados de uma grande depressão económica ou da degradaçã oambiental.

A cada um de nós compete ver (observando além da realidade artificial que os meios de comunicação normalmente nos servem como informação) o que está a acontecer, reconhecer e assumir a responsabilidade individual de preparar outro futuro… um que naturalmente não se parecerá com aquele que hoje nos prometem!


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A "revolução dos robôs" significa o fim do trabalho?

Muito se tem escrito sobre o período de transição que vivemos no mundo do trabalho. A “revolução dos robôs” e a rápida evolução da tecnologia, tanto para uso pessoal como para aplicação em diferentes processos produtivos, têm ocupado o centro do debate público e aberto caminho para discursos alarmistas sobre a inevitável eliminação permanente de vários postos de trabalho. Alguns estudos apontam para uma redução significativa do emprego nos próximos anos: Carl Frey e Michael Osborne, investigadores da Universidade de Oxford, estimaram em 2013 que a tecnologia poderia eliminar 47% dos empregos nos EUA nas próximas duas décadas, sobretudo no setor dos serviços; mais otimista, um estudo de 2017 da McKinsey Global Institute diz-nos que a redução é de “apenas” um terço dos postos de trabalho. Será suficiente para respirar de alívio? A preocupação com o fim iminente do trabalho e a generalização do desemprego associados ao avanço da tecnologia parece ser confirmada pelo estudo apresentado na semana passada pela CIP, no qual aponta para a possível eliminação de 1,1 milhões de postos de trabalho em Portugal até 2030 nas áreas da indústria transformadora e comércio, podendo ser “compensada pela criação de 600 mil a 1,1 milhões de novos empregos em setores como a saúde, assistência social, ciência, profissões técnicas e construção”. Mas será que estamos perante o fim iminente do trabalho? A história do capitalismo conta-nos algo diferente – as sucessivas revoluções tecnológicas, e as consequentes mudanças profundas nas formas de produção e distribuição dos recursos, não acabaram com o trabalho necessário. Na verdade, cada mudança estrutural do modo de produzir bens ou serviços costuma ser seguida de períodos longos de expansão das economias desenvolvidas, com elevadas taxas de crescimento e níveis de emprego, como discutido no livro As Time Goes By, de Chris Freeman e Francisco Louçã. Para compreender estes processos, precisamos de olhar para a evolução histórica das economias capitalistas e identificar os seus padrões. Um estudo recente elaborado por Mark Paul conclui que a produtividade dos EUA tem crescido a taxas médias bastante inferiores às das décadas anteriores a 1970. O mesmo acontece nas economias desenvolvidas da Europa Ocidental (incluindo Portugal) e Japão, o que sugere que após o período de expansão no pós-2º Guerra Mundial, atravessamos uma fase prolongada de menor fulgor, caracterizada por taxas de crescimento mais baixas. A recente década de estagnação limita-se a confirmar o paradoxo de Solow – os computadores aparecem em todo o lado, menos nas estatísticas da produtividade.
Sem ganhos de produtividade que impulsionem os lucros, o investimento produtivo tem sido reduzido nas últimas décadas, pelo que a ameaça de uma vaga de automação que elimine um grande número de empregos não parece provável atualmente. Não surpreende, por isso, que o capital se tenha concentrado nos mercados bolsistas e em atividades de especulação financeira que permitem ganhos de curto prazo superiores, embora acentuem a exposição da economia global a momentos de pânico no setor financeiro como o de 2007-08. A robotização ameaça, ainda assim, substituir no futuro vários empregos que hoje são executados por pessoas. Não é difícil encontrar livros sobre o desenvolvimento impressionante da inteligência artificial nos últimos tempos e o alcance que poderá ter no mercado de trabalho. No entanto, a inovação é o traço fundamental da história do capitalismo, que nos mostra como as revoluções tecnológicas não implicam a generalização do desemprego permanente – na revolução industrial do século XIX, embora o desenvolvimento da indústria tenha feito desaparecer os artesãos, implicou simultaneamente a criação de novos empregos qualificados dentro e fora das fábricas, sendo um exemplo da forma como a tecnologia origina mudanças complexas na organização do trabalho. A evolução das sociedades capitalistas tem sido um processo de constante interação entre a inovação científica e técnica e as formas de organização da vida em comunidade. Existem, contudo, outros aspetos a ter em conta. A desigualdade tem crescido de forma impressionante nas últimas décadas, nas quais uma parte cada vez menor da riqueza gerada é distribuída pelos trabalhadores.
Além disso, apesar do avanço tecnológico, a verdade é que atualmente cada vez mais pessoas trabalham mais horas, em empregos precários e com menores rendimentos. A tecnologia desempenha um papel importante nesta tendência, promovendo a intensificação do trabalho em condições perversas, invadindo o tempo de lazer e marcando o ritmo da vida social. Foi isso que levou o astrofísico Stephen Hawking a afirmar, em 2016, que “se as máquinas produzirem tudo aquilo que precisamos, o resultado dependerá da distribuição dos recursos. Pode dar-se o caso de que todas as pessoas alcancem um nível de vida elevado se a riqueza gerada pelas máquinas for partilhada, ou, por outro lado, de que grande parte da população seja votada à pobreza profunda caso os proprietários das máquinas consigam fazer lobby contra a distribuição da riqueza. Até agora, a tendência parece aproximar-se da segunda hipótese, com a tecnologia a fomentar a crescente desigualdade.” A distribuição da riqueza gerada depende, hoje como sempre, de escolhas coletivas. O desafio que enfrentamos é o de desenvolver formas de distribuir os ganhos da tecnologia e contrariar a tendência para o aumento histórico da desigualdade. Uma das formas de o fazer é através de uma reorganização do tempo de trabalho e da sua distribuição – a robotização pode contribuir para que trabalhemos menos horas semanais e diárias, como já tinha sido sugerido por Marx e, mais tarde, por Keynes. Por outro lado, o investimento na formação e qualificação das pessoas deve ser feito através da promoção pública da educação, de forma a permitir que a aprendizagem seja feita ao longo da vida, como recomenda a Organização Internacional do Trabalho. Além disso, a reconversão ambiental das economias tem potencial para gerar novos empregos sustentáveis. Por outras palavras, embora os robôs possam substituir vários postos de trabalho, não acabarão com o emprego. Precisamos, por isso, de recuperar a promoção do pleno emprego como política fundamental nas sociedades democráticas; de outra forma, não será possível combater a crescente desigualdade e operar a redistribuição necessária da riqueza. O futuro do trabalho é o que fizermos dele.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

De mãos atadas

Em linha com a esquerda que não desiste, sectores do Partido Socialista entraram em ruptura com a política expressa nos anos noventa por um antigo dirigente deste partido, que declarava abrir uma garrafa de champanhe cada vez que privatizava uma empresa. Agora, perante a tragédia, exige-se sensatez, ou seja, a nacionalização dos CTT. Surgem logo vozes dentro do PS a dizer que é complicado, que Bruxelas tem de autorizar, que “estamos de mãos atadas”. Eu sei bem que o eixo Bruxelas-Frankfurt é um obstáculo de monta a políticas que mudem o fundamental em áreas fundamentais e é por isso que considero que a esquerda tem de ser eurocéptica. Entretanto, quero só notar que o “estamos de mãos atadas” é uma boa metáfora para a soberania furtada, para a impotência democrática, que por todo o continente destrói a social-democracia.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

AQUILO QUE LHES INTERESSA «CHECKAR»

Começo por avisar que esta notícia abaixo, com a pretensa checkagem dos resultados da execução orçamental portuguesa é uma montagem: escusam de a ir procurar ao Observador porque a notícia não está lá. Mas atenção: a primeira parte da notícia, os resultados da execução orçamental, são mesmos verdadeiros, o que eu forjei foi esta pretensa iniciativa daquele mesmo jornal em checkar o apuramento de contas feito pelo Eurostat. A habilidade da utilização destas rúbricas de fact check para fins políticos consiste precisamente no critério com que se elegem os factos a serem checkados. E este caso não presta para o Observador: não só a confirmação (muito provável) da sua veracidade representaria um bónus ao governo, como o carácter neutro do seu autor (o Eurostat) nem sequer lhes permitiria inseminar a dúvida quanto à objectividade de quem fez as contas. A ironia da situação é que o trimestre em questão parece ter sido atípico - já o diziam as conclusões apresentadas a semana passada pelo Conselho das Finanças Públicas. E nesse âmbito e por causa disso, faria todo o sentido checkarem-se os factos do que terá acontecido/estará a acontecer. Mas como qualquer conclusão a que se chegasse nunca afectaria negativamente a imagem governamental, não será coisacom que o Observador perca tempo. Sim, porque se a preocupação aparente do jornal é com os factos, o que ele quer concluir com os factos tem sido sempre de natureza política, não tem nada a ver com o que lhe está associado, neste caso, finanças públicas.

 

Veja o original em 'Herdeiro de Aécio' na seguinte ligação::

http://herdeirodeaecio.blogspot.com/2019/01/aquilo-que-lhes-interessa-checkar.html

Demagogia e desinformação como programa político

Inspirando-se num desafio que circula no facebook, em que membros dessa rede convidam outros membros a postar uma foto de 2009 e uma atual, o CDS/PP decidiu difundir a gracinha aqui ao lado, esperando certamente ser levado a sério. Se a opção, tentativamente subliminar, de colocar lado a lado as fotos de José Sócrates e António Costa nem merece comentário, já a ideia de que o aumento da arrecadação de impostos (de 30,5 mil milhões em 2009 para 46,2 mil milhões em 2019) quer dizer que «o Estado está a ficar com mais» e «as pessoas a ficarem com menos», não deve passar em claro, por mais que os «spinners» do CDS-PP pretendam convencer os eleitores de que as coisas são mesmo assim. Isto é, que o Estado arrecada hoje mais impostos por estar a tirar dinheiro às pessoas, silenciando-se convenientemente o facto de a economia estar a criar mais riqueza e, por isso, a permitir que a receita fiscal aumente em valores absolutos. Ora, sucede que se analisarmos a relação entre a arrecadação de impostos e a evolução do PIB - acrescentando para esse efeito o ano intermédio (2014) do período considerado pelo CDS-PP, em que o executivo de direita estava em funções - verificamos que a crítica do «Estado que fica com mais» e das «pessoas que ficam com menos» se aplica de modo expressivo à governação PAF, que o CDS-PP integrou. De facto, o peso relativo dos impostos no PIB passa de 17,4% em 2009 para 22,0% em 2014, com a agravante de - graças à austeridade fervorosamente aplicada entre 2011 e 2015 - a criação de riqueza (PIB) ter caído de cerca de 176 mil milhões de euros para 169 mil milhões de euros nesse período (2009 a 2014). Mas mais interessante ainda é verificar que o atual governo e a maioria parlamentar de esquerda que o suporta conseguiram manter o nível de arrecadação fiscal registado em 2014 (22,1% do PIB), a par de um crescimento económico face a esse ano (+40,6 mil milhões de euros, que traduzem um aumento na ordem dos 24%). Isto é, a economia cresceu a um ritmo que permitiu o aumento da receita fiscal em termos absolutos, mantendo-se contudo o seu peso relativo face ao PIB. Sucede porém que a demagogia e a desinformação não ficam por aqui. No plano ideológico e programático, que diacho significará, afinal, a ideia de que quando o Estado «fica com mais» as pessoas «ficam com menos»? Será o Estado uma espécie de sorvedouro, que escoa as receitas dos impostos para o fundo do mar, sem que ninguém as veja ou delas beneficie? Serão os serviços públicos de educação, saúde e proteção social, as forças de segurança e a justiça, as infraestruturas ou os transportes públicos financiados com dinheiro que cai do céu? E em que se traduzirá afinal, concretamente, o clamor do CDS-PP por mais investimento e contra a asfixia financeira dos serviços públicos? Será que tal não passa de uma espécie de oração, para que chova mais do tal dinheiro que cai do céu? Sabemos bem que é o rancor ao Estado (com indiferença pelo seu papel e eficácia na redistribuição da riqueza e combate às desigualdades), aliado à defesa dos interesses que representa, que leva a direita a deitar mão à dicotomia entre «Estado» e «economia», numa lógica de antagonismo (como se o Estado não fosse, também ele, economia). Mas devia haver mínimos para a demagogia e o despudor com que o CDS-PP atira areia para os olhos das pessoas.

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Conclusões do Encontro sobre o Sector Empresarial do Estado

A fase actual da situação política nacional permitiu reverter ou limitar alguns dos processos de privatização encetados pelo anterior governo PSD/CDS. No entanto, o Sector Empresarial do Estado continua sob forte pressão e algumas das empresas que dele fazem parte mantêm-se na mira da privatização. Estas empresas têm um papel fundamental no desenvolvimento económico e social do país pela sua importância estratégica e pelos serviços públicos que prestarem à população, como é o caso dos transportes públicos, dos correios e das águas.

Contudo, e a pretexto dos défices sucessivos que apresentam, persiste uma ofensiva com vista à sua alienação. Porém, verificamos que os grandes problemas do SEE residem nos elevados custos de endividamento, fruto de dezenas de anos de subfinanciamento por parte do Estado, na não admissão de pessoal que hipoteca a transmissão do conhecimento acumulado e nas cativações a que estas empresas são sujeitas que cerceiam o seu potencial de desenvolvimento. Os atrasos no pagamento das indemnizações compensatórias e o valor insuficiente que as mesmas apresentam arrastam as empresas para o endividamento privado, fazendo com que os juros e encargos com dívida não parem de aumentar.

auditorio cgtpAo invés, o longo processo de privatizações levado a cabo por sucessivos governos, e que já alienou, vendeu, destruiu uma larga parte de empresas públicas, tem mostrado como o mesmo é ruinoso para o país e para o povo português, não podendo a descentralização/municipalização ser separada desta dinâmica.

As experiências do BPN, do BES, da CIMPOR, da PT, dos CTT etc., provam que a gestão privada de empresas estratégicas para o desenvolvimento do país não merece qualquer confiança, não respeita quaisquer princípios éticos ou morais, orientando-se pelas regras capitalistas de maximização dos resultados e dos dividendos, em detrimento dos interesses dos trabalhadores, do país e dos portugueses.

É esta gestão privada, tão aplaudida pelos governos do capital, que aprofundam os problemas existentes, criando situações profundamente dramáticas para o crescimento económico e para o desenvolvimento de Portugal, levando os portugueses a ter de suportar, já por várias vezes e através de um enorme aumento de impostos, as consequências da gestão privada danosa ou mesmo criminosa.

A gestão privada da banca, como já ficou claro para todos os portugueses, não dá qualquer garantia que mesmo as poupanças feitas pelos portugueses estejam minimamente seguras.

Já no sector produtivo, as empresas privatizadas e vendidas ao capital estrangeiro viram a sua capacidade reduzida ou completamente desmantelada, destruindo milhares de postos de trabalho, desperdiçando investimento público, conhecimento técnico e experiência acumulada.

No sector da energia, depois de consumada a última fase de privatização da EDP, fica claro o papel do Estado nestes processos, ao assumir os encargos com a “preparação” da empresa para a privatização, ao mesmo tempo que garante ao capital condições de negócio fabulosas que acarretaram o aumento dos preços e proporcionam lucros milionários às poucas empresas que controlam todo o sector.

No sector das infra-estruturas, a venda da ANA à Vinci constitui um grave atentado ao património público, tendo já conduzido a mais aumentos das taxas aeroportuárias, do que em todo o tempo em que a empresa se manteve sob controlo do Estado, além de contribuir para a concentração monopolista do sector à escala europeia. Com a concessão da exploração dos aeroportos por 50 anos, o Governo PSD-CDS entregou aos privados milhões de euros de investimento público e deixou o Estado refém dos interesses de uma multinacional relativamente a decisões a tomar na área aeroportuária de significativa importância para o desenvolvimento económico e social do país.

Nos serviços públicos, as privatizações feitas até agora, nomeadamente nos transportes e nas águas municipais (através de PPP), têm conduzido ao aumento dos preços dos bilhetes, passes e tarifas, e à redução das redes e do próprio serviço: regiões inteiras do interior sem transportes públicos, eliminação e redução de carreiras.

A privatização dos CTT, como a CGTP-IN alertou e combate, traduziu-se na redução do serviço público, sobretudo nas regiões rurais, e novo aumento de preços. A pressão para a privatização da água e do saneamento, cujo primeiro passo foi a privatização da EGF, colocará em causa o acesso e a qualidade do bem às populações do interior do país, região onde a distribuição da água se afigura como menos rentável e onde são necessários maiores investimentos. Também na CGD, o processo de reestruturação em curso, com despedimentos e encerramento de balcões, evidencia uma lógica de gestão privada que afasta o banco público da sua função social junto das populações.

De uma forma geral, o processo de privatizações (ou a reestruturação tendo na mira a privatização) é acompanhada por:

- Ataque aos direitos individuais e colectivos dos trabalhadores e uma política de despedimentos;

- Perda de capacidade instalada;

- Alienação de estruturas que incorporavam um elevado investimento público;

- Diminuição da qualidade e da cobertura do serviço prestado;

- Aumento dos preços.

Face à insegurança generalizada criada pela globalização e concentração, a uma concorrência feroz, à desregulamentação crescente que domina o mundo capitalista, à destruição maciça de emprego, ao desemprego, à perpetuação das desigualdades e da pobreza, o Estado, fruto das políticas de sucessivos governos no nosso país, encontra-se bastante fragilizado e submetido ao poder dos grupos económicos e financeiros.

Reverter a realidade actual, e passar para o controlo público as principais empresas e serviços estratégicos, é fundamental para a democracia, e é um imperativo nacional para que o país e os portugueses controlem os instrumentos chave do crescimento económico sustentado, com vista a um desenvolvimento que combata eficazmente as desigualdades e a pobreza, promovendo o bem-estar social e a melhoria das condições de vida dos trabalhadores e das populações.

Como parte integrante desse sector público, a CGTP-IN considera essencial:

(I) O sector financeiro, de forma a colocar a política de crédito ao serviço do desenvolvimento nacional, reconsolidar a globalidade do sistema bancário e conter os riscos sistémicos para a economia, assegurar uma efectiva regulação, supervisão e fiscalização da banca e, numa perspectiva mais vasta, a necessidade de travar a especulação financeira e de recentrar o investimento na produção nacional;

(II) Um peso determinante no sector das telecomunicações e a reserva do serviço postal e da empresa que lhe dá corpo – os CTT - ao Estado, dado a importância das comunicações para as populações e para as empresas, e o elevado investimento não só na construção e manutenção das infraestruturas, como na investigação e desenvolvimento tecnológico associado, sem ignorar o papel regulador que o Estado tem junto de outros operadores no sector das telecomunicações;

(III) Um forte sector de transportes e comunicação, que garanta a mobilidade de toda a população a residir em território nacional, quer no interior, quer nas grandes metrópoles, quer da população emigrada e das comunidades de língua portuguesa – nomeadamente através da empresa de aviação com a bandeira nacional e da recuperação da gestão dos aeroportos -, com serviço público de qualidade e a baixo custo; com a ligação marítima com as ilhas, assente numa empresa pública; com o desenvolvimento do transporte ferroviário com a recuperação das linhas encerradas e aberturas de novas linhas tendo em conta o desenvolvimento do país e combate à desertificação do País, dando corpo a um Plano Nacional de Transportes que defina o que compete a cada modo, num quadro de complementaridade e assente em fortes empresas públicas; a implementação de um plano de modernização das frotas (comboios, navios e autocarros) num quadro de desenvolvimento da indústria e da produção nacional.

(IV) A recuperação do sector energético, de forma a desenvolver uma política energética que reduza os custos com o gás, a electricidade e os combustíveis para as famílias e para as MPME, reduza a dependência ao exterior, que garanta os necessários investimentos públicos com vista à melhoria dos serviços, gerindo as tarifas e as receitas com vista aos melhores interesses do povo e do país;

(V) O reforço e recuperação das indústrias de defesa, como parte fundamental da soberania e defesa nacionais;

(VI) A reversão do sector da água, saneamento e tratamento de resíduos para a esfera pública, revertendo as concessões existentes e garantindo o acesso universal à água, a qualidade dos serviços de saneamento e tratamento e valorização dos resíduos, e o investimento necessário ao alcance das soluções que promovam o desenvolvimento sustentável e amigo do meio-ambiente;

(VII) O retorno à esfera pública das indústrias siderúrgica, de química de base, cimenteira, reparação naval, de construção de material circulante, entre outros, com vista ao crescimento do sector produtivo, da substituição de importações e aumento das exportações, ao aumento do emprego qualificado e com direitos, e como suporte a todos os outros sectores.

Em defesa dos serviços públicos, do SEE e das populações, a CGTP-IN propõe:

- A melhoria quantitativa e qualitativa dos serviços públicos prestados pelas empresas onde o Estado detém mecanismos para condicionar para dar resposta às necessidades da população e ao desenvolvimento do país;

- O reforço da presença do Estado nas empresas em que, não detendo os mecanismos para condicionar o seu destino e rumo, são essenciais à economia, para a produção de bens públicos e para a promoção da coesão social, territorial e o desenvolvimento do país;

- A suspensão imediata dos processos de descentralização/municipalização em curso;

- O respeito, por parte do Estado, dos direitos dos trabalhadores do SEE, cumprindo o estipulado nos IRCT e promovendo a melhoria das condições de trabalho e de vida.

Os actos eleitorais que se vão realizar em 2019 para o Parlamento Europeu, para a Assembleia Legislativa Regional da Madeira e para a Assembleia da República, são uma oportunidade para os trabalhadores e as populações usarem o voto como forma de luta para defender o SEE, motor de um Portugal desenvolvido e soberano e, em particular, para impedir a formação de maiorias absolutas, que sempre se converteram em poder absoluto contra os seus direitos e interesses.

Resolução do Encontro sobre o Sector Empresarial do Estado
Lisboa, 17 de Janeiro de 2019

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A caminho de mais um desastre financeiro mundial?

Parece cada vez mais óbvio que um grande desastre financeiro mundial não é apenas provável, mas praticamente inevitável. Não apenas devido ao modo de funcionamento das principais economias mundiais, mas devido ao próprio sistema financeiro ocidental que elas integram.

Muito à semelhança da crise despoletada em 2007 pelo subprime norte-americano, a próxima será de natureza global, afectando todos os aspectos da vida e todas as pessoas que vivem no planeta.

Como chegámos aqui

Este é um assunto de tratamento complexo mas procuremos simplificá-lo centrando a atenção nos acontecimentos do últimos dois séculos, período em que a actividade económica aumentou exponencialmente, muito devido aos desenvolvimentos tecnológicos introduzidos pela revolução industrial até à fase actual que envolve a revolução informática.

Grande parte do crescimento induzido pela revolução industrial foi possível graças ao uso de fontes de combustível não renováveis, principalmente combustíveis fósseis (primeiro o carvão e depois o petróleo), e até mesmo os fabulosos sistemas de processamento e armazenagem de dados de hoje são completamente dependentes de uma fonte de electricidade, pelo que a necessidade global de energia é enorme e crescente. Depois, todo movimento de energia dentro do sistema envolve uma troca de valor gerida pelo sistema financeiro por meio de redes de contabilidade e troca de dinheiro e o crescimento do poder de compra, embora aparentemente sem limites naturais, aproximou-se de facto de um limiar que é definido no sistema financeiro pela quantidade de crédito em circulação.

O crédito, claro, resulta da dívida que é introduzida e gerida pelo sistema bancário ocidental que impulsionou até ao topo das transacções financeiras necessárias ao funcionamento da economia real (aquela que produz bens e serviços transaccionáveis) produtos exclusivamente financeiros supostamente criados para reduzir os riscos associados às actividades económicas e financeiras: os “derivativos”.

A criação destes sofisticados produtos financeiros contribuiu para uma acentuada redução do número de pessoas que entendem como realmente funciona o sistema bancário ocidental (entre os quais se contam os administradores e os operadores dos maiores bancos que são regularmente cooptados para administrar bancos centrais nacionais, como o Banco da Inglaterra e a Reserva Federal norte-americana, e instituições internacionais semi-públicas, como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial) e como ele difere do que opera em países como a Rússia, a China e alguns outros, com sistemas parcialmente controlados e que em grande medida ainda derivam das antigas economias comunistas.

Façamos agora um pequeno parêntesis histórico para recordar que o sistema financeiro baseado em dívida emitida pelos bancos como o principal meio para introduzir moeda em circulação, foi criado pelos cambistas medievais da Europa, que, mais tarde, esse método foi usado para emprestar aos governos para o financiamento das intermináveis guerras europeias e que os principais praticantes desta actividade eram de origem judaica, uma vez que sendo um sistema baseado na usura era condenado pela Igreja Católica e estava proibido aos seus praticantes, até ao início do Renascimento quando se começaram a formar os bancos modernos e a prática da usura começou a a ser tolerada pela Igreja porque os lucros do sistema bancário e as grandes obras públicas que sustentavam passaram a ser apresentados como um benefício público.

Mais tarde foi dado um grande passo em direcção ao caos quando os bancos passaram a ser legalmente autorizados a emprestar mais do que os valores que tinham em reserva; este sistema, conhecido como “reserva fracionária” é uma consequência natural da prática permitida aos bancos de pressuporem que nem todos os seus depositantes quererão resgatar simultaneamente os seus depósitos.

Desde os primórdios do sistema que a consequência inevitável de qualquer economia baseada na usura (tanto pior se os juros cobrados forem calculados numa base composta e a taxas elevadas) é que a sua riqueza passará gradualmente para as mãos do poder financeiro, por absorver o poder de compra da esfera produtiva e por colocar todos os agentes económicos (empresas e pessoas) sob enorme pressão para gerar constantemente um nível crescente de actividade económica para evitar a ruína, situação que se agrava exponencialmente com o grau de desenvolvimento de cada economia porque quanto mais desenvolvida esta for, maior é a dificuldade para manter o seu ritmo decrescimento.

Esta situação é conhecida de longa data e para a mitigar era declarado periodicamente um “jubileu” que eliminava todas as dívidas e servidões. Esta prática, que terá começado a esmorecer com o fim da escravatura por dívidas, acabou no século XIV transformada numa mera celebração religiosa.

A inexistência de qualquer mecanismo orientado para o perdão das dívidas implica o crescimento obrigatório das economias, pelo que tudo o resto passou a ser-lhe sacrificado; quando em conflito, até os mais básicos valores humanos devem ser esquecidos para servir o crescimento constante, porque o não crescimento é desastroso.

Esta será a principal razão para o fomento dum modelo de consumismo desenfreado, no qual a rotatividade de bens de consumo é indispensável ao funcionamento das economias e a obsolescência planeada – desenvolvimento de produtos com vida útil programada – é parte integrante do mesmo; a par desta tendência desenvolveram-se também mecanismos para a desregulamentação de tudo o que possa constituir entrave àquele modelo e assim as empresas são incentivadas a reduzir custos por meio da redução de salários, da poluição arbitrária e do uso excessivo de infra-estruturas públicas, como rodovias, sem pagar a sua justa quota-parte de impostos.

Assim chegou a sociedade ocidental aos dias de hoje, onde as empresas e as famílias se vêem forçadas a aumentar continuamente a taxa de actividade económica apenas para satisfazer as suas dívidas, levando ao consumo excessivo de recursos, à competição brutal entre indivíduos e nações, à inflação dos preços e ao colapso na saúde e na ordem social.

Com o desenvolvimento de novas tecnologias em áreas como a automação e a robotização, as máquinas estão cada vez mais aptas a produzir bens e serviços do que os humanos; o desemprego tecnológico está a aumentar e a tendência será para crescer cada vez mais, mesmo a expensas daqueles que perderão o rendimento necessário para comprar o que irá continuar a ser produzido. Aumentando o número dos que são deixados à margem da economia, aumentarão as situações de exploração humana que conduzirão, inexoravelmente, ao ressurgimento da escravidão humana.

Caminhamos assim para uma economia insustentável, que se por um lado é incrivelmente produtiva e geradora de ganhos para uma pequena minoria pelo outro aumenta a miséria da vasta maioria, e a culpa de semelhante assimetria é principalmente do sistema financeiro baseado na usura.


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/a-caminho-de-mais-um-desastre-financeiro-mundial-parte-1/

Dinheiro que falta nos serviços públicos sobra no apoio à banca

No mesmo dia em que se anunciou a «saída» de 450 trabalhadores, em 2018, o presidente do Novo Banco, detido em 75% pela norte-americana Lone Star, diz que precisa de nova injecção de capital.

Os portugueses foram obrigados a suportar as perdas provocadas pelo assalto conduzido pela família Espírito SantoCréditos

As contas de 2018 só serão publicadas a 1 de Março, motivo que leva o presidente do Novo Banco a recusar falar sobre o valor que será requerido junto do Fundo de Resolução. Mas a SICavança que a instituição bancária deverá precisar de mais de 800 milhões de euros este ano, ou seja, a verba atribuída pelo Governo.  

À margem de uma iniciativa em Lisboa,  esta quinta-feira, António Ramalho disse que «a recapitalização do banco é determinada depois de auditadas as contas e em função do que é o nosso projecto, completamente acordado entre todas as partes [Lone Star e Fundo de Resolução], no sentido de reforçar a instituição que tinha um processo de resolver legados que queremos que seja o mais rápido possível».

Desse modo, acrescentou, será «mais eficiente para o sistema financeiro português» e cumprirá melhor o seu papel de banco de empresas.

O «banco bom» que resultou do colapso do BES de Ricardo Salgado, no Verão de 2014, é desde Outubro de 2017 detido em 75% pelo fundo abutre Lone Star, sendo os restantes 25% propriedade do Fundo de Resolução bancário (entidade da esfera pública gerida pelo Banco de Portugal).

Então, a Lone Star não pagou qualquer preço, tendo acordado injectar mil milhões de euros no Novo Banco, e negociou um mecanismo que prevê que, durante oito anos, o Fundo de Resolução injecte até 3,89 mil milhões de euros no Novo Banco por perdas que venha a registar num conjunto de activos «tóxicos» e alienações de operações não estratégicas (caso ponham em causa os rácios de capital da instituição). 

Para fazer face aos prejuízos de cerca de 1400 milhões de euros registados em 2017, em Maio do ano passado o Fundo de Resolução transferiu para o Novo Banco 792 milhões de euros. Em 2019, volta a assombrar o Orçamento do Estado, registando-se a saída de trabalhadores em contraciclo. No final de 2017 trabalhavam menos 608 funcionários na instituição e em 2018 foram subtraídos 450 trabalhadores. 

O Parecer Sobre a Conta Geral do Estado de 2017, emitido pelo Tribunal de Contas, dá conta de que, no período entre 2008 e 2017, a despesa pública com o sector financeiro, em termos líquidos, atingiu 16 751 milhões de euros. Destes, cerca de 4600 milhões foram canalizados para o BES/Novo Banco.

 

Com Agência Lusa 

 

Nacionalizar

Na semana passada ficámos a saber que, se depender dos CTT, 48 municípios ficarão sem estações de correio. A pergunta não desaparece mesmo: como se destrói um Estado nacional, uma comunidade política com instituições inclusivas? É por estas e por muitas outras que, para lá do “vírus do proteccionismo”, o “vírus do nacionalismo” também se espalha: nacionalizar é preciso, afinal de contas. Se o primeiro vírus atingiu este blogue, contrário à globalização neoliberal, desde o início, o segundo vírus, na sua versão cívica e democrática, o melhor contra-fogo às outras, atingiu o que vou escrevendo por  aqui e por ali  mais ou menos a partir de 2013: Está prometida a privatização dos CTT – Correios de Portugal, entretanto já amputados das suas “lojas” menos rentáveis. Uma das instituições públicas seculares, que deu densidade ao território nacional, que garantiu com segurança o acesso a um bem social fundamental, que em suma criou comunidade será entregue a uma empresa privada, provavelmente estrangeira, que cuidará de outros interesses que não os que estão associados a uma necessidade dos cidadãos que aqui vivem. Uma comunidade nacional não é só um produto, maleável e mutável, socialmente imaginado, ainda que este imaginar seja decisivo, bem como a luta pela sua hegemonia. Uma comunidade nacional ganha densidade material através de instituições como os correios, a escola pública, o serviço nacional de saúde ou a segurança social e é letalmente ameaçada pela destruição do que é de todos, dos serviços públicos universais que são um dos momentos em que se conjuga, com validade, uma politicamente poderosa primeira pessoa do plural, um “nós” com implicações igualitárias. O socialismo democrático sempre dependeu desta conjugação, o que de resto não passou despercebido, por exemplo, a Friedrich Hayek, um dos seus adversários e defensor de um regime pós-nacional, de tipo federal, como melhor garantia de uma democracia limitada e de fraquíssimo alcance redistributivo, até porque necessariamente desprovida da noção de “comunidade de destino”.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

O EURO DE MÁRIO CENTENO COMO “VEÍCULO DE PROSPERIDADE”: o mito e a realidade – por EUGÉNIO ROSA

A EVOLUÇÃO DAS CONDIÇÕES DE VIDA DOS PORTUGUESES EM COMPARAÇÃO COM OS RESTANTES POVOS DA ZONA EURO SEGUNDO O EUROSTAT, O SERVIÇO OFICIAL DE ESTATÍSTICA DA U.E.

O AGRAVAMENTO DA DESIGUALDADE NA REPARTIÇÃO DA RIQUEZA EM PORTUGAL

A DÍVIDA EXTERNA DO PAÍS E DAS ADMINISTRAÇÕES PÚBLICAS CONTINUA A SER ENORME E A CRESCER, QUALQUER SUBIDA DAS TAXAS DE JUROS TEM EFEITOS GRAVES.

 

PARA CUMPRIR O QUE BRUXELAS EXIGE CORTA-SE NA DESPESA E NO INVESTIMENTO PÚBLICO COM CONSEQUÊNCIAS DRAMÁTICAS PARA O DESENVOLVIMENTO DO PAÍS

Eugénio Rosa, edr2@netcabo.pt 9-1-2019

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2019/01/15/o-euro-de-mario-centeno-como-veiculo-de-prosperidade-o-mito-e-a-realidade-por-eugenio-rosa/

Portugal | Ditadura de factos consumados

Manuel Carvalho da Silva* | Jornal de Notícias | opinião
Os portugueses têm assistido ao longo de décadas a políticas de factos consumados, muito em particular no que diz respeito a opções estruturais da economia e do papel do Estado.
O caminho tem sido o de servir o poder económico e financeiro nacional e internacional, secundarizando os interesses do povo e do país. Ao mesmo tempo os cidadãos vêm sendo torturados em nome do cumprimento das regras "sagradas" da gestão do défice e da dívida, e das determinações europeias. Os direitos fundamentais à saúde, à educação ou a uma vida digna são espremidos ou eliminados em nome da saúde financeira ou quando chocam com as "leis do mercado". Os instrumentos de tortura são os números manipulados conforme as conveniências. E uma governação que privilegia a supremacia plena da finança torna-se, inexoravelmente, em eficaz torturador.
Paira hoje no ar um certo eleitoralismo na ação do Governo, mas não só. Tomemo-lo como próprio da época (sem deixarmos de o combater) e foquemo-nos na observação de uma outra questão mais importante: como e porquê chegamos ao nível de problemas com que nos deparamos no que diz respeito a desequilíbrios regionais, a dificuldades estruturais nas mobilidades, a elevados custos da energia e atrofiamentos de setores estratégicos da economia, a bloqueios do papel e da ação do Estado e da Administração Pública (AP)? Debrucemo-nos sobre as razões de o trabalho ser mal remunerado e haver tanto trabalho de baixa qualidade que afasta a juventude do país.
É por demais evidente que o enorme poder oferecido aos acionistas da ANA no processo da sua privatização - conduzido pelo Governo PSD/CDS - bem como as posições de vantagem da VINCI na exploração da ponte Vasco da Gama, conferem àquela empresa (o Governo reconhece-o) condições dominantes sobre as escolhas para o futuro aeroporto de Lisboa. Hoje não falta quem diga que aquela privatização foi escandalosa. Muitos calaram-se ou apoiaram-na na altura. O Partido Socialista não lhe fez o combate que devia ter feito e o seu Governo atual não pode, de forma alguma, dizer que não há nada a fazer, nem sequer esboçar alternativas.
Na ferrovia as medidas agora anunciadas são prementes, mas continuam bastante insuficientes. Sucessivos governos destruíram impunemente linhas férreas, retardaram respostas afastando passageiros, não reestruturaram como deviam as empresas do setor para que elas pudessem responder às necessidades. O Governo tem de esclarecer mais as suas decisões e identificar em que linhas está a pensar colocar o reforço de material circulante que anunciou. E dizer se será um facto consumado a privatização das ligações ferroviárias mais rentáveis.
O primeiro-ministro diz que é preciso decidir e agir, recuperar tempo perdido. Espera-se que nos meses próximos o Governo assim proceda em áreas importantíssimas.
Que introduza os indispensáveis reequilíbrios na legislação laboral e ajude à revitalização da contratação coletiva, medidas indispensáveis para modernizar as empresas, melhorar a qualidade dos salários e do emprego, travar a emigração e atrair trabalhadores portugueses e estrangeiros qualificados. Que corrija aquilo que está a propor aos trabalhadores da Administração Pública (AP), pois ao não colocar o valor da Remuneração Base (635 euros) na primeira posição da Tabela Remuneratória Única da AP, que garante a proporcionalidade em todas as posições remuneratórias, está a prejudicar todos os trabalhadores do setor e a desrespeitar a lei. Que reforce as capacidades de todo o sistema de ensino, a valorização e dignificação dos professores e que, com as universidades e outros atores, ponha em marcha políticas que possibilitem um muito maior acesso ao Ensino Superior, trazendo para ele, também, um grande número de jovens adultos que estão no mundo do trabalho.
Que se deixe de guerras de números sobre o investimento na saúde e assuma as imperiosas decisões de melhorar e aumentar capacidades estruturais, humanas, técnicas e organizacionais do Sistema Público e defenda o Serviço Nacional de Saúde contra gulas privadas.
Será nestas áreas que se confirmará ou infirmará a efetiva coragem do Governo e o merecimento ou não do apoio dos portugueses.
*Investigador e professor universitário

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2019/01/portugal-ditadura-de-factos-consumados.html

2018: “Annus Horribilis” para o Capital Nacional e Mundial.

(Dieter Dellinger, 12/01/2019)

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O ano de 2018 foi um ano bom para a economia nacional que cresceu mais de 2% com o turismo a puxar e a execução orçamental deve apresentar um saldo próximo do zero, o que é inédito neste século e não foi verificado muitas vezes no século XX e XIX.

Contudo, numa contradição pouco explicável foi um “annus horribilis” para os grandes capitalistas detentores de avultadas participações de empresas cotadas nas bolsas de todo o Mundo.

A Bolsa de Lisboa fechou o ano com uma desvalorização de 12,2% que foi o pior ano desde 2014 em que o colapso do Grupo Espírito Santo arrastou quase todas as ações cotadas para baixo.

Os 18 grupos cotados na Bolsa perderam mais de 3 mil milhões de euros, apesar de em 2017 ter havido um ganho global. Contudo, o poder de compra dos portugueses aumentou em 2018 e, bem assim, os créditos concedidos.

A explicação respeitante a esta queda global tem a ver com vários fatores dos quais o primeiro é a falta de confiança das classes médias relativamente a fundos de participação em ações e mesmo nos títulos das próprias empresas associado ao pagamento de dividendos muito baixos. Bancos, Financeiras, Fundos, etc. enganaram gente a mais para poderem ver as suas fortunas crescerem.

A maior parte das grandes empresas nacionais que restam possuem modelos opacos de financiamento e desvio de dinheiros para foram que não atraem quaisquer investidores em ações, salvo quando há grandes negócios de tomadas de posições, mas isso já só tem a ver com capitais estrangeiros e é fora que se fazem os grandes negócios.

O PSI 20 que agora é de apenas 18 empresas sobe e desce todas as semanas, mas é porque há quem jogue na bolsa ao comprar em baixa, o que faz aumentar a cotação bolsista, para de imediato vender com um pequeno lucro, fazendo de novo baixar a cotação.

Em termos gerais, interessa o resultado de um ano inteiro e aí sim houve perdas consideráveis.

A maior perda de fortuna na bolsa foi, pelos dados que tenho, a da família Soares dos Santos que desvalorizou em 1.851 milhões de euros. Que ninguém tenha pena deles porque os seus 56.136% do Grupo Jerónimo Martins ainda valem 3.652,7 milhões em termos acionistas, não se sabendo qual o montante das dívidas, pois a expansão do grupo na Polónia e agora na Colômbia deve ter implicado o recurso a avultados créditos.
A família Azevedo fechou o ano com perdas de 348,8 milhões, reduzindo-se a sua participação nas empresas do Grupo Sonae a um valor 1.032 milhões.

O clã Queiroz Pereira teve ainda menos sorte porque o seu portefólio acionista quebrou em 374,7 milhões de euros, mantendo-se a sua fortuna em 2.033 milhões de euros, apesar da importância do papel na Semapa e na Navigator.

A construtora Mota-Engil foi a empresa que mais caiu na medida em que os outros são grupos de empresas. O António Mota e família perdeu 315,7 milhões com um património acionista avaliado a 31.12.18 em apenas 246,5 milhões e muitas obrigações para cumprir ou pagar.

A Isabel dos Santos perdeu 51,7 milhões de euros na NOS e na participação na GALP, ficando com um património de 1.655,2 milhões de euros, apesar de ter tido um ganho de 15,3 milhões com a venda do BPI e outros negócios, mas foi a queda das ações a GALP que lhe tiraram 67 milhões de euros.

O Manuel Champalimaud, filho do falecido António, perdeu nos 12,88% que detém nos CTT a pequena quantia de 3,4 milhões de euros.

Olhando para as empresas cotadas independentemente de quem é o proprietário das suas ações só vemos miséria, isto é, sinais – à frente da variação anual. Assim, observa-se -18,48% nos CTT, -9,58% na Galp Energia, -20,99% na IBERSOL, -57,41% na Mota-Engil, -20,99% no Jerónimo Martina, -33,55 na Novabase, -5,03% na NOS, -36,15% na Pharol, -16,05 na Navigator, -0,81 na REN, -27,55% na Semapa, -29,84% na Sonae. -4,48% na SAD do F. C. do Porto, -26,98% na Media Capital, -1,49% na SAD do Sporting e uns gloriosos +53,76% na SAD do Benfica.

A COFINA do pasquim Correio da Manha subiu 21,29%, mas as suas ações estão a 0,564 Euros, abaixo daquilo que considero o valor zero, ou seja, o preço de uma bica.

Claro que não se trata de uma fenómeno português, porque se formos para a Daimler (Mercedes) vemos uma quebra anual de -35,97%, na VW -17,27%, na VINCI (Dona dos aeroportos portugueses) a queda foi de -15,87%, o Deutsche Bank caiu -55,20%, os Correios Alemães (Deutsche Post) -39,17%, o Banco Santander caiu -27,07%, a BMW -19,28%, o Bank of America -16,20%, o Citygroup -27,78%, a Colgate-Palmolive -21,37%, o banco Morgan-Stanley desceu 22,38%, a Caterpiller -19,31%, o Facebook Inc. -24,63%, a General Motors -36,41%, a Ford Motor Co. -36,41%, General-Dynamics (armamentos) -21,71%, etc.

Se continuasse nunca mais acabava de pôr números negativos.

O capitalismo sofre uma crise tremenda porque é votado negativamente a nível mundial através da ausência de compra de ações por outras pessoas que não sejam os jogadores do dia a dia que chegam a comprar de manhã para venderam à tarde. O cidadão comum apesar de enfrentar uma quebra muito grande nos juros das suas poupanças não arrisca no capital, comprando ações.

No fundo, todos temos telemóveis e computadores, automóveis e frigoríficos, roupa barata da China e salários baixos. O capitalismo inventou quase tudo e os chineses, indianos, paquistaneses, trabalhadores do Bangla-Desh, etc. trabalham por muito pouco.

O capital vê nos bens dos Estados, principalmente nos hospitais, escolas e universidades uma única saída para ganharem dinheiro com os impostos dos contribuintes.

Por si próprios não parecem capazes de inverter a situação.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

PORTUGAL, PARAÍSO FISCAL... PARA ESTRANGEIROS!

Dedieu01

                                         
BREVE COMENTÁRIO A FRANCK DEDIEU:

 

Os dados mencionados são correctos. 

O interessante é que o PS não nega absolutamente nada destes factos. Assume-os, como aliás não podia deixar de ser. 

Este afluxo de dinheiro, que Franck refere correctamente, teria de ser canalizado para investimento reprodutivo, para melhorias de infraestrutura, especialmente nas vilas esquecidas do interior, para que houvesse um verdadeiro desenvolvimento sustentável. 

Assim, lamentavelmente, Portugal apenas reforça o seu destino de neocolónia [como a Grécia, a Tunísia, etc, etc] para férias (do tipo Club Med. ou  equivalente) da classe média dos países europeus mais afluentes.  

Leia original aqui

O euro de Mário Centeno como “veículo de prosperidade”

Disse Mário Centeno que o euro deve ser “um veículo de prosperidade para os cidadãos europeus”. Como prémio por esse apoio fervoroso, a revista “The Banker”, do Financial Times, revista ligada à alta finança inglesa (City of London) considerou “o ministro das Finanças português Mário Centeno como o melhor ministro das Finanças do ano (2018) na Europa. Acontece que o que é bom para os grandes grupos financeiros pode não ser bom nem para Portugal nem para os portugueses. Por isso, interessa analisar com objetividade se o euro tem sido na verdade um “veículo de prosperidade” para os portugueses. Confrontar a propaganda com os dados da realidade.

Gostaste do que leste?

Divulga o endereço[1] deste texto e o de odiario.info[2] entre os teus amigos e conhecidos

                

References

  1. ^ endereço (www.odiario.info)
  2. ^ odiario.info (odiario.info)

Leia original aqui

O governo que cuide da economia e o défice cuidará de si mesmo

O vídeo de hoje dá continuidade ao anterior ao aprofundar a relação do défice público com a economia do país. Trata-se de divulgar, em linguagem acessível a todos, o conceito de “finanças públicas funcionais”, defendido por Abba Lerner, que está banido dos cursos de Economia.
Uma das formas mais eficazes de dissipar a mais grave de todas as confusões semânticas consiste em salientar que a dívida privada difere da dívida pública por ser externa... Uma variante da falsa analogia é a declaração de que a dívida pública representa um encargo injusto para os nossos filhos, que são assim obrigados a pagar as nossas extravagâncias. Muito poucos economistas precisam de ser recordados de que, se os nossos filhos ou netos pagarem parte da dívida nacional, esses pagamentos serão feitos aos nossos filhos ou netos e a mais ninguém. Tomando-os no seu conjunto, eles não ficarão mais pobres fazendo os pagamentos do que mais ricos ao recebê-los. [Abba Lerner,The Burden of the National Debt, 1948]
Esta citação de Lerner encontra-se num texto do economista e académico sueco Lars Syll, aqui. Para quem não puder ler o artigo, deixo a tradução deste parágrafo: 
"Tanto para Keynes como para Lerner, era evidente que o Estado tinha a capacidade de promover o pleno emprego e um nível de preços estável - e que deveria usar os seus poderes para o fazer. Se isso significava que tinha de contrair uma dívida e (mais ou menos temporariamente) desequilibrar o seu orçamento - que assim fosse! A dívida pública não é boa nem má. É um meio para alcançar dois objectivos macroeconómicos abrangentes - o pleno emprego e a estabilidade dos preços. O que é sagrado não é ter um orçamento equilibrado ou reduzir a dívida pública por si, independentemente dos efeitos sobre os objectivos macroeconómicos. Se "finanças sãs", austeridade e orçamentos equilibrados significam aumento do desemprego e preços desestabilizadores, então têm que ser abandonados."
Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

A pergunta que não desaparece

Numa semana em que se anunciaram grandes investimentos, cuja lógica está bem exposta no editorial do AbrilAbril - por trás da propaganda a submissão - ficámos a saber que a multinacional Vinci, que controla a ANA, já recuperou, em cinco anos, um quinto do que pagou pela ruinosa, para o Estado português, privatização dos aeroportos nacionais. Perante este blindado capitalismo predador e perante a degradação dos serviços públicos em muitas áreas, fruto de anos de compressão do investimento público imposta por regras europeias igualmente blindadas, é preciso não esquecer a pergunta em que aqui temos insistido: como se destrói um velho Estado? Em jeito de nota de rodapé, peço-vos só que reparem no facilitador na foto da cerimónia Governo-Vinci, e isto para usar o termo apropriado para a advocacia dos grandes negócios, que já conseguiu a proeza de estar em vários lados ao mesmo tempo, estando sempre no mesmo lado, na realidade, e que, já agora, tem a distinção de ter o seu nome inscrito num dos principais símbolos do porno-riquismo da capital. Toda uma economia política encarnada.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

O Euro «veículo de prosperidade»: mito e realidade

Neste estudo com o titulo “O Euro de Mário Centeno como “veículo de prosperidade”: o mito e a realidade”analiso, de uma forma objectiva, utilizando a linguagem fria dos números oficiais, o que o euro tem acarretado para o país e para os portugueses, ou seja, em que situação Portugal e os portugueses se encontram ao fim de 20 anos de euro.

Numa altura em que quase todos os órgãos de informação e os “fazedores de opinião” que têm acesso privilegiado a eles, que são sempre os mesmos, “cantam” os benefícios do euro e a Mário Centeno, o melhor ministro das Finanças da Europa como muitos dizem e repetem, esquecendo o estrangulamento de toda a Administração Pública e do investimento em Portugal que tem causado para reduzir drasticamente o défice num período tão curto para valores incomportáveis para o país. Repetindo, procuro analisar de uma forma objectiva, quais as dificuldades e desafios futuros que naturalmente enfrentaremos. É uma parte que tem sido escondida aos portugueses nas análises com uma só cor, sem contraditório, que tem enchido os media em Portugal.

Estudo

O EURO DE MÁRIO CENTENO COMO “VEÍCULO DE PROSPERIDADE”: o mito e a realidade

Para Mário Centeno, o euro deve ser “um veículo de prosperidade para os cidadãos europeus”.”(Jornal Negócios, Dez.2018). E como prémio pelo seu apoio fervoroso, a revista “The Banker”, do Financial Times, uma revista ligada à alta finança inglesa (city of London) considerou “o ministro das Finanças português Mário Centeno como o melhor ministro das Finanças do ano (2018) na Europa”, o que foi depois repetido acriticamente por todos os grandes órgãos de informação portugueses e pelos “opinion makers” que têm acesso fácil aos media,condicionando fortemente a opinião publica nacional . No entanto, o que é bom para os grandes grupos financeiros pode não ser bom nem para Portugal nem para os portugueses. Por isso, interessa analisar com objectividade se o euro tem sido um veículo de prosperidade para os portugueses, o que tem acarretado para o nosso país estes 20 anos de euro, ou melhor,qual é a situação de Portugal e dos portugueses ao fim de 20 anos de euro, e quais os desafios e as dificuldades que os aguardam no futuro. Para isso, vamos utilizar a linguagem objectiva dos dados oficiais. Esta análise, até por limitações de espaço, vai-se limitar a alguns (poucos) aspectos importantes que condicionam o presente e o futuro dos portugueses e de Portugal.

A evolução das condições de vida dos portugueses em comparação com os da zona euro segundo o Eurostat, o serviço oficial de estatística da U.E.

O gráfico 1, com os dados divulgados pelo Eurostat, mostra com clareza com tem evoluído as remunerações dos trabalhadores portugueses em comparação com a média das remunerações dos trabalhadores da Zona Euro, constituída por 19 países.

Gráfico 1 – Remuneração / Hora dos trabalhadores na Zona Euro e em Portugal – 2008/2017 – Eurostat

Segundo o Eurostat, em 2008, a remuneração/hora de um trabalhador em Portugal correspondia 47,3% da média da Zona euro; em 2011 representava já apenas 45,3%; em 2015 somente 41,4% e, em 2017, 41,8% da média das remunerações dos trabalhadores da Zona Euro, ou seja, menos de metade. Eis “veículo de prosperidade “, para utilizar as palavras de Centeno, que tem sido o euro para os trabalhadores portugueses.

No 3º Trimestre de 2018, segundo o Inquérito ao Emprego do INE, 950.000 trabalhadores(26,2% do total) recebiam mensalmente menos de 600€ e 2.342.500 trabalhadores portugueses (64,7% do Total) levavam para casa menos de 900€ por mês. Eis também o resultado, em números, do “veículo de prosperidade” de que se gaba Mário Centeno.

O agravamento da desigualdade na repartição da riqueza em Portugal

E se completarmos este quadro com outros dados sobre a parte da riqueza criada que reverte para os trabalhadores tanto em Portugal como nos países da Zona euro, ou seja,como se reparte a riqueza criada no nosso pais e nos países da Zona Euro, o retrato fica ainda mais claro e completo. E para que não hajam dúvidas que não estamos a manipulara realidade vamos continuar a utilizar dados divulgados pelo insuspeito Eurostat que é o serviço de estatísticas oficiais dos governos dos países da União Europeia (gráfico 2).

Gráfico 2 – Percentagem que as remunerações dos trabalhadores representam do PIB (riqueza criada) em Portugal e nos países da Zona Euro – 2006/2017 – Eurostat

Os dados do Eurostat são claros, não deixam margens de dúvidas, e tornam desnecessários os comentários. Em 2006, apenas 46,8% da riqueza criada em Portugal revertia para os trabalhadores que representavam cerca de 84% da população empregada;em 2011, tinha diminuído para 46,3%, e no fim do governo de Passos Coelho/PauloPortas/troika” tinha-se reduzido para 43,7%, tendo subido em 2017 para 44,3% mas continuando a ser inferior à média da Zona Euro que, em 2017, era 47,5%. Um valor superior ao 2006, precisamente o contrário do que se verificou em Portugal que diminuiu.Este é também o resultado do “veículo de prosperidade” de que fala Mário Centeno.

A divida externa do país e das administrações públicas continua a ser enorme e a crescer. Qualquer subida das taxas de juros terá efeitos graves

O gráfico que a seguir se apresenta, construído com dados divulgados pelo Banco de Portugal, mostra de uma forma clara a enorme divida do nosso país ao estrangeiro. Qualquer subida significativa da taxa de juros terá consequências dramáticas para o país.

Gráfico 3 – Divida bruta total externa de Portugal
Milhões € – Banco de Portugal

Este enorme endividamento do país (em 2018, superior em mais de duas vezes ao valor do PIB de Portugal) está associado também a um enorme e crescente endividamento das Administrações Públicas quer total quer ao estrangeiro, como revela o gráfico 4.

Gráfico 4 – Divida total e divida externa das Administrações Públicas
Milhões € – Banco de Portugal

Como revelam os dados do Banco de Portugal, a divida total das Administrações Públicas continuou a aumentar com o governo de António Costa/Mário Centeno, embora a divida externa tenha diminuído, mas continuando a ser muito elevada (140.352 milhões € em 2018).

Para cumprir o que Bruxelas exige corta-se na despesa e no investimento público com consequências dramáticas para o desenvolvimento do país

O quadro 1, também com dados do Eurostat, mostra a queda significativa, com consequências dramáticas no desenvolvimento do país assim como na prestação de serviços públicos à população (saúde, educação, transportes públicos, segurança social, etc.), pois sem investimento e sem trabalhadores não é possível realizar isso.

Quadro 1 – A FBCF (investimento) Total e Público medido em % do PIB nos países da Zona Euro e em Portugal e a % que as remunerações da Função Pública representam do PIB

Os dados do Eurostat revelam que se verificou em Portugal uma quebra significativa quer no investimento total (em 2017, menos 20% que a taxa da Zona Euro) quer no investimento público (em 2017, menos 42,3% que a taxa da Zona euro), e na despesa com pessoal da Função Pública, medida em % do PIB, com efeitos graves quer para o desenvolvimento do país quer para suprir as necessidades básicas da população, com consequências graves na vida dos portugueses,sentidas já pela maioria da população. No período 2006/2017, a taxa média anual decrescimento económico foi de 1,04% na Zona euro e de apenas 0,3% em Portugal, o que mostra bem o que é “o euro como instrumento de prosperidade”.

E isto tudo também para cumprir a meta de 0% no défice que Mário Centeno tanto se gaba, mas hipotecando o futuro do país e a vida dos portugueses Mas o euro não teve apenas consequências negativas, teve também aspectos positivos para os portugueses como sejam a estabilidade dos preços e da taxa de câmbio, assim como taxa de juros baixos o que tornou o credito acessível a muitos portugueses (muitos certamente ainda se lembram de taxas de inflação e de juros superiores a 20% que“comiam” salários, pensões e poupanças). Mas isso é matéria para outro estudo.


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/o-euro-veiculo-de-prosperidade-mito-e-realidade/

20 anos de euro: um balanço desolador

(Ricardo Paes Mamede, in Diário de Notícias, 08/01/20\19)

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Faz agora duas décadas que o euro substituiu o escudo e várias outras moedas nacionais. Apesar da data redonda, não houve grandes festejos. Não é de estranhar. Por muito amor que se tenha à ideia de integração europeia, é difícil não concluir que a moeda única ficou muito aquém das promessas e expectativas que gerou.

A evolução dos indicadores macroeconómicos para Portugal é clara. Desde que existem dados disponíveis, não houve nenhuma sequência de 20 anos em que o crescimento médio do PIB nacional fosse tão baixo, a taxa média de desemprego tão elevada e os défices externos tão expressivos. Tendo em conta o poder aquisitivo, o rendimento médio dos portugueses está hoje mais distante da média da zona euro do que estava há 20 anos. Esta não é certamente uma história de sucesso.

Ao ler estas linhas não faltará quem se apresse a atribuir o mau desempenho da economia portuguesa neste período aos erros dos sucessivos governos nacionais. É uma conclusão apressada. O balanço desolador da moeda única não é uma especificidade portuguesa. Não é sequer uma característica peculiar dos países do Sul da Europa.

Nestes 20 anos o PIB da zona euro como um todo cresceu 20 pontos percentuais abaixo do PIB dos EUA e criou menos 1,5 milhões de empregos. O falhanço da moeda única não é apenas económico. Longe de representar um factor de coesão entre os Estados e os povos europeus, o funcionamento da zona euro tornou-se um dos principais focos de tensão e instabilidade do processo de integração europeia. A cada nova eleição nacional cresce o peso dos partidos nacionalistas e eurocépticos. Seguramente, a Europa não é hoje um continente mais unido do que era há 20 anos.

Uma visão generosa tenderá a atribuir o mau desempenho da zona euro a factores externos (como a crise financeira originada nos EUA) e a considerar que as dificuldades políticas presentes são apenas as dores de parto de um projecto com futuro assegurado. É efectivamente uma visão generosa.

Os problemas da moeda única europeia são em larga medida o resultado da sua arquitectura institucional. Era sabido à partida que submeter economias com estruturas produtivas muito diferentes à mesma política monetária era uma aposta arriscada. A taxa de juro e a taxa de câmbio mais adequadas a cada economia nacional dependem muito das características de cada país e da fase do ciclo económico em que se encontram. Restava a esperança de que a unificação das moedas contribuísse para que as estruturas económicas ficassem mais semelhantes e os ciclos económicos mais alinhados. Não foi isso que aconteceu, pelo contrário.

A criação do euro e a integração plena dos mercados financeiros traduziram-se na queda abrupta e duradoura das taxas de juro reais nos países do sul, e em fluxos de capital nunca vistos em direcção às periferias. Como acontece em qualquer parte do mundo, a abundância súbita de liquidez estimulou o crescimento explosivo da construção e do imobiliário, criando novas e boas oportunidades de investimento para os bancos dos países do centro da UE. Num primeiro momento isto trouxe mais emprego e investimento. Mas conduziu também ao inevitável aumento de preços e custos nas economias periféricas, e ao crescente endividamento de empresas e famílias. A unificação monetária criou assim condições para a emergência de uma Europa dividida entre países credores e países devedores.

Como se não bastasse, a partir de 2002 registou-se uma forte subida do câmbio do euro face a outras moedas internacionais, que produziu efeitos claramente assimétricos: em países especializados em produtos de exportação de baixo valor acrescentado, como Portugal, tornou mais difícil competir internacionalmente; em países exportadores de capital, como a Alemanha ou a Holanda, traduziu-se numa maior capacidade de investimento internacional.

Nos países periféricos, o crescimento do mercado interno e as dificuldades acrescidas de competir internacionalmente levaram, naturalmente, à canalização dos investimentos para actividades menos expostas à concorrência externa. Assim, ao mesmo tempo que as importações aumentavam, as exportações estagnaram em percentagem do PIB. Os défices externos sucessivos implicaram o recurso ainda maior ao financiamento estrangeiro. Tal como vários outros países com estruturas produtivas semelhantes, Portugal viu a sua dívida externa aumentar continuamente até à grande crise de 2008-2009. Nesse contexto, mais do que o nível das dívidas públicas (que variavam muito de país para país), foi a acumulação de dívida externa que levou os investidores internacionais a duvidar da capacidade dos países periféricos da zona euro para pagarem o que deviam.

 

A crise da zona euro é assim, em larga medida, o resultado da arquitectura institucional da moeda única, que não só não diminuiu como aumentou a divergência nas estruturas económicas dos países membros. Quando a crise chegou, tornou-se claro que a zona euro não estava preparada para lidar com os problemas que ajudou a criar. A resposta à crise, como sabemos, consistiu numa austeridade profunda, duradoura e contraproducente, a qual acentuou ainda mais as divergências.

Se hoje se vivem tempos mais tranquilos nas economias europeias, os problemas não estão resolvidos. A zona euro continua dividida entre países credores e países devedores (hoje ainda mais do que no passado), entre economias especializadas em sectores intensivos em capital e conhecimento e economias que se baseiam em actividades de reduzido valor acrescentado. Tal como há 20 anos, a política monetária do BCE não dá nem pode dar respostas adequadas a situações tão diversas. Tal como há 20 anos, a única forma que os países têm de lidar com os seus desequilíbrios externos é desvalorizar os salários e reduzir os serviços públicos, prolongando a crise social e regredindo nos direitos sociais. Tal como há 20 anos, quaisquer mudanças substanciais na arquitectura da zona euro estão dependentes de decisões unânimes entre os Estados membros, o que é tanto mais improvável quanto mais divergentes são as suas economias e interesses dominantes.

Não é por falta de ideias que estes problemas não se resolvem: é por falta de consenso sobre as possíveis saídas da actual situação e pela impossibilidade institucional de conciliar interesses divergentes por via democrática no quadro da UE. Vinte anos depois, a crise existencial da zona euro veio para ficar. Não temos como escapar disto: o balanço é mesmo desolador.


Economista e professor do ISCTE-IUL. Escreve de acordo com a antiga ortografia.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Dólar americano pode estar prestes a sofrer queda, afirma grupo financeiro multinacional

Nota e moeda de um dólar americano
© Sputnik / Alexei Sujorukov

Após as declarações do chefe da Reserva Federal dos EUA, Jerome Powell, foi prevista desvalorização da moeda norte-americana por um dos maiores grupos bancários de investimentos e valores mobiliários do mundo, o Goldman Sachs.

No dia 4 de janeiro, o chefe do regulador alertou que a autoridade financeira poderia rejeitar as taxas de juros mais altas se a economia do país tendesse a enfraquecer, referindo-se aos eventos de 2016, quando as taxas permaneceram inalteráveis quase o ano todo, devido à preocupante desaceleração do crescimento na China.

Devido a isso, os analistas do Goldman sugeriram que o Banco Central poderia impedir o aumento das taxas de juros.

Considerando os dados líquidos dos EUA para o mês de dezembro, "acreditamos que a Reserva Federal, mais dependente de dados, cria condições para mais uma queda do dólar", alertou a equipe de estrategistas, liderada por Zach Pandl.


Em relação a isso, os especialistas recomendaram a opção pelo índice DXY curto (índice do dólar americano que mostra sua correlação com moedas de outros países), com meta de alcance entre 93 e 97,5 pontos.

De fato, desde maio de 2018, o índice DXY não foi inferior a 93, com a moeda fortalecida graças ao forte crescimento econômico. Contudo, o ponto máximo alcançado em novembro foi de 97,5.

Já no dia 4 de janeiro, a taxa permaneceu em um nível de 96,179, declinando pela terceira semana consecutiva, uma vez que não conseguiu obter ganhos do extremamente forte relatório mensal de folha de pagamento dos EUA.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/economia/2019010713060816-dolar-americano-pode-estar-prestes-sofrer-queda-grupo-financeiro-multinacional/

Entre o bolsonarismo troglodita e a tecnicidade bolsonara

Jair Bolsonaro no poder tem a vantagem de tornar claro ao mundo o que pensa a escola económica dominante sobre diversos problemas. Mas tem a desvantagem de, na sua clareza, enobrecer os mesmos raciocínios, embora expostos de forma civilizada e com uma aparência técnica. 
Bolsonaro parece aqui não pensar muito. Mas a sua versão simplista e pouco elaborada sintetiza onde quer que a força do rolo compressor seja usada com mais violência. Em Portugal, conhece-se essa situação, vivida no período da intervenção da troica, com um governo que a apoiava (Passos Coelho/Paulo Portas). Aliás, por momentos Jair raia o discurso feito por Passos Coelho. Ou de quem está à frente do patronato português e que defende as mesmas ideias há muito. Mas sabe-se lá porquê, a versão expurgada de qualquer subtiliza - que revela ao mundo a visão orgulhosa e bruta dos objectivos das politicas económicas - parece bem mais reaccionária, brutal e perigosa, para não dizer fascista. E da mesma forma, embora de forma simétrica, faz parecer aceitável, defensável e até tecnicamente louvável as ideias defendidas que sejam travestidas de argumentos técnicos, a ponto de srem repetíveis por comentadores televisivos.  Esta diferente percepção da mesma ideia, consoante quem a apresente, não evita contudo que o resultado final a mesma política defendida com brutalidade ou com brilhantismo, inteligência e tecnicidade não seja o mesmíssimo. De outra forma, não poderia deixar de ser.  E no entanto, o mesmo rolo compressor tem sido lançado desde há muito em Portugal sem que nimguém se assuste. Foi feito com mais violência desde 2003 (Governo Durão Barroso), em 2008/09 e 2010 (Governo Sócrates), em 2012 (Governo Passos Coelho/Paulo Portas) e mesmo desde 2015 (Governo António Costa), já que se manteve quase intacta a armadura criada em 2012, responsável por uma desvalorização das retribuições salariais e, a partir de 2019, com um pacote laboral ainda em discussão parlamentar, fruto de mais um acordo político sem a CGTP  que, visando combater a precariedade, nalguns casos vai agravá-la.

No Brasil, o objetivo é acabar com o artigo 7º da Constituição, que enumera um conjunto vasto de direitos dos trabalhadores, além de outros que visam melhorar a sua condição social. É o caso da protecção contra o despedimento sem justa causa, da garantia de um seguro em caso de despedimento, dos descontos para a Previdência, da existência de um salário mínimo nacional, da existência de um salário proporcional à complexidade do trabalho, da garantia de que os salários não podem descer, do pagamento de um 13º salário, do pagamento do trabalho nocturno acima do diurno (proibido a menos de 16 anos, salvo no caso de aprendiz que pode baixar aos 14 anos), do próprio pagamento do salário (contra a retenção pelo patronato), da garantia de que a jornada de trabalho seja de 8 horas diárias, de 6 horas em turnos ininterruptos e de 44 horas semanais, do repouso semanal, da remuneração do trabalho extraordinário em pelo menos 50% da remuneração normal; do gozo de férias; da protecção da trabalhadora grávida; da redução do risco no trabalho e do pagamento adicional para actividades penosas; pelo direito a aposentadoria; pelo reconhecimentoda contratação colectiva; pela protecção contra a automação; pela garantia da existência de seguros contra os acidentes no trabalho; da garantia contra a discriminação salarial por sexo, idade, cor ou estado civil.   Na campanha eleitoral, Jair Bolsonaro foi muito comedido. O seu programa apenas tinha cinco linhas sobre a reforma trabalhista, embora visando ir mais longe que a legislação aprovada no Senado em julho de 2017. Bolsonaro prometeu, aliás, que não iria contra o conteúdo do artigo 7º da Constituição, porque apenas uma assembleia constituinte o poderia fazer. Mas foi repetindo que os brasileiros têm que optar: "O que o empresariado tem dito pra mim, e eu concordo, é o seguinte: o trabalhador vai ter que viver esse dia: menos direitos e emprego, ou todos os direitos e desemprego”. Ou seja, o velho mantra que cá se repete de que existe um mercado de trabalho segmentado por causa da rigidez laboral. Em Portugal, ninguém fala de direitos que prejudicam o emprego. Fala-se de rigidez que - se é rigidez -é preciso flexibilizar. Soa mais técnico e menos ideológico, não é?  
Aliás, Bolsonaro e o seu ministro Paulo Guedes defenderam já a existência de um carteira profissional alternativa,"verde e amarela" por oposição à "azul-escura",como forma de reduzir o desemprego. Essa nova carteira teria novas regras para o trabalho flexibilizado: não haveria encargos trabalhistas e a legislação aplicada seria minimizada. Como dizia Paulo Guedes, caberia ao jovem optar por qual regime de trabalho queria se reger: "Porta da esquerda tem sindicato, legislação trabalhista para proteger e encargos. Porta da direita tem contas individuais e não mistura assistência com Previdência". E assim se mete um um pé-de-cabra na Constituição e no regime de protecão social. Liberdade de escolha que se transformará rapidamente em chantagem: "Se não for verde e amarelo, não te dou emprego..." Depois de ganhar as eleições, Bolsonaro foi mais claro, falando da necessidade de que a legislação trabalhista teria "que se aproximar da informalidade" para que mais empregos possam ser gerados. Mais uma vez, a questão da segmentação laboral prejudicada pela legislação. E sempre à pala da ideia de mais emprego, quando o que se pretende é mudar o enprego que já existe. Mas em Portugal, esse mesmo tipo de contrato "verde e amarelo" foi defendido pelo actual ministro das Finanças - mesmo quando estava à frente dos economistas que apoiaram o PS - ao pugnar pela necessidade de um contrato único de trabalho, que - claro está - resultaria numa redução de garantias dos actuais contratos permanentes. O tema acabaria por cair antes mesmo das eleições de 2015. Mas caso fosse para a frente, seria outra forma - como se acusou à esquerda do PS - de aproximar essas contratos da informalidade dos que se pretendia combater.     
Bolsonaro critica a actividade de inspecção do Estado (Ministério Público do Trabalho), prometendo atacara possibilidade de "uma minoria actuante" (os sindicatos) prejudicar "quem produz" (as empresas e o patronato). Ou seja, precisamente atacando a própria ideia-pilar de que o Direito Laboral deve representar a função de equilíbrio de uma relação no terreno que é, por natureza, desigual. Na verdade, Bolsonaro nada inventa. Muito do que ele ataca foi já levado a cabo em Portugal por legislação sucessiva, aprovada tanto à direita como pelo Partido Socialista. Foi o caso do Código do Trabalho e sucessivas alterações que - na prática - diabolizam o papel dos sindicalistas. Foi o caso da desarticulação da contratação colectiva, fomentando a atomização das relações laborais, com vista a aplicar todas as necessárias alterações aos horários de trabalho, de preferência sem pagar mais por isso (adaptabilidadee banco de horas). Foi o caso do esvaziamento de um papel interventivo da inspecção do Trabalho, ao reduzir as obrigações da empresa de comunicação prévia aos serviços de fiscalização (caso do trabalho temporário e mais rcentemente dos horários de trabalho, dificultando o controlo do trabalho suplementar). Foi o caso da aprovação de leis sem a devida concertação com os serviços de inspecção, que se confrontam com a ineficácia das leis aprovadas (caso dos falsos recibos-verdes, engrossando um debate nacional com mais de 30 anos). Foi o caso mesmo da desprotecção ao desempregado ilegalmente, em que o PS forçou em 2008/9 que os trabalhadors tivessem de entregar à empresa a compensação por despedimento caso impugnassem o despedimento em tribunal. E os exemplos poderiam prolongar-se ao infinito. Conclusão: No fundo, parece haver uma fonte única de pensamento que se estende pelo mundo que sustenta a ideia de que mais direitos prejudicam o emprego. Como se a escravatura tivesse sido um exemplo de pleno-emprego. Nesse debate, Bolsonaro é apenas mais um político que a está a aplicar. Com pouca elegância e brutalidade, certo, mas com eficácia de qualquer pessoa que se apresenta como sendo mais inteligente. E progressista.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

O dólar, a arma silenciosa de Washington – Parte II

A mais mortal das armas de destruição em massa do arsenal norte-americano não está no Pentágono nem na sua tradicional panóplia de armas nucleares ou convencionais; trata-se de facto da mais silenciosa de todas e consiste na capacidade de Washington controlar a oferta global de dólares.

Uma nova crise global em 2019?

O impacto da contracção do dólar tem sido gradual mas isso pode estar a mudar rapidamente. Segundo os dados disponíveis o balanço dos principais bancos centrais (o Fed americano, o BCE europeu e o BoJ japonês) aumentou apenas 76 mil milhões de dólares no primeiro semestre de 2018, contra os 703 mil milhões de dólares registados nos seis meses anteriores e a Bloomberg estima que as compras mensais de activos líquidos pelos três principais bancos centrais cairão de 100 mil milhões de dólares no final de 2017 para quase zero até o final deste ano, o que se traduz uma redução na liquidez mundial superior a um bilião de dólares no corrente ano.


Evolução do Balanço dos Bancos Centrais

Activos na carteira do Fed, BCE e BoJ por trimestre


Fonte: Federal Reserve, ECB, BOJ (After Years of Easing, Meet Quantitative Tightening: QuickTake)

A lira turca já perdeu metade do seu valor relativamente ao dólar desde o início de 2018, o que significa que as empresas turcas que se financiaram com dinheiro “barato” vão agora precisar de encontrar o dobro do valor em dólares para pagar essas dívidas. Aquelas empresas devem cerca de 300 mil milhões de dólares em dívidas denominadas em moeda estrangeira, principalmente dólares, o que equivale a quase metade do PIB total do país. Foi a grande liquidez em dólares que manteve a sua economia em crescimento desde a crise despoletada nos EUA em 2008; mas este fenómeno não se resumiu à economia turca, pois também os países asiáticos do Paquistão à Coreia do Sul (com excepção da China) viram o seu endividamento externo aumentar em mais de 2 biliões de dólares.

Enquanto a moeda americana se desvalorizou contra essas moedas e o Fed manteve as taxas de juros baixas (entre 2008 e 2015), não houve grande problema, mas agora tudo isso está a mudar. O dólar está a acentuar a sua valorização (7% em 2018) contra todas as outras moedas e conjuntamente com isso, Washington está deliberadamente a iniciar guerras comerciais, provocações políticas, a quebra unilateral do acordo nuclear com o Irão, novas sanções à Rússia, Irão, Coreia do Norte, Venezuela e provocações sem precedentes contra a China. As guerras comerciais de Trump, ironicamente, levaram os capitais de países emergentes, como a Turquia ou a China, a uma “fuga para a segurança” dos mercados dos EUA, principalmente o mercado de acções.

O Fed está a transformar o dólar americano numa arma, com o que parece ser o apoio intencional do BCE, depois deste ter confirmado na última reunião de 2018 o fim do programa de compra de activos, deixando no ar a perspectivadas compras líquidas de activos pelos três principais bancos centrais passarem rapidamente a uma posição negativa.


Perspectivas de Evolução

As compras líquidas de activos pelos maiores bancos já caíram e devem ficar negativas em 2019


Fonte: Federal Reserve, ECB, BOJ (After Years of Easing, Meet Quantitative Tightening: QuickTake)

Com este cenário desta natureza estão criadas condições em tudo semelhantes às que despoletaram a crise asiática de 1997, quando um ataque conjunto dos hedge funds americanos à moeda da economia asiática mais fraca, o Baht tailandês, bastou para provocar o colapso na maior parte do sul da Ásia, que arrastou todos desde a Coreia do Sul até Hong Kong. Se naquela ocasião foram os hedge funds hoje o detonador parece ser Donald Trump e os seus famosos tweets.

As guerras comerciais de Trump, as sanções políticas e as novas leis tributárias que beneficiam os mais ricos, conjuntamente com a clara estratégia do Fed de valorização e fortalecimento do dólar, fornecem o pano de fundo para travar uma guerra financeira contra os principais opositores políticos em todo o mundo sem precisar de disparar um único tiro. Bastaram uma série de provocações e ameaças comerciais contra a enorme economia chinesa, provocações políticas contra o governo turco, novas mal fundadas sanções contra a Rússia e o Irão e os bancos americanos e europeus, ou qualquer outra pessoa, com empréstimos em dólares aos mercados emergentes de maior risco, de iniciaram de imediato a fuga. Tudo, seja o colapso da moeda turca em consequência das vendas quase em pânico, da crise da moeda iraniana ou da queda do rublo russo, seja o declínio do yuan chinês em reacção à guerra comercial decretada pela administração Trump, reflecte o começo de uma escassez global de dólares.

O pior poderá ainda estar reservado para a hipótese de Washington conseguir cortar todas as exportações de petróleo do Irão, situação em que a cotação do crude poderá facilmente subir acima de 100 dólares, aumentando drasticamente a escassez mundial do dólar já em desenvolvimento. Isto equivale a um processo de guerra por outros meios, onde o Fed actua como uma “arma silenciosa” para guerras nada pacíficas cuja continuação poderá provocar um sério revés à crescente independência dos países da Eurásia em torno da Nova Rota da Seda da China e da alternativa Rússia-China-Irão ao sistema do dólar.

Conhecido o papel do dólar como principal moeda de reserva global e reconhecido que a capacidade de controlo da Reserva Federal é uma arma de destruição em massa e um pilar estratégico para o domínio da superpotência que ainda são os EUA, estarão as nações da Eurásia – com a China à cabeça – prontos para enfrentar com eficácia esta realidade?

É que do euro e do BCE já sabemos bem o que podemos esperar!


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/o-dolar-a-arma-silenciosa-de-washington-parte-ii/

Cortar na despesa pública não melhora o défice, pelo contrário

A austeridade, enquanto política orçamental de cortes na despesa pública e aumento de impostos, praticada numa conjuntura de recessão com o objectivo de reduzir o défice e a dívida pública, e assim ganhar a confiança dos mercados financeiros, não tem suporte credível na teoria económica (ver aqui e aqui, por exemplo). Ainda assim, os media foram incansáveis na promoção dessa política recessiva, legitimando os sacrifícios impostos ao povo e, ao mesmo tempo, encobrindo a responsabilidade do sector financeiro na origem da crise, assim como a falta de um banco central garante do financiamento do Estado. A ideia de que a intervenção da troika foi causada pelo excesso de dívida pública acumulada, foi tranquilamente (nalguns casos, calorosamente) aceite e difundida pelos media. Os economistas que argumentavam que a austeridade agrava a recessão não tinham (e ainda não têm) tempo de antena, nem lhes era permitido debater com os defensores da austeridade. Mesmo depois de alguns sectores do FMI terem reconhecido que a estratégia estava errada (ver aqui), a nossa comunicação social ignorou o debate. Isto não aconteceu apenas em Portugal. No Reino Unido, os media também desempenharam o mesmo papel: “quando porventura ouviam algum economista, recorriam aos da City para falarem sobre notícias e acontecimentos do dia-a-dia, em vez de procurarem obter uma compreensão mais aprofundada da política económica.” O que me intriga é não ouvir a esquerda dizer ao Ministro das Finanças que a despesa adicional com a contagem integral do tempo de serviço nas carreiras da Administração Pública não agravará significativamente o défice; e se, em 2019, as economias para onde exportamos reduzirem o seu crescimento, até ajudará a manter o défice controlado através do aumento da procura interna. Num país com subutilização da força de trabalho na ordem dos 13%, o multiplicador keynesiano funciona, como funcionou no início desta legislatura. É que o orçamento do Estado é bem diferente do orçamento de uma família, como explico ao cidadão comum neste vídeo. Também me intriga não ver a esquerda discutir a hegemonia ideológica do neoliberalismo na comunicação social. Não há propostas (visíveis) para uma reforma de fundo que conduza a um jornalismo equilibrado, respeitador do pluralismo.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Conhecem o Ferra(braz) da Costa?

(Vítor Lima, in Facebook, página Democracia e Dívida, 03/01/2019)

ferraz

(Eu responderia a este tipo dizendo-lhe o seguinte: salário mínimo de 600 euros é um luxo para patrões incompetentes.

Comentário da Estátua de Sal, 03/01/2019)


• É um homem coerente, pois já era ultra-reacionário quando estudante, antes do 25 de Abril e, continuou a sê-lo mas acrescentando o ressaibo, a saudade dos bons tempos do fascismo. Como primeiro líder da CIP, representou o entulho empresarial português cuja característica, única na Europa, é ser aquele que apresenta menos habilitações do que os trabalhadores. Daí a aposta no baixo salário, no baixo investimento (excepto quanto a carros de luxo, como bons saloios) e a baixa produtividade… de onde resulta ser Portugal o país mais atrasado da Europa Ocidental. (Ver declarações de Ferraz da Costa aqui).

• Fala pouco mas diz sempre barbaridades. Na Europa há muitos países com horários inferiores a 35 h e que não são ricos – Bulgária, Eslováquia, Eslovénia, Espanha, Hungria, Rep. Checa, Roménia e Croácia.

• Um patrãozeco português paga anualmente 25709 (pps) contra uma média europeia de 36221 e, 35919 em Espanha ou 49711 na Bélgica, por exemplo… onde até se trabalham menos horas.

Se em Portugal o trabalho é mais barato e para jornadas de trabalho superiores é porque o empresariato é um conjunto de incapazes rascas, geradores de subdesenvolvimento.

• Não diz o Ferra(braz) que, segundo inquérito da Deco, 42% dos trabalhadores trabalha mais de 40h/semana; e que 64% do total não recebe pelas horas extraordinárias. Nem diz que o patronato – em conluio com os governos – deve de contribuições para a Seg Social, o equivalente a 12 meses do total das pensões… coisa inconcebível na Europa civilizada.

Se houvesse uma imprensa decente, tê-lo-iam confrontado com estas questões, não?


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Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Retoma do emprego, mas não dos salários

(Alexandre Abreu, in Expresso Diário, 03/01/2019)

abreu

A expressão “recuperação sem emprego” (“jobless recovery”) foi cunhada na década de 1990 para caracterizar a economia norte-americana, que após a recessão de 1990-91 regressou ao crescimento económico sem que o desemprego diminuísse. Algumas das explicações então aventadas para este fenómeno incluíam a deslocalização de partes do processo produtivo para outras partes do globo e os aumentos da produtividade associados às novas tecnologias de automação e informação: ambos os processos tenderiam a aumentar o produto por trabalhador empregado, quebrando a ligação entre as dinâmicas do produto e do emprego.

Hoje em dia, no contexto da recuperação após a Grande Recessão e as diversas ondas de choque que a têm caracterizado, o problema central da recuperação económica nas economias avançadas é de uma natureza diferente. Tanto na Europa como nos Estados Unidos, a taxa de desemprego caiu fortemente nos últimos anos, encontrando-se actualmente em níveis bastante reduzidos face aos padrões das últimas décadas: 6,8% na União Europeia, 3,7% nos Estados Unidos. Em contrapartida, a evolução dos salários não tem acompanhado a dinâmica de crescimento do produto, e em muitos casos tem até sido negativa. Em vez de uma “jobless recovery”, temos assim o que tem sido apelidado de “wageless recovery”: uma retoma sem crescimento salarial.

O Global Wage Report de 2018/19, publicado recentemente pela Organização Internacional do Trabalho, avança alguns números ilustrativos: entre as economias do G20 (as mais avançadas), por exemplo, o crescimento dos salários foi de apenas 0,9% em 2016 e 0,4% em 2017, apesar da taxa de crescimento do produto nesses anos ter sido consideravelmente mais robusta. O problema é especialmente intenso na Europa, que registou um crescimento real dos salários praticamente nulo em 2017, mas também se faz sentir nos Estados Unidos, onde o crescimento real dos salários foi apenas cerca de 0,7% tanto em 2016 como em 2017.

A recuperação da economia portuguesa nos últimos anos padece do mesmo problema: a criação de emprego e redução do desemprego têm sido verdadeiramente notáveis, mas contrastam fortemente com a estagnação salarial. Por exemplo, a remuneração de base média mensal (valor ilíquido, antes de quaisquer descontos) em Portugal passou de 963 Euros em Abril de 2013 para 973 Euros em Outubro de 2017, o que corresponde a uma contracção em termos reais. Da mesma forma, o ganho médio mensal ilíquido (também antes de quaisquer descontos, mas incluindo horas extra, prémios e outros suplementos) mal se alterou em termos reais, passando, no mesmo período, de 1.125 Euros para 1.151 Euros.

Até certo ponto, o problema da “wageless recovery” é simétrico ao da “jobless recovery”: na primeira temos um crescimento económico extensivo, em que o crescimento do emprego sustenta o crescimento do produto mas não da produtividade ou dos salários; na segunda temos um crescimento económico intensivo, com aumentos de produtividade que apoiam o crescimento do produto mas não a criação de emprego.

Mas esta não é toda a história. Se é verdade que a produtividade tem aumentado menos do que o produto na generalidade das economias avançadas, é também verdade que a evolução dos salários tem na maior parte dos casos ficado aquém da evolução da produtividade: ou seja, a parte dos salários no rendimento nacional tem vindo a diminuir. A explicação para o problema não é apenas a falta de dinamismo da produtividade, mas também um problema distributivo, de deterioração dos rendimentos do trabalho em relação aos rendimentos do capital.

No caso português, a parte dos salários no rendimento nacional tem estado praticamente estagnada nos últimos anos, após ter retrocedido muito fortemente durante o período da Troika e de governação da direita. Não tem continuado a diminuir, como noutras economias avançadas, mas também não recuperou nenhum do terreno perdido durante o retrocesso dos anos anteriores, o que não deixa de ser demonstrativo dos limites da actual governação.

O problema da retoma sem crescimento salarial é em parte estrutural, estando ligado ao problema da estagnação da produtividade e à evolução sectorial da economia, mas é também político, estando ligado à capacidade negocial das partes envolvidas na relação laboral. Quanto a este último aspecto, continuamos a fazer menos do que devíamos para repor os equilíbrios perdidos nos anos anteriores.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Colapso à vista? Bolsas americanas começam ano com forte queda

Bolsa de valores de Nova York (foto de arquivo)
© AP Photo / Richard Drew

Os três principais índices bolsistas dos EUA sofreram uma queda drástica depois que a Apple reduziu a previsão de receita no primeiro trimestre do ano fiscal de 2019.

O índice Dow Jones Industrial Average sofreu uma nova queda em 3 de janeiro e perdeu 629 pontos (-2,70%), para 22.717, informou o portal MarketWatch.

Os outros principais índices de Wall Street também entraram em colapso. Assim, enquanto o S&P 500 perdeu 34 pontos de seu valor (1,36%), caindo para 2.475, o NASDAQ caiu 122 pontos (1,84%) e se encontra em 6.543.


A queda nos índices foi registrada após o gigante estadunidense Apple ter reduzido a previsão de receita no primeiro trimestre do ano fiscal de 2019 devido à desaceleração das vendas de iPhones na China.

A empresa informou que, nos primeiros três meses do novo ano fiscal, ela prevê vendas de cerca de 84 bilhões de dólares (R$ 315 bilhões), um valor bem abaixo dos 89-93 bilhões de dólares anteriormente previstos.

Na quarta-feira (2), a Apple teve uma subida modesta na Bolsa de Valores de Nova York. No entanto, depois de publicar suas previsões de vendas, as ações caíram 9% no mercado de futuros.

Ver o original em 'Sputnik Brasil' na seguinte ligação::

https://br.sputniknews.com/economia/2019010313043047-bolsas-dow-jones-nasdaq-sp500-queda-apple-receitas-china/

Política econômica de Trump leva o mundo a crise sem precedentes, preve economista

Há cada vez mais evidências que em 2019 a economia dos EUA e do mundo enfrentarão mais uma crise, enquanto as ações do presidente estadunidense, Donald Trump, já começaram a destruir o sistema de gestão da economia global, escreveu o economista David Cayla em seu artigo para o jornal francês Le Figaro.

Segundo Cayla, embora Trump tenha contribuído para a desregulamentação do setor financeiro e a redução da carga tributária nos EUA, os índices bolsistas norte-americanos têm mostrado uma queda drástica, algo que prenuncia uma crise econômica inevitável. 

O economista francês enumera várias razões pelas quais a economia dos EUA pode enfrentar sérios problemas no futuro próximo. A primeira razão é um período de crescimento econômico muito longo: 2018 se tornou o nono ano consecutivo em que a economia dos EUA fechou com crescimento, enquanto o resto do mundo enfrentou uma desaceleração.


Bitcoin e uma nota de dólar, imagem ilustrativa
© Sputnik / Yevgeny Biyatov

Um outro fator importante é a política econômica inconsistente da administração Trump. Por exemplo, Trump prometeu aumentar as tarifas para os países europeus unilateralmente, mas depois recusou fazer isso frente às concessões apresentadas pelos parceiros. Segundo Cayla, a estratégia dos EUA visa embromar seus parceiros para que nem a UE, nem a China ou qualquer outro país do mundo possam prever claramente os objetivos de longo prazo dos EUA, que variam conforme as circunstâncias.

Cayla destaca também os problemas políticos internos dos EUA, particularmente a paralisação do governo que afeta mais de 800 mil funcionários públicos, colocados no desemprego técnico.

De acordo com o economista, todos esses fatores levariam a uma nova crise sem precedentes. 

"O que se passa nos EUA e no mundo em geral mostra uma nova lógica e uma reviravolta decisiva na gestão econômica", disse ele, acrescentando que a política