Direita

Nem de propósito

Na passada quarta-feira, o Jornal da Noite da SIC juntou Bernardo Ferrão e José Gomes Ferreira para comentar o debate do Estado da Nação, que teve lugar nesse dia à tarde na Assembleia da República. Quem tivesse saudades de assistir a uma análise político-económica na linha da «economia do pingo» e em versão Dupond et Dupont - que nos é tão familiar desde o início da crise - terá ficado satisfeito. José Gomes Ferreira afirmou, por exemplo, que «este Governo, e os partidos que o apoiam, são incapazes de reconhecer que quem cria emprego são as empresas» e que estas «têm que ter um bom ambiente e não têm», desde logo porque o «alto nível de fiscalidade» a que estão sujeitas está a «encher os cofres do Estado» e a «tirar rendabilidade a muitas» delas. Nada contra a defesa deste ponto de vista, mesmo que omitindo o desequilíbrio cada vez maior, desde 2004, entre os rendimentos do trabalho e os rendimentos do capital, que o Alexandre Abreu oportunamente aqui assinalou. O que inquieta é a persistente ausência de contraditório, mesmo quando se trata - como é o caso - de comentadores supostamente alheios ao plano de análise político-partidário. Isto é, uma ausência que acentua os enviesamentos existentes nesse plano, como há poucos dias se demonstrou aqui. É caso para dizer, nem de propósito.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

O ESTÚPIDO QUE ESCREVE, OS ESTÚPIDOS QUE O PUBLICAM E AINDA NÓS TODOS QUE O LEMOS

Aqui há uns cinco anos, quase contadinhos dia por dia, João Marques de Almeida prevera O fim do Bloco de Esquerda. E explicava: havia uma «incapacidade da coexistência entre a ala radical e marxista e a ala socialista e moderada». Dentro do próprio Bloco (deduzir-se-ia), «as duas grandes famílias da esquerda portuguesa nunca se entenderão». Consequência: «para todos os efeitos, o projecto político do Bloco de Esquerda, acab(ara)».
Esqueçamos quatro anos de geringonça. No seu artigo de hoje, o "fantasma" desse tal Bloco de Esquerda aparece como um dos parceiros de uma «combinação» para Tratar os portugueses como estúpidos. E prossegue: «Muitos políticos portugueses gostam de tratar os portugueses como se fossem estúpidos». De facto, João, a palavra chave aqui é mesmo estúpido.
Você, os gajos que lhe dão cobertura publicado-o, e nós, que ainda nos indignamos com a sua estupidez! 

Veja o original em 'Herdeiro de Aécio' na seguinte ligação::

http://herdeirodeaecio.blogspot.com/2019/07/o-estupido-que-escreve-os-estupidos-que.html

A ingratidão da direita portuguesa

Depois de uma década a ocupar o Palácio de S. Bento e mais outra o Palácio de Belém, o homem que hoje comemora oito décadas de vida é ignorado pela comunicação social.
A criança que veio ao mundo no Poço de Boliqueime, há 80 anos, passa incógnito, sem fotos dos netos nas marquises da Travessa do Possolo ou na missa de ação de graças que o devoto casal, com 56 anos de ininterrupto matrimónio, não deixaria de mandar celebrar pelo que recebeu, sem precisar de dar vivas à democracia.
Os devotos do homem que nunca tinha dúvidas e raramente se enganava, do salazarista de maior destaque da democracia, enviam-lhe flores na clandestinidade e desejam-lhe felicidades em privado, enquanto em público dizem o que ele disse de Ricardo Salgado, «nunca fui amigo dele».
Nem Passos Coelho e Paulo Portas cuja permanência no governo, sem apoio da AR, se esforçou por impor, nem essa dupla sombria publicitou a sua gratidão a quem tinha pela Constituição e pelos adversários o mesmo acendrado respeito que nutria por Saramago.
Há pessoas assim, capazes de serem tão dedicadas à família e aos negócios como aos correligionários e, uma vez desacreditados, são abandonados pelos que mais lhe devem.

Dos Açores não vieram sorrisos de vaquinhas que o enlevavam, ou das Ilhas Selvagens o ruído festivo das cagarras a cantarem os “Parabéns a Você”. Talvez, algures, na praia da Coelha, o genro agradecido lhe faça um discurso e os netos dirigidos pela D. Maria se esforcem a cantar-lhe os parabéns, depois de lida a mensagem vinda de Londres, do banco Goldman Sachs, onde um seu discípula da ética, imensamente mais culto, não se esquece de quem o lançou na carreira internacional.

 

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2019/07/a-ingratidao-da-direita-portuguesa.html

Marcelo, consensos e maiorias

(José Gabriel, 12/07/2019)

O manobrador

Já se desenhava há muito, mas o recente discurso do Presidente da República na Fundação Gulbenkian avança por terrenos que, contenhamo-nos na adjectivação, são, no mínimo, duvidosos. O que se questiona, assuma-o o orador ou não, é a própria concepção de democracia. 

 

A democracia pode ser concebida em várias configurações, mas estas têm em comum alguns traços fundamentais. Todos os cidadãos têm o direito de participar em plano de igualdade, de modo directo ou por representantes, na produção de leis, na governação. Idealmente, o sufrágio universal que lhe está na base deve ser tão extenso quanto possível. A autonomia política dos cidadãos implica condições culturais, sociais, económicas e exerce-se em liberdade e igualdade e sob o domínio da Lei. A deliberação em democracia assenta no apuramento das maiorias determinadas – que podem ser, de vários modos, qualificadas -, e no escrupuloso respeito pelas minorias.

Se o que se diz atrás é aceitável, todos os devaneios mais ou menos obscuros de Marcelo Rebelo de Sousa sobre os méritos e vantagens dos consensos – termo a que nunca se faz corresponder um conceito claramente definido – sobre as maiorias – chamadas, pelo orador, conjunturais – perdem todo o sentido.

Parece ao senso comum que a noção de consenso é bondosa, pelo atávico receio da clareza da oposição de convicções, opiniões, propostas políticas. No “consenso” tudo parece diluir-se num caldo morno de indefinição, num lago de águas turvas onde se pesca com facilidade. E note-se: os campeões de consenso nunca ou raramente dão conteúdo objectivo e concreto a tais fantasmas propositivos.

Não que o consenso não possa ser uma ocorrência simpática no dia a dia, em matérias onde não nos vale a pena o confronto por ser estéril o motivo. Mas em política, opor os alegados méritos do consenso aos alegados deméritos das maiorias é um gesto fundamentalmente anti-democrático. No caso de Marcelo nem há o esforço de uma formulação muito sofisticada. Consensos são as maiorias de que ele gosta; maiorias conjunturais – como se todas, em princípio, não o fossem – são as que o desgostam. Toda a retórica da necessidade de leis estruturantes é uma treta, a não ser numa formulação tão básica e abstracta que, por ausência de matéria, mereça a concordância de todos pela via do não-ser que, como ensina o mestre, não nos leva a lado nenhum.

Marcelo sabe que qualquer maioria, mesmo que qualificada, pode ser, tarde ou cedo, contrariada por uma outra. E pode tal nunca acontecer. É isto a democracia representativa. Mas criar “consensos”, reais ou imaginários, que sejam obstáculos à livre expressão dos representantes dos cidadãos, é uma manobra pouco clara – para dizer o mínimo. No limite, esses tais consensos teriam, para ser efectivos, de se traduzir em maiorias. 

Dir-me-ão que há leis consensuais, como a Constituição da República. Não é verdade. Só a determinação de haver uma Constituição foi um momento de consenso. Logo que ela se começou a escrever, emergiram a naturais diferenças e o resultado esteve longe de ser consensual e unânime. A aprovação fez-se por significativa maioria, não por um qualquer difuso consenso. E as suas revisões por maiorias se fizeram.

Sei o que quem teve paciência para me ler até aqui pode estar a pensar: que sou ingénuo, que os consensos de Marcelo não são mais que um apelo à formação de um bloco central que, além de lhe fazer as vontades, o viesse a reeleger. Talvez tenham razão, mas isso torna tudo mais grave e nebuloso.

Vem aí a votação da Lei de Bases da Saúde. Marcelo, a quem nunca incomodou o facto de a lei vigente ter sido aprovada pela direita e ter sido – lamentavelmente – duradoura, parece agora abespinhado por a nova lei poder vir a ser aprovada pela esquerda – que, aliás, foi quem criou o SNS – a ponto de ameaçar um veto político.

Já vimos que as razões do presidente são fracas e vãs. Mas não desinteressadas. A Lei, penso eu, será votada e aprovada por significativa maioria. E Marcelo, se tiver o atrevimento de a vetar terá, desejo eu, a derrota que merece. E se, mais tarde, outra maioria alterar de novo a lei – para melhor, espero -, olhem, é a vida….

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Avisem o Dr. Rui Rio e a Dra. Assunção Cristas

Avisem por favor o Dr. Rui Rio, a Dra. Assunção Cristas e os comentadores com eles alinhados, que estão a dar informações incorrectas. Nem Portugal tem um nível muito elevado de impostos sobre o rendimento e a riqueza (é mais baixo que a média da UE), nem o peso desses impostos no PIB tem vindo aumentar (pelo contrário, caiu entre 2015 e 2018, ao contrário do que aconteceu na média da UE), como mostra o gráfico (fonte: Eurostat).

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

História? Não! Antes pequenas estórias do nosso quotidiano!

«Podemos? Não, não podemos.» foi o nome da crónica com que Fátima Bonifácio pretendeu dar uma caução académica ao discurso xenófobo e racista, que vemos exposto sem eufemismos pelo Basta ou pelo PNR. Confiante em que a levavam a sério apenas pelo facto de Ricardo Costa e os diretores de informação dos demais canais televisivos lhe darem tempo de antena nalguns debates, a autora do texto viu caírem-lhe em cima milhares de indignados opositores, que a forçaram ao silêncio quando dela quiseram obter algum comentário sobre tal reação pública.

 

O próprio diretor do «Público», que acedera a inserir tão nefandas opiniões nas colunas do seu jornal, teve de dar a mão à palmatória reconhecendo que a liberdade de expressão tem limites manifestamente ultrapassados pelo discurso de ódio da sua putativa colaboradora.

 

Nos próximos tempos poderemos ver-nos poupados a que ela ou Rui Ramos, que se filia na mesma linha ideológica, venham prosseguir o esforço pela banalização do mal inerente às suas conhecidas posições extremistas. É que, nas últimas décadas, as faculdades dedicadas aos saberes humanísticos viram-se atulhadas de gente decidida a ocupar-se da História já não tanto na perspetiva dos vencedores - porque a Revolução do 25 de abril os derrotou! - mas nela buscando uma persistente desforra. Conciliando essa promoção de ultradireitistas, a quem por exemplo o «Expresso» confiou a responsabilidade por alguns livros de História seccionados em várias semanas, com a repetida emissão pela RTP (agora no canal Memória) dos repulsivos programas de José Hermano Saraiva, quem tem estado por trás desse esforço procura dar aos portugueses uma leitura pervertida de quem foram, quem são e, sobretudo, serão, manipulando-lhes a identidade coletiva de forma a desviá-los das tentações esquerdistas de há quarenta e cinco anos e que se vêm mantendo, eleição após eleição, através da quase contínua constatação de votarem em mais de 50% pelos partidos dessa área.

 

Enquanto as esquerdas se dividiram, permitindo o facilitado acesso das direitas ao poder, esses setores andaram mais descansados. O problema foi o do acordo histórico de há quase quatro anos, que possibilitou a pacificada governação desta legislatura quase terminada. Daí o recurso a todos os argumentos populistas, que julgam recetíveis pelas camadas mais correiodamanhãzadas camadas do eleitorado. Até ver o tiro de Fátima Bonifácio saiu-lhe pela culatra e deve-a ter deixado merecidamente combalida.

 

A ela ou a Rui Ramos, como sucedeu com José Hermano Saraiva torna-se absurda a sua designação como «historiadores». Não é a História com h grande o que eles praticam ou praticaram. Na realidade eles são meras personagens de episódicas estórias da nossa vida coletiva.

 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/07/historia-nao-antes-pequenas-estorias-do.html

Fátima Bonifácio e o soufflé

08-07-2019 por Hugo Van Der Dingin "Sábado"
Vou saltar por cima dos clichés estafados sobre os ciganos, que já não há pachorra para essa conversa, de tão pouco original. E qualquer taxista expõe melhor os seus argumentos do que a Maria de Fátima.

Cara Maria de Fátima,

Permita-me que a trate assim, que estou sem pachorra para ir ao Google procurar o seu grau académico, que, li não sei onde, é de licenciada para cima. Pois que já deve adivinhar o que me traz aqui: o seu artigo de opinião «Podemos? Não, não podemos», publicado no jornal Público, que li, eu e o resto do país. E resolvi então escrever-lhe uma carta aberta, para juntar às muitas outras que lhe têm escrito por estes dias a propósito do mesmo tema. Olhe, sempre é mais uma para pôr em cima da lareira ou do piano no Natal, que, com esse feitio não deve receber muitos postais de Boas Festas. Digo eu.

Por ignorância minha ou por não frequentarmos os mesmo círculos (nunca a vi, por exemplo, num after, ou, pelo menos, não tenho ideia disso), confesso que nunca tinha ouvido falar da Maria de Fátima. Mas soube agora, a propósito do frisson que causou o seu artigo, que ando a perder bastante, pois garantem-me que a Maria de Fátima é uma respeitadíssima e publicadíssima académica. Faz muito bem, que o saber não ocupa lugar. E, como diz o povo, um burro carregado de livros é um doutor. O povo é mesmo torto, credo.

Não conto que me responda, mas adorava que esclarecesse uma dúvida que me ficou da leitura do seu texto: a Maria de Fátima, no direito à duplicidade de que todos gozamos, escreveu-o na sua qualidade de Maria-de-Fátima-Académica ou na sua condição de Maria-de-Fátima-Calhandreira? Isto parece-me fundamental para compreender o que a Maria de Fátima escreveu. Se foi na sua condição de académica, a Maria de Fátima há-de dizer-me onde é que dá aulas, para eu escrever aqui num papel para não me esquecer de nunca lá pôr os meus filhos. Se foi na sua condição de calhandreira, estão os meus parabéns, o texto está ótimo!

Mas quero acreditar que a pessoa cuja crónica saiu no Público foi a Maria-de-Fátima-Calhandreira. É que a Maria-de-Fátima-Académica não faria generalizações como «os ciganos», «os africanos», e muito menos usaria como amostragem académica uma conversa que teve no elevador com a mulher-a-dias da sua vizinha de cima.

Dirijo-me, portanto, à Maria-de-Fátima-Calhandreira, com um intuito pedagógico. Não vou comentar a sua posição em relação ao sistema de quotas que tanto a incomoda. Discuti-la-ia com gosto com a Maria-de-Fátima-Académica, se ela assim quisesse. Mas, como já vimos, não é dela a prosa do artigo.

Abeiro-me assim da janela de onde a Maria-de-Fátima-Calhandreira, de óculos na ponta do nariz, casaco de malha coçado, e naperon de crochet crescendo numas agulhas, tece as suas considerações para quem a quiser ouvir.

Vou saltar por cima dos clichés estafados sobre os ciganos, que já não há pachorra para essa conversa, de tão pouco original. E qualquer taxista expõe melhor os seus argumentos do que a Maria de Fátima. Mas, Maria de Fátima, os africanos? A Maria de Fátima escreveu mesmo «os africanos»?

O que me parece faltar à Maria-de-Fátima-Calhandreira, como sói acontecer às calhandreiras, é mundo. É viajar, é ler, é ir ao cinema, que são três boas soluções para a falta de mundo. Uma mais cara, outra média e outra barata, para não haver desculpas.

África, Maria de Fátima, é um continente. Que vai do deserto à selva, da savana às montanhas. Tem o norte e tem o sul, tem o interior e o litoral, tem a costa atlântica e a costa oriental. E cada uma destas partes tem tanto a ver com as outras como têm a ver o olho do rabo com a Feira de Montemor, como também diz o povo.

África tem 30 milhões de quilómetros quadrados, 20% do total da área terreste. Tem 54 países. Tem cerca de 2000 línguas, com 140 delas faladas por vários milhões de pessoas. E, por falar em milhões de pessoas, sabia, Maria de Fátima, que «os africanos» são (números de 2018) 1.287.920.518 de pessoas? Vou dizer por extenso, pois creio ter lido que a Maria de Fátima é de Letras: mil duzentos e oitenta e sete milhões novecentas e vinte mil quinhentas e dezoito pessoas. Ou seja, há mais 1.287.920.517 de africanos, para além da mulher-a-dias da sua vizinha de cima, que a Maria de Fátima usou para resumir «os africanos». Já agora, estima-se que haja em África 380 milhões de cristãos, ao contrário do que a Maria de Fátima parece pensar, quando escreve que os africanos não «fazem parte de uma entidade civilizacional e cultural milenária que dá pelo nome de Cristandade». É bom de ver que a Maria de Fátima nunca leu, nem sequer nas revistas das Selecções do Reader’s Digest, na privacidade da sua casa de banho, que algumas das comunidades cristãs mais antigas do mundo (dos séculos I e II) são em África.

Mesmo dando de barato que a Maria de Fátima se referia à África que fala português, ficamos com cinco países, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe, que ficam geograficamente em regiões tão distintas culturalmente como o noroeste, o sul, o oriente ou o meio do mar. E são cerca de 52.000.000 de pessoas. Cinquenta e dois milhões de pessoas.

Penso que foi a ignorância destes números que fez com que generalizasse que todos os africanos (e afrodescendentes) se «autoexcluem, possivelmente de modo menos agressivo [que os ciganos], da comunidade nacional»,  que «odeiam ciganos», que «constituem etnias irreconciliáveis», que «são abertamente racistas: detestam os brancos sem rodeios», que «detestam-se uns aos outros quando são oriundos de tribos ou "nacionalidades" rivais». E é aqui que usa o seu vasto conhecimento dos africanos, através do exemplo da mulher-a-dias da sua vizinha de cima, que, conta a Maria de Fátima, lhe disse: «Senhora, eu não sou preta, sou atlântica, cabo-verdiana». Desta história que a Maria de Fátima parece usar como exemplo académico, fica uma dúvida: a Maria de Fátima chamou preta à mulher-a-dias da sua vizinha de cima? É que, pun not intended, fica pouco claro.

Mais à frente no seu texto, e a propósito da criação de um observatório do racismo e da discriminação, escreve a Maria de Fátima: «Mas como é que se observa o racismo e a discriminação a partir dos gabinetes almofadados onde se sentariam os observadores? A única maneira de observar uma matéria tão fugidia e evanescente é frequentar feiras e supermercados baratos, é entrar nos bairros em que nem a polícia se atreve a pôr os pés». Isto escrito pela mulher que, umas linhas antes, usa o exemplo da mulher-a-dias da vizinha de cima para concluir que todos os africanos são racistas. Ai, Maria de Fátima, Maria de Fátima...

África e os africanos têm bastantes problemas, sabemos todos, e um deles, que não é de somenos, são os brancos como a Maria de Fátima que, por ignorância, mas também por maldade, usam o seu estatuto «académico» para despejar o seu ódio racista. Um discurso racista disfarçado por vezes de humanitário, trazendo para a conversa temas de facto sérios e graves como a excisão feminina, oferecendo, como contributo, a exclusão.

É curioso que a académica Maria de Fátima se queixe depois das portas escancaradas das Universidades, da entrada de analfabetos que resultaria do acesso irrestrito e incondicional ao ensino superior, quando a própria Maria de Fátima trata este tema — pelo menos neste artigo, a única coisa sua que li até hoje — como uma analfabeta.

A propósito do por vezes complicado choque de culturas, lembrei-me de uma história de Kofi Annan — pedindo-lhe desde já, Maria de Fátima, desculpa por usar o exemplo de um africano cuja craveira intelectual faz de si, Maria de Fátima, por comparação, uma analfabeta, cuja imensa pinta e classe fazem de si, Maria de Fátima, por comparação, uma frequentadora de supermercados baratos, e cujo prestígio internacional faz de si, Maria de Fátima, por comparação, tenho de dizer-lhe, a mulher-a-dias da sua vizinha de cima.

Kofi Annan casou, como sua segunda mulher, com uma condessa sueca. Vinda de um país, nas palavras da própria, onde «quando combinamos um jantar para as oito da noite, chegamos às sete e meia e ficamos a dar voltas de carro pelo bairro até chegar a hora marcada de bater à porta». Para o primeiro jantar que deu aos seus novos parentes africanos, fez a condessa um soufflé. Ora os seus novos parentes não chegaram às oito, nem chegaram às nove, chegaram às dez da noite. Já há muito que tinha ido o soufflé (que, penso que sabe, é um prato que tem de ser servido assim que sai do forno) para o caraças. A condessa ficou pior que estragada, claro. Depois de os parentes se irem embora, Annan, sempre um diplomata, lá acalmou a condessa. E acabaram por concordar que, no futuro, os parentes chegariam atrasados só uma hora e não duas, e que a condessa não voltaria a fazer soufflé.

São duas maneiras de encarar o «outro»: tratá-lo genericamente como um bárbaro selvagem, ou abdicar, de vez em quando, de um soufflé.

E esta escolha dirá sempre mais sobre «nós» do que sobre o «outro».

2 Dedos de Conversa: algumas perguntas ao jornal Público

Por falta de tempo, não escrevo um post com frases do Hitler, do Goebbels, dos teóricos racistas do regime nazi e da Fátima Bonifácio (no seu texto de opinião "Podemos? Não, não podemos", publicado no Público[1]), e a sugestão para os leitores tentarem adivinhar quais são as frases dos líderes nazis, e quais são as da Fátima Bonifácio.
Seria um exercício extremamente difícil, porque não há diferenças.
O ódio étnico e racial que Fátima Bonifácio revela abertamente no seu texto de opinião é o mesmo ódio que vivia em muitos cidadãos das sociedades alemã e europeias, o ódio que alimentou a máquina nazi e que lhe permitiu levar a cabo o Porajmos: o genocídio dos ciganos.

Em caso de dúvidas, a visibilidade maior que tem sido dada à Shoah no âmbito dos crimes nazis oferece-nos um instrumento simples para aferir o teor de ódio étnico e racial de um texto: basta trocar o grupo alvo do ataque por "judeus", e avaliar o resultado. No caso do texto "Podemos? Não, não podemos" de Fátima Bonifácio[2], ficaria assim:

A comparação com a igualdade ou paridade de género é inteiramente falaciosa. As mulheres, que sem dúvida têm nos últimos anos adquirido uma visibilidade sem paralelo com o passado, partilham, de um modo geral, as mesmas crenças religiosas e os mesmos valores morais: fazem parte de uma entidade civilizacional e cultural milenária que dá pelo nome de Cristandade. Ora isto não se aplica a judeus. Os judeus  possuem os seus códigos de honra, as suas crenças, cultos e liturgias próprios. Os judeus (e já se sabe isto desde o Mein Kampf) são inassimiláveis: organizados em famílias e parceiros de negócio, conservam os mesmos hábitos de vida e os mesmos valores de quando viviam na terra deles. E mais: eles mesmos recusam terminantemente a integração. Além disso, os judeus são abertamente racistas: detestam os brancos sem rodeios; e detestam-se uns aos outros quando são oriundos de grupos rivais. O que temos nós a ver com este mundo? Nada. O que tem o deles a ver com o nosso? Nada.

Seria imaginável que algum órgão de comunicação social que se leve a sério publicasse um texto de opinião nestes termos? Não, de modo algum.

A publicação daquele texto de opinião de Fátima Bonifácio  suscita as seguintes perguntas, que dirijo aos responsáveis do jornal Público:

1. Se publicou o "Podemos? Não, não podemos" da Fátima Bonifácio[3], que motivos apresentaria para não publicar um texto com as mesmas frases, mas sendo sobre judeus em vez de ser sobre ciganos e negros? Onde traça a linha vermelha, e segundo que critérios?
Será por respeito às vítimas da Shoah? Argumento estranho, porque os ciganos foram igualmente vítimas das mesmas políticas nazis de genocídio, e os negros foram durante séculos vítimas de um racismo que justificou o negócio da escravatura (e vice-versa).   

2. Como foi possível não se terem apercebido do ódio étnico e racial (para além da ignorância e do preconceito) subjacente ao texto que publicaram no jornal? Repito a pergunta, porque ainda não consegui recuperar da perplexidade: como foi possível?
Exijo agora do jornal Público um exercício de transparência paralelo ao que a revista Spiegel fez quando se descobriu que um dos seus jornalistas inventava as reportagens que entregava para publicar.

3. Apesar da tomada de posição de Manuel Carvalho[4] - e, pior ainda, por causa dos termos em que esta foi feita - os mal-entendidos sobre o alcance e significado da liberdade de expressão em Portugal ganharam renovada força. Para muitos, Fátima Bonifácio é a mártir mais recente do "maldito politicamente correcto que nos oprime e não deixa dizer as coisas como elas são". Um jornal não pode publicar textos de ódio étnico e racial. Pura e simplesmente: não pode. Ao publicar, e ao tentar emendar depois dizendo que cometeu um erro de análise, coloca o discurso de ódio étnico e racial no âmbito da opinião. "Começou por nos parecer que não tinha mal"...
De que modo vai o jornal Público  assumir a sua responsabilidade por, com o exemplo que deu, ter contribuído para baixar ainda mais o nível do debate sobre liberdade de expressão e a fronteira da decência do discurso no espaço público?

4. A publicação deste texto não vai ter consequências no jornal Público? Estamos perante uma das crises mais graves da sua existência? Ou não se levam a sério e portanto partem do princípio que o texto do Manuel Carvalho vai resolver o problema?

Ver o original em "Dois Dedos de Conversa" (Clicar aqui)

Rui Rio virou o druida de Asterix

A «silly season» vai ter
de esperar :
chegou a «season»
do bacalhau a pataco


No outro dia ouvi na televisão o dr. Rui Rio a prometer simultaneamente a descida dos impostos em 3,7 mil milhões de euros, o aumento do investimento público e a redução da dívida do país.
É certo que não sou economista mas a coisa fez-me espécie e a primeira pergunta que fiz foi : «se ele reduz tanto os impostos (EM BOA VERDADE, ELES ESTÃO A PENSAR É NO IRC DAS EMPRESAS !) onde é que ele vai buscar tanto dinheiro para aumentar o investimento e reduzir a dívida ?.
Depois percebi que havia a explicação de isto ser com um grande aumento do crescimento ECONÓMICO e portanto da receita fiscal daí adveniente. Mas então perguntei : « mas com isso, ele não vai elevar a «carga fiscal» nos termos em que erradamente o PSD tem andado a clamar ?.
Depois também ouvi a desculpa de que vão cortar na despesa corrente primária do Estado e aí poupam para o resto das suas promessas milagrosas. Mas acontece que a despesa corrente primária é constituida sobretudo por salários da administração pública,pelo que isto parece o anúncio de outra troika.
Tudo visto, com tanto bacalhau a pataco, o mais certo para quem acreditasse nas promessas do druida Rui Rio era ter de comer só batatas com batatas, sem lasca sequer de bacalhau.

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

A FUNDAÇÃO DA ALIANÇA DEMOCRÁTICA E A AFUNDAÇÃO BRUSCA DAQUELES QUE, RECENTEMENTE, QUISERAM APROPRIAR-SE DA DATA

5 de Julho de 1979. Fundação da Aliança Democrática. Na notícia que o Diário de Lisboa (que, recorde-se, era um jornal politicamente hostil às formações que a constituíam) podia ler-se:
«A Frente Eleitoral, constituída pelo bloco PSD/CDS/PPM, quer um presidente de direita - concluí-se do texto do acordo assinado esta manhã na sede dos centristas, subscritos por Freitas do Amaral, Sá Carneiro e Gonçalo Ribeiro Teles.
Com efeito, as forças que subscrevem o documento reafirmam a sua disposição de exigir ao candidato comum que apoiarão nas eleições presidenciais de 1981, «um contrato político inequívoco, rigoroso e público.»
Mostrando-se convictos de que o entendimento a que finalmente chegaram «será a base para a derrota política da actual maioria socialista-comunista da Assembleia da República», os partidos signatários convergem na ideia de conferir «uma nova autoridade» ao Estado, acordando em defender «a dissolução da Assembleia da República e a convocação de eleições legislativas no Outono próximo; a recusa de investidura parlamentar, pelo PSD e pelo CDS, de novos Governos de natureza apartidária antes de eleições gerais; a apresentação conjunta de um mesmo programa eleitoral de Governo e de uma mesma política económica de salvação nacional; a formação de um Governo de coligação formado com base na nova maioria e a corresponde recusa de participação em governos minoritários; e a legitimidade do referendo como inerente à soberania popular e compatível com a Constituição».
Segundo o acordo hoje assinado, os três partidos apresentar-se-ão, em princípio, ao eleitorado em listas separadas, admitindo contudo que, em certas áreas e circunstâncias, possam decidir-se pela apresentação em listas comuns.
O acordo será válido até ao termo da primeira legislatura que detiver poderes de revisão constitucional e não é extensivo aos Açores e à Madeira nem à administração do território de Macau.
A «clarificação política» que os três partidos desejam «não é compatível com a celebração por qualquer deles, de acordos de Governo com o PS e exclui, a partir da nova maioria, a participação deste último no Governo».
A notícia não é muito extensa, mas é informativamente muito rica. Ainda hoje está de parabéns quem a escreveu. Esta data da formação da AD perdeu-se durante décadas, até ter sido recuperada muito recentemente para uma formação de órfãosdo PàF que a quiseram usar para que o seu projecto tivesse uma patine que não lhe pertencia: afinal, dois dos três signatários da fotografia acima estão vivos e nenhum deles quis ter nada a ver com Miguel Morgado e a rapaziada saudosa pelo regresso de Passos Coelho. Como na altura assinalei, nem mesmo Vasco Pulido Valente, que sempre adorou dizer coisas e recordar tempos em que se achou importante, meteu a sua colher no assunto. Três meses depois já não se ouve falar do assunto. O Observador bem tenta meter gás nestas iniciativas mas a mim bastou-me ver o nome do João Marques de Almeida associado à iniciativa para encomendar logo ao padre o funeral e a missa de sétimo dia da salada russa do Miguel Morgado.

 

Veja o original em 'Herdeiro de Aécio' na seguinte ligação::

http://herdeirodeaecio.blogspot.com/2019/07/a-fundacao-da-alianca-democratica-e.html

25 anos depois, o Parlamento condena a repressão dos protestos na Ponte 25 de Abril

A repressão levada a cabo pelo governo do PSD de Cavaco Silva sobre os manifestantes que lutavam contra o aumento das portagens foi esta sexta-feira condenada.

Créditos / Sapo24

O voto de condenação proposto pelo PCP visava condenar a «repressão de manifestantes na Ponte 25 de Abril ordenada pelo Governo autoritário do PSD», assim como prestar «solidariedade com as suas vítimas».

No voto são recordados os «protestos populares contra o aumento em 50% do valor das portagens» os quais tiveram como resposta pelo então governo uma forte repressão policial no dia 24 de Junho de 1994 a qual visou limitar, pela força, o exercício de direitos cívicos.

No voto refere-se que a violência levou o País ao «sobressalto, dezenas de detenções e feridos, entre os quais um jovem que viria a ficar paraplégico após ser atingido por uma bala». Esta última vítima, 25 anos depois, ainda «aguarda o desfecho do calvário judicial que foi obrigado a percorrer pela recusa do governo do PSD em assumir responsabilidades».

Recorde-se que na sequência desta luta, o governo PSD foi «obrigado a recuar na decisão que havia tomado e a tomar medidas de resposta às exigências das populações».

Esta luta duramente reprimida, a par de muitas outras levaram ao isolamento político e social do governo do PSD que conduziu ao fim do cavaquismo.

Ao PCP juntaram-se PS, BE, PEV e PAN para aprovação do voto, à excepção de dois deputados socialistas que votaram contra ao lado de PSD e CDS-PP, Ascenso Simões e Fernando Rocha Andrade.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/nacional/25-anos-depois-o-parlamento-condena-repressao-dos-protestos-na-ponte-25-de-abril

O que custa remediar o que estragado ficara

Não é preciso fazer estudos de engenharia para retirar da observação da realidade uma conclusão de senso comum: destruir algo é fácil, recuperá-lo ou restaura-lo custa muito mais. Sendo assim os quase quatro anos e meio de que Passos Coelho e Paulo Portas dispuseram para, com a conivência de Cavaco Silva, destruírem o país, não se compadecem com os três e meio já assumidos pelo atual governo para recompor os cacos em que deixaram muitos setores da economia, mormente os que decorriam do setor público por eles entendido como inimigo a abater.

 

Não se podem aceitar as alegações dos defensores desse tenebroso passado quanto a já ter havido tempo para remediar o que quase ficou irrecuperável. Na Saúde só agora foi possível devolver a dimensão orçamental praticada quando era Sócrates o primeiro-ministro. E nos transportes andam-se agora a reabrir as oficinas da CP em Guifões para aumentar a capacidade de manutenção e reparação das carruagens necessárias para melhorar o serviço prestado por uma empresa pública que, por vontade de Passos & Portas, estaria entregue atualmente ao setor privado. Com sentido estratégico o governo acaba, igualmente, de anunciar a intenção de fazer nessas recuperadas oficinas a montagem dos 22 novos comboios, entretanto encomendados. Não será difícil crer que, depois de terem sabotado o transporte ferroviário para melhorarem as condições em que os privados os pudessem adquirir, Passos & Portas tenham o desgosto de o ver valorizado nos próximos anos retirando-lhes razões para continuarem a bater-se pela sua privatização.

 

Noutra área da governação, a da Segurança Social, também se anda a recuperar o descalabro em que o governo anterior a deixou, com a redução drástica do seu número de trabalhadores. Agora são tratados diariamente 850 pedidos de pensões e o número dos que estão à espera de decisão diminuiu para 42 mil.

 

Não é só no que depende do Estado, que a situação tende a melhorar. Do sector privado veio a notícia da rendição da Corticeira Fernando Couto ao reintegrar Cristina Tavares, a operária que despedira depois de odioso assédio moral. É por sentirem que os tempos não lhes correm de feição, que os patrões das empresas privadas andam a mostrar-se menos execráveis, porventura pensando que lá virão (para eles) melhores dias.

 

Esperemos que aguardem sentados por muito tempo porque é tempo de recuperar o Humanismo como valor fundamental a ser respeitado a nível global, seja com os refugiados salvos do Mediterrâneo, e que o horrendo Salvini desejaria ver afogados em vez de lhe baterem à porta, seja contra Trump a quem a candidata democrata Kamala Harris inculpou pela morte de Martinez Ramirez e da sua filha Valeria bem como de todos quantos estão a sucumbir às nefandas restrições para alcançarem os Estados Unidos. A recuperação da importância da dignidade, das aspirações e capacidades humanas em detrimento dos interesses dos monopólios e outros titereiros do capitalismo selvagem, constitui a maior prioridade dos tempos atuais.

 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/06/o-que-custa-remediar-o-que-estragado.html

A celebração de uma nova «escritora»

Poupar-se-iam alguns eucaliptos, com efeitos benéficos para o ambiente, se os editores evitassem a edição de alguns livros cujo desiderato próximo será o de acabarem numa unidade de reciclagem de papel ou, pior, nalgum aterro sanitário. É o que sucederá ao livro agora lançado por Assunção Cristas com pompa e circunstância, mas a cujo publicitado evento compareceram apenas alguns indefetíveis fiéis, entre os quais o inevitável Pedro Mexia.

 

Houve também quem se juntasse à festa por acreditar na possibilidade de o tempo voltar para trás. Sabe-se que não, mas Passos Coelho e Maria Luís Albuquerque prendem-se a tal ilusão, que implicaria recauchutarem pretéritas coligações com a novel «escritora».

 

Parece que o otimismo foi a tónica do discurso da festejada. Compreende-se! A tão breves semanas das legislativas, e com as sondagens a preverem reiterado desastre, só a patética imitação do montypythoniano cavaleiro, que prometia chacinas dos inimigos enquanto ia perdendo os braços ou as pernas, pode valer a Cristas antes da inevitável demissão. Calou-se quanto a ver-se primeira-ministra, mas valem-lhe as esperanças alimentadas pelo seu pensamento mágico. Ou as mentiras descaradas, porque não é que afiançou jamais ter posto em causa o otimismo de António Costa? Como disse?

 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/06/a-celebracao-de-uma-nova-escritora.html

O problema da direita face ao PS: Tweedledee e Tweedledum

(José Pacheco Pereira, in Público, 22/06/2019)

Pacheco Pereira

(Excelente metáfora e excelente texto do Pacheco Pereira. A verdadeira causa das coisas é que, ao centro, o PS e a direita são iguais, no essencial. Portugal, provavelmente, atrasou-se uma década no processo de “pasokização” dos socialistas, devido ao efeito da Geringonça que se está a esgotar, como se vê agora com a Lei de Bases da Saúde. Os eleitores vão começar a perceber que, no essencial, Mr. Dee e Mr. Dum não se distinguem. As próximas eleições podem ser já uma verdadeira caixinha de surpresas.

Comentário da Estátua, 22/06/2019)


 

No quarto capítulo do Alice Através do Espelho, de Lewis Carrol, Alice está perdida num bosque e a noite aproxima-se. Encontra o par Tweedledee e Tweedledum, a quem pede ajuda. Mas estes não são capazes de a ajudar porque estão envolvidos num conflito qualquer. A querela é sobre uma ninharia e, quando estão preparados para se batalhar por essa ninharia, aparece um corvo negro e fogem cada um para o seu lado. Vamos admitir que Alice representa os portugueses, comparação que é um elogio aos portugueses. E que Dee é o PS, e Dum o PSD e o CDS, ou vice-versa, comparação que não é um elogio para ninguém. E que o “corvo negro” é a “crise” ou o Diabo. Olhemos pois, a esta luz sombria, a célebre “crise da direita”.

Há “crise da direita”? Há e faz parte da “crise de regime”. Por que razão a direita é ineficaz, quer na versão moderada de Rio, quer na versão agressiva de Cristas, quer nos micro-partidos da Aliança, da Iniciativa Liberal, ou do Chega!? Porque são como os dois Tweedle: iguais. Alice distingue-os só porque um tem escrito Dee e outro Dum no colarinho. O facto de se guerrearem também é irrelevante, porque percebe-se que são tão iguais que estão sempre a pegar-se um com o outro. Iguais no fundamental, peguilhentos no acessório. Tweedledee e Tweedledum.

Veja-se em detalhe essa igualdade. Quais são os dois aspectos mais estruturantes da política nacional? O “rigor orçamental” e o “cumprimento das regras europeias”. Na verdade, são uma e a mesma coisa, só que as “regras europeias” não são europeias, mas apenas as dos países que assinaram o Tratado Orçamental. O descalabro dos serviços públicos, o caos na saúde, o mau funcionamento da administração pública, a gestão dos restos orçamentais, a quebra do investimento público, a alta carga fiscal, tudo isto depende do principal, mas não é o principal, é o acessório.

Como é que, no contexto do poder e da oposição, alguma vez a oposição, apenas criticando a performance da situação e não as suas opções de fundo, pode alguma vez ser alternativa? E como é que a direita pode fortalecer-se quando do outro lado há um partido, um primeiro-ministro e um ministro das finanças que fazem de forma mais consequente a mesma política que eles fariam? Sim, porque a política do “rigor orçamental” e do “cumprimento das regras europeias”, é não só de direita, como representa o núcleo duro da política de direita por essa Europa fora, que teve e tem o beneplácito dos socialistas. Tweedledee e Tweedledum.

A haver alteridade de política, ela devia manifestar-se no principal, nas causas, e não no acessório ou na gestão dos efeitos do principal. Porém, muito significativamente, estes aspectos centrais e causais são os menos discutidos no debate político entre o PSD, o CDS e o PS. Por uma razão muito simples, todos estão de acordo com os pilares da política que é seguida por Costa-Centeno e participam do “consenso europeu” sobre o qual o Presidente zela. Tweedledee e Tweedledum.

A partir desta igualdade essencial, o discurso da diferença procurado pela direita manifesta-se em mil temas que, desdobrados em mil questões, são a agenda comunicacional e política, mas nenhum permite uma crítica de fundo, que comece na raiz e depois passe para o resto da árvore. E, acima de tudo, há também um problema de legitimidade: o Tweedle sem poder não está inocente das principais opções que decorrem do “rigor orçamental” e das “regras europeias”. As políticas que agora revelam os seus efeitos perversos começaram quando o Tweedle que agora protesta tinha poder, e o que agora tem poder não o tinha à altura. A saúde está mal com Costa-Centeno? Paga-se o preço dos cortes de Passos. Os serviços públicos não funcionam com Costa-Centeno? Começou tudo nos anos da troika com o PSD e o CDS a governarem. Os impostos são altos? Pergunte-se a Passos, Portas e Cristas? Tweedledee e Tweedledum.

Acresce que um dos dois gémeos, não sei de Dee ou Dum, é mais simpático do que o outro, tira o dinheiro aos portugueses com impostos agressivos, mantém a desigualdade no mundo laboral, deixa o estado cair aos bocados, mas não insulta aqueles a que faz pagar por “viverem acima das suas posses”, distribui mais alguma coisa, e não quer fazer engenharia social como no tempo da troika-Passos-Portas. O outro Tweedle resmunga, “estragaste-me” o brinquedo, temos pois que batalhar. E batalham, batalham, fazem muito barulho, mas é uma fúria inconsequente. Tweedledee e Tweedledum.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

CDS-PP não arreda pé da ideia de esvaziar o SNS

Os centristas defendem o alargamento gradual da ADSE a todos os trabalhadores e que os seguros de saúde beneficiem do tratamento fiscal dado ao sistema de saúde dos funcionários da administração pública.

Assunção CristasCréditosTiago Petinga / Agência Lusa

Esta é a terceira proposta do programa eleitoral dos centristas às legislativas de Outubro, e a segunda referente ao sector da Saúde. Recorde-se que, no início do mês, o partido liderado por Assunção Cristas propôs que os privados e o sector social ajudassem a reduzir as listas de espera para a primeira consulta de especialidade. 

Neste caso, o CDS-PP propõe a manutenção da Assistência na Doença aos Servidores do Estado (ADSE) como «subsistema complementar» ao Serviço Nacional de Saúde (SNS), de forma a «eliminar discriminações flagrantes» entre os trabalhadores da Administração Pública e os trabalhadores do sector privado.

Desta forma esvazia o serviço público, que padece há largos anos de subfinanciamento, encaminhando os utentes para os prestadores privados de saúde, ao mesmo que acicata incompreensões entre trabalhadores. 

Outra proposta avançada pelos centristas para alavancar o negócio da Saúde passa por dar «o mesmo tratamento fiscal aos seguros privados» que é dado à ADSE no IRS, «permitindo a sua integral dedução».

Tal como vem ficando claro, tanto em intervenções na Assembleia da República, como na proposta de Lei de Bases da Saúde que apresentaram, os centristas defendem um sistema a duas velocidades. O primeiro alicerçado nos seguros privados de saúde e nos subsistemas, com intervenção do sector privado, e o serviço público, com garantias mínimas, ao contrário do que a Constituição consagra.  

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/nacional/cds-pp-nao-arreda-pe-da-ideia-de-esvaziar-o-sns

O 11 de junho, o PR e o Dr. João Miguel Tavares no 10 de Junho

Arredado dos noticiários televisivos, por razões de higiene, li depois os discursos do PR e do seu alter ego, nomeado para presidir às comemorações do 10 de Junho, em Portalegre.

Soube que o 10 de junho é quando o presidente quiser. No dia 10 foi em Portalegre e, depois de atribuir 4 medalhas de ouro a outros tantos estandartes, na Cidade da Praia; e, no dia seguinte, em Mindelo, Cabo Verde, país que tem 21 mil emigrantes portugueses, onde apenas se julgava que, além de turistas, só havia 1, Dias Loureiro, o paradigma de empresário-modelo, assim designado pelo académico-padrão Passos Coelho.

No seu discurso, o PR nomeou portugueses ilustres espalhados pelo mundo. Dado que todos eram ex-governantes do PS, deixou, para compensar, ao presidente da comissão organizadora das comemorações, um truculento jornalista da área do PSD, a leitura de uma redação com a narrativa política de Passos Coelho.

Não se esperava do Dr. João Miguel Tavares a grandeza, a eloquência e a elegância de Sampaio da Nóvoa, num dia igual, nas mesmas funções, noutra cidade, e podia poupar-nos à biografia narcisista do lugar onde nasceu, viveu e cresceu, à árvore genealógica, ao número e nome dos filhos, às suas habilitações literárias, à vida e à vinda dos sogros, de Moçambique, distraído de Camões e das Comunidades Portuguesas.

Regressou aos incêndios de Pedrógão e usou o púlpito como extensão do seu espaço no jornal Público, onde, no dia seguinte, foi reproduzido em duas páginas, 10 e 11, para vazar o azedume, onde concluiu que «…quando se trata de refletir sobre o nosso papel enquanto cidadãos, parte de uma nação e de um tecido social e político comum, colocamos uma mola no nariz e dizemos que pouco temos a ver com isso porque os políticos não se recomendam.». O jornalista, na sua indigência, afrontou quem lhe fez o convite, um político com meio século de legítima militância, o PR.

Não foi um discurso comemorativo, foi um extenso arroto da flatulência fermentada na nostalgia salazarista, na memória do “nosso Ultramar infelizmente perdido” e na moral de que só a direita é portadora.

No dia 10 de Junho, o PR fez uma escolha infeliz, confiou o discurso do dia a quem só podia dar o que deu, da forma que sabia, transformando o feriado nacional no medíocre comício populista. Camões merecia melhor.

 

Ponte Europa / Sorumbático

 

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2019/06/o-11-de-junho-o-pr-e-o-dr-joao-miguel.html

A promoção da mediocridade

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«Os medíocres quando em rebanho são perigosos» José Ingenieros
Embora carregado de combustível, o facho está apagado, os ventos internos não estão de feição a lhe pegar fogo, manter o morrão e aguardar o momento que pretendem construir para o atiçar, manda a prudência.
Insidiosamente e, com aparente naturalidade, sempre que oportuno, é dada visibilidade à extrema-direita, conferindo-lhe a importância e as condições que lhe permita progredir, e ser aceite, sem que levante a curiosidade de se saber quem são os promotores do seu protagonismo.
O Presidente da República convidou o jornalista João Miguel Tavares para presidir às Comemorações do 10 de Junho.
Este cronista, político sombra, analista poucochinho, intelectual enfezado foi chamado à ribalta, sendo-lhe concedido o estatuto de algo e puxando-lhe lustro a um currículo embaçado.
A promoção da mediocridade é a fresta por onde se infiltram trumps, bolsonaros e seus irmãos, e, estas famílias, se não usarmos o raticida adequado, infestam a sociedade.
«O meu otimismo reside na certeza de que esta civilização se vai desmoronar. O meu pessimismo teme aquilo que ela ainda possa fazer para nos arrastar na sua queda… Que época terrível esta em que idiotas dirigem multidões de cegos…» William Shakespeare – século XVI

Ver o original em As palavras são armas (clique aqui)

O regresso ao Dia da Raça?

«O Portugal da Mini – um discurso salazarista em Portalegre»

Não resisto, e cito:
«... a arenga de JMT explorou os sentimentos mais baixos das turbas: a resignação, o servilismo hipócrita e a recusa de cada português assumir as suas responsabilidades. Populismo do mais reles. A demagogia do discurso assentou em dois pilares clássicos, já utilizados por Salazar na definição da sua família na capa do livro da 3ª Classe da Escola Primária: os portugueses querem uma vidazinha, uma casinha, os filhos educados, pão e vinho sobre a mesa, um emprego no Estado, uma semana no Algarve, referiu o tribuno, numa concessão pós-moderna. Mais, os portugueses devem abster-se de assumir responsabilidades políticas – a política é uma porca e os políticos uns malandros da pior espécie, disse ele por outras palavras. Só não esclareceu que somos nós, os portugueses, a escolhê-los e a elegê-los, porque isso nos responsabiliza e o discurso da JMT é o da irresponsabilidade. Se os portugueses soubessem o que custa mandar preferiam obedecer, já Salazar sentenciou. (...) O discurso deste 10 de Junho foi um discurso salazarista, com meio século de atraso, que podia ter sido proferido por um antigo graduado da Mocidade Portuguesa. Felizmente Portugal tem muito melhor que este JMT. Infelizmente são estes demagogos sem história que sobem às tribunas da opinião pública. Não é por acaso… e é perigoso…»
Carlos Matos Gomes, Militar de Abril, aqui
Sim, é perigoso e Marcelo sabe quem convida.

Ver original em 'Conversa Avinagrada' (aqui)

As crises existenciais do centro-direita

(Anselmo Crespo, in Diário de Notícias, 06/06/2019)

Anselmo Crespo

A crise do centro direita não é nem um mito nem um prognóstico. É uma realidade que nasceu muito lá atrás e que, não tendo ainda atingido o seu epílogo, pode estar muito próximo dele. Há quatro anos, António Costa não se limitou a “roubar” o poder ao PSD e o CDS. Roubou-lhes também a agenda e desatou a correr em direção à esquerda, enquanto o centro direita ficou a esvair-se em sangue. Até hoje.

 

Passos Coelho, que resistiu até às autárquicas com o discurso do diabo, acabou mesmo por chocar de frente com ele. Não foi para o inferno, mas acabou por ser atirado para uma espécie de purgatório político, de onde muitos – incluindo, quem sabe, o próprio – ainda esperam que, um dia, consiga sair.

Se Santana Lopes representava uma espécie de evolução na continuidade, Rui Rio era uma velha novidade que acabou por tornar-se na única esperança do PSD para recuperar um eleitorado que Passos Coelho e a troika tinham deitado borda fora, mas que o Partido Socialista, apesar de tudo, não tinha conseguido aproveitar até às legislativas de 2015. Mão de ferro, limpezas profundas, recentramento do partido, uma política para a classe média, sem nunca perder o foco no rigor das contas públicas, Rui Rio prometia ser tudo isto e, ao mesmo tempo, um político de carne e osso, que diz o que pensa e pensa tudo o que diz.

Há quatro anos, António Costa não se limitou a “roubar” o poder ao PSD e o CDS. Roubou-lhes também a agenda

Um ano e meio depois, o que sobra deste PSD? Para quem fala o partido? Que alternativa tem para o país? Quem é o eleitorado deste PSD? Entre crises internas, discussões estéreis e uma estratégia de oposição ziguezagueante e permanentemente equívoca, Rui Rio perdeu-se na tradução dos objetivos que delineou para o partido e para si próprio. Para lá de dois acordos que assinou com o governo – sobre fundos comunitários e descentralização -, todos os temas que tentou impor na agenda política nacional acabaram por implodir nas contradições internas, nos protagonistas que lhe deram voz ou no amadorismo da comunicação. Não sendo o único responsável pela situação do partido – longe disso – é, neste momento o principal. Por ser o presidente do PSD em funções, mas, sobretudo, porque Rio insiste em seguir em contramão achando que todos os que estão a vir contra ele é que estão errados e ele é que está certo.

O teste não será muito difícil de fazer. Basta encomendar um estudo de opinião e perguntar às pessoas: qual é a principal mensagem do PSD hoje em dia? O que distingue, neste momento, o PSD do PS? As conclusões, estou em crer, não serão muito animadoras para a liderança de Rui Rio.

Não por acaso, esta semana, na TSF, Manuela Ferreira Leite sentiu necessidade de sugerir ao centro direita uma nova abordagem de oposição ao Governo: o défice das contas públicas, que antes nos afetava por excesso e que agora, segundo a ex-ministra das finanças, nos afeta por defeito.

Um ano e meio depois, o que sobra deste PSD? Para quem fala o partido? Que alternativa tem para o país? Quem é o eleitorado deste PSD?

Do lado do CDS, a crise é proporcional à dimensão e às características do partido. Menos óbvia e sempre com o efeito de arrastamento do PSD, que é historicamente o motor do centro de direita em Portugal. Assunção Cristas confundiu ambição com realismo. Oposição com guerrilha. No processo, esqueceu-se que o eleitorado, apreciando um bom soundbyte de vez em quando, não é estúpido. E que a política também se faz de propostas concretas – prova disso é a mudança óbvia de estratégia depois do desaire das Europeias -, de bandeiras que as pessoas compreendam e, sobretudo, de coerência.

E este é outro dos fatores que ajuda a explicar a crise do centro direita. Aos olhos do eleitorado, o PSD e o CDS perderam legitimidade para criticar a elevada carga fiscal, a falta de investimento público, as cativações ou a obsessão pelo défice. Porque fizeram igual ou pior. Porque, enquanto houver um Novo Banco para pagar, dificilmente alguém se esquecerá de quem tomou a decisão. Não que esta leitura seja totalmente justa, porque não o é. Com todos os erros que foram cometidos – muitos deles assentes em preconceitos ideológicos -, PSD e CDS governaram num período de crise e de assistência financeira. Dito de outra forma, governaram um país falido. O problema é que a memória humana, às vezes, é curta. Outras vezes, é muito seletiva.

Quatro anos depois, o centro direita em Portugal não só continua amarrado a um dos períodos mais negros da vida do país – mesmo havendo outros responsáveis -, como não teve a capacidade de se reinventar, no conteúdo e na forma. É por isso que Marcelo Rebelo de Sousa tem razão quando antecipa uma crise, ainda que o tenha feito com uma ligeireza pouco própria de um Presidente da República.

O eleitorado do centro direita não desapareceu, só decidiu não comparecer. Está distante, confuso e, claramente, à espera que o PSD, o CDS ou outro partido qualquer lhe ofereçam uma visão para o país. Para já, o PS continua virado para a esquerda. Mas, um dia, talvez mais cedo que tarde, António Costa regressará para tentar reconquistar o centro de que abdicou nos últimos quatro anos. Porque é aí que pode estar a chave para a maioria absoluta.


 

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

O Portugal da Mini – um discurso salazarista em Portalegre

Tinha curiosidade no discurso de João Miguel Tavares, presidente das comemorações do 10 de Junho de 2019. Tinha vontade, mais do que esperança, de ser surpreendido. Em várias ocasiões da minha já longa vida vi pessoas vulgares superarem-se quando colocadas em situações difíceis. Serem mais do que eles.

Na minha geração e como símbolo do que quero expor, o Fernando Salgueiro Maia, que se transformou diante dos nossos olhos no Terreiro do Paço e no Largo Carmo no “homem do leme” do poema de um génio, Fernando Pessoa, que enfrentou o Mostrengo. O 10 de Junho tem como patrono um génio que escreveu uma epopeia dos portugueses.

O discurso de João Miguel Tavares correspondeu ao que esperava dele, em vez de génio e grandeza, ele exaltou o português da mini do snack bar da cidade, aquele português que sucedeu sem percalços ao português de Salazar do copo de três na tasca da aldeia. O mesmo português do respeitinho, servil, de chapéu na mão, um tanto alarve.

O Portugal e o portugueses do discurso de JMT foram os glosados por Alexandre O’Nill no poema «Portugal», os da:

desancada varina,
(d)o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
(d)a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!  

 

João Miguel Tavares proferiu uma arenga retirada da letra do fado Uma Casa Portuguesa:

Numa casa portuguesa fica bem pão e vinho sobre a mesa.

A alegria da pobreza está nesta grande riqueza de dar, e ficar contente. Quatro paredes caiadas, um cheirinho a alecrim, um cacho de uvas doiradas, duas rosas num jardim, um São José de azulejo…

 

A Amália Rodrigues tinha muito melhor voz do que João Miguel Tavares na saga familiar, respeitável é claro, que entoou com voz fúnebre na descrição feita na sua terra natal do seu percurso. A do jovem filho de funcionários numa cidade do interior que chega onde ele chegou. Só deve existir vergonha na pobreza de espírito, digo eu. Que foi a que ele exibiu, para contrapor ao Camões.

Acontece que a arenga de JMT explorou os sentimentos mais baixos das turbas: a resignação, o servilismo hipócrita e a recusa de cada português assumir as suas responsabilidades. Populismo do mais reles. A demagogia do discurso assentou em dois pilares clássicos, já utilizados por Salazar na definição da sua família na capa do livro da 3ª Classe da Escola Primária: os portugueses querem uma vidazinha, uma casinha,  os filhos educados, pão e vinho sobre a mesa, um emprego no Estado, uma semana no Algarve, referiu o tribuno, numa concessão pós-moderna. Mais, os portugueses devem abster-se de assumir responsabilidades políticas – a política é uma porca e os políticos uns malandros da pior espécie, disse ele por outras palavras. Só não esclareceu que somos nós, os portugueses, a escolhê-los e a elegê-los, porque isso nos responsabiliza e o discurso da JMT é o da irresponsabilidade. Se os portugueses soubessem o que custa mandar preferiam obedecer, já Salazar sentenciou.

João Miguel Tavares lembrou que é o primeiro presidente das comemorações do 10 de Junho nascido na liberdade do pós-25 de Abril. Referiu que frequentou a escola primária pública, o liceu público e a universidade pública. Pelo seu discurso se conclui que o ensino, de qualquer natureza, não altera a natureza. Não fornece nem carácter, nem coragem. O ensino não dá grandeza a quem a não tem.

No Portugal de Salazar o vinho dava de comer a um milhão de Portugueses. No Portugal apresentado por João Miguel Tavares, são as mini que alimentam os seus portugueses e umas maledicências com tremoços.

Quer isto dizer que alguns temas da letra do fado que João Miguel Tavares proferiu em Portalegre, da corrupção à irresponsabilidade, não são candentes e não devem ser enfrentadas e punidas? Não, em absoluto. Quer apenas dizer que neste dia, ainda mais do que nos outros, devemos apelar ao que melhor temos, aos nossos melhores, que devemos ser individualmente mais exigentes em vez de nos lamuriarmos e de clamarmos por salvadores que nos conduzam como um rebanho. Nem uma palavra sobre o que julgo ser grande problema da democracia portuguesa: o sistema judicial em roda livre e coberto de privilégios.

O discurso deste 10 de Junho foi um discurso salazarista, com meio século de atraso, que podia ter sido proferido por um antigo graduado da Mocidade Portuguesa. Felizmente Portugal tem muito melhor que este JMT. Infelizmente são estes demagogos sem história que sobem às tribunas da opinião pública. Não é por acaso… e é perigoso…


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/o-portugal-da-mini-um-discurso-salazarista-em-portalegre/

Como se fala com esta gente?

Acabei de ver o sr. Rio, de meticulosa educação na Escola Alemã, a dizer que o PS é uma abertura para a extrema-esquerda!!! O quê? o sr. não sabe que tem sido através dos séculos com guerras, opressões, escravaturas e humilhações sem fim, que surgem revoltas e Revoluções?

 

E começaram a ladrar contra o marxismo. O Marx só fez uma explicação científica da secular exploração do homem pelo homem. Nenhum explorado precisa de ler o Marx… a propósito, o Samora até dizia que tinha nascido com o Marx.

E Bolsonaro, Trump e a cáfila de lacaios Europeus desatam a atacar o conhecimento, a Ciência (excepto armas e venenos para matar, claro!)… era bom ser tudo analfabetos, não era? chicote, bairro da lata, drogas para acalmar, puxar à desgraça, ao suicídio… Miseráveis cobardolas.

E atacam a corrupção! A sério? porque é que nunca ouvimos essa gente a atacar os banqueiros corruptos? É gente fina, até parece mal dizer que são ladrões. Ouvi a palavra roubar com muita insistência dirigida a este Governo, mas nunca para quem fez o mal e a caramunha com o nosso país.

E matar jornalistas virou moda, urbi et orbe… começaram pelo desemprego, pela “prateleira”, desemprego, e quem insiste tem a bala à espera.

Estamos em eleições para a Europa.

O que me incomoda é não se querer ver o “inimigo principal”.

Alguém tem alguma dúvida que o grande plano do Imperialismo Americano é destruir a Europa? que o grande ódio é ter aparecido o Euro com mais força que o dólar? que o plano sistemático é criar divisões entre todos nós?

Agora, até já começaram a atacar o Papa Francisco! Pois, estão com saudades do Pio XII e do João Paulo II que encheu o Sollidarnosc com sacos de dólares dados pela Mafia italiana!

Talvez um dia se façam estas contas.


Ver original em 'O TORNADO' na seguinte ligação:

https://www.jornaltornado.pt/como-se-fala-com-esta-gente/

Silêncios interesseiros

Filme: "Este país não é para velhos", Cohen
Se há uma coisa boa que teve a anunciada "crise" governamental foi ter gerado o silêncio de Marcelo. Marcelo diz que esteve mais de uma semana calado porque "tudo o que dissesse limitava a liberdade". A sua liberdade de decisão quanto ao eventual diploma sobre o tempo de serviço dos professores. Na verdade, Marcelo esteve fortemente envolvido no tema da "crise" quando - fruto do seu destempero e hiper-actividade inconstitucional, que o faz sentir-se invulnerável - pressionou o governo a negociar mais com os sindicatos. E quando a "crise" rebentou, atingiu-o em cheio no peito. Por isso, Marcelo quis ficar quieto, fingindo-se morto, antes que tudo lhe caísse em cima, como caiu em cima de Rui Rio e de Assunção Cristas. Cristas falou e perdeu. Rui Rio tentou o silêncio, mas não conseguiu. Marcelo hibernou e a coisa passou. Agora, com o tema do SIRESP e sobre a possibilidade de nacionalização ou de aquisição por parte do Estado de posição majoritária no seu capital, Marcelo mantém-se igualmente calado. E diz que não fala por ser... um processo em curso e sensível. Na verdade, trata-se de um tema que lhe é caro - os incêndios - e sobre o qual Marcelo interveio tanto e tão repetidamente... Mas há bem pouco tempo, Marcelo fartou-se de intervir - e mal! - sobre a Lei de Bases da Saúde e, esse também, era "um processo em curso e sensível". Noutro tema - sobre a contratação pública de familiares - até interveio raiando a inconstitucionalidade, quando quis propor leis ao governo sobre o seu gabinete! Qual é o critério?  Eis a resposta dada por Marcelo Rebelo de Sousa:
“Quem intervém muitas vezes, não intervém por uma mania, por um estilo, por uma obsessão. Intervém por uma necessidade, e quando entende que a necessidade impõe estar calado uma semana, duas semanas, três semanas, tão depressa está calado como fala todos os dias”,explicou o chefe de Estado. E num ano marcado por três eleições Marcelo Rebelo de Sousa avisa: “Os portugueses têm de se habituar”porque o silêncio “pode repetir-se”.
Pois claro que pode! Agora só falta esclarecer qual foi a "necessidade" de intervir tantas vezes sobre a Lei de Bases da Saúde e a "necessidade"de nada dizer sobre SIRESP ou sobre os múltiplos casos laborais que lhe batem à porta e aos quais Marcelo se esquiva a dizer uma palavra. E qual a "necessidade"de, ao mesmo tempo, lhe ser tão fácil telefonar às apresentadoras Cristina Ferreira e Fátima Lopes, se não será mais esta faceta populista de um Presidente que condena os populismos... Resta a esperança de que Marcelo tenha retirado a ilação "necessária": a sua intervenção não deve entroncar na estratégia política de certas formações e interesses. E muito menos ter um papel inconstitucional de intervir no sentido de alterar os "processos em curso" de elaboração das leis. Nem que seja porque há momentos em que o podem matar politicamente.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

És populista e não sabias?



Os novos liberais gostam de frases ousadas, que dêem visibilidade. Depois de já ter afirmado, num rasgo de notável perspicácia, que "somos todos privados", Carlos Guimarães Pinto e a recentemente formada Iniciativa Liberal continuam a surpreender e a apresentar conclusões inovadoras. A estratégia de partido pequeno apostado na afirmação pela irreverência é facilmente percetível e dificilmente digna de nota, mas o último "argumento" apresentado pela IL merece a nossa atenção por uns minutos.


Desta vez, a conclusão é a seguinte: quanto mais liberal um país, maior o aumento salarial. Na sua conta do Twitter, os liberais começam por notar que "Portugal foi um dos países da União Europeia em que os salários aumentaram menos nos últimos 20 anos." Certo. A novidade está no diagnóstico. O peso de fatores estruturais como a capacidade produtiva, o perfil das indústrias e serviços dos países, a capacidade negocial dos trabalhadores, os governos e as políticas de cada país, e até mesmo os diferentes pontos de partida de há 20 anos são meros pormenores. Na sua análise, com a confiança de quem passou 5 minutos a ler a página da Wikipedia sobre economia, os liberais usam um indicador opaco de liberdade económica e concluem que “o socialismo limita a qualidade de vida dos trabalhadores”, é que “os dados comprovam-no”, e contra dados não há argumentos, não é assim?

Pois bem, a estratégia é engraçada mas tem perna curta - desde logo porque somos levados a perguntar de quem é a culpa afinal. Do "socialismo", claro, mas não houve "socialismo" em Portugal nos últimos 20 anos. Houve, sim, um aprofundar da integração europeia sob princípios de liberais de desregulação laboral e redução do peso do Estado na economia. O caso fica confuso - o que "comprovam" afinal "os dados"?


Mas há um segundo problema. É que dados há muitos, e alguém, certamente mal intencionado, pode ser levado a tentar o truque com outros. Em jeito de exemplo, aqui fica um dado inovador à atenção dos nossos liberais, capaz de mudar a forma como pensamos o combate às alterações climáticas: quanto menos piratas, mais aquecimento global. Pode parecer estranho, mas como contrariar, se os dados o “comprovam”? Será preciso recuperar a pilhagem de navios para cumprir o Acordo de Paris?

A polémica pode ser divertida mas tem um senão, é que convém estar minimamente preparado.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Paulo Mota Pinto (PMP) – sindicalista e revolucionário

Se há um paradigma de oportunismo político, Paulo Mota Pinto é um exemplo quase perfeito.

Após a promiscuidade dos serviços secretos com a Ongoing, protagonizada por Silva Carvalho, a AR, impedida de averiguar, ao abrigo do segredo de Estado, no dia 20 de junho de 2014, o plenário votou, de manhã, a lei que coíbe fortemente o trânsito direto de agentes dos serviços de informação para o sector privado, com o voto do deputado do PSD, Paulo Mota Pinto. 

Na tarde desse dia, o ex-conselheiro do TC e deputado do PSD, aceitou tornar-se CEO do BES, sendo presidente do Conselho de Fiscalização do Sistema de Informações da República Portuguesa (CFSIRP). A queda em desgraça de Ricardo Salgado impediu-o de disfrutar a avença e iniciar-se na banca. Perdeu uma «pipa de massa», na pitoresca expressão de outra referência ética, especialista em armas químicas, Durão Barroso.

Como se nada tivesse acontecido, o homem de confiança de Proença de Carvalho e de Ricardo Salgado, voltou às funções que, em boa verdade, não abandonou. Ao presidente do CFSIRP bastou-lhe «cancelar o cancelamento das atividades». O aspirante a banqueiro, «cancelando todas as atividades no âmbito destas funções», considerava-se sem problemas de consciência. Confrontado pela Lusa, PMP tinha afirmado que, «nesse caso [e só nesse], renunciará aos cargos de deputado e de fiscalizador das secretas».
Fui repescar estes factos, ao ver o político destacado do PSD a defender, de forma calorosa, os sindicatos de geração espontânea.

PMP, sob o título “O medo das greves livres”, no artigo semanal no JN de 25 de abril deste ano, surpreendeu com a calorosa defesa dos sindicatos alheios à influência partidária, e a satisfação pela maior capacidade reivindicativa, numa alusão clara à greve cirúrgica dos enfermeiros e à do Sindicato Nacional de Motoristas de Matérias Perigosas.

Quem diria que os trabalhadores têm no académico e político o paladino dos seus interesses de classe!?

É eloquente esta frase de PMP: «O medo da greve e do movimento sindical livre não é, na realidade, mais do que o medo de perda do poder sobre os interesses dos trabalhadores, e da possibilidade de os instrumentalizar para os seus próprios fins políticos e partidários».

Com oito arrobas de ética e fervor revolucionário, o passado do apoiante não garante o futuro da coerência solidária com a classe operária. Parece mais um colete amarelo XXXL.

No dia de ontem, PMP foi a melhor metáfora da Direita.

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2019/05/paulo-mota-pinto-pmp-sindicalista-e.html

Pela VOX do CDS

Miguel Guedes | Jornal de Notícia | opinião

O episódio folclórico da passadeira arco-íris na Avenida Almirante Reis, em Lisboa, é sintomático. O que os representantes do CDS de Arroios conseguiram fazer aprovar por unanimidade na Assembleia de Freguesia foi unanimemente destruído por esta nova versão espanholada "à lá VOX" do CDS.

Para homenagear a comunidade LGBTI no dia 17 de Maio (foi este o dia, em 1990, que a Organização Mundial de Saúde retirou a homossexualidade da Classificação Internacional de Doenças), nada melhor então do que retirar os esqueletos do armário. A doença do extremismo populista está à solta e o CDS procura arrumar-se à Direita, deixando o conservadorismo na gaveta, para soltar o Nuno Melo que tem em si. Cai assim por terra o pequeno percurso progressista de Assunção Cristas, caminho tão mal-amado no partido que nem precisou de perder eleições internas para perder terreno na liderança.

À medida que esbranquiça passadeiras para todos, recusando o simbolismo folclórico de uma passadeira colorida mas ilegal face às regras do trânsito interno do partido, os barões assinalados do CDS juntam-se aos sectores VOX para reclamar aquilo a que têm direito: o direito à convivência e à mudança de rumo. O partido que permite que a "Tendência Esperança em Movimento" evolua internamente com um líder, Abel Matos Santos, que defende que o 25 de Abril comemora "a liberdade de abortar, de mudar de sexo de manhã e à tarde", saudoso do tempo de Salazar em que "Portugal era um país a sério e governado por gente a sério", psicólogo clínico que considera que os homossexuais "têm mais doenças e sofrem mais", não pode queixar-se, um dia que não virá longínquo, de que a tendência vire poder ou cresça o suficiente para cindir com o partido para se autonomizar. Criar um monstro. Foi assim que o VOX espanhol surgiu, pela mão das pessoas às quais o PP espanhol deu guarida em nome da "velha" Espanha de cinzas. Nuno Melo, ao recusar o rótulo de extrema-direita ao VOX, sabe bem no que o CDS se está a tornar ou está a permitir criar. Estranho é que o CDS de Cristas vá atrás.


Como uma VOX colorida entre as mãos de uma criança, este CDS lava mais branco. Quando o próprio PP espanhol acusa o VOX de extremismo à Direita, é quase cândido ver como Nuno Melo defende a família, secundado por todo o partido (mesmo as correntes mais liberais do CDS...), ao não considerar de extrema-direita um partido racista e xenófobo, ultranacionalista, que pretende acabar com a lei de violência de género, liberalizar o porte e uso de armas, implodir as autonomias, perseguir imigrantes, construir muros "intransponíveis", ilegalizar partidos e organizações independentistas e fazer tábua rasa da Constituição espanhola. Este é o "novo" CDS, o carro-vassoura da democracia-cristã que deixa os "bastas e chegas" partirem primeiro para varrer o caminho.

*Músico e jurista

O autor escreve segundo a antiga ortografia

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/05/pela-vox-do-cds.html

Tricas menores, mas a que convém estar atento!

Esta comemoração da Revolução de Abril trouxe duas tricas, que não valem mais do que isso! , embora denunciem a persistente tentativa de retrocesso por quem a rejeitam.

 

A primeira teve a ver com o convite endereçado pelos organizadores do Fórum Jurídico de Lisboa a um ministro brasileiro, tristemente mediatizado pelo inequívoco comportamento fascista. Em vésperas da data mais querida dos portugueses por lhes constituir sinonimo de Democracia, de Liberdade, essa presença só pode ser lida como indesculpável provocação. E o biltre comportou-se como decerto pretendiam quem o trouxe à festança.

 

Foi lamentável que só José Sócrates tenha reagido, demonstrando ser filho de boa gente, e pior ainda, que Augusto Santos Silva se tenha sentado e deixado fotografar ao lado do biltre. Por muitas razões diplomáticas, que possa alegar em defesa do gesto, não pode ignorar o quanto ele indignou uma significativa maioria de portugueses para quem essa imagem constitui inesquecível agravo. Após ter secundado uma parte da União Europeia no reconhecimento da marioneta de Trump como presidente de um país, que tem um outro legitimado pelo voto do seu povo, pode-se considerar que o ministro dos Negócios Estrangeiros já conheceu melhores dias.

 

Os noticiários não contemplam apenas esse motivo de sobressalto. Também contam que os fascistoides lusos, mascarados com coletes amarelos - porque não lhes sobra esperteza para criarem outras simbologias, que não as imitadas além-Pirenéus -, irão «manifestar-se» esta tarde no Terreiro do Paço, voltando a agitar o papão dos cem mil aderentes que dizem ter nas redes sociais. É claro que repetirão o flop de semanas atrás, quando arregimentaram à sua volta mais jornalistas do que quantos latiam. Mas essa gente repelente continua a fazer trabalho de sapa para vir a ser reconhecida como incómoda, garantindo o tal quarto de hora de notoriedade a que se julgam com direito.

 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/04/tricas-menores-mas-que-convem-estar.html

Se o ridículo matasse...

Perante a reportagem fotográfica de Paulo Cunha para a Lusa podem-se colocar duas questões, para além da reação imediata que nos suscita: se o ridículo matasse, Assunção Cristas, Nuno Melo, e quantos se lhes associaram na apanha das couves, já estariam em câmara ardente à espera das devidas pompas públicas.

 

O ridículo não comporta, porém, essa potencialidade letal, que nos pouparia a novas demonstrações de tão primário populismo. Dediquemo-nos, por isso, às perguntas óbvias: será que os dirigentes do CDS acreditam que haja muitos eleitores a deixarem-se embalar por essa súbita conversão às competências campesinas? Ou será que nós, sofisticados citadinos, olhamos para a bizarra reportagem e não a imaginamos quanto possa, efetivamente, embalar uns quantos ingénuos dispostos a afiançarem a sinceridade de quem não se coíbe de utilizar as mais desonestas manobras de marketing político?

 

Otimista na vontade, espero que a grande maioria dos que irão votar daqui a um mês olhem para essas fotografias e se indignem com o oportunismo de Cristas & Cª. Mas, algumas vezes tenho de me reconhecer pessimista na razão, e constatar que não falta quem acredite no que julgaríamos totalmente estapafúrdio...

 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/04/se-o-ridiculo-matasse.html

Quem quer casar com o agricultor?

(Por Estátua de Sal, 23/04/2019)

Melo, Cristas e Soares

Em tempos idos os fenómenos mais marcantes e inéditos no país estavam, por estranha tradição, associados ao Entroncamento. Agora parece que passaram para a Golegã.

O CDS, comandado pela azougada Dra. Cristas, foi apanhar couves à Golegã. Assim, acompanhada por Nuno Melo e Pedro Mota Soares, também conhecido pelo “ministro lambreta”, decidiram participar no projeto “Restolho“, da Associação de Agricultores AGROMAIS, que consiste na apanha de couves para o Banco Alimentar de Abrantes.

 

As razões de tão insólita acção de rua prendem-se necessariamente com as eleições europeias que, segundo a última sondagem da Aximage, não irão ser nada auspiciosas para o CDS e para a Dra. Assunção ainda que, segundo ela, irá lutar nas eleições de Outubro para ser Primeira-Ministra.

De facto, os votos que Marinho Pinto angariou nas europeias de 2015 (7%) vão ser avidamente disputados pelo PSD e pelo CDS, e nada melhor do que recorrer à apanha da couve, para tentar captar esses votos do MPT, o partido da Terra. Ora, como se tratam de eleições europeias, a Dra. Assunção só falhou o alvo quanto ao tipo de couve porque, em vez da colheita de couve lombarda, deveria ter optado pela apanha de couves de Bruxelas. Sempre era mais condizente.

Há que dizer que os políticos em campanha eleitoral resvalam muitas vezes para situações de extremo ridículo. Mas esta direita do CDS bate todos os outros aos pontos e cada vez nos surpreende mais com estas acções dignas de figurar no anedotário nacional. Acham eles que os portugueses são tão estúpidos e atrasados mentais que consideram que apanhar meia dúzia de couves em frente às televisões, transforma qualquer mortal num agricultor encartado e merecedor de empatia profissional, e quiçá, de ser merecedor de escolha nas urnas.

A Dra. Assunção sempre teve queda para as “causas agrícolas”, queda que herdou do seu patrono e mentor Paulo Portas. Ainda a haveremos de ver com o boné e com o capote alentejano que o dito patrono costumava usar para se passear em campanha eleitoral por feiras, mercados e romarias.

Mas mais ainda. Como o CDS está, para já, divorciado do PSD de Rui Rio e vai a votos sozinho para mostrar o que vale, a Dra. Assunção está livre e prendada para casar com quem se chegue à frente e a queira levar ao altar.

Com este tirocínio da apanha da couve, a Dra. Assunção mostrou os seus predicados de mulher da lavoura e alertou todos os jovens agricultores casadouros para o facto de não se assustar com as duras exigências dos trabalhos do campo.

Por isso, ó jovens agricultores, quando forem ao programa da SIC, não escolham qualquer uma e protestem, junto da produção, por só vos confrontar com candidatas de fraco curriculum.Mandem vir a Dra. Assunção que já tem provas dadas em todas as artes agrícolas, desde a apanha da couve até à pasta ministerial da actividade. É garantido que melhor esposa não podem ambicionar. 🙂


 

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Até amanhã de manhã à hora do pequeno-almoço

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A evolução da vida política está ir de mãos dadas com a indústria de entretenimento. Mede-se pelo impacte mediático. O que se passa é o que acontece nos media. O resto é o interior; só existe em tempo de incêndios.
Os cidadãos habituaram-se à preguiça cívica. Não procuram o presente, nem o futuro. Assistem ao que lhes é apresentado. A escolha é entre o canal que “dá” as notícias. E absorvem até à cegueira.
De repente surge uma greve caída do céu ou à medida pascal. Implantam-se os piquetes das televisões em tudo quanto cheire a combustível.
Sai do altar do CDS a santa Cristas. “Pesarosa” e dotada de uma autoridade resultante dos quatro anos a empobrecer a esmagadora maioria dos portugueses e a tornar ainda mais rica a minoria bem minoritária a quem ela, e o governo de que fez parte, deu milhares de milhões.
Apareceu vestida de negro nas palavras aladas no vento do veneno – dou até amanhã de manhã ao senhor Primeiro-Ministro para resolver o caos criado.
Amanhã de manhã, provavelmente antes do pequeno-almoço. Houve um período que era tudo “já”, há quarenta e cinco anos.
O CDS é isto: dar-se ares de mandar. As televisões aproveitam, precisam de oxigénio e Cristas segue a fazer de conta. Só que por vezes a diferença entre a mensagem e o mensageiro é tão gritante que a mensagem cai no ridículo.
Os camionistas pertencem ao setor privado que a direita arenga que não faz greves, ou melhor, só as faz quando sabem que amanhã de manhã tem de estar resolvida.
Outro fenómeno extraordinário de sucesso em matéria de celebridade mora em Belém, no palácio. Vogou em todos os canais ao longo de anos a dar notas e o luso reino lorpa a assistir às reprovações. Sempre sabe bem saborear o mal dos outros. Além do mais eram coisas do Celito.
Ele é como é. É o que ele diz. Mas não é. É consoante as nuvens. Se vê que uma selfie vem a calhar tira-a, nem que seja com alguém que deixa muito a desejar em termos de inserção social. Ele não pergunta pelo registo criminal… diz.
Se dá jeito uma viagem de camião embarca. Se quer ser apanhado a dar mergulhos ele arranja a surpresa e os basbaques embasbacam.
Se o seu amigo João Lourenço lhe organiza um programa de arromba, ele apanha as canas e faz de Celito. É o que se queira.
Se acha que o governo tem de resolver o conflito dos camionistas, mesmo que o conflito seja entre privados, ele faz um escarcéu que se ouve em todo o lado. É a solidariedade institucional; se o governo está mal, deixa que ele ajuda a ficar pior; se estivesse bem, ele é que sabia do otimismo do Costa…
O que nos vale é que o de Belém é mais largo em prazos que a santinha da rua da Madalena. Viva a Páscoa

Ver original em ' O Chocalho' na seguinte ligação:

https://ochocalho.com/2019/04/22/ate-amanha-de-manha-a-hora-do-pequeno-almoco/

Sindicalismo

Os motoristas de matérias perigosas criaram um sindicato que fez uma greve com um presidente alheio à profissão e o vice-presidente advogado e patrão.

Não usaram um direito, juntaram exigências legítimas, chantagem e terrorismo de extrema-direita.

Não há nada melhor para criar inimigos aos trabalhadores do que a violência que os patrões aplaudem e incitam, com um sombrio “sindicalista” a dirigir a greve.

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2019/04/sindicalismo.html

Trabalhar até aos 80 anos, ou o conto do vigário

(Francisco Louçã, in Expresso, 19/04/2019)

Mais uma “cavacada”

 

Houve quem notasse que o recente estudo sobre a Segurança Social, patrocinado pela Fundação Manuel dos Santos, tem um mensageiro que é o retrato do problema: a Jerónimo Martins é campeã de salários baixos (exceto ao seu presidente, que em cada mês ganha dez anos de salário médio da empresa), mas o relatório regista o risco de falta de receitas contributivas no futuro. Notar essa contradição não basta, no entanto, para tratar do problema, pois há mesmo um problema. Como todos os estudos verificam, há um risco demográfico: se as migrações não compensarem a redução da natalidade, e era necessário que o fizessem, o aumento da esperança média de vida vai alterando o equilíbrio geracional que ainda permite superavit na Segurança Social portuguesa.

Há um problema, mas as soluções podem ir por caminhos diferentes. Assim, os autores do estudo não podem ficar ofendidos por ser notado que as suas soluções, aumentar a idade da reforma para os 69 anos, baixar o valor das pensões ou entregar parte do pecúlio aos fundos privados, segundo o modelo sueco, seguem a cartilha liberal: ou se trabalha mais, ou se recebe menos, ou se joga a pensão no casino. E isto só tem dado maus resultados. Entretanto, Cavaco Silva veio radicalizar uma destas ideias, sugerindo que se poderia chegar no futuro a trabalhar até aos 80 anos. O curioso é que este gosto pelo abismo está a ser apresentado como uma “reforma da segurança social”, excluindo aliás a alternativa óbvia que seria determinar novas formas de financiamento.

ATÉ AOS 80 ANOS, DISSE?

Depois da revolução industrial do início do século XIX trabalhava-se nos países europeus desde os seis ou oito anos, durante dez a 14 horas por dia e até morrer. Em 1870 continuava-se a trabalhar até morrer mas com limite de horário: em França um trabalhador faria 3430 horas por ano, na Bélgica 3754, em Itália 3290. No início do nosso século, no ano 2000, em França já só se trabalhava 1644 horas, em Itália 1840 e na Bélgica 1770. No nosso tempo o horário de trabalho reduziu-se para metade, não se começa a trabalhar antes dos 16 anos e há direito à pensão de velhice. Ou seja, acompanhamos o aumento da esperança de vida reduzindo o tempo de trabalho, mesmo que haja desigualdades nesse processo: trabalhamos hoje em Portugal em média 1722 horas por ano mas na Alemanha ficam-se pelos 1356. Em todo o caso, por toda a Europa reduzimos o peso do trabalho, entrando mais tarde e reformando-nos antes de morrermos, e diminuindo o horário enquanto somos ativos.

A introdução da idade da reforma foi também uma das formas de limitar o tempo total de trabalho. É verdade que, quando foi estabelecida a regra dos 65 anos, era na presunção cínica de que pouca gente viveria depois dessa idade. Mas criou-se um direito que foi ampliado pelo sucesso do prolongamento da esperança média de vida.

A ideia espantosa de aumentar a idade da reforma para os 69 ou para os 80 anos procura reverter essa conquista civilizacional e impor o reconhecimento de que devemos trabalhar mais para viver menos tempo com uma pensão menor.

A BOLSA OU A VIDA

Ora, para empreender esta cruzada contra o progresso civilizacional é preciso algo mais do que topete, é necessário um interesse forte. Aumentar o tempo de trabalho e reduzir os salários reais, usando uma mistura de medidas de congelamento salarial (dez anos na função pública em Portugal), de redução do pagamento por horas extraordinárias e férias, de aumento dos ritmos de trabalho e de uberização e precarização, tornaram-se o mantra da gestão moderna. Esse é o interesse das empresas na gestão da produção. Mas há ainda outro interesse nesta luta civilizacional e é maior.

Esqueçam então a idade da reforma, aumentará em doses discretas para não perturbar as eleições, partindo aliás de normas diferenciadas: é de 60 anos na Coreia do Sul, 61 na Suécia, 65 no Reino Unido, 65 anos e 7 meses na Alemanha, 67 anos na Itália, a caminho dos 67 em Portugal. No entanto, nenhum aumento da idade da reforma resolve o que está em causa na Segurança Social.

O facto é que os 69 ou os 80 anos são espantalhos para assustar. Aqui é que bate o ponto: os sistemas serão adaptados a bem (com novos financiamentos) ou a mal (aumento da idade da reforma e redução das pensões). Mas ao sistema financeiro só interessa mesmo o dinheirinho: como a garantia das suas rendas elevadas exige sempre a ampliação da acumulação, precisa de captar os descontos dos trabalhadores, que são o maior ativo financeiro do mundo que ainda lhe escapa parcialmente. Entregar esses valores aos fundos financeiros é um objetivo que fará girar o mundo e, para tanto, é preciso criar o pânico. A única proposta que nos põem em cima da mesa é então esta: a bolsa ou a vida.


A sinistra ideologia de género

Intrigado com essa sinistra conspiração que corre por aí como “ideologia de género” e não tendo à mão os livros de Dan Brown ou outra literatura sobre maçonaria, carbonária, Opus Dei e o Clube de Bilderberg, que certamente me industriariam sobre o caso, não tive outro remédio que não consultar a imprensa acerca do mistério. Ora, a semana passada invadiu-me a pacatez com duas provas fulgurantes sobre o que seria tal conspiração, que não hesito em partilhar com os leitores, que sei que são gente desconfiada e mesmo cética, mas que cederão pela certa perante a força da evidência.

A primeira veio por via de um causídico afamado, Pedro Proença, que já teve lugar de destaque na Ordem e na candidatura autárquica do PSD nas Avenidas Novas, em Lisboa, tendo sido depois alcandorado a comentador num programa desportivo, “Prolongamento”, e a frequentador de uma “A Tarde é Sua”, numa televisão. Pois o dito advogado terá vertido em requerimento a doutrina da tal “ideologia de género”, explicando que se devia evitar juíza mulher dado o seu género ser dado a erros e perturbações. Casos raros, explicou, “muitíssimo” raros e excecionais, mas casos existem em que só homem pode julgar: “Os autos incluem-se na percentagem muitíssimo marginal e excecional dos processos em que é humanamente impossível a uma juíza mulher e mãe ser tão imparcial quanto um juiz homem”. Venha homem, que mulher não serve, peticionou ao digníssimo tribunal. Foi um pandemónio, houve mulheres e até homens que acharam que essa ideia de o sexo poder perturbar a capacidade de aplicar a lei era algo esdrúxula, a TVI acabou com a participação do cavalheiro nos dois programas e ele sentiu-se ofendido. Explicou mesmo que “pautei a minha participação semanal na antena daquela estação pela defesa intransigente dos direitos de cidadania, igualdade de géneros, tendo, com risco próprio e de forma frontal, denunciado centenas de situações em que os direitos dos cidadãos foram colocados em causa, sendo dos comentadores que mais casos de violência doméstica denunciaram”. Ele, “com risco próprio e de forma frontal”, denunciando centenas de casos, mostrou que se preocupava com as mulheres vítimas, mas que há os tais casos em que tem de ser juiz homem, lá isso há. “Ideologia de género” em estado puro, só homem pode ter determinadas responsabilidades, a elas falta-lhes o discernimento para serem “imparciais”.

O segundo acesso de “ideologite de género” veio de esfera mais elevada. Foi pela mão de Ratzinger, ou Bento XVI, Papa-emérito, que foi publicado um artigo sobre “A Igreja e os abusos sexuais”. Diz o prelado que nos anos 1960, e no tempo do Concílio do Vaticano II, os “padrões vinculados à sexualidade colapsaram completamente” na sociedade, tendo como consequência que “grupos homossexuais” se instalaram em “vários seminários”. A tese é que a pedofilia estaria a ser incentivada por este caos sexual, vá-se lá saber porquê, dado que a Igreja Católica impõe o celibato e a assexualidade aos seus dignitários. Mas há aqui uma conspirativa “ideologia de género”, bem se nota, pois estes insinuantes “grupos de homossexuais” estavam destinados a trazer o mal-estar à sua instituição. Ratzinger, que raramente tem quebrado o silêncio, achou que a causa merecia lembrar que a sua Congregação para a Doutrina da Fé, que um dia foi pelo nome de Inquisição, é que devia julgar estes casos, sempre no recato da Igreja.

Aqui têm. Como se vê, a “ideologia de género” instalou-se, seja para explicar que há solenidades que só cabem aos homens seja para lembrar que o pecado está por todo o lado.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Os desígnios que as nossas direitas porfiam em cumprir

Privatizar a Segurança Social. Privatizar o que resta do sistema bancário (CGD). Mesmo escondendo tanto quanto possível essas intenções as nossas direitas não parecem ter imaginação para mais. Mas seria possível orientarem-se noutras direções? Este texto mostra porque a resposta a essa pergunta é um rotundo não!
Se há elogio, que se deva fazer às direitas é a de não perderem coerência. Pode-as liderar um radical adepto do neoliberalismo mais selvagem como o era, e é!, Passos Coelho, um conservador meio saloio como Rui Rio, ou uma oportunista como Cristas capaz de dizer uma coisa e o seu contrário conforme sinta a direção dos ventos. Os objetivos são e serão sempre os mesmos: obsequiarem os grandes interesses privados de quem são meras marionetas.

 

O debate parlamentar de ontem - onde António Costa prosseguiu o seu habitualveni, vidi, vici! - demonstrou, a quem ainda pudesse ter alguma dúvida, como se mantém constante a agenda relativa à Segurança Social. O estudo pago pela Fundação do Pingo Doce assim o prenunciou. Recorrendo a falaciosas elucubrações, destinadas a suscitar o medo, senão mesmo o pânico em quem, sendo mais jovens, ainda há pouco começou a descontar para o nosso sistema previdencial, essas direitas apostam na criação das condições favoráveis a que percentagem crescente de eleitores se disponha a votar em propostas, que retirem ao sistema público as receitas para as transferir para quem, tendo perdido nos bancos e nos seguros os lautos retornos aos seus investimentos, encaram as falsas promessas dos PPR’s a forma de se financiarem e prosseguirem na financeirização das economias. 

 

Veem nessas estratégias dois objetivos: se as economias das nações agirem em função dos interesses dos fundos de investimentos, as direitas têm garantida a sua sobrevivência por muitos mais anos, porque facilmente controlarão os poderes executivo, legislativo e judicial, a par dos meios de comunicação social, que lhes servirão de altifalantes junto dos iludidos eleitores. Estes facilmente serão convidados a acreditarem ser essa a genuína tradução do que se entende como Democracia. Por outro lado prosseguirão um «internacionalismo financeiro», que, complementado com a disseminação dos populismos xenófobos, melhor enleiem os condenados à irreversível pauperização.

 

O que leva Steve Bannon - e sobretudo quem dele faz a cabeça-de-cartaz dessa estratégia - a apostar nessa estratégia é precisamente a convicção de não ser possível perdurar por muito tempo a situação de acumulação de capital por uma minoria cada vez mais exígua, enquanto os 99% restantes se frustrarão, ano após ano, por verem reduzidas as capacidades de usufruto de tudo quanto a sociedade de consumo «oferece», mas a custos cada vez mais inacessíveis.

 

É que o tio Marx continua pleno de razão: é a luta de classes, e a dominante sabe-o e tenta precaver-se dos sobressaltos futuros. É por isso mesmo, que formiguinhas de termiteiras para cujas rainhas diligentemente trabalham, as nossas direitas - sejam elas quem as comande! - não podem deixar de fazer as tarefas que lhes estão distribuídas. E a privatização da Segurança Social será osso que nunca abdicarão de abocanhar.

 

Razões de sobra para que não nos poupemos a esforços para lhes sabotarmos os planos e impormos uma alternativa socialista, que reduza significativamente as desigualdades e crie uma sociedade mais livre e justa.

 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/04/os-designios-que-as-nossas-direitas.html

A desfaçatez de certa direita

Certa direita não se satisfaz com o seu poder económico, o quase monopólio dos media, a devoção dos serventuários e as intrigas dos acólitos nas redes sociais.

A direita democrática está a ser devorada pela que nunca aceitou a democracia. Os netos do 28 de maio odeiam Abril, considerando excessiva a alternância democrática, e a alternativa de esquerda uma insuportável heresia.

Se a família dos interesses deixa de ocupar os lugares políticos e os empregos do Estado chama endogamia aos laços familiares de cargos governativos, de natureza precária.
Esta direita que vai desde o primata que Passos Coelho escolheu para autarca de Loures, um defensor da pena de morte e da erradicação de imigrantes e ciganos, até à D. Cristas, Nuno Melo e Cavaco, é a que deteve o poder 48 anos e reivindica a herança.

Esta é a direita que, com a sensibilidade de um batráquio, condena a deslocação de sete enfermeiros, ao serviço da Cruz Vermelha, para ajudar Moçambique, após a tragédia do Ciclone Idai, alegando carência nos hospitais portugueses, sem noção da insensibilidade e do ridículo de censurar o Governo pela falta de 7 enfermeiros num universo de 45 mil.
Esta é a direita que queria impor ao PS os governantes e as alianças, uma direita que não conseguiu eleger Santana Lopes presidente do PSD e quis que o PS indicasse Francisco Assis para o Parlamento Europeu. Logrou colocar no Montepio Luís Amado, próximo do PSD, ex-MNE de um governo do PS.

No fundo, os ataques soezes a todos os que são da confiança política de António Costa são reflexo da síndrome de privação do poder absoluto, que esta direita almeja. Quando se sente rejeitada pelo eleitorado, cria sindicatos através de Ordens ou instala um patrão e um advogado na direção de um sindicato de motoristas de matérias perigosas, adrede criado, para dar aos trabalhadores o que há muito devia, depois de assustar o eleitorado e provar que, em democracia, pode criar o caos.

A estratégia para derrubar Salvador Allende e levar Pinochet ao poder foi usada noutras ditaduras de extrema-direita. Hoje, Steve Bannon, ex- Goldamn Sachs e conselheiro do Trump, anda pela Europa cheio de dólares, obcecado em ressuscitar o nazi-fascismo, a promover o populismo e a ensinar como divulgar falsidades, calúnias e intrigas.

Não admira que esta direita veja em Rui Rio desvios de esquerda e em Marcelo, demo-cristão, com tiques peronistas, sem Evita, um obstáculo à radicalização mimetizada da Hungria, Polónia e Ucrânia.

Esta direita, à direita de Rui Rio, é o VOX vindo da Andaluzia por Vila Real de Santo António, cheio de testosterona fascista, para inseminar o CDS, Aliança e Chega.

Há quem esqueça a História da década de 30 do século passado.

 

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2019/04/a-desfacatez-de-certa-direita.html

Neossindicalismos aparentados a outros neos

Se acreditasse em bruxas eu diria que tudo teria começado à beira de um caldeirão com um espírito malfazejo a misturar asas de morcego, veneno de cobra e pele de lagarto, juntamente com outros ingredientes que resultassem no surgimento de novíssimos e reivindicativos sindicatos dispostos a azucrinarem a paciência aos partidos das esquerdas em geral, e ao governo em particular. Explicar-se-ia assim que, em questão de poucos meses, enfermeiros ou camionistas de mercadorias perigosas, criassem estruturas de classe com irrisórias centenas de associados, mas capazes de infernizarem a vida dos portugueses. É que, num e noutro caso, temos «sindicatos» surgidos como alternativos aos da CGTP-IN, dados como ineficientes na defesa dos seus anseios corporativos.

 

Como não acredito em bruxas parece-me evidente outra explicação: existe quem à direita ande a observar os comportamentos sociais e a conjeturar formas de os explorarem a seu favor. Não importa que essas lutas façam de enfermeiros ou de camionistas aguerridos soldados de uma guerra cujos objetivos só são do conhecimento dos seus generais. Que a bastonária dos primeiros tem claros intuitos partidários na forma como usa e abusa dos meios colocados à sua disposição pela Ordem, que tomou de assalto, já poucos duvidarão. Que estes camionistas surjam representados por um advogado, igualmente apresentado como vice-presidente da Associação sindical - será que concilia a atividade na barra dos tribunais com o volante de algum pesado de mercadorias? - diz muito sobre o que aqui está em causa. Sobretudo quando uma breve consulta na internet dá para perceber que, além de partilhar um blogue com Bruno de Carvalho - ebem sabemos quanto a ultradireita na sua principal claque foi acarinhada no seu consulado à frente do Sporting - também o vemos como especialista na área dos investimentos financeiros.

 

Estamos, pois, perante uma estratégia concertada em vários setores de atividade para utilizar o neossindicalismo como veículo de movimentos inorgânicos numa variante dos coletes amarelos, com quem estes grupos parecem inquietantemente aparentados. Daí que faça votos para que o apelo à serenidade por parte de António Costa seja mais questão de retórica do que real. Porque os perigos inerentes a estes movimentos são demasiado sérios para que sejam encarados com passiva complacência. Até porque não esquecemos Salvador Allende e a forma como motoristas de pesados foram arregimentados para prepararem o clima propício ao golpe de Estado, que poria Pinochet à frente de odiosa ditadura.

 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/04/neossindicalismos-aparentados-outros.html

Portugal | Assombrações a mais!

Jorge Rocha* | opinião

As últimas semanas têm sido pródigas no regresso de algumas múmias, que julgávamos devidamente seladas nos respetivos sarcófagos. Primeiro foi Cavaco Silva, que regressou para avalizar o novo programa económico do seu partido, que tanto promete pôr os pobres isentos do IRS a pagarem-no como poupa aos patrões, que invoquem prejuízos nos negócios, a redução significativa no IRC. Julgando os portugueses particularmente desmemoriados das suas malfeitorias passadas atreveu-se a intervenção crítica sobre a questão dos familiares no governo socialista, levando logo de ricochete o contundente troco, que o fez recolher-se apressadamente à sombria tumba.

Este fim-de-semana temos sido «brindados» com sucessivas assombrações de Durão Barroso, que tanto secundou a EDP na defesa dos ilegítimos artifícios com que alavancou os lucros à conta dos clientes e da generalidade dos contribuintes, como procurou atenuar a ostensiva mancha no currículo, que lhe ficou do papel de mordomo na cimeira das Lages, atirando lama para cima do Presidente de então, Jorge Sampaio.


Não sei se o manga-de-alpaca da Goldman Sachs ainda alimenta algumas esperanças em vir a suceder a Marcelo em Belém, mas, há um par de anos, quando junto dela compareceu a pretexto de ver uma peça no Teatro Joaquim Benite a reação da população almadense deve tê-lo deixado mais ciente do desfavor que merece junto do eleitorado. Arrivista no que o termo pressupõe de arranjismo, oportunismo e sôfrega ambição, Durão Barroso conjuga-se com Cavaco na perfeição: ambos simbolizam o tipo de pessoas sem qualidades, mas cujo calculismo intriguista foi capaz de os fazer ascender  a cargos onde nada de positivo deixaram para quem teve a desdita de por eles se verem (des)governados.

Tendo em conta que nenhuma vaga de fundo pareceu acorrer em defesa das atoardas barrosistas, será crível que também ele se deixe esquecer na atual cripta. Esperemos, porém, que nos fiquemos por aqui: se todos quantos deveriam estar sossegadinhos no caixote do lixo da História dele voltem a emergir, bem nos veremos obrigados a recorrer a potentes exorcismos para nos vermos deles definitivamente libertos.

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/04/portugal-assombracoes-mais.html

Cavaco Silva, o futurologista

Cavaco Silva
«No futuro, existirão mais ciclos de atividade na vida. A previsão é de que, daqui a não muitos anos, mas com certeza depois de 2030, as reformas passem a situar-se e um nível bastante superior aos 65 anos que até aqui se conheciam. Fala-se mesmo que, perto de 2050, as reformas passem a situar-se não muito longe dos 80 anos».
O diálogo acima é uma ilustração ficcionada das premonições sonhadas (e afirmadas) por Cavaco. Nunca ele, e a gente dele, deu ouvidos à dona Esmeralda nem ao Rogérito. Além de se fazer passar por surdo, faz-se esquecido e omite que alguma vez tenha existido no Parlamento um deputado chamado Lino de Carvalho a falar sobre o assunto.
Cavaco já não risca, mas continua muito activa a imprensa cavaquista.

Ver original em 'Conversa Avinagrada' (aqui)

Esta direita insaciável e ansiosa

(Carlos Esperança, 15/04/2019)

Cavaco, o verrinoso

Esta direita tem os jornais, as televisões e a rádio; tem os bombeiros, os incêndios e os incendiários; tem a sofreguidão do poder e a nostalgia do “nosso Ultramar infelizmente perdido”; tem os antigos líderes como comentadores profissionais e a maior parte dos comentadores profissionais como satélites; tem as redes sociais e as redes de corrupção dos autarcas do Norte, que a Visão denunciou e a PGR ignora, mas tem Passos Coelho e Portas, Durão Barroso e Santana Lopes, Assunção Cristas e Nuno Melo, Marta Soares e Marco António. São o seu calcanhar de Aquiles.

Em períodos eleitorais esconde os mais detestáveis e mostra as estrelas da Companhia, que julga perdoadas. Ontem surgiu Durão Barroso, com o caso da quinta da Falagueira e a aventura iraquiana esquecida com a atual atividade financeira; hoje surgiu Cavaco Silva que, à semelhança de Américo Tomás, julga que o povo o ama.

Cavaco, odeia os cravos, pelo menos na lapela, e deve aos militares de Abril tudo o que foi, mas é o salazarismo que o guia e os pides o símbolo do heroísmo que aprecia. Hoje, saído da hibernação, surgiu a predizer que Portugal será a lanterna vermelha da Europa, enleado no ódio a este governo, esquecida a cumplicidade com Passos Coelho e Portas.

Ver declarações de Cavaco aqui

Este homem cuja memória anda pelas ruas da amargura esquece que a sua ministra da Saúde foi a única governante europeia impune pela compra do sangue contaminado, que colocou no gabinete o irmão Zezé que viajou para a Ásia quando o secretário de Estado, Costa Freire, foi julgado e preso e tem o despudor de acusar este governo da degradação do SNS devida ao governo de Passos e Portas, de que foi cúmplice, e cuja criação teve os votos contra do PSD e CDS.

Cavaco não é um estadista, é um algoritmo mal sequenciado, um depósito de bílis com saliva na comissura dos lábios, a destilar ódio contra a esquerda, que acaba por ajudar, pela repulsa que provoca.

Aliás, a desfaçatez e a falta de memória são a imagem de marca desta direita que resvala para a direita musculada sem precisar de Cavaco, Santana Lopes, André Ventura ou do merceeiro holandês do Pingo Doce.

Basta recordar Paulo Rangel a defender uma lei que tornasse incompatível a advocacia e a atividade parlamentar ☹ ☹ ☹.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Ca-va-co | Mete nojo em bicos de pés… ‘Tá bêm, dêxa!’

Com data de hoje, 15.04, o ex-PR vagueante, Cavaco Silva, disse mais umas coisas na eventual posição bicos dos pés – para ser ouvido e notado. Pela parte do PG conseguiu, quase de além túmulo vislumbramos a figura e do que disse acorremos ao Expresso para divulgar as preciosidades das palavras ditas naquele tom esganiçado e algumas vezes dislexas, talvez devido a cordas vocais semelhantes às de Oliveira Salazar, o famigerado ditador português oriundo de Santa Comba Dão. No espaço democrático e inclusivo do PG incluímos os ditos do referido figurão. Ficámos, como quase sempre, com a mesma opinião: Já mete nojo. E, por bem, colocamos a questão: Por que não te calas? Parafraseando os dignos do Alentejo: Tá bem, dêxa. Oh ome, pranta-te mudo e quedo!
Redação PG
Cavaco Silva diz que idade da reforma pode passar para os 80 anos em 2050
Declarações do ex-chefe de Estadobaseiam-se em previsões. Em entrevista à Rádio Renascença, Cavaco Silva manifesta-se ainda preocupado com o facto de o crescimento português estar a ficar aquém de outros países da zona euro.“Este devia ser o tema central do debate das forças políticas em Portugal”, defende o antigo Presidente da República
Cavaco Silva alerta que a idade da reforma pode progredir gradualmente para níveis muito superiores ao atual. Em entrevista à Rádio Renascença, a propósito das eleições europeias, o antigo Presidente da República diz mesmo que em 2050 as pessoas poderão reformar-se aos 80 anos.


“No futuro existirão mais ciclos de atividade na vida de uma pessoa e a previsão é de que daqui a não muitos anos, mas com certeza depois de 2030 que as reformas passem a situar-se a um nível bastante superior aos 65 anos, que até aqui se conheciam. Fala-se mesmo que perto de 2050 as reformas possam situar-se não muito longe dos 80 anos”, afirma Cavaco Silva.

Segundo o antigo chefe de Estado, o país deve apostar numa política de apoio da natalidade para resolver o problema do envelhecimento da população e o desequilíbrio na Segurança Social. “O nosso problema tem que ser resolvido através de uma política muito forte de apoio à natalidade. Políticas que sejam capazes de convencer os casais a ter mais filhos. Tem que ser esse o caminho a seguir por um país como Portugal”, acrescenta.

O economista manifesta-se ainda preocupado com o facto de o crescimento português estar a ficar aquém de outros países da zona euro, alguns dos quais que também foram alvo de programas de ajustamento. “Se olharmos à taxa de crescimento de Portugal e dos países da zona euro, que fazem parte do nosso pelotão – que são a Estónia, Letónia, Lituânia, Eslováquia, Eslovénia e a Grécia –, verifica-se que a taxa de crescimento de Portugal é muito inferior à de todos esses países, mas não é de uma décima, nem duas décimas, é muito muito inferior. Este devia ser o tema central do debate das forças políticas em Portugal”, defende o antigo Presidente da República

Caso se concretizem as previsões avançadas pelo FMI, Portugal “dá mais um passo para chegar a ser a lanterna vermelha dos países da UE”, insiste Cavaco.

Sobre a moeda única, o antigo chefe de Estado é perentório e diz que considera que “o euro é o ativo mais precioso” que a sua geração deixa aos jovens europeus. “O que eu peço é que aproveitem bem todos os benefícios que resultam de terem uma moeda de referência internacional, que é o euro.”

No final, Cavaco Silva dirigiu ainda elogios ao ministro das Finanças, Mário Centeno, frisando que “foi um prestígio para Portugal que ele tivesse sido escolhido” para líder do Eurogrupo e uma crítica aos comentadores políticos. “Há muitos políticos, neste momento, a serem comentadores na televisão, mas eu nunca fui comentador televisivo e acho que é um dos grande males neste momento, em Portugal”, conclui.

Texto e vídeo em Expresso

 

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Assombrações a mais!

As últimas semanas têm sido pródigas no regresso de algumas múmias, que julgávamos devidamente seladas nos respetivos sarcófagos. Primeiro foi Cavaco Silva, que regressou para avalizar o novo programa económico do seu partido, que tanto promete pôr os pobres isentos do IRS a pagarem-no como poupa aos patrões, que invoquem prejuízos nos negócios, a redução significativa no IRC. Julgando os portugueses particularmente desmemoriados das suas malfeitorias passadas atreveu-se a intervenção crítica sobre a questão dos familiares no governo socialista, levando logo de ricochete o contundente troco, que o fez recolher-se apressadamente à sombria tumba.
Este fim-de-semana temos sido «brindados» com sucessivas assombrações de Durão Barroso, que tanto secundou a EDP na defesa dos ilegítimos artifícios com que alavancou os lucros à conta dos clientes e da generalidade dos contribuintes, como procurou atenuar a ostensiva mancha no currículo, que lhe ficou do papel de mordomo na cimeira das Lages, atirando lama para cima do Presidente de então, Jorge Sampaio.
Não sei se o manga-de-alpaca da Goldman Sachs ainda alimenta algumas esperanças em vir a suceder a Marcelo em Belém, mas, há um par de anos, quando junto dela compareceu a pretexto de ver uma peça no Teatro Joaquim Benite a reação da população almadense deve tê-lo deixado mais ciente do desfavor que merece junto do eleitorado. Arrivista no que o termo pressupõe de arranjismo, oportunismo e sôfrega ambição, Durão Barroso conjuga-se com Cavaco na perfeição: ambos simbolizam o tipo de pessoas sem qualidades, mas cujo calculismo intriguista foi capaz de os fazer ascender a cargos onde nada de positivo deixaram para quem teve a desdita de por eles se verem (des)governados.
Tendo em conta que nenhuma vaga de fundo pareceu acorrer em defesa das atoardas barrosistas, será crível que também ele se deixe esquecer na atual cripta. Esperemos, porém, que nos fiquemos por aqui: se todos quantos deveriam estar sossegadinhos no caixote do lixo da História dele voltem a emergir, bem nos veremos obrigados a recorrer a potentes exorcismos para nos vermos deles definitivamente libertos.

 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/04/assombracoes-mais.html

COMO É MESMO O NOME?...

O camarada aqui debaixo nem sabe se algum dia irá sair do anonimato, mas já se quer fazer distinguir pela arrogância disparatada de como se presume conhecido. Para já, conseguiu um auxílio precioso de Assunção Cristas que, a seis meses das eleições legislativas, teve a presciência de o colocar no sexto lugar das listas do CDS que concorrerá por Lisboa. Uma mais valia parlamentar, portanto, mas só se aquele partido chegar a conseguir eleger seis deputados por Lisboa (algo que só aconteceu uma vez nos últimos vinte anos).
COMO É MESMO O NOME?...

 

Veja o original em 'Herdeiro de Aécio' na seguinte ligação::

http://herdeirodeaecio.blogspot.com/2019/04/como-e-mesmo-o-nome.html

O PSD e a ética política

(Carlos Esperança, 11/04/2019)

Se há canalhice bem urdida, onde uma maldade e a meia verdade se dão as mãos para o mais sórdido ataque de carácter a um membro do governo, a acusação de David Justino à ministra da Justiça é um exemplo exuberante.

O vice-presidente do PSD, acusou ontem a ministra de ter estado a negociar o próprio salário para quando sair do Governo. Não se pode ser politicamente mais pusilânime e cínico.

Ver notícia aqui

Francisca Van Dunem respondeu que em campanha eleitoral não pode valer tudo. E não. David Justino não teve a coragem de dizer que a proposta do PS para que os magistrados judiciais possam suplantar o vencimento do PM é iníqua, e uma capitulação perante o politizado sindicato dos juízes. Faltou-lhe a coragem, mas não lhe minguou a baixeza ética do ataque individual por uma medida do Governo. Nem Marques Mendes iria tão longe.

A ministra da Justiça é magistrada e, quando sair do governo, irá ganhar o vencimento a que tiver direito, mas admitir que a proposta de vencimentos do Governo, para os magistrados judiciais, subvertendo a hierarquia do Estado, resulta do interesse pessoal da ministra, é uma calúnia ao nível do PSD a que Passos Coelho o elevou.

Rui Rio teve o azar de se rodear dos piores que havia fora do círculo de Relvas, Santana Lopes e Marco António. David Justino merecia integrar esse grupo, e não o de Rui Rio que, afastado da máquina do partido, ficou com o refugo.

Uma vez mais condeno o Governo e todos os partidos que vierem a apoiar a subversão da hierarquia do Estado, através dos vencimentos dos magistrados judiciais, mas não deixarei de manifestar indignação por acusações tão torpes como a que David Justino lançou à sólida jurista e honesta magistrada, ministra da Justiça.

Mas, que dizer do empedernido cavaquista que acrescentou à infâmia contra a ministra a censura ao PM, pelo facto de admitir que haja funções do Estado mais bem remuneradas do que a sua própria função, esquecido do vencimento do atual presidente da CGD quando foi diretor-geral das Finanças e era ministra Manuela Ferreira Leite?!

Rui Rio afirmou que ninguém deve ganhar mais do que o PM e o PR. Se não esquecesse a segunda figura do Estado, o presidente da AR, tinha razão. É, de facto, uma vergonha que assim não seja, embora não fosse o caso do chefe de gabinete de Rui Rio na Câmara do Porto.

Isto não é política, é pornografia.


Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

BURACO NEGRO É O SÍTIO ONDE CARLOS MOEDAS DESEJAVA QUE TIVESSEM DESAPARECIDO AS SUAS PREVISÕES DE HÁ OITO ANOS...

BURACO NEGRO É O SÍTIO ONDE CARLOS MOEDAS DESEJAVA QUE TIVESSEM DESAPARECIDO AS SUAS PREVISÕES DE HÁ OITO ANOS...
Carlos Moedas é o palhaço que se força a aparecer em todas as ocasiões mediáticas. E buraco negro é uma daquelas expressões que se presta a muitos trocadilhos associáveis ao que foi o seu medíocre desempenho no governo de Passos Coelho. Fiquemo-nos apenas por aquilo que ele antecipara e que hoje é um embaraço merecedor de ser vazado para um buraco negro: a constatação que o governo do PSD não conseguiu fazer subir o rating português junto das agências de notação. Num registo menos apalhaçado: a imagem do buraco negro correu acefalamente mundo, mas foi preciso um maduro que lhe sobrepusesse o sistema solar para que tivéssemos uma ideia da escala do que estávamos a ver...
BURACO NEGRO É O SÍTIO ONDE CARLOS MOEDAS DESEJAVA QUE TIVESSEM DESAPARECIDO AS SUAS PREVISÕES DE HÁ OITO ANOS...

Veja o original em 'Herdeiro de Aécio' na seguinte ligação::

http://herdeirodeaecio.blogspot.com/2019/04/buraco-negro-e-o-sitio-onde-carlos.html

O carácter de Cavaco

Estive vai-não vai para escrever um post parecido com aquele que o Diogo Martins escreveu sobre o eleitoralismo de Cavaco. Mas depois achei que me bastava ver a pasta de dentes na boca do Ricardo Araújo Pereira (7'30''). Acrescento só três coisas. Duas curtas e uma longa. 1. Nas suas memórias, Cavaco Silva omite a sua própria participação, como ministro das Finanças de Sá Carneiro, na adopção das medidas eleitoralistasprevistas para as eleições de 5 de Outubro de 1980 e descritas no postdo Diogo Martins. Pior: dá a entender que a responsabilidade foi, sim, do finado - e portanto incomunicável - primeiro-ministro e do igualmente morto João Morais Leitão (ministro dos Assuntos Sociais), que o tentaram convencer.
"Recordo-me de ele ter organizado  um almoço no Restaurante Tavares, comigo e com o ministro dos Assuntos Sociais, João Morais Leitão, para me convencer a aceitar um aumento extraordinário das pensões de reforma"
E - malvados! - conseguiram. Conseguiram desviar um pobre técnico ingénuo. E isso diz alguma coisa do carácter de Cavaco Silva. Estranhamente, Cavaco Silva esquece-se do rol de medidas que foram aprovadas então, nomeadamente a revalorização do escudo, num contexto de arrefecimento da procura externa, o que iria agravar o défice externo, numa conjuntura já negativa. 2. A prazo, os efeitos desastrosos das medidas eficazes do ponto de vista eleitoral contribuíram para justificar a intervenção externa do FMI. Mas quando o Banco de Portugal se apresentou para negociar a carta de intenções com os técnicos do FMI, Cavaco Silva - já à frente do Departamento de Estudos e Estatísticas - esquivou-se e mandou seguir a directora Teodora Cardoso, evitando assim  ser confrontado com os disparates que fizera enquanto ministro. Outra boa prova do seu elevado carácter. 3. E finalmente a mais longa. Mas é apenas para os mais resistentes.
Ler citações, artigos e memórias do então primeiro-ministro sobre o seu passado na década de 80, quando Cavaco Silva decidiu ser um político, é assistir a uma remontarem de um filme. Faltam imagens, foram apagadas. Há silêncios e omissões. Em Setembro de 1978, com 39 anos, Cavaco afirma que assistiu ao 34º Congresso do Instituto de Finanças Públicas  e que o debate o entusiasmou. A tal ponto, que tentou sistematizar "as razões do falhanço da escolha pública que se podem considerar associadas à actuação dos políticos".
"A ideia do político como criatura dedicada à prossecução dos interesses da sociedade como um todo é hoje considerada um mito pela generalidade dos economistas", escreveu ele citando uma intervenção de James Buchanan em Lisboa, nesse mesmo ano (Políticos, burocratas e economistas, Revista Economia).   
Toda a sua vida, ele seria isso: a execução prática de uma linha de pensamento contra a ideia política dos políticos se assumirem como políticos, em defesa de um interesse colectivo. Um manipulador que finge não o ser, afirmando-se apenas como um espírito puro, ingénuo. Cavaco seria apenas mais um a executar a linha política de um combate fortemente marcado pelo anticomunismo da  Guerra Fria, baseado na ideia estúpida de que, egoistamente, se cada um pensar apenas em si, conseguirá defender melhor a sua comunidade... Veja-se o documentárioThe Trap

O estranho é que, na altura em que escreveu este paper, Cavaco Silva está já embrenhado na vida política aos mais alto nível. Conhecia os políticos, ouvia-os, falava com eles, discutia com eles pontos de vista, encontrava-se mesmo à beira de ser nomeado ministro das Finanças do Governo de Sá Carneiro. Estava, ele próprio, à beira de se tornar um político profissional. Cavaco conta na sua autobiografia (1) que, em Maio de 1974, pouco depois do 25 de Abril foi convidado por Alfredo de Sousa "para participar numa reunião de economistas e outros profissionais ligados ao PPD que acabara de ser fundado por Francisco Sá Carneiro, Francisco Pinto Balsemão e Joaquim Magalhães Mota". O objectivo era "discutir a situação económica portuguesa e as políticas que deviam ser adoptadas". Cavaco Silva foi. "Aceitei o convite pela vontade de dizer o que pensava sobre o tema, mas também por uma certa curiosidade em relação ao novo partido". Claro que sim. Mas a sua curiosidade e entusiasmo tornam-se em militância política. "Fui ao Pavilhão dos Desportos, em Outubro de 1974, assistir ao primeiro comício do PPD em Lisboa e deixei-me contagiar pelo entusiasmo que envolveu os oradores. Participei em várias reuniões do gabinete de estudos do partido dirigido por Alfredo de Sousa e António Pinto Barbosa, ajudando a preparar os documentos sobre política económica, inclusivé textos para o programa do partido, que foi aprovado em Novembro de 1974 que teve lugar em, Lisboa. Fui designado para participar no congresso, em representação do gabinete de estudos, mas acabei por não estar presente devido à morte do pai da minha mulher, cujo funeral foi no Algarve". E foi se entrosando ainda mais. "Assisti a várias reuniões em que os ministros do PPD ou dirigentes do partido faziam a análise da situação política". E tanto participa em reuniões, mesmo de militantes, que é - pasme-se! - convidado para ser deputado nas eleições para a Assembleia Constituinte em Abril de 1975. Mas recusa - "nem pensar nisso" - porque queria continuar a sua carreira académica. Em Setembro de 1976, Cavaco Silva filia-se no PPD "com alguns colegas da Universidade". Porquê? "A motivação fundamental era ajudar a construir uma força partidária que pudesse travar a onda de loucura em que o país parecia mergulhado e defender ideias políticas do tipo das que dominavam nos países da Europa democrática, adaptadas à realidade portuguesa". Recorde-se que nessa altura, já pós- 25 de Novembro, era Mário Soares primeiro-ministro, embora Carlos Mota Pinto participasse no governo. Cavaco Silva estava, pois, muito activo. Cruza-se várias vezes  "nas escadas e salas da sede do PSD, primeiro no Largo do Rato e depois da Duque de Loulé", com Sá Carneiro e outros dirigentes. Cruza-se nas escadas, mas não passa despercebido. "Eles foram tomando conhecimento da minha existência pelas qualidades de economista e, também, pelas minhas análises que fazia em sessões de esclarecimento partidário". Tanto assim que Sá Carneiro, depois do seu regresso à presidência do PSD, no congresso de Julho de 1978, passou a chamá-lo "de vez em quando". "Penso que, por sugestão, do Dr. Loureiro Borges, administrador do Banco de Portugal, para me ouvir sobre as questões económicas nacionais". No verão de 1979, o PSD começou a tornar-se um partido com possibilidade de chegar ao poder. Cria-se a Aliança Democrática com o CDS e o PPM. Em Outubro desse ano, Sá Carneiro chama-o ao seu gabinete e, depois de uma prelecção sobre a situação política, convidou-o para ministro das Finanças, caso a AD ganhasse as eleições. Cavaco diz que foi "apanhado de surpresa" e recusa. Mas não o deve ter feito de forma muito peremptória porque Sá Carneiro "não ficou muito convencido" e disse-lhe que depois se falaria nisso. E assim foi. A AD ganha e uma semana depois já estava Sá Carneiro a ligar-lhe, sabendo Cavaco ao que ele vinha. "Convidou-me para ministro das Finanças e, brilhante como era na argumentação, foi contrariando as minhas objecções". Que objecções eram essas? Nada se diz. "Embora com algumas hesitações, a minha inclinação era para não aceitar o convite". Apesar disso, pediu mais tempo para pensar. Não lhe apetecia mesma nada... E "foi com este estado de espírito que cheguei a casa de Sá Carneiro às 18h do dia 11 de Dezembro de 1979 para uma segunda conversa". Cavaco nada conta sobre o que se passou naquele final de tarde, mas sabe-se o que aconteceu depois. A sua experiência como ministro dá a entender que ele era muito rígido para os seus colegas e que os restantes políticos apenas queriam ganhar as eleições, inclusivamente o primeiro-ministro.

"Beneficiei sempre de um apoio inequívoco da parte do primeiro-ministro, mas algumas vezes ele deve ter pensado que eu era demasiado exigente e pouco flexível e que não tinha em devida conta a importância das eleições de Outubro de 1980 para a concretização do projecto da AD e até para as orientações que eu defendia pudessem ser levadas à prática". Mas claro a culpa foi de Sá Carneiro com aquela ideia de aplicar medidas eleitoralistas. "Recordo-me de ele ter organizado  um almoço no Restaurante Tavares, comigo e com o ministro dos Assuntos Sociaia, João Morais Leitão, para me convencer a aceitar um aumento extraordinário das pensões de reforma". Ora aí está! Mas qual foi a conclusão do almoço? Cavaco omite esse pormenor nas suas memórias. Numa entrevista que deu ao seminário Tempo, a 31/12/1980, Cavaco afirmou: "Eu tenho um estilo próprio de exercer o cargo de ministro, estilo esse que se caracteriza mais ou menos pelo seguinte: uma grande preocupação com o rigor e de fundamentação nas decisões; uma exigência para comigo próprio e com os outros; e renitência em deixar-me influenciar por pressões, quando penso que essas pressões não se situam na linha mais adequada para o país". Cavaco deve, pois, ter sido obrigado, porque a medida foi aprovada, como todas as outras: aumento de salários da Função Pública, melhoria das prestações sociais, estímulos à procura interna, também através do alargamento do crédito, revalorização do escudo facilitando a importação e dificultando as exportações (numa altura de contracção da procura externa). Teria ele pensado que poderia manipular a economia e depois compensar as medidas de forma inversa? E que teria tempo para isso?  Se foi isso, a ideia correu mal. A AD ganha as eleições e cinco dias depois Cavaco Silva, segundo ele, impôs fortes condições para aceitar ser ministro. A política económica não podia ser aprovada contra o seu parecer. "Passarão a ser assinados pelo ministro das Finanças (para além do primeiro-ministro) nos termos da letra e do espírito do artigo 11º do DL 49-B/76 todos os diplomas que envolvam aumento de despesas. Como corolário, tais diplomas não deverão ser agendados para Conselho de Ministros antes de obtida a concordância do ministro das Finanças (...) Independentemente dessas condições, quero ainda deixar claro que não permanecerei no governo se se vier a desenvolver uma atitude de hostilidade para comigo da parte da maioria dos membros do Conselho de Ministros". A negociação é interrompida com a morte de Sá Carneiro em Dezembro de 1980. "Fiquei surpreendido, mas também lisonjeado quando verifiquei que o meu nome também era mencionado, embora com pouca consistência" para a sucessão de Sá Carneiro. E deve ter ficado de alguma forma desiludido quando o governo seguinte passa a ser coordenado por Pinto Balsemão, que prefere para ministro das Finanças, primeiro João Morais Leitão e, desde Setembro de 1981, João Salgueiro. E todos viram-se a braços com as consequências das medidas adoptadas. Sobre si próprio, Cavaco afirmou - sem explicar - que, no princípio de 1981, tinha uma boa imagem política porque "os resultados conseguidos tinham contribuído muito para a vitória da AD" (2). O próprio Cavaco sai, desejoso de voltar: "Ao sair da pasta das Finanças, trouxe comigo um interesse pela política maior do que aquele que tinha quando entrei para o Governo de Sá Carneiro, nos primeiros dias de Janeiro de 1980", ou seja, um ano antes. E não se ficou pelo desejo. Quis à viva força recuperar o palco perdido. Balsemão não deve ter enobrecido as posições de Cavaco Silva e Cavaco Silva fez-lhe a vida negra. "No período de 1981/82, deixei-me envolver na vida partidária, mundo que eu conhecia mal e acumulei erros e desilusões". Ah o político mal amado. Detesta esse mundo, mas sente por ele uma rara atracção. Em 1990, pintou esse período de outra forma. Diz que fez uma "travessia do deserto político de 1981 a 1985" e que "remete-se por iniciativa própria a uma acção política o mais discreta possível" (3). As suas memórias pormenorizam essa discreta travessia. "Aceitei ser delegado ao primeiro congresso nacional do PSD depois da morte de Sá Carneiro" que se desenrolou em Lisboa, no Pavilhão dos Desportos, em Fevereiro de 1981. Entra na lista de Eurico de Melo contra o governo Balsemão. "Foi aí que fiz o meu primeiro discurso em congresso do partido". "O meu envolvimento partidário foi ainda reforçado pela eleição em Abril de 1981 para presidente da Assembleia Distrital da Área metropolitana de Lisboa". "O facto de ter apresentado ao congresso do PSD uma lista para o conselho nacional fez com que, no ano de 1981, me envolvesse bastante na vida partidária, não que tivesse descoberto uma vocação nesse sentido, mas porque, face à degradação da situação política, sentia uma certa responsabilidade perante os muitos militantes que expressavam, confiança em mim e Son haviam com uma alternativa à liderança do partido". Claro que sim! Cavaco nega que tenha conspirado contra Balsemão ou feito jogos bizantinos de corredor. O que havia era "militantes que comigo trocavam impressões". Era o caso de Eurico de Melo, Montalvão Machado, Amândio de Azevedo, Rui Amaral, Rui Almeida Mendes, António Maria Pereira, Fernando Correia Afonso, Apolinário Vaz Portugal, Helena Roseta, Manuela Aguiar, Pedro Santana Lopes, Dinah Alhandra e outros. "Eram os chamados críticos que foram objecto de ataques violentos dos apoiantes de Pinto Balsemão". Mas não havia facção, nem acção organizada, assegura Cavaco. Só que no conselho nacional de 8 e 9 de Agosto de 1981, Pinto Balsemão apresentou demissão de primeiro-ministro e a comissão distrital de Lisboa propôs o nome de Cavaco Silva. Cavaco diz ter recusado, "apesar das pressões a que fui sujeito". E Pinto Balsemão é de novo reconduzido a 16/8/1981. Aproximava-se uma bernarda económicae aquele não era ainda o momento. Cavaco volta a assegurar que não conspirou. Só que nas suas memórias lá está a sua ida ao Congresso de Dezembro de 1981: "Antes tive duas conversas com Pinto Balsemão, a seu pedido. Falou-me da composição dos órgãos a serem eleitos, procurando evitar que eu apresentasse uma lista própria para o conselho nacional, o que ele considerava uma atitude de confronto". Estavam bem um para o outro: um a querer derrubar o adversário, e este a não querer concorrentes... Cavaco não apresenta listas, o que - apesar de não estar a conspirar - "frustrou muitos militantes que viam em mim uma alternativa". Mas por que não queria intervir se a correlação de forças até lhe era favorável? "Não queria servir de alibi para as dificuldades que o Governo e o partido enfrentavam e" - atenção a um argumento recorrente em muitos baixos do ciclo económico - "desejava afastar-mãe da vida partidária activa. Estava cada vez mais absorvido na minha actividade profissional no Banco de Portugal, na Universidade e também no conselho nacional do plano". Apesar disso, não parou. "Discretamente, eu trocava impressões com algumas pessoas, em particular com Eurico de Melo e fazia algumas intervenções, umas mais tºecnicas e outras mais políticas, em reuniões e jantares de militantes, procurando ser cuidadoso nas críticas em relação ao Governo". "Dois dos meus colaboradores - o chefe de gabinete, José Veiga de Macedo, e lo adjunto, Rui Carp - eram entusiastas da política e sonhavam com uma intervenção mais activa da minha parte". Ele tudo geria. Em 1982, segundo a comunicação social, Cavaco estava a liderar a oposição interna ao Governo. Num jantar em Vila Nova de Gaia, Cavaco fez um discurso, uma conferência política, em que defendeu que as eleições autárquicas eram um sinal claro para a gestão governamental e serviu para mais umas alfinetadas a Balsemão. Face à figura fraca do PM e a sua tibieza, com a sua dificuldade em respirar, Cavaco fez um retrato oposto, parecido consigo mesmo: "Para que um governo tenha êxito (são coisas amplamente conhecidas) é preciso preencher várias condições e uma delas é conseguir uma imagem de força, de coerência e de capacidade para resolver os problemas do país, É preciso coordenação entre os vários departamentos ministeriais para fazer emergir o governo como um todo e não como uma federação de ministros e secretários de Estado". "Eu, como ministro, nunca iria à televisão falar de aumentos de preços. Eu, como ministro e como economista, só posso ir à televisão dizer que os preços vão subir menos. É óbvio que um ministro não pode dizer que os preços vão subir. Tem de dizer que vão baixar (...) Um ministro não pode dar uma conferência de imprensa dizendo hoje que os preços dos transportes aumentam e que se preparem porque em Setembro vão aumentar outros preços (...) Isso é a mesma coisa que dar duas bofetadas a um miúdo e dizer-lhe 'Não te esqueças que daqui a uma semana levas mais duas'"Ou ainda, revelando ser a pessoa que conhece a altura certa: "É preciso imprimir um ritmo e uma dinâmica apropriada à governação. É preciso saber qual é o tempo adequado para cada coisa no Governo. É o chamado timing.Uma das coisas mais importantes em governação é o tempo" (4).       Nada destes momentos surgem na autobiografia. O seu texto perde o colorido cru do momento. Apenas revelam uma calma que não existia na altura. "Em Julho de 1982, convicto de que a vida político-partidária e a situação económica continuavam a degradar-se perigosamente" - ou seja, ano e meio de ter deixado o governo - "publiquei uma carta aberta com Eurico de Melo". E assim continuará até Maio de 1985, quando já se pressentem as melhorias económicas, pós intervenção do FMI. E o timing chegara.  "Aceitei no entanto o convite de alguns militantes da minha secção para integrar uma lista de delegados ai congresso nacional que fora convocado para meados de Maio de 1985, no Casino da Figueira da Foz (...). Fui eleito como número dois de uma lista encabeçada pelo presidente da secção D da área de Lisboa, mas mantive-me afastado das discussões". Quem acredita nisso? Faz contactos com Freitas do Amaral para preparar a sua proposta de candidatura à Presidência da República, a apresentar no congresso. "Muitos foram militantes que tentaram falar comigo para ouvir a minha opinião ou convencer-me a candidatar-me a presidente do partido". E para "surpresa geral, incluindo a minha acabei por ser eu a ganhar o congresso". É esta sonsice política, esta constante preocupação de reconstrução da sua personagem e da História, que o caracteriza. Hoje, Cavaco é apenas uma sombra do que foi. Sem o viço da juventude, ficou apenas a procura crónica por uma lenda coxa.   Notas:  
(1) Autobiografia Política, Temas e Debates
(2) As revelações de Cavaco Silva, entrevista a Cavaco Silva, Público, 28/3/1995
(3) Família Cavaco Silva condena prendas materiais, Gente, 5/12/1990
(4) Aníbal contra Cavaco, Carlos Magno, Expresso, 18/10/1993

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

E foi ele que saiu da toca para dar lições de moral?!

Antigo Presidente da República nomeou a cunhada para fazer assessoria no gabinete de Maria Cavaco Silva. Depois foi nomeada para um cargo na Casa Civil.

Fonte aqui: Cavaco nomeou cunhada para cargo em Belém


Cavaco deve achar que somos todos atrasados mentais e que não há jornais, investigações, e sobretudo memória. É preciso ter uma lata descomunal para vir atacar o Governo devido ao “excesso de familiares” e depois ter feito o mesmo ou pior enquanto foi Primeiro Ministro e Presidente da República. Qualquer tipo medianamente inteligente ficava calado e ninguém se daria ao trabalho de ir repescar os pecadilhos de um reformado da política. Mas Cavaco, é um fenómeno de tal ordem, que sendo burro até dizer chega, conseguiu ser eleito e reeleito sem que ninguém desse pela sua falta de inteligência. O que não é nada abonatório dos portugueses. Depois da desgraça de Alcácer-Quibir, Cavaco é a maior nódoa na História de Portugal. Já o era, e este último episódio é apenas mais um prego a acrescentar ao acervo das provas de tal momento negro.

Parafraseando Almada Negreiros, no célebre manifesto anti Dantas : Morra Cavaco, morra, pim!

Estátua de Sal, 09/04/2019

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Cavaco Silva - Uma referência ética

Cavaco, o homem mais sério de Portugal, onde é preciso nascer duas vezes para se ser tão sério quanto ele, não esconde o ódio aos adversários.

Mas, nomear uma assessora para a mulher, como se o cargo de PR fosse conjugal, e cunhada (!), só lembraria ao feliz contemplado das ações da SLN e da permuta da vivenda Mariani pela Gaivota Azul.

Antigo Presidente da República nomeou a cunhada para fazer assessoria no gabinete de Maria Cavaco Silva. Depois foi nomeada para um cargo na Casa Civil.
Infelizmente, nunca foi divulgado o relatório, para afastar suspeitas infundadas.

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2019/04/cavaco-silva-uma-referencia-etica.html

No Observador contam-se as espingardas, literalmente




Observador&Cofina

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Funciona assim: a Cofina faz o trabalho sujo, e o Observador, o Expresso e o Público expandem o seu alcance e legitimam o seu intento. A simbiose perfeita ocorre no Observador, tendo estado no topo da página durante 18 horas o conteúdo que deu origem aos comentários acima extraídos. O que não passa da exploração da miséria material e psicológica de um indivíduo, cuja manipulação não acrescenta qualquer informação válida seja para o que for com digno interesse público, esteve um dia inteiro como “notícia” mais importante no blogue dos talibãs oligárquicos que combatem a oligarquia; dizem eles sem se rirem, feito heróico dada a profundeza do deboche onde estão mergulhados.

Que diriam José Manuel Fernandes, Rui Ramos, Helena Matos e Alberto Gonçalves se existisse um qualquer órgão de comunicação social onde nas suas caixas de comentários fosse permitido apelar ao assassinato de políticos do PSD ou do CDS, e ainda de militantes e simpatizantes? Que escreveriam semanalmente se existisse em Portugal alguma coisa levemente parecida com a Cofina mas dedicada à perseguição sistemática, canalha e criminosa da direita portuguesa?

Acontece ser fácil de imaginar o agrado com que os responsáveis, ideólogos e operacionais da Cofina e do Observador olham para o vox populi que os procura e se embriaga com os apelos à guerra civil lançados pelos escribas assanhadíssimos e impiedosos. Uma pulsão linchadora, alimentada pelo filão inesgotável chamado Sócrates, que é inerente à natureza humanamente selvagem dos brutos, dos alienados e dos facínoras sempre a precisar de carne para os seus canhões. Mas será que o Alberto Gonçalves, a Helena Matos, o Rui Ramos e o José Manuel Fernandes pretendem ver as alimárias que atiçam contra quem odeiam a tomar o poder? Jamais, bastou-lhes uma Bastilha. Sem a menor hesitação, declaram adorar o Estado de direito democrático, a liberdade, a civilização, a paz. Mas com uma ressalva: não já, só quando a Grei estiver nas mãos da gente séria.

Esta direita decadente anda há anos a chafurdar nos crimes que comete e explora com o conluio de agentes da Justiça. Falta-lhes um crime de sangue para se sentirem não só vingados como reconfortados. É a guerra, concluem com um sorriso ao contemplarem a bufeira demente dos voluntários para a matança.

Leia o original em "Aspirina B" (clique aqui)

O imperativo de se denunciarem todas as fake news das direitas

Asfake newslançadas pelos muito ativos sites das direitas não olham a pinga de escrúpulo para condicionarem o voto dos portugueses desviando-os das escolhas eleitorais, que melhor lhes sirvam os interesses. Pelos vistos uma dessas mentiras virais, atualmente a ser disseminada abundantemente, refere-se ao «iminente casamento» de Marisa Matias com Alexis Tsipras, ilustrada por uma fotografia antiga em que os dois festejavam a vitória do político grego nas respetivas eleições.
«Para quê votar em alguém, que está prestes a mudar-se para a Grécia?» é a questão dos que divulgam a mentira. Nesta altura tudo fazem para condicionarem o voto nos que irão dar substância à nova maioria parlamentar saída das próximas legislativas.

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/04/o-imperativo-de-se-denunciarem-todas-as.html

A chatice de um ADN

Tem sido uma constante na ação política de Marcelo Rebelo de Sousa em Belém: quando as direitas lançam uma campanha contra o governo, e ela dá mostras de fraquejar, aí surge ele a procurar perdura-la por tanto tempo quanto possível. Verifica-se isso a propósito da questão de familiares partilharem responsabilidades no elenco governativo, ou nos respetivos gabinetes, e que perdeu nitidamente gás, quando começaram a ser recordados os exemplos flagrantes de nepotismo em governos liderados por Cavaco ou Durão Barroso (ainda que Rui Rio insista na contraproducente ideia de se tratar de uma «cultura socialista»!).
Se existe prova evidente de que ser familiar de alguém nada quer dizer temos o exemplo flagrante de António Costa e Ricardo Costa. Quem ignora o carácter de raivosopit bull, que este último tem manifestado em relação ao governo liderado pelo irmão? Quem ainda dá injustificado benefício da dúvida a uma SIC ou a um «Expresso», que constituem ferramentas políticas em autêntica deriva radicalizada no sentido de ignorar ostensivamente requisitos deontológicos só porque intentam infletir uma situação política desfavorável ao respetivo patrão?
Ao voltar a sugerir uma suposta modificação à lei existente Marcelo sabe quanto ela jamais poderá traduzir os preconceitos, que têm vindo a ser artificialmente alimentados nas semanas mais recentes e que, no essencial, se revelam injustos para com os visados, cuja competência jamais foi posta em causa. O que o inquilino do palácio de Belém pretende é dar matéria às televisões e aos jornais para que destaquem algo, que sabe passível de iludir os mais mentecaptos, aqueles que tudo julgam saber, quando criticam a classe política no seu todo, e são facilmente arregimentados pelos populismos protofascizantes.
Provavelmente isto significará que, se Marcelo emergiu do fascismo, onde o pai e o padrinho eram estrelas de primeira grandeza, esse mesmo fascismo nunca terá saído do seu incontornável ADN.
 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/04/a-chatice-de-um-adn.html

Portugal | Mentirosos

Rui Sá | Jornal de Notícias | opinião

Se há coisa que detesto e que, na minha opinião, é o fator que mais contribui para a descredibilização da nobre atividade política é a incoerência, ou seja, a defesa, hoje, de uma posição sobre um determinado assunto para, amanhã, defender o seu contrário.

Mário Soares, com o seu proverbial à-vontade procurava safar-se das suas constantes contradições (não creio que fosse, sequer, para aplacar a sua consciência...) com a frase "só os burros não mudam de opinião". Mas, sendo legítima essa mudança de opinião (embora poucos sejam os que o assumem), a maior parte das incoerências resultam do hábito e da naturalidade com que muitos agentes políticos mentem.

A propósito de alguns episódios que se passaram esta semana, são inúmeros os casos que me vieram à cabeça.

Foi assim que vimos mais um reaparecimento de Cavaco (confesso que eu próprio fico preocupado porque o meu sentimento sobre ele está a passar para o dó...) a dizer que fez uma das suas investigações sobre os três governos que dirigiu e não viu relações familiares nos mesmos. Azar do homem, que raramente se engana (e, pelos vistos, não sabe investigar): logo vieram a lume as inúmeras relações familiares que enxameavam os seus gabinetes ministeriais, com as esposas de ministros e secretários de estado a chefiarem os gabinetes (uns dos outros). E Marques Mendes, que agora se arvora em "grilo falante" do regime, esqueceu os seus próprios telhados de vidro, dado que a sua esposa também por lá passou quando ele era secretário de Estado.

Rio também saiu à liça, esquecendo que, como presidente da Câmara do Porto, nomeou a irmã do seu vice-presidente para a gestão do Rivoli (e, face à polémica, passou-a a adjunta de um dos seus vereadores)... Mas, agora, consideram um problema ético as nomeações de familiares para os gabinetes ministeriais. Assunção Cristas, cada vez mais parecida com Paulo Portas (o rei das incoerências irrevogáveis), distinguiu-se, neste campeonato, por, enquanto candidata autárquica em Lisboa, bramar contra os despejos - que, no entanto, tinham origem numa lei que ela própria tinha elaborado e aprovado enquanto ministra! Não satisfeita com a vergonha, veio, agora, levantar a voz contra a situação inadmissível de o Governo não ter um plano B para a seca! Logo vieram a público as suas declarações, quando era ministra da Agricultura, e que, enquanto tal, perante a seca, afirmava o seu plano B anunciando "que só lhe restava rezar para que chovesse"...

Talvez estes políticos devam fazer como os seus amigos gestores e banqueiros que têm passado pelas comissões de inquérito da Assembleia da República: aleguem problemas de memória e... calem-se, poupando-se(nos) à vergonha das vossas incoerências.

*Engenheiro

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/04/portugal-mentirosos.html

Bestas perigosas

(Por Soares Novais, in A Viagem dos Argonautas, 07/04/2019)

As bestas

1- A redução do custo dos passes foi um autêntico “KO” técnico que levou a direita ao tapete.Reagiu, depois, com um chorrilho de bestialidades. Da Assunção a Rio. Contudo, é Luís Cabral da Silva, engenheiro, especialista em transportes, que merece estar no topo. Disse ele na Opinião Pública, da SIC Notícias, na última terça-feira: “Isto é muito bom porque vão ter mais dinheiro para comprarem leite e tabaco e droga.”

Ver vídeo abaixo:

Donde é que veio este “especialista” ??

O senhor especialista em transportes, que foi um dos subscritores do manifesto “Um Futuro Melhor Para Portugal” encabeçado pelo CDS José Ribeiro e Castro e que contou com a assinatura do ínclito Mira Amaral, entre outros notáveis da direita, culminou a sua prestação televisiva com a ordinarice que destaco.

Esta gente, sabe-se, tem uma memória espantosamente selectiva. E lata q.b. Por isso, aqui relembro:

– Foram PSD e CDS/PP que, no governo, aplicaram um Plano Estratégico da Transportes que levou  à supressão de vários transportes públicos (https://www.publico.pt/…/menos-transportes-a-noite-em-lisboa);

– Foram PSD e CDS/PP que eliminaram as carreiras de serviço nocturno da Carris e ordenaram o encerramento do Metro de Lisboa às 23 horas;

– Foram PSD e CDS/PP que encerraram várias linhas férreas. Como as do Corgo/Tâmega e o Ramal da Figueira da Foz; (https://www.jn.pt/…/autarcas-protestam-contra-encerramentos…);

– Foram PSD e CDS/PP que privatizaram e concessionaram empresas públicas sem o aval do Tribunal de Contas, tanta foi a pressa em satisfazer os interesses dos seus amigos.

2 – Bolsonaro afirmou à saída do Museu do Holocausto, em Israel, que o nazismo era um regime de esquerda. E atrevidamente ignorante e provocador acrescentou: Não há dúvida, né? Partido Nacional Socialista da Alemanha.”

Ver notícia aqui

O capitão reformado, travestido de presidente do Brasil por acção directa dos evangélicos, das “fake news”, do agronegócio e das WhatsApp pagas pelas empresas, concorda, pois, com o ministro das Relações Exteriores do seu governo – Ernesto Araújo que é um dos rostos da extrema-direita brasileira e um admirador confesso de Trump: “Somente um Deus poderá ainda salvar o Ocidente, um Deus operando pela nação – inclusive, e talvez principalmente, a nação americana. Heidegger jamais acreditou na América como portadora do facho do Ocidente […]. Talvez Heidegger mudasse de opinião após ouvir o discurso de Trump em Varsóvia: ‘Nur noch Trump kann das Abendland retten’, somente Trump pode ainda salvar o Ocidente.”

Uma coisa é certa: a falsificação bolsonarista provocou reações em todo o mundo. Reações enérgicas como a de Astrid Prange Oliveira, jornalista alemã que viveu no Rio de Janeiro e que hoje, na Alemanha, escreve para a Deutshe Welle sobre o Brasil e a América Latina:

“… É trágico, é triste, é devastador. Mesmo depois da visita ao memorial Yad Vashem, em Jerusalém, um museu público em memória às vítimas do Holocausto, Bolsonaro parece não ter conseguido reflectir sobre as consequências catastróficas do nazismo. Pelo contrário: usou o genocídio contra judeus como mais uma oportunidade de combater os ‘esquerdismos’ e o ‘socialismo’. Confesso que eu, como alemã, estou atónita. Sinto vergonha alheia ao ouvir de boca de um presidente de um grande país como o Brasil que ele não teria dúvidas ‘de que o nazismo foi um movimento de esquerda’ A falsificação da história depois da visita a um museu em memória às vítimas do Holocausto cruzou todos os limites.”

3 – “… E tem um imbecil que nos anos 70 cantou que é proibido proibir. Gostaria de dar veneno de rato para ele.” Quem tal afirmou foi José Francisco Falcão – bispo da Arquidiocese Militar de Brasília – e o destinatário do seu veneno é Caetano Veloso –Caetano e todos aqueles que foram perseguidos, presos e torturados durante os anos de chumbo.

A confissão assassina do bispo-fascista foi feita na noite do passado dia 31 de Março. O dia do golpe de 1964 que levou à instauração da Ditadura Militar (1964-1985) no Brasil. E aconteceu durante uma missa realizada na Paróquia Militar de São Miguel Arcanjo e Santo Expedito, em Brasília.

Ver notícia do parvo do bispo aqui

Joseita Brilhante Ustra, viúva de  Brilhante Ustra, coronel do Exército Brasileiro, ex-chefe do DOI-CODI do II Exército (de 1970 a 1974), um dos órgãos da repressão política, estava na primeira fila…

Como se vê as bestas estão por todo o lado. E são perigosas. Muito perigosas!…

A tempo: A canção “É Proibido Proibir” é de 1968. Caetano Veloso e os “Mutantes” interpretaram-na no Terceiro Festival Internacional da Canção, promovida pela Rede Globo. De resto, o seu título é uma das mais belas palavras de ordem que brotaram do Maio de 68, em Paris. O Falcão, tal como Bolsonaro, é um ignorante.


Fonte aqui

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

A oeste nada de novo...

Uma dasfake new mais repetida por Rui Rio e outros políticos das direitas tem a ver com o suposto isolamento do Partido Socialista da sociedade civil, que tenderia a dificultar-lhe o recrutamento de governantes e membros dos gabinetes ministeriais, «explicando-se» assim o recurso a familiares.
Mentira de perna curta, ver-se-ia tão rapidamente refutada, que o assunto pareceu esgotar-se com a demissão de um secretário de Estado. Quando do debate parlamentar Fernando Negrão procurou ainda explorá-lo até à náusea, mas recebeu merecido troco, que equivaleu a contraproducente ricochete. Tanto mais quanto logo abundaram exemplos deploráveis de casos evidentes de nepotismo, quando Cavaco Silva, Durão Barroso ou Santana Lopes eram primeiros-ministros, dando razão ao provérbio relativo a São Tomás. De repente viu-se Rio a dar o dito pelo não dito, secundarizando assunto, que, um par de dias antes, considerava caso de regime.
Por seu lado Assunção Cristas mostrou este fim-de-semana mais um aspeto da sua deplorável personalidade. Na quinta-feira transata, durante o debate parlamentar, decidira calar as críticas aos casos empolados pela imprensa a ela afeta sobre os familiares dos socialistas, quando viu Negrão levar violenta coça de António Costa. Agora, quando se apanhou num minicomício exclusivamente participado pelos correligionários, e com direito a reportagem televisiva, ei-la a manifestar a pose de virgem ofendida, aludindo ao que antes achara por bem silenciar. Além de desonesta intelectualmente, demonstrou indisfarçada cobardia, aproveitando para maldizer os outros quando estão de costas, já que, tendo-os de frente, olhos nos olhos, não se atreve a verbera-los com tão pobres argumentos...
O fim-de-semana ainda trouxe um outro dado, que desmente as teses das direitas quanto ao fechamento socialista sobre si mesmo: um estudo académico de irrepreensível valia, demonstra que, comparativamente com outros governos europeus com uma média nos 5%, o de António Costa conta com 38,9% de membros sem anterior prática política, provindo a maior parte da sociedade civil, e como independentes, para garantirem um significativo suplemento de qualidade a quem se incumbiu de proceder a determinante viragem nos rumos do país.
Vão-se passando as semanas e tudo continua na mesma: um governo a decidir e implementar estratégias muito positivas para o bem-estar dos portugueses e o futuro dos seus filhos, parcamente criticado por direitas desnorteadas, incapazes de outros argumentos que não os das mentiras e os dos insultos para minimizarem as pesadas derrotas, que se anunciam nas eleições deste ano.

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/04/a-oeste-nada-de-novo.html

O eleitoralismo de Cavaco Silva, segundo Silva Lopes

Cavaco Silva abandonou a Presidência da República envolto em contestação e impopularidade. Desde então, tem feito aparições esparsas no espaço público, sempre caracterizadas pela crítica ora mais velada ora mais explícita às políticas da atual maioria parlamentar.
Na última das suas aparições, apontou as suas críticas a dois temas. O primeiro foi o da relação entre a redução do IVA da restauração e a alegada diminuição de investimento no SNS. Essa relação é falaciosa e não se confirma, como bem explicou aqui o Nuno Serra. Não só não se pode afastar a ideia de que algum do emprego criado no setor da restauração (e o consequente aumento da receita fiscal e das contribuições sociais) não existiria sem a diminuição do IVA, como existiu um aumento real da despesa pública em saúde. 
Mas é a reação ao segundo tema que melhor caracteriza a ação de Cavaco Silva. Inspirado pelas reações críticas às ligações familiares do governo, o ex-primeiro-ministro dirigiu-se aos microfones da RTP para declarar que tinha, por curiosidade, ido verificar a composição dos seus três governos e não tinha detetado qualquer ligação familiar. Como o Observador se apressou a noticiar (aqui), esta afirmação não é verdadeira: nos governos de Cavaco Silva foi nomeada a pouco parcimoniosa quantia de 11 mulheres de governantes. 
Este episódio representa bem o que é Cavaco Silva e a ausência de escrúpulos que sempre pautou a sua intervenção política. Cavaco procurou sempre afirmar-se na política portuguesa como o professor de economia respeitado e desprendido, que se teria entregue à política com grande sacrifício pessoal e apenas por dedicação ao interesse nacional. Era o homem que detestava política e guiava todas as suas decisões pelo mais elevado e independente juízo técnico. 
Na verdade, o ex-Presidente da República sempre foi o oposto de tudo isso. Foi sempre o personagem político que pautou as suas ações pelo seu estrito interesse pessoal. É sempre bom recordar que foi Cavaco Silva quem sugeriu que tinham sido colocadas escutas no Palácio de Belém a mando do governo da época e que procurou criar uma crise política por causa de um assunto tão irrelevante como o Estatuto dos Açores. 
Escrevi este texto para relembrar um dos mais astuciosos e menos conhecidos artifícios de Cavaco Silva, ocorrido ainda antes de se tornar primeiro-ministro, durante a sua passagem pela pasta das Finanças no primeiro governo da AD. A ação política de Cavaco Silva é eximiamente descrita por José da Silva Lopes, no seu conceituado livro A Economia Portuguesa desde 1960:
“Exatamente quando se estava a chegar de novo ao equilíbrio externo, a economia foi atingida pelo segundo choque petrolífero (…) em 1979. (…) A economia portuguesa foi desse modo novamente atingida por um duro choque externo, que se traduziu num golpe duplo: (…) a queda da procura das exportações (…) [e] a subida dos preços do petróleo. 
Face a estas condições adversas, a orientação de política económica foi oposta à que seria de esperar. Enquanto nos outros países europeus se punham em prática medidas contracionistas, em Portugal foram aplicadas no ano de 1980 políticas claramente expansionistas. (…) Para agravar ainda mais os problemas do equilíbrio externo, o escudo foi revalorizado em 6% e o ritmo da depreciação mensal da taxa de câmbio foi reduzido. 
Essa reorientação da política económica, em sentido totalmente contrário ao que os condicionalismos de ordem externa impunham teve uma explicação: 1980 foi um ano de eleições; o objetivo dominante do programa posto em prática pelo então ministro das Finanças, Cavaco Silva, foi o de promover a vitória eleitoral da coligação da AD (PSD-CDS-PPM), que então estava no poder; esse objetivo foi conseguido, mas o seu custo veio a ser pesado para a economia.”
Neste excerto, Silva Lopes acusa abertamente Cavaco Silva de ter guiado a sua ação enquanto ministro das Finanças pelo estrito eleitoralismo e contra aquilo que o próprio entenderia ser a ação mais adequada para o momento que a economia portuguesa vivia. Não sendo Silva Lopes um polemista, sendo sempre muito circunspecto na sua intervenção pública, esta acusação adquire uma relevância reforçada. 
Pode discordar-se daquilo que Silva Lopes considera a correta prescrição de política económica para aquele contexto, mas há pelo menos dois argumentos muito fortes para sustentar o seu raciocínio. O primeiro é que, sendo Cavaco Silva um economista de pendor conservador, é no mínimo estranho que tenha optado por colocar em prática medidas expansionistas face à deterioração clara da conjuntura externa com o que isso viria a representar para o equilíbrio externo da economia portuguesa. O segundo, ainda mais flagrante, respeita à decisão de revalorizar o escudo. Dificilmente um economista de qualquer espectro político aconselharia revalorizar a moeda, quando se esperava uma diminuição da procura externa, pelo efeito conjugado da e um aumento dos preços dos bens nacionais causado pela subida do preço do petróleo e pela contração económica dos nossos principais parceiros comerciais. 
Então, porque o fez Cavaco, o homem que alega ter conduzido todo o seu mandato político em função do mais neutro ensinamento técnico? 
Cavaco sabia que as revalorizações cambiais têm efeitos diferentes a curto e a longo-prazo. No curto-prazo, é criada a sensação de um aumento real do rendimento disponível. Como a moeda nacional se valoriza, os bens importados tornam-se relativamente mais baratos e os consumidores têm a perceção de que o seu salário real subiu. O efeito imediato na balança corrente também é positivo: como o efeito preço precede o efeito quantidade, a balança tende a melhorar – a mesma quantidade de bens exportados é agora paga numa moeda mais valorizada, enquanto a mesma quantidade de bens importados é agora paga em moedas internacionais com um preço relativo inferior face à moeda nacional. No curto-prazo, com efeito, tudo corre bem. Mas a médio prazo tudo muda: como a moeda se valorizou, os bens nacionais ficam comparativamente mais caros, pelo que as exportações tendem a diminuir. As importações, pelo contrário, tendem a aumentar, já que os bens importados se tornaram relativamente menos onerosos. O efeito final é uma degradação muito significativa da balança corrente. 
Silva Lopes é muito assertivo na sua crítica: Cavaco Silva valorizou o escudo em 6% contra toda a sensatez económica, porque sabia que os efeitos de curto-prazo seriam favoráveis e seriam fundamentais para que a AD ganhasse as eleições legislativas desse ano. Os efeitos negativos de médio-prazo ficariam para depois – e para outros. 
A história acabou por mostrar um padrão de acontecimentos muito favoráveis ao então ministro das Finanças. A AD ganhou as eleições de 1980. Em 1981, a pretexto de não querer integrar o governo chefiado por Francisco Pinto Balsemão, constituído após a morte de Sá Carneiro, Cavaco Silva abandona a pasta das Finanças, evitando as consequências negativas das políticas que implementara. Em 1983, o FMI intervém pela segunda vez em Portugal, sendo o pesado programa de ajustamento conduzido pelo governo do Bloco Central (PS-PSD). Em 1985, já ultrapassado o período de maior severidade de política económica, Cavaco Silva ganha o congresso da Figueira da Foz e torna-se presidente do PSD, ganhando as eleições legislativas desse ano. Fruto de uma conjuntura económica muito favorável, com a ausência de choques internacionais adversos e os afluxos massivos de financiamento provenientes da adesão à CEE, Cavaco Silva eternizou-se como primeiro-ministro até 1995. 
Em economia, não existe uma melhor solução técnica em sentido absoluto. Os instrumentos técnicos podem e devem sustentar a ação política, mas nunca se podem substituir a ela. Existirá sempre uma melhor solução técnica contingente nas preferências políticas de cada decisor. 
Cavaco Silva, e outros políticos de perfil tecnocrático, tentam convencer os eleitores de que as decisões que tomam são orientadas apenas pelo seu conhecimento técnico. Invariavelmente, mentem. É apenas um artifício para classificar como inevitáveis decisões políticas da sua conveniência política e pessoal, sem terem de convencer os seus eleitores da justiça das suas posições. É chico-espertismo, em suma. E Cavaco Silva foi o mais exímio representante nacional dessa arte. 

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Como de costume a direita viu-se desbaratada no debate quinzenal

Que a campanha eleitoral vai estar pejada de truques desonestos por parte das direitas, temo-lo visto nos dias mais recentes com a intensa projeção de areia para os olhos do eleitorado, que sabe agradavelmente surpreendido com os benefícios recolhidos com a implementação dos novos passes. Quando o «Observador» ou o «Expresso» lançam sucessivos casos de supostas ligações familiares no Partido Socialista - nenhuma datada das últimas semanas! -, só pretendem dar munições aos dirigentes do PSD e do CDS que, sabendo-se sem quaisquer argumentos para contraditarem os sucessos da governação, veem no assunto a única corda de salvação a que se julgam poder agarrar. Em poucos dias Rui Rio desbaratou o eventual benefício da dúvida, que se lhe poderia atribuir quanto a diferenciar-se do antecessor, porquanto o uso da mentira mil vezes repetida e da pose escandalizada perante o suposto desaforo socialista, só o denunciam como a outra face da mesma falida moeda. Na tarde de hoje foi patética a tentativa de Fernando Negrão agarrar-se a esse recurso desesperado, consciente de a outro não conseguir firmar-se.
Cristas revelou-se mais esperta, sobretudo quando viu estatelar-se o parceiro do lado com o anunciado elefante a esvaziar-se até à dimensão de atemorizado rato. Daí que avançasse para outros argumentos, aparentemente mais consistentes, mas depressa tornados insignificantes pelas explicações de António Costa. Mesmo quando ensaiou a repetida manobra de gestão do tempo para fazer esgotar o do primeiro-ministro, e ser sua a última palavra na disputa verbal entre os dois, viu trocarem-se-lhe as voltas, gorando-se os seus intentos.
O que as direitas voltaram a suscitar foi o toque a reunir de toda a esquerda, como sempre acontece quando o governo se vê tão ruidosamente contestado. Para quem anseia ver repetida na próxima legislatura a experiência da convergência parlamentar da atual maioria, a explicita sintonia das bancadas das esquerdas no debate desta tarde serviu para aquietar receios quanto aos brados de velhos do Restelo, que a dizem irrepetível.
Uma palavra final para a emissão da SIC durante essas duas horas de discussões parlamentares. Recorrendo ao sinal emitido pela televisão da Assembleia da República, replicava-o ininterruptamente durante as intervenções de Negrão ou de Cristas, nunca deles desviando a atenção. Quando, pelo contrário, falavam António Costa, Catarina Martins ou Jerónimo de Sousa, abundavam outros planos da sala com deputados das direitas a falarem entre si, a levantarem-se, a passearem de um lado para o outro, na clara intenção de impor aos espectadores a distração do que se estava a discursar, diminuindo-lhes o potencial impacto. Como alternativa, já há muito o assunto dos familiares socialistas se esgotara e ainda o ecrã se enchia de faixa lateral ou inferior com textos a ele alusivos.
Autêntico Caim, o diretor da SIC não poupa manigâncias para prejudicar tanto quanto possa o governo liderado pelo meio-irmão.

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/04/como-de-costume-direita-viu-se.html

Portugal | Porque não te calas, Cavaco?

Sendo certo que a liberdade de expressão faz parte dos imensos apêndices da democracia, não resistimos a usar uma frase antiga que é tantas vezes pronunciada quando já estamos fartos e refartos de banalidades, de enxurradas de sedes de protagonismos bacocos e alienantes que tantas vezes são o que mantêm cadáveres a modos que vivos mas já sem vida. 

Está neste caso Cavaco Silva, que até, por sinal, sobre democracia e liberdade de expressão terá os seus défices – atestados na sua escola de elemento da PIDE/DGS do regime ditatorial que ele serviu com pundonor, como prova a sua identificação de personalidade integrante daquela polícia política, terrorista e fascista. E outras provas da sua vigência desastrosa e enfadonha nos poderes políticos a que se alapou doentiamente no pós-25 de Abril de 1974.
Anda agora Cavaco às “cabeçadas” com Marcelo, seu sucessor na Presidência da República. Por coisa de lana caprina, afinal só um mero e cimentado hábito de nepotismo, que é primo da corrupção. Oh, senhores. Mas disso tudo já nós sabemos… Porque não te calas, Cavaco?
Redação PG
Da "política-espetáculo" à obra de Saramago: as picardias entre Marcelo e Cavaco
O atual e o ex-presidente da República envolveram-se, esta semana, numa troca de palavras sobre a questão da presença de familiares no Governo PS. Mas há um histórico anterior de picardias entre ambos.

Marcelo Rebelo de Sousa diz que é "um facto histórico" que foi Cavaco a dar posse ao Governo de António Costa, que tem quatro membros com relações familiares - os ministros do Mar e da Administração Interna, Ana Paula Vitorino e Eduardo Cabrita, casados, e o ministro do Trabalho e da Solidariedade José António Vieira da Silva, cuja filha, Mariana Vieira da Silva, subiu, na última remodelação governamental, de secretária de Estado a ministra da Presidência.

O anterior presidente não gostou de ver o seu nome chamado à liça por Marcelo e, na quarta-feira, disse que "não há comparação possível" entre o Governo a que deu posse em 2015 e o atual executivo, no que concerne às relações familiares. Marcelo não se ficou e, à noite, em Almada, voltou a responder a Cavaco: os nomes são os mesmos. "Nomeou pensando, bem, que eram competentes e ninguém lhe perguntou nem questionou na altura, como não o questionou até hoje. É um facto histórico, nomeou, nomeou", salientou, quarta-feira à noite. Esta troca de palavras não é inédita. O JN recorda-lhes outros episódios de picardias envolvendo Marcelo e Cavaco, umas mais às claras do que outras.

A crítica à "política-espetáculo"

No primeiro livro da biografia de Cavaco Silva, "Quinta-feira e outros dias", lançado em fevereiro de 2017, o ex-presidente da República deixou algumas indiretas ao seu sucessor no Palácio de Belém. "A política-espetáculo, tão cara a alguns políticos, por proporcionar notícias e fotografias, não traz qualquer benefício", escreveu Cavaco num dos 52 capítulos do livro de 592 páginas onde se propôs dar "público testemunho de componentes relevantes" da sua magistratura - desde que tomou posse como chefe do Estado, em 2006, ate ao dia em o primeiro-ministro socialista José Sócrates deixou o Governo, em 2011.

A "verborreia frenética" dos políticos

A 30 de agosto de 2017, numa intervenção na Universidade de Verão do PSD em Castelo de Vide, Cavaco Silva teve uma intervenção que foi interpretada como um recado à exposição frequente do atual presidente, sempre bastante disponível para falar aos jornalistas, ao contrário do estilo contido do anterior presidente. "Em França, não passa pela cabeça de ninguém que Macron telefone a um jornalista para lhe passar uma notícia ou uma informação", afirmou. O ex-presidente elogiou Macron por entender que "a palavra presidencial deve ser escassa", uma estratégia que "contrasta com a verborreia frenética da maioria dos políticos europeus dos nossos dias, ainda que não digam nada de relevante".

A estranheza de mudar a PGR

A 26 de setembro de 2018, Cavaco Silva criticou a decisão de não recondução da ex-procuradora geral da República, Joana Marques Vidal. "Sou levado a pensar que esta decisão política de não recondução de Joana Marques Vidal é talvez a mais estranha tomada no mandato do governo que geralmente é reconhecido como geringonça", disse, citado pela Rádio Renascença. Falando à margem de um congresso da Associação Portuguesa para o Desenvolvimento das Comunicações (APDC), o ex-presidente da República considerou a não recondução de Joana Marques Vidal algo "muito estranho, estranhíssimo, tendo em atenção a forma competente como exerceu as suas funções e o seu contributo decisivo para a credibilização do Ministério Público". Um dia depois, o atual presidente não deixou passar essa declaração em branco. "Todos sabemos que quem nomeia as procuradoras-gerais da República são os Presidentes, não são os governos. Portanto, a nomeação da procuradora-geral da República foi minha e de mais ninguém", afirmou Marcelo Rebelo de Sousa, à margem da IV Cimeira do Turismo, deixando um claro reparo a Cavaco. "Entendo que não devo comentar ex-presidentes, nem amanhã quando deixar de o ser, nem futuros Presidentes, por uma questão de cortesia e de sentido de Estado", disse Marcelo.

Acordos escritos? "A geringonça afirmou-se"

A 6 de agosto de 2018, numa entrevista ao podcast de Daniel Oliveira "Perguntar não ofende", o atual presidente da República afirmou que não vai exigir a assinatura de acordos escritos entre partidos que, à esquerda ou à direita, possam no futuro vir a apoiar uma solução de Governo, ao contrário do que exigiu Cavaco Silva para dar posse ao Governo de António Costa em novembro de 2015. "Não me parece essencial haver acordo escrito por uma questão de princípio, mas também não me parece essencial haver acordo escrito porque as dúvidas que se poderiam formular sobre o acordo escrito acabaram por ser resolvidas pela prática da fórmula política." De acordo com o chefe de Estado, a atual solução, em que o Governo minoritário do PS é suportado por acordos escritos -- designados de posições conjuntas - com o BE, o PCP e o PEV - "afirmou-se" e "sobreviveu".

A "falta de gosto" de não apoiar Saramago

Nos 20 anos da entrega do prémio Nobel a Saramago, o presidente da República classificou de "falta de senso e falta de gosto" o veto governamental, em 1992, da candidatura da obra de José Saramago "O Evangelho sobre Jesus Cristo" ao Prémio Literário Europeu, recordando que selou as pazes com o escritor com um abraço numa praça de Madrid. No congresso que celebrou os 20 anos de atribuição do Prémio Nobel da Literatura, a 8 de outubro de 2018, em Coimbra, Marcelo lembrou que a decisão do Governo de então, liderado por Cavaco Silva, foi o empurrão que faltava para que Saramago decidisse zarpar de Portugal para Lanzarote.

Gina Pereira | Jornal de Notícias | Foto: Gerardo Santos / Global Imagens

Portugal | Quando os ratos começam a sair dos porões

Jorge Rocha* | opinião

À distância de alguns meses não é difícil imaginar a Noite das Facas Longas, que ocorrerá no Largo do Caldas, quando se confirmar eleitoralmente a irrelevância política do CDS para servir de instrumento eficiente às direitas ideológicas, que nele se abrigam. Se Assunção Cristas viu na desagregação do PSD a ocasião de ouro para se proclamar líder das direitas, as sondagens vão-na dissuadindo da possibilidade de chegar a tal condição, sequer por aproximação. Pouco a pouco vai mitigando a expressão desse objetivo, ciente de como ele soa ridículo a quem, de fora, vai detetando a diferença entre os seus sonhos e as incontornáveis realidades.

Nesse sentido talvez se compreenda melhor a súbita desafeição de Adolfo Mesquita Nunes do comprometimento político ativo preferindo abrigar-se na bem mais bem paga atividade profissional. Perdeu-se assim o único comentador, conotado com o CDS, que se tolerava ouvir, por usar a inteligência argumentativa em vez da habitual, e contínua, enunciação dos preconceitos dos companheiros de partido. Ele adivinhou o que significará a viragem política decorrente da derrota eleitoral no princípio do outono: muito mais à direita do que ele, e até de Cristas, os militantes alinharão facilmente com os jovens «populares», ideologicamente conotados com Nuno Melo, que não esconde a ambição de vir a substituir a atual líder, demasiado «centrista» para o seu gosto. E não se atarda a mostrar ao que virá: numa recente demonstração da sua conhecida «sofisticação intelectual» defendeu o acesso às armas por todos quantos desejem possui-las, por muito que não sejam polícias, nem militares.

Não deixa de ser curiosa essa sintonia com o bolsonarismo e o trumpismo por parte do provável rosto do partido mais à direita no parlamento. O problema para aquele que, de entre os deputados portugueses ao Parlamento Europeu, é o mais absentista, é não faltar gente mais esperta para prosseguir a condução desse tipo de agenda próxima da extrema-direita. Não serão porventura André Ventura ou Santana Lopes, qualquer deles ridículos na intenção de se verem promovidos a «presidentes da Junta», para utilizarmos uma conhecida figura hermaniana. Mas Miguel Morgado ou José Adelino Maltês poderão ser as eminências pardas de um qualquer Luís Montenegro que, acolitado pelas agendas bem preenchidas de Miguel Relvas e Dias Loureiro e os muitos milhões propiciados pelos financiadores do «Observador», tenderão a querer o reatamento do processo interrompido com as eleições de 2015. Quem quer que suceda a Cristas à frente do CDS terá sempre como provável horizonte o retrocesso até à dimensão do partido do táxi, tal qual foi umas décadas  atrás...

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

https://paginaglobal.blogspot.com/2019/03/portugal-quando-os-ratos-comecam-sair.html

Como furar a indecorosa manipulação das direitas?

Como furar a indecorosa manipulação das direitas?
A campanha eleitoral para as legislativas de 2015 não está assim tão longe, que não nos recordemos de tudo quanto as direitas, reunidas na coligação PAF, fizeram para alcançarem os quase 37% com que se apressaram a celebrar precocemente a vitória. Usando técnicas muito agressivas conseguiram pôr à defesa o Partido Socialista, que se viu enredado em justificações sobre quem figurava nos seus cartazes e não conseguiu romper o bloqueio desinformativo lançado por todas as televisões, ativamente secundadas nas redes sociais, então como agora, dominadas por prosélitos, que não se coibiram de uma campanha suja de mentiras e deturpações.
Essa imunda atividade prossegue, bem como o mesmo bloqueio, que se traduz no predomínio de comentadores políticos nas várias televisões, quase todos de mira apontada contra o governo. E agora querem, igualmente, legitimarem o discurso de não ter havido obra feita pelo governo quando, ao mesmo tempo, multiplicam denúncias à Comissão Nacional de Eleições para impedirem as inaugurações, que desmascaram esse logro. O «honesto» Rui Rio equipara-se às peixeiradas de Cristas no uso dessa ilegítima arma eleitoral. Que sentido faz o governo parar meses a fio a sua atividade só porque as direitas consideram que serviços públicos essenciais às populações devem abrir só quando elas não sentirem o merecido efeito da preocupação havida em satisfazer-lhes imperiosas necessidades?
Ao olharmos para as sondagens publicadas esta semana comprova-se a eficácia das direitas em terem conseguido manter a comunicação social do seu lado e manipularem diversas classes profissionais - desde os professores aos enfermeiros, passando por polícias ou juízes! - para darem a falsa ideia de um governo à deriva. Ora o contrário é muito fácil de demonstrar se a mensagem política chegar com objetividade a todos os eleitores, porque os resultados económicos revelam diariamente a ação determinada de quem sabe em que direção deve ir para melhorar significativamente a qualidade de vida dos cidadãos.
Faz sentido que, nestes quatro anos, o Partido Socialista só tenha conquistado 5% de votos a quem, em 2015, votou nas direitas? Pode concluir-se que o marketing politico tem sido bem mais competente nas direitas do que nas esquerdas, que ainda não conseguiram furar o cerco em que são permanentemente enleadas. E, nesse sentido, até Marcelo se vem juntar à tentativa de inversão da relação de forças existente, repetindo semana sim, semana sim, que existe esquerda a mais.
Como podem admirar-se os meus amigos, que estranham o odiozinho de estimação, que alimento por quem adotou como sentido da vida para os seus anos crepusculares essa missão de ajudar as direitas a voltarem a infernizar a vida dos portugueses? É que, a exemplo, dos norte-americanos ou dos brasileiros, os nossos concidadãos mostram-se demasiado volúveis a filtros da realidade, que a deturpam e ensombram.

 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/03/como-furar-indecorosa-manipulacao-das.html

As melhoras, Rio…

(Por Joaquim Vassalo Abreu, 25/02/2019)

As melhoras
Joaquim Vassalo Abreu

Quando chegamos a uma época como esta, pré-eleitoral, eu tenho um estranho fetiche que é o de olhar para os painéis de publicidade que os Partidos e seus líderes decidem exibir e tento descortinar, vislumbrar e mesmo adivinhar as mensagens que eles, mesmo que de um modo subliminar, nos tentam impingir…

E a verdade é que já vi dois dignos de acerca deles me debruçar. E, mesmo com algum sacrifício e dor, da responsabilidade dizem que de uns bicos de um papagaio que um nunca vi nem tive, sobre eles me debruçarei…assim como quem diz, percebem?

Da substância do Melo nem me vou alongar muito, pois já muitos o comentaram e eu parece que me atrasei! Nele ele diz que ” A Europa é aqui”! Todos foram pelo óbvio: claro que é porque tu estás sempre aqui, apressaram-se todos a dizer!  Mas é claro que é e se todos o dizem é porque é mesmo e quem sou eu para o contradizer?

Agora, no que diz respeito ao Portugal ., traduzindo : Portugal “ponto” , aí a coisa muda mesmo de figura e eu dou por mim bloqueado: nem ando para trás nem para a frente! Digamos que esbarrei contra aquele “ponto”, ponto acerca do qual ainda não vi uma única palavra escrita! Que raio quererá ele significar?

Que quererá ele significar se não passa de um inócuo simples ponto e não tem acoplado uma simples virgula de modo a se poder dizer que é um ponto e virgula para assim se poder dar sequência ao Portugal, tipo um País situado na extremidade ocidental da Europa; à beira mar plantado e coisas assim…ou então mais um ponto, de modo a ficar dois pontos, significando esses dois pontos depois do tal Portugal um aviso, ou uma lembrança, vá lá, à Europa, avisando-a de que ” A Europa (agora) é aqui”. Mas falhou o “agora”!

O facto é que o Melo esqueceu-se ( eu ter-lho-ia lembrado mas, na sua sobranceria, nem uma ideia me pediu.,.) e assim se desvaneceu para ele aquilo que poderia ter sido uma grande conquista! O que resta é aquela frase seca e isolada do ” A Europa é Aqui”, como que alguém nisso possa acreditar…Só se for para ti, é o que muitos dizem, ó “Dandy” de Joane! Como é que um tipo tão loquaz tanto simplifica?

Ora deste estamos, portanto, libertos (ufa…) mas, ainda hoje mesmo, em chegando a Esposende, naquela primeira rotunda junto ao Continente, que é que eu vejo ali escarrapachado na minha frente, pois fazia a rotunda para  virar à direita para Góios? Um cartaz do Rui Rio, um cartaz que nem na Póvoa ainda exibe, com a sua cara retocada a botox, só pode ser, e sem aqueles prolongados pêlos que lhe escapam atrás, que significam desleixo porque moda não parecer ser, mas que a produção tratou de eliminar, tudo isto em tom alaranjado, tal como as palavras a seguir no mesmo cartaz impressas: “Conto contigo, ou consigo já nem sei, para melhorar Portugal”!

Desde já vos digo que aquele modo tão directo e franco de a mim se dirigir, não tendo tido aquela ousadia do Seguro quando escrevendo-me uma carta a pedir-me ideias me tratou por caro amigo…ele que nunca me tinha visto mais gordo…nem mais magro, ok?, me embeveceu! E verifiquei que, ao contrário do outro, o tal de Seguro, que queria a minha ajuda para ambos mudarmos Portugal, o Rui é mais comedido e só quer “melhorar” Portugal, o que significa que é contra radicalismos bacocos!

Mas nem ele nem os dele pensaram bem no que escreveram pois é bom de ver que ao querer “melhorar” Portugal é porque admite implicitamente que ele goza de boa saúde, está razoavelmente bem de vida e não apresenta sintomas negativos…Então? Quer contar comigo para quê? Para “melhorar” não conte comigo! Ainda se fosse para “mudar”...

Ele e os seus se tivessem escrito “mudar Portugal”, e talvez por lhe terem lembrado qual era a minha receita, não o escreveram, pois tinham por certo conhecimento do que eu disse ao Seguro quando ele aqui há uns anos me mandou aquela célebre carta em que, tratando-me por amigo, me solicitou ideias, que ele sabia que eu tinha, para ambos mudarmos Portugal!

É que eu, depois de muito matutar sobre o assunto, depois de estudar tudo e mais alguma coisa sobre a nossa génese e os feitos da nossa grei, cheguei à revolucionária solução que, de um modo desinteressado e sem reclamar qualquer soldo, enviei ao Seguro…

António, eu sei que tu sabes que eu decidi concorrer às Primárias para te abater mas, ciente que as oitenta ideias que tens não te chegam para nada, o Costa mesmo sem ideias come-te de cebolada, digo-te de uma vez por todas o que penso, e toma nota:

Mudar Portugal para outro País, um assim tipo Holanda seria até interessante mas como tem diques a coisa fica feia e os custos seriam astronómicos…de modo que te sugiro uma solução mais em conta, restringida ao espaço interno e sem aqueles custos de contexto da outra…

Qual? É simples meu caro: Mudas o Minho para o Algarve; o Algarve para Trás os Montes; Trás os Montes para o Ribatejo; o Douro para o Douro pois está muito bem onde está; o Alentejo para a Estremadura e Lisboa para a Corunha…

Lisboa para a Corunha? Mas isso seria tomar a Galiza? Exacto: não é o crescimento por que anseias? Ora aí esta!

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Portugal, um país de oportunidades

Portugal é um país de imensas oportunidades. Quando alguém julga que os sonhos mais incríveis, as aspirações excessivas ou as maiores utopias são irrealizáveis, nunca deve dar-se por vencido.

Há sempre quem, por mais curtas que sejam as asas, consiga voar até onde chegam as águias, atingir os píncaros e, do alto, olhar sobranceiro para quem não ousou levantar voo.

São muitos os exemplos do nosso remorso, as figuras do nosso desespero e os motivos da nossa raiva, mas os culpados fomos nós.

Portugal

Ver original em 'PONTE EUROPA' na seguinte ligação::

https://ponteeuropa.blogspot.com/2019/02/portugal-um-pais-de-oportunidades.html

Portugal | Demagogia, de Creonte a Cristas

O demagogo afaga e bajula o “cérebro reptilário”, ou seja, a parte do cérebro humano que partilhamos com os répteis, os peixes e os vertebrados inferiores, e é o nicho dos nossos instintos
Alfredo Barroso* | jornal i | opinião
O termo demagogia dá pano para mangas porque a sua prática remonta à antiguidade clássica. Mas como não quero maçar quem me lê, terei de recorrer a um modo sintético. Na democracia ateniense, o termo demagogo queria dizer, literalmente, chefe do povo - era a junção de “demos”, o povo, com “agogos”, o que conduz - e demagogos eram os líderes dos partidos populares que se opunham aos partidos das “gentes belas e boas”, como os aristocratas se designavam - modestamente - a si próprios. 
Nesse tempo, porém, o demagogo começou por ser, no contexto da democracia praticada na cidade-Estado de Atenas, o chefe político que usava a sua inteligência e saber com o propósito de defender lealmente a multidão dos mais desfavorecidos, contra o pequeno número de privilegiados. Péricles (494- 429 a. C.) por exemplo, a quem se deve esse milagre grego que foi a invenção da democracia, era um extraordinário chefe político que poderíamos designar por “demagogo bom” e, claro, “bom demagogo”. 
Mas foi dois anos depois da morte de Péricles, com o aparecimento na praça pública do demagogo e implacável Creonte, com os seus excessos brutais e a sua arrogância vulgar, que o termo demagogo passou ser claramente desfavorável e politicamente depreciativo. E foi o grande historiador Tucídides (460- 400 a.C.) - na sua admirável “História da Guerra do Peloponeso” (entre Esparta e Atenas, ocorrida no século V a. C., entre os anos 431 e 404 a. C.) - que registou para sempre esse arquétipo do demagogo incendiário, indecente e brutal. Creonte, rico curtidor de peles, era partidário da guerra à “outrance” contra Esparta. Tucídides detestava-o, tendo escrito que “não havia Ateniense mais brutal do que ele”. Era impiedoso e achava que era preciso “governar pelo medo” não hesitando, perante uma multidão de seis mil atenienses em delírio, em incitá-los a punirem com um massacre os Mitilenos já derrotados, que eram uma parte - parafraseando a tão facciosa e sempre hostil Assunção Cristas - dos “inimigos encostados” de Atenas.
E vem muito a propósito falar de Assunção Cristas, porque ela é, sem qualquer dúvida, no contexto da democracia portuguesa actual, um exemplo flagrante da “demagoga má” - e “má demagoga” - no que só é superada pelo seu número dois, Nuno Melo, o bracarense que é “testa-de-ponte” da lista do CDS-PP ao Parlamento Europeu - “recandidato” que, a crer nas faltas que já deu, tanto vê Braga como o PE por um canudo. Mas ambos têm, à direita, outro “demagogo mau” - e “mau demagogo” - perfeitamente à altura: o inefável Paulo Rangel, um agitado refilão, “cabeça-de-atum” da lista do PPD-PSD ao Parlamento Europeu. Infelizmente, a demagogia política que os três praticam tem a espessura duma lâmina de barbear, a consistência do puré de batata e a subtileza dum tijolo.
Assim como Eusébio Macário não tinha, segundo Camilo, “tineta para boticário”, também eu acho que Assunção Cristas não tem tineta para a “política a sério”. A sua agressividade em relação a Rui Rio e a sua hostilidade brutal para com António Costa tocam as raias da indigência e da indecência. Cristas consegue ser infantil, malcriada e grotesca. Puxa-lhe o pé para a chinela. Usa permanentemente os mesmos argumentos, óbvios e mal aviados. É chocarreira, falta-lhe sainete. Faz o estilo da menina esperta e “marrona”, que se porta com ar de quem sabe tudo quando vai à prova oral. E falta-lhe, sobretudo, o incontestável talento que tinha Paulo Portas para o anexim, a frase curta e incisiva, o manto diáfano da fantasia a esconder a nudez forte da verdade. Cristas nem aos calcanhares lhe chegará. E crê que nós, lisboetas, não percebemos que a sua proeza eleitoral na autarquia de Lisboa se deveu, sobretudo, à ruína do “passismo”. Foi mesmo “bater em mortos”!
Primo Levi avisou: “Uma grande lição da vida é que os imbecis têm por vezes razão. Mas é preciso que não abusem. Chama-se demagogia à arte de abusar”. Todos nós teremos, se calhar, recorrido alguma vez à demagogia. Mas o que constitui a essência do demagogo é, precisamente, o abuso da própria demagogia. E das palavras. O demagogo crê que só ele é que diz e detém a verdade. E vai incutindo essa falsa ideia na multidão que o ouve e que ele não se cansa de lisonjear, para a conquistar e explorar a favor dos seus intentos. O demagogo simplifica tudo, recorre a um número limitado de regras, de figuras de estilo, de receitas, que têm atravessado todas as épocas com mais ou menos eficácia, segundo as circunstâncias históricas e políticas. Para o demagogo, regra geral de direita, que está na oposição e não se cansa de insultar e tentar rebaixar o Governo democrático que está no poder, são sempre os mesmos os argumentos a que recorre, não só contra o Executivo mas também contra o Parlamento, a saber: incompetência, inércia, palração, trapalhada, fuga às responsabilidades, favoritismo, volubilidade, corrupção. Nada há de positivo: nem um louvor, nem uma crítica construtiva, nem uma oposição séria e sem impropérios. Todo o demagogo é do contra, envenena o ambiente, quer provocar a crise e o caos. 
E vou terminar, que eu não quero inquietá-los ainda mais. O demagogo afaga e bajula o “cérebro reptilário”, que é a parte do cérebro humano que partilhamos com os répteis, os peixes e os vertebrados inferiores, e é o nicho dos nossos instintos, como a agressividade, a sensualidade, o instinto de sobrevivência ou a fome. Ora, o “cérebro reptilário”, a par do “cérebro límbico” - sede do gosto, do olfacto, do instinto lúdico e toda uma outra série de emoções, como a cólera, o entusiasmo, o ódio e por aí fora - constituem, por assim dizer, o “cérebro antigo”, que envolve a esmagadora quantidade de massa cinzenta com os dez mil milhões de neurónios do neocórtex, que nos proporcionam, por seu turno, tudo aquilo nos distingue dos animais: linguagem, lógica, razão. Encurtando caminhos: é o “cérebro antigo”, designadamente o “cérebro reptilário”, que o demagogo quer atingir quando se dirige às multidões, ao povo ignaro, à populaça, que delira com os insultos e baixezas de todo o tipo a que um demagogo recorre na sua lamentável “argumentação” política. Daí que, à pergunta: “Mas porque é que as multidões podem descer tão baixo?”, seja costume responder: “Por causa do crocodilo”… Lembram-se do fascismo e do nazismo?
*Escreve sem adopção das regras do acordo ortográfico de 1990

 

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Portugal | Inconsistências e cheiro a esturro

Manuel Carvalho da Silva* | Jornal de Notícias | opinião
No quadro de regras europeias que são "estúpidas" e que o Governo português diz querer mudar - diga-se, sem grande empenho no objetivo e acima de tudo sem que o consiga fazer -, está provado ser impossível fazer uma governação que ao mesmo tempo comprima o défice, reponha rendimento disponível para a esmagadora maioria dos portugueses que dele carecem, e reforce o investimento público.
E, daqui para a frente, num cenário em que se perspetiva menor crescimento e em que a ganância do grande poder financeiro e económico é crescente, pior ainda. Este facto retira consistência ao discurso do Governo e é justo e necessário colocar em evidência aquela impossibilidade.
Entretanto, quando analisamos os discursos da Direita, por exemplo no debate da moção de censura ao Governo apresentada pelo CDS, constatamos que as suas propostas são ainda bem mais inconsistentes. PSD e CDS pretendem que, ao mesmo tempo, se comprima ainda mais o défice para pagar a dívida, se reduzam os impostos e se aumente o investimento público. Como é que tal objetivo poderia ser atingido? A Direita não revela mas advinha-se o que faria para conseguir tal "milagre".
Se os salários dos trabalhadores da Administração Pública não fossem aumentados mas de novo reduzidos e as suas carreiras congeladas por cem anos, se as pensões de reforma fossem cortadas, o sistema da segurança social enfraquecido e em parte desbaratado (como queria Passos Coelho), se fossem aplicados cortes drásticos nos direitos universais à saúde, ao ensino ou à justiça, naturalmente a Direita conseguiria alguma folga para tentar aplicar a sua receita. Os efeitos já os conhecemos e são dolorosos: empobrecimento, maiores desigualdades, expulsão de população, em particular jovens, destruição de empresas, incapacitação do Estado, afundamento do nível de desenvolvimento do país.
A inconsistência das posições do PSD e em particular do CDS revelam-se quando acusam o Governo de ter criado expectativas incomportáveis e, ao mesmo tempo, apoiam e incentivam as reivindicações de vários setores da sociedade. Reivindicações essas que, eles mesmos, identificam como a expressão daquilo que "o Governo prometeu de forma ligeira sabendo que não podia cumprir".
Se o apoio da Direita a esses setores profissionais e ao conjunto dos trabalhadores fosse verdadeiro, então estávamos perante a expressão absoluta da inconsistência: um programa propondo ir além da Comissão Europeia na compressão do défice, aumentar os rendimentos de todos os trabalhadores da Administração Pública, reduzir impostos e, ainda, aumentar o investimento público. Não bate a bota com a perdigota. Este programa seria, em absoluto, inviável. No entanto, é repetido como se as pessoas não fossem suficientemente inteligentes para perceberem que tanta inconsistência cheira a esturro.
As iniciativas políticas do PSD e do CDS não passam de estrebuchamentos no atoleiro de contradições insanáveis. No contexto político que se perspetiva, estes partidos não têm qualquer proposta nova e positiva. A moção de censura do CDS, para além de ser um gesto de desespero tendo como vítima o PSD, mostra duas outras coisas: os dirigentes daquele partido consideram-se ungidos para a governação e para terem sempre as mãos nos potes do poder, e que Assunção Cristas é um caso de liderança que confirma o princípio de Peter.
No encerramento do debate daquela moção, o primeiro-ministro assumiu, em resposta às intervenções do BE e do PCP que haviam exposto contradições e insuficiências da governação, "sim, podemos ir mais longe e devemos continuar a trabalhar para ir mais longe". Há políticas bem positivas a adotar que não implicam problemas financeiros: tornar a distribuição da riqueza mais justa, dar mais eficácia ao investimento, equilibrar poderes nas relações de trabalho, negociar compromissos progressivos com setores que têm fortes razões de protesto, defender capacidades do Estado para nos garantirem acesso ao direito à saúde e a outros direitos fundamentais.
Precisamos de aromas mais agradáveis e saudáveis e isso, no imediato, exige de António Costa e do seu governo, mais solidez e atenção aos problemas, e responsabilidade perante o futuro.
*Investigador e professor universitário

 

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Os zombies andaram por aí...

Em 1968 George Romero pregava-nos valente susto, quando dois irmãos eram atacados por um zombie num cemitério. Doravante não pararia de nos amedrontar com tais monstros até 2009, quando assinou o derradeiro título da sua filmografia. Pelo meio andou a alertar-nos para a importância de olharmos para esses filmes como sendo bem mais do que entretenimentos enquadrados no género do terror. Denúncia do capitalismo, esclarecia ele e, de facto, olhando para «Terra dos Mortos» (2005) com merecida atenção, está lá tudo quanto um empedernido marxista possa evocar sobre os malefícios do sistema económico baseado na exploração das mais valias inerentes à transação de mercadorias.
Fica, assim, explicada a razão porque aprecio os filmes de Romero, mesmo que insuportáveis nas escabrosas cenas em que os zombies se deliciam a provar os corpos dos ainda vivos. Dá para perceber que são monstros terríveis, que convirá serem circunscritos às suas sepulturas.
Não é isso que, porém, vai acontecendo, como pudemos constatar nas notícias dos últimos dias. Da algarvia urbanização da Coelha um, de Massamá outro, dois mortos vivos saíram do respetivo recato e vieram assombrar-nos com os seus gestos trôpegos e palavras inaudíveis. Uns supostos jornalistas andaram a conjeturar o que disseram, mas não ficou provado que tenham tido substantivo significado o que das suas bocas se ouviu. Por mor das dúvidas aos arquivos e reciclaram algumas coisas requentadas, mesmo que com odor entre o mofo e o fétido.
Porque eram só dois não suscitaram grande sobressalto: das tumbas vieram, a elas voltaram, sem grandes males que se reportassem. Mas justifica-se a atenção a muitos outros, que possam engrossar-lhes a virulência. Nessa altura convirá regressar à obra de Romero e recordar a melhor forma de os devolver definitivamente à procedência.

 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

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Cristas, o Pavilhão, a inépcia do Dr. Ricardo e os favores ao Dr. Cavaco

(Por Jovem Conservador de Direita, in Facebook, 23/02/2019)

cristas_sal_cavacoJá aqui falei sobre este assunto, mas nunca é demais destacar o papel da Dra. Assunção Cristas no processo de venda do Pavilhão Atlântico. Ela sabia que o Dr. Genro tinha de ganhar o negócio e tratou de arranjar que ele fosse feito de forma cristalina e transparente. O governo precisa de pessoas competentes como a Dra. Cristas, que executam aquilo que lhes é solicitado sem colocar questões. Como da vez que ela assinou de cruz a resolução do BES ou, como neste caso, em que garantiu que o Pavilhão ia ser vendido à pessoa certa de acordo com as regras. Um político que pensa demasiado nas implicações morais dos seus actos é um político muito pouco eficiente, porque enquanto está a pensar se algo é certo e errado as coisas não se fazem. Perder tempo a ponderar implicações éticas e morais de negócios é um luxo para quem pode estar em redes sociais. Quem tem mais que fazer não tem tempo a perder.

Se o pavilhão fosse muito caro, não seria um bom negócio para o Dr. Genro e o Dr. Cavaco podia ficar chateado. Se o pavilhão fosse oferecido, dava muito nas vistas. Assim, foi feito um bom negócio de uma forma honesta e transparente. Pelo menos no papel, que é o que importa. As alegações e os boatos podem sempre ser combatidos com moções de censura e outras manobras de diversão.

O que importa é que, formalmente, foi tudo feito de uma forma legal. Nada disto teria acontecido se o Dr. Ricardo Salgado não estivesse tão seguro de si e não tivesse tratado destes negócios ao telefone. Como ela admitiu numa entrevista, a Dra. Cristas só conhece o Dr. Genro da praia, que, tendo em conta o historial, quase podia ser o seu escritório.

A praia é um sítio bom para desenvolver negócios importantes e legais, porque os dispositivos de gravação dão muito nas vistas. É incrível que o Dr. Ricardo Salgado tenha sido tão desleixado. Ainda por cima ele era proprietário de uma praia particular na Comporta e até estava em boa forma para a idade. Ficava lindamente de calções. Podia ter feito tudo na praia, em vez de se sujeitar a estes vexames que fazem duvidar da legalidade dos seus negócios.

No episódio desta semana do meu podcast, discuto este excelente negócio, entre outros, entre outros. Subscrevam.


Ao abrigo do direito à defesa abaixo segue a resposta que Assunção Cristas deu no twitter:

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Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Jogos infantis: uns inúteis, outros perigosos

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 23/02/2019)

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Miguel Sousa Tavares

1  Como diz o cartaz do CDS para as eleições europeias, “A Europa é Aqui”. Comecemos então por aqui, visto que o resto não parece interessar-nos por aí além. Ora, aqui, como toda a gente concordou, a moção de censura do CDS cumpriu o seu único objectivo, que era o de embaraçar o PSD no seu putativo papel de principal partido da oposição. Não pelo brilhantismo da estratégia centrista ou, menos ainda, pela contundência dos argumentos em que se fundava a sua moção de censura, mas por uma razão bem mais embaraçosa para o PSD: porque, nos quatro dias anteriores à votação, não foi possível reunir o seu grupo parlamentar para decidir o que fazer — sábado e domingo porque era fim-de-semana e segunda e terça porque os deputados estavam a gozar as folgas das jornadas parlamentares… do PCP.

Foi assim um PSD reduzido ao mutismo que votou, cabisbaixo, uma moção de censura do vizinho da direita a um Governo de esquerda apoiado pela extrema-esquerda, moção essa que conseguiu a proeza de evitar cautelosamente qualquer razão ou fundamento que pudesse indispor o eleitorado do povo de esquerda — designadamente os funcionários públicos, que todos os dias estão em greve e que em Outubro estarão nas urnas. E a cautela chegou a tal ponto que houve mesmo um momento de ternura, quando Assunção Cristas convidou o PCP e o BE a juntarem-se à moção de censura do CDS ou, em alternativa, a apresentarem eles uma à qual o CDS se juntaria, independentemente dos respectivos considerandos! É verdade que já vimos isto antes, com o PEC 4. Mas já sabemos o que acontece quando a história se repete: ou é comédia ou é tragédia. Desta vez foi comédia.

ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

2 Exemplar entrevista de José Gomes Ferreira a Carlos Costa. Exemplar, da parte do jornalista; exemplar de desfaçatez, da parte do governador. Da sua passagem pela administração da Caixa, é simples: não participou em nenhuma reunião de concessão de crédito, a não ser para compor quórum; não se envolveu em áreas de risco; não acompanhou clientes; e, presume-se (não o disse) nunca olhou para as contas das imparidades. Que terá ele estado lá a fazer?

Uma coisa fez: comprou, por acaso através dos serviços comerciais da Caixa, um monte alentejano que, por acaso também, estava à venda através desses serviços, e que, por acaso, pertencia ao também administrador Armando Vara, mas de quem, por acaso, não é amigo. Quanto ao Novo Banco, que anunciou que começava do zero, sem uma imparidade (todas chutadas para o “banco mau”) e com 4 mil milhões dos contribuintes lá metidos, se a conta hoje já vai em 8700 milhões e não se vê o fim é porque “não é num fim-de-semana que se toma consciência de toda a situação existente”. Também não percebeu que a Caixa precisava de ser recapitalizada porque “isso era da competência do accionista” e “todos os anos todos os bancos constituem imparidades adicionais” — é assim uma espécie de imposto-surpresa e tendencialmente perpétuo para os contribuintes. Afável, sorridente, de consciência perfeitamente tranquila, terminou o governador, com esta declaração: “Conseguimos um feito enorme: evitar que houvesse uma perda de confiança no sistema bancário. Os depósitos continuaram a entrar.” Ó senhor governador, queria que puséssemos o dinheiro debaixo dos colchões?

3 Num dia, sem consultar os seus aliados europeus ou da NATO, Donald Trump denuncia unilateralmente o Tratado INF, celebrado com a Rússia em 1987, e destinado a conter a proliferação de mísseis nucleares de médio alcance (entre 300 e 3400 milhas), cujo teatro de operação por excelência é a Europa. No outro dia, declara que a exportação de BMW para os Estados Unidos é uma ameaça à segurança nacional e anuncia a subida em 40% das suas taxas de importação, apesar de a maior fábrica da BMW se situar nos Estados Unidos. Depois, na segunda-feira, convoca uma conferência sobre segurança europeia para Munique, onde envia o seu vice, Mike Pence (em si mesmo, a única razão válida para duvidar da utilidade de um impeachment de Trump). Na véspera de visitar Munique, Pence tinha estado em Auschwitz, acompanhado de Netanyahu. E, enquanto o premier israelita arranjou maneira de se meter num sarilho diplomático declarando que os polacos tinham sido cúmplices e ocultadores dos crimes nazis (por acaso, uma triste verdade), o americano, aproveitando o entusiasmo do momento, declarava por seu lado que também eram anti-sionistas os europeus que não se juntassem aos Estados Unidos na denúncia do Tratado de desarmamento nuclear do Irão (que Trump também denunciou unilateralmente sem querer saber dos protestos dos aliados europeus). E, chegado a Munique — acompanhado por uma luzidia delegação composta pela filha de Trump, Ivanka, essa sumidade de política externa, e o marido Jared Kushnner, “enviado especial para o Médio Oriente” — Mike Pence gastou toda a sua intervenção a atacar os europeus que não abandonassem o tratado que levou anos a negociar entre Europa, Estados Unidos e Rússia e que tem garantido que o Irão não se torne uma potência nuclear. Justamente a ameaça que os americanos dizem querer enfrentar com a reinstalação das armas nucleares de médio alcance na Europa, uma vez mais sem consultar os europeus. Ou seja: Trump quer ver os europeus abandonar o tratado com o Irão para depois poder dizer, sem ser contestado, que o Irão é livre de fabricar armas nucleares. E verificada essa ameaça potencial e a ameaça russa de responder ao rearmamento americano (pois consideram, e com razão, as armas de médio alcance americanas um perigo real para o seu território), Trump virar-se-á então para a Europa e dirá: “Querem as nossas armas nucleares para vos protegerem ou preferem ficar desarmados à mercê de russos e iranianos?”.

Trump virar-se-á então para a Europa e dirá: “Querem as nossas armas nucleares para vos protegerem ou preferem ficar desarmados à mercê de russos e iranianos?”

Mas o jogo do clã Trump vai mais além ainda: envolve Israel e a Arábia Saudita, cuja improvável aliança é o grande plano estratégico de Jared Kushner. Mas aqui junta-se um incendiário plano geopolítico com um ganancioso objectivo pessoal de negócios, coisa que na família Trump parece andar sempre a par. Depois de ter fechado em Riade o maior negócio de venda de armamento convencional de que há memória, “The Washington Post” conta agora como o genro de Trump, na esteira do seu antigo conselheiro de Segurança Nacional, Michael Flynn, estará a negociar a venda encapotada de capacidade nuclear à Arábia Saudita, através da cobertura clássica que é a venda de centrais nucleares (os israelitas, depois, ensinariam rapidamente como se faz o resto). Não por acaso, as centrais seriam vendidas pela Westinghouse Electric, pertencente à Brookfield Asset Management, financiadora da família de Kushner em tempos de dificuldades. Juntando tudo isto — o pacote de armas convencionais comprado por Riade (e abundantemente utilizado na Guerra do Iémen), as centrais nucleares a comprar e os novos mísseis de médio alcance para a Europa — há milhares de milhões a ganhar pela indústria militar americana, grandes aliados políticos e parceiros de negócios de Trump. Parece um pesadelo inacreditável e é.

4Em Munique, ao falar da segurança europeia e mundial, Angela Merkel expôs os dados mais recentes sobre o aquecimento global, perante a esperada indiferença do vice-presidente americano, cuja Administração também denunciou unilateralmente o Acordo de Paris, assinado por Obama, sobre o combate às alterações climáticas. Um longo editorial de “The New York Times” desta terça-feira, significativamente intitulado “Time to panic”, resumia a situação assim: “Com o planeta a aquecer de forma catastrófica, talvez o medo seja a única coisa capaz de nos salvar”. Mas será que os idiotas têm medo? No mesmo dia, “Le Monde” dava notícia de um plano europeu, reunindo já centenas de adesões de gente que vai da direita francesa à extrema-esquerda espanhola, para a criação de um banco europeu financiado com 300 mil milhões de euros, retirados dos fundos de coesão e de impostos sobre as grandes empresas, e exclusivamente dedicado à construção de uma “economia verde” na Europa. Sem passar pelo sistema financeiro e abrangendo os sectores dos transportes, habitação, indústria, energia e serviços, podendo criar até seis milhões de empregos na UE. Uma economia dirigida para salvar o ambiente e não mais deixada entregue a si mesma e às suas escolhas. Felizmente, ainda há alguém que pensa: há uma esperança, afinal a Europa não é aqui.


Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

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Portugal | A Direita tem medo de si

 

Miguel Guedes | Jornal de Notícias | opinião
Depois da rejeição esperada e do debate em curto-circuito programado, é difícil encontrar mais do que duas formas de olhar para a moção de censura ao Governo.
Uma, como a última encenaçãoantes do fim da legislatura, a derradeira chance para marcar a agenda política pré-eleitoral. Outra, como uma nota de rodapé na chicana política, numa espécie de jogo do galo entre Cristas e o PSD com o fantasma da volatilização do espectro político à Direita representado por novos partidos ou movimentos. Estes dois olhares, paralelos, não escondem o sentimento fúnebre, versão "união de facto", que presidiu à moção e voto conjunto dos partidos das Direitas Unidas (para utilizar o jargão com que o CDS teima em apelidar - como se visse o Diabo - os acordos parlamentares à Esquerda). A Direita democrática vive, por estes dias, com o medo da sua progressiva irrelevância. A Direita tem medo de si mesma e tem medo de si, caro eleitor.
Após dois anos perdidos em negação por não serem o Governo-legítimo-do-país-que-o-povo-não-quis, foram caiando em si e, enquanto isso, foram tombando os pins da lapela. A Direita demorou dois anos a acreditar que tinha mesmo que fazer oposição. E se essa ficha caiu, deve-o à solidez dos acordos à Esquerda, firmeza na qual nunca acreditaram. Paralisaram dois anos, pensando que seria o BE ou o PCP ou a conjuntura internacional a devolver-lhes o poder e, PàF, acordaram em sobressalto com a extrema-direita a morder os seus calcanhares democráticos que, entretanto, caminhavam tão liberalmente calçadinhos. Confiaram, observando, que os projectos editoriais em que passeavam ideologia, trariam como consequência necessária o regresso ao poder, sem cuidar de pensar que o degelo chegara aos vértices do seu iceberg, fazendo sair Santanas, Venturas e pequenas hordas de populistas. PSD e CDS vivem no receio dos fenómenos extremistas e demagógicos que ajudaram a criar. E, pelo teor da moção de censura, não aparenta que o CDS tenha aprendido alguma coisa com isso.
O Rui Rio que acabara de ser eleito líder do PSD nunca seria arrastado pelo CDS para esta moção de censura. O Rui Rio sobrevivente de agora, aquele que enfrentou a maior campanha negra dos saudosos do passismo, já não tem margem para deixar de ir a reboque. Foi aqui, neste lugar sem opção, que os seus inimigos internos o quiseram encostar. Encostar à direita para o poderem ultrapassar em contramão. Enquantoisso, a volatilização que tantos consideravam ser um privilégio negativo da Esquerda, ganha contornos de uma vida perfeitamente normal numa família às direitas. Dois anos depois das próximas eleições legislativas, onde estará a Direita democrática em Portugal?
*Músico e jurista

O autor escreve segundo a antiga ortografia

 

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Portugal | Cristas e o seu umbigo

O CDS não anunciou uma moção de censura para defender o cheque-ensino, o corte das reformas ou o despedimento de funcionários públicos, como estava previsto no seu programa
Joana Mortágua* | jornal i | opinião
A curiosidade é que o CDS é o partido político que mais vezes apresentou moções de censura no parlamento desde 1974. Das 29 que foram aceites, só uma levou à queda de um governo. Foi por isso tautológica a defesa de Assunção Cristas na apresentação da sua segunda censura a este governo quando disse que as moções de censura valem pelo sinal político, além da suas consequências práticas.
Cristas sabe-o bem. Enfrentou seis moções de censura quando era ministra do governo Passos/Portas, uma do Bloco, uma do PEV, uma do PS e duas do PCP. Nenhuma delas reunia os votos necessários para derrubar o governo. Eram moções de censura políticas, qualidade que Cristas agora reclama para a sua.
Se havia poucas dúvidas sobre o que seria a moção de censura, agora não resta nenhuma. Mas assegura o CDS que gostaria de ir já a eleições. Porque o país não aguenta esperar até outubro? Não, porque o CDS tem medo de esperar até outubro. Porque há demasiados partidos de direita à espreita e é preciso alguém começar a pôr--se em bicos de pés. É o espelho da direita que temos.
O problema das moções de censura políticas é que para serem mais do que um oportunismo pré-eleitoral, ou golpezinhos de propaganda, precisam de algum motivo para existir. Alguma coisa que as torne compreensíveis no seu objetivo: censurar o governo. Veja-se como exemplo a moção de censura apresentada ao governo de Cristas pelo Bloco de Esquerda.
Foi em outubro de 2012, já depois do “colossal aumento de impostos”, do confronto aberto com o Tribunal Constitucional e da vergonhosa proposta de redução da TSU patronal e de aumento da tributação sobre quem trabalha que levou à maior manifestação de rua pós-25 de Abril. Estávamos a três anos de eleições e já se previa a destruição social que havia de ensombrar o país.
É verdade que salvar o país da destruição nacional não é o único motivo para apresentar uma moção de censura. Uma diferença ideológica profunda em relação a uma governação, a defesa coerente de um programa político, tudo isso podem ser razões compreensíveis para uma moção de censura política.
Mas não foi a isso que assistimos. O CDS não apresentou uma moção de censura em nome dos colégios privados cujo privilégio quis salvar, nem dos despejos que promoveu como política imobiliária do futuro. O CDS não anunciou uma moção de censura para defender o cheque-ensino, o corte das reformas ou o despedimento de funcionários públicos, como estava previsto no seu programa.
Justifica-a com a onda de contestação e mobilização social, com as expetativas dos profissionais da administração pública, com a falta de investimento de serviços públicos. O CDS censura o governo por não corresponder às expetativas do país. Mas sempre que foi chamado a votar propostas que correspondem a essas exigências, o CDS chumbou-as.
Na defesa da contratação coletiva, na diminuição do número de alunos por turma, na contagem integral do tempo de serviço dos professores, no combate ao falso trabalho temporário, na reposição do valor das horas extraordinárias e do trabalho extra, em todas essas propostas o CDS votou contra, como votou contra a criação do SNS, que agora diz querer defender, apesar de não se lhe conhecer outro amor que não seja aos privados. É uma longa lista de exemplos do CDS a censurar-se a si próprio.
A única cara de Assunção Cristas é a vergonha dos idosos despejados, o drama das famílias que não conseguem pagar a renda e dos jovens que são expulsos para as periferias. A única cara de Mota Soares é a perseguição aos precários, o corte no apoio aos de-sempregados, os 800 trabalhadores da Segurança Social na prateleira para despedir. A moção de censura do CDS foi um exercício de hipocrisia. E dos fraquinhos.
Se o CDS quer disputar o lugar de porta-estandarte da direita, isso é entre Assunção Cristas e Rui Rio. Mas assumam que não tem nada a ver com o estado do país. É que as moções de censura, mesmo as políticas, precisam de ser eco do país ou acabam amassadas no parlamento.
*Deputada do Bloco de Esquerda

 

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Parem o Dr. Conan!

(Por Jovem Conservador de Direita, in Facebook, 17/02/2019)

conan

(A Estátua agradece ao Jovem Conservador de Direita o ter revelado as pouco óbvias relações entre a austeridade do Dr. Passos, a flexibilidade política da Geringonça, a cupidez libidinosa do clero e os Festivais da Canção. Muito bem visto… 🙂🙂

Comentário da Estátua, 17/02/2019)


A actuação do Dr. Conan Osiris no festival da canção está a dar que falar pelos piores motivos. É o momento mais baixo da História de Portugal depois de o quase ex-Mestre de filosofia política Sócrates ter levado o país à bancarrota. O festival da Eurovisão é a única forma de nós mostrarmos aos nossos parceiros europeus que somos um país digno. Não podemos arriscar enviar um artista como o Dr. Conan Osiris.

O Dr. Conan Osiris destrói a imagem de seriedade que o meu governo, com a ajuda do Dr. Passos Coelho, se esforçou por passar lá para fora. O Dr. Conan é a manifestação da geringonça sob a forma musical. Um cantor mal vestido a chorar sobre partir um telemóvel, que provavelmente estava a pagar por mensalidades, ou sobre gostar de bolos, que provavelmente come todos os pequenos-almoços com dinheiro do RSI. Enquanto isso tem um rapaz a dançar ao lado dele em tronco nu. Um pouco como o papel do PCP e do BE na geringonça. Querem mostrar que fazem parte e aparecer na fotografia, quando na verdade só estão a fazer figura de parvos e a permitir que o líder Dr. Centeno faça o que lhe apetecer sem eles o chatearem.

O Dr. Salvador Sobral, por exemplo, era um cantor da austeridade. Ele cantava sobre amar por duas pessoas, ou seja era o pague um leve dois do amor. Foi a mensagem que o Dr. Passos Coelho nos passou. É possível fazer mais com menos. Se uma pessoa ama por dois, a outra pessoa pode perfeitamente privatizar a parte dela de amor. Isso é gestão de amor. A vitória do Dr. Salvador foi, na verdade, uma vitória do Dr. Passos Coelho.

O Dr. Conan canta sobre partir telemóveis que usa para falar para o céu. Provavelmente usa o telemóvel para falar para o céu porque gastou o saldo e não consegue telefonar para os seus contactos. Por isso tem de o usar para falar para o Céu. É uma mensagem terrível.

As pessoas, se querem falar para o Céu, têm de ir à missa. Se elas ouvem que podem falar para o Céu através do telemóvel deixam de ir à igreja e os padres ficam no desemprego. Pode ser positivo, porque deixam de precisar de abusar sexualmente de tanta gente. Mas é perigoso passar a mensagem de que as pessoas não precisam de um padre para falar para o Céu.

Os padres são os telemóveis que usamos para comunicar perante Deus. Partindo do princípio que a música do Dr. Conan não é sobre agredir padres (embora não me admirasse), o que ele está a fazer é uma heresia, alegando que a Igreja não é precisa para nada.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Sugestão ao sr. comissário do 10 de Junho

E que tal uma parada militar no Terreiro do Paço em honra de Marcelino da Mata ?
«(...) Embora já tivesse encontrado referências ao seu nome a propósito da guerra em África, onde foi o oficial mais destacado doscomandos guineenses, desconhecia o número das suas condecorações. Ora, entre 1966 e 1973, Marcelino da Mata recebeu duas medalhas de 1ª classe, duas medalhas de 2ª classe e uma medalha de 3ª classe da Cruz de Guerra, e foi feito Cavaleiro da Ordem Militar da Torre e Espada, a mais elevada ordem honorífica do país. (...)»(JMT, no Público de hoje)

Ver original em "O Tempo das Cerejas" (aqui)

Marques Mendes (MM) e os seus paradoxos

(Carlos Esperança, 25/01/2019)

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O ex-líder partidário que faz do tráfico de informações privilegiadas um modo de vida, que compromete o Conselho de Estado, para onde foi nomeado pelo PR, pelas opiniões que emite, que faz da sua tribuna televisiva um instrumento de combate ao Governo, na defesa das teses da direita, esqueceu-se de que já tutelou a RTP onde foi constante a sua interferência no alinhamento dos noticiários e influência nos conteúdos. Talvez, por isso, tema nos outros aquilo de que foi capaz no consulado cavaquista.

Marques Mendes, ex-líder do PSD, foi corajoso quando retirou a confiança partidária a Isaltino Morais e Valentim Loureiro, timorato na Câmara de Lisboa e cobarde perante Alberto João Jardim, cujos desmandos não teve coragem de afrontar, mas, antes de se dedicar aos negócios e à intriga aparentava grande honestidade e uma coluna vertebral direita, independentemente das opções partidárias.

Hoje, ignora-se se MM é a vuvuzela de Belém, intriguista por conta própria ou acumula.

Na penúltima homilia televisiva, o bruxo de Fafe, cujas diatribes têm eco na imprensa escrita, rádio e redes sociais, ou não refletisse ele os interesses de quem lhe paga, levou a baixeza ética de comentador ao nível do arruaceiro partidário, e disse:

1 – “Armando Vara é apenas uma ponta do icebergue de uma rede muito poderosa que durante 20 anos, ou mais, existiu em Portugal” .

2 – “Armando Vara, para ajudar a destruir a CGD e o BCP, não teve apenas o aval de Sócrates. Teve também a aprovação do Banco de Portugal”.

a – Ninguém ignora a lepra da corrupção e a necessidade de ser investigada e punida e, no que diz respeito a Armando Vara já está preso, contrariamente a governantes do PSD e CDS que não passaram os últimos 20 anos fora do poder. Nem agora, na oposição.

b – A denúncia da corrupção é um dever, e que bom seria que a corrupção fosse apenas de militantes do PS e o denunciante, em vez da intriga, apresentasse factos e não tivesse cadastro!

Ignora que foi o atual Governo que pediu a auditoria à CGD, que o governador do BP, reconduzido por Passos Coelho, sem consulta ao PS, como era tradição, recusou pedir? Ignora que foram os seus correligionários os arguidos do BPN? Em questão de Bancos MM mostrou o que sabia quando disse em 12 de julho de 2014 (SIC-N): «O banco [BES] é sólido, não há perigo nenhum para as pessoas», acompanhando o seu medíocre mentor, ao tempo PR.

Deve ter frequentado aulas de ética com um ex-vice-presidente do PSD, o Sr. Joaquim Coimbra, que o empregou em uma ou várias das suas numerosas empresas e adquirido os princípios éticos com que foi gerido por um seu colega de governo o BPN. O próprio BCP foi criado a convite do PM Cavaco Silva por um proeminente membro do Opus Dei, Jardim Gonçalves, e a sua gestão continuou com outro membro do PSD e do Opus Dei, Teixeira Pinto. Quanto à CGD, repito, foi este governo que pediu a auditoria e que procura apurar responsabilidades e entregar eventuais delinquentes à Justiça.

E quanto à sua honorabilidade, de quem se esqueceu dos submarinos, dos sobreiros, do condomínio do BPN na praia da Coelha, das privatizações da ANA, CTT, EDP, Galp, PT e outras, das mais valias de ações das SLN, não cotadas em Bolsa, e tantas outras tropelias, vale a pena recordar o seu próprio caso:

«O Fisco detetou vendas ilegais de ações da Isohidra feitas por Marques Mendes e Joaquim Coimbra, em 2010 e 2011, e que terão lesado o Estado em 773 mil euros. As ações foram vendidas por 51 mil euros, mas valiam 60 vezes mais: 3,09 milhões.» (aqui).

É difícil ser paquete de Belém sem comprometer o inquilino, mas não é saudável para o País a guerrilha feita através de fauna necrófaga, com propaganda sob o pseudónimo de ‘opinião’. Marques Mendes, vuvuzela da direita, é um dos muitos avençados pagos para a intriga e ataques à esquerda, este em equilíbrio difícil entre divergências que corroem os partidos de direita e os recados de Belém.

 

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

10 de Junho

Quando se soube ontem que o presidente da República tinha designado João Miguel Tavares para presidir à comissão das comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, foram mutos os que brincaram com a dita designação. Passadas umas horas, penso que é bom deixar de rir.
Podemos não dar importância à celebração em causa, mas Marcelo Rebelo de Sousa parece dar-lhe. E se queria sublinhar a importância da comunicação social (porque não?), não se entende os motivos da sua escolha. Não estão aqui em causa opções de esquerda ou de direita, já que há muitos e bons jornalistas em ambas, mas que João Miguel Tavares não é um deles parece ser de consenso largamente generalizado.
Marcelo é culto e inteligente e os motivos para esta escolha restarão insondáveis. Mas eu, que nunca alinhei na teoria segundo a qual o facto de ele ser popular nos defende da entrada do populismo em Portugal, vejo nesta designação «popularucha» uma espécie de provocação e ofensa, sobretudo para os bons profissionais dos órgãos de comunicação social, que tanto precisam de apoio.
Marcelo é perigoso. E há anos que penso, e que escrevo, que só engana menos do que o algodão aqueles que querem ser enganados.
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Leia original aqui

GLOBALISTAS REUNIDOS EM DAVOS...

CARAS JOVENS E SIMPÁTICAS PARA NOS VENDER UMA 

«GLOBALIZAÇÃO ALTERNATIVA, VERDE, SUSTENTÁVEL...»

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Davos, mais uma vez, surge como montra da alta finança e do globalismo político. Mas, desta vez, os mais importantes líderes mundiais não estarão presentes, Trump sob pretexto do «shut down», Macron por causa da revolta dos Coletes Amarelos e outros, sob os mais diversos pretextos. 

Este fórum tornou-se muito odiado pelas populações, não apenas pelos activistas alter-mundialização, como também e sobretudo pelas gentes comuns que sabem perfeitamente que eles estão reunidos , neste género de fóruns, para congeminar novos processos de manter o domínio da grande finança nos assuntos mundiais e internos de cada país. 

Sinal dos tempos, Davos, este ano surge com uma preocupação de tornar a mundialização mais «inclusiva» e mais «sustentável». Sempre o mesmo discurso tranquilizador, no fundo, mas com uma inquietação maior neste início de viragem em descida dos mercados financeiros mundiais. O problema para as elites é saber como gerir a enorme frustração da população não privilegiada, aquela que assistiu à «recuperação» dos mercados, na década pós-2008, mas que ela própria estagnou ou regrediu em poder de compra, em segurança no emprego, em qualidade dos serviços sociais e todos os parâmetros de qualidade de vida, em geral. 

Esta população não se mostra nada submissa, a avaliar pelas reacções dos Coletes Amarelos e o efeito que estão a ter em toda a Europa. Isto passa-se antes da grande crise anunciada, que hoje em dia os  próprios media corporativos já dão como real, depois de terem denegrido todos os que tivessem dado conta dos sinais precursores.

A mensagem de Davos, aos seus fiéis, é clara: 

A elite do dinheiro precisa de reorientar-se,  se quiser sobreviver na grande tempestade que se aproxima no horizonte: 

- Tem de tornar a exploração menos agressiva, menos impiedosa, mais «inclusiva». 

- A sua ganância sem limites, tem de ser mascarada de benfeitora da humanidade, com projectos de salvação do planeta, sobretudo usando a enorme trapaça das alterações climáticas, que serão a face sorridente, verde, ecológica, sustentável, do capitalismo global.

É esta a receita que eles têm cozinhado para as classes muito ricas passarem este período de grandes abalos e reestruturações da economia mundial. 

Cabe a nós, cidadãos lúcidos, desvendar os seus propósitos de controlo sobre as pessoas e as riquezas planetárias. 

Isto tem sido e continuará a ser o verdadeiro objectivo estratégico das oligarquias dos grandes negócios e da grande finança mundial, aliada a um certo número de políticos por eles comprados.

Leia original aqui

Não há regimes eternos

(Carlos Esperança, 21/01/2019)

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Assunção Cristas (AC) dixit: “As esquerdas não servem para o nosso país porque não têm nenhuma prova dada”.

De facto, durante os 48 anos de fascismo e nos governos da democracia, a que a direita teve de submeter-se, deu abundantes provas, mas não foram boas nem originais.

Numa conferência sobre o tema da saúde, a líder do CDS acusou António Costa de querer “pintar o país de cor-de-rosa”.

[“A preocupação do CDS é mostrar que há alternativa”, com “foco no doente e seu bem-estar e não no sistema”, tanto no setor público como no privado], mas omite que o CDS votou contra o SNS e defendeu sempre o privado e o das Misericórdias.

AC, não tendo argumentos, usa a fé, não tendo ética, acusa sem factos, não sabendo que o passado do seu partido a obrigaria a ter algum pudor, expõe-se ao ridículo. Ela não faz política, usa a maledicência, não tem um programa, reza as orações, enquanto pensa nos negócios da família.


Rui Rio

Depois da retumbante vitória contra Passos Coelho, Relvas, Cavaco e Marco António cujo voto secreto se virou contra eles, exigem-lhe agora uma vitória impossível. Claro que voltam. Marques Mendes, conselheiro de Estado escolhido pelo PR, encarrega-se disso. Aliás, a intromissão de Marcelo nos conflitos internos do PSD, por intermédio de jornalistas e do seu homem de mão, travestido de comentador político, encarregar-se-ão disso se não arranjarem melhores atores.

Rui Rio já teve de alterar o discurso e prometer lugares aos derrotados, que não serão excluídos, e agora é tempo de carregar no discurso contra o PS (o que é legítimo) e «Cavalgar a onda da contestação social», o que é perigoso.

Não são justas todas as greves e nem todas as exigências justas são possíveis de atender, mas é surpreendente que sejam os partidos que votaram contra o SNS, que ora sejam os mais exigentes e apoiem greves com que sabem poder destruí-lo e entregar aos privados e à caridade um direito de todos.

É fácil os trabalhadores destruírem as democracias com greves, quase sempre justas, mas é mais fácil às ditaduras destruírem umas e outras, e abolirem os direitos dos trabalhadores.


Apostila – O PR que, como deputado, votou contra o SNS, quer uma Lei de Bases com o acordo dos dois principais partidos!!! Um deles votou contra o SNS.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Demagogia e desinformação como programa político

Inspirando-se num desafio que circula no facebook, em que membros dessa rede convidam outros membros a postar uma foto de 2009 e uma atual, o CDS/PP decidiu difundir a gracinha aqui ao lado, esperando certamente ser levado a sério. Se a opção, tentativamente subliminar, de colocar lado a lado as fotos de José Sócrates e António Costa nem merece comentário, já a ideia de que o aumento da arrecadação de impostos (de 30,5 mil milhões em 2009 para 46,2 mil milhões em 2019) quer dizer que «o Estado está a ficar com mais» e «as pessoas a ficarem com menos», não deve passar em claro, por mais que os «spinners» do CDS-PP pretendam convencer os eleitores de que as coisas são mesmo assim. Isto é, que o Estado arrecada hoje mais impostos por estar a tirar dinheiro às pessoas, silenciando-se convenientemente o facto de a economia estar a criar mais riqueza e, por isso, a permitir que a receita fiscal aumente em valores absolutos. Ora, sucede que se analisarmos a relação entre a arrecadação de impostos e a evolução do PIB - acrescentando para esse efeito o ano intermédio (2014) do período considerado pelo CDS-PP, em que o executivo de direita estava em funções - verificamos que a crítica do «Estado que fica com mais» e das «pessoas que ficam com menos» se aplica de modo expressivo à governação PAF, que o CDS-PP integrou. De facto, o peso relativo dos impostos no PIB passa de 17,4% em 2009 para 22,0% em 2014, com a agravante de - graças à austeridade fervorosamente aplicada entre 2011 e 2015 - a criação de riqueza (PIB) ter caído de cerca de 176 mil milhões de euros para 169 mil milhões de euros nesse período (2009 a 2014). Mas mais interessante ainda é verificar que o atual governo e a maioria parlamentar de esquerda que o suporta conseguiram manter o nível de arrecadação fiscal registado em 2014 (22,1% do PIB), a par de um crescimento económico face a esse ano (+40,6 mil milhões de euros, que traduzem um aumento na ordem dos 24%). Isto é, a economia cresceu a um ritmo que permitiu o aumento da receita fiscal em termos absolutos, mantendo-se contudo o seu peso relativo face ao PIB. Sucede porém que a demagogia e a desinformação não ficam por aqui. No plano ideológico e programático, que diacho significará, afinal, a ideia de que quando o Estado «fica com mais» as pessoas «ficam com menos»? Será o Estado uma espécie de sorvedouro, que escoa as receitas dos impostos para o fundo do mar, sem que ninguém as veja ou delas beneficie? Serão os serviços públicos de educação, saúde e proteção social, as forças de segurança e a justiça, as infraestruturas ou os transportes públicos financiados com dinheiro que cai do céu? E em que se traduzirá afinal, concretamente, o clamor do CDS-PP por mais investimento e contra a asfixia financeira dos serviços públicos? Será que tal não passa de uma espécie de oração, para que chova mais do tal dinheiro que cai do céu? Sabemos bem que é o rancor ao Estado (com indiferença pelo seu papel e eficácia na redistribuição da riqueza e combate às desigualdades), aliado à defesa dos interesses que representa, que leva a direita a deitar mão à dicotomia entre «Estado» e «economia», numa lógica de antagonismo (como se o Estado não fosse, também ele, economia). Mas devia haver mínimos para a demagogia e o despudor com que o CDS-PP atira areia para os olhos das pessoas.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

Portugal | As televisões e os jornais andam num afã a contratarem mais opinadores de direita

Jorge Rocha | opinião
Se Ricardo Costa, Sérgio Figueiredo ou Manuel de Carvalho, respetivamente responsáveis pela falta de qualidade da SIC, da TVI ou do Público, andam a despedir comentadores e a contratar outros, não têm apenas a rentabilidade como objetivo: os seus patrões - donos dos meios de (des)informação em causa - já compreenderam que o desgaste do governo e dos demais partidos da maioria parlamentar não será conseguido apenas com o concurso da Cofina ou do Observador. Apesar da má imprensa e do concurso de muitas greves motivadas por mesquinhos interesses corporativistas, António Costa e os partidos, com que pretenderá prosseguir coligado depois de outubro, vão, de acordo com as sondagens, mantendo uma média de 20 pontos acima da soma dos que se lhes opõem à direita.
Razão para quererem tornar constante um discurso direitista fiando-se nos pressupostos de Goebbels a propósito dos «méritos» das mentiras mil vezes repetidas. Como a que Marques Mendes emitiu sobre a redução da despesa no Serviço Nacional de Saúde, destinada a ser retomada pela Cavaca da Ordem dos grevistas cirúrgicos e seus concertados altifalantes, mas que é rigorosamente falsa, como o demonstrou o comunicado dos Ministérios das Finanças e da Saúde, que enalteceu o ter-se ultrapassado pela primeira vez os 10 mil milhões deeuros no setor em 2018, ou seja mais de mil milhões acima do que se gastava em 2015. No entanto as televisões e os jornais darão sempre maior relevo às mentiras do anão da SIC do que ao esclarecimento fundamentado do governo.
Ao contratarem gente da estirpe de António Barreto ou Paula Teixeira Pinto para se juntarem ao casal Moniz e a outros figurões e figuronas dignos de autêntica galeria de horrores, o que os manipuladores da realidade pretendem é multiplicar essa disseminação de mentiras de forma a ocultarem o mais possível os números indesmentíveis do Instituto Nacional de Estatística e outras instituições mais ou menos independentes. Mas convirá, igualmente, estar atento ao que delas provirá, porque até mesmo o Banco Mundial veio agora desculpar-se por ter falsificado os indicadores chilenos, agravando-os quando estava Michelle Michelet na presidência e empolando-os quando era o seu rival de direita, Piñera.
Às vezes lamento a excessiva passividade com que as esquerdas reagem a tudo isto não arregaçando as mangas para contrariar ativamente o presente estado das coisas na comunicação social. O escândalo já é tão evidente, que deixá-lo tal qual está é um convite para ver piorado o que já é suficientemente mau...
Nota PG: Também nas rádios se constata o pendor favorecido de presenças e “peças” da direita portuguesa, dos conservadores e dos mais radicais, em detrimento de presenças de esquerda.

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2019/01/portugal-as-televisoes-e-os-jornais.html

Portugal | Passos Coelho pode voltar, diz Miguel Descredibilizado Relvas na TSF

Miguel Relvas diz que Passos pode voltar "se as novas gerações falharem"
Miguel Relvas não exclui que Passos Coelho possa voltar a candidatar-se à liderança do PSD mas só se as novas gerações falharem. O ex-dirigente olha para Luís Montenegro como um ativo importante da nova geração, considera que "foi corajoso" mas preparou-se mal.
Numa manhã de nevoeiro ou noutro dia qualquer. Poderá Passos Coelho voltar a um lugar onde já foi feliz? "Não está inibido" , responde Miguel Relvas. E se há alguém que conhece o ex-primeiro ministro é o homem que o ajudou a chegar à liderança do partido e que o acompanhou no governo. Nem Passos Coelho, "nem Paulo Portas", explica o ex-secretário geral do PSD, que num olhar retrospetivo, faz uma avaliação "muito positiva do que fizeram pelo país."
Mas em que circunstâncias pode Passos voltar ao PSD? Relvas acredita que esse cenário só se coloca "se as novas gerações não estiverem à altura das suas responsabilidades e se não forem capazes de se assumirem", afirmou no programa da TSF, "Às Onze no Café de São Bento."
Um cenário pouco provável, acrescenta Miguel Relvas, já que "o centro-direita e a direita têm dois ativos que, a qualquer momento, podem ajudar (o partido) a recuperar: Miguel Pinto Luz e Luís Montenegro."
Para já, foi Luís Montenegro que marcou uma posição ao desafiar Rui Rio. E "fez bem", considera Miguel Relvas, que elogia o "ato corajoso" do ex-líder da bancada do PSD, ainda que lhe aponte um crítica: "devia ter-se preparado melhor."
Ainda assim, Relvas considera que a experiência pode ser útil a Montenegro no futuro. "Gostaria que as novas gerações tivessem a sua oportunidade." É a lei da vida, sublinha Relvas: "os que saem só voltam se os que lhes sucedem, falharem."
Para os mais velhos - em idade e na política - haverá sempre outros lugares, considera Miguel Relvas: "Passos Coelho pode vir a ser um candidato a Presidente da República, nos próximos anos, ou Marques Mendes", conclui.
Sandra Xavier | Sandra Xavier | TSF

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2019/01/portugal-passos-coelho-pode-voltar-diz.html

As televisões e os jornais andam num afã a contratarem mais opinadores de direita

Se Ricardo Costa, Sérgio Figueiredo ou Manuel de Carvalho, respetivamente responsáveis pela falta de qualidade da SIC, da TVI ou do Público, andam a despedir comentadores e a contratar outros, não têm apenas a rentabilidade como objetivo: os seus patrões - donos dos meios de (des)informação em causa - já compreenderam que o desgaste do governo e dos demais partidos da maioria parlamentar não será conseguido apenas com o concurso da Cofina ou do Observador. Apesar da má imprensa e do concurso de muitas greves motivadas por mesquinhos interesses corporativistas, António Costa e os partidos, com que pretenderá prosseguir coligado depois de outubro, vão, de acordo com as sondagens, mantendo uma média de 20 pontos acima da soma dos que se lhes opõem à direita.
Razão para quererem tornar constante um discurso direitista fiando-se nos pressupostos de Goebbels a propósito dos «méritos» das mentiras mil vezes repetidas. Como a que Marques Mendes emitiu sobre a redução da despesa no Serviço Nacional de Saúde, destinada a ser retomada pela Cavaca da Ordem dos grevistas cirúrgicos e seus concertados altifalantes, mas que é rigorosamente falsa, como o demonstrou o comunicado dos Ministérios das Finanças e da Saúde, que enalteceu o ter-se ultrapassado pela primeira vez os 10 mil milhões deeuros no setor em 2018, ou seja mais de mil milhões acima do que se gastava em 2015. No entanto as televisões e os jornais darão sempre maior relevo às mentiras do anão da SIC do que ao esclarecimento fundamentado do governo.
Ao contratarem gente da estirpe de António Barreto ou Paula Teixeira Pinto para se juntarem ao casal Moniz e a outros figurões e figuronas dignos de autêntica galeria de horrores, o que os manipuladores da realidade pretendem é multiplicar essa disseminação de mentiras de forma a ocultarem o mais possível os números indesmentíveis do Instituto Nacional de Estatística e outras instituições mais ou menos independentes. Mas convirá, igualmente, estar atento ao que delas provirá, porque até mesmo o Banco Mundial veio agora desculpar-se por ter falsificado os indicadores chilenos, agravando-os quando estava Michelle Michelet na presidência e empolando-os quando era o seu rival de direita, Piñera.
Às vezes lamento a excessiva passividade com que as esquerdas reagem a tudo isto não arregaçando as mangas para contrariar ativamente o presente estado das coisas na comunicação social. O escândalo já é tão evidente, que deixá-lo tal qual está é um convite para ver piorado o que já é suficientemente mau...
 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/01/as-televisoes-e-os-jornais-andam-num.html

Recordar… é aborrecer direita

(Carlos Esperança, 17/01/2019)

coelho_volta

Sempre considerei que a constituição de políticos arguidos de bagatelas penais era mais uma humilhação para destruir carreiras e, eventualmente Governos, do que uma atitude com consequências penais, para salvaguardar a decência e a ética na política.

Quando o ministro Mário Centeno pediu ao clube em cujo estádio tem camarote, para assistir com um filho a um jogo de futebol da tribuna da presidência, o que sucedeu, a central de intoxicação da direita partiu para o insulto, com a suspeita de que o ministro das Finanças, em troca, favorecesse fiscalmente o presidente do clube e a família deste. O Ministério Público chegou a investigar o ministro e atual presidente do Eurogrupo do ilícito que o pudor levou a arquivar, e até o inefável PR produziu um comentário infeliz.

A memória é curta, mas quiseram destituir o ministro, enquanto a PGR (com a atual e a anterior titular) ignora os edis do PSD, Marco António, Luís Filipe Meneses, Agostinho Branquinho, Hermínio Loureiro, Virgílio Macedo e Valentim Loureiro, que a Visão n.º 1278 (31/8 a 6/9 de 2017) refere, com provas aparentemente evidentes de faturas falsas, empresas de fachada, contratos públicos viciados, tráfico de influências, negócios simulados, fraudes em subsídios, manipulação de contas e iniciativas fictícias.

Quando a GALP, como era hábito, convidou políticos do que a direita chamava arco do poder, Rocha Andrade, João Vasconcelos e Jorge Costa Oliveira, secretários de Estado, aceitaram o convite para assistirem à final do Euro 2016, em que Portugal era finalista. Não deviam, e fizeram-no. Pediram a exoneração ao primeiro-ministro, antecipando que iam ser constituídos arguidos pelo alegado crime de recebimento indevido de vantagem.

O Governo perdeu três membros e o MP reuniu indícios suficientes da prática de crime no chamado Galpgate. A PGR já confirmou que o MP tomou a decisão “de suspender provisoriamente o processo em relação a alguns dos arguidos”, com multas que variam entre os 600 e os 4500 euros, sendo os valores mais altos aplicados aos ex-titulares de três secretarias de Estado, Rocha Andrade (Assuntos Fiscais), João Vasconcelos (Indústria) e Jorge Costa (Internacionalização). O juiz ainda pode recusar o arquivamento do crime, feito às escâncaras, visto na RTP e noticiado nos jornais.

Nos jornais I, Correio da Manhã e Público, não vi que multa foi aplicada aos ex-líderes parlamentares sociais-democratas Luís Montenegro e Hugo Soares, talvez por serem os homens de mão de Miguel Relvas, Marco António e Passos Coelho, mas também foram convidados para o Euro 2016 e estiveram lá nas mesmas condições dos referidos.

Perante a aparente displicência com que foram investigados, ou ignorados, os casos dos submarinos, da Tecnoforma ou da permuta da vivenda Mariani pela Gaivota Azul, não se dúvida da igualdade da Justiça para todos, mas das consequências.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Marcelo telefona, Cristas cozinha

Já deve haver inscrições de muitos outros políticos, agora que as eleições se aproximam. E como a SIC acabou com a «Quadratura do Círculo», talvez convença os seus membros a discutirem com a Cristina os amanhãs que não cantarão.
Hoje, marido uma filha e o cão de Cristas também estiveram no programa. E falando de Marcelo, ela confessou: «Já me ligou em momentos improváveis». Ui!... Em quais, em quais?
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Leia original aqui

Portugal | Sem oposição

Ana Alexandra Gonçalves* | opinião
António Costa não tem razões de queixa, na precisa medida em que consegue governar amiúde longe da esquerda e ainda assim conservar os acordos com os partidos à sua esquerda e no outro lado do espectro político simplesmente não existe oposição, sobretudo no que toca ao PSD. O CDS é uma perfeita nulidade e o PSD não sossega enquanto não se livrar da actual liderança.
De resto, Luís Montenegro ataca a liderança e nas distritais tudo se faz para convocar um conselho nacional extraordinário.
Já se sabia que Rio estava a prazo, mas o que não se sabia é que o prazo é manifestamente curto, ao ponto do actual Presidente nem chegar às próximas legislativas. Rio representa um partido que já não existe, o que por lá prolifera são acólitos de Passos Coelho, munidos da sua cartilha neoliberal de pacotilha. Aquela gente não descansa enquanto não assistir ao regresso da tal cartilha que tão bem casa com a mediocridade reinante.
Entretanto, perde a democracia que conta sempre com partidos que governam e com partidos que fazem oposição. Neste momento há um partido que governa, outros que permitem que esse partido governe e toda uma oposição ou com lideranças em estado terminal (PSD) ou sem conseguir fazer qualquer espécie de oposição digna desse nome, como é o caso do CDS.
*Ana Alexandra Gonçalves | Triunfo da Razão | em 11.01.2019

 

Ver o original em 'Página Global' na seguinte ligação:

http://paginaglobal.blogspot.com/2019/01/portugal-sem-oposicao.html

Não se ganhando de uma maneira, tenta-se de outra

Nas eleições de 2000 Al Gore teve mais votos do que George W. Bush e viu o opositor ganhar o acesso à Casa Branca. Em 2016 a situação repetiu-se: os três milhões de votos a mais em Hillary Clinton não impediram Donald Trump de ser empossado como presidente dos EUA.
As direitas portuguesas muito gostariam de encontrar algo de semelhante para conseguirem que, mesmo sendo minoritárias sociologicamente junto do eleitorado, a governação lhes voltasse a cair nas mãos. Foi isso que se discutiu na Convenção, que o Movimento Europa e Liberdade promoveu na semana agora finda no auditório da Culturgest, e é essa mesma campanha que Fátima Campos Ferreira intentará prosseguir com o seu programa televisivo de amanhã à noite. A conclusão é esta: desde que a atual maioria parlamentar demonstrou que, com o presente sistema eleitoral, as coligações deixaram de só serem possíveis à direita, haverá que o mudar para outro, que replique o resultado anterior.
O pretexto é uma mentira descarada: o eleitorado está a abster-se cada vez mais, porque os deputados não tenderiam a representar a vontade dos cidadãos. Ora o problema nunca é posto na sua devida equação: foram os partidos das direitas, e, sobretudo, os interesses que representam, quem apostaram no afastamento entre votantes e votados, ao alienarem a consciência cívica dos portugueses com o que os tende a mediocrizar: dois dos tais éfes tão prezados pelo fascismo - o futebol e Fátima - associados ao consumismo, que imita as drogas duras no seu potencial de virulência. Envenenados por padres e pastores evangélicos, atiçados num clubismo doentio e instados a comprarem o que necessitam, frustrando-se por não alcançarem o que lhes é mostrado como cenoura, mas nunca alcançam, os politicamente mais indefesos indignam-se e sentem ganas de se associarem a coletes amarelos e outras coisas ainda piores.
Utopicamente poderíamos pensar que a solução era correr com as Fátimas, os Gouchas, os Orelhas e outros trastes que tais dos écrãs e substitui-los por quem assumisse a importância do papel das televisões enquanto ferramenta de formação dos espectadores dotando-os de sentido crítico para melhor entenderem o quanto os manipulam para que sirvam interesses contrários aos seus. Trata-se de solução impossível, porque as direitas apossaram-se de tal forma dos canais mediáticos, que a desajeitada tentativa de Sócrates para lhes beliscar o monopólio deu no que deu.
Resta aos partidos das esquerdas serem mais proactivos no seu papel: não apenas em anos de eleições, importa que acorram regularmente a mercados e estações de transportes para encontrarem as populações, propondo-lhes as soluções, mas também ouvindo-as, porque - constato-o por experiência própria, quando faço campanhas eleitorais! - existe uma apetência enorme de um número significativo de cidadãos em darem expressão às suas inacessíveis aspirações. A que só uma política consistente de redistribuição de rendimentos poderá dar progressiva satisfação.
 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/01/nao-se-ganhando-de-uma-maneira-tenta-se.html

Portugal | A jogada "arriscada" de Montenegro, que até pode ser "muito útil" a Costa

Francisco Louçã diz que para lá de Rui Rio, há à Direita outra pessoa que pode ficar preocupada com uma eventual vitória de Luís Montenegro no PSD.
O antigo líder parlamentar ‘laranja’Luís Montenegro assumiu hoje oficialmente o desafio à liderança de Rui Rio no PSD. Montenegro não está agradado com a estratégia atual do PSD, com os resultados que as sondagens apontam e quer diretas "já".
O tema esteve em análise esta sexta-feira no 'Tabu', espaço de comentário televisivo de Francisco Louçã na antena da SIC Notícias, onde o antigo dirigente do Bloco de Esquerda sugeriu que entre Rui Rio, António Costa, Luís Montenegro e Assunção Cristas, há muitas nuances a ter em conta.
"Muita excitação, pouco esclarecimento"
Louçã vê a candidatura de Luís Montenegro à presidência do PSD como um ato "arriscado. Rui Rio está há um ano, vai disputar as suas primeiras eleições em maio, na europeias, e as eleições legislativas são daqui a pouco tempo".
De resto, o economista considerou ainda o discurso de Luís Montenegro "pouco esclarecedor". "Ele faz totalmente o desafio interno mas é impossível para alguém que não esteja nos meandros do PSD perceber, para além do confronto de personalidades e do estilo que ele invoca, o que é que de propostas políticas possa ser diferente".
Já sobre o encontro entre Marcelo Rebelo de Sousa e Rui Rio, o ex-líder bloquista considera que "ambos desvalorizaram o encontro". "Mas", acrescentou de seguida, "como é evidente, tendo o presidente aceite que Montenegro vá ao Palácio de Belém na segunda-feira – o que é uma inovação, porque é um candidato dentro de um partido – quis, antes disso, dar o sinal de que falava com Rui Rio, mesmo que sobre outros assuntos".
Foi - disse em tom de resumo - um dia em que houve "muita excitação, muitos acontecimentos, muito pouco esclarecimento".
O que poderá acontecer?
Louçã salienta que "Rui Rio é um homem que tem feito gala em recordar que gosta deste tipo de confrontos e deste tipo de intrigas. Que as enfrenta".
Já "o efeito que isso tem sobre o PSD já é mais duvidoso e Montenegro corre um risco elevadíssimo. Há mesmo quem diga que ele quer parecer querer ganhar, esperando poder perder por poucos, para ficar na linha de partida dos sucessores assim que as eleições possam desencadear um mau resultado para o PSD".
Há duas circunstâncias importantes para balizar esta crise, salientou ainda o ex-dirigente bloquista. "A primeira é uma supremacia eleitoral do PS, reafirmada pelas sondagens" e isto ao mesmo tempo que o Governo tem dificuldades e desgaste ao fim de três anos".
A segunda "é que há uma nova Direita. Culturalmente ela surge do impulso norte-americano, de Trump, da pressão da crise europeia, destes movimentos, que impulsionam a ideia de que empresários deviam ser mais puxados para a política, para exigir mais vantagens do Estado, por ventura para alargar ainda mais as privatizações".
Francisco Louçã procurou ainda desmontar as críticas que Montenegro aponto a Rio, sobre o atual momento político do PSD nas sondagens.
"O 'passismo' entregou um PSD muito desgastado eleitoralmente e já em grande queda. Montenegro parece esquecer-se quando fala de sondagens que é sob a sua alçada e de Passos Coelho que o PSD tem 10% em Lisboa e é 'varrido' nas eleições autárquicas. A queda do PSD não é Rui Rio. É a continuidade das políticas sociais agressivas. Daí ser importante saber que respostas é que ele dá às grandes questões", afirmou.
Para Louçã, para lá de Rui Rio há outra figura que poderá estar "preocupada" na sequência da candidatura de Montenegro: Assunção Cristas. "Porque a diferença parece ser para já de estilo, mais do que propostas. E um PSD mais agressivo, mais palavroso, impede o efeito de beneficiação que Cristas e o CDS esperam da crise no PSD".
Já para António Costa e o PS, uma vitória de Montenegro nas internas do PSD e um PSD mais agressivo “era extraordinariamente útil para António Costa porque, não tendo ele a possibilidade de ganhar maioria absoluta, poderia recolocar essas cartas em cima da mesa, com o medo do lobo que está na floresta”. Seria um “ou nós eles”, referiu.
Pedro Filipe Pina | Notícias ao Minuto | Foto: Blas Manuel/Notícias ao Minuto

 

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Gente infeliz com lágrimas

Fórum de viúvas do passismo. Foi a fórmula assassina utilizada por Carlos César para classificar o encontro promovido pelo chamado Movimento Europa e Liberdade, que merecerá bem mais atenção dos media do que justificaria o valor dos seus participantes. Quase, ou senão mesmo todos, gente medíocre, que só a determinação arrivista possibilitou alguma notoriedade mediática. É sina do país ter de arcar com quem falha em engenho e arte, criando desnecessários entraves a quem efetivamente os possui.
Adivinhando o quanto as orelhas lhe ficarão a arder, Rio pôs-se de fora. António José Seguro e Francisco Assis foram convidados. e aceitaram aparecer mas, quando se deram conta do papel de idiotas úteis, que lhes estava reservado, puseram-se de fora. Marcelo gostaria muito de ir e chegou a ponderar o envio de mensagem simpática, mas compreendeu a inconveniência de se lhes colar numa altura em que o preocupa o segundo mandato. Por muito que execre as esquerdas, ainda não é para si o tempo de as enfrentar como lhe ditaria o instinto.
É claro que se adivinham os conteúdos dos discursos tão vazios de ideias concretas para o país, quão ocas andam aquelas cabeças incapazes de se reformatarem para algo de diferente das costumeiras fórmulas testadas e esgotadas. Nenhum dos convivas quer reconhecer que as mãos invisíveis evaporaram-se e os mercados se tornaram tão disfuncionais, que o caos espreita ao virar da esquina como o seu efémero herói - Macron - anda a constatar.
Alheados de tal premissa, os telejornais abundarão em extratos do que se dirá na Culturgest com destaque para quem aposta na quadratura do círculo: exigir mais investimento nas funções do Estado e, ao mesmo tempo, reduzir os impostos, eliminar as propinas ou satisfazer as indecorosas pretensões corporativas. Aquela gente infeliz com tantas lágrimas de crocodilo pelos que fizeram sofrer, e de cuja má sina fingem agora compaixão, deve julgar que nos toma a todos por parvos...
 
 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

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ENTÃO FICÁMOS ASSIM...

Para a sentença do julgamento do caso dos Vistos Gold, o meritíssimo juiz terá formado a convicção que o ex-ministro é apenas um malandro, mas não um escroque. É assim que o réu Miguel Macedo é absolvido, porque apenas os ex-ministros escroques - do calibre de um Armando Vara, por exemplo - é que têm direito de ir para a prisão. Agora, quanto ao facto de Macedo ser considerado um malandroe quanto à sanção moral e política a esse respeito, o presidente do PSD deixou claro que sempre acreditara na inocência do réu, que não o acha «capaz de utilizar um cargo público em benefício próprio», deixando o pressuposto que fazê-lo em benefício dos amigos é toda uma outra atitude ética, serão enternecedoras histórias de amizade... e isso até constitui uma malandrice bonita. Então ficámos assim... e nem fica claro se podemos descartar um regresso para breve de Miguel Macedo à política.

 

Veja o original em 'Herdeiro de Aécio' na seguinte ligação::

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Portugal | O habitual «patriotismo» dos ases que as direitas arvoram em seus heróis

Jorge Rocha | opinião
Há uma dúzia de anos a condição profissional de diretor de uma empresa da área de engenharia obrigava-me à leitura da, então, fértil imprensa económica. Entre diários e revistas em papel dedicava a quotidiana hora do almoço ao seu acompanhamento. Daí que tenha visto surgir no firmamento um brilhante cometa chamado Álvaro Santos Pereira, apostado em enviar bitaites sobre a realidade política nacional, apesar de viver acantonado do outro lado do Atlântico.
Sabe-se, porém, como são os nossos empresários e gestores, quando alguém se autoenaltece com currículo estabelecido em terras do tio Sam ou delas aparentado. Saloios que continuam a ser ,deixaram-se bafejar pelas banalidades do infalível guru, sobretudo quando, como era o caso, ele excedia-se em críticas ao governo socialista então em funções. Cada artigo do farsante era recebido com a devoção dos crentes perante as homilias enfáticas dos seus pregadores. E, quando saiu uma coletânea de tais artigos era um ver se te avias nas reuniões de diretores gerais com as administrações - sou disso testemunha! - com os mais arrivistas a dela se servirem para se porem em bicos de pés para quem os houvera nomeado ou, pelo menos, ainda os ia mantendo em funções.
O que se seguiu bastou para confirmar o quão fraudulento era o pseudoeducador do patronato luso: chegado ao governo da troika depressa se confirmou como um erro de casting, integrando a lista dos recicláveis à primeira ocasião. Ainda assim deixando-nos a pérola de redimir as finanças nacionais à custa da exportação dos pastéis-de-nata.
Mas asnos foram os que nele acreditaram, julgando-o eivado de espírito patriótico, porque o verdadeiro objetivo do embusteiro era cuidar da sua vidinha, faltando-lhe para tal a inserção de uma passagem pela vida governativa no curriculum. Tão só garantida concorreu a bem remunerado cargo numa organização (OCDE), cujo propósito é dar-se ares de estipular as escolhas das nações para que melhor se adequem aos interesses capitalistas. Ora, com a prosápia antes revelada, e o cargo ministerial num executivo tão do agrado de tais mentores, acedeu ao atrativo tacho.
Nesta altura ele serve de exemplo para uma lei que se vai definindo como axiomática: quando socialistas vão sendo nomeados para cargos internacionais (Guterres, Sampaio, Centeno ou Vitorino) têm por objetivo bater-se pelo bem coletivo a nível global, jamais fazendo o que possa prejudicar o seu próprio país. Pelo contrário, quando é gente de direita, que a tais patamares se promovem (Durão Barroso ou este Álvaro trapaceiro), só o não prejudicam se não puderem. De facto, lavrando relatório com o carimbo da sua organização o antigo guru do pastel-de-nata recomenda prudência a quem queira investir em Portugal por o dar como espaço de grande corrupção, prejudicando a imagem de um país cada vez mais respeitado internacionalmente.
Se cometa foi, este arrivista tarda em desaparecer nas profundas do universo com viagem só de ida, porque os danos por ele feitos ainda muito tardarão a ser retificados.
jorge rocha | Ventos Semeados

 

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A disputa do tempo é um luxo?

Na nota de conjuntura do último mês, o Fórum para a Competitividade, liderado por Pedro Ferraz da Costa, defendeu que “a semana das 35 horas [em Portugal] é uma raridade na União Europeia e no mundo, sendo claramente um luxo de país rico, com atividades muito concentradas nos serviços”. Embora seja verdade que Ferraz da Costa nos tem habituado a declarações polémicas sobre o assunto, que raramente sobrevivem ao confronto com os factos, esta merece alguma atenção. Os dados disponíveis mostram-nos que o número de horas trabalhadas (por trabalhador) em Portugal é superior à média da OCDE, estando bem acima de países como a Alemanha, França ou Holanda. É nos países do Sul da Europa (Portugal, Itália, Espanha, etc.) que se trabalham mais horas anualmente, o que refuta alguns preconceitos sobre o empenho dos trabalhadores destes países face aos do Norte.
Um estudo recente do Observatório das Desigualdades (ISCTE) aponta no mesmo sentido. Em Portugal, os trabalhadores trabalham mais horas do que os dos países do norte da Europa (Alemanha, Holanda, etc.), além de terem direito a menos dias de férias (22 dias úteis, ao passo que os holandeses têm 25 e os alemães têm 30). A conclusão a retirar destes estudos é evidente: em Portugal, já se trabalha demasiadas horas por ano, pelo que qualquer proposta de aumento do horário de trabalho semanal vai no sentido errado.
Além disso, a nota do Fórum para a Competitividade continua a partir da ideia de que aumentar o número de horas trabalhadas seria positivo para a produtividade da economia portuguesa, algo que já foi refutado várias vezes neste blog (ver aqui ou aqui, por exemplo). O problema da baixa produtividade do trabalho em Portugal deve-se a outros fatores, como o atraso da estrutura produtiva, a concentração das atividades na produção de baixo valor acrescentado ou os baixos índices de investimento em investigação e inovação. Naturalmente, nenhum destes problemas se revolve aumentando o número de horas trabalhadas. A nota do Fórum para a Competitividade não reflete, por isso, nenhum projeto sério para o país, mas antes uma visão austeritária e punitiva do trabalho, de péssima memória por cá. O horário de 35 horas semanais praticado pelo Estado é um bom princípio, que deveria ser seguido no setor privado, sobretudo numa altura em que se recupera a discussão sobre a possibilidade de trabalharmos muito menos horas, de forma a distribuir melhor o trabalho necessário, reduzir o desemprego e os efeitos nocivos de jornadas de trabalho longas (ao nível, por exemplo, da saúde mental, dos hábitos de socialização, ou mesmo do combate às alterações climáticas). Na verdade, a ideia já fora avançada por Keynes em 1930, quando propôs que no século XXI, o avanço tecnológico poderia tornar possível um horário de trabalho de 15 horas por semana – isto é, 3 horas por dia. Embora possa parecer utópica, a verdade é que parece existir uma tendência histórica para a diminuição da jornada de trabalho nas economias capitalistas, fruto sobretudo das resistências sociais, embora sujeita a diferentes respostas dos empregadores (que promovem a flexibilização da jornada laboral através de instrumentos como o banco de horas, o trabalho por turnos, a apropriação do tempo livre dos trabalhadores, etc.). Não é, por isso, impossível imaginar um futuro em que possamos reduzir a parte do nosso dia que passamos a trabalhar. Tudo depende da forma como os ganhos da tecnologia são distribuídos pela sociedade e de como queremos organizar socialmente o nosso tempo. As escolhas coletivas continuam a ser determinantes na disputa do tempo.

Ver original em 'Ladrões de Bicicletas' (aqui)

O habitual «patriotismo» dos ases que as direitas arvoram em seus heróis

Há uma dúzia de anos a condição profissional de diretor de uma empresa da área de engenharia obrigava-me à leitura da, então, fértil imprensa económica. Entre diários e revistas em papel dedicava a quotidiana hora do almoço ao seu acompanhamento. Daí que tenha visto surgir no firmamento um brilhante cometa chamado Álvaro Santos Pereira, apostado em enviar bitaites sobre a realidade política nacional, apesar de viver acantonado do outro lado do Atlântico.
Sabe-se, porém, como são os nossos empresários e gestores, quando alguém se autoenaltece com currículo estabelecido em terras do tio Sam ou delas aparentado. Saloios que continuam a ser ,deixaram-se bafejar pelas banalidades do infalível guru, sobretudo quando, como era o caso, ele excedia-se em críticas ao governo socialista então em funções. Cada artigo do farsante era recebido com a devoção dos crentes perante as homilias enfáticas dos seus pregadores. E, quando saiu uma coletânea de tais artigos era um ver se te avias nas reuniões de diretores gerais com as administrações - sou disso testemunha! - com os mais arrivistas a dela se servirem para se porem em bicos de pés para quem os houvera nomeado ou, pelo menos, ainda os ia mantendo em funções.
O que se seguiu bastou para confirmar o quão fraudulento era o pseudoeducador do patronato luso: chegado ao governo da troika depressa se confirmou como um erro de casting, integrando a lista dos recicláveis à primeira ocasião. Ainda assim deixando-nos a pérola de redimir as finanças nacionais à custa da exportação dos pastéis-de-nata.
Mas asnos foram os que nele acreditaram, julgando-o eivado de espírito patriótico, porque o verdadeiro objetivo do embusteiro era cuidar da sua vidinha, faltando-lhe para tal a inserção de uma passagem pela vida governativa no curriculum. Tão só garantida concorreu a bem remunerado cargo numa organização (OCDE), cujo propósito é dar-se ares de estipular as escolhas das nações para que melhor se adequem aos interesses capitalistas. Ora, com a prosápia antes revelada, e o cargo ministerial num executivo tão do agrado de tais mentores, acedeu ao atrativo tacho.
Nesta altura ele serve de exemplo para uma lei que se vai definindo como axiomática: quando socialistas vão sendo nomeados para cargos internacionais (Guterres, Sampaio, Centeno ou Vitorino) têm por objetivo bater-se pelo bem coletivo a nível global, jamais fazendo o que possa prejudicar o seu próprio país. Pelo contrário, quando é gente de direita, que a tais patamares se promovem (Durão Barroso ou este Álvaro trapaceiro), só o não prejudicam se não puderem. De facto, lavrando relatório com o carimbo da sua organização o antigo guru do pastel-de-nata recomenda prudência a quem queira investir em Portugal por o dar como espaço de grande corrupção, prejudicando a imagem de um país cada vez mais respeitado internacionalmente.
Se cometa foi, este arrivista tarda em desaparecer nas profundas do universo com viagem só de ida, porque os danos por ele feitos ainda muito tardarão a ser retificados.

 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2019/01/o-habitual-patriotismo-dos-ases-que-as.html

Portugal | O lobo que nunca existiu e o sapo que não chegou a vitelo

Jorge Rocha* | opinião
Quando se trata de política em Portugal é inevitável encontrar nas fábulas infantis, e nos provérbios populares, recursos oportunos para caracterizar os atos e as palavras dos que lideram as direitas. Passos Coelho protagonizou a sua própria versão de «Pedro e o lobo», apenas mudando de mau da fita: em vez do mamífero canídeo invocou tantas vezes a iminente chegada do Diabo, que depressa nele desacreditaram os crédulos dispostos a darem-lhe efémero benefício da dúvida.
Agora, à distância, fico a saber que, a pretexto das mensagens de Natal, normalmente emitidas pelos titulares dos principais órgãos de soberania, também outro Pedro, decidiu criar a sua em filme com oito minutos de duração, que tomava como imaginário interlocutor o primeiro-ministro.
Não sei quem teve a pachorra para desperdiçar esse tempo com o patético arrivista. Tantos anos passados, ele continua a ser o mesmo teleopinador que, convidado semanalmente a debater a realidade da semana com José Sócrates - quando ambos ainda não tinham liderado governos! -, pedia a quem cumpria moderar o confronto de opiniões para deixar ao socialista a despesa de iniciar a disputa, ciente de encontrar que dizer quando lhe ouvisse pronunciar substantivos argumentos, e pudesse utilizar a habilidosa retórica de advogado, embora sem jamais convencer quanto a possuir fundamentos bastantes para lhe ser dada qualquer razão.
Querendo medir-se com António Costa, este Pedro aliancista lembra  a estória do sapo disposto a tudo fazer para se vir a assemelhar a imponente boi. Fica, porém, a convicção de que, por muito que inche, nunca este anódino invejoso chegará sequer a comparar-se a humilde vitelo.
*jorge rocha | Ventos Semeados

MUDAM-SE OS TEMPOS, MUDAM-SE AS VONTADES

Há uns precisos (e preciosos) quarenta anos a separar os dois textos supra. O antifascista João Espada, que vemos como impulsionador de uma «comissão para a defesa da liberdade de informação» (em 1979) tornou-se, com os anos, num imensamente diferente João (Carlos) Espada, «conversador civilizado» e «re-descobridor das boas tradições demo-liberais» (para 2019). Confesso que, quando a canção de José Mário Branco se tornou um hit na sequência imediata do 25 de Abril (1974), não me apercebi então de como era perene e profundo o ensinamento contido no soneto de Camões, e de como seria capaz de se vir a virar no futuro com mordacidade revolucionária contra tantos dos revolucionários daquela altura...

Veja o original em 'Herdeiro de Aécio' na seguinte ligação::

http://herdeirodeaecio.blogspot.com/2019/01/mudam-se-os-tempos-mudam-se-as-vontades.html

O lobo que nunca existiu e o sapo que não chegou a vitelo

Quando se trata de política em Portugal é inevitável encontrar nas fábulas infantis, e nos provérbios populares, recursos oportunos para caracterizar os atos e as palavras dos que lideram as direitas. Passos Coelho protagonizou a sua própria versão de «Pedro e o lobo», apenas mudando de mau da fita: em vez do mamífero canídeo invocou tantas vezes a iminente chegada do Diabo, que depressa nele desacreditaram os crédulos dispostos a darem-lhe efémero benefício da dúvida.
Agora, à distância, fico a saber que, a pretexto das mensagens de Natal, normalmente emitidas pelos titulares dos principais órgãos de soberania, também outro Pedro, decidiu criar a sua em filme com oito minutos de duração, que tomava como imaginário interlocutor o primeiro-ministro.
Não sei quem teve a pachorra para desperdiçar esse tempo com o patético arrivista. Tantos anos passados, ele continua a ser o mesmo teleopinador que, convidado semanalmente a debater a realidade da semana com José Sócrates - quando ambos ainda não tinham liderado governos! -, pedia a quem cumpria moderar o confronto de opiniões para deixar ao socialista a despesa de iniciar a disputa, ciente de encontrar que dizer quando lhe ouvisse pronunciar substantivos argumentos, e pudesse utilizar a habilidosa retórica de advogado, embora sem jamais convencer quanto a possuir fundamentos bastantes para lhe ser dada qualquer razão.
Querendo medir-se com António Costa, este Pedro aliancista lembra a estória do sapo disposto a tudo fazer para se vir a assemelhar a imponente boi. Fica, porém, a convicção de que, por muito que inche, nunca este anódino invejoso chegará sequer a comparar-se a humilde vitelo.
 
 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

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SINAIS DE FOGO – O AVENTAL DA TIA ASSUNÇÃO – por Soares Novais

 

Depois de alguns dias nas bermas das estradas,Assunção  colocou o avental e distribuiu comida “a pessoas carenciadas de Lisboa.”  O avental era da Refood – uma organização que recolhe comida em restaurantes e supermercados que depois redistribui.

Assuncão ocupou-se da tarefa com desenvoltura. Com a mesma desenvoltura que, dias antes, exibiu nas bermas das estradas onde esteve a denunciar os buracos das ditas. A senhora, por baixo do seu nariz empinado de “tia”, é como o “tio” Marcelo. Isto é, é pau para toda a colher. Tanto exibe um ar de sexta-feira santa à saída de um velório de algum notável na Basílica da Estrela; como é toda sorrisos e salamaleques com “as pessoas carenciadas”.

Aliás, a voluntária Assunção, espertinha como é, fez questão de salientar que “visita instituições de apoio social o ano inteiro” e “que a visita em período de Natal serviu para elogiar o trabalho feito pelos 300 voluntários da Refood.”  (Não se fosse pensar que tal  apenas aconteceu por ser a época que é ou por as câmaras das televisões ali estarem a registar tão beatífico momento.)

Nada disso, cruzes canhoto. Assunção preocupa-se com os mais frágeis de nós. Todos os dias do ano. Tal qual Cecília Supico Pinto, do Movimento Nacional Feminino, “a Salazar de saias, popularmente conhecida por Cilinha”, se preocupava com os “rapazes” que combatiam na então África portuguesa…

Acresce: a “tia” sabe muito bem que a Refood foi criada em 2013. Ou seja, quando o seu governo PSD/CDS-PP sacrificava tudo e todos para agradar à  troika e impunha leis para lixar o mexilhão.Como a famosa “Lei Cristas”,que tem servido para despejar inquilinos pobres; ou oassassinodesinvestimento no Serviço Nacional de Saúde, na ferrovia e na rede viária. Mas isso agora não lhe interessa nada. Osburacos nas estradas são mesmo à medida do seu descarado dedinho…

Ver original em 'A viagem dos Argonautas' na seguinte ligação:

https://aviagemdosargonautas.net/2018/12/30/sinais-de-fogo-o-avental-da-tia-assuncao-por-soares-novais/

Coerência ideológica

(Carlos Esperança, 28/12/2018)

cristas_passos_cavaco
Dos grunhidos televisivos, aos uivos radiofónicos, aos vómitos na imprensa, às ameaças do então PR, aos ecos das redes sociais, os dirigentes do PSD e do CDS eram unânimes em considerar ilegítimo um governo [este] formado no único órgão que o legitima, com os votos de PS, BE, PCP e PEV, de acordo com a CRP.

Ganiram imprecações, anunciaram vapores de enxofre em telúricas fendas diabólicas e não se conformaram. Só Paulo Portas, mais inteligente e culto, viu o ridículo, e deixou a Dr.ª Assunção Cristas a vociferar impropérios, o ora catedrático Passos Coelho a lamber feridas e Cavaco Silva a ruminar ódios e ressentimentos.

Nos últimos tempos pensei que o PSD e o CDS viessem acusar o PP e o Ciudadanos, os partidos homólogos espanhóis, do atentado à democracia por se unirem contra o PSOE, vencedor das eleições na Andaluzia, e, sobretudo, por terem pedido auxílio a um partido abertamente fascista [VOX] que advoga a proibição dos partidos políticos e combate a democracia.

Com o descaramento que lhes conhecemos, a Dr.ª Cristas aguarda a notícia do acidente de automóvel que provoca um morto e grita que o Estado falhou, Passos Coelho prepara as aulas para futuros catedráticos e Cavaco Silva continua a escrever sobre as quintas-feiras.

É preciso topete. Reina o silêncio sobre a Andaluzia, desde o Largo do Caldas até à Rua de São Caetano, à Lapa.

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

O medo e o Estado de vigilância

«Durante mais de uma semana, escutámos as palavras sábias da expertise que nos anunciava uma catástrofe amarela para sexta-feira e, dominando a matemática dos riscos, instalou-nos no real da urgência e do perigo. (…) O Presidente da República “engatou” um camionista e apelou à indulgência dessa classe tão sexy on the road, mas tão empata quando pára. De todos os lados chegou a exigência securitária. (…)
 
No final, chegámos à conclusão de que não foi respeitada uma presunção tão importante como a presunção de inocência: a presunção de inocuidade. A ameaça amarela era inócua, mas houve muita gente a servir-se dela para alimentar uma cosmopolítica do medo. Já todos deveríamos ter percebido que o diagnóstico de perigosidade é um prognóstico que privilegia sempre o cenário mais catastrófico; e que as verdadeiras catástrofes ocorrem em situações que não foram previstas. Felizmente, as catástrofes ficam quase sempre aquém das previsões. Mas gostam de se exceder quando estamos distraídos e nada tinha sido previsto.»
António Guerreiro
.

Leia original aqui

A cor e o flop dos encoletados

Politólogos, cientistas e muitos outros artistas reunidos, debruçaram-se sobre o flop dos encoletados. (flop esconde o fiasco, e os mediasabem da cepa). O porquê de tamanho flop,está sendo analisado em profundidade, não há memória de tão rotundo flop em qualquer rotunda ou autoestrada.
Et pour cause, na faculdade, quer em Ciências Humanas ou nas Belas-Artes, já se tropeça nos mestrados e doutoramentos em preparação, cineastas escrevem guiões e “O flopamarelo” e já está em rodagem.
 
O Marquês de Pombal não queria acreditar, era flopa mais
Entretanto abrem-se pistas para uma discussão ampla, e as interrogações surgem: o que fazer a um país paralisado por um flop
Com os nossos flops temos resistido a incêndios, vendavais, combate à corrupção; estamos habituados.
Mas os politólogos não resistiram a dar umas dicas, e chamam a atenção para algumas teses de doutoramento “o flop, a democracia e a democracia do flop” e Assunção Esteves esclarece que "os inconseguimentos a que está sujeita uma espécie de nível social frustracional derivado da crise" ouseja, do flop. Os cientistas, enfatizaram que a cor e o objeto, simbolizam acidente, fiasco ou fracasso.
No entanto devemos estar atentos, os movimentos deste tipo trazem sempre água no bico.

Leia original em "As Palavras São Armas" (clique aqui)

Espanha: uma Geringonça de direita com uma perna bem extrema

«Vox ha comunicado oficialmente a última hora de esta noche que respalda el acuerdo sobre la Mesa del Parlamento al que han llegado esta tarde PP y Ciudadanos y en el que el partido de extrema derecha tiene asegurada su presencia con voz y voto.
Los votos de de la extrema derecha son necesarios para que el acuerdo entre populares y Ciudadanos pueda ejecutarse y no pierde ocasión para recordárselo a sus integrantes. Este miércoles, poco después de que los secretarios generales del PP y Vox.»
.

Leia original aqui

Brincar com o fogo

(Marisa Matias, in Diário de Notícias, 23/12/2018)

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Não direi palavras de repúdio por quem tem dificuldades em chegar ao fim do mês com as contas pagas. Quem nunca viveu em dificuldade tem, certamente, uma enorme capacidade de solidariedade e de mobilização por quem pouco ou nada tem, mas dificilmente saberá a dura realidade de como é quando quase tudo falta.

Falo disto a propósito da recente manifestação dos coletes amarelos em Portugal. Haverá na gente que se mobilizou muita gente que não sabe o que é viver sem dificuldades. Preocupa-me a sério que não haja respostas ou que estas pessoas não vejam as respostas que poderão existir, mas custa-me tremendamente ver essas dificuldades serem aproveitadas seja por quem for.

A tentativa de apropriação deste descontentamento por parte da extrema-direita portuguesa é um facto e não matéria de opinião. Isso não é uma novidade, mas é preocupante. Temos visto isto a acontecer em muitas partes da Europa onde os vazios gerados pelo sistema têm vindo a ser paulatinamente ocupados pela extrema-direita.

As forças políticas democráticas não têm sido capazes de dar uma resposta adequada e isso tem de fazer-nos refletir muito e a sério. Mas, em Portugal, não foi apenas a tentativa de apropriação e de utilização do descontentamento alheio que me causou preocupação. Foi, sobretudo, o aparato criado e a promoção – sim, promoção – desse aparato. As reivindicações contavam com propostas como o fim das pensões vitalícias dos deputados ou dos ministros. As dos deputados já terminaram felizmente há bastante tempo e as dos ministros nunca existiram, mas na cobertura que foi feita só se referiam as reivindicações e nunca o facto de já estarem cumpridas ou de nunca terem existido tais regalias. Além disso, os meios dedicados a garantir que todos os segundos seriam cobertos diz muito, sobretudo quando a maioria das reivindicações cidadãs passa ao lado de qualquer cobertura.

De quem ajuda a formar opinião espera-se mais. Espera-se profissionalismo, mas também rigor. Um bocadinho na linha do que circulava num meme. Se alguém que dá a notícia pergunta a duas pessoas que tem ao lado se está a chover e uma pessoa diz que sim e a outra diz que não, não basta reproduzir o que diz cada uma das pessoas, é preciso abrir a janela e ver se lá fora chove ou não.

Há necessidade de derrotar o sistema vigente ou a corrupção ou de considerar outras questões fundamentais para a nossa vida comum? Sim, claro que sim. Agora vamos ao que propõem os organizadores dos coletes amarelos. Não será com a redução do parlamento a 60 deputados que resolvem os problemas que enunciam. Quem está contra o sistema não pode estar contra a diversidade e a pluralidade democráticas.

Reduzir o parlamento a 60 deputados é precisamente o contrário: é garantir que só os partidos do sistema terão assento, os mesmos que tantas contas têm a prestar em matéria de corrupção ou de má gestão dos dinheiros públicos. Para combater a corrupção são medidas concretas e não apenas declarações de intenções. Da mesma forma, o aumento dos salários não poderá ser feito através do corte nas pensões.

Dito tudo isto, não me deixo igualmente iludir com o aparente fracasso da primeira manifestação. Há muito tempo que anda muita gente neste país a tentar brincar com o fogo. Com tanto esforço, será difícil que um destes dias não nos queimemos a sério.


Eurodeputada do BE

Ver original em 'A Estátua de Sal' (aqui)

Sobre a inexistência de dodós na economia nacional

Era uma vez uma economia recheada de génios, que abrilhantavam as capas das revistas da especialidade, e prometiam levar o país ao pelotão da frente dos mais prósperos. Como poderia não ser se alguns dos crânios eram tidos como invejados lá fora por tanta sapiência e, num dos casos, até se autoelogiava como tendo o toque de Midas, mesmo com a bancarrota à porta.
Nessa economia quem mandava nos bancos, nas telecomunicações ou nas cimenteiras eram alguns desses empresários lusos, que não desdenhavam em aparecer nas revistas sociais para que todos soubessem como tinham festas lindas, mulheres sofisticadas, vivendas de sonho e férias como mais ninguém.
A ganância falou mais alto, como sempre sucede nestas ocasiões. E os ódios também. Uns com os outros conspiraram e a digladiaram-se naquilo que, numa crónica no «Jornal de Notícias», Mariana Mortágua apelidou de autêntica guerra dos tronos. Fizeram-se e desfizeram-se OPAs, deram-se créditos absurdos a putativos aliados para que, em cada batalha, soubessem por quem terçar armas, e foi assim que, uma a uma, todas as grandes empresas nacionais caíram em mãos estrangeiras, acabando de vez com as ilusões dos crédulos na existência duma réplica do dodó: o empresário patriota, cioso dos interesses nacionais.
Nesta altura muito do crédito malparado decorre dessa deriva capitalista, que teve no cavaquismo o seu mais relevante expoente. Mas continuam a sobreviver muitos simpatizantes das direitas, que nada aprenderam com o curso acelerado de política económica, facultado nos trinta anos subsequentes à entrada na CEE. São tolos ou inocentes - é escolher qual a que melhor se lhes ajusta a cada caso! - que ainda apostam em conceitos repetidamente desmascarados como absurdos ao longo desse período. Mas podemo-nos admirar, quando parecem cada vez mais os que julgam possível retroceder cem anos e repetir as receitas de Sidónio Pais ou de Mussolini? A estupidez humana é uma realidade cuja ampla dimensão não cessa de nos surpreender.

 

Veja o original em 'Ventos Semeados':

https://ventossemeados.blogspot.com/2018/12/sobre-inexistencia-de-dodos-na-economia.html

O festival de irresponsabilidade

(José Pacheco Pereira, in Público, 22/12/2018)

JPP

Pacheco Pereira

A manifestação “Vamos parar Portugal” é o primeiro sinal exterior de um populismo larvar que medra pelas redes sociais fora e que era só uma questão de tempo até querer sair delas para a rua. Saiu agora e mostrou a enorme diferença entre os apoios mais ou menos incendiários “dentro” e a escassez de apoios “fora”.

O que se passou com a manifestação dos chamados “coletes amarelos” portugueses é disso um verdadeiro exemplo. Deixemos a parte de leão que têm as malfeitorias dos deputados, dos governantes, dos políticos activos, desde o pequeno truque para ganhar mais uns tostões no fim do mês até à corrupção da pesada. É grave, mas o seu papel não é único, nem tão decisivo como parece.

Há também uma indústria da denúncia da corrupção, verdadeira ou falsa, exagerada quase sempre, que vai desde políticos propriamente ditos que fazem da “luta contra a corrupção” um instrumento de existência e de vantagem eleitoral, muitas vezes com enorme duplicidade entre os “nossos” que são desculpados e os “deles” que são atacados por sistema, até à imprensa e televisão tablóide que é hoje predominante. Os mecanismos de cobertura dos eventos são cada vez menos jornalísticos, “notícias” inverificadas, obsessão pela “culpa”, muitas vezes antes de se saber se ela existe, menosprezo pela descrição dos eventos a favor do comentário conspirativo, tudo isso acentua o discurso populista.

Voltemos ao “Vamos parar Portugal”. Esta manifestação teve excepcionais condições de propaganda para sair de fora do casulo das redes sociais. A ideia de que estas manifestações vivem essencialmente dos apelos nas redes sociais é, para não dizer mais, enganadora. E é claramente um dos mitos actuais, subsidiário do deslumbramento tecnológico, que se repete sem escrutínio desde a “Primavera árabe”, como atestam todos os estudos, mostrando que as redes sociais estão longe de ter o papel que se lhes atribui. Não adianta, é um mito urbano, logo tem pernas para andar.

Esse mito oculta que as manifestações com algum sucesso que nasceram nas redes sociais só ganham dimensão quando passam para as páginas dos jornais e os noticiários da televisão, ou seja, para os mediaconvencionais. Esta é a segunda manifestação em Portugal que tudo deve ao modo como a comunicação social resolveu tratar este tipo de protestos. A primeira foi a manifestação do “Que se lixe a troika”, que beneficiou de uma grande simpatia dos jornalistas (correlativa da antipatia no tratamento das manifestações sindicais), e a segunda foi esta, que suscitou sentimentos contraditórios entre o desejo de que houvesse pancadaria, porque isso dá boa televisão, anima a política e “chateia o Costa”, até à exploração do medo.

Aliás, é interessante ver como foi evoluindo o contínuo media-redes sociais e alguns sectores políticos da direita que não disfarçavam a expectativa da contestação para contrariar a “ditadura” de Costa e da “geringonça”, até à extrema-direita (o PNR teve uma presença importante entre os manifestantes) e a fina alt-right do Observador, que passou do alarmismo para o “fiasco”.